FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Filosofia da cultura
Brasil: luxo ou originalidade

Luiz Sergio Coelho de Sampaio

EDITORA ÁGORA DA ILHA

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

FICHA CATALOGRÁFICA
SAMPAIO, Luiz Sergio Coelho de - 1933 Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade / Luiz Sergio Coelho de Sampaio Rio de Janeiro, março de 2002 páginas 378 Editora Ágora da Ilha Ciência filosófica Pesquisa ISBN 86854 CDD-100 CDD-0001.4

COPYRIGHT: Luiz Sergio Coelho de Sampaio

lscsampaio@openlink.com.br

Direitos desta edição reservados ao autor, conforme contrato com a Editora. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa do mesmo. Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade - CIÊNCIA FILOSÓFICA / PESQUISA Capa: Talita Lobo Coelho de Sampaio Editor: Paulo França RIO DE JANEIRO, MARÇO DE 2002

EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.: 0 XX 21 - 3393-4212 agorailh@ruralrj.com.br

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Para meus pais Ascendino e Maria da Paz, que lá ficaram fixos e incomunicáveis em duas dobras tristes do tempo. E também para Lailce e depois, por ordem de entrada em cena, para Tatiana, Thais, Talita, Henrique, Ivo e Felipe.

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Sinopse
Uma proposta radical de revisão da noção de história, na
verdade, história da cultura (processo hiperdialético de realização plena do modo de ser-coletivo do homem, “fenomenologia do espírito” que ao invés de evitar a ciência e sua lógica, seja de fato capaz de subsumi-la). Tem como finalidade, entre outras, viabilizar a crítica da Modernidade, iluminar o horizonte de sua possível superação, reacender o pensamento utópico. Neste novo espaço histórico compreensivo situar o Brasil: reler sua real destinação, intuir suas responsabilidades maiores e contribuir para a implementação de suas estratégias de sobrevivência e realização.

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Sumário
1. Porque, também, uma filosofia da cultura.......33 2. Bases lógicas para uma antropologia filosófica..39
2.1. 2.2. 2.3. 2.4. Preliminares............................................. 39 A lógica ressuscitada..................................40 Uma antropologia esperançosa...................53 Situação e perspectivas brasileiras............67

3. Acerca da lógica e da cultura........................71 4. Desejo, fingimento e superação na história da cultura.........................................................89

4.1. Considerações introdutórias.......................92 4.2. Uma cultura e suas três lógicas..................95 4.3. Desejo, fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais...........................................100

4.5. Especulações acerca do futuro da cultura.....131

4.3.1. Nos antigos impérios de base agrícola - o mito e a pseudo potência sacerdotal.....................101 4.3.2. Entre os gregos - a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos..............................................104 4.3.3. Na Modernidade - a física e a biopirotecnia..110

5. Modernidade – das origens à globalidade etnocida.........................................................135

5.1. Antecedentes da Modernidade....................138 5.2. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso.................................................143

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5.2.1. Ciência, sujeito liberal e, antes, a caça às bruxas....................................................................143 5.2.2. Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno, consumista e etnocida................................148

5.3. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade...........................................................159

6. Crítica da Modernidade................................167
6.1. Introdução...............................................167 6.2. A rematada impotência das ideologias.........169 6.3. Para além das ideologias...........................176
6.3.1. Heidegger – a ciência e a técnica..................178 6.3.2. A Escola de Frankfurt – os meios de reprodução e comunicação de massa............................185

7. História da cultura segundo Toynbee, Tillich, Hegel e Marx.................................................193 8. Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária....203 9. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural.................225

9.1. Re-estruturaçào do território lógico................229 9.2. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura...........................................233 9.3. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares.............................................236 9.4. Princípio antrópico renovado.........................241 9.5. Re-significação cósmica da história da cultura.248

10. A superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária...................253

10.1. A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto.....................................255 10.2. Superação da idolatria com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária........................259 10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente.............264 10.4. Afinal, Deus depois do adeus às idolatrias.269 10.5. Antecipações - a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano....273

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11. Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira..........................279 12. Considerações gerais sobre a história da culturas – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história, conjuntura e perspectivas brasileiras...............................................287

12.1. A história como processo hiperdialético....287 12.2. Um esboço de história da cultura.............295 12.3. Desejo, fingimento e superação................298 12.4. A Modernidade.......................................313 12.5. O Brasil e a Modernidade.........................317

É interessante assinalar que Sampaio. vem reavivar aquela tradição.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 11 Prefácio Luxo ou originalidade − a propósito da problemática cultural brasileira Depois do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros. obviamente. Tal disposição nasce com a própria filosofia no Brasil. Digo pensá-lo e não “desconstrui-lo”. se mantém viva em Tobias Barreto e se solidifica no que se convencionou denominar de culturalismo brasileiro. Dentre as virtudes genéricas deste trabalho não posso deixar . Refiro-me especificamente a Luiz Sergio Coelho de Sampaio que. 1955-1964). praticamente extingue-se entre nós o interesse em pensar o Brasil. pois. menor se mostra o interesse pelo Brasil. posso dizê-lo. com esta obra. É. foi o tempo da “Revolução”. oferecendo-nos. que trouxe o desinteresse pelo pensar. Primeiro. cuja figura exponencial é Miguel Reale [1]. A seguir. que registro a ressurgência do que até então fora uma obsessiva preocupação dos mais expressivos intelectuais brasileiros . com satisfação. está também dando continuidade a uma tradição já bem nossa. aos que o faziam e fazem vindo já de mais longe. cada dia que passa. com a presente coletânea Filosofia da cultura. de buscar na filosofia os meios conceituais para iluminar os caminhos e descaminhos da brasilidade. uma alternativa completamente nova para nossa auto-compreensão. vieram os tempos da “Nova República”. Não me refiro. nos quais.decifrar o ser e a destinação do Brasil.

na mera compreensão. sem mais. Por isso. é adaequatio. sendo justificadamente mediada por uma sólida antropologia filosófica que se completa com uma conseqüente antropologia histórico-cultural. o trato da problemática brasileira não se detém. 1. cuja verdade assumida. Para Sampaio a linha mestra da filosofia ocidental. Por isso. à problemática cultural brasileira. o grande problema da filosofia hoje seria medir-se com a ciência. embora já tivesse tido a oportunidade de analisar detidamente o pensamento filosófico de Sampaio [2]. a renúncia àquela pretensão. Vejamos em detalhes cada um destes aspectos específicos. que a reflexão filosófica não se aplica ali. como de costume. ao invés de apenas repetir ou resumir o que havia dito (que. visando sobretudo o melhor proveito do leitor. desde Parmênides. achei que. sim.a epoché como um honesto esforço de suspensão de preconceitos e não como flatus vocis. um mero sinal de adesão acadêmica oportuna a uma corrente filosófica de prestígio. sabese. está na postulação de ser e pensar como o mesmo. algo lhe pudesse para sempre escapar. Com respeito ao seu objetivo específico . indo mais além. Preliminares lógico-filosóficos – ser e pensar para além da ciência O melhor caminho para a compreensão das idéias filosóficas de Sampaio é a epoché para valer . Nestas . terceiro. entre o abstrato e o concreto e. na tradição filosófica ocidental. O pensamento não poderia tolerar que. entre o especulativo e o pragmático. se aventurando o autor a traçar os lineamentos de uma corajosa e incisiva ação estratégica cultural. mais valeria tudo reconsiderar. para desta sorte conquistar. precisamente. de antemão. o fato da filosofia que lhe serve de base se constituir numa produção própria. Trata-se sobretudo de aceder ao chamamento das coisas e dos acontecimentos como tais. nem por isso.12 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de assinalar o vertiginoso encurtamento de famigeradas distâncias: entre o denso e o legível. sobretudo. destacaria três importantes aspectos: primeiro. deixa de permanecer válido e atual). que se sabe sempre possível. mas o fazendo de maneira essencialmente crítica e inovadora. segundo.proporcionar uma nova e mais profunda compreensão da problemática cultural brasileira -. um grau superior de simplicidade e clareza. radicada.

de recuar. a questão primordial não estava em procurar. da Ciência da Lógica consumada. reta e imediatamente. além de sempre bem largos. algo superior ou mais à frente da lógica clássica imperante. pelo contrário. sim. Kierkegaard (entrincheirado por trás do parado- . como tão judiciosamente observa Heidegger [4]. o Hegel da maturidade. por sua própria índole. para enxergar mais longe. Tudo bastante simples: a referência. abdica de sua própria essência. Sampaio vai então circunscrever toda uma plêiade de pensadores “desviantes” . nada melhor do que subir nos ombros dos gigantes predecessores. Isto posto. cuja recuperação pudesse levar à re-significação da lógica clássica formal e. que ombros mais altos. teria que ser . que é o mesmo que compreendê-la em sua motivação desejosa e significação social última. a tarefa. seria Hegel. no trânsito. Ora. a partir dela. o procurado deveria estar por todo canto. algo que fora deixado para trás. a de se ultrapassar a dialética e alcançar um pensar maior ou mais complexo. o âmbito mais próprio e inevitável do problema. procurar “algo menor”. quando já convicto estava de que sua filosofia (como qualquer outra). Tratava-se. sempre dissimulado. assume-se “pensamento das pequenas causas ou das realidades parciais e a varejo”. a lógica clássica formal que. Tratando-se de filosofia. subsumindo a lógica clássica formal. Em síntese: passar da dialética à hiperdialética. haveria do que os de Hegel?! Sobretudo. pois. agora evidente. ou a filosofia se deixa marginalizar. precisando dar conta de seu próprio fundamento. justamente por se almejar entre elas a mais alta. de todo o território lógico conhecido. iluminar-se-ia naturalmente um novo território lógico por conquistar. mais precisamente. Tudo se resumiria. a lógica. com inteira razão. oportunamente recalcado. em se conseguir levar aquela postulação mestra para além dos limites do saber científico [3]. todo o tempo presente. sobre a ciência impera.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 13 circunstâncias. que. a rigor.Pascal (que jamais cede quanto aos direitos do coração). É exatamente aqui que Sampaio consegue ser surpreendentemente óbvio: embora as aparências encaminhassem noutro sentido. no âmbito da Modernidade.antes e mais do que fenomenologia uma lógica. porém. ou enfrenta o desafio de pensar de mais alto a ciência. Já se disse. capaz de “ultrapensar” a ciência ou. fosse mesmo este o caso.

lógica da simples diferença. inclusive. Deleuze (surfando entre dobras e diferimentos) e outros .e identificá-los como filósofos desta lógica esquecida. e tantas e tantas outras coisas mais. Era ainda esta mesma lógica que operava nos inconscientes que a psicanálise tanto espreitava.a nossa própria Modernidade. Nietzsche (apostando no retorno vigoroso do mesmo). podia ser agora propriamente caracterizada como lógica da diferença reiterada. Ora. sucedia a dialética. A lógica clássica. no dizer de Sampaio. restaura-se o mundo da lógica conforme esta de fato se apresenta na tradição filosófica. porque a patrística agostiniana precede a escolástica tomista. lógica cínica dominadora. mais exatamente. E o que era mais importante: havia uma hiperdialética sucedendo a lógica clássica e subsumindo-a junto. que. pressupunha a dialética. Duas seriam então as lógicas fundamentais: a lógica da identi- . Daí porque Platão precede a Aristóteles. que ele denomina lógica da diferença ou. Com esta concepção. também com muita propriedade. Podemos sumariar as concepções filosóficas de Sampaio [6] dizendo que a lógica deve ser considerada um saber sobre os modos efetivos de pensar e não mera convencionalidade lingüístico-formal. Tornava-se então mais do que evidente que a lógica clássica e agora também da dupla diferença. A partir daí vislumbrava-se a verdade de um pensar potente para de fato compreender a ciência (e fazê-la instrumento) e a própria cultura que a sacraliza . assim como a lógica clássica ou da dupla diferença. porque o socialismo científico do Outubro Vermelho teria mesmo que fracassar um dia diante dos desafios da ciência e da técnica. porque o pai mítico precede ao filho submisso à lei de seus pares tanto quanto à gramática. podia-se então dizer que a dialética sucedia à lógica da diferença. lógica do significante [5].14 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO xo). Lacan iria isolar e denominar. Com exatidão. a simples condição de lógica recalcada revela-a como lógica trágica. Heidegger (à escuta nostálgica do logos heraclítico). de modo necessário e desde sempre. com a dialética e suas lógicas geradoras. tal como hoje reivindicam os poderes acadêmicos. subsumindo-a em conjunto com a lógica da identidade (ciclo dialético). subsumindo-a em conjunto com a lógica da simples diferença (ciclo contra-dialéico).

respectivamente. dialética trinitária. para que se vislumbre o caminho para a superação do “pensamento único” (D/2). como havia sido posta por Parmênides (pois o mesmo é ser e pensar) ou dialético trinitário (I/D). Estas considerações formais são essenciais para que se possa dar conta do poder da ciência (hoje sob a forma de obsessiva informatização/sistematização do mundo) e para a compreensão. Reafirma. da diferença. por I e D. síntese das lógicas da identidade. lógica da tripla diferença. também. só que agora. A partir delas. na ordem lógico qüinqüitário (I/D/2). I/D/D/D=I/D/3 e assim por diante. D/D=D/2. que se faz passar hoje por hegemônico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 15 dade (ou transcendental) e a lógica da diferença. são gerados os nomes de todas as demais lógicas. a lógica clássica se constitui como uma analítica das totalidades por convenção. definitivamente claro. como reposta por Hegel (O que é racional é real. Aceita Sampaio a crítica heideggeriana relativa ao afastamento entre ser e pensar desde Platão e sua derivação em ontoteologia. da diferença e dialética. como a supera ao mesmo tempo que dela herda o poder totalizador. ditas lógicas compostas: I/D. das vicissitudes histórico-ideológicas dos últimos quase duzentos anos. hiperdialética qüinqüitária. também a si mesma. em profundidade. Enquanto a dialética é um pensar sintético da totalidade enquanto tal. por convenção. mas ao próprio poder fatual da ciência) e. síntese das lógicas da identidade e da diferença. deste modo. seguindo velha tradição. de que maneira a lógica clássica formal (lógica da ciência. síntese das lógicas da identidade. mas se recusa a confundir “co-pertinência” com estrita correspon- . assim. e não apenas na ordem transcendental (I). a correspondência estrita entre ser e pensar. Sampaio deixa. D/D/D=D/3. a confrontação da dialética trinitária (I/D) com a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) é fundamental para a compreensão das limitações da filosofia hegeliana e marxista (frente não apenas à crítica científica. I/D/D=I/D/2. dialética e clássica formal. D/D=D/2) subsume a dialética hegeliano/marxista (I/D). lógica da dupla diferença ou clássica. Cada lógica subsumindo todas as anteriores de que é síntese e. com o concurso da noção de síntese dialética generalizada representada por “ / ” (uma generalização da “intraduzível” aufheben hegeliana). e o que é real é racional). Por outro lado. simbolizadas.

pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. ganha aqui uma resposta bem precisa. em plena consonância com o que está posto pela moderna antropologia estrutural. O estado de “co-pertinência” entre ser e pensar só pode ser de novo alcançado como resultante de uma visada transcendente. onde então se pode repor a questão do estatuto do ser do homem. restabelece-se a posição pinacular do homem no universo que lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios . cínicas ou demissionárias. Neste universo onto-lógico desdobrado nada existe de fato superior à hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2). Natureza?). em todas as instâncias.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). pode-se afirmar que o desvelamento/ordenação do universo lógico (ou seja. A passagem da natureza . associada à postulação. que a ciência vinha progressivamente reduzindo à pura materialidade calculada (ciência bioquímica) e esta a Nada adequadamente recurvado (ciência cosmológica atual no que ela deriva da Relatividade Geral) [7]. a que ele diz se filiar. a uma antropologia cultural de índole histórica hiperdialética Seguindo as indicações de Sampaio. Esta última atitude distinguiria justamente as filosofias da esperança (Nietzsche as chamaria filosofias do ressentimento).por isso pode ele hoje bem parametrizar a história da filosofia (história do esquecimento da questão do ser). dos modos efetivos de pensar). capazes portanto de operar com .trágicas ou nostálgicas.[8] A velha razão suficiente leibniziana que responde à questão ontológica (no caso: por quê existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. da “mesmidade” de ser e pensar. o necessário produto e meio correlato desta sua capacidade operatória. aliás. implica uma completa reestruturação do universo dos existentes. das demais filosofias .. afirma Sampaio: . Passando pela antropologia filosófica e. e é precisamente este o nível que se deve atribuir ao ser humano e à cultura. Esse afastamento era inexorável . 2. daí. ou seja.das lunetas ao Hubble -.16 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dência. reverte-se o processo de “degradação do homem” promovido pela modernidade. Isto posto..

que vinha por si só caracterizar o ser humano e não para se articular e/ou ampliar características e potencialidades operatórias de algum modo semelhantes pré-existentes. Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. capacidades sintéticas já reconhecidas como operantes no reino animal superior. Precisamente aproveitando-se deste equívoco foi que o pensamento cristão pode realizar o prodígio de transformar a diferença que diferenciava numa identidade. sem prejuízo. mas assim o foi desde os tempos de Heráclito e com maior certeza nos de Aristóteles. como razão aristotélica (D/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 17 símbolos convencionais (I/D) . Inaceitável.a diferença clânica. com o logos. Do ponto de vista instrumental ou objetivamente operatório o homem é sem dúvida ser racional. seu estatuto lógico tem que ser na verdade lógico qüinqüitário ou hiperdialético. A passagem do animal . Se assim fosse. Não se pode precisar a partir de quando a questão do ser do homem veio referenciar-se ao ser animal. Tratava-se de uma concepção inconsistente. dir-se-ia agora). expressa em termos antropológicos. O único erro aí cometido teria sido fazer do logos uma diferença essencial e irredutível. a rigor. desde que viesse para se compor com características operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo re-produzindo-as em nível operatório superior. como capacidade essencialmente analítica não podia caracterizar o homem em sua totalidade ou “maximalidade”. habitado pelo logos. a duplicava ou reiterava. o homem estaria ganhando de um lado e perdendo de outro.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) . do seu ser identitário. ao preservar sua capacidade lógico-identitária herdada da animalidade superior (cordados). existencial ou subjetivamente operatório. e até muito mais. entretanto. a diferença que os separava foi considerada como de natureza lógica: o homem é o animal habitado pelo logos. O logos ampliava a capacidade lógico-analítica do animal. o homem podia operar de modo duplamente lógico-diferencial (racionalmente. já a posteriori articulado. dado que o logos. o fato é que. como era de se esperar. O logos poderia se constituir deveras numa diferença especificamente humana. pois perdia em termos de integridade e auto-determinação. porém. E.

sopro. Apenas isto entretanto não basta. o fizeram em relação aos negros escravos e hesitaram não fazê-lo em relação aos índios). passa a ser definida como diagonal de uma estrutura lógica quadripolar {I. isto é. mas no fato de estar repondo a questão em seus devidos termos. consciência. lógico-diferenciais.18 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ao homem não se devia mais a algo da ordem lógica da diferença. Veja-se como se queira: estar-se-ia assim conferindo. liberdade. e o par {I/D e D}.. por conseqüência. nem mesmo depois de especificada a diferença clânica. E é precisamente neste ponto que se deve retificar o pensamento estruturalista moderno. pois. negar “animalidade” aos animais (como. contrastando com a bipolaridade {I e D} animal macho/fêmea. ou mesmo profundeza cultural (D) ao historicismo materialista de Marx (I/D). o importante não está na resposta que viria dar. que permite a definição de regras de proibição de incesto em paralelo à imposição da exogamia. mais tarde. de modo hiperdialético qüinqüitário (I/D/D). pois continuaríamos insistindo perigosamente no mesmo equívoco grego. A sexualidade humana. I/D. a historicidade dialética I/D). tal como o haviam feito os gregos [9]. Não se apercebiam que isto era. para daí então alcançar. mediante uma segunda diferença. por exemplo. ou seja. ao mesmo tempo. D/2}: o par {I e D/2} representando o masculino (pai e filho). o feminino (filha e mãe). restituindo ao animal a integridade lógica (I) e. Observa Sampaio que quando Lévy-Bruhl coloca o problema da vigência de uma mentalidade pré-lógica entre os povos primitivos em contraposição a um pensamento verdadeiramente lógico dos povos modernos. se pergunta se os primitivos têm ou não lógica (clássica formal). historicidade (I/D) à antropologia estrutural lévistraussiana (D). é verdade . D. Para a antropologia filosófica de Sampaio bastaria dizer que o animal superior opera de modo dialético trinitário (I/D) e o homem. tanto (I) / (D/2) quanto (I/D)/(D) são . espírito etc. Esta se atualizaria ainda doutros modos.privilegiado. ou corporeidade libidinal (D) ao historicismo absoluto de Hegel (I/D). Masculino/ feminino são assim os dois modos possíveis de realização do ser hiperdialético (I/D/2). seria um dentre muitos modos de manifestação . alma. indiferentemente. a historicidade hiperdialética (I/D/D). mas sim da identidade .daquela produção “genea-lógica”. A diferença clânica.

Estruturações semelhantes vigeriam para as línguas naturais. muito mais. o sentido de sua existência frente ao Absoluto. entretanto. entrementes. Na versão fraca do princípio. porque na verdade aí se revela mais uma vez a pré-potência do pensar científico. mas sim o descenso do homem ao nível dos entes científicos. não há ascensão. ao invés do super-homem. orientado exatamente no sentido inverso: . nem fraca. Sampaio acha que isto não nos deve consolar. dando alma a uma nova versão . [13] .do princípio antrópico [12]. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. uma renovação profunda de nossas concepções onto-lógicas. Ele aceita a postulação de um princípio que guarde a inspiração do original. não importa a versão. mas significante . que depois de quinze bilhões de anos levou à emergência da espécie humana. e certamente. pois. segundo o princípio. cremos que nada há por enquanto de relevante. porém. Circula hoje a idéia de um princípio antrópico [11] postulando a existência de uma correspondência constitutiva entre o cosmos e o homem.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. na versão forte.nem forte. A significação religiosa do homem. uma prova de que aquelas constantes teriam sido “intencional e convenientemente ajustadas”. para a moderna organização racional do trabalho.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 19 iguais a I/D/D = I/D/2. O princípio baseia-se na constatação de que o curso do big bang. Segundo ainda Sampaio entre as grandes tarefas da antropologia filosófica (ou filosofia da cultura) estaria o empenho na decifração da significação cósmica e religiosa do homem. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão recuperará o seu interesse maior. é pormenorizadamente tratada em A superação das idolatrias .. o super-cosmos elevado à altura do homem logicamente à sua espera. Somos de opinião. vale dizer. Os caminhos para tanto pressupõem. para as vestes e pinturas corporais consideradas como sendo uma terceira pele [10]. está em estreita dependência da precisão dos valores de um pequeno conjunto de constantes físicas universais. onde Sampaio afirma: Quanto à significação religiosa.. uma feliz coincidência.

A religião. A cultura moderna está associada à ciência e à lógica clássica formal que a governa. para Paul . do sujeito inconsciente cultural. O desvelamento de uma lógica implica necessariamente que dela se alcance uma representação simbólica objetiva. Hoje.20 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A conciliação entre a tese da equivalência de todos os homens no que lhes é essencial e distintivo . a direita. trata-se do sujeito liberal (I). tem por essência a sacralização e guarda de seu núcleo lógico invariante. na linhagem das culturas lógicas identitárias (culturas do tempo. romântico. pela perfeição estética (D). na enorme disparidade de poder de determinação de uma sobre outra. científica. de transição etc. A visão ideológica da Modernidade não tem a menor preocupação em fazer a crítica da ciência . para a esquerda. domina a cultura moderna. A esquerda.seu nível lógico operatório . do sujeito coletivo ou comunitário (I/D). I. greco-romana.e a historicidade das culturas que se revela. do Deus único. Esquerda e direita. para a direita. a rigor. D/D=D/2. A história do homem seria assim a história da cultura.não há quem não esteja a seu favor -. D. lutando pelo perfeição ética (I/D). pois. são seus próprios modos “desviantes”. a Modernidade só será superada por uma cultura nova. pré-D (uma proto-diferença). Estas formam a seqüência das culturas nodais. modos simétricos de um delirante estado almejado de perfeição. dentre outras maneiras. é resolvida por Sampaio concebendo a história humana como história do insistente (mas não monotônico) autodesvelamento do seu próprio ser lógico-qüinqüitário [14].. prometéica. No entanto. nada podem contra a Modernidade. processo hiperdialético de desvelamento do seu próprio modo de ser lógico. mas a própria complexidade do processo hiperdialético permite uma série de tipos não nodais: anômalas. na variação temporal de seu vigor criativo. cristã patrística trinitária I/D. Começa-se com as culturas tribais de caçadores/coletores do paleolítico. em cada cultura. pré-I (uma proto-identidade que ainda se ignora) seguem-se as culturas neolíticas ou imperiais antigas de base agrícola. como demonstrado pela História. Depois vêm as culturas propriamente lógicas: judaica. mistas (de que seríamos um bom exemplo). telúrico ou libidinal (D). ela se concentra exclusivamente sobre a questão de quem deva ser o sujeito da ciência: para o paradigma anglo-saxão.

terá que necessariamente desmascará-la por este estratagema.. porém. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. uma nova utopia em seu justo sentido. Como fazê-lo sem antes iluminar o horizonte de sua superação possível? A re-historicização da Modernidade é para Sampaio uma condição sin ne qua non para hoje pensar (e agir) subversivamente. para superá-la. culturas espirituais.. pode enfim abrir novos caminhos para uma melhor compreensão da efetiva articulação entre ser-social e ser-pessoal.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 21 Tillich. conhecimentos. De outro lado. fica a lógica da cultura que irá suceder à cultura de referência. Para se alcançar uma mais exata compreensão da dinâmica cultural. afinal. sob “forma” ou “roupagem” sacralizada. A efetividade da crítica e dos esforços para a superação da Modernidade exige portanto sua prévia re-historização. para Toynbee) [15] enfim. através de um processo de reiteradas substituições. pensada por sua lógica oficial. Isto nos faz compreender. instituições.[16] Esta concepção parece ser de grande importância teórica na medida em que o reconhecimento de um desejo social. O ser correlato à lógica recalcada acaba se transformando no objeto de desejo da cultura de referência. que. como as culturas. Como diz Sampaio: Toda cultura. o desejo da cultura. isto é. Ao sentir-se ameaçada. o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. mas também com a lógica que ela supera e recalca. simula ou finge ser o que ainda virá. que por isso irá se constituir em lógica de seu permanente desassossego. assim como com a lógica da cultura que a irá suceder. convenhamos. toda cultura finge já ser ou incorporar as virtudes daquela que a ameaça e esta. técnicas e múltiplas artes. ou seja. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. similar ao desejo inconsciente pessoal. Sampaio propõe que se correlacione uma cultura não só com uma lógica manifestamente assumida (oficial ou sacralizada). Segundo Sampaio estaria aí identificado: . que busca sem descanso recuperá-lo. é o melhor que poderia .

seja capaz de dar conta das passagens críticas do processo histórico cultural. Aí. à primeira vista. pois não há melhores indicadores do real nível de vitalidade da Modernidade. A partir daí. se irá ver a cultura medieval cristã antecipar-se fingindo-se já Moderna. chega-se a uma compreensão da história da física de inexcedível clareza [18]. Como cultura dialéticotrinitária (I/D). como encontrar um bom contra-exemplo para pô-la em cheque? Em contrapartida os exemplos favoráveis não faltam. seu real desejo será da ordem da lógica que a antecede. o corpo. cgs. porém. Sampaio chama a nossa atenção para a grande quantidade por aí de “museus abarrotados de arte sacra” cristã. [17] Acredito que. Mais importante do que tudo. então. Não se pode por isso mesmo relaxar na vigilância dos sinais que possam testemunhar do vigor da física. fazendo com que ela. escolástica.tempo. espaço e matéria (por isso. racional. Por outro lado. são bastantes os sistemas de medidas. seria que o esquema não falhasse na compreensão da Modernidade. nesta cultura. mormente em seu momento atual. à vista da aproximação da era da ciência. A impressão é que melhor não se poderia pretender. lógica da diferença (D). ou seja. não mais platônico-agostiniana (I/D). Isto nada mais é do que querer ver o mundo reduzido a apenas três variáveis fundamentais . etc). não se exclui desta perplexidade. Tal desejo encontra precisamente na arte sua melhor expressão metafórica. Depois. mas sob a “forma” incorruptível ou espiritualizada (I/D). mas aristotélico-tomista (D/D). Sampaio identifica a física como o cerne da Modernidade em razão de sua obsessiva pretensão de medir (D/D) o mundo tido como simples manifestações do unotrino (I/D). de modo confesso. como o da cultura cristã trinitária. os acontecimentos são por demais claros e “auspiciosos”: . mks. assuma um papel de excepcional relevância. A propósito disto. na circunstância.22 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. não haja quem não desconfie que um tal esquematismo. enfim. assim tão drástico. seria preciso observar as manobras de fingimento que denunciam o grau de temor da Modernidade em relação ao seu futuro. Até o próprio Sampaio.

Brasil-Bélgica/ Brasil-Índia.alcançar o atual paradigma social anglo-saxão. Parece-lhe paradoxal que uma nação nascida com a própria Modernidade possa. mas bem outra sua natureza: ele seria mais cultural do que econômico. como se reservando para algo maior ainda por se realizar [20]. se assistirá à reação desesperada: a ordem virá para a degola dos recém nascidos. Esta seria nossa razão de ser histórica. pelo . As ideologias têm de comum o propósito de apenas substituir o sujeito individualista sujeitado à ciência por um outro: a esquerda. etc. a boa nova: os prodígios da biopirotecnia. mas desconfia da natureza que em geral se lhe atribui. aquela condição marginal tem sido diagnosticada como a conseqüência de um persistente dualismo: Brasil moderno/Brasil arcaico. Ademais. mas com toda a prudência. um imerso na Modernidade. em última instância. etc. outro que a ela se recusa. sempre com a mesma implícita conotação econômica.a vida eterna. biblicamente instruídos. Ele acredita que dualismo há. sem jamais esquecer ou menosprezar as grandes lições da História (da cultura). Sampaio não nega a condição de marginalidade nem o malestar daí decorrente. As opções culturais brasileiras – luxo ou originalidade (e seus riscos) Existe um quase consenso acerca de que o Brasil ocuparia uma posição de marginalidade em relação à Modernidade. tida como de atraso. menos retrospectivo do que propriamente prospectivo. o que justificaria os seus ingentes e continuados esforços para superar tal situação. Isto traz implícito que teríamos mesmo uma só destinação . a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . Como sempre.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 23 Na TV e por todo canto. tal como interpretada pelas elites políticas e intelectuais da nação. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! [19] Como recusar tantas e tamanhas evidências?! Para Sampaio seria esta a hora de agir. já. 3. Já houve um grande esforço para se chegar a uma interpretação ideológica da marginalidade brasileira e Sampaio debita seu fracasso a causas que lhe são imanentes. Ou será que. todos os dias. ter problemas crônicos de nela ingressar. sem mais. Haveriam sim dois brasis.

o que leva a uma angustiosa inação [21]. todos nós estaríamos capacitados a de pronto perscrutar os sinais de fraqueza e declínio. na medida em que ela não admite qualquer possibilidade de que se transcender a cultura em que se vive. Fingimento e Superação na História da Cultura [22]. mesmo que não seja esta sua intenção. fosse à direita. Conforme Sampaio. fosse à esquerda. uma concepção da história da cultura como auto-desvelamento do ser lógico do homem é o bastante para re-historicizar a Modernidade e iluminar o horizonte de sua possível superação. a direita.24 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito coletivo. Esboçando as características mais marcantes da cultura nova. Assim. relativizar a Modernidade permitindo que a vista alcance mais além. esperança bem fundada de uma nova cultura. como para além da lógica clássica existe uma lógica hiperdialética qüinqüitária. faz as vezes de profeta. Com o descortino dos mecanismos lógicos da dinâmica cultural em Desejo. pelo sujeito romântico ou libidinal. Sampaio. o Brasil se caracteriza pela confluência de um amplo leque de culturas. Como se viu anteriormente. bem como as oportunidades de ação cultural que ao mesmo tempo acelerem e minimizem os custos (historicamente enormes) do processo de superação da Modernidade. que é sua especialidade) os seus velhos inimigos para que por aí fiquem vagando impotentes. seus beneficiários não se disporiam até a ajudar (financeiramente. E chama a atenção que nas circunstâncias atuais. mas ocupando todos os lugares?! Jamais houve ou poderia ter havido saída lateral. econômicos e culturais. Ele mostra que dentre elas estariam a re-significação cósmica [23] e religiosa [24] do homem e a completa renovação das relações indivíduo/sociedade sob os aspectos políticos. Volta ele então à Historia do Brasil para compreender que sua marginalidade é também de certo modo resistência propositada. o que no fundo traduz idêntico desejo por um capitalismo perfeito. Quem sabe. para evitar maiores riscos. que se por um lado. a crítica ideológica é o que mais pode desejar o pensamento único. para além da Modernidade científica e “mercado-lógica” existe a esperança. dificulta a sua . A única saída viável estaria em investir numa crítica da cultura capaz de desbloquear o horizonte histórico. É também por isso que Sampaio acha insuficiente a crítica frankfurtiana.

quanto ao limite expressivo) e da nossa música em todas as suas variantes. coletivo e cósmico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 25 modernização. estamos sim onde tudo a rigor começaria. Sugere Sampaio que o Brasil se constitui. entretanto. a causa vale a pena. deve-se desenvolver em e para o Brasil uma estratégia cultural para sobreviver até à chegada da melhor hora. constitui a base necessária à edificação de uma cultura nova realmente após moderna. Pode por isso continuar insistindo. em entrar para o “Primeiro Mundo”. muito ao contrário. a defesa da língua (pelo uso. ordenar a degola dos nossos terroristas recém-nascidos onde. talvez. A cultura dominante.a continuada traição das elites políticas/econômicas e a alienação das elites culturais. Fosse o caso geral. finge-se pós-modernidade. como nos instrui o Velho e o Novo Testamento. No caso presente. Deduz-se daí que a opção pela originalidade não está isenta de grandes riscos. Por tudo isso. fica um sério problema que ele identifica. E que portanto o Brasil não tem uma só destinação possível. Afinal. Mas de qualquer modo. já hoje finge ser sua própria posteridade. aqui se concluiria. para os próprios brasileiros. Apreciar e mesmo julgar um trabalho intelectual é uma coisa. a seus cálculos. ela irá. estaria a preservação com unhas e dentes das condições mínimas vitais para a criação e circulação da produção cultural brasileira e. que seria aquela do esmorecimento do vigor criativo dos laboratórios científicos centrais. a fazer nascer no mundo uma nova cultura. no único perigo real para a cultura dominante e também por isso. tanto denotativo e preciso. qual a significação última desta desmedida NARRATIVA de Luiz Sergio Coelho de Sampaio jus- . estes possam ser para ela mais perigosos. e tenta a todos seduzir ofertando a vida eterna aqui mesmo na Terra através dos poderes cada dia maiores do que ele jocosamente chama bio(piro)tecnologia. E. vale dizer. mas duas: ou o luxo ou a originalidade. mas pode alternativamente lançar-se na grande aventura da construção de um novo modo de ser pessoal. por outro lado. mas não o vimos aportar a solução: o ódio das elites ao povão . ainda que um pouco tardiamente. em especial. bem outra é reconhecê-lo ou não como acontecimento. quando desesperada. a TV. No entanto. ao que pudemos perceber. a seu ver. No cerne desta estratégia. não estamos onde tudo acaba. em especial. mostram insistentemente todos os meios de comunicação de massa.

Indiana U. “A grande tarefa de nosso tempo: Uma nova filosofia” in Revista brasileira de filosofia. e também “Sumário das contribuições à filosofia da parte de Luiz Sergio Coelho de Sampaio”. 7. SAMPAIO. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. 2000. PAIM. novembro de 1994. L. Paulo. P. 1998. S. 6. capaz de se por na pele do outro (simbolicamente expresso pelo uso . de. op. Sumário das contribuições à filosofia. S. 3. Rio de Janeiro. fasc. Dado que o sistema nervoso central deriva da invaginação do próprio ectoderma. capaz da piedade (Rousseau). EdUERJ.os neohegelianos. M. 5.194. SAMPAIO. S. “Noções de antropo-logia”. Tendências da filosofia brasileira contemporânea . Oficina do Autor/etc. Incluído no volume ora prefaciado. 1988. fasc. C. L. de. ser vivo implica ser dotado de uma membrana osmótica – a primeira pele. 1999. 1995. Esta disposição geral. Antônio. 10. já está em Nietzsche. SAMPAIO. in Pensamento original made in Brazil. Hegel’s pPhenomenology of spirit. C. de. Aquiles. op. que em O livro do filósofo afirma: “Não se trata de aniquilar a ciência. ______.26 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tamente neste momento de convergência do pós-moderno europeu continental e do pragmático anglo-saxão transatlântico (especialmente. Problemática do culturalismo. Bloomington. cit. Paulo. C. S. logicamente otimistas. Rio de Janeiro. o homem. acabando de acordarem que a grande narrativa simplesmente não há?! Aquiles Côrtes Guimarães do Departamento de Filosofia do IFCS-UFRJ NOTAS 1. Segundo Sampaio. pode-se dizer que os cordados são dotados de uma dupla pele. CÔRTES GUIMARÃES. Por fim. “Acerca da lógica e da cultura”.” 4. Rio de Janeiro. abril/junho 1999. 1999. aliás. Rio de Janeiro. Porto Alegre./FINEP. S. “Reflexões. ______. Rorty). acerca do advento da cultura nova pós-científica” in Pensamento original made in Brazil. CÔRTES GUIMARÃES. 9. 189. L. Projeto de pesquisa para o CNPq. mas de dominá-la. EDIPUCRS. HEIDEGGER. 8. isto é. Aquiles. cit.. 2. “Lógica da diferença” in Revista brasileira de filosofia.

Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. seria dotado. 21. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. 1993/1997 e. UAB. 23. C. 24.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 27 de roupas ou pinturas corporais). figuradamente. ______. . Incluído no volume ora prefaciado. C. Incluído no volume ora prefaciado 17.______. 22.um novo fundamento e uma significação renovada”. 13.______. 20. 16. Hegel e Marx”. mais recente. “Reflexões. de uma terceira pele. Rio de Janeiro. julho de 1999. op. cit. Incluído no volume ora prefaciado. 14.______. 19. 12. 18. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. “Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira”. L. 15.______. S. “Crítica da modernidade”. fingimento e superação na História da Cultura”. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. acerca do advento da cultura nova pós-científica”. Rio de Janeiro. SAMPAIO.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. cit. S.______. cit. “Princípio antrópico . Apontamentos para uma história da física moderna.______. “Desejo. novembro de 1999. op. op. ______. de. cit. Rio de Janeiro. 1999. logicamente otimistas. op. Tillich. de. L.______. op. “A superação das idolatrias . SAMPAIO. Rio de Janeiro. “Noções de Antropo-logia”.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. cit. fingimento e superação na História da Cultura”. Incluído no volume ora prefaciado. Incluído no volume ora prefaciado. “A história da cultura segundo Toynbee. Rio de Janeiro. Ibid. “A superação das idolatrias . setembro. “Desejo. 1998. Incluído no volume ora prefaciado. outubro de 1999. Ibid. op. novembro de 1999. 11.______. cit.

da sociologia da cultura.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 29 Apresentação O que se pretende? Inicialmente. aqui . também. Considerar o novo mapa do território lógico. ganhou-se até agora substituindo o evolucionismo (discurso do colonizador de maus bofes) pelo relativismo multiculturalista (discurso do bem-bom colonizado) ou. lógica que há muito parecia morta. tão só. não apenas o que há para .este é modo preponderante do “acontecer” no Brasil -. cortada e as partes defumadas pelo formalismo imperante. isto é. ou sobretudo. às vezes. acolhendo. de coração aberto. de tal querela? O que. refletir: por que. na verdade. uma filosofia da cultura? Por que existe a cultura e não somente nada (de cultura. das antropologias de diferentes matizes. mas. Recomeçar: preliminarmente. a lógica ressuscitada. hipótese aventada por LévyBruhl e que teria sido radicalmente banida pela antropologia estrutural lévi-straussiana? E o reflexo. estatísticas de importação de secos e molhados ou faturas sacadas contra a Santa Casa da Misericórdia? É óbvio: nisso não há mal algum. não garante verdades de bom peso. natureza)? Pôr em dúvida: estaria mesmo encerrada a disputa acerca de um suposto pensamento pré-lógico dos “povos primitivos”. até pelo contrário. além da etnologia. pelo mais inócuo: o exercício de vasculhar receitas em antigas farmácias homeopáticas.

a partir daí. tida esta como apenas um modo metafísico de ser do homem (Heidegger). de mil maneiras. dos nobres aos mais pobres. das primeiras originarse-iam. Não há saída nem à esquerda nem à direita. Escarafunchar a dinâmica cultural em sua essência: desejo. Um zoom sobre as origens e fases da Modernidade para melhor inspecionar-lhe as entranhas (como foi um dia prática de adivinhos). desde os pequenos bandos de caçadores/coletores do paleolítico à atualidade. as raízes de uma antropologia lógico-filosófica – o homem como ser mundano lógico-qüinqüitário. fingimento e superação na história da cultura. nem monotônico) auto-desvelamento do ser lógico-hiperdialético do homem (uma renovada fenomenologia de um espírito mais elevado. na física – o unotrino sob a roupagem lógica clássica formal. mistas. não nos basta a crítica da técnica. mas nem por isso tornado santo ou absoluto). desde os gregos). a temática lógica/cultura. Retomar: agora. Fixar. teríamos que considerar pouco mais que meia dúzia de culturas nodais e inúmeras culturas não-nodais – arcaicas. sim. posto inteiro na ciência.30 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recuperar. justo por tanto. Revisitar: a história da cultura doravante considerada como o processo do paulatino (nem monótono. em todos os jornais impressos e nos horários. desnecessariamente violentas (é só somar seus mortos empilhados ou no ar volatilizados ao longo do século XX). bem à vista. atentar para o seu desejo. E. – que. de transição etc. das TVs. por obra e graça da biopirotecnia que se anuncia. assim como as enrolações . Descartar as ideologias por impotência e. mesmo reconhecendo os méritos. primeiro e único. especialmente. Chegandose à Modernidade. mas igualmente o que há para se avançar e conquistar. logo. também. sem descanso. Por conseqüência. calculado na cruz – e não se deixar enrolar pela promessa da vida eterna now. em novos termos (vale dizer.

por sua vez. driblando a censura branca . Forçar. criminalizou todo e qualquer ato de legítima defesa cultural (com exceção. Resistir: olhar e não desviar os olhos do que se verá. já nos espera. a certeza de que uma cultura nova lógico-hiperdialética advirá. Concitar à resistência: assumir os riscos da opção pela cultura nova lógicohiperdialética. escolher o luxo (que agora já é lixo) ou a originalidade. se arriscar na criação de uma nova cultura. de qualquer maneira. econômica e propriamente cultural. a re-historização da Modernidade. Três idéias que se poderia dizer kantianas. escolher o que. não enrubescer. em suas dimensões política. acima. Cassirer compreendia e queria assim. então. Ganhar. Pintar e bordar com linha grossa – é o que nos é hoje permitido – como a cultura nova implicará na re-significação do homem sob três grandes aspectos: cósmico. Tão propositada quanto obsessivamente. pois não há outra alternativa metodológica à crítica lógicofilosófica da cultura. naturalmente. Enfrentar a questão cultural brasileira na presente conjuntura. apesar da grande armação. religioso e social. esta bem mais sutil. não fora a troca que fizemos da temática da alma por aquela do indivíduo/sociedade. que. do caráter não extensional pela autoreferencialidade. de outro lado. vermelha e negra por todos os lados. também copiando) o fascismo. se assanhar e se prostituir com as sobras da Modernidade. e avançar. nem que seja um mero “buraco de verme . não deixar qualquer falsa passagem. faturando (de certo modo. da cultura hegemônica etnocida e suas cúmplices e/ . Anunciar bem alto: temos opções – de um lado. mas infelizmente se deixou dobrar frente à fantasiosa onipotência do discurso científico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 31 comunicativas em que se transmudou a badalada Escola de Frankfurt. com fundamento na substituição preventiva. mas também não amarelar. este.

para o Egito. depois dos fatos acontecidos. deixando claro para as histórias futuras que a traição das elites políticas e a demissão das elites intelectuais do Brazil nunca foi assim tão ingênua quanto de costume. coincide já agora com aquela da restauração da legalidade. é preciso se fazer estratego: se abaixar no mato ou fugir. Estampar o registro de pelo menos uma dentre as muitas intervenções por nós realizadas em foros governamentais e acadêmicos. posto que a causa. por algum tempo. tenha sobrado alguma coisa!). . tentam elas nos fazer acreditar. não se deixará superar sem antes ordenar a degola de todos os supostos terroristas recém-nascidos. Por isso. no fundo. da compostura da autoridade e da dignidade da nação (na hipótese que desta. depois que chegamos ao ponto de ver um Presidente da República e seus pares quadrilheiros tramaram a substituição do sufixo BRAS no nome de uma empresa brasileira por considerá-lo depreciativo. como qualquer outra cultura lógicodiferencial. este texto passa a ser também um brado de protesto e uma clara conclamação à resistência ativa e por todos os meios efetivos e eficientes. hoje. Ter bem presente que é para voltar tão logo se possa. E.32 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou associadas). posto que a escolha fundamental terá que ser sempre a liberdade e não as águas do Nilo. Ouvir com seriedade o alerta bíblico reiterado: a Modernidade.

ainda que um tanto redutora. estribando-se sobretudo no trabalho de campo. procedendo a análises comparativas inter-culturais e a descrição e avaliação de eventuais processos interativos entre culturas [1]. a antropologia especificamente cultural.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 33 1 Porque. antropologias de diversos matizes . E. a arqueologia” das culturas (ou das mentalidades) e. muitas vezes lidando com informações de segunda mão. a segunda.evolucionista. também. estudando as relações com o meio geográfico. a etnologia. por um viés mais compreensivo. explicitando inter-relações funcionais entre os múltiplos aspectos. mais de mériter ce bonheur. elaborando modelos. ao se perguntar pelo homem em . Cassirer – Logique des sciences de la culture Por que também uma filosofia. se para cuidar da cultura já temos a etnografia. funcionalista e estrutural -. ce n’est pas de gagner le bonheur suprême. A antropologia. uma filosofia da cultura Ce que la culture promet aux hommes. por um viés fenomenológico/descritivo. a história da cultura (ou das civilizações). a sociologia da cultura? Poder-se-ia argumentar que a etnografia e a etnologia cuidariam apenas de culturas particulares: a primeira. et c’est la seule chose qu’elle puisse leur donner.

A partir daí confunde-se o ser homem e ser cultural. das possibilidades combinatórias de uma matriz ou estrutura formal subjacente. que se aproxima da antropologia estrutural. prefere ver a cultura como sendo a realização de imensa teia descentrada de relações. arte. por definição. os processos de reprodução dos seus poderes e de sua integridade. tomando a sociedade como um objeto em si (sistema social). mas se justifica pela seleção e ênfase que dá às manifestações propriamente simbólicas (língua. funcionalista. deixando o resto a cargo de antropologias vizinhas: para a antropologia econômica ficam os processos de reprodução material do grupo concreto. em boa medida. em sua versão estruturalista as culturas se apresentariam como realizações. com elevado grau de congruência. a sociologia da cultura vai se apresentar como o estudo do sub- . representações e fórmulas rituais religiosas etc. topa de imediato com a cultura como sendo seu traço mais essencial. configurando uma mentalidade ou o “estilo de vida” de uma época. inconsciente para seus portadores. admite que a integridade do sercultural corre por conta da cerrada e coerente trama de relações entre os seus diversos aspectos e dos seus mecanismos internos de auto-regulação. procurando delinear uma totalidade/processo em que as culturas se apresentam apenas como momentos de relativa estabilidade.). A história das culturas. A antropologia cultural é quase um pleonasmo. todos eles justificados por sua contribuição à sobrevivência do grupo. irredutível.34 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO geral. A sociologia desde suas origens se assume ciência positiva. à exaustão. A arqueologia das culturas ou das mentalidades. neste quadro de referência. assume um ponto de vista dialético. Em sua versão evolucionista ela se preocupa em adjudicar posições mais ou menos retardatárias numa escala que iria da animalidade à cultura do antropólogo em exercício. já menos antipática. para a antropologia política.

com ares de certa gravidade. valeria compararmos. ínclita guardiã da diferença onto-lógica. Ela de fato sempre esteve presente quando se perguntou de modo radical e sem preconceitos. diferença primordial entre o ser e o nada. Isto posto. para descartar ou subsumir é tradicionalmente aquele da pergunta pelo ser. por exemplo. No cerne da filosofia da cultura estaria pois a pergunta pelo ser da cultura. pela essência última da cultura. Não queremos dizer aqui que a preocupação ontológica seja coisa inteiramente nova no âmbito dos estudos da cultura. enquanto que na filosofia da cultura a preocupação básica seria onto-lógica. a etnologia e a filosofia da cultura: a primeira teria uma preocupação apenas ôntica. O que se quer aqui precisamente enfatizar é tão apenas que um tal questionamento não poderá deixar de estar presente de maneira conspícua num texto que se intitula. Para ilustrar. depois de tudo isso. Estariam também no círculo das preocupações da filosofia da cultura (ou da antropologia filosófica) . para afirmar ou para negar. filosofia da cultura. transladada agora para o âmbito regional da cultura: por que há cultura e não tão apenas nada (de cultura. a especificidade da filosofia da cultura recairia justamente no enfrentamento daquela mesma pergunta. sinteticamente expresso por Leibniz [2]: por que existe algo e não tão somente nada? A filosofia. ao lado do sistema econômico e do sistema político. que podemos já agora identificar como sendo Natureza). desta sorte. que poderia trazer ainda de novo a filosofia da cultura? O ponto de vista da filosofia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 35 sistema cultural (ou simbólico) de uma particular sociedade. fosse onde fosse. pelo ser do homem. não se distinguiria de uma ontologia fundamental. voltada para o esclarecimento da diferença originária e abissal entre cultura e nada de cultura (Natureza). Bem. de dar conta da diferença entre culturas estatuídas e até mesmo de universais culturais.

A experiência de qualquer autêntica obra de arte . O cosmos precisa ser seu próprio referencial (eis a razão profunda das discussões acerca do papel da teoria da relatividade na cosmologia).com as três idéias da razão pura kantiana. dado que o que aí se está buscando é um sentido último. de modo equivalente. Destoariam elas em apenas um ponto: onde pomos a sociedade. qual o sentido da presença do homem no cosmos? Segunda. a impossibilidade de uma efetiva totalização experiencial -. que representa a condição de ser-social do homem ou. O critério de escolha das idéias/contextos. é necessariamente referencial de si próprio. enquanto que o nosso é intencionalmente positivo . o Absoluto e a sociedade . qual o sentido da existência humana frente ao Absoluto. sem referentes objetivos [3]. o Absoluto. A nosso juízo. quase que só pelo nome. ou seja.36 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tudo aquilo que de mais relevante houvesse no sentido de garantir a consistência da resposta dada à questão: que é o homem? Se aceitarmos que a significação é sobretudo uma exigência de contextualidade.a auto-referencialidade. ainda que de maneira si- . qual seria sua significação em âmbito religioso? Terceiro. a divergência se deve a que o critério de seleção em Kant é francamente negativo . chegaríamos à conclusão que três grandes questões se nos impõem: Primeira. por conseqüência. a nosso juízo. mas a auto-referencialidade. pode facilmente nos instruir sobre o que significa ser. ele põe a alma. por fim. a auto-contextualidade social se torna também imperativa na medida em que reconhecemos na cultura o fundamento último da unidade do sersocial.o cosmos. qual o significado real das relações indivíduo/sociedade? Somos quase que imediatamente impelidos à comparação destes três contextos .apenas uma grande obra bastaria -. totalidades não acessíveis à experiência e.a infinitude. não deve ser pois a perigosa infinitude [4].

e a existência da espécie humana. recuperará o seu interesse maior. Quanto à significação religiosa. A relação indivíduo/sociedade [8] precisa ter sua compreensão radicalmente revista para que se afaste em definitivo a simplória conotação topológica conteúdo/ continente que. estabelecendo um compromisso originário entre o processo cósmico (hipótese do big bang) . que afinal. com a psicanálise. é um saber com a peculiaridade de incorporar sua própria história. Só para exemplificar. entretanto. o referencial de si mesmo! A questão da significação cósmica do homem vem sendo completamente renovada em função dos recentes progressos da cosmologia científica. bem sob nosso olhar. cremos que nada há por enquanto de relevante. pelo fato da filosofia não se recusar a atribuir seu próprio status àquilo mesmo que a nega. A filosofia. não . Já circula amplamente nos meios mais cultivados [5] a hipótese de vigência do chamado princípio antrópico. já pelo que lhe vem da tradição. Os caminhos para tanto pressupõem. é única (afora. até de maneira radical.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 37 mulada.estreitamente dependente dos valores de um pequeno conjunto de constantes universais . Somos de opinião. de costume. se lhe dá. convenhamos. no nosso entendimento. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão. segundo as três dimensões fundamentais do ser-social – o político. o econômico e o propriamente cultural. talvez. uma renovação profunda das concepções onto-lógicas vigentes [7]. lembremos o já acontecido com todos os positivismos e o que hoje acontece. muitas vezes. e isto ocorre. A filosofia da cultura. e isto. indivíduo e sociedade. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. naturalmente. de parte a parte. Sem isto torna-se impossível perceber a complementaridade onto-lógica que condiciona. o próprio Criador) a dar testemunho daquele processo [6]. que consideramos inevitável.

nas histórias de longo curso. em todas as antropologias específicas (política. na etnologia. na lingüística.38 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO deveria se constituir numa exceção. nos saberes psíquicos e vai por aí a fora. a filosofia da cultura é sobretudo o exercício do auto-conhecimento da própria cultura. Em suma. e de tudo mais que à sua volta acontece e que por natureza nela e por ela reverbera. sem restrições de qualquer sorte. econômica. E estas oportunidades estão por toda parte: para começar. deve ela também se interessar pelas novas oportunidades de testes de coerência e adensamento da significação de suas concepções e até por acompanhar os movimentos de aberta contestação às suas posições conceituais. . Assim. cultural).

passa por Platão e chega até Hegel.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 39 2 Bases lógicas para uma antropologia filosófica J’appelle philosophe contemporain celui qui a le courage de traverser sans faiblir la antiphilosophie de Lacan. tentar satisfazer nossa curiosidade acerca da situação atual e das perspectivas brasileiras sob este crucial enfoque. não obviamente no sentido restrito que esta última vem assumindo nos meios acadêmicos. e que buscaremos também aqui resgatar. o que para nós seria o mesmo. Ils ne sont pas nombreux. mas naquele que esteve sempre presente no curso da história da filosofia. de uma antropologia [1] e. Tudo isto irá requerer a exposição prévia dos nossos supostos filosóficos. a ontologia tende a confundirse com a lógica. Nesta concepção filosófica. na medida em que defendemos uma estreita correspondência entre ser e pensar.1 – Preliminares . Alain Badiou. em consonância com uma velha tradição que remonta a Parmênides. aliás. Conditions Nosso principal objetivo aqui é apresentar as linhas gerais de uma antropologia filosófica ou. que serão fundamentalmente lógicos. 2. seguindo um pouco mais além.

mas nenhuma pôde ou poderá neste mister exceder aquela cuja especificidade é a forma abstraída. o mesmo. o “ilógico” nietzschiano. lógicas que não podem por qualquer modo ser uma “derivada” da outra. ou ainda. c) Existem duas lógicas fundamentais. logos heraclítico (segundo Heidegger). lógica do paradoxo (Kierkegaard). até hoje mal cernida pela tradição . seria a lógica do outro. ou. seria a lógica do mesmo. sumariamente. do pensar consciente. lógica do pior (Rosset) etc. do múltiplo e do múltiplo do múltiplo) que visaria o ser humano. do pensar inconsciente. a segunda. do transcendentalismo fenomenológico de Husserl . mas também o pensar dialético (pensar síntese do um e do múltiplo) visando a idéia (Platão) ou ainda a História (Hegel). já bem identificada pela tradição.2 .lógica do coração (Pascal). lógica I. considerado isto de uma maneira mais geral. porém. su- 2.por isso a denominamos lógica transcendental ou da identidade.40 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As nossas principais teses lógicas – como já dito. de algum modo. e mais ainda o pensar hiperdialético (pensar síntese do um. a lógica clássica ou aristotélica. que iremos denominar lógica da diferença ou. lógica do significante (Lacan). b) A tematização de um modo de pensar e a sua expressão discursiva arrazoada ou paraformal constituem uma lógica. lógica implícita do cogito cartesiano. a primeira. vale dizer. o ser capaz de discurso. que inclua não apenas o pensar que visa o um.A lógica ressuscitada . por sua peculiar natureza as lógicas historicamente atingem diferentes graus de formalização. igualmente onto-lógicas – seriam as seguintes: a) Ser e pensar são. do sujeito transcendental ou crítico da ciência em Kant.

na verdade.a).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE mariamente. 41 d) Todas as demais lógicas “derivariam das lógicas fundamentais. D/D/D =D/3. o degrau um daquela. A é algo por constituição sempre bem definido. D}. doravante. ou ainda (D)/(I/D)/(I)=D/D. que não seja aquela de primeiro lugar à esquerda. D/D = D/2. por exemplo. pode ou deve ser desprezada. como por exemplo. o produto cartesiano. Teríamos assim as lógicas derivadas I/D. e) A primeira lógica derivada. I/D. I/D/D= = I/D/2. o que já não acontece com não-A que carrega inexoravelmente uma certa franja de indefinição dada a inesgotabilidade (pelo menos prática) do mundo. Esta última designação tem um sentido profundo. síntese das lógicas da identidade e da diferença. Estas denominações sintéticas das lógicas constituem um semimonóide [2] livre gerado pelo conjunto {I. que não pode jamais confundir-se com uma operação de tipo matemático ou formal. através de uma operação que denominamos síntese dialética generalizada simbolizada por uma /. depois. não podendo obedecer ao princípio do terço excluído. Para contornar esta assimetria fazemos uma primeira diferenciação D1 discriminando S e não-S (ver figura 2. lógica do terceiro excluído. A segunda. onde I faz o papel de elemento neutro ou nulo à direita [3]. será identificada à lógica clássica ou aristotélica. D/D = = D/2. I/D/D/D = I/D/3 e assim por diante. I/I/D/I= I/D. lógica D. ela é uma generalização da aufheben hegeliana. contratualmente . Na prática isto quer dizer que qualquer ocorrência de I na designação de uma lógica resultante da articulação de quaisquer seqüência ordenada de lógicas. porque uma simples diferença A e sua negação não-A não formam uma par simétrico. é a lógica dialética. portanto. esta que passa a ser considerada.

a si mesma. A e não-A tornam-se simétricos. agora. As demais lógicas sintéticas não foram ainda identificadas e nomeadas por razões que esperamos fiquem claras ao cabo do presente trabalho. não-não-A e A passam a ser também equivalentes. a lógica dialética. D. interna ou condicionada a S. o que vem constituir uma das formulações do autêntico princípio do terceiro excluído. ou de mesma natureza. . Nestas circunstâncias. subsume a lógica da identidade I. por convenção. Assim sendo.a . de modo compacto. I/D mais a lógica clássica (ou da dupla diferença) D/D = D/2 e. porque ambos são.42 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desconsideramos não-S o que transforma S numa totalidade por convenção. sim. D/D = D/2 [4]. Esta.A A = n ª o -n ª o -A D D D Figura 2. princípio este por nós considerado como realmente característico da lógica clássica. também a si próprias. ainda por convenção. já a lógica hiperdialética I/D/D = I/D/2 subsume as lógicas I. S im p les d iferen a nª o nª o - D u pla d iferen a nª o . passa a ser por nós preferencialmente denominada lógica da dupla diferença ou. doravante. a lógica da diferença D e. a si própria. aí então introduzimos uma segunda diferença D2. I/D. mas ao mesmo tempo conservam integrando) as que lhe são anteriores e. por exemplo. bem definidos ou esgotáveis. assim.Diferença e dupla diferença f) Todas as lógicas derivadas subsumem (superam. por convenção.

