FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Filosofia da cultura
Brasil: luxo ou originalidade

Luiz Sergio Coelho de Sampaio

EDITORA ÁGORA DA ILHA

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

FICHA CATALOGRÁFICA
SAMPAIO, Luiz Sergio Coelho de - 1933 Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade / Luiz Sergio Coelho de Sampaio Rio de Janeiro, março de 2002 páginas 378 Editora Ágora da Ilha Ciência filosófica Pesquisa ISBN 86854 CDD-100 CDD-0001.4

COPYRIGHT: Luiz Sergio Coelho de Sampaio

lscsampaio@openlink.com.br

Direitos desta edição reservados ao autor, conforme contrato com a Editora. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa do mesmo. Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade - CIÊNCIA FILOSÓFICA / PESQUISA Capa: Talita Lobo Coelho de Sampaio Editor: Paulo França RIO DE JANEIRO, MARÇO DE 2002

EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.: 0 XX 21 - 3393-4212 agorailh@ruralrj.com.br

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Para meus pais Ascendino e Maria da Paz, que lá ficaram fixos e incomunicáveis em duas dobras tristes do tempo. E também para Lailce e depois, por ordem de entrada em cena, para Tatiana, Thais, Talita, Henrique, Ivo e Felipe.

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Sinopse
Uma proposta radical de revisão da noção de história, na
verdade, história da cultura (processo hiperdialético de realização plena do modo de ser-coletivo do homem, “fenomenologia do espírito” que ao invés de evitar a ciência e sua lógica, seja de fato capaz de subsumi-la). Tem como finalidade, entre outras, viabilizar a crítica da Modernidade, iluminar o horizonte de sua possível superação, reacender o pensamento utópico. Neste novo espaço histórico compreensivo situar o Brasil: reler sua real destinação, intuir suas responsabilidades maiores e contribuir para a implementação de suas estratégias de sobrevivência e realização.

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Sumário
1. Porque, também, uma filosofia da cultura.......33 2. Bases lógicas para uma antropologia filosófica..39
2.1. 2.2. 2.3. 2.4. Preliminares............................................. 39 A lógica ressuscitada..................................40 Uma antropologia esperançosa...................53 Situação e perspectivas brasileiras............67

3. Acerca da lógica e da cultura........................71 4. Desejo, fingimento e superação na história da cultura.........................................................89

4.1. Considerações introdutórias.......................92 4.2. Uma cultura e suas três lógicas..................95 4.3. Desejo, fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais...........................................100

4.5. Especulações acerca do futuro da cultura.....131

4.3.1. Nos antigos impérios de base agrícola - o mito e a pseudo potência sacerdotal.....................101 4.3.2. Entre os gregos - a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos..............................................104 4.3.3. Na Modernidade - a física e a biopirotecnia..110

5. Modernidade – das origens à globalidade etnocida.........................................................135

5.1. Antecedentes da Modernidade....................138 5.2. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso.................................................143

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5.2.1. Ciência, sujeito liberal e, antes, a caça às bruxas....................................................................143 5.2.2. Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno, consumista e etnocida................................148

5.3. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade...........................................................159

6. Crítica da Modernidade................................167
6.1. Introdução...............................................167 6.2. A rematada impotência das ideologias.........169 6.3. Para além das ideologias...........................176
6.3.1. Heidegger – a ciência e a técnica..................178 6.3.2. A Escola de Frankfurt – os meios de reprodução e comunicação de massa............................185

7. História da cultura segundo Toynbee, Tillich, Hegel e Marx.................................................193 8. Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária....203 9. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural.................225

9.1. Re-estruturaçào do território lógico................229 9.2. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura...........................................233 9.3. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares.............................................236 9.4. Princípio antrópico renovado.........................241 9.5. Re-significação cósmica da história da cultura.248

10. A superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária...................253

10.1. A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto.....................................255 10.2. Superação da idolatria com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária........................259 10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente.............264 10.4. Afinal, Deus depois do adeus às idolatrias.269 10.5. Antecipações - a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano....273

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11. Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira..........................279 12. Considerações gerais sobre a história da culturas – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história, conjuntura e perspectivas brasileiras...............................................287

12.1. A história como processo hiperdialético....287 12.2. Um esboço de história da cultura.............295 12.3. Desejo, fingimento e superação................298 12.4. A Modernidade.......................................313 12.5. O Brasil e a Modernidade.........................317

nos quais. que registro a ressurgência do que até então fora uma obsessiva preocupação dos mais expressivos intelectuais brasileiros . aos que o faziam e fazem vindo já de mais longe. está também dando continuidade a uma tradição já bem nossa. foi o tempo da “Revolução”. A seguir. Não me refiro. Refiro-me especificamente a Luiz Sergio Coelho de Sampaio que. oferecendo-nos. posso dizê-lo. pois. É interessante assinalar que Sampaio.decifrar o ser e a destinação do Brasil. menor se mostra o interesse pelo Brasil. com a presente coletânea Filosofia da cultura. cuja figura exponencial é Miguel Reale [1]. de buscar na filosofia os meios conceituais para iluminar os caminhos e descaminhos da brasilidade. vem reavivar aquela tradição. Dentre as virtudes genéricas deste trabalho não posso deixar .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 11 Prefácio Luxo ou originalidade − a propósito da problemática cultural brasileira Depois do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros. obviamente. Digo pensá-lo e não “desconstrui-lo”. cada dia que passa. É. se mantém viva em Tobias Barreto e se solidifica no que se convencionou denominar de culturalismo brasileiro. Tal disposição nasce com a própria filosofia no Brasil. praticamente extingue-se entre nós o interesse em pensar o Brasil. uma alternativa completamente nova para nossa auto-compreensão. que trouxe o desinteresse pelo pensar. Primeiro. com esta obra. vieram os tempos da “Nova República”. com satisfação. 1955-1964).

12 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de assinalar o vertiginoso encurtamento de famigeradas distâncias: entre o denso e o legível. indo mais além. Trata-se sobretudo de aceder ao chamamento das coisas e dos acontecimentos como tais. Para Sampaio a linha mestra da filosofia ocidental. entre o especulativo e o pragmático. para desta sorte conquistar. Vejamos em detalhes cada um destes aspectos específicos.a epoché como um honesto esforço de suspensão de preconceitos e não como flatus vocis. Por isso. a renúncia àquela pretensão. o grande problema da filosofia hoje seria medir-se com a ciência. radicada. na mera compreensão. Nestas . precisamente.proporcionar uma nova e mais profunda compreensão da problemática cultural brasileira -. um grau superior de simplicidade e clareza. Preliminares lógico-filosóficos – ser e pensar para além da ciência O melhor caminho para a compreensão das idéias filosóficas de Sampaio é a epoché para valer . sobretudo. um mero sinal de adesão acadêmica oportuna a uma corrente filosófica de prestígio. Por isso. sendo justificadamente mediada por uma sólida antropologia filosófica que se completa com uma conseqüente antropologia histórico-cultural. Com respeito ao seu objetivo específico . como de costume. de antemão. deixa de permanecer válido e atual). O pensamento não poderia tolerar que. nem por isso. é adaequatio. mais valeria tudo reconsiderar. destacaria três importantes aspectos: primeiro. achei que. cuja verdade assumida. visando sobretudo o melhor proveito do leitor. terceiro. à problemática cultural brasileira. algo lhe pudesse para sempre escapar. se aventurando o autor a traçar os lineamentos de uma corajosa e incisiva ação estratégica cultural. ao invés de apenas repetir ou resumir o que havia dito (que. segundo. entre o abstrato e o concreto e. desde Parmênides. na tradição filosófica ocidental. mas o fazendo de maneira essencialmente crítica e inovadora. sem mais. o fato da filosofia que lhe serve de base se constituir numa produção própria. que a reflexão filosófica não se aplica ali. sabese. que se sabe sempre possível. 1. embora já tivesse tido a oportunidade de analisar detidamente o pensamento filosófico de Sampaio [2]. o trato da problemática brasileira não se detém. sim. está na postulação de ser e pensar como o mesmo.

no âmbito da Modernidade. todo o tempo presente. Kierkegaard (entrincheirado por trás do parado- . pois. que. Tudo se resumiria. a de se ultrapassar a dialética e alcançar um pensar maior ou mais complexo. justamente por se almejar entre elas a mais alta.Pascal (que jamais cede quanto aos direitos do coração). porém. a questão primordial não estava em procurar. mais precisamente. além de sempre bem largos. reta e imediatamente. Tratando-se de filosofia. seria Hegel. subsumindo a lógica clássica formal. sim. o procurado deveria estar por todo canto. ou enfrenta o desafio de pensar de mais alto a ciência. o Hegel da maturidade. teria que ser . quando já convicto estava de que sua filosofia (como qualquer outra). haveria do que os de Hegel?! Sobretudo. Tudo bastante simples: a referência. com inteira razão. Isto posto. a lógica clássica formal que. capaz de “ultrapensar” a ciência ou. para enxergar mais longe. da Ciência da Lógica consumada. que é o mesmo que compreendê-la em sua motivação desejosa e significação social última. Ora. ou a filosofia se deixa marginalizar. precisando dar conta de seu próprio fundamento. Em síntese: passar da dialética à hiperdialética. pelo contrário. algo que fora deixado para trás. sempre dissimulado.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 13 circunstâncias. nada melhor do que subir nos ombros dos gigantes predecessores. de todo o território lógico conhecido. a lógica. oportunamente recalcado. a partir dela. sobre a ciência impera. fosse mesmo este o caso. em se conseguir levar aquela postulação mestra para além dos limites do saber científico [3]. iluminar-se-ia naturalmente um novo território lógico por conquistar.antes e mais do que fenomenologia uma lógica. agora evidente. Já se disse. É exatamente aqui que Sampaio consegue ser surpreendentemente óbvio: embora as aparências encaminhassem noutro sentido. algo superior ou mais à frente da lógica clássica imperante. no trânsito. que ombros mais altos. abdica de sua própria essência. cuja recuperação pudesse levar à re-significação da lógica clássica formal e. a tarefa. a rigor. o âmbito mais próprio e inevitável do problema. por sua própria índole. procurar “algo menor”. como tão judiciosamente observa Heidegger [4]. Tratava-se. Sampaio vai então circunscrever toda uma plêiade de pensadores “desviantes” . assume-se “pensamento das pequenas causas ou das realidades parciais e a varejo”. de recuar.

no dizer de Sampaio. Era ainda esta mesma lógica que operava nos inconscientes que a psicanálise tanto espreitava. subsumindo-a em conjunto com a lógica da identidade (ciclo dialético). porque o socialismo científico do Outubro Vermelho teria mesmo que fracassar um dia diante dos desafios da ciência e da técnica. A lógica clássica. Deleuze (surfando entre dobras e diferimentos) e outros . Com exatidão. Duas seriam então as lógicas fundamentais: a lógica da identi- . lógica cínica dominadora. Podemos sumariar as concepções filosóficas de Sampaio [6] dizendo que a lógica deve ser considerada um saber sobre os modos efetivos de pensar e não mera convencionalidade lingüístico-formal. porque a patrística agostiniana precede a escolástica tomista. sucedia a dialética. assim como a lógica clássica ou da dupla diferença.14 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO xo). Lacan iria isolar e denominar. E o que era mais importante: havia uma hiperdialética sucedendo a lógica clássica e subsumindo-a junto. Tornava-se então mais do que evidente que a lógica clássica e agora também da dupla diferença. com a dialética e suas lógicas geradoras. inclusive. Ora. Com esta concepção. lógica da simples diferença. Heidegger (à escuta nostálgica do logos heraclítico). Nietzsche (apostando no retorno vigoroso do mesmo). pressupunha a dialética. de modo necessário e desde sempre. A partir daí vislumbrava-se a verdade de um pensar potente para de fato compreender a ciência (e fazê-la instrumento) e a própria cultura que a sacraliza .a nossa própria Modernidade. tal como hoje reivindicam os poderes acadêmicos. podia-se então dizer que a dialética sucedia à lógica da diferença. também com muita propriedade. que ele denomina lógica da diferença ou. porque o pai mítico precede ao filho submisso à lei de seus pares tanto quanto à gramática. Daí porque Platão precede a Aristóteles. mais exatamente. subsumindo-a em conjunto com a lógica da simples diferença (ciclo contra-dialéico). que. lógica do significante [5]. a simples condição de lógica recalcada revela-a como lógica trágica. restaura-se o mundo da lógica conforme esta de fato se apresenta na tradição filosófica. e tantas e tantas outras coisas mais. podia ser agora propriamente caracterizada como lógica da diferença reiterada.e identificá-los como filósofos desta lógica esquecida.

I/D/D=I/D/2. D/D=D/2. a lógica clássica se constitui como uma analítica das totalidades por convenção. mas ao próprio poder fatual da ciência) e. da diferença e dialética. para que se vislumbre o caminho para a superação do “pensamento único” (D/2). simbolizadas. só que agora. com o concurso da noção de síntese dialética generalizada representada por “ / ” (uma generalização da “intraduzível” aufheben hegeliana). D/D=D/2) subsume a dialética hegeliano/marxista (I/D). ditas lógicas compostas: I/D. Reafirma. também. dialética e clássica formal. por I e D. por convenção. Estas considerações formais são essenciais para que se possa dar conta do poder da ciência (hoje sob a forma de obsessiva informatização/sistematização do mundo) e para a compreensão. da diferença. como a supera ao mesmo tempo que dela herda o poder totalizador. dialética trinitária. na ordem lógico qüinqüitário (I/D/2). são gerados os nomes de todas as demais lógicas. Por outro lado. das vicissitudes histórico-ideológicas dos últimos quase duzentos anos. lógica da dupla diferença ou clássica. em profundidade. seguindo velha tradição. como reposta por Hegel (O que é racional é real. lógica da tripla diferença. Aceita Sampaio a crítica heideggeriana relativa ao afastamento entre ser e pensar desde Platão e sua derivação em ontoteologia. também a si mesma. I/D/D/D=I/D/3 e assim por diante.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 15 dade (ou transcendental) e a lógica da diferença. Enquanto a dialética é um pensar sintético da totalidade enquanto tal. Cada lógica subsumindo todas as anteriores de que é síntese e. hiperdialética qüinqüitária. síntese das lógicas da identidade. assim. síntese das lógicas da identidade. de que maneira a lógica clássica formal (lógica da ciência. definitivamente claro. e não apenas na ordem transcendental (I). e o que é real é racional). Sampaio deixa. deste modo. mas se recusa a confundir “co-pertinência” com estrita correspon- . que se faz passar hoje por hegemônico. D/D/D=D/3. A partir delas. síntese das lógicas da identidade e da diferença. a correspondência estrita entre ser e pensar. respectivamente. como havia sido posta por Parmênides (pois o mesmo é ser e pensar) ou dialético trinitário (I/D). a confrontação da dialética trinitária (I/D) com a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) é fundamental para a compreensão das limitações da filosofia hegeliana e marxista (frente não apenas à crítica científica.

Isto posto.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). a uma antropologia cultural de índole histórica hiperdialética Seguindo as indicações de Sampaio. cínicas ou demissionárias. implica uma completa reestruturação do universo dos existentes. O estado de “co-pertinência” entre ser e pensar só pode ser de novo alcançado como resultante de uma visada transcendente. que a ciência vinha progressivamente reduzindo à pura materialidade calculada (ciência bioquímica) e esta a Nada adequadamente recurvado (ciência cosmológica atual no que ela deriva da Relatividade Geral) [7]. reverte-se o processo de “degradação do homem” promovido pela modernidade. Esta última atitude distinguiria justamente as filosofias da esperança (Nietzsche as chamaria filosofias do ressentimento). aliás. Passando pela antropologia filosófica e. Esse afastamento era inexorável . daí. dos modos efetivos de pensar). capazes portanto de operar com . onde então se pode repor a questão do estatuto do ser do homem. em todas as instâncias. o necessário produto e meio correlato desta sua capacidade operatória. pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. em plena consonância com o que está posto pela moderna antropologia estrutural. a que ele diz se filiar. associada à postulação. da “mesmidade” de ser e pensar. restabelece-se a posição pinacular do homem no universo que lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios .. A passagem da natureza .[8] A velha razão suficiente leibniziana que responde à questão ontológica (no caso: por quê existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. ganha aqui uma resposta bem precisa. afirma Sampaio: .. Natureza?).trágicas ou nostálgicas.das lunetas ao Hubble -.16 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dência. Neste universo onto-lógico desdobrado nada existe de fato superior à hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2). ou seja. pode-se afirmar que o desvelamento/ordenação do universo lógico (ou seja. 2. e é precisamente este o nível que se deve atribuir ao ser humano e à cultura. das demais filosofias .por isso pode ele hoje bem parametrizar a história da filosofia (história do esquecimento da questão do ser).

do seu ser identitário. com o logos. Se assim fosse. já a posteriori articulado. sem prejuízo. o fato é que. Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. Inaceitável. que vinha por si só caracterizar o ser humano e não para se articular e/ou ampliar características e potencialidades operatórias de algum modo semelhantes pré-existentes. o homem podia operar de modo duplamente lógico-diferencial (racionalmente. a diferença que os separava foi considerada como de natureza lógica: o homem é o animal habitado pelo logos. habitado pelo logos. O logos poderia se constituir deveras numa diferença especificamente humana. O logos ampliava a capacidade lógico-analítica do animal. como razão aristotélica (D/D). e até muito mais. porém. Precisamente aproveitando-se deste equívoco foi que o pensamento cristão pode realizar o prodígio de transformar a diferença que diferenciava numa identidade. entretanto. seu estatuto lógico tem que ser na verdade lógico qüinqüitário ou hiperdialético. Do ponto de vista instrumental ou objetivamente operatório o homem é sem dúvida ser racional. o homem estaria ganhando de um lado e perdendo de outro. O único erro aí cometido teria sido fazer do logos uma diferença essencial e irredutível. a rigor. existencial ou subjetivamente operatório. dado que o logos. ao preservar sua capacidade lógico-identitária herdada da animalidade superior (cordados). mas assim o foi desde os tempos de Heráclito e com maior certeza nos de Aristóteles. Não se pode precisar a partir de quando a questão do ser do homem veio referenciar-se ao ser animal. como capacidade essencialmente analítica não podia caracterizar o homem em sua totalidade ou “maximalidade”. desde que viesse para se compor com características operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo re-produzindo-as em nível operatório superior.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) . expressa em termos antropológicos. dir-se-ia agora). E. A passagem do animal . capacidades sintéticas já reconhecidas como operantes no reino animal superior. a duplicava ou reiterava.a diferença clânica. Tratava-se de uma concepção inconsistente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 17 símbolos convencionais (I/D) . como era de se esperar. pois perdia em termos de integridade e auto-determinação.

Apenas isto entretanto não basta.. Masculino/ feminino são assim os dois modos possíveis de realização do ser hiperdialético (I/D/2). consciência. E é precisamente neste ponto que se deve retificar o pensamento estruturalista moderno. contrastando com a bipolaridade {I e D} animal macho/fêmea. ou mesmo profundeza cultural (D) ao historicismo materialista de Marx (I/D).privilegiado. indiferentemente. o fizeram em relação aos negros escravos e hesitaram não fazê-lo em relação aos índios). Veja-se como se queira: estar-se-ia assim conferindo. Esta se atualizaria ainda doutros modos. ao mesmo tempo. mas sim da identidade . mais tarde. isto é. de modo hiperdialético qüinqüitário (I/D/D).sopro. I/D. nem mesmo depois de especificada a diferença clânica. seria um dentre muitos modos de manifestação . por conseqüência. passa a ser definida como diagonal de uma estrutura lógica quadripolar {I. D. D/2}: o par {I e D/2} representando o masculino (pai e filho). A sexualidade humana. pois. mas no fato de estar repondo a questão em seus devidos termos. historicidade (I/D) à antropologia estrutural lévistraussiana (D). alma. que permite a definição de regras de proibição de incesto em paralelo à imposição da exogamia.18 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ao homem não se devia mais a algo da ordem lógica da diferença. e o par {I/D e D}. liberdade. Para a antropologia filosófica de Sampaio bastaria dizer que o animal superior opera de modo dialético trinitário (I/D) e o homem. Não se apercebiam que isto era. ou corporeidade libidinal (D) ao historicismo absoluto de Hegel (I/D). por exemplo. se pergunta se os primitivos têm ou não lógica (clássica formal). o feminino (filha e mãe). negar “animalidade” aos animais (como. a historicidade hiperdialética (I/D/D). pois continuaríamos insistindo perigosamente no mesmo equívoco grego. ou seja. é verdade . restituindo ao animal a integridade lógica (I) e. o importante não está na resposta que viria dar. tanto (I) / (D/2) quanto (I/D)/(D) são . tal como o haviam feito os gregos [9]. a historicidade dialética I/D). lógico-diferenciais. espírito etc. Observa Sampaio que quando Lévy-Bruhl coloca o problema da vigência de uma mentalidade pré-lógica entre os povos primitivos em contraposição a um pensamento verdadeiramente lógico dos povos modernos. A diferença clânica. mediante uma segunda diferença.daquela produção “genea-lógica”. para daí então alcançar.

entrementes. muito mais..a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária.do princípio antrópico [12]. o super-cosmos elevado à altura do homem logicamente à sua espera. pois. Estruturações semelhantes vigeriam para as línguas naturais. segundo o princípio. que depois de quinze bilhões de anos levou à emergência da espécie humana. Os caminhos para tanto pressupõem. A significação religiosa do homem. ao invés do super-homem. Circula hoje a idéia de um princípio antrópico [11] postulando a existência de uma correspondência constitutiva entre o cosmos e o homem. Na versão fraca do princípio. uma renovação profunda de nossas concepções onto-lógicas. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. O princípio baseia-se na constatação de que o curso do big bang.. não há ascensão. porém. mas sim o descenso do homem ao nível dos entes científicos. para as vestes e pinturas corporais consideradas como sendo uma terceira pele [10]. Segundo ainda Sampaio entre as grandes tarefas da antropologia filosófica (ou filosofia da cultura) estaria o empenho na decifração da significação cósmica e religiosa do homem. onde Sampaio afirma: Quanto à significação religiosa. Sampaio acha que isto não nos deve consolar. uma prova de que aquelas constantes teriam sido “intencional e convenientemente ajustadas”. na versão forte. está em estreita dependência da precisão dos valores de um pequeno conjunto de constantes físicas universais. não importa a versão. o sentido de sua existência frente ao Absoluto. uma feliz coincidência. Ele aceita a postulação de um princípio que guarde a inspiração do original. e certamente. [13] .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 19 iguais a I/D/D = I/D/2. nem fraca. entretanto. dando alma a uma nova versão . Somos de opinião. vale dizer. é pormenorizadamente tratada em A superação das idolatrias .nem forte. porque na verdade aí se revela mais uma vez a pré-potência do pensar científico. orientado exatamente no sentido inverso: . que com o declínio da cultura científica moderna esta questão recuperará o seu interesse maior. cremos que nada há por enquanto de relevante. para a moderna organização racional do trabalho. mas significante .

na linhagem das culturas lógicas identitárias (culturas do tempo. A cultura moderna está associada à ciência e à lógica clássica formal que a governa. para Paul . lutando pelo perfeição ética (I/D). do sujeito coletivo ou comunitário (I/D). cristã patrística trinitária I/D. como demonstrado pela História. pela perfeição estética (D). do sujeito inconsciente cultural. trata-se do sujeito liberal (I).não há quem não esteja a seu favor -. No entanto. a direita. pré-D (uma proto-diferença). a rigor. A visão ideológica da Modernidade não tem a menor preocupação em fazer a crítica da ciência . na variação temporal de seu vigor criativo. A esquerda. Começa-se com as culturas tribais de caçadores/coletores do paleolítico. são seus próprios modos “desviantes”. mas a própria complexidade do processo hiperdialético permite uma série de tipos não nodais: anômalas. Depois vêm as culturas propriamente lógicas: judaica. Estas formam a seqüência das culturas nodais. pré-I (uma proto-identidade que ainda se ignora) seguem-se as culturas neolíticas ou imperiais antigas de base agrícola. processo hiperdialético de desvelamento do seu próprio modo de ser lógico. Hoje.e a historicidade das culturas que se revela. telúrico ou libidinal (D). de transição etc. para a direita. greco-romana. mistas (de que seríamos um bom exemplo). Esquerda e direita. a Modernidade só será superada por uma cultura nova. prometéica. nada podem contra a Modernidade.20 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A conciliação entre a tese da equivalência de todos os homens no que lhes é essencial e distintivo . tem por essência a sacralização e guarda de seu núcleo lógico invariante. em cada cultura. O desvelamento de uma lógica implica necessariamente que dela se alcance uma representação simbólica objetiva. pois. dentre outras maneiras. D/D=D/2. ela se concentra exclusivamente sobre a questão de quem deva ser o sujeito da ciência: para o paradigma anglo-saxão. científica. A história do homem seria assim a história da cultura. modos simétricos de um delirante estado almejado de perfeição. do Deus único.seu nível lógico operatório . para a esquerda. A religião. é resolvida por Sampaio concebendo a história humana como história do insistente (mas não monotônico) autodesvelamento do seu próprio ser lógico-qüinqüitário [14].. D. I. na enorme disparidade de poder de determinação de uma sobre outra. domina a cultura moderna. romântico.

Como fazê-lo sem antes iluminar o horizonte de sua superação possível? A re-historicização da Modernidade é para Sampaio uma condição sin ne qua non para hoje pensar (e agir) subversivamente. para superá-la. Como diz Sampaio: Toda cultura. uma nova utopia em seu justo sentido. pensada por sua lógica oficial. Sampaio propõe que se correlacione uma cultura não só com uma lógica manifestamente assumida (oficial ou sacralizada). assim como com a lógica da cultura que a irá suceder. culturas espirituais. similar ao desejo inconsciente pessoal. fica a lógica da cultura que irá suceder à cultura de referência.. que. mas também com a lógica que ela supera e recalca. isto é. toda cultura finge já ser ou incorporar as virtudes daquela que a ameaça e esta. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. De outro lado. que por isso irá se constituir em lógica de seu permanente desassossego. porém. Isto nos faz compreender. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. afinal. Segundo Sampaio estaria aí identificado: . para Toynbee) [15] enfim. O ser correlato à lógica recalcada acaba se transformando no objeto de desejo da cultura de referência. que busca sem descanso recuperá-lo. sob “forma” ou “roupagem” sacralizada. instituições.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 21 Tillich. através de um processo de reiteradas substituições. Ao sentir-se ameaçada. A efetividade da crítica e dos esforços para a superação da Modernidade exige portanto sua prévia re-historização. o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. técnicas e múltiplas artes. pode enfim abrir novos caminhos para uma melhor compreensão da efetiva articulação entre ser-social e ser-pessoal. ou seja. simula ou finge ser o que ainda virá. convenhamos. como as culturas. o desejo da cultura.[16] Esta concepção parece ser de grande importância teórica na medida em que o reconhecimento de um desejo social. conhecimentos. é o melhor que poderia . Para se alcançar uma mais exata compreensão da dinâmica cultural. terá que necessariamente desmascará-la por este estratagema..

A propósito disto. escolástica. mormente em seu momento atual. então. não mais platônico-agostiniana (I/D). Como cultura dialéticotrinitária (I/D). Mais importante do que tudo. não se exclui desta perplexidade. são bastantes os sistemas de medidas. enfim.tempo. mks. chega-se a uma compreensão da história da física de inexcedível clareza [18].22 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. mas aristotélico-tomista (D/D). A impressão é que melhor não se poderia pretender. cgs. Não se pode por isso mesmo relaxar na vigilância dos sinais que possam testemunhar do vigor da física. [17] Acredito que. fazendo com que ela. à vista da aproximação da era da ciência. assuma um papel de excepcional relevância. Isto nada mais é do que querer ver o mundo reduzido a apenas três variáveis fundamentais . na circunstância. seja capaz de dar conta das passagens críticas do processo histórico cultural. pois não há melhores indicadores do real nível de vitalidade da Modernidade. o corpo. porém. os acontecimentos são por demais claros e “auspiciosos”: . não haja quem não desconfie que um tal esquematismo. A partir daí. Por outro lado. seu real desejo será da ordem da lógica que a antecede. como o da cultura cristã trinitária. como encontrar um bom contra-exemplo para pô-la em cheque? Em contrapartida os exemplos favoráveis não faltam. ou seja. Tal desejo encontra precisamente na arte sua melhor expressão metafórica. racional. assim tão drástico. se irá ver a cultura medieval cristã antecipar-se fingindo-se já Moderna. Aí. etc). seria que o esquema não falhasse na compreensão da Modernidade. nesta cultura. lógica da diferença (D). Sampaio chama a nossa atenção para a grande quantidade por aí de “museus abarrotados de arte sacra” cristã. seria preciso observar as manobras de fingimento que denunciam o grau de temor da Modernidade em relação ao seu futuro. Até o próprio Sampaio. à primeira vista. de modo confesso. mas sob a “forma” incorruptível ou espiritualizada (I/D). espaço e matéria (por isso. Sampaio identifica a física como o cerne da Modernidade em razão de sua obsessiva pretensão de medir (D/D) o mundo tido como simples manifestações do unotrino (I/D). Depois.

3. sem jamais esquecer ou menosprezar as grandes lições da História (da cultura). já. sem mais. tida como de atraso. Isto traz implícito que teríamos mesmo uma só destinação . etc. Já houve um grande esforço para se chegar a uma interpretação ideológica da marginalidade brasileira e Sampaio debita seu fracasso a causas que lhe são imanentes. Haveriam sim dois brasis. o que justificaria os seus ingentes e continuados esforços para superar tal situação. sempre com a mesma implícita conotação econômica. pelo . Ele acredita que dualismo há. todos os dias. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! [19] Como recusar tantas e tamanhas evidências?! Para Sampaio seria esta a hora de agir. Brasil-Bélgica/ Brasil-Índia. menos retrospectivo do que propriamente prospectivo. um imerso na Modernidade. As ideologias têm de comum o propósito de apenas substituir o sujeito individualista sujeitado à ciência por um outro: a esquerda. Esta seria nossa razão de ser histórica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 23 Na TV e por todo canto. Ou será que. aquela condição marginal tem sido diagnosticada como a conseqüência de um persistente dualismo: Brasil moderno/Brasil arcaico. ter problemas crônicos de nela ingressar. etc. Sampaio não nega a condição de marginalidade nem o malestar daí decorrente. Parece-lhe paradoxal que uma nação nascida com a própria Modernidade possa. Ademais. a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . como se reservando para algo maior ainda por se realizar [20]. mas desconfia da natureza que em geral se lhe atribui. em última instância. outro que a ela se recusa. mas bem outra sua natureza: ele seria mais cultural do que econômico. mas com toda a prudência. se assistirá à reação desesperada: a ordem virá para a degola dos recém nascidos. tal como interpretada pelas elites políticas e intelectuais da nação.alcançar o atual paradigma social anglo-saxão. a boa nova: os prodígios da biopirotecnia.a vida eterna. biblicamente instruídos. Como sempre. As opções culturais brasileiras – luxo ou originalidade (e seus riscos) Existe um quase consenso acerca de que o Brasil ocuparia uma posição de marginalidade em relação à Modernidade.

E chama a atenção que nas circunstâncias atuais. o que leva a uma angustiosa inação [21]. que se por um lado. dificulta a sua . a direita. Com o descortino dos mecanismos lógicos da dinâmica cultural em Desejo. É também por isso que Sampaio acha insuficiente a crítica frankfurtiana. A única saída viável estaria em investir numa crítica da cultura capaz de desbloquear o horizonte histórico. fosse à esquerda. Conforme Sampaio. esperança bem fundada de uma nova cultura. uma concepção da história da cultura como auto-desvelamento do ser lógico do homem é o bastante para re-historicizar a Modernidade e iluminar o horizonte de sua possível superação. seus beneficiários não se disporiam até a ajudar (financeiramente. mesmo que não seja esta sua intenção. Esboçando as características mais marcantes da cultura nova. para além da Modernidade científica e “mercado-lógica” existe a esperança. como para além da lógica clássica existe uma lógica hiperdialética qüinqüitária. pelo sujeito romântico ou libidinal. Como se viu anteriormente. bem como as oportunidades de ação cultural que ao mesmo tempo acelerem e minimizem os custos (historicamente enormes) do processo de superação da Modernidade. fosse à direita. Volta ele então à Historia do Brasil para compreender que sua marginalidade é também de certo modo resistência propositada. Assim. Fingimento e Superação na História da Cultura [22]. relativizar a Modernidade permitindo que a vista alcance mais além. o Brasil se caracteriza pela confluência de um amplo leque de culturas. que é sua especialidade) os seus velhos inimigos para que por aí fiquem vagando impotentes. todos nós estaríamos capacitados a de pronto perscrutar os sinais de fraqueza e declínio. econômicos e culturais. faz as vezes de profeta.24 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito coletivo. na medida em que ela não admite qualquer possibilidade de que se transcender a cultura em que se vive. o que no fundo traduz idêntico desejo por um capitalismo perfeito. mas ocupando todos os lugares?! Jamais houve ou poderia ter havido saída lateral. para evitar maiores riscos. Ele mostra que dentre elas estariam a re-significação cósmica [23] e religiosa [24] do homem e a completa renovação das relações indivíduo/sociedade sob os aspectos políticos. a crítica ideológica é o que mais pode desejar o pensamento único. Sampaio. Quem sabe.

fica um sério problema que ele identifica. A cultura dominante. para os próprios brasileiros. não estamos onde tudo acaba. tanto denotativo e preciso. No cerne desta estratégia. No caso presente. talvez. em especial. bem outra é reconhecê-lo ou não como acontecimento.a continuada traição das elites políticas/econômicas e a alienação das elites culturais. estes possam ser para ela mais perigosos. mostram insistentemente todos os meios de comunicação de massa. aqui se concluiria. em entrar para o “Primeiro Mundo”. Afinal. que seria aquela do esmorecimento do vigor criativo dos laboratórios científicos centrais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 25 modernização. Sugere Sampaio que o Brasil se constitui. Fosse o caso geral. e tenta a todos seduzir ofertando a vida eterna aqui mesmo na Terra através dos poderes cada dia maiores do que ele jocosamente chama bio(piro)tecnologia. a seus cálculos. constitui a base necessária à edificação de uma cultura nova realmente após moderna. No entanto. em especial. estamos sim onde tudo a rigor começaria. muito ao contrário. deve-se desenvolver em e para o Brasil uma estratégia cultural para sobreviver até à chegada da melhor hora. Deduz-se daí que a opção pela originalidade não está isenta de grandes riscos. ordenar a degola dos nossos terroristas recém-nascidos onde. coletivo e cósmico. entretanto. E que portanto o Brasil não tem uma só destinação possível. a causa vale a pena. ao que pudemos perceber. Por tudo isso. Pode por isso continuar insistindo. Mas de qualquer modo. quanto ao limite expressivo) e da nossa música em todas as suas variantes. ainda que um pouco tardiamente. qual a significação última desta desmedida NARRATIVA de Luiz Sergio Coelho de Sampaio jus- . Apreciar e mesmo julgar um trabalho intelectual é uma coisa. a defesa da língua (pelo uso. já hoje finge ser sua própria posteridade. como nos instrui o Velho e o Novo Testamento. finge-se pós-modernidade. E. no único perigo real para a cultura dominante e também por isso. mas não o vimos aportar a solução: o ódio das elites ao povão . a fazer nascer no mundo uma nova cultura. estaria a preservação com unhas e dentes das condições mínimas vitais para a criação e circulação da produção cultural brasileira e. mas pode alternativamente lançar-se na grande aventura da construção de um novo modo de ser pessoal. vale dizer. quando desesperada. mas duas: ou o luxo ou a originalidade. por outro lado. a seu ver. ela irá. a TV.

Por fim. ser vivo implica ser dotado de uma membrana osmótica – a primeira pele. novembro de 1994. 189. C. 3.194. 1995. Rio de Janeiro. que em O livro do filósofo afirma: “Não se trata de aniquilar a ciência. isto é. S. Rio de Janeiro. Paulo. P. 1999. HEIDEGGER. Projeto de pesquisa para o CNPq. 1998. 2000. 10. SAMPAIO. Dado que o sistema nervoso central deriva da invaginação do próprio ectoderma. EdUERJ. Indiana U. Aquiles.. in Pensamento original made in Brazil. “Noções de antropo-logia”.” 4. ______. op. CÔRTES GUIMARÃES. Porto Alegre. Esta disposição geral. Hegel’s pPhenomenology of spirit. 1988. fasc. ______. S. Problemática do culturalismo. de.os neohegelianos. S. Antônio. C. L. Rio de Janeiro. Tendências da filosofia brasileira contemporânea . aliás. Bloomington. de. 7. Rorty).26 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tamente neste momento de convergência do pós-moderno europeu continental e do pragmático anglo-saxão transatlântico (especialmente. 6./FINEP. já está em Nietzsche. logicamente otimistas. 1999. “Lógica da diferença” in Revista brasileira de filosofia. pode-se dizer que os cordados são dotados de uma dupla pele. 8. “A grande tarefa de nosso tempo: Uma nova filosofia” in Revista brasileira de filosofia. Aquiles. mas de dominá-la. EDIPUCRS. Incluído no volume ora prefaciado. cit. 2. Paulo. C. M. fasc. PAIM. e também “Sumário das contribuições à filosofia da parte de Luiz Sergio Coelho de Sampaio”. Sumário das contribuições à filosofia. CÔRTES GUIMARÃES. 9. “Acerca da lógica e da cultura”. Rio de Janeiro. “Reflexões. de. op. Oficina do Autor/etc. SAMPAIO. 5. L. abril/junho 1999. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. cit. capaz de se por na pele do outro (simbolicamente expresso pelo uso . S. o homem. SAMPAIO. S. acerca do advento da cultura nova pós-científica” in Pensamento original made in Brazil. Segundo Sampaio. L. acabando de acordarem que a grande narrativa simplesmente não há?! Aquiles Côrtes Guimarães do Departamento de Filosofia do IFCS-UFRJ NOTAS 1. capaz da piedade (Rousseau).

op. figuradamente. outubro de 1999. cit. cit. SAMPAIO. mais recente. acerca do advento da cultura nova pós-científica”. “Crítica da modernidade”. fingimento e superação na História da Cultura”. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. Incluído no volume ora prefaciado. Ibid. L. L. julho de 1999. 21.______. fingimento e superação na História da Cultura”. S. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. Incluído no volume ora prefaciado.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. 1993/1997 e. “A história da cultura segundo Toynbee. Rio de Janeiro. setembro. Incluído no volume ora prefaciado. SAMPAIO. Rio de Janeiro. “Princípio antrópico . op. “Reflexões. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. cit. Rio de Janeiro. S. 18. 23. op. Apontamentos para uma história da física moderna. novembro de 1999.______.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. op. 1999. “Desejo. de. “Noções de Antropo-logia”. 22. 19. Tillich. op. seria dotado. Incluído no volume ora prefaciado.um novo fundamento e uma significação renovada”. 14.______. de.______. Incluído no volume ora prefaciado 17. cit. “Desejo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 27 de roupas ou pinturas corporais). 13. logicamente otimistas. 1998. cit. ______. novembro de 1999.______. 12. “Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira”. Hegel e Marx”.______. op. “A superação das idolatrias . Incluído no volume ora prefaciado. UAB. 16. Rio de Janeiro. 11. 15. ______. C. Rio de Janeiro.______. de uma terceira pele. C. 24. Ibid. cit.______. “A superação das idolatrias . 20. . Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.

ganhou-se até agora substituindo o evolucionismo (discurso do colonizador de maus bofes) pelo relativismo multiculturalista (discurso do bem-bom colonizado) ou. refletir: por que.este é modo preponderante do “acontecer” no Brasil -. Recomeçar: preliminarmente. mas. às vezes. lógica que há muito parecia morta. uma filosofia da cultura? Por que existe a cultura e não somente nada (de cultura. não garante verdades de bom peso. estatísticas de importação de secos e molhados ou faturas sacadas contra a Santa Casa da Misericórdia? É óbvio: nisso não há mal algum. de coração aberto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 29 Apresentação O que se pretende? Inicialmente. cortada e as partes defumadas pelo formalismo imperante. de tal querela? O que. não apenas o que há para . isto é. além da etnologia. ou sobretudo. a lógica ressuscitada. acolhendo. na verdade. Considerar o novo mapa do território lógico. tão só. hipótese aventada por LévyBruhl e que teria sido radicalmente banida pela antropologia estrutural lévi-straussiana? E o reflexo. natureza)? Pôr em dúvida: estaria mesmo encerrada a disputa acerca de um suposto pensamento pré-lógico dos “povos primitivos”. da sociologia da cultura. pelo mais inócuo: o exercício de vasculhar receitas em antigas farmácias homeopáticas. das antropologias de diferentes matizes. aqui . também. até pelo contrário.

logo. de transição etc. mesmo reconhecendo os méritos. de mil maneiras. Descartar as ideologias por impotência e. atentar para o seu desejo. especialmente. primeiro e único. a partir daí. Escarafunchar a dinâmica cultural em sua essência: desejo. calculado na cruz – e não se deixar enrolar pela promessa da vida eterna now. Fixar. desde os gregos). justo por tanto. das TVs. sim. a temática lógica/cultura. mistas. desde os pequenos bandos de caçadores/coletores do paleolítico à atualidade. E. assim como as enrolações . não nos basta a crítica da técnica.30 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recuperar. Retomar: agora. também. mas nem por isso tornado santo ou absoluto). em novos termos (vale dizer. posto inteiro na ciência. Chegandose à Modernidade. sem descanso. Não há saída nem à esquerda nem à direita. Revisitar: a história da cultura doravante considerada como o processo do paulatino (nem monótono. nem monotônico) auto-desvelamento do ser lógico-hiperdialético do homem (uma renovada fenomenologia de um espírito mais elevado. mas igualmente o que há para se avançar e conquistar. – que. bem à vista. das primeiras originarse-iam. em todos os jornais impressos e nos horários. Por conseqüência. teríamos que considerar pouco mais que meia dúzia de culturas nodais e inúmeras culturas não-nodais – arcaicas. na física – o unotrino sob a roupagem lógica clássica formal. Um zoom sobre as origens e fases da Modernidade para melhor inspecionar-lhe as entranhas (como foi um dia prática de adivinhos). as raízes de uma antropologia lógico-filosófica – o homem como ser mundano lógico-qüinqüitário. fingimento e superação na história da cultura. tida esta como apenas um modo metafísico de ser do homem (Heidegger). por obra e graça da biopirotecnia que se anuncia. desnecessariamente violentas (é só somar seus mortos empilhados ou no ar volatilizados ao longo do século XX). dos nobres aos mais pobres.

não fora a troca que fizemos da temática da alma por aquela do indivíduo/sociedade. criminalizou todo e qualquer ato de legítima defesa cultural (com exceção. e avançar. em suas dimensões política. de qualquer maneira. mas infelizmente se deixou dobrar frente à fantasiosa onipotência do discurso científico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 31 comunicativas em que se transmudou a badalada Escola de Frankfurt. religioso e social. não deixar qualquer falsa passagem. Anunciar bem alto: temos opções – de um lado. naturalmente. Enfrentar a questão cultural brasileira na presente conjuntura. Forçar. escolher o luxo (que agora já é lixo) ou a originalidade. vermelha e negra por todos os lados. por sua vez. mas também não amarelar. Ganhar. Cassirer compreendia e queria assim. nem que seja um mero “buraco de verme . não enrubescer. que. da cultura hegemônica etnocida e suas cúmplices e/ . do caráter não extensional pela autoreferencialidade. Resistir: olhar e não desviar os olhos do que se verá. esta bem mais sutil. pois não há outra alternativa metodológica à crítica lógicofilosófica da cultura. este. a certeza de que uma cultura nova lógico-hiperdialética advirá. se arriscar na criação de uma nova cultura. apesar da grande armação. Pintar e bordar com linha grossa – é o que nos é hoje permitido – como a cultura nova implicará na re-significação do homem sob três grandes aspectos: cósmico. Três idéias que se poderia dizer kantianas. de outro lado. acima. escolher o que. Concitar à resistência: assumir os riscos da opção pela cultura nova lógicohiperdialética. com fundamento na substituição preventiva. faturando (de certo modo. econômica e propriamente cultural. Tão propositada quanto obsessivamente. se assanhar e se prostituir com as sobras da Modernidade. também copiando) o fascismo. já nos espera. driblando a censura branca . então. a re-historização da Modernidade.

tenha sobrado alguma coisa!). deixando claro para as histórias futuras que a traição das elites políticas e a demissão das elites intelectuais do Brazil nunca foi assim tão ingênua quanto de costume. não se deixará superar sem antes ordenar a degola de todos os supostos terroristas recém-nascidos. por algum tempo. para o Egito. da compostura da autoridade e da dignidade da nação (na hipótese que desta. depois dos fatos acontecidos. como qualquer outra cultura lógicodiferencial. é preciso se fazer estratego: se abaixar no mato ou fugir. . posto que a causa. tentam elas nos fazer acreditar. no fundo. hoje. Por isso. posto que a escolha fundamental terá que ser sempre a liberdade e não as águas do Nilo.32 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou associadas). Ouvir com seriedade o alerta bíblico reiterado: a Modernidade. Estampar o registro de pelo menos uma dentre as muitas intervenções por nós realizadas em foros governamentais e acadêmicos. Ter bem presente que é para voltar tão logo se possa. coincide já agora com aquela da restauração da legalidade. E. este texto passa a ser também um brado de protesto e uma clara conclamação à resistência ativa e por todos os meios efetivos e eficientes. depois que chegamos ao ponto de ver um Presidente da República e seus pares quadrilheiros tramaram a substituição do sufixo BRAS no nome de uma empresa brasileira por considerá-lo depreciativo.

Cassirer – Logique des sciences de la culture Por que também uma filosofia. explicitando inter-relações funcionais entre os múltiplos aspectos. a história da cultura (ou das civilizações). a etnologia. a antropologia especificamente cultural. antropologias de diversos matizes . mais de mériter ce bonheur. muitas vezes lidando com informações de segunda mão. por um viés mais compreensivo.evolucionista. A antropologia. também. E. et c’est la seule chose qu’elle puisse leur donner. se para cuidar da cultura já temos a etnografia. elaborando modelos. estribando-se sobretudo no trabalho de campo. ao se perguntar pelo homem em . ainda que um tanto redutora. a segunda. ce n’est pas de gagner le bonheur suprême. uma filosofia da cultura Ce que la culture promet aux hommes. a sociologia da cultura? Poder-se-ia argumentar que a etnografia e a etnologia cuidariam apenas de culturas particulares: a primeira. estudando as relações com o meio geográfico. a arqueologia” das culturas (ou das mentalidades) e.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 33 1 Porque. procedendo a análises comparativas inter-culturais e a descrição e avaliação de eventuais processos interativos entre culturas [1]. funcionalista e estrutural -. por um viés fenomenológico/descritivo.

já menos antipática. neste quadro de referência. com elevado grau de congruência. que se aproxima da antropologia estrutural. para a antropologia política. admite que a integridade do sercultural corre por conta da cerrada e coerente trama de relações entre os seus diversos aspectos e dos seus mecanismos internos de auto-regulação. assume um ponto de vista dialético. Em sua versão evolucionista ela se preocupa em adjudicar posições mais ou menos retardatárias numa escala que iria da animalidade à cultura do antropólogo em exercício. prefere ver a cultura como sendo a realização de imensa teia descentrada de relações. em boa medida. configurando uma mentalidade ou o “estilo de vida” de uma época.). todos eles justificados por sua contribuição à sobrevivência do grupo. em sua versão estruturalista as culturas se apresentariam como realizações. A história das culturas. representações e fórmulas rituais religiosas etc. procurando delinear uma totalidade/processo em que as culturas se apresentam apenas como momentos de relativa estabilidade. a sociologia da cultura vai se apresentar como o estudo do sub- . à exaustão. mas se justifica pela seleção e ênfase que dá às manifestações propriamente simbólicas (língua. tomando a sociedade como um objeto em si (sistema social). os processos de reprodução dos seus poderes e de sua integridade. funcionalista. arte. por definição. A partir daí confunde-se o ser homem e ser cultural. topa de imediato com a cultura como sendo seu traço mais essencial. das possibilidades combinatórias de uma matriz ou estrutura formal subjacente. A arqueologia das culturas ou das mentalidades. A antropologia cultural é quase um pleonasmo. inconsciente para seus portadores. deixando o resto a cargo de antropologias vizinhas: para a antropologia econômica ficam os processos de reprodução material do grupo concreto. A sociologia desde suas origens se assume ciência positiva.34 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO geral. irredutível.

com ares de certa gravidade. pelo ser do homem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 35 sistema cultural (ou simbólico) de uma particular sociedade. Ela de fato sempre esteve presente quando se perguntou de modo radical e sem preconceitos. não se distinguiria de uma ontologia fundamental. sinteticamente expresso por Leibniz [2]: por que existe algo e não tão somente nada? A filosofia. Não queremos dizer aqui que a preocupação ontológica seja coisa inteiramente nova no âmbito dos estudos da cultura. Estariam também no círculo das preocupações da filosofia da cultura (ou da antropologia filosófica) . de dar conta da diferença entre culturas estatuídas e até mesmo de universais culturais. a etnologia e a filosofia da cultura: a primeira teria uma preocupação apenas ôntica. que podemos já agora identificar como sendo Natureza). Isto posto. Para ilustrar. voltada para o esclarecimento da diferença originária e abissal entre cultura e nada de cultura (Natureza). O que se quer aqui precisamente enfatizar é tão apenas que um tal questionamento não poderá deixar de estar presente de maneira conspícua num texto que se intitula. transladada agora para o âmbito regional da cultura: por que há cultura e não tão apenas nada (de cultura. ao lado do sistema econômico e do sistema político. valeria compararmos. que poderia trazer ainda de novo a filosofia da cultura? O ponto de vista da filosofia. desta sorte. Bem. para descartar ou subsumir é tradicionalmente aquele da pergunta pelo ser. fosse onde fosse. diferença primordial entre o ser e o nada. No cerne da filosofia da cultura estaria pois a pergunta pelo ser da cultura. depois de tudo isso. pela essência última da cultura. ínclita guardiã da diferença onto-lógica. filosofia da cultura. a especificidade da filosofia da cultura recairia justamente no enfrentamento daquela mesma pergunta. por exemplo. para afirmar ou para negar. enquanto que na filosofia da cultura a preocupação básica seria onto-lógica.

a infinitude. quase que só pelo nome. O critério de escolha das idéias/contextos.36 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tudo aquilo que de mais relevante houvesse no sentido de garantir a consistência da resposta dada à questão: que é o homem? Se aceitarmos que a significação é sobretudo uma exigência de contextualidade. A experiência de qualquer autêntica obra de arte . chegaríamos à conclusão que três grandes questões se nos impõem: Primeira. por fim. qual o sentido da existência humana frente ao Absoluto. pode facilmente nos instruir sobre o que significa ser. de modo equivalente. sem referentes objetivos [3]. por conseqüência. a divergência se deve a que o critério de seleção em Kant é francamente negativo . Destoariam elas em apenas um ponto: onde pomos a sociedade. o Absoluto e a sociedade .apenas uma grande obra bastaria -. O cosmos precisa ser seu próprio referencial (eis a razão profunda das discussões acerca do papel da teoria da relatividade na cosmologia). qual seria sua significação em âmbito religioso? Terceiro. ele põe a alma. dado que o que aí se está buscando é um sentido último. a impossibilidade de uma efetiva totalização experiencial -. mas a auto-referencialidade. a nosso juízo.a auto-referencialidade.com as três idéias da razão pura kantiana. ou seja. não deve ser pois a perigosa infinitude [4]. ainda que de maneira si- . totalidades não acessíveis à experiência e. A nosso juízo.o cosmos. a auto-contextualidade social se torna também imperativa na medida em que reconhecemos na cultura o fundamento último da unidade do sersocial. que representa a condição de ser-social do homem ou. qual o significado real das relações indivíduo/sociedade? Somos quase que imediatamente impelidos à comparação destes três contextos . é necessariamente referencial de si próprio. enquanto que o nosso é intencionalmente positivo . qual o sentido da presença do homem no cosmos? Segunda. o Absoluto.

de costume. o econômico e o propriamente cultural. o próprio Criador) a dar testemunho daquele processo [6]. indivíduo e sociedade. Quanto à significação religiosa. o referencial de si mesmo! A questão da significação cósmica do homem vem sendo completamente renovada em função dos recentes progressos da cosmologia científica.e a existência da espécie humana. que consideramos inevitável. A relação indivíduo/sociedade [8] precisa ter sua compreensão radicalmente revista para que se afaste em definitivo a simplória conotação topológica conteúdo/ continente que. cremos que nada há por enquanto de relevante. não . A filosofia da cultura. Somos de opinião. Já circula amplamente nos meios mais cultivados [5] a hipótese de vigência do chamado princípio antrópico. entretanto. de parte a parte. convenhamos. já pelo que lhe vem da tradição. que afinal. e isto. no nosso entendimento. A filosofia. lembremos o já acontecido com todos os positivismos e o que hoje acontece. Sem isto torna-se impossível perceber a complementaridade onto-lógica que condiciona. Só para exemplificar. é um saber com a peculiaridade de incorporar sua própria história. é única (afora. segundo as três dimensões fundamentais do ser-social – o político. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão. uma renovação profunda das concepções onto-lógicas vigentes [7]. Os caminhos para tanto pressupõem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 37 mulada. e isto ocorre. naturalmente. com a psicanálise. estabelecendo um compromisso originário entre o processo cósmico (hipótese do big bang) . até de maneira radical. recuperará o seu interesse maior. bem sob nosso olhar. pelo fato da filosofia não se recusar a atribuir seu próprio status àquilo mesmo que a nega.estreitamente dependente dos valores de um pequeno conjunto de constantes universais . talvez. se lhe dá. muitas vezes.

em todas as antropologias específicas (política. nos saberes psíquicos e vai por aí a fora. cultural).38 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO deveria se constituir numa exceção. econômica. sem restrições de qualquer sorte. deve ela também se interessar pelas novas oportunidades de testes de coerência e adensamento da significação de suas concepções e até por acompanhar os movimentos de aberta contestação às suas posições conceituais. Assim. e de tudo mais que à sua volta acontece e que por natureza nela e por ela reverbera. na lingüística. . na etnologia. a filosofia da cultura é sobretudo o exercício do auto-conhecimento da própria cultura. Em suma. nas histórias de longo curso. E estas oportunidades estão por toda parte: para começar.

a ontologia tende a confundirse com a lógica. em consonância com uma velha tradição que remonta a Parmênides. e que buscaremos também aqui resgatar. Ils ne sont pas nombreux.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 39 2 Bases lógicas para uma antropologia filosófica J’appelle philosophe contemporain celui qui a le courage de traverser sans faiblir la antiphilosophie de Lacan.1 – Preliminares . que serão fundamentalmente lógicos. de uma antropologia [1] e. Conditions Nosso principal objetivo aqui é apresentar as linhas gerais de uma antropologia filosófica ou. Tudo isto irá requerer a exposição prévia dos nossos supostos filosóficos. Nesta concepção filosófica. na medida em que defendemos uma estreita correspondência entre ser e pensar. passa por Platão e chega até Hegel. tentar satisfazer nossa curiosidade acerca da situação atual e das perspectivas brasileiras sob este crucial enfoque. Alain Badiou. mas naquele que esteve sempre presente no curso da história da filosofia. não obviamente no sentido restrito que esta última vem assumindo nos meios acadêmicos. aliás. seguindo um pouco mais além. 2. o que para nós seria o mesmo.

considerado isto de uma maneira mais geral. do pensar inconsciente. seria a lógica do mesmo. vale dizer. lógica do pior (Rosset) etc. b) A tematização de um modo de pensar e a sua expressão discursiva arrazoada ou paraformal constituem uma lógica. do transcendentalismo fenomenológico de Husserl . o mesmo. do múltiplo e do múltiplo do múltiplo) que visaria o ser humano. a lógica clássica ou aristotélica. que inclua não apenas o pensar que visa o um. que iremos denominar lógica da diferença ou. c) Existem duas lógicas fundamentais.2 . lógica do significante (Lacan). su- 2.por isso a denominamos lógica transcendental ou da identidade. a segunda. mas nenhuma pôde ou poderá neste mister exceder aquela cuja especificidade é a forma abstraída.40 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As nossas principais teses lógicas – como já dito. a primeira. o ser capaz de discurso.A lógica ressuscitada . e mais ainda o pensar hiperdialético (pensar síntese do um. mas também o pensar dialético (pensar síntese do um e do múltiplo) visando a idéia (Platão) ou ainda a História (Hegel). de algum modo. já bem identificada pela tradição. lógica I. lógica do paradoxo (Kierkegaard). até hoje mal cernida pela tradição .lógica do coração (Pascal). ou. lógicas que não podem por qualquer modo ser uma “derivada” da outra. por sua peculiar natureza as lógicas historicamente atingem diferentes graus de formalização. logos heraclítico (segundo Heidegger). seria a lógica do outro. do sujeito transcendental ou crítico da ciência em Kant. porém. lógica implícita do cogito cartesiano. o “ilógico” nietzschiano. sumariamente. ou ainda. do pensar consciente. igualmente onto-lógicas – seriam as seguintes: a) Ser e pensar são.

que não pode jamais confundir-se com uma operação de tipo matemático ou formal. não podendo obedecer ao princípio do terço excluído. Teríamos assim as lógicas derivadas I/D. D/D = = D/2. será identificada à lógica clássica ou aristotélica. na verdade. Para contornar esta assimetria fazemos uma primeira diferenciação D1 discriminando S e não-S (ver figura 2. ela é uma generalização da aufheben hegeliana. I/D/D/D = I/D/3 e assim por diante. portanto. depois. lógica D. D}. onde I faz o papel de elemento neutro ou nulo à direita [3]. o que já não acontece com não-A que carrega inexoravelmente uma certa franja de indefinição dada a inesgotabilidade (pelo menos prática) do mundo. por exemplo. I/D. A segunda. Na prática isto quer dizer que qualquer ocorrência de I na designação de uma lógica resultante da articulação de quaisquer seqüência ordenada de lógicas. contratualmente . que não seja aquela de primeiro lugar à esquerda. esta que passa a ser considerada. porque uma simples diferença A e sua negação não-A não formam uma par simétrico. lógica do terceiro excluído. doravante. I/D/D= = I/D/2. Esta última designação tem um sentido profundo. como por exemplo. pode ou deve ser desprezada. e) A primeira lógica derivada. é a lógica dialética. I/I/D/I= I/D. D/D/D =D/3. A é algo por constituição sempre bem definido. ou ainda (D)/(I/D)/(I)=D/D. síntese das lógicas da identidade e da diferença. D/D = D/2. 41 d) Todas as demais lógicas “derivariam das lógicas fundamentais. Estas denominações sintéticas das lógicas constituem um semimonóide [2] livre gerado pelo conjunto {I. o produto cartesiano. através de uma operação que denominamos síntese dialética generalizada simbolizada por uma /.a). o degrau um daquela.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE mariamente.

I/D mais a lógica clássica (ou da dupla diferença) D/D = D/2 e. doravante. Nestas circunstâncias.A A = n ª o -n ª o -A D D D Figura 2. não-não-A e A passam a ser também equivalentes. S im p les d iferen a nª o nª o - D u pla d iferen a nª o . aí então introduzimos uma segunda diferença D2. por convenção.42 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desconsideramos não-S o que transforma S numa totalidade por convenção. a lógica da diferença D e. D. porque ambos são. a si mesma. . princípio este por nós considerado como realmente característico da lógica clássica.a .Diferença e dupla diferença f) Todas as lógicas derivadas subsumem (superam. ainda por convenção. o que vem constituir uma das formulações do autêntico princípio do terceiro excluído. I/D. interna ou condicionada a S. subsume a lógica da identidade I. também a si próprias. sim. D/D = D/2 [4]. por exemplo. bem definidos ou esgotáveis. A e não-A tornam-se simétricos. já a lógica hiperdialética I/D/D = I/D/2 subsume as lógicas I. por convenção. assim. ou de mesma natureza. a si própria. passa a ser por nós preferencialmente denominada lógica da dupla diferença ou. agora. Assim sendo. a lógica dialética. de modo compacto. As demais lógicas sintéticas não foram ainda identificadas e nomeadas por razões que esperamos fiquem claras ao cabo do presente trabalho. Esta. mas ao mesmo tempo conservam integrando) as que lhe são anteriores e.

Representações histórico/culturais das lógicas . – as lógicas admitem um sem número de representações outras já efetivamente produzida pelas diferentes culturas históricas. po ssibil. em geral. da L g. etc.ele G eo m Øtric a . im p o ssib. A steca Sul O este L este N orte u m b. D.-1 3 ∃x φ(x ) H =1 1 ∀x φ(x ) A =1 1 . Na figura 2. I/D. L g ic a D ialØt. P r prio s G eo m Øtric a ∃x φ(x ) I =I 1 .d o m u nd o C o res a zu l b ran co ve rm elh o pre to P o s.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 43 g) Além da algébrica – I. D ifere n . D i-m e n sı es s/L ac an im ag in. L g ic a . S er ter h av e r esta r am a r?! A n im al Æ g u ia se rpe n te le ª o to uro h om em S ign o zo diac . sem qualquer pretensão de esgotá-los.0 . R e p ese n ta ª o L g. (sign ific an te ) R eal sim b lic o M atem as laca nian o s O p erad o re s Val. Figura 2. inconscientemente.-1 2 3 S =1 eu . F am iliar p ai m e filha filho fam lia Verb o au x. D/2.tu.b .b apresentamos alguns exemplos. N u m Øric a 1 2 3 4 5 E lem e n to s ar Æ g ua fog o te rra q uinta e ssŒ n. A q u Æ rio E scorp iª o L eª o To u ro L ibra C an cer A ire s C ap ric. GŒ m eo s P e ix es S ag itÆ rio V irg em C an do m b lØ IfÆ O x alÆ O gu m Exu M o d alid a de ne cesse c. c o n tin ge n.0 2 ∀x ∃φ(x) D =D 1 . da Id e n tid . C o sm . L g ic a C lÆ ssica H ip e rd ia.

um cubo.c). e a lógica I/D/2. representada então por um triângulo. À lógica D associamos o segmento de reta. Como exemplo daríamos a lógica dialética I/D. por coerência. de sorte que à lógica I/D/n fica associada uma “pirâmide” em n+1 dimensões. de modo que no todo ficaríamos com um segmento de reta na vertical tendo na extremidade superior um I e na inferior D/0 = I. vale dizer. Figura 2. três segmentos ortogonais. o mesmo I em cima e em baixo . para preservar a coerência com as demais. No caso de I propriamente dita a representação canônica. a D/D/D = D/3. um quadrado. e assim sucessivamente (ver figura 2.44 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Vamos agora deter-nos um pouco mais demoradamente sobre o que denominamos representação geométrica canônica. tendo por base um “cubo” em n dimensões. ou seja.c . precisaria ser uma “pirâmide” cuja base estaria reduzida a apenas um ponto. por uma pirâmide de base quadrada. a D/D = D/2 associamos dois segmentos de reta ortogonais.Representações canônicas À lógica I associamos um ponto numa dimensão própria independente daquelas do conjunto das diferenças.

2. I/D. às quais irão corresponder. ditos mundanos. h) Somente as lógicas da família I. respectivamente. a res extensa (ou a espacialidade) e o ser simbólico (o conceito ou a idéia). I/D. . D. D. (Ver figura 2. no plano subjetivo temos cinco lógicas subsumidas.. da lógica do mesmo. D/2 e I/D/2. I..d) I NÍVEL FENOMÊNICO N=0 SER FENOMÊNICO D/ I/D 0 =I SER OBJETIVO OU SIMBÓLICO NÍVEL OBJETIVO N=1 I I/D/2 D DURAÇÃO OBJETIVA 2 INCONSC. definem planos onto-lógicos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 45 nos mostra tratar-se. 1.d . como seria natural supor. seriam: o unário ou fenomênico correlato a I ( I/D/0 = I/I = I ).Níveis onto-lógicos No plano fenomênico temos apenas subsumida a lógica I à qual corresponderá o ser enquanto tal (ou ser fenomênico). a duração (temporalidade objetiva). o trinitário ou objetivo correlato a I/D e o qüinqüitário [5] ou subjetivo correlato a I/D/2. SER DISCURSIVO SER SISTÊMICO NÍVEL SUBJETIVO N=2 I D D/ I/D CONSCIÊNCIA ROJETO HISTÓRIA Figura 2. isto é.. RES EXTENSA SER SUBJETIVO (PESSOAL OU SOCIAL). da forma I/D/n com n = 0. por derradeiro. I. os três primeiros. no plano objetivo são três as lógicas subsumidas.

i) A passagem de um plano onto-lógico ao que lhe segue não se faz por simples agregação de ambos os lados.e .Remanejamento onto-lógico Não é muito difícil compreender: no plano ontológico objetivo I/D visa-se necessariamente uma totalidade que.e) I I/D D I/D/ 2 D/2 D/0 =I I D I I/D Figura 2. precisa ser previamente des-totalizada para que possa ser então articulada. por exemplo.D/2 e I/D/2 -. a história . a mera agregação de duas novas lógicas . seja ele pessoal ou social. a outras ex-totalidades. o sistema (ou papel organizacional) e o ser subjetivo na plenitude. pela lógica D. porém. o que estava sendo pensado por D vai necessariamente se deslocar e ser re-pensado pela lógica D/2. precisa ser repensada. na circunstância. através de leis convencionais ou de regras. no plano seguinte. o inconsciente (ou ser desejante). o ser consciente como projeto. respectivamente. doravante tornada lógica das regras . ao se passar de I/D a I/D/2 dáse.46 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que terão como correlatos. vale dizer. (Ver figura 2. acontece um remanejamento geral do ser visado. do lado da realidade visada. de um lado. Como conseqüência.

isto é. onde D passa a pensar o corpo libidinal. agora. sim. a subjetividade se desagrega e o corpo físico vem. deslocadas para um outro plano. j) Além do remanejamento. na passagem. “im-pensados” e impensáveis”. a ser de novo pensado enquanto tal. acontece um outro importante fenômeno na passagem de um plano ontológico ao subseqüente e que denominamos recalque lógico. e sim alguma coisa muito mais grave: a lógica para poder efetivamente visá-lo. que irá visar signos. do mais conspícuo dentre os saberes científicos – a física. (Ver figura 2. o que deixa os referidos aspectos. mas que deixa de sê-lo no plano subjetivo. pois. O desconhecimento deste imperioso fenômeno de remanejamento é fonte de dificuldades crônicas em quase todos os campos do saber [6].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 47 constitutivas de um agregado de maior hierarquia.f) As lógicas que desvelavam determinados aspectos de realidade são. porque a algo estaria faltando mais do que o significante apropriado. . Tomemos a semiologia como referência: I/D no plano onto-lógico objetivo pensa os signos. D/2 e sim I/D. Chamamos a isto recalque lógico. mas signos contextuais. no caso de uma eventual doença ou acidente. então. representativo de uma nova totalidade a emergir no nível I/D/2. como apenas significantes a serem articulados por regras sintáticas (morfológicas ou gramaticais) D/2 e assim constituir um suprasignificante de um supra-signo ou discurso a ser desvelado pela lógica disponível I/D/2. A outra posição disponível não é. relevantes e unívocos apenas no contexto do discurso visado por I/D/2. no plano subjetivo. estes passam a ser visados por D. como é de sua natureza. Um bom exemplo seria aquele do corpo físico pensado por D no plano objetivo. vale dizer. inclusive.

Lacan estendeu-a. ainda que apenas formal. Como exemplo. da seqüência dos planos onto-lógicos. l) Heidegger descobriu o comprometimento ontológico da verdade: verdade como alétheia (I) contraposta à verdade como adaequatio (D/2) (ver figura 2. de algum modo.48 I I/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D I D/ 0=I Pré-I Pré-D D I D/2 I/D Pré-I Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Figura 2. tome-se a lógica I/D visando. vale dizer. através de seus matemas. para as quatro lógicas de base: verdade total (I).f . Isto nos assegura que o visado pela lógica de maior nível de um plano torna-se. o Deus único (I). o que permite uma articulação. de impossibilidade da ocorrência de saltos instantâneos. pensável pela lógica I no plano subseqüente.g). no plano subjetivo (I/D/2). parcial (D).Articulação dos níveis onto-lógicos Existe. parcial e total (I/D) e nem . uma exceção justificada por um princípio geral de continuidade do mundo e da vida. no plano objetivo (I/D): o pleno domínio do signo convencional (episódio bíblico do bezerro de ouro) vai se mostrar condição necessária para que se possa pensar. contudo.

expresso por Xn(ψ) = ψ.g . à . especificamente. D. adaequatio e amor (correspondentes a I. I/D. seguindo a seqüência de estruturas onto-lógicas definidas no item anterior: alétheia fenomênica (I na estrutura onto-lógica de mesmo nome). a contar de I/D. m) Os símbolos I e D podem ser tomados como operadores.As verdades Nós podemos agora ir um pouco mais longe. respectivamente. isto é. I tal que I2 (ψ) = I(ψ) (reflexividade ou lei do pelo menos um) e D tal que D 3 ( ψ ) = D(ψ ) (lei da negação em sua maior generalidade ou lei do pelo menos dois). estará associado o princípio do no máximo n ou. HEIDEGGER Adaequatio LACAN Parcial PROPOSTA Amor Gozo D/ 2 D Nem Parcial nem Total 2 D/ I/D/ 2 D I Alétheia I Total I/D Parcial e Total Alétheia Subjetiva Adaequatio D/ 2 V it I I/D r ia Alétheia Objetiva Pré-I Afecção ou Percepção Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Alétheia Fenomênica Figura 2. D. Assim. afecção ou percepção e êxtase simbólico (correspondentes a I. na estrutura onto-lógica objetiva I/D). para a qual tem-se n = 1. o que é o mesmo. que nada quer com a verdade (D/2). gozo [7]. I/D. alétheia subjetiva.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 49 parcial nem total. respectivamente. a lei do n+1 excluído. vitória [ 8]. em virtude do seu caráter derivado. D/2 e I/D/2. por exemplo. alétheia objetiva. A cada uma das demais lógicas. na estrutura ontológica subjetiva I/D/2 ).

