FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Filosofia da cultura
Brasil: luxo ou originalidade

Luiz Sergio Coelho de Sampaio

EDITORA ÁGORA DA ILHA

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

FICHA CATALOGRÁFICA
SAMPAIO, Luiz Sergio Coelho de - 1933 Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade / Luiz Sergio Coelho de Sampaio Rio de Janeiro, março de 2002 páginas 378 Editora Ágora da Ilha Ciência filosófica Pesquisa ISBN 86854 CDD-100 CDD-0001.4

COPYRIGHT: Luiz Sergio Coelho de Sampaio

lscsampaio@openlink.com.br

Direitos desta edição reservados ao autor, conforme contrato com a Editora. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa do mesmo. Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade - CIÊNCIA FILOSÓFICA / PESQUISA Capa: Talita Lobo Coelho de Sampaio Editor: Paulo França RIO DE JANEIRO, MARÇO DE 2002

EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.: 0 XX 21 - 3393-4212 agorailh@ruralrj.com.br

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Para meus pais Ascendino e Maria da Paz, que lá ficaram fixos e incomunicáveis em duas dobras tristes do tempo. E também para Lailce e depois, por ordem de entrada em cena, para Tatiana, Thais, Talita, Henrique, Ivo e Felipe.

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Sinopse
Uma proposta radical de revisão da noção de história, na
verdade, história da cultura (processo hiperdialético de realização plena do modo de ser-coletivo do homem, “fenomenologia do espírito” que ao invés de evitar a ciência e sua lógica, seja de fato capaz de subsumi-la). Tem como finalidade, entre outras, viabilizar a crítica da Modernidade, iluminar o horizonte de sua possível superação, reacender o pensamento utópico. Neste novo espaço histórico compreensivo situar o Brasil: reler sua real destinação, intuir suas responsabilidades maiores e contribuir para a implementação de suas estratégias de sobrevivência e realização.

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Sumário
1. Porque, também, uma filosofia da cultura.......33 2. Bases lógicas para uma antropologia filosófica..39
2.1. 2.2. 2.3. 2.4. Preliminares............................................. 39 A lógica ressuscitada..................................40 Uma antropologia esperançosa...................53 Situação e perspectivas brasileiras............67

3. Acerca da lógica e da cultura........................71 4. Desejo, fingimento e superação na história da cultura.........................................................89

4.1. Considerações introdutórias.......................92 4.2. Uma cultura e suas três lógicas..................95 4.3. Desejo, fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais...........................................100

4.5. Especulações acerca do futuro da cultura.....131

4.3.1. Nos antigos impérios de base agrícola - o mito e a pseudo potência sacerdotal.....................101 4.3.2. Entre os gregos - a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos..............................................104 4.3.3. Na Modernidade - a física e a biopirotecnia..110

5. Modernidade – das origens à globalidade etnocida.........................................................135

5.1. Antecedentes da Modernidade....................138 5.2. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso.................................................143

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
5.2.1. Ciência, sujeito liberal e, antes, a caça às bruxas....................................................................143 5.2.2. Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno, consumista e etnocida................................148

5.3. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade...........................................................159

6. Crítica da Modernidade................................167
6.1. Introdução...............................................167 6.2. A rematada impotência das ideologias.........169 6.3. Para além das ideologias...........................176
6.3.1. Heidegger – a ciência e a técnica..................178 6.3.2. A Escola de Frankfurt – os meios de reprodução e comunicação de massa............................185

7. História da cultura segundo Toynbee, Tillich, Hegel e Marx.................................................193 8. Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária....203 9. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural.................225

9.1. Re-estruturaçào do território lógico................229 9.2. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura...........................................233 9.3. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares.............................................236 9.4. Princípio antrópico renovado.........................241 9.5. Re-significação cósmica da história da cultura.248

10. A superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária...................253

10.1. A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto.....................................255 10.2. Superação da idolatria com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária........................259 10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente.............264 10.4. Afinal, Deus depois do adeus às idolatrias.269 10.5. Antecipações - a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano....273

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11. Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira..........................279 12. Considerações gerais sobre a história da culturas – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história, conjuntura e perspectivas brasileiras...............................................287

12.1. A história como processo hiperdialético....287 12.2. Um esboço de história da cultura.............295 12.3. Desejo, fingimento e superação................298 12.4. A Modernidade.......................................313 12.5. O Brasil e a Modernidade.........................317

vieram os tempos da “Nova República”. posso dizê-lo. pois. A seguir.decifrar o ser e a destinação do Brasil. se mantém viva em Tobias Barreto e se solidifica no que se convencionou denominar de culturalismo brasileiro. Dentre as virtudes genéricas deste trabalho não posso deixar . foi o tempo da “Revolução”. com esta obra. está também dando continuidade a uma tradição já bem nossa. menor se mostra o interesse pelo Brasil. que registro a ressurgência do que até então fora uma obsessiva preocupação dos mais expressivos intelectuais brasileiros . praticamente extingue-se entre nós o interesse em pensar o Brasil. uma alternativa completamente nova para nossa auto-compreensão. Digo pensá-lo e não “desconstrui-lo”. Refiro-me especificamente a Luiz Sergio Coelho de Sampaio que. de buscar na filosofia os meios conceituais para iluminar os caminhos e descaminhos da brasilidade. aos que o faziam e fazem vindo já de mais longe. cada dia que passa. Tal disposição nasce com a própria filosofia no Brasil. que trouxe o desinteresse pelo pensar. Primeiro. Não me refiro. vem reavivar aquela tradição. obviamente. com a presente coletânea Filosofia da cultura. É. 1955-1964). cuja figura exponencial é Miguel Reale [1]. É interessante assinalar que Sampaio. com satisfação. oferecendo-nos. nos quais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 11 Prefácio Luxo ou originalidade − a propósito da problemática cultural brasileira Depois do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros.

achei que. sim. de antemão. que se sabe sempre possível. visando sobretudo o melhor proveito do leitor. Nestas . Com respeito ao seu objetivo específico . segundo. ao invés de apenas repetir ou resumir o que havia dito (que. radicada. Para Sampaio a linha mestra da filosofia ocidental. cuja verdade assumida. mas o fazendo de maneira essencialmente crítica e inovadora. mais valeria tudo reconsiderar. destacaria três importantes aspectos: primeiro. é adaequatio. Por isso. entre o abstrato e o concreto e.a epoché como um honesto esforço de suspensão de preconceitos e não como flatus vocis. o trato da problemática brasileira não se detém. para desta sorte conquistar. se aventurando o autor a traçar os lineamentos de uma corajosa e incisiva ação estratégica cultural. entre o especulativo e o pragmático. embora já tivesse tido a oportunidade de analisar detidamente o pensamento filosófico de Sampaio [2]. o grande problema da filosofia hoje seria medir-se com a ciência. sabese. terceiro. sobretudo. como de costume. deixa de permanecer válido e atual). Preliminares lógico-filosóficos – ser e pensar para além da ciência O melhor caminho para a compreensão das idéias filosóficas de Sampaio é a epoché para valer . um grau superior de simplicidade e clareza. na mera compreensão. a renúncia àquela pretensão.proporcionar uma nova e mais profunda compreensão da problemática cultural brasileira -.12 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de assinalar o vertiginoso encurtamento de famigeradas distâncias: entre o denso e o legível. Vejamos em detalhes cada um destes aspectos específicos. um mero sinal de adesão acadêmica oportuna a uma corrente filosófica de prestígio. que a reflexão filosófica não se aplica ali. Trata-se sobretudo de aceder ao chamamento das coisas e dos acontecimentos como tais. precisamente. algo lhe pudesse para sempre escapar. O pensamento não poderia tolerar que. Por isso. na tradição filosófica ocidental. indo mais além. 1. está na postulação de ser e pensar como o mesmo. à problemática cultural brasileira. desde Parmênides. sendo justificadamente mediada por uma sólida antropologia filosófica que se completa com uma conseqüente antropologia histórico-cultural. o fato da filosofia que lhe serve de base se constituir numa produção própria. nem por isso. sem mais.

ou a filosofia se deixa marginalizar. subsumindo a lógica clássica formal. justamente por se almejar entre elas a mais alta. assume-se “pensamento das pequenas causas ou das realidades parciais e a varejo”. Em síntese: passar da dialética à hiperdialética. com inteira razão. sempre dissimulado. que é o mesmo que compreendê-la em sua motivação desejosa e significação social última. a lógica clássica formal que.antes e mais do que fenomenologia uma lógica. algo que fora deixado para trás. de recuar. que ombros mais altos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 13 circunstâncias. Já se disse. capaz de “ultrapensar” a ciência ou. a rigor. no trânsito. Tratava-se. sim. da Ciência da Lógica consumada. iluminar-se-ia naturalmente um novo território lógico por conquistar. fosse mesmo este o caso. nada melhor do que subir nos ombros dos gigantes predecessores. por sua própria índole. oportunamente recalcado. que. É exatamente aqui que Sampaio consegue ser surpreendentemente óbvio: embora as aparências encaminhassem noutro sentido. teria que ser . a partir dela. cuja recuperação pudesse levar à re-significação da lógica clássica formal e. além de sempre bem largos. o procurado deveria estar por todo canto. Ora. mais precisamente. como tão judiciosamente observa Heidegger [4]. a tarefa. para enxergar mais longe. em se conseguir levar aquela postulação mestra para além dos limites do saber científico [3]. pois. reta e imediatamente. haveria do que os de Hegel?! Sobretudo. Kierkegaard (entrincheirado por trás do parado- . abdica de sua própria essência. de todo o território lógico conhecido. porém. precisando dar conta de seu próprio fundamento. o âmbito mais próprio e inevitável do problema. Tudo bastante simples: a referência. Tudo se resumiria. Sampaio vai então circunscrever toda uma plêiade de pensadores “desviantes” . o Hegel da maturidade.Pascal (que jamais cede quanto aos direitos do coração). ou enfrenta o desafio de pensar de mais alto a ciência. quando já convicto estava de que sua filosofia (como qualquer outra). a de se ultrapassar a dialética e alcançar um pensar maior ou mais complexo. no âmbito da Modernidade. sobre a ciência impera. Isto posto. pelo contrário. a questão primordial não estava em procurar. agora evidente. algo superior ou mais à frente da lógica clássica imperante. todo o tempo presente. a lógica. seria Hegel. Tratando-se de filosofia. procurar “algo menor”.

subsumindo-a em conjunto com a lógica da simples diferença (ciclo contra-dialéico). lógica cínica dominadora. tal como hoje reivindicam os poderes acadêmicos. no dizer de Sampaio. Heidegger (à escuta nostálgica do logos heraclítico). que ele denomina lógica da diferença ou. de modo necessário e desde sempre. lógica do significante [5]. Era ainda esta mesma lógica que operava nos inconscientes que a psicanálise tanto espreitava. Duas seriam então as lógicas fundamentais: a lógica da identi- . A lógica clássica. Com exatidão. Com esta concepção. A partir daí vislumbrava-se a verdade de um pensar potente para de fato compreender a ciência (e fazê-la instrumento) e a própria cultura que a sacraliza . Nietzsche (apostando no retorno vigoroso do mesmo). Deleuze (surfando entre dobras e diferimentos) e outros . restaura-se o mundo da lógica conforme esta de fato se apresenta na tradição filosófica.a nossa própria Modernidade. porque o socialismo científico do Outubro Vermelho teria mesmo que fracassar um dia diante dos desafios da ciência e da técnica. sucedia a dialética. Tornava-se então mais do que evidente que a lógica clássica e agora também da dupla diferença. que. E o que era mais importante: havia uma hiperdialética sucedendo a lógica clássica e subsumindo-a junto. assim como a lógica clássica ou da dupla diferença. porque o pai mítico precede ao filho submisso à lei de seus pares tanto quanto à gramática. Lacan iria isolar e denominar. Daí porque Platão precede a Aristóteles. com a dialética e suas lógicas geradoras. inclusive.14 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO xo). podia ser agora propriamente caracterizada como lógica da diferença reiterada.e identificá-los como filósofos desta lógica esquecida. pressupunha a dialética. podia-se então dizer que a dialética sucedia à lógica da diferença. subsumindo-a em conjunto com a lógica da identidade (ciclo dialético). Podemos sumariar as concepções filosóficas de Sampaio [6] dizendo que a lógica deve ser considerada um saber sobre os modos efetivos de pensar e não mera convencionalidade lingüístico-formal. lógica da simples diferença. a simples condição de lógica recalcada revela-a como lógica trágica. porque a patrística agostiniana precede a escolástica tomista. também com muita propriedade. e tantas e tantas outras coisas mais. mais exatamente. Ora.

Estas considerações formais são essenciais para que se possa dar conta do poder da ciência (hoje sob a forma de obsessiva informatização/sistematização do mundo) e para a compreensão. seguindo velha tradição. síntese das lógicas da identidade e da diferença. também a si mesma. mas se recusa a confundir “co-pertinência” com estrita correspon- . dialética e clássica formal. de que maneira a lógica clássica formal (lógica da ciência. a lógica clássica se constitui como uma analítica das totalidades por convenção. também. D/D/D=D/3. por I e D. ditas lógicas compostas: I/D. são gerados os nomes de todas as demais lógicas. como havia sido posta por Parmênides (pois o mesmo é ser e pensar) ou dialético trinitário (I/D). para que se vislumbre o caminho para a superação do “pensamento único” (D/2). lógica da tripla diferença. lógica da dupla diferença ou clássica. Por outro lado. deste modo. Aceita Sampaio a crítica heideggeriana relativa ao afastamento entre ser e pensar desde Platão e sua derivação em ontoteologia. definitivamente claro. como reposta por Hegel (O que é racional é real. por convenção. hiperdialética qüinqüitária. Enquanto a dialética é um pensar sintético da totalidade enquanto tal. a correspondência estrita entre ser e pensar. só que agora.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 15 dade (ou transcendental) e a lógica da diferença. síntese das lógicas da identidade. mas ao próprio poder fatual da ciência) e. A partir delas. da diferença. assim. I/D/D/D=I/D/3 e assim por diante. e o que é real é racional). a confrontação da dialética trinitária (I/D) com a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) é fundamental para a compreensão das limitações da filosofia hegeliana e marxista (frente não apenas à crítica científica. Sampaio deixa. Reafirma. dialética trinitária. simbolizadas. com o concurso da noção de síntese dialética generalizada representada por “ / ” (uma generalização da “intraduzível” aufheben hegeliana). I/D/D=I/D/2. síntese das lógicas da identidade. como a supera ao mesmo tempo que dela herda o poder totalizador. Cada lógica subsumindo todas as anteriores de que é síntese e. das vicissitudes histórico-ideológicas dos últimos quase duzentos anos. da diferença e dialética. em profundidade. e não apenas na ordem transcendental (I). D/D=D/2. D/D=D/2) subsume a dialética hegeliano/marxista (I/D). respectivamente. na ordem lógico qüinqüitário (I/D/2). que se faz passar hoje por hegemônico.

associada à postulação. aliás. ou seja.por isso pode ele hoje bem parametrizar a história da filosofia (história do esquecimento da questão do ser). dos modos efetivos de pensar).trágicas ou nostálgicas. capazes portanto de operar com . A passagem da natureza . Esta última atitude distinguiria justamente as filosofias da esperança (Nietzsche as chamaria filosofias do ressentimento).. implica uma completa reestruturação do universo dos existentes. O estado de “co-pertinência” entre ser e pensar só pode ser de novo alcançado como resultante de uma visada transcendente. daí. reverte-se o processo de “degradação do homem” promovido pela modernidade. que a ciência vinha progressivamente reduzindo à pura materialidade calculada (ciência bioquímica) e esta a Nada adequadamente recurvado (ciência cosmológica atual no que ela deriva da Relatividade Geral) [7]. pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. em plena consonância com o que está posto pela moderna antropologia estrutural. da “mesmidade” de ser e pensar. e é precisamente este o nível que se deve atribuir ao ser humano e à cultura. das demais filosofias . restabelece-se a posição pinacular do homem no universo que lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios . o necessário produto e meio correlato desta sua capacidade operatória. Natureza?). cínicas ou demissionárias. Passando pela antropologia filosófica e. a que ele diz se filiar. Neste universo onto-lógico desdobrado nada existe de fato superior à hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2). Isto posto.das lunetas ao Hubble -.[8] A velha razão suficiente leibniziana que responde à questão ontológica (no caso: por quê existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. afirma Sampaio: . a uma antropologia cultural de índole histórica hiperdialética Seguindo as indicações de Sampaio. 2. pode-se afirmar que o desvelamento/ordenação do universo lógico (ou seja. onde então se pode repor a questão do estatuto do ser do homem.16 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dência. ganha aqui uma resposta bem precisa.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). em todas as instâncias.. Esse afastamento era inexorável .

a rigor. existencial ou subjetivamente operatório. com o logos. pois perdia em termos de integridade e auto-determinação. E. habitado pelo logos. Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. e até muito mais. desde que viesse para se compor com características operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo re-produzindo-as em nível operatório superior. Tratava-se de uma concepção inconsistente. do seu ser identitário. sem prejuízo. como capacidade essencialmente analítica não podia caracterizar o homem em sua totalidade ou “maximalidade”. capacidades sintéticas já reconhecidas como operantes no reino animal superior. que vinha por si só caracterizar o ser humano e não para se articular e/ou ampliar características e potencialidades operatórias de algum modo semelhantes pré-existentes.a diferença clânica. a duplicava ou reiterava. porém. o fato é que. como era de se esperar. o homem podia operar de modo duplamente lógico-diferencial (racionalmente. seu estatuto lógico tem que ser na verdade lógico qüinqüitário ou hiperdialético.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) . dado que o logos. mas assim o foi desde os tempos de Heráclito e com maior certeza nos de Aristóteles. expressa em termos antropológicos. como razão aristotélica (D/D). a diferença que os separava foi considerada como de natureza lógica: o homem é o animal habitado pelo logos. O único erro aí cometido teria sido fazer do logos uma diferença essencial e irredutível. O logos poderia se constituir deveras numa diferença especificamente humana. Do ponto de vista instrumental ou objetivamente operatório o homem é sem dúvida ser racional. Se assim fosse. Inaceitável. Não se pode precisar a partir de quando a questão do ser do homem veio referenciar-se ao ser animal. o homem estaria ganhando de um lado e perdendo de outro. entretanto. dir-se-ia agora). ao preservar sua capacidade lógico-identitária herdada da animalidade superior (cordados). já a posteriori articulado. Precisamente aproveitando-se deste equívoco foi que o pensamento cristão pode realizar o prodígio de transformar a diferença que diferenciava numa identidade. O logos ampliava a capacidade lógico-analítica do animal.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 17 símbolos convencionais (I/D) . A passagem do animal .

por exemplo. Observa Sampaio que quando Lévy-Bruhl coloca o problema da vigência de uma mentalidade pré-lógica entre os povos primitivos em contraposição a um pensamento verdadeiramente lógico dos povos modernos. mediante uma segunda diferença. ou corporeidade libidinal (D) ao historicismo absoluto de Hegel (I/D). a historicidade dialética I/D). A sexualidade humana. Apenas isto entretanto não basta. historicidade (I/D) à antropologia estrutural lévistraussiana (D). mais tarde. D/2}: o par {I e D/2} representando o masculino (pai e filho). mas no fato de estar repondo a questão em seus devidos termos.privilegiado. indiferentemente. lógico-diferenciais. pois continuaríamos insistindo perigosamente no mesmo equívoco grego. é verdade . E é precisamente neste ponto que se deve retificar o pensamento estruturalista moderno. ou mesmo profundeza cultural (D) ao historicismo materialista de Marx (I/D). o importante não está na resposta que viria dar. restituindo ao animal a integridade lógica (I) e. ou seja. consciência. de modo hiperdialético qüinqüitário (I/D/D). tal como o haviam feito os gregos [9]. o feminino (filha e mãe).sopro. Esta se atualizaria ainda doutros modos. contrastando com a bipolaridade {I e D} animal macho/fêmea. Veja-se como se queira: estar-se-ia assim conferindo. A diferença clânica. a historicidade hiperdialética (I/D/D). D. Para a antropologia filosófica de Sampaio bastaria dizer que o animal superior opera de modo dialético trinitário (I/D) e o homem. isto é. espírito etc. ao mesmo tempo. tanto (I) / (D/2) quanto (I/D)/(D) são . Masculino/ feminino são assim os dois modos possíveis de realização do ser hiperdialético (I/D/2). passa a ser definida como diagonal de uma estrutura lógica quadripolar {I. liberdade. alma. e o par {I/D e D}. que permite a definição de regras de proibição de incesto em paralelo à imposição da exogamia. pois. Não se apercebiam que isto era. seria um dentre muitos modos de manifestação . mas sim da identidade . por conseqüência. nem mesmo depois de especificada a diferença clânica. se pergunta se os primitivos têm ou não lógica (clássica formal).daquela produção “genea-lógica”. o fizeram em relação aos negros escravos e hesitaram não fazê-lo em relação aos índios). I/D. negar “animalidade” aos animais (como..18 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ao homem não se devia mais a algo da ordem lógica da diferença. para daí então alcançar.

o super-cosmos elevado à altura do homem logicamente à sua espera. uma feliz coincidência.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. A significação religiosa do homem. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão recuperará o seu interesse maior. na versão forte. muito mais. entrementes. Segundo ainda Sampaio entre as grandes tarefas da antropologia filosófica (ou filosofia da cultura) estaria o empenho na decifração da significação cósmica e religiosa do homem. o sentido de sua existência frente ao Absoluto.. porque na verdade aí se revela mais uma vez a pré-potência do pensar científico. ao invés do super-homem. Somos de opinião. é pormenorizadamente tratada em A superação das idolatrias . para a moderna organização racional do trabalho. O princípio baseia-se na constatação de que o curso do big bang. pois. Ele aceita a postulação de um princípio que guarde a inspiração do original. Circula hoje a idéia de um princípio antrópico [11] postulando a existência de uma correspondência constitutiva entre o cosmos e o homem. [13] . estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. Estruturações semelhantes vigeriam para as línguas naturais.do princípio antrópico [12]. e certamente. mas significante . Na versão fraca do princípio. dando alma a uma nova versão .nem forte. que depois de quinze bilhões de anos levou à emergência da espécie humana. cremos que nada há por enquanto de relevante. Os caminhos para tanto pressupõem. não importa a versão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 19 iguais a I/D/D = I/D/2. uma prova de que aquelas constantes teriam sido “intencional e convenientemente ajustadas”. orientado exatamente no sentido inverso: . para as vestes e pinturas corporais consideradas como sendo uma terceira pele [10]. onde Sampaio afirma: Quanto à significação religiosa.. nem fraca. não há ascensão. porém. mas sim o descenso do homem ao nível dos entes científicos. Sampaio acha que isto não nos deve consolar. segundo o princípio. está em estreita dependência da precisão dos valores de um pequeno conjunto de constantes físicas universais. uma renovação profunda de nossas concepções onto-lógicas. entretanto. vale dizer.

A história do homem seria assim a história da cultura. mistas (de que seríamos um bom exemplo).e a historicidade das culturas que se revela. para a esquerda. cristã patrística trinitária I/D. ela se concentra exclusivamente sobre a questão de quem deva ser o sujeito da ciência: para o paradigma anglo-saxão. são seus próprios modos “desviantes”. Hoje. do sujeito inconsciente cultural. do sujeito coletivo ou comunitário (I/D).seu nível lógico operatório . pré-I (uma proto-identidade que ainda se ignora) seguem-se as culturas neolíticas ou imperiais antigas de base agrícola. para a direita. como demonstrado pela História. No entanto. de transição etc. dentre outras maneiras. A religião. D/D=D/2. Esquerda e direita. lutando pelo perfeição ética (I/D).não há quem não esteja a seu favor -. a rigor. modos simétricos de um delirante estado almejado de perfeição. greco-romana. tem por essência a sacralização e guarda de seu núcleo lógico invariante. em cada cultura. I. O desvelamento de uma lógica implica necessariamente que dela se alcance uma representação simbólica objetiva. telúrico ou libidinal (D). romântico.20 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A conciliação entre a tese da equivalência de todos os homens no que lhes é essencial e distintivo . trata-se do sujeito liberal (I). pela perfeição estética (D). Estas formam a seqüência das culturas nodais. mas a própria complexidade do processo hiperdialético permite uma série de tipos não nodais: anômalas. Depois vêm as culturas propriamente lógicas: judaica. pois. é resolvida por Sampaio concebendo a história humana como história do insistente (mas não monotônico) autodesvelamento do seu próprio ser lógico-qüinqüitário [14]. A visão ideológica da Modernidade não tem a menor preocupação em fazer a crítica da ciência . nada podem contra a Modernidade. na linhagem das culturas lógicas identitárias (culturas do tempo. D. do Deus único. domina a cultura moderna. a direita. processo hiperdialético de desvelamento do seu próprio modo de ser lógico. científica.. a Modernidade só será superada por uma cultura nova. pré-D (uma proto-diferença). Começa-se com as culturas tribais de caçadores/coletores do paleolítico. na variação temporal de seu vigor criativo. prometéica. A esquerda. na enorme disparidade de poder de determinação de uma sobre outra. A cultura moderna está associada à ciência e à lógica clássica formal que a governa. para Paul .

Como fazê-lo sem antes iluminar o horizonte de sua superação possível? A re-historicização da Modernidade é para Sampaio uma condição sin ne qua non para hoje pensar (e agir) subversivamente. toda cultura finge já ser ou incorporar as virtudes daquela que a ameaça e esta. terá que necessariamente desmascará-la por este estratagema. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. Ao sentir-se ameaçada. fica a lógica da cultura que irá suceder à cultura de referência. pode enfim abrir novos caminhos para uma melhor compreensão da efetiva articulação entre ser-social e ser-pessoal. o desejo da cultura. De outro lado. uma nova utopia em seu justo sentido. o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. conhecimentos. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. sob “forma” ou “roupagem” sacralizada. técnicas e múltiplas artes. que busca sem descanso recuperá-lo. Sampaio propõe que se correlacione uma cultura não só com uma lógica manifestamente assumida (oficial ou sacralizada). Isto nos faz compreender. afinal. pensada por sua lógica oficial. Segundo Sampaio estaria aí identificado: . Como diz Sampaio: Toda cultura. mas também com a lógica que ela supera e recalca. convenhamos. Para se alcançar uma mais exata compreensão da dinâmica cultural. simula ou finge ser o que ainda virá. porém. isto é.. assim como com a lógica da cultura que a irá suceder. ou seja. para Toynbee) [15] enfim. como as culturas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 21 Tillich. similar ao desejo inconsciente pessoal. para superá-la. instituições. culturas espirituais. é o melhor que poderia . que.. O ser correlato à lógica recalcada acaba se transformando no objeto de desejo da cultura de referência. que por isso irá se constituir em lógica de seu permanente desassossego. A efetividade da crítica e dos esforços para a superação da Modernidade exige portanto sua prévia re-historização. através de um processo de reiteradas substituições.[16] Esta concepção parece ser de grande importância teórica na medida em que o reconhecimento de um desejo social.

seja capaz de dar conta das passagens críticas do processo histórico cultural. de modo confesso. racional. como encontrar um bom contra-exemplo para pô-la em cheque? Em contrapartida os exemplos favoráveis não faltam.22 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. A propósito disto. se irá ver a cultura medieval cristã antecipar-se fingindo-se já Moderna. Sampaio identifica a física como o cerne da Modernidade em razão de sua obsessiva pretensão de medir (D/D) o mundo tido como simples manifestações do unotrino (I/D). mks. à primeira vista. nesta cultura. etc). não se exclui desta perplexidade. à vista da aproximação da era da ciência. enfim. Sampaio chama a nossa atenção para a grande quantidade por aí de “museus abarrotados de arte sacra” cristã. mas aristotélico-tomista (D/D). [17] Acredito que. Tal desejo encontra precisamente na arte sua melhor expressão metafórica. na circunstância. então. Por outro lado. chega-se a uma compreensão da história da física de inexcedível clareza [18]. não haja quem não desconfie que um tal esquematismo. seu real desejo será da ordem da lógica que a antecede. lógica da diferença (D). seria preciso observar as manobras de fingimento que denunciam o grau de temor da Modernidade em relação ao seu futuro. assim tão drástico. os acontecimentos são por demais claros e “auspiciosos”: . não mais platônico-agostiniana (I/D). Não se pode por isso mesmo relaxar na vigilância dos sinais que possam testemunhar do vigor da física. seria que o esquema não falhasse na compreensão da Modernidade. mormente em seu momento atual. o corpo. cgs. escolástica. mas sob a “forma” incorruptível ou espiritualizada (I/D). Aí. Mais importante do que tudo. porém. como o da cultura cristã trinitária. assuma um papel de excepcional relevância. pois não há melhores indicadores do real nível de vitalidade da Modernidade. espaço e matéria (por isso. Até o próprio Sampaio. são bastantes os sistemas de medidas. Depois. ou seja. fazendo com que ela. Como cultura dialéticotrinitária (I/D). A partir daí. Isto nada mais é do que querer ver o mundo reduzido a apenas três variáveis fundamentais .tempo. A impressão é que melhor não se poderia pretender.

As ideologias têm de comum o propósito de apenas substituir o sujeito individualista sujeitado à ciência por um outro: a esquerda. etc. sem mais. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! [19] Como recusar tantas e tamanhas evidências?! Para Sampaio seria esta a hora de agir. Ele acredita que dualismo há. Sampaio não nega a condição de marginalidade nem o malestar daí decorrente. sempre com a mesma implícita conotação econômica. mas desconfia da natureza que em geral se lhe atribui. menos retrospectivo do que propriamente prospectivo. Haveriam sim dois brasis. As opções culturais brasileiras – luxo ou originalidade (e seus riscos) Existe um quase consenso acerca de que o Brasil ocuparia uma posição de marginalidade em relação à Modernidade. etc. sem jamais esquecer ou menosprezar as grandes lições da História (da cultura). aquela condição marginal tem sido diagnosticada como a conseqüência de um persistente dualismo: Brasil moderno/Brasil arcaico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 23 Na TV e por todo canto. pelo . já. se assistirá à reação desesperada: a ordem virá para a degola dos recém nascidos. todos os dias. como se reservando para algo maior ainda por se realizar [20]. Ademais. ter problemas crônicos de nela ingressar. tal como interpretada pelas elites políticas e intelectuais da nação.a vida eterna. em última instância. Ou será que. Isto traz implícito que teríamos mesmo uma só destinação . Parece-lhe paradoxal que uma nação nascida com a própria Modernidade possa. Como sempre. Já houve um grande esforço para se chegar a uma interpretação ideológica da marginalidade brasileira e Sampaio debita seu fracasso a causas que lhe são imanentes. um imerso na Modernidade. biblicamente instruídos. mas com toda a prudência. 3. a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . Esta seria nossa razão de ser histórica. outro que a ela se recusa. a boa nova: os prodígios da biopirotecnia.alcançar o atual paradigma social anglo-saxão. o que justificaria os seus ingentes e continuados esforços para superar tal situação. tida como de atraso. mas bem outra sua natureza: ele seria mais cultural do que econômico. Brasil-Bélgica/ Brasil-Índia.

fosse à direita. para além da Modernidade científica e “mercado-lógica” existe a esperança. A única saída viável estaria em investir numa crítica da cultura capaz de desbloquear o horizonte histórico. pelo sujeito romântico ou libidinal. Volta ele então à Historia do Brasil para compreender que sua marginalidade é também de certo modo resistência propositada. faz as vezes de profeta. Esboçando as características mais marcantes da cultura nova. o que no fundo traduz idêntico desejo por um capitalismo perfeito. econômicos e culturais. a crítica ideológica é o que mais pode desejar o pensamento único. E chama a atenção que nas circunstâncias atuais. a direita. na medida em que ela não admite qualquer possibilidade de que se transcender a cultura em que se vive. Assim. Conforme Sampaio. uma concepção da história da cultura como auto-desvelamento do ser lógico do homem é o bastante para re-historicizar a Modernidade e iluminar o horizonte de sua possível superação. mesmo que não seja esta sua intenção. fosse à esquerda. como para além da lógica clássica existe uma lógica hiperdialética qüinqüitária. Sampaio. É também por isso que Sampaio acha insuficiente a crítica frankfurtiana. bem como as oportunidades de ação cultural que ao mesmo tempo acelerem e minimizem os custos (historicamente enormes) do processo de superação da Modernidade. esperança bem fundada de uma nova cultura. todos nós estaríamos capacitados a de pronto perscrutar os sinais de fraqueza e declínio. mas ocupando todos os lugares?! Jamais houve ou poderia ter havido saída lateral. o que leva a uma angustiosa inação [21]. o Brasil se caracteriza pela confluência de um amplo leque de culturas.24 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito coletivo. dificulta a sua . para evitar maiores riscos. relativizar a Modernidade permitindo que a vista alcance mais além. Ele mostra que dentre elas estariam a re-significação cósmica [23] e religiosa [24] do homem e a completa renovação das relações indivíduo/sociedade sob os aspectos políticos. Com o descortino dos mecanismos lógicos da dinâmica cultural em Desejo. que é sua especialidade) os seus velhos inimigos para que por aí fiquem vagando impotentes. seus beneficiários não se disporiam até a ajudar (financeiramente. que se por um lado. Fingimento e Superação na História da Cultura [22]. Como se viu anteriormente. Quem sabe.

em entrar para o “Primeiro Mundo”. no único perigo real para a cultura dominante e também por isso. a seus cálculos. quanto ao limite expressivo) e da nossa música em todas as suas variantes. a causa vale a pena. muito ao contrário. e tenta a todos seduzir ofertando a vida eterna aqui mesmo na Terra através dos poderes cada dia maiores do que ele jocosamente chama bio(piro)tecnologia. tanto denotativo e preciso. mostram insistentemente todos os meios de comunicação de massa. Por tudo isso. em especial. Afinal. em especial. mas pode alternativamente lançar-se na grande aventura da construção de um novo modo de ser pessoal. quando desesperada. finge-se pós-modernidade. Mas de qualquer modo. mas duas: ou o luxo ou a originalidade. bem outra é reconhecê-lo ou não como acontecimento. E que portanto o Brasil não tem uma só destinação possível. A cultura dominante. Deduz-se daí que a opção pela originalidade não está isenta de grandes riscos. como nos instrui o Velho e o Novo Testamento.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 25 modernização. Pode por isso continuar insistindo.a continuada traição das elites políticas/econômicas e a alienação das elites culturais. estamos sim onde tudo a rigor começaria. coletivo e cósmico. talvez. No caso presente. mas não o vimos aportar a solução: o ódio das elites ao povão . ela irá. fica um sério problema que ele identifica. ordenar a degola dos nossos terroristas recém-nascidos onde. estaria a preservação com unhas e dentes das condições mínimas vitais para a criação e circulação da produção cultural brasileira e. Sugere Sampaio que o Brasil se constitui. a TV. que seria aquela do esmorecimento do vigor criativo dos laboratórios científicos centrais. não estamos onde tudo acaba. a defesa da língua (pelo uso. já hoje finge ser sua própria posteridade. No cerne desta estratégia. deve-se desenvolver em e para o Brasil uma estratégia cultural para sobreviver até à chegada da melhor hora. Apreciar e mesmo julgar um trabalho intelectual é uma coisa. a fazer nascer no mundo uma nova cultura. a seu ver. ao que pudemos perceber. aqui se concluiria. ainda que um pouco tardiamente. constitui a base necessária à edificação de uma cultura nova realmente após moderna. E. entretanto. estes possam ser para ela mais perigosos. qual a significação última desta desmedida NARRATIVA de Luiz Sergio Coelho de Sampaio jus- . para os próprios brasileiros. por outro lado. Fosse o caso geral. No entanto. vale dizer.

Oficina do Autor/etc. Problemática do culturalismo. acerca do advento da cultura nova pós-científica” in Pensamento original made in Brazil. Indiana U. 1999. ______. “Acerca da lógica e da cultura”. acabando de acordarem que a grande narrativa simplesmente não há?! Aquiles Côrtes Guimarães do Departamento de Filosofia do IFCS-UFRJ NOTAS 1. Rio de Janeiro. 7. Segundo Sampaio. fasc. op. 2. S. capaz da piedade (Rousseau). HEIDEGGER. “Noções de antropo-logia”. S. aliás. P. 1999. já está em Nietzsche. cit. e também “Sumário das contribuições à filosofia da parte de Luiz Sergio Coelho de Sampaio”. Por fim.os neohegelianos. SAMPAIO. Rio de Janeiro. 8. Bloomington. L. Aquiles. Antônio. logicamente otimistas. PAIM. S. EdUERJ. Paulo. isto é. “A grande tarefa de nosso tempo: Uma nova filosofia” in Revista brasileira de filosofia. Rorty). capaz de se por na pele do outro (simbolicamente expresso pelo uso . de. C. Sumário das contribuições à filosofia. 10. SAMPAIO. Incluído no volume ora prefaciado. 6. Rio de Janeiro./FINEP. pode-se dizer que os cordados são dotados de uma dupla pele. Paulo. in Pensamento original made in Brazil. 1998. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. de. 1995. EDIPUCRS.. que em O livro do filósofo afirma: “Não se trata de aniquilar a ciência. “Reflexões. S. Rio de Janeiro.” 4. novembro de 1994. M. abril/junho 1999. L.194. CÔRTES GUIMARÃES. ser vivo implica ser dotado de uma membrana osmótica – a primeira pele. Tendências da filosofia brasileira contemporânea . 5. CÔRTES GUIMARÃES. mas de dominá-la. 1988. C. 2000. “Lógica da diferença” in Revista brasileira de filosofia. Esta disposição geral.26 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tamente neste momento de convergência do pós-moderno europeu continental e do pragmático anglo-saxão transatlântico (especialmente. S. Hegel’s pPhenomenology of spirit. de. op. 189. 9. L. Dado que o sistema nervoso central deriva da invaginação do próprio ectoderma. fasc. 3. ______. Projeto de pesquisa para o CNPq. SAMPAIO. cit. Porto Alegre. C. o homem. Aquiles.

logicamente otimistas. novembro de 1999. L. C. cit. op. Rio de Janeiro.um novo fundamento e uma significação renovada”. L. UAB. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”.______. Tillich. 13. 1999.______. de uma terceira pele. ______. op. novembro de 1999. julho de 1999. cit. outubro de 1999.______. Rio de Janeiro. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. cit. 23. “A superação das idolatrias . 16.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 27 de roupas ou pinturas corporais). Incluído no volume ora prefaciado 17.______. figuradamente. “Desejo. “A superação das idolatrias . Incluído no volume ora prefaciado. SAMPAIO. 1993/1997 e. “Reflexões. Incluído no volume ora prefaciado. cit. . 19. S. op. 21. cit. Ibid. “Desejo. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. “Princípio antrópico . de. 14.______. op. 12. ______. Incluído no volume ora prefaciado. C. Rio de Janeiro. 24. fingimento e superação na História da Cultura”. setembro. Apontamentos para uma história da física moderna. “Noções de Antropo-logia”. op. 11. 15. Rio de Janeiro. S. Incluído no volume ora prefaciado. de. fingimento e superação na História da Cultura”. cit.______. Hegel e Marx”.______.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. op. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. “A história da cultura segundo Toynbee. “Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira”. Incluído no volume ora prefaciado. mais recente. SAMPAIO. seria dotado. acerca do advento da cultura nova pós-científica”. 1998. 22.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”.______. 20. “Crítica da modernidade”. Rio de Janeiro. 18. Ibid.

cortada e as partes defumadas pelo formalismo imperante. hipótese aventada por LévyBruhl e que teria sido radicalmente banida pela antropologia estrutural lévi-straussiana? E o reflexo. de coração aberto. ganhou-se até agora substituindo o evolucionismo (discurso do colonizador de maus bofes) pelo relativismo multiculturalista (discurso do bem-bom colonizado) ou. Considerar o novo mapa do território lógico. não apenas o que há para . também.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 29 Apresentação O que se pretende? Inicialmente. uma filosofia da cultura? Por que existe a cultura e não somente nada (de cultura. Recomeçar: preliminarmente. às vezes. além da etnologia. pelo mais inócuo: o exercício de vasculhar receitas em antigas farmácias homeopáticas. ou sobretudo.este é modo preponderante do “acontecer” no Brasil -. da sociologia da cultura. tão só. natureza)? Pôr em dúvida: estaria mesmo encerrada a disputa acerca de um suposto pensamento pré-lógico dos “povos primitivos”. acolhendo. aqui . não garante verdades de bom peso. até pelo contrário. lógica que há muito parecia morta. estatísticas de importação de secos e molhados ou faturas sacadas contra a Santa Casa da Misericórdia? É óbvio: nisso não há mal algum. a lógica ressuscitada. das antropologias de diferentes matizes. de tal querela? O que. refletir: por que. isto é. na verdade. mas.

de mil maneiras. Fixar. por obra e graça da biopirotecnia que se anuncia. em novos termos (vale dizer. justo por tanto. Não há saída nem à esquerda nem à direita. em todos os jornais impressos e nos horários. mistas. sem descanso. atentar para o seu desejo. logo. calculado na cruz – e não se deixar enrolar pela promessa da vida eterna now. tida esta como apenas um modo metafísico de ser do homem (Heidegger). primeiro e único. Escarafunchar a dinâmica cultural em sua essência: desejo. das primeiras originarse-iam. mesmo reconhecendo os méritos. E. Revisitar: a história da cultura doravante considerada como o processo do paulatino (nem monótono. sim. a partir daí. de transição etc. as raízes de uma antropologia lógico-filosófica – o homem como ser mundano lógico-qüinqüitário.30 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recuperar. teríamos que considerar pouco mais que meia dúzia de culturas nodais e inúmeras culturas não-nodais – arcaicas. desde os gregos). das TVs. Chegandose à Modernidade. Retomar: agora. nem monotônico) auto-desvelamento do ser lógico-hiperdialético do homem (uma renovada fenomenologia de um espírito mais elevado. mas nem por isso tornado santo ou absoluto). posto inteiro na ciência. assim como as enrolações . Um zoom sobre as origens e fases da Modernidade para melhor inspecionar-lhe as entranhas (como foi um dia prática de adivinhos). mas igualmente o que há para se avançar e conquistar. desde os pequenos bandos de caçadores/coletores do paleolítico à atualidade. também. fingimento e superação na história da cultura. Por conseqüência. – que. Descartar as ideologias por impotência e. especialmente. não nos basta a crítica da técnica. na física – o unotrino sob a roupagem lógica clássica formal. desnecessariamente violentas (é só somar seus mortos empilhados ou no ar volatilizados ao longo do século XX). bem à vista. a temática lógica/cultura. dos nobres aos mais pobres.

de qualquer maneira. em suas dimensões política. do caráter não extensional pela autoreferencialidade. Três idéias que se poderia dizer kantianas. nem que seja um mero “buraco de verme . Ganhar. Forçar. econômica e propriamente cultural. vermelha e negra por todos os lados. Resistir: olhar e não desviar os olhos do que se verá. da cultura hegemônica etnocida e suas cúmplices e/ . a re-historização da Modernidade. e avançar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 31 comunicativas em que se transmudou a badalada Escola de Frankfurt. de outro lado. com fundamento na substituição preventiva. também copiando) o fascismo. se arriscar na criação de uma nova cultura. mas também não amarelar. Anunciar bem alto: temos opções – de um lado. Pintar e bordar com linha grossa – é o que nos é hoje permitido – como a cultura nova implicará na re-significação do homem sob três grandes aspectos: cósmico. naturalmente. apesar da grande armação. mas infelizmente se deixou dobrar frente à fantasiosa onipotência do discurso científico. não fora a troca que fizemos da temática da alma por aquela do indivíduo/sociedade. esta bem mais sutil. não enrubescer. escolher o que. criminalizou todo e qualquer ato de legítima defesa cultural (com exceção. não deixar qualquer falsa passagem. já nos espera. acima. por sua vez. pois não há outra alternativa metodológica à crítica lógicofilosófica da cultura. faturando (de certo modo. Cassirer compreendia e queria assim. a certeza de que uma cultura nova lógico-hiperdialética advirá. que. Enfrentar a questão cultural brasileira na presente conjuntura. Concitar à resistência: assumir os riscos da opção pela cultura nova lógicohiperdialética. Tão propositada quanto obsessivamente. religioso e social. então. este. driblando a censura branca . se assanhar e se prostituir com as sobras da Modernidade. escolher o luxo (que agora já é lixo) ou a originalidade.

posto que a causa. não se deixará superar sem antes ordenar a degola de todos os supostos terroristas recém-nascidos. é preciso se fazer estratego: se abaixar no mato ou fugir. Estampar o registro de pelo menos uma dentre as muitas intervenções por nós realizadas em foros governamentais e acadêmicos. E. Por isso. deixando claro para as histórias futuras que a traição das elites políticas e a demissão das elites intelectuais do Brazil nunca foi assim tão ingênua quanto de costume. depois dos fatos acontecidos. hoje. tenha sobrado alguma coisa!). Ouvir com seriedade o alerta bíblico reiterado: a Modernidade. depois que chegamos ao ponto de ver um Presidente da República e seus pares quadrilheiros tramaram a substituição do sufixo BRAS no nome de uma empresa brasileira por considerá-lo depreciativo. para o Egito. por algum tempo. coincide já agora com aquela da restauração da legalidade.32 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou associadas). como qualquer outra cultura lógicodiferencial. da compostura da autoridade e da dignidade da nação (na hipótese que desta. este texto passa a ser também um brado de protesto e uma clara conclamação à resistência ativa e por todos os meios efetivos e eficientes. no fundo. tentam elas nos fazer acreditar. . posto que a escolha fundamental terá que ser sempre a liberdade e não as águas do Nilo. Ter bem presente que é para voltar tão logo se possa.

antropologias de diversos matizes . a etnologia. também.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 33 1 Porque. a arqueologia” das culturas (ou das mentalidades) e. explicitando inter-relações funcionais entre os múltiplos aspectos. A antropologia. Cassirer – Logique des sciences de la culture Por que também uma filosofia. E. a antropologia especificamente cultural. ainda que um tanto redutora. a sociologia da cultura? Poder-se-ia argumentar que a etnografia e a etnologia cuidariam apenas de culturas particulares: a primeira. mais de mériter ce bonheur. funcionalista e estrutural -. se para cuidar da cultura já temos a etnografia. a história da cultura (ou das civilizações). muitas vezes lidando com informações de segunda mão. estudando as relações com o meio geográfico. procedendo a análises comparativas inter-culturais e a descrição e avaliação de eventuais processos interativos entre culturas [1]. estribando-se sobretudo no trabalho de campo. por um viés mais compreensivo.evolucionista. a segunda. et c’est la seule chose qu’elle puisse leur donner. uma filosofia da cultura Ce que la culture promet aux hommes. elaborando modelos. ce n’est pas de gagner le bonheur suprême. por um viés fenomenológico/descritivo. ao se perguntar pelo homem em .

os processos de reprodução dos seus poderes e de sua integridade. A arqueologia das culturas ou das mentalidades. procurando delinear uma totalidade/processo em que as culturas se apresentam apenas como momentos de relativa estabilidade. neste quadro de referência. A partir daí confunde-se o ser homem e ser cultural. admite que a integridade do sercultural corre por conta da cerrada e coerente trama de relações entre os seus diversos aspectos e dos seus mecanismos internos de auto-regulação. deixando o resto a cargo de antropologias vizinhas: para a antropologia econômica ficam os processos de reprodução material do grupo concreto.34 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO geral. A antropologia cultural é quase um pleonasmo. A história das culturas. prefere ver a cultura como sendo a realização de imensa teia descentrada de relações. A sociologia desde suas origens se assume ciência positiva. configurando uma mentalidade ou o “estilo de vida” de uma época. por definição. Em sua versão evolucionista ela se preocupa em adjudicar posições mais ou menos retardatárias numa escala que iria da animalidade à cultura do antropólogo em exercício. das possibilidades combinatórias de uma matriz ou estrutura formal subjacente. em boa medida. irredutível. inconsciente para seus portadores. topa de imediato com a cultura como sendo seu traço mais essencial. representações e fórmulas rituais religiosas etc. assume um ponto de vista dialético.). à exaustão. mas se justifica pela seleção e ênfase que dá às manifestações propriamente simbólicas (língua. todos eles justificados por sua contribuição à sobrevivência do grupo. a sociologia da cultura vai se apresentar como o estudo do sub- . em sua versão estruturalista as culturas se apresentariam como realizações. para a antropologia política. funcionalista. já menos antipática. que se aproxima da antropologia estrutural. tomando a sociedade como um objeto em si (sistema social). com elevado grau de congruência. arte.

não se distinguiria de uma ontologia fundamental. Ela de fato sempre esteve presente quando se perguntou de modo radical e sem preconceitos. a especificidade da filosofia da cultura recairia justamente no enfrentamento daquela mesma pergunta. para afirmar ou para negar. sinteticamente expresso por Leibniz [2]: por que existe algo e não tão somente nada? A filosofia. ao lado do sistema econômico e do sistema político. pela essência última da cultura. a etnologia e a filosofia da cultura: a primeira teria uma preocupação apenas ôntica. fosse onde fosse. que podemos já agora identificar como sendo Natureza). Bem. com ares de certa gravidade. Isto posto. valeria compararmos. desta sorte. filosofia da cultura. Para ilustrar. voltada para o esclarecimento da diferença originária e abissal entre cultura e nada de cultura (Natureza). Estariam também no círculo das preocupações da filosofia da cultura (ou da antropologia filosófica) .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 35 sistema cultural (ou simbólico) de uma particular sociedade. depois de tudo isso. enquanto que na filosofia da cultura a preocupação básica seria onto-lógica. para descartar ou subsumir é tradicionalmente aquele da pergunta pelo ser. transladada agora para o âmbito regional da cultura: por que há cultura e não tão apenas nada (de cultura. Não queremos dizer aqui que a preocupação ontológica seja coisa inteiramente nova no âmbito dos estudos da cultura. pelo ser do homem. que poderia trazer ainda de novo a filosofia da cultura? O ponto de vista da filosofia. ínclita guardiã da diferença onto-lógica. diferença primordial entre o ser e o nada. No cerne da filosofia da cultura estaria pois a pergunta pelo ser da cultura. O que se quer aqui precisamente enfatizar é tão apenas que um tal questionamento não poderá deixar de estar presente de maneira conspícua num texto que se intitula. por exemplo. de dar conta da diferença entre culturas estatuídas e até mesmo de universais culturais.

a divergência se deve a que o critério de seleção em Kant é francamente negativo . O critério de escolha das idéias/contextos. totalidades não acessíveis à experiência e. por fim. qual o significado real das relações indivíduo/sociedade? Somos quase que imediatamente impelidos à comparação destes três contextos . A experiência de qualquer autêntica obra de arte . é necessariamente referencial de si próprio. por conseqüência.o cosmos. enquanto que o nosso é intencionalmente positivo .com as três idéias da razão pura kantiana. a impossibilidade de uma efetiva totalização experiencial -. que representa a condição de ser-social do homem ou. o Absoluto. O cosmos precisa ser seu próprio referencial (eis a razão profunda das discussões acerca do papel da teoria da relatividade na cosmologia). A nosso juízo. pode facilmente nos instruir sobre o que significa ser. sem referentes objetivos [3]. Destoariam elas em apenas um ponto: onde pomos a sociedade. a auto-contextualidade social se torna também imperativa na medida em que reconhecemos na cultura o fundamento último da unidade do sersocial. chegaríamos à conclusão que três grandes questões se nos impõem: Primeira. qual o sentido da existência humana frente ao Absoluto. não deve ser pois a perigosa infinitude [4].apenas uma grande obra bastaria -. o Absoluto e a sociedade . qual o sentido da presença do homem no cosmos? Segunda. quase que só pelo nome. ainda que de maneira si- .a auto-referencialidade. de modo equivalente. ou seja.36 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tudo aquilo que de mais relevante houvesse no sentido de garantir a consistência da resposta dada à questão: que é o homem? Se aceitarmos que a significação é sobretudo uma exigência de contextualidade. mas a auto-referencialidade. ele põe a alma. dado que o que aí se está buscando é um sentido último.a infinitude. a nosso juízo. qual seria sua significação em âmbito religioso? Terceiro.

muitas vezes. Já circula amplamente nos meios mais cultivados [5] a hipótese de vigência do chamado princípio antrópico. que consideramos inevitável. e isto. o econômico e o propriamente cultural. de parte a parte. naturalmente.e a existência da espécie humana. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão. uma renovação profunda das concepções onto-lógicas vigentes [7]. Somos de opinião. lembremos o já acontecido com todos os positivismos e o que hoje acontece. no nosso entendimento. segundo as três dimensões fundamentais do ser-social – o político. A relação indivíduo/sociedade [8] precisa ter sua compreensão radicalmente revista para que se afaste em definitivo a simplória conotação topológica conteúdo/ continente que. talvez. A filosofia. Os caminhos para tanto pressupõem.estreitamente dependente dos valores de um pequeno conjunto de constantes universais . A filosofia da cultura. cremos que nada há por enquanto de relevante. recuperará o seu interesse maior. o referencial de si mesmo! A questão da significação cósmica do homem vem sendo completamente renovada em função dos recentes progressos da cosmologia científica. bem sob nosso olhar. Quanto à significação religiosa. com a psicanálise. Só para exemplificar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 37 mulada. até de maneira radical. de costume. o próprio Criador) a dar testemunho daquele processo [6]. entretanto. e isto ocorre. estabelecendo um compromisso originário entre o processo cósmico (hipótese do big bang) . se lhe dá. indivíduo e sociedade. que afinal. já pelo que lhe vem da tradição. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. convenhamos. é única (afora. não . pelo fato da filosofia não se recusar a atribuir seu próprio status àquilo mesmo que a nega. é um saber com a peculiaridade de incorporar sua própria história. Sem isto torna-se impossível perceber a complementaridade onto-lógica que condiciona.

deve ela também se interessar pelas novas oportunidades de testes de coerência e adensamento da significação de suas concepções e até por acompanhar os movimentos de aberta contestação às suas posições conceituais. econômica. na etnologia. e de tudo mais que à sua volta acontece e que por natureza nela e por ela reverbera. Assim. . nos saberes psíquicos e vai por aí a fora. em todas as antropologias específicas (política. nas histórias de longo curso. E estas oportunidades estão por toda parte: para começar.38 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO deveria se constituir numa exceção. Em suma. sem restrições de qualquer sorte. na lingüística. cultural). a filosofia da cultura é sobretudo o exercício do auto-conhecimento da própria cultura.

a ontologia tende a confundirse com a lógica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 39 2 Bases lógicas para uma antropologia filosófica J’appelle philosophe contemporain celui qui a le courage de traverser sans faiblir la antiphilosophie de Lacan. tentar satisfazer nossa curiosidade acerca da situação atual e das perspectivas brasileiras sob este crucial enfoque. na medida em que defendemos uma estreita correspondência entre ser e pensar. e que buscaremos também aqui resgatar. o que para nós seria o mesmo. Ils ne sont pas nombreux. em consonância com uma velha tradição que remonta a Parmênides. Alain Badiou. seguindo um pouco mais além.1 – Preliminares . de uma antropologia [1] e. mas naquele que esteve sempre presente no curso da história da filosofia. não obviamente no sentido restrito que esta última vem assumindo nos meios acadêmicos. 2. aliás. Nesta concepção filosófica. Conditions Nosso principal objetivo aqui é apresentar as linhas gerais de uma antropologia filosófica ou. que serão fundamentalmente lógicos. Tudo isto irá requerer a exposição prévia dos nossos supostos filosóficos. passa por Platão e chega até Hegel.

seria a lógica do outro. e mais ainda o pensar hiperdialético (pensar síntese do um.2 . o ser capaz de discurso. lógica I. a segunda. até hoje mal cernida pela tradição . do pensar inconsciente. a lógica clássica ou aristotélica. lógica implícita do cogito cartesiano. c) Existem duas lógicas fundamentais. su- 2. b) A tematização de um modo de pensar e a sua expressão discursiva arrazoada ou paraformal constituem uma lógica. lógica do pior (Rosset) etc.A lógica ressuscitada . do pensar consciente. do transcendentalismo fenomenológico de Husserl . vale dizer. considerado isto de uma maneira mais geral. porém. ou. o “ilógico” nietzschiano. lógicas que não podem por qualquer modo ser uma “derivada” da outra. lógica do paradoxo (Kierkegaard). do sujeito transcendental ou crítico da ciência em Kant. a primeira. igualmente onto-lógicas – seriam as seguintes: a) Ser e pensar são. mas nenhuma pôde ou poderá neste mister exceder aquela cuja especificidade é a forma abstraída. do múltiplo e do múltiplo do múltiplo) que visaria o ser humano.lógica do coração (Pascal).por isso a denominamos lógica transcendental ou da identidade. por sua peculiar natureza as lógicas historicamente atingem diferentes graus de formalização. ou ainda. que inclua não apenas o pensar que visa o um. que iremos denominar lógica da diferença ou. logos heraclítico (segundo Heidegger).40 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As nossas principais teses lógicas – como já dito. já bem identificada pela tradição. de algum modo. mas também o pensar dialético (pensar síntese do um e do múltiplo) visando a idéia (Platão) ou ainda a História (Hegel). sumariamente. seria a lógica do mesmo. lógica do significante (Lacan). o mesmo.

onde I faz o papel de elemento neutro ou nulo à direita [3]. A é algo por constituição sempre bem definido. A segunda. que não seja aquela de primeiro lugar à esquerda. na verdade. Teríamos assim as lógicas derivadas I/D. o que já não acontece com não-A que carrega inexoravelmente uma certa franja de indefinição dada a inesgotabilidade (pelo menos prática) do mundo. o produto cartesiano. I/D. D/D = = D/2. I/I/D/I= I/D. lógica do terceiro excluído. doravante. Para contornar esta assimetria fazemos uma primeira diferenciação D1 discriminando S e não-S (ver figura 2. será identificada à lógica clássica ou aristotélica. I/D/D= = I/D/2. portanto. D}. como por exemplo. pode ou deve ser desprezada. 41 d) Todas as demais lógicas “derivariam das lógicas fundamentais. D/D = D/2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE mariamente. Esta última designação tem um sentido profundo. contratualmente . e) A primeira lógica derivada. o degrau um daquela. Estas denominações sintéticas das lógicas constituem um semimonóide [2] livre gerado pelo conjunto {I. porque uma simples diferença A e sua negação não-A não formam uma par simétrico. por exemplo. ou ainda (D)/(I/D)/(I)=D/D. através de uma operação que denominamos síntese dialética generalizada simbolizada por uma /. depois. lógica D. Na prática isto quer dizer que qualquer ocorrência de I na designação de uma lógica resultante da articulação de quaisquer seqüência ordenada de lógicas. esta que passa a ser considerada. é a lógica dialética. síntese das lógicas da identidade e da diferença. ela é uma generalização da aufheben hegeliana. não podendo obedecer ao princípio do terço excluído.a). D/D/D =D/3. I/D/D/D = I/D/3 e assim por diante. que não pode jamais confundir-se com uma operação de tipo matemático ou formal.

Nestas circunstâncias. sim. passa a ser por nós preferencialmente denominada lógica da dupla diferença ou. I/D mais a lógica clássica (ou da dupla diferença) D/D = D/2 e.42 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desconsideramos não-S o que transforma S numa totalidade por convenção.A A = n ª o -n ª o -A D D D Figura 2.Diferença e dupla diferença f) Todas as lógicas derivadas subsumem (superam. agora. a lógica dialética. princípio este por nós considerado como realmente característico da lógica clássica. também a si próprias. D. a si mesma. Assim sendo. interna ou condicionada a S. subsume a lógica da identidade I. ou de mesma natureza. Esta. D/D = D/2 [4]. não-não-A e A passam a ser também equivalentes.a . assim. de modo compacto. já a lógica hiperdialética I/D/D = I/D/2 subsume as lógicas I. ainda por convenção. A e não-A tornam-se simétricos. S im p les d iferen a nª o nª o - D u pla d iferen a nª o . I/D. doravante. por convenção. por exemplo. bem definidos ou esgotáveis. porque ambos são. a lógica da diferença D e. aí então introduzimos uma segunda diferença D2. o que vem constituir uma das formulações do autêntico princípio do terceiro excluído. mas ao mesmo tempo conservam integrando) as que lhe são anteriores e. a si própria. . As demais lógicas sintéticas não foram ainda identificadas e nomeadas por razões que esperamos fiquem claras ao cabo do presente trabalho. por convenção.

d o m u nd o C o res a zu l b ran co ve rm elh o pre to P o s.-1 2 3 S =1 eu . em geral. sem qualquer pretensão de esgotá-los.0 2 ∀x ∃φ(x) D =D 1 . po ssibil. da Id e n tid .b .-1 3 ∃x φ(x ) H =1 1 ∀x φ(x ) A =1 1 . L g ic a .0 . R e p ese n ta ª o L g. GŒ m eo s P e ix es S ag itÆ rio V irg em C an do m b lØ IfÆ O x alÆ O gu m Exu M o d alid a de ne cesse c. Figura 2. im p o ssib. N u m Øric a 1 2 3 4 5 E lem e n to s ar Æ g ua fog o te rra q uinta e ssŒ n. A q u Æ rio E scorp iª o L eª o To u ro L ibra C an cer A ire s C ap ric.ele G eo m Øtric a .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 43 g) Além da algébrica – I. F am iliar p ai m e filha filho fam lia Verb o au x. D. (sign ific an te ) R eal sim b lic o M atem as laca nian o s O p erad o re s Val. c o n tin ge n.Representações histórico/culturais das lógicas . I/D. – as lógicas admitem um sem número de representações outras já efetivamente produzida pelas diferentes culturas históricas. L g ic a D ialØt. inconscientemente. Na figura 2. L g ic a C lÆ ssica H ip e rd ia. C o sm .b apresentamos alguns exemplos. D ifere n . S er ter h av e r esta r am a r?! A n im al Æ g u ia se rpe n te le ª o to uro h om em S ign o zo diac . P r prio s G eo m Øtric a ∃x φ(x ) I =I 1 . etc. A steca Sul O este L este N orte u m b. da L g.tu. D/2. D i-m e n sı es s/L ac an im ag in.

de modo que no todo ficaríamos com um segmento de reta na vertical tendo na extremidade superior um I e na inferior D/0 = I. e assim sucessivamente (ver figura 2.Representações canônicas À lógica I associamos um ponto numa dimensão própria independente daquelas do conjunto das diferenças. À lógica D associamos o segmento de reta. um cubo. por uma pirâmide de base quadrada.c). No caso de I propriamente dita a representação canônica. Como exemplo daríamos a lógica dialética I/D.44 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Vamos agora deter-nos um pouco mais demoradamente sobre o que denominamos representação geométrica canônica.c . um quadrado. três segmentos ortogonais. a D/D/D = D/3. vale dizer. por coerência. o mesmo I em cima e em baixo . de sorte que à lógica I/D/n fica associada uma “pirâmide” em n+1 dimensões. representada então por um triângulo. a D/D = D/2 associamos dois segmentos de reta ortogonais. Figura 2. tendo por base um “cubo” em n dimensões. para preservar a coerência com as demais. e a lógica I/D/2. ou seja. precisaria ser uma “pirâmide” cuja base estaria reduzida a apenas um ponto.

seriam: o unário ou fenomênico correlato a I ( I/D/0 = I/I = I ). I/D. I. da lógica do mesmo.. no plano objetivo são três as lógicas subsumidas. os três primeiros. o trinitário ou objetivo correlato a I/D e o qüinqüitário [5] ou subjetivo correlato a I/D/2. I/D. D. I. 2. respectivamente. às quais irão corresponder.d) I NÍVEL FENOMÊNICO N=0 SER FENOMÊNICO D/ I/D 0 =I SER OBJETIVO OU SIMBÓLICO NÍVEL OBJETIVO N=1 I I/D/2 D DURAÇÃO OBJETIVA 2 INCONSC. h) Somente as lógicas da família I. 1. definem planos onto-lógicos. .Níveis onto-lógicos No plano fenomênico temos apenas subsumida a lógica I à qual corresponderá o ser enquanto tal (ou ser fenomênico).. como seria natural supor. por derradeiro. ditos mundanos. a res extensa (ou a espacialidade) e o ser simbólico (o conceito ou a idéia). (Ver figura 2. D. isto é. a duração (temporalidade objetiva). RES EXTENSA SER SUBJETIVO (PESSOAL OU SOCIAL).. da forma I/D/n com n = 0.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 45 nos mostra tratar-se. no plano subjetivo temos cinco lógicas subsumidas.d . SER DISCURSIVO SER SISTÊMICO NÍVEL SUBJETIVO N=2 I D D/ I/D CONSCIÊNCIA ROJETO HISTÓRIA Figura 2. D/2 e I/D/2.

no plano seguinte.Remanejamento onto-lógico Não é muito difícil compreender: no plano ontológico objetivo I/D visa-se necessariamente uma totalidade que. por exemplo. pela lógica D. a mera agregação de duas novas lógicas . acontece um remanejamento geral do ser visado.e) I I/D D I/D/ 2 D/2 D/0 =I I D I I/D Figura 2. Como conseqüência. porém. através de leis convencionais ou de regras. precisa ser previamente des-totalizada para que possa ser então articulada. a história . respectivamente. i) A passagem de um plano onto-lógico ao que lhe segue não se faz por simples agregação de ambos os lados. ao se passar de I/D a I/D/2 dáse. do lado da realidade visada. seja ele pessoal ou social. o ser consciente como projeto. doravante tornada lógica das regras . precisa ser repensada.46 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que terão como correlatos. vale dizer. o inconsciente (ou ser desejante).D/2 e I/D/2 -. o que estava sendo pensado por D vai necessariamente se deslocar e ser re-pensado pela lógica D/2. na circunstância. o sistema (ou papel organizacional) e o ser subjetivo na plenitude.e . a outras ex-totalidades. de um lado. (Ver figura 2.

mas que deixa de sê-lo no plano subjetivo. e sim alguma coisa muito mais grave: a lógica para poder efetivamente visá-lo. na passagem. que irá visar signos. inclusive. então.f) As lógicas que desvelavam determinados aspectos de realidade são. “im-pensados” e impensáveis”. representativo de uma nova totalidade a emergir no nível I/D/2. a ser de novo pensado enquanto tal. (Ver figura 2. isto é. . A outra posição disponível não é. Um bom exemplo seria aquele do corpo físico pensado por D no plano objetivo. relevantes e unívocos apenas no contexto do discurso visado por I/D/2. vale dizer. no caso de uma eventual doença ou acidente. D/2 e sim I/D. como apenas significantes a serem articulados por regras sintáticas (morfológicas ou gramaticais) D/2 e assim constituir um suprasignificante de um supra-signo ou discurso a ser desvelado pela lógica disponível I/D/2. mas signos contextuais. pois. Chamamos a isto recalque lógico. o que deixa os referidos aspectos. deslocadas para um outro plano. estes passam a ser visados por D. a subjetividade se desagrega e o corpo físico vem. j) Além do remanejamento. no plano subjetivo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 47 constitutivas de um agregado de maior hierarquia. como é de sua natureza. sim. acontece um outro importante fenômeno na passagem de um plano ontológico ao subseqüente e que denominamos recalque lógico. porque a algo estaria faltando mais do que o significante apropriado. agora. do mais conspícuo dentre os saberes científicos – a física. O desconhecimento deste imperioso fenômeno de remanejamento é fonte de dificuldades crônicas em quase todos os campos do saber [6]. onde D passa a pensar o corpo libidinal. Tomemos a semiologia como referência: I/D no plano onto-lógico objetivo pensa os signos.

48 I I/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D I D/ 0=I Pré-I Pré-D D I D/2 I/D Pré-I Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Figura 2. ainda que apenas formal. parcial e total (I/D) e nem . para as quatro lógicas de base: verdade total (I). tome-se a lógica I/D visando.f . no plano subjetivo (I/D/2). Lacan estendeu-a. de impossibilidade da ocorrência de saltos instantâneos. pensável pela lógica I no plano subseqüente. de algum modo. o Deus único (I). l) Heidegger descobriu o comprometimento ontológico da verdade: verdade como alétheia (I) contraposta à verdade como adaequatio (D/2) (ver figura 2.Articulação dos níveis onto-lógicos Existe. no plano objetivo (I/D): o pleno domínio do signo convencional (episódio bíblico do bezerro de ouro) vai se mostrar condição necessária para que se possa pensar. contudo. vale dizer.g). uma exceção justificada por um princípio geral de continuidade do mundo e da vida. da seqüência dos planos onto-lógicos. parcial (D). Isto nos assegura que o visado pela lógica de maior nível de um plano torna-se. Como exemplo. através de seus matemas. o que permite uma articulação.

gozo [7]. para a qual tem-se n = 1. a contar de I/D. isto é. a lei do n+1 excluído. por exemplo. à . I tal que I2 (ψ) = I(ψ) (reflexividade ou lei do pelo menos um) e D tal que D 3 ( ψ ) = D(ψ ) (lei da negação em sua maior generalidade ou lei do pelo menos dois).As verdades Nós podemos agora ir um pouco mais longe.g . alétheia subjetiva. D. em virtude do seu caráter derivado. Assim. na estrutura ontológica subjetiva I/D/2 ). que nada quer com a verdade (D/2). afecção ou percepção e êxtase simbólico (correspondentes a I. vitória [ 8]. na estrutura onto-lógica objetiva I/D). especificamente. D. I/D. adaequatio e amor (correspondentes a I. m) Os símbolos I e D podem ser tomados como operadores. D/2 e I/D/2. HEIDEGGER Adaequatio LACAN Parcial PROPOSTA Amor Gozo D/ 2 D Nem Parcial nem Total 2 D/ I/D/ 2 D I Alétheia I Total I/D Parcial e Total Alétheia Subjetiva Adaequatio D/ 2 V it I I/D r ia Alétheia Objetiva Pré-I Afecção ou Percepção Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Alétheia Fenomênica Figura 2. expresso por Xn(ψ) = ψ. respectivamente. seguindo a seqüência de estruturas onto-lógicas definidas no item anterior: alétheia fenomênica (I na estrutura onto-lógica de mesmo nome). estará associado o princípio do no máximo n ou. o que é o mesmo. A cada uma das demais lógicas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 49 parcial nem total. alétheia objetiva. I/D. respectivamente.