N u m Øric a 1 2 3 4 5 E lem e n to s ar Æ g ua fog o te rra q uinta e ssŒ n. R e p ese n ta ª o L g. im p o ssib.Representações histórico/culturais das lógicas . – as lógicas admitem um sem número de representações outras já efetivamente produzida pelas diferentes culturas históricas. D ifere n .b . da L g. Figura 2. A q u Æ rio E scorp iª o L eª o To u ro L ibra C an cer A ire s C ap ric. C o sm .tu. c o n tin ge n. F am iliar p ai m e filha filho fam lia Verb o au x. GŒ m eo s P e ix es S ag itÆ rio V irg em C an do m b lØ IfÆ O x alÆ O gu m Exu M o d alid a de ne cesse c. D i-m e n sı es s/L ac an im ag in. A steca Sul O este L este N orte u m b. po ssibil.d o m u nd o C o res a zu l b ran co ve rm elh o pre to P o s. L g ic a D ialØt. S er ter h av e r esta r am a r?! A n im al Æ g u ia se rpe n te le ª o to uro h om em S ign o zo diac . da Id e n tid . etc. P r prio s G eo m Øtric a ∃x φ(x ) I =I 1 . D. Na figura 2. em geral. inconscientemente. L g ic a C lÆ ssica H ip e rd ia. L g ic a .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 43 g) Além da algébrica – I. (sign ific an te ) R eal sim b lic o M atem as laca nian o s O p erad o re s Val.ele G eo m Øtric a .b apresentamos alguns exemplos. D/2. I/D.-1 2 3 S =1 eu .0 . sem qualquer pretensão de esgotá-los.0 2 ∀x ∃φ(x) D =D 1 .-1 3 ∃x φ(x ) H =1 1 ∀x φ(x ) A =1 1 .

precisaria ser uma “pirâmide” cuja base estaria reduzida a apenas um ponto. por uma pirâmide de base quadrada. o mesmo I em cima e em baixo .c . e assim sucessivamente (ver figura 2. para preservar a coerência com as demais. Como exemplo daríamos a lógica dialética I/D. Figura 2. e a lógica I/D/2. de modo que no todo ficaríamos com um segmento de reta na vertical tendo na extremidade superior um I e na inferior D/0 = I. de sorte que à lógica I/D/n fica associada uma “pirâmide” em n+1 dimensões.c). um quadrado. tendo por base um “cubo” em n dimensões.44 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Vamos agora deter-nos um pouco mais demoradamente sobre o que denominamos representação geométrica canônica. representada então por um triângulo.Representações canônicas À lógica I associamos um ponto numa dimensão própria independente daquelas do conjunto das diferenças. a D/D/D = D/3. No caso de I propriamente dita a representação canônica. três segmentos ortogonais. À lógica D associamos o segmento de reta. vale dizer. ou seja. um cubo. a D/D = D/2 associamos dois segmentos de reta ortogonais. por coerência.

seriam: o unário ou fenomênico correlato a I ( I/D/0 = I/I = I ). D. SER DISCURSIVO SER SISTÊMICO NÍVEL SUBJETIVO N=2 I D D/ I/D CONSCIÊNCIA ROJETO HISTÓRIA Figura 2. o trinitário ou objetivo correlato a I/D e o qüinqüitário [5] ou subjetivo correlato a I/D/2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 45 nos mostra tratar-se. isto é. I/D. os três primeiros. RES EXTENSA SER SUBJETIVO (PESSOAL OU SOCIAL).d . D/2 e I/D/2.. . 1. da lógica do mesmo. h) Somente as lógicas da família I. às quais irão corresponder. I.Níveis onto-lógicos No plano fenomênico temos apenas subsumida a lógica I à qual corresponderá o ser enquanto tal (ou ser fenomênico). no plano subjetivo temos cinco lógicas subsumidas. definem planos onto-lógicos.d) I NÍVEL FENOMÊNICO N=0 SER FENOMÊNICO D/ I/D 0 =I SER OBJETIVO OU SIMBÓLICO NÍVEL OBJETIVO N=1 I I/D/2 D DURAÇÃO OBJETIVA 2 INCONSC. I/D. D. no plano objetivo são três as lógicas subsumidas.. (Ver figura 2. da forma I/D/n com n = 0.. 2. por derradeiro. ditos mundanos. a duração (temporalidade objetiva). a res extensa (ou a espacialidade) e o ser simbólico (o conceito ou a idéia). I. respectivamente. como seria natural supor.

precisa ser previamente des-totalizada para que possa ser então articulada.46 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que terão como correlatos.D/2 e I/D/2 -. (Ver figura 2. a outras ex-totalidades. no plano seguinte. vale dizer. respectivamente. o ser consciente como projeto.e) I I/D D I/D/ 2 D/2 D/0 =I I D I I/D Figura 2. através de leis convencionais ou de regras. doravante tornada lógica das regras . na circunstância. do lado da realidade visada. a história . de um lado. porém. Como conseqüência. precisa ser repensada. o sistema (ou papel organizacional) e o ser subjetivo na plenitude. a mera agregação de duas novas lógicas . pela lógica D.Remanejamento onto-lógico Não é muito difícil compreender: no plano ontológico objetivo I/D visa-se necessariamente uma totalidade que. i) A passagem de um plano onto-lógico ao que lhe segue não se faz por simples agregação de ambos os lados. seja ele pessoal ou social. o que estava sendo pensado por D vai necessariamente se deslocar e ser re-pensado pela lógica D/2. acontece um remanejamento geral do ser visado.e . o inconsciente (ou ser desejante). por exemplo. ao se passar de I/D a I/D/2 dáse.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 47 constitutivas de um agregado de maior hierarquia. mas signos contextuais. e sim alguma coisa muito mais grave: a lógica para poder efetivamente visá-lo. . Um bom exemplo seria aquele do corpo físico pensado por D no plano objetivo. a ser de novo pensado enquanto tal. mas que deixa de sê-lo no plano subjetivo. na passagem. (Ver figura 2. acontece um outro importante fenômeno na passagem de um plano ontológico ao subseqüente e que denominamos recalque lógico. no caso de uma eventual doença ou acidente. D/2 e sim I/D. então. como é de sua natureza. porque a algo estaria faltando mais do que o significante apropriado. sim. Chamamos a isto recalque lógico. j) Além do remanejamento. vale dizer. Tomemos a semiologia como referência: I/D no plano onto-lógico objetivo pensa os signos. “im-pensados” e impensáveis”. agora. que irá visar signos. pois. A outra posição disponível não é. relevantes e unívocos apenas no contexto do discurso visado por I/D/2. estes passam a ser visados por D. do mais conspícuo dentre os saberes científicos – a física. a subjetividade se desagrega e o corpo físico vem.f) As lógicas que desvelavam determinados aspectos de realidade são. onde D passa a pensar o corpo libidinal. isto é. como apenas significantes a serem articulados por regras sintáticas (morfológicas ou gramaticais) D/2 e assim constituir um suprasignificante de um supra-signo ou discurso a ser desvelado pela lógica disponível I/D/2. no plano subjetivo. inclusive. O desconhecimento deste imperioso fenômeno de remanejamento é fonte de dificuldades crônicas em quase todos os campos do saber [6]. representativo de uma nova totalidade a emergir no nível I/D/2. o que deixa os referidos aspectos. deslocadas para um outro plano.

Como exemplo. parcial (D). pensável pela lógica I no plano subseqüente.f .Articulação dos níveis onto-lógicos Existe. o Deus único (I). no plano subjetivo (I/D/2). tome-se a lógica I/D visando. ainda que apenas formal. da seqüência dos planos onto-lógicos. Isto nos assegura que o visado pela lógica de maior nível de um plano torna-se. l) Heidegger descobriu o comprometimento ontológico da verdade: verdade como alétheia (I) contraposta à verdade como adaequatio (D/2) (ver figura 2. através de seus matemas. uma exceção justificada por um princípio geral de continuidade do mundo e da vida. o que permite uma articulação. no plano objetivo (I/D): o pleno domínio do signo convencional (episódio bíblico do bezerro de ouro) vai se mostrar condição necessária para que se possa pensar. para as quatro lógicas de base: verdade total (I). de algum modo. contudo. parcial e total (I/D) e nem . vale dizer.g). Lacan estendeu-a. de impossibilidade da ocorrência de saltos instantâneos.48 I I/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D I D/ 0=I Pré-I Pré-D D I D/2 I/D Pré-I Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Figura 2.

gozo [7]. especificamente. expresso por Xn(ψ) = ψ. o que é o mesmo. D/2 e I/D/2. estará associado o princípio do no máximo n ou. seguindo a seqüência de estruturas onto-lógicas definidas no item anterior: alétheia fenomênica (I na estrutura onto-lógica de mesmo nome). adaequatio e amor (correspondentes a I. para a qual tem-se n = 1. alétheia objetiva. à . a lei do n+1 excluído.g . por exemplo. na estrutura ontológica subjetiva I/D/2 ). isto é. m) Os símbolos I e D podem ser tomados como operadores. respectivamente. afecção ou percepção e êxtase simbólico (correspondentes a I. A cada uma das demais lógicas.As verdades Nós podemos agora ir um pouco mais longe. I tal que I2 (ψ) = I(ψ) (reflexividade ou lei do pelo menos um) e D tal que D 3 ( ψ ) = D(ψ ) (lei da negação em sua maior generalidade ou lei do pelo menos dois). a contar de I/D. Assim. D. I/D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 49 parcial nem total. respectivamente. alétheia subjetiva. D. que nada quer com a verdade (D/2). em virtude do seu caráter derivado. na estrutura onto-lógica objetiva I/D). HEIDEGGER Adaequatio LACAN Parcial PROPOSTA Amor Gozo D/ 2 D Nem Parcial nem Total 2 D/ I/D/ 2 D I Alétheia I Total I/D Parcial e Total Alétheia Subjetiva Adaequatio D/ 2 V it I I/D r ia Alétheia Objetiva Pré-I Afecção ou Percepção Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Alétheia Fenomênica Figura 2. I/D. vitória [ 8].

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lógica dialética I/D estará associado o princípio do no máximo um, ou, o que lhe é equivalente, o princípio do segundo excluído, vale dizer, da totalidade, expresso por um operador H, H tal que H(ψ)= ψ; à lógica D/2, que segue imediatamente a I/D, estará associado, como é bem sabido, o princípio do terceiro excluído, expresso por um operador A, A tal que A2 (ψ) = ψ; e daí por diante; n) A homogeneização dos princípios das lógicas e de sua expressão operatória estabelecidas no item anterior, permite que a elas sejam aplicados os mesmos procedimentos formais da mecânica quântica, em particular, o postulado que formaliza o ato de mensuração expresso por Op ψ = lψ[9] onde Op é um operador hermitiano[10] representativo de um determinado instrumento de medida, ψ uma função representativa de um estado de coisas do mundo e λ um número. (Ver figura 2.h) Esta última equação, em associação com a equação caraterística de cada uma das lógicas conforme definida no item m anterior, permite que para cada uma delas seja determinado, de maneira unívoca, um conjunto de valores de λ, designados valores próprios (em lógica, denominados valores de verdade ) do operador em questão.
OP
Med.
1

i t 0

OP
Med. 2

i

* *= a
1 1 +a2 2

i …

i OP( i) = i i

i

Figura 2.h - Lógicas como operadores

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À semelhança do que ocorre na mecânica quântica, na qual o conjunto dos valores de λ representa o “lado objetivo ou mensurável do mundo físico, os valores de λ vão representar aqui a realidade visada pela lógica em consideração. No caso da lógica I, associada ao operador de mesma designação, teríamos como valores próprios 1 e 0 , ou se quisermos, o ser e o nada, respectivamente. (Ver figura 2.i) Já no caso de D, associado também a um operador de mesma designação, os valores próprios seriam 1, -1 e 0, respectivamente, o verdadeiro, o falso e, de duas uma: o paradoxal, se a negação de 0 for tomada como sendo 1; o nem verdadeiro nem falso, se estabelecermos -1 como a negação de 0. Em se tratando de I/D, associada ao operador H, temos apenas o valor 1, identificado com a noção de totalidade lógica. Por fim, no caso de D/2, os valores próprios do operador A que a representa seriam 1 e -1, o verdadeiro e o falso, sem confusão (ou superposição) e sem a possibilidade de qualquer outro valor, vale dizer, de qualquer terceiro; por isso, entre outras fortes razões, a lógica D/2 foi por nós identificada como sendo a lógica clássica.
L. transcendent.
I2=IeIψ=λψ

L. da diferen a
D3 = D e Dψ = λ ψ -1

0

0

1

1

L. dialØ tica
H = 1 e Hψ = λ ψ

L. clÆ ssica
A2 = 1 e Aψ = λ ψ -1

L. q inq itÆ ria
S3 = 1 e S ψ = λ ψ e2πi/3 e-2πi/3

1

1

1

Figura 2.i - Valores próprios das lógicas

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

Constata-se que a lógica D, objetivamente considerada, é dentre as lógicas de base, a mais rica, o que tem implicações antropológicas da maior importância. Este inesperado encontro da lógica com a mecânica quântica não é uma curiosidade, uma simples casualidade; é, sim, um encontro nas profundezas do conhecimento, que não se sabe bem porque, demorou tanto a acontecer; com ele dá-se uma mútua iluminação destes dois saberes cuja extensão não poderíamos aqui avaliar; o) As lógicas diferenciais Dn possuem 2(n - 1) valores próprios e as lógicas derivadas identitárias I/D/n, 2n –1 valores. No caso da lógica I/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; -0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; -0,5 - 0,5 = = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constituise numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) realI/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; - 0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; - 0,5 -0,5 = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constitui-se numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) real
VALORES DE VERDADE DA LÓGICA QÜINQÜITÁRIA
TU - 2 i/3 1 -1/2 -1/2 1 - 3 i/2 3 i/2 ELE

VALORES DE VERDADE DA LÓGICA DA DIFERENÇA -1 FALSO

e

e2

i/3

0 INDEFINIDO
EIXO IMAG.

1 EU
EIXO REAL

1 VERDADEIRO
EIXO REAL

Figura 2.j - Valores próprios de I/D/2

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Partindo destas proposições gerais sobre as lógicas, com a simples adjunção de algumas teses específicas, poderemos chegar a uma sólida antropologia filosófica. Vejamos: a) À diferença dos demais animais cordados superiores que operam a síntese do um e do múltiplo, isto é, I/D [11] e que lhes possibilita o acesso ao símbolo convencional, o homem é capaz de proceder à síntese da identidade, da diferença e ainda da dupla diferença, que o faz um ser lógico-qüinqüitário, ou seja, de nível lógico I/D/2. Isto está empiricamente atestado, dentre muitas maneiras, pela capacidade humana da discursividade (o simbólico articulado pela gramática). A moderna antropologia estrutural, tomando o registro da sexualidade, postula que o homem, do ponto de vista formal, está determinado pela dupla diferença: a primeira diferença, de estofo biológico - macho versus fêmea - e ainda uma segunda, de estofo propriamente cultural, dita diferença clânica. (Ver figura 2.l, a seguir.)
ANIMAL
I D1
Diferença Sexual Biológica

2.3 - Uma antropologia esperançosa

HOMEM
I/D I D1 I/D D2 I/D/2

Diferença Diferença Sexual Clânica Biológica

Figura 2.l - O homem como animal qüinqüitário Se a estas articularmos a identidade - pré-condição necessária do reconhecimento e assunção dos quatro pólos definidos pela dupla diferença chegamos finalmente à síntese por nós proposta: I/D/2 [12]. O caráter identitário (consciente) do homem

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

– descurado pelo estruturalismo, ainda que com atenuantes –, pode ser de pronto justificado se o assimilarmos a uma diferença colapsada [13] que, no registro da sexualidade, seria a diferença sexualmente maduro versus imaturo, na qual, de modo geral, o mesmo ser humano, no correr de sua vida, acaba ocupando as duas posições; b) À lógica qüinqüitária devemos associar um horizonte lógico, um além de I/D/D = I/D/2, a fim de que esta não se torne para os homens, ao mesmo tempo, lógica do Absoluto, tal como se deu com Hegel ao nível dialético trinitário, e que o levou a um iniludível panteísmo. Esta possibilidade do ser humano terá que estar suportada pela vivência de uma falta, que identificamos como sendo a impotência de abarcar ou dar conta, globalmente, de sua própria experiência inter-subjetiva. A lógica do saber sobre uma instância ontológica está necessariamente um degrau lógico acima de sua lógica de referência [14], de modo que, para o ser humano, de nível I/D/2, o saber respectivo será de nível D/D/D = D/3, logo, acima da sua capacidade lógica. (Ver figura 2.m). Em resumo, o ser humano é um ser lógico qüinqüitário incorporando um horizonte lógico que o transcende e que lhe é acessível (conquanto que dependente de uma decisão, visto existir a D/3 D/ 2 opção de considerar a falta como pura HORIZONTE imanência) como I/D/ 2 vivência de uma fal- I/D ta no âmbito de sua experiência de serHOMEM 2 D com-outro, diante D/ da qual ele não pode evitar o risco, deixar I I/D de responder com a Figura 2.m O homem e confiança ou negar seu horizonte lógico o amor;

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c) Pode-se constatar de modo empírico que nada existe no mundo que, no eixo lógico aqui considerado, supere o homem; restitui-se-lhe, assim, a posição pinacular na mundanalidade que, na Modernidade, lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios – das lunetas ao Hubble –, pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. Como conseqüência, doravante, todo saber deve ser considerado saber antropo-lógico: saber reduzido ou parcial (ciências “duras”), saber humano propriamente dito e saber especulativo (teologia natural recuperada) tal como começam a se dar conta alguns cientistas menos blindados quando aceitam discutir, pelo menos em sua versão fraca, o princípio antrópico [15]; d) Como já enfaticamente repetido, o ser humano é de nível lógico I/D/2, lógica que subsume, além de si própria, as que lhe antecedem: I, D, I/D, D/2, estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Isto leva a admitir que no ser humano a sexualidade precise ser re-definida, deixando de ser bipolar (representável por um segmento de reta), como nos outros animais, para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). O par diagonal {I, D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D, D} o feminino; e como (I)/(D/2) tanto quanto (I/D)/(D) são iguais a I/D/D = I/D/2, conclui-se imediatamente (ver figura 2.n) que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano. É importante notar que existem três modos possíveis de clivagem, por pares, das quatro lógicas de base: primeiro, a “sexuada” que acabamos de ver; segundo, a filosófica grega ou ontológica, contrapondo o lógico-identitário (I, I/D) ao lógicodiferencial (D, D/2); terceiro, a filosófica moderna ou epistêmica, contrapondo o “subjetivo” (I, D) e o “objetivo” (I/D, D/2).

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I/D/ D
2

LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
I/D/ D
2

D/ 2

D/

2

I
MASCULINO

I/D

I
FEMININO

I/D

Figura 2.n - Masculino x feminino Não é difícil perceber que, de todas, a primeira é a mais relevante, na medida em que ela é a única verdadeiramente simétrica e que, por isto mesmo, aponta inequivocamente para o mais acima, isto é, para a síntese qüinqüitária I/D/2. Aliás, excluída a tradição judaico-cristã, parece-nos que todas as demais culturas sentiram bem isto, embora constrangidas a expressá-lo pela óbvia metáfora (mito) sexual biológica! e) Todos os homens de todas as culturas são logicamente equivalentes (tese homóloga àquela do estruturalismo estabelecendo a equivalência de todas as culturas em razão da presença universal da lei de dupla face da exogamia/proibição do incesto, com a única diferença que esta é de nível lógico quaternário, enquanto que a nossa, de nível qüinqüitário. Fato é, entretanto, que as culturas ainda assim se distinguem de modo flagrante e essencial, mormente quando em confronto umas com as outras. Para compatibilizar estas duas determinações assim tão contraditórias – sem trapacear apelando a fatores extra-culturais –, não nos resta outro caminho senão o de caracterizar cada cultura pelo nível de desvelamento do seu próprio ser qüinqüitário a que estaria necessariamente associada uma representação objetiva ou simbólica;

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em outras palavras, uma cultura é determinada pela lógica mais ou menos implícita do seu núcleo religioso ou sacralizado – cultura do deus “unário (judaica), cultura prometéica ou do que é somente na medida em que se opõe aos deuses (greco-romana), cultura do deus trinitário (cristã patrística) e assim por diante. Existem culturas que não chegam a nenhum grau de desvelamento de seu ser lógicoqüinqüitário – elas serão chamadas culturas ecológicas –; quando nela predominar a identificação à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-I (cultura paleolítica dos povos caçadores/coletores tendentes ao nomadismo ao igualitarismo e ao xamanismo) e quando predominar a contraposição à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-D (cultura neolítica, sedentária, hierarquizada, dispondo de classe sacerdotal, com escrita e naturalmente escribas, com trabalho ordenado, de base agrícola estável). Desenha-se, assim, uma história da cultura em estreita consonância com uma filosofia da História, cuja essência seria o cumprimento de uma destinação. É preciso, entretanto, alertar que tal cumprimento não seja confundido com aquele implícito na concepção “unária” (I) ou judaica da História, que nos exige a fé para sua consumação; nem aquele implícito na concepção trinitária (I/D) ou hegeliano-marxista, que nos exige o completo engajamento; trata-se aqui, de maneira coerente, de uma concepção qüinqüitária (I/D/2) da História síntese hiperdialética das anteriores - para o cumprimento da qual exigir-se-á tanto a fé inabalável, quanto o irrestrito engajamento. f) Às culturas que correspondem de modo estrito a uma lógica e que historicamente foram as primeiras a fazê-lo, damos a denominação de tipo puro ou nodal (ver figura 2.o); às demais, a denominação de culturas não nodais. Recapitulando, e atendo-nos apenas “Ocidente”, as culturas nodais já

mas não chegam a alcançar o tipo nodal subseqüente (talvez o melhor exemplo seja o da cultura egípcia que tenta.58 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO consumadas seriam as do tipo pré-I (paleolítica. As culturas não nodais distribuem-se por vários tipos. mistura de D com I/D. que sobreviveram mesmo depois de superadas. o “projeto cultural cubano”. a “cultura das Missões”. pré-D (neolítica. culturas mistas ou ecléticas. mistura de pré-I dos índios guaranis com o par I/D. I. porém. a saber: culturas de transição. D (greco-romana). I/D (cristã patrística) e D/2 (moderna. consumado tempos após a realização histórica do mesmo (um bom exemplo é o da cultura islâmica do Deus único radical (I). que partem de um tipo nodal. mistura de pré-D com I/D para formar um sujeito não sujeitado de D/2!). nesta. caçadores/coletores de tendência nômade). por isso ficamos apenas em três: a cultura bizantina. sedentária. ao mesmo tempo. tendo I como sujeito intervalar aos sistemas). É preciso advertir que culturas nodais a seu tempo. como seriam os casos dos judeus e dos índios brasileiros enquanto não aculturados (se sobrar algum depois do advento da “República nova”?!). não se enquadrariam em qualquer destes tipos continuando a ser consideradas nodais. “socialismo moreno”. D e I/D. de base agrícola estável. D/2 jesuítico. como os impérios da antigüidade). cerca de 1000 anos após o apogeu da cultura grega (D). culturas anacrônicas. criada mais de 1500 anos após o advento do judaísmo I. que tentam a mistura de tipos nodais (os exemplos seriam inúmeros. . na sua versão paradigmática. I (judaica profética). ficando assim sujeita a permanentes e radicais conflitos internos. um tipo nodal. e aproximadamente 300 depois da consolidação do cristianismo patrístico (I/D) no Concílio de Nicéia. mas não chega a alcançar o monoteísmo [16]. tudo se passa como se I aprisionasse dentro de si.

D. de nível lógico transcendental I. informacional/globalizante.o . tendo como motor principal o inconsciente “industrialmente” domesticado pelo marketing. é o sujeito liberal. sujeitado. pré-D. Sendo D/2 a lógica da morte. de nível lógico D/ 2.) . vive já há algum tempo o predomínio da cultura científica. anglo-saxônico ou o herói fordiano [17].Culturas nodais g) A humanidade. que no caso paradigmático.p.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 59 I/D/ Cultura GrecoRomana 2 Cultura Nova Qüinqüitária D D/ 2 Cultura Moderna I/D Cultura Cristã Patrística Cultura Judaica I Pré-I Cultura Paleolítica Pré-D Cultura Neolítica Pré-Pré-D Pré-Pré-I Proibição do incesto/ Exogamia Figura 2. depois de passar pelas culturas pré-I. presentemente vivendo sua fase civilizatória. I/D. ela só “vigora” com os préstimos de um sujeito intervalar. ou seja. I. (Ver figura 2.

I/D. movimentos carismáticos.A cultura moderna e suas variantes As únicas alternativas ideo-lógicas de subversão da Modernidade seriam.ideologias à esquerda -. pentecostalismo etc.60 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Sujeito Romântico D Pentecostal Fascista Pa r A ng ad lo igm -s ax a ôn ic o D/ 2 Ciência Jesuítico Socialista I I/D Sujeito Liberal Sujeito Coletivo Fig. de um lado.p . telúrico. 2. o marxismo etc. pelo sujeito romântico. sujeito libidinal D. deixa então de ser paradoxal que coincidam os períodos de caça às bruxas e de afirmação da ciência e do capitalismo paradigmático. é forçoso que se reconheça. subsumindo I. lógicas que foram recalcadas a ferro e fogo para viabilizar a instauração da Modernidade. aparentetemente. inexoravelmente destinadas ao fracasso pelo prosaico fato de que D/ 2 . ou em seu modo arcaico. Elas são únicas justamente na medida em que propõem um sujeito I/D ou D (o par das lógicas femininas). ilusória ou apenas transitoriamente dominante. Não é preciso enfatizar que o paradigma liberal não fracassa (o que nada tem a ver com a condição de ser historicamente . – ideologias à direita. Ambas as ideo-logias. machista. que identificamos com o fascismo. a substituição do sujeito I pelo sujeito coletivo I/D (representado por um sujeito simbólico absoluto). D. . também ilusória ou apenas transitoriamente dominante. de outro lado. que identificamos com o jesuitismo. não admite outra dominação que não a sua própria. vale dizer.

Olhemos um pouco mais de perto dinâmica cultural. ele irá provocar um período mais ou menos extenso de graves tensões. Começaríamos observando que ela não é lógico-dialética. Este fundamentalismo X-1 será de fato o único capaz de fazer frente à cultura imperante. do formalismo sem conteúdo (tipo fariseu) ou de sua variante terrorista (tipo zelote) (ver figura 2. como veremos adiante).q ) e. e então. Ela. transformando em instrumento. por sua própria natureza. que é bem mais complexa do que supunha Hegel. desconstruções. àquela de Marx no irá passar do estágio de cultura propriamente dita ao de civilização . sim. Em meio à pletora dos fundamentalismos reativos mais ou menos desesperados. no sentido que esta última assume com o estruturalismo (D). mas na verdade já exangue. Seja uma cultura genérica X. Não se trata. é necessariamente lógico qüinqüitária ( (I/D)/(D) = (I/D/2) ). de um processo puramente ascendente. ascendente. pois. ainda que après coup.sua universalização ou horizontalização aparentemente irresistível. mas que admite recuos. provocar o . no plano cultural. visto que geradas por X mesmo (como é o caso do comunismo e do fascismo na Modernidade). a cultura X. conquanto seu curso seja inexoravelmente. ainda. A História como história (I/D) da cultura. ela será. importunada pela cultura X-1 que a antecedeu: sob o modo negocial ou de simples adesismo (tipo saduceu).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 61 superável. é ser já per-vertido. os fins da cultura X. haverá um. referido à cultua X-1 (tipo essênio) que se distinguirá por sua disposição de subsumir. por formas pseudo utópicas. marginalidades e retornos ao proscênio histórico. por muitos modos. processo de cumprimento de uma destinação. h) Focalizemos um pouco mais detidamente a problemática da dinâmica cultural. só será sucedida pela cultura X+1 em condições extremas: esgotamento de suas possibilidades (tese homóloga. pois.

1 (Ex.: Fariseus) TERRORISMO (Ex.1 (Ex. uma ortodoxia de nível X-1. depois do comunismo e do fascismo.: Saduceus) FORMALISMO (Ex.62 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desvelamento da nova cultura e. bigbangismo. é o “inimigo” eleito pelo próprio stablishment cultural.A passagem de uma cultura diferencial à cultura subseqüente Na Modernidade este fundamentalismo realmente eficaz deverá ser o cristão originário ou patrístico (ou o equivalente em outras tradições culturais.: Essênios) Cultura X . como a chinesa ou a hindu) e jamais o fundamentalismo islâmico que. metamorfoseouse em baleísmo. eventualmente. mas pelo seu próprio desvirtuamento ao abandonar a dialética do sentido ou do espírito (I/D como lógica suprema da estrutura onto-lógica objetiva) para se assumir dialética da história (I/D como uma entre outras lógicas de base na estrutura onto-lógica I/D/2). confundindo-se assim com o marxismo.: Cultura Judaica) COLABORACIONISMO (Ex. . não pelo reacionarismo da Cúria Romana. Cultura X +1 (Ex. como era fácil prever. O movimento denominado Teologia da Libertação deixou de ser uma real ameaça à civilização reinante. mbaísmo verde. Com a falência do “materialismo real” a Teologia da Libertação.: Zelotes) Figura 2.: Cultura Greco-romana)) FUNDAMENTALISMO X . deixar como um testemunho histórico vivo.: Cultura Cristã) Cultura X (Ex.q .

sermúltiplo. As passagens similares anteriores mereceriam uma pesquisa detalhada. em geral. Sabemos que. porém. I/D/n. de paralisar a História.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 63 qüinqüiforcismo espiritual e outros ismos marqueteiros. enfim. Esta explicação cabe razoavelmente bem para a passagem do cristianismo patrístico (I/D) à Modernidade (D/2): o processo iniciar-se-ia com o movimento monacal. com a escolástica. como sa- . apenas por si. no que resulta D/n+1). mas é impossível fazê-lo com I. continuaria com a tradução para o latim do corpus aristotélico e sua ampla divulgação pelo Ocidente. é de sua natureza. i) Qual a relação essencial entre ser-individual e ser-coletivo ou sociedade. mas também temporal da Igreja. o sersocial opera necessariamente com X. Levando-se isto em conta. o indivíduo de qualquer cultura opera. tudo isto no sentido de congelar o poder não só espiritual. podemos conjeturar que o progressivo saber de si de uma cultura identitária é que possibilitaria e induziria a referida passagem. o saber de I/D/n é precisamente D/n+1 (para se obter a estrutura epistemológica referente a um nível onto-lógico qualquer I/D/n. mas é impossível que o faça. com a lógica X. podemos especular um pouco sobre o assunto. pois. bastaria anular o I da auto-identificação e substituí-lo por um D do distanciamento. em uma cultura de nível lógico X? Duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. isto é. como se fora ela um modo de consolidar ou mesmo eternizar a sua dominação. porque esta é justamente a prerrogativa específica do ser-social nesta cultura. Pode-se daí depreender o modo específico de articulação de indivíduo e sociedade. com a lógica I. No processo de superação de uma cultura da identidade genérica. de outro lado. não vislumbramos a mesma regularidade encontrada no caso anterior. necessariamente.

para a ← . de nível lógico D/2: os indivíduos contribuem com seu poder decisório (I).r . e a sociedade provê sua capacidade de decisão (I) por um processo social de nível X a partir da capacidade de decisão (I) dos indivíduos. no geral. através de um processo competitivo . seria natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêm-se. que as lógicas dos processos de mediação nos extremos estão invertidas em relação às lógicas de procedência.Articulação dos “extremos” Como o processo mediador no extremo I ← X é do tipo I (uma identificação) e no outro extremo I X é do tipo X. em ordem inversa relativamente às lógicas de procedência também para todos os casos intermediários entre I e X.(I/D). Tomemos oexemplo da Modernidade.64 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bemos.mercado . vale dizer. (Ver figura 2.(D/2). uma velha questão filosófica [18]! Os indivíduos suprem seu caráter X por um processo de identificação (I) com o caráter X coletivo. para a formação da decisão coletiva (I). Figura 2. através de um processo contábil escrutínio .r). eles fazem valer os seus desejos (D).

entretanto. por fim eles se aculturam (D/2) identificando-se (I) com os papéis disponíveis na organização social (D/2). passou a ser feito de modo competitivo desregrado. ou seja. ou seja.Formação paradigmática moderna Este seria apenas o paradigma.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 65 formação do desejo coletivo . INDIVÍDUO SER-SOCIAL Fig. como compensação. eles formam o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) do patrimônio coletivo . pelo planejamento central (D/2) e não pelo mercado competitivo (I/D). de outro lado. 2.o excedente ou capital .demanda global .s. o processos de decisão coletiva (I).(D). podendo ocorrer. j) Todas as culturas históricas têm sido castradoras dos indivíduos simplesmente porque . Para dar apenas um exemplo. a URSS apresentou a anomalia de inversão de dois de seus processos: de um lado.(I/D).s . por eleição (D/2). pelo violento mercado político (I/D) ao invés de sê-lo de modo paradigmático pelo cálculo. muitas espécies de distorções. nos tempos modernos. Ver figura 2. o processo de determinação do desejo coletivo (D) passou a ser feito através do cálculo. isto é.

No plano “especulativo” a nova cultura engendrará um novo saber (I/D/2) na seqüência das filosofias transcendentais (I) e dialéticas (I/D). vale dizer. Um indicador do efetivo engendramento do saber hiperdialético qüinqüitário está precisamente na sua capacidade de enfrentamento crítico direto da ciência. devemos lembrar. l) A grande interrogação que nos fica é aquela de . constituiu-se no momento ímpar do auto-desvelamento da cultura em sua essencialidade lógica (bastaria lembrar o episódio vétero-testamentário da adoração do bezerro de ouro!). coincide com um bem conhecido juízo freudiano. sem que o faça.66 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sempre abaixo da potencialidade lógica dos homens. verá inverter-se tal relação). tão dramática e cruenta quanto a passagem de pré-D a I. que ora pensa hegemonicamente o homem. não passará ainda de um derivativo ou um soporífero para as tribulações de um dia inteiro de submissão à lógica da dupla diferença. Estas subsunções implicam necessariamente reações. vale dizer. as mais encarniçadas serão as dos saberes da diferença (porque a lógica do inconsciente irá perder o governo da história da cultura. o que. aliás. como hoje sintomaticamente se vê por toda parte. mas não com a sua desesperança [19]. positivistas e fisicalistas que lhe são afins (D/2). que as estará subsumindo juntamente com o saber psicanalítico e as “anti-filosofias” da diferença que lhe são correlatas (D) e com o saber científico e as “anti-filosofias” empiristas. ainda bem mais. da história ainda restrita. A superação da Modernidade assinala o fim do sub-reptício predomínio histórico do inconsciente. Esta última. como história (I/D) da cultura (D). A passagem de D/2 a I/D/2 será. de I/D/2. do saber científico (porque este.j do item anterior A lógica ressuscitada) e. tendo-se em conta o seu caráter de matriz objetiva de todas as lógicas de base (ver itens n e o. deveras. inclusive figura 2.

4 . Com a ciência estão todos 2. sim. no âmago. ou seja. mas requer alguns esclarecimentos. além. passará direto à cultura I/D/2 que incorpora. de modo essencial.A situação e perspectivas brasileiras . de uma outra grave questão: aquela do sujeito da Modernidade ou. que poderíamos dizer acerca da situação brasileira atual e de suas perspectivas. Diante disto tudo. o encobrimento ou disfarce. O diagnóstico é em essência correto. tanto em relação à Modernidade quanto à nova cultura qüinqüitária? O cerne da problemática social do Brasil já foi por muitos bem diagnosticada [20]: a existência de uma certa incompatibilidade do seu processo de formação cultural com a Modernidade. o “espaço lógico” de onde há-de-vir(á) o Deus que nos poderá salvar. do sujeito da ciência. Eis aí.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 67 se o homem passará da cultura D/2 à cultura I/D/2 “pura”. regenerado. a nosso juízo. seu horizonte transcendente. vale dizer. que desde seus alvores possuiu uma agro-indústria exportadora significativa – tanto em termos de quantidade quanto de qualidade – antes mesmo de que se tivesse formado um verdadeiro mercado interno? Como. a um novo humanismo que o fará ídolo de si mesmo – tal como ocorreria com o hegelianismo e de fato ocorreu com o marxismo real dele derivado pela esquerda – ou se. fundamentais: a) Como se falar de incompatibilidade com a Modernidade no caso de uma nação que se inaugura com a própria Modernidade. mais precisamente. evitando esse grave pecado de soberba. que deixa acima de si mesma. num exasperado esforço de síntese. se começamos justamente pelo que se tem ainda hoje como o mais supimpa?! Toda discussão acerca da Modernidade é. nosso quadro referencial lógico ressuscitado e antropológico esperançoso.

Para nós brasileiros. em especial. embora achemos que não sabem até hoje bem o porquê. por uma Modernidade (D/2) já em processo de esgotamento e para a qual carecemos da necessária vocação his- . seja ele de fato. esteja ele ainda enrustido na linguagem. não está onde parece. naturalmente. da mesma família que D). todos.68 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de acordo: a direita. a aludida incompatibilidade não é nem poderia ser de modo algum com a Modernidade em seus aspectos objetivos. de um lado. contra o sujeito lógico I. os positivistas e os neopositivistas. a grande “diferença” de Macunaíma. os nacionalistas. desde que ela venha para fortalecer o sujeito coletivo. o futuro a Deus pertence. desde que ela venha ao serviço do sujeito romântico (se isso fosse garantido. Isto acontece. Nossa grande implicância está dirigida contra o sujeito de projeto (este último. de outro lado. como bem assinala Wisnik já citada na nota 20). contra o empresário schumpeteriano. desde que para pulverizá-las. Assim. como shall ou como will [21]. técnicos e burocráticos. e sim de tempo: decidir pelo curto prazo. Tudo porque não se trata de um problema de lugar – encontrar um lugar na Modernidade ou um modo de inserção num mundo “globalizado” –. b) O paradoxal que muitos aí enxergam. até Nietzsche e Heidegger amariam a ciência e não vituperariam as vicissitudes da técnica) e a esquerda. enfim. desde que ela venha para preservar fronteiras. em suma. vale dizer. mas sim em não estar em parte alguma. pela opção preferencial das elites [22]pelo sujeito absoluto enquanto representação do sujeito coletivo. em função do peso histórico dos jesuítas (I/D) sobre nosso sistema educacional [23]. ao contrário. o seu representante absoluto. científicos. em função do peso de sua herança cultural africana (pré-D. e os internacionalistas também. idem. o fazedor de futuros. pela opção preferencial (não exclusiva) do povão pelo sujeito libidinal.

sim. multidões percebendo os mais vis salários do mundo. poupança forçada que se esvai em pagamentos de juros sobre juros indecentes. injustiças. para a qual estaríamos já irrevogavelmente vocacionados? Em outras palavras. trememos e traímo-nos constantemente. pela cultura nova qüinqüitária (I/D/2). os negros vindos escravos da África para penar nos engenhos e nas lavras. é o verdadeiro Custo Brasil! Diante de tudo isto. mortes e mil outras tragédias que. (Ver figura 2. diante da responsabilidade em assumir nossa indelével destinação. caçados. os incontáveis mulatos. mas que acabaram encompridando e alargando em muito a base territorial da nação. entre nós brasileiros. violências. depois dizimados ou “reduzidos”. ainda hoje. não seria demais lembrar que os custos inevitáveis historicamente constatáveis para se erigir uma cultura são cerca de 500 a 600 anos de opressões. cafuzos e caboclos perdendo suas almas para legá-las à formação da alma brasileira. por todas as grandes cidades do país este. mas. sem falar nas legiões de crianças abandonadas e de idosos desvalidos.t) Para concluir. ainda permanecer na dúvida acerca da causa em que devemos a vera nos engajar por todos os meios e modos a nosso alcance?! Guardadas as de- . no caso do Brasil. de natureza eminentemente temporal. quem poderia. em que estamos a toda hora enredados. sofrimentos. os mamelucos enfurnados pelo sertão sofrendo e cometendo atrocidades. fazê-lo pelo longo prazo. ora pela inveja ou simples cobiça. já foram mais do que pagos – que o digam os índios. ora pela fé oficial. parece-nos. os cristãos-novos e judaizantes perseguidos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 69 tórico-cultural ou. não frente a um perigo objetivo. aliás bem cariocas: nossa escolha essencial é entre o luxo e a originalidade? Este é o nosso verdadeiro nó cego. mas que a rigor já não mais existe. no âmago. anos e anos a fio. tantos desterrados. sim. observaria o lúcido Caetano Veloso.

pela grande mídia. agindo com um pouco de molecagem que. quando conveniente. 2. a propósito.t . mas deixou rolar – e que. a seguir. por si se agigantaram e acabaram hoje perdendo toda qualificação através do processo de globalização da insensibilidade e do cinismo. não passaram de um ensaio bem canhestro. mais propício e não menos propiciatório de já irmos cozinhando e provando a nova cultura qüinqüitenária.Opções brasileiras: luxo ou originalidade vidas proporções. as lutas recentes contra o autoritarismo e a corrupção – que o primeiro não inventou. é o modo próprio. São estes processos de luta que precisamos sem pena abandonar ou rever.70 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Fig. com imaginação e coragem criar novos e levá-los realmente a sério. . viciado e sobretudo manipulado. o que para nós seria o mesmo. ou.

[1] Raimundo Lulio. A tese teria sido mesmo abandonada pelo próprio autor [3]. De modo geral. A diferença aparente dos desempenhos discursivos de uns e outros estaria na constância com que os primitivos se valem do processo de bricolage [5] simbólica. los de las otras ciencias más particulares. Segundo esta última.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 71 3 Acerca da lógica e da cultura La razón exige y reclama que exista una ciencia universal de todas as ciencias. dos povos modernos. trespassado pela emoção. adstrito à pura forma. o tema lógica versus cultura vem imediatamente referenciado a Lévy-Bruhl [2] e à sua tese da prevalência. nenhuma diferença haveria entre a lógica dos povos primitivos e aquela dos povos modernos. entre os antropólogos da atualidade. contrastando com o pensamento propriamente lógico acabado. porque não . Doctor Illuminatus in Ars magna et ultima. e não propriamente na lógica. mas de qualquer modo contestada pela antropologia estrutural de Lévi-Strauss [4]. de um pensamento ainda pré-lógico. Opinamos que isto deva ser repensado em profundidade. eivado de sentimentos.. primeiro. entre os povos primitivos.. y com pricipios universales en los que se hallen implícitos y contenidos como lo particular en lo universal.

já o demonstramos alhures [9]. cujas origens certamente se perdem nos tempos. Comecemos tomando como referência um esquema de compreensão evolutivo do ser humano.72 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO aceitarmos esta separação drástica ali implícita entre o lógico e o simbólico (simplesmente porque existe a questão do estatuto lógico do próprio simbólico). mas em flagrante desacordo com o melhor da tradição filosófica. aquele do pensamento filosófico estrito senso. naturalmente. agora dito com bem maior cuidado. pois. Nosso objetivo aqui é voltar à questão para discutila num âmbito maior e certamente mais apropriado. levando então à emergência do homem e consequentemente da cul- . No Brasil. lógica ressuscitada versus cultura não é aqui. e no entanto paradoxalmente imprecisa. apenas com a agravante da rigidez própria dos copistas e dos pobres de espírito [6]. porque parece-nos estar ali também implícita uma concepção restrita. Paralelamente estaremos superiormente armados com uma renovada concepção da lógica [8] que resgata não apenas a riqueza da tradição. a mesma lógica que. um mero oportuno acadêmico. depois a acompanha e lhe marca passo. do que seria a lógica. como também sua marginália histórica. tudo isto convergindo para a demarcação precisa e o completo re-mapeamento do território lógico. diga-se de passagem. destarte.representada pelo animalidade em seu estado de máximo desenvolvimento -. A reabertura da questão lógica versus cultura ou. da antropologia filosófica) estaria precisamente a questão da mutação lógica que levou ao advento da cultura. a qual se vem juntar uma diferença específica. ela se faz necessária em razão de que. nos irá remeter à velha Grécia [7]. no cerne da filosofia da cultura (ou o que para nós é o mesmo. Parte-se da natureza . segundo. o que. em acordo com a moda atual. não nos deve causar espanto. vige esta mesma referenciação.

Observe-se que o poder de por si e propositadamente movimentar-se é. além destas. que o logos aristotélico não era mais o logos heraclítico. no próprio Aristóteles. ainda não degenerado em logos metafísico. não importa se transcendental. Entre os gregos este esquema bastante simples já vigorava de um modo preciso: o ponto de partida era então a animalidade superior à qual se agregava como diferença específica o logos ou a razão discursiva e chegava-se assim ao homem. de evidente caráter lógico-transcendental ou identitário (I). detinha a mais e com exclusividade a função intelectiva. o logos originário.1). a animalidade superior incorporava não apenas as funções vegetativas – de nutrição e de reprodução – como também as funções sensitivas – compreendendo os diversos modos sensoriais. a que se acrescia a autonomia locomotora.1 – O homem grego Segundo Aristóteles. isto pouco pesa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 73 tura. (ver figura 3. dialético ou formal. um poder de auto-determinação. o modo como ele acabaria se mostrando. como provavelmente o faria Heidegger [11]. CAPACIDADE DE MOVIMENTO AUTÔNOMO CULTURA HOMEM CAPACIDADE DE PENSAR ANALÍTICA Figura 3. O ser humano. a posse da razão discursiva (logos) [10]. precisamente. logo. pois . sendo este último. Pode-se argumentar. do ponto de vista formal. Na circunstância. entretanto. já sem seu maior vigor. O homem era pois o animal superior onde ademais habitava o logos. animal racional.

potencializa e/ou amplia. Primeiro. por si só. Em termos estritamente lógicos. duas sérias objeções. o que fazia ser a humanidade era algo de natureza essencialmente lógica. pelo moderno estruturalismo antropológico. para desta sorte ampliálas ou multiplicá-las. mas sim pelo que. conquanto. fica o fato que. de fato. articulando-se. inconveniente que viria ser justamente contornado.74 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO opte-se por uma ou por outra interpretação. A nosso ver a diferença especificamente humana não pode valer pelo que traz em si. para os gregos. mormente quando já se tem por estabelecido que os animais superiores dispõem de uma capacidade sintética ou identitária inquestionavelmente manifesta em sua auto-determinação locomotriz. porque ao admiti-lo estamos implicitamente diluindo o caráter evolutivo da passagem considerada – o novo. mais precisamente. sejamos obrigados – depois de Heidegger – a deixar em aberto a questão do logos cosiderado: se o simples lógico-diferencial (Heráclito) [12] ou se o duplamente diferencial ou formal (Aristóteles). lógico-diferencial ou analítica. O essencialismo grego suscita. veremos adiante. dir-se-ia que para . Segundo. Dito em outras palavras: a razão grega valia por si e não como produto resultante de um poder diferencial que se vinha articular à outros poderes ou potencialidades operatórias similares pré-existentes. porque a “razão”. é e diz tudo. a principal crítica à concepção grega do homem deve incidir sobre o caráter tipicamente agregativo/substantivo dado à razão (ou logos). tal como anteriormente assinalado [13]. no sentido de que ela ali funciona como uma “essência” constitutiva e não como um atributo superveniente. não pode caracterizar o ser humano em sua totalidade ou “maximalidade”. Do nosso ponto de vista. Isto interpõe um degrau exagerado de descontinuidade entre o animal e o homem. como capacidade analítica que realmente é.

atribui-se um caráter puramente identitário (I) à diferença que fez ser o homem. Com Platão chegava-se. de fato. ainda que entendida metaforicamente. como se lê em seu diálogo Parmênides [14]. res extensa (D). embora conferindo uma especial dignidade ao homem. Entrementes. como reza o Gênesis. sendo o animal superior pelo menos lógico-identitário (I) e a razão pelo menos lógico-diferencial (D). seja pelo atributo da semelhança ao Criador. que se confunde com o pensar da identidade recuperada para além da diferença. ou seja. no caso. O cristianismo trinitário. pois a dialética (própria e apta a pensar a idéia ou o conceito) era algo inerente ao próprio destino do pensamento grego. sob o aspecto formal. mas pela inexorável exigência (lógica) da história (hiperdialética) em seu processo de auto-realização [15]. portanto lógico-dialético (I/D). um criacionismo paralelo de todos os entes. parte-se da matéria inerte ou da animalidade bruta ou carnal. pervertendo-o do ponto de vista lógico. seja pela posição última na ordem da Criação. àquilo que concretiza a passagem da . a criação do homem a partir do barro (natureza ou apenas res extensa) preserva. o parecer nietzscheano e reiterado por Heidegger que Platão teria traído o espírito filosófico grego é uma reprimenda completamente descabida. Foi precisamente a esta conclusão que chegou Platão – é verdade que por motivações e caminhos outros –. de outro lado. no entanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 75 os gregos. algo que a ele em algum momento se desvelaria decretando – tem-se até o direito de lamentá-lo! – a sua própria superação. A propósito. também da história da cultura). recusou a essência evolutiva do esquema grego e assumiu. o ser humano teria que ser pelo menos lógico-dialético (I/D). o esquema compreensivo que vimos tomando por referência. De um lado. ao termo de uma etapa da história do pensamento (e. o que acontecia não por força de uma infidelidade ou de uma traição.

D) e alma (imaterial e eterna. matéria perecível. Ao cabo. pura consciência. livre arbítrio. Seguindo seu antecedente judaico. com a completa inversão das lógicas em jogo: aquela de partida era agora diferencial (D) e a nova.2 – O homem cristão O mais espantoso nisto tudo é que o pensamento antropológico cristão não se apercebia da absurdidade da inversão. NATUREZA BARRO/CORPO CULTURA HOMEM: CORPO E ALMA SOPRO ALMA Figura 3. a passagem do animal ao homem não se devia mais. a algo de ordem lógico-diferencial. No entretanto. como para os gregos. liberdade. mas sim de ordem lógico-identitária sopro. Assim. interveniente. tudo isto era sem dúvida o que poderia haver de mais coerente com o estatuto lógico-trinitário (I/D) da cultura cristã – a dignidade do homem se devia à interveniência da alma (I) pertencente à mesma família lógica (lógico-identitária) a que pertencia o próprio ser divino (I/D). porém. o cristianismo realiza a proeza de transformar a diferença que fazia a diferença numa identidade. isto significava um evidente retrocesso relativamente ao que haviam pensado os gregos. que negando consciên- . lógico-diferencial. consciência moral. conservavam o mesmo esquema conceitual dos gregos.76 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO natureza à cultura. Como se vê. transcendental ou identitária (I). Aliás. alma. o homem passava a ser concebido como um misto heteróclito de corpo (natureza.. espírito (mesmo que decaído) etc.2). Só assim se justificava a semelhança do homem ao seu Criador. I) (ver figura 3. lógico-identitária.

Em suma. depois. lógico- . de muçulmanos e judeus. acabou mesmo acontecendo. o inorgânico e o orgânico. É exatamente por isso que Descartes. acabou considerado. concomitantemente res extensa e res cogitans. a princípio. entre o animal e o homem [16]. sabemos todos. demolindo as tradicionais diferenças entre o nada e a matéria. entretanto. a circunstância de se tratar agora de uma res extensa submetida aos poderes de uma geometria métrica. é levado ao reconhecimento do outro (cultural) como um igual. porém. O Iluminismo continental [17] dos séculos XVII e XVIII. enfim. parecia preservar a concepção cristã: em Descartes. no caso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 77 cia ou capacidade lógico-sintética aos animais superiores abria uma brecha para que daí a pouco os interesses coloniais levantassem também duvidas quanto à humanidade dos não-europeus cristãos. A Modernidade. apesar de ainda carregar tantos vezos medievais. Havia. auto-transparência. em particular. ambas se mantinham idênticas em seu estatuto lógico. o macro-molecular e o vivo. pura reflexividade (I). enquanto que a res cogitans se constituía como lógico-identitária. de índios e negros africanos. a ciência lançava-se à tarefa de homogeneização de todas as coisas. mas não altera o estatuto lógico-transcendental do ser próprio de todos os homens (a especificidade humana não estava mais na alma-substantiva. portanto sob o império da lógica da dupla diferença (D/D). com plena justiça e de modo quase unânime. Instalada irreversivelmente a Modernidade. provocado pelo ciclo dos grandes “descobrimentos” e colonizações. infelizmente. sua “espessura” lógica se ampliara fazendo explodir a estreiteza referencial da dialética cristã (I/D). o homem cartesiano não podia ser mais concebido como um ser lógico-trinitário. o homem se estruturava ainda como misto de corpo e alma. mas na liberdade-operativa. o primeiro filósofo da Modernidade. E isto.

uma espécie de anglosaxão retardado e muitos degraus abaixo.78 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transcendental). uma nova maneira de fazer prosperar o cientificismo antropológico sem os inconvenientes do etnocentrismo desabusado e ostensivo do evolucionismo cultural darwinista. não possuía a “espessura lógica” suficiente para acomodar (ou poder compreender) a dupla diferença (D/D). europeus. estávamos nós. e o latino. se pode conceber como uma espécie de neoliberalismo antropológico). Com isso começava de fato uma nova era na antropologia. herdeiro da dialética hegeliana (I/D). Surge então a antropologia funcionalista. como é próprio de todo cientificismo. posto que assim rompia-se com a concepção cristã que via na passagem do animal ao homem a intervenção de algo da ordem da identidade. interpondo entre o animal superior e o homem. por retroação. desenvolvia-se o marxismo. busca estabelecer a continuidade (ou a indiferença) entre natureza e cultura: o primitivo era um macaco evoluído. A essência lógica do trabalho é a diferença. Paralelamente. como no fundo da alma. não pode ir muito mais longe em razão de que. pois trabalho é precisamente o esforço que visa a outra coisa que ele próprio [18]. entretanto. a que devemos o primeiro passo efetivo para a refundação da antropologia moderna. a . na medida em que ele rompe abertamente com o inconsistente transcendentalismo cristão. (I). não mais a alma ou algo equivalente. Em nada surpreende que deixassem de lado exatamente a problemática existencial e histórica da cultura. como a liberdade. Chegamos então à teoria da evolução de Darwin (que hoje. naturalmente. Nas proximidades ainda do macaco. argentinos e a “elite” brasileira no poder continuam firmemente a crer até hoje). O marxismo. mas o trabalho (D). que. brasileiros miscigenados (aliás.

com a figura de Lévy-Bruhl [20]. É evidente. se os primitivos tinham alma. Voltando à tradição propriamente antropológica acadêmica. entre os povos primitivos. Perdoe-nos o leitor uma digressão relativamente longa acerca das origens da noção de pré-lógico em Lévy-Bruhl. não o faz no sentido de que fossem destituídos de lógica (o que seria mesmo um absurdo. no caso. ele renova radicalmente a indagação antropológica: ao invés de perguntar como se fizeram os jesuítas. lógica que diferiria (o que não quer dizer que se opusesse ou negasse) da lógica formal hegemônica do Ocidente. pelo menos. pergunta se eles tinham lógica (clássica). agora sim. Além de pugnar por um posicionamento mais “empático” do antropólogo em relação às cultura primitivas transformada em objeto” de estudo. de um pensar por analogias e proximidades significativamente carregado de sentimentos e emoções. Quando este faz uso desta expressão para caracterizar o pensamento dos povos primitivos. mas como usuários de uma outra lógica. pois destituído de lógica é sinônimo de destituído de pensamento). razão pela qual ele pode ser com justiça considerado um dos fundadores da antropologia moderna. que afirmava a prevalência. a Théodule Ribot (psicólogo francês conhecedor e apreciador sob muitos aspectos da psicanálise freudiana [21]. Com ele um grande passo é dado em direção de uma nova antropologia. tratava-se de uma lógica onde sentimentos e emoções ainda tinham um grande peso no processo de produção da “verdade inferida”. Esta concepção remontava.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 79 lógica da ciência que à época já se apresentava como o traço fundamental da Modernidade [19]. que a pergunta por si valia imensamente mais do que a resposta que se lhe viesse dar. já no início do século XX deparamonos. Esta noção de pensamento pré-lógico em Lévy- . Logique des sentiments é mesmo o título de sua principal obra) [22].