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lógica dialética I/D estará associado o princípio do no máximo um, ou, o que lhe é equivalente, o princípio do segundo excluído, vale dizer, da totalidade, expresso por um operador H, H tal que H(ψ)= ψ; à lógica D/2, que segue imediatamente a I/D, estará associado, como é bem sabido, o princípio do terceiro excluído, expresso por um operador A, A tal que A2 (ψ) = ψ; e daí por diante; n) A homogeneização dos princípios das lógicas e de sua expressão operatória estabelecidas no item anterior, permite que a elas sejam aplicados os mesmos procedimentos formais da mecânica quântica, em particular, o postulado que formaliza o ato de mensuração expresso por Op ψ = lψ[9] onde Op é um operador hermitiano[10] representativo de um determinado instrumento de medida, ψ uma função representativa de um estado de coisas do mundo e λ um número. (Ver figura 2.h) Esta última equação, em associação com a equação caraterística de cada uma das lógicas conforme definida no item m anterior, permite que para cada uma delas seja determinado, de maneira unívoca, um conjunto de valores de λ, designados valores próprios (em lógica, denominados valores de verdade ) do operador em questão.
OP
Med.
1

i t 0

OP
Med. 2

i

* *= a
1 1 +a2 2

i …

i OP( i) = i i

i

Figura 2.h - Lógicas como operadores

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À semelhança do que ocorre na mecânica quântica, na qual o conjunto dos valores de λ representa o “lado objetivo ou mensurável do mundo físico, os valores de λ vão representar aqui a realidade visada pela lógica em consideração. No caso da lógica I, associada ao operador de mesma designação, teríamos como valores próprios 1 e 0 , ou se quisermos, o ser e o nada, respectivamente. (Ver figura 2.i) Já no caso de D, associado também a um operador de mesma designação, os valores próprios seriam 1, -1 e 0, respectivamente, o verdadeiro, o falso e, de duas uma: o paradoxal, se a negação de 0 for tomada como sendo 1; o nem verdadeiro nem falso, se estabelecermos -1 como a negação de 0. Em se tratando de I/D, associada ao operador H, temos apenas o valor 1, identificado com a noção de totalidade lógica. Por fim, no caso de D/2, os valores próprios do operador A que a representa seriam 1 e -1, o verdadeiro e o falso, sem confusão (ou superposição) e sem a possibilidade de qualquer outro valor, vale dizer, de qualquer terceiro; por isso, entre outras fortes razões, a lógica D/2 foi por nós identificada como sendo a lógica clássica.
L. transcendent.
I2=IeIψ=λψ

L. da diferen a
D3 = D e Dψ = λ ψ -1

0

0

1

1

L. dialØ tica
H = 1 e Hψ = λ ψ

L. clÆ ssica
A2 = 1 e Aψ = λ ψ -1

L. q inq itÆ ria
S3 = 1 e S ψ = λ ψ e2πi/3 e-2πi/3

1

1

1

Figura 2.i - Valores próprios das lógicas

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

Constata-se que a lógica D, objetivamente considerada, é dentre as lógicas de base, a mais rica, o que tem implicações antropológicas da maior importância. Este inesperado encontro da lógica com a mecânica quântica não é uma curiosidade, uma simples casualidade; é, sim, um encontro nas profundezas do conhecimento, que não se sabe bem porque, demorou tanto a acontecer; com ele dá-se uma mútua iluminação destes dois saberes cuja extensão não poderíamos aqui avaliar; o) As lógicas diferenciais Dn possuem 2(n - 1) valores próprios e as lógicas derivadas identitárias I/D/n, 2n –1 valores. No caso da lógica I/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; -0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; -0,5 - 0,5 = = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constituise numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) realI/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; - 0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; - 0,5 -0,5 = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constitui-se numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) real
VALORES DE VERDADE DA LÓGICA QÜINQÜITÁRIA
TU - 2 i/3 1 -1/2 -1/2 1 - 3 i/2 3 i/2 ELE

VALORES DE VERDADE DA LÓGICA DA DIFERENÇA -1 FALSO

e

e2

i/3

0 INDEFINIDO
EIXO IMAG.

1 EU
EIXO REAL

1 VERDADEIRO
EIXO REAL

Figura 2.j - Valores próprios de I/D/2

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Partindo destas proposições gerais sobre as lógicas, com a simples adjunção de algumas teses específicas, poderemos chegar a uma sólida antropologia filosófica. Vejamos: a) À diferença dos demais animais cordados superiores que operam a síntese do um e do múltiplo, isto é, I/D [11] e que lhes possibilita o acesso ao símbolo convencional, o homem é capaz de proceder à síntese da identidade, da diferença e ainda da dupla diferença, que o faz um ser lógico-qüinqüitário, ou seja, de nível lógico I/D/2. Isto está empiricamente atestado, dentre muitas maneiras, pela capacidade humana da discursividade (o simbólico articulado pela gramática). A moderna antropologia estrutural, tomando o registro da sexualidade, postula que o homem, do ponto de vista formal, está determinado pela dupla diferença: a primeira diferença, de estofo biológico - macho versus fêmea - e ainda uma segunda, de estofo propriamente cultural, dita diferença clânica. (Ver figura 2.l, a seguir.)
ANIMAL
I D1
Diferença Sexual Biológica

2.3 - Uma antropologia esperançosa

HOMEM
I/D I D1 I/D D2 I/D/2

Diferença Diferença Sexual Clânica Biológica

Figura 2.l - O homem como animal qüinqüitário Se a estas articularmos a identidade - pré-condição necessária do reconhecimento e assunção dos quatro pólos definidos pela dupla diferença chegamos finalmente à síntese por nós proposta: I/D/2 [12]. O caráter identitário (consciente) do homem

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

– descurado pelo estruturalismo, ainda que com atenuantes –, pode ser de pronto justificado se o assimilarmos a uma diferença colapsada [13] que, no registro da sexualidade, seria a diferença sexualmente maduro versus imaturo, na qual, de modo geral, o mesmo ser humano, no correr de sua vida, acaba ocupando as duas posições; b) À lógica qüinqüitária devemos associar um horizonte lógico, um além de I/D/D = I/D/2, a fim de que esta não se torne para os homens, ao mesmo tempo, lógica do Absoluto, tal como se deu com Hegel ao nível dialético trinitário, e que o levou a um iniludível panteísmo. Esta possibilidade do ser humano terá que estar suportada pela vivência de uma falta, que identificamos como sendo a impotência de abarcar ou dar conta, globalmente, de sua própria experiência inter-subjetiva. A lógica do saber sobre uma instância ontológica está necessariamente um degrau lógico acima de sua lógica de referência [14], de modo que, para o ser humano, de nível I/D/2, o saber respectivo será de nível D/D/D = D/3, logo, acima da sua capacidade lógica. (Ver figura 2.m). Em resumo, o ser humano é um ser lógico qüinqüitário incorporando um horizonte lógico que o transcende e que lhe é acessível (conquanto que dependente de uma decisão, visto existir a D/3 D/ 2 opção de considerar a falta como pura HORIZONTE imanência) como I/D/ 2 vivência de uma fal- I/D ta no âmbito de sua experiência de serHOMEM 2 D com-outro, diante D/ da qual ele não pode evitar o risco, deixar I I/D de responder com a Figura 2.m O homem e confiança ou negar seu horizonte lógico o amor;

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c) Pode-se constatar de modo empírico que nada existe no mundo que, no eixo lógico aqui considerado, supere o homem; restitui-se-lhe, assim, a posição pinacular na mundanalidade que, na Modernidade, lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios – das lunetas ao Hubble –, pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. Como conseqüência, doravante, todo saber deve ser considerado saber antropo-lógico: saber reduzido ou parcial (ciências “duras”), saber humano propriamente dito e saber especulativo (teologia natural recuperada) tal como começam a se dar conta alguns cientistas menos blindados quando aceitam discutir, pelo menos em sua versão fraca, o princípio antrópico [15]; d) Como já enfaticamente repetido, o ser humano é de nível lógico I/D/2, lógica que subsume, além de si própria, as que lhe antecedem: I, D, I/D, D/2, estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Isto leva a admitir que no ser humano a sexualidade precise ser re-definida, deixando de ser bipolar (representável por um segmento de reta), como nos outros animais, para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). O par diagonal {I, D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D, D} o feminino; e como (I)/(D/2) tanto quanto (I/D)/(D) são iguais a I/D/D = I/D/2, conclui-se imediatamente (ver figura 2.n) que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano. É importante notar que existem três modos possíveis de clivagem, por pares, das quatro lógicas de base: primeiro, a “sexuada” que acabamos de ver; segundo, a filosófica grega ou ontológica, contrapondo o lógico-identitário (I, I/D) ao lógicodiferencial (D, D/2); terceiro, a filosófica moderna ou epistêmica, contrapondo o “subjetivo” (I, D) e o “objetivo” (I/D, D/2).

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I/D/ D
2

LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
I/D/ D
2

D/ 2

D/

2

I
MASCULINO

I/D

I
FEMININO

I/D

Figura 2.n - Masculino x feminino Não é difícil perceber que, de todas, a primeira é a mais relevante, na medida em que ela é a única verdadeiramente simétrica e que, por isto mesmo, aponta inequivocamente para o mais acima, isto é, para a síntese qüinqüitária I/D/2. Aliás, excluída a tradição judaico-cristã, parece-nos que todas as demais culturas sentiram bem isto, embora constrangidas a expressá-lo pela óbvia metáfora (mito) sexual biológica! e) Todos os homens de todas as culturas são logicamente equivalentes (tese homóloga àquela do estruturalismo estabelecendo a equivalência de todas as culturas em razão da presença universal da lei de dupla face da exogamia/proibição do incesto, com a única diferença que esta é de nível lógico quaternário, enquanto que a nossa, de nível qüinqüitário. Fato é, entretanto, que as culturas ainda assim se distinguem de modo flagrante e essencial, mormente quando em confronto umas com as outras. Para compatibilizar estas duas determinações assim tão contraditórias – sem trapacear apelando a fatores extra-culturais –, não nos resta outro caminho senão o de caracterizar cada cultura pelo nível de desvelamento do seu próprio ser qüinqüitário a que estaria necessariamente associada uma representação objetiva ou simbólica;

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em outras palavras, uma cultura é determinada pela lógica mais ou menos implícita do seu núcleo religioso ou sacralizado – cultura do deus “unário (judaica), cultura prometéica ou do que é somente na medida em que se opõe aos deuses (greco-romana), cultura do deus trinitário (cristã patrística) e assim por diante. Existem culturas que não chegam a nenhum grau de desvelamento de seu ser lógicoqüinqüitário – elas serão chamadas culturas ecológicas –; quando nela predominar a identificação à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-I (cultura paleolítica dos povos caçadores/coletores tendentes ao nomadismo ao igualitarismo e ao xamanismo) e quando predominar a contraposição à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-D (cultura neolítica, sedentária, hierarquizada, dispondo de classe sacerdotal, com escrita e naturalmente escribas, com trabalho ordenado, de base agrícola estável). Desenha-se, assim, uma história da cultura em estreita consonância com uma filosofia da História, cuja essência seria o cumprimento de uma destinação. É preciso, entretanto, alertar que tal cumprimento não seja confundido com aquele implícito na concepção “unária” (I) ou judaica da História, que nos exige a fé para sua consumação; nem aquele implícito na concepção trinitária (I/D) ou hegeliano-marxista, que nos exige o completo engajamento; trata-se aqui, de maneira coerente, de uma concepção qüinqüitária (I/D/2) da História síntese hiperdialética das anteriores - para o cumprimento da qual exigir-se-á tanto a fé inabalável, quanto o irrestrito engajamento. f) Às culturas que correspondem de modo estrito a uma lógica e que historicamente foram as primeiras a fazê-lo, damos a denominação de tipo puro ou nodal (ver figura 2.o); às demais, a denominação de culturas não nodais. Recapitulando, e atendo-nos apenas “Ocidente”, as culturas nodais já

a “cultura das Missões”. porém. o “projeto cultural cubano”. D e I/D. um tipo nodal. que partem de um tipo nodal. É preciso advertir que culturas nodais a seu tempo. I (judaica profética). culturas anacrônicas. As culturas não nodais distribuem-se por vários tipos. mistura de pré-I dos índios guaranis com o par I/D. D/2 jesuítico. como os impérios da antigüidade). como seriam os casos dos judeus e dos índios brasileiros enquanto não aculturados (se sobrar algum depois do advento da “República nova”?!). I/D (cristã patrística) e D/2 (moderna. consumado tempos após a realização histórica do mesmo (um bom exemplo é o da cultura islâmica do Deus único radical (I). pré-D (neolítica. mistura de D com I/D. nesta. e aproximadamente 300 depois da consolidação do cristianismo patrístico (I/D) no Concílio de Nicéia. mistura de pré-D com I/D para formar um sujeito não sujeitado de D/2!).58 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO consumadas seriam as do tipo pré-I (paleolítica. caçadores/coletores de tendência nômade). ficando assim sujeita a permanentes e radicais conflitos internos. culturas mistas ou ecléticas. . que tentam a mistura de tipos nodais (os exemplos seriam inúmeros. que sobreviveram mesmo depois de superadas. de base agrícola estável. “socialismo moreno”. mas não chegam a alcançar o tipo nodal subseqüente (talvez o melhor exemplo seja o da cultura egípcia que tenta. mas não chega a alcançar o monoteísmo [16]. na sua versão paradigmática. ao mesmo tempo. tendo I como sujeito intervalar aos sistemas). cerca de 1000 anos após o apogeu da cultura grega (D). tudo se passa como se I aprisionasse dentro de si. por isso ficamos apenas em três: a cultura bizantina. I. sedentária. não se enquadrariam em qualquer destes tipos continuando a ser consideradas nodais. criada mais de 1500 anos após o advento do judaísmo I. D (greco-romana). a saber: culturas de transição.

anglo-saxônico ou o herói fordiano [17]. vive já há algum tempo o predomínio da cultura científica. ou seja.Culturas nodais g) A humanidade. sujeitado. Sendo D/2 a lógica da morte. que no caso paradigmático. é o sujeito liberal.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 59 I/D/ Cultura GrecoRomana 2 Cultura Nova Qüinqüitária D D/ 2 Cultura Moderna I/D Cultura Cristã Patrística Cultura Judaica I Pré-I Cultura Paleolítica Pré-D Cultura Neolítica Pré-Pré-D Pré-Pré-I Proibição do incesto/ Exogamia Figura 2. tendo como motor principal o inconsciente “industrialmente” domesticado pelo marketing. pré-D. I. D. presentemente vivendo sua fase civilizatória.o . de nível lógico transcendental I. de nível lógico D/ 2. depois de passar pelas culturas pré-I. ela só “vigora” com os préstimos de um sujeito intervalar. informacional/globalizante. I/D.) .p. (Ver figura 2.

a substituição do sujeito I pelo sujeito coletivo I/D (representado por um sujeito simbólico absoluto).p . não admite outra dominação que não a sua própria. telúrico. de outro lado. que identificamos com o jesuitismo. I/D. machista. pelo sujeito romântico. – ideologias à direita. ou em seu modo arcaico. Não é preciso enfatizar que o paradigma liberal não fracassa (o que nada tem a ver com a condição de ser historicamente . vale dizer.ideologias à esquerda -. 2. também ilusória ou apenas transitoriamente dominante. sujeito libidinal D. de um lado. inexoravelmente destinadas ao fracasso pelo prosaico fato de que D/ 2 . Ambas as ideo-logias. lógicas que foram recalcadas a ferro e fogo para viabilizar a instauração da Modernidade. D.A cultura moderna e suas variantes As únicas alternativas ideo-lógicas de subversão da Modernidade seriam. aparentetemente. movimentos carismáticos. subsumindo I. que identificamos com o fascismo. é forçoso que se reconheça. ilusória ou apenas transitoriamente dominante. pentecostalismo etc. deixa então de ser paradoxal que coincidam os períodos de caça às bruxas e de afirmação da ciência e do capitalismo paradigmático. o marxismo etc. Elas são únicas justamente na medida em que propõem um sujeito I/D ou D (o par das lógicas femininas). .60 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Sujeito Romântico D Pentecostal Fascista Pa r A ng ad lo igm -s ax a ôn ic o D/ 2 Ciência Jesuítico Socialista I I/D Sujeito Liberal Sujeito Coletivo Fig.

conquanto seu curso seja inexoravelmente. como veremos adiante). visto que geradas por X mesmo (como é o caso do comunismo e do fascismo na Modernidade). a cultura X. processo de cumprimento de uma destinação. transformando em instrumento. ele irá provocar um período mais ou menos extenso de graves tensões. provocar o . no sentido que esta última assume com o estruturalismo (D). Seja uma cultura genérica X. sim. ainda que après coup. no plano cultural. por sua própria natureza. marginalidades e retornos ao proscênio histórico. do formalismo sem conteúdo (tipo fariseu) ou de sua variante terrorista (tipo zelote) (ver figura 2. h) Focalizemos um pouco mais detidamente a problemática da dinâmica cultural. referido à cultua X-1 (tipo essênio) que se distinguirá por sua disposição de subsumir. de um processo puramente ascendente. mas na verdade já exangue. e então. àquela de Marx no irá passar do estágio de cultura propriamente dita ao de civilização . importunada pela cultura X-1 que a antecedeu: sob o modo negocial ou de simples adesismo (tipo saduceu). é necessariamente lógico qüinqüitária ( (I/D)/(D) = (I/D/2) ). Este fundamentalismo X-1 será de fato o único capaz de fazer frente à cultura imperante. por formas pseudo utópicas. que é bem mais complexa do que supunha Hegel. os fins da cultura X. Começaríamos observando que ela não é lógico-dialética. ainda. ela será. ascendente. por muitos modos. Ela.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 61 superável. A História como história (I/D) da cultura.sua universalização ou horizontalização aparentemente irresistível. mas que admite recuos. pois. desconstruções.q ) e. Olhemos um pouco mais de perto dinâmica cultural. é ser já per-vertido. só será sucedida pela cultura X+1 em condições extremas: esgotamento de suas possibilidades (tese homóloga. haverá um. Não se trata. pois. Em meio à pletora dos fundamentalismos reativos mais ou menos desesperados.

Cultura X +1 (Ex. eventualmente.62 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desvelamento da nova cultura e. bigbangismo.: Cultura Cristã) Cultura X (Ex.: Cultura Greco-romana)) FUNDAMENTALISMO X . é o “inimigo” eleito pelo próprio stablishment cultural. .1 (Ex.: Zelotes) Figura 2. como era fácil prever. O movimento denominado Teologia da Libertação deixou de ser uma real ameaça à civilização reinante. metamorfoseouse em baleísmo. não pelo reacionarismo da Cúria Romana. deixar como um testemunho histórico vivo. Com a falência do “materialismo real” a Teologia da Libertação.A passagem de uma cultura diferencial à cultura subseqüente Na Modernidade este fundamentalismo realmente eficaz deverá ser o cristão originário ou patrístico (ou o equivalente em outras tradições culturais.: Cultura Judaica) COLABORACIONISMO (Ex.: Essênios) Cultura X . depois do comunismo e do fascismo.: Saduceus) FORMALISMO (Ex.: Fariseus) TERRORISMO (Ex. mas pelo seu próprio desvirtuamento ao abandonar a dialética do sentido ou do espírito (I/D como lógica suprema da estrutura onto-lógica objetiva) para se assumir dialética da história (I/D como uma entre outras lógicas de base na estrutura onto-lógica I/D/2). uma ortodoxia de nível X-1. mbaísmo verde.1 (Ex. como a chinesa ou a hindu) e jamais o fundamentalismo islâmico que.q . confundindo-se assim com o marxismo.

no que resulta D/n+1). Sabemos que. o indivíduo de qualquer cultura opera. como sa- . I/D/n. isto é. sermúltiplo. o saber de I/D/n é precisamente D/n+1 (para se obter a estrutura epistemológica referente a um nível onto-lógico qualquer I/D/n. bastaria anular o I da auto-identificação e substituí-lo por um D do distanciamento. Esta explicação cabe razoavelmente bem para a passagem do cristianismo patrístico (I/D) à Modernidade (D/2): o processo iniciar-se-ia com o movimento monacal. não vislumbramos a mesma regularidade encontrada no caso anterior. necessariamente. com a escolástica. em uma cultura de nível lógico X? Duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. de outro lado. porque esta é justamente a prerrogativa específica do ser-social nesta cultura. As passagens similares anteriores mereceriam uma pesquisa detalhada. podemos conjeturar que o progressivo saber de si de uma cultura identitária é que possibilitaria e induziria a referida passagem. em geral. mas é impossível fazê-lo com I. como se fora ela um modo de consolidar ou mesmo eternizar a sua dominação. i) Qual a relação essencial entre ser-individual e ser-coletivo ou sociedade. tudo isto no sentido de congelar o poder não só espiritual. No processo de superação de uma cultura da identidade genérica. continuaria com a tradução para o latim do corpus aristotélico e sua ampla divulgação pelo Ocidente. enfim. Pode-se daí depreender o modo específico de articulação de indivíduo e sociedade. de paralisar a História. pois. apenas por si. com a lógica I. com a lógica X. mas é impossível que o faça. porém.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 63 qüinqüiforcismo espiritual e outros ismos marqueteiros. o sersocial opera necessariamente com X. é de sua natureza. Levando-se isto em conta. mas também temporal da Igreja. podemos especular um pouco sobre o assunto.

Figura 2. e a sociedade provê sua capacidade de decisão (I) por um processo social de nível X a partir da capacidade de decisão (I) dos indivíduos.Articulação dos “extremos” Como o processo mediador no extremo I ← X é do tipo I (uma identificação) e no outro extremo I X é do tipo X. (Ver figura 2. através de um processo contábil escrutínio . de nível lógico D/2: os indivíduos contribuem com seu poder decisório (I). para a formação da decisão coletiva (I).r). seria natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêm-se. Tomemos oexemplo da Modernidade. no geral.mercado .(D/2). que as lógicas dos processos de mediação nos extremos estão invertidas em relação às lógicas de procedência. vale dizer.(I/D). através de um processo competitivo . uma velha questão filosófica [18]! Os indivíduos suprem seu caráter X por um processo de identificação (I) com o caráter X coletivo. eles fazem valer os seus desejos (D).r . para a ← . em ordem inversa relativamente às lógicas de procedência também para todos os casos intermediários entre I e X.64 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bemos.

o excedente ou capital .(I/D). eles formam o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) do patrimônio coletivo . ou seja. pelo planejamento central (D/2) e não pelo mercado competitivo (I/D). passou a ser feito de modo competitivo desregrado. por eleição (D/2).demanda global . Para dar apenas um exemplo. ou seja. o processos de decisão coletiva (I). j) Todas as culturas históricas têm sido castradoras dos indivíduos simplesmente porque . 2. muitas espécies de distorções. entretanto. isto é. como compensação. por fim eles se aculturam (D/2) identificando-se (I) com os papéis disponíveis na organização social (D/2). pelo violento mercado político (I/D) ao invés de sê-lo de modo paradigmático pelo cálculo.Formação paradigmática moderna Este seria apenas o paradigma. INDIVÍDUO SER-SOCIAL Fig.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 65 formação do desejo coletivo . a URSS apresentou a anomalia de inversão de dois de seus processos: de um lado. nos tempos modernos.(D). o processo de determinação do desejo coletivo (D) passou a ser feito através do cálculo. de outro lado.s. podendo ocorrer. Ver figura 2.s .

devemos lembrar. vale dizer. A passagem de D/2 a I/D/2 será. ainda bem mais. verá inverter-se tal relação). Estas subsunções implicam necessariamente reações. de I/D/2. as mais encarniçadas serão as dos saberes da diferença (porque a lógica do inconsciente irá perder o governo da história da cultura. que ora pensa hegemonicamente o homem. l) A grande interrogação que nos fica é aquela de . vale dizer. como hoje sintomaticamente se vê por toda parte. o que. constituiu-se no momento ímpar do auto-desvelamento da cultura em sua essencialidade lógica (bastaria lembrar o episódio vétero-testamentário da adoração do bezerro de ouro!). não passará ainda de um derivativo ou um soporífero para as tribulações de um dia inteiro de submissão à lógica da dupla diferença. No plano “especulativo” a nova cultura engendrará um novo saber (I/D/2) na seqüência das filosofias transcendentais (I) e dialéticas (I/D). coincide com um bem conhecido juízo freudiano. como história (I/D) da cultura (D). Um indicador do efetivo engendramento do saber hiperdialético qüinqüitário está precisamente na sua capacidade de enfrentamento crítico direto da ciência. A superação da Modernidade assinala o fim do sub-reptício predomínio histórico do inconsciente. que as estará subsumindo juntamente com o saber psicanalítico e as “anti-filosofias” da diferença que lhe são correlatas (D) e com o saber científico e as “anti-filosofias” empiristas. da história ainda restrita. Esta última. sem que o faça.66 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sempre abaixo da potencialidade lógica dos homens. mas não com a sua desesperança [19]. deveras. aliás. tendo-se em conta o seu caráter de matriz objetiva de todas as lógicas de base (ver itens n e o. do saber científico (porque este.j do item anterior A lógica ressuscitada) e. positivistas e fisicalistas que lhe são afins (D/2). inclusive figura 2. tão dramática e cruenta quanto a passagem de pré-D a I.

4 . regenerado. evitando esse grave pecado de soberba. no âmago. fundamentais: a) Como se falar de incompatibilidade com a Modernidade no caso de uma nação que se inaugura com a própria Modernidade. Eis aí. num exasperado esforço de síntese. nosso quadro referencial lógico ressuscitado e antropológico esperançoso. se começamos justamente pelo que se tem ainda hoje como o mais supimpa?! Toda discussão acerca da Modernidade é. Diante disto tudo. de uma outra grave questão: aquela do sujeito da Modernidade ou. que deixa acima de si mesma. tanto em relação à Modernidade quanto à nova cultura qüinqüitária? O cerne da problemática social do Brasil já foi por muitos bem diagnosticada [20]: a existência de uma certa incompatibilidade do seu processo de formação cultural com a Modernidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 67 se o homem passará da cultura D/2 à cultura I/D/2 “pura”. O diagnóstico é em essência correto. o “espaço lógico” de onde há-de-vir(á) o Deus que nos poderá salvar. sim. do sujeito da ciência. de modo essencial. mais precisamente.A situação e perspectivas brasileiras . mas requer alguns esclarecimentos. vale dizer. Com a ciência estão todos 2. a nosso juízo. ou seja. o encobrimento ou disfarce. a um novo humanismo que o fará ídolo de si mesmo – tal como ocorreria com o hegelianismo e de fato ocorreu com o marxismo real dele derivado pela esquerda – ou se. além. seu horizonte transcendente. que poderíamos dizer acerca da situação brasileira atual e de suas perspectivas. passará direto à cultura I/D/2 que incorpora. que desde seus alvores possuiu uma agro-indústria exportadora significativa – tanto em termos de quantidade quanto de qualidade – antes mesmo de que se tivesse formado um verdadeiro mercado interno? Como.

seja ele de fato. técnicos e burocráticos. não está onde parece.68 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de acordo: a direita. desde que para pulverizá-las. em função do peso histórico dos jesuítas (I/D) sobre nosso sistema educacional [23]. naturalmente. vale dizer. a grande “diferença” de Macunaíma. a aludida incompatibilidade não é nem poderia ser de modo algum com a Modernidade em seus aspectos objetivos. da mesma família que D). ao contrário. científicos. desde que ela venha para preservar fronteiras. Tudo porque não se trata de um problema de lugar – encontrar um lugar na Modernidade ou um modo de inserção num mundo “globalizado” –. desde que ela venha para fortalecer o sujeito coletivo. desde que ela venha ao serviço do sujeito romântico (se isso fosse garantido. Assim. idem. todos. mas sim em não estar em parte alguma. e os internacionalistas também. os nacionalistas. Isto acontece. em função do peso de sua herança cultural africana (pré-D. os positivistas e os neopositivistas. o fazedor de futuros. embora achemos que não sabem até hoje bem o porquê. pela opção preferencial das elites [22]pelo sujeito absoluto enquanto representação do sujeito coletivo. por uma Modernidade (D/2) já em processo de esgotamento e para a qual carecemos da necessária vocação his- . Nossa grande implicância está dirigida contra o sujeito de projeto (este último. contra o sujeito lógico I. como bem assinala Wisnik já citada na nota 20). o futuro a Deus pertence. e sim de tempo: decidir pelo curto prazo. esteja ele ainda enrustido na linguagem. em especial. o seu representante absoluto. de um lado. Para nós brasileiros. enfim. como shall ou como will [21]. em suma. até Nietzsche e Heidegger amariam a ciência e não vituperariam as vicissitudes da técnica) e a esquerda. contra o empresário schumpeteriano. de outro lado. pela opção preferencial (não exclusiva) do povão pelo sujeito libidinal. b) O paradoxal que muitos aí enxergam.

t) Para concluir. cafuzos e caboclos perdendo suas almas para legá-las à formação da alma brasileira. ora pela inveja ou simples cobiça. trememos e traímo-nos constantemente. não frente a um perigo objetivo. ainda hoje. sim. observaria o lúcido Caetano Veloso. ora pela fé oficial. já foram mais do que pagos – que o digam os índios. os mamelucos enfurnados pelo sertão sofrendo e cometendo atrocidades. mas. aliás bem cariocas: nossa escolha essencial é entre o luxo e a originalidade? Este é o nosso verdadeiro nó cego. depois dizimados ou “reduzidos”. diante da responsabilidade em assumir nossa indelével destinação. anos e anos a fio. mas que acabaram encompridando e alargando em muito a base territorial da nação. para a qual estaríamos já irrevogavelmente vocacionados? Em outras palavras. mas que a rigor já não mais existe. poupança forçada que se esvai em pagamentos de juros sobre juros indecentes. tantos desterrados. mortes e mil outras tragédias que. no âmago. por todas as grandes cidades do país este. violências. é o verdadeiro Custo Brasil! Diante de tudo isto. os cristãos-novos e judaizantes perseguidos. os incontáveis mulatos. sim. pela cultura nova qüinqüitária (I/D/2). entre nós brasileiros. sem falar nas legiões de crianças abandonadas e de idosos desvalidos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 69 tórico-cultural ou. no caso do Brasil. fazê-lo pelo longo prazo. não seria demais lembrar que os custos inevitáveis historicamente constatáveis para se erigir uma cultura são cerca de 500 a 600 anos de opressões. ainda permanecer na dúvida acerca da causa em que devemos a vera nos engajar por todos os meios e modos a nosso alcance?! Guardadas as de- . em que estamos a toda hora enredados. multidões percebendo os mais vis salários do mundo. injustiças. de natureza eminentemente temporal. caçados. os negros vindos escravos da África para penar nos engenhos e nas lavras. (Ver figura 2. parece-nos. quem poderia. sofrimentos.

é o modo próprio. mas deixou rolar – e que. com imaginação e coragem criar novos e levá-los realmente a sério. agindo com um pouco de molecagem que. a seguir. a propósito. São estes processos de luta que precisamos sem pena abandonar ou rever. 2. . não passaram de um ensaio bem canhestro. pela grande mídia. viciado e sobretudo manipulado.t . ou.70 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Fig. quando conveniente. o que para nós seria o mesmo.Opções brasileiras: luxo ou originalidade vidas proporções. mais propício e não menos propiciatório de já irmos cozinhando e provando a nova cultura qüinqüitenária. por si se agigantaram e acabaram hoje perdendo toda qualificação através do processo de globalização da insensibilidade e do cinismo. as lutas recentes contra o autoritarismo e a corrupção – que o primeiro não inventou.

Segundo esta última. A diferença aparente dos desempenhos discursivos de uns e outros estaria na constância com que os primitivos se valem do processo de bricolage [5] simbólica. y com pricipios universales en los que se hallen implícitos y contenidos como lo particular en lo universal. Opinamos que isto deva ser repensado em profundidade. nenhuma diferença haveria entre a lógica dos povos primitivos e aquela dos povos modernos. dos povos modernos. trespassado pela emoção. Doctor Illuminatus in Ars magna et ultima.. porque não . e não propriamente na lógica. mas de qualquer modo contestada pela antropologia estrutural de Lévi-Strauss [4]. entre os antropólogos da atualidade. primeiro. A tese teria sido mesmo abandonada pelo próprio autor [3]. o tema lógica versus cultura vem imediatamente referenciado a Lévy-Bruhl [2] e à sua tese da prevalência. contrastando com o pensamento propriamente lógico acabado. eivado de sentimentos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 71 3 Acerca da lógica e da cultura La razón exige y reclama que exista una ciencia universal de todas as ciencias. De modo geral.[1] Raimundo Lulio. de um pensamento ainda pré-lógico. entre os povos primitivos. los de las otras ciencias más particulares.. adstrito à pura forma.

no cerne da filosofia da cultura (ou o que para nós é o mesmo. não nos deve causar espanto. como também sua marginália histórica. vige esta mesma referenciação.representada pelo animalidade em seu estado de máximo desenvolvimento -. em acordo com a moda atual. depois a acompanha e lhe marca passo. cujas origens certamente se perdem nos tempos.72 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO aceitarmos esta separação drástica ali implícita entre o lógico e o simbólico (simplesmente porque existe a questão do estatuto lógico do próprio simbólico). um mero oportuno acadêmico. A reabertura da questão lógica versus cultura ou. lógica ressuscitada versus cultura não é aqui. pois. apenas com a agravante da rigidez própria dos copistas e dos pobres de espírito [6]. porque parece-nos estar ali também implícita uma concepção restrita. a qual se vem juntar uma diferença específica. Nosso objetivo aqui é voltar à questão para discutila num âmbito maior e certamente mais apropriado. tudo isto convergindo para a demarcação precisa e o completo re-mapeamento do território lógico. mas em flagrante desacordo com o melhor da tradição filosófica. levando então à emergência do homem e consequentemente da cul- . Parte-se da natureza . já o demonstramos alhures [9]. diga-se de passagem. aquele do pensamento filosófico estrito senso. No Brasil. o que. ela se faz necessária em razão de que. e no entanto paradoxalmente imprecisa. segundo. a mesma lógica que. agora dito com bem maior cuidado. da antropologia filosófica) estaria precisamente a questão da mutação lógica que levou ao advento da cultura. Comecemos tomando como referência um esquema de compreensão evolutivo do ser humano. destarte. do que seria a lógica. nos irá remeter à velha Grécia [7]. naturalmente. Paralelamente estaremos superiormente armados com uma renovada concepção da lógica [8] que resgata não apenas a riqueza da tradição.

1 – O homem grego Segundo Aristóteles. dialético ou formal. ainda não degenerado em logos metafísico. um poder de auto-determinação. o logos originário. como provavelmente o faria Heidegger [11]. do ponto de vista formal. entretanto. além destas.1). a animalidade superior incorporava não apenas as funções vegetativas – de nutrição e de reprodução – como também as funções sensitivas – compreendendo os diversos modos sensoriais. a posse da razão discursiva (logos) [10]. detinha a mais e com exclusividade a função intelectiva. de evidente caráter lógico-transcendental ou identitário (I). CAPACIDADE DE MOVIMENTO AUTÔNOMO CULTURA HOMEM CAPACIDADE DE PENSAR ANALÍTICA Figura 3. Na circunstância. que o logos aristotélico não era mais o logos heraclítico. sendo este último. O ser humano. pois .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 73 tura. (ver figura 3. a que se acrescia a autonomia locomotora. no próprio Aristóteles. Pode-se argumentar. já sem seu maior vigor. animal racional. Entre os gregos este esquema bastante simples já vigorava de um modo preciso: o ponto de partida era então a animalidade superior à qual se agregava como diferença específica o logos ou a razão discursiva e chegava-se assim ao homem. isto pouco pesa. o modo como ele acabaria se mostrando. O homem era pois o animal superior onde ademais habitava o logos. não importa se transcendental. logo. Observe-se que o poder de por si e propositadamente movimentar-se é. precisamente.

tal como anteriormente assinalado [13]. sejamos obrigados – depois de Heidegger – a deixar em aberto a questão do logos cosiderado: se o simples lógico-diferencial (Heráclito) [12] ou se o duplamente diferencial ou formal (Aristóteles). por si só. Em termos estritamente lógicos. como capacidade analítica que realmente é. é e diz tudo. mais precisamente. mas sim pelo que. de fato. o que fazia ser a humanidade era algo de natureza essencialmente lógica. Isto interpõe um degrau exagerado de descontinuidade entre o animal e o homem. para desta sorte ampliálas ou multiplicá-las. Segundo. pelo moderno estruturalismo antropológico. para os gregos. mormente quando já se tem por estabelecido que os animais superiores dispõem de uma capacidade sintética ou identitária inquestionavelmente manifesta em sua auto-determinação locomotriz. no sentido de que ela ali funciona como uma “essência” constitutiva e não como um atributo superveniente. articulando-se. veremos adiante. duas sérias objeções. Dito em outras palavras: a razão grega valia por si e não como produto resultante de um poder diferencial que se vinha articular à outros poderes ou potencialidades operatórias similares pré-existentes. porque a “razão”. Do nosso ponto de vista. O essencialismo grego suscita. porque ao admiti-lo estamos implicitamente diluindo o caráter evolutivo da passagem considerada – o novo.74 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO opte-se por uma ou por outra interpretação. não pode caracterizar o ser humano em sua totalidade ou “maximalidade”. Primeiro. potencializa e/ou amplia. dir-se-ia que para . inconveniente que viria ser justamente contornado. a principal crítica à concepção grega do homem deve incidir sobre o caráter tipicamente agregativo/substantivo dado à razão (ou logos). lógico-diferencial ou analítica. conquanto. A nosso ver a diferença especificamente humana não pode valer pelo que traz em si. fica o fato que.

de outro lado. mas pela inexorável exigência (lógica) da história (hiperdialética) em seu processo de auto-realização [15]. de fato. ou seja. recusou a essência evolutiva do esquema grego e assumiu. atribui-se um caráter puramente identitário (I) à diferença que fez ser o homem. algo que a ele em algum momento se desvelaria decretando – tem-se até o direito de lamentá-lo! – a sua própria superação. o ser humano teria que ser pelo menos lógico-dialético (I/D). no caso. no entanto. Com Platão chegava-se. que se confunde com o pensar da identidade recuperada para além da diferença. sendo o animal superior pelo menos lógico-identitário (I) e a razão pelo menos lógico-diferencial (D). seja pela posição última na ordem da Criação. também da história da cultura). parte-se da matéria inerte ou da animalidade bruta ou carnal. ao termo de uma etapa da história do pensamento (e. pervertendo-o do ponto de vista lógico. De um lado. seja pelo atributo da semelhança ao Criador. Entrementes. como se lê em seu diálogo Parmênides [14].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 75 os gregos. Foi precisamente a esta conclusão que chegou Platão – é verdade que por motivações e caminhos outros –. o que acontecia não por força de uma infidelidade ou de uma traição. como reza o Gênesis. ainda que entendida metaforicamente. pois a dialética (própria e apta a pensar a idéia ou o conceito) era algo inerente ao próprio destino do pensamento grego. a criação do homem a partir do barro (natureza ou apenas res extensa) preserva. embora conferindo uma especial dignidade ao homem. sob o aspecto formal. o parecer nietzscheano e reiterado por Heidegger que Platão teria traído o espírito filosófico grego é uma reprimenda completamente descabida. portanto lógico-dialético (I/D). A propósito. o esquema compreensivo que vimos tomando por referência. àquilo que concretiza a passagem da . um criacionismo paralelo de todos os entes. O cristianismo trinitário. res extensa (D).

Ao cabo. com a completa inversão das lógicas em jogo: aquela de partida era agora diferencial (D) e a nova.2 – O homem cristão O mais espantoso nisto tudo é que o pensamento antropológico cristão não se apercebia da absurdidade da inversão. alma. lógico-diferencial. conservavam o mesmo esquema conceitual dos gregos.76 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO natureza à cultura. como para os gregos. Só assim se justificava a semelhança do homem ao seu Criador. o cristianismo realiza a proeza de transformar a diferença que fazia a diferença numa identidade. a algo de ordem lógico-diferencial. pura consciência. Como se vê. interveniente. I) (ver figura 3. transcendental ou identitária (I). a passagem do animal ao homem não se devia mais. Aliás. que negando consciên- . livre arbítrio. No entretanto. D) e alma (imaterial e eterna. tudo isto era sem dúvida o que poderia haver de mais coerente com o estatuto lógico-trinitário (I/D) da cultura cristã – a dignidade do homem se devia à interveniência da alma (I) pertencente à mesma família lógica (lógico-identitária) a que pertencia o próprio ser divino (I/D). Assim.. isto significava um evidente retrocesso relativamente ao que haviam pensado os gregos. consciência moral. mas sim de ordem lógico-identitária sopro. o homem passava a ser concebido como um misto heteróclito de corpo (natureza. liberdade.2). NATUREZA BARRO/CORPO CULTURA HOMEM: CORPO E ALMA SOPRO ALMA Figura 3. matéria perecível. porém. espírito (mesmo que decaído) etc. lógico-identitária. Seguindo seu antecedente judaico.

apesar de ainda carregar tantos vezos medievais. Instalada irreversivelmente a Modernidade. em particular. mas na liberdade-operativa. ambas se mantinham idênticas em seu estatuto lógico. parecia preservar a concepção cristã: em Descartes. demolindo as tradicionais diferenças entre o nada e a matéria. no caso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 77 cia ou capacidade lógico-sintética aos animais superiores abria uma brecha para que daí a pouco os interesses coloniais levantassem também duvidas quanto à humanidade dos não-europeus cristãos. a circunstância de se tratar agora de uma res extensa submetida aos poderes de uma geometria métrica. E isto. o inorgânico e o orgânico. o macro-molecular e o vivo. a princípio. mas não altera o estatuto lógico-transcendental do ser próprio de todos os homens (a especificidade humana não estava mais na alma-substantiva. com plena justiça e de modo quase unânime. lógico- . A Modernidade. depois. acabou mesmo acontecendo. Em suma. porém. infelizmente. enfim. de índios e negros africanos. o primeiro filósofo da Modernidade. entre o animal e o homem [16]. concomitantemente res extensa e res cogitans. portanto sob o império da lógica da dupla diferença (D/D). a ciência lançava-se à tarefa de homogeneização de todas as coisas. auto-transparência. entretanto. Havia. acabou considerado. enquanto que a res cogitans se constituía como lógico-identitária. O Iluminismo continental [17] dos séculos XVII e XVIII. o homem se estruturava ainda como misto de corpo e alma. é levado ao reconhecimento do outro (cultural) como um igual. É exatamente por isso que Descartes. sua “espessura” lógica se ampliara fazendo explodir a estreiteza referencial da dialética cristã (I/D). pura reflexividade (I). provocado pelo ciclo dos grandes “descobrimentos” e colonizações. o homem cartesiano não podia ser mais concebido como um ser lógico-trinitário. de muçulmanos e judeus. sabemos todos.

interpondo entre o animal superior e o homem. posto que assim rompia-se com a concepção cristã que via na passagem do animal ao homem a intervenção de algo da ordem da identidade.78 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transcendental). uma nova maneira de fazer prosperar o cientificismo antropológico sem os inconvenientes do etnocentrismo desabusado e ostensivo do evolucionismo cultural darwinista. brasileiros miscigenados (aliás. e o latino. não possuía a “espessura lógica” suficiente para acomodar (ou poder compreender) a dupla diferença (D/D). Nas proximidades ainda do macaco. Paralelamente. como a liberdade. por retroação. europeus. estávamos nós. não pode ir muito mais longe em razão de que. a . O marxismo. se pode conceber como uma espécie de neoliberalismo antropológico). Em nada surpreende que deixassem de lado exatamente a problemática existencial e histórica da cultura. como no fundo da alma. entretanto. uma espécie de anglosaxão retardado e muitos degraus abaixo. Surge então a antropologia funcionalista. naturalmente. Com isso começava de fato uma nova era na antropologia. Chegamos então à teoria da evolução de Darwin (que hoje. (I). busca estabelecer a continuidade (ou a indiferença) entre natureza e cultura: o primitivo era um macaco evoluído. desenvolvia-se o marxismo. argentinos e a “elite” brasileira no poder continuam firmemente a crer até hoje). mas o trabalho (D). que. como é próprio de todo cientificismo. herdeiro da dialética hegeliana (I/D). não mais a alma ou algo equivalente. na medida em que ele rompe abertamente com o inconsistente transcendentalismo cristão. A essência lógica do trabalho é a diferença. a que devemos o primeiro passo efetivo para a refundação da antropologia moderna. pois trabalho é precisamente o esforço que visa a outra coisa que ele próprio [18].

Logique des sentiments é mesmo o título de sua principal obra) [22]. pois destituído de lógica é sinônimo de destituído de pensamento). já no início do século XX deparamonos. Esta noção de pensamento pré-lógico em Lévy- . ele renova radicalmente a indagação antropológica: ao invés de perguntar como se fizeram os jesuítas. É evidente. pergunta se eles tinham lógica (clássica). de um pensar por analogias e proximidades significativamente carregado de sentimentos e emoções. Com ele um grande passo é dado em direção de uma nova antropologia. com a figura de Lévy-Bruhl [20]. que a pergunta por si valia imensamente mais do que a resposta que se lhe viesse dar. razão pela qual ele pode ser com justiça considerado um dos fundadores da antropologia moderna. não o faz no sentido de que fossem destituídos de lógica (o que seria mesmo um absurdo. no caso. a Théodule Ribot (psicólogo francês conhecedor e apreciador sob muitos aspectos da psicanálise freudiana [21]. agora sim.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 79 lógica da ciência que à época já se apresentava como o traço fundamental da Modernidade [19]. que afirmava a prevalência. se os primitivos tinham alma. lógica que diferiria (o que não quer dizer que se opusesse ou negasse) da lógica formal hegemônica do Ocidente. Quando este faz uso desta expressão para caracterizar o pensamento dos povos primitivos. Voltando à tradição propriamente antropológica acadêmica. entre os povos primitivos. mas como usuários de uma outra lógica. Além de pugnar por um posicionamento mais “empático” do antropólogo em relação às cultura primitivas transformada em objeto” de estudo. tratava-se de uma lógica onde sentimentos e emoções ainda tinham um grande peso no processo de produção da “verdade inferida”. pelo menos. Esta concepção remontava. Perdoe-nos o leitor uma digressão relativamente longa acerca das origens da noção de pré-lógico em Lévy-Bruhl.

bastante próxima pois da ulterior lógica lacaniana do significante [24]. inspirada. não quer dizer destituído de lógica. Eis que na segunda metade do século XX emerge a antropologia estrutural. pois é justamente ela que tem servido de pretexto para desmerecer a obra de um dos mais importantes estudiosos da formação da cultura brasileira – Arthur Ramos –. na lingüística sincrônica de Saussure. Em suma. é um declarado admirador da obra de LévyBruhl e bem informado sobre suas fontes. particularmente. de Freud. Pasmem: lendo o livro de Ribot. ao “totalitarismo” hegeliano! No âmbito da cultura. na fonologia diferencial de Jackobson e sobretudo na teoria do inconsciente. O principal mérito de Lévy-Bruhl. pré-condição da instituição do que seria a lei convencional por excelência: a lei de proibição do incesto. em Rousseau e no materialismo dialético marxista (anti-transcendental). e de outro. assume-se que em qualquer circunstância o verdadeiro objeto científico é o ser-sincrônico e não o especulativo vir-a-ser-diacrônico – uma reação. é inquestionavelmente óbvio que o termo pré-lógico em Arthur Ramos. ainda que bem tardia. afirmávamos. sabemos. Nestes três últimos casos há de comum o abandono da indagação pela origem ou pelo ser (como vir-a-ser) para se tomar como “objeto” próprio do saber a diferença já instaurada. foi trazer novamente a questão da cultura para o âmbito da lógica tal como ela fora posta originalmente pelos gregos. contraface . mas sujeito à lógica do sentimento. busca-se então a diferença humana já universalmente operante que vai ser identificada como a diferença clânica. sobre a logique du sentiment de Ribot [23]. tanto quanto em LévyBruhl e Ribot. que. de um lado. facilmente identificamos sua lógica como aquela dos processos primários freudianos.80 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Bruhl aqui no Brasil originou uma predisposição cheia de veneno e má fé. Em suma.

3. retornava-se em definitivo a um dos aspectos fundamentais da concepção grega: a passagem do animal ao homem devia-se a um poder diferencial e não identitário. levarmos em conta que tal aproximação tem como pano de fundo a lógica. DIFERENÇA SEXUAL MACHO/FÊMEA DUPLA DIFERENÇA MATEMAS DA "SEXUAÇÃO" MASCULINO/FEMININO PRIMEIRA DIFERENÇA DUPLA DIFERENÇA DIFERENÇA CLÂNICA SEGUNDA DIFERENÇA Fig. a importante contribuição lacaniana à compreensão da sexualidade humana tem como antecedente o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss e isto só pode ser devidamente compreendido e apreciado se.3. agora. Ver figura 3. Entrementes. no quadro mais amplo de uma estrutura lógica tetrapolar. Como conseqüência imediata. bem ao contrário do que nos queria fazer acreditar o cristianismo doutrinário.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 81 da obrigatoriedade da exogamia. ou seja. na verdade.A diferença clânica no estruturalismo Como é bem sabido.3 . Não é pois mero acaso que a “sexuação” humana em Lacan viesse encontrar sua melhor expressão nos famigerados matemas. mas vinha para se articular à diferença sexual animal bi-polar macho/fêmea. Desta forma. . emerge aqui uma importante novidade: é que tal diferença não mais valia por si. A troca das mulheres entre homens assim sub-agrupados se constituía no paradigma de todas as demais trocas e por conseqüência da solidariedade social. expressões não apenas de fisionomia. justamente. a sexualidade humana se via compelida à redefinição. Com isto instituíase a circulação das mulheres entre os homens reunidos em clãs. deixava a simples pela dupla diferença.

uma diferença ilustrando o par em cima (a)/em baixo (b) e a outra. três relações fundamentais – aliança. por exemplo. Devemos aqui abrir um parêntese. Porém. ficando a terceira automaticamente definida pelas duas diagonais.82 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas. pena. O primeiro deles refere-se ao “logicismo” grego: no . o par esquerda (c)/direita (d). Como as três relações são equivalentes (ou quase). Alguém.4 . poderia estranhar nossa insistência na necessidade e mais ainda na suficiência da dupla diferença para a caracterização daquilo que é essencial e propriamente humano. que estas não são relações isoladas. pode ser representada por um quadrado. sem dúvida. podemos redesenhar o quadrado tomando quaisquer duas relações para formar os lados do quadrado. mas muito bem articuladas entre si [26]. Agora fica evidente que podemos formar um terceiro par com os termos diagonais do quadrado (e/f). familiarizado com a doutrina estruturalista. a c e b f d a c f e d b e a d c b f Figura 3. o estruturalismo representa um grande avanço em relação ao pensamento antropológico grego. de fato. diríamos que.Duas diferenças e três relações Voltando à nossa linha de raciocínio.4. A dupla diferença. que viesse acompanhado de dois outros grandes retrocessos. de essência realmente lógicas [25]. entretanto. Ver figura 3. consangüinidade e filiação? Não é muito difícil demonstrar que a dupla diferença é o bastante para a definição das referidas relações. mas. sobretudo. no simples átomo do parentesco não estariam implicadas tão apenas duas.

especificamente dos cordados. em que pese a denominação geral de estruturalismo antropológico dado a esta corrente de pensamento. Negar isto é não con- . mesmo já biologicamente marcado. O segundo retrocesso em relação aos gregos refere-se ao “esquecimento” do caráter lógico-identitário dos animais superiores. que pode também realizar-se sob outros aspectos. ele é macho que se assume macho. isto não passa de uma simplificação. tanto a diferença sexual de partida quanto a segunda diferença clânica valem por si. percebe-se isso ainda com maior clareza. pois é inegável o poder de simbolização arbitrária dos animais superiores. Para ficarmos apenas num exemplo: a passagem da capacidade de operação simbólica (I/D) dos animais superiores à capacidade simbólico-discursiva (I/D/D) – proposicional no dizer de Cassirer [28] – do homem exige igualmente a introdução de uma segunda diferença. Podemos considerar macho/fêmea como realizações de uma diferença D. por mais significativo que seja o “modelo sexual”. são ambas leis societárias convencionais. pois o animal. De fato. que está presente mesmo no registro sexual. são “substanciais e não apenas realizações de uma matriz essencialmente formal. Passando-se do registro sexual ao simbólico. uma gramática. formalmente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 83 estruturalismo. ou seja. facilmente constatamos sua radical incapacidade em relação à articulação gramatical (D/D). identifica-se ou assume sua determinação sexual: ele não é apenas macho. Queremos dizer que. o mesmo se dando com a fêmea. ele é tão apenas uma realização possível de um esquema lógico. Entretanto. Ao mesmo tempo. sua capacidade de operar dialeticamente (I/D) [30]. a gramática é uma estrutura legal convencional necessariamente sujeita à lógica da dupla diferença D/D [29]. A lei da proibição do incesto é. pensá-la apenas no âmbito da res extensa. como deveras o faz [27].

ser racional. porém. Em compensação. teríamos que recuperar o que o estruturalismo desaprendeu dos gregos. na condição de ele vir para se compor com poderes e potencialidades operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo reproduzi-las em nível operatório superior.5). portanto. sem dúvida. “duplicandoa” ou reiterando-a. Com efeito. já a posteriori articulada. existencial ou subjetivamente. porém. que permite a definição de regras de proibição de incesto paralelamente à imposição da exogamia. o fato é que. seu estatuto lógico global tem que ser. Voltando aos gregos. e fazendo-o sem prejuízo do seu ser sintético. A diferença clânica.daquela produção “genea-lógica”. é verdade . na verdade. lógico-qüinqüitário ou hiperdialético (I/D/D).84 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO seguir distinguir a enorme diferença entre os pares porca/porco e porca/parafuso. o logos estaria assim ampliando a capacidade lógico-analítica dos seres vivos. poderíamos agora aceitar que o logos constituísse a diferença especificamente humana. Do ponto de vista instrumental. o homem se capacita a operar a nível duplamente lógico diferencial (racionalmente). a rigor. ou objetivamente operatório.privilegiado. seria um dentre muitos modos possíveis de manifestação . . no concomitante exercício de sua capacidade lógicoidentitária herdada da animalidade superior. Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. habitado pelo logos. como razão formal aristotélica (D/D). Para nós. bastaria dizer que o animal superior (cordados) opera a nível lógico dialético trinitário (I/D) e o homem a nível lógico hiperdialético qüinqüitário (I/D/D) (ver figura 3. o homem é.

pareceria que a segunda é um simples complemento da primeira: conceber. o homem como síntese de I e D/D é de certo modo assumir um parti-pris machista [31]. concebê-lo como síntese de I/D e D não seria assumir um parti-pris complementar feminista?! I D/D I/D/D I/D D I/D/D Figura 3. Ver figura 3.5 – O homem lógico-qúinqüitário Não é de admirar que culturas identitárias (judaico-critãs) atribuam à intervenção de uma identidade como sendo a razão de passagem da animalidade ao homem. da natureza à cultura. Em princípio. Incoerente seria que o fizessem ao contrário ou mesmo indiferentemente! Seria interessante compararmos agora a antropologia aristotélica. que poderíamos denominar pósestruturarista (concepção estruturalista à qual restituímos a identidade perdida). nossa referência de partida.6.6 – Concepções masculina e feminina . com aquela de chegada. Do mesmo modo as culturas lógico diferenciais (pagãs. grega e moderna) atribuirão aquela passagem a uma diferença. como Aristóteles.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 85 I/D D I/D/D Figura 3.

sim. ganha então uma resposta bem precisa: a passagem da natureza .86 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Parece-nos que não. Existiria. A nossa concepção é definitivamente não-machista. capazes portanto de operar com símbolos convencionais (I/D) . inclusive com ajuda da figura 3. não perdemos a precisão lógica da diferença que faz a diferença animal/homem e tornamos bem mais compreensível a incomensurável força do logos no homem. mas a ela não se reduz. fica por aí evidente quão equivocado é o costume corrente de contrapor natureza e cultura de maneira meramente especular. Voltaremos ao assunto um pouco mais adiante. E. pressupõe deveras uma certa sensibilidade para o ser-feminino. A prestigiosa razão suficiente leibniziana que busca responder à questão ontológica (no caso: porque existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. Esta abertura é essencial para que o homem possa se . concomitantemente. Ora. a diferença clânica. que é. Não rebaixamos a lógica do animal de I/D para I. natureza?) [32]. segue com a natureza. ela permanece. como mostra a figura 3. aqui uma simetria. ou seja. sim. pelo menos do ponto de vista especulativo. logo. de estofo lógico transcendental (I). mas como termos de uma seqüência. de estofo lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). Natureza e cultura se opõem.7. logos de certo modo herdado e logos ao quadrado. guardando um iniludível relacionamento hierárquico. de estofo lógico dialética (I/D) e chega à cultura. Gostaríamos ainda de chamar a atenção para o fato de que o esclarecimento da relação lógica versus cultura provoca uma reviravolta da velha querela acerca das relações entre natureza e cultura.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). em termos antropológicos. A seqüência começa com o ser. uma seqüência aberta.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) -. apenas superficial. no entanto.7.

Concluiríamos afirmando que não há como pensar a filosofia da cultura. sem. . Ela só nos parece de nível superior por efeito da atividade humana de mensuração. E escapamos também assim dos humanismos de qualquer espécie. como pergunta pelo Absoluto. por isto se tomar por Absoluto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 87 posicionar de fato no ápice da escala dos entes mundanos. ou seja.7 – Natureza versus cultura É importante notar que o estatuto dialético da natureza só é alcançado ao nível dos animais cordados capazes de operar com símbolos convencionais. ou seja. a “diferença” ontológica homem/natureza ou cultura/natureza sem o concurso da lógica. A natureza enquanto mundo físico. I/D/ 2 I/D I Cultura Natureza Ser Figura 3. na verdade não passaria do estatuto lógico diferencial (res extensa). de fazê-la geométrica. entretanto. sem que se pense porque se pôde deveras chegar a pensar nisso. A religiosidade. ou seja. pode então permanecer como ainda legítima.

os vencedores. O povo judeu. inventando as vogais. donde a paidéia e a pergunta pelo ser (sem a responder). . e ainda honrar profetas bem mais do que quadros sacerdotais. Altamira. tiveram que inventar os mitos que os inventassem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 89 4 Desejo. sua escrita mais suas criptas funerárias. afora sua triste lembrança. Dordonha e Chauvet. assentados. A Modernidade pariu as “tecnologias” financeiras que transformam tempo em dinheiro tão eficientemente que não sobrou nenhum para criar e poder legar nada que prestasse. o gosto da guerra e legaram. soube se libertar do bezerro de ouro e pode legar a lógica em pessoa (Eu sou o que sou). ao tentarem viver mais além. e ainda nos deram de quebra o logos e a poesia trágica exorbitante. legaram a arte na e pela pedra em Lascaux. a agricultura a sustentá-los. Dispondo da dialética platônica pode o Medievo reanimar o Corpus Christi. Os homens do neolítico. fingimento e superação na história da cultura Os povos caçadores/coletores viveram porque ignoraram sua lógica e assim tiveram o que comer. inventam as consoantes e assim a escola. Os gregos. por freqüentar o deserto e o cativeiro. mil anos depois fazer levitar catedrais góticas inteiras e por fim legar museus repletos de arte sacra e em cima o presente Papa.

pelo menos na atual circunstância. é verdade). que veio para se apossar no atacado de todos os corações e imaginários? Enquanto isso. Já se reparou que tudo tendo seu preço. que é . enquanto espera por si. o que se pode é bem dizer a insignificância que se vive. os futuros e junto todas as liberdades? Agora. corpo e alma. na Modernidade que virou a própria pós-modernidade? Na era em que nada mais escapa à suprema medida . o Nada não é mais nada. concluem que. terapeutas pela palavra assumidos. só na TV você decide! Como conseguir ser subversivo na era do marketing. deixando de herança seu lugar ao longínquo poeta (grego)? Ainda anuncia. que agora só mesmo um deus pode vir salvar-nos. Como conseguir ser subversivo na era em que o filósofo e filólogo virtuoso comete muitos acertos. se demite. no círculo de aço-cromo-níquel da prostituição generalizada. e com isso foi-se à breca a temporalidade. senão a subversão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 91 Antes de mais nada Como conseguir ser subversivo naquela que se anuncia a era de todas as eras. a mega-indústria do inconsciente.seu preço arbitrado pelo mercado expresso num código de barras? Nada há mais para acontecer senão negociar. negociar. na melhor das hipóteses. zombeteiro. negociar-se. e porque também alguns erros (graves. os artesãos do que é outro. pelo menos um pouco de ar para que o pensar não sufoque e sucumba. não há cura. Como conseguir.

Aliás.com a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. caracterizamos o homem como o ente capacitado a operar no nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário [2].1. operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I) [3]. a fenomenologia do espírito de Hegel. entre eles. mas. o poderá deveras salvar? Falando com bastante simplicidade. ao menos. Perguntamo-nos já naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização . tomando-se por termo de comparação.em princípio. válida para todos os homens em todos os tempos e lugares . da diferença (D). pela variabilidade temporal do vigor criativo das culturas. o poder de discurso em sua dimensão plena [4].Considerações introdutórias . atestada de muitos modos. entre muitas outras coisas próprias aos homens. algo ainda mais complexo. de natureza hiperdialética (I/D/D = I/D/2). de um lado. pela dissimetria de suas relações lógicas de determinação e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo-se a história da cultura como um processo de auto-desvelamento do próprio ser do homem. como poderia a nível hiperdialético qüinqüitário ser diferente? É uma simples questão de consistência 4. formal ou da dupla diferença (D/D=D/2). mas a “razão” humana iria mais além. Os animais cordados (dotados de sistema nervoso central) atuariam no nível lógico dialético. de outro. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D).92 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO quem. a dialética trinitária. como conseguir re-haver. a esperança? Em Noções de antropo-logia [1]. dialética (I/D) e clássica. ainda que em nome de Deus. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) governa.

a seguir. e focalizando apenas o Ocidente e o Oriente Próximo [8]. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. cultura judaica. ambas naturalmente referidas à Natureza.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 93 ou até de simplória regra de três! Toda cultura teria. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento serão denominados culturas nodais. um essencial e particular comprometimento lógico [5]. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [6]. dialética I/D. da diferença D.1): pré-I. assim. I. cultura sedentária de base agrária. cultura tribal. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais (ver figura 4. inclusive. clássica ou formal D/D = D/2 e a própria I/D/D = I/D/2). Resumidamente. Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas [7]. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. pré-D. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D). seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo ou. melhor. . Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. representativamente lógico na direção daquele desvelamento. e que lhe confere. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico.

cultura prometéica grega. que só se pode manter porque os próprios fatos insistem em não desmenti-la. I/D. A tese uma cultura. uma lógica é obviamente uma desmedida simplificação. até muito mais. mais precisões e. mais numerosas e profundas incursões . I/D/2. As culturas nodais D. e.94 CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D/ CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA 2 CULTURA MODERNA CÍNICA I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURAS LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES Pré-I Figura 4. cultura hiperdialética qüinqüitária. D/2. diríamos: em especial. uma manifesta síntese das culturas anteriores. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). Por certo há que se exigir mais. uma cultura à medida exata do homem. não castradora. sobretudo. porque. cultura medieval cristã (patrística). pela primeira vez.1. que hoje domina o mundo. por todos os títulos. quanto de suas indefectíveis alas esquerda e direita). para a tristeza e incômodo de todos os ideólogos e crentes da vida eterna da Modernidade (tanto do paradigma anglo-saxão. ainda por vir. cultura moderna de base científica.

Cada cultura tinha já sua lógica de referência era essa nossa tese anterior [9]. 4. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. Em outras palavras. vale dizer. intentará simular ser. já foi assinalado. uma cultura. com aquela que a todas elas subsume (a hiperdialética qüinqüitária que caracteriza essencialmente o homem. como até agora. Neste sentido é que vamos aqui tentar explorar ainda um pouco mais este veio dos determinantes lógicos da cultura. Nossa tese central aqui não será mais. entretanto. Uma cultura e três lógicas .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 95 especulativas. Agora. porém. algumas de alto risco. fonte de seu vigor criativo -. três lógicas. como se verá. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas.que determina o seu ser desejante. toda cultura de algum modo dá testemunho de outras lógicas. São vínculos ora claros e assumidos.que determina o que ela.2. numa artimanha defensiva. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda e da qual. com cada uma das demais lógicas mundanas. o seu próprio futuro que resolveu madrugar. em que pese seu parti pris lógico. precisou ser feita preservando-se o postulado da igualdade de todos os homens. é óbvio. Esta mudança. uma lógica. correspondente à cultura que a irá suceder . não discordamos). sim. ela fica necessariamente associada a mais outras duas lógicas: a primeira. Tentemos melhor esclarecer. fingir que não mais é o que é e. por coerência. ora clandestinos. correspondente à cultura que a antecedeu . que ajudem a avaliar a potência e traçar os limites de validade desta concepção. a segunda. inclusive.

os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. a terra e o touro. bastaria pinçar alguns exemplos em meio à profusão de manifestações arquetípicas encontráveis nas culturas históricas: lógica da identidade I . procede a real ameaça à sua domi- . o fogo e o leão. os quadriláteros em geral e as cruzes. os gêmeos. por suposto. o vermelho. as figuras especulares.o número 4. mandalas [10] de toda sorte.o número 2. o ar e a águia.de onde. lógica da diferença D . as pirâmides de base quadrada. com a lógica da cultura que lhe sucederá. triângulos de círculos ou nós borromeanos. Dentro desse quadro geral. seu permanente pesadelo . mas que de algum modo permanece subsumida.o número 3. b) de outro lado. a estrela socialista.96 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para convencer-nos. o negro. o ponto. o círculo. o homem e a quinta-essência.lógica que teve que ser superada (ou recalcada). para que ela pudesse advir em seu lugar. lógica formal D/2 . seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. a água e a serpente em hélice ou distendida. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? Por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas: a) de um lado.o número 5.o número 1. o azul. o branco. lógica hiperdialética I/D/2 . lógica dialética I/D . e que por vezes “retorna” ou se revolta como num sonho -. a serpente que se devora pelo rabo (o ser-um como resultado do colapso de uma diferença). com a lógica da cultura que lhe antecedeu . triângulos. o segmento de reta.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE nação de época. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e bem exercida. Isto nos faz compreender. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 4. (Ver figura 4. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que ela de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural ou. não se pode simplesmente apagá-la. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou marginalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico-emocional dos indivíduos. o que se pode. ou seja. instituições.2) Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. perde-se o objeto que fora antes o mais digno e próprio de ser pensado. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. de modo mais ou menos claro. o que. técnicas e múltiplas artes.2) . é uma impossibilidade. o desejo da cultura [11]. Tenta-se então recuperar este objeto perdido captando-o ou “ vestindo-o” com a nova lógica. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. como as culturas. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. na verdade. conhecimentos. Com isto. pelo menos. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. Desde sempre. 97 Do ponto de vista lógico. é de algum modo silenciá-la ou recalcá-la. afinal. através de um processo de reiteradas substituições. por suposto.

pela violência em resposta ou preventiva (como a degola dos recém-nascidos). Lógica de refer. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação . mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. que. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. como de seus piores feitos. simula ou finge ser o que ainda virá. onde uma mixórdia de estilos incluído aí o próprio velho moderno . CULTURA ANTERIOR RECALCADA DESEJO Figura 4.98 CULTURA POR VIR LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pseudo auto-superação CULTURA DE REFERÊNCIA FINGIMENTO Fim da simulação usurpadora SUPERAÇÃO Lógica poster. e que a dissimulação aqui . pelas ideologias. é o melhor que poderia mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. Toda cultura. Modelo lógico Um exemplo salta de imediato à vista: a insistência dos ideólogos da Modernidade. mas que ao final é o que a empurra para a frente. convenhamos.2. Lógica anter. tentando convencer-nos de que o mundo já entrou na pós-modernidade. Este estratagema fica ainda mais visível na arquitetura dita pós-moderna. hoje. Toda cultura teria pois uma disposição desejante. pela calúnia. finge tão completamente que chega a fingir que é pós-moderno o moderno que deveras jamais deixou nem pode por si largar de ser. logo no momento em que esta passa por uma de suas crises mais agudas. por exemplo) -. que é seu verdadeiro motor imanente.metaforiza a chegada de uma nova cultura que a todas estaria subsumindo. tanto de suas excelsas realizações.

pelo abandono de uma identidade ab initio perdida (I/D/n-1) em favor de uma identidade prospectiva (I/D/n) situada além da diferença (D/n) específica que ela por definição encarna. formalmente. como não poderia mesmo deixar de ser. todas o pressentem sem engano possível. O mesmo esquema geral contínua válido no caso das culturas lógico-identitárias (I/D/n). será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua. No entanto. as culturas são como todos nós . simulando se sobre-viver. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. quem pode ser condenado por tentar sobreviver. só que a di- . pode-se perceber que o movimento de sua superação se dá. também não se pode ter dúvidas. ameaçadores. pois. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. as conquistas “materiais” da cultura lógicodiferencial em processo de superação (D/n)). e que de maneira inexorável irá confrontá-la. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura.lutam para viver. mesmo certo de como e de que mal vai morrer?! Neste particular. precisamente em seu fingimento. ela já percebe delineados em seu horizonte. A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (no caso. Mas afinal. E quando isto acontecer. um radical comprometimento lógico-identitário (I/D/n-1)) com uma mui corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (no caso. O golpe fatal sobre qualquer cultura. sem que isto implique conotações organicistas descabidas. Tendo-se por referência apenas as culturas lógico-diferenciais [12]. só que ao seu jeito.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 99 aludida é apenas um dentre eles.

margens e desvãos [13]. que se estava já gerando em suas próprias dobras. enfim. Desejo. do desvanecimento do seu próprio desejo. decidimos começar a exposição com a classe das culturas diferenciais. do uno- 4. preferimos dar prioridade à classificação identitária/diferencial. tanto quanto terá sido negado. a entusiasta recuperação da sensibilidade e de alguns aspectos materiais da cultura lógico-diferencial anterior (D/n) e.3. no que se refere ao seu desejo. de outro lado. a interiorização ou subjetivação da espiritualidade em curso de superação (I/D/n). com sua filosofia desejante. enfim. seu fingimento idolátrico sacerdotal e sua superação pela cultura da lógica do mesmo (I). Alem do mais. Começamos com as culturas de antigos impérios de base agrícola (pré-D). fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais . Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. sua arte mimética exacerbada e sua superação pela cultura lógico-dialética do espírito. da idéia. Por razões estritamente didáticas. A probabilidade de subversão/superação de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. do conceito. o fruto esperado. depois. evitando ter que tratar logo de início com a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico. veremos os gregos (D).100 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO fícil e surpreendente equilibração se dará. Ao invés de apresentarmos as culturas em sua estrita ordem lógica/cronológica preferimos fazêlo só subsidiariamente deste modo. que pela peculiaridade de ser justo a primeira. exige um pouco mais de “engenhosidade” para o seu efetivo enquadramento no nosso esquema geral. agora. em especial. tendo de um lado. do esgotamento de seu vigor criativo. destacando seu desejo mítico. como se fora tudo um simples renascimento.

por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. veremos.o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. Nos antigos impérios de base agrícola . a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais.1. talvez. sua prodigiosa capacidade de simulação tecnológica e. metaforicamente. em essência. perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 101 trino (I/D). teremos o que mais de perto nos interessa.3. Tempo perdido. por último. a Modernidade (D/D = D/2). A agricultura tomada como base da subsistência. Como bem observa Mircea Eliade. A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . a liberdade pelo cativeiro. em razão de inexcedível soberba e prepotência. Significam. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem (ou de um pai). a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. em desabalada carreira para sua própria superação pela cultura hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2 ). quer a cerealicultura (Tais mitos são mais raros.o mito e a pseudo potência sacerdotal Nosso modelo lógico articulando uma cultura a três lógicas. acompanhada de investimentos na organização da produção. nas culturas evoluídas. (negritos nossos) [14] . como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo . 4. com sua Física sofisticada e intensamente desejante. na formação de estoques e na sua distribuição. cabe perfeitamente à cultura dos impérios antigos de base agrícola (pré-D). e por vezes radicalmente reinterpretados.