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lógica dialética I/D estará associado o princípio do no máximo um, ou, o que lhe é equivalente, o princípio do segundo excluído, vale dizer, da totalidade, expresso por um operador H, H tal que H(ψ)= ψ; à lógica D/2, que segue imediatamente a I/D, estará associado, como é bem sabido, o princípio do terceiro excluído, expresso por um operador A, A tal que A2 (ψ) = ψ; e daí por diante; n) A homogeneização dos princípios das lógicas e de sua expressão operatória estabelecidas no item anterior, permite que a elas sejam aplicados os mesmos procedimentos formais da mecânica quântica, em particular, o postulado que formaliza o ato de mensuração expresso por Op ψ = lψ[9] onde Op é um operador hermitiano[10] representativo de um determinado instrumento de medida, ψ uma função representativa de um estado de coisas do mundo e λ um número. (Ver figura 2.h) Esta última equação, em associação com a equação caraterística de cada uma das lógicas conforme definida no item m anterior, permite que para cada uma delas seja determinado, de maneira unívoca, um conjunto de valores de λ, designados valores próprios (em lógica, denominados valores de verdade ) do operador em questão.
OP
Med.
1

i t 0

OP
Med. 2

i

* *= a
1 1 +a2 2

i …

i OP( i) = i i

i

Figura 2.h - Lógicas como operadores

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À semelhança do que ocorre na mecânica quântica, na qual o conjunto dos valores de λ representa o “lado objetivo ou mensurável do mundo físico, os valores de λ vão representar aqui a realidade visada pela lógica em consideração. No caso da lógica I, associada ao operador de mesma designação, teríamos como valores próprios 1 e 0 , ou se quisermos, o ser e o nada, respectivamente. (Ver figura 2.i) Já no caso de D, associado também a um operador de mesma designação, os valores próprios seriam 1, -1 e 0, respectivamente, o verdadeiro, o falso e, de duas uma: o paradoxal, se a negação de 0 for tomada como sendo 1; o nem verdadeiro nem falso, se estabelecermos -1 como a negação de 0. Em se tratando de I/D, associada ao operador H, temos apenas o valor 1, identificado com a noção de totalidade lógica. Por fim, no caso de D/2, os valores próprios do operador A que a representa seriam 1 e -1, o verdadeiro e o falso, sem confusão (ou superposição) e sem a possibilidade de qualquer outro valor, vale dizer, de qualquer terceiro; por isso, entre outras fortes razões, a lógica D/2 foi por nós identificada como sendo a lógica clássica.
L. transcendent.
I2=IeIψ=λψ

L. da diferen a
D3 = D e Dψ = λ ψ -1

0

0

1

1

L. dialØ tica
H = 1 e Hψ = λ ψ

L. clÆ ssica
A2 = 1 e Aψ = λ ψ -1

L. q inq itÆ ria
S3 = 1 e S ψ = λ ψ e2πi/3 e-2πi/3

1

1

1

Figura 2.i - Valores próprios das lógicas

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

Constata-se que a lógica D, objetivamente considerada, é dentre as lógicas de base, a mais rica, o que tem implicações antropológicas da maior importância. Este inesperado encontro da lógica com a mecânica quântica não é uma curiosidade, uma simples casualidade; é, sim, um encontro nas profundezas do conhecimento, que não se sabe bem porque, demorou tanto a acontecer; com ele dá-se uma mútua iluminação destes dois saberes cuja extensão não poderíamos aqui avaliar; o) As lógicas diferenciais Dn possuem 2(n - 1) valores próprios e as lógicas derivadas identitárias I/D/n, 2n –1 valores. No caso da lógica I/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; -0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; -0,5 - 0,5 = = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constituise numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) realI/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; - 0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; - 0,5 -0,5 = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constitui-se numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) real
VALORES DE VERDADE DA LÓGICA QÜINQÜITÁRIA
TU - 2 i/3 1 -1/2 -1/2 1 - 3 i/2 3 i/2 ELE

VALORES DE VERDADE DA LÓGICA DA DIFERENÇA -1 FALSO

e

e2

i/3

0 INDEFINIDO
EIXO IMAG.

1 EU
EIXO REAL

1 VERDADEIRO
EIXO REAL

Figura 2.j - Valores próprios de I/D/2

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Partindo destas proposições gerais sobre as lógicas, com a simples adjunção de algumas teses específicas, poderemos chegar a uma sólida antropologia filosófica. Vejamos: a) À diferença dos demais animais cordados superiores que operam a síntese do um e do múltiplo, isto é, I/D [11] e que lhes possibilita o acesso ao símbolo convencional, o homem é capaz de proceder à síntese da identidade, da diferença e ainda da dupla diferença, que o faz um ser lógico-qüinqüitário, ou seja, de nível lógico I/D/2. Isto está empiricamente atestado, dentre muitas maneiras, pela capacidade humana da discursividade (o simbólico articulado pela gramática). A moderna antropologia estrutural, tomando o registro da sexualidade, postula que o homem, do ponto de vista formal, está determinado pela dupla diferença: a primeira diferença, de estofo biológico - macho versus fêmea - e ainda uma segunda, de estofo propriamente cultural, dita diferença clânica. (Ver figura 2.l, a seguir.)
ANIMAL
I D1
Diferença Sexual Biológica

2.3 - Uma antropologia esperançosa

HOMEM
I/D I D1 I/D D2 I/D/2

Diferença Diferença Sexual Clânica Biológica

Figura 2.l - O homem como animal qüinqüitário Se a estas articularmos a identidade - pré-condição necessária do reconhecimento e assunção dos quatro pólos definidos pela dupla diferença chegamos finalmente à síntese por nós proposta: I/D/2 [12]. O caráter identitário (consciente) do homem

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

– descurado pelo estruturalismo, ainda que com atenuantes –, pode ser de pronto justificado se o assimilarmos a uma diferença colapsada [13] que, no registro da sexualidade, seria a diferença sexualmente maduro versus imaturo, na qual, de modo geral, o mesmo ser humano, no correr de sua vida, acaba ocupando as duas posições; b) À lógica qüinqüitária devemos associar um horizonte lógico, um além de I/D/D = I/D/2, a fim de que esta não se torne para os homens, ao mesmo tempo, lógica do Absoluto, tal como se deu com Hegel ao nível dialético trinitário, e que o levou a um iniludível panteísmo. Esta possibilidade do ser humano terá que estar suportada pela vivência de uma falta, que identificamos como sendo a impotência de abarcar ou dar conta, globalmente, de sua própria experiência inter-subjetiva. A lógica do saber sobre uma instância ontológica está necessariamente um degrau lógico acima de sua lógica de referência [14], de modo que, para o ser humano, de nível I/D/2, o saber respectivo será de nível D/D/D = D/3, logo, acima da sua capacidade lógica. (Ver figura 2.m). Em resumo, o ser humano é um ser lógico qüinqüitário incorporando um horizonte lógico que o transcende e que lhe é acessível (conquanto que dependente de uma decisão, visto existir a D/3 D/ 2 opção de considerar a falta como pura HORIZONTE imanência) como I/D/ 2 vivência de uma fal- I/D ta no âmbito de sua experiência de serHOMEM 2 D com-outro, diante D/ da qual ele não pode evitar o risco, deixar I I/D de responder com a Figura 2.m O homem e confiança ou negar seu horizonte lógico o amor;

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c) Pode-se constatar de modo empírico que nada existe no mundo que, no eixo lógico aqui considerado, supere o homem; restitui-se-lhe, assim, a posição pinacular na mundanalidade que, na Modernidade, lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios – das lunetas ao Hubble –, pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. Como conseqüência, doravante, todo saber deve ser considerado saber antropo-lógico: saber reduzido ou parcial (ciências “duras”), saber humano propriamente dito e saber especulativo (teologia natural recuperada) tal como começam a se dar conta alguns cientistas menos blindados quando aceitam discutir, pelo menos em sua versão fraca, o princípio antrópico [15]; d) Como já enfaticamente repetido, o ser humano é de nível lógico I/D/2, lógica que subsume, além de si própria, as que lhe antecedem: I, D, I/D, D/2, estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Isto leva a admitir que no ser humano a sexualidade precise ser re-definida, deixando de ser bipolar (representável por um segmento de reta), como nos outros animais, para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). O par diagonal {I, D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D, D} o feminino; e como (I)/(D/2) tanto quanto (I/D)/(D) são iguais a I/D/D = I/D/2, conclui-se imediatamente (ver figura 2.n) que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano. É importante notar que existem três modos possíveis de clivagem, por pares, das quatro lógicas de base: primeiro, a “sexuada” que acabamos de ver; segundo, a filosófica grega ou ontológica, contrapondo o lógico-identitário (I, I/D) ao lógicodiferencial (D, D/2); terceiro, a filosófica moderna ou epistêmica, contrapondo o “subjetivo” (I, D) e o “objetivo” (I/D, D/2).

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I/D/ D
2

LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
I/D/ D
2

D/ 2

D/

2

I
MASCULINO

I/D

I
FEMININO

I/D

Figura 2.n - Masculino x feminino Não é difícil perceber que, de todas, a primeira é a mais relevante, na medida em que ela é a única verdadeiramente simétrica e que, por isto mesmo, aponta inequivocamente para o mais acima, isto é, para a síntese qüinqüitária I/D/2. Aliás, excluída a tradição judaico-cristã, parece-nos que todas as demais culturas sentiram bem isto, embora constrangidas a expressá-lo pela óbvia metáfora (mito) sexual biológica! e) Todos os homens de todas as culturas são logicamente equivalentes (tese homóloga àquela do estruturalismo estabelecendo a equivalência de todas as culturas em razão da presença universal da lei de dupla face da exogamia/proibição do incesto, com a única diferença que esta é de nível lógico quaternário, enquanto que a nossa, de nível qüinqüitário. Fato é, entretanto, que as culturas ainda assim se distinguem de modo flagrante e essencial, mormente quando em confronto umas com as outras. Para compatibilizar estas duas determinações assim tão contraditórias – sem trapacear apelando a fatores extra-culturais –, não nos resta outro caminho senão o de caracterizar cada cultura pelo nível de desvelamento do seu próprio ser qüinqüitário a que estaria necessariamente associada uma representação objetiva ou simbólica;

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em outras palavras, uma cultura é determinada pela lógica mais ou menos implícita do seu núcleo religioso ou sacralizado – cultura do deus “unário (judaica), cultura prometéica ou do que é somente na medida em que se opõe aos deuses (greco-romana), cultura do deus trinitário (cristã patrística) e assim por diante. Existem culturas que não chegam a nenhum grau de desvelamento de seu ser lógicoqüinqüitário – elas serão chamadas culturas ecológicas –; quando nela predominar a identificação à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-I (cultura paleolítica dos povos caçadores/coletores tendentes ao nomadismo ao igualitarismo e ao xamanismo) e quando predominar a contraposição à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-D (cultura neolítica, sedentária, hierarquizada, dispondo de classe sacerdotal, com escrita e naturalmente escribas, com trabalho ordenado, de base agrícola estável). Desenha-se, assim, uma história da cultura em estreita consonância com uma filosofia da História, cuja essência seria o cumprimento de uma destinação. É preciso, entretanto, alertar que tal cumprimento não seja confundido com aquele implícito na concepção “unária” (I) ou judaica da História, que nos exige a fé para sua consumação; nem aquele implícito na concepção trinitária (I/D) ou hegeliano-marxista, que nos exige o completo engajamento; trata-se aqui, de maneira coerente, de uma concepção qüinqüitária (I/D/2) da História síntese hiperdialética das anteriores - para o cumprimento da qual exigir-se-á tanto a fé inabalável, quanto o irrestrito engajamento. f) Às culturas que correspondem de modo estrito a uma lógica e que historicamente foram as primeiras a fazê-lo, damos a denominação de tipo puro ou nodal (ver figura 2.o); às demais, a denominação de culturas não nodais. Recapitulando, e atendo-nos apenas “Ocidente”, as culturas nodais já

ao mesmo tempo. que tentam a mistura de tipos nodais (os exemplos seriam inúmeros. de base agrícola estável. D (greco-romana). consumado tempos após a realização histórica do mesmo (um bom exemplo é o da cultura islâmica do Deus único radical (I). I. tudo se passa como se I aprisionasse dentro de si. mistura de D com I/D. cerca de 1000 anos após o apogeu da cultura grega (D). mas não chegam a alcançar o tipo nodal subseqüente (talvez o melhor exemplo seja o da cultura egípcia que tenta. D/2 jesuítico. porém. culturas anacrônicas.58 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO consumadas seriam as do tipo pré-I (paleolítica. As culturas não nodais distribuem-se por vários tipos. criada mais de 1500 anos após o advento do judaísmo I. nesta. pré-D (neolítica. mistura de pré-D com I/D para formar um sujeito não sujeitado de D/2!). a saber: culturas de transição. I/D (cristã patrística) e D/2 (moderna. um tipo nodal. não se enquadrariam em qualquer destes tipos continuando a ser consideradas nodais. e aproximadamente 300 depois da consolidação do cristianismo patrístico (I/D) no Concílio de Nicéia. como seriam os casos dos judeus e dos índios brasileiros enquanto não aculturados (se sobrar algum depois do advento da “República nova”?!). caçadores/coletores de tendência nômade). É preciso advertir que culturas nodais a seu tempo. mistura de pré-I dos índios guaranis com o par I/D. tendo I como sujeito intervalar aos sistemas). culturas mistas ou ecléticas. “socialismo moreno”. D e I/D. I (judaica profética). . ficando assim sujeita a permanentes e radicais conflitos internos. na sua versão paradigmática. sedentária. o “projeto cultural cubano”. por isso ficamos apenas em três: a cultura bizantina. que partem de um tipo nodal. que sobreviveram mesmo depois de superadas. a “cultura das Missões”. mas não chega a alcançar o monoteísmo [16]. como os impérios da antigüidade).

D. ela só “vigora” com os préstimos de um sujeito intervalar. de nível lógico D/ 2. depois de passar pelas culturas pré-I. de nível lógico transcendental I. pré-D. é o sujeito liberal.o . I/D. vive já há algum tempo o predomínio da cultura científica.Culturas nodais g) A humanidade.p. informacional/globalizante. (Ver figura 2. Sendo D/2 a lógica da morte.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 59 I/D/ Cultura GrecoRomana 2 Cultura Nova Qüinqüitária D D/ 2 Cultura Moderna I/D Cultura Cristã Patrística Cultura Judaica I Pré-I Cultura Paleolítica Pré-D Cultura Neolítica Pré-Pré-D Pré-Pré-I Proibição do incesto/ Exogamia Figura 2. I. sujeitado. tendo como motor principal o inconsciente “industrialmente” domesticado pelo marketing.) . que no caso paradigmático. ou seja. anglo-saxônico ou o herói fordiano [17]. presentemente vivendo sua fase civilizatória.

que identificamos com o jesuitismo. . deixa então de ser paradoxal que coincidam os períodos de caça às bruxas e de afirmação da ciência e do capitalismo paradigmático. ou em seu modo arcaico.A cultura moderna e suas variantes As únicas alternativas ideo-lógicas de subversão da Modernidade seriam. que identificamos com o fascismo.p . também ilusória ou apenas transitoriamente dominante. não admite outra dominação que não a sua própria. o marxismo etc. é forçoso que se reconheça. pelo sujeito romântico.ideologias à esquerda -. de outro lado. inexoravelmente destinadas ao fracasso pelo prosaico fato de que D/ 2 . pentecostalismo etc. machista. vale dizer. subsumindo I.60 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Sujeito Romântico D Pentecostal Fascista Pa r A ng ad lo igm -s ax a ôn ic o D/ 2 Ciência Jesuítico Socialista I I/D Sujeito Liberal Sujeito Coletivo Fig. a substituição do sujeito I pelo sujeito coletivo I/D (representado por um sujeito simbólico absoluto). de um lado. D. Elas são únicas justamente na medida em que propõem um sujeito I/D ou D (o par das lógicas femininas). sujeito libidinal D. – ideologias à direita. telúrico. ilusória ou apenas transitoriamente dominante. aparentetemente. movimentos carismáticos. I/D. Não é preciso enfatizar que o paradigma liberal não fracassa (o que nada tem a ver com a condição de ser historicamente . lógicas que foram recalcadas a ferro e fogo para viabilizar a instauração da Modernidade. Ambas as ideo-logias. 2.

mas na verdade já exangue. h) Focalizemos um pouco mais detidamente a problemática da dinâmica cultural. pois. A História como história (I/D) da cultura. importunada pela cultura X-1 que a antecedeu: sob o modo negocial ou de simples adesismo (tipo saduceu). é necessariamente lógico qüinqüitária ( (I/D)/(D) = (I/D/2) ). marginalidades e retornos ao proscênio histórico. Seja uma cultura genérica X. Não se trata. só será sucedida pela cultura X+1 em condições extremas: esgotamento de suas possibilidades (tese homóloga. transformando em instrumento. mas que admite recuos. por formas pseudo utópicas. Olhemos um pouco mais de perto dinâmica cultural. conquanto seu curso seja inexoravelmente.q ) e. que é bem mais complexa do que supunha Hegel. provocar o . é ser já per-vertido. àquela de Marx no irá passar do estágio de cultura propriamente dita ao de civilização . e então. desconstruções. por sua própria natureza. pois. processo de cumprimento de uma destinação.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 61 superável. Começaríamos observando que ela não é lógico-dialética. no plano cultural. Em meio à pletora dos fundamentalismos reativos mais ou menos desesperados. sim. de um processo puramente ascendente. visto que geradas por X mesmo (como é o caso do comunismo e do fascismo na Modernidade). ele irá provocar um período mais ou menos extenso de graves tensões.sua universalização ou horizontalização aparentemente irresistível. ela será. a cultura X. do formalismo sem conteúdo (tipo fariseu) ou de sua variante terrorista (tipo zelote) (ver figura 2. referido à cultua X-1 (tipo essênio) que se distinguirá por sua disposição de subsumir. os fins da cultura X. Este fundamentalismo X-1 será de fato o único capaz de fazer frente à cultura imperante. no sentido que esta última assume com o estruturalismo (D). por muitos modos. como veremos adiante). ainda. Ela. ainda que après coup. ascendente. haverá um.

é o “inimigo” eleito pelo próprio stablishment cultural.: Essênios) Cultura X .62 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desvelamento da nova cultura e.: Cultura Cristã) Cultura X (Ex.: Cultura Judaica) COLABORACIONISMO (Ex. eventualmente. mas pelo seu próprio desvirtuamento ao abandonar a dialética do sentido ou do espírito (I/D como lógica suprema da estrutura onto-lógica objetiva) para se assumir dialética da história (I/D como uma entre outras lógicas de base na estrutura onto-lógica I/D/2).A passagem de uma cultura diferencial à cultura subseqüente Na Modernidade este fundamentalismo realmente eficaz deverá ser o cristão originário ou patrístico (ou o equivalente em outras tradições culturais. metamorfoseouse em baleísmo.: Saduceus) FORMALISMO (Ex.: Cultura Greco-romana)) FUNDAMENTALISMO X .q . Com a falência do “materialismo real” a Teologia da Libertação. deixar como um testemunho histórico vivo. confundindo-se assim com o marxismo. uma ortodoxia de nível X-1.: Fariseus) TERRORISMO (Ex. Cultura X +1 (Ex.1 (Ex. O movimento denominado Teologia da Libertação deixou de ser uma real ameaça à civilização reinante. como a chinesa ou a hindu) e jamais o fundamentalismo islâmico que. mbaísmo verde. não pelo reacionarismo da Cúria Romana. como era fácil prever. depois do comunismo e do fascismo. bigbangismo. .: Zelotes) Figura 2.1 (Ex.

apenas por si. como sa- . Levando-se isto em conta. com a lógica I. o saber de I/D/n é precisamente D/n+1 (para se obter a estrutura epistemológica referente a um nível onto-lógico qualquer I/D/n. como se fora ela um modo de consolidar ou mesmo eternizar a sua dominação. não vislumbramos a mesma regularidade encontrada no caso anterior. necessariamente. enfim. no que resulta D/n+1). com a escolástica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 63 qüinqüiforcismo espiritual e outros ismos marqueteiros. mas é impossível fazê-lo com I. I/D/n. o indivíduo de qualquer cultura opera. isto é. tudo isto no sentido de congelar o poder não só espiritual. Sabemos que. mas é impossível que o faça. podemos especular um pouco sobre o assunto. continuaria com a tradução para o latim do corpus aristotélico e sua ampla divulgação pelo Ocidente. em geral. As passagens similares anteriores mereceriam uma pesquisa detalhada. mas também temporal da Igreja. o sersocial opera necessariamente com X. com a lógica X. bastaria anular o I da auto-identificação e substituí-lo por um D do distanciamento. No processo de superação de uma cultura da identidade genérica. Pode-se daí depreender o modo específico de articulação de indivíduo e sociedade. i) Qual a relação essencial entre ser-individual e ser-coletivo ou sociedade. podemos conjeturar que o progressivo saber de si de uma cultura identitária é que possibilitaria e induziria a referida passagem. em uma cultura de nível lógico X? Duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. de paralisar a História. porque esta é justamente a prerrogativa específica do ser-social nesta cultura. é de sua natureza. pois. de outro lado. porém. sermúltiplo. Esta explicação cabe razoavelmente bem para a passagem do cristianismo patrístico (I/D) à Modernidade (D/2): o processo iniciar-se-ia com o movimento monacal.

Figura 2. (Ver figura 2. para a ← . eles fazem valer os seus desejos (D). no geral.Articulação dos “extremos” Como o processo mediador no extremo I ← X é do tipo I (uma identificação) e no outro extremo I X é do tipo X. através de um processo competitivo . que as lógicas dos processos de mediação nos extremos estão invertidas em relação às lógicas de procedência.r).mercado . Tomemos oexemplo da Modernidade. através de um processo contábil escrutínio . uma velha questão filosófica [18]! Os indivíduos suprem seu caráter X por um processo de identificação (I) com o caráter X coletivo.r . vale dizer. de nível lógico D/2: os indivíduos contribuem com seu poder decisório (I).64 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bemos.(D/2). seria natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêm-se. para a formação da decisão coletiva (I). em ordem inversa relativamente às lógicas de procedência também para todos os casos intermediários entre I e X.(I/D). e a sociedade provê sua capacidade de decisão (I) por um processo social de nível X a partir da capacidade de decisão (I) dos indivíduos.

2. passou a ser feito de modo competitivo desregrado.s . pelo violento mercado político (I/D) ao invés de sê-lo de modo paradigmático pelo cálculo. isto é. de outro lado. Para dar apenas um exemplo. podendo ocorrer.(D).s. como compensação. entretanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 65 formação do desejo coletivo . o processo de determinação do desejo coletivo (D) passou a ser feito através do cálculo. a URSS apresentou a anomalia de inversão de dois de seus processos: de um lado. pelo planejamento central (D/2) e não pelo mercado competitivo (I/D).o excedente ou capital . Ver figura 2. o processos de decisão coletiva (I). eles formam o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) do patrimônio coletivo . muitas espécies de distorções. ou seja.(I/D). por eleição (D/2). INDIVÍDUO SER-SOCIAL Fig. j) Todas as culturas históricas têm sido castradoras dos indivíduos simplesmente porque . ou seja.demanda global . por fim eles se aculturam (D/2) identificando-se (I) com os papéis disponíveis na organização social (D/2).Formação paradigmática moderna Este seria apenas o paradigma. nos tempos modernos.

o que. devemos lembrar.66 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sempre abaixo da potencialidade lógica dos homens. inclusive figura 2. do saber científico (porque este. que as estará subsumindo juntamente com o saber psicanalítico e as “anti-filosofias” da diferença que lhe são correlatas (D) e com o saber científico e as “anti-filosofias” empiristas. coincide com um bem conhecido juízo freudiano. aliás. Um indicador do efetivo engendramento do saber hiperdialético qüinqüitário está precisamente na sua capacidade de enfrentamento crítico direto da ciência.j do item anterior A lógica ressuscitada) e. ainda bem mais. de I/D/2. verá inverter-se tal relação). A passagem de D/2 a I/D/2 será. vale dizer. da história ainda restrita. tendo-se em conta o seu caráter de matriz objetiva de todas as lógicas de base (ver itens n e o. as mais encarniçadas serão as dos saberes da diferença (porque a lógica do inconsciente irá perder o governo da história da cultura. sem que o faça. A superação da Modernidade assinala o fim do sub-reptício predomínio histórico do inconsciente. que ora pensa hegemonicamente o homem. vale dizer. No plano “especulativo” a nova cultura engendrará um novo saber (I/D/2) na seqüência das filosofias transcendentais (I) e dialéticas (I/D). positivistas e fisicalistas que lhe são afins (D/2). l) A grande interrogação que nos fica é aquela de . deveras. mas não com a sua desesperança [19]. como história (I/D) da cultura (D). como hoje sintomaticamente se vê por toda parte. Estas subsunções implicam necessariamente reações. constituiu-se no momento ímpar do auto-desvelamento da cultura em sua essencialidade lógica (bastaria lembrar o episódio vétero-testamentário da adoração do bezerro de ouro!). Esta última. tão dramática e cruenta quanto a passagem de pré-D a I. não passará ainda de um derivativo ou um soporífero para as tribulações de um dia inteiro de submissão à lógica da dupla diferença.

vale dizer. mas requer alguns esclarecimentos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 67 se o homem passará da cultura D/2 à cultura I/D/2 “pura”. o “espaço lógico” de onde há-de-vir(á) o Deus que nos poderá salvar. se começamos justamente pelo que se tem ainda hoje como o mais supimpa?! Toda discussão acerca da Modernidade é. ou seja. sim. regenerado. que deixa acima de si mesma.A situação e perspectivas brasileiras . de modo essencial. o encobrimento ou disfarce. Diante disto tudo. a nosso juízo. seu horizonte transcendente. passará direto à cultura I/D/2 que incorpora. que poderíamos dizer acerca da situação brasileira atual e de suas perspectivas. mais precisamente. do sujeito da ciência. Com a ciência estão todos 2. num exasperado esforço de síntese. a um novo humanismo que o fará ídolo de si mesmo – tal como ocorreria com o hegelianismo e de fato ocorreu com o marxismo real dele derivado pela esquerda – ou se.4 . de uma outra grave questão: aquela do sujeito da Modernidade ou. evitando esse grave pecado de soberba. nosso quadro referencial lógico ressuscitado e antropológico esperançoso. tanto em relação à Modernidade quanto à nova cultura qüinqüitária? O cerne da problemática social do Brasil já foi por muitos bem diagnosticada [20]: a existência de uma certa incompatibilidade do seu processo de formação cultural com a Modernidade. além. O diagnóstico é em essência correto. no âmago. fundamentais: a) Como se falar de incompatibilidade com a Modernidade no caso de uma nação que se inaugura com a própria Modernidade. que desde seus alvores possuiu uma agro-indústria exportadora significativa – tanto em termos de quantidade quanto de qualidade – antes mesmo de que se tivesse formado um verdadeiro mercado interno? Como. Eis aí.

desde que ela venha ao serviço do sujeito romântico (se isso fosse garantido. mas sim em não estar em parte alguma. Para nós brasileiros. de um lado. pela opção preferencial (não exclusiva) do povão pelo sujeito libidinal. científicos. da mesma família que D). até Nietzsche e Heidegger amariam a ciência e não vituperariam as vicissitudes da técnica) e a esquerda. como shall ou como will [21]. enfim. Tudo porque não se trata de um problema de lugar – encontrar um lugar na Modernidade ou um modo de inserção num mundo “globalizado” –. em suma. como bem assinala Wisnik já citada na nota 20). e sim de tempo: decidir pelo curto prazo. por uma Modernidade (D/2) já em processo de esgotamento e para a qual carecemos da necessária vocação his- . pela opção preferencial das elites [22]pelo sujeito absoluto enquanto representação do sujeito coletivo. Isto acontece. Nossa grande implicância está dirigida contra o sujeito de projeto (este último. contra o empresário schumpeteriano. embora achemos que não sabem até hoje bem o porquê. ao contrário. esteja ele ainda enrustido na linguagem. de outro lado. Assim. não está onde parece. a grande “diferença” de Macunaíma. todos. em função do peso histórico dos jesuítas (I/D) sobre nosso sistema educacional [23]. técnicos e burocráticos. seja ele de fato. em especial. desde que ela venha para fortalecer o sujeito coletivo. vale dizer. os nacionalistas.68 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de acordo: a direita. o seu representante absoluto. contra o sujeito lógico I. em função do peso de sua herança cultural africana (pré-D. b) O paradoxal que muitos aí enxergam. os positivistas e os neopositivistas. desde que para pulverizá-las. naturalmente. o fazedor de futuros. idem. a aludida incompatibilidade não é nem poderia ser de modo algum com a Modernidade em seus aspectos objetivos. e os internacionalistas também. o futuro a Deus pertence. desde que ela venha para preservar fronteiras.

pela cultura nova qüinqüitária (I/D/2). é o verdadeiro Custo Brasil! Diante de tudo isto. fazê-lo pelo longo prazo. parece-nos. sim. mas que acabaram encompridando e alargando em muito a base territorial da nação. não frente a um perigo objetivo. poupança forçada que se esvai em pagamentos de juros sobre juros indecentes. os cristãos-novos e judaizantes perseguidos. observaria o lúcido Caetano Veloso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 69 tórico-cultural ou. mortes e mil outras tragédias que. no âmago. tantos desterrados. sofrimentos. multidões percebendo os mais vis salários do mundo. mas que a rigor já não mais existe. no caso do Brasil. diante da responsabilidade em assumir nossa indelével destinação. ainda hoje. já foram mais do que pagos – que o digam os índios. os incontáveis mulatos. anos e anos a fio. sim. quem poderia. para a qual estaríamos já irrevogavelmente vocacionados? Em outras palavras. entre nós brasileiros. violências. não seria demais lembrar que os custos inevitáveis historicamente constatáveis para se erigir uma cultura são cerca de 500 a 600 anos de opressões. depois dizimados ou “reduzidos”.t) Para concluir. os negros vindos escravos da África para penar nos engenhos e nas lavras. caçados. por todas as grandes cidades do país este. em que estamos a toda hora enredados. de natureza eminentemente temporal. sem falar nas legiões de crianças abandonadas e de idosos desvalidos. ora pela fé oficial. mas. aliás bem cariocas: nossa escolha essencial é entre o luxo e a originalidade? Este é o nosso verdadeiro nó cego. injustiças. ora pela inveja ou simples cobiça. trememos e traímo-nos constantemente. cafuzos e caboclos perdendo suas almas para legá-las à formação da alma brasileira. ainda permanecer na dúvida acerca da causa em que devemos a vera nos engajar por todos os meios e modos a nosso alcance?! Guardadas as de- . os mamelucos enfurnados pelo sertão sofrendo e cometendo atrocidades. (Ver figura 2.

Opções brasileiras: luxo ou originalidade vidas proporções. agindo com um pouco de molecagem que. o que para nós seria o mesmo. 2. por si se agigantaram e acabaram hoje perdendo toda qualificação através do processo de globalização da insensibilidade e do cinismo. não passaram de um ensaio bem canhestro. pela grande mídia. mas deixou rolar – e que.t . São estes processos de luta que precisamos sem pena abandonar ou rever. . a seguir. com imaginação e coragem criar novos e levá-los realmente a sério. quando conveniente. ou. as lutas recentes contra o autoritarismo e a corrupção – que o primeiro não inventou.70 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Fig. é o modo próprio. viciado e sobretudo manipulado. a propósito. mais propício e não menos propiciatório de já irmos cozinhando e provando a nova cultura qüinqüitenária.

adstrito à pura forma. Opinamos que isto deva ser repensado em profundidade. e não propriamente na lógica. A tese teria sido mesmo abandonada pelo próprio autor [3]. y com pricipios universales en los que se hallen implícitos y contenidos como lo particular en lo universal.. entre os povos primitivos. eivado de sentimentos. A diferença aparente dos desempenhos discursivos de uns e outros estaria na constância com que os primitivos se valem do processo de bricolage [5] simbólica. dos povos modernos. o tema lógica versus cultura vem imediatamente referenciado a Lévy-Bruhl [2] e à sua tese da prevalência. Segundo esta última.[1] Raimundo Lulio. trespassado pela emoção. contrastando com o pensamento propriamente lógico acabado.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 71 3 Acerca da lógica e da cultura La razón exige y reclama que exista una ciencia universal de todas as ciencias. primeiro. nenhuma diferença haveria entre a lógica dos povos primitivos e aquela dos povos modernos. Doctor Illuminatus in Ars magna et ultima. entre os antropólogos da atualidade. porque não .. los de las otras ciencias más particulares. de um pensamento ainda pré-lógico. De modo geral. mas de qualquer modo contestada pela antropologia estrutural de Lévi-Strauss [4].

apenas com a agravante da rigidez própria dos copistas e dos pobres de espírito [6]. em acordo com a moda atual. segundo. vige esta mesma referenciação.72 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO aceitarmos esta separação drástica ali implícita entre o lógico e o simbólico (simplesmente porque existe a questão do estatuto lógico do próprio simbólico). a qual se vem juntar uma diferença específica. tudo isto convergindo para a demarcação precisa e o completo re-mapeamento do território lógico. pois. já o demonstramos alhures [9]. destarte. lógica ressuscitada versus cultura não é aqui. cujas origens certamente se perdem nos tempos. aquele do pensamento filosófico estrito senso.representada pelo animalidade em seu estado de máximo desenvolvimento -. depois a acompanha e lhe marca passo. No Brasil. levando então à emergência do homem e consequentemente da cul- . como também sua marginália histórica. nos irá remeter à velha Grécia [7]. no cerne da filosofia da cultura (ou o que para nós é o mesmo. mas em flagrante desacordo com o melhor da tradição filosófica. ela se faz necessária em razão de que. porque parece-nos estar ali também implícita uma concepção restrita. a mesma lógica que. um mero oportuno acadêmico. naturalmente. da antropologia filosófica) estaria precisamente a questão da mutação lógica que levou ao advento da cultura. A reabertura da questão lógica versus cultura ou. Paralelamente estaremos superiormente armados com uma renovada concepção da lógica [8] que resgata não apenas a riqueza da tradição. diga-se de passagem. o que. do que seria a lógica. não nos deve causar espanto. Comecemos tomando como referência um esquema de compreensão evolutivo do ser humano. Nosso objetivo aqui é voltar à questão para discutila num âmbito maior e certamente mais apropriado. Parte-se da natureza . e no entanto paradoxalmente imprecisa. agora dito com bem maior cuidado.

não importa se transcendental. precisamente. sendo este último. dialético ou formal. de evidente caráter lógico-transcendental ou identitário (I). a animalidade superior incorporava não apenas as funções vegetativas – de nutrição e de reprodução – como também as funções sensitivas – compreendendo os diversos modos sensoriais. O homem era pois o animal superior onde ademais habitava o logos. já sem seu maior vigor. do ponto de vista formal. pois .1 – O homem grego Segundo Aristóteles. um poder de auto-determinação. Na circunstância. no próprio Aristóteles. o modo como ele acabaria se mostrando. a posse da razão discursiva (logos) [10]. CAPACIDADE DE MOVIMENTO AUTÔNOMO CULTURA HOMEM CAPACIDADE DE PENSAR ANALÍTICA Figura 3. O ser humano. que o logos aristotélico não era mais o logos heraclítico.1). ainda não degenerado em logos metafísico. Observe-se que o poder de por si e propositadamente movimentar-se é. (ver figura 3. isto pouco pesa. como provavelmente o faria Heidegger [11]. Pode-se argumentar. além destas. detinha a mais e com exclusividade a função intelectiva. entretanto. o logos originário. logo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 73 tura. Entre os gregos este esquema bastante simples já vigorava de um modo preciso: o ponto de partida era então a animalidade superior à qual se agregava como diferença específica o logos ou a razão discursiva e chegava-se assim ao homem. animal racional. a que se acrescia a autonomia locomotora.

por si só. a principal crítica à concepção grega do homem deve incidir sobre o caráter tipicamente agregativo/substantivo dado à razão (ou logos). Em termos estritamente lógicos. mormente quando já se tem por estabelecido que os animais superiores dispõem de uma capacidade sintética ou identitária inquestionavelmente manifesta em sua auto-determinação locomotriz. fica o fato que. é e diz tudo. para desta sorte ampliálas ou multiplicá-las. potencializa e/ou amplia. Do nosso ponto de vista. Isto interpõe um degrau exagerado de descontinuidade entre o animal e o homem. duas sérias objeções. no sentido de que ela ali funciona como uma “essência” constitutiva e não como um atributo superveniente.74 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO opte-se por uma ou por outra interpretação. articulando-se. Primeiro. inconveniente que viria ser justamente contornado. porque ao admiti-lo estamos implicitamente diluindo o caráter evolutivo da passagem considerada – o novo. dir-se-ia que para . o que fazia ser a humanidade era algo de natureza essencialmente lógica. para os gregos. não pode caracterizar o ser humano em sua totalidade ou “maximalidade”. lógico-diferencial ou analítica. de fato. Dito em outras palavras: a razão grega valia por si e não como produto resultante de um poder diferencial que se vinha articular à outros poderes ou potencialidades operatórias similares pré-existentes. A nosso ver a diferença especificamente humana não pode valer pelo que traz em si. veremos adiante. Segundo. sejamos obrigados – depois de Heidegger – a deixar em aberto a questão do logos cosiderado: se o simples lógico-diferencial (Heráclito) [12] ou se o duplamente diferencial ou formal (Aristóteles). porque a “razão”. O essencialismo grego suscita. conquanto. mais precisamente. tal como anteriormente assinalado [13]. mas sim pelo que. pelo moderno estruturalismo antropológico. como capacidade analítica que realmente é.

que se confunde com o pensar da identidade recuperada para além da diferença. portanto lógico-dialético (I/D). àquilo que concretiza a passagem da . Foi precisamente a esta conclusão que chegou Platão – é verdade que por motivações e caminhos outros –. sob o aspecto formal. de outro lado. ao termo de uma etapa da história do pensamento (e. recusou a essência evolutiva do esquema grego e assumiu. a criação do homem a partir do barro (natureza ou apenas res extensa) preserva. O cristianismo trinitário. um criacionismo paralelo de todos os entes. De um lado. embora conferindo uma especial dignidade ao homem. A propósito. seja pelo atributo da semelhança ao Criador. o que acontecia não por força de uma infidelidade ou de uma traição. no entanto. algo que a ele em algum momento se desvelaria decretando – tem-se até o direito de lamentá-lo! – a sua própria superação. pervertendo-o do ponto de vista lógico. mas pela inexorável exigência (lógica) da história (hiperdialética) em seu processo de auto-realização [15]. o ser humano teria que ser pelo menos lógico-dialético (I/D). ainda que entendida metaforicamente. ou seja. seja pela posição última na ordem da Criação. atribui-se um caráter puramente identitário (I) à diferença que fez ser o homem. o esquema compreensivo que vimos tomando por referência. como reza o Gênesis. como se lê em seu diálogo Parmênides [14]. de fato. no caso. também da história da cultura). Entrementes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 75 os gregos. pois a dialética (própria e apta a pensar a idéia ou o conceito) era algo inerente ao próprio destino do pensamento grego. parte-se da matéria inerte ou da animalidade bruta ou carnal. sendo o animal superior pelo menos lógico-identitário (I) e a razão pelo menos lógico-diferencial (D). res extensa (D). Com Platão chegava-se. o parecer nietzscheano e reiterado por Heidegger que Platão teria traído o espírito filosófico grego é uma reprimenda completamente descabida.

pura consciência. No entretanto. a algo de ordem lógico-diferencial. Seguindo seu antecedente judaico. Assim. I) (ver figura 3. lógico-diferencial.2 – O homem cristão O mais espantoso nisto tudo é que o pensamento antropológico cristão não se apercebia da absurdidade da inversão. o cristianismo realiza a proeza de transformar a diferença que fazia a diferença numa identidade. matéria perecível. livre arbítrio. Só assim se justificava a semelhança do homem ao seu Criador. Ao cabo. a passagem do animal ao homem não se devia mais. como para os gregos. conservavam o mesmo esquema conceitual dos gregos. com a completa inversão das lógicas em jogo: aquela de partida era agora diferencial (D) e a nova. interveniente. espírito (mesmo que decaído) etc. consciência moral. Como se vê. liberdade. NATUREZA BARRO/CORPO CULTURA HOMEM: CORPO E ALMA SOPRO ALMA Figura 3. que negando consciên- . o homem passava a ser concebido como um misto heteróclito de corpo (natureza.2). isto significava um evidente retrocesso relativamente ao que haviam pensado os gregos.76 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO natureza à cultura. alma. D) e alma (imaterial e eterna. Aliás. transcendental ou identitária (I). mas sim de ordem lógico-identitária sopro. tudo isto era sem dúvida o que poderia haver de mais coerente com o estatuto lógico-trinitário (I/D) da cultura cristã – a dignidade do homem se devia à interveniência da alma (I) pertencente à mesma família lógica (lógico-identitária) a que pertencia o próprio ser divino (I/D). lógico-identitária. porém..

entre o animal e o homem [16]. mas na liberdade-operativa. o homem cartesiano não podia ser mais concebido como um ser lógico-trinitário. depois. concomitantemente res extensa e res cogitans. a circunstância de se tratar agora de uma res extensa submetida aos poderes de uma geometria métrica. ambas se mantinham idênticas em seu estatuto lógico. sua “espessura” lógica se ampliara fazendo explodir a estreiteza referencial da dialética cristã (I/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 77 cia ou capacidade lógico-sintética aos animais superiores abria uma brecha para que daí a pouco os interesses coloniais levantassem também duvidas quanto à humanidade dos não-europeus cristãos. A Modernidade. no caso. o homem se estruturava ainda como misto de corpo e alma. demolindo as tradicionais diferenças entre o nada e a matéria. mas não altera o estatuto lógico-transcendental do ser próprio de todos os homens (a especificidade humana não estava mais na alma-substantiva. O Iluminismo continental [17] dos séculos XVII e XVIII. É exatamente por isso que Descartes. de muçulmanos e judeus. o inorgânico e o orgânico. entretanto. porém. acabou mesmo acontecendo. em particular. apesar de ainda carregar tantos vezos medievais. a princípio. Havia. infelizmente. de índios e negros africanos. parecia preservar a concepção cristã: em Descartes. o macro-molecular e o vivo. enquanto que a res cogitans se constituía como lógico-identitária. E isto. acabou considerado. a ciência lançava-se à tarefa de homogeneização de todas as coisas. com plena justiça e de modo quase unânime. sabemos todos. auto-transparência. pura reflexividade (I). é levado ao reconhecimento do outro (cultural) como um igual. Instalada irreversivelmente a Modernidade. Em suma. portanto sob o império da lógica da dupla diferença (D/D). provocado pelo ciclo dos grandes “descobrimentos” e colonizações. o primeiro filósofo da Modernidade. enfim. lógico- .

desenvolvia-se o marxismo. na medida em que ele rompe abertamente com o inconsistente transcendentalismo cristão. não mais a alma ou algo equivalente. brasileiros miscigenados (aliás. interpondo entre o animal superior e o homem. herdeiro da dialética hegeliana (I/D).78 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transcendental). estávamos nós. Em nada surpreende que deixassem de lado exatamente a problemática existencial e histórica da cultura. posto que assim rompia-se com a concepção cristã que via na passagem do animal ao homem a intervenção de algo da ordem da identidade. mas o trabalho (D). como no fundo da alma. e o latino. (I). a que devemos o primeiro passo efetivo para a refundação da antropologia moderna. entretanto. não possuía a “espessura lógica” suficiente para acomodar (ou poder compreender) a dupla diferença (D/D). A essência lógica do trabalho é a diferença. europeus. argentinos e a “elite” brasileira no poder continuam firmemente a crer até hoje). não pode ir muito mais longe em razão de que. Com isso começava de fato uma nova era na antropologia. naturalmente. a . Paralelamente. se pode conceber como uma espécie de neoliberalismo antropológico). Chegamos então à teoria da evolução de Darwin (que hoje. Nas proximidades ainda do macaco. como a liberdade. uma espécie de anglosaxão retardado e muitos degraus abaixo. como é próprio de todo cientificismo. Surge então a antropologia funcionalista. uma nova maneira de fazer prosperar o cientificismo antropológico sem os inconvenientes do etnocentrismo desabusado e ostensivo do evolucionismo cultural darwinista. por retroação. pois trabalho é precisamente o esforço que visa a outra coisa que ele próprio [18]. que. O marxismo. busca estabelecer a continuidade (ou a indiferença) entre natureza e cultura: o primitivo era um macaco evoluído.

com a figura de Lévy-Bruhl [20]. lógica que diferiria (o que não quer dizer que se opusesse ou negasse) da lógica formal hegemônica do Ocidente. É evidente. não o faz no sentido de que fossem destituídos de lógica (o que seria mesmo um absurdo. tratava-se de uma lógica onde sentimentos e emoções ainda tinham um grande peso no processo de produção da “verdade inferida”. Esta concepção remontava. Além de pugnar por um posicionamento mais “empático” do antropólogo em relação às cultura primitivas transformada em objeto” de estudo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 79 lógica da ciência que à época já se apresentava como o traço fundamental da Modernidade [19]. que afirmava a prevalência. mas como usuários de uma outra lógica. pergunta se eles tinham lógica (clássica). se os primitivos tinham alma. Perdoe-nos o leitor uma digressão relativamente longa acerca das origens da noção de pré-lógico em Lévy-Bruhl. pelo menos. que a pergunta por si valia imensamente mais do que a resposta que se lhe viesse dar. no caso. ele renova radicalmente a indagação antropológica: ao invés de perguntar como se fizeram os jesuítas. de um pensar por analogias e proximidades significativamente carregado de sentimentos e emoções. já no início do século XX deparamonos. entre os povos primitivos. razão pela qual ele pode ser com justiça considerado um dos fundadores da antropologia moderna. Quando este faz uso desta expressão para caracterizar o pensamento dos povos primitivos. Com ele um grande passo é dado em direção de uma nova antropologia. Voltando à tradição propriamente antropológica acadêmica. pois destituído de lógica é sinônimo de destituído de pensamento). agora sim. Logique des sentiments é mesmo o título de sua principal obra) [22]. a Théodule Ribot (psicólogo francês conhecedor e apreciador sob muitos aspectos da psicanálise freudiana [21]. Esta noção de pensamento pré-lógico em Lévy- .

busca-se então a diferença humana já universalmente operante que vai ser identificada como a diferença clânica. O principal mérito de Lévy-Bruhl. facilmente identificamos sua lógica como aquela dos processos primários freudianos. sabemos. na fonologia diferencial de Jackobson e sobretudo na teoria do inconsciente. na lingüística sincrônica de Saussure. ainda que bem tardia. em Rousseau e no materialismo dialético marxista (anti-transcendental). e de outro. Pasmem: lendo o livro de Ribot. pois é justamente ela que tem servido de pretexto para desmerecer a obra de um dos mais importantes estudiosos da formação da cultura brasileira – Arthur Ramos –. inspirada. é inquestionavelmente óbvio que o termo pré-lógico em Arthur Ramos. Eis que na segunda metade do século XX emerge a antropologia estrutural. Em suma. assume-se que em qualquer circunstância o verdadeiro objeto científico é o ser-sincrônico e não o especulativo vir-a-ser-diacrônico – uma reação. bastante próxima pois da ulterior lógica lacaniana do significante [24]. particularmente. que.80 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Bruhl aqui no Brasil originou uma predisposição cheia de veneno e má fé. pré-condição da instituição do que seria a lei convencional por excelência: a lei de proibição do incesto. não quer dizer destituído de lógica. sobre a logique du sentiment de Ribot [23]. tanto quanto em LévyBruhl e Ribot. ao “totalitarismo” hegeliano! No âmbito da cultura. mas sujeito à lógica do sentimento. Nestes três últimos casos há de comum o abandono da indagação pela origem ou pelo ser (como vir-a-ser) para se tomar como “objeto” próprio do saber a diferença já instaurada. afirmávamos. de um lado. foi trazer novamente a questão da cultura para o âmbito da lógica tal como ela fora posta originalmente pelos gregos. é um declarado admirador da obra de LévyBruhl e bem informado sobre suas fontes. Em suma. de Freud. contraface .

deixava a simples pela dupla diferença. Não é pois mero acaso que a “sexuação” humana em Lacan viesse encontrar sua melhor expressão nos famigerados matemas. ou seja. Ver figura 3. a sexualidade humana se via compelida à redefinição. no quadro mais amplo de uma estrutura lógica tetrapolar. mas vinha para se articular à diferença sexual animal bi-polar macho/fêmea.3 . . na verdade. levarmos em conta que tal aproximação tem como pano de fundo a lógica. emerge aqui uma importante novidade: é que tal diferença não mais valia por si. expressões não apenas de fisionomia. bem ao contrário do que nos queria fazer acreditar o cristianismo doutrinário.3.A diferença clânica no estruturalismo Como é bem sabido. Com isto instituíase a circulação das mulheres entre os homens reunidos em clãs. DIFERENÇA SEXUAL MACHO/FÊMEA DUPLA DIFERENÇA MATEMAS DA "SEXUAÇÃO" MASCULINO/FEMININO PRIMEIRA DIFERENÇA DUPLA DIFERENÇA DIFERENÇA CLÂNICA SEGUNDA DIFERENÇA Fig. Como conseqüência imediata. Entrementes. retornava-se em definitivo a um dos aspectos fundamentais da concepção grega: a passagem do animal ao homem devia-se a um poder diferencial e não identitário. justamente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 81 da obrigatoriedade da exogamia. agora. Desta forma. 3. a importante contribuição lacaniana à compreensão da sexualidade humana tem como antecedente o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss e isto só pode ser devidamente compreendido e apreciado se. A troca das mulheres entre homens assim sub-agrupados se constituía no paradigma de todas as demais trocas e por conseqüência da solidariedade social.

de essência realmente lógicas [25]. entretanto. Ver figura 3. que estas não são relações isoladas.82 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas. Alguém. Porém. mas muito bem articuladas entre si [26]. três relações fundamentais – aliança. o par esquerda (c)/direita (d). sobretudo. no simples átomo do parentesco não estariam implicadas tão apenas duas. O primeiro deles refere-se ao “logicismo” grego: no . poderia estranhar nossa insistência na necessidade e mais ainda na suficiência da dupla diferença para a caracterização daquilo que é essencial e propriamente humano. consangüinidade e filiação? Não é muito difícil demonstrar que a dupla diferença é o bastante para a definição das referidas relações. uma diferença ilustrando o par em cima (a)/em baixo (b) e a outra. A dupla diferença. diríamos que. que viesse acompanhado de dois outros grandes retrocessos. mas.4. ficando a terceira automaticamente definida pelas duas diagonais. familiarizado com a doutrina estruturalista.Duas diferenças e três relações Voltando à nossa linha de raciocínio. podemos redesenhar o quadrado tomando quaisquer duas relações para formar os lados do quadrado. Agora fica evidente que podemos formar um terceiro par com os termos diagonais do quadrado (e/f). pode ser representada por um quadrado. Como as três relações são equivalentes (ou quase).4 . Devemos aqui abrir um parêntese. o estruturalismo representa um grande avanço em relação ao pensamento antropológico grego. a c e b f d a c f e d b e a d c b f Figura 3. de fato. por exemplo. sem dúvida. pena.

ou seja. Queremos dizer que. Podemos considerar macho/fêmea como realizações de uma diferença D. mesmo já biologicamente marcado. como deveras o faz [27]. Para ficarmos apenas num exemplo: a passagem da capacidade de operação simbólica (I/D) dos animais superiores à capacidade simbólico-discursiva (I/D/D) – proposicional no dizer de Cassirer [28] – do homem exige igualmente a introdução de uma segunda diferença. ele é tão apenas uma realização possível de um esquema lógico. Negar isto é não con- . formalmente. ele é macho que se assume macho. O segundo retrocesso em relação aos gregos refere-se ao “esquecimento” do caráter lógico-identitário dos animais superiores. sua capacidade de operar dialeticamente (I/D) [30]. Entretanto. o mesmo se dando com a fêmea. facilmente constatamos sua radical incapacidade em relação à articulação gramatical (D/D). pois é inegável o poder de simbolização arbitrária dos animais superiores. especificamente dos cordados. uma gramática. são ambas leis societárias convencionais. De fato. são “substanciais e não apenas realizações de uma matriz essencialmente formal. percebe-se isso ainda com maior clareza.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 83 estruturalismo. identifica-se ou assume sua determinação sexual: ele não é apenas macho. que pode também realizar-se sob outros aspectos. em que pese a denominação geral de estruturalismo antropológico dado a esta corrente de pensamento. que está presente mesmo no registro sexual. tanto a diferença sexual de partida quanto a segunda diferença clânica valem por si. Ao mesmo tempo. A lei da proibição do incesto é. pois o animal. a gramática é uma estrutura legal convencional necessariamente sujeita à lógica da dupla diferença D/D [29]. Passando-se do registro sexual ao simbólico. por mais significativo que seja o “modelo sexual”. isto não passa de uma simplificação. pensá-la apenas no âmbito da res extensa.

bastaria dizer que o animal superior (cordados) opera a nível lógico dialético trinitário (I/D) e o homem a nível lógico hiperdialético qüinqüitário (I/D/D) (ver figura 3. Para nós.daquela produção “genea-lógica”. como razão formal aristotélica (D/D). . existencial ou subjetivamente. é verdade .5). sem dúvida. a rigor. Do ponto de vista instrumental. lógico-qüinqüitário ou hiperdialético (I/D/D). Em compensação. no concomitante exercício de sua capacidade lógicoidentitária herdada da animalidade superior. porém. ou objetivamente operatório. teríamos que recuperar o que o estruturalismo desaprendeu dos gregos. seria um dentre muitos modos possíveis de manifestação .84 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO seguir distinguir a enorme diferença entre os pares porca/porco e porca/parafuso. na verdade. porém. o fato é que. o homem se capacita a operar a nível duplamente lógico diferencial (racionalmente). Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. e fazendo-o sem prejuízo do seu ser sintético.privilegiado. “duplicandoa” ou reiterando-a. o homem é. poderíamos agora aceitar que o logos constituísse a diferença especificamente humana. Com efeito. seu estatuto lógico global tem que ser. Voltando aos gregos. já a posteriori articulada. que permite a definição de regras de proibição de incesto paralelamente à imposição da exogamia. portanto. ser racional. habitado pelo logos. A diferença clânica. o logos estaria assim ampliando a capacidade lógico-analítica dos seres vivos. na condição de ele vir para se compor com poderes e potencialidades operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo reproduzi-las em nível operatório superior.

concebê-lo como síntese de I/D e D não seria assumir um parti-pris complementar feminista?! I D/D I/D/D I/D D I/D/D Figura 3. nossa referência de partida. grega e moderna) atribuirão aquela passagem a uma diferença. da natureza à cultura. com aquela de chegada. que poderíamos denominar pósestruturarista (concepção estruturalista à qual restituímos a identidade perdida). Do mesmo modo as culturas lógico diferenciais (pagãs.5 – O homem lógico-qúinqüitário Não é de admirar que culturas identitárias (judaico-critãs) atribuam à intervenção de uma identidade como sendo a razão de passagem da animalidade ao homem. Incoerente seria que o fizessem ao contrário ou mesmo indiferentemente! Seria interessante compararmos agora a antropologia aristotélica. Ver figura 3.6 – Concepções masculina e feminina . o homem como síntese de I e D/D é de certo modo assumir um parti-pris machista [31]. como Aristóteles. Em princípio. pareceria que a segunda é um simples complemento da primeira: conceber.6.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 85 I/D D I/D/D Figura 3.

7.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). uma seqüência aberta.7. apenas superficial. logo. que é. como mostra a figura 3. Natureza e cultura se opõem. Voltaremos ao assunto um pouco mais adiante. Esta abertura é essencial para que o homem possa se . de estofo lógico transcendental (I). mas a ela não se reduz. mas como termos de uma seqüência. de estofo lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2).à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) -. ela permanece. Não rebaixamos a lógica do animal de I/D para I. pelo menos do ponto de vista especulativo. logos de certo modo herdado e logos ao quadrado. ou seja. Existiria. não perdemos a precisão lógica da diferença que faz a diferença animal/homem e tornamos bem mais compreensível a incomensurável força do logos no homem. aqui uma simetria. A nossa concepção é definitivamente não-machista. a diferença clânica. guardando um iniludível relacionamento hierárquico. concomitantemente. sim. no entanto. de estofo lógico dialética (I/D) e chega à cultura. natureza?) [32]. Gostaríamos ainda de chamar a atenção para o fato de que o esclarecimento da relação lógica versus cultura provoca uma reviravolta da velha querela acerca das relações entre natureza e cultura. E. ganha então uma resposta bem precisa: a passagem da natureza . A seqüência começa com o ser.86 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Parece-nos que não. sim. A prestigiosa razão suficiente leibniziana que busca responder à questão ontológica (no caso: porque existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. fica por aí evidente quão equivocado é o costume corrente de contrapor natureza e cultura de maneira meramente especular. segue com a natureza. pressupõe deveras uma certa sensibilidade para o ser-feminino. capazes portanto de operar com símbolos convencionais (I/D) . inclusive com ajuda da figura 3. Ora. em termos antropológicos.

sem que se pense porque se pôde deveras chegar a pensar nisso. na verdade não passaria do estatuto lógico diferencial (res extensa). I/D/ 2 I/D I Cultura Natureza Ser Figura 3. A natureza enquanto mundo físico. A religiosidade. Concluiríamos afirmando que não há como pensar a filosofia da cultura. ou seja. a “diferença” ontológica homem/natureza ou cultura/natureza sem o concurso da lógica. . E escapamos também assim dos humanismos de qualquer espécie.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 87 posicionar de fato no ápice da escala dos entes mundanos. pode então permanecer como ainda legítima. Ela só nos parece de nível superior por efeito da atividade humana de mensuração. por isto se tomar por Absoluto. entretanto. sem. como pergunta pelo Absoluto. ou seja. ou seja. de fazê-la geométrica.7 – Natureza versus cultura É importante notar que o estatuto dialético da natureza só é alcançado ao nível dos animais cordados capazes de operar com símbolos convencionais.

Dordonha e Chauvet. inventando as vogais. tiveram que inventar os mitos que os inventassem. A Modernidade pariu as “tecnologias” financeiras que transformam tempo em dinheiro tão eficientemente que não sobrou nenhum para criar e poder legar nada que prestasse. os vencedores. sua escrita mais suas criptas funerárias. Os gregos. Altamira. por freqüentar o deserto e o cativeiro. afora sua triste lembrança. O povo judeu. e ainda nos deram de quebra o logos e a poesia trágica exorbitante.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 89 4 Desejo. . a agricultura a sustentá-los. donde a paidéia e a pergunta pelo ser (sem a responder). inventam as consoantes e assim a escola. fingimento e superação na história da cultura Os povos caçadores/coletores viveram porque ignoraram sua lógica e assim tiveram o que comer. soube se libertar do bezerro de ouro e pode legar a lógica em pessoa (Eu sou o que sou). Os homens do neolítico. Dispondo da dialética platônica pode o Medievo reanimar o Corpus Christi. e ainda honrar profetas bem mais do que quadros sacerdotais. o gosto da guerra e legaram. legaram a arte na e pela pedra em Lascaux. assentados. mil anos depois fazer levitar catedrais góticas inteiras e por fim legar museus repletos de arte sacra e em cima o presente Papa. ao tentarem viver mais além.

só na TV você decide! Como conseguir ser subversivo na era do marketing. pelo menos um pouco de ar para que o pensar não sufoque e sucumba. concluem que. e com isso foi-se à breca a temporalidade. o Nada não é mais nada. que agora só mesmo um deus pode vir salvar-nos. se demite. senão a subversão. Já se reparou que tudo tendo seu preço. na melhor das hipóteses. negociar. os futuros e junto todas as liberdades? Agora. os artesãos do que é outro. no círculo de aço-cromo-níquel da prostituição generalizada. deixando de herança seu lugar ao longínquo poeta (grego)? Ainda anuncia. pelo menos na atual circunstância. o que se pode é bem dizer a insignificância que se vive.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 91 Antes de mais nada Como conseguir ser subversivo naquela que se anuncia a era de todas as eras. corpo e alma. não há cura. terapeutas pela palavra assumidos. zombeteiro. Como conseguir ser subversivo na era em que o filósofo e filólogo virtuoso comete muitos acertos. e porque também alguns erros (graves. a mega-indústria do inconsciente. que veio para se apossar no atacado de todos os corações e imaginários? Enquanto isso. negociar-se. enquanto espera por si. que é . é verdade). Como conseguir. na Modernidade que virou a própria pós-modernidade? Na era em que nada mais escapa à suprema medida .seu preço arbitrado pelo mercado expresso num código de barras? Nada há mais para acontecer senão negociar.

Aliás.92 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO quem. entre eles. como poderia a nível hiperdialético qüinqüitário ser diferente? É uma simples questão de consistência 4. formal ou da dupla diferença (D/D=D/2). como conseguir re-haver.com a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. entre muitas outras coisas próprias aos homens. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). algo ainda mais complexo. tomando-se por termo de comparação. a dialética trinitária. de um lado. a esperança? Em Noções de antropo-logia [1]. de outro. dialética (I/D) e clássica. Os animais cordados (dotados de sistema nervoso central) atuariam no nível lógico dialético.em princípio. pela variabilidade temporal do vigor criativo das culturas. de natureza hiperdialética (I/D/D = I/D/2). válida para todos os homens em todos os tempos e lugares .Considerações introdutórias . o poderá deveras salvar? Falando com bastante simplicidade. ainda que em nome de Deus. pela dissimetria de suas relações lógicas de determinação e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo-se a história da cultura como um processo de auto-desvelamento do próprio ser do homem.1. a fenomenologia do espírito de Hegel. ao menos. o poder de discurso em sua dimensão plena [4]. caracterizamos o homem como o ente capacitado a operar no nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário [2]. atestada de muitos modos. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) governa. mas. operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I) [3]. Perguntamo-nos já naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização . mas a “razão” humana iria mais além. da diferença (D).

cultura sedentária de base agrária. pré-D.1): pré-I. a seguir. da diferença D. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I) e.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 93 ou até de simplória regra de três! Toda cultura teria. e que lhe confere. clássica ou formal D/D = D/2 e a própria I/D/D = I/D/2). representativamente lógico na direção daquele desvelamento. teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais (ver figura 4. melhor. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento serão denominados culturas nodais. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo ou. cultura tribal. dialética I/D. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D). e focalizando apenas o Ocidente e o Oriente Próximo [8]. . assim. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. ambas naturalmente referidas à Natureza. um essencial e particular comprometimento lógico [5]. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [6]. I. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. Resumidamente. Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas [7]. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. cultura judaica. inclusive. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade.

uma cultura à medida exata do homem.94 CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D/ CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA 2 CULTURA MODERNA CÍNICA I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURAS LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES Pré-I Figura 4. mais precisões e. cultura medieval cristã (patrística). cultura moderna de base científica.1. que só se pode manter porque os próprios fatos insistem em não desmenti-la. pela primeira vez. ainda por vir. uma lógica é obviamente uma desmedida simplificação. que hoje domina o mundo. I/D/2. diríamos: em especial. As culturas nodais D. mais numerosas e profundas incursões . I/D. A tese uma cultura. cultura prometéica grega. quanto de suas indefectíveis alas esquerda e direita). até muito mais. e. porque. cultura hiperdialética qüinqüitária. por todos os títulos. D/2. Por certo há que se exigir mais. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). uma manifesta síntese das culturas anteriores. para a tristeza e incômodo de todos os ideólogos e crentes da vida eterna da Modernidade (tanto do paradigma anglo-saxão. sobretudo. não castradora.

Em outras palavras. entretanto. precisou ser feita preservando-se o postulado da igualdade de todos os homens. como se verá. três lógicas.2. intentará simular ser. Esta mudança. inclusive. algumas de alto risco. em que pese seu parti pris lógico. toda cultura de algum modo dá testemunho de outras lógicas. a segunda. numa artimanha defensiva. vale dizer. Agora. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura. uma lógica. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda e da qual. Cada cultura tinha já sua lógica de referência era essa nossa tese anterior [9]. como até agora. correspondente à cultura que a irá suceder . Uma cultura e três lógicas . uma cultura. 4. ora clandestinos. que ajudem a avaliar a potência e traçar os limites de validade desta concepção. São vínculos ora claros e assumidos. não discordamos). fingir que não mais é o que é e. fonte de seu vigor criativo -.que determina o seu ser desejante. Nossa tese central aqui não será mais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 95 especulativas. o seu próprio futuro que resolveu madrugar. sim. já foi assinalado. porém. ela fica necessariamente associada a mais outras duas lógicas: a primeira. com cada uma das demais lógicas mundanas. é óbvio. por coerência. Tentemos melhor esclarecer. Neste sentido é que vamos aqui tentar explorar ainda um pouco mais este veio dos determinantes lógicos da cultura. com aquela que a todas elas subsume (a hiperdialética qüinqüitária que caracteriza essencialmente o homem. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. correspondente à cultura que a antecedeu .que determina o que ela.

os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1.o número 2.lógica que teve que ser superada (ou recalcada). o fogo e o leão. com a lógica da cultura que lhe sucederá. o branco. o segmento de reta. mas que de algum modo permanece subsumida. os quadriláteros em geral e as cruzes. o círculo. o homem e a quinta-essência. triângulos. a serpente que se devora pelo rabo (o ser-um como resultado do colapso de uma diferença). o ar e a águia.o número 3. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? Por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas: a) de um lado. por suposto. o vermelho.o número 4. bastaria pinçar alguns exemplos em meio à profusão de manifestações arquetípicas encontráveis nas culturas históricas: lógica da identidade I . b) de outro lado. para que ela pudesse advir em seu lugar. lógica da diferença D .o número 5. com a lógica da cultura que lhe antecedeu . as pirâmides de base quadrada.96 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para convencer-nos. a estrela socialista. Dentro desse quadro geral. o azul. lógica dialética I/D . mandalas [10] de toda sorte.de onde. lógica formal D/2 . a água e a serpente em hélice ou distendida. o ponto. o negro. a terra e o touro. os gêmeos. seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. e que por vezes “retorna” ou se revolta como num sonho -.o número 1. seu permanente pesadelo . as figuras especulares. lógica hiperdialética I/D/2 . triângulos de círculos ou nós borromeanos. procede a real ameaça à sua domi- .

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE nação de época. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e bem exercida. como as culturas. Desde sempre.2) . de modo mais ou menos claro. (Ver figura 4.2) Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. Tenta-se então recuperar este objeto perdido captando-o ou “ vestindo-o” com a nova lógica. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que ela de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural ou. por suposto. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. ou seja. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. conhecimentos. não se pode simplesmente apagá-la. o que se pode. Isto nos faz compreender. técnicas e múltiplas artes. Com isto. é de algum modo silenciá-la ou recalcá-la. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico-emocional dos indivíduos. o que. o desejo da cultura [11]. através de um processo de reiteradas substituições. 97 Do ponto de vista lógico. pelo menos. perde-se o objeto que fora antes o mais digno e próprio de ser pensado. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou marginalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 4. é uma impossibilidade. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. afinal. instituições. na verdade.

tanto de suas excelsas realizações. onde uma mixórdia de estilos incluído aí o próprio velho moderno . que. mas que ao final é o que a empurra para a frente. simula ou finge ser o que ainda virá. Lógica anter. Modelo lógico Um exemplo salta de imediato à vista: a insistência dos ideólogos da Modernidade. é o melhor que poderia mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História.pela violência em resposta ou preventiva (como a degola dos recém-nascidos). por exemplo) -. Toda cultura teria pois uma disposição desejante. tentando convencer-nos de que o mundo já entrou na pós-modernidade. que é seu verdadeiro motor imanente. convenhamos. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. pela calúnia.metaforiza a chegada de uma nova cultura que a todas estaria subsumindo. pelas ideologias. e que a dissimulação aqui .2. Este estratagema fica ainda mais visível na arquitetura dita pós-moderna. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. CULTURA ANTERIOR RECALCADA DESEJO Figura 4. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação . finge tão completamente que chega a fingir que é pós-moderno o moderno que deveras jamais deixou nem pode por si largar de ser.98 CULTURA POR VIR LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pseudo auto-superação CULTURA DE REFERÊNCIA FINGIMENTO Fim da simulação usurpadora SUPERAÇÃO Lógica poster. logo no momento em que esta passa por uma de suas crises mais agudas. Lógica de refer. como de seus piores feitos. hoje. Toda cultura.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 99 aludida é apenas um dentre eles. mesmo certo de como e de que mal vai morrer?! Neste particular. como não poderia mesmo deixar de ser. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. e que de maneira inexorável irá confrontá-la. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. todas o pressentem sem engano possível. só que ao seu jeito. Mas afinal. quem pode ser condenado por tentar sobreviver. as conquistas “materiais” da cultura lógicodiferencial em processo de superação (D/n)). os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. formalmente. A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (no caso. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. precisamente em seu fingimento. Tendo-se por referência apenas as culturas lógico-diferenciais [12]. as culturas são como todos nós . ela já percebe delineados em seu horizonte. pois. No entanto. ameaçadores. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua. pelo abandono de uma identidade ab initio perdida (I/D/n-1) em favor de uma identidade prospectiva (I/D/n) situada além da diferença (D/n) específica que ela por definição encarna. sem que isto implique conotações organicistas descabidas. um radical comprometimento lógico-identitário (I/D/n-1)) com uma mui corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (no caso. E quando isto acontecer.lutam para viver. O golpe fatal sobre qualquer cultura. só que a di- . também não se pode ter dúvidas. simulando se sobre-viver. pode-se perceber que o movimento de sua superação se dá. O mesmo esquema geral contínua válido no caso das culturas lógico-identitárias (I/D/n).

do esgotamento de seu vigor criativo. do uno- 4. tanto quanto terá sido negado. enfim. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura.3. decidimos começar a exposição com a classe das culturas diferenciais. destacando seu desejo mítico. depois. da idéia. do desvanecimento do seu próprio desejo.100 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO fícil e surpreendente equilibração se dará. no que se refere ao seu desejo. como se fora tudo um simples renascimento. exige um pouco mais de “engenhosidade” para o seu efetivo enquadramento no nosso esquema geral. a interiorização ou subjetivação da espiritualidade em curso de superação (I/D/n). o fruto esperado. enfim. Começamos com as culturas de antigos impérios de base agrícola (pré-D). veremos os gregos (D). tendo de um lado. preferimos dar prioridade à classificação identitária/diferencial. evitando ter que tratar logo de início com a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico. agora. A probabilidade de subversão/superação de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. Ao invés de apresentarmos as culturas em sua estrita ordem lógica/cronológica preferimos fazêlo só subsidiariamente deste modo. a entusiasta recuperação da sensibilidade e de alguns aspectos materiais da cultura lógico-diferencial anterior (D/n) e. margens e desvãos [13]. Desejo. que pela peculiaridade de ser justo a primeira. com sua filosofia desejante. do conceito. Por razões estritamente didáticas. sua arte mimética exacerbada e sua superação pela cultura lógico-dialética do espírito. que se estava já gerando em suas próprias dobras. seu fingimento idolátrico sacerdotal e sua superação pela cultura da lógica do mesmo (I). fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais . em especial. Alem do mais. de outro lado.

como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo .1. teremos o que mais de perto nos interessa. cabe perfeitamente à cultura dos impérios antigos de base agrícola (pré-D). Nos antigos impérios de base agrícola . 4. em razão de inexcedível soberba e prepotência. por último. Significam. em essência. nas culturas evoluídas. (negritos nossos) [14] .o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. Como bem observa Mircea Eliade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 101 trino (I/D). perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. acompanhada de investimentos na organização da produção. A agricultura tomada como base da subsistência.3. na formação de estoques e na sua distribuição. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem (ou de um pai). e por vezes radicalmente reinterpretados. Tempo perdido. a liberdade pelo cativeiro. quer a cerealicultura (Tais mitos são mais raros. sua prodigiosa capacidade de simulação tecnológica e. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais.o mito e a pseudo potência sacerdotal Nosso modelo lógico articulando uma cultura a três lógicas. metaforicamente. veremos. a Modernidade (D/D = D/2). com sua Física sofisticada e intensamente desejante. talvez. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . em desabalada carreira para sua própria superação pela cultura hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2 ).

malgrado. Ali vige o simbólico. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. (negritos nossos) [15] O mito. um herói civilizador sobe ao céu. o constituiu. É então pela idolatria sistematizada que esta cul- . que. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O etnólogo alemão Ad. mas sentido apenas como índex ou como análogo. Neste tipo de cultura. por isso não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. entretanto. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. Quanto aos mitos referentes à origem da cerealicultura. E.102 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. mas no céu. Para tanto e muito mais. Jensen dava a esses dois tipos de mitologia os nomes de “Hainuwele” e “Prometeu” e os relacionava respectivamente com a civilização dos paleocultivadores (vegetocultura) e com a dos agricultores propriamente ditos (cerealicultura). o sentido permanece ainda afeito ao traço. em essência. o simbólico refém da espacialidade que. nas culturas de base agrícola (pré-D). é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). ciosamente guardados pelos deuses. inventa-se a escrita possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. um entre os múltiplos atributos dos entes. apoderase de alguns grãos e com eles recompensa os seres humanos. Jensen julgava que o mito de Hainuwele é específico aos paleocultivadores de tubérculos. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. colocam em cena um furto primordial: os cereais existem.