80 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Bruhl aqui no Brasil originou uma predisposição cheia de veneno e má fé. busca-se então a diferença humana já universalmente operante que vai ser identificada como a diferença clânica. ainda que bem tardia. Em suma. assume-se que em qualquer circunstância o verdadeiro objeto científico é o ser-sincrônico e não o especulativo vir-a-ser-diacrônico – uma reação. de Freud. Em suma. que. O principal mérito de Lévy-Bruhl. Pasmem: lendo o livro de Ribot. é um declarado admirador da obra de LévyBruhl e bem informado sobre suas fontes. contraface . sobre a logique du sentiment de Ribot [23]. é inquestionavelmente óbvio que o termo pré-lógico em Arthur Ramos. pois é justamente ela que tem servido de pretexto para desmerecer a obra de um dos mais importantes estudiosos da formação da cultura brasileira – Arthur Ramos –. facilmente identificamos sua lógica como aquela dos processos primários freudianos. na fonologia diferencial de Jackobson e sobretudo na teoria do inconsciente. foi trazer novamente a questão da cultura para o âmbito da lógica tal como ela fora posta originalmente pelos gregos. Eis que na segunda metade do século XX emerge a antropologia estrutural. na lingüística sincrônica de Saussure. mas sujeito à lógica do sentimento. e de outro. inspirada. particularmente. em Rousseau e no materialismo dialético marxista (anti-transcendental). ao “totalitarismo” hegeliano! No âmbito da cultura. afirmávamos. de um lado. bastante próxima pois da ulterior lógica lacaniana do significante [24]. não quer dizer destituído de lógica. sabemos. tanto quanto em LévyBruhl e Ribot. pré-condição da instituição do que seria a lei convencional por excelência: a lei de proibição do incesto. Nestes três últimos casos há de comum o abandono da indagação pela origem ou pelo ser (como vir-a-ser) para se tomar como “objeto” próprio do saber a diferença já instaurada.

emerge aqui uma importante novidade: é que tal diferença não mais valia por si. Entrementes. a importante contribuição lacaniana à compreensão da sexualidade humana tem como antecedente o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss e isto só pode ser devidamente compreendido e apreciado se. levarmos em conta que tal aproximação tem como pano de fundo a lógica. agora. A troca das mulheres entre homens assim sub-agrupados se constituía no paradigma de todas as demais trocas e por conseqüência da solidariedade social.3 . bem ao contrário do que nos queria fazer acreditar o cristianismo doutrinário.A diferença clânica no estruturalismo Como é bem sabido. DIFERENÇA SEXUAL MACHO/FÊMEA DUPLA DIFERENÇA MATEMAS DA "SEXUAÇÃO" MASCULINO/FEMININO PRIMEIRA DIFERENÇA DUPLA DIFERENÇA DIFERENÇA CLÂNICA SEGUNDA DIFERENÇA Fig. Ver figura 3. Não é pois mero acaso que a “sexuação” humana em Lacan viesse encontrar sua melhor expressão nos famigerados matemas.3. . justamente. ou seja. Desta forma. Como conseqüência imediata. a sexualidade humana se via compelida à redefinição. mas vinha para se articular à diferença sexual animal bi-polar macho/fêmea. Com isto instituíase a circulação das mulheres entre os homens reunidos em clãs. na verdade. no quadro mais amplo de uma estrutura lógica tetrapolar. deixava a simples pela dupla diferença. retornava-se em definitivo a um dos aspectos fundamentais da concepção grega: a passagem do animal ao homem devia-se a um poder diferencial e não identitário. 3.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 81 da obrigatoriedade da exogamia. expressões não apenas de fisionomia.

podemos redesenhar o quadrado tomando quaisquer duas relações para formar os lados do quadrado. ficando a terceira automaticamente definida pelas duas diagonais. Devemos aqui abrir um parêntese. pode ser representada por um quadrado. Porém. de essência realmente lógicas [25].4. diríamos que. sem dúvida. Ver figura 3. Como as três relações são equivalentes (ou quase). mas muito bem articuladas entre si [26]. o estruturalismo representa um grande avanço em relação ao pensamento antropológico grego. sobretudo. pena. o par esquerda (c)/direita (d). O primeiro deles refere-se ao “logicismo” grego: no . consangüinidade e filiação? Não é muito difícil demonstrar que a dupla diferença é o bastante para a definição das referidas relações. que estas não são relações isoladas. a c e b f d a c f e d b e a d c b f Figura 3. Agora fica evidente que podemos formar um terceiro par com os termos diagonais do quadrado (e/f).82 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas.4 . entretanto. A dupla diferença. mas. Alguém. de fato.Duas diferenças e três relações Voltando à nossa linha de raciocínio. que viesse acompanhado de dois outros grandes retrocessos. poderia estranhar nossa insistência na necessidade e mais ainda na suficiência da dupla diferença para a caracterização daquilo que é essencial e propriamente humano. por exemplo. no simples átomo do parentesco não estariam implicadas tão apenas duas. familiarizado com a doutrina estruturalista. três relações fundamentais – aliança. uma diferença ilustrando o par em cima (a)/em baixo (b) e a outra.

tanto a diferença sexual de partida quanto a segunda diferença clânica valem por si. O segundo retrocesso em relação aos gregos refere-se ao “esquecimento” do caráter lógico-identitário dos animais superiores. em que pese a denominação geral de estruturalismo antropológico dado a esta corrente de pensamento. pensá-la apenas no âmbito da res extensa. ele é macho que se assume macho. que pode também realizar-se sob outros aspectos. facilmente constatamos sua radical incapacidade em relação à articulação gramatical (D/D). por mais significativo que seja o “modelo sexual”. mesmo já biologicamente marcado. são “substanciais e não apenas realizações de uma matriz essencialmente formal. Para ficarmos apenas num exemplo: a passagem da capacidade de operação simbólica (I/D) dos animais superiores à capacidade simbólico-discursiva (I/D/D) – proposicional no dizer de Cassirer [28] – do homem exige igualmente a introdução de uma segunda diferença. o mesmo se dando com a fêmea.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 83 estruturalismo. especificamente dos cordados. uma gramática. sua capacidade de operar dialeticamente (I/D) [30]. são ambas leis societárias convencionais. Queremos dizer que. ele é tão apenas uma realização possível de um esquema lógico. percebe-se isso ainda com maior clareza. Passando-se do registro sexual ao simbólico. isto não passa de uma simplificação. Entretanto. De fato. Podemos considerar macho/fêmea como realizações de uma diferença D. formalmente. pois o animal. Ao mesmo tempo. a gramática é uma estrutura legal convencional necessariamente sujeita à lógica da dupla diferença D/D [29]. como deveras o faz [27]. A lei da proibição do incesto é. pois é inegável o poder de simbolização arbitrária dos animais superiores. que está presente mesmo no registro sexual. Negar isto é não con- . ou seja. identifica-se ou assume sua determinação sexual: ele não é apenas macho.

que permite a definição de regras de proibição de incesto paralelamente à imposição da exogamia. teríamos que recuperar o que o estruturalismo desaprendeu dos gregos. lógico-qüinqüitário ou hiperdialético (I/D/D). na verdade. seu estatuto lógico global tem que ser. já a posteriori articulada. na condição de ele vir para se compor com poderes e potencialidades operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo reproduzi-las em nível operatório superior. bastaria dizer que o animal superior (cordados) opera a nível lógico dialético trinitário (I/D) e o homem a nível lógico hiperdialético qüinqüitário (I/D/D) (ver figura 3. o homem se capacita a operar a nível duplamente lógico diferencial (racionalmente).privilegiado. Voltando aos gregos. poderíamos agora aceitar que o logos constituísse a diferença especificamente humana. Do ponto de vista instrumental. . como razão formal aristotélica (D/D). Em compensação. Com efeito. o homem é. porém. ser racional. o fato é que. existencial ou subjetivamente. e fazendo-o sem prejuízo do seu ser sintético. A diferença clânica. sem dúvida. a rigor. “duplicandoa” ou reiterando-a.84 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO seguir distinguir a enorme diferença entre os pares porca/porco e porca/parafuso. o logos estaria assim ampliando a capacidade lógico-analítica dos seres vivos. ou objetivamente operatório. seria um dentre muitos modos possíveis de manifestação . Para nós. é verdade . Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. porém. portanto. no concomitante exercício de sua capacidade lógicoidentitária herdada da animalidade superior.daquela produção “genea-lógica”.5). habitado pelo logos.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 85 I/D D I/D/D Figura 3. nossa referência de partida.6. Incoerente seria que o fizessem ao contrário ou mesmo indiferentemente! Seria interessante compararmos agora a antropologia aristotélica. da natureza à cultura. concebê-lo como síntese de I/D e D não seria assumir um parti-pris complementar feminista?! I D/D I/D/D I/D D I/D/D Figura 3. que poderíamos denominar pósestruturarista (concepção estruturalista à qual restituímos a identidade perdida). Ver figura 3. Do mesmo modo as culturas lógico diferenciais (pagãs. Em princípio. com aquela de chegada. pareceria que a segunda é um simples complemento da primeira: conceber. como Aristóteles.6 – Concepções masculina e feminina . o homem como síntese de I e D/D é de certo modo assumir um parti-pris machista [31].5 – O homem lógico-qúinqüitário Não é de admirar que culturas identitárias (judaico-critãs) atribuam à intervenção de uma identidade como sendo a razão de passagem da animalidade ao homem. grega e moderna) atribuirão aquela passagem a uma diferença.

E. Ora. uma seqüência aberta. a diferença clânica. pelo menos do ponto de vista especulativo. Natureza e cultura se opõem. concomitantemente. Existiria. ganha então uma resposta bem precisa: a passagem da natureza . em termos antropológicos. sim. Não rebaixamos a lógica do animal de I/D para I.86 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Parece-nos que não. apenas superficial. sim. logo. natureza?) [32]. ou seja. segue com a natureza. pressupõe deveras uma certa sensibilidade para o ser-feminino. fica por aí evidente quão equivocado é o costume corrente de contrapor natureza e cultura de maneira meramente especular. inclusive com ajuda da figura 3. que é. no entanto. de estofo lógico dialética (I/D) e chega à cultura. de estofo lógico transcendental (I). A nossa concepção é definitivamente não-machista. capazes portanto de operar com símbolos convencionais (I/D) . A seqüência começa com o ser. mas como termos de uma seqüência.7. Voltaremos ao assunto um pouco mais adiante. não perdemos a precisão lógica da diferença que faz a diferença animal/homem e tornamos bem mais compreensível a incomensurável força do logos no homem. como mostra a figura 3. ela permanece.7. A prestigiosa razão suficiente leibniziana que busca responder à questão ontológica (no caso: porque existe a cultura e não tão apenas nada de cultura.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) -. mas a ela não se reduz. logos de certo modo herdado e logos ao quadrado. Gostaríamos ainda de chamar a atenção para o fato de que o esclarecimento da relação lógica versus cultura provoca uma reviravolta da velha querela acerca das relações entre natureza e cultura. aqui uma simetria. guardando um iniludível relacionamento hierárquico. Esta abertura é essencial para que o homem possa se . de estofo lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2).representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados).

7 – Natureza versus cultura É importante notar que o estatuto dialético da natureza só é alcançado ao nível dos animais cordados capazes de operar com símbolos convencionais. sem. ou seja. ou seja. E escapamos também assim dos humanismos de qualquer espécie. Ela só nos parece de nível superior por efeito da atividade humana de mensuração. . I/D/ 2 I/D I Cultura Natureza Ser Figura 3. ou seja. entretanto. A natureza enquanto mundo físico. sem que se pense porque se pôde deveras chegar a pensar nisso. por isto se tomar por Absoluto. pode então permanecer como ainda legítima. na verdade não passaria do estatuto lógico diferencial (res extensa). como pergunta pelo Absoluto. de fazê-la geométrica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 87 posicionar de fato no ápice da escala dos entes mundanos. Concluiríamos afirmando que não há como pensar a filosofia da cultura. a “diferença” ontológica homem/natureza ou cultura/natureza sem o concurso da lógica. A religiosidade.

O povo judeu. inventando as vogais. Os gregos. ao tentarem viver mais além. sua escrita mais suas criptas funerárias. e ainda honrar profetas bem mais do que quadros sacerdotais. os vencedores. fingimento e superação na história da cultura Os povos caçadores/coletores viveram porque ignoraram sua lógica e assim tiveram o que comer. . inventam as consoantes e assim a escola. e ainda nos deram de quebra o logos e a poesia trágica exorbitante. soube se libertar do bezerro de ouro e pode legar a lógica em pessoa (Eu sou o que sou). por freqüentar o deserto e o cativeiro. Dispondo da dialética platônica pode o Medievo reanimar o Corpus Christi. assentados. a agricultura a sustentá-los. o gosto da guerra e legaram. tiveram que inventar os mitos que os inventassem. Os homens do neolítico. afora sua triste lembrança. mil anos depois fazer levitar catedrais góticas inteiras e por fim legar museus repletos de arte sacra e em cima o presente Papa. Dordonha e Chauvet. Altamira. donde a paidéia e a pergunta pelo ser (sem a responder). legaram a arte na e pela pedra em Lascaux. A Modernidade pariu as “tecnologias” financeiras que transformam tempo em dinheiro tão eficientemente que não sobrou nenhum para criar e poder legar nada que prestasse.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 89 4 Desejo.

que agora só mesmo um deus pode vir salvar-nos. Como conseguir ser subversivo na era em que o filósofo e filólogo virtuoso comete muitos acertos. deixando de herança seu lugar ao longínquo poeta (grego)? Ainda anuncia. na melhor das hipóteses. o que se pode é bem dizer a insignificância que se vive. e porque também alguns erros (graves. Já se reparou que tudo tendo seu preço. na Modernidade que virou a própria pós-modernidade? Na era em que nada mais escapa à suprema medida . pelo menos na atual circunstância. enquanto espera por si. que é . terapeutas pela palavra assumidos. zombeteiro. os futuros e junto todas as liberdades? Agora. é verdade).seu preço arbitrado pelo mercado expresso num código de barras? Nada há mais para acontecer senão negociar. Como conseguir. negociar. só na TV você decide! Como conseguir ser subversivo na era do marketing. e com isso foi-se à breca a temporalidade. o Nada não é mais nada. no círculo de aço-cromo-níquel da prostituição generalizada. não há cura. pelo menos um pouco de ar para que o pensar não sufoque e sucumba. a mega-indústria do inconsciente. se demite. os artesãos do que é outro. que veio para se apossar no atacado de todos os corações e imaginários? Enquanto isso. concluem que. negociar-se. senão a subversão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 91 Antes de mais nada Como conseguir ser subversivo naquela que se anuncia a era de todas as eras. corpo e alma.

em princípio. de um lado. Aliás. mas. formal ou da dupla diferença (D/D=D/2). Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) governa. a esperança? Em Noções de antropo-logia [1]. pela dissimetria de suas relações lógicas de determinação e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo-se a história da cultura como um processo de auto-desvelamento do próprio ser do homem. entre eles. o poderá deveras salvar? Falando com bastante simplicidade. de natureza hiperdialética (I/D/D = I/D/2). mas a “razão” humana iria mais além. a fenomenologia do espírito de Hegel. Perguntamo-nos já naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização . ao menos. Os animais cordados (dotados de sistema nervoso central) atuariam no nível lógico dialético. entre muitas outras coisas próprias aos homens. de outro. da diferença (D). Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). como conseguir re-haver. caracterizamos o homem como o ente capacitado a operar no nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário [2]. tomando-se por termo de comparação.92 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO quem. dialética (I/D) e clássica. pela variabilidade temporal do vigor criativo das culturas.com a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. algo ainda mais complexo. válida para todos os homens em todos os tempos e lugares . como poderia a nível hiperdialético qüinqüitário ser diferente? É uma simples questão de consistência 4. operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I) [3]. ainda que em nome de Deus.Considerações introdutórias . atestada de muitos modos. a dialética trinitária.1. o poder de discurso em sua dimensão plena [4].

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 93 ou até de simplória regra de três! Toda cultura teria. . Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. cultura judaica. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo ou.1): pré-I. Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas [7]. e focalizando apenas o Ocidente e o Oriente Próximo [8]. cultura sedentária de base agrária. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. pré-D. clássica ou formal D/D = D/2 e a própria I/D/D = I/D/2). ambas naturalmente referidas à Natureza. a seguir. I. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. e que lhe confere. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [6]. um essencial e particular comprometimento lógico [5]. Resumidamente. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento serão denominados culturas nodais. inclusive. assim. da diferença D. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais (ver figura 4. dialética I/D. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D). representativamente lógico na direção daquele desvelamento. cultura tribal. melhor.

que só se pode manter porque os próprios fatos insistem em não desmenti-la. Por certo há que se exigir mais. quanto de suas indefectíveis alas esquerda e direita). já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos).94 CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D/ CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA 2 CULTURA MODERNA CÍNICA I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURAS LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES Pré-I Figura 4. pela primeira vez. cultura moderna de base científica. sobretudo. I/D. I/D/2. A tese uma cultura. até muito mais. cultura prometéica grega. As culturas nodais D. cultura hiperdialética qüinqüitária. uma cultura à medida exata do homem. diríamos: em especial. por todos os títulos. D/2.1. uma lógica é obviamente uma desmedida simplificação. ainda por vir. mais precisões e. porque. e. que hoje domina o mundo. mais numerosas e profundas incursões . não castradora. para a tristeza e incômodo de todos os ideólogos e crentes da vida eterna da Modernidade (tanto do paradigma anglo-saxão. cultura medieval cristã (patrística). uma manifesta síntese das culturas anteriores.

numa artimanha defensiva. Esta mudança. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. Em outras palavras. Agora. precisou ser feita preservando-se o postulado da igualdade de todos os homens. toda cultura de algum modo dá testemunho de outras lógicas. ora clandestinos. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. com aquela que a todas elas subsume (a hiperdialética qüinqüitária que caracteriza essencialmente o homem. Uma cultura e três lógicas . correspondente à cultura que a irá suceder . que ajudem a avaliar a potência e traçar os limites de validade desta concepção. Cada cultura tinha já sua lógica de referência era essa nossa tese anterior [9]. porém. entretanto. em que pese seu parti pris lógico. fingir que não mais é o que é e. com cada uma das demais lógicas mundanas. como até agora. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda e da qual.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 95 especulativas. uma cultura. a segunda. não discordamos). uma lógica. três lógicas. São vínculos ora claros e assumidos. como se verá. Nossa tese central aqui não será mais. é óbvio. por coerência. já foi assinalado. o seu próprio futuro que resolveu madrugar. vale dizer. correspondente à cultura que a antecedeu . ela fica necessariamente associada a mais outras duas lógicas: a primeira.2. 4. Neste sentido é que vamos aqui tentar explorar ainda um pouco mais este veio dos determinantes lógicos da cultura. algumas de alto risco. intentará simular ser. inclusive. fonte de seu vigor criativo -. Tentemos melhor esclarecer. sim.que determina o seu ser desejante.que determina o que ela. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura.

bastaria pinçar alguns exemplos em meio à profusão de manifestações arquetípicas encontráveis nas culturas históricas: lógica da identidade I . triângulos. o ponto. o vermelho.o número 1. a terra e o touro. por suposto. a estrela socialista. lógica da diferença D . as figuras especulares. o fogo e o leão. seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. triângulos de círculos ou nós borromeanos. os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. com a lógica da cultura que lhe antecedeu .lógica que teve que ser superada (ou recalcada). b) de outro lado.o número 3. seu permanente pesadelo . e que por vezes “retorna” ou se revolta como num sonho -.96 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para convencer-nos.o número 4. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? Por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas: a) de um lado. mas que de algum modo permanece subsumida. lógica formal D/2 . o branco. lógica dialética I/D . os quadriláteros em geral e as cruzes. procede a real ameaça à sua domi- . o azul. Dentro desse quadro geral. lógica hiperdialética I/D/2 . o negro. a água e a serpente em hélice ou distendida. o ar e a águia. com a lógica da cultura que lhe sucederá. os gêmeos.de onde. as pirâmides de base quadrada. a serpente que se devora pelo rabo (o ser-um como resultado do colapso de uma diferença).o número 2.o número 5. o círculo. o segmento de reta. o homem e a quinta-essência. para que ela pudesse advir em seu lugar. mandalas [10] de toda sorte.

de modo mais ou menos claro. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. através de um processo de reiteradas substituições. 97 Do ponto de vista lógico. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou marginalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. conhecimentos. o que. por suposto. perde-se o objeto que fora antes o mais digno e próprio de ser pensado. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE nação de época. Desde sempre. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 4. na verdade. afinal. o desejo da cultura [11]. Tenta-se então recuperar este objeto perdido captando-o ou “ vestindo-o” com a nova lógica. como as culturas. é uma impossibilidade. (Ver figura 4. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. ou seja. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que ela de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural ou. técnicas e múltiplas artes. Isto nos faz compreender. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. o que se pode. pelo menos. Com isto. não se pode simplesmente apagá-la. instituições. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e bem exercida. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico-emocional dos indivíduos.2) . é de algum modo silenciá-la ou recalcá-la.2) Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural.

onde uma mixórdia de estilos incluído aí o próprio velho moderno . para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação . pela calúnia. Toda cultura.98 CULTURA POR VIR LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pseudo auto-superação CULTURA DE REFERÊNCIA FINGIMENTO Fim da simulação usurpadora SUPERAÇÃO Lógica poster. por exemplo) -. simula ou finge ser o que ainda virá. mas que ao final é o que a empurra para a frente. finge tão completamente que chega a fingir que é pós-moderno o moderno que deveras jamais deixou nem pode por si largar de ser. como de seus piores feitos. Modelo lógico Um exemplo salta de imediato à vista: a insistência dos ideólogos da Modernidade.pela violência em resposta ou preventiva (como a degola dos recém-nascidos). Toda cultura teria pois uma disposição desejante. tanto de suas excelsas realizações. Lógica de refer. logo no momento em que esta passa por uma de suas crises mais agudas.metaforiza a chegada de uma nova cultura que a todas estaria subsumindo. tentando convencer-nos de que o mundo já entrou na pós-modernidade. CULTURA ANTERIOR RECALCADA DESEJO Figura 4. que é seu verdadeiro motor imanente. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. e que a dissimulação aqui .2. é o melhor que poderia mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. Lógica anter. que. pelas ideologias. hoje. convenhamos. Este estratagema fica ainda mais visível na arquitetura dita pós-moderna.

A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (no caso. só que a di- .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 99 aludida é apenas um dentre eles. simulando se sobre-viver. precisamente em seu fingimento. O golpe fatal sobre qualquer cultura. só que ao seu jeito. as conquistas “materiais” da cultura lógicodiferencial em processo de superação (D/n)). ameaçadores. Mas afinal. ela já percebe delineados em seu horizonte. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. Tendo-se por referência apenas as culturas lógico-diferenciais [12]. as culturas são como todos nós . e que de maneira inexorável irá confrontá-la. quem pode ser condenado por tentar sobreviver. pelo abandono de uma identidade ab initio perdida (I/D/n-1) em favor de uma identidade prospectiva (I/D/n) situada além da diferença (D/n) específica que ela por definição encarna. todas o pressentem sem engano possível. sem que isto implique conotações organicistas descabidas. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua. também não se pode ter dúvidas. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. pode-se perceber que o movimento de sua superação se dá. No entanto. como não poderia mesmo deixar de ser. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. E quando isto acontecer.lutam para viver. mesmo certo de como e de que mal vai morrer?! Neste particular. pois. um radical comprometimento lógico-identitário (I/D/n-1)) com uma mui corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (no caso. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. formalmente. O mesmo esquema geral contínua válido no caso das culturas lógico-identitárias (I/D/n).

Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. como se fora tudo um simples renascimento.3. Começamos com as culturas de antigos impérios de base agrícola (pré-D). a entusiasta recuperação da sensibilidade e de alguns aspectos materiais da cultura lógico-diferencial anterior (D/n) e. o fruto esperado. enfim. tendo de um lado. do esgotamento de seu vigor criativo.100 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO fícil e surpreendente equilibração se dará. do uno- 4. de outro lado. depois. decidimos começar a exposição com a classe das culturas diferenciais. que pela peculiaridade de ser justo a primeira. fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais . destacando seu desejo mítico. seu fingimento idolátrico sacerdotal e sua superação pela cultura da lógica do mesmo (I). do conceito. Ao invés de apresentarmos as culturas em sua estrita ordem lógica/cronológica preferimos fazêlo só subsidiariamente deste modo. Por razões estritamente didáticas. margens e desvãos [13]. preferimos dar prioridade à classificação identitária/diferencial. tanto quanto terá sido negado. veremos os gregos (D). do desvanecimento do seu próprio desejo. enfim. a interiorização ou subjetivação da espiritualidade em curso de superação (I/D/n). no que se refere ao seu desejo. agora. Desejo. exige um pouco mais de “engenhosidade” para o seu efetivo enquadramento no nosso esquema geral. Alem do mais. A probabilidade de subversão/superação de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. que se estava já gerando em suas próprias dobras. evitando ter que tratar logo de início com a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico. da idéia. sua arte mimética exacerbada e sua superação pela cultura lógico-dialética do espírito. com sua filosofia desejante. em especial.

como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo .o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. cabe perfeitamente à cultura dos impérios antigos de base agrícola (pré-D).3. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. nas culturas evoluídas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 101 trino (I/D). metaforicamente. acompanhada de investimentos na organização da produção. Tempo perdido. em essência. talvez.o mito e a pseudo potência sacerdotal Nosso modelo lógico articulando uma cultura a três lógicas. com sua Física sofisticada e intensamente desejante. perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. a Modernidade (D/D = D/2). por último. em desabalada carreira para sua própria superação pela cultura hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2 ). A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária.1. 4. A agricultura tomada como base da subsistência. e por vezes radicalmente reinterpretados. Como bem observa Mircea Eliade. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. (negritos nossos) [14] . sua prodigiosa capacidade de simulação tecnológica e. Nos antigos impérios de base agrícola . Significam. quer a cerealicultura (Tais mitos são mais raros. em razão de inexcedível soberba e prepotência. teremos o que mais de perto nos interessa. na formação de estoques e na sua distribuição. veremos. a liberdade pelo cativeiro. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem (ou de um pai).

ciosamente guardados pelos deuses. E. Neste tipo de cultura. entretanto. nas culturas de base agrícola (pré-D). É então pela idolatria sistematizada que esta cul- . Quanto aos mitos referentes à origem da cerealicultura. um herói civilizador sobe ao céu. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O etnólogo alemão Ad. (negritos nossos) [15] O mito. por isso não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. o constituiu. em essência. que. inventa-se a escrita possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro.102 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. malgrado. mas no céu. colocam em cena um furto primordial: os cereais existem. Jensen julgava que o mito de Hainuwele é específico aos paleocultivadores de tubérculos. Ali vige o simbólico. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. o sentido permanece ainda afeito ao traço. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. o simbólico refém da espacialidade que. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). Jensen dava a esses dois tipos de mitologia os nomes de “Hainuwele” e “Prometeu” e os relacionava respectivamente com a civilização dos paleocultivadores (vegetocultura) e com a dos agricultores propriamente ditos (cerealicultura). um entre os múltiplos atributos dos entes. Para tanto e muito mais. mas sentido apenas como índex ou como análogo. apoderase de alguns grãos e com eles recompensa os seres humanos.

é atribuído um sentido. em definitivo saída da Natureza para o mun- . vivas ou inanimadas. ora metafóricas.3) D CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES MITO (DE ORIGEM) O ANIMALIDADE Figura 4. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. por nada subornável. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular.3 . (Ver figura 4. Como se fora numa pintura de Chagall. A todas as coisas. absoluto transcendente. que irá permitir a expressão do lógico enquanto tal. como assinalamos. uma intencionalidade atuante ainda que oculta. para fazer frente à grande ameaça do conceito.Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Tudo isto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 103 tura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. ora metonímicas (análogas aos processos primários psicanalíticos de condensação e deslocamento). A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade. da religião do Deus único. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será).

constituírem os gregos a cultura trágica por excelência.3. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. inseparável do prédomínio do simbólico pleno ou convencional.2.a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos Chegamos aos gregos com sua lógica do outro ou da diferença (D) [16 ] que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). necessita ser levada às últimas conseqüências.104 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO do da Lógica ou da Idéia (Hegel). Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. Daí. Isto é bem ressaltado por Beaufret ao comentar as concepções hölderlinianas sobre o que deveria ser a autenticidade grega: S’il y faut la fidelité. plus essentielle encore est l’infidelité où il se détourne comme un traître. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser que é doravante ser outro (dos deuses). (negritos nossos) [17] . E se vê condenado a não mais retroceder. o círculo de seus adoradores . entrementes. cuja gigantesca e emblemática figura. il est plus authentiquement lui-même que par la nostalgie de l’Un-Tout. é Moisés. 4. Esta relação com os deuses é crucial. a fio de faca. assumant ainsi la différentiation par laquelle. à volta do bezerro de ouro. reunidos de dia. posição que vai lhe custar o mais alto preço. sabemos todos. não importa -. Entre os gregos . en correspondance avec le détournement catégorique du divin. O personagem símbolo aqui é Prometeu. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. à noite. Para que seja realmente autêntica.três mil ou mais outros vinte tantos mil.

4) . ou seja. e isto precisa ser necessariamente assim porque a essência formal da diferença primordial está na especularidade [18].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 105 Nos próprios termos de Hölderlin. à nostalgia do um-todo. Reparando bem. mas Graça!). é que a relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. Só desta maneira. (figura 4. considerada por eles fundamento lógico do trágico). Para compreendê-lo em toda sua significação. Hölderlin e Beaufret. à filosofia. porque é desta última. daquilo que foi e agora é falta). e não da outra. não produz filósofos e perguntas. veremos que a pátria do ser como tal. ao invés. e esta interpretação fica especialmente reforçada quando a vemos contraposta. por falta do distanciamento. Nesta. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). O que ambos não chegam a perceber. consumar-se-ia irrevogavelmente o autêntico ser grego. do um-todo ou do Deus único. mas. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. no final do texto citado. que se alimenta o vigor criativo dos gregos. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo. o homem grego precisava responder o détournement catégorique do divino com seu próprio détournerment em relação a Ele. uma profusão de profetas e suas duras admoestações contra a infidelidade dos homens à Promessa (que não é produto de roubo. em especial.

4 . a dissimulação que ela realmente é.Cultura prometéica grega (D) A arte grega. pretensa extensão da natureza . de modo incontestável. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA I Pré-D Figura 4. com certa gravidade: . malabarismo para uma sobrevivência impossível . além.do que esta deveria.106 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO D/ 2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. Para deixar isto ainda mais transparente. lamentablement. mas não chegara a realizar -. grega no caso. simular sua própria auto-superação como arte. vale uma vez mais apelar à sensibilidade do poeta: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. particularmente a poesia trágica. beauté suprême. Afirma ela. sombra [19] Estes mesmos versos são comentados por Françoise Dastur em Hölderlin: Tragédia e Modernidade. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. o que encobre/ revela. La Grèce.

à fonte de seu próprio vigor. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). o que. mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro. Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. viria a ser a prerrogativa própria do conceito [23]. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. sabemos. à imitação da própria imitação. para que fosse ele buscado além.e a filosofia.Platão. com a agravante de terem sido alertados em tempo por um dos seus maiores .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 107 Os gregos não foram capazes de retornar ao que lhes era propriamente pátrio. por excesso de fingimento. Hölderlin chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual. mais individual.que então exorbitava . não por serem imitadores. mas também a grande arma na luta pela sua impossível auto-preservação. Por isso. (negritos nossos) [20] Exato. porque . como se vê. ou seja.seria necessário aduzir . como bem registra A República [22]. a verdade da parte pela da totalidade. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [21] do que um clarividente. alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . Não conseguiram regressar ao pátrio. demasiadamente exato. morrendo de excesso de arte porque não conseguiram conciliar em si. ou. alguém que não faltou aos seus. sendo tam- . natureza e cultura.a arte tornou-se para eles não só modo de expressão e autocompreensão. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão cirúrgica a laser. Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico.

afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. la poésie devient alors.108 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bém mais universal e o mais universal. para Platão. (negritos nossos) [24] Perceber tudo isso não é assim tão difícil. mas era algo essencial à . .. originelle. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. (negritos nossos) [26] (p. Fink nos agracia com um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. imitation d’une imitation. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental.. la poésie imite le vrai savoir.. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. Cependent elle est imitatio. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. 90) Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos... subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre. mimésis.. par conséquent sans savoir réelllement. Eugen Fink no que respeita a pretensão do belo ao vero. La poésie est essenciellemente mimétique. 92) Muito importante é observar que. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. Dans un pressentiment obscur. Il interprète plutôt le beau comme chemin et échelon vers le vrai. [25] (p..

Há aqui um importante detalhe a acrescentar. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. (negritos e colchete nossos) [27] (p. no conflito da idéia com o excessivo poético que. fazem de Platão um formalista radical avant la lettre (no sentido mesmo atual da filosofia da matemática). num certo sentido. A identificação do mundo das idéias com o real. que. esboça seus primeiros traços em Platão. que é a intervenção indireta da lógica formal D/2 na concepção da idéia platônica. a analítica aristotélica (D/2) já era uma potencialidade que de um modo ou de outro acabaria emergindo da im- . mais do que 600 anos após. à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 109 própria afirmação da filosofia (bem entendido. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. 101) A nosso juízo. o conceito I/D perde boa parte de sua autonomia referencial para ficar quase que reduzido à pura intensividade [28] ou a seu ser sintático (D/2). vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. paralelamente à concepção da matemática como linguagem da perfeição. Com isto. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. des spectacles contre qui la pensée métaphysique {isto é. Assim. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. on lui arracha son prétendu masque divin. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega. como visto. como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). dissimulado.

Em suma. corrente elétrica. em linguagem matemática) segundo os quais o mundo fora criado.a Física [30]. desejoso do uno-trino (I/D). De fato. (figura 4. agostiniano/tomista que seus diligentes teólogos não se cansam de tentar maquiar. mas sim os “planos” (escritos. constata-se com facilidade. que sejam eles três . Einstein e tantos outros. é herdado pelo universo conceitual cristão com sua crônica ambigüidade platônico/aristotélica.a física e a biopirotecnia Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [29]. hoje. espaço (L) e matéria (M) . que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses.3. sua face disfarce é a técnica e seus excessos.tempo (T). aceleração. põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. pressão. entretanto.110 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO precisão mesma das concepções platônicas sobre o conceito (as vacilações de Platão no Parmênides dão disto uma boa medida).3.Na Modernidade . Tudo isto. a biotecnologia. Discute-se tudo na física. particularmente. contudo. a física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2). Seus grandes heróis são Galileu. energia. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto uno-trino desejado (I/D). jamais. densidade e o diabo [31]. indução magnética. Sua face desejante situa-se bem no cerne da sua gloriosa cientificidade . . 4.5) . Em suas grandes crises.suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade. temperatura. Newton. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D). que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2). a física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). no entanto. força. dialético/formal. spin.

a partir de então. foi. de certo modo. entretanto. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzidos (os transplantes seriam já uma preparação . à plenitude lógica.Cultura científica moderna O mais notável dos feitos de Newton . com sua mecânica. A técnica.pré-assistido por Galileu e alguns outros -.5 . mecânica quântica. em especial a biotecnologia.relatividade restrita. De outro lado.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA DESEJO DE QUE? HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) 2 111 I/D/ BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA I/D D Figura 4.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [32].tempo absoluto. Um evidente e bem compacto oxímoro. como se fossem três absolutos . Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. enganadora. eletro-dinâmica quântica . relatividade geral. espaço e matéria. O fez. daí porque. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética. a história da física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu mútuo comprometimento. espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica.

assim para toda a eternidade. contra a morte em geral no mundo. do homem em todos os seus pormenores. entretanto. cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. insensíveis. inclusive. com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. em juvenil anjo de Maxwell. constituindo-se apenas em seu arremedo. de modo obrigatório. É também o fim da História que tanto se apregoa. A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. É o velho “demônio” de volta. de outro lado.à lógica . A lógica da técnica. além de um saber aerodinâmico (D/2). Continuaremos tal como somos . fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das determinações à lógica formal da ciência . sem imaginação. sim. mas. mas novo saber cristalizado (D/2). também a inabalável determinação para fazê-lo (I). metamorfoseado. pois. seres vivos e memórias. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. Na técnica concorrem. agora. futuramente. deixa bem à mostra quão circenses são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”.112 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto). o que. de um lado. a determinação ou o empenho numa realização. respectivamente.egoístas. não chega à hiperdialética qüinqüitária I/D/2. O avião já em vôo. não é tecnologia. nada solidários. Para se chegar a voar é preciso. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. a lógica clássica ou formal D/2 e a lógica transcendental ou da identidade I. mesquinhos. em compensação. não se sabe como. a propósito. o saber científico. de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. omissos. como também da recomposição informacional de todas as coisas.

das regras de poder.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 113 transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . para buscá-lo à frente. como diria Richard Morse [33]. . a rigor.sob a égide férrea sempre da primeira. ou seja. Poder-se-ia assim dizer.ciência e consciência. Daqui por diante. mas talvez milhões ao mesmo tempo. como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). lá. reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. com toda a precisão. como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. Não é difícil. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica. a recuperação das lógicas da diferença D e dialética I/D. entretanto. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária I/D/2 através da pseudo síntese machista da ciência D/2 e de seu sujeito assujeitado (I) . da razão autenticamente feminina [34]. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. coetâneo e co-fundador à fixação das bases da cientificidade que viria justamente constituir a essência da Modernidade?! [35] Eis. o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos. Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). em linhas muito gerais. não se pode apresentar ainda fatos. por razões óbvias. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. além. ver como se dará a superação da atual cultura. A verdadeira síntese qüinqüitária I/D/2. das organizações burocráticas e similares. . lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna D/2.a sistematicidade -. mas tão apenas conjecturas. exigiria muito mais: para começar.

cultura judaica (I) e cultura cristã patrística (I/D) -.4 . 4. e que por ser lógica e historicamen- 4. Podemos então estabelecer o seguinte tabela resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógico-diferenciais: • Tabela 4.114 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas tão somente a sua subordinação aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética.Entre os bandos caçadores/coletores do paleolítico .Desejo.1. fingimento e superação nas culturas lógico-identitárias .4.1 . COMPROMETIMENTOS L GICOS NAS CULTURAS L GICODIFERENCIAIS FINGIMENTO SUPERAÇÃO • DESEJO CULTURAS LÓGICODIFERENCIAIS BASE AGRÍCOLA PRÉ-D GREGA D MODERNA D/2 MITO IDOLATRIA SACERDOTAL PRÉ-D→PRÉ-I PRÉ-D ≈ I FILOSOFIA D→ FÍSICA D/2 → I/D MONOTEÍSMO MOISÉS PRÉ-D→ I POESIA TRINITARISMO EXORBITANTE PLATÃO D ≈ I/D D → I/D BIOPIROTECNIA D/2 ≈ I/D/2 CULTURA QÜINQÜITÁRIA D/2 → I/D/2 Serão aqui consideradas apenas as culturas lógico-identitárias historicamente já realizadas .a animalidade e a “semeadura” rupestre Vamos enfim examinar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores.cultura das tribos nômades de caçadores/coletores (pré-I). que dominou o período paleolítico. ficando a prometida cultura nova qüinqüitária (I/D/2) para ser tratada num item específico a seguir.

Já pertence.6) . porém. Em outras palavras. pois. em Théorie de la religion [36]. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (Pré-Pré-D). no caso. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” pré-pré-D? Como pode se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. para sobreviver. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o alimentar-se e ser alimento para outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (Pré-I). Meu tio o Iauaretê. na sua própria expressão. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 115 te primeira. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. Georges Bataille. recordemos. como a água na água. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. no entanto. que caçava onças com ira e culpas multiplicadas por se tratar de desavença entre parentes. A condição de caçador o identifica com a caça. ele reconhecia. (Ver figura 4. Diferencia-se da cultura Pré-D porque esta se põe como outra da natureza. é um preciso precioso testemunho de como tal relação primordial é deveras vivida [37]. mas. apresenta algumas peculiaridades bastante interessantes . ao mundo da cultura. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. para sobreviver. ver-se obrigada a viver da caça a outros animais. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos.

Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. Com isso. concluímos que as culturas tribais. nem assim constitui uma verdadeira exceção. Apenas. Segundo Eliade. animais e homens. o fato é que já se pode lá assegurar a vigência de algum tipo de xamanismo. ou seja. mas da renúncia a um ganho lógico (ganho de I/D para I/D/2). deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. . o xamanismo domina ainda em nossos dias a ideologia religiosa dos caçadores e dos que vivem do pastoreio. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou.116 I LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO PINTURA RUPESTRE Pré-D CULTURA AGRÍCOLA MITO (DE ORIGEM) HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL Pré-I CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 4. in- . (negritos nossos) [38] Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pele lógica da identidade de todos os entes. no que tange ao seu modo desejante. Por um lado.6. mortos ou vivos. a existência de um certo tipo de “xamanismo” na época paleolítica parece assegurada...

e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. uros (colchetes nossos) [40]. a caça: . Para tanto. [39] O fingimento nas culturas tribais. precisaria simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. alguns felinos. aduzindo ainda que todas possuem um fim muito bem determinado. que seria o êxito naquilo que para tais comunidades é o mais essencial. ou ainda por um espírito ou por um deus. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. Observa Brodrick. isto é. em La pintura prehistórica. ciervos. conforme nos informa ainda Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. de penetrar nos corpos dos humanos. (figura 7) Las pinturas {do Levante espanhol} son todas de animales: caballos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 117 clusive também os deuses. postergando o advento da cultura de base agrícola regulada. Isto posto. da caça aleatória para a caça assegurada. cabras. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. isto é. cabras monteses. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente) criada pelos seus xamãs para conservar seu poder.

uma nova cultura cultura do neolítico e logo a seguir também das idades do bronze e do ferro. irá por água abaixo. aqui. Castellón. não mais como o que se perdeu. Se há dicho que la religión es en su origen una técnica para obtener éxitos. Toda esta artimanha representativa. significa inquestionavelmente que se estaria assegurando uma regularidade na caça de certo modo equivalente à que lhes poderia proporcionar a agricultura que já se lhes avizinhava como uma nova possibilidade de vida. Espanha No cabe duda de que la pintura prehistórica se ejecutó para ser utilizada. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. no entanto. especificamente. (negritos nossos) [41] Êxito.Caçada de veados. por força de um movimento de subversão cultural.118 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4.7 . y que se utilizó para algún fin determinado. Para el hombre primitivo éxito significa suerte en la caza. . pelo trabalho agrícola.

o domínio pleno do próprio ser-simbólico. A los dibujos mágicos suceden los esquemas mágicos. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura lógica Pré-D (Ver notas 14 e 15). com o advento da agricultura. estilizado. A agricultura se tornando um fato. e sim o escraviza. as pinturas rupestres do paleolítico superior vão logo perder seu caráter realista.2 . O identificamos como o herói prometéico. aparece un nuevo modo de vida y com él nuevas artes destinadas a nuevos fines. tendendo a um esquematismo que muito provavelmente será a origem dos primeiros sistemas de escrita ideogrâmica. Esta plenitude é alcançada com a pura convencionalidade do . bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. e mesmo em se tratando de um semelhante.a terra prometida e a exterioridade farisaica A condição para a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem é. Conforme observa Brodrick. que surge de la pintura naturalista del paleolítico.4. naturalmente. trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da agrícola. 4. contudo. não mais se o devora. también se utilizaba. O autor da proeza está historicamente perdido.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 119 Visa-se o outro agora como meio. Después de la revolución que causaron la agricultura y las primeiras civilizaciones originadas en la propia agricultura. [42] Não se poderia esperar mesmo outra coisa.Na cultura judaica . pero artes que todavía están íntimamente ligadas a la religión y a la magia. os desenhos começam a perder a sua função e vão se tornando mais e mais abstratos: El arte esquemático.

entre identidade (I) e . na calada da noite. sendo o signo cujo significante ainda guarda alguma semelhança estrutural com aquilo que representa) [43]. um pré-D fingindo-se de I. esta mesma tensão também está presente no episódio envolvendo Abel e Caim . Isto veio representar a vitória do convencional/lógico (I) sobre o analógico/ mágico (na verdade. como indica o nome. Em suma. a grande importância que devemos atribuir ao episódio bíblico da adoração do bezerro de ouro.formalmente. A conquista do simbólico convencional pressupõe. A significação dramática dessa passagem fica bem marcada pela reação irada de Moisés quebrando as Tábuas da Lei gravadas pelo próprio Deus e depois com a trama e a degola. Com o signo convencional é que se chega à completa separação entre a coisa e sua representação verbal. o episódio representa a “tomada de consciência” ou a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem. Este foi. na cultura judaica. simulando possuir uma determinação ou um poder fundador que não tinha).120 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO significante com respeito ao significado. Estes. O termo convencional vem aqui se contrapor a analógico (este último. sem dúvida. logicamente. o conflito entre temporalidade e espacialidade. de milhares de adoradores diurnos do ídolo. da liberdade no deserto e do cativeiro no Egito. Em termos puramente lógicos. Daí. pelos partidários de Moisés. estariam representados pela dupla experiência da economia pastoril e da agricultura. acontece aí a definitiva diferenciação do pensar dialético (I/D) a partir de sua matriz lógico diferencial (D). ou seja. do ponto de vista lógico. o acesso ao pensar dialético (tal como há muito compreendido por Platão). pois retirou o homem da esfera ecológica para re-situá-lo na esfera lógica que lhe era já constitutiva. um passo gigantesco na história da cultura. à capacitação para a síntese de opostos.

por ter rompido com o estado ecológico. Só a partir daí (I). pôde proporcionar as condições para a realização da síntese dialética que vem dar aceso ao simbólico acabado. Agora que era alcançada a plenitude simbólica. e sem este. entretanto. Só esta experiência aguda de opostos e a tensão que ela suscita. Tudo se passa como préI e pré-D levassem à síntese pré-I/D (superação do analógico) que por sua vez vai eqüivaler ao lógico transcendental I “objetivado” (auto-definição lógica do Absoluto). Assim. A princípio. simbolicamente assumida por Abraão naquele episódio. retroativamente. Tudo isto serve bem para a caracterização do serlógico judaico. isso pareceria um contra-senso: sacrificar o próprio descendente para garantir a descendência. foi possível a Moisés não só “ouvir”. aconteça a reconciliação amorosa entre ambos (I/D). Outro episódio bíblico reitera o estatuto lógicotranscendental ou identitário da cultura judaica: é a disposição de Abraão em aceitar o sacrifício do seu filho Isaac como o preço imposto pelo Deus todo poderoso para a sobrevivência de seu povo. a essência mesma do ser-lógico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 121 diferença (D). então. depois. a recalcou e desta maneira transformou-a no seu impossível . Israel. é que se podia. mas sobretudo compreender a auto-definição do seu Deus: Eu sou o que sou (ou serei). não há princípio. especificamente com a sua realização lógico diferencial (pré-D). está em que só o sacrifício do filho define um pai enquanto tal. poderá algum dia haver um filho que se autonomize ou rebele (D) e. sim. mas não é suficiente ainda para a determinação de seu desejo mais recôndito e que será a razão de seu viver profundo e motor da criação de um riquíssimo acervo cultural. representar de maneira apropriada a lógica da identidade ou transcendental. A lógica do pai é precisamente a lógica transcendental ou da identidade (I). nada se funda [44]. O sentido profundo do episódio.

8) I/D FARISEANISNO (ESCRIBAS) D CULTURA GREGA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) I MAGIA (ANALÓGICA) DESEJO DA TERRA PROMETIDA Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA Figura 4. tais infortúnios acabavam sempre se constituindo num motivo para o maior reforço de seu desejo pela terra. babilônios.8 . persas (enquanto força militar) -. em particular seus reiterados constrangimentos e desterros impostos pelo arbítrio de seus vencedores e/ou senhores . e até hoje persiste. uma reação ao sionismo na medida em que a efetiva conquista de uma terra poderia enfraquecer o seu desejo mais essencial e levar mesmo à dissolução desta cultura milenar. com o advento do cristianismo. como bem sabemos. da diferença).a Terra Prometida.122 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO objeto de desejo: a terra (aquela sobre a qual se exerce o trabalho. A cultura judaica só veio ser profundamente abalada no contato com a cultura grega.Desejo. Fossem quais fossem as derrotas militares judaicas.assírios. fingimento e superação na cultura judaica Tanto isto é verdade que entre os próprios judeus houve. pelo contrário. foram múltiplas: . a cultura da diferença. (figura 4. que exatamente assinala o ser diferente vis-à-vis a Natureza) . As reações à cultura greco-romana (prometéica. A partir daí ela passa a viver uma permanente e dramática tensão interna que só se irá resolver muito mais tarde. nada podia abalar a cultura judaica.

a meia adesão dos saduceus e. Isto é feito esvaziando-se a interioridade da lei mosaica e transformando-a. Os Evangelhos Sinóticos são bastante eloqüentes e insistentes nesta espécie de acusação a escribas e fariseus [45]. e voltar inclusive a ter um papel ativo à frente do processo cultural global. acabou sendo o caso dos judeus no nascimento da Modernidade. a pergunta pelo ser-um. Devemos. como deveria ser. aliás. o “fundamentalismo de fachada dos escribas/ fariseus. nunca é demais lembrar que a filosofia. como. por tratar-se aqui de um processo hiperdialético. o superado/subsumido pode sobreviver como tal e também por si. porque tentam barrar a penetração da cultura da diferença através da “demonstração” de sua não necessidade. Contudo. Estes últimos acabam sendo os mais importantes porque se valem da “estratégia” do fingimento. a cultura judaica (I) precedeu a cultura grega (D). à moda grega. o terrorismo zelote. preliminarmente. emerge exatamente nas colônias gregas em ilhas próximas ou na própria orla da Ásia Menor. o que possibilitaria às culturas judaica e grega se desenvolverem com uma certa independência uma da outra. como um “resto” [46]. insistindo mais uma vez em que. Consideremos agora a delicada questão da superação da cultura judaica. a aludida independência relativa permite que se levante a questão acerca de quem efetiva- .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 123 as revoltas armadas macabéias. Bem. Futuros estudos sobre este assunto poderão revelar se de fato existiu tal influência e sua extensão. ter em conta que as lógicas da identidade e da diferença são ambas fundamentais [47]. em um conjunto de convencionalidades sociais. Ademais. não está até hoje bem determinado o grau de influência das culturas semíticas sobre os gregos presentes na costa da Ásia Menor. muito especialmente. A propósito. inicialmente como comerciantes e depois como colonos. mera exterioridade.

com o seu Deus Uno-Trino) foi um processo lógica e historicamente bastante complexo na medida que está aí implícita a mediação de uma cultura prometéica ou da diferença. e a grande maioria de seus membros falava apenas o Grego e o dialeto local. a exata versão que posteriormente serviu de base para a composição do Evangelho cristão. desde Alexandre até a época de Cristo.124 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente teria consumado a superação histórica do judaísmo .3 . chegou a ser numericamente importante [49].a cultura greco-romana ou a cristã (patrística). a primeira. e mesmo tempos depois. é o produto inquestionável do encontro da cultura grega.o corpo ressuscitado e o “lixo” escolástico O cristianismo originário (patrístico). como não lhe interessava uma ruptura ainda maior com sua herança judaica. lógico diferencial (D) com a cultura judaica lógico-identitária (I).4. como por todos bem sabido. com o seu Deus Único) ao cristianismo (Segunda Aliança. A nosso juízo. O conflito desde o começo com fariseus e escribas fingidores. Voltaremos a este importante assunto no item a seguir.No cristianismo medieval . o cristianismo escamoteou a real subsunção da cultura grega (D) através da artimanha de sua apropriação/ internalização simbólica. inequivocamente. Preocupadas com sua re-integração. A transposição da Torah para o grego pode ser considerada como o mais importante acontecimento antecipador do cristianismo. Entrementes. A passagem do judaísmo (Primeira Aliança. a cruci- . A diáspora judaica. Só nos parece a segunda em razão do modo que toda esta passagem é contada pelos cristãos interessados em omitir o que fora verdadeiramente subsumido [48]. as autoridades religiosas judaicas promoveram a tradução da Torah para o grego: trata-se da famosa Setenta (LXX ou Setuagina) [50]. 4.

o corpo prometido. não como apenas corpo físico. semeado desprezível. depois a ressurreição tendo como contrapartida o envio do Espírito Santo.Amor e símbolo da reconciliação entre Pai (I) e Filho (D). como em São João. mas como corpo biológico. segundo São João) coetânea ao abandono pelo Pai. indo por isso ocupar a posição lógico-diferencial (D). O desejo do cristianismo estava pois na recuperação do corpo (D). Era o corpo (o Filho encarnado).Deus meu. lógico dialético I/D. A localização do desejo do cristianismo a partir daí se faz sem dificuldade. formam uma bem arquitetada recapitulação simbólica. escamoteiam lamentavelmente os traços daquele prodígio. em conjunto.9). a descida ao reino das trevas. Sabemos que é o próprio Cristo que faz a comunicação que precisaria se anular como presença visível (significante. ressuscita reluzente de glória. da dor e sobretudo da corrupção . mas sob a lógica da espiritualidade (I/D). portanto. semeado corpo psíquico. entretanto. o corpo ressuscita incorruptível. ressuscita corpo espiritual [52]. corpo beatífico necessário e suficiente para o exercício do amor a Deus (figura 4. Devemos ver aí o corpo mesmo. A omissão das últimas palavras do Cristo Crucificado . agora livre do peso. semeado na fraqueza. por que me abandonaste [51] -. ressuscita cheio de força. da doença. Deus meu. D) entre os homens para que em seu lugar adviesse o Espírito Santo .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 125 ficação (de responsabilidade dos fariseus. A figura do Cristo Crucificado e abandonado o faz logicamente outro do Pai (I). O Cristo ressuscitado é exatamente esta referência ou protótipo daquilo que era então prometido a todos os mortais. sensível e sensual (bio-psíquico). Trata-se do que fora antes pensado pela lógica da diferença (D). A partir daí . São Paulo não poderia ser mais explícito e claro sobre este assunto: O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível.

fingimento e superação na cultura cristã patrística Esse desejo de um impossível corpo (D) espiritualizado (I/D) está profusa e ricamente expresso na arte sacra cristã. [53] I/D/ 2 ESCOLÁSTICA (TOMISMO) D/ 2 CULTURA MODERNA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCITADO I/D D POESIA EXORBITANTE CULTURA GREGA I Figura 4. mostrou-lhes as mãos e os pés. de outro lado.10). disse-lhes: “Tendes o que comer?” Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. como estais vendo que eu tenho. de um lado. E como. Destaca-se.Desejo. a representação de um corpo dis-psicologizado e reespiritualizado pela frontalidade. então.” Dizendo isso. em especial nas artes românica e bizantina.9 . não podiam acreditar ainda e permaneciam surpresos. nem ossos. estabilidade de composição e olhar fixo vigilante das personas re- . por causa da alegria. e comeu-o diante deles. a insistência no corpo crucificado e ao mesmo tempo imponderável.126 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO melhor se compreende o episódio narrado por Lucas em que Cristo aparece aos seus discípulos desafiando-os insistentemente para que o toquem: “Vede minhas mãos e meus pés: Sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne. Tomou-o. irradiando a mais excelsa espiritualidade (figura 4.

Embora seja um exagero afirmar que o Ocidente desconhecia a obra aristotélica (o Organon era certamente conhecido). mas a idolatria. que Gimpel. se constituiu na própria espiritualização (I/D) da materialidade (D). inclusive em âmbito teológico. a verdade é que ela só teve divulgação ampla para se tornar uma real ameaça à cultura estabelecida a partir dos fins do século XII. se dispensar das imagens. acusadas de favorecer não a fé.11). já comprometida com a Modernidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 127 presentadas (figura 4. o primeiro surto de atividade econômica de caráter propriamente moderno pelo peso dado à técnica e à racionalização da produção. na medida em que ela. mencionaríamos. . Por último. quando os árabes promovem uma enxurrada de traduções de textos recuperados na sua expansão ao Oriente. Aí está também a razão profunda da Reforma. Há um consenso mais ou menos geral que com Pedro Abelardo (1079-1142) vem ter início todo um processo de fundamentação racional das crenças em desfavor dos “argumentos de autoridade”. Vale a pena aqui chamar a atenção para algo muito especial no que respeita à relação entre arte e cultura na cristandade (autenticamente trinitária). o primeiro lógico moderno. valendo-se de um aparente paradoxismo. Destacaríamos três importantes acontecimentos. e portanto desejosa não da corporeidade e sim do uno-trino. A ameaça à hegemonia epocal do cristianismo trinitário começa a se delinear entre os séculos XI e XII. O desejo de ser-cristão se realiza simbolicamente na própria arte. resolve denominar Revolução Industrial da Idade Média [54]. Ele é basicamente um lógico. no alvor do século XII. desde sempre. tendo deixado uma Logica ingredientibus (Lógica para principiantes) destinada ao ensino das categorias aristotélicas A seguir destacaríamos a tradução para o latim das obras de Aristóteles.

na medida em que a teologia era então não apenas um affaire de pura fé. embora recém-fundada. pois o que ela deixa claro é que São Tomás. “cumpria ordens”. já se constituía num dos principais centros de saber da Europa. melhor preparada. disciplinado. já em seu leito de morte. Imperadores Justiniano e Teodora (Mosaico. Buscava-se assim demonstrar a não necessidade da ciência.128 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. para o .” Não importa aqui a verdade histórica. O Cristo Crucificado (Românico alemão. Basílica de São Vital. VI) A reação à ameaça da razão formal se dá justamente pela aristotelização da teologia antes radicalmente platônico-trinitária (Patrística). XII) Figura 4. instado a manifestar-se sobre o valor real de sua grandiosa obra. Esta gigantesca operação diversionista. mas também justificada pela razão. Ravena. O Absoluto racionalizado se antecipava para tentar impedir o advento da Razão absolutizada. A primeira investida coube a Santo Alberto Magno (12061280) e uma segunda. séc. Sobre o último corre uma célebre anedota: o Doutor Angélico. A meta estipulada foi a conquista da Universidade de Paris que. a seu discípulo São Tomás de Aquino (1225-1274). teria respondido simplesmente: “Um lixo. foi também a mais firmemente intencionada em toda a história da cultura.10. por ser a mais recente de todas. séc.11.

atinge frontalmente a Universidade (Paris. Kepler e. Não se deve estranhar que tal guinada ideo-lógica acabasse se mostrando contraproducente. caía automaticamente de algum lado (ganhava uma nacionalidade). a recuperação demográfica permite a retomada do processo de modernização econômica que se havia interrompido com as grandes epidemias e as tumultuadas cruzadas. Caso fôssemos obrigados a escolher um marco de referência para a superação em definitivo da cultura cristã. antes de qualquer outra). Descartes define o novo mundo como espaço medido tendo por sujeito o cogito. ficaríamos com a Reforma. A “lógica espacial” das nações impunha que nítidas linhas de fronteiras (e aduanas para bens físicos) se formassem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 129 que. vão se empenhar em minimizar o poder da Igreja promovendo. definitivamente. [55] Já no início do século XIV. I cannot avoid believing that the Evil One introduced the study of Aristotle. com Newton. pela teia de suas ligações afetivas e de mútua confiança. Os acontecimentos se atropelam: descobre-se a imprensa. ao sentiremse já suficientemente fortes. Galileu. a consolidação de estados nacionais. Quem lá vivia. ao mesmo tempo que. a ciência se consolida com Copérnico. a teologia racionalista de São Tomás de Aquino e por trás de tudo. A acusação dos reformadores na esfera doutrinária. acelerando a deterioração do nível ético da hierarquia e acabando por provocar a Reforma. entre outras coisas. vêm os Descobrimentos [56]. Reacendia-se o processo de acumulação financeira dos banqueiros intersticiais que. Aristóteles: When I think of this lamentable state of affairs. em especial Lutero. fora especialmente preparado e apoiado. diga-se de passagem. de modo que com elas desapareciam os espaços intersticiais entre feudos. especificamente . constituíam um poderoso mercado financeiro inter-nacional.