102 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. Jensen julgava que o mito de Hainuwele é específico aos paleocultivadores de tubérculos. ciosamente guardados pelos deuses. o simbólico refém da espacialidade que. inventa-se a escrita possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. apoderase de alguns grãos e com eles recompensa os seres humanos. malgrado. Quanto aos mitos referentes à origem da cerealicultura. Ali vige o simbólico. por isso não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. entretanto. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. um herói civilizador sobe ao céu. Para tanto e muito mais. colocam em cena um furto primordial: os cereais existem. nas culturas de base agrícola (pré-D). Jensen dava a esses dois tipos de mitologia os nomes de “Hainuwele” e “Prometeu” e os relacionava respectivamente com a civilização dos paleocultivadores (vegetocultura) e com a dos agricultores propriamente ditos (cerealicultura). Neste tipo de cultura. em essência. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. mas no céu. E. que. um entre os múltiplos atributos dos entes. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O etnólogo alemão Ad. o constituiu. mas sentido apenas como índex ou como análogo. (negritos nossos) [15] O mito. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). o sentido permanece ainda afeito ao traço. É então pela idolatria sistematizada que esta cul- .

como assinalamos. absoluto transcendente. ora metafóricas. por nada subornável. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. (Ver figura 4. A todas as coisas. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). da religião do Deus único. é atribuído um sentido. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. Como se fora numa pintura de Chagall. ora metonímicas (análogas aos processos primários psicanalíticos de condensação e deslocamento). que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. em definitivo saída da Natureza para o mun- . que irá permitir a expressão do lógico enquanto tal.3) D CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES MITO (DE ORIGEM) O ANIMALIDADE Figura 4.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 103 tura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular.Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Tudo isto. A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade. para fazer frente à grande ameaça do conceito.3 . uma intencionalidade atuante ainda que oculta. vivas ou inanimadas.

(negritos nossos) [17] . Esta relação com os deuses é crucial. Daí. é Moisés. E se vê condenado a não mais retroceder.a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos Chegamos aos gregos com sua lógica do outro ou da diferença (D) [16 ] que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). posição que vai lhe custar o mais alto preço. a fio de faca. necessita ser levada às últimas conseqüências.três mil ou mais outros vinte tantos mil.104 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO do da Lógica ou da Idéia (Hegel).2. à noite. entrementes. sabemos todos. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. plus essentielle encore est l’infidelité où il se détourne comme un traître. cuja gigantesca e emblemática figura. 4. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. à volta do bezerro de ouro. Entre os gregos . reunidos de dia. inseparável do prédomínio do simbólico pleno ou convencional. il est plus authentiquement lui-même que par la nostalgie de l’Un-Tout. constituírem os gregos a cultura trágica por excelência. não importa -. Para que seja realmente autêntica. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. en correspondance avec le détournement catégorique du divin. Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. Isto é bem ressaltado por Beaufret ao comentar as concepções hölderlinianas sobre o que deveria ser a autenticidade grega: S’il y faut la fidelité. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser que é doravante ser outro (dos deuses).3. O personagem símbolo aqui é Prometeu. assumant ainsi la différentiation par laquelle. o círculo de seus adoradores .

em especial.4) . ao invés. Reparando bem. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. Hölderlin e Beaufret. à nostalgia do um-todo. e não da outra. O que ambos não chegam a perceber. ou seja. consumar-se-ia irrevogavelmente o autêntico ser grego. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. do um-todo ou do Deus único. veremos que a pátria do ser como tal. à filosofia. é que a relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. e esta interpretação fica especialmente reforçada quando a vemos contraposta. no final do texto citado. (figura 4. daquilo que foi e agora é falta). não produz filósofos e perguntas. porque é desta última. Para compreendê-lo em toda sua significação. o homem grego precisava responder o détournement catégorique do divino com seu próprio détournerment em relação a Ele. considerada por eles fundamento lógico do trágico). uma profusão de profetas e suas duras admoestações contra a infidelidade dos homens à Promessa (que não é produto de roubo. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). Nesta. que se alimenta o vigor criativo dos gregos. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 105 Nos próprios termos de Hölderlin. Só desta maneira. mas. por falta do distanciamento. e isto precisa ser necessariamente assim porque a essência formal da diferença primordial está na especularidade [18]. mas Graça!).

Afirma ela. sombra [19] Estes mesmos versos são comentados por Françoise Dastur em Hölderlin: Tragédia e Modernidade. malabarismo para uma sobrevivência impossível . vale uma vez mais apelar à sensibilidade do poeta: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. particularmente a poesia trágica. o que encobre/ revela. simular sua própria auto-superação como arte. com certa gravidade: . La Grèce. pretensa extensão da natureza . de modo incontestável.Cultura prometéica grega (D) A arte grega. mas não chegara a realizar -.do que esta deveria. lamentablement. a dissimulação que ela realmente é. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. beauté suprême.106 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO D/ 2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. Para deixar isto ainda mais transparente. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA I Pré-D Figura 4. grega no caso.4 . além.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade.

ou seja. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [21] do que um clarividente. Não conseguiram regressar ao pátrio. como se vê.a arte tornou-se para eles não só modo de expressão e autocompreensão. mas também a grande arma na luta pela sua impossível auto-preservação. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D).e a filosofia. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. viria a ser a prerrogativa própria do conceito [23]. morrendo de excesso de arte porque não conseguiram conciliar em si. a verdade da parte pela da totalidade. não por serem imitadores. ou. Por isso. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão cirúrgica a laser.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 107 Os gregos não foram capazes de retornar ao que lhes era propriamente pátrio. com a agravante de terem sido alertados em tempo por um dos seus maiores . Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico.seria necessário aduzir . à imitação da própria imitação.Platão. sendo tam- . (negritos nossos) [20] Exato. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. porque . o que. alguém que não faltou aos seus. para que fosse ele buscado além. à fonte de seu próprio vigor. natureza e cultura. Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro. demasiadamente exato. como bem registra A República [22]. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). por excesso de fingimento.que então exorbitava . mais individual. Hölderlin chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual. sabemos.

.. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai.. (negritos nossos) [26] (p. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique. Il interprète plutôt le beau comme chemin et échelon vers le vrai. (negritos nossos) [24] Perceber tudo isso não é assim tão difícil. Dans un pressentiment obscur. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie.. para Platão. imitation d’une imitation.108 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bém mais universal e o mais universal. mas era algo essencial à . 90) Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos.. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. originelle. par conséquent sans savoir réelllement. Eugen Fink no que respeita a pretensão do belo ao vero. Fink nos agracia com um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. [25] (p. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie.. la poésie imite le vrai savoir. 92) Muito importante é observar que. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. la poésie devient alors. .. Cependent elle est imitatio. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre. La poésie est essenciellemente mimétique. mimésis.

Com isto. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). Assim. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 109 própria afirmação da filosofia (bem entendido. (negritos e colchete nossos) [27] (p. Há aqui um importante detalhe a acrescentar. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. como visto. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega. A identificação do mundo das idéias com o real. mais do que 600 anos após. no conflito da idéia com o excessivo poético que. a analítica aristotélica (D/2) já era uma potencialidade que de um modo ou de outro acabaria emergindo da im- . o conceito I/D perde boa parte de sua autonomia referencial para ficar quase que reduzido à pura intensividade [28] ou a seu ser sintático (D/2). Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. esboça seus primeiros traços em Platão. on lui arracha son prétendu masque divin. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. que é a intervenção indireta da lógica formal D/2 na concepção da idéia platônica. 101) A nosso juízo. paralelamente à concepção da matemática como linguagem da perfeição. à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. dissimulado. num certo sentido. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. que. fazem de Platão um formalista radical avant la lettre (no sentido mesmo atual da filosofia da matemática). des spectacles contre qui la pensée métaphysique {isto é.

jamais.Na Modernidade . Discute-se tudo na física. entretanto. a física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). spin. força. desejoso do uno-trino (I/D). é herdado pelo universo conceitual cristão com sua crônica ambigüidade platônico/aristotélica. De fato. Einstein e tantos outros. Em suma. Newton.a física e a biopirotecnia Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [29]. temperatura. Seus grandes heróis são Galileu. hoje. indução magnética. agostiniano/tomista que seus diligentes teólogos não se cansam de tentar maquiar. . dialético/formal.3. em linguagem matemática) segundo os quais o mundo fora criado. no entanto. 4. constata-se com facilidade. espaço (L) e matéria (M) .tempo (T). fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto uno-trino desejado (I/D). contudo. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses. pressão. (figura 4. que sejam eles três . sua face disfarce é a técnica e seus excessos. Tudo isto. corrente elétrica. mas sim os “planos” (escritos.110 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO precisão mesma das concepções platônicas sobre o conceito (as vacilações de Platão no Parmênides dão disto uma boa medida). põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. Em suas grandes crises. Sua face desejante situa-se bem no cerne da sua gloriosa cientificidade . particularmente. energia. densidade e o diabo [31].a Física [30].5) . essência lógica da cultura medieval cristã (I/D).suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade. aceleração. que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2). a biotecnologia. a física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2).3.

tempo absoluto.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [32].Cultura científica moderna O mais notável dos feitos de Newton . espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível.relatividade restrita. De outro lado. a partir de então. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica. A técnica. relatividade geral. em especial a biotecnologia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA DESEJO DE QUE? HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) 2 111 I/D/ BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA I/D D Figura 4. a história da física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu mútuo comprometimento. entretanto. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzidos (os transplantes seriam já uma preparação .5 . eletro-dinâmica quântica . enganadora.pré-assistido por Galileu e alguns outros -. espaço e matéria. O fez. como se fossem três absolutos . de certo modo. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . com sua mecânica. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética. daí porque. foi. Um evidente e bem compacto oxímoro. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. à plenitude lógica. mecânica quântica.

A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. a lógica clássica ou formal D/2 e a lógica transcendental ou da identidade I. cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume. inclusive. omissos. não se sabe como. em juvenil anjo de Maxwell. É também o fim da História que tanto se apregoa.à lógica . mas novo saber cristalizado (D/2). fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. em compensação. Para se chegar a voar é preciso. também a inabalável determinação para fazê-lo (I). sim. de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. nada solidários. metamorfoseado. Na técnica concorrem. pois. sem imaginação. contra a morte em geral no mundo. seres vivos e memórias. A lógica da técnica. além de um saber aerodinâmico (D/2). agora. deixa bem à mostra quão circenses são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. É o velho “demônio” de volta. de um lado. respectivamente. do homem em todos os seus pormenores. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das determinações à lógica formal da ciência .112 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto). a propósito. com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. constituindo-se apenas em seu arremedo. entretanto. de outro lado. mas. não é tecnologia. de modo obrigatório. Continuaremos tal como somos . mesquinhos. o que. não chega à hiperdialética qüinqüitária I/D/2. futuramente. O avião já em vôo. a determinação ou o empenho numa realização. como também da recomposição informacional de todas as coisas. assim para toda a eternidade.egoístas. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. insensíveis. o saber científico.

Poder-se-ia assim dizer. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária I/D/2 através da pseudo síntese machista da ciência D/2 e de seu sujeito assujeitado (I) . com toda a precisão. ou seja. a recuperação das lógicas da diferença D e dialética I/D. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. como diria Richard Morse [33]. reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. ver como se dará a superação da atual cultura. exigiria muito mais: para começar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 113 transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. mas tão apenas conjecturas. como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. coetâneo e co-fundador à fixação das bases da cientificidade que viria justamente constituir a essência da Modernidade?! [35] Eis. . a rigor. Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). Não é difícil. em linhas muito gerais. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica. das organizações burocráticas e similares. o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos. animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). para buscá-lo à frente. da razão autenticamente feminina [34]. das regras de poder. A verdadeira síntese qüinqüitária I/D/2. por razões óbvias.a sistematicidade -. . lá. Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. não se pode apresentar ainda fatos. Daqui por diante. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna D/2. além. mas talvez milhões ao mesmo tempo. entretanto. o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária.ciência e consciência.sob a égide férrea sempre da primeira.

cultura judaica (I) e cultura cristã patrística (I/D) -. Podemos então estabelecer o seguinte tabela resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógico-diferenciais: • Tabela 4.1 .Entre os bandos caçadores/coletores do paleolítico .a animalidade e a “semeadura” rupestre Vamos enfim examinar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores.114 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas tão somente a sua subordinação aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética.Desejo. ficando a prometida cultura nova qüinqüitária (I/D/2) para ser tratada num item específico a seguir. que dominou o período paleolítico.4. e que por ser lógica e historicamen- 4.4 .cultura das tribos nômades de caçadores/coletores (pré-I). 4. COMPROMETIMENTOS L GICOS NAS CULTURAS L GICODIFERENCIAIS FINGIMENTO SUPERAÇÃO • DESEJO CULTURAS LÓGICODIFERENCIAIS BASE AGRÍCOLA PRÉ-D GREGA D MODERNA D/2 MITO IDOLATRIA SACERDOTAL PRÉ-D→PRÉ-I PRÉ-D ≈ I FILOSOFIA D→ FÍSICA D/2 → I/D MONOTEÍSMO MOISÉS PRÉ-D→ I POESIA TRINITARISMO EXORBITANTE PLATÃO D ≈ I/D D → I/D BIOPIROTECNIA D/2 ≈ I/D/2 CULTURA QÜINQÜITÁRIA D/2 → I/D/2 Serão aqui consideradas apenas as culturas lógico-identitárias historicamente já realizadas .1. fingimento e superação nas culturas lógico-identitárias .

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 115 te primeira. é um preciso precioso testemunho de como tal relação primordial é deveras vivida [37]. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. no caso. Meu tio o Iauaretê. Diferencia-se da cultura Pré-D porque esta se põe como outra da natureza. que caçava onças com ira e culpas multiplicadas por se tratar de desavença entre parentes. ele reconhecia. ver-se obrigada a viver da caça a outros animais. ao mundo da cultura. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o alimentar-se e ser alimento para outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. recordemos. Em outras palavras. na sua própria expressão. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. Georges Bataille. porém. (Ver figura 4. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” pré-pré-D? Como pode se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. como a água na água. para sobreviver. pois. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (Pré-I). A condição de caçador o identifica com a caça. mas. em Théorie de la religion [36]. no entanto. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. para sobreviver.6) . Já pertence. apresenta algumas peculiaridades bastante interessantes . vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (Pré-Pré-D).

Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. Com isso. nem assim constitui uma verdadeira exceção. o fato é que já se pode lá assegurar a vigência de algum tipo de xamanismo. in- . animais e homens. . concluímos que as culturas tribais. Por um lado. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência.6. o xamanismo domina ainda em nossos dias a ideologia religiosa dos caçadores e dos que vivem do pastoreio.. a existência de um certo tipo de “xamanismo” na época paleolítica parece assegurada.116 I LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO PINTURA RUPESTRE Pré-D CULTURA AGRÍCOLA MITO (DE ORIGEM) HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL Pré-I CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 4. (negritos nossos) [38] Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pele lógica da identidade de todos os entes. ou seja. deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico. Apenas. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. mortos ou vivos. Segundo Eliade. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. no que tange ao seu modo desejante. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou.. mas da renúncia a um ganho lógico (ganho de I/D para I/D/2).

seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente) criada pelos seus xamãs para conservar seu poder. (figura 7) Las pinturas {do Levante espanhol} son todas de animales: caballos. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. Para tanto. ciervos. em La pintura prehistórica. Observa Brodrick. [39] O fingimento nas culturas tribais. precisaria simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. isto é. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. ou ainda por um espírito ou por um deus. Isto posto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 117 clusive também os deuses. postergando o advento da cultura de base agrícola regulada. de penetrar nos corpos dos humanos. aduzindo ainda que todas possuem um fim muito bem determinado. e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. uros (colchetes nossos) [40]. que seria o êxito naquilo que para tais comunidades é o mais essencial. da caça aleatória para a caça assegurada. cabras. alguns felinos. isto é. a caça: . cabras monteses. conforme nos informa ainda Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”.

irá por água abaixo. y que se utilizó para algún fin determinado. pelo trabalho agrícola. não mais como o que se perdeu. Espanha No cabe duda de que la pintura prehistórica se ejecutó para ser utilizada. especificamente.7 . Se há dicho que la religión es en su origen una técnica para obtener éxitos. mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. (negritos nossos) [41] Êxito. Para el hombre primitivo éxito significa suerte en la caza.118 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). Toda esta artimanha representativa.Caçada de veados. uma nova cultura cultura do neolítico e logo a seguir também das idades do bronze e do ferro. no entanto. aqui. Castellón. significa inquestionavelmente que se estaria assegurando uma regularidade na caça de certo modo equivalente à que lhes poderia proporcionar a agricultura que já se lhes avizinhava como uma nova possibilidade de vida. por força de um movimento de subversão cultural. .

a terra prometida e a exterioridade farisaica A condição para a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem é. A los dibujos mágicos suceden los esquemas mágicos. aparece un nuevo modo de vida y com él nuevas artes destinadas a nuevos fines.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 119 Visa-se o outro agora como meio.4. e sim o escraviza. naturalmente. que surge de la pintura naturalista del paleolítico. contudo. tendendo a um esquematismo que muito provavelmente será a origem dos primeiros sistemas de escrita ideogrâmica. [42] Não se poderia esperar mesmo outra coisa. Conforme observa Brodrick. Esta plenitude é alcançada com a pura convencionalidade do . O autor da proeza está historicamente perdido. pero artes que todavía están íntimamente ligadas a la religión y a la magia. trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da agrícola. o domínio pleno do próprio ser-simbólico.2 . 4.Na cultura judaica . estilizado. O identificamos como o herói prometéico. también se utilizaba. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura lógica Pré-D (Ver notas 14 e 15). os desenhos começam a perder a sua função e vão se tornando mais e mais abstratos: El arte esquemático. e mesmo em se tratando de um semelhante. bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. não mais se o devora. Después de la revolución que causaron la agricultura y las primeiras civilizaciones originadas en la propia agricultura. com o advento da agricultura. as pinturas rupestres do paleolítico superior vão logo perder seu caráter realista. A agricultura se tornando um fato.

na cultura judaica. à capacitação para a síntese de opostos. A significação dramática dessa passagem fica bem marcada pela reação irada de Moisés quebrando as Tábuas da Lei gravadas pelo próprio Deus e depois com a trama e a degola. o conflito entre temporalidade e espacialidade. o acesso ao pensar dialético (tal como há muito compreendido por Platão). um pré-D fingindo-se de I.formalmente. Este foi. um passo gigantesco na história da cultura. simulando possuir uma determinação ou um poder fundador que não tinha). logicamente. sendo o signo cujo significante ainda guarda alguma semelhança estrutural com aquilo que representa) [43]. Em suma. na calada da noite. Daí. Em termos puramente lógicos. ou seja. pois retirou o homem da esfera ecológica para re-situá-lo na esfera lógica que lhe era já constitutiva. Com o signo convencional é que se chega à completa separação entre a coisa e sua representação verbal. de milhares de adoradores diurnos do ídolo.120 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO significante com respeito ao significado. Isto veio representar a vitória do convencional/lógico (I) sobre o analógico/ mágico (na verdade. o episódio representa a “tomada de consciência” ou a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem. A conquista do simbólico convencional pressupõe. entre identidade (I) e . do ponto de vista lógico. estariam representados pela dupla experiência da economia pastoril e da agricultura. esta mesma tensão também está presente no episódio envolvendo Abel e Caim . acontece aí a definitiva diferenciação do pensar dialético (I/D) a partir de sua matriz lógico diferencial (D). pelos partidários de Moisés. a grande importância que devemos atribuir ao episódio bíblico da adoração do bezerro de ouro. O termo convencional vem aqui se contrapor a analógico (este último. sem dúvida. como indica o nome. Estes. da liberdade no deserto e do cativeiro no Egito.

Agora que era alcançada a plenitude simbólica. é que se podia. a essência mesma do ser-lógico. não há princípio. por ter rompido com o estado ecológico. poderá algum dia haver um filho que se autonomize ou rebele (D) e. Outro episódio bíblico reitera o estatuto lógicotranscendental ou identitário da cultura judaica: é a disposição de Abraão em aceitar o sacrifício do seu filho Isaac como o preço imposto pelo Deus todo poderoso para a sobrevivência de seu povo. retroativamente. Tudo se passa como préI e pré-D levassem à síntese pré-I/D (superação do analógico) que por sua vez vai eqüivaler ao lógico transcendental I “objetivado” (auto-definição lógica do Absoluto). Israel.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 121 diferença (D). Tudo isto serve bem para a caracterização do serlógico judaico. mas sobretudo compreender a auto-definição do seu Deus: Eu sou o que sou (ou serei). simbolicamente assumida por Abraão naquele episódio. A princípio. mas não é suficiente ainda para a determinação de seu desejo mais recôndito e que será a razão de seu viver profundo e motor da criação de um riquíssimo acervo cultural. e sem este. especificamente com a sua realização lógico diferencial (pré-D). representar de maneira apropriada a lógica da identidade ou transcendental. entretanto. a recalcou e desta maneira transformou-a no seu impossível . Assim. sim. O sentido profundo do episódio. isso pareceria um contra-senso: sacrificar o próprio descendente para garantir a descendência. Só a partir daí (I). então. foi possível a Moisés não só “ouvir”. nada se funda [44]. está em que só o sacrifício do filho define um pai enquanto tal. A lógica do pai é precisamente a lógica transcendental ou da identidade (I). depois. pôde proporcionar as condições para a realização da síntese dialética que vem dar aceso ao simbólico acabado. Só esta experiência aguda de opostos e a tensão que ela suscita. aconteça a reconciliação amorosa entre ambos (I/D).

em particular seus reiterados constrangimentos e desterros impostos pelo arbítrio de seus vencedores e/ou senhores . tais infortúnios acabavam sempre se constituindo num motivo para o maior reforço de seu desejo pela terra. nada podia abalar a cultura judaica. A partir daí ela passa a viver uma permanente e dramática tensão interna que só se irá resolver muito mais tarde. com o advento do cristianismo. da diferença). fingimento e superação na cultura judaica Tanto isto é verdade que entre os próprios judeus houve.8 .122 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO objeto de desejo: a terra (aquela sobre a qual se exerce o trabalho. e até hoje persiste.Desejo. As reações à cultura greco-romana (prometéica. a cultura da diferença. A cultura judaica só veio ser profundamente abalada no contato com a cultura grega. pelo contrário. que exatamente assinala o ser diferente vis-à-vis a Natureza) . (figura 4. foram múltiplas: . como bem sabemos. babilônios.assírios.8) I/D FARISEANISNO (ESCRIBAS) D CULTURA GREGA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) I MAGIA (ANALÓGICA) DESEJO DA TERRA PROMETIDA Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA Figura 4. persas (enquanto força militar) -. Fossem quais fossem as derrotas militares judaicas.a Terra Prometida. uma reação ao sionismo na medida em que a efetiva conquista de uma terra poderia enfraquecer o seu desejo mais essencial e levar mesmo à dissolução desta cultura milenar.

o terrorismo zelote. a pergunta pelo ser-um. muito especialmente. Os Evangelhos Sinóticos são bastante eloqüentes e insistentes nesta espécie de acusação a escribas e fariseus [45]. e voltar inclusive a ter um papel ativo à frente do processo cultural global. Isto é feito esvaziando-se a interioridade da lei mosaica e transformando-a. mera exterioridade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 123 as revoltas armadas macabéias. como. não está até hoje bem determinado o grau de influência das culturas semíticas sobre os gregos presentes na costa da Ásia Menor. a aludida independência relativa permite que se levante a questão acerca de quem efetiva- . Bem. Futuros estudos sobre este assunto poderão revelar se de fato existiu tal influência e sua extensão. porque tentam barrar a penetração da cultura da diferença através da “demonstração” de sua não necessidade. A propósito. acabou sendo o caso dos judeus no nascimento da Modernidade. aliás. Estes últimos acabam sendo os mais importantes porque se valem da “estratégia” do fingimento. Ademais. à moda grega. Consideremos agora a delicada questão da superação da cultura judaica. a meia adesão dos saduceus e. preliminarmente. Contudo. Devemos. por tratar-se aqui de um processo hiperdialético. a cultura judaica (I) precedeu a cultura grega (D). o superado/subsumido pode sobreviver como tal e também por si. em um conjunto de convencionalidades sociais. inicialmente como comerciantes e depois como colonos. ter em conta que as lógicas da identidade e da diferença são ambas fundamentais [47]. emerge exatamente nas colônias gregas em ilhas próximas ou na própria orla da Ásia Menor. nunca é demais lembrar que a filosofia. o que possibilitaria às culturas judaica e grega se desenvolverem com uma certa independência uma da outra. insistindo mais uma vez em que. o “fundamentalismo de fachada dos escribas/ fariseus. como um “resto” [46]. como deveria ser.

lógico diferencial (D) com a cultura judaica lógico-identitária (I). chegou a ser numericamente importante [49]. o cristianismo escamoteou a real subsunção da cultura grega (D) através da artimanha de sua apropriação/ internalização simbólica. como não lhe interessava uma ruptura ainda maior com sua herança judaica. a exata versão que posteriormente serviu de base para a composição do Evangelho cristão. e mesmo tempos depois. as autoridades religiosas judaicas promoveram a tradução da Torah para o grego: trata-se da famosa Setenta (LXX ou Setuagina) [50]. A transposição da Torah para o grego pode ser considerada como o mais importante acontecimento antecipador do cristianismo. A nosso juízo. como por todos bem sabido.124 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente teria consumado a superação histórica do judaísmo . com o seu Deus Uno-Trino) foi um processo lógica e historicamente bastante complexo na medida que está aí implícita a mediação de uma cultura prometéica ou da diferença.No cristianismo medieval . com o seu Deus Único) ao cristianismo (Segunda Aliança.4.a cultura greco-romana ou a cristã (patrística). desde Alexandre até a época de Cristo. A diáspora judaica. A passagem do judaísmo (Primeira Aliança.o corpo ressuscitado e o “lixo” escolástico O cristianismo originário (patrístico). Preocupadas com sua re-integração. 4. e a grande maioria de seus membros falava apenas o Grego e o dialeto local. a primeira. O conflito desde o começo com fariseus e escribas fingidores. a cruci- . inequivocamente.3 . Entrementes. Só nos parece a segunda em razão do modo que toda esta passagem é contada pelos cristãos interessados em omitir o que fora verdadeiramente subsumido [48]. é o produto inquestionável do encontro da cultura grega. Voltaremos a este importante assunto no item a seguir.

ressuscita corpo espiritual [52]. Sabemos que é o próprio Cristo que faz a comunicação que precisaria se anular como presença visível (significante. em conjunto. lógico dialético I/D. por que me abandonaste [51] -. semeado desprezível. O desejo do cristianismo estava pois na recuperação do corpo (D). o corpo ressuscita incorruptível. A figura do Cristo Crucificado e abandonado o faz logicamente outro do Pai (I). da dor e sobretudo da corrupção . A partir daí . A localização do desejo do cristianismo a partir daí se faz sem dificuldade. não como apenas corpo físico.o corpo prometido.Amor e símbolo da reconciliação entre Pai (I) e Filho (D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 125 ficação (de responsabilidade dos fariseus. A omissão das últimas palavras do Cristo Crucificado . semeado na fraqueza. Devemos ver aí o corpo mesmo. corpo beatífico necessário e suficiente para o exercício do amor a Deus (figura 4. portanto. a descida ao reino das trevas. formam uma bem arquitetada recapitulação simbólica. D) entre os homens para que em seu lugar adviesse o Espírito Santo . entretanto.Deus meu. mas como corpo biológico. sensível e sensual (bio-psíquico).9). segundo São João) coetânea ao abandono pelo Pai. ressuscita reluzente de glória. Trata-se do que fora antes pensado pela lógica da diferença (D). São Paulo não poderia ser mais explícito e claro sobre este assunto: O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível. agora livre do peso. indo por isso ocupar a posição lógico-diferencial (D). mas sob a lógica da espiritualidade (I/D). O Cristo ressuscitado é exatamente esta referência ou protótipo daquilo que era então prometido a todos os mortais. semeado corpo psíquico. depois a ressurreição tendo como contrapartida o envio do Espírito Santo. como em São João. Deus meu. Era o corpo (o Filho encarnado). escamoteiam lamentavelmente os traços daquele prodígio. ressuscita cheio de força. da doença.

em especial nas artes românica e bizantina. irradiando a mais excelsa espiritualidade (figura 4. por causa da alegria. estabilidade de composição e olhar fixo vigilante das personas re- . a representação de um corpo dis-psicologizado e reespiritualizado pela frontalidade. a insistência no corpo crucificado e ao mesmo tempo imponderável.” Dizendo isso. [53] I/D/ 2 ESCOLÁSTICA (TOMISMO) D/ 2 CULTURA MODERNA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCITADO I/D D POESIA EXORBITANTE CULTURA GREGA I Figura 4.9 . de um lado. então. fingimento e superação na cultura cristã patrística Esse desejo de um impossível corpo (D) espiritualizado (I/D) está profusa e ricamente expresso na arte sacra cristã. Destaca-se. Tomou-o. e comeu-o diante deles.Desejo.10).126 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO melhor se compreende o episódio narrado por Lucas em que Cristo aparece aos seus discípulos desafiando-os insistentemente para que o toquem: “Vede minhas mãos e meus pés: Sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne. mostrou-lhes as mãos e os pés. E como. de outro lado. disse-lhes: “Tendes o que comer?” Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. não podiam acreditar ainda e permaneciam surpresos. nem ossos. como estais vendo que eu tenho.

que Gimpel. a verdade é que ela só teve divulgação ampla para se tornar uma real ameaça à cultura estabelecida a partir dos fins do século XII. já comprometida com a Modernidade. resolve denominar Revolução Industrial da Idade Média [54]. desde sempre. o primeiro surto de atividade econômica de caráter propriamente moderno pelo peso dado à técnica e à racionalização da produção. inclusive em âmbito teológico. Destacaríamos três importantes acontecimentos.11). se constituiu na própria espiritualização (I/D) da materialidade (D). valendo-se de um aparente paradoxismo. A ameaça à hegemonia epocal do cristianismo trinitário começa a se delinear entre os séculos XI e XII. Por último. tendo deixado uma Logica ingredientibus (Lógica para principiantes) destinada ao ensino das categorias aristotélicas A seguir destacaríamos a tradução para o latim das obras de Aristóteles. se dispensar das imagens. o primeiro lógico moderno. quando os árabes promovem uma enxurrada de traduções de textos recuperados na sua expansão ao Oriente. mencionaríamos. mas a idolatria. e portanto desejosa não da corporeidade e sim do uno-trino. no alvor do século XII.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 127 presentadas (figura 4. Há um consenso mais ou menos geral que com Pedro Abelardo (1079-1142) vem ter início todo um processo de fundamentação racional das crenças em desfavor dos “argumentos de autoridade”. na medida em que ela. Ele é basicamente um lógico. acusadas de favorecer não a fé. O desejo de ser-cristão se realiza simbolicamente na própria arte. Aí está também a razão profunda da Reforma. Embora seja um exagero afirmar que o Ocidente desconhecia a obra aristotélica (o Organon era certamente conhecido). . Vale a pena aqui chamar a atenção para algo muito especial no que respeita à relação entre arte e cultura na cristandade (autenticamente trinitária).

séc.128 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. teria respondido simplesmente: “Um lixo. instado a manifestar-se sobre o valor real de sua grandiosa obra.11. O Absoluto racionalizado se antecipava para tentar impedir o advento da Razão absolutizada. pois o que ela deixa claro é que São Tomás.10. “cumpria ordens”. A meta estipulada foi a conquista da Universidade de Paris que. melhor preparada. Basílica de São Vital. XII) Figura 4.” Não importa aqui a verdade histórica. a seu discípulo São Tomás de Aquino (1225-1274). O Cristo Crucificado (Românico alemão. Imperadores Justiniano e Teodora (Mosaico. foi também a mais firmemente intencionada em toda a história da cultura. disciplinado. para o . embora recém-fundada. séc. Sobre o último corre uma célebre anedota: o Doutor Angélico. Esta gigantesca operação diversionista. mas também justificada pela razão. Buscava-se assim demonstrar a não necessidade da ciência. na medida em que a teologia era então não apenas um affaire de pura fé. Ravena. VI) A reação à ameaça da razão formal se dá justamente pela aristotelização da teologia antes radicalmente platônico-trinitária (Patrística). já em seu leito de morte. já se constituía num dos principais centros de saber da Europa. por ser a mais recente de todas. A primeira investida coube a Santo Alberto Magno (12061280) e uma segunda.

ficaríamos com a Reforma. especificamente . Reacendia-se o processo de acumulação financeira dos banqueiros intersticiais que. A acusação dos reformadores na esfera doutrinária. [55] Já no início do século XIV. ao mesmo tempo que. vêm os Descobrimentos [56]. Caso fôssemos obrigados a escolher um marco de referência para a superação em definitivo da cultura cristã. em especial Lutero. de modo que com elas desapareciam os espaços intersticiais entre feudos. constituíam um poderoso mercado financeiro inter-nacional. Kepler e. diga-se de passagem. Descartes define o novo mundo como espaço medido tendo por sujeito o cogito. Quem lá vivia. Aristóteles: When I think of this lamentable state of affairs. Os acontecimentos se atropelam: descobre-se a imprensa. pela teia de suas ligações afetivas e de mútua confiança. a teologia racionalista de São Tomás de Aquino e por trás de tudo. A “lógica espacial” das nações impunha que nítidas linhas de fronteiras (e aduanas para bens físicos) se formassem. entre outras coisas. vão se empenhar em minimizar o poder da Igreja promovendo. com Newton. fora especialmente preparado e apoiado. atinge frontalmente a Universidade (Paris. antes de qualquer outra). definitivamente. ao sentiremse já suficientemente fortes. caía automaticamente de algum lado (ganhava uma nacionalidade). I cannot avoid believing that the Evil One introduced the study of Aristotle. acelerando a deterioração do nível ético da hierarquia e acabando por provocar a Reforma. Galileu.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 129 que. a ciência se consolida com Copérnico. Não se deve estranhar que tal guinada ideo-lógica acabasse se mostrando contraproducente. a recuperação demográfica permite a retomada do processo de modernização econômica que se havia interrompido com as grandes epidemias e as tumultuadas cruzadas. a consolidação de estados nacionais.

já que esta não tem como por si suceder-se? Como todos sabemos hoje.2. I/D/2 • Tabela 4. I/D → D CRISTO CRUCIFICADO/FILHO I→D ESCOLÁSTICA C. AGRÍCOLA MORTE CULT. PINT. o sujeito individualista liberal. procurando minimizar. PRÉ-I ≈ PRÉ-D PRÉ-I→ PRÉ-D PROMESSA FARISEUS/ TERRA PROM. jesuítico. os seus prejuízos. podemos então estabelecer o resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógicoidentitárias (agora incluindo a cultura nova qüinqüitária). este sujeito foi posto pelo protestantismo como sendo o sujeito da fé. Isto posto. CIENTÍFICA TOMISMO GALILEU I/D→ D/2 I/D ≈ D/2 O VERO TRANSCENDENTE .2: • CULTURAS LÓGICOIDENTITÁRIAS TRIBAL PRÉ-I JUDAICA I CRISTÃ PATRÍSTICA I/D QÜINQÜITÁR. a posteriori. HERÓI MÍTICO PRÉ-I→ANIM. A Contra-reforma e correlatamente o Barroco já são manifestações do cristianismo superado. RUPEST. É precisamente isto que acaba resolvendo o grande problema que à nova cultura se impunha: quem deveria ser o sujeito autônomo da ciência. conforme mostra a tabela 4.130 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pela separação radical que ela impõe à fé e à razão. ESCRIBAS I → PRÉ-D I≈D CORPO INCORRUP. COMPROMETIMENTOS LÓGICOS NAS CULTURAS LÓGICO-IDENTITÁRIAS DESEJO FINGIMENTO SUPERAÇÃO PULSÃO DE XAMANISMO CULT.

4. Já vimos (item 4. além de trinitária torna-se ao mesmo tempo pré-qüinqüitária (pré-I/D/2). Tendo o homem alcançado o último estágio de seu desenvol- . a totalidade das figuras anteriores relativas a cada um dos momentos da história da cultura antes recenseados. Especulações acerca do futuro da cultura Exatamente porque o processo hiperdialético qüinqüitário (I/D/2) é uma dialética de dialéticas. Do mesmo modo. subsumindo assim o processo transcendental unário. ao mesmo tempo em que elas são o que são. a que preceder. mundanamente. pré-I e pré-D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 131 Esta visão de conjunto das culturas lógicoidentitárias deixa evidente que. degrau zero da dialeticidade (I). a cultura cristã trinitária. articulada de modo rigoroso. pois é óbvio que nada mais há. O sentido disto é óbvio: a pré-condição do cristianismo não teria sido precisamente Jesus. Assim. o homem perfeito? E é por tudo isto que a cultura hiperdialética qüinqüitária significa o termo do processo de auto-desvelamento do ser-lógico do homem. ainda que lógico– transcendental (I).1) como se pode preservar a generalidade do processo hiperdialético com respeito à cultura originária.12 reúne. aquela dos bandos e tribos de caçadores/coletores do paleolítico (pré-I). A figura 4.3. a cultura judaica. é que ele pode escapar às dificuldades do processo simplesmente dialético (I/D) no que tange às problemáticas de origem e destinação [57]. a cultura lógico-qüinqüitária (I/D/2). se contarmos também as culturas ecológicas. Agora. são também pré-formações das culturas da mesma classe que as sucederão.5. foi igualmente pré-dialética (préI/D). é o momento de vermos como tudo se resolve também satisfatoriamente com respeito ao tipo cultural derradeiro. A pergunta que logo salta à vista refere-se ao desejo da cultura lógico-qüinqúitária. na conquista do simbólico convencional ou pleno.

como vimos. fingimento e superação na história da cultura Esta simples colocação nos faz lembrar que em todos os estágios culturais anteriores o que impulsionava a cultura em direção às suas tão de um desejo de morte da cultura ou da humanidade (ou seja. e tendo-se em conta que este seria também o momento de seu pleno autodesvelamento. aquele desejo passa- . Desejo. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL MITO (DE ORIGEM) CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 12. como poderia ele se manter desejoso de algo menor. era a condição mesma de sua sobrevivência física. simplesmente não comeria. Nas culturas subsequentes. Embora onto-logicamente distinto. seria mesmo o homem da cultura qüinqüitária desejoso do ser-sistêmico-calculado antes governado pela lógica da dupla diferença (D/2)? CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) I/D/ 2 BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. se o homem não se identificasse à caça. tal como vinha acontecendo nas demais culturas? A manter-se o mesmo padrão.132 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vimento onto-lógico. da lógica qüinqüitária recém conquistada) que.

sempre inferior à capacidade lógica humana I/D/2. (D)/(I/D) = D/2 ≤ I/D/2. Tudo isto pôde se manter assim porque quem presidia de fato ao processo cultural em sua globalidade era a lógica do inconsciente (D).13 à direita).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 133 va a ser. Ele ape- . articulados. ao mesmo tempo. mas apenas mudaria de sinal.3 anterior). Pode-se constatar facilmente que isto funciona para todas as culturas. Isto não traz nenhuma inconsistência em virtude de que se tratou sempre de desejo por algo igual ou inferior ao ser-dialético (I/D). Constata-se sem dificuldade que a simetria global se recompõe à perfeição tão logo removamos aquele movimento hipotético”. entretanto. ou seja. pois seria a única “seqüência de movimentos” admitindo um quarto elemento (figura 13 à esquerda). inclusive para a Modernidade.3. O mais espantoso. ao contrário de todas as culturas anteriores. ocorre quando constatamos que um hipotético desejo da cultura qüinqüitária (I/D/2) pelo ser-sistêmico ou objeto científico calculado (que se revelara à lógica formal D/2) viria quebrar toda a harmonia do quadro geral do processo de desenvolvimento cultural. o desejo (D) e seu “objeto” (I/D) não achegam a ultrapassar a lógica qüinqüitária do ser humano I/D/2. cujo desejo vem ser pelo uno-trino (ver item 4. desejo de poder na medida em que uma lógica vinha se apoderar do que fora já pensado por uma lógica menor anterior (ou por ela subsumida). Mas então seríamos obrigados a aceitar que não haveria mais desejo na cultura lógico-qüinqúitária? Ela nada realizaria de relevante. simplesmente por ter afinal coincidido consigo mesma? Nossa resposta seria no exato sentido contrário: o desejo não desapareceria. o que nos parece uma obviedade. agora justificadamente tido por espúrio (figura 4. o que é o mesmo que afirmar que a evolução cultural humana veio se fazendo de modo inconsciente. de modo coerente. de sorte que sua articulação se mantinha.

Terá ele então superado em definitivo seus antigos modos idolátricos (porque desejosos do que era inferior a seu próprio nível onto-lógico) para viver.134 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nas estaria se reorientando. para o que é de fato transcendente (não importa que este exista ou não. deixando de ser desejo voltado para “baixo . pela vez primeira. jamais se poderá sabê-lo com certeza) [58].13 .O desejo na cultura qüinqüitária O homem estará deste modo experimentando um sentimento completamente novo de religiosidade. . DESEJO DE MORTE OU DE PODER HIPOTÉTICO DESEJO QÜINQÜITÁRIO I/D/ 2 DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE 3 D/ 2 I/D/ 2 3 D/ 2 3 4 3 I/D 3 3 3 2 3 3 I/D 3 2 3 2 D 2 D 3 2 I 2 2 I 1 2 1 1 1 Pré-D 2 1 1 2 1 Pré-D 2 2 1 1 Pré-I O Pré-I 1 1 O Figura 4. voltado para o mais alto. pelo mais elevado. a vida autêntica a que fora destinado. para se transformar em desejo apontando para “cima . num sentido que até agora não se lhe tinha ainda revelado. por isso desejo de poder.

dificilmente. Europa Oriental e Extremo Oriente. com maior probabilidade. Malleus maleficarum – O martelo das feiticeiras. 1484.. só por aí. de um recurso retórico com propósitos meramente didáticos. naquele momento.. tornaria mais ou menos óbvia a resposta a essa questão – uma nova cultura estaria. à beira de eclodir no ocidente europeu. mas sem que se necessitasse entrar em pormenores. conseguiríamos atinar em qual das três. onde se mostra a Necessidade de trazer a lume a Verdade sobre Toda a Matéria. De qualquer . QUESTÃO XIV: A Monstruosidade dos Crimes de Bruxaria. tanto aqui como alhures. iria emergir uma nova cultura. Fazendo apenas um corte no tempo lá por volta do ano 1300 ou 1400 e comparando Europa Ocidental. um retrospecto histórico judicioso. É óbvio que não é este aqui o caso. e pensamos que nunca o foi.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 135 5 A Modernidade – das origens à globalidade etnocida QUESTÃO VII: Se as Bruxas são capazes de Desviar o Intelecto dos Homens para o Amor ou para o Ódio. Entretanto. mas há ainda muitas outras gravíssimas QUESTÕES. Algumas vezes fomos acusados de fazer previsões a posteriori. valemo-nos apenas.

desfazendo-se assim de uma diferença já conquistada (seu passado greco-romano.136 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO modo. Só não é justo que depois exclame. Contudo. Isto se deveu ao fato da invasão islâmica ter ocorrido antes que a cultura cristã trinitária (Patrística) tivesse tido tempo suficiente para levar sua raízes a uma maior profundidade. D). resistindo. há como se fartar noutras passagens do presente trabalho. até simplória. pode nos ajudar na compreensão do que aconteceu: ainda não completamente estabilizado. da lógica do Deus Uno-Trino (lógico dialético. e que a partir do ano 700 veio ser palco da invasão semítica islâmica. meio psicológica. tal como uma cultura trinitária homóloga deve tê-lo feito no extremo oriente. que ampliara sua presença no Ocidente com a invasão. dali mesmo onde se instala. a dar exatos dois passos culturais atrás. e. com Constantino. Uma metáfora meio mecânica. numa fase de instabilidade e de mudanças aceleradas. pode se desenvolver e tempos depois estimular decididamente o . I). De certa maneira isto representava uma tentativa de obrigá-la a um recuo. O semitismo judaico. e a Europa teria simplesmente se volatilizado. quem quiser previsões futurológicas para valer. o Ocidente foi violentamente puxado para trás e reagiu atirando-se com todo o ímpeto para a frente. A força da cultura greco-romana não tinha ainda se apagado inteiramente da memória coletiva. não se retirou in totum. nos interstícios feudais. como deveras aconteceu. Fora o Islã bem sucedido. como certa feita fez um famoso físico e cosmólogo brasileiro: “Ah!!! Mas nada disso que você diz sobre o que virá daqui para a frente está ainda empiricamente comprovado!” Não devemos esquecer que a Europa Ocidental fora cristianizada no início do século IV. se tornado mera província peninsular asiática. I/D) à lógica do Deus-Uno (lógico transcendental. iria ingressar. como boa parte dos muçulmanos.

consumista. Num primeiro momento. . Como é impossível o recuo cultural. após. a única opção para a Europa era mesmo partir para a edificação de uma cultura cínica lógico-formal.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 137 processo de superação do cristianismo trinitário. a semítica (I). e. que mantêm ainda bem vivo este legado arcaico da Modernidade ao se quererem modernos (D/D) e herdeiros diretos e exclusivos dos gregos (D). a novidade será a de começar pelo óbvio. do ponto de vista apenas lógico. Nesta segunda parte. são os alemães e parcialmente os latinos europeus. Ao contrario dos anglo-saxões. acabou tomando um sentido extrafamíliar. O confronto islâmico/europeu. que no caso seria a volta à cultura greco-romana (D). dá-se a aristotelização da teologia cristã (Escolástica) e a constituição dos estados nacionais. Quem ignora o que isto quer dizer? Este capítulo apresenta uma primeira parte onde se procura detalhar os antecedentes da Modernidade a partir justamente das invasões muçulmanas e uma segunda parte onde tratamos diretamente da geração da Modernidade e de suas duas grandes etapas históricas. de outro. uma nova cultura de base científica eclode na Europa. marcadas por seu modo econômico produtivista e. ambas da família das lógicas identitárias). O item final será dedicado ao dramático papel das culturas semíticas na passagem à cultura nova. isto é. sim. reativamente. assim. à frente os franceses. o surgimento do sujeito liberal. com o curso da luta e com o peso da língua e doutras tradições greco-romanas. pelos alicerces – a caça às bruxas – e só depois. depois. a indo-européia (D). uma disputa entre famílias lógicas – de um lado. se afigurava a princípio uma disputa intrafamiliar (lógica da identidade I versus lógica dialética I/D. tratar da construção aparente: a ciência e o sujeito liberal a ela sujeitado. Contudo. calculadora do mundo (D/D).

(Figura 5. e assim o fizeram os gregos e seus vizinhos. No caso. vale a pena que relembremos rapidamente velha lição sobre os antecedentes da geopolítica. uma ilha enorme. a Europa e a África. Foram estes que agindo desta forma impediram a consecução do propósito geopolítico dos poderosos atlantes – fechar o cerco ao Mediterrãneo. o grande mar daquele mundo era mesmo o Mediterrâneo. Entrementes. pequenos povos. 5. como diz o nome. qualquer império. não importa se realidade histórica ou surrealidade mítica! No Timeu de Platâo (2) lemos que havia. até o Mar Tirreno (sudoeste da Itália). ainda maior do que toda a Ásia – a Atlântida – acompanhada de muitas outras pequenas ilhas que facilitavam a comunicação entre ela. não importa sua potência. tão poderoso que além de seu próprio espaço insular dominava também a Europa. a oeste e relativamente próxima das colunas de Hércules. os atlantes não tinham porque fazer exceção. poderiam resistir-lhes. desde que internamente unidos e decididos pela liberdade. do Estreito de Gibraltar ao Egito. um mar em meio à grande vastidão de terras.138 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Antes de abordarmos a questão dos antecedentes da Modernidade.1) Como o Oceano Atlântico Norte praticamente não existia. e o norte da África. Em tais circunstâncias. Antecedentes da Modernidade [1] . Na ilha formara-se um magnífico império.1. só alcançaria a onipotência (e de quebra a prepotência) conseguindo fazer daquele único grande mar interno um mare nostrum.

nem provocaram terremotos providenciais com enormes lajes caindo sobre os opressores. é que os deuses decidiram fazer afundar a Atlântida. em todos estes acontecimentos ficaram eles apenas assistindo lá de cima. não importa quanto tenha sido seu grau de consciência ou intencionalidade. por isso. não poderia ter tido outro desiderato. O Islã. sem mover uma palha: não lançaram pestes. não fizeram mares ad hoc se abrirem e fecharem. Na medida em que teve elã e forças para assim atuar. de cabeça para baixo. o de tentar implodir a cristandade. Os pequenos povos tiveram que se virar sozinhos. não seria nada plausível esperar que eles se dispusessem a fazer alianças com criaturas tão pouco confiáveis. isto é. logicamente tardio e radical [3]. que há muito assumira foros intra-semíticos. depois de tudo decidido. Sua grande estratégia geopolítica repetiu. aquela mesma dos romanos: a . Bem. talvez para se divertirem. senão.Estratégia do Império Atlante Como para os gregos os homens são exatamente o outro dos deuses. acreditamos nós. estava também ensejando um ajuste de contas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 139 Figura 5. vamos aos fatos. prometéicos. Agora. valendo-se apenas de sua unidade interna e de seu amor à liberdade.1 . e era tanto ansiado [4].

Frustava-se também sua tentativa etnocida de implodir a cristandade. Dizemos isto no sentido de que os romanos partiam para fazer e fechar o cerco a partir da Península Itálica e o Islão pretendeu fazê-lo chegando. daquela mesma península. justamente. do lado esquerdo da Europa. seu grande êxito na referida estratégia só é alcançado com a tomada de Constantinopla (1453). por cima. Frustava-se desta sorte (boa ou má. tendo eles estado já bem próximo de realizá-la. por volta de 1500. algo de relevante já acontecera poucos anos antes da Batalha de Poitiers. (Figura 5. à esquerda e direita. conquanto que. Adentram a Europa por esta segunda porta e só são detidos ao sul da Alemanha. em tempos desencontrados. Por não haver retrocessos. que veio pôr fim ao Império Bizantino. Pela direita. Tudo corria bem e célere pela esquerda até que foram derrotados a oeste da França por Carlos Martel na Batalha de Poitiers (732). também por baixo. é aí que entra. a não ser que alguém se assuma. conforme o lado) a estratégia muçulmana de envolvimento do Mediterrâneo.2) Os muçulmanos atravessam o Estreito de Gibraltar e logo ocupam toda a Península Ibérica destruindo. a expectativa de provocar um retrocesso da História.140 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transformação do imenso Mediterrâneo num mare nostrum. a famigerada figura de Abraão à Santa Clara [5]. não há vingança plena na História. por um e por outro lado. sujeito de família (família lógica identitária/temporal ou lógica diferencial/espacial) Entrementes. e com ela. em 711. o reino visigodo que lá se instalara. como bem sabem os sicilianos. .

Dali parte para suas razias até que é perseguido e cercado em seu próprio refúgio. Os mouros chegam a invadir a caverna.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 141 Estratégia romana Estratégia muçulmana Figura 5. atingindo fundo os invasores. Deste foco de . um príncipe visigodo. mas um providencial tremor de terra faz desabar parte da montanha. Pelayo.2 – Estratégias romana e islâmica Em 718. cristão convicto. mas deixando incólumes Pelayo e os seus soldados. resiste à invasão muçulmana fazendo da caverna de Covadonga seu quartel-general.

vão juntos formar a Espanha moderna. por conseqüência. sobretudo. por eruditos judeus. mas boa parte dos judeus que os acompanhavam ficaram nos interstícios extra-feudais [6]. armas. Henrique da Borgonha vem se aliar ao Reino de Leão na luta contra os sarracenos. Pelayo torna-se rei de Astúrias. unindo-se posteriormente a Aragão e Castela.142 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO resistência é que parte o processo da reconquista da Península Ibérica. vital para a constituição da Europa moderna. um mercado financeiro acoplado ao sistema periódico das feiras que se expandia à sombra da miríade de castelos feudais. se comparada com a da cultura de mesmo nível lógico no Oriente. que se lhe torna possível promover e acelerar a formação – pela força de dinheiro. recebendo. Textos aristotélicos trazidos pelos árabes começam a ser traduzidos do grego para o latim. conseguem estruturar. ameaças e núpcias –. Os mouros são por fim expulsos do ocidente europeu em 1492 numa longuíssima guerra. e este. o condado de Porto Cale. pode-se mesmo dizer que de vida curta. ditando a derrocada do cristianismo lógico-trinitário (I/D). como o artesanato de calçados. futuro rei do Porto Cale independente. a cartografia. do mercado financeiro associado. durando mais do que 700 anos. Ainda no ano de 718. Isto irá liquidar com o poder absoluto político/cultural da Santa Sé. Casa-se com uma filha do rei de Leão. a medicina e. já a partir do ano . com base em sua sólida unidade cultural. por seus bons serviços bélicos. No curso destas lutas. em boa parte. nosso imenso Portugal. reino que se expande vindo depois a chamar-se Reino de Leão. É nesta condição de marginalidade que pequenas populações judaicas se preservam e desenvolvem atividades que lhes serão típicas. de cuja união nasce Don Afonso Henrique. É tal o desenvolvimento destas feiras e. dos estados nacionais europeus modernos.

fazer eclodir na Europa a Modernidade. não se deu em razão de terem as forças produtivas alcançado um certo patamar de eficácia. saberá aqui mesmo logo adiante. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso . 5.Ciência. sujeito liberal e caça às bruxas O surgimento do processo de acumulação.1. o que permitirá melhor compreender seu caráter de “genérico” (sexuado) e o porquê da existência dos dois modos sucessivos de suas correlatas formações econômicas – o capitalismo produtivista e o capitalismo pleno ou consumista. tornara-se possível.2. se não.2. Em meados do século XIII. aproveitando agora a direção do vento – direção em que irreversivelmente ao homem desvelase sua própria lógica –. Santo Alberto Magno e São Tomás de Aquino procedem à irreversível racionalização ou aristotelização da teologia cristã. ganhos de eficiência no aparelho produtivo: este meio foi a técnica sistema- 5. vale dizer. O que veio a seguir já se sabe [7]. Em suma. daí. um dos pilares do modo de produção capitalista que. à lógica formal ou científica D/D (do Deus desempregado. de forma regular e persistente. do ponto de vista econômico. Se não fora possível pela força fazer implodir (voltar ao Deus-Uno) o cristianismo trinitário. é a intervenção semítica que faz a Europa ocidental indo-européia passar tão rapidamente da lógica da simples diferença D (do politeísmo greco-romano) à lógica dialética trinitária I/D (do Deus Uno-Trino) e. com um pouco de argúcia cultural e grandes fundos financeiros. do Deus Mercado). caracteriza a Modernidade. o epílogo está pronto para quem tiver coragem de decifrá-lo! Nestas considerações preparatórias vamos expor nossa visão do processo de constituição lógica da Modernidade. mas sim por ter sido encontrado um meio de injetar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 143 1000.

um péssimo exemplo de explicação [8]. ainda que em parcelas escalonadamente diferidas – o empresário eleva sua pedra. O argumento marxista que atribui o advento do capitalismo ao fato de se ter atingido um determinado patamar de produtividade se nos afigura um ótimo exemplo da aplicação da “lei de transformação da quantidade em qualidade”. retorna ao sistema produtivo na forma de mais instalações e equipamentos. E para que possa se dizer minimamente esperto. hoje. só renunciam a consumo quando estão de regime!) – que. em boa medida. Para que tal não aconteça existe uma única solução: que – des- . de maneira privada e necessariamente autoritária. se mantidas estas condições gerais. como nas corporações medievais. conseguir de novo se apropriar dos excedentes. porque o não consumido. a vê inexoravelmente despencar escada abaixo. “seus” trabalhadores. Ora. novas competências técnicas adquiridas. o “excedente”. terá que fazê-lo numa proporção sempre superior àquela do período precedente [10]. Sabemos que o capital é o “excedente” [9] apropriado – no capitalismo. mas como um acontecimento exógeno/contingente à esfera propriamente econômica. em períodos subseqüentes. era drasticamente reprimido por severos e até cruéis regulamentos. isto é. degrau após degrau. só pode ser criado às expensas do consumidor (capitalistas. Entretanto. quando isso era ensaiado. logo. Muitas vezes. como é óbvio. e tal como Sísifo. Acrescentaríamos que melhoria técnica sempre houve. isto é. Noções muito elementares de contabilidade de custos bastam para compreender isto e também que um tal processo só pode ter continuidade se o empresário. acréscimo de estoques de matéria-prima e de produtos acabados. o fato é que tudo isso acaba sendo integralmente devolvido (a preço de custo) às massas consumidoras na forma de depreciação. acabará por matar à míngua sua galinha dos ovos de ouro.144 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ticamente alimentada e aprimorada pela ciência.

Por isso. poderia evoluir para acompanhar as vicissitudes que sempre o rio da história [12] nos traz. por conseqüência. concreto ou simbólico. lógica do terceiro excluído ou da dupla diferença [11]. Não é difícil compreender que por trás do aumento de produtividade esteja. Assim.3. em princípio. intervalar e por isso sujeitado ao processo. a matemática e uma parafernália de instrumentos de medida capazes de alimentá-la. prático ou teórico. no curso do tempo. vale dizer. esgotável/calculável. uma lógica: no caso do saber científico a lógica clássica. como esforçamo-nos por ilustrar na figura 5. a melhoria das técnicas e. Voltando ao mito: o empresário capitalista para sobreviver precisará. por trás desta. tem como característica essencial o aprisionamento do que se considere digno de ser pensado num “universo” por tácita convenção pré-determinado. necessariamente. Em termos bem diretos: Capitalismo é o modo de produção próprio à Modernidade. bem se sabe. para que uma cultura científica possa sobreviver. que tem como seu núcleo exclusivo e irredutível a ciência e sua lógica calculadora do mundo. rolar sua pedra sempre um pouquinho mais para o alto. para recompor um novo sistema em substituição ao anterior. ano após ano. . tanto quanto. e entre um e outra. entre um sistema e outro. Correlato a um saber há obrigatoriamente um modo de pensar. nenhum sistema. assome e de pronto se dissolva um sujeito transcendental.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 145 contada a pequena taxa de crescimento da população ativa – a produtividade do trabalho social médio cresça de modo continuado e compensatório relativamente ao acréscimo da taxa de exploração dos trabalhadores (mais-valia. é preciso que. diriam os marxistas). a ciência. entretanto. bastante potente. A lógica clássica.

a potência mediadora do clero burocrático – interpondo-se entre o Céu e os demais entes terrenos – .4) Todo este edifício. (Ver figura 5.3 . mas de modo algum um autêntico self made man [13]. ele está inapelavelmente acorrentado ao processo geral de instituição da racionalidade: a rigor é um sujeito sujeitado à nova cientificidade que vinha assumir o governo do mundo. a face aparente risonha ou afirmativa da Modernidade. a seguir. Ciência e sujeito liberal consciente – sujeito fordiano para os amantes do cinema [14] – passam a constituir. não se sustentaria sem sólidas fundações.O sujeito intervalar como condição de sobrevivência do ser-sistêmico Costuma-se atribuir a Abelardo a iniciativa de contrapor a racionalidade (moderna) ao “argumento” de autoridade de tanto sabor e prestígio na cultura cristã medieval.146 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SUJEITO LIBERAL INTERVALAR I SISTEMA SISTEMA RIO HIPERDIALÉTICO Figura 5. que suprime. Com o movimento protestante. tornando imperiosa a questão: se no verso estavam a ciência e seu sujeito li- . então. este sujeito é livre em relação aos sistemas (ou à ciência). se consolidar política/espetacularmente com a revolução inglesa do começo do século XVII. contudo. Como mostra a figura 1. ou de modo significativo minimiza. o sujeito liberal intervalar pôde tomar dimensão social para.

o que constituiria o reverso de tamanha magnificência? E. Ademais. o mais intrigante: como poderia toda esta azáfama fundacional acontecer e ter passado até hoje completamente despercebida? INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA Figura 5. no entanto o consideramos um episódio histórico anômalo.A face aparente ou afirmativa da Modernidade Todos nós temos alguma informação acerca do longo processo (instrutivo e punitivo) de caça às bruxas. aproximadamente entre os acmes de Copérnico e Galileu. no reverso. E ainda. que ele corre em paralelo com a institucionalização do pensamento científico. Se era verdade que no verso tinha-se a instituição da ciência e seu sujeito liberal intervalar. entretanto. subterrâneo. sintoma desesperado de uma cultura que desmorona. capítulo derradeiro de uma Idade de Trevas”. simplesmente esquecemos que aqueles episódios dramaticamente repressivos ocorriam justamente após a racionalização (aristotelização) da teologia cristã programada por Santo Alberto Magno e tão bem executada por São Tomás de Aquino.000 mulheres teriam sido torturadas e . Deixamos de notar. sobretudo. mais do que 100.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 147 beral intervalar. que é neste mesmo período que se consolida a maioria dos Estados europeus modernos. Neste processo de caça às bruxas.4 . adiantava-se o penoso trabalho das fundações: o resfriamento a ferros e fogo da feminilidade.

a melhor forma de apequenar o desejo no homem era sufocar o desejo na mulher. inconsciente/lógica da diferença. história/lógica dialética. desejo de reconhecimento. o sujeito liberal/lógica transcendental – era preciso que. do que “esfriar” as mulheres – e isso esteve sempre bem posto nos propósitos e discurso protestantes. se recalcasse a feminilidade – de um lado. consumista e etnocida Na essência do capitalismo está pois a negação do desejo inconsciente e da história.148 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mortas [15]. do outro. Dava-se.Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno.2. calvinistas. particularmente. Essas duas .5) INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA SUPERFICIAL PROFUNDO RECALQUE DA FEMINILIDADE CAÇA ÀS BRUXAS Figura 5. Para que os homens se concentrassem no cálculo de todas as coisas do mundo nada de mais funcional poderia haver. no jargão lacaniano [16]). na circunstância. ciência/lógica clássica.2 . 5.5 .hierárquica da Modernidade A rigor. lógica dialética e lógica da diferença (ou igualmente lógica do significante.Processo de estruturação lógico. isto fora de certo modo inevitável: para ressaltar a masculinidade e suas lógicas – de um lado. do outro. Como o desejo é desejo de desejo. concomitantemente. (Ver figura 5. nada mais nada menos. E o processo inquisitorial de caça às bruxas veio exatamente para concretizá-lo. que o recalque da história (sentido/espírito) e do desejo inconsciente e de suas lógicas associadas – respectivamente.

a rigor. (Ver figura 5. mero processo de acumulação de capital. sim. Num primeiro momento o capitalismo faz retornar a história. mas pugnando pela substituição “corretiva” do sujeito liberal pelo sujeito coletivo. os determinantes profundos do modo de produção próprio à Modernidade. no entretanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 149 posições lógicas femininas. Foram eles os primeiros a aceitar a ciência. já degenerada em história calculada.6 – A volta da história como progresso Basta observarmos o que é hoje uma empresa: ela é norteada prioritariamente pelo cálculo da taxa de retorno de capital. recalcadas. O maior mérito do marxismo está na sua acuidade para explicitar. Propunham uma solução. propondo-se ela mesma como exemplar. representado este por um poder simbólico/absoluto. contudo. Suas características óbvias e decantadas – a racionalidade objetiva e o espírito individual de iniciativa – não seriam nega- . O “mal-estar” provocado pelo capitalismo produtivista foi a razão mesma do surgimento da ordem dos jesuítas.6) SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CIÊNCIA HISTÓRIA Figura 5. pela metade. Que se busca com isso? Tão apenas calcular o futuro. não conseguiam fazer uma crítica objetiva mais profunda da nova realidade científica/econômica que surgia sob seus olhos. reduzi-lo a progresso [17]. desnaturada. conquanto que antes censurada. não se apagam ou desaparecem: de um modo ou de outro. sempre acabam voltando.

desde seus primórdios ao início do século XX. (Ver figura 5. mas. tinha uma causa oculta e imanente – o processo de acumulação de capital. Contudo. como vimos. agora exaurido em suas reservas estratégicas (afora um bilhão de chineses trabalhando 10 ou mais horas por dia a 50 dólares por mês. a Guerra Fria é a oportunidade para a sua vitória definitiva. mas primordialmente da capacidade de manipulação do imaginário das grandes massas pelas “técnicas” de marketing. não vem apenas do ímpeto do processo de acumulação. assim. O fascismo. pronto e acabado. o capitalismo viu-se compelido a lançar mão de sua maior reserva estratégica – o desejo recalcado das massas [18]. Somos de opinião que o capitalismo de marketing ou consumista já se anunciava teoricamente com os marginalistas austríacos [19] três décadas antes do fim do século XIX. e que nela prevaleceu. no entanto. tomou fôlego no início do novo século com a produção automobilística norte-americana. Configurava-se. experimenta um certo refreamento com a Grande Depressão.150 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO das. O desejo inconsciente teria sido afinal domesticado e integrado à economia. Como resposta às pressões revolucionárias e reformistas que se avolumavam por todo o século XIX e mais se aguçam nos primórdios do século XX. E é isso que vemos hoje por todo canto. O dinamismo da economia atual não vem mais da produção. . finalmente.7) Agora se pode ver com maior nitidez as razões da derrelição das propostas comunistas e socialistas. o modo de produção próprio à Modernidade. o mais importante para a compreensão de tudo aquilo que surgia. uma reação premonitória desesperada ao domínio iminente do capitalismo de marketing. Podemos denominar capitalismo produtivista ou de simples acumulação a este primeiro modo de produção vinculado à Modernidade. um presente inesperado que lhe fez o PCC). fez às vezes de grande prova de passagem.

uma empreitada cultural concreta e metaforicamente sexuada: ela estabelece a dominação socio-lógica do masculino sobre o feminino.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 151 A esquerda não fazia uma crítica equivocada do capitalismo. mas uma crítica pela metade. o que se fez através do processo de caça às bruxas. recapitulando por isso o “mito” de que a sociedade se teria constituído pelo “rebaixamento” do feminino (natureza). não são fenômenos assim tão .. justamente quando os homens (cultura) impuseram em seus próprios bandos a diferença clânica. Como ficou demonstrado. só conseguindo reagir com retardo – seu inimigo tornara-se já outro. A racionalidade generalizada e o correlato desencantamento do mundo. como todo edifício. Vimos que a Modernidade começa. era o próprio Marx que nos advertia que nenhuma formação social poderia ser de fato derrubada antes de ver esgotadas todas as suas potencialidades realizadoras. pelas fundações e pela construção e alocação de seus porões. a Modernidade foi e continua a ser. ademais. o que transformava as mulheres em objeto paradigmático da troca. pré-condição formal da instituição da proibição do incesto/obrigatoriedade da exogamia. que segundo Max Weber constituiriam a essência da Modernidade. CAPITALISMO PRODUTIVISTA SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CAPITALISMO CONSUMISTA DESEJO DOMESTICADO PELO MARKETING CIÊNCIA SUJEITO LIBERAL CIÊNCIA HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL HISTÓRIA DESEJO HISTÓRIA Figura 5.Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno ou consumista É boa a hora para procedermos a um resumo do que se disse até aqui. no âmago.. ou seja. pelo esfriamento à força da desmesurada” sexualidade feminina.7 . Aliás. havendo passado por uma profunda metamorfose.

o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade: segundo a hierarquia. mas não supresso. Fica assim estabelecido. Racionalidade sim.8) O feminino. de maneira irretorquível. apenas na superfície. intervalar e sujeitado da ciência [20].8 . transmudada em progresso ou processo de acumulação de capital. como todo recalcado. como história censurada. de um lado. (Ver figura 5. depois. como desejo domesticado pelo marketing. conforme ilustra a figura 5. SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO Figura 5. o masculino (ciência e consciência) em cima e o feminino (história e inconsciente) embaixo.Estrutura lógico-sexuada da Modernidade com seus respectivos saberes Quando Marx denuncia o processo de acumulação de capital como o verdadeiro motor do capitalis- .7 à direita. retorna para se integrar à funcionalidade da formação cultural: primeiramente. de outro lado. transmudado em demanda agregada – como gostam de chamá-lo os economistas –. desde que antes se tivesse bem trancafiada em seus obscuros porões a “irracionalidade feminina.152 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO gerais e muito menos tão profundos como ele acreditava. O advento da ciência e da organização burocrático/racional foi apenas o primeiro passo na afirmação da lógica do masculino que estava já determinada a um passo complementar – a constituição do sujeito liberal como sujeito apropriado. O protestantismo é sua instituição difusa e a revolução liberal do século XVII na Inglaterra sua consolidação político/espetacular.

o sujeito liberal. rebaixado). Em suma. também. toma como bandeira revolucionária a edificação do socialismo científico. Chama sua concepção teórica materialismo histórico (em contraposição a um pressuposto idealismo histórico de seu antigo mestre Hegel). depois. é aquele capaz e apropriado ao desvelamento do ser-histórico. Que seria então da consciência e da liberdade? Recusado o cogito. onde justamente residiria o núcleo duro do capitalismo. o ser transparente a si próprio. com bem maior propriedade). quando passa da teoria à práxis. o que traduz uma impossibilidade lógica. em terrorismo de estado. e que destarte degenera [21]. Depois de tantas e profundas críticas. reivindica para seu pensamento o caráter genérico da cientificidade e. apenas o sujeito liberal.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 153 mo (da primeira fase do modo de produção próprio à Modernidade. pode ele descobrir. alia-se à ciência. Assim. sobejamente demonstrado por Hegel. Marx rejeita coerentemente as filosofias da consciência. para nossa perplexidade. embora dele melhor fosse nem falar. em especial Descartes e Kant. tenta também inverter a direção de subordinação em que se encontrava o sujeito liberal. vale dizer. só podia fazê-lo valendo-se do pensar dialético que. que facilmente se degrada em oportunismo. assumindo seu . Em termos filosóficos. à política propriamente dita. em contraposição ao socialismo utópico ou idealista de seus precursores franceses. individualista. Paradoxalmente. propõe-se tão apenas desalojar o sujeito já sujeitado da ciência. entretanto. o inconsciente. ainda que pela metade. diríamos. Na verdade. e colocar em seu lugar o ser coletivo ou corporativo. era desalojado (em verdade. A ciência ficava mesmo onde estava. a face reversa ou o recalcado em que se apoiava o modo de produção moderno. ele se vê compelido a pôr em seu lugar o ser transparente à História: a liberdade passa a ser tão apenas consciência da ou transparência à necessidade histórica.