(Ver figura 4. uma intencionalidade atuante ainda que oculta. ora metafóricas. da religião do Deus único. vivas ou inanimadas. A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade.3 . A todas as coisas. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). ora metonímicas (análogas aos processos primários psicanalíticos de condensação e deslocamento).Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Tudo isto. Como se fora numa pintura de Chagall. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. absoluto transcendente. para fazer frente à grande ameaça do conceito. por nada subornável. em definitivo saída da Natureza para o mun- .3) D CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES MITO (DE ORIGEM) O ANIMALIDADE Figura 4.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 103 tura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. é atribuído um sentido. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. que irá permitir a expressão do lógico enquanto tal. como assinalamos. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes.

entrementes. cuja gigantesca e emblemática figura. à volta do bezerro de ouro. sabemos todos. 4. Esta relação com os deuses é crucial. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu.a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos Chegamos aos gregos com sua lógica do outro ou da diferença (D) [16 ] que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. Daí. (negritos nossos) [17] . Entre os gregos . necessita ser levada às últimas conseqüências.3. assumant ainsi la différentiation par laquelle. é Moisés. il est plus authentiquement lui-même que par la nostalgie de l’Un-Tout. o círculo de seus adoradores . E se vê condenado a não mais retroceder. plus essentielle encore est l’infidelité où il se détourne comme un traître. posição que vai lhe custar o mais alto preço. inseparável do prédomínio do simbólico pleno ou convencional. a fio de faca. à noite. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses.2. Isto é bem ressaltado por Beaufret ao comentar as concepções hölderlinianas sobre o que deveria ser a autenticidade grega: S’il y faut la fidelité.104 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO do da Lógica ou da Idéia (Hegel). religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. Para que seja realmente autêntica. en correspondance avec le détournement catégorique du divin. constituírem os gregos a cultura trágica por excelência.três mil ou mais outros vinte tantos mil. reunidos de dia. O personagem símbolo aqui é Prometeu. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser que é doravante ser outro (dos deuses). não importa -.

uma profusão de profetas e suas duras admoestações contra a infidelidade dos homens à Promessa (que não é produto de roubo. à nostalgia do um-todo. mas. do um-todo ou do Deus único. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. consumar-se-ia irrevogavelmente o autêntico ser grego. daquilo que foi e agora é falta). à filosofia. Nesta. e esta interpretação fica especialmente reforçada quando a vemos contraposta. O que ambos não chegam a perceber. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo. Só desta maneira.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 105 Nos próprios termos de Hölderlin. Hölderlin e Beaufret. e isto precisa ser necessariamente assim porque a essência formal da diferença primordial está na especularidade [18]. em especial. ao invés. o homem grego precisava responder o détournement catégorique do divino com seu próprio détournerment em relação a Ele. e não da outra. veremos que a pátria do ser como tal. é que a relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. mas Graça!). considerada por eles fundamento lógico do trágico). Para compreendê-lo em toda sua significação. (figura 4. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles).4) . ou seja. no final do texto citado. porque é desta última. que se alimenta o vigor criativo dos gregos. não produz filósofos e perguntas. por falta do distanciamento. Reparando bem.

4 .Cultura prometéica grega (D) A arte grega. malabarismo para uma sobrevivência impossível . a dissimulação que ela realmente é.106 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO D/ 2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT.do que esta deveria. lamentablement. beauté suprême. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. sombra [19] Estes mesmos versos são comentados por Françoise Dastur em Hölderlin: Tragédia e Modernidade. grega no caso. particularmente a poesia trágica. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. de modo incontestável. com certa gravidade: . pretensa extensão da natureza . DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA I Pré-D Figura 4.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. Afirma ela. simular sua própria auto-superação como arte. vale uma vez mais apelar à sensibilidade do poeta: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. o que encobre/ revela. Para deixar isto ainda mais transparente. além. La Grèce. mas não chegara a realizar -.

um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. à fonte de seu próprio vigor. à imitação da própria imitação. (negritos nossos) [20] Exato. o que. por excesso de fingimento. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico. mas também a grande arma na luta pela sua impossível auto-preservação. para que fosse ele buscado além.seria necessário aduzir . Não conseguiram regressar ao pátrio. sabemos. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). morrendo de excesso de arte porque não conseguiram conciliar em si. ou seja. alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . com a agravante de terem sido alertados em tempo por um dos seus maiores . Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão cirúrgica a laser. demasiadamente exato. como bem registra A República [22].e a filosofia.que então exorbitava . viria a ser a prerrogativa própria do conceito [23]. como se vê.Platão. Por isso. alguém que não faltou aos seus. a verdade da parte pela da totalidade. porque .a arte tornou-se para eles não só modo de expressão e autocompreensão. sendo tam- . mais individual. não por serem imitadores. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [21] do que um clarividente. natureza e cultura. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro. Hölderlin chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 107 Os gregos não foram capazes de retornar ao que lhes era propriamente pátrio. ou.

mas era algo essencial à . [25] (p. Cependent elle est imitatio. 92) Muito importante é observar que. la poésie devient alors. Dans un pressentiment obscur.. par conséquent sans savoir réelllement. La poésie est essenciellemente mimétique. (negritos nossos) [24] Perceber tudo isso não é assim tão difícil.. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique.108 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bém mais universal e o mais universal. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie. mimésis. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. imitation d’une imitation. para Platão.. 90) Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos. Il interprète plutôt le beau comme chemin et échelon vers le vrai. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. la poésie imite le vrai savoir. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre... . de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. Eugen Fink no que respeita a pretensão do belo ao vero. Fink nos agracia com um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie.. originelle. (negritos nossos) [26] (p..

esboça seus primeiros traços em Platão. que é a intervenção indireta da lógica formal D/2 na concepção da idéia platônica. o conceito I/D perde boa parte de sua autonomia referencial para ficar quase que reduzido à pura intensividade [28] ou a seu ser sintático (D/2). on lui arracha son prétendu masque divin. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega. A identificação do mundo das idéias com o real. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. dissimulado. fazem de Platão um formalista radical avant la lettre (no sentido mesmo atual da filosofia da matemática). paralelamente à concepção da matemática como linguagem da perfeição. Com isto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 109 própria afirmação da filosofia (bem entendido. num certo sentido. des spectacles contre qui la pensée métaphysique {isto é. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. Assim. como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. mais do que 600 anos após. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. 101) A nosso juízo. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). que. como visto. no conflito da idéia com o excessivo poético que. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. a analítica aristotélica (D/2) já era uma potencialidade que de um modo ou de outro acabaria emergindo da im- . Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. (negritos e colchete nossos) [27] (p. Há aqui um importante detalhe a acrescentar. dialética da idéia} dirigea une violente attaque.

Na Modernidade . Discute-se tudo na física. mas sim os “planos” (escritos. Em suas grandes crises. que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2). temperatura.a física e a biopirotecnia Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [29]. espaço (L) e matéria (M) . jamais. Sua face desejante situa-se bem no cerne da sua gloriosa cientificidade . que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses. entretanto. spin. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D).suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade. corrente elétrica. em linguagem matemática) segundo os quais o mundo fora criado. Em suma. aceleração. é herdado pelo universo conceitual cristão com sua crônica ambigüidade platônico/aristotélica. particularmente. no entanto. (figura 4. indução magnética.110 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO precisão mesma das concepções platônicas sobre o conceito (as vacilações de Platão no Parmênides dão disto uma boa medida). densidade e o diabo [31]. força. a física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). Tudo isto. pressão. a física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2). contudo. Einstein e tantos outros. Newton. hoje.a Física [30].tempo (T).3. põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos.3. que sejam eles três . desejoso do uno-trino (I/D). dialético/formal. constata-se com facilidade. Seus grandes heróis são Galileu. De fato. 4. energia. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto uno-trino desejado (I/D). a biotecnologia. agostiniano/tomista que seus diligentes teólogos não se cansam de tentar maquiar.5) . . sua face disfarce é a técnica e seus excessos.

a história da física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu mútuo comprometimento. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA DESEJO DE QUE? HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) 2 111 I/D/ BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA I/D D Figura 4. De outro lado. A técnica. à plenitude lógica. simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica. como se fossem três absolutos . daí porque. foi. espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível.5 .pré-assistido por Galileu e alguns outros -. Um evidente e bem compacto oxímoro. de certo modo.Cultura científica moderna O mais notável dos feitos de Newton .e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [32]. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzidos (os transplantes seriam já uma preparação . eletro-dinâmica quântica . em especial a biotecnologia. espaço e matéria.tempo absoluto. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. com sua mecânica. mecânica quântica. a partir de então. enganadora. O fez. relatividade geral. entretanto.relatividade restrita. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo.

também a inabalável determinação para fazê-lo (I). além de um saber aerodinâmico (D/2). de outro lado. não se sabe como.à lógica . omissos. pois. agora. de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. mas. O avião já em vôo. Continuaremos tal como somos . como também da recomposição informacional de todas as coisas. A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. seres vivos e memórias. metamorfoseado. sem imaginação. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das determinações à lógica formal da ciência . fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. sim. É também o fim da História que tanto se apregoa. Na técnica concorrem. com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. A lógica da técnica. a determinação ou o empenho numa realização.112 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto). futuramente. em juvenil anjo de Maxwell. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. Para se chegar a voar é preciso. de modo obrigatório. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume. não é tecnologia. respectivamente. o saber científico. do homem em todos os seus pormenores. em compensação. não chega à hiperdialética qüinqüitária I/D/2. constituindo-se apenas em seu arremedo. contra a morte em geral no mundo.egoístas. a lógica clássica ou formal D/2 e a lógica transcendental ou da identidade I. entretanto. nada solidários. a propósito. É o velho “demônio” de volta. assim para toda a eternidade. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. o que. de um lado. mas novo saber cristalizado (D/2). inclusive. cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. deixa bem à mostra quão circenses são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. insensíveis. mesquinhos.

Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. além. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica. para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade.sob a égide férrea sempre da primeira. a rigor. com toda a precisão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 113 transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . para buscá-lo à frente. o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária.a sistematicidade -. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna D/2. das organizações burocráticas e similares. . mas tão apenas conjecturas. a recuperação das lógicas da diferença D e dialética I/D. . exigiria muito mais: para começar. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária I/D/2 através da pseudo síntese machista da ciência D/2 e de seu sujeito assujeitado (I) . como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. das regras de poder.ciência e consciência. ou seja. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. como diria Richard Morse [33]. lá. reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. em linhas muito gerais. Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). A verdadeira síntese qüinqüitária I/D/2. como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). não se pode apresentar ainda fatos. ver como se dará a superação da atual cultura. Não é difícil. Daqui por diante. da razão autenticamente feminina [34]. animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). coetâneo e co-fundador à fixação das bases da cientificidade que viria justamente constituir a essência da Modernidade?! [35] Eis. mas talvez milhões ao mesmo tempo. entretanto. Poder-se-ia assim dizer. por razões óbvias. o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos.

Desejo. e que por ser lógica e historicamen- 4. ficando a prometida cultura nova qüinqüitária (I/D/2) para ser tratada num item específico a seguir. 4.4.1 . que dominou o período paleolítico.cultura das tribos nômades de caçadores/coletores (pré-I). fingimento e superação nas culturas lógico-identitárias . COMPROMETIMENTOS L GICOS NAS CULTURAS L GICODIFERENCIAIS FINGIMENTO SUPERAÇÃO • DESEJO CULTURAS LÓGICODIFERENCIAIS BASE AGRÍCOLA PRÉ-D GREGA D MODERNA D/2 MITO IDOLATRIA SACERDOTAL PRÉ-D→PRÉ-I PRÉ-D ≈ I FILOSOFIA D→ FÍSICA D/2 → I/D MONOTEÍSMO MOISÉS PRÉ-D→ I POESIA TRINITARISMO EXORBITANTE PLATÃO D ≈ I/D D → I/D BIOPIROTECNIA D/2 ≈ I/D/2 CULTURA QÜINQÜITÁRIA D/2 → I/D/2 Serão aqui consideradas apenas as culturas lógico-identitárias historicamente já realizadas .4 .114 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas tão somente a sua subordinação aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética.1. cultura judaica (I) e cultura cristã patrística (I/D) -.a animalidade e a “semeadura” rupestre Vamos enfim examinar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores.Entre os bandos caçadores/coletores do paleolítico . Podemos então estabelecer o seguinte tabela resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógico-diferenciais: • Tabela 4.

diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (Pré-I). Em outras palavras. ao mundo da cultura. (Ver figura 4. apresenta algumas peculiaridades bastante interessantes . como a água na água. pois. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. ver-se obrigada a viver da caça a outros animais. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o alimentar-se e ser alimento para outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” pré-pré-D? Como pode se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. Diferencia-se da cultura Pré-D porque esta se põe como outra da natureza. no caso. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. para sobreviver. para sobreviver. Meu tio o Iauaretê. no entanto. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. Georges Bataille. em Théorie de la religion [36]. na sua própria expressão. A condição de caçador o identifica com a caça. mas.6) . é um preciso precioso testemunho de como tal relação primordial é deveras vivida [37]. Já pertence.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 115 te primeira. recordemos. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. porém. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (Pré-Pré-D). que caçava onças com ira e culpas multiplicadas por se tratar de desavença entre parentes. ele reconhecia.

no que tange ao seu modo desejante. Com isso. Segundo Eliade. Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico. ou seja. in- . Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. concluímos que as culturas tribais.. o fato é que já se pode lá assegurar a vigência de algum tipo de xamanismo. mas da renúncia a um ganho lógico (ganho de I/D para I/D/2). em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. Por um lado. o xamanismo domina ainda em nossos dias a ideologia religiosa dos caçadores e dos que vivem do pastoreio. a existência de um certo tipo de “xamanismo” na época paleolítica parece assegurada. animais e homens. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. Apenas.116 I LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO PINTURA RUPESTRE Pré-D CULTURA AGRÍCOLA MITO (DE ORIGEM) HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL Pré-I CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 4.. (negritos nossos) [38] Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pele lógica da identidade de todos os entes. nem assim constitui uma verdadeira exceção. mortos ou vivos.6. .

uros (colchetes nossos) [40]. ciervos. de penetrar nos corpos dos humanos. da caça aleatória para a caça assegurada. Observa Brodrick. (figura 7) Las pinturas {do Levante espanhol} son todas de animales: caballos. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. ou ainda por um espírito ou por um deus. [39] O fingimento nas culturas tribais. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. Isto posto. precisaria simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. em La pintura prehistórica. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 117 clusive também os deuses. cabras. que seria o êxito naquilo que para tais comunidades é o mais essencial. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente) criada pelos seus xamãs para conservar seu poder. postergando o advento da cultura de base agrícola regulada. isto é. cabras monteses. a caça: . e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. alguns felinos. conforme nos informa ainda Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. Para tanto. aduzindo ainda que todas possuem um fim muito bem determinado. isto é.

uma nova cultura cultura do neolítico e logo a seguir também das idades do bronze e do ferro. mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. irá por água abaixo. y que se utilizó para algún fin determinado. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). Para el hombre primitivo éxito significa suerte en la caza. Toda esta artimanha representativa. por força de um movimento de subversão cultural. não mais como o que se perdeu. no entanto. (negritos nossos) [41] Êxito. significa inquestionavelmente que se estaria assegurando uma regularidade na caça de certo modo equivalente à que lhes poderia proporcionar a agricultura que já se lhes avizinhava como uma nova possibilidade de vida. Se há dicho que la religión es en su origen una técnica para obtener éxitos. Espanha No cabe duda de que la pintura prehistórica se ejecutó para ser utilizada. aqui.7 .Caçada de veados. Castellón.118 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. . especificamente. pelo trabalho agrícola.

os desenhos começam a perder a sua função e vão se tornando mais e mais abstratos: El arte esquemático. contudo. aparece un nuevo modo de vida y com él nuevas artes destinadas a nuevos fines.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 119 Visa-se o outro agora como meio. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura lógica Pré-D (Ver notas 14 e 15). 4. también se utilizaba. com o advento da agricultura.Na cultura judaica . Esta plenitude é alcançada com a pura convencionalidade do . O identificamos como o herói prometéico. não mais se o devora. O autor da proeza está historicamente perdido. [42] Não se poderia esperar mesmo outra coisa. tendendo a um esquematismo que muito provavelmente será a origem dos primeiros sistemas de escrita ideogrâmica.2 . estilizado. Conforme observa Brodrick. trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da agrícola. as pinturas rupestres do paleolítico superior vão logo perder seu caráter realista. pero artes que todavía están íntimamente ligadas a la religión y a la magia. A los dibujos mágicos suceden los esquemas mágicos. e sim o escraviza. Después de la revolución que causaron la agricultura y las primeiras civilizaciones originadas en la propia agricultura. naturalmente. A agricultura se tornando um fato. bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. e mesmo em se tratando de um semelhante.a terra prometida e a exterioridade farisaica A condição para a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem é.4. o domínio pleno do próprio ser-simbólico. que surge de la pintura naturalista del paleolítico.

estariam representados pela dupla experiência da economia pastoril e da agricultura. na cultura judaica. na calada da noite. um pré-D fingindo-se de I. um passo gigantesco na história da cultura.formalmente. A conquista do simbólico convencional pressupõe. pois retirou o homem da esfera ecológica para re-situá-lo na esfera lógica que lhe era já constitutiva. como indica o nome. pelos partidários de Moisés. acontece aí a definitiva diferenciação do pensar dialético (I/D) a partir de sua matriz lógico diferencial (D). A significação dramática dessa passagem fica bem marcada pela reação irada de Moisés quebrando as Tábuas da Lei gravadas pelo próprio Deus e depois com a trama e a degola. à capacitação para a síntese de opostos. O termo convencional vem aqui se contrapor a analógico (este último. Com o signo convencional é que se chega à completa separação entre a coisa e sua representação verbal. Daí. entre identidade (I) e . do ponto de vista lógico. a grande importância que devemos atribuir ao episódio bíblico da adoração do bezerro de ouro. esta mesma tensão também está presente no episódio envolvendo Abel e Caim . ou seja. Estes. simulando possuir uma determinação ou um poder fundador que não tinha). de milhares de adoradores diurnos do ídolo. Em termos puramente lógicos. sem dúvida. Este foi. Em suma.120 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO significante com respeito ao significado. o conflito entre temporalidade e espacialidade. da liberdade no deserto e do cativeiro no Egito. o acesso ao pensar dialético (tal como há muito compreendido por Platão). logicamente. Isto veio representar a vitória do convencional/lógico (I) sobre o analógico/ mágico (na verdade. sendo o signo cujo significante ainda guarda alguma semelhança estrutural com aquilo que representa) [43]. o episódio representa a “tomada de consciência” ou a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem.

a essência mesma do ser-lógico. foi possível a Moisés não só “ouvir”. Outro episódio bíblico reitera o estatuto lógicotranscendental ou identitário da cultura judaica: é a disposição de Abraão em aceitar o sacrifício do seu filho Isaac como o preço imposto pelo Deus todo poderoso para a sobrevivência de seu povo. então. depois. é que se podia. mas não é suficiente ainda para a determinação de seu desejo mais recôndito e que será a razão de seu viver profundo e motor da criação de um riquíssimo acervo cultural. sim. O sentido profundo do episódio. Israel. não há princípio. Só a partir daí (I). representar de maneira apropriada a lógica da identidade ou transcendental. A princípio. Só esta experiência aguda de opostos e a tensão que ela suscita. Assim. simbolicamente assumida por Abraão naquele episódio. retroativamente. a recalcou e desta maneira transformou-a no seu impossível . isso pareceria um contra-senso: sacrificar o próprio descendente para garantir a descendência. Agora que era alcançada a plenitude simbólica. poderá algum dia haver um filho que se autonomize ou rebele (D) e. mas sobretudo compreender a auto-definição do seu Deus: Eu sou o que sou (ou serei).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 121 diferença (D). Tudo se passa como préI e pré-D levassem à síntese pré-I/D (superação do analógico) que por sua vez vai eqüivaler ao lógico transcendental I “objetivado” (auto-definição lógica do Absoluto). e sem este. Tudo isto serve bem para a caracterização do serlógico judaico. por ter rompido com o estado ecológico. especificamente com a sua realização lógico diferencial (pré-D). nada se funda [44]. A lógica do pai é precisamente a lógica transcendental ou da identidade (I). entretanto. pôde proporcionar as condições para a realização da síntese dialética que vem dar aceso ao simbólico acabado. está em que só o sacrifício do filho define um pai enquanto tal. aconteça a reconciliação amorosa entre ambos (I/D).

nada podia abalar a cultura judaica. como bem sabemos. e até hoje persiste.assírios. pelo contrário.a Terra Prometida.8) I/D FARISEANISNO (ESCRIBAS) D CULTURA GREGA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) I MAGIA (ANALÓGICA) DESEJO DA TERRA PROMETIDA Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA Figura 4. que exatamente assinala o ser diferente vis-à-vis a Natureza) . com o advento do cristianismo.8 . tais infortúnios acabavam sempre se constituindo num motivo para o maior reforço de seu desejo pela terra. foram múltiplas: . uma reação ao sionismo na medida em que a efetiva conquista de uma terra poderia enfraquecer o seu desejo mais essencial e levar mesmo à dissolução desta cultura milenar. A cultura judaica só veio ser profundamente abalada no contato com a cultura grega. babilônios. persas (enquanto força militar) -. fingimento e superação na cultura judaica Tanto isto é verdade que entre os próprios judeus houve. (figura 4. em particular seus reiterados constrangimentos e desterros impostos pelo arbítrio de seus vencedores e/ou senhores . Fossem quais fossem as derrotas militares judaicas.Desejo. A partir daí ela passa a viver uma permanente e dramática tensão interna que só se irá resolver muito mais tarde. da diferença). a cultura da diferença.122 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO objeto de desejo: a terra (aquela sobre a qual se exerce o trabalho. As reações à cultura greco-romana (prometéica.

por tratar-se aqui de um processo hiperdialético. Consideremos agora a delicada questão da superação da cultura judaica. Devemos. a aludida independência relativa permite que se levante a questão acerca de quem efetiva- . inicialmente como comerciantes e depois como colonos. A propósito. o terrorismo zelote. o superado/subsumido pode sobreviver como tal e também por si. e voltar inclusive a ter um papel ativo à frente do processo cultural global. Contudo. Isto é feito esvaziando-se a interioridade da lei mosaica e transformando-a. mera exterioridade. preliminarmente. como deveria ser. a cultura judaica (I) precedeu a cultura grega (D). Ademais. a pergunta pelo ser-um. o “fundamentalismo de fachada dos escribas/ fariseus. insistindo mais uma vez em que. a meia adesão dos saduceus e. Bem. ter em conta que as lógicas da identidade e da diferença são ambas fundamentais [47]. porque tentam barrar a penetração da cultura da diferença através da “demonstração” de sua não necessidade. em um conjunto de convencionalidades sociais. à moda grega. aliás. o que possibilitaria às culturas judaica e grega se desenvolverem com uma certa independência uma da outra. como um “resto” [46].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 123 as revoltas armadas macabéias. Estes últimos acabam sendo os mais importantes porque se valem da “estratégia” do fingimento. Futuros estudos sobre este assunto poderão revelar se de fato existiu tal influência e sua extensão. acabou sendo o caso dos judeus no nascimento da Modernidade. como. muito especialmente. não está até hoje bem determinado o grau de influência das culturas semíticas sobre os gregos presentes na costa da Ásia Menor. Os Evangelhos Sinóticos são bastante eloqüentes e insistentes nesta espécie de acusação a escribas e fariseus [45]. nunca é demais lembrar que a filosofia. emerge exatamente nas colônias gregas em ilhas próximas ou na própria orla da Ásia Menor.

Preocupadas com sua re-integração. A diáspora judaica. a cruci- . Voltaremos a este importante assunto no item a seguir. com o seu Deus Único) ao cristianismo (Segunda Aliança. o cristianismo escamoteou a real subsunção da cultura grega (D) através da artimanha de sua apropriação/ internalização simbólica. como não lhe interessava uma ruptura ainda maior com sua herança judaica. A nosso juízo. e mesmo tempos depois.a cultura greco-romana ou a cristã (patrística). com o seu Deus Uno-Trino) foi um processo lógica e historicamente bastante complexo na medida que está aí implícita a mediação de uma cultura prometéica ou da diferença. inequivocamente. chegou a ser numericamente importante [49]. desde Alexandre até a época de Cristo.No cristianismo medieval . O conflito desde o começo com fariseus e escribas fingidores. 4.4.124 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente teria consumado a superação histórica do judaísmo . lógico diferencial (D) com a cultura judaica lógico-identitária (I). a exata versão que posteriormente serviu de base para a composição do Evangelho cristão. Entrementes. A passagem do judaísmo (Primeira Aliança. Só nos parece a segunda em razão do modo que toda esta passagem é contada pelos cristãos interessados em omitir o que fora verdadeiramente subsumido [48]. as autoridades religiosas judaicas promoveram a tradução da Torah para o grego: trata-se da famosa Setenta (LXX ou Setuagina) [50]. como por todos bem sabido. e a grande maioria de seus membros falava apenas o Grego e o dialeto local.o corpo ressuscitado e o “lixo” escolástico O cristianismo originário (patrístico).3 . é o produto inquestionável do encontro da cultura grega. a primeira. A transposição da Torah para o grego pode ser considerada como o mais importante acontecimento antecipador do cristianismo.

em conjunto. a descida ao reino das trevas. O desejo do cristianismo estava pois na recuperação do corpo (D). ressuscita reluzente de glória. mas como corpo biológico. da doença. São Paulo não poderia ser mais explícito e claro sobre este assunto: O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível.Amor e símbolo da reconciliação entre Pai (I) e Filho (D). Sabemos que é o próprio Cristo que faz a comunicação que precisaria se anular como presença visível (significante. entretanto. A figura do Cristo Crucificado e abandonado o faz logicamente outro do Pai (I). portanto. da dor e sobretudo da corrupção . ressuscita corpo espiritual [52]. A omissão das últimas palavras do Cristo Crucificado .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 125 ficação (de responsabilidade dos fariseus. Devemos ver aí o corpo mesmo. não como apenas corpo físico. Trata-se do que fora antes pensado pela lógica da diferença (D). depois a ressurreição tendo como contrapartida o envio do Espírito Santo. O Cristo ressuscitado é exatamente esta referência ou protótipo daquilo que era então prometido a todos os mortais. corpo beatífico necessário e suficiente para o exercício do amor a Deus (figura 4. sensível e sensual (bio-psíquico). indo por isso ocupar a posição lógico-diferencial (D). agora livre do peso. A localização do desejo do cristianismo a partir daí se faz sem dificuldade. lógico dialético I/D. o corpo ressuscita incorruptível. segundo São João) coetânea ao abandono pelo Pai. mas sob a lógica da espiritualidade (I/D).9).Deus meu. semeado desprezível. escamoteiam lamentavelmente os traços daquele prodígio.o corpo prometido. D) entre os homens para que em seu lugar adviesse o Espírito Santo . como em São João. ressuscita cheio de força. por que me abandonaste [51] -. A partir daí . Deus meu. semeado corpo psíquico. semeado na fraqueza. Era o corpo (o Filho encarnado). formam uma bem arquitetada recapitulação simbólica.

Tomou-o.10). por causa da alegria. de um lado. nem ossos.9 . então. de outro lado.” Dizendo isso. Destaca-se. E como. fingimento e superação na cultura cristã patrística Esse desejo de um impossível corpo (D) espiritualizado (I/D) está profusa e ricamente expresso na arte sacra cristã. em especial nas artes românica e bizantina. mostrou-lhes as mãos e os pés. não podiam acreditar ainda e permaneciam surpresos. estabilidade de composição e olhar fixo vigilante das personas re- . a insistência no corpo crucificado e ao mesmo tempo imponderável. e comeu-o diante deles. a representação de um corpo dis-psicologizado e reespiritualizado pela frontalidade. disse-lhes: “Tendes o que comer?” Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. como estais vendo que eu tenho. irradiando a mais excelsa espiritualidade (figura 4.126 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO melhor se compreende o episódio narrado por Lucas em que Cristo aparece aos seus discípulos desafiando-os insistentemente para que o toquem: “Vede minhas mãos e meus pés: Sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne.Desejo. [53] I/D/ 2 ESCOLÁSTICA (TOMISMO) D/ 2 CULTURA MODERNA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCITADO I/D D POESIA EXORBITANTE CULTURA GREGA I Figura 4.

o primeiro lógico moderno. mas a idolatria. Ele é basicamente um lógico. já comprometida com a Modernidade. Embora seja um exagero afirmar que o Ocidente desconhecia a obra aristotélica (o Organon era certamente conhecido). Por último. inclusive em âmbito teológico. a verdade é que ela só teve divulgação ampla para se tornar uma real ameaça à cultura estabelecida a partir dos fins do século XII. Aí está também a razão profunda da Reforma. A ameaça à hegemonia epocal do cristianismo trinitário começa a se delinear entre os séculos XI e XII. . mencionaríamos. desde sempre.11). valendo-se de um aparente paradoxismo. Destacaríamos três importantes acontecimentos. O desejo de ser-cristão se realiza simbolicamente na própria arte. na medida em que ela. no alvor do século XII. Vale a pena aqui chamar a atenção para algo muito especial no que respeita à relação entre arte e cultura na cristandade (autenticamente trinitária). tendo deixado uma Logica ingredientibus (Lógica para principiantes) destinada ao ensino das categorias aristotélicas A seguir destacaríamos a tradução para o latim das obras de Aristóteles. resolve denominar Revolução Industrial da Idade Média [54]. se dispensar das imagens. que Gimpel.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 127 presentadas (figura 4. acusadas de favorecer não a fé. o primeiro surto de atividade econômica de caráter propriamente moderno pelo peso dado à técnica e à racionalização da produção. e portanto desejosa não da corporeidade e sim do uno-trino. quando os árabes promovem uma enxurrada de traduções de textos recuperados na sua expansão ao Oriente. se constituiu na própria espiritualização (I/D) da materialidade (D). Há um consenso mais ou menos geral que com Pedro Abelardo (1079-1142) vem ter início todo um processo de fundamentação racional das crenças em desfavor dos “argumentos de autoridade”.

já se constituía num dos principais centros de saber da Europa. instado a manifestar-se sobre o valor real de sua grandiosa obra. XII) Figura 4.10. melhor preparada. séc. na medida em que a teologia era então não apenas um affaire de pura fé. Imperadores Justiniano e Teodora (Mosaico.128 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. O Cristo Crucificado (Românico alemão. VI) A reação à ameaça da razão formal se dá justamente pela aristotelização da teologia antes radicalmente platônico-trinitária (Patrística). A primeira investida coube a Santo Alberto Magno (12061280) e uma segunda. Ravena. por ser a mais recente de todas. Sobre o último corre uma célebre anedota: o Doutor Angélico. Buscava-se assim demonstrar a não necessidade da ciência. séc. teria respondido simplesmente: “Um lixo.” Não importa aqui a verdade histórica.11. já em seu leito de morte. “cumpria ordens”. Esta gigantesca operação diversionista. disciplinado. pois o que ela deixa claro é que São Tomás. para o . Basílica de São Vital. foi também a mais firmemente intencionada em toda a história da cultura. mas também justificada pela razão. A meta estipulada foi a conquista da Universidade de Paris que. a seu discípulo São Tomás de Aquino (1225-1274). embora recém-fundada. O Absoluto racionalizado se antecipava para tentar impedir o advento da Razão absolutizada.

com Newton. Caso fôssemos obrigados a escolher um marco de referência para a superação em definitivo da cultura cristã. fora especialmente preparado e apoiado. A “lógica espacial” das nações impunha que nítidas linhas de fronteiras (e aduanas para bens físicos) se formassem. diga-se de passagem. A acusação dos reformadores na esfera doutrinária. Kepler e. constituíam um poderoso mercado financeiro inter-nacional. atinge frontalmente a Universidade (Paris. entre outras coisas. a consolidação de estados nacionais. de modo que com elas desapareciam os espaços intersticiais entre feudos. Aristóteles: When I think of this lamentable state of affairs. Os acontecimentos se atropelam: descobre-se a imprensa. definitivamente. vêm os Descobrimentos [56]. ao mesmo tempo que. especificamente . ao sentiremse já suficientemente fortes. Reacendia-se o processo de acumulação financeira dos banqueiros intersticiais que. pela teia de suas ligações afetivas e de mútua confiança. ficaríamos com a Reforma. caía automaticamente de algum lado (ganhava uma nacionalidade). I cannot avoid believing that the Evil One introduced the study of Aristotle. vão se empenhar em minimizar o poder da Igreja promovendo. em especial Lutero. a ciência se consolida com Copérnico. Quem lá vivia. acelerando a deterioração do nível ético da hierarquia e acabando por provocar a Reforma. [55] Já no início do século XIV. Descartes define o novo mundo como espaço medido tendo por sujeito o cogito. antes de qualquer outra). Não se deve estranhar que tal guinada ideo-lógica acabasse se mostrando contraproducente. a teologia racionalista de São Tomás de Aquino e por trás de tudo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 129 que. Galileu. a recuperação demográfica permite a retomada do processo de modernização econômica que se havia interrompido com as grandes epidemias e as tumultuadas cruzadas.

130 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pela separação radical que ela impõe à fé e à razão. procurando minimizar.2: • CULTURAS LÓGICOIDENTITÁRIAS TRIBAL PRÉ-I JUDAICA I CRISTÃ PATRÍSTICA I/D QÜINQÜITÁR. já que esta não tem como por si suceder-se? Como todos sabemos hoje. I/D → D CRISTO CRUCIFICADO/FILHO I→D ESCOLÁSTICA C. este sujeito foi posto pelo protestantismo como sendo o sujeito da fé. ESCRIBAS I → PRÉ-D I≈D CORPO INCORRUP. PINT. podemos então estabelecer o resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógicoidentitárias (agora incluindo a cultura nova qüinqüitária). a posteriori. HERÓI MÍTICO PRÉ-I→ANIM. CIENTÍFICA TOMISMO GALILEU I/D→ D/2 I/D ≈ D/2 O VERO TRANSCENDENTE .2. PRÉ-I ≈ PRÉ-D PRÉ-I→ PRÉ-D PROMESSA FARISEUS/ TERRA PROM. RUPEST. o sujeito individualista liberal. COMPROMETIMENTOS LÓGICOS NAS CULTURAS LÓGICO-IDENTITÁRIAS DESEJO FINGIMENTO SUPERAÇÃO PULSÃO DE XAMANISMO CULT. A Contra-reforma e correlatamente o Barroco já são manifestações do cristianismo superado. Isto posto. os seus prejuízos. jesuítico. conforme mostra a tabela 4. I/D/2 • Tabela 4. AGRÍCOLA MORTE CULT. É precisamente isto que acaba resolvendo o grande problema que à nova cultura se impunha: quem deveria ser o sujeito autônomo da ciência.

subsumindo assim o processo transcendental unário. Agora. A pergunta que logo salta à vista refere-se ao desejo da cultura lógico-qüinqúitária. ainda que lógico– transcendental (I). aquela dos bandos e tribos de caçadores/coletores do paleolítico (pré-I). pré-I e pré-D. 4. Já vimos (item 4. Assim.12 reúne. mundanamente. a totalidade das figuras anteriores relativas a cada um dos momentos da história da cultura antes recenseados. além de trinitária torna-se ao mesmo tempo pré-qüinqüitária (pré-I/D/2).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 131 Esta visão de conjunto das culturas lógicoidentitárias deixa evidente que. é o momento de vermos como tudo se resolve também satisfatoriamente com respeito ao tipo cultural derradeiro. a que preceder. ao mesmo tempo em que elas são o que são. O sentido disto é óbvio: a pré-condição do cristianismo não teria sido precisamente Jesus. a cultura cristã trinitária.1) como se pode preservar a generalidade do processo hiperdialético com respeito à cultura originária. é que ele pode escapar às dificuldades do processo simplesmente dialético (I/D) no que tange às problemáticas de origem e destinação [57]. são também pré-formações das culturas da mesma classe que as sucederão. a cultura lógico-qüinqüitária (I/D/2). a cultura judaica. pois é óbvio que nada mais há.5. articulada de modo rigoroso. o homem perfeito? E é por tudo isto que a cultura hiperdialética qüinqüitária significa o termo do processo de auto-desvelamento do ser-lógico do homem. Tendo o homem alcançado o último estágio de seu desenvol- . Especulações acerca do futuro da cultura Exatamente porque o processo hiperdialético qüinqüitário (I/D/2) é uma dialética de dialéticas. foi igualmente pré-dialética (préI/D). degrau zero da dialeticidade (I). Do mesmo modo.3. na conquista do simbólico convencional ou pleno. se contarmos também as culturas ecológicas. A figura 4.

Nas culturas subsequentes. simplesmente não comeria. seria mesmo o homem da cultura qüinqüitária desejoso do ser-sistêmico-calculado antes governado pela lógica da dupla diferença (D/2)? CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) I/D/ 2 BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. como poderia ele se manter desejoso de algo menor. fingimento e superação na história da cultura Esta simples colocação nos faz lembrar que em todos os estágios culturais anteriores o que impulsionava a cultura em direção às suas tão de um desejo de morte da cultura ou da humanidade (ou seja. como vimos. aquele desejo passa- . se o homem não se identificasse à caça. da lógica qüinqüitária recém conquistada) que. Desejo.132 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vimento onto-lógico. Embora onto-logicamente distinto. tal como vinha acontecendo nas demais culturas? A manter-se o mesmo padrão. e tendo-se em conta que este seria também o momento de seu pleno autodesvelamento. era a condição mesma de sua sobrevivência física. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL MITO (DE ORIGEM) CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 12.

desejo de poder na medida em que uma lógica vinha se apoderar do que fora já pensado por uma lógica menor anterior (ou por ela subsumida). O mais espantoso. (D)/(I/D) = D/2 ≤ I/D/2. inclusive para a Modernidade. Constata-se sem dificuldade que a simetria global se recompõe à perfeição tão logo removamos aquele movimento hipotético”. entretanto. ao contrário de todas as culturas anteriores. de modo coerente. ocorre quando constatamos que um hipotético desejo da cultura qüinqüitária (I/D/2) pelo ser-sistêmico ou objeto científico calculado (que se revelara à lógica formal D/2) viria quebrar toda a harmonia do quadro geral do processo de desenvolvimento cultural. o desejo (D) e seu “objeto” (I/D) não achegam a ultrapassar a lógica qüinqüitária do ser humano I/D/2.3 anterior). articulados. sempre inferior à capacidade lógica humana I/D/2. ao mesmo tempo. pois seria a única “seqüência de movimentos” admitindo um quarto elemento (figura 13 à esquerda). o que é o mesmo que afirmar que a evolução cultural humana veio se fazendo de modo inconsciente.13 à direita). Ele ape- . Mas então seríamos obrigados a aceitar que não haveria mais desejo na cultura lógico-qüinqúitária? Ela nada realizaria de relevante.3. de sorte que sua articulação se mantinha. Isto não traz nenhuma inconsistência em virtude de que se tratou sempre de desejo por algo igual ou inferior ao ser-dialético (I/D). Tudo isto pôde se manter assim porque quem presidia de fato ao processo cultural em sua globalidade era a lógica do inconsciente (D). Pode-se constatar facilmente que isto funciona para todas as culturas. agora justificadamente tido por espúrio (figura 4. o que nos parece uma obviedade. ou seja.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 133 va a ser. cujo desejo vem ser pelo uno-trino (ver item 4. simplesmente por ter afinal coincidido consigo mesma? Nossa resposta seria no exato sentido contrário: o desejo não desapareceria. mas apenas mudaria de sinal.

DESEJO DE MORTE OU DE PODER HIPOTÉTICO DESEJO QÜINQÜITÁRIO I/D/ 2 DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE 3 D/ 2 I/D/ 2 3 D/ 2 3 4 3 I/D 3 3 3 2 3 3 I/D 3 2 3 2 D 2 D 3 2 I 2 2 I 1 2 1 1 1 Pré-D 2 1 1 2 1 Pré-D 2 2 1 1 Pré-I O Pré-I 1 1 O Figura 4. voltado para o mais alto. pela vez primeira. para o que é de fato transcendente (não importa que este exista ou não. jamais se poderá sabê-lo com certeza) [58].13 . pelo mais elevado. . por isso desejo de poder.134 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nas estaria se reorientando.O desejo na cultura qüinqüitária O homem estará deste modo experimentando um sentimento completamente novo de religiosidade. Terá ele então superado em definitivo seus antigos modos idolátricos (porque desejosos do que era inferior a seu próprio nível onto-lógico) para viver. num sentido que até agora não se lhe tinha ainda revelado. a vida autêntica a que fora destinado. deixando de ser desejo voltado para “baixo . para se transformar em desejo apontando para “cima .

à beira de eclodir no ocidente europeu.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 135 5 A Modernidade – das origens à globalidade etnocida QUESTÃO VII: Se as Bruxas são capazes de Desviar o Intelecto dos Homens para o Amor ou para o Ódio. dificilmente. com maior probabilidade. QUESTÃO XIV: A Monstruosidade dos Crimes de Bruxaria. tornaria mais ou menos óbvia a resposta a essa questão – uma nova cultura estaria. mas há ainda muitas outras gravíssimas QUESTÕES.. só por aí. 1484. valemo-nos apenas. Entretanto. onde se mostra a Necessidade de trazer a lume a Verdade sobre Toda a Matéria. Europa Oriental e Extremo Oriente. e pensamos que nunca o foi. Malleus maleficarum – O martelo das feiticeiras. tanto aqui como alhures. Fazendo apenas um corte no tempo lá por volta do ano 1300 ou 1400 e comparando Europa Ocidental. De qualquer . naquele momento. de um recurso retórico com propósitos meramente didáticos. Algumas vezes fomos acusados de fazer previsões a posteriori. conseguiríamos atinar em qual das três. iria emergir uma nova cultura. um retrospecto histórico judicioso.. É óbvio que não é este aqui o caso. mas sem que se necessitasse entrar em pormenores.

como certa feita fez um famoso físico e cosmólogo brasileiro: “Ah!!! Mas nada disso que você diz sobre o que virá daqui para a frente está ainda empiricamente comprovado!” Não devemos esquecer que a Europa Ocidental fora cristianizada no início do século IV.136 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO modo. nos interstícios feudais. desfazendo-se assim de uma diferença já conquistada (seu passado greco-romano. Contudo. a dar exatos dois passos culturais atrás. Fora o Islã bem sucedido. com Constantino. há como se fartar noutras passagens do presente trabalho. I). dali mesmo onde se instala. o Ocidente foi violentamente puxado para trás e reagiu atirando-se com todo o ímpeto para a frente. que ampliara sua presença no Ocidente com a invasão. não se retirou in totum. resistindo. numa fase de instabilidade e de mudanças aceleradas. Uma metáfora meio mecânica. O semitismo judaico. meio psicológica. até simplória. e a Europa teria simplesmente se volatilizado. pode se desenvolver e tempos depois estimular decididamente o . D). pode nos ajudar na compreensão do que aconteceu: ainda não completamente estabilizado. da lógica do Deus Uno-Trino (lógico dialético. iria ingressar. De certa maneira isto representava uma tentativa de obrigá-la a um recuo. Só não é justo que depois exclame. e que a partir do ano 700 veio ser palco da invasão semítica islâmica. A força da cultura greco-romana não tinha ainda se apagado inteiramente da memória coletiva. se tornado mera província peninsular asiática. como deveras aconteceu. I/D) à lógica do Deus-Uno (lógico transcendental. e. Isto se deveu ao fato da invasão islâmica ter ocorrido antes que a cultura cristã trinitária (Patrística) tivesse tido tempo suficiente para levar sua raízes a uma maior profundidade. quem quiser previsões futurológicas para valer. como boa parte dos muçulmanos. tal como uma cultura trinitária homóloga deve tê-lo feito no extremo oriente.

Nesta segunda parte. Num primeiro momento. que mantêm ainda bem vivo este legado arcaico da Modernidade ao se quererem modernos (D/D) e herdeiros diretos e exclusivos dos gregos (D). à frente os franceses. o surgimento do sujeito liberal. Como é impossível o recuo cultural. são os alemães e parcialmente os latinos europeus. uma disputa entre famílias lógicas – de um lado. O item final será dedicado ao dramático papel das culturas semíticas na passagem à cultura nova. acabou tomando um sentido extrafamíliar. Ao contrario dos anglo-saxões. com o curso da luta e com o peso da língua e doutras tradições greco-romanas. depois. que no caso seria a volta à cultura greco-romana (D). sim. de outro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 137 processo de superação do cristianismo trinitário. do ponto de vista apenas lógico. calculadora do mundo (D/D). uma nova cultura de base científica eclode na Europa. reativamente. ambas da família das lógicas identitárias). Quem ignora o que isto quer dizer? Este capítulo apresenta uma primeira parte onde se procura detalhar os antecedentes da Modernidade a partir justamente das invasões muçulmanas e uma segunda parte onde tratamos diretamente da geração da Modernidade e de suas duas grandes etapas históricas. a novidade será a de começar pelo óbvio. marcadas por seu modo econômico produtivista e. O confronto islâmico/europeu. se afigurava a princípio uma disputa intrafamiliar (lógica da identidade I versus lógica dialética I/D. Contudo. pelos alicerces – a caça às bruxas – e só depois. assim. a indo-européia (D). . a única opção para a Europa era mesmo partir para a edificação de uma cultura cínica lógico-formal. isto é. tratar da construção aparente: a ciência e o sujeito liberal a ela sujeitado. dá-se a aristotelização da teologia cristã (Escolástica) e a constituição dos estados nacionais. e. consumista. após. a semítica (I).

Entrementes. a oeste e relativamente próxima das colunas de Hércules. Em tais circunstâncias. e assim o fizeram os gregos e seus vizinhos. poderiam resistir-lhes. qualquer império. uma ilha enorme. um mar em meio à grande vastidão de terras. desde que internamente unidos e decididos pela liberdade. não importa sua potência. Foram estes que agindo desta forma impediram a consecução do propósito geopolítico dos poderosos atlantes – fechar o cerco ao Mediterrãneo.1) Como o Oceano Atlântico Norte praticamente não existia.1. não importa se realidade histórica ou surrealidade mítica! No Timeu de Platâo (2) lemos que havia. Na ilha formara-se um magnífico império. a Europa e a África. os atlantes não tinham porque fazer exceção. Antecedentes da Modernidade [1] . até o Mar Tirreno (sudoeste da Itália). 5. vale a pena que relembremos rapidamente velha lição sobre os antecedentes da geopolítica. só alcançaria a onipotência (e de quebra a prepotência) conseguindo fazer daquele único grande mar interno um mare nostrum. (Figura 5. tão poderoso que além de seu próprio espaço insular dominava também a Europa. como diz o nome. e o norte da África. No caso. ainda maior do que toda a Ásia – a Atlântida – acompanhada de muitas outras pequenas ilhas que facilitavam a comunicação entre ela.138 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Antes de abordarmos a questão dos antecedentes da Modernidade. do Estreito de Gibraltar ao Egito. pequenos povos. o grande mar daquele mundo era mesmo o Mediterrâneo.

vamos aos fatos. valendo-se apenas de sua unidade interna e de seu amor à liberdade. e era tanto ansiado [4]. Bem. por isso. em todos estes acontecimentos ficaram eles apenas assistindo lá de cima. não poderia ter tido outro desiderato.1 . Os pequenos povos tiveram que se virar sozinhos. de cabeça para baixo. aquela mesma dos romanos: a . talvez para se divertirem. não fizeram mares ad hoc se abrirem e fecharem. O Islã. estava também ensejando um ajuste de contas. Na medida em que teve elã e forças para assim atuar. não seria nada plausível esperar que eles se dispusessem a fazer alianças com criaturas tão pouco confiáveis. é que os deuses decidiram fazer afundar a Atlântida.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 139 Figura 5. prometéicos. o de tentar implodir a cristandade.Estratégia do Império Atlante Como para os gregos os homens são exatamente o outro dos deuses. isto é. sem mover uma palha: não lançaram pestes. depois de tudo decidido. Agora. Sua grande estratégia geopolítica repetiu. nem provocaram terremotos providenciais com enormes lajes caindo sobre os opressores. senão. não importa quanto tenha sido seu grau de consciência ou intencionalidade. que há muito assumira foros intra-semíticos. acreditamos nós. logicamente tardio e radical [3].

não há vingança plena na História. Tudo corria bem e célere pela esquerda até que foram derrotados a oeste da França por Carlos Martel na Batalha de Poitiers (732). Por não haver retrocessos. por cima. por volta de 1500. Adentram a Europa por esta segunda porta e só são detidos ao sul da Alemanha. Frustava-se também sua tentativa etnocida de implodir a cristandade. sujeito de família (família lógica identitária/temporal ou lógica diferencial/espacial) Entrementes. em 711. algo de relevante já acontecera poucos anos antes da Batalha de Poitiers. tendo eles estado já bem próximo de realizá-la. justamente. Pela direita. e com ela. Dizemos isto no sentido de que os romanos partiam para fazer e fechar o cerco a partir da Península Itálica e o Islão pretendeu fazê-lo chegando. Frustava-se desta sorte (boa ou má. por um e por outro lado. à esquerda e direita. o reino visigodo que lá se instalara. em tempos desencontrados.2) Os muçulmanos atravessam o Estreito de Gibraltar e logo ocupam toda a Península Ibérica destruindo. . a famigerada figura de Abraão à Santa Clara [5]. daquela mesma península. conforme o lado) a estratégia muçulmana de envolvimento do Mediterrâneo. (Figura 5. também por baixo.140 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transformação do imenso Mediterrâneo num mare nostrum. do lado esquerdo da Europa. seu grande êxito na referida estratégia só é alcançado com a tomada de Constantinopla (1453). que veio pôr fim ao Império Bizantino. conquanto que. é aí que entra. a não ser que alguém se assuma. a expectativa de provocar um retrocesso da História. como bem sabem os sicilianos.

cristão convicto. Os mouros chegam a invadir a caverna. mas um providencial tremor de terra faz desabar parte da montanha.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 141 Estratégia romana Estratégia muçulmana Figura 5. Dali parte para suas razias até que é perseguido e cercado em seu próprio refúgio. um príncipe visigodo. atingindo fundo os invasores. Pelayo.2 – Estratégias romana e islâmica Em 718. resiste à invasão muçulmana fazendo da caverna de Covadonga seu quartel-general. mas deixando incólumes Pelayo e os seus soldados. Deste foco de .

ameaças e núpcias –. Textos aristotélicos trazidos pelos árabes começam a ser traduzidos do grego para o latim. É tal o desenvolvimento destas feiras e. o condado de Porto Cale. Pelayo torna-se rei de Astúrias. armas. pode-se mesmo dizer que de vida curta. Casa-se com uma filha do rei de Leão. Henrique da Borgonha vem se aliar ao Reino de Leão na luta contra os sarracenos. vão juntos formar a Espanha moderna. ditando a derrocada do cristianismo lógico-trinitário (I/D). É nesta condição de marginalidade que pequenas populações judaicas se preservam e desenvolvem atividades que lhes serão típicas. se comparada com a da cultura de mesmo nível lógico no Oriente. que se lhe torna possível promover e acelerar a formação – pela força de dinheiro. recebendo. futuro rei do Porto Cale independente. nosso imenso Portugal. do mercado financeiro associado. já a partir do ano . durando mais do que 700 anos. em boa parte. por seus bons serviços bélicos. Os mouros são por fim expulsos do ocidente europeu em 1492 numa longuíssima guerra. Ainda no ano de 718. vital para a constituição da Europa moderna. de cuja união nasce Don Afonso Henrique. um mercado financeiro acoplado ao sistema periódico das feiras que se expandia à sombra da miríade de castelos feudais. por conseqüência. a cartografia. unindo-se posteriormente a Aragão e Castela. mas boa parte dos judeus que os acompanhavam ficaram nos interstícios extra-feudais [6]. a medicina e. No curso destas lutas. como o artesanato de calçados. e este. com base em sua sólida unidade cultural. sobretudo. conseguem estruturar. por eruditos judeus.142 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO resistência é que parte o processo da reconquista da Península Ibérica. dos estados nacionais europeus modernos. reino que se expande vindo depois a chamar-se Reino de Leão. Isto irá liquidar com o poder absoluto político/cultural da Santa Sé.

daí. Em meados do século XIII.Ciência. o epílogo está pronto para quem tiver coragem de decifrá-lo! Nestas considerações preparatórias vamos expor nossa visão do processo de constituição lógica da Modernidade. Se não fora possível pela força fazer implodir (voltar ao Deus-Uno) o cristianismo trinitário.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 143 1000. 5. vale dizer. saberá aqui mesmo logo adiante. se não. à lógica formal ou científica D/D (do Deus desempregado. com um pouco de argúcia cultural e grandes fundos financeiros. ganhos de eficiência no aparelho produtivo: este meio foi a técnica sistema- 5.1. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso . sujeito liberal e caça às bruxas O surgimento do processo de acumulação. tornara-se possível.2. Em suma. fazer eclodir na Europa a Modernidade. aproveitando agora a direção do vento – direção em que irreversivelmente ao homem desvelase sua própria lógica –. não se deu em razão de terem as forças produtivas alcançado um certo patamar de eficácia. do Deus Mercado). do ponto de vista econômico. caracteriza a Modernidade. Santo Alberto Magno e São Tomás de Aquino procedem à irreversível racionalização ou aristotelização da teologia cristã. de forma regular e persistente. O que veio a seguir já se sabe [7]. um dos pilares do modo de produção capitalista que. mas sim por ter sido encontrado um meio de injetar. é a intervenção semítica que faz a Europa ocidental indo-européia passar tão rapidamente da lógica da simples diferença D (do politeísmo greco-romano) à lógica dialética trinitária I/D (do Deus Uno-Trino) e.2. o que permitirá melhor compreender seu caráter de “genérico” (sexuado) e o porquê da existência dos dois modos sucessivos de suas correlatas formações econômicas – o capitalismo produtivista e o capitalismo pleno ou consumista.

terá que fazê-lo numa proporção sempre superior àquela do período precedente [10]. “seus” trabalhadores. porque o não consumido. degrau após degrau. Noções muito elementares de contabilidade de custos bastam para compreender isto e também que um tal processo só pode ter continuidade se o empresário. de maneira privada e necessariamente autoritária. acréscimo de estoques de matéria-prima e de produtos acabados. se mantidas estas condições gerais. conseguir de novo se apropriar dos excedentes. como é óbvio. só renunciam a consumo quando estão de regime!) – que. em períodos subseqüentes. Acrescentaríamos que melhoria técnica sempre houve. era drasticamente reprimido por severos e até cruéis regulamentos. um péssimo exemplo de explicação [8]. o “excedente”. quando isso era ensaiado. como nas corporações medievais. mas como um acontecimento exógeno/contingente à esfera propriamente econômica. Entretanto. Ora. logo. E para que possa se dizer minimamente esperto. O argumento marxista que atribui o advento do capitalismo ao fato de se ter atingido um determinado patamar de produtividade se nos afigura um ótimo exemplo da aplicação da “lei de transformação da quantidade em qualidade”. isto é. novas competências técnicas adquiridas. a vê inexoravelmente despencar escada abaixo. Sabemos que o capital é o “excedente” [9] apropriado – no capitalismo. ainda que em parcelas escalonadamente diferidas – o empresário eleva sua pedra. o fato é que tudo isso acaba sendo integralmente devolvido (a preço de custo) às massas consumidoras na forma de depreciação.144 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ticamente alimentada e aprimorada pela ciência. retorna ao sistema produtivo na forma de mais instalações e equipamentos. acabará por matar à míngua sua galinha dos ovos de ouro. isto é. Para que tal não aconteça existe uma única solução: que – des- . hoje. e tal como Sísifo. em boa medida. só pode ser criado às expensas do consumidor (capitalistas. Muitas vezes.

bem se sabe. como esforçamo-nos por ilustrar na figura 5. para recompor um novo sistema em substituição ao anterior. diriam os marxistas). Por isso. . que tem como seu núcleo exclusivo e irredutível a ciência e sua lógica calculadora do mundo. a ciência. Voltando ao mito: o empresário capitalista para sobreviver precisará. assome e de pronto se dissolva um sujeito transcendental. A lógica clássica. vale dizer. esgotável/calculável. e entre um e outra.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 145 contada a pequena taxa de crescimento da população ativa – a produtividade do trabalho social médio cresça de modo continuado e compensatório relativamente ao acréscimo da taxa de exploração dos trabalhadores (mais-valia. tanto quanto. Correlato a um saber há obrigatoriamente um modo de pensar. Não é difícil compreender que por trás do aumento de produtividade esteja. Assim. é preciso que. lógica do terceiro excluído ou da dupla diferença [11]. intervalar e por isso sujeitado ao processo. a melhoria das técnicas e. no curso do tempo.3. por trás desta. nenhum sistema. uma lógica: no caso do saber científico a lógica clássica. prático ou teórico. rolar sua pedra sempre um pouquinho mais para o alto. concreto ou simbólico. em princípio. entre um sistema e outro. bastante potente. Em termos bem diretos: Capitalismo é o modo de produção próprio à Modernidade. necessariamente. a matemática e uma parafernália de instrumentos de medida capazes de alimentá-la. poderia evoluir para acompanhar as vicissitudes que sempre o rio da história [12] nos traz. por conseqüência. entretanto. ano após ano. para que uma cultura científica possa sobreviver. tem como característica essencial o aprisionamento do que se considere digno de ser pensado num “universo” por tácita convenção pré-determinado.

se consolidar política/espetacularmente com a revolução inglesa do começo do século XVII. ou de modo significativo minimiza. contudo. ele está inapelavelmente acorrentado ao processo geral de instituição da racionalidade: a rigor é um sujeito sujeitado à nova cientificidade que vinha assumir o governo do mundo.4) Todo este edifício. não se sustentaria sem sólidas fundações. então. Ciência e sujeito liberal consciente – sujeito fordiano para os amantes do cinema [14] – passam a constituir.3 . que suprime. a face aparente risonha ou afirmativa da Modernidade. (Ver figura 5. Como mostra a figura 1. mas de modo algum um autêntico self made man [13].O sujeito intervalar como condição de sobrevivência do ser-sistêmico Costuma-se atribuir a Abelardo a iniciativa de contrapor a racionalidade (moderna) ao “argumento” de autoridade de tanto sabor e prestígio na cultura cristã medieval. a seguir. este sujeito é livre em relação aos sistemas (ou à ciência). Com o movimento protestante. tornando imperiosa a questão: se no verso estavam a ciência e seu sujeito li- . a potência mediadora do clero burocrático – interpondo-se entre o Céu e os demais entes terrenos – . o sujeito liberal intervalar pôde tomar dimensão social para.146 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SUJEITO LIBERAL INTERVALAR I SISTEMA SISTEMA RIO HIPERDIALÉTICO Figura 5.

Se era verdade que no verso tinha-se a instituição da ciência e seu sujeito liberal intervalar. Neste processo de caça às bruxas. no entanto o consideramos um episódio histórico anômalo. Deixamos de notar. aproximadamente entre os acmes de Copérnico e Galileu.4 . adiantava-se o penoso trabalho das fundações: o resfriamento a ferros e fogo da feminilidade. sobretudo.000 mulheres teriam sido torturadas e . E ainda. Ademais. o mais intrigante: como poderia toda esta azáfama fundacional acontecer e ter passado até hoje completamente despercebida? INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA Figura 5. entretanto. o que constituiria o reverso de tamanha magnificência? E. simplesmente esquecemos que aqueles episódios dramaticamente repressivos ocorriam justamente após a racionalização (aristotelização) da teologia cristã programada por Santo Alberto Magno e tão bem executada por São Tomás de Aquino. que ele corre em paralelo com a institucionalização do pensamento científico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 147 beral intervalar. subterrâneo. capítulo derradeiro de uma Idade de Trevas”. sintoma desesperado de uma cultura que desmorona. que é neste mesmo período que se consolida a maioria dos Estados europeus modernos. no reverso.A face aparente ou afirmativa da Modernidade Todos nós temos alguma informação acerca do longo processo (instrutivo e punitivo) de caça às bruxas. mais do que 100.

E o processo inquisitorial de caça às bruxas veio exatamente para concretizá-lo.5) INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA SUPERFICIAL PROFUNDO RECALQUE DA FEMINILIDADE CAÇA ÀS BRUXAS Figura 5. o sujeito liberal/lógica transcendental – era preciso que.2. Essas duas .hierárquica da Modernidade A rigor. concomitantemente.148 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mortas [15]. nada mais nada menos. na circunstância. inconsciente/lógica da diferença. (Ver figura 5. do outro. calvinistas.Processo de estruturação lógico. consumista e etnocida Na essência do capitalismo está pois a negação do desejo inconsciente e da história. 5. que o recalque da história (sentido/espírito) e do desejo inconsciente e de suas lógicas associadas – respectivamente. Para que os homens se concentrassem no cálculo de todas as coisas do mundo nada de mais funcional poderia haver. particularmente. Como o desejo é desejo de desejo. lógica dialética e lógica da diferença (ou igualmente lógica do significante. história/lógica dialética. do outro. do que “esfriar” as mulheres – e isso esteve sempre bem posto nos propósitos e discurso protestantes. desejo de reconhecimento.5 . se recalcasse a feminilidade – de um lado. Dava-se. isto fora de certo modo inevitável: para ressaltar a masculinidade e suas lógicas – de um lado. ciência/lógica clássica. a melhor forma de apequenar o desejo no homem era sufocar o desejo na mulher. no jargão lacaniano [16]).2 .Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno.

sempre acabam voltando. pela metade. recalcadas. Propunham uma solução. conquanto que antes censurada. sim.6) SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CIÊNCIA HISTÓRIA Figura 5. os determinantes profundos do modo de produção próprio à Modernidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 149 posições lógicas femininas. reduzi-lo a progresso [17]. mero processo de acumulação de capital. Num primeiro momento o capitalismo faz retornar a história. desnaturada. não se apagam ou desaparecem: de um modo ou de outro. O “mal-estar” provocado pelo capitalismo produtivista foi a razão mesma do surgimento da ordem dos jesuítas. já degenerada em história calculada. Foram eles os primeiros a aceitar a ciência. O maior mérito do marxismo está na sua acuidade para explicitar. propondo-se ela mesma como exemplar. mas pugnando pela substituição “corretiva” do sujeito liberal pelo sujeito coletivo. (Ver figura 5.6 – A volta da história como progresso Basta observarmos o que é hoje uma empresa: ela é norteada prioritariamente pelo cálculo da taxa de retorno de capital. representado este por um poder simbólico/absoluto. no entretanto. não conseguiam fazer uma crítica objetiva mais profunda da nova realidade científica/econômica que surgia sob seus olhos. contudo. Que se busca com isso? Tão apenas calcular o futuro. Suas características óbvias e decantadas – a racionalidade objetiva e o espírito individual de iniciativa – não seriam nega- . a rigor.

finalmente. Configurava-se. uma reação premonitória desesperada ao domínio iminente do capitalismo de marketing. e que nela prevaleceu. Como resposta às pressões revolucionárias e reformistas que se avolumavam por todo o século XIX e mais se aguçam nos primórdios do século XX. desde seus primórdios ao início do século XX. fez às vezes de grande prova de passagem. E é isso que vemos hoje por todo canto.150 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO das. pronto e acabado. o capitalismo viu-se compelido a lançar mão de sua maior reserva estratégica – o desejo recalcado das massas [18]. tinha uma causa oculta e imanente – o processo de acumulação de capital. experimenta um certo refreamento com a Grande Depressão. tomou fôlego no início do novo século com a produção automobilística norte-americana.7) Agora se pode ver com maior nitidez as razões da derrelição das propostas comunistas e socialistas. O desejo inconsciente teria sido afinal domesticado e integrado à economia. como vimos. mas primordialmente da capacidade de manipulação do imaginário das grandes massas pelas “técnicas” de marketing. assim. Contudo. agora exaurido em suas reservas estratégicas (afora um bilhão de chineses trabalhando 10 ou mais horas por dia a 50 dólares por mês. um presente inesperado que lhe fez o PCC). . Podemos denominar capitalismo produtivista ou de simples acumulação a este primeiro modo de produção vinculado à Modernidade. no entanto. o mais importante para a compreensão de tudo aquilo que surgia. (Ver figura 5. Somos de opinião que o capitalismo de marketing ou consumista já se anunciava teoricamente com os marginalistas austríacos [19] três décadas antes do fim do século XIX. não vem apenas do ímpeto do processo de acumulação. a Guerra Fria é a oportunidade para a sua vitória definitiva. o modo de produção próprio à Modernidade. O fascismo. mas. O dinamismo da economia atual não vem mais da produção.

não são fenômenos assim tão . ou seja. no âmago. só conseguindo reagir com retardo – seu inimigo tornara-se já outro. o que se fez através do processo de caça às bruxas. recapitulando por isso o “mito” de que a sociedade se teria constituído pelo “rebaixamento” do feminino (natureza). uma empreitada cultural concreta e metaforicamente sexuada: ela estabelece a dominação socio-lógica do masculino sobre o feminino. Vimos que a Modernidade começa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 151 A esquerda não fazia uma crítica equivocada do capitalismo. que segundo Max Weber constituiriam a essência da Modernidade. Como ficou demonstrado.. como todo edifício. ademais. pelo esfriamento à força da desmesurada” sexualidade feminina. pré-condição formal da instituição da proibição do incesto/obrigatoriedade da exogamia.7 . CAPITALISMO PRODUTIVISTA SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CAPITALISMO CONSUMISTA DESEJO DOMESTICADO PELO MARKETING CIÊNCIA SUJEITO LIBERAL CIÊNCIA HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL HISTÓRIA DESEJO HISTÓRIA Figura 5. Aliás. A racionalidade generalizada e o correlato desencantamento do mundo. mas uma crítica pela metade..Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno ou consumista É boa a hora para procedermos a um resumo do que se disse até aqui. pelas fundações e pela construção e alocação de seus porões. justamente quando os homens (cultura) impuseram em seus próprios bandos a diferença clânica. havendo passado por uma profunda metamorfose. a Modernidade foi e continua a ser. o que transformava as mulheres em objeto paradigmático da troca. era o próprio Marx que nos advertia que nenhuma formação social poderia ser de fato derrubada antes de ver esgotadas todas as suas potencialidades realizadoras.

o masculino (ciência e consciência) em cima e o feminino (história e inconsciente) embaixo. transmudado em demanda agregada – como gostam de chamá-lo os economistas –. retorna para se integrar à funcionalidade da formação cultural: primeiramente. O advento da ciência e da organização burocrático/racional foi apenas o primeiro passo na afirmação da lógica do masculino que estava já determinada a um passo complementar – a constituição do sujeito liberal como sujeito apropriado.152 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO gerais e muito menos tão profundos como ele acreditava.8) O feminino. intervalar e sujeitado da ciência [20]. Fica assim estabelecido. apenas na superfície. de um lado. como todo recalcado. de maneira irretorquível. depois. mas não supresso. transmudada em progresso ou processo de acumulação de capital. de outro lado. desde que antes se tivesse bem trancafiada em seus obscuros porões a “irracionalidade feminina. (Ver figura 5.8 .7 à direita. O protestantismo é sua instituição difusa e a revolução liberal do século XVII na Inglaterra sua consolidação político/espetacular. como desejo domesticado pelo marketing. SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO Figura 5. como história censurada.Estrutura lógico-sexuada da Modernidade com seus respectivos saberes Quando Marx denuncia o processo de acumulação de capital como o verdadeiro motor do capitalis- . Racionalidade sim. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade: segundo a hierarquia. conforme ilustra a figura 5.