COMPROMETIMENTOS LÓGICOS NAS CULTURAS LÓGICO-IDENTITÁRIAS DESEJO FINGIMENTO SUPERAÇÃO PULSÃO DE XAMANISMO CULT. HERÓI MÍTICO PRÉ-I→ANIM. jesuítico. CIENTÍFICA TOMISMO GALILEU I/D→ D/2 I/D ≈ D/2 O VERO TRANSCENDENTE . já que esta não tem como por si suceder-se? Como todos sabemos hoje. o sujeito individualista liberal. RUPEST. procurando minimizar. este sujeito foi posto pelo protestantismo como sendo o sujeito da fé.130 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pela separação radical que ela impõe à fé e à razão. É precisamente isto que acaba resolvendo o grande problema que à nova cultura se impunha: quem deveria ser o sujeito autônomo da ciência. PINT. Isto posto. I/D/2 • Tabela 4. a posteriori. A Contra-reforma e correlatamente o Barroco já são manifestações do cristianismo superado. PRÉ-I ≈ PRÉ-D PRÉ-I→ PRÉ-D PROMESSA FARISEUS/ TERRA PROM. os seus prejuízos. AGRÍCOLA MORTE CULT. ESCRIBAS I → PRÉ-D I≈D CORPO INCORRUP. conforme mostra a tabela 4. I/D → D CRISTO CRUCIFICADO/FILHO I→D ESCOLÁSTICA C. podemos então estabelecer o resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógicoidentitárias (agora incluindo a cultura nova qüinqüitária).2: • CULTURAS LÓGICOIDENTITÁRIAS TRIBAL PRÉ-I JUDAICA I CRISTÃ PATRÍSTICA I/D QÜINQÜITÁR.2.

Já vimos (item 4. a cultura lógico-qüinqüitária (I/D/2). ainda que lógico– transcendental (I). A figura 4. são também pré-formações das culturas da mesma classe que as sucederão.12 reúne.1) como se pode preservar a generalidade do processo hiperdialético com respeito à cultura originária. foi igualmente pré-dialética (préI/D). pré-I e pré-D. na conquista do simbólico convencional ou pleno.5. a cultura judaica. O sentido disto é óbvio: a pré-condição do cristianismo não teria sido precisamente Jesus.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 131 Esta visão de conjunto das culturas lógicoidentitárias deixa evidente que. 4. é o momento de vermos como tudo se resolve também satisfatoriamente com respeito ao tipo cultural derradeiro. o homem perfeito? E é por tudo isto que a cultura hiperdialética qüinqüitária significa o termo do processo de auto-desvelamento do ser-lógico do homem. pois é óbvio que nada mais há. Especulações acerca do futuro da cultura Exatamente porque o processo hiperdialético qüinqüitário (I/D/2) é uma dialética de dialéticas. Assim. Tendo o homem alcançado o último estágio de seu desenvol- . além de trinitária torna-se ao mesmo tempo pré-qüinqüitária (pré-I/D/2). articulada de modo rigoroso. Agora. é que ele pode escapar às dificuldades do processo simplesmente dialético (I/D) no que tange às problemáticas de origem e destinação [57]. a cultura cristã trinitária. mundanamente. subsumindo assim o processo transcendental unário. a totalidade das figuras anteriores relativas a cada um dos momentos da história da cultura antes recenseados. a que preceder. ao mesmo tempo em que elas são o que são. aquela dos bandos e tribos de caçadores/coletores do paleolítico (pré-I). degrau zero da dialeticidade (I). se contarmos também as culturas ecológicas. A pergunta que logo salta à vista refere-se ao desejo da cultura lógico-qüinqúitária. Do mesmo modo.3.

como poderia ele se manter desejoso de algo menor. da lógica qüinqüitária recém conquistada) que. simplesmente não comeria. e tendo-se em conta que este seria também o momento de seu pleno autodesvelamento. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL MITO (DE ORIGEM) CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 12. Nas culturas subsequentes. tal como vinha acontecendo nas demais culturas? A manter-se o mesmo padrão. seria mesmo o homem da cultura qüinqüitária desejoso do ser-sistêmico-calculado antes governado pela lógica da dupla diferença (D/2)? CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) I/D/ 2 BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. se o homem não se identificasse à caça. fingimento e superação na história da cultura Esta simples colocação nos faz lembrar que em todos os estágios culturais anteriores o que impulsionava a cultura em direção às suas tão de um desejo de morte da cultura ou da humanidade (ou seja. Embora onto-logicamente distinto. como vimos. era a condição mesma de sua sobrevivência física. aquele desejo passa- . Desejo.132 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vimento onto-lógico.

sempre inferior à capacidade lógica humana I/D/2. ou seja. ocorre quando constatamos que um hipotético desejo da cultura qüinqüitária (I/D/2) pelo ser-sistêmico ou objeto científico calculado (que se revelara à lógica formal D/2) viria quebrar toda a harmonia do quadro geral do processo de desenvolvimento cultural. Tudo isto pôde se manter assim porque quem presidia de fato ao processo cultural em sua globalidade era a lógica do inconsciente (D). Constata-se sem dificuldade que a simetria global se recompõe à perfeição tão logo removamos aquele movimento hipotético”. pois seria a única “seqüência de movimentos” admitindo um quarto elemento (figura 13 à esquerda). cujo desejo vem ser pelo uno-trino (ver item 4.13 à direita). inclusive para a Modernidade. articulados. Isto não traz nenhuma inconsistência em virtude de que se tratou sempre de desejo por algo igual ou inferior ao ser-dialético (I/D). o que é o mesmo que afirmar que a evolução cultural humana veio se fazendo de modo inconsciente. O mais espantoso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 133 va a ser. ao mesmo tempo.3 anterior).3. simplesmente por ter afinal coincidido consigo mesma? Nossa resposta seria no exato sentido contrário: o desejo não desapareceria. entretanto. ao contrário de todas as culturas anteriores. o que nos parece uma obviedade. de modo coerente. Mas então seríamos obrigados a aceitar que não haveria mais desejo na cultura lógico-qüinqúitária? Ela nada realizaria de relevante. de sorte que sua articulação se mantinha. agora justificadamente tido por espúrio (figura 4. Pode-se constatar facilmente que isto funciona para todas as culturas. o desejo (D) e seu “objeto” (I/D) não achegam a ultrapassar a lógica qüinqüitária do ser humano I/D/2. desejo de poder na medida em que uma lógica vinha se apoderar do que fora já pensado por uma lógica menor anterior (ou por ela subsumida). Ele ape- . (D)/(I/D) = D/2 ≤ I/D/2. mas apenas mudaria de sinal.

jamais se poderá sabê-lo com certeza) [58]. . pela vez primeira. a vida autêntica a que fora destinado.13 . DESEJO DE MORTE OU DE PODER HIPOTÉTICO DESEJO QÜINQÜITÁRIO I/D/ 2 DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE 3 D/ 2 I/D/ 2 3 D/ 2 3 4 3 I/D 3 3 3 2 3 3 I/D 3 2 3 2 D 2 D 3 2 I 2 2 I 1 2 1 1 1 Pré-D 2 1 1 2 1 Pré-D 2 2 1 1 Pré-I O Pré-I 1 1 O Figura 4. deixando de ser desejo voltado para “baixo .O desejo na cultura qüinqüitária O homem estará deste modo experimentando um sentimento completamente novo de religiosidade. num sentido que até agora não se lhe tinha ainda revelado. para se transformar em desejo apontando para “cima .134 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nas estaria se reorientando. Terá ele então superado em definitivo seus antigos modos idolátricos (porque desejosos do que era inferior a seu próprio nível onto-lógico) para viver. por isso desejo de poder. pelo mais elevado. voltado para o mais alto. para o que é de fato transcendente (não importa que este exista ou não.

conseguiríamos atinar em qual das três. Fazendo apenas um corte no tempo lá por volta do ano 1300 ou 1400 e comparando Europa Ocidental. De qualquer . tornaria mais ou menos óbvia a resposta a essa questão – uma nova cultura estaria. naquele momento. dificilmente.. É óbvio que não é este aqui o caso. Entretanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 135 5 A Modernidade – das origens à globalidade etnocida QUESTÃO VII: Se as Bruxas são capazes de Desviar o Intelecto dos Homens para o Amor ou para o Ódio. mas há ainda muitas outras gravíssimas QUESTÕES. Malleus maleficarum – O martelo das feiticeiras.. 1484. e pensamos que nunca o foi. Algumas vezes fomos acusados de fazer previsões a posteriori. valemo-nos apenas. tanto aqui como alhures. à beira de eclodir no ocidente europeu. de um recurso retórico com propósitos meramente didáticos. QUESTÃO XIV: A Monstruosidade dos Crimes de Bruxaria. com maior probabilidade. um retrospecto histórico judicioso. onde se mostra a Necessidade de trazer a lume a Verdade sobre Toda a Matéria. mas sem que se necessitasse entrar em pormenores. só por aí. iria emergir uma nova cultura. Europa Oriental e Extremo Oriente.

numa fase de instabilidade e de mudanças aceleradas. Contudo. tal como uma cultura trinitária homóloga deve tê-lo feito no extremo oriente. da lógica do Deus Uno-Trino (lógico dialético. I). quem quiser previsões futurológicas para valer. dali mesmo onde se instala. até simplória. Fora o Islã bem sucedido. meio psicológica. pode se desenvolver e tempos depois estimular decididamente o . com Constantino. resistindo. Só não é justo que depois exclame. se tornado mera província peninsular asiática.136 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO modo. e a Europa teria simplesmente se volatilizado. D). que ampliara sua presença no Ocidente com a invasão. desfazendo-se assim de uma diferença já conquistada (seu passado greco-romano. A força da cultura greco-romana não tinha ainda se apagado inteiramente da memória coletiva. e. I/D) à lógica do Deus-Uno (lógico transcendental. e que a partir do ano 700 veio ser palco da invasão semítica islâmica. iria ingressar. como boa parte dos muçulmanos. como deveras aconteceu. De certa maneira isto representava uma tentativa de obrigá-la a um recuo. pode nos ajudar na compreensão do que aconteceu: ainda não completamente estabilizado. Uma metáfora meio mecânica. Isto se deveu ao fato da invasão islâmica ter ocorrido antes que a cultura cristã trinitária (Patrística) tivesse tido tempo suficiente para levar sua raízes a uma maior profundidade. há como se fartar noutras passagens do presente trabalho. nos interstícios feudais. a dar exatos dois passos culturais atrás. não se retirou in totum. o Ocidente foi violentamente puxado para trás e reagiu atirando-se com todo o ímpeto para a frente. como certa feita fez um famoso físico e cosmólogo brasileiro: “Ah!!! Mas nada disso que você diz sobre o que virá daqui para a frente está ainda empiricamente comprovado!” Não devemos esquecer que a Europa Ocidental fora cristianizada no início do século IV. O semitismo judaico.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 137 processo de superação do cristianismo trinitário. a indo-européia (D). do ponto de vista apenas lógico. isto é. assim. Contudo. acabou tomando um sentido extrafamíliar. após. O confronto islâmico/europeu. a novidade será a de começar pelo óbvio. são os alemães e parcialmente os latinos europeus. que no caso seria a volta à cultura greco-romana (D). Nesta segunda parte. . Quem ignora o que isto quer dizer? Este capítulo apresenta uma primeira parte onde se procura detalhar os antecedentes da Modernidade a partir justamente das invasões muçulmanas e uma segunda parte onde tratamos diretamente da geração da Modernidade e de suas duas grandes etapas históricas. Ao contrario dos anglo-saxões. se afigurava a princípio uma disputa intrafamiliar (lógica da identidade I versus lógica dialética I/D. de outro. com o curso da luta e com o peso da língua e doutras tradições greco-romanas. à frente os franceses. tratar da construção aparente: a ciência e o sujeito liberal a ela sujeitado. pelos alicerces – a caça às bruxas – e só depois. o surgimento do sujeito liberal. reativamente. consumista. depois. marcadas por seu modo econômico produtivista e. ambas da família das lógicas identitárias). e. Num primeiro momento. a semítica (I). uma nova cultura de base científica eclode na Europa. O item final será dedicado ao dramático papel das culturas semíticas na passagem à cultura nova. sim. a única opção para a Europa era mesmo partir para a edificação de uma cultura cínica lógico-formal. dá-se a aristotelização da teologia cristã (Escolástica) e a constituição dos estados nacionais. calculadora do mundo (D/D). uma disputa entre famílias lógicas – de um lado. que mantêm ainda bem vivo este legado arcaico da Modernidade ao se quererem modernos (D/D) e herdeiros diretos e exclusivos dos gregos (D). Como é impossível o recuo cultural.

1) Como o Oceano Atlântico Norte praticamente não existia. um mar em meio à grande vastidão de terras. até o Mar Tirreno (sudoeste da Itália). não importa se realidade histórica ou surrealidade mítica! No Timeu de Platâo (2) lemos que havia. e o norte da África. só alcançaria a onipotência (e de quebra a prepotência) conseguindo fazer daquele único grande mar interno um mare nostrum. Antecedentes da Modernidade [1] . 5. Na ilha formara-se um magnífico império. Entrementes. tão poderoso que além de seu próprio espaço insular dominava também a Europa. vale a pena que relembremos rapidamente velha lição sobre os antecedentes da geopolítica. e assim o fizeram os gregos e seus vizinhos. pequenos povos. qualquer império.1. No caso. (Figura 5. Em tais circunstâncias. ainda maior do que toda a Ásia – a Atlântida – acompanhada de muitas outras pequenas ilhas que facilitavam a comunicação entre ela.138 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Antes de abordarmos a questão dos antecedentes da Modernidade. Foram estes que agindo desta forma impediram a consecução do propósito geopolítico dos poderosos atlantes – fechar o cerco ao Mediterrãneo. o grande mar daquele mundo era mesmo o Mediterrâneo. como diz o nome. do Estreito de Gibraltar ao Egito. a oeste e relativamente próxima das colunas de Hércules. não importa sua potência. uma ilha enorme. a Europa e a África. poderiam resistir-lhes. os atlantes não tinham porque fazer exceção. desde que internamente unidos e decididos pela liberdade.

Na medida em que teve elã e forças para assim atuar. isto é. de cabeça para baixo. e era tanto ansiado [4]. que há muito assumira foros intra-semíticos. em todos estes acontecimentos ficaram eles apenas assistindo lá de cima. senão. não fizeram mares ad hoc se abrirem e fecharem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 139 Figura 5. aquela mesma dos romanos: a . o de tentar implodir a cristandade. sem mover uma palha: não lançaram pestes. é que os deuses decidiram fazer afundar a Atlântida. Os pequenos povos tiveram que se virar sozinhos.Estratégia do Império Atlante Como para os gregos os homens são exatamente o outro dos deuses. não poderia ter tido outro desiderato. por isso. nem provocaram terremotos providenciais com enormes lajes caindo sobre os opressores. Agora.1 . logicamente tardio e radical [3]. Sua grande estratégia geopolítica repetiu. acreditamos nós. vamos aos fatos. valendo-se apenas de sua unidade interna e de seu amor à liberdade. talvez para se divertirem. não seria nada plausível esperar que eles se dispusessem a fazer alianças com criaturas tão pouco confiáveis. Bem. estava também ensejando um ajuste de contas. não importa quanto tenha sido seu grau de consciência ou intencionalidade. O Islã. prometéicos. depois de tudo decidido.

Dizemos isto no sentido de que os romanos partiam para fazer e fechar o cerco a partir da Península Itálica e o Islão pretendeu fazê-lo chegando. o reino visigodo que lá se instalara. Adentram a Europa por esta segunda porta e só são detidos ao sul da Alemanha. sujeito de família (família lógica identitária/temporal ou lógica diferencial/espacial) Entrementes. por um e por outro lado. seu grande êxito na referida estratégia só é alcançado com a tomada de Constantinopla (1453).2) Os muçulmanos atravessam o Estreito de Gibraltar e logo ocupam toda a Península Ibérica destruindo. (Figura 5. a expectativa de provocar um retrocesso da História. Frustava-se desta sorte (boa ou má. não há vingança plena na História. em 711. e com ela. daquela mesma península. Tudo corria bem e célere pela esquerda até que foram derrotados a oeste da França por Carlos Martel na Batalha de Poitiers (732). a famigerada figura de Abraão à Santa Clara [5]. Frustava-se também sua tentativa etnocida de implodir a cristandade. como bem sabem os sicilianos. é aí que entra. a não ser que alguém se assuma. por cima. também por baixo. à esquerda e direita. do lado esquerdo da Europa. tendo eles estado já bem próximo de realizá-la. conforme o lado) a estratégia muçulmana de envolvimento do Mediterrâneo. por volta de 1500. que veio pôr fim ao Império Bizantino. conquanto que. em tempos desencontrados. Por não haver retrocessos.140 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transformação do imenso Mediterrâneo num mare nostrum. algo de relevante já acontecera poucos anos antes da Batalha de Poitiers. . justamente. Pela direita.

mas deixando incólumes Pelayo e os seus soldados. Deste foco de . um príncipe visigodo.2 – Estratégias romana e islâmica Em 718. cristão convicto. atingindo fundo os invasores.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 141 Estratégia romana Estratégia muçulmana Figura 5. Dali parte para suas razias até que é perseguido e cercado em seu próprio refúgio. Pelayo. Os mouros chegam a invadir a caverna. mas um providencial tremor de terra faz desabar parte da montanha. resiste à invasão muçulmana fazendo da caverna de Covadonga seu quartel-general.

nosso imenso Portugal. com base em sua sólida unidade cultural. por conseqüência. o condado de Porto Cale. por seus bons serviços bélicos. por eruditos judeus. futuro rei do Porto Cale independente. reino que se expande vindo depois a chamar-se Reino de Leão. conseguem estruturar. Pelayo torna-se rei de Astúrias. mas boa parte dos judeus que os acompanhavam ficaram nos interstícios extra-feudais [6]. Isto irá liquidar com o poder absoluto político/cultural da Santa Sé. unindo-se posteriormente a Aragão e Castela. vital para a constituição da Europa moderna. recebendo. pode-se mesmo dizer que de vida curta. No curso destas lutas. como o artesanato de calçados. Henrique da Borgonha vem se aliar ao Reino de Leão na luta contra os sarracenos. É tal o desenvolvimento destas feiras e. de cuja união nasce Don Afonso Henrique. sobretudo. que se lhe torna possível promover e acelerar a formação – pela força de dinheiro. dos estados nacionais europeus modernos.142 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO resistência é que parte o processo da reconquista da Península Ibérica. durando mais do que 700 anos. se comparada com a da cultura de mesmo nível lógico no Oriente. ditando a derrocada do cristianismo lógico-trinitário (I/D). vão juntos formar a Espanha moderna. e este. É nesta condição de marginalidade que pequenas populações judaicas se preservam e desenvolvem atividades que lhes serão típicas. armas. Textos aristotélicos trazidos pelos árabes começam a ser traduzidos do grego para o latim. Ainda no ano de 718. Casa-se com uma filha do rei de Leão. já a partir do ano . um mercado financeiro acoplado ao sistema periódico das feiras que se expandia à sombra da miríade de castelos feudais. a cartografia. do mercado financeiro associado. ameaças e núpcias –. Os mouros são por fim expulsos do ocidente europeu em 1492 numa longuíssima guerra. em boa parte. a medicina e.

Santo Alberto Magno e São Tomás de Aquino procedem à irreversível racionalização ou aristotelização da teologia cristã. de forma regular e persistente. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso . caracteriza a Modernidade. não se deu em razão de terem as forças produtivas alcançado um certo patamar de eficácia. mas sim por ter sido encontrado um meio de injetar. o epílogo está pronto para quem tiver coragem de decifrá-lo! Nestas considerações preparatórias vamos expor nossa visão do processo de constituição lógica da Modernidade. ganhos de eficiência no aparelho produtivo: este meio foi a técnica sistema- 5. o que permitirá melhor compreender seu caráter de “genérico” (sexuado) e o porquê da existência dos dois modos sucessivos de suas correlatas formações econômicas – o capitalismo produtivista e o capitalismo pleno ou consumista. aproveitando agora a direção do vento – direção em que irreversivelmente ao homem desvelase sua própria lógica –. à lógica formal ou científica D/D (do Deus desempregado. 5. fazer eclodir na Europa a Modernidade. saberá aqui mesmo logo adiante. do ponto de vista econômico. vale dizer. sujeito liberal e caça às bruxas O surgimento do processo de acumulação. daí.Ciência. Em suma. do Deus Mercado). um dos pilares do modo de produção capitalista que. com um pouco de argúcia cultural e grandes fundos financeiros.1. tornara-se possível. se não.2.2. O que veio a seguir já se sabe [7]. é a intervenção semítica que faz a Europa ocidental indo-européia passar tão rapidamente da lógica da simples diferença D (do politeísmo greco-romano) à lógica dialética trinitária I/D (do Deus Uno-Trino) e.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 143 1000. Em meados do século XIII. Se não fora possível pela força fazer implodir (voltar ao Deus-Uno) o cristianismo trinitário.

o “excedente”. degrau após degrau. só renunciam a consumo quando estão de regime!) – que. Para que tal não aconteça existe uma única solução: que – des- . hoje. como é óbvio. isto é. a vê inexoravelmente despencar escada abaixo. “seus” trabalhadores. era drasticamente reprimido por severos e até cruéis regulamentos. e tal como Sísifo. Entretanto. quando isso era ensaiado. o fato é que tudo isso acaba sendo integralmente devolvido (a preço de custo) às massas consumidoras na forma de depreciação. em boa medida. como nas corporações medievais. se mantidas estas condições gerais. retorna ao sistema produtivo na forma de mais instalações e equipamentos. em períodos subseqüentes. Noções muito elementares de contabilidade de custos bastam para compreender isto e também que um tal processo só pode ter continuidade se o empresário. O argumento marxista que atribui o advento do capitalismo ao fato de se ter atingido um determinado patamar de produtividade se nos afigura um ótimo exemplo da aplicação da “lei de transformação da quantidade em qualidade”. de maneira privada e necessariamente autoritária. mas como um acontecimento exógeno/contingente à esfera propriamente econômica. E para que possa se dizer minimamente esperto. novas competências técnicas adquiridas. acabará por matar à míngua sua galinha dos ovos de ouro. conseguir de novo se apropriar dos excedentes. porque o não consumido. Acrescentaríamos que melhoria técnica sempre houve. Sabemos que o capital é o “excedente” [9] apropriado – no capitalismo. um péssimo exemplo de explicação [8]. Muitas vezes. só pode ser criado às expensas do consumidor (capitalistas. acréscimo de estoques de matéria-prima e de produtos acabados. logo. terá que fazê-lo numa proporção sempre superior àquela do período precedente [10]. isto é. ainda que em parcelas escalonadamente diferidas – o empresário eleva sua pedra. Ora.144 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ticamente alimentada e aprimorada pela ciência.

para que uma cultura científica possa sobreviver. A lógica clássica. bastante potente. ano após ano. no curso do tempo. que tem como seu núcleo exclusivo e irredutível a ciência e sua lógica calculadora do mundo. a melhoria das técnicas e. e entre um e outra. tem como característica essencial o aprisionamento do que se considere digno de ser pensado num “universo” por tácita convenção pré-determinado. prático ou teórico. Por isso. nenhum sistema. tanto quanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 145 contada a pequena taxa de crescimento da população ativa – a produtividade do trabalho social médio cresça de modo continuado e compensatório relativamente ao acréscimo da taxa de exploração dos trabalhadores (mais-valia. rolar sua pedra sempre um pouquinho mais para o alto. como esforçamo-nos por ilustrar na figura 5.3. por trás desta. é preciso que. a ciência. uma lógica: no caso do saber científico a lógica clássica. . Correlato a um saber há obrigatoriamente um modo de pensar. a matemática e uma parafernália de instrumentos de medida capazes de alimentá-la. por conseqüência. diriam os marxistas). vale dizer. entre um sistema e outro. Em termos bem diretos: Capitalismo é o modo de produção próprio à Modernidade. Não é difícil compreender que por trás do aumento de produtividade esteja. lógica do terceiro excluído ou da dupla diferença [11]. esgotável/calculável. assome e de pronto se dissolva um sujeito transcendental. Assim. intervalar e por isso sujeitado ao processo. Voltando ao mito: o empresário capitalista para sobreviver precisará. necessariamente. bem se sabe. entretanto. concreto ou simbólico. em princípio. poderia evoluir para acompanhar as vicissitudes que sempre o rio da história [12] nos traz. para recompor um novo sistema em substituição ao anterior.

4) Todo este edifício. ou de modo significativo minimiza. a potência mediadora do clero burocrático – interpondo-se entre o Céu e os demais entes terrenos – . que suprime. (Ver figura 5. contudo. o sujeito liberal intervalar pôde tomar dimensão social para. ele está inapelavelmente acorrentado ao processo geral de instituição da racionalidade: a rigor é um sujeito sujeitado à nova cientificidade que vinha assumir o governo do mundo. então. não se sustentaria sem sólidas fundações. mas de modo algum um autêntico self made man [13]. a seguir.146 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SUJEITO LIBERAL INTERVALAR I SISTEMA SISTEMA RIO HIPERDIALÉTICO Figura 5. a face aparente risonha ou afirmativa da Modernidade. tornando imperiosa a questão: se no verso estavam a ciência e seu sujeito li- . Com o movimento protestante. Como mostra a figura 1. Ciência e sujeito liberal consciente – sujeito fordiano para os amantes do cinema [14] – passam a constituir.3 . este sujeito é livre em relação aos sistemas (ou à ciência).O sujeito intervalar como condição de sobrevivência do ser-sistêmico Costuma-se atribuir a Abelardo a iniciativa de contrapor a racionalidade (moderna) ao “argumento” de autoridade de tanto sabor e prestígio na cultura cristã medieval. se consolidar política/espetacularmente com a revolução inglesa do começo do século XVII.

4 . que é neste mesmo período que se consolida a maioria dos Estados europeus modernos. aproximadamente entre os acmes de Copérnico e Galileu. simplesmente esquecemos que aqueles episódios dramaticamente repressivos ocorriam justamente após a racionalização (aristotelização) da teologia cristã programada por Santo Alberto Magno e tão bem executada por São Tomás de Aquino. no reverso. Deixamos de notar. capítulo derradeiro de uma Idade de Trevas”. sobretudo. o que constituiria o reverso de tamanha magnificência? E. que ele corre em paralelo com a institucionalização do pensamento científico. o mais intrigante: como poderia toda esta azáfama fundacional acontecer e ter passado até hoje completamente despercebida? INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA Figura 5. Neste processo de caça às bruxas. Ademais. Se era verdade que no verso tinha-se a instituição da ciência e seu sujeito liberal intervalar. E ainda.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 147 beral intervalar.000 mulheres teriam sido torturadas e . subterrâneo. no entanto o consideramos um episódio histórico anômalo. mais do que 100. sintoma desesperado de uma cultura que desmorona. adiantava-se o penoso trabalho das fundações: o resfriamento a ferros e fogo da feminilidade. entretanto.A face aparente ou afirmativa da Modernidade Todos nós temos alguma informação acerca do longo processo (instrutivo e punitivo) de caça às bruxas.

Dava-se. Como o desejo é desejo de desejo. Essas duas . nada mais nada menos.148 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mortas [15]. na circunstância. Para que os homens se concentrassem no cálculo de todas as coisas do mundo nada de mais funcional poderia haver.5 .Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno.hierárquica da Modernidade A rigor. inconsciente/lógica da diferença. desejo de reconhecimento.2. E o processo inquisitorial de caça às bruxas veio exatamente para concretizá-lo. 5.5) INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA SUPERFICIAL PROFUNDO RECALQUE DA FEMINILIDADE CAÇA ÀS BRUXAS Figura 5. a melhor forma de apequenar o desejo no homem era sufocar o desejo na mulher. do outro. calvinistas. ciência/lógica clássica. lógica dialética e lógica da diferença (ou igualmente lógica do significante. (Ver figura 5.Processo de estruturação lógico. isto fora de certo modo inevitável: para ressaltar a masculinidade e suas lógicas – de um lado.2 . se recalcasse a feminilidade – de um lado. que o recalque da história (sentido/espírito) e do desejo inconsciente e de suas lógicas associadas – respectivamente. concomitantemente. do que “esfriar” as mulheres – e isso esteve sempre bem posto nos propósitos e discurso protestantes. consumista e etnocida Na essência do capitalismo está pois a negação do desejo inconsciente e da história. o sujeito liberal/lógica transcendental – era preciso que. história/lógica dialética. particularmente. do outro. no jargão lacaniano [16]).

Foram eles os primeiros a aceitar a ciência. Propunham uma solução. desnaturada. Que se busca com isso? Tão apenas calcular o futuro. já degenerada em história calculada. O maior mérito do marxismo está na sua acuidade para explicitar. mero processo de acumulação de capital. conquanto que antes censurada. mas pugnando pela substituição “corretiva” do sujeito liberal pelo sujeito coletivo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 149 posições lógicas femininas. Suas características óbvias e decantadas – a racionalidade objetiva e o espírito individual de iniciativa – não seriam nega- .6 – A volta da história como progresso Basta observarmos o que é hoje uma empresa: ela é norteada prioritariamente pelo cálculo da taxa de retorno de capital. contudo. a rigor. no entretanto. pela metade.6) SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CIÊNCIA HISTÓRIA Figura 5. propondo-se ela mesma como exemplar. (Ver figura 5. não conseguiam fazer uma crítica objetiva mais profunda da nova realidade científica/econômica que surgia sob seus olhos. recalcadas. reduzi-lo a progresso [17]. não se apagam ou desaparecem: de um modo ou de outro. Num primeiro momento o capitalismo faz retornar a história. sim. os determinantes profundos do modo de produção próprio à Modernidade. O “mal-estar” provocado pelo capitalismo produtivista foi a razão mesma do surgimento da ordem dos jesuítas. sempre acabam voltando. representado este por um poder simbólico/absoluto.

assim.150 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO das. O dinamismo da economia atual não vem mais da produção. um presente inesperado que lhe fez o PCC). Contudo. mas. O fascismo. Como resposta às pressões revolucionárias e reformistas que se avolumavam por todo o século XIX e mais se aguçam nos primórdios do século XX. mas primordialmente da capacidade de manipulação do imaginário das grandes massas pelas “técnicas” de marketing. finalmente. . Configurava-se. não vem apenas do ímpeto do processo de acumulação. uma reação premonitória desesperada ao domínio iminente do capitalismo de marketing. o modo de produção próprio à Modernidade. (Ver figura 5. no entanto. Podemos denominar capitalismo produtivista ou de simples acumulação a este primeiro modo de produção vinculado à Modernidade. agora exaurido em suas reservas estratégicas (afora um bilhão de chineses trabalhando 10 ou mais horas por dia a 50 dólares por mês. Somos de opinião que o capitalismo de marketing ou consumista já se anunciava teoricamente com os marginalistas austríacos [19] três décadas antes do fim do século XIX. desde seus primórdios ao início do século XX.7) Agora se pode ver com maior nitidez as razões da derrelição das propostas comunistas e socialistas. pronto e acabado. tomou fôlego no início do novo século com a produção automobilística norte-americana. experimenta um certo refreamento com a Grande Depressão. o mais importante para a compreensão de tudo aquilo que surgia. o capitalismo viu-se compelido a lançar mão de sua maior reserva estratégica – o desejo recalcado das massas [18]. tinha uma causa oculta e imanente – o processo de acumulação de capital. e que nela prevaleceu. como vimos. O desejo inconsciente teria sido afinal domesticado e integrado à economia. E é isso que vemos hoje por todo canto. fez às vezes de grande prova de passagem. a Guerra Fria é a oportunidade para a sua vitória definitiva.

o que se fez através do processo de caça às bruxas. pré-condição formal da instituição da proibição do incesto/obrigatoriedade da exogamia.. recapitulando por isso o “mito” de que a sociedade se teria constituído pelo “rebaixamento” do feminino (natureza). não são fenômenos assim tão .Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno ou consumista É boa a hora para procedermos a um resumo do que se disse até aqui. que segundo Max Weber constituiriam a essência da Modernidade. Como ficou demonstrado. no âmago.. como todo edifício. era o próprio Marx que nos advertia que nenhuma formação social poderia ser de fato derrubada antes de ver esgotadas todas as suas potencialidades realizadoras. mas uma crítica pela metade. A racionalidade generalizada e o correlato desencantamento do mundo. Vimos que a Modernidade começa. ou seja. ademais.7 . o que transformava as mulheres em objeto paradigmático da troca. Aliás. pelas fundações e pela construção e alocação de seus porões. pelo esfriamento à força da desmesurada” sexualidade feminina. uma empreitada cultural concreta e metaforicamente sexuada: ela estabelece a dominação socio-lógica do masculino sobre o feminino. a Modernidade foi e continua a ser.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 151 A esquerda não fazia uma crítica equivocada do capitalismo. havendo passado por uma profunda metamorfose. CAPITALISMO PRODUTIVISTA SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CAPITALISMO CONSUMISTA DESEJO DOMESTICADO PELO MARKETING CIÊNCIA SUJEITO LIBERAL CIÊNCIA HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL HISTÓRIA DESEJO HISTÓRIA Figura 5. justamente quando os homens (cultura) impuseram em seus próprios bandos a diferença clânica. só conseguindo reagir com retardo – seu inimigo tornara-se já outro.

retorna para se integrar à funcionalidade da formação cultural: primeiramente. de outro lado. transmudada em progresso ou processo de acumulação de capital. SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO Figura 5. O advento da ciência e da organização burocrático/racional foi apenas o primeiro passo na afirmação da lógica do masculino que estava já determinada a um passo complementar – a constituição do sujeito liberal como sujeito apropriado. (Ver figura 5. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade: segundo a hierarquia. Fica assim estabelecido. mas não supresso.8 . desde que antes se tivesse bem trancafiada em seus obscuros porões a “irracionalidade feminina. como todo recalcado. Racionalidade sim. O protestantismo é sua instituição difusa e a revolução liberal do século XVII na Inglaterra sua consolidação político/espetacular.8) O feminino.Estrutura lógico-sexuada da Modernidade com seus respectivos saberes Quando Marx denuncia o processo de acumulação de capital como o verdadeiro motor do capitalis- . de um lado. o masculino (ciência e consciência) em cima e o feminino (história e inconsciente) embaixo.152 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO gerais e muito menos tão profundos como ele acreditava. de maneira irretorquível. transmudado em demanda agregada – como gostam de chamá-lo os economistas –. depois. apenas na superfície. como desejo domesticado pelo marketing. conforme ilustra a figura 5. intervalar e sujeitado da ciência [20].7 à direita. como história censurada.

rebaixado). Que seria então da consciência e da liberdade? Recusado o cogito. o inconsciente. Em suma. em especial Descartes e Kant. Chama sua concepção teórica materialismo histórico (em contraposição a um pressuposto idealismo histórico de seu antigo mestre Hegel). ele se vê compelido a pôr em seu lugar o ser transparente à História: a liberdade passa a ser tão apenas consciência da ou transparência à necessidade histórica. é aquele capaz e apropriado ao desvelamento do ser-histórico. que facilmente se degrada em oportunismo. Marx rejeita coerentemente as filosofias da consciência. entretanto. diríamos. em contraposição ao socialismo utópico ou idealista de seus precursores franceses. a face reversa ou o recalcado em que se apoiava o modo de produção moderno. e que destarte degenera [21]. só podia fazê-lo valendo-se do pensar dialético que. vale dizer. apenas o sujeito liberal. depois. pode ele descobrir. toma como bandeira revolucionária a edificação do socialismo científico. individualista. também. em terrorismo de estado. era desalojado (em verdade. reivindica para seu pensamento o caráter genérico da cientificidade e. o sujeito liberal. Depois de tantas e profundas críticas. embora dele melhor fosse nem falar. à política propriamente dita. onde justamente residiria o núcleo duro do capitalismo. quando passa da teoria à práxis. Assim. propõe-se tão apenas desalojar o sujeito já sujeitado da ciência. tenta também inverter a direção de subordinação em que se encontrava o sujeito liberal. A ciência ficava mesmo onde estava. com bem maior propriedade). o que traduz uma impossibilidade lógica. alia-se à ciência. o ser transparente a si próprio. e colocar em seu lugar o ser coletivo ou corporativo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 153 mo (da primeira fase do modo de produção próprio à Modernidade. sobejamente demonstrado por Hegel. ainda que pela metade. Paradoxalmente. Na verdade. assumindo seu . Em termos filosóficos. para nossa perplexidade.

de outro vinha precisamente para encobrir o caráter sexuado da Modernidade. um a um. ao desvelar de um lado. Também com isso. o que propunha o marxismo não era mais que substituir a crucial problemática masculino/feminino pela já gasta problemática epistemológica (marca característica do período moderno da filosofia) de cabeça para baixo. à construção do cientificismo perfeito. a psicanálise vem precisamente completar o processo de desvelamento do recalcado constitutivo da Modernidade – o inconsciente. O marxismo teve de fato o grande mérito de dar a partida ao processo de desvelamento dos porões ou do reverso da Modernidade. Num primeiro movimento. do vigor desejante dos imaginários. Tudo isto acontecia como um quase natural desdobramento da domesticação. Foi deste modo que um autêntico ímpeto revolucionário transmudou-se numa força culturalmente reacionária. ao invés de uma real subversão da Modernidade. objetivo (material)/ subjetivo (ideal). mas na sua proposta de ação concreta. Era o advento do capitalismo de marketing ou consumista.9) É quase inacreditável que a psicanálise acabasse seguindo rumo perfeitamente simétrico especular ao marxismo. de uma verdadeira revolução (cultural) alicerçada na crítica da cientificidade.154 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lugar o sujeito coletivo. No fundo. foi o fato de que. Ela surge no momento histórico em que o capitalismo atinge sua plenitude lógico-estrutural com a mobilização de sua grande reserva estratégica – o inconsciente das grandes massas. a Modernidade per- . viabilizada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e das “técnicas” de propaganda. se propõe apenas à permuta do sujeito da ciência. ou seja. o capitalismo sem jaça. Contudo. ainda mais grave. por atacado. (Ver figura 5.

A sub-reptícia dissolução do caráter sexuado da Modernidade Freud desvela o inconsciente. dos indivíduos. de uma problemática do ser-subjetivo. de vetor de universalização de uma cultura [22]. com propriedade. O imperialismo. a Modernidade trocava sua condição de feroz opressora. não iria propor como solução uma revolução social. O grande problema é que o próprio Freud não abria mão de reivindicar o estatuto de ciência para a psicanálise (ao mesmo tempo que remoía e resmungava. ego e superego. e põe a nu o processo pelo qual se dava a estruturação do psiquismo – segunda tópica: id. Este último era a presença legal/ repressora da civilização (cultura) internalizada no próprio psiquismo. ou seja. um a um. pela de impiedosa etnocida. mas. hiperdimensionando a incompreensão da . se via então transformado em máquina exterminadora das demais culturas [23]. no caso. Tratando-se. como o marxismo. DES-SEXUALIZAÇÃO MARXISTA MARXISMO (SOCIALISMO CIENTÍFICO) CIÊNCIA SABER OBJETIVO OU MATERIALISTA SABER SUBJETIVO OU IDEALISTA ESTRUTURA SEXUADA DA MODERNIDADE PSICANÁLISE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO DES-SEXUALIZAÇÃO FREUDIANA PSICANÁLISE (CIENTÍFICA) CIÊNCIA SABER DA DIFERENÇA SABER DA IDENTIDADE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL FILOSOFIA DIALÉTICA Figura 5.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 155 dia o caráter desbravador próprio de toda cultura e assumia o caráter civilizatório/conservador. até então um modo de dominação econômica. o indivíduo como ser de desejo. a cura.9 .

é extremamente incisivo em seus ataques. agora o fazia como diferença/ identidade. especulativas ou materialistas (especialmente Hegel e Marx). Freud. sem descuidar de simultaneamente declarar guerra à filosofia em duas frentes – ocidental e oriental – às filosofias transcendentais ou da consciência (especialmente Descartes e Kant) e às filosofias dialéticas. Lacan. uma segunda vez. o hegelianismo lógico-dialético: A Aufhebung é um desses bonitos sonhos da filosofia. na verdade. donc je suis où je ne pense pas [24] e. de um lado. como já fizera Marx.9) O grande paradoxo: a psicanálise. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade. sexualizava o indivíduo desde criancinha. o cartesianismo lógico-transcendental: Je pense où je ne suis pas. se alia à ciência contra a filosofia a fim de desalojar (rebaixar. Velada por uma problemática ontológica. característico de seus primórdios pré-socráticos: o pensar do mesmo ou do um (lógica da identidade) contrapondo-se à lógica do outro ou do múltiplo (lógica da diferença). (Ver uma vez mais a figura 5. A problemática humana assume assim um caráter ontológico (também de cabeça para baixo. Chega mesmo a cortar pontes que se sabe já antes transitadas. Visa. mas às . mas sem pequenas fobias a leituras filosóficas. de outro lado. como fazia o marxismo em relação à problemática epistemológica) e ao mesmo tempo trágico. a Modernidade. [25] Em suma.156 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO comunidade científica). se diria melhor) o sujeito liberal ou cartesiano e pôr o sujeito inconsciente em seu lugar. ao invés de se estruturar lógica e originariamente como masculino/feminino. Com isso. um declarado radical freudiano. dilui-se.

.. Não foram raros os que chegaram a sentir. crente no princípio da conservação da “energia sexual”. suportada pela síntese simultânea de todas as lógicas de base. do feminino (inteiro e não despedaçado. no caso. a civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica. não há como negar. a verdade parcial sim. mas uma insubordinação e.. Além do mais. nem sempre alcançando a exata medida.? A nosso juízo. posto que sua superação só se poderá dar pela sublevação do recalcado. perdia. Não haverá uma inversão de mando. [26] Deste modo. Seguindo o próprio Freud. mas articulada à verdade total e parcial. como já sabemos. como se depreende do próprio texto freudiano: Nem todas as civilizações vão igualmente longe nisso. as mulheres logo se opõem à civilização e demonstram sua influência retardante e coibidora .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 157 expensas da sexualidade sócio-cultural. É da maior importância que fique bem à mostra o caráter sexuado da Modernidade. a necessidade . seu fim estará além de si mesma: ela significará.. e a estrutura econômica da sociedade também influencia a quantidade de liberdade sexual remanescente. o advento de uma cultura nova. Aqui. recuperando sua integridade [27]). de repente. masculinas e femininas. velava o real caráter repressivo da Modernidade. visto que uma grande quantidade de energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem que ser retirada da sexualidade. não como apenas não-todo. a re-sexualização do ser-social é uma condição necessária para a superação da Modernidade. seu elã subversivo para se tornar uma dentre outras forças reacionárias. como sexualizar algo sem retirar (ou trazer de volta) a necessária energia de algum outro lugar. A liberação do feminino será apenas meio. desta sorte. sim. a real liberação da humanidade.

mas prefere descarregar seu ressentimento contra o marxismo. não perde. esquerda/direita. é um crítico acerbo da ciência e da técnica. seu vizinho. temporária ou eternamente?) ao fascismo. mas sem chegar entretanto à completa compreensão do papel da ciência na formação cultural moderna. por essência). mas não consegue vislumbrar qualquer possibilidade de transcender à sua própria cultura (científica. quem seja o verdadeiro inimigo. Heidegger. Ora. se o marxismo. Um dos primeiros foi Reich. e o uso torto maldoso dos meios de comunicação de massa. levada ao delírio –. de modo equivalente. concordamos que de maneira até bem surpreendente. Antes de concluir este item. Afirmamos acima a “perfeição” da oposição Marx/Freud. pois. A posição de Adorno é muito instrutiva. de articular Marx e Freud numa só compreensão. em especial. de vista. este sim. isto é.158 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de se restaurar a integridade subversiva do ser-feminino. como também do sujeito liberal. de suas alunas peladonas). aquela com que estamos há muito acostumados – marxismo/fascismo. a psicanálise. desejaríamos deixar uma palavra acerca da simetria especular marxismo/psicanálise que vem aqui deslocar. se mostrou a Escola de Frankfurt. preso entre instrumentos. em pleno estrado magistral. ao optar pelo sujeito coletivo. coerentemente. propõe como solução a revolução social. acabou enquadrado. Bem menos equivocada. o que o fez associar-se (pela metade. quanto ao valor da ciência. optando pelo sujeito inconscien- . ou. instalações e grades. com o que se vê inapelavelmente condenado ao imobilismo (ante o desfile desafiador. mas pretendendo fazê-lo justamente sob a égide do que era seu comum equívoco – a devoção à ciência. agora elevada ao quadrado. porque ele sabe bem criticar a ciência. juízo de valor este que nos obriga a mostrar onde estaria escondida a “imperfeição” da oposição esquerda/direita.

se vê bastante simplificada quando constatamos que precisaremos nos ocupar apenas 5. Ela soa deveras paradoxal (como um dia soou a expressão inversa socialismo num só país). Queremos aqui focalizar apenas o papel que. à parte e tardio. pois isto já está feito com bastante detalhes em diferentes oportunidades [28]. portanto. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade . entretanto. e. Nossa tarefa. desconsiderada apenas a cultura paleolítica auroreal (pré-I). o caleidoscópico mundo cultural muçulmano (I). embora soando um tanto estranho. propor como solução uma revolução social. Daí. Observando bem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 159 te.. mas perderia automaticamente tal caráter tão logo nos dispuséssemos a aceitar a existência real e não apenas retórica de um inconsciente coletivo (como bem sabemos fizeram os junguianos) . Não vamos tratar propriamente dos estertores da Modernidade. nos acontecimentos que estariam por vir.. a auto-denominação nacional socialismo por si só diz tudo. pelo menos durante sua etapa fundadora) se confunde com a classe das culturas semíticas.3. somos levados a imaginar que será intensamente dramática a situação e o comportamento dessas culturas nos momentos que irão anteceder à efetiva superação da Modernidade. pertencente à família lógicoidentitária. ao mesmo tempo. Vê-se que. O título do presente item. um a um. Como a cultura nova é de natureza hiperdialética (I/D/D). terá coerentemente que propor como solução a cura. a família das culturas lógico-identitárias (Is) (exclusive o Extremo Oriente. pronto se depreende que a anomalia do fascismo ou “nacional socialismo está exatamente no fato de ele optar pelo sujeito inconsciente (romântico ou telúrico) e. diz bem o que pretendemos. terão as formações culturais semíticas – as culturas nodais judaica (originária) (I) e cristã patrística trinitária (I/D) e.

foi precisamente a característica letal da razão formal que deu ensejo a que uma determinada formação cultural arcaica viesse a ela se acoplar de modo visceral. vimos. por motivos que esperamos ter deixado suficientemente claros nos dois itens anteriores. nesta condição. O grande drama que vive hoje a família semítica ou identitária – e que dentro em breve terá que vivê-lo ainda mais intensamente –. tornou-se compulsivamente etnocida. capaz de sempre substituir um sistema que se torna obsoleto por um novo. pois a cultura cristã (patrística ou trinitária). por via destas peripécias. a cultura muçulmana. de per si. vive uma ‘justificada’ ilusão de liberdade. Ora. praticamente hoje se extinguiu [29]. já fragilizada. é a presença ativa da cultura judaica que viabiliza a Modernidade. por sua localização. é que ela mesma acabou se transformando. Já estamos bem cientes de que a modernidade científica (D/D) [30] não poderia ter sobrevivido e chegado à sua pujança atual sem a instituição de um sujeito (I) intervalar à racionalidade cristalizada. sente fundo esta real ameaça e reage desesperada. distribuição topológica. Ele é de fato um sujeito livre em relação a determinado sistema. na sua maior inimiga. mas não à cadeia de sistemas que se sucedem. para destarte provê-la de uma prótese vivificante [32]. a cultura judaica da diáspora européia ocidental. A variante cultural semítica que assumiu este papel foi justamente. escolha e sabedoria estratégica. salta à vista. a qual.160 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO com as culturas judaica e muçulmana. melhor adaptado às circunstâncias históricas sempre cambiantes. culturas . com a passagem da fase produtivista à fase consumista. seu papel é francamente intervalar e tributário [31]. Afirmamos isto num duplo e grave sentido: a) Sob um ângulo. Ao contribuir decisivamente para a realização da cadeia que o aprisiona.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 161 logicamente mais primitivas. a justa avaliação e análise do “histórico familiar” levam-nos a conjeturar que o mais provável é que o colapso da Modernidade seja precedido de uma cisão profunda no seio do judaísmo.. foram já exterminadas ou vão inexoravelmente em tal direção. quebrar a hegemonia asfixiante do trinitarismo cristão medieval. e outras que não se cuidarem. no advento do judaísmo (I). por sua dimensão real e pelo investimento simbólico que vem acumulando. Deveras. É também muito provável que. intensificando-se a crise da Modernidade. como a cultura neolítica negra. e do outro. de um lado. o Holocausto venha a se constituir no fulcro . impedindo que a própria família cultural lógico-identitária se desdobre em direção ao mais elevado. uma parte da comunidade. de um lado.. irá renegar a postura prómodernidade de quase um milênio (postura que se enrijece depois da expulsão da Espanha). a liderança cultural do mundo guinar em favor da família lógico-diferencial (ora dominante. é ela que dá sustentação à Modernidade. é razoável esperar que. fez. Se isto permitiu. Moisés e seus partidários. também no advento do cristianismo (I/D) vimos um racha entre. Seriam muitos os caminhos logicamente concebíveis para se chegar à cultura nova. b) Sob outro ângulo. talvez a maior. á sua própria consumação e. através de sua formação cínica anglo-saxônica). de um lado. o trinitarismo universalista. por outro lado. cujo significado não teria sido outro senão a servidão voluntária vis-à-vis o racionalismo cientificista (D/D). especialmente na diáspora da América e Europa Ocidental. constatamos um racha entre. e de outro. os adoradores do bezerro de ouro. como a ameríndia do norte. Porém. desta sorte. o nacionalismo ritualístico formal fariseu. Com estes precedente históricos. nos contemple com o mais belo de seus frutos: a cultura nova hiperdialética qüinqüitária.

Israel passava a contar com verdadeiros inimigos externos. O papel de maior ou menor proeminência da comunidade judaica reconvertida em marcha para a cultura nova dependerá menos dela do que de quanto e quando outras forças sócio-culturais resistentes à Modernidade tenham conseguido tomar consciência de sua destinação possível e se arregimentar de modo eficaz para a sua consecução. dar oportunidade a que seu historicismo unário se bifurcasse. De certo modo. configurando uma Terceira Aliança. já agora impossível de ser violada. o povo judeu tinha a opção de. isto é. doravante. tal como fora antes dado . ficando todo o vir a ser determinado integralmente pela polaridade obediência/rebeldia. Esta parte da comunidade irá então se juntar a outras forças culturais emergentes. esta tensão interna já existe há muito entre os judeus e está precisa e profundamente gravada no conflito entre o historicismo unário tradicional (I) e o historicismo trinitário moderno (I/D) [33]. só que em estado de falta. Além de vivenciar a eternidade no próprio curso da história. Na realidade.162 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO emblemático desta reviravolta. passando a ser considerado menos um crime que um castigo ordenado pelo próprio Deus para punir uma grave falta no cumprimento dos sagrados deveres da Aliança (precisamente a adesão subordinada à Modernidade científica). Ele terá seu sentido reciclado. independente do tamanho de seus pecados e infidelidades. Em contraposição se podia agora assumir uma historicidade plenamente dialética. ao ajudar a empurrar o cristianismo patrístico trinitário (I/D) em direção à escolástica lógico-formal (D/D). o judaísmo pode ocupar o lugar que assim vagava . onde o outro é ainda o mesmo. O historicismo tradicional tornavase assim o degrau zero da dialética. como antigamente. onde vinha operar o deveras outro. vivenciá-la também como o caminhar para o eterno.

em verdade. em seu livro Zakhor. mas não tenho dúvidas de que sua imagem esteja sendo forjada.. Como resultado da emancipação da diáspora e da soberania nacional em Israel. retrata bem esta forte tensão interna no judaísmo de nosso tempo: Atualmente. apesar de tudo. alternativamente interpretável como grave ofensa à Lei. mas pelo cadinho do romancista.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 163 aos cristãos originários. podemos estimar sua profundidade pelo peso que a cultura judaica teve e ainda tem na construção do mercado financeiro internacional e na constituição do sujeito da ciência. [35] . Yerushalmi. que. Sob a ótica desta última. duas das mais fundamentais instituições da Modernidade. o sucesso mundano seria. Isto nos dá uma medida da intensidade do drama que representa hoje aquela vida bifurcada. O Holocausto não teria sido suficiente. portanto. e ainda assim sua percepção de como chegaram ali e de onde estão é freqüentemente mais mítica do que real. O mesmo autor acrescenta: O Holocausto já engendrou mais pesquisas históricas que qualquer acontecimento da história judaica. o correlato do serviço que se presta à lógica do inimigo e. que no fundo não visam outra coisa senão impedir que se realize a vontade soberana de seu próprio Deus. A vida bifurcada reflete o conflito entre estes fatos assumidos e o compromisso com a tradicional concepção unária da história. prestes a atrair sobre a comunidade a justa ira divina. ainda resiste. [34] (negritos nossos) A reentrada dos judeus na História é um fato. por conseqüência.. os judeus reentraram completamente na corrente da história. não pela bigorna do historiador. é o fantasma que tanto inquieta e suscita ações preventivas. a comunidade judaica vive uma vida bifurcada.

os conflitos que em sua primeira metade opuseram as grandes nações européias. necessariamente também de evocação. posto que a verdade da nova cultura irá se revelar justamente pela leitura. escrito ou filmado. na segunda metade opôs os EUA à URSS e agora. nos cadinhos dos romancistas.164 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pareceria a princípio paradoxal: a nova historicidade hoje dominante. naturalmente.. como tradicionalmente. No recém-acabado século XX. que poderia colocar em dúvida o significado e valor do que ele chama ‘emancipação da diáspora’ ocidental –. vale dizer.. isto nos parece uma leitura simplista. nos referidos conflitos os judeus se encon- . desde já se poderia saber. [37] Mas não ficam só aí os sintomas.. aquele que opõe os EUA ao “terrorismo” islâmico. São justamente nossas incursões de certo modo furtivas ao romance [36]. já no século XXI. como se fossem “as guerras de Gog e Magog”. Não. Muito pelo contrário. não mais são interpretados de modo alegórico. Aqueles que estão alienados do passado não podem ser levados a ele somente através da explicações. Yerushalmi percebe bem a concentração de estudos históricos em torno do Holocausto e mesmo sem atinar (ou resistindo a atinar?!) com o verdadeiro significado do fenômeno – um desesperado esforço de destarte subtraí-lo a uma interpretação tradicional unária (mítica?!). conclui que este será um esforço baldado. A nosso juízo. que hoje mais de perto prenuncia este modo de acesso à verdade do ser hiperdialético. pois a imagem daquela grande tragédia estaria sendo cosida alhures.. uma renovada acepção de leitura. E se lamenta ele com boa razão: O divórcio entre história e literatura tem sido calamitoso para a narrativa histórica em geral e a judaica em particular. esta última assertiva reflete uma profunda intuição. não vem para ficar.

há um processo temporal que vai da Criação a uma Escatologia. como de fato ensaiou a Renascença (século XVI) e depois. Desde que isto está muito bem posto e atestado na Torá. Como é possível que a mais tradicional corrente ideológica de uma cultura descobridora da significação da história possa ser anti-histórica? [38] Na verdade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 165 tram bem firmes aliados sempre de um dos lados. o historicismo alemão do século XIX. Tal engajamento nestes eventos precisa ser rápido e intensamente encoberto pelo historicismo dialético moderno para impedir a todo custo a insurgência de interpretações ‘míticas’ tradicionais.10). Na concepção unária. . forçando a história unária a sair do seu recolhimento e vir se articular com a história universal. Podemos entretanto ficar certos de que nenhuma das duas correntes irá prevalecer a médio ou longo prazo. que os próprios (pelo menos os maiores beneficiários) tentam dissimular. que poderia depois suceder na história. que não fosse outra vez as mesmas faltas e as mesmas punições? Isto é completamente incompatível com o papel que os judeus assumiram na Modernidade. A tensão só poderá aumentar. que de certo modo traduz uma capitulação lógico-cultural. O tradicionalismo judaico poderia parecer a muitos um anti-historicismo. o que soaria para nós como um paradoxo. até que venha ocorrer uma síntese hiperdialética (I/D/D) que subsuma o historicismo unário da fé (I) e o historicismo trinitário do engajamento (I/D). ele é tão somente anti-dialético e reage mais fortemente quanto mais se vê ameaçado pelas concepções modernas de historicidade. o mais que pode acontecer é a desobediência à Lei e o castigo. (Ver figura 5. abertamente. Não é nenhuma surpresa que a maioria dos historiadores modernos (dialéticos) estejam nas universidades americanas e européias e que esta corrente aparente hoje deter uma posição de hegemonia. contudo. nesse interregno.

a dialética propriamente dita (I/D) seu momento de antítese e. são meras especulações lógicas. se bem que um pouco entradas já no novo ‘espírito qüinqüitário’. Hiperdialética. . onde a lógica transcendental (I) é seu momento de tese. Estas não são profecias [40]. antecipada pelo romance “VIDA BIFURCADA” I/D/D I I/D I I/D I Figura 5. já mostramos com detalhes. pode ser considerada como uma dialética das dialéticas. afinal.166 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Futura concepção qüinqüitária da História. a hiperdialética seu momento de síntese (I/D/D) [39].10 – Da “vida bifurcada” à resolução lógico-qüinqüitária A hiperdialética.