se propõe apenas à permuta do sujeito da ciência. ou seja. No fundo. o que propunha o marxismo não era mais que substituir a crucial problemática masculino/feminino pela já gasta problemática epistemológica (marca característica do período moderno da filosofia) de cabeça para baixo. foi o fato de que. Contudo.9) É quase inacreditável que a psicanálise acabasse seguindo rumo perfeitamente simétrico especular ao marxismo. a Modernidade per- . Num primeiro movimento. de uma verdadeira revolução (cultural) alicerçada na crítica da cientificidade. ao invés de uma real subversão da Modernidade. Tudo isto acontecia como um quase natural desdobramento da domesticação. o capitalismo sem jaça. Foi deste modo que um autêntico ímpeto revolucionário transmudou-se numa força culturalmente reacionária. um a um. a psicanálise vem precisamente completar o processo de desvelamento do recalcado constitutivo da Modernidade – o inconsciente. mas na sua proposta de ação concreta. Ela surge no momento histórico em que o capitalismo atinge sua plenitude lógico-estrutural com a mobilização de sua grande reserva estratégica – o inconsciente das grandes massas. por atacado. objetivo (material)/ subjetivo (ideal).154 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lugar o sujeito coletivo. Era o advento do capitalismo de marketing ou consumista. de outro vinha precisamente para encobrir o caráter sexuado da Modernidade. O marxismo teve de fato o grande mérito de dar a partida ao processo de desvelamento dos porões ou do reverso da Modernidade. à construção do cientificismo perfeito. viabilizada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e das “técnicas” de propaganda. ainda mais grave. do vigor desejante dos imaginários. (Ver figura 5. Também com isso. ao desvelar de um lado.

não iria propor como solução uma revolução social. ego e superego. se via então transformado em máquina exterminadora das demais culturas [23]. de vetor de universalização de uma cultura [22]. pela de impiedosa etnocida. com propriedade. Este último era a presença legal/ repressora da civilização (cultura) internalizada no próprio psiquismo. o indivíduo como ser de desejo. DES-SEXUALIZAÇÃO MARXISTA MARXISMO (SOCIALISMO CIENTÍFICO) CIÊNCIA SABER OBJETIVO OU MATERIALISTA SABER SUBJETIVO OU IDEALISTA ESTRUTURA SEXUADA DA MODERNIDADE PSICANÁLISE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO DES-SEXUALIZAÇÃO FREUDIANA PSICANÁLISE (CIENTÍFICA) CIÊNCIA SABER DA DIFERENÇA SABER DA IDENTIDADE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL FILOSOFIA DIALÉTICA Figura 5. de uma problemática do ser-subjetivo. até então um modo de dominação econômica. como o marxismo. O imperialismo. O grande problema é que o próprio Freud não abria mão de reivindicar o estatuto de ciência para a psicanálise (ao mesmo tempo que remoía e resmungava. hiperdimensionando a incompreensão da . um a um. e põe a nu o processo pelo qual se dava a estruturação do psiquismo – segunda tópica: id. no caso.9 .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 155 dia o caráter desbravador próprio de toda cultura e assumia o caráter civilizatório/conservador.A sub-reptícia dissolução do caráter sexuado da Modernidade Freud desvela o inconsciente. a Modernidade trocava sua condição de feroz opressora. mas. ou seja. dos indivíduos. Tratando-se. a cura.

uma segunda vez. Com isso. de um lado.156 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO comunidade científica). como já fizera Marx. donc je suis où je ne pense pas [24] e. o cartesianismo lógico-transcendental: Je pense où je ne suis pas. especulativas ou materialistas (especialmente Hegel e Marx). [25] Em suma. sem descuidar de simultaneamente declarar guerra à filosofia em duas frentes – ocidental e oriental – às filosofias transcendentais ou da consciência (especialmente Descartes e Kant) e às filosofias dialéticas. como fazia o marxismo em relação à problemática epistemológica) e ao mesmo tempo trágico. a Modernidade. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade. característico de seus primórdios pré-socráticos: o pensar do mesmo ou do um (lógica da identidade) contrapondo-se à lógica do outro ou do múltiplo (lógica da diferença). se diria melhor) o sujeito liberal ou cartesiano e pôr o sujeito inconsciente em seu lugar. de outro lado. se alia à ciência contra a filosofia a fim de desalojar (rebaixar. ao invés de se estruturar lógica e originariamente como masculino/feminino. mas sem pequenas fobias a leituras filosóficas. Freud. Chega mesmo a cortar pontes que se sabe já antes transitadas. um declarado radical freudiano. dilui-se. Visa.9) O grande paradoxo: a psicanálise. é extremamente incisivo em seus ataques. na verdade. mas às . (Ver uma vez mais a figura 5. Velada por uma problemática ontológica. o hegelianismo lógico-dialético: A Aufhebung é um desses bonitos sonhos da filosofia. agora o fazia como diferença/ identidade. sexualizava o indivíduo desde criancinha. A problemática humana assume assim um caráter ontológico (também de cabeça para baixo. Lacan.

recuperando sua integridade [27]). velava o real caráter repressivo da Modernidade. posto que sua superação só se poderá dar pela sublevação do recalcado. não como apenas não-todo. perdia. [26] Deste modo. Aqui.. seu fim estará além de si mesma: ela significará.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 157 expensas da sexualidade sócio-cultural. mas uma insubordinação e. Não haverá uma inversão de mando. do feminino (inteiro e não despedaçado. Seguindo o próprio Freud.? A nosso juízo. e a estrutura econômica da sociedade também influencia a quantidade de liberdade sexual remanescente. desta sorte. a verdade parcial sim. de repente. como já sabemos. Além do mais. É da maior importância que fique bem à mostra o caráter sexuado da Modernidade. nem sempre alcançando a exata medida. masculinas e femininas. a necessidade . A liberação do feminino será apenas meio. Não foram raros os que chegaram a sentir.. seu elã subversivo para se tornar uma dentre outras forças reacionárias. a re-sexualização do ser-social é uma condição necessária para a superação da Modernidade. visto que uma grande quantidade de energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem que ser retirada da sexualidade. no caso. sim. como sexualizar algo sem retirar (ou trazer de volta) a necessária energia de algum outro lugar.. as mulheres logo se opõem à civilização e demonstram sua influência retardante e coibidora .. crente no princípio da conservação da “energia sexual”. a real liberação da humanidade. suportada pela síntese simultânea de todas as lógicas de base. não há como negar. como se depreende do próprio texto freudiano: Nem todas as civilizações vão igualmente longe nisso. a civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica. mas articulada à verdade total e parcial. o advento de uma cultura nova.

e o uso torto maldoso dos meios de comunicação de massa. por essência). Um dos primeiros foi Reich. aquela com que estamos há muito acostumados – marxismo/fascismo. Ora. propõe como solução a revolução social. o que o fez associar-se (pela metade. ou. desejaríamos deixar uma palavra acerca da simetria especular marxismo/psicanálise que vem aqui deslocar. porque ele sabe bem criticar a ciência. mas não consegue vislumbrar qualquer possibilidade de transcender à sua própria cultura (científica. mas prefere descarregar seu ressentimento contra o marxismo. em pleno estrado magistral. esquerda/direita. Heidegger. agora elevada ao quadrado. quem seja o verdadeiro inimigo. coerentemente. pois. concordamos que de maneira até bem surpreendente. seu vizinho. de vista. mas sem chegar entretanto à completa compreensão do papel da ciência na formação cultural moderna. preso entre instrumentos. Afirmamos acima a “perfeição” da oposição Marx/Freud. ao optar pelo sujeito coletivo. este sim. de modo equivalente. Bem menos equivocada.158 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de se restaurar a integridade subversiva do ser-feminino. a psicanálise. instalações e grades. com o que se vê inapelavelmente condenado ao imobilismo (ante o desfile desafiador. de articular Marx e Freud numa só compreensão. temporária ou eternamente?) ao fascismo. acabou enquadrado. optando pelo sujeito inconscien- . A posição de Adorno é muito instrutiva. se mostrou a Escola de Frankfurt. quanto ao valor da ciência. de suas alunas peladonas). em especial. se o marxismo. Antes de concluir este item. como também do sujeito liberal. juízo de valor este que nos obriga a mostrar onde estaria escondida a “imperfeição” da oposição esquerda/direita. não perde. é um crítico acerbo da ciência e da técnica. isto é. mas pretendendo fazê-lo justamente sob a égide do que era seu comum equívoco – a devoção à ciência. levada ao delírio –.

embora soando um tanto estranho. Como a cultura nova é de natureza hiperdialética (I/D/D). ao mesmo tempo. pronto se depreende que a anomalia do fascismo ou “nacional socialismo está exatamente no fato de ele optar pelo sujeito inconsciente (romântico ou telúrico) e. um a um. pelo menos durante sua etapa fundadora) se confunde com a classe das culturas semíticas. Nossa tarefa. propor como solução uma revolução social. Ela soa deveras paradoxal (como um dia soou a expressão inversa socialismo num só país). pertencente à família lógicoidentitária. a auto-denominação nacional socialismo por si só diz tudo. O título do presente item. somos levados a imaginar que será intensamente dramática a situação e o comportamento dessas culturas nos momentos que irão anteceder à efetiva superação da Modernidade. Não vamos tratar propriamente dos estertores da Modernidade. terão as formações culturais semíticas – as culturas nodais judaica (originária) (I) e cristã patrística trinitária (I/D) e. desconsiderada apenas a cultura paleolítica auroreal (pré-I).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 159 te.. nos acontecimentos que estariam por vir. o caleidoscópico mundo cultural muçulmano (I). pois isto já está feito com bastante detalhes em diferentes oportunidades [28]. à parte e tardio. diz bem o que pretendemos. se vê bastante simplificada quando constatamos que precisaremos nos ocupar apenas 5. portanto. a família das culturas lógico-identitárias (Is) (exclusive o Extremo Oriente. terá coerentemente que propor como solução a cura. Observando bem. Queremos aqui focalizar apenas o papel que.. Vê-se que. Daí. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade . entretanto. e. mas perderia automaticamente tal caráter tão logo nos dispuséssemos a aceitar a existência real e não apenas retórica de um inconsciente coletivo (como bem sabemos fizeram os junguianos) .3.

160 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO com as culturas judaica e muçulmana. Já estamos bem cientes de que a modernidade científica (D/D) [30] não poderia ter sobrevivido e chegado à sua pujança atual sem a instituição de um sujeito (I) intervalar à racionalidade cristalizada. escolha e sabedoria estratégica. por via destas peripécias. é que ela mesma acabou se transformando. por sua localização. distribuição topológica. pois a cultura cristã (patrística ou trinitária). vimos. a cultura muçulmana. O grande drama que vive hoje a família semítica ou identitária – e que dentro em breve terá que vivê-lo ainda mais intensamente –. mas não à cadeia de sistemas que se sucedem. salta à vista. para destarte provê-la de uma prótese vivificante [32]. seu papel é francamente intervalar e tributário [31]. sente fundo esta real ameaça e reage desesperada. a qual. A variante cultural semítica que assumiu este papel foi justamente. com a passagem da fase produtivista à fase consumista. a cultura judaica da diáspora européia ocidental. por motivos que esperamos ter deixado suficientemente claros nos dois itens anteriores. melhor adaptado às circunstâncias históricas sempre cambiantes. praticamente hoje se extinguiu [29]. na sua maior inimiga. é a presença ativa da cultura judaica que viabiliza a Modernidade. de per si. Ora. foi precisamente a característica letal da razão formal que deu ensejo a que uma determinada formação cultural arcaica viesse a ela se acoplar de modo visceral. Afirmamos isto num duplo e grave sentido: a) Sob um ângulo. culturas . já fragilizada. tornou-se compulsivamente etnocida. Ao contribuir decisivamente para a realização da cadeia que o aprisiona. Ele é de fato um sujeito livre em relação a determinado sistema. nesta condição. vive uma ‘justificada’ ilusão de liberdade. capaz de sempre substituir um sistema que se torna obsoleto por um novo.

através de sua formação cínica anglo-saxônica). também no advento do cristianismo (I/D) vimos um racha entre. Porém. de um lado. no advento do judaísmo (I). Moisés e seus partidários. irá renegar a postura prómodernidade de quase um milênio (postura que se enrijece depois da expulsão da Espanha). Deveras. os adoradores do bezerro de ouro. a justa avaliação e análise do “histórico familiar” levam-nos a conjeturar que o mais provável é que o colapso da Modernidade seja precedido de uma cisão profunda no seio do judaísmo. o Holocausto venha a se constituir no fulcro . talvez a maior. desta sorte. É também muito provável que. especialmente na diáspora da América e Europa Ocidental. como a cultura neolítica negra. por outro lado. de um lado. Seriam muitos os caminhos logicamente concebíveis para se chegar à cultura nova.. constatamos um racha entre.. é ela que dá sustentação à Modernidade. cujo significado não teria sido outro senão a servidão voluntária vis-à-vis o racionalismo cientificista (D/D). é razoável esperar que. foram já exterminadas ou vão inexoravelmente em tal direção. o trinitarismo universalista. como a ameríndia do norte. Se isto permitiu. b) Sob outro ângulo. por sua dimensão real e pelo investimento simbólico que vem acumulando. Com estes precedente históricos. impedindo que a própria família cultural lógico-identitária se desdobre em direção ao mais elevado. e de outro. nos contemple com o mais belo de seus frutos: a cultura nova hiperdialética qüinqüitária. uma parte da comunidade. o nacionalismo ritualístico formal fariseu. intensificando-se a crise da Modernidade. fez. e do outro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 161 logicamente mais primitivas. quebrar a hegemonia asfixiante do trinitarismo cristão medieval. á sua própria consumação e. de um lado. e outras que não se cuidarem. a liderança cultural do mundo guinar em favor da família lógico-diferencial (ora dominante.

já agora impossível de ser violada. doravante. onde o outro é ainda o mesmo. o judaísmo pode ocupar o lugar que assim vagava . O papel de maior ou menor proeminência da comunidade judaica reconvertida em marcha para a cultura nova dependerá menos dela do que de quanto e quando outras forças sócio-culturais resistentes à Modernidade tenham conseguido tomar consciência de sua destinação possível e se arregimentar de modo eficaz para a sua consecução. Israel passava a contar com verdadeiros inimigos externos. ao ajudar a empurrar o cristianismo patrístico trinitário (I/D) em direção à escolástica lógico-formal (D/D). Na realidade. tal como fora antes dado . passando a ser considerado menos um crime que um castigo ordenado pelo próprio Deus para punir uma grave falta no cumprimento dos sagrados deveres da Aliança (precisamente a adesão subordinada à Modernidade científica). o povo judeu tinha a opção de. De certo modo. O historicismo tradicional tornavase assim o degrau zero da dialética. independente do tamanho de seus pecados e infidelidades. vivenciá-la também como o caminhar para o eterno. onde vinha operar o deveras outro. esta tensão interna já existe há muito entre os judeus e está precisa e profundamente gravada no conflito entre o historicismo unário tradicional (I) e o historicismo trinitário moderno (I/D) [33]. configurando uma Terceira Aliança. Esta parte da comunidade irá então se juntar a outras forças culturais emergentes. dar oportunidade a que seu historicismo unário se bifurcasse. isto é. só que em estado de falta. Além de vivenciar a eternidade no próprio curso da história.162 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO emblemático desta reviravolta. ficando todo o vir a ser determinado integralmente pela polaridade obediência/rebeldia. como antigamente. Em contraposição se podia agora assumir uma historicidade plenamente dialética. Ele terá seu sentido reciclado.

a comunidade judaica vive uma vida bifurcada. portanto. [35] . que no fundo não visam outra coisa senão impedir que se realize a vontade soberana de seu próprio Deus. por conseqüência. Sob a ótica desta última. em seu livro Zakhor. não pela bigorna do historiador. ainda resiste. os judeus reentraram completamente na corrente da história.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 163 aos cristãos originários. e ainda assim sua percepção de como chegaram ali e de onde estão é freqüentemente mais mítica do que real. A vida bifurcada reflete o conflito entre estes fatos assumidos e o compromisso com a tradicional concepção unária da história. Yerushalmi. podemos estimar sua profundidade pelo peso que a cultura judaica teve e ainda tem na construção do mercado financeiro internacional e na constituição do sujeito da ciência. duas das mais fundamentais instituições da Modernidade. é o fantasma que tanto inquieta e suscita ações preventivas. que. o sucesso mundano seria. apesar de tudo. mas pelo cadinho do romancista. Isto nos dá uma medida da intensidade do drama que representa hoje aquela vida bifurcada. O mesmo autor acrescenta: O Holocausto já engendrou mais pesquisas históricas que qualquer acontecimento da história judaica. mas não tenho dúvidas de que sua imagem esteja sendo forjada. o correlato do serviço que se presta à lógica do inimigo e. em verdade.. Como resultado da emancipação da diáspora e da soberania nacional em Israel. alternativamente interpretável como grave ofensa à Lei. prestes a atrair sobre a comunidade a justa ira divina.. [34] (negritos nossos) A reentrada dos judeus na História é um fato. retrata bem esta forte tensão interna no judaísmo de nosso tempo: Atualmente. O Holocausto não teria sido suficiente.

Muito pelo contrário. esta última assertiva reflete uma profunda intuição. No recém-acabado século XX. escrito ou filmado. [37] Mas não ficam só aí os sintomas. Aqueles que estão alienados do passado não podem ser levados a ele somente através da explicações.. conclui que este será um esforço baldado. os conflitos que em sua primeira metade opuseram as grandes nações européias.. que hoje mais de perto prenuncia este modo de acesso à verdade do ser hiperdialético. desde já se poderia saber. isto nos parece uma leitura simplista. não mais são interpretados de modo alegórico. naturalmente. como se fossem “as guerras de Gog e Magog”. posto que a verdade da nova cultura irá se revelar justamente pela leitura. nos cadinhos dos romancistas. já no século XXI. aquele que opõe os EUA ao “terrorismo” islâmico. não vem para ficar. Yerushalmi percebe bem a concentração de estudos históricos em torno do Holocausto e mesmo sem atinar (ou resistindo a atinar?!) com o verdadeiro significado do fenômeno – um desesperado esforço de destarte subtraí-lo a uma interpretação tradicional unária (mítica?!). pois a imagem daquela grande tragédia estaria sendo cosida alhures. São justamente nossas incursões de certo modo furtivas ao romance [36]. nos referidos conflitos os judeus se encon- . que poderia colocar em dúvida o significado e valor do que ele chama ‘emancipação da diáspora’ ocidental –. uma renovada acepção de leitura. E se lamenta ele com boa razão: O divórcio entre história e literatura tem sido calamitoso para a narrativa histórica em geral e a judaica em particular. como tradicionalmente.164 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pareceria a princípio paradoxal: a nova historicidade hoje dominante.. vale dizer. Não.. necessariamente também de evocação. A nosso juízo. na segunda metade opôs os EUA à URSS e agora.

Tal engajamento nestes eventos precisa ser rápido e intensamente encoberto pelo historicismo dialético moderno para impedir a todo custo a insurgência de interpretações ‘míticas’ tradicionais. ele é tão somente anti-dialético e reage mais fortemente quanto mais se vê ameaçado pelas concepções modernas de historicidade.10). contudo. nesse interregno. A tensão só poderá aumentar. Na concepção unária. como de fato ensaiou a Renascença (século XVI) e depois. o mais que pode acontecer é a desobediência à Lei e o castigo. O tradicionalismo judaico poderia parecer a muitos um anti-historicismo. Não é nenhuma surpresa que a maioria dos historiadores modernos (dialéticos) estejam nas universidades americanas e européias e que esta corrente aparente hoje deter uma posição de hegemonia. o que soaria para nós como um paradoxo. que de certo modo traduz uma capitulação lógico-cultural. que os próprios (pelo menos os maiores beneficiários) tentam dissimular. Podemos entretanto ficar certos de que nenhuma das duas correntes irá prevalecer a médio ou longo prazo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 165 tram bem firmes aliados sempre de um dos lados. Desde que isto está muito bem posto e atestado na Torá. o historicismo alemão do século XIX. até que venha ocorrer uma síntese hiperdialética (I/D/D) que subsuma o historicismo unário da fé (I) e o historicismo trinitário do engajamento (I/D). que não fosse outra vez as mesmas faltas e as mesmas punições? Isto é completamente incompatível com o papel que os judeus assumiram na Modernidade. . (Ver figura 5. forçando a história unária a sair do seu recolhimento e vir se articular com a história universal. Como é possível que a mais tradicional corrente ideológica de uma cultura descobridora da significação da história possa ser anti-histórica? [38] Na verdade. que poderia depois suceder na história. há um processo temporal que vai da Criação a uma Escatologia. abertamente.

a dialética propriamente dita (I/D) seu momento de antítese e. se bem que um pouco entradas já no novo ‘espírito qüinqüitário’.10 – Da “vida bifurcada” à resolução lógico-qüinqüitária A hiperdialética. Hiperdialética.166 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Futura concepção qüinqüitária da História. Estas não são profecias [40]. pode ser considerada como uma dialética das dialéticas. são meras especulações lógicas. antecipada pelo romance “VIDA BIFURCADA” I/D/D I I/D I I/D I Figura 5. afinal. a hiperdialética seu momento de síntese (I/D/D) [39]. já mostramos com detalhes. onde a lógica transcendental (I) é seu momento de tese. .

1. ou um estádio histórico superior. Ernest Cassirer. na realidade. talheres e cristais conservam suas mãos limpas. apenas para ocupar lugar.e a tarefa da filosofia é tornar esse tema audível e compreensível. a religião. Criticam. Não valem mais do que estas cinco linhas. em essência. Agora. é como preferem legitimar. Adorno. podemos identificar três posições críticas em relação à Modernidade. imprecando um contra o outro. Crítica cultural e sociedade O mito. Há os que se alimentam só das sobras e migalhas. a linguagem e até a ciência são hoje vistos como diversas variações de um tema comum . pertence àquilo sobre o qual imagina alçar-se. Introdução . mas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 167 6 Crítica da Modernidade O crítico da cultura fala como se representasse uma natureza intacta. Começamos com a crítica que aí está. a arte. Seu semblante feroz parece assustar o poder que por sua vez simula que ao vê-la treme de medo e ambos. Ensaio sobre o Homem. W. achando que com este prudente distanciamento das baixelas. mas tacita- 6. Nem serão aqui contados. T.

deve-se reconhecer. É o que denominamos ideologia. trata-se da única posição subversiva. na medida em que se dispõe à crítica da Modernidade. só se dispõe mesmo a voltar atrás. ora o uso sócio-espetacular dos meios de reprodução e comunicação. da autenticidade onto-lógica. com fé e engajamento. conseguem destarte afastar quaisquer terceiros e por aí o perigo de uma veraz subversão. não na soma de suas virtudes. seriam três as posições que se pretendem críticas da Modernidade que aqui examinaremos: as ideologias. à Grécia e seus poetas trágicos. Haveria ainda uma última posição crítica.o sujeito liberal sujeitado. para mais além da Modernidade. desconsiderando que estes já eram lá censurados por exorbitar em dialética e fingimento. Em suma. A rigor. mas não conseguindo vislumbrar o que a possa suceder. à esquerda e à direita do paradigma anglo-saxão moderno. Somente desta posição é que se estará deveras enfrentando essa nossa velha preguiça de pensar o novo e.ora a ciência (ou a técnica) como expressão terminal de uma insidiosa metafísica. Contestam o poder porque o querem o mais perfeito.168 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente justos e acertados. há quem deveras critique o poder imperante porque já é capaz de reconhecer e apontar para o que lhe é o mais próprio . a de quem espia da quinta margem do rio a história da cultura passando ao encontro de si mesma. mas no encobrimento de sua mortal fragilidade. Procede à critica da Modernidade. cujo vigor se sustenta na ciência desejosa (do uno/trino) e no seu preciso complemento . assim que mostre o menor sinal de esmorecimento. Em segundo lugar. correndo os riscos inerentes à procura. de prontidão para suportá-lo pegando de cada lado pelo sovaco. naturalmente. tomando-a não como um modo de produção. mas pelo que realmente é: uma cultura tipo nodal. as que ultrapassam as ideologi- .

do terceiro excluído ou da dupla diferença (D/D=D/2). numa estreita homologia ao que a civilização romana foi para a cultura grega. representada pelas sociedades tribais de caçadores/ coletores do paleolítico. cultura greco-romana (da diferença ou D). A rematada impotência das ideologias . pelo trabalho. Partimos de uma antropologia filosófica que concebe o homem.2. esta última. e. já na atualidade. Esta se encontraria agora em sua fase civilizatória. da diferença (D). Em termos econômicos (obvi- 6. unidade dos dois anteriores (I/D) e formal. Este já teria passado por duas etapas ditas ecológicas [4]. Seguiram-se as etapas propriamente lógicas: cultura judaica (da identidade ou I). mas ficam aquém da crítica radical à cultura. a segunda. a primeira. indivíduo ou coletividade. se coloca como o outro da Natureza (da pré-diferença ou pré-D). a história da cultura é então concebida como processo hiperdialético de auto-desvelamento do ser próprio do homem [3]. vai sendo aos poucos substituída pela horizontalidade imperial. dialético. vivendo a cultura científico/tecnológica. dizemos cultura da pré-identidade ou pré-I). como um ser lógico-qüinqüitário [1].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 169 as. da dupla diferença ou D/D=D/2). que. cultura moderna ou científico/ tecnológica (formal. cultura cristã trinitária (dialética ou I/D) e. pelos impérios de base agrícola da Antigüidade. governada pela lógica formal ou da dupla diferença (D/D = D/2). Estaria hoje a humanidade. para completar. capaz de operar um pensamento hiperdialético (I/D/D=I/D/2)[2] síntese do pensar da identidade (I). em decorrência do próprio êxito. na qual a verticalidade criadora. De modo conseqüente. clássico. em sua linha de avanço. cuja tônica é a identificação com a Natureza (em termos lógicos. isto é.

da promessa enganadora nela implícita de levar o homem à perfeição (biológica) ou à vida eterna [5]. a um inconseqüente capitalismo financeiro internacional. não pode ter outra função senão a de bloquear os caminhos que podem levar. ao abrigo de qualquer suspeita. isto é. dissimulada. uma promessa que não tem outro propósito senão o de tornar dispensável o advento do homem pleno lógico-qüinqüitário. podemos tomar algo bem familiar a nós brasileiros - . à subversão da Modernidade. é a questão do sujeito da ciência.e aquilo que mais abertamente expõe sua fragilidade congênita . deixar de lado justamente aquilo que constitui a essência mesma do dinamismo da Modernidade a ciência . podendo voltar sobre si próprio como dissimulação da própria dissimulação. em especial nos últimos 150 anos. Na verdade. ainda que descolado. Quem deva ser o seu sujeito. Atente-se que a fragilidade não é da técnica enquanto tal. A simples caracterização da Modernidade como cultura governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) é o bastante. mas de seu modo fingido. Ora. Para ilustrar isto de maneira exemplar. de fato. para permitir o mapeamento de todas as alternativas críticas ideológicas. aliás. proporcionar-lhe a imprescindível orientação e dela colher o primeiro e o melhor proveito? Insistimos no aspecto dissimulado das ideologias porque elas deixam sempre intocadas. todas elas já historicamente exercidas e. Mas o subterfúgio não pára aí.a técnica exorbitante . que é o que hoje mais se quer ver. o que está por trás de todas as disputas ideológicas do mundo moderno. isto significa a passagem do capitalismo nacional de produção ao capitalismo globalizado de consumo. a ciência e a técnica. paralelo. como veremos. financiá-la. Para nós. esgotadas em suas promessas. quem deve desenvolvê-la. de certo modo.170 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO amente redutores).

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 171 o Positivismo. revolucionária . instalações). de como proceder a substituição ali do indivíduo liberal anglo-saxão (I) por um presumido espirito comunitário (I/D) da latinidade jesuítica [6]. mas apenas para colocar um sistema novo. Isto eqüivalia a uma discussão acerca do sujeito da razão científica (D/2). uma discussão sobre a adaptação da racionalidade moderna (capitalista) ao âmbito da latinidade. acriticamente a favor da ciência e da técnica? O rótulo Positivismo.jesuítica. distinguiríamos inicialmente o paradigma anglo-saxão. de uma latinidade aquecida pelo trópico. intacto. temos de um lado a “opção” de esquerda . no nosso caso particular. já de origem. parte superior) O poder hierárquico da lógica da dupla diferença funcionaliza o que seria próprio e específico às lógicas subordinadas: a política torna-se ciência política. tal como ele. não têm limites. que também não é neo. incansável empresário schumpeteriano. Que pode isto significar se todos as correntes ideológicas são. velada. Nos extremos. em estado de degradação voluntária. cinematográfico sujeito john fordiano . mas os dissimuladores não. comunista. pois chegam a se fantasiar de sociais-democratas para melhor impor sua prática neoliberal. (Ver figura 6. que de fato transcende os sistemas. no lugar de outro já gasto ou ultrapassado pelos acontecimentos. O leitor pode estar satisfeito. concomitantemente invertendo o . trazia. a arte vira técnica de marketing (ou. mas sim vétero-liberal! Bem.1. socialista de verdade. a psicologia da consciência torna-se psicologia adaptativa do eu. Dentre as “opções” ideológicas. aquele que se decide pelo sujeito liberal I.que propõe a substituição do sujeito liberal I pelo sujeito coletivo (politicamente articulado) I/D. É ele o sujeito que assegura com sua viva determinação ou iniciativa a continuidade da cultura da morte.

pelo sujeito libidinal. que vai propor também a substituição do sujeito I. pelo sujeito romântico. (Ver figura 6. na sua versão mais primitiva. (Ver figura 6. temos a “opção” de direita . porém. igualmente invertendo o sentido da relação subordinativa vis-à-vis a ciência.As ideologias .1 à esquerda) A designação socialismo (I/D) científico (D/2) não lhe poderia ser mais apropriada.172 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sentido de sua relação de subordinação com respeito à ciência. à direita) Figura 6. agora.1.1. De modo quase simétrico.fascista. telúrico. nazista. tradicionalista -. o “povo” ou.

que não se interessam por quaisquer sujeitos. D/2. mas como se fora uma simples particularização de um sujeito já dado. que seria a recusa de qualquer sujeito . Há. mesmo que fossem elas próprias. na medida em que sua oposição à “opção de esquerda não acontece entre o nacional (D) e o científico (D/2). as leis trabalhistas. e no Brasil o getulismo (consolidação do mercado interno. de algum modo. uma razão profunda para esta equivocação: é que com freqüência uma formação ideológica de direita se apresenta não como uma troca de sujeito. profissionalização na educação básica. Esta observação é importante na medida em que o aludido fenômeno aparece reiteradamente na história luso-brasileira. E mais. indefectivelmente acompanhada de propostas de modernização científico-tecnológica da produção e do sistema educacional. implantação da Cadeira de Moral e Civismo em âmbito nacional vendendo a imagem do Brasil Grande) e talvez muitos outros. instalação do Colégio dos Nobres) e o salazarismo. pelo deslocamento do social universal (ou internacional) em favor do mesmo social. especificamente. Assim foi gerado em Portugal o pombalismo (expulsão do jesuitismo internacional. porém. criação das grandes empresas públicas. mas precisamente entre o nacional particular (D) e o comunitário universal (I/D). Haveria ainda uma quarta possibilidade. organização do ensino básico) e o Movimento de 64 (aniquilamento das ideologias “exóticas” internacionais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 173 Alertaríamos que a designação nacional (D) socialista (I/D) . basta-lhes a lógica im-pessoal de um hiper-estático poder burocrático. enganosa. Sua designação mais própria seria nacional (D) científico (D/2) contrastando com socialismo (I/D) científico (D/2). agora restrito ou particularizado (o nacional). ademais. .nazista .é a posição das “cúrias”.é.

trata-se de direcionar a ciência e a técnica para a solução dos grandes e urgentes problemas (ditos) sociais . saúde. trata-se da pretensão de colocar a ciência e a técnica a serviço da preservação dos valores e da integridade do “espírito do povo” (D). qualquer destas “opções” vai se inverter. as inversões propostas sempre revertem. educação. pois. SUJEITO CO LETIVO R Ú SS IA I/D SOCIALISMO CIENTÍFICO A O M XÃ IG S A D A R LO PA NG A D/ 2 M O D E R N IDA D L Ó G IC A D A C IÊ N C IA NACIONAL SOCIALISMO OU "NACIONAL CIENTÍFICO“ AM ÉR ICA I D "E U R O PA" SUJEITO LIBERAL SUJEITO ROM Â NTICO OU NAC ION AL . e uma burocracia de estado vai assumir um poder totalitário em seu exclusivo proveito. o que . Em ambos os casos chega-se a uma impossibilidade.174 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Como já tivemos oportunidade de mostrar [7].2..Sujeitos e inversões ideológicas Na opção jesuítica ou comunista. habitação etc. e não ao contrário.que governa a ciência . Por isso. D e I/D . as duas “opções extremas.alimentação. Ver figura 6.2 . mais dia menos dia.governando seus pretendidos e pretensiosos sujeitos -. Na opção nazi-fascista. se iludem com a possibilidade de promoverem a inversão da relação de subordinação entre a ciência e seu sujeito. esquerda e direita.subsume as lógicas I."POV O" Figura 6. Assim necessariamente acontece porque a lógica D/2 .

A similitude da “opção” de direita com a problemática cultural grega. Esta é uma configuração essencialmente perversa. na medida em que só lhe é permitido operar de modo intervalar entre sistemas (D/2) que se superpõem e se sucedem. ou à música dramática) sobre a política I/D. nada de estranho quanto à afinidade entre o sintomático helenismo desmedido dos filósofos e poetas alemães. assunto a que voltaremos mais detalhadamente no próximo item. da “pedagogia” grandiloqüente do realismo socialista e assemelhados. acabando todas reunidas em torno do pensamento único. fica aqui mais do que evidente. como a prática do fascismo. A propósito. como se depreende da teatralidade do barroco jesuítico. O comunismo responde com a politização da arte. a ele sujeitado. [10]” Na “opção” de esquerda acontece precisamente o contrário: a prevalência do político sobre a arte.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 175 acarreta a perversão dos “projetos políticos que se dizem fundamentados naquelas “opções . em especial. examinada por nós anteriormente [9]. pois. decidindo sistematicamen- . acordes em nada pensar para realmente mudar. e a força que na Alemanha assumiu o fascismo. tendo-se em conta a essencial indiferença das diferenças ideológicas. um sintoma anotado com grande acuidade por Walter Benjamin: “Eis a estetização da política. não nos pode causar grande surpresa o troca-troca ideológico das “elites” do Brasil. Uma conseqüência também evidente da posição de direita é a supremacia atribuída à estética D (ou à poesia. Não há. porém. que por isso mesmo jamais perverte [8]. como a história do século XX bem o demonstrou. dos românticos e seus derivados. No paradigma anglo-saxão o sentido da subordinação aparece tal como logicamente deve ser: por definição. o sujeito liberal se afigura um sujeito realmente transcendente ao sistema (I).

indefectivelmente presente em todos os diários. para o apressamento da chegada da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. é necessário proceder a uma crítica radical. será preciso denunciar. o passo decisivo para o encontro do homem consigo mesmo. Depois de fazerem das eleições um só balcão de negócios. para compreender de onde ainda dimana o seu vigor. Para não compactuar com o que aí está. a dissimulação que é presentemente a técnica. consideramos as ideologias como 6. da Modernidade. Para além das ideologias . o que nela representa a ciência e em particular a física. A insistência numa tomada de posição exclusiva de tal natureza nesta altura da História já não é mais um equívoco (que já antes era grave). onde verdadeiramente começa o processo de crise e superação da Modernidade. Paralelamente. revistas e principalmente nos jornais e especiais das TVs [11].3. é. é hoje. Podemos agora nos aventurar para além do âmbito das ideologias. Só assim poderemos começar a nos mobilizar para a verdadeira subversão da Modernidade.176 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO te contra os mais elementares interesses da maioria do povo brasileiro. conluio com o que há de pior na Modernidade. na verdade. de estofo lógico-filosófico. simulando que tudo aí acontece democraticamente. alta traição aos interesses da humanidade. Não há saída nem à esquerda nem à direita. Justamente estribados nesta compreensão geral é que negamos qualquer valor realmente subversivo à ação exclusivamente político-ideológica. apenas (logicamente) para frente e para o alto. Recapitulando. para mais agravar sua constitutiva fragilidade. afinal. chegam ao ponto de controlar cuidadosamente a “compra de votos no Legislativo para assegurar uma cota de votos-contra. que é real. que bem sabemos agora o porquê. em especial a biotecnologia.

como é o caso na atualidade do chamado processo de globalização -. a compreensão do processo de crise e superação da Modernidade requer exatamente o contrário: que concentremos nosso esforço crítico sobre a ciência e a técnica. de um lado. o homem jamais abandonará a busca da autenticidade. o enfoque ideológico.3 tentamos pôr em evidência a relação conceitual conflituosa entre. como sua questão maior.ao mesmo tempo para trás (ciência) e para a frente (técnica exorbitante) -. representado por um plano solidário à própria Modernidade. Ora. reacionário. visto de dentro da própria Modernidade) existiria ali uma certa ambigüidade processual . Na figura 6. cuja característica central é a desconsideração da ciência como questão (aqui não se discriminando ciência e técnica). mas que vista de um pouco mais longe se nos afigura como inexoravelmente ascensional. diacrônico. qual deva ser o sujeito da ciência e o sentido de sua relação de subordinação a ela. lógico-filosófico da problemática cultural.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 177 um fenômeno social típico do mundo moderno. assumem. sincrônico. em contrapartida. . buscando uma avaliação objetiva das condições de continuidade do vigor criativo da ciência. representado por uma linha que traspassa a Modernidade. Pouco importam os percalços temporários . de outro lado. e. questionando-as. tentando decifrar os mecanismos ilusionistas associados à técnica. o enfoque crítico. Localmente (isto é. não irá faltar de modo algum ao encontro marcado que tem consigo mesmo.

3. pelo “povo” .por exemplo. então. ou nem um nem outro?! O leitor já deve ter percebido que não estamos diante de uma situação hipotética qualquer. Heidegger – a ciência e a técnica Estamos agora um pouco menos mal preparados para enfrentar questões de maior complexidade. do affaire Heidegger e o nazismo (incluída aí a ultrasensível questão do anti-semitismo). especificamente. ao mesmo tempo fosse um crítico feroz da ciência e da técnica? Seria ele um mero reacionário de direita ou um profeta da cultura nova? Ou ambos.178 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O HOMEM EM BUSCA DE SI MESMO (I/D/ 2 ) "LINHA DIACRÔ NICA" DO PRO C. de alguém que fizesse uma aberta “opção” por um sujeito da ciência . mas precisamente do caso Heidegger. Embora este já se tenha tornado um tema recorrente. CULT URAL TÉCNICA EXORBITANTE "PLANO SINCRÔNICO" IDEOLÓGICO Direita MODERNIDADE Esquerda D/ 2 CIÊNCIA NOSTÁLGICA (I/D) Figura 6.e. o fato é que até hoje não foi tratado com a devida profundidade e amplitude. Que pensaríamos.1.Plano sincrônico ideológico versus linha diacrônica do processo cultural 6. Parece-nos que o que mais tem atrapalhado a compreensão daqueles acontecimentos históricos envolvendo o filósofo alemão tem sido a atitude apaixonada de todas as par- .3 .

está muito longe de ser verdadeiro. toma-se como pressuposto que ele tivesse. a nosso juízo. mas tem como seqüela desdobrar-se para alcançar seus primos remanescentes. em particular. com intensos reflexos na sua vida cultural. Nada pior. O surto de helenismo exacerbado e excludente talvez tenha sido sua irada reação inconsciente e. porque é exatamente daí que se pode derivar os mais importantes ensinamentos. razão pela qual consideramos imprescindível que se explicite e se aceite o contraditório e o paradoxal das palavras e das atitudes. É preciso compreender que sem uma vigorosa reação à expansão semítica. Aí está. É a partir de então que esta cidade passa a se constituir num dos principais centros financeiros da Europa [13]. Começaríamos lembrando que coube em parte aos alemães do sudeste a resistência à penetração islâmica na Europa via oriente [12]. sem dúvida. o que fortemente impactou a intelectualidade alemã [14]. Sendo ele o maior dos filósofos de nosso tempo. Isto representou um grande impulso no processo de “modernização econômica” da Alemanha. Este processo num primeiro momento é anti-islâmico. quando ocorre uma significativa migração de famílias judias para Frankfurt. entre as quais estavam algumas de já tradicionais banqueiros. justo por isso. à época do seu reitorado. tal qual ocorreu em Espanha e Portugal. valeria fazer um breve resumo da história do anti-semitismo alemão. anjo ou capeta. Preliminarmente. Isto. a Europa simplesmente não existiria e talvez ainda não tivéssemos nem mesmo entrado na Modernidade. por volta de 1800. pois.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 179 tes. os judeus. uma das raízes mais antigas e fundas do anti-semitismo europeu. que a colocação maniqueísta: Heidegger. para então bem decidir. o alemão. a mais dramática em . na circunstância. a plena compreensão e o acesso às informações suficientes sobre a situação alemã e internacional. Há um outro importante momento histórico.

fenômeno que não pode ser de modo algum explicado pelo ativismo de um punhado de desatinados. ou nazismo. antes de mais nada. ainda na passagem para o século XX. Isto implicava que a expansão capitalista. Com o capitalismo de marketing o processo se inverte: doravante é a desarticulação da cultura (ou sub-cultura) periférica e das relações sociais tradicionais que se torna pré-condição da penetração econômica global.para ele já se tornara evidente o processo de aburguesamento das massas européias logo aos alvores da era do marketing e do consumismo. no início desse século. do movimento soreliano [15]. Este movimento representa o abandono da expectativa da consolidação de um proletariado revolucionário internacional (I/D) . se apoderar por atacado do imaginário do outro [16]. Outro episódio de peso foi a chegada à Alemanha. na Alemanha o nazismo ganhou a proporção que tomou. Por fim. o capitalismo sofre uma grande mutação: a função de principal motor do sistema passa da acumulação/produção para o marketing/consumo. Antes. doravante. Em conseqüência. sim. O nazismo acabou sendo. Por tudo isso. tem sua razão histórica. a agressão cultural passou a ser condição do lucro. com a expansão do capitalismo financeiro internacionalizado. econômica e emocionalmente. A agressão à cultura era então uma conseqüência do lucro desordenadamente buscado. chamamos a atenção para o fato de que. suas esperanças revolucionárias se voltam para a pequeno-burguesia nacional (D). É exatamente aí que a designação nacional socialismo. só se faria pela prévia agressão à cultura (dos outros). Nesta nova etapa da expansão capitalista importa. a implantação de atividades agrícolas ou extrativo minerais na periferia do capitalismo acabava provocando a desorganização das relações sociais em geral e do mundo da cultura.180 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO suas conseqüências. . que era quem mais sofria.

que não na posição lógico-diferencial D? Ver figura 6. segundo ele.4. acrescentaríamos nós) e de outro a América (tendo como sujeito da ciência o indivíduo liberal I). faz sua opção a que não se pode negar o caráter ideológico: o faz pelo sujeito romântico. pela poesia. É neste contexto histórico que Heidegger. lá pelos meados da década de 30. pelos gregos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 181 uma reação antecipada ao capitalismo consumista ou de marketing (além de representar.Heidegger e a questão ideológica . em particular da Alemanha. senão do sujeito da ciência? Onde então poderia estar. que a Europa (tendo a Alemanha como centro). a estetização da política!). D. pelo povo. como o socialismo soviético foi uma reação retardada ao capitalismo produtivista ou de acumulação (além de representar a politização da arte!). está metafisicamente (logicamente. I/D/2 VONTADE POLÍTICA OU “ VONTADE COLETIVA” HISTÓRIA CIÊNCIA I/D F E S R CO A N LA K F D U E R T D/ A ÃO IC Ç N A C UL É T IM S D E I/ D /2 2 H P E H O V ID IS O E G T G Ó E R R IC O I VONTADE INDIVIDUAL D VONTADE NACIONAL OU VONTADE DO POVO CULTURA Figura 6. telúrico. no caso da Europa. Em suma: pelo sujeito lógico diferencial ou prometéico.4. pelas águas do Reno e do Neckar. o filósofo [17]. pelo trágico. De quem estaria falando Heidegger. naturalmente. Heidegger [18] afirma. pela Floresta Negra. Ver figura 5.4 . diríamos nós) entre duas tenazes: de um lado a Rússia (tendo como sujeito da ciência o ser coletivo I/D. este sujeito desejado. pelo torrão natal.

um radical crítico de sua cultura. ser reduzida a uma mera tomada de posição ideológica precisamente em razão da crítica insistente e feroz que faz à ciência e à técnica. (colchetes nossos) [22] De fato. deslocando-se da diagonal machista (D/2.4 deixa bastante claro que não se pode logicamente contrapor povo e técnica. I/D) [21]: El concepto no es aquí ya más lo pensado. Heidegger é de uma enorme clarividência. no lo racional en oposición a lo irracional (porque esta definición se basa en la frase: el hombre es un animal {I} racional {D/2}. lo imaginado (lógica). Sob este ponto de vista. I) para a diagonal feminina (D. a técnica é o próprio modo de ser do homem quando concebido como apenas animal racional. mas é bem o seu simulacro. e isto vinha já de Aristóteles. além das ideologias). Ademais. basta saber ler a própria lógica da situação e das escolhas possíveis. ela é uma articulação entre a vontade individual (determinação de projeto) (I) e o saber científico (D/2). como se pôde ver. entretanto. Isto significa que ele vai muito além dos limites estreitos da questão ideológica e se coloca como um verdadeiro filósofo de sua época. A figura 6.182 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Depois disso. Sua posição não pode. sob o poder castrador do ultimo [20]. Estos son los conceptos fundamentales de nuestro futuro. Heidegger então anuncia com bastante clareza em que direção irá se mover. não pode caber a mínima dúvida quanto ao seu profundo e prolongado comprometimento com o nazismo. a algo de determinado nível lógico só se pode contrapor algo . A técnica é algo de natureza metafísica (no caso. Não se precisa do livro do Victor Farias [19] para se chegar a esta conclusão. É certo que ela não chega a ser lógico-qüinqúitária (I/D/2). De la necesidad de superar este antiguo “concepto” se sigue una mayor amplitud del novo concepto.

contra a sociedade tecnificada (D/2 I) dever-se-ia confrontar não apenas o povo (enquanto apenas vontade. entrementes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 183 de um nível lógico igual ou superior. Tornar-se um povo histórico não é uma necessidade. na direção do futuro: . Embora a lógica da história seja a dialética. em Heidegger. él pasa a la historia (futuro) en tanto que se sale da historia (pasado). vale dizer. Assim. é uma história sujeitada à lógica da repetição (do mesmo!). a História. D). para o nosso filósofo. um desdobrar-se em seu próprio ser aberto (além de D). [23] Cuando um pueblo pasa a la historia ello quiere decir: él entra al futuro.El pueblo es hecho por la historia. estaria pois essencialmente associada à problemática de sua entrada ou saída na história (I/D). [26] (negritos nossos) A opção pelo sujeito povo (D). mas o povo e sua vontade de tornar-se um povo histórico (D I/D). síntese da identidade e da diferença (I/D). mas uma decisão (não necessariamente consciente). Pelo já visto. [25] (negritos nossos) Lo que es desde lo ya sido es la tradición. a história aqui se reduz ao acontecer da própria tradição. ela aqui se mantém ← ← . não é algo inerente à condição de ser povo. [24] Entrementes. o acontecer só verdadeiramente acontece como modo próprio de ser da tradição: Historia y acontecer no son ya más un continuo de sucesos: Acontecer es tradiction. nada tem de uma simples sucessão de acontecimentos fortuitos destituídos de significação. Ella es el carácter más propio del acontecer y lleva la determinatión propia por sobre nosotros hacia el futuro.

mais um modo pseudo-lógicoqüinqüitário (pseudo I/D/2). não consegue se assenhorar do aberto em que se viu. A sujeição da história à tradição. talvez. também um pseudo ser lógico-qüinqüitário). que se pode assim resumir: a) Embora tenha escapado dos estreitos limites do reacionário plano ideológico. tendo a lógica da identidade I a seu serviço. mas acaba sendo também vítima desta mesma excentricidade [27]. porém. Conclui-se. imaginamos.2) Em que pese a sagacidade e o poder de enxergar para além das ideologias e mais ainda para aquém de seu próprio tempo seguindo ao reverso as marcas significantes deixadas meio às sendas do esquecimento do ser. por pressupô-lo apenas lógico-dialético trinitário (hegeliano) e não o que verdadeiramente é. (Ver figura 6. mas o tempo histórico das culturas. que não era o espaço. Em suma. hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. portanto.184 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ainda refém de sua proveniência. Tira bom proveito de um certo descentramento alemão em relação à Modernidade. que aquilo que vinha para se contrapor à técnica. sem conseguir deixar de ser. Heidegger não consegue ir muito mais longe do que lhe facultava sua própria cultura. tal como a técnica. sujeitada à lógica da diferença (D). apenas um simulacro. Por tudo isso cometeu muitos e sérios enganos. a nosso juízo. um pseudo ser lógicoqüinqúitário) acabe desembocando numa anti-técnica (governada pela lógica da diferença D tendo a lógica dialética I/D a seu serviço. constitui uma evidente anomalia lógica. Isto vai implicar em que sua crítica da técnica (governada pela lógica formal D/2. o que a rigor propõe é a substituição da técnica machista (D/2 I) por uma anti-técnica feminista (D I/D). teria tido o maior horror a Lacan e seus “matemas da sexuação” ! [28] b) Não distingue ciência e técnica no que lhes é o ← ← . pois. deveras o fazia. Heidegger.

Havia um precedente que lhe era bem familiar . em que pese o nome. Como pretendemos mostrar.os meios de reprodução e comunicação de massa Vale a pena aqui fazer uma breve referência à Escola de Frankfurt (sempre Frankfurt!).2. parece-nos. por isso sub-avalia a força criativa da ciência e não consegue perceber quanta oportunidade há para denunciar a fragilidade da técnica quando em estado de ilusionista exorbitância. c) Não percebe que o problema da técnica não está no que ela é.3. Sem isto. não se deve estranhar que. porém. mas nas suas máscaras sedutoras. a segunda fingindo ser já o que está ainda por vir. a nosso juízo se deve justamente a esta sub-avalição do poder da ciência na Modernidade. entretanto. em conseguir realizar uma reforma radical de sua própria universidade –.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 185 mais essencial. [29) . ou pior. de uma práxis política desastrada? Seu “fracasso” na reitoria – isto é. A Escola de Frankfurt . não em seu rosto. vá sugerir a volta à mesma exorbitância poética grega! 6. no fim de seu périplo filosófico. que ela é ainda maior para com Heidegger. o que a Escola acaba mesmo realizando é uma “inversão interna” no esquema lógico heideggeriano. É bem conhecida a sua dívida para com Marx (I/D) e Freud (D). vale dizer. mas no que figura ser. É um juízo quase unânime que a Escola de Frankfurt. talvez desencaminhado pelos hinos e encantos de Hölderlin. não chega a se configurar como uma verdadeira escola de pensamento: It may even be questioned whether they have anything in common beyond the programme for a restatement of Marxisme in the form of a ‘critical theory of society’. daí. sua orientação diametralmente divergente na ordem do tempo: a primeira desejosa do que foi.a exorbitância poética dos gregos -. como seria possível escapar à impotência. dela não se apercebeu.

porém. como é o caso. por exemplo. na conjunção dialética e materialismo. entrementes.5. Tanto para Horkheimer como para Adorno. consequentemente. importa sim o seu conjunto que acaba se mostrando de surpreendente harmonia. barra-se qualquer pretensão de onipotência do conceito. A desabsolutização da dialética é justamente o que vai permitir a sua articulação com outra lógica. completude e eficácia teórica. como também de equivalência de ser e pensar. denuncia-se abertamente a aproximação do marxismo com o positivismo cientificista. perde seu peso metafísico e por conseqüência deixa de se constituir suporte para os extremismos totalitários. com a lógica do outro ou da diferença. Isto é feito de diferentes maneiras. no caso. insistindo na sua desabsolutização. podemos chegar a uma visão relativamente coerente e precisa sobre o que de fato pretendem os defensores da Teoria Crítica. sempre existiria um outro. Isto significa que a noção de totalidade. verdade do ser dialético. não importam o âmbito e as circunstâncias. que. da “dialética negativa” de Adorno. Deste modo. seja sobrevalorando o momento negativo da dialética em detrimento do seu momento de síntese. ali- . pela dialética. é o último que torna a primeira um processo infinitamente aberto. seja dando mais peso à Fenomenologia do espírito e menos à Lógica hegelianas (Habermas). Não importa a ordem de apresentação nem o peso relativo de cada um dos “lances ou movimentos” por eles realizados. Vejamos: a) Todos os membros reconhecidos da Escola passam pelo marxismo.186 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria mesmo assim? Realmente reconhecemos uma certa dificuldade em apresentar uma lista de concepções comuns à Escola. b) Seguindo Karl Korsch (Marxismo e Filosofia 1923). pelo menos a nível lógicodialético. Ver figura 6. valendo-nos de uma estratégia geral de envolvimento.

a lógica transcendental ou da identidade que lhes dá suporte. na verdade. Figura 6. mas. pelo valor que dão aos imperativos da razão prática. é comum à toda a Escola como assinala Kortian: The Critical Theory of Frankfurt School simply reproduces this metacritical paradigm in its merciless attacks on any rehabilitation of a prima philosophia. Kant e Fichte são aceitos. [30].5 .A formação lógica da Teoria Crítica d) Rejeitando a prima philosophia e as filosofias subjetivistas e. com estas. não pelo transcendentalismo. também taxando como suspeita a aproximação do próprio Freud com o positivismo. porém. teria suas raízes nas inegáveis ambigüidades do próprio Marx com respeito ao valor da ciência e da técnica. . Adorno é o mais crítico da razão identitária que a seu ver necessariamente suprime as diferenças. Este posicionamento. c) Aceitação da psicanálise como um real contrapeso a eventuais desvios conceptualistas totalitários da dialética. rejeita-se abertamente à psicanálise o estatuto de cientificidade com que tanto sonhara Freud.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 187 ás. obviamente.

denunciam que a história reduzida a simples natureza leva a que a práxis se reduza inexoravelmente à técnica. Operando no “espaço lógico” o conjunto destas disposições se mostra extremamente constringente. por serem de Frankfurt e não da pequenina Messkirch. portanto. em sua autojustificação. Habermas segue na mesma direção. Horkheimer lamenta que a Modernidade tenha cortado do âmbito da verdade não apenas a política e a religião. da dialética I/D sobre a lógica da diferença D. deixando uma única alternativa: o comprometimento da Escola de Frankfurt com a mesma diagonal feminina por que optara Heidegger. Para Adorno. na Modernidade. Talvez. vindo da esfera de influência heideggeriana. invertendo a direção da relação de soberania – agora. não podia deixar de atacar a tecnocracia e o totalitarismo inerente à razão técnica e científica. fazem uma crítica radical da técnica moderna e das ideologias que as justificam seja explicitamente. na região de Baden! Ver figura 6. só que partindo de uma crítica profunda da noção weberiana de racionalidade. as falsas totalidades. Adorno rebela-se contra a tecnificação que se faz hoje em escala planetária. seja por ardilosa omissão. a própria técnica transformouse em ideologia. g) A tudo isso colmatando. Hoje a cultura teria se transformado em mera indústria de diversão para mistificação das massas. A Teoria Crítica é assim um pensamento que con- . rejeitam liminarmente o método e a postura objetivista da ciência por incapaz de dar conta da especificidade e da complexidade do ser histórico.188 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO e) Não é de se estranhar que a estima pela psicanálise venha de par com a valorização da arte. quem sabe. mas principalmente a arte.4. porém. e demonstra como. por dentro. f) Embora não se furtem à pesquisa empírica. nada melhor do que a arte para romper. Marcuse.

Heidegger e. em que pese a pretensão. e sabemos hoje bem o porquê: não pretenderam outra coisa senão alcançar o capitalismo perfeito através da simples troca do sujeito sujeitado da ciência. Não há dúvida de que faliram as ideologias. Crítica radical da cultura . fechou todas as portas que pudessem nos levar a um ponto de vista a ela transcendente [31]. não fo- 6. a Modernidade não se reduz a um simples modo de produção. em todas as logias -. Definitivamente. mas. como contemporaneamente acontece por toda parte . na era do pensamento único. Ora. São. a Modernidade é antes de tudo uma cultura em cujo âmago vive a ciência com o seu inesgotável poder de cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos. é porque não nos interessa mesmo a salvação. que acredita que a Modernidade. conforme o uso que deles se faça. deixando-a à vontade para pensar-nos. modos de pensar a meio caminho entre a penúria que ora se vive e o pensar pleno lógico-qüinqüitário . a Escola de Frankfurt. trata-se ainda de um pensar tolhido. Vimos também que poucos conseguiram até hoje ultrapassar os estreitos limites da crítica ideológica. excetuando-se. ficando esta sempre impensada. Esse juízo é emitido pelo próprio Adorno . Foi por assim acreditar que acabamos todos caindo onde caímos.um dos mais proeminentes membros da Escola -. Em Heidegger.como degraus ou como enormes pedras.em todas as universidades.4. qualquer que esta possa ser. Não há mesmo saída à esquerda nem à direita.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 189 segue romper com o conservadorismo ideológico. Entretanto. Se insistirmos em abdicar de pensá-la. com a sua “indústria cultural”. não alcança a altura suficiente para se constituir numa instância crítica radical da cultura. levado às últimas conseqüências. depois. primeiro. os dois. por via reversa. tal como a técnica que ele critica.

190 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ram eles longe o suficiente para se constituírem como verdadeiras instâncias críticas da cultura e. Heidegger chamou nossa atenção para o fato de que os descaminhos da filosofia já vinham de bem longe. com Platão. é lógica da diferença recalcada -.que precisamente. Hegel e Leibniz. embora insuficiente. tintim por tintim. Hoje. não se pode pretender chegar à crítica da Modernidade sem um pensamento resoluto disposto a medir-se com a ciência. sob o império da lógica da dupla diferença (D/D) . É fazer tábua rasa. na Modernidade com as filosofias de Kant. sobretudo. por ser tal. em lógica formal (D/D=D/2). por conseqüência. pleitear o retorno ao logos heraclítico. às suas ardilosas promessas. que acaba sendo também a denúncia dos limite da crítica ideológica da Modernidade. mas da humanidade concreta no inexorável e penoso curso de seu auto-desvelamento. nada menos. respectivamente. na era da ciência e da técnica. ainda de sua época grega: com Parmênides o logos se degradava em lógica transcendental (I). nada mais. ou mesmo à só palavra poética. No imaginário e na prática. não apenas da filosofia. igualmente. Que era então o logos heraclítico que a própria filosofia paradoxalmente desconhecia? No referencial ali tacitamente assumido. a pior das emendas! O esforço heideggeriano de denúncia da essência metafísica da técnica (da ciência. não será entretanto perdido se vier contribuir para que a filosofia reconquiste seu vigor originário grego. é se colocar à espera de um deus que se crê infantilmente vá um dia se arrepender e voltar. também da ciência. com Aristóteles. A nosso juízo. Tudo isto veio se repetir. preferiríamos nós). Isto implicaria avan- . do que o pensar da diferença (D) [32]. lógica por lógica. de mais do que 2000 anos de história. não obviamente naquilo que respeita a seus métodos e resultados. mas quanto à sua significação e. em lógica dialética (I/D).

incompatível com sua própria lógica. ou seja. à sua própria plenitude onto-lógica. lógico-qüinqüitária). trata-se sobretudo de uma tarefa para o Pensamento (tomado em sua acepção máxima mundana. E a ciência? Da ciência. Não há mais qualquer outra alternativa para um efetivo exercício crítico radical da Modernidade senão se postar à quinta margem do rio . mas chegando e se achegando enfim à sua morada. como sendo o saber das culturas em desaparecimento. Jamais tivemos ou poderemos ter uma crítica científica da Modernidade. mas coerentemente de um rio amazônico bem mais caudaloso. implicaria hoje na assunção. . onde vige o princípio da falsa identidade [33]). ao invés de retroceder. preventivamente. É óbvio que esta não é sua tarefa. pela voz de seus maiores e com ares de sonsa gravidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 191 çar. dialético trinitário. porque hiperdialético qüinqüitário -. de um poderio hiperdialético qüinqüitário que a capacite para a urgente e imprescindível tarefa de crítica radical da cultura. Mesmo a antropologia já se declarou. de onde se pode espiar o homem cansado e sofrido. vazando assim os próprios olhos para não ver que não era o destino. mas sua própria cultura que perpetrava tal extermínio em escala planetária. a crítica da Modernidade se constituiria em auto-crítica da ciência (diga-se de passagem. não há o que se esperar. entre outras coisas.não falamos do rio temperado e montanhoso de Heráclito. Como poderia estar a ciência disposta à crítica profunda da Modernidade se é ela própria o seu fundamento? Em tal circunstância. em especial da cultura Moderna.

...... o judeu é.. o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu.... portanto...... como é o caso de Hegel e Marx (lógico-dialética)..... o judeu teórico...... é mais do que natural que.............. de generalidade extrema.............. Hegel e Marx O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa.. desde o primeiro instante. à esquerda) [1] não difere assim tão extraordinariamente de outras conspícuas e bem conhecidas concepções...... O cristianismo brotou do judaísmo..1. E quando algum autor se declara adepto e de fato se utiliza de uma concepção lógica explícita.. casos particulares ou modelos reduzidos.... E tornou a dissolver-se nele. como teremos oportunidade de adiante constatar....... mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão.... a simplificação a que aludimos se torna imediatamente visível. A questão judaica. então.... portanto. O cristão foi.... A história da cultura aqui representada apenas pela sucessão de suas culturas nodais (figura 7......... .. outras concepções do processo histórico apareçam como meras simplificações.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 193 7 História da cultura segundo Toynbee.. quando se lhe comparadas... Pela razão óbvia de termos adotado uma concepção hiperdialética.. Tillich..... Karl Marx......

o preclaro teólogo alemão. nós mesmos nos serviremos de uma representação geométrica trinitária (sucessão de formas triangulares) e não. Paul Tillich. na qual a forma piramidal (hiperdialética) apareceria subsumindo as formas triangulares (dialéticas) [2]. Comparandoas . para comprová-lo.194 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para facilitar comparações. não suficientemente nítida. Ao final de sua vida intelectual. Toynbee delineou uma filosofia da história na qual se alternariam culturas de caráter ora materialista. que se proceda à mais ou menos óbvia identificação do ser logico-diferencial (D) com o caráter materialista. constatamos que a última não é mais do que uma versão simplificada (lógico-trinitária) e. porém. e do ser lógicoidentitário (I) com o caráter espiritualista.a nossa proposta hiperdialética e a “filosofia da história” de Toynbee -. de uma representação propriamente lógico-qüinqüitária. bastando. O primeiro toma as civilizações como os reais sujeitos do processo histórico e adota uma concepção que poderíamos denominar de organicismo mitigado [3]. Inicialmente examinaremos as concepções de Toynbee e Tillich. nos seus resultados bastante próximas da nossa. ora espiritualista. cada civilização tem de fato o seu próprio ciclo de vida. . da primeira. ademais. ainda por cima. isto não a obriga necessariamente a percorrer uma seqüência de fases pré-fixadas. Estas últimas teriam implicitamente o comando global do processo. que seguiria uma tendência ascendente. ela pode sempre alongar sua existência à proporção que consiga dar respostas adequadas e eficientes aos desafios contingentes com que se venha defrontar. expressa por uma religiosidade cada vez mais abstrata (espiritual) e de âmbito mais universal. Neste. como seria conseqüente e mais funcional. emigrado depois da Segunda Grande Guerra para os EUA.

[n. espacialidade e a luta pelo predomínio em que estão permanentemente empenhadas: L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. como não poderia deixar mesmo de ser. nas formações culturais históricas. Aqui.] [5] Ao percorrermos a lista das culturas que Tillich aponta como comprometidas com o tempo. também vem chamar a nossa atenção quanto à importância da análise das experiências de tempo (I) e espaço (D) para a compreensão. de fato. como em Toynbee.temporalidade.[4] O papel que a tensão tempo (I)/espaço (D) exerce é. o “motor da história não é o desafio contingente versus resposta. em profundidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 195 trabalha diretamente com as culturas e adota uma concepção também implicitamente dialética do processo histórico. tendo-se aí a cultura judaica por seu ilustre paradigma: . mas um a priori constitutivo da própria mente humana . vale dizer. entretanto.n. Ernst Cassirer. que elas coincidem exatamente com o que caracterizamos como culturas lógico-identitárias (família I). constatamos. Outro grande filósofo alemão da cultura. aliás. [negritos nossos. da problemática antropológica: Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. de importância primordial na estruturação da mente humana e acaba por isso se refletindo no próprio processo de sua objetivação simbólica coletiva.

(n. Il représente la lutte permanente que se livret depuis toujours l’espace et le temps. Para melhor compreendermos como foi possível a deformação conceitual cometida por Hegel. sempre a mesma tendenciosidade (que. mais usual. pelas culturas espirituais. O último diz adotar uma versão materialista da dialética. verdadeiras deformações da concepção hiperdialética.n. vão ser então identificadas como lógico-diferenciais (família D).)[7] Depois disto tudo só nos resta afirmar que a concepção do processo histórico em Tillich pode ser também considerada como tão apenas uma versão simplificada da nossa proposta hiperdialética. mas porque constituem. aqui.) As culturas do espaço. pelas culturas do tempo. Estas duas concepções da história são sobremaneira interessantes na medida em que não são apenas simplificações ou reduções.n. Car l’homme est capable d’agir en vue d’une fin située par-delá sa propre mort. enquanto que o primeiro adota uma versão especulativa (preferimos a denominação especulativa à idealista. em primeiro lugar. Admitido . também. grega e moderna. para o seu radical apego à coerência lógica (dialética). não escondemos.196 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Le peuple juif est comme aucun autre nation le peuple du temps. ambos declaradamente lógico-dialéticos. a torcida é para um dos lados. em suma. mas que a nosso ver deturpa a intenção hegeliana). cada uma com seu específico e dissimulado propósito. cada uma a seu modo. lá. Os casos mais interessantes vão ser os de Hegel e Marx. [6] (n. devemos atentar. é a nossa. Aqui. como em Toynbee. também): Ce n’est que dans l’homme que le victoire finale du temps devient possible. e o que é mais curioso.

Sua expressão política. passíveis da acusação de terem instaurado um pérfido dualismo.1. a destinação da cultura alemã. depois diferencial. portanto. Esta deve ser. respondendo à indagação de Moisés: “Eu sou o que sou (ou serei)”. Ora. portanto. no plano simbólico.o perfeito e acabado ser lógico-trinitário (I/D). se afigurando então como a realização/institucionalização deste mesmo ser lógico-trinitário! Espantoso! Em segundo lugar. com o telúrico vigor que afinal o engendrara. por ex- . ou seja. Hegel toma estes episódios como significantes da ruptura dos vínculos do homem com a Natureza. deslocados de sua real posição lógico-identitária (I) para a posição lógico-diferencial arcaica (pré-D). esta deixa consequentemente de ser. desta sorte. ele se vê obrigado a afirmar coerentemente que tal processo deva conduzir ao desvelamento de um ser lógico-dialético e não a outro qualquer tipo de realidade [8]. lógico-D-iferenciais. à direita). o trânsito das culturas ecológicas (inicialmente identitária. sua meta tem que ser a auto-realização do espírito como espírito absoluto . se o processo histórico ainda se encontra em aberto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 197 o caráter dialético da história. Os judeus são. Ela também representa. Hegel.[10] Com o “rebaixamento” da cultura judaica. precisa demonstrar a todo custo que a cultura judaica pertence à família das culturas Diabólicas. ambas ainda referidas à Natureza) em direção às culturas propriamente lógicas. por razões “psico-sociais” [9]. podese então trazer a cultura grega para o seu indevido lugar. assinala a passagem do analógico ao plenamente convencional. com muita precisão. Tal passagem se confirma com o episódio da auto-definição essencialmente lógica de Deus. uma concepção abstrata e alienada da essência humana (figura 7. o Estado prussiano. Ele produz esta “demonstração” valendo-se exatamente da passagem bíblica referente à adoração do bezerro de ouro que.

mas o dualismo corpo/alma. O essencial no cristianismo. Depois de todos estes malabarismos.198 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celência. seu profeta. Um absurdo completo. já lá instalado à espera para dar-lhe as boas vindas (assim como. dirão com malícia que estamos nós à espera do Brasil. para ele. o novo Estado alemão. agora!). adivinhamos. Hegel pôde deslocar a cultura cristã trinitária da posição I/D para D. HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA HEGEL: HISTÓRIA DIALÉTICA (VISTA PELA ÓTICA DA FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO) ONDE SE DEGRADA A CULTURA JUDAICA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D/ 2 D/2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA CULTURA MODERNA CÍNICA CULTURA ALEMÃ CULTURA GREGA TRÁGICA I/D D I/D D CULTURA CRISTÃ CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA GREGA TRÁGICA I PASSAGEM DEGRADANTE Pré-D CULTURA PRIMITIVA CULTURA JUDAICA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I Pré-I Figura 7. como atesta o incomensurável acervo da arte sacra que ele nos legou [12].1 – Hegel e a história da cultura . com Hegel. a cultura trágica ou prometéica (D) para ressurgir como cultura identitária (I). Não percebeu Hegel que grego. Valendo-se da mesma artimanha. metaforizada à exaustão na “sublimação” da cal. fica aberto o lugar para que uma nova realidade advenha em I/D. Uma cultura realmente da identidade (I) produz profetas e não filósofos. na filosofia. os primeiros e mais dedicados amigos do ser [11]. pois o desejo do cristianismo é precisamente a “espiritualização” (I/D) do corpo (D). é o lugar de onde se pergunta pelo ser (distanciamento D) e não o do ser desejado (I). como ele equivocadamente inferira. em I/D/D. não é mais o Deus Uno-Trino. da tela e da pedra.

seria ele. tratavase. mas de simplesmente subtraíla à “objetividade cientifica” [13]. 500 que morrera São Tomás. fosse qual fosse a data que tomássemos para o seu nascimento.. 100 que morrera Galileu. todos de nível lógico pré-D) com a cultura trágica grega (de nível lógico D). e o Egito antigo é um ótimo exemplo disso. um ainda maior neurótico obsessivo. O escravismo é uma extensão mais ou menos permanente de um verdadeiro modo de produção. Assíria. governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D). de colocar a filosofia de Hegel de cabeça para baixo! Para tanto. a artimanha não sendo mais aquela de deformar (a lógica das virtudes da cultura judaica. à direita). Já se iam para mais de 600 anos que morrera Abelardo. 50 que se instalara a revolução industrial inglesa. e isto foi dito até com bastante franqueza. como em Hegel. Pérsia. além de grande filósofo. agora colocadas ambas sob a rubrica comum: modo de produção escravista. e o faz por meio da identificação da cultura de base agrícola dos grandes impérios da Antiguidade (Suméria. Com isso.2. Deveras. naquela altura dos acontecimentos. que a realidade maior fosse de nível lógico dialético (I/D) e que a cultura judaica fosse dualista (pré-D).? O caso Marx é tão ou mais interessante que o anterior. Babilônia. Egito etc. desaparece da cena histórica a cultura judaica e com ela todas as suas articulações conceituais (lógicas) e históricas com as demais culturas.. só um gênio seria capaz de tais proezas: afirmar. A maior parte da .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 199 É importante lembrar que tudo isto acontecia numa Europa já imersa em plena cultura científica moderna. (figura 7. Seria então o caso de se indagar por que seria Hegel tão cego à lógica formal (D/D) já ele sentado sobre ela? Em outras palavras. A escolha da denominação escravista é um ato falho que vem ratificar o que estamos afirmando. Marx simplesmente curto-circuita a cultura judaica. Assim.