Assim. à política propriamente dita. Em suma. alia-se à ciência. ainda que pela metade. apenas o sujeito liberal. que facilmente se degrada em oportunismo. vale dizer. em especial Descartes e Kant. com bem maior propriedade). e colocar em seu lugar o ser coletivo ou corporativo. Marx rejeita coerentemente as filosofias da consciência. Que seria então da consciência e da liberdade? Recusado o cogito. o sujeito liberal. individualista. Chama sua concepção teórica materialismo histórico (em contraposição a um pressuposto idealismo histórico de seu antigo mestre Hegel). só podia fazê-lo valendo-se do pensar dialético que. toma como bandeira revolucionária a edificação do socialismo científico. é aquele capaz e apropriado ao desvelamento do ser-histórico. embora dele melhor fosse nem falar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 153 mo (da primeira fase do modo de produção próprio à Modernidade. rebaixado). sobejamente demonstrado por Hegel. também. ele se vê compelido a pôr em seu lugar o ser transparente à História: a liberdade passa a ser tão apenas consciência da ou transparência à necessidade histórica. reivindica para seu pensamento o caráter genérico da cientificidade e. tenta também inverter a direção de subordinação em que se encontrava o sujeito liberal. assumindo seu . quando passa da teoria à práxis. em contraposição ao socialismo utópico ou idealista de seus precursores franceses. Depois de tantas e profundas críticas. diríamos. era desalojado (em verdade. o ser transparente a si próprio. A ciência ficava mesmo onde estava. o inconsciente. entretanto. a face reversa ou o recalcado em que se apoiava o modo de produção moderno. o que traduz uma impossibilidade lógica. pode ele descobrir. e que destarte degenera [21]. propõe-se tão apenas desalojar o sujeito já sujeitado da ciência. em terrorismo de estado. Paradoxalmente. onde justamente residiria o núcleo duro do capitalismo. para nossa perplexidade. depois. Na verdade. Em termos filosóficos.

154 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lugar o sujeito coletivo. Também com isso. Contudo. de outro vinha precisamente para encobrir o caráter sexuado da Modernidade. O marxismo teve de fato o grande mérito de dar a partida ao processo de desvelamento dos porões ou do reverso da Modernidade. o que propunha o marxismo não era mais que substituir a crucial problemática masculino/feminino pela já gasta problemática epistemológica (marca característica do período moderno da filosofia) de cabeça para baixo. a psicanálise vem precisamente completar o processo de desvelamento do recalcado constitutivo da Modernidade – o inconsciente. o capitalismo sem jaça. ainda mais grave. a Modernidade per- . ao invés de uma real subversão da Modernidade. foi o fato de que. (Ver figura 5. do vigor desejante dos imaginários. à construção do cientificismo perfeito. de uma verdadeira revolução (cultural) alicerçada na crítica da cientificidade.9) É quase inacreditável que a psicanálise acabasse seguindo rumo perfeitamente simétrico especular ao marxismo. ao desvelar de um lado. Era o advento do capitalismo de marketing ou consumista. Ela surge no momento histórico em que o capitalismo atinge sua plenitude lógico-estrutural com a mobilização de sua grande reserva estratégica – o inconsciente das grandes massas. Foi deste modo que um autêntico ímpeto revolucionário transmudou-se numa força culturalmente reacionária. No fundo. Num primeiro movimento. ou seja. por atacado. um a um. objetivo (material)/ subjetivo (ideal). viabilizada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e das “técnicas” de propaganda. mas na sua proposta de ação concreta. se propõe apenas à permuta do sujeito da ciência. Tudo isto acontecia como um quase natural desdobramento da domesticação.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 155 dia o caráter desbravador próprio de toda cultura e assumia o caráter civilizatório/conservador. Tratando-se. não iria propor como solução uma revolução social.9 . de vetor de universalização de uma cultura [22]. O imperialismo. até então um modo de dominação econômica. Este último era a presença legal/ repressora da civilização (cultura) internalizada no próprio psiquismo. ou seja. O grande problema é que o próprio Freud não abria mão de reivindicar o estatuto de ciência para a psicanálise (ao mesmo tempo que remoía e resmungava. hiperdimensionando a incompreensão da . a cura. a Modernidade trocava sua condição de feroz opressora. DES-SEXUALIZAÇÃO MARXISTA MARXISMO (SOCIALISMO CIENTÍFICO) CIÊNCIA SABER OBJETIVO OU MATERIALISTA SABER SUBJETIVO OU IDEALISTA ESTRUTURA SEXUADA DA MODERNIDADE PSICANÁLISE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO DES-SEXUALIZAÇÃO FREUDIANA PSICANÁLISE (CIENTÍFICA) CIÊNCIA SABER DA DIFERENÇA SABER DA IDENTIDADE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL FILOSOFIA DIALÉTICA Figura 5. de uma problemática do ser-subjetivo. se via então transformado em máquina exterminadora das demais culturas [23]. ego e superego.A sub-reptícia dissolução do caráter sexuado da Modernidade Freud desvela o inconsciente. dos indivíduos. no caso. como o marxismo. o indivíduo como ser de desejo. mas. e põe a nu o processo pelo qual se dava a estruturação do psiquismo – segunda tópica: id. com propriedade. pela de impiedosa etnocida. um a um.

ao invés de se estruturar lógica e originariamente como masculino/feminino. especulativas ou materialistas (especialmente Hegel e Marx). sexualizava o indivíduo desde criancinha. Lacan. dilui-se. característico de seus primórdios pré-socráticos: o pensar do mesmo ou do um (lógica da identidade) contrapondo-se à lógica do outro ou do múltiplo (lógica da diferença). na verdade. um declarado radical freudiano. agora o fazia como diferença/ identidade. (Ver uma vez mais a figura 5. é extremamente incisivo em seus ataques. Visa. Com isso. sem descuidar de simultaneamente declarar guerra à filosofia em duas frentes – ocidental e oriental – às filosofias transcendentais ou da consciência (especialmente Descartes e Kant) e às filosofias dialéticas. mas às . como já fizera Marx. se alia à ciência contra a filosofia a fim de desalojar (rebaixar. o hegelianismo lógico-dialético: A Aufhebung é um desses bonitos sonhos da filosofia. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade. Freud. uma segunda vez. donc je suis où je ne pense pas [24] e. de outro lado. o cartesianismo lógico-transcendental: Je pense où je ne suis pas. [25] Em suma.9) O grande paradoxo: a psicanálise.156 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO comunidade científica). como fazia o marxismo em relação à problemática epistemológica) e ao mesmo tempo trágico. mas sem pequenas fobias a leituras filosóficas. de um lado. a Modernidade. Chega mesmo a cortar pontes que se sabe já antes transitadas. Velada por uma problemática ontológica. A problemática humana assume assim um caráter ontológico (também de cabeça para baixo. se diria melhor) o sujeito liberal ou cartesiano e pôr o sujeito inconsciente em seu lugar.

a re-sexualização do ser-social é uma condição necessária para a superação da Modernidade. sim. Aqui. desta sorte. o advento de uma cultura nova. a verdade parcial sim.? A nosso juízo. seu elã subversivo para se tornar uma dentre outras forças reacionárias. não há como negar. Não haverá uma inversão de mando.. como se depreende do próprio texto freudiano: Nem todas as civilizações vão igualmente longe nisso. Seguindo o próprio Freud. suportada pela síntese simultânea de todas as lógicas de base. posto que sua superação só se poderá dar pela sublevação do recalcado. velava o real caráter repressivo da Modernidade. A liberação do feminino será apenas meio. perdia. como sexualizar algo sem retirar (ou trazer de volta) a necessária energia de algum outro lugar. Não foram raros os que chegaram a sentir. Além do mais. a necessidade . como já sabemos. e a estrutura econômica da sociedade também influencia a quantidade de liberdade sexual remanescente. mas articulada à verdade total e parcial. [26] Deste modo. seu fim estará além de si mesma: ela significará.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 157 expensas da sexualidade sócio-cultural. no caso. crente no princípio da conservação da “energia sexual”... a civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica. nem sempre alcançando a exata medida. recuperando sua integridade [27]). do feminino (inteiro e não despedaçado. masculinas e femininas. de repente. as mulheres logo se opõem à civilização e demonstram sua influência retardante e coibidora . mas uma insubordinação e.. É da maior importância que fique bem à mostra o caráter sexuado da Modernidade. a real liberação da humanidade. não como apenas não-todo. visto que uma grande quantidade de energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem que ser retirada da sexualidade.

mas prefere descarregar seu ressentimento contra o marxismo.158 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de se restaurar a integridade subversiva do ser-feminino. Bem menos equivocada. quem seja o verdadeiro inimigo. em especial. concordamos que de maneira até bem surpreendente. propõe como solução a revolução social. mas pretendendo fazê-lo justamente sob a égide do que era seu comum equívoco – a devoção à ciência. preso entre instrumentos. ao optar pelo sujeito coletivo. de articular Marx e Freud numa só compreensão. com o que se vê inapelavelmente condenado ao imobilismo (ante o desfile desafiador. isto é. coerentemente. por essência). agora elevada ao quadrado. pois. de suas alunas peladonas). seu vizinho. mas não consegue vislumbrar qualquer possibilidade de transcender à sua própria cultura (científica. aquela com que estamos há muito acostumados – marxismo/fascismo. porque ele sabe bem criticar a ciência. Afirmamos acima a “perfeição” da oposição Marx/Freud. instalações e grades. de vista. este sim. A posição de Adorno é muito instrutiva. não perde. Antes de concluir este item. se o marxismo. Um dos primeiros foi Reich. em pleno estrado magistral. optando pelo sujeito inconscien- . ou. e o uso torto maldoso dos meios de comunicação de massa. se mostrou a Escola de Frankfurt. o que o fez associar-se (pela metade. mas sem chegar entretanto à completa compreensão do papel da ciência na formação cultural moderna. desejaríamos deixar uma palavra acerca da simetria especular marxismo/psicanálise que vem aqui deslocar. esquerda/direita. juízo de valor este que nos obriga a mostrar onde estaria escondida a “imperfeição” da oposição esquerda/direita. Ora. como também do sujeito liberal. a psicanálise. temporária ou eternamente?) ao fascismo. levada ao delírio –. é um crítico acerbo da ciência e da técnica. quanto ao valor da ciência. acabou enquadrado. de modo equivalente. Heidegger.

. Vê-se que. ao mesmo tempo. se vê bastante simplificada quando constatamos que precisaremos nos ocupar apenas 5. Ela soa deveras paradoxal (como um dia soou a expressão inversa socialismo num só país).3. desconsiderada apenas a cultura paleolítica auroreal (pré-I). Como a cultura nova é de natureza hiperdialética (I/D/D). terão as formações culturais semíticas – as culturas nodais judaica (originária) (I) e cristã patrística trinitária (I/D) e. Queremos aqui focalizar apenas o papel que. a auto-denominação nacional socialismo por si só diz tudo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 159 te. um a um. O título do presente item. à parte e tardio. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade . somos levados a imaginar que será intensamente dramática a situação e o comportamento dessas culturas nos momentos que irão anteceder à efetiva superação da Modernidade. Nossa tarefa. Daí.. terá coerentemente que propor como solução a cura. Observando bem. a família das culturas lógico-identitárias (Is) (exclusive o Extremo Oriente. o caleidoscópico mundo cultural muçulmano (I). mas perderia automaticamente tal caráter tão logo nos dispuséssemos a aceitar a existência real e não apenas retórica de um inconsciente coletivo (como bem sabemos fizeram os junguianos) . embora soando um tanto estranho. entretanto. pronto se depreende que a anomalia do fascismo ou “nacional socialismo está exatamente no fato de ele optar pelo sujeito inconsciente (romântico ou telúrico) e. portanto. pertencente à família lógicoidentitária. diz bem o que pretendemos. pois isto já está feito com bastante detalhes em diferentes oportunidades [28]. propor como solução uma revolução social. Não vamos tratar propriamente dos estertores da Modernidade. nos acontecimentos que estariam por vir. pelo menos durante sua etapa fundadora) se confunde com a classe das culturas semíticas. e.

Ao contribuir decisivamente para a realização da cadeia que o aprisiona. mas não à cadeia de sistemas que se sucedem. tornou-se compulsivamente etnocida. de per si. com a passagem da fase produtivista à fase consumista.160 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO com as culturas judaica e muçulmana. é que ela mesma acabou se transformando. já fragilizada. por motivos que esperamos ter deixado suficientemente claros nos dois itens anteriores. a cultura muçulmana. na sua maior inimiga. pois a cultura cristã (patrística ou trinitária). O grande drama que vive hoje a família semítica ou identitária – e que dentro em breve terá que vivê-lo ainda mais intensamente –. é a presença ativa da cultura judaica que viabiliza a Modernidade. foi precisamente a característica letal da razão formal que deu ensejo a que uma determinada formação cultural arcaica viesse a ela se acoplar de modo visceral. melhor adaptado às circunstâncias históricas sempre cambiantes. seu papel é francamente intervalar e tributário [31]. por via destas peripécias. a cultura judaica da diáspora européia ocidental. Já estamos bem cientes de que a modernidade científica (D/D) [30] não poderia ter sobrevivido e chegado à sua pujança atual sem a instituição de um sujeito (I) intervalar à racionalidade cristalizada. salta à vista. capaz de sempre substituir um sistema que se torna obsoleto por um novo. a qual. A variante cultural semítica que assumiu este papel foi justamente. nesta condição. sente fundo esta real ameaça e reage desesperada. para destarte provê-la de uma prótese vivificante [32]. distribuição topológica. praticamente hoje se extinguiu [29]. Ora. vive uma ‘justificada’ ilusão de liberdade. vimos. culturas . Ele é de fato um sujeito livre em relação a determinado sistema. por sua localização. Afirmamos isto num duplo e grave sentido: a) Sob um ângulo. escolha e sabedoria estratégica.

especialmente na diáspora da América e Europa Ocidental. irá renegar a postura prómodernidade de quase um milênio (postura que se enrijece depois da expulsão da Espanha). quebrar a hegemonia asfixiante do trinitarismo cristão medieval. constatamos um racha entre. Porém. através de sua formação cínica anglo-saxônica).. Moisés e seus partidários. intensificando-se a crise da Modernidade. a liderança cultural do mundo guinar em favor da família lógico-diferencial (ora dominante. uma parte da comunidade. impedindo que a própria família cultural lógico-identitária se desdobre em direção ao mais elevado. talvez a maior. como a ameríndia do norte. por sua dimensão real e pelo investimento simbólico que vem acumulando. a justa avaliação e análise do “histórico familiar” levam-nos a conjeturar que o mais provável é que o colapso da Modernidade seja precedido de uma cisão profunda no seio do judaísmo. á sua própria consumação e. o nacionalismo ritualístico formal fariseu. fez. e do outro. cujo significado não teria sido outro senão a servidão voluntária vis-à-vis o racionalismo cientificista (D/D). de um lado. É também muito provável que.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 161 logicamente mais primitivas. Se isto permitiu. e outras que não se cuidarem. é razoável esperar que. desta sorte. nos contemple com o mais belo de seus frutos: a cultura nova hiperdialética qüinqüitária. foram já exterminadas ou vão inexoravelmente em tal direção. no advento do judaísmo (I). o trinitarismo universalista. por outro lado. os adoradores do bezerro de ouro. e de outro. Deveras. Seriam muitos os caminhos logicamente concebíveis para se chegar à cultura nova. Com estes precedente históricos. b) Sob outro ângulo. de um lado. como a cultura neolítica negra. o Holocausto venha a se constituir no fulcro . de um lado.. é ela que dá sustentação à Modernidade. também no advento do cristianismo (I/D) vimos um racha entre.

já agora impossível de ser violada.162 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO emblemático desta reviravolta. doravante. Na realidade. Israel passava a contar com verdadeiros inimigos externos. configurando uma Terceira Aliança. dar oportunidade a que seu historicismo unário se bifurcasse. onde o outro é ainda o mesmo. ao ajudar a empurrar o cristianismo patrístico trinitário (I/D) em direção à escolástica lógico-formal (D/D). como antigamente. Em contraposição se podia agora assumir uma historicidade plenamente dialética. O papel de maior ou menor proeminência da comunidade judaica reconvertida em marcha para a cultura nova dependerá menos dela do que de quanto e quando outras forças sócio-culturais resistentes à Modernidade tenham conseguido tomar consciência de sua destinação possível e se arregimentar de modo eficaz para a sua consecução. O historicismo tradicional tornavase assim o degrau zero da dialética. isto é. ficando todo o vir a ser determinado integralmente pela polaridade obediência/rebeldia. tal como fora antes dado . Além de vivenciar a eternidade no próprio curso da história. vivenciá-la também como o caminhar para o eterno. Esta parte da comunidade irá então se juntar a outras forças culturais emergentes. o povo judeu tinha a opção de. De certo modo. onde vinha operar o deveras outro. independente do tamanho de seus pecados e infidelidades. Ele terá seu sentido reciclado. o judaísmo pode ocupar o lugar que assim vagava . esta tensão interna já existe há muito entre os judeus e está precisa e profundamente gravada no conflito entre o historicismo unário tradicional (I) e o historicismo trinitário moderno (I/D) [33]. só que em estado de falta. passando a ser considerado menos um crime que um castigo ordenado pelo próprio Deus para punir uma grave falta no cumprimento dos sagrados deveres da Aliança (precisamente a adesão subordinada à Modernidade científica).

por conseqüência. mas pelo cadinho do romancista. mas não tenho dúvidas de que sua imagem esteja sendo forjada. [34] (negritos nossos) A reentrada dos judeus na História é um fato. em verdade. A vida bifurcada reflete o conflito entre estes fatos assumidos e o compromisso com a tradicional concepção unária da história. apesar de tudo.. alternativamente interpretável como grave ofensa à Lei. duas das mais fundamentais instituições da Modernidade. é o fantasma que tanto inquieta e suscita ações preventivas. Como resultado da emancipação da diáspora e da soberania nacional em Israel. O Holocausto não teria sido suficiente. O mesmo autor acrescenta: O Holocausto já engendrou mais pesquisas históricas que qualquer acontecimento da história judaica. ainda resiste. Sob a ótica desta última. e ainda assim sua percepção de como chegaram ali e de onde estão é freqüentemente mais mítica do que real. prestes a atrair sobre a comunidade a justa ira divina. os judeus reentraram completamente na corrente da história. Isto nos dá uma medida da intensidade do drama que representa hoje aquela vida bifurcada. o correlato do serviço que se presta à lógica do inimigo e. que no fundo não visam outra coisa senão impedir que se realize a vontade soberana de seu próprio Deus.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 163 aos cristãos originários.. em seu livro Zakhor. a comunidade judaica vive uma vida bifurcada. portanto. podemos estimar sua profundidade pelo peso que a cultura judaica teve e ainda tem na construção do mercado financeiro internacional e na constituição do sujeito da ciência. que. retrata bem esta forte tensão interna no judaísmo de nosso tempo: Atualmente. Yerushalmi. não pela bigorna do historiador. o sucesso mundano seria. [35] .

aquele que opõe os EUA ao “terrorismo” islâmico. Yerushalmi percebe bem a concentração de estudos históricos em torno do Holocausto e mesmo sem atinar (ou resistindo a atinar?!) com o verdadeiro significado do fenômeno – um desesperado esforço de destarte subtraí-lo a uma interpretação tradicional unária (mítica?!). na segunda metade opôs os EUA à URSS e agora. os conflitos que em sua primeira metade opuseram as grandes nações européias.. nos cadinhos dos romancistas. vale dizer. Não. escrito ou filmado. A nosso juízo. que hoje mais de perto prenuncia este modo de acesso à verdade do ser hiperdialético. pois a imagem daquela grande tragédia estaria sendo cosida alhures. conclui que este será um esforço baldado. São justamente nossas incursões de certo modo furtivas ao romance [36]. como tradicionalmente. posto que a verdade da nova cultura irá se revelar justamente pela leitura. não mais são interpretados de modo alegórico. E se lamenta ele com boa razão: O divórcio entre história e literatura tem sido calamitoso para a narrativa histórica em geral e a judaica em particular. necessariamente também de evocação. uma renovada acepção de leitura.. naturalmente. Aqueles que estão alienados do passado não podem ser levados a ele somente através da explicações. que poderia colocar em dúvida o significado e valor do que ele chama ‘emancipação da diáspora’ ocidental –. isto nos parece uma leitura simplista. [37] Mas não ficam só aí os sintomas. como se fossem “as guerras de Gog e Magog”. não vem para ficar. desde já se poderia saber. esta última assertiva reflete uma profunda intuição.. nos referidos conflitos os judeus se encon- . No recém-acabado século XX. já no século XXI. Muito pelo contrário..164 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pareceria a princípio paradoxal: a nova historicidade hoje dominante.

o mais que pode acontecer é a desobediência à Lei e o castigo. O tradicionalismo judaico poderia parecer a muitos um anti-historicismo. até que venha ocorrer uma síntese hiperdialética (I/D/D) que subsuma o historicismo unário da fé (I) e o historicismo trinitário do engajamento (I/D). que os próprios (pelo menos os maiores beneficiários) tentam dissimular. que não fosse outra vez as mesmas faltas e as mesmas punições? Isto é completamente incompatível com o papel que os judeus assumiram na Modernidade. Podemos entretanto ficar certos de que nenhuma das duas correntes irá prevalecer a médio ou longo prazo. ele é tão somente anti-dialético e reage mais fortemente quanto mais se vê ameaçado pelas concepções modernas de historicidade. (Ver figura 5. Não é nenhuma surpresa que a maioria dos historiadores modernos (dialéticos) estejam nas universidades americanas e européias e que esta corrente aparente hoje deter uma posição de hegemonia. Na concepção unária. A tensão só poderá aumentar. que de certo modo traduz uma capitulação lógico-cultural. o que soaria para nós como um paradoxo. há um processo temporal que vai da Criação a uma Escatologia. contudo. Como é possível que a mais tradicional corrente ideológica de uma cultura descobridora da significação da história possa ser anti-histórica? [38] Na verdade.10). nesse interregno. como de fato ensaiou a Renascença (século XVI) e depois. Desde que isto está muito bem posto e atestado na Torá. Tal engajamento nestes eventos precisa ser rápido e intensamente encoberto pelo historicismo dialético moderno para impedir a todo custo a insurgência de interpretações ‘míticas’ tradicionais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 165 tram bem firmes aliados sempre de um dos lados. o historicismo alemão do século XIX. forçando a história unária a sair do seu recolhimento e vir se articular com a história universal. abertamente. . que poderia depois suceder na história.

antecipada pelo romance “VIDA BIFURCADA” I/D/D I I/D I I/D I Figura 5. onde a lógica transcendental (I) é seu momento de tese. Hiperdialética. já mostramos com detalhes. afinal. se bem que um pouco entradas já no novo ‘espírito qüinqüitário’. a dialética propriamente dita (I/D) seu momento de antítese e. são meras especulações lógicas. Estas não são profecias [40].166 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Futura concepção qüinqüitária da História. pode ser considerada como uma dialética das dialéticas.10 – Da “vida bifurcada” à resolução lógico-qüinqüitária A hiperdialética. a hiperdialética seu momento de síntese (I/D/D) [39]. .

imprecando um contra o outro. mas tacita- 6. a linguagem e até a ciência são hoje vistos como diversas variações de um tema comum . Agora. T. achando que com este prudente distanciamento das baixelas. Há os que se alimentam só das sobras e migalhas. Nem serão aqui contados. a religião. Crítica cultural e sociedade O mito. mas. Ernest Cassirer. Criticam. podemos identificar três posições críticas em relação à Modernidade. a arte.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 167 6 Crítica da Modernidade O crítico da cultura fala como se representasse uma natureza intacta. Seu semblante feroz parece assustar o poder que por sua vez simula que ao vê-la treme de medo e ambos. Introdução . talheres e cristais conservam suas mãos limpas.e a tarefa da filosofia é tornar esse tema audível e compreensível. Ensaio sobre o Homem.1. Começamos com a crítica que aí está. é como preferem legitimar. pertence àquilo sobre o qual imagina alçar-se. Não valem mais do que estas cinco linhas. ou um estádio histórico superior. Adorno. em essência. W. na realidade. apenas para ocupar lugar.

só se dispõe mesmo a voltar atrás. assim que mostre o menor sinal de esmorecimento. É o que denominamos ideologia. ora o uso sócio-espetacular dos meios de reprodução e comunicação. mas no encobrimento de sua mortal fragilidade. Em suma. há quem deveras critique o poder imperante porque já é capaz de reconhecer e apontar para o que lhe é o mais próprio .ora a ciência (ou a técnica) como expressão terminal de uma insidiosa metafísica. correndo os riscos inerentes à procura. Haveria ainda uma última posição crítica.168 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente justos e acertados. cujo vigor se sustenta na ciência desejosa (do uno/trino) e no seu preciso complemento . a de quem espia da quinta margem do rio a história da cultura passando ao encontro de si mesma. conseguem destarte afastar quaisquer terceiros e por aí o perigo de uma veraz subversão. mas não conseguindo vislumbrar o que a possa suceder. Contestam o poder porque o querem o mais perfeito. Somente desta posição é que se estará deveras enfrentando essa nossa velha preguiça de pensar o novo e.o sujeito liberal sujeitado. desconsiderando que estes já eram lá censurados por exorbitar em dialética e fingimento. seriam três as posições que se pretendem críticas da Modernidade que aqui examinaremos: as ideologias. da autenticidade onto-lógica. à esquerda e à direita do paradigma anglo-saxão moderno. A rigor. mas pelo que realmente é: uma cultura tipo nodal. Em segundo lugar. na medida em que se dispõe à crítica da Modernidade. de prontidão para suportá-lo pegando de cada lado pelo sovaco. naturalmente. para mais além da Modernidade. trata-se da única posição subversiva. tomando-a não como um modo de produção. à Grécia e seus poetas trágicos. não na soma de suas virtudes. Procede à critica da Modernidade. deve-se reconhecer. com fé e engajamento. as que ultrapassam as ideologi- .

Este já teria passado por duas etapas ditas ecológicas [4]. cultura cristã trinitária (dialética ou I/D) e. Partimos de uma antropologia filosófica que concebe o homem. como um ser lógico-qüinqüitário [1]. Seguiram-se as etapas propriamente lógicas: cultura judaica (da identidade ou I). A rematada impotência das ideologias . a segunda. unidade dos dois anteriores (I/D) e formal. na qual a verticalidade criadora. vai sendo aos poucos substituída pela horizontalidade imperial. representada pelas sociedades tribais de caçadores/ coletores do paleolítico. Estaria hoje a humanidade. vivendo a cultura científico/tecnológica.2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 169 as. em decorrência do próprio êxito. e. pelo trabalho. do terceiro excluído ou da dupla diferença (D/D=D/2). da diferença (D). se coloca como o outro da Natureza (da pré-diferença ou pré-D). cuja tônica é a identificação com a Natureza (em termos lógicos. dialético. Esta se encontraria agora em sua fase civilizatória. já na atualidade. numa estreita homologia ao que a civilização romana foi para a cultura grega. governada pela lógica formal ou da dupla diferença (D/D = D/2). cultura moderna ou científico/ tecnológica (formal. Em termos econômicos (obvi- 6. indivíduo ou coletividade. que. esta última. capaz de operar um pensamento hiperdialético (I/D/D=I/D/2)[2] síntese do pensar da identidade (I). a história da cultura é então concebida como processo hiperdialético de auto-desvelamento do ser próprio do homem [3]. isto é. clássico. cultura greco-romana (da diferença ou D). dizemos cultura da pré-identidade ou pré-I). pelos impérios de base agrícola da Antigüidade. a primeira. da dupla diferença ou D/D=D/2). mas ficam aquém da crítica radical à cultura. De modo conseqüente. em sua linha de avanço. para completar.

dissimulada. não pode ter outra função senão a de bloquear os caminhos que podem levar. uma promessa que não tem outro propósito senão o de tornar dispensável o advento do homem pleno lógico-qüinqüitário.e aquilo que mais abertamente expõe sua fragilidade congênita . de fato. deixar de lado justamente aquilo que constitui a essência mesma do dinamismo da Modernidade a ciência . mas de seu modo fingido. de certo modo. à subversão da Modernidade. A simples caracterização da Modernidade como cultura governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) é o bastante. esgotadas em suas promessas. Para nós. ainda que descolado. Mas o subterfúgio não pára aí. ao abrigo de qualquer suspeita. Ora. Na verdade. em especial nos últimos 150 anos. da promessa enganadora nela implícita de levar o homem à perfeição (biológica) ou à vida eterna [5]. isto é. todas elas já historicamente exercidas e. como veremos. Para ilustrar isto de maneira exemplar. o que está por trás de todas as disputas ideológicas do mundo moderno.a técnica exorbitante . é a questão do sujeito da ciência. para permitir o mapeamento de todas as alternativas críticas ideológicas. Atente-se que a fragilidade não é da técnica enquanto tal. isto significa a passagem do capitalismo nacional de produção ao capitalismo globalizado de consumo. aliás.170 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO amente redutores). quem deve desenvolvê-la. Quem deva ser o seu sujeito. a um inconseqüente capitalismo financeiro internacional. paralelo. financiá-la. a ciência e a técnica. podendo voltar sobre si próprio como dissimulação da própria dissimulação. podemos tomar algo bem familiar a nós brasileiros - . que é o que hoje mais se quer ver. proporcionar-lhe a imprescindível orientação e dela colher o primeiro e o melhor proveito? Insistimos no aspecto dissimulado das ideologias porque elas deixam sempre intocadas.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 171 o Positivismo. cinematográfico sujeito john fordiano . mas sim vétero-liberal! Bem. não têm limites. mas os dissimuladores não. comunista. pois chegam a se fantasiar de sociais-democratas para melhor impor sua prática neoliberal. revolucionária . incansável empresário schumpeteriano. que de fato transcende os sistemas. no lugar de outro já gasto ou ultrapassado pelos acontecimentos. aquele que se decide pelo sujeito liberal I. uma discussão sobre a adaptação da racionalidade moderna (capitalista) ao âmbito da latinidade.1.jesuítica. trazia. Nos extremos. tal como ele. Que pode isto significar se todos as correntes ideológicas são. socialista de verdade. no nosso caso particular. instalações). parte superior) O poder hierárquico da lógica da dupla diferença funcionaliza o que seria próprio e específico às lógicas subordinadas: a política torna-se ciência política. de uma latinidade aquecida pelo trópico. mas apenas para colocar um sistema novo. Dentre as “opções” ideológicas. acriticamente a favor da ciência e da técnica? O rótulo Positivismo. em estado de degradação voluntária. O leitor pode estar satisfeito. Isto eqüivalia a uma discussão acerca do sujeito da razão científica (D/2). já de origem.que propõe a substituição do sujeito liberal I pelo sujeito coletivo (politicamente articulado) I/D. concomitantemente invertendo o . É ele o sujeito que assegura com sua viva determinação ou iniciativa a continuidade da cultura da morte. de como proceder a substituição ali do indivíduo liberal anglo-saxão (I) por um presumido espirito comunitário (I/D) da latinidade jesuítica [6]. (Ver figura 6. intacto. velada. a arte vira técnica de marketing (ou. temos de um lado a “opção” de esquerda . que também não é neo. distinguiríamos inicialmente o paradigma anglo-saxão. a psicologia da consciência torna-se psicologia adaptativa do eu.

na sua versão mais primitiva. (Ver figura 6. (Ver figura 6.As ideologias . De modo quase simétrico. pelo sujeito romântico.fascista. pelo sujeito libidinal. nazista. temos a “opção” de direita .1. o “povo” ou. à direita) Figura 6. tradicionalista -.1 à esquerda) A designação socialismo (I/D) científico (D/2) não lhe poderia ser mais apropriada.172 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sentido de sua relação de subordinação com respeito à ciência. que vai propor também a substituição do sujeito I. igualmente invertendo o sentido da relação subordinativa vis-à-vis a ciência.1. telúrico. agora. porém.

especificamente. Sua designação mais própria seria nacional (D) científico (D/2) contrastando com socialismo (I/D) científico (D/2). uma razão profunda para esta equivocação: é que com freqüência uma formação ideológica de direita se apresenta não como uma troca de sujeito.nazista . ademais. E mais.é a posição das “cúrias”. de algum modo. porém. Haveria ainda uma quarta possibilidade.é. que não se interessam por quaisquer sujeitos. enganosa. Assim foi gerado em Portugal o pombalismo (expulsão do jesuitismo internacional. Há. mas como se fora uma simples particularização de um sujeito já dado. implantação da Cadeira de Moral e Civismo em âmbito nacional vendendo a imagem do Brasil Grande) e talvez muitos outros. instalação do Colégio dos Nobres) e o salazarismo. . organização do ensino básico) e o Movimento de 64 (aniquilamento das ideologias “exóticas” internacionais. pelo deslocamento do social universal (ou internacional) em favor do mesmo social. D/2. Esta observação é importante na medida em que o aludido fenômeno aparece reiteradamente na história luso-brasileira. profissionalização na educação básica. que seria a recusa de qualquer sujeito . na medida em que sua oposição à “opção de esquerda não acontece entre o nacional (D) e o científico (D/2). basta-lhes a lógica im-pessoal de um hiper-estático poder burocrático. e no Brasil o getulismo (consolidação do mercado interno. criação das grandes empresas públicas. mesmo que fossem elas próprias. mas precisamente entre o nacional particular (D) e o comunitário universal (I/D). as leis trabalhistas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 173 Alertaríamos que a designação nacional (D) socialista (I/D) . indefectivelmente acompanhada de propostas de modernização científico-tecnológica da produção e do sistema educacional. agora restrito ou particularizado (o nacional).

2 . esquerda e direita..Sujeitos e inversões ideológicas Na opção jesuítica ou comunista. as inversões propostas sempre revertem.subsume as lógicas I. educação.governando seus pretendidos e pretensiosos sujeitos -. SUJEITO CO LETIVO R Ú SS IA I/D SOCIALISMO CIENTÍFICO A O M XÃ IG S A D A R LO PA NG A D/ 2 M O D E R N IDA D L Ó G IC A D A C IÊ N C IA NACIONAL SOCIALISMO OU "NACIONAL CIENTÍFICO“ AM ÉR ICA I D "E U R O PA" SUJEITO LIBERAL SUJEITO ROM Â NTICO OU NAC ION AL .2. qualquer destas “opções” vai se inverter."POV O" Figura 6. saúde. Assim necessariamente acontece porque a lógica D/2 .que governa a ciência . trata-se da pretensão de colocar a ciência e a técnica a serviço da preservação dos valores e da integridade do “espírito do povo” (D). se iludem com a possibilidade de promoverem a inversão da relação de subordinação entre a ciência e seu sujeito. e não ao contrário. o que . Por isso. Em ambos os casos chega-se a uma impossibilidade. habitação etc. D e I/D . as duas “opções extremas. e uma burocracia de estado vai assumir um poder totalitário em seu exclusivo proveito. trata-se de direcionar a ciência e a técnica para a solução dos grandes e urgentes problemas (ditos) sociais . mais dia menos dia. Ver figura 6. Na opção nazi-fascista.alimentação. pois.174 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Como já tivemos oportunidade de mostrar [7].

e a força que na Alemanha assumiu o fascismo. como a história do século XX bem o demonstrou. não nos pode causar grande surpresa o troca-troca ideológico das “elites” do Brasil. que por isso mesmo jamais perverte [8]. a ele sujeitado. O comunismo responde com a politização da arte. da “pedagogia” grandiloqüente do realismo socialista e assemelhados. tendo-se em conta a essencial indiferença das diferenças ideológicas. ou à música dramática) sobre a política I/D. acabando todas reunidas em torno do pensamento único. fica aqui mais do que evidente. Esta é uma configuração essencialmente perversa. [10]” Na “opção” de esquerda acontece precisamente o contrário: a prevalência do político sobre a arte. No paradigma anglo-saxão o sentido da subordinação aparece tal como logicamente deve ser: por definição. como a prática do fascismo. A propósito. pois. Uma conseqüência também evidente da posição de direita é a supremacia atribuída à estética D (ou à poesia. na medida em que só lhe é permitido operar de modo intervalar entre sistemas (D/2) que se superpõem e se sucedem. porém. como se depreende da teatralidade do barroco jesuítico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 175 acarreta a perversão dos “projetos políticos que se dizem fundamentados naquelas “opções . examinada por nós anteriormente [9]. decidindo sistematicamen- . assunto a que voltaremos mais detalhadamente no próximo item. o sujeito liberal se afigura um sujeito realmente transcendente ao sistema (I). dos românticos e seus derivados. acordes em nada pensar para realmente mudar. nada de estranho quanto à afinidade entre o sintomático helenismo desmedido dos filósofos e poetas alemães. Não há. A similitude da “opção” de direita com a problemática cultural grega. em especial. um sintoma anotado com grande acuidade por Walter Benjamin: “Eis a estetização da política.

Para não compactuar com o que aí está. onde verdadeiramente começa o processo de crise e superação da Modernidade. o que nela representa a ciência e em particular a física. revistas e principalmente nos jornais e especiais das TVs [11]. Justamente estribados nesta compreensão geral é que negamos qualquer valor realmente subversivo à ação exclusivamente político-ideológica. Não há saída nem à esquerda nem à direita. Recapitulando.176 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO te contra os mais elementares interesses da maioria do povo brasileiro. para mais agravar sua constitutiva fragilidade.3. a dissimulação que é presentemente a técnica. indefectivelmente presente em todos os diários. será preciso denunciar. Só assim poderemos começar a nos mobilizar para a verdadeira subversão da Modernidade. que bem sabemos agora o porquê. o passo decisivo para o encontro do homem consigo mesmo. da Modernidade. para o apressamento da chegada da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. apenas (logicamente) para frente e para o alto. conluio com o que há de pior na Modernidade. alta traição aos interesses da humanidade. é necessário proceder a uma crítica radical. Podemos agora nos aventurar para além do âmbito das ideologias. Paralelamente. que é real. consideramos as ideologias como 6. em especial a biotecnologia. Para além das ideologias . é hoje. Depois de fazerem das eleições um só balcão de negócios. é. na verdade. simulando que tudo aí acontece democraticamente. chegam ao ponto de controlar cuidadosamente a “compra de votos no Legislativo para assegurar uma cota de votos-contra. para compreender de onde ainda dimana o seu vigor. A insistência numa tomada de posição exclusiva de tal natureza nesta altura da História já não é mais um equívoco (que já antes era grave). afinal. de estofo lógico-filosófico.

representado por um plano solidário à própria Modernidade. lógico-filosófico da problemática cultural. sincrônico. Pouco importam os percalços temporários . visto de dentro da própria Modernidade) existiria ali uma certa ambigüidade processual . o enfoque ideológico.ao mesmo tempo para trás (ciência) e para a frente (técnica exorbitante) -. qual deva ser o sujeito da ciência e o sentido de sua relação de subordinação a ela. representado por uma linha que traspassa a Modernidade. questionando-as. não irá faltar de modo algum ao encontro marcado que tem consigo mesmo. de outro lado. cuja característica central é a desconsideração da ciência como questão (aqui não se discriminando ciência e técnica). assumem. Localmente (isto é. o homem jamais abandonará a busca da autenticidade. em contrapartida. buscando uma avaliação objetiva das condições de continuidade do vigor criativo da ciência. e. . de um lado. como sua questão maior. Na figura 6. o enfoque crítico.como é o caso na atualidade do chamado processo de globalização -. diacrônico. mas que vista de um pouco mais longe se nos afigura como inexoravelmente ascensional.3 tentamos pôr em evidência a relação conceitual conflituosa entre.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 177 um fenômeno social típico do mundo moderno. reacionário. a compreensão do processo de crise e superação da Modernidade requer exatamente o contrário: que concentremos nosso esforço crítico sobre a ciência e a técnica. tentando decifrar os mecanismos ilusionistas associados à técnica. Ora.

por exemplo. Parece-nos que o que mais tem atrapalhado a compreensão daqueles acontecimentos históricos envolvendo o filósofo alemão tem sido a atitude apaixonada de todas as par- .3 .178 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O HOMEM EM BUSCA DE SI MESMO (I/D/ 2 ) "LINHA DIACRÔ NICA" DO PRO C. CULT URAL TÉCNICA EXORBITANTE "PLANO SINCRÔNICO" IDEOLÓGICO Direita MODERNIDADE Esquerda D/ 2 CIÊNCIA NOSTÁLGICA (I/D) Figura 6. ao mesmo tempo fosse um crítico feroz da ciência e da técnica? Seria ele um mero reacionário de direita ou um profeta da cultura nova? Ou ambos. Embora este já se tenha tornado um tema recorrente. o fato é que até hoje não foi tratado com a devida profundidade e amplitude. do affaire Heidegger e o nazismo (incluída aí a ultrasensível questão do anti-semitismo).e. especificamente. mas precisamente do caso Heidegger.1. então. ou nem um nem outro?! O leitor já deve ter percebido que não estamos diante de uma situação hipotética qualquer. Que pensaríamos.3. de alguém que fizesse uma aberta “opção” por um sujeito da ciência .Plano sincrônico ideológico versus linha diacrônica do processo cultural 6. Heidegger – a ciência e a técnica Estamos agora um pouco menos mal preparados para enfrentar questões de maior complexidade. pelo “povo” .

Aí está. Preliminarmente. a plena compreensão e o acesso às informações suficientes sobre a situação alemã e internacional. sem dúvida. por volta de 1800. o alemão. O surto de helenismo exacerbado e excludente talvez tenha sido sua irada reação inconsciente e. na circunstância. o que fortemente impactou a intelectualidade alemã [14]. a nosso juízo. porque é exatamente daí que se pode derivar os mais importantes ensinamentos. entre as quais estavam algumas de já tradicionais banqueiros. que a colocação maniqueísta: Heidegger. com intensos reflexos na sua vida cultural. Há um outro importante momento histórico. para então bem decidir. Isto representou um grande impulso no processo de “modernização econômica” da Alemanha.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 179 tes. Nada pior. quando ocorre uma significativa migração de famílias judias para Frankfurt. à época do seu reitorado. Começaríamos lembrando que coube em parte aos alemães do sudeste a resistência à penetração islâmica na Europa via oriente [12]. mas tem como seqüela desdobrar-se para alcançar seus primos remanescentes. Sendo ele o maior dos filósofos de nosso tempo. uma das raízes mais antigas e fundas do anti-semitismo europeu. Isto. a mais dramática em . pois. anjo ou capeta. tal qual ocorreu em Espanha e Portugal. É a partir de então que esta cidade passa a se constituir num dos principais centros financeiros da Europa [13]. está muito longe de ser verdadeiro. em particular. É preciso compreender que sem uma vigorosa reação à expansão semítica. a Europa simplesmente não existiria e talvez ainda não tivéssemos nem mesmo entrado na Modernidade. toma-se como pressuposto que ele tivesse. justo por isso. Este processo num primeiro momento é anti-islâmico. razão pela qual consideramos imprescindível que se explicite e se aceite o contraditório e o paradoxal das palavras e das atitudes. valeria fazer um breve resumo da história do anti-semitismo alemão. os judeus.

Antes. O nazismo acabou sendo. É exatamente aí que a designação nacional socialismo. . o capitalismo sofre uma grande mutação: a função de principal motor do sistema passa da acumulação/produção para o marketing/consumo. na Alemanha o nazismo ganhou a proporção que tomou. A agressão à cultura era então uma conseqüência do lucro desordenadamente buscado. Por fim. Nesta nova etapa da expansão capitalista importa. suas esperanças revolucionárias se voltam para a pequeno-burguesia nacional (D). Por tudo isso. a agressão cultural passou a ser condição do lucro. fenômeno que não pode ser de modo algum explicado pelo ativismo de um punhado de desatinados. Este movimento representa o abandono da expectativa da consolidação de um proletariado revolucionário internacional (I/D) . que era quem mais sofria. antes de mais nada. com a expansão do capitalismo financeiro internacionalizado. doravante. se apoderar por atacado do imaginário do outro [16]. Com o capitalismo de marketing o processo se inverte: doravante é a desarticulação da cultura (ou sub-cultura) periférica e das relações sociais tradicionais que se torna pré-condição da penetração econômica global. no início desse século. ainda na passagem para o século XX. Isto implicava que a expansão capitalista. Em conseqüência. sim. a implantação de atividades agrícolas ou extrativo minerais na periferia do capitalismo acabava provocando a desorganização das relações sociais em geral e do mundo da cultura. só se faria pela prévia agressão à cultura (dos outros). ou nazismo. do movimento soreliano [15]. tem sua razão histórica.para ele já se tornara evidente o processo de aburguesamento das massas européias logo aos alvores da era do marketing e do consumismo.180 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO suas conseqüências. Outro episódio de peso foi a chegada à Alemanha. chamamos a atenção para o fato de que. econômica e emocionalmente.

pelas águas do Reno e do Neckar. pelo trágico. que a Europa (tendo a Alemanha como centro). diríamos nós) entre duas tenazes: de um lado a Rússia (tendo como sujeito da ciência o ser coletivo I/D. que não na posição lógico-diferencial D? Ver figura 6. telúrico. De quem estaria falando Heidegger. este sujeito desejado. Heidegger [18] afirma. pela Floresta Negra. o filósofo [17]. pela poesia. Ver figura 5. acrescentaríamos nós) e de outro a América (tendo como sujeito da ciência o indivíduo liberal I). lá pelos meados da década de 30. pelos gregos. está metafisicamente (logicamente. I/D/2 VONTADE POLÍTICA OU “ VONTADE COLETIVA” HISTÓRIA CIÊNCIA I/D F E S R CO A N LA K F D U E R T D/ A ÃO IC Ç N A C UL É T IM S D E I/ D /2 2 H P E H O V ID IS O E G T G Ó E R R IC O I VONTADE INDIVIDUAL D VONTADE NACIONAL OU VONTADE DO POVO CULTURA Figura 6.4 . segundo ele.4. É neste contexto histórico que Heidegger. senão do sujeito da ciência? Onde então poderia estar. naturalmente. Em suma: pelo sujeito lógico diferencial ou prometéico. pelo povo. D. faz sua opção a que não se pode negar o caráter ideológico: o faz pelo sujeito romântico.Heidegger e a questão ideológica . em particular da Alemanha.4. no caso da Europa. como o socialismo soviético foi uma reação retardada ao capitalismo produtivista ou de acumulação (além de representar a politização da arte!).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 181 uma reação antecipada ao capitalismo consumista ou de marketing (além de representar. pelo torrão natal. a estetização da política!).

4 deixa bastante claro que não se pode logicamente contrapor povo e técnica. ela é uma articulação entre a vontade individual (determinação de projeto) (I) e o saber científico (D/2). no lo racional en oposición a lo irracional (porque esta definición se basa en la frase: el hombre es un animal {I} racional {D/2}. deslocando-se da diagonal machista (D/2. A técnica é algo de natureza metafísica (no caso. entretanto. Ademais. Heidegger é de uma enorme clarividência. um radical crítico de sua cultura. mas é bem o seu simulacro. Isto significa que ele vai muito além dos limites estreitos da questão ideológica e se coloca como um verdadeiro filósofo de sua época. Sua posição não pode. De la necesidad de superar este antiguo “concepto” se sigue una mayor amplitud del novo concepto. A figura 6. I) para a diagonal feminina (D. (colchetes nossos) [22] De fato. Heidegger então anuncia com bastante clareza em que direção irá se mover. basta saber ler a própria lógica da situação e das escolhas possíveis.182 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Depois disso. como se pôde ver. a técnica é o próprio modo de ser do homem quando concebido como apenas animal racional. Não se precisa do livro do Victor Farias [19] para se chegar a esta conclusão. não pode caber a mínima dúvida quanto ao seu profundo e prolongado comprometimento com o nazismo. e isto vinha já de Aristóteles. lo imaginado (lógica). Sob este ponto de vista. É certo que ela não chega a ser lógico-qüinqúitária (I/D/2). a algo de determinado nível lógico só se pode contrapor algo . sob o poder castrador do ultimo [20]. ser reduzida a uma mera tomada de posição ideológica precisamente em razão da crítica insistente e feroz que faz à ciência e à técnica. além das ideologias). I/D) [21]: El concepto no es aquí ya más lo pensado. Estos son los conceptos fundamentales de nuestro futuro.

El pueblo es hecho por la historia. em Heidegger. estaria pois essencialmente associada à problemática de sua entrada ou saída na história (I/D). síntese da identidade e da diferença (I/D). Tornar-se um povo histórico não é uma necessidade. para o nosso filósofo. contra a sociedade tecnificada (D/2 I) dever-se-ia confrontar não apenas o povo (enquanto apenas vontade. [24] Entrementes. Embora a lógica da história seja a dialética. él pasa a la historia (futuro) en tanto que se sale da historia (pasado). D). a história aqui se reduz ao acontecer da própria tradição. mas o povo e sua vontade de tornar-se um povo histórico (D I/D). um desdobrar-se em seu próprio ser aberto (além de D). vale dizer. mas uma decisão (não necessariamente consciente). [23] Cuando um pueblo pasa a la historia ello quiere decir: él entra al futuro. [25] (negritos nossos) Lo que es desde lo ya sido es la tradición. a História. entrementes. nada tem de uma simples sucessão de acontecimentos fortuitos destituídos de significação.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 183 de um nível lógico igual ou superior. Assim. Ella es el carácter más propio del acontecer y lleva la determinatión propia por sobre nosotros hacia el futuro. Pelo já visto. [26] (negritos nossos) A opção pelo sujeito povo (D). o acontecer só verdadeiramente acontece como modo próprio de ser da tradição: Historia y acontecer no son ya más un continuo de sucesos: Acontecer es tradiction. na direção do futuro: . é uma história sujeitada à lógica da repetição (do mesmo!). não é algo inerente à condição de ser povo. ela aqui se mantém ← ← .

Por tudo isso cometeu muitos e sérios enganos. constitui uma evidente anomalia lógica. tal como a técnica. talvez. Tira bom proveito de um certo descentramento alemão em relação à Modernidade. a nosso juízo. imaginamos. A sujeição da história à tradição. que não era o espaço. porém. mas acaba sendo também vítima desta mesma excentricidade [27]. Isto vai implicar em que sua crítica da técnica (governada pela lógica formal D/2. deveras o fazia. teria tido o maior horror a Lacan e seus “matemas da sexuação” ! [28] b) Não distingue ciência e técnica no que lhes é o ← ← .184 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ainda refém de sua proveniência. sem conseguir deixar de ser. que se pode assim resumir: a) Embora tenha escapado dos estreitos limites do reacionário plano ideológico. tendo a lógica da identidade I a seu serviço. o que a rigor propõe é a substituição da técnica machista (D/2 I) por uma anti-técnica feminista (D I/D). que aquilo que vinha para se contrapor à técnica. (Ver figura 6. por pressupô-lo apenas lógico-dialético trinitário (hegeliano) e não o que verdadeiramente é.2) Em que pese a sagacidade e o poder de enxergar para além das ideologias e mais ainda para aquém de seu próprio tempo seguindo ao reverso as marcas significantes deixadas meio às sendas do esquecimento do ser. Heidegger não consegue ir muito mais longe do que lhe facultava sua própria cultura. mas o tempo histórico das culturas. Em suma. também um pseudo ser lógico-qüinqüitário). Conclui-se. hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. pois. mais um modo pseudo-lógicoqüinqüitário (pseudo I/D/2). um pseudo ser lógicoqüinqúitário) acabe desembocando numa anti-técnica (governada pela lógica da diferença D tendo a lógica dialética I/D a seu serviço. portanto. não consegue se assenhorar do aberto em que se viu. apenas um simulacro. sujeitada à lógica da diferença (D). Heidegger.

talvez desencaminhado pelos hinos e encantos de Hölderlin.3. porém. por isso sub-avalia a força criativa da ciência e não consegue perceber quanta oportunidade há para denunciar a fragilidade da técnica quando em estado de ilusionista exorbitância. que ela é ainda maior para com Heidegger. c) Não percebe que o problema da técnica não está no que ela é. daí. Havia um precedente que lhe era bem familiar . no fim de seu périplo filosófico. vá sugerir a volta à mesma exorbitância poética grega! 6. não chega a se configurar como uma verdadeira escola de pensamento: It may even be questioned whether they have anything in common beyond the programme for a restatement of Marxisme in the form of a ‘critical theory of society’. entretanto. É um juízo quase unânime que a Escola de Frankfurt. de uma práxis política desastrada? Seu “fracasso” na reitoria – isto é. a nosso juízo se deve justamente a esta sub-avalição do poder da ciência na Modernidade. parece-nos. em que pese o nome. ou pior. dela não se apercebeu. o que a Escola acaba mesmo realizando é uma “inversão interna” no esquema lógico heideggeriano. mas nas suas máscaras sedutoras.os meios de reprodução e comunicação de massa Vale a pena aqui fazer uma breve referência à Escola de Frankfurt (sempre Frankfurt!). É bem conhecida a sua dívida para com Marx (I/D) e Freud (D). em conseguir realizar uma reforma radical de sua própria universidade –. Sem isto. não se deve estranhar que. A Escola de Frankfurt .a exorbitância poética dos gregos -. vale dizer. [29) . a segunda fingindo ser já o que está ainda por vir. Como pretendemos mostrar. mas no que figura ser.2. não em seu rosto. sua orientação diametralmente divergente na ordem do tempo: a primeira desejosa do que foi. como seria possível escapar à impotência.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 185 mais essencial.

no caso. seja dando mais peso à Fenomenologia do espírito e menos à Lógica hegelianas (Habermas). pelo menos a nível lógicodialético. A desabsolutização da dialética é justamente o que vai permitir a sua articulação com outra lógica. sempre existiria um outro.186 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria mesmo assim? Realmente reconhecemos uma certa dificuldade em apresentar uma lista de concepções comuns à Escola. como também de equivalência de ser e pensar. por exemplo. barra-se qualquer pretensão de onipotência do conceito. denuncia-se abertamente a aproximação do marxismo com o positivismo cientificista. importa sim o seu conjunto que acaba se mostrando de surpreendente harmonia. valendo-nos de uma estratégia geral de envolvimento. porém. ali- . verdade do ser dialético. insistindo na sua desabsolutização. Tanto para Horkheimer como para Adorno. que. Isto é feito de diferentes maneiras. não importam o âmbito e as circunstâncias. completude e eficácia teórica. Isto significa que a noção de totalidade. da “dialética negativa” de Adorno. como é o caso. b) Seguindo Karl Korsch (Marxismo e Filosofia 1923). entrementes. perde seu peso metafísico e por conseqüência deixa de se constituir suporte para os extremismos totalitários. Deste modo. consequentemente. Vejamos: a) Todos os membros reconhecidos da Escola passam pelo marxismo. pela dialética. na conjunção dialética e materialismo. com a lógica do outro ou da diferença. podemos chegar a uma visão relativamente coerente e precisa sobre o que de fato pretendem os defensores da Teoria Crítica. Não importa a ordem de apresentação nem o peso relativo de cada um dos “lances ou movimentos” por eles realizados. seja sobrevalorando o momento negativo da dialética em detrimento do seu momento de síntese.5. Ver figura 6. é o último que torna a primeira um processo infinitamente aberto.

5 . Este posicionamento. Figura 6. [30]. também taxando como suspeita a aproximação do próprio Freud com o positivismo. teria suas raízes nas inegáveis ambigüidades do próprio Marx com respeito ao valor da ciência e da técnica. mas. rejeita-se abertamente à psicanálise o estatuto de cientificidade com que tanto sonhara Freud. a lógica transcendental ou da identidade que lhes dá suporte. na verdade. Kant e Fichte são aceitos.A formação lógica da Teoria Crítica d) Rejeitando a prima philosophia e as filosofias subjetivistas e. não pelo transcendentalismo. é comum à toda a Escola como assinala Kortian: The Critical Theory of Frankfurt School simply reproduces this metacritical paradigm in its merciless attacks on any rehabilitation of a prima philosophia. com estas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 187 ás. obviamente. pelo valor que dão aos imperativos da razão prática. porém. c) Aceitação da psicanálise como um real contrapeso a eventuais desvios conceptualistas totalitários da dialética. Adorno é o mais crítico da razão identitária que a seu ver necessariamente suprime as diferenças. .

nada melhor do que a arte para romper. Horkheimer lamenta que a Modernidade tenha cortado do âmbito da verdade não apenas a política e a religião.188 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO e) Não é de se estranhar que a estima pela psicanálise venha de par com a valorização da arte. fazem uma crítica radical da técnica moderna e das ideologias que as justificam seja explicitamente. invertendo a direção da relação de soberania – agora. deixando uma única alternativa: o comprometimento da Escola de Frankfurt com a mesma diagonal feminina por que optara Heidegger. em sua autojustificação. A Teoria Crítica é assim um pensamento que con- . por serem de Frankfurt e não da pequenina Messkirch. denunciam que a história reduzida a simples natureza leva a que a práxis se reduza inexoravelmente à técnica. seja por ardilosa omissão. não podia deixar de atacar a tecnocracia e o totalitarismo inerente à razão técnica e científica. vindo da esfera de influência heideggeriana. a própria técnica transformouse em ideologia. Talvez. Habermas segue na mesma direção. e demonstra como. na Modernidade. rejeitam liminarmente o método e a postura objetivista da ciência por incapaz de dar conta da especificidade e da complexidade do ser histórico. g) A tudo isso colmatando. as falsas totalidades. só que partindo de uma crítica profunda da noção weberiana de racionalidade. Adorno rebela-se contra a tecnificação que se faz hoje em escala planetária. porém. Para Adorno. portanto. quem sabe. Operando no “espaço lógico” o conjunto destas disposições se mostra extremamente constringente.4. Marcuse. da dialética I/D sobre a lógica da diferença D. f) Embora não se furtem à pesquisa empírica. mas principalmente a arte. Hoje a cultura teria se transformado em mera indústria de diversão para mistificação das massas. na região de Baden! Ver figura 6. por dentro.

Foi por assim acreditar que acabamos todos caindo onde caímos. Não há mesmo saída à esquerda nem à direita. com a sua “indústria cultural”.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 189 segue romper com o conservadorismo ideológico. é porque não nos interessa mesmo a salvação. Definitivamente. por via reversa. Ora. Vimos também que poucos conseguiram até hoje ultrapassar os estreitos limites da crítica ideológica. Não há dúvida de que faliram as ideologias. não fo- 6. conforme o uso que deles se faça. Crítica radical da cultura . a Modernidade não se reduz a um simples modo de produção. Heidegger e. depois.um dos mais proeminentes membros da Escola -. a Modernidade é antes de tudo uma cultura em cujo âmago vive a ciência com o seu inesgotável poder de cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos. qualquer que esta possa ser. e sabemos hoje bem o porquê: não pretenderam outra coisa senão alcançar o capitalismo perfeito através da simples troca do sujeito sujeitado da ciência. Entretanto. na era do pensamento único. modos de pensar a meio caminho entre a penúria que ora se vive e o pensar pleno lógico-qüinqüitário . São.4. primeiro. trata-se ainda de um pensar tolhido. a Escola de Frankfurt. os dois. Em Heidegger. tal como a técnica que ele critica. que acredita que a Modernidade. em todas as logias -. Se insistirmos em abdicar de pensá-la. excetuando-se. mas. ficando esta sempre impensada. não alcança a altura suficiente para se constituir numa instância crítica radical da cultura.como degraus ou como enormes pedras. levado às últimas conseqüências.em todas as universidades. como contemporaneamente acontece por toda parte . fechou todas as portas que pudessem nos levar a um ponto de vista a ela transcendente [31]. deixando-a à vontade para pensar-nos. em que pese a pretensão. Esse juízo é emitido pelo próprio Adorno .

respectivamente. é se colocar à espera de um deus que se crê infantilmente vá um dia se arrepender e voltar. por ser tal. Que era então o logos heraclítico que a própria filosofia paradoxalmente desconhecia? No referencial ali tacitamente assumido. por conseqüência. mas da humanidade concreta no inexorável e penoso curso de seu auto-desvelamento. ainda de sua época grega: com Parmênides o logos se degradava em lógica transcendental (I).190 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ram eles longe o suficiente para se constituírem como verdadeiras instâncias críticas da cultura e. a pior das emendas! O esforço heideggeriano de denúncia da essência metafísica da técnica (da ciência. preferiríamos nós). não apenas da filosofia. É fazer tábua rasa. No imaginário e na prática. com Platão. Hoje. que acaba sendo também a denúncia dos limite da crítica ideológica da Modernidade. ou mesmo à só palavra poética. em lógica dialética (I/D). na Modernidade com as filosofias de Kant. Hegel e Leibniz. Heidegger chamou nossa atenção para o fato de que os descaminhos da filosofia já vinham de bem longe. não será entretanto perdido se vier contribuir para que a filosofia reconquiste seu vigor originário grego. sob o império da lógica da dupla diferença (D/D) . lógica por lógica. às suas ardilosas promessas. não se pode pretender chegar à crítica da Modernidade sem um pensamento resoluto disposto a medir-se com a ciência. também da ciência. embora insuficiente. nada menos. Tudo isto veio se repetir. mas quanto à sua significação e. com Aristóteles. A nosso juízo. igualmente. não obviamente naquilo que respeita a seus métodos e resultados. Isto implicaria avan- . é lógica da diferença recalcada -.que precisamente. em lógica formal (D/D=D/2). pleitear o retorno ao logos heraclítico. de mais do que 2000 anos de história. na era da ciência e da técnica. do que o pensar da diferença (D) [32]. tintim por tintim. nada mais. sobretudo.

ou seja. em especial da cultura Moderna. implicaria hoje na assunção. à sua própria plenitude onto-lógica. Mesmo a antropologia já se declarou. vazando assim os próprios olhos para não ver que não era o destino. lógico-qüinqüitária). porque hiperdialético qüinqüitário -. como sendo o saber das culturas em desaparecimento. E a ciência? Da ciência. mas coerentemente de um rio amazônico bem mais caudaloso. onde vige o princípio da falsa identidade [33]).não falamos do rio temperado e montanhoso de Heráclito. trata-se sobretudo de uma tarefa para o Pensamento (tomado em sua acepção máxima mundana. Jamais tivemos ou poderemos ter uma crítica científica da Modernidade. Como poderia estar a ciência disposta à crítica profunda da Modernidade se é ela própria o seu fundamento? Em tal circunstância. pela voz de seus maiores e com ares de sonsa gravidade. incompatível com sua própria lógica. entre outras coisas. mas sua própria cultura que perpetrava tal extermínio em escala planetária.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 191 çar. de onde se pode espiar o homem cansado e sofrido. ao invés de retroceder. a crítica da Modernidade se constituiria em auto-crítica da ciência (diga-se de passagem. preventivamente. . não há o que se esperar. mas chegando e se achegando enfim à sua morada. dialético trinitário. É óbvio que esta não é sua tarefa. Não há mais qualquer outra alternativa para um efetivo exercício crítico radical da Modernidade senão se postar à quinta margem do rio . de um poderio hiperdialético qüinqüitário que a capacite para a urgente e imprescindível tarefa de crítica radical da cultura.

a simplificação a que aludimos se torna imediatamente visível......... Hegel e Marx O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa.... casos particulares ou modelos reduzidos.. outras concepções do processo histórico apareçam como meras simplificações. E quando algum autor se declara adepto e de fato se utiliza de uma concepção lógica explícita.... como teremos oportunidade de adiante constatar...... O cristianismo brotou do judaísmo. como é o caso de Hegel e Marx (lógico-dialética)....... portanto..... o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu........... A questão judaica. portanto.. quando se lhe comparadas.... Tillich. .. Karl Marx.... o judeu teórico.. desde o primeiro instante... O cristão foi... o judeu é.. E tornou a dissolver-se nele...... A história da cultura aqui representada apenas pela sucessão de suas culturas nodais (figura 7... à esquerda) [1] não difere assim tão extraordinariamente de outras conspícuas e bem conhecidas concepções. ... Pela razão óbvia de termos adotado uma concepção hiperdialética......... de generalidade extrema...... então...... mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão. é mais do que natural que.......1..........FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 193 7 História da cultura segundo Toynbee..

que se proceda à mais ou menos óbvia identificação do ser logico-diferencial (D) com o caráter materialista. nós mesmos nos serviremos de uma representação geométrica trinitária (sucessão de formas triangulares) e não. porém. Ao final de sua vida intelectual. cada civilização tem de fato o seu próprio ciclo de vida. para comprová-lo. o preclaro teólogo alemão. na qual a forma piramidal (hiperdialética) apareceria subsumindo as formas triangulares (dialéticas) [2]. Paul Tillich. não suficientemente nítida. ainda por cima. expressa por uma religiosidade cada vez mais abstrata (espiritual) e de âmbito mais universal. ela pode sempre alongar sua existência à proporção que consiga dar respostas adequadas e eficientes aos desafios contingentes com que se venha defrontar. Neste. que seguiria uma tendência ascendente. nos seus resultados bastante próximas da nossa. da primeira. ora espiritualista. como seria conseqüente e mais funcional. . bastando. constatamos que a última não é mais do que uma versão simplificada (lógico-trinitária) e. de uma representação propriamente lógico-qüinqüitária. Estas últimas teriam implicitamente o comando global do processo. emigrado depois da Segunda Grande Guerra para os EUA.a nossa proposta hiperdialética e a “filosofia da história” de Toynbee -. Inicialmente examinaremos as concepções de Toynbee e Tillich. O primeiro toma as civilizações como os reais sujeitos do processo histórico e adota uma concepção que poderíamos denominar de organicismo mitigado [3]. Comparandoas . e do ser lógicoidentitário (I) com o caráter espiritualista. Toynbee delineou uma filosofia da história na qual se alternariam culturas de caráter ora materialista.194 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para facilitar comparações. isto não a obriga necessariamente a percorrer uma seqüência de fases pré-fixadas. ademais.

da problemática antropológica: Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. tendo-se aí a cultura judaica por seu ilustre paradigma: . [n. como em Toynbee. Aqui.temporalidade. também vem chamar a nossa atenção quanto à importância da análise das experiências de tempo (I) e espaço (D) para a compreensão. nas formações culturais históricas. constatamos.] [5] Ao percorrermos a lista das culturas que Tillich aponta como comprometidas com o tempo. [negritos nossos. espacialidade e a luta pelo predomínio em que estão permanentemente empenhadas: L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. em profundidade. de importância primordial na estruturação da mente humana e acaba por isso se refletindo no próprio processo de sua objetivação simbólica coletiva. mas um a priori constitutivo da própria mente humana . vale dizer. Outro grande filósofo alemão da cultura. como não poderia deixar mesmo de ser. Ernst Cassirer.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 195 trabalha diretamente com as culturas e adota uma concepção também implicitamente dialética do processo histórico. de fato. que elas coincidem exatamente com o que caracterizamos como culturas lógico-identitárias (família I). entretanto. o “motor da história não é o desafio contingente versus resposta.[4] O papel que a tensão tempo (I)/espaço (D) exerce é.n. aliás.

pelas culturas espirituais. Aqui. cada uma com seu específico e dissimulado propósito. Para melhor compreendermos como foi possível a deformação conceitual cometida por Hegel. e o que é mais curioso. aqui. como em Toynbee.196 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Le peuple juif est comme aucun autre nation le peuple du temps. Car l’homme est capable d’agir en vue d’une fin située par-delá sa propre mort. [6] (n. enquanto que o primeiro adota uma versão especulativa (preferimos a denominação especulativa à idealista. Il représente la lutte permanente que se livret depuis toujours l’espace et le temps. Os casos mais interessantes vão ser os de Hegel e Marx. cada uma a seu modo.n.)[7] Depois disto tudo só nos resta afirmar que a concepção do processo histórico em Tillich pode ser também considerada como tão apenas uma versão simplificada da nossa proposta hiperdialética. mas que a nosso ver deturpa a intenção hegeliana). (n.n. vão ser então identificadas como lógico-diferenciais (família D). pelas culturas do tempo. devemos atentar. mais usual.) As culturas do espaço. não escondemos. em suma. grega e moderna. é a nossa. Admitido . sempre a mesma tendenciosidade (que. a torcida é para um dos lados. O último diz adotar uma versão materialista da dialética. Estas duas concepções da história são sobremaneira interessantes na medida em que não são apenas simplificações ou reduções. em primeiro lugar. ambos declaradamente lógico-dialéticos. lá. verdadeiras deformações da concepção hiperdialética. para o seu radical apego à coerência lógica (dialética). também. também): Ce n’est que dans l’homme que le victoire finale du temps devient possible. mas porque constituem.

esta deixa consequentemente de ser. Hegel.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 197 o caráter dialético da história.[10] Com o “rebaixamento” da cultura judaica. por ex- . Tal passagem se confirma com o episódio da auto-definição essencialmente lógica de Deus. por razões “psico-sociais” [9]. portanto. ambas ainda referidas à Natureza) em direção às culturas propriamente lógicas. portanto. lógico-D-iferenciais. Os judeus são. com muita precisão. se afigurando então como a realização/institucionalização deste mesmo ser lógico-trinitário! Espantoso! Em segundo lugar. Ela também representa. à direita). uma concepção abstrata e alienada da essência humana (figura 7. sua meta tem que ser a auto-realização do espírito como espírito absoluto . deslocados de sua real posição lógico-identitária (I) para a posição lógico-diferencial arcaica (pré-D). Sua expressão política. a destinação da cultura alemã. depois diferencial. ele se vê obrigado a afirmar coerentemente que tal processo deva conduzir ao desvelamento de um ser lógico-dialético e não a outro qualquer tipo de realidade [8]. ou seja. podese então trazer a cultura grega para o seu indevido lugar. Ele produz esta “demonstração” valendo-se exatamente da passagem bíblica referente à adoração do bezerro de ouro que. passíveis da acusação de terem instaurado um pérfido dualismo. Hegel toma estes episódios como significantes da ruptura dos vínculos do homem com a Natureza. assinala a passagem do analógico ao plenamente convencional. se o processo histórico ainda se encontra em aberto. o trânsito das culturas ecológicas (inicialmente identitária. desta sorte. no plano simbólico. precisa demonstrar a todo custo que a cultura judaica pertence à família das culturas Diabólicas. respondendo à indagação de Moisés: “Eu sou o que sou (ou serei)”. Ora.o perfeito e acabado ser lógico-trinitário (I/D).1. o Estado prussiano. com o telúrico vigor que afinal o engendrara. Esta deve ser.

com Hegel. Hegel pôde deslocar a cultura cristã trinitária da posição I/D para D.198 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celência. é o lugar de onde se pergunta pelo ser (distanciamento D) e não o do ser desejado (I). HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA HEGEL: HISTÓRIA DIALÉTICA (VISTA PELA ÓTICA DA FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO) ONDE SE DEGRADA A CULTURA JUDAICA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D/ 2 D/2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA CULTURA MODERNA CÍNICA CULTURA ALEMÃ CULTURA GREGA TRÁGICA I/D D I/D D CULTURA CRISTÃ CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA GREGA TRÁGICA I PASSAGEM DEGRADANTE Pré-D CULTURA PRIMITIVA CULTURA JUDAICA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I Pré-I Figura 7. não é mais o Deus Uno-Trino.1 – Hegel e a história da cultura . da tela e da pedra. fica aberto o lugar para que uma nova realidade advenha em I/D. o novo Estado alemão. para ele. metaforizada à exaustão na “sublimação” da cal. mas o dualismo corpo/alma. os primeiros e mais dedicados amigos do ser [11]. Não percebeu Hegel que grego. Uma cultura realmente da identidade (I) produz profetas e não filósofos. agora!). dirão com malícia que estamos nós à espera do Brasil. como ele equivocadamente inferira. a cultura trágica ou prometéica (D) para ressurgir como cultura identitária (I). Um absurdo completo. na filosofia. adivinhamos. Valendo-se da mesma artimanha. já lá instalado à espera para dar-lhe as boas vindas (assim como. em I/D/D. como atesta o incomensurável acervo da arte sacra que ele nos legou [12]. Depois de todos estes malabarismos. O essencial no cristianismo. seu profeta. pois o desejo do cristianismo é precisamente a “espiritualização” (I/D) do corpo (D).

só um gênio seria capaz de tais proezas: afirmar. agora colocadas ambas sob a rubrica comum: modo de produção escravista. Marx simplesmente curto-circuita a cultura judaica. 50 que se instalara a revolução industrial inglesa.2. Pérsia. e o faz por meio da identificação da cultura de base agrícola dos grandes impérios da Antiguidade (Suméria. e o Egito antigo é um ótimo exemplo disso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 199 É importante lembrar que tudo isto acontecia numa Europa já imersa em plena cultura científica moderna. todos de nível lógico pré-D) com a cultura trágica grega (de nível lógico D). além de grande filósofo. Seria então o caso de se indagar por que seria Hegel tão cego à lógica formal (D/D) já ele sentado sobre ela? Em outras palavras. e isto foi dito até com bastante franqueza. a artimanha não sendo mais aquela de deformar (a lógica das virtudes da cultura judaica. Deveras. de colocar a filosofia de Hegel de cabeça para baixo! Para tanto.? O caso Marx é tão ou mais interessante que o anterior. Babilônia. Assíria. (figura 7. governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D). Com isso. A maior parte da . que a realidade maior fosse de nível lógico dialético (I/D) e que a cultura judaica fosse dualista (pré-D). como em Hegel. desaparece da cena histórica a cultura judaica e com ela todas as suas articulações conceituais (lógicas) e históricas com as demais culturas. mas de simplesmente subtraíla à “objetividade cientifica” [13]. 500 que morrera São Tomás. seria ele.. um ainda maior neurótico obsessivo. tratavase. naquela altura dos acontecimentos. Egito etc. Assim. à direita). Já se iam para mais de 600 anos que morrera Abelardo. 100 que morrera Galileu.. fosse qual fosse a data que tomássemos para o seu nascimento. O escravismo é uma extensão mais ou menos permanente de um verdadeiro modo de produção. A escolha da denominação escravista é um ato falho que vem ratificar o que estamos afirmando.

2 . por fim. Fica ainda o espaço suficiente para a conclusão do processo histórico através do advento do comunismo. mas reduzindo-a a I. em especial. com a escamoteação da cultura judaica. é só identificar . Assim fica bastante claro que a escolha do nome escravista para este modo de produção só se justifica da perspectiva judaica. D. a cultura cristã patrística com feudalismo.. na posição I/D. pré-D) para as culturas propriamente lógicas (I. em I/D/D.. e .. diga-se de passagem .200 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO produção egípcia não era escravista (os egípcios não eram escravos em suas terras). ). DA CULTURA ONDE É ESCAMOTEADAA CULTURA JUDAICA) COMUNISMO AVANÇADO CULTURA MODERNA CÍNICA FEUDALISMO CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D I/D/2 D D/ 2 I/D I ESCRAVISMO CAPITALISMO I/D/2 D/ 2 I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA Pré-D CULTURA JUDAICA D CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS I PASSAGEM ESCAMOTEADA Pré-D Pré-I ESCRAVISMO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I COMUNIASMO PRIMITIVO Figura 7.a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico com comunismo primitivo. a sociedade sem classes. HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA MARXISMO: HISTÓRIA DIALÉTICA MATERIALISTA (HIST. O mais importante é que. a cultura científica moderna com capitalismo. em préI. apagam-se completamente as marcas da passagem das culturas ecológicas (Pré-I e. apenas podia se dizer escravista. mas reduzindo-a a D. mas reduzida a I/D.Marx e a história da cultura No mais.corretamente. onde justamente estava inconscientemente Marx. e sem esta ruptura presente. na posição D/D.

sem precisar acabar os seus. dis-pensador da cultura judaica. também dialético (I/D). causar nenhum espanto. . ficando assim obrigado a escrever. que Marx acreditasse estar colocando o mundo filosófico de cabeça para cima.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 201 bem aparente. E com isso ficamos nós sem nada saber de como foi possível a Marx... portanto. a concepção ecológica (materialista. notas introdutórias e mesmo posfácios. chegar afinal onde chegou. A história da cultura se reduz com este “apagamento” a um mero processo de desenvolvimento das forças produtivas em seu sentido puramente material. tomando a infraestrutura material (ecológica ou econômica) da sociedade como determinante. escrevendo prefácios. se poderia também dizer) da realidade social pode se prolongar e dominar a totalidade do processo histórico. toda a produção lógico/simbólica se reduzindo a mera super-estrutura determinada [14]. de cabo a rabo. Pela simples contemplação da figura 7.2. podia harmoniosamente conviver com a sua histeria (I/D). que embora dialético (I/D) não conseguia se desembaraçar de sua neurose obsessiva (D/D). Ao contrário de Hegel. Não nos pode. Marx. verifica-se como ele pode deveras realizar toda esta mirabolante deformação histórica. sempre o mesmo livro (o mesmo sistema).

com algum precisão. tanto tem de cultura. . Consideramos que este é o momento oportuno para . homem/ cosmos e homem/Absoluto. conteúdo/continente? Como bem sabemos. mais intensa e profundamente estarão contribuindo para a resignificação contextual do ser humano: falamos das relações homem/sociedade. a nosso juízo.. O tema central aqui é a relação entre indivíduo e sociedade. a nosso ver. esta é uma antiga questão filosófica [1]. II Este ensaio é o primeiro de uma trilogia em que assumimos o elevado risco de tentar delinear.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 203 8 Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária É portanto mediante a cultura que o indivíduo tem aqui vigência e efetividade. aspectos da nova cultura lógico-qüinqüitária que virá suceder à atual Modernidade. Começaríamos indagando: elas variariam ou não em função do tipo (lógico) da cultura considerada? Podemos tomá-las como um caso particular da também velha questão dos universais? Podemos tão somente reduzi-las a uma relação topológica. até hoje sem uma resposta aceitável. Hegel. Fenomenologia do espírito.. Os aspectos aqui considerados são aqueles que na nova cultura. quanto tem de efetividade e poder.

já com vista à cultura nova lógico-qüinqüitária que. agora. indivíduo e sociedade. Figura 8. operando e existindo em cinco níveis ontológicos: transcendental ou identitário (I).esta é.estaremos adentrando. em muito pouco tempo . em especial. hiperdialético (I/D/D=I/D/2).204 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO buscar-lhe uma resposta clara. isto é. De per si. eles se constituem como entes de nível lógico-qüinqüitário [2]. por suas normas e práticas educacionais [3]. embora tenha todos os seus membros de nível lógico-qüinqüitário (I/D/2).1.Relações políticas e culturais invariantes numa cultura de nível lógico X .1 . portanto. ela se caracteriza justamente por um parti pris lógico. Coloquemos. por apenas reconhecer um determinado nível lógico que ela absolutiza/sacraliza em sua religião oficial ou hegemônica e que sanciona por todos os meios. clássico formal ou duplamente diferencial (D/D=D/2) e. a nossa grande esperança . sem dúvida. tal como ilustra a figura 8. dialético (I/D). lado a lado. simples diferencial (D). Sabemos também que seja qual for a cultura. por último.

a partir de sua capacidade individual de autodeterminação ou decisão.1. falta-lhe por si a cultura. como é o caso. dentro do que permite a cultura de nível lógico X. estruturas conceituais (a língua. duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. veremos sempre o indivíduo operando necessariamente em nível lógico transcendental (I). não importa o tipo de cultura sob consideração. O segundo. este mesmo ser-coletivo. o processo de produção da deci- . depreende-se que devam existir ao menos dois modos invariantes de articulação entre indivíduo e sociedade. em especial) e valores gerais que constituem a cultura de nível lógico X. O primeiro modo de articulação. o que nos leva a acreditar que. seu poder de decisão estrito senso. aquilo que é falta constitutiva do ser-coletivo. O mais interessante a observar é que o processo de assunção da cultura pelos indivíduos se faz por identificação.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 205 Isto posto. ele não estaria garantindo o que lhe é mais essencial: sua integridade. Daí. uma operação de natureza lógico-identitária (I). Em contrapartida. que é necessariamente portador de cultura. seu poder de autodeterminação. tal como ilustra ainda a figura 8. caso contrário. é aquele em que os indivíduos suprem sua carência cultural constitutiva assumindo ou se deixando tomar pelos esquemas de percepção. por exemplo. em especial. é aquele em que os indivíduos entram num processo interativo para produzirem. sua liberdade. ou seja. em razão mesmo de ser múltiplo. De outro lado. Deste modo é que eles podem atingir seu mais elevado nível de estruturação interna e relacional. que denominamos político. da língua. não pode por si determinar-se. que diríamos cultural. de modo simétrico. naturalmente. pois esta última é uma prerrogativa essencial do ser-coletivo. qualquer que seja a cultura focalizada.

exclusive) à dimensão econômica. ao político e cultural. em geral. a política era considerada a primeira dentre as ciências e o homem o animal político [6] por excelência. ou pelo menos assim deveria ser. na Ética a Nicômacos [5]. no mais elevado dentre os modos de interação social. Sugerimos que se volte a ver a figura 8. nada há de mais natural do que a política. somos obrigados. É bem razoável pensarmos assim. Além das dimensões política (que engloba o poder ou a formação da determinação coletiva) e cultural (que engloba o sentido compartido que faz a unidade coletiva). Aceitar que o processo mediador num extremo ← (X X) é do tipo lógico-transcendental I (uma identificação) e no extremo oposto (I I) é do tipo lógico X. Em outras palavras. que denominamos dimensão econômica [7].1. Como já adjudicamos os níveis lógicos extremos I e X. para a sua própria consecução. Entre os gregos da idade clássica não havia a menor dúvida que o fosse. confundindo-se o ser social com o ser político. por uma questão de completitude. é o mesmo que dizer que as lógicas dos processos de mediação nos extremos do leque das rela- ← . dos meios para a sua reprodução material. pois a política se constitui. todo ser social comporta ainda uma terceira dimensão fundamental voltada para o provimento de meios em geral. tudo isso é apenas uma disposição normativa. respectivamente. em especial. Para Aristóteles.206 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO são coletiva articulando as determinações individuais se faça por um modo operatório de nível lógico X [4]. se valer daquilo que a sociedade tem de melhor ou mais sofisticado – a essência (lógica) assumida de sua cultura. embora devamos saber que toda violação acaba tendo lá seu justo preço. Como exemplificaremos adiante. em termos de distorções estruturais compensatórias alhures. a fazer corresponder os níveis intermediários (entre I e X.

mas sua força determinativa iria se atenuando (permitindo que a determinação também se exerça mais e mais no sentido oposto) à proporção que nos aproximássemos do outro extremo e se inverteria. portanto. não apenas nos extremos. à esquerda. naturalmente. Para ilustrarmos tudo que foi até agora dito. muitos diriam que nem sempre assim acontece: a decisão poderia vir do diálogo e até como fruto maduro de um estado de comunhão. tal como ilustra a figura 8. tanto no sentido do indivíduo para a sociedade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 207 ções indivíduo/sociedade culturalmente reconhecidas estão na ordem invertida em relação às lógicas que governam aquilo que elas justamente articulam. sacraliza a lógica dialética (I/D). Seria. vale dizer.2. tomemos o caso das culturas cristã medieval (I/D) e científica moderna. uma vez mais. no geral. natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêmse. Nesta cultura. O estado de máxima elevação cultural seria o êxtase diante do Espirito de Deus. (D/D=D/2) Sabemos que a cultura cristã medieval é lógicotrinitária que. Por certo. que todas estas assertivas valem apenas como uma norma. mas em todos os níveis dentro dos limites da lógica da cultura considerada. Havendo um exato nível médio ele será igualmente determinado. o nível cultural (coletivo) seria lógico-dialético. a meio caminho. Insistimos. quanto no sentido inverso. produto da . por conseqüência. O processo de decisão coletiva (I) derivaria da autodeterminação individual (I) por meio de um processo de luta (I/D). O sentido da determinação a partir de um qualquer dos extremos acompanharia àquele deste extremo. em ordem inversa relativamente às lógicas dos aspectos individuais/societários articulados. a realidade suprema aí seria o Espírito (I/D) e os indivíduos se tornariam cultos através do processo de identificação (I) com o espírito (I/D) de sua época.

portanto. eleitoral. de caráter plebiscitário ou representativo (ver figura 8. não importa.Relações indivíduo/sociedade nas culturas cristã medieval e científica moderna Vejamos agora o caso da cultura científica moderna. isto é. consubstanciado apenas no trabalho (esforço que se faz com vistas a outra coisa que ele próprio. em geral) ou por terceiros. de nível lógico-clássico formal (D/D=D/2).2 . A dimensão econômica nesta cultura restringir-se-ia ao nível lógico-diferencial. teríamos o processo político produzindo a decisão coletiva (I) a partir das decisões individuais (I) mediante um procedimento contábil (D/D). Num dos extremos. que em qualquer destas hipóteses continuaria sendo obviamente dialética. logicamente D). Figura 8. estribados no costume e na autoridade (incluída aí a força ou a ameaça de utilizá-la).208 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO graça derramada pelo Espírito (I/D). à direita). . aqui conta apenas a lógica do processo. O processo de distribuição social de seu resultado nada mais seria que a simples apropriação (D) pelo próprio trabalhador (camponês.2.

A propósito.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 209 O ser individualmente culto se realiza por simples identificação (I) com os papéis definidos pela organização (D/D=D/2) social. estão de fato presentes e operantes. Por isso. Facilmente identificamos o D individual como sendo o desejo. estamos tratando do capital (I/D) [8]. no nível D. sob o aspecto dialético. no entanto. O indivíduo sentese culto na medida em que se identifica com seus diferentes papeis ou correspondente títulos e tabuletas à porta. que individualmente teria que ser produzido a partir do I/D coletivo através de um processo lógico D. ou.no caráter social do excedente acumulado. no caso da dialética não lhe corresponde a história. Do ponto de vista lógico ou formal. através de um processo lógico-dialético (I/D). É. que no fundo governam a dimensão econômica. de maneira essencialmente invertida ou distorcida [10]. o coletivo precisaria ser produzido a partir do individual. embora. mas tão apenas o progresso. a demanda individual e o D coletivo. em termos econômicos. por simples questão de simetria. ou seja. do capital -. era justamente nisto que insistia Marx . Em termos econômicos. Precisamos lembrar que na cultura moderna (D/D) as lógicas femininas {D e I/D}. ficasse muito longe de perceber que esta assertiva tinha validade apenas do ponto de vista de uma cultura determinada. por fim. a nosso ver. o processo I/D como sendo o mercado competitivo. Teríamos ainda que considerar o nível lógico I/D. pois. Sobram assim dois níveis lógicos para serem adjudicados à dimensão sócio-econômica. como sendo a demanda agregada e. através da apropriação privada (D) [9] do capital social (I/D) que os indivíduos completam. a história desnaturada. induzida pelo cálculo da taxa de retorno do capital. cuja determinação flui aí no sentido do coletivo para o individual. então. Quem desconhece o gráfico ascendente levemente serreado do processo da acumulação de capital . seu modo de ser social.

diríamos que o indivíduo moderno. os indivíduos completam o processo de sua integração à modernidade. que se imaginava devesse ser atendido pelo cálculo.210 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pendurado na parede ao fundo dos retratos dos expoentes da vida econômica moderna?! Assim. de modo coletivo. e que completa seu processo de integração identificando-se (I) com os múltiplos papéis definidos pela organização social (D/2). Em razão mesmo da ideologia de esquerda que orientou sua formação . que faz valer os seus desejos pessoais (D) na formação do desejo coletivo ou demanda agregada (D) através de um processo competitivo. não pelo engajamento na história (que a ideologia dominante chega a crer que já não há mais). o político (I) e o cultural (D/D) ficavam assim reduzidos a simples efeitos secundários ou de super-estrutura. isto é. Resumindo. através de um processo contábil. mesmo que trabalhe. o escrutínio (D/2). que forma o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) de parte do patrimônio coletivo. que se almejava fosse feita segundo sua natureza. o mercado (I/D). mas pela apropriação de parte do patrimônio coletivo acumulado. é o que contribui com seu poder decisório (I). respectivamente. para a formação da decisão coletiva (I). Quem não consegue do capital sua cota parte. do modo de produção/distribuição. ao invés .o materialismo dialético -. apenas a dimensão econômica moderna (associada às lógicas D e I/D) foi considerada como socialmente relevante. Neste ponto vale a pena voltarmos à questão da normatividade dos esquemas lógicos aqui apresentados. Interessava-lhe apenas os estratos lógicos D e I/D determinantes. Desta sorte. o capital social (I/D). Vamos considerar o exemplo excepcionalmente didático da União Soviética. e da apropriação do excedente ou capital. segundo o paradigma anglo-saxão. sente-se naturalmente um excluído. a demanda agregada (D). e até muito.

A política. Fig.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 211 de ser produzida através do mercado (I/D). o tão enfático realismo socialista. em conformidade com sua essência (o que estaria sendo aplaudido pelo próprio Marx). pelo diálogo. ao invés de eleições amplas e cálculo de votos (D/D). bem característico das construções públicas soviéticas. passava lá a ser produzida pelo cálculo (D/D).3. através de um processo de planejamento centralizado. Sendo vedada também a apropriação privada (D) do capital (I/D).3. por um efeito de re-equilibração estrutural. como mostra a figura 8. passando então a mediar a decisão coletiva (I). como nas nações lideres da Modernidade. aliás. ou seja. E foi mesmo para facilitar ao máximo esta identificação que se desenvolveu a estética socialista. as distorções não paravam aí. a lógica do mercado (I/D) tinha que se deslocar.8. Como bem . passava a se fazer pelo mercado concorrencial (I/D) da intriga e da violência entre os membros de um círculo partidário restrito (algumas vezes. outras por inspiração do “espírito partidário”!). o indivíduo deveria doravante com ele se identificar (I). Em conseqüência. Inversões soviéticas do paradigma moderno Porém.

as três dimensões sociais estariam se confundindo parcial ou totalmente. em contrapartida. como já sugere a própria figura 8. levando a administração pública a um grave processo de desagregação funcional e ética. posto que tão somente a partir desta estava assegurada a existência de pelo menos um nível lógico para cada uma das três referidas dimensões sociais.4. ou. . econômicas e culturais em sociedades de nível cultural abaixo da dialética (I/D). ainda mais instigante. a esta altura.212 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO observou Walter Benjamin [11]. entre as culturas menos sofisticadas (pré-I e pré-D). não há a menor dificuldade teórica. acontecia a apropriação privada (D). Seria o caso de se perguntar agora: como seriam aquelas relações entre os gregos (cultura D) e entre os judeus (cultura I). por membros do aparelho de estado da enorme quantidade de papéis ou cargos públicos (D/D=D/2). Nosso arguto leitor. naquelas culturas mais elementares. uma alteração lógica cá tende a provocar uma alteração estrutural compensatória acolá. Como dissemos. quando não se dispõe “culturalmente” de lógicas em número suficiente? Na verdade. Por isso. era a politização da arte em contraposição à estetização da política. Teríamos apenas que admitir que. quem sabe. até nos censurado. esta que por seu turno viria a se tornar o apanágio do fascismo. que viriam então a ser utilizados como moeda de troca. já terá percebido e. por termos evitado a questão das relações políticas.

Platão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 213 Figura 8. Percebe-se agora com clareza que aquele que opta por Antígona está.4 . as dimensões política e econômica estariam essencialmente comprometidas com a dimensão cultural. discutese acerbamente a quem se deveria conceder o estatuto de exemplaridade trágica.cultura lógicodiferencial (D) . enfatizando a corre- . se ao Édipo Rei ou à Antígona de Sófocles [13]. Podemos agora melhor compreender as intensas e profundas discussões gregas – sofista. Entre os estudiosos da cultura grega.é que a política pode enfim ganhar sua autonomia. Sócrates. vemos que é neste mesmo lugar que vai necessariamente nascer a política como uma dimensão autônoma da vida social. não fazendo então muito sentido distinguir uma das outras. Não se tratava de uma simples preocupação de conjuntura. de modo intencional ou não. até o advento da cultura judaica. mas reflexo do privilégio excepcional de a estar vivenciando em statu nascendi.Fusão das dimensões sociais Assim. Somente a partir dos gregos . Aristóteles – em torno da política. Já vimos que a filosofia (a pergunta pelo ser ou pelo que é o mesmo) nasce onde nasce a tragédia [12].

já são mais do que suficientes para provocar uma profunda revisão de nossa compreensão da Idade Média. Este processo ideo-lógico (ou teratológico). como de costume. na Modernidade elas são primeiramente recalcadas para. existe entre a política e o espírito da tragédia. ainda que em nível muito abstrato. de sua vida econômica e do papel que as autoridades governamentais [14] e eclesiástica católicas devem ter exercido no que tange à sua rígida regulação. que absurdamente transmuda meios . entretanto. no entanto. Algo bem semelhante não teria ocorrido antes. o que lá não faltou foi o dinamismo econômico. não é o mais importante. De fato. bem ao contrário do que amiúde se diz. em especial. num exato paralelo com o acontecido com a política entre os gregos.214 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lação (logicamente fundamentada) que. vindo a ocupar dois níveis lógicos. acabamos de ver. Na verdade. Estas considerações. porém. retornarem com enorme virulência [ 15]. também não faltou foram normas severas e mecanismos eficazes limitando a criatividade técnico-econômica. a nosso ver. já desnaturadas: o desejo individual domesticado pelo marketing e a história transformada em processo de acumulação pré-calculada de capital. A grande surpresa para o que se tem por saber histórico corrente é constatarmos que só a partir da cultura cristã medieval é que se destaca a dimensão econômica (ver figura 8. O efeito quantitativo. Retornam. com respeito à política?! Um exemplo bastante óbvio daquela disposição encontramos nos drásticos regulamentos “auto-impostos” às corporações de ofício medievais. O que.4). entre os gregos. em razão da ameaça que a autonomização recém-consumada da esfera econômica podia trazer para a integridade social. o que mais importa é o descontrole em que caem as forças econômicas represadas na cultura anterior. Com a Modernidade a dimensão econômica vai ganhar ainda maior peso.

tal como ilustra a figura 8. na esfera do pensar para valer. que os mais exaltados críticos da Modernidade. D e I/D. meios transmudados em fins. na parte referente às culturas primitivas. é de tal modo profundo e inconsciente. Pré-D e Pré-I/D (esta que se confunde com I). Pré-D e I serão por isto . agora definidas com precisão e objetividade como sendo as culturas nodais Pré-I e PréD. marxistas e fascistas. As três culturas Pré-I. aquela que define o ser subjetivo (I/D/D). entrementes. que elas se mantêm distintas pelo fato de a primeira constituir uma estrutura lógico-dialética autônoma ou completa. dando lugar a uma história econômica ou história dos modos de produção. vai conseguir escapar da lixeira da história (hiperdialética da cultura)?! Examinemos um pouco mais detidamente a figura 7.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 215 em fins. Deve-se notar. em especial. e a segunda por constituir apenas o ciclo inicial de uma estrutura majorante. elas fazem parte de uma estrutura dialética compreendendo as culturas Pré-I. hoje. que é similar à estrutura compreendendo as culturas I. Fixava-se a impressão de que a história da cultura. E esta impressão. tendo conseguido mesmo instaurar um estado revolucionário. apesar de todo o acontecido. ou pior.4. desaparecera. apenas num pretenso estado de delirante perfeição [16]. sem falarmos dos invertebrados sociais-democratas da moda. o que. É em torno dela que ainda se acordam todos solidários: vétero e neoliberais. que ao invés da lógica.5. pela intervenção de forças obscuras. aquela que define o ser objetivo (I/D). não se propuseram outra coisa senão deixar tudo essencialmente no mesmo. hiperdialética qüinqüitária. ainda de cabeça para baixo. Quem não compartilha de toda esta loucura?! Por isso. permanece ainda agora tal qual. Na verdade. era o estágio de desenvolvimento das forças produtivas (ou seja da técnica) que de fato parametrizava a história humana [17].

D. I. no fundo. é cultura. I/D. caracterizando-se por isso como uma cultura de passagem ou de articulação. o antitético e o sintético. forte e afirmativo. As conclusões que podemos daí tirar são muitas e importantes. um par de opostos. ESCRAVISTA DEBRAY: ESCRIBA = POLÍTICO PRÉ-I NÍVEL FENOMÊNICO MEIO = OUTRO OBJETIVO PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I PRÉ-PRÉ-D Figura 8. A cultura judaica. em nível objetivo. tético. o estado cultural que deixa na indiferença uso/meio/troca (que em termos econômicos vêm realizar-se como valores de uso/trabalho/troca). de PROD. SER SUBJETIVO PESSOAL OU SOCIAL I/D/D NÍVEL SUBJETIVO OUTRO SUBJETIVO EXTERNO D D/D OUTROS SUBJETIVOS. tudo. É extremamente importante observar que a partir de agora as noções de objetivo e subjetivo não constituem mais. em nível subjetivo. mas sim dois momentos. como de costume. para a cultura tribal (Pré-I). como a seguir veremos: a) Da mesma maneira que a cultura judaica (I) representa. um estado cultural de indiferença do cultural/econômico/ político. D/D e I/D/D subjetivistas. de uma tríade da qual ainda participa o fenomênico como sendo seu momento primeiro. a cultura tribal de caçadores coletores do paleolítico (Pré-I) representa. no fundo. EXTERNO E INTERNO I PRÉ-I/D=I NÍVEL OBJETIVO I/D MARX: M. assim.5 – Os outros .216 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ditas objetivistas. seria tanto objetivista quanto subjetivista. é troca ou reciprocidade. e as cinco culturas I. se para a cultura judaica (I) tudo.

cultura greco-romana. apenas entre as do meio. nem sempre consciente. finalmente. do totemismo nas culturas neolíticas Pré-D. se vê a relação de similitude degenerar em simples identidade. A correlata cultura “objetivista” PréD. A propósito. c) É evidente a similitude da cultura pré-I (paleolítica tribal) com I (judaica). assinala o momento da diferenciação do outro subjetivo ou intencional. é dos mais flagrantes: ele reduz e engloba estas duas culturas num mesmo modo de produção. com ela. também do nascimento do político como dimensão autônoma do ser social. para Lacan. trabalho.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 217 b) A cultura subjetivista D. cultura neolítica de base agrícola. operado por xamãs isolados. já por nós analisado em detalhes [19]. ou seja. dito escravista (escravismo que nem pode ser propriamente considerado um modo de produção. que realiza a instrumentalização da religião como forma de controle social. mais do que sua iluminação [18]. a classe sacerdotal. Com isto podese agora bem distinguir o animismo nas culturas paleolíticas Pré-I. com mais freqüência. e. O caso Marx. também. Isto acontece pelo interesse ideológico. a lógica D deve se chamar lógica do significante). O meio vai se realizar de múltiplos modos: como ação mediadora. mas tão apenas um desdobramento. de se colocar a cultura judaica (I) acima de qualquer consideração teórica.Pré-D e D . de préD (neolítica de base agrícola) com D (greco-romana). Entretanto. culturas lógico-diferenciais . em espe- . que caracteriza precisamente a noção de meio. já o vimos. operado por uma classe sacerdotal. tem como especificidade a emergência do outro objetivo. como escrita ou presença significante (por isso.é que. Com a escrita nasce a função de escriba e. de I (judaica) com I/D (cristã medieval). também. tem toda razão Lévi-Strauss quando afirma que a escrita parece favorecer a exploração dos homens.

A elisão da passagem do objetivo (Pré-D) ao subjetivo (I) é a elisão do exato momento em que a humanidade se dá conta. coletiva e simbolicamente. diferencia-se a noção de troca em geral ou de reciprocidade como base da vida social. que a bem fundada associação lacaniana entre lógica do significante (PréD) e lógica do inconsciente (D) não pode ser aí computada. porque a identificação que ele faz atem-se apenas ao nível lógico (ou “formal”) e não “substancial”. que emergira com a cultura Pré-D. que se denuncia já no próprio título de sua conhecida obra: O escriba (Pré-D) – Gênese do político (D) [20].218 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ciais circunstâncias. tão bem ilustrado pelo episódio da confrontação da tábua (escrita em caracteres convencionais) da lei e o bezerro de ouro. Advertimos. as confusões entre Pré-D e D são quase que a norma e tão amiudadas que deixamos ao leitor o fácil exercício de inventoriá-las. Outro exemplo conhecido é o de Regis Debray. Em outras palavras. significante (objetivo) e inconsciente (subjetivo) são obviamente distintos. do seu modo ser lógico.história da cultura . É precisamente esta operação de ocultação que permite a Marx transmudar a história humana . que teoriza sobre o inconsciente justamente governado pela lógica da diferença (D). Na psicanálise. d) Na cultura judaica (Pré-I/D que é o mesmo que I). embora sendo ambos governados pela mesma lógica D.em mera história dialética materialista ou econômica. A instituição do profetismo judaico dá um testemunho eloqüente de que para tanto seria imprescindível que de algum modo fosse confrontado o poder da classe sacerdotal (Sinédrio). entretanto. Este acontecimento é formalmente correlato à compreensão social do papel do simbólico pleno ou convencional. de verdadeiros modos de produção). sendo por isso correta. A classe sacerdotal (que na origem freqüentemente .

vamos começar pelos extremos. podemos começar a enfrentar aquilo que é nosso objetivo maior neste trabalho: delinear como seriam as relações sociais – políticas. Primeiramente. fundamento ideológico da dominação social que ela vai exercer. menos ainda. Desde já desculpamo-nos com o leitor. O processo de integração propriamente cultural do indivíduo será feito. permanecendo o Absoluto com seus específicos direitos. como mostra a figura 8. pois.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 219 se identifica com a classe dos escribas) nasce com o totemismo. e depois. porque. além. Isto posto. à diferença destes. econômicas e culturais – na cultura nova lógicoqüinqüitária. Dada a novidade e sobretudo a complexidade da questão. e ao se apossar sub-repticiamente [21] dos deuses institui a idolatria. ele se quer tão apenas espírito humano em sua plenitude lógico-qüinqüitária. que parecem ser os de mais fácil compreensão. por identificação (I) com a cultura. como ser-de-horizonte [22]. nem com o espírito absoluto de Hegel. no caso. com o novo espírito qüinqüitário (I/D/D). ao final. como sempre. o máximo dos máximos. porque são ambos apenas trinitários.6. . É importante observar que este novo espírito qüinqüitário não pode de modo algum ser confundido com o Espírito Santo. o novo espírito hiperdialético não se pretende logicamente máximo. não teremos alcançado resultados com a precisão e clareza que de início almejávamos.

concreta e detalhadamente. a partir do voto dos indivíduos (I). do oligopólio dos meios de comunicação de massa e do marketing de todos os dias. embora possamos antecipar que os mecanismos plebiscitários existirão. em função da disponibilidade de vastas redes tele-informacionais. Como será. Quando é eleito um novo Papa diz-se que o foi por uma decisão dos cardeais sob a inquestionável inspiração . Aliás. o novo modo de decisão coletiva (I/D/D). até com grande freqüência.6 . é difícil responder. como na Modernidade. os sistemas eleitorais vigentes hoje por toda parte não passam de rematada farsa.Relação indivíduo/sociedade na cultura nova qüinqüitária No extremo oposto a legitimidade política não será mais um resultado contábil (D/D). completamente corrompidos e desmoralizados que estão pela força do dinheiro. de todas as horas.220 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 8. mas se constituirão apenas num elemento entre outros em meio à sofisticada trama do novo processo político.

por um cálculo (D/D). guardando-nos ciosamente de a eles não . Eis aí mais uma das inesperadas artimanhas da História. a gradual. etc. à empresa única . Não fica então a mínima dúvida quanto a como funcionará o sistema produção/consumo na nova cultura: teremos uma oferta/demanda completamente planejada. mas persistente baixa das taxas de lucros empresariais. que assim se afigura. que na Modernidade é mediada pelo mercado (I/D). não por uma autoritária declaração de inquestionabilidade a priori. As pré-condições para que isso venha ocorrer já estão em acelerado processo de concretização: primeiro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 221 do Espírito Santo. muito ao contrário. na nova cultura passará a ser realizada por um processo lógico contábil. apenas por si e a posteriori. vale dizer. até que se chegue. apenas teremos ou ocuparemos estes ou aqueles cargos. a formação de densa e extensa rede tele-informacional. podemos pensar numa decisão inspirada pelo Espírito Qüinqüitário. entrementes. depois. ou seja. Quanto à formação do D coletivo a partir do D individual. Em contrapartida. e todos conectados ao sistema bancário. por se mostrar. sem que haja a necessidade de um órgão central de planejamento. deste aos fornecedores. a integração dos diversos sub-processos econômicos . calculada. por sua vez. mas. levará inexoravelmente às fusões. Paralelamente. teremos o fim da competição e do mercado de bens de consumo.com isto. enfim. Para fazermos uma idéia do que será o processo decisório na cultura nova. destes às suas plantas fabris e respectivos fornecedores etc.ligação das caixas dos supermercados ao controle de estoques. não nos identificaremos (I) mais com os papéis econômico-sociais (D/D)). a formação da demanda agregada a partir da demanda individual. melhor diríamos. pensaria Hegel. resistente a todo e qualquer questionamento! Vejamos agora os três estratos econômicos.

sob o ponto de vista econômico. o que denominamos teoria econômica. o que procuramos é tão simplesmente o mercado de capitais?! Talvez um mercado de capitais renovado?! Esta resposta meio maquinal parece. competitividade empresarial. opinião pública internacional. o mercado de capitais. Acreditar em mula sem cabeça é muito menos irracional do que acreditar em capitais voláteis. E mais: tudo acontecendo bem no cerne da vida econômica da nova cultura qüinqüitária? Pelo que vimos até aqui. a princípio. sociedade da informação etc. Então.222 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nos identificarmos. Ao contrário do que todo mundo acredita. mas de pura lógica. etc. Chegamos agora ao que se nos afigura o mais difícil de se prever. entretanto. poderíamos identificar I/D como o excedente ou capital e o processo de articulação I/D como mercado. como “exige” a lógica global desta cultura (alguns poucos apropriam-se de quase tudo. valendo isto também no sentido inverso. Aliás. se pararmos um pouco para pensar. direitos do consumidor. por difícil de se bem compreender: que significa. que se autodenomina classe média. veremos que ela pelo menos nos leva a compreender a natureza de nossas dificuldades. qualidade total. não importa se oficial ou contestatória. a mais típica das instituições da cultura capitalista moderna. um bom número. o aspecto pessoal dialético (I/D) determinando o aspecto dialético coletivo (I/D) através de um processo lógico-dialético (I/D). que ainda assim é boa bolada. não passa de ficção da pior espécie. sem qualquer sentido. se bem atentarmos. precisamente. déficit primário. da sobra. Já vimos que na Modernidade os indivíduos se apropriam (D) simplesmente do excedente coletivo (I/D). e a mais desabalada dentre todas as ficções: o mercado de capitais. na verdade é o que ali simplesmente não existe. e não se trata de uma questão de fato. em .

fingimento e superação na História da cultura [24]: todas as culturas. Se examinarmos o papel da economia na seqüência das culturas ..). do que realmente se trata. I/D/D (nova qüinqüitária) -. a política e a cultural. no cerne da vida econômica existirá. observaríamos que o fato da dimensão econômica vir ocupar agora três níveis lógicos {D. D/D (científica moderna). para a surpresa de todos nós. mantida como o que verdadeiramente é. em que tudo aquilo que foi cruamente apropriado circula com enorme estardalhaço. veremos que na primeira ela aparece pela primeira vez como uma dimensão social autônoma. I/D e D/D} pode dar a impressão de que com a cultura nova qüinqüitária iremos ingressar na era da mais completa hegemonia do econômico em relação às duas outras dimensões do social. vendo-se em perigo. mas estrita e explicitamente controlada.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 223 forma de cotas de fundos de pensão etc. que o atual predomínio do econômico de fato existe. fingem já ser aquela que a irá superar. na verdade. em detalhes. Na cultura nova qüinqüitária.. a economia está associada às lógicas femininas ..I/D (medieval cristã). Finalizando. O inacreditável aqui é que tal arte de fingimento pudesse chegar um dia a tais prodígios. hoje. o mercado de capitais! Só precisamos agora especificar.eis. Na segunda. E não estaríamos já vivendo numa tal situação? Diríamos que não. O mercado de capitais é exatamente a ficção que esconde esta simples e evidente verdade. uma marca da Modernidade em declínio. conjunto de atividades meio. dentro tantos. O que denominamos mercado de capitais é apenas um mercado secundário. o maior dos espetáculos da Terra! [23] Tudo isto deixaria de soar assim tão esturdio se levássemos verdadeiramente a sério o que se diz em Desejo. mas que ele é. dando a impressão de ser o ser que é sem ter jamais sido gerado . como isto irá funcionar. à vera.

à cultural e à política. Quem queira ver. De fato. por exemplo. suprimidas. na verdade. sua intenção sendo sempre decidida e inequivocamente etnocida. . todo o marketing multinacional só aparentemente é comercial. I/D e D/D}. isto significa que as lógica femininas {D e I/D} estarão sendo abertamente subsumidas. mas conservadas e não. Teremos por isso uma economia superiormente dinâmica. um efeito de cultura. mas desta feita todas determinando. porém. ou seja. completamente subordinada às duas outras dimensões sociais. marginais que somos à Modernidade paradigmática anglo-saxã. de volta. recalcadas. como na Modernidade. isto só não é muito grave por representar um mal transitório inerente a uma fase necessária do nosso processo de autodesvelamento. a economia só na sua aparência sintomática pode se afigurar como onipotente. desnaturadas e. verá que. outra face da volta do recalcado e já desnaturado . as lógicas econômicas seriam realmente três {D. É importante compreender que. processo de acumulação de capital. progresso. Na terceira. subrepticiamente imperantes.224 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recalcadas {D e I/D} e o predomínio do econômico é tão apenas um efeito sintomático. Como se fôssemos hoje uma cultura com sérios transtornos mentais.o desejo transformado em demanda comercial. Do nosso ponto de vista. mesmo em se tratando da Modernidade. o predomínio da economia é. conjuntos de atividades meio. de modo explicito. Do ponto de vista lógico. a ação econômica é apenas o modo preferencial da cultura moderna hegemônica agredir as outras culturas. desejo domesticado pelas técnicas de marketing e a história transformada em história calculada. antigas ou em processo de gestação. Isto também significa que aquilo que é em essência meio se vê de maneira absurda transmutado em fim.

eram seis os degraus (dias ou eras) da Criação. onisciente e onipotente. habitada por anjos organizados em nove coros e demônios em hordas ou avulsos. A teologia cristã acolheu e re-elaborou a hierarquia vétero-testamentária: acima de tudo. espiritual. das que são enquanto são. a seus pés. exclusivo. na interseção da materialidade com a espiritualidade. permaneceu Deus. distribuído em três ordens: a superior. (figura 9. o nada que é nada. Na cosmologia bíblica. sendo o derradeiro. uma ordem intermédia. como expiação pelo pecado de desmedida curiosidade. o homem.1) O homem cristão tornava-se então síntese de cor- . das que não são enquanto não são. mesmo que rebaixado em alguns pontos. o homem. material. a inferior. esturdia “matéria-prima” da criação divina. onde vinha situar-se. Abaixo de tudo. tinha um lugar proeminente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 225 9 Re-significação cósmica do homem e do processo de auto-determinação cultural O homem é a medida de todas as coisas. Protágoras Já vigeram hierarquias que abarcavam o homem e tudo mais que se pudesse imaginar. o mundo criado. abarcando a totalidade dos seres inorgânicos e ainda o multifário mundo dos vegetais e animais. o mais bem acabado e porque também feito à semelhança do Criador. naturalmente.

DEUS UNO/TRINO Anjos e demônios Mundo espiritual Homem A CRIAÇÃO corpo/alma Mundo Inanimados. portanto. Entrementes. do espacial e do temporal. embora nada assim tão excepcional: sempre o terceiro. Mesmo quando valemo-nos da modalidade ‘infinita’ é ainda o aspecto quantitativo. Isto fica bastante claro na hierarquia cristã. diferindo entretanto no grau de sua perfeição.226 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO po e de alma. o Uno/ Trino (I/D). de estatuto lógico-dialético (I/D) para que assim se assemelhasse (logicamente) ao seu Criador. são na verdade quantitativas. dissimulado. embora substantivas na sua fisionomia. estas e outras similares hierarqui- . material vegetais e animais NADA Figura 9. não importa se contado de cima para baixo ou em sentido contrário.1 – Hierarquia cristã dos existentes É importante notar que estas hierarquias. no seu estatuto da infinita perfeição. que persiste. concebidas como degraus ou quanta de perfeição. onde Deus e homem são ambos lógicotrinitários (I/D). O homem tinha também aqui o seu lugar distinguido. do lógicodiferencial (D) [1] e do lógico-identitário (I).

que veio justamente para aplainar. Vem de volta revigorado na Modernidade com Hegel. ao invés de nos deixarmos por ela pensar. exige que confrontemos de maneira resoluta a ciência. em plena praça pública aconteceu primeiro a morte matada de Deus. em nível transcendental (I).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 227 as foram paulatina e inexoravelmente erodidas pela ciência [2]. pelo que se poderá então restituir ao homem a devida dignidade onto-lógica e alcançar- . a renovação da hierarquia dos existentes passa a ter como condição primeira e necessária a reordenação dos modos de pensar ou. a seguir. que desta sorte marchava pelos próprios pés para a vala comum do Cosmos. Ele remonta à Grécia: a Parmênides. Para tanto. o infalível mercado [3]. que garantia estas hierarquias. na ocasional falta desta. no limite. a reordenação dos seus saberes correspondentes . um lugar para o homem. que a pensemos de verdade. a nosso juízo. pela mensuração. e. desta feita o pensamento visando a idéia ou o conceito. desta vez o pensamento visando a História ou. Recuperado o princípio. como nos quer impor a ciência. nestas cínicas (bem mais do que trágicas) circunstâncias. que não seja tão apenas quantitativa. de algum modo são o mesmo. o que é o mesmo. Este é o incontornável pré-requisito para que possamos vir a dispor de uma nova referência para a ordenação dos existentes. está também implícito em Platão. em nível dialético (I/D). o pensamento visando o ser. Encontrar de novo. o espírito absoluto.as lógicas. Acreditamos que daí partindo se consiga aportar sem maiores dificuldades à uma nova hierarquização dos existentes. Como fomos informados por Zaratustra. deve-se começar resgatando o velho preceito filosófico que estabelece que ser e pensar. como na atualidade sói acontecer. não se fazendo esperar. em nível dialético (I/ D). veio a morte do homem. todos os valores.

Reestruturação do território lógico.. como tanto desejamos. I/D. o homem restituído ao pináculo do Cosmos Figura 9. sem dúvida. Redefinição do homem e da história da cultura I/D/D 1. o eixo onto-lógico I. dando ensejo à explicitação/ institucionalização de um novo e potente eixo reordenador de todas as coisas deste e doutros mundos . cinco grandes etapas neste processo de des-encobrimento conceptual.. em primeira instância.. Surpreendente para todos. 3. que tem por imediato corolário a reavaliação. algumas que estão já em curso ou até mesmo concretizadas (figura 9. . Princípio antrópico renovado. lógica das partículas elementares I a I/D/D 5. Desvelamento da estrut. D. 4.o eixo das lógicas.2 . em princípio.2). 2.. A partir daí nasce (2) uma nova e mais precisa concepção do homem.Re-significação cósmica da história da cultura. Distinguiríamos.228 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mos. a re-significação do seu processo de auto-realização (a história da cultura). (3) será constatar que a mesma estrutura lógica que parametriza a história da cultura vai se revelar igualmente razão organizadora do mundo .Etapas que levariam à re-significação da história da cultura Como primeiro momento deste processo (1) vislumbramos uma reorganização geral do território lógico. do que vem sendo até agora a história da cultura.

forte ou fraca. O princípio antrópico. tanto da cultura em processo. como acontecimento auroreal da história humana. Deleuze. a sugestiva promessa do reencontro do homem e do Cosmos. o eixo onto-lógico Este trabalho já está de certo modo realizado [6]. como na lingüística saussureana. sempre a meio caminho . Re-estruturação do território lógico. como conseqüência. especificamente do elenco das partículas elementares. estará proporcionando (4) um novo fundamento ao princípio antrópico [4]. sempre às esgueiras. arrola-se também a dialética (tanto platônica. Heidegger. Kierkegaard. A homologia desvelada exata pelo comum-estruturar-se-segundo-as-lógicas. fosse qual fosse a versão.não só na tradição filosófica dos não conformistas” (Pascal. teremos também de algum modo enriquecida nossa compreensão da cosmogênese (teoria do big bang). também. mas até então não realizado. quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. criticista-kantiana e fenomenológico-husserliana). de uma lógica da simples diferença. pela constatação da necessidade de se assumir a existência. na antropologia estrutural e também . quanto da base sobre a qual erige-se o universo físico. Ortega y Gasset.é de seu feitio. 9. que se encontrava já presente . bem próximo do modo como já são hoje concebidas. que se re-significa a partir daí. Rosset). irá (5) então suscitar uma re-leitura [5] da história da cultura. agora de caráter cósmico. Começa com a recuperação das lógicas segundo a tradição: além da unanimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). doravante solidamente estabelecido.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 229 micro-físico. que ganha assim uma segunda e definitiva significação.1. que até então. Depois. Nietzsche. mas também em outras áreas do saber. era apenas um lugar marcado. para além dessas.

. D/D ≈ 2. Sabe-se que a seqüência das lógicas (I.. -. exemplificado pela seqüência dos números naturais (I ≈ 0. etc. Com isso são geradas a própria dialética (I/D). mais um. que não deixa de ser por isto menos pertinente. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). D/D=D/2. a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). e assim por diante. verificamos que o monóide livre fundamental (seqüência dos números naturais) não gera qualquer novidade. Na esfera do formalismo acadêmico em voga. D. através da operação de síntese dialética generalizada ( / ).lógica da identidade (ou transcendental) (I) e lógica da diferença (D) -. D/D/D/D ≈4. que está aberto . ter-se-ia também que considerar as lógicas de fato desviantes. tendo-se em conta que este é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos.. na medida em que incorpora o essencialmente outro. quanto paracompletas (ou intuicionistas) [7]. D ≈1. I/D. tanto paraconsistentes (ou paradoxais). noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3). Uma engenhosa re-nomeação. o monóide livre fundamental. . sem descanso. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído. I/D/D/D=I/D/3. enquanto que o semimonóide livre fundamental (seqüência das lógicas) é por essência criativo. como uma exceção. D/D/D = = D/3.. I/D/D = I/D/2. limitando-se à mera “contabilização dos existentes” .230 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante). destas quatro lógicas de base vem. mais um.. vale dizer. sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas . D/D/D ≈ 3.).) constitui o mais simples semimonóide livre [8]. um evidente sinal de sua profunda essencialidade. de modo natural.um. Ao colocálos em confronto.

...3 – Encadeamento das estruturas lógicas . sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente.I. I/D.3. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 9. tal como ilustra a figura 9. I/D/2. As lógicas identitárias .definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos. .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 231 ao permanente “trabalho do negativo .

podemos ter a certeza de que este.4). e ainda. o processo que a gera ou desvela será naturalmente aquele da reiteração do mesmo. a pré-disposição filosófica que identifica ser e pensar.232 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Qual o sentido profundo desta articulação? Ela nos fala da essencial correlação que precisa existir entre o estatuto lógico da realidade que tenhamos admitido e aquele do processo que a pode deveras gerar ou desvelar. o processo que a gera ou desvela terá que ser lógico-dialético (parte central da figura 9. se estiver em causa a geração ou o desvelamento do ser lógico-qüinqüitário. como acontece na matemática. como em Hegel. Parece-nos isto bastante intuitivo. simples produtora de um número sucessor (parte esquerda da figura 9. se a realidade maior que se quer visar for a história ou o espírito absoluto.4). Se.4). quando comparamos diferentes modos de ser e seus respectivos processos de desvelamento. em especial. a realidade maior que se visa é a simples existência contábil. por exemplo. 1 2 3 I I/D I/D I I/D D I/D/ 2 D/ 2 0 1 2 I= D/0 I D I D I= D/0 I D I I/D 0 1 Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D 0 Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Figura 9. na sua plenitude. só se irá entregar no curso de um complexo processo hiperdialético qüinqüitário (parte direita da figura 9.4 – Processo versus realidade Em suma. não . que se inaugura com Parmênides. prossegue com Platão e se reafirma com Hegel.

mas apenas subsumidas. mormente depois que tivermos compreendido que ela é a única via que nos pode levar à subversão/superação da Modernidade. A rigor. Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. a simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição extrema superior . Ser e pensar são o mesmo.2. É o caso. do “inventor” da diferença clânica que viabiliza a instituição das regras de proibição do incesto e correlata obrigatoriedade da exogamia (antropologia estrutural). é bem verdade [9]. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura . nada além. O mais avançado dos mamíferos não passa da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D). tomando-se como referência o eixo das lógicas. um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos 9. no entanto. que lhe permite operar com símbolos plenamente convencionais. tais caracterizações constituem exemplificações concretas mais ou menos íntegras daquela capacidade lógica fundamental. do homem como animal dotado do logos (Aristóteles). Outras conceituações não são por isso rejeitadas. A partir daí a história da cultura pode ser compreendida como processo de auto-desvelamento simbólico. também.apenas o homem é capaz de operar em nível lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). objetivo do ser próprio do homem. a nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. torna-se possível a conceituação precisa do ser humano como ser lógico-qüinqüitártio. por exemplo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 233 pode de modo algum ser interrompida ou esquecida. Toda cultura teria. Agora. assim. do ser simbólico proposicional (Cassirer). notáveis.

entretanto.teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I. a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas. e que lhe confere. produziria culturas de tipo misto. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição. uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. cultura sedentária de base agrária. pré-D. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. cultura tribal. O contato cultural. Resumidamente. especialmente quando intenso.234 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de sua religião oficial ou dominante. focalizando apenas uma área restrita . Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. onde se “inventa” o trabalho e como conseqüência.o Ocidente e o Oriente Próximo . de imediato. a seguir. dialética I/D. inclusive. não nos ocuparemos disto. clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2). ou seja. Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas. destes e de outros tipos não-nodais. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. da diferença D. come- .

I/D.5). porque.5 – História da cultura. não castradora. uma cultura à medida do homem (figura 9. cultura prometéica grega. que hoje domina o mundo. cultura medieval cristã (patrística). D/D ou D/2. pela primeira vez. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). cultura judaica. D. I/D/D ou I/D/ 2 . ainda por vir. cultura moderna de base científica. por todos os títulos. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. I. uma manifesta síntese das culturas anteriores. e. cultura hiperdialética qüinqüitária.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 235 çando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade. de pré-I a I/D/2 . Cultura tribal I Cultura judaica I/D Cultura nova I/D/ 2 Cultura moderna D/ 2 Cultura grega D I 0 I = D/ Animalidade Cultura tribal D Cultura imperial agrícola I Cultura judaica I/D Cultura cristã (patrística) PRÉ-D PRÉ-I Animalidade PRÉ-I Cultura tribal PRÉ-D Cultura imperial agrícola PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Animalidade Figura 9.

com todos os seus mediadores já detectados. pode-se de imediato perceber a sua estruturalidade conjunta: de um lado. oferecendo-se como justificativa a vigência do pensamento único e outros despautérios de igual jaez por aí forçados a circular. também a força de Higgs (suscitada no processo de unificação eletrofraca. De modo conseqüente contaríamos seis. redutíveis às primeiras (eletromagnética. três forças simples (de Higgs. forças da natureza. mecanismo pelo qual se proporciona massa explícita às partículas) e a antiga força forte de Yukawa (que garantia a integridade do núcleo atômico. Trata-se basicamente de incluir. substituída pelo toma lá dá cá das negociações e negociatas. justamente por serem mais elementares). Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares . Com isto. com toda a certeza. que é mediada por pions). ou pior. tendo como ponto de partida a recontagem do número de forças realmente atuantes na natureza [10]. justamente por serem entes derivados. Tomando-se agora como referência o modelo 9. nos espera. gravitacional e forte gluônica. fraca e forte de Yukawa. além das quatro forças hoje reconhecidas – gravitacional. portanto. será preciso proceder a uma re-interpretação dos dados atuais da micro-física. Falsidades mais falsidades. uma nova cultura de caráter lógico-qüinqüitário. Preliminarmente. implicando menores níveis energéticos).3. de outro. eletromagnética. ou o ingresso na pósmodernidade. as delícias de não ter mais nada a pensar. dando-se como prova a promiscuidade de todos os estilos em arte. forte (gluônica) e fraca –. ao invés de apenas quatro. com todos seus mediadores ainda não detectados. três forças compostas.236 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Esta ordenação lógica das culturas é suficiente para deixar a nu o discurso ideológico que alardeia o fim da História.

graviton. Os quarks continuariam existindo. bosons fracos e fóton QUARKS: ainda existentes. torna-se relativamente fácil comprovar a perfeita homologia . bem melhor equilibrado: TABELA 9. ou seja.(m) mion neut.1 nos permite uma visão comparativa do modelo standard com o modelo ora proposto.1.(e) elétron BOSONS: gluon. porém. porém. que atesta a impossibilidade de sua existência em estado de isolamento. porém.1 . em termos de férmions e bosons o modelo. mion/neutrino do mion e tau/ neutrino do tau). como entes de razão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 237 standard (Tabela 9. A Tabela 9. aceitando-se a substituição do conjunto dos seis quarks pelo conjunto dos seis bosons representativos das forças.(e) elétron neut. considerados entes de razão. que não contradiz qualquer dado empírico e simetriza.(t) tau b s u t c d neut. podendo ser agora redefinidos para evitar as cargas fracionárias Aceitando-se a modificação por nos sugerida. substituindo os correspondentes três pares de quarks pelos três pares de bosons mediadores de forças.(m) tau mion gluon graviton p/Higgs COMPOST. pion b. chegamos à conclusão de que devemos preservar integralmente o bloco formado pelos três pares de léptons (elétron/ neutrino do elétron.fracos fóton neut.MODELOS PARA AS PARTÍCULAS ELEMENTARES MODELO STANDARD FERMIONS LÉPTONS QUARKS MODELO ALTERNATIVO PARTÍCULAS FUNDAMENTAIS FERMIONS BOSONS SIMPLES neut.(t) neut. à esquerda). o que não deixa de estar acorde com a experiência empírica.

Nos restaria apenas preencher a posição Pré-PréD.e[↑] = e[↓] + γ[↑↑] -.6 [11]. Para evidenciá-la. tendo ainda disponíveis os três bosons simples (partícula de Higgs. com quase nenhuma hesitação.238 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO existente entre o elenco fundamental de partículas com as lógicas. da radiação sincrotron provocada pela aceleração circular do elétron. todas as posições das estruturas lógicas. conforme ilustra a figura 9. o que nos permite dar ainda mais um passo na seqüência de equações anteriores: =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + νe(PrØ -I) + e(I) + γ(PrØ -D) + e(I). exceto uma. talvez. a mais complexa delas. Apenas este conjunto de equações representativo da desintegração do tau e o pressuposto bastante intuitivo de que todos os bosons (mediadores de força) devam ser alocados a posições lógico-diferenciais e todos os fermions (“peças elementares” de construção) a posições lógico-identitárias. por suposto. Sendo a posi- . são suficientes para permitir-nos preencher. É o caso. um elétron pode ceder parte de sua energia cinética emitindo um fóton. tendo por condição a simples inversão de seu spin. o tau: τ(I/D/2)= =ντ(I/D) + π(D/2)= =ντ(I/D) + νµ(I) + µ(I/D)= =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + W(D)= =ν τ(I/D) + ν µ (I) + ν µ (I) + ν e(PrØ -I) + e(I) Como é bem sabido. uma a uma. por exemplo. basta que acompanhemos. as etapas do processo de desintegração de apenas uma partícula. graviton e gluon).

Neutrino (elétron) I Elétron Neutr. naturalmente.6 – Lógica das partículas elementares.(mion) I/D Próton/Nêutron Tau I/D/ 2 Gluon Bos.(tau) {Quarks} PRÉ-D Fóton Graviton Fóton Elétron Graviton Neutr. isto porque o graviton só pode atuar depois que a massa houver se manifestado. Teríamos então. Também não poderia ser o gluon. ficando o graviton junto ao fóton em pré-D e o gluon junto aos bosons fracos (W ± e Z0) em D. a partícula de Higgs em Pré-Pré-D. Não se pode ter grande dúvida de que este deva ser a partícula de Higgs.6 [12]. precisa receber mesmo a alocação de um boson. de pré-I a I/D/2 .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 239 ção Pré-Pré-D uma posição lógico-diferencial.Muon PRÉ-I PRÉ-D Partícula de Higgs PRÉ-I Neutrino (elétron) PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Partícula de Higgs Figura 9.Fracos D Pion D/ 2 I 0 I= D/ Partícula Neutrino de Higgs (elétron) D I I/D Muon Neutr. que age mediando estruturas já bem complexas (os quarks no interior dos barions). com o que se completa a adjudicação das partículas elementares às lógicas conforme ilustra a figura 9.

. estranhamente. que não são mais hoje considerados partículas elementares . todas elas com características determináveis a priori em função daquelas das forças simples).próton e nêutron. na circunstância.junto com o tau em I/D/2 tem um excepcional significado que deixamos para comentar um pouco mais adiante.no caso. em sintonia com o resto do modelo. hoje experimental e definitivamente estabelecido e para os quais os físicos não encontram uma justificativa teórica. resolve-se o grave problema de não se dispor até hoje da menor justificação na distribuição das características das forças. os três níveis de férmions (agora também de bosons elementares]. seria. semelhantes aos quarks do modelo standard.240 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A alocação dos nucleons . verificamos que três são mais elementares. um valor completamente arbitrário . O modelo ora proposto tem inúmeras vantagens sobre o modelo standard. contando-se seis. com a vantagem de poderem dispensar as incômodas cargas fracionárias). servindo justamente para estruturar o mediador de uma força composta correlata (por isso. deixam de ser quatro . a palavra mais adequada) o número de forças. na medida em que todos o bárions passam a ser considerados modos excitados de “partículas lógico-qüinqüitárias” (formalmente redutíveis a três “partículas lógico-trinitárias” [14]. como já tivemos oportunidade de demonstrar [13]. b) ademais.para serem seis (como os léptons e os quarks). a redução já realizada da força de Yukawa à força forte gluônica é disto a prova irretorquível que. os cientistas não querem ou não conseguem enxergar! c) o sub-modelo dos quarks é absorvido pelo novo modelo. dentre as quais destacaríamos: a) acaba-se com o absurdo de não se contar corretamente (honestamente. é uma exigência lógica.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 241 os estados lógico-qüinqüitárias de mínima energia são ocupados pelos nucleons.o ser-uno-trino (tempo. a nosso ver. conforme o acima exposto. São geralmente reconhecidas duas versões do princípio. a priori. Princípio antrópico renovado . para os modernos é apenas algo levemente mais complicado . finalmente. d) e. e o homem a ele. transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo que se faria impossível o advento do homem. ab initio. forçando-se um pouco a mão fecha-se o círculo: este Universo destinava-se. duas interpretações do que. ainda que diminutas nos valores das constantes universais [17]. seria apenas um fato: uma 9. a realidade (desejada) é o ser-um. Tudo isto não nos pareceria assim tão surpreendente se tivéssemos todos uma maior familiaridade com a filosofia da Física.4. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram constantes e universais. o mais importante: põe-se às claras a estrutura lógica subjacente ao elenco das partículas elementares. apesar de todas as evidências acerca da incomensurável diversidade fenomênica do mundo. desde o big bang o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. quase tão drástica e dramática quanto o foi a da Filosofia para os gregos: para estes. o próton e o nêutron. as determinações lógicas do mundo físico são muito mais profundas do que estariam os físicos dispostos a admitir [15]. Quanta simplicidade e clareza! Bastaria considerarmos que a Física nasce de uma decisão cultural (logo. espaço e matéria)! O princípio antrópico [16] emerge da constatação de que admitidas variações. de caráter nada experimental). eis a essência do princípio. De fato. então. ao homem.

ainda sofre o repúdio. O princípio. Dentre os mais freqüentes e potentes argumentos que lhe são contrapostos destacaríamos dois: primeiro. se fossem deuses diferentes. todas elas resultantes de flutuações quânticas de um “vácuo” altamente energizado (universos aleatórios. mais na sua versão forte. questão cujo sentido estaria ainda por ser precisado. conforme Hugh Everett. uma entre inumeráveis outras já realizadas ou em processo permanente de realização. um pouco menos na fraca. em que se pressupõe que ocorreu um pré-ajuste intencional das constantes. não temos visto mencionado aquele que nos parece dentre todos o mais decisivo dos argumentos. mas o simples produto de um descontrolado impulso especulativo. uma versão fraca. teríamos que pensar a questão das constantes concomitantemente à da estipulação das formas funcionais. haveríamos que pressupor também um deus montador de formas funcionais. paralelos. fruto de uma única tirada. para a .242 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO versão forte. se fossem o mesmo. tratar-se-ia da introdução de uma causa final). de parte de um Deus que desejava ver por terceiros louvada sua bela obra. Entrementes. o princípio antrópico não seria um verdadeiro princípio científico. ou seqüenciais. segunda. em que os valores das atuais constantes universais seriam na verdade uma realização totalmente probabilística. Assim sendo. talvez. segundo John Wheeler [18]). por exemplo. além do deus ajustador de constantes. que. garantido o valor das constantes universais. o ajustador de constantes. da maioria dos cientistas. mas fundamentalmente a forma das equações. a não aceitação de que se introduza no domínio científico outra espécie de causa que não a eficiente (no caso. que desmoraliza a versão forte e debilita aquela que já se tem como versão fraca do princípio: o que determina o curso do Universo não é apenas o valor das constantes. Para estes críticos. não se estará automaticamente assegurando o aparecimento do homem.

Em suma. até hoje. em especial. ele requer também o comparecimento efetivo e independente do homem através da antropologia. mas como uma antropologia renovada. Isto sim. o conjunto formado pelas partículas elementares. a nosso juízo. não passou de uma intuição ainda obscura. no caso. Por definição mesmo do que seja um encontro. sim. de um lado. mas. não seria propriamente um deus. mas apenas um demiurgo delegado ou subcontratante. afora a grandiosidade da intenção. pela lógica hiperdialética qüinqüitária que. numa versão ainda mais radical. das modalidades de crítica contra ele até hoje assacadas. realizado. de outro a antropogia filosófica sustentada por uma lógica ressuscitada. de um lado. apenas a partir da física ou da cosmologia. e aquela que . e de outro a história da cultura como processo de desvelamento do ser (lógico) do homem é. de simples demarcação de um lugar de encontro que. a cosmologia/física. ele não poderia mesmo consumar-se. nos moldes daquela por nós já delineada [19]. tendo por base uma concepção alargada da lógica. o novo fundamento que necessitávamos para o princípio antrópico. porém. traria ao princípio um verdadeiro sentido que o deixaria a salvo. de um fato extraordinário: a perfeita homologia entre a estrutura lógica (I/D/D). é marca distintiva essencial do ser humano. pelo menos. na medida em que não falamos apenas de condições gerais de possibilidade de uma convergência.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 243 nossa sensibilidade. A homologia entre. Podemos assim afirmar que estamos frente a uma reafirmação do antigo principio. Como então sair de tal imbroglio? Somos de opinião que o princípio. ainda permanece não visitado. entendida esta não como uma entre outras das chamadas “ciências humanas”. se estaria carecendo de uma justificação para o princípio antrópico que conjugasse. no entanto. para nós. que caracteriza o elenco das partículas elementares.

na versão por nós ora proposta. a propósito. a correspondência se estabelece a nível qüinqüitária I/D/D (a leitura da estrutura das partículas eqüivale à leitura de um texto. ou seja. que precisam. alça o Universo à altura do homem. mais estáveis. Que pode isso significar. entre mundo e pensamento do mundo. se o tau. Isto é realmente possível através da substituição do neutrino do tau . rever nota 5 deste capítulo). Mesmo considerando que o princípio já esteja suficientemente justificado. Vimos que a posição I/D/D no quadro lógico das partículas (figura 9. ao cabo de 4 etapas. porém. por isso. Acontece que existem outras partículas (barions) de mesma estrutura.244 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO referencia o processo de auto-realização cultural do homem. o que de certa forma rebaixava o homem. enquanto que. A similitude entre a lógica das partículas e a lógica do ser humano vai a detalhes verdadeiramente insuspeitáveis. D/D ou D/2 (porque baseadas no conhecimento objetivo do mundo).referimo-nos aos nucleons. em função de que ela se desintegra. inversa e coerentemente. em 5 partículas realmente fundamentais e estáveis: τ = ντ + νµ + νµ + νe + e. serem também alocadas à mesma posição I/D/D . É importante observar que as antigas versões do princípio antrópico estabeleciam uma correspondência homem/universo a nível científico.4) é ocupada pela partícula tau. o que. próton e nêutron. como acima mostrado. mas de nível energético mais baixo (menor massa) e por conseqüência bem mais estáveis [20]. se constitui no paradigma concreto da logicidade qüinqüitária? Para responder é necessário compreender como “a partir do” tau podem se formar estruturas homólogas. não precisamos temer os riscos de ir ainda um pouco mais longe.

emite um W(D). Vê-se que a “sexualidade” do nêutron. como ilustra a figura 9.7 – O tau e os nucleons O nêutron (I/D/D). que. é sem qualquer dúvida feminina [21] . . Com a desintegração. por um neutrino do elétron (ne). “ensejando” precisamente a formação de um nêutron.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 245 na estrutura do tau.7. Nesta última os neutrinos do mion (nm) já estão saturados (por estarem ali presentes o neutrino do mion e a sua respectiva antipartícula). que por sua vez também se desintegra num elétron (e)(I) e num neutrino do elétron (ne)(Pré-I). quando isolado. o que vai “ensejar” justamente a formação de um próton. determinada por seu modo de desintegração. se desintegra (vida média de 925 s) pela força fraca. TAU PRÓTON ( e +e) 0 NÊUTRON (W+q) e e e e e e W e q Figura 9. a outra. por um anti-elétron (e). por não poder existir em estado de isolamento. por ser mais pesado do que o próton. razão pela qual só existem duas possibilidades de substituição do neutrino do tau (nt): uma. sobra um quark (q)(I/D). isto é.fundada num boson fraco W (D) e num quark q(I/D). usa a própria energia cinética ou a interação com outra partícula para se transformar num próton (I/D/D).

246 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A comunidade dos físicos aposta na desintegração do próton como um dos modos de referendar a atual proposta de unificação da força forte com a força eletro-fraca (Teoria da Grande Unificação .GUT). por ser a partícula de menor massa. servindo apenas para ampliar. O mais surpreendente é que vamos encontrar uma situação absolutamente análoga quando examinamos o processo de desenvolvimento do ser humano. constitui-se na mais estável de todas as estruturas qüinqüitárias. moléculas. também se torna estável [23]. no interior do núcleo. O nêutron. como já dissemos. fundada num elétron e(I) e num píon p(D/D= =D/2). Só existiria então um tipo de “energia sexual ou libido”. De qualquer modo. e esta é a razão pela qual a partir daí poderem se formar os demais agregados físicos – átomos. segundo Freud. todas as experiências visando a comprovação da aludida (ardentemente desejada. É interessante observar que o nêutron (feminino) só se conserva como tal na proximidade do próton (masculino). a desintegração almejada só poderia se dar pela emissão de um píon zero. deixando como resto um elétron. embora fisiologicamente definida macho ou fêmea. macromoléculas e assim por diante (figura 9. ainda mais. Entretanto. Para nós não haveria propriamente tal fase de latência. quando em interação com o próton no núcleo atômico. o valor estimado da vida média do próton (já agora superior a 1032 anos [22]). após enfrentar e superar a problemática edipiana consumaria sua “opção” sexual definitiva e entraria numa fase de latência [24] à espera da maturação orgânica funcional. mas sim a passagem a um nível de estruturação lógica máxi- . não seria exagero dizer) desintegração foram negativas.8. a criança. Sua “sexualidade” é pois inequivocamente masculina. parte inferior). “masculinizando-se”. No processo de desenvolvimento normal. isolado. como acreditava Freud?! O próton. o nêutron se desintegra.

que de certo modo caracteriza o andrógino. ainda de nível lógico- .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 247 ma I/D/D=I/D/2. caracterizada pela auto-suficiência e onipotência que a incapacita à composição de agregados estáveis de nível superior e. assume ares de onipotência bem de acordo com a postura andrógina a que nos referimos.ENTRE HUMANOS GRUPOS SOCIAIS ANDRÓGINO 2 I/D/ 2 FEMININO (I/D)/(D) FAMÍLIA I/D/2 MASCULINO (I)/(D/ 2 ) D/ 2 AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ 2 . viria para obrigála a uma auto-realização. em certo momento do seu desenvolvimento (lógico/lingüística).ENTRE PARTÍCULAS ÁTOMOS/MOLÉCULAS TAU I/D/ 2 NÊUTRON (I/D)/(D) NÚCLEOS I/D/2 (I)/(D/2 ) D/ 2 PRÓTON PION Figura 9. ao invés de ingressar numa tranqüila fase de espera. Muitos psicólogos já chegaram à conclusão de que a criança.8 – Agregação para além de I/D/D Assim. AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ . entretanto. ainda por cima. deixando-a suscetível de regredir (se desintegrar) a estados anteriores menos estruturados. instável. veríamos a criança ingressar numa fase crítica. A maturação sexual.

estava tudo já escrito no diminuto par de nucleons próton e nêutron . Como se pode ver. Com o princípio antrópico consolidado. isto é. Estes foram criaturas que. viria corroborar a tese da significação cósmica da sexualidade humana. obrigá-la a assumir uma sexualidade propriamente humana ou socio-lógica. isto é. Ela é uma realização a nível superior (consciente e simbolicamente representada) da lógica qüinqüitária no Universo. correspondente a uma das duas possíveis diagonais de I/D/D: ou (I)/(D/D). condenadas assim à eterna busca de uma integridade perdida. a nação etc. Em outras palavras. rebeladas contra os deuses.. A partir daí então é que se podem constituir os agregados humanos . Vimos anteriormente que em suas grandes linhas a história da cultura era aquela do autodesvelamento do ser lógico-qüinqüitário do homem. Malgrado a irrecusável homologia entre a estrutura das partículas elementares e as lógicas opera- 9. mais estável.248 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO qüinqüitário. a propósito. Esta seria a origem mítica do desejo e do amor. tiveram como castigo.5. porém. masculina. o que. por tão grande ousadia. serem secionadas bem ao meio. Tudo isto já aparece de forma alegórica no Banquete de Platão [26]. Re-significação cósmica da história da cultura . evidente: o homem (ou a cultura) é o “lugar” onde o Universo dá conta de si mesmo em seu mais elevado nível.esperando apenas por ser “lido”. feminina. ou (I/D)/(D).primeiro a “família” [25]. Ele o faz valendo-se do mito dos andróginos. quando ali é dada a palavra a Aristófanes para que exponha sua concepção do desejo e do amor. depois a assembléia de pares. ficamos certos de que o homem representa o ponto mais alto do ser do mundo e o seu processo de auto-desvelamento ganha um sentido cósmico.

massa. que postula a presença de um certo grau de consciência ou subjetividade a nível das próprias partículas elementares. inclusive a subjetividade humana. ou talvez mesmo. como dissemos. mas não num grau menor ou imperfeito. O que se pode aceitar. para sustentarmos que contêm. na medida em que deixa transparecer uma conotação substancialista da consciência. começa então a evolu- ← . A consideramos totalmente descabida. assim. ou coisa similar. átomos. encampando a visão teillardiana [27]. o ADN do espírito [28]. spin. propriamente físico ou concreto. à animalidade estrito senso. Neste sentido.. pode-se dizer que as partículas elementares contêm em potência ou programaticamente a subjetividade. simbólico. Sob o primeiro destes aspectos as partículas caracterizar-se-iam individualmente por um conjunto de propriedades estritamente físicas mensuráveis . Pelo contrário. Prossegue com a evolução propriamente biológica que começa com os seres unicelulares e vai até os cordados. A partir daí dá-se um processo ascendente ou evolutivo que passa pela formação dos núcleos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 249 das pelo homem. seres vivos dotados de sistema nervoso central. compostos inorgânicos. depois aos orgânicos até a constituição do código genético: chega-se à vida. Sem receio poder-se-ia então dizer que as partículas elementares seriam. porém. Precisemos um pouco mais esta idéia: as partículas elementares. ainda que de uma maneira um tanto alegórica. é importante frisar que não estamos. carga etc. Diríamos que chega-se. numa ainda mais sofisticada e mal conhecida modalidade programática do programático. é uma transposição formal ou estrutural da microfísica para o homem do tipo programa produto. se apresentariam sob um duplo aspecto: um. de modo algum. tão apenas na modalidade programática. devemos afirmar que a contém de forma completa e perfeita. outro. sim. diríamos.

como uma estrutura significante. em grau de plenitude. I/D.250 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ção propriamente animal. uma mensagem cifrada: em algum lugar. de sorte que. o processo seguirá inexoravelmente até o surgimento da cultura nova qüinqüitária. também diretamente lê-las. considerar o processo de ascensão físico-químico-biológico como um dos modos de realização da mensagem. ou equivalentemente da diferença clânica. Quanto ao aspecto simbólico. é um mundo para o homem e vice-versa. Como mostramos na figura 9. podemos. A nosso juízo. . de modo alternativo. mas ao seu conjunto básico completo. pela nova leitura. as partículas se organizam numa obediência rigorosa à seqüência e às articulações das estruturas lógicas . algum dia. um processo sobretudo de desenvolvimento do sistema nervoso central que conduz à formação e desenvolvimento da neocórtex. a destinação lógico/emocional do homem.6. faz então emergir a cultura. que leva ao surgimento do homem e da cultura e. assim. da cultura que desvela e assume. pois.I. Pode-se. a partir do que entramos num processo de evolução caracteristicamente socio-lógico. uma primeira consecução. que este mundo. chegando-se deste modo ao homem. concreta. ao invés de só mensurá-las e/ou determinar empiricamente suas múltiplas formas e comportamentos agregados. I/D/D -. devemos esclarecer que ele se refere não a partículas isoladas. vale dizer. que nos diz direta e imediatamente. Um segundo modo de realização haveria. de natureza simbólica. por fim. A “invenção da gramática. O que lemos aí outra coisa não é senão o código genético do “espirito humano”. desde a origem. à cultura que se põe à altura do próprio homem. O elenco de partículas elementares se apresenta. advirá o homem e a cultura como processo de sua auto-realização. a cultura nova lógicoqüinqüitária (I/D/D).

o próprio Universo. justo onde impera o seu máximo vigor lógico-qüinqüitário). ou mesmo pelo sofisticado sinal de sua curvatura -. O episódico. afinal. a partir de agora. estas considerações são mais do que suficientes para liquidar de vez com a persistente. sim. das que são enquanto são.pela idade. não é mais. volume. ou seja. como em geral se imagina. e passa a ser. de ser um grave pecado ou mero infantilismo ontológica para transformar-se em exigência de uma superior coerência. o que nos leva a concluir que a vida teve que se realizar para que o espírito pudesse deveras se realizar. separação espírito/matéria. exaurido. portanto. a transformar-se numa estrela gigante vermelha. Há tempo mais do que suficiente para que o homem (na verdade. com o conseqüente abrasamento da Terra. o primeiro só se poderia realizar tendo a segunda como suporte. temperatura de seu ruído de fótons ou neutrinos de fundo. Entretanto. auto-desvelamento ou objetivação simbólica do seu modo de ser lógico. A avaliação última ou mais significativa do estado do Universo não pode. por isso. a vida humana sobre a Terra. densidade. sobretudo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 251 É pelo menos curioso observar que o ADN do espírito e o “ADN da vida material estavam potencial e concomitantemente definidos nas partículas elementares desde o big bang. das que não são enquanto não são. Ademais. O antropologismo deixa. que levará o Sol. por exemplo. para onde. o esgotamento do processo de queima do hidrogênio. pelo grau de realização de sua destinação. mas sim pelo mesmo parâmetro que mede a cultura. é e será sempre sua pró- . Assim já o pressentira Protágoras: o homem é a medida de todas as coisas. ainda que esdrúxula. ser feita (ou só) referenciada a parâmetros físicos . que é. Não nos deixemos surpreender daqui para frente com a repentina inversão de muitas significações. se mude de um lugar para outro.

com respeito á cultura nova lógico-qüinqúitária. damo-nos conta agora de que sua chegada é um acontecimento maior não apenas na história da humanidade. que já bem antes a adivinhavam) da luta pelo advento da cultura nova lógico-qüinqüitária? . Particularmente. do que a deserção (dos que o sabem agora e dos demais.252 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pria morada. que haveria de mais degradante. Como podemos doravante sustentar que a vida não tem sentido? Que nossa vocação é mesmo o niilismo? Que causa ainda maior estaríamos exigindo para admitir que a vida vale a pena? Diante destes fatos. hoje. mas igualmente daquela do próprio Cosmos.

Por este simples vai e vem histórico e tendo-se ainda em consideração o caráter cínico materialista contábil da Modernidade. as denominamos. faz discriminação similar. opondo culturas do tempo e do espaço. respectivamente. a que denominamos cultura nova lógico-qüinqüitária .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 253 10 Superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária La religion. já discriminava vagas civilizatórias alternantes. judaica (I) e cristã patrística (I/D) .e culturas lógico-diferenciais neolítica. greco-romana (D) e científica ou moderna (D/D=D/2) [4]. nós [3]. o preclaro teólogo teuto-americano da cultura. tomando como exclusivo parâmetro a lógica. dos impérios de base agrícola da Antigüidade (pré-D). vocacionada para a temporalidade e para a conquista de um superior patamar de espiritualidade. et la culture est la totalité des formes à travers lesquelles la préoccupation fondamentale de la religion peut s’exprimer.dos bandos de caçadores/ coletores do paleolítico (pré-I). est la substance qui donne son sens à la culture. ora materialistas. en tant qu’elle est une préoccupation ultime. Paul Tillich – Théologie de la culture Toynbee [1]. culturas lógico-identitárias . ora espiritualistas. o eminente historiador britânico. Paul Tillich [2]. podemos de pronto inferir que a esta última irá suceder uma cultura da linhagem lógico-identitária.

um pouco que seja. desvãos e madrugadas da cultura científica dominante. portanto. Para tanto. seguiremos o seguinte roteiro: A l gica ressuscitada O eixo onto-l gico aberto Comprometimento l gico da cultura Dire ª o e sentido da morada divina O homem como ser l gico-q inq itÆ rio Desejo de ser (menos) da cultura Reversª o do desejo na cultura q inq itÆ ria ExperiŒ ncia da ausŒ ncia do transcendente Deus Uno-Trino-. com o Absoluto. Nosso propósito aqui será o de tentar explicitar as preliminares deste renascimento religioso (e. Esta cultura nova. com o transcendente e lá pelos seus confins. em sua significação mais profunda. de modo algum. à vera. por conseqüência. nos deverá trazer de volta a preocupação. teológico) e penetrar. Nela veremos a revivescência de uma autêntica e consistente religiosidade. -SeptendecitÆ rio Antecipa ı es na Revelação Cristã . o que não pode ser. que ela estará ressurgindo integralmente renovada em seus fundamentos e em suas práticas.. devendo-se atentar.254 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO (I/D/D=I/D/2). contudo. confundido com a ola carismático/ midiático/supermercadológica que invade e infecta hoje os interstícios..

haverá o despertar de um real desejo coletivo pelo transcendente. a busca do Absoluto. que. de maneira conseqüente. acontecimento deveras revolucionário. já antecipam este grande acontecimento da história humana que será.A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto . e a recuperação do sentido da experiência interpessoal da ausência do transcendente – é o que nos irá reto conduzir ao desvelamento pós-idolátrico do Absoluto Uno-Trino-. A partir daí.. mas geralmente mal percebida: a experiência interpessoal do transcendente. Com isso. Mas a abertura desta possibilidade. deverá vir ainda acompanhada de dois outros acontecimentos de grande significação para a história humana.. não teremos dificuldades em reconhecer. se constitui necessariamente como “experiência de uma ausência ou de uma falta”. Começa com a recuperação das lógicas segundo a bem estabelecida tradição filosófica: além da una- 10. teremos definido a direção e o sentido em que se pode encetar. os traços que. apenas formal. da lógica ressuscitada que irá se constituir no grande eixo paramétrico a referenciar todos os existentes. A convergência destas três poderosas determinações – o desvelamento da direção em que se possa buscar o Absoluto. De outro lado. Este trabalho já está de certo modo realizado [5]. implícitos na lógica dos diversos modos da Revelação Cristã. como sói acontecer. sem nenhuma dúvida. haverá a resignificação dramática de uma experiência bem cotidiana. representando o definitivo abandono da idolatria até hoje vigorante em todas as culturas históricas. de algum modo. De um lado.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 255 Partimos. a reorientação do desejo coletivo. como tal.-Septendecitário (I/D/D/D/D= =I/D/ 4 ). o advento da religiosidade lógico-qüinqüintária.1. agora voltado para o mais alto. atuais e concebíveis.

Sabemos que a seqüência das lógicas (I. I/D. embora desviantes. D/D=D/2. sempre a meio caminho -. Kierkegaard. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3) e assim por diante.256 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). Ortega y Gasset. Uma arguta re-nomeação destas quatro lógicas de base . Heidegger. como uma honrosa exceção.é de seu feitio. mas também em outras áreas do saber. as paraconsistentes (ou paradoxais) e as paracompletas (ou intuicionistas). A geração se daria através da operação de síntese dialética generalizada ( / ). pela constatação da necessidade de se assumir a vigência.) constitui o mais simples dos . de modo quase natural. D/D/D=D/3. quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. são geradas a própria dialética (I/D). Deleuze). a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). Nietzsche. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído. ter-se-ia também que considerar as poucas lógicas de fato lógicas. arrola-se também a dialética (tanto platônica. Com isso. para além dessas. sem descanso. Esta já se encontrava presente . de uma lógica da simples diferença.. Na esfera do formalismo acadêmico em voga. no criticismo kantiana e na fenomenologia husserliana). noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana [6].. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). I/D/D=I/D/2. sempre às esgueiras.que não deixa de ser por isto menos correta e pertinente -. . sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas: da lógica da identidade (ou transcendental) (I) e da lógica da diferença (D). como na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante) e também na antropologia estrutural. não só na tradição filosófica dos “não conformistas” (Pascal. vem. D. I/D/D/D= =I/D/ 3 . Depois.

1. sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente.Encadeamento das estruturas lógicas . tendo-se em conta que o semimonóide é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos . ..os números naturais.. I/D/2.I.. tal como ilustra a figura 10. As lógicas identitárias . I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 10.definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos.1 . um evidente sinal de sua profunda essencialidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 257 semimonóides livres [7]. I/D.

ainda mesmo quando se lhe venha a atribuir o esturdio caráter de infinitude.258 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Todos os entes mundanos podem ser posicionados nesta escala paramétrica constituída pelas lógicas: o puro ser. em nível lógico-dialético. pois o “velho barbudo” é de estatuto lógico I/D/2. o Absoluto. Ela remonta a Parmênides. vale a pena citar três equívocos doutrinários bem atuais. Em princípio. pode o eixo lógico complementarmente assumir um superior caráter onto-lógico. seu exclusivo usuário. dentre os quais poderá estar e imperar o inexcedível. Como o menor (logicamente) pode criar o maior? O segundo é o de . presentemente a reconhecemos também válida em nível lógico-qüinqüitário. que a institui em nível lógico-transcendental. prontas a aceitá-lo como uma “força” ou uma “energia” cósmica. Um verdadeiro disparate. é a recusa em aceitar um Deus de semblante humano . na melhor das hipóteses. A este respeito. entretanto. um poderoso efeito profilático conceitual. O eixo lógico desvelado. na posição I. se venha a imaginar um Absoluto abaixo do nível humano. acreditamos que agora. temos aí uma escala aberta. um velho de longas barbas -. A partir de então. na posição I/D. enquanto que forças e energias são de estatuto lógico D (ou. é retomada por Hegel. permite também recapitular e estender a verdade da mais vetusta e essencial dentre as correlações filosóficas: aquela que vige entre ser e pensar. na posição superior (I/D/D=I/D/2). e assim tudo o mais. que nos traz a possibilidade formal de conceber algo para além do humano. é importante observar. o ser simbólico e os animais capazes de operá-lo. de imediato. pseudo I/D) [8]. o ser discursivo e o homem. estando. definitivamente. O primeiro. bastante comum entre as pessoas “mais educadas” de nossa sociedade. vale dizer. pois impede. Devemos notar que a simples instituição do eixo onto-lógico tem.diz-se jocosamente.

2. como já tivemos oportunidade de alertar [10]. O mesmo vale para o segmento de reta infinito: ele é necessariamente um segmento de reta. é de adjudicar o atributo infinito ao Absoluto. Superação da idolatria com o advento da cultura lógico-qüinqüitária Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. Ao contrário do que acreditava Hegel. Por exemplo. o que só faz obscurecer o seu entendimento. lhe adjudicam automática e. O terceiro equívoco. pois. o estatuto lógico-qüinqüitário ((I/D) x (D)=I/D/2). mas um verdadeiro número. que o número permaneça qualitativamente número. Ao fazer do homem a arena onde se defrontam o espírito de Deus (I/D) e o maligno (D). E por que não também para a filosofia? De certo modo.o . O fundamental é. só que maior do que qualquer segmento que se possa efetivamente exibir. fora do estrito âmbito da matemática. pois. qualitativamente segmento. o número infinito não é algo além ou acima dos números. como vimos. 10. A esperteza de se introduzir a “noção” de infinito qualitativo é totalmente descabida. é da essência de qualquer infinito manter-se qualitativamente o mesmo que o seu finito de referência. o que se nos afigura um absurdo. tanto católica quanto protestante. A noção de infinito é essencial e irredutivelmente quantitativa. tornou-se possível. que se alcançasse uma conceituação precisa do ser humano . não há bons e maus infinitos – pelo menos para a teologia. entre outras coisas de grande importância. só que maior que qualquer número que se possa de modo ostensivo apresentar. todo infinito é péssimo. A grande questão é que deste modo o homem passa a ter um estatuto lógico superior àquele do Espirito Absoluto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 259 boa parte dos atuais seguidores do pentecostalismo [9]. corretamente. o segmento. Isto vale para qualquer tipo de infinito. aliás muito freqüente na teologia cristã. aliás.

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ente lógico-qüinqüitártio por excelência [11]. A simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição mais elevada do eixo das lógicas, visto que apenas ele é capaz de operar em nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). O mais avançado dos mamíferos não vai além da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D), esta que lhe permite operar com símbolos convencionais acabados, mas não com o discurso articulado (ou, o que seria sua principal pré-condição: operar com os conectivos lógico-proposicionais). A partir daí, a história da cultura pode ser compreendida como o processo do progressivo autodesvelamento simbólico objetivo do ser próprio do homem [12]. Toda cultura teria, assim, um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada, e que lhe confere, inclusive, as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I, da diferença D, dialética I/D, clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2), seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. Elas serão, de modo genérico, denominadas etapas ecológicas, distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e, a seguir,

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uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza, ou seja, onde se “inventa o trabalho e de imediato o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). O contato cultural, especialmente quando intenso, produziria culturas de tipo misto; a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição; a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas; destes e de outros tipos não-nodais, entretanto, não nos ocuparemos aqui. Resumidamente, focalizando apenas uma área restrita - o Ocidente e o Oriente Próximo - teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I, cultura tribal, dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico; pré-D, cultura sedentária de base agrária, começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade; I, cultura judaica, primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral; D, cultura prometéica grega, já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos); I/D, cultura medieval cristã (patrística), por todos os títulos, uma manifesta síntese das culturas anteriores; D/2, cultura moderna de base científica, que hoje domina o mundo; e, ainda por vir, I/D/2, cultura hiperdialética qüinqüitária, não castradora, porque, pela primeira vez, uma cultura à medida exata do homem. Como já visto [13], até que chegue a termo o processo de auto-desvelamento lógico da cultura, o dinamismo social tem se nutrindo, ainda que possa parecer paradoxal, de um desejo de regressão a níveis lógicos inferiores ao que teria já sido alcan-

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çado pela humanidade, por isso, em essência, um desejo de poder ou de morte, como se diria no jargão freudiano. Note-se que o mais velho ancestral do desejo de morte é coetâneo à própria instituição da cultura (I/D/2), como desejo de retorno à animalidade (I/D), que é logicamente eqüivalente ao desejo de violação da proibição do incesto. O que Freud não teve chance de perceber foi que, chegando a humanidade à altura de si mesma, vale dizer, ao desvelamento de seu privativo ao mesmo tempo que constitutivo caráter lógico-qüinqüitário (I/D/2), não teria ela outra alternativa senão redirecionar este seu desejo mais íntimo, desta feita, para cima, pela primeira vez em direção àquilo que lhe fosse verdadeiramente transcendente. Recordando, deuses já foram o todo ecológico e seus elementos - rios, lagos, montanhas e outros mais - já foram o Uno e o Uno/Trino, o múltiplo trágico e, quando reiterado, destarte, o múltiplo calculável, em geral, infinitamente mais isto e mais aquilo, entrementes, concebidos sempre abaixo da potencialidade lógica do apenas ser humano, de modo a que jamais escapassem ao estrito controle das instâncias sacerdotais. É precisamente isto que irá definitivamente mudar. Não há dúvida de que a sacralização da lógica de uma cultura tem por si um papel crucial na estabilidade desta cultura, podendo por isso ser considerado um invariante cultural. Entretanto, o fato da lógica assim simbolicamente sacralizada ter estado reiteradamente abaixo do nível lógico dos homens em particular dos homens que constituem a classe sacerdotal encarregada de zelar pelo sagrado -, dava ensejo a que estes, maliciosamente, pusessem a sobredita “superioridade” lógica para funcionar em seu próprio proveito. Mantendo deus em estado de total submissão podiam exercer um tirânico controle social, fosse de modo direto (por exemplo, sociedades teocráticas da América pré-colombiana,

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fase primeva da história egípcia etc.), fosse indiretamente, associando-se à plutocracia dominante (por exemplo, o Brasil, por quase toda sua história). Foi nestas condições que a idolatria ganhou um suplemento de valor que a fez ainda mais prosperar. A cultura Moderna, como suas antecessoras, não falta a este padrão, como mostra a parte esquerda da figura 10.2. Entrementes, com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária, a sacralização terá que incidir sobre a própria lógica hiperdialética qüinqüitária, o que automaticamente retira a possibilidade da dominação lógica do sacralizado, inviabilizando, por conseqüência, que se faça da simples administração religiosa um meio de dominação social. Mesmo que ocorresse uma acidental idolatria lógico-qüinqüitária, ou seja, um humanismo sacralizado, ele seria bastante instável e logo superado no processo de busca de uma mais consistente religiosidade.
CULTURA MODERNA CULTURA QÜINQÜITÁRIA
DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE
2

ESCOLÁSTICA

D/2

DESEJO INCONSISTENTE

I/D/

BIOPIROTECNIA
D/
2

I/D D

A FÍSICA DESEJO DO UNO-TRINO COMO DESEJO DE MORTE OU DE PODER

I/D

FÍSICA

Figura 10.2 – A reversão do desejo na cultura lógico- qüinqüitária Acresça-se ainda que a cultura lógico-qüinqüitária não pode, por múltiplas e ponderáveis razões [14], sustentar um desejo para baixo - no caso, este seria

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o desejo do ser-sistêmico abandonado pela lógica D/D, que se teria deixado subsumir por I/D/D -, tal como veio ocorrendo com as demais culturas. Dentre aquelas razões, destacaríamos o fato de que o advento da cultura qüinqüitária representa a chegada a uma destinação, a um estado de transparente autenticidade. Insistir, a partir de então, num desejo para menos, é decidir pela recusa de si próprio! Em outras palavras, a tensão entre ser e desejo de ser (que antecede mesmo a tensão entre ser e dever ser), que agora com mais precisão caracterizaríamos como desejo de ser (menos), não se sustenta na plenitude lógico qüinqüitária, a não ser que o diferencial de ser se re-oriente, se transmude em um novo desejo de ser (mais). Assim, chegando a humanidade à cultura lógico-qüinqüitária, veremos seu desejo mais profundo se inverter, deixar de ser um desejo de regressão ou de morte para se constituir num desejo de progressão e de vida. Ver parte direita da figura 10.2. Isto tudo irá representar uma profunda revolução psíquica e social, na medida em que a humanidade estará, desta sorte, alcançando pela vez primeira um estágio de autêntica e consistente religiosidade, abandonando para sempre o que foi sua disposição lógico-idolátrica de muitas e muitas eras. Podemos concluir este item certos da radical solidariedade entre o advento da cultura nova lógicoqüinqüitária e a emergência de uma religiosidade radicalmente renovada, com a qual a humanidade terá deixado de lado sua velha disposição idolátrica e seu antigo desejo de poder ou de morte, em favor de um desejo realmente amoroso de ser mais.

Todos os estudiosos da cultura identificam no homem de todas as épocas a existência de um impulso para o que lhe transcendia, que nomeavam

10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente

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religiosidade. Com a Modernidade, a ciência que tudo invade e calcula, “naturalizou as formações históricas concretas de religiosidade, tornando-as, destarte, conspícuos objetos do saber científico. Enquanto a religiosidade dos povos primitivos ficava por conta da tradicional antropologia, instituíase a sociologia da religião para o estudo científico da religiosidade das culturas “mais avançadas”. Para muitos, até tão distantes entre si como Hegel e Comte, a religião seria tão apenas um momento ou estágio de compreensão do mundo, a ser superado pela filosofia ou pela ciência. Com Freud ela é considerada um verdadeiro transtorno psíquico coletivo, uma ilusão obsessiva que o saber psicanalítico (científico!) acabaria por superar, ou melhor, curar. De fato, se o impulso religioso tivesse como motivação apenas o consolo imaginário diante da finitude (ou da consciência da morte), todos estes críticos da sociedade poderiam ter razão e a religiosidade ser considerada hoje um fenômeno social em extinção. A nosso juízo, entretanto, a religiosidade tem um fundamento mais radical e permanente, pois estaria baseada numa experiência cotidiana e fundamental de todo o ser humano, que não seria propriamente a do Absoluto, mas de sua gritante ausência. Assim, para nós continuará a fazer sentido falar em religiosidade, mesmo após a era da ciência. O homem, por ser consciente, ou seja, operar com a lógica transcendental, faz-se portador de uma falta originária correlata à sua inextinguível angústia existencial. Ser é ser sempre à beira de um insondável abismo, o Nada. Isto é muito bem sabido, mas em geral estamos pouco atentos para uma outra falta, que não é de origem, mas de destino ou de significação. Sabemos que a lógica do “espaço” epistemo-lógico [15] correspondente a um determinado nível onto-lógi-

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co fica determinada pela simples substituição da identidade (I) por uma diferença (D) correspondente à essência do conhecer, que é se deixar determinar completamente pelo outro (objeto). Para alcançarmos a lógica do espaço práxio-lógico (ou da ação) correspondente, basta-nos re-incorporar a identidade (I) o que traduz o retorno à cena do ser subjetivo e de seu poder de auto e hetero-determinação. Assim, por exemplo, a nível do ser objetivo (I/D), o saber correspondente será a ciência D/ 2, isto é, (D)/(I/D)=D/ 2), e o agir, a técnica I/D/2, isto é, (I/D)/(I/D)=I/D/2. Semelhantemente, no caso do homem caracterizado como ente lógico-qüinqüitário (I/D/2) as estruturas epistemo-lógica e praxio-lógica respectivas seriam D/3, isto é, (D/(I/D/2)/D=D/3 e I/D/3, isto é, (I/D)/(I/(D/2)= =I/D/3. Ora, estas estruturas - epistemo-lógica e práxio-lógica - não são inteiramente acessíveis ao homem, que sabemos limitado à lógica hiperdialética I/D/2. Como, porém, os demais elementos de ambas as estruturas lhe são acessíveis, as posições lógicas D/3 e I/D/3 , ainda que não diretamente acessíveis, acabam sendo vivenciadas como falhas ou carências estruturais. Ver figura 10.3. Esta é apenas uma descrição em termos lógicos da vivência cotidiana relativas à impossibilidade de compreensão completa do outro e, muito menos, de conseguirmos dominá-lo. Isto deixa mais do que evidente que a condição de escravo, ou mesmo a de neocolonizado (ameaça concreta que paira hoje sobre nós, brasileiros), encerra, no fundo, uma degradação onto-lógica.

Eis aí. . esta que podemos também denominar ausência viva do transcendente. pois. não passou sempre de um ardil. a falta originária.3 Falhas estruturais epistemo-lógica e práxio-lógica humanas Assim. Tomás). O insistente apelo a um presumido conhecimento por analogia. A falta estrutural por nós assimilada contorna a dificuldade. no homem estão presentes dois diferentes tipos de falta. a base vivencial real para a admissão. sim. e a falta de significação. que exige o prévio conhecimento tanto do significado quanto do significante. O reconhecimento deste segundo tipo – falta estrutural – resolve um problema crônico de toda teologia. um modo de expressão. mas. seja fidei (K. conseqüente busca e aceitação do transcendente. a da identificação de uma motivação concretamente vivida que justificasse a prontidão para a recepção da mensagem revelada.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE ESTRUTURA EPISTEMO-LÓGICA SUBJETIVA ESTRUTURA PRÁXIO-LÓGICA SUBJETIVA 267 I/D/ D/ I/D D I 2 3 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D I I/D D/ 2 Figura 10. seja entis (S. esta poderia facilmente se confundir com uma simples alucinação. porque a analogia não é nem pode ser um modo de saber. embora como falta. qual seja. Barth) [16]. ou transcendental. o da abertura para o transcendente. pois o mais está presente no menos. caso contrário.

do animal dotado de sistema nervoso central. vale dizer. respectivamente. num horizonte transcendente. . alguns menos. Dentre elas.268 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO No plano do saber. como diria Heidegger [18]. primeiro. com D/2 e I/D/2. outros um pouco mais próximos da intuição. reduzindo o saber sobre o ser subjetivo a impossíveis ciências humanas. não raro sutura-se D/3 com D/2. o que reduz as inesgotáveis práticas intersubjetivas a meras técnicas de sedução e manipulação. [17] Existem ainda muitos outros modos de se mostrar a presença do referido horizonte.. lhe dá acesso ao símbolo já inteiramente convencional (o que não quer dizer não motivado) e que a lógica I/D/2 do homem lhe dá acesso ao discurso que. alguns mais. devendo-se precisar que a contextualidade aqui implicada é aberta. gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que a lógica I/D. Não podendo. cujo acesso lhe é facultado pela vivência direta da falta estrutural epistemológica (D/3) e das falhas estruturais práxio-lógicas (D/3 e I/D/ 3 ). Tudo isto nos remete a uma mais precisa conceituação do homem. Isto significa igualmente que o homem passa a habitar a linguagem. mais do que constituir um super símbolo. destacaríamos. A insistência em que o homem deva incorporar seu próprio horizonte transcendente é de fundamental importância por múltiplas e importantíssimas razões. mas igualmente pelo que se possa ainda um dia dizer. de nível lógico I/D/2.. que se realiza . No plano da ação procede-se à sutura de D/3 e I/D/3. nem necessitando lembrá-los todos. outros um pouco menos convincentes. onde estão co-presentes o ser e seu próprio horizonte: O homem é um ser lógico qüinqüitário. faz emergir o sentido intensivo ou contextual. determinada não só por todos os já ditos.

Afinal. que deixaria de ser um desejo para baixo. Nota-se então que a emergência da dimensão ética é correlata à vivência do transcendente. e. Depois. Entrementes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 269 que tal horizonte impede que ele se feche sobre si mesmo. Antes de mais nada instituímos o eixo onto-lógico no qual podiam-se distribuir todos os existente mundanos e no prolongamento do qual se poderia buscar coerentemente o Absoluto. que seria ocupado pela lógica D/3. na segunda. o que bem justifica o que dizia o personagem dostoievskiano: “Se Deus não existisse. que a filosofia acabe se reduzindo a um humanismo e a religiosidade a um panteísmo. Desde então seria toda a força da cultura que nos estaria empurrando em direção ao Absoluto realmente transcendente. tudo seria permitido. e vimos que isto só era possível como presença de uma falta. da emergência da dimensão ética no mundo. precisávamos ainda de uma efetiva e vivida janela para o transcendente. porque a presença deste horizonte de ser “junto” ao próprio ser é o que possibilita a emergência e insistência tensional entre ser e deveser. nos são vedados 10.4. Depois. Deus depois do adeus às idolatrias . vimos que com o advento da cultura lógico-qüinqüitária aconteceria a reversão da direção do desejo da cultura. consequentemente. Vimos também que esta era a situação do conhecimento e da ação intersubjetiva – na primeira. para se tornar um desejo verdadeiramente amoroso pelo mais alto. uma falha numa configuração cujos elementos nos fossem em boa parte acessíveis.” Recordemos. nos é vedado o acesso a um único elemento da estrutura que representa o referencial global daquela situação. que teria por isso que ser uma falta estrutural. a exemplo do que aconteceu em Hegel. desejo de morte e poder. consequentemente.

Ora. assim. D/3 e I/D/3. Uma conclusão bem diferente daquela de Hegel que atribui ao homem o serdialético e faz deste mesmo ser. na verdade. é porque a estrutura epistemológica correspondente se reduz a D. como no caso do nível fenomênico. na verdade. o Absoluto – em suma. O mesmo valeria para o agir absoluto. com o estabelecimento dos níveis onto-lógicos – fenomênico (I). com n superior a dois [19]. restringirmo-nos ao Absoluto concebido como ser-lógico de nível I/D/n com n>2. Podemos. Podemos encontrar uma boa pista para a determinação do estatuto lógico do Absoluto se admitirmos. a situação geral dos planos e respectivos níveis seria: . Se isto. vale dizer. ambos na posição I [20]. não só ser e pensar são o mesmo. mas que também o são ser e conhecer e ser e agir.270 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dois dos nove elementos estruturais de maior nível. uma simultânea e paradoxal afirmação de humanismo e de panteísmo. a qualidade de ser Uno. onde D é apenas uma referência externa. como é quase um consenso. Em princípio. são justamente as vivências destas faltas que evidenciam ao homem que ele não se constitui no nível lógico máximo. se ser e conhecer são o mesmo. no seu limite autodesvelador. objetivo (I/D). ele poderia ser D/n. subjetivo (I/D/2) – ficava bastante óbvio que o Absoluto precisaria ser buscado no prolongamento desta seqüência onto-lógica. vale dizer que ele. que para Ele. ou quase. Vamos de pronto abandonar a primeira hipótese porque nela o Absoluto não constitui por si uma instância onto-lógica e também porque ela não preserva. pode estar habitando um espaço ontológico que o transcende. ao fim. quando. “sujeito” e “objeto” se mantêm em estado de copertinência. Não é definitivamente este o nosso caso. Ora. com n superior a três ou I/D/n. Ora.

Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D Nível Objet. também. o que dá ao primeiro uma superioridade fechada.. Teríamos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 271 Nível Fenôm..... mais uma vez o insistente e condenável vezo pelos infinitos e transfinitos matemáticos! Acrescentaríamos ainda que esta proposição . Nível Subjet. como se ela significasse uma limitação à grandeza divina... reações. dever-se-ia fazer n=4.. na verdade. uma autoridade que não pode nem mesmo ser desafiada.. Absoluto I/D/3 D/ 2 I/D/4 D I/D I/D/2 I/D/3 I/D/2 Isto é o suficiente para que possamos sacar algumas importantes conclusões teológicas: a) O Absoluto constituir-se-ia na instância ontológica de nível I/D/4.. freqüentemente. I/D/2 D/ 3 Nível Nível Intermd. Temos a experiência de que tal afirmação suscita. Nível Absoluto Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D I/D D/2 I/D/ 2 I/D/2 D/3 I/D/ 3 . I/D/n . cujas respectivas estruturas epistemo-lógicos e práxio-lógico seriam D/2 e I/D/2. assim: Nível Fenom.. e. tal reação é um mero preconceito quantitativo. D I/D Para que a distância entre o Absoluto e o homem se mantenha de pelo menos duas diferenças... Nível Objet... para que seja preservada a máxima simetria do quadro anterior. I/D D/ 2 Nível Subjet.. com a introdução de um nível onto-lógico intermediário onde n=3.... .

pois 17(2x2x2x2+1) são as posições na estrutura lógica de I/D/4. similar em tudo seria também o Seu agir. na medida em que as lógicas humanas (I..4 – Semelhança do homem a Deus c) O Absoluto seria. D/2 e I/D/2) representam. finalmente. e) Existe um nível intermediário entre o do homem e o do Absoluto que. D. Septendencitário.. d) Seu conhecer é um estrito correlato de Seu ser. I/D/3 e I/D/4) (ver figura 10. à perfeição. I/D/2.-Septendecitário (I. tão enfatizada pela teologia judaico/cristã.4). em outras palavras. b) A semelhança de homem a Deus. I/D. mas nós não teríamos condições de saber o que isso poderia significar. O ABSOLUTO I/D/ 4 O TRANSCENDENTE I/D/ 3 2 O HOMEM I/D/2 D/ 2 I/D D I I/D/ I/D I O SER O SER Figura 10. ambos em estado de co-pertinência na posição I da estrutura epistemológica D. o Absoluto poderia até ultrapassar I/D/4. além de Uno-TrinoQüinqüitário. aliás. ganha aqui sua plena significação. também Eneário e. Notar que isto não se aplica nem mesmo aos entes angélicos (ou demoníacos).272 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pode ser interpretada como o simples auto-reconhecimento dos limites imaginativos do homem. I/D. é reconhecido pela . as instância onto-lógicas de Deus Uno-Trino.

jamais o foi. assim como traços do trinitarismo cristão. na cultura judaica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 273 maioria das grandes religiões do mundo. em outras culturas. Embora a revelação plena do Absoluto UnoTrino-.5. a nosso juízo. ainda que de modo fragmentar e inconsciente. aquele próprio tanto a anjos como a demônios. que precisava ser enfrentado pela teologia. mas de um instrumental lógico de suficiente potência 10.. maior e menor. até aí o problema permanece. por exemplo. traços da cultura cínica moderna. já sabemos agora.para Karl Rahner [21] a radical inclinação à autocomunicação seria parte mesmo de Sua “essência” -. “medidos” em termos de complexidade lógica. que homem poderia compreendê-lo em sua plenitude? Quem poderia simplesmente se considerar à altura da mensagem? Trata-se de um paradoxo. traços do monoteísmo já se haviam manifestado em culturas pré-lógicas.. a que damos a denominação de nível angélico. em princípio. Talvez não por falta de vontade e coragem. não podemos negar que alguns de seus traços possam já se ter manifestado. pouco importa suas existências efetivas. na cultura trágica grega. Entrementes. Deus pode dizer quem de fato é . mormente quando estas pertencem à mesma família. pois. excedendo à capacidade lógica do receptor.a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano .-Septendecitário seja uma prerrogativa reservada à cultura lógico-qüinqüitária. pelo menos na aparência. visto que o conteúdo significativo revelado continua. mas que. porém. É mais ou menos evidente a razão pela qual a Revelação tenha sido a solução encontrada para que o menor pudesse ascender a algum conhecimento do maior. Antecipações . Isto não seria uma novidade na história da cultura.

5 ilustra bem tudo o que aqui está posto. todos eles logicamente iguais ou menores do que I/ D/2. é que Deus (I/D/4). . poderemos facilmente constatar. que é não conseguir preservar incólume o estatuto lógico da mensagem. e nesta circunstância proclame-se Filho numa configuração trinitária. pior seria. pelo menos I/D/4 . pode agora imaginá-Lo por trás de uma descrição cujos termos e sintaxe lhe são por completo acessíveis. pois estaríamos nos enleando num paradoxo ainda mais grave do que aquele que tínhamos de partida. no caso. a mensagem eu sou o que sou (ou serei) sendo. Em nossa sistemática simbólica.especificamente. A figura 10. porém. e muito menos quantitativamente infinitas -. acessível à compreensão humana. A condição geral para a recepção é que a autocomunicação divina .seja fragmentada em “pedaços”.e não analógica [22]. Atente-se: o receptor da mensagem continua a ignorar o que possa ser. possa existir encarnado como homem (I/D/2). enquanto tal. ou seja.274 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto. deveras. Nada aqui excedeu ao “tamanho” lógico I/D/2. sem deixar de sê-lo. O modo paradigmático de fazê-lo. podemos colocar a questão em termos bastante diretos: como é possível ao Absoluto Septendecitário I/D/4 revelar-se aonde. daqueles do próprio homem. o Absoluto e seus inexcedíveis poderes.no homem qüinqüitário I/D/2 ? Pode-se agora vislumbrar uma resposta. E se não fora assim. O Absoluto aparece assim como que dotado de um conjunto de atributos que são de algum modo extensões lógicas . logicamente não cabe . como ocupante da posição D numa estrutura I/D. conquanto tenha ela seu alto preço.

se constitui membro da Sagrada Família (I/D/2) e o seu correlato terreno passa a ser a Igreja.como seria compulsório. muito adequadamente denominada Corpo (D) Místico de Cristo (D) .A Revelação paradigmática . Em vista do remanejamento onto-lógico [23] que necessariamente ocorre na passagem da estrutura trinitária (I/D) à qüinqüitária (I/D/2). é assunta ao Céu. após a Ressurreição. não para ocupar a posição D numa estrutura trinitária I/D. de nível I/D/2. Ele. mas uma organização (D/2). Ver figura 10. sim. não propriamente uma eclesia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE LUGAR DO ESPÍRITO (TRINITÁRIO) CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO 275 LUGAR DO PAI LUGAR DO FILHO CRISTO HOMEM QÜINQÜITÁRIO I/D/ QUE DECLARA OCUPAR A POSIÇÃO D EM I/D 2 Figura 10. como fora o caso do Filho. tão necessária e insistentemente Virgem) numa estrutura qüinqüitária I/D/2. logo.5 . e. mais uma Confirmação do que uma nova Revelação) em que todos os elementos da mensagem revelada se mantêm ainda inferiores a I/D/2.6. uma . porém. Trata-se da proclamação do Dogma Mariano (1950): Maria. para ocupar a posição I/D (por isso. o Cristo que ocupava a posição de Filho (D) na Trindade (I/D) vai ocupar a posição de Filho (D/2) na estrutura qüinqüitária (I/D/2). mulher.a Encarnação Podemos ainda identificar um segundo modo (na circunstância.

posição que sabemos caber necessariamente à filha virgem. LUGAR DO ESPÍRITO (QÜINQÜITÁRIO) FAMÍLIA SAGRADA LUGAR DA MÃE INCONSC.Revelação (Confirmação) Septendecitária por via do Dogma Mariano É interessante observar que neste modo revelador a Igreja vai ocupar a posição D/2. I/D. apresentar-se exteriormente como uma organização.. Como se vê. a Cúria pode errar em tudo. isto é. enquanto que sua essência lógica passa automaticamente a ser I/D/D/D=I/D/3. definidas como as diagonais . Maria só poderia ser mesmo assunta para a posição que o referido remanejamento deixara vaga. esta estrutura lógica é manifestamente sobre-humana. diríamos até delirante. Como já mostramos em outra oportunidade [24].6 .276 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dupla diferença.. Tomando-se por paralelo a sexualidade humana. ESPÍRITO PENTECOSTAL CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO LUGAR DO FILHO CRISTO RESSUSCITADO CORPO MÍSTICO IGREJA 2 MARIA MULHER QÜINQÜITÁRIA ASSUNTA I / D / LUGAR DO PAI LUGAR DA VIRGEM Figura 10. menos em lógica.

Ver figura 10. o feminino). porém. D/2.7. P A R T ID O OU CLERO O 3 SE XO CASTRADO . o clero (especialmente o jesuítico). I/D com D/2. o segundo.7 . À segunda. para que não se veja associado ao mal (D). À terceira. temos então definidos três modos de ser sexual a nível I/D/3: o primeiro. a forte resistência dos protestante à promulgação do Dogma Mariano. o terceiro. todos eles formalmente mais pobres do que os dois que acabamos de apresentar. Só para exemplificar.O sexo dos anjos (ou demônios) É bastante evidente que assim se estabelece uma relação hierárquica extremamente rígida entre o Príncipe.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 277 de I/D/2 (I com D/2. 1 SE XO P A I O U G U IA O N IS C IE N T E O 2 SEXO E L IT E . uma comunidade (I/D) dotada do saber científico (D/2). D. os crentes. o grande rebanho. I/D. sobre-humana (D/3). Existiriam ainda outros modos reveladores combinando algumas das lógicas I. I com D/3. de maneira muito óbvia. I/D com D. e I/D/2. o clero e os crentes. o masculino. tomemos a mais simples dentre todas . À primeira corresponde a figura do papa. o que vem explicar. POVÃO " A N IM A L I Z A D O " O I/ D / 3 I/ D / 3 I/ D / 3 I D / 3 I/ D D / 2 I/ D / 2 O MAL OU O IN C O N S C IE N T E D Figura 10. único (I). I/D/2 com D. infalível porque dotado da capacidade de imediata compreensão inter-subjetiva. reduzidos apenas à sua primeira componente I/D/2.

Ela corresponde ao episódio em que Deus se revela a Moisés dizendo ser aquele que é (ou será). mas em seu modo mais elementar do Ser Único Criador frente à insignificância do ente criado. .278 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO as combinações: I. Trata-se. de uma revelação de Deus (I/D/4). sem dúvida. I e I. não enquanto tal.

O século XX demonstrou. Triste situação a brasileira: ao mal-estar na Modernidade. Manoel Bandeira. é flagrante paradoxo. de bruços. A insistência e os repetidos fracassos dos projetos de modernização geram o cansaço. Deveras.1. dizem: o dualismo. A causa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 279 11 Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira Em Pasárgada tem tudo É outra civilização. que. concomitante a uma furtiva inversão de mando: a esquerda. 11. op- . junta-se o mal-estar da condição de “marginalidade voluntária”. não somos coetâneos à Modernidade? Já não seria tempo de trocarmos o nosso crônico mazombismo acadêmico pelo gosto de uma autêntica auto-compreensão? 11. na era da prostituição generalizada? Os ônus por anos a dentro chegam sempre de véspera e agigantados. com enxurradas de fotos. A nulidade crítica das ideologias não autoriza mais esperanças. no entanto. que pode haver de mais constrangedor do que estar sempre por baixo. a violenta impotência (que era já constitutiva) das ideologias [1]. os gozos minguados e quase sempre frustros ou ad aeternum diferidos. Elas visavam apenas a substituir o sujeito liberal (sujeitado) da ciência.2. e às vezes por trás também fatos. alguns nos chamam Belíndia.

Em conseqüência.4. Mas não se provou que não possa haver alguma saída. nada tem a ver com a nauseabunda e rose-blair terceira via(dagem) social-democrata (mais uma!). da lingüística e do estruturalismo antropológico. todas. Heidegger vale ser atentamente ouvido. o que. E a filosofia e mais as outras tantas “ciências” do homem? Embora precisem ser todas elas levadas em conta e muito a sério. o círculo quadrado. por si e conjuntamente reavaliadas. mas não seguido (tal como valem os poetas). histórico-cultural) para mais além das ideologias. é inegável a insuficiência [2]. de um lado. o capitalismo sem jaça. pelo sujeito romântico ou telúrico. Torna-se agora óbvia a carência de uma compreensão histórica profunda (logo. exige-se sejam as lógicas . Propõe-se então a releitura da história da cultura parametrizada pela lógica [3]. do hegelianismo e do marxismo.280 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tando pelo sujeito coletivo.3. das culturas nodais (lógico-inaugurais). a mais ousada: a passagem da estática à dinâmica cultural [6]. da psicanálise. por suposto. Uma história hiperdialética é o mínimo que se requer. daí. idem para os híbridos – a “história” das mentalidades e o conglomerado frankfurtiano. Não há mesmo saídas laterais. a direita. entretecidas e pró-jetadas [4]. por coerência. Uma cultura e doravante três lógicas associadas. (ver figura 11) 11. obviamente. Como condição. 11. perfeito. contemplamos a seqüência já realizada. também três tempos para cada: o tem- . para dar conta do processo de autodesvelamento do ser hiperdialético qüinqüitário do homem. Necessidade de uma pirueta. Em retrospecto. e de outro.as mesmas que lá estão mais ou menos soterradas na tradição . Almejavam. o império hoje do pensamento único.antes ressuscitadas. desde a irrupção das tribos nômades de caçadores/coletores do paleolítico à atual modernidade científica [5]. muito nítida.

o desejo de origem (o mito). na outra vertente. o Protestantismo e a incontornável invenção. A força do impossível desejo de regressão lógica é o melhor guia no retrospecto reiterado: na vertente lógico-identitária. o capitalismo consumista extensivo (desejos. à esquerda e à direita. ainda vigente. mas domesticados adrede pelo marketing). lógico-diferencial. o desejo do ser-uno-trino (a física. o desejo do ser-uno (a velha filosofia) e. pela sola fide. são os museus abarrotados de arte sacra!).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 281 po morno da lógica que ela sacraliza. note-se.que o diga Vieira! . Um zoom sobre a Modernidade [8]. sucessivamente. na continuidade. mas dela). hoje. preteridos!) e o desejo do corpo espiritualizado incorruptível (é só lembrar quantos. no dizer já moribundo do disciplinado e terno Doutor Angélico). daí. as correlatas “contestações” ideológicas. a prémodernidade ibérica. o desejo da volta à animalidade (o mais velho ancestral do “desejo de morte”). Tudo tão célere . que queremos ver pelas costas (não nossas. ora. as navegações e a expulsão suicida . o capitalismo calvinista de acumulação intensiva (a história desnaturada. pela ordem. a tortura metódica (para que se confessassem números) de todas as coisas por meio de instrumentos e a medida pela fé de imaginários excessos sexuais femininos – enquanto se forjava o novo órganon exercitava-se à larga a caça às bruxas.dos cognominados da nação’. o didático herói john fordiano). o desejo da terra prometida (à exceção dos meio-irmãos filhos da empregada. Recordando: o confronto com o fingimento escolástico (reza a anedota que um ‘lixo’. do sujeito liberal (no cinema. o tempo intenso do desejo de sua lógica recalcada e o tempo desesperado fingindo ter-se tornado a lógica de sua própria posteridade. 11. Inicialmente. sim. o mesmo já do avesso. “história” calculada) e.5. sucessivamente. da mecânica newtoniana de pontos materiais ao campo escalar de Higgs [7]).

os homens só de carne e osso!). o ser-feminino à altura exata do ser-masculino. do fundamento lógico de todas as dominações sacerdotais [11]). Entrementes. obra de seletos mulatos. em direção ao ser de fato transcendente. obra de desmedidos mamelucos. expressa pela reversão do desejo da cultura. Como tanto se almeja (mais os tempos. 11. aqui. cada um trazendo sua cota parte à nossa bela geléia geral. sobremodo. por conseqüência. a certeza de uma cultura futura hiperdialética qüinqüitária. meio sonolentos. por fora a tez. os brasileiros. e. a formação de uma interioridade. o mesmo valendo para as respectivas verdades: gozo e vitória nivelados à alétheia e adaequatio (o que nada tem a ver com o retorno ao mítico andrógino de Aristófanes). 11. a re-significação religiosa (o fim das idolatrias. Fontes diversas recapitulando a história hiperdialética da cultura. a viabilização da oferta planejada. econômico – entre as surpresas.6. após. a re-significação cósmica do homem (tanto quanto do cosmos pela cultura!) [10]. conquanto que descentrada!) e cultural [9]. Agora nós. por dentro. a inteligência e a sensibilidade destes e de muitos outros. Sobretudo. pela primeira vez. a nova verdade qüinqüitária e seu método correlato: o amor pela “leitura” [12]. O peculiar processo de formação da cultura brasileira [13]. a história desbloqueada. por não se tratar até agora de obra acabada. é preciso estar alerta .7. Etapas intermediárias: a formação de uma territorialidade.282 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que talvez se tenha hoje já à mostra os primeiros sinais do inexorável declínio. com a descoberta das minas de fundos de rio. Para desvelar e seduzir (e por que não também um pouco para dar partida a hiperdialética qüinqüitária: o remanejamento das relações indivíduo/sociedade no plano político. nem tanto. Enfim.

para quem possa e as queira: uma.do princípio antrópico [15]). todos os dias. para baixo. a elitista retardatária pelo luxo (a rigor. sem deixar de ser também sobre-humana (ao invés do superhomem. elevado à altura do homem logicamente à sua espera. 11. escancarada. em tudo clarividente.9. Clarifica-se. em verdade. Reagindo à inexorável superação. à capela e murmúrio. afinal. como se fosse a última e única. cruel e debochada. na linha de resistência. a boa nova: os . a outra. apenas pelas suas sobras e dejetos).8. a originalidade? Trata-se da edificação da cultura nova hiperdialética qüinqüitária . em seu propósito último. Há opções. resolutamente etnocida. subserviente.um novo modo de ser-consigo-mesmo. a popular auroreal pela originalidade [14]. deveras. à uma. prepotente. Ela é o cumprimento de uma destinação por demais humana. de ser-com-todo-mundoem-paz-com-o-Absoluto. o paradoxal dualismo: na verdade. amigos do rei. atenção. onde. Na linha de frente (do inimigo). que é a gente que de fato conta se o caso é cultura (não economia & finanças). E por que não. a pós-modernidade. mas significante .nem forte. trombeteada. sempre viva. pedante – para cima. a grande “marginalha” rural e suburbana. na cara. dando alma a uma nova versão . nossa elite burra. Para nossa sorte. despudoradamente entreguista. 11. uma resistência não reativa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 283 aos perigos da globalização. o super-cosmos. um reservar-se. Mas. seremos tudo e por cima todos. mas prospectiva. nem fraca. De modo algum somos Belíndia. Na TV e por todo canto. um se pôr sempre um pouco à parte à modernização: trata-se do povão fiel ao seu destino. a artimanha de se fingir sua própria posteridade: eis. mas a vontade de Pasárgada. de ser-com-o-outro. que em essência é cultural e por isso.

teremos.a vida eterna. Se fracassarmos. Nas ruas. virá a grande depressão (econômica). Dentre todos os fundamentalistas (reacionários). Como sempre. depois outra e mais outra. não repudiar. ainda que numa caixa de fósforos. já. em última instância. pela grande depressão psíquica (ou cultural). e.. nos atirado de alma e corpo inteiro à lata de lixo. a necessidade iniludível de uma estratégia de sobrevivência pelo tempo que resta à Modernidade para que não faltemos ao encontro com a nossa destinação. tornando-se destarte a decisiva força revolucionária. por certo fará vir ao mundo a cultura nova. é difícil resistir?! No entanto. por amarelamento (como em 50 e 98). Ou será que. batucando. Talvez. para não perder a língua. não só da história hiperdialética da cultura. mas da própria . ademais. para não perder o fôlego. todos de braços dados. por desídia. Na circunstância. alhures.284 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO prodígios da biopirotecnia. seus cálculos e seus três indefectíveis instrumentos – a balança. haverá um (bastará um) pequeno grupo (LXX é um bom número!) que irá se propor.. de repente.10 Por isso. grave impiedade ou. sim. a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . como de costume. por uns tempos. nenhuma marcha interminável de fileiras. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! 11. mas deveras subsumir a ciência (com sua lógica. [16] Pessoalmente. seja preciso refugiarmo-nos no Egito ou nos agacharmos no mato. a ordem tem que ser (culturalmente) sobreviver a qualquer preço. ainda que bem menos dotado e pré-destinado. a trena e o cronômetro). nem explosões de casacos ou carros-bomba. um dia. biblicamente instruídos. se verá a reação desesperada: a ordem virá para a degola dos perigosos terroristas recém-nascidos. falando mais e o melhor possível. outro. nenhuma classe atrás das barricadas. seguida.

POR OPÇÃO PELO LUXO 10 IMPOTÊNCIA DA CRÍTICA IDEOLÓGICA: DE DIREITA (FASCISMO SUJEITO ROMÂNTICO .. Situação cultural brasileira .D) E DE ESQUERDA (MARXISMO SUJEITO COLETIVO ..?! CARACTERÍSTICAS DA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA Remanejamento das relações indivíduo/sociedade Re-significação cósmica Re-significação religiosa Real liberação do ser-feminino A verdade: o amor pela "leitura" 6 CULTURA QÜINQÜITÁRIA I/D/D HISTÓRIA DESBLOQUEADA ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA PARA A CONSUMAÇÃO DE UMA DESTINAÇÃO ASSUMIDA A 9 FINGIMENTO: BIOPIROTECNIA. Com que cara iremos nos apresentar no Juízo Final.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 285 cosmogênese. A DEGOLA DOS RECÉM NASCIDOS OPÇÃO PELA ORIGINALIDADE 4 I/D D I CRÍTICA DA CULTURA: ARQUEOLOGIA DA CULTURA PROCESSO DE FORMAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA 7 3 pré-D pré-I HUMANIDADE (I/D/D) ANIMALIDADE (I/D) Figura 11.I/D) 2 5 D/D CULTURA MODERNA 1 CULTURA MARGINAL BRASILEIRA 8 FIM.

1 . também um imperativo de mínima ética. Ernst Cassirer L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. De que lugar [2].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 287 12 Considerações gerais sobre a história da cultura – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história. Paul Tillich Não existe a menor possibilidade de nos lançarmos aos estudos do futuro sem a prévia assunção de uma concepção. estaremos nós aqui falando do futuro? É o que tentaremos precisar neste item introdutório. além de um entre muitos expediente para uma boa comunicação. conjuntura e perspectivas brasileiras [1] Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. A noção de História estaria originalmente associada à lógica transcendental ou da identidade (I) [3]. de uma lógica da História.A História como processo hiperdialético qüinqüitário . proceder à explicitação de tal pressuposto é. dito com maior precisão. 12. Nestas circunstâncias. de uma filosofia ou.

1) HISTÓRIA NOVA HIPERDIALÉTICA (I/D/D) QÜINQÜITÁRIA FÉ E ENGAJAMENTO HISTÓRIA (I/D) HISTÓRIA HEGELIANA LÓGICO-DIALÉTICA(I/D) TRINITÁRIA ENGAJAMENTO “HISTÓRIA” SISTÊMICA LÓGICO-FORMAL (D/D) CALCULADORA CONSC. são mera conseqüência de incidentais descumprimentos pelos homens dos mandamentos divinos e do justo castigo que lhes é por isso infligido. momentos de criação e consumação dos tempos (escatologia). origem e destino. os “acontecimentos” intermédios.1 . para ela. O que esta concepção reclama de nós não pode ser outra coisa senão a fé inabalável de que Jó nos dá o melhor dos exemplos. TRÁGICA HISTÓRIA JUDAICA LÓGICO-TRANSCEDENTAL(I) UNÁRIA FÉ Figura 12. que iremos denominar com o neologismo unária. solidária à verdade do Deus único. Esta é a primeira dentre as concepções de história. Ela é a História que se interessa primordialmente pelos extremos. (Ver figura 12.288 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que é o modo específico de se poder pensar a temporalidade.Concepções da História . história judaica. CÍNICA CULTURA (MENTALIDADES) (D) ARQUEOL. a liberdade e a própria consciência. DAS MENTALIDADES LÓGICO-DIFERENCIAL(D) HERMENÊUTICA CONSC.

entrementes. como vimos. e isto. como enfatizava Lukács [4]. concluiu coerentemente Hegel. o paraíso. Concordemos em adiar por momentos uma resposta. Ao internar a diferença. es- . Ela é uma história que solicita. pode facilmente degenerar em lógica da oportunidade e nosso engajamento em mero oportunismo. a que damos. sobretudo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 289 Depois de Hegel. Note-se. Em compensação. Considerada sua essência lógico-diferencial. esta história pode assumir também feição materialista. o nosso engajamento. como em Marx/Engels. a sociedade sem classes e outras miragens para obnubilar a referida deficiência lógica. a História seria o próprio processo de autodesvelamento do espírito absoluto [5]. fazendo do conflito ou das contradições internas o seu verdadeiro motor. Assim. o juízo final. Como fazer compatíveis a temporalidade lógico-identitária e a espacialidade lógico-diferencial? Apelando à velha dialética? Mas esta está. A noção de História é freqüentemente estendida para abarcar concepções lógico-diferencias que em essência a negam. desvinculada do diálogo com outras modos de pensar. a denominação de concepção trinitária. é a totalidade. a noção de História ficou radicalmente associada à lógica dialética. se constitui num evidente contra-senso. A verdade da dialética. ela apresenta uma deficiência intrínseca que a incapacita para a compreensão de origem e destino – daí. que a dialética. a nosso ver. o comunismo primitivo. por isso. aqui também envolvida para poder dar a necessária volta por cima. de sorte que a verdadeira história só pode ser aquela da totalidade lógico-dialética em busca de si mesmo. a revolução. a dialética cria um modo imanente de dinamismo. o que torna esta história especialmente apta para explicar as mil peripécias do devir. síntese das lógicas da identidade e da diferença. especulativa (melhor dito do que idealista). Além da versão original hegeliana.

De um lado. desenvolvida com o fim estratégico de permitir a mais tranqüila reprodução dos poderes. na circunstância. da busca da explicitação de um sentido coletivo. Identificam e medem fatores determinantes de seu surgimento. é a alegre (trágica) aceitação do jogo [9]. de seu apogeu e de sua queda. Sua postura é fundamentalmente hermenêutica: trata-se. de inspiração organicista. contextual. governado por uma lógica da repetição. É uma concepção. desta prolifera uma variante que poderíamos chamar “história científica e bem remunerada”. de confessa inspiração nietzscheana. deveríamos chamar arqueologia das mentalidades ou da cultura. preocupando-se com as estruturas ou estratos profundos (em boa parte inconscientes) que constituem a alma de um agrupamento humano ou de uma época. sobretudo. onde impera o eterno retorno do mesmo. conforme sua opção lógica subjacente. Hoje. O que nos é dado. É um pensamento que abre mão do diacrônico em favor do sincrônico. a genealogia de Foucault [8]. em geral. que procura isolar “unidades históricas” relativamente estáveis (em geral civilizações) para daí inferir padrões de regularidade. marcada por uma visão trágica do homem e da sociedade.290 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tas paradoxais concepções históricas só podem se apresentar de duas maneiras. De outro lado temos a “história” embalada como produto científico. o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss [7] e. com bem maior propriedade. da condição a que fomos atirados não se sabe por que deuses tão francamente anti-einsteinianos. de sua continuidade. mas o desdobramento epocal das mil máscaras do trágico se mostrando e se apagando num des-propositado jogo de forças. pre- . Teríamos como exemplos a escola francesa da “história das mentalidades” [6]. está a “história das mentalidades que. os exemplo clássicos seriam Spengler [10] e Toynbee [11]. O homem não viveria propriamente uma história.

2 . que suicidem-se [12]. cuja negação não pode jamais vir a se constituir em algo melhor definido do que o próprio NãoB. Quando procedemos a uma diferenciação qualquer B. o que é já o suficiente para revelar seu caráter cínico. pois se trata de uma questão vital. uma vinculando-se à lógica da diferença. não nos é garantido o princípio do terceiro excluído. diferentemente de B. (Ver figura 12. para ela. esta última precisando ser compreendida pelo que verdadeiramente é: uma lógica da dupla diferença. aos desgraçados. História não há mesmo mais. afinal. Aos poderes. Isto é simplesmente impossível porque NãoB. por seu parti pris lógico. para deste modo poder se igualar a B. ou seja. como dissemos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 291 tendem-se um cálculo a médio prazo do ser temporal. Não podemos aqui evitar uma breve digressão lógica. Estas duas concepções se distinguem. que Não (NãoB) se iguale a B. outra à lógica clássica. DIFERENÇA D DUPLA DIFERENÇA D/2 NãoB B NãoB B NãoA A=NãoNãoA UNIVERSO CONVENCIONAL B = NãoNãoB Figura 12. é um indefinido. característica inalienável da lógica clássica. solicitam mais verbas.Lógica da diferença versus lógica da dupla diferença . embora seja o maior dos escândalos que não faça parte da cultura comum do cidadão [13].2).

propriamente temporais) da História em um mesmo quadro referencial tem agora sua grande compensação. e no entanto. D. em contraposição à lógica da simples diferença. lógica da dupla da diferença (concepção cínica D/D=D/2). O caráter trágico da lógica da simples diferença (D) vem de que ela é o pensar da separação (relativamente ao Um/Ilimitado). Agora nos é dado facilmente perceber o óbvio: que. seja seguindo . ou seja. fazer de conta que B é uma totalidade e aí então. por isto. porque NãoA é tão bem definido quanto A. esta mera convenção promovida ao estatuto de verdade absoluta (exclusivismo da lógica clássica). formal. precisaremos tomar por referência uma primeira discriminação. Melhor a denominaríamos. I/D. é tão só esta artimanha que permite o obsessivo cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos promovido pela Modernidade. Muito simples. muito bem simbolizada por Prometeu. que uma primeira diferença pode produzir uma veraz totalidade. transforma-a em lógica cínica. como requer o princípio do terceiro excluído. proceder a uma segunda diferenciação A. de um faz de conta. é que podemos ter de fato Não(NãoA) = A. dialética (concepção hegeliana/marxista ou trinitária I/D) e clássica. Agora. B. O contra-senso da inclusão de concepções logicodiferenciais (espaciais e não. do terceiro excluído ou. A lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) deriva de um artifício. e abandonar NãoB. nele. ainda mais precisamente. D/D). em que estão presentes as lógicas da identidade (concepção judaica ou unária I). da diferença (concepção trágica D). como deveria ser. lógica da dupla diferença. seja seguindo o vai e vem das concepções da histórias em geral (I.292 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para garantirmos a validade do aludido princípio. Desenha-se um referencial perfeitamente homólogo à estrutura das lógicas de base [14]. sim.

I/D) [15]. Haveria ainda muito mais que o leitor poderá por si descobrir. só que. Ela pode também ser entendida como uma dialética da dialética. Somos agora forçados a uma nova e breve digressão para salientarmos alguns dos principais traços que diferenciam a lógica hiperdialética (qüinqüitária.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 293 diretamente a linhagem das lógicas da temporalidade (I e I/D).3 a dialética em dois ciclos subsequentes para fazê-la mais facilmente comparável à lógica qüinqüitária. .à existência de um quinto lugar. à maneira de Hegel frente à sua dialética. resultando. agora sim. transcendental e dialética trinitária. tido agora não como um espírito-lógico-trinitário (I/D). como uma síntese da concepção dialética hegeliana (I/D) com a hermenêutica das mentalidades (D). lógico qüinqüitária . coerentemente na linhagem das lógicas identitárias. numa síntese maior. de nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2).(I/D)/(D)= I/D/D=I/D/2 -. onde poderá situarse uma nova concepção da história. Esta pode ser compreendida de diferentes modos. desta feita. Preliminarmente apresentamos na figura 12. chegamos sempre ao mesmo destino . Não é só: também pode ser compreendida de per si. I/D/2) da já bem conhecida lógica dialética (trinitária. síntese das concepções genuinamente temporais da história. mas como um bem mais complexo ser–lógicoqüinqüitário (I/D/D=I/D/2). entre eles. tal como está destacado na figura 1. como lógica do processo de auto-desvelamento do homem.

294 DUPLO CICLO DIALÉTICO-TRINITÁRIO LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CICLO HIPERDIALÉTICO QÜINQÜITÁRIO I/D I I/D I CICLO DIALÉTICO I/D/D D I/D CICLO DIALÉTICO D/D CICLO CONTRA-DIALÉTICO CICLO DIALÉTICO D I D Figura 12. ao primeiro ciclo dialético. necessária e coerentemente. tanto para o olhar. precisaremos assumir para poder efetivamente pensar a História da Cultura em toda sua amplitude. dos procedimentos de cálculo do mundo que caracterizam essencialmente a Modernidade. Torna-se mais do que evidente que apenas desta perspectiva lógico-qüinqüitária é que se poderá proceder ã crítica radical da Modernidade [17]. um lugar de ar rarefeito.3 . cuja complexidade vai inclusive requerer uma terceira dimensão representativa [16]. De todas as lógicas mundanas [18] tão só a hiperdialética qüinqüitária subsume a lógica clássica. aquilo que esteja a emergir para além da Modernidade.Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária Fica aqui evidente a maior complexidade da hiperdialética na medida em que nesta. É a concepção lógico-qüinqüitária da história que. mas sim um ciclo contra-dialético. que sabemos garantidora. quanto aos riscos a serem assumidos. Só depois o processo segue em direção a uma síntese maior. em especial. que vai dar ensejo à síntese lógica clássica ou da dupla diferença. lógica da dupla-diferença. sabemos bem. Um lugar por demais alto. em última instância. certa- . segue-se não outro ciclo da mesma natureza.

Morgan. mormente aqui em Pindorama. nem bem constituída. formal ou da dupla diferença (D/2). operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I). respirar um pouco de esperança. mas a razão humana iria mais além. Os animais cordados operariam no nível lógico dialético (I/D). de certo modo. se põe na contramão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 295 mente. lugar onde se pode. o discurso articulado em sua plena acepção [21]. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/2) governa. já contemplava ela a desaparição de seus mais caros objetos. enfim. Tylor e Lévi-Strauss . a assunção de um ponto de vista antropo-lógico que.e cita Frazer.válida para todos os homens em todos os tempos e lugares .2. ela suscita e nos solicita tanto pela fé quanto para o engajamento. alerta ainda à espera de seu objeto. da diferença (D). na medida em que.com 12. Perguntamo-nos naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização . dialética (I/D) e clássica. Segundo nos informa Márcio Goldman [19].a cultura nova lógico-qüinqüitária! Devemos convir que deve soar ainda bastante estranha esta nossa pretensão de antropafagiar a ciência em nome e proveito da esperança ! Em Noções de antropo-logia [20] caracterizamos o homem como o ente dotado de um poder hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. entre muitas outras coisas próprias aos homens. mas mesmo assim. a maioria dos antropólogos .enxergou sua ciência desde sempre em crise. Por também subsumir as concepções judaica e hegeliana da história. Citamos isto para que não alimentemos qualquer ilusão com respeito a quão estranho irá aparecer ao saber antropológico estabelecido. pouco mais do que nomeado . Um esboço de história da Cultura .

296 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. coletivamente objetivada. clássica ou formal D/2 e a própria I/D/2). inclusive. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. ambas naturalmente referidas à Natureza. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). mas não ainda um passo de natureza propriamente lógica na direção daquele desvelamento. como poderia ser diferente? Toda cultura teria. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que teriam ocorrido significativos avanços.4) . as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. pela variabilidade no tempo do seu vigor criativo e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo a história da cultura como um processo de autodesvelamento do próprio ser do homem. atestada de muitos modos. pela idade. assim. depois. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D). por uma questão de coerência com o que vimos até aqui. dialética I/D. Elas serão genericamente denominadas etapas ecológicas [24]. Aliás. (Ver figura 12. mas algo ainda mais complexo. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I). da lógica por ela assumida e sacralizada. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [23]. um essencial e particular comprometimento lógico [22]. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. e que lhe confere. Esta última seria a expressão simbólica. entre eles. de natureza hiperdialética (I/D/2). da diferença D.

I/D. porque. que hoje domina o mundo. cultura judaica. pela primeira vez. . cultura sedentária de base agrária. cultura moderna de base científica. uma manifesta síntese das culturas anteriores [25] . I. cultura tribal. ainda por vir. uma cultura à medida exata do homem. por todos os títulos. não castradora. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). e. I/D/2. D/2. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. cultura prometéica grega. cultura medieval cristã (patrística). cultura hiperdialética qüinqüitária. compreendendo apenas o Ocidente e o Oriente Próximo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 297 Resumidamente e focalizando uma área restrita. D. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. pré-D. teríamos a seguinte seqüência histórica de culturas nodais: pré-I.

que vem demonstrar que por trás de ambas opera um mesmo arcabouço lógico. fingimento e superação . descontado nesta última o “detalhe” das culturas “ecológicas”. não será mais uma cultura. pôde.3. entretanto. Desejo. uma lógica.4 . uma lógica.298 CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA I/D/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CULTURA MODERNA CIENTÍFICA OU SISTÊMICA D/D CULTURA CRISTÃ TRINITÁRIA (PATRÍSTICA) I/D CULTURA GRECO-ROMANA PROMETÉICA D CULTURA JUDAICA SIMBÓLICO CONVENCIONAL E MONOTEÍSTA I CULTURAS PROPRIAMENTE LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA DOS IMPÉRIOS DA ANTIGUIDADE PRÉ-D CULTURA TRIBAL PALEOLÍTICA CAÇADORES/COLETORES PRÉ-I CULTURAS ECOLÓGICAS Figura 12. Por isso. a aparentemente desmedida simplificação da tese uma cultura. Nossa tese central daqui por diante.Esboço de uma História das Culturas Nodais É importante notar a perfeita homologia entre as figuras 1 e 4. até aqui. 12. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura. tão bem sustentar-se. porém.

correspondente à cultura que a antecedeu . a água e a serpente em hélice ou distendida. Cada cultura tem sua lógica de referência . bastaria lembrar a profusão de manifestações arquetípicas que se pode recolher nas culturas históricas: lógica da identidade I . fonte de seu vigor criativo -. intentará simular ser.o número 3. precisou ser feita mantido o postulado da igualdade de todos os homens. toda cultura. Tentemos melhor esclarecer. o círculo. sim. e da qual não discordamos). vale dizer.ficando.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 299 três lógicas [26]. correspondente à cultura que a irá suceder que determina o que ela. os gêmeos. já foi assinalado. ora clandestinos. fingir que não mais é o que é. o branco. associada a mais outras duas: a primeira. inclusive com aquela que a todas estas subsume. lógica da diferença D . mas. lógica dialética I/D . Em outras palavras.o número 1. de algum modo. agora.que era nossa tese anterior . a cobra que se devora pela própria cauda. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. o azul. o ar e a águia. o ponto. Para convencer-nos. São vínculos ora claros e assumidos. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. dá testemunho de outras lógicas. triângulos. em que pese seu parti pris lógico. o fogo e o leão. numa artimanha defensiva. como se verá. o vermelho. com cada uma das demais lógicas mundanas. a segunda. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda. o seu próprio futuro que teria resolvido madrugar. triângulos de círculos .o número 2. o segmento de reta. figuras especulares em geral. Esta mudança (de 1 para 3).que determina o seu ser “desejante”.

com a lógica da cultura que lhe sucederá. a terra e o touro. e que por vezes “retorna” ou se re-volta como num sonho -.lógica que teve que ser superada (ou recalcada). para que ela pudesse advir em seu lugar. o negro. as pirâmides de base quadrada. o homem e a quinta-essência. mandalas [27] de toda sorte. lógica hiperdialética I/D/D ou I/D/2 . a estrela socialista. os quadriláteros em geral e as cruzes. lógica formal D/D ou D/2 . . que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? E por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas (Ver figura 12. mas que de algum modo permanece subsumida.de onde. procede a real ameaça à sua dominação de época. os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. seu permanente pesadelo .5): a) de um lado.o número 5.o número 4. b) de outro lado. seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. por suposto. Dentro desse quadro geral.300 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou nó borromeano. com a lógica da cultura que lhe antecedeu .

forçá-la a abandonar o já pensado por outro por pensar. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e duradouramente exercida. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. o que se pode. o que é ainda mais sutil. o desejo da cultura [28]. é de algum modo silenciá-la. recalcá-la ou. técnicas e múltiplas artes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA POR VIR 301 FINGIMENTO SUPERAÇÃO CULTURA DE REFERÊNCIA DESEJO CULTURA ANTERIOR RECALCADA Figura 12. conhecimentos. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. na verdade. fingimento e superação Do ponto de vista lógico.Desejo. afinal. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. Desde sempre. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico/emocional dos indivíduos. instituições. ou seja. Isto nos faz compreender. como as culturas. de modo mais ou menos claro. através de um processo de reiteradas substituições. não se pode simplesmente apagá-la. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou margi- .5 .

. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. uma disposição desejante. tanto de suas excelsas realizações. mas que ao final é o que a empurra para a frente. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. e tantos mais) e que a dissimulação aqui aludida é apenas um dentre eles. até preventivamente mandando executar os recém-nascidos. e que de maneira inexorável irá confrontá-la. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica.5) Toda cultura teria. pois já começam a se delinear em seu horizonte. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. pelo menos. O golpe fatal sobre qualquer cultura. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural. ameaçadores. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. ou. que é seu verdadeiro motor imanente. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação (pela violência. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 12. inclusive aquelas à esquerda e à direita. como não poderia mesmo deixar de ser. pelas ideologias. todas o pressentem. No entanto. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua.302 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. também não se pode ter dúvidas. precisamente em seu fingimento. como de seus piores feitos. Toda cultura. convenhamos. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. é o melhor que poderia mesmo fazer para tentar embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. E quando isto acontecer. simula ou finge ser o que ainda virá. pois. que.

na formação de estoques e na sua distribuição.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 303 A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas. Significam. seria o das culturas dos grandes impérios de base agrícola. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem. do esgotamento de seu vigor criativo.o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (por isso podem parecer retrógradas) com uma corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (por isso podem parecer delirantes). perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. A agricultura tomada como base da subsistência. enfim. do desvanecimento do seu próprio desejo. quer a cerealicultura (Tais mitos são mais ra- . em essência. A probabilidade de subversão de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. tanto quanto terá sido negado que estava já em gestação nas suas próprias dobras. Tomemos alguns exemplos. da Antigüidade (pré-D). como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo . margens e desvãos [29]. acompanhada de investimentos na organização da produção. Como bem observa Mircea Eliade. O primeiro. a liberdade pelo cativeiro. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. o fruto esperado. A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . Tempo perdido. metaforicamente.

o sentido permanece ainda afeito ao traço.304 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ros. nas culturas evoluídas. Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O mito. Ali vige o simbólico. É então pela idolatria sistematizada que esta cultura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. o simbólico refém da espacialidade que. que. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. mas sentido apenas como índex ou como análogo. para fazer frente à grande ameaça do conceito. não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. o constituiu. por isso.6) Tudo isto. (negritos nossos) [30]. ora metafóricas. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. inventa-se a escrita. Para tanto e muito mais. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). que irá permitir a . requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. e por vezes radicalmente reinterpretados. ora metonímicas (análogas aos processos primários inconscientes de condensação e deslocamento). possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. Neste tipo de cultura. malgrado. como assinalamos. ainda como um entre os múltiplos atributos dos entes. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. A todas as coisas. vivas ou inanimadas. entretanto. nas culturas de base agrícola (pré-D). uma intencionalidade atuante. ainda que oculta. (Ver figura 12. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. é atribuído um sentido. em essência.

6 . A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade. a fio de espada. absoluto transcendente.Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular. CULTURA MONOTEÍSTA MAGIA ANALÓGICA I JUDAÍSMO MOSAICO Pré-D Pré-I MITO CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL Figura 12. da religião do Deus único. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). inseparável do pré-domínio do simbólico pleno ou convencional. o círculo de seus adoradores .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 305 expressão do lógico enquanto tal. que estiveram reunidos de dia. Como se fora numa pintura de Chagall. à volta do bezerro de ouro. em definitivo saída da Natureza para o mundo da Lógica ou da pré-Idéia. sabemos to- . não importa -. à noite. cuja gigantesca e emblemática figura. por nada subornável.três mil ou mais outros vinte tantos mil.

é Moisés. que se pode considerar como o fundamento lógico do trágico). O personagem símbolo aqui é Prometeu. Um segundo exemplo seria o da cultura grega comprometida com a lógica do outro ou da diferença (D). diria Hölderlin. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). posição que vai lhe custar o mais alto preço. porque é desta última. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo.7) CULTURA DO CONCEITO OU DO ESPÍRITO CRISTÃ DIALÉTICA PLATÔNICA POESIA EXORBITANTE I/D D I CULTURA GREGA CULTURA DA IDENTIDADE FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA Figura 12. em especial. que é doravante ser outro (dos deuses). Daí constituírem os gregos a cultura trágica por excelência.Cultura prometéica grega (D) .7 . E se vê condenado a não mais retroceder. um de costas para o outro. (Ver figura 12. que se alimentará o vigor criativo dos gregos.306 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dos. A relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. e não da outra. daquilo que foi e agora é falta).

do um-todo ou do Deus único.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 307 Para compreendê-lo em toda sua significação. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. mas Graça!). com a agravante de te- . sombra [31] Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. mas não chegara a realizar -.Hölderlin -: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. por falta do distanciamento. Para deixar isto ainda mais transparente. lamentablement. além. como tal. ao invés. Nesta. simular sua própria auto-superação como arte. por excesso de fingimento. A arte grega. o que encobre/ revela. ou seja. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. não produz filósofos e perguntas. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. Reparando bem. uma profusão de profetas e suas duras admoestações aos homens pela sua infidelidade à Promessa (que não é produto de roubo. La Grèce. particularmente a poesia trágica. pretensa extensão da Natureza . beauté suprême. de modo incontestável. mas. grega no caso. vale aqui apelar à sensibilidade do poeta . é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego.do que esta deveria. malabarismo para uma sobrevivência impossível . veremos que a pátria do ser. à imitação da própria imitação. a dissimulação que ela realmente é.

Il interprète plutôt le beau . como bem registra A República [33]. o que. sendo também mais universal e o mais universal. Hölderlin. Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico. mais individual.308 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO rem sido alertados em tempo por um dos seus maiores . A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão micrométrica. Por isso.que então exorbitava . Eugen Fink. alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). não por serem imitadores.e a filosofia. (negritos nossos)[35] Perceber tudo isso não é assim tão difícil. mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro. para que fosse ele buscado além. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique. no que respeita a pretensão do belo ao vero.Platão.. a verdade da parte pela da totalidade. como se vê. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. alguém que não faltou aos seus. viria a ser a prerrogativa própria da idéia (ou do conceito) [34]. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [32] do que um clarividente. chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual.. já lembrado. sabemos.

(negritos e colchete nossos)[38] . on lui arracha son prétendu masque divin. par conséquent sans savoir réelllement. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. Fink nos proporciona um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. des spectacles contre qui la pensée métaphysique { isto é. Dans un pressentiment obscur. mimésis. . como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. la poésie imite le vrai savoir. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure.. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 309 comme chemin et échelon vers le vrai. La poésie est essenciellemente mimétique. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre. mas era algo essencial à própria afirmação da filosofia (bem entendido. [36] Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos. imitation d’une imitation.. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. para Platão. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie... originelle. Cependent elle est imitatio. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. la poésie devient alors.. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. (negritos nossos)[37] Muito importante é observar que.

310 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A nosso juízo. esboça seus primeiros traços em Platão. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. isto é. Diferencia-se da cultura de base agrícola (Pré-D) porque esta se põe como outra da Natureza. no entanto. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o . a pré-I? Como poderia se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. porém. no conflito da idéia com o excessivo poético que. recordemos. Já pertence. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). em Théorie de la religion [39]. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. por ser lógica e historicamente primeira. Georges Bataille. Como último exemplo. para sobreviver. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/D= =I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” anterior à “lógica”. dissimulado. ao mundo da cultura. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. apresenta algumas interessantes peculiaridades. vamos tomar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores que dominou o período paleolítico e que. pois. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega mais do que 600 anos após à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. no caso. como visto. viver da caça a outros animais. que.

como a água na água.8) PINTURA RUPESTRE CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-D Pré-I HERÓI MÍTICO CULTURA ANIMALIDADE IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL O ANIMALIDADE Figura 12. (Ver figura 12. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. Com isso. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico.ganho da animalidade (I/D) para humanidade (I/D/2). ou seja. A condição de caçador o identifica com a caça. mas da renúncia a um ganho lógico . diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (pré-I). vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (anterior a pré-I). compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. mas. no que tange ao seu modo desejante. para sobreviver.8. Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. concluímos que as culturas tribais. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. o fato é que já se pode lá assegurar a . Apenas deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico. na sua própria expressão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 311 alimentar-se de e ser alimento por outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. Em outras palavras. nem assim constituem uma verdadeira exceção. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral.

O autor da proeza está historicamente perdido. não mais se o devora e sim o escraviza. animais e homens. postergando o advento da cultura de base agrícola. não mais como o que se perdeu. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura de base agrícolas (Pré-D). (Ver figura 9) Toda esta artimanha representativa. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente!) criada pelos xamãs para a conservação de seus poderes. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. isto é. de penetrar nos corpos dos humanos. ou ainda por um espírito ou por um deus. Reconhecemos aí o herói . conforme nos ensina ainda. e mesmo em se tratando de um semelhante. e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). especificamente. mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. no entanto. Visa-se o outro agora como meio. Para tanto. inclusive também os deuses. mortos ou vivos. Isto posto. por força de um movimento de subversão cultural. contudo. isto é. da caça aleatória para a caça assegurada. pelo trabalho agrícola. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior.312 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vigência de algum tipo de xamanismo. Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pela lógica da identidade de todos os entes. quando já se desenhava para eles o espectro da agricultura. Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. precisariam simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. [40] O fingimento nas culturas tribais. irá por água abaixo.

fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto unotrino desejado (I/D). trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da sociedade de base agrícola. Sua face desejante situa-se bem no cerne de seu glorioso cientificismo . que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2).tempo (T). spin. força. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D). fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. jamais. porém.suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade.10) O mais notável dos feitos de Newton . espaço (L) e matéria (M) . porém. entretanto. a Física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). Discute-se tudo na Física.tempo ab- 12. desejosa do uno-trino (I/D). energia. particularmente hoje. que sejam eles três . De fato. O fez. Einstein e tantos outros.foi. aceleração. A Modernidade . põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. corrente elétrica. (Ver figura12. Em suas grandes crises. sua face disfarce é a técnica e seus excessos. a biopirotecnologia. como se fossem três absolutos . espaço e matéria.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 313 prometéico. mas as equações matemáticas segundo os quais o mundo fora criado. indução magnética. temperatura e o diabo [43]. a Física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2). entretanto. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses.4. Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [41]. Seus grandes heróis são Galileu. pressão. Em suma. com sua mecânica.pré-assistido por Galileu e alguns outros .a Física [42]. Newton.

Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . relatividade geral. a história da Física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu comprometimento mútuo. Se não uma “heresia triteísta .relatividade restrita. espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível. A técnica. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzi- . à plenitude lógica. eletrodinâmica quântica . está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética. a partir de então. mecânica quântica. CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA POR VIR I/D/ SUPERAÇÃO 2 PÓS-MODERNIDADE BIOTECNOLOGIA ESPETACULAR CULTURA CIENTÍFICA MODERNA D/2 I/D CULTURA TRINITÁRIA CRISTÃ FÍSICA (CÁLCULO DO UNO/TRINO: REDUZUIDO A TEMPO. pelo menos um gritante e bem compacto oxímoro. daí porque. enganadora. em especial a biotecnologia.10 – A Modernidade De outro lado. simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [44]. ESPAÇO E MASSA) Figura 12.314 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO soluto. de certo modo.

mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das de- . de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. assim para toda a eternidade! A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. omissos. Continuaremos tal como somos . em compensação. É o velho demônio” de volta.egoístas. não chega à hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). de modo obrigatório. contra a morte em geral no mundo. nada solidários. A lógica da técnica. sim. respectivamente. seres vivos e memórias. do homem em todos os seus pormenores. metamorfoseado. inclusive. enfatuados. em juvenil anjo de Maxwell. não se sabe como. O avião já em vôo não é tecnologia. de outro lado. a lógica clássica ou formal (D/2) e a lógica transcendental ou da identidade (I). de um lado. insensíveis. agora. futuramente. além de um saber da aerodinâmica (D/2). mas novo saber cristalizado (D/2). também a inabalável determinação para fazê-lo (I). Na técnica concorrem. pois. cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. o saber científico. Para se chegar a voar é preciso. a determinação ou o empenho numa realização. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. deixa bem à mostra (e de costas) quão risíveis são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume como da recomposição informacional de todas as coisas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 315 dos (os transplantes seriam já uma preparação para tanto). sem qualquer imaginação. fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. É também o fim da História que tanto se apregoa. constituindo-se apenas em seu arremedo. mas. entretanto. o que. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. a propósito. mesquinhos.

exigiria muito mais: para começar. com toda a precisão. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica para buscá-lo à frente. não se pode apresentar ainda fatos. por razões óbvias. Poder-se-ia assim dizer. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna (D/2). o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. mas talvez milhões ao mesmo tempo. coetâneo e co-fundador na fixação das bases do cientificismo que viria justamente constituir a essência da modernidade?! [46] Eis. Não é difícil. a rigor.316 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO terminações à lógica formal da ciência . como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). ou seja. a recuperação das lógicas da diferença (D) e dialética (I/D). da razão autenticamente feminina [45]. mas tão apenas conjecturas. além. das organizações burocráticas e similares. A verdadeira síntese qüinqüitária (I/D/2). em linhas muito gerais.à lógica transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. lá. das regras de poder. Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). . o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos. animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. vislumbrar como se dará a superação da Modernidade. para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. entretanto. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária (I/D/2) através da pseudo síntese machista da ciência (D/2) e de seu sujeito sujeitado (I). Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. Daqui por diante. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica.a sistematicidade -.

Por quê? Porque afirmou que o mundo objetivo era geometria. A Modernidade. era ser-calculável. obedecendo à lógica do terceiro excluído. Este é verdadeiramente o nosso grande conflito interno. entre a formação cultural brasileira.5. para nós. A partir daí fica fácil perceber a essência do problema da incompatibilidade entre a formação social do Brasil. tendo como seu sujeito.11. Em suma. mas como a questão da sua ocultação ou dissimulação. completa- 12. de Sérgio Buarque de Holanda. aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética. Mas acho que temos que aprofundar e entender melhor como se dá essa incompatibilidade e porque persiste este dilema. entrementes. fundada por Portugal. é. uma nação que chegou a liderar o processo europeu de modernização. Entretanto. Desde Raízes do Brasil. tem que ser olhada não como a questão da opção por um paradigma.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 317 mas tão somente a sua subordinação ao Pensamento. Sabemos todos que Descartes é quem inaugura (reflexivamente) a Modernidade. o cogito. pode ter o problema de se haver com a Modernidade? Não pode ser isto. e a Modernidade. Ainda que inconscientemente. no fundo. como uma nação que nasce com a Modernidade. O Brasil e a Modernidade . a problemática brasileira é posta em termos do dilema ser ou modernizar [47]. o que se está sempre na verdade evitando ou ocultando é a questão de quem deva ser o sujeito da modernização (racionalização) que. Vamos tentar esclarecê-lo com a ajuda da figura 12. ou melhor. um discurso acerca de qual opção de sujeito da ciência se intenciona deveras dissimular. como de resto todo o discurso (ideológico) sobre a Modernidade. ali está posto de maneira implícita. todo esse alarido sobre a modernização brasileira.

de uma catástrofe natural ou artificial. [48] Todos os filmes americanos são a mesma coisa .318 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente transparente a si mesmo. aí ocorre o contingente. mas nunca a comunidade – e. de índios.11 . de qualquer coisa que o faz degringolar. obviamente -: existe um sistema comunitário funcionando. de ETs. sujeito liberal. Então surge um sujeito isolado – às vezes até um punhado de indivíduos isolados. que pode ser a chegada da estrada de ferro. o famigerado herói fordiano . põe de novo o sistema em funcionamento.uma caricatura. de um bando de assaltantes. sujeito de projeto. ou. se quisermos.Problemática cultural brasileira . Figura 12. depois de derrotar a adversidade.

E ganhou vários Oscars! E muita gente pensa ingenuamente que eles perdem tempo em Hollywood fazendo filmes só para nos enganar. mas a cultura da sistematicidade. não uma lição de vida (cultural americana. não se podia mesmo ter uma cultura viva que fosse estritamente científica. não dá para ele próprio gerar outra coisa. ou 1100. procedia à aristotelização de sua teologia. a lógica funerária. um organograma. O sistema não pode por si produzir outro sistema. por exemplo. Quando se faz um sistema de folha de pagamento. Logo. para educar. Não! Eles fazem filmes para reiterar o que são. é a junta médica que pretende fazê-lo –. a única coisa que se enquadra bem nesta lógica . A consolidação da Modernidade. não é o sistema vigente [49]. portanto. Desvelar e instalar o sujeito da ciência. porque nós não conseguimos ver o filme. mas como simples entretenimento). demorou cerca de 500 anos.um retângulo com uma porção de retângulos dentro . sujeito intervalar entre dois sistemas. não pela adoção do cientificismo. contra o exército americano. O que se pode sacralizar. ainda que similar. passando do radical trinitarismo de Santo Agostinho (dialético I/D) para o tomismo (lógico-clássico D/2). ou seja.é o cemitério. ou 1250. poderia facilmente perceber isso: o sujeito se rebela contra a junta médica – não é um médico que vai cortar a perna do herói. mas pela descoberta do sujeito que . ao final. é uma história de seguidas insubordinações. uma álgebra axiomatizada. depois também vendem para cá sem correrem o menor perigo de que os imitemos. Para tanto. nós vemos outro filme. Tudo começa no ano 1000. contra o regimento. a lógica do sistema é a lógica da morte.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 319 Quem viu. o cientificismo. o sujeito liberal. É necessário para tanto um sujeito fordiano. Dançando com lobos. Porém. com a própria Igreja tentando demonstrar para todo mundo que a ciência seria desnecessária. que tinha uma tática e ele executa outra por conta própria.

havia a necessidade de dar-lhe uma resposta. a Igreja deixou emergir o jesuitismo latente. o tinham por lá até bastante. todos os cientistas estão a serviço da reprodução dos sistemas. Então. precisamente aquela de um sujeito fordiano. Embora Portugal e Espanha tivessem dado partida à Modernidade. para permitir que os sistemas se reproduzam. à racionalização/burocratização do mundo. não constituíram/ consolidaram o sujeito que lhes seria apropriado. imediatamente. que formula uma contra-proposta (contrareforma): no lugar do sujeito calvinista (I) colocar-seia um sujeito coletivo (I/D). depois que o protestantismo colocou a sua solução. veremos a turma que segue o paradigma americano propor que as verbas sejam dadas aos indivíduos que apresentem o melhor projeto. propondo que as verbas sejam destinadas à criação de tecnologias que venham contribuir para resolver os graves problemas “sociais” [52]. ou seja. a turma à “esquerda” contra-ataca. porém. Existiriam alternativas? O mais interessante é que esta questão se pôs logo no início da Modernidade.320 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lhe seria próprio. obviamente representado por um sujeito simbólico absoluto (delegado do Absoluto). Ou melhor. mas o expulsaram! [51] O problema é pois quem deva ser o sujeito do sistema. foi obra dos protestantes [50]. É sempre a mesma coisa! Nós temos uma enorme dificuldade em aceitar aquele su- . sujeito de projeto. desenvolvimento tecnológico. não se mantiveram na vanguarda porque acreditaram que lhes bastasse o Tratado de Tordesilhas (a lógica do terceiro excluído imposto ao mundo com a benção de Deus). a ciência vai ser feita para quem. Assistindo-se a uma reunião em Brasília sobre. o sujeito liberal. há também uma liberdade de fato. por exemplo. Por isso. A cúpula da Igreja não queria discutir sujeito nenhum. por quem e em proveito de quem? No paradigma anglo-saxão.

uma reforma “modernizadora” no sentido dos tzares: ciência sim. fazer sucesso. Santo Inácio. no caso. o sujeito liberal ou fordiano.de querer aparecer. precisa ser representado por um sujeito emblemático absoluto: é a proposta ciência e absolutismo. ele fez de conta que acabou com a Ordem. e os ibéricos mais ainda o apertam até que a Ordem é “dissolvida”. a proposta jesuítica é a de um sujeito coletivo que. e nada tem a ver com a ciência propriamente dita. no fundo .não é o que diz Redondi. exatamente por tal. pressionam um Papa. a ciência deveria ser feita coleti- . ela ordenaria “ortodoxar” a Polônia”. pressionam o seguinte. Resumindo. E.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 321 jeito individualista. A Polônia ficou católico-romana exatamente porque o Papa recuou. Em que escola Lenin poderia ter aprendido o que fazer?! A exata fórmula jesuítica! É o maior absurdo dizer que a Igreja era contra a ciência se os jesuítas. Ele foi acusado formalmente do não cumprimento de sua palavra e. que acaba louco. era uma parte da Polônia ocupada. Quem leu o livro do Pietro Redondi. [53] verifica claramente que o problema de Galileu não é com a Igreja. com os jesuítas. entrementes. se tornar um mau exemplo. uma boa leva de seus integrantes continuou se refugiando na Rússia que. foram se formar na Sorbonne. inclusive científico. Com que finalidade? Para ajudar numa reforma educacional. Catarina da Rússia então os recebe na Polônia e chega a ameaçar o Papa: se insistisse em dissolver a Ordem em seus domínios. ser aquele que fazia ciência para ele próprio “faturar”. mas do texto facilmente se o depreende . Galileu herético. sim. para os jesuítas. e. que sobe no muro e passa três anos procrastinando a decisão. mas com um sujeito coletivo representado pelo monarca absoluto. É incrível a carga que o Marquês de Pombal e os espanhóis fazem sobre a Ordem dos Jesuítas. todo jesuíta é formado em alguma coisa de cunho acadêmico. desde o fundador. isto é. até hoje.

é a lógica do sistema (D/2) que prevalece e o exemplo evidente é a URSS.11). é ciência (D/2) com sujeito coletivo (I/D) representado pelo Imperador.322 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vamente e em benefício da coletividade. pretende-se que a comunidade ou o ser-comunitário (I/D) vá se servir da ciência (D/2) em seu próprio benefício. Basta lembrar a expressão socialismo científico: socialismo é o sujei- . pois. O que se está chamando hoje capitalismo confucionista. é uma solução impossível. que faz do último sujeito tributário do primeiro [ver de novo figura 12. só que optar pelo sujeito coletivo e ao mesmo tempo fazê-lo determinante. O que há aí de importante que precisa ser visto? A maioria das “pessoas de esquerda” no Brasil acha isso bom e nós também. não vai perverter jamais [54]. ou capitalismo oriental. do Japão. Mas quando é proposta a solução à esquerda (D/2 com I/D). como mostramos no item 1. já estando pervertido. Começou-se lá com a intenção de colocar a ciência a serviço do coletivo (NEP). pois o indivíduo do projeto (I) está a serviço do sistema. O capitalismo anglo-saxão não tem esse problema. não se pode inverter a seta que no capitalismo anglo-saxão ou paradigmático vai do sistema para o sujeito. pelo Secretário Geral do Partido Comunista Chinês no continente e pelo patriarca da “família alargada” na diáspora chinesa por todo o mundo. é também disso uma variante. Ficou desde então este tipo de “alternativa . mas sabe-se hoje no que isto. A seta que iria do sujeito coletivo para a ciência vai se inverter e se irá ter uma burocracia usando de uma ideologia para dominar a massa. Em última instância. no caso. e não tributário ou intervalar. de fato. Tudo por uma simples razão: a lógica clássica (D/2) pressupõe e subsume a dialética (I/D). ela é produto já de um ciclo contra-dialético. Isto é a grande ilusão de todas as esquerdas. Então. a primeira é lógica de um pensar mais poderoso do que a última. resultou. sub-repticiamente também se propõe inverter a seta.

a Modernidade).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 323 to como ser coletivo (I/D) e científico é o mundo objetivo (D/2). Existe. mas estão agora acabando com o respeito aos velhos. Maior evidência não existe! Não é isso que toda empresa faz? Sozinha. na verdade. ele só está resistindo um pouco mais à perversão em razão de sua grande homogeneidade cultural. da História? A faz história calculada. Com o esfacelamento da URSS. sendo. ou seja. que é a do sujeito romântico. isto porque são elas justamente as lógicas que a Modernidade está recalcando/desnaturando.. se baseia em ambos: ele é a afirmação das lógicas da diagonal masculina (I e D/2). entretanto. isto está hoje mais do que comprovado. eles aprenderam a bem usar a ciência e a técnica. O que faz ela da dialética (I/D). entretanto. a lógica clássica posta a serviço da dialética. a posição dialética (I/D) não é o lugar de uma solução. Assim. Pelo mesmo raciocínio. ele se baseia na racionalização do mundo (D/ 2 ) ou então no sujeito schumpeteriano (I) . é apenas o lugar para uma crítica. sujeito inconsciente. uma outra alternativa. é repetir Descartes. ou. povo. baseado num sujeito coletivo (I/D). o empresário samurai. de certa forma. portanto. mas não para propor um sistema alternativo. a estabilidade do emprego etc. quem está apostando na China como a grande nação capitalista do século XXI irá se decepcionar. Marx é importante para criticar o capitalismo (melhor diríamos. Todos que se manifestam a favor do capitalismo dizem que. . o que levará à sua própria dissolução cultural. sujeito poético. Precisa-se explicar mais?! O Japão vai pelo mesmo caminho. A Modernidade. os possíveis lugares de sua crítica. Entremos numa empresa qualquer: a primeira coisa que se irá constatar é a obsessiva pré-ocupação com o cálculo da taxa de retorno do capital. em essência. As outras duas lógicas (I/D e D) constituem o avesso da Modernidade. sujeito telúrico. bem perto de nós.o que.

velhos rivais do logos heraclítico (D) [56]. porque tem lá sua cabeça jesuítica.324 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito libidinal. entretanto. O fascismo é uma alternativa. Se fraqueja com a idade. mas o mesmo não se pode ainda seguramente afirmar do fascismo! Entrementes.bem diferente da nossa. (Retornar à figura 12. é óbvio . não faz uma grande doação benemerente a . perverte. A tendência da “elite” brasileira – a generalização aqui é. mas no aspecto educacional sempre houve a preponderância do luso-jesuítico. o marketing. Ele pode ficar rico. e o fascismo é uma resposta antecipada ao consumismo. o capitalismo e o seu novo motor. mas sempre com a consciência culpada. ou capitalismo de marketing. o inimigo da Alemanha (dizia Europa) não era apenas a URSS (sujeito I/D).que sabe bem o que é cultura e sua importância. Nós temos uma formação ibérica forte. bem depressa. Para Heidegger. com o sujeito romântico (D) no lugar do sujeito liberal (I). Foi precisamente por isso que ela respondeu por antecipação ao consumismo [55]. à acumulação pré-calculada do capital. O indivíduo aqui tem mesmo vergonha de ter lucro. e como já se viu. um exagero – é comunitário/absolutista (I/D). ou seja. vigente no paradigma anglo-saxão. porque também inverte a direção da determinação ciência/sujeito.11) A Alemanha tem uma elite . uma pseudo alternativa para a Modernidade. antes do que em qualquer outro lugar. mas igualmente os EUA (sujeito I). o comunismo não tem mais futuro. Vê-se agora uma simetria temporal perfeita: o marxismo é uma resposta retardada ao cálculo da História. vale dizer. melhor dito. sem dúvida. Por isso. Foi precisamente por isto que o fascismo apareceu tardiamente (como força social) em relação ao socialismo. Lá começou-se a sentir. como um agressor da cultura. justo quando o capitalismo começava a deixar de ser produtivista para tornar-se essencialmente consumista.

na circunstância) para sujeito ostensivamente libidinal (D)! E o povão [57]. e ninguém quer saber do projeto (I). puxa para o lado do sujeito libidinal (uma forma arcaica de D: pré-D). Ou seja. Não há quem não o queira. mas simplesmente muda (se fantasia. empresarial e até intelectual está traindo a causa brasileira. O único jeito de o fazer é acabar com a elite. pré-D). principalmente onde pesa mais a cultura africana. dizem de um lado. mas ninguém quer se botar no devido lugar (I). Entrementes. mais precisamente. ou mesmo fazê-lo o ano inteiro para poder desfilar condignamente no Carnaval. poder tomar sossegadamente sua cerveja com os amigos. se diz que com esse “povinho” não dá. Boa parte de nossa “elite” política. trabalhar racional e disciplinadamente sim. com isso. incrível. Há um artigo seu. Daí. embora nós não queiramos ver (por isso se diz que o Brasil cresce à noite. no qual afirma que o índio é preguiçoso. inves- . O atual Governo está mais ou menos seguindo esta dupla receita: põe a classe média para vender cachorro-quente e assim. matar de fome a baiana do acarajé. como nos EUA. a dificuldade de modernizar o Brasil. mas para então poder gozar mais. no juízo (ou ausência de juízo) dele. De outro lado. o Brasil está sendo construído. Por que não se consegue modernizar o Brasil? Porque a elite puxa para o sujeito coletivo/absolutista (I/D) e o povão puxa para o sujeito libidinal (D. não dá para fazer nada. o negro só quer saber de magia e o português é patrimonialista. e vende a economia brasileira em bloco para empresários monopolistas estrangeiros. vale dizer. melhor se diria.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 325 uma universidade ou instituição filantrópica. com toda nossa herança histórico-cultural. Trabalhar duro a semana inteira para. pela concorrência. Não se aproveita nada – é o que o Roberto Campos nos ensina. sem ninguém ver ou atrapalhar). na sexta à noite.

para quê? Para ocultar nossa grande alternativa. haveremos de chegar lá. um nível de desenvolvimento cultural que seria o de uma cultura qüinqüitária. no pensamento único. eclesiásticas e intelectuais. e nós já estamos bem próximos de alcançá-los! Apesar da cegueira das nossas “elites” políticas. mais do que quaisquer outros. Construir uma cultura é tarefa para 500 anos ou mais. ele o é deveras à originalidade. o Brasil não é um bom candidato ao luxo. na qual exatamente deveríamos apostar. ainda.326 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tindo no fim da História. . militares. para nós não há saída à esquerda e não há saída à direita. como acreditava Darcy Ribeiro. empresariais. Em suma. porque temos. na síntese. que está. Só há uma coisa para a qual temos vocação: é a síntese lógicoqüinqüitária. Eu não digo que o Brasil está pronto. Ademais. pelo menos. ele está quase. todos os componentes de base para tanto. e também não adianta insistir em entrar para a Modernidade. por vir. Há.

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Notas

Capítulo 1

1. THOMAS, Louis-Vincent. A etnologia, mistificações e desmistificações in História da Filosofia – Idéias e doutrinas, dir. F. Châtelet, v.7. Rio de Janeiro, Zahar, 1974 2. LEIBNIZ, G. W. Princípios da Natureza e da Graça in Obras Escolhidas, Lisboa, L. Horizonte, ?. p. 149. 3. KANT, Crítica da Razão Pura, Lisboa, Gulbenkian, 1989. 4. O infinito matemático é um artifício para justamente ocultar, no mundo da matemática, a problemática do Absoluto, assim como o zero é o artifício similar para ocultar o Nada, que nos imporia a incômoda questão da origem dos números. Portanto, a atribuição da infinitude, qualificada ou não, feita ao Absoluto é um péssimo costume dos teólogos, na medida que sua essência é precisamente a ocultação, se não do Absoluto, pelo menos da visibilidade de sua simples problemática. 5. Só para exemplificar: I think the Anthropic Cosmological Principle brings us to an idea perhaps as old as humanity itself: that we are not at all just an accidental anomaly, the microscopic caprice of a tiny particle whirling in the endless depths of the universe. Instead, we are mysteriously connected to the entire universe, we are mirroured in it, just as the entire evolution of the universe is mirroured in us. HAVEL., Vacláv. The Need for Transcendence in the Postmdern World in THE FUTURIST, July-August, 1995. p.48. 6. SAMPAIO, L. S. C. de. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Rio de Janeiro, setembro, 1999 7. ______. Superação das idolatrias - a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária, Rio de Janeiro, novembro de 1999. 8. ______. Remanejamento das Relações Indivíduo/Sociedade na Cultura Nova Lógico-qüinqüitária. Rio de Janeiro, janeiro, 2000 (acrescentado a posteriori).

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1. Não desconhecemos que expressão semelhante foi usada há muito por George Balandier no título mesmo de seu livro ANTHROPO-LOGiQUES, Paris, PUF, 1974, mas, o próprio leitor poderá verificar, com uma motivação bem diferente da nossa. 2.Um semimonóide é uma estrutura algébrica, por nós definida, munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento, associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados, não importa se a direita ou a esquerda. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados, ainda pela operação/, indefinidamente, a partir de um conjunto finito de elementos fundamentais. Ver Sampaio, L. S. C. de, A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa, nua, na passagem dos semigrupos aos monóides in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios, Rio de Janeiro, EdUERJ, 1999. 3. Ser um operador nulo à direita é não exercer qualquer efeito quando ocorre à direita de outro operador. Assim, no monóide livre básico que representa a estrutura formal das lógicas,temos para qualquer X, X/I=X, em particular, D/I=D, o que já não acontece quando I ocorre à esquerda, pois, I/D ¹D. 4. Uma observação importantíssima é a de que, por exemplo, em sua máxima generalidade, D/2 não é uma forma abreviada de D/D, mas de (D)/(I/D), e que portanto a lógica clássica pressupõe a lógica dialética e, de certo modo, nega ao mesmo tempo que herda boa parte de seu enorme poder: a lógica clássica é, por isto mesmo, uma lógica das totalidades convencionadas, destarte, pai e mãe da matemática. Para maiores detalhes, ver SAMPAIO, L. S. C. de Lacan e as lógicas, Rio, 1992 (xerografado) e, ainda do mesmo autor, Dialética trinitária versus hiper-dialética qüinqüitária, in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit. 5. O termo qüinqüitário, no presente contexto, refere-se a uma lógica que subsume cinco lógicas, ou seja, à lógica I/D/2, assim como o termo unário referenciar-se-ia a uma lógica que subsume apenas a si mesma, a lógica transcendental ou da identidade I, e o termo trinitário, a uma lógica que subsume três lógicas, vale dizer, à lógica dialética I/D. 6. Na impossibilidade de explicações mais demoradas, confiamos nos conhecimentos e na intuição do leitor para identificar em alguns campos de saber o exato momento de passagem da estrutura conceitual trinitária à qüinqüitária. Na física, ele situar-se-ia na passagem dos leptons aos barions; na psicanálise, na passagem da fase fálica àquela de assunção da sexualidade propriamente humana ou tetrapolar; em eco-

Capítulo 2

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nomia, na passagem do feudalismo ao capitalismo; na etnologia, na passagem da cultura cristã trinitária ou patrística à modernidade cietífico-tecnológica; na semiologia, na passagem do símbolo ao discurso. 7. Acompanhando com atenção o seguinte texto lacaniano, mais facilmente consolidaremos nossa certeza de que a lógica da diferença D, também lógica do significante e da verdade parcial, tem por verdade própria o gozo: “Isso só se goza por corporizá-lo de maneira significante. O que implica algo que não o partes extra partes da substância extensa. Como o sublinha admiravelmente essa espécie de kantiano que era Sade, só se pode gozar de uma parte do corpo do Outro, pela simples razão de que jamais se viu um corpo enrolar-se completamente, até incluí-lo e fagocitá-lo, em torno do corpo do Outro. É por isso que somos reduzidos a um estreitamentozinho assim, a tomarmos um antebraço, ou não importa o quê - puxa!”. O Seminário, livro 20, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 35. Negritos nossos. 8. Quanto a que a dialética I/D tenha a vitória como sua verdade própria é suficiente atentarmos para o fato de que a História, por definição, já fez a sua escolha: sempre, pela “razão’” do vencedor. Ela é parcial e total pela simples razão de que todos os elementos em luta querem impor ao todo sua verdade, por definição, parcial ou partidária, o que aliás é uma impossibilidade. Muito se reclama por aí de que não se façam histórias dos vencidos; não poderia ser doutra forma, já que a verdade da dialética é mesmo a vitória. O que aconteceu de pior com o marxismo real não veio de uma acidental loucura, mas, de modo inexorável, de sua herança lógico-hegeliana. Para que ninguém se sinta com isso acabrunhado ou desiludido, alertamos que a dialética I/D, para o homem, não é sua lógica maior. 9. Trata-se do postulado que na física interna a ação de medir, que, em sua idade clássica, era algo de fantasmagórico; isto tornou-se essencial para a mecânica quântica cujos objetos são, em geral, microdimensionais e por isso facilmente perturbáveis. A rigor, o postulado refere-se a uma segunda medida que, em razão da continuidade do mundo, se executada imediatamente após a primeira, precisaria repetirlhe o resultado. Na primeira, teríamos Opy* fornecendo um número n e jogando o mundo num estado y ligeiramente diferente de y*. 10. Operadores hermitianos são aqueles cujos valores próprios são sempre números reais. Na lógica, tivemos que abandonar esta restrição que vige na mecânica quântica para podermos incluir num mesmo formalismo também o operador S, S tal que S3(y) = y, que representa a lógica do ser

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humano em sua plenitude, ou seja, I/D/2 , que dentre seus três valores próprios possui dois deles com parte imaginária. A propósito, esta é a “razão formal pela qual o ser humano só chega à plenitude em no mínimo três (correlatos aos pronomes pessoais eu, tu, ele ou nós, vós, eles), como já observaram Freud e, com maior precisão, Lacan em seus Seminários. 11. Ouve-se dizer que ao animais são capazes de operar por reflexos condicionados, como se esta locução fosse uma explicação “materialista” em bases empíricas do comportamento animal. De fato ela é importante, mas apenas do ponto de vista lógico: a palavra reflexo é obviamente de natureza lógica I e a palavra condicionado, isto é, determinado por outro e não por si, de natureza lógica D; portanto, em conjunto, a locução define uma capacidade lógico-dialética I/D. Assim, o cachorro de Pavlov, é mais hegeliano do que marxista, mais dialético idealista do que propriamente materialista. 12. À lógica I/D/2 correspondem tanto o indivíduo quanto o coletivo, em particular, a família nuclear e, às quatro lógicas por ela subsumidas, os componentes familiares típicos: os masculinos, I ao pai e D/2 ao filho; os femininos, D à mãe e I/D à filha (ou virgem). Pareceria haver aqui um conflito agudo com a noção de família nuclear do estruturalismo, na qual se incluiria o tio materno e não a filha. Acontece que se pode “provar” que as duas noções são equivalentes diferençando-se apenas em que a estruturalista é a posteriori da troca e a nossa, a priori da mesma. Ademais, a lógica a ser adjudicada ao tio materno, seria precisamente I/D na medida em que ele é pai (I) na outra (D) família nuclear, no sentido por nós proposto. Devemos declarar que estes esclarecimentos só se tornaram possíveis graças às observações críticas do antropólogo Mercio Pereira Gomes a quem, obviamente, agradecemos, mas que nada tem a ver com o modo pelo qual tentamos superá-las. 13. Dizemos com toda a generalidade porque, seja no sentido teológico judaico-cristão, seja no da cosmologia moderna (hipótese do big bang). o mundo advindo terá que sê-lo necessariamente como espacial, como essencialmente res extensa, logo, múltiplo. A identidade só pode aí emergir por um artifício a posteriori que seria aquele do colapso de alguma diferença disponível. A força lógica deste argumento pode ser constatada na física moderna - nos modelos cosmológicos a 10 dimensões em que 6 colapsam , embora não desapareçam, resultando em nosso mundo aparente de 3+1 dimensões -, como também na embriologia, onde o tubo neural, inclusive o cérebro, resultam da invaginação (colapso) do tecido ectodérmico sensível, inicialmente disposto apenas como uma superfície.

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14. A pergunta pelo ser (I) exige a diferença ou o logos, ou seja, a filosofia (D); a pergunta pelo ser-objetivo (I/D) exige a dupla diferença, ou seja, a ciência (D/D) e portanto a pergunta pelo ser-humano (I/D/D) exigiria a tripla diferença, ou seja, “as ciências humanas”, o que , felizmente, é uma impossibilidade lógica, pois D/D/D não cabe em I/D/D. Ver Lógica e Realidade in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit.. 15. O princípio antrópico emerge da constatação de que admitidas mínimas variações nos valores das constantes universais transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo, que se tornaria impossível o advento do homem. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram, constantes e universais, então, desde o big bang, o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes, fecha-se o círculo: este Universo destinava-se, ab initio, ao homem, e o homem a ele; este é, em essência, o conteúdo do princípio antrópico. O princípio ainda sofre o repúdio de um número significativo de cosmólogos, entrementes, elaboramolhe uma versão baseada em argumentos não só físicos, mas igualmente lógicos, que não o deixa sujeito às restrições mais freqüentes até hoje contra ele levantadas. Para detalhes, ver Pricípio antrópico, a seguir neste volume. 16. Admitindo-se que a cultura egípcia, de fato, abeirou-se do monoteísmo. Ver especificamente MOISÉS E O MONOTEÍSMO - Freud, Obras psicológicas completas, v. XXIII, Imago, Rio, 1975 - sem que seja necessário concordar em toda latitude com as teses ali defendidas. 17. A referência aqui é ao diretor cinematográfico John Ford irlandês, embora atuando nos EUA - em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado, e tão logo o conseguia, deixava-se ir embora, solitário como chegara, pelas estradas. Pode-se haver algo mais expressivo do que isto, no caso?! 18. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato um velho questão que se arrasta até hoje, como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. O tema, não há dúvida, tem sido muito maltratado pelos pensadores da sociedade. Os marxistas, em especial, sempre o tiveram atravessado na garganta, desde Lenin, passando por Plekhànov, Adam Schaff, R. Garaudy, até chegarmos a Alain Badiou, que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico, sem a qual, é óbvio, tal problemática não poderia ser

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adequadamente tratada; ver Alain Badiou, Théorie du sujet, Paris, Seuil, 1982. 19. Ver especialmente O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO, Freud, Obras psicológicas completas, v. XXI, Imago, 1974. 20. Referimo-nos entre tantos outros a Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Novaes e José Miguel Wisnik. 21. Há muito fomos despertados para este tipo de questão pela leitura do provocante Linguagem e Realidade do pensador tcheco Vilém Flusser, publicado em 1963, quando ele ainda lecionava no Brasil. Só algum tempo depois é que tivemos notícia da tese similar hoje largamente conhecida como hipótese Whorf-Sapir. 22. O termo elite tem aqui um sentido bastante largo para ser aplicado o todos aqueles que exercem quaisquer posições de mando, não importa o nível da escala sócio-econômica considerada. 23. Em todas estas considerações omitimos o peso da nossa cultura autóctone, que classificamos como Pré-I ou ainda muito próxima deste tipo nodal. Em nossa opnião este tipo, por ser o mais originário, não traria um peso específico justamente por incarnar a cultura em sua generalidade. Não descartamos que uma compreensão mais profunda da problemática cultural brasileira venha nos obrigar a uma revisão profunda desta opinião.

Capítulo 3

1. Citado por I. M. BOCHENSKI, Historia de la Lógica Formal, Madrid, Gredos, 1976, p. 288. Tanto Bochenski quanto GILSON, Etiene (A filosofia na Idade Média, S Paulo, Martins Fontes, 1998) dão testemunho que a mathesis universalis de Leibinz teria sua inspiração na Ars Magna et Ultima de Lúlio. 2. LÉVY-BRUHL, La Mentalité Primitive, Paris, Retz, 1976 3. _______. Les Carnet de Lucien Lévy-Bruhl, Paris, PUF, 1949. 4. LÉVI-STRAUSS, Claude Antropologia Estrutural Um e Dois, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976 5. Bricolage: em geral, técnica oportunística de construção de novos objetos a partir do reaproveitamento de velhos objetos, de suas partes, até de seus caco ou pedaços. No caso, o termo está sendo transposto par o terreno simbólico e o reaproveitamento é fundamentalmente o de partes de estruturas conceituais já usadas em outros contextos. 6. Numa das sessões do XVII Congresso Nacional da SUSSESO, em 1984, quando ingenuamente falamos em pensamento pré-lógico - não no sentido de destituído de lógica, mas de ainda incapaz de uma representação simbólica objetiva de seu uso -, um companheiro de mesa, famoso

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antropólogo, do alto de sua autoridade midiático-doutoral, na impossibilidade de queimar-nos vivo pela heresia, teve um verdadeiro chilique diante do público. Inesquecível! 7. A remissão aos gregos é, na verdade, de natureza temática, pois como bem observou Mercio Pereira Gomes, do ponto de vista existencial, deveríamos remetermo-nos aos povos mais primitivos que, para simplesmente preservarem sua identidade, se vêm obrigados à operação lógica de nadificação do outro, ou seja, a se instituírem como os únicos verdadeiros humanos. Quanto às nossas opiniões, ver SAMPAIO, L. S. C. de, Noções de Antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, dezembro de 1996. (xerografado) e Desejo, fingimento e superação na história da cultura, Rio de Janeiro, 1998 (xerografado) 8. SAMPAIO, L. S. C. de. Noções Elementares de Lógica – Compacto, versão abreviada e significativamente modificada do volume I de obra homônima, Rio de Janeiro, I. CulturaNova, 1991 (xerografado) ou, numa versão mais recente BARBOSA, M. C. As Lógicas - As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. S. Paulo, Makron Books,1998. 9. SAMPAIO, Noções de antropo-logia, op. cit. . 10. ARISTÓTELES, Política, Brasília, UnB, 1988. I,2,1253 a 11.HEIDEGGER, M., Heráclito Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1998. Também nossos comentários em SAMPAIO, L. C. S. de, Crítica da Cultura. Rio de Janeiro, 1999. 12.Poder-se-ia argüir que em Heráclito o logos não é propriamente um atributo do homem como seria a razão em Aristóteles. Contudo, a confrontação continuaria ainda assim pertinente na medida em que, para Heráclito, estaria implícita como característica especificamente humana a capacidade de “escuta” do logos. 13. A afirmação que a competência para pensar, ou seja, para operar segundo a lógica está fundamentalmente associada à existência do sistema nervoso central (SNC) parece-nos óbvia, embora não nos pareça ainda fácil apontar em todos os casos as bases fisiológicas em que se apoia tal certeza. Vamos tentar justificar a afirmação precisamente no caso que nos parece de todos o mais problemático: o pensar consciente governado pela lógica transcendental (I). Começamos rastreando o processo de formação do SNC. Já mesmo em alguns entes unicelulares se pode distinguir regiões especificamente sensitivas e outras motoras (USHERWOOD, P. N. R. Sistemas nervosos, S. Paulo, Nacional-EDUSP, 1977). O primeiro passo na especialização funcional a nível celular se dá nos organismos pluricelulares, quando aparecem algumas células com funções exclusivamente sensoriais, e outras, exclusivamente motoras. Temos um terceiro momento, presente já em alguns

Consuma-se um novo passo com o aparecimento dos gânglios – formação cerrada de corpos neurais – que assumem. Dizemos que há uma superação desta limitação quando “informações substantivas” recebem codificação de mesma natureza que “informações relacionais” (informação sobre relações de “informações substantivas”) e “informações processuais” (informações sobre transformações de “informações substanciais”). temos regiões especializadas no trato de canais olfativos. Contando do extremo para traz temos o prosencéfalo (que ainda se diferencia em telencéfalo e diencéfalo). adicionalmente. cinestésicos e luminosos. possibilitando a ativação de canais de transmissão de alta velocidade. e por fim. que ocorra uma homogeneização na codificação dos sinais digitais. Importa destacar que o simples aparecimento de células especializadas em transmissão é a pré-condição da digitalização dos sinais nervosos. O passo seguinte é o aparecimento do tubo neural nos vertebrados e do cérebro: série de três intumescências que se formam na extremidade do referido tubo. assumirão funções de comutação de sinais. posto que só assim o animal terá condições de uma representação simultânea e compatí- . que paralelamente expande sua complexidade por meio de “dobramentos e redobramentos” que vão acabar dando o aspecto típico do cérebro humano. é uma condição fundamental para a emergência da consciência. que informações provenientes de órgãos de sensibilidade diferenciadas sejam representadas por sinais elétricos digitais da mesmo tipo. o mesencéfalo ou cérebro médio. Do ponto de vista funcional. entre algumas outras. O surgimento de gânglios com funções integradoras pressupõe. Consolida-se um novo degrau de complexidade/especialização com a emergência de células inter-neuroniais que. ainda vindo no mesmo sentido. Com o cérebro surge a possibilidade de um verdadeiro processamento de sinais o que pressupõe a superação das limitações hierárquicas dos tipos (no preciso sentido que lhe dá Bertrand Russell). em que aparecem células com função especializadas na pura transmissão de sinais (neurônios propriamente ditos) ligando células sensoriais a células motoras. as funções de integração de informações provenientes de diferentes órgãos sensoriais. a nosso juízo. isto irá viabilizar o aumento do porte do animal sem perdas no grau já alcançado de integridade/integração. o rombencéfalo. entre outras. isto é. Estes canais permitem que sejam conservados os tempos de resposta mesmo a maiores distâncias.334 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celenterados. A expansão envolvente da formação extrema (antes preponderantemente olfativa) dá nascimento à córtex. Esta homogeneidade de codificação.

desenvolver-se-á o cérebro. através dos nervos aferente. A figura a seguir nos mostra uma seqüência esquemática das fases de formação do tubo neural explicitando suas ligações com os órgãos sensoriais. Um fenômeno de enorme relevância é o modo como se dá a formação topológica do SNC dos vertebrados. que por sua atividade “auxiliar de limpeza” podem garantir a permanente condição de higiene num exíguo espaço onde ocorre tão gigantesco nível de atividades. Este fenômeno que ocorreu no curso da filogênese. Trata-se do processo de formação do tubo neural. que a seguir se interioriza e em torno do qual virá se formar a coluna vertebral protetora. Pode ser facilmente observado nos jovens embriões dos vertebrados como o tubo neural se forma pelo processo de invaginação do ectoderma dorsal. Este processo permite a formação de um tubo superficial. cerca de 10 vezes mais numerosas do que os próprios neurônios. e com os órgãos motores. Não temos espaço aqui para entrar em detalhes acerca das células gliares. em cuja extremidade anterior.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 335 vel tanto dos estados do mundo exterior quanto de seus próprios estados internos e de suas respectivas modificações. de certo modo. ECTODERMA SENSÍVEL DISPOSITIVOS MOTORES TUBO ÓRGÃOS SENSORIAIS NERVOS AFERENTES NEURAL (INTERIORIDADE) NERVOS EFERENTES ÓRGÃOS MOTORES . através dos nervos eferentes. que conduziu à emergência dos vertebrados é. já o vimos. recapitulado na sua ontogênese (fim da quarta semana).

na codificação digital dos impulsos das células sensíveis e. 1972]. Antes de encerrarmos esta nota. onde pode localizar suas origens míticas. este espaço imaginário chega a constituir um mundo onde se pode dar explicações para o bem e o mal. David A. As considerações topológicas referentes à formação do SNC nestes animais evidencia que. o que nos obriga a descartar o simples modelo bipolar em favor de um modelo tetrerapolar. Se o consideramos como sendo uma superfície orientada – suposição inteiramente razoável se tivermos em conta que se trata de um tecido de células sensíveis – constataremos que o SNC. no próprio processo de formação do SNC por via da invaginação do ectoderma. dramática e definitivamente. porém. que nele se cria um espaço interno em que se pode representar tanto o meio como seus próprios impulsos e disposições do próprio organismo. onde haveria espaço para discriminar quatro e não apenas duas intervenções: in-out-put. de certo modo. outout-put. No homem. poderíamos estabelecer as . 1979 e SMITH. suplementarmente. Methuen. M. de um avesso. in-in-put. Por outro lado. constituir uma interioridade no corpo (espacial) do animal. na homogeneização desta codificações com relação à diversidade de sensibilidades em jogo (diversos sentidos). a operação de identidade (I) se alicerçaria na homogeneidade da codificação no que diz respeito aos tipos lógicos e. constituiu-se também como uma superfície igualmente orientada. diríamos que o animal passa a dispor. Madrid.336 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria importante enfatizar alguns dos aspectos topológicos deste processo de invaginação do ectoderma. incluindo às vezes o próprio homem. Nestas circunstâncias. e além. de um lado. proporse como seu próprio enigma ou pura e simplesmente dissolver-se na loucura. levadas em consideração as orientações das superfícies em jogo. Alianza. El Cerebro. gozar o ilimitado poético e até. Numa linguagem um tanto informal. aproveitamos a ocasião para chamar a atenção sobre a insuficiência dos modelos condutivistas freqüentemente propostos para vertebrados. Em suma. sobretudo. pois. Esta especial orientação vai. London. behaviour and evolution. em termos de in-put e out-put e de uma única função de transformação os articulando. Brain. C. Constitui-se assim um espaço imaginário onde é possível até refugiar-se momentaneamente fugindo às excessivas pressões do mundo. em si. diríamos que a base filosófico para a operação lógico-diferencial (D) poderia estar. U. out-in-put. simular diferentes cursos de ação sem ter que pagar o imprevisível preço de uma efetiva experimentação. eles seriam dotados de um espaço interno. em direção contrária àquela do ectoderma que lhe deu origem [OAKLEY.

Théététe. pois. De modo geral o Iluminismo está comprometido com a liberdade (I) e com a razão formal (D/D). 1988 (xerografado). natureza. acerca do advento da cultura nova pós-científica. S. o capitalismo que criou o trabalho alienado nem o comunismo poderia aboli-lo. SAMPAIO. Muito pelo contrário. L.. emoção etc. SAMPAIO.in-input put SNC ação out-in. C. op. Fingimento e Subversão na História da Cultura. Um exame mais atento mostrará que o mais importante no Iluminismo é o que ele se propõe fazer. C. Parmênides. Cultura-Nova. sendo por isso. Flammarion. que acabava de ser recalcada justamente pela razão científica (D/D).. com a des-razão (coração. de Desejo. logicamente otimistas. 18. necessária e essencialmente trabalho alienado. Rio de Janeiro. Oficina do Autor/ etc. Não foi. Rio de Janeiro. talvez excessiva.out-output put 14. intuição. de . na circunstância. SAMPAIO. não é aí que vamos encontrar sua razão de ser nem aquela de suas variantes. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. 1999. C. logicamente otimistas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE seguintes correspondências: Sensação ↔ in-in-put Percepção ↔ in-out-put+ in-in-put Sensação cinestésica ↔ out-in-put Ação ↔ out-in-put + out-out-put. Inst. PLATON. de Reflexões. 1967 15. Paris. 16.) (D). SAMPAIO. Para maiores detalhes ver figura abaixo. esquema lógico que desde Descartes caracteriza a Modernidade: logo. 337 percepção in-out. Reflexões. S. Rio de Janeiro. . 1999 17. Não estamos aqui referendando a concepção marxista sobre o trabalho. a essência do trabalho é se constituir num esforço que visa outra coisa que si mesmo. L. 19. instinto. Sabemos que a citação aqui do Iluminismo é uma simplificação.. Lógica e Economia. cit. S. L..

EdUERJ. relatamos que ao consultar o exemplar de Logique du Sentiment de Ribot existente na Biblioteca Nacional. Taine –.Arthur Ramos conhecia a fundo não só a obra de LévyBruhl como também suas fontes. formado por dois elementos. F._______. isto é. Como curiosidade. Fica a sugestão. Th. a e b. La Logique des Sentiments. na companhia de Janet. particularmente nas propriedades do denominado grupo de Klein.b) pelo grupo homólogo (c. por exemplo.SAMPAIO. cuja tabela de multiplicação é x a b a a b b b a O grupo de Klein é o quadrado do grupo binário acima. 1920 23. Paris.338 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 20. S. Binet. 1989 – em geral. C. cit. o grupo mais simples é o binário.d). como introdutor do modelo jacksoniano na França. ROUDINESCO. Entretanto sua ligação com a pasicanálise ficaria bem melhor definida se transladássemo-nos para o plano lógico. 24.RIBOT. LÉVY-BRUHL. cuja tabela de multiplicação é: x ac ad bc bd ac ac ad bc bd ad ad ac bd bc bc bc bd ac ad bd bd bc ad ac . 26. forçando um confronto entre sua Logique du Sentiment e a lógica do significante lacaniana. Afora a identidade isolada. L. O fundamento disto se encontra na teoria dos grupos. Philosophique.Théodule Ribot é citado duas vezes no volume 1 e muitas no volume 2 da História da Psicanálise na França de E. La Mentalité Primitive. op. 21. de Lacan e as Lógicas in Lógica ressuscitada. Alcan. 1914. Rio de Janeiro. La logique affective et la psychanalyse. LXXVIII 22. R. o produto do grupo (a. 25. Rio. Zahar. constatamos que ele pertenceu justamente a Arthur Ramos e guarda suas inúmeras anotações manuscritas à margem e em pequenos pedaços de papel nele inseridos. como inspirador de algumas idéias de Charcot e outras coisas mais.

porque ele é simplesmente uma espécie de simulação formal (é óbvio que drasticamente empobrecida) da verdadeira dupla diferença que fez ser o homem. a rigor. uma filosofia da cultura. Este grupo aparece por toda parte. perfazendo pois um “articulado” de três peles. 1988.5 h de duração. Rio. de Introdução à Antropologia Cultural.b) e (c. Ele poderia ter chegado à mesma conclusão sem ter aporrinhado tanto seus cachorros. II. CASSIRER. ser capaz de se por na pele do outro. mas nada explica. operando por reflexo condicionado. 27. é uma dupla pele. onde. Paulo. pelos pares ad. 1999. L. I.Existem outros bem interessantes. os elementos não identitários ( não ac) do grupo de Klein. sendo-lhe contraposta a “descoberta” pavloviana que o animal.SAMPAIO. logo. Ernst. é inquestionavelmente lógico-diferencial (D). C. Desde que saibamos procurar. também. A condição animal capaz de operar I/D requer um SNC e este. de Por que. uma terceira pele. . bc e bd. trata-se de uma ratificação: a palavra (arco) reflexo é claramente lógicoidentitária (I) e a palavra condicionado.. aquilo que só é em razão de outro. estaria operando segundo o famigerado “mecanismo” do reflexo condicionado. Ser humano é.. Ver capítulo 2 anterior. justamente. Portanto. A condição humana requereria. na própria obra dos estruturalistas não faltariam muitos outros exemplos. III e IV em 2 vídeos. D/D} e o feminino pelo par {I/D. 1993 ou alternativamente Noções elementares de lógica . no caso.. Martins Fontes. 30. um diferença suplementar. D}.d) e as três relações articuladas. 31. 1997 29. bastando que se mantivesse fiel ao que lhe prescrevia a lógica do Partido. como vimos na extensa nota 13. C. SAMPAIO. Pavlov nomeia (até muito corretamente). Só na aparência isto é uma objeção. Ensaio sobre o Homem. 28. EMBRATEL/UAB. como a roupa (ou a pintura dos corpos) representando uma terceira pele. Introdução a uma filosofia da cultura humana. Já aconteceu mais do que uma vez em aula que esta nossa afirmação fosse contestada. com cerca de 3. seguindo indicações lacanianas definimos o masculino pela par lógico {I. ICN.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 339 As duas diferenças seriam representadas pelos subgrupos (a.Compacto. Rio de Janeiro. S. L. o animal estará na verdade operando segundo a lógica dialética (I/D). S. Ë precisamente isto que está logicamente por traz da piedade em J-J Rousseau. portanto. 32. S.

C. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. então. (5) é complacente ao Absoluto. Rio de Janeiro. Luiz Sergio C. a própria dialética e a lógica formal ou clássica. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. também conveniente. pelo mesmo autor. Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. constitui-se numa síntese das lógicas da identidade e da diferença. de. de. S. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/ 2 ). Na esfera mundana. I. 1993. C. 4. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. O termo hiperdialética refere-se a uma lógica mais complexa do que a lógica dialética. III e IV. L. a designação qüinqüitária. 1998. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. D.340 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SAMPAIO. um pouco abusivamente. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. Noções de antropo-logia. Makron Books. SAMPAIO. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). serão então cinco as lógicas subsumidas. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). são apenas uma taquigrafia. D/D=D/2 (lógica clássica). a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Ademais. As expressões I. o vídeo Antropologia cultural. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. (2) só é na medida em que remete a outro (D). tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). tomando-se. I/D (lógica dialética). É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. I/D etc. além destas últimas. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Noções de antropo-logia. Esta. desde que não as tema. II. UAB. daí. cit. são inúmeros os casos de cul- Capítulo 4 . 1996. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. Alternativamente. EMBRATEL/ UAB. op. enquanto que a primeira sintetiza. Se considerarmos que ela subsume a si mesma. Teríamos. UAB. Para maiores detalhes. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. Noções de antropologia. como sabemos. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o que acontece (I/D). Rio de Janeiro. (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). As Lógicas. Rio de Janeiro. M. Rio de Janeiro. ver SAMPAIO. 5. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional.

10. por exemplo. 11. uma polêmica cheia de veneno e má fé. de hoje “modernizar-se”. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. para o bem ou para o mal. além. ou seja. entre outros. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. precisamente. é produto da sacralização de sua lógica própria. 8. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. A percepção do ritmo de sucessão lógica das culturas depende de uma certa familiaridade com a história tradicional da área considerada. 12. 6. cuja necessidade foi há muito pressentida. daí porque não nos arriscamos à inclusão do Oriente. mas como dotado de uma outra lógica. como em todas as culturas. Por isso ela é politeísta. Não é surpresa. a síntese da identidade com a dupla diferença. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). Aliás. segundo o teólogo da cultura Paul Tillich o espaço sobre o tempo (Théologie de la Culture. chegou bastante cedo ao trinitarismo (I/D). Ademais. 7. De qualquer modo. Culturas associadas às lógicas em que prevalece a diferença sobre a identidade. logique du sentiment. em um modo próprio . vale dizer. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. pois. Paris. SAMPAIO. . no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 341 turas logicamente híbridas. op. crenças e ritos. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. pode-se dizer que a China. não se dão conta que o fazem. 9. isto é. aí se demorou tanto tempo que tem dificuldade de “recordar” suas fases lógicas anteriores e justamente por isso de se projetar. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. cit. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. Modernidade. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. porém. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. Noções de antropo-logia. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud.

pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. Mircea.o mundo se apresenta como subdeterminado. 59-60 16. e impondo-lhe então. 15. Rio de Janeiro. porém. 14. Zahar. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. p. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. o falso e. O indeterminado. ELIADE. Alianza. pp.342 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Denoel/ Gonthier. v. Ibid. o valor indefinido. em profundidade. pois na verdade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. pois. o paradoxal. terá como falsa sua negação. Arnold Toynbee. lá e cá. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. enquanto que o segundo é um marginal. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. 1981). mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós.o mundo se apresenta como sobredeterminado.Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. . 58. Compendio IX/XII. sua negação sendo destarte o verdadeiro.1968). onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. Tomo I. 1. segundo o historiador das civilizaçòes. 3. Excluem-se aqui. por suposto. o indefinido. História das Crenças e das Idéias Religiosas. 1978. como a Índia. das relações EUA/Brasil. 13. Madrid. isto é. desconsiderado. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. internamente. Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . representando o nem verdadeiro nem falso. vol. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. daí. Por isso. os subservientes negociadores (?!) do atual governo brasileiro. um terceiro. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . uma segunda diferença. a materialidade sobre a espiritualidade (Estudio de la Historia. daí a designação lógica da dupla diferença.

No caso.Compacto. D2. relativa a um plano horizontal. precisaremos que uma delas vire do avesso. nem esquerda. No caso da reflexão. de Sampaio. S. -1.25 18. Rio. Estes três estados podem muito bem ser expressos pela tríade numérica 1. G. o esquerdo e um estado intermediário “pontual”. Tomando-se por referência a reflexão no plano vertical. relativa a um plano vertical. Para melhor compreender a natureza da diferença ou negação no caso da lógica da diferença D e da lógica clássica ou formal D/2 (a que estamos habituados). A parte inferior da figura mostra que os estados de uma reflexão especular são três e não apenas dois. ou seja. J. Monfort. Noções elementares de lógica . C. seriam eles: o direito. as luvas são a imagem reflexa uma da outra. onde ela não é nem uma coisa nem outra. D1. uma segunda. Já no caso da inversão estão implicados apenas dois estados e podemos passar de um ao outro por uma simples rotação ou deslocamento espacial. Hölderlin et Sophocle. Brionne.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA 343 DUPLA DIFERENÇA D/ 2 Ver L. Abstratamente talvez as coisas pareçam mais complicadas do que realmente são. nem direita. 0. podemos nos valer da metáfora gráfica a seguir. Isto vai requerer a passagem por um estado intermediário em que ela se “desespacializa” (e o par se dissimetriza). 17. para fazê-las coincidir. 1983 p. por onde poderá se dar a passagem de um a outro dos estado anteriores. a correspondente re- . 1988. uma primeira. L Ó G IC A D A R E F L E X Ã O D L Ó G IC A D A IN V E R S Ã O D / 2 R (a ) D D a a D/ R (R ( a ) )= I ( a ) a D / (a ) -1 2 2 R2 = I a 1 2 R (R ( a ) ) D (a ) Uma inversão pode ser concebida como uma dupla reflexão. transformar uma noutra. ICN. BEAUFRET.

Oevres Complètes.344 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO presentação numérica seria pois 1. a propósito. R O M A N T IS M O A L E M Ã O 2 I/D / H Ö L D E R LIN A P O L ÍN E O D/ I/D REC ALQ UE DA ID E N T ID A D E I 2 D/ 2 CU LTU R A MODERN T R A G É D IA (M IM E S IS ) T R A G É D IA M ODERNA ? D CU LTURA GREGA D IO N IS ÍA C O D P R É -D H O M É R IC O P R É -I Hölderlin consegue captar bem a inversão de posição que se opera entre os gregos e a Modernidade. François. Esta. 19. Reflexões. Como pensar em tragédia (D) da época da cultura cínica D/2)?! 20. Rio de Janeiro. é a ocasião para relatar que boa parte do que vai no corpo deste artigo foi provocado pelas discussões com o amigo Aluisio Pereira de Menezes (que nem por isso tem a menor culpa do que aqui está sendo dito) em torno do tema Hölderlin e a essência do trágico. sem dúvida. pois. sua falta de sentido. O verdadeiramente outro de um Deus que lhes virava a face. lógica do terceiro excluído. aquela da lógica da simples diferença D. Vê-se bem no esquema acima como surge a sua preocupação com uma pressuposta “tragédia moderna” e as razões profundas de sua impossibilidade ou até mesmo. e sendo-lhes assim tão . Hölderlin: Tragédia e Modernidade in Höderlin. p.Hölderlin. em que não há lugar para terceiro.Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo de mau e aconteceu é. F. aliás uma constante no pensamento alemão de lá até hoje. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . -1. A reflexão especular representa a diferenciação ou negação primordial. o grande culpado. Relume-Dumará. e a inversão. 228. 21. com inexcedível propriedade. só se consumaria se virassem -Lhe a face também. justo a lógica clássica ou. 1994.DASTUR. a dificuldade em se conseguir seguir o pensamento do poeta alemão está no recalque que implicitamente faz das lógicas identitarias (as culturas judaica I e cristã I/D. a diferenciação ou negação na lógica da dupla diferença D/2. A nosso juízo exclusivo.

É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). A pretensão à universalidade da poesia (trágica. 31. 25. Eugen. Le Jeu comme Symbole du Monde. Todas as demais grandezas físicas . inclusive) é crença corrente entre os gregos. L. SAMPAIO. muita antiga. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. A matemática formalista pretenderia reduzir todo sentido à pura intensividade. S. 23. Intensivo aqui se contrapõe a extensivo. Quem já não viu. em parte. Difusão Européia do Livro. uma distinção que vem dos estóicos. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. Sentido extensivo é o conjunto de referentes a que um termo se aplica. Atena. Ibid. Platão. A lógica clássica ou da dupla diferença.. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. de. Paulo. sem a menor cerimônia. Assim. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular. sim. herdado pela lógica clássica.. FINK. foi vítima deste tipo de “ilação”? 22.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 345 íntimo. ICN. 1995. massa (M) e tempo (T). Ibid. e sentido intensivo é aquele dado por um conjunto articulado de termos considerado equivalente ao termo em questão. ARISTÓTELES. X Platão. l. o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. Paulo. Minuit. Por exemplo. por isso as subsume. Arte Retórica e Arte Poética. 59. A República. X. p. 1966. quilograma e segundo). 30. Nesta última acepção o termo precisa fazer parte de um sistema dotado de uma sintaxe. (negritos nossos) 24. S. 92 27. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqúitária. 101 28. SOCRATES: . porém. Ver Reflexões. em sua máxima generalidade. ou pior. S. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. p. p. 1959. p. grama e segundo) ou mks (metro.. é bom aduzir que não é de agora. 1966. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. sistema cgs (centímetro. 1955. 29. Finalmente. 2000. 26. Paris. FINEP/ etc. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. 90. sua oposição à filosofia. C. Reflexões.opus citado. A República. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. Rio. Rio de Janeiro.

João. Toda a “elite brasileira” quis enterrá-lo como se ele fosse o Moisés. Brasília. conclui-se. de. O par diagonal {I. opus citado. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 .II. Rio de Janeiro. C. 1993/97. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. BATAILLE. lógica que subsume. além de si própria. A H. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). R. Na modernidade capitalista. assim como. Paulo. Companhia das Letras. opus citado. ELIADE. Económica. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). La Pintura Prehistórica. p. SAMPAIO. aquele que havia guiado o povo à beira da Terra Prometida. Parcialmente publicado no JB em 07/09/80. Cultura e Idéias nas Américas. p. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). Estas estórias. José Olympio. 32. C. out. I/D. pelo mesmo autor. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. Ibid. Ibid. Rio de Janeiro. O Espelho de Próspero. feito desejo domesticado pelo marketing. D/2. Esta feliz lembrança se deve a José Miguel Wisnik. de. 9. México. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida.346 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. o povo nada mais tinha a fazer senão esperar sentado! O problema real e apavorante para a “elite” no poder era o Doutor Ulisses Guima- . Nestas circunstâncias. 37 39. Gallimard. L. p. 38. SAMPAIO. como nos outros animais. 43 40. de C. 1973 37. S. L. 34. SAMPAIO. S. 11 43. de. não de onças de humores e cores variadas. GUIMARÃES RODA. Ibid. imediatamente. A Permanente Revolução do Analógico ao Convencional – Rio de Janeiro. p. Théorie de la Religion. de. I. M.MORSE. p. 1988. C. BRODRICK. 1996 (xerografado): O melhor exemplo disso já foi aqui mencionado pelo Professor Janine Ribeiro – o enterro do Doutor Tancredo Neves. S. L. igualmente mencionado. S. Apontamentos para uma história da física moderna. as que lhe antecedem: I. UAB. C. D } o feminino. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. F. 23 41. 33. 35. mas de gente.II e IV. 42. Paris. A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. SAMPAIO. S. o vídeo Antropologia cultural. 1969. 1956. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. George. 44. como só ele. como era meu tio. L. Noções de antropo-logia. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. 36. (en)cantador. D.O ser humano é de nível lógico I/D/2 .

seja lá quem for. É bastante sintomático que tantas coisas relevantes presentes nos Sinóticos . com toda a certeza. São elas apenas duas: a lógica da identidade ou transcendental (I) e da diferença (D).agora. Esta “injustificada” omissão do cristianismo na passagem da cultura grega à Modernidade é uma represália à omissão feita pelas culturas semíticas do momento trágico grego na passagem do judaísmo ao cristianismo. a censura aos escribas e fariseus. Ao contrário do que aconteceria num processo dialético lógico-trinitário. o nosso Abraão. a superação num processo hiperdialético lógico-qüinqüitário não impede a sobrevivência por si (não apenas subsumida) de uma cultura e nem mesmo que ela venha a exercer um papel crítico posterior na história da cultura. e ele aí foi para casa com enxaqueca. op. Resto no seu sentido aritmético. por isso mais longe dos acontecimento e mais perto das conveniências de um movimento sócio-religioso já triunfante. na “hora H”. CULTURAS SEMÍTICAS OU LÓGICO. tardio. mandar o povão subir nos tanques (feito o que aconteceu na Rússia e se tentou lá na China. João.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 347 rães. Ver BARBOSA. Lógicas fundamentais são aquelas capazes de gerar todas as demais por um especial processo de síntese dialética generalizada. 46.desapareçam do Evangelho de S. cit. pisa sempre na bola. ou seja. 47. ou seja. o sentimento de abandono do Cristo na cruz . E a gente não começa nunca! 45. M. como todos nós vimos na TV).IDENTITÁRIAS CULTURAS PAGÃS OU LÓGICO-DIFERENCIAIS CULTURA MODERNA REPRESÁLIA: OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA CRISTÃ PLATÃO TEÓLOGO segundo Nietzsche e Heidegger CRISTO TRÁGICO segundo Evangelhos Sinóticos OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA GREGA CULTURA JUDAICA . para evitar um suposto derramamento de sangue. que representava Abraão e não Moisés. C. 48. As Lógicas. anteriormente mencionada. que tinha que mandar o filho para o sacrifício.

em que a família semítica (I). É curioso observar que tudo isto vem reproduzir o ciclo anterior. 49. na passagem de pré-I a I. que internaliza o momento dialético (I/D) ao ocidente pagão é a contrapartida vingativa do Cristo trágico dos Sinóticos. porque esta. que tenta justamente substituir o sujeito liberal (I) pelo sujeito romântico ou inconsciente coletivo (D) e depois sonha que pode ir do grego (D) à modernidade científica (D/D) sem passar por I/D. abandonado pelo Pai. anglo-saxônica.348 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O Platão “teólogo dialético trinitário. Chega-se ao detalhe de Platão vir se confrontar com os poetas exorbitantes (que fingem a dispensabilidade do conceito I/D) tal como o Cristo se confrontou com os fariseus (que fingem a dispensabilidade do significante D). tanto em Nietzsche quanto em Heidegger. a família ariana (D) vai à forra imaginando passar da cultura pré-D (mítica) à cultura D (trágica) valendo-se de Parmênides para omitir o momento identitário I. que internaliza o momento diferencial (D) ao mundo semítico. Johson situa a diáspora judaica ao tempo de . D DISPOSIÇÃO PARANÓICA I REAÇÃO ANTI-SEMITISMO = ANTI-D PARMÊNIDES "PROFETA" DO SER AÇÃO ANTI--"ARIANISMO" = ANTI-I MOISÉS ADOTADO PELOS EGÍPCIOS Pré-D Pré-I DISPOSIÇÃO ESQUIZOFRÊNICA Concluindo. não podemos deixar de assinalar que o “antisemitismo” da Modernidade não pode se manifestar em sua formação paradigmática. adota precisamente o sujeito liberal (I) como sujeito da ciência (D/D). Diz-se que ainda antes de Cristo até cerca de 10% da população da Europa ocidental e África do Norte era de origem judaica. para não sucumbir. o anti-semitismo só irá se manifestar na variante ideológica à direita da Modernidade. se vale de Moises para poder omitir o momento pré-D (egípcio).

Lucas 24. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. 1961. não estabelecia que as novas terras seriam de Portugal ou de Espanha. Capítulo 5 1.por suposto. daí o nome Setenta. A hiperdialética I/D/2 pode ser considerada como uma síntese das lógicas identitárias anteriores . SAMPAIO. avalizado pelo próprio representante de Deus. N. Rio de Janeiro.. A lógica dialética dá conta das peripécias da história. JOHSON. o Papa. A tradução se fez por partes. LUTER. Confrontadas a posteriori todas teriam sido coincidentes . 58. 57. 39-43 54. e terminado em 1 a. An Appeal to the Rulling Class of German Nationality as to the Amelioration of the State of Christendom. Zahar. Rio de Janeiro. Ver SAMPAIO. Vale a pena observar que os Descobrimentos vêm acompanhados da entronização da lógica clássica ou do terceiro excluído: O Tratado de Tordesilhas. 12 50. porque inspiradas -. Mateus 27. GIMPEL. Macmillan. Jean. 1520 in Selection from His Writings. começando em meados do século III a. York. que já andou por várias editoras que sempre “gentilmente” o recusaram. C. Paul. 51. p. UAB. A Revolução Industrial da Idade Média. mas tem dificuldade de explicar origem e destino enquanto que a lógica da identidade só se interessa mesmo pela origem e pelo fim dos tempos. contrabandistas.1997. A lógica da identidade I é tida então como o degrau zero da dialeticidade. etc. com exclusão de qualquer outros? Se quisessem participar. L. contra apenas 1 milhão na Palestina. C. Aí se mostra como ocorre a real experiência do possível transcendente e se especula acerca do seu estatuto lógico. 1976. opus cit. New York. Reza a tradição que setenta sábios teriam sido convocados para traduções independentes. talvez porque nes- . 471 56. teriam que se conformar mesmo com os papéis marginais de piratas.. 42-44 53. C. Este texto é parte de nossa obra maior Filosofia da Cultura – Brasil. que seria I/D/4.5 milhões de pessoas. 46 52. A History of Christianity. I Coríntios 15. 1977 55. Martin. LXX ou Setuagina.da identidade I e dialética propriamente dita I/D -. S. p. luxo ou originalidade. de Noções de Teo-logia. tornando-se assim uma dialética das dialéticas. Doubleday. Sendo o homem de nível lógico I/D/2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 349 Cristo em cerca de 4. só poderá ter obviamente representações fragmentadas do Absoluto.

dos romanos. depois. a constituição dos alicerces. tardio (século VII) porque ela é uma cultura lógico-identitária (do real e do Deus único). cujas portas são aduanas frente a frente. quem sabe. Uma nação moderna. que editor iria querer correr riscos de tal natureza?! 2. Sabe-se quão doloroso foi para os judeus o contato com a cultura grega. 7.350 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tes tempos de intolerância democrática (ou plutocrática. Les Belles Lettres. 1985. Por isso. a invenção da racionalidade masculina: como primeiro passo. pela caça às bruxas. daquele que confronta os deuses) e a cultura dialética trinitária (do Deus Uno-Trino cristão). pp. sujeitado. do real como outro. acaba precisamente aonde uma outra começa. Sua unidade cultural. Tudo começa com as invasões de Alexandre. a constituição de seu sujeito liberal correlato. Primeiro. ou seja. depois. nações modernas têm sua unidade fundada no Outro. que só surge depois que o mundo já conhecera. em Heidegger e o Nazismo. no prelo) . Paris. Filosofia da Cultura – Brasil. que Heidegger faz sua primeira aparição política/pública. entretanto permanecia. do homem prometéico. Timée. como é o caso da cultura judaica. O interesse por Abraão à Santa Clara reacendeu quando Victor Farias. a própria cultura da identidade (judaica). 4. a definitiva separação dos cristãos. SAMPAIO Luiz Sergio Coelho de. a defesa das culturas (com exclusão das dominantes) tenha sido criminalizada. Feudos (trinitário imperfeito) tem a unidade garantida por sua semelhança à Cidade de Deus (trinitário perfeito). Justamente por esta particular topo-logia é que houve um espaço físico para que a cultura judaica pudesse se preservar e desenvolver. a cultura da diferença (grega. Critias. havia muito. um intenso drama que termina só com sua auto-mutilação. PLATON. mas fazia dos judeus. A formação dos estados nacionais (mercados econômicos nacionais) acabava com este espaço. luxo ou originalidade (algum dia . Realmente. de Pluto. naturais de alguma parte. ou seja. chamou a atenção para o fato que foi justamente na cerimônia de inauguração de uma estátua deste religioso. doravante. através do recalque da sexualidade (irracionalidade) feminina. logo á frente. Radical porque tardio. da Dieneylandia). a ciência e. ao contrário. tornando-se assim a base para a solidificação do complementar mercado financeiro internacional. 6. constitui-se numa reserva de mercado. 136-137 3. 5. herói da resistência a invasão muçulmana da Europa. a cultura muçulmana não constitui na História uma cultura nodal (culturas que inauguram um novo modo de ser e pensar o mundo). ou melhor.

o excedente DK é o produto global Y menos o consumo C.o mundo se apresenta como sobredeterminado. Não é difícil imaginar que isto viesse a acontecer quando toda uma população era por outra militarmente vencida e escravizada. Rio de Janeiro. 9. o falso e. Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo.o mundo se apresenta como subdeterminado. daí. e impondo-lhe então. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA DUPLA DIFERENÇA D/ 2 A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. ou de mais-valia. C. Y= DK + C 10. O diabo é que o empresário capitalista devolve o excedente à esfera econômica e fica obrigado a retirar à frente. sem que tal modo de produção tivesse emergido. terá como falsa sua negação. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. ou seja. IC-N. tudo aquilo e mais algum. a rigor. uma segunda diferença. desconsiderado. o paradoxal. A quantidade anterior está acompanhada de uma qualidade e a qualidade posterior também acompanhada de uma quantidade. representando o nem verdadeiro nem falso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 351 8. em muitos momentos históricos se manteve por largo tempo acima da taxa vigorante na época que viu surgir o capitalismo. sua negação sendo destarte o verdadeiro. o indefinido. pois. do prestígio. isto é. o argumento marxista não tem fundamento histórico. o “leva” para a esfera política. daí a designação lógica da dupla diferença (D/D ou D/2). construindo uma pirâmide. de. Ver SAMPAIO. pois a taxa de formação de excedente. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. S. e duvidosa. L. o valor indefinido. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. de sorte que. 1988 (xerografado) Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. internamente. Como podemos encontrar em qualquer manual elementar de economia. Além do mais. um terceiro. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . a lei transforma quantidade/qualidade em qualidade/quantidade. Lógica e Economia. . o que a faz uma lei lingüística. O indeterminado. Um faraó se apropria do excedente e.

O teor ideológico não está propriamente no self made man. Gallimard. 17. vale aqui lembrar o movimento soreliano (referência a Georges Sorel). Dicionário de Política . C.352 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 11. algo mais sugestivo?! 14. Malleus Maleficarum (Martelo das feiticeiras). EdUnB. Também chamada escola marginalista neo-clássica. NATTEUCCI. porém aqui um rio bem mais caudaloso (hiperdialético) para poder extravasar a todo cerco racional/ científico. e Ashéri. mas apenas elo de ligação. Bodin e especialmente Francis Bacon.. que se subordina à continuidade do processo de sistematização do mundo. 15. FCE. Rio de Janeiro. correndo no sentido de uma perfeição crescente. conluio dos fracos contra os nobres e fortes. L.. Brasília. 2000. Introdução à Antropologia Cultural. S. 1966. Poderia haver. só com Giordano Bruno. mas no “corte”. Rio de Janeiro. de Lacan e as lógicas in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios. N. alegando a ocorrência de um processo de aburguesamento do proletariado. 13. deixava-se ir embora. não mais na oferta (projeto). EMBRATEL/UAB. Entendida. A referência aqui é ao diretor cinematográfico americano John Ford (na verdade. que não deixa aparecer que tal personagem não é origem. Paris. como é contextualmente lícito. 12. 16.. que estaria assim perdendo seu potencial revolucionário. pelas estradas. contra os aristocratas. e logo que a conseguia. N. e PASQUINO. instrução de culpa. tão solitário quanto chegara. Sznajder. Embora o termo já se encontre entre os antigos (Lucrécio). fica muito claro o aforismo nietzscheano: Ele (Renan) queria. L. J. isto é. BOBBIO. do início do século XX e que pode ser considerado um antecedente do fascismo. 1983 e ainda ABBAGNANO. Rosa dos Tempos. 19. e que à época eram bem numerosas. constituindo-se num detalhado manual de identificação. México. mas na demanda (desejo). Naissance de l’idéologie fasciste. I. Ver SAMPAIO. surgida na Áustria. 1989. e SPRENGER. A propósito. 1994. Trata-se de uma evidente alusão ao rio heraclítico (dialético). H. no caso. G. julgamento e castigo de mulheres que praticavam a cópula com o demônio. 18. 2000. S. com cerca de 3. Ver SAMPAIO. Ver Sternhell. adquire o sentido moderno: modo de ser do processo histórico. por . EdUERJ. II. cumulativo. no fim do terceiro quartel do século XIX. KRAMER. III e IV em 2 vídeos. a democracia como ideologia da “mediocridade” liberal.5 horas de duração. N. que vai situar a fonte do dinamismo econômico. C de. nascido na Irlanda) em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado. Diccionario de Filosofia. Ele vai da esquerda para a direita. A obra data de 1484.

. comentam entre si a excelência dos “novos” produtos). civilização referenciar-se-ia a uma formação social mais ampla..FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 353 exemplo. para nós estaria vinculada a uma determinada lógica. Rio de Janeiro. ser-com-o-outro. Crítica da Modernidade. por esta santa via. mais recente. além de substituí-lo pelo sujeito coletivo se propõe a inversão da relação de mando vis-à-vis a ciência. 115. Ver SAMPAIO. ser-no-mundo e ser-frente-ao-Absoluto. ver BARBOSA. 24. 124. por isso. FREUD. LACAN. freirinhas italianas passeando no pátio silencioso de seu convento. 27. p. du Seuil.p. A palavra cultura estaria reservada para uma formação social que inaugura um novo modo de ser. conseguirem pelo menos salvar sua continuidade bioquímica. Exatamente como faz a Santa Sé e outras menores. Na verdade crua e bem nua. 1966.pois sua cultura e sua alma. Crepúsculo dos Ídolos. ao cabo. Se estas. síntese das lógicas da identidade e da diferença) e a relação invertida re-verte e os bons propósitos lá se vão. já terão ido direto para o inferno. convencendo populações autóctones que a evangelização é perfeitamente compatível com a preservação das suas culturas. que. e isso é palpável. ligar em uníssono la science e la noblesse: mas a ciência pertence à democracia. a lógica clássica subsume a dialética. LACAN. Aqui. esquimós apertados em seu iglu etc. J. 25. O Seminário. Rio de Janeiro. em nosso léxico estaria o termo cultura. tomada em seu sentido genérico.65 (parênteses e negritos nossos) 20. estarão com muita sorte. Acontece que a lógica da ciência (a lógica clássica ou da dupla diferença) é mais potente que a lógica do ser-coletivo (dialética. 277 26. uma referência às noções de verdade parcial e total em Lacan. v. Marcelo C. 1982. A propósito. 125. etc. julho de 1999 (xerocado).. resultante do processo de horizontalização de uma cultura. Atente-se para o fato que onde aqui aparece o termo civilização. 21. Os exemplos mais claros seriam cultura grega/civilização romana e. respectivamente pp. cultura anglo-saxônica/ civilização informacional globalizada. Relume–Dumará. A esquerda percebe bem o caráter subordinado do sujeito liberal. livro 20. Zahar. p. Paris. S. L’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freud in Écrits I. Repare-se nos freqüentes anúncios de grandes empresas multinacionais mostrando como seus produtos automobilísticos e de informática são completamente compatíveis com as diferentes culturas (berberes montados em camelos atravessando um deserto. J. Ed. O Mal-Estar na Civilização. As lógicas - . Nietzsche. Standard Brasileira das Obras Completas. XXI. 23.

. e não sossegou enquanto não fez do movimento transformador (I/D) mera derivada de posição (de mando) (D/D). 29.354 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio.. O homem não é o outro da natureza........ São Paulo. mais adiante. Com a derrocada comunista......... boa parte de seus ativistas se converteu ao capitalismo-solidário-cósmico-ecológico.. Isto fica evidente na física (saber paradigmático da Modernidade) que insiste em reduzir o mundo tão apenas a três grandezas pré-emolduradas pelo cálculo (sistemas cgs. menos pela repressão da Cúria do que por sua excessiva e equivocada aproximação com o marxismo.. Ademais.... assinalando-lhe o caráter lógico/religioso........... a teologia da libertação foi uma tentativa (mesmo?) neste sentido.... A ciência tem por desejo o cálculo do Uno-Trino.. etc.... Ver capítulos 4 e 8-11 da presente obra..... Hegel ficou obrigado a trazer o grego do trágico politeísta para o lugar do um (filosofia!).... usamos a expressão de per si para indicar que o trinitarismo dialético pode subsistir dissimulado..... a “culpa” disto não cabe aos judeus. como se fora apenas uma variante da cultura unária.... 31...........1998. Depois.... mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão. mas ao próprio Homem ou à primeira cultura que deveras realizou a proeza........ mas que degenerou. mas produto de uma auto-diferenciação desta última. A separação radical só existe nas palavras.. I/D) pelo grupo algébrico (D/D) – Oswald Spengler já observara isto em A Decadência do Ocidente.. Os judeus só fizeram valorizar a posteriori esta diferenciação...... mas sem explicitar seu sentido –.. O cristianismo brotou do judaísmo... e o trinitário cristão para o lugar do dois (separação corpo/espírito). que trocou a seqüência contábil dos números (monóide... 28.. teremos oportunidade de exemplificá-lo. Este se equivoca duplamente em relação aos judeus.. O cristão foi... Makron Books.. o ....... mks. no texto... Depois desse escandaloso deslocamento. E tornou a dissolver-se nele... Estamos aqui considerando que a aristotelização da teologia católica significou o fim do trinitarismo dialético patrístico.. o judeu teórico..). .... perdido na passagem da cultura cristâ (I/D) à Modernidade (D/D).. O comprometimento direto e visceral da cultura judaica com a dominação da natureza (se diz hoje..... Isto não quer dizer que não possa ressurgir.. 30... Isto é também evidente na matemática ocidental.. Só um grande gênio seria capaz de tamanha distorção onto-lógica! 32... desde o primeiro instante... com a técnica) é um juízo preconcebido que vem de Hegel (e é assumido por Heidegger)... O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa.

op. tornaramse teólogos (I/D). SAMPAIO. Quanto à questão da leitura. teólogos que estão sendo forçados a aprender a irreversibilidade da ciência (D/D). A propósito (ver nota 31 acima). pois do princípio ao fim expressa. Agora sim. portanto. Especialmente item 7. o encontro crucial entre o homem e o divino deslocou-se do reino da natureza e do cosmos para o plano da história. Breve fenomenologia do espirito qüinqüitário Xamãs (pré I) que foram forçados a aprender a irreversibilidade do mito-poético (proto D). Yerushalmi.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 355 judeu é. YERUSHALMI. p. profetas e teólogos. op. K. p. D/D) com feminino (I/D. a tensão entre a corrente moderna trinitária (a que o autor se filia sem esconder uma certa culpa) e a corrente tradicional unária (da qual o autor não consegue se desvencilhar). imaginariamente. Ibid. por vezes. na defesa meio inconsciente do historicismo dialético. mas persistiram.. 117 38. quanto a poetas. SAMPAIO. p. EdUERJ. 117. 28. tornar-se-ão enfim boa gente (I/D/D). A Questão Judaica. cit. 37. Lógica trinitária versus lógica qüinqütária in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. o que não se coaduna com a aguda percepção que ele mesmo tem da essência histórica do judaísmo originário: . como ficam Hegel e Heidegger? 39. 40. H. 35. 33. tornaram-se profetas (I). de. S. mais perto de nós. o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu. C.Este livro merece ser lido na íntegra. O romance pode nos antecipar o que será a verdade pela leitura. 2000. cit.115 36. concebida agora em termos do desafio divino e resposta humana. Rio de Janeiro. talvez se encontre lá alguma serventia. Ver especialmente item 9. diante disto. Na cultura nova. filósofos e mesmo cientistas. S. fica bem clara qual foi a lógica (I/D/D)! Capítulo 6 1.. Bastariam dois exemplos: Tolstoi e. A síntese romanesca do masculino (I. se embaraça e dá uma conotação antihistórica ao tradicionalismo. mas persistiram. ver SAMPAIO. tanto objetiva como subjetivamente. 1992. Lógica Ressuscitada – Sete ensaios.5 Ibid. L. C. Y. D) é o que nos permite anteexperienciar. profetas que foram forçados a aprender a irreversibilidade da filosofia (D). L. p. não serão necessários xamãs. S. porque cria um espaço virtual andrógino onde interagem autor e leitores. Imago. C. Marx. Rio de Ja- . de. o novo mundo lógicoqüinqüitário.1 da presente obra 34. Milan Kundera. Rio de Janeiro. Zakhor. ao persistirem. de. Zakhor – História judaica e memória judaica. L. Noções de antropo-logia.

de. logique du sentiment.356 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO neiro. Noções de antropo-logia. o vídeo Antropologia cultural. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. acceptait la mort. O que este autor não chega a perceber é que a erradicação da morte (biológica) é uma artimanha da Modernidade. 3. veut en fin de compte l’érradication de la mort. Aliás. Makron Books. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. SAMPAIO. (negritos nossos) DUFOUR. D/D=D/2 (lógica clássica). 1998. Rio de Janeiro. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. D. M. Gallimard. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. UAB. Car la différrence des deux hommes en presence est que l’un. para simular a presença do homem lógico-qüinqüitário já em seu seio. 1996. DR. 1990. l’homme binaire. pelo mesmo autor. desde que não as tema. ver SAMPAIO. I/D (lógica dialética). II. por via de sua técnica. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados 4. I. C. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. são apenas uma taquigrafia. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. Luiz Sergio C. EMBRATEL/ UAB. As Lógicas. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. l’homme trinitaire. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. Para maiores detalhes. Rio de Janeiro. UAB. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. Alternativamente. alors que l’autre. I/D etc. III e IV. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). então. isto é. Teríamos. 1993. 2. uma polêmica cheia de veneno e má fé. não se dão conta que o fazem. precisamente. de prometer a vida eterna onde impera . faisait de la représentation de la mort dans la vie le fondement de son ordre symbolique et du lien social. Paris. 5. Leia-se trinitaire como cultura lógico-dialética trinitária e binaire como cultura lógico formal ou moderna. Ademais. As expressões I. porém. mas como dotado de uma outra lógica. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. cabendolhes pois a designação de culturas ecológicas. Rio de Janeiro. Les mystères de la trinité. Na esfera mundana.

desenrola-se na TV. C. Nestas últimas. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados. Não é por acaso que Heidegger. em suas manifestações públicas no início e no fim de carreira. S. Enquanto concentramos nossa atenção acadêmica nas novelas. É eletrizante e interessa (inconscientemente) a todos. tomada pela soberba. Enquanto a Religião. 9.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 357 6. v. Companhia das Letras. ela é. SAMPAIO.” SACHAR. nada há de errado nesta inversão. Delta Book. 1. Heidegger et le nazisme. refere-se a Abrahan de Sancta Clara. a Ciência. Paulo. Victor.. o combate da Ciência contra a Religião. Cultura e Idéias nas Américas.123. para provocar tamanha ira ao . 1985. Paris. 1977. justamente intitulado Jewish Economic Life and the Frankfurt Tradition. bastante coerente na medida em que tal inversão é a exata contrapartida da mudança de ponto de vista. Trata-se de um estudo acerca dos textos sobre o cristianismo e o judaísmo elaborados por Hegel em sua estadia em Frankfurt. promete-a assintoticamente ao invés de. pois até hoje só pode proclamar um único sucesso. FARIAS. O trecho acima foi tirado do capítulo VI. . Howard M. Paulo. fomos aos textos de Hegel e daí direto a procurar algum estudo sobre o que estavam fazendo os judeus lá. p. MORSE. perverso é o sujeito (I) que aceita a lei (D/2) desde que esta seja a sua própria. Item 3. 1988. diariamente. most of them living in the squalid Judengass. É importante atentar que aqui o termo perversão. à exclusão dos suicidas.2 10. 12. L. Indeed. a vida eterna. N. herói da resistência à penetração islâmica na Alemanha. dezembro de 1998. who in turn controlled the twelve largest investiment firms in the city. Entretanto. Frankfurt may well be termed the cradle of Jewish finance in Europe. pelo contrário. The Course of Modern Jewish History. 1970. fingimento e superação na história da cultura. S. com sua tática de ir pouco a pouco amealhando adiamentos. Hegel a Francfort de Bernard Bourgeois. “And in 1800 in Frankfurt am Main. p. 11. naturalmente. R. with its Jewish population of six hundred families. S. do social (sócio-cultural) para o individual (psíquico). de Desejo. BENJAMIN. 43 per cent of the entire jewish capital was owned by sixty families. 1987 13. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. promete-a para depois de. Verdier. Brasiliense. está sendo usado no sentido inverso daquele que ele tem na psiquiatria e na psicanálise. J. Vrin. SAMPAIO. do ponto de vista lógico. Rio de Janeiro. Em jogo. 14. W. Apenas levados por este estudo. 8. 196. Paris. 7. York. M. O Espelho de Próspero. cautelosa.

hoje que não somos mais gregos. Ficamos simplesmente perplexos quando se levanta a questão de uma filosofia brasileira e logo acorrem os defensores da “filosofia perene” dizendo que isto não faz sentido.358 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nosso filósofo. ver Sternhell. Como sustentar tal posição diante do cortejo de filósofos alemães . Gallimard. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio puder ser “vivido” simultaneamente. 18. Dentro de uns 200 anos . consideradas metafisicamente. com a Rússia de um lado e a América de outro. houver desaparecido da existência de todos os povos. é a crítica da cultura em que o próprio filósofo está imerso (Cassirer). quando tempo significar apenas rapidez. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. como um fantasma. Paris. 1989. porém a mais importante delas para o que nos interessava foi a de Sachar. . supor- . mais ou menos explícito. Ninguém estará mais interessado nos instrumentos de tortura corporal da cultura cristã medieval (I/D). mas nos instrumentos psíquicos de apropriação do imaginário alheio usados pelos psicovampiros da cultura da Modernidade que havia já sido superada. como História. Discurso à Nação Alemã debaixo do braço?! Isso lá acontece porque sabem que. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado técnicamente e explorado economicamente. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo.Fichte. encontramos diversas obras. Rússia e América. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. Ajudados por nosso amigo Nelson Kuperman. 16. 15. Schelling. como o grande homem de um povo. se tivermos sorte . são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. Hegel. A propósito. dentre as mais relevantes tarefas da filosofia. Sznajder. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. Referência a Georges Sorel. A Alemanha. Nietzsche. Essa Europa. só para ficar com os mais importantes -. estando no meio . cada um deles com seu. E é precisamente isto que faz “amarelar” os nossos. já citada na nota 46 anterior.ou menos. quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. Heidegger e Habermas. 17. pois tal aproximação conspurcaria a nobre filosofia. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes.então. Naissance de l’idéologie fasciste. e Ashéri.existirão museus de horrores onde serão exibidas as peças promocionais que hoje infestam os nossos “meios de comunicação”. quando o pugilista valer.

p. p. além de si própria. em tudo isso é o povo metafísico. 1966. O ser humano é de nível lógico I/D/2 . Jacques Lacan – Esquisse d’une vie. que esse povo ex-ponha Historicamente a si mesmo e a História do Ocidente. ao domínio originário das potências do Ser. 75 26. M. I/D. embora de um outro tipo que a dos alemães de então. Elisabeth. O par diagonal {I. uma “vantagem econômico-competitiva” como. ibid. é de novo simples saber. lhe é necessária também a firme determinação de fazê-lo (I). A autora fornece informações suficientes para que acreditemos numa forte rejeição de Heidegger às idéias. o mais ameaçado. definitivamente. É uma vantagem. a partir do cerne de seu acontecimento futuro. Anthropos. 21. ibid. como até mesmo . uma enorme vantagem como pressente qualquer estrangeiro de sensibilidade que aqui aporta. Paris. as que lhe antecedem: I. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. D } o feminino. pp. Isto nos dá certas vantagens. ao terem notícia. irão certamente acreditar nossos “sociais-democrtas”. Tempo Brasileiro. Lógica . Verdier. Fayard. M. D/2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 359 ta a maior pressão das tenazes. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). estas quatro por nós denominadas lógicas de base. D. É o povo que tem mais vizinhos e. p. Victor. Podemos exemplificar: para que um homem consiga voar. p. Rio de Janeiro. Paris. p. mas também nos torna vítimas potenciais desta mesma excentricidade. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. mas. depois de pronto e voando. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. saber materializado (D/2). 79-80 19. não lhe basta um profundo conhecimento de aerodinâmica (D/D= D/2). e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . 43 25. Heidegger et le nazisme. conclui-se. desse modo. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). ibid. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado).Lecciones de M. Introdução à metafísica. 73 27. Barcelona. 28. Esta e as próximas citações provêm todas de HEIDEGGER. imediatamente. histoire d’un système de pensée. 43 24. 77 23. 1987 20. HEIDEGGER. 1993. lógica que subsume. 22. Isso implica e exige . ROUDINESCO. que vivenciamos uma posição excêntrica em relação à cultura paradigmática anglo-saxônica. O avião. Heidegger (semestre verano 1934) en el legado de Helene Weiss. ibid. 1991. mas que não é. Tudo isto deve se constituir numa inestimável lição para todos nós brasileiros. como nos outros animais. FARIAS.

p. Metacritique – The Philosophical Argument of Jürgen Habermas. De Gruyter. Noções de Antropo-logia. C. ed. op. Gabriel Cohn. Paris. v. 25 30. Théologie de la Culture. Rio de Janeiro. a propósito. BOURGEOIS. o capítulo III. 43 31. J. W.Writings in the Philosophy of Culture. 1974 e também Lecciones Capítulo 7 . T. Paulo. SAMPAIO. C. York. Ernst. p. L. 1968. S. 1990. a identidade “estática” A(x) = A(x) ou abreviadamente A=A. p. Cambridge. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. TOYNBEE. Vrin. XXX. Rio de janeiro. 5. Howard M. The Course of Modern Jewish History. M. setembro de 1999. Garbis. EGEL. La Lutte entre le Temps et l’Espace e também a coletânea póstuma Main Works . cit. Ensaio sobre o Homem . C. de. Ver. Martins Fontes. 33. Cambridge UP . S. 41. F. 1996 2.2 Berlin. L. TILLICH. S. Estudio de la Historia. 1986 e entrevista a Der Spiegel. Hegel à Frankfort. cit. KORTIAN. ADORNO. Paul. especialmente. S. Paul. Rio de Janeiro. principalmente de famílias de banqueiros. L. 1998. fingimento e superação na história da cultura. 1969. Rio de Janeiro. 1980. episódio este que acabou sendo. 41 7. UAB. para Frankfurt por volta de 1800. A Lógica da Diferença. o principal indutor do processo de modernização da Alemanha. SACHAR.Introdução a uma filosofia da cultura humana. Bernard. O verdadeiro e óbvio princípio da identidade é A(A(x)=A(x). Paulo. TILLICH. in S. N. in Os Pensadores. Org. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. Delta Book. G. v. Palmer. 32. 1977. de. CASSRER. de. 10. 1999. A. 1981. p. 8. L. SAMPAIO. Ática. 4. Théologie de la Culture. Paris. Ver. a possibilidade do exercício da auto-crítica. 1. 49. op. C. de. A compreensão disto está na reação da intelectualidade alemã à migração judaica. Na lógica clássica este princípio é escamoteado e substituído por sua ausência ou sua múmia. em conseqüência. L. S. Paulo. p. SAMPAIO. 1970 e SAMPAIO. SAMPAIO. talvez. 1997 6. C. 3 v. Denoël/ Gonthier. Adorno. 3. S. Crítica Cultural e Sociedade in Theodor W. Ibid. Introdução à história da filisofia. de. S. Desejo.360 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO à pessoa de Lacan 29. Alianza. 9. W. Abril. Madrid. que traduz justamente a propriedade de reflexibilidade e. Ibid.

Robert. não há dúvida. 1988 e comentários por Capítulo 8 . P. é óbvio. tal problemática não poderia ser adequadamente tratada. que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico. L’“Aufklärung” et la question juive e SARTRE. 12. Noções de Antropo-logia. até chegarmos a Alain Badiou. 1969. sem a qual.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 361 sobre la filosofia de la historia universal. Desejo. s/d. Paris. Isto tornou-se verossímil porque as culturas lógico-diferenciais foram as inventoras do trabalho (que pressupõe o colocar-se como outro da natureza) e. 1. livro I e comentários de AUBENQUE.. fingimento e superação na história da cultura. 1982. Política. UnB. Seuil. Ibid. como também Introdução à Antropologia Cultural. 1994. 1985. 11. ARENDT. Os marxistas. Houve escravidão nas culturas pré-D. UnB. D’AMICO. por conseqüência. passando por Plekhànov. dezembro de 1996. UAB. tem sido muito maltratado pelos pensadores do ser social. fingimento e superação na história da cultura. Desejo. 1982. cit. especificamente. como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. MARX. R. em especial. com cerca de 3. desde Lenin. London. 13. ARISTÓTELES. op. da sua exploração. J-P. para comparação. o fato que o desejo da cultura lógicoidentitária é pré-lógico-diferencial.(?) 14. Aristote et le Lycée in Histoire de la Philosophie 1. Ver. Achiamé. O tema. La Question juive. Existiria. a Terra Prometida.5 h de duração. Brasília. 6. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato uma velha questão que se arrasta até hoje. Rio. 2. Encyclopédie de la Pléiade. Ética a Nicômacos. op. Madrid. II. Brasília. ver Alain Badiou. Um exame mais cuidadoso do embasamento teórico do pensamento de Marx pode mostrar que seu “economicismo” não era assim tão radical como em geral se o considera. Garaudy. entretanto. Théorie du sujet. 4. o sujeito liberal). 1994. cit. III e IV em 2 vídeos. EMBRATEL/UAB. A Questão Judaica. I. Rio de Janeiro.. Adam Schaff. Hannah. K. Alianza. D e até no início de D/D (quando não se tinha ainda definitivamente explicitado e fixado o seu sujeito apropriado. Ver também. Marx and the Philosophy of Culture. 5. 3. SAMPAIO. Ibid. Paris. Mas isto seria apenas uma desculpa para alguém de menor estatura e pretensão SAMPAIO. ______. sempre o tiveram atravessado na garganta.

1985. cit. 18 14. de. D. A dimensão delirante da crítica ideo-lógica à Modernidade foi por nós analisada em Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. de A Lógica da Diferença. Oficina do Autor/etc. C. Há uma quase unanimidade no Brasil em considerar as três dimensões fundamentais do social como sendo a política. John B. cap. SAMPAIO. 16.. Seria o caso agora de se perguntar se a conversão de Constantino teria sido um acerto de contas teológico ou financeiro! 15. Fica aqui também evidente o absurdo. de se considerar a economia como dimensão primordial da vida social. 12. 1981 7. Ambas são.362 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO MORRALL. 1999 13. Inst. L. pois. p. corresponde exatamente a lógica da simples diferença (D). pelo processo de caça às bruxas coetâneo à consolidação da ciência. só justificado como uma “operação” ideológica para elidir a dimensão cultural e assim destruir a priori qualquer intento de uma real compreensão da dinâmica social e de uma conseqüente ação subversiva. S.196. Os verbos auxiliares em Português (ser. e mais recente- . haver e estar) mantêm uma correspondência bastante estreita com as quatro lógicas de base (I. Fingimento e Superação na História da Cultura. logicamente otimistas. ter. já o demonstramos. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. 11. L. Mito e tragédia na Grécia Antiga. antecedendo ao liberalismo político e à revolução industrial. Na operação financeira troca-se o mesmo (I). Lógica e Economia. SAMPAIO. envolvendo necessariamente o mesmo (I) e o outro (D). O recalque das lógicas femininas se fez preponderantemente pela Inquisição. SAMPAIO. D/D). C. o que é um evidente erro de categoria. op. W. Cultura-Nova. Noções de Antropo-logia. 1999. Ao verbo ter. S. a econômica e a social mesmo. Rio de Janeiro. Perspectiva. Rio de janeiro. 1988 (xerografado) 9. cit.. e também Crítica da Modernidade. dinheiro por dinheiro. v. Fingimento e Superação na História da Cultura. p. Pierre. S.I) diferentes (D) para cada um dos operadores. 2 10. I/D. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. 8. Brasiliense.D) com utilidades (valor de uso . Na troca de mercadorias está envolvida a mesma (I) quantidade de trabalho (valor trabalho . UnB. só que em quantidades diferentes (D) em datas distintas. Jean-Pierre et VIDAL-NAQUET. S. Desejo. Paulo. hoje tão comum. 1. BENJAMIN. Paulo. Rio de Janeiro. VERNANT. 1998 como também Reflexões. S. junho de 1995. Brasília . julho de 1999. 1999. op. Rio de Janeiro.. Ed. de natureza dialética (I/D). L. de. Aristóteles. Desejo. C.

S. Rio de Janeiro. S. E na esfera lógico-qüinqüitária. cit. invertida. L. C. A história da cultura segundo Toynbee. Retour. cit. Fingimento e Superação na História da Cultura. O Escriba – Gênese do Político. Citado em DEBRAY. cit. C. de. mas não cumprida de suas análises. a verdade como sintoma. A superação das idolatrias . de história da cultura segundo Toynbee. 17. 22. como lá se chegaria? Como se deve entender a “causalidade” lógico-qüinqüitária? Talvez o melhor exemplo que possamos hoje dar seja este da leitura que fundamenta a nossa própria versão do princípio antrópico. Hegel e Marx. Rio de Janeiro. Princípio Antrópico . R. L. L. L. op. de. Como em psicanálise. 1999 3. S. 21. Ninguém melhor para dizer o futuro do que quem se vê por ele ameaçado de morte. 5. Reflexões.. 4. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüintária in Pensamento Original Made in Brazil. O modo como isto acontece no pensamento marxista é detalhadamente exposto em SAMPAIO. Tillich. As letras I. DEBRAY. SAMPAIO. D e suas combinações são uma forma abreviada de referirmo-nos às lógicas da identidade. e terá que ser o primeiro que tem patrimônio. um terá mesmo que ceder. O Escriba – Gênese do Político. respectivamente. novembro de 1999. o fingimento cultural é o caminho para a verdade. C. C. Rio de Janeiro. Tillich. mas também uma crítica implícita à profundidade prometida. Rio de Janeiro. SAMPAIO. op. SAMPAIO. cit. 2. Régis.1997. S. de. Desejo. Oficina do Autor/etc. 20. SAMPAIO. 18.um novo fundamento e uma significação renovada. Hegel e Marx. SAMPAIO. C. op. 24 19. p. da diferença e às suas sínteses reiteradas. L. UAB. 24. Em caso de conflito entre o Papa e o Mercado. outubro de 1999. moderadamente otimistas. Trata-se de uma óbvia referência A Sociedade do Espetáculo de Michel Debord. dada a própria essência da infalibilidade. Rio de Janeiro.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. mas hoje baixa liquidez. Na esfera lógico-clássica ou científica alcança-se à verdade pela verificação empírica ou pela dedução a partir de um modelo formal consensado pela comunidade especializada. A . 1983. C.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 363 mente em A superação das idolatrias . 23. de. S. Este texto foi escrito de modo a ser compreendido independentemente da referência a estas abreviações que aí estão para facilitar a compreensão dos leitores que tenham uma anterior familiaridade com elas.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. Ibid. S. Capítulo 9 1. op. de. L.

S. por exemplo) . Inst. D. 7. L.. é interessante lembrar. (xerografado) 10. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. Makron Books. Também versão na língua portuguesa. mas tão apenas a monótona escala de seus instrumentos de medida. Marcelo C. se alocada a D/D. EMBRATEL. Rio de Janeiro.. entretanto. 1999 (aguardando publicação) 8. Rio de Janeiro. O leitor poderá encontrar por si muitas e muitas outras e se surpreenderá de jamais encontrar nada que o leve a duvidar. apenas como uma esperteza para contornar a incômoda censura eclesiástica de sua época. S. 9. 1988 e ainda BARBOSA. item 4. D/D. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. em 4. por exemplo. SAMPAIO. Ver SAMPAIO. S. Noções de Antropo-logia.. de.Compacto. C. S. mesmo no detalhe. SAMPAIO. cit. na passagem dos semigrupos aos monóides. Esta justificativa é a mais sumária e intuitiva que conhecemos.. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados.. D/D. não importa se a direita ou a esquerda. UAB. 1998. Teríamos então o monóide livre fundamental I. 11. C. SAMPAIO. 1988 (xerografado) ou Noções elementares de lógica . indefinidamente. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. de. 1998 (xerografado). I/D. Ver Sampaio. I. Rio de Janeiro. de. tal qual postas por Deus. por exemplo) se alocada em I/D. Rio de Janeiro. uma partícula alocada a D deva se desintegrar em duas partículas estáveis (W = ν + e ou γ = e + e. D. ainda bastante constringente. C. conquanto que não a mais completa. foi proposta por Galileu e outros precursores da ciência moderna. 1995 (xerografado).As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. 6. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. As Lógicas da Diferença – Rio de Janeiro. C. L. nua. a seqüência dos naturais. O monóide livre fundamental seria pois I. Na realidade. Princípio antópico. D/D/D.364 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO noção de leitura como produtora de verdade. Nela está implícito que. Cultura-Nova.. por nós definida. D. SAMPAIO. das adjudicações aqui feitas. não liam as próprias coisas. S. The Octect of the Physical Beings – Vacuum. Paulo. Rio. S. agindo igualmente à esquerda e à direita. em 3 . ou seja. op. dezembro de 1996. As lógicas . L. C. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. L.. munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento. Um semimonóide é uma estrutura algébrica. 1984 e ainda Lógica da Diferença. a partir de um conjunto finito de elementos. (π0 = γ + γ = e + e + e + e. L. por exemplo. de. porém. I/D/D. ainda pela operação /. de.

moderadamente otimistas. 17. TRINH. DEMARET. Talvez. A. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüitária. Princípio Antrópico . J. 19. C. Para mais detalhes. cit. com cargas fracionárias do modelo standard. SAMPAIO. por exemplo) 365 . L. Medidas em Mev/c2. o mais recente. cit. d. Ademais. op. and TIPLER. Reflexões. como a do fóton e do graviton. Un Astrophysien. mas uma sugestão acerca de um recôndito parentesco entre elas. isto contribui para maior simetria do modelo. 14. Xuan Thuan. Colin. J.L’Homme est-il le centre de l’Univers? Paris. não constituem dificuldades. Champs/ Flammarion.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (µ = ν µ + W = ν µ + ν e + e. as massas referidas são: tau .Quatro constantes relativas às intensidades das “quatro” forças da natureza e pouco mais do que uma dúzia de constantes relativa às características das partículas elementares. op. no novo moBARION QÜINQÜITÁRIO QUARK TRINITÁRIO GLUON GLUON QUARK TRINITÁRIO GLUON QUARK TRINITÁRIO 15.um novo fundamento e uma significação renovada. 1988 e. Os barions constituem uma estrutura qüinqüitária formada por três estruturas trinitárias (os quarks. ainda uma conseqüência do trauma que vem dos tempos em que eles eram obrigados a prestar contas à teologia oficial. que vai elucidar como de fato operam as forças simples. Oxford U. cit. Le principe anthopique . cit 20. P. F. segundo o modelo standard). Paris.. The anthropic cosmological principle. 12. A topologia é tal que não deixa qualquer dúvida quanto à impossibilidade da existência de quarks em estado de isolamento. b e t. SAMPAIO. et LAMBERT. Nome proposto pelo astrofísico australiano Brandon Carter para um pretenso princípio estabelecendo uma correlação profunda entre o homem e o cosmos. 1995. c. que justamente já apresentava dois casos de dupla alocação de fermions (elétron junto com neutrino do mion e mion com neutrino do tau). op. poderíamos ter. s. 18. J. S. D. de. Ao invés dos quarks u. As alocações conjuntas.. em Pré-D. 16. Noções de Antropo-logia. D. ver nosso trabalho citado na nota 10 anterior. 13. The Octect of the Physical Beings. Indicamos ainda dois excelentes livros sobre o assunto: BORROW. Ver SAMPAIO. op. Ver SAMPAIO. Oxford. 1994.

L. D. por suposto). e como (I)/(D/2 ) = I/D/2. sim. 24. D } o feminino.próton = 938. que o fez no contexto de um teoria da relatividade geral complexa. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. o feminino (I/D. teríamos que admitir em substituição um agregado de mesma natureza sexo-lógica. pode haver uma opção sexual adulta. Théorie de la relativité complexe. 25. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. como é o caso de Charon. Lacan et logiques. Esta é uma forte razão suplementar para que a antiga força forte piônica deva ser considerada ainda uma força de per si. . que embora redutora. 27. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2).366 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO =1784.Ver SAMPAIO.2. Rio de Janeiro. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. nêutron = 939. 1977. as que lhe antecedem: I. Com isto. etc. 22. Princípio antrópico. C. a ideologia burguesa que pretende constituir a sociedade a partir de indivíduos (pseudo-andróginos-virtuais. Colocamos o termo ‘família’ entre aspas para chamar a atenção de que se trata de um agregado de base. conclui-se. o que não vale para agregados de nível superior. J. 1992. S. 26. O par diagonal {I.daí. cit. No interior do núcleo (à distância de 10-15 m) prótons e nêutrons trocam pions (força forte de Yukawa). 23. etc. D/2. Paris. 28. Ediouro. 21.57. As idéias de Teillard de Chardin fizeram escola e foram retomadas inclusive por físicos . op. Banquete. I). necessariamente sexo-lógico.5. lógica que subsume. Para resolver este problema é necessário levar a criança de ambos os sexos à posição I/D/2 e. 1996. e é precisamente isto que impede a desintegração do nêutron. a propósito. Menon. a problemática edipiana vai apenas até a aceitação da lógica da castração (D/2). ‘o que quer uma mulher?’. só depois. D) fica logicamente diminuído. É um absurdo. CHARON. I/D. PLATÃO. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. de. além de si própria. Esta. Rio de Janeiro. é a prova da igualdade fundamental de homens e mulheres.30. O ser humano é de nível lógico I/D/2. SAMPAIO. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado).1010 anos. imediatamente. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). Mesmo que se contestasse a necessidade da família burguesa. Fedro. A Michel. expressões tão chocantes como ‘a mulher não possui superego!’. é suficiente para compreender a lógica do rapaz (D/2. pois só vai até I/D . como nos outros animais. Em Freud.Um valor desmesurado dado que a unidade natural de tempo cósmico (tempo de Planck) vale apenas 10–43 s e o próprio Universo tem apenas cerca de 1.

SAMPAIO. D. Luiz Sergio C. D. Makron Books. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. 7. ver SAMPAIO. Teríamos então o monóide livre fundamental I. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. munida de uma operação genérica “/” gozando das propriedades de fechamento. D/D=D/2 (lógica clássica). agindo igualmente à esquerda e à direita.. Rio de Janeiro. indefinidamente. L. Teríamos. por exemplo. Um semimonóide é uma estrutura algébrica. Denoel/ Gonthier. Zahar. dezembro de 1996. D/D. 5.. a partir de um conjunto finito de elementos. 1979 2. S. por nós definida.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 367 1. As expressões I. O monóide livre fundamental seria pois I. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. de. de.. C. Rio de Janeiro. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. C. S. Rio de Janeiro. I/D (lógica dialética). desde que não as tema. fasc. Arnold.. Théologie de la culture. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores.194. enquanto que a nossa síntese dialética generalizada pode operar reiteradamente sobre elas e seus anteriores produtos. Para maiores detalhes. não importa se a direita ou a esquerda. UAB. As Lógicas. ainda pela operação /”. D/D/D. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. de. ou seja. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. L. A sociedade do futuro. Lógica da Diferença. SAMPAIO. L. I/D/D. então.. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. na passagem dos Capítulo 10 . Paul. 1998.. D. Rio de Janeiro. D. S. D/D. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Noções de Antropo-logia. I/D etc. Noções de antropo-logia. C. são apenas uma taquigrafia. A aufheben hegeliana opera apenas a síntese das lógicas da identidade e da diferença. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. a seqüência dos naturais. (xerografado) 4. abris/junho 1999 6. TILLICH. UAB. Rio de Janeiro. C. 1968 3. M. (EdUERJ 2000) Revista Brasileira de Filosofia. nua. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). TOYNBEE. I. Paris. S. Na esfera mundana. Ver Sampaio. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”.. Paulo. de. I/D.

de outro. SAMPAIO.V . Inst. I. opus cit. 10. S. S. pp. S. UAB. C. Ver especialmente. de. da imanência de Deus. Luiz Sergio C. fingimento e superação na história da cultura. Herder. S. op. 1995 (xerografado). Rio. 8. As lógicas . SAMPAIO. Os resultados a que chega a analogia fidei. L. (xerografado). p. de. Rio. na transcendência. a nosso juízo.33 20. 13. 1997. SAMPAIO. C. 23-24 21. C. RAHNER. Karl. de um lado. .368 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO semigrupos aos monóides. M. S. Existe uma fortíssima razão de simetria que não pode ser aqui convenientemente exposta. dezembro.34. de. 1968) que observa que entre as duas analogias não há outra diferença que aquela da simples ênfase relativa. Ver especialmente item 1. o que é corroborado por Battista Mondin (The principle of analogy in protestant and catholic theology. L. tal como já insinuamos.2 . Apontamentos para uma história da física moderna. C. C. de. cap.Questão de método. Luiz Sergio C. de Desejo. Rio de Janeiro. Ver SAMPAIO. SAMPAIO. Noções de teo-logia. SAMPAIO. Noções de teo-logia. L’être et le temps. de. de. 1984. S. SAMPAIO. L. 1993/1997. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária.1998 24. SAMPAIO. Paris. 1996. CulturaNova. UAB. Ibid. 22. fingimento e superação na história da cultura. SAMPAIO. a primeira. Noções de antropo-logia.As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. Barcelona. 47-48. Noções de onto-teo-logia. Gallimard. Paulo. estagiário do DRH da EMBRATEL. de. C. não diferem em muito daqueles que se obtinham por via da analogia entis. S. 1964. C. (xerografado) 9. Ibid. L. Cultura-Nova. 2 v. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. S. L. 17. Rio de Janeiro. a última identifica-se com a metafísica no seu sentido pejorativo. 12. 1998 (xerografado) 14. C. Curso fundamental sobre la fé. Rio de Janeiro. opus cit. com ela não se confunde. Hague. porém. 1991. Ver SAMPAIO. 1988 e Noções Elementares de Lógica – Compacto. C. 1985. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. S. L. IC-N. 18. (xerografado) 11. com o pensar de uma era ainda por vir: era da cultura nova qüinqüitária. Marcelo Celani. 15. L. pp. SAMPAIO. Noções de teo-logia. de. 23. de Desejo. 16. Makron Books. junho de 1995. Noções de teo-logia. HEIDEGGER. A expressão onto-teo-logia no título do trabalho em questão é uma óbvia alusão à ontoteologia heideggeriana. de. L. cit. S. Fui chamado a atenção para o fato por um bolsista. como também BARBOSA. Rio de Janeiro. L. Rio de Janeiro. que eu chefiava em 1993. 19. opus cit.

1999 9._____. novembro de 1999 12. Rio de Janeiro. fasc. _____.. Princípio Antrópico . op. Hegel e Marx. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. op. abris/junho 1999 5. fevereiro de 1997 e ainda Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. 4. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. Rio de Janeiro. 1998 8.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (xerografado) 369 Capítulo 11 1. _____. Rio de Janeiro. Oficina do Autor/etc.. Rio de Janeiro. Desejo. uma versão abreviada e significativamente modificada do volume I da obra homônima e ainda Lógica da Diferença in Revista Brasileira de Filosofia. op. dezembro de 1996 e A história da cultura segundo Toynbee. SAMPAIO. 1993/1997 e The Octect of the Physical Beings – Vacuum. _____. Rio de Janeiro. EMBRATEL/UAB.194. e também A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. ICN. Tillich. S. _____. 1996 14. Apontamentos para uma história da física moderna. julho de 1999. cit. 1994 e também Considerações Gerais sobre a História da Cultura – Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da Situação Brasileira. out. 1999 3. _____. Paulo. Rio de Janeiro. cit. A superação das idolatrias . setembro. Noções Elementares de Lógica – Compacto. Princípio Antrópico. outubro de 1999. Rio de Janeiro. II. de. 1998 7. Rio de Janeiro. logicamente otimistas. _____. 10. e Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. III e IV em 2 vídeos. L. 13.._____. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Noções de Antropo-logia. S. cit. Rio de Janeiro. UAB. Brasília. C._____. _____.. 1999. 6. op. Introdução à Antropologia Cultural. Reflexões. _____. UAB. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. Rio de Janeiro. I.5 h de duração. 1991. Crítica da Modernidade. 11. 15. op.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. Noções de Antropo-logia. 2. Ibid. . Rio de Janeiro. Noções de Antropo-logia. Brasília. UAB. com cerca de 3.._____. Fingimento e Subversão ma história da Cultura. cit. _____. vídeos. op. cit. Introdução à Antropologia Cultural. UnB. cit.um novo fundamento e uma significação renovada. palestra no Evento anúncio do Programa do Laboratório de Estudos do Futuro.

sim. op. era de excepcional oportunidade e de uma grande importância. Estas notas de palestra já estavam obviamente alinhavadas. na nossa opinião. tema sobre o qual ele mesmo havia escrito um livro que tínhamos já na pasta e à mão. _____. agora. negamos e coetaneamente já somos. presidindo a Mesa nos apresentou à platéia como economista e especialista em informática. o emérito professor Dr. nos perguntou de que “lugar” nós iríamos falar.370 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 16. de algum modo. espero que para muito breve. Lauro Morhy no evento Anúncio do PROGRAMA DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DO FUTURO. mas levou-nos à convicção que não respondêramos satisfatoriamente à sua pergunta do almoço. a nosso juízo bem melhor. a pergunta por si constituía-se numa revolução: não se indagava mais se os primitivos tinham alma. que seria o coordenador das apresentações da tarde. posteriormente. uma nova cultura sob o sol dos trópicos. Ainda. mas especialmente como uma terceira tentativa de resposta àquela . arrojado descobrimento europeu ou se o início das tribulações e das penas de gentes que já aqui haviam e outras chegadas de outras partes que estão fazendo emergir. Desejo. as referências eruditas gratuitas e outras velharias para enfrentar. Tentamos por duas vezes responder que partíamos da problemática levantada por Lévy-Bruhl referente à questão do pensamento pré-lógico dos primitivos. Por isso. O professor Dr. o que em si não traduzia nenhum menosprezo. não estávamos ainda bem certos do que comemorar: se um. que. pois. a Invenção do Brasil. sem dúvida. Fingimento e Subversão ma História da Cultura. durante a nossa exposição fizemos reiteradas alusões ao episódio. enfatizando que este primeiro item valeria por si. às vésperas do ano 2000. Capítulo 12 1. os déjà-pensées. que estava sendo anunciada como atividade central do Laboratório de Estudos de Futuro para o próximo biênio. inclusive para lhe pedir que o autografasse. 2. cit. Roberto Cardoso de Oliveira. esta nossa velha preguiça de pensar o novo. Considerávamos que. Dr. independentemente da resposta dada pelo pensador francês. Roberto Cardoso de Oliveira. Não é preciso enfatizar o quanto nos sentimos honrados por lá estar presentes e o melhor que podíamos fazer para nos aproximarmos um pouco do talhe da oportunidade que se nos era oferecida seria evitar as trivialidades. quando no almoço que precedeu à nossa apresentação. O presente texto teve origem nas notas para uma palestra realizada a convite do Magnífico Reitor da UnB. perguntava-se se eles tinham lógica (clássica). A série de eventos.

Contribuition à la Logique. A Decadência do Ocidente. O psicanalista francês André Green. por sua vez. F. de 1996. Fenomenología del Espírito. SPENGLER. “a proposta de nossos políticos para as gerações modernas é ‘suicidem-se’. a seu ver. Para qualquer dúvida sobre esta nota. 7.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 371 sua mui justa e sábia indagação. HEGEL. 1998. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. FOUCAULT. de. AXELOS. UAB. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Cultrix. 1972. (org. 12. A Arqueologia do Saber. Paris. DUBY. D. México. BARBOSA. de Minuit. 10. Le Jeu comme symbole du monde. Paris.” Provocações do pensar. Histoire des Mentalités. M. Rio de Janeiro. Gallimard. são apenas uma taquigrafia. As expressões I. Petrópolis. entrevista de André Green em Jornal do Brasil. Estudio de la Historia. 1966. possa tê-las como um conveniente e simples apoio de leitura. 1982. ver SAMPAIO. B. 1960 4. 13. Teríamos. Na esfera mundana. S. Para maiores detalhes. recentemente instado a justificar o seu pessimismo em relação ao mundo atual. Vozes. 1972. M. 1976. Brasília. M. UnB. Rio de Janeiro. de Minuit. nos arquivos da UnB que. C. As Lógicas. de Minuit. Paulo. Georg. Eugen. C. Noções de antropo-logia. 5. 1981. I/D etc. só poderá ser bem compreendido com a ajuda desta nota. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. Kostas. Paulo. 6. 8. I/D (lógica dialética). Georges. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). Paris. 1971. Compendio I/IV. Luiz Sergio C. G. LÉVI-STRAUSS. Paris. S. C. Madrid. História: método sem objetivo específico in NIZZA da SILVA. então. Makron Books. D/D=D/2 (lógica clássica). As lógicas – As Lógicas Ressuscitadas Segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. Histoire et Conscience de Classe. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. Teoria da História. FCE. 1998. W.). M. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. desde que não as tema. Alianza. TOYNBEE. declarou que. 19 de out. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. LUKACS. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. O. 3. consultar registro televisivo da sessão. 9. . 1977 e também FINK. 2. Idéias. A.

1994 20. Razão e Diferença. Rio de Janeiro. tomando-se. C. como em todas as culturas. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). inclusive o homem. 15. 22. op. D. que forma a base da pirâmide representativa de I/D/D. Ed. S. II. Rio de Janeiro. A representação arquetípica da lógica qüinqüitária aparece em quase todas as culturas como uma figura de 5 elementos. cit. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. A religião na Modernidade. (2) só é na medida em que remete a outro (D). (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). 1998. pelo mesmo autor. 1993. 14. 21. entre outra coisas. SAMPAIO. (5) é complacente ao Absoluto. GOLDMAN. L. S. sendo a mais comum e sugestiva. É o conjunto das lógicas da identidade (I). Rio de Janeiro. é produto da . As Lógicas. permitem a re-definição ou sobre-impressão da sexualidade no ser. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. é de grande importância. 17. UFRJ/Gripho. segundo Lacan. do saber inter-subjetivo (por isso. III e IV. a pirâmide de base quadrada. I/D e D/D. cit. tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). S. um pouco abusivamente. Alternativamente. de .15. SAMPAIO. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). L. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. EMBRATEL/ UAB. Ver BARBOSA. Noções de antropo-logia. Rio de Janeiro. são inúmeros os casos de culturas logicamente híbridas.372 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Makron Book. Fingimento e Subversão na História da Cultura. Desejo. de. C. op. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/2). UAB. Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. L. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o devir (I/D). Isto é valido inclusive para a Modernidade. SAMPAIO. SAMPAIO. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. in Sete ensaios a partir da lógica ressuscitada. As lógicas de base são as lógicas propriamente subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária: I. C. 23. Márcio. 1995. clássica ou da dupla diferença (D/D) e qüinqüitária (I/D/D) que permitem pensar todos os entes mundanos. embora não permitam dar conta de modo compreensivo. Este conjunto. de. 1998 18. Noções de antropo-logia. dialética (I/D). Ademais. porque suas diagonais. Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. da diferença (D). I. é impossível o calculo do outro!) 19. UERJ (no prelo) 16. Rio de Janeiro. o vídeo Antropologia cultural. 1996.humano.

como mereceriam. entre outros. isto é. ou seja. pois. Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. Consideradas todas as culturas nodais anteriores (ecológicas e propriamente lógicas. SAMPAIO. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 373 sacralização de sua lógica própria. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. o cristianismo patrístico aparece como histórica. mas como dotado de uma outra lógica. Não é surpresa. 29. cit. cuja necessidade foi há muito pressentida. I. ao todo 5 . a síntese da identidade com a dupla diferença. das relações EUA/Brasil. em um modo próprio . logique du sentiment. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). L. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. op. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. D e I/D).. Aliás. que isto é o suficiente para demonstrar em definitivo que a História não é um processo dialético trinitário hegeliano (apenas). mas um superior processo hiperdialético qüinqüitário. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. 24.. Observaríamos. mas não logicamente qüinqüitário. Por isso ela é politeísta. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. precisamente. pois na ver- . contudo. de. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt.pré-I. 28. porém. Desejo. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. C. em profundidade. 27. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. Ademais. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. S. uma polêmica cheia de veneno e má fé. não se dão conta que o fazem. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. como pseudoqüinqüitário. crenças e ritos. isto é. Isto tem implicações de uma incalculável amplitude que não podemos (ou talvez nem soubéssemos) aqui explorar. 26. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. 25. além. pré-D. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica.

34. pois. 1978. Arte Retórica e Arte Poética. 43 41. A República. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular . Por isso. Tomo I. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. 40. foi vítima deste tipo de “ ilação”? 33. por isso as subsume. S. 1959. 101 39. BATAILLE. Gallimard. cit.opus citado. sem a menor cerimônia. ibid. em sua máxima generalidade. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . op. 92 38. vol. porém. Le Jeu comme Symbole du Monde. Paulo. 36. p. Atena. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. é bom aduzir que não é de agora.. é ele sem dúvida o grande culpado. George. Finalmente. 59. como a Índia. 90. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. sua oposição à filosofia. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. Difusão Européia do Livro. 30. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. Paris. Rio de Janeiro. muita antiga. Reflexões. e sendo-lhes assim tão íntimo. ibid. 228. 1966 p. S. por excepcional (de exceção) o atual momento destas relações. ELIADE.374 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. p. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. p. Paulo. Platão. As- . Quem já não viu. A lógica clássica ou da dupla diferença. p. Paris. 31. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. Exclui-se aqui. 1955. 32. FINK. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária.. SOCRATES: . Minuit.. 58. 1. História das Crenças e das Idéias Religiosas. Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo que acabou acontecendo. 37. 1966. F. p. Oevres Complètes. Mircea. inclusive) é crença corrente entre os gregos. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. enquanto que o segundo é um marginal. ou pior. sim. ib1973. ARISTÓTELES. porém. Eugen. Hölderlin. p. (negritos nossos) 35. Théorie de la Religion. lá e cá. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). ELIADE. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. Zahar.

II.. SAMPAIO. ingleses. não pegou. de. assim como. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. I/D. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . Apontamentos para uma história da física moderna. Quem vai a Westminster e vê o túmulo de Newton no centro mesmo da catedral. 45.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 375 sim. S. a maior parte de sua carreira atuando em Hollywood. Todas as demais grandezas físicas estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade.II e IV. D/2. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. igualmente mencionado. O I. além de si própria. D } o feminino. grama e segundo) ou mks (metro. Rio de Janeiro. ICN. L. 50. Vide a última Carta Encíclica – “FIDES ET RATIO”. UAB. opus citado. SAMPAIO. de. em parte. out. (2000) 43. por suposto. lógica que subsume. 1993/97. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. feito desejo domesticado pelo marketing. Ver Reflexões. Rio. como nos outros animais. O par diagonal {I. herdado pela lógica clássica. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). 42. 1995. A separação drástica luterana entre fé e razão. Rio de Janeiro. conclui-se. Noções de antropo-logia. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqüitária. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). C. Referência a John Ford. sistema cgs (centímetro. L. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida. mas felizmente para eles. L. o grande realizador cinematográfico irlandês. 49. Brasília. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. O ser humano é de nível lógico I/D/2. C. S. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. constata que isto foi tentado. A Questão Cultural – Palestra proferida no workshop sobre A Questão Cultural. FINEP/ etc. pelo mesmo autor. quilograma e segundo). 46. de. D. 44. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). 47. as que lhe antecedem: I. (xerografado) 48. S. o vídeo Antropologia cultural. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. a Igreja Católica sempre namorou a ciência.. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. mas sim o que era necessário . Por exemplo. Na modernidade capitalista. não criou a ciência. massa (M) e tempo (T). Ao contrário do que se diz por aí. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. SAMPAIO. imediatamente. 1996. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. C.

desse modo. 51. suporta a maior pressão das tenazes. 56. quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. como um fantasma. Galileu Herético. Companhia das Letras. Isso implica e exige . 55. Aqui deveria entrar o cultural e é precisamente para ocultá-lo que se comete o absurdo de considerar o social parte própria de si mesmo. Pietro. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma.376 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para criar uma sociedade ou cultura científica: nada mais nada menos do que o sujeito liberal liberado para ser sujeitado à ciência ou. estando no meio . Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. foram já muitos e entre eles o Padre Antônio Vieira. o mais ameaçado. A Alemanha. Paulo. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio poder ser “vivido” simultaneamente. Não somos nós a dizer isto. REDONDI. Não há nada mais ridículo do que dividir o social em político. com a Rússia de um lado e a América de outro. É o povo que tem mais vizinhos e. 53. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. Os denominados problemas sociais nada mais são do que a banda podre do modelo econômico vigente. S. como o grande homem de um povo. econômico e social mesmo. Rússia e América. como História. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. então. acontece precisamente o contrário. é o sujeito (I) que se sobrepõe à lei (D/D). quando tempo significar apenas rapidez. Essa Europa. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. em tudo isso é o povo metafísico. houver desaparecido da existência de todos os povos. que pela ousadia quase foi executado pela Inquisição. Na perversão pessoal. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. simplesmente. Segundo um programa de TV focalizando cada um dos países europeus. para se constituir em sujeito da ciência. 54. perguntaríamos nós). na perversão social. tipo de psicose. quando o pugilista valer. mas. 1991. existe um empenho deliberado (por quem?) em desenvolver a gastronomia alemã com a finalidade de atenuar sua pressuposta inclinação belicista (ou anti-consumista. que esse povo ex-ponha Histo- . 52. consideradas metafisicamente. Pessoal e social são sempre anti-simétricos.

A “elite”. é seu justo contrário. 57. ao domínio originário das potências do Ser. HEIDEGGER.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 377 ricamente a si mesmo e a História do Ocidente. . pp. 1966. Povão é empregado aqui como uma verdadeira categoria sociológica. tipicamente brasileira. 79-80. não importa que tenha extremos. tornando-se assim um autêntico empresário schumpeteriano (I) (caso verídico ocorrido no Rio). a partir do cerne de seu acontecimento futuro. assim mesmo entre aspas. que de certo modo pode incluir todos. por exemplo é freqüentado pelo povão. M. Introdução à metafísica. uma geral e uma tribuna de honra. desde que em estado de congraçamento. incluindo até um miserável que se pôs sob um viaduto (D) recém-inaugurado e com um giz delimitou internamente retângulos (D) para alugá-los a outros ainda mais miseráveis. Rio de Janeiro. O Maracanã. Tempo Brasileiro.

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