é como preferem legitimar. Criticam. pertence àquilo sobre o qual imagina alçar-se. a arte. Adorno. em essência. ou um estádio histórico superior. Ensaio sobre o Homem. podemos identificar três posições críticas em relação à Modernidade. Agora. achando que com este prudente distanciamento das baixelas. Nem serão aqui contados.e a tarefa da filosofia é tornar esse tema audível e compreensível. W. Não valem mais do que estas cinco linhas. Ernest Cassirer. T. imprecando um contra o outro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 167 6 Crítica da Modernidade O crítico da cultura fala como se representasse uma natureza intacta. Seu semblante feroz parece assustar o poder que por sua vez simula que ao vê-la treme de medo e ambos. apenas para ocupar lugar. mas tacita- 6. talheres e cristais conservam suas mãos limpas. a linguagem e até a ciência são hoje vistos como diversas variações de um tema comum . a religião. na realidade. Crítica cultural e sociedade O mito.1. Introdução . Há os que se alimentam só das sobras e migalhas. Começamos com a crítica que aí está. mas.

a de quem espia da quinta margem do rio a história da cultura passando ao encontro de si mesma. tomando-a não como um modo de produção. da autenticidade onto-lógica. trata-se da única posição subversiva. naturalmente. à Grécia e seus poetas trágicos. Em suma. mas não conseguindo vislumbrar o que a possa suceder.168 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente justos e acertados. correndo os riscos inerentes à procura. de prontidão para suportá-lo pegando de cada lado pelo sovaco. mas no encobrimento de sua mortal fragilidade. ora o uso sócio-espetacular dos meios de reprodução e comunicação. Em segundo lugar. não na soma de suas virtudes. assim que mostre o menor sinal de esmorecimento. com fé e engajamento. É o que denominamos ideologia. na medida em que se dispõe à crítica da Modernidade. A rigor. seriam três as posições que se pretendem críticas da Modernidade que aqui examinaremos: as ideologias. Haveria ainda uma última posição crítica. mas pelo que realmente é: uma cultura tipo nodal. conseguem destarte afastar quaisquer terceiros e por aí o perigo de uma veraz subversão. há quem deveras critique o poder imperante porque já é capaz de reconhecer e apontar para o que lhe é o mais próprio . Procede à critica da Modernidade. só se dispõe mesmo a voltar atrás. cujo vigor se sustenta na ciência desejosa (do uno/trino) e no seu preciso complemento .o sujeito liberal sujeitado. deve-se reconhecer. à esquerda e à direita do paradigma anglo-saxão moderno. desconsiderando que estes já eram lá censurados por exorbitar em dialética e fingimento.ora a ciência (ou a técnica) como expressão terminal de uma insidiosa metafísica. para mais além da Modernidade. Somente desta posição é que se estará deveras enfrentando essa nossa velha preguiça de pensar o novo e. as que ultrapassam as ideologi- . Contestam o poder porque o querem o mais perfeito.

cultura cristã trinitária (dialética ou I/D) e. esta última. clássico. a primeira. pelos impérios de base agrícola da Antigüidade. Em termos econômicos (obvi- 6. Este já teria passado por duas etapas ditas ecológicas [4]. já na atualidade. da dupla diferença ou D/D=D/2). que. capaz de operar um pensamento hiperdialético (I/D/D=I/D/2)[2] síntese do pensar da identidade (I). cultura moderna ou científico/ tecnológica (formal. para completar. a segunda. e. representada pelas sociedades tribais de caçadores/ coletores do paleolítico. A rematada impotência das ideologias . isto é. pelo trabalho. cultura greco-romana (da diferença ou D). governada pela lógica formal ou da dupla diferença (D/D = D/2). Esta se encontraria agora em sua fase civilizatória. mas ficam aquém da crítica radical à cultura. se coloca como o outro da Natureza (da pré-diferença ou pré-D). do terceiro excluído ou da dupla diferença (D/D=D/2). vai sendo aos poucos substituída pela horizontalidade imperial. a história da cultura é então concebida como processo hiperdialético de auto-desvelamento do ser próprio do homem [3]. na qual a verticalidade criadora. como um ser lógico-qüinqüitário [1]. vivendo a cultura científico/tecnológica. dizemos cultura da pré-identidade ou pré-I). numa estreita homologia ao que a civilização romana foi para a cultura grega. De modo conseqüente. indivíduo ou coletividade. da diferença (D).2. em sua linha de avanço. dialético.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 169 as. Seguiram-se as etapas propriamente lógicas: cultura judaica (da identidade ou I). em decorrência do próprio êxito. Estaria hoje a humanidade. cuja tônica é a identificação com a Natureza (em termos lógicos. unidade dos dois anteriores (I/D) e formal. Partimos de uma antropologia filosófica que concebe o homem.

uma promessa que não tem outro propósito senão o de tornar dispensável o advento do homem pleno lógico-qüinqüitário. esgotadas em suas promessas.a técnica exorbitante . todas elas já historicamente exercidas e. como veremos. isto é. proporcionar-lhe a imprescindível orientação e dela colher o primeiro e o melhor proveito? Insistimos no aspecto dissimulado das ideologias porque elas deixam sempre intocadas. financiá-la. de certo modo. Na verdade. a ciência e a técnica.e aquilo que mais abertamente expõe sua fragilidade congênita . mas de seu modo fingido. podemos tomar algo bem familiar a nós brasileiros - . dissimulada. Quem deva ser o seu sujeito. Mas o subterfúgio não pára aí. a um inconseqüente capitalismo financeiro internacional. A simples caracterização da Modernidade como cultura governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) é o bastante. à subversão da Modernidade. Para nós. de fato. Atente-se que a fragilidade não é da técnica enquanto tal. Ora. não pode ter outra função senão a de bloquear os caminhos que podem levar. ainda que descolado. deixar de lado justamente aquilo que constitui a essência mesma do dinamismo da Modernidade a ciência .170 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO amente redutores). é a questão do sujeito da ciência. isto significa a passagem do capitalismo nacional de produção ao capitalismo globalizado de consumo. em especial nos últimos 150 anos. Para ilustrar isto de maneira exemplar. aliás. quem deve desenvolvê-la. paralelo. o que está por trás de todas as disputas ideológicas do mundo moderno. que é o que hoje mais se quer ver. ao abrigo de qualquer suspeita. podendo voltar sobre si próprio como dissimulação da própria dissimulação. para permitir o mapeamento de todas as alternativas críticas ideológicas. da promessa enganadora nela implícita de levar o homem à perfeição (biológica) ou à vida eterna [5].

não têm limites. de como proceder a substituição ali do indivíduo liberal anglo-saxão (I) por um presumido espirito comunitário (I/D) da latinidade jesuítica [6]. O leitor pode estar satisfeito. já de origem. socialista de verdade. cinematográfico sujeito john fordiano . velada. tal como ele. a arte vira técnica de marketing (ou. mas os dissimuladores não. concomitantemente invertendo o . acriticamente a favor da ciência e da técnica? O rótulo Positivismo.que propõe a substituição do sujeito liberal I pelo sujeito coletivo (politicamente articulado) I/D. Isto eqüivalia a uma discussão acerca do sujeito da razão científica (D/2). Que pode isto significar se todos as correntes ideológicas são. que de fato transcende os sistemas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 171 o Positivismo.jesuítica. É ele o sujeito que assegura com sua viva determinação ou iniciativa a continuidade da cultura da morte. incansável empresário schumpeteriano. (Ver figura 6. trazia. temos de um lado a “opção” de esquerda . Nos extremos. no lugar de outro já gasto ou ultrapassado pelos acontecimentos. uma discussão sobre a adaptação da racionalidade moderna (capitalista) ao âmbito da latinidade. de uma latinidade aquecida pelo trópico. comunista. revolucionária . Dentre as “opções” ideológicas. pois chegam a se fantasiar de sociais-democratas para melhor impor sua prática neoliberal. a psicologia da consciência torna-se psicologia adaptativa do eu. instalações). mas apenas para colocar um sistema novo. parte superior) O poder hierárquico da lógica da dupla diferença funcionaliza o que seria próprio e específico às lógicas subordinadas: a política torna-se ciência política. distinguiríamos inicialmente o paradigma anglo-saxão. aquele que se decide pelo sujeito liberal I. intacto.1. mas sim vétero-liberal! Bem. em estado de degradação voluntária. no nosso caso particular. que também não é neo.

na sua versão mais primitiva.fascista. temos a “opção” de direita . nazista. telúrico.As ideologias . tradicionalista -. pelo sujeito romântico.172 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sentido de sua relação de subordinação com respeito à ciência. igualmente invertendo o sentido da relação subordinativa vis-à-vis a ciência.1. pelo sujeito libidinal. que vai propor também a substituição do sujeito I. o “povo” ou.1 à esquerda) A designação socialismo (I/D) científico (D/2) não lhe poderia ser mais apropriada. De modo quase simétrico. (Ver figura 6. (Ver figura 6. à direita) Figura 6.1. porém. agora.

. Haveria ainda uma quarta possibilidade. enganosa. mas precisamente entre o nacional particular (D) e o comunitário universal (I/D). instalação do Colégio dos Nobres) e o salazarismo. implantação da Cadeira de Moral e Civismo em âmbito nacional vendendo a imagem do Brasil Grande) e talvez muitos outros. na medida em que sua oposição à “opção de esquerda não acontece entre o nacional (D) e o científico (D/2). e no Brasil o getulismo (consolidação do mercado interno. porém. que seria a recusa de qualquer sujeito . uma razão profunda para esta equivocação: é que com freqüência uma formação ideológica de direita se apresenta não como uma troca de sujeito.é a posição das “cúrias”. criação das grandes empresas públicas. D/2.nazista . especificamente. E mais.é. agora restrito ou particularizado (o nacional). profissionalização na educação básica. mesmo que fossem elas próprias. ademais. organização do ensino básico) e o Movimento de 64 (aniquilamento das ideologias “exóticas” internacionais. mas como se fora uma simples particularização de um sujeito já dado. Sua designação mais própria seria nacional (D) científico (D/2) contrastando com socialismo (I/D) científico (D/2). pelo deslocamento do social universal (ou internacional) em favor do mesmo social. Esta observação é importante na medida em que o aludido fenômeno aparece reiteradamente na história luso-brasileira. que não se interessam por quaisquer sujeitos. Assim foi gerado em Portugal o pombalismo (expulsão do jesuitismo internacional. basta-lhes a lógica im-pessoal de um hiper-estático poder burocrático.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 173 Alertaríamos que a designação nacional (D) socialista (I/D) . as leis trabalhistas. Há. de algum modo. indefectivelmente acompanhada de propostas de modernização científico-tecnológica da produção e do sistema educacional.

habitação etc. SUJEITO CO LETIVO R Ú SS IA I/D SOCIALISMO CIENTÍFICO A O M XÃ IG S A D A R LO PA NG A D/ 2 M O D E R N IDA D L Ó G IC A D A C IÊ N C IA NACIONAL SOCIALISMO OU "NACIONAL CIENTÍFICO“ AM ÉR ICA I D "E U R O PA" SUJEITO LIBERAL SUJEITO ROM Â NTICO OU NAC ION AL .que governa a ciência . trata-se da pretensão de colocar a ciência e a técnica a serviço da preservação dos valores e da integridade do “espírito do povo” (D)."POV O" Figura 6.Sujeitos e inversões ideológicas Na opção jesuítica ou comunista. se iludem com a possibilidade de promoverem a inversão da relação de subordinação entre a ciência e seu sujeito.174 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Como já tivemos oportunidade de mostrar [7]. as inversões propostas sempre revertem. D e I/D . Por isso. qualquer destas “opções” vai se inverter.subsume as lógicas I. Em ambos os casos chega-se a uma impossibilidade.governando seus pretendidos e pretensiosos sujeitos -. trata-se de direcionar a ciência e a técnica para a solução dos grandes e urgentes problemas (ditos) sociais . e não ao contrário. o que .alimentação.2 . e uma burocracia de estado vai assumir um poder totalitário em seu exclusivo proveito. as duas “opções extremas. Assim necessariamente acontece porque a lógica D/2 . mais dia menos dia. educação. Ver figura 6. esquerda e direita.. saúde. Na opção nazi-fascista. pois.2.

não nos pode causar grande surpresa o troca-troca ideológico das “elites” do Brasil. fica aqui mais do que evidente. Uma conseqüência também evidente da posição de direita é a supremacia atribuída à estética D (ou à poesia. [10]” Na “opção” de esquerda acontece precisamente o contrário: a prevalência do político sobre a arte. tendo-se em conta a essencial indiferença das diferenças ideológicas. acordes em nada pensar para realmente mudar. porém. nada de estranho quanto à afinidade entre o sintomático helenismo desmedido dos filósofos e poetas alemães. ou à música dramática) sobre a política I/D. como a história do século XX bem o demonstrou. da “pedagogia” grandiloqüente do realismo socialista e assemelhados. como se depreende da teatralidade do barroco jesuítico. o sujeito liberal se afigura um sujeito realmente transcendente ao sistema (I). pois. em especial. examinada por nós anteriormente [9]. A similitude da “opção” de direita com a problemática cultural grega. Esta é uma configuração essencialmente perversa. como a prática do fascismo. e a força que na Alemanha assumiu o fascismo. acabando todas reunidas em torno do pensamento único. decidindo sistematicamen- . No paradigma anglo-saxão o sentido da subordinação aparece tal como logicamente deve ser: por definição. a ele sujeitado. dos românticos e seus derivados. um sintoma anotado com grande acuidade por Walter Benjamin: “Eis a estetização da política. na medida em que só lhe é permitido operar de modo intervalar entre sistemas (D/2) que se superpõem e se sucedem. assunto a que voltaremos mais detalhadamente no próximo item.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 175 acarreta a perversão dos “projetos políticos que se dizem fundamentados naquelas “opções . A propósito. Não há. que por isso mesmo jamais perverte [8]. O comunismo responde com a politização da arte.

é hoje. Depois de fazerem das eleições um só balcão de negócios. Paralelamente. apenas (logicamente) para frente e para o alto. o que nela representa a ciência e em particular a física. que bem sabemos agora o porquê. será preciso denunciar. simulando que tudo aí acontece democraticamente. Podemos agora nos aventurar para além do âmbito das ideologias. revistas e principalmente nos jornais e especiais das TVs [11]. Justamente estribados nesta compreensão geral é que negamos qualquer valor realmente subversivo à ação exclusivamente político-ideológica. A insistência numa tomada de posição exclusiva de tal natureza nesta altura da História já não é mais um equívoco (que já antes era grave). alta traição aos interesses da humanidade. que é real. da Modernidade. Recapitulando. Para não compactuar com o que aí está. conluio com o que há de pior na Modernidade. a dissimulação que é presentemente a técnica. de estofo lógico-filosófico. para mais agravar sua constitutiva fragilidade. na verdade. em especial a biotecnologia. para compreender de onde ainda dimana o seu vigor. afinal. Não há saída nem à esquerda nem à direita. indefectivelmente presente em todos os diários. chegam ao ponto de controlar cuidadosamente a “compra de votos no Legislativo para assegurar uma cota de votos-contra.3. é. é necessário proceder a uma crítica radical. onde verdadeiramente começa o processo de crise e superação da Modernidade. Para além das ideologias . Só assim poderemos começar a nos mobilizar para a verdadeira subversão da Modernidade. consideramos as ideologias como 6. para o apressamento da chegada da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. o passo decisivo para o encontro do homem consigo mesmo.176 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO te contra os mais elementares interesses da maioria do povo brasileiro.

em contrapartida. visto de dentro da própria Modernidade) existiria ali uma certa ambigüidade processual . assumem. diacrônico.como é o caso na atualidade do chamado processo de globalização -. representado por um plano solidário à própria Modernidade. a compreensão do processo de crise e superação da Modernidade requer exatamente o contrário: que concentremos nosso esforço crítico sobre a ciência e a técnica. o homem jamais abandonará a busca da autenticidade. representado por uma linha que traspassa a Modernidade. Ora. Localmente (isto é. de outro lado. não irá faltar de modo algum ao encontro marcado que tem consigo mesmo.ao mesmo tempo para trás (ciência) e para a frente (técnica exorbitante) -. lógico-filosófico da problemática cultural. de um lado. buscando uma avaliação objetiva das condições de continuidade do vigor criativo da ciência. tentando decifrar os mecanismos ilusionistas associados à técnica. o enfoque ideológico. sincrônico.3 tentamos pôr em evidência a relação conceitual conflituosa entre. qual deva ser o sujeito da ciência e o sentido de sua relação de subordinação a ela. Pouco importam os percalços temporários . mas que vista de um pouco mais longe se nos afigura como inexoravelmente ascensional. o enfoque crítico. cuja característica central é a desconsideração da ciência como questão (aqui não se discriminando ciência e técnica). .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 177 um fenômeno social típico do mundo moderno. reacionário. como sua questão maior. questionando-as. e. Na figura 6.

1.por exemplo.3 .178 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O HOMEM EM BUSCA DE SI MESMO (I/D/ 2 ) "LINHA DIACRÔ NICA" DO PRO C. Parece-nos que o que mais tem atrapalhado a compreensão daqueles acontecimentos históricos envolvendo o filósofo alemão tem sido a atitude apaixonada de todas as par- . ou nem um nem outro?! O leitor já deve ter percebido que não estamos diante de uma situação hipotética qualquer. o fato é que até hoje não foi tratado com a devida profundidade e amplitude.e. então. de alguém que fizesse uma aberta “opção” por um sujeito da ciência . Que pensaríamos. do affaire Heidegger e o nazismo (incluída aí a ultrasensível questão do anti-semitismo). pelo “povo” . Heidegger – a ciência e a técnica Estamos agora um pouco menos mal preparados para enfrentar questões de maior complexidade. especificamente.Plano sincrônico ideológico versus linha diacrônica do processo cultural 6. mas precisamente do caso Heidegger. CULT URAL TÉCNICA EXORBITANTE "PLANO SINCRÔNICO" IDEOLÓGICO Direita MODERNIDADE Esquerda D/ 2 CIÊNCIA NOSTÁLGICA (I/D) Figura 6. Embora este já se tenha tornado um tema recorrente. ao mesmo tempo fosse um crítico feroz da ciência e da técnica? Seria ele um mero reacionário de direita ou um profeta da cultura nova? Ou ambos.3.

a nosso juízo. justo por isso. toma-se como pressuposto que ele tivesse. pois. Começaríamos lembrando que coube em parte aos alemães do sudeste a resistência à penetração islâmica na Europa via oriente [12]. razão pela qual consideramos imprescindível que se explicite e se aceite o contraditório e o paradoxal das palavras e das atitudes. entre as quais estavam algumas de já tradicionais banqueiros. quando ocorre uma significativa migração de famílias judias para Frankfurt. que a colocação maniqueísta: Heidegger. Nada pior. à época do seu reitorado. uma das raízes mais antigas e fundas do anti-semitismo europeu. a mais dramática em . valeria fazer um breve resumo da história do anti-semitismo alemão. mas tem como seqüela desdobrar-se para alcançar seus primos remanescentes. É preciso compreender que sem uma vigorosa reação à expansão semítica. para então bem decidir. porque é exatamente daí que se pode derivar os mais importantes ensinamentos. o alemão. Sendo ele o maior dos filósofos de nosso tempo. tal qual ocorreu em Espanha e Portugal. na circunstância. sem dúvida. a plena compreensão e o acesso às informações suficientes sobre a situação alemã e internacional. anjo ou capeta. Há um outro importante momento histórico. Este processo num primeiro momento é anti-islâmico. Isto representou um grande impulso no processo de “modernização econômica” da Alemanha. com intensos reflexos na sua vida cultural. os judeus.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 179 tes. por volta de 1800. É a partir de então que esta cidade passa a se constituir num dos principais centros financeiros da Europa [13]. O surto de helenismo exacerbado e excludente talvez tenha sido sua irada reação inconsciente e. Preliminarmente. Isto. em particular. o que fortemente impactou a intelectualidade alemã [14]. Aí está. a Europa simplesmente não existiria e talvez ainda não tivéssemos nem mesmo entrado na Modernidade. está muito longe de ser verdadeiro.

chamamos a atenção para o fato de que. Em conseqüência. A agressão à cultura era então uma conseqüência do lucro desordenadamente buscado.para ele já se tornara evidente o processo de aburguesamento das massas européias logo aos alvores da era do marketing e do consumismo. O nazismo acabou sendo. ainda na passagem para o século XX. doravante. na Alemanha o nazismo ganhou a proporção que tomou. suas esperanças revolucionárias se voltam para a pequeno-burguesia nacional (D).180 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO suas conseqüências. do movimento soreliano [15]. Outro episódio de peso foi a chegada à Alemanha. fenômeno que não pode ser de modo algum explicado pelo ativismo de um punhado de desatinados. que era quem mais sofria. Nesta nova etapa da expansão capitalista importa. a agressão cultural passou a ser condição do lucro. o capitalismo sofre uma grande mutação: a função de principal motor do sistema passa da acumulação/produção para o marketing/consumo. Por fim. só se faria pela prévia agressão à cultura (dos outros). econômica e emocionalmente. . a implantação de atividades agrícolas ou extrativo minerais na periferia do capitalismo acabava provocando a desorganização das relações sociais em geral e do mundo da cultura. no início desse século. Com o capitalismo de marketing o processo se inverte: doravante é a desarticulação da cultura (ou sub-cultura) periférica e das relações sociais tradicionais que se torna pré-condição da penetração econômica global. Por tudo isso. Este movimento representa o abandono da expectativa da consolidação de um proletariado revolucionário internacional (I/D) . com a expansão do capitalismo financeiro internacionalizado. Isto implicava que a expansão capitalista. se apoderar por atacado do imaginário do outro [16]. É exatamente aí que a designação nacional socialismo. tem sua razão histórica. Antes. ou nazismo. sim. antes de mais nada.

o filósofo [17]. Ver figura 5. naturalmente. Em suma: pelo sujeito lógico diferencial ou prometéico. diríamos nós) entre duas tenazes: de um lado a Rússia (tendo como sujeito da ciência o ser coletivo I/D. que a Europa (tendo a Alemanha como centro). pelo povo. a estetização da política!). em particular da Alemanha. faz sua opção a que não se pode negar o caráter ideológico: o faz pelo sujeito romântico. pelo trágico. como o socialismo soviético foi uma reação retardada ao capitalismo produtivista ou de acumulação (além de representar a politização da arte!). Heidegger [18] afirma. De quem estaria falando Heidegger. pela Floresta Negra. lá pelos meados da década de 30.4. pelos gregos.4 . que não na posição lógico-diferencial D? Ver figura 6. É neste contexto histórico que Heidegger. I/D/2 VONTADE POLÍTICA OU “ VONTADE COLETIVA” HISTÓRIA CIÊNCIA I/D F E S R CO A N LA K F D U E R T D/ A ÃO IC Ç N A C UL É T IM S D E I/ D /2 2 H P E H O V ID IS O E G T G Ó E R R IC O I VONTADE INDIVIDUAL D VONTADE NACIONAL OU VONTADE DO POVO CULTURA Figura 6. este sujeito desejado. D. no caso da Europa. senão do sujeito da ciência? Onde então poderia estar. pelas águas do Reno e do Neckar. pela poesia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 181 uma reação antecipada ao capitalismo consumista ou de marketing (além de representar. está metafisicamente (logicamente. pelo torrão natal. telúrico. segundo ele. acrescentaríamos nós) e de outro a América (tendo como sujeito da ciência o indivíduo liberal I).4.Heidegger e a questão ideológica .

no lo racional en oposición a lo irracional (porque esta definición se basa en la frase: el hombre es un animal {I} racional {D/2}. Ademais. Não se precisa do livro do Victor Farias [19] para se chegar a esta conclusão. A figura 6. ela é uma articulação entre a vontade individual (determinação de projeto) (I) e o saber científico (D/2).4 deixa bastante claro que não se pode logicamente contrapor povo e técnica. e isto vinha já de Aristóteles. a algo de determinado nível lógico só se pode contrapor algo . É certo que ela não chega a ser lógico-qüinqúitária (I/D/2).182 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Depois disso. um radical crítico de sua cultura. Isto significa que ele vai muito além dos limites estreitos da questão ideológica e se coloca como um verdadeiro filósofo de sua época. deslocando-se da diagonal machista (D/2. A técnica é algo de natureza metafísica (no caso. sob o poder castrador do ultimo [20]. ser reduzida a uma mera tomada de posição ideológica precisamente em razão da crítica insistente e feroz que faz à ciência e à técnica. além das ideologias). Heidegger é de uma enorme clarividência. lo imaginado (lógica). I/D) [21]: El concepto no es aquí ya más lo pensado. como se pôde ver. Sua posição não pode. Heidegger então anuncia com bastante clareza em que direção irá se mover. De la necesidad de superar este antiguo “concepto” se sigue una mayor amplitud del novo concepto. basta saber ler a própria lógica da situação e das escolhas possíveis. a técnica é o próprio modo de ser do homem quando concebido como apenas animal racional. mas é bem o seu simulacro. Sob este ponto de vista. não pode caber a mínima dúvida quanto ao seu profundo e prolongado comprometimento com o nazismo. (colchetes nossos) [22] De fato. I) para a diagonal feminina (D. Estos son los conceptos fundamentales de nuestro futuro. entretanto.

vale dizer.El pueblo es hecho por la historia. mas uma decisão (não necessariamente consciente). D). na direção do futuro: . um desdobrar-se em seu próprio ser aberto (além de D). entrementes. contra a sociedade tecnificada (D/2 I) dever-se-ia confrontar não apenas o povo (enquanto apenas vontade. Tornar-se um povo histórico não é uma necessidade. nada tem de uma simples sucessão de acontecimentos fortuitos destituídos de significação. a história aqui se reduz ao acontecer da própria tradição. Ella es el carácter más propio del acontecer y lleva la determinatión propia por sobre nosotros hacia el futuro. não é algo inerente à condição de ser povo. [23] Cuando um pueblo pasa a la historia ello quiere decir: él entra al futuro. Pelo já visto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 183 de um nível lógico igual ou superior. [26] (negritos nossos) A opção pelo sujeito povo (D). é uma história sujeitada à lógica da repetição (do mesmo!). para o nosso filósofo. ela aqui se mantém ← ← . Embora a lógica da história seja a dialética. Assim. estaria pois essencialmente associada à problemática de sua entrada ou saída na história (I/D). o acontecer só verdadeiramente acontece como modo próprio de ser da tradição: Historia y acontecer no son ya más un continuo de sucesos: Acontecer es tradiction. síntese da identidade e da diferença (I/D). a História. [25] (negritos nossos) Lo que es desde lo ya sido es la tradición. [24] Entrementes. em Heidegger. él pasa a la historia (futuro) en tanto que se sale da historia (pasado). mas o povo e sua vontade de tornar-se um povo histórico (D I/D).

184 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ainda refém de sua proveniência. que não era o espaço. mas acaba sendo também vítima desta mesma excentricidade [27]. sujeitada à lógica da diferença (D). constitui uma evidente anomalia lógica. tal como a técnica. o que a rigor propõe é a substituição da técnica machista (D/2 I) por uma anti-técnica feminista (D I/D). mais um modo pseudo-lógicoqüinqüitário (pseudo I/D/2). a nosso juízo. tendo a lógica da identidade I a seu serviço. mas o tempo histórico das culturas. Heidegger não consegue ir muito mais longe do que lhe facultava sua própria cultura. por pressupô-lo apenas lógico-dialético trinitário (hegeliano) e não o que verdadeiramente é. Conclui-se. talvez. portanto. porém. Tira bom proveito de um certo descentramento alemão em relação à Modernidade. Heidegger. que aquilo que vinha para se contrapor à técnica. Em suma. hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. imaginamos. pois.2) Em que pese a sagacidade e o poder de enxergar para além das ideologias e mais ainda para aquém de seu próprio tempo seguindo ao reverso as marcas significantes deixadas meio às sendas do esquecimento do ser. um pseudo ser lógicoqüinqúitário) acabe desembocando numa anti-técnica (governada pela lógica da diferença D tendo a lógica dialética I/D a seu serviço. que se pode assim resumir: a) Embora tenha escapado dos estreitos limites do reacionário plano ideológico. sem conseguir deixar de ser. também um pseudo ser lógico-qüinqüitário). Por tudo isso cometeu muitos e sérios enganos. apenas um simulacro. teria tido o maior horror a Lacan e seus “matemas da sexuação” ! [28] b) Não distingue ciência e técnica no que lhes é o ← ← . A sujeição da história à tradição. (Ver figura 6. não consegue se assenhorar do aberto em que se viu. deveras o fazia. Isto vai implicar em que sua crítica da técnica (governada pela lógica formal D/2.

porém. É bem conhecida a sua dívida para com Marx (I/D) e Freud (D). por isso sub-avalia a força criativa da ciência e não consegue perceber quanta oportunidade há para denunciar a fragilidade da técnica quando em estado de ilusionista exorbitância. no fim de seu périplo filosófico. não chega a se configurar como uma verdadeira escola de pensamento: It may even be questioned whether they have anything in common beyond the programme for a restatement of Marxisme in the form of a ‘critical theory of society’. mas no que figura ser. daí. o que a Escola acaba mesmo realizando é uma “inversão interna” no esquema lógico heideggeriano. talvez desencaminhado pelos hinos e encantos de Hölderlin. como seria possível escapar à impotência. não em seu rosto. entretanto. vale dizer. parece-nos. Havia um precedente que lhe era bem familiar .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 185 mais essencial.a exorbitância poética dos gregos -. que ela é ainda maior para com Heidegger. mas nas suas máscaras sedutoras.os meios de reprodução e comunicação de massa Vale a pena aqui fazer uma breve referência à Escola de Frankfurt (sempre Frankfurt!). não se deve estranhar que. É um juízo quase unânime que a Escola de Frankfurt.3. em conseguir realizar uma reforma radical de sua própria universidade –. em que pese o nome. dela não se apercebeu. a nosso juízo se deve justamente a esta sub-avalição do poder da ciência na Modernidade. A Escola de Frankfurt . vá sugerir a volta à mesma exorbitância poética grega! 6. Sem isto. sua orientação diametralmente divergente na ordem do tempo: a primeira desejosa do que foi. de uma práxis política desastrada? Seu “fracasso” na reitoria – isto é. c) Não percebe que o problema da técnica não está no que ela é. a segunda fingindo ser já o que está ainda por vir. Como pretendemos mostrar.2. [29) . ou pior.

perde seu peso metafísico e por conseqüência deixa de se constituir suporte para os extremismos totalitários. b) Seguindo Karl Korsch (Marxismo e Filosofia 1923). Vejamos: a) Todos os membros reconhecidos da Escola passam pelo marxismo. entrementes. importa sim o seu conjunto que acaba se mostrando de surpreendente harmonia. pelo menos a nível lógicodialético. com a lógica do outro ou da diferença. completude e eficácia teórica. porém. sempre existiria um outro. valendo-nos de uma estratégia geral de envolvimento. Ver figura 6. como também de equivalência de ser e pensar. insistindo na sua desabsolutização. consequentemente. denuncia-se abertamente a aproximação do marxismo com o positivismo cientificista. A desabsolutização da dialética é justamente o que vai permitir a sua articulação com outra lógica. ali- . Deste modo. seja sobrevalorando o momento negativo da dialética em detrimento do seu momento de síntese. da “dialética negativa” de Adorno. no caso. barra-se qualquer pretensão de onipotência do conceito. Não importa a ordem de apresentação nem o peso relativo de cada um dos “lances ou movimentos” por eles realizados. que. pela dialética. como é o caso. Isto é feito de diferentes maneiras. Isto significa que a noção de totalidade. não importam o âmbito e as circunstâncias.186 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria mesmo assim? Realmente reconhecemos uma certa dificuldade em apresentar uma lista de concepções comuns à Escola. seja dando mais peso à Fenomenologia do espírito e menos à Lógica hegelianas (Habermas). por exemplo. na conjunção dialética e materialismo.5. podemos chegar a uma visão relativamente coerente e precisa sobre o que de fato pretendem os defensores da Teoria Crítica. verdade do ser dialético. Tanto para Horkheimer como para Adorno. é o último que torna a primeira um processo infinitamente aberto.

A formação lógica da Teoria Crítica d) Rejeitando a prima philosophia e as filosofias subjetivistas e. [30].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 187 ás. c) Aceitação da psicanálise como um real contrapeso a eventuais desvios conceptualistas totalitários da dialética. é comum à toda a Escola como assinala Kortian: The Critical Theory of Frankfurt School simply reproduces this metacritical paradigm in its merciless attacks on any rehabilitation of a prima philosophia. rejeita-se abertamente à psicanálise o estatuto de cientificidade com que tanto sonhara Freud. Este posicionamento. na verdade. pelo valor que dão aos imperativos da razão prática. mas. Kant e Fichte são aceitos. obviamente. a lógica transcendental ou da identidade que lhes dá suporte. Adorno é o mais crítico da razão identitária que a seu ver necessariamente suprime as diferenças. não pelo transcendentalismo. porém. Figura 6. com estas.5 . teria suas raízes nas inegáveis ambigüidades do próprio Marx com respeito ao valor da ciência e da técnica. . também taxando como suspeita a aproximação do próprio Freud com o positivismo.

vindo da esfera de influência heideggeriana. Talvez. mas principalmente a arte. Marcuse. por dentro. e demonstra como. da dialética I/D sobre a lógica da diferença D. Adorno rebela-se contra a tecnificação que se faz hoje em escala planetária. Hoje a cultura teria se transformado em mera indústria de diversão para mistificação das massas. rejeitam liminarmente o método e a postura objetivista da ciência por incapaz de dar conta da especificidade e da complexidade do ser histórico. Habermas segue na mesma direção. invertendo a direção da relação de soberania – agora.188 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO e) Não é de se estranhar que a estima pela psicanálise venha de par com a valorização da arte. Para Adorno. as falsas totalidades. fazem uma crítica radical da técnica moderna e das ideologias que as justificam seja explicitamente. f) Embora não se furtem à pesquisa empírica. por serem de Frankfurt e não da pequenina Messkirch. nada melhor do que a arte para romper. não podia deixar de atacar a tecnocracia e o totalitarismo inerente à razão técnica e científica. quem sabe. na região de Baden! Ver figura 6.4. Operando no “espaço lógico” o conjunto destas disposições se mostra extremamente constringente. em sua autojustificação. na Modernidade. porém. só que partindo de uma crítica profunda da noção weberiana de racionalidade. a própria técnica transformouse em ideologia. seja por ardilosa omissão. A Teoria Crítica é assim um pensamento que con- . Horkheimer lamenta que a Modernidade tenha cortado do âmbito da verdade não apenas a política e a religião. denunciam que a história reduzida a simples natureza leva a que a práxis se reduza inexoravelmente à técnica. deixando uma única alternativa: o comprometimento da Escola de Frankfurt com a mesma diagonal feminina por que optara Heidegger. portanto. g) A tudo isso colmatando.

primeiro. trata-se ainda de um pensar tolhido. na era do pensamento único. São. Heidegger e.como degraus ou como enormes pedras. é porque não nos interessa mesmo a salvação. que acredita que a Modernidade. Ora. depois.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 189 segue romper com o conservadorismo ideológico. com a sua “indústria cultural”. a Modernidade não se reduz a um simples modo de produção. Esse juízo é emitido pelo próprio Adorno . deixando-a à vontade para pensar-nos. ficando esta sempre impensada. não alcança a altura suficiente para se constituir numa instância crítica radical da cultura. Vimos também que poucos conseguiram até hoje ultrapassar os estreitos limites da crítica ideológica. excetuando-se. Se insistirmos em abdicar de pensá-la. Crítica radical da cultura .em todas as universidades. modos de pensar a meio caminho entre a penúria que ora se vive e o pensar pleno lógico-qüinqüitário . Em Heidegger. Foi por assim acreditar que acabamos todos caindo onde caímos. Não há mesmo saída à esquerda nem à direita.4. conforme o uso que deles se faça. como contemporaneamente acontece por toda parte . tal como a técnica que ele critica. em que pese a pretensão. não fo- 6. a Escola de Frankfurt. em todas as logias -. mas. Entretanto. levado às últimas conseqüências. e sabemos hoje bem o porquê: não pretenderam outra coisa senão alcançar o capitalismo perfeito através da simples troca do sujeito sujeitado da ciência. qualquer que esta possa ser. Definitivamente. Não há dúvida de que faliram as ideologias. a Modernidade é antes de tudo uma cultura em cujo âmago vive a ciência com o seu inesgotável poder de cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos. fechou todas as portas que pudessem nos levar a um ponto de vista a ela transcendente [31]. por via reversa.um dos mais proeminentes membros da Escola -. os dois.

é se colocar à espera de um deus que se crê infantilmente vá um dia se arrepender e voltar. também da ciência. não se pode pretender chegar à crítica da Modernidade sem um pensamento resoluto disposto a medir-se com a ciência. Que era então o logos heraclítico que a própria filosofia paradoxalmente desconhecia? No referencial ali tacitamente assumido. Hoje. No imaginário e na prática. sob o império da lógica da dupla diferença (D/D) . tintim por tintim. respectivamente. mas quanto à sua significação e. em lógica dialética (I/D). embora insuficiente. não obviamente naquilo que respeita a seus métodos e resultados. pleitear o retorno ao logos heraclítico. com Aristóteles. mas da humanidade concreta no inexorável e penoso curso de seu auto-desvelamento. não apenas da filosofia. sobretudo. a pior das emendas! O esforço heideggeriano de denúncia da essência metafísica da técnica (da ciência. ou mesmo à só palavra poética. lógica por lógica.190 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ram eles longe o suficiente para se constituírem como verdadeiras instâncias críticas da cultura e. ainda de sua época grega: com Parmênides o logos se degradava em lógica transcendental (I). preferiríamos nós). do que o pensar da diferença (D) [32]. igualmente. Hegel e Leibniz. não será entretanto perdido se vier contribuir para que a filosofia reconquiste seu vigor originário grego. nada mais. é lógica da diferença recalcada -. A nosso juízo. às suas ardilosas promessas. por ser tal. que acaba sendo também a denúncia dos limite da crítica ideológica da Modernidade. com Platão. Tudo isto veio se repetir. por conseqüência. em lógica formal (D/D=D/2). nada menos. de mais do que 2000 anos de história. Heidegger chamou nossa atenção para o fato de que os descaminhos da filosofia já vinham de bem longe. na era da ciência e da técnica. Isto implicaria avan- . na Modernidade com as filosofias de Kant. É fazer tábua rasa.que precisamente.

preventivamente. pela voz de seus maiores e com ares de sonsa gravidade. dialético trinitário. . ao invés de retroceder. Não há mais qualquer outra alternativa para um efetivo exercício crítico radical da Modernidade senão se postar à quinta margem do rio . Jamais tivemos ou poderemos ter uma crítica científica da Modernidade. mas sua própria cultura que perpetrava tal extermínio em escala planetária. mas chegando e se achegando enfim à sua morada. de um poderio hiperdialético qüinqüitário que a capacite para a urgente e imprescindível tarefa de crítica radical da cultura. mas coerentemente de um rio amazônico bem mais caudaloso. vazando assim os próprios olhos para não ver que não era o destino. incompatível com sua própria lógica. em especial da cultura Moderna. onde vige o princípio da falsa identidade [33]). ou seja.não falamos do rio temperado e montanhoso de Heráclito. como sendo o saber das culturas em desaparecimento. É óbvio que esta não é sua tarefa. à sua própria plenitude onto-lógica. entre outras coisas. trata-se sobretudo de uma tarefa para o Pensamento (tomado em sua acepção máxima mundana. E a ciência? Da ciência. não há o que se esperar. implicaria hoje na assunção. porque hiperdialético qüinqüitário -.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 191 çar. Mesmo a antropologia já se declarou. de onde se pode espiar o homem cansado e sofrido. Como poderia estar a ciência disposta à crítica profunda da Modernidade se é ela própria o seu fundamento? Em tal circunstância. lógico-qüinqüitária). a crítica da Modernidade se constituiria em auto-crítica da ciência (diga-se de passagem.

como teremos oportunidade de adiante constatar.... A história da cultura aqui representada apenas pela sucessão de suas culturas nodais (figura 7... Hegel e Marx O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa... é mais do que natural que... portanto........ casos particulares ou modelos reduzidos. O cristão foi.....1. portanto...... Pela razão óbvia de termos adotado uma concepção hiperdialética. como é o caso de Hegel e Marx (lógico-dialética). O cristianismo brotou do judaísmo........ mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão...... de generalidade extrema.... ........ Karl Marx. o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu. a simplificação a que aludimos se torna imediatamente visível. desde o primeiro instante.. A questão judaica. quando se lhe comparadas. à esquerda) [1] não difere assim tão extraordinariamente de outras conspícuas e bem conhecidas concepções....... o judeu teórico.. ......................... outras concepções do processo histórico apareçam como meras simplificações.......... então. Tillich... o judeu é....FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 193 7 História da cultura segundo Toynbee.. E tornou a dissolver-se nele... E quando algum autor se declara adepto e de fato se utiliza de uma concepção lógica explícita..

Comparandoas . na qual a forma piramidal (hiperdialética) apareceria subsumindo as formas triangulares (dialéticas) [2]. nós mesmos nos serviremos de uma representação geométrica trinitária (sucessão de formas triangulares) e não.a nossa proposta hiperdialética e a “filosofia da história” de Toynbee -. que se proceda à mais ou menos óbvia identificação do ser logico-diferencial (D) com o caráter materialista. ademais. ela pode sempre alongar sua existência à proporção que consiga dar respostas adequadas e eficientes aos desafios contingentes com que se venha defrontar. isto não a obriga necessariamente a percorrer uma seqüência de fases pré-fixadas. porém. Toynbee delineou uma filosofia da história na qual se alternariam culturas de caráter ora materialista. e do ser lógicoidentitário (I) com o caráter espiritualista. Ao final de sua vida intelectual. bastando. Estas últimas teriam implicitamente o comando global do processo. emigrado depois da Segunda Grande Guerra para os EUA. da primeira.194 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para facilitar comparações. expressa por uma religiosidade cada vez mais abstrata (espiritual) e de âmbito mais universal. não suficientemente nítida. Inicialmente examinaremos as concepções de Toynbee e Tillich. como seria conseqüente e mais funcional. O primeiro toma as civilizações como os reais sujeitos do processo histórico e adota uma concepção que poderíamos denominar de organicismo mitigado [3]. Neste. Paul Tillich. que seguiria uma tendência ascendente. cada civilização tem de fato o seu próprio ciclo de vida. o preclaro teólogo alemão. constatamos que a última não é mais do que uma versão simplificada (lógico-trinitária) e. de uma representação propriamente lógico-qüinqüitária. ora espiritualista. ainda por cima. . para comprová-lo. nos seus resultados bastante próximas da nossa.

como não poderia deixar mesmo de ser. Aqui. da problemática antropológica: Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica.n.[4] O papel que a tensão tempo (I)/espaço (D) exerce é. mas um a priori constitutivo da própria mente humana .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 195 trabalha diretamente com as culturas e adota uma concepção também implicitamente dialética do processo histórico. vale dizer. tendo-se aí a cultura judaica por seu ilustre paradigma: .temporalidade. de importância primordial na estruturação da mente humana e acaba por isso se refletindo no próprio processo de sua objetivação simbólica coletiva. [n. entretanto. [negritos nossos. nas formações culturais históricas. constatamos. Outro grande filósofo alemão da cultura.] [5] Ao percorrermos a lista das culturas que Tillich aponta como comprometidas com o tempo. aliás. também vem chamar a nossa atenção quanto à importância da análise das experiências de tempo (I) e espaço (D) para a compreensão. como em Toynbee. que elas coincidem exatamente com o que caracterizamos como culturas lógico-identitárias (família I). de fato. espacialidade e a luta pelo predomínio em que estão permanentemente empenhadas: L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. Ernst Cassirer. o “motor da história não é o desafio contingente versus resposta. em profundidade.

aqui. pelas culturas do tempo.196 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Le peuple juif est comme aucun autre nation le peuple du temps. Il représente la lutte permanente que se livret depuis toujours l’espace et le temps.n. Os casos mais interessantes vão ser os de Hegel e Marx. para o seu radical apego à coerência lógica (dialética). Car l’homme est capable d’agir en vue d’une fin située par-delá sa propre mort. cada uma com seu específico e dissimulado propósito. ambos declaradamente lógico-dialéticos. vão ser então identificadas como lógico-diferenciais (família D). verdadeiras deformações da concepção hiperdialética. mais usual. e o que é mais curioso. pelas culturas espirituais. [6] (n.n. é a nossa. sempre a mesma tendenciosidade (que. cada uma a seu modo. devemos atentar. em suma. enquanto que o primeiro adota uma versão especulativa (preferimos a denominação especulativa à idealista. O último diz adotar uma versão materialista da dialética. grega e moderna.) As culturas do espaço. Para melhor compreendermos como foi possível a deformação conceitual cometida por Hegel. também): Ce n’est que dans l’homme que le victoire finale du temps devient possible. lá. (n.)[7] Depois disto tudo só nos resta afirmar que a concepção do processo histórico em Tillich pode ser também considerada como tão apenas uma versão simplificada da nossa proposta hiperdialética. a torcida é para um dos lados. não escondemos. mas porque constituem. Aqui. mas que a nosso ver deturpa a intenção hegeliana). Admitido . também. Estas duas concepções da história são sobremaneira interessantes na medida em que não são apenas simplificações ou reduções. em primeiro lugar. como em Toynbee.

sua meta tem que ser a auto-realização do espírito como espírito absoluto . Os judeus são. por ex- . Tal passagem se confirma com o episódio da auto-definição essencialmente lógica de Deus. com muita precisão. Hegel toma estes episódios como significantes da ruptura dos vínculos do homem com a Natureza. no plano simbólico. uma concepção abstrata e alienada da essência humana (figura 7. lógico-D-iferenciais. ou seja. com o telúrico vigor que afinal o engendrara. se afigurando então como a realização/institucionalização deste mesmo ser lógico-trinitário! Espantoso! Em segundo lugar. Ele produz esta “demonstração” valendo-se exatamente da passagem bíblica referente à adoração do bezerro de ouro que.o perfeito e acabado ser lógico-trinitário (I/D). portanto. o trânsito das culturas ecológicas (inicialmente identitária.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 197 o caráter dialético da história. respondendo à indagação de Moisés: “Eu sou o que sou (ou serei)”. passíveis da acusação de terem instaurado um pérfido dualismo.1. ambas ainda referidas à Natureza) em direção às culturas propriamente lógicas. precisa demonstrar a todo custo que a cultura judaica pertence à família das culturas Diabólicas. o Estado prussiano. Ora. ele se vê obrigado a afirmar coerentemente que tal processo deva conduzir ao desvelamento de um ser lógico-dialético e não a outro qualquer tipo de realidade [8]. portanto. assinala a passagem do analógico ao plenamente convencional. deslocados de sua real posição lógico-identitária (I) para a posição lógico-diferencial arcaica (pré-D). Esta deve ser. à direita). por razões “psico-sociais” [9]. depois diferencial. Ela também representa. se o processo histórico ainda se encontra em aberto.[10] Com o “rebaixamento” da cultura judaica. podese então trazer a cultura grega para o seu indevido lugar. a destinação da cultura alemã. desta sorte. Sua expressão política. esta deixa consequentemente de ser. Hegel.

a cultura trágica ou prometéica (D) para ressurgir como cultura identitária (I). da tela e da pedra. como ele equivocadamente inferira. o novo Estado alemão. não é mais o Deus Uno-Trino. HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA HEGEL: HISTÓRIA DIALÉTICA (VISTA PELA ÓTICA DA FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO) ONDE SE DEGRADA A CULTURA JUDAICA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D/ 2 D/2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA CULTURA MODERNA CÍNICA CULTURA ALEMÃ CULTURA GREGA TRÁGICA I/D D I/D D CULTURA CRISTÃ CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA GREGA TRÁGICA I PASSAGEM DEGRADANTE Pré-D CULTURA PRIMITIVA CULTURA JUDAICA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I Pré-I Figura 7. agora!). pois o desejo do cristianismo é precisamente a “espiritualização” (I/D) do corpo (D). Depois de todos estes malabarismos. Não percebeu Hegel que grego. metaforizada à exaustão na “sublimação” da cal. mas o dualismo corpo/alma. fica aberto o lugar para que uma nova realidade advenha em I/D. seu profeta. em I/D/D. Uma cultura realmente da identidade (I) produz profetas e não filósofos. para ele. dirão com malícia que estamos nós à espera do Brasil. O essencial no cristianismo. Valendo-se da mesma artimanha. como atesta o incomensurável acervo da arte sacra que ele nos legou [12]. adivinhamos. Hegel pôde deslocar a cultura cristã trinitária da posição I/D para D. os primeiros e mais dedicados amigos do ser [11].1 – Hegel e a história da cultura . na filosofia. já lá instalado à espera para dar-lhe as boas vindas (assim como. é o lugar de onde se pergunta pelo ser (distanciamento D) e não o do ser desejado (I).198 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celência. Um absurdo completo. com Hegel.

50 que se instalara a revolução industrial inglesa. tratavase. desaparece da cena histórica a cultura judaica e com ela todas as suas articulações conceituais (lógicas) e históricas com as demais culturas.. agora colocadas ambas sob a rubrica comum: modo de produção escravista. fosse qual fosse a data que tomássemos para o seu nascimento. de colocar a filosofia de Hegel de cabeça para baixo! Para tanto. só um gênio seria capaz de tais proezas: afirmar. 100 que morrera Galileu. Babilônia. à direita).. Pérsia. e o Egito antigo é um ótimo exemplo disso. e o faz por meio da identificação da cultura de base agrícola dos grandes impérios da Antiguidade (Suméria. Assim. e isto foi dito até com bastante franqueza. Seria então o caso de se indagar por que seria Hegel tão cego à lógica formal (D/D) já ele sentado sobre ela? Em outras palavras.2. 500 que morrera São Tomás. Marx simplesmente curto-circuita a cultura judaica. naquela altura dos acontecimentos. O escravismo é uma extensão mais ou menos permanente de um verdadeiro modo de produção. Deveras. governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D). que a realidade maior fosse de nível lógico dialético (I/D) e que a cultura judaica fosse dualista (pré-D). Assíria. além de grande filósofo. Já se iam para mais de 600 anos que morrera Abelardo. A escolha da denominação escravista é um ato falho que vem ratificar o que estamos afirmando.? O caso Marx é tão ou mais interessante que o anterior. como em Hegel. (figura 7. todos de nível lógico pré-D) com a cultura trágica grega (de nível lógico D). Com isso. mas de simplesmente subtraíla à “objetividade cientifica” [13]. A maior parte da . seria ele. um ainda maior neurótico obsessivo. a artimanha não sendo mais aquela de deformar (a lógica das virtudes da cultura judaica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 199 É importante lembrar que tudo isto acontecia numa Europa já imersa em plena cultura científica moderna. Egito etc.

por fim. apagam-se completamente as marcas da passagem das culturas ecológicas (Pré-I e. O mais importante é que.Marx e a história da cultura No mais. a sociedade sem classes. Fica ainda o espaço suficiente para a conclusão do processo histórico através do advento do comunismo. diga-se de passagem . e sem esta ruptura presente. e .2 . na posição D/D. D..corretamente. apenas podia se dizer escravista. mas reduzindo-a a I. na posição I/D. onde justamente estava inconscientemente Marx.200 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO produção egípcia não era escravista (os egípcios não eram escravos em suas terras). Assim fica bastante claro que a escolha do nome escravista para este modo de produção só se justifica da perspectiva judaica. pré-D) para as culturas propriamente lógicas (I.a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico com comunismo primitivo. em I/D/D. DA CULTURA ONDE É ESCAMOTEADAA CULTURA JUDAICA) COMUNISMO AVANÇADO CULTURA MODERNA CÍNICA FEUDALISMO CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D I/D/2 D D/ 2 I/D I ESCRAVISMO CAPITALISMO I/D/2 D/ 2 I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA Pré-D CULTURA JUDAICA D CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS I PASSAGEM ESCAMOTEADA Pré-D Pré-I ESCRAVISMO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I COMUNIASMO PRIMITIVO Figura 7. a cultura científica moderna com capitalismo.. a cultura cristã patrística com feudalismo. ).. HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA MARXISMO: HISTÓRIA DIALÉTICA MATERIALISTA (HIST. com a escamoteação da cultura judaica. é só identificar . em préI. mas reduzida a I/D. em especial. mas reduzindo-a a D.

Não nos pode. causar nenhum espanto. notas introdutórias e mesmo posfácios. A história da cultura se reduz com este “apagamento” a um mero processo de desenvolvimento das forças produtivas em seu sentido puramente material. sempre o mesmo livro (o mesmo sistema). Pela simples contemplação da figura 7.. sem precisar acabar os seus. Ao contrário de Hegel. toda a produção lógico/simbólica se reduzindo a mera super-estrutura determinada [14]. podia harmoniosamente conviver com a sua histeria (I/D). E com isso ficamos nós sem nada saber de como foi possível a Marx. chegar afinal onde chegou. verifica-se como ele pode deveras realizar toda esta mirabolante deformação histórica.. . Marx. dis-pensador da cultura judaica. escrevendo prefácios. que embora dialético (I/D) não conseguia se desembaraçar de sua neurose obsessiva (D/D). que Marx acreditasse estar colocando o mundo filosófico de cabeça para cima. ficando assim obrigado a escrever. se poderia também dizer) da realidade social pode se prolongar e dominar a totalidade do processo histórico. a concepção ecológica (materialista. também dialético (I/D). de cabo a rabo. tomando a infraestrutura material (ecológica ou econômica) da sociedade como determinante.2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 201 bem aparente. portanto.

Fenomenologia do espírito. a nosso ver.. Consideramos que este é o momento oportuno para . Hegel. a nosso juízo. Começaríamos indagando: elas variariam ou não em função do tipo (lógico) da cultura considerada? Podemos tomá-las como um caso particular da também velha questão dos universais? Podemos tão somente reduzi-las a uma relação topológica. esta é uma antiga questão filosófica [1]. . mais intensa e profundamente estarão contribuindo para a resignificação contextual do ser humano: falamos das relações homem/sociedade. tanto tem de cultura. até hoje sem uma resposta aceitável. quanto tem de efetividade e poder.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 203 8 Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária É portanto mediante a cultura que o indivíduo tem aqui vigência e efetividade.. O tema central aqui é a relação entre indivíduo e sociedade. homem/ cosmos e homem/Absoluto. Os aspectos aqui considerados são aqueles que na nova cultura. conteúdo/continente? Como bem sabemos. II Este ensaio é o primeiro de uma trilogia em que assumimos o elevado risco de tentar delinear. com algum precisão. aspectos da nova cultura lógico-qüinqüitária que virá suceder à atual Modernidade.

De per si.estaremos adentrando. por último. operando e existindo em cinco níveis ontológicos: transcendental ou identitário (I). em muito pouco tempo . dialético (I/D). por apenas reconhecer um determinado nível lógico que ela absolutiza/sacraliza em sua religião oficial ou hegemônica e que sanciona por todos os meios. portanto. hiperdialético (I/D/D=I/D/2). simples diferencial (D). por suas normas e práticas educacionais [3]. clássico formal ou duplamente diferencial (D/D=D/2) e.204 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO buscar-lhe uma resposta clara. tal como ilustra a figura 8. indivíduo e sociedade. agora. eles se constituem como entes de nível lógico-qüinqüitário [2]. em especial. sem dúvida. Sabemos também que seja qual for a cultura. lado a lado.Relações políticas e culturais invariantes numa cultura de nível lógico X . isto é. a nossa grande esperança .esta é. já com vista à cultura nova lógico-qüinqüitária que. ela se caracteriza justamente por um parti pris lógico. Coloquemos. Figura 8.1. embora tenha todos os seus membros de nível lógico-qüinqüitário (I/D/2).1 .

sua liberdade. ou seja. seu poder de autodeterminação.1. em especial. dentro do que permite a cultura de nível lógico X.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 205 Isto posto. depreende-se que devam existir ao menos dois modos invariantes de articulação entre indivíduo e sociedade. por exemplo. uma operação de natureza lógico-identitária (I). de modo simétrico. aquilo que é falta constitutiva do ser-coletivo. o processo de produção da deci- . falta-lhe por si a cultura. pois esta última é uma prerrogativa essencial do ser-coletivo. O segundo. caso contrário. não pode por si determinar-se. Deste modo é que eles podem atingir seu mais elevado nível de estruturação interna e relacional. seu poder de decisão estrito senso. veremos sempre o indivíduo operando necessariamente em nível lógico transcendental (I). O mais interessante a observar é que o processo de assunção da cultura pelos indivíduos se faz por identificação. estruturas conceituais (a língua. que diríamos cultural. duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. Daí. Em contrapartida. De outro lado. em razão mesmo de ser múltiplo. este mesmo ser-coletivo. como é o caso. não importa o tipo de cultura sob consideração. o que nos leva a acreditar que. ele não estaria garantindo o que lhe é mais essencial: sua integridade. tal como ilustra ainda a figura 8. é aquele em que os indivíduos entram num processo interativo para produzirem. O primeiro modo de articulação. que denominamos político. é aquele em que os indivíduos suprem sua carência cultural constitutiva assumindo ou se deixando tomar pelos esquemas de percepção. naturalmente. em especial) e valores gerais que constituem a cultura de nível lógico X. que é necessariamente portador de cultura. qualquer que seja a cultura focalizada. a partir de sua capacidade individual de autodeterminação ou decisão. da língua.

para a sua própria consecução. Para Aristóteles. confundindo-se o ser social com o ser político. Entre os gregos da idade clássica não havia a menor dúvida que o fosse. a política era considerada a primeira dentre as ciências e o homem o animal político [6] por excelência. Além das dimensões política (que engloba o poder ou a formação da determinação coletiva) e cultural (que engloba o sentido compartido que faz a unidade coletiva). todo ser social comporta ainda uma terceira dimensão fundamental voltada para o provimento de meios em geral. ao político e cultural. Como já adjudicamos os níveis lógicos extremos I e X. se valer daquilo que a sociedade tem de melhor ou mais sofisticado – a essência (lógica) assumida de sua cultura.1. É bem razoável pensarmos assim. Sugerimos que se volte a ver a figura 8. em especial. nada há de mais natural do que a política. no mais elevado dentre os modos de interação social. dos meios para a sua reprodução material. por uma questão de completitude. tudo isso é apenas uma disposição normativa. ou pelo menos assim deveria ser. exclusive) à dimensão econômica. em geral.206 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO são coletiva articulando as determinações individuais se faça por um modo operatório de nível lógico X [4]. que denominamos dimensão econômica [7]. Em outras palavras. em termos de distorções estruturais compensatórias alhures. pois a política se constitui. a fazer corresponder os níveis intermediários (entre I e X. embora devamos saber que toda violação acaba tendo lá seu justo preço. respectivamente. somos obrigados. Aceitar que o processo mediador num extremo ← (X X) é do tipo lógico-transcendental I (uma identificação) e no extremo oposto (I I) é do tipo lógico X. Como exemplificaremos adiante. é o mesmo que dizer que as lógicas dos processos de mediação nos extremos do leque das rela- ← . na Ética a Nicômacos [5].