. é só identificar . D. onde justamente estava inconscientemente Marx. em I/D/D. a cultura científica moderna com capitalismo. na posição I/D. na posição D/D.. a cultura cristã patrística com feudalismo. mas reduzindo-a a I. ). HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA MARXISMO: HISTÓRIA DIALÉTICA MATERIALISTA (HIST. mas reduzida a I/D. Fica ainda o espaço suficiente para a conclusão do processo histórico através do advento do comunismo. e sem esta ruptura presente.corretamente. a sociedade sem classes.. DA CULTURA ONDE É ESCAMOTEADAA CULTURA JUDAICA) COMUNISMO AVANÇADO CULTURA MODERNA CÍNICA FEUDALISMO CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D I/D/2 D D/ 2 I/D I ESCRAVISMO CAPITALISMO I/D/2 D/ 2 I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA Pré-D CULTURA JUDAICA D CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS I PASSAGEM ESCAMOTEADA Pré-D Pré-I ESCRAVISMO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I COMUNIASMO PRIMITIVO Figura 7.Marx e a história da cultura No mais. mas reduzindo-a a D. O mais importante é que.200 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO produção egípcia não era escravista (os egípcios não eram escravos em suas terras). apagam-se completamente as marcas da passagem das culturas ecológicas (Pré-I e.2 . com a escamoteação da cultura judaica. em especial. em préI. e . por fim. apenas podia se dizer escravista. Assim fica bastante claro que a escolha do nome escravista para este modo de produção só se justifica da perspectiva judaica. pré-D) para as culturas propriamente lógicas (I. diga-se de passagem .a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico com comunismo primitivo.

. toda a produção lógico/simbólica se reduzindo a mera super-estrutura determinada [14]. podia harmoniosamente conviver com a sua histeria (I/D). tomando a infraestrutura material (ecológica ou econômica) da sociedade como determinante. que Marx acreditasse estar colocando o mundo filosófico de cabeça para cima. também dialético (I/D). ficando assim obrigado a escrever. de cabo a rabo. causar nenhum espanto. que embora dialético (I/D) não conseguia se desembaraçar de sua neurose obsessiva (D/D). E com isso ficamos nós sem nada saber de como foi possível a Marx. A história da cultura se reduz com este “apagamento” a um mero processo de desenvolvimento das forças produtivas em seu sentido puramente material.2. Pela simples contemplação da figura 7. Ao contrário de Hegel. a concepção ecológica (materialista.. .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 201 bem aparente. Marx. sem precisar acabar os seus. sempre o mesmo livro (o mesmo sistema). portanto. se poderia também dizer) da realidade social pode se prolongar e dominar a totalidade do processo histórico. notas introdutórias e mesmo posfácios. dis-pensador da cultura judaica. escrevendo prefácios. verifica-se como ele pode deveras realizar toda esta mirabolante deformação histórica. Não nos pode. chegar afinal onde chegou.

Consideramos que este é o momento oportuno para .. aspectos da nova cultura lógico-qüinqüitária que virá suceder à atual Modernidade. conteúdo/continente? Como bem sabemos. homem/ cosmos e homem/Absoluto. a nosso juízo. Hegel.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 203 8 Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária É portanto mediante a cultura que o indivíduo tem aqui vigência e efetividade. esta é uma antiga questão filosófica [1]. com algum precisão. a nosso ver. mais intensa e profundamente estarão contribuindo para a resignificação contextual do ser humano: falamos das relações homem/sociedade.. até hoje sem uma resposta aceitável. quanto tem de efetividade e poder. II Este ensaio é o primeiro de uma trilogia em que assumimos o elevado risco de tentar delinear. Fenomenologia do espírito. . Começaríamos indagando: elas variariam ou não em função do tipo (lógico) da cultura considerada? Podemos tomá-las como um caso particular da também velha questão dos universais? Podemos tão somente reduzi-las a uma relação topológica. tanto tem de cultura. Os aspectos aqui considerados são aqueles que na nova cultura. O tema central aqui é a relação entre indivíduo e sociedade.

a nossa grande esperança . embora tenha todos os seus membros de nível lógico-qüinqüitário (I/D/2). operando e existindo em cinco níveis ontológicos: transcendental ou identitário (I). Sabemos também que seja qual for a cultura.estaremos adentrando. indivíduo e sociedade. Figura 8. sem dúvida. por último. dialético (I/D). isto é. lado a lado.Relações políticas e culturais invariantes numa cultura de nível lógico X . por apenas reconhecer um determinado nível lógico que ela absolutiza/sacraliza em sua religião oficial ou hegemônica e que sanciona por todos os meios. clássico formal ou duplamente diferencial (D/D=D/2) e. por suas normas e práticas educacionais [3]. De per si. em muito pouco tempo .esta é. Coloquemos.1 . já com vista à cultura nova lógico-qüinqüitária que. portanto. tal como ilustra a figura 8. ela se caracteriza justamente por um parti pris lógico.204 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO buscar-lhe uma resposta clara. hiperdialético (I/D/D=I/D/2). simples diferencial (D).1. eles se constituem como entes de nível lógico-qüinqüitário [2]. em especial. agora.

O primeiro modo de articulação. de modo simétrico. em razão mesmo de ser múltiplo. que diríamos cultural. o que nos leva a acreditar que. a partir de sua capacidade individual de autodeterminação ou decisão. este mesmo ser-coletivo. em especial) e valores gerais que constituem a cultura de nível lógico X. em especial. que é necessariamente portador de cultura. Em contrapartida. De outro lado. estruturas conceituais (a língua. por exemplo. que denominamos político. caso contrário. qualquer que seja a cultura focalizada. Deste modo é que eles podem atingir seu mais elevado nível de estruturação interna e relacional. falta-lhe por si a cultura. O mais interessante a observar é que o processo de assunção da cultura pelos indivíduos se faz por identificação. seu poder de decisão estrito senso. Daí. naturalmente. como é o caso. é aquele em que os indivíduos suprem sua carência cultural constitutiva assumindo ou se deixando tomar pelos esquemas de percepção. duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. sua liberdade. dentro do que permite a cultura de nível lógico X. é aquele em que os indivíduos entram num processo interativo para produzirem. não pode por si determinar-se.1. uma operação de natureza lógico-identitária (I). veremos sempre o indivíduo operando necessariamente em nível lógico transcendental (I). seu poder de autodeterminação. pois esta última é uma prerrogativa essencial do ser-coletivo. aquilo que é falta constitutiva do ser-coletivo. o processo de produção da deci- . da língua. O segundo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 205 Isto posto. ou seja. tal como ilustra ainda a figura 8. ele não estaria garantindo o que lhe é mais essencial: sua integridade. depreende-se que devam existir ao menos dois modos invariantes de articulação entre indivíduo e sociedade. não importa o tipo de cultura sob consideração.

no mais elevado dentre os modos de interação social. todo ser social comporta ainda uma terceira dimensão fundamental voltada para o provimento de meios em geral. nada há de mais natural do que a política. Como já adjudicamos os níveis lógicos extremos I e X. em especial. tudo isso é apenas uma disposição normativa. que denominamos dimensão econômica [7]. em termos de distorções estruturais compensatórias alhures. ou pelo menos assim deveria ser. embora devamos saber que toda violação acaba tendo lá seu justo preço. confundindo-se o ser social com o ser político. Sugerimos que se volte a ver a figura 8. Aceitar que o processo mediador num extremo ← (X X) é do tipo lógico-transcendental I (uma identificação) e no extremo oposto (I I) é do tipo lógico X. somos obrigados. é o mesmo que dizer que as lógicas dos processos de mediação nos extremos do leque das rela- ← . exclusive) à dimensão econômica. respectivamente. pois a política se constitui. em geral. a política era considerada a primeira dentre as ciências e o homem o animal político [6] por excelência. Entre os gregos da idade clássica não havia a menor dúvida que o fosse. na Ética a Nicômacos [5].206 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO são coletiva articulando as determinações individuais se faça por um modo operatório de nível lógico X [4].1. Para Aristóteles. ao político e cultural. Como exemplificaremos adiante. para a sua própria consecução. Em outras palavras. se valer daquilo que a sociedade tem de melhor ou mais sofisticado – a essência (lógica) assumida de sua cultura. É bem razoável pensarmos assim. dos meios para a sua reprodução material. Além das dimensões política (que engloba o poder ou a formação da determinação coletiva) e cultural (que engloba o sentido compartido que faz a unidade coletiva). a fazer corresponder os níveis intermediários (entre I e X. por uma questão de completitude.

no geral. vale dizer. não apenas nos extremos. à esquerda. natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêmse.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 207 ções indivíduo/sociedade culturalmente reconhecidas estão na ordem invertida em relação às lógicas que governam aquilo que elas justamente articulam. Nesta cultura. O processo de decisão coletiva (I) derivaria da autodeterminação individual (I) por meio de um processo de luta (I/D). O estado de máxima elevação cultural seria o êxtase diante do Espirito de Deus. sacraliza a lógica dialética (I/D). Seria. o nível cultural (coletivo) seria lógico-dialético. que todas estas assertivas valem apenas como uma norma. mas em todos os níveis dentro dos limites da lógica da cultura considerada. muitos diriam que nem sempre assim acontece: a decisão poderia vir do diálogo e até como fruto maduro de um estado de comunhão. Por certo. Insistimos. tanto no sentido do indivíduo para a sociedade. a realidade suprema aí seria o Espírito (I/D) e os indivíduos se tornariam cultos através do processo de identificação (I) com o espírito (I/D) de sua época. portanto. em ordem inversa relativamente às lógicas dos aspectos individuais/societários articulados. naturalmente. (D/D=D/2) Sabemos que a cultura cristã medieval é lógicotrinitária que. tal como ilustra a figura 8. a meio caminho. O sentido da determinação a partir de um qualquer dos extremos acompanharia àquele deste extremo. Havendo um exato nível médio ele será igualmente determinado. produto da . tomemos o caso das culturas cristã medieval (I/D) e científica moderna. mas sua força determinativa iria se atenuando (permitindo que a determinação também se exerça mais e mais no sentido oposto) à proporção que nos aproximássemos do outro extremo e se inverteria.2. por conseqüência. uma vez mais. Para ilustrarmos tudo que foi até agora dito. quanto no sentido inverso.

em geral) ou por terceiros.Relações indivíduo/sociedade nas culturas cristã medieval e científica moderna Vejamos agora o caso da cultura científica moderna. de nível lógico-clássico formal (D/D=D/2). de caráter plebiscitário ou representativo (ver figura 8. . estribados no costume e na autoridade (incluída aí a força ou a ameaça de utilizá-la). consubstanciado apenas no trabalho (esforço que se faz com vistas a outra coisa que ele próprio. eleitoral. Num dos extremos.2 .2. Figura 8. à direita).208 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO graça derramada pelo Espírito (I/D). que em qualquer destas hipóteses continuaria sendo obviamente dialética. A dimensão econômica nesta cultura restringir-se-ia ao nível lógico-diferencial. isto é. não importa. logicamente D). aqui conta apenas a lógica do processo. portanto. O processo de distribuição social de seu resultado nada mais seria que a simples apropriação (D) pelo próprio trabalhador (camponês. teríamos o processo político produzindo a decisão coletiva (I) a partir das decisões individuais (I) mediante um procedimento contábil (D/D).

então. O indivíduo sentese culto na medida em que se identifica com seus diferentes papeis ou correspondente títulos e tabuletas à porta. estão de fato presentes e operantes. a demanda individual e o D coletivo. Por isso. no nível D. por simples questão de simetria. de maneira essencialmente invertida ou distorcida [10]. Sobram assim dois níveis lógicos para serem adjudicados à dimensão sócio-econômica. do capital -. ou seja. através de um processo lógico-dialético (I/D). a história desnaturada. era justamente nisto que insistia Marx . a nosso ver. cuja determinação flui aí no sentido do coletivo para o individual. Do ponto de vista lógico ou formal. como sendo a demanda agregada e. seu modo de ser social. que no fundo governam a dimensão econômica. ficasse muito longe de perceber que esta assertiva tinha validade apenas do ponto de vista de uma cultura determinada. Teríamos ainda que considerar o nível lógico I/D. A propósito. o coletivo precisaria ser produzido a partir do individual. embora. Facilmente identificamos o D individual como sendo o desejo. pois. o processo I/D como sendo o mercado competitivo. Precisamos lembrar que na cultura moderna (D/D) as lógicas femininas {D e I/D}. Em termos econômicos. Quem desconhece o gráfico ascendente levemente serreado do processo da acumulação de capital . estamos tratando do capital (I/D) [8]. no entanto. no caso da dialética não lhe corresponde a história. induzida pelo cálculo da taxa de retorno do capital. através da apropriação privada (D) [9] do capital social (I/D) que os indivíduos completam. que individualmente teria que ser produzido a partir do I/D coletivo através de um processo lógico D. ou. por fim.no caráter social do excedente acumulado. em termos econômicos. sob o aspecto dialético.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 209 O ser individualmente culto se realiza por simples identificação (I) com os papéis definidos pela organização (D/D=D/2) social. É. mas tão apenas o progresso.

apenas a dimensão econômica moderna (associada às lógicas D e I/D) foi considerada como socialmente relevante. diríamos que o indivíduo moderno. é o que contribui com seu poder decisório (I).210 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pendurado na parede ao fundo dos retratos dos expoentes da vida econômica moderna?! Assim. através de um processo contábil. o político (I) e o cultural (D/D) ficavam assim reduzidos a simples efeitos secundários ou de super-estrutura. Neste ponto vale a pena voltarmos à questão da normatividade dos esquemas lógicos aqui apresentados. segundo o paradigma anglo-saxão. e da apropriação do excedente ou capital. Em razão mesmo da ideologia de esquerda que orientou sua formação . e até muito. o capital social (I/D). Resumindo. Interessava-lhe apenas os estratos lógicos D e I/D determinantes. para a formação da decisão coletiva (I). que se imaginava devesse ser atendido pelo cálculo. ao invés . isto é. do modo de produção/distribuição. que faz valer os seus desejos pessoais (D) na formação do desejo coletivo ou demanda agregada (D) através de um processo competitivo. de modo coletivo. respectivamente. mesmo que trabalhe. sente-se naturalmente um excluído. Quem não consegue do capital sua cota parte. mas pela apropriação de parte do patrimônio coletivo acumulado. Vamos considerar o exemplo excepcionalmente didático da União Soviética. que se almejava fosse feita segundo sua natureza. Desta sorte. a demanda agregada (D). os indivíduos completam o processo de sua integração à modernidade. que forma o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) de parte do patrimônio coletivo. não pelo engajamento na história (que a ideologia dominante chega a crer que já não há mais). e que completa seu processo de integração identificando-se (I) com os múltiplos papéis definidos pela organização social (D/2).o materialismo dialético -. o escrutínio (D/2). o mercado (I/D).

através de um processo de planejamento centralizado. outras por inspiração do “espírito partidário”!). aliás. A política. a lógica do mercado (I/D) tinha que se deslocar. ao invés de eleições amplas e cálculo de votos (D/D). Sendo vedada também a apropriação privada (D) do capital (I/D). o indivíduo deveria doravante com ele se identificar (I). como mostra a figura 8. E foi mesmo para facilitar ao máximo esta identificação que se desenvolveu a estética socialista. Como bem . Inversões soviéticas do paradigma moderno Porém. em conformidade com sua essência (o que estaria sendo aplaudido pelo próprio Marx). Em conseqüência.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 211 de ser produzida através do mercado (I/D). Fig. ou seja. por um efeito de re-equilibração estrutural. passava lá a ser produzida pelo cálculo (D/D).3. as distorções não paravam aí.8. pelo diálogo. bem característico das construções públicas soviéticas.3. o tão enfático realismo socialista. passava a se fazer pelo mercado concorrencial (I/D) da intriga e da violência entre os membros de um círculo partidário restrito (algumas vezes. passando então a mediar a decisão coletiva (I). como nas nações lideres da Modernidade.

não há a menor dificuldade teórica. as três dimensões sociais estariam se confundindo parcial ou totalmente. posto que tão somente a partir desta estava assegurada a existência de pelo menos um nível lógico para cada uma das três referidas dimensões sociais. por termos evitado a questão das relações políticas. Teríamos apenas que admitir que. levando a administração pública a um grave processo de desagregação funcional e ética. . econômicas e culturais em sociedades de nível cultural abaixo da dialética (I/D). Nosso arguto leitor. ou. quem sabe. era a politização da arte em contraposição à estetização da política. quando não se dispõe “culturalmente” de lógicas em número suficiente? Na verdade. Como dissemos. esta que por seu turno viria a se tornar o apanágio do fascismo. já terá percebido e. naquelas culturas mais elementares. que viriam então a ser utilizados como moeda de troca. entre as culturas menos sofisticadas (pré-I e pré-D). acontecia a apropriação privada (D).212 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO observou Walter Benjamin [11]. ainda mais instigante.4. em contrapartida. Por isso. até nos censurado. a esta altura. Seria o caso de se perguntar agora: como seriam aquelas relações entre os gregos (cultura D) e entre os judeus (cultura I). como já sugere a própria figura 8. por membros do aparelho de estado da enorme quantidade de papéis ou cargos públicos (D/D=D/2). uma alteração lógica cá tende a provocar uma alteração estrutural compensatória acolá.

enfatizando a corre- . vemos que é neste mesmo lugar que vai necessariamente nascer a política como uma dimensão autônoma da vida social. Podemos agora melhor compreender as intensas e profundas discussões gregas – sofista. Percebe-se agora com clareza que aquele que opta por Antígona está. Aristóteles – em torno da política. até o advento da cultura judaica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 213 Figura 8.é que a política pode enfim ganhar sua autonomia. discutese acerbamente a quem se deveria conceder o estatuto de exemplaridade trágica. as dimensões política e econômica estariam essencialmente comprometidas com a dimensão cultural. Sócrates. Platão.Fusão das dimensões sociais Assim. não fazendo então muito sentido distinguir uma das outras. Não se tratava de uma simples preocupação de conjuntura. Já vimos que a filosofia (a pergunta pelo ser ou pelo que é o mesmo) nasce onde nasce a tragédia [12]. mas reflexo do privilégio excepcional de a estar vivenciando em statu nascendi. de modo intencional ou não.4 . Entre os estudiosos da cultura grega. se ao Édipo Rei ou à Antígona de Sófocles [13]. Somente a partir dos gregos .cultura lógicodiferencial (D) .

vindo a ocupar dois níveis lógicos. ainda que em nível muito abstrato. Retornam. retornarem com enorme virulência [ 15]. Com a Modernidade a dimensão econômica vai ganhar ainda maior peso. Algo bem semelhante não teria ocorrido antes. o que mais importa é o descontrole em que caem as forças econômicas represadas na cultura anterior. já são mais do que suficientes para provocar uma profunda revisão de nossa compreensão da Idade Média. entre os gregos.214 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lação (logicamente fundamentada) que. não é o mais importante. De fato.4). a nosso ver. que absurdamente transmuda meios . no entanto. em especial. O que. de sua vida econômica e do papel que as autoridades governamentais [14] e eclesiástica católicas devem ter exercido no que tange à sua rígida regulação. o que lá não faltou foi o dinamismo econômico. já desnaturadas: o desejo individual domesticado pelo marketing e a história transformada em processo de acumulação pré-calculada de capital. O efeito quantitativo. Este processo ideo-lógico (ou teratológico). bem ao contrário do que amiúde se diz. num exato paralelo com o acontecido com a política entre os gregos. entretanto. Estas considerações. porém. existe entre a política e o espírito da tragédia. acabamos de ver. Na verdade. com respeito à política?! Um exemplo bastante óbvio daquela disposição encontramos nos drásticos regulamentos “auto-impostos” às corporações de ofício medievais. na Modernidade elas são primeiramente recalcadas para. A grande surpresa para o que se tem por saber histórico corrente é constatarmos que só a partir da cultura cristã medieval é que se destaca a dimensão econômica (ver figura 8. em razão da ameaça que a autonomização recém-consumada da esfera econômica podia trazer para a integridade social. também não faltou foram normas severas e mecanismos eficazes limitando a criatividade técnico-econômica. como de costume.

hiperdialética qüinqüitária. que os mais exaltados críticos da Modernidade.4. Quem não compartilha de toda esta loucura?! Por isso. meios transmudados em fins. na esfera do pensar para valer. aquela que define o ser objetivo (I/D). elas fazem parte de uma estrutura dialética compreendendo as culturas Pré-I. aquela que define o ser subjetivo (I/D/D). Fixava-se a impressão de que a história da cultura. na parte referente às culturas primitivas. D e I/D. apesar de todo o acontecido. é de tal modo profundo e inconsciente. marxistas e fascistas. pela intervenção de forças obscuras. dando lugar a uma história econômica ou história dos modos de produção. que elas se mantêm distintas pelo fato de a primeira constituir uma estrutura lógico-dialética autônoma ou completa. que ao invés da lógica. apenas num pretenso estado de delirante perfeição [16]. tal como ilustra a figura 8. vai conseguir escapar da lixeira da história (hiperdialética da cultura)?! Examinemos um pouco mais detidamente a figura 7. sem falarmos dos invertebrados sociais-democratas da moda.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 215 em fins. É em torno dela que ainda se acordam todos solidários: vétero e neoliberais. o que. Deve-se notar. hoje. em especial. Na verdade.5. ainda de cabeça para baixo. ou pior. Pré-D e Pré-I/D (esta que se confunde com I). que é similar à estrutura compreendendo as culturas I. tendo conseguido mesmo instaurar um estado revolucionário. entrementes. Pré-D e I serão por isto . desaparecera. As três culturas Pré-I. era o estágio de desenvolvimento das forças produtivas (ou seja da técnica) que de fato parametrizava a história humana [17]. permanece ainda agora tal qual. e a segunda por constituir apenas o ciclo inicial de uma estrutura majorante. não se propuseram outra coisa senão deixar tudo essencialmente no mesmo. agora definidas com precisão e objetividade como sendo as culturas nodais Pré-I e PréD. E esta impressão.

a cultura tribal de caçadores coletores do paleolítico (Pré-I) representa. I/D. I. como de costume. em nível objetivo.216 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ditas objetivistas. em nível subjetivo. de PROD. forte e afirmativo. EXTERNO E INTERNO I PRÉ-I/D=I NÍVEL OBJETIVO I/D MARX: M.5 – Os outros . As conclusões que podemos daí tirar são muitas e importantes. assim. para a cultura tribal (Pré-I). no fundo. tudo. o estado cultural que deixa na indiferença uso/meio/troca (que em termos econômicos vêm realizar-se como valores de uso/trabalho/troca). um estado cultural de indiferença do cultural/econômico/ político. D/D e I/D/D subjetivistas. e as cinco culturas I. SER SUBJETIVO PESSOAL OU SOCIAL I/D/D NÍVEL SUBJETIVO OUTRO SUBJETIVO EXTERNO D D/D OUTROS SUBJETIVOS. de uma tríade da qual ainda participa o fenomênico como sendo seu momento primeiro. caracterizando-se por isso como uma cultura de passagem ou de articulação. A cultura judaica. no fundo. seria tanto objetivista quanto subjetivista. é cultura. o antitético e o sintético. um par de opostos. como a seguir veremos: a) Da mesma maneira que a cultura judaica (I) representa. mas sim dois momentos. ESCRAVISTA DEBRAY: ESCRIBA = POLÍTICO PRÉ-I NÍVEL FENOMÊNICO MEIO = OUTRO OBJETIVO PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I PRÉ-PRÉ-D Figura 8. tético. É extremamente importante observar que a partir de agora as noções de objetivo e subjetivo não constituem mais. D. se para a cultura judaica (I) tudo. é troca ou reciprocidade.

com ela. de se colocar a cultura judaica (I) acima de qualquer consideração teórica. que realiza a instrumentalização da religião como forma de controle social. mas tão apenas um desdobramento. finalmente. tem como especificidade a emergência do outro objetivo. e. trabalho. Com a escrita nasce a função de escriba e.é que. também. a classe sacerdotal. operado por uma classe sacerdotal. já o vimos. também. do totemismo nas culturas neolíticas Pré-D. apenas entre as do meio. de préD (neolítica de base agrícola) com D (greco-romana). dito escravista (escravismo que nem pode ser propriamente considerado um modo de produção. se vê a relação de similitude degenerar em simples identidade. A correlata cultura “objetivista” PréD. já por nós analisado em detalhes [19]. O caso Marx. também do nascimento do político como dimensão autônoma do ser social.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 217 b) A cultura subjetivista D. culturas lógico-diferenciais . Com isto podese agora bem distinguir o animismo nas culturas paleolíticas Pré-I. em espe- . que caracteriza precisamente a noção de meio. nem sempre consciente. operado por xamãs isolados. assinala o momento da diferenciação do outro subjetivo ou intencional.Pré-D e D . para Lacan. c) É evidente a similitude da cultura pré-I (paleolítica tribal) com I (judaica). a lógica D deve se chamar lógica do significante). A propósito. é dos mais flagrantes: ele reduz e engloba estas duas culturas num mesmo modo de produção. ou seja. tem toda razão Lévi-Strauss quando afirma que a escrita parece favorecer a exploração dos homens. Isto acontece pelo interesse ideológico. com mais freqüência. Entretanto. como escrita ou presença significante (por isso. mais do que sua iluminação [18]. de I (judaica) com I/D (cristã medieval). cultura greco-romana. O meio vai se realizar de múltiplos modos: como ação mediadora. cultura neolítica de base agrícola.

É precisamente esta operação de ocultação que permite a Marx transmudar a história humana . Na psicanálise. que se denuncia já no próprio título de sua conhecida obra: O escriba (Pré-D) – Gênese do político (D) [20].história da cultura . tão bem ilustrado pelo episódio da confrontação da tábua (escrita em caracteres convencionais) da lei e o bezerro de ouro. Em outras palavras.218 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ciais circunstâncias. sendo por isso correta. d) Na cultura judaica (Pré-I/D que é o mesmo que I). que teoriza sobre o inconsciente justamente governado pela lógica da diferença (D). Advertimos.em mera história dialética materialista ou econômica. A elisão da passagem do objetivo (Pré-D) ao subjetivo (I) é a elisão do exato momento em que a humanidade se dá conta. de verdadeiros modos de produção). Este acontecimento é formalmente correlato à compreensão social do papel do simbólico pleno ou convencional. embora sendo ambos governados pela mesma lógica D. porque a identificação que ele faz atem-se apenas ao nível lógico (ou “formal”) e não “substancial”. do seu modo ser lógico. coletiva e simbolicamente. A instituição do profetismo judaico dá um testemunho eloqüente de que para tanto seria imprescindível que de algum modo fosse confrontado o poder da classe sacerdotal (Sinédrio). as confusões entre Pré-D e D são quase que a norma e tão amiudadas que deixamos ao leitor o fácil exercício de inventoriá-las. significante (objetivo) e inconsciente (subjetivo) são obviamente distintos. que a bem fundada associação lacaniana entre lógica do significante (PréD) e lógica do inconsciente (D) não pode ser aí computada. Outro exemplo conhecido é o de Regis Debray. A classe sacerdotal (que na origem freqüentemente . que emergira com a cultura Pré-D. entretanto. diferencia-se a noção de troca em geral ou de reciprocidade como base da vida social.

É importante observar que este novo espírito qüinqüitário não pode de modo algum ser confundido com o Espírito Santo. vamos começar pelos extremos. e depois. pois. fundamento ideológico da dominação social que ela vai exercer. o máximo dos máximos. Desde já desculpamo-nos com o leitor. Dada a novidade e sobretudo a complexidade da questão. no caso. como mostra a figura 8. que parecem ser os de mais fácil compreensão. porque são ambos apenas trinitários. ele se quer tão apenas espírito humano em sua plenitude lógico-qüinqüitária. ao final. como ser-de-horizonte [22]. porque. econômicas e culturais – na cultura nova lógicoqüinqüitária.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 219 se identifica com a classe dos escribas) nasce com o totemismo. menos ainda. Primeiramente. permanecendo o Absoluto com seus específicos direitos. Isto posto. não teremos alcançado resultados com a precisão e clareza que de início almejávamos. além. O processo de integração propriamente cultural do indivíduo será feito.6. nem com o espírito absoluto de Hegel. e ao se apossar sub-repticiamente [21] dos deuses institui a idolatria. podemos começar a enfrentar aquilo que é nosso objetivo maior neste trabalho: delinear como seriam as relações sociais – políticas. como sempre. . o novo espírito hiperdialético não se pretende logicamente máximo. por identificação (I) com a cultura. com o novo espírito qüinqüitário (I/D/D). à diferença destes.

a partir do voto dos indivíduos (I). os sistemas eleitorais vigentes hoje por toda parte não passam de rematada farsa. como na Modernidade. é difícil responder. Aliás. concreta e detalhadamente. até com grande freqüência. Como será. Quando é eleito um novo Papa diz-se que o foi por uma decisão dos cardeais sob a inquestionável inspiração . embora possamos antecipar que os mecanismos plebiscitários existirão.Relação indivíduo/sociedade na cultura nova qüinqüitária No extremo oposto a legitimidade política não será mais um resultado contábil (D/D). mas se constituirão apenas num elemento entre outros em meio à sofisticada trama do novo processo político. do oligopólio dos meios de comunicação de massa e do marketing de todos os dias. completamente corrompidos e desmoralizados que estão pela força do dinheiro. em função da disponibilidade de vastas redes tele-informacionais. de todas as horas. o novo modo de decisão coletiva (I/D/D).6 .220 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 8.

mas persistente baixa das taxas de lucros empresariais. As pré-condições para que isso venha ocorrer já estão em acelerado processo de concretização: primeiro. na nova cultura passará a ser realizada por um processo lógico contábil. resistente a todo e qualquer questionamento! Vejamos agora os três estratos econômicos. até que se chegue. não nos identificaremos (I) mais com os papéis econômico-sociais (D/D)). Quanto à formação do D coletivo a partir do D individual. por um cálculo (D/D). a gradual. Eis aí mais uma das inesperadas artimanhas da História. por sua vez. pensaria Hegel. ou seja. que na Modernidade é mediada pelo mercado (I/D). vale dizer. à empresa única . guardando-nos ciosamente de a eles não . mas. destes às suas plantas fabris e respectivos fornecedores etc. calculada. que assim se afigura. teremos o fim da competição e do mercado de bens de consumo. deste aos fornecedores. e todos conectados ao sistema bancário. a formação de densa e extensa rede tele-informacional. depois. etc.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 221 do Espírito Santo. sem que haja a necessidade de um órgão central de planejamento. por se mostrar. apenas por si e a posteriori. Para fazermos uma idéia do que será o processo decisório na cultura nova.ligação das caixas dos supermercados ao controle de estoques. Paralelamente. enfim. muito ao contrário.com isto. entrementes. levará inexoravelmente às fusões. melhor diríamos. a formação da demanda agregada a partir da demanda individual. não por uma autoritária declaração de inquestionabilidade a priori. a integração dos diversos sub-processos econômicos . Em contrapartida. podemos pensar numa decisão inspirada pelo Espírito Qüinqüitário. Não fica então a mínima dúvida quanto a como funcionará o sistema produção/consumo na nova cultura: teremos uma oferta/demanda completamente planejada. apenas teremos ou ocuparemos estes ou aqueles cargos.

um bom número. por difícil de se bem compreender: que significa. Ao contrário do que todo mundo acredita. a mais típica das instituições da cultura capitalista moderna. Já vimos que na Modernidade os indivíduos se apropriam (D) simplesmente do excedente coletivo (I/D). e a mais desabalada dentre todas as ficções: o mercado de capitais. Acreditar em mula sem cabeça é muito menos irracional do que acreditar em capitais voláteis. na verdade é o que ali simplesmente não existe. mas de pura lógica. o que procuramos é tão simplesmente o mercado de capitais?! Talvez um mercado de capitais renovado?! Esta resposta meio maquinal parece. Então. competitividade empresarial. e não se trata de uma questão de fato. se pararmos um pouco para pensar. valendo isto também no sentido inverso. etc. sob o ponto de vista econômico. déficit primário. o aspecto pessoal dialético (I/D) determinando o aspecto dialético coletivo (I/D) através de um processo lógico-dialético (I/D). entretanto. Chegamos agora ao que se nos afigura o mais difícil de se prever. precisamente. se bem atentarmos. a princípio.222 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nos identificarmos. sociedade da informação etc. veremos que ela pelo menos nos leva a compreender a natureza de nossas dificuldades. sem qualquer sentido. que ainda assim é boa bolada. da sobra. que se autodenomina classe média. como “exige” a lógica global desta cultura (alguns poucos apropriam-se de quase tudo. poderíamos identificar I/D como o excedente ou capital e o processo de articulação I/D como mercado. E mais: tudo acontecendo bem no cerne da vida econômica da nova cultura qüinqüitária? Pelo que vimos até aqui. qualidade total. não passa de ficção da pior espécie. direitos do consumidor. não importa se oficial ou contestatória. opinião pública internacional. Aliás. em . o mercado de capitais. o que denominamos teoria econômica.

na verdade. O inacreditável aqui é que tal arte de fingimento pudesse chegar um dia a tais prodígios. vendo-se em perigo. E não estaríamos já vivendo numa tal situação? Diríamos que não. Finalizando.I/D (medieval cristã). mas que ele é. I/D e D/D} pode dar a impressão de que com a cultura nova qüinqüitária iremos ingressar na era da mais completa hegemonia do econômico em relação às duas outras dimensões do social. dentro tantos. a economia está associada às lógicas femininas . fingimento e superação na História da cultura [24]: todas as culturas. que o atual predomínio do econômico de fato existe. Se examinarmos o papel da economia na seqüência das culturas . observaríamos que o fato da dimensão econômica vir ocupar agora três níveis lógicos {D. em que tudo aquilo que foi cruamente apropriado circula com enorme estardalhaço. Na cultura nova qüinqüitária. a política e a cultural.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 223 forma de cotas de fundos de pensão etc. para a surpresa de todos nós. O mercado de capitais é exatamente a ficção que esconde esta simples e evidente verdade.. fingem já ser aquela que a irá superar. o mercado de capitais! Só precisamos agora especificar. mantida como o que verdadeiramente é. à vera. O que denominamos mercado de capitais é apenas um mercado secundário. do que realmente se trata.. hoje. em detalhes. conjunto de atividades meio. uma marca da Modernidade em declínio. o maior dos espetáculos da Terra! [23] Tudo isto deixaria de soar assim tão esturdio se levássemos verdadeiramente a sério o que se diz em Desejo.eis. D/D (científica moderna). dando a impressão de ser o ser que é sem ter jamais sido gerado . no cerne da vida econômica existirá.).. como isto irá funcionar. mas estrita e explicitamente controlada. veremos que na primeira ela aparece pela primeira vez como uma dimensão social autônoma. I/D/D (nova qüinqüitária) -. Na segunda.

o predomínio da economia é. de modo explicito. porém. isto só não é muito grave por representar um mal transitório inerente a uma fase necessária do nosso processo de autodesvelamento. de volta. conjuntos de atividades meio. antigas ou em processo de gestação. Do ponto de vista lógico. completamente subordinada às duas outras dimensões sociais. processo de acumulação de capital. Quem queira ver. a economia só na sua aparência sintomática pode se afigurar como onipotente. Teremos por isso uma economia superiormente dinâmica. mas conservadas e não. . todo o marketing multinacional só aparentemente é comercial. suprimidas. isto significa que as lógica femininas {D e I/D} estarão sendo abertamente subsumidas. mas desta feita todas determinando. na verdade. desnaturadas e. recalcadas. Do nosso ponto de vista. Isto também significa que aquilo que é em essência meio se vê de maneira absurda transmutado em fim. Como se fôssemos hoje uma cultura com sérios transtornos mentais. De fato. Na terceira.o desejo transformado em demanda comercial. outra face da volta do recalcado e já desnaturado . marginais que somos à Modernidade paradigmática anglo-saxã. um efeito de cultura. por exemplo. subrepticiamente imperantes. desejo domesticado pelas técnicas de marketing e a história transformada em história calculada.224 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recalcadas {D e I/D} e o predomínio do econômico é tão apenas um efeito sintomático. mesmo em se tratando da Modernidade. verá que. sua intenção sendo sempre decidida e inequivocamente etnocida. ou seja. a ação econômica é apenas o modo preferencial da cultura moderna hegemônica agredir as outras culturas. à cultural e à política. I/D e D/D}. as lógicas econômicas seriam realmente três {D. como na Modernidade. É importante compreender que. progresso.

o homem. das que não são enquanto não são. distribuído em três ordens: a superior. Protágoras Já vigeram hierarquias que abarcavam o homem e tudo mais que se pudesse imaginar. espiritual. das que são enquanto são. sendo o derradeiro. como expiação pelo pecado de desmedida curiosidade. abarcando a totalidade dos seres inorgânicos e ainda o multifário mundo dos vegetais e animais. Na cosmologia bíblica. o mais bem acabado e porque também feito à semelhança do Criador. uma ordem intermédia. habitada por anjos organizados em nove coros e demônios em hordas ou avulsos. mesmo que rebaixado em alguns pontos. material. permaneceu Deus. tinha um lugar proeminente.1) O homem cristão tornava-se então síntese de cor- . A teologia cristã acolheu e re-elaborou a hierarquia vétero-testamentária: acima de tudo. naturalmente. o homem. Abaixo de tudo. o mundo criado. na interseção da materialidade com a espiritualidade. a seus pés. onisciente e onipotente. o nada que é nada.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 225 9 Re-significação cósmica do homem e do processo de auto-determinação cultural O homem é a medida de todas as coisas. eram seis os degraus (dias ou eras) da Criação. a inferior. onde vinha situar-se. esturdia “matéria-prima” da criação divina. (figura 9. exclusivo.

Mesmo quando valemo-nos da modalidade ‘infinita’ é ainda o aspecto quantitativo. Entrementes. Isto fica bastante claro na hierarquia cristã. embora substantivas na sua fisionomia. são na verdade quantitativas. não importa se contado de cima para baixo ou em sentido contrário.1 – Hierarquia cristã dos existentes É importante notar que estas hierarquias. dissimulado. o Uno/ Trino (I/D). diferindo entretanto no grau de sua perfeição. de estatuto lógico-dialético (I/D) para que assim se assemelhasse (logicamente) ao seu Criador. portanto. O homem tinha também aqui o seu lugar distinguido. estas e outras similares hierarqui- . do lógicodiferencial (D) [1] e do lógico-identitário (I). concebidas como degraus ou quanta de perfeição. que persiste. no seu estatuto da infinita perfeição. do espacial e do temporal.226 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO po e de alma. embora nada assim tão excepcional: sempre o terceiro. onde Deus e homem são ambos lógicotrinitários (I/D). material vegetais e animais NADA Figura 9. DEUS UNO/TRINO Anjos e demônios Mundo espiritual Homem A CRIAÇÃO corpo/alma Mundo Inanimados.

nestas cínicas (bem mais do que trágicas) circunstâncias. que veio justamente para aplainar. está também implícito em Platão. como na atualidade sói acontecer. ao invés de nos deixarmos por ela pensar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 227 as foram paulatina e inexoravelmente erodidas pela ciência [2]. o infalível mercado [3]. desta feita o pensamento visando a idéia ou o conceito. Acreditamos que daí partindo se consiga aportar sem maiores dificuldades à uma nova hierarquização dos existentes. pelo que se poderá então restituir ao homem a devida dignidade onto-lógica e alcançar- . em nível dialético (I/D). o pensamento visando o ser. a seguir. Como fomos informados por Zaratustra. Encontrar de novo. no limite. Para tanto. um lugar para o homem. a reordenação dos seus saberes correspondentes .as lógicas. e. não se fazendo esperar. Recuperado o princípio. exige que confrontemos de maneira resoluta a ciência. pela mensuração. de algum modo são o mesmo. todos os valores. o espírito absoluto. como nos quer impor a ciência. Este é o incontornável pré-requisito para que possamos vir a dispor de uma nova referência para a ordenação dos existentes. Ele remonta à Grécia: a Parmênides. que desta sorte marchava pelos próprios pés para a vala comum do Cosmos. em plena praça pública aconteceu primeiro a morte matada de Deus. em nível dialético (I/ D). Vem de volta revigorado na Modernidade com Hegel. que a pensemos de verdade. na ocasional falta desta. em nível transcendental (I). que não seja tão apenas quantitativa. o que é o mesmo. veio a morte do homem. a renovação da hierarquia dos existentes passa a ter como condição primeira e necessária a reordenação dos modos de pensar ou. deve-se começar resgatando o velho preceito filosófico que estabelece que ser e pensar. que garantia estas hierarquias. a nosso juízo. desta vez o pensamento visando a História ou.

. dando ensejo à explicitação/ institucionalização de um novo e potente eixo reordenador de todas as coisas deste e doutros mundos . I/D. como tanto desejamos. Desvelamento da estrut. Distinguiríamos. cinco grandes etapas neste processo de des-encobrimento conceptual.. 3. (3) será constatar que a mesma estrutura lógica que parametriza a história da cultura vai se revelar igualmente razão organizadora do mundo . Reestruturação do território lógico.Re-significação cósmica da história da cultura. em princípio. sem dúvida. D.o eixo das lógicas.228 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mos.. em primeira instância. o eixo onto-lógico I. algumas que estão já em curso ou até mesmo concretizadas (figura 9. do que vem sendo até agora a história da cultura.. 2. Redefinição do homem e da história da cultura I/D/D 1. Princípio antrópico renovado.2 . 4. o homem restituído ao pináculo do Cosmos Figura 9.Etapas que levariam à re-significação da história da cultura Como primeiro momento deste processo (1) vislumbramos uma reorganização geral do território lógico. lógica das partículas elementares I a I/D/D 5. A partir daí nasce (2) uma nova e mais precisa concepção do homem. Surpreendente para todos.2). a re-significação do seu processo de auto-realização (a história da cultura). que tem por imediato corolário a reavaliação..

mas também em outras áreas do saber. Kierkegaard. doravante solidamente estabelecido. pela constatação da necessidade de se assumir a existência. de uma lógica da simples diferença. na antropologia estrutural e também . Deleuze. agora de caráter cósmico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 229 micro-físico. Depois.não só na tradição filosófica dos não conformistas” (Pascal. como na lingüística saussureana. bem próximo do modo como já são hoje concebidas. forte ou fraca. fosse qual fosse a versão. Ortega y Gasset. quanto da base sobre a qual erige-se o universo físico. Começa com a recuperação das lógicas segundo a tradição: além da unanimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. a sugestiva promessa do reencontro do homem e do Cosmos. Re-estruturação do território lógico. sempre às esgueiras. A homologia desvelada exata pelo comum-estruturar-se-segundo-as-lógicas. também. para além dessas. irá (5) então suscitar uma re-leitura [5] da história da cultura.1. mas até então não realizado. que se encontrava já presente . que até então. criticista-kantiana e fenomenológico-husserliana). Rosset). tanto da cultura em processo. especificamente do elenco das partículas elementares. era apenas um lugar marcado. Heidegger. Nietzsche. teremos também de algum modo enriquecida nossa compreensão da cosmogênese (teoria do big bang). que se re-significa a partir daí. que ganha assim uma segunda e definitiva significação. 9. sempre a meio caminho . O princípio antrópico. estará proporcionando (4) um novo fundamento ao princípio antrópico [4].é de seu feitio. como acontecimento auroreal da história humana. como conseqüência. o eixo onto-lógico Este trabalho já está de certo modo realizado [6]. arrola-se também a dialética (tanto platônica.

Uma engenhosa re-nomeação. D ≈1. noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana. um evidente sinal de sua profunda essencialidade. tendo-se em conta que este é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). através da operação de síntese dialética generalizada ( / ).. verificamos que o monóide livre fundamental (seqüência dos números naturais) não gera qualquer novidade. I/D/D = I/D/2.. D/D=D/2.. que não deixa de ser por isto menos pertinente. vale dizer. de modo natural. D/D/D ≈ 3. D/D ≈ 2. sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas . enquanto que o semimonóide livre fundamental (seqüência das lógicas) é por essência criativo. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído. D/D/D = = D/3. sem descanso. tanto paraconsistentes (ou paradoxais). a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3).. D. o monóide livre fundamental.) constitui o mais simples semimonóide livre [8]. -. . etc. e assim por diante. exemplificado pela seqüência dos números naturais (I ≈ 0.230 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante). Com isso são geradas a própria dialética (I/D). limitando-se à mera “contabilização dos existentes” .). Ao colocálos em confronto. destas quatro lógicas de base vem. Na esfera do formalismo acadêmico em voga. quanto paracompletas (ou intuicionistas) [7]. que está aberto . D/D/D/D ≈4.um.lógica da identidade (ou transcendental) (I) e lógica da diferença (D) -. a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). mais um.. I/D/D/D=I/D/3. ter-se-ia também que considerar as lógicas de fato desviantes. na medida em que incorpora o essencialmente outro. I/D. mais um. Sabe-se que a seqüência das lógicas (I. como uma exceção.

. tal como ilustra a figura 9.I... I/D.3 – Encadeamento das estruturas lógicas . I/D/2..3. sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 9.definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos. As lógicas identitárias .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 231 ao permanente “trabalho do negativo .

a realidade maior que se visa é a simples existência contábil. prossegue com Platão e se reafirma com Hegel. a pré-disposição filosófica que identifica ser e pensar. só se irá entregar no curso de um complexo processo hiperdialético qüinqüitário (parte direita da figura 9.4 – Processo versus realidade Em suma. simples produtora de um número sucessor (parte esquerda da figura 9.4).232 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Qual o sentido profundo desta articulação? Ela nos fala da essencial correlação que precisa existir entre o estatuto lógico da realidade que tenhamos admitido e aquele do processo que a pode deveras gerar ou desvelar. quando comparamos diferentes modos de ser e seus respectivos processos de desvelamento. que se inaugura com Parmênides. 1 2 3 I I/D I/D I I/D D I/D/ 2 D/ 2 0 1 2 I= D/0 I D I D I= D/0 I D I I/D 0 1 Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D 0 Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Figura 9. o processo que a gera ou desvela terá que ser lógico-dialético (parte central da figura 9. se a realidade maior que se quer visar for a história ou o espírito absoluto.4). se estiver em causa a geração ou o desvelamento do ser lógico-qüinqüitário. em especial. podemos ter a certeza de que este.4). e ainda. Parece-nos isto bastante intuitivo. não . por exemplo. como acontece na matemática. na sua plenitude. o processo que a gera ou desvela será naturalmente aquele da reiteração do mesmo. como em Hegel. Se.

a simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição extrema superior . objetivo do ser próprio do homem.apenas o homem é capaz de operar em nível lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). nada além. mas apenas subsumidas. do ser simbólico proposicional (Cassirer). do “inventor” da diferença clânica que viabiliza a instituição das regras de proibição do incesto e correlata obrigatoriedade da exogamia (antropologia estrutural). torna-se possível a conceituação precisa do ser humano como ser lógico-qüinqüitártio. mormente depois que tivermos compreendido que ela é a única via que nos pode levar à subversão/superação da Modernidade. um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos 9. Agora. também. A rigor. no entanto. tais caracterizações constituem exemplificações concretas mais ou menos íntegras daquela capacidade lógica fundamental. que lhe permite operar com símbolos plenamente convencionais. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura . do homem como animal dotado do logos (Aristóteles). notáveis. Outras conceituações não são por isso rejeitadas. a nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. Ser e pensar são o mesmo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 233 pode de modo algum ser interrompida ou esquecida. tomando-se como referência o eixo das lógicas. É o caso. Toda cultura teria.2. Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. assim. A partir daí a história da cultura pode ser compreendida como processo de auto-desvelamento simbólico. por exemplo. é bem verdade [9]. O mais avançado dos mamíferos não passa da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D).

o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. inclusive. da diferença D.o Ocidente e o Oriente Próximo . a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento.234 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de sua religião oficial ou dominante. e que lhe confere.teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I. come- . entretanto. Resumidamente. destes e de outros tipos não-nodais. não nos ocuparemos disto. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2). dialética I/D. de imediato. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. especialmente quando intenso. uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. O contato cultural. cultura tribal. pré-D. ou seja. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. focalizando apenas uma área restrita . Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. a seguir. a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição. cultura sedentária de base agrária. produziria culturas de tipo misto. onde se “inventa” o trabalho e como conseqüência.

primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral.5).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 235 çando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade. cultura prometéica grega.5 – História da cultura. e. cultura medieval cristã (patrística). cultura judaica. de pré-I a I/D/2 . ainda por vir. I. cultura moderna de base científica. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). I/D/D ou I/D/ 2 . D/D ou D/2. D. não castradora. uma manifesta síntese das culturas anteriores. porque. pela primeira vez. por todos os títulos. uma cultura à medida do homem (figura 9. Cultura tribal I Cultura judaica I/D Cultura nova I/D/ 2 Cultura moderna D/ 2 Cultura grega D I 0 I = D/ Animalidade Cultura tribal D Cultura imperial agrícola I Cultura judaica I/D Cultura cristã (patrística) PRÉ-D PRÉ-I Animalidade PRÉ-I Cultura tribal PRÉ-D Cultura imperial agrícola PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Animalidade Figura 9. que hoje domina o mundo. I/D. cultura hiperdialética qüinqüitária.

além das quatro forças hoje reconhecidas – gravitacional. forte (gluônica) e fraca –. de outro. também a força de Higgs (suscitada no processo de unificação eletrofraca. Trata-se basicamente de incluir. pode-se de imediato perceber a sua estruturalidade conjunta: de um lado. fraca e forte de Yukawa.3. as delícias de não ter mais nada a pensar. com todos seus mediadores ainda não detectados. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares . com todos os seus mediadores já detectados. três forças compostas. ou o ingresso na pósmodernidade. implicando menores níveis energéticos). substituída pelo toma lá dá cá das negociações e negociatas. Falsidades mais falsidades. com toda a certeza.236 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Esta ordenação lógica das culturas é suficiente para deixar a nu o discurso ideológico que alardeia o fim da História. oferecendo-se como justificativa a vigência do pensamento único e outros despautérios de igual jaez por aí forçados a circular. Com isto. será preciso proceder a uma re-interpretação dos dados atuais da micro-física. ao invés de apenas quatro. mecanismo pelo qual se proporciona massa explícita às partículas) e a antiga força forte de Yukawa (que garantia a integridade do núcleo atômico. ou pior. uma nova cultura de caráter lógico-qüinqüitário. gravitacional e forte gluônica. forças da natureza. justamente por serem mais elementares). redutíveis às primeiras (eletromagnética. dando-se como prova a promiscuidade de todos os estilos em arte. Tomando-se agora como referência o modelo 9. De modo conseqüente contaríamos seis. portanto. três forças simples (de Higgs. justamente por serem entes derivados. tendo como ponto de partida a recontagem do número de forças realmente atuantes na natureza [10]. nos espera. eletromagnética. Preliminarmente. que é mediada por pions).

1 nos permite uma visão comparativa do modelo standard com o modelo ora proposto. graviton. A Tabela 9.(e) elétron BOSONS: gluon. torna-se relativamente fácil comprovar a perfeita homologia . em termos de férmions e bosons o modelo.MODELOS PARA AS PARTÍCULAS ELEMENTARES MODELO STANDARD FERMIONS LÉPTONS QUARKS MODELO ALTERNATIVO PARTÍCULAS FUNDAMENTAIS FERMIONS BOSONS SIMPLES neut.(m) mion neut.1 . podendo ser agora redefinidos para evitar as cargas fracionárias Aceitando-se a modificação por nos sugerida.fracos fóton neut. à esquerda). o que não deixa de estar acorde com a experiência empírica. pion b. bem melhor equilibrado: TABELA 9. bosons fracos e fóton QUARKS: ainda existentes. que atesta a impossibilidade de sua existência em estado de isolamento. considerados entes de razão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 237 standard (Tabela 9.(m) tau mion gluon graviton p/Higgs COMPOST. substituindo os correspondentes três pares de quarks pelos três pares de bosons mediadores de forças. que não contradiz qualquer dado empírico e simetriza.1.(t) tau b s u t c d neut. Os quarks continuariam existindo. como entes de razão.(t) neut. chegamos à conclusão de que devemos preservar integralmente o bloco formado pelos três pares de léptons (elétron/ neutrino do elétron. mion/neutrino do mion e tau/ neutrino do tau). porém. porém. aceitando-se a substituição do conjunto dos seis quarks pelo conjunto dos seis bosons representativos das forças. ou seja. porém.(e) elétron neut.

Para evidenciá-la. talvez. tendo por condição a simples inversão de seu spin. um elétron pode ceder parte de sua energia cinética emitindo um fóton. todas as posições das estruturas lógicas. da radiação sincrotron provocada pela aceleração circular do elétron. conforme ilustra a figura 9. exceto uma. as etapas do processo de desintegração de apenas uma partícula. são suficientes para permitir-nos preencher. por suposto. graviton e gluon). Apenas este conjunto de equações representativo da desintegração do tau e o pressuposto bastante intuitivo de que todos os bosons (mediadores de força) devam ser alocados a posições lógico-diferenciais e todos os fermions (“peças elementares” de construção) a posições lógico-identitárias. Sendo a posi- . basta que acompanhemos. com quase nenhuma hesitação. o que nos permite dar ainda mais um passo na seqüência de equações anteriores: =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + νe(PrØ -I) + e(I) + γ(PrØ -D) + e(I). É o caso. o tau: τ(I/D/2)= =ντ(I/D) + π(D/2)= =ντ(I/D) + νµ(I) + µ(I/D)= =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + W(D)= =ν τ(I/D) + ν µ (I) + ν µ (I) + ν e(PrØ -I) + e(I) Como é bem sabido. a mais complexa delas. por exemplo.238 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO existente entre o elenco fundamental de partículas com as lógicas. uma a uma. Nos restaria apenas preencher a posição Pré-PréD.e[↑] = e[↓] + γ[↑↑] -. tendo ainda disponíveis os três bosons simples (partícula de Higgs.6 [11].

naturalmente. Não se pode ter grande dúvida de que este deva ser a partícula de Higgs.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 239 ção Pré-Pré-D uma posição lógico-diferencial.Muon PRÉ-I PRÉ-D Partícula de Higgs PRÉ-I Neutrino (elétron) PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Partícula de Higgs Figura 9. com o que se completa a adjudicação das partículas elementares às lógicas conforme ilustra a figura 9.6 [12]. a partícula de Higgs em Pré-Pré-D. Também não poderia ser o gluon. isto porque o graviton só pode atuar depois que a massa houver se manifestado.(mion) I/D Próton/Nêutron Tau I/D/ 2 Gluon Bos. precisa receber mesmo a alocação de um boson. de pré-I a I/D/2 . Neutrino (elétron) I Elétron Neutr. que age mediando estruturas já bem complexas (os quarks no interior dos barions).Fracos D Pion D/ 2 I 0 I= D/ Partícula Neutrino de Higgs (elétron) D I I/D Muon Neutr. Teríamos então.6 – Lógica das partículas elementares. ficando o graviton junto ao fóton em pré-D e o gluon junto aos bosons fracos (W ± e Z0) em D.(tau) {Quarks} PRÉ-D Fóton Graviton Fóton Elétron Graviton Neutr.

hoje experimental e definitivamente estabelecido e para os quais os físicos não encontram uma justificativa teórica. verificamos que três são mais elementares. como já tivemos oportunidade de demonstrar [13]. os três níveis de férmions (agora também de bosons elementares]. dentre as quais destacaríamos: a) acaba-se com o absurdo de não se contar corretamente (honestamente. b) ademais. resolve-se o grave problema de não se dispor até hoje da menor justificação na distribuição das características das forças. seria. semelhantes aos quarks do modelo standard. deixam de ser quatro . estranhamente. O modelo ora proposto tem inúmeras vantagens sobre o modelo standard.no caso.240 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A alocação dos nucleons .junto com o tau em I/D/2 tem um excepcional significado que deixamos para comentar um pouco mais adiante. um valor completamente arbitrário . na medida em que todos o bárions passam a ser considerados modos excitados de “partículas lógico-qüinqüitárias” (formalmente redutíveis a três “partículas lógico-trinitárias” [14]. que não são mais hoje considerados partículas elementares . contando-se seis. com a vantagem de poderem dispensar as incômodas cargas fracionárias).para serem seis (como os léptons e os quarks). servindo justamente para estruturar o mediador de uma força composta correlata (por isso. a redução já realizada da força de Yukawa à força forte gluônica é disto a prova irretorquível que. na circunstância. a palavra mais adequada) o número de forças. todas elas com características determináveis a priori em função daquelas das forças simples).próton e nêutron. . é uma exigência lógica. em sintonia com o resto do modelo. os cientistas não querem ou não conseguem enxergar! c) o sub-modelo dos quarks é absorvido pelo novo modelo.

então.o ser-uno-trino (tempo. espaço e matéria)! O princípio antrópico [16] emerge da constatação de que admitidas variações. d) e. para os modernos é apenas algo levemente mais complicado .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 241 os estados lógico-qüinqüitárias de mínima energia são ocupados pelos nucleons. as determinações lógicas do mundo físico são muito mais profundas do que estariam os físicos dispostos a admitir [15]. forçando-se um pouco a mão fecha-se o círculo: este Universo destinava-se.4. seria apenas um fato: uma 9. conforme o acima exposto. e o homem a ele. Quanta simplicidade e clareza! Bastaria considerarmos que a Física nasce de uma decisão cultural (logo. desde o big bang o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. ao homem. finalmente. a priori. duas interpretações do que. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram constantes e universais. transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo que se faria impossível o advento do homem. a nosso ver. o mais importante: põe-se às claras a estrutura lógica subjacente ao elenco das partículas elementares. ab initio. a realidade (desejada) é o ser-um. o próton e o nêutron. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes. ainda que diminutas nos valores das constantes universais [17]. De fato. Tudo isto não nos pareceria assim tão surpreendente se tivéssemos todos uma maior familiaridade com a filosofia da Física. quase tão drástica e dramática quanto o foi a da Filosofia para os gregos: para estes. de caráter nada experimental). São geralmente reconhecidas duas versões do princípio. eis a essência do princípio. apesar de todas as evidências acerca da incomensurável diversidade fenomênica do mundo. Princípio antrópico renovado .

para a . se fossem o mesmo. talvez. uma entre inumeráveis outras já realizadas ou em processo permanente de realização. questão cujo sentido estaria ainda por ser precisado. mas o simples produto de um descontrolado impulso especulativo. uma versão fraca. conforme Hugh Everett. mas fundamentalmente a forma das equações. se fossem deuses diferentes. paralelos. Para estes críticos. mais na sua versão forte. a não aceitação de que se introduza no domínio científico outra espécie de causa que não a eficiente (no caso. ainda sofre o repúdio. da maioria dos cientistas. em que se pressupõe que ocorreu um pré-ajuste intencional das constantes. por exemplo. além do deus ajustador de constantes. garantido o valor das constantes universais. de parte de um Deus que desejava ver por terceiros louvada sua bela obra. todas elas resultantes de flutuações quânticas de um “vácuo” altamente energizado (universos aleatórios. em que os valores das atuais constantes universais seriam na verdade uma realização totalmente probabilística. haveríamos que pressupor também um deus montador de formas funcionais. tratar-se-ia da introdução de uma causa final). ou seqüenciais. teríamos que pensar a questão das constantes concomitantemente à da estipulação das formas funcionais. segundo John Wheeler [18]). Dentre os mais freqüentes e potentes argumentos que lhe são contrapostos destacaríamos dois: primeiro. segunda. O princípio. Entrementes.242 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO versão forte. não temos visto mencionado aquele que nos parece dentre todos o mais decisivo dos argumentos. Assim sendo. o princípio antrópico não seria um verdadeiro princípio científico. o ajustador de constantes. um pouco menos na fraca. que desmoraliza a versão forte e debilita aquela que já se tem como versão fraca do princípio: o que determina o curso do Universo não é apenas o valor das constantes. fruto de uma única tirada. que. não se estará automaticamente assegurando o aparecimento do homem.

para nós. Por definição mesmo do que seja um encontro. ele requer também o comparecimento efetivo e independente do homem através da antropologia. A homologia entre. no entanto. entendida esta não como uma entre outras das chamadas “ciências humanas”. a cosmologia/física. mas. de um lado. porém. realizado. apenas a partir da física ou da cosmologia. não seria propriamente um deus. no caso. na medida em que não falamos apenas de condições gerais de possibilidade de uma convergência. nos moldes daquela por nós já delineada [19].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 243 nossa sensibilidade. que caracteriza o elenco das partículas elementares. a nosso juízo. numa versão ainda mais radical. e aquela que . em especial. mas como uma antropologia renovada. Isto sim. Em suma. de um fato extraordinário: a perfeita homologia entre a estrutura lógica (I/D/D). de um lado. se estaria carecendo de uma justificação para o princípio antrópico que conjugasse. Podemos assim afirmar que estamos frente a uma reafirmação do antigo principio. sim. ainda permanece não visitado. afora a grandiosidade da intenção. é marca distintiva essencial do ser humano. das modalidades de crítica contra ele até hoje assacadas. tendo por base uma concepção alargada da lógica. de outro a antropogia filosófica sustentada por uma lógica ressuscitada. até hoje. de simples demarcação de um lugar de encontro que. traria ao princípio um verdadeiro sentido que o deixaria a salvo. Como então sair de tal imbroglio? Somos de opinião que o princípio. o conjunto formado pelas partículas elementares. e de outro a história da cultura como processo de desvelamento do ser (lógico) do homem é. pelo menos. não passou de uma intuição ainda obscura. ele não poderia mesmo consumar-se. pela lógica hiperdialética qüinqüitária que. o novo fundamento que necessitávamos para o princípio antrópico. mas apenas um demiurgo delegado ou subcontratante.

rever nota 5 deste capítulo). inversa e coerentemente. Vimos que a posição I/D/D no quadro lógico das partículas (figura 9. A similitude entre a lógica das partículas e a lógica do ser humano vai a detalhes verdadeiramente insuspeitáveis.4) é ocupada pela partícula tau. em função de que ela se desintegra. na versão por nós ora proposta. D/D ou D/2 (porque baseadas no conhecimento objetivo do mundo). como acima mostrado.referimo-nos aos nucleons. em 5 partículas realmente fundamentais e estáveis: τ = ντ + νµ + νµ + νe + e. ao cabo de 4 etapas. por isso. se constitui no paradigma concreto da logicidade qüinqüitária? Para responder é necessário compreender como “a partir do” tau podem se formar estruturas homólogas. enquanto que. a propósito. o que. o que de certa forma rebaixava o homem. entre mundo e pensamento do mundo. mas de nível energético mais baixo (menor massa) e por conseqüência bem mais estáveis [20]. Isto é realmente possível através da substituição do neutrino do tau . É importante observar que as antigas versões do princípio antrópico estabeleciam uma correspondência homem/universo a nível científico. Que pode isso significar. que precisam. serem também alocadas à mesma posição I/D/D . ou seja.244 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO referencia o processo de auto-realização cultural do homem. a correspondência se estabelece a nível qüinqüitária I/D/D (a leitura da estrutura das partículas eqüivale à leitura de um texto. alça o Universo à altura do homem. próton e nêutron. se o tau. mais estáveis. Mesmo considerando que o princípio já esteja suficientemente justificado. porém. não precisamos temer os riscos de ir ainda um pouco mais longe. Acontece que existem outras partículas (barions) de mesma estrutura.

por ser mais pesado do que o próton. “ensejando” precisamente a formação de um nêutron. . Com a desintegração. se desintegra (vida média de 925 s) pela força fraca. a outra. emite um W(D). sobra um quark (q)(I/D). TAU PRÓTON ( e +e) 0 NÊUTRON (W+q) e e e e e e W e q Figura 9. quando isolado. determinada por seu modo de desintegração.7. que. por um neutrino do elétron (ne). o que vai “ensejar” justamente a formação de um próton. usa a própria energia cinética ou a interação com outra partícula para se transformar num próton (I/D/D). por um anti-elétron (e). que por sua vez também se desintegra num elétron (e)(I) e num neutrino do elétron (ne)(Pré-I). por não poder existir em estado de isolamento. é sem qualquer dúvida feminina [21] . Vê-se que a “sexualidade” do nêutron. isto é. razão pela qual só existem duas possibilidades de substituição do neutrino do tau (nt): uma.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 245 na estrutura do tau.7 – O tau e os nucleons O nêutron (I/D/D). Nesta última os neutrinos do mion (nm) já estão saturados (por estarem ali presentes o neutrino do mion e a sua respectiva antipartícula).fundada num boson fraco W (D) e num quark q(I/D). como ilustra a figura 9.

mas sim a passagem a um nível de estruturação lógica máxi- . no interior do núcleo. também se torna estável [23]. Entretanto. a criança. Sua “sexualidade” é pois inequivocamente masculina. embora fisiologicamente definida macho ou fêmea. fundada num elétron e(I) e num píon p(D/D= =D/2). e esta é a razão pela qual a partir daí poderem se formar os demais agregados físicos – átomos. como acreditava Freud?! O próton. como já dissemos. ainda mais. quando em interação com o próton no núcleo atômico. É interessante observar que o nêutron (feminino) só se conserva como tal na proximidade do próton (masculino). após enfrentar e superar a problemática edipiana consumaria sua “opção” sexual definitiva e entraria numa fase de latência [24] à espera da maturação orgânica funcional. o valor estimado da vida média do próton (já agora superior a 1032 anos [22]). segundo Freud.GUT). O nêutron. deixando como resto um elétron.246 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A comunidade dos físicos aposta na desintegração do próton como um dos modos de referendar a atual proposta de unificação da força forte com a força eletro-fraca (Teoria da Grande Unificação . O mais surpreendente é que vamos encontrar uma situação absolutamente análoga quando examinamos o processo de desenvolvimento do ser humano. não seria exagero dizer) desintegração foram negativas. todas as experiências visando a comprovação da aludida (ardentemente desejada. De qualquer modo. servindo apenas para ampliar. a desintegração almejada só poderia se dar pela emissão de um píon zero. “masculinizando-se”. parte inferior). constitui-se na mais estável de todas as estruturas qüinqüitárias. por ser a partícula de menor massa. Para nós não haveria propriamente tal fase de latência. o nêutron se desintegra. moléculas. macromoléculas e assim por diante (figura 9. No processo de desenvolvimento normal. Só existiria então um tipo de “energia sexual ou libido”.8. isolado.

8 – Agregação para além de I/D/D Assim. ainda de nível lógico- . ao invés de ingressar numa tranqüila fase de espera. caracterizada pela auto-suficiência e onipotência que a incapacita à composição de agregados estáveis de nível superior e. assume ares de onipotência bem de acordo com a postura andrógina a que nos referimos.ENTRE PARTÍCULAS ÁTOMOS/MOLÉCULAS TAU I/D/ 2 NÊUTRON (I/D)/(D) NÚCLEOS I/D/2 (I)/(D/2 ) D/ 2 PRÓTON PION Figura 9. AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ . instável. deixando-a suscetível de regredir (se desintegrar) a estados anteriores menos estruturados. A maturação sexual. veríamos a criança ingressar numa fase crítica. Muitos psicólogos já chegaram à conclusão de que a criança. viria para obrigála a uma auto-realização. ainda por cima.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 247 ma I/D/D=I/D/2. que de certo modo caracteriza o andrógino.ENTRE HUMANOS GRUPOS SOCIAIS ANDRÓGINO 2 I/D/ 2 FEMININO (I/D)/(D) FAMÍLIA I/D/2 MASCULINO (I)/(D/ 2 ) D/ 2 AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ 2 . entretanto. em certo momento do seu desenvolvimento (lógico/lingüística).

. Vimos anteriormente que em suas grandes linhas a história da cultura era aquela do autodesvelamento do ser lógico-qüinqüitário do homem. evidente: o homem (ou a cultura) é o “lugar” onde o Universo dá conta de si mesmo em seu mais elevado nível. estava tudo já escrito no diminuto par de nucleons próton e nêutron . ou (I/D)/(D). tiveram como castigo. Re-significação cósmica da história da cultura . viria corroborar a tese da significação cósmica da sexualidade humana. mais estável. feminina. Malgrado a irrecusável homologia entre a estrutura das partículas elementares e as lógicas opera- 9. Esta seria a origem mítica do desejo e do amor. o que.5. rebeladas contra os deuses. Em outras palavras.esperando apenas por ser “lido”. a propósito. Como se pode ver. a nação etc. A partir daí então é que se podem constituir os agregados humanos . Estes foram criaturas que. condenadas assim à eterna busca de uma integridade perdida. porém.248 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO qüinqüitário. correspondente a uma das duas possíveis diagonais de I/D/D: ou (I)/(D/D). Ela é uma realização a nível superior (consciente e simbolicamente representada) da lógica qüinqüitária no Universo. obrigá-la a assumir uma sexualidade propriamente humana ou socio-lógica. isto é. ficamos certos de que o homem representa o ponto mais alto do ser do mundo e o seu processo de auto-desvelamento ganha um sentido cósmico. serem secionadas bem ao meio. Tudo isto já aparece de forma alegórica no Banquete de Platão [26]. masculina. depois a assembléia de pares. isto é. Ele o faz valendo-se do mito dos andróginos. Com o princípio antrópico consolidado. por tão grande ousadia. quando ali é dada a palavra a Aristófanes para que exponha sua concepção do desejo e do amor.primeiro a “família” [25].

que postula a presença de um certo grau de consciência ou subjetividade a nível das próprias partículas elementares. ou coisa similar. Precisemos um pouco mais esta idéia: as partículas elementares. de modo algum. na medida em que deixa transparecer uma conotação substancialista da consciência.massa. para sustentarmos que contêm. Sob o primeiro destes aspectos as partículas caracterizar-se-iam individualmente por um conjunto de propriedades estritamente físicas mensuráveis . Prossegue com a evolução propriamente biológica que começa com os seres unicelulares e vai até os cordados. compostos inorgânicos. Diríamos que chega-se. Neste sentido. numa ainda mais sofisticada e mal conhecida modalidade programática do programático. outro. porém.. ainda que de uma maneira um tanto alegórica. assim. tão apenas na modalidade programática. como dissemos. A consideramos totalmente descabida. spin. seres vivos dotados de sistema nervoso central. encampando a visão teillardiana [27]. o ADN do espírito [28]. é uma transposição formal ou estrutural da microfísica para o homem do tipo programa produto. mas não num grau menor ou imperfeito. propriamente físico ou concreto. depois aos orgânicos até a constituição do código genético: chega-se à vida. à animalidade estrito senso. começa então a evolu- ← . pode-se dizer que as partículas elementares contêm em potência ou programaticamente a subjetividade. se apresentariam sob um duplo aspecto: um. A partir daí dá-se um processo ascendente ou evolutivo que passa pela formação dos núcleos. ou talvez mesmo. Pelo contrário. simbólico. O que se pode aceitar. inclusive a subjetividade humana. devemos afirmar que a contém de forma completa e perfeita. diríamos. átomos. carga etc. é importante frisar que não estamos. Sem receio poder-se-ia então dizer que as partículas elementares seriam.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 249 das pelo homem. sim.

. A nosso juízo. que nos diz direta e imediatamente. as partículas se organizam numa obediência rigorosa à seqüência e às articulações das estruturas lógicas . faz então emergir a cultura. O que lemos aí outra coisa não é senão o código genético do “espirito humano”. assim. de sorte que. também diretamente lê-las. devemos esclarecer que ele se refere não a partículas isoladas. Quanto ao aspecto simbólico.250 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ção propriamente animal.I. a partir do que entramos num processo de evolução caracteristicamente socio-lógico. que este mundo. mas ao seu conjunto básico completo. uma mensagem cifrada: em algum lugar. Um segundo modo de realização haveria. o processo seguirá inexoravelmente até o surgimento da cultura nova qüinqüitária. por fim. considerar o processo de ascensão físico-químico-biológico como um dos modos de realização da mensagem. a cultura nova lógicoqüinqüitária (I/D/D). concreta. desde a origem. ao invés de só mensurá-las e/ou determinar empiricamente suas múltiplas formas e comportamentos agregados. pois. I/D/D -. a destinação lógico/emocional do homem. O elenco de partículas elementares se apresenta. podemos. pela nova leitura. vale dizer. Pode-se. da cultura que desvela e assume. Como mostramos na figura 9. que leva ao surgimento do homem e da cultura e.6. é um mundo para o homem e vice-versa. I/D. chegando-se deste modo ao homem. à cultura que se põe à altura do próprio homem. uma primeira consecução. de modo alternativo. A “invenção da gramática. advirá o homem e a cultura como processo de sua auto-realização. em grau de plenitude. como uma estrutura significante. algum dia. de natureza simbólica. um processo sobretudo de desenvolvimento do sistema nervoso central que conduz à formação e desenvolvimento da neocórtex. ou equivalentemente da diferença clânica.

volume. que é. a transformar-se numa estrela gigante vermelha. sobretudo. separação espírito/matéria. exaurido. a vida humana sobre a Terra. Entretanto. o que nos leva a concluir que a vida teve que se realizar para que o espírito pudesse deveras se realizar. das que são enquanto são. A avaliação última ou mais significativa do estado do Universo não pode. por exemplo. para onde. das que não são enquanto não são. como em geral se imagina.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 251 É pelo menos curioso observar que o ADN do espírito e o “ADN da vida material estavam potencial e concomitantemente definidos nas partículas elementares desde o big bang. sim. estas considerações são mais do que suficientes para liquidar de vez com a persistente. O antropologismo deixa. ainda que esdrúxula. com o conseqüente abrasamento da Terra. auto-desvelamento ou objetivação simbólica do seu modo de ser lógico. Assim já o pressentira Protágoras: o homem é a medida de todas as coisas. ou seja. temperatura de seu ruído de fótons ou neutrinos de fundo. Há tempo mais do que suficiente para que o homem (na verdade. o esgotamento do processo de queima do hidrogênio. densidade. portanto. o próprio Universo. que levará o Sol. de ser um grave pecado ou mero infantilismo ontológica para transformar-se em exigência de uma superior coerência. por isso. pelo grau de realização de sua destinação. afinal. Não nos deixemos surpreender daqui para frente com a repentina inversão de muitas significações. Ademais. o primeiro só se poderia realizar tendo a segunda como suporte. e passa a ser. é e será sempre sua pró- .pela idade. mas sim pelo mesmo parâmetro que mede a cultura. se mude de um lugar para outro. ou mesmo pelo sofisticado sinal de sua curvatura -. O episódico. não é mais. ser feita (ou só) referenciada a parâmetros físicos . a partir de agora. justo onde impera o seu máximo vigor lógico-qüinqüitário).

damo-nos conta agora de que sua chegada é um acontecimento maior não apenas na história da humanidade. do que a deserção (dos que o sabem agora e dos demais.252 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pria morada. hoje. que já bem antes a adivinhavam) da luta pelo advento da cultura nova lógico-qüinqüitária? . Particularmente. mas igualmente daquela do próprio Cosmos. com respeito á cultura nova lógico-qüinqúitária. que haveria de mais degradante. Como podemos doravante sustentar que a vida não tem sentido? Que nossa vocação é mesmo o niilismo? Que causa ainda maior estaríamos exigindo para admitir que a vida vale a pena? Diante destes fatos.

nós [3].dos bandos de caçadores/ coletores do paleolítico (pré-I). faz discriminação similar. Paul Tillich – Théologie de la culture Toynbee [1]. et la culture est la totalité des formes à travers lesquelles la préoccupation fondamentale de la religion peut s’exprimer. tomando como exclusivo parâmetro a lógica. a que denominamos cultura nova lógico-qüinqüitária . o preclaro teólogo teuto-americano da cultura.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 253 10 Superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária La religion. culturas lógico-identitárias . dos impérios de base agrícola da Antigüidade (pré-D). vocacionada para a temporalidade e para a conquista de um superior patamar de espiritualidade. já discriminava vagas civilizatórias alternantes. opondo culturas do tempo e do espaço. est la substance qui donne son sens à la culture. ora materialistas. greco-romana (D) e científica ou moderna (D/D=D/2) [4].e culturas lógico-diferenciais neolítica. o eminente historiador britânico. Paul Tillich [2]. judaica (I) e cristã patrística (I/D) . ora espiritualistas. en tant qu’elle est une préoccupation ultime. respectivamente. Por este simples vai e vem histórico e tendo-se ainda em consideração o caráter cínico materialista contábil da Modernidade. as denominamos. podemos de pronto inferir que a esta última irá suceder uma cultura da linhagem lógico-identitária.

por conseqüência. contudo.. à vera. Nosso propósito aqui será o de tentar explicitar as preliminares deste renascimento religioso (e. Esta cultura nova. que ela estará ressurgindo integralmente renovada em seus fundamentos e em suas práticas. portanto. com o transcendente e lá pelos seus confins. o que não pode ser. com o Absoluto. de modo algum.254 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO (I/D/D=I/D/2). -SeptendecitÆ rio Antecipa ı es na Revelação Cristã . nos deverá trazer de volta a preocupação. em sua significação mais profunda. desvãos e madrugadas da cultura científica dominante. seguiremos o seguinte roteiro: A l gica ressuscitada O eixo onto-l gico aberto Comprometimento l gico da cultura Dire ª o e sentido da morada divina O homem como ser l gico-q inq itÆ rio Desejo de ser (menos) da cultura Reversª o do desejo na cultura q inq itÆ ria ExperiŒ ncia da ausŒ ncia do transcendente Deus Uno-Trino-. confundido com a ola carismático/ midiático/supermercadológica que invade e infecta hoje os interstícios. Nela veremos a revivescência de uma autêntica e consistente religiosidade. um pouco que seja.. devendo-se atentar. Para tanto. teológico) e penetrar.

De um lado. Este trabalho já está de certo modo realizado [5]. apenas formal. a reorientação do desejo coletivo.. Mas a abertura desta possibilidade. e a recuperação do sentido da experiência interpessoal da ausência do transcendente – é o que nos irá reto conduzir ao desvelamento pós-idolátrico do Absoluto Uno-Trino-. agora voltado para o mais alto. acontecimento deveras revolucionário. o advento da religiosidade lógico-qüinqüintária. implícitos na lógica dos diversos modos da Revelação Cristã.1. não teremos dificuldades em reconhecer. de algum modo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 255 Partimos. os traços que. se constitui necessariamente como “experiência de uma ausência ou de uma falta”. teremos definido a direção e o sentido em que se pode encetar. da lógica ressuscitada que irá se constituir no grande eixo paramétrico a referenciar todos os existentes. como tal.. A partir daí. de maneira conseqüente. que. atuais e concebíveis. a busca do Absoluto. haverá a resignificação dramática de uma experiência bem cotidiana. A convergência destas três poderosas determinações – o desvelamento da direção em que se possa buscar o Absoluto.A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto . haverá o despertar de um real desejo coletivo pelo transcendente. deverá vir ainda acompanhada de dois outros acontecimentos de grande significação para a história humana. mas geralmente mal percebida: a experiência interpessoal do transcendente.-Septendecitário (I/D/D/D/D= =I/D/ 4 ). Com isso. já antecipam este grande acontecimento da história humana que será. Começa com a recuperação das lógicas segundo a bem estabelecida tradição filosófica: além da una- 10. sem nenhuma dúvida. representando o definitivo abandono da idolatria até hoje vigorante em todas as culturas históricas. De outro lado. como sói acontecer.

Esta já se encontrava presente . I/D. de uma lógica da simples diferença. como uma honrosa exceção. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3) e assim por diante. Com isso. como na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante) e também na antropologia estrutural. noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana [6].256 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). não só na tradição filosófica dos “não conformistas” (Pascal. vem.. Uma arguta re-nomeação destas quatro lógicas de base . Nietzsche. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). para além dessas. pela constatação da necessidade de se assumir a vigência. D/D=D/2. A geração se daria através da operação de síntese dialética generalizada ( / ).que não deixa de ser por isto menos correta e pertinente -. arrola-se também a dialética (tanto platônica. quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído. Deleuze). D. de modo quase natural. embora desviantes. no criticismo kantiana e na fenomenologia husserliana). I/D/D/D= =I/D/ 3 . sem descanso. sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas: da lógica da identidade (ou transcendental) (I) e da lógica da diferença (D). Kierkegaard. mas também em outras áreas do saber. Heidegger.é de seu feitio. a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). . são geradas a própria dialética (I/D).. I/D/D=I/D/2. sempre a meio caminho -.) constitui o mais simples dos . Depois. as paraconsistentes (ou paradoxais) e as paracompletas (ou intuicionistas). Na esfera do formalismo acadêmico em voga. D/D/D=D/3. ter-se-ia também que considerar as poucas lógicas de fato lógicas. Sabemos que a seqüência das lógicas (I. Ortega y Gasset. sempre às esgueiras.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 257 semimonóides livres [7]. . tendo-se em conta que o semimonóide é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos . I/D/2..Encadeamento das estruturas lógicas . As lógicas identitárias . tal como ilustra a figura 10.1 . I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 10. um evidente sinal de sua profunda essencialidade.1.. sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente.I.definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos. I/D..os números naturais.

Em princípio. na posição I/D. de imediato. pois impede. estando. que a institui em nível lógico-transcendental. se venha a imaginar um Absoluto abaixo do nível humano. é a recusa em aceitar um Deus de semblante humano . pois o “velho barbudo” é de estatuto lógico I/D/2. permite também recapitular e estender a verdade da mais vetusta e essencial dentre as correlações filosóficas: aquela que vige entre ser e pensar. Como o menor (logicamente) pode criar o maior? O segundo é o de . prontas a aceitá-lo como uma “força” ou uma “energia” cósmica. na posição I. vale dizer. entretanto. O primeiro. e assim tudo o mais.diz-se jocosamente. Devemos notar que a simples instituição do eixo onto-lógico tem. bastante comum entre as pessoas “mais educadas” de nossa sociedade. na melhor das hipóteses. é importante observar. temos aí uma escala aberta. Ela remonta a Parmênides. A partir de então. vale a pena citar três equívocos doutrinários bem atuais. definitivamente. O eixo lógico desvelado. um poderoso efeito profilático conceitual. o Absoluto. ainda mesmo quando se lhe venha a atribuir o esturdio caráter de infinitude. pode o eixo lógico complementarmente assumir um superior caráter onto-lógico. na posição superior (I/D/D=I/D/2). A este respeito. presentemente a reconhecemos também válida em nível lógico-qüinqüitário. em nível lógico-dialético. o ser discursivo e o homem. acreditamos que agora. enquanto que forças e energias são de estatuto lógico D (ou.258 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Todos os entes mundanos podem ser posicionados nesta escala paramétrica constituída pelas lógicas: o puro ser. Um verdadeiro disparate. é retomada por Hegel. seu exclusivo usuário. pseudo I/D) [8]. o ser simbólico e os animais capazes de operá-lo. dentre os quais poderá estar e imperar o inexcedível. um velho de longas barbas -. que nos traz a possibilidade formal de conceber algo para além do humano.

O mesmo vale para o segmento de reta infinito: ele é necessariamente um segmento de reta. aliás muito freqüente na teologia cristã. o estatuto lógico-qüinqüitário ((I/D) x (D)=I/D/2).2. pois. é de adjudicar o atributo infinito ao Absoluto. pois. Isto vale para qualquer tipo de infinito. O terceiro equívoco. A noção de infinito é essencial e irredutivelmente quantitativa. não há bons e maus infinitos – pelo menos para a teologia. só que maior que qualquer número que se possa de modo ostensivo apresentar. é da essência de qualquer infinito manter-se qualitativamente o mesmo que o seu finito de referência. mas um verdadeiro número. A grande questão é que deste modo o homem passa a ter um estatuto lógico superior àquele do Espirito Absoluto. E por que não também para a filosofia? De certo modo. aliás. entre outras coisas de grande importância.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 259 boa parte dos atuais seguidores do pentecostalismo [9]. lhe adjudicam automática e. tornou-se possível. que o número permaneça qualitativamente número. o que se nos afigura um absurdo. 10. Por exemplo. só que maior do que qualquer segmento que se possa efetivamente exibir. Ao contrário do que acreditava Hegel. corretamente. Ao fazer do homem a arena onde se defrontam o espírito de Deus (I/D) e o maligno (D). o que só faz obscurecer o seu entendimento. como já tivemos oportunidade de alertar [10]. o segmento. todo infinito é péssimo. tanto católica quanto protestante. Superação da idolatria com o advento da cultura lógico-qüinqüitária Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. A esperteza de se introduzir a “noção” de infinito qualitativo é totalmente descabida.o . fora do estrito âmbito da matemática. O fundamental é. que se alcançasse uma conceituação precisa do ser humano . como vimos. o número infinito não é algo além ou acima dos números. qualitativamente segmento.

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ente lógico-qüinqüitártio por excelência [11]. A simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição mais elevada do eixo das lógicas, visto que apenas ele é capaz de operar em nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). O mais avançado dos mamíferos não vai além da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D), esta que lhe permite operar com símbolos convencionais acabados, mas não com o discurso articulado (ou, o que seria sua principal pré-condição: operar com os conectivos lógico-proposicionais). A partir daí, a história da cultura pode ser compreendida como o processo do progressivo autodesvelamento simbólico objetivo do ser próprio do homem [12]. Toda cultura teria, assim, um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada, e que lhe confere, inclusive, as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I, da diferença D, dialética I/D, clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2), seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. Elas serão, de modo genérico, denominadas etapas ecológicas, distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e, a seguir,

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uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza, ou seja, onde se “inventa o trabalho e de imediato o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). O contato cultural, especialmente quando intenso, produziria culturas de tipo misto; a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição; a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas; destes e de outros tipos não-nodais, entretanto, não nos ocuparemos aqui. Resumidamente, focalizando apenas uma área restrita - o Ocidente e o Oriente Próximo - teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I, cultura tribal, dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico; pré-D, cultura sedentária de base agrária, começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade; I, cultura judaica, primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral; D, cultura prometéica grega, já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos); I/D, cultura medieval cristã (patrística), por todos os títulos, uma manifesta síntese das culturas anteriores; D/2, cultura moderna de base científica, que hoje domina o mundo; e, ainda por vir, I/D/2, cultura hiperdialética qüinqüitária, não castradora, porque, pela primeira vez, uma cultura à medida exata do homem. Como já visto [13], até que chegue a termo o processo de auto-desvelamento lógico da cultura, o dinamismo social tem se nutrindo, ainda que possa parecer paradoxal, de um desejo de regressão a níveis lógicos inferiores ao que teria já sido alcan-

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çado pela humanidade, por isso, em essência, um desejo de poder ou de morte, como se diria no jargão freudiano. Note-se que o mais velho ancestral do desejo de morte é coetâneo à própria instituição da cultura (I/D/2), como desejo de retorno à animalidade (I/D), que é logicamente eqüivalente ao desejo de violação da proibição do incesto. O que Freud não teve chance de perceber foi que, chegando a humanidade à altura de si mesma, vale dizer, ao desvelamento de seu privativo ao mesmo tempo que constitutivo caráter lógico-qüinqüitário (I/D/2), não teria ela outra alternativa senão redirecionar este seu desejo mais íntimo, desta feita, para cima, pela primeira vez em direção àquilo que lhe fosse verdadeiramente transcendente. Recordando, deuses já foram o todo ecológico e seus elementos - rios, lagos, montanhas e outros mais - já foram o Uno e o Uno/Trino, o múltiplo trágico e, quando reiterado, destarte, o múltiplo calculável, em geral, infinitamente mais isto e mais aquilo, entrementes, concebidos sempre abaixo da potencialidade lógica do apenas ser humano, de modo a que jamais escapassem ao estrito controle das instâncias sacerdotais. É precisamente isto que irá definitivamente mudar. Não há dúvida de que a sacralização da lógica de uma cultura tem por si um papel crucial na estabilidade desta cultura, podendo por isso ser considerado um invariante cultural. Entretanto, o fato da lógica assim simbolicamente sacralizada ter estado reiteradamente abaixo do nível lógico dos homens em particular dos homens que constituem a classe sacerdotal encarregada de zelar pelo sagrado -, dava ensejo a que estes, maliciosamente, pusessem a sobredita “superioridade” lógica para funcionar em seu próprio proveito. Mantendo deus em estado de total submissão podiam exercer um tirânico controle social, fosse de modo direto (por exemplo, sociedades teocráticas da América pré-colombiana,

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fase primeva da história egípcia etc.), fosse indiretamente, associando-se à plutocracia dominante (por exemplo, o Brasil, por quase toda sua história). Foi nestas condições que a idolatria ganhou um suplemento de valor que a fez ainda mais prosperar. A cultura Moderna, como suas antecessoras, não falta a este padrão, como mostra a parte esquerda da figura 10.2. Entrementes, com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária, a sacralização terá que incidir sobre a própria lógica hiperdialética qüinqüitária, o que automaticamente retira a possibilidade da dominação lógica do sacralizado, inviabilizando, por conseqüência, que se faça da simples administração religiosa um meio de dominação social. Mesmo que ocorresse uma acidental idolatria lógico-qüinqüitária, ou seja, um humanismo sacralizado, ele seria bastante instável e logo superado no processo de busca de uma mais consistente religiosidade.
CULTURA MODERNA CULTURA QÜINQÜITÁRIA
DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE
2

ESCOLÁSTICA

D/2

DESEJO INCONSISTENTE

I/D/

BIOPIROTECNIA
D/
2

I/D D

A FÍSICA DESEJO DO UNO-TRINO COMO DESEJO DE MORTE OU DE PODER

I/D

FÍSICA

Figura 10.2 – A reversão do desejo na cultura lógico- qüinqüitária Acresça-se ainda que a cultura lógico-qüinqüitária não pode, por múltiplas e ponderáveis razões [14], sustentar um desejo para baixo - no caso, este seria

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o desejo do ser-sistêmico abandonado pela lógica D/D, que se teria deixado subsumir por I/D/D -, tal como veio ocorrendo com as demais culturas. Dentre aquelas razões, destacaríamos o fato de que o advento da cultura qüinqüitária representa a chegada a uma destinação, a um estado de transparente autenticidade. Insistir, a partir de então, num desejo para menos, é decidir pela recusa de si próprio! Em outras palavras, a tensão entre ser e desejo de ser (que antecede mesmo a tensão entre ser e dever ser), que agora com mais precisão caracterizaríamos como desejo de ser (menos), não se sustenta na plenitude lógico qüinqüitária, a não ser que o diferencial de ser se re-oriente, se transmude em um novo desejo de ser (mais). Assim, chegando a humanidade à cultura lógico-qüinqüitária, veremos seu desejo mais profundo se inverter, deixar de ser um desejo de regressão ou de morte para se constituir num desejo de progressão e de vida. Ver parte direita da figura 10.2. Isto tudo irá representar uma profunda revolução psíquica e social, na medida em que a humanidade estará, desta sorte, alcançando pela vez primeira um estágio de autêntica e consistente religiosidade, abandonando para sempre o que foi sua disposição lógico-idolátrica de muitas e muitas eras. Podemos concluir este item certos da radical solidariedade entre o advento da cultura nova lógicoqüinqüitária e a emergência de uma religiosidade radicalmente renovada, com a qual a humanidade terá deixado de lado sua velha disposição idolátrica e seu antigo desejo de poder ou de morte, em favor de um desejo realmente amoroso de ser mais.

Todos os estudiosos da cultura identificam no homem de todas as épocas a existência de um impulso para o que lhe transcendia, que nomeavam

10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente

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religiosidade. Com a Modernidade, a ciência que tudo invade e calcula, “naturalizou as formações históricas concretas de religiosidade, tornando-as, destarte, conspícuos objetos do saber científico. Enquanto a religiosidade dos povos primitivos ficava por conta da tradicional antropologia, instituíase a sociologia da religião para o estudo científico da religiosidade das culturas “mais avançadas”. Para muitos, até tão distantes entre si como Hegel e Comte, a religião seria tão apenas um momento ou estágio de compreensão do mundo, a ser superado pela filosofia ou pela ciência. Com Freud ela é considerada um verdadeiro transtorno psíquico coletivo, uma ilusão obsessiva que o saber psicanalítico (científico!) acabaria por superar, ou melhor, curar. De fato, se o impulso religioso tivesse como motivação apenas o consolo imaginário diante da finitude (ou da consciência da morte), todos estes críticos da sociedade poderiam ter razão e a religiosidade ser considerada hoje um fenômeno social em extinção. A nosso juízo, entretanto, a religiosidade tem um fundamento mais radical e permanente, pois estaria baseada numa experiência cotidiana e fundamental de todo o ser humano, que não seria propriamente a do Absoluto, mas de sua gritante ausência. Assim, para nós continuará a fazer sentido falar em religiosidade, mesmo após a era da ciência. O homem, por ser consciente, ou seja, operar com a lógica transcendental, faz-se portador de uma falta originária correlata à sua inextinguível angústia existencial. Ser é ser sempre à beira de um insondável abismo, o Nada. Isto é muito bem sabido, mas em geral estamos pouco atentos para uma outra falta, que não é de origem, mas de destino ou de significação. Sabemos que a lógica do “espaço” epistemo-lógico [15] correspondente a um determinado nível onto-lógi-

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co fica determinada pela simples substituição da identidade (I) por uma diferença (D) correspondente à essência do conhecer, que é se deixar determinar completamente pelo outro (objeto). Para alcançarmos a lógica do espaço práxio-lógico (ou da ação) correspondente, basta-nos re-incorporar a identidade (I) o que traduz o retorno à cena do ser subjetivo e de seu poder de auto e hetero-determinação. Assim, por exemplo, a nível do ser objetivo (I/D), o saber correspondente será a ciência D/ 2, isto é, (D)/(I/D)=D/ 2), e o agir, a técnica I/D/2, isto é, (I/D)/(I/D)=I/D/2. Semelhantemente, no caso do homem caracterizado como ente lógico-qüinqüitário (I/D/2) as estruturas epistemo-lógica e praxio-lógica respectivas seriam D/3, isto é, (D/(I/D/2)/D=D/3 e I/D/3, isto é, (I/D)/(I/(D/2)= =I/D/3. Ora, estas estruturas - epistemo-lógica e práxio-lógica - não são inteiramente acessíveis ao homem, que sabemos limitado à lógica hiperdialética I/D/2. Como, porém, os demais elementos de ambas as estruturas lhe são acessíveis, as posições lógicas D/3 e I/D/3 , ainda que não diretamente acessíveis, acabam sendo vivenciadas como falhas ou carências estruturais. Ver figura 10.3. Esta é apenas uma descrição em termos lógicos da vivência cotidiana relativas à impossibilidade de compreensão completa do outro e, muito menos, de conseguirmos dominá-lo. Isto deixa mais do que evidente que a condição de escravo, ou mesmo a de neocolonizado (ameaça concreta que paira hoje sobre nós, brasileiros), encerra, no fundo, uma degradação onto-lógica.

porque a analogia não é nem pode ser um modo de saber. a da identificação de uma motivação concretamente vivida que justificasse a prontidão para a recepção da mensagem revelada. o da abertura para o transcendente. caso contrário. seja fidei (K. sim. pois. pois o mais está presente no menos. O insistente apelo a um presumido conhecimento por analogia. . embora como falta. ou transcendental. que exige o prévio conhecimento tanto do significado quanto do significante. a falta originária. qual seja. não passou sempre de um ardil. O reconhecimento deste segundo tipo – falta estrutural – resolve um problema crônico de toda teologia. Eis aí. mas. conseqüente busca e aceitação do transcendente. Barth) [16]. seja entis (S. a base vivencial real para a admissão. no homem estão presentes dois diferentes tipos de falta. A falta estrutural por nós assimilada contorna a dificuldade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE ESTRUTURA EPISTEMO-LÓGICA SUBJETIVA ESTRUTURA PRÁXIO-LÓGICA SUBJETIVA 267 I/D/ D/ I/D D I 2 3 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D I I/D D/ 2 Figura 10. esta poderia facilmente se confundir com uma simples alucinação. Tomás). um modo de expressão. e a falta de significação. esta que podemos também denominar ausência viva do transcendente.3 Falhas estruturais epistemo-lógica e práxio-lógica humanas Assim.

. No plano da ação procede-se à sutura de D/3 e I/D/3. alguns mais. devendo-se precisar que a contextualidade aqui implicada é aberta. lhe dá acesso ao símbolo já inteiramente convencional (o que não quer dizer não motivado) e que a lógica I/D/2 do homem lhe dá acesso ao discurso que. do animal dotado de sistema nervoso central. nem necessitando lembrá-los todos. Isto significa igualmente que o homem passa a habitar a linguagem.268 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO No plano do saber. o que reduz as inesgotáveis práticas intersubjetivas a meras técnicas de sedução e manipulação. . mas igualmente pelo que se possa ainda um dia dizer. gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que a lógica I/D. de nível lógico I/D/2. reduzindo o saber sobre o ser subjetivo a impossíveis ciências humanas. respectivamente. vale dizer.. que se realiza . determinada não só por todos os já ditos. com D/2 e I/D/2. faz emergir o sentido intensivo ou contextual. como diria Heidegger [18]. Dentre elas. não raro sutura-se D/3 com D/2. Não podendo. onde estão co-presentes o ser e seu próprio horizonte: O homem é um ser lógico qüinqüitário. destacaríamos. cujo acesso lhe é facultado pela vivência direta da falta estrutural epistemológica (D/3) e das falhas estruturais práxio-lógicas (D/3 e I/D/ 3 ). num horizonte transcendente. outros um pouco mais próximos da intuição. mais do que constituir um super símbolo. Tudo isto nos remete a uma mais precisa conceituação do homem. A insistência em que o homem deva incorporar seu próprio horizonte transcendente é de fundamental importância por múltiplas e importantíssimas razões. primeiro. outros um pouco menos convincentes. alguns menos. [17] Existem ainda muitos outros modos de se mostrar a presença do referido horizonte.

da emergência da dimensão ética no mundo. e vimos que isto só era possível como presença de uma falta. Antes de mais nada instituímos o eixo onto-lógico no qual podiam-se distribuir todos os existente mundanos e no prolongamento do qual se poderia buscar coerentemente o Absoluto. Deus depois do adeus às idolatrias . Depois.4. o que bem justifica o que dizia o personagem dostoievskiano: “Se Deus não existisse. e. a exemplo do que aconteceu em Hegel. tudo seria permitido. que teria por isso que ser uma falta estrutural. precisávamos ainda de uma efetiva e vivida janela para o transcendente. uma falha numa configuração cujos elementos nos fossem em boa parte acessíveis. na segunda. consequentemente. porque a presença deste horizonte de ser “junto” ao próprio ser é o que possibilita a emergência e insistência tensional entre ser e deveser. Depois. que seria ocupado pela lógica D/3.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 269 que tal horizonte impede que ele se feche sobre si mesmo. para se tornar um desejo verdadeiramente amoroso pelo mais alto.” Recordemos. Vimos também que esta era a situação do conhecimento e da ação intersubjetiva – na primeira. que a filosofia acabe se reduzindo a um humanismo e a religiosidade a um panteísmo. Afinal. Entrementes. nos são vedados 10. vimos que com o advento da cultura lógico-qüinqüitária aconteceria a reversão da direção do desejo da cultura. Desde então seria toda a força da cultura que nos estaria empurrando em direção ao Absoluto realmente transcendente. consequentemente. nos é vedado o acesso a um único elemento da estrutura que representa o referencial global daquela situação. que deixaria de ser um desejo para baixo. Nota-se então que a emergência da dimensão ética é correlata à vivência do transcendente. desejo de morte e poder.

ambos na posição I [20]. Se isto. Podemos. ao fim. ele poderia ser D/n. Ora. que para Ele. “sujeito” e “objeto” se mantêm em estado de copertinência. Vamos de pronto abandonar a primeira hipótese porque nela o Absoluto não constitui por si uma instância onto-lógica e também porque ela não preserva. D/3 e I/D/3. são justamente as vivências destas faltas que evidenciam ao homem que ele não se constitui no nível lógico máximo. vale dizer. Não é definitivamente este o nosso caso.270 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dois dos nove elementos estruturais de maior nível. vale dizer que ele. Ora. a situação geral dos planos e respectivos níveis seria: . ou quase. O mesmo valeria para o agir absoluto. uma simultânea e paradoxal afirmação de humanismo e de panteísmo. restringirmo-nos ao Absoluto concebido como ser-lógico de nível I/D/n com n>2. o Absoluto – em suma. se ser e conhecer são o mesmo. a qualidade de ser Uno. subjetivo (I/D/2) – ficava bastante óbvio que o Absoluto precisaria ser buscado no prolongamento desta seqüência onto-lógica. na verdade. objetivo (I/D). com o estabelecimento dos níveis onto-lógicos – fenomênico (I). com n superior a dois [19]. pode estar habitando um espaço ontológico que o transcende. Podemos encontrar uma boa pista para a determinação do estatuto lógico do Absoluto se admitirmos. no seu limite autodesvelador. na verdade. não só ser e pensar são o mesmo. Uma conclusão bem diferente daquela de Hegel que atribui ao homem o serdialético e faz deste mesmo ser. como no caso do nível fenomênico. Ora. onde D é apenas uma referência externa. Em princípio. mas que também o são ser e conhecer e ser e agir. quando. com n superior a três ou I/D/n. como é quase um consenso. é porque a estrutura epistemológica correspondente se reduz a D. assim.

... mais uma vez o insistente e condenável vezo pelos infinitos e transfinitos matemáticos! Acrescentaríamos ainda que esta proposição .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 271 Nível Fenôm...... cujas respectivas estruturas epistemo-lógicos e práxio-lógico seriam D/2 e I/D/2. I/D/n . Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D Nível Objet.. Nível Absoluto Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D I/D D/2 I/D/ 2 I/D/2 D/3 I/D/ 3 .. com a introdução de um nível onto-lógico intermediário onde n=3.. I/D D/ 2 Nível Subjet. também. dever-se-ia fazer n=4.. Nível Subjet... I/D/2 D/ 3 Nível Nível Intermd. o que dá ao primeiro uma superioridade fechada.. freqüentemente.. tal reação é um mero preconceito quantitativo. e. Teríamos. para que seja preservada a máxima simetria do quadro anterior. Nível Objet. uma autoridade que não pode nem mesmo ser desafiada.. como se ela significasse uma limitação à grandeza divina. na verdade. Temos a experiência de que tal afirmação suscita. assim: Nível Fenom. reações.. D I/D Para que a distância entre o Absoluto e o homem se mantenha de pelo menos duas diferenças.. Absoluto I/D/3 D/ 2 I/D/4 D I/D I/D/2 I/D/3 I/D/2 Isto é o suficiente para que possamos sacar algumas importantes conclusões teológicas: a) O Absoluto constituir-se-ia na instância ontológica de nível I/D/4. .

as instância onto-lógicas de Deus Uno-Trino. mas nós não teríamos condições de saber o que isso poderia significar. em outras palavras. I/D. Septendencitário. ganha aqui sua plena significação.-Septendecitário (I. pois 17(2x2x2x2+1) são as posições na estrutura lógica de I/D/4. O ABSOLUTO I/D/ 4 O TRANSCENDENTE I/D/ 3 2 O HOMEM I/D/2 D/ 2 I/D D I I/D/ I/D I O SER O SER Figura 10.. b) A semelhança de homem a Deus. I/D. ambos em estado de co-pertinência na posição I da estrutura epistemológica D. D. além de Uno-TrinoQüinqüitário.272 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pode ser interpretada como o simples auto-reconhecimento dos limites imaginativos do homem. também Eneário e. I/D/3 e I/D/4) (ver figura 10. à perfeição.4 – Semelhança do homem a Deus c) O Absoluto seria. aliás. é reconhecido pela . Notar que isto não se aplica nem mesmo aos entes angélicos (ou demoníacos). d) Seu conhecer é um estrito correlato de Seu ser. e) Existe um nível intermediário entre o do homem e o do Absoluto que. I/D/2. tão enfatizada pela teologia judaico/cristã..4). finalmente. o Absoluto poderia até ultrapassar I/D/4. D/2 e I/D/2) representam. na medida em que as lógicas humanas (I. similar em tudo seria também o Seu agir.

em outras culturas. já sabemos agora. a que damos a denominação de nível angélico. porém.. excedendo à capacidade lógica do receptor. que precisava ser enfrentado pela teologia. É mais ou menos evidente a razão pela qual a Revelação tenha sido a solução encontrada para que o menor pudesse ascender a algum conhecimento do maior. aquele próprio tanto a anjos como a demônios. Antecipações . mormente quando estas pertencem à mesma família. mas de um instrumental lógico de suficiente potência 10. visto que o conteúdo significativo revelado continua. Talvez não por falta de vontade e coragem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 273 maioria das grandes religiões do mundo.5.-Septendecitário seja uma prerrogativa reservada à cultura lógico-qüinqüitária.. pois. a nosso juízo. que homem poderia compreendê-lo em sua plenitude? Quem poderia simplesmente se considerar à altura da mensagem? Trata-se de um paradoxo.para Karl Rahner [21] a radical inclinação à autocomunicação seria parte mesmo de Sua “essência” -. na cultura trágica grega. não podemos negar que alguns de seus traços possam já se ter manifestado. por exemplo.a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano . Entrementes. mas que. traços do monoteísmo já se haviam manifestado em culturas pré-lógicas. na cultura judaica. Embora a revelação plena do Absoluto UnoTrino-. pelo menos na aparência. em princípio. maior e menor. até aí o problema permanece. “medidos” em termos de complexidade lógica. traços da cultura cínica moderna. Deus pode dizer quem de fato é . jamais o foi. assim como traços do trinitarismo cristão. pouco importa suas existências efetivas. Isto não seria uma novidade na história da cultura. ainda que de modo fragmentar e inconsciente.

E se não fora assim. no caso. daqueles do próprio homem. A condição geral para a recepção é que a autocomunicação divina . O modo paradigmático de fazê-lo. A figura 10. deveras.seja fragmentada em “pedaços”. Atente-se: o receptor da mensagem continua a ignorar o que possa ser. acessível à compreensão humana.274 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto. logicamente não cabe . enquanto tal. o Absoluto e seus inexcedíveis poderes. Nada aqui excedeu ao “tamanho” lógico I/D/2. e muito menos quantitativamente infinitas -. e nesta circunstância proclame-se Filho numa configuração trinitária. sem deixar de sê-lo. . conquanto tenha ela seu alto preço. pois estaríamos nos enleando num paradoxo ainda mais grave do que aquele que tínhamos de partida. a mensagem eu sou o que sou (ou serei) sendo. podemos colocar a questão em termos bastante diretos: como é possível ao Absoluto Septendecitário I/D/4 revelar-se aonde. poderemos facilmente constatar. pelo menos I/D/4 . pode agora imaginá-Lo por trás de uma descrição cujos termos e sintaxe lhe são por completo acessíveis. que é não conseguir preservar incólume o estatuto lógico da mensagem. todos eles logicamente iguais ou menores do que I/ D/2. Em nossa sistemática simbólica.5 ilustra bem tudo o que aqui está posto. ou seja.especificamente. é que Deus (I/D/4). porém.no homem qüinqüitário I/D/2 ? Pode-se agora vislumbrar uma resposta. O Absoluto aparece assim como que dotado de um conjunto de atributos que são de algum modo extensões lógicas . como ocupante da posição D numa estrutura I/D. pior seria.e não analógica [22]. possa existir encarnado como homem (I/D/2).

a Encarnação Podemos ainda identificar um segundo modo (na circunstância. muito adequadamente denominada Corpo (D) Místico de Cristo (D) . porém. como fora o caso do Filho. se constitui membro da Sagrada Família (I/D/2) e o seu correlato terreno passa a ser a Igreja. de nível I/D/2.5 . Ele.como seria compulsório. sim. tão necessária e insistentemente Virgem) numa estrutura qüinqüitária I/D/2. não para ocupar a posição D numa estrutura trinitária I/D. é assunta ao Céu. mulher. e. não propriamente uma eclesia. após a Ressurreição. Em vista do remanejamento onto-lógico [23] que necessariamente ocorre na passagem da estrutura trinitária (I/D) à qüinqüitária (I/D/2). mas uma organização (D/2). logo. Trata-se da proclamação do Dogma Mariano (1950): Maria.6.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE LUGAR DO ESPÍRITO (TRINITÁRIO) CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO 275 LUGAR DO PAI LUGAR DO FILHO CRISTO HOMEM QÜINQÜITÁRIO I/D/ QUE DECLARA OCUPAR A POSIÇÃO D EM I/D 2 Figura 10. para ocupar a posição I/D (por isso. Ver figura 10. mais uma Confirmação do que uma nova Revelação) em que todos os elementos da mensagem revelada se mantêm ainda inferiores a I/D/2. o Cristo que ocupava a posição de Filho (D) na Trindade (I/D) vai ocupar a posição de Filho (D/2) na estrutura qüinqüitária (I/D/2). uma .A Revelação paradigmática .

a Cúria pode errar em tudo. esta estrutura lógica é manifestamente sobre-humana. LUGAR DO ESPÍRITO (QÜINQÜITÁRIO) FAMÍLIA SAGRADA LUGAR DA MÃE INCONSC. ESPÍRITO PENTECOSTAL CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO LUGAR DO FILHO CRISTO RESSUSCITADO CORPO MÍSTICO IGREJA 2 MARIA MULHER QÜINQÜITÁRIA ASSUNTA I / D / LUGAR DO PAI LUGAR DA VIRGEM Figura 10. Maria só poderia ser mesmo assunta para a posição que o referido remanejamento deixara vaga.. I/D.Revelação (Confirmação) Septendecitária por via do Dogma Mariano É interessante observar que neste modo revelador a Igreja vai ocupar a posição D/2. Tomando-se por paralelo a sexualidade humana. diríamos até delirante.6 . posição que sabemos caber necessariamente à filha virgem. menos em lógica. definidas como as diagonais . apresentar-se exteriormente como uma organização.276 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dupla diferença. enquanto que sua essência lógica passa automaticamente a ser I/D/D/D=I/D/3. isto é.. Como já mostramos em outra oportunidade [24]. Como se vê.

7. o clero e os crentes. infalível porque dotado da capacidade de imediata compreensão inter-subjetiva. todos eles formalmente mais pobres do que os dois que acabamos de apresentar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 277 de I/D/2 (I com D/2. Existiriam ainda outros modos reveladores combinando algumas das lógicas I. I/D/2 com D. o grande rebanho. os crentes.O sexo dos anjos (ou demônios) É bastante evidente que assim se estabelece uma relação hierárquica extremamente rígida entre o Príncipe. o terceiro. uma comunidade (I/D) dotada do saber científico (D/2). À primeira corresponde a figura do papa. 1 SE XO P A I O U G U IA O N IS C IE N T E O 2 SEXO E L IT E . sobre-humana (D/3).7 . o que vem explicar. tomemos a mais simples dentre todas . temos então definidos três modos de ser sexual a nível I/D/3: o primeiro. de maneira muito óbvia. a forte resistência dos protestante à promulgação do Dogma Mariano. o feminino). POVÃO " A N IM A L I Z A D O " O I/ D / 3 I/ D / 3 I/ D / 3 I D / 3 I/ D D / 2 I/ D / 2 O MAL OU O IN C O N S C IE N T E D Figura 10. para que não se veja associado ao mal (D). D/2. À terceira. e I/D/2. I/D com D. P A R T ID O OU CLERO O 3 SE XO CASTRADO . À segunda. o clero (especialmente o jesuítico). o masculino. D. porém. I com D/3. único (I). Só para exemplificar. o segundo. reduzidos apenas à sua primeira componente I/D/2. I/D. Ver figura 10. I/D com D/2.

de uma revelação de Deus (I/D/4). I e I. .278 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO as combinações: I. não enquanto tal. Trata-se. sem dúvida. Ela corresponde ao episódio em que Deus se revela a Moisés dizendo ser aquele que é (ou será). mas em seu modo mais elementar do Ser Único Criador frente à insignificância do ente criado.

concomitante a uma furtiva inversão de mando: a esquerda. 11. Triste situação a brasileira: ao mal-estar na Modernidade. não somos coetâneos à Modernidade? Já não seria tempo de trocarmos o nosso crônico mazombismo acadêmico pelo gosto de uma autêntica auto-compreensão? 11. que pode haver de mais constrangedor do que estar sempre por baixo. dizem: o dualismo. O século XX demonstrou. é flagrante paradoxo. a violenta impotência (que era já constitutiva) das ideologias [1]. que. op- . no entanto. Elas visavam apenas a substituir o sujeito liberal (sujeitado) da ciência. na era da prostituição generalizada? Os ônus por anos a dentro chegam sempre de véspera e agigantados. com enxurradas de fotos. e às vezes por trás também fatos.2. Deveras. A insistência e os repetidos fracassos dos projetos de modernização geram o cansaço. junta-se o mal-estar da condição de “marginalidade voluntária”. os gozos minguados e quase sempre frustros ou ad aeternum diferidos. alguns nos chamam Belíndia. Manoel Bandeira.1. de bruços. A causa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 279 11 Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira Em Pasárgada tem tudo É outra civilização. A nulidade crítica das ideologias não autoriza mais esperanças.

4. muito nítida.as mesmas que lá estão mais ou menos soterradas na tradição . Mas não se provou que não possa haver alguma saída. obviamente. da psicanálise. Uma cultura e doravante três lógicas associadas. Em conseqüência. para dar conta do processo de autodesvelamento do ser hiperdialético qüinqüitário do homem. o círculo quadrado. por coerência. Em retrospecto. 11. o que. da lingüística e do estruturalismo antropológico. entretecidas e pró-jetadas [4]. Heidegger vale ser atentamente ouvido. a direita. de um lado. também três tempos para cada: o tem- . Propõe-se então a releitura da história da cultura parametrizada pela lógica [3]. das culturas nodais (lógico-inaugurais). todas. nada tem a ver com a nauseabunda e rose-blair terceira via(dagem) social-democrata (mais uma!). e de outro. histórico-cultural) para mais além das ideologias. mas não seguido (tal como valem os poetas).3. do hegelianismo e do marxismo. daí. por si e conjuntamente reavaliadas. exige-se sejam as lógicas . Como condição. desde a irrupção das tribos nômades de caçadores/coletores do paleolítico à atual modernidade científica [5]. por suposto. idem para os híbridos – a “história” das mentalidades e o conglomerado frankfurtiano. (ver figura 11) 11. pelo sujeito romântico ou telúrico. o capitalismo sem jaça. Uma história hiperdialética é o mínimo que se requer.280 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tando pelo sujeito coletivo. Não há mesmo saídas laterais. Torna-se agora óbvia a carência de uma compreensão histórica profunda (logo. Necessidade de uma pirueta. perfeito. Almejavam. a mais ousada: a passagem da estática à dinâmica cultural [6]. o império hoje do pensamento único.antes ressuscitadas. E a filosofia e mais as outras tantas “ciências” do homem? Embora precisem ser todas elas levadas em conta e muito a sério. contemplamos a seqüência já realizada. é inegável a insuficiência [2].

o desejo do ser-uno (a velha filosofia) e. ainda vigente. a tortura metódica (para que se confessassem números) de todas as coisas por meio de instrumentos e a medida pela fé de imaginários excessos sexuais femininos – enquanto se forjava o novo órganon exercitava-se à larga a caça às bruxas. a prémodernidade ibérica. mas dela). que queremos ver pelas costas (não nossas. da mecânica newtoniana de pontos materiais ao campo escalar de Higgs [7]). na continuidade. pela ordem. as correlatas “contestações” ideológicas. mas domesticados adrede pelo marketing). preteridos!) e o desejo do corpo espiritualizado incorruptível (é só lembrar quantos. o capitalismo consumista extensivo (desejos. 11.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 281 po morno da lógica que ela sacraliza.dos cognominados da nação’. sim. pela sola fide. “história” calculada) e. note-se. sucessivamente. Recordando: o confronto com o fingimento escolástico (reza a anedota que um ‘lixo’.que o diga Vieira! . Tudo tão célere . na outra vertente. são os museus abarrotados de arte sacra!). à esquerda e à direita. no dizer já moribundo do disciplinado e terno Doutor Angélico). o desejo da volta à animalidade (o mais velho ancestral do “desejo de morte”).5. lógico-diferencial. Inicialmente. o tempo intenso do desejo de sua lógica recalcada e o tempo desesperado fingindo ter-se tornado a lógica de sua própria posteridade. Um zoom sobre a Modernidade [8]. sucessivamente. daí. o mesmo já do avesso. ora. A força do impossível desejo de regressão lógica é o melhor guia no retrospecto reiterado: na vertente lógico-identitária. o didático herói john fordiano). o desejo do ser-uno-trino (a física. do sujeito liberal (no cinema. o capitalismo calvinista de acumulação intensiva (a história desnaturada. o desejo de origem (o mito). as navegações e a expulsão suicida . hoje. o desejo da terra prometida (à exceção dos meio-irmãos filhos da empregada. o Protestantismo e a incontornável invenção.

a inteligência e a sensibilidade destes e de muitos outros. Agora nós. do fundamento lógico de todas as dominações sacerdotais [11]). pela primeira vez. por não se tratar até agora de obra acabada. a formação de uma interioridade. sobremodo.6. meio sonolentos. a re-significação cósmica do homem (tanto quanto do cosmos pela cultura!) [10]. obra de desmedidos mamelucos. por fora a tez. a nova verdade qüinqüitária e seu método correlato: o amor pela “leitura” [12]. a certeza de uma cultura futura hiperdialética qüinqüitária. econômico – entre as surpresas. por dentro. O peculiar processo de formação da cultura brasileira [13]. após. 11. conquanto que descentrada!) e cultural [9].282 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que talvez se tenha hoje já à mostra os primeiros sinais do inexorável declínio. Como tanto se almeja (mais os tempos. por conseqüência. o ser-feminino à altura exata do ser-masculino. e. obra de seletos mulatos. nem tanto. Etapas intermediárias: a formação de uma territorialidade. Enfim. os homens só de carne e osso!). o mesmo valendo para as respectivas verdades: gozo e vitória nivelados à alétheia e adaequatio (o que nada tem a ver com o retorno ao mítico andrógino de Aristófanes). a viabilização da oferta planejada. em direção ao ser de fato transcendente.7. Para desvelar e seduzir (e por que não também um pouco para dar partida a hiperdialética qüinqüitária: o remanejamento das relações indivíduo/sociedade no plano político. Fontes diversas recapitulando a história hiperdialética da cultura. Sobretudo. a re-significação religiosa (o fim das idolatrias. é preciso estar alerta . com a descoberta das minas de fundos de rio. a história desbloqueada. Entrementes. expressa pela reversão do desejo da cultura. os brasileiros. aqui. cada um trazendo sua cota parte à nossa bela geléia geral. 11.

sempre viva. subserviente. a popular auroreal pela originalidade [14]. escancarada. na cara.9. à capela e murmúrio. para baixo. nossa elite burra. 11. a outra. o super-cosmos. um se pôr sempre um pouco à parte à modernização: trata-se do povão fiel ao seu destino. De modo algum somos Belíndia. deveras. sem deixar de ser também sobre-humana (ao invés do superhomem.do princípio antrópico [15]). afinal. de ser-com-o-outro. todos os dias. pedante – para cima. mas a vontade de Pasárgada. Para nossa sorte. a boa nova: os . nem fraca. para quem possa e as queira: uma. apenas pelas suas sobras e dejetos). a pós-modernidade. a grande “marginalha” rural e suburbana. em verdade. Na TV e por todo canto. à uma. Mas. seremos tudo e por cima todos. em seu propósito último. prepotente.um novo modo de ser-consigo-mesmo. a originalidade? Trata-se da edificação da cultura nova hiperdialética qüinqüitária . onde.8. dando alma a uma nova versão . amigos do rei. que em essência é cultural e por isso. despudoradamente entreguista. Há opções. atenção. a elitista retardatária pelo luxo (a rigor. resolutamente etnocida. Reagindo à inexorável superação. em tudo clarividente. de ser-com-todo-mundoem-paz-com-o-Absoluto. mas significante . Ela é o cumprimento de uma destinação por demais humana. a artimanha de se fingir sua própria posteridade: eis. mas prospectiva. cruel e debochada. que é a gente que de fato conta se o caso é cultura (não economia & finanças). na linha de resistência. como se fosse a última e única.nem forte. trombeteada. elevado à altura do homem logicamente à sua espera. uma resistência não reativa. Clarifica-se.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 283 aos perigos da globalização. o paradoxal dualismo: na verdade. E por que não. um reservar-se. 11. Na linha de frente (do inimigo).

nos atirado de alma e corpo inteiro à lata de lixo. para não perder a língua. um dia. todos de braços dados.a vida eterna. Talvez. a necessidade iniludível de uma estratégia de sobrevivência pelo tempo que resta à Modernidade para que não faltemos ao encontro com a nossa destinação. nenhuma classe atrás das barricadas. Nas ruas. teremos. seja preciso refugiarmo-nos no Egito ou nos agacharmos no mato. a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . por amarelamento (como em 50 e 98). pela grande depressão psíquica (ou cultural). já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! 11. e. outro. é difícil resistir?! No entanto. mas da própria . nenhuma marcha interminável de fileiras. Se fracassarmos. de repente. [16] Pessoalmente.. falando mais e o melhor possível. Ou será que.284 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO prodígios da biopirotecnia. depois outra e mais outra. sim. por certo fará vir ao mundo a cultura nova. ainda que numa caixa de fósforos. tornando-se destarte a decisiva força revolucionária. em última instância. alhures. grave impiedade ou. virá a grande depressão (econômica). seus cálculos e seus três indefectíveis instrumentos – a balança. não só da história hiperdialética da cultura. ademais. já. por uns tempos. nem explosões de casacos ou carros-bomba. Na circunstância. como de costume. Dentre todos os fundamentalistas (reacionários). ainda que bem menos dotado e pré-destinado. se verá a reação desesperada: a ordem virá para a degola dos perigosos terroristas recém-nascidos. batucando. a ordem tem que ser (culturalmente) sobreviver a qualquer preço. não repudiar. a trena e o cronômetro). mas deveras subsumir a ciência (com sua lógica. seguida. para não perder o fôlego. Como sempre. biblicamente instruídos.10 Por isso. haverá um (bastará um) pequeno grupo (LXX é um bom número!) que irá se propor. por desídia..

POR OPÇÃO PELO LUXO 10 IMPOTÊNCIA DA CRÍTICA IDEOLÓGICA: DE DIREITA (FASCISMO SUJEITO ROMÂNTICO .D) E DE ESQUERDA (MARXISMO SUJEITO COLETIVO . Com que cara iremos nos apresentar no Juízo Final.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 285 cosmogênese. A DEGOLA DOS RECÉM NASCIDOS OPÇÃO PELA ORIGINALIDADE 4 I/D D I CRÍTICA DA CULTURA: ARQUEOLOGIA DA CULTURA PROCESSO DE FORMAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA 7 3 pré-D pré-I HUMANIDADE (I/D/D) ANIMALIDADE (I/D) Figura 11. Situação cultural brasileira .?! CARACTERÍSTICAS DA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA Remanejamento das relações indivíduo/sociedade Re-significação cósmica Re-significação religiosa Real liberação do ser-feminino A verdade: o amor pela "leitura" 6 CULTURA QÜINQÜITÁRIA I/D/D HISTÓRIA DESBLOQUEADA ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA PARA A CONSUMAÇÃO DE UMA DESTINAÇÃO ASSUMIDA A 9 FINGIMENTO: BIOPIROTECNIA.I/D) 2 5 D/D CULTURA MODERNA 1 CULTURA MARGINAL BRASILEIRA 8 FIM...

além de um entre muitos expediente para uma boa comunicação. Paul Tillich Não existe a menor possibilidade de nos lançarmos aos estudos do futuro sem a prévia assunção de uma concepção. conjuntura e perspectivas brasileiras [1] Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. também um imperativo de mínima ética. proceder à explicitação de tal pressuposto é.1 . de uma filosofia ou. 12. Nestas circunstâncias.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 287 12 Considerações gerais sobre a história da cultura – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história. Ernst Cassirer L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. De que lugar [2]. A noção de História estaria originalmente associada à lógica transcendental ou da identidade (I) [3]. de uma lógica da História. dito com maior precisão. estaremos nós aqui falando do futuro? É o que tentaremos precisar neste item introdutório.A História como processo hiperdialético qüinqüitário .

para ela. são mera conseqüência de incidentais descumprimentos pelos homens dos mandamentos divinos e do justo castigo que lhes é por isso infligido. CÍNICA CULTURA (MENTALIDADES) (D) ARQUEOL. Esta é a primeira dentre as concepções de história. DAS MENTALIDADES LÓGICO-DIFERENCIAL(D) HERMENÊUTICA CONSC.1 . (Ver figura 12. solidária à verdade do Deus único. TRÁGICA HISTÓRIA JUDAICA LÓGICO-TRANSCEDENTAL(I) UNÁRIA FÉ Figura 12. O que esta concepção reclama de nós não pode ser outra coisa senão a fé inabalável de que Jó nos dá o melhor dos exemplos. história judaica. que iremos denominar com o neologismo unária. os “acontecimentos” intermédios.288 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que é o modo específico de se poder pensar a temporalidade. Ela é a História que se interessa primordialmente pelos extremos. momentos de criação e consumação dos tempos (escatologia).Concepções da História . origem e destino.1) HISTÓRIA NOVA HIPERDIALÉTICA (I/D/D) QÜINQÜITÁRIA FÉ E ENGAJAMENTO HISTÓRIA (I/D) HISTÓRIA HEGELIANA LÓGICO-DIALÉTICA(I/D) TRINITÁRIA ENGAJAMENTO “HISTÓRIA” SISTÊMICA LÓGICO-FORMAL (D/D) CALCULADORA CONSC. a liberdade e a própria consciência.

como enfatizava Lukács [4]. aqui também envolvida para poder dar a necessária volta por cima.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 289 Depois de Hegel. a denominação de concepção trinitária. desvinculada do diálogo com outras modos de pensar. o paraíso. concluiu coerentemente Hegel. Como fazer compatíveis a temporalidade lógico-identitária e a espacialidade lógico-diferencial? Apelando à velha dialética? Mas esta está. A verdade da dialética. o comunismo primitivo. é a totalidade. como em Marx/Engels. a dialética cria um modo imanente de dinamismo. ela apresenta uma deficiência intrínseca que a incapacita para a compreensão de origem e destino – daí. a História seria o próprio processo de autodesvelamento do espírito absoluto [5]. o juízo final. a nosso ver. a que damos. a revolução. esta história pode assumir também feição materialista. Ao internar a diferença. Ela é uma história que solicita. Em compensação. que a dialética. entrementes. pode facilmente degenerar em lógica da oportunidade e nosso engajamento em mero oportunismo. Considerada sua essência lógico-diferencial. es- . síntese das lógicas da identidade e da diferença. fazendo do conflito ou das contradições internas o seu verdadeiro motor. o nosso engajamento. Concordemos em adiar por momentos uma resposta. sobretudo. Assim. por isso. Além da versão original hegeliana. Note-se. especulativa (melhor dito do que idealista). a noção de História ficou radicalmente associada à lógica dialética. de sorte que a verdadeira história só pode ser aquela da totalidade lógico-dialética em busca de si mesmo. o que torna esta história especialmente apta para explicar as mil peripécias do devir. e isto. A noção de História é freqüentemente estendida para abarcar concepções lógico-diferencias que em essência a negam. se constitui num evidente contra-senso. a sociedade sem classes e outras miragens para obnubilar a referida deficiência lógica. como vimos.

Sua postura é fundamentalmente hermenêutica: trata-se. que procura isolar “unidades históricas” relativamente estáveis (em geral civilizações) para daí inferir padrões de regularidade. desenvolvida com o fim estratégico de permitir a mais tranqüila reprodução dos poderes. a genealogia de Foucault [8]. governado por uma lógica da repetição. sobretudo. O homem não viveria propriamente uma história. em geral. preocupando-se com as estruturas ou estratos profundos (em boa parte inconscientes) que constituem a alma de um agrupamento humano ou de uma época. o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss [7] e. é a alegre (trágica) aceitação do jogo [9]. Identificam e medem fatores determinantes de seu surgimento. Teríamos como exemplos a escola francesa da “história das mentalidades” [6]. os exemplo clássicos seriam Spengler [10] e Toynbee [11]. de inspiração organicista. de confessa inspiração nietzscheana. de sua continuidade. De um lado. deveríamos chamar arqueologia das mentalidades ou da cultura. da busca da explicitação de um sentido coletivo. na circunstância. mas o desdobramento epocal das mil máscaras do trágico se mostrando e se apagando num des-propositado jogo de forças. de seu apogeu e de sua queda. desta prolifera uma variante que poderíamos chamar “história científica e bem remunerada”. É uma concepção. pre- . O que nos é dado. marcada por uma visão trágica do homem e da sociedade. está a “história das mentalidades que. conforme sua opção lógica subjacente. De outro lado temos a “história” embalada como produto científico. onde impera o eterno retorno do mesmo.290 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tas paradoxais concepções históricas só podem se apresentar de duas maneiras. É um pensamento que abre mão do diacrônico em favor do sincrônico. contextual. Hoje. da condição a que fomos atirados não se sabe por que deuses tão francamente anti-einsteinianos. com bem maior propriedade.

Não podemos aqui evitar uma breve digressão lógica. aos desgraçados. característica inalienável da lógica clássica. (Ver figura 12. pois se trata de uma questão vital.2 . História não há mesmo mais. Isto é simplesmente impossível porque NãoB. diferentemente de B.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 291 tendem-se um cálculo a médio prazo do ser temporal. embora seja o maior dos escândalos que não faça parte da cultura comum do cidadão [13]. Estas duas concepções se distinguem. o que é já o suficiente para revelar seu caráter cínico. Aos poderes. outra à lógica clássica. como dissemos. esta última precisando ser compreendida pelo que verdadeiramente é: uma lógica da dupla diferença. para ela. DIFERENÇA D DUPLA DIFERENÇA D/2 NãoB B NãoB B NãoA A=NãoNãoA UNIVERSO CONVENCIONAL B = NãoNãoB Figura 12. que suicidem-se [12]. por seu parti pris lógico. uma vinculando-se à lógica da diferença. é um indefinido. solicitam mais verbas.2). afinal. não nos é garantido o princípio do terceiro excluído. cuja negação não pode jamais vir a se constituir em algo melhor definido do que o próprio NãoB. ou seja. Quando procedemos a uma diferenciação qualquer B.Lógica da diferença versus lógica da dupla diferença . que Não (NãoB) se iguale a B. para deste modo poder se igualar a B.

ou seja. em contraposição à lógica da simples diferença. como requer o princípio do terceiro excluído. seja seguindo o vai e vem das concepções da histórias em geral (I. precisaremos tomar por referência uma primeira discriminação. Agora. esta mera convenção promovida ao estatuto de verdade absoluta (exclusivismo da lógica clássica). dialética (concepção hegeliana/marxista ou trinitária I/D) e clássica.292 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para garantirmos a validade do aludido princípio. formal. porque NãoA é tão bem definido quanto A. e abandonar NãoB. Desenha-se um referencial perfeitamente homólogo à estrutura das lógicas de base [14]. I/D. sim. que uma primeira diferença pode produzir uma veraz totalidade. D/D). lógica da dupla diferença. nele. D. por isto. da diferença (concepção trágica D). propriamente temporais) da História em um mesmo quadro referencial tem agora sua grande compensação. é que podemos ter de fato Não(NãoA) = A. e no entanto. ainda mais precisamente. muito bem simbolizada por Prometeu. é tão só esta artimanha que permite o obsessivo cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos promovido pela Modernidade. O contra-senso da inclusão de concepções logicodiferenciais (espaciais e não. de um faz de conta. A lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) deriva de um artifício. transforma-a em lógica cínica. O caráter trágico da lógica da simples diferença (D) vem de que ela é o pensar da separação (relativamente ao Um/Ilimitado). fazer de conta que B é uma totalidade e aí então. Muito simples. do terceiro excluído ou. como deveria ser. Agora nos é dado facilmente perceber o óbvio: que. Melhor a denominaríamos. B. lógica da dupla da diferença (concepção cínica D/D=D/2). seja seguindo . em que estão presentes as lógicas da identidade (concepção judaica ou unária I). proceder a uma segunda diferenciação A.

tal como está destacado na figura 1. chegamos sempre ao mesmo destino . entre eles.3 a dialética em dois ciclos subsequentes para fazê-la mais facilmente comparável à lógica qüinqüitária. transcendental e dialética trinitária. onde poderá situarse uma nova concepção da história. Esta pode ser compreendida de diferentes modos. . I/D/2) da já bem conhecida lógica dialética (trinitária. à maneira de Hegel frente à sua dialética. I/D) [15]. numa síntese maior. mas como um bem mais complexo ser–lógicoqüinqüitário (I/D/D=I/D/2). Haveria ainda muito mais que o leitor poderá por si descobrir. Preliminarmente apresentamos na figura 12. lógico qüinqüitária . como lógica do processo de auto-desvelamento do homem. Ela pode também ser entendida como uma dialética da dialética.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 293 diretamente a linhagem das lógicas da temporalidade (I e I/D). de nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). só que. Não é só: também pode ser compreendida de per si.à existência de um quinto lugar. como uma síntese da concepção dialética hegeliana (I/D) com a hermenêutica das mentalidades (D). desta feita.(I/D)/(D)= I/D/D=I/D/2 -. coerentemente na linhagem das lógicas identitárias. síntese das concepções genuinamente temporais da história. Somos agora forçados a uma nova e breve digressão para salientarmos alguns dos principais traços que diferenciam a lógica hiperdialética (qüinqüitária. resultando. agora sim. tido agora não como um espírito-lógico-trinitário (I/D).

Torna-se mais do que evidente que apenas desta perspectiva lógico-qüinqüitária é que se poderá proceder ã crítica radical da Modernidade [17]. cuja complexidade vai inclusive requerer uma terceira dimensão representativa [16]. necessária e coerentemente. É a concepção lógico-qüinqüitária da história que. tanto para o olhar. dos procedimentos de cálculo do mundo que caracterizam essencialmente a Modernidade. Um lugar por demais alto.Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária Fica aqui evidente a maior complexidade da hiperdialética na medida em que nesta.3 . em especial. ao primeiro ciclo dialético. precisaremos assumir para poder efetivamente pensar a História da Cultura em toda sua amplitude. De todas as lógicas mundanas [18] tão só a hiperdialética qüinqüitária subsume a lógica clássica. em última instância. que sabemos garantidora. sabemos bem. mas sim um ciclo contra-dialético. um lugar de ar rarefeito. certa- . Só depois o processo segue em direção a uma síntese maior. que vai dar ensejo à síntese lógica clássica ou da dupla diferença. lógica da dupla-diferença. quanto aos riscos a serem assumidos. aquilo que esteja a emergir para além da Modernidade.294 DUPLO CICLO DIALÉTICO-TRINITÁRIO LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CICLO HIPERDIALÉTICO QÜINQÜITÁRIO I/D I I/D I CICLO DIALÉTICO I/D/D D I/D CICLO DIALÉTICO D/D CICLO CONTRA-DIALÉTICO CICLO DIALÉTICO D I D Figura 12. segue-se não outro ciclo da mesma natureza.

operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I). Perguntamo-nos naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização . enfim. alerta ainda à espera de seu objeto. na medida em que.com 12. Os animais cordados operariam no nível lógico dialético (I/D). Tylor e Lévi-Strauss . dialética (I/D) e clássica. mormente aqui em Pindorama.2.a cultura nova lógico-qüinqüitária! Devemos convir que deve soar ainda bastante estranha esta nossa pretensão de antropafagiar a ciência em nome e proveito da esperança ! Em Noções de antropo-logia [20] caracterizamos o homem como o ente dotado de um poder hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. já contemplava ela a desaparição de seus mais caros objetos. Citamos isto para que não alimentemos qualquer ilusão com respeito a quão estranho irá aparecer ao saber antropológico estabelecido.e cita Frazer. entre muitas outras coisas próprias aos homens. Por também subsumir as concepções judaica e hegeliana da história. lugar onde se pode. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/2) governa. se põe na contramão. pouco mais do que nomeado . da diferença (D).válida para todos os homens em todos os tempos e lugares . Morgan. a maioria dos antropólogos . nem bem constituída. de certo modo. a assunção de um ponto de vista antropo-lógico que. o discurso articulado em sua plena acepção [21]. Segundo nos informa Márcio Goldman [19]. respirar um pouco de esperança.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 295 mente. mas a razão humana iria mais além. mas mesmo assim. formal ou da dupla diferença (D/2). ela suscita e nos solicita tanto pela fé quanto para o engajamento. Um esboço de história da Cultura .enxergou sua ciência desde sempre em crise.

de natureza hiperdialética (I/D/2). uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D). e que lhe confere. pela variabilidade no tempo do seu vigor criativo e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo a história da cultura como um processo de autodesvelamento do próprio ser do homem. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I.296 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. (Ver figura 12. pela idade. mas não ainda um passo de natureza propriamente lógica na direção daquele desvelamento. da lógica por ela assumida e sacralizada. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [23]. inclusive. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que teriam ocorrido significativos avanços. como poderia ser diferente? Toda cultura teria. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. por uma questão de coerência com o que vimos até aqui. coletivamente objetivada. Aliás. depois. atestada de muitos modos. clássica ou formal D/2 e a própria I/D/2). ambas naturalmente referidas à Natureza. da diferença D. um essencial e particular comprometimento lógico [22]. Elas serão genericamente denominadas etapas ecológicas [24]. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). dialética I/D.4) . distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I). entre eles. mas algo ainda mais complexo. Esta última seria a expressão simbólica. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. assim.

compreendendo apenas o Ocidente e o Oriente Próximo. que hoje domina o mundo. cultura medieval cristã (patrística). já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). cultura tribal. cultura moderna de base científica. I/D/2. cultura judaica. teríamos a seguinte seqüência histórica de culturas nodais: pré-I. pela primeira vez. . por todos os títulos. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. cultura prometéica grega. D. I/D. uma manifesta síntese das culturas anteriores [25] . cultura hiperdialética qüinqüitária. pré-D. uma cultura à medida exata do homem. cultura sedentária de base agrária. porque. D/2. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. I. não castradora. e. ainda por vir.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 297 Resumidamente e focalizando uma área restrita.

Por isso. que vem demonstrar que por trás de ambas opera um mesmo arcabouço lógico. até aqui. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura. uma lógica. a aparentemente desmedida simplificação da tese uma cultura. tão bem sustentar-se.Esboço de uma História das Culturas Nodais É importante notar a perfeita homologia entre as figuras 1 e 4. descontado nesta última o “detalhe” das culturas “ecológicas”. entretanto. 12. Desejo. uma lógica.4 . pôde. fingimento e superação . não será mais uma cultura. porém.298 CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA I/D/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CULTURA MODERNA CIENTÍFICA OU SISTÊMICA D/D CULTURA CRISTÃ TRINITÁRIA (PATRÍSTICA) I/D CULTURA GRECO-ROMANA PROMETÉICA D CULTURA JUDAICA SIMBÓLICO CONVENCIONAL E MONOTEÍSTA I CULTURAS PROPRIAMENTE LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA DOS IMPÉRIOS DA ANTIGUIDADE PRÉ-D CULTURA TRIBAL PALEOLÍTICA CAÇADORES/COLETORES PRÉ-I CULTURAS ECOLÓGICAS Figura 12.3. Nossa tese central daqui por diante.

numa artimanha defensiva. toda cultura.o número 3. o vermelho. sim. o branco. e da qual não discordamos). o segmento de reta. agora.o número 1.ficando. associada a mais outras duas: a primeira. fonte de seu vigor criativo -. figuras especulares em geral. já foi assinalado. fingir que não mais é o que é. Esta mudança (de 1 para 3). tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. bastaria lembrar a profusão de manifestações arquetípicas que se pode recolher nas culturas históricas: lógica da identidade I . o ar e a águia.que era nossa tese anterior . triângulos. com cada uma das demais lógicas mundanas. de algum modo. a segunda. intentará simular ser.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 299 três lógicas [26]. o seu próprio futuro que teria resolvido madrugar. Para convencer-nos. mas. em que pese seu parti pris lógico. o ponto. o círculo.o número 2. correspondente à cultura que a antecedeu . lógica da diferença D . vale dizer. Em outras palavras. lógica dialética I/D . dá testemunho de outras lógicas. inclusive com aquela que a todas estas subsume. a cobra que se devora pela própria cauda. correspondente à cultura que a irá suceder que determina o que ela. São vínculos ora claros e assumidos. os gêmeos.que determina o seu ser “desejante”. precisou ser feita mantido o postulado da igualdade de todos os homens. ora clandestinos. triângulos de círculos . a água e a serpente em hélice ou distendida. como se verá. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. Cada cultura tem sua lógica de referência . Tentemos melhor esclarecer. o fogo e o leão. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda. o azul.

mandalas [27] de toda sorte. os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. b) de outro lado. seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. a estrela socialista. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? E por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas (Ver figura 12. com a lógica da cultura que lhe antecedeu . e que por vezes “retorna” ou se re-volta como num sonho -. para que ela pudesse advir em seu lugar. Dentro desse quadro geral. lógica formal D/D ou D/2 . seu permanente pesadelo .de onde.o número 5. procede a real ameaça à sua dominação de época. lógica hiperdialética I/D/D ou I/D/2 . o homem e a quinta-essência.5): a) de um lado. a terra e o touro.300 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou nó borromeano. o negro. por suposto.o número 4. as pirâmides de base quadrada. mas que de algum modo permanece subsumida. com a lógica da cultura que lhe sucederá. os quadriláteros em geral e as cruzes. .lógica que teve que ser superada (ou recalcada).

ou seja. Desde sempre. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. não se pode simplesmente apagá-la. o desejo da cultura [28]. de modo mais ou menos claro. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. forçá-la a abandonar o já pensado por outro por pensar. afinal. técnicas e múltiplas artes. como as culturas. recalcá-la ou. Isto nos faz compreender. Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. fingimento e superação Do ponto de vista lógico.5 . o que é ainda mais sutil. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico/emocional dos indivíduos. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e duradouramente exercida. na verdade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA POR VIR 301 FINGIMENTO SUPERAÇÃO CULTURA DE REFERÊNCIA DESEJO CULTURA ANTERIOR RECALCADA Figura 12. é de algum modo silenciá-la. conhecimentos. através de um processo de reiteradas substituições.Desejo. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. o que se pode. instituições. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou margi- .

que. ou. O golpe fatal sobre qualquer cultura. Toda cultura. também não se pode ter dúvidas. No entanto. precisamente em seu fingimento. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. . E quando isto acontecer. como não poderia mesmo deixar de ser. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. como de seus piores feitos. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural. e que de maneira inexorável irá confrontá-la. tanto de suas excelsas realizações. simula ou finge ser o que ainda virá. ameaçadores.5) Toda cultura teria. até preventivamente mandando executar os recém-nascidos. mas que ao final é o que a empurra para a frente. que é seu verdadeiro motor imanente. pois já começam a se delinear em seu horizonte. pelo menos. pelas ideologias. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua.302 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. é o melhor que poderia mesmo fazer para tentar embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. pois. uma disposição desejante. inclusive aquelas à esquerda e à direita. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 12. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. e tantos mais) e que a dissimulação aqui aludida é apenas um dentre eles. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. convenhamos. todas o pressentem. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação (pela violência.

Tomemos alguns exemplos. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem. a liberdade pelo cativeiro. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. Significam. como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo . por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. o fruto esperado. perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 303 A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. da Antigüidade (pré-D). a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. na formação de estoques e na sua distribuição. enfim. tanto quanto terá sido negado que estava já em gestação nas suas próprias dobras. O primeiro. acompanhada de investimentos na organização da produção. margens e desvãos [29].o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. seria o das culturas dos grandes impérios de base agrícola. Como bem observa Mircea Eliade. A probabilidade de subversão de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. metaforicamente. A agricultura tomada como base da subsistência. quer a cerealicultura (Tais mitos são mais ra- . na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (por isso podem parecer retrógradas) com uma corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (por isso podem parecer delirantes). A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . do esgotamento de seu vigor criativo. Tempo perdido. do desvanecimento do seu próprio desejo. em essência.

vivas ou inanimadas. e por vezes radicalmente reinterpretados. é atribuído um sentido. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). por isso. ainda que oculta. uma intencionalidade atuante. entretanto. ora metonímicas (análogas aos processos primários inconscientes de condensação e deslocamento). Ali vige o simbólico. ora metafóricas. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. malgrado. para fazer frente à grande ameaça do conceito. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. inventa-se a escrita. (Ver figura 12. em essência. Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. o sentido permanece ainda afeito ao traço. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. que. não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. o constituiu.304 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ros. que irá permitir a . possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. Para tanto e muito mais. mas sentido apenas como índex ou como análogo. o simbólico refém da espacialidade que. A todas as coisas. nas culturas evoluídas. Neste tipo de cultura. nas culturas de base agrícola (pré-D). É então pela idolatria sistematizada que esta cultura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. (negritos nossos) [30].6) Tudo isto. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O mito. ainda como um entre os múltiplos atributos dos entes. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. como assinalamos.

cuja gigantesca e emblemática figura. CULTURA MONOTEÍSTA MAGIA ANALÓGICA I JUDAÍSMO MOSAICO Pré-D Pré-I MITO CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL Figura 12.6 .três mil ou mais outros vinte tantos mil. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. absoluto transcendente. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. à volta do bezerro de ouro.Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). da religião do Deus único. a fio de espada. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular. Como se fora numa pintura de Chagall. à noite. sabemos to- . que estiveram reunidos de dia. não importa -. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. o círculo de seus adoradores . em definitivo saída da Natureza para o mundo da Lógica ou da pré-Idéia. inseparável do pré-domínio do simbólico pleno ou convencional.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 305 expressão do lógico enquanto tal. por nada subornável. A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade.

um de costas para o outro. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. que se pode considerar como o fundamento lógico do trágico). porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser. diria Hölderlin. que se alimentará o vigor criativo dos gregos.Cultura prometéica grega (D) . e não da outra. em especial. Um segundo exemplo seria o da cultura grega comprometida com a lógica do outro ou da diferença (D). que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). posição que vai lhe custar o mais alto preço. porque é desta última. Daí constituírem os gregos a cultura trágica por excelência.7 . E se vê condenado a não mais retroceder. (Ver figura 12. é Moisés. A relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses.306 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dos.7) CULTURA DO CONCEITO OU DO ESPÍRITO CRISTÃ DIALÉTICA PLATÔNICA POESIA EXORBITANTE I/D D I CULTURA GREGA CULTURA DA IDENTIDADE FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA Figura 12. daquilo que foi e agora é falta). que é doravante ser outro (dos deuses). O personagem símbolo aqui é Prometeu. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo.

malabarismo para uma sobrevivência impossível . o que encobre/ revela. à imitação da própria imitação. com a agravante de te- . por excesso de fingimento. veremos que a pátria do ser. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. de modo incontestável. além. mas não chegara a realizar -. Para deixar isto ainda mais transparente. vale aqui apelar à sensibilidade do poeta . pretensa extensão da Natureza . precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). simular sua própria auto-superação como arte. Reparando bem. a dissimulação que ela realmente é. particularmente a poesia trágica.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. mas Graça!). lamentablement. do um-todo ou do Deus único. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. não produz filósofos e perguntas. uma profusão de profetas e suas duras admoestações aos homens pela sua infidelidade à Promessa (que não é produto de roubo. mas. beauté suprême. grega no caso.Hölderlin -: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial. ao invés. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. A arte grega.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 307 Para compreendê-lo em toda sua significação. ou seja. Nesta.do que esta deveria. como tal. La Grèce. sombra [31] Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. por falta do distanciamento.

afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. viria a ser a prerrogativa própria da idéia (ou do conceito) [34]. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. alguém que não faltou aos seus. Eugen Fink. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). (negritos nossos)[35] Perceber tudo isso não é assim tão difícil. como bem registra A República [33]. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique. Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico..e a filosofia. mais individual. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. Por isso. como se vê. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão micrométrica.308 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO rem sido alertados em tempo por um dos seus maiores ..que então exorbitava .Platão. sabemos. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. a verdade da parte pela da totalidade. não por serem imitadores. já lembrado. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). Il interprète plutôt le beau . alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro. o que. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [32] do que um clarividente. Hölderlin. para que fosse ele buscado além. chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual. no que respeita a pretensão do belo ao vero. sendo também mais universal e o mais universal.

para Platão. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. Dans un pressentiment obscur. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. par conséquent sans savoir réelllement. mimésis.. la poésie imite le vrai savoir.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 309 comme chemin et échelon vers le vrai. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie.. la poésie devient alors. .. Fink nos proporciona um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. mas era algo essencial à própria afirmação da filosofia (bem entendido. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. Cependent elle est imitatio. des spectacles contre qui la pensée métaphysique { isto é. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. La poésie est essenciellemente mimétique. [36] Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos. imitation d’une imitation. (negritos nossos)[37] Muito importante é observar que.. (negritos e colchete nossos)[38] . elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre.. originelle. on lui arracha son prétendu masque divin. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure.

ao mundo da cultura. que. para sobreviver. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. no entanto. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o . possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/D= =I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. apresenta algumas interessantes peculiaridades. Como último exemplo. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. recordemos.310 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A nosso juízo. Diferencia-se da cultura de base agrícola (Pré-D) porque esta se põe como outra da Natureza. vamos tomar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores que dominou o período paleolítico e que. por ser lógica e historicamente primeira. Georges Bataille. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. a pré-I? Como poderia se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. dissimulado. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. isto é. em Théorie de la religion [39]. pois. viver da caça a outros animais. Já pertence. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. porém. no caso. no conflito da idéia com o excessivo poético que. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega mais do que 600 anos após à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. esboça seus primeiros traços em Platão. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” anterior à “lógica”. como visto. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma.

Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. Apenas deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (pré-I).8) PINTURA RUPESTRE CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-D Pré-I HERÓI MÍTICO CULTURA ANIMALIDADE IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL O ANIMALIDADE Figura 12.8. na sua própria expressão. nem assim constituem uma verdadeira exceção. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. concluímos que as culturas tribais.ganho da animalidade (I/D) para humanidade (I/D/2). mas da renúncia a um ganho lógico . mas. A condição de caçador o identifica com a caça. no que tange ao seu modo desejante. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (anterior a pré-I). pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 311 alimentar-se de e ser alimento por outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. ou seja. Com isso. Em outras palavras. o fato é que já se pode lá assegurar a . (Ver figura 12. como a água na água. para sobreviver.

da caça aleatória para a caça assegurada. pelo trabalho agrícola. Isto posto. conforme nos ensina ainda. Reconhecemos aí o herói . [40] O fingimento nas culturas tribais. especificamente. quando já se desenhava para eles o espectro da agricultura. Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pela lógica da identidade de todos os entes. e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. postergando o advento da cultura de base agrícola. irá por água abaixo. ou ainda por um espírito ou por um deus. inclusive também os deuses. precisariam simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. O autor da proeza está historicamente perdido. animais e homens. de penetrar nos corpos dos humanos. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). não mais se o devora e sim o escraviza. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. mortos ou vivos. Visa-se o outro agora como meio. mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura de base agrícolas (Pré-D). no entanto. Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”.312 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vigência de algum tipo de xamanismo. isto é. isto é. (Ver figura 9) Toda esta artimanha representativa. e mesmo em se tratando de um semelhante. não mais como o que se perdeu. Para tanto. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. por força de um movimento de subversão cultural. contudo. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente!) criada pelos xamãs para a conservação de seus poderes.

tempo (T). temperatura e o diabo [43]. mas as equações matemáticas segundo os quais o mundo fora criado. Sua face desejante situa-se bem no cerne de seu glorioso cientificismo . trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da sociedade de base agrícola. que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2). bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. aceleração.pré-assistido por Galileu e alguns outros . como se fossem três absolutos . espaço e matéria. Seus grandes heróis são Galileu. entretanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 313 prometéico. corrente elétrica. sua face disfarce é a técnica e seus excessos. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. desejosa do uno-trino (I/D). força. O fez. a Física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). indução magnética. Em suas grandes crises. a biopirotecnologia. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D).a Física [42]. particularmente hoje. que sejam eles três . espaço (L) e matéria (M) .10) O mais notável dos feitos de Newton . spin. energia. porém. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto unotrino desejado (I/D). põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [41]. (Ver figura12.4. a Física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2).tempo ab- 12. A Modernidade . entretanto. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses. porém. Einstein e tantos outros. jamais. pressão. De fato. Discute-se tudo na Física. com sua mecânica. Em suma.suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade.foi. Newton.

simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzi- . enganadora. à plenitude lógica. mecânica quântica. espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível. daí porque. a história da Física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu comprometimento mútuo. A técnica. de certo modo. pelo menos um gritante e bem compacto oxímoro. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . em especial a biotecnologia. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética. eletrodinâmica quântica . relatividade geral. CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA POR VIR I/D/ SUPERAÇÃO 2 PÓS-MODERNIDADE BIOTECNOLOGIA ESPETACULAR CULTURA CIENTÍFICA MODERNA D/2 I/D CULTURA TRINITÁRIA CRISTÃ FÍSICA (CÁLCULO DO UNO/TRINO: REDUZUIDO A TEMPO.314 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO soluto. a partir de então. ESPAÇO E MASSA) Figura 12.10 – A Modernidade De outro lado.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [44].relatividade restrita. Se não uma “heresia triteísta .

metamorfoseado. o que. de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. Na técnica concorrem. A lógica da técnica. sem qualquer imaginação. não chega à hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). a determinação ou o empenho numa realização. Continuaremos tal como somos .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 315 dos (os transplantes seriam já uma preparação para tanto). cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. a lógica clássica ou formal (D/2) e a lógica transcendental ou da identidade (I). pois. Para se chegar a voar é preciso. insensíveis. de outro lado. em juvenil anjo de Maxwell. agora. mas novo saber cristalizado (D/2). entretanto. além de um saber da aerodinâmica (D/2). sim. também a inabalável determinação para fazê-lo (I). de modo obrigatório. em compensação. deixa bem à mostra (e de costas) quão risíveis são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. omissos. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume como da recomposição informacional de todas as coisas. O avião já em vôo não é tecnologia. assim para toda a eternidade! A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. futuramente. fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. respectivamente. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. É também o fim da História que tanto se apregoa. mesquinhos. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. enfatuados. constituindo-se apenas em seu arremedo. não se sabe como. É o velho demônio” de volta. seres vivos e memórias. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das de- . com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. inclusive. de um lado. mas. o saber científico. nada solidários. contra a morte em geral no mundo. do homem em todos os seus pormenores.egoístas. a propósito.

que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária (I/D/2) através da pseudo síntese machista da ciência (D/2) e de seu sujeito sujeitado (I). vislumbrar como se dará a superação da Modernidade.316 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO terminações à lógica formal da ciência . Não é difícil. a recuperação das lógicas da diferença (D) e dialética (I/D). da razão autenticamente feminina [45]. Daqui por diante. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna (D/2). reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. das regras de poder. das organizações burocráticas e similares. não se pode apresentar ainda fatos. além. como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos. a rigor. Poder-se-ia assim dizer. como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. lá. coetâneo e co-fundador na fixação das bases do cientificismo que viria justamente constituir a essência da modernidade?! [46] Eis. com toda a precisão. por razões óbvias. exigiria muito mais: para começar. . A verdadeira síntese qüinqüitária (I/D/2). É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. ou seja. mas talvez milhões ao mesmo tempo. em linhas muito gerais.à lógica transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica para buscá-lo à frente. entretanto.a sistematicidade -. mas tão apenas conjecturas.

uma nação que chegou a liderar o processo europeu de modernização. como de resto todo o discurso (ideológico) sobre a Modernidade.11. completa- 12. é. no fundo. A partir daí fica fácil perceber a essência do problema da incompatibilidade entre a formação social do Brasil. A Modernidade. ou melhor. todo esse alarido sobre a modernização brasileira. Vamos tentar esclarecê-lo com a ajuda da figura 12. Em suma. Este é verdadeiramente o nosso grande conflito interno. O Brasil e a Modernidade . pode ter o problema de se haver com a Modernidade? Não pode ser isto. como uma nação que nasce com a Modernidade. um discurso acerca de qual opção de sujeito da ciência se intenciona deveras dissimular. ali está posto de maneira implícita. tendo como seu sujeito. obedecendo à lógica do terceiro excluído. tem que ser olhada não como a questão da opção por um paradigma.5.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 317 mas tão somente a sua subordinação ao Pensamento. Sabemos todos que Descartes é quem inaugura (reflexivamente) a Modernidade. a problemática brasileira é posta em termos do dilema ser ou modernizar [47]. para nós. mas como a questão da sua ocultação ou dissimulação. Ainda que inconscientemente. o cogito. aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética. Entretanto. fundada por Portugal. era ser-calculável. Desde Raízes do Brasil. Mas acho que temos que aprofundar e entender melhor como se dá essa incompatibilidade e porque persiste este dilema. entre a formação cultural brasileira. Por quê? Porque afirmou que o mundo objetivo era geometria. de Sérgio Buarque de Holanda. o que se está sempre na verdade evitando ou ocultando é a questão de quem deva ser o sujeito da modernização (racionalização) que. entrementes. e a Modernidade.

318 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente transparente a si mesmo.uma caricatura.Problemática cultural brasileira . Figura 12. põe de novo o sistema em funcionamento. de um bando de assaltantes. se quisermos. o famigerado herói fordiano . sujeito de projeto. que pode ser a chegada da estrada de ferro. obviamente -: existe um sistema comunitário funcionando. de ETs.11 . de uma catástrofe natural ou artificial. de qualquer coisa que o faz degringolar. de índios. [48] Todos os filmes americanos são a mesma coisa . aí ocorre o contingente. mas nunca a comunidade – e. ou. depois de derrotar a adversidade. Então surge um sujeito isolado – às vezes até um punhado de indivíduos isolados. sujeito liberal.

é uma história de seguidas insubordinações. Tudo começa no ano 1000. demorou cerca de 500 anos. sujeito intervalar entre dois sistemas. contra o exército americano. porque nós não conseguimos ver o filme.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 319 Quem viu. não se podia mesmo ter uma cultura viva que fosse estritamente científica. ou 1100. Não! Eles fazem filmes para reiterar o que são.um retângulo com uma porção de retângulos dentro . que tinha uma tática e ele executa outra por conta própria. procedia à aristotelização de sua teologia. nós vemos outro filme. a lógica funerária. o cientificismo. O que se pode sacralizar. mas pela descoberta do sujeito que . por exemplo. para educar. E ganhou vários Oscars! E muita gente pensa ingenuamente que eles perdem tempo em Hollywood fazendo filmes só para nos enganar. O sistema não pode por si produzir outro sistema. Porém. Logo. o sujeito liberal. Dançando com lobos. Quando se faz um sistema de folha de pagamento. ou seja. a única coisa que se enquadra bem nesta lógica . poderia facilmente perceber isso: o sujeito se rebela contra a junta médica – não é um médico que vai cortar a perna do herói. contra o regimento. Para tanto. não pela adoção do cientificismo. mas como simples entretenimento). não é o sistema vigente [49]. uma álgebra axiomatizada.é o cemitério. a lógica do sistema é a lógica da morte. não dá para ele próprio gerar outra coisa. é a junta médica que pretende fazê-lo –. ainda que similar. com a própria Igreja tentando demonstrar para todo mundo que a ciência seria desnecessária. ou 1250. Desvelar e instalar o sujeito da ciência. não uma lição de vida (cultural americana. passando do radical trinitarismo de Santo Agostinho (dialético I/D) para o tomismo (lógico-clássico D/2). mas a cultura da sistematicidade. um organograma. A consolidação da Modernidade. ao final. depois também vendem para cá sem correrem o menor perigo de que os imitemos. É necessário para tanto um sujeito fordiano. portanto.

foi obra dos protestantes [50]. há também uma liberdade de fato. veremos a turma que segue o paradigma americano propor que as verbas sejam dadas aos indivíduos que apresentem o melhor projeto. havia a necessidade de dar-lhe uma resposta. que formula uma contra-proposta (contrareforma): no lugar do sujeito calvinista (I) colocar-seia um sujeito coletivo (I/D). o sujeito liberal. a turma à “esquerda” contra-ataca. sujeito de projeto. para permitir que os sistemas se reproduzam. obviamente representado por um sujeito simbólico absoluto (delegado do Absoluto).320 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lhe seria próprio. precisamente aquela de um sujeito fordiano. à racionalização/burocratização do mundo. Embora Portugal e Espanha tivessem dado partida à Modernidade. por exemplo. ou seja. desenvolvimento tecnológico. depois que o protestantismo colocou a sua solução. Então. mas o expulsaram! [51] O problema é pois quem deva ser o sujeito do sistema. por quem e em proveito de quem? No paradigma anglo-saxão. não constituíram/ consolidaram o sujeito que lhes seria apropriado. Assistindo-se a uma reunião em Brasília sobre. A cúpula da Igreja não queria discutir sujeito nenhum. Por isso. propondo que as verbas sejam destinadas à criação de tecnologias que venham contribuir para resolver os graves problemas “sociais” [52]. Ou melhor. porém. a Igreja deixou emergir o jesuitismo latente. Existiriam alternativas? O mais interessante é que esta questão se pôs logo no início da Modernidade. É sempre a mesma coisa! Nós temos uma enorme dificuldade em aceitar aquele su- . a ciência vai ser feita para quem. o tinham por lá até bastante. todos os cientistas estão a serviço da reprodução dos sistemas. imediatamente. não se mantiveram na vanguarda porque acreditaram que lhes bastasse o Tratado de Tordesilhas (a lógica do terceiro excluído imposto ao mundo com a benção de Deus).

[53] verifica claramente que o problema de Galileu não é com a Igreja. ele fez de conta que acabou com a Ordem. ser aquele que fazia ciência para ele próprio “faturar”. e nada tem a ver com a ciência propriamente dita. pressionam um Papa. que sobe no muro e passa três anos procrastinando a decisão. Em que escola Lenin poderia ter aprendido o que fazer?! A exata fórmula jesuítica! É o maior absurdo dizer que a Igreja era contra a ciência se os jesuítas. o sujeito liberal ou fordiano. A Polônia ficou católico-romana exatamente porque o Papa recuou. mas com um sujeito coletivo representado pelo monarca absoluto.de querer aparecer. É incrível a carga que o Marquês de Pombal e os espanhóis fazem sobre a Ordem dos Jesuítas. com os jesuítas. exatamente por tal. e os ibéricos mais ainda o apertam até que a Ordem é “dissolvida”. todo jesuíta é formado em alguma coisa de cunho acadêmico. para os jesuítas. entrementes. isto é. mas do texto facilmente se o depreende . que acaba louco. Resumindo. inclusive científico. E. a proposta jesuítica é a de um sujeito coletivo que.não é o que diz Redondi. Catarina da Rússia então os recebe na Polônia e chega a ameaçar o Papa: se insistisse em dissolver a Ordem em seus domínios. a ciência deveria ser feita coleti- . Santo Inácio. precisa ser representado por um sujeito emblemático absoluto: é a proposta ciência e absolutismo. Ele foi acusado formalmente do não cumprimento de sua palavra e. até hoje. pressionam o seguinte. e. Quem leu o livro do Pietro Redondi. no fundo . ela ordenaria “ortodoxar” a Polônia”. Galileu herético. era uma parte da Polônia ocupada. uma reforma “modernizadora” no sentido dos tzares: ciência sim. se tornar um mau exemplo. Com que finalidade? Para ajudar numa reforma educacional. foram se formar na Sorbonne. desde o fundador. sim. uma boa leva de seus integrantes continuou se refugiando na Rússia que. fazer sucesso. no caso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 321 jeito individualista.

O que se está chamando hoje capitalismo confucionista.11). é também disso uma variante. O que há aí de importante que precisa ser visto? A maioria das “pessoas de esquerda” no Brasil acha isso bom e nós também. mas sabe-se hoje no que isto. Começou-se lá com a intenção de colocar a ciência a serviço do coletivo (NEP). de fato. Isto é a grande ilusão de todas as esquerdas. Mas quando é proposta a solução à esquerda (D/2 com I/D). do Japão. pretende-se que a comunidade ou o ser-comunitário (I/D) vá se servir da ciência (D/2) em seu próprio benefício. é a lógica do sistema (D/2) que prevalece e o exemplo evidente é a URSS. Tudo por uma simples razão: a lógica clássica (D/2) pressupõe e subsume a dialética (I/D). só que optar pelo sujeito coletivo e ao mesmo tempo fazê-lo determinante. não se pode inverter a seta que no capitalismo anglo-saxão ou paradigmático vai do sistema para o sujeito. ou capitalismo oriental. Basta lembrar a expressão socialismo científico: socialismo é o sujei- . como mostramos no item 1. Em última instância. não vai perverter jamais [54]. pois o indivíduo do projeto (I) está a serviço do sistema. e não tributário ou intervalar. Ficou desde então este tipo de “alternativa . Então.322 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vamente e em benefício da coletividade. A seta que iria do sujeito coletivo para a ciência vai se inverter e se irá ter uma burocracia usando de uma ideologia para dominar a massa. pelo Secretário Geral do Partido Comunista Chinês no continente e pelo patriarca da “família alargada” na diáspora chinesa por todo o mundo. O capitalismo anglo-saxão não tem esse problema. no caso. é uma solução impossível. já estando pervertido. resultou. sub-repticiamente também se propõe inverter a seta. que faz do último sujeito tributário do primeiro [ver de novo figura 12. é ciência (D/2) com sujeito coletivo (I/D) representado pelo Imperador. ela é produto já de um ciclo contra-dialético. pois. a primeira é lógica de um pensar mais poderoso do que a última.

baseado num sujeito coletivo (I/D). a Modernidade). a posição dialética (I/D) não é o lugar de uma solução. a estabilidade do emprego etc. quem está apostando na China como a grande nação capitalista do século XXI irá se decepcionar. ele só está resistindo um pouco mais à perversão em razão de sua grande homogeneidade cultural. o empresário samurai.o que. Marx é importante para criticar o capitalismo (melhor diríamos. sujeito telúrico. ou seja. a lógica clássica posta a serviço da dialética. isto porque são elas justamente as lógicas que a Modernidade está recalcando/desnaturando. sujeito inconsciente. Entremos numa empresa qualquer: a primeira coisa que se irá constatar é a obsessiva pré-ocupação com o cálculo da taxa de retorno do capital. . é repetir Descartes. sujeito poético. Precisa-se explicar mais?! O Japão vai pelo mesmo caminho. entretanto. que é a do sujeito romântico. Com o esfacelamento da URSS. Existe. eles aprenderam a bem usar a ciência e a técnica. A Modernidade. entretanto.. na verdade. O que faz ela da dialética (I/D). os possíveis lugares de sua crítica. povo. Maior evidência não existe! Não é isso que toda empresa faz? Sozinha. portanto. o que levará à sua própria dissolução cultural. uma outra alternativa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 323 to como ser coletivo (I/D) e científico é o mundo objetivo (D/2). de certa forma. isto está hoje mais do que comprovado. Assim. bem perto de nós. da História? A faz história calculada. é apenas o lugar para uma crítica. em essência. sendo. se baseia em ambos: ele é a afirmação das lógicas da diagonal masculina (I e D/2). As outras duas lógicas (I/D e D) constituem o avesso da Modernidade. mas estão agora acabando com o respeito aos velhos. mas não para propor um sistema alternativo. ou. ele se baseia na racionalização do mundo (D/ 2 ) ou então no sujeito schumpeteriano (I) . Pelo mesmo raciocínio. Todos que se manifestam a favor do capitalismo dizem que.

e o fascismo é uma resposta antecipada ao consumismo. e como já se viu. perverte. ou seja. mas igualmente os EUA (sujeito I). porque também inverte a direção da determinação ciência/sujeito. mas o mesmo não se pode ainda seguramente afirmar do fascismo! Entrementes. Foi precisamente por isso que ela respondeu por antecipação ao consumismo [55]. antes do que em qualquer outro lugar. com o sujeito romântico (D) no lugar do sujeito liberal (I). um exagero – é comunitário/absolutista (I/D). ou capitalismo de marketing.que sabe bem o que é cultura e sua importância. vigente no paradigma anglo-saxão. porque tem lá sua cabeça jesuítica. Se fraqueja com a idade. Vê-se agora uma simetria temporal perfeita: o marxismo é uma resposta retardada ao cálculo da História. vale dizer. justo quando o capitalismo começava a deixar de ser produtivista para tornar-se essencialmente consumista. O fascismo é uma alternativa. velhos rivais do logos heraclítico (D) [56]. entretanto. é óbvio . melhor dito. o marketing. uma pseudo alternativa para a Modernidade. Para Heidegger. bem depressa. (Retornar à figura 12. Lá começou-se a sentir. o comunismo não tem mais futuro.324 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito libidinal. Nós temos uma formação ibérica forte. Por isso. à acumulação pré-calculada do capital. A tendência da “elite” brasileira – a generalização aqui é. o capitalismo e o seu novo motor. não faz uma grande doação benemerente a . o inimigo da Alemanha (dizia Europa) não era apenas a URSS (sujeito I/D). O indivíduo aqui tem mesmo vergonha de ter lucro. como um agressor da cultura. Foi precisamente por isto que o fascismo apareceu tardiamente (como força social) em relação ao socialismo. mas no aspecto educacional sempre houve a preponderância do luso-jesuítico.11) A Alemanha tem uma elite . sem dúvida. Ele pode ficar rico. mas sempre com a consciência culpada.bem diferente da nossa.

no qual afirma que o índio é preguiçoso. inves- . Por que não se consegue modernizar o Brasil? Porque a elite puxa para o sujeito coletivo/absolutista (I/D) e o povão puxa para o sujeito libidinal (D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 325 uma universidade ou instituição filantrópica. na circunstância) para sujeito ostensivamente libidinal (D)! E o povão [57]. Entrementes. Trabalhar duro a semana inteira para. com isso. pré-D). o Brasil está sendo construído. mas ninguém quer se botar no devido lugar (I). embora nós não queiramos ver (por isso se diz que o Brasil cresce à noite. trabalhar racional e disciplinadamente sim. Não há quem não o queira. dizem de um lado. mas simplesmente muda (se fantasia. no juízo (ou ausência de juízo) dele. matar de fome a baiana do acarajé. na sexta à noite. Há um artigo seu. Ou seja. a dificuldade de modernizar o Brasil. ou mesmo fazê-lo o ano inteiro para poder desfilar condignamente no Carnaval. melhor se diria. como nos EUA. Boa parte de nossa “elite” política. poder tomar sossegadamente sua cerveja com os amigos. e ninguém quer saber do projeto (I). o negro só quer saber de magia e o português é patrimonialista. pela concorrência. sem ninguém ver ou atrapalhar). se diz que com esse “povinho” não dá. principalmente onde pesa mais a cultura africana. e vende a economia brasileira em bloco para empresários monopolistas estrangeiros. puxa para o lado do sujeito libidinal (uma forma arcaica de D: pré-D). empresarial e até intelectual está traindo a causa brasileira. Daí. mas para então poder gozar mais. De outro lado. O atual Governo está mais ou menos seguindo esta dupla receita: põe a classe média para vender cachorro-quente e assim. incrível. vale dizer. com toda nossa herança histórico-cultural. não dá para fazer nada. Não se aproveita nada – é o que o Roberto Campos nos ensina. O único jeito de o fazer é acabar com a elite. mais precisamente.

ainda. para nós não há saída à esquerda e não há saída à direita. empresariais. no pensamento único. e também não adianta insistir em entrar para a Modernidade. ele o é deveras à originalidade. na síntese. um nível de desenvolvimento cultural que seria o de uma cultura qüinqüitária. na qual exatamente deveríamos apostar. Construir uma cultura é tarefa para 500 anos ou mais. eclesiásticas e intelectuais. Em suma. . por vir. o Brasil não é um bom candidato ao luxo. Ademais. pelo menos. Eu não digo que o Brasil está pronto. mais do que quaisquer outros. militares. Só há uma coisa para a qual temos vocação: é a síntese lógicoqüinqüitária. que está. e nós já estamos bem próximos de alcançá-los! Apesar da cegueira das nossas “elites” políticas. haveremos de chegar lá. Há. para quê? Para ocultar nossa grande alternativa. todos os componentes de base para tanto.326 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tindo no fim da História. porque temos. como acreditava Darcy Ribeiro. ele está quase.

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Notas

Capítulo 1

1. THOMAS, Louis-Vincent. A etnologia, mistificações e desmistificações in História da Filosofia – Idéias e doutrinas, dir. F. Châtelet, v.7. Rio de Janeiro, Zahar, 1974 2. LEIBNIZ, G. W. Princípios da Natureza e da Graça in Obras Escolhidas, Lisboa, L. Horizonte, ?. p. 149. 3. KANT, Crítica da Razão Pura, Lisboa, Gulbenkian, 1989. 4. O infinito matemático é um artifício para justamente ocultar, no mundo da matemática, a problemática do Absoluto, assim como o zero é o artifício similar para ocultar o Nada, que nos imporia a incômoda questão da origem dos números. Portanto, a atribuição da infinitude, qualificada ou não, feita ao Absoluto é um péssimo costume dos teólogos, na medida que sua essência é precisamente a ocultação, se não do Absoluto, pelo menos da visibilidade de sua simples problemática. 5. Só para exemplificar: I think the Anthropic Cosmological Principle brings us to an idea perhaps as old as humanity itself: that we are not at all just an accidental anomaly, the microscopic caprice of a tiny particle whirling in the endless depths of the universe. Instead, we are mysteriously connected to the entire universe, we are mirroured in it, just as the entire evolution of the universe is mirroured in us. HAVEL., Vacláv. The Need for Transcendence in the Postmdern World in THE FUTURIST, July-August, 1995. p.48. 6. SAMPAIO, L. S. C. de. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Rio de Janeiro, setembro, 1999 7. ______. Superação das idolatrias - a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária, Rio de Janeiro, novembro de 1999. 8. ______. Remanejamento das Relações Indivíduo/Sociedade na Cultura Nova Lógico-qüinqüitária. Rio de Janeiro, janeiro, 2000 (acrescentado a posteriori).

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1. Não desconhecemos que expressão semelhante foi usada há muito por George Balandier no título mesmo de seu livro ANTHROPO-LOGiQUES, Paris, PUF, 1974, mas, o próprio leitor poderá verificar, com uma motivação bem diferente da nossa. 2.Um semimonóide é uma estrutura algébrica, por nós definida, munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento, associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados, não importa se a direita ou a esquerda. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados, ainda pela operação/, indefinidamente, a partir de um conjunto finito de elementos fundamentais. Ver Sampaio, L. S. C. de, A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa, nua, na passagem dos semigrupos aos monóides in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios, Rio de Janeiro, EdUERJ, 1999. 3. Ser um operador nulo à direita é não exercer qualquer efeito quando ocorre à direita de outro operador. Assim, no monóide livre básico que representa a estrutura formal das lógicas,temos para qualquer X, X/I=X, em particular, D/I=D, o que já não acontece quando I ocorre à esquerda, pois, I/D ¹D. 4. Uma observação importantíssima é a de que, por exemplo, em sua máxima generalidade, D/2 não é uma forma abreviada de D/D, mas de (D)/(I/D), e que portanto a lógica clássica pressupõe a lógica dialética e, de certo modo, nega ao mesmo tempo que herda boa parte de seu enorme poder: a lógica clássica é, por isto mesmo, uma lógica das totalidades convencionadas, destarte, pai e mãe da matemática. Para maiores detalhes, ver SAMPAIO, L. S. C. de Lacan e as lógicas, Rio, 1992 (xerografado) e, ainda do mesmo autor, Dialética trinitária versus hiper-dialética qüinqüitária, in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit. 5. O termo qüinqüitário, no presente contexto, refere-se a uma lógica que subsume cinco lógicas, ou seja, à lógica I/D/2, assim como o termo unário referenciar-se-ia a uma lógica que subsume apenas a si mesma, a lógica transcendental ou da identidade I, e o termo trinitário, a uma lógica que subsume três lógicas, vale dizer, à lógica dialética I/D. 6. Na impossibilidade de explicações mais demoradas, confiamos nos conhecimentos e na intuição do leitor para identificar em alguns campos de saber o exato momento de passagem da estrutura conceitual trinitária à qüinqüitária. Na física, ele situar-se-ia na passagem dos leptons aos barions; na psicanálise, na passagem da fase fálica àquela de assunção da sexualidade propriamente humana ou tetrapolar; em eco-

Capítulo 2

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nomia, na passagem do feudalismo ao capitalismo; na etnologia, na passagem da cultura cristã trinitária ou patrística à modernidade cietífico-tecnológica; na semiologia, na passagem do símbolo ao discurso. 7. Acompanhando com atenção o seguinte texto lacaniano, mais facilmente consolidaremos nossa certeza de que a lógica da diferença D, também lógica do significante e da verdade parcial, tem por verdade própria o gozo: “Isso só se goza por corporizá-lo de maneira significante. O que implica algo que não o partes extra partes da substância extensa. Como o sublinha admiravelmente essa espécie de kantiano que era Sade, só se pode gozar de uma parte do corpo do Outro, pela simples razão de que jamais se viu um corpo enrolar-se completamente, até incluí-lo e fagocitá-lo, em torno do corpo do Outro. É por isso que somos reduzidos a um estreitamentozinho assim, a tomarmos um antebraço, ou não importa o quê - puxa!”. O Seminário, livro 20, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 35. Negritos nossos. 8. Quanto a que a dialética I/D tenha a vitória como sua verdade própria é suficiente atentarmos para o fato de que a História, por definição, já fez a sua escolha: sempre, pela “razão’” do vencedor. Ela é parcial e total pela simples razão de que todos os elementos em luta querem impor ao todo sua verdade, por definição, parcial ou partidária, o que aliás é uma impossibilidade. Muito se reclama por aí de que não se façam histórias dos vencidos; não poderia ser doutra forma, já que a verdade da dialética é mesmo a vitória. O que aconteceu de pior com o marxismo real não veio de uma acidental loucura, mas, de modo inexorável, de sua herança lógico-hegeliana. Para que ninguém se sinta com isso acabrunhado ou desiludido, alertamos que a dialética I/D, para o homem, não é sua lógica maior. 9. Trata-se do postulado que na física interna a ação de medir, que, em sua idade clássica, era algo de fantasmagórico; isto tornou-se essencial para a mecânica quântica cujos objetos são, em geral, microdimensionais e por isso facilmente perturbáveis. A rigor, o postulado refere-se a uma segunda medida que, em razão da continuidade do mundo, se executada imediatamente após a primeira, precisaria repetirlhe o resultado. Na primeira, teríamos Opy* fornecendo um número n e jogando o mundo num estado y ligeiramente diferente de y*. 10. Operadores hermitianos são aqueles cujos valores próprios são sempre números reais. Na lógica, tivemos que abandonar esta restrição que vige na mecânica quântica para podermos incluir num mesmo formalismo também o operador S, S tal que S3(y) = y, que representa a lógica do ser

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humano em sua plenitude, ou seja, I/D/2 , que dentre seus três valores próprios possui dois deles com parte imaginária. A propósito, esta é a “razão formal pela qual o ser humano só chega à plenitude em no mínimo três (correlatos aos pronomes pessoais eu, tu, ele ou nós, vós, eles), como já observaram Freud e, com maior precisão, Lacan em seus Seminários. 11. Ouve-se dizer que ao animais são capazes de operar por reflexos condicionados, como se esta locução fosse uma explicação “materialista” em bases empíricas do comportamento animal. De fato ela é importante, mas apenas do ponto de vista lógico: a palavra reflexo é obviamente de natureza lógica I e a palavra condicionado, isto é, determinado por outro e não por si, de natureza lógica D; portanto, em conjunto, a locução define uma capacidade lógico-dialética I/D. Assim, o cachorro de Pavlov, é mais hegeliano do que marxista, mais dialético idealista do que propriamente materialista. 12. À lógica I/D/2 correspondem tanto o indivíduo quanto o coletivo, em particular, a família nuclear e, às quatro lógicas por ela subsumidas, os componentes familiares típicos: os masculinos, I ao pai e D/2 ao filho; os femininos, D à mãe e I/D à filha (ou virgem). Pareceria haver aqui um conflito agudo com a noção de família nuclear do estruturalismo, na qual se incluiria o tio materno e não a filha. Acontece que se pode “provar” que as duas noções são equivalentes diferençando-se apenas em que a estruturalista é a posteriori da troca e a nossa, a priori da mesma. Ademais, a lógica a ser adjudicada ao tio materno, seria precisamente I/D na medida em que ele é pai (I) na outra (D) família nuclear, no sentido por nós proposto. Devemos declarar que estes esclarecimentos só se tornaram possíveis graças às observações críticas do antropólogo Mercio Pereira Gomes a quem, obviamente, agradecemos, mas que nada tem a ver com o modo pelo qual tentamos superá-las. 13. Dizemos com toda a generalidade porque, seja no sentido teológico judaico-cristão, seja no da cosmologia moderna (hipótese do big bang). o mundo advindo terá que sê-lo necessariamente como espacial, como essencialmente res extensa, logo, múltiplo. A identidade só pode aí emergir por um artifício a posteriori que seria aquele do colapso de alguma diferença disponível. A força lógica deste argumento pode ser constatada na física moderna - nos modelos cosmológicos a 10 dimensões em que 6 colapsam , embora não desapareçam, resultando em nosso mundo aparente de 3+1 dimensões -, como também na embriologia, onde o tubo neural, inclusive o cérebro, resultam da invaginação (colapso) do tecido ectodérmico sensível, inicialmente disposto apenas como uma superfície.

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14. A pergunta pelo ser (I) exige a diferença ou o logos, ou seja, a filosofia (D); a pergunta pelo ser-objetivo (I/D) exige a dupla diferença, ou seja, a ciência (D/D) e portanto a pergunta pelo ser-humano (I/D/D) exigiria a tripla diferença, ou seja, “as ciências humanas”, o que , felizmente, é uma impossibilidade lógica, pois D/D/D não cabe em I/D/D. Ver Lógica e Realidade in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit.. 15. O princípio antrópico emerge da constatação de que admitidas mínimas variações nos valores das constantes universais transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo, que se tornaria impossível o advento do homem. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram, constantes e universais, então, desde o big bang, o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes, fecha-se o círculo: este Universo destinava-se, ab initio, ao homem, e o homem a ele; este é, em essência, o conteúdo do princípio antrópico. O princípio ainda sofre o repúdio de um número significativo de cosmólogos, entrementes, elaboramolhe uma versão baseada em argumentos não só físicos, mas igualmente lógicos, que não o deixa sujeito às restrições mais freqüentes até hoje contra ele levantadas. Para detalhes, ver Pricípio antrópico, a seguir neste volume. 16. Admitindo-se que a cultura egípcia, de fato, abeirou-se do monoteísmo. Ver especificamente MOISÉS E O MONOTEÍSMO - Freud, Obras psicológicas completas, v. XXIII, Imago, Rio, 1975 - sem que seja necessário concordar em toda latitude com as teses ali defendidas. 17. A referência aqui é ao diretor cinematográfico John Ford irlandês, embora atuando nos EUA - em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado, e tão logo o conseguia, deixava-se ir embora, solitário como chegara, pelas estradas. Pode-se haver algo mais expressivo do que isto, no caso?! 18. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato um velho questão que se arrasta até hoje, como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. O tema, não há dúvida, tem sido muito maltratado pelos pensadores da sociedade. Os marxistas, em especial, sempre o tiveram atravessado na garganta, desde Lenin, passando por Plekhànov, Adam Schaff, R. Garaudy, até chegarmos a Alain Badiou, que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico, sem a qual, é óbvio, tal problemática não poderia ser

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adequadamente tratada; ver Alain Badiou, Théorie du sujet, Paris, Seuil, 1982. 19. Ver especialmente O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO, Freud, Obras psicológicas completas, v. XXI, Imago, 1974. 20. Referimo-nos entre tantos outros a Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Novaes e José Miguel Wisnik. 21. Há muito fomos despertados para este tipo de questão pela leitura do provocante Linguagem e Realidade do pensador tcheco Vilém Flusser, publicado em 1963, quando ele ainda lecionava no Brasil. Só algum tempo depois é que tivemos notícia da tese similar hoje largamente conhecida como hipótese Whorf-Sapir. 22. O termo elite tem aqui um sentido bastante largo para ser aplicado o todos aqueles que exercem quaisquer posições de mando, não importa o nível da escala sócio-econômica considerada. 23. Em todas estas considerações omitimos o peso da nossa cultura autóctone, que classificamos como Pré-I ou ainda muito próxima deste tipo nodal. Em nossa opnião este tipo, por ser o mais originário, não traria um peso específico justamente por incarnar a cultura em sua generalidade. Não descartamos que uma compreensão mais profunda da problemática cultural brasileira venha nos obrigar a uma revisão profunda desta opinião.

Capítulo 3

1. Citado por I. M. BOCHENSKI, Historia de la Lógica Formal, Madrid, Gredos, 1976, p. 288. Tanto Bochenski quanto GILSON, Etiene (A filosofia na Idade Média, S Paulo, Martins Fontes, 1998) dão testemunho que a mathesis universalis de Leibinz teria sua inspiração na Ars Magna et Ultima de Lúlio. 2. LÉVY-BRUHL, La Mentalité Primitive, Paris, Retz, 1976 3. _______. Les Carnet de Lucien Lévy-Bruhl, Paris, PUF, 1949. 4. LÉVI-STRAUSS, Claude Antropologia Estrutural Um e Dois, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976 5. Bricolage: em geral, técnica oportunística de construção de novos objetos a partir do reaproveitamento de velhos objetos, de suas partes, até de seus caco ou pedaços. No caso, o termo está sendo transposto par o terreno simbólico e o reaproveitamento é fundamentalmente o de partes de estruturas conceituais já usadas em outros contextos. 6. Numa das sessões do XVII Congresso Nacional da SUSSESO, em 1984, quando ingenuamente falamos em pensamento pré-lógico - não no sentido de destituído de lógica, mas de ainda incapaz de uma representação simbólica objetiva de seu uso -, um companheiro de mesa, famoso

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antropólogo, do alto de sua autoridade midiático-doutoral, na impossibilidade de queimar-nos vivo pela heresia, teve um verdadeiro chilique diante do público. Inesquecível! 7. A remissão aos gregos é, na verdade, de natureza temática, pois como bem observou Mercio Pereira Gomes, do ponto de vista existencial, deveríamos remetermo-nos aos povos mais primitivos que, para simplesmente preservarem sua identidade, se vêm obrigados à operação lógica de nadificação do outro, ou seja, a se instituírem como os únicos verdadeiros humanos. Quanto às nossas opiniões, ver SAMPAIO, L. S. C. de, Noções de Antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, dezembro de 1996. (xerografado) e Desejo, fingimento e superação na história da cultura, Rio de Janeiro, 1998 (xerografado) 8. SAMPAIO, L. S. C. de. Noções Elementares de Lógica – Compacto, versão abreviada e significativamente modificada do volume I de obra homônima, Rio de Janeiro, I. CulturaNova, 1991 (xerografado) ou, numa versão mais recente BARBOSA, M. C. As Lógicas - As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. S. Paulo, Makron Books,1998. 9. SAMPAIO, Noções de antropo-logia, op. cit. . 10. ARISTÓTELES, Política, Brasília, UnB, 1988. I,2,1253 a 11.HEIDEGGER, M., Heráclito Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1998. Também nossos comentários em SAMPAIO, L. C. S. de, Crítica da Cultura. Rio de Janeiro, 1999. 12.Poder-se-ia argüir que em Heráclito o logos não é propriamente um atributo do homem como seria a razão em Aristóteles. Contudo, a confrontação continuaria ainda assim pertinente na medida em que, para Heráclito, estaria implícita como característica especificamente humana a capacidade de “escuta” do logos. 13. A afirmação que a competência para pensar, ou seja, para operar segundo a lógica está fundamentalmente associada à existência do sistema nervoso central (SNC) parece-nos óbvia, embora não nos pareça ainda fácil apontar em todos os casos as bases fisiológicas em que se apoia tal certeza. Vamos tentar justificar a afirmação precisamente no caso que nos parece de todos o mais problemático: o pensar consciente governado pela lógica transcendental (I). Começamos rastreando o processo de formação do SNC. Já mesmo em alguns entes unicelulares se pode distinguir regiões especificamente sensitivas e outras motoras (USHERWOOD, P. N. R. Sistemas nervosos, S. Paulo, Nacional-EDUSP, 1977). O primeiro passo na especialização funcional a nível celular se dá nos organismos pluricelulares, quando aparecem algumas células com funções exclusivamente sensoriais, e outras, exclusivamente motoras. Temos um terceiro momento, presente já em alguns

isto é. que ocorra uma homogeneização na codificação dos sinais digitais. Estes canais permitem que sejam conservados os tempos de resposta mesmo a maiores distâncias. adicionalmente. que paralelamente expande sua complexidade por meio de “dobramentos e redobramentos” que vão acabar dando o aspecto típico do cérebro humano.334 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celenterados. Importa destacar que o simples aparecimento de células especializadas em transmissão é a pré-condição da digitalização dos sinais nervosos. Consuma-se um novo passo com o aparecimento dos gânglios – formação cerrada de corpos neurais – que assumem. e por fim. Com o cérebro surge a possibilidade de um verdadeiro processamento de sinais o que pressupõe a superação das limitações hierárquicas dos tipos (no preciso sentido que lhe dá Bertrand Russell). entre algumas outras. o mesencéfalo ou cérebro médio. O passo seguinte é o aparecimento do tubo neural nos vertebrados e do cérebro: série de três intumescências que se formam na extremidade do referido tubo. cinestésicos e luminosos. Dizemos que há uma superação desta limitação quando “informações substantivas” recebem codificação de mesma natureza que “informações relacionais” (informação sobre relações de “informações substantivas”) e “informações processuais” (informações sobre transformações de “informações substanciais”). Esta homogeneidade de codificação. O surgimento de gânglios com funções integradoras pressupõe. entre outras. a nosso juízo. isto irá viabilizar o aumento do porte do animal sem perdas no grau já alcançado de integridade/integração. temos regiões especializadas no trato de canais olfativos. Do ponto de vista funcional. em que aparecem células com função especializadas na pura transmissão de sinais (neurônios propriamente ditos) ligando células sensoriais a células motoras. ainda vindo no mesmo sentido. é uma condição fundamental para a emergência da consciência. posto que só assim o animal terá condições de uma representação simultânea e compatí- . assumirão funções de comutação de sinais. as funções de integração de informações provenientes de diferentes órgãos sensoriais. Consolida-se um novo degrau de complexidade/especialização com a emergência de células inter-neuroniais que. possibilitando a ativação de canais de transmissão de alta velocidade. A expansão envolvente da formação extrema (antes preponderantemente olfativa) dá nascimento à córtex. o rombencéfalo. Contando do extremo para traz temos o prosencéfalo (que ainda se diferencia em telencéfalo e diencéfalo). que informações provenientes de órgãos de sensibilidade diferenciadas sejam representadas por sinais elétricos digitais da mesmo tipo.

de certo modo. que conduziu à emergência dos vertebrados é.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 335 vel tanto dos estados do mundo exterior quanto de seus próprios estados internos e de suas respectivas modificações. que a seguir se interioriza e em torno do qual virá se formar a coluna vertebral protetora. através dos nervos eferentes. ECTODERMA SENSÍVEL DISPOSITIVOS MOTORES TUBO ÓRGÃOS SENSORIAIS NERVOS AFERENTES NEURAL (INTERIORIDADE) NERVOS EFERENTES ÓRGÃOS MOTORES . A figura a seguir nos mostra uma seqüência esquemática das fases de formação do tubo neural explicitando suas ligações com os órgãos sensoriais. Um fenômeno de enorme relevância é o modo como se dá a formação topológica do SNC dos vertebrados. Trata-se do processo de formação do tubo neural. Não temos espaço aqui para entrar em detalhes acerca das células gliares. Este processo permite a formação de um tubo superficial. em cuja extremidade anterior. cerca de 10 vezes mais numerosas do que os próprios neurônios. através dos nervos aferente. e com os órgãos motores. recapitulado na sua ontogênese (fim da quarta semana). já o vimos. que por sua atividade “auxiliar de limpeza” podem garantir a permanente condição de higiene num exíguo espaço onde ocorre tão gigantesco nível de atividades. Pode ser facilmente observado nos jovens embriões dos vertebrados como o tubo neural se forma pelo processo de invaginação do ectoderma dorsal. Este fenômeno que ocorreu no curso da filogênese. desenvolver-se-á o cérebro.

336 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria importante enfatizar alguns dos aspectos topológicos deste processo de invaginação do ectoderma. Em suma. este espaço imaginário chega a constituir um mundo onde se pode dar explicações para o bem e o mal. eles seriam dotados de um espaço interno. gozar o ilimitado poético e até. behaviour and evolution. porém. que nele se cria um espaço interno em que se pode representar tanto o meio como seus próprios impulsos e disposições do próprio organismo. em termos de in-put e out-put e de uma única função de transformação os articulando. dramática e definitivamente. a operação de identidade (I) se alicerçaria na homogeneidade da codificação no que diz respeito aos tipos lógicos e. em si. levadas em consideração as orientações das superfícies em jogo. pois. o que nos obriga a descartar o simples modelo bipolar em favor de um modelo tetrerapolar. C. na codificação digital dos impulsos das células sensíveis e. Methuen. M. onde pode localizar suas origens míticas. sobretudo. e além. em direção contrária àquela do ectoderma que lhe deu origem [OAKLEY. poderíamos estabelecer as . Numa linguagem um tanto informal. Constitui-se assim um espaço imaginário onde é possível até refugiar-se momentaneamente fugindo às excessivas pressões do mundo. out-in-put. London. Alianza. Se o consideramos como sendo uma superfície orientada – suposição inteiramente razoável se tivermos em conta que se trata de um tecido de células sensíveis – constataremos que o SNC. constituir uma interioridade no corpo (espacial) do animal. constituiu-se também como uma superfície igualmente orientada. U. 1979 e SMITH. 1972]. No homem. Esta especial orientação vai. aproveitamos a ocasião para chamar a atenção sobre a insuficiência dos modelos condutivistas freqüentemente propostos para vertebrados. Nestas circunstâncias. suplementarmente. incluindo às vezes o próprio homem. Brain. diríamos que a base filosófico para a operação lógico-diferencial (D) poderia estar. El Cerebro. As considerações topológicas referentes à formação do SNC nestes animais evidencia que. Antes de encerrarmos esta nota. diríamos que o animal passa a dispor. simular diferentes cursos de ação sem ter que pagar o imprevisível preço de uma efetiva experimentação. Por outro lado. outout-put. David A. de um avesso. de certo modo. de um lado. Madrid. no próprio processo de formação do SNC por via da invaginação do ectoderma. in-in-put. onde haveria espaço para discriminar quatro e não apenas duas intervenções: in-out-put. na homogeneização desta codificações com relação à diversidade de sensibilidades em jogo (diversos sentidos). proporse como seu próprio enigma ou pura e simplesmente dissolver-se na loucura.

C. esquema lógico que desde Descartes caracteriza a Modernidade: logo. não é aí que vamos encontrar sua razão de ser nem aquela de suas variantes.in-input put SNC ação out-in. cit. emoção etc. L. de Desejo. Um exame mais atento mostrará que o mais importante no Iluminismo é o que ele se propõe fazer. com a des-razão (coração. SAMPAIO. Inst. Rio de Janeiro. 18. o capitalismo que criou o trabalho alienado nem o comunismo poderia aboli-lo. SAMPAIO. de Reflexões.. 337 percepção in-out. Oficina do Autor/ etc. natureza. acerca do advento da cultura nova pós-científica. de . S. Para maiores detalhes ver figura abaixo. logicamente otimistas. a essência do trabalho é se constituir num esforço que visa outra coisa que si mesmo.. Fingimento e Subversão na História da Cultura. 1999. Não estamos aqui referendando a concepção marxista sobre o trabalho. 1999 17.. que acabava de ser recalcada justamente pela razão científica (D/D). PLATON. pois. instinto. . logicamente otimistas. S. 1967 15. necessária e essencialmente trabalho alienado. Cultura-Nova. SAMPAIO. C. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. Flammarion. Paris. Não foi. op. na circunstância. Sabemos que a citação aqui do Iluminismo é uma simplificação. Théététe. Parmênides. intuição. 1988 (xerografado). 19. C. Muito pelo contrário.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE seguintes correspondências: Sensação ↔ in-in-put Percepção ↔ in-out-put+ in-in-put Sensação cinestésica ↔ out-in-put Ação ↔ out-in-put + out-out-put. sendo por isso. Rio de Janeiro.) (D). L. Rio de Janeiro. 16. S. Lógica e Economia. L.out-output put 14. SAMPAIO. Reflexões. De modo geral o Iluminismo está comprometido com a liberdade (I) e com a razão formal (D/D).. talvez excessiva.

LÉVY-BRUHL. 1920 23. Paris. como introdutor do modelo jacksoniano na França. Afora a identidade isolada. formado por dois elementos. cuja tabela de multiplicação é: x ac ad bc bd ac ac ad bc bd ad ad ac bd bc bc bc bd ac ad bd bd bc ad ac .338 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 20. op. como inspirador de algumas idéias de Charcot e outras coisas mais. particularmente nas propriedades do denominado grupo de Klein. constatamos que ele pertenceu justamente a Arthur Ramos e guarda suas inúmeras anotações manuscritas à margem e em pequenos pedaços de papel nele inseridos. Zahar. S. Taine –. relatamos que ao consultar o exemplar de Logique du Sentiment de Ribot existente na Biblioteca Nacional.Arthur Ramos conhecia a fundo não só a obra de LévyBruhl como também suas fontes. Binet. 25. 1989 – em geral.b) pelo grupo homólogo (c. Fica a sugestão.RIBOT. R. 26. cit. Rio de Janeiro. Como curiosidade. 24. La Logique des Sentiments. C. Rio.SAMPAIO.d). Alcan.Théodule Ribot é citado duas vezes no volume 1 e muitas no volume 2 da História da Psicanálise na França de E. Th. 21. por exemplo. F. ROUDINESCO._______. isto é. forçando um confronto entre sua Logique du Sentiment e a lógica do significante lacaniana. 1914. Entretanto sua ligação com a pasicanálise ficaria bem melhor definida se transladássemo-nos para o plano lógico. La Mentalité Primitive. a e b. La logique affective et la psychanalyse. o produto do grupo (a. na companhia de Janet. cuja tabela de multiplicação é x a b a a b b b a O grupo de Klein é o quadrado do grupo binário acima. LXXVIII 22. de Lacan e as Lógicas in Lógica ressuscitada. O fundamento disto se encontra na teoria dos grupos. L. o grupo mais simples é o binário. Philosophique. EdUERJ.

no caso. a rigor. S. L.SAMPAIO. justamente. pelos pares ad. também. aquilo que só é em razão de outro. 1999. seguindo indicações lacanianas definimos o masculino pela par lógico {I. Ernst. uma terceira pele. é inquestionavelmente lógico-diferencial (D). como vimos na extensa nota 13.Existem outros bem interessantes. trata-se de uma ratificação: a palavra (arco) reflexo é claramente lógicoidentitária (I) e a palavra condicionado. . perfazendo pois um “articulado” de três peles.. C. estaria operando segundo o famigerado “mecanismo” do reflexo condicionado. mas nada explica. um diferença suplementar. 1997 29. é uma dupla pele. como a roupa (ou a pintura dos corpos) representando uma terceira pele. 31. Ser humano é. L. Paulo. CASSIRER.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 339 As duas diferenças seriam representadas pelos subgrupos (a. logo. 1993 ou alternativamente Noções elementares de lógica . porque ele é simplesmente uma espécie de simulação formal (é óbvio que drasticamente empobrecida) da verdadeira dupla diferença que fez ser o homem. de Por que.. D}. com cerca de 3. II. o animal estará na verdade operando segundo a lógica dialética (I/D). Pavlov nomeia (até muito corretamente). sendo-lhe contraposta a “descoberta” pavloviana que o animal. bc e bd. Este grupo aparece por toda parte. uma filosofia da cultura. Rio. Ver capítulo 2 anterior. Ë precisamente isto que está logicamente por traz da piedade em J-J Rousseau. D/D} e o feminino pelo par {I/D. Rio de Janeiro. operando por reflexo condicionado. 32. EMBRATEL/UAB. C. 27.b) e (c. portanto. os elementos não identitários ( não ac) do grupo de Klein. 28. III e IV em 2 vídeos. Portanto. S.. Martins Fontes. A condição humana requereria. ser capaz de se por na pele do outro. Introdução a uma filosofia da cultura humana. Ensaio sobre o Homem. na própria obra dos estruturalistas não faltariam muitos outros exemplos. I. onde. bastando que se mantivesse fiel ao que lhe prescrevia a lógica do Partido. ICN.Compacto. de Introdução à Antropologia Cultural.d) e as três relações articuladas. Já aconteceu mais do que uma vez em aula que esta nossa afirmação fosse contestada. Ele poderia ter chegado à mesma conclusão sem ter aporrinhado tanto seus cachorros. 30. SAMPAIO.5 h de duração. S. Desde que saibamos procurar. Só na aparência isto é uma objeção. A condição animal capaz de operar I/D requer um SNC e este. 1988.

possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). ver SAMPAIO. I. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. EMBRATEL/ UAB. Rio de Janeiro. a designação qüinqüitária. 4. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). O termo hiperdialética refere-se a uma lógica mais complexa do que a lógica dialética. D/D=D/2 (lógica clássica). Alternativamente. pelo mesmo autor. C. SAMPAIO. além destas últimas. enquanto que a primeira sintetiza. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. tomando-se. 1996. serão então cinco as lógicas subsumidas. o vídeo Antropologia cultural. UAB. Luiz Sergio C.340 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SAMPAIO. então. daí. As Lógicas. Rio de Janeiro. Makron Books. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). Noções de antropologia. Noções de antropo-logia. Teríamos. tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). de. Rio de Janeiro. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. (2) só é na medida em que remete a outro (D). então a diferença talvez não seja mais nenhuma. I/D etc. III e IV. um pouco abusivamente. (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). 1996 (xerografado) ou BARBOSA. Esta. Rio de Janeiro. (5) é complacente ao Absoluto. L. M. D. II. Na esfera mundana. I/D (lógica dialética). pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. Para maiores detalhes. são apenas uma taquigrafia. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. 5. também conveniente. Ademais. Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. cit. Noções de antropo-logia. desde que não as tema. S. de. como sabemos. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o que acontece (I/D). Se considerarmos que ela subsume a si mesma. op. 1998. Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. a própria dialética e a lógica formal ou clássica. são inúmeros os casos de cul- Capítulo 4 . constitui-se numa síntese das lógicas da identidade e da diferença. C. As expressões I. UAB. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/ 2 ). 1993.

não se dão conta que o fazem. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. precisamente. em um modo próprio . tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. chegou bastante cedo ao trinitarismo (I/D). Paris. cit. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. Noções de antropo-logia. segundo o teólogo da cultura Paul Tillich o espaço sobre o tempo (Théologie de la Culture. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. 7. Por isso ela é politeísta. para o bem ou para o mal. crenças e ritos. cuja necessidade foi há muito pressentida.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 341 turas logicamente híbridas. mas como dotado de uma outra lógica. 8. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. Modernidade. vale dizer. 11. de hoje “modernizar-se”. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. uma polêmica cheia de veneno e má fé. 9. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. 10. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. é produto da sacralização de sua lógica própria. por exemplo. como em todas as culturas. pois. A percepção do ritmo de sucessão lógica das culturas depende de uma certa familiaridade com a história tradicional da área considerada. De qualquer modo. Não é surpresa. logique du sentiment. aí se demorou tanto tempo que tem dificuldade de “recordar” suas fases lógicas anteriores e justamente por isso de se projetar. entre outros. . Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. Ademais. pode-se dizer que a China. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. Culturas associadas às lógicas em que prevalece a diferença sobre a identidade. ou seja. op. além. 6. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. 12. Aliás. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). porém. SAMPAIO. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. daí porque não nos arriscamos à inclusão do Oriente. isto é.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. a síntese da identidade com a dupla diferença. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto.

desconsiderado. os subservientes negociadores (?!) do atual governo brasileiro.o mundo se apresenta como sobredeterminado. daí a designação lógica da dupla diferença. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . uma segunda diferença. o indefinido. pp. 3. v. Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. pois na verdade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . Mircea. segundo o historiador das civilizaçòes. p. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. isto é. representando o nem verdadeiro nem falso. 59-60 16. O indeterminado.1968). e impondo-lhe então.342 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Denoel/ Gonthier. 1981). o paradoxal. 1978. Madrid. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. internamente. em profundidade. terá como falsa sua negação. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. História das Crenças e das Idéias Religiosas. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. Ibid. sua negação sendo destarte o verdadeiro. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. Rio de Janeiro. 58. Compendio IX/XII. porém. Arnold Toynbee. daí. 1.Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. das relações EUA/Brasil. um terceiro. o falso e. Excluem-se aqui. Zahar. enquanto que o segundo é um marginal. pois. 15.o mundo se apresenta como subdeterminado. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. Tomo I. A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Por isso. ELIADE. Alianza. vol. a materialidade sobre a espiritualidade (Estudio de la Historia. 14. . como a Índia. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. por suposto. 13. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. o valor indefinido. lá e cá. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”).

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA 343 DUPLA DIFERENÇA D/ 2 Ver L. G. A parte inferior da figura mostra que os estados de uma reflexão especular são três e não apenas dois. seriam eles: o direito. S. 1983 p. D2. as luvas são a imagem reflexa uma da outra. C. Rio. nem esquerda. relativa a um plano vertical. uma primeira. D1. Isto vai requerer a passagem por um estado intermediário em que ela se “desespacializa” (e o par se dissimetriza). No caso da reflexão. por onde poderá se dar a passagem de um a outro dos estado anteriores. ou seja. Já no caso da inversão estão implicados apenas dois estados e podemos passar de um ao outro por uma simples rotação ou deslocamento espacial. L Ó G IC A D A R E F L E X Ã O D L Ó G IC A D A IN V E R S Ã O D / 2 R (a ) D D a a D/ R (R ( a ) )= I ( a ) a D / (a ) -1 2 2 R2 = I a 1 2 R (R ( a ) ) D (a ) Uma inversão pode ser concebida como uma dupla reflexão.Compacto. 0. para fazê-las coincidir. uma segunda. nem direita. precisaremos que uma delas vire do avesso. onde ela não é nem uma coisa nem outra. o esquerdo e um estado intermediário “pontual”. Brionne. Para melhor compreender a natureza da diferença ou negação no caso da lógica da diferença D e da lógica clássica ou formal D/2 (a que estamos habituados). 1988. Tomando-se por referência a reflexão no plano vertical. Monfort. Estes três estados podem muito bem ser expressos pela tríade numérica 1. J. relativa a um plano horizontal.25 18. Hölderlin et Sophocle. Noções elementares de lógica . Abstratamente talvez as coisas pareçam mais complicadas do que realmente são. podemos nos valer da metáfora gráfica a seguir. transformar uma noutra. a correspondente re- . No caso. BEAUFRET. ICN. -1. de Sampaio. 17.

Oevres Complètes. em que não há lugar para terceiro. O verdadeiramente outro de um Deus que lhes virava a face. aquela da lógica da simples diferença D. Como pensar em tragédia (D) da época da cultura cínica D/2)?! 20. Hölderlin: Tragédia e Modernidade in Höderlin. justo a lógica clássica ou. 228. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . p. é a ocasião para relatar que boa parte do que vai no corpo deste artigo foi provocado pelas discussões com o amigo Aluisio Pereira de Menezes (que nem por isso tem a menor culpa do que aqui está sendo dito) em torno do tema Hölderlin e a essência do trágico. François.DASTUR. A nosso juízo exclusivo. 21. sua falta de sentido. Esta. a propósito. -1. só se consumaria se virassem -Lhe a face também.Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo de mau e aconteceu é. Reflexões. F. R O M A N T IS M O A L E M Ã O 2 I/D / H Ö L D E R LIN A P O L ÍN E O D/ I/D REC ALQ UE DA ID E N T ID A D E I 2 D/ 2 CU LTU R A MODERN T R A G É D IA (M IM E S IS ) T R A G É D IA M ODERNA ? D CU LTURA GREGA D IO N IS ÍA C O D P R É -D H O M É R IC O P R É -I Hölderlin consegue captar bem a inversão de posição que se opera entre os gregos e a Modernidade. pois. sem dúvida. Rio de Janeiro. o grande culpado. Vê-se bem no esquema acima como surge a sua preocupação com uma pressuposta “tragédia moderna” e as razões profundas de sua impossibilidade ou até mesmo. a diferenciação ou negação na lógica da dupla diferença D/2. lógica do terceiro excluído. 1994. e a inversão. 19. com inexcedível propriedade.344 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO presentação numérica seria pois 1. Relume-Dumará.Hölderlin. A reflexão especular representa a diferenciação ou negação primordial. aliás uma constante no pensamento alemão de lá até hoje. a dificuldade em se conseguir seguir o pensamento do poeta alemão está no recalque que implicitamente faz das lógicas identitarias (as culturas judaica I e cristã I/D. e sendo-lhes assim tão .

o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. 1995. Todas as demais grandezas físicas . 90. por isso as subsume. 1955. sem a menor cerimônia. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. sua oposição à filosofia. A República. A matemática formalista pretenderia reduzir todo sentido à pura intensividade.. é bom aduzir que não é de agora. X Platão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 345 íntimo. foi vítima deste tipo de “ilação”? 22. 23. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. sistema cgs (centímetro. L. ou pior. grama e segundo) ou mks (metro. ARISTÓTELES. Rio de Janeiro. Paulo. X. Intensivo aqui se contrapõe a extensivo. Rio. 1966. porém. inclusive) é crença corrente entre os gregos. 92 27. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. Ibid. muita antiga.opus citado. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. S. Ibid. 59. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqúitária. 25. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. S. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. S. Le Jeu comme Symbole du Monde. uma distinção que vem dos estóicos. Eugen. Platão. e sentido intensivo é aquele dado por um conjunto articulado de termos considerado equivalente ao termo em questão. l. 1966. herdado pela lógica clássica. Arte Retórica e Arte Poética. ICN. A lógica clássica ou da dupla diferença. Ver Reflexões. quilograma e segundo). Finalmente. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. 2000. em sua máxima generalidade. 101 28. Reflexões. 1959. FINK. A República. C.. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história.. massa (M) e tempo (T). p. Paulo. 31. Sentido extensivo é o conjunto de referentes a que um termo se aplica. p. Paris. Atena. p. Por exemplo. Nesta última acepção o termo precisa fazer parte de um sistema dotado de uma sintaxe. SOCRATES: . em parte. Minuit. Quem já não viu. sim. SAMPAIO. FINEP/ etc. p. (negritos nossos) 24. 29. 26. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). 30. de. Difusão Européia do Livro. Assim.

Noções de antropo-logia. F. GUIMARÃES RODA. igualmente mencionado. Paris. conclui-se. S. Parcialmente publicado no JB em 07/09/80. D } o feminino. S. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). como era meu tio. Apontamentos para uma história da física moderna. C.MORSE. 37 39. como nos outros animais. I. (en)cantador. 1973 37. M. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. Económica.346 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. p. de. João. p. BATAILLE. D/2. S. Brasília. Na modernidade capitalista. A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. Nestas circunstâncias. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). 34. p. I/D. 35. 43 40. ELIADE. as que lhe antecedem: I. 42. Cultura e Idéias nas Américas. México. SAMPAIO. D. 32. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. Esta feliz lembrança se deve a José Miguel Wisnik.II e IV. SAMPAIO. Companhia das Letras. 38. L. José Olympio. out. O par diagonal {I. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2).II. 1988. BRODRICK. de C. 44. imediatamente. S. 36. C. opus citado. A Permanente Revolução do Analógico ao Convencional – Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. além de si própria. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. como só ele. 1993/97. C. opus citado. Ibid. Ibid. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Paulo. de. de. SAMPAIO. Toda a “elite brasileira” quis enterrá-lo como se ele fosse o Moisés. L. 33. assim como. p. R. mas de gente. Gallimard. feito desejo domesticado pelo marketing. S. Estas estórias. La Pintura Prehistórica. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. UAB. 9. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . lógica que subsume. Ibid. L. 1996 (xerografado): O melhor exemplo disso já foi aqui mencionado pelo Professor Janine Ribeiro – o enterro do Doutor Tancredo Neves. Théorie de la Religion. A H. L. 1956. 11 43. 1969. O Espelho de Próspero. George. aquele que havia guiado o povo à beira da Terra Prometida. SAMPAIO. de. o povo nada mais tinha a fazer senão esperar sentado! O problema real e apavorante para a “elite” no poder era o Doutor Ulisses Guima- . p. o vídeo Antropologia cultural. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida. C.O ser humano é de nível lógico I/D/2 . Rio de Janeiro. 23 41. pelo mesmo autor. não de onças de humores e cores variadas.

desapareçam do Evangelho de S. na “hora H”. como todos nós vimos na TV). a censura aos escribas e fariseus. o sentimento de abandono do Cristo na cruz . op. e ele aí foi para casa com enxaqueca. M.agora. João. para evitar um suposto derramamento de sangue. por isso mais longe dos acontecimento e mais perto das conveniências de um movimento sócio-religioso já triunfante. tardio. Resto no seu sentido aritmético. É bastante sintomático que tantas coisas relevantes presentes nos Sinóticos . 47. cit. que tinha que mandar o filho para o sacrifício. anteriormente mencionada.IDENTITÁRIAS CULTURAS PAGÃS OU LÓGICO-DIFERENCIAIS CULTURA MODERNA REPRESÁLIA: OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA CRISTÃ PLATÃO TEÓLOGO segundo Nietzsche e Heidegger CRISTO TRÁGICO segundo Evangelhos Sinóticos OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA GREGA CULTURA JUDAICA . 48. com toda a certeza. Ver BARBOSA. As Lógicas. Ao contrário do que aconteceria num processo dialético lógico-trinitário. 46. Esta “injustificada” omissão do cristianismo na passagem da cultura grega à Modernidade é uma represália à omissão feita pelas culturas semíticas do momento trágico grego na passagem do judaísmo ao cristianismo. C. a superação num processo hiperdialético lógico-qüinqüitário não impede a sobrevivência por si (não apenas subsumida) de uma cultura e nem mesmo que ela venha a exercer um papel crítico posterior na história da cultura. E a gente não começa nunca! 45. pisa sempre na bola. o nosso Abraão. que representava Abraão e não Moisés.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 347 rães. seja lá quem for. CULTURAS SEMÍTICAS OU LÓGICO. ou seja. Lógicas fundamentais são aquelas capazes de gerar todas as demais por um especial processo de síntese dialética generalizada. São elas apenas duas: a lógica da identidade ou transcendental (I) e da diferença (D). ou seja. mandar o povão subir nos tanques (feito o que aconteceu na Rússia e se tentou lá na China.

em que a família semítica (I). na passagem de pré-I a I. Johson situa a diáspora judaica ao tempo de . abandonado pelo Pai. tanto em Nietzsche quanto em Heidegger. anglo-saxônica. 49. o anti-semitismo só irá se manifestar na variante ideológica à direita da Modernidade. que tenta justamente substituir o sujeito liberal (I) pelo sujeito romântico ou inconsciente coletivo (D) e depois sonha que pode ir do grego (D) à modernidade científica (D/D) sem passar por I/D. que internaliza o momento dialético (I/D) ao ocidente pagão é a contrapartida vingativa do Cristo trágico dos Sinóticos. É curioso observar que tudo isto vem reproduzir o ciclo anterior. Diz-se que ainda antes de Cristo até cerca de 10% da população da Europa ocidental e África do Norte era de origem judaica. Chega-se ao detalhe de Platão vir se confrontar com os poetas exorbitantes (que fingem a dispensabilidade do conceito I/D) tal como o Cristo se confrontou com os fariseus (que fingem a dispensabilidade do significante D). não podemos deixar de assinalar que o “antisemitismo” da Modernidade não pode se manifestar em sua formação paradigmática. se vale de Moises para poder omitir o momento pré-D (egípcio). porque esta. para não sucumbir. D DISPOSIÇÃO PARANÓICA I REAÇÃO ANTI-SEMITISMO = ANTI-D PARMÊNIDES "PROFETA" DO SER AÇÃO ANTI--"ARIANISMO" = ANTI-I MOISÉS ADOTADO PELOS EGÍPCIOS Pré-D Pré-I DISPOSIÇÃO ESQUIZOFRÊNICA Concluindo.348 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O Platão “teólogo dialético trinitário. adota precisamente o sujeito liberal (I) como sujeito da ciência (D/D). a família ariana (D) vai à forra imaginando passar da cultura pré-D (mítica) à cultura D (trágica) valendo-se de Parmênides para omitir o momento identitário I. que internaliza o momento diferencial (D) ao mundo semítico.

só poderá ter obviamente representações fragmentadas do Absoluto. An Appeal to the Rulling Class of German Nationality as to the Amelioration of the State of Christendom. 12 50. mas tem dificuldade de explicar origem e destino enquanto que a lógica da identidade só se interessa mesmo pela origem e pelo fim dos tempos. Este texto é parte de nossa obra maior Filosofia da Cultura – Brasil.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 349 Cristo em cerca de 4. N. Mateus 27. o Papa. Confrontadas a posteriori todas teriam sido coincidentes . que já andou por várias editoras que sempre “gentilmente” o recusaram. Rio de Janeiro. A lógica dialética dá conta das peripécias da história. tornando-se assim uma dialética das dialéticas. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. opus cit. que seria I/D/4. SAMPAIO. Capítulo 5 1. Macmillan. New York. 1520 in Selection from His Writings. Doubleday. C. etc. não estabelecia que as novas terras seriam de Portugal ou de Espanha. A hiperdialética I/D/2 pode ser considerada como uma síntese das lógicas identitárias anteriores . 58. 42-44 53. Sendo o homem de nível lógico I/D/2. 1961.. LUTER. Vale a pena observar que os Descobrimentos vêm acompanhados da entronização da lógica clássica ou do terceiro excluído: O Tratado de Tordesilhas. avalizado pelo próprio representante de Deus. Zahar. 39-43 54. 1976. Aí se mostra como ocorre a real experiência do possível transcendente e se especula acerca do seu estatuto lógico. 57. I Coríntios 15. Reza a tradição que setenta sábios teriam sido convocados para traduções independentes. começando em meados do século III a. contra apenas 1 milhão na Palestina. daí o nome Setenta. Martin. L. S.por suposto. contrabandistas. 1977 55. teriam que se conformar mesmo com os papéis marginais de piratas. Jean.1997. LXX ou Setuagina.. GIMPEL. talvez porque nes- . A tradução se fez por partes. A Revolução Industrial da Idade Média. Ver SAMPAIO. 471 56. com exclusão de qualquer outros? Se quisessem participar. UAB. Lucas 24. 46 52. 51. JOHSON. porque inspiradas -. A History of Christianity. p. Rio de Janeiro. A lógica da identidade I é tida então como o degrau zero da dialeticidade. p.da identidade I e dialética propriamente dita I/D -. York. luxo ou originalidade.5 milhões de pessoas. de Noções de Teo-logia. e terminado em 1 a. C. Paul. C.

Feudos (trinitário imperfeito) tem a unidade garantida por sua semelhança à Cidade de Deus (trinitário perfeito). Por isso. doravante. pp. Les Belles Lettres. que só surge depois que o mundo já conhecera. Timée. a cultura da diferença (grega. um intenso drama que termina só com sua auto-mutilação. no prelo) . ou seja. mas fazia dos judeus. havia muito. pela caça às bruxas. cujas portas são aduanas frente a frente. chamou a atenção para o fato que foi justamente na cerimônia de inauguração de uma estátua deste religioso. a própria cultura da identidade (judaica). a definitiva separação dos cristãos. que Heidegger faz sua primeira aparição política/pública. acaba precisamente aonde uma outra começa. tornando-se assim a base para a solidificação do complementar mercado financeiro internacional. entretanto permanecia. Primeiro. a invenção da racionalidade masculina: como primeiro passo. da Dieneylandia). dos romanos. a constituição dos alicerces. a constituição de seu sujeito liberal correlato.350 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tes tempos de intolerância democrática (ou plutocrática. do real como outro. depois. de Pluto. A formação dos estados nacionais (mercados econômicos nacionais) acabava com este espaço. ou seja. ao contrário. daquele que confronta os deuses) e a cultura dialética trinitária (do Deus Uno-Trino cristão). ou melhor. sujeitado. a defesa das culturas (com exclusão das dominantes) tenha sido criminalizada. Tudo começa com as invasões de Alexandre. SAMPAIO Luiz Sergio Coelho de. através do recalque da sexualidade (irracionalidade) feminina. constitui-se numa reserva de mercado. que editor iria querer correr riscos de tal natureza?! 2. tardio (século VII) porque ela é uma cultura lógico-identitária (do real e do Deus único). luxo ou originalidade (algum dia . Sua unidade cultural. Justamente por esta particular topo-logia é que houve um espaço físico para que a cultura judaica pudesse se preservar e desenvolver. O interesse por Abraão à Santa Clara reacendeu quando Victor Farias. 5. Uma nação moderna. logo á frente. PLATON. do homem prometéico. naturais de alguma parte. Sabe-se quão doloroso foi para os judeus o contato com a cultura grega. Critias. Radical porque tardio. Filosofia da Cultura – Brasil. a cultura muçulmana não constitui na História uma cultura nodal (culturas que inauguram um novo modo de ser e pensar o mundo). Paris. a ciência e. depois. nações modernas têm sua unidade fundada no Outro. quem sabe. 1985. Realmente. 6. em Heidegger e o Nazismo. 136-137 3. 7. herói da resistência a invasão muçulmana da Europa. como é o caso da cultura judaica. 4.

temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . o indefinido. Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. representando o nem verdadeiro nem falso. Y= DK + C 10. Lógica e Economia. o argumento marxista não tem fundamento histórico. isto é. A quantidade anterior está acompanhada de uma qualidade e a qualidade posterior também acompanhada de uma quantidade. o excedente DK é o produto global Y menos o consumo C. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. em muitos momentos históricos se manteve por largo tempo acima da taxa vigorante na época que viu surgir o capitalismo.o mundo se apresenta como sobredeterminado. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA DUPLA DIFERENÇA D/ 2 A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. a rigor. desconsiderado. daí a designação lógica da dupla diferença (D/D ou D/2). sem que tal modo de produção tivesse emergido. o “leva” para a esfera política. a lei transforma quantidade/qualidade em qualidade/quantidade. Um faraó se apropria do excedente e. uma segunda diferença. ou de mais-valia. ou seja. Não é difícil imaginar que isto viesse a acontecer quando toda uma população era por outra militarmente vencida e escravizada. o falso e.o mundo se apresenta como subdeterminado. Ver SAMPAIO. IC-N. . pois a taxa de formação de excedente. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . de sorte que. Além do mais. S. de. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. terá como falsa sua negação. e duvidosa. Rio de Janeiro. o que a faz uma lei lingüística. 1988 (xerografado) Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. Como podemos encontrar em qualquer manual elementar de economia. o paradoxal. internamente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 351 8. 9. sua negação sendo destarte o verdadeiro. o valor indefinido. tudo aquilo e mais algum. C. L. pois. daí. O indeterminado. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. construindo uma pirâmide. O diabo é que o empresário capitalista devolve o excedente à esfera econômica e fica obrigado a retirar à frente. e impondo-lhe então. do prestígio. um terceiro.

J. no fim do terceiro quartel do século XIX. III e IV em 2 vídeos. não mais na oferta (projeto). Introdução à Antropologia Cultural. A propósito. FCE. 19. correndo no sentido de uma perfeição crescente. C de. BOBBIO. deixava-se ir embora. Brasília. mas apenas elo de ligação. KRAMER. mas no “corte”. Ver Sternhell. Ver SAMPAIO. II. 2000. instrução de culpa. I. e PASQUINO. Paris... H. Entendida. 15. que estaria assim perdendo seu potencial revolucionário. Também chamada escola marginalista neo-clássica. adquire o sentido moderno: modo de ser do processo histórico. Ele vai da esquerda para a direita. O teor ideológico não está propriamente no self made man.352 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 11. C. que vai situar a fonte do dinamismo econômico. 12. do início do século XX e que pode ser considerado um antecedente do fascismo. conluio dos fracos contra os nobres e fortes. 2000. 1989. N. Sznajder. L. e que à época eram bem numerosas. contra os aristocratas. Malleus Maleficarum (Martelo das feiticeiras). no caso.5 horas de duração. pelas estradas. com cerca de 3. Ver SAMPAIO. L. cumulativo. fica muito claro o aforismo nietzscheano: Ele (Renan) queria. Dicionário de Política . a democracia como ideologia da “mediocridade” liberal. alegando a ocorrência de um processo de aburguesamento do proletariado. A obra data de 1484. EdUnB. Embora o termo já se encontre entre os antigos (Lucrécio). N. 16. 1983 e ainda ABBAGNANO. NATTEUCCI. isto é. 18. Rosa dos Tempos. Bodin e especialmente Francis Bacon. 17. que não deixa aparecer que tal personagem não é origem. constituindo-se num detalhado manual de identificação.. Diccionario de Filosofia. A referência aqui é ao diretor cinematográfico americano John Ford (na verdade. de Lacan e as lógicas in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios. S. surgida na Áustria. que se subordina à continuidade do processo de sistematização do mundo. e Ashéri. S. mas na demanda (desejo). Rio de Janeiro. 1994. G. Poderia haver. nascido na Irlanda) em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado. México. Gallimard. porém aqui um rio bem mais caudaloso (hiperdialético) para poder extravasar a todo cerco racional/ científico. como é contextualmente lícito. e SPRENGER. só com Giordano Bruno. e logo que a conseguia. EdUERJ. Rio de Janeiro. por . tão solitário quanto chegara. Trata-se de uma evidente alusão ao rio heraclítico (dialético). N. 13. 1966. vale aqui lembrar o movimento soreliano (referência a Georges Sorel). Naissance de l’idéologie fasciste. julgamento e castigo de mulheres que praticavam a cópula com o demônio. EMBRATEL/UAB. algo mais sugestivo?! 14.

124. XXI. tomada em seu sentido genérico. Os exemplos mais claros seriam cultura grega/civilização romana e. que. 25. Rio de Janeiro. Atente-se para o fato que onde aqui aparece o termo civilização. Paris. A propósito. e isso é palpável. a lógica clássica subsume a dialética. Ed. A palavra cultura estaria reservada para uma formação social que inaugura um novo modo de ser. Exatamente como faz a Santa Sé e outras menores. etc. conseguirem pelo menos salvar sua continuidade bioquímica... síntese das lógicas da identidade e da diferença) e a relação invertida re-verte e os bons propósitos lá se vão. em nosso léxico estaria o termo cultura.p. para nós estaria vinculada a uma determinada lógica. esquimós apertados em seu iglu etc. J. resultante do processo de horizontalização de uma cultura. Zahar. Crepúsculo dos Ídolos. J. v. LACAN. mais recente. 115. 21. O Mal-Estar na Civilização. Nietzsche. O Seminário. freirinhas italianas passeando no pátio silencioso de seu convento. p. Ver SAMPAIO. Se estas. estarão com muita sorte. respectivamente pp. ao cabo. julho de 1999 (xerocado).pois sua cultura e sua alma. 24. civilização referenciar-se-ia a uma formação social mais ampla. cultura anglo-saxônica/ civilização informacional globalizada. Aqui. ser-com-o-outro. 1982. além de substituí-lo pelo sujeito coletivo se propõe a inversão da relação de mando vis-à-vis a ciência. livro 20.65 (parênteses e negritos nossos) 20. S. por esta santa via. 125. FREUD. Repare-se nos freqüentes anúncios de grandes empresas multinacionais mostrando como seus produtos automobilísticos e de informática são completamente compatíveis com as diferentes culturas (berberes montados em camelos atravessando um deserto. comentam entre si a excelência dos “novos” produtos). já terão ido direto para o inferno. ligar em uníssono la science e la noblesse: mas a ciência pertence à democracia. Na verdade crua e bem nua. A esquerda percebe bem o caráter subordinado do sujeito liberal. 27. p. L’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freud in Écrits I. 1966. Standard Brasileira das Obras Completas.. 277 26. ser-no-mundo e ser-frente-ao-Absoluto. Rio de Janeiro. ver BARBOSA. du Seuil. Crítica da Modernidade. Relume–Dumará. por isso. uma referência às noções de verdade parcial e total em Lacan. 23. LACAN. convencendo populações autóctones que a evangelização é perfeitamente compatível com a preservação das suas culturas. As lógicas - . Acontece que a lógica da ciência (a lógica clássica ou da dupla diferença) é mais potente que a lógica do ser-coletivo (dialética.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 353 exemplo. Marcelo C.

29....... Depois.. Isto fica evidente na física (saber paradigmático da Modernidade) que insiste em reduzir o mundo tão apenas a três grandezas pré-emolduradas pelo cálculo (sistemas cgs..... Isto não quer dizer que não possa ressurgir.... Com a derrocada comunista. Só um grande gênio seria capaz de tamanha distorção onto-lógica! 32.......1998. O comprometimento direto e visceral da cultura judaica com a dominação da natureza (se diz hoje. e não sossegou enquanto não fez do movimento transformador (I/D) mera derivada de posição (de mando) (D/D). usamos a expressão de per si para indicar que o trinitarismo dialético pode subsistir dissimulado........ Estamos aqui considerando que a aristotelização da teologia católica significou o fim do trinitarismo dialético patrístico. 28.. o ........... que trocou a seqüência contábil dos números (monóide. mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão. Ademais. I/D) pelo grupo algébrico (D/D) – Oswald Spengler já observara isto em A Decadência do Ocidente.. ... O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa. O cristianismo brotou do judaísmo... mas produto de uma auto-diferenciação desta última. mks.. Depois desse escandaloso deslocamento..).... desde o primeiro instante... etc... boa parte de seus ativistas se converteu ao capitalismo-solidário-cósmico-ecológico. menos pela repressão da Cúria do que por sua excessiva e equivocada aproximação com o marxismo... mais adiante... a teologia da libertação foi uma tentativa (mesmo?) neste sentido..... Ver capítulos 4 e 8-11 da presente obra. O cristão foi. São Paulo. Os judeus só fizeram valorizar a posteriori esta diferenciação....... mas que degenerou..... A separação radical só existe nas palavras........ no texto.. mas sem explicitar seu sentido –. e o trinitário cristão para o lugar do dois (separação corpo/espírito). perdido na passagem da cultura cristâ (I/D) à Modernidade (D/D).. mas ao próprio Homem ou à primeira cultura que deveras realizou a proeza.... E tornou a dissolver-se nele.. teremos oportunidade de exemplificá-lo. como se fora apenas uma variante da cultura unária.. o judeu teórico.......... Hegel ficou obrigado a trazer o grego do trágico politeísta para o lugar do um (filosofia!). 31........ a “culpa” disto não cabe aos judeus.......... 30. Este se equivoca duplamente em relação aos judeus. Isto é também evidente na matemática ocidental. O homem não é o outro da natureza... assinalando-lhe o caráter lógico/religioso. Makron Books.354 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. com a técnica) é um juízo preconcebido que vem de Hegel (e é assumido por Heidegger).......... A ciência tem por desejo o cálculo do Uno-Trino.

C. L. SAMPAIO. Breve fenomenologia do espirito qüinqüitário Xamãs (pré I) que foram forçados a aprender a irreversibilidade do mito-poético (proto D). Imago. portanto. o que não se coaduna com a aguda percepção que ele mesmo tem da essência histórica do judaísmo originário: . cit.115 36. o encontro crucial entre o homem e o divino deslocou-se do reino da natureza e do cosmos para o plano da história. 35. 40. A Questão Judaica. A propósito (ver nota 31 acima). por vezes. Zakhor – História judaica e memória judaica. profetas e teólogos. K. Especialmente item 7.Este livro merece ser lido na íntegra. Bastariam dois exemplos: Tolstoi e. concebida agora em termos do desafio divino e resposta humana.. EdUERJ. profetas que foram forçados a aprender a irreversibilidade da filosofia (D). p. Na cultura nova. filósofos e mesmo cientistas. Ibid. 37. L. op. ao persistirem. S. Ver especialmente item 9. 117 38. se embaraça e dá uma conotação antihistórica ao tradicionalismo. não serão necessários xamãs. Marx. o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu. 28. p. tornar-se-ão enfim boa gente (I/D/D). tanto objetiva como subjetivamente. de.. H. de. talvez se encontre lá alguma serventia. O romance pode nos antecipar o que será a verdade pela leitura. cit. Agora sim. Lógica Ressuscitada – Sete ensaios.1 da presente obra 34. Lógica trinitária versus lógica qüinqütária in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. Y. S. p. D) é o que nos permite anteexperienciar. de. Noções de antropo-logia. op. quanto a poetas. Yerushalmi. 117. mas persistiram. SAMPAIO. fica bem clara qual foi a lógica (I/D/D)! Capítulo 6 1. Milan Kundera. pois do princípio ao fim expressa. a tensão entre a corrente moderna trinitária (a que o autor se filia sem esconder uma certa culpa) e a corrente tradicional unária (da qual o autor não consegue se desvencilhar). Zakhor. Rio de Janeiro. imaginariamente. C. 1992. mais perto de nós. tornaramse teólogos (I/D). L. D/D) com feminino (I/D. 2000. p. YERUSHALMI. C. Quanto à questão da leitura. diante disto. porque cria um espaço virtual andrógino onde interagem autor e leitores. Rio de Ja- .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 355 judeu é. mas persistiram. tornaram-se profetas (I). como ficam Hegel e Heidegger? 39. o novo mundo lógicoqüinqüitário. ver SAMPAIO. A síntese romanesca do masculino (I. S. 33. teólogos que estão sendo forçados a aprender a irreversibilidade da ciência (D/D). na defesa meio inconsciente do historicismo dialético. Rio de Janeiro.5 Ibid.

Rio de Janeiro. 1990. Les mystères de la trinité. Luiz Sergio C. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). veut en fin de compte l’érradication de la mort. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados 4. Makron Books. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. 3. D. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. C. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. o vídeo Antropologia cultural. logique du sentiment. Para maiores detalhes. cabendolhes pois a designação de culturas ecológicas. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. desde que não as tema. I. 2.356 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO neiro. II. UAB. ver SAMPAIO. Noções de antropo-logia. EMBRATEL/ UAB. precisamente. de. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. Rio de Janeiro. M. mas como dotado de uma outra lógica. Aliás. então. são apenas uma taquigrafia. alors que l’autre. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Alternativamente. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. Paris. porém. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. Ademais. não se dão conta que o fazem. III e IV. faisait de la représentation de la mort dans la vie le fondement de son ordre symbolique et du lien social. DR. Rio de Janeiro. Na esfera mundana. I/D etc. 5. I/D (lógica dialética). a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Gallimard. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. SAMPAIO. por via de sua técnica. l’homme binaire. Leia-se trinitaire como cultura lógico-dialética trinitária e binaire como cultura lógico formal ou moderna. l’homme trinitaire. Car la différrence des deux hommes en presence est que l’un. 1996. de prometer a vida eterna onde impera . O que este autor não chega a perceber é que a erradicação da morte (biológica) é uma artimanha da Modernidade. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. 1993. Teríamos. UAB. As Lógicas. (negritos nossos) DUFOUR. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. D/D=D/2 (lógica clássica). acceptait la mort. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. pelo mesmo autor. para simular a presença do homem lógico-qüinqüitário já em seu seio. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. As expressões I. 1998. isto é. uma polêmica cheia de veneno e má fé.

C. The Course of Modern Jewish History. a vida eterna. promete-a assintoticamente ao invés de. Victor. 9. dezembro de 1998. nada há de errado nesta inversão. 11. 7. a Ciência. do social (sócio-cultural) para o individual (psíquico). Entretanto. ela é. 12. “And in 1800 in Frankfurt am Main. à exclusão dos suicidas. Cultura e Idéias nas Américas. N. promete-a para depois de. naturalmente. 43 per cent of the entire jewish capital was owned by sixty families. Enquanto concentramos nossa atenção acadêmica nas novelas. o combate da Ciência contra a Religião. Enquanto a Religião. O Espelho de Próspero. fingimento e superação na história da cultura. É eletrizante e interessa (inconscientemente) a todos. L. Heidegger et le nazisme. pelo contrário. Em jogo. Indeed. Brasiliense. de Desejo. Paris. S.” SACHAR. Verdier. M. p. do ponto de vista lógico. Frankfurt may well be termed the cradle of Jewish finance in Europe. Paris. para provocar tamanha ira ao . most of them living in the squalid Judengass. 1987 13. BENJAMIN. diariamente. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. Paulo. É importante atentar que aqui o termo perversão. Trata-se de um estudo acerca dos textos sobre o cristianismo e o judaísmo elaborados por Hegel em sua estadia em Frankfurt. MORSE. . Rio de Janeiro. perverso é o sujeito (I) que aceita a lei (D/2) desde que esta seja a sua própria. Paulo. with its Jewish population of six hundred families. tomada pela soberba. cautelosa. 196. em suas manifestações públicas no início e no fim de carreira. Apenas levados por este estudo. 1. Não é por acaso que Heidegger. J. 1970. herói da resistência à penetração islâmica na Alemanha. SAMPAIO. R. S. pois até hoje só pode proclamar um único sucesso. W. fomos aos textos de Hegel e daí direto a procurar algum estudo sobre o que estavam fazendo os judeus lá. SAMPAIO. who in turn controlled the twelve largest investiment firms in the city. FARIAS. 8. Item 3. Companhia das Letras. 1988. Nestas últimas. O trecho acima foi tirado do capítulo VI. Delta Book. v. Vrin. com sua tática de ir pouco a pouco amealhando adiamentos. Hegel a Francfort de Bernard Bourgeois. desenrola-se na TV. Howard M. p.2 10.123. 14. bastante coerente na medida em que tal inversão é a exata contrapartida da mudança de ponto de vista. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados. York. 1985.. está sendo usado no sentido inverso daquele que ele tem na psiquiatria e na psicanálise. 1977. S. justamente intitulado Jewish Economic Life and the Frankfurt Tradition.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 357 6. refere-se a Abrahan de Sancta Clara.

Heidegger e Habermas. se encontra hoje entre dois grandes tenazes.existirão museus de horrores onde serão exibidas as peças promocionais que hoje infestam os nossos “meios de comunicação”.então. dentre as mais relevantes tarefas da filosofia. 18. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. ver Sternhell. só para ficar com os mais importantes -. Hegel. supor- . 17. Essa Europa. mas nos instrumentos psíquicos de apropriação do imaginário alheio usados pelos psicovampiros da cultura da Modernidade que havia já sido superada. Dentro de uns 200 anos . . hoje que não somos mais gregos. Schelling. houver desaparecido da existência de todos os povos. Ajudados por nosso amigo Nelson Kuperman. se tivermos sorte . Naissance de l’idéologie fasciste. já citada na nota 46 anterior. A propósito. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. cada um deles com seu. encontramos diversas obras. Rússia e América. Como sustentar tal posição diante do cortejo de filósofos alemães . como o grande homem de um povo. consideradas metafisicamente. E é precisamente isto que faz “amarelar” os nossos. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. Referência a Georges Sorel.358 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nosso filósofo. Ficamos simplesmente perplexos quando se levanta a questão de uma filosofia brasileira e logo acorrem os defensores da “filosofia perene” dizendo que isto não faz sentido. quando o pugilista valer. quando tempo significar apenas rapidez. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. estando no meio . com a Rússia de um lado e a América de outro. como um fantasma. Nietzsche. e Ashéri. é a crítica da cultura em que o próprio filósofo está imerso (Cassirer). mais ou menos explícito. porém a mais importante delas para o que nos interessava foi a de Sachar. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. 1989. A Alemanha. pois tal aproximação conspurcaria a nobre filosofia. 15. Sznajder. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio puder ser “vivido” simultaneamente.Fichte. como História. Gallimard.ou menos. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. 16. Paris. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado técnicamente e explorado economicamente. Discurso à Nação Alemã debaixo do braço?! Isso lá acontece porque sabem que. Ninguém estará mais interessado nos instrumentos de tortura corporal da cultura cristã medieval (I/D).

1966. ibid. ibid. não lhe basta um profundo conhecimento de aerodinâmica (D/D= D/2). Heidegger et le nazisme. é de novo simples saber. É o povo que tem mais vizinhos e. imediatamente. D/2. que esse povo ex-ponha Historicamente a si mesmo e a História do Ocidente. 1991. p. o mais ameaçado. 75 26. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. Podemos exemplificar: para que um homem consiga voar. uma “vantagem econômico-competitiva” como. 1987 20. ROUDINESCO. mas. desse modo. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida.Lecciones de M. a partir do cerne de seu acontecimento futuro. Heidegger (semestre verano 1934) en el legado de Helene Weiss. Rio de Janeiro. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Victor. 43 24. Esta e as próximas citações provêm todas de HEIDEGGER. Lógica . que vivenciamos uma posição excêntrica em relação à cultura paradigmática anglo-saxônica. Paris. em tudo isso é o povo metafísico. É uma vantagem. mas que não é. I/D. lógica que subsume. mas também nos torna vítimas potenciais desta mesma excentricidade. depois de pronto e voando. irão certamente acreditar nossos “sociais-democrtas”. embora de um outro tipo que a dos alemães de então. Anthropos. M. 28. Paris. ibid. p. conclui-se.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 359 ta a maior pressão das tenazes. como nos outros animais. 73 27. como até mesmo . Tempo Brasileiro. ao domínio originário das potências do Ser. Isto nos dá certas vantagens. além de si própria. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . 22. M. FARIAS. definitivamente. D } o feminino. lhe é necessária também a firme determinação de fazê-lo (I). A autora fornece informações suficientes para que acreditemos numa forte rejeição de Heidegger às idéias. Barcelona. as que lhe antecedem: I. 77 23. pp. 79-80 19. 1993. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). Elisabeth. ibid. Isso implica e exige . HEIDEGGER. histoire d’un système de pensée. Verdier. ao terem notícia. D. Jacques Lacan – Esquisse d’une vie. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. O par diagonal {I. Introdução à metafísica. O avião. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). saber materializado (D/2). 43 25. p. Fayard. 21. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). Tudo isto deve se constituir numa inestimável lição para todos nós brasileiros. uma enorme vantagem como pressente qualquer estrangeiro de sensibilidade que aqui aporta. p.p. O ser humano é de nível lógico I/D/2 .

setembro de 1999. L. TOYNBEE. F. C. 1981. L. S. C. in Os Pensadores. a possibilidade do exercício da auto-crítica. de. S. Bernard. S. 1999. 5. Rio de Janeiro. v. SAMPAIO. 43 31. p. La Lutte entre le Temps et l’Espace e também a coletânea póstuma Main Works . Howard M. 41 7. C. Noções de Antropo-logia. de. Rio de Janeiro. W. Adorno. Crítica Cultural e Sociedade in Theodor W. a propósito. ADORNO. Introdução à história da filisofia. Cambridge. a identidade “estática” A(x) = A(x) ou abreviadamente A=A. 4. Ática. SAMPAIO. SACHAR. CASSRER. de. Paris. Na lógica clássica este princípio é escamoteado e substituído por sua ausência ou sua múmia. SAMPAIO. Ibid. 1997 6. Ibid. 3 v. cit. TILLICH. XXX. p. 3.Writings in the Philosophy of Culture. op. 1. 1969. Théologie de la Culture. 41. TILLICH. 1998. 10. Paul. C. 1986 e entrevista a Der Spiegel. para Frankfurt por volta de 1800. Madrid. talvez. UAB.360 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO à pessoa de Lacan 29. 1980. 1974 e também Lecciones Capítulo 7 . Paulo. de. 9. 1996 2. M. S. Rio de Janeiro. T. o principal indutor do processo de modernização da Alemanha. A. Ernst. Rio de janeiro. p. S. Ver. Paulo. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura.Introdução a uma filosofia da cultura humana. Paulo. Gabriel Cohn. A Lógica da Diferença. Palmer. Ensaio sobre o Homem . p. S. 1990. C. Org. L. 33. BOURGEOIS. KORTIAN. especialmente. O verdadeiro e óbvio princípio da identidade é A(A(x)=A(x). in S. Hegel à Frankfort.2 Berlin. Estudio de la Historia. EGEL. Metacritique – The Philosophical Argument of Jürgen Habermas. v. de. Théologie de la Culture. Alianza. Paul. Denoël/ Gonthier. York. L. Cambridge UP . que traduz justamente a propriedade de reflexibilidade e. Paris. Delta Book. Ver. 1968. fingimento e superação na história da cultura. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. principalmente de famílias de banqueiros. ed. p. SAMPAIO. em conseqüência. Abril. The Course of Modern Jewish History. op. cit. 49. W. Desejo. A compreensão disto está na reação da intelectualidade alemã à migração judaica. 8. L. 1977. De Gruyter. episódio este que acabou sendo. Martins Fontes. G. Garbis. J. 25 30. N. Vrin. S. 1970 e SAMPAIO. 32. o capítulo III.

Desejo. Houve escravidão nas culturas pré-D. K. sempre o tiveram atravessado na garganta. tem sido muito maltratado pelos pensadores do ser social. Seuil. não há dúvida. especificamente. da sua exploração. ARENDT. Os marxistas. A Questão Judaica. Aristote et le Lycée in Histoire de la Philosophie 1. 1. 12. 13.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 361 sobre la filosofia de la historia universal. O tema. sem a qual. L’“Aufklärung” et la question juive e SARTRE. a Terra Prometida. III e IV em 2 vídeos. R. La Question juive. Política. que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico. 1988 e comentários por Capítulo 8 . A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato uma velha questão que se arrasta até hoje. em especial. EMBRATEL/UAB. 11. ARISTÓTELES. UnB. Marx and the Philosophy of Culture. Théorie du sujet. fingimento e superação na história da cultura. Madrid. tal problemática não poderia ser adequadamente tratada. SAMPAIO. é óbvio. MARX. Paris. Um exame mais cuidadoso do embasamento teórico do pensamento de Marx pode mostrar que seu “economicismo” não era assim tão radical como em geral se o considera. 6.. como também Introdução à Antropologia Cultural. Noções de Antropo-logia. 1994. Mas isto seria apenas uma desculpa para alguém de menor estatura e pretensão SAMPAIO. até chegarmos a Alain Badiou. o fato que o desejo da cultura lógicoidentitária é pré-lógico-diferencial. II. ______. op. o sujeito liberal). Existiria. 3. Paris. para comparação.(?) 14. Rio. Isto tornou-se verossímil porque as culturas lógico-diferenciais foram as inventoras do trabalho (que pressupõe o colocar-se como outro da natureza) e. 5.5 h de duração. 4. desde Lenin. entretanto.. 1985. Brasília. Rio de Janeiro. 1982. Robert. 2. por conseqüência. J-P. passando por Plekhànov. D e até no início de D/D (quando não se tinha ainda definitivamente explicitado e fixado o seu sujeito apropriado. Alianza. Encyclopédie de la Pléiade. Ver também. Achiamé. Ibid. Hannah. cit. s/d. ver Alain Badiou. Desejo. Ver. Ibid. UnB. dezembro de 1996. UAB. D’AMICO. I. P. 1982. Ética a Nicômacos. 1994. como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. 1969. livro I e comentários de AUBENQUE. cit. op. com cerca de 3. Brasília. fingimento e superação na história da cultura. Garaudy. Adam Schaff. London.

Mito e tragédia na Grécia Antiga.. Jean-Pierre et VIDAL-NAQUET. 1999. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. SAMPAIO. e também Crítica da Modernidade. S. S. o que é um evidente erro de categoria. de. O recalque das lógicas femininas se fez preponderantemente pela Inquisição. Brasiliense. Fica aqui também evidente o absurdo. L. John B. Paulo. Rio de janeiro. Noções de Antropo-logia. D. 1981 7. VERNANT. 2 10. Fingimento e Superação na História da Cultura. SAMPAIO. pelo processo de caça às bruxas coetâneo à consolidação da ciência. Brasília . 16. cap. Desejo. Ambas são. Na troca de mercadorias está envolvida a mesma (I) quantidade de trabalho (valor trabalho . 1999. de. p. Na operação financeira troca-se o mesmo (I). Rio de Janeiro. L. Rio de Janeiro. cit. de natureza dialética (I/D). Aristóteles. 1988 (xerografado) 9. ter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. hoje tão comum. BENJAMIN. SAMPAIO. Lógica e Economia.362 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO MORRALL. S. UnB. 12. S. haver e estar) mantêm uma correspondência bastante estreita com as quatro lógicas de base (I. C.196. Ed. 11. antecedendo ao liberalismo político e à revolução industrial. Seria o caso agora de se perguntar se a conversão de Constantino teria sido um acerto de contas teológico ou financeiro! 15. envolvendo necessariamente o mesmo (I) e o outro (D). op. Paulo. 8. Ao verbo ter. de A Lógica da Diferença. I/D. op. 18 14. D/D). Perspectiva. junho de 1995. pois. Há uma quase unanimidade no Brasil em considerar as três dimensões fundamentais do social como sendo a política. Rio de Janeiro. Oficina do Autor/etc. v. Rio de Janeiro. julho de 1999.D) com utilidades (valor de uso . logicamente otimistas. C. a econômica e a social mesmo. Inst. 1985. de se considerar a economia como dimensão primordial da vida social. p. corresponde exatamente a lógica da simples diferença (D). Pierre. W... C. Fingimento e Superação na História da Cultura. só justificado como uma “operação” ideológica para elidir a dimensão cultural e assim destruir a priori qualquer intento de uma real compreensão da dinâmica social e de uma conseqüente ação subversiva.I) diferentes (D) para cada um dos operadores. 1. 1998 como também Reflexões. e mais recente- . A dimensão delirante da crítica ideo-lógica à Modernidade foi por nós analisada em Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. S. cit. L. já o demonstramos. só que em quantidades diferentes (D) em datas distintas. dinheiro por dinheiro. Desejo. Cultura-Nova. Os verbos auxiliares em Português (ser. 1999 13. Rio de Janeiro.

Oficina do Autor/etc. 4. p. Reflexões. 1983. mas não cumprida de suas análises. o fingimento cultural é o caminho para a verdade. op. SAMPAIO. S. A superação das idolatrias . 17. Hegel e Marx. Rio de Janeiro. Trata-se de uma óbvia referência A Sociedade do Espetáculo de Michel Debord. da diferença e às suas sínteses reiteradas. Em caso de conflito entre o Papa e o Mercado. Rio de Janeiro. 1999 3. outubro de 1999. cit. SAMPAIO. 24 19.um novo fundamento e uma significação renovada. 5. como lá se chegaria? Como se deve entender a “causalidade” lógico-qüinqüitária? Talvez o melhor exemplo que possamos hoje dar seja este da leitura que fundamenta a nossa própria versão do princípio antrópico. Como em psicanálise. D e suas combinações são uma forma abreviada de referirmo-nos às lógicas da identidade. mas também uma crítica implícita à profundidade prometida. 20. 24.1997. moderadamente otimistas. um terá mesmo que ceder. Fingimento e Superação na História da Cultura. A . C. dada a própria essência da infalibilidade. Ibid. Rio de Janeiro. S. Este texto foi escrito de modo a ser compreendido independentemente da referência a estas abreviações que aí estão para facilitar a compreensão dos leitores que tenham uma anterior familiaridade com elas. novembro de 1999. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüintária in Pensamento Original Made in Brazil. C. Na esfera lógico-clássica ou científica alcança-se à verdade pela verificação empírica ou pela dedução a partir de um modelo formal consensado pela comunidade especializada.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. de. As letras I. E na esfera lógico-qüinqüitária. mas hoje baixa liquidez. Tillich. op. invertida. C. cit. S. DEBRAY. SAMPAIO. S. Rio de Janeiro. cit. L. e terá que ser o primeiro que tem patrimônio.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. Retour. Hegel e Marx. A história da cultura segundo Toynbee. Tillich. L. Régis. Desejo. SAMPAIO. de.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 363 mente em A superação das idolatrias . respectivamente. L. SAMPAIO. 18. cit. op. R. Citado em DEBRAY. 23. Princípio Antrópico . Ninguém melhor para dizer o futuro do que quem se vê por ele ameaçado de morte. de. C. O modo como isto acontece no pensamento marxista é detalhadamente exposto em SAMPAIO. 22. de história da cultura segundo Toynbee. 2.. UAB. L. 21. S. C. O Escriba – Gênese do Político. a verdade como sintoma. S. C. O Escriba – Gênese do Político. L. de. de. Rio de Janeiro. op. Capítulo 9 1. L.

Ver Sampaio.Compacto.. D. Rio. D. de. Também versão na língua portuguesa. (π0 = γ + γ = e + e + e + e. dezembro de 1996. SAMPAIO. cit. L. 7. C. S. Paulo. S. Marcelo C. L. Ver SAMPAIO. S. SAMPAIO. S. D/D. D/D/D. foi proposta por Galileu e outros precursores da ciência moderna. de. mesmo no detalhe. não liam as próprias coisas. Makron Books. 1988 (xerografado) ou Noções elementares de lógica .364 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO noção de leitura como produtora de verdade. é interessante lembrar. 1998. se alocada a D/D. SAMPAIO.. Um semimonóide é uma estrutura algébrica. munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento.. tal qual postas por Deus. EMBRATEL. por exemplo. 6..As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. Rio de Janeiro. O leitor poderá encontrar por si muitas e muitas outras e se surpreenderá de jamais encontrar nada que o leve a duvidar. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. agindo igualmente à esquerda e à direita. ainda pela operação /. de. Princípio antópico. 1984 e ainda Lógica da Diferença. 1995 (xerografado). C. de. S. op. Esta justificativa é a mais sumária e intuitiva que conhecemos. 1988 e ainda BARBOSA. por exemplo) . L. entretanto. de. Rio de Janeiro. I. Noções de Antropo-logia. Na realidade.. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. não importa se a direita ou a esquerda. porém. As lógicas . S. The Octect of the Physical Beings – Vacuum. a partir de um conjunto finito de elementos. uma partícula alocada a D deva se desintegrar em duas partículas estáveis (W = ν + e ou γ = e + e. 1998 (xerografado). das adjudicações aqui feitas. D. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. em 4. I/D. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. Cultura-Nova. ou seja. Nela está implícito que. em 3 . 1999 (aguardando publicação) 8. indefinidamente. (xerografado) 10. Teríamos então o monóide livre fundamental I.. Rio de Janeiro. SAMPAIO. por nós definida. nua. 11. 9. C. Inst. Rio de Janeiro. por exemplo) se alocada em I/D. I/D/D. As Lógicas da Diferença – Rio de Janeiro. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. ainda bastante constringente. D/D. conquanto que não a mais completa. mas tão apenas a monótona escala de seus instrumentos de medida. L. na passagem dos semigrupos aos monóides. O monóide livre fundamental seria pois I. C. item 4. C. por exemplo. apenas como uma esperteza para contornar a incômoda censura eclesiástica de sua época. L. UAB. a seqüência dos naturais.. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. Noções Elementares de Lógica – Tomo I.

As alocações conjuntas. mas uma sugestão acerca de um recôndito parentesco entre elas. d. com cargas fracionárias do modelo standard. o mais recente. Oxford U. 1995. Princípio Antrópico . Indicamos ainda dois excelentes livros sobre o assunto: BORROW. Ao invés dos quarks u. 19. A topologia é tal que não deixa qualquer dúvida quanto à impossibilidade da existência de quarks em estado de isolamento. Para mais detalhes. cit. Champs/ Flammarion. J. 1994. de. SAMPAIO. The Octect of the Physical Beings. 17. ver nosso trabalho citado na nota 10 anterior. op. isto contribui para maior simetria do modelo. Xuan Thuan. D. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüitária. DEMARET. P. Le principe anthopique . S. Paris. que vai elucidar como de fato operam as forças simples. D. 1988 e. 18. moderadamente otimistas.Quatro constantes relativas às intensidades das “quatro” forças da natureza e pouco mais do que uma dúzia de constantes relativa às características das partículas elementares. The anthropic cosmological principle.. 12. and TIPLER. 16. s. Ver SAMPAIO. Noções de Antropo-logia. que justamente já apresentava dois casos de dupla alocação de fermions (elétron junto com neutrino do mion e mion com neutrino do tau). Nome proposto pelo astrofísico australiano Brandon Carter para um pretenso princípio estabelecendo uma correlação profunda entre o homem e o cosmos. et LAMBERT. em Pré-D. segundo o modelo standard). Un Astrophysien.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (µ = ν µ + W = ν µ + ν e + e. poderíamos ter. por exemplo) 365 . op. 14. como a do fóton e do graviton. A. Ver SAMPAIO. cit 20. Ademais. c..L’Homme est-il le centre de l’Univers? Paris. F. cit. op. no novo moBARION QÜINQÜITÁRIO QUARK TRINITÁRIO GLUON GLUON QUARK TRINITÁRIO GLUON QUARK TRINITÁRIO 15. Reflexões. SAMPAIO. b e t. TRINH. não constituem dificuldades. as massas referidas são: tau . Talvez. 13. Os barions constituem uma estrutura qüinqüitária formada por três estruturas trinitárias (os quarks. cit. Colin. ainda uma conseqüência do trauma que vem dos tempos em que eles eram obrigados a prestar contas à teologia oficial. Oxford. J.um novo fundamento e uma significação renovada. op. J. Medidas em Mev/c2. L. C.

23. imediatamente. I). lógica que subsume. que o fez no contexto de um teoria da relatividade geral complexa. Esta é uma forte razão suplementar para que a antiga força forte piônica deva ser considerada ainda uma força de per si. por suposto). 24. as que lhe antecedem: I. Esta.próton = 938. o feminino (I/D. Rio de Janeiro.366 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO =1784. a propósito. op. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). a ideologia burguesa que pretende constituir a sociedade a partir de indivíduos (pseudo-andróginos-virtuais. 1977. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). C. pois só vai até I/D . O ser humano é de nível lógico I/D/2. CHARON. 28. Ediouro. Lacan et logiques. além de si própria. Rio de Janeiro. Menon. L. 22. é suficiente para compreender a lógica do rapaz (D/2. Com isto. SAMPAIO. Colocamos o termo ‘família’ entre aspas para chamar a atenção de que se trata de um agregado de base. D) fica logicamente diminuído. A Michel. O par diagonal {I.30. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. D/2. expressões tão chocantes como ‘a mulher não possui superego!’.5. 26. que embora redutora. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. estas quatro por nós denominadas lógicas de base.Um valor desmesurado dado que a unidade natural de tempo cósmico (tempo de Planck) vale apenas 10–43 s e o próprio Universo tem apenas cerca de 1. cit. etc. J. D. 21.57. teríamos que admitir em substituição um agregado de mesma natureza sexo-lógica. Para resolver este problema é necessário levar a criança de ambos os sexos à posição I/D/2 e. a problemática edipiana vai apenas até a aceitação da lógica da castração (D/2). necessariamente sexo-lógico. 1996. sim. 27.daí. Fedro. 1992. . pode haver uma opção sexual adulta. como nos outros animais. de. No interior do núcleo (à distância de 10-15 m) prótons e nêutrons trocam pions (força forte de Yukawa). e é precisamente isto que impede a desintegração do nêutron. o que não vale para agregados de nível superior. Banquete. conclui-se. Théorie de la relativité complexe. É um absurdo. Paris. nêutron = 939. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2. é a prova da igualdade fundamental de homens e mulheres.Ver SAMPAIO. ‘o que quer uma mulher?’. As idéias de Teillard de Chardin fizeram escola e foram retomadas inclusive por físicos .1010 anos. 25. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). etc. S. PLATÃO. como é o caso de Charon.2. só depois. Em Freud. Princípio antrópico. Mesmo que se contestasse a necessidade da família burguesa. I/D. D } o feminino.

L. Arnold. 7. D/D/D. Paris. Na esfera mundana. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. Ver Sampaio. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. C. na passagem dos Capítulo 10 . (xerografado) 4. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. enquanto que a nossa síntese dialética generalizada pode operar reiteradamente sobre elas e seus anteriores produtos. Denoel/ Gonthier. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença).194. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. Teríamos então o monóide livre fundamental I. Makron Books. dezembro de 1996. Rio de Janeiro. I/D/D. nua. 1998.. de.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 367 1. desde que não as tema. C.. de. a partir de um conjunto finito de elementos. M. Para maiores detalhes. indefinidamente. D. munida de uma operação genérica “/” gozando das propriedades de fechamento. I. Noções de antropo-logia. C. I/D. Lógica da Diferença. de. Noções de Antropo-logia. SAMPAIO. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. A aufheben hegeliana opera apenas a síntese das lógicas da identidade e da diferença. UAB. S.. ou seja. fasc. A sociedade do futuro. S. As Lógicas. Um semimonóide é uma estrutura algébrica. Luiz Sergio C. SAMPAIO. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. I/D etc. D. 1979 2. TOYNBEE. TILLICH. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. 1968 3. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. Paulo.. O monóide livre fundamental seria pois I. são apenas uma taquigrafia. Rio de Janeiro. S.. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. por exemplo. Rio de Janeiro. As expressões I. (EdUERJ 2000) Revista Brasileira de Filosofia. D/D. Rio de Janeiro. não importa se a direita ou a esquerda. L. D. Théologie de la culture. 5. então. C. a seqüência dos naturais. Rio de Janeiro. de. D/D=D/2 (lógica clássica). D/D. Zahar. ver SAMPAIO. S. ainda pela operação /”. agindo igualmente à esquerda e à direita. Paul. abris/junho 1999 6. Teríamos. L.. UAB. D.. por nós definida. I/D (lógica dialética).

1985. IC-N. Luiz Sergio C. SAMPAIO. de um lado. Paris. Rio. SAMPAIO. S. Rio de Janeiro. de. L. opus cit. As lógicas . SAMPAIO. SAMPAIO. o que é corroborado por Battista Mondin (The principle of analogy in protestant and catholic theology. S. Makron Books. a última identifica-se com a metafísica no seu sentido pejorativo. de Desejo. da imanência de Deus. porém. 17. C. que eu chefiava em 1993. junho de 1995. C. Hague. 15.368 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO semigrupos aos monóides. Ver SAMPAIO. A expressão onto-teo-logia no título do trabalho em questão é uma óbvia alusão à ontoteologia heideggeriana. 1993/1997. opus cit. 1968) que observa que entre as duas analogias não há outra diferença que aquela da simples ênfase relativa. S. 23-24 21. L. Ibid. HEIDEGGER. Apontamentos para uma história da física moderna. Noções de teo-logia. Ver especialmente. Existe uma fortíssima razão de simetria que não pode ser aqui convenientemente exposta. 13. SAMPAIO. I. C. a nosso juízo. como também BARBOSA. C. Rio de Janeiro. Noções de teo-logia.As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. Ver especialmente item 1. S. UAB. RAHNER. na transcendência. a primeira. L. S. Fui chamado a atenção para o fato por um bolsista. com ela não se confunde. 1988 e Noções Elementares de Lógica – Compacto. S. S.V . p. Rio. 1964. UAB. estagiário do DRH da EMBRATEL. Luiz Sergio C. C. C.2 . 16. (xerografado) 11. Rio de Janeiro. pp. 1991. de. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. de. M. Marcelo Celani. pp. Os resultados a que chega a analogia fidei. Noções de antropo-logia. 22. L. Noções de teo-logia. op.34. de. 10. de. C. 23. de outro. CulturaNova. L’être et le temps. S. fingimento e superação na história da cultura. Cultura-Nova. 1998 (xerografado) 14. de. C. Inst. 1995 (xerografado). Rio de Janeiro. C. L. SAMPAIO. Noções de teo-logia. 8. 47-48. opus cit. SAMPAIO. fingimento e superação na história da cultura.33 20. S. 1996. 18. 1984. de. Gallimard. Karl. Rio de Janeiro. 2 v. tal como já insinuamos. não diferem em muito daqueles que se obtinham por via da analogia entis. 12. SAMPAIO. Curso fundamental sobre la fé. 1997. . L. L. L.1998 24. (xerografado). 19. SAMPAIO. S. Paulo. Ver SAMPAIO. L. Herder. cap. de Desejo. dezembro. cit. Noções de onto-teo-logia. Ibid. com o pensar de uma era ainda por vir: era da cultura nova qüinqüitária. (xerografado) 9. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária.Questão de método. de. Barcelona. de.

e Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Introdução à Antropologia Cultural. UnB. op. 1993/1997 e The Octect of the Physical Beings – Vacuum. op. de. com cerca de 3. 4. setembro. Rio de Janeiro. . _____. Rio de Janeiro. 1998 7. Rio de Janeiro. outubro de 1999. Noções de Antropo-logia. 13. cit. Introdução à Antropologia Cultural. uma versão abreviada e significativamente modificada do volume I da obra homônima e ainda Lógica da Diferença in Revista Brasileira de Filosofia. Paulo.. out.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. SAMPAIO. cit. _____. Rio de Janeiro. dezembro de 1996 e A história da cultura segundo Toynbee. S. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural.. Noções de Antropo-logia. _____.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (xerografado) 369 Capítulo 11 1. Apontamentos para uma história da física moderna. 2.. Oficina do Autor/etc. _____.. op. logicamente otimistas. op. e também A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. A superação das idolatrias ._____. Rio de Janeiro. II. Rio de Janeiro. Crítica da Modernidade. fasc. Rio de Janeiro. _____. Hegel e Marx. Noções de Antropo-logia. Desejo.5 h de duração. 1998 8. fevereiro de 1997 e ainda Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Brasília. I. L. Rio de Janeiro. _____. cit. Princípio Antrópico . _____. palestra no Evento anúncio do Programa do Laboratório de Estudos do Futuro. Rio de Janeiro. Reflexões.194. Fingimento e Subversão ma história da Cultura. vídeos. 1994 e também Considerações Gerais sobre a História da Cultura – Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da Situação Brasileira. abris/junho 1999 5. 1996 14. UAB. 15. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. _____. 11. UAB. op. UAB.um novo fundamento e uma significação renovada. Rio de Janeiro. S. cit. cit. 6._____._____. Tillich. 10. ICN. cit. EMBRATEL/UAB.. Rio de Janeiro. Noções Elementares de Lógica – Compacto. novembro de 1999 12. Brasília. op. III e IV em 2 vídeos. 1999 3. 1999. _____. julho de 1999._____. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. Princípio Antrópico. Ibid. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. 1999 9. 1991. C.

que. presidindo a Mesa nos apresentou à platéia como economista e especialista em informática. enfatizando que este primeiro item valeria por si. independentemente da resposta dada pelo pensador francês. nos perguntou de que “lugar” nós iríamos falar. cit. Considerávamos que. Não é preciso enfatizar o quanto nos sentimos honrados por lá estar presentes e o melhor que podíamos fazer para nos aproximarmos um pouco do talhe da oportunidade que se nos era oferecida seria evitar as trivialidades. de algum modo. sim. Lauro Morhy no evento Anúncio do PROGRAMA DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DO FUTURO. arrojado descobrimento europeu ou se o início das tribulações e das penas de gentes que já aqui haviam e outras chegadas de outras partes que estão fazendo emergir. negamos e coetaneamente já somos. a Invenção do Brasil. O presente texto teve origem nas notas para uma palestra realizada a convite do Magnífico Reitor da UnB. O professor Dr. uma nova cultura sob o sol dos trópicos. perguntava-se se eles tinham lógica (clássica). Estas notas de palestra já estavam obviamente alinhavadas. Capítulo 12 1. _____. mas especialmente como uma terceira tentativa de resposta àquela . a pergunta por si constituía-se numa revolução: não se indagava mais se os primitivos tinham alma. A série de eventos. pois. op. 2. não estávamos ainda bem certos do que comemorar: se um. agora. a nosso juízo bem melhor. espero que para muito breve. Tentamos por duas vezes responder que partíamos da problemática levantada por Lévy-Bruhl referente à questão do pensamento pré-lógico dos primitivos.370 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 16. Desejo. que seria o coordenador das apresentações da tarde. as referências eruditas gratuitas e outras velharias para enfrentar. durante a nossa exposição fizemos reiteradas alusões ao episódio. o emérito professor Dr. Roberto Cardoso de Oliveira. inclusive para lhe pedir que o autografasse. sem dúvida. quando no almoço que precedeu à nossa apresentação. Por isso. mas levou-nos à convicção que não respondêramos satisfatoriamente à sua pergunta do almoço. posteriormente. às vésperas do ano 2000. que estava sendo anunciada como atividade central do Laboratório de Estudos de Futuro para o próximo biênio. os déjà-pensées. Ainda. o que em si não traduzia nenhum menosprezo. na nossa opinião. tema sobre o qual ele mesmo havia escrito um livro que tínhamos já na pasta e à mão. era de excepcional oportunidade e de uma grande importância. esta nossa velha preguiça de pensar o novo. Dr. Fingimento e Subversão ma História da Cultura. Roberto Cardoso de Oliveira.

Paris. Paris. Rio de Janeiro. 8. S. 1972. D/D=D/2 (lógica clássica). 1972. Paris. de. 5. 3. Petrópolis. I/D etc. ver SAMPAIO. 1998. C. BARBOSA. são apenas uma taquigrafia. . G. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. 1971. Histoire des Mentalités. S. Alianza. “a proposta de nossos políticos para as gerações modernas é ‘suicidem-se’. C. 1960 4. Para maiores detalhes. M. M. F. SPENGLER. Para qualquer dúvida sobre esta nota. FCE. entrevista de André Green em Jornal do Brasil. Paris. Georges. HEGEL. As expressões I. I/D (lógica dialética). 1976.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 371 sua mui justa e sábia indagação. M. UnB. 9.” Provocações do pensar. declarou que. FOUCAULT. Rio de Janeiro. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. História: método sem objetivo específico in NIZZA da SILVA. Contribuition à la Logique. 1981. recentemente instado a justificar o seu pessimismo em relação ao mundo atual. Paulo. Le Jeu comme symbole du monde. C. A Arqueologia do Saber. 7. O. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. UAB. Na esfera mundana. Georg. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Gallimard. Idéias. Luiz Sergio C. desde que não as tema. 1977 e também FINK. As lógicas – As Lógicas Ressuscitadas Segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. O psicanalista francês André Green.). só poderá ser bem compreendido com a ajuda desta nota. então. 6. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. de 1996. Cultrix. TOYNBEE. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). A. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. Madrid. Estudio de la Historia. Eugen. 13. LUKACS. D. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. de Minuit. As Lógicas. A Decadência do Ocidente. Compendio I/IV. DUBY. Fenomenología del Espírito. AXELOS. possa tê-las como um conveniente e simples apoio de leitura. 2. B. (org. nos arquivos da UnB que. 19 de out. W. Teoria da História. 1982. Histoire et Conscience de Classe. 1998. Kostas. Brasília. Noções de antropo-logia. de Minuit. 12. México. M. 1966. Teríamos. consultar registro televisivo da sessão. Paulo. 10. Makron Books. por sua vez. a seu ver. LÉVI-STRAUSS. de Minuit. Vozes.

1994 20. porque suas diagonais. (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). embora não permitam dar conta de modo compreensivo. S. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. S. in Sete ensaios a partir da lógica ressuscitada. clássica ou da dupla diferença (D/D) e qüinqüitária (I/D/D) que permitem pensar todos os entes mundanos. SAMPAIO. 1996.humano. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. 1998. Rio de Janeiro. 23. que forma a base da pirâmide representativa de I/D/D. É o conjunto das lógicas da identidade (I). I/D e D/D. de. SAMPAIO. Rio de Janeiro. cit. da diferença (D). cit. Isto é valido inclusive para a Modernidade. UERJ (no prelo) 16. L.372 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Makron Book. Noções de antropo-logia. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o devir (I/D). são inúmeros os casos de culturas logicamente híbridas. o vídeo Antropologia cultural. Márcio. pelo mesmo autor. Rio de Janeiro. segundo Lacan. L. a pirâmide de base quadrada. do saber inter-subjetivo (por isso. Ver BARBOSA. tomando-se. I. As Lógicas. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). Desejo. inclusive o homem. um pouco abusivamente. 22. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. entre outra coisas. 14. Ademais. SAMPAIO. permitem a re-definição ou sobre-impressão da sexualidade no ser. é impossível o calculo do outro!) 19. 17. L. A religião na Modernidade. op. Fingimento e Subversão na História da Cultura. A representação arquetípica da lógica qüinqüitária aparece em quase todas as culturas como uma figura de 5 elementos. Rio de Janeiro. UFRJ/Gripho. SAMPAIO.15. C. Este conjunto. D. III e IV. Razão e Diferença. GOLDMAN. dialética (I/D). UAB. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). C. C. As lógicas de base são as lógicas propriamente subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária: I. 1995. (5) é complacente ao Absoluto. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/2). como em todas as culturas. Noções de antropo-logia. 1998 18. EMBRATEL/ UAB. de . Rio de Janeiro. sendo a mais comum e sugestiva. é de grande importância. (2) só é na medida em que remete a outro (D). S. é produto da . op. Ed. 1993. II. 15. Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. 21. de. Alternativamente.

tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. op. Ademais. pois. 28. cuja necessidade foi há muito pressentida. mas como dotado de uma outra lógica. a síntese da identidade com a dupla diferença. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. mas um superior processo hiperdialético qüinqüitário. 29. logique du sentiment. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. isto é. C. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. Consideradas todas as culturas nodais anteriores (ecológicas e propriamente lógicas. de. como mereceriam. como pseudoqüinqüitário. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. contudo. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. Não é surpresa. Isto tem implicações de uma incalculável amplitude que não podemos (ou talvez nem soubéssemos) aqui explorar. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). SAMPAIO. crenças e ritos. 27. Por isso ela é politeísta. ao todo 5 .. 24. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. que isto é o suficiente para demonstrar em definitivo que a História não é um processo dialético trinitário hegeliano (apenas). ou seja. 26. das relações EUA/Brasil. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. entre outros. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. I. pré-D.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. precisamente. 25. porém. cit.pré-I. em um modo próprio . em profundidade. L. Desejo. Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. Observaríamos. S.. não se dão conta que o fazem. além. o cristianismo patrístico aparece como histórica. uma polêmica cheia de veneno e má fé. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. mas não logicamente qüinqüitário. pois na ver- .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 373 sacralização de sua lógica própria. Aliás. D e I/D). isto é. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses.

Le Jeu comme Symbole du Monde. foi vítima deste tipo de “ ilação”? 33. porém. 58. Finalmente. sim. Gallimard. 1955. Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo que acabou acontecendo. cit. Exclui-se aqui. História das Crenças e das Idéias Religiosas. Tomo I. 1. George. é bom aduzir que não é de agora. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. S. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. p. Minuit. 1959. 43 41. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. em sua máxima generalidade. lá e cá. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. como a Índia. 1966 p. Hölderlin. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). 1966. Paris. F. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. As- . 31. p. Zahar. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . S.. é ele sem dúvida o grande culpado. por excepcional (de exceção) o atual momento destas relações. Eugen. ARISTÓTELES. 90. (negritos nossos) 35. Quem já não viu. SOCRATES: . Platão. ou pior. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular . sem a menor cerimônia. muita antiga. Rio de Janeiro. Arte Retórica e Arte Poética. Difusão Européia do Livro. pois. 92 38. Oevres Complètes. 34.. Paulo. 1978. 59. p. e sendo-lhes assim tão íntimo. enquanto que o segundo é um marginal. 40. ELIADE. Mircea. p. Théorie de la Religion. A lógica clássica ou da dupla diferença. FINK. 32. ELIADE. 101 39. Paris. A República. porém. 36. p. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo.opus citado. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. Paulo. ib1973. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. Atena. p. BATAILLE. 228. por isso as subsume. 37. vol.. ibid. 30. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas.374 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. op. sua oposição à filosofia. inclusive) é crença corrente entre os gregos. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. Reflexões. ibid. Por isso.

(2000) 43. S. o vídeo Antropologia cultural. L. ingleses. L. grama e segundo) ou mks (metro. O ser humano é de nível lógico I/D/2. conclui-se. O I. 47. o grande realizador cinematográfico irlandês. Referência a John Ford. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. quilograma e segundo). D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. D. (xerografado) 48. imediatamente. as que lhe antecedem: I. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . Noções de antropo-logia. igualmente mencionado. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). Quem vai a Westminster e vê o túmulo de Newton no centro mesmo da catedral. herdado pela lógica clássica. constata que isto foi tentado. Todas as demais grandezas físicas estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. C. SAMPAIO. Rio de Janeiro. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. SAMPAIO. 44. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). SAMPAIO. C. D/2. 50. não criou a ciência. out. D } o feminino. Vide a última Carta Encíclica – “FIDES ET RATIO”. em parte. opus citado. 1993/97. 49. de. a maior parte de sua carreira atuando em Hollywood. como nos outros animais. de. o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. além de si própria. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida. 46. mas felizmente para eles. Por exemplo. 45. L. A Questão Cultural – Palestra proferida no workshop sobre A Questão Cultural.. feito desejo domesticado pelo marketing. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. Na modernidade capitalista.II. Ver Reflexões. 1996. UAB. Ao contrário do que se diz por aí. Apontamentos para uma história da física moderna. ICN. a Igreja Católica sempre namorou a ciência. de. C. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2).. pelo mesmo autor. 42. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. A separação drástica luterana entre fé e razão. sistema cgs (centímetro. massa (M) e tempo (T). I/D. por suposto. Brasília. O par diagonal {I. FINEP/ etc. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. S. assim como.II e IV. lógica que subsume. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). não pegou. mas sim o que era necessário . moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqüitária. S. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 375 sim. Rio. Rio de Janeiro. 1995.

Companhia das Letras. Rússia e América. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. mas. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. acontece precisamente o contrário.376 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para criar uma sociedade ou cultura científica: nada mais nada menos do que o sujeito liberal liberado para ser sujeitado à ciência ou. Na perversão pessoal. econômico e social mesmo. é o sujeito (I) que se sobrepõe à lei (D/D). numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio poder ser “vivido” simultaneamente. Galileu Herético. como História. o mais ameaçado. houver desaparecido da existência de todos os povos. Essa Europa. que esse povo ex-ponha Histo- . com a Rússia de um lado e a América de outro. 56. como o grande homem de um povo. quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. Pessoal e social são sempre anti-simétricos. S. na perversão social. É o povo que tem mais vizinhos e. 55. estando no meio . quando o pugilista valer. para se constituir em sujeito da ciência. Não somos nós a dizer isto. REDONDI. A Alemanha. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. que pela ousadia quase foi executado pela Inquisição. 1991. perguntaríamos nós). 51. simplesmente. Aqui deveria entrar o cultural e é precisamente para ocultá-lo que se comete o absurdo de considerar o social parte própria de si mesmo. 54. então. desse modo. quando tempo significar apenas rapidez. Não há nada mais ridículo do que dividir o social em político. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. como um fantasma. em tudo isso é o povo metafísico. Segundo um programa de TV focalizando cada um dos países europeus. 52. existe um empenho deliberado (por quem?) em desenvolver a gastronomia alemã com a finalidade de atenuar sua pressuposta inclinação belicista (ou anti-consumista. Pietro. Isso implica e exige . Os denominados problemas sociais nada mais são do que a banda podre do modelo econômico vigente. suporta a maior pressão das tenazes. consideradas metafisicamente. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente. Paulo. 53. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. tipo de psicose. foram já muitos e entre eles o Padre Antônio Vieira. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo.

que de certo modo pode incluir todos. Tempo Brasileiro. 1966. Povão é empregado aqui como uma verdadeira categoria sociológica. 57. Introdução à metafísica. não importa que tenha extremos. O Maracanã. Rio de Janeiro. tornando-se assim um autêntico empresário schumpeteriano (I) (caso verídico ocorrido no Rio). . uma geral e uma tribuna de honra. é seu justo contrário. incluindo até um miserável que se pôs sob um viaduto (D) recém-inaugurado e com um giz delimitou internamente retângulos (D) para alugá-los a outros ainda mais miseráveis. ao domínio originário das potências do Ser. HEIDEGGER. assim mesmo entre aspas. a partir do cerne de seu acontecimento futuro. M. pp. desde que em estado de congraçamento. por exemplo é freqüentado pelo povão. tipicamente brasileira.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 377 ricamente a si mesmo e a História do Ocidente. A “elite”. 79-80.

378 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO EDITORA ÁGORA DA ILHA .

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