FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Filosofia da cultura
Brasil: luxo ou originalidade

Luiz Sergio Coelho de Sampaio

EDITORA ÁGORA DA ILHA

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

FICHA CATALOGRÁFICA
SAMPAIO, Luiz Sergio Coelho de - 1933 Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade / Luiz Sergio Coelho de Sampaio Rio de Janeiro, março de 2002 páginas 378 Editora Ágora da Ilha Ciência filosófica Pesquisa ISBN 86854 CDD-100 CDD-0001.4

COPYRIGHT: Luiz Sergio Coelho de Sampaio

lscsampaio@openlink.com.br

Direitos desta edição reservados ao autor, conforme contrato com a Editora. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa do mesmo. Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade - CIÊNCIA FILOSÓFICA / PESQUISA Capa: Talita Lobo Coelho de Sampaio Editor: Paulo França RIO DE JANEIRO, MARÇO DE 2002

EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.: 0 XX 21 - 3393-4212 agorailh@ruralrj.com.br

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Para meus pais Ascendino e Maria da Paz, que lá ficaram fixos e incomunicáveis em duas dobras tristes do tempo. E também para Lailce e depois, por ordem de entrada em cena, para Tatiana, Thais, Talita, Henrique, Ivo e Felipe.

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Sinopse
Uma proposta radical de revisão da noção de história, na
verdade, história da cultura (processo hiperdialético de realização plena do modo de ser-coletivo do homem, “fenomenologia do espírito” que ao invés de evitar a ciência e sua lógica, seja de fato capaz de subsumi-la). Tem como finalidade, entre outras, viabilizar a crítica da Modernidade, iluminar o horizonte de sua possível superação, reacender o pensamento utópico. Neste novo espaço histórico compreensivo situar o Brasil: reler sua real destinação, intuir suas responsabilidades maiores e contribuir para a implementação de suas estratégias de sobrevivência e realização.

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Sumário
1. Porque, também, uma filosofia da cultura.......33 2. Bases lógicas para uma antropologia filosófica..39
2.1. 2.2. 2.3. 2.4. Preliminares............................................. 39 A lógica ressuscitada..................................40 Uma antropologia esperançosa...................53 Situação e perspectivas brasileiras............67

3. Acerca da lógica e da cultura........................71 4. Desejo, fingimento e superação na história da cultura.........................................................89

4.1. Considerações introdutórias.......................92 4.2. Uma cultura e suas três lógicas..................95 4.3. Desejo, fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais...........................................100

4.5. Especulações acerca do futuro da cultura.....131

4.3.1. Nos antigos impérios de base agrícola - o mito e a pseudo potência sacerdotal.....................101 4.3.2. Entre os gregos - a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos..............................................104 4.3.3. Na Modernidade - a física e a biopirotecnia..110

5. Modernidade – das origens à globalidade etnocida.........................................................135

5.1. Antecedentes da Modernidade....................138 5.2. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso.................................................143

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
5.2.1. Ciência, sujeito liberal e, antes, a caça às bruxas....................................................................143 5.2.2. Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno, consumista e etnocida................................148

5.3. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade...........................................................159

6. Crítica da Modernidade................................167
6.1. Introdução...............................................167 6.2. A rematada impotência das ideologias.........169 6.3. Para além das ideologias...........................176
6.3.1. Heidegger – a ciência e a técnica..................178 6.3.2. A Escola de Frankfurt – os meios de reprodução e comunicação de massa............................185

7. História da cultura segundo Toynbee, Tillich, Hegel e Marx.................................................193 8. Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária....203 9. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural.................225

9.1. Re-estruturaçào do território lógico................229 9.2. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura...........................................233 9.3. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares.............................................236 9.4. Princípio antrópico renovado.........................241 9.5. Re-significação cósmica da história da cultura.248

10. A superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária...................253

10.1. A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto.....................................255 10.2. Superação da idolatria com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária........................259 10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente.............264 10.4. Afinal, Deus depois do adeus às idolatrias.269 10.5. Antecipações - a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano....273

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11. Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira..........................279 12. Considerações gerais sobre a história da culturas – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história, conjuntura e perspectivas brasileiras...............................................287

12.1. A história como processo hiperdialético....287 12.2. Um esboço de história da cultura.............295 12.3. Desejo, fingimento e superação................298 12.4. A Modernidade.......................................313 12.5. O Brasil e a Modernidade.........................317

pois. uma alternativa completamente nova para nossa auto-compreensão. posso dizê-lo. A seguir. que trouxe o desinteresse pelo pensar. com esta obra. cuja figura exponencial é Miguel Reale [1]. com satisfação.decifrar o ser e a destinação do Brasil. É interessante assinalar que Sampaio. vem reavivar aquela tradição. Tal disposição nasce com a própria filosofia no Brasil. que registro a ressurgência do que até então fora uma obsessiva preocupação dos mais expressivos intelectuais brasileiros . praticamente extingue-se entre nós o interesse em pensar o Brasil. obviamente. Dentre as virtudes genéricas deste trabalho não posso deixar . se mantém viva em Tobias Barreto e se solidifica no que se convencionou denominar de culturalismo brasileiro. oferecendo-nos. foi o tempo da “Revolução”. Primeiro. cada dia que passa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 11 Prefácio Luxo ou originalidade − a propósito da problemática cultural brasileira Depois do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Digo pensá-lo e não “desconstrui-lo”. Refiro-me especificamente a Luiz Sergio Coelho de Sampaio que. É. vieram os tempos da “Nova República”. nos quais. aos que o faziam e fazem vindo já de mais longe. com a presente coletânea Filosofia da cultura. menor se mostra o interesse pelo Brasil. está também dando continuidade a uma tradição já bem nossa. de buscar na filosofia os meios conceituais para iluminar os caminhos e descaminhos da brasilidade. Não me refiro. 1955-1964).

proporcionar uma nova e mais profunda compreensão da problemática cultural brasileira -. sobretudo. está na postulação de ser e pensar como o mesmo. como de costume. deixa de permanecer válido e atual). 1. O pensamento não poderia tolerar que. algo lhe pudesse para sempre escapar. cuja verdade assumida. indo mais além. visando sobretudo o melhor proveito do leitor. radicada. Nestas . embora já tivesse tido a oportunidade de analisar detidamente o pensamento filosófico de Sampaio [2]. Preliminares lógico-filosóficos – ser e pensar para além da ciência O melhor caminho para a compreensão das idéias filosóficas de Sampaio é a epoché para valer . na mera compreensão. um grau superior de simplicidade e clareza. que a reflexão filosófica não se aplica ali. nem por isso. o trato da problemática brasileira não se detém. mais valeria tudo reconsiderar. Vejamos em detalhes cada um destes aspectos específicos. ao invés de apenas repetir ou resumir o que havia dito (que. achei que. sendo justificadamente mediada por uma sólida antropologia filosófica que se completa com uma conseqüente antropologia histórico-cultural. é adaequatio. sabese.a epoché como um honesto esforço de suspensão de preconceitos e não como flatus vocis. desde Parmênides. na tradição filosófica ocidental. entre o abstrato e o concreto e. Por isso. Trata-se sobretudo de aceder ao chamamento das coisas e dos acontecimentos como tais. destacaria três importantes aspectos: primeiro. entre o especulativo e o pragmático. a renúncia àquela pretensão. sim. se aventurando o autor a traçar os lineamentos de uma corajosa e incisiva ação estratégica cultural. Para Sampaio a linha mestra da filosofia ocidental. de antemão. à problemática cultural brasileira. um mero sinal de adesão acadêmica oportuna a uma corrente filosófica de prestígio. Por isso. o fato da filosofia que lhe serve de base se constituir numa produção própria. que se sabe sempre possível. sem mais. precisamente.12 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de assinalar o vertiginoso encurtamento de famigeradas distâncias: entre o denso e o legível. mas o fazendo de maneira essencialmente crítica e inovadora. o grande problema da filosofia hoje seria medir-se com a ciência. terceiro. para desta sorte conquistar. Com respeito ao seu objetivo específico . segundo.

o Hegel da maturidade. abdica de sua própria essência. agora evidente. Tudo se resumiria. no âmbito da Modernidade. iluminar-se-ia naturalmente um novo território lógico por conquistar. Tudo bastante simples: a referência. da Ciência da Lógica consumada. para enxergar mais longe. nada melhor do que subir nos ombros dos gigantes predecessores.Pascal (que jamais cede quanto aos direitos do coração). o procurado deveria estar por todo canto. pois. de todo o território lógico conhecido. oportunamente recalcado. Em síntese: passar da dialética à hiperdialética. algo que fora deixado para trás. Tratando-se de filosofia. subsumindo a lógica clássica formal. capaz de “ultrapensar” a ciência ou. reta e imediatamente. justamente por se almejar entre elas a mais alta. que. fosse mesmo este o caso. a questão primordial não estava em procurar. precisando dar conta de seu próprio fundamento. Já se disse. a lógica clássica formal que. haveria do que os de Hegel?! Sobretudo. ou enfrenta o desafio de pensar de mais alto a ciência. que é o mesmo que compreendê-la em sua motivação desejosa e significação social última. a partir dela.antes e mais do que fenomenologia uma lógica. por sua própria índole. que ombros mais altos. É exatamente aqui que Sampaio consegue ser surpreendentemente óbvio: embora as aparências encaminhassem noutro sentido. cuja recuperação pudesse levar à re-significação da lógica clássica formal e. de recuar. quando já convicto estava de que sua filosofia (como qualquer outra). o âmbito mais próprio e inevitável do problema. Sampaio vai então circunscrever toda uma plêiade de pensadores “desviantes” . sempre dissimulado. no trânsito. ou a filosofia se deixa marginalizar. algo superior ou mais à frente da lógica clássica imperante. assume-se “pensamento das pequenas causas ou das realidades parciais e a varejo”. Tratava-se. sim. mais precisamente. a lógica. Kierkegaard (entrincheirado por trás do parado- . Ora. com inteira razão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 13 circunstâncias. procurar “algo menor”. todo o tempo presente. sobre a ciência impera. como tão judiciosamente observa Heidegger [4]. além de sempre bem largos. porém. a tarefa. pelo contrário. a de se ultrapassar a dialética e alcançar um pensar maior ou mais complexo. Isto posto. a rigor. em se conseguir levar aquela postulação mestra para além dos limites do saber científico [3]. teria que ser . seria Hegel.

restaura-se o mundo da lógica conforme esta de fato se apresenta na tradição filosófica. com a dialética e suas lógicas geradoras. Podemos sumariar as concepções filosóficas de Sampaio [6] dizendo que a lógica deve ser considerada um saber sobre os modos efetivos de pensar e não mera convencionalidade lingüístico-formal. pressupunha a dialética. Com esta concepção. podia ser agora propriamente caracterizada como lógica da diferença reiterada. porque a patrística agostiniana precede a escolástica tomista. Daí porque Platão precede a Aristóteles. inclusive. também com muita propriedade. E o que era mais importante: havia uma hiperdialética sucedendo a lógica clássica e subsumindo-a junto. A partir daí vislumbrava-se a verdade de um pensar potente para de fato compreender a ciência (e fazê-la instrumento) e a própria cultura que a sacraliza . assim como a lógica clássica ou da dupla diferença. Heidegger (à escuta nostálgica do logos heraclítico). mais exatamente. a simples condição de lógica recalcada revela-a como lógica trágica. Com exatidão. Lacan iria isolar e denominar. Ora. subsumindo-a em conjunto com a lógica da identidade (ciclo dialético). A lógica clássica.14 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO xo). de modo necessário e desde sempre. Era ainda esta mesma lógica que operava nos inconscientes que a psicanálise tanto espreitava. tal como hoje reivindicam os poderes acadêmicos. subsumindo-a em conjunto com a lógica da simples diferença (ciclo contra-dialéico). que. Deleuze (surfando entre dobras e diferimentos) e outros . Tornava-se então mais do que evidente que a lógica clássica e agora também da dupla diferença. porque o socialismo científico do Outubro Vermelho teria mesmo que fracassar um dia diante dos desafios da ciência e da técnica. e tantas e tantas outras coisas mais. sucedia a dialética. lógica cínica dominadora. lógica do significante [5]. porque o pai mítico precede ao filho submisso à lei de seus pares tanto quanto à gramática. no dizer de Sampaio. que ele denomina lógica da diferença ou. podia-se então dizer que a dialética sucedia à lógica da diferença. Duas seriam então as lógicas fundamentais: a lógica da identi- .e identificá-los como filósofos desta lógica esquecida. lógica da simples diferença. Nietzsche (apostando no retorno vigoroso do mesmo).a nossa própria Modernidade.

respectivamente. mas ao próprio poder fatual da ciência) e. que se faz passar hoje por hegemônico. simbolizadas. são gerados os nomes de todas as demais lógicas. e não apenas na ordem transcendental (I). Sampaio deixa. como havia sido posta por Parmênides (pois o mesmo é ser e pensar) ou dialético trinitário (I/D). da diferença. como reposta por Hegel (O que é racional é real. A partir delas. hiperdialética qüinqüitária. só que agora. com o concurso da noção de síntese dialética generalizada representada por “ / ” (uma generalização da “intraduzível” aufheben hegeliana). I/D/D=I/D/2. da diferença e dialética. assim. D/D/D=D/3. a correspondência estrita entre ser e pensar. D/D=D/2. Enquanto a dialética é um pensar sintético da totalidade enquanto tal. Aceita Sampaio a crítica heideggeriana relativa ao afastamento entre ser e pensar desde Platão e sua derivação em ontoteologia. de que maneira a lógica clássica formal (lógica da ciência. a confrontação da dialética trinitária (I/D) com a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) é fundamental para a compreensão das limitações da filosofia hegeliana e marxista (frente não apenas à crítica científica. Por outro lado. para que se vislumbre o caminho para a superação do “pensamento único” (D/2). D/D=D/2) subsume a dialética hegeliano/marxista (I/D). por convenção. a lógica clássica se constitui como uma analítica das totalidades por convenção. Estas considerações formais são essenciais para que se possa dar conta do poder da ciência (hoje sob a forma de obsessiva informatização/sistematização do mundo) e para a compreensão. como a supera ao mesmo tempo que dela herda o poder totalizador.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 15 dade (ou transcendental) e a lógica da diferença. síntese das lógicas da identidade e da diferença. I/D/D/D=I/D/3 e assim por diante. Cada lógica subsumindo todas as anteriores de que é síntese e. dialética e clássica formal. deste modo. síntese das lógicas da identidade. também a si mesma. das vicissitudes histórico-ideológicas dos últimos quase duzentos anos. na ordem lógico qüinqüitário (I/D/2). síntese das lógicas da identidade. ditas lógicas compostas: I/D. lógica da tripla diferença. também. em profundidade. lógica da dupla diferença ou clássica. mas se recusa a confundir “co-pertinência” com estrita correspon- . definitivamente claro. Reafirma. seguindo velha tradição. e o que é real é racional). por I e D. dialética trinitária.

trágicas ou nostálgicas. da “mesmidade” de ser e pensar. capazes portanto de operar com . Esta última atitude distinguiria justamente as filosofias da esperança (Nietzsche as chamaria filosofias do ressentimento). em plena consonância com o que está posto pela moderna antropologia estrutural. 2. A passagem da natureza .16 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dência. a que ele diz se filiar. pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. cínicas ou demissionárias. Natureza?). ganha aqui uma resposta bem precisa. e é precisamente este o nível que se deve atribuir ao ser humano e à cultura. aliás. em todas as instâncias. associada à postulação. afirma Sampaio: . das demais filosofias . onde então se pode repor a questão do estatuto do ser do homem. o necessário produto e meio correlato desta sua capacidade operatória. Isto posto. Neste universo onto-lógico desdobrado nada existe de fato superior à hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2). Esse afastamento era inexorável . implica uma completa reestruturação do universo dos existentes. dos modos efetivos de pensar). restabelece-se a posição pinacular do homem no universo que lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios .representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). O estado de “co-pertinência” entre ser e pensar só pode ser de novo alcançado como resultante de uma visada transcendente. a uma antropologia cultural de índole histórica hiperdialética Seguindo as indicações de Sampaio. reverte-se o processo de “degradação do homem” promovido pela modernidade. daí.. ou seja.por isso pode ele hoje bem parametrizar a história da filosofia (história do esquecimento da questão do ser).[8] A velha razão suficiente leibniziana que responde à questão ontológica (no caso: por quê existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. Passando pela antropologia filosófica e. pode-se afirmar que o desvelamento/ordenação do universo lógico (ou seja.das lunetas ao Hubble -.. que a ciência vinha progressivamente reduzindo à pura materialidade calculada (ciência bioquímica) e esta a Nada adequadamente recurvado (ciência cosmológica atual no que ela deriva da Relatividade Geral) [7].

dado que o logos.a diferença clânica. Tratava-se de uma concepção inconsistente. com o logos. como era de se esperar. Se assim fosse. que vinha por si só caracterizar o ser humano e não para se articular e/ou ampliar características e potencialidades operatórias de algum modo semelhantes pré-existentes. o fato é que. O logos poderia se constituir deveras numa diferença especificamente humana. O único erro aí cometido teria sido fazer do logos uma diferença essencial e irredutível. a duplicava ou reiterava. a diferença que os separava foi considerada como de natureza lógica: o homem é o animal habitado pelo logos. seu estatuto lógico tem que ser na verdade lógico qüinqüitário ou hiperdialético. porém. expressa em termos antropológicos. o homem estaria ganhando de um lado e perdendo de outro. Precisamente aproveitando-se deste equívoco foi que o pensamento cristão pode realizar o prodígio de transformar a diferença que diferenciava numa identidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 17 símbolos convencionais (I/D) . do seu ser identitário. como capacidade essencialmente analítica não podia caracterizar o homem em sua totalidade ou “maximalidade”. sem prejuízo. entretanto. a rigor. existencial ou subjetivamente operatório. capacidades sintéticas já reconhecidas como operantes no reino animal superior. como razão aristotélica (D/D). ao preservar sua capacidade lógico-identitária herdada da animalidade superior (cordados). e até muito mais. mas assim o foi desde os tempos de Heráclito e com maior certeza nos de Aristóteles. Inaceitável. Não se pode precisar a partir de quando a questão do ser do homem veio referenciar-se ao ser animal. Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. E. desde que viesse para se compor com características operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo re-produzindo-as em nível operatório superior. dir-se-ia agora). habitado pelo logos. Do ponto de vista instrumental ou objetivamente operatório o homem é sem dúvida ser racional. O logos ampliava a capacidade lógico-analítica do animal. já a posteriori articulado. o homem podia operar de modo duplamente lógico-diferencial (racionalmente. pois perdia em termos de integridade e auto-determinação.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) . A passagem do animal .

por conseqüência. A diferença clânica. Observa Sampaio que quando Lévy-Bruhl coloca o problema da vigência de uma mentalidade pré-lógica entre os povos primitivos em contraposição a um pensamento verdadeiramente lógico dos povos modernos. para daí então alcançar. seria um dentre muitos modos de manifestação . pois. contrastando com a bipolaridade {I e D} animal macho/fêmea.. se pergunta se os primitivos têm ou não lógica (clássica formal). ou seja. restituindo ao animal a integridade lógica (I) e. indiferentemente. o fizeram em relação aos negros escravos e hesitaram não fazê-lo em relação aos índios). consciência. lógico-diferenciais. Apenas isto entretanto não basta. ou corporeidade libidinal (D) ao historicismo absoluto de Hegel (I/D). A sexualidade humana. mas no fato de estar repondo a questão em seus devidos termos. liberdade. pois continuaríamos insistindo perigosamente no mesmo equívoco grego. o feminino (filha e mãe). alma. de modo hiperdialético qüinqüitário (I/D/D). e o par {I/D e D}. ou mesmo profundeza cultural (D) ao historicismo materialista de Marx (I/D). isto é. o importante não está na resposta que viria dar. mediante uma segunda diferença. E é precisamente neste ponto que se deve retificar o pensamento estruturalista moderno. ao mesmo tempo. negar “animalidade” aos animais (como. historicidade (I/D) à antropologia estrutural lévistraussiana (D).sopro. D/2}: o par {I e D/2} representando o masculino (pai e filho). mas sim da identidade . é verdade .18 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ao homem não se devia mais a algo da ordem lógica da diferença.daquela produção “genea-lógica”. a historicidade dialética I/D). Masculino/ feminino são assim os dois modos possíveis de realização do ser hiperdialético (I/D/2). Veja-se como se queira: estar-se-ia assim conferindo. por exemplo. Não se apercebiam que isto era.privilegiado. mais tarde. tal como o haviam feito os gregos [9]. Para a antropologia filosófica de Sampaio bastaria dizer que o animal superior opera de modo dialético trinitário (I/D) e o homem. a historicidade hiperdialética (I/D/D). tanto (I) / (D/2) quanto (I/D)/(D) são . que permite a definição de regras de proibição de incesto em paralelo à imposição da exogamia. I/D. nem mesmo depois de especificada a diferença clânica. D. passa a ser definida como diagonal de uma estrutura lógica quadripolar {I. espírito etc. Esta se atualizaria ainda doutros modos.

Segundo ainda Sampaio entre as grandes tarefas da antropologia filosófica (ou filosofia da cultura) estaria o empenho na decifração da significação cósmica e religiosa do homem. entrementes. não há ascensão. muito mais. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão recuperará o seu interesse maior. Os caminhos para tanto pressupõem. Somos de opinião. Ele aceita a postulação de um princípio que guarde a inspiração do original. mas sim o descenso do homem ao nível dos entes científicos. ao invés do super-homem.. entretanto. orientado exatamente no sentido inverso: . porém. porque na verdade aí se revela mais uma vez a pré-potência do pensar científico. segundo o princípio. uma prova de que aquelas constantes teriam sido “intencional e convenientemente ajustadas”.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 19 iguais a I/D/D = I/D/2. é pormenorizadamente tratada em A superação das idolatrias . que depois de quinze bilhões de anos levou à emergência da espécie humana. mas significante . Na versão fraca do princípio. O princípio baseia-se na constatação de que o curso do big bang. Circula hoje a idéia de um princípio antrópico [11] postulando a existência de uma correspondência constitutiva entre o cosmos e o homem. para as vestes e pinturas corporais consideradas como sendo uma terceira pele [10]. não importa a versão. pois. na versão forte. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. [13] . o super-cosmos elevado à altura do homem logicamente à sua espera. onde Sampaio afirma: Quanto à significação religiosa.. cremos que nada há por enquanto de relevante. e certamente. o sentido de sua existência frente ao Absoluto. para a moderna organização racional do trabalho. nem fraca.nem forte. está em estreita dependência da precisão dos valores de um pequeno conjunto de constantes físicas universais. Estruturações semelhantes vigeriam para as línguas naturais. Sampaio acha que isto não nos deve consolar. uma feliz coincidência. A significação religiosa do homem.do princípio antrópico [12].a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. uma renovação profunda de nossas concepções onto-lógicas. vale dizer. dando alma a uma nova versão .

seu nível lógico operatório . trata-se do sujeito liberal (I). mistas (de que seríamos um bom exemplo). prometéica. na linhagem das culturas lógicas identitárias (culturas do tempo. No entanto. A visão ideológica da Modernidade não tem a menor preocupação em fazer a crítica da ciência . de transição etc. para a direita. a rigor. cristã patrística trinitária I/D. processo hiperdialético de desvelamento do seu próprio modo de ser lógico. pela perfeição estética (D). lutando pelo perfeição ética (I/D). Esquerda e direita. na variação temporal de seu vigor criativo. O desvelamento de uma lógica implica necessariamente que dela se alcance uma representação simbólica objetiva.. mas a própria complexidade do processo hiperdialético permite uma série de tipos não nodais: anômalas. para a esquerda. na enorme disparidade de poder de determinação de uma sobre outra. A religião. D/D=D/2. do Deus único. romântico. greco-romana. modos simétricos de um delirante estado almejado de perfeição. A cultura moderna está associada à ciência e à lógica clássica formal que a governa.não há quem não esteja a seu favor -. domina a cultura moderna. para Paul . pois. Começa-se com as culturas tribais de caçadores/coletores do paleolítico. do sujeito coletivo ou comunitário (I/D). tem por essência a sacralização e guarda de seu núcleo lógico invariante. é resolvida por Sampaio concebendo a história humana como história do insistente (mas não monotônico) autodesvelamento do seu próprio ser lógico-qüinqüitário [14]. Hoje. do sujeito inconsciente cultural. Depois vêm as culturas propriamente lógicas: judaica. A história do homem seria assim a história da cultura. A esquerda. pré-D (uma proto-diferença). ela se concentra exclusivamente sobre a questão de quem deva ser o sujeito da ciência: para o paradigma anglo-saxão. como demonstrado pela História. científica. em cada cultura. Estas formam a seqüência das culturas nodais. nada podem contra a Modernidade. a direita. são seus próprios modos “desviantes”. a Modernidade só será superada por uma cultura nova. pré-I (uma proto-identidade que ainda se ignora) seguem-se as culturas neolíticas ou imperiais antigas de base agrícola. D. I. dentre outras maneiras.e a historicidade das culturas que se revela. telúrico ou libidinal (D).20 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A conciliação entre a tese da equivalência de todos os homens no que lhes é essencial e distintivo .

sob “forma” ou “roupagem” sacralizada. Sampaio propõe que se correlacione uma cultura não só com uma lógica manifestamente assumida (oficial ou sacralizada). terá que necessariamente desmascará-la por este estratagema.[16] Esta concepção parece ser de grande importância teórica na medida em que o reconhecimento de um desejo social. assim como com a lógica da cultura que a irá suceder.. através de um processo de reiteradas substituições. O ser correlato à lógica recalcada acaba se transformando no objeto de desejo da cultura de referência. toda cultura finge já ser ou incorporar as virtudes daquela que a ameaça e esta. Segundo Sampaio estaria aí identificado: . mas também com a lógica que ela supera e recalca. pensada por sua lógica oficial. uma nova utopia em seu justo sentido.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 21 Tillich. similar ao desejo inconsciente pessoal. isto é. Ao sentir-se ameaçada. técnicas e múltiplas artes. o desejo da cultura. que busca sem descanso recuperá-lo. fica a lógica da cultura que irá suceder à cultura de referência. Como fazê-lo sem antes iluminar o horizonte de sua superação possível? A re-historicização da Modernidade é para Sampaio uma condição sin ne qua non para hoje pensar (e agir) subversivamente. Isto nos faz compreender. para Toynbee) [15] enfim. porém. é o melhor que poderia .. que. que por isso irá se constituir em lógica de seu permanente desassossego. ou seja. conhecimentos. De outro lado. como as culturas. o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. Para se alcançar uma mais exata compreensão da dinâmica cultural. convenhamos. A efetividade da crítica e dos esforços para a superação da Modernidade exige portanto sua prévia re-historização. instituições. Como diz Sampaio: Toda cultura. para superá-la. pode enfim abrir novos caminhos para uma melhor compreensão da efetiva articulação entre ser-social e ser-pessoal. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. culturas espirituais. afinal. simula ou finge ser o que ainda virá.

mks. de modo confesso. não mais platônico-agostiniana (I/D). seu real desejo será da ordem da lógica que a antecede.22 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. à primeira vista. então. Até o próprio Sampaio. Sampaio identifica a física como o cerne da Modernidade em razão de sua obsessiva pretensão de medir (D/D) o mundo tido como simples manifestações do unotrino (I/D). A impressão é que melhor não se poderia pretender. Depois. Como cultura dialéticotrinitária (I/D). não se exclui desta perplexidade. Tal desejo encontra precisamente na arte sua melhor expressão metafórica. A propósito disto. chega-se a uma compreensão da história da física de inexcedível clareza [18]. Por outro lado. Aí. lógica da diferença (D). seja capaz de dar conta das passagens críticas do processo histórico cultural.tempo. se irá ver a cultura medieval cristã antecipar-se fingindo-se já Moderna. assuma um papel de excepcional relevância. [17] Acredito que. enfim. Isto nada mais é do que querer ver o mundo reduzido a apenas três variáveis fundamentais . mas aristotélico-tomista (D/D). são bastantes os sistemas de medidas. não haja quem não desconfie que um tal esquematismo. cgs. Mais importante do que tudo. o corpo. nesta cultura. pois não há melhores indicadores do real nível de vitalidade da Modernidade. na circunstância. fazendo com que ela. etc). A partir daí. racional. mas sob a “forma” incorruptível ou espiritualizada (I/D). porém. escolástica. à vista da aproximação da era da ciência. como encontrar um bom contra-exemplo para pô-la em cheque? Em contrapartida os exemplos favoráveis não faltam. espaço e matéria (por isso. mormente em seu momento atual. assim tão drástico. seria que o esquema não falhasse na compreensão da Modernidade. ou seja. os acontecimentos são por demais claros e “auspiciosos”: . seria preciso observar as manobras de fingimento que denunciam o grau de temor da Modernidade em relação ao seu futuro. Não se pode por isso mesmo relaxar na vigilância dos sinais que possam testemunhar do vigor da física. como o da cultura cristã trinitária. Sampaio chama a nossa atenção para a grande quantidade por aí de “museus abarrotados de arte sacra” cristã.

Brasil-Bélgica/ Brasil-Índia. Ou será que. aquela condição marginal tem sido diagnosticada como a conseqüência de um persistente dualismo: Brasil moderno/Brasil arcaico. sem mais. Sampaio não nega a condição de marginalidade nem o malestar daí decorrente.a vida eterna. tida como de atraso. sempre com a mesma implícita conotação econômica. mas com toda a prudência. etc. em última instância. já. Ademais. sem jamais esquecer ou menosprezar as grandes lições da História (da cultura). menos retrospectivo do que propriamente prospectivo. mas desconfia da natureza que em geral se lhe atribui. Esta seria nossa razão de ser histórica. As ideologias têm de comum o propósito de apenas substituir o sujeito individualista sujeitado à ciência por um outro: a esquerda. o que justificaria os seus ingentes e continuados esforços para superar tal situação. outro que a ela se recusa. Como sempre.alcançar o atual paradigma social anglo-saxão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 23 Na TV e por todo canto. ter problemas crônicos de nela ingressar. 3. etc. como se reservando para algo maior ainda por se realizar [20]. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! [19] Como recusar tantas e tamanhas evidências?! Para Sampaio seria esta a hora de agir. Parece-lhe paradoxal que uma nação nascida com a própria Modernidade possa. pelo . Ele acredita que dualismo há. biblicamente instruídos. todos os dias. a boa nova: os prodígios da biopirotecnia. se assistirá à reação desesperada: a ordem virá para a degola dos recém nascidos. mas bem outra sua natureza: ele seria mais cultural do que econômico. As opções culturais brasileiras – luxo ou originalidade (e seus riscos) Existe um quase consenso acerca de que o Brasil ocuparia uma posição de marginalidade em relação à Modernidade. Já houve um grande esforço para se chegar a uma interpretação ideológica da marginalidade brasileira e Sampaio debita seu fracasso a causas que lhe são imanentes. Isto traz implícito que teríamos mesmo uma só destinação . um imerso na Modernidade. tal como interpretada pelas elites políticas e intelectuais da nação. Haveriam sim dois brasis. a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação .

como para além da lógica clássica existe uma lógica hiperdialética qüinqüitária. Volta ele então à Historia do Brasil para compreender que sua marginalidade é também de certo modo resistência propositada. para além da Modernidade científica e “mercado-lógica” existe a esperança. faz as vezes de profeta. na medida em que ela não admite qualquer possibilidade de que se transcender a cultura em que se vive. que se por um lado. dificulta a sua . seus beneficiários não se disporiam até a ajudar (financeiramente. Ele mostra que dentre elas estariam a re-significação cósmica [23] e religiosa [24] do homem e a completa renovação das relações indivíduo/sociedade sob os aspectos políticos. fosse à esquerda. Como se viu anteriormente.24 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito coletivo. E chama a atenção que nas circunstâncias atuais. uma concepção da história da cultura como auto-desvelamento do ser lógico do homem é o bastante para re-historicizar a Modernidade e iluminar o horizonte de sua possível superação. o Brasil se caracteriza pela confluência de um amplo leque de culturas. Conforme Sampaio. Com o descortino dos mecanismos lógicos da dinâmica cultural em Desejo. É também por isso que Sampaio acha insuficiente a crítica frankfurtiana. bem como as oportunidades de ação cultural que ao mesmo tempo acelerem e minimizem os custos (historicamente enormes) do processo de superação da Modernidade. Assim. Sampaio. para evitar maiores riscos. A única saída viável estaria em investir numa crítica da cultura capaz de desbloquear o horizonte histórico. o que no fundo traduz idêntico desejo por um capitalismo perfeito. Quem sabe. Fingimento e Superação na História da Cultura [22]. esperança bem fundada de uma nova cultura. econômicos e culturais. mesmo que não seja esta sua intenção. relativizar a Modernidade permitindo que a vista alcance mais além. mas ocupando todos os lugares?! Jamais houve ou poderia ter havido saída lateral. que é sua especialidade) os seus velhos inimigos para que por aí fiquem vagando impotentes. Esboçando as características mais marcantes da cultura nova. o que leva a uma angustiosa inação [21]. pelo sujeito romântico ou libidinal. fosse à direita. todos nós estaríamos capacitados a de pronto perscrutar os sinais de fraqueza e declínio. a crítica ideológica é o que mais pode desejar o pensamento único. a direita.

em especial. coletivo e cósmico. ao que pudemos perceber. mas não o vimos aportar a solução: o ódio das elites ao povão . tanto denotativo e preciso. No entanto. Sugere Sampaio que o Brasil se constitui. mas pode alternativamente lançar-se na grande aventura da construção de um novo modo de ser pessoal. ela irá. a seus cálculos. vale dizer.a continuada traição das elites políticas/econômicas e a alienação das elites culturais. Mas de qualquer modo. estes possam ser para ela mais perigosos. a TV. finge-se pós-modernidade. em especial. muito ao contrário. para os próprios brasileiros. qual a significação última desta desmedida NARRATIVA de Luiz Sergio Coelho de Sampaio jus- . a causa vale a pena. A cultura dominante. a fazer nascer no mundo uma nova cultura. Pode por isso continuar insistindo. ordenar a degola dos nossos terroristas recém-nascidos onde. talvez. Apreciar e mesmo julgar um trabalho intelectual é uma coisa. Deduz-se daí que a opção pela originalidade não está isenta de grandes riscos. já hoje finge ser sua própria posteridade. estamos sim onde tudo a rigor começaria. que seria aquela do esmorecimento do vigor criativo dos laboratórios científicos centrais. Por tudo isso. mas duas: ou o luxo ou a originalidade. E. constitui a base necessária à edificação de uma cultura nova realmente após moderna. entretanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 25 modernização. No caso presente. bem outra é reconhecê-lo ou não como acontecimento. mostram insistentemente todos os meios de comunicação de massa. No cerne desta estratégia. não estamos onde tudo acaba. deve-se desenvolver em e para o Brasil uma estratégia cultural para sobreviver até à chegada da melhor hora. e tenta a todos seduzir ofertando a vida eterna aqui mesmo na Terra através dos poderes cada dia maiores do que ele jocosamente chama bio(piro)tecnologia. fica um sério problema que ele identifica. aqui se concluiria. como nos instrui o Velho e o Novo Testamento. em entrar para o “Primeiro Mundo”. quando desesperada. estaria a preservação com unhas e dentes das condições mínimas vitais para a criação e circulação da produção cultural brasileira e. Fosse o caso geral. no único perigo real para a cultura dominante e também por isso. ainda que um pouco tardiamente. Afinal. E que portanto o Brasil não tem uma só destinação possível. quanto ao limite expressivo) e da nossa música em todas as suas variantes. a seu ver. a defesa da língua (pelo uso. por outro lado.

1999. aliás.. M. 1998. SAMPAIO. que em O livro do filósofo afirma: “Não se trata de aniquilar a ciência. Dado que o sistema nervoso central deriva da invaginação do próprio ectoderma. 1988. logicamente otimistas. Problemática do culturalismo. e também “Sumário das contribuições à filosofia da parte de Luiz Sergio Coelho de Sampaio”. fasc. S. cit./FINEP. S. Porto Alegre. de. EDIPUCRS. 2. “A grande tarefa de nosso tempo: Uma nova filosofia” in Revista brasileira de filosofia. Esta disposição geral. novembro de 1994. CÔRTES GUIMARÃES. mas de dominá-la.26 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tamente neste momento de convergência do pós-moderno europeu continental e do pragmático anglo-saxão transatlântico (especialmente. 5. 7. 189. Aquiles. S. Oficina do Autor/etc. 9. 8. cit. já está em Nietzsche. “Acerca da lógica e da cultura”. CÔRTES GUIMARÃES. S. Projeto de pesquisa para o CNPq. 1995. 3. acabando de acordarem que a grande narrativa simplesmente não há?! Aquiles Côrtes Guimarães do Departamento de Filosofia do IFCS-UFRJ NOTAS 1. ser vivo implica ser dotado de uma membrana osmótica – a primeira pele. “Noções de antropo-logia”. L. abril/junho 1999. o homem. Rio de Janeiro. op. Aquiles. C. L. fasc. Hegel’s pPhenomenology of spirit. P. Rorty). 1999. Antônio. C. isto é. Incluído no volume ora prefaciado. op. Rio de Janeiro. Paulo. Paulo. Sumário das contribuições à filosofia. EdUERJ. SAMPAIO. capaz da piedade (Rousseau). ______. C. HEIDEGGER.” 4. L. SAMPAIO. PAIM. “Reflexões.os neohegelianos. Por fim. S. acerca do advento da cultura nova pós-científica” in Pensamento original made in Brazil.194. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. Bloomington. ______. Indiana U. Segundo Sampaio. in Pensamento original made in Brazil. de. 10. 6. pode-se dizer que os cordados são dotados de uma dupla pele. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. “Lógica da diferença” in Revista brasileira de filosofia. de. capaz de se por na pele do outro (simbolicamente expresso pelo uso . 2000. Tendências da filosofia brasileira contemporânea .

1993/1997 e. C. L. 14. 21. de uma terceira pele. Rio de Janeiro. op. 19.______. 16. outubro de 1999. op. Incluído no volume ora prefaciado. fingimento e superação na História da Cultura”. de. Rio de Janeiro. Ibid. “Crítica da modernidade”. Rio de Janeiro. op. “Noções de Antropo-logia”. “A superação das idolatrias . L.______. setembro.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. 11. Hegel e Marx”. “Princípio antrópico . cit. Rio de Janeiro. .______. Incluído no volume ora prefaciado 17.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 27 de roupas ou pinturas corporais). ______. S. cit. Rio de Janeiro.______. figuradamente. “A superação das idolatrias . Incluído no volume ora prefaciado. C. 23. mais recente. ______. 1998.um novo fundamento e uma significação renovada”. Incluído no volume ora prefaciado. logicamente otimistas. “Desejo. 22. 24. “Desejo. SAMPAIO. novembro de 1999. 1999.______. SAMPAIO. “Reflexões. cit. op.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. julho de 1999. Rio de Janeiro. de. Tillich. fingimento e superação na História da Cultura”. 20. op.______. S. Incluído no volume ora prefaciado.______. cit. Ibid. “Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira”. 12. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. 13. “A história da cultura segundo Toynbee. 18. seria dotado. op. acerca do advento da cultura nova pós-científica”. 15. UAB. Incluído no volume ora prefaciado. Rio de Janeiro. cit. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. Apontamentos para uma história da física moderna. cit. novembro de 1999.______. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 29 Apresentação O que se pretende? Inicialmente. também. isto é. estatísticas de importação de secos e molhados ou faturas sacadas contra a Santa Casa da Misericórdia? É óbvio: nisso não há mal algum. Considerar o novo mapa do território lógico. de coração aberto. não apenas o que há para . cortada e as partes defumadas pelo formalismo imperante. hipótese aventada por LévyBruhl e que teria sido radicalmente banida pela antropologia estrutural lévi-straussiana? E o reflexo. até pelo contrário. tão só.este é modo preponderante do “acontecer” no Brasil -. além da etnologia. pelo mais inócuo: o exercício de vasculhar receitas em antigas farmácias homeopáticas. de tal querela? O que. ganhou-se até agora substituindo o evolucionismo (discurso do colonizador de maus bofes) pelo relativismo multiculturalista (discurso do bem-bom colonizado) ou. lógica que há muito parecia morta. refletir: por que. mas. na verdade. a lógica ressuscitada. da sociologia da cultura. às vezes. aqui . das antropologias de diferentes matizes. natureza)? Pôr em dúvida: estaria mesmo encerrada a disputa acerca de um suposto pensamento pré-lógico dos “povos primitivos”. Recomeçar: preliminarmente. ou sobretudo. não garante verdades de bom peso. uma filosofia da cultura? Por que existe a cultura e não somente nada (de cultura. acolhendo.

Por conseqüência. mas nem por isso tornado santo ou absoluto). Um zoom sobre as origens e fases da Modernidade para melhor inspecionar-lhe as entranhas (como foi um dia prática de adivinhos). dos nobres aos mais pobres. mesmo reconhecendo os méritos. Revisitar: a história da cultura doravante considerada como o processo do paulatino (nem monótono. por obra e graça da biopirotecnia que se anuncia. bem à vista. também. calculado na cruz – e não se deixar enrolar pela promessa da vida eterna now. de transição etc. em todos os jornais impressos e nos horários. sem descanso. mistas. de mil maneiras. as raízes de uma antropologia lógico-filosófica – o homem como ser mundano lógico-qüinqüitário. Escarafunchar a dinâmica cultural em sua essência: desejo. justo por tanto. atentar para o seu desejo. teríamos que considerar pouco mais que meia dúzia de culturas nodais e inúmeras culturas não-nodais – arcaicas. Chegandose à Modernidade. em novos termos (vale dizer. posto inteiro na ciência. primeiro e único.30 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recuperar. a temática lógica/cultura. nem monotônico) auto-desvelamento do ser lógico-hiperdialético do homem (uma renovada fenomenologia de um espírito mais elevado. não nos basta a crítica da técnica. na física – o unotrino sob a roupagem lógica clássica formal. Retomar: agora. fingimento e superação na história da cultura. desnecessariamente violentas (é só somar seus mortos empilhados ou no ar volatilizados ao longo do século XX). Fixar. Não há saída nem à esquerda nem à direita. desde os pequenos bandos de caçadores/coletores do paleolítico à atualidade. a partir daí. – que. assim como as enrolações . das TVs. sim. desde os gregos). E. Descartar as ideologias por impotência e. mas igualmente o que há para se avançar e conquistar. das primeiras originarse-iam. tida esta como apenas um modo metafísico de ser do homem (Heidegger). logo. especialmente.

não fora a troca que fizemos da temática da alma por aquela do indivíduo/sociedade. de qualquer maneira. Três idéias que se poderia dizer kantianas. Ganhar. da cultura hegemônica etnocida e suas cúmplices e/ . escolher o luxo (que agora já é lixo) ou a originalidade. este. Forçar. driblando a censura branca . de outro lado. nem que seja um mero “buraco de verme . criminalizou todo e qualquer ato de legítima defesa cultural (com exceção. mas infelizmente se deixou dobrar frente à fantasiosa onipotência do discurso científico. não deixar qualquer falsa passagem. do caráter não extensional pela autoreferencialidade. não enrubescer. já nos espera. por sua vez. a certeza de que uma cultura nova lógico-hiperdialética advirá. pois não há outra alternativa metodológica à crítica lógicofilosófica da cultura. Cassirer compreendia e queria assim. a re-historização da Modernidade. Tão propositada quanto obsessivamente. em suas dimensões política. acima. se arriscar na criação de uma nova cultura. que. Enfrentar a questão cultural brasileira na presente conjuntura.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 31 comunicativas em que se transmudou a badalada Escola de Frankfurt. se assanhar e se prostituir com as sobras da Modernidade. naturalmente. escolher o que. econômica e propriamente cultural. Pintar e bordar com linha grossa – é o que nos é hoje permitido – como a cultura nova implicará na re-significação do homem sob três grandes aspectos: cósmico. mas também não amarelar. faturando (de certo modo. também copiando) o fascismo. vermelha e negra por todos os lados. religioso e social. Concitar à resistência: assumir os riscos da opção pela cultura nova lógicohiperdialética. Anunciar bem alto: temos opções – de um lado. e avançar. Resistir: olhar e não desviar os olhos do que se verá. apesar da grande armação. esta bem mais sutil. com fundamento na substituição preventiva. então.

por algum tempo. deixando claro para as histórias futuras que a traição das elites políticas e a demissão das elites intelectuais do Brazil nunca foi assim tão ingênua quanto de costume. não se deixará superar sem antes ordenar a degola de todos os supostos terroristas recém-nascidos. hoje. Estampar o registro de pelo menos uma dentre as muitas intervenções por nós realizadas em foros governamentais e acadêmicos. .32 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou associadas). Ter bem presente que é para voltar tão logo se possa. como qualquer outra cultura lógicodiferencial. tenha sobrado alguma coisa!). posto que a causa. posto que a escolha fundamental terá que ser sempre a liberdade e não as águas do Nilo. coincide já agora com aquela da restauração da legalidade. tentam elas nos fazer acreditar. E. para o Egito. no fundo. da compostura da autoridade e da dignidade da nação (na hipótese que desta. Ouvir com seriedade o alerta bíblico reiterado: a Modernidade. depois que chegamos ao ponto de ver um Presidente da República e seus pares quadrilheiros tramaram a substituição do sufixo BRAS no nome de uma empresa brasileira por considerá-lo depreciativo. este texto passa a ser também um brado de protesto e uma clara conclamação à resistência ativa e por todos os meios efetivos e eficientes. depois dos fatos acontecidos. Por isso. é preciso se fazer estratego: se abaixar no mato ou fugir.

E. a história da cultura (ou das civilizações). por um viés mais compreensivo. funcionalista e estrutural -. a etnologia. estudando as relações com o meio geográfico. ce n’est pas de gagner le bonheur suprême. se para cuidar da cultura já temos a etnografia. ao se perguntar pelo homem em . elaborando modelos. muitas vezes lidando com informações de segunda mão. et c’est la seule chose qu’elle puisse leur donner. explicitando inter-relações funcionais entre os múltiplos aspectos. procedendo a análises comparativas inter-culturais e a descrição e avaliação de eventuais processos interativos entre culturas [1]. Cassirer – Logique des sciences de la culture Por que também uma filosofia. uma filosofia da cultura Ce que la culture promet aux hommes. a segunda. a arqueologia” das culturas (ou das mentalidades) e. ainda que um tanto redutora. por um viés fenomenológico/descritivo. mais de mériter ce bonheur. A antropologia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 33 1 Porque. a antropologia especificamente cultural. a sociologia da cultura? Poder-se-ia argumentar que a etnografia e a etnologia cuidariam apenas de culturas particulares: a primeira. também. antropologias de diversos matizes . estribando-se sobretudo no trabalho de campo.evolucionista.

34 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO geral. A arqueologia das culturas ou das mentalidades. inconsciente para seus portadores. prefere ver a cultura como sendo a realização de imensa teia descentrada de relações. A partir daí confunde-se o ser homem e ser cultural. já menos antipática. por definição. neste quadro de referência. assume um ponto de vista dialético. A história das culturas. procurando delinear uma totalidade/processo em que as culturas se apresentam apenas como momentos de relativa estabilidade. das possibilidades combinatórias de uma matriz ou estrutura formal subjacente. com elevado grau de congruência. em boa medida. mas se justifica pela seleção e ênfase que dá às manifestações propriamente simbólicas (língua. irredutível. deixando o resto a cargo de antropologias vizinhas: para a antropologia econômica ficam os processos de reprodução material do grupo concreto. em sua versão estruturalista as culturas se apresentariam como realizações. topa de imediato com a cultura como sendo seu traço mais essencial. tomando a sociedade como um objeto em si (sistema social). todos eles justificados por sua contribuição à sobrevivência do grupo. admite que a integridade do sercultural corre por conta da cerrada e coerente trama de relações entre os seus diversos aspectos e dos seus mecanismos internos de auto-regulação. arte. A sociologia desde suas origens se assume ciência positiva. representações e fórmulas rituais religiosas etc. os processos de reprodução dos seus poderes e de sua integridade. Em sua versão evolucionista ela se preocupa em adjudicar posições mais ou menos retardatárias numa escala que iria da animalidade à cultura do antropólogo em exercício. A antropologia cultural é quase um pleonasmo.). a sociologia da cultura vai se apresentar como o estudo do sub- . configurando uma mentalidade ou o “estilo de vida” de uma época. à exaustão. para a antropologia política. que se aproxima da antropologia estrutural. funcionalista.

ínclita guardiã da diferença onto-lógica. de dar conta da diferença entre culturas estatuídas e até mesmo de universais culturais. Para ilustrar. a etnologia e a filosofia da cultura: a primeira teria uma preocupação apenas ôntica. pela essência última da cultura. ao lado do sistema econômico e do sistema político. por exemplo. a especificidade da filosofia da cultura recairia justamente no enfrentamento daquela mesma pergunta. que podemos já agora identificar como sendo Natureza). Não queremos dizer aqui que a preocupação ontológica seja coisa inteiramente nova no âmbito dos estudos da cultura. para descartar ou subsumir é tradicionalmente aquele da pergunta pelo ser. Ela de fato sempre esteve presente quando se perguntou de modo radical e sem preconceitos. Isto posto. para afirmar ou para negar. não se distinguiria de uma ontologia fundamental. pelo ser do homem. O que se quer aqui precisamente enfatizar é tão apenas que um tal questionamento não poderá deixar de estar presente de maneira conspícua num texto que se intitula. que poderia trazer ainda de novo a filosofia da cultura? O ponto de vista da filosofia. filosofia da cultura. sinteticamente expresso por Leibniz [2]: por que existe algo e não tão somente nada? A filosofia. transladada agora para o âmbito regional da cultura: por que há cultura e não tão apenas nada (de cultura. com ares de certa gravidade. enquanto que na filosofia da cultura a preocupação básica seria onto-lógica. No cerne da filosofia da cultura estaria pois a pergunta pelo ser da cultura. diferença primordial entre o ser e o nada. desta sorte. fosse onde fosse. depois de tudo isso. valeria compararmos. voltada para o esclarecimento da diferença originária e abissal entre cultura e nada de cultura (Natureza).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 35 sistema cultural (ou simbólico) de uma particular sociedade. Estariam também no círculo das preocupações da filosofia da cultura (ou da antropologia filosófica) . Bem.

quase que só pelo nome. qual o sentido da presença do homem no cosmos? Segunda. Destoariam elas em apenas um ponto: onde pomos a sociedade. A experiência de qualquer autêntica obra de arte . qual seria sua significação em âmbito religioso? Terceiro. A nosso juízo. O cosmos precisa ser seu próprio referencial (eis a razão profunda das discussões acerca do papel da teoria da relatividade na cosmologia). a auto-contextualidade social se torna também imperativa na medida em que reconhecemos na cultura o fundamento último da unidade do sersocial. pode facilmente nos instruir sobre o que significa ser. qual o sentido da existência humana frente ao Absoluto. a impossibilidade de uma efetiva totalização experiencial -. enquanto que o nosso é intencionalmente positivo . mas a auto-referencialidade. dado que o que aí se está buscando é um sentido último. a divergência se deve a que o critério de seleção em Kant é francamente negativo . sem referentes objetivos [3].apenas uma grande obra bastaria -. o Absoluto e a sociedade . ele põe a alma. ou seja. por fim.a auto-referencialidade. qual o significado real das relações indivíduo/sociedade? Somos quase que imediatamente impelidos à comparação destes três contextos . é necessariamente referencial de si próprio.a infinitude.o cosmos. de modo equivalente.com as três idéias da razão pura kantiana. não deve ser pois a perigosa infinitude [4]. ainda que de maneira si- . totalidades não acessíveis à experiência e. chegaríamos à conclusão que três grandes questões se nos impõem: Primeira. a nosso juízo. o Absoluto. por conseqüência. que representa a condição de ser-social do homem ou. O critério de escolha das idéias/contextos.36 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tudo aquilo que de mais relevante houvesse no sentido de garantir a consistência da resposta dada à questão: que é o homem? Se aceitarmos que a significação é sobretudo uma exigência de contextualidade.

lembremos o já acontecido com todos os positivismos e o que hoje acontece. talvez. até de maneira radical. é um saber com a peculiaridade de incorporar sua própria história. A filosofia da cultura. A filosofia. segundo as três dimensões fundamentais do ser-social – o político. Somos de opinião. Sem isto torna-se impossível perceber a complementaridade onto-lógica que condiciona. e isto. já pelo que lhe vem da tradição. e isto ocorre. A relação indivíduo/sociedade [8] precisa ter sua compreensão radicalmente revista para que se afaste em definitivo a simplória conotação topológica conteúdo/ continente que. com a psicanálise. é única (afora. de costume. naturalmente. que consideramos inevitável. o referencial de si mesmo! A questão da significação cósmica do homem vem sendo completamente renovada em função dos recentes progressos da cosmologia científica. o econômico e o propriamente cultural. cremos que nada há por enquanto de relevante.estreitamente dependente dos valores de um pequeno conjunto de constantes universais . que afinal. Quanto à significação religiosa. não . bem sob nosso olhar. recuperará o seu interesse maior. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. muitas vezes. estabelecendo um compromisso originário entre o processo cósmico (hipótese do big bang) . convenhamos. Já circula amplamente nos meios mais cultivados [5] a hipótese de vigência do chamado princípio antrópico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 37 mulada. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão. uma renovação profunda das concepções onto-lógicas vigentes [7]. de parte a parte. pelo fato da filosofia não se recusar a atribuir seu próprio status àquilo mesmo que a nega. indivíduo e sociedade. entretanto. Os caminhos para tanto pressupõem. no nosso entendimento. Só para exemplificar.e a existência da espécie humana. o próprio Criador) a dar testemunho daquele processo [6]. se lhe dá.

nos saberes psíquicos e vai por aí a fora. em todas as antropologias específicas (política. na etnologia. Em suma. . E estas oportunidades estão por toda parte: para começar. econômica. e de tudo mais que à sua volta acontece e que por natureza nela e por ela reverbera. a filosofia da cultura é sobretudo o exercício do auto-conhecimento da própria cultura.38 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO deveria se constituir numa exceção. deve ela também se interessar pelas novas oportunidades de testes de coerência e adensamento da significação de suas concepções e até por acompanhar os movimentos de aberta contestação às suas posições conceituais. nas histórias de longo curso. Assim. cultural). na lingüística. sem restrições de qualquer sorte.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 39 2 Bases lógicas para uma antropologia filosófica J’appelle philosophe contemporain celui qui a le courage de traverser sans faiblir la antiphilosophie de Lacan. o que para nós seria o mesmo. seguindo um pouco mais além. Ils ne sont pas nombreux. em consonância com uma velha tradição que remonta a Parmênides.1 – Preliminares . Alain Badiou. e que buscaremos também aqui resgatar. Tudo isto irá requerer a exposição prévia dos nossos supostos filosóficos. tentar satisfazer nossa curiosidade acerca da situação atual e das perspectivas brasileiras sob este crucial enfoque. mas naquele que esteve sempre presente no curso da história da filosofia. passa por Platão e chega até Hegel. não obviamente no sentido restrito que esta última vem assumindo nos meios acadêmicos. que serão fundamentalmente lógicos. aliás. 2. Nesta concepção filosófica. de uma antropologia [1] e. na medida em que defendemos uma estreita correspondência entre ser e pensar. a ontologia tende a confundirse com a lógica. Conditions Nosso principal objetivo aqui é apresentar as linhas gerais de uma antropologia filosófica ou.

seria a lógica do outro. a lógica clássica ou aristotélica. o “ilógico” nietzschiano. mas também o pensar dialético (pensar síntese do um e do múltiplo) visando a idéia (Platão) ou ainda a História (Hegel). o mesmo. por sua peculiar natureza as lógicas historicamente atingem diferentes graus de formalização. lógicas que não podem por qualquer modo ser uma “derivada” da outra. igualmente onto-lógicas – seriam as seguintes: a) Ser e pensar são. porém. do sujeito transcendental ou crítico da ciência em Kant. que inclua não apenas o pensar que visa o um.lógica do coração (Pascal). a primeira. ou. lógica do significante (Lacan). su- 2. do pensar inconsciente. ou ainda. b) A tematização de um modo de pensar e a sua expressão discursiva arrazoada ou paraformal constituem uma lógica. a segunda. seria a lógica do mesmo. do transcendentalismo fenomenológico de Husserl .40 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As nossas principais teses lógicas – como já dito. logos heraclítico (segundo Heidegger). mas nenhuma pôde ou poderá neste mister exceder aquela cuja especificidade é a forma abstraída. vale dizer. o ser capaz de discurso. de algum modo.A lógica ressuscitada .2 . lógica do paradoxo (Kierkegaard). sumariamente. lógica implícita do cogito cartesiano.por isso a denominamos lógica transcendental ou da identidade. do pensar consciente. lógica I. e mais ainda o pensar hiperdialético (pensar síntese do um. já bem identificada pela tradição. que iremos denominar lógica da diferença ou. c) Existem duas lógicas fundamentais. lógica do pior (Rosset) etc. até hoje mal cernida pela tradição . considerado isto de uma maneira mais geral. do múltiplo e do múltiplo do múltiplo) que visaria o ser humano.

ela é uma generalização da aufheben hegeliana. onde I faz o papel de elemento neutro ou nulo à direita [3]. o que já não acontece com não-A que carrega inexoravelmente uma certa franja de indefinição dada a inesgotabilidade (pelo menos prática) do mundo. Na prática isto quer dizer que qualquer ocorrência de I na designação de uma lógica resultante da articulação de quaisquer seqüência ordenada de lógicas. síntese das lógicas da identidade e da diferença. pode ou deve ser desprezada. na verdade. D/D = D/2. D}. A segunda. I/D/D= = I/D/2. Teríamos assim as lógicas derivadas I/D. o degrau um daquela.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE mariamente. será identificada à lógica clássica ou aristotélica. D/D = = D/2. é a lógica dialética. como por exemplo. que não seja aquela de primeiro lugar à esquerda. e) A primeira lógica derivada. que não pode jamais confundir-se com uma operação de tipo matemático ou formal. contratualmente . esta que passa a ser considerada. lógica do terceiro excluído. porque uma simples diferença A e sua negação não-A não formam uma par simétrico. depois. I/D. Estas denominações sintéticas das lógicas constituem um semimonóide [2] livre gerado pelo conjunto {I. I/D/D/D = I/D/3 e assim por diante.a). doravante. 41 d) Todas as demais lógicas “derivariam das lógicas fundamentais. não podendo obedecer ao princípio do terço excluído. D/D/D =D/3. portanto. ou ainda (D)/(I/D)/(I)=D/D. lógica D. I/I/D/I= I/D. Para contornar esta assimetria fazemos uma primeira diferenciação D1 discriminando S e não-S (ver figura 2. por exemplo. o produto cartesiano. Esta última designação tem um sentido profundo. através de uma operação que denominamos síntese dialética generalizada simbolizada por uma /. A é algo por constituição sempre bem definido.

Diferença e dupla diferença f) Todas as lógicas derivadas subsumem (superam. A e não-A tornam-se simétricos. Nestas circunstâncias. doravante. passa a ser por nós preferencialmente denominada lógica da dupla diferença ou. . aí então introduzimos uma segunda diferença D2.A A = n ª o -n ª o -A D D D Figura 2. interna ou condicionada a S. porque ambos são. assim. bem definidos ou esgotáveis.a . sim. mas ao mesmo tempo conservam integrando) as que lhe são anteriores e. subsume a lógica da identidade I. S im p les d iferen a nª o nª o - D u pla d iferen a nª o .42 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desconsideramos não-S o que transforma S numa totalidade por convenção. agora. a lógica da diferença D e. por convenção. por convenção. não-não-A e A passam a ser também equivalentes. As demais lógicas sintéticas não foram ainda identificadas e nomeadas por razões que esperamos fiquem claras ao cabo do presente trabalho. o que vem constituir uma das formulações do autêntico princípio do terceiro excluído. também a si próprias. D/D = D/2 [4]. já a lógica hiperdialética I/D/D = I/D/2 subsume as lógicas I. I/D mais a lógica clássica (ou da dupla diferença) D/D = D/2 e. I/D. ainda por convenção. a si própria. Assim sendo. de modo compacto. Esta. por exemplo. a si mesma. D. princípio este por nós considerado como realmente característico da lógica clássica. ou de mesma natureza. a lógica dialética.

da L g. Na figura 2.ele G eo m Øtric a . sem qualquer pretensão de esgotá-los. em geral. (sign ific an te ) R eal sim b lic o M atem as laca nian o s O p erad o re s Val. D ifere n . da Id e n tid . inconscientemente.b . P r prio s G eo m Øtric a ∃x φ(x ) I =I 1 .0 2 ∀x ∃φ(x) D =D 1 . L g ic a D ialØt. L g ic a C lÆ ssica H ip e rd ia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 43 g) Além da algébrica – I. GŒ m eo s P e ix es S ag itÆ rio V irg em C an do m b lØ IfÆ O x alÆ O gu m Exu M o d alid a de ne cesse c. etc. D.b apresentamos alguns exemplos. po ssibil. N u m Øric a 1 2 3 4 5 E lem e n to s ar Æ g ua fog o te rra q uinta e ssŒ n.0 . A q u Æ rio E scorp iª o L eª o To u ro L ibra C an cer A ire s C ap ric. im p o ssib. Figura 2. A steca Sul O este L este N orte u m b. R e p ese n ta ª o L g. S er ter h av e r esta r am a r?! A n im al Æ g u ia se rpe n te le ª o to uro h om em S ign o zo diac . D/2. c o n tin ge n. I/D. C o sm . F am iliar p ai m e filha filho fam lia Verb o au x.-1 3 ∃x φ(x ) H =1 1 ∀x φ(x ) A =1 1 .tu. – as lógicas admitem um sem número de representações outras já efetivamente produzida pelas diferentes culturas históricas.-1 2 3 S =1 eu . D i-m e n sı es s/L ac an im ag in.Representações histórico/culturais das lógicas .d o m u nd o C o res a zu l b ran co ve rm elh o pre to P o s. L g ic a .

vale dizer. por uma pirâmide de base quadrada. a D/D = D/2 associamos dois segmentos de reta ortogonais. um quadrado. o mesmo I em cima e em baixo . um cubo. ou seja. a D/D/D = D/3. À lógica D associamos o segmento de reta. representada então por um triângulo. e a lógica I/D/2. de sorte que à lógica I/D/n fica associada uma “pirâmide” em n+1 dimensões.c . Como exemplo daríamos a lógica dialética I/D. e assim sucessivamente (ver figura 2. de modo que no todo ficaríamos com um segmento de reta na vertical tendo na extremidade superior um I e na inferior D/0 = I. precisaria ser uma “pirâmide” cuja base estaria reduzida a apenas um ponto. No caso de I propriamente dita a representação canônica. por coerência.44 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Vamos agora deter-nos um pouco mais demoradamente sobre o que denominamos representação geométrica canônica.c). tendo por base um “cubo” em n dimensões. para preservar a coerência com as demais.Representações canônicas À lógica I associamos um ponto numa dimensão própria independente daquelas do conjunto das diferenças. três segmentos ortogonais. Figura 2.

D. da lógica do mesmo. a duração (temporalidade objetiva). definem planos onto-lógicos. D/2 e I/D/2.d) I NÍVEL FENOMÊNICO N=0 SER FENOMÊNICO D/ I/D 0 =I SER OBJETIVO OU SIMBÓLICO NÍVEL OBJETIVO N=1 I I/D/2 D DURAÇÃO OBJETIVA 2 INCONSC. 1. RES EXTENSA SER SUBJETIVO (PESSOAL OU SOCIAL). seriam: o unário ou fenomênico correlato a I ( I/D/0 = I/I = I ). . por derradeiro. às quais irão corresponder. 2. (Ver figura 2. I/D. I/D. D. o trinitário ou objetivo correlato a I/D e o qüinqüitário [5] ou subjetivo correlato a I/D/2. ditos mundanos. I..d .. da forma I/D/n com n = 0.Níveis onto-lógicos No plano fenomênico temos apenas subsumida a lógica I à qual corresponderá o ser enquanto tal (ou ser fenomênico). a res extensa (ou a espacialidade) e o ser simbólico (o conceito ou a idéia). respectivamente. no plano subjetivo temos cinco lógicas subsumidas. os três primeiros.. SER DISCURSIVO SER SISTÊMICO NÍVEL SUBJETIVO N=2 I D D/ I/D CONSCIÊNCIA ROJETO HISTÓRIA Figura 2. h) Somente as lógicas da família I. isto é. como seria natural supor.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 45 nos mostra tratar-se. I. no plano objetivo são três as lógicas subsumidas.

de um lado.Remanejamento onto-lógico Não é muito difícil compreender: no plano ontológico objetivo I/D visa-se necessariamente uma totalidade que. do lado da realidade visada. na circunstância. pela lógica D. doravante tornada lógica das regras . (Ver figura 2. i) A passagem de um plano onto-lógico ao que lhe segue não se faz por simples agregação de ambos os lados. o inconsciente (ou ser desejante). o que estava sendo pensado por D vai necessariamente se deslocar e ser re-pensado pela lógica D/2. ao se passar de I/D a I/D/2 dáse.e .46 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que terão como correlatos. vale dizer. seja ele pessoal ou social. por exemplo. a história . precisa ser repensada. Como conseqüência. o ser consciente como projeto. o sistema (ou papel organizacional) e o ser subjetivo na plenitude. porém.D/2 e I/D/2 -. no plano seguinte. a outras ex-totalidades. precisa ser previamente des-totalizada para que possa ser então articulada.e) I I/D D I/D/ 2 D/2 D/0 =I I D I I/D Figura 2. a mera agregação de duas novas lógicas . acontece um remanejamento geral do ser visado. através de leis convencionais ou de regras. respectivamente.

sim. “im-pensados” e impensáveis”. então. mas que deixa de sê-lo no plano subjetivo. o que deixa os referidos aspectos. a ser de novo pensado enquanto tal. O desconhecimento deste imperioso fenômeno de remanejamento é fonte de dificuldades crônicas em quase todos os campos do saber [6]. Chamamos a isto recalque lógico. Um bom exemplo seria aquele do corpo físico pensado por D no plano objetivo. estes passam a ser visados por D. . vale dizer. mas signos contextuais. no caso de uma eventual doença ou acidente. a subjetividade se desagrega e o corpo físico vem. como é de sua natureza. (Ver figura 2. deslocadas para um outro plano. isto é. como apenas significantes a serem articulados por regras sintáticas (morfológicas ou gramaticais) D/2 e assim constituir um suprasignificante de um supra-signo ou discurso a ser desvelado pela lógica disponível I/D/2. D/2 e sim I/D. na passagem. no plano subjetivo. acontece um outro importante fenômeno na passagem de um plano ontológico ao subseqüente e que denominamos recalque lógico. pois.f) As lógicas que desvelavam determinados aspectos de realidade são. A outra posição disponível não é. relevantes e unívocos apenas no contexto do discurso visado por I/D/2. j) Além do remanejamento. onde D passa a pensar o corpo libidinal. do mais conspícuo dentre os saberes científicos – a física. Tomemos a semiologia como referência: I/D no plano onto-lógico objetivo pensa os signos. inclusive. e sim alguma coisa muito mais grave: a lógica para poder efetivamente visá-lo. agora. porque a algo estaria faltando mais do que o significante apropriado. que irá visar signos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 47 constitutivas de um agregado de maior hierarquia. representativo de uma nova totalidade a emergir no nível I/D/2.

l) Heidegger descobriu o comprometimento ontológico da verdade: verdade como alétheia (I) contraposta à verdade como adaequatio (D/2) (ver figura 2. Lacan estendeu-a. através de seus matemas.48 I I/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D I D/ 0=I Pré-I Pré-D D I D/2 I/D Pré-I Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Figura 2. parcial (D). da seqüência dos planos onto-lógicos.f . tome-se a lógica I/D visando. o que permite uma articulação. pensável pela lógica I no plano subseqüente. Como exemplo.g). Isto nos assegura que o visado pela lógica de maior nível de um plano torna-se. de impossibilidade da ocorrência de saltos instantâneos. o Deus único (I). uma exceção justificada por um princípio geral de continuidade do mundo e da vida.Articulação dos níveis onto-lógicos Existe. no plano objetivo (I/D): o pleno domínio do signo convencional (episódio bíblico do bezerro de ouro) vai se mostrar condição necessária para que se possa pensar. contudo. parcial e total (I/D) e nem . no plano subjetivo (I/D/2). para as quatro lógicas de base: verdade total (I). vale dizer. ainda que apenas formal. de algum modo.

especificamente. isto é. estará associado o princípio do no máximo n ou. m) Os símbolos I e D podem ser tomados como operadores. respectivamente. para a qual tem-se n = 1. D. I/D. vitória [ 8]. a lei do n+1 excluído. A cada uma das demais lógicas. D. afecção ou percepção e êxtase simbólico (correspondentes a I. na estrutura ontológica subjetiva I/D/2 ). na estrutura onto-lógica objetiva I/D). alétheia objetiva. Assim. por exemplo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 49 parcial nem total. D/2 e I/D/2. HEIDEGGER Adaequatio LACAN Parcial PROPOSTA Amor Gozo D/ 2 D Nem Parcial nem Total 2 D/ I/D/ 2 D I Alétheia I Total I/D Parcial e Total Alétheia Subjetiva Adaequatio D/ 2 V it I I/D r ia Alétheia Objetiva Pré-I Afecção ou Percepção Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Alétheia Fenomênica Figura 2. gozo [7]. adaequatio e amor (correspondentes a I.g .As verdades Nós podemos agora ir um pouco mais longe. o que é o mesmo. I tal que I2 (ψ) = I(ψ) (reflexividade ou lei do pelo menos um) e D tal que D 3 ( ψ ) = D(ψ ) (lei da negação em sua maior generalidade ou lei do pelo menos dois). I/D. que nada quer com a verdade (D/2). em virtude do seu caráter derivado. seguindo a seqüência de estruturas onto-lógicas definidas no item anterior: alétheia fenomênica (I na estrutura onto-lógica de mesmo nome). respectivamente. a contar de I/D. à . alétheia subjetiva. expresso por Xn(ψ) = ψ.

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lógica dialética I/D estará associado o princípio do no máximo um, ou, o que lhe é equivalente, o princípio do segundo excluído, vale dizer, da totalidade, expresso por um operador H, H tal que H(ψ)= ψ; à lógica D/2, que segue imediatamente a I/D, estará associado, como é bem sabido, o princípio do terceiro excluído, expresso por um operador A, A tal que A2 (ψ) = ψ; e daí por diante; n) A homogeneização dos princípios das lógicas e de sua expressão operatória estabelecidas no item anterior, permite que a elas sejam aplicados os mesmos procedimentos formais da mecânica quântica, em particular, o postulado que formaliza o ato de mensuração expresso por Op ψ = lψ[9] onde Op é um operador hermitiano[10] representativo de um determinado instrumento de medida, ψ uma função representativa de um estado de coisas do mundo e λ um número. (Ver figura 2.h) Esta última equação, em associação com a equação caraterística de cada uma das lógicas conforme definida no item m anterior, permite que para cada uma delas seja determinado, de maneira unívoca, um conjunto de valores de λ, designados valores próprios (em lógica, denominados valores de verdade ) do operador em questão.
OP
Med.
1

i t 0

OP
Med. 2

i

* *= a
1 1 +a2 2

i …

i OP( i) = i i

i

Figura 2.h - Lógicas como operadores

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À semelhança do que ocorre na mecânica quântica, na qual o conjunto dos valores de λ representa o “lado objetivo ou mensurável do mundo físico, os valores de λ vão representar aqui a realidade visada pela lógica em consideração. No caso da lógica I, associada ao operador de mesma designação, teríamos como valores próprios 1 e 0 , ou se quisermos, o ser e o nada, respectivamente. (Ver figura 2.i) Já no caso de D, associado também a um operador de mesma designação, os valores próprios seriam 1, -1 e 0, respectivamente, o verdadeiro, o falso e, de duas uma: o paradoxal, se a negação de 0 for tomada como sendo 1; o nem verdadeiro nem falso, se estabelecermos -1 como a negação de 0. Em se tratando de I/D, associada ao operador H, temos apenas o valor 1, identificado com a noção de totalidade lógica. Por fim, no caso de D/2, os valores próprios do operador A que a representa seriam 1 e -1, o verdadeiro e o falso, sem confusão (ou superposição) e sem a possibilidade de qualquer outro valor, vale dizer, de qualquer terceiro; por isso, entre outras fortes razões, a lógica D/2 foi por nós identificada como sendo a lógica clássica.
L. transcendent.
I2=IeIψ=λψ

L. da diferen a
D3 = D e Dψ = λ ψ -1

0

0

1

1

L. dialØ tica
H = 1 e Hψ = λ ψ

L. clÆ ssica
A2 = 1 e Aψ = λ ψ -1

L. q inq itÆ ria
S3 = 1 e S ψ = λ ψ e2πi/3 e-2πi/3

1

1

1

Figura 2.i - Valores próprios das lógicas

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

Constata-se que a lógica D, objetivamente considerada, é dentre as lógicas de base, a mais rica, o que tem implicações antropológicas da maior importância. Este inesperado encontro da lógica com a mecânica quântica não é uma curiosidade, uma simples casualidade; é, sim, um encontro nas profundezas do conhecimento, que não se sabe bem porque, demorou tanto a acontecer; com ele dá-se uma mútua iluminação destes dois saberes cuja extensão não poderíamos aqui avaliar; o) As lógicas diferenciais Dn possuem 2(n - 1) valores próprios e as lógicas derivadas identitárias I/D/n, 2n –1 valores. No caso da lógica I/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; -0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; -0,5 - 0,5 = = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constituise numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) realI/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; - 0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; - 0,5 -0,5 = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constitui-se numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) real
VALORES DE VERDADE DA LÓGICA QÜINQÜITÁRIA
TU - 2 i/3 1 -1/2 -1/2 1 - 3 i/2 3 i/2 ELE

VALORES DE VERDADE DA LÓGICA DA DIFERENÇA -1 FALSO

e

e2

i/3

0 INDEFINIDO
EIXO IMAG.

1 EU
EIXO REAL

1 VERDADEIRO
EIXO REAL

Figura 2.j - Valores próprios de I/D/2

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Partindo destas proposições gerais sobre as lógicas, com a simples adjunção de algumas teses específicas, poderemos chegar a uma sólida antropologia filosófica. Vejamos: a) À diferença dos demais animais cordados superiores que operam a síntese do um e do múltiplo, isto é, I/D [11] e que lhes possibilita o acesso ao símbolo convencional, o homem é capaz de proceder à síntese da identidade, da diferença e ainda da dupla diferença, que o faz um ser lógico-qüinqüitário, ou seja, de nível lógico I/D/2. Isto está empiricamente atestado, dentre muitas maneiras, pela capacidade humana da discursividade (o simbólico articulado pela gramática). A moderna antropologia estrutural, tomando o registro da sexualidade, postula que o homem, do ponto de vista formal, está determinado pela dupla diferença: a primeira diferença, de estofo biológico - macho versus fêmea - e ainda uma segunda, de estofo propriamente cultural, dita diferença clânica. (Ver figura 2.l, a seguir.)
ANIMAL
I D1
Diferença Sexual Biológica

2.3 - Uma antropologia esperançosa

HOMEM
I/D I D1 I/D D2 I/D/2

Diferença Diferença Sexual Clânica Biológica

Figura 2.l - O homem como animal qüinqüitário Se a estas articularmos a identidade - pré-condição necessária do reconhecimento e assunção dos quatro pólos definidos pela dupla diferença chegamos finalmente à síntese por nós proposta: I/D/2 [12]. O caráter identitário (consciente) do homem

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

– descurado pelo estruturalismo, ainda que com atenuantes –, pode ser de pronto justificado se o assimilarmos a uma diferença colapsada [13] que, no registro da sexualidade, seria a diferença sexualmente maduro versus imaturo, na qual, de modo geral, o mesmo ser humano, no correr de sua vida, acaba ocupando as duas posições; b) À lógica qüinqüitária devemos associar um horizonte lógico, um além de I/D/D = I/D/2, a fim de que esta não se torne para os homens, ao mesmo tempo, lógica do Absoluto, tal como se deu com Hegel ao nível dialético trinitário, e que o levou a um iniludível panteísmo. Esta possibilidade do ser humano terá que estar suportada pela vivência de uma falta, que identificamos como sendo a impotência de abarcar ou dar conta, globalmente, de sua própria experiência inter-subjetiva. A lógica do saber sobre uma instância ontológica está necessariamente um degrau lógico acima de sua lógica de referência [14], de modo que, para o ser humano, de nível I/D/2, o saber respectivo será de nível D/D/D = D/3, logo, acima da sua capacidade lógica. (Ver figura 2.m). Em resumo, o ser humano é um ser lógico qüinqüitário incorporando um horizonte lógico que o transcende e que lhe é acessível (conquanto que dependente de uma decisão, visto existir a D/3 D/ 2 opção de considerar a falta como pura HORIZONTE imanência) como I/D/ 2 vivência de uma fal- I/D ta no âmbito de sua experiência de serHOMEM 2 D com-outro, diante D/ da qual ele não pode evitar o risco, deixar I I/D de responder com a Figura 2.m O homem e confiança ou negar seu horizonte lógico o amor;

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c) Pode-se constatar de modo empírico que nada existe no mundo que, no eixo lógico aqui considerado, supere o homem; restitui-se-lhe, assim, a posição pinacular na mundanalidade que, na Modernidade, lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios – das lunetas ao Hubble –, pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. Como conseqüência, doravante, todo saber deve ser considerado saber antropo-lógico: saber reduzido ou parcial (ciências “duras”), saber humano propriamente dito e saber especulativo (teologia natural recuperada) tal como começam a se dar conta alguns cientistas menos blindados quando aceitam discutir, pelo menos em sua versão fraca, o princípio antrópico [15]; d) Como já enfaticamente repetido, o ser humano é de nível lógico I/D/2, lógica que subsume, além de si própria, as que lhe antecedem: I, D, I/D, D/2, estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Isto leva a admitir que no ser humano a sexualidade precise ser re-definida, deixando de ser bipolar (representável por um segmento de reta), como nos outros animais, para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). O par diagonal {I, D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D, D} o feminino; e como (I)/(D/2) tanto quanto (I/D)/(D) são iguais a I/D/D = I/D/2, conclui-se imediatamente (ver figura 2.n) que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano. É importante notar que existem três modos possíveis de clivagem, por pares, das quatro lógicas de base: primeiro, a “sexuada” que acabamos de ver; segundo, a filosófica grega ou ontológica, contrapondo o lógico-identitário (I, I/D) ao lógicodiferencial (D, D/2); terceiro, a filosófica moderna ou epistêmica, contrapondo o “subjetivo” (I, D) e o “objetivo” (I/D, D/2).

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I/D/ D
2

LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
I/D/ D
2

D/ 2

D/

2

I
MASCULINO

I/D

I
FEMININO

I/D

Figura 2.n - Masculino x feminino Não é difícil perceber que, de todas, a primeira é a mais relevante, na medida em que ela é a única verdadeiramente simétrica e que, por isto mesmo, aponta inequivocamente para o mais acima, isto é, para a síntese qüinqüitária I/D/2. Aliás, excluída a tradição judaico-cristã, parece-nos que todas as demais culturas sentiram bem isto, embora constrangidas a expressá-lo pela óbvia metáfora (mito) sexual biológica! e) Todos os homens de todas as culturas são logicamente equivalentes (tese homóloga àquela do estruturalismo estabelecendo a equivalência de todas as culturas em razão da presença universal da lei de dupla face da exogamia/proibição do incesto, com a única diferença que esta é de nível lógico quaternário, enquanto que a nossa, de nível qüinqüitário. Fato é, entretanto, que as culturas ainda assim se distinguem de modo flagrante e essencial, mormente quando em confronto umas com as outras. Para compatibilizar estas duas determinações assim tão contraditórias – sem trapacear apelando a fatores extra-culturais –, não nos resta outro caminho senão o de caracterizar cada cultura pelo nível de desvelamento do seu próprio ser qüinqüitário a que estaria necessariamente associada uma representação objetiva ou simbólica;

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em outras palavras, uma cultura é determinada pela lógica mais ou menos implícita do seu núcleo religioso ou sacralizado – cultura do deus “unário (judaica), cultura prometéica ou do que é somente na medida em que se opõe aos deuses (greco-romana), cultura do deus trinitário (cristã patrística) e assim por diante. Existem culturas que não chegam a nenhum grau de desvelamento de seu ser lógicoqüinqüitário – elas serão chamadas culturas ecológicas –; quando nela predominar a identificação à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-I (cultura paleolítica dos povos caçadores/coletores tendentes ao nomadismo ao igualitarismo e ao xamanismo) e quando predominar a contraposição à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-D (cultura neolítica, sedentária, hierarquizada, dispondo de classe sacerdotal, com escrita e naturalmente escribas, com trabalho ordenado, de base agrícola estável). Desenha-se, assim, uma história da cultura em estreita consonância com uma filosofia da História, cuja essência seria o cumprimento de uma destinação. É preciso, entretanto, alertar que tal cumprimento não seja confundido com aquele implícito na concepção “unária” (I) ou judaica da História, que nos exige a fé para sua consumação; nem aquele implícito na concepção trinitária (I/D) ou hegeliano-marxista, que nos exige o completo engajamento; trata-se aqui, de maneira coerente, de uma concepção qüinqüitária (I/D/2) da História síntese hiperdialética das anteriores - para o cumprimento da qual exigir-se-á tanto a fé inabalável, quanto o irrestrito engajamento. f) Às culturas que correspondem de modo estrito a uma lógica e que historicamente foram as primeiras a fazê-lo, damos a denominação de tipo puro ou nodal (ver figura 2.o); às demais, a denominação de culturas não nodais. Recapitulando, e atendo-nos apenas “Ocidente”, as culturas nodais já

I. consumado tempos após a realização histórica do mesmo (um bom exemplo é o da cultura islâmica do Deus único radical (I). culturas mistas ou ecléticas. mistura de D com I/D. mistura de pré-I dos índios guaranis com o par I/D. “socialismo moreno”. tudo se passa como se I aprisionasse dentro de si. por isso ficamos apenas em três: a cultura bizantina.58 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO consumadas seriam as do tipo pré-I (paleolítica. de base agrícola estável. I (judaica profética). mas não chegam a alcançar o tipo nodal subseqüente (talvez o melhor exemplo seja o da cultura egípcia que tenta. na sua versão paradigmática. o “projeto cultural cubano”. mistura de pré-D com I/D para formar um sujeito não sujeitado de D/2!). nesta. pré-D (neolítica. como os impérios da antigüidade). um tipo nodal. mas não chega a alcançar o monoteísmo [16]. que tentam a mistura de tipos nodais (os exemplos seriam inúmeros. É preciso advertir que culturas nodais a seu tempo. porém. a saber: culturas de transição. ficando assim sujeita a permanentes e radicais conflitos internos. ao mesmo tempo. caçadores/coletores de tendência nômade). e aproximadamente 300 depois da consolidação do cristianismo patrístico (I/D) no Concílio de Nicéia. que sobreviveram mesmo depois de superadas. culturas anacrônicas. a “cultura das Missões”. não se enquadrariam em qualquer destes tipos continuando a ser consideradas nodais. . cerca de 1000 anos após o apogeu da cultura grega (D). criada mais de 1500 anos após o advento do judaísmo I. As culturas não nodais distribuem-se por vários tipos. D (greco-romana). D/2 jesuítico. D e I/D. sedentária. I/D (cristã patrística) e D/2 (moderna. tendo I como sujeito intervalar aos sistemas). como seriam os casos dos judeus e dos índios brasileiros enquanto não aculturados (se sobrar algum depois do advento da “República nova”?!). que partem de um tipo nodal.

(Ver figura 2. D.o . anglo-saxônico ou o herói fordiano [17].Culturas nodais g) A humanidade. é o sujeito liberal. Sendo D/2 a lógica da morte.p. tendo como motor principal o inconsciente “industrialmente” domesticado pelo marketing. pré-D. ela só “vigora” com os préstimos de um sujeito intervalar. presentemente vivendo sua fase civilizatória. depois de passar pelas culturas pré-I. informacional/globalizante. de nível lógico transcendental I. que no caso paradigmático. vive já há algum tempo o predomínio da cultura científica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 59 I/D/ Cultura GrecoRomana 2 Cultura Nova Qüinqüitária D D/ 2 Cultura Moderna I/D Cultura Cristã Patrística Cultura Judaica I Pré-I Cultura Paleolítica Pré-D Cultura Neolítica Pré-Pré-D Pré-Pré-I Proibição do incesto/ Exogamia Figura 2.) . de nível lógico D/ 2. sujeitado. I/D. I. ou seja.

Não é preciso enfatizar que o paradigma liberal não fracassa (o que nada tem a ver com a condição de ser historicamente . também ilusória ou apenas transitoriamente dominante. lógicas que foram recalcadas a ferro e fogo para viabilizar a instauração da Modernidade. deixa então de ser paradoxal que coincidam os períodos de caça às bruxas e de afirmação da ciência e do capitalismo paradigmático.60 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Sujeito Romântico D Pentecostal Fascista Pa r A ng ad lo igm -s ax a ôn ic o D/ 2 Ciência Jesuítico Socialista I I/D Sujeito Liberal Sujeito Coletivo Fig. que identificamos com o fascismo. inexoravelmente destinadas ao fracasso pelo prosaico fato de que D/ 2 . é forçoso que se reconheça. pelo sujeito romântico. D. não admite outra dominação que não a sua própria.p . Ambas as ideo-logias. I/D. 2. que identificamos com o jesuitismo. de outro lado. de um lado. telúrico. . – ideologias à direita. sujeito libidinal D.A cultura moderna e suas variantes As únicas alternativas ideo-lógicas de subversão da Modernidade seriam. machista. Elas são únicas justamente na medida em que propõem um sujeito I/D ou D (o par das lógicas femininas). ou em seu modo arcaico. vale dizer. movimentos carismáticos. ilusória ou apenas transitoriamente dominante. o marxismo etc. pentecostalismo etc. aparentetemente.ideologias à esquerda -. subsumindo I. a substituição do sujeito I pelo sujeito coletivo I/D (representado por um sujeito simbólico absoluto).

só será sucedida pela cultura X+1 em condições extremas: esgotamento de suas possibilidades (tese homóloga. h) Focalizemos um pouco mais detidamente a problemática da dinâmica cultural. Começaríamos observando que ela não é lógico-dialética. provocar o . Em meio à pletora dos fundamentalismos reativos mais ou menos desesperados. visto que geradas por X mesmo (como é o caso do comunismo e do fascismo na Modernidade). é ser já per-vertido. ainda. importunada pela cultura X-1 que a antecedeu: sob o modo negocial ou de simples adesismo (tipo saduceu). que é bem mais complexa do que supunha Hegel. A História como história (I/D) da cultura. e então. Seja uma cultura genérica X. no sentido que esta última assume com o estruturalismo (D). Não se trata. àquela de Marx no irá passar do estágio de cultura propriamente dita ao de civilização . mas que admite recuos. ainda que après coup. pois. sim. marginalidades e retornos ao proscênio histórico. os fins da cultura X. ele irá provocar um período mais ou menos extenso de graves tensões. mas na verdade já exangue. por formas pseudo utópicas. no plano cultural. conquanto seu curso seja inexoravelmente. do formalismo sem conteúdo (tipo fariseu) ou de sua variante terrorista (tipo zelote) (ver figura 2.q ) e. Ela.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 61 superável. desconstruções. haverá um. é necessariamente lógico qüinqüitária ( (I/D)/(D) = (I/D/2) ). como veremos adiante).sua universalização ou horizontalização aparentemente irresistível. Olhemos um pouco mais de perto dinâmica cultural. transformando em instrumento. Este fundamentalismo X-1 será de fato o único capaz de fazer frente à cultura imperante. de um processo puramente ascendente. ela será. por sua própria natureza. a cultura X. pois. ascendente. por muitos modos. processo de cumprimento de uma destinação. referido à cultua X-1 (tipo essênio) que se distinguirá por sua disposição de subsumir.

62 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desvelamento da nova cultura e.q .: Fariseus) TERRORISMO (Ex.A passagem de uma cultura diferencial à cultura subseqüente Na Modernidade este fundamentalismo realmente eficaz deverá ser o cristão originário ou patrístico (ou o equivalente em outras tradições culturais. depois do comunismo e do fascismo.: Saduceus) FORMALISMO (Ex. mbaísmo verde. O movimento denominado Teologia da Libertação deixou de ser uma real ameaça à civilização reinante. é o “inimigo” eleito pelo próprio stablishment cultural. Cultura X +1 (Ex. bigbangismo. .: Cultura Greco-romana)) FUNDAMENTALISMO X .1 (Ex. metamorfoseouse em baleísmo.: Zelotes) Figura 2. mas pelo seu próprio desvirtuamento ao abandonar a dialética do sentido ou do espírito (I/D como lógica suprema da estrutura onto-lógica objetiva) para se assumir dialética da história (I/D como uma entre outras lógicas de base na estrutura onto-lógica I/D/2). confundindo-se assim com o marxismo.1 (Ex.: Cultura Judaica) COLABORACIONISMO (Ex. como era fácil prever. deixar como um testemunho histórico vivo. eventualmente.: Essênios) Cultura X .: Cultura Cristã) Cultura X (Ex. uma ortodoxia de nível X-1. não pelo reacionarismo da Cúria Romana. como a chinesa ou a hindu) e jamais o fundamentalismo islâmico que. Com a falência do “materialismo real” a Teologia da Libertação.

de paralisar a História. não vislumbramos a mesma regularidade encontrada no caso anterior. bastaria anular o I da auto-identificação e substituí-lo por um D do distanciamento. podemos especular um pouco sobre o assunto. o saber de I/D/n é precisamente D/n+1 (para se obter a estrutura epistemológica referente a um nível onto-lógico qualquer I/D/n. o sersocial opera necessariamente com X. Esta explicação cabe razoavelmente bem para a passagem do cristianismo patrístico (I/D) à Modernidade (D/2): o processo iniciar-se-ia com o movimento monacal. necessariamente. No processo de superação de uma cultura da identidade genérica. Levando-se isto em conta. I/D/n. com a lógica I. como sa- . As passagens similares anteriores mereceriam uma pesquisa detalhada. podemos conjeturar que o progressivo saber de si de uma cultura identitária é que possibilitaria e induziria a referida passagem. porque esta é justamente a prerrogativa específica do ser-social nesta cultura. com a lógica X. i) Qual a relação essencial entre ser-individual e ser-coletivo ou sociedade. enfim. de outro lado. com a escolástica. tudo isto no sentido de congelar o poder não só espiritual. porém. apenas por si. sermúltiplo. o indivíduo de qualquer cultura opera. Sabemos que. mas também temporal da Igreja.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 63 qüinqüiforcismo espiritual e outros ismos marqueteiros. em geral. isto é. no que resulta D/n+1). é de sua natureza. pois. em uma cultura de nível lógico X? Duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. continuaria com a tradução para o latim do corpus aristotélico e sua ampla divulgação pelo Ocidente. como se fora ela um modo de consolidar ou mesmo eternizar a sua dominação. Pode-se daí depreender o modo específico de articulação de indivíduo e sociedade. mas é impossível que o faça. mas é impossível fazê-lo com I.

através de um processo contábil escrutínio . vale dizer.r . através de um processo competitivo . eles fazem valer os seus desejos (D). seria natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêm-se. que as lógicas dos processos de mediação nos extremos estão invertidas em relação às lógicas de procedência.(D/2). no geral.(I/D). para a formação da decisão coletiva (I). e a sociedade provê sua capacidade de decisão (I) por um processo social de nível X a partir da capacidade de decisão (I) dos indivíduos.64 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bemos.r). para a ← . de nível lógico D/2: os indivíduos contribuem com seu poder decisório (I). (Ver figura 2. Figura 2. uma velha questão filosófica [18]! Os indivíduos suprem seu caráter X por um processo de identificação (I) com o caráter X coletivo. em ordem inversa relativamente às lógicas de procedência também para todos os casos intermediários entre I e X.mercado . Tomemos oexemplo da Modernidade.Articulação dos “extremos” Como o processo mediador no extremo I ← X é do tipo I (uma identificação) e no outro extremo I X é do tipo X.

s . a URSS apresentou a anomalia de inversão de dois de seus processos: de um lado. 2. Para dar apenas um exemplo. Ver figura 2. pelo planejamento central (D/2) e não pelo mercado competitivo (I/D). ou seja. o processo de determinação do desejo coletivo (D) passou a ser feito através do cálculo. de outro lado. eles formam o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) do patrimônio coletivo . j) Todas as culturas históricas têm sido castradoras dos indivíduos simplesmente porque . nos tempos modernos. por fim eles se aculturam (D/2) identificando-se (I) com os papéis disponíveis na organização social (D/2).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 65 formação do desejo coletivo . como compensação. entretanto. pelo violento mercado político (I/D) ao invés de sê-lo de modo paradigmático pelo cálculo.(I/D).demanda global . isto é. passou a ser feito de modo competitivo desregrado. o processos de decisão coletiva (I). INDIVÍDUO SER-SOCIAL Fig. podendo ocorrer. muitas espécies de distorções. por eleição (D/2).s.o excedente ou capital . ou seja.(D).Formação paradigmática moderna Este seria apenas o paradigma.

j do item anterior A lógica ressuscitada) e. No plano “especulativo” a nova cultura engendrará um novo saber (I/D/2) na seqüência das filosofias transcendentais (I) e dialéticas (I/D). Um indicador do efetivo engendramento do saber hiperdialético qüinqüitário está precisamente na sua capacidade de enfrentamento crítico direto da ciência. aliás. Estas subsunções implicam necessariamente reações. vale dizer. deveras. do saber científico (porque este. positivistas e fisicalistas que lhe são afins (D/2). verá inverter-se tal relação). vale dizer. sem que o faça. o que. como história (I/D) da cultura (D). A passagem de D/2 a I/D/2 será. da história ainda restrita.66 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sempre abaixo da potencialidade lógica dos homens. inclusive figura 2. não passará ainda de um derivativo ou um soporífero para as tribulações de um dia inteiro de submissão à lógica da dupla diferença. coincide com um bem conhecido juízo freudiano. que ora pensa hegemonicamente o homem. A superação da Modernidade assinala o fim do sub-reptício predomínio histórico do inconsciente. que as estará subsumindo juntamente com o saber psicanalítico e as “anti-filosofias” da diferença que lhe são correlatas (D) e com o saber científico e as “anti-filosofias” empiristas. mas não com a sua desesperança [19]. devemos lembrar. l) A grande interrogação que nos fica é aquela de . como hoje sintomaticamente se vê por toda parte. tendo-se em conta o seu caráter de matriz objetiva de todas as lógicas de base (ver itens n e o. ainda bem mais. tão dramática e cruenta quanto a passagem de pré-D a I. as mais encarniçadas serão as dos saberes da diferença (porque a lógica do inconsciente irá perder o governo da história da cultura. constituiu-se no momento ímpar do auto-desvelamento da cultura em sua essencialidade lógica (bastaria lembrar o episódio vétero-testamentário da adoração do bezerro de ouro!). Esta última. de I/D/2.

que deixa acima de si mesma. mais precisamente. tanto em relação à Modernidade quanto à nova cultura qüinqüitária? O cerne da problemática social do Brasil já foi por muitos bem diagnosticada [20]: a existência de uma certa incompatibilidade do seu processo de formação cultural com a Modernidade. num exasperado esforço de síntese. o encobrimento ou disfarce. fundamentais: a) Como se falar de incompatibilidade com a Modernidade no caso de uma nação que se inaugura com a própria Modernidade.A situação e perspectivas brasileiras . a um novo humanismo que o fará ídolo de si mesmo – tal como ocorreria com o hegelianismo e de fato ocorreu com o marxismo real dele derivado pela esquerda – ou se. vale dizer. O diagnóstico é em essência correto. o “espaço lógico” de onde há-de-vir(á) o Deus que nos poderá salvar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 67 se o homem passará da cultura D/2 à cultura I/D/2 “pura”. regenerado. no âmago. mas requer alguns esclarecimentos. que desde seus alvores possuiu uma agro-indústria exportadora significativa – tanto em termos de quantidade quanto de qualidade – antes mesmo de que se tivesse formado um verdadeiro mercado interno? Como. de uma outra grave questão: aquela do sujeito da Modernidade ou. sim. Diante disto tudo. ou seja. além. do sujeito da ciência. que poderíamos dizer acerca da situação brasileira atual e de suas perspectivas. nosso quadro referencial lógico ressuscitado e antropológico esperançoso. Com a ciência estão todos 2. a nosso juízo. passará direto à cultura I/D/2 que incorpora. evitando esse grave pecado de soberba. de modo essencial.4 . Eis aí. seu horizonte transcendente. se começamos justamente pelo que se tem ainda hoje como o mais supimpa?! Toda discussão acerca da Modernidade é.

em especial. da mesma família que D). embora achemos que não sabem até hoje bem o porquê. de um lado. naturalmente. desde que para pulverizá-las. o seu representante absoluto. mas sim em não estar em parte alguma. em função do peso de sua herança cultural africana (pré-D. não está onde parece. esteja ele ainda enrustido na linguagem. técnicos e burocráticos. os nacionalistas. o fazedor de futuros. em suma. enfim. Isto acontece. seja ele de fato. contra o sujeito lógico I. contra o empresário schumpeteriano. Tudo porque não se trata de um problema de lugar – encontrar um lugar na Modernidade ou um modo de inserção num mundo “globalizado” –. o futuro a Deus pertence. os positivistas e os neopositivistas. em função do peso histórico dos jesuítas (I/D) sobre nosso sistema educacional [23]. pela opção preferencial (não exclusiva) do povão pelo sujeito libidinal. Assim. a grande “diferença” de Macunaíma. b) O paradoxal que muitos aí enxergam. e os internacionalistas também.68 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de acordo: a direita. ao contrário. como bem assinala Wisnik já citada na nota 20). pela opção preferencial das elites [22]pelo sujeito absoluto enquanto representação do sujeito coletivo. vale dizer. Nossa grande implicância está dirigida contra o sujeito de projeto (este último. desde que ela venha para preservar fronteiras. como shall ou como will [21]. por uma Modernidade (D/2) já em processo de esgotamento e para a qual carecemos da necessária vocação his- . Para nós brasileiros. a aludida incompatibilidade não é nem poderia ser de modo algum com a Modernidade em seus aspectos objetivos. até Nietzsche e Heidegger amariam a ciência e não vituperariam as vicissitudes da técnica) e a esquerda. de outro lado. científicos. desde que ela venha ao serviço do sujeito romântico (se isso fosse garantido. e sim de tempo: decidir pelo curto prazo. todos. desde que ela venha para fortalecer o sujeito coletivo. idem.

violências. mas que acabaram encompridando e alargando em muito a base territorial da nação. os cristãos-novos e judaizantes perseguidos. diante da responsabilidade em assumir nossa indelével destinação. por todas as grandes cidades do país este. pela cultura nova qüinqüitária (I/D/2). já foram mais do que pagos – que o digam os índios. ainda hoje. quem poderia. para a qual estaríamos já irrevogavelmente vocacionados? Em outras palavras. multidões percebendo os mais vis salários do mundo. fazê-lo pelo longo prazo. trememos e traímo-nos constantemente. em que estamos a toda hora enredados. (Ver figura 2. mortes e mil outras tragédias que. cafuzos e caboclos perdendo suas almas para legá-las à formação da alma brasileira. ora pela inveja ou simples cobiça. os incontáveis mulatos. sofrimentos. é o verdadeiro Custo Brasil! Diante de tudo isto. tantos desterrados.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 69 tórico-cultural ou. no âmago. os mamelucos enfurnados pelo sertão sofrendo e cometendo atrocidades. observaria o lúcido Caetano Veloso. os negros vindos escravos da África para penar nos engenhos e nas lavras. mas. caçados.t) Para concluir. no caso do Brasil. anos e anos a fio. sim. parece-nos. mas que a rigor já não mais existe. não frente a um perigo objetivo. de natureza eminentemente temporal. aliás bem cariocas: nossa escolha essencial é entre o luxo e a originalidade? Este é o nosso verdadeiro nó cego. injustiças. depois dizimados ou “reduzidos”. sem falar nas legiões de crianças abandonadas e de idosos desvalidos. sim. ainda permanecer na dúvida acerca da causa em que devemos a vera nos engajar por todos os meios e modos a nosso alcance?! Guardadas as de- . não seria demais lembrar que os custos inevitáveis historicamente constatáveis para se erigir uma cultura são cerca de 500 a 600 anos de opressões. poupança forçada que se esvai em pagamentos de juros sobre juros indecentes. entre nós brasileiros. ora pela fé oficial.

a seguir. viciado e sobretudo manipulado. por si se agigantaram e acabaram hoje perdendo toda qualificação através do processo de globalização da insensibilidade e do cinismo. 2.Opções brasileiras: luxo ou originalidade vidas proporções. mas deixou rolar – e que. as lutas recentes contra o autoritarismo e a corrupção – que o primeiro não inventou. é o modo próprio. não passaram de um ensaio bem canhestro. agindo com um pouco de molecagem que. o que para nós seria o mesmo. São estes processos de luta que precisamos sem pena abandonar ou rever. . a propósito. quando conveniente.70 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Fig. ou.t . mais propício e não menos propiciatório de já irmos cozinhando e provando a nova cultura qüinqüitenária. pela grande mídia. com imaginação e coragem criar novos e levá-los realmente a sério.

los de las otras ciencias más particulares. Opinamos que isto deva ser repensado em profundidade. de um pensamento ainda pré-lógico. Segundo esta última. primeiro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 71 3 Acerca da lógica e da cultura La razón exige y reclama que exista una ciencia universal de todas as ciencias. y com pricipios universales en los que se hallen implícitos y contenidos como lo particular en lo universal. contrastando com o pensamento propriamente lógico acabado.[1] Raimundo Lulio.. dos povos modernos. nenhuma diferença haveria entre a lógica dos povos primitivos e aquela dos povos modernos. eivado de sentimentos. o tema lógica versus cultura vem imediatamente referenciado a Lévy-Bruhl [2] e à sua tese da prevalência. entre os antropólogos da atualidade. porque não . mas de qualquer modo contestada pela antropologia estrutural de Lévi-Strauss [4]. entre os povos primitivos. e não propriamente na lógica. trespassado pela emoção.. Doctor Illuminatus in Ars magna et ultima. De modo geral. A tese teria sido mesmo abandonada pelo próprio autor [3]. A diferença aparente dos desempenhos discursivos de uns e outros estaria na constância com que os primitivos se valem do processo de bricolage [5] simbólica. adstrito à pura forma.

a qual se vem juntar uma diferença específica. segundo. A reabertura da questão lógica versus cultura ou. porque parece-nos estar ali também implícita uma concepção restrita. um mero oportuno acadêmico. vige esta mesma referenciação.72 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO aceitarmos esta separação drástica ali implícita entre o lógico e o simbólico (simplesmente porque existe a questão do estatuto lógico do próprio simbólico). destarte. Nosso objetivo aqui é voltar à questão para discutila num âmbito maior e certamente mais apropriado. naturalmente. da antropologia filosófica) estaria precisamente a questão da mutação lógica que levou ao advento da cultura. cujas origens certamente se perdem nos tempos. e no entanto paradoxalmente imprecisa. diga-se de passagem. Comecemos tomando como referência um esquema de compreensão evolutivo do ser humano. lógica ressuscitada versus cultura não é aqui. Paralelamente estaremos superiormente armados com uma renovada concepção da lógica [8] que resgata não apenas a riqueza da tradição. no cerne da filosofia da cultura (ou o que para nós é o mesmo.representada pelo animalidade em seu estado de máximo desenvolvimento -. em acordo com a moda atual. pois. a mesma lógica que. mas em flagrante desacordo com o melhor da tradição filosófica. levando então à emergência do homem e consequentemente da cul- . tudo isto convergindo para a demarcação precisa e o completo re-mapeamento do território lógico. o que. depois a acompanha e lhe marca passo. não nos deve causar espanto. como também sua marginália histórica. agora dito com bem maior cuidado. já o demonstramos alhures [9]. Parte-se da natureza . aquele do pensamento filosófico estrito senso. do que seria a lógica. nos irá remeter à velha Grécia [7]. ela se faz necessária em razão de que. No Brasil. apenas com a agravante da rigidez própria dos copistas e dos pobres de espírito [6].

ainda não degenerado em logos metafísico. Observe-se que o poder de por si e propositadamente movimentar-se é. Pode-se argumentar. de evidente caráter lógico-transcendental ou identitário (I). não importa se transcendental.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 73 tura. no próprio Aristóteles. precisamente. que o logos aristotélico não era mais o logos heraclítico. já sem seu maior vigor. sendo este último. dialético ou formal. do ponto de vista formal. Na circunstância. o logos originário.1). O homem era pois o animal superior onde ademais habitava o logos. detinha a mais e com exclusividade a função intelectiva. um poder de auto-determinação. além destas. O ser humano. pois . entretanto. a animalidade superior incorporava não apenas as funções vegetativas – de nutrição e de reprodução – como também as funções sensitivas – compreendendo os diversos modos sensoriais. a que se acrescia a autonomia locomotora. Entre os gregos este esquema bastante simples já vigorava de um modo preciso: o ponto de partida era então a animalidade superior à qual se agregava como diferença específica o logos ou a razão discursiva e chegava-se assim ao homem. a posse da razão discursiva (logos) [10]. CAPACIDADE DE MOVIMENTO AUTÔNOMO CULTURA HOMEM CAPACIDADE DE PENSAR ANALÍTICA Figura 3. como provavelmente o faria Heidegger [11]. (ver figura 3. o modo como ele acabaria se mostrando.1 – O homem grego Segundo Aristóteles. isto pouco pesa. logo. animal racional.

mas sim pelo que. o que fazia ser a humanidade era algo de natureza essencialmente lógica. porque a “razão”. articulando-se. A nosso ver a diferença especificamente humana não pode valer pelo que traz em si. para os gregos. por si só. sejamos obrigados – depois de Heidegger – a deixar em aberto a questão do logos cosiderado: se o simples lógico-diferencial (Heráclito) [12] ou se o duplamente diferencial ou formal (Aristóteles).74 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO opte-se por uma ou por outra interpretação. veremos adiante. dir-se-ia que para . duas sérias objeções. é e diz tudo. no sentido de que ela ali funciona como uma “essência” constitutiva e não como um atributo superveniente. mais precisamente. tal como anteriormente assinalado [13]. potencializa e/ou amplia. porque ao admiti-lo estamos implicitamente diluindo o caráter evolutivo da passagem considerada – o novo. Segundo. a principal crítica à concepção grega do homem deve incidir sobre o caráter tipicamente agregativo/substantivo dado à razão (ou logos). de fato. Primeiro. Isto interpõe um degrau exagerado de descontinuidade entre o animal e o homem. para desta sorte ampliálas ou multiplicá-las. Dito em outras palavras: a razão grega valia por si e não como produto resultante de um poder diferencial que se vinha articular à outros poderes ou potencialidades operatórias similares pré-existentes. Em termos estritamente lógicos. O essencialismo grego suscita. lógico-diferencial ou analítica. não pode caracterizar o ser humano em sua totalidade ou “maximalidade”. inconveniente que viria ser justamente contornado. Do nosso ponto de vista. conquanto. fica o fato que. como capacidade analítica que realmente é. pelo moderno estruturalismo antropológico. mormente quando já se tem por estabelecido que os animais superiores dispõem de uma capacidade sintética ou identitária inquestionavelmente manifesta em sua auto-determinação locomotriz.

atribui-se um caráter puramente identitário (I) à diferença que fez ser o homem. portanto lógico-dialético (I/D). algo que a ele em algum momento se desvelaria decretando – tem-se até o direito de lamentá-lo! – a sua própria superação. àquilo que concretiza a passagem da . recusou a essência evolutiva do esquema grego e assumiu. também da história da cultura). Foi precisamente a esta conclusão que chegou Platão – é verdade que por motivações e caminhos outros –. o esquema compreensivo que vimos tomando por referência. O cristianismo trinitário. De um lado. pois a dialética (própria e apta a pensar a idéia ou o conceito) era algo inerente ao próprio destino do pensamento grego. como se lê em seu diálogo Parmênides [14]. seja pela posição última na ordem da Criação. mas pela inexorável exigência (lógica) da história (hiperdialética) em seu processo de auto-realização [15]. ao termo de uma etapa da história do pensamento (e.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 75 os gregos. como reza o Gênesis. parte-se da matéria inerte ou da animalidade bruta ou carnal. pervertendo-o do ponto de vista lógico. que se confunde com o pensar da identidade recuperada para além da diferença. no caso. Entrementes. A propósito. o ser humano teria que ser pelo menos lógico-dialético (I/D). seja pelo atributo da semelhança ao Criador. de fato. um criacionismo paralelo de todos os entes. no entanto. o parecer nietzscheano e reiterado por Heidegger que Platão teria traído o espírito filosófico grego é uma reprimenda completamente descabida. embora conferindo uma especial dignidade ao homem. ou seja. Com Platão chegava-se. o que acontecia não por força de uma infidelidade ou de uma traição. sob o aspecto formal. a criação do homem a partir do barro (natureza ou apenas res extensa) preserva. res extensa (D). ainda que entendida metaforicamente. sendo o animal superior pelo menos lógico-identitário (I) e a razão pelo menos lógico-diferencial (D). de outro lado.

No entretanto. Seguindo seu antecedente judaico. Só assim se justificava a semelhança do homem ao seu Criador. D) e alma (imaterial e eterna. pura consciência. mas sim de ordem lógico-identitária sopro. NATUREZA BARRO/CORPO CULTURA HOMEM: CORPO E ALMA SOPRO ALMA Figura 3. consciência moral. espírito (mesmo que decaído) etc.2). Ao cabo. Aliás. liberdade. o homem passava a ser concebido como um misto heteróclito de corpo (natureza. a algo de ordem lógico-diferencial. lógico-diferencial. Como se vê.76 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO natureza à cultura. como para os gregos. transcendental ou identitária (I). alma. tudo isto era sem dúvida o que poderia haver de mais coerente com o estatuto lógico-trinitário (I/D) da cultura cristã – a dignidade do homem se devia à interveniência da alma (I) pertencente à mesma família lógica (lógico-identitária) a que pertencia o próprio ser divino (I/D). o cristianismo realiza a proeza de transformar a diferença que fazia a diferença numa identidade. interveniente. isto significava um evidente retrocesso relativamente ao que haviam pensado os gregos. lógico-identitária. livre arbítrio. com a completa inversão das lógicas em jogo: aquela de partida era agora diferencial (D) e a nova. Assim. matéria perecível. porém.. I) (ver figura 3. conservavam o mesmo esquema conceitual dos gregos. que negando consciên- .2 – O homem cristão O mais espantoso nisto tudo é que o pensamento antropológico cristão não se apercebia da absurdidade da inversão. a passagem do animal ao homem não se devia mais.

demolindo as tradicionais diferenças entre o nada e a matéria. mas não altera o estatuto lógico-transcendental do ser próprio de todos os homens (a especificidade humana não estava mais na alma-substantiva. portanto sob o império da lógica da dupla diferença (D/D). É exatamente por isso que Descartes. mas na liberdade-operativa. E isto. sabemos todos. pura reflexividade (I). o homem cartesiano não podia ser mais concebido como um ser lógico-trinitário. O Iluminismo continental [17] dos séculos XVII e XVIII. auto-transparência. ambas se mantinham idênticas em seu estatuto lógico. de muçulmanos e judeus. enfim. o homem se estruturava ainda como misto de corpo e alma. é levado ao reconhecimento do outro (cultural) como um igual. acabou mesmo acontecendo. lógico- . o macro-molecular e o vivo. enquanto que a res cogitans se constituía como lógico-identitária. Instalada irreversivelmente a Modernidade. a ciência lançava-se à tarefa de homogeneização de todas as coisas. em particular. parecia preservar a concepção cristã: em Descartes. provocado pelo ciclo dos grandes “descobrimentos” e colonizações. a circunstância de se tratar agora de uma res extensa submetida aos poderes de uma geometria métrica. porém. concomitantemente res extensa e res cogitans. depois. entre o animal e o homem [16]. Havia. acabou considerado. de índios e negros africanos. entretanto. o inorgânico e o orgânico. sua “espessura” lógica se ampliara fazendo explodir a estreiteza referencial da dialética cristã (I/D). a princípio. apesar de ainda carregar tantos vezos medievais. o primeiro filósofo da Modernidade. A Modernidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 77 cia ou capacidade lógico-sintética aos animais superiores abria uma brecha para que daí a pouco os interesses coloniais levantassem também duvidas quanto à humanidade dos não-europeus cristãos. infelizmente. no caso. Em suma. com plena justiça e de modo quase unânime.

Surge então a antropologia funcionalista. Nas proximidades ainda do macaco. como é próprio de todo cientificismo. Chegamos então à teoria da evolução de Darwin (que hoje. a que devemos o primeiro passo efetivo para a refundação da antropologia moderna. desenvolvia-se o marxismo. por retroação. Com isso começava de fato uma nova era na antropologia. brasileiros miscigenados (aliás. Em nada surpreende que deixassem de lado exatamente a problemática existencial e histórica da cultura. não mais a alma ou algo equivalente. a . naturalmente. não possuía a “espessura lógica” suficiente para acomodar (ou poder compreender) a dupla diferença (D/D). como a liberdade. pois trabalho é precisamente o esforço que visa a outra coisa que ele próprio [18]. argentinos e a “elite” brasileira no poder continuam firmemente a crer até hoje). herdeiro da dialética hegeliana (I/D). entretanto. busca estabelecer a continuidade (ou a indiferença) entre natureza e cultura: o primitivo era um macaco evoluído. A essência lógica do trabalho é a diferença. posto que assim rompia-se com a concepção cristã que via na passagem do animal ao homem a intervenção de algo da ordem da identidade. e o latino. Paralelamente. como no fundo da alma. O marxismo. mas o trabalho (D).78 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transcendental). interpondo entre o animal superior e o homem. uma nova maneira de fazer prosperar o cientificismo antropológico sem os inconvenientes do etnocentrismo desabusado e ostensivo do evolucionismo cultural darwinista. não pode ir muito mais longe em razão de que. se pode conceber como uma espécie de neoliberalismo antropológico). na medida em que ele rompe abertamente com o inconsistente transcendentalismo cristão. que. europeus. (I). estávamos nós. uma espécie de anglosaxão retardado e muitos degraus abaixo.

se os primitivos tinham alma. Com ele um grande passo é dado em direção de uma nova antropologia. no caso. entre os povos primitivos. É evidente. Esta concepção remontava. Esta noção de pensamento pré-lógico em Lévy- . Quando este faz uso desta expressão para caracterizar o pensamento dos povos primitivos. mas como usuários de uma outra lógica. de um pensar por analogias e proximidades significativamente carregado de sentimentos e emoções. lógica que diferiria (o que não quer dizer que se opusesse ou negasse) da lógica formal hegemônica do Ocidente. não o faz no sentido de que fossem destituídos de lógica (o que seria mesmo um absurdo. pois destituído de lógica é sinônimo de destituído de pensamento). pergunta se eles tinham lógica (clássica). Além de pugnar por um posicionamento mais “empático” do antropólogo em relação às cultura primitivas transformada em objeto” de estudo. Logique des sentiments é mesmo o título de sua principal obra) [22]. Perdoe-nos o leitor uma digressão relativamente longa acerca das origens da noção de pré-lógico em Lévy-Bruhl. ele renova radicalmente a indagação antropológica: ao invés de perguntar como se fizeram os jesuítas. que afirmava a prevalência. Voltando à tradição propriamente antropológica acadêmica. com a figura de Lévy-Bruhl [20]. pelo menos. agora sim. razão pela qual ele pode ser com justiça considerado um dos fundadores da antropologia moderna. a Théodule Ribot (psicólogo francês conhecedor e apreciador sob muitos aspectos da psicanálise freudiana [21]. que a pergunta por si valia imensamente mais do que a resposta que se lhe viesse dar. já no início do século XX deparamonos. tratava-se de uma lógica onde sentimentos e emoções ainda tinham um grande peso no processo de produção da “verdade inferida”.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 79 lógica da ciência que à época já se apresentava como o traço fundamental da Modernidade [19].

ainda que bem tardia. sabemos. não quer dizer destituído de lógica. Eis que na segunda metade do século XX emerge a antropologia estrutural. Em suma. sobre a logique du sentiment de Ribot [23]. afirmávamos. assume-se que em qualquer circunstância o verdadeiro objeto científico é o ser-sincrônico e não o especulativo vir-a-ser-diacrônico – uma reação. de Freud. inspirada. mas sujeito à lógica do sentimento. pré-condição da instituição do que seria a lei convencional por excelência: a lei de proibição do incesto. na lingüística sincrônica de Saussure. que. pois é justamente ela que tem servido de pretexto para desmerecer a obra de um dos mais importantes estudiosos da formação da cultura brasileira – Arthur Ramos –. de um lado. ao “totalitarismo” hegeliano! No âmbito da cultura. e de outro. particularmente.80 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Bruhl aqui no Brasil originou uma predisposição cheia de veneno e má fé. tanto quanto em LévyBruhl e Ribot. contraface . Em suma. O principal mérito de Lévy-Bruhl. facilmente identificamos sua lógica como aquela dos processos primários freudianos. bastante próxima pois da ulterior lógica lacaniana do significante [24]. em Rousseau e no materialismo dialético marxista (anti-transcendental). Nestes três últimos casos há de comum o abandono da indagação pela origem ou pelo ser (como vir-a-ser) para se tomar como “objeto” próprio do saber a diferença já instaurada. na fonologia diferencial de Jackobson e sobretudo na teoria do inconsciente. Pasmem: lendo o livro de Ribot. foi trazer novamente a questão da cultura para o âmbito da lógica tal como ela fora posta originalmente pelos gregos. é inquestionavelmente óbvio que o termo pré-lógico em Arthur Ramos. busca-se então a diferença humana já universalmente operante que vai ser identificada como a diferença clânica. é um declarado admirador da obra de LévyBruhl e bem informado sobre suas fontes.

DIFERENÇA SEXUAL MACHO/FÊMEA DUPLA DIFERENÇA MATEMAS DA "SEXUAÇÃO" MASCULINO/FEMININO PRIMEIRA DIFERENÇA DUPLA DIFERENÇA DIFERENÇA CLÂNICA SEGUNDA DIFERENÇA Fig. a importante contribuição lacaniana à compreensão da sexualidade humana tem como antecedente o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss e isto só pode ser devidamente compreendido e apreciado se. . Como conseqüência imediata. ou seja. Desta forma. Não é pois mero acaso que a “sexuação” humana em Lacan viesse encontrar sua melhor expressão nos famigerados matemas. Ver figura 3. deixava a simples pela dupla diferença. 3. Entrementes. a sexualidade humana se via compelida à redefinição. na verdade. retornava-se em definitivo a um dos aspectos fundamentais da concepção grega: a passagem do animal ao homem devia-se a um poder diferencial e não identitário. justamente. A troca das mulheres entre homens assim sub-agrupados se constituía no paradigma de todas as demais trocas e por conseqüência da solidariedade social.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 81 da obrigatoriedade da exogamia. expressões não apenas de fisionomia. levarmos em conta que tal aproximação tem como pano de fundo a lógica. emerge aqui uma importante novidade: é que tal diferença não mais valia por si.3. mas vinha para se articular à diferença sexual animal bi-polar macho/fêmea. agora. no quadro mais amplo de uma estrutura lógica tetrapolar.A diferença clânica no estruturalismo Como é bem sabido.3 . bem ao contrário do que nos queria fazer acreditar o cristianismo doutrinário. Com isto instituíase a circulação das mulheres entre os homens reunidos em clãs.

entretanto. O primeiro deles refere-se ao “logicismo” grego: no . Como as três relações são equivalentes (ou quase). a c e b f d a c f e d b e a d c b f Figura 3. uma diferença ilustrando o par em cima (a)/em baixo (b) e a outra. diríamos que. Devemos aqui abrir um parêntese. de essência realmente lógicas [25]. o par esquerda (c)/direita (d). ficando a terceira automaticamente definida pelas duas diagonais. sem dúvida. sobretudo. Ver figura 3. consangüinidade e filiação? Não é muito difícil demonstrar que a dupla diferença é o bastante para a definição das referidas relações. três relações fundamentais – aliança. Agora fica evidente que podemos formar um terceiro par com os termos diagonais do quadrado (e/f). que viesse acompanhado de dois outros grandes retrocessos.4 .4. podemos redesenhar o quadrado tomando quaisquer duas relações para formar os lados do quadrado. o estruturalismo representa um grande avanço em relação ao pensamento antropológico grego. mas. pena. Alguém. A dupla diferença. por exemplo. pode ser representada por um quadrado. poderia estranhar nossa insistência na necessidade e mais ainda na suficiência da dupla diferença para a caracterização daquilo que é essencial e propriamente humano. mas muito bem articuladas entre si [26].82 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas. no simples átomo do parentesco não estariam implicadas tão apenas duas. Porém.Duas diferenças e três relações Voltando à nossa linha de raciocínio. familiarizado com a doutrina estruturalista. que estas não são relações isoladas. de fato.

Podemos considerar macho/fêmea como realizações de uma diferença D. pois o animal. facilmente constatamos sua radical incapacidade em relação à articulação gramatical (D/D). Para ficarmos apenas num exemplo: a passagem da capacidade de operação simbólica (I/D) dos animais superiores à capacidade simbólico-discursiva (I/D/D) – proposicional no dizer de Cassirer [28] – do homem exige igualmente a introdução de uma segunda diferença. A lei da proibição do incesto é. Entretanto. mesmo já biologicamente marcado.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 83 estruturalismo. o mesmo se dando com a fêmea. como deveras o faz [27]. tanto a diferença sexual de partida quanto a segunda diferença clânica valem por si. percebe-se isso ainda com maior clareza. em que pese a denominação geral de estruturalismo antropológico dado a esta corrente de pensamento. Queremos dizer que. ele é tão apenas uma realização possível de um esquema lógico. são “substanciais e não apenas realizações de uma matriz essencialmente formal. identifica-se ou assume sua determinação sexual: ele não é apenas macho. são ambas leis societárias convencionais. De fato. isto não passa de uma simplificação. formalmente. que pode também realizar-se sob outros aspectos. que está presente mesmo no registro sexual. a gramática é uma estrutura legal convencional necessariamente sujeita à lógica da dupla diferença D/D [29]. pensá-la apenas no âmbito da res extensa. ele é macho que se assume macho. por mais significativo que seja o “modelo sexual”. sua capacidade de operar dialeticamente (I/D) [30]. Passando-se do registro sexual ao simbólico. especificamente dos cordados. Ao mesmo tempo. ou seja. pois é inegável o poder de simbolização arbitrária dos animais superiores. O segundo retrocesso em relação aos gregos refere-se ao “esquecimento” do caráter lógico-identitário dos animais superiores. Negar isto é não con- . uma gramática.

teríamos que recuperar o que o estruturalismo desaprendeu dos gregos. que permite a definição de regras de proibição de incesto paralelamente à imposição da exogamia. ser racional. A diferença clânica. “duplicandoa” ou reiterando-a. bastaria dizer que o animal superior (cordados) opera a nível lógico dialético trinitário (I/D) e o homem a nível lógico hiperdialético qüinqüitário (I/D/D) (ver figura 3. seria um dentre muitos modos possíveis de manifestação . o homem se capacita a operar a nível duplamente lógico diferencial (racionalmente). Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. o homem é. já a posteriori articulada. existencial ou subjetivamente. . Do ponto de vista instrumental. e fazendo-o sem prejuízo do seu ser sintético. porém. como razão formal aristotélica (D/D). habitado pelo logos. ou objetivamente operatório. Com efeito.daquela produção “genea-lógica”. na verdade.privilegiado.5). o logos estaria assim ampliando a capacidade lógico-analítica dos seres vivos. Em compensação. sem dúvida. Voltando aos gregos. o fato é que. lógico-qüinqüitário ou hiperdialético (I/D/D). Para nós. poderíamos agora aceitar que o logos constituísse a diferença especificamente humana. na condição de ele vir para se compor com poderes e potencialidades operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo reproduzi-las em nível operatório superior. a rigor.84 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO seguir distinguir a enorme diferença entre os pares porca/porco e porca/parafuso. no concomitante exercício de sua capacidade lógicoidentitária herdada da animalidade superior. seu estatuto lógico global tem que ser. é verdade . portanto. porém.

Ver figura 3. Do mesmo modo as culturas lógico diferenciais (pagãs.5 – O homem lógico-qúinqüitário Não é de admirar que culturas identitárias (judaico-critãs) atribuam à intervenção de uma identidade como sendo a razão de passagem da animalidade ao homem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 85 I/D D I/D/D Figura 3. grega e moderna) atribuirão aquela passagem a uma diferença.6 – Concepções masculina e feminina . como Aristóteles. Em princípio. concebê-lo como síntese de I/D e D não seria assumir um parti-pris complementar feminista?! I D/D I/D/D I/D D I/D/D Figura 3.6. da natureza à cultura. com aquela de chegada. Incoerente seria que o fizessem ao contrário ou mesmo indiferentemente! Seria interessante compararmos agora a antropologia aristotélica. nossa referência de partida. pareceria que a segunda é um simples complemento da primeira: conceber. o homem como síntese de I e D/D é de certo modo assumir um parti-pris machista [31]. que poderíamos denominar pósestruturarista (concepção estruturalista à qual restituímos a identidade perdida).

em termos antropológicos. A nossa concepção é definitivamente não-machista. Gostaríamos ainda de chamar a atenção para o fato de que o esclarecimento da relação lógica versus cultura provoca uma reviravolta da velha querela acerca das relações entre natureza e cultura. pelo menos do ponto de vista especulativo. de estofo lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). que é. natureza?) [32]. concomitantemente. segue com a natureza. ganha então uma resposta bem precisa: a passagem da natureza .7. mas como termos de uma seqüência.86 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Parece-nos que não. fica por aí evidente quão equivocado é o costume corrente de contrapor natureza e cultura de maneira meramente especular. pressupõe deveras uma certa sensibilidade para o ser-feminino. ela permanece. de estofo lógico dialética (I/D) e chega à cultura. capazes portanto de operar com símbolos convencionais (I/D) . aqui uma simetria. inclusive com ajuda da figura 3. como mostra a figura 3.7. apenas superficial. Existiria. de estofo lógico transcendental (I). Natureza e cultura se opõem. sim. Não rebaixamos a lógica do animal de I/D para I. sim. ou seja. no entanto. Ora. Voltaremos ao assunto um pouco mais adiante. mas a ela não se reduz.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) -. A seqüência começa com o ser. E. uma seqüência aberta. guardando um iniludível relacionamento hierárquico.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). logos de certo modo herdado e logos ao quadrado. A prestigiosa razão suficiente leibniziana que busca responder à questão ontológica (no caso: porque existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. logo. não perdemos a precisão lógica da diferença que faz a diferença animal/homem e tornamos bem mais compreensível a incomensurável força do logos no homem. a diferença clânica. Esta abertura é essencial para que o homem possa se .

E escapamos também assim dos humanismos de qualquer espécie. Ela só nos parece de nível superior por efeito da atividade humana de mensuração.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 87 posicionar de fato no ápice da escala dos entes mundanos. como pergunta pelo Absoluto. ou seja. .7 – Natureza versus cultura É importante notar que o estatuto dialético da natureza só é alcançado ao nível dos animais cordados capazes de operar com símbolos convencionais. sem que se pense porque se pôde deveras chegar a pensar nisso. Concluiríamos afirmando que não há como pensar a filosofia da cultura. sem. ou seja. A religiosidade. I/D/ 2 I/D I Cultura Natureza Ser Figura 3. na verdade não passaria do estatuto lógico diferencial (res extensa). A natureza enquanto mundo físico. de fazê-la geométrica. a “diferença” ontológica homem/natureza ou cultura/natureza sem o concurso da lógica. por isto se tomar por Absoluto. pode então permanecer como ainda legítima. entretanto. ou seja.

. Dordonha e Chauvet. os vencedores. e ainda nos deram de quebra o logos e a poesia trágica exorbitante. mil anos depois fazer levitar catedrais góticas inteiras e por fim legar museus repletos de arte sacra e em cima o presente Papa. e ainda honrar profetas bem mais do que quadros sacerdotais. donde a paidéia e a pergunta pelo ser (sem a responder). inventam as consoantes e assim a escola. Os gregos. a agricultura a sustentá-los. soube se libertar do bezerro de ouro e pode legar a lógica em pessoa (Eu sou o que sou). fingimento e superação na história da cultura Os povos caçadores/coletores viveram porque ignoraram sua lógica e assim tiveram o que comer. A Modernidade pariu as “tecnologias” financeiras que transformam tempo em dinheiro tão eficientemente que não sobrou nenhum para criar e poder legar nada que prestasse. afora sua triste lembrança. o gosto da guerra e legaram. legaram a arte na e pela pedra em Lascaux. O povo judeu. tiveram que inventar os mitos que os inventassem. sua escrita mais suas criptas funerárias. inventando as vogais. ao tentarem viver mais além. assentados. por freqüentar o deserto e o cativeiro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 89 4 Desejo. Dispondo da dialética platônica pode o Medievo reanimar o Corpus Christi. Altamira. Os homens do neolítico.

Como conseguir. que agora só mesmo um deus pode vir salvar-nos. é verdade). deixando de herança seu lugar ao longínquo poeta (grego)? Ainda anuncia. os artesãos do que é outro. que é . zombeteiro. senão a subversão. no círculo de aço-cromo-níquel da prostituição generalizada.seu preço arbitrado pelo mercado expresso num código de barras? Nada há mais para acontecer senão negociar. pelo menos um pouco de ar para que o pensar não sufoque e sucumba. negociar. enquanto espera por si. Já se reparou que tudo tendo seu preço. se demite. só na TV você decide! Como conseguir ser subversivo na era do marketing. e com isso foi-se à breca a temporalidade. negociar-se. o Nada não é mais nada. a mega-indústria do inconsciente. corpo e alma. na melhor das hipóteses. não há cura. concluem que. o que se pode é bem dizer a insignificância que se vive. na Modernidade que virou a própria pós-modernidade? Na era em que nada mais escapa à suprema medida . pelo menos na atual circunstância. os futuros e junto todas as liberdades? Agora. e porque também alguns erros (graves. terapeutas pela palavra assumidos. Como conseguir ser subversivo na era em que o filósofo e filólogo virtuoso comete muitos acertos. que veio para se apossar no atacado de todos os corações e imaginários? Enquanto isso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 91 Antes de mais nada Como conseguir ser subversivo naquela que se anuncia a era de todas as eras.

como poderia a nível hiperdialético qüinqüitário ser diferente? É uma simples questão de consistência 4. entre muitas outras coisas próprias aos homens. de natureza hiperdialética (I/D/D = I/D/2). de outro. Perguntamo-nos já naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização . o poder de discurso em sua dimensão plena [4].Considerações introdutórias . pela variabilidade temporal do vigor criativo das culturas. mas. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) governa. entre eles. a esperança? Em Noções de antropo-logia [1].92 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO quem. o poderá deveras salvar? Falando com bastante simplicidade.em princípio. da diferença (D). ao menos. atestada de muitos modos. de um lado.com a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. formal ou da dupla diferença (D/D=D/2). Aliás. Os animais cordados (dotados de sistema nervoso central) atuariam no nível lógico dialético. pela dissimetria de suas relações lógicas de determinação e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo-se a história da cultura como um processo de auto-desvelamento do próprio ser do homem. válida para todos os homens em todos os tempos e lugares . mas a “razão” humana iria mais além. tomando-se por termo de comparação. ainda que em nome de Deus. a dialética trinitária.1. dialética (I/D) e clássica. caracterizamos o homem como o ente capacitado a operar no nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário [2]. algo ainda mais complexo. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I) [3]. como conseguir re-haver. a fenomenologia do espírito de Hegel.

começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento serão denominados culturas nodais. a seguir. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D). clássica ou formal D/D = D/2 e a própria I/D/D = I/D/2). cultura judaica. I. um essencial e particular comprometimento lógico [5]. cultura tribal. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais (ver figura 4.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 93 ou até de simplória regra de três! Toda cultura teria. . Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas [7]. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [6]. e focalizando apenas o Ocidente e o Oriente Próximo [8]. cultura sedentária de base agrária. melhor. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. ambas naturalmente referidas à Natureza. dialética I/D. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. pré-D. Resumidamente. da diferença D.1): pré-I. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo ou. e que lhe confere. assim. representativamente lógico na direção daquele desvelamento. inclusive. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I) e.

A tese uma cultura. sobretudo. por todos os títulos. diríamos: em especial. mais precisões e. cultura moderna de base científica. ainda por vir.94 CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D/ CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA 2 CULTURA MODERNA CÍNICA I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURAS LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES Pré-I Figura 4. uma manifesta síntese das culturas anteriores. uma cultura à medida exata do homem. quanto de suas indefectíveis alas esquerda e direita). pela primeira vez. cultura prometéica grega. As culturas nodais D. cultura medieval cristã (patrística). I/D. mais numerosas e profundas incursões . I/D/2. para a tristeza e incômodo de todos os ideólogos e crentes da vida eterna da Modernidade (tanto do paradigma anglo-saxão. D/2. cultura hiperdialética qüinqüitária. Por certo há que se exigir mais. e.1. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). uma lógica é obviamente uma desmedida simplificação. que só se pode manter porque os próprios fatos insistem em não desmenti-la. até muito mais. não castradora. que hoje domina o mundo. porque.

vale dizer. Em outras palavras. não discordamos). A adjudicação de uma lógica a uma cultura. Tentemos melhor esclarecer. já foi assinalado. como até agora. com aquela que a todas elas subsume (a hiperdialética qüinqüitária que caracteriza essencialmente o homem. numa artimanha defensiva. é óbvio. Neste sentido é que vamos aqui tentar explorar ainda um pouco mais este veio dos determinantes lógicos da cultura.2. Nossa tese central aqui não será mais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 95 especulativas. fingir que não mais é o que é e. correspondente à cultura que a irá suceder . precisou ser feita preservando-se o postulado da igualdade de todos os homens. uma lógica. com cada uma das demais lógicas mundanas. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda e da qual. ela fica necessariamente associada a mais outras duas lógicas: a primeira. intentará simular ser. que ajudem a avaliar a potência e traçar os limites de validade desta concepção. porém. algumas de alto risco. Esta mudança. o seu próprio futuro que resolveu madrugar. fonte de seu vigor criativo -. Agora. três lógicas. sim. Cada cultura tinha já sua lógica de referência era essa nossa tese anterior [9]. inclusive. correspondente à cultura que a antecedeu . toda cultura de algum modo dá testemunho de outras lógicas. São vínculos ora claros e assumidos. em que pese seu parti pris lógico. a segunda.que determina o que ela. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura. entretanto. por coerência. ora clandestinos.que determina o seu ser desejante. uma cultura. como se verá. 4. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. Uma cultura e três lógicas .

lógica da diferença D . mandalas [10] de toda sorte. o negro. com a lógica da cultura que lhe sucederá. a água e a serpente em hélice ou distendida. os quadriláteros em geral e as cruzes.o número 1. por suposto.o número 5. o azul. triângulos de círculos ou nós borromeanos.o número 3. seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. o segmento de reta. Dentro desse quadro geral.o número 4. triângulos. o homem e a quinta-essência. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? Por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas: a) de um lado. a estrela socialista. e que por vezes “retorna” ou se revolta como num sonho -.o número 2. lógica formal D/2 . o círculo. bastaria pinçar alguns exemplos em meio à profusão de manifestações arquetípicas encontráveis nas culturas históricas: lógica da identidade I . procede a real ameaça à sua domi- .de onde. com a lógica da cultura que lhe antecedeu . o branco. a terra e o touro. b) de outro lado. mas que de algum modo permanece subsumida. o ar e a águia. a serpente que se devora pelo rabo (o ser-um como resultado do colapso de uma diferença). o vermelho. para que ela pudesse advir em seu lugar. lógica hiperdialética I/D/2 . os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. as pirâmides de base quadrada. seu permanente pesadelo . os gêmeos. o ponto. lógica dialética I/D .lógica que teve que ser superada (ou recalcada).96 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para convencer-nos. o fogo e o leão. as figuras especulares.

o desejo da cultura [11]. por suposto. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. perde-se o objeto que fora antes o mais digno e próprio de ser pensado. 97 Do ponto de vista lógico. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou marginalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. Isto nos faz compreender. Com isto. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que ela de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural ou. ou seja. instituições. na verdade. técnicas e múltiplas artes. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE nação de época. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico-emocional dos indivíduos. de modo mais ou menos claro. não se pode simplesmente apagá-la. pelo menos. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 4. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. através de um processo de reiteradas substituições. o que.2) Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. (Ver figura 4. Tenta-se então recuperar este objeto perdido captando-o ou “ vestindo-o” com a nova lógica. o que se pode. é uma impossibilidade. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e bem exercida.2) . afinal. é de algum modo silenciá-la ou recalcá-la. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. Desde sempre. como as culturas. conhecimentos.

Toda cultura. que. Modelo lógico Um exemplo salta de imediato à vista: a insistência dos ideólogos da Modernidade. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação . onde uma mixórdia de estilos incluído aí o próprio velho moderno . logo no momento em que esta passa por uma de suas crises mais agudas. mas que ao final é o que a empurra para a frente.metaforiza a chegada de uma nova cultura que a todas estaria subsumindo.pela violência em resposta ou preventiva (como a degola dos recém-nascidos). é o melhor que poderia mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. Este estratagema fica ainda mais visível na arquitetura dita pós-moderna. simula ou finge ser o que ainda virá. hoje. tentando convencer-nos de que o mundo já entrou na pós-modernidade. pela calúnia.2. tanto de suas excelsas realizações.98 CULTURA POR VIR LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pseudo auto-superação CULTURA DE REFERÊNCIA FINGIMENTO Fim da simulação usurpadora SUPERAÇÃO Lógica poster. CULTURA ANTERIOR RECALCADA DESEJO Figura 4. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. finge tão completamente que chega a fingir que é pós-moderno o moderno que deveras jamais deixou nem pode por si largar de ser. convenhamos. Lógica de refer. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. Lógica anter. que é seu verdadeiro motor imanente. por exemplo) -. como de seus piores feitos. e que a dissimulação aqui . Toda cultura teria pois uma disposição desejante. pelas ideologias.

só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua. como não poderia mesmo deixar de ser. O golpe fatal sobre qualquer cultura. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. todas o pressentem sem engano possível. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. O mesmo esquema geral contínua válido no caso das culturas lógico-identitárias (I/D/n). quem pode ser condenado por tentar sobreviver. No entanto. e que de maneira inexorável irá confrontá-la. só que ao seu jeito. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. as conquistas “materiais” da cultura lógicodiferencial em processo de superação (D/n)). simulando se sobre-viver. A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (no caso. E quando isto acontecer. as culturas são como todos nós . ameaçadores. Mas afinal. Tendo-se por referência apenas as culturas lógico-diferenciais [12].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 99 aludida é apenas um dentre eles.lutam para viver. formalmente. só que a di- . sem que isto implique conotações organicistas descabidas. também não se pode ter dúvidas. mesmo certo de como e de que mal vai morrer?! Neste particular. pode-se perceber que o movimento de sua superação se dá. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. ela já percebe delineados em seu horizonte. pelo abandono de uma identidade ab initio perdida (I/D/n-1) em favor de uma identidade prospectiva (I/D/n) situada além da diferença (D/n) específica que ela por definição encarna. precisamente em seu fingimento. pois. um radical comprometimento lógico-identitário (I/D/n-1)) com uma mui corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (no caso.

que pela peculiaridade de ser justo a primeira. do conceito. da idéia. Por razões estritamente didáticas. do uno- 4. de outro lado. sua arte mimética exacerbada e sua superação pela cultura lógico-dialética do espírito. Ao invés de apresentarmos as culturas em sua estrita ordem lógica/cronológica preferimos fazêlo só subsidiariamente deste modo. do desvanecimento do seu próprio desejo. enfim. como se fora tudo um simples renascimento. com sua filosofia desejante. do esgotamento de seu vigor criativo. fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais . que se estava já gerando em suas próprias dobras.100 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO fícil e surpreendente equilibração se dará. veremos os gregos (D). Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. evitando ter que tratar logo de início com a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico. a interiorização ou subjetivação da espiritualidade em curso de superação (I/D/n). o fruto esperado. enfim. agora. no que se refere ao seu desejo. tanto quanto terá sido negado. tendo de um lado. Desejo. a entusiasta recuperação da sensibilidade e de alguns aspectos materiais da cultura lógico-diferencial anterior (D/n) e. seu fingimento idolátrico sacerdotal e sua superação pela cultura da lógica do mesmo (I). preferimos dar prioridade à classificação identitária/diferencial. margens e desvãos [13]. depois. Alem do mais. em especial. decidimos começar a exposição com a classe das culturas diferenciais. exige um pouco mais de “engenhosidade” para o seu efetivo enquadramento no nosso esquema geral. A probabilidade de subversão/superação de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. Começamos com as culturas de antigos impérios de base agrícola (pré-D).3. destacando seu desejo mítico.

Como bem observa Mircea Eliade. Significam. por último. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem (ou de um pai). quer a cerealicultura (Tais mitos são mais raros. nas culturas evoluídas. na formação de estoques e na sua distribuição. a Modernidade (D/D = D/2).o mito e a pseudo potência sacerdotal Nosso modelo lógico articulando uma cultura a três lógicas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 101 trino (I/D). como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo . Tempo perdido. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. (negritos nossos) [14] . metaforicamente.o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. cabe perfeitamente à cultura dos impérios antigos de base agrícola (pré-D). a liberdade pelo cativeiro. A agricultura tomada como base da subsistência.3. por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. veremos. em essência. 4. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. teremos o que mais de perto nos interessa. A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . sua prodigiosa capacidade de simulação tecnológica e. acompanhada de investimentos na organização da produção. perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada.1. e por vezes radicalmente reinterpretados. em desabalada carreira para sua própria superação pela cultura hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2 ). talvez. em razão de inexcedível soberba e prepotência. com sua Física sofisticada e intensamente desejante. Nos antigos impérios de base agrícola .

mas sentido apenas como índex ou como análogo. Para tanto e muito mais. inventa-se a escrita possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. entretanto. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. nas culturas de base agrícola (pré-D). Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O etnólogo alemão Ad. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). Jensen julgava que o mito de Hainuwele é específico aos paleocultivadores de tubérculos. um entre os múltiplos atributos dos entes. mas no céu. o simbólico refém da espacialidade que. em essência. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. Ali vige o simbólico. que. o sentido permanece ainda afeito ao traço.102 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. colocam em cena um furto primordial: os cereais existem. É então pela idolatria sistematizada que esta cul- . por isso não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. Quanto aos mitos referentes à origem da cerealicultura. apoderase de alguns grãos e com eles recompensa os seres humanos. E. (negritos nossos) [15] O mito. um herói civilizador sobe ao céu. ciosamente guardados pelos deuses. o constituiu. malgrado. Neste tipo de cultura. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. Jensen dava a esses dois tipos de mitologia os nomes de “Hainuwele” e “Prometeu” e os relacionava respectivamente com a civilização dos paleocultivadores (vegetocultura) e com a dos agricultores propriamente ditos (cerealicultura).

vivas ou inanimadas. uma intencionalidade atuante ainda que oculta. Como se fora numa pintura de Chagall. é atribuído um sentido.3 . (Ver figura 4. A todas as coisas. da religião do Deus único.3) D CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES MITO (DE ORIGEM) O ANIMALIDADE Figura 4.Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Tudo isto. que irá permitir a expressão do lógico enquanto tal. ora metafóricas. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade. para fazer frente à grande ameaça do conceito.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 103 tura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. por nada subornável. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular. como assinalamos. ora metonímicas (análogas aos processos primários psicanalíticos de condensação e deslocamento). absoluto transcendente. em definitivo saída da Natureza para o mun- .

4. Entre os gregos . plus essentielle encore est l’infidelité où il se détourne comme un traître.2. Esta relação com os deuses é crucial. é Moisés. Para que seja realmente autêntica. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser que é doravante ser outro (dos deuses). en correspondance avec le détournement catégorique du divin. assumant ainsi la différentiation par laquelle. não importa -. entrementes.104 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO do da Lógica ou da Idéia (Hegel). à volta do bezerro de ouro. (negritos nossos) [17] . à noite. Daí. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. a fio de faca. O personagem símbolo aqui é Prometeu. il est plus authentiquement lui-même que par la nostalgie de l’Un-Tout. Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. necessita ser levada às últimas conseqüências.a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos Chegamos aos gregos com sua lógica do outro ou da diferença (D) [16 ] que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). reunidos de dia. E se vê condenado a não mais retroceder.três mil ou mais outros vinte tantos mil. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. posição que vai lhe custar o mais alto preço. Isto é bem ressaltado por Beaufret ao comentar as concepções hölderlinianas sobre o que deveria ser a autenticidade grega: S’il y faut la fidelité. sabemos todos. o círculo de seus adoradores . cuja gigantesca e emblemática figura.3. inseparável do prédomínio do simbólico pleno ou convencional. constituírem os gregos a cultura trágica por excelência.

(figura 4. consumar-se-ia irrevogavelmente o autêntico ser grego. considerada por eles fundamento lógico do trágico). no final do texto citado. Nesta. Só desta maneira. porque é desta última. do um-todo ou do Deus único. e esta interpretação fica especialmente reforçada quando a vemos contraposta. e não da outra. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). à nostalgia do um-todo. mas. que se alimenta o vigor criativo dos gregos. mas Graça!).4) . veremos que a pátria do ser como tal. à filosofia. não produz filósofos e perguntas. por falta do distanciamento. o homem grego precisava responder o détournement catégorique do divino com seu próprio détournerment em relação a Ele. em especial. daquilo que foi e agora é falta). uma profusão de profetas e suas duras admoestações contra a infidelidade dos homens à Promessa (que não é produto de roubo. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. e isto precisa ser necessariamente assim porque a essência formal da diferença primordial está na especularidade [18]. Para compreendê-lo em toda sua significação. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 105 Nos próprios termos de Hölderlin. O que ambos não chegam a perceber. ao invés. ou seja. é que a relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. Reparando bem. Hölderlin e Beaufret.

mas não chegara a realizar -. com certa gravidade: .do que esta deveria.106 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO D/ 2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial.Cultura prometéica grega (D) A arte grega. além. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. malabarismo para uma sobrevivência impossível . vale uma vez mais apelar à sensibilidade do poeta: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. a dissimulação que ela realmente é. particularmente a poesia trágica.4 . La Grèce. lamentablement. sombra [19] Estes mesmos versos são comentados por Françoise Dastur em Hölderlin: Tragédia e Modernidade. beauté suprême. de modo incontestável. simular sua própria auto-superação como arte. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. o que encobre/ revela.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA I Pré-D Figura 4. grega no caso. pretensa extensão da natureza . Afirma ela. Para deixar isto ainda mais transparente.

ou seja. não por serem imitadores. morrendo de excesso de arte porque não conseguiram conciliar em si. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). alguém que não faltou aos seus.seria necessário aduzir . mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro. à fonte de seu próprio vigor. ou. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). sendo tam- .a arte tornou-se para eles não só modo de expressão e autocompreensão. Hölderlin chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [21] do que um clarividente. Não conseguiram regressar ao pátrio. porque . mais individual. viria a ser a prerrogativa própria do conceito [23]. Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . demasiadamente exato. (negritos nossos) [20] Exato. como bem registra A República [22]. Por isso.e a filosofia. para que fosse ele buscado além. o que. à imitação da própria imitação. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos.que então exorbitava . como se vê.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 107 Os gregos não foram capazes de retornar ao que lhes era propriamente pátrio. natureza e cultura. mas também a grande arma na luta pela sua impossível auto-preservação. a verdade da parte pela da totalidade. sabemos. Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico. por excesso de fingimento. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão cirúrgica a laser.Platão. com a agravante de terem sido alertados em tempo por um dos seus maiores .

[25] (p. Fink nos agracia com um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. Dans un pressentiment obscur. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. par conséquent sans savoir réelllement. mas era algo essencial à . la poésie devient alors.108 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bém mais universal e o mais universal. imitation d’une imitation. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. (negritos nossos) [26] (p. (negritos nossos) [24] Perceber tudo isso não é assim tão difícil... Il interprète plutôt le beau comme chemin et échelon vers le vrai. mimésis. La poésie est essenciellemente mimétique. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre.. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique. 92) Muito importante é observar que. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie.. Eugen Fink no que respeita a pretensão do belo ao vero.. la poésie imite le vrai savoir. 90) Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos. originelle. Cependent elle est imitatio... para Platão. .

à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. paralelamente à concepção da matemática como linguagem da perfeição. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. a analítica aristotélica (D/2) já era uma potencialidade que de um modo ou de outro acabaria emergindo da im- . mais do que 600 anos após. esboça seus primeiros traços em Platão. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. Com isto. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega. fazem de Platão um formalista radical avant la lettre (no sentido mesmo atual da filosofia da matemática). que.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 109 própria afirmação da filosofia (bem entendido. on lui arracha son prétendu masque divin. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. Há aqui um importante detalhe a acrescentar. num certo sentido. Assim. no conflito da idéia com o excessivo poético que. o conceito I/D perde boa parte de sua autonomia referencial para ficar quase que reduzido à pura intensividade [28] ou a seu ser sintático (D/2). 101) A nosso juízo. (negritos e colchete nossos) [27] (p. des spectacles contre qui la pensée métaphysique {isto é. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. A identificação do mundo das idéias com o real. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. dissimulado. como visto. que é a intervenção indireta da lógica formal D/2 na concepção da idéia platônica.

a física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2).5) . mas sim os “planos” (escritos. densidade e o diabo [31]. aceleração. contudo.suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade. corrente elétrica. (figura 4.Na Modernidade . De fato. spin. . indução magnética.3.a física e a biopirotecnia Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [29]. dialético/formal. Newton.a Física [30].3. hoje. Em suma. Discute-se tudo na física. em linguagem matemática) segundo os quais o mundo fora criado. sua face disfarce é a técnica e seus excessos. a biotecnologia. Tudo isto. espaço (L) e matéria (M) . Sua face desejante situa-se bem no cerne da sua gloriosa cientificidade . 4. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto uno-trino desejado (I/D). no entanto. constata-se com facilidade. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D). força. desejoso do uno-trino (I/D). Em suas grandes crises. jamais. Seus grandes heróis são Galileu. pressão. é herdado pelo universo conceitual cristão com sua crônica ambigüidade platônico/aristotélica. particularmente. que sejam eles três . que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2). a física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2).110 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO precisão mesma das concepções platônicas sobre o conceito (as vacilações de Platão no Parmênides dão disto uma boa medida). põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. agostiniano/tomista que seus diligentes teólogos não se cansam de tentar maquiar. energia.tempo (T). temperatura. Einstein e tantos outros. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses. entretanto.

tempo absoluto. daí porque. em especial a biotecnologia. à plenitude lógica. O fez. a história da física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu mútuo comprometimento. de certo modo. De outro lado. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. relatividade geral. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética. mecânica quântica.relatividade restrita. eletro-dinâmica quântica . como se fossem três absolutos .Cultura científica moderna O mais notável dos feitos de Newton . enganadora.pré-assistido por Galileu e alguns outros -. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzidos (os transplantes seriam já uma preparação . simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA DESEJO DE QUE? HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) 2 111 I/D/ BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA I/D D Figura 4. Um evidente e bem compacto oxímoro.5 . a partir de então. foi. com sua mecânica. A técnica. espaço e matéria. entretanto. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [32].

com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. de um lado. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. em juvenil anjo de Maxwell. de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. entretanto. agora. mas. É também o fim da História que tanto se apregoa. Para se chegar a voar é preciso. deixa bem à mostra quão circenses são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. inclusive. respectivamente. contra a morte em geral no mundo. metamorfoseado. sem imaginação. a propósito.à lógica . como também da recomposição informacional de todas as coisas. Na técnica concorrem. futuramente. a lógica clássica ou formal D/2 e a lógica transcendental ou da identidade I.112 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto). Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume. não chega à hiperdialética qüinqüitária I/D/2. Continuaremos tal como somos . mesquinhos.egoístas. nada solidários. assim para toda a eternidade. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das determinações à lógica formal da ciência . sim. A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. omissos. A lógica da técnica. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. seres vivos e memórias. não é tecnologia. a determinação ou o empenho numa realização. É o velho “demônio” de volta. em compensação. pois. o que. cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. mas novo saber cristalizado (D/2). além de um saber aerodinâmico (D/2). também a inabalável determinação para fazê-lo (I). de modo obrigatório. constituindo-se apenas em seu arremedo. o saber científico. de outro lado. O avião já em vôo. não se sabe como. insensíveis. do homem em todos os seus pormenores.

Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). com toda a precisão. ver como se dará a superação da atual cultura. Poder-se-ia assim dizer. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude.ciência e consciência. exigiria muito mais: para começar. reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). a rigor.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 113 transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos. em linhas muito gerais. para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. das organizações burocráticas e similares. Daqui por diante. a recuperação das lógicas da diferença D e dialética I/D. . coetâneo e co-fundador à fixação das bases da cientificidade que viria justamente constituir a essência da Modernidade?! [35] Eis. por razões óbvias. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna D/2. ou seja. mas talvez milhões ao mesmo tempo. das regras de poder. Não é difícil. para buscá-lo à frente. . Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária I/D/2 através da pseudo síntese machista da ciência D/2 e de seu sujeito assujeitado (I) . A verdadeira síntese qüinqüitária I/D/2. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica. além.a sistematicidade -.sob a égide férrea sempre da primeira. mas tão apenas conjecturas. como diria Richard Morse [33]. não se pode apresentar ainda fatos. da razão autenticamente feminina [34]. lá. entretanto.

Podemos então estabelecer o seguinte tabela resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógico-diferenciais: • Tabela 4.1.4. fingimento e superação nas culturas lógico-identitárias .4 . 4.a animalidade e a “semeadura” rupestre Vamos enfim examinar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores. que dominou o período paleolítico. ficando a prometida cultura nova qüinqüitária (I/D/2) para ser tratada num item específico a seguir.114 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas tão somente a sua subordinação aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética.Entre os bandos caçadores/coletores do paleolítico . cultura judaica (I) e cultura cristã patrística (I/D) -. e que por ser lógica e historicamen- 4.Desejo.1 . COMPROMETIMENTOS L GICOS NAS CULTURAS L GICODIFERENCIAIS FINGIMENTO SUPERAÇÃO • DESEJO CULTURAS LÓGICODIFERENCIAIS BASE AGRÍCOLA PRÉ-D GREGA D MODERNA D/2 MITO IDOLATRIA SACERDOTAL PRÉ-D→PRÉ-I PRÉ-D ≈ I FILOSOFIA D→ FÍSICA D/2 → I/D MONOTEÍSMO MOISÉS PRÉ-D→ I POESIA TRINITARISMO EXORBITANTE PLATÃO D ≈ I/D D → I/D BIOPIROTECNIA D/2 ≈ I/D/2 CULTURA QÜINQÜITÁRIA D/2 → I/D/2 Serão aqui consideradas apenas as culturas lógico-identitárias historicamente já realizadas .cultura das tribos nômades de caçadores/coletores (pré-I).

Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. Em outras palavras. Já pertence. A condição de caçador o identifica com a caça. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. porém. Meu tio o Iauaretê. no caso. na sua própria expressão.6) . que caçava onças com ira e culpas multiplicadas por se tratar de desavença entre parentes. ele reconhecia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 115 te primeira. no entanto. como a água na água. é um preciso precioso testemunho de como tal relação primordial é deveras vivida [37]. em Théorie de la religion [36]. Diferencia-se da cultura Pré-D porque esta se põe como outra da natureza. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (Pré-Pré-D). enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. para sobreviver. (Ver figura 4. ver-se obrigada a viver da caça a outros animais. mas. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. pois. apresenta algumas peculiaridades bastante interessantes . nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o alimentar-se e ser alimento para outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (Pré-I). Georges Bataille. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” pré-pré-D? Como pode se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. ao mundo da cultura. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. para sobreviver. recordemos.

mortos ou vivos. Por um lado. (negritos nossos) [38] Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pele lógica da identidade de todos os entes. o fato é que já se pode lá assegurar a vigência de algum tipo de xamanismo. o xamanismo domina ainda em nossos dias a ideologia religiosa dos caçadores e dos que vivem do pastoreio. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. mas da renúncia a um ganho lógico (ganho de I/D para I/D/2). animais e homens. ou seja.. Segundo Eliade.6. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. in- . no que tange ao seu modo desejante. deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico. Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte.116 I LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO PINTURA RUPESTRE Pré-D CULTURA AGRÍCOLA MITO (DE ORIGEM) HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL Pré-I CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 4. . nem assim constitui uma verdadeira exceção. Apenas. concluímos que as culturas tribais.. a existência de um certo tipo de “xamanismo” na época paleolítica parece assegurada. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. Com isso.

alguns felinos. precisaria simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. conforme nos informa ainda Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. da caça aleatória para a caça assegurada. ciervos. cabras monteses. aduzindo ainda que todas possuem um fim muito bem determinado. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente) criada pelos seus xamãs para conservar seu poder. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. ou ainda por um espírito ou por um deus. postergando o advento da cultura de base agrícola regulada. e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. Isto posto. (figura 7) Las pinturas {do Levante espanhol} son todas de animales: caballos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 117 clusive também os deuses. uros (colchetes nossos) [40]. isto é. Observa Brodrick. de penetrar nos corpos dos humanos. cabras. Para tanto. que seria o êxito naquilo que para tais comunidades é o mais essencial. [39] O fingimento nas culturas tribais. em La pintura prehistórica. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. a caça: . isto é.

Toda esta artimanha representativa. Castellón. no entanto. especificamente. (negritos nossos) [41] Êxito. uma nova cultura cultura do neolítico e logo a seguir também das idades do bronze e do ferro.Caçada de veados. Se há dicho que la religión es en su origen una técnica para obtener éxitos. . significa inquestionavelmente que se estaria assegurando uma regularidade na caça de certo modo equivalente à que lhes poderia proporcionar a agricultura que já se lhes avizinhava como uma nova possibilidade de vida. mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. Para el hombre primitivo éxito significa suerte en la caza. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). Espanha No cabe duda de que la pintura prehistórica se ejecutó para ser utilizada. y que se utilizó para algún fin determinado. pelo trabalho agrícola. por força de um movimento de subversão cultural.118 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. irá por água abaixo. aqui.7 . não mais como o que se perdeu.

Na cultura judaica .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 119 Visa-se o outro agora como meio. o domínio pleno do próprio ser-simbólico. también se utilizaba. A agricultura se tornando um fato. Después de la revolución que causaron la agricultura y las primeiras civilizaciones originadas en la propia agricultura. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura lógica Pré-D (Ver notas 14 e 15). trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da agrícola.4. naturalmente. O identificamos como o herói prometéico. os desenhos começam a perder a sua função e vão se tornando mais e mais abstratos: El arte esquemático. Conforme observa Brodrick. Esta plenitude é alcançada com a pura convencionalidade do . O autor da proeza está historicamente perdido. pero artes que todavía están íntimamente ligadas a la religión y a la magia. bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. [42] Não se poderia esperar mesmo outra coisa. e mesmo em se tratando de um semelhante. com o advento da agricultura. 4. e sim o escraviza.a terra prometida e a exterioridade farisaica A condição para a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem é. as pinturas rupestres do paleolítico superior vão logo perder seu caráter realista. não mais se o devora. aparece un nuevo modo de vida y com él nuevas artes destinadas a nuevos fines. estilizado. que surge de la pintura naturalista del paleolítico. contudo. tendendo a um esquematismo que muito provavelmente será a origem dos primeiros sistemas de escrita ideogrâmica.2 . A los dibujos mágicos suceden los esquemas mágicos.

como indica o nome. entre identidade (I) e . sem dúvida. Isto veio representar a vitória do convencional/lógico (I) sobre o analógico/ mágico (na verdade. O termo convencional vem aqui se contrapor a analógico (este último. Estes. simulando possuir uma determinação ou um poder fundador que não tinha). a grande importância que devemos atribuir ao episódio bíblico da adoração do bezerro de ouro. um passo gigantesco na história da cultura. o acesso ao pensar dialético (tal como há muito compreendido por Platão). do ponto de vista lógico. o conflito entre temporalidade e espacialidade. Este foi. Com o signo convencional é que se chega à completa separação entre a coisa e sua representação verbal.formalmente. de milhares de adoradores diurnos do ídolo.120 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO significante com respeito ao significado. da liberdade no deserto e do cativeiro no Egito. ou seja. Em termos puramente lógicos. estariam representados pela dupla experiência da economia pastoril e da agricultura. na calada da noite. Em suma. à capacitação para a síntese de opostos. pois retirou o homem da esfera ecológica para re-situá-lo na esfera lógica que lhe era já constitutiva. o episódio representa a “tomada de consciência” ou a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem. A significação dramática dessa passagem fica bem marcada pela reação irada de Moisés quebrando as Tábuas da Lei gravadas pelo próprio Deus e depois com a trama e a degola. pelos partidários de Moisés. esta mesma tensão também está presente no episódio envolvendo Abel e Caim . Daí. um pré-D fingindo-se de I. logicamente. sendo o signo cujo significante ainda guarda alguma semelhança estrutural com aquilo que representa) [43]. acontece aí a definitiva diferenciação do pensar dialético (I/D) a partir de sua matriz lógico diferencial (D). A conquista do simbólico convencional pressupõe. na cultura judaica.

entretanto. e sem este. pôde proporcionar as condições para a realização da síntese dialética que vem dar aceso ao simbólico acabado. poderá algum dia haver um filho que se autonomize ou rebele (D) e. foi possível a Moisés não só “ouvir”. a recalcou e desta maneira transformou-a no seu impossível . depois. Outro episódio bíblico reitera o estatuto lógicotranscendental ou identitário da cultura judaica: é a disposição de Abraão em aceitar o sacrifício do seu filho Isaac como o preço imposto pelo Deus todo poderoso para a sobrevivência de seu povo. O sentido profundo do episódio. especificamente com a sua realização lógico diferencial (pré-D). Tudo isto serve bem para a caracterização do serlógico judaico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 121 diferença (D). Só a partir daí (I). sim. mas não é suficiente ainda para a determinação de seu desejo mais recôndito e que será a razão de seu viver profundo e motor da criação de um riquíssimo acervo cultural. aconteça a reconciliação amorosa entre ambos (I/D). simbolicamente assumida por Abraão naquele episódio. está em que só o sacrifício do filho define um pai enquanto tal. A princípio. mas sobretudo compreender a auto-definição do seu Deus: Eu sou o que sou (ou serei). Agora que era alcançada a plenitude simbólica. retroativamente. Israel. isso pareceria um contra-senso: sacrificar o próprio descendente para garantir a descendência. nada se funda [44]. não há princípio. Só esta experiência aguda de opostos e a tensão que ela suscita. é que se podia. A lógica do pai é precisamente a lógica transcendental ou da identidade (I). por ter rompido com o estado ecológico. então. Tudo se passa como préI e pré-D levassem à síntese pré-I/D (superação do analógico) que por sua vez vai eqüivaler ao lógico transcendental I “objetivado” (auto-definição lógica do Absoluto). representar de maneira apropriada a lógica da identidade ou transcendental. a essência mesma do ser-lógico. Assim.

e até hoje persiste. tais infortúnios acabavam sempre se constituindo num motivo para o maior reforço de seu desejo pela terra. fingimento e superação na cultura judaica Tanto isto é verdade que entre os próprios judeus houve.a Terra Prometida.assírios. a cultura da diferença. Fossem quais fossem as derrotas militares judaicas. pelo contrário. As reações à cultura greco-romana (prometéica. da diferença).8 . (figura 4.Desejo. persas (enquanto força militar) -. com o advento do cristianismo. uma reação ao sionismo na medida em que a efetiva conquista de uma terra poderia enfraquecer o seu desejo mais essencial e levar mesmo à dissolução desta cultura milenar. como bem sabemos. babilônios. A partir daí ela passa a viver uma permanente e dramática tensão interna que só se irá resolver muito mais tarde. em particular seus reiterados constrangimentos e desterros impostos pelo arbítrio de seus vencedores e/ou senhores . nada podia abalar a cultura judaica. A cultura judaica só veio ser profundamente abalada no contato com a cultura grega.122 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO objeto de desejo: a terra (aquela sobre a qual se exerce o trabalho. foram múltiplas: .8) I/D FARISEANISNO (ESCRIBAS) D CULTURA GREGA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) I MAGIA (ANALÓGICA) DESEJO DA TERRA PROMETIDA Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA Figura 4. que exatamente assinala o ser diferente vis-à-vis a Natureza) .

não está até hoje bem determinado o grau de influência das culturas semíticas sobre os gregos presentes na costa da Ásia Menor. Estes últimos acabam sendo os mais importantes porque se valem da “estratégia” do fingimento. Isto é feito esvaziando-se a interioridade da lei mosaica e transformando-a. o terrorismo zelote. A propósito. Bem. aliás. porque tentam barrar a penetração da cultura da diferença através da “demonstração” de sua não necessidade. a pergunta pelo ser-um. muito especialmente. o “fundamentalismo de fachada dos escribas/ fariseus. por tratar-se aqui de um processo hiperdialético. Futuros estudos sobre este assunto poderão revelar se de fato existiu tal influência e sua extensão. como um “resto” [46]. preliminarmente. nunca é demais lembrar que a filosofia. como. insistindo mais uma vez em que. Devemos. a aludida independência relativa permite que se levante a questão acerca de quem efetiva- . mera exterioridade. Consideremos agora a delicada questão da superação da cultura judaica. emerge exatamente nas colônias gregas em ilhas próximas ou na própria orla da Ásia Menor. Ademais. Contudo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 123 as revoltas armadas macabéias. acabou sendo o caso dos judeus no nascimento da Modernidade. Os Evangelhos Sinóticos são bastante eloqüentes e insistentes nesta espécie de acusação a escribas e fariseus [45]. como deveria ser. o que possibilitaria às culturas judaica e grega se desenvolverem com uma certa independência uma da outra. a meia adesão dos saduceus e. à moda grega. ter em conta que as lógicas da identidade e da diferença são ambas fundamentais [47]. e voltar inclusive a ter um papel ativo à frente do processo cultural global. o superado/subsumido pode sobreviver como tal e também por si. em um conjunto de convencionalidades sociais. a cultura judaica (I) precedeu a cultura grega (D). inicialmente como comerciantes e depois como colonos.

3 . Só nos parece a segunda em razão do modo que toda esta passagem é contada pelos cristãos interessados em omitir o que fora verdadeiramente subsumido [48]. inequivocamente. e a grande maioria de seus membros falava apenas o Grego e o dialeto local. A transposição da Torah para o grego pode ser considerada como o mais importante acontecimento antecipador do cristianismo. e mesmo tempos depois. Voltaremos a este importante assunto no item a seguir. é o produto inquestionável do encontro da cultura grega. Entrementes. A passagem do judaísmo (Primeira Aliança. a primeira.o corpo ressuscitado e o “lixo” escolástico O cristianismo originário (patrístico). com o seu Deus Único) ao cristianismo (Segunda Aliança.a cultura greco-romana ou a cristã (patrística).No cristianismo medieval . A diáspora judaica. o cristianismo escamoteou a real subsunção da cultura grega (D) através da artimanha de sua apropriação/ internalização simbólica. 4. Preocupadas com sua re-integração. lógico diferencial (D) com a cultura judaica lógico-identitária (I). a cruci- . A nosso juízo. chegou a ser numericamente importante [49]. as autoridades religiosas judaicas promoveram a tradução da Torah para o grego: trata-se da famosa Setenta (LXX ou Setuagina) [50]. com o seu Deus Uno-Trino) foi um processo lógica e historicamente bastante complexo na medida que está aí implícita a mediação de uma cultura prometéica ou da diferença. a exata versão que posteriormente serviu de base para a composição do Evangelho cristão. como não lhe interessava uma ruptura ainda maior com sua herança judaica.124 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente teria consumado a superação histórica do judaísmo . como por todos bem sabido. desde Alexandre até a época de Cristo.4. O conflito desde o começo com fariseus e escribas fingidores.

Deus meu. da doença.Amor e símbolo da reconciliação entre Pai (I) e Filho (D). semeado corpo psíquico. A omissão das últimas palavras do Cristo Crucificado . portanto. sensível e sensual (bio-psíquico). da dor e sobretudo da corrupção . mas sob a lógica da espiritualidade (I/D). lógico dialético I/D. Devemos ver aí o corpo mesmo. mas como corpo biológico. indo por isso ocupar a posição lógico-diferencial (D). Sabemos que é o próprio Cristo que faz a comunicação que precisaria se anular como presença visível (significante. formam uma bem arquitetada recapitulação simbólica. não como apenas corpo físico.o corpo prometido. Deus meu. depois a ressurreição tendo como contrapartida o envio do Espírito Santo. ressuscita corpo espiritual [52]. em conjunto. entretanto.9). São Paulo não poderia ser mais explícito e claro sobre este assunto: O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível. O desejo do cristianismo estava pois na recuperação do corpo (D). semeado desprezível. ressuscita cheio de força. segundo São João) coetânea ao abandono pelo Pai. ressuscita reluzente de glória. semeado na fraqueza. D) entre os homens para que em seu lugar adviesse o Espírito Santo . A localização do desejo do cristianismo a partir daí se faz sem dificuldade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 125 ficação (de responsabilidade dos fariseus. o corpo ressuscita incorruptível. escamoteiam lamentavelmente os traços daquele prodígio. Era o corpo (o Filho encarnado). agora livre do peso. por que me abandonaste [51] -. corpo beatífico necessário e suficiente para o exercício do amor a Deus (figura 4. A partir daí . A figura do Cristo Crucificado e abandonado o faz logicamente outro do Pai (I). O Cristo ressuscitado é exatamente esta referência ou protótipo daquilo que era então prometido a todos os mortais. Trata-se do que fora antes pensado pela lógica da diferença (D). como em São João. a descida ao reino das trevas.

de um lado.Desejo. de outro lado. não podiam acreditar ainda e permaneciam surpresos. Destaca-se.126 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO melhor se compreende o episódio narrado por Lucas em que Cristo aparece aos seus discípulos desafiando-os insistentemente para que o toquem: “Vede minhas mãos e meus pés: Sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne. nem ossos. em especial nas artes românica e bizantina. então. Tomou-o. irradiando a mais excelsa espiritualidade (figura 4. por causa da alegria. a representação de um corpo dis-psicologizado e reespiritualizado pela frontalidade. estabilidade de composição e olhar fixo vigilante das personas re- . mostrou-lhes as mãos e os pés.10). como estais vendo que eu tenho. disse-lhes: “Tendes o que comer?” Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. [53] I/D/ 2 ESCOLÁSTICA (TOMISMO) D/ 2 CULTURA MODERNA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCITADO I/D D POESIA EXORBITANTE CULTURA GREGA I Figura 4.9 .” Dizendo isso. a insistência no corpo crucificado e ao mesmo tempo imponderável. fingimento e superação na cultura cristã patrística Esse desejo de um impossível corpo (D) espiritualizado (I/D) está profusa e ricamente expresso na arte sacra cristã. e comeu-o diante deles. E como.

Vale a pena aqui chamar a atenção para algo muito especial no que respeita à relação entre arte e cultura na cristandade (autenticamente trinitária). O desejo de ser-cristão se realiza simbolicamente na própria arte. acusadas de favorecer não a fé. mencionaríamos. o primeiro surto de atividade econômica de caráter propriamente moderno pelo peso dado à técnica e à racionalização da produção. tendo deixado uma Logica ingredientibus (Lógica para principiantes) destinada ao ensino das categorias aristotélicas A seguir destacaríamos a tradução para o latim das obras de Aristóteles. Por último. A ameaça à hegemonia epocal do cristianismo trinitário começa a se delinear entre os séculos XI e XII. Destacaríamos três importantes acontecimentos. mas a idolatria. inclusive em âmbito teológico. no alvor do século XII. quando os árabes promovem uma enxurrada de traduções de textos recuperados na sua expansão ao Oriente.11). Aí está também a razão profunda da Reforma. e portanto desejosa não da corporeidade e sim do uno-trino. Ele é basicamente um lógico. já comprometida com a Modernidade. se dispensar das imagens. na medida em que ela. Há um consenso mais ou menos geral que com Pedro Abelardo (1079-1142) vem ter início todo um processo de fundamentação racional das crenças em desfavor dos “argumentos de autoridade”. . se constituiu na própria espiritualização (I/D) da materialidade (D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 127 presentadas (figura 4. resolve denominar Revolução Industrial da Idade Média [54]. o primeiro lógico moderno. valendo-se de um aparente paradoxismo. Embora seja um exagero afirmar que o Ocidente desconhecia a obra aristotélica (o Organon era certamente conhecido). desde sempre. que Gimpel. a verdade é que ela só teve divulgação ampla para se tornar uma real ameaça à cultura estabelecida a partir dos fins do século XII.

Sobre o último corre uma célebre anedota: o Doutor Angélico.10. foi também a mais firmemente intencionada em toda a história da cultura. O Absoluto racionalizado se antecipava para tentar impedir o advento da Razão absolutizada. a seu discípulo São Tomás de Aquino (1225-1274). mas também justificada pela razão. melhor preparada. VI) A reação à ameaça da razão formal se dá justamente pela aristotelização da teologia antes radicalmente platônico-trinitária (Patrística). embora recém-fundada. “cumpria ordens”. teria respondido simplesmente: “Um lixo. O Cristo Crucificado (Românico alemão. Imperadores Justiniano e Teodora (Mosaico. disciplinado.128 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. instado a manifestar-se sobre o valor real de sua grandiosa obra. XII) Figura 4.” Não importa aqui a verdade histórica. na medida em que a teologia era então não apenas um affaire de pura fé. Ravena. Basílica de São Vital. séc. por ser a mais recente de todas. Esta gigantesca operação diversionista. A meta estipulada foi a conquista da Universidade de Paris que. séc. já em seu leito de morte.11. pois o que ela deixa claro é que São Tomás. A primeira investida coube a Santo Alberto Magno (12061280) e uma segunda. para o . já se constituía num dos principais centros de saber da Europa. Buscava-se assim demonstrar a não necessidade da ciência.

especificamente . fora especialmente preparado e apoiado. vêm os Descobrimentos [56]. Os acontecimentos se atropelam: descobre-se a imprensa. Quem lá vivia. Kepler e. A acusação dos reformadores na esfera doutrinária. de modo que com elas desapareciam os espaços intersticiais entre feudos. entre outras coisas. a ciência se consolida com Copérnico. atinge frontalmente a Universidade (Paris. definitivamente. Descartes define o novo mundo como espaço medido tendo por sujeito o cogito. Caso fôssemos obrigados a escolher um marco de referência para a superação em definitivo da cultura cristã. em especial Lutero. a recuperação demográfica permite a retomada do processo de modernização econômica que se havia interrompido com as grandes epidemias e as tumultuadas cruzadas. antes de qualquer outra). com Newton. a teologia racionalista de São Tomás de Aquino e por trás de tudo. ficaríamos com a Reforma. Não se deve estranhar que tal guinada ideo-lógica acabasse se mostrando contraproducente. I cannot avoid believing that the Evil One introduced the study of Aristotle. ao mesmo tempo que. vão se empenhar em minimizar o poder da Igreja promovendo. ao sentiremse já suficientemente fortes. pela teia de suas ligações afetivas e de mútua confiança. Galileu. diga-se de passagem. acelerando a deterioração do nível ético da hierarquia e acabando por provocar a Reforma. Aristóteles: When I think of this lamentable state of affairs. a consolidação de estados nacionais. [55] Já no início do século XIV.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 129 que. Reacendia-se o processo de acumulação financeira dos banqueiros intersticiais que. constituíam um poderoso mercado financeiro inter-nacional. A “lógica espacial” das nações impunha que nítidas linhas de fronteiras (e aduanas para bens físicos) se formassem. caía automaticamente de algum lado (ganhava uma nacionalidade).

CIENTÍFICA TOMISMO GALILEU I/D→ D/2 I/D ≈ D/2 O VERO TRANSCENDENTE . Isto posto. É precisamente isto que acaba resolvendo o grande problema que à nova cultura se impunha: quem deveria ser o sujeito autônomo da ciência. HERÓI MÍTICO PRÉ-I→ANIM. procurando minimizar.130 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pela separação radical que ela impõe à fé e à razão. jesuítico. COMPROMETIMENTOS LÓGICOS NAS CULTURAS LÓGICO-IDENTITÁRIAS DESEJO FINGIMENTO SUPERAÇÃO PULSÃO DE XAMANISMO CULT. os seus prejuízos. já que esta não tem como por si suceder-se? Como todos sabemos hoje. a posteriori. ESCRIBAS I → PRÉ-D I≈D CORPO INCORRUP. PINT. AGRÍCOLA MORTE CULT. o sujeito individualista liberal.2: • CULTURAS LÓGICOIDENTITÁRIAS TRIBAL PRÉ-I JUDAICA I CRISTÃ PATRÍSTICA I/D QÜINQÜITÁR. I/D/2 • Tabela 4. podemos então estabelecer o resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógicoidentitárias (agora incluindo a cultura nova qüinqüitária). PRÉ-I ≈ PRÉ-D PRÉ-I→ PRÉ-D PROMESSA FARISEUS/ TERRA PROM. conforme mostra a tabela 4. A Contra-reforma e correlatamente o Barroco já são manifestações do cristianismo superado. este sujeito foi posto pelo protestantismo como sendo o sujeito da fé.2. RUPEST. I/D → D CRISTO CRUCIFICADO/FILHO I→D ESCOLÁSTICA C.

Agora. são também pré-formações das culturas da mesma classe que as sucederão. degrau zero da dialeticidade (I). o homem perfeito? E é por tudo isto que a cultura hiperdialética qüinqüitária significa o termo do processo de auto-desvelamento do ser-lógico do homem. Já vimos (item 4.1) como se pode preservar a generalidade do processo hiperdialético com respeito à cultura originária. subsumindo assim o processo transcendental unário. aquela dos bandos e tribos de caçadores/coletores do paleolítico (pré-I). se contarmos também as culturas ecológicas. a totalidade das figuras anteriores relativas a cada um dos momentos da história da cultura antes recenseados. pré-I e pré-D. foi igualmente pré-dialética (préI/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 131 Esta visão de conjunto das culturas lógicoidentitárias deixa evidente que. a cultura cristã trinitária. Especulações acerca do futuro da cultura Exatamente porque o processo hiperdialético qüinqüitário (I/D/2) é uma dialética de dialéticas.5. a cultura judaica.3. ao mesmo tempo em que elas são o que são. a cultura lógico-qüinqüitária (I/D/2). é o momento de vermos como tudo se resolve também satisfatoriamente com respeito ao tipo cultural derradeiro. articulada de modo rigoroso.12 reúne. é que ele pode escapar às dificuldades do processo simplesmente dialético (I/D) no que tange às problemáticas de origem e destinação [57]. mundanamente. A figura 4. A pergunta que logo salta à vista refere-se ao desejo da cultura lógico-qüinqúitária. na conquista do simbólico convencional ou pleno. Tendo o homem alcançado o último estágio de seu desenvol- . pois é óbvio que nada mais há. O sentido disto é óbvio: a pré-condição do cristianismo não teria sido precisamente Jesus. além de trinitária torna-se ao mesmo tempo pré-qüinqüitária (pré-I/D/2). ainda que lógico– transcendental (I). Do mesmo modo. a que preceder. Assim. 4.

132 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vimento onto-lógico. Nas culturas subsequentes. seria mesmo o homem da cultura qüinqüitária desejoso do ser-sistêmico-calculado antes governado pela lógica da dupla diferença (D/2)? CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) I/D/ 2 BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. como poderia ele se manter desejoso de algo menor. como vimos. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL MITO (DE ORIGEM) CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 12. Desejo. tal como vinha acontecendo nas demais culturas? A manter-se o mesmo padrão. simplesmente não comeria. aquele desejo passa- . se o homem não se identificasse à caça. da lógica qüinqüitária recém conquistada) que. era a condição mesma de sua sobrevivência física. e tendo-se em conta que este seria também o momento de seu pleno autodesvelamento. fingimento e superação na história da cultura Esta simples colocação nos faz lembrar que em todos os estágios culturais anteriores o que impulsionava a cultura em direção às suas tão de um desejo de morte da cultura ou da humanidade (ou seja. Embora onto-logicamente distinto.

o que é o mesmo que afirmar que a evolução cultural humana veio se fazendo de modo inconsciente. ao mesmo tempo. O mais espantoso. o que nos parece uma obviedade. de modo coerente. pois seria a única “seqüência de movimentos” admitindo um quarto elemento (figura 13 à esquerda). desejo de poder na medida em que uma lógica vinha se apoderar do que fora já pensado por uma lógica menor anterior (ou por ela subsumida). ou seja. cujo desejo vem ser pelo uno-trino (ver item 4. Mas então seríamos obrigados a aceitar que não haveria mais desejo na cultura lógico-qüinqúitária? Ela nada realizaria de relevante. inclusive para a Modernidade. sempre inferior à capacidade lógica humana I/D/2. Isto não traz nenhuma inconsistência em virtude de que se tratou sempre de desejo por algo igual ou inferior ao ser-dialético (I/D). Constata-se sem dificuldade que a simetria global se recompõe à perfeição tão logo removamos aquele movimento hipotético”.3 anterior). agora justificadamente tido por espúrio (figura 4. de sorte que sua articulação se mantinha.13 à direita). (D)/(I/D) = D/2 ≤ I/D/2. ocorre quando constatamos que um hipotético desejo da cultura qüinqüitária (I/D/2) pelo ser-sistêmico ou objeto científico calculado (que se revelara à lógica formal D/2) viria quebrar toda a harmonia do quadro geral do processo de desenvolvimento cultural. entretanto.3. o desejo (D) e seu “objeto” (I/D) não achegam a ultrapassar a lógica qüinqüitária do ser humano I/D/2. Ele ape- . Tudo isto pôde se manter assim porque quem presidia de fato ao processo cultural em sua globalidade era a lógica do inconsciente (D). ao contrário de todas as culturas anteriores.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 133 va a ser. mas apenas mudaria de sinal. Pode-se constatar facilmente que isto funciona para todas as culturas. simplesmente por ter afinal coincidido consigo mesma? Nossa resposta seria no exato sentido contrário: o desejo não desapareceria. articulados.

Terá ele então superado em definitivo seus antigos modos idolátricos (porque desejosos do que era inferior a seu próprio nível onto-lógico) para viver. jamais se poderá sabê-lo com certeza) [58]. num sentido que até agora não se lhe tinha ainda revelado. deixando de ser desejo voltado para “baixo .O desejo na cultura qüinqüitária O homem estará deste modo experimentando um sentimento completamente novo de religiosidade. pelo mais elevado. DESEJO DE MORTE OU DE PODER HIPOTÉTICO DESEJO QÜINQÜITÁRIO I/D/ 2 DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE 3 D/ 2 I/D/ 2 3 D/ 2 3 4 3 I/D 3 3 3 2 3 3 I/D 3 2 3 2 D 2 D 3 2 I 2 2 I 1 2 1 1 1 Pré-D 2 1 1 2 1 Pré-D 2 2 1 1 Pré-I O Pré-I 1 1 O Figura 4. voltado para o mais alto. pela vez primeira. para se transformar em desejo apontando para “cima .134 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nas estaria se reorientando. por isso desejo de poder. a vida autêntica a que fora destinado. . para o que é de fato transcendente (não importa que este exista ou não.13 .

1484. Fazendo apenas um corte no tempo lá por volta do ano 1300 ou 1400 e comparando Europa Ocidental. um retrospecto histórico judicioso. conseguiríamos atinar em qual das três. É óbvio que não é este aqui o caso. tornaria mais ou menos óbvia a resposta a essa questão – uma nova cultura estaria. mas sem que se necessitasse entrar em pormenores.. naquele momento. mas há ainda muitas outras gravíssimas QUESTÕES. iria emergir uma nova cultura. valemo-nos apenas. Europa Oriental e Extremo Oriente. com maior probabilidade.. Malleus maleficarum – O martelo das feiticeiras. QUESTÃO XIV: A Monstruosidade dos Crimes de Bruxaria. dificilmente. só por aí.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 135 5 A Modernidade – das origens à globalidade etnocida QUESTÃO VII: Se as Bruxas são capazes de Desviar o Intelecto dos Homens para o Amor ou para o Ódio. de um recurso retórico com propósitos meramente didáticos. tanto aqui como alhures. onde se mostra a Necessidade de trazer a lume a Verdade sobre Toda a Matéria. De qualquer . à beira de eclodir no ocidente europeu. Entretanto. e pensamos que nunca o foi. Algumas vezes fomos acusados de fazer previsões a posteriori.

se tornado mera província peninsular asiática. o Ocidente foi violentamente puxado para trás e reagiu atirando-se com todo o ímpeto para a frente. pode nos ajudar na compreensão do que aconteceu: ainda não completamente estabilizado. com Constantino. O semitismo judaico.136 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO modo. como deveras aconteceu. numa fase de instabilidade e de mudanças aceleradas. Isto se deveu ao fato da invasão islâmica ter ocorrido antes que a cultura cristã trinitária (Patrística) tivesse tido tempo suficiente para levar sua raízes a uma maior profundidade. resistindo. Fora o Islã bem sucedido. não se retirou in totum. e. que ampliara sua presença no Ocidente com a invasão. e que a partir do ano 700 veio ser palco da invasão semítica islâmica. da lógica do Deus Uno-Trino (lógico dialético. pode se desenvolver e tempos depois estimular decididamente o . I). e a Europa teria simplesmente se volatilizado. meio psicológica. a dar exatos dois passos culturais atrás. Contudo. dali mesmo onde se instala. tal como uma cultura trinitária homóloga deve tê-lo feito no extremo oriente. De certa maneira isto representava uma tentativa de obrigá-la a um recuo. I/D) à lógica do Deus-Uno (lógico transcendental. A força da cultura greco-romana não tinha ainda se apagado inteiramente da memória coletiva. Só não é justo que depois exclame. nos interstícios feudais. quem quiser previsões futurológicas para valer. até simplória. D). há como se fartar noutras passagens do presente trabalho. Uma metáfora meio mecânica. desfazendo-se assim de uma diferença já conquistada (seu passado greco-romano. iria ingressar. como certa feita fez um famoso físico e cosmólogo brasileiro: “Ah!!! Mas nada disso que você diz sobre o que virá daqui para a frente está ainda empiricamente comprovado!” Não devemos esquecer que a Europa Ocidental fora cristianizada no início do século IV. como boa parte dos muçulmanos.

sim. se afigurava a princípio uma disputa intrafamiliar (lógica da identidade I versus lógica dialética I/D. que no caso seria a volta à cultura greco-romana (D). Nesta segunda parte. . Ao contrario dos anglo-saxões. Contudo. à frente os franceses. marcadas por seu modo econômico produtivista e. O confronto islâmico/europeu. a única opção para a Europa era mesmo partir para a edificação de uma cultura cínica lógico-formal. consumista. acabou tomando um sentido extrafamíliar. reativamente. ambas da família das lógicas identitárias). depois.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 137 processo de superação do cristianismo trinitário. tratar da construção aparente: a ciência e o sujeito liberal a ela sujeitado. uma nova cultura de base científica eclode na Europa. a semítica (I). o surgimento do sujeito liberal. Como é impossível o recuo cultural. após. a indo-européia (D). de outro. a novidade será a de começar pelo óbvio. e. são os alemães e parcialmente os latinos europeus. calculadora do mundo (D/D). assim. isto é. O item final será dedicado ao dramático papel das culturas semíticas na passagem à cultura nova. uma disputa entre famílias lógicas – de um lado. que mantêm ainda bem vivo este legado arcaico da Modernidade ao se quererem modernos (D/D) e herdeiros diretos e exclusivos dos gregos (D). Num primeiro momento. Quem ignora o que isto quer dizer? Este capítulo apresenta uma primeira parte onde se procura detalhar os antecedentes da Modernidade a partir justamente das invasões muçulmanas e uma segunda parte onde tratamos diretamente da geração da Modernidade e de suas duas grandes etapas históricas. do ponto de vista apenas lógico. pelos alicerces – a caça às bruxas – e só depois. dá-se a aristotelização da teologia cristã (Escolástica) e a constituição dos estados nacionais. com o curso da luta e com o peso da língua e doutras tradições greco-romanas.

o grande mar daquele mundo era mesmo o Mediterrâneo. um mar em meio à grande vastidão de terras. e assim o fizeram os gregos e seus vizinhos. como diz o nome. Foram estes que agindo desta forma impediram a consecução do propósito geopolítico dos poderosos atlantes – fechar o cerco ao Mediterrãneo. a oeste e relativamente próxima das colunas de Hércules. (Figura 5. pequenos povos. só alcançaria a onipotência (e de quebra a prepotência) conseguindo fazer daquele único grande mar interno um mare nostrum.138 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Antes de abordarmos a questão dos antecedentes da Modernidade.1) Como o Oceano Atlântico Norte praticamente não existia. até o Mar Tirreno (sudoeste da Itália). qualquer império. tão poderoso que além de seu próprio espaço insular dominava também a Europa. desde que internamente unidos e decididos pela liberdade. uma ilha enorme. 5. No caso. os atlantes não tinham porque fazer exceção. poderiam resistir-lhes. a Europa e a África. Antecedentes da Modernidade [1] .1. ainda maior do que toda a Ásia – a Atlântida – acompanhada de muitas outras pequenas ilhas que facilitavam a comunicação entre ela. do Estreito de Gibraltar ao Egito. e o norte da África. Na ilha formara-se um magnífico império. Em tais circunstâncias. não importa sua potência. não importa se realidade histórica ou surrealidade mítica! No Timeu de Platâo (2) lemos que havia. Entrementes. vale a pena que relembremos rapidamente velha lição sobre os antecedentes da geopolítica.

Sua grande estratégia geopolítica repetiu. Agora.1 . talvez para se divertirem. logicamente tardio e radical [3].Estratégia do Império Atlante Como para os gregos os homens são exatamente o outro dos deuses. não seria nada plausível esperar que eles se dispusessem a fazer alianças com criaturas tão pouco confiáveis. vamos aos fatos. nem provocaram terremotos providenciais com enormes lajes caindo sobre os opressores. não fizeram mares ad hoc se abrirem e fecharem. de cabeça para baixo. aquela mesma dos romanos: a . O Islã. Na medida em que teve elã e forças para assim atuar. não importa quanto tenha sido seu grau de consciência ou intencionalidade. valendo-se apenas de sua unidade interna e de seu amor à liberdade. por isso. é que os deuses decidiram fazer afundar a Atlântida. não poderia ter tido outro desiderato. acreditamos nós. Bem. depois de tudo decidido. sem mover uma palha: não lançaram pestes. em todos estes acontecimentos ficaram eles apenas assistindo lá de cima. que há muito assumira foros intra-semíticos. o de tentar implodir a cristandade. Os pequenos povos tiveram que se virar sozinhos. isto é. prometéicos. estava também ensejando um ajuste de contas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 139 Figura 5. senão. e era tanto ansiado [4].

algo de relevante já acontecera poucos anos antes da Batalha de Poitiers. em 711.140 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transformação do imenso Mediterrâneo num mare nostrum. Frustava-se desta sorte (boa ou má. a famigerada figura de Abraão à Santa Clara [5]. sujeito de família (família lógica identitária/temporal ou lógica diferencial/espacial) Entrementes. é aí que entra. por cima. por um e por outro lado. que veio pôr fim ao Império Bizantino. o reino visigodo que lá se instalara. à esquerda e direita. em tempos desencontrados. Por não haver retrocessos. e com ela. a expectativa de provocar um retrocesso da História. Adentram a Europa por esta segunda porta e só são detidos ao sul da Alemanha. também por baixo. do lado esquerdo da Europa. Frustava-se também sua tentativa etnocida de implodir a cristandade. (Figura 5. não há vingança plena na História. seu grande êxito na referida estratégia só é alcançado com a tomada de Constantinopla (1453). Dizemos isto no sentido de que os romanos partiam para fazer e fechar o cerco a partir da Península Itálica e o Islão pretendeu fazê-lo chegando. a não ser que alguém se assuma. como bem sabem os sicilianos. por volta de 1500. Pela direita.2) Os muçulmanos atravessam o Estreito de Gibraltar e logo ocupam toda a Península Ibérica destruindo. daquela mesma península. conquanto que. conforme o lado) a estratégia muçulmana de envolvimento do Mediterrâneo. Tudo corria bem e célere pela esquerda até que foram derrotados a oeste da França por Carlos Martel na Batalha de Poitiers (732). tendo eles estado já bem próximo de realizá-la. justamente. .

Os mouros chegam a invadir a caverna.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 141 Estratégia romana Estratégia muçulmana Figura 5. Pelayo. resiste à invasão muçulmana fazendo da caverna de Covadonga seu quartel-general. atingindo fundo os invasores. Deste foco de . Dali parte para suas razias até que é perseguido e cercado em seu próprio refúgio. um príncipe visigodo. cristão convicto. mas deixando incólumes Pelayo e os seus soldados. mas um providencial tremor de terra faz desabar parte da montanha.2 – Estratégias romana e islâmica Em 718.

que se lhe torna possível promover e acelerar a formação – pela força de dinheiro. mas boa parte dos judeus que os acompanhavam ficaram nos interstícios extra-feudais [6]. Isto irá liquidar com o poder absoluto político/cultural da Santa Sé. conseguem estruturar. um mercado financeiro acoplado ao sistema periódico das feiras que se expandia à sombra da miríade de castelos feudais.142 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO resistência é que parte o processo da reconquista da Península Ibérica. unindo-se posteriormente a Aragão e Castela. ameaças e núpcias –. a cartografia. o condado de Porto Cale. Casa-se com uma filha do rei de Leão. Pelayo torna-se rei de Astúrias. durando mais do que 700 anos. por seus bons serviços bélicos. do mercado financeiro associado. dos estados nacionais europeus modernos. como o artesanato de calçados. de cuja união nasce Don Afonso Henrique. por eruditos judeus. Os mouros são por fim expulsos do ocidente europeu em 1492 numa longuíssima guerra. se comparada com a da cultura de mesmo nível lógico no Oriente. por conseqüência. vital para a constituição da Europa moderna. em boa parte. a medicina e. recebendo. com base em sua sólida unidade cultural. Henrique da Borgonha vem se aliar ao Reino de Leão na luta contra os sarracenos. ditando a derrocada do cristianismo lógico-trinitário (I/D). armas. reino que se expande vindo depois a chamar-se Reino de Leão. e este. É nesta condição de marginalidade que pequenas populações judaicas se preservam e desenvolvem atividades que lhes serão típicas. No curso destas lutas. nosso imenso Portugal. já a partir do ano . É tal o desenvolvimento destas feiras e. Textos aristotélicos trazidos pelos árabes começam a ser traduzidos do grego para o latim. Ainda no ano de 718. pode-se mesmo dizer que de vida curta. vão juntos formar a Espanha moderna. sobretudo. futuro rei do Porto Cale independente.

é a intervenção semítica que faz a Europa ocidental indo-européia passar tão rapidamente da lógica da simples diferença D (do politeísmo greco-romano) à lógica dialética trinitária I/D (do Deus Uno-Trino) e. o epílogo está pronto para quem tiver coragem de decifrá-lo! Nestas considerações preparatórias vamos expor nossa visão do processo de constituição lógica da Modernidade.2. o que permitirá melhor compreender seu caráter de “genérico” (sexuado) e o porquê da existência dos dois modos sucessivos de suas correlatas formações econômicas – o capitalismo produtivista e o capitalismo pleno ou consumista. saberá aqui mesmo logo adiante. daí. O que veio a seguir já se sabe [7]. se não. com um pouco de argúcia cultural e grandes fundos financeiros. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso . à lógica formal ou científica D/D (do Deus desempregado. não se deu em razão de terem as forças produtivas alcançado um certo patamar de eficácia.1. um dos pilares do modo de produção capitalista que.2. do Deus Mercado). Em suma. fazer eclodir na Europa a Modernidade. ganhos de eficiência no aparelho produtivo: este meio foi a técnica sistema- 5. sujeito liberal e caça às bruxas O surgimento do processo de acumulação. Se não fora possível pela força fazer implodir (voltar ao Deus-Uno) o cristianismo trinitário. do ponto de vista econômico. vale dizer.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 143 1000. tornara-se possível. de forma regular e persistente. 5. Santo Alberto Magno e São Tomás de Aquino procedem à irreversível racionalização ou aristotelização da teologia cristã. aproveitando agora a direção do vento – direção em que irreversivelmente ao homem desvelase sua própria lógica –.Ciência. caracteriza a Modernidade. Em meados do século XIII. mas sim por ter sido encontrado um meio de injetar.

logo. Muitas vezes. O argumento marxista que atribui o advento do capitalismo ao fato de se ter atingido um determinado patamar de produtividade se nos afigura um ótimo exemplo da aplicação da “lei de transformação da quantidade em qualidade”. “seus” trabalhadores. ainda que em parcelas escalonadamente diferidas – o empresário eleva sua pedra. em boa medida. conseguir de novo se apropriar dos excedentes. acréscimo de estoques de matéria-prima e de produtos acabados. como nas corporações medievais. Sabemos que o capital é o “excedente” [9] apropriado – no capitalismo. degrau após degrau. Acrescentaríamos que melhoria técnica sempre houve. E para que possa se dizer minimamente esperto. em períodos subseqüentes. era drasticamente reprimido por severos e até cruéis regulamentos. a vê inexoravelmente despencar escada abaixo. Entretanto. novas competências técnicas adquiridas. isto é. o “excedente”. isto é. hoje. só renunciam a consumo quando estão de regime!) – que. mas como um acontecimento exógeno/contingente à esfera propriamente econômica. porque o não consumido. Noções muito elementares de contabilidade de custos bastam para compreender isto e também que um tal processo só pode ter continuidade se o empresário. só pode ser criado às expensas do consumidor (capitalistas. Para que tal não aconteça existe uma única solução: que – des- . acabará por matar à míngua sua galinha dos ovos de ouro. o fato é que tudo isso acaba sendo integralmente devolvido (a preço de custo) às massas consumidoras na forma de depreciação. Ora. terá que fazê-lo numa proporção sempre superior àquela do período precedente [10]. se mantidas estas condições gerais. como é óbvio. retorna ao sistema produtivo na forma de mais instalações e equipamentos. quando isso era ensaiado. de maneira privada e necessariamente autoritária.144 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ticamente alimentada e aprimorada pela ciência. um péssimo exemplo de explicação [8]. e tal como Sísifo.

por trás desta. assome e de pronto se dissolva um sujeito transcendental.3. entretanto. necessariamente. que tem como seu núcleo exclusivo e irredutível a ciência e sua lógica calculadora do mundo. ano após ano. entre um sistema e outro. para que uma cultura científica possa sobreviver. nenhum sistema. Por isso. Em termos bem diretos: Capitalismo é o modo de produção próprio à Modernidade. poderia evoluir para acompanhar as vicissitudes que sempre o rio da história [12] nos traz. Não é difícil compreender que por trás do aumento de produtividade esteja. para recompor um novo sistema em substituição ao anterior. uma lógica: no caso do saber científico a lógica clássica. intervalar e por isso sujeitado ao processo. prático ou teórico. A lógica clássica. a ciência. no curso do tempo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 145 contada a pequena taxa de crescimento da população ativa – a produtividade do trabalho social médio cresça de modo continuado e compensatório relativamente ao acréscimo da taxa de exploração dos trabalhadores (mais-valia. concreto ou simbólico. diriam os marxistas). bem se sabe. é preciso que. . Voltando ao mito: o empresário capitalista para sobreviver precisará. a melhoria das técnicas e. bastante potente. a matemática e uma parafernália de instrumentos de medida capazes de alimentá-la. tem como característica essencial o aprisionamento do que se considere digno de ser pensado num “universo” por tácita convenção pré-determinado. rolar sua pedra sempre um pouquinho mais para o alto. lógica do terceiro excluído ou da dupla diferença [11]. esgotável/calculável. Correlato a um saber há obrigatoriamente um modo de pensar. Assim. tanto quanto. vale dizer. por conseqüência. em princípio. e entre um e outra. como esforçamo-nos por ilustrar na figura 5.

4) Todo este edifício. a seguir.3 . contudo. então. mas de modo algum um autêntico self made man [13]. este sujeito é livre em relação aos sistemas (ou à ciência). ou de modo significativo minimiza. a potência mediadora do clero burocrático – interpondo-se entre o Céu e os demais entes terrenos – . se consolidar política/espetacularmente com a revolução inglesa do começo do século XVII.146 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SUJEITO LIBERAL INTERVALAR I SISTEMA SISTEMA RIO HIPERDIALÉTICO Figura 5. o sujeito liberal intervalar pôde tomar dimensão social para. a face aparente risonha ou afirmativa da Modernidade. ele está inapelavelmente acorrentado ao processo geral de instituição da racionalidade: a rigor é um sujeito sujeitado à nova cientificidade que vinha assumir o governo do mundo. tornando imperiosa a questão: se no verso estavam a ciência e seu sujeito li- . que suprime. Ciência e sujeito liberal consciente – sujeito fordiano para os amantes do cinema [14] – passam a constituir. Com o movimento protestante. não se sustentaria sem sólidas fundações. (Ver figura 5.O sujeito intervalar como condição de sobrevivência do ser-sistêmico Costuma-se atribuir a Abelardo a iniciativa de contrapor a racionalidade (moderna) ao “argumento” de autoridade de tanto sabor e prestígio na cultura cristã medieval. Como mostra a figura 1.

subterrâneo. o mais intrigante: como poderia toda esta azáfama fundacional acontecer e ter passado até hoje completamente despercebida? INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA Figura 5. entretanto. Ademais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 147 beral intervalar. simplesmente esquecemos que aqueles episódios dramaticamente repressivos ocorriam justamente após a racionalização (aristotelização) da teologia cristã programada por Santo Alberto Magno e tão bem executada por São Tomás de Aquino. que ele corre em paralelo com a institucionalização do pensamento científico.4 .000 mulheres teriam sido torturadas e . Neste processo de caça às bruxas.A face aparente ou afirmativa da Modernidade Todos nós temos alguma informação acerca do longo processo (instrutivo e punitivo) de caça às bruxas. Deixamos de notar. capítulo derradeiro de uma Idade de Trevas”. E ainda. o que constituiria o reverso de tamanha magnificência? E. sobretudo. que é neste mesmo período que se consolida a maioria dos Estados europeus modernos. Se era verdade que no verso tinha-se a instituição da ciência e seu sujeito liberal intervalar. no entanto o consideramos um episódio histórico anômalo. sintoma desesperado de uma cultura que desmorona. no reverso. adiantava-se o penoso trabalho das fundações: o resfriamento a ferros e fogo da feminilidade. aproximadamente entre os acmes de Copérnico e Galileu. mais do que 100.

consumista e etnocida Na essência do capitalismo está pois a negação do desejo inconsciente e da história. história/lógica dialética. se recalcasse a feminilidade – de um lado. do que “esfriar” as mulheres – e isso esteve sempre bem posto nos propósitos e discurso protestantes. nada mais nada menos.2.5 . Dava-se. do outro. E o processo inquisitorial de caça às bruxas veio exatamente para concretizá-lo. Essas duas . desejo de reconhecimento.Processo de estruturação lógico.5) INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA SUPERFICIAL PROFUNDO RECALQUE DA FEMINILIDADE CAÇA ÀS BRUXAS Figura 5. na circunstância.148 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mortas [15].hierárquica da Modernidade A rigor. inconsciente/lógica da diferença. isto fora de certo modo inevitável: para ressaltar a masculinidade e suas lógicas – de um lado.Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno. Como o desejo é desejo de desejo. a melhor forma de apequenar o desejo no homem era sufocar o desejo na mulher. 5. no jargão lacaniano [16]). ciência/lógica clássica. concomitantemente. que o recalque da história (sentido/espírito) e do desejo inconsciente e de suas lógicas associadas – respectivamente. lógica dialética e lógica da diferença (ou igualmente lógica do significante. o sujeito liberal/lógica transcendental – era preciso que. Para que os homens se concentrassem no cálculo de todas as coisas do mundo nada de mais funcional poderia haver. calvinistas.2 . do outro. (Ver figura 5. particularmente.

reduzi-lo a progresso [17]. Propunham uma solução. Que se busca com isso? Tão apenas calcular o futuro. Foram eles os primeiros a aceitar a ciência. O “mal-estar” provocado pelo capitalismo produtivista foi a razão mesma do surgimento da ordem dos jesuítas. O maior mérito do marxismo está na sua acuidade para explicitar. a rigor. recalcadas. no entretanto. Suas características óbvias e decantadas – a racionalidade objetiva e o espírito individual de iniciativa – não seriam nega- .6 – A volta da história como progresso Basta observarmos o que é hoje uma empresa: ela é norteada prioritariamente pelo cálculo da taxa de retorno de capital. pela metade. conquanto que antes censurada.6) SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CIÊNCIA HISTÓRIA Figura 5. mero processo de acumulação de capital. já degenerada em história calculada. contudo. Num primeiro momento o capitalismo faz retornar a história. (Ver figura 5. não se apagam ou desaparecem: de um modo ou de outro. representado este por um poder simbólico/absoluto. sempre acabam voltando. os determinantes profundos do modo de produção próprio à Modernidade. sim. não conseguiam fazer uma crítica objetiva mais profunda da nova realidade científica/econômica que surgia sob seus olhos. propondo-se ela mesma como exemplar. desnaturada.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 149 posições lógicas femininas. mas pugnando pela substituição “corretiva” do sujeito liberal pelo sujeito coletivo.

o capitalismo viu-se compelido a lançar mão de sua maior reserva estratégica – o desejo recalcado das massas [18]. (Ver figura 5. O fascismo. o mais importante para a compreensão de tudo aquilo que surgia. finalmente. O dinamismo da economia atual não vem mais da produção. pronto e acabado. . tinha uma causa oculta e imanente – o processo de acumulação de capital. Contudo.150 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO das. mas. experimenta um certo refreamento com a Grande Depressão. mas primordialmente da capacidade de manipulação do imaginário das grandes massas pelas “técnicas” de marketing. Configurava-se. fez às vezes de grande prova de passagem. e que nela prevaleceu.7) Agora se pode ver com maior nitidez as razões da derrelição das propostas comunistas e socialistas. E é isso que vemos hoje por todo canto. Como resposta às pressões revolucionárias e reformistas que se avolumavam por todo o século XIX e mais se aguçam nos primórdios do século XX. O desejo inconsciente teria sido afinal domesticado e integrado à economia. assim. como vimos. tomou fôlego no início do novo século com a produção automobilística norte-americana. um presente inesperado que lhe fez o PCC). agora exaurido em suas reservas estratégicas (afora um bilhão de chineses trabalhando 10 ou mais horas por dia a 50 dólares por mês. não vem apenas do ímpeto do processo de acumulação. no entanto. a Guerra Fria é a oportunidade para a sua vitória definitiva. uma reação premonitória desesperada ao domínio iminente do capitalismo de marketing. Somos de opinião que o capitalismo de marketing ou consumista já se anunciava teoricamente com os marginalistas austríacos [19] três décadas antes do fim do século XIX. desde seus primórdios ao início do século XX. Podemos denominar capitalismo produtivista ou de simples acumulação a este primeiro modo de produção vinculado à Modernidade. o modo de produção próprio à Modernidade.

a Modernidade foi e continua a ser.Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno ou consumista É boa a hora para procedermos a um resumo do que se disse até aqui. A racionalidade generalizada e o correlato desencantamento do mundo. havendo passado por uma profunda metamorfose. pelas fundações e pela construção e alocação de seus porões. o que transformava as mulheres em objeto paradigmático da troca.. Vimos que a Modernidade começa.7 . que segundo Max Weber constituiriam a essência da Modernidade. o que se fez através do processo de caça às bruxas. ademais. como todo edifício. justamente quando os homens (cultura) impuseram em seus próprios bandos a diferença clânica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 151 A esquerda não fazia uma crítica equivocada do capitalismo. não são fenômenos assim tão . mas uma crítica pela metade. ou seja. só conseguindo reagir com retardo – seu inimigo tornara-se já outro. CAPITALISMO PRODUTIVISTA SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CAPITALISMO CONSUMISTA DESEJO DOMESTICADO PELO MARKETING CIÊNCIA SUJEITO LIBERAL CIÊNCIA HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL HISTÓRIA DESEJO HISTÓRIA Figura 5. era o próprio Marx que nos advertia que nenhuma formação social poderia ser de fato derrubada antes de ver esgotadas todas as suas potencialidades realizadoras. pelo esfriamento à força da desmesurada” sexualidade feminina. uma empreitada cultural concreta e metaforicamente sexuada: ela estabelece a dominação socio-lógica do masculino sobre o feminino.. no âmago. pré-condição formal da instituição da proibição do incesto/obrigatoriedade da exogamia. recapitulando por isso o “mito” de que a sociedade se teria constituído pelo “rebaixamento” do feminino (natureza). Como ficou demonstrado. Aliás.

como história censurada.8) O feminino. retorna para se integrar à funcionalidade da formação cultural: primeiramente. desde que antes se tivesse bem trancafiada em seus obscuros porões a “irracionalidade feminina.8 . de um lado.Estrutura lógico-sexuada da Modernidade com seus respectivos saberes Quando Marx denuncia o processo de acumulação de capital como o verdadeiro motor do capitalis- . O protestantismo é sua instituição difusa e a revolução liberal do século XVII na Inglaterra sua consolidação político/espetacular. apenas na superfície.152 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO gerais e muito menos tão profundos como ele acreditava. (Ver figura 5. SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO Figura 5. depois. como todo recalcado. conforme ilustra a figura 5. transmudado em demanda agregada – como gostam de chamá-lo os economistas –. como desejo domesticado pelo marketing. de maneira irretorquível. de outro lado. O advento da ciência e da organização burocrático/racional foi apenas o primeiro passo na afirmação da lógica do masculino que estava já determinada a um passo complementar – a constituição do sujeito liberal como sujeito apropriado. mas não supresso. transmudada em progresso ou processo de acumulação de capital. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade: segundo a hierarquia. o masculino (ciência e consciência) em cima e o feminino (história e inconsciente) embaixo. intervalar e sujeitado da ciência [20]. Racionalidade sim. Fica assim estabelecido.7 à direita.

ele se vê compelido a pôr em seu lugar o ser transparente à História: a liberdade passa a ser tão apenas consciência da ou transparência à necessidade histórica. em especial Descartes e Kant. com bem maior propriedade). ainda que pela metade. A ciência ficava mesmo onde estava. alia-se à ciência. entretanto. Chama sua concepção teórica materialismo histórico (em contraposição a um pressuposto idealismo histórico de seu antigo mestre Hegel). onde justamente residiria o núcleo duro do capitalismo. diríamos. Marx rejeita coerentemente as filosofias da consciência. Paradoxalmente. vale dizer. toma como bandeira revolucionária a edificação do socialismo científico. a face reversa ou o recalcado em que se apoiava o modo de produção moderno. também. quando passa da teoria à práxis. e que destarte degenera [21]. Assim. Depois de tantas e profundas críticas. que facilmente se degrada em oportunismo. só podia fazê-lo valendo-se do pensar dialético que. sobejamente demonstrado por Hegel. para nossa perplexidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 153 mo (da primeira fase do modo de produção próprio à Modernidade. e colocar em seu lugar o ser coletivo ou corporativo. à política propriamente dita. pode ele descobrir. apenas o sujeito liberal. propõe-se tão apenas desalojar o sujeito já sujeitado da ciência. em contraposição ao socialismo utópico ou idealista de seus precursores franceses. reivindica para seu pensamento o caráter genérico da cientificidade e. o sujeito liberal. depois. embora dele melhor fosse nem falar. individualista. rebaixado). o que traduz uma impossibilidade lógica. Em termos filosóficos. tenta também inverter a direção de subordinação em que se encontrava o sujeito liberal. era desalojado (em verdade. Que seria então da consciência e da liberdade? Recusado o cogito. Em suma. em terrorismo de estado. o inconsciente. Na verdade. o ser transparente a si próprio. assumindo seu . é aquele capaz e apropriado ao desvelamento do ser-histórico.

Era o advento do capitalismo de marketing ou consumista. ao desvelar de um lado. a psicanálise vem precisamente completar o processo de desvelamento do recalcado constitutivo da Modernidade – o inconsciente. do vigor desejante dos imaginários. a Modernidade per- . (Ver figura 5. mas na sua proposta de ação concreta. Contudo. ainda mais grave. Num primeiro movimento.154 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lugar o sujeito coletivo. o que propunha o marxismo não era mais que substituir a crucial problemática masculino/feminino pela já gasta problemática epistemológica (marca característica do período moderno da filosofia) de cabeça para baixo. No fundo. ou seja. de uma verdadeira revolução (cultural) alicerçada na crítica da cientificidade. o capitalismo sem jaça. viabilizada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e das “técnicas” de propaganda.9) É quase inacreditável que a psicanálise acabasse seguindo rumo perfeitamente simétrico especular ao marxismo. Tudo isto acontecia como um quase natural desdobramento da domesticação. ao invés de uma real subversão da Modernidade. Foi deste modo que um autêntico ímpeto revolucionário transmudou-se numa força culturalmente reacionária. objetivo (material)/ subjetivo (ideal). O marxismo teve de fato o grande mérito de dar a partida ao processo de desvelamento dos porões ou do reverso da Modernidade. um a um. de outro vinha precisamente para encobrir o caráter sexuado da Modernidade. por atacado. foi o fato de que. Ela surge no momento histórico em que o capitalismo atinge sua plenitude lógico-estrutural com a mobilização de sua grande reserva estratégica – o inconsciente das grandes massas. Também com isso. se propõe apenas à permuta do sujeito da ciência. à construção do cientificismo perfeito.

até então um modo de dominação econômica. DES-SEXUALIZAÇÃO MARXISTA MARXISMO (SOCIALISMO CIENTÍFICO) CIÊNCIA SABER OBJETIVO OU MATERIALISTA SABER SUBJETIVO OU IDEALISTA ESTRUTURA SEXUADA DA MODERNIDADE PSICANÁLISE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO DES-SEXUALIZAÇÃO FREUDIANA PSICANÁLISE (CIENTÍFICA) CIÊNCIA SABER DA DIFERENÇA SABER DA IDENTIDADE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL FILOSOFIA DIALÉTICA Figura 5. com propriedade. pela de impiedosa etnocida. O grande problema é que o próprio Freud não abria mão de reivindicar o estatuto de ciência para a psicanálise (ao mesmo tempo que remoía e resmungava. Este último era a presença legal/ repressora da civilização (cultura) internalizada no próprio psiquismo. de uma problemática do ser-subjetivo. dos indivíduos. se via então transformado em máquina exterminadora das demais culturas [23]. hiperdimensionando a incompreensão da .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 155 dia o caráter desbravador próprio de toda cultura e assumia o caráter civilizatório/conservador. a cura. e põe a nu o processo pelo qual se dava a estruturação do psiquismo – segunda tópica: id. O imperialismo. não iria propor como solução uma revolução social. no caso. mas.A sub-reptícia dissolução do caráter sexuado da Modernidade Freud desvela o inconsciente. de vetor de universalização de uma cultura [22]. a Modernidade trocava sua condição de feroz opressora.9 . o indivíduo como ser de desejo. como o marxismo. ou seja. Tratando-se. ego e superego. um a um.

na verdade. Visa. o cartesianismo lógico-transcendental: Je pense où je ne suis pas. dilui-se. mas sem pequenas fobias a leituras filosóficas. é extremamente incisivo em seus ataques. Chega mesmo a cortar pontes que se sabe já antes transitadas. sem descuidar de simultaneamente declarar guerra à filosofia em duas frentes – ocidental e oriental – às filosofias transcendentais ou da consciência (especialmente Descartes e Kant) e às filosofias dialéticas. sexualizava o indivíduo desde criancinha. (Ver uma vez mais a figura 5. [25] Em suma. especulativas ou materialistas (especialmente Hegel e Marx). mas às . característico de seus primórdios pré-socráticos: o pensar do mesmo ou do um (lógica da identidade) contrapondo-se à lógica do outro ou do múltiplo (lógica da diferença). como fazia o marxismo em relação à problemática epistemológica) e ao mesmo tempo trágico. Freud. uma segunda vez. agora o fazia como diferença/ identidade. Velada por uma problemática ontológica. ao invés de se estruturar lógica e originariamente como masculino/feminino. de um lado. Com isso. o hegelianismo lógico-dialético: A Aufhebung é um desses bonitos sonhos da filosofia. Lacan.9) O grande paradoxo: a psicanálise.156 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO comunidade científica). a Modernidade. de outro lado. donc je suis où je ne pense pas [24] e. se diria melhor) o sujeito liberal ou cartesiano e pôr o sujeito inconsciente em seu lugar. um declarado radical freudiano. se alia à ciência contra a filosofia a fim de desalojar (rebaixar. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade. A problemática humana assume assim um caráter ontológico (também de cabeça para baixo. como já fizera Marx.

crente no princípio da conservação da “energia sexual”. mas uma insubordinação e. como sexualizar algo sem retirar (ou trazer de volta) a necessária energia de algum outro lugar. recuperando sua integridade [27]). não como apenas não-todo. a verdade parcial sim. nem sempre alcançando a exata medida. Não foram raros os que chegaram a sentir. velava o real caráter repressivo da Modernidade. A liberação do feminino será apenas meio.. masculinas e femininas. a civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica. sim. a real liberação da humanidade. [26] Deste modo. Aqui. a necessidade . o advento de uma cultura nova. no caso. Seguindo o próprio Freud. posto que sua superação só se poderá dar pela sublevação do recalcado.. Não haverá uma inversão de mando. como se depreende do próprio texto freudiano: Nem todas as civilizações vão igualmente longe nisso. perdia. e a estrutura econômica da sociedade também influencia a quantidade de liberdade sexual remanescente. suportada pela síntese simultânea de todas as lógicas de base. não há como negar. desta sorte. como já sabemos..FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 157 expensas da sexualidade sócio-cultural.. visto que uma grande quantidade de energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem que ser retirada da sexualidade. seu fim estará além de si mesma: ela significará. a re-sexualização do ser-social é uma condição necessária para a superação da Modernidade. É da maior importância que fique bem à mostra o caráter sexuado da Modernidade. de repente.? A nosso juízo. as mulheres logo se opõem à civilização e demonstram sua influência retardante e coibidora . do feminino (inteiro e não despedaçado. Além do mais. seu elã subversivo para se tornar uma dentre outras forças reacionárias. mas articulada à verdade total e parcial.

este sim. em pleno estrado magistral. aquela com que estamos há muito acostumados – marxismo/fascismo. A posição de Adorno é muito instrutiva. temporária ou eternamente?) ao fascismo. Afirmamos acima a “perfeição” da oposição Marx/Freud. como também do sujeito liberal. propõe como solução a revolução social. se mostrou a Escola de Frankfurt. o que o fez associar-se (pela metade. coerentemente. quem seja o verdadeiro inimigo. de articular Marx e Freud numa só compreensão. Ora. levada ao delírio –. a psicanálise. de modo equivalente. juízo de valor este que nos obriga a mostrar onde estaria escondida a “imperfeição” da oposição esquerda/direita. desejaríamos deixar uma palavra acerca da simetria especular marxismo/psicanálise que vem aqui deslocar. mas sem chegar entretanto à completa compreensão do papel da ciência na formação cultural moderna. em especial. Antes de concluir este item. ou. optando pelo sujeito inconscien- .158 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de se restaurar a integridade subversiva do ser-feminino. agora elevada ao quadrado. Heidegger. não perde. de vista. Um dos primeiros foi Reich. é um crítico acerbo da ciência e da técnica. mas não consegue vislumbrar qualquer possibilidade de transcender à sua própria cultura (científica. porque ele sabe bem criticar a ciência. por essência). mas pretendendo fazê-lo justamente sob a égide do que era seu comum equívoco – a devoção à ciência. mas prefere descarregar seu ressentimento contra o marxismo. seu vizinho. preso entre instrumentos. se o marxismo. concordamos que de maneira até bem surpreendente. acabou enquadrado. Bem menos equivocada. pois. com o que se vê inapelavelmente condenado ao imobilismo (ante o desfile desafiador. ao optar pelo sujeito coletivo. esquerda/direita. e o uso torto maldoso dos meios de comunicação de massa. instalações e grades. isto é. quanto ao valor da ciência. de suas alunas peladonas).

3. pois isto já está feito com bastante detalhes em diferentes oportunidades [28]. Queremos aqui focalizar apenas o papel que.. se vê bastante simplificada quando constatamos que precisaremos nos ocupar apenas 5. mas perderia automaticamente tal caráter tão logo nos dispuséssemos a aceitar a existência real e não apenas retórica de um inconsciente coletivo (como bem sabemos fizeram os junguianos) . Não vamos tratar propriamente dos estertores da Modernidade. e. somos levados a imaginar que será intensamente dramática a situação e o comportamento dessas culturas nos momentos que irão anteceder à efetiva superação da Modernidade. entretanto. Ela soa deveras paradoxal (como um dia soou a expressão inversa socialismo num só país). à parte e tardio. embora soando um tanto estranho. diz bem o que pretendemos. terá coerentemente que propor como solução a cura. Como a cultura nova é de natureza hiperdialética (I/D/D). desconsiderada apenas a cultura paleolítica auroreal (pré-I). a auto-denominação nacional socialismo por si só diz tudo. Daí. pelo menos durante sua etapa fundadora) se confunde com a classe das culturas semíticas. pertencente à família lógicoidentitária.. Observando bem. o caleidoscópico mundo cultural muçulmano (I). pronto se depreende que a anomalia do fascismo ou “nacional socialismo está exatamente no fato de ele optar pelo sujeito inconsciente (romântico ou telúrico) e.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 159 te. nos acontecimentos que estariam por vir. um a um. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade . portanto. ao mesmo tempo. propor como solução uma revolução social. Vê-se que. a família das culturas lógico-identitárias (Is) (exclusive o Extremo Oriente. Nossa tarefa. O título do presente item. terão as formações culturais semíticas – as culturas nodais judaica (originária) (I) e cristã patrística trinitária (I/D) e.

melhor adaptado às circunstâncias históricas sempre cambiantes. a cultura muçulmana. por via destas peripécias. por sua localização. O grande drama que vive hoje a família semítica ou identitária – e que dentro em breve terá que vivê-lo ainda mais intensamente –. pois a cultura cristã (patrística ou trinitária). vive uma ‘justificada’ ilusão de liberdade. para destarte provê-la de uma prótese vivificante [32]. Ora. é a presença ativa da cultura judaica que viabiliza a Modernidade. A variante cultural semítica que assumiu este papel foi justamente. sente fundo esta real ameaça e reage desesperada. a qual. Ele é de fato um sujeito livre em relação a determinado sistema. capaz de sempre substituir um sistema que se torna obsoleto por um novo. escolha e sabedoria estratégica. na sua maior inimiga. vimos. seu papel é francamente intervalar e tributário [31]. praticamente hoje se extinguiu [29]. distribuição topológica. de per si. mas não à cadeia de sistemas que se sucedem. é que ela mesma acabou se transformando. por motivos que esperamos ter deixado suficientemente claros nos dois itens anteriores.160 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO com as culturas judaica e muçulmana. Já estamos bem cientes de que a modernidade científica (D/D) [30] não poderia ter sobrevivido e chegado à sua pujança atual sem a instituição de um sujeito (I) intervalar à racionalidade cristalizada. Afirmamos isto num duplo e grave sentido: a) Sob um ângulo. Ao contribuir decisivamente para a realização da cadeia que o aprisiona. culturas . tornou-se compulsivamente etnocida. salta à vista. a cultura judaica da diáspora européia ocidental. nesta condição. com a passagem da fase produtivista à fase consumista. foi precisamente a característica letal da razão formal que deu ensejo a que uma determinada formação cultural arcaica viesse a ela se acoplar de modo visceral. já fragilizada.

a justa avaliação e análise do “histórico familiar” levam-nos a conjeturar que o mais provável é que o colapso da Modernidade seja precedido de uma cisão profunda no seio do judaísmo. e de outro. como a ameríndia do norte. por outro lado. os adoradores do bezerro de ouro. Seriam muitos os caminhos logicamente concebíveis para se chegar à cultura nova. talvez a maior. o nacionalismo ritualístico formal fariseu. á sua própria consumação e. é ela que dá sustentação à Modernidade. de um lado.. de um lado. Porém. b) Sob outro ângulo. Moisés e seus partidários. cujo significado não teria sido outro senão a servidão voluntária vis-à-vis o racionalismo cientificista (D/D). uma parte da comunidade. também no advento do cristianismo (I/D) vimos um racha entre. impedindo que a própria família cultural lógico-identitária se desdobre em direção ao mais elevado. Se isto permitiu. Deveras. constatamos um racha entre. como a cultura neolítica negra. É também muito provável que. no advento do judaísmo (I). e do outro. o Holocausto venha a se constituir no fulcro . irá renegar a postura prómodernidade de quase um milênio (postura que se enrijece depois da expulsão da Espanha). fez.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 161 logicamente mais primitivas.. o trinitarismo universalista. quebrar a hegemonia asfixiante do trinitarismo cristão medieval. especialmente na diáspora da América e Europa Ocidental. nos contemple com o mais belo de seus frutos: a cultura nova hiperdialética qüinqüitária. através de sua formação cínica anglo-saxônica). de um lado. foram já exterminadas ou vão inexoravelmente em tal direção. a liderança cultural do mundo guinar em favor da família lógico-diferencial (ora dominante. desta sorte. intensificando-se a crise da Modernidade. por sua dimensão real e pelo investimento simbólico que vem acumulando. é razoável esperar que. Com estes precedente históricos. e outras que não se cuidarem.

onde o outro é ainda o mesmo. doravante. independente do tamanho de seus pecados e infidelidades. só que em estado de falta. o povo judeu tinha a opção de. o judaísmo pode ocupar o lugar que assim vagava . Israel passava a contar com verdadeiros inimigos externos. configurando uma Terceira Aliança. De certo modo. isto é. esta tensão interna já existe há muito entre os judeus e está precisa e profundamente gravada no conflito entre o historicismo unário tradicional (I) e o historicismo trinitário moderno (I/D) [33]. onde vinha operar o deveras outro. Além de vivenciar a eternidade no próprio curso da história. Esta parte da comunidade irá então se juntar a outras forças culturais emergentes. ficando todo o vir a ser determinado integralmente pela polaridade obediência/rebeldia. Na realidade. vivenciá-la também como o caminhar para o eterno. tal como fora antes dado . O papel de maior ou menor proeminência da comunidade judaica reconvertida em marcha para a cultura nova dependerá menos dela do que de quanto e quando outras forças sócio-culturais resistentes à Modernidade tenham conseguido tomar consciência de sua destinação possível e se arregimentar de modo eficaz para a sua consecução.162 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO emblemático desta reviravolta. passando a ser considerado menos um crime que um castigo ordenado pelo próprio Deus para punir uma grave falta no cumprimento dos sagrados deveres da Aliança (precisamente a adesão subordinada à Modernidade científica). dar oportunidade a que seu historicismo unário se bifurcasse. já agora impossível de ser violada. Ele terá seu sentido reciclado. como antigamente. Em contraposição se podia agora assumir uma historicidade plenamente dialética. ao ajudar a empurrar o cristianismo patrístico trinitário (I/D) em direção à escolástica lógico-formal (D/D). O historicismo tradicional tornavase assim o degrau zero da dialética.

Isto nos dá uma medida da intensidade do drama que representa hoje aquela vida bifurcada. apesar de tudo. os judeus reentraram completamente na corrente da história. [34] (negritos nossos) A reentrada dos judeus na História é um fato. Yerushalmi. alternativamente interpretável como grave ofensa à Lei. a comunidade judaica vive uma vida bifurcada. Sob a ótica desta última. que no fundo não visam outra coisa senão impedir que se realize a vontade soberana de seu próprio Deus. duas das mais fundamentais instituições da Modernidade... A vida bifurcada reflete o conflito entre estes fatos assumidos e o compromisso com a tradicional concepção unária da história. que. prestes a atrair sobre a comunidade a justa ira divina. por conseqüência. em seu livro Zakhor. Como resultado da emancipação da diáspora e da soberania nacional em Israel. e ainda assim sua percepção de como chegaram ali e de onde estão é freqüentemente mais mítica do que real. ainda resiste. não pela bigorna do historiador. retrata bem esta forte tensão interna no judaísmo de nosso tempo: Atualmente. O Holocausto não teria sido suficiente. em verdade. [35] . O mesmo autor acrescenta: O Holocausto já engendrou mais pesquisas históricas que qualquer acontecimento da história judaica. mas pelo cadinho do romancista. mas não tenho dúvidas de que sua imagem esteja sendo forjada. o correlato do serviço que se presta à lógica do inimigo e. é o fantasma que tanto inquieta e suscita ações preventivas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 163 aos cristãos originários. o sucesso mundano seria. podemos estimar sua profundidade pelo peso que a cultura judaica teve e ainda tem na construção do mercado financeiro internacional e na constituição do sujeito da ciência. portanto.

vale dizer.. nos referidos conflitos os judeus se encon- . desde já se poderia saber. que poderia colocar em dúvida o significado e valor do que ele chama ‘emancipação da diáspora’ ocidental –. Muito pelo contrário. [37] Mas não ficam só aí os sintomas. aquele que opõe os EUA ao “terrorismo” islâmico. São justamente nossas incursões de certo modo furtivas ao romance [36]. isto nos parece uma leitura simplista.164 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pareceria a princípio paradoxal: a nova historicidade hoje dominante. não vem para ficar. os conflitos que em sua primeira metade opuseram as grandes nações européias. uma renovada acepção de leitura. Aqueles que estão alienados do passado não podem ser levados a ele somente através da explicações. que hoje mais de perto prenuncia este modo de acesso à verdade do ser hiperdialético. escrito ou filmado. E se lamenta ele com boa razão: O divórcio entre história e literatura tem sido calamitoso para a narrativa histórica em geral e a judaica em particular.. como se fossem “as guerras de Gog e Magog”. como tradicionalmente.. não mais são interpretados de modo alegórico. necessariamente também de evocação. naturalmente. posto que a verdade da nova cultura irá se revelar justamente pela leitura. nos cadinhos dos romancistas. pois a imagem daquela grande tragédia estaria sendo cosida alhures. No recém-acabado século XX. Não. na segunda metade opôs os EUA à URSS e agora. Yerushalmi percebe bem a concentração de estudos históricos em torno do Holocausto e mesmo sem atinar (ou resistindo a atinar?!) com o verdadeiro significado do fenômeno – um desesperado esforço de destarte subtraí-lo a uma interpretação tradicional unária (mítica?!).. já no século XXI. conclui que este será um esforço baldado. A nosso juízo. esta última assertiva reflete uma profunda intuição.

que os próprios (pelo menos os maiores beneficiários) tentam dissimular. nesse interregno. que de certo modo traduz uma capitulação lógico-cultural. o mais que pode acontecer é a desobediência à Lei e o castigo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 165 tram bem firmes aliados sempre de um dos lados. que poderia depois suceder na história. como de fato ensaiou a Renascença (século XVI) e depois. (Ver figura 5. que não fosse outra vez as mesmas faltas e as mesmas punições? Isto é completamente incompatível com o papel que os judeus assumiram na Modernidade. Tal engajamento nestes eventos precisa ser rápido e intensamente encoberto pelo historicismo dialético moderno para impedir a todo custo a insurgência de interpretações ‘míticas’ tradicionais. forçando a história unária a sair do seu recolhimento e vir se articular com a história universal. o que soaria para nós como um paradoxo.10). há um processo temporal que vai da Criação a uma Escatologia. Desde que isto está muito bem posto e atestado na Torá. Podemos entretanto ficar certos de que nenhuma das duas correntes irá prevalecer a médio ou longo prazo. Na concepção unária. abertamente. O tradicionalismo judaico poderia parecer a muitos um anti-historicismo. Como é possível que a mais tradicional corrente ideológica de uma cultura descobridora da significação da história possa ser anti-histórica? [38] Na verdade. contudo. até que venha ocorrer uma síntese hiperdialética (I/D/D) que subsuma o historicismo unário da fé (I) e o historicismo trinitário do engajamento (I/D). . ele é tão somente anti-dialético e reage mais fortemente quanto mais se vê ameaçado pelas concepções modernas de historicidade. o historicismo alemão do século XIX. Não é nenhuma surpresa que a maioria dos historiadores modernos (dialéticos) estejam nas universidades americanas e européias e que esta corrente aparente hoje deter uma posição de hegemonia. A tensão só poderá aumentar.

166 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Futura concepção qüinqüitária da História. já mostramos com detalhes.10 – Da “vida bifurcada” à resolução lógico-qüinqüitária A hiperdialética. pode ser considerada como uma dialética das dialéticas. Hiperdialética. a dialética propriamente dita (I/D) seu momento de antítese e. onde a lógica transcendental (I) é seu momento de tese. Estas não são profecias [40]. afinal. antecipada pelo romance “VIDA BIFURCADA” I/D/D I I/D I I/D I Figura 5. a hiperdialética seu momento de síntese (I/D/D) [39]. . são meras especulações lógicas. se bem que um pouco entradas já no novo ‘espírito qüinqüitário’.

na realidade. achando que com este prudente distanciamento das baixelas. Começamos com a crítica que aí está. Ernest Cassirer. ou um estádio histórico superior. Seu semblante feroz parece assustar o poder que por sua vez simula que ao vê-la treme de medo e ambos. W. podemos identificar três posições críticas em relação à Modernidade. Adorno. imprecando um contra o outro. Crítica cultural e sociedade O mito. T. a arte. mas. Nem serão aqui contados. Criticam.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 167 6 Crítica da Modernidade O crítico da cultura fala como se representasse uma natureza intacta. talheres e cristais conservam suas mãos limpas. Ensaio sobre o Homem. Introdução . em essência. é como preferem legitimar. apenas para ocupar lugar.1. pertence àquilo sobre o qual imagina alçar-se. Agora. Não valem mais do que estas cinco linhas. Há os que se alimentam só das sobras e migalhas. a religião. mas tacita- 6.e a tarefa da filosofia é tornar esse tema audível e compreensível. a linguagem e até a ciência são hoje vistos como diversas variações de um tema comum .

mas pelo que realmente é: uma cultura tipo nodal. correndo os riscos inerentes à procura. seriam três as posições que se pretendem críticas da Modernidade que aqui examinaremos: as ideologias. cujo vigor se sustenta na ciência desejosa (do uno/trino) e no seu preciso complemento .o sujeito liberal sujeitado. Procede à critica da Modernidade. as que ultrapassam as ideologi- . Em segundo lugar. à Grécia e seus poetas trágicos. só se dispõe mesmo a voltar atrás. Somente desta posição é que se estará deveras enfrentando essa nossa velha preguiça de pensar o novo e. Contestam o poder porque o querem o mais perfeito. Haveria ainda uma última posição crítica. Em suma. mas no encobrimento de sua mortal fragilidade. mas não conseguindo vislumbrar o que a possa suceder.168 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente justos e acertados. tomando-a não como um modo de produção. desconsiderando que estes já eram lá censurados por exorbitar em dialética e fingimento. A rigor. É o que denominamos ideologia. com fé e engajamento. na medida em que se dispõe à crítica da Modernidade. a de quem espia da quinta margem do rio a história da cultura passando ao encontro de si mesma. de prontidão para suportá-lo pegando de cada lado pelo sovaco. assim que mostre o menor sinal de esmorecimento. deve-se reconhecer. conseguem destarte afastar quaisquer terceiros e por aí o perigo de uma veraz subversão. há quem deveras critique o poder imperante porque já é capaz de reconhecer e apontar para o que lhe é o mais próprio . para mais além da Modernidade. trata-se da única posição subversiva. não na soma de suas virtudes. ora o uso sócio-espetacular dos meios de reprodução e comunicação.ora a ciência (ou a técnica) como expressão terminal de uma insidiosa metafísica. da autenticidade onto-lógica. à esquerda e à direita do paradigma anglo-saxão moderno. naturalmente.

indivíduo ou coletividade. dizemos cultura da pré-identidade ou pré-I). já na atualidade. dialético. De modo conseqüente. a segunda. vivendo a cultura científico/tecnológica. a primeira. cultura moderna ou científico/ tecnológica (formal. unidade dos dois anteriores (I/D) e formal. numa estreita homologia ao que a civilização romana foi para a cultura grega. clássico. esta última. da dupla diferença ou D/D=D/2). A rematada impotência das ideologias . isto é. Partimos de uma antropologia filosófica que concebe o homem. pelos impérios de base agrícola da Antigüidade. em sua linha de avanço.2. Este já teria passado por duas etapas ditas ecológicas [4]. cuja tônica é a identificação com a Natureza (em termos lógicos. pelo trabalho. na qual a verticalidade criadora. Seguiram-se as etapas propriamente lógicas: cultura judaica (da identidade ou I). que. Em termos econômicos (obvi- 6. governada pela lógica formal ou da dupla diferença (D/D = D/2). representada pelas sociedades tribais de caçadores/ coletores do paleolítico. cultura greco-romana (da diferença ou D). em decorrência do próprio êxito. Esta se encontraria agora em sua fase civilizatória. capaz de operar um pensamento hiperdialético (I/D/D=I/D/2)[2] síntese do pensar da identidade (I). do terceiro excluído ou da dupla diferença (D/D=D/2). e.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 169 as. se coloca como o outro da Natureza (da pré-diferença ou pré-D). vai sendo aos poucos substituída pela horizontalidade imperial. cultura cristã trinitária (dialética ou I/D) e. para completar. Estaria hoje a humanidade. a história da cultura é então concebida como processo hiperdialético de auto-desvelamento do ser próprio do homem [3]. da diferença (D). mas ficam aquém da crítica radical à cultura. como um ser lógico-qüinqüitário [1].

e aquilo que mais abertamente expõe sua fragilidade congênita . quem deve desenvolvê-la. para permitir o mapeamento de todas as alternativas críticas ideológicas. podendo voltar sobre si próprio como dissimulação da própria dissimulação. como veremos. em especial nos últimos 150 anos. que é o que hoje mais se quer ver. Mas o subterfúgio não pára aí. mas de seu modo fingido. Atente-se que a fragilidade não é da técnica enquanto tal. Ora. Na verdade. o que está por trás de todas as disputas ideológicas do mundo moderno. ainda que descolado. podemos tomar algo bem familiar a nós brasileiros - . proporcionar-lhe a imprescindível orientação e dela colher o primeiro e o melhor proveito? Insistimos no aspecto dissimulado das ideologias porque elas deixam sempre intocadas. à subversão da Modernidade. deixar de lado justamente aquilo que constitui a essência mesma do dinamismo da Modernidade a ciência . a um inconseqüente capitalismo financeiro internacional. Quem deva ser o seu sujeito. a ciência e a técnica. de certo modo. Para nós. não pode ter outra função senão a de bloquear os caminhos que podem levar. de fato. paralelo. todas elas já historicamente exercidas e. é a questão do sujeito da ciência. da promessa enganadora nela implícita de levar o homem à perfeição (biológica) ou à vida eterna [5]. A simples caracterização da Modernidade como cultura governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) é o bastante. financiá-la. dissimulada.a técnica exorbitante . Para ilustrar isto de maneira exemplar. isto é. ao abrigo de qualquer suspeita. isto significa a passagem do capitalismo nacional de produção ao capitalismo globalizado de consumo. aliás.170 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO amente redutores). esgotadas em suas promessas. uma promessa que não tem outro propósito senão o de tornar dispensável o advento do homem pleno lógico-qüinqüitário.

tal como ele. pois chegam a se fantasiar de sociais-democratas para melhor impor sua prática neoliberal. O leitor pode estar satisfeito. não têm limites. no lugar de outro já gasto ou ultrapassado pelos acontecimentos. a psicologia da consciência torna-se psicologia adaptativa do eu. mas apenas para colocar um sistema novo. a arte vira técnica de marketing (ou. Nos extremos. parte superior) O poder hierárquico da lógica da dupla diferença funcionaliza o que seria próprio e específico às lógicas subordinadas: a política torna-se ciência política. Isto eqüivalia a uma discussão acerca do sujeito da razão científica (D/2). mas sim vétero-liberal! Bem. instalações). trazia. Dentre as “opções” ideológicas. cinematográfico sujeito john fordiano . de uma latinidade aquecida pelo trópico. no nosso caso particular.que propõe a substituição do sujeito liberal I pelo sujeito coletivo (politicamente articulado) I/D. comunista. que também não é neo. velada.1. mas os dissimuladores não. acriticamente a favor da ciência e da técnica? O rótulo Positivismo. em estado de degradação voluntária. já de origem. incansável empresário schumpeteriano. intacto. distinguiríamos inicialmente o paradigma anglo-saxão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 171 o Positivismo. temos de um lado a “opção” de esquerda . de como proceder a substituição ali do indivíduo liberal anglo-saxão (I) por um presumido espirito comunitário (I/D) da latinidade jesuítica [6]. concomitantemente invertendo o . revolucionária . Que pode isto significar se todos as correntes ideológicas são. É ele o sujeito que assegura com sua viva determinação ou iniciativa a continuidade da cultura da morte. aquele que se decide pelo sujeito liberal I.jesuítica. socialista de verdade. uma discussão sobre a adaptação da racionalidade moderna (capitalista) ao âmbito da latinidade. que de fato transcende os sistemas. (Ver figura 6.

na sua versão mais primitiva. pelo sujeito libidinal. temos a “opção” de direita . porém.fascista. que vai propor também a substituição do sujeito I. telúrico. agora. igualmente invertendo o sentido da relação subordinativa vis-à-vis a ciência. nazista.As ideologias . De modo quase simétrico.1.1. (Ver figura 6.172 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sentido de sua relação de subordinação com respeito à ciência. tradicionalista -. à direita) Figura 6.1 à esquerda) A designação socialismo (I/D) científico (D/2) não lhe poderia ser mais apropriada. pelo sujeito romântico. (Ver figura 6. o “povo” ou.

que não se interessam por quaisquer sujeitos. especificamente. e no Brasil o getulismo (consolidação do mercado interno. implantação da Cadeira de Moral e Civismo em âmbito nacional vendendo a imagem do Brasil Grande) e talvez muitos outros. enganosa. uma razão profunda para esta equivocação: é que com freqüência uma formação ideológica de direita se apresenta não como uma troca de sujeito. que seria a recusa de qualquer sujeito . porém. indefectivelmente acompanhada de propostas de modernização científico-tecnológica da produção e do sistema educacional. pelo deslocamento do social universal (ou internacional) em favor do mesmo social. ademais. instalação do Colégio dos Nobres) e o salazarismo. mas precisamente entre o nacional particular (D) e o comunitário universal (I/D).nazista .é. mas como se fora uma simples particularização de um sujeito já dado. organização do ensino básico) e o Movimento de 64 (aniquilamento das ideologias “exóticas” internacionais. E mais. Assim foi gerado em Portugal o pombalismo (expulsão do jesuitismo internacional. criação das grandes empresas públicas. Sua designação mais própria seria nacional (D) científico (D/2) contrastando com socialismo (I/D) científico (D/2). profissionalização na educação básica. Há. as leis trabalhistas. na medida em que sua oposição à “opção de esquerda não acontece entre o nacional (D) e o científico (D/2). . de algum modo. agora restrito ou particularizado (o nacional). basta-lhes a lógica im-pessoal de um hiper-estático poder burocrático.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 173 Alertaríamos que a designação nacional (D) socialista (I/D) . D/2. Haveria ainda uma quarta possibilidade.é a posição das “cúrias”. Esta observação é importante na medida em que o aludido fenômeno aparece reiteradamente na história luso-brasileira. mesmo que fossem elas próprias.

as inversões propostas sempre revertem. Por isso. Na opção nazi-fascista. trata-se de direcionar a ciência e a técnica para a solução dos grandes e urgentes problemas (ditos) sociais . se iludem com a possibilidade de promoverem a inversão da relação de subordinação entre a ciência e seu sujeito.alimentação. o que . educação.174 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Como já tivemos oportunidade de mostrar [7]. habitação etc. e não ao contrário. trata-se da pretensão de colocar a ciência e a técnica a serviço da preservação dos valores e da integridade do “espírito do povo” (D). D e I/D . e uma burocracia de estado vai assumir um poder totalitário em seu exclusivo proveito. mais dia menos dia.. Ver figura 6.2.Sujeitos e inversões ideológicas Na opção jesuítica ou comunista. esquerda e direita."POV O" Figura 6.governando seus pretendidos e pretensiosos sujeitos -.2 .subsume as lógicas I. as duas “opções extremas. Assim necessariamente acontece porque a lógica D/2 . SUJEITO CO LETIVO R Ú SS IA I/D SOCIALISMO CIENTÍFICO A O M XÃ IG S A D A R LO PA NG A D/ 2 M O D E R N IDA D L Ó G IC A D A C IÊ N C IA NACIONAL SOCIALISMO OU "NACIONAL CIENTÍFICO“ AM ÉR ICA I D "E U R O PA" SUJEITO LIBERAL SUJEITO ROM Â NTICO OU NAC ION AL . pois. qualquer destas “opções” vai se inverter.que governa a ciência . saúde. Em ambos os casos chega-se a uma impossibilidade.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 175 acarreta a perversão dos “projetos políticos que se dizem fundamentados naquelas “opções . como se depreende da teatralidade do barroco jesuítico. não nos pode causar grande surpresa o troca-troca ideológico das “elites” do Brasil. tendo-se em conta a essencial indiferença das diferenças ideológicas. A propósito. como a prática do fascismo. No paradigma anglo-saxão o sentido da subordinação aparece tal como logicamente deve ser: por definição. em especial. acabando todas reunidas em torno do pensamento único. Uma conseqüência também evidente da posição de direita é a supremacia atribuída à estética D (ou à poesia. pois. na medida em que só lhe é permitido operar de modo intervalar entre sistemas (D/2) que se superpõem e se sucedem. e a força que na Alemanha assumiu o fascismo. a ele sujeitado. dos românticos e seus derivados. que por isso mesmo jamais perverte [8]. Não há. como a história do século XX bem o demonstrou. fica aqui mais do que evidente. nada de estranho quanto à afinidade entre o sintomático helenismo desmedido dos filósofos e poetas alemães. o sujeito liberal se afigura um sujeito realmente transcendente ao sistema (I). O comunismo responde com a politização da arte. A similitude da “opção” de direita com a problemática cultural grega. Esta é uma configuração essencialmente perversa. [10]” Na “opção” de esquerda acontece precisamente o contrário: a prevalência do político sobre a arte. examinada por nós anteriormente [9]. da “pedagogia” grandiloqüente do realismo socialista e assemelhados. porém. um sintoma anotado com grande acuidade por Walter Benjamin: “Eis a estetização da política. acordes em nada pensar para realmente mudar. assunto a que voltaremos mais detalhadamente no próximo item. decidindo sistematicamen- . ou à música dramática) sobre a política I/D.

Podemos agora nos aventurar para além do âmbito das ideologias. o que nela representa a ciência e em particular a física. para compreender de onde ainda dimana o seu vigor. revistas e principalmente nos jornais e especiais das TVs [11]. A insistência numa tomada de posição exclusiva de tal natureza nesta altura da História já não é mais um equívoco (que já antes era grave). chegam ao ponto de controlar cuidadosamente a “compra de votos no Legislativo para assegurar uma cota de votos-contra. que bem sabemos agora o porquê. Justamente estribados nesta compreensão geral é que negamos qualquer valor realmente subversivo à ação exclusivamente político-ideológica.176 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO te contra os mais elementares interesses da maioria do povo brasileiro. simulando que tudo aí acontece democraticamente. Paralelamente. conluio com o que há de pior na Modernidade. Só assim poderemos começar a nos mobilizar para a verdadeira subversão da Modernidade. o passo decisivo para o encontro do homem consigo mesmo. de estofo lógico-filosófico. alta traição aos interesses da humanidade. da Modernidade. apenas (logicamente) para frente e para o alto. afinal.3. que é real. para mais agravar sua constitutiva fragilidade. Recapitulando. é. será preciso denunciar. para o apressamento da chegada da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. é hoje. na verdade. é necessário proceder a uma crítica radical. Para além das ideologias . indefectivelmente presente em todos os diários. Para não compactuar com o que aí está. Não há saída nem à esquerda nem à direita. consideramos as ideologias como 6. onde verdadeiramente começa o processo de crise e superação da Modernidade. a dissimulação que é presentemente a técnica. em especial a biotecnologia. Depois de fazerem das eleições um só balcão de negócios.

buscando uma avaliação objetiva das condições de continuidade do vigor criativo da ciência. representado por uma linha que traspassa a Modernidade. qual deva ser o sujeito da ciência e o sentido de sua relação de subordinação a ela.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 177 um fenômeno social típico do mundo moderno. de outro lado. o enfoque ideológico. Ora. Localmente (isto é. como sua questão maior. o homem jamais abandonará a busca da autenticidade. lógico-filosófico da problemática cultural. visto de dentro da própria Modernidade) existiria ali uma certa ambigüidade processual . de um lado.3 tentamos pôr em evidência a relação conceitual conflituosa entre. reacionário. Na figura 6. tentando decifrar os mecanismos ilusionistas associados à técnica. não irá faltar de modo algum ao encontro marcado que tem consigo mesmo. mas que vista de um pouco mais longe se nos afigura como inexoravelmente ascensional. representado por um plano solidário à própria Modernidade. diacrônico. sincrônico.como é o caso na atualidade do chamado processo de globalização -. questionando-as. assumem. . a compreensão do processo de crise e superação da Modernidade requer exatamente o contrário: que concentremos nosso esforço crítico sobre a ciência e a técnica. cuja característica central é a desconsideração da ciência como questão (aqui não se discriminando ciência e técnica). Pouco importam os percalços temporários .ao mesmo tempo para trás (ciência) e para a frente (técnica exorbitante) -. o enfoque crítico. e. em contrapartida.

do affaire Heidegger e o nazismo (incluída aí a ultrasensível questão do anti-semitismo). então. ao mesmo tempo fosse um crítico feroz da ciência e da técnica? Seria ele um mero reacionário de direita ou um profeta da cultura nova? Ou ambos. Que pensaríamos. Parece-nos que o que mais tem atrapalhado a compreensão daqueles acontecimentos históricos envolvendo o filósofo alemão tem sido a atitude apaixonada de todas as par- . CULT URAL TÉCNICA EXORBITANTE "PLANO SINCRÔNICO" IDEOLÓGICO Direita MODERNIDADE Esquerda D/ 2 CIÊNCIA NOSTÁLGICA (I/D) Figura 6. de alguém que fizesse uma aberta “opção” por um sujeito da ciência .3. especificamente.178 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O HOMEM EM BUSCA DE SI MESMO (I/D/ 2 ) "LINHA DIACRÔ NICA" DO PRO C. pelo “povo” . mas precisamente do caso Heidegger. Heidegger – a ciência e a técnica Estamos agora um pouco menos mal preparados para enfrentar questões de maior complexidade.e.por exemplo.1. ou nem um nem outro?! O leitor já deve ter percebido que não estamos diante de uma situação hipotética qualquer. Embora este já se tenha tornado um tema recorrente.3 . o fato é que até hoje não foi tratado com a devida profundidade e amplitude.Plano sincrônico ideológico versus linha diacrônica do processo cultural 6.

É preciso compreender que sem uma vigorosa reação à expansão semítica. Preliminarmente. É a partir de então que esta cidade passa a se constituir num dos principais centros financeiros da Europa [13]. Este processo num primeiro momento é anti-islâmico. Isto. Nada pior. sem dúvida. uma das raízes mais antigas e fundas do anti-semitismo europeu. anjo ou capeta. Há um outro importante momento histórico. a Europa simplesmente não existiria e talvez ainda não tivéssemos nem mesmo entrado na Modernidade. Isto representou um grande impulso no processo de “modernização econômica” da Alemanha. Aí está. com intensos reflexos na sua vida cultural. toma-se como pressuposto que ele tivesse. O surto de helenismo exacerbado e excludente talvez tenha sido sua irada reação inconsciente e. porque é exatamente daí que se pode derivar os mais importantes ensinamentos. a nosso juízo. Começaríamos lembrando que coube em parte aos alemães do sudeste a resistência à penetração islâmica na Europa via oriente [12]. entre as quais estavam algumas de já tradicionais banqueiros. pois. o que fortemente impactou a intelectualidade alemã [14]. tal qual ocorreu em Espanha e Portugal. à época do seu reitorado. para então bem decidir. valeria fazer um breve resumo da história do anti-semitismo alemão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 179 tes. por volta de 1800. quando ocorre uma significativa migração de famílias judias para Frankfurt. os judeus. está muito longe de ser verdadeiro. justo por isso. a mais dramática em . razão pela qual consideramos imprescindível que se explicite e se aceite o contraditório e o paradoxal das palavras e das atitudes. que a colocação maniqueísta: Heidegger. o alemão. em particular. a plena compreensão e o acesso às informações suficientes sobre a situação alemã e internacional. na circunstância. Sendo ele o maior dos filósofos de nosso tempo. mas tem como seqüela desdobrar-se para alcançar seus primos remanescentes.

Antes. só se faria pela prévia agressão à cultura (dos outros). . sim. A agressão à cultura era então uma conseqüência do lucro desordenadamente buscado. Por fim. Este movimento representa o abandono da expectativa da consolidação de um proletariado revolucionário internacional (I/D) . que era quem mais sofria. Isto implicava que a expansão capitalista.180 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO suas conseqüências. do movimento soreliano [15]. tem sua razão histórica. o capitalismo sofre uma grande mutação: a função de principal motor do sistema passa da acumulação/produção para o marketing/consumo. com a expansão do capitalismo financeiro internacionalizado. antes de mais nada. na Alemanha o nazismo ganhou a proporção que tomou. Nesta nova etapa da expansão capitalista importa. a implantação de atividades agrícolas ou extrativo minerais na periferia do capitalismo acabava provocando a desorganização das relações sociais em geral e do mundo da cultura. econômica e emocionalmente.para ele já se tornara evidente o processo de aburguesamento das massas européias logo aos alvores da era do marketing e do consumismo. Por tudo isso. se apoderar por atacado do imaginário do outro [16]. Outro episódio de peso foi a chegada à Alemanha. suas esperanças revolucionárias se voltam para a pequeno-burguesia nacional (D). É exatamente aí que a designação nacional socialismo. Em conseqüência. doravante. ou nazismo. O nazismo acabou sendo. ainda na passagem para o século XX. a agressão cultural passou a ser condição do lucro. fenômeno que não pode ser de modo algum explicado pelo ativismo de um punhado de desatinados. Com o capitalismo de marketing o processo se inverte: doravante é a desarticulação da cultura (ou sub-cultura) periférica e das relações sociais tradicionais que se torna pré-condição da penetração econômica global. chamamos a atenção para o fato de que. no início desse século.

Heidegger [18] afirma. lá pelos meados da década de 30. Ver figura 5. segundo ele. que a Europa (tendo a Alemanha como centro). diríamos nós) entre duas tenazes: de um lado a Rússia (tendo como sujeito da ciência o ser coletivo I/D. pela Floresta Negra. telúrico. pelas águas do Reno e do Neckar. pelos gregos. em particular da Alemanha. Em suma: pelo sujeito lógico diferencial ou prometéico. D. a estetização da política!). faz sua opção a que não se pode negar o caráter ideológico: o faz pelo sujeito romântico. I/D/2 VONTADE POLÍTICA OU “ VONTADE COLETIVA” HISTÓRIA CIÊNCIA I/D F E S R CO A N LA K F D U E R T D/ A ÃO IC Ç N A C UL É T IM S D E I/ D /2 2 H P E H O V ID IS O E G T G Ó E R R IC O I VONTADE INDIVIDUAL D VONTADE NACIONAL OU VONTADE DO POVO CULTURA Figura 6. senão do sujeito da ciência? Onde então poderia estar.4 . É neste contexto histórico que Heidegger. pelo povo. pelo torrão natal. pelo trágico. este sujeito desejado.4.Heidegger e a questão ideológica . que não na posição lógico-diferencial D? Ver figura 6.4. De quem estaria falando Heidegger.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 181 uma reação antecipada ao capitalismo consumista ou de marketing (além de representar. pela poesia. como o socialismo soviético foi uma reação retardada ao capitalismo produtivista ou de acumulação (além de representar a politização da arte!). está metafisicamente (logicamente. no caso da Europa. naturalmente. acrescentaríamos nós) e de outro a América (tendo como sujeito da ciência o indivíduo liberal I). o filósofo [17].

no lo racional en oposición a lo irracional (porque esta definición se basa en la frase: el hombre es un animal {I} racional {D/2}. Estos son los conceptos fundamentales de nuestro futuro. entretanto. A figura 6. Isto significa que ele vai muito além dos limites estreitos da questão ideológica e se coloca como um verdadeiro filósofo de sua época. Não se precisa do livro do Victor Farias [19] para se chegar a esta conclusão. a algo de determinado nível lógico só se pode contrapor algo . sob o poder castrador do ultimo [20]. além das ideologias). I/D) [21]: El concepto no es aquí ya más lo pensado. (colchetes nossos) [22] De fato. deslocando-se da diagonal machista (D/2. I) para a diagonal feminina (D. e isto vinha já de Aristóteles.182 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Depois disso. Ademais. ser reduzida a uma mera tomada de posição ideológica precisamente em razão da crítica insistente e feroz que faz à ciência e à técnica. É certo que ela não chega a ser lógico-qüinqúitária (I/D/2). lo imaginado (lógica). Sob este ponto de vista. não pode caber a mínima dúvida quanto ao seu profundo e prolongado comprometimento com o nazismo. um radical crítico de sua cultura. a técnica é o próprio modo de ser do homem quando concebido como apenas animal racional. De la necesidad de superar este antiguo “concepto” se sigue una mayor amplitud del novo concepto. Heidegger então anuncia com bastante clareza em que direção irá se mover. Heidegger é de uma enorme clarividência. basta saber ler a própria lógica da situação e das escolhas possíveis. Sua posição não pode. como se pôde ver. mas é bem o seu simulacro. ela é uma articulação entre a vontade individual (determinação de projeto) (I) e o saber científico (D/2). A técnica é algo de natureza metafísica (no caso.4 deixa bastante claro que não se pode logicamente contrapor povo e técnica.

Pelo já visto. D).El pueblo es hecho por la historia. Embora a lógica da história seja a dialética. ela aqui se mantém ← ← . um desdobrar-se em seu próprio ser aberto (além de D). [24] Entrementes. na direção do futuro: . [26] (negritos nossos) A opção pelo sujeito povo (D). síntese da identidade e da diferença (I/D). vale dizer. contra a sociedade tecnificada (D/2 I) dever-se-ia confrontar não apenas o povo (enquanto apenas vontade. mas uma decisão (não necessariamente consciente).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 183 de um nível lógico igual ou superior. entrementes. para o nosso filósofo. a História. a história aqui se reduz ao acontecer da própria tradição. não é algo inerente à condição de ser povo. em Heidegger. Tornar-se um povo histórico não é uma necessidade. [25] (negritos nossos) Lo que es desde lo ya sido es la tradición. nada tem de uma simples sucessão de acontecimentos fortuitos destituídos de significação. Ella es el carácter más propio del acontecer y lleva la determinatión propia por sobre nosotros hacia el futuro. él pasa a la historia (futuro) en tanto que se sale da historia (pasado). estaria pois essencialmente associada à problemática de sua entrada ou saída na história (I/D). [23] Cuando um pueblo pasa a la historia ello quiere decir: él entra al futuro. mas o povo e sua vontade de tornar-se um povo histórico (D I/D). Assim. é uma história sujeitada à lógica da repetição (do mesmo!). o acontecer só verdadeiramente acontece como modo próprio de ser da tradição: Historia y acontecer no son ya más un continuo de sucesos: Acontecer es tradiction.

constitui uma evidente anomalia lógica. a nosso juízo. Heidegger não consegue ir muito mais longe do que lhe facultava sua própria cultura.2) Em que pese a sagacidade e o poder de enxergar para além das ideologias e mais ainda para aquém de seu próprio tempo seguindo ao reverso as marcas significantes deixadas meio às sendas do esquecimento do ser. sem conseguir deixar de ser. Por tudo isso cometeu muitos e sérios enganos. mas acaba sendo também vítima desta mesma excentricidade [27]. (Ver figura 6. Heidegger. mas o tempo histórico das culturas. que não era o espaço. apenas um simulacro. pois. teria tido o maior horror a Lacan e seus “matemas da sexuação” ! [28] b) Não distingue ciência e técnica no que lhes é o ← ← . portanto. o que a rigor propõe é a substituição da técnica machista (D/2 I) por uma anti-técnica feminista (D I/D). imaginamos. não consegue se assenhorar do aberto em que se viu. Conclui-se. sujeitada à lógica da diferença (D). tendo a lógica da identidade I a seu serviço. por pressupô-lo apenas lógico-dialético trinitário (hegeliano) e não o que verdadeiramente é. um pseudo ser lógicoqüinqúitário) acabe desembocando numa anti-técnica (governada pela lógica da diferença D tendo a lógica dialética I/D a seu serviço. Isto vai implicar em que sua crítica da técnica (governada pela lógica formal D/2. mais um modo pseudo-lógicoqüinqüitário (pseudo I/D/2). que aquilo que vinha para se contrapor à técnica.184 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ainda refém de sua proveniência. Tira bom proveito de um certo descentramento alemão em relação à Modernidade. porém. tal como a técnica. deveras o fazia. talvez. também um pseudo ser lógico-qüinqüitário). que se pode assim resumir: a) Embora tenha escapado dos estreitos limites do reacionário plano ideológico. A sujeição da história à tradição. hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. Em suma.

É um juízo quase unânime que a Escola de Frankfurt. mas nas suas máscaras sedutoras. a segunda fingindo ser já o que está ainda por vir.os meios de reprodução e comunicação de massa Vale a pena aqui fazer uma breve referência à Escola de Frankfurt (sempre Frankfurt!). em conseguir realizar uma reforma radical de sua própria universidade –. porém. A Escola de Frankfurt . É bem conhecida a sua dívida para com Marx (I/D) e Freud (D). que ela é ainda maior para com Heidegger. parece-nos. [29) . daí. no fim de seu périplo filosófico. c) Não percebe que o problema da técnica não está no que ela é. por isso sub-avalia a força criativa da ciência e não consegue perceber quanta oportunidade há para denunciar a fragilidade da técnica quando em estado de ilusionista exorbitância. Havia um precedente que lhe era bem familiar . vá sugerir a volta à mesma exorbitância poética grega! 6. de uma práxis política desastrada? Seu “fracasso” na reitoria – isto é. vale dizer. Como pretendemos mostrar.2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 185 mais essencial. a nosso juízo se deve justamente a esta sub-avalição do poder da ciência na Modernidade. não em seu rosto. o que a Escola acaba mesmo realizando é uma “inversão interna” no esquema lógico heideggeriano.3. dela não se apercebeu. Sem isto. como seria possível escapar à impotência. não chega a se configurar como uma verdadeira escola de pensamento: It may even be questioned whether they have anything in common beyond the programme for a restatement of Marxisme in the form of a ‘critical theory of society’. mas no que figura ser. ou pior.a exorbitância poética dos gregos -. sua orientação diametralmente divergente na ordem do tempo: a primeira desejosa do que foi. em que pese o nome. talvez desencaminhado pelos hinos e encantos de Hölderlin. entretanto. não se deve estranhar que.

podemos chegar a uma visão relativamente coerente e precisa sobre o que de fato pretendem os defensores da Teoria Crítica. Não importa a ordem de apresentação nem o peso relativo de cada um dos “lances ou movimentos” por eles realizados. como é o caso. porém. seja dando mais peso à Fenomenologia do espírito e menos à Lógica hegelianas (Habermas). seja sobrevalorando o momento negativo da dialética em detrimento do seu momento de síntese. b) Seguindo Karl Korsch (Marxismo e Filosofia 1923). Vejamos: a) Todos os membros reconhecidos da Escola passam pelo marxismo. entrementes. pela dialética. importa sim o seu conjunto que acaba se mostrando de surpreendente harmonia. verdade do ser dialético. é o último que torna a primeira um processo infinitamente aberto. consequentemente. valendo-nos de uma estratégia geral de envolvimento. não importam o âmbito e as circunstâncias.186 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria mesmo assim? Realmente reconhecemos uma certa dificuldade em apresentar uma lista de concepções comuns à Escola. barra-se qualquer pretensão de onipotência do conceito. Ver figura 6. no caso. A desabsolutização da dialética é justamente o que vai permitir a sua articulação com outra lógica. pelo menos a nível lógicodialético. completude e eficácia teórica. denuncia-se abertamente a aproximação do marxismo com o positivismo cientificista. como também de equivalência de ser e pensar. Tanto para Horkheimer como para Adorno. perde seu peso metafísico e por conseqüência deixa de se constituir suporte para os extremismos totalitários.5. insistindo na sua desabsolutização. da “dialética negativa” de Adorno. ali- . na conjunção dialética e materialismo. sempre existiria um outro. que. com a lógica do outro ou da diferença. por exemplo. Deste modo. Isto é feito de diferentes maneiras. Isto significa que a noção de totalidade.

mas. também taxando como suspeita a aproximação do próprio Freud com o positivismo. não pelo transcendentalismo. pelo valor que dão aos imperativos da razão prática.A formação lógica da Teoria Crítica d) Rejeitando a prima philosophia e as filosofias subjetivistas e. porém. [30]. com estas. Kant e Fichte são aceitos. teria suas raízes nas inegáveis ambigüidades do próprio Marx com respeito ao valor da ciência e da técnica. na verdade. a lógica transcendental ou da identidade que lhes dá suporte.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 187 ás. . c) Aceitação da psicanálise como um real contrapeso a eventuais desvios conceptualistas totalitários da dialética. rejeita-se abertamente à psicanálise o estatuto de cientificidade com que tanto sonhara Freud. obviamente. Figura 6.5 . Adorno é o mais crítico da razão identitária que a seu ver necessariamente suprime as diferenças. Este posicionamento. é comum à toda a Escola como assinala Kortian: The Critical Theory of Frankfurt School simply reproduces this metacritical paradigm in its merciless attacks on any rehabilitation of a prima philosophia.

vindo da esfera de influência heideggeriana. na região de Baden! Ver figura 6. a própria técnica transformouse em ideologia.188 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO e) Não é de se estranhar que a estima pela psicanálise venha de par com a valorização da arte. Operando no “espaço lógico” o conjunto destas disposições se mostra extremamente constringente. Adorno rebela-se contra a tecnificação que se faz hoje em escala planetária. as falsas totalidades. denunciam que a história reduzida a simples natureza leva a que a práxis se reduza inexoravelmente à técnica. Habermas segue na mesma direção. da dialética I/D sobre a lógica da diferença D. em sua autojustificação. porém. fazem uma crítica radical da técnica moderna e das ideologias que as justificam seja explicitamente. e demonstra como. Marcuse. por dentro. Hoje a cultura teria se transformado em mera indústria de diversão para mistificação das massas. Para Adorno. mas principalmente a arte. portanto. nada melhor do que a arte para romper. g) A tudo isso colmatando. Talvez. invertendo a direção da relação de soberania – agora. rejeitam liminarmente o método e a postura objetivista da ciência por incapaz de dar conta da especificidade e da complexidade do ser histórico. A Teoria Crítica é assim um pensamento que con- . Horkheimer lamenta que a Modernidade tenha cortado do âmbito da verdade não apenas a política e a religião. na Modernidade. só que partindo de uma crítica profunda da noção weberiana de racionalidade. seja por ardilosa omissão. deixando uma única alternativa: o comprometimento da Escola de Frankfurt com a mesma diagonal feminina por que optara Heidegger. não podia deixar de atacar a tecnocracia e o totalitarismo inerente à razão técnica e científica. por serem de Frankfurt e não da pequenina Messkirch. quem sabe.4. f) Embora não se furtem à pesquisa empírica.

um dos mais proeminentes membros da Escola -. por via reversa. Em Heidegger. Heidegger e. Não há mesmo saída à esquerda nem à direita. Não há dúvida de que faliram as ideologias. em todas as logias -. levado às últimas conseqüências. Ora. qualquer que esta possa ser. a Modernidade é antes de tudo uma cultura em cujo âmago vive a ciência com o seu inesgotável poder de cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 189 segue romper com o conservadorismo ideológico. não fo- 6. modos de pensar a meio caminho entre a penúria que ora se vive e o pensar pleno lógico-qüinqüitário . é porque não nos interessa mesmo a salvação. fechou todas as portas que pudessem nos levar a um ponto de vista a ela transcendente [31]. Vimos também que poucos conseguiram até hoje ultrapassar os estreitos limites da crítica ideológica.como degraus ou como enormes pedras. os dois. trata-se ainda de um pensar tolhido. Se insistirmos em abdicar de pensá-la. na era do pensamento único. a Modernidade não se reduz a um simples modo de produção. Crítica radical da cultura . Foi por assim acreditar que acabamos todos caindo onde caímos. conforme o uso que deles se faça. a Escola de Frankfurt. primeiro. Definitivamente. não alcança a altura suficiente para se constituir numa instância crítica radical da cultura. excetuando-se. depois. em que pese a pretensão.em todas as universidades. Esse juízo é emitido pelo próprio Adorno . tal como a técnica que ele critica. com a sua “indústria cultural”. Entretanto. deixando-a à vontade para pensar-nos. ficando esta sempre impensada.4. e sabemos hoje bem o porquê: não pretenderam outra coisa senão alcançar o capitalismo perfeito através da simples troca do sujeito sujeitado da ciência. São. que acredita que a Modernidade. como contemporaneamente acontece por toda parte . mas.

também da ciência. não apenas da filosofia. lógica por lógica. No imaginário e na prática. Hoje. não se pode pretender chegar à crítica da Modernidade sem um pensamento resoluto disposto a medir-se com a ciência. é se colocar à espera de um deus que se crê infantilmente vá um dia se arrepender e voltar. em lógica dialética (I/D). Que era então o logos heraclítico que a própria filosofia paradoxalmente desconhecia? No referencial ali tacitamente assumido. mas quanto à sua significação e. ou mesmo à só palavra poética. A nosso juízo. sob o império da lógica da dupla diferença (D/D) . ainda de sua época grega: com Parmênides o logos se degradava em lógica transcendental (I). em lógica formal (D/D=D/2). sobretudo. não obviamente naquilo que respeita a seus métodos e resultados. Tudo isto veio se repetir. por ser tal. preferiríamos nós). do que o pensar da diferença (D) [32]. às suas ardilosas promessas. Hegel e Leibniz. na era da ciência e da técnica. embora insuficiente. nada mais. nada menos. na Modernidade com as filosofias de Kant. Isto implicaria avan- . mas da humanidade concreta no inexorável e penoso curso de seu auto-desvelamento. pleitear o retorno ao logos heraclítico. não será entretanto perdido se vier contribuir para que a filosofia reconquiste seu vigor originário grego. É fazer tábua rasa. igualmente. com Aristóteles. com Platão. por conseqüência. de mais do que 2000 anos de história. Heidegger chamou nossa atenção para o fato de que os descaminhos da filosofia já vinham de bem longe. respectivamente. que acaba sendo também a denúncia dos limite da crítica ideológica da Modernidade.190 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ram eles longe o suficiente para se constituírem como verdadeiras instâncias críticas da cultura e.que precisamente. tintim por tintim. é lógica da diferença recalcada -. a pior das emendas! O esforço heideggeriano de denúncia da essência metafísica da técnica (da ciência.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 191 çar. em especial da cultura Moderna. incompatível com sua própria lógica. mas chegando e se achegando enfim à sua morada. trata-se sobretudo de uma tarefa para o Pensamento (tomado em sua acepção máxima mundana. de um poderio hiperdialético qüinqüitário que a capacite para a urgente e imprescindível tarefa de crítica radical da cultura. ao invés de retroceder. entre outras coisas. Não há mais qualquer outra alternativa para um efetivo exercício crítico radical da Modernidade senão se postar à quinta margem do rio . ou seja. pela voz de seus maiores e com ares de sonsa gravidade. de onde se pode espiar o homem cansado e sofrido. Como poderia estar a ciência disposta à crítica profunda da Modernidade se é ela própria o seu fundamento? Em tal circunstância. mas sua própria cultura que perpetrava tal extermínio em escala planetária. E a ciência? Da ciência. Jamais tivemos ou poderemos ter uma crítica científica da Modernidade. vazando assim os próprios olhos para não ver que não era o destino. porque hiperdialético qüinqüitário -. à sua própria plenitude onto-lógica. Mesmo a antropologia já se declarou. onde vige o princípio da falsa identidade [33]). não há o que se esperar. implicaria hoje na assunção. mas coerentemente de um rio amazônico bem mais caudaloso. dialético trinitário. . como sendo o saber das culturas em desaparecimento.não falamos do rio temperado e montanhoso de Heráclito. preventivamente. É óbvio que esta não é sua tarefa. lógico-qüinqüitária). a crítica da Modernidade se constituiria em auto-crítica da ciência (diga-se de passagem.

.. como é o caso de Hegel e Marx (lógico-dialética)... outras concepções do processo histórico apareçam como meras simplificações.1.. como teremos oportunidade de adiante constatar... desde o primeiro instante........... .. O cristianismo brotou do judaísmo... E quando algum autor se declara adepto e de fato se utiliza de uma concepção lógica explícita.. de generalidade extrema.......... Tillich.......... mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão........... . Pela razão óbvia de termos adotado uma concepção hiperdialética...... A questão judaica. E tornou a dissolver-se nele.. o judeu é...... A história da cultura aqui representada apenas pela sucessão de suas culturas nodais (figura 7.... O cristão foi...... à esquerda) [1] não difere assim tão extraordinariamente de outras conspícuas e bem conhecidas concepções. a simplificação a que aludimos se torna imediatamente visível.... Hegel e Marx O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa..... portanto.. então... casos particulares ou modelos reduzidos.. o judeu teórico............. quando se lhe comparadas.. Karl Marx... portanto.. é mais do que natural que... o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 193 7 História da cultura segundo Toynbee.

Neste. ela pode sempre alongar sua existência à proporção que consiga dar respostas adequadas e eficientes aos desafios contingentes com que se venha defrontar. isto não a obriga necessariamente a percorrer uma seqüência de fases pré-fixadas.a nossa proposta hiperdialética e a “filosofia da história” de Toynbee -. Toynbee delineou uma filosofia da história na qual se alternariam culturas de caráter ora materialista. da primeira. cada civilização tem de fato o seu próprio ciclo de vida. Inicialmente examinaremos as concepções de Toynbee e Tillich. ora espiritualista. Estas últimas teriam implicitamente o comando global do processo. nos seus resultados bastante próximas da nossa. O primeiro toma as civilizações como os reais sujeitos do processo histórico e adota uma concepção que poderíamos denominar de organicismo mitigado [3]. e do ser lógicoidentitário (I) com o caráter espiritualista. nós mesmos nos serviremos de uma representação geométrica trinitária (sucessão de formas triangulares) e não. na qual a forma piramidal (hiperdialética) apareceria subsumindo as formas triangulares (dialéticas) [2]. . bastando. ainda por cima. para comprová-lo.194 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para facilitar comparações. como seria conseqüente e mais funcional. que seguiria uma tendência ascendente. Comparandoas . Ao final de sua vida intelectual. de uma representação propriamente lógico-qüinqüitária. o preclaro teólogo alemão. expressa por uma religiosidade cada vez mais abstrata (espiritual) e de âmbito mais universal. que se proceda à mais ou menos óbvia identificação do ser logico-diferencial (D) com o caráter materialista. ademais. emigrado depois da Segunda Grande Guerra para os EUA. constatamos que a última não é mais do que uma versão simplificada (lógico-trinitária) e. Paul Tillich. porém. não suficientemente nítida.

que elas coincidem exatamente com o que caracterizamos como culturas lógico-identitárias (família I). o “motor da história não é o desafio contingente versus resposta. [n. como em Toynbee. Aqui. também vem chamar a nossa atenção quanto à importância da análise das experiências de tempo (I) e espaço (D) para a compreensão.[4] O papel que a tensão tempo (I)/espaço (D) exerce é. aliás. espacialidade e a luta pelo predomínio em que estão permanentemente empenhadas: L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. entretanto. constatamos. da problemática antropológica: Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. mas um a priori constitutivo da própria mente humana . nas formações culturais históricas.temporalidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 195 trabalha diretamente com as culturas e adota uma concepção também implicitamente dialética do processo histórico. vale dizer. [negritos nossos. de importância primordial na estruturação da mente humana e acaba por isso se refletindo no próprio processo de sua objetivação simbólica coletiva. tendo-se aí a cultura judaica por seu ilustre paradigma: . Outro grande filósofo alemão da cultura. em profundidade. Ernst Cassirer. de fato.n. como não poderia deixar mesmo de ser.] [5] Ao percorrermos a lista das culturas que Tillich aponta como comprometidas com o tempo.

)[7] Depois disto tudo só nos resta afirmar que a concepção do processo histórico em Tillich pode ser também considerada como tão apenas uma versão simplificada da nossa proposta hiperdialética.n. como em Toynbee. aqui.196 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Le peuple juif est comme aucun autre nation le peuple du temps. pelas culturas do tempo. Aqui. vão ser então identificadas como lógico-diferenciais (família D). Estas duas concepções da história são sobremaneira interessantes na medida em que não são apenas simplificações ou reduções. Para melhor compreendermos como foi possível a deformação conceitual cometida por Hegel. grega e moderna. mas que a nosso ver deturpa a intenção hegeliana). Os casos mais interessantes vão ser os de Hegel e Marx. enquanto que o primeiro adota uma versão especulativa (preferimos a denominação especulativa à idealista. pelas culturas espirituais. a torcida é para um dos lados. também): Ce n’est que dans l’homme que le victoire finale du temps devient possible. é a nossa. devemos atentar. mais usual.n. ambos declaradamente lógico-dialéticos. O último diz adotar uma versão materialista da dialética. não escondemos. Admitido . em suma. lá. e o que é mais curioso. mas porque constituem. Il représente la lutte permanente que se livret depuis toujours l’espace et le temps. em primeiro lugar. sempre a mesma tendenciosidade (que. Car l’homme est capable d’agir en vue d’une fin située par-delá sa propre mort. (n. cada uma com seu específico e dissimulado propósito. também.) As culturas do espaço. cada uma a seu modo. verdadeiras deformações da concepção hiperdialética. para o seu radical apego à coerência lógica (dialética). [6] (n.

ele se vê obrigado a afirmar coerentemente que tal processo deva conduzir ao desvelamento de um ser lógico-dialético e não a outro qualquer tipo de realidade [8]. depois diferencial.o perfeito e acabado ser lógico-trinitário (I/D). se afigurando então como a realização/institucionalização deste mesmo ser lógico-trinitário! Espantoso! Em segundo lugar. assinala a passagem do analógico ao plenamente convencional. no plano simbólico. lógico-D-iferenciais. Hegel toma estes episódios como significantes da ruptura dos vínculos do homem com a Natureza. portanto. Esta deve ser. Os judeus são. Tal passagem se confirma com o episódio da auto-definição essencialmente lógica de Deus. Sua expressão política. respondendo à indagação de Moisés: “Eu sou o que sou (ou serei)”.1. uma concepção abstrata e alienada da essência humana (figura 7. Hegel. desta sorte. à direita).[10] Com o “rebaixamento” da cultura judaica. precisa demonstrar a todo custo que a cultura judaica pertence à família das culturas Diabólicas. Ele produz esta “demonstração” valendo-se exatamente da passagem bíblica referente à adoração do bezerro de ouro que. se o processo histórico ainda se encontra em aberto. esta deixa consequentemente de ser. passíveis da acusação de terem instaurado um pérfido dualismo. portanto. o Estado prussiano. ambas ainda referidas à Natureza) em direção às culturas propriamente lógicas. sua meta tem que ser a auto-realização do espírito como espírito absoluto . ou seja. o trânsito das culturas ecológicas (inicialmente identitária. podese então trazer a cultura grega para o seu indevido lugar. por razões “psico-sociais” [9]. deslocados de sua real posição lógico-identitária (I) para a posição lógico-diferencial arcaica (pré-D). Ora. com muita precisão. por ex- . a destinação da cultura alemã. Ela também representa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 197 o caráter dialético da história. com o telúrico vigor que afinal o engendrara.

Um absurdo completo. mas o dualismo corpo/alma.198 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celência. como atesta o incomensurável acervo da arte sacra que ele nos legou [12]. a cultura trágica ou prometéica (D) para ressurgir como cultura identitária (I). Hegel pôde deslocar a cultura cristã trinitária da posição I/D para D.1 – Hegel e a história da cultura . Depois de todos estes malabarismos. pois o desejo do cristianismo é precisamente a “espiritualização” (I/D) do corpo (D). fica aberto o lugar para que uma nova realidade advenha em I/D. agora!). não é mais o Deus Uno-Trino. HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA HEGEL: HISTÓRIA DIALÉTICA (VISTA PELA ÓTICA DA FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO) ONDE SE DEGRADA A CULTURA JUDAICA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D/ 2 D/2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA CULTURA MODERNA CÍNICA CULTURA ALEMÃ CULTURA GREGA TRÁGICA I/D D I/D D CULTURA CRISTÃ CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA GREGA TRÁGICA I PASSAGEM DEGRADANTE Pré-D CULTURA PRIMITIVA CULTURA JUDAICA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I Pré-I Figura 7. como ele equivocadamente inferira. metaforizada à exaustão na “sublimação” da cal. os primeiros e mais dedicados amigos do ser [11]. Uma cultura realmente da identidade (I) produz profetas e não filósofos. Não percebeu Hegel que grego. O essencial no cristianismo. na filosofia. o novo Estado alemão. é o lugar de onde se pergunta pelo ser (distanciamento D) e não o do ser desejado (I). para ele. da tela e da pedra. seu profeta. adivinhamos. Valendo-se da mesma artimanha. já lá instalado à espera para dar-lhe as boas vindas (assim como. dirão com malícia que estamos nós à espera do Brasil. em I/D/D. com Hegel.

todos de nível lógico pré-D) com a cultura trágica grega (de nível lógico D). Pérsia. A escolha da denominação escravista é um ato falho que vem ratificar o que estamos afirmando. A maior parte da . só um gênio seria capaz de tais proezas: afirmar. Assim. tratavase. Assíria. como em Hegel. à direita). Com isso. de colocar a filosofia de Hegel de cabeça para baixo! Para tanto. desaparece da cena histórica a cultura judaica e com ela todas as suas articulações conceituais (lógicas) e históricas com as demais culturas..2. (figura 7. 50 que se instalara a revolução industrial inglesa. que a realidade maior fosse de nível lógico dialético (I/D) e que a cultura judaica fosse dualista (pré-D).? O caso Marx é tão ou mais interessante que o anterior. a artimanha não sendo mais aquela de deformar (a lógica das virtudes da cultura judaica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 199 É importante lembrar que tudo isto acontecia numa Europa já imersa em plena cultura científica moderna. 500 que morrera São Tomás. Egito etc. e isto foi dito até com bastante franqueza. Deveras. e o Egito antigo é um ótimo exemplo disso. um ainda maior neurótico obsessivo. e o faz por meio da identificação da cultura de base agrícola dos grandes impérios da Antiguidade (Suméria. agora colocadas ambas sob a rubrica comum: modo de produção escravista. governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D). seria ele. naquela altura dos acontecimentos. 100 que morrera Galileu. Seria então o caso de se indagar por que seria Hegel tão cego à lógica formal (D/D) já ele sentado sobre ela? Em outras palavras. Babilônia.. além de grande filósofo. Marx simplesmente curto-circuita a cultura judaica. Já se iam para mais de 600 anos que morrera Abelardo. mas de simplesmente subtraíla à “objetividade cientifica” [13]. fosse qual fosse a data que tomássemos para o seu nascimento. O escravismo é uma extensão mais ou menos permanente de um verdadeiro modo de produção.

HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA MARXISMO: HISTÓRIA DIALÉTICA MATERIALISTA (HIST. Fica ainda o espaço suficiente para a conclusão do processo histórico através do advento do comunismo. a sociedade sem classes.200 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO produção egípcia não era escravista (os egípcios não eram escravos em suas terras). mas reduzindo-a a D. mas reduzindo-a a I.2 . na posição I/D. mas reduzida a I/D.. e sem esta ruptura presente. D. a cultura cristã patrística com feudalismo. com a escamoteação da cultura judaica. ). por fim. na posição D/D. onde justamente estava inconscientemente Marx. apagam-se completamente as marcas da passagem das culturas ecológicas (Pré-I e. diga-se de passagem . Assim fica bastante claro que a escolha do nome escravista para este modo de produção só se justifica da perspectiva judaica. DA CULTURA ONDE É ESCAMOTEADAA CULTURA JUDAICA) COMUNISMO AVANÇADO CULTURA MODERNA CÍNICA FEUDALISMO CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D I/D/2 D D/ 2 I/D I ESCRAVISMO CAPITALISMO I/D/2 D/ 2 I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA Pré-D CULTURA JUDAICA D CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS I PASSAGEM ESCAMOTEADA Pré-D Pré-I ESCRAVISMO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I COMUNIASMO PRIMITIVO Figura 7.Marx e a história da cultura No mais. em I/D/D. O mais importante é que. em préI.corretamente. pré-D) para as culturas propriamente lógicas (I. apenas podia se dizer escravista. é só identificar .a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico com comunismo primitivo. a cultura científica moderna com capitalismo. em especial. e ...

sempre o mesmo livro (o mesmo sistema). ficando assim obrigado a escrever. causar nenhum espanto. verifica-se como ele pode deveras realizar toda esta mirabolante deformação histórica. toda a produção lógico/simbólica se reduzindo a mera super-estrutura determinada [14]. E com isso ficamos nós sem nada saber de como foi possível a Marx. Marx. que Marx acreditasse estar colocando o mundo filosófico de cabeça para cima. . portanto. que embora dialético (I/D) não conseguia se desembaraçar de sua neurose obsessiva (D/D).. A história da cultura se reduz com este “apagamento” a um mero processo de desenvolvimento das forças produtivas em seu sentido puramente material. também dialético (I/D). Ao contrário de Hegel. dis-pensador da cultura judaica. chegar afinal onde chegou.. Pela simples contemplação da figura 7. escrevendo prefácios.2. tomando a infraestrutura material (ecológica ou econômica) da sociedade como determinante. podia harmoniosamente conviver com a sua histeria (I/D). sem precisar acabar os seus. se poderia também dizer) da realidade social pode se prolongar e dominar a totalidade do processo histórico. a concepção ecológica (materialista. de cabo a rabo. Não nos pode. notas introdutórias e mesmo posfácios.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 201 bem aparente.

homem/ cosmos e homem/Absoluto. Os aspectos aqui considerados são aqueles que na nova cultura. . tanto tem de cultura. com algum precisão. Começaríamos indagando: elas variariam ou não em função do tipo (lógico) da cultura considerada? Podemos tomá-las como um caso particular da também velha questão dos universais? Podemos tão somente reduzi-las a uma relação topológica. aspectos da nova cultura lógico-qüinqüitária que virá suceder à atual Modernidade.. Fenomenologia do espírito. quanto tem de efetividade e poder. a nosso ver. O tema central aqui é a relação entre indivíduo e sociedade.. conteúdo/continente? Como bem sabemos. Hegel. esta é uma antiga questão filosófica [1].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 203 8 Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária É portanto mediante a cultura que o indivíduo tem aqui vigência e efetividade. II Este ensaio é o primeiro de uma trilogia em que assumimos o elevado risco de tentar delinear. Consideramos que este é o momento oportuno para . a nosso juízo. até hoje sem uma resposta aceitável. mais intensa e profundamente estarão contribuindo para a resignificação contextual do ser humano: falamos das relações homem/sociedade.

indivíduo e sociedade. em muito pouco tempo . Figura 8. isto é. já com vista à cultura nova lógico-qüinqüitária que. a nossa grande esperança .1 .1. portanto. por último. Sabemos também que seja qual for a cultura. dialético (I/D). hiperdialético (I/D/D=I/D/2).Relações políticas e culturais invariantes numa cultura de nível lógico X .esta é.estaremos adentrando. Coloquemos. operando e existindo em cinco níveis ontológicos: transcendental ou identitário (I). em especial. por suas normas e práticas educacionais [3]. sem dúvida. eles se constituem como entes de nível lógico-qüinqüitário [2]. tal como ilustra a figura 8. agora. De per si. lado a lado. ela se caracteriza justamente por um parti pris lógico. simples diferencial (D).204 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO buscar-lhe uma resposta clara. embora tenha todos os seus membros de nível lógico-qüinqüitário (I/D/2). por apenas reconhecer um determinado nível lógico que ela absolutiza/sacraliza em sua religião oficial ou hegemônica e que sanciona por todos os meios. clássico formal ou duplamente diferencial (D/D=D/2) e.

falta-lhe por si a cultura. duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. De outro lado. em especial. aquilo que é falta constitutiva do ser-coletivo. estruturas conceituais (a língua. O primeiro modo de articulação. em especial) e valores gerais que constituem a cultura de nível lógico X. veremos sempre o indivíduo operando necessariamente em nível lógico transcendental (I). dentro do que permite a cultura de nível lógico X. Em contrapartida. O mais interessante a observar é que o processo de assunção da cultura pelos indivíduos se faz por identificação.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 205 Isto posto. por exemplo. da língua. seu poder de decisão estrito senso. seu poder de autodeterminação. este mesmo ser-coletivo. ele não estaria garantindo o que lhe é mais essencial: sua integridade. que diríamos cultural. tal como ilustra ainda a figura 8. Daí. não importa o tipo de cultura sob consideração. uma operação de natureza lógico-identitária (I). que denominamos político. o que nos leva a acreditar que. como é o caso. é aquele em que os indivíduos suprem sua carência cultural constitutiva assumindo ou se deixando tomar pelos esquemas de percepção. de modo simétrico. ou seja. é aquele em que os indivíduos entram num processo interativo para produzirem. sua liberdade.1. qualquer que seja a cultura focalizada. depreende-se que devam existir ao menos dois modos invariantes de articulação entre indivíduo e sociedade. Deste modo é que eles podem atingir seu mais elevado nível de estruturação interna e relacional. a partir de sua capacidade individual de autodeterminação ou decisão. o processo de produção da deci- . não pode por si determinar-se. pois esta última é uma prerrogativa essencial do ser-coletivo. caso contrário. que é necessariamente portador de cultura. em razão mesmo de ser múltiplo. O segundo. naturalmente.

dos meios para a sua reprodução material. é o mesmo que dizer que as lógicas dos processos de mediação nos extremos do leque das rela- ← . por uma questão de completitude.206 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO são coletiva articulando as determinações individuais se faça por um modo operatório de nível lógico X [4]. se valer daquilo que a sociedade tem de melhor ou mais sofisticado – a essência (lógica) assumida de sua cultura. pois a política se constitui. todo ser social comporta ainda uma terceira dimensão fundamental voltada para o provimento de meios em geral. no mais elevado dentre os modos de interação social. nada há de mais natural do que a política. É bem razoável pensarmos assim. em geral. somos obrigados. na Ética a Nicômacos [5]. Além das dimensões política (que engloba o poder ou a formação da determinação coletiva) e cultural (que engloba o sentido compartido que faz a unidade coletiva). ao político e cultural. Aceitar que o processo mediador num extremo ← (X X) é do tipo lógico-transcendental I (uma identificação) e no extremo oposto (I I) é do tipo lógico X. embora devamos saber que toda violação acaba tendo lá seu justo preço. em termos de distorções estruturais compensatórias alhures. Como já adjudicamos os níveis lógicos extremos I e X. ou pelo menos assim deveria ser. confundindo-se o ser social com o ser político. em especial. Em outras palavras. a fazer corresponder os níveis intermediários (entre I e X. exclusive) à dimensão econômica. Entre os gregos da idade clássica não havia a menor dúvida que o fosse. que denominamos dimensão econômica [7]. para a sua própria consecução. Como exemplificaremos adiante. tudo isso é apenas uma disposição normativa.1. Sugerimos que se volte a ver a figura 8. respectivamente. Para Aristóteles. a política era considerada a primeira dentre as ciências e o homem o animal político [6] por excelência.

O processo de decisão coletiva (I) derivaria da autodeterminação individual (I) por meio de um processo de luta (I/D). no geral. tal como ilustra a figura 8. em ordem inversa relativamente às lógicas dos aspectos individuais/societários articulados. Havendo um exato nível médio ele será igualmente determinado. naturalmente. por conseqüência. que todas estas assertivas valem apenas como uma norma. o nível cultural (coletivo) seria lógico-dialético. Insistimos. uma vez mais. mas em todos os níveis dentro dos limites da lógica da cultura considerada. tomemos o caso das culturas cristã medieval (I/D) e científica moderna. sacraliza a lógica dialética (I/D). Nesta cultura. tanto no sentido do indivíduo para a sociedade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 207 ções indivíduo/sociedade culturalmente reconhecidas estão na ordem invertida em relação às lógicas que governam aquilo que elas justamente articulam. O sentido da determinação a partir de um qualquer dos extremos acompanharia àquele deste extremo. Para ilustrarmos tudo que foi até agora dito. Por certo. O estado de máxima elevação cultural seria o êxtase diante do Espirito de Deus. mas sua força determinativa iria se atenuando (permitindo que a determinação também se exerça mais e mais no sentido oposto) à proporção que nos aproximássemos do outro extremo e se inverteria. muitos diriam que nem sempre assim acontece: a decisão poderia vir do diálogo e até como fruto maduro de um estado de comunhão. a realidade suprema aí seria o Espírito (I/D) e os indivíduos se tornariam cultos através do processo de identificação (I) com o espírito (I/D) de sua época. Seria. não apenas nos extremos. à esquerda. a meio caminho. portanto. quanto no sentido inverso. vale dizer. (D/D=D/2) Sabemos que a cultura cristã medieval é lógicotrinitária que. natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêmse.2. produto da .

2 . Figura 8. de nível lógico-clássico formal (D/D=D/2). estribados no costume e na autoridade (incluída aí a força ou a ameaça de utilizá-la).208 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO graça derramada pelo Espírito (I/D). de caráter plebiscitário ou representativo (ver figura 8. logicamente D). portanto. eleitoral. Num dos extremos. à direita).Relações indivíduo/sociedade nas culturas cristã medieval e científica moderna Vejamos agora o caso da cultura científica moderna. isto é.2. não importa. A dimensão econômica nesta cultura restringir-se-ia ao nível lógico-diferencial. aqui conta apenas a lógica do processo. teríamos o processo político produzindo a decisão coletiva (I) a partir das decisões individuais (I) mediante um procedimento contábil (D/D). consubstanciado apenas no trabalho (esforço que se faz com vistas a outra coisa que ele próprio. que em qualquer destas hipóteses continuaria sendo obviamente dialética. em geral) ou por terceiros. . O processo de distribuição social de seu resultado nada mais seria que a simples apropriação (D) pelo próprio trabalhador (camponês.

em termos econômicos. A propósito. estão de fato presentes e operantes. Em termos econômicos. cuja determinação flui aí no sentido do coletivo para o individual. Precisamos lembrar que na cultura moderna (D/D) as lógicas femininas {D e I/D}. do capital -. Teríamos ainda que considerar o nível lógico I/D. por fim. induzida pelo cálculo da taxa de retorno do capital.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 209 O ser individualmente culto se realiza por simples identificação (I) com os papéis definidos pela organização (D/D=D/2) social. a demanda individual e o D coletivo. como sendo a demanda agregada e. estamos tratando do capital (I/D) [8]. Quem desconhece o gráfico ascendente levemente serreado do processo da acumulação de capital . através da apropriação privada (D) [9] do capital social (I/D) que os indivíduos completam. ou. a nosso ver. era justamente nisto que insistia Marx . sob o aspecto dialético. de maneira essencialmente invertida ou distorcida [10]. no entanto. Do ponto de vista lógico ou formal. Sobram assim dois níveis lógicos para serem adjudicados à dimensão sócio-econômica. através de um processo lógico-dialético (I/D). Facilmente identificamos o D individual como sendo o desejo. Por isso. O indivíduo sentese culto na medida em que se identifica com seus diferentes papeis ou correspondente títulos e tabuletas à porta. a história desnaturada. o coletivo precisaria ser produzido a partir do individual. no caso da dialética não lhe corresponde a história. que individualmente teria que ser produzido a partir do I/D coletivo através de um processo lógico D. no nível D. seu modo de ser social. pois. então. É. ficasse muito longe de perceber que esta assertiva tinha validade apenas do ponto de vista de uma cultura determinada. por simples questão de simetria.no caráter social do excedente acumulado. mas tão apenas o progresso. que no fundo governam a dimensão econômica. o processo I/D como sendo o mercado competitivo. embora. ou seja.

o mercado (I/D). respectivamente. Quem não consegue do capital sua cota parte. que se imaginava devesse ser atendido pelo cálculo. Interessava-lhe apenas os estratos lógicos D e I/D determinantes. não pelo engajamento na história (que a ideologia dominante chega a crer que já não há mais). isto é. que faz valer os seus desejos pessoais (D) na formação do desejo coletivo ou demanda agregada (D) através de um processo competitivo. para a formação da decisão coletiva (I). de modo coletivo. Resumindo. o capital social (I/D). através de um processo contábil. que forma o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) de parte do patrimônio coletivo. a demanda agregada (D). do modo de produção/distribuição. diríamos que o indivíduo moderno. que se almejava fosse feita segundo sua natureza. e da apropriação do excedente ou capital. mas pela apropriação de parte do patrimônio coletivo acumulado. os indivíduos completam o processo de sua integração à modernidade.210 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pendurado na parede ao fundo dos retratos dos expoentes da vida econômica moderna?! Assim. Vamos considerar o exemplo excepcionalmente didático da União Soviética. é o que contribui com seu poder decisório (I). e que completa seu processo de integração identificando-se (I) com os múltiplos papéis definidos pela organização social (D/2). o escrutínio (D/2). ao invés . segundo o paradigma anglo-saxão. apenas a dimensão econômica moderna (associada às lógicas D e I/D) foi considerada como socialmente relevante. Desta sorte. Em razão mesmo da ideologia de esquerda que orientou sua formação . Neste ponto vale a pena voltarmos à questão da normatividade dos esquemas lógicos aqui apresentados. sente-se naturalmente um excluído. mesmo que trabalhe. o político (I) e o cultural (D/D) ficavam assim reduzidos a simples efeitos secundários ou de super-estrutura.o materialismo dialético -. e até muito.

ou seja. Sendo vedada também a apropriação privada (D) do capital (I/D). o tão enfático realismo socialista. Fig. outras por inspiração do “espírito partidário”!). A política. em conformidade com sua essência (o que estaria sendo aplaudido pelo próprio Marx). aliás. E foi mesmo para facilitar ao máximo esta identificação que se desenvolveu a estética socialista.8. passava a se fazer pelo mercado concorrencial (I/D) da intriga e da violência entre os membros de um círculo partidário restrito (algumas vezes. bem característico das construções públicas soviéticas. Em conseqüência.3. como nas nações lideres da Modernidade. as distorções não paravam aí. Como bem . passava lá a ser produzida pelo cálculo (D/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 211 de ser produzida através do mercado (I/D). ao invés de eleições amplas e cálculo de votos (D/D). através de um processo de planejamento centralizado. pelo diálogo. o indivíduo deveria doravante com ele se identificar (I).3. passando então a mediar a decisão coletiva (I). por um efeito de re-equilibração estrutural. como mostra a figura 8. Inversões soviéticas do paradigma moderno Porém. a lógica do mercado (I/D) tinha que se deslocar.

como já sugere a própria figura 8. quando não se dispõe “culturalmente” de lógicas em número suficiente? Na verdade. quem sabe. uma alteração lógica cá tende a provocar uma alteração estrutural compensatória acolá. econômicas e culturais em sociedades de nível cultural abaixo da dialética (I/D). por termos evitado a questão das relações políticas. não há a menor dificuldade teórica. ou. era a politização da arte em contraposição à estetização da política. por membros do aparelho de estado da enorme quantidade de papéis ou cargos públicos (D/D=D/2). a esta altura. em contrapartida. Como dissemos. Por isso. já terá percebido e. Nosso arguto leitor.4. que viriam então a ser utilizados como moeda de troca. entre as culturas menos sofisticadas (pré-I e pré-D). as três dimensões sociais estariam se confundindo parcial ou totalmente. esta que por seu turno viria a se tornar o apanágio do fascismo. levando a administração pública a um grave processo de desagregação funcional e ética. naquelas culturas mais elementares. ainda mais instigante. acontecia a apropriação privada (D). . Seria o caso de se perguntar agora: como seriam aquelas relações entre os gregos (cultura D) e entre os judeus (cultura I).212 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO observou Walter Benjamin [11]. Teríamos apenas que admitir que. até nos censurado. posto que tão somente a partir desta estava assegurada a existência de pelo menos um nível lógico para cada uma das três referidas dimensões sociais.

Aristóteles – em torno da política. de modo intencional ou não. Percebe-se agora com clareza que aquele que opta por Antígona está.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 213 Figura 8. Platão. Não se tratava de uma simples preocupação de conjuntura.é que a política pode enfim ganhar sua autonomia. Podemos agora melhor compreender as intensas e profundas discussões gregas – sofista. Somente a partir dos gregos .4 . não fazendo então muito sentido distinguir uma das outras. vemos que é neste mesmo lugar que vai necessariamente nascer a política como uma dimensão autônoma da vida social.cultura lógicodiferencial (D) . as dimensões política e econômica estariam essencialmente comprometidas com a dimensão cultural. até o advento da cultura judaica. enfatizando a corre- . discutese acerbamente a quem se deveria conceder o estatuto de exemplaridade trágica. Sócrates.Fusão das dimensões sociais Assim. Já vimos que a filosofia (a pergunta pelo ser ou pelo que é o mesmo) nasce onde nasce a tragédia [12]. Entre os estudiosos da cultura grega. se ao Édipo Rei ou à Antígona de Sófocles [13]. mas reflexo do privilégio excepcional de a estar vivenciando em statu nascendi.

em razão da ameaça que a autonomização recém-consumada da esfera econômica podia trazer para a integridade social. já são mais do que suficientes para provocar uma profunda revisão de nossa compreensão da Idade Média. Na verdade. Com a Modernidade a dimensão econômica vai ganhar ainda maior peso. ainda que em nível muito abstrato. existe entre a política e o espírito da tragédia. bem ao contrário do que amiúde se diz.214 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lação (logicamente fundamentada) que. num exato paralelo com o acontecido com a política entre os gregos. na Modernidade elas são primeiramente recalcadas para. de sua vida econômica e do papel que as autoridades governamentais [14] e eclesiástica católicas devem ter exercido no que tange à sua rígida regulação. O que. entre os gregos. o que lá não faltou foi o dinamismo econômico. Algo bem semelhante não teria ocorrido antes. A grande surpresa para o que se tem por saber histórico corrente é constatarmos que só a partir da cultura cristã medieval é que se destaca a dimensão econômica (ver figura 8. não é o mais importante. retornarem com enorme virulência [ 15]. Este processo ideo-lógico (ou teratológico). acabamos de ver. entretanto. em especial. Estas considerações. vindo a ocupar dois níveis lógicos. já desnaturadas: o desejo individual domesticado pelo marketing e a história transformada em processo de acumulação pré-calculada de capital. como de costume. no entanto. a nosso ver.4). com respeito à política?! Um exemplo bastante óbvio daquela disposição encontramos nos drásticos regulamentos “auto-impostos” às corporações de ofício medievais. O efeito quantitativo. que absurdamente transmuda meios . Retornam. o que mais importa é o descontrole em que caem as forças econômicas represadas na cultura anterior. também não faltou foram normas severas e mecanismos eficazes limitando a criatividade técnico-econômica. porém. De fato.

É em torno dela que ainda se acordam todos solidários: vétero e neoliberais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 215 em fins. aquela que define o ser objetivo (I/D). Na verdade. D e I/D. pela intervenção de forças obscuras. que elas se mantêm distintas pelo fato de a primeira constituir uma estrutura lógico-dialética autônoma ou completa. meios transmudados em fins. é de tal modo profundo e inconsciente. que é similar à estrutura compreendendo as culturas I. e a segunda por constituir apenas o ciclo inicial de uma estrutura majorante. marxistas e fascistas. em especial. ou pior.4. o que. apesar de todo o acontecido. era o estágio de desenvolvimento das forças produtivas (ou seja da técnica) que de fato parametrizava a história humana [17]. permanece ainda agora tal qual. na parte referente às culturas primitivas. tendo conseguido mesmo instaurar um estado revolucionário. Pré-D e Pré-I/D (esta que se confunde com I). apenas num pretenso estado de delirante perfeição [16]. ainda de cabeça para baixo. entrementes. Quem não compartilha de toda esta loucura?! Por isso.5. Fixava-se a impressão de que a história da cultura. hoje. hiperdialética qüinqüitária. Pré-D e I serão por isto . não se propuseram outra coisa senão deixar tudo essencialmente no mesmo. vai conseguir escapar da lixeira da história (hiperdialética da cultura)?! Examinemos um pouco mais detidamente a figura 7. que ao invés da lógica. sem falarmos dos invertebrados sociais-democratas da moda. que os mais exaltados críticos da Modernidade. desaparecera. E esta impressão. As três culturas Pré-I. na esfera do pensar para valer. aquela que define o ser subjetivo (I/D/D). tal como ilustra a figura 8. dando lugar a uma história econômica ou história dos modos de produção. Deve-se notar. elas fazem parte de uma estrutura dialética compreendendo as culturas Pré-I. agora definidas com precisão e objetividade como sendo as culturas nodais Pré-I e PréD.

e as cinco culturas I. no fundo. a cultura tribal de caçadores coletores do paleolítico (Pré-I) representa. D. As conclusões que podemos daí tirar são muitas e importantes. D/D e I/D/D subjetivistas. caracterizando-se por isso como uma cultura de passagem ou de articulação. o estado cultural que deixa na indiferença uso/meio/troca (que em termos econômicos vêm realizar-se como valores de uso/trabalho/troca).5 – Os outros . de PROD. um estado cultural de indiferença do cultural/econômico/ político.216 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ditas objetivistas. em nível objetivo. em nível subjetivo. ESCRAVISTA DEBRAY: ESCRIBA = POLÍTICO PRÉ-I NÍVEL FENOMÊNICO MEIO = OUTRO OBJETIVO PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I PRÉ-PRÉ-D Figura 8. tudo. o antitético e o sintético. para a cultura tribal (Pré-I). como a seguir veremos: a) Da mesma maneira que a cultura judaica (I) representa. de uma tríade da qual ainda participa o fenomênico como sendo seu momento primeiro. seria tanto objetivista quanto subjetivista. é troca ou reciprocidade. tético. assim. é cultura. É extremamente importante observar que a partir de agora as noções de objetivo e subjetivo não constituem mais. A cultura judaica. SER SUBJETIVO PESSOAL OU SOCIAL I/D/D NÍVEL SUBJETIVO OUTRO SUBJETIVO EXTERNO D D/D OUTROS SUBJETIVOS. um par de opostos. I. como de costume. I/D. EXTERNO E INTERNO I PRÉ-I/D=I NÍVEL OBJETIVO I/D MARX: M. forte e afirmativo. se para a cultura judaica (I) tudo. no fundo. mas sim dois momentos.

O meio vai se realizar de múltiplos modos: como ação mediadora. de préD (neolítica de base agrícola) com D (greco-romana). e. para Lacan. de se colocar a cultura judaica (I) acima de qualquer consideração teórica. apenas entre as do meio. com mais freqüência. cultura greco-romana. com ela. que caracteriza precisamente a noção de meio. c) É evidente a similitude da cultura pré-I (paleolítica tribal) com I (judaica). também do nascimento do político como dimensão autônoma do ser social. O caso Marx.é que. Com isto podese agora bem distinguir o animismo nas culturas paleolíticas Pré-I. tem toda razão Lévi-Strauss quando afirma que a escrita parece favorecer a exploração dos homens. em espe- . do totemismo nas culturas neolíticas Pré-D. cultura neolítica de base agrícola. trabalho. operado por uma classe sacerdotal. também. mais do que sua iluminação [18]. já o vimos. operado por xamãs isolados. mas tão apenas um desdobramento.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 217 b) A cultura subjetivista D. de I (judaica) com I/D (cristã medieval). a classe sacerdotal.Pré-D e D . ou seja. nem sempre consciente. assinala o momento da diferenciação do outro subjetivo ou intencional. como escrita ou presença significante (por isso. a lógica D deve se chamar lógica do significante). Isto acontece pelo interesse ideológico. dito escravista (escravismo que nem pode ser propriamente considerado um modo de produção. finalmente. Entretanto. Com a escrita nasce a função de escriba e. também. que realiza a instrumentalização da religião como forma de controle social. já por nós analisado em detalhes [19]. é dos mais flagrantes: ele reduz e engloba estas duas culturas num mesmo modo de produção. tem como especificidade a emergência do outro objetivo. se vê a relação de similitude degenerar em simples identidade. A propósito. A correlata cultura “objetivista” PréD. culturas lógico-diferenciais .

A elisão da passagem do objetivo (Pré-D) ao subjetivo (I) é a elisão do exato momento em que a humanidade se dá conta. embora sendo ambos governados pela mesma lógica D. porque a identificação que ele faz atem-se apenas ao nível lógico (ou “formal”) e não “substancial”. Outro exemplo conhecido é o de Regis Debray.história da cultura . diferencia-se a noção de troca em geral ou de reciprocidade como base da vida social. que teoriza sobre o inconsciente justamente governado pela lógica da diferença (D).em mera história dialética materialista ou econômica. A instituição do profetismo judaico dá um testemunho eloqüente de que para tanto seria imprescindível que de algum modo fosse confrontado o poder da classe sacerdotal (Sinédrio). sendo por isso correta. de verdadeiros modos de produção). coletiva e simbolicamente. Em outras palavras. d) Na cultura judaica (Pré-I/D que é o mesmo que I). Na psicanálise. Advertimos. A classe sacerdotal (que na origem freqüentemente . tão bem ilustrado pelo episódio da confrontação da tábua (escrita em caracteres convencionais) da lei e o bezerro de ouro. que emergira com a cultura Pré-D. significante (objetivo) e inconsciente (subjetivo) são obviamente distintos. Este acontecimento é formalmente correlato à compreensão social do papel do simbólico pleno ou convencional. que se denuncia já no próprio título de sua conhecida obra: O escriba (Pré-D) – Gênese do político (D) [20]. entretanto. É precisamente esta operação de ocultação que permite a Marx transmudar a história humana . do seu modo ser lógico. que a bem fundada associação lacaniana entre lógica do significante (PréD) e lógica do inconsciente (D) não pode ser aí computada. as confusões entre Pré-D e D são quase que a norma e tão amiudadas que deixamos ao leitor o fácil exercício de inventoriá-las.218 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ciais circunstâncias.

. como mostra a figura 8. nem com o espírito absoluto de Hegel. como ser-de-horizonte [22]. Isto posto.6. com o novo espírito qüinqüitário (I/D/D). Desde já desculpamo-nos com o leitor. por identificação (I) com a cultura. o máximo dos máximos. e depois. O processo de integração propriamente cultural do indivíduo será feito. ele se quer tão apenas espírito humano em sua plenitude lógico-qüinqüitária. não teremos alcançado resultados com a precisão e clareza que de início almejávamos. ao final. vamos começar pelos extremos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 219 se identifica com a classe dos escribas) nasce com o totemismo. Dada a novidade e sobretudo a complexidade da questão. como sempre. no caso. É importante observar que este novo espírito qüinqüitário não pode de modo algum ser confundido com o Espírito Santo. o novo espírito hiperdialético não se pretende logicamente máximo. que parecem ser os de mais fácil compreensão. fundamento ideológico da dominação social que ela vai exercer. porque. menos ainda. pois. e ao se apossar sub-repticiamente [21] dos deuses institui a idolatria. além. Primeiramente. podemos começar a enfrentar aquilo que é nosso objetivo maior neste trabalho: delinear como seriam as relações sociais – políticas. econômicas e culturais – na cultura nova lógicoqüinqüitária. à diferença destes. porque são ambos apenas trinitários. permanecendo o Absoluto com seus específicos direitos.

o novo modo de decisão coletiva (I/D/D).220 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 8. a partir do voto dos indivíduos (I). Aliás.6 . é difícil responder. embora possamos antecipar que os mecanismos plebiscitários existirão. completamente corrompidos e desmoralizados que estão pela força do dinheiro. do oligopólio dos meios de comunicação de massa e do marketing de todos os dias. Como será.Relação indivíduo/sociedade na cultura nova qüinqüitária No extremo oposto a legitimidade política não será mais um resultado contábil (D/D). Quando é eleito um novo Papa diz-se que o foi por uma decisão dos cardeais sob a inquestionável inspiração . como na Modernidade. os sistemas eleitorais vigentes hoje por toda parte não passam de rematada farsa. até com grande freqüência. mas se constituirão apenas num elemento entre outros em meio à sofisticada trama do novo processo político. concreta e detalhadamente. de todas as horas. em função da disponibilidade de vastas redes tele-informacionais.

podemos pensar numa decisão inspirada pelo Espírito Qüinqüitário. muito ao contrário. resistente a todo e qualquer questionamento! Vejamos agora os três estratos econômicos. guardando-nos ciosamente de a eles não . Paralelamente. melhor diríamos. não nos identificaremos (I) mais com os papéis econômico-sociais (D/D)). levará inexoravelmente às fusões. Para fazermos uma idéia do que será o processo decisório na cultura nova. sem que haja a necessidade de um órgão central de planejamento. deste aos fornecedores. pensaria Hegel. por um cálculo (D/D). não por uma autoritária declaração de inquestionabilidade a priori. enfim. As pré-condições para que isso venha ocorrer já estão em acelerado processo de concretização: primeiro. à empresa única . vale dizer. apenas teremos ou ocuparemos estes ou aqueles cargos. etc. por se mostrar. a integração dos diversos sub-processos econômicos . Eis aí mais uma das inesperadas artimanhas da História. mas persistente baixa das taxas de lucros empresariais. e todos conectados ao sistema bancário. calculada. por sua vez. que na Modernidade é mediada pelo mercado (I/D). entrementes. a formação da demanda agregada a partir da demanda individual.ligação das caixas dos supermercados ao controle de estoques. até que se chegue.com isto. Não fica então a mínima dúvida quanto a como funcionará o sistema produção/consumo na nova cultura: teremos uma oferta/demanda completamente planejada. teremos o fim da competição e do mercado de bens de consumo. Em contrapartida. apenas por si e a posteriori. a formação de densa e extensa rede tele-informacional. na nova cultura passará a ser realizada por um processo lógico contábil.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 221 do Espírito Santo. destes às suas plantas fabris e respectivos fornecedores etc. depois. a gradual. que assim se afigura. Quanto à formação do D coletivo a partir do D individual. mas. ou seja.

Ao contrário do que todo mundo acredita. que ainda assim é boa bolada. o aspecto pessoal dialético (I/D) determinando o aspecto dialético coletivo (I/D) através de um processo lógico-dialético (I/D). Acreditar em mula sem cabeça é muito menos irracional do que acreditar em capitais voláteis. poderíamos identificar I/D como o excedente ou capital e o processo de articulação I/D como mercado. que se autodenomina classe média. Chegamos agora ao que se nos afigura o mais difícil de se prever. a princípio. na verdade é o que ali simplesmente não existe. entretanto. da sobra. valendo isto também no sentido inverso. precisamente. etc. opinião pública internacional. e não se trata de uma questão de fato. não importa se oficial ou contestatória. sob o ponto de vista econômico. E mais: tudo acontecendo bem no cerne da vida econômica da nova cultura qüinqüitária? Pelo que vimos até aqui. sem qualquer sentido. qualidade total. o que procuramos é tão simplesmente o mercado de capitais?! Talvez um mercado de capitais renovado?! Esta resposta meio maquinal parece. Já vimos que na Modernidade os indivíduos se apropriam (D) simplesmente do excedente coletivo (I/D). e a mais desabalada dentre todas as ficções: o mercado de capitais. em .222 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nos identificarmos. se pararmos um pouco para pensar. como “exige” a lógica global desta cultura (alguns poucos apropriam-se de quase tudo. por difícil de se bem compreender: que significa. a mais típica das instituições da cultura capitalista moderna. o mercado de capitais. se bem atentarmos. Aliás. Então. mas de pura lógica. sociedade da informação etc. o que denominamos teoria econômica. um bom número. direitos do consumidor. não passa de ficção da pior espécie. competitividade empresarial. déficit primário. veremos que ela pelo menos nos leva a compreender a natureza de nossas dificuldades.

. observaríamos que o fato da dimensão econômica vir ocupar agora três níveis lógicos {D. dentro tantos. mas estrita e explicitamente controlada. I/D e D/D} pode dar a impressão de que com a cultura nova qüinqüitária iremos ingressar na era da mais completa hegemonia do econômico em relação às duas outras dimensões do social. O inacreditável aqui é que tal arte de fingimento pudesse chegar um dia a tais prodígios. Na cultura nova qüinqüitária.). O que denominamos mercado de capitais é apenas um mercado secundário. o maior dos espetáculos da Terra! [23] Tudo isto deixaria de soar assim tão esturdio se levássemos verdadeiramente a sério o que se diz em Desejo. à vera. Finalizando. hoje. dando a impressão de ser o ser que é sem ter jamais sido gerado . Se examinarmos o papel da economia na seqüência das culturas .. em detalhes.eis. mantida como o que verdadeiramente é. fingimento e superação na História da cultura [24]: todas as culturas. a economia está associada às lógicas femininas . O mercado de capitais é exatamente a ficção que esconde esta simples e evidente verdade. que o atual predomínio do econômico de fato existe. conjunto de atividades meio. no cerne da vida econômica existirá. vendo-se em perigo. do que realmente se trata. D/D (científica moderna). fingem já ser aquela que a irá superar. E não estaríamos já vivendo numa tal situação? Diríamos que não. o mercado de capitais! Só precisamos agora especificar. uma marca da Modernidade em declínio. a política e a cultural.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 223 forma de cotas de fundos de pensão etc. mas que ele é. em que tudo aquilo que foi cruamente apropriado circula com enorme estardalhaço. Na segunda. como isto irá funcionar. I/D/D (nova qüinqüitária) -. na verdade. para a surpresa de todos nós.I/D (medieval cristã).. veremos que na primeira ela aparece pela primeira vez como uma dimensão social autônoma.

completamente subordinada às duas outras dimensões sociais. . conjuntos de atividades meio.o desejo transformado em demanda comercial. o predomínio da economia é. processo de acumulação de capital. subrepticiamente imperantes. Do ponto de vista lógico. Como se fôssemos hoje uma cultura com sérios transtornos mentais. marginais que somos à Modernidade paradigmática anglo-saxã. suprimidas. todo o marketing multinacional só aparentemente é comercial. a ação econômica é apenas o modo preferencial da cultura moderna hegemônica agredir as outras culturas. sua intenção sendo sempre decidida e inequivocamente etnocida. ou seja. de modo explicito. isto significa que as lógica femininas {D e I/D} estarão sendo abertamente subsumidas. desejo domesticado pelas técnicas de marketing e a história transformada em história calculada. mas desta feita todas determinando. É importante compreender que. como na Modernidade. I/D e D/D}. desnaturadas e. de volta. Teremos por isso uma economia superiormente dinâmica.224 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recalcadas {D e I/D} e o predomínio do econômico é tão apenas um efeito sintomático. a economia só na sua aparência sintomática pode se afigurar como onipotente. De fato. mesmo em se tratando da Modernidade. porém. antigas ou em processo de gestação. outra face da volta do recalcado e já desnaturado . à cultural e à política. Do nosso ponto de vista. mas conservadas e não. na verdade. verá que. progresso. Na terceira. um efeito de cultura. por exemplo. recalcadas. isto só não é muito grave por representar um mal transitório inerente a uma fase necessária do nosso processo de autodesvelamento. Isto também significa que aquilo que é em essência meio se vê de maneira absurda transmutado em fim. as lógicas econômicas seriam realmente três {D. Quem queira ver.

A teologia cristã acolheu e re-elaborou a hierarquia vétero-testamentária: acima de tudo. Abaixo de tudo. o homem. onde vinha situar-se. Na cosmologia bíblica. a seus pés. na interseção da materialidade com a espiritualidade. o nada que é nada. espiritual. eram seis os degraus (dias ou eras) da Criação. das que não são enquanto não são. a inferior. tinha um lugar proeminente. o homem. o mundo criado. esturdia “matéria-prima” da criação divina. abarcando a totalidade dos seres inorgânicos e ainda o multifário mundo dos vegetais e animais. exclusivo. o mais bem acabado e porque também feito à semelhança do Criador. uma ordem intermédia.1) O homem cristão tornava-se então síntese de cor- . (figura 9. sendo o derradeiro. mesmo que rebaixado em alguns pontos. material. onisciente e onipotente. Protágoras Já vigeram hierarquias que abarcavam o homem e tudo mais que se pudesse imaginar. das que são enquanto são.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 225 9 Re-significação cósmica do homem e do processo de auto-determinação cultural O homem é a medida de todas as coisas. naturalmente. distribuído em três ordens: a superior. permaneceu Deus. habitada por anjos organizados em nove coros e demônios em hordas ou avulsos. como expiação pelo pecado de desmedida curiosidade.

que persiste. o Uno/ Trino (I/D). no seu estatuto da infinita perfeição.226 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO po e de alma. do lógicodiferencial (D) [1] e do lógico-identitário (I). Entrementes. DEUS UNO/TRINO Anjos e demônios Mundo espiritual Homem A CRIAÇÃO corpo/alma Mundo Inanimados. concebidas como degraus ou quanta de perfeição. dissimulado. embora substantivas na sua fisionomia. de estatuto lógico-dialético (I/D) para que assim se assemelhasse (logicamente) ao seu Criador. estas e outras similares hierarqui- . O homem tinha também aqui o seu lugar distinguido.1 – Hierarquia cristã dos existentes É importante notar que estas hierarquias. do espacial e do temporal. são na verdade quantitativas. Mesmo quando valemo-nos da modalidade ‘infinita’ é ainda o aspecto quantitativo. Isto fica bastante claro na hierarquia cristã. onde Deus e homem são ambos lógicotrinitários (I/D). material vegetais e animais NADA Figura 9. diferindo entretanto no grau de sua perfeição. embora nada assim tão excepcional: sempre o terceiro. portanto. não importa se contado de cima para baixo ou em sentido contrário.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 227 as foram paulatina e inexoravelmente erodidas pela ciência [2]. que veio justamente para aplainar. em plena praça pública aconteceu primeiro a morte matada de Deus. não se fazendo esperar. que a pensemos de verdade. nestas cínicas (bem mais do que trágicas) circunstâncias. como nos quer impor a ciência. Como fomos informados por Zaratustra. a seguir. pelo que se poderá então restituir ao homem a devida dignidade onto-lógica e alcançar- . Vem de volta revigorado na Modernidade com Hegel. Acreditamos que daí partindo se consiga aportar sem maiores dificuldades à uma nova hierarquização dos existentes. a renovação da hierarquia dos existentes passa a ter como condição primeira e necessária a reordenação dos modos de pensar ou. veio a morte do homem. o que é o mesmo. a nosso juízo. exige que confrontemos de maneira resoluta a ciência. Ele remonta à Grécia: a Parmênides. deve-se começar resgatando o velho preceito filosófico que estabelece que ser e pensar. um lugar para o homem. que garantia estas hierarquias. e. desta feita o pensamento visando a idéia ou o conceito. pela mensuração. como na atualidade sói acontecer. que desta sorte marchava pelos próprios pés para a vala comum do Cosmos. Recuperado o princípio. em nível transcendental (I). a reordenação dos seus saberes correspondentes . o pensamento visando o ser. o espírito absoluto. de algum modo são o mesmo. que não seja tão apenas quantitativa. em nível dialético (I/D). Encontrar de novo. o infalível mercado [3]. ao invés de nos deixarmos por ela pensar. todos os valores. Para tanto.as lógicas. na ocasional falta desta. em nível dialético (I/ D). no limite. está também implícito em Platão. Este é o incontornável pré-requisito para que possamos vir a dispor de uma nova referência para a ordenação dos existentes. desta vez o pensamento visando a História ou.

Reestruturação do território lógico.228 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mos. . 3. algumas que estão já em curso ou até mesmo concretizadas (figura 9. Redefinição do homem e da história da cultura I/D/D 1. como tanto desejamos. lógica das partículas elementares I a I/D/D 5.. A partir daí nasce (2) uma nova e mais precisa concepção do homem. cinco grandes etapas neste processo de des-encobrimento conceptual. Desvelamento da estrut. a re-significação do seu processo de auto-realização (a história da cultura). 2. 4.2). em princípio. (3) será constatar que a mesma estrutura lógica que parametriza a história da cultura vai se revelar igualmente razão organizadora do mundo . I/D.. sem dúvida.. D.Re-significação cósmica da história da cultura. em primeira instância. dando ensejo à explicitação/ institucionalização de um novo e potente eixo reordenador de todas as coisas deste e doutros mundos .o eixo das lógicas.2 . que tem por imediato corolário a reavaliação.Etapas que levariam à re-significação da história da cultura Como primeiro momento deste processo (1) vislumbramos uma reorganização geral do território lógico. Surpreendente para todos. Distinguiríamos. o eixo onto-lógico I. Princípio antrópico renovado. o homem restituído ao pináculo do Cosmos Figura 9. do que vem sendo até agora a história da cultura..

quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. era apenas um lugar marcado. tanto da cultura em processo. sempre a meio caminho .não só na tradição filosófica dos não conformistas” (Pascal. a sugestiva promessa do reencontro do homem e do Cosmos. como na lingüística saussureana. forte ou fraca. quanto da base sobre a qual erige-se o universo físico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 229 micro-físico. Nietzsche. fosse qual fosse a versão.é de seu feitio. Re-estruturação do território lógico. que até então. Deleuze. Heidegger. doravante solidamente estabelecido. A homologia desvelada exata pelo comum-estruturar-se-segundo-as-lógicas. sempre às esgueiras. Kierkegaard. que se re-significa a partir daí. arrola-se também a dialética (tanto platônica. também. agora de caráter cósmico. O princípio antrópico. Ortega y Gasset. mas também em outras áreas do saber. mas até então não realizado.1. na antropologia estrutural e também . Depois. como conseqüência. Rosset). Começa com a recuperação das lógicas segundo a tradição: além da unanimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). pela constatação da necessidade de se assumir a existência. que ganha assim uma segunda e definitiva significação. 9. estará proporcionando (4) um novo fundamento ao princípio antrópico [4]. para além dessas. teremos também de algum modo enriquecida nossa compreensão da cosmogênese (teoria do big bang). que se encontrava já presente . irá (5) então suscitar uma re-leitura [5] da história da cultura. como acontecimento auroreal da história humana. criticista-kantiana e fenomenológico-husserliana). o eixo onto-lógico Este trabalho já está de certo modo realizado [6]. bem próximo do modo como já são hoje concebidas. especificamente do elenco das partículas elementares. de uma lógica da simples diferença.

destas quatro lógicas de base vem. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3). I/D/D/D=I/D/3. -. exemplificado pela seqüência dos números naturais (I ≈ 0. um evidente sinal de sua profunda essencialidade.. de modo natural.lógica da identidade (ou transcendental) (I) e lógica da diferença (D) -. que não deixa de ser por isto menos pertinente.230 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante). facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído. como uma exceção. D ≈1. tanto paraconsistentes (ou paradoxais). D/D=D/2. I/D. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). D/D/D/D ≈4.. etc. através da operação de síntese dialética generalizada ( / ). que está aberto .um. quanto paracompletas (ou intuicionistas) [7].) constitui o mais simples semimonóide livre [8]. Uma engenhosa re-nomeação. sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas . enquanto que o semimonóide livre fundamental (seqüência das lógicas) é por essência criativo. Com isso são geradas a própria dialética (I/D). vale dizer. mais um. noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana. na medida em que incorpora o essencialmente outro. limitando-se à mera “contabilização dos existentes” .. Sabe-se que a seqüência das lógicas (I. a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). Na esfera do formalismo acadêmico em voga. verificamos que o monóide livre fundamental (seqüência dos números naturais) não gera qualquer novidade. D/D/D = = D/3. mais um. D. tendo-se em conta que este é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos. ter-se-ia também que considerar as lógicas de fato desviantes... sem descanso. o monóide livre fundamental. Ao colocálos em confronto.). . D/D/D ≈ 3. e assim por diante. D/D ≈ 2. I/D/D = I/D/2.

. .3.3 – Encadeamento das estruturas lógicas .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 231 ao permanente “trabalho do negativo . As lógicas identitárias .. I/D/2. tal como ilustra a figura 9.definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos. sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente..I. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 9. I/D.

a pré-disposição filosófica que identifica ser e pensar. na sua plenitude.232 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Qual o sentido profundo desta articulação? Ela nos fala da essencial correlação que precisa existir entre o estatuto lógico da realidade que tenhamos admitido e aquele do processo que a pode deveras gerar ou desvelar. prossegue com Platão e se reafirma com Hegel.4 – Processo versus realidade Em suma. a realidade maior que se visa é a simples existência contábil. 1 2 3 I I/D I/D I I/D D I/D/ 2 D/ 2 0 1 2 I= D/0 I D I D I= D/0 I D I I/D 0 1 Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D 0 Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Figura 9. Se. se a realidade maior que se quer visar for a história ou o espírito absoluto. como em Hegel.4). não . o processo que a gera ou desvela terá que ser lógico-dialético (parte central da figura 9. como acontece na matemática. simples produtora de um número sucessor (parte esquerda da figura 9. só se irá entregar no curso de um complexo processo hiperdialético qüinqüitário (parte direita da figura 9. quando comparamos diferentes modos de ser e seus respectivos processos de desvelamento. que se inaugura com Parmênides. Parece-nos isto bastante intuitivo. e ainda. podemos ter a certeza de que este.4). se estiver em causa a geração ou o desvelamento do ser lógico-qüinqüitário. por exemplo.4). em especial. o processo que a gera ou desvela será naturalmente aquele da reiteração do mesmo.

Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo.apenas o homem é capaz de operar em nível lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). do ser simbólico proposicional (Cassirer). a nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos 9. tomando-se como referência o eixo das lógicas. Toda cultura teria. tais caracterizações constituem exemplificações concretas mais ou menos íntegras daquela capacidade lógica fundamental. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura . mormente depois que tivermos compreendido que ela é a única via que nos pode levar à subversão/superação da Modernidade. O mais avançado dos mamíferos não passa da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 233 pode de modo algum ser interrompida ou esquecida. é bem verdade [9]. por exemplo. Agora. A rigor. nada além. Outras conceituações não são por isso rejeitadas. objetivo do ser próprio do homem. Ser e pensar são o mesmo.2. do homem como animal dotado do logos (Aristóteles). também. A partir daí a história da cultura pode ser compreendida como processo de auto-desvelamento simbólico. do “inventor” da diferença clânica que viabiliza a instituição das regras de proibição do incesto e correlata obrigatoriedade da exogamia (antropologia estrutural). notáveis. É o caso. torna-se possível a conceituação precisa do ser humano como ser lógico-qüinqüitártio. a simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição extrema superior . assim. no entanto. mas apenas subsumidas. que lhe permite operar com símbolos plenamente convencionais.

de imediato. ou seja. entretanto. produziria culturas de tipo misto. Resumidamente. a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas. come- . a seguir. destes e de outros tipos não-nodais. especialmente quando intenso. uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza. cultura tribal. dialética I/D. e que lhe confere.teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I.234 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de sua religião oficial ou dominante. inclusive. pré-D. focalizando apenas uma área restrita . Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas. clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2). Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. O contato cultural.o Ocidente e o Oriente Próximo . não nos ocuparemos disto. da diferença D. cultura sedentária de base agrária. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. onde se “inventa” o trabalho e como conseqüência. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição. o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 235 çando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade.5). ainda por vir. D.5 – História da cultura. cultura medieval cristã (patrística). que hoje domina o mundo. uma manifesta síntese das culturas anteriores. I/D/D ou I/D/ 2 . não castradora. pela primeira vez. cultura hiperdialética qüinqüitária. I/D. I. cultura moderna de base científica. cultura judaica. uma cultura à medida do homem (figura 9. e. de pré-I a I/D/2 . já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). Cultura tribal I Cultura judaica I/D Cultura nova I/D/ 2 Cultura moderna D/ 2 Cultura grega D I 0 I = D/ Animalidade Cultura tribal D Cultura imperial agrícola I Cultura judaica I/D Cultura cristã (patrística) PRÉ-D PRÉ-I Animalidade PRÉ-I Cultura tribal PRÉ-D Cultura imperial agrícola PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Animalidade Figura 9. cultura prometéica grega. por todos os títulos. D/D ou D/2. porque. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral.

tendo como ponto de partida a recontagem do número de forças realmente atuantes na natureza [10]. Com isto. Preliminarmente. também a força de Higgs (suscitada no processo de unificação eletrofraca. forte (gluônica) e fraca –. justamente por serem mais elementares). gravitacional e forte gluônica. será preciso proceder a uma re-interpretação dos dados atuais da micro-física. as delícias de não ter mais nada a pensar. redutíveis às primeiras (eletromagnética. uma nova cultura de caráter lógico-qüinqüitário. ao invés de apenas quatro. De modo conseqüente contaríamos seis. com todos os seus mediadores já detectados. nos espera. oferecendo-se como justificativa a vigência do pensamento único e outros despautérios de igual jaez por aí forçados a circular. ou pior. portanto. de outro. mecanismo pelo qual se proporciona massa explícita às partículas) e a antiga força forte de Yukawa (que garantia a integridade do núcleo atômico. Tomando-se agora como referência o modelo 9. pode-se de imediato perceber a sua estruturalidade conjunta: de um lado. implicando menores níveis energéticos). com todos seus mediadores ainda não detectados. três forças simples (de Higgs. três forças compostas. ou o ingresso na pósmodernidade. Falsidades mais falsidades. eletromagnética. que é mediada por pions). forças da natureza. com toda a certeza. justamente por serem entes derivados.3. Trata-se basicamente de incluir. fraca e forte de Yukawa. dando-se como prova a promiscuidade de todos os estilos em arte. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares .236 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Esta ordenação lógica das culturas é suficiente para deixar a nu o discurso ideológico que alardeia o fim da História. substituída pelo toma lá dá cá das negociações e negociatas. além das quatro forças hoje reconhecidas – gravitacional.

1 nos permite uma visão comparativa do modelo standard com o modelo ora proposto. Os quarks continuariam existindo.(m) mion neut.(t) neut.fracos fóton neut. porém. aceitando-se a substituição do conjunto dos seis quarks pelo conjunto dos seis bosons representativos das forças. substituindo os correspondentes três pares de quarks pelos três pares de bosons mediadores de forças. que não contradiz qualquer dado empírico e simetriza.(e) elétron neut. bem melhor equilibrado: TABELA 9. à esquerda).1 . bosons fracos e fóton QUARKS: ainda existentes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 237 standard (Tabela 9.(t) tau b s u t c d neut.(e) elétron BOSONS: gluon. porém. mion/neutrino do mion e tau/ neutrino do tau). como entes de razão. A Tabela 9. o que não deixa de estar acorde com a experiência empírica. em termos de férmions e bosons o modelo. considerados entes de razão. ou seja. que atesta a impossibilidade de sua existência em estado de isolamento. graviton.MODELOS PARA AS PARTÍCULAS ELEMENTARES MODELO STANDARD FERMIONS LÉPTONS QUARKS MODELO ALTERNATIVO PARTÍCULAS FUNDAMENTAIS FERMIONS BOSONS SIMPLES neut. torna-se relativamente fácil comprovar a perfeita homologia . podendo ser agora redefinidos para evitar as cargas fracionárias Aceitando-se a modificação por nos sugerida.1. porém. chegamos à conclusão de que devemos preservar integralmente o bloco formado pelos três pares de léptons (elétron/ neutrino do elétron.(m) tau mion gluon graviton p/Higgs COMPOST. pion b.

conforme ilustra a figura 9. uma a uma.6 [11]. tendo por condição a simples inversão de seu spin. da radiação sincrotron provocada pela aceleração circular do elétron. por exemplo. É o caso. Apenas este conjunto de equações representativo da desintegração do tau e o pressuposto bastante intuitivo de que todos os bosons (mediadores de força) devam ser alocados a posições lógico-diferenciais e todos os fermions (“peças elementares” de construção) a posições lógico-identitárias. tendo ainda disponíveis os três bosons simples (partícula de Higgs. um elétron pode ceder parte de sua energia cinética emitindo um fóton. o tau: τ(I/D/2)= =ντ(I/D) + π(D/2)= =ντ(I/D) + νµ(I) + µ(I/D)= =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + W(D)= =ν τ(I/D) + ν µ (I) + ν µ (I) + ν e(PrØ -I) + e(I) Como é bem sabido. a mais complexa delas. por suposto. exceto uma. graviton e gluon).e[↑] = e[↓] + γ[↑↑] -. as etapas do processo de desintegração de apenas uma partícula. com quase nenhuma hesitação. todas as posições das estruturas lógicas. são suficientes para permitir-nos preencher. talvez. basta que acompanhemos. Sendo a posi- . Nos restaria apenas preencher a posição Pré-PréD.238 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO existente entre o elenco fundamental de partículas com as lógicas. o que nos permite dar ainda mais um passo na seqüência de equações anteriores: =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + νe(PrØ -I) + e(I) + γ(PrØ -D) + e(I). Para evidenciá-la.

Fracos D Pion D/ 2 I 0 I= D/ Partícula Neutrino de Higgs (elétron) D I I/D Muon Neutr. com o que se completa a adjudicação das partículas elementares às lógicas conforme ilustra a figura 9.(tau) {Quarks} PRÉ-D Fóton Graviton Fóton Elétron Graviton Neutr.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 239 ção Pré-Pré-D uma posição lógico-diferencial. Não se pode ter grande dúvida de que este deva ser a partícula de Higgs. Neutrino (elétron) I Elétron Neutr. Também não poderia ser o gluon. isto porque o graviton só pode atuar depois que a massa houver se manifestado.6 – Lógica das partículas elementares.6 [12]. que age mediando estruturas já bem complexas (os quarks no interior dos barions).Muon PRÉ-I PRÉ-D Partícula de Higgs PRÉ-I Neutrino (elétron) PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Partícula de Higgs Figura 9. naturalmente. ficando o graviton junto ao fóton em pré-D e o gluon junto aos bosons fracos (W ± e Z0) em D.(mion) I/D Próton/Nêutron Tau I/D/ 2 Gluon Bos. a partícula de Higgs em Pré-Pré-D. precisa receber mesmo a alocação de um boson. Teríamos então. de pré-I a I/D/2 .

hoje experimental e definitivamente estabelecido e para os quais os físicos não encontram uma justificativa teórica. O modelo ora proposto tem inúmeras vantagens sobre o modelo standard. seria.no caso. deixam de ser quatro . os cientistas não querem ou não conseguem enxergar! c) o sub-modelo dos quarks é absorvido pelo novo modelo. todas elas com características determináveis a priori em função daquelas das forças simples). verificamos que três são mais elementares. um valor completamente arbitrário .próton e nêutron. dentre as quais destacaríamos: a) acaba-se com o absurdo de não se contar corretamente (honestamente. como já tivemos oportunidade de demonstrar [13]. na circunstância.junto com o tau em I/D/2 tem um excepcional significado que deixamos para comentar um pouco mais adiante.para serem seis (como os léptons e os quarks). é uma exigência lógica. em sintonia com o resto do modelo. resolve-se o grave problema de não se dispor até hoje da menor justificação na distribuição das características das forças. estranhamente. a redução já realizada da força de Yukawa à força forte gluônica é disto a prova irretorquível que.240 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A alocação dos nucleons . servindo justamente para estruturar o mediador de uma força composta correlata (por isso. que não são mais hoje considerados partículas elementares . b) ademais. na medida em que todos o bárions passam a ser considerados modos excitados de “partículas lógico-qüinqüitárias” (formalmente redutíveis a três “partículas lógico-trinitárias” [14]. a palavra mais adequada) o número de forças. semelhantes aos quarks do modelo standard. os três níveis de férmions (agora também de bosons elementares]. contando-se seis. com a vantagem de poderem dispensar as incômodas cargas fracionárias). .

de caráter nada experimental).o ser-uno-trino (tempo. a priori. ao homem. espaço e matéria)! O princípio antrópico [16] emerge da constatação de que admitidas variações. a nosso ver. então. quase tão drástica e dramática quanto o foi a da Filosofia para os gregos: para estes. São geralmente reconhecidas duas versões do princípio. e o homem a ele. Quanta simplicidade e clareza! Bastaria considerarmos que a Física nasce de uma decisão cultural (logo. De fato. para os modernos é apenas algo levemente mais complicado . d) e. desde o big bang o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. ainda que diminutas nos valores das constantes universais [17]. eis a essência do princípio.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 241 os estados lógico-qüinqüitárias de mínima energia são ocupados pelos nucleons. Princípio antrópico renovado . duas interpretações do que. seria apenas um fato: uma 9. a realidade (desejada) é o ser-um. o próton e o nêutron. forçando-se um pouco a mão fecha-se o círculo: este Universo destinava-se. Tudo isto não nos pareceria assim tão surpreendente se tivéssemos todos uma maior familiaridade com a filosofia da Física. finalmente. transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo que se faria impossível o advento do homem. conforme o acima exposto. apesar de todas as evidências acerca da incomensurável diversidade fenomênica do mundo. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram constantes e universais. o mais importante: põe-se às claras a estrutura lógica subjacente ao elenco das partículas elementares.4. ab initio. as determinações lógicas do mundo físico são muito mais profundas do que estariam os físicos dispostos a admitir [15].

um pouco menos na fraca. Dentre os mais freqüentes e potentes argumentos que lhe são contrapostos destacaríamos dois: primeiro. em que se pressupõe que ocorreu um pré-ajuste intencional das constantes. Assim sendo. Entrementes. se fossem deuses diferentes. mas o simples produto de um descontrolado impulso especulativo. fruto de uma única tirada. segunda. por exemplo. conforme Hugh Everett. o ajustador de constantes. não se estará automaticamente assegurando o aparecimento do homem. segundo John Wheeler [18]). O princípio. que desmoraliza a versão forte e debilita aquela que já se tem como versão fraca do princípio: o que determina o curso do Universo não é apenas o valor das constantes.242 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO versão forte. que. haveríamos que pressupor também um deus montador de formas funcionais. ou seqüenciais. de parte de um Deus que desejava ver por terceiros louvada sua bela obra. uma entre inumeráveis outras já realizadas ou em processo permanente de realização. não temos visto mencionado aquele que nos parece dentre todos o mais decisivo dos argumentos. o princípio antrópico não seria um verdadeiro princípio científico. se fossem o mesmo. teríamos que pensar a questão das constantes concomitantemente à da estipulação das formas funcionais. tratar-se-ia da introdução de uma causa final). garantido o valor das constantes universais. para a . mais na sua versão forte. talvez. todas elas resultantes de flutuações quânticas de um “vácuo” altamente energizado (universos aleatórios. a não aceitação de que se introduza no domínio científico outra espécie de causa que não a eficiente (no caso. paralelos. Para estes críticos. em que os valores das atuais constantes universais seriam na verdade uma realização totalmente probabilística. uma versão fraca. mas fundamentalmente a forma das equações. da maioria dos cientistas. além do deus ajustador de constantes. questão cujo sentido estaria ainda por ser precisado. ainda sofre o repúdio.

em especial. e aquela que . no entanto. tendo por base uma concepção alargada da lógica. pela lógica hiperdialética qüinqüitária que. Como então sair de tal imbroglio? Somos de opinião que o princípio. até hoje. no caso. realizado. Isto sim. se estaria carecendo de uma justificação para o princípio antrópico que conjugasse. e de outro a história da cultura como processo de desvelamento do ser (lógico) do homem é. nos moldes daquela por nós já delineada [19]. apenas a partir da física ou da cosmologia. ele não poderia mesmo consumar-se. A homologia entre. numa versão ainda mais radical. afora a grandiosidade da intenção. entendida esta não como uma entre outras das chamadas “ciências humanas”. de outro a antropogia filosófica sustentada por uma lógica ressuscitada. ainda permanece não visitado. a cosmologia/física. das modalidades de crítica contra ele até hoje assacadas. o novo fundamento que necessitávamos para o princípio antrópico. na medida em que não falamos apenas de condições gerais de possibilidade de uma convergência. sim. mas como uma antropologia renovada. o conjunto formado pelas partículas elementares. não seria propriamente um deus. de simples demarcação de um lugar de encontro que. de um fato extraordinário: a perfeita homologia entre a estrutura lógica (I/D/D). ele requer também o comparecimento efetivo e independente do homem através da antropologia. a nosso juízo. mas. não passou de uma intuição ainda obscura. de um lado. é marca distintiva essencial do ser humano. pelo menos. Podemos assim afirmar que estamos frente a uma reafirmação do antigo principio. mas apenas um demiurgo delegado ou subcontratante. de um lado. traria ao princípio um verdadeiro sentido que o deixaria a salvo. Em suma. que caracteriza o elenco das partículas elementares. Por definição mesmo do que seja um encontro. porém.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 243 nossa sensibilidade. para nós.

Isto é realmente possível através da substituição do neutrino do tau . entre mundo e pensamento do mundo. porém. mais estáveis.4) é ocupada pela partícula tau. mas de nível energético mais baixo (menor massa) e por conseqüência bem mais estáveis [20]. a correspondência se estabelece a nível qüinqüitária I/D/D (a leitura da estrutura das partículas eqüivale à leitura de um texto. inversa e coerentemente. na versão por nós ora proposta.referimo-nos aos nucleons. Mesmo considerando que o princípio já esteja suficientemente justificado.244 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO referencia o processo de auto-realização cultural do homem. por isso. Vimos que a posição I/D/D no quadro lógico das partículas (figura 9. É importante observar que as antigas versões do princípio antrópico estabeleciam uma correspondência homem/universo a nível científico. D/D ou D/2 (porque baseadas no conhecimento objetivo do mundo). enquanto que. serem também alocadas à mesma posição I/D/D . o que de certa forma rebaixava o homem. em 5 partículas realmente fundamentais e estáveis: τ = ντ + νµ + νµ + νe + e. ao cabo de 4 etapas. se constitui no paradigma concreto da logicidade qüinqüitária? Para responder é necessário compreender como “a partir do” tau podem se formar estruturas homólogas. como acima mostrado. Acontece que existem outras partículas (barions) de mesma estrutura. ou seja. em função de que ela se desintegra. Que pode isso significar. o que. não precisamos temer os riscos de ir ainda um pouco mais longe. rever nota 5 deste capítulo). se o tau. que precisam. a propósito. alça o Universo à altura do homem. A similitude entre a lógica das partículas e a lógica do ser humano vai a detalhes verdadeiramente insuspeitáveis. próton e nêutron.

por um anti-elétron (e). sobra um quark (q)(I/D). TAU PRÓTON ( e +e) 0 NÊUTRON (W+q) e e e e e e W e q Figura 9. isto é. razão pela qual só existem duas possibilidades de substituição do neutrino do tau (nt): uma. Com a desintegração. é sem qualquer dúvida feminina [21] . por ser mais pesado do que o próton. Vê-se que a “sexualidade” do nêutron.7 – O tau e os nucleons O nêutron (I/D/D). a outra. que. Nesta última os neutrinos do mion (nm) já estão saturados (por estarem ali presentes o neutrino do mion e a sua respectiva antipartícula). determinada por seu modo de desintegração. o que vai “ensejar” justamente a formação de um próton. quando isolado. emite um W(D). por não poder existir em estado de isolamento. usa a própria energia cinética ou a interação com outra partícula para se transformar num próton (I/D/D). “ensejando” precisamente a formação de um nêutron.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 245 na estrutura do tau.7. por um neutrino do elétron (ne).fundada num boson fraco W (D) e num quark q(I/D). como ilustra a figura 9. . se desintegra (vida média de 925 s) pela força fraca. que por sua vez também se desintegra num elétron (e)(I) e num neutrino do elétron (ne)(Pré-I).

fundada num elétron e(I) e num píon p(D/D= =D/2). O mais surpreendente é que vamos encontrar uma situação absolutamente análoga quando examinamos o processo de desenvolvimento do ser humano.246 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A comunidade dos físicos aposta na desintegração do próton como um dos modos de referendar a atual proposta de unificação da força forte com a força eletro-fraca (Teoria da Grande Unificação . por ser a partícula de menor massa. No processo de desenvolvimento normal.8. mas sim a passagem a um nível de estruturação lógica máxi- . e esta é a razão pela qual a partir daí poderem se formar os demais agregados físicos – átomos. Entretanto. O nêutron. todas as experiências visando a comprovação da aludida (ardentemente desejada. É interessante observar que o nêutron (feminino) só se conserva como tal na proximidade do próton (masculino). ainda mais. quando em interação com o próton no núcleo atômico. Para nós não haveria propriamente tal fase de latência. parte inferior). após enfrentar e superar a problemática edipiana consumaria sua “opção” sexual definitiva e entraria numa fase de latência [24] à espera da maturação orgânica funcional. deixando como resto um elétron. macromoléculas e assim por diante (figura 9. no interior do núcleo. segundo Freud. também se torna estável [23]. a criança. constitui-se na mais estável de todas as estruturas qüinqüitárias. embora fisiologicamente definida macho ou fêmea. isolado. Sua “sexualidade” é pois inequivocamente masculina. moléculas. a desintegração almejada só poderia se dar pela emissão de um píon zero. como acreditava Freud?! O próton. servindo apenas para ampliar. o nêutron se desintegra. De qualquer modo. como já dissemos. o valor estimado da vida média do próton (já agora superior a 1032 anos [22]). “masculinizando-se”. não seria exagero dizer) desintegração foram negativas.GUT). Só existiria então um tipo de “energia sexual ou libido”.

caracterizada pela auto-suficiência e onipotência que a incapacita à composição de agregados estáveis de nível superior e. assume ares de onipotência bem de acordo com a postura andrógina a que nos referimos.ENTRE PARTÍCULAS ÁTOMOS/MOLÉCULAS TAU I/D/ 2 NÊUTRON (I/D)/(D) NÚCLEOS I/D/2 (I)/(D/2 ) D/ 2 PRÓTON PION Figura 9. A maturação sexual. instável.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 247 ma I/D/D=I/D/2. AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ .8 – Agregação para além de I/D/D Assim. Muitos psicólogos já chegaram à conclusão de que a criança. ainda de nível lógico- . que de certo modo caracteriza o andrógino.ENTRE HUMANOS GRUPOS SOCIAIS ANDRÓGINO 2 I/D/ 2 FEMININO (I/D)/(D) FAMÍLIA I/D/2 MASCULINO (I)/(D/ 2 ) D/ 2 AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ 2 . veríamos a criança ingressar numa fase crítica. ainda por cima. em certo momento do seu desenvolvimento (lógico/lingüística). deixando-a suscetível de regredir (se desintegrar) a estados anteriores menos estruturados. viria para obrigála a uma auto-realização. entretanto. ao invés de ingressar numa tranqüila fase de espera.

. Ela é uma realização a nível superior (consciente e simbolicamente representada) da lógica qüinqüitária no Universo. Tudo isto já aparece de forma alegórica no Banquete de Platão [26]. por tão grande ousadia. Como se pode ver. Esta seria a origem mítica do desejo e do amor. ficamos certos de que o homem representa o ponto mais alto do ser do mundo e o seu processo de auto-desvelamento ganha um sentido cósmico. A partir daí então é que se podem constituir os agregados humanos . Estes foram criaturas que.esperando apenas por ser “lido”. depois a assembléia de pares. quando ali é dada a palavra a Aristófanes para que exponha sua concepção do desejo e do amor. rebeladas contra os deuses. Malgrado a irrecusável homologia entre a estrutura das partículas elementares e as lógicas opera- 9. a propósito. feminina. ou (I/D)/(D).primeiro a “família” [25]. Re-significação cósmica da história da cultura . evidente: o homem (ou a cultura) é o “lugar” onde o Universo dá conta de si mesmo em seu mais elevado nível. isto é.248 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO qüinqüitário. estava tudo já escrito no diminuto par de nucleons próton e nêutron . isto é. serem secionadas bem ao meio. Vimos anteriormente que em suas grandes linhas a história da cultura era aquela do autodesvelamento do ser lógico-qüinqüitário do homem. obrigá-la a assumir uma sexualidade propriamente humana ou socio-lógica. condenadas assim à eterna busca de uma integridade perdida. porém. viria corroborar a tese da significação cósmica da sexualidade humana. o que.5. Em outras palavras. mais estável. tiveram como castigo. Ele o faz valendo-se do mito dos andróginos. correspondente a uma das duas possíveis diagonais de I/D/D: ou (I)/(D/D). Com o princípio antrópico consolidado. a nação etc. masculina.

mas não num grau menor ou imperfeito. se apresentariam sob um duplo aspecto: um. para sustentarmos que contêm. assim. diríamos. Sem receio poder-se-ia então dizer que as partículas elementares seriam. é uma transposição formal ou estrutural da microfísica para o homem do tipo programa produto. de modo algum. propriamente físico ou concreto. Pelo contrário. Diríamos que chega-se. ainda que de uma maneira um tanto alegórica. devemos afirmar que a contém de forma completa e perfeita. ou talvez mesmo. A partir daí dá-se um processo ascendente ou evolutivo que passa pela formação dos núcleos. inclusive a subjetividade humana. depois aos orgânicos até a constituição do código genético: chega-se à vida. ou coisa similar. tão apenas na modalidade programática. A consideramos totalmente descabida.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 249 das pelo homem. Prossegue com a evolução propriamente biológica que começa com os seres unicelulares e vai até os cordados. compostos inorgânicos. outro. o ADN do espírito [28]. carga etc. começa então a evolu- ← . que postula a presença de um certo grau de consciência ou subjetividade a nível das próprias partículas elementares. sim. como dissemos. seres vivos dotados de sistema nervoso central. Precisemos um pouco mais esta idéia: as partículas elementares. simbólico. à animalidade estrito senso. O que se pode aceitar. encampando a visão teillardiana [27]. Sob o primeiro destes aspectos as partículas caracterizar-se-iam individualmente por um conjunto de propriedades estritamente físicas mensuráveis . Neste sentido. porém. pode-se dizer que as partículas elementares contêm em potência ou programaticamente a subjetividade. numa ainda mais sofisticada e mal conhecida modalidade programática do programático.massa. spin. na medida em que deixa transparecer uma conotação substancialista da consciência.. é importante frisar que não estamos. átomos.

. por fim. mas ao seu conjunto básico completo. desde a origem. a cultura nova lógicoqüinqüitária (I/D/D). as partículas se organizam numa obediência rigorosa à seqüência e às articulações das estruturas lógicas . A “invenção da gramática. algum dia. também diretamente lê-las. considerar o processo de ascensão físico-químico-biológico como um dos modos de realização da mensagem.I. de sorte que. podemos. à cultura que se põe à altura do próprio homem. Um segundo modo de realização haveria. uma mensagem cifrada: em algum lugar. de modo alternativo. assim. I/D. que leva ao surgimento do homem e da cultura e. em grau de plenitude. da cultura que desvela e assume. uma primeira consecução. Quanto ao aspecto simbólico. o processo seguirá inexoravelmente até o surgimento da cultura nova qüinqüitária. um processo sobretudo de desenvolvimento do sistema nervoso central que conduz à formação e desenvolvimento da neocórtex. de natureza simbólica. O elenco de partículas elementares se apresenta.250 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ção propriamente animal. a partir do que entramos num processo de evolução caracteristicamente socio-lógico. que este mundo. Pode-se. pela nova leitura. devemos esclarecer que ele se refere não a partículas isoladas. a destinação lógico/emocional do homem.6. que nos diz direta e imediatamente. Como mostramos na figura 9. faz então emergir a cultura. A nosso juízo. I/D/D -. é um mundo para o homem e vice-versa. como uma estrutura significante. advirá o homem e a cultura como processo de sua auto-realização. ou equivalentemente da diferença clânica. pois. vale dizer. ao invés de só mensurá-las e/ou determinar empiricamente suas múltiplas formas e comportamentos agregados. concreta. O que lemos aí outra coisa não é senão o código genético do “espirito humano”. chegando-se deste modo ao homem.

das que não são enquanto não são. Ademais. separação espírito/matéria. que é. como em geral se imagina. temperatura de seu ruído de fótons ou neutrinos de fundo. por exemplo. exaurido. ou mesmo pelo sofisticado sinal de sua curvatura -. não é mais. de ser um grave pecado ou mero infantilismo ontológica para transformar-se em exigência de uma superior coerência. ainda que esdrúxula. O antropologismo deixa. Assim já o pressentira Protágoras: o homem é a medida de todas as coisas. Não nos deixemos surpreender daqui para frente com a repentina inversão de muitas significações. estas considerações são mais do que suficientes para liquidar de vez com a persistente. a vida humana sobre a Terra. sobretudo. a transformar-se numa estrela gigante vermelha. densidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 251 É pelo menos curioso observar que o ADN do espírito e o “ADN da vida material estavam potencial e concomitantemente definidos nas partículas elementares desde o big bang. o que nos leva a concluir que a vida teve que se realizar para que o espírito pudesse deveras se realizar. para onde. ser feita (ou só) referenciada a parâmetros físicos . é e será sempre sua pró- . e passa a ser. sim. Entretanto.pela idade. o primeiro só se poderia realizar tendo a segunda como suporte. que levará o Sol. justo onde impera o seu máximo vigor lógico-qüinqüitário). se mude de um lugar para outro. auto-desvelamento ou objetivação simbólica do seu modo de ser lógico. o próprio Universo. o esgotamento do processo de queima do hidrogênio. ou seja. O episódico. A avaliação última ou mais significativa do estado do Universo não pode. volume. das que são enquanto são. pelo grau de realização de sua destinação. portanto. com o conseqüente abrasamento da Terra. Há tempo mais do que suficiente para que o homem (na verdade. mas sim pelo mesmo parâmetro que mede a cultura. a partir de agora. afinal. por isso.

que já bem antes a adivinhavam) da luta pelo advento da cultura nova lógico-qüinqüitária? . do que a deserção (dos que o sabem agora e dos demais. hoje. Como podemos doravante sustentar que a vida não tem sentido? Que nossa vocação é mesmo o niilismo? Que causa ainda maior estaríamos exigindo para admitir que a vida vale a pena? Diante destes fatos. que haveria de mais degradante. damo-nos conta agora de que sua chegada é um acontecimento maior não apenas na história da humanidade. Particularmente. com respeito á cultura nova lógico-qüinqúitária.252 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pria morada. mas igualmente daquela do próprio Cosmos.

e culturas lógico-diferenciais neolítica. dos impérios de base agrícola da Antigüidade (pré-D). o preclaro teólogo teuto-americano da cultura. Paul Tillich [2]. tomando como exclusivo parâmetro a lógica. en tant qu’elle est une préoccupation ultime.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 253 10 Superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária La religion. respectivamente.dos bandos de caçadores/ coletores do paleolítico (pré-I). podemos de pronto inferir que a esta última irá suceder uma cultura da linhagem lógico-identitária. nós [3]. greco-romana (D) e científica ou moderna (D/D=D/2) [4]. o eminente historiador britânico. Paul Tillich – Théologie de la culture Toynbee [1]. et la culture est la totalité des formes à travers lesquelles la préoccupation fondamentale de la religion peut s’exprimer. ora espiritualistas. as denominamos. já discriminava vagas civilizatórias alternantes. judaica (I) e cristã patrística (I/D) . opondo culturas do tempo e do espaço. faz discriminação similar. a que denominamos cultura nova lógico-qüinqüitária . ora materialistas. culturas lógico-identitárias . est la substance qui donne son sens à la culture. Por este simples vai e vem histórico e tendo-se ainda em consideração o caráter cínico materialista contábil da Modernidade. vocacionada para a temporalidade e para a conquista de um superior patamar de espiritualidade.

portanto. com o transcendente e lá pelos seus confins. um pouco que seja. Nosso propósito aqui será o de tentar explicitar as preliminares deste renascimento religioso (e. o que não pode ser. seguiremos o seguinte roteiro: A l gica ressuscitada O eixo onto-l gico aberto Comprometimento l gico da cultura Dire ª o e sentido da morada divina O homem como ser l gico-q inq itÆ rio Desejo de ser (menos) da cultura Reversª o do desejo na cultura q inq itÆ ria ExperiŒ ncia da ausŒ ncia do transcendente Deus Uno-Trino-. teológico) e penetrar. -SeptendecitÆ rio Antecipa ı es na Revelação Cristã . desvãos e madrugadas da cultura científica dominante. Para tanto. que ela estará ressurgindo integralmente renovada em seus fundamentos e em suas práticas. devendo-se atentar. de modo algum.. em sua significação mais profunda. com o Absoluto. à vera. contudo. nos deverá trazer de volta a preocupação. por conseqüência. Esta cultura nova. Nela veremos a revivescência de uma autêntica e consistente religiosidade.254 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO (I/D/D=I/D/2). confundido com a ola carismático/ midiático/supermercadológica que invade e infecta hoje os interstícios..

De outro lado. A partir daí.-Septendecitário (I/D/D/D/D= =I/D/ 4 ). atuais e concebíveis. como tal. sem nenhuma dúvida.1. e a recuperação do sentido da experiência interpessoal da ausência do transcendente – é o que nos irá reto conduzir ao desvelamento pós-idolátrico do Absoluto Uno-Trino-. a reorientação do desejo coletivo. Mas a abertura desta possibilidade. apenas formal. De um lado.. já antecipam este grande acontecimento da história humana que será. teremos definido a direção e o sentido em que se pode encetar. haverá a resignificação dramática de uma experiência bem cotidiana. não teremos dificuldades em reconhecer. acontecimento deveras revolucionário. os traços que. A convergência destas três poderosas determinações – o desvelamento da direção em que se possa buscar o Absoluto. o advento da religiosidade lógico-qüinqüintária. Com isso. como sói acontecer. que..FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 255 Partimos. da lógica ressuscitada que irá se constituir no grande eixo paramétrico a referenciar todos os existentes. de algum modo. agora voltado para o mais alto. Começa com a recuperação das lógicas segundo a bem estabelecida tradição filosófica: além da una- 10. Este trabalho já está de certo modo realizado [5]. a busca do Absoluto.A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto . mas geralmente mal percebida: a experiência interpessoal do transcendente. representando o definitivo abandono da idolatria até hoje vigorante em todas as culturas históricas. implícitos na lógica dos diversos modos da Revelação Cristã. haverá o despertar de um real desejo coletivo pelo transcendente. se constitui necessariamente como “experiência de uma ausência ou de uma falta”. de maneira conseqüente. deverá vir ainda acompanhada de dois outros acontecimentos de grande significação para a história humana.

Na esfera do formalismo acadêmico em voga. no criticismo kantiana e na fenomenologia husserliana). a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). para além dessas. de uma lógica da simples diferença.. D.que não deixa de ser por isto menos correta e pertinente -. . sempre a meio caminho -. A geração se daria através da operação de síntese dialética generalizada ( / ). Sabemos que a seqüência das lógicas (I. I/D/D=I/D/2. são geradas a própria dialética (I/D). Heidegger.) constitui o mais simples dos . Ortega y Gasset. sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas: da lógica da identidade (ou transcendental) (I) e da lógica da diferença (D).. Uma arguta re-nomeação destas quatro lógicas de base . D/D=D/2. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3) e assim por diante. Nietzsche. de modo quase natural. mas também em outras áreas do saber.256 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). como na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante) e também na antropologia estrutural. Deleuze). noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana [6]. Kierkegaard. pela constatação da necessidade de se assumir a vigência. quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. sempre às esgueiras. D/D/D=D/3. embora desviantes. sem descanso. Esta já se encontrava presente . vem. as paraconsistentes (ou paradoxais) e as paracompletas (ou intuicionistas). como uma honrosa exceção. não só na tradição filosófica dos “não conformistas” (Pascal. ter-se-ia também que considerar as poucas lógicas de fato lógicas. arrola-se também a dialética (tanto platônica. I/D. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído. Com isso. Depois.é de seu feitio. I/D/D/D= =I/D/ 3 .

Encadeamento das estruturas lógicas .. I/D.1. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 10. tendo-se em conta que o semimonóide é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos . um evidente sinal de sua profunda essencialidade.. I/D/2. . As lógicas identitárias . tal como ilustra a figura 10.I.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 257 semimonóides livres [7].os números naturais.1 .. sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente.definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos.

definitivamente. vale dizer. presentemente a reconhecemos também válida em nível lógico-qüinqüitário. Devemos notar que a simples instituição do eixo onto-lógico tem. que a institui em nível lógico-transcendental. ainda mesmo quando se lhe venha a atribuir o esturdio caráter de infinitude. pois impede. se venha a imaginar um Absoluto abaixo do nível humano. vale a pena citar três equívocos doutrinários bem atuais. dentre os quais poderá estar e imperar o inexcedível. A este respeito. o ser simbólico e os animais capazes de operá-lo. o ser discursivo e o homem. entretanto. acreditamos que agora. e assim tudo o mais. pois o “velho barbudo” é de estatuto lógico I/D/2. pseudo I/D) [8]. A partir de então. na posição I/D.diz-se jocosamente. Ela remonta a Parmênides. bastante comum entre as pessoas “mais educadas” de nossa sociedade. é retomada por Hegel. é importante observar. é a recusa em aceitar um Deus de semblante humano . um velho de longas barbas -. em nível lógico-dialético. permite também recapitular e estender a verdade da mais vetusta e essencial dentre as correlações filosóficas: aquela que vige entre ser e pensar. prontas a aceitá-lo como uma “força” ou uma “energia” cósmica. o Absoluto. um poderoso efeito profilático conceitual. seu exclusivo usuário.258 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Todos os entes mundanos podem ser posicionados nesta escala paramétrica constituída pelas lógicas: o puro ser. Em princípio. pode o eixo lógico complementarmente assumir um superior caráter onto-lógico. temos aí uma escala aberta. O primeiro. de imediato. estando. enquanto que forças e energias são de estatuto lógico D (ou. que nos traz a possibilidade formal de conceber algo para além do humano. na melhor das hipóteses. na posição I. na posição superior (I/D/D=I/D/2). Como o menor (logicamente) pode criar o maior? O segundo é o de . Um verdadeiro disparate. O eixo lógico desvelado.

Ao fazer do homem a arena onde se defrontam o espírito de Deus (I/D) e o maligno (D). 10. o que só faz obscurecer o seu entendimento. Superação da idolatria com o advento da cultura lógico-qüinqüitária Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. Ao contrário do que acreditava Hegel. fora do estrito âmbito da matemática. pois. o que se nos afigura um absurdo. lhe adjudicam automática e. o número infinito não é algo além ou acima dos números. entre outras coisas de grande importância. corretamente. A grande questão é que deste modo o homem passa a ter um estatuto lógico superior àquele do Espirito Absoluto. só que maior do que qualquer segmento que se possa efetivamente exibir. A noção de infinito é essencial e irredutivelmente quantitativa. não há bons e maus infinitos – pelo menos para a teologia. como vimos. tornou-se possível. Isto vale para qualquer tipo de infinito. O mesmo vale para o segmento de reta infinito: ele é necessariamente um segmento de reta. E por que não também para a filosofia? De certo modo. que o número permaneça qualitativamente número. qualitativamente segmento. todo infinito é péssimo. só que maior que qualquer número que se possa de modo ostensivo apresentar. o segmento.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 259 boa parte dos atuais seguidores do pentecostalismo [9]. aliás muito freqüente na teologia cristã. é de adjudicar o atributo infinito ao Absoluto. mas um verdadeiro número. A esperteza de se introduzir a “noção” de infinito qualitativo é totalmente descabida. aliás.o . tanto católica quanto protestante. é da essência de qualquer infinito manter-se qualitativamente o mesmo que o seu finito de referência. como já tivemos oportunidade de alertar [10]. que se alcançasse uma conceituação precisa do ser humano . o estatuto lógico-qüinqüitário ((I/D) x (D)=I/D/2). O terceiro equívoco. pois. O fundamental é. Por exemplo.2.

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ente lógico-qüinqüitártio por excelência [11]. A simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição mais elevada do eixo das lógicas, visto que apenas ele é capaz de operar em nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). O mais avançado dos mamíferos não vai além da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D), esta que lhe permite operar com símbolos convencionais acabados, mas não com o discurso articulado (ou, o que seria sua principal pré-condição: operar com os conectivos lógico-proposicionais). A partir daí, a história da cultura pode ser compreendida como o processo do progressivo autodesvelamento simbólico objetivo do ser próprio do homem [12]. Toda cultura teria, assim, um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada, e que lhe confere, inclusive, as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I, da diferença D, dialética I/D, clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2), seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. Elas serão, de modo genérico, denominadas etapas ecológicas, distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e, a seguir,

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uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza, ou seja, onde se “inventa o trabalho e de imediato o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). O contato cultural, especialmente quando intenso, produziria culturas de tipo misto; a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição; a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas; destes e de outros tipos não-nodais, entretanto, não nos ocuparemos aqui. Resumidamente, focalizando apenas uma área restrita - o Ocidente e o Oriente Próximo - teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I, cultura tribal, dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico; pré-D, cultura sedentária de base agrária, começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade; I, cultura judaica, primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral; D, cultura prometéica grega, já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos); I/D, cultura medieval cristã (patrística), por todos os títulos, uma manifesta síntese das culturas anteriores; D/2, cultura moderna de base científica, que hoje domina o mundo; e, ainda por vir, I/D/2, cultura hiperdialética qüinqüitária, não castradora, porque, pela primeira vez, uma cultura à medida exata do homem. Como já visto [13], até que chegue a termo o processo de auto-desvelamento lógico da cultura, o dinamismo social tem se nutrindo, ainda que possa parecer paradoxal, de um desejo de regressão a níveis lógicos inferiores ao que teria já sido alcan-

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çado pela humanidade, por isso, em essência, um desejo de poder ou de morte, como se diria no jargão freudiano. Note-se que o mais velho ancestral do desejo de morte é coetâneo à própria instituição da cultura (I/D/2), como desejo de retorno à animalidade (I/D), que é logicamente eqüivalente ao desejo de violação da proibição do incesto. O que Freud não teve chance de perceber foi que, chegando a humanidade à altura de si mesma, vale dizer, ao desvelamento de seu privativo ao mesmo tempo que constitutivo caráter lógico-qüinqüitário (I/D/2), não teria ela outra alternativa senão redirecionar este seu desejo mais íntimo, desta feita, para cima, pela primeira vez em direção àquilo que lhe fosse verdadeiramente transcendente. Recordando, deuses já foram o todo ecológico e seus elementos - rios, lagos, montanhas e outros mais - já foram o Uno e o Uno/Trino, o múltiplo trágico e, quando reiterado, destarte, o múltiplo calculável, em geral, infinitamente mais isto e mais aquilo, entrementes, concebidos sempre abaixo da potencialidade lógica do apenas ser humano, de modo a que jamais escapassem ao estrito controle das instâncias sacerdotais. É precisamente isto que irá definitivamente mudar. Não há dúvida de que a sacralização da lógica de uma cultura tem por si um papel crucial na estabilidade desta cultura, podendo por isso ser considerado um invariante cultural. Entretanto, o fato da lógica assim simbolicamente sacralizada ter estado reiteradamente abaixo do nível lógico dos homens em particular dos homens que constituem a classe sacerdotal encarregada de zelar pelo sagrado -, dava ensejo a que estes, maliciosamente, pusessem a sobredita “superioridade” lógica para funcionar em seu próprio proveito. Mantendo deus em estado de total submissão podiam exercer um tirânico controle social, fosse de modo direto (por exemplo, sociedades teocráticas da América pré-colombiana,

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fase primeva da história egípcia etc.), fosse indiretamente, associando-se à plutocracia dominante (por exemplo, o Brasil, por quase toda sua história). Foi nestas condições que a idolatria ganhou um suplemento de valor que a fez ainda mais prosperar. A cultura Moderna, como suas antecessoras, não falta a este padrão, como mostra a parte esquerda da figura 10.2. Entrementes, com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária, a sacralização terá que incidir sobre a própria lógica hiperdialética qüinqüitária, o que automaticamente retira a possibilidade da dominação lógica do sacralizado, inviabilizando, por conseqüência, que se faça da simples administração religiosa um meio de dominação social. Mesmo que ocorresse uma acidental idolatria lógico-qüinqüitária, ou seja, um humanismo sacralizado, ele seria bastante instável e logo superado no processo de busca de uma mais consistente religiosidade.
CULTURA MODERNA CULTURA QÜINQÜITÁRIA
DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE
2

ESCOLÁSTICA

D/2

DESEJO INCONSISTENTE

I/D/

BIOPIROTECNIA
D/
2

I/D D

A FÍSICA DESEJO DO UNO-TRINO COMO DESEJO DE MORTE OU DE PODER

I/D

FÍSICA

Figura 10.2 – A reversão do desejo na cultura lógico- qüinqüitária Acresça-se ainda que a cultura lógico-qüinqüitária não pode, por múltiplas e ponderáveis razões [14], sustentar um desejo para baixo - no caso, este seria

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o desejo do ser-sistêmico abandonado pela lógica D/D, que se teria deixado subsumir por I/D/D -, tal como veio ocorrendo com as demais culturas. Dentre aquelas razões, destacaríamos o fato de que o advento da cultura qüinqüitária representa a chegada a uma destinação, a um estado de transparente autenticidade. Insistir, a partir de então, num desejo para menos, é decidir pela recusa de si próprio! Em outras palavras, a tensão entre ser e desejo de ser (que antecede mesmo a tensão entre ser e dever ser), que agora com mais precisão caracterizaríamos como desejo de ser (menos), não se sustenta na plenitude lógico qüinqüitária, a não ser que o diferencial de ser se re-oriente, se transmude em um novo desejo de ser (mais). Assim, chegando a humanidade à cultura lógico-qüinqüitária, veremos seu desejo mais profundo se inverter, deixar de ser um desejo de regressão ou de morte para se constituir num desejo de progressão e de vida. Ver parte direita da figura 10.2. Isto tudo irá representar uma profunda revolução psíquica e social, na medida em que a humanidade estará, desta sorte, alcançando pela vez primeira um estágio de autêntica e consistente religiosidade, abandonando para sempre o que foi sua disposição lógico-idolátrica de muitas e muitas eras. Podemos concluir este item certos da radical solidariedade entre o advento da cultura nova lógicoqüinqüitária e a emergência de uma religiosidade radicalmente renovada, com a qual a humanidade terá deixado de lado sua velha disposição idolátrica e seu antigo desejo de poder ou de morte, em favor de um desejo realmente amoroso de ser mais.

Todos os estudiosos da cultura identificam no homem de todas as épocas a existência de um impulso para o que lhe transcendia, que nomeavam

10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente

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religiosidade. Com a Modernidade, a ciência que tudo invade e calcula, “naturalizou as formações históricas concretas de religiosidade, tornando-as, destarte, conspícuos objetos do saber científico. Enquanto a religiosidade dos povos primitivos ficava por conta da tradicional antropologia, instituíase a sociologia da religião para o estudo científico da religiosidade das culturas “mais avançadas”. Para muitos, até tão distantes entre si como Hegel e Comte, a religião seria tão apenas um momento ou estágio de compreensão do mundo, a ser superado pela filosofia ou pela ciência. Com Freud ela é considerada um verdadeiro transtorno psíquico coletivo, uma ilusão obsessiva que o saber psicanalítico (científico!) acabaria por superar, ou melhor, curar. De fato, se o impulso religioso tivesse como motivação apenas o consolo imaginário diante da finitude (ou da consciência da morte), todos estes críticos da sociedade poderiam ter razão e a religiosidade ser considerada hoje um fenômeno social em extinção. A nosso juízo, entretanto, a religiosidade tem um fundamento mais radical e permanente, pois estaria baseada numa experiência cotidiana e fundamental de todo o ser humano, que não seria propriamente a do Absoluto, mas de sua gritante ausência. Assim, para nós continuará a fazer sentido falar em religiosidade, mesmo após a era da ciência. O homem, por ser consciente, ou seja, operar com a lógica transcendental, faz-se portador de uma falta originária correlata à sua inextinguível angústia existencial. Ser é ser sempre à beira de um insondável abismo, o Nada. Isto é muito bem sabido, mas em geral estamos pouco atentos para uma outra falta, que não é de origem, mas de destino ou de significação. Sabemos que a lógica do “espaço” epistemo-lógico [15] correspondente a um determinado nível onto-lógi-

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co fica determinada pela simples substituição da identidade (I) por uma diferença (D) correspondente à essência do conhecer, que é se deixar determinar completamente pelo outro (objeto). Para alcançarmos a lógica do espaço práxio-lógico (ou da ação) correspondente, basta-nos re-incorporar a identidade (I) o que traduz o retorno à cena do ser subjetivo e de seu poder de auto e hetero-determinação. Assim, por exemplo, a nível do ser objetivo (I/D), o saber correspondente será a ciência D/ 2, isto é, (D)/(I/D)=D/ 2), e o agir, a técnica I/D/2, isto é, (I/D)/(I/D)=I/D/2. Semelhantemente, no caso do homem caracterizado como ente lógico-qüinqüitário (I/D/2) as estruturas epistemo-lógica e praxio-lógica respectivas seriam D/3, isto é, (D/(I/D/2)/D=D/3 e I/D/3, isto é, (I/D)/(I/(D/2)= =I/D/3. Ora, estas estruturas - epistemo-lógica e práxio-lógica - não são inteiramente acessíveis ao homem, que sabemos limitado à lógica hiperdialética I/D/2. Como, porém, os demais elementos de ambas as estruturas lhe são acessíveis, as posições lógicas D/3 e I/D/3 , ainda que não diretamente acessíveis, acabam sendo vivenciadas como falhas ou carências estruturais. Ver figura 10.3. Esta é apenas uma descrição em termos lógicos da vivência cotidiana relativas à impossibilidade de compreensão completa do outro e, muito menos, de conseguirmos dominá-lo. Isto deixa mais do que evidente que a condição de escravo, ou mesmo a de neocolonizado (ameaça concreta que paira hoje sobre nós, brasileiros), encerra, no fundo, uma degradação onto-lógica.

seja fidei (K. Tomás). e a falta de significação. conseqüente busca e aceitação do transcendente. porque a analogia não é nem pode ser um modo de saber. Eis aí. A falta estrutural por nós assimilada contorna a dificuldade. um modo de expressão. que exige o prévio conhecimento tanto do significado quanto do significante. pois.3 Falhas estruturais epistemo-lógica e práxio-lógica humanas Assim. esta que podemos também denominar ausência viva do transcendente. a da identificação de uma motivação concretamente vivida que justificasse a prontidão para a recepção da mensagem revelada. ou transcendental. O insistente apelo a um presumido conhecimento por analogia. a falta originária. não passou sempre de um ardil. caso contrário. O reconhecimento deste segundo tipo – falta estrutural – resolve um problema crônico de toda teologia. no homem estão presentes dois diferentes tipos de falta. esta poderia facilmente se confundir com uma simples alucinação. a base vivencial real para a admissão. qual seja. mas. o da abertura para o transcendente. . embora como falta. seja entis (S. pois o mais está presente no menos. Barth) [16].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE ESTRUTURA EPISTEMO-LÓGICA SUBJETIVA ESTRUTURA PRÁXIO-LÓGICA SUBJETIVA 267 I/D/ D/ I/D D I 2 3 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D I I/D D/ 2 Figura 10. sim.

faz emergir o sentido intensivo ou contextual. do animal dotado de sistema nervoso central. como diria Heidegger [18]. alguns mais. A insistência em que o homem deva incorporar seu próprio horizonte transcendente é de fundamental importância por múltiplas e importantíssimas razões. No plano da ação procede-se à sutura de D/3 e I/D/3. cujo acesso lhe é facultado pela vivência direta da falta estrutural epistemológica (D/3) e das falhas estruturais práxio-lógicas (D/3 e I/D/ 3 ). reduzindo o saber sobre o ser subjetivo a impossíveis ciências humanas. lhe dá acesso ao símbolo já inteiramente convencional (o que não quer dizer não motivado) e que a lógica I/D/2 do homem lhe dá acesso ao discurso que. respectivamente. devendo-se precisar que a contextualidade aqui implicada é aberta. alguns menos. . Isto significa igualmente que o homem passa a habitar a linguagem. mas igualmente pelo que se possa ainda um dia dizer. mais do que constituir um super símbolo. destacaríamos. Não podendo. determinada não só por todos os já ditos. vale dizer. não raro sutura-se D/3 com D/2. Dentre elas. outros um pouco mais próximos da intuição. num horizonte transcendente. o que reduz as inesgotáveis práticas intersubjetivas a meras técnicas de sedução e manipulação. que se realiza . primeiro. Tudo isto nos remete a uma mais precisa conceituação do homem. onde estão co-presentes o ser e seu próprio horizonte: O homem é um ser lógico qüinqüitário.268 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO No plano do saber. com D/2 e I/D/2. outros um pouco menos convincentes. gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que a lógica I/D. [17] Existem ainda muitos outros modos de se mostrar a presença do referido horizonte.. nem necessitando lembrá-los todos.. de nível lógico I/D/2.

que deixaria de ser um desejo para baixo. Nota-se então que a emergência da dimensão ética é correlata à vivência do transcendente. porque a presença deste horizonte de ser “junto” ao próprio ser é o que possibilita a emergência e insistência tensional entre ser e deveser. que seria ocupado pela lógica D/3. consequentemente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 269 que tal horizonte impede que ele se feche sobre si mesmo. a exemplo do que aconteceu em Hegel. na segunda. tudo seria permitido. precisávamos ainda de uma efetiva e vivida janela para o transcendente. o que bem justifica o que dizia o personagem dostoievskiano: “Se Deus não existisse. vimos que com o advento da cultura lógico-qüinqüitária aconteceria a reversão da direção do desejo da cultura. Desde então seria toda a força da cultura que nos estaria empurrando em direção ao Absoluto realmente transcendente. que a filosofia acabe se reduzindo a um humanismo e a religiosidade a um panteísmo. Antes de mais nada instituímos o eixo onto-lógico no qual podiam-se distribuir todos os existente mundanos e no prolongamento do qual se poderia buscar coerentemente o Absoluto. Deus depois do adeus às idolatrias . Depois. Entrementes. nos são vedados 10. nos é vedado o acesso a um único elemento da estrutura que representa o referencial global daquela situação.4. consequentemente. desejo de morte e poder. Afinal. Vimos também que esta era a situação do conhecimento e da ação intersubjetiva – na primeira.” Recordemos. uma falha numa configuração cujos elementos nos fossem em boa parte acessíveis. e. que teria por isso que ser uma falta estrutural. e vimos que isto só era possível como presença de uma falta. para se tornar um desejo verdadeiramente amoroso pelo mais alto. da emergência da dimensão ética no mundo. Depois.

Se isto. que para Ele. “sujeito” e “objeto” se mantêm em estado de copertinência. com o estabelecimento dos níveis onto-lógicos – fenomênico (I). Ora. Não é definitivamente este o nosso caso. subjetivo (I/D/2) – ficava bastante óbvio que o Absoluto precisaria ser buscado no prolongamento desta seqüência onto-lógica. ou quase. vale dizer. não só ser e pensar são o mesmo. Vamos de pronto abandonar a primeira hipótese porque nela o Absoluto não constitui por si uma instância onto-lógica e também porque ela não preserva. o Absoluto – em suma. a situação geral dos planos e respectivos níveis seria: . vale dizer que ele. é porque a estrutura epistemológica correspondente se reduz a D. a qualidade de ser Uno. com n superior a dois [19]. mas que também o são ser e conhecer e ser e agir. com n superior a três ou I/D/n. como é quase um consenso. na verdade. Podemos. Uma conclusão bem diferente daquela de Hegel que atribui ao homem o serdialético e faz deste mesmo ser. se ser e conhecer são o mesmo. uma simultânea e paradoxal afirmação de humanismo e de panteísmo.270 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dois dos nove elementos estruturais de maior nível. Em princípio. no seu limite autodesvelador. restringirmo-nos ao Absoluto concebido como ser-lógico de nível I/D/n com n>2. onde D é apenas uma referência externa. ao fim. quando. Ora. como no caso do nível fenomênico. assim. são justamente as vivências destas faltas que evidenciam ao homem que ele não se constitui no nível lógico máximo. ambos na posição I [20]. ele poderia ser D/n. na verdade. Podemos encontrar uma boa pista para a determinação do estatuto lógico do Absoluto se admitirmos. objetivo (I/D). D/3 e I/D/3. pode estar habitando um espaço ontológico que o transcende. O mesmo valeria para o agir absoluto. Ora.

.... Temos a experiência de que tal afirmação suscita. na verdade. Teríamos. e. I/D/n .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 271 Nível Fenôm.. uma autoridade que não pode nem mesmo ser desafiada. cujas respectivas estruturas epistemo-lógicos e práxio-lógico seriam D/2 e I/D/2. Nível Subjet... dever-se-ia fazer n=4. como se ela significasse uma limitação à grandeza divina..... Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D Nível Objet. tal reação é um mero preconceito quantitativo. . I/D/2 D/ 3 Nível Nível Intermd. Nível Absoluto Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D I/D D/2 I/D/ 2 I/D/2 D/3 I/D/ 3 . o que dá ao primeiro uma superioridade fechada. freqüentemente. Nível Objet.... Absoluto I/D/3 D/ 2 I/D/4 D I/D I/D/2 I/D/3 I/D/2 Isto é o suficiente para que possamos sacar algumas importantes conclusões teológicas: a) O Absoluto constituir-se-ia na instância ontológica de nível I/D/4.... D I/D Para que a distância entre o Absoluto e o homem se mantenha de pelo menos duas diferenças. também. reações. assim: Nível Fenom. com a introdução de um nível onto-lógico intermediário onde n=3.. I/D D/ 2 Nível Subjet. mais uma vez o insistente e condenável vezo pelos infinitos e transfinitos matemáticos! Acrescentaríamos ainda que esta proposição . para que seja preservada a máxima simetria do quadro anterior..

tão enfatizada pela teologia judaico/cristã.-Septendecitário (I. similar em tudo seria também o Seu agir. além de Uno-TrinoQüinqüitário. ambos em estado de co-pertinência na posição I da estrutura epistemológica D. na medida em que as lógicas humanas (I. é reconhecido pela .272 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pode ser interpretada como o simples auto-reconhecimento dos limites imaginativos do homem. e) Existe um nível intermediário entre o do homem e o do Absoluto que. também Eneário e. b) A semelhança de homem a Deus.. aliás. à perfeição. Notar que isto não se aplica nem mesmo aos entes angélicos (ou demoníacos). as instância onto-lógicas de Deus Uno-Trino. finalmente. O ABSOLUTO I/D/ 4 O TRANSCENDENTE I/D/ 3 2 O HOMEM I/D/2 D/ 2 I/D D I I/D/ I/D I O SER O SER Figura 10. pois 17(2x2x2x2+1) são as posições na estrutura lógica de I/D/4.4 – Semelhança do homem a Deus c) O Absoluto seria. mas nós não teríamos condições de saber o que isso poderia significar. I/D/2. D. D/2 e I/D/2) representam. ganha aqui sua plena significação.. o Absoluto poderia até ultrapassar I/D/4. d) Seu conhecer é um estrito correlato de Seu ser. Septendencitário.4). I/D. I/D/3 e I/D/4) (ver figura 10. I/D. em outras palavras.

em outras culturas. excedendo à capacidade lógica do receptor. porém.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 273 maioria das grandes religiões do mundo. pois. traços da cultura cínica moderna. “medidos” em termos de complexidade lógica. Embora a revelação plena do Absoluto UnoTrino-. Isto não seria uma novidade na história da cultura. já sabemos agora. em princípio.. a que damos a denominação de nível angélico. Talvez não por falta de vontade e coragem.a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano . maior e menor. até aí o problema permanece. assim como traços do trinitarismo cristão. pouco importa suas existências efetivas. não podemos negar que alguns de seus traços possam já se ter manifestado. por exemplo. visto que o conteúdo significativo revelado continua. Antecipações .para Karl Rahner [21] a radical inclinação à autocomunicação seria parte mesmo de Sua “essência” -. que precisava ser enfrentado pela teologia. na cultura judaica. que homem poderia compreendê-lo em sua plenitude? Quem poderia simplesmente se considerar à altura da mensagem? Trata-se de um paradoxo. jamais o foi. na cultura trágica grega. mas de um instrumental lógico de suficiente potência 10. ainda que de modo fragmentar e inconsciente.-Septendecitário seja uma prerrogativa reservada à cultura lógico-qüinqüitária. É mais ou menos evidente a razão pela qual a Revelação tenha sido a solução encontrada para que o menor pudesse ascender a algum conhecimento do maior. traços do monoteísmo já se haviam manifestado em culturas pré-lógicas. Deus pode dizer quem de fato é . aquele próprio tanto a anjos como a demônios. mormente quando estas pertencem à mesma família.. Entrementes. pelo menos na aparência. a nosso juízo. mas que.5.

O modo paradigmático de fazê-lo. logicamente não cabe . Atente-se: o receptor da mensagem continua a ignorar o que possa ser. é que Deus (I/D/4). Nada aqui excedeu ao “tamanho” lógico I/D/2. E se não fora assim. todos eles logicamente iguais ou menores do que I/ D/2. pior seria. e muito menos quantitativamente infinitas -. podemos colocar a questão em termos bastante diretos: como é possível ao Absoluto Septendecitário I/D/4 revelar-se aonde. enquanto tal. como ocupante da posição D numa estrutura I/D. . pois estaríamos nos enleando num paradoxo ainda mais grave do que aquele que tínhamos de partida.no homem qüinqüitário I/D/2 ? Pode-se agora vislumbrar uma resposta.e não analógica [22]. daqueles do próprio homem. deveras. porém. sem deixar de sê-lo. pelo menos I/D/4 . A figura 10. acessível à compreensão humana. no caso. pode agora imaginá-Lo por trás de uma descrição cujos termos e sintaxe lhe são por completo acessíveis. Em nossa sistemática simbólica.5 ilustra bem tudo o que aqui está posto.especificamente. conquanto tenha ela seu alto preço. e nesta circunstância proclame-se Filho numa configuração trinitária. que é não conseguir preservar incólume o estatuto lógico da mensagem. ou seja.seja fragmentada em “pedaços”.274 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto. o Absoluto e seus inexcedíveis poderes. a mensagem eu sou o que sou (ou serei) sendo. poderemos facilmente constatar. A condição geral para a recepção é que a autocomunicação divina . O Absoluto aparece assim como que dotado de um conjunto de atributos que são de algum modo extensões lógicas . possa existir encarnado como homem (I/D/2).

mas uma organização (D/2). porém.A Revelação paradigmática . logo. não propriamente uma eclesia. uma . é assunta ao Céu.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE LUGAR DO ESPÍRITO (TRINITÁRIO) CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO 275 LUGAR DO PAI LUGAR DO FILHO CRISTO HOMEM QÜINQÜITÁRIO I/D/ QUE DECLARA OCUPAR A POSIÇÃO D EM I/D 2 Figura 10. para ocupar a posição I/D (por isso. Trata-se da proclamação do Dogma Mariano (1950): Maria. de nível I/D/2. mais uma Confirmação do que uma nova Revelação) em que todos os elementos da mensagem revelada se mantêm ainda inferiores a I/D/2.como seria compulsório. após a Ressurreição.a Encarnação Podemos ainda identificar um segundo modo (na circunstância. Em vista do remanejamento onto-lógico [23] que necessariamente ocorre na passagem da estrutura trinitária (I/D) à qüinqüitária (I/D/2). como fora o caso do Filho. e. tão necessária e insistentemente Virgem) numa estrutura qüinqüitária I/D/2. o Cristo que ocupava a posição de Filho (D) na Trindade (I/D) vai ocupar a posição de Filho (D/2) na estrutura qüinqüitária (I/D/2).5 . se constitui membro da Sagrada Família (I/D/2) e o seu correlato terreno passa a ser a Igreja. muito adequadamente denominada Corpo (D) Místico de Cristo (D) . sim. Ele.6. mulher. não para ocupar a posição D numa estrutura trinitária I/D. Ver figura 10.

Maria só poderia ser mesmo assunta para a posição que o referido remanejamento deixara vaga.. posição que sabemos caber necessariamente à filha virgem. a Cúria pode errar em tudo. Tomando-se por paralelo a sexualidade humana. isto é. esta estrutura lógica é manifestamente sobre-humana. menos em lógica.Revelação (Confirmação) Septendecitária por via do Dogma Mariano É interessante observar que neste modo revelador a Igreja vai ocupar a posição D/2.6 . LUGAR DO ESPÍRITO (QÜINQÜITÁRIO) FAMÍLIA SAGRADA LUGAR DA MÃE INCONSC..276 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dupla diferença. enquanto que sua essência lógica passa automaticamente a ser I/D/D/D=I/D/3. diríamos até delirante. apresentar-se exteriormente como uma organização. I/D. Como já mostramos em outra oportunidade [24]. ESPÍRITO PENTECOSTAL CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO LUGAR DO FILHO CRISTO RESSUSCITADO CORPO MÍSTICO IGREJA 2 MARIA MULHER QÜINQÜITÁRIA ASSUNTA I / D / LUGAR DO PAI LUGAR DA VIRGEM Figura 10. definidas como as diagonais . Como se vê.

Só para exemplificar. reduzidos apenas à sua primeira componente I/D/2. o masculino. único (I). o clero e os crentes. porém. Ver figura 10. o grande rebanho. de maneira muito óbvia. o terceiro. para que não se veja associado ao mal (D).O sexo dos anjos (ou demônios) É bastante evidente que assim se estabelece uma relação hierárquica extremamente rígida entre o Príncipe. P A R T ID O OU CLERO O 3 SE XO CASTRADO . sobre-humana (D/3).7 . À terceira. À segunda. o clero (especialmente o jesuítico). todos eles formalmente mais pobres do que os dois que acabamos de apresentar. o que vem explicar. À primeira corresponde a figura do papa. D.7. I com D/3. POVÃO " A N IM A L I Z A D O " O I/ D / 3 I/ D / 3 I/ D / 3 I D / 3 I/ D D / 2 I/ D / 2 O MAL OU O IN C O N S C IE N T E D Figura 10. 1 SE XO P A I O U G U IA O N IS C IE N T E O 2 SEXO E L IT E . I/D/2 com D. os crentes. uma comunidade (I/D) dotada do saber científico (D/2). o feminino). D/2. infalível porque dotado da capacidade de imediata compreensão inter-subjetiva. I/D com D/2. e I/D/2. I/D com D. a forte resistência dos protestante à promulgação do Dogma Mariano. I/D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 277 de I/D/2 (I com D/2. Existiriam ainda outros modos reveladores combinando algumas das lógicas I. tomemos a mais simples dentre todas . o segundo. temos então definidos três modos de ser sexual a nível I/D/3: o primeiro.

sem dúvida. mas em seu modo mais elementar do Ser Único Criador frente à insignificância do ente criado. não enquanto tal. Ela corresponde ao episódio em que Deus se revela a Moisés dizendo ser aquele que é (ou será). Trata-se. de uma revelação de Deus (I/D/4). . I e I.278 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO as combinações: I.

no entanto. O século XX demonstrou. A nulidade crítica das ideologias não autoriza mais esperanças. dizem: o dualismo. Manoel Bandeira.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 279 11 Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira Em Pasárgada tem tudo É outra civilização. Triste situação a brasileira: ao mal-estar na Modernidade. A causa. Elas visavam apenas a substituir o sujeito liberal (sujeitado) da ciência. Deveras. que pode haver de mais constrangedor do que estar sempre por baixo.2. alguns nos chamam Belíndia.1. que. os gozos minguados e quase sempre frustros ou ad aeternum diferidos. junta-se o mal-estar da condição de “marginalidade voluntária”. de bruços. concomitante a uma furtiva inversão de mando: a esquerda. a violenta impotência (que era já constitutiva) das ideologias [1]. na era da prostituição generalizada? Os ônus por anos a dentro chegam sempre de véspera e agigantados. op- . e às vezes por trás também fatos. 11. é flagrante paradoxo. não somos coetâneos à Modernidade? Já não seria tempo de trocarmos o nosso crônico mazombismo acadêmico pelo gosto de uma autêntica auto-compreensão? 11. com enxurradas de fotos. A insistência e os repetidos fracassos dos projetos de modernização geram o cansaço.

para dar conta do processo de autodesvelamento do ser hiperdialético qüinqüitário do homem. também três tempos para cada: o tem- . idem para os híbridos – a “história” das mentalidades e o conglomerado frankfurtiano. pelo sujeito romântico ou telúrico. nada tem a ver com a nauseabunda e rose-blair terceira via(dagem) social-democrata (mais uma!). daí. entretecidas e pró-jetadas [4]. o que. muito nítida. Almejavam. (ver figura 11) 11. da lingüística e do estruturalismo antropológico. Não há mesmo saídas laterais. Mas não se provou que não possa haver alguma saída. contemplamos a seqüência já realizada. desde a irrupção das tribos nômades de caçadores/coletores do paleolítico à atual modernidade científica [5]. Uma história hiperdialética é o mínimo que se requer. de um lado. obviamente. a mais ousada: a passagem da estática à dinâmica cultural [6]. por si e conjuntamente reavaliadas. E a filosofia e mais as outras tantas “ciências” do homem? Embora precisem ser todas elas levadas em conta e muito a sério. Propõe-se então a releitura da história da cultura parametrizada pela lógica [3].3. Necessidade de uma pirueta. exige-se sejam as lógicas . por coerência. Heidegger vale ser atentamente ouvido. Uma cultura e doravante três lógicas associadas.280 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tando pelo sujeito coletivo. perfeito. do hegelianismo e do marxismo. todas. histórico-cultural) para mais além das ideologias. a direita.as mesmas que lá estão mais ou menos soterradas na tradição . das culturas nodais (lógico-inaugurais). Em retrospecto.antes ressuscitadas. mas não seguido (tal como valem os poetas). por suposto. Como condição. o império hoje do pensamento único. Torna-se agora óbvia a carência de uma compreensão histórica profunda (logo. da psicanálise.4. Em conseqüência. é inegável a insuficiência [2]. e de outro. o capitalismo sem jaça. o círculo quadrado. 11.

o desejo da terra prometida (à exceção dos meio-irmãos filhos da empregada. 11. as correlatas “contestações” ideológicas. o tempo intenso do desejo de sua lógica recalcada e o tempo desesperado fingindo ter-se tornado a lógica de sua própria posteridade. ainda vigente. o desejo do ser-uno-trino (a física. Inicialmente. no dizer já moribundo do disciplinado e terno Doutor Angélico). o desejo de origem (o mito). mas domesticados adrede pelo marketing). sucessivamente. lógico-diferencial. na continuidade. Um zoom sobre a Modernidade [8]. as navegações e a expulsão suicida . hoje. pela ordem. o desejo da volta à animalidade (o mais velho ancestral do “desejo de morte”).5. sucessivamente.dos cognominados da nação’. sim. que queremos ver pelas costas (não nossas. da mecânica newtoniana de pontos materiais ao campo escalar de Higgs [7]). daí. o Protestantismo e a incontornável invenção. à esquerda e à direita. a prémodernidade ibérica. Recordando: o confronto com o fingimento escolástico (reza a anedota que um ‘lixo’. mas dela). são os museus abarrotados de arte sacra!). Tudo tão célere . o capitalismo calvinista de acumulação intensiva (a história desnaturada. o didático herói john fordiano). ora.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 281 po morno da lógica que ela sacraliza. o mesmo já do avesso. na outra vertente. do sujeito liberal (no cinema. note-se. “história” calculada) e. A força do impossível desejo de regressão lógica é o melhor guia no retrospecto reiterado: na vertente lógico-identitária. preteridos!) e o desejo do corpo espiritualizado incorruptível (é só lembrar quantos.que o diga Vieira! . o capitalismo consumista extensivo (desejos. pela sola fide. o desejo do ser-uno (a velha filosofia) e. a tortura metódica (para que se confessassem números) de todas as coisas por meio de instrumentos e a medida pela fé de imaginários excessos sexuais femininos – enquanto se forjava o novo órganon exercitava-se à larga a caça às bruxas.

a história desbloqueada. econômico – entre as surpresas. a re-significação religiosa (o fim das idolatrias. por não se tratar até agora de obra acabada. por conseqüência. por fora a tez. cada um trazendo sua cota parte à nossa bela geléia geral. Entrementes. 11. Para desvelar e seduzir (e por que não também um pouco para dar partida a hiperdialética qüinqüitária: o remanejamento das relações indivíduo/sociedade no plano político. aqui. nem tanto. do fundamento lógico de todas as dominações sacerdotais [11]).6. com a descoberta das minas de fundos de rio. a re-significação cósmica do homem (tanto quanto do cosmos pela cultura!) [10]. sobremodo. Enfim. em direção ao ser de fato transcendente. O peculiar processo de formação da cultura brasileira [13]. Agora nós.7. a viabilização da oferta planejada. a formação de uma interioridade. meio sonolentos. é preciso estar alerta . Como tanto se almeja (mais os tempos. e. Sobretudo. a certeza de uma cultura futura hiperdialética qüinqüitária. Fontes diversas recapitulando a história hiperdialética da cultura. o ser-feminino à altura exata do ser-masculino. após. obra de desmedidos mamelucos. os brasileiros. os homens só de carne e osso!). 11.282 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que talvez se tenha hoje já à mostra os primeiros sinais do inexorável declínio. por dentro. a nova verdade qüinqüitária e seu método correlato: o amor pela “leitura” [12]. pela primeira vez. conquanto que descentrada!) e cultural [9]. expressa pela reversão do desejo da cultura. Etapas intermediárias: a formação de uma territorialidade. obra de seletos mulatos. a inteligência e a sensibilidade destes e de muitos outros. o mesmo valendo para as respectivas verdades: gozo e vitória nivelados à alétheia e adaequatio (o que nada tem a ver com o retorno ao mítico andrógino de Aristófanes).

a artimanha de se fingir sua própria posteridade: eis. prepotente. à capela e murmúrio. atenção. um se pôr sempre um pouco à parte à modernização: trata-se do povão fiel ao seu destino. resolutamente etnocida.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 283 aos perigos da globalização. de ser-com-todo-mundoem-paz-com-o-Absoluto. mas significante . pedante – para cima. em tudo clarividente. a elitista retardatária pelo luxo (a rigor. que em essência é cultural e por isso. Para nossa sorte. a originalidade? Trata-se da edificação da cultura nova hiperdialética qüinqüitária . na linha de resistência. 11. apenas pelas suas sobras e dejetos). Na linha de frente (do inimigo). E por que não. subserviente. 11. a outra. afinal. Na TV e por todo canto. Clarifica-se. à uma. mas prospectiva. deveras.do princípio antrópico [15]). o paradoxal dualismo: na verdade. sem deixar de ser também sobre-humana (ao invés do superhomem. de ser-com-o-outro. nem fraca. em verdade. trombeteada.um novo modo de ser-consigo-mesmo. De modo algum somos Belíndia. a popular auroreal pela originalidade [14]. em seu propósito último. onde. seremos tudo e por cima todos. sempre viva.nem forte.8. dando alma a uma nova versão . na cara. como se fosse a última e única. o super-cosmos. a pós-modernidade. amigos do rei. Mas. uma resistência não reativa. elevado à altura do homem logicamente à sua espera. escancarada. cruel e debochada. que é a gente que de fato conta se o caso é cultura (não economia & finanças). Reagindo à inexorável superação. para quem possa e as queira: uma. para baixo. a boa nova: os . a grande “marginalha” rural e suburbana. mas a vontade de Pasárgada. um reservar-se. nossa elite burra.9. todos os dias. despudoradamente entreguista. Há opções. Ela é o cumprimento de uma destinação por demais humana.

por amarelamento (como em 50 e 98). [16] Pessoalmente. e.10 Por isso. ainda que bem menos dotado e pré-destinado. não só da história hiperdialética da cultura. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! 11. Se fracassarmos. se verá a reação desesperada: a ordem virá para a degola dos perigosos terroristas recém-nascidos. biblicamente instruídos. Na circunstância. virá a grande depressão (econômica). Talvez. por desídia. a necessidade iniludível de uma estratégia de sobrevivência pelo tempo que resta à Modernidade para que não faltemos ao encontro com a nossa destinação. alhures. seguida. depois outra e mais outra. Dentre todos os fundamentalistas (reacionários). a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . todos de braços dados. Ou será que. Nas ruas. Como sempre. um dia. não repudiar. já. outro. tornando-se destarte a decisiva força revolucionária. ademais. nos atirado de alma e corpo inteiro à lata de lixo. teremos. como de costume. nenhuma marcha interminável de fileiras.. a trena e o cronômetro). por certo fará vir ao mundo a cultura nova. nenhuma classe atrás das barricadas. grave impiedade ou. mas deveras subsumir a ciência (com sua lógica.284 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO prodígios da biopirotecnia.. para não perder a língua. pela grande depressão psíquica (ou cultural). a ordem tem que ser (culturalmente) sobreviver a qualquer preço. batucando. haverá um (bastará um) pequeno grupo (LXX é um bom número!) que irá se propor. mas da própria .a vida eterna. falando mais e o melhor possível. de repente. por uns tempos. é difícil resistir?! No entanto. nem explosões de casacos ou carros-bomba. sim. para não perder o fôlego. ainda que numa caixa de fósforos. seus cálculos e seus três indefectíveis instrumentos – a balança. seja preciso refugiarmo-nos no Egito ou nos agacharmos no mato. em última instância.

Com que cara iremos nos apresentar no Juízo Final..?! CARACTERÍSTICAS DA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA Remanejamento das relações indivíduo/sociedade Re-significação cósmica Re-significação religiosa Real liberação do ser-feminino A verdade: o amor pela "leitura" 6 CULTURA QÜINQÜITÁRIA I/D/D HISTÓRIA DESBLOQUEADA ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA PARA A CONSUMAÇÃO DE UMA DESTINAÇÃO ASSUMIDA A 9 FINGIMENTO: BIOPIROTECNIA. A DEGOLA DOS RECÉM NASCIDOS OPÇÃO PELA ORIGINALIDADE 4 I/D D I CRÍTICA DA CULTURA: ARQUEOLOGIA DA CULTURA PROCESSO DE FORMAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA 7 3 pré-D pré-I HUMANIDADE (I/D/D) ANIMALIDADE (I/D) Figura 11.D) E DE ESQUERDA (MARXISMO SUJEITO COLETIVO . Situação cultural brasileira .I/D) 2 5 D/D CULTURA MODERNA 1 CULTURA MARGINAL BRASILEIRA 8 FIM.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 285 cosmogênese.. POR OPÇÃO PELO LUXO 10 IMPOTÊNCIA DA CRÍTICA IDEOLÓGICA: DE DIREITA (FASCISMO SUJEITO ROMÂNTICO .

de uma filosofia ou. além de um entre muitos expediente para uma boa comunicação. De que lugar [2].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 287 12 Considerações gerais sobre a história da cultura – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história. A noção de História estaria originalmente associada à lógica transcendental ou da identidade (I) [3]. Nestas circunstâncias.A História como processo hiperdialético qüinqüitário . também um imperativo de mínima ética. de uma lógica da História. estaremos nós aqui falando do futuro? É o que tentaremos precisar neste item introdutório. conjuntura e perspectivas brasileiras [1] Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. 12. Ernst Cassirer L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. Paul Tillich Não existe a menor possibilidade de nos lançarmos aos estudos do futuro sem a prévia assunção de uma concepção. proceder à explicitação de tal pressuposto é.1 . dito com maior precisão.

1 .288 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que é o modo específico de se poder pensar a temporalidade. TRÁGICA HISTÓRIA JUDAICA LÓGICO-TRANSCEDENTAL(I) UNÁRIA FÉ Figura 12. para ela. CÍNICA CULTURA (MENTALIDADES) (D) ARQUEOL. história judaica. Esta é a primeira dentre as concepções de história. solidária à verdade do Deus único. O que esta concepção reclama de nós não pode ser outra coisa senão a fé inabalável de que Jó nos dá o melhor dos exemplos. Ela é a História que se interessa primordialmente pelos extremos. origem e destino. a liberdade e a própria consciência. momentos de criação e consumação dos tempos (escatologia). os “acontecimentos” intermédios. são mera conseqüência de incidentais descumprimentos pelos homens dos mandamentos divinos e do justo castigo que lhes é por isso infligido. que iremos denominar com o neologismo unária. DAS MENTALIDADES LÓGICO-DIFERENCIAL(D) HERMENÊUTICA CONSC.Concepções da História . (Ver figura 12.1) HISTÓRIA NOVA HIPERDIALÉTICA (I/D/D) QÜINQÜITÁRIA FÉ E ENGAJAMENTO HISTÓRIA (I/D) HISTÓRIA HEGELIANA LÓGICO-DIALÉTICA(I/D) TRINITÁRIA ENGAJAMENTO “HISTÓRIA” SISTÊMICA LÓGICO-FORMAL (D/D) CALCULADORA CONSC.

es- . é a totalidade. entrementes. Além da versão original hegeliana. a nosso ver. a sociedade sem classes e outras miragens para obnubilar a referida deficiência lógica. especulativa (melhor dito do que idealista). Concordemos em adiar por momentos uma resposta. o juízo final. desvinculada do diálogo com outras modos de pensar. esta história pode assumir também feição materialista. a noção de História ficou radicalmente associada à lógica dialética. concluiu coerentemente Hegel. fazendo do conflito ou das contradições internas o seu verdadeiro motor. o paraíso. Ela é uma história que solicita. a História seria o próprio processo de autodesvelamento do espírito absoluto [5]. sobretudo. Ao internar a diferença. como vimos. A noção de História é freqüentemente estendida para abarcar concepções lógico-diferencias que em essência a negam. e isto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 289 Depois de Hegel. aqui também envolvida para poder dar a necessária volta por cima. Assim. a que damos. a revolução. como enfatizava Lukács [4]. pode facilmente degenerar em lógica da oportunidade e nosso engajamento em mero oportunismo. por isso. Como fazer compatíveis a temporalidade lógico-identitária e a espacialidade lógico-diferencial? Apelando à velha dialética? Mas esta está. como em Marx/Engels. se constitui num evidente contra-senso. A verdade da dialética. a dialética cria um modo imanente de dinamismo. Considerada sua essência lógico-diferencial. o comunismo primitivo. o nosso engajamento. a denominação de concepção trinitária. de sorte que a verdadeira história só pode ser aquela da totalidade lógico-dialética em busca de si mesmo. Em compensação. que a dialética. Note-se. o que torna esta história especialmente apta para explicar as mil peripécias do devir. ela apresenta uma deficiência intrínseca que a incapacita para a compreensão de origem e destino – daí. síntese das lógicas da identidade e da diferença.

está a “história das mentalidades que. De um lado. onde impera o eterno retorno do mesmo. sobretudo.290 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tas paradoxais concepções históricas só podem se apresentar de duas maneiras. O homem não viveria propriamente uma história. Identificam e medem fatores determinantes de seu surgimento. que procura isolar “unidades históricas” relativamente estáveis (em geral civilizações) para daí inferir padrões de regularidade. de seu apogeu e de sua queda. O que nos é dado. em geral. da busca da explicitação de um sentido coletivo. na circunstância. De outro lado temos a “história” embalada como produto científico. conforme sua opção lógica subjacente. Teríamos como exemplos a escola francesa da “história das mentalidades” [6]. É um pensamento que abre mão do diacrônico em favor do sincrônico. da condição a que fomos atirados não se sabe por que deuses tão francamente anti-einsteinianos. desenvolvida com o fim estratégico de permitir a mais tranqüila reprodução dos poderes. deveríamos chamar arqueologia das mentalidades ou da cultura. É uma concepção. desta prolifera uma variante que poderíamos chamar “história científica e bem remunerada”. de inspiração organicista. Hoje. mas o desdobramento epocal das mil máscaras do trágico se mostrando e se apagando num des-propositado jogo de forças. de confessa inspiração nietzscheana. é a alegre (trágica) aceitação do jogo [9]. marcada por uma visão trágica do homem e da sociedade. os exemplo clássicos seriam Spengler [10] e Toynbee [11]. governado por uma lógica da repetição. contextual. de sua continuidade. pre- . o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss [7] e. preocupando-se com as estruturas ou estratos profundos (em boa parte inconscientes) que constituem a alma de um agrupamento humano ou de uma época. com bem maior propriedade. a genealogia de Foucault [8]. Sua postura é fundamentalmente hermenêutica: trata-se.

embora seja o maior dos escândalos que não faça parte da cultura comum do cidadão [13]. outra à lógica clássica. não nos é garantido o princípio do terceiro excluído. cuja negação não pode jamais vir a se constituir em algo melhor definido do que o próprio NãoB. ou seja. Aos poderes. pois se trata de uma questão vital.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 291 tendem-se um cálculo a médio prazo do ser temporal. Isto é simplesmente impossível porque NãoB. que suicidem-se [12]. para deste modo poder se igualar a B.2 . o que é já o suficiente para revelar seu caráter cínico. solicitam mais verbas. (Ver figura 12. aos desgraçados. Estas duas concepções se distinguem.Lógica da diferença versus lógica da dupla diferença . como dissemos. História não há mesmo mais. característica inalienável da lógica clássica. que Não (NãoB) se iguale a B.2). DIFERENÇA D DUPLA DIFERENÇA D/2 NãoB B NãoB B NãoA A=NãoNãoA UNIVERSO CONVENCIONAL B = NãoNãoB Figura 12. por seu parti pris lógico. esta última precisando ser compreendida pelo que verdadeiramente é: uma lógica da dupla diferença. afinal. para ela. diferentemente de B. é um indefinido. Não podemos aqui evitar uma breve digressão lógica. uma vinculando-se à lógica da diferença. Quando procedemos a uma diferenciação qualquer B.

Agora nos é dado facilmente perceber o óbvio: que. seja seguindo . transforma-a em lógica cínica. em que estão presentes as lógicas da identidade (concepção judaica ou unária I). fazer de conta que B é uma totalidade e aí então. seja seguindo o vai e vem das concepções da histórias em geral (I. da diferença (concepção trágica D). e no entanto. I/D. é tão só esta artimanha que permite o obsessivo cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos promovido pela Modernidade. em contraposição à lógica da simples diferença. lógica da dupla diferença. B. é que podemos ter de fato Não(NãoA) = A. ou seja. ainda mais precisamente. de um faz de conta. do terceiro excluído ou. por isto. como deveria ser. formal. lógica da dupla da diferença (concepção cínica D/D=D/2). O caráter trágico da lógica da simples diferença (D) vem de que ela é o pensar da separação (relativamente ao Um/Ilimitado). Desenha-se um referencial perfeitamente homólogo à estrutura das lógicas de base [14]. dialética (concepção hegeliana/marxista ou trinitária I/D) e clássica. que uma primeira diferença pode produzir uma veraz totalidade. D/D). Melhor a denominaríamos. esta mera convenção promovida ao estatuto de verdade absoluta (exclusivismo da lógica clássica). muito bem simbolizada por Prometeu. sim. propriamente temporais) da História em um mesmo quadro referencial tem agora sua grande compensação. Muito simples.292 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para garantirmos a validade do aludido princípio. D. proceder a uma segunda diferenciação A. como requer o princípio do terceiro excluído. A lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) deriva de um artifício. porque NãoA é tão bem definido quanto A. precisaremos tomar por referência uma primeira discriminação. e abandonar NãoB. O contra-senso da inclusão de concepções logicodiferenciais (espaciais e não. Agora. nele.

I/D) [15]. Preliminarmente apresentamos na figura 12. numa síntese maior. desta feita. síntese das concepções genuinamente temporais da história. .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 293 diretamente a linhagem das lógicas da temporalidade (I e I/D). resultando. entre eles. tido agora não como um espírito-lógico-trinitário (I/D). Ela pode também ser entendida como uma dialética da dialética. Somos agora forçados a uma nova e breve digressão para salientarmos alguns dos principais traços que diferenciam a lógica hiperdialética (qüinqüitária. só que. de nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2).(I/D)/(D)= I/D/D=I/D/2 -. à maneira de Hegel frente à sua dialética. chegamos sempre ao mesmo destino . onde poderá situarse uma nova concepção da história. lógico qüinqüitária .à existência de um quinto lugar. mas como um bem mais complexo ser–lógicoqüinqüitário (I/D/D=I/D/2). Esta pode ser compreendida de diferentes modos. como uma síntese da concepção dialética hegeliana (I/D) com a hermenêutica das mentalidades (D). I/D/2) da já bem conhecida lógica dialética (trinitária. agora sim. tal como está destacado na figura 1.3 a dialética em dois ciclos subsequentes para fazê-la mais facilmente comparável à lógica qüinqüitária. coerentemente na linhagem das lógicas identitárias. Não é só: também pode ser compreendida de per si. transcendental e dialética trinitária. Haveria ainda muito mais que o leitor poderá por si descobrir. como lógica do processo de auto-desvelamento do homem.

que sabemos garantidora. ao primeiro ciclo dialético. Torna-se mais do que evidente que apenas desta perspectiva lógico-qüinqüitária é que se poderá proceder ã crítica radical da Modernidade [17]. mas sim um ciclo contra-dialético. quanto aos riscos a serem assumidos.294 DUPLO CICLO DIALÉTICO-TRINITÁRIO LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CICLO HIPERDIALÉTICO QÜINQÜITÁRIO I/D I I/D I CICLO DIALÉTICO I/D/D D I/D CICLO DIALÉTICO D/D CICLO CONTRA-DIALÉTICO CICLO DIALÉTICO D I D Figura 12. Um lugar por demais alto.3 . segue-se não outro ciclo da mesma natureza. aquilo que esteja a emergir para além da Modernidade. cuja complexidade vai inclusive requerer uma terceira dimensão representativa [16]. certa- . É a concepção lógico-qüinqüitária da história que. lógica da dupla-diferença. em especial. sabemos bem. De todas as lógicas mundanas [18] tão só a hiperdialética qüinqüitária subsume a lógica clássica. em última instância. que vai dar ensejo à síntese lógica clássica ou da dupla diferença. Só depois o processo segue em direção a uma síntese maior. dos procedimentos de cálculo do mundo que caracterizam essencialmente a Modernidade. tanto para o olhar. precisaremos assumir para poder efetivamente pensar a História da Cultura em toda sua amplitude.Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária Fica aqui evidente a maior complexidade da hiperdialética na medida em que nesta. um lugar de ar rarefeito. necessária e coerentemente.

enfim. operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I). Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/2) governa. Um esboço de história da Cultura . a assunção de um ponto de vista antropo-lógico que. nem bem constituída. já contemplava ela a desaparição de seus mais caros objetos. a maioria dos antropólogos . mormente aqui em Pindorama. Citamos isto para que não alimentemos qualquer ilusão com respeito a quão estranho irá aparecer ao saber antropológico estabelecido.2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 295 mente. Por também subsumir as concepções judaica e hegeliana da história. Perguntamo-nos naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização . mas mesmo assim. Tylor e Lévi-Strauss . alerta ainda à espera de seu objeto. ela suscita e nos solicita tanto pela fé quanto para o engajamento. de certo modo. Morgan. entre muitas outras coisas próprias aos homens.válida para todos os homens em todos os tempos e lugares . pouco mais do que nomeado . Os animais cordados operariam no nível lógico dialético (I/D). lugar onde se pode. mas a razão humana iria mais além.enxergou sua ciência desde sempre em crise. na medida em que. dialética (I/D) e clássica. da diferença (D). respirar um pouco de esperança. o discurso articulado em sua plena acepção [21]. se põe na contramão.a cultura nova lógico-qüinqüitária! Devemos convir que deve soar ainda bastante estranha esta nossa pretensão de antropafagiar a ciência em nome e proveito da esperança ! Em Noções de antropo-logia [20] caracterizamos o homem como o ente dotado de um poder hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. Segundo nos informa Márcio Goldman [19]. formal ou da dupla diferença (D/2).com 12.e cita Frazer.

mas não ainda um passo de natureza propriamente lógica na direção daquele desvelamento. um essencial e particular comprometimento lógico [22]. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D).296 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. dialética I/D. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I). inclusive. ambas naturalmente referidas à Natureza. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. Elas serão genericamente denominadas etapas ecológicas [24]. clássica ou formal D/2 e a própria I/D/2). assim. da lógica por ela assumida e sacralizada. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [23]. mas algo ainda mais complexo. por uma questão de coerência com o que vimos até aqui. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Esta última seria a expressão simbólica. atestada de muitos modos. depois. (Ver figura 12. como poderia ser diferente? Toda cultura teria. e que lhe confere. coletivamente objetivada. de natureza hiperdialética (I/D/2). pela idade. pela variabilidade no tempo do seu vigor criativo e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo a história da cultura como um processo de autodesvelamento do próprio ser do homem. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que teriam ocorrido significativos avanços.4) . da diferença D. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. entre eles. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). Aliás.

uma manifesta síntese das culturas anteriores [25] .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 297 Resumidamente e focalizando uma área restrita. porque. cultura hiperdialética qüinqüitária. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). cultura medieval cristã (patrística). começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. . uma cultura à medida exata do homem. cultura judaica. pela primeira vez. D/2. cultura moderna de base científica. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. compreendendo apenas o Ocidente e o Oriente Próximo. D. que hoje domina o mundo. por todos os títulos. cultura sedentária de base agrária. teríamos a seguinte seqüência histórica de culturas nodais: pré-I. I. e. I/D. ainda por vir. cultura prometéica grega. não castradora. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. cultura tribal. pré-D. I/D/2.

fingimento e superação . que vem demonstrar que por trás de ambas opera um mesmo arcabouço lógico. porém. Nossa tese central daqui por diante. 12. a aparentemente desmedida simplificação da tese uma cultura.4 . uma lógica.Esboço de uma História das Culturas Nodais É importante notar a perfeita homologia entre as figuras 1 e 4. tão bem sustentar-se. Por isso. descontado nesta última o “detalhe” das culturas “ecológicas”. Desejo. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura.298 CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA I/D/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CULTURA MODERNA CIENTÍFICA OU SISTÊMICA D/D CULTURA CRISTÃ TRINITÁRIA (PATRÍSTICA) I/D CULTURA GRECO-ROMANA PROMETÉICA D CULTURA JUDAICA SIMBÓLICO CONVENCIONAL E MONOTEÍSTA I CULTURAS PROPRIAMENTE LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA DOS IMPÉRIOS DA ANTIGUIDADE PRÉ-D CULTURA TRIBAL PALEOLÍTICA CAÇADORES/COLETORES PRÉ-I CULTURAS ECOLÓGICAS Figura 12.3. pôde. não será mais uma cultura. até aqui. entretanto. uma lógica.

Em outras palavras. e da qual não discordamos). de algum modo.ficando.o número 1. o ar e a águia. lógica da diferença D . o vermelho. numa artimanha defensiva. triângulos. o círculo. o ponto.que determina o seu ser “desejante”. bastaria lembrar a profusão de manifestações arquetípicas que se pode recolher nas culturas históricas: lógica da identidade I . a água e a serpente em hélice ou distendida. o fogo e o leão.o número 2. Para convencer-nos. a segunda. São vínculos ora claros e assumidos. o seu próprio futuro que teria resolvido madrugar. figuras especulares em geral. toda cultura. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. os gêmeos. sim. inclusive com aquela que a todas estas subsume. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda. dá testemunho de outras lógicas. Tentemos melhor esclarecer. em que pese seu parti pris lógico. fingir que não mais é o que é. intentará simular ser. a cobra que se devora pela própria cauda. agora. o azul. vale dizer.o número 3.que era nossa tese anterior . fonte de seu vigor criativo -. o branco. correspondente à cultura que a irá suceder que determina o que ela. Cada cultura tem sua lógica de referência . já foi assinalado. com cada uma das demais lógicas mundanas. correspondente à cultura que a antecedeu . mas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 299 três lógicas [26]. lógica dialética I/D . o segmento de reta. triângulos de círculos . precisou ser feita mantido o postulado da igualdade de todos os homens. ora clandestinos. Esta mudança (de 1 para 3). associada a mais outras duas: a primeira. como se verá.

por suposto. a terra e o touro. a estrela socialista. . o homem e a quinta-essência.lógica que teve que ser superada (ou recalcada). b) de outro lado.de onde. as pirâmides de base quadrada.5): a) de um lado. com a lógica da cultura que lhe antecedeu . lógica hiperdialética I/D/D ou I/D/2 . os quadriláteros em geral e as cruzes.300 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou nó borromeano. com a lógica da cultura que lhe sucederá. mandalas [27] de toda sorte. procede a real ameaça à sua dominação de época.o número 4. e que por vezes “retorna” ou se re-volta como num sonho -. mas que de algum modo permanece subsumida. lógica formal D/D ou D/2 .o número 5. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? E por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas (Ver figura 12. Dentro desse quadro geral. para que ela pudesse advir em seu lugar. seu permanente pesadelo . os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. o negro.

Isto nos faz compreender. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico/emocional dos indivíduos. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou margi- . Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. é de algum modo silenciá-la. o que se pode. como as culturas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA POR VIR 301 FINGIMENTO SUPERAÇÃO CULTURA DE REFERÊNCIA DESEJO CULTURA ANTERIOR RECALCADA Figura 12. Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. o desejo da cultura [28]. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. conhecimentos.5 . não se pode simplesmente apagá-la. instituições. através de um processo de reiteradas substituições. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. recalcá-la ou. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e duradouramente exercida. forçá-la a abandonar o já pensado por outro por pensar. Desde sempre. ou seja. técnicas e múltiplas artes. na verdade. o que é ainda mais sutil.Desejo. afinal. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. fingimento e superação Do ponto de vista lógico. de modo mais ou menos claro.

ameaçadores. Toda cultura. até preventivamente mandando executar os recém-nascidos.302 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. pois já começam a se delinear em seu horizonte. que é seu verdadeiro motor imanente. também não se pode ter dúvidas. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. pois. é o melhor que poderia mesmo fazer para tentar embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. como de seus piores feitos. No entanto. pelas ideologias. todas o pressentem. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação (pela violência. precisamente em seu fingimento. E quando isto acontecer. pelo menos. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado.5) Toda cultura teria. como não poderia mesmo deixar de ser. tanto de suas excelsas realizações. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 12. inclusive aquelas à esquerda e à direita. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. uma disposição desejante. ou. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. O golpe fatal sobre qualquer cultura. mas que ao final é o que a empurra para a frente. . e que de maneira inexorável irá confrontá-la. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. e tantos mais) e que a dissimulação aqui aludida é apenas um dentre eles. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural. simula ou finge ser o que ainda virá. convenhamos. que.

na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (por isso podem parecer retrógradas) com uma corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (por isso podem parecer delirantes). por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. do desvanecimento do seu próprio desejo. A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . da Antigüidade (pré-D). como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo . O primeiro. metaforicamente. Tomemos alguns exemplos. do esgotamento de seu vigor criativo. Tempo perdido. acompanhada de investimentos na organização da produção. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. Como bem observa Mircea Eliade. a liberdade pelo cativeiro. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. o fruto esperado. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem. margens e desvãos [29].o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. A probabilidade de subversão de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. A agricultura tomada como base da subsistência. quer a cerealicultura (Tais mitos são mais ra- . em essência. enfim.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 303 A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. seria o das culturas dos grandes impérios de base agrícola. na formação de estoques e na sua distribuição. Significam. tanto quanto terá sido negado que estava já em gestação nas suas próprias dobras.

malgrado. (negritos nossos) [30]. como assinalamos. entretanto. vivas ou inanimadas. É então pela idolatria sistematizada que esta cultura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. ainda que oculta. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). nas culturas de base agrícola (pré-D). o constituiu. (Ver figura 12. o sentido permanece ainda afeito ao traço.6) Tudo isto. Ali vige o simbólico. possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. por isso. nas culturas evoluídas. ainda como um entre os múltiplos atributos dos entes. uma intencionalidade atuante.304 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ros. Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. em essência. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. o simbólico refém da espacialidade que. é atribuído um sentido. A todas as coisas. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. que. não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. e por vezes radicalmente reinterpretados. inventa-se a escrita. Neste tipo de cultura. que irá permitir a . Para tanto e muito mais. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. para fazer frente à grande ameaça do conceito. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O mito. mas sentido apenas como índex ou como análogo. ora metonímicas (análogas aos processos primários inconscientes de condensação e deslocamento). ora metafóricas.

em definitivo saída da Natureza para o mundo da Lógica ou da pré-Idéia.Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). sabemos to- . CULTURA MONOTEÍSTA MAGIA ANALÓGICA I JUDAÍSMO MOSAICO Pré-D Pré-I MITO CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL Figura 12. da religião do Deus único. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. o círculo de seus adoradores . a fio de espada. à noite.6 . A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 305 expressão do lógico enquanto tal. absoluto transcendente. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular. cuja gigantesca e emblemática figura. por nada subornável. à volta do bezerro de ouro. Como se fora numa pintura de Chagall. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. inseparável do pré-domínio do simbólico pleno ou convencional.três mil ou mais outros vinte tantos mil. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. que estiveram reunidos de dia. não importa -.

em especial. diria Hölderlin. (Ver figura 12. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser. E se vê condenado a não mais retroceder.7 . Daí constituírem os gregos a cultura trágica por excelência. posição que vai lhe custar o mais alto preço.Cultura prometéica grega (D) . que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. é Moisés. que se pode considerar como o fundamento lógico do trágico). um de costas para o outro.7) CULTURA DO CONCEITO OU DO ESPÍRITO CRISTÃ DIALÉTICA PLATÔNICA POESIA EXORBITANTE I/D D I CULTURA GREGA CULTURA DA IDENTIDADE FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA Figura 12. A relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo. que é doravante ser outro (dos deuses). Um segundo exemplo seria o da cultura grega comprometida com a lógica do outro ou da diferença (D). O personagem símbolo aqui é Prometeu. daquilo que foi e agora é falta). que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I).306 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dos. porque é desta última. e não da outra. que se alimentará o vigor criativo dos gregos.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 307 Para compreendê-lo em toda sua significação.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. simular sua própria auto-superação como arte. a dissimulação que ela realmente é. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial. mas Graça!). mas. Nesta. não produz filósofos e perguntas. grega no caso. ou seja. por excesso de fingimento. beauté suprême. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. particularmente a poesia trágica. lamentablement. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. do um-todo ou do Deus único. de modo incontestável. o que encobre/ revela. como tal. mas não chegara a realizar -. sombra [31] Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. Para deixar isto ainda mais transparente. com a agravante de te- . A arte grega. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. ao invés. malabarismo para uma sobrevivência impossível . por falta do distanciamento. uma profusão de profetas e suas duras admoestações aos homens pela sua infidelidade à Promessa (que não é produto de roubo.Hölderlin -: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. vale aqui apelar à sensibilidade do poeta .do que esta deveria. Reparando bem. veremos que a pátria do ser. além. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. La Grèce. à imitação da própria imitação. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). pretensa extensão da Natureza .

Platão. chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual. (negritos nossos)[35] Perceber tudo isso não é assim tão difícil.que então exorbitava . desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. o que. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D).e a filosofia. sendo também mais universal e o mais universal. como bem registra A República [33]. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. alguém que não faltou aos seus. Il interprète plutôt le beau . no que respeita a pretensão do belo ao vero.308 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO rem sido alertados em tempo por um dos seus maiores . Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico. viria a ser a prerrogativa própria da idéia (ou do conceito) [34]. alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . já lembrado. Por isso. para que fosse ele buscado além. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [32] do que um clarividente. como se vê. Eugen Fink. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão micrométrica. Hölderlin. mais individual.. não por serem imitadores. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). a verdade da parte pela da totalidade. sabemos.. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro.

Dans un pressentiment obscur. on lui arracha son prétendu masque divin. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. mas era algo essencial à própria afirmação da filosofia (bem entendido. (negritos nossos)[37] Muito importante é observar que. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. la poésie devient alors. Fink nos proporciona um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. originelle. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie. des spectacles contre qui la pensée métaphysique { isto é. como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. par conséquent sans savoir réelllement. (negritos e colchete nossos)[38] . la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 309 comme chemin et échelon vers le vrai. imitation d’une imitation. .. Cependent elle est imitatio.. La poésie est essenciellemente mimétique.. [36] Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos. para Platão... la poésie imite le vrai savoir. mimésis. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère.

recordemos. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” anterior à “lógica”. ao mundo da cultura. Georges Bataille. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. Diferencia-se da cultura de base agrícola (Pré-D) porque esta se põe como outra da Natureza. vamos tomar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores que dominou o período paleolítico e que. por ser lógica e historicamente primeira. como visto. dissimulado. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o . possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/D= =I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. no entanto. Já pertence. em Théorie de la religion [39]. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. pois. esboça seus primeiros traços em Platão. isto é. apresenta algumas interessantes peculiaridades. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. porém. a pré-I? Como poderia se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. para sobreviver. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. no conflito da idéia com o excessivo poético que. viver da caça a outros animais.310 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A nosso juízo. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega mais do que 600 anos após à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). no caso. que. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. Como último exemplo.

8. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (pré-I). Apenas deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico. o fato é que já se pode lá assegurar a . A condição de caçador o identifica com a caça. mas da renúncia a um ganho lógico .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 311 alimentar-se de e ser alimento por outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (anterior a pré-I). como a água na água. Em outras palavras.ganho da animalidade (I/D) para humanidade (I/D/2). no que tange ao seu modo desejante. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. para sobreviver. mas. nem assim constituem uma verdadeira exceção. Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. Com isso. (Ver figura 12.8) PINTURA RUPESTRE CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-D Pré-I HERÓI MÍTICO CULTURA ANIMALIDADE IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL O ANIMALIDADE Figura 12. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. ou seja. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. concluímos que as culturas tribais. na sua própria expressão.

não mais como o que se perdeu. pelo trabalho agrícola. animais e homens. precisariam simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. Reconhecemos aí o herói .312 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vigência de algum tipo de xamanismo. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). isto é. Para tanto. postergando o advento da cultura de base agrícola. não mais se o devora e sim o escraviza. (Ver figura 9) Toda esta artimanha representativa. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. quando já se desenhava para eles o espectro da agricultura. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. e mesmo em se tratando de um semelhante. de penetrar nos corpos dos humanos. e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. especificamente. [40] O fingimento nas culturas tribais. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente!) criada pelos xamãs para a conservação de seus poderes. Isto posto. ou ainda por um espírito ou por um deus. inclusive também os deuses. Visa-se o outro agora como meio. isto é. mortos ou vivos. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura de base agrícolas (Pré-D). conforme nos ensina ainda. mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. no entanto. por força de um movimento de subversão cultural. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. contudo. da caça aleatória para a caça assegurada. O autor da proeza está historicamente perdido. irá por água abaixo. Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pela lógica da identidade de todos os entes.

como se fossem três absolutos . Einstein e tantos outros. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto unotrino desejado (I/D). (Ver figura12. indução magnética.tempo ab- 12. trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da sociedade de base agrícola. energia. spin. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses.4. espaço e matéria. com sua mecânica. particularmente hoje. que sejam eles três .pré-assistido por Galileu e alguns outros . Seus grandes heróis são Galileu.suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade. temperatura e o diabo [43]. põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos.a Física [42]. corrente elétrica. mas as equações matemáticas segundo os quais o mundo fora criado.10) O mais notável dos feitos de Newton . a Física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2). A Modernidade . jamais. a Física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). a biopirotecnologia. Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [41]. bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. desejosa do uno-trino (I/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 313 prometéico. Sua face desejante situa-se bem no cerne de seu glorioso cientificismo .tempo (T). espaço (L) e matéria (M) . Em suma. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. sua face disfarce é a técnica e seus excessos. força. pressão. porém. Discute-se tudo na Física. De fato.foi. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D). que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2). entretanto. porém. aceleração. entretanto. O fez. Em suas grandes crises. Newton.

à plenitude lógica. a história da Física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu comprometimento mútuo. Se não uma “heresia triteísta . mecânica quântica. enganadora. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzi- . a partir de então.314 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO soluto. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [44]. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . de certo modo. em especial a biotecnologia. daí porque. eletrodinâmica quântica .relatividade restrita. pelo menos um gritante e bem compacto oxímoro. simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica.10 – A Modernidade De outro lado. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível. ESPAÇO E MASSA) Figura 12. A técnica. relatividade geral. CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA POR VIR I/D/ SUPERAÇÃO 2 PÓS-MODERNIDADE BIOTECNOLOGIA ESPETACULAR CULTURA CIENTÍFICA MODERNA D/2 I/D CULTURA TRINITÁRIA CRISTÃ FÍSICA (CÁLCULO DO UNO/TRINO: REDUZUIDO A TEMPO.

não ocorre ali propriamente um processo de síntese. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume como da recomposição informacional de todas as coisas. a propósito.egoístas. pois. Para se chegar a voar é preciso. A lógica da técnica. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das de- . em compensação. mesquinhos. sem qualquer imaginação. em juvenil anjo de Maxwell. o que. do homem em todos os seus pormenores. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. É o velho demônio” de volta. seres vivos e memórias. agora. de modo obrigatório. É também o fim da História que tanto se apregoa. não se sabe como. nada solidários. a lógica clássica ou formal (D/2) e a lógica transcendental ou da identidade (I). sim. mas novo saber cristalizado (D/2). com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. a determinação ou o empenho numa realização. inclusive. não chega à hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. deixa bem à mostra (e de costas) quão risíveis são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. omissos. mas. de um lado. além de um saber da aerodinâmica (D/2). assim para toda a eternidade! A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. O avião já em vôo não é tecnologia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 315 dos (os transplantes seriam já uma preparação para tanto). futuramente. contra a morte em geral no mundo. o saber científico. Continuaremos tal como somos . entretanto. enfatuados. de outro lado. Na técnica concorrem. metamorfoseado. respectivamente. também a inabalável determinação para fazê-lo (I). insensíveis. cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. constituindo-se apenas em seu arremedo.

para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. coetâneo e co-fundador na fixação das bases do cientificismo que viria justamente constituir a essência da modernidade?! [46] Eis. como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. mas talvez milhões ao mesmo tempo. além. da razão autenticamente feminina [45]. . Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. A verdadeira síntese qüinqüitária (I/D/2).316 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO terminações à lógica formal da ciência .a sistematicidade -. Daqui por diante.à lógica transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . Não é difícil. mas tão apenas conjecturas. a rigor. em linhas muito gerais. entretanto. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. vislumbrar como se dará a superação da Modernidade. com toda a precisão. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna (D/2). o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos. das regras de poder. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária (I/D/2) através da pseudo síntese machista da ciência (D/2) e de seu sujeito sujeitado (I). exigiria muito mais: para começar. por razões óbvias. reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. a recuperação das lógicas da diferença (D) e dialética (I/D). não se pode apresentar ainda fatos. lá. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica para buscá-lo à frente. ou seja. das organizações burocráticas e similares. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. Poder-se-ia assim dizer.

ali está posto de maneira implícita. tendo como seu sujeito. ou melhor. todo esse alarido sobre a modernização brasileira. Por quê? Porque afirmou que o mundo objetivo era geometria. entrementes. como de resto todo o discurso (ideológico) sobre a Modernidade. de Sérgio Buarque de Holanda. e a Modernidade. O Brasil e a Modernidade . Este é verdadeiramente o nosso grande conflito interno. pode ter o problema de se haver com a Modernidade? Não pode ser isto. a problemática brasileira é posta em termos do dilema ser ou modernizar [47]. Ainda que inconscientemente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 317 mas tão somente a sua subordinação ao Pensamento. A partir daí fica fácil perceber a essência do problema da incompatibilidade entre a formação social do Brasil. era ser-calculável. como uma nação que nasce com a Modernidade. Entretanto. o que se está sempre na verdade evitando ou ocultando é a questão de quem deva ser o sujeito da modernização (racionalização) que.11. aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética. um discurso acerca de qual opção de sujeito da ciência se intenciona deveras dissimular.5. o cogito. Mas acho que temos que aprofundar e entender melhor como se dá essa incompatibilidade e porque persiste este dilema. A Modernidade. é. Em suma. completa- 12. entre a formação cultural brasileira. tem que ser olhada não como a questão da opção por um paradigma. mas como a questão da sua ocultação ou dissimulação. obedecendo à lógica do terceiro excluído. fundada por Portugal. no fundo. uma nação que chegou a liderar o processo europeu de modernização. Desde Raízes do Brasil. Sabemos todos que Descartes é quem inaugura (reflexivamente) a Modernidade. Vamos tentar esclarecê-lo com a ajuda da figura 12. para nós.

mas nunca a comunidade – e. [48] Todos os filmes americanos são a mesma coisa . põe de novo o sistema em funcionamento. que pode ser a chegada da estrada de ferro. aí ocorre o contingente. de índios. de ETs. de qualquer coisa que o faz degringolar.318 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente transparente a si mesmo.uma caricatura. obviamente -: existe um sistema comunitário funcionando. de um bando de assaltantes. depois de derrotar a adversidade. sujeito de projeto.Problemática cultural brasileira . o famigerado herói fordiano . de uma catástrofe natural ou artificial.11 . Então surge um sujeito isolado – às vezes até um punhado de indivíduos isolados. ou. se quisermos. sujeito liberal. Figura 12.

demorou cerca de 500 anos. ainda que similar. por exemplo. É necessário para tanto um sujeito fordiano. ou seja. depois também vendem para cá sem correrem o menor perigo de que os imitemos. Para tanto. A consolidação da Modernidade. com a própria Igreja tentando demonstrar para todo mundo que a ciência seria desnecessária. O que se pode sacralizar. portanto. Não! Eles fazem filmes para reiterar o que são.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 319 Quem viu. poderia facilmente perceber isso: o sujeito se rebela contra a junta médica – não é um médico que vai cortar a perna do herói. nós vemos outro filme. Porém. Quando se faz um sistema de folha de pagamento. contra o regimento. Tudo começa no ano 1000. não pela adoção do cientificismo. um organograma. a lógica funerária. para educar. Desvelar e instalar o sujeito da ciência. mas pela descoberta do sujeito que . ou 1250. que tinha uma tática e ele executa outra por conta própria. a lógica do sistema é a lógica da morte. mas a cultura da sistematicidade. O sistema não pode por si produzir outro sistema. porque nós não conseguimos ver o filme. não é o sistema vigente [49]. é a junta médica que pretende fazê-lo –. ao final. o cientificismo. ou 1100. E ganhou vários Oscars! E muita gente pensa ingenuamente que eles perdem tempo em Hollywood fazendo filmes só para nos enganar. Logo. não uma lição de vida (cultural americana. a única coisa que se enquadra bem nesta lógica . passando do radical trinitarismo de Santo Agostinho (dialético I/D) para o tomismo (lógico-clássico D/2). uma álgebra axiomatizada. contra o exército americano.um retângulo com uma porção de retângulos dentro .é o cemitério. mas como simples entretenimento). Dançando com lobos. é uma história de seguidas insubordinações. não dá para ele próprio gerar outra coisa. o sujeito liberal. não se podia mesmo ter uma cultura viva que fosse estritamente científica. procedia à aristotelização de sua teologia. sujeito intervalar entre dois sistemas.

o tinham por lá até bastante. não constituíram/ consolidaram o sujeito que lhes seria apropriado. por exemplo. Assistindo-se a uma reunião em Brasília sobre.320 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lhe seria próprio. porém. A cúpula da Igreja não queria discutir sujeito nenhum. foi obra dos protestantes [50]. todos os cientistas estão a serviço da reprodução dos sistemas. desenvolvimento tecnológico. ou seja. Por isso. o sujeito liberal. imediatamente. Ou melhor. havia a necessidade de dar-lhe uma resposta. a turma à “esquerda” contra-ataca. a ciência vai ser feita para quem. propondo que as verbas sejam destinadas à criação de tecnologias que venham contribuir para resolver os graves problemas “sociais” [52]. sujeito de projeto. mas o expulsaram! [51] O problema é pois quem deva ser o sujeito do sistema. precisamente aquela de um sujeito fordiano. depois que o protestantismo colocou a sua solução. É sempre a mesma coisa! Nós temos uma enorme dificuldade em aceitar aquele su- . não se mantiveram na vanguarda porque acreditaram que lhes bastasse o Tratado de Tordesilhas (a lógica do terceiro excluído imposto ao mundo com a benção de Deus). a Igreja deixou emergir o jesuitismo latente. há também uma liberdade de fato. obviamente representado por um sujeito simbólico absoluto (delegado do Absoluto). veremos a turma que segue o paradigma americano propor que as verbas sejam dadas aos indivíduos que apresentem o melhor projeto. à racionalização/burocratização do mundo. para permitir que os sistemas se reproduzam. que formula uma contra-proposta (contrareforma): no lugar do sujeito calvinista (I) colocar-seia um sujeito coletivo (I/D). Existiriam alternativas? O mais interessante é que esta questão se pôs logo no início da Modernidade. Embora Portugal e Espanha tivessem dado partida à Modernidade. por quem e em proveito de quem? No paradigma anglo-saxão. Então.

uma reforma “modernizadora” no sentido dos tzares: ciência sim. se tornar um mau exemplo. que acaba louco. ele fez de conta que acabou com a Ordem. até hoje. Santo Inácio.de querer aparecer. entrementes. [53] verifica claramente que o problema de Galileu não é com a Igreja. Galileu herético.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 321 jeito individualista. a ciência deveria ser feita coleti- . a proposta jesuítica é a de um sujeito coletivo que. uma boa leva de seus integrantes continuou se refugiando na Rússia que. inclusive científico. no fundo . no caso. mas com um sujeito coletivo representado pelo monarca absoluto. E. mas do texto facilmente se o depreende . É incrível a carga que o Marquês de Pombal e os espanhóis fazem sobre a Ordem dos Jesuítas. precisa ser representado por um sujeito emblemático absoluto: é a proposta ciência e absolutismo. Resumindo. Com que finalidade? Para ajudar numa reforma educacional. Ele foi acusado formalmente do não cumprimento de sua palavra e. Em que escola Lenin poderia ter aprendido o que fazer?! A exata fórmula jesuítica! É o maior absurdo dizer que a Igreja era contra a ciência se os jesuítas. e os ibéricos mais ainda o apertam até que a Ordem é “dissolvida”. ela ordenaria “ortodoxar” a Polônia”. isto é. A Polônia ficou católico-romana exatamente porque o Papa recuou.não é o que diz Redondi. pressionam um Papa. desde o fundador. exatamente por tal. com os jesuítas. que sobe no muro e passa três anos procrastinando a decisão. e. foram se formar na Sorbonne. pressionam o seguinte. para os jesuítas. o sujeito liberal ou fordiano. era uma parte da Polônia ocupada. Quem leu o livro do Pietro Redondi. todo jesuíta é formado em alguma coisa de cunho acadêmico. fazer sucesso. sim. Catarina da Rússia então os recebe na Polônia e chega a ameaçar o Papa: se insistisse em dissolver a Ordem em seus domínios. e nada tem a ver com a ciência propriamente dita. ser aquele que fazia ciência para ele próprio “faturar”.

no caso. A seta que iria do sujeito coletivo para a ciência vai se inverter e se irá ter uma burocracia usando de uma ideologia para dominar a massa. ou capitalismo oriental. pretende-se que a comunidade ou o ser-comunitário (I/D) vá se servir da ciência (D/2) em seu próprio benefício. sub-repticiamente também se propõe inverter a seta. só que optar pelo sujeito coletivo e ao mesmo tempo fazê-lo determinante. é uma solução impossível. a primeira é lógica de um pensar mais poderoso do que a última. de fato. como mostramos no item 1. é a lógica do sistema (D/2) que prevalece e o exemplo evidente é a URSS. é ciência (D/2) com sujeito coletivo (I/D) representado pelo Imperador. pois.322 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vamente e em benefício da coletividade. ela é produto já de um ciclo contra-dialético. resultou. O que se está chamando hoje capitalismo confucionista. O capitalismo anglo-saxão não tem esse problema. Ficou desde então este tipo de “alternativa . Mas quando é proposta a solução à esquerda (D/2 com I/D). mas sabe-se hoje no que isto. Então. do Japão. Isto é a grande ilusão de todas as esquerdas. não vai perverter jamais [54]. e não tributário ou intervalar. pelo Secretário Geral do Partido Comunista Chinês no continente e pelo patriarca da “família alargada” na diáspora chinesa por todo o mundo.11). Começou-se lá com a intenção de colocar a ciência a serviço do coletivo (NEP). não se pode inverter a seta que no capitalismo anglo-saxão ou paradigmático vai do sistema para o sujeito. pois o indivíduo do projeto (I) está a serviço do sistema. que faz do último sujeito tributário do primeiro [ver de novo figura 12. O que há aí de importante que precisa ser visto? A maioria das “pessoas de esquerda” no Brasil acha isso bom e nós também. já estando pervertido. Basta lembrar a expressão socialismo científico: socialismo é o sujei- . Tudo por uma simples razão: a lógica clássica (D/2) pressupõe e subsume a dialética (I/D). Em última instância. é também disso uma variante.

ou. entretanto. Entremos numa empresa qualquer: a primeira coisa que se irá constatar é a obsessiva pré-ocupação com o cálculo da taxa de retorno do capital. sendo. . a posição dialética (I/D) não é o lugar de uma solução. ele se baseia na racionalização do mundo (D/ 2 ) ou então no sujeito schumpeteriano (I) . isto está hoje mais do que comprovado. a lógica clássica posta a serviço da dialética. na verdade. bem perto de nós. portanto. entretanto. Com o esfacelamento da URSS.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 323 to como ser coletivo (I/D) e científico é o mundo objetivo (D/2). ele só está resistindo um pouco mais à perversão em razão de sua grande homogeneidade cultural. se baseia em ambos: ele é a afirmação das lógicas da diagonal masculina (I e D/2). Assim. Maior evidência não existe! Não é isso que toda empresa faz? Sozinha. sujeito poético. o empresário samurai. mas estão agora acabando com o respeito aos velhos. a estabilidade do emprego etc. o que levará à sua própria dissolução cultural. povo. Precisa-se explicar mais?! O Japão vai pelo mesmo caminho. a Modernidade). sujeito inconsciente. sujeito telúrico. da História? A faz história calculada. Pelo mesmo raciocínio.. A Modernidade. baseado num sujeito coletivo (I/D). Existe. em essência. quem está apostando na China como a grande nação capitalista do século XXI irá se decepcionar. Marx é importante para criticar o capitalismo (melhor diríamos. eles aprenderam a bem usar a ciência e a técnica. é repetir Descartes. que é a do sujeito romântico. Todos que se manifestam a favor do capitalismo dizem que. uma outra alternativa. mas não para propor um sistema alternativo.o que. de certa forma. os possíveis lugares de sua crítica. é apenas o lugar para uma crítica. As outras duas lógicas (I/D e D) constituem o avesso da Modernidade. isto porque são elas justamente as lógicas que a Modernidade está recalcando/desnaturando. ou seja. O que faz ela da dialética (I/D).

(Retornar à figura 12. ou seja. Foi precisamente por isto que o fascismo apareceu tardiamente (como força social) em relação ao socialismo. e como já se viu. O fascismo é uma alternativa. mas no aspecto educacional sempre houve a preponderância do luso-jesuítico. é óbvio . velhos rivais do logos heraclítico (D) [56]. o capitalismo e o seu novo motor.que sabe bem o que é cultura e sua importância. Foi precisamente por isso que ela respondeu por antecipação ao consumismo [55]. O indivíduo aqui tem mesmo vergonha de ter lucro. não faz uma grande doação benemerente a . Vê-se agora uma simetria temporal perfeita: o marxismo é uma resposta retardada ao cálculo da História. justo quando o capitalismo começava a deixar de ser produtivista para tornar-se essencialmente consumista. mas sempre com a consciência culpada. melhor dito. mas o mesmo não se pode ainda seguramente afirmar do fascismo! Entrementes. Para Heidegger. Ele pode ficar rico. com o sujeito romântico (D) no lugar do sujeito liberal (I). ou capitalismo de marketing. uma pseudo alternativa para a Modernidade. Lá começou-se a sentir. como um agressor da cultura. o marketing. o inimigo da Alemanha (dizia Europa) não era apenas a URSS (sujeito I/D). perverte. Se fraqueja com a idade. vigente no paradigma anglo-saxão.324 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito libidinal. bem depressa. porque também inverte a direção da determinação ciência/sujeito. um exagero – é comunitário/absolutista (I/D). antes do que em qualquer outro lugar. à acumulação pré-calculada do capital. mas igualmente os EUA (sujeito I). vale dizer.11) A Alemanha tem uma elite . o comunismo não tem mais futuro. entretanto.bem diferente da nossa. sem dúvida. A tendência da “elite” brasileira – a generalização aqui é. Por isso. porque tem lá sua cabeça jesuítica. e o fascismo é uma resposta antecipada ao consumismo. Nós temos uma formação ibérica forte.

mas ninguém quer se botar no devido lugar (I). não dá para fazer nada. Boa parte de nossa “elite” política. Entrementes. a dificuldade de modernizar o Brasil. Há um artigo seu. principalmente onde pesa mais a cultura africana. empresarial e até intelectual está traindo a causa brasileira. dizem de um lado. matar de fome a baiana do acarajé. poder tomar sossegadamente sua cerveja com os amigos. e ninguém quer saber do projeto (I). Não se aproveita nada – é o que o Roberto Campos nos ensina. na sexta à noite. pela concorrência. com toda nossa herança histórico-cultural. incrível. mas para então poder gozar mais. mas simplesmente muda (se fantasia. na circunstância) para sujeito ostensivamente libidinal (D)! E o povão [57]. Ou seja. vale dizer. puxa para o lado do sujeito libidinal (uma forma arcaica de D: pré-D). O atual Governo está mais ou menos seguindo esta dupla receita: põe a classe média para vender cachorro-quente e assim. embora nós não queiramos ver (por isso se diz que o Brasil cresce à noite. se diz que com esse “povinho” não dá. mais precisamente. trabalhar racional e disciplinadamente sim. melhor se diria. como nos EUA. o negro só quer saber de magia e o português é patrimonialista. e vende a economia brasileira em bloco para empresários monopolistas estrangeiros. Daí. ou mesmo fazê-lo o ano inteiro para poder desfilar condignamente no Carnaval. Não há quem não o queira. o Brasil está sendo construído. sem ninguém ver ou atrapalhar). O único jeito de o fazer é acabar com a elite. Por que não se consegue modernizar o Brasil? Porque a elite puxa para o sujeito coletivo/absolutista (I/D) e o povão puxa para o sujeito libidinal (D. no qual afirma que o índio é preguiçoso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 325 uma universidade ou instituição filantrópica. com isso. pré-D). inves- . Trabalhar duro a semana inteira para. no juízo (ou ausência de juízo) dele. De outro lado.

para nós não há saída à esquerda e não há saída à direita. Construir uma cultura é tarefa para 500 anos ou mais. e nós já estamos bem próximos de alcançá-los! Apesar da cegueira das nossas “elites” políticas. Há.326 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tindo no fim da História. haveremos de chegar lá. como acreditava Darcy Ribeiro. o Brasil não é um bom candidato ao luxo. por vir. ele o é deveras à originalidade. mais do que quaisquer outros. Eu não digo que o Brasil está pronto. no pensamento único. Ademais. que está. para quê? Para ocultar nossa grande alternativa. um nível de desenvolvimento cultural que seria o de uma cultura qüinqüitária. na qual exatamente deveríamos apostar. todos os componentes de base para tanto. ainda. porque temos. Só há uma coisa para a qual temos vocação: é a síntese lógicoqüinqüitária. na síntese. ele está quase. e também não adianta insistir em entrar para a Modernidade. militares. empresariais. Em suma. . pelo menos. eclesiásticas e intelectuais.

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Notas

Capítulo 1

1. THOMAS, Louis-Vincent. A etnologia, mistificações e desmistificações in História da Filosofia – Idéias e doutrinas, dir. F. Châtelet, v.7. Rio de Janeiro, Zahar, 1974 2. LEIBNIZ, G. W. Princípios da Natureza e da Graça in Obras Escolhidas, Lisboa, L. Horizonte, ?. p. 149. 3. KANT, Crítica da Razão Pura, Lisboa, Gulbenkian, 1989. 4. O infinito matemático é um artifício para justamente ocultar, no mundo da matemática, a problemática do Absoluto, assim como o zero é o artifício similar para ocultar o Nada, que nos imporia a incômoda questão da origem dos números. Portanto, a atribuição da infinitude, qualificada ou não, feita ao Absoluto é um péssimo costume dos teólogos, na medida que sua essência é precisamente a ocultação, se não do Absoluto, pelo menos da visibilidade de sua simples problemática. 5. Só para exemplificar: I think the Anthropic Cosmological Principle brings us to an idea perhaps as old as humanity itself: that we are not at all just an accidental anomaly, the microscopic caprice of a tiny particle whirling in the endless depths of the universe. Instead, we are mysteriously connected to the entire universe, we are mirroured in it, just as the entire evolution of the universe is mirroured in us. HAVEL., Vacláv. The Need for Transcendence in the Postmdern World in THE FUTURIST, July-August, 1995. p.48. 6. SAMPAIO, L. S. C. de. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Rio de Janeiro, setembro, 1999 7. ______. Superação das idolatrias - a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária, Rio de Janeiro, novembro de 1999. 8. ______. Remanejamento das Relações Indivíduo/Sociedade na Cultura Nova Lógico-qüinqüitária. Rio de Janeiro, janeiro, 2000 (acrescentado a posteriori).

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1. Não desconhecemos que expressão semelhante foi usada há muito por George Balandier no título mesmo de seu livro ANTHROPO-LOGiQUES, Paris, PUF, 1974, mas, o próprio leitor poderá verificar, com uma motivação bem diferente da nossa. 2.Um semimonóide é uma estrutura algébrica, por nós definida, munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento, associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados, não importa se a direita ou a esquerda. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados, ainda pela operação/, indefinidamente, a partir de um conjunto finito de elementos fundamentais. Ver Sampaio, L. S. C. de, A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa, nua, na passagem dos semigrupos aos monóides in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios, Rio de Janeiro, EdUERJ, 1999. 3. Ser um operador nulo à direita é não exercer qualquer efeito quando ocorre à direita de outro operador. Assim, no monóide livre básico que representa a estrutura formal das lógicas,temos para qualquer X, X/I=X, em particular, D/I=D, o que já não acontece quando I ocorre à esquerda, pois, I/D ¹D. 4. Uma observação importantíssima é a de que, por exemplo, em sua máxima generalidade, D/2 não é uma forma abreviada de D/D, mas de (D)/(I/D), e que portanto a lógica clássica pressupõe a lógica dialética e, de certo modo, nega ao mesmo tempo que herda boa parte de seu enorme poder: a lógica clássica é, por isto mesmo, uma lógica das totalidades convencionadas, destarte, pai e mãe da matemática. Para maiores detalhes, ver SAMPAIO, L. S. C. de Lacan e as lógicas, Rio, 1992 (xerografado) e, ainda do mesmo autor, Dialética trinitária versus hiper-dialética qüinqüitária, in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit. 5. O termo qüinqüitário, no presente contexto, refere-se a uma lógica que subsume cinco lógicas, ou seja, à lógica I/D/2, assim como o termo unário referenciar-se-ia a uma lógica que subsume apenas a si mesma, a lógica transcendental ou da identidade I, e o termo trinitário, a uma lógica que subsume três lógicas, vale dizer, à lógica dialética I/D. 6. Na impossibilidade de explicações mais demoradas, confiamos nos conhecimentos e na intuição do leitor para identificar em alguns campos de saber o exato momento de passagem da estrutura conceitual trinitária à qüinqüitária. Na física, ele situar-se-ia na passagem dos leptons aos barions; na psicanálise, na passagem da fase fálica àquela de assunção da sexualidade propriamente humana ou tetrapolar; em eco-

Capítulo 2

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nomia, na passagem do feudalismo ao capitalismo; na etnologia, na passagem da cultura cristã trinitária ou patrística à modernidade cietífico-tecnológica; na semiologia, na passagem do símbolo ao discurso. 7. Acompanhando com atenção o seguinte texto lacaniano, mais facilmente consolidaremos nossa certeza de que a lógica da diferença D, também lógica do significante e da verdade parcial, tem por verdade própria o gozo: “Isso só se goza por corporizá-lo de maneira significante. O que implica algo que não o partes extra partes da substância extensa. Como o sublinha admiravelmente essa espécie de kantiano que era Sade, só se pode gozar de uma parte do corpo do Outro, pela simples razão de que jamais se viu um corpo enrolar-se completamente, até incluí-lo e fagocitá-lo, em torno do corpo do Outro. É por isso que somos reduzidos a um estreitamentozinho assim, a tomarmos um antebraço, ou não importa o quê - puxa!”. O Seminário, livro 20, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 35. Negritos nossos. 8. Quanto a que a dialética I/D tenha a vitória como sua verdade própria é suficiente atentarmos para o fato de que a História, por definição, já fez a sua escolha: sempre, pela “razão’” do vencedor. Ela é parcial e total pela simples razão de que todos os elementos em luta querem impor ao todo sua verdade, por definição, parcial ou partidária, o que aliás é uma impossibilidade. Muito se reclama por aí de que não se façam histórias dos vencidos; não poderia ser doutra forma, já que a verdade da dialética é mesmo a vitória. O que aconteceu de pior com o marxismo real não veio de uma acidental loucura, mas, de modo inexorável, de sua herança lógico-hegeliana. Para que ninguém se sinta com isso acabrunhado ou desiludido, alertamos que a dialética I/D, para o homem, não é sua lógica maior. 9. Trata-se do postulado que na física interna a ação de medir, que, em sua idade clássica, era algo de fantasmagórico; isto tornou-se essencial para a mecânica quântica cujos objetos são, em geral, microdimensionais e por isso facilmente perturbáveis. A rigor, o postulado refere-se a uma segunda medida que, em razão da continuidade do mundo, se executada imediatamente após a primeira, precisaria repetirlhe o resultado. Na primeira, teríamos Opy* fornecendo um número n e jogando o mundo num estado y ligeiramente diferente de y*. 10. Operadores hermitianos são aqueles cujos valores próprios são sempre números reais. Na lógica, tivemos que abandonar esta restrição que vige na mecânica quântica para podermos incluir num mesmo formalismo também o operador S, S tal que S3(y) = y, que representa a lógica do ser

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humano em sua plenitude, ou seja, I/D/2 , que dentre seus três valores próprios possui dois deles com parte imaginária. A propósito, esta é a “razão formal pela qual o ser humano só chega à plenitude em no mínimo três (correlatos aos pronomes pessoais eu, tu, ele ou nós, vós, eles), como já observaram Freud e, com maior precisão, Lacan em seus Seminários. 11. Ouve-se dizer que ao animais são capazes de operar por reflexos condicionados, como se esta locução fosse uma explicação “materialista” em bases empíricas do comportamento animal. De fato ela é importante, mas apenas do ponto de vista lógico: a palavra reflexo é obviamente de natureza lógica I e a palavra condicionado, isto é, determinado por outro e não por si, de natureza lógica D; portanto, em conjunto, a locução define uma capacidade lógico-dialética I/D. Assim, o cachorro de Pavlov, é mais hegeliano do que marxista, mais dialético idealista do que propriamente materialista. 12. À lógica I/D/2 correspondem tanto o indivíduo quanto o coletivo, em particular, a família nuclear e, às quatro lógicas por ela subsumidas, os componentes familiares típicos: os masculinos, I ao pai e D/2 ao filho; os femininos, D à mãe e I/D à filha (ou virgem). Pareceria haver aqui um conflito agudo com a noção de família nuclear do estruturalismo, na qual se incluiria o tio materno e não a filha. Acontece que se pode “provar” que as duas noções são equivalentes diferençando-se apenas em que a estruturalista é a posteriori da troca e a nossa, a priori da mesma. Ademais, a lógica a ser adjudicada ao tio materno, seria precisamente I/D na medida em que ele é pai (I) na outra (D) família nuclear, no sentido por nós proposto. Devemos declarar que estes esclarecimentos só se tornaram possíveis graças às observações críticas do antropólogo Mercio Pereira Gomes a quem, obviamente, agradecemos, mas que nada tem a ver com o modo pelo qual tentamos superá-las. 13. Dizemos com toda a generalidade porque, seja no sentido teológico judaico-cristão, seja no da cosmologia moderna (hipótese do big bang). o mundo advindo terá que sê-lo necessariamente como espacial, como essencialmente res extensa, logo, múltiplo. A identidade só pode aí emergir por um artifício a posteriori que seria aquele do colapso de alguma diferença disponível. A força lógica deste argumento pode ser constatada na física moderna - nos modelos cosmológicos a 10 dimensões em que 6 colapsam , embora não desapareçam, resultando em nosso mundo aparente de 3+1 dimensões -, como também na embriologia, onde o tubo neural, inclusive o cérebro, resultam da invaginação (colapso) do tecido ectodérmico sensível, inicialmente disposto apenas como uma superfície.

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14. A pergunta pelo ser (I) exige a diferença ou o logos, ou seja, a filosofia (D); a pergunta pelo ser-objetivo (I/D) exige a dupla diferença, ou seja, a ciência (D/D) e portanto a pergunta pelo ser-humano (I/D/D) exigiria a tripla diferença, ou seja, “as ciências humanas”, o que , felizmente, é uma impossibilidade lógica, pois D/D/D não cabe em I/D/D. Ver Lógica e Realidade in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit.. 15. O princípio antrópico emerge da constatação de que admitidas mínimas variações nos valores das constantes universais transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo, que se tornaria impossível o advento do homem. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram, constantes e universais, então, desde o big bang, o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes, fecha-se o círculo: este Universo destinava-se, ab initio, ao homem, e o homem a ele; este é, em essência, o conteúdo do princípio antrópico. O princípio ainda sofre o repúdio de um número significativo de cosmólogos, entrementes, elaboramolhe uma versão baseada em argumentos não só físicos, mas igualmente lógicos, que não o deixa sujeito às restrições mais freqüentes até hoje contra ele levantadas. Para detalhes, ver Pricípio antrópico, a seguir neste volume. 16. Admitindo-se que a cultura egípcia, de fato, abeirou-se do monoteísmo. Ver especificamente MOISÉS E O MONOTEÍSMO - Freud, Obras psicológicas completas, v. XXIII, Imago, Rio, 1975 - sem que seja necessário concordar em toda latitude com as teses ali defendidas. 17. A referência aqui é ao diretor cinematográfico John Ford irlandês, embora atuando nos EUA - em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado, e tão logo o conseguia, deixava-se ir embora, solitário como chegara, pelas estradas. Pode-se haver algo mais expressivo do que isto, no caso?! 18. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato um velho questão que se arrasta até hoje, como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. O tema, não há dúvida, tem sido muito maltratado pelos pensadores da sociedade. Os marxistas, em especial, sempre o tiveram atravessado na garganta, desde Lenin, passando por Plekhànov, Adam Schaff, R. Garaudy, até chegarmos a Alain Badiou, que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico, sem a qual, é óbvio, tal problemática não poderia ser

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adequadamente tratada; ver Alain Badiou, Théorie du sujet, Paris, Seuil, 1982. 19. Ver especialmente O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO, Freud, Obras psicológicas completas, v. XXI, Imago, 1974. 20. Referimo-nos entre tantos outros a Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Novaes e José Miguel Wisnik. 21. Há muito fomos despertados para este tipo de questão pela leitura do provocante Linguagem e Realidade do pensador tcheco Vilém Flusser, publicado em 1963, quando ele ainda lecionava no Brasil. Só algum tempo depois é que tivemos notícia da tese similar hoje largamente conhecida como hipótese Whorf-Sapir. 22. O termo elite tem aqui um sentido bastante largo para ser aplicado o todos aqueles que exercem quaisquer posições de mando, não importa o nível da escala sócio-econômica considerada. 23. Em todas estas considerações omitimos o peso da nossa cultura autóctone, que classificamos como Pré-I ou ainda muito próxima deste tipo nodal. Em nossa opnião este tipo, por ser o mais originário, não traria um peso específico justamente por incarnar a cultura em sua generalidade. Não descartamos que uma compreensão mais profunda da problemática cultural brasileira venha nos obrigar a uma revisão profunda desta opinião.

Capítulo 3

1. Citado por I. M. BOCHENSKI, Historia de la Lógica Formal, Madrid, Gredos, 1976, p. 288. Tanto Bochenski quanto GILSON, Etiene (A filosofia na Idade Média, S Paulo, Martins Fontes, 1998) dão testemunho que a mathesis universalis de Leibinz teria sua inspiração na Ars Magna et Ultima de Lúlio. 2. LÉVY-BRUHL, La Mentalité Primitive, Paris, Retz, 1976 3. _______. Les Carnet de Lucien Lévy-Bruhl, Paris, PUF, 1949. 4. LÉVI-STRAUSS, Claude Antropologia Estrutural Um e Dois, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976 5. Bricolage: em geral, técnica oportunística de construção de novos objetos a partir do reaproveitamento de velhos objetos, de suas partes, até de seus caco ou pedaços. No caso, o termo está sendo transposto par o terreno simbólico e o reaproveitamento é fundamentalmente o de partes de estruturas conceituais já usadas em outros contextos. 6. Numa das sessões do XVII Congresso Nacional da SUSSESO, em 1984, quando ingenuamente falamos em pensamento pré-lógico - não no sentido de destituído de lógica, mas de ainda incapaz de uma representação simbólica objetiva de seu uso -, um companheiro de mesa, famoso

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antropólogo, do alto de sua autoridade midiático-doutoral, na impossibilidade de queimar-nos vivo pela heresia, teve um verdadeiro chilique diante do público. Inesquecível! 7. A remissão aos gregos é, na verdade, de natureza temática, pois como bem observou Mercio Pereira Gomes, do ponto de vista existencial, deveríamos remetermo-nos aos povos mais primitivos que, para simplesmente preservarem sua identidade, se vêm obrigados à operação lógica de nadificação do outro, ou seja, a se instituírem como os únicos verdadeiros humanos. Quanto às nossas opiniões, ver SAMPAIO, L. S. C. de, Noções de Antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, dezembro de 1996. (xerografado) e Desejo, fingimento e superação na história da cultura, Rio de Janeiro, 1998 (xerografado) 8. SAMPAIO, L. S. C. de. Noções Elementares de Lógica – Compacto, versão abreviada e significativamente modificada do volume I de obra homônima, Rio de Janeiro, I. CulturaNova, 1991 (xerografado) ou, numa versão mais recente BARBOSA, M. C. As Lógicas - As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. S. Paulo, Makron Books,1998. 9. SAMPAIO, Noções de antropo-logia, op. cit. . 10. ARISTÓTELES, Política, Brasília, UnB, 1988. I,2,1253 a 11.HEIDEGGER, M., Heráclito Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1998. Também nossos comentários em SAMPAIO, L. C. S. de, Crítica da Cultura. Rio de Janeiro, 1999. 12.Poder-se-ia argüir que em Heráclito o logos não é propriamente um atributo do homem como seria a razão em Aristóteles. Contudo, a confrontação continuaria ainda assim pertinente na medida em que, para Heráclito, estaria implícita como característica especificamente humana a capacidade de “escuta” do logos. 13. A afirmação que a competência para pensar, ou seja, para operar segundo a lógica está fundamentalmente associada à existência do sistema nervoso central (SNC) parece-nos óbvia, embora não nos pareça ainda fácil apontar em todos os casos as bases fisiológicas em que se apoia tal certeza. Vamos tentar justificar a afirmação precisamente no caso que nos parece de todos o mais problemático: o pensar consciente governado pela lógica transcendental (I). Começamos rastreando o processo de formação do SNC. Já mesmo em alguns entes unicelulares se pode distinguir regiões especificamente sensitivas e outras motoras (USHERWOOD, P. N. R. Sistemas nervosos, S. Paulo, Nacional-EDUSP, 1977). O primeiro passo na especialização funcional a nível celular se dá nos organismos pluricelulares, quando aparecem algumas células com funções exclusivamente sensoriais, e outras, exclusivamente motoras. Temos um terceiro momento, presente já em alguns

O surgimento de gânglios com funções integradoras pressupõe. Dizemos que há uma superação desta limitação quando “informações substantivas” recebem codificação de mesma natureza que “informações relacionais” (informação sobre relações de “informações substantivas”) e “informações processuais” (informações sobre transformações de “informações substanciais”). cinestésicos e luminosos. o mesencéfalo ou cérebro médio. A expansão envolvente da formação extrema (antes preponderantemente olfativa) dá nascimento à córtex. que informações provenientes de órgãos de sensibilidade diferenciadas sejam representadas por sinais elétricos digitais da mesmo tipo. adicionalmente. Contando do extremo para traz temos o prosencéfalo (que ainda se diferencia em telencéfalo e diencéfalo). ainda vindo no mesmo sentido. O passo seguinte é o aparecimento do tubo neural nos vertebrados e do cérebro: série de três intumescências que se formam na extremidade do referido tubo. Esta homogeneidade de codificação. a nosso juízo.334 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celenterados. o rombencéfalo. entre outras. as funções de integração de informações provenientes de diferentes órgãos sensoriais. que ocorra uma homogeneização na codificação dos sinais digitais. que paralelamente expande sua complexidade por meio de “dobramentos e redobramentos” que vão acabar dando o aspecto típico do cérebro humano. Importa destacar que o simples aparecimento de células especializadas em transmissão é a pré-condição da digitalização dos sinais nervosos. Estes canais permitem que sejam conservados os tempos de resposta mesmo a maiores distâncias. Consuma-se um novo passo com o aparecimento dos gânglios – formação cerrada de corpos neurais – que assumem. Consolida-se um novo degrau de complexidade/especialização com a emergência de células inter-neuroniais que. e por fim. entre algumas outras. isto irá viabilizar o aumento do porte do animal sem perdas no grau já alcançado de integridade/integração. Com o cérebro surge a possibilidade de um verdadeiro processamento de sinais o que pressupõe a superação das limitações hierárquicas dos tipos (no preciso sentido que lhe dá Bertrand Russell). posto que só assim o animal terá condições de uma representação simultânea e compatí- . Do ponto de vista funcional. em que aparecem células com função especializadas na pura transmissão de sinais (neurônios propriamente ditos) ligando células sensoriais a células motoras. é uma condição fundamental para a emergência da consciência. isto é. temos regiões especializadas no trato de canais olfativos. possibilitando a ativação de canais de transmissão de alta velocidade. assumirão funções de comutação de sinais.

Não temos espaço aqui para entrar em detalhes acerca das células gliares. Um fenômeno de enorme relevância é o modo como se dá a formação topológica do SNC dos vertebrados. já o vimos. recapitulado na sua ontogênese (fim da quarta semana). e com os órgãos motores. de certo modo. em cuja extremidade anterior. Este processo permite a formação de um tubo superficial. ECTODERMA SENSÍVEL DISPOSITIVOS MOTORES TUBO ÓRGÃOS SENSORIAIS NERVOS AFERENTES NEURAL (INTERIORIDADE) NERVOS EFERENTES ÓRGÃOS MOTORES . através dos nervos eferentes. A figura a seguir nos mostra uma seqüência esquemática das fases de formação do tubo neural explicitando suas ligações com os órgãos sensoriais. que por sua atividade “auxiliar de limpeza” podem garantir a permanente condição de higiene num exíguo espaço onde ocorre tão gigantesco nível de atividades. através dos nervos aferente. Este fenômeno que ocorreu no curso da filogênese. desenvolver-se-á o cérebro. Pode ser facilmente observado nos jovens embriões dos vertebrados como o tubo neural se forma pelo processo de invaginação do ectoderma dorsal.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 335 vel tanto dos estados do mundo exterior quanto de seus próprios estados internos e de suas respectivas modificações. que a seguir se interioriza e em torno do qual virá se formar a coluna vertebral protetora. Trata-se do processo de formação do tubo neural. cerca de 10 vezes mais numerosas do que os próprios neurônios. que conduziu à emergência dos vertebrados é.

in-in-put. U. proporse como seu próprio enigma ou pura e simplesmente dissolver-se na loucura. M. Brain. C. Se o consideramos como sendo uma superfície orientada – suposição inteiramente razoável se tivermos em conta que se trata de um tecido de células sensíveis – constataremos que o SNC. London. que nele se cria um espaço interno em que se pode representar tanto o meio como seus próprios impulsos e disposições do próprio organismo. Methuen. e além. poderíamos estabelecer as . 1979 e SMITH. Esta especial orientação vai. No homem. Constitui-se assim um espaço imaginário onde é possível até refugiar-se momentaneamente fugindo às excessivas pressões do mundo. constituiu-se também como uma superfície igualmente orientada.336 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria importante enfatizar alguns dos aspectos topológicos deste processo de invaginação do ectoderma. este espaço imaginário chega a constituir um mundo onde se pode dar explicações para o bem e o mal. a operação de identidade (I) se alicerçaria na homogeneidade da codificação no que diz respeito aos tipos lógicos e. Antes de encerrarmos esta nota. em termos de in-put e out-put e de uma única função de transformação os articulando. eles seriam dotados de um espaço interno. levadas em consideração as orientações das superfícies em jogo. dramática e definitivamente. behaviour and evolution. incluindo às vezes o próprio homem. out-in-put. simular diferentes cursos de ação sem ter que pagar o imprevisível preço de uma efetiva experimentação. Alianza. Nestas circunstâncias. Em suma. sobretudo. na homogeneização desta codificações com relação à diversidade de sensibilidades em jogo (diversos sentidos). Numa linguagem um tanto informal. David A. em direção contrária àquela do ectoderma que lhe deu origem [OAKLEY. diríamos que a base filosófico para a operação lógico-diferencial (D) poderia estar. pois. Madrid. porém. no próprio processo de formação do SNC por via da invaginação do ectoderma. de certo modo. constituir uma interioridade no corpo (espacial) do animal. Por outro lado. o que nos obriga a descartar o simples modelo bipolar em favor de um modelo tetrerapolar. onde pode localizar suas origens míticas. suplementarmente. onde haveria espaço para discriminar quatro e não apenas duas intervenções: in-out-put. As considerações topológicas referentes à formação do SNC nestes animais evidencia que. gozar o ilimitado poético e até. de um lado. de um avesso. outout-put. na codificação digital dos impulsos das células sensíveis e. El Cerebro. 1972]. aproveitamos a ocasião para chamar a atenção sobre a insuficiência dos modelos condutivistas freqüentemente propostos para vertebrados. diríamos que o animal passa a dispor. em si.

Flammarion. sendo por isso. op. L. de Reflexões. na circunstância. PLATON.. logicamente otimistas. não é aí que vamos encontrar sua razão de ser nem aquela de suas variantes. C. acerca do advento da cultura nova pós-científica. S. esquema lógico que desde Descartes caracteriza a Modernidade: logo. Um exame mais atento mostrará que o mais importante no Iluminismo é o que ele se propõe fazer. C. SAMPAIO. Reflexões. SAMPAIO. com a des-razão (coração. a essência do trabalho é se constituir num esforço que visa outra coisa que si mesmo. cit. Lógica e Economia. de Desejo. L. Não estamos aqui referendando a concepção marxista sobre o trabalho. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil.) (D). Sabemos que a citação aqui do Iluminismo é uma simplificação. . 19. Parmênides... natureza. Muito pelo contrário. intuição. 1967 15.. que acabava de ser recalcada justamente pela razão científica (D/D). Rio de Janeiro. o capitalismo que criou o trabalho alienado nem o comunismo poderia aboli-lo. Théététe. 337 percepção in-out. 1988 (xerografado).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE seguintes correspondências: Sensação ↔ in-in-put Percepção ↔ in-out-put+ in-in-put Sensação cinestésica ↔ out-in-put Ação ↔ out-in-put + out-out-put. 16. Cultura-Nova. 18. Oficina do Autor/ etc. S. Rio de Janeiro. instinto. Rio de Janeiro. Inst. C. Fingimento e Subversão na História da Cultura. 1999. necessária e essencialmente trabalho alienado. SAMPAIO. S. Para maiores detalhes ver figura abaixo. Paris. Não foi. pois.in-input put SNC ação out-in. SAMPAIO. De modo geral o Iluminismo está comprometido com a liberdade (I) e com a razão formal (D/D). emoção etc. L. talvez excessiva.out-output put 14. logicamente otimistas. de . 1999 17.

SAMPAIO. S. Zahar. relatamos que ao consultar o exemplar de Logique du Sentiment de Ribot existente na Biblioteca Nacional. Paris. O fundamento disto se encontra na teoria dos grupos.338 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 20. cuja tabela de multiplicação é: x ac ad bc bd ac ac ad bc bd ad ad ac bd bc bc bc bd ac ad bd bd bc ad ac . a e b. Rio de Janeiro. Th. cuja tabela de multiplicação é x a b a a b b b a O grupo de Klein é o quadrado do grupo binário acima.b) pelo grupo homólogo (c. Alcan. La Logique des Sentiments. 1989 – em geral. como inspirador de algumas idéias de Charcot e outras coisas mais. forçando um confronto entre sua Logique du Sentiment e a lógica do significante lacaniana. o produto do grupo (a. Rio. 1920 23. La Mentalité Primitive.d). C. constatamos que ele pertenceu justamente a Arthur Ramos e guarda suas inúmeras anotações manuscritas à margem e em pequenos pedaços de papel nele inseridos. F. LXXVIII 22. Taine –. R. EdUERJ. 24. 1914. 26. 25. cit. L. por exemplo. LÉVY-BRUHL. Philosophique. ROUDINESCO. Como curiosidade.Théodule Ribot é citado duas vezes no volume 1 e muitas no volume 2 da História da Psicanálise na França de E. 21.Arthur Ramos conhecia a fundo não só a obra de LévyBruhl como também suas fontes. Entretanto sua ligação com a pasicanálise ficaria bem melhor definida se transladássemo-nos para o plano lógico. Afora a identidade isolada. op. formado por dois elementos.RIBOT. Binet. isto é. particularmente nas propriedades do denominado grupo de Klein. o grupo mais simples é o binário._______. como introdutor do modelo jacksoniano na França. de Lacan e as Lógicas in Lógica ressuscitada. Fica a sugestão. na companhia de Janet. La logique affective et la psychanalyse.

I. ser capaz de se por na pele do outro. Paulo. justamente. Introdução a uma filosofia da cultura humana.b) e (c. III e IV em 2 vídeos. 31. os elementos não identitários ( não ac) do grupo de Klein. ICN. um diferença suplementar. A condição animal capaz de operar I/D requer um SNC e este. 28. seguindo indicações lacanianas definimos o masculino pela par lógico {I. de Por que. Pavlov nomeia (até muito corretamente). também. como vimos na extensa nota 13. 32. operando por reflexo condicionado. Rio de Janeiro. L. mas nada explica.5 h de duração.SAMPAIO. na própria obra dos estruturalistas não faltariam muitos outros exemplos. Já aconteceu mais do que uma vez em aula que esta nossa afirmação fosse contestada. portanto. D/D} e o feminino pelo par {I/D. Só na aparência isto é uma objeção. 30. 1997 29. uma filosofia da cultura. logo. CASSIRER. Martins Fontes. é uma dupla pele. S. porque ele é simplesmente uma espécie de simulação formal (é óbvio que drasticamente empobrecida) da verdadeira dupla diferença que fez ser o homem. pelos pares ad. estaria operando segundo o famigerado “mecanismo” do reflexo condicionado. aquilo que só é em razão de outro. perfazendo pois um “articulado” de três peles. II. Rio.. trata-se de uma ratificação: a palavra (arco) reflexo é claramente lógicoidentitária (I) e a palavra condicionado. sendo-lhe contraposta a “descoberta” pavloviana que o animal. D}. uma terceira pele. EMBRATEL/UAB.d) e as três relações articuladas. onde. Ver capítulo 2 anterior. Este grupo aparece por toda parte. L. S. 1988. S. . o animal estará na verdade operando segundo a lógica dialética (I/D). Ensaio sobre o Homem. Ë precisamente isto que está logicamente por traz da piedade em J-J Rousseau. a rigor.Compacto. 27. A condição humana requereria. é inquestionavelmente lógico-diferencial (D).. 1999. Ser humano é. SAMPAIO. como a roupa (ou a pintura dos corpos) representando uma terceira pele. Ernst.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 339 As duas diferenças seriam representadas pelos subgrupos (a. Portanto.. Desde que saibamos procurar. de Introdução à Antropologia Cultural. Ele poderia ter chegado à mesma conclusão sem ter aporrinhado tanto seus cachorros. bc e bd. C. 1993 ou alternativamente Noções elementares de lógica . no caso. bastando que se mantivesse fiel ao que lhe prescrevia a lógica do Partido. com cerca de 3.Existem outros bem interessantes. C.

são apenas uma taquigrafia. Teríamos. EMBRATEL/ UAB. M. serão então cinco as lógicas subsumidas. então. Se considerarmos que ela subsume a si mesma. Ademais. Esta. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. UAB. desde que não as tema. são inúmeros os casos de cul- Capítulo 4 . C. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano.340 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SAMPAIO. (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). L. Rio de Janeiro. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o que acontece (I/D). constitui-se numa síntese das lógicas da identidade e da diferença. de. Luiz Sergio C. pelo mesmo autor. III e IV. cit. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/ 2 ). D/D=D/2 (lógica clássica). Alternativamente. Noções de antropo-logia. tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. II. Para maiores detalhes. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. (2) só é na medida em que remete a outro (D). Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. 1998. SAMPAIO. o vídeo Antropologia cultural. além destas últimas. 4. Noções de antropo-logia. também conveniente. O termo hiperdialética refere-se a uma lógica mais complexa do que a lógica dialética. As expressões I. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. I/D (lógica dialética). I/D etc. Noções de antropologia. C. Rio de Janeiro. tomando-se. Rio de Janeiro. a designação qüinqüitária. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. As Lógicas. enquanto que a primeira sintetiza. (5) é complacente ao Absoluto. Makron Books. ver SAMPAIO. 1996. S. um pouco abusivamente. daí. 5. Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). a própria dialética e a lógica formal ou clássica. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). I. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. Rio de Janeiro. 1993. Na esfera mundana. D. Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. op. como sabemos. UAB. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. de.

12. porém. mas como dotado de uma outra lógica. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. Por isso ela é politeísta. em um modo próprio . 6. a síntese da identidade com a dupla diferença. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. segundo o teólogo da cultura Paul Tillich o espaço sobre o tempo (Théologie de la Culture. Não é surpresa. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 341 turas logicamente híbridas. 11. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. além. Modernidade. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. chegou bastante cedo ao trinitarismo (I/D). por exemplo. 10.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. precisamente. ou seja. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. como em todas as culturas. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. Paris. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. 7. aí se demorou tanto tempo que tem dificuldade de “recordar” suas fases lógicas anteriores e justamente por isso de se projetar. SAMPAIO. uma polêmica cheia de veneno e má fé. para o bem ou para o mal. é produto da sacralização de sua lógica própria. vale dizer. pode-se dizer que a China. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. Noções de antropo-logia. 9. Culturas associadas às lógicas em que prevalece a diferença sobre a identidade. Ademais. cuja necessidade foi há muito pressentida. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. 8. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. De qualquer modo. op. cit. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. não se dão conta que o fazem. logique du sentiment. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. de hoje “modernizar-se”. Aliás. pois. daí porque não nos arriscamos à inclusão do Oriente. crenças e ritos. entre outros. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. A percepção do ritmo de sucessão lógica das culturas depende de uma certa familiaridade com a história tradicional da área considerada. isto é.

ELIADE. 3. Ibid. daí a designação lógica da dupla diferença. Rio de Janeiro. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). os subservientes negociadores (?!) do atual governo brasileiro. pois na verdade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. o valor indefinido. enquanto que o segundo é um marginal. Madrid. lá e cá. O indeterminado. A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. das relações EUA/Brasil. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. . a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. 58. Arnold Toynbee. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. Zahar. 1981). uma segunda diferença. Compendio IX/XII. o paradoxal. Por isso. v. em profundidade. pp. o falso e. por suposto. 1. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. um terceiro. Excluem-se aqui. Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. desconsiderado. 59-60 16. e impondo-lhe então. Tomo I. daí. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença .o mundo se apresenta como sobredeterminado. representando o nem verdadeiro nem falso. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. Mircea. p. História das Crenças e das Idéias Religiosas. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. Alianza.o mundo se apresenta como subdeterminado. 13. vol. Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. o indefinido. pois. segundo o historiador das civilizaçòes. internamente. sua negação sendo destarte o verdadeiro. 1978. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade.342 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Denoel/ Gonthier. 15. porém. a materialidade sobre a espiritualidade (Estudio de la Historia. 14. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença.Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. como a Índia.1968). isto é. terá como falsa sua negação. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós.

seriam eles: o direito. 1988. o esquerdo e um estado intermediário “pontual”. a correspondente re- . Para melhor compreender a natureza da diferença ou negação no caso da lógica da diferença D e da lógica clássica ou formal D/2 (a que estamos habituados). Já no caso da inversão estão implicados apenas dois estados e podemos passar de um ao outro por uma simples rotação ou deslocamento espacial. S. uma segunda. para fazê-las coincidir. BEAUFRET.25 18. nem esquerda. ICN. de Sampaio.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA 343 DUPLA DIFERENÇA D/ 2 Ver L. C. G. nem direita. Monfort. por onde poderá se dar a passagem de um a outro dos estado anteriores. as luvas são a imagem reflexa uma da outra. Noções elementares de lógica . L Ó G IC A D A R E F L E X Ã O D L Ó G IC A D A IN V E R S Ã O D / 2 R (a ) D D a a D/ R (R ( a ) )= I ( a ) a D / (a ) -1 2 2 R2 = I a 1 2 R (R ( a ) ) D (a ) Uma inversão pode ser concebida como uma dupla reflexão. No caso da reflexão. transformar uma noutra. relativa a um plano vertical. Isto vai requerer a passagem por um estado intermediário em que ela se “desespacializa” (e o par se dissimetriza). Rio. 0. 1983 p. Brionne. No caso. A parte inferior da figura mostra que os estados de uma reflexão especular são três e não apenas dois. Abstratamente talvez as coisas pareçam mais complicadas do que realmente são. uma primeira. D1. ou seja. J. D2. Hölderlin et Sophocle. Tomando-se por referência a reflexão no plano vertical.Compacto. 17. -1. precisaremos que uma delas vire do avesso. podemos nos valer da metáfora gráfica a seguir. relativa a um plano horizontal. Estes três estados podem muito bem ser expressos pela tríade numérica 1. onde ela não é nem uma coisa nem outra.

aquela da lógica da simples diferença D. e a inversão. F. lógica do terceiro excluído.DASTUR. p. 228. 19.Oevres Complètes. Como pensar em tragédia (D) da época da cultura cínica D/2)?! 20. a diferenciação ou negação na lógica da dupla diferença D/2. Esta. -1. A reflexão especular representa a diferenciação ou negação primordial. o grande culpado. O verdadeiramente outro de um Deus que lhes virava a face. Hölderlin: Tragédia e Modernidade in Höderlin. sua falta de sentido. pois. aliás uma constante no pensamento alemão de lá até hoje. 1994. e sendo-lhes assim tão . Rio de Janeiro.344 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO presentação numérica seria pois 1. A nosso juízo exclusivo. Relume-Dumará. R O M A N T IS M O A L E M Ã O 2 I/D / H Ö L D E R LIN A P O L ÍN E O D/ I/D REC ALQ UE DA ID E N T ID A D E I 2 D/ 2 CU LTU R A MODERN T R A G É D IA (M IM E S IS ) T R A G É D IA M ODERNA ? D CU LTURA GREGA D IO N IS ÍA C O D P R É -D H O M É R IC O P R É -I Hölderlin consegue captar bem a inversão de posição que se opera entre os gregos e a Modernidade. 21. é a ocasião para relatar que boa parte do que vai no corpo deste artigo foi provocado pelas discussões com o amigo Aluisio Pereira de Menezes (que nem por isso tem a menor culpa do que aqui está sendo dito) em torno do tema Hölderlin e a essência do trágico.Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo de mau e aconteceu é. Vê-se bem no esquema acima como surge a sua preocupação com uma pressuposta “tragédia moderna” e as razões profundas de sua impossibilidade ou até mesmo. François. a propósito. só se consumaria se virassem -Lhe a face também.Hölderlin. com inexcedível propriedade. sem dúvida. em que não há lugar para terceiro. justo a lógica clássica ou. Reflexões. a dificuldade em se conseguir seguir o pensamento do poeta alemão está no recalque que implicitamente faz das lógicas identitarias (as culturas judaica I e cristã I/D. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) .

foi vítima deste tipo de “ilação”? 22.. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. uma distinção que vem dos estóicos. muita antiga. 23.. 29. 101 28. Todas as demais grandezas físicas . Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. X. em sua máxima generalidade. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. Rio de Janeiro. sim. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. inclusive) é crença corrente entre os gregos. grama e segundo) ou mks (metro. 1966. L. Le Jeu comme Symbole du Monde. ARISTÓTELES. Rio. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. S. ou pior. 30. 90. FINEP/ etc. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). Sentido extensivo é o conjunto de referentes a que um termo se aplica. 2000. Por exemplo. sem a menor cerimônia. (negritos nossos) 24. SOCRATES: . 31. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. 1995. p. A lógica clássica ou da dupla diferença. Arte Retórica e Arte Poética. Finalmente. SAMPAIO. é bom aduzir que não é de agora. X Platão. Paris. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. Platão. Difusão Européia do Livro. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqúitária.. 92 27. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. C. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular. Atena. em parte. Ibid. Quem já não viu. A República. Ver Reflexões. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. por isso as subsume.opus citado. Eugen. 26. S. Reflexões. 1955. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. 25. Ibid. massa (M) e tempo (T). Assim. porém. quilograma e segundo). Paulo. Paulo. sua oposição à filosofia. 59. p. 1966. 1959. de. ICN. FINK. A República. sistema cgs (centímetro. S. A matemática formalista pretenderia reduzir todo sentido à pura intensividade. e sentido intensivo é aquele dado por um conjunto articulado de termos considerado equivalente ao termo em questão. p.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 345 íntimo. Intensivo aqui se contrapõe a extensivo. herdado pela lógica clássica. Nesta última acepção o termo precisa fazer parte de um sistema dotado de uma sintaxe. o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. p. Minuit. l.

M. as que lhe antecedem: I. 1988. de. Gallimard. mas de gente. 38.II e IV. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. de. 1969. lógica que subsume. assim como. Estas estórias. João. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. George. I/D. S. L. 1973 37. S. 35. Brasília. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). Esta feliz lembrança se deve a José Miguel Wisnik. Companhia das Letras. SAMPAIO. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . Na modernidade capitalista. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida. BATAILLE. p. C. México. A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. p. SAMPAIO. S. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. 9. 1956. L. como era meu tio. feito desejo domesticado pelo marketing. A Permanente Revolução do Analógico ao Convencional – Rio de Janeiro. A H. aquele que havia guiado o povo à beira da Terra Prometida. como nos outros animais. Ibid. 42. 34. o vídeo Antropologia cultural. UAB. 37 39. Nestas circunstâncias. p. 32. C.346 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. Parcialmente publicado no JB em 07/09/80. José Olympio. imediatamente. 23 41. 43 40. 1996 (xerografado): O melhor exemplo disso já foi aqui mencionado pelo Professor Janine Ribeiro – o enterro do Doutor Tancredo Neves. R. Rio de Janeiro. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. La Pintura Prehistórica. como só ele. Paulo. igualmente mencionado. 44. BRODRICK. GUIMARÃES RODA. Noções de antropo-logia. 11 43. ELIADE. de. O par diagonal {I. Théorie de la Religion. Rio de Janeiro. Ibid. p. O Espelho de Próspero. Económica. de C. I. Paris. o povo nada mais tinha a fazer senão esperar sentado! O problema real e apavorante para a “elite” no poder era o Doutor Ulisses Guima- . D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D.O ser humano é de nível lógico I/D/2 . conclui-se. D } o feminino. S. SAMPAIO. p. de. L. Cultura e Idéias nas Américas.II. 1993/97. não de onças de humores e cores variadas. out. (en)cantador. opus citado. D/2. além de si própria. C. SAMPAIO. D. opus citado. 36.MORSE. Ibid. 33. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). C. L. S. Toda a “elite brasileira” quis enterrá-lo como se ele fosse o Moisés. Apontamentos para uma história da física moderna. pelo mesmo autor. F.

cit. como todos nós vimos na TV). ou seja. por isso mais longe dos acontecimento e mais perto das conveniências de um movimento sócio-religioso já triunfante. C. CULTURAS SEMÍTICAS OU LÓGICO. a censura aos escribas e fariseus. As Lógicas. Ao contrário do que aconteceria num processo dialético lógico-trinitário. op. e ele aí foi para casa com enxaqueca. ou seja.IDENTITÁRIAS CULTURAS PAGÃS OU LÓGICO-DIFERENCIAIS CULTURA MODERNA REPRESÁLIA: OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA CRISTÃ PLATÃO TEÓLOGO segundo Nietzsche e Heidegger CRISTO TRÁGICO segundo Evangelhos Sinóticos OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA GREGA CULTURA JUDAICA . Esta “injustificada” omissão do cristianismo na passagem da cultura grega à Modernidade é uma represália à omissão feita pelas culturas semíticas do momento trágico grego na passagem do judaísmo ao cristianismo. na “hora H”. para evitar um suposto derramamento de sangue. E a gente não começa nunca! 45. anteriormente mencionada.desapareçam do Evangelho de S. Ver BARBOSA. 48.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 347 rães. 46. mandar o povão subir nos tanques (feito o que aconteceu na Rússia e se tentou lá na China. Lógicas fundamentais são aquelas capazes de gerar todas as demais por um especial processo de síntese dialética generalizada. tardio. É bastante sintomático que tantas coisas relevantes presentes nos Sinóticos . M. Resto no seu sentido aritmético. com toda a certeza. pisa sempre na bola. João. o sentimento de abandono do Cristo na cruz . o nosso Abraão. que representava Abraão e não Moisés. a superação num processo hiperdialético lógico-qüinqüitário não impede a sobrevivência por si (não apenas subsumida) de uma cultura e nem mesmo que ela venha a exercer um papel crítico posterior na história da cultura. 47. que tinha que mandar o filho para o sacrifício.agora. seja lá quem for. São elas apenas duas: a lógica da identidade ou transcendental (I) e da diferença (D).

não podemos deixar de assinalar que o “antisemitismo” da Modernidade não pode se manifestar em sua formação paradigmática. porque esta. que internaliza o momento dialético (I/D) ao ocidente pagão é a contrapartida vingativa do Cristo trágico dos Sinóticos. Diz-se que ainda antes de Cristo até cerca de 10% da população da Europa ocidental e África do Norte era de origem judaica. abandonado pelo Pai. anglo-saxônica. em que a família semítica (I). Johson situa a diáspora judaica ao tempo de . que tenta justamente substituir o sujeito liberal (I) pelo sujeito romântico ou inconsciente coletivo (D) e depois sonha que pode ir do grego (D) à modernidade científica (D/D) sem passar por I/D. a família ariana (D) vai à forra imaginando passar da cultura pré-D (mítica) à cultura D (trágica) valendo-se de Parmênides para omitir o momento identitário I. para não sucumbir. se vale de Moises para poder omitir o momento pré-D (egípcio). tanto em Nietzsche quanto em Heidegger. o anti-semitismo só irá se manifestar na variante ideológica à direita da Modernidade. D DISPOSIÇÃO PARANÓICA I REAÇÃO ANTI-SEMITISMO = ANTI-D PARMÊNIDES "PROFETA" DO SER AÇÃO ANTI--"ARIANISMO" = ANTI-I MOISÉS ADOTADO PELOS EGÍPCIOS Pré-D Pré-I DISPOSIÇÃO ESQUIZOFRÊNICA Concluindo. É curioso observar que tudo isto vem reproduzir o ciclo anterior.348 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O Platão “teólogo dialético trinitário. adota precisamente o sujeito liberal (I) como sujeito da ciência (D/D). 49. Chega-se ao detalhe de Platão vir se confrontar com os poetas exorbitantes (que fingem a dispensabilidade do conceito I/D) tal como o Cristo se confrontou com os fariseus (que fingem a dispensabilidade do significante D). na passagem de pré-I a I. que internaliza o momento diferencial (D) ao mundo semítico.

46 52. com exclusão de qualquer outros? Se quisessem participar. 1976. Vale a pena observar que os Descobrimentos vêm acompanhados da entronização da lógica clássica ou do terceiro excluído: O Tratado de Tordesilhas. começando em meados do século III a. New York. e terminado em 1 a. avalizado pelo próprio representante de Deus. não estabelecia que as novas terras seriam de Portugal ou de Espanha. 12 50. daí o nome Setenta. 51. LXX ou Setuagina. A lógica da identidade I é tida então como o degrau zero da dialeticidade.5 milhões de pessoas. Martin. 39-43 54. Jean. Reza a tradição que setenta sábios teriam sido convocados para traduções independentes. Rio de Janeiro. York. A hiperdialética I/D/2 pode ser considerada como uma síntese das lógicas identitárias anteriores . Sendo o homem de nível lógico I/D/2. 1961.. Aí se mostra como ocorre a real experiência do possível transcendente e se especula acerca do seu estatuto lógico. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. C. etc. N. Doubleday. Confrontadas a posteriori todas teriam sido coincidentes . Zahar. p. p. o Papa. 42-44 53. luxo ou originalidade. A tradução se fez por partes. 1520 in Selection from His Writings. Macmillan. 1977 55. A lógica dialética dá conta das peripécias da história. JOHSON.1997. L. A Revolução Industrial da Idade Média. contra apenas 1 milhão na Palestina. que já andou por várias editoras que sempre “gentilmente” o recusaram. Paul. C.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 349 Cristo em cerca de 4. LUTER. de Noções de Teo-logia. S. mas tem dificuldade de explicar origem e destino enquanto que a lógica da identidade só se interessa mesmo pela origem e pelo fim dos tempos. 471 56. Capítulo 5 1. Mateus 27. GIMPEL. porque inspiradas -. só poderá ter obviamente representações fragmentadas do Absoluto. Este texto é parte de nossa obra maior Filosofia da Cultura – Brasil. An Appeal to the Rulling Class of German Nationality as to the Amelioration of the State of Christendom. opus cit. I Coríntios 15. C. talvez porque nes- . Rio de Janeiro. 57. SAMPAIO. Lucas 24. contrabandistas. Ver SAMPAIO. teriam que se conformar mesmo com os papéis marginais de piratas. 58.por suposto. que seria I/D/4.. tornando-se assim uma dialética das dialéticas. UAB.da identidade I e dialética propriamente dita I/D -. A History of Christianity.

que só surge depois que o mundo já conhecera. daquele que confronta os deuses) e a cultura dialética trinitária (do Deus Uno-Trino cristão). como é o caso da cultura judaica. PLATON. ou seja. Les Belles Lettres. a constituição de seu sujeito liberal correlato. a própria cultura da identidade (judaica). ou melhor. havia muito. Tudo começa com as invasões de Alexandre. depois. ou seja. que Heidegger faz sua primeira aparição política/pública. 6. que editor iria querer correr riscos de tal natureza?! 2. Realmente. sujeitado. Critias. luxo ou originalidade (algum dia . entretanto permanecia. Timée. a invenção da racionalidade masculina: como primeiro passo. Paris. 5. ao contrário. Sabe-se quão doloroso foi para os judeus o contato com a cultura grega. A formação dos estados nacionais (mercados econômicos nacionais) acabava com este espaço. Justamente por esta particular topo-logia é que houve um espaço físico para que a cultura judaica pudesse se preservar e desenvolver. dos romanos. Feudos (trinitário imperfeito) tem a unidade garantida por sua semelhança à Cidade de Deus (trinitário perfeito). a constituição dos alicerces. cujas portas são aduanas frente a frente. 136-137 3. Filosofia da Cultura – Brasil. constitui-se numa reserva de mercado. pela caça às bruxas. naturais de alguma parte. tornando-se assim a base para a solidificação do complementar mercado financeiro internacional. Primeiro. 4. a defesa das culturas (com exclusão das dominantes) tenha sido criminalizada. herói da resistência a invasão muçulmana da Europa. acaba precisamente aonde uma outra começa. Uma nação moderna. depois. em Heidegger e o Nazismo. Sua unidade cultural. O interesse por Abraão à Santa Clara reacendeu quando Victor Farias. doravante. nações modernas têm sua unidade fundada no Outro. chamou a atenção para o fato que foi justamente na cerimônia de inauguração de uma estátua deste religioso. tardio (século VII) porque ela é uma cultura lógico-identitária (do real e do Deus único). no prelo) . de Pluto. um intenso drama que termina só com sua auto-mutilação. a ciência e. da Dieneylandia).350 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tes tempos de intolerância democrática (ou plutocrática. SAMPAIO Luiz Sergio Coelho de. a cultura da diferença (grega. através do recalque da sexualidade (irracionalidade) feminina. pp. 1985. mas fazia dos judeus. do real como outro. Por isso. a cultura muçulmana não constitui na História uma cultura nodal (culturas que inauguram um novo modo de ser e pensar o mundo). logo á frente. 7. do homem prometéico. quem sabe. Radical porque tardio. a definitiva separação dos cristãos.

representando o nem verdadeiro nem falso. Lógica e Economia. o falso e. Um faraó se apropria do excedente e. a rigor. Ver SAMPAIO. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. 9. O indeterminado. ou seja. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. ou de mais-valia.o mundo se apresenta como sobredeterminado. em muitos momentos históricos se manteve por largo tempo acima da taxa vigorante na época que viu surgir o capitalismo. um terceiro. do prestígio. Não é difícil imaginar que isto viesse a acontecer quando toda uma população era por outra militarmente vencida e escravizada. pois. . desconsiderado.o mundo se apresenta como subdeterminado. e impondo-lhe então. Y= DK + C 10. tudo aquilo e mais algum. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. o indefinido. Rio de Janeiro. sua negação sendo destarte o verdadeiro. internamente. daí. construindo uma pirâmide. a lei transforma quantidade/qualidade em qualidade/quantidade. o “leva” para a esfera política. L. o excedente DK é o produto global Y menos o consumo C. C. daí a designação lógica da dupla diferença (D/D ou D/2). A quantidade anterior está acompanhada de uma qualidade e a qualidade posterior também acompanhada de uma quantidade. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. 1988 (xerografado) Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . terá como falsa sua negação. de sorte que. o paradoxal. S. o argumento marxista não tem fundamento histórico. o valor indefinido. pois a taxa de formação de excedente. uma segunda diferença. IC-N. sem que tal modo de produção tivesse emergido. e duvidosa. de. isto é. O diabo é que o empresário capitalista devolve o excedente à esfera econômica e fica obrigado a retirar à frente. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA DUPLA DIFERENÇA D/ 2 A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. o que a faz uma lei lingüística.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 351 8. Como podemos encontrar em qualquer manual elementar de economia. Além do mais.

pelas estradas.. Gallimard. e logo que a conseguia. Ele vai da esquerda para a direita. C. no fim do terceiro quartel do século XIX. 17. alegando a ocorrência de um processo de aburguesamento do proletariado. A propósito. Trata-se de uma evidente alusão ao rio heraclítico (dialético). e que à época eram bem numerosas. Entendida. EdUnB. 15. Malleus Maleficarum (Martelo das feiticeiras). Ver SAMPAIO. EMBRATEL/UAB. e SPRENGER. O teor ideológico não está propriamente no self made man. correndo no sentido de uma perfeição crescente. porém aqui um rio bem mais caudaloso (hiperdialético) para poder extravasar a todo cerco racional/ científico. EdUERJ. julgamento e castigo de mulheres que praticavam a cópula com o demônio. Introdução à Antropologia Cultural.5 horas de duração. fica muito claro o aforismo nietzscheano: Ele (Renan) queria. nascido na Irlanda) em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado. N. Rio de Janeiro. Embora o termo já se encontre entre os antigos (Lucrécio). J. isto é. N. BOBBIO. Sznajder. L. surgida na Áustria. III e IV em 2 vídeos. mas no “corte”. 1994. que vai situar a fonte do dinamismo econômico. Bodin e especialmente Francis Bacon. e Ashéri. Dicionário de Política .. Paris. Diccionario de Filosofia. KRAMER. cumulativo. que se subordina à continuidade do processo de sistematização do mundo. A referência aqui é ao diretor cinematográfico americano John Ford (na verdade. constituindo-se num detalhado manual de identificação. que não deixa aparecer que tal personagem não é origem. 19. algo mais sugestivo?! 14. que estaria assim perdendo seu potencial revolucionário. só com Giordano Bruno. S. 1989. 2000. não mais na oferta (projeto). Rio de Janeiro. H. deixava-se ir embora.352 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 11. G. com cerca de 3. instrução de culpa. mas apenas elo de ligação. tão solitário quanto chegara. 1966. contra os aristocratas. 1983 e ainda ABBAGNANO. de Lacan e as lógicas in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios. Rosa dos Tempos. Também chamada escola marginalista neo-clássica. 16. Poderia haver. México. do início do século XX e que pode ser considerado um antecedente do fascismo. 18. C de. FCE. I. N. A obra data de 1484. conluio dos fracos contra os nobres e fortes. mas na demanda (desejo).. por . L. adquire o sentido moderno: modo de ser do processo histórico. Ver SAMPAIO. Brasília. 12. NATTEUCCI. a democracia como ideologia da “mediocridade” liberal. vale aqui lembrar o movimento soreliano (referência a Georges Sorel). Ver Sternhell. II. 13. e PASQUINO. como é contextualmente lícito. no caso. S. Naissance de l’idéologie fasciste. 2000.

J. Relume–Dumará. Se estas. LACAN. ser-com-o-outro. 125. Crítica da Modernidade. síntese das lógicas da identidade e da diferença) e a relação invertida re-verte e os bons propósitos lá se vão. ligar em uníssono la science e la noblesse: mas a ciência pertence à democracia. Rio de Janeiro. 24. e isso é palpável. 277 26. O Mal-Estar na Civilização. v. XXI. ver BARBOSA. A propósito. Ver SAMPAIO. Standard Brasileira das Obras Completas. que. 21. livro 20. para nós estaria vinculada a uma determinada lógica. civilização referenciar-se-ia a uma formação social mais ampla.. Exatamente como faz a Santa Sé e outras menores.65 (parênteses e negritos nossos) 20. julho de 1999 (xerocado). O Seminário. FREUD. Zahar. convencendo populações autóctones que a evangelização é perfeitamente compatível com a preservação das suas culturas. S. As lógicas - . etc. 23. Na verdade crua e bem nua. resultante do processo de horizontalização de uma cultura. além de substituí-lo pelo sujeito coletivo se propõe a inversão da relação de mando vis-à-vis a ciência. p.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 353 exemplo. comentam entre si a excelência dos “novos” produtos). Atente-se para o fato que onde aqui aparece o termo civilização.pois sua cultura e sua alma. Aqui.. Marcelo C. cultura anglo-saxônica/ civilização informacional globalizada. Nietzsche. esquimós apertados em seu iglu etc. já terão ido direto para o inferno. A palavra cultura estaria reservada para uma formação social que inaugura um novo modo de ser. tomada em seu sentido genérico. 124. uma referência às noções de verdade parcial e total em Lacan. ser-no-mundo e ser-frente-ao-Absoluto. ao cabo. L’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freud in Écrits I. du Seuil.. estarão com muita sorte. respectivamente pp. 1982. Ed. Crepúsculo dos Ídolos. por esta santa via. A esquerda percebe bem o caráter subordinado do sujeito liberal. 115. 27.p. por isso. Paris. LACAN. Repare-se nos freqüentes anúncios de grandes empresas multinacionais mostrando como seus produtos automobilísticos e de informática são completamente compatíveis com as diferentes culturas (berberes montados em camelos atravessando um deserto. Rio de Janeiro. 1966. J. 25. freirinhas italianas passeando no pátio silencioso de seu convento. p. conseguirem pelo menos salvar sua continuidade bioquímica. a lógica clássica subsume a dialética. Os exemplos mais claros seriam cultura grega/civilização romana e. mais recente. Acontece que a lógica da ciência (a lógica clássica ou da dupla diferença) é mais potente que a lógica do ser-coletivo (dialética. em nosso léxico estaria o termo cultura.

...... teremos oportunidade de exemplificá-lo.. Estamos aqui considerando que a aristotelização da teologia católica significou o fim do trinitarismo dialético patrístico... O cristão foi....... o judeu teórico. que trocou a seqüência contábil dos números (monóide... O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa. Depois desse escandaloso deslocamento.... O comprometimento direto e visceral da cultura judaica com a dominação da natureza (se diz hoje.. no texto. Ademais.... E tornou a dissolver-se nele.. perdido na passagem da cultura cristâ (I/D) à Modernidade (D/D).. como se fora apenas uma variante da cultura unária.... mas sem explicitar seu sentido –.. mas que degenerou. Os judeus só fizeram valorizar a posteriori esta diferenciação......... 31......... a teologia da libertação foi uma tentativa (mesmo?) neste sentido. 29.. assinalando-lhe o caráter lógico/religioso.. Este se equivoca duplamente em relação aos judeus. mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão...... mas ao próprio Homem ou à primeira cultura que deveras realizou a proeza.)... Depois. a “culpa” disto não cabe aos judeus.. Makron Books.. etc... Ver capítulos 4 e 8-11 da presente obra....... Isto é também evidente na matemática ocidental..... usamos a expressão de per si para indicar que o trinitarismo dialético pode subsistir dissimulado. ... Isto não quer dizer que não possa ressurgir...... e não sossegou enquanto não fez do movimento transformador (I/D) mera derivada de posição (de mando) (D/D).. desde o primeiro instante....... A ciência tem por desejo o cálculo do Uno-Trino. Com a derrocada comunista..1998.354 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio.. menos pela repressão da Cúria do que por sua excessiva e equivocada aproximação com o marxismo..... mas produto de uma auto-diferenciação desta última. I/D) pelo grupo algébrico (D/D) – Oswald Spengler já observara isto em A Decadência do Ocidente.... O homem não é o outro da natureza. Isto fica evidente na física (saber paradigmático da Modernidade) que insiste em reduzir o mundo tão apenas a três grandezas pré-emolduradas pelo cálculo (sistemas cgs.... com a técnica) é um juízo preconcebido que vem de Hegel (e é assumido por Heidegger). São Paulo.. 28... 30. Hegel ficou obrigado a trazer o grego do trágico politeísta para o lugar do um (filosofia!). boa parte de seus ativistas se converteu ao capitalismo-solidário-cósmico-ecológico..... mais adiante. mks.. A separação radical só existe nas palavras....... o . O cristianismo brotou do judaísmo... e o trinitário cristão para o lugar do dois (separação corpo/espírito)....... Só um grande gênio seria capaz de tamanha distorção onto-lógica! 32....

YERUSHALMI. cit. Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. talvez se encontre lá alguma serventia. p. SAMPAIO. Bastariam dois exemplos: Tolstoi e. Noções de antropo-logia. mais perto de nós. imaginariamente. fica bem clara qual foi a lógica (I/D/D)! Capítulo 6 1. 2000. D/D) com feminino (I/D. Imago. Yerushalmi. portanto. tornaramse teólogos (I/D). 117. EdUERJ. porque cria um espaço virtual andrógino onde interagem autor e leitores. 1992. diante disto. Marx. L. de. concebida agora em termos do desafio divino e resposta humana. quanto a poetas. Rio de Ja- . C. Especialmente item 7. op. o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu. 37. Breve fenomenologia do espirito qüinqüitário Xamãs (pré I) que foram forçados a aprender a irreversibilidade do mito-poético (proto D). L. p. Y. ver SAMPAIO. p. pois do princípio ao fim expressa. Lógica trinitária versus lógica qüinqütária in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. D) é o que nos permite anteexperienciar. O romance pode nos antecipar o que será a verdade pela leitura. H. 33. S. se embaraça e dá uma conotação antihistórica ao tradicionalismo. 35. tornaram-se profetas (I). teólogos que estão sendo forçados a aprender a irreversibilidade da ciência (D/D). Rio de Janeiro. na defesa meio inconsciente do historicismo dialético. Rio de Janeiro. filósofos e mesmo cientistas. como ficam Hegel e Heidegger? 39.1 da presente obra 34. p. 28. Agora sim. o que não se coaduna com a aguda percepção que ele mesmo tem da essência histórica do judaísmo originário: . Na cultura nova. Zakhor – História judaica e memória judaica. Zakhor. Ver especialmente item 9. a tensão entre a corrente moderna trinitária (a que o autor se filia sem esconder uma certa culpa) e a corrente tradicional unária (da qual o autor não consegue se desvencilhar). A Questão Judaica. de. A propósito (ver nota 31 acima).5 Ibid. por vezes. Milan Kundera. de.Este livro merece ser lido na íntegra. C. L. S.115 36. SAMPAIO. cit. K. profetas que foram forçados a aprender a irreversibilidade da filosofia (D). profetas e teólogos.. mas persistiram. S. 117 38. tornar-se-ão enfim boa gente (I/D/D). mas persistiram. o novo mundo lógicoqüinqüitário. tanto objetiva como subjetivamente. não serão necessários xamãs.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 355 judeu é. Quanto à questão da leitura. ao persistirem. op. 40. Ibid. o encontro crucial entre o homem e o divino deslocou-se do reino da natureza e do cosmos para o plano da história.. A síntese romanesca do masculino (I. C.

2. Leia-se trinitaire como cultura lógico-dialética trinitária e binaire como cultura lógico formal ou moderna. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. 1993. Les mystères de la trinité. O que este autor não chega a perceber é que a erradicação da morte (biológica) é uma artimanha da Modernidade. ver SAMPAIO. Paris. As expressões I. veut en fin de compte l’érradication de la mort. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. SAMPAIO. D/D=D/2 (lógica clássica). Na esfera mundana. Rio de Janeiro. Car la différrence des deux hommes en presence est que l’un. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. I/D (lógica dialética). (negritos nossos) DUFOUR. EMBRATEL/ UAB. o vídeo Antropologia cultural. por via de sua técnica. 3. I. acceptait la mort. Ademais. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. M. são apenas uma taquigrafia.356 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO neiro. uma polêmica cheia de veneno e má fé. 1990. alors que l’autre. Luiz Sergio C. l’homme binaire. pelo mesmo autor. Noções de antropo-logia. C. mas como dotado de uma outra lógica. cabendolhes pois a designação de culturas ecológicas. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados 4. Rio de Janeiro. UAB. logique du sentiment. porém. UAB. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. de prometer a vida eterna onde impera . não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. DR. Aliás. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. III e IV. Makron Books. D. As Lógicas. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. de. faisait de la représentation de la mort dans la vie le fondement de son ordre symbolique et du lien social. 1998. Teríamos. isto é. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. I/D etc. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. então. Rio de Janeiro. Gallimard. Alternativamente. 1996. Para maiores detalhes. II. l’homme trinitaire. precisamente. para simular a presença do homem lógico-qüinqüitário já em seu seio. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. 5. desde que não as tema. não se dão conta que o fazem.

para provocar tamanha ira ao . cautelosa. perverso é o sujeito (I) que aceita a lei (D/2) desde que esta seja a sua própria. a vida eterna. M. pois até hoje só pode proclamar um único sucesso. S. diariamente. FARIAS. a Ciência. 11. Hegel a Francfort de Bernard Bourgeois. nada há de errado nesta inversão. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. Apenas levados por este estudo. Paulo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 357 6.2 10. Paulo. do social (sócio-cultural) para o individual (psíquico). o combate da Ciência contra a Religião. bastante coerente na medida em que tal inversão é a exata contrapartida da mudança de ponto de vista. with its Jewish population of six hundred families. 14. . com sua tática de ir pouco a pouco amealhando adiamentos. S.123. Cultura e Idéias nas Américas. Trata-se de um estudo acerca dos textos sobre o cristianismo e o judaísmo elaborados por Hegel em sua estadia em Frankfurt. who in turn controlled the twelve largest investiment firms in the city. promete-a para depois de. Brasiliense. É importante atentar que aqui o termo perversão. Paris. 1985. O trecho acima foi tirado do capítulo VI. naturalmente. W.” SACHAR. 9. de Desejo. SAMPAIO. pelo contrário. 7. SAMPAIO. Indeed. 12. dezembro de 1998. do ponto de vista lógico. Victor. Enquanto a Religião. à exclusão dos suicidas. Companhia das Letras. R. S. desenrola-se na TV. ela é. The Course of Modern Jewish History. Nestas últimas. MORSE. L. está sendo usado no sentido inverso daquele que ele tem na psiquiatria e na psicanálise. C. justamente intitulado Jewish Economic Life and the Frankfurt Tradition. 1988. Howard M. v. Item 3. Entretanto. N. promete-a assintoticamente ao invés de. herói da resistência à penetração islâmica na Alemanha. 1. most of them living in the squalid Judengass. p. tomada pela soberba. 1987 13. Enquanto concentramos nossa atenção acadêmica nas novelas.. York. p. Verdier. Frankfurt may well be termed the cradle of Jewish finance in Europe. refere-se a Abrahan de Sancta Clara. fomos aos textos de Hegel e daí direto a procurar algum estudo sobre o que estavam fazendo os judeus lá. 1977. 196. Delta Book. 43 per cent of the entire jewish capital was owned by sixty families. em suas manifestações públicas no início e no fim de carreira. Paris. “And in 1800 in Frankfurt am Main. É eletrizante e interessa (inconscientemente) a todos. Não é por acaso que Heidegger. Heidegger et le nazisme. Vrin. Em jogo. J. BENJAMIN. fingimento e superação na história da cultura. 1970. O Espelho de Próspero. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados. Rio de Janeiro. 8.

dentre as mais relevantes tarefas da filosofia. . mas nos instrumentos psíquicos de apropriação do imaginário alheio usados pelos psicovampiros da cultura da Modernidade que havia já sido superada. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. quando tempo significar apenas rapidez. quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. houver desaparecido da existência de todos os povos. já citada na nota 46 anterior. Essa Europa. quando o pugilista valer. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. Referência a Georges Sorel. é a crítica da cultura em que o próprio filósofo está imerso (Cassirer). Como sustentar tal posição diante do cortejo de filósofos alemães . Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado técnicamente e explorado economicamente. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. 15. Rússia e América. hoje que não somos mais gregos. pois tal aproximação conspurcaria a nobre filosofia. Dentro de uns 200 anos .então. Paris. 18. ver Sternhell. Ficamos simplesmente perplexos quando se levanta a questão de uma filosofia brasileira e logo acorrem os defensores da “filosofia perene” dizendo que isto não faz sentido. como um fantasma. e Ashéri. 17. mais ou menos explícito. Gallimard. com a Rússia de um lado e a América de outro. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio puder ser “vivido” simultaneamente. cada um deles com seu.existirão museus de horrores onde serão exibidas as peças promocionais que hoje infestam os nossos “meios de comunicação”. encontramos diversas obras. só para ficar com os mais importantes -. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. Hegel. Heidegger e Habermas. Schelling. 16. como o grande homem de um povo. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. A propósito. se tivermos sorte .358 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nosso filósofo.Fichte. Nietzsche. 1989. supor- . Ninguém estará mais interessado nos instrumentos de tortura corporal da cultura cristã medieval (I/D). Ajudados por nosso amigo Nelson Kuperman. Sznajder. Discurso à Nação Alemã debaixo do braço?! Isso lá acontece porque sabem que. consideradas metafisicamente. estando no meio . numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. E é precisamente isto que faz “amarelar” os nossos.ou menos. como História. porém a mais importante delas para o que nos interessava foi a de Sachar. A Alemanha. Naissance de l’idéologie fasciste.

imediatamente. 1993. Introdução à metafísica. como até mesmo . embora de um outro tipo que a dos alemães de então. Podemos exemplificar: para que um homem consiga voar. Jacques Lacan – Esquisse d’une vie. HEIDEGGER. depois de pronto e voando.Lecciones de M. p.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 359 ta a maior pressão das tenazes. mas que não é. M. além de si própria. é de novo simples saber. Verdier. irão certamente acreditar nossos “sociais-democrtas”. 1991. p. como nos outros animais. conclui-se. Tudo isto deve se constituir numa inestimável lição para todos nós brasileiros. Isto nos dá certas vantagens. as que lhe antecedem: I. lhe é necessária também a firme determinação de fazê-lo (I). Barcelona. ao domínio originário das potências do Ser. 21. 1966. 77 23. É uma vantagem. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). 75 26. FARIAS. O par diagonal {I. lógica que subsume. ibid. O ser humano é de nível lógico I/D/2 . ao terem notícia. Tempo Brasileiro. não lhe basta um profundo conhecimento de aerodinâmica (D/D= D/2). ROUDINESCO. É o povo que tem mais vizinhos e. 79-80 19. a partir do cerne de seu acontecimento futuro. O avião. uma “vantagem econômico-competitiva” como. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. pp. ibid. ibid. D. mas. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . ibid. M. Esta e as próximas citações provêm todas de HEIDEGGER. Heidegger et le nazisme. D/2. em tudo isso é o povo metafísico. A autora fornece informações suficientes para que acreditemos numa forte rejeição de Heidegger às idéias. definitivamente. 73 27. mas também nos torna vítimas potenciais desta mesma excentricidade.p. Elisabeth. que esse povo ex-ponha Historicamente a si mesmo e a História do Ocidente. Lógica . Paris. Heidegger (semestre verano 1934) en el legado de Helene Weiss. 22. Anthropos. Victor. Isso implica e exige . 43 25. saber materializado (D/2). p. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). histoire d’un système de pensée. uma enorme vantagem como pressente qualquer estrangeiro de sensibilidade que aqui aporta. D } o feminino. 1987 20. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. 43 24. I/D. 28. p. desse modo. que vivenciamos uma posição excêntrica em relação à cultura paradigmática anglo-saxônica. o mais ameaçado. Rio de Janeiro. Paris. Fayard.

1969. 8. Noções de Antropo-logia. Howard M. Garbis. C. de. Desejo. o principal indutor do processo de modernização da Alemanha. SAMPAIO. de. L. G. 1981. York. S. UAB. Paulo. C. Rio de Janeiro. Ática. A. Rio de Janeiro. v. Ver. L. 32. EGEL. TILLICH. Martins Fontes. 41 7. F. de. XXX. p. Vrin. cit. M. p. Paul. S. 43 31. op. N.2 Berlin. 25 30. C. S. L. a identidade “estática” A(x) = A(x) ou abreviadamente A=A. 10. Théologie de la Culture. Estudio de la Historia. CASSRER. J. para Frankfurt por volta de 1800. Madrid. S. Palmer. BOURGEOIS. Cambridge. Metacritique – The Philosophical Argument of Jürgen Habermas. Gabriel Cohn. Abril. 1998. fingimento e superação na história da cultura. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. ADORNO. Na lógica clássica este princípio é escamoteado e substituído por sua ausência ou sua múmia. T. p. 3. 1980. SAMPAIO. Denoël/ Gonthier. setembro de 1999. 1996 2. episódio este que acabou sendo. 4. Rio de janeiro. talvez. Ernst. S. a possibilidade do exercício da auto-crítica. 41. W. A Lógica da Diferença. C. 1974 e também Lecciones Capítulo 7 . Paris. Ibid. in Os Pensadores. Alianza. Cambridge UP . KORTIAN.Introdução a uma filosofia da cultura humana. Théologie de la Culture. 1997 6. S. 49. 1. 1990. SACHAR. Adorno. De Gruyter. que traduz justamente a propriedade de reflexibilidade e. The Course of Modern Jewish History. especialmente. a propósito. 5. Delta Book. 3 v. A compreensão disto está na reação da intelectualidade alemã à migração judaica. Paulo. L. Introdução à história da filisofia. cit. TILLICH. Ibid. Bernard. L. Paris. 1970 e SAMPAIO. em conseqüência. Crítica Cultural e Sociedade in Theodor W. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura.360 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO à pessoa de Lacan 29. p. Ver. p. de. Hegel à Frankfort. v. O verdadeiro e óbvio princípio da identidade é A(A(x)=A(x). Ensaio sobre o Homem . 9. in S. o capítulo III. TOYNBEE. C. de. W. principalmente de famílias de banqueiros. S. 1977. 1968. Paulo. 1999. SAMPAIO. op. ed. Org. Paul. SAMPAIO. 1986 e entrevista a Der Spiegel. La Lutte entre le Temps et l’Espace e também a coletânea póstuma Main Works .Writings in the Philosophy of Culture. 33. Rio de Janeiro.

UAB. J-P. Houve escravidão nas culturas pré-D. Paris. Brasília. dezembro de 1996. passando por Plekhànov. Robert. 12. 11. tem sido muito maltratado pelos pensadores do ser social. sem a qual. para comparação. Mas isto seria apenas uma desculpa para alguém de menor estatura e pretensão SAMPAIO. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato uma velha questão que se arrasta até hoje. II. P.. London. Rio de Janeiro. Madrid. ARENDT. especificamente. Ibid. R.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 361 sobre la filosofia de la historia universal. III e IV em 2 vídeos. Paris. I. Encyclopédie de la Pléiade. A Questão Judaica. 6. ______. Adam Schaff. 1994. 2. fingimento e superação na história da cultura. L’“Aufklärung” et la question juive e SARTRE. s/d. D e até no início de D/D (quando não se tinha ainda definitivamente explicitado e fixado o seu sujeito apropriado. Hannah. UnB. é óbvio. entretanto. Isto tornou-se verossímil porque as culturas lógico-diferenciais foram as inventoras do trabalho (que pressupõe o colocar-se como outro da natureza) e. Théorie du sujet. da sua exploração. 13. 1982. Garaudy. Ética a Nicômacos. O tema. 4. 1. como também Introdução à Antropologia Cultural. Seuil. Aristote et le Lycée in Histoire de la Philosophie 1. desde Lenin. o fato que o desejo da cultura lógicoidentitária é pré-lógico-diferencial. ver Alain Badiou. cit. tal problemática não poderia ser adequadamente tratada. Achiamé. MARX. 3. op. 1994. Desejo. op.5 h de duração. não há dúvida. em especial. 1982.(?) 14. Noções de Antropo-logia. Ibid. o sujeito liberal). a Terra Prometida. Os marxistas. UnB. cit. Ver. Alianza. D’AMICO. Existiria. SAMPAIO. ARISTÓTELES. EMBRATEL/UAB. 1985. até chegarmos a Alain Badiou. 1969. Um exame mais cuidadoso do embasamento teórico do pensamento de Marx pode mostrar que seu “economicismo” não era assim tão radical como em geral se o considera. como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. 5. 1988 e comentários por Capítulo 8 . com cerca de 3. sempre o tiveram atravessado na garganta. Política. por conseqüência.. livro I e comentários de AUBENQUE. Brasília. Rio. K. La Question juive. que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico. Desejo. Ver também. Marx and the Philosophy of Culture. fingimento e superação na história da cultura.

hoje tão comum. 11. 1999. 16. Oficina do Autor/etc. Ed. John B. Brasília . e mais recente- . só que em quantidades diferentes (D) em datas distintas. L.I) diferentes (D) para cada um dos operadores. Na operação financeira troca-se o mesmo (I). SAMPAIO. C. 1981 7. de. Ao verbo ter. p. op. 1988 (xerografado) 9. 8. I/D. 1. Noções de Antropo-logia.. Rio de Janeiro. a econômica e a social mesmo. L. junho de 1995. D/D). Brasiliense. S. Lógica e Economia. Ambas são. Os verbos auxiliares em Português (ser. 1998 como também Reflexões. S. v. de se considerar a economia como dimensão primordial da vida social. Inst. e também Crítica da Modernidade. Fica aqui também evidente o absurdo. Rio de janeiro. logicamente otimistas. 2 10. Jean-Pierre et VIDAL-NAQUET. 12.362 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO MORRALL. 1999 13. 1985. O recalque das lógicas femininas se fez preponderantemente pela Inquisição. 1999. Pierre. já o demonstramos. Paulo. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. C. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. de. de A Lógica da Diferença. cap. S. pelo processo de caça às bruxas coetâneo à consolidação da ciência. Rio de Janeiro. cit. A dimensão delirante da crítica ideo-lógica à Modernidade foi por nós analisada em Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. julho de 1999. D.. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil.D) com utilidades (valor de uso . haver e estar) mantêm uma correspondência bastante estreita com as quatro lógicas de base (I. SAMPAIO. BENJAMIN. 18 14. de natureza dialética (I/D). p. op. cit. S. Seria o caso agora de se perguntar se a conversão de Constantino teria sido um acerto de contas teológico ou financeiro! 15. Desejo. Mito e tragédia na Grécia Antiga.. corresponde exatamente a lógica da simples diferença (D). UnB. VERNANT. Cultura-Nova. Paulo. Desejo. dinheiro por dinheiro. L. antecedendo ao liberalismo político e à revolução industrial. S. Rio de Janeiro. SAMPAIO.196. envolvendo necessariamente o mesmo (I) e o outro (D). C. Aristóteles. pois. Perspectiva. ter. Fingimento e Superação na História da Cultura. W. Há uma quase unanimidade no Brasil em considerar as três dimensões fundamentais do social como sendo a política. o que é um evidente erro de categoria. Na troca de mercadorias está envolvida a mesma (I) quantidade de trabalho (valor trabalho . só justificado como uma “operação” ideológica para elidir a dimensão cultural e assim destruir a priori qualquer intento de uma real compreensão da dinâmica social e de uma conseqüente ação subversiva. Fingimento e Superação na História da Cultura.

S. cit. novembro de 1999. 1983. 5. Fingimento e Superação na História da Cultura. Reflexões. de. 1999 3. O Escriba – Gênese do Político.. L. Hegel e Marx. de. invertida. 18. Régis. dada a própria essência da infalibilidade. A . cit. Ibid. As letras I. outubro de 1999. op. L. Tillich.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 363 mente em A superação das idolatrias . SAMPAIO.1997. L. S. S.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. UAB. Como em psicanálise. S. Retour. moderadamente otimistas. Rio de Janeiro. O modo como isto acontece no pensamento marxista é detalhadamente exposto em SAMPAIO. SAMPAIO. o fingimento cultural é o caminho para a verdade. cit. cit. C. 22.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. Rio de Janeiro. Desejo. S. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüintária in Pensamento Original Made in Brazil. a verdade como sintoma. um terá mesmo que ceder. mas hoje baixa liquidez. Rio de Janeiro. E na esfera lógico-qüinqüitária. mas também uma crítica implícita à profundidade prometida. 23. Este texto foi escrito de modo a ser compreendido independentemente da referência a estas abreviações que aí estão para facilitar a compreensão dos leitores que tenham uma anterior familiaridade com elas. como lá se chegaria? Como se deve entender a “causalidade” lógico-qüinqüitária? Talvez o melhor exemplo que possamos hoje dar seja este da leitura que fundamenta a nossa própria versão do princípio antrópico. DEBRAY. 24 19. op. L. Rio de Janeiro. O Escriba – Gênese do Político. Citado em DEBRAY. 21. de. de. SAMPAIO. 2. Tillich. SAMPAIO. de. 4. da diferença e às suas sínteses reiteradas. Rio de Janeiro. de história da cultura segundo Toynbee. Princípio Antrópico . Hegel e Marx. S. C. Em caso de conflito entre o Papa e o Mercado. p. Ninguém melhor para dizer o futuro do que quem se vê por ele ameaçado de morte. R.um novo fundamento e uma significação renovada. e terá que ser o primeiro que tem patrimônio. A história da cultura segundo Toynbee. mas não cumprida de suas análises. D e suas combinações são uma forma abreviada de referirmo-nos às lógicas da identidade. A superação das idolatrias . C. Capítulo 9 1. op. 20. Trata-se de uma óbvia referência A Sociedade do Espetáculo de Michel Debord. C. Na esfera lógico-clássica ou científica alcança-se à verdade pela verificação empírica ou pela dedução a partir de um modelo formal consensado pela comunidade especializada. 17. op. respectivamente. L. SAMPAIO. C. 24. L. Oficina do Autor/etc. C.

7. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. não liam as próprias coisas. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. item 4. 11. O monóide livre fundamental seria pois I. C. ainda pela operação /. UAB. Marcelo C. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. por exemplo.. a seqüência dos naturais. de. S. por exemplo. S. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. (xerografado) 10. L. tal qual postas por Deus. Ver Sampaio. porém. D/D/D. Cultura-Nova. de. S. I. Rio.. (π0 = γ + γ = e + e + e + e. Paulo. 1998 (xerografado). em 3 . Nela está implícito que. em 4. L. 1988 (xerografado) ou Noções elementares de lógica . de.364 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO noção de leitura como produtora de verdade. apenas como uma esperteza para contornar a incômoda censura eclesiástica de sua época. uma partícula alocada a D deva se desintegrar em duas partículas estáveis (W = ν + e ou γ = e + e. S. na passagem dos semigrupos aos monóides. Princípio antópico. As Lógicas da Diferença – Rio de Janeiro. Um semimonóide é uma estrutura algébrica. Na realidade. 1998. dezembro de 1996. D. SAMPAIO. S. D/D. Rio de Janeiro. 1995 (xerografado). conquanto que não a mais completa. indefinidamente. I/D/D. L.As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. SAMPAIO. O leitor poderá encontrar por si muitas e muitas outras e se surpreenderá de jamais encontrar nada que o leve a duvidar.. As lógicas . D. Também versão na língua portuguesa. 1988 e ainda BARBOSA. SAMPAIO.Compacto. Noções Elementares de Lógica – Tomo I.. op. entretanto. nua. de. The Octect of the Physical Beings – Vacuum. das adjudicações aqui feitas. Teríamos então o monóide livre fundamental I. EMBRATEL. Rio de Janeiro. se alocada a D/D. é interessante lembrar. C.. por exemplo) se alocada em I/D. por exemplo) . Ver SAMPAIO. Rio de Janeiro. mesmo no detalhe. agindo igualmente à esquerda e à direita. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. C. C. Inst. 6. munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento. D/D. SAMPAIO. Noções de Antropo-logia. C. Makron Books. ainda bastante constringente. a partir de um conjunto finito de elementos.. cit. 1999 (aguardando publicação) 8. S. 1984 e ainda Lógica da Diferença. D. de. 9. Esta justificativa é a mais sumária e intuitiva que conhecemos. não importa se a direita ou a esquerda. L. L. I/D. por nós definida. foi proposta por Galileu e outros precursores da ciência moderna. ou seja.. Rio de Janeiro. mas tão apenas a monótona escala de seus instrumentos de medida.

Nome proposto pelo astrofísico australiano Brandon Carter para um pretenso princípio estabelecendo uma correlação profunda entre o homem e o cosmos. DEMARET. 1995.. que justamente já apresentava dois casos de dupla alocação de fermions (elétron junto com neutrino do mion e mion com neutrino do tau). The anthropic cosmological principle.um novo fundamento e uma significação renovada. segundo o modelo standard). A. A topologia é tal que não deixa qualquer dúvida quanto à impossibilidade da existência de quarks em estado de isolamento. The Octect of the Physical Beings. ver nosso trabalho citado na nota 10 anterior. Un Astrophysien. 16. no novo moBARION QÜINQÜITÁRIO QUARK TRINITÁRIO GLUON GLUON QUARK TRINITÁRIO GLUON QUARK TRINITÁRIO 15. P. Para mais detalhes. por exemplo) 365 . cit 20. Noções de Antropo-logia. op. c. F. em Pré-D. J. de. 1994. 18. Paris. poderíamos ter. and TIPLER. SAMPAIO. et LAMBERT. Oxford. D.L’Homme est-il le centre de l’Univers? Paris. 17. mas uma sugestão acerca de um recôndito parentesco entre elas. Os barions constituem uma estrutura qüinqüitária formada por três estruturas trinitárias (os quarks. Ademais. como a do fóton e do graviton. TRINH. Princípio Antrópico . L. o mais recente. cit. não constituem dificuldades. op. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüitária. op. Oxford U. 13. As alocações conjuntas. d. Medidas em Mev/c2. as massas referidas são: tau . 12. 19. que vai elucidar como de fato operam as forças simples. SAMPAIO. Ver SAMPAIO. Champs/ Flammarion. ainda uma conseqüência do trauma que vem dos tempos em que eles eram obrigados a prestar contas à teologia oficial. Ver SAMPAIO. isto contribui para maior simetria do modelo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (µ = ν µ + W = ν µ + ν e + e. C. Ao invés dos quarks u. Colin..Quatro constantes relativas às intensidades das “quatro” forças da natureza e pouco mais do que uma dúzia de constantes relativa às características das partículas elementares. cit. s. Talvez. op. Le principe anthopique . J. Indicamos ainda dois excelentes livros sobre o assunto: BORROW. com cargas fracionárias do modelo standard. J. cit. Xuan Thuan. S. D. 1988 e. b e t. Reflexões. 14. moderadamente otimistas.

As idéias de Teillard de Chardin fizeram escola e foram retomadas inclusive por físicos . conclui-se. e é precisamente isto que impede a desintegração do nêutron. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. é a prova da igualdade fundamental de homens e mulheres. Paris. é suficiente para compreender a lógica do rapaz (D/2. Banquete. além de si própria. O par diagonal {I. Princípio antrópico. J. 22. etc. a ideologia burguesa que pretende constituir a sociedade a partir de indivíduos (pseudo-andróginos-virtuais.366 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO =1784. o que não vale para agregados de nível superior. C. A Michel. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2.Um valor desmesurado dado que a unidade natural de tempo cósmico (tempo de Planck) vale apenas 10–43 s e o próprio Universo tem apenas cerca de 1. D } o feminino. Mesmo que se contestasse a necessidade da família burguesa. Fedro. O ser humano é de nível lógico I/D/2. que embora redutora. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). teríamos que admitir em substituição um agregado de mesma natureza sexo-lógica. 24. Colocamos o termo ‘família’ entre aspas para chamar a atenção de que se trata de um agregado de base. 25. cit.2. 21. Em Freud. É um absurdo. SAMPAIO. No interior do núcleo (à distância de 10-15 m) prótons e nêutrons trocam pions (força forte de Yukawa). Rio de Janeiro. sim. PLATÃO. Para resolver este problema é necessário levar a criança de ambos os sexos à posição I/D/2 e. a problemática edipiana vai apenas até a aceitação da lógica da castração (D/2). 1977. I). Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. por suposto). o feminino (I/D. pois só vai até I/D . pode haver uma opção sexual adulta. que o fez no contexto de um teoria da relatividade geral complexa. lógica que subsume. como nos outros animais. D/2. 27. I/D. de. 28.1010 anos.57. expressões tão chocantes como ‘a mulher não possui superego!’. 26. D) fica logicamente diminuído. Com isto. Théorie de la relativité complexe.daí. op. D. Ediouro. as que lhe antecedem: I. CHARON. imediatamente. etc. ‘o que quer uma mulher?’.30. Esta. . 1992. Rio de Janeiro. nêutron = 939. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). só depois. S. L.5. como é o caso de Charon. necessariamente sexo-lógico.Ver SAMPAIO.próton = 938. 1996. Lacan et logiques. 23. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2. a propósito. Esta é uma forte razão suplementar para que a antiga força forte piônica deva ser considerada ainda uma força de per si. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). Menon.

1996 (xerografado) ou BARBOSA. 1979 2. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. (EdUERJ 2000) Revista Brasileira de Filosofia. Paulo. Zahar. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. TOYNBEE. nua. L. Rio de Janeiro. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. UAB. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. A aufheben hegeliana opera apenas a síntese das lógicas da identidade e da diferença. D/D. D/D=D/2 (lógica clássica). ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. então. de. por nós definida. O monóide livre fundamental seria pois I..194. C. ainda pela operação /”. fasc. desde que não as tema. I/D/D. Um semimonóide é uma estrutura algébrica. 5. Teríamos.. D. de. I. L. abris/junho 1999 6. Noções de Antropo-logia. TILLICH. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. Rio de Janeiro. 1968 3. na passagem dos Capítulo 10 . D/D/D. 7. D. não importa se a direita ou a esquerda. C. Luiz Sergio C. I/D (lógica dialética). L. S. de. Na esfera mundana. são apenas uma taquigrafia. Paul. Para maiores detalhes. ver SAMPAIO. Teríamos então o monóide livre fundamental I. Lógica da Diferença. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. UAB. A sociedade do futuro. As Lógicas. Arnold.. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Noções de antropo-logia. I/D etc. Ver Sampaio. agindo igualmente à esquerda e à direita. Théologie de la culture. indefinidamente. Paris. D. C. munida de uma operação genérica “/” gozando das propriedades de fechamento. I/D. SAMPAIO... M. S. (xerografado) 4. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). SAMPAIO.. por exemplo. 1998. a seqüência dos naturais. C.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 367 1. de. D. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. enquanto que a nossa síntese dialética generalizada pode operar reiteradamente sobre elas e seus anteriores produtos. S. ou seja. Denoel/ Gonthier. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. D/D. a partir de um conjunto finito de elementos.. dezembro de 1996. S. As expressões I. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. Makron Books. Rio de Janeiro.

estagiário do DRH da EMBRATEL.2 . Noções de onto-teo-logia. S. . de. 1993/1997. de. Luiz Sergio C. Marcelo Celani. 16. Paris. A expressão onto-teo-logia no título do trabalho em questão é uma óbvia alusão à ontoteologia heideggeriana. opus cit. M. o que é corroborado por Battista Mondin (The principle of analogy in protestant and catholic theology. S. da imanência de Deus.1998 24. Apontamentos para uma história da física moderna. Cultura-Nova. Gallimard. 1968) que observa que entre as duas analogias não há outra diferença que aquela da simples ênfase relativa. S. de. 1995 (xerografado). S. Ver especialmente. L. com o pensar de uma era ainda por vir: era da cultura nova qüinqüitária.Questão de método. 47-48. p. S. op. Rio de Janeiro. 1991. 22. opus cit. Rio de Janeiro. Fui chamado a atenção para o fato por um bolsista. Noções de teo-logia. L’être et le temps. de. Hague. Rio de Janeiro. Noções de teo-logia. de. CulturaNova. Inst. L.As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. Ibid. Ibid. C. C. 1984. Luiz Sergio C. C. 23-24 21. 1964. S. S. 1985. porém.33 20. IC-N. dezembro. C. S. Rio de Janeiro. 15. Noções de teo-logia. C. As lógicas . L. I. pp. 18. Rio. C. de. cap. 1998 (xerografado) 14. na transcendência. 10. Barcelona. C. UAB. 19. 23. SAMPAIO. SAMPAIO. 13. HEIDEGGER. de.368 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO semigrupos aos monóides. 8. a última identifica-se com a metafísica no seu sentido pejorativo. Rio de Janeiro. fingimento e superação na história da cultura. S. que eu chefiava em 1993. tal como já insinuamos. SAMPAIO. Rio de Janeiro. RAHNER. Herder. SAMPAIO.V . cit. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. Curso fundamental sobre la fé. de outro. Existe uma fortíssima razão de simetria que não pode ser aqui convenientemente exposta. de. como também BARBOSA. (xerografado). 1997. 1988 e Noções Elementares de Lógica – Compacto. opus cit. L. SAMPAIO. 2 v. pp. (xerografado) 9. C. de Desejo. Karl. (xerografado) 11. UAB. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. Ver SAMPAIO. C. 17. fingimento e superação na história da cultura. SAMPAIO. de um lado. 1996. 12. não diferem em muito daqueles que se obtinham por via da analogia entis. L. Paulo. L. S. a primeira. Os resultados a que chega a analogia fidei. SAMPAIO. de Desejo. junho de 1995. Makron Books.34. SAMPAIO. L. SAMPAIO. Noções de teo-logia. L. a nosso juízo. L. de. Ver SAMPAIO. Rio de Janeiro. com ela não se confunde. Rio. Ver especialmente item 1. Noções de antropo-logia.

Reflexões._____. op. ICN.. Crítica da Modernidade. S. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. out. . UAB. Noções de Antropo-logia. _____. _____._____. 6. julho de 1999. Ibid.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. op. Rio de Janeiro. 2. Brasília.. _____. Rio de Janeiro. palestra no Evento anúncio do Programa do Laboratório de Estudos do Futuro. I. 1993/1997 e The Octect of the Physical Beings – Vacuum. abris/junho 1999 5. 1999 9. Noções de Antropo-logia. uma versão abreviada e significativamente modificada do volume I da obra homônima e ainda Lógica da Diferença in Revista Brasileira de Filosofia.um novo fundamento e uma significação renovada. Rio de Janeiro. 1991. 1999 3. cit. UAB. 4.. Apontamentos para uma história da física moderna. L. cit. Princípio Antrópico . cit. fevereiro de 1997 e ainda Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Paulo. _____. op. _____. cit. com cerca de 3. II. Fingimento e Subversão ma história da Cultura. Introdução à Antropologia Cultural. 1994 e também Considerações Gerais sobre a História da Cultura – Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da Situação Brasileira.. Desejo. op. outubro de 1999. _____. Rio de Janeiro. 13. 15. Oficina do Autor/etc. 1999._____. vídeos. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. III e IV em 2 vídeos. _____. op. Hegel e Marx. e também A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. logicamente otimistas. 1998 8.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (xerografado) 369 Capítulo 11 1. setembro. _____. UAB. C.5 h de duração. Noções de Antropo-logia. A superação das idolatrias . cit. 1998 7. Tillich. Princípio Antrópico. cit. UnB. S. dezembro de 1996 e A história da cultura segundo Toynbee. 11. Rio de Janeiro. 10. fasc. EMBRATEL/UAB. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. 1996 14. Rio de Janeiro. e Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural.194. Rio de Janeiro. Brasília._____. _____. Noções Elementares de Lógica – Compacto. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. op. Rio de Janeiro. novembro de 1999 12. Rio de Janeiro.. de. Introdução à Antropologia Cultural. Rio de Janeiro. SAMPAIO. Rio de Janeiro.

arrojado descobrimento europeu ou se o início das tribulações e das penas de gentes que já aqui haviam e outras chegadas de outras partes que estão fazendo emergir. tema sobre o qual ele mesmo havia escrito um livro que tínhamos já na pasta e à mão.370 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 16. durante a nossa exposição fizemos reiteradas alusões ao episódio. A série de eventos. era de excepcional oportunidade e de uma grande importância. mas especialmente como uma terceira tentativa de resposta àquela . Dr. negamos e coetaneamente já somos. a Invenção do Brasil. o emérito professor Dr. mas levou-nos à convicção que não respondêramos satisfatoriamente à sua pergunta do almoço. não estávamos ainda bem certos do que comemorar: se um. Lauro Morhy no evento Anúncio do PROGRAMA DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DO FUTURO. Considerávamos que. espero que para muito breve. 2. Tentamos por duas vezes responder que partíamos da problemática levantada por Lévy-Bruhl referente à questão do pensamento pré-lógico dos primitivos. posteriormente. na nossa opinião. o que em si não traduzia nenhum menosprezo. Roberto Cardoso de Oliveira. que estava sendo anunciada como atividade central do Laboratório de Estudos de Futuro para o próximo biênio. a pergunta por si constituía-se numa revolução: não se indagava mais se os primitivos tinham alma. Não é preciso enfatizar o quanto nos sentimos honrados por lá estar presentes e o melhor que podíamos fazer para nos aproximarmos um pouco do talhe da oportunidade que se nos era oferecida seria evitar as trivialidades. cit. perguntava-se se eles tinham lógica (clássica). O presente texto teve origem nas notas para uma palestra realizada a convite do Magnífico Reitor da UnB. _____. Ainda. de algum modo. Por isso. quando no almoço que precedeu à nossa apresentação. esta nossa velha preguiça de pensar o novo. independentemente da resposta dada pelo pensador francês. Fingimento e Subversão ma História da Cultura. nos perguntou de que “lugar” nós iríamos falar. Capítulo 12 1. sem dúvida. os déjà-pensées. pois. às vésperas do ano 2000. inclusive para lhe pedir que o autografasse. as referências eruditas gratuitas e outras velharias para enfrentar. Roberto Cardoso de Oliveira. que. O professor Dr. sim. op. presidindo a Mesa nos apresentou à platéia como economista e especialista em informática. enfatizando que este primeiro item valeria por si. Estas notas de palestra já estavam obviamente alinhavadas. uma nova cultura sob o sol dos trópicos. agora. a nosso juízo bem melhor. Desejo. que seria o coordenador das apresentações da tarde.

As lógicas – As Lógicas Ressuscitadas Segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. Paris. Makron Books. por sua vez. D/D=D/2 (lógica clássica). UnB. 5. Para qualquer dúvida sobre esta nota. S. B. I/D (lógica dialética). W. DUBY. Paulo. M. consultar registro televisivo da sessão. entrevista de André Green em Jornal do Brasil. 6. 1977 e também FINK. M.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 371 sua mui justa e sábia indagação. D. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. 9. Noções de antropo-logia. 1981. M. C. “a proposta de nossos políticos para as gerações modernas é ‘suicidem-se’. A. Le Jeu comme symbole du monde. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). 1960 4. Compendio I/IV. Paris. BARBOSA. 10. LUKACS. Contribuition à la Logique. Histoire et Conscience de Classe. Madrid. FCE. só poderá ser bem compreendido com a ajuda desta nota. 1998. nos arquivos da UnB que. Fenomenología del Espírito. 1966. ver SAMPAIO. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. desde que não as tema. I/D etc. 2. Luiz Sergio C. Vozes. TOYNBEE. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Georg. HEGEL. recentemente instado a justificar o seu pessimismo em relação ao mundo atual. Georges. possa tê-las como um conveniente e simples apoio de leitura. O. As expressões I. Teríamos. a seu ver. Na esfera mundana. Histoire des Mentalités. 8. C. C. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. As Lógicas. Rio de Janeiro. declarou que. Gallimard. Alianza. S. Kostas. 1976. A Arqueologia do Saber. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Idéias. O psicanalista francês André Green. Cultrix. de Minuit. UAB. de 1996. 1971. 1998. 1972. LÉVI-STRAUSS. 7. 12. Petrópolis. de. Paris. Rio de Janeiro. Brasília. F. M. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. 1972. Paulo. Teoria da História. 13. FOUCAULT. AXELOS. História: método sem objetivo específico in NIZZA da SILVA. A Decadência do Ocidente. SPENGLER. .). então. são apenas uma taquigrafia. Paris. 3. (org. Estudio de la Historia. México. 19 de out. de Minuit. 1982. de Minuit. Eugen.” Provocações do pensar. G. Para maiores detalhes.

15.humano. tomando-se. Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. SAMPAIO. um pouco abusivamente. 1993. 21. a pirâmide de base quadrada. segundo Lacan. L. II. de . SAMPAIO. Noções de antropo-logia. Desejo. Márcio. de. são inúmeros os casos de culturas logicamente híbridas. SAMPAIO. é impossível o calculo do outro!) 19. Rio de Janeiro. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. C. D. 22. C. 1994 20. I/D e D/D. entre outra coisas. III e IV. Noções de antropo-logia. S. (2) só é na medida em que remete a outro (D). tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). 1995. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/2). GOLDMAN. inclusive o homem. Rio de Janeiro. é de grande importância. do saber inter-subjetivo (por isso. 1996. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). 1998 18. Ed. Rio de Janeiro. o vídeo Antropologia cultural. 1998. permitem a re-definição ou sobre-impressão da sexualidade no ser. como em todas as culturas. Alternativamente. I. de. é produto da . 15. EMBRATEL/ UAB. Ver BARBOSA. que forma a base da pirâmide representativa de I/D/D. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o devir (I/D). S. (5) é complacente ao Absoluto. L. As Lógicas. As lógicas de base são as lógicas propriamente subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária: I. cit. clássica ou da dupla diferença (D/D) e qüinqüitária (I/D/D) que permitem pensar todos os entes mundanos. Razão e Diferença. 23. UFRJ/Gripho. UAB. embora não permitam dar conta de modo compreensivo. S. op. Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. pelo mesmo autor. SAMPAIO. sendo a mais comum e sugestiva. 17.372 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Makron Book. L. UERJ (no prelo) 16. A representação arquetípica da lógica qüinqüitária aparece em quase todas as culturas como uma figura de 5 elementos. da diferença (D). Rio de Janeiro. A religião na Modernidade. 14. Ademais. dialética (I/D). Fingimento e Subversão na História da Cultura. Isto é valido inclusive para a Modernidade. (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). Rio de Janeiro. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. in Sete ensaios a partir da lógica ressuscitada. Este conjunto. porque suas diagonais. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. É o conjunto das lógicas da identidade (I). cit. op. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. C.

a síntese da identidade com a dupla diferença. cit. SAMPAIO. mas um superior processo hiperdialético qüinqüitário. 29. contudo. isto é. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. L.pré-I. Observaríamos. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. Aliás. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. 27. Consideradas todas as culturas nodais anteriores (ecológicas e propriamente lógicas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 373 sacralização de sua lógica própria. op. crenças e ritos. Desejo.. porém. de. cuja necessidade foi há muito pressentida. ou seja. que isto é o suficiente para demonstrar em definitivo que a História não é um processo dialético trinitário hegeliano (apenas). A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. I. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. 24.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. das relações EUA/Brasil. como mereceriam. Isto tem implicações de uma incalculável amplitude que não podemos (ou talvez nem soubéssemos) aqui explorar. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. 26. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. Não é surpresa.. pois. Por isso ela é politeísta. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. 25. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. pré-D. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. isto é. pois na ver- . entre outros. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. D e I/D). o cristianismo patrístico aparece como histórica. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. mas não logicamente qüinqüitário. não se dão conta que o fazem. mas como dotado de uma outra lógica. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. Ademais. 28. logique du sentiment. C. como pseudoqüinqüitário. em um modo próprio . S. uma polêmica cheia de veneno e má fé. ao todo 5 . em profundidade. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. precisamente. além.

Quem já não viu. 228. por isso as subsume. Atena. 31. 59. 90. 1955. FINK. cit. Eugen. p. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. BATAILLE. p. S. vol. ELIADE. Exclui-se aqui. 1978. Paris. ib1973. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. Gallimard. Arte Retórica e Arte Poética. ELIADE. ibid. é ele sem dúvida o grande culpado. ou pior. 1. lá e cá. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. Mircea. sua oposição à filosofia. SOCRATES: . (negritos nossos) 35. por excepcional (de exceção) o atual momento destas relações.. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. Paulo. p. Paris. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. Oevres Complètes. 30. 43 41. Reflexões. 1966 p. 34. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). sim. como a Índia. pois. inclusive) é crença corrente entre os gregos. p. Hölderlin. Rio de Janeiro. 40. Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo que acabou acontecendo. Théorie de la Religion. Zahar.opus citado. ARISTÓTELES. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. Tomo I.. p. 32. 36. op. Por isso. Difusão Européia do Livro. 101 39. História das Crenças e das Idéias Religiosas. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. Paulo. A República. 58. F. 1959. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. e sendo-lhes assim tão íntimo. porém. George. 92 38. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. ibid.. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. é bom aduzir que não é de agora. Minuit. Le Jeu comme Symbole du Monde. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular . porém. A lógica clássica ou da dupla diferença. S. 37. 1966. em sua máxima generalidade. Finalmente. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. p. muita antiga.374 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. sem a menor cerimônia. enquanto que o segundo é um marginal. Platão. foi vítima deste tipo de “ ilação”? 33. As- .

feito desejo domesticado pelo marketing. A separação drástica luterana entre fé e razão. Ver Reflexões. igualmente mencionado. D. 1995. o grande realizador cinematográfico irlandês. Rio de Janeiro. SAMPAIO. por suposto. de. Brasília. não pegou. em parte. L. mas felizmente para eles. ICN. A Questão Cultural – Palestra proferida no workshop sobre A Questão Cultural. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). Noções de antropo-logia.. o vídeo Antropologia cultural. Ao contrário do que se diz por aí. de. assim como. (2000) 43. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. I/D. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. 42. opus citado. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. Referência a John Ford. S. 46. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). UAB. 49. D } o feminino. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqüitária. de. O ser humano é de nível lógico I/D/2. O I. grama e segundo) ou mks (metro. Todas as demais grandezas físicas estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. imediatamente. Vide a última Carta Encíclica – “FIDES ET RATIO”. Apontamentos para uma história da física moderna. ingleses. mas sim o que era necessário . D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. 50. Por exemplo. L. massa (M) e tempo (T).. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. (xerografado) 48. Rio. 1996. SAMPAIO. Na modernidade capitalista.II e IV. as que lhe antecedem: I. SAMPAIO. conclui-se. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. 1993/97. out. herdado pela lógica clássica.II. sistema cgs (centímetro. a Igreja Católica sempre namorou a ciência. pelo mesmo autor. O par diagonal {I. lógica que subsume. constata que isto foi tentado. Quem vai a Westminster e vê o túmulo de Newton no centro mesmo da catedral. C. não criou a ciência. 44. além de si própria. S. como nos outros animais. FINEP/ etc. C. a maior parte de sua carreira atuando em Hollywood. 45. quilograma e segundo).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 375 sim. S. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. D/2. Rio de Janeiro. 47. C. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . L.

51. quando o pugilista valer. 56. suporta a maior pressão das tenazes. Segundo um programa de TV focalizando cada um dos países europeus. Essa Europa.376 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para criar uma sociedade ou cultura científica: nada mais nada menos do que o sujeito liberal liberado para ser sujeitado à ciência ou. existe um empenho deliberado (por quem?) em desenvolver a gastronomia alemã com a finalidade de atenuar sua pressuposta inclinação belicista (ou anti-consumista. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. para se constituir em sujeito da ciência. É o povo que tem mais vizinhos e. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. 52. na perversão social. que esse povo ex-ponha Histo- . como um fantasma. Rússia e América. Pietro. 53. Não somos nós a dizer isto. REDONDI. 54. acontece precisamente o contrário. Companhia das Letras. Não há nada mais ridículo do que dividir o social em político. é o sujeito (I) que se sobrepõe à lei (D/D). quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. quando tempo significar apenas rapidez. tipo de psicose. estando no meio . Na perversão pessoal. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio poder ser “vivido” simultaneamente. perguntaríamos nós). Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente. econômico e social mesmo. como História. desse modo. 1991. Paulo. que pela ousadia quase foi executado pela Inquisição. Isso implica e exige . numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. então. em tudo isso é o povo metafísico. Galileu Herético. mas. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. com a Rússia de um lado e a América de outro. S. houver desaparecido da existência de todos os povos. Aqui deveria entrar o cultural e é precisamente para ocultá-lo que se comete o absurdo de considerar o social parte própria de si mesmo. foram já muitos e entre eles o Padre Antônio Vieira. consideradas metafisicamente. como o grande homem de um povo. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. A Alemanha. Pessoal e social são sempre anti-simétricos. o mais ameaçado. 55. simplesmente. Os denominados problemas sociais nada mais são do que a banda podre do modelo econômico vigente.

79-80. é seu justo contrário. uma geral e uma tribuna de honra. . 1966. incluindo até um miserável que se pôs sob um viaduto (D) recém-inaugurado e com um giz delimitou internamente retângulos (D) para alugá-los a outros ainda mais miseráveis. HEIDEGGER. desde que em estado de congraçamento. M. pp. Rio de Janeiro. assim mesmo entre aspas. por exemplo é freqüentado pelo povão. A “elite”. Povão é empregado aqui como uma verdadeira categoria sociológica. O Maracanã. tipicamente brasileira. a partir do cerne de seu acontecimento futuro. ao domínio originário das potências do Ser. não importa que tenha extremos. que de certo modo pode incluir todos. tornando-se assim um autêntico empresário schumpeteriano (I) (caso verídico ocorrido no Rio). 57. Introdução à metafísica. Tempo Brasileiro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 377 ricamente a si mesmo e a História do Ocidente.

378 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO EDITORA ÁGORA DA ILHA .

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