O processo de decisão coletiva (I) derivaria da autodeterminação individual (I) por meio de um processo de luta (I/D). à esquerda. Para ilustrarmos tudo que foi até agora dito. o nível cultural (coletivo) seria lógico-dialético.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 207 ções indivíduo/sociedade culturalmente reconhecidas estão na ordem invertida em relação às lógicas que governam aquilo que elas justamente articulam. a meio caminho. Por certo. por conseqüência. em ordem inversa relativamente às lógicas dos aspectos individuais/societários articulados. Insistimos. natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêmse. tomemos o caso das culturas cristã medieval (I/D) e científica moderna. quanto no sentido inverso. tanto no sentido do indivíduo para a sociedade. O sentido da determinação a partir de um qualquer dos extremos acompanharia àquele deste extremo. O estado de máxima elevação cultural seria o êxtase diante do Espirito de Deus. sacraliza a lógica dialética (I/D). que todas estas assertivas valem apenas como uma norma. uma vez mais. mas em todos os níveis dentro dos limites da lógica da cultura considerada. Nesta cultura. vale dizer. naturalmente. Havendo um exato nível médio ele será igualmente determinado. Seria. (D/D=D/2) Sabemos que a cultura cristã medieval é lógicotrinitária que. a realidade suprema aí seria o Espírito (I/D) e os indivíduos se tornariam cultos através do processo de identificação (I) com o espírito (I/D) de sua época. portanto. mas sua força determinativa iria se atenuando (permitindo que a determinação também se exerça mais e mais no sentido oposto) à proporção que nos aproximássemos do outro extremo e se inverteria. produto da . muitos diriam que nem sempre assim acontece: a decisão poderia vir do diálogo e até como fruto maduro de um estado de comunhão.2. tal como ilustra a figura 8. não apenas nos extremos. no geral.

à direita).208 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO graça derramada pelo Espírito (I/D). estribados no costume e na autoridade (incluída aí a força ou a ameaça de utilizá-la). logicamente D). eleitoral.2. isto é. O processo de distribuição social de seu resultado nada mais seria que a simples apropriação (D) pelo próprio trabalhador (camponês. teríamos o processo político produzindo a decisão coletiva (I) a partir das decisões individuais (I) mediante um procedimento contábil (D/D). A dimensão econômica nesta cultura restringir-se-ia ao nível lógico-diferencial. aqui conta apenas a lógica do processo. que em qualquer destas hipóteses continuaria sendo obviamente dialética. consubstanciado apenas no trabalho (esforço que se faz com vistas a outra coisa que ele próprio. portanto. Figura 8.Relações indivíduo/sociedade nas culturas cristã medieval e científica moderna Vejamos agora o caso da cultura científica moderna.2 . de caráter plebiscitário ou representativo (ver figura 8. . de nível lógico-clássico formal (D/D=D/2). Num dos extremos. não importa. em geral) ou por terceiros.

no caso da dialética não lhe corresponde a história.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 209 O ser individualmente culto se realiza por simples identificação (I) com os papéis definidos pela organização (D/D=D/2) social. Teríamos ainda que considerar o nível lógico I/D. sob o aspecto dialético. por fim. cuja determinação flui aí no sentido do coletivo para o individual. ficasse muito longe de perceber que esta assertiva tinha validade apenas do ponto de vista de uma cultura determinada. Sobram assim dois níveis lógicos para serem adjudicados à dimensão sócio-econômica. através de um processo lógico-dialético (I/D). então. Facilmente identificamos o D individual como sendo o desejo. que no fundo governam a dimensão econômica. É. A propósito. ou seja. ou.no caráter social do excedente acumulado. como sendo a demanda agregada e. a história desnaturada. o processo I/D como sendo o mercado competitivo. Em termos econômicos. era justamente nisto que insistia Marx . no nível D. Quem desconhece o gráfico ascendente levemente serreado do processo da acumulação de capital . que individualmente teria que ser produzido a partir do I/D coletivo através de um processo lógico D. no entanto. Precisamos lembrar que na cultura moderna (D/D) as lógicas femininas {D e I/D}. estamos tratando do capital (I/D) [8]. induzida pelo cálculo da taxa de retorno do capital. embora. Por isso. de maneira essencialmente invertida ou distorcida [10]. Do ponto de vista lógico ou formal. pois. estão de fato presentes e operantes. seu modo de ser social. a demanda individual e o D coletivo. mas tão apenas o progresso. por simples questão de simetria. a nosso ver. do capital -. o coletivo precisaria ser produzido a partir do individual. através da apropriação privada (D) [9] do capital social (I/D) que os indivíduos completam. O indivíduo sentese culto na medida em que se identifica com seus diferentes papeis ou correspondente títulos e tabuletas à porta. em termos econômicos.

mas pela apropriação de parte do patrimônio coletivo acumulado. o mercado (I/D). para a formação da decisão coletiva (I). não pelo engajamento na história (que a ideologia dominante chega a crer que já não há mais). Vamos considerar o exemplo excepcionalmente didático da União Soviética. sente-se naturalmente um excluído. que faz valer os seus desejos pessoais (D) na formação do desejo coletivo ou demanda agregada (D) através de um processo competitivo. respectivamente. Quem não consegue do capital sua cota parte. e da apropriação do excedente ou capital. mesmo que trabalhe. e até muito. a demanda agregada (D). do modo de produção/distribuição. segundo o paradigma anglo-saxão. os indivíduos completam o processo de sua integração à modernidade. Em razão mesmo da ideologia de esquerda que orientou sua formação .o materialismo dialético -. apenas a dimensão econômica moderna (associada às lógicas D e I/D) foi considerada como socialmente relevante. Interessava-lhe apenas os estratos lógicos D e I/D determinantes. que se almejava fosse feita segundo sua natureza. Desta sorte. o escrutínio (D/2).210 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pendurado na parede ao fundo dos retratos dos expoentes da vida econômica moderna?! Assim. Neste ponto vale a pena voltarmos à questão da normatividade dos esquemas lógicos aqui apresentados. através de um processo contábil. o capital social (I/D). de modo coletivo. isto é. é o que contribui com seu poder decisório (I). ao invés . o político (I) e o cultural (D/D) ficavam assim reduzidos a simples efeitos secundários ou de super-estrutura. diríamos que o indivíduo moderno. que se imaginava devesse ser atendido pelo cálculo. Resumindo. e que completa seu processo de integração identificando-se (I) com os múltiplos papéis definidos pela organização social (D/2). que forma o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) de parte do patrimônio coletivo.

por um efeito de re-equilibração estrutural.8.3.3. através de um processo de planejamento centralizado. A política. E foi mesmo para facilitar ao máximo esta identificação que se desenvolveu a estética socialista. outras por inspiração do “espírito partidário”!). o tão enfático realismo socialista. passando então a mediar a decisão coletiva (I). Inversões soviéticas do paradigma moderno Porém. passava lá a ser produzida pelo cálculo (D/D). Em conseqüência. o indivíduo deveria doravante com ele se identificar (I). como nas nações lideres da Modernidade. passava a se fazer pelo mercado concorrencial (I/D) da intriga e da violência entre os membros de um círculo partidário restrito (algumas vezes. Sendo vedada também a apropriação privada (D) do capital (I/D). em conformidade com sua essência (o que estaria sendo aplaudido pelo próprio Marx). bem característico das construções públicas soviéticas. aliás. ao invés de eleições amplas e cálculo de votos (D/D). Como bem . ou seja. como mostra a figura 8. Fig.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 211 de ser produzida através do mercado (I/D). as distorções não paravam aí. pelo diálogo. a lógica do mercado (I/D) tinha que se deslocar.

já terá percebido e. era a politização da arte em contraposição à estetização da política. uma alteração lógica cá tende a provocar uma alteração estrutural compensatória acolá. a esta altura. ou. Seria o caso de se perguntar agora: como seriam aquelas relações entre os gregos (cultura D) e entre os judeus (cultura I). . quem sabe. Como dissemos. quando não se dispõe “culturalmente” de lógicas em número suficiente? Na verdade. entre as culturas menos sofisticadas (pré-I e pré-D). acontecia a apropriação privada (D). em contrapartida. até nos censurado. não há a menor dificuldade teórica. Teríamos apenas que admitir que. Por isso. como já sugere a própria figura 8. que viriam então a ser utilizados como moeda de troca. por membros do aparelho de estado da enorme quantidade de papéis ou cargos públicos (D/D=D/2). ainda mais instigante. as três dimensões sociais estariam se confundindo parcial ou totalmente. esta que por seu turno viria a se tornar o apanágio do fascismo. posto que tão somente a partir desta estava assegurada a existência de pelo menos um nível lógico para cada uma das três referidas dimensões sociais. Nosso arguto leitor. naquelas culturas mais elementares. econômicas e culturais em sociedades de nível cultural abaixo da dialética (I/D).212 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO observou Walter Benjamin [11]. levando a administração pública a um grave processo de desagregação funcional e ética.4. por termos evitado a questão das relações políticas.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 213 Figura 8. não fazendo então muito sentido distinguir uma das outras. Entre os estudiosos da cultura grega. as dimensões política e econômica estariam essencialmente comprometidas com a dimensão cultural. Somente a partir dos gregos . Podemos agora melhor compreender as intensas e profundas discussões gregas – sofista. Percebe-se agora com clareza que aquele que opta por Antígona está. mas reflexo do privilégio excepcional de a estar vivenciando em statu nascendi. vemos que é neste mesmo lugar que vai necessariamente nascer a política como uma dimensão autônoma da vida social. discutese acerbamente a quem se deveria conceder o estatuto de exemplaridade trágica. Não se tratava de uma simples preocupação de conjuntura. até o advento da cultura judaica. se ao Édipo Rei ou à Antígona de Sófocles [13]. Aristóteles – em torno da política. enfatizando a corre- . Platão.Fusão das dimensões sociais Assim. de modo intencional ou não.4 . Já vimos que a filosofia (a pergunta pelo ser ou pelo que é o mesmo) nasce onde nasce a tragédia [12].cultura lógicodiferencial (D) . Sócrates.é que a política pode enfim ganhar sua autonomia.

vindo a ocupar dois níveis lógicos.214 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lação (logicamente fundamentada) que. retornarem com enorme virulência [ 15]. De fato. Estas considerações. em especial. O que. porém. não é o mais importante. já são mais do que suficientes para provocar uma profunda revisão de nossa compreensão da Idade Média. num exato paralelo com o acontecido com a política entre os gregos. em razão da ameaça que a autonomização recém-consumada da esfera econômica podia trazer para a integridade social. a nosso ver. existe entre a política e o espírito da tragédia. já desnaturadas: o desejo individual domesticado pelo marketing e a história transformada em processo de acumulação pré-calculada de capital. na Modernidade elas são primeiramente recalcadas para. Retornam. como de costume. Na verdade. entretanto. acabamos de ver.4). A grande surpresa para o que se tem por saber histórico corrente é constatarmos que só a partir da cultura cristã medieval é que se destaca a dimensão econômica (ver figura 8. ainda que em nível muito abstrato. Algo bem semelhante não teria ocorrido antes. entre os gregos. o que lá não faltou foi o dinamismo econômico. de sua vida econômica e do papel que as autoridades governamentais [14] e eclesiástica católicas devem ter exercido no que tange à sua rígida regulação. O efeito quantitativo. Com a Modernidade a dimensão econômica vai ganhar ainda maior peso. também não faltou foram normas severas e mecanismos eficazes limitando a criatividade técnico-econômica. com respeito à política?! Um exemplo bastante óbvio daquela disposição encontramos nos drásticos regulamentos “auto-impostos” às corporações de ofício medievais. que absurdamente transmuda meios . no entanto. Este processo ideo-lógico (ou teratológico). bem ao contrário do que amiúde se diz. o que mais importa é o descontrole em que caem as forças econômicas represadas na cultura anterior.

apesar de todo o acontecido. aquela que define o ser subjetivo (I/D/D). dando lugar a uma história econômica ou história dos modos de produção. apenas num pretenso estado de delirante perfeição [16]. marxistas e fascistas. meios transmudados em fins. na esfera do pensar para valer. desaparecera. tal como ilustra a figura 8. que os mais exaltados críticos da Modernidade. na parte referente às culturas primitivas. era o estágio de desenvolvimento das forças produtivas (ou seja da técnica) que de fato parametrizava a história humana [17]. Deve-se notar. E esta impressão. É em torno dela que ainda se acordam todos solidários: vétero e neoliberais. D e I/D. pela intervenção de forças obscuras. ainda de cabeça para baixo. que é similar à estrutura compreendendo as culturas I. entrementes. que ao invés da lógica. vai conseguir escapar da lixeira da história (hiperdialética da cultura)?! Examinemos um pouco mais detidamente a figura 7. Fixava-se a impressão de que a história da cultura. o que. As três culturas Pré-I. Na verdade. em especial. Pré-D e I serão por isto . Pré-D e Pré-I/D (esta que se confunde com I).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 215 em fins.4. elas fazem parte de uma estrutura dialética compreendendo as culturas Pré-I. aquela que define o ser objetivo (I/D). ou pior. Quem não compartilha de toda esta loucura?! Por isso. agora definidas com precisão e objetividade como sendo as culturas nodais Pré-I e PréD. não se propuseram outra coisa senão deixar tudo essencialmente no mesmo. hoje. sem falarmos dos invertebrados sociais-democratas da moda. é de tal modo profundo e inconsciente. permanece ainda agora tal qual.5. e a segunda por constituir apenas o ciclo inicial de uma estrutura majorante. hiperdialética qüinqüitária. que elas se mantêm distintas pelo fato de a primeira constituir uma estrutura lógico-dialética autônoma ou completa. tendo conseguido mesmo instaurar um estado revolucionário.

seria tanto objetivista quanto subjetivista. no fundo. assim. em nível objetivo. tudo. D. é troca ou reciprocidade. o antitético e o sintético. As conclusões que podemos daí tirar são muitas e importantes. I/D.216 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ditas objetivistas. de PROD. como de costume. de uma tríade da qual ainda participa o fenomênico como sendo seu momento primeiro. a cultura tribal de caçadores coletores do paleolítico (Pré-I) representa. forte e afirmativo. como a seguir veremos: a) Da mesma maneira que a cultura judaica (I) representa. no fundo. É extremamente importante observar que a partir de agora as noções de objetivo e subjetivo não constituem mais. ESCRAVISTA DEBRAY: ESCRIBA = POLÍTICO PRÉ-I NÍVEL FENOMÊNICO MEIO = OUTRO OBJETIVO PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I PRÉ-PRÉ-D Figura 8. mas sim dois momentos. e as cinco culturas I. I. SER SUBJETIVO PESSOAL OU SOCIAL I/D/D NÍVEL SUBJETIVO OUTRO SUBJETIVO EXTERNO D D/D OUTROS SUBJETIVOS. é cultura. em nível subjetivo. um estado cultural de indiferença do cultural/econômico/ político. EXTERNO E INTERNO I PRÉ-I/D=I NÍVEL OBJETIVO I/D MARX: M. tético. o estado cultural que deixa na indiferença uso/meio/troca (que em termos econômicos vêm realizar-se como valores de uso/trabalho/troca). se para a cultura judaica (I) tudo. caracterizando-se por isso como uma cultura de passagem ou de articulação. D/D e I/D/D subjetivistas. um par de opostos.5 – Os outros . para a cultura tribal (Pré-I). A cultura judaica.

O caso Marx. assinala o momento da diferenciação do outro subjetivo ou intencional. e. a classe sacerdotal. do totemismo nas culturas neolíticas Pré-D. mais do que sua iluminação [18]. Isto acontece pelo interesse ideológico. já o vimos. que realiza a instrumentalização da religião como forma de controle social.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 217 b) A cultura subjetivista D. Entretanto. tem como especificidade a emergência do outro objetivo. com ela. operado por uma classe sacerdotal. apenas entre as do meio. trabalho. finalmente. A propósito. é dos mais flagrantes: ele reduz e engloba estas duas culturas num mesmo modo de produção. que caracteriza precisamente a noção de meio. também do nascimento do político como dimensão autônoma do ser social. ou seja. se vê a relação de similitude degenerar em simples identidade. em espe- . mas tão apenas um desdobramento. de I (judaica) com I/D (cristã medieval). para Lacan.é que. já por nós analisado em detalhes [19]. nem sempre consciente. operado por xamãs isolados. como escrita ou presença significante (por isso. com mais freqüência. a lógica D deve se chamar lógica do significante). de préD (neolítica de base agrícola) com D (greco-romana). O meio vai se realizar de múltiplos modos: como ação mediadora. cultura greco-romana. tem toda razão Lévi-Strauss quando afirma que a escrita parece favorecer a exploração dos homens. Com a escrita nasce a função de escriba e. cultura neolítica de base agrícola. também. também. A correlata cultura “objetivista” PréD.Pré-D e D . c) É evidente a similitude da cultura pré-I (paleolítica tribal) com I (judaica). culturas lógico-diferenciais . dito escravista (escravismo que nem pode ser propriamente considerado um modo de produção. Com isto podese agora bem distinguir o animismo nas culturas paleolíticas Pré-I. de se colocar a cultura judaica (I) acima de qualquer consideração teórica.

que emergira com a cultura Pré-D. que a bem fundada associação lacaniana entre lógica do significante (PréD) e lógica do inconsciente (D) não pode ser aí computada. d) Na cultura judaica (Pré-I/D que é o mesmo que I). do seu modo ser lógico. A elisão da passagem do objetivo (Pré-D) ao subjetivo (I) é a elisão do exato momento em que a humanidade se dá conta. de verdadeiros modos de produção). diferencia-se a noção de troca em geral ou de reciprocidade como base da vida social. A classe sacerdotal (que na origem freqüentemente . Outro exemplo conhecido é o de Regis Debray.218 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ciais circunstâncias. significante (objetivo) e inconsciente (subjetivo) são obviamente distintos. que se denuncia já no próprio título de sua conhecida obra: O escriba (Pré-D) – Gênese do político (D) [20]. coletiva e simbolicamente.em mera história dialética materialista ou econômica. tão bem ilustrado pelo episódio da confrontação da tábua (escrita em caracteres convencionais) da lei e o bezerro de ouro. Na psicanálise. porque a identificação que ele faz atem-se apenas ao nível lógico (ou “formal”) e não “substancial”. A instituição do profetismo judaico dá um testemunho eloqüente de que para tanto seria imprescindível que de algum modo fosse confrontado o poder da classe sacerdotal (Sinédrio). Advertimos. Em outras palavras. É precisamente esta operação de ocultação que permite a Marx transmudar a história humana . que teoriza sobre o inconsciente justamente governado pela lógica da diferença (D). as confusões entre Pré-D e D são quase que a norma e tão amiudadas que deixamos ao leitor o fácil exercício de inventoriá-las. sendo por isso correta. entretanto. Este acontecimento é formalmente correlato à compreensão social do papel do simbólico pleno ou convencional. embora sendo ambos governados pela mesma lógica D.história da cultura .

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 219 se identifica com a classe dos escribas) nasce com o totemismo. no caso. porque. Primeiramente. o máximo dos máximos. e ao se apossar sub-repticiamente [21] dos deuses institui a idolatria. ao final. O processo de integração propriamente cultural do indivíduo será feito. porque são ambos apenas trinitários. como ser-de-horizonte [22]. econômicas e culturais – na cultura nova lógicoqüinqüitária. menos ainda. e depois. nem com o espírito absoluto de Hegel. Dada a novidade e sobretudo a complexidade da questão. permanecendo o Absoluto com seus específicos direitos. podemos começar a enfrentar aquilo que é nosso objetivo maior neste trabalho: delinear como seriam as relações sociais – políticas. ele se quer tão apenas espírito humano em sua plenitude lógico-qüinqüitária. além. como mostra a figura 8. vamos começar pelos extremos. . Desde já desculpamo-nos com o leitor.6. Isto posto. não teremos alcançado resultados com a precisão e clareza que de início almejávamos. pois. que parecem ser os de mais fácil compreensão. com o novo espírito qüinqüitário (I/D/D). por identificação (I) com a cultura. É importante observar que este novo espírito qüinqüitário não pode de modo algum ser confundido com o Espírito Santo. como sempre. o novo espírito hiperdialético não se pretende logicamente máximo. fundamento ideológico da dominação social que ela vai exercer. à diferença destes.

Como será. Aliás.220 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 8. completamente corrompidos e desmoralizados que estão pela força do dinheiro. como na Modernidade.6 . em função da disponibilidade de vastas redes tele-informacionais. é difícil responder. os sistemas eleitorais vigentes hoje por toda parte não passam de rematada farsa. concreta e detalhadamente. Quando é eleito um novo Papa diz-se que o foi por uma decisão dos cardeais sob a inquestionável inspiração . até com grande freqüência. mas se constituirão apenas num elemento entre outros em meio à sofisticada trama do novo processo político. a partir do voto dos indivíduos (I). o novo modo de decisão coletiva (I/D/D). de todas as horas. embora possamos antecipar que os mecanismos plebiscitários existirão.Relação indivíduo/sociedade na cultura nova qüinqüitária No extremo oposto a legitimidade política não será mais um resultado contábil (D/D). do oligopólio dos meios de comunicação de massa e do marketing de todos os dias.

por um cálculo (D/D). melhor diríamos. vale dizer. depois.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 221 do Espírito Santo. enfim. que assim se afigura. por sua vez. apenas por si e a posteriori. destes às suas plantas fabris e respectivos fornecedores etc.ligação das caixas dos supermercados ao controle de estoques. sem que haja a necessidade de um órgão central de planejamento. guardando-nos ciosamente de a eles não . pensaria Hegel. Quanto à formação do D coletivo a partir do D individual. a formação da demanda agregada a partir da demanda individual. a formação de densa e extensa rede tele-informacional. entrementes. muito ao contrário. podemos pensar numa decisão inspirada pelo Espírito Qüinqüitário. calculada. até que se chegue. à empresa única . por se mostrar. Não fica então a mínima dúvida quanto a como funcionará o sistema produção/consumo na nova cultura: teremos uma oferta/demanda completamente planejada. mas. apenas teremos ou ocuparemos estes ou aqueles cargos. teremos o fim da competição e do mercado de bens de consumo. Eis aí mais uma das inesperadas artimanhas da História. a gradual. Paralelamente. mas persistente baixa das taxas de lucros empresariais. etc. levará inexoravelmente às fusões. na nova cultura passará a ser realizada por um processo lógico contábil. resistente a todo e qualquer questionamento! Vejamos agora os três estratos econômicos. deste aos fornecedores. a integração dos diversos sub-processos econômicos . Em contrapartida.com isto. não nos identificaremos (I) mais com os papéis econômico-sociais (D/D)). ou seja. As pré-condições para que isso venha ocorrer já estão em acelerado processo de concretização: primeiro. e todos conectados ao sistema bancário. Para fazermos uma idéia do que será o processo decisório na cultura nova. que na Modernidade é mediada pelo mercado (I/D). não por uma autoritária declaração de inquestionabilidade a priori.

que se autodenomina classe média. valendo isto também no sentido inverso. poderíamos identificar I/D como o excedente ou capital e o processo de articulação I/D como mercado. da sobra.222 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nos identificarmos. a mais típica das instituições da cultura capitalista moderna. sem qualquer sentido. mas de pura lógica. se bem atentarmos. como “exige” a lógica global desta cultura (alguns poucos apropriam-se de quase tudo. veremos que ela pelo menos nos leva a compreender a natureza de nossas dificuldades. não importa se oficial ou contestatória. Já vimos que na Modernidade os indivíduos se apropriam (D) simplesmente do excedente coletivo (I/D). se pararmos um pouco para pensar. direitos do consumidor. etc. Chegamos agora ao que se nos afigura o mais difícil de se prever. competitividade empresarial. entretanto. Aliás. não passa de ficção da pior espécie. na verdade é o que ali simplesmente não existe. qualidade total. sociedade da informação etc. em . a princípio. precisamente. por difícil de se bem compreender: que significa. déficit primário. Acreditar em mula sem cabeça é muito menos irracional do que acreditar em capitais voláteis. o que procuramos é tão simplesmente o mercado de capitais?! Talvez um mercado de capitais renovado?! Esta resposta meio maquinal parece. o mercado de capitais. o que denominamos teoria econômica. um bom número. que ainda assim é boa bolada. e a mais desabalada dentre todas as ficções: o mercado de capitais. sob o ponto de vista econômico. Ao contrário do que todo mundo acredita. o aspecto pessoal dialético (I/D) determinando o aspecto dialético coletivo (I/D) através de um processo lógico-dialético (I/D). E mais: tudo acontecendo bem no cerne da vida econômica da nova cultura qüinqüitária? Pelo que vimos até aqui. e não se trata de uma questão de fato. opinião pública internacional. Então.

vendo-se em perigo.. Se examinarmos o papel da economia na seqüência das culturas .). em que tudo aquilo que foi cruamente apropriado circula com enorme estardalhaço. mantida como o que verdadeiramente é. que o atual predomínio do econômico de fato existe. como isto irá funcionar. do que realmente se trata. conjunto de atividades meio..eis.I/D (medieval cristã). I/D e D/D} pode dar a impressão de que com a cultura nova qüinqüitária iremos ingressar na era da mais completa hegemonia do econômico em relação às duas outras dimensões do social. dando a impressão de ser o ser que é sem ter jamais sido gerado . Na cultura nova qüinqüitária. veremos que na primeira ela aparece pela primeira vez como uma dimensão social autônoma. mas que ele é. fingem já ser aquela que a irá superar. fingimento e superação na História da cultura [24]: todas as culturas. no cerne da vida econômica existirá. o mercado de capitais! Só precisamos agora especificar. para a surpresa de todos nós. Finalizando. O mercado de capitais é exatamente a ficção que esconde esta simples e evidente verdade. a política e a cultural. O inacreditável aqui é que tal arte de fingimento pudesse chegar um dia a tais prodígios. I/D/D (nova qüinqüitária) -. uma marca da Modernidade em declínio. hoje. dentro tantos. mas estrita e explicitamente controlada. em detalhes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 223 forma de cotas de fundos de pensão etc. O que denominamos mercado de capitais é apenas um mercado secundário. Na segunda. a economia está associada às lógicas femininas . na verdade. o maior dos espetáculos da Terra! [23] Tudo isto deixaria de soar assim tão esturdio se levássemos verdadeiramente a sério o que se diz em Desejo. E não estaríamos já vivendo numa tal situação? Diríamos que não. D/D (científica moderna). à vera. observaríamos que o fato da dimensão econômica vir ocupar agora três níveis lógicos {D..

como na Modernidade. recalcadas. verá que. por exemplo. isto só não é muito grave por representar um mal transitório inerente a uma fase necessária do nosso processo de autodesvelamento. antigas ou em processo de gestação. outra face da volta do recalcado e já desnaturado . . Isto também significa que aquilo que é em essência meio se vê de maneira absurda transmutado em fim. mas desta feita todas determinando. porém. um efeito de cultura. desnaturadas e. de volta. processo de acumulação de capital. I/D e D/D}. conjuntos de atividades meio. Como se fôssemos hoje uma cultura com sérios transtornos mentais. o predomínio da economia é. isto significa que as lógica femininas {D e I/D} estarão sendo abertamente subsumidas. É importante compreender que. desejo domesticado pelas técnicas de marketing e a história transformada em história calculada. de modo explicito. a ação econômica é apenas o modo preferencial da cultura moderna hegemônica agredir as outras culturas. todo o marketing multinacional só aparentemente é comercial. mesmo em se tratando da Modernidade. completamente subordinada às duas outras dimensões sociais. as lógicas econômicas seriam realmente três {D. à cultural e à política. subrepticiamente imperantes. Quem queira ver.224 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recalcadas {D e I/D} e o predomínio do econômico é tão apenas um efeito sintomático. marginais que somos à Modernidade paradigmática anglo-saxã. a economia só na sua aparência sintomática pode se afigurar como onipotente. mas conservadas e não. Do ponto de vista lógico. De fato. Na terceira. Do nosso ponto de vista. na verdade. sua intenção sendo sempre decidida e inequivocamente etnocida. progresso. suprimidas. ou seja. Teremos por isso uma economia superiormente dinâmica.o desejo transformado em demanda comercial.

a inferior.1) O homem cristão tornava-se então síntese de cor- . o homem. espiritual. o mais bem acabado e porque também feito à semelhança do Criador. eram seis os degraus (dias ou eras) da Criação. o mundo criado. naturalmente. exclusivo. sendo o derradeiro. permaneceu Deus. mesmo que rebaixado em alguns pontos. esturdia “matéria-prima” da criação divina. uma ordem intermédia. Protágoras Já vigeram hierarquias que abarcavam o homem e tudo mais que se pudesse imaginar. abarcando a totalidade dos seres inorgânicos e ainda o multifário mundo dos vegetais e animais. a seus pés. (figura 9. na interseção da materialidade com a espiritualidade. Abaixo de tudo. das que são enquanto são. onde vinha situar-se. material. onisciente e onipotente. o homem. distribuído em três ordens: a superior.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 225 9 Re-significação cósmica do homem e do processo de auto-determinação cultural O homem é a medida de todas as coisas. habitada por anjos organizados em nove coros e demônios em hordas ou avulsos. tinha um lugar proeminente. das que não são enquanto não são. o nada que é nada. Na cosmologia bíblica. A teologia cristã acolheu e re-elaborou a hierarquia vétero-testamentária: acima de tudo. como expiação pelo pecado de desmedida curiosidade.

Entrementes. estas e outras similares hierarqui- . dissimulado. portanto. do lógicodiferencial (D) [1] e do lógico-identitário (I). material vegetais e animais NADA Figura 9. concebidas como degraus ou quanta de perfeição. no seu estatuto da infinita perfeição. onde Deus e homem são ambos lógicotrinitários (I/D). não importa se contado de cima para baixo ou em sentido contrário. do espacial e do temporal. diferindo entretanto no grau de sua perfeição. Isto fica bastante claro na hierarquia cristã. Mesmo quando valemo-nos da modalidade ‘infinita’ é ainda o aspecto quantitativo.1 – Hierarquia cristã dos existentes É importante notar que estas hierarquias. O homem tinha também aqui o seu lugar distinguido. DEUS UNO/TRINO Anjos e demônios Mundo espiritual Homem A CRIAÇÃO corpo/alma Mundo Inanimados. o Uno/ Trino (I/D). de estatuto lógico-dialético (I/D) para que assim se assemelhasse (logicamente) ao seu Criador. embora nada assim tão excepcional: sempre o terceiro. são na verdade quantitativas. embora substantivas na sua fisionomia. que persiste.226 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO po e de alma.

o espírito absoluto. veio a morte do homem. que garantia estas hierarquias. exige que confrontemos de maneira resoluta a ciência. Vem de volta revigorado na Modernidade com Hegel. na ocasional falta desta. Ele remonta à Grécia: a Parmênides. em nível dialético (I/D). que não seja tão apenas quantitativa. deve-se começar resgatando o velho preceito filosófico que estabelece que ser e pensar. um lugar para o homem. o que é o mesmo. Encontrar de novo. no limite. está também implícito em Platão. em plena praça pública aconteceu primeiro a morte matada de Deus. ao invés de nos deixarmos por ela pensar. que a pensemos de verdade. como nos quer impor a ciência. Acreditamos que daí partindo se consiga aportar sem maiores dificuldades à uma nova hierarquização dos existentes. a seguir. desta feita o pensamento visando a idéia ou o conceito. em nível transcendental (I). a nosso juízo. Para tanto. como na atualidade sói acontecer. o pensamento visando o ser. de algum modo são o mesmo. que veio justamente para aplainar. nestas cínicas (bem mais do que trágicas) circunstâncias.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 227 as foram paulatina e inexoravelmente erodidas pela ciência [2]. pelo que se poderá então restituir ao homem a devida dignidade onto-lógica e alcançar- . desta vez o pensamento visando a História ou. todos os valores. a renovação da hierarquia dos existentes passa a ter como condição primeira e necessária a reordenação dos modos de pensar ou. não se fazendo esperar. pela mensuração. em nível dialético (I/ D). Recuperado o princípio.as lógicas. o infalível mercado [3]. Este é o incontornável pré-requisito para que possamos vir a dispor de uma nova referência para a ordenação dos existentes. que desta sorte marchava pelos próprios pés para a vala comum do Cosmos. a reordenação dos seus saberes correspondentes . e. Como fomos informados por Zaratustra.

sem dúvida.2 . o homem restituído ao pináculo do Cosmos Figura 9.. cinco grandes etapas neste processo de des-encobrimento conceptual. (3) será constatar que a mesma estrutura lógica que parametriza a história da cultura vai se revelar igualmente razão organizadora do mundo . o eixo onto-lógico I. D. Surpreendente para todos. como tanto desejamos.. Reestruturação do território lógico.Etapas que levariam à re-significação da história da cultura Como primeiro momento deste processo (1) vislumbramos uma reorganização geral do território lógico. Redefinição do homem e da história da cultura I/D/D 1. Desvelamento da estrut. .. a re-significação do seu processo de auto-realização (a história da cultura). do que vem sendo até agora a história da cultura. I/D.o eixo das lógicas. 3.2). A partir daí nasce (2) uma nova e mais precisa concepção do homem. Distinguiríamos. dando ensejo à explicitação/ institucionalização de um novo e potente eixo reordenador de todas as coisas deste e doutros mundos . algumas que estão já em curso ou até mesmo concretizadas (figura 9. lógica das partículas elementares I a I/D/D 5. em princípio.. 4. em primeira instância.228 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mos. Princípio antrópico renovado.Re-significação cósmica da história da cultura. 2. que tem por imediato corolário a reavaliação.

A homologia desvelada exata pelo comum-estruturar-se-segundo-as-lógicas. irá (5) então suscitar uma re-leitura [5] da história da cultura. estará proporcionando (4) um novo fundamento ao princípio antrópico [4]. bem próximo do modo como já são hoje concebidas. Nietzsche. que se re-significa a partir daí. pela constatação da necessidade de se assumir a existência. Começa com a recuperação das lógicas segundo a tradição: além da unanimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 229 micro-físico. teremos também de algum modo enriquecida nossa compreensão da cosmogênese (teoria do big bang). fosse qual fosse a versão. que se encontrava já presente . o eixo onto-lógico Este trabalho já está de certo modo realizado [6]. a sugestiva promessa do reencontro do homem e do Cosmos. Rosset). de uma lógica da simples diferença. sempre às esgueiras. Depois. forte ou fraca. Ortega y Gasset. agora de caráter cósmico.1. tanto da cultura em processo. O princípio antrópico.é de seu feitio. quanto da base sobre a qual erige-se o universo físico. como conseqüência. na antropologia estrutural e também . arrola-se também a dialética (tanto platônica. especificamente do elenco das partículas elementares. mas também em outras áreas do saber. sempre a meio caminho . Re-estruturação do território lógico. Heidegger. era apenas um lugar marcado. para além dessas. quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. que até então. como acontecimento auroreal da história humana. Kierkegaard. criticista-kantiana e fenomenológico-husserliana). como na lingüística saussureana. que ganha assim uma segunda e definitiva significação. também.não só na tradição filosófica dos não conformistas” (Pascal. doravante solidamente estabelecido. Deleuze. 9. mas até então não realizado.

. . na medida em que incorpora o essencialmente outro. ter-se-ia também que considerar as lógicas de fato desviantes.. -. limitando-se à mera “contabilização dos existentes” . D/D/D = = D/3. e assim por diante. um evidente sinal de sua profunda essencialidade. Sabe-se que a seqüência das lógicas (I. Com isso são geradas a própria dialética (I/D). exemplificado pela seqüência dos números naturais (I ≈ 0.). o monóide livre fundamental. Uma engenhosa re-nomeação. Na esfera do formalismo acadêmico em voga.lógica da identidade (ou transcendental) (I) e lógica da diferença (D) -. enquanto que o semimonóide livre fundamental (seqüência das lógicas) é por essência criativo.230 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante). etc. verificamos que o monóide livre fundamental (seqüência dos números naturais) não gera qualquer novidade. I/D/D/D=I/D/3. I/D/D = I/D/2. D. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas . a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). que está aberto . noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana. mais um.) constitui o mais simples semimonóide livre [8]. I/D. D/D/D/D ≈4. D/D/D ≈ 3. destas quatro lógicas de base vem. Ao colocálos em confronto.um. como uma exceção. quanto paracompletas (ou intuicionistas) [7]. D/D=D/2. tanto paraconsistentes (ou paradoxais). através da operação de síntese dialética generalizada ( / ). mais um.. de modo natural.. vale dizer. D ≈1. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3). tendo-se em conta que este é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos. D/D ≈ 2. que não deixa de ser por isto menos pertinente. sem descanso. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído..

tal como ilustra a figura 9... As lógicas identitárias . I/D.. I/D/2.3 – Encadeamento das estruturas lógicas .3.I. sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente. .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 231 ao permanente “trabalho do negativo .definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 9.

que se inaugura com Parmênides. por exemplo.4 – Processo versus realidade Em suma. a realidade maior que se visa é a simples existência contábil. na sua plenitude. 1 2 3 I I/D I/D I I/D D I/D/ 2 D/ 2 0 1 2 I= D/0 I D I D I= D/0 I D I I/D 0 1 Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D 0 Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Figura 9.4). se estiver em causa a geração ou o desvelamento do ser lógico-qüinqüitário. e ainda. como acontece na matemática. como em Hegel.232 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Qual o sentido profundo desta articulação? Ela nos fala da essencial correlação que precisa existir entre o estatuto lógico da realidade que tenhamos admitido e aquele do processo que a pode deveras gerar ou desvelar. em especial.4). só se irá entregar no curso de um complexo processo hiperdialético qüinqüitário (parte direita da figura 9. podemos ter a certeza de que este.4). não . Se. simples produtora de um número sucessor (parte esquerda da figura 9. se a realidade maior que se quer visar for a história ou o espírito absoluto. quando comparamos diferentes modos de ser e seus respectivos processos de desvelamento. a pré-disposição filosófica que identifica ser e pensar. o processo que a gera ou desvela terá que ser lógico-dialético (parte central da figura 9. Parece-nos isto bastante intuitivo. o processo que a gera ou desvela será naturalmente aquele da reiteração do mesmo. prossegue com Platão e se reafirma com Hegel.

também. é bem verdade [9]. mormente depois que tivermos compreendido que ela é a única via que nos pode levar à subversão/superação da Modernidade. um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos 9.2. nada além. mas apenas subsumidas. do homem como animal dotado do logos (Aristóteles). do ser simbólico proposicional (Cassirer). tomando-se como referência o eixo das lógicas. Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. do “inventor” da diferença clânica que viabiliza a instituição das regras de proibição do incesto e correlata obrigatoriedade da exogamia (antropologia estrutural). Agora. Outras conceituações não são por isso rejeitadas. Toda cultura teria. notáveis. objetivo do ser próprio do homem. a nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. O mais avançado dos mamíferos não passa da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D). no entanto. tais caracterizações constituem exemplificações concretas mais ou menos íntegras daquela capacidade lógica fundamental. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura . torna-se possível a conceituação precisa do ser humano como ser lógico-qüinqüitártio. A rigor. É o caso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 233 pode de modo algum ser interrompida ou esquecida.apenas o homem é capaz de operar em nível lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). A partir daí a história da cultura pode ser compreendida como processo de auto-desvelamento simbólico. assim. a simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição extrema superior . que lhe permite operar com símbolos plenamente convencionais. Ser e pensar são o mesmo. por exemplo.

de imediato. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. especialmente quando intenso. ou seja.o Ocidente e o Oriente Próximo . O contato cultural. dialética I/D. focalizando apenas uma área restrita . dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. não nos ocuparemos disto.teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I. a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas. come- . Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. cultura sedentária de base agrária. e que lhe confere. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição. entretanto. pré-D. Resumidamente. uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza.234 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de sua religião oficial ou dominante. da diferença D. clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2). a seguir. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. inclusive. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. onde se “inventa” o trabalho e como conseqüência. produziria culturas de tipo misto. destes e de outros tipos não-nodais. cultura tribal. o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas.

I/D/D ou I/D/ 2 . já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). que hoje domina o mundo. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. por todos os títulos. uma manifesta síntese das culturas anteriores. cultura medieval cristã (patrística). Cultura tribal I Cultura judaica I/D Cultura nova I/D/ 2 Cultura moderna D/ 2 Cultura grega D I 0 I = D/ Animalidade Cultura tribal D Cultura imperial agrícola I Cultura judaica I/D Cultura cristã (patrística) PRÉ-D PRÉ-I Animalidade PRÉ-I Cultura tribal PRÉ-D Cultura imperial agrícola PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Animalidade Figura 9. cultura judaica. porque. de pré-I a I/D/2 . pela primeira vez. I/D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 235 çando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade.5). I. D/D ou D/2. e. não castradora. cultura hiperdialética qüinqüitária. cultura moderna de base científica.5 – História da cultura. cultura prometéica grega. uma cultura à medida do homem (figura 9. ainda por vir. D.

uma nova cultura de caráter lógico-qüinqüitário. portanto. também a força de Higgs (suscitada no processo de unificação eletrofraca. com todos seus mediadores ainda não detectados. Preliminarmente. as delícias de não ter mais nada a pensar. eletromagnética.3. De modo conseqüente contaríamos seis. Trata-se basicamente de incluir. Falsidades mais falsidades. Com isto. fraca e forte de Yukawa. justamente por serem entes derivados. forças da natureza. Tomando-se agora como referência o modelo 9. dando-se como prova a promiscuidade de todos os estilos em arte. substituída pelo toma lá dá cá das negociações e negociatas. ou pior. justamente por serem mais elementares). além das quatro forças hoje reconhecidas – gravitacional.236 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Esta ordenação lógica das culturas é suficiente para deixar a nu o discurso ideológico que alardeia o fim da História. com todos os seus mediadores já detectados. será preciso proceder a uma re-interpretação dos dados atuais da micro-física. gravitacional e forte gluônica. mecanismo pelo qual se proporciona massa explícita às partículas) e a antiga força forte de Yukawa (que garantia a integridade do núcleo atômico. pode-se de imediato perceber a sua estruturalidade conjunta: de um lado. redutíveis às primeiras (eletromagnética. três forças simples (de Higgs. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares . com toda a certeza. que é mediada por pions). oferecendo-se como justificativa a vigência do pensamento único e outros despautérios de igual jaez por aí forçados a circular. implicando menores níveis energéticos). três forças compostas. nos espera. tendo como ponto de partida a recontagem do número de forças realmente atuantes na natureza [10]. ou o ingresso na pósmodernidade. ao invés de apenas quatro. forte (gluônica) e fraca –. de outro.

(m) mion neut. que não contradiz qualquer dado empírico e simetriza. porém. em termos de férmions e bosons o modelo.fracos fóton neut. porém. pion b. A Tabela 9.(t) neut.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 237 standard (Tabela 9. à esquerda). Os quarks continuariam existindo.(t) tau b s u t c d neut.1 nos permite uma visão comparativa do modelo standard com o modelo ora proposto. que atesta a impossibilidade de sua existência em estado de isolamento. bosons fracos e fóton QUARKS: ainda existentes. considerados entes de razão.1 . o que não deixa de estar acorde com a experiência empírica. porém.(e) elétron BOSONS: gluon. bem melhor equilibrado: TABELA 9. ou seja. substituindo os correspondentes três pares de quarks pelos três pares de bosons mediadores de forças. chegamos à conclusão de que devemos preservar integralmente o bloco formado pelos três pares de léptons (elétron/ neutrino do elétron. mion/neutrino do mion e tau/ neutrino do tau). torna-se relativamente fácil comprovar a perfeita homologia . graviton.MODELOS PARA AS PARTÍCULAS ELEMENTARES MODELO STANDARD FERMIONS LÉPTONS QUARKS MODELO ALTERNATIVO PARTÍCULAS FUNDAMENTAIS FERMIONS BOSONS SIMPLES neut.1. podendo ser agora redefinidos para evitar as cargas fracionárias Aceitando-se a modificação por nos sugerida. como entes de razão.(m) tau mion gluon graviton p/Higgs COMPOST. aceitando-se a substituição do conjunto dos seis quarks pelo conjunto dos seis bosons representativos das forças.(e) elétron neut.

Sendo a posi- . basta que acompanhemos. tendo por condição a simples inversão de seu spin. graviton e gluon). uma a uma. por exemplo. tendo ainda disponíveis os três bosons simples (partícula de Higgs. por suposto. a mais complexa delas.e[↑] = e[↓] + γ[↑↑] -. Nos restaria apenas preencher a posição Pré-PréD. são suficientes para permitir-nos preencher. o que nos permite dar ainda mais um passo na seqüência de equações anteriores: =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + νe(PrØ -I) + e(I) + γ(PrØ -D) + e(I). um elétron pode ceder parte de sua energia cinética emitindo um fóton. as etapas do processo de desintegração de apenas uma partícula. Apenas este conjunto de equações representativo da desintegração do tau e o pressuposto bastante intuitivo de que todos os bosons (mediadores de força) devam ser alocados a posições lógico-diferenciais e todos os fermions (“peças elementares” de construção) a posições lógico-identitárias. exceto uma. É o caso. conforme ilustra a figura 9. todas as posições das estruturas lógicas. o tau: τ(I/D/2)= =ντ(I/D) + π(D/2)= =ντ(I/D) + νµ(I) + µ(I/D)= =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + W(D)= =ν τ(I/D) + ν µ (I) + ν µ (I) + ν e(PrØ -I) + e(I) Como é bem sabido. Para evidenciá-la.6 [11]. com quase nenhuma hesitação. talvez. da radiação sincrotron provocada pela aceleração circular do elétron.238 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO existente entre o elenco fundamental de partículas com as lógicas.

naturalmente. Não se pode ter grande dúvida de que este deva ser a partícula de Higgs. precisa receber mesmo a alocação de um boson. Teríamos então. ficando o graviton junto ao fóton em pré-D e o gluon junto aos bosons fracos (W ± e Z0) em D. que age mediando estruturas já bem complexas (os quarks no interior dos barions). Neutrino (elétron) I Elétron Neutr.6 – Lógica das partículas elementares. isto porque o graviton só pode atuar depois que a massa houver se manifestado.Fracos D Pion D/ 2 I 0 I= D/ Partícula Neutrino de Higgs (elétron) D I I/D Muon Neutr.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 239 ção Pré-Pré-D uma posição lógico-diferencial.6 [12]. com o que se completa a adjudicação das partículas elementares às lógicas conforme ilustra a figura 9. de pré-I a I/D/2 .(mion) I/D Próton/Nêutron Tau I/D/ 2 Gluon Bos.(tau) {Quarks} PRÉ-D Fóton Graviton Fóton Elétron Graviton Neutr. a partícula de Higgs em Pré-Pré-D. Também não poderia ser o gluon.Muon PRÉ-I PRÉ-D Partícula de Higgs PRÉ-I Neutrino (elétron) PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Partícula de Higgs Figura 9.

dentre as quais destacaríamos: a) acaba-se com o absurdo de não se contar corretamente (honestamente. na medida em que todos o bárions passam a ser considerados modos excitados de “partículas lógico-qüinqüitárias” (formalmente redutíveis a três “partículas lógico-trinitárias” [14]. os três níveis de férmions (agora também de bosons elementares]. os cientistas não querem ou não conseguem enxergar! c) o sub-modelo dos quarks é absorvido pelo novo modelo. servindo justamente para estruturar o mediador de uma força composta correlata (por isso. todas elas com características determináveis a priori em função daquelas das forças simples). como já tivemos oportunidade de demonstrar [13]. semelhantes aos quarks do modelo standard. resolve-se o grave problema de não se dispor até hoje da menor justificação na distribuição das características das forças. um valor completamente arbitrário . com a vantagem de poderem dispensar as incômodas cargas fracionárias).no caso. hoje experimental e definitivamente estabelecido e para os quais os físicos não encontram uma justificativa teórica.próton e nêutron.240 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A alocação dos nucleons . seria. estranhamente. contando-se seis. a redução já realizada da força de Yukawa à força forte gluônica é disto a prova irretorquível que.para serem seis (como os léptons e os quarks). O modelo ora proposto tem inúmeras vantagens sobre o modelo standard. que não são mais hoje considerados partículas elementares . é uma exigência lógica.junto com o tau em I/D/2 tem um excepcional significado que deixamos para comentar um pouco mais adiante. em sintonia com o resto do modelo. na circunstância. b) ademais. . a palavra mais adequada) o número de forças. verificamos que três são mais elementares. deixam de ser quatro .

ab initio. a priori. ao homem. conforme o acima exposto. a nosso ver. ainda que diminutas nos valores das constantes universais [17]. então. a realidade (desejada) é o ser-um. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 241 os estados lógico-qüinqüitárias de mínima energia são ocupados pelos nucleons. espaço e matéria)! O princípio antrópico [16] emerge da constatação de que admitidas variações. forçando-se um pouco a mão fecha-se o círculo: este Universo destinava-se. Tudo isto não nos pareceria assim tão surpreendente se tivéssemos todos uma maior familiaridade com a filosofia da Física. as determinações lógicas do mundo físico são muito mais profundas do que estariam os físicos dispostos a admitir [15]. De fato. seria apenas um fato: uma 9. Quanta simplicidade e clareza! Bastaria considerarmos que a Física nasce de uma decisão cultural (logo. quase tão drástica e dramática quanto o foi a da Filosofia para os gregos: para estes. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram constantes e universais. d) e. para os modernos é apenas algo levemente mais complicado . de caráter nada experimental). o próton e o nêutron. eis a essência do princípio. duas interpretações do que. finalmente. apesar de todas as evidências acerca da incomensurável diversidade fenomênica do mundo. o mais importante: põe-se às claras a estrutura lógica subjacente ao elenco das partículas elementares. e o homem a ele.4. transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo que se faria impossível o advento do homem. Princípio antrópico renovado . São geralmente reconhecidas duas versões do princípio. desde o big bang o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem.o ser-uno-trino (tempo.

garantido o valor das constantes universais. mais na sua versão forte. que. fruto de uma única tirada. não se estará automaticamente assegurando o aparecimento do homem. de parte de um Deus que desejava ver por terceiros louvada sua bela obra. para a . a não aceitação de que se introduza no domínio científico outra espécie de causa que não a eficiente (no caso. Entrementes. segunda. não temos visto mencionado aquele que nos parece dentre todos o mais decisivo dos argumentos. o ajustador de constantes. questão cujo sentido estaria ainda por ser precisado. por exemplo. talvez. ainda sofre o repúdio. o princípio antrópico não seria um verdadeiro princípio científico. paralelos. da maioria dos cientistas. ou seqüenciais. uma entre inumeráveis outras já realizadas ou em processo permanente de realização.242 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO versão forte. uma versão fraca. teríamos que pensar a questão das constantes concomitantemente à da estipulação das formas funcionais. Para estes críticos. tratar-se-ia da introdução de uma causa final). Dentre os mais freqüentes e potentes argumentos que lhe são contrapostos destacaríamos dois: primeiro. O princípio. em que os valores das atuais constantes universais seriam na verdade uma realização totalmente probabilística. em que se pressupõe que ocorreu um pré-ajuste intencional das constantes. se fossem o mesmo. segundo John Wheeler [18]). que desmoraliza a versão forte e debilita aquela que já se tem como versão fraca do princípio: o que determina o curso do Universo não é apenas o valor das constantes. além do deus ajustador de constantes. conforme Hugh Everett. mas o simples produto de um descontrolado impulso especulativo. um pouco menos na fraca. se fossem deuses diferentes. Assim sendo. mas fundamentalmente a forma das equações. haveríamos que pressupor também um deus montador de formas funcionais. todas elas resultantes de flutuações quânticas de um “vácuo” altamente energizado (universos aleatórios.

de um lado. ainda permanece não visitado. nos moldes daquela por nós já delineada [19]. afora a grandiosidade da intenção. a nosso juízo. Por definição mesmo do que seja um encontro. o conjunto formado pelas partículas elementares. em especial. no entanto. e de outro a história da cultura como processo de desvelamento do ser (lógico) do homem é. no caso. pela lógica hiperdialética qüinqüitária que. o novo fundamento que necessitávamos para o princípio antrópico. a cosmologia/física. A homologia entre. de simples demarcação de um lugar de encontro que. e aquela que . Como então sair de tal imbroglio? Somos de opinião que o princípio. de um lado. entendida esta não como uma entre outras das chamadas “ciências humanas”. pelo menos. mas apenas um demiurgo delegado ou subcontratante. Podemos assim afirmar que estamos frente a uma reafirmação do antigo principio. para nós. realizado. até hoje. de um fato extraordinário: a perfeita homologia entre a estrutura lógica (I/D/D). ele requer também o comparecimento efetivo e independente do homem através da antropologia. não seria propriamente um deus. Em suma. sim. de outro a antropogia filosófica sustentada por uma lógica ressuscitada. é marca distintiva essencial do ser humano. na medida em que não falamos apenas de condições gerais de possibilidade de uma convergência. numa versão ainda mais radical. das modalidades de crítica contra ele até hoje assacadas. se estaria carecendo de uma justificação para o princípio antrópico que conjugasse.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 243 nossa sensibilidade. não passou de uma intuição ainda obscura. tendo por base uma concepção alargada da lógica. Isto sim. que caracteriza o elenco das partículas elementares. apenas a partir da física ou da cosmologia. mas. traria ao princípio um verdadeiro sentido que o deixaria a salvo. ele não poderia mesmo consumar-se. mas como uma antropologia renovada. porém.

por isso. em função de que ela se desintegra. se o tau. como acima mostrado. enquanto que. Vimos que a posição I/D/D no quadro lógico das partículas (figura 9. Que pode isso significar. entre mundo e pensamento do mundo. É importante observar que as antigas versões do princípio antrópico estabeleciam uma correspondência homem/universo a nível científico. D/D ou D/2 (porque baseadas no conhecimento objetivo do mundo). A similitude entre a lógica das partículas e a lógica do ser humano vai a detalhes verdadeiramente insuspeitáveis. rever nota 5 deste capítulo). o que de certa forma rebaixava o homem. não precisamos temer os riscos de ir ainda um pouco mais longe. ou seja.244 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO referencia o processo de auto-realização cultural do homem. que precisam. alça o Universo à altura do homem. a propósito.4) é ocupada pela partícula tau. Acontece que existem outras partículas (barions) de mesma estrutura. próton e nêutron. mas de nível energético mais baixo (menor massa) e por conseqüência bem mais estáveis [20]. inversa e coerentemente. ao cabo de 4 etapas. Mesmo considerando que o princípio já esteja suficientemente justificado. porém. a correspondência se estabelece a nível qüinqüitária I/D/D (a leitura da estrutura das partículas eqüivale à leitura de um texto. na versão por nós ora proposta. Isto é realmente possível através da substituição do neutrino do tau . mais estáveis. se constitui no paradigma concreto da logicidade qüinqüitária? Para responder é necessário compreender como “a partir do” tau podem se formar estruturas homólogas. o que. em 5 partículas realmente fundamentais e estáveis: τ = ντ + νµ + νµ + νe + e. serem também alocadas à mesma posição I/D/D .referimo-nos aos nucleons.

“ensejando” precisamente a formação de um nêutron. usa a própria energia cinética ou a interação com outra partícula para se transformar num próton (I/D/D). por não poder existir em estado de isolamento. que.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 245 na estrutura do tau. Vê-se que a “sexualidade” do nêutron. determinada por seu modo de desintegração. emite um W(D). por um anti-elétron (e). é sem qualquer dúvida feminina [21] . razão pela qual só existem duas possibilidades de substituição do neutrino do tau (nt): uma. por ser mais pesado do que o próton. que por sua vez também se desintegra num elétron (e)(I) e num neutrino do elétron (ne)(Pré-I). se desintegra (vida média de 925 s) pela força fraca.fundada num boson fraco W (D) e num quark q(I/D). como ilustra a figura 9. Com a desintegração. por um neutrino do elétron (ne). isto é. sobra um quark (q)(I/D). a outra. Nesta última os neutrinos do mion (nm) já estão saturados (por estarem ali presentes o neutrino do mion e a sua respectiva antipartícula). o que vai “ensejar” justamente a formação de um próton. quando isolado.7 – O tau e os nucleons O nêutron (I/D/D).7. TAU PRÓTON ( e +e) 0 NÊUTRON (W+q) e e e e e e W e q Figura 9. .

Entretanto. e esta é a razão pela qual a partir daí poderem se formar os demais agregados físicos – átomos. moléculas. deixando como resto um elétron. isolado. não seria exagero dizer) desintegração foram negativas.246 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A comunidade dos físicos aposta na desintegração do próton como um dos modos de referendar a atual proposta de unificação da força forte com a força eletro-fraca (Teoria da Grande Unificação . a desintegração almejada só poderia se dar pela emissão de um píon zero. mas sim a passagem a um nível de estruturação lógica máxi- . o nêutron se desintegra. De qualquer modo. “masculinizando-se”.GUT). É interessante observar que o nêutron (feminino) só se conserva como tal na proximidade do próton (masculino). embora fisiologicamente definida macho ou fêmea. como já dissemos. no interior do núcleo. Para nós não haveria propriamente tal fase de latência. parte inferior).8. todas as experiências visando a comprovação da aludida (ardentemente desejada. O nêutron. por ser a partícula de menor massa. após enfrentar e superar a problemática edipiana consumaria sua “opção” sexual definitiva e entraria numa fase de latência [24] à espera da maturação orgânica funcional. segundo Freud. a criança. ainda mais. O mais surpreendente é que vamos encontrar uma situação absolutamente análoga quando examinamos o processo de desenvolvimento do ser humano. como acreditava Freud?! O próton. fundada num elétron e(I) e num píon p(D/D= =D/2). também se torna estável [23]. o valor estimado da vida média do próton (já agora superior a 1032 anos [22]). servindo apenas para ampliar. constitui-se na mais estável de todas as estruturas qüinqüitárias. No processo de desenvolvimento normal. Sua “sexualidade” é pois inequivocamente masculina. macromoléculas e assim por diante (figura 9. quando em interação com o próton no núcleo atômico. Só existiria então um tipo de “energia sexual ou libido”.

deixando-a suscetível de regredir (se desintegrar) a estados anteriores menos estruturados. ainda de nível lógico- .ENTRE HUMANOS GRUPOS SOCIAIS ANDRÓGINO 2 I/D/ 2 FEMININO (I/D)/(D) FAMÍLIA I/D/2 MASCULINO (I)/(D/ 2 ) D/ 2 AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ 2 . entretanto. veríamos a criança ingressar numa fase crítica. Muitos psicólogos já chegaram à conclusão de que a criança. A maturação sexual. instável. ainda por cima.ENTRE PARTÍCULAS ÁTOMOS/MOLÉCULAS TAU I/D/ 2 NÊUTRON (I/D)/(D) NÚCLEOS I/D/2 (I)/(D/2 ) D/ 2 PRÓTON PION Figura 9. ao invés de ingressar numa tranqüila fase de espera. caracterizada pela auto-suficiência e onipotência que a incapacita à composição de agregados estáveis de nível superior e. AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ . em certo momento do seu desenvolvimento (lógico/lingüística).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 247 ma I/D/D=I/D/2. viria para obrigála a uma auto-realização.8 – Agregação para além de I/D/D Assim. assume ares de onipotência bem de acordo com a postura andrógina a que nos referimos. que de certo modo caracteriza o andrógino.

5. Estes foram criaturas que. feminina. Como se pode ver. isto é.248 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO qüinqüitário. por tão grande ousadia. Ela é uma realização a nível superior (consciente e simbolicamente representada) da lógica qüinqüitária no Universo. tiveram como castigo. evidente: o homem (ou a cultura) é o “lugar” onde o Universo dá conta de si mesmo em seu mais elevado nível. ficamos certos de que o homem representa o ponto mais alto do ser do mundo e o seu processo de auto-desvelamento ganha um sentido cósmico. o que. estava tudo já escrito no diminuto par de nucleons próton e nêutron . ou (I/D)/(D). depois a assembléia de pares. Em outras palavras. a propósito.esperando apenas por ser “lido”. Esta seria a origem mítica do desejo e do amor. correspondente a uma das duas possíveis diagonais de I/D/D: ou (I)/(D/D). Malgrado a irrecusável homologia entre a estrutura das partículas elementares e as lógicas opera- 9. Com o princípio antrópico consolidado. quando ali é dada a palavra a Aristófanes para que exponha sua concepção do desejo e do amor. isto é. serem secionadas bem ao meio.primeiro a “família” [25]. Ele o faz valendo-se do mito dos andróginos.. A partir daí então é que se podem constituir os agregados humanos . Vimos anteriormente que em suas grandes linhas a história da cultura era aquela do autodesvelamento do ser lógico-qüinqüitário do homem. a nação etc. rebeladas contra os deuses. condenadas assim à eterna busca de uma integridade perdida. Tudo isto já aparece de forma alegórica no Banquete de Platão [26]. porém. obrigá-la a assumir uma sexualidade propriamente humana ou socio-lógica. masculina. mais estável. viria corroborar a tese da significação cósmica da sexualidade humana. Re-significação cósmica da história da cultura .

Neste sentido. outro. como dissemos. mas não num grau menor ou imperfeito. sim. começa então a evolu- ← . depois aos orgânicos até a constituição do código genético: chega-se à vida.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 249 das pelo homem. simbólico. se apresentariam sob um duplo aspecto: um. ou coisa similar. é importante frisar que não estamos. átomos.. porém. para sustentarmos que contêm. Sob o primeiro destes aspectos as partículas caracterizar-se-iam individualmente por um conjunto de propriedades estritamente físicas mensuráveis . O que se pode aceitar. pode-se dizer que as partículas elementares contêm em potência ou programaticamente a subjetividade. o ADN do espírito [28]. diríamos. devemos afirmar que a contém de forma completa e perfeita. propriamente físico ou concreto. A consideramos totalmente descabida. Sem receio poder-se-ia então dizer que as partículas elementares seriam. ou talvez mesmo. A partir daí dá-se um processo ascendente ou evolutivo que passa pela formação dos núcleos. Precisemos um pouco mais esta idéia: as partículas elementares. de modo algum. inclusive a subjetividade humana. Prossegue com a evolução propriamente biológica que começa com os seres unicelulares e vai até os cordados. é uma transposição formal ou estrutural da microfísica para o homem do tipo programa produto. carga etc. que postula a presença de um certo grau de consciência ou subjetividade a nível das próprias partículas elementares. tão apenas na modalidade programática. compostos inorgânicos. Diríamos que chega-se. assim. na medida em que deixa transparecer uma conotação substancialista da consciência. ainda que de uma maneira um tanto alegórica. Pelo contrário. encampando a visão teillardiana [27]. seres vivos dotados de sistema nervoso central. spin. numa ainda mais sofisticada e mal conhecida modalidade programática do programático.massa. à animalidade estrito senso.

considerar o processo de ascensão físico-químico-biológico como um dos modos de realização da mensagem. O que lemos aí outra coisa não é senão o código genético do “espirito humano”. advirá o homem e a cultura como processo de sua auto-realização. vale dizer. A “invenção da gramática. Um segundo modo de realização haveria. mas ao seu conjunto básico completo. a cultura nova lógicoqüinqüitária (I/D/D). assim. ou equivalentemente da diferença clânica. Como mostramos na figura 9. uma primeira consecução. como uma estrutura significante. de natureza simbólica. à cultura que se põe à altura do próprio homem. concreta. devemos esclarecer que ele se refere não a partículas isoladas. é um mundo para o homem e vice-versa. algum dia. podemos. um processo sobretudo de desenvolvimento do sistema nervoso central que conduz à formação e desenvolvimento da neocórtex. desde a origem. pois. a destinação lógico/emocional do homem. Pode-se. A nosso juízo. que este mundo. O elenco de partículas elementares se apresenta. que leva ao surgimento do homem e da cultura e. o processo seguirá inexoravelmente até o surgimento da cultura nova qüinqüitária. por fim. ao invés de só mensurá-las e/ou determinar empiricamente suas múltiplas formas e comportamentos agregados. uma mensagem cifrada: em algum lugar. I/D.6. de sorte que. da cultura que desvela e assume. chegando-se deste modo ao homem. de modo alternativo.250 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ção propriamente animal. as partículas se organizam numa obediência rigorosa à seqüência e às articulações das estruturas lógicas . pela nova leitura. a partir do que entramos num processo de evolução caracteristicamente socio-lógico. em grau de plenitude. Quanto ao aspecto simbólico. que nos diz direta e imediatamente.I. I/D/D -. . faz então emergir a cultura. também diretamente lê-las.

como em geral se imagina. Há tempo mais do que suficiente para que o homem (na verdade. a transformar-se numa estrela gigante vermelha. Ademais. temperatura de seu ruído de fótons ou neutrinos de fundo. Entretanto. O episódico. com o conseqüente abrasamento da Terra. A avaliação última ou mais significativa do estado do Universo não pode. portanto. pelo grau de realização de sua destinação. justo onde impera o seu máximo vigor lógico-qüinqüitário).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 251 É pelo menos curioso observar que o ADN do espírito e o “ADN da vida material estavam potencial e concomitantemente definidos nas partículas elementares desde o big bang. densidade. sobretudo. Não nos deixemos surpreender daqui para frente com a repentina inversão de muitas significações. o próprio Universo. e passa a ser. ou seja. que é. O antropologismo deixa. que levará o Sol. não é mais. das que não são enquanto não são. a partir de agora. ser feita (ou só) referenciada a parâmetros físicos . exaurido. Assim já o pressentira Protágoras: o homem é a medida de todas as coisas. mas sim pelo mesmo parâmetro que mede a cultura. o que nos leva a concluir que a vida teve que se realizar para que o espírito pudesse deveras se realizar. de ser um grave pecado ou mero infantilismo ontológica para transformar-se em exigência de uma superior coerência. ou mesmo pelo sofisticado sinal de sua curvatura -. auto-desvelamento ou objetivação simbólica do seu modo de ser lógico. afinal. ainda que esdrúxula. estas considerações são mais do que suficientes para liquidar de vez com a persistente. é e será sempre sua pró- .pela idade. se mude de um lugar para outro. sim. por exemplo. volume. das que são enquanto são. a vida humana sobre a Terra. separação espírito/matéria. o esgotamento do processo de queima do hidrogênio. para onde. por isso. o primeiro só se poderia realizar tendo a segunda como suporte.

hoje. com respeito á cultura nova lógico-qüinqúitária. do que a deserção (dos que o sabem agora e dos demais. que já bem antes a adivinhavam) da luta pelo advento da cultura nova lógico-qüinqüitária? . que haveria de mais degradante. Particularmente. mas igualmente daquela do próprio Cosmos. Como podemos doravante sustentar que a vida não tem sentido? Que nossa vocação é mesmo o niilismo? Que causa ainda maior estaríamos exigindo para admitir que a vida vale a pena? Diante destes fatos.252 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pria morada. damo-nos conta agora de que sua chegada é um acontecimento maior não apenas na história da humanidade.

dos impérios de base agrícola da Antigüidade (pré-D). vocacionada para a temporalidade e para a conquista de um superior patamar de espiritualidade. judaica (I) e cristã patrística (I/D) . est la substance qui donne son sens à la culture. Por este simples vai e vem histórico e tendo-se ainda em consideração o caráter cínico materialista contábil da Modernidade. o preclaro teólogo teuto-americano da cultura. Paul Tillich – Théologie de la culture Toynbee [1].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 253 10 Superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária La religion.e culturas lógico-diferenciais neolítica. et la culture est la totalité des formes à travers lesquelles la préoccupation fondamentale de la religion peut s’exprimer. greco-romana (D) e científica ou moderna (D/D=D/2) [4]. tomando como exclusivo parâmetro a lógica.dos bandos de caçadores/ coletores do paleolítico (pré-I). opondo culturas do tempo e do espaço. podemos de pronto inferir que a esta última irá suceder uma cultura da linhagem lógico-identitária. en tant qu’elle est une préoccupation ultime. culturas lógico-identitárias . nós [3]. já discriminava vagas civilizatórias alternantes. respectivamente. ora espiritualistas. Paul Tillich [2]. faz discriminação similar. a que denominamos cultura nova lógico-qüinqüitária . ora materialistas. as denominamos. o eminente historiador britânico.

devendo-se atentar. nos deverá trazer de volta a preocupação. portanto. que ela estará ressurgindo integralmente renovada em seus fundamentos e em suas práticas. em sua significação mais profunda. um pouco que seja. Para tanto. seguiremos o seguinte roteiro: A l gica ressuscitada O eixo onto-l gico aberto Comprometimento l gico da cultura Dire ª o e sentido da morada divina O homem como ser l gico-q inq itÆ rio Desejo de ser (menos) da cultura Reversª o do desejo na cultura q inq itÆ ria ExperiŒ ncia da ausŒ ncia do transcendente Deus Uno-Trino-.254 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO (I/D/D=I/D/2). com o Absoluto. Esta cultura nova. à vera. o que não pode ser. Nela veremos a revivescência de uma autêntica e consistente religiosidade... Nosso propósito aqui será o de tentar explicitar as preliminares deste renascimento religioso (e. de modo algum. com o transcendente e lá pelos seus confins. confundido com a ola carismático/ midiático/supermercadológica que invade e infecta hoje os interstícios. por conseqüência. desvãos e madrugadas da cultura científica dominante. contudo. -SeptendecitÆ rio Antecipa ı es na Revelação Cristã . teológico) e penetrar.

de maneira conseqüente. se constitui necessariamente como “experiência de uma ausência ou de uma falta”.. sem nenhuma dúvida. que. como tal. haverá o despertar de um real desejo coletivo pelo transcendente. a busca do Absoluto. e a recuperação do sentido da experiência interpessoal da ausência do transcendente – é o que nos irá reto conduzir ao desvelamento pós-idolátrico do Absoluto Uno-Trino-.1. deverá vir ainda acompanhada de dois outros acontecimentos de grande significação para a história humana. Com isso. da lógica ressuscitada que irá se constituir no grande eixo paramétrico a referenciar todos os existentes. acontecimento deveras revolucionário. os traços que.. A convergência destas três poderosas determinações – o desvelamento da direção em que se possa buscar o Absoluto. mas geralmente mal percebida: a experiência interpessoal do transcendente. Este trabalho já está de certo modo realizado [5]. apenas formal. de algum modo.A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto . Mas a abertura desta possibilidade. A partir daí. teremos definido a direção e o sentido em que se pode encetar. haverá a resignificação dramática de uma experiência bem cotidiana. já antecipam este grande acontecimento da história humana que será. o advento da religiosidade lógico-qüinqüintária.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 255 Partimos. agora voltado para o mais alto. atuais e concebíveis. Começa com a recuperação das lógicas segundo a bem estabelecida tradição filosófica: além da una- 10. De um lado. a reorientação do desejo coletivo. implícitos na lógica dos diversos modos da Revelação Cristã.-Septendecitário (I/D/D/D/D= =I/D/ 4 ). representando o definitivo abandono da idolatria até hoje vigorante em todas as culturas históricas. como sói acontecer. De outro lado. não teremos dificuldades em reconhecer.

Na esfera do formalismo acadêmico em voga. D/D=D/2.) constitui o mais simples dos . quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. Deleuze). I/D. Sabemos que a seqüência das lógicas (I. I/D/D/D= =I/D/ 3 . D/D/D=D/3. Kierkegaard. como uma honrosa exceção. noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana [6]. Heidegger. Depois. para além dessas. mas também em outras áreas do saber. Nietzsche. a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). de modo quase natural. Uma arguta re-nomeação destas quatro lógicas de base . a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2).256 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). as paraconsistentes (ou paradoxais) e as paracompletas (ou intuicionistas). I/D/D=I/D/2. vem. pela constatação da necessidade de se assumir a vigência. Ortega y Gasset. no criticismo kantiana e na fenomenologia husserliana).é de seu feitio. são geradas a própria dialética (I/D). sempre a meio caminho -. não só na tradição filosófica dos “não conformistas” (Pascal.que não deixa de ser por isto menos correta e pertinente -.. Com isso. sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas: da lógica da identidade (ou transcendental) (I) e da lógica da diferença (D). ter-se-ia também que considerar as poucas lógicas de fato lógicas. sem descanso. A geração se daria através da operação de síntese dialética generalizada ( / ). D.. . Esta já se encontrava presente . sempre às esgueiras. como na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante) e também na antropologia estrutural. de uma lógica da simples diferença. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3) e assim por diante. embora desviantes. arrola-se também a dialética (tanto platônica.

tal como ilustra a figura 10. .. um evidente sinal de sua profunda essencialidade.Encadeamento das estruturas lógicas .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 257 semimonóides livres [7]. tendo-se em conta que o semimonóide é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos .1 . I/D. sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente..I. As lógicas identitárias .definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos.os números naturais. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 10.. I/D/2.1.

um poderoso efeito profilático conceitual. é retomada por Hegel. enquanto que forças e energias são de estatuto lógico D (ou. O primeiro. em nível lógico-dialético. na posição I. um velho de longas barbas -. de imediato. bastante comum entre as pessoas “mais educadas” de nossa sociedade. na melhor das hipóteses. vale dizer. Um verdadeiro disparate. pseudo I/D) [8]. temos aí uma escala aberta. que a institui em nível lógico-transcendental. é a recusa em aceitar um Deus de semblante humano . dentre os quais poderá estar e imperar o inexcedível. vale a pena citar três equívocos doutrinários bem atuais. permite também recapitular e estender a verdade da mais vetusta e essencial dentre as correlações filosóficas: aquela que vige entre ser e pensar. pois o “velho barbudo” é de estatuto lógico I/D/2. estando. definitivamente. Ela remonta a Parmênides. na posição I/D. e assim tudo o mais. pois impede. Devemos notar que a simples instituição do eixo onto-lógico tem.diz-se jocosamente. seu exclusivo usuário. ainda mesmo quando se lhe venha a atribuir o esturdio caráter de infinitude. A este respeito. é importante observar. O eixo lógico desvelado. na posição superior (I/D/D=I/D/2).258 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Todos os entes mundanos podem ser posicionados nesta escala paramétrica constituída pelas lógicas: o puro ser. o ser simbólico e os animais capazes de operá-lo. A partir de então. entretanto. o Absoluto. que nos traz a possibilidade formal de conceber algo para além do humano. acreditamos que agora. Como o menor (logicamente) pode criar o maior? O segundo é o de . prontas a aceitá-lo como uma “força” ou uma “energia” cósmica. Em princípio. presentemente a reconhecemos também válida em nível lógico-qüinqüitário. o ser discursivo e o homem. se venha a imaginar um Absoluto abaixo do nível humano. pode o eixo lógico complementarmente assumir um superior caráter onto-lógico.

como vimos. aliás. tanto católica quanto protestante. E por que não também para a filosofia? De certo modo. qualitativamente segmento. fora do estrito âmbito da matemática. o segmento. 10.2. o estatuto lógico-qüinqüitário ((I/D) x (D)=I/D/2). não há bons e maus infinitos – pelo menos para a teologia. Ao contrário do que acreditava Hegel. pois. é da essência de qualquer infinito manter-se qualitativamente o mesmo que o seu finito de referência. mas um verdadeiro número. Ao fazer do homem a arena onde se defrontam o espírito de Deus (I/D) e o maligno (D). que o número permaneça qualitativamente número. o número infinito não é algo além ou acima dos números. Por exemplo. Superação da idolatria com o advento da cultura lógico-qüinqüitária Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. O mesmo vale para o segmento de reta infinito: ele é necessariamente um segmento de reta. todo infinito é péssimo. que se alcançasse uma conceituação precisa do ser humano .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 259 boa parte dos atuais seguidores do pentecostalismo [9]. corretamente. aliás muito freqüente na teologia cristã.o . tornou-se possível. como já tivemos oportunidade de alertar [10]. A noção de infinito é essencial e irredutivelmente quantitativa. entre outras coisas de grande importância. O terceiro equívoco. é de adjudicar o atributo infinito ao Absoluto. o que se nos afigura um absurdo. A grande questão é que deste modo o homem passa a ter um estatuto lógico superior àquele do Espirito Absoluto. só que maior do que qualquer segmento que se possa efetivamente exibir. O fundamental é. pois. lhe adjudicam automática e. Isto vale para qualquer tipo de infinito. A esperteza de se introduzir a “noção” de infinito qualitativo é totalmente descabida. o que só faz obscurecer o seu entendimento. só que maior que qualquer número que se possa de modo ostensivo apresentar.

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ente lógico-qüinqüitártio por excelência [11]. A simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição mais elevada do eixo das lógicas, visto que apenas ele é capaz de operar em nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). O mais avançado dos mamíferos não vai além da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D), esta que lhe permite operar com símbolos convencionais acabados, mas não com o discurso articulado (ou, o que seria sua principal pré-condição: operar com os conectivos lógico-proposicionais). A partir daí, a história da cultura pode ser compreendida como o processo do progressivo autodesvelamento simbólico objetivo do ser próprio do homem [12]. Toda cultura teria, assim, um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada, e que lhe confere, inclusive, as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I, da diferença D, dialética I/D, clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2), seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. Elas serão, de modo genérico, denominadas etapas ecológicas, distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e, a seguir,

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uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza, ou seja, onde se “inventa o trabalho e de imediato o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). O contato cultural, especialmente quando intenso, produziria culturas de tipo misto; a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição; a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas; destes e de outros tipos não-nodais, entretanto, não nos ocuparemos aqui. Resumidamente, focalizando apenas uma área restrita - o Ocidente e o Oriente Próximo - teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I, cultura tribal, dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico; pré-D, cultura sedentária de base agrária, começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade; I, cultura judaica, primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral; D, cultura prometéica grega, já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos); I/D, cultura medieval cristã (patrística), por todos os títulos, uma manifesta síntese das culturas anteriores; D/2, cultura moderna de base científica, que hoje domina o mundo; e, ainda por vir, I/D/2, cultura hiperdialética qüinqüitária, não castradora, porque, pela primeira vez, uma cultura à medida exata do homem. Como já visto [13], até que chegue a termo o processo de auto-desvelamento lógico da cultura, o dinamismo social tem se nutrindo, ainda que possa parecer paradoxal, de um desejo de regressão a níveis lógicos inferiores ao que teria já sido alcan-

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çado pela humanidade, por isso, em essência, um desejo de poder ou de morte, como se diria no jargão freudiano. Note-se que o mais velho ancestral do desejo de morte é coetâneo à própria instituição da cultura (I/D/2), como desejo de retorno à animalidade (I/D), que é logicamente eqüivalente ao desejo de violação da proibição do incesto. O que Freud não teve chance de perceber foi que, chegando a humanidade à altura de si mesma, vale dizer, ao desvelamento de seu privativo ao mesmo tempo que constitutivo caráter lógico-qüinqüitário (I/D/2), não teria ela outra alternativa senão redirecionar este seu desejo mais íntimo, desta feita, para cima, pela primeira vez em direção àquilo que lhe fosse verdadeiramente transcendente. Recordando, deuses já foram o todo ecológico e seus elementos - rios, lagos, montanhas e outros mais - já foram o Uno e o Uno/Trino, o múltiplo trágico e, quando reiterado, destarte, o múltiplo calculável, em geral, infinitamente mais isto e mais aquilo, entrementes, concebidos sempre abaixo da potencialidade lógica do apenas ser humano, de modo a que jamais escapassem ao estrito controle das instâncias sacerdotais. É precisamente isto que irá definitivamente mudar. Não há dúvida de que a sacralização da lógica de uma cultura tem por si um papel crucial na estabilidade desta cultura, podendo por isso ser considerado um invariante cultural. Entretanto, o fato da lógica assim simbolicamente sacralizada ter estado reiteradamente abaixo do nível lógico dos homens em particular dos homens que constituem a classe sacerdotal encarregada de zelar pelo sagrado -, dava ensejo a que estes, maliciosamente, pusessem a sobredita “superioridade” lógica para funcionar em seu próprio proveito. Mantendo deus em estado de total submissão podiam exercer um tirânico controle social, fosse de modo direto (por exemplo, sociedades teocráticas da América pré-colombiana,

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fase primeva da história egípcia etc.), fosse indiretamente, associando-se à plutocracia dominante (por exemplo, o Brasil, por quase toda sua história). Foi nestas condições que a idolatria ganhou um suplemento de valor que a fez ainda mais prosperar. A cultura Moderna, como suas antecessoras, não falta a este padrão, como mostra a parte esquerda da figura 10.2. Entrementes, com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária, a sacralização terá que incidir sobre a própria lógica hiperdialética qüinqüitária, o que automaticamente retira a possibilidade da dominação lógica do sacralizado, inviabilizando, por conseqüência, que se faça da simples administração religiosa um meio de dominação social. Mesmo que ocorresse uma acidental idolatria lógico-qüinqüitária, ou seja, um humanismo sacralizado, ele seria bastante instável e logo superado no processo de busca de uma mais consistente religiosidade.
CULTURA MODERNA CULTURA QÜINQÜITÁRIA
DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE
2

ESCOLÁSTICA

D/2

DESEJO INCONSISTENTE

I/D/

BIOPIROTECNIA
D/
2

I/D D

A FÍSICA DESEJO DO UNO-TRINO COMO DESEJO DE MORTE OU DE PODER

I/D

FÍSICA

Figura 10.2 – A reversão do desejo na cultura lógico- qüinqüitária Acresça-se ainda que a cultura lógico-qüinqüitária não pode, por múltiplas e ponderáveis razões [14], sustentar um desejo para baixo - no caso, este seria

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o desejo do ser-sistêmico abandonado pela lógica D/D, que se teria deixado subsumir por I/D/D -, tal como veio ocorrendo com as demais culturas. Dentre aquelas razões, destacaríamos o fato de que o advento da cultura qüinqüitária representa a chegada a uma destinação, a um estado de transparente autenticidade. Insistir, a partir de então, num desejo para menos, é decidir pela recusa de si próprio! Em outras palavras, a tensão entre ser e desejo de ser (que antecede mesmo a tensão entre ser e dever ser), que agora com mais precisão caracterizaríamos como desejo de ser (menos), não se sustenta na plenitude lógico qüinqüitária, a não ser que o diferencial de ser se re-oriente, se transmude em um novo desejo de ser (mais). Assim, chegando a humanidade à cultura lógico-qüinqüitária, veremos seu desejo mais profundo se inverter, deixar de ser um desejo de regressão ou de morte para se constituir num desejo de progressão e de vida. Ver parte direita da figura 10.2. Isto tudo irá representar uma profunda revolução psíquica e social, na medida em que a humanidade estará, desta sorte, alcançando pela vez primeira um estágio de autêntica e consistente religiosidade, abandonando para sempre o que foi sua disposição lógico-idolátrica de muitas e muitas eras. Podemos concluir este item certos da radical solidariedade entre o advento da cultura nova lógicoqüinqüitária e a emergência de uma religiosidade radicalmente renovada, com a qual a humanidade terá deixado de lado sua velha disposição idolátrica e seu antigo desejo de poder ou de morte, em favor de um desejo realmente amoroso de ser mais.

Todos os estudiosos da cultura identificam no homem de todas as épocas a existência de um impulso para o que lhe transcendia, que nomeavam

10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente

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religiosidade. Com a Modernidade, a ciência que tudo invade e calcula, “naturalizou as formações históricas concretas de religiosidade, tornando-as, destarte, conspícuos objetos do saber científico. Enquanto a religiosidade dos povos primitivos ficava por conta da tradicional antropologia, instituíase a sociologia da religião para o estudo científico da religiosidade das culturas “mais avançadas”. Para muitos, até tão distantes entre si como Hegel e Comte, a religião seria tão apenas um momento ou estágio de compreensão do mundo, a ser superado pela filosofia ou pela ciência. Com Freud ela é considerada um verdadeiro transtorno psíquico coletivo, uma ilusão obsessiva que o saber psicanalítico (científico!) acabaria por superar, ou melhor, curar. De fato, se o impulso religioso tivesse como motivação apenas o consolo imaginário diante da finitude (ou da consciência da morte), todos estes críticos da sociedade poderiam ter razão e a religiosidade ser considerada hoje um fenômeno social em extinção. A nosso juízo, entretanto, a religiosidade tem um fundamento mais radical e permanente, pois estaria baseada numa experiência cotidiana e fundamental de todo o ser humano, que não seria propriamente a do Absoluto, mas de sua gritante ausência. Assim, para nós continuará a fazer sentido falar em religiosidade, mesmo após a era da ciência. O homem, por ser consciente, ou seja, operar com a lógica transcendental, faz-se portador de uma falta originária correlata à sua inextinguível angústia existencial. Ser é ser sempre à beira de um insondável abismo, o Nada. Isto é muito bem sabido, mas em geral estamos pouco atentos para uma outra falta, que não é de origem, mas de destino ou de significação. Sabemos que a lógica do “espaço” epistemo-lógico [15] correspondente a um determinado nível onto-lógi-

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co fica determinada pela simples substituição da identidade (I) por uma diferença (D) correspondente à essência do conhecer, que é se deixar determinar completamente pelo outro (objeto). Para alcançarmos a lógica do espaço práxio-lógico (ou da ação) correspondente, basta-nos re-incorporar a identidade (I) o que traduz o retorno à cena do ser subjetivo e de seu poder de auto e hetero-determinação. Assim, por exemplo, a nível do ser objetivo (I/D), o saber correspondente será a ciência D/ 2, isto é, (D)/(I/D)=D/ 2), e o agir, a técnica I/D/2, isto é, (I/D)/(I/D)=I/D/2. Semelhantemente, no caso do homem caracterizado como ente lógico-qüinqüitário (I/D/2) as estruturas epistemo-lógica e praxio-lógica respectivas seriam D/3, isto é, (D/(I/D/2)/D=D/3 e I/D/3, isto é, (I/D)/(I/(D/2)= =I/D/3. Ora, estas estruturas - epistemo-lógica e práxio-lógica - não são inteiramente acessíveis ao homem, que sabemos limitado à lógica hiperdialética I/D/2. Como, porém, os demais elementos de ambas as estruturas lhe são acessíveis, as posições lógicas D/3 e I/D/3 , ainda que não diretamente acessíveis, acabam sendo vivenciadas como falhas ou carências estruturais. Ver figura 10.3. Esta é apenas uma descrição em termos lógicos da vivência cotidiana relativas à impossibilidade de compreensão completa do outro e, muito menos, de conseguirmos dominá-lo. Isto deixa mais do que evidente que a condição de escravo, ou mesmo a de neocolonizado (ameaça concreta que paira hoje sobre nós, brasileiros), encerra, no fundo, uma degradação onto-lógica.

a da identificação de uma motivação concretamente vivida que justificasse a prontidão para a recepção da mensagem revelada. no homem estão presentes dois diferentes tipos de falta. seja fidei (K. qual seja. a falta originária. não passou sempre de um ardil. ou transcendental.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE ESTRUTURA EPISTEMO-LÓGICA SUBJETIVA ESTRUTURA PRÁXIO-LÓGICA SUBJETIVA 267 I/D/ D/ I/D D I 2 3 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D I I/D D/ 2 Figura 10. O insistente apelo a um presumido conhecimento por analogia. pois. Tomás). a base vivencial real para a admissão. e a falta de significação. conseqüente busca e aceitação do transcendente. Barth) [16]. O reconhecimento deste segundo tipo – falta estrutural – resolve um problema crônico de toda teologia. um modo de expressão.3 Falhas estruturais epistemo-lógica e práxio-lógica humanas Assim. esta que podemos também denominar ausência viva do transcendente. o da abertura para o transcendente. . mas. que exige o prévio conhecimento tanto do significado quanto do significante. sim. pois o mais está presente no menos. Eis aí. A falta estrutural por nós assimilada contorna a dificuldade. caso contrário. seja entis (S. embora como falta. esta poderia facilmente se confundir com uma simples alucinação. porque a analogia não é nem pode ser um modo de saber.

268 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO No plano do saber. A insistência em que o homem deva incorporar seu próprio horizonte transcendente é de fundamental importância por múltiplas e importantíssimas razões. reduzindo o saber sobre o ser subjetivo a impossíveis ciências humanas. respectivamente.. que se realiza . com D/2 e I/D/2. nem necessitando lembrá-los todos.. Não podendo. alguns mais. . do animal dotado de sistema nervoso central. lhe dá acesso ao símbolo já inteiramente convencional (o que não quer dizer não motivado) e que a lógica I/D/2 do homem lhe dá acesso ao discurso que. determinada não só por todos os já ditos. gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que a lógica I/D. mais do que constituir um super símbolo. como diria Heidegger [18]. cujo acesso lhe é facultado pela vivência direta da falta estrutural epistemológica (D/3) e das falhas estruturais práxio-lógicas (D/3 e I/D/ 3 ). de nível lógico I/D/2. Dentre elas. faz emergir o sentido intensivo ou contextual. vale dizer. primeiro. onde estão co-presentes o ser e seu próprio horizonte: O homem é um ser lógico qüinqüitário. devendo-se precisar que a contextualidade aqui implicada é aberta. Isto significa igualmente que o homem passa a habitar a linguagem. outros um pouco mais próximos da intuição. num horizonte transcendente. alguns menos. mas igualmente pelo que se possa ainda um dia dizer. o que reduz as inesgotáveis práticas intersubjetivas a meras técnicas de sedução e manipulação. No plano da ação procede-se à sutura de D/3 e I/D/3. destacaríamos. não raro sutura-se D/3 com D/2. outros um pouco menos convincentes. [17] Existem ainda muitos outros modos de se mostrar a presença do referido horizonte. Tudo isto nos remete a uma mais precisa conceituação do homem.

que teria por isso que ser uma falta estrutural. e vimos que isto só era possível como presença de uma falta.4. o que bem justifica o que dizia o personagem dostoievskiano: “Se Deus não existisse. Antes de mais nada instituímos o eixo onto-lógico no qual podiam-se distribuir todos os existente mundanos e no prolongamento do qual se poderia buscar coerentemente o Absoluto. nos são vedados 10. Entrementes. nos é vedado o acesso a um único elemento da estrutura que representa o referencial global daquela situação. consequentemente. precisávamos ainda de uma efetiva e vivida janela para o transcendente. porque a presença deste horizonte de ser “junto” ao próprio ser é o que possibilita a emergência e insistência tensional entre ser e deveser. consequentemente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 269 que tal horizonte impede que ele se feche sobre si mesmo. vimos que com o advento da cultura lógico-qüinqüitária aconteceria a reversão da direção do desejo da cultura. na segunda. da emergência da dimensão ética no mundo. Afinal. Depois. Desde então seria toda a força da cultura que nos estaria empurrando em direção ao Absoluto realmente transcendente. tudo seria permitido. Nota-se então que a emergência da dimensão ética é correlata à vivência do transcendente. Vimos também que esta era a situação do conhecimento e da ação intersubjetiva – na primeira. a exemplo do que aconteceu em Hegel. que seria ocupado pela lógica D/3. desejo de morte e poder. uma falha numa configuração cujos elementos nos fossem em boa parte acessíveis. que a filosofia acabe se reduzindo a um humanismo e a religiosidade a um panteísmo. Deus depois do adeus às idolatrias .” Recordemos. e. para se tornar um desejo verdadeiramente amoroso pelo mais alto. Depois. que deixaria de ser um desejo para baixo.

D/3 e I/D/3. quando. Vamos de pronto abandonar a primeira hipótese porque nela o Absoluto não constitui por si uma instância onto-lógica e também porque ela não preserva. como é quase um consenso. vale dizer. é porque a estrutura epistemológica correspondente se reduz a D. na verdade. objetivo (I/D). se ser e conhecer são o mesmo. pode estar habitando um espaço ontológico que o transcende. Não é definitivamente este o nosso caso. são justamente as vivências destas faltas que evidenciam ao homem que ele não se constitui no nível lógico máximo. O mesmo valeria para o agir absoluto. “sujeito” e “objeto” se mantêm em estado de copertinência. Podemos. assim. Podemos encontrar uma boa pista para a determinação do estatuto lógico do Absoluto se admitirmos. com n superior a dois [19]. que para Ele. Se isto. o Absoluto – em suma. Ora. Ora.270 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dois dos nove elementos estruturais de maior nível. ou quase. subjetivo (I/D/2) – ficava bastante óbvio que o Absoluto precisaria ser buscado no prolongamento desta seqüência onto-lógica. a qualidade de ser Uno. como no caso do nível fenomênico. restringirmo-nos ao Absoluto concebido como ser-lógico de nível I/D/n com n>2. ele poderia ser D/n. na verdade. não só ser e pensar são o mesmo. Ora. com o estabelecimento dos níveis onto-lógicos – fenomênico (I). no seu limite autodesvelador. ao fim. Uma conclusão bem diferente daquela de Hegel que atribui ao homem o serdialético e faz deste mesmo ser. a situação geral dos planos e respectivos níveis seria: . Em princípio. ambos na posição I [20]. mas que também o são ser e conhecer e ser e agir. uma simultânea e paradoxal afirmação de humanismo e de panteísmo. onde D é apenas uma referência externa. vale dizer que ele. com n superior a três ou I/D/n.

D I/D Para que a distância entre o Absoluto e o homem se mantenha de pelo menos duas diferenças. I/D/n . Absoluto I/D/3 D/ 2 I/D/4 D I/D I/D/2 I/D/3 I/D/2 Isto é o suficiente para que possamos sacar algumas importantes conclusões teológicas: a) O Absoluto constituir-se-ia na instância ontológica de nível I/D/4. para que seja preservada a máxima simetria do quadro anterior.. Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D Nível Objet... Nível Objet. I/D/2 D/ 3 Nível Nível Intermd. . na verdade. dever-se-ia fazer n=4..FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 271 Nível Fenôm. reações.. uma autoridade que não pode nem mesmo ser desafiada.... Temos a experiência de que tal afirmação suscita. tal reação é um mero preconceito quantitativo.. assim: Nível Fenom.. como se ela significasse uma limitação à grandeza divina.... mais uma vez o insistente e condenável vezo pelos infinitos e transfinitos matemáticos! Acrescentaríamos ainda que esta proposição . Nível Absoluto Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D I/D D/2 I/D/ 2 I/D/2 D/3 I/D/ 3 ... Nível Subjet. com a introdução de um nível onto-lógico intermediário onde n=3... Teríamos. o que dá ao primeiro uma superioridade fechada. freqüentemente.. cujas respectivas estruturas epistemo-lógicos e práxio-lógico seriam D/2 e I/D/2. e. também.. I/D D/ 2 Nível Subjet.

também Eneário e. ambos em estado de co-pertinência na posição I da estrutura epistemológica D. à perfeição. O ABSOLUTO I/D/ 4 O TRANSCENDENTE I/D/ 3 2 O HOMEM I/D/2 D/ 2 I/D D I I/D/ I/D I O SER O SER Figura 10..4). aliás. na medida em que as lógicas humanas (I. D/2 e I/D/2) representam. é reconhecido pela .272 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pode ser interpretada como o simples auto-reconhecimento dos limites imaginativos do homem. I/D.-Septendecitário (I. em outras palavras.. I/D/3 e I/D/4) (ver figura 10. Septendencitário. as instância onto-lógicas de Deus Uno-Trino. ganha aqui sua plena significação. d) Seu conhecer é um estrito correlato de Seu ser. I/D. tão enfatizada pela teologia judaico/cristã. b) A semelhança de homem a Deus. D. finalmente. e) Existe um nível intermediário entre o do homem e o do Absoluto que. pois 17(2x2x2x2+1) são as posições na estrutura lógica de I/D/4. I/D/2. mas nós não teríamos condições de saber o que isso poderia significar. similar em tudo seria também o Seu agir. o Absoluto poderia até ultrapassar I/D/4. Notar que isto não se aplica nem mesmo aos entes angélicos (ou demoníacos). além de Uno-TrinoQüinqüitário.4 – Semelhança do homem a Deus c) O Absoluto seria.

“medidos” em termos de complexidade lógica. traços do monoteísmo já se haviam manifestado em culturas pré-lógicas.5. já sabemos agora. mas que. mormente quando estas pertencem à mesma família. maior e menor. porém. excedendo à capacidade lógica do receptor. Deus pode dizer quem de fato é . que precisava ser enfrentado pela teologia. Isto não seria uma novidade na história da cultura. jamais o foi. Antecipações . na cultura trágica grega..FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 273 maioria das grandes religiões do mundo. pois. a que damos a denominação de nível angélico. pelo menos na aparência. na cultura judaica. por exemplo. Talvez não por falta de vontade e coragem. até aí o problema permanece. É mais ou menos evidente a razão pela qual a Revelação tenha sido a solução encontrada para que o menor pudesse ascender a algum conhecimento do maior.. Embora a revelação plena do Absoluto UnoTrino-. não podemos negar que alguns de seus traços possam já se ter manifestado. que homem poderia compreendê-lo em sua plenitude? Quem poderia simplesmente se considerar à altura da mensagem? Trata-se de um paradoxo. em princípio.-Septendecitário seja uma prerrogativa reservada à cultura lógico-qüinqüitária. Entrementes. mas de um instrumental lógico de suficiente potência 10. pouco importa suas existências efetivas. traços da cultura cínica moderna. aquele próprio tanto a anjos como a demônios. em outras culturas. assim como traços do trinitarismo cristão. ainda que de modo fragmentar e inconsciente.a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano .para Karl Rahner [21] a radical inclinação à autocomunicação seria parte mesmo de Sua “essência” -. a nosso juízo. visto que o conteúdo significativo revelado continua.

o Absoluto e seus inexcedíveis poderes. Atente-se: o receptor da mensagem continua a ignorar o que possa ser. que é não conseguir preservar incólume o estatuto lógico da mensagem. acessível à compreensão humana. A figura 10. a mensagem eu sou o que sou (ou serei) sendo. Nada aqui excedeu ao “tamanho” lógico I/D/2. podemos colocar a questão em termos bastante diretos: como é possível ao Absoluto Septendecitário I/D/4 revelar-se aonde.5 ilustra bem tudo o que aqui está posto. porém. no caso. e nesta circunstância proclame-se Filho numa configuração trinitária. daqueles do próprio homem. .no homem qüinqüitário I/D/2 ? Pode-se agora vislumbrar uma resposta. é que Deus (I/D/4). pelo menos I/D/4 . enquanto tal. O modo paradigmático de fazê-lo.e não analógica [22]. possa existir encarnado como homem (I/D/2). ou seja.especificamente. logicamente não cabe . pois estaríamos nos enleando num paradoxo ainda mais grave do que aquele que tínhamos de partida. todos eles logicamente iguais ou menores do que I/ D/2. conquanto tenha ela seu alto preço. A condição geral para a recepção é que a autocomunicação divina . pode agora imaginá-Lo por trás de uma descrição cujos termos e sintaxe lhe são por completo acessíveis. deveras. poderemos facilmente constatar. Em nossa sistemática simbólica. O Absoluto aparece assim como que dotado de um conjunto de atributos que são de algum modo extensões lógicas .274 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto. pior seria. E se não fora assim. e muito menos quantitativamente infinitas -. como ocupante da posição D numa estrutura I/D. sem deixar de sê-lo.seja fragmentada em “pedaços”.

é assunta ao Céu. sim. uma . Trata-se da proclamação do Dogma Mariano (1950): Maria. após a Ressurreição.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE LUGAR DO ESPÍRITO (TRINITÁRIO) CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO 275 LUGAR DO PAI LUGAR DO FILHO CRISTO HOMEM QÜINQÜITÁRIO I/D/ QUE DECLARA OCUPAR A POSIÇÃO D EM I/D 2 Figura 10. mas uma organização (D/2). e. Em vista do remanejamento onto-lógico [23] que necessariamente ocorre na passagem da estrutura trinitária (I/D) à qüinqüitária (I/D/2).5 . se constitui membro da Sagrada Família (I/D/2) e o seu correlato terreno passa a ser a Igreja. para ocupar a posição I/D (por isso. Ele.como seria compulsório.A Revelação paradigmática . mais uma Confirmação do que uma nova Revelação) em que todos os elementos da mensagem revelada se mantêm ainda inferiores a I/D/2. tão necessária e insistentemente Virgem) numa estrutura qüinqüitária I/D/2. Ver figura 10. não para ocupar a posição D numa estrutura trinitária I/D. mulher. de nível I/D/2. o Cristo que ocupava a posição de Filho (D) na Trindade (I/D) vai ocupar a posição de Filho (D/2) na estrutura qüinqüitária (I/D/2). logo. como fora o caso do Filho. porém.6.a Encarnação Podemos ainda identificar um segundo modo (na circunstância. muito adequadamente denominada Corpo (D) Místico de Cristo (D) . não propriamente uma eclesia.

. Como se vê. definidas como as diagonais . ESPÍRITO PENTECOSTAL CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO LUGAR DO FILHO CRISTO RESSUSCITADO CORPO MÍSTICO IGREJA 2 MARIA MULHER QÜINQÜITÁRIA ASSUNTA I / D / LUGAR DO PAI LUGAR DA VIRGEM Figura 10. esta estrutura lógica é manifestamente sobre-humana. I/D.276 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dupla diferença. apresentar-se exteriormente como uma organização. enquanto que sua essência lógica passa automaticamente a ser I/D/D/D=I/D/3.. Tomando-se por paralelo a sexualidade humana. LUGAR DO ESPÍRITO (QÜINQÜITÁRIO) FAMÍLIA SAGRADA LUGAR DA MÃE INCONSC. menos em lógica. Como já mostramos em outra oportunidade [24]. diríamos até delirante. a Cúria pode errar em tudo. posição que sabemos caber necessariamente à filha virgem. isto é.Revelação (Confirmação) Septendecitária por via do Dogma Mariano É interessante observar que neste modo revelador a Igreja vai ocupar a posição D/2. Maria só poderia ser mesmo assunta para a posição que o referido remanejamento deixara vaga.6 .

POVÃO " A N IM A L I Z A D O " O I/ D / 3 I/ D / 3 I/ D / 3 I D / 3 I/ D D / 2 I/ D / 2 O MAL OU O IN C O N S C IE N T E D Figura 10. infalível porque dotado da capacidade de imediata compreensão inter-subjetiva. Só para exemplificar. o segundo. D. o feminino). I com D/3. temos então definidos três modos de ser sexual a nível I/D/3: o primeiro. para que não se veja associado ao mal (D). 1 SE XO P A I O U G U IA O N IS C IE N T E O 2 SEXO E L IT E . sobre-humana (D/3). o que vem explicar. e I/D/2.7. I/D/2 com D.7 . todos eles formalmente mais pobres do que os dois que acabamos de apresentar. o masculino. D/2.O sexo dos anjos (ou demônios) É bastante evidente que assim se estabelece uma relação hierárquica extremamente rígida entre o Príncipe. os crentes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 277 de I/D/2 (I com D/2. de maneira muito óbvia. I/D com D. uma comunidade (I/D) dotada do saber científico (D/2). único (I). I/D. o grande rebanho. tomemos a mais simples dentre todas . P A R T ID O OU CLERO O 3 SE XO CASTRADO . À terceira. Ver figura 10. o clero (especialmente o jesuítico). a forte resistência dos protestante à promulgação do Dogma Mariano. o clero e os crentes. I/D com D/2. porém. o terceiro. À primeira corresponde a figura do papa. À segunda. Existiriam ainda outros modos reveladores combinando algumas das lógicas I. reduzidos apenas à sua primeira componente I/D/2.

mas em seu modo mais elementar do Ser Único Criador frente à insignificância do ente criado. sem dúvida. não enquanto tal. Ela corresponde ao episódio em que Deus se revela a Moisés dizendo ser aquele que é (ou será). de uma revelação de Deus (I/D/4).278 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO as combinações: I. Trata-se. I e I. .

op- . A nulidade crítica das ideologias não autoriza mais esperanças. 11. O século XX demonstrou. os gozos minguados e quase sempre frustros ou ad aeternum diferidos. junta-se o mal-estar da condição de “marginalidade voluntária”. não somos coetâneos à Modernidade? Já não seria tempo de trocarmos o nosso crônico mazombismo acadêmico pelo gosto de uma autêntica auto-compreensão? 11. A causa. e às vezes por trás também fatos. no entanto. alguns nos chamam Belíndia. na era da prostituição generalizada? Os ônus por anos a dentro chegam sempre de véspera e agigantados.2. a violenta impotência (que era já constitutiva) das ideologias [1]. dizem: o dualismo. que. de bruços. Elas visavam apenas a substituir o sujeito liberal (sujeitado) da ciência. Manoel Bandeira. Triste situação a brasileira: ao mal-estar na Modernidade. A insistência e os repetidos fracassos dos projetos de modernização geram o cansaço. que pode haver de mais constrangedor do que estar sempre por baixo. é flagrante paradoxo. com enxurradas de fotos.1. Deveras.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 279 11 Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira Em Pasárgada tem tudo É outra civilização. concomitante a uma furtiva inversão de mando: a esquerda.

desde a irrupção das tribos nômades de caçadores/coletores do paleolítico à atual modernidade científica [5]. do hegelianismo e do marxismo. Em retrospecto. das culturas nodais (lógico-inaugurais). da lingüística e do estruturalismo antropológico. Em conseqüência. por coerência. muito nítida. pelo sujeito romântico ou telúrico.3.as mesmas que lá estão mais ou menos soterradas na tradição . Mas não se provou que não possa haver alguma saída. o que. Uma cultura e doravante três lógicas associadas. contemplamos a seqüência já realizada. é inegável a insuficiência [2]. o círculo quadrado. por si e conjuntamente reavaliadas. mas não seguido (tal como valem os poetas). Necessidade de uma pirueta. a direita. entretecidas e pró-jetadas [4]. por suposto. 11. daí. obviamente. a mais ousada: a passagem da estática à dinâmica cultural [6].antes ressuscitadas. Almejavam. Torna-se agora óbvia a carência de uma compreensão histórica profunda (logo. e de outro. Não há mesmo saídas laterais. Uma história hiperdialética é o mínimo que se requer. da psicanálise. Propõe-se então a releitura da história da cultura parametrizada pela lógica [3]. idem para os híbridos – a “história” das mentalidades e o conglomerado frankfurtiano. E a filosofia e mais as outras tantas “ciências” do homem? Embora precisem ser todas elas levadas em conta e muito a sério. todas. histórico-cultural) para mais além das ideologias. Como condição. exige-se sejam as lógicas . para dar conta do processo de autodesvelamento do ser hiperdialético qüinqüitário do homem. perfeito. o capitalismo sem jaça. o império hoje do pensamento único.4. também três tempos para cada: o tem- . nada tem a ver com a nauseabunda e rose-blair terceira via(dagem) social-democrata (mais uma!).280 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tando pelo sujeito coletivo. de um lado. Heidegger vale ser atentamente ouvido. (ver figura 11) 11.

Inicialmente. da mecânica newtoniana de pontos materiais ao campo escalar de Higgs [7]). ora. ainda vigente. Tudo tão célere . as correlatas “contestações” ideológicas. o desejo da terra prometida (à exceção dos meio-irmãos filhos da empregada. 11. as navegações e a expulsão suicida . o mesmo já do avesso. sucessivamente.que o diga Vieira! .dos cognominados da nação’. o desejo do ser-uno-trino (a física. Recordando: o confronto com o fingimento escolástico (reza a anedota que um ‘lixo’. A força do impossível desejo de regressão lógica é o melhor guia no retrospecto reiterado: na vertente lógico-identitária. note-se. lógico-diferencial. a tortura metódica (para que se confessassem números) de todas as coisas por meio de instrumentos e a medida pela fé de imaginários excessos sexuais femininos – enquanto se forjava o novo órganon exercitava-se à larga a caça às bruxas. o desejo da volta à animalidade (o mais velho ancestral do “desejo de morte”). à esquerda e à direita. o capitalismo calvinista de acumulação intensiva (a história desnaturada. pela sola fide. sucessivamente. daí. são os museus abarrotados de arte sacra!). na continuidade. Um zoom sobre a Modernidade [8]. “história” calculada) e. o tempo intenso do desejo de sua lógica recalcada e o tempo desesperado fingindo ter-se tornado a lógica de sua própria posteridade. sim. pela ordem. a prémodernidade ibérica. o desejo do ser-uno (a velha filosofia) e. que queremos ver pelas costas (não nossas. hoje. na outra vertente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 281 po morno da lógica que ela sacraliza. o Protestantismo e a incontornável invenção. o didático herói john fordiano). mas domesticados adrede pelo marketing). do sujeito liberal (no cinema. o capitalismo consumista extensivo (desejos. mas dela).5. preteridos!) e o desejo do corpo espiritualizado incorruptível (é só lembrar quantos. no dizer já moribundo do disciplinado e terno Doutor Angélico). o desejo de origem (o mito).

Etapas intermediárias: a formação de uma territorialidade. o ser-feminino à altura exata do ser-masculino. aqui.282 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que talvez se tenha hoje já à mostra os primeiros sinais do inexorável declínio. nem tanto. sobremodo. e. Agora nós. Como tanto se almeja (mais os tempos. em direção ao ser de fato transcendente. Para desvelar e seduzir (e por que não também um pouco para dar partida a hiperdialética qüinqüitária: o remanejamento das relações indivíduo/sociedade no plano político.7. Entrementes. por dentro. por não se tratar até agora de obra acabada. Fontes diversas recapitulando a história hiperdialética da cultura. por fora a tez.6. O peculiar processo de formação da cultura brasileira [13]. 11. a viabilização da oferta planejada. obra de desmedidos mamelucos. a re-significação cósmica do homem (tanto quanto do cosmos pela cultura!) [10]. obra de seletos mulatos. com a descoberta das minas de fundos de rio. após. os brasileiros. a certeza de uma cultura futura hiperdialética qüinqüitária. econômico – entre as surpresas. 11. o mesmo valendo para as respectivas verdades: gozo e vitória nivelados à alétheia e adaequatio (o que nada tem a ver com o retorno ao mítico andrógino de Aristófanes). conquanto que descentrada!) e cultural [9]. Sobretudo. a nova verdade qüinqüitária e seu método correlato: o amor pela “leitura” [12]. meio sonolentos. do fundamento lógico de todas as dominações sacerdotais [11]). por conseqüência. expressa pela reversão do desejo da cultura. cada um trazendo sua cota parte à nossa bela geléia geral. a formação de uma interioridade. Enfim. os homens só de carne e osso!). é preciso estar alerta . a inteligência e a sensibilidade destes e de muitos outros. a re-significação religiosa (o fim das idolatrias. a história desbloqueada. pela primeira vez.

a elitista retardatária pelo luxo (a rigor. como se fosse a última e única. Na TV e por todo canto. sem deixar de ser também sobre-humana (ao invés do superhomem. que em essência é cultural e por isso. Há opções. de ser-com-o-outro. a boa nova: os . nossa elite burra. Para nossa sorte. mas prospectiva. resolutamente etnocida. um reservar-se. deveras. dando alma a uma nova versão . em seu propósito último. escancarada. despudoradamente entreguista. E por que não. todos os dias. a artimanha de se fingir sua própria posteridade: eis. para baixo. De modo algum somos Belíndia. trombeteada. Mas. onde. a originalidade? Trata-se da edificação da cultura nova hiperdialética qüinqüitária . pedante – para cima. seremos tudo e por cima todos. amigos do rei. prepotente.um novo modo de ser-consigo-mesmo. Na linha de frente (do inimigo). afinal. sempre viva. mas significante .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 283 aos perigos da globalização. a pós-modernidade. 11.9. de ser-com-todo-mundoem-paz-com-o-Absoluto. que é a gente que de fato conta se o caso é cultura (não economia & finanças). mas a vontade de Pasárgada. o paradoxal dualismo: na verdade. a outra. um se pôr sempre um pouco à parte à modernização: trata-se do povão fiel ao seu destino. apenas pelas suas sobras e dejetos). Clarifica-se. cruel e debochada.do princípio antrópico [15]). Ela é o cumprimento de uma destinação por demais humana. à uma. em verdade. nem fraca. uma resistência não reativa. a grande “marginalha” rural e suburbana. elevado à altura do homem logicamente à sua espera. atenção.nem forte. à capela e murmúrio. na linha de resistência. para quem possa e as queira: uma.8. a popular auroreal pela originalidade [14]. na cara. 11. em tudo clarividente. Reagindo à inexorável superação. subserviente. o super-cosmos.

falando mais e o melhor possível. a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação .. todos de braços dados. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! 11.10 Por isso. Se fracassarmos. ainda que bem menos dotado e pré-destinado. por uns tempos. pela grande depressão psíquica (ou cultural). virá a grande depressão (econômica). sim. tornando-se destarte a decisiva força revolucionária. Nas ruas. haverá um (bastará um) pequeno grupo (LXX é um bom número!) que irá se propor. mas da própria . Como sempre. não repudiar. por amarelamento (como em 50 e 98). não só da história hiperdialética da cultura. nenhuma classe atrás das barricadas. se verá a reação desesperada: a ordem virá para a degola dos perigosos terroristas recém-nascidos. de repente. um dia. e. seguida.a vida eterna. depois outra e mais outra. é difícil resistir?! No entanto. como de costume. em última instância. nem explosões de casacos ou carros-bomba. seus cálculos e seus três indefectíveis instrumentos – a balança. Talvez. a ordem tem que ser (culturalmente) sobreviver a qualquer preço. a trena e o cronômetro). mas deveras subsumir a ciência (com sua lógica. seja preciso refugiarmo-nos no Egito ou nos agacharmos no mato. para não perder a língua. alhures. a necessidade iniludível de uma estratégia de sobrevivência pelo tempo que resta à Modernidade para que não faltemos ao encontro com a nossa destinação. grave impiedade ou. Dentre todos os fundamentalistas (reacionários). nenhuma marcha interminável de fileiras. nos atirado de alma e corpo inteiro à lata de lixo. batucando.284 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO prodígios da biopirotecnia. para não perder o fôlego. por certo fará vir ao mundo a cultura nova. Ou será que. ainda que numa caixa de fósforos. teremos. já. Na circunstância. biblicamente instruídos. por desídia.. outro. [16] Pessoalmente. ademais.

.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 285 cosmogênese.. A DEGOLA DOS RECÉM NASCIDOS OPÇÃO PELA ORIGINALIDADE 4 I/D D I CRÍTICA DA CULTURA: ARQUEOLOGIA DA CULTURA PROCESSO DE FORMAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA 7 3 pré-D pré-I HUMANIDADE (I/D/D) ANIMALIDADE (I/D) Figura 11. Com que cara iremos nos apresentar no Juízo Final. Situação cultural brasileira . POR OPÇÃO PELO LUXO 10 IMPOTÊNCIA DA CRÍTICA IDEOLÓGICA: DE DIREITA (FASCISMO SUJEITO ROMÂNTICO .I/D) 2 5 D/D CULTURA MODERNA 1 CULTURA MARGINAL BRASILEIRA 8 FIM.D) E DE ESQUERDA (MARXISMO SUJEITO COLETIVO .?! CARACTERÍSTICAS DA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA Remanejamento das relações indivíduo/sociedade Re-significação cósmica Re-significação religiosa Real liberação do ser-feminino A verdade: o amor pela "leitura" 6 CULTURA QÜINQÜITÁRIA I/D/D HISTÓRIA DESBLOQUEADA ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA PARA A CONSUMAÇÃO DE UMA DESTINAÇÃO ASSUMIDA A 9 FINGIMENTO: BIOPIROTECNIA.

estaremos nós aqui falando do futuro? É o que tentaremos precisar neste item introdutório. além de um entre muitos expediente para uma boa comunicação. Paul Tillich Não existe a menor possibilidade de nos lançarmos aos estudos do futuro sem a prévia assunção de uma concepção. conjuntura e perspectivas brasileiras [1] Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. de uma lógica da História. Ernst Cassirer L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. dito com maior precisão. de uma filosofia ou. Nestas circunstâncias. 12.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 287 12 Considerações gerais sobre a história da cultura – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história. De que lugar [2]. A noção de História estaria originalmente associada à lógica transcendental ou da identidade (I) [3].A História como processo hiperdialético qüinqüitário . também um imperativo de mínima ética. proceder à explicitação de tal pressuposto é.1 .

Concepções da História . história judaica. TRÁGICA HISTÓRIA JUDAICA LÓGICO-TRANSCEDENTAL(I) UNÁRIA FÉ Figura 12.1) HISTÓRIA NOVA HIPERDIALÉTICA (I/D/D) QÜINQÜITÁRIA FÉ E ENGAJAMENTO HISTÓRIA (I/D) HISTÓRIA HEGELIANA LÓGICO-DIALÉTICA(I/D) TRINITÁRIA ENGAJAMENTO “HISTÓRIA” SISTÊMICA LÓGICO-FORMAL (D/D) CALCULADORA CONSC. (Ver figura 12. CÍNICA CULTURA (MENTALIDADES) (D) ARQUEOL. são mera conseqüência de incidentais descumprimentos pelos homens dos mandamentos divinos e do justo castigo que lhes é por isso infligido. solidária à verdade do Deus único. Esta é a primeira dentre as concepções de história.1 . para ela. os “acontecimentos” intermédios. Ela é a História que se interessa primordialmente pelos extremos. a liberdade e a própria consciência. DAS MENTALIDADES LÓGICO-DIFERENCIAL(D) HERMENÊUTICA CONSC. origem e destino. que iremos denominar com o neologismo unária.288 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que é o modo específico de se poder pensar a temporalidade. O que esta concepção reclama de nós não pode ser outra coisa senão a fé inabalável de que Jó nos dá o melhor dos exemplos. momentos de criação e consumação dos tempos (escatologia).

Como fazer compatíveis a temporalidade lógico-identitária e a espacialidade lógico-diferencial? Apelando à velha dialética? Mas esta está. concluiu coerentemente Hegel. entrementes. como em Marx/Engels. Concordemos em adiar por momentos uma resposta. Ao internar a diferença. e isto. a nosso ver. o paraíso. a noção de História ficou radicalmente associada à lógica dialética. especulativa (melhor dito do que idealista). a sociedade sem classes e outras miragens para obnubilar a referida deficiência lógica. a que damos. Ela é uma história que solicita. como vimos. o comunismo primitivo. o nosso engajamento. fazendo do conflito ou das contradições internas o seu verdadeiro motor. síntese das lógicas da identidade e da diferença. a revolução. sobretudo. que a dialética. Assim. Note-se. a dialética cria um modo imanente de dinamismo. de sorte que a verdadeira história só pode ser aquela da totalidade lógico-dialética em busca de si mesmo. esta história pode assumir também feição materialista. a História seria o próprio processo de autodesvelamento do espírito absoluto [5]. es- . pode facilmente degenerar em lógica da oportunidade e nosso engajamento em mero oportunismo. é a totalidade. a denominação de concepção trinitária. ela apresenta uma deficiência intrínseca que a incapacita para a compreensão de origem e destino – daí. se constitui num evidente contra-senso. Em compensação.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 289 Depois de Hegel. A noção de História é freqüentemente estendida para abarcar concepções lógico-diferencias que em essência a negam. aqui também envolvida para poder dar a necessária volta por cima. como enfatizava Lukács [4]. por isso. Considerada sua essência lógico-diferencial. Além da versão original hegeliana. o juízo final. o que torna esta história especialmente apta para explicar as mil peripécias do devir. A verdade da dialética. desvinculada do diálogo com outras modos de pensar.

mas o desdobramento epocal das mil máscaras do trágico se mostrando e se apagando num des-propositado jogo de forças. De um lado. Identificam e medem fatores determinantes de seu surgimento. conforme sua opção lógica subjacente. está a “história das mentalidades que. Sua postura é fundamentalmente hermenêutica: trata-se. de confessa inspiração nietzscheana. a genealogia de Foucault [8]. desenvolvida com o fim estratégico de permitir a mais tranqüila reprodução dos poderes. desta prolifera uma variante que poderíamos chamar “história científica e bem remunerada”. de inspiração organicista. na circunstância. É uma concepção. governado por uma lógica da repetição. pre- . É um pensamento que abre mão do diacrônico em favor do sincrônico. com bem maior propriedade. da busca da explicitação de um sentido coletivo. Teríamos como exemplos a escola francesa da “história das mentalidades” [6]. sobretudo. em geral. O homem não viveria propriamente uma história. preocupando-se com as estruturas ou estratos profundos (em boa parte inconscientes) que constituem a alma de um agrupamento humano ou de uma época. De outro lado temos a “história” embalada como produto científico. deveríamos chamar arqueologia das mentalidades ou da cultura. O que nos é dado. os exemplo clássicos seriam Spengler [10] e Toynbee [11]. é a alegre (trágica) aceitação do jogo [9]. o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss [7] e. contextual. da condição a que fomos atirados não se sabe por que deuses tão francamente anti-einsteinianos. de sua continuidade.290 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tas paradoxais concepções históricas só podem se apresentar de duas maneiras. marcada por uma visão trágica do homem e da sociedade. onde impera o eterno retorno do mesmo. Hoje. que procura isolar “unidades históricas” relativamente estáveis (em geral civilizações) para daí inferir padrões de regularidade. de seu apogeu e de sua queda.

2 . aos desgraçados. Estas duas concepções se distinguem. DIFERENÇA D DUPLA DIFERENÇA D/2 NãoB B NãoB B NãoA A=NãoNãoA UNIVERSO CONVENCIONAL B = NãoNãoB Figura 12. uma vinculando-se à lógica da diferença. para ela. que Não (NãoB) se iguale a B.2). outra à lógica clássica. Não podemos aqui evitar uma breve digressão lógica. pois se trata de uma questão vital. embora seja o maior dos escândalos que não faça parte da cultura comum do cidadão [13]. Isto é simplesmente impossível porque NãoB. ou seja. afinal. por seu parti pris lógico. Quando procedemos a uma diferenciação qualquer B. esta última precisando ser compreendida pelo que verdadeiramente é: uma lógica da dupla diferença. (Ver figura 12. para deste modo poder se igualar a B. é um indefinido. não nos é garantido o princípio do terceiro excluído. Aos poderes. diferentemente de B.Lógica da diferença versus lógica da dupla diferença .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 291 tendem-se um cálculo a médio prazo do ser temporal. cuja negação não pode jamais vir a se constituir em algo melhor definido do que o próprio NãoB. o que é já o suficiente para revelar seu caráter cínico. solicitam mais verbas. como dissemos. característica inalienável da lógica clássica. que suicidem-se [12]. História não há mesmo mais.

e abandonar NãoB. em contraposição à lógica da simples diferença. do terceiro excluído ou. e no entanto. D/D). lógica da dupla da diferença (concepção cínica D/D=D/2). D. transforma-a em lógica cínica. Muito simples. dialética (concepção hegeliana/marxista ou trinitária I/D) e clássica. proceder a uma segunda diferenciação A. esta mera convenção promovida ao estatuto de verdade absoluta (exclusivismo da lógica clássica). porque NãoA é tão bem definido quanto A. é que podemos ter de fato Não(NãoA) = A. Melhor a denominaríamos. nele. da diferença (concepção trágica D). Desenha-se um referencial perfeitamente homólogo à estrutura das lógicas de base [14]. como requer o princípio do terceiro excluído. muito bem simbolizada por Prometeu. propriamente temporais) da História em um mesmo quadro referencial tem agora sua grande compensação. fazer de conta que B é uma totalidade e aí então. em que estão presentes as lógicas da identidade (concepção judaica ou unária I). O caráter trágico da lógica da simples diferença (D) vem de que ela é o pensar da separação (relativamente ao Um/Ilimitado). O contra-senso da inclusão de concepções logicodiferenciais (espaciais e não. que uma primeira diferença pode produzir uma veraz totalidade. ainda mais precisamente. seja seguindo o vai e vem das concepções da histórias em geral (I. por isto. precisaremos tomar por referência uma primeira discriminação.292 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para garantirmos a validade do aludido princípio. seja seguindo . B. formal. ou seja. Agora nos é dado facilmente perceber o óbvio: que. Agora. A lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) deriva de um artifício. como deveria ser. I/D. lógica da dupla diferença. de um faz de conta. é tão só esta artimanha que permite o obsessivo cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos promovido pela Modernidade. sim.

3 a dialética em dois ciclos subsequentes para fazê-la mais facilmente comparável à lógica qüinqüitária. síntese das concepções genuinamente temporais da história. I/D/2) da já bem conhecida lógica dialética (trinitária. como uma síntese da concepção dialética hegeliana (I/D) com a hermenêutica das mentalidades (D). agora sim. lógico qüinqüitária . transcendental e dialética trinitária. mas como um bem mais complexo ser–lógicoqüinqüitário (I/D/D=I/D/2). à maneira de Hegel frente à sua dialética. Preliminarmente apresentamos na figura 12. Esta pode ser compreendida de diferentes modos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 293 diretamente a linhagem das lógicas da temporalidade (I e I/D). resultando. tal como está destacado na figura 1. só que.à existência de um quinto lugar. Ela pode também ser entendida como uma dialética da dialética. Não é só: também pode ser compreendida de per si. de nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). onde poderá situarse uma nova concepção da história. Somos agora forçados a uma nova e breve digressão para salientarmos alguns dos principais traços que diferenciam a lógica hiperdialética (qüinqüitária. Haveria ainda muito mais que o leitor poderá por si descobrir. coerentemente na linhagem das lógicas identitárias. . chegamos sempre ao mesmo destino . desta feita. entre eles. numa síntese maior. I/D) [15].(I/D)/(D)= I/D/D=I/D/2 -. tido agora não como um espírito-lógico-trinitário (I/D). como lógica do processo de auto-desvelamento do homem.

É a concepção lógico-qüinqüitária da história que. quanto aos riscos a serem assumidos. necessária e coerentemente. cuja complexidade vai inclusive requerer uma terceira dimensão representativa [16]. em última instância. aquilo que esteja a emergir para além da Modernidade.3 . ao primeiro ciclo dialético. segue-se não outro ciclo da mesma natureza. mas sim um ciclo contra-dialético. que vai dar ensejo à síntese lógica clássica ou da dupla diferença. De todas as lógicas mundanas [18] tão só a hiperdialética qüinqüitária subsume a lógica clássica. lógica da dupla-diferença. dos procedimentos de cálculo do mundo que caracterizam essencialmente a Modernidade.Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária Fica aqui evidente a maior complexidade da hiperdialética na medida em que nesta. certa- . que sabemos garantidora. Só depois o processo segue em direção a uma síntese maior. tanto para o olhar. precisaremos assumir para poder efetivamente pensar a História da Cultura em toda sua amplitude. um lugar de ar rarefeito. sabemos bem. em especial. Torna-se mais do que evidente que apenas desta perspectiva lógico-qüinqüitária é que se poderá proceder ã crítica radical da Modernidade [17].294 DUPLO CICLO DIALÉTICO-TRINITÁRIO LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CICLO HIPERDIALÉTICO QÜINQÜITÁRIO I/D I I/D I CICLO DIALÉTICO I/D/D D I/D CICLO DIALÉTICO D/D CICLO CONTRA-DIALÉTICO CICLO DIALÉTICO D I D Figura 12. Um lugar por demais alto.

Tylor e Lévi-Strauss . respirar um pouco de esperança. mas mesmo assim. Perguntamo-nos naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização .enxergou sua ciência desde sempre em crise.válida para todos os homens em todos os tempos e lugares .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 295 mente. pouco mais do que nomeado .a cultura nova lógico-qüinqüitária! Devemos convir que deve soar ainda bastante estranha esta nossa pretensão de antropafagiar a ciência em nome e proveito da esperança ! Em Noções de antropo-logia [20] caracterizamos o homem como o ente dotado de um poder hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. da diferença (D). o discurso articulado em sua plena acepção [21].e cita Frazer. Citamos isto para que não alimentemos qualquer ilusão com respeito a quão estranho irá aparecer ao saber antropológico estabelecido. Segundo nos informa Márcio Goldman [19]. Um esboço de história da Cultura .2. dialética (I/D) e clássica. já contemplava ela a desaparição de seus mais caros objetos. Os animais cordados operariam no nível lógico dialético (I/D). mas a razão humana iria mais além. se põe na contramão. mormente aqui em Pindorama. formal ou da dupla diferença (D/2). Por também subsumir as concepções judaica e hegeliana da história. a assunção de um ponto de vista antropo-lógico que. nem bem constituída. Morgan. a maioria dos antropólogos . enfim. ela suscita e nos solicita tanto pela fé quanto para o engajamento. na medida em que. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/2) governa. operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I). de certo modo.com 12. entre muitas outras coisas próprias aos homens. alerta ainda à espera de seu objeto. lugar onde se pode.

ambas naturalmente referidas à Natureza.4) . Elas serão genericamente denominadas etapas ecológicas [24]. pela variabilidade no tempo do seu vigor criativo e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo a história da cultura como um processo de autodesvelamento do próprio ser do homem. mas não ainda um passo de natureza propriamente lógica na direção daquele desvelamento. (Ver figura 12. pela idade. assim. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D).296 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. entre eles. inclusive. da lógica por ela assumida e sacralizada. Esta última seria a expressão simbólica. um essencial e particular comprometimento lógico [22]. atestada de muitos modos. e que lhe confere. coletivamente objetivada. de natureza hiperdialética (I/D/2). como poderia ser diferente? Toda cultura teria. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. Aliás. da diferença D. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [23]. dialética I/D. por uma questão de coerência com o que vimos até aqui. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. clássica ou formal D/2 e a própria I/D/2). mas algo ainda mais complexo. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que teriam ocorrido significativos avanços. depois. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I). uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D).

. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. cultura judaica. I. não castradora. cultura tribal. ainda por vir. e. uma cultura à medida exata do homem. D/2. pela primeira vez. I/D/2. cultura prometéica grega. que hoje domina o mundo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 297 Resumidamente e focalizando uma área restrita. cultura moderna de base científica. pré-D. I/D. cultura sedentária de base agrária. compreendendo apenas o Ocidente e o Oriente Próximo. teríamos a seguinte seqüência histórica de culturas nodais: pré-I. D. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. uma manifesta síntese das culturas anteriores [25] . porque. por todos os títulos. cultura medieval cristã (patrística). cultura hiperdialética qüinqüitária. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos).

3. fingimento e superação .4 . tão bem sustentar-se. entretanto. Desejo.298 CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA I/D/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CULTURA MODERNA CIENTÍFICA OU SISTÊMICA D/D CULTURA CRISTÃ TRINITÁRIA (PATRÍSTICA) I/D CULTURA GRECO-ROMANA PROMETÉICA D CULTURA JUDAICA SIMBÓLICO CONVENCIONAL E MONOTEÍSTA I CULTURAS PROPRIAMENTE LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA DOS IMPÉRIOS DA ANTIGUIDADE PRÉ-D CULTURA TRIBAL PALEOLÍTICA CAÇADORES/COLETORES PRÉ-I CULTURAS ECOLÓGICAS Figura 12. não será mais uma cultura. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura. até aqui. uma lógica. que vem demonstrar que por trás de ambas opera um mesmo arcabouço lógico.Esboço de uma História das Culturas Nodais É importante notar a perfeita homologia entre as figuras 1 e 4. pôde. Por isso. descontado nesta última o “detalhe” das culturas “ecológicas”. uma lógica. Nossa tese central daqui por diante. porém. 12. a aparentemente desmedida simplificação da tese uma cultura.

fingir que não mais é o que é. o fogo e o leão. o seu próprio futuro que teria resolvido madrugar. Em outras palavras. a segunda. vale dizer. de algum modo. com cada uma das demais lógicas mundanas. os gêmeos.o número 3. bastaria lembrar a profusão de manifestações arquetípicas que se pode recolher nas culturas históricas: lógica da identidade I . inclusive com aquela que a todas estas subsume. a água e a serpente em hélice ou distendida. Para convencer-nos. São vínculos ora claros e assumidos. em que pese seu parti pris lógico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 299 três lógicas [26]. ora clandestinos. lógica dialética I/D . o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda. intentará simular ser. precisou ser feita mantido o postulado da igualdade de todos os homens.que determina o seu ser “desejante”.ficando. o ponto. agora. já foi assinalado.o número 1. correspondente à cultura que a antecedeu . o branco. triângulos. e da qual não discordamos). o círculo.o número 2. associada a mais outras duas: a primeira. toda cultura. como se verá. Cada cultura tem sua lógica de referência . correspondente à cultura que a irá suceder que determina o que ela. numa artimanha defensiva. mas. o vermelho. figuras especulares em geral. o segmento de reta.que era nossa tese anterior . Esta mudança (de 1 para 3). A adjudicação de uma lógica a uma cultura. Tentemos melhor esclarecer. sim. triângulos de círculos . o azul. o ar e a águia. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. fonte de seu vigor criativo -. dá testemunho de outras lógicas. lógica da diferença D . a cobra que se devora pela própria cauda.

.5): a) de um lado. por suposto. procede a real ameaça à sua dominação de época. com a lógica da cultura que lhe sucederá. os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. Dentro desse quadro geral. para que ela pudesse advir em seu lugar. seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. mandalas [27] de toda sorte. com a lógica da cultura que lhe antecedeu .o número 4. a estrela socialista. lógica formal D/D ou D/2 .lógica que teve que ser superada (ou recalcada).300 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou nó borromeano. o negro. o homem e a quinta-essência. lógica hiperdialética I/D/D ou I/D/2 . as pirâmides de base quadrada. a terra e o touro.de onde. seu permanente pesadelo . que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? E por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas (Ver figura 12.o número 5. os quadriláteros em geral e as cruzes. e que por vezes “retorna” ou se re-volta como num sonho -. b) de outro lado. mas que de algum modo permanece subsumida.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA POR VIR 301 FINGIMENTO SUPERAÇÃO CULTURA DE REFERÊNCIA DESEJO CULTURA ANTERIOR RECALCADA Figura 12. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. o que se pode. como as culturas. Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. conhecimentos.Desejo. instituições. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou margi- . recalcá-la ou. ou seja. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico/emocional dos indivíduos. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. Isto nos faz compreender. Desde sempre. fingimento e superação Do ponto de vista lógico. forçá-la a abandonar o já pensado por outro por pensar. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. através de um processo de reiteradas substituições. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e duradouramente exercida. não se pode simplesmente apagá-la. de modo mais ou menos claro. o que é ainda mais sutil. é de algum modo silenciá-la. na verdade. o desejo da cultura [28]. técnicas e múltiplas artes.5 . afinal.

5) Toda cultura teria. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. pelo menos. No entanto. Toda cultura. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação (pela violência. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. O golpe fatal sobre qualquer cultura. até preventivamente mandando executar os recém-nascidos. simula ou finge ser o que ainda virá. e tantos mais) e que a dissimulação aqui aludida é apenas um dentre eles. pelas ideologias. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. e que de maneira inexorável irá confrontá-la. convenhamos. é o melhor que poderia mesmo fazer para tentar embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. . inclusive aquelas à esquerda e à direita. ameaçadores. que é seu verdadeiro motor imanente. tanto de suas excelsas realizações. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura.302 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. que. ou. mas que ao final é o que a empurra para a frente. também não se pode ter dúvidas. como de seus piores feitos. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. como não poderia mesmo deixar de ser. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 12. todas o pressentem. pois já começam a se delinear em seu horizonte. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. pois. E quando isto acontecer. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. uma disposição desejante. precisamente em seu fingimento.

quer a cerealicultura (Tais mitos são mais ra- . o fruto esperado. da Antigüidade (pré-D). acompanhada de investimentos na organização da produção. enfim. Tomemos alguns exemplos. na formação de estoques e na sua distribuição. como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo . O mito vem suprir exatamente este desejo de origem.o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. seria o das culturas dos grandes impérios de base agrícola. metaforicamente. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. Tempo perdido. perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (por isso podem parecer retrógradas) com uma corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (por isso podem parecer delirantes). A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . do desvanecimento do seu próprio desejo. tanto quanto terá sido negado que estava já em gestação nas suas próprias dobras.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 303 A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas. do esgotamento de seu vigor criativo. a liberdade pelo cativeiro. A agricultura tomada como base da subsistência. margens e desvãos [29]. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. O primeiro. em essência. Como bem observa Mircea Eliade. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. A probabilidade de subversão de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. Significam.

ainda que oculta. ora metafóricas. como assinalamos. o simbólico refém da espacialidade que.6) Tudo isto. em essência.304 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ros. é atribuído um sentido. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O mito. (Ver figura 12. uma intencionalidade atuante. Ali vige o simbólico. entretanto. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. o constituiu. Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. ainda como um entre os múltiplos atributos dos entes. ora metonímicas (análogas aos processos primários inconscientes de condensação e deslocamento). que. (negritos nossos) [30]. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. malgrado. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). por isso. para fazer frente à grande ameaça do conceito. o sentido permanece ainda afeito ao traço. possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. que irá permitir a . requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. A todas as coisas. vivas ou inanimadas. É então pela idolatria sistematizada que esta cultura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. Para tanto e muito mais. não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. nas culturas de base agrícola (pré-D). e por vezes radicalmente reinterpretados. Neste tipo de cultura. mas sentido apenas como índex ou como análogo. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. inventa-se a escrita. nas culturas evoluídas.

verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular. da religião do Deus único. sabemos to- . à noite.6 . inseparável do pré-domínio do simbólico pleno ou convencional. que estiveram reunidos de dia. absoluto transcendente. cuja gigantesca e emblemática figura. o círculo de seus adoradores .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 305 expressão do lógico enquanto tal. a fio de espada.três mil ou mais outros vinte tantos mil. por nada subornável. à volta do bezerro de ouro. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. em definitivo saída da Natureza para o mundo da Lógica ou da pré-Idéia.Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade. Como se fora numa pintura de Chagall. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. não importa -. CULTURA MONOTEÍSTA MAGIA ANALÓGICA I JUDAÍSMO MOSAICO Pré-D Pré-I MITO CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL Figura 12.

O personagem símbolo aqui é Prometeu. E se vê condenado a não mais retroceder. A relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo. um de costas para o outro. (Ver figura 12. diria Hölderlin. que é doravante ser outro (dos deuses). em especial. que se pode considerar como o fundamento lógico do trágico). e não da outra. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser. Um segundo exemplo seria o da cultura grega comprometida com a lógica do outro ou da diferença (D). que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. é Moisés. daquilo que foi e agora é falta).Cultura prometéica grega (D) .306 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dos. posição que vai lhe custar o mais alto preço. Daí constituírem os gregos a cultura trágica por excelência.7) CULTURA DO CONCEITO OU DO ESPÍRITO CRISTÃ DIALÉTICA PLATÔNICA POESIA EXORBITANTE I/D D I CULTURA GREGA CULTURA DA IDENTIDADE FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA Figura 12. porque é desta última. que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I).7 . que se alimentará o vigor criativo dos gregos.

de modo incontestável. pretensa extensão da Natureza . Reparando bem.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. simular sua própria auto-superação como arte. beauté suprême. a dissimulação que ela realmente é. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). do um-todo ou do Deus único. ao invés. à imitação da própria imitação. sombra [31] Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. lamentablement. mas não chegara a realizar -.Hölderlin -: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. vale aqui apelar à sensibilidade do poeta . grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. por falta do distanciamento. como tal. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. por excesso de fingimento. grega no caso. malabarismo para uma sobrevivência impossível . ou seja. Nesta. mas Graça!). A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. particularmente a poesia trágica. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial. uma profusão de profetas e suas duras admoestações aos homens pela sua infidelidade à Promessa (que não é produto de roubo. não produz filósofos e perguntas. com a agravante de te- . La Grèce. A arte grega. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. mas. além.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 307 Para compreendê-lo em toda sua significação.do que esta deveria. Para deixar isto ainda mais transparente. o que encobre/ revela. veremos que a pátria do ser.

para que fosse ele buscado além. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão micrométrica.que então exorbitava . Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique.. alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . o que. sabemos. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual.e a filosofia. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. Hölderlin. Por isso. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [32] do que um clarividente. Eugen Fink. alguém que não faltou aos seus. (negritos nossos)[35] Perceber tudo isso não é assim tão difícil. viria a ser a prerrogativa própria da idéia (ou do conceito) [34].Platão. sendo também mais universal e o mais universal.308 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO rem sido alertados em tempo por um dos seus maiores . a verdade da parte pela da totalidade. já lembrado.. como bem registra A República [33]. Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico. no que respeita a pretensão do belo ao vero. Il interprète plutôt le beau . como se vê. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. não por serem imitadores. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. mais individual. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos.

de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère.. [36] Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre. originelle. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. mimésis.. des spectacles contre qui la pensée métaphysique { isto é. imitation d’une imitation. La poésie est essenciellemente mimétique. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. la poésie imite le vrai savoir.. Cependent elle est imitatio. como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. mas era algo essencial à própria afirmação da filosofia (bem entendido. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux.. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. Fink nos proporciona um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. . (negritos nossos)[37] Muito importante é observar que. par conséquent sans savoir réelllement. la poésie devient alors. para Platão.. Dans un pressentiment obscur. (negritos e colchete nossos)[38] . subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie. on lui arracha son prétendu masque divin.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 309 comme chemin et échelon vers le vrai.

passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega mais do que 600 anos após à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” anterior à “lógica”. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. no conflito da idéia com o excessivo poético que. como visto. no caso. por ser lógica e historicamente primeira. para sobreviver. viver da caça a outros animais. no entanto. vamos tomar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores que dominou o período paleolítico e que. Já pertence. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. recordemos. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. pois. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/D= =I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. ao mundo da cultura. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o . porém. a pré-I? Como poderia se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. dissimulado. Georges Bataille. Diferencia-se da cultura de base agrícola (Pré-D) porque esta se põe como outra da Natureza. isto é. em Théorie de la religion [39]. apresenta algumas interessantes peculiaridades. Como último exemplo.310 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A nosso juízo. esboça seus primeiros traços em Platão. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. que.

em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 311 alimentar-se de e ser alimento por outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. no que tange ao seu modo desejante. na sua própria expressão. como a água na água. Em outras palavras. nem assim constituem uma verdadeira exceção.8. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. o fato é que já se pode lá assegurar a . ou seja. concluímos que as culturas tribais. mas. (Ver figura 12. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. mas da renúncia a um ganho lógico . Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. Com isso.8) PINTURA RUPESTRE CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-D Pré-I HERÓI MÍTICO CULTURA ANIMALIDADE IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL O ANIMALIDADE Figura 12. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (anterior a pré-I). compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. para sobreviver. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (pré-I).ganho da animalidade (I/D) para humanidade (I/D/2). A condição de caçador o identifica com a caça. Apenas deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico.

Visa-se o outro agora como meio. especificamente. isto é. mortos ou vivos. mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. postergando o advento da cultura de base agrícola. por força de um movimento de subversão cultural. animais e homens. quando já se desenhava para eles o espectro da agricultura. no entanto. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. e mesmo em se tratando de um semelhante. Para tanto. não mais se o devora e sim o escraviza.312 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vigência de algum tipo de xamanismo. contudo. isto é. O autor da proeza está historicamente perdido. inclusive também os deuses. [40] O fingimento nas culturas tribais. da caça aleatória para a caça assegurada. não mais como o que se perdeu. (Ver figura 9) Toda esta artimanha representativa. conforme nos ensina ainda. Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pela lógica da identidade de todos os entes. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura de base agrícolas (Pré-D). e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. Reconhecemos aí o herói . ou ainda por um espírito ou por um deus. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). pelo trabalho agrícola. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente!) criada pelos xamãs para a conservação de seus poderes. Isto posto. de penetrar nos corpos dos humanos. precisariam simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. irá por água abaixo.

como se fossem três absolutos . trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da sociedade de base agrícola. entretanto.suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade. Discute-se tudo na Física.tempo ab- 12. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. Sua face desejante situa-se bem no cerne de seu glorioso cientificismo . força. energia. A Modernidade . porém. espaço e matéria.tempo (T). jamais. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto unotrino desejado (I/D). entretanto. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D). põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. temperatura e o diabo [43]. Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [41]. bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. De fato. spin. Newton. que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2). pressão.pré-assistido por Galileu e alguns outros . desejosa do uno-trino (I/D). indução magnética. que sejam eles três . aceleração. particularmente hoje. com sua mecânica. O fez. Em suma. a Física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2). a biopirotecnologia.10) O mais notável dos feitos de Newton . Em suas grandes crises.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 313 prometéico.foi. sua face disfarce é a técnica e seus excessos. Seus grandes heróis são Galileu. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses. porém. espaço (L) e matéria (M) .4. mas as equações matemáticas segundo os quais o mundo fora criado.a Física [42]. corrente elétrica. a Física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). Einstein e tantos outros. (Ver figura12.

à plenitude lógica. a história da Física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu comprometimento mútuo.10 – A Modernidade De outro lado. Se não uma “heresia triteísta . A técnica. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. relatividade geral. a partir de então. espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . enganadora. em especial a biotecnologia. de certo modo. CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA POR VIR I/D/ SUPERAÇÃO 2 PÓS-MODERNIDADE BIOTECNOLOGIA ESPETACULAR CULTURA CIENTÍFICA MODERNA D/2 I/D CULTURA TRINITÁRIA CRISTÃ FÍSICA (CÁLCULO DO UNO/TRINO: REDUZUIDO A TEMPO.relatividade restrita.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [44]. mecânica quântica. daí porque. ESPAÇO E MASSA) Figura 12. eletrodinâmica quântica . pelo menos um gritante e bem compacto oxímoro. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzi- .314 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO soluto. simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica.

seres vivos e memórias. Na técnica concorrem. inclusive. entretanto. sim. metamorfoseado. também a inabalável determinação para fazê-lo (I). não ocorre ali propriamente um processo de síntese. mas. de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. omissos. assim para toda a eternidade! A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. pois. com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das de- . É também o fim da História que tanto se apregoa. de modo obrigatório. futuramente. do homem em todos os seus pormenores. o que. enfatuados. em juvenil anjo de Maxwell. a determinação ou o empenho numa realização. respectivamente.egoístas. nada solidários. O avião já em vôo não é tecnologia. a propósito. mesquinhos. contra a morte em geral no mundo. Continuaremos tal como somos . constituindo-se apenas em seu arremedo. além de um saber da aerodinâmica (D/2). fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. sem qualquer imaginação. de outro lado. em compensação.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 315 dos (os transplantes seriam já uma preparação para tanto). insensíveis. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. o saber científico. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume como da recomposição informacional de todas as coisas. agora. Para se chegar a voar é preciso. não se sabe como. É o velho demônio” de volta. a lógica clássica ou formal (D/2) e a lógica transcendental ou da identidade (I). A lógica da técnica. não chega à hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. deixa bem à mostra (e de costas) quão risíveis são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. mas novo saber cristalizado (D/2). de um lado.

com toda a precisão. da razão autenticamente feminina [45]. Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. A verdadeira síntese qüinqüitária (I/D/2). das organizações burocráticas e similares. o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos.316 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO terminações à lógica formal da ciência . . lá. não se pode apresentar ainda fatos. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária (I/D/2) através da pseudo síntese machista da ciência (D/2) e de seu sujeito sujeitado (I). animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). mas tão apenas conjecturas. Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). a recuperação das lógicas da diferença (D) e dialética (I/D). o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. além.a sistematicidade -. Daqui por diante. por razões óbvias. como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. a rigor. entretanto. exigiria muito mais: para começar.à lógica transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna (D/2). um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica para buscá-lo à frente. mas talvez milhões ao mesmo tempo. Poder-se-ia assim dizer. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. em linhas muito gerais. Não é difícil. vislumbrar como se dará a superação da Modernidade. coetâneo e co-fundador na fixação das bases do cientificismo que viria justamente constituir a essência da modernidade?! [46] Eis. para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. das regras de poder. ou seja.

a problemática brasileira é posta em termos do dilema ser ou modernizar [47]. entre a formação cultural brasileira. tendo como seu sujeito. era ser-calculável. entrementes. é.11. Vamos tentar esclarecê-lo com a ajuda da figura 12. Desde Raízes do Brasil.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 317 mas tão somente a sua subordinação ao Pensamento. ali está posto de maneira implícita. Por quê? Porque afirmou que o mundo objetivo era geometria. como uma nação que nasce com a Modernidade. Ainda que inconscientemente. como de resto todo o discurso (ideológico) sobre a Modernidade. tem que ser olhada não como a questão da opção por um paradigma. A Modernidade. de Sérgio Buarque de Holanda. fundada por Portugal. completa- 12. ou melhor. O Brasil e a Modernidade . o cogito. o que se está sempre na verdade evitando ou ocultando é a questão de quem deva ser o sujeito da modernização (racionalização) que. um discurso acerca de qual opção de sujeito da ciência se intenciona deveras dissimular. no fundo. mas como a questão da sua ocultação ou dissimulação. A partir daí fica fácil perceber a essência do problema da incompatibilidade entre a formação social do Brasil. para nós. Sabemos todos que Descartes é quem inaugura (reflexivamente) a Modernidade. Entretanto. pode ter o problema de se haver com a Modernidade? Não pode ser isto.5. e a Modernidade. obedecendo à lógica do terceiro excluído. Este é verdadeiramente o nosso grande conflito interno. Mas acho que temos que aprofundar e entender melhor como se dá essa incompatibilidade e porque persiste este dilema. aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética. todo esse alarido sobre a modernização brasileira. uma nação que chegou a liderar o processo europeu de modernização. Em suma.

que pode ser a chegada da estrada de ferro. de ETs. de uma catástrofe natural ou artificial. ou. Então surge um sujeito isolado – às vezes até um punhado de indivíduos isolados. depois de derrotar a adversidade.Problemática cultural brasileira . [48] Todos os filmes americanos são a mesma coisa .11 . Figura 12. o famigerado herói fordiano . mas nunca a comunidade – e. sujeito de projeto. obviamente -: existe um sistema comunitário funcionando. põe de novo o sistema em funcionamento. sujeito liberal. aí ocorre o contingente. se quisermos.318 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente transparente a si mesmo. de índios. de qualquer coisa que o faz degringolar. de um bando de assaltantes.uma caricatura.

Porém. passando do radical trinitarismo de Santo Agostinho (dialético I/D) para o tomismo (lógico-clássico D/2). é a junta médica que pretende fazê-lo –. demorou cerca de 500 anos. portanto. contra o regimento. Logo. contra o exército americano. poderia facilmente perceber isso: o sujeito se rebela contra a junta médica – não é um médico que vai cortar a perna do herói. ou 1100. mas a cultura da sistematicidade. não uma lição de vida (cultural americana. com a própria Igreja tentando demonstrar para todo mundo que a ciência seria desnecessária. é uma história de seguidas insubordinações. mas pela descoberta do sujeito que . uma álgebra axiomatizada. E ganhou vários Oscars! E muita gente pensa ingenuamente que eles perdem tempo em Hollywood fazendo filmes só para nos enganar. não pela adoção do cientificismo. ao final. um organograma. mas como simples entretenimento). nós vemos outro filme. Tudo começa no ano 1000.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 319 Quem viu. por exemplo. ou 1250. ou seja. o sujeito liberal. Para tanto. procedia à aristotelização de sua teologia. o cientificismo. Dançando com lobos. não é o sistema vigente [49]. não dá para ele próprio gerar outra coisa. ainda que similar. sujeito intervalar entre dois sistemas. a lógica funerária.é o cemitério. O sistema não pode por si produzir outro sistema. a única coisa que se enquadra bem nesta lógica . Desvelar e instalar o sujeito da ciência. não se podia mesmo ter uma cultura viva que fosse estritamente científica. O que se pode sacralizar.um retângulo com uma porção de retângulos dentro . A consolidação da Modernidade. porque nós não conseguimos ver o filme. Não! Eles fazem filmes para reiterar o que são. É necessário para tanto um sujeito fordiano. para educar. depois também vendem para cá sem correrem o menor perigo de que os imitemos. a lógica do sistema é a lógica da morte. Quando se faz um sistema de folha de pagamento. que tinha uma tática e ele executa outra por conta própria.

o sujeito liberal. Assistindo-se a uma reunião em Brasília sobre. por quem e em proveito de quem? No paradigma anglo-saxão. propondo que as verbas sejam destinadas à criação de tecnologias que venham contribuir para resolver os graves problemas “sociais” [52]. sujeito de projeto. ou seja. depois que o protestantismo colocou a sua solução. É sempre a mesma coisa! Nós temos uma enorme dificuldade em aceitar aquele su- . A cúpula da Igreja não queria discutir sujeito nenhum. a ciência vai ser feita para quem. o tinham por lá até bastante. Por isso. veremos a turma que segue o paradigma americano propor que as verbas sejam dadas aos indivíduos que apresentem o melhor projeto. imediatamente. que formula uma contra-proposta (contrareforma): no lugar do sujeito calvinista (I) colocar-seia um sujeito coletivo (I/D). foi obra dos protestantes [50]. Ou melhor. não se mantiveram na vanguarda porque acreditaram que lhes bastasse o Tratado de Tordesilhas (a lógica do terceiro excluído imposto ao mundo com a benção de Deus). Então. a turma à “esquerda” contra-ataca. à racionalização/burocratização do mundo. todos os cientistas estão a serviço da reprodução dos sistemas. Embora Portugal e Espanha tivessem dado partida à Modernidade. precisamente aquela de um sujeito fordiano.320 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lhe seria próprio. há também uma liberdade de fato. mas o expulsaram! [51] O problema é pois quem deva ser o sujeito do sistema. porém. desenvolvimento tecnológico. obviamente representado por um sujeito simbólico absoluto (delegado do Absoluto). a Igreja deixou emergir o jesuitismo latente. havia a necessidade de dar-lhe uma resposta. Existiriam alternativas? O mais interessante é que esta questão se pôs logo no início da Modernidade. para permitir que os sistemas se reproduzam. por exemplo. não constituíram/ consolidaram o sujeito que lhes seria apropriado.

ela ordenaria “ortodoxar” a Polônia”. A Polônia ficou católico-romana exatamente porque o Papa recuou. no caso. e. ele fez de conta que acabou com a Ordem. pressionam um Papa. precisa ser representado por um sujeito emblemático absoluto: é a proposta ciência e absolutismo.não é o que diz Redondi. todo jesuíta é formado em alguma coisa de cunho acadêmico. foram se formar na Sorbonne. a ciência deveria ser feita coleti- . uma reforma “modernizadora” no sentido dos tzares: ciência sim. e nada tem a ver com a ciência propriamente dita. inclusive científico. até hoje. isto é. exatamente por tal. sim. E. no fundo . mas do texto facilmente se o depreende .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 321 jeito individualista. pressionam o seguinte. com os jesuítas. Catarina da Rússia então os recebe na Polônia e chega a ameaçar o Papa: se insistisse em dissolver a Ordem em seus domínios. entrementes. [53] verifica claramente que o problema de Galileu não é com a Igreja. Santo Inácio. para os jesuítas. uma boa leva de seus integrantes continuou se refugiando na Rússia que. desde o fundador. mas com um sujeito coletivo representado pelo monarca absoluto. fazer sucesso. a proposta jesuítica é a de um sujeito coletivo que. que sobe no muro e passa três anos procrastinando a decisão. Galileu herético. era uma parte da Polônia ocupada. Resumindo. que acaba louco. Quem leu o livro do Pietro Redondi. Com que finalidade? Para ajudar numa reforma educacional. Em que escola Lenin poderia ter aprendido o que fazer?! A exata fórmula jesuítica! É o maior absurdo dizer que a Igreja era contra a ciência se os jesuítas. Ele foi acusado formalmente do não cumprimento de sua palavra e. se tornar um mau exemplo. É incrível a carga que o Marquês de Pombal e os espanhóis fazem sobre a Ordem dos Jesuítas. ser aquele que fazia ciência para ele próprio “faturar”.de querer aparecer. o sujeito liberal ou fordiano. e os ibéricos mais ainda o apertam até que a Ordem é “dissolvida”.

a primeira é lógica de um pensar mais poderoso do que a última.322 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vamente e em benefício da coletividade. é ciência (D/2) com sujeito coletivo (I/D) representado pelo Imperador. que faz do último sujeito tributário do primeiro [ver de novo figura 12. Mas quando é proposta a solução à esquerda (D/2 com I/D). O capitalismo anglo-saxão não tem esse problema. Em última instância. Basta lembrar a expressão socialismo científico: socialismo é o sujei- . mas sabe-se hoje no que isto. já estando pervertido. Isto é a grande ilusão de todas as esquerdas. A seta que iria do sujeito coletivo para a ciência vai se inverter e se irá ter uma burocracia usando de uma ideologia para dominar a massa. não vai perverter jamais [54]. resultou. só que optar pelo sujeito coletivo e ao mesmo tempo fazê-lo determinante. pois o indivíduo do projeto (I) está a serviço do sistema. pois. é também disso uma variante.11). Tudo por uma simples razão: a lógica clássica (D/2) pressupõe e subsume a dialética (I/D). pretende-se que a comunidade ou o ser-comunitário (I/D) vá se servir da ciência (D/2) em seu próprio benefício. é uma solução impossível. ou capitalismo oriental. do Japão. e não tributário ou intervalar. sub-repticiamente também se propõe inverter a seta. de fato. não se pode inverter a seta que no capitalismo anglo-saxão ou paradigmático vai do sistema para o sujeito. ela é produto já de um ciclo contra-dialético. no caso. O que há aí de importante que precisa ser visto? A maioria das “pessoas de esquerda” no Brasil acha isso bom e nós também. como mostramos no item 1. é a lógica do sistema (D/2) que prevalece e o exemplo evidente é a URSS. pelo Secretário Geral do Partido Comunista Chinês no continente e pelo patriarca da “família alargada” na diáspora chinesa por todo o mundo. Então. O que se está chamando hoje capitalismo confucionista. Ficou desde então este tipo de “alternativa . Começou-se lá com a intenção de colocar a ciência a serviço do coletivo (NEP).

sujeito telúrico. mas estão agora acabando com o respeito aos velhos. Entremos numa empresa qualquer: a primeira coisa que se irá constatar é a obsessiva pré-ocupação com o cálculo da taxa de retorno do capital. quem está apostando na China como a grande nação capitalista do século XXI irá se decepcionar. é apenas o lugar para uma crítica. é repetir Descartes. os possíveis lugares de sua crítica. portanto. ou seja. .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 323 to como ser coletivo (I/D) e científico é o mundo objetivo (D/2). baseado num sujeito coletivo (I/D). sujeito poético. a lógica clássica posta a serviço da dialética. se baseia em ambos: ele é a afirmação das lógicas da diagonal masculina (I e D/2). A Modernidade. Pelo mesmo raciocínio. de certa forma. a estabilidade do emprego etc. a posição dialética (I/D) não é o lugar de uma solução.. sujeito inconsciente. o empresário samurai.o que. sendo. da História? A faz história calculada. As outras duas lógicas (I/D e D) constituem o avesso da Modernidade. bem perto de nós. ele se baseia na racionalização do mundo (D/ 2 ) ou então no sujeito schumpeteriano (I) . que é a do sujeito romântico. isto porque são elas justamente as lógicas que a Modernidade está recalcando/desnaturando. na verdade. em essência. povo. uma outra alternativa. o que levará à sua própria dissolução cultural. ele só está resistindo um pouco mais à perversão em razão de sua grande homogeneidade cultural. Maior evidência não existe! Não é isso que toda empresa faz? Sozinha. O que faz ela da dialética (I/D). ou. entretanto. Precisa-se explicar mais?! O Japão vai pelo mesmo caminho. a Modernidade). isto está hoje mais do que comprovado. Todos que se manifestam a favor do capitalismo dizem que. eles aprenderam a bem usar a ciência e a técnica. mas não para propor um sistema alternativo. Marx é importante para criticar o capitalismo (melhor diríamos. Existe. entretanto. Assim. Com o esfacelamento da URSS.

uma pseudo alternativa para a Modernidade. porque tem lá sua cabeça jesuítica. Foi precisamente por isso que ela respondeu por antecipação ao consumismo [55]. e como já se viu. com o sujeito romântico (D) no lugar do sujeito liberal (I). o inimigo da Alemanha (dizia Europa) não era apenas a URSS (sujeito I/D). mas o mesmo não se pode ainda seguramente afirmar do fascismo! Entrementes. o comunismo não tem mais futuro. sem dúvida. à acumulação pré-calculada do capital. velhos rivais do logos heraclítico (D) [56].11) A Alemanha tem uma elite . Por isso. perverte. o marketing. Ele pode ficar rico. um exagero – é comunitário/absolutista (I/D).324 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito libidinal. e o fascismo é uma resposta antecipada ao consumismo. é óbvio . bem depressa. ou capitalismo de marketing. porque também inverte a direção da determinação ciência/sujeito. justo quando o capitalismo começava a deixar de ser produtivista para tornar-se essencialmente consumista. vale dizer. Lá começou-se a sentir. (Retornar à figura 12. O indivíduo aqui tem mesmo vergonha de ter lucro. Nós temos uma formação ibérica forte. mas igualmente os EUA (sujeito I). Para Heidegger. mas sempre com a consciência culpada. como um agressor da cultura. não faz uma grande doação benemerente a . melhor dito.bem diferente da nossa. Vê-se agora uma simetria temporal perfeita: o marxismo é uma resposta retardada ao cálculo da História. o capitalismo e o seu novo motor. mas no aspecto educacional sempre houve a preponderância do luso-jesuítico. O fascismo é uma alternativa. ou seja. Se fraqueja com a idade. A tendência da “elite” brasileira – a generalização aqui é. vigente no paradigma anglo-saxão.que sabe bem o que é cultura e sua importância. Foi precisamente por isto que o fascismo apareceu tardiamente (como força social) em relação ao socialismo. antes do que em qualquer outro lugar. entretanto.

no qual afirma que o índio é preguiçoso. Não se aproveita nada – é o que o Roberto Campos nos ensina. sem ninguém ver ou atrapalhar). com isso. Boa parte de nossa “elite” política. O único jeito de o fazer é acabar com a elite. Por que não se consegue modernizar o Brasil? Porque a elite puxa para o sujeito coletivo/absolutista (I/D) e o povão puxa para o sujeito libidinal (D. matar de fome a baiana do acarajé. na circunstância) para sujeito ostensivamente libidinal (D)! E o povão [57]. ou mesmo fazê-lo o ano inteiro para poder desfilar condignamente no Carnaval. no juízo (ou ausência de juízo) dele. e vende a economia brasileira em bloco para empresários monopolistas estrangeiros. pré-D). mas ninguém quer se botar no devido lugar (I). mas simplesmente muda (se fantasia. principalmente onde pesa mais a cultura africana. Há um artigo seu. e ninguém quer saber do projeto (I). incrível. Não há quem não o queira. poder tomar sossegadamente sua cerveja com os amigos. pela concorrência. mais precisamente. dizem de um lado. se diz que com esse “povinho” não dá. como nos EUA. melhor se diria. puxa para o lado do sujeito libidinal (uma forma arcaica de D: pré-D). O atual Governo está mais ou menos seguindo esta dupla receita: põe a classe média para vender cachorro-quente e assim. De outro lado. na sexta à noite. com toda nossa herança histórico-cultural. não dá para fazer nada. vale dizer. embora nós não queiramos ver (por isso se diz que o Brasil cresce à noite. o negro só quer saber de magia e o português é patrimonialista. empresarial e até intelectual está traindo a causa brasileira. Trabalhar duro a semana inteira para. Ou seja.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 325 uma universidade ou instituição filantrópica. Entrementes. mas para então poder gozar mais. o Brasil está sendo construído. Daí. a dificuldade de modernizar o Brasil. trabalhar racional e disciplinadamente sim. inves- .

mais do que quaisquer outros. e nós já estamos bem próximos de alcançá-los! Apesar da cegueira das nossas “elites” políticas. eclesiásticas e intelectuais. empresariais. Há. o Brasil não é um bom candidato ao luxo. e também não adianta insistir em entrar para a Modernidade. ainda. Eu não digo que o Brasil está pronto. haveremos de chegar lá. pelo menos. no pensamento único.326 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tindo no fim da História. . para quê? Para ocultar nossa grande alternativa. militares. Só há uma coisa para a qual temos vocação: é a síntese lógicoqüinqüitária. que está. ele está quase. na síntese. Ademais. Construir uma cultura é tarefa para 500 anos ou mais. Em suma. na qual exatamente deveríamos apostar. ele o é deveras à originalidade. todos os componentes de base para tanto. como acreditava Darcy Ribeiro. por vir. para nós não há saída à esquerda e não há saída à direita. um nível de desenvolvimento cultural que seria o de uma cultura qüinqüitária. porque temos.

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Notas

Capítulo 1

1. THOMAS, Louis-Vincent. A etnologia, mistificações e desmistificações in História da Filosofia – Idéias e doutrinas, dir. F. Châtelet, v.7. Rio de Janeiro, Zahar, 1974 2. LEIBNIZ, G. W. Princípios da Natureza e da Graça in Obras Escolhidas, Lisboa, L. Horizonte, ?. p. 149. 3. KANT, Crítica da Razão Pura, Lisboa, Gulbenkian, 1989. 4. O infinito matemático é um artifício para justamente ocultar, no mundo da matemática, a problemática do Absoluto, assim como o zero é o artifício similar para ocultar o Nada, que nos imporia a incômoda questão da origem dos números. Portanto, a atribuição da infinitude, qualificada ou não, feita ao Absoluto é um péssimo costume dos teólogos, na medida que sua essência é precisamente a ocultação, se não do Absoluto, pelo menos da visibilidade de sua simples problemática. 5. Só para exemplificar: I think the Anthropic Cosmological Principle brings us to an idea perhaps as old as humanity itself: that we are not at all just an accidental anomaly, the microscopic caprice of a tiny particle whirling in the endless depths of the universe. Instead, we are mysteriously connected to the entire universe, we are mirroured in it, just as the entire evolution of the universe is mirroured in us. HAVEL., Vacláv. The Need for Transcendence in the Postmdern World in THE FUTURIST, July-August, 1995. p.48. 6. SAMPAIO, L. S. C. de. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Rio de Janeiro, setembro, 1999 7. ______. Superação das idolatrias - a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária, Rio de Janeiro, novembro de 1999. 8. ______. Remanejamento das Relações Indivíduo/Sociedade na Cultura Nova Lógico-qüinqüitária. Rio de Janeiro, janeiro, 2000 (acrescentado a posteriori).

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1. Não desconhecemos que expressão semelhante foi usada há muito por George Balandier no título mesmo de seu livro ANTHROPO-LOGiQUES, Paris, PUF, 1974, mas, o próprio leitor poderá verificar, com uma motivação bem diferente da nossa. 2.Um semimonóide é uma estrutura algébrica, por nós definida, munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento, associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados, não importa se a direita ou a esquerda. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados, ainda pela operação/, indefinidamente, a partir de um conjunto finito de elementos fundamentais. Ver Sampaio, L. S. C. de, A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa, nua, na passagem dos semigrupos aos monóides in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios, Rio de Janeiro, EdUERJ, 1999. 3. Ser um operador nulo à direita é não exercer qualquer efeito quando ocorre à direita de outro operador. Assim, no monóide livre básico que representa a estrutura formal das lógicas,temos para qualquer X, X/I=X, em particular, D/I=D, o que já não acontece quando I ocorre à esquerda, pois, I/D ¹D. 4. Uma observação importantíssima é a de que, por exemplo, em sua máxima generalidade, D/2 não é uma forma abreviada de D/D, mas de (D)/(I/D), e que portanto a lógica clássica pressupõe a lógica dialética e, de certo modo, nega ao mesmo tempo que herda boa parte de seu enorme poder: a lógica clássica é, por isto mesmo, uma lógica das totalidades convencionadas, destarte, pai e mãe da matemática. Para maiores detalhes, ver SAMPAIO, L. S. C. de Lacan e as lógicas, Rio, 1992 (xerografado) e, ainda do mesmo autor, Dialética trinitária versus hiper-dialética qüinqüitária, in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit. 5. O termo qüinqüitário, no presente contexto, refere-se a uma lógica que subsume cinco lógicas, ou seja, à lógica I/D/2, assim como o termo unário referenciar-se-ia a uma lógica que subsume apenas a si mesma, a lógica transcendental ou da identidade I, e o termo trinitário, a uma lógica que subsume três lógicas, vale dizer, à lógica dialética I/D. 6. Na impossibilidade de explicações mais demoradas, confiamos nos conhecimentos e na intuição do leitor para identificar em alguns campos de saber o exato momento de passagem da estrutura conceitual trinitária à qüinqüitária. Na física, ele situar-se-ia na passagem dos leptons aos barions; na psicanálise, na passagem da fase fálica àquela de assunção da sexualidade propriamente humana ou tetrapolar; em eco-

Capítulo 2

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nomia, na passagem do feudalismo ao capitalismo; na etnologia, na passagem da cultura cristã trinitária ou patrística à modernidade cietífico-tecnológica; na semiologia, na passagem do símbolo ao discurso. 7. Acompanhando com atenção o seguinte texto lacaniano, mais facilmente consolidaremos nossa certeza de que a lógica da diferença D, também lógica do significante e da verdade parcial, tem por verdade própria o gozo: “Isso só se goza por corporizá-lo de maneira significante. O que implica algo que não o partes extra partes da substância extensa. Como o sublinha admiravelmente essa espécie de kantiano que era Sade, só se pode gozar de uma parte do corpo do Outro, pela simples razão de que jamais se viu um corpo enrolar-se completamente, até incluí-lo e fagocitá-lo, em torno do corpo do Outro. É por isso que somos reduzidos a um estreitamentozinho assim, a tomarmos um antebraço, ou não importa o quê - puxa!”. O Seminário, livro 20, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 35. Negritos nossos. 8. Quanto a que a dialética I/D tenha a vitória como sua verdade própria é suficiente atentarmos para o fato de que a História, por definição, já fez a sua escolha: sempre, pela “razão’” do vencedor. Ela é parcial e total pela simples razão de que todos os elementos em luta querem impor ao todo sua verdade, por definição, parcial ou partidária, o que aliás é uma impossibilidade. Muito se reclama por aí de que não se façam histórias dos vencidos; não poderia ser doutra forma, já que a verdade da dialética é mesmo a vitória. O que aconteceu de pior com o marxismo real não veio de uma acidental loucura, mas, de modo inexorável, de sua herança lógico-hegeliana. Para que ninguém se sinta com isso acabrunhado ou desiludido, alertamos que a dialética I/D, para o homem, não é sua lógica maior. 9. Trata-se do postulado que na física interna a ação de medir, que, em sua idade clássica, era algo de fantasmagórico; isto tornou-se essencial para a mecânica quântica cujos objetos são, em geral, microdimensionais e por isso facilmente perturbáveis. A rigor, o postulado refere-se a uma segunda medida que, em razão da continuidade do mundo, se executada imediatamente após a primeira, precisaria repetirlhe o resultado. Na primeira, teríamos Opy* fornecendo um número n e jogando o mundo num estado y ligeiramente diferente de y*. 10. Operadores hermitianos são aqueles cujos valores próprios são sempre números reais. Na lógica, tivemos que abandonar esta restrição que vige na mecânica quântica para podermos incluir num mesmo formalismo também o operador S, S tal que S3(y) = y, que representa a lógica do ser

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humano em sua plenitude, ou seja, I/D/2 , que dentre seus três valores próprios possui dois deles com parte imaginária. A propósito, esta é a “razão formal pela qual o ser humano só chega à plenitude em no mínimo três (correlatos aos pronomes pessoais eu, tu, ele ou nós, vós, eles), como já observaram Freud e, com maior precisão, Lacan em seus Seminários. 11. Ouve-se dizer que ao animais são capazes de operar por reflexos condicionados, como se esta locução fosse uma explicação “materialista” em bases empíricas do comportamento animal. De fato ela é importante, mas apenas do ponto de vista lógico: a palavra reflexo é obviamente de natureza lógica I e a palavra condicionado, isto é, determinado por outro e não por si, de natureza lógica D; portanto, em conjunto, a locução define uma capacidade lógico-dialética I/D. Assim, o cachorro de Pavlov, é mais hegeliano do que marxista, mais dialético idealista do que propriamente materialista. 12. À lógica I/D/2 correspondem tanto o indivíduo quanto o coletivo, em particular, a família nuclear e, às quatro lógicas por ela subsumidas, os componentes familiares típicos: os masculinos, I ao pai e D/2 ao filho; os femininos, D à mãe e I/D à filha (ou virgem). Pareceria haver aqui um conflito agudo com a noção de família nuclear do estruturalismo, na qual se incluiria o tio materno e não a filha. Acontece que se pode “provar” que as duas noções são equivalentes diferençando-se apenas em que a estruturalista é a posteriori da troca e a nossa, a priori da mesma. Ademais, a lógica a ser adjudicada ao tio materno, seria precisamente I/D na medida em que ele é pai (I) na outra (D) família nuclear, no sentido por nós proposto. Devemos declarar que estes esclarecimentos só se tornaram possíveis graças às observações críticas do antropólogo Mercio Pereira Gomes a quem, obviamente, agradecemos, mas que nada tem a ver com o modo pelo qual tentamos superá-las. 13. Dizemos com toda a generalidade porque, seja no sentido teológico judaico-cristão, seja no da cosmologia moderna (hipótese do big bang). o mundo advindo terá que sê-lo necessariamente como espacial, como essencialmente res extensa, logo, múltiplo. A identidade só pode aí emergir por um artifício a posteriori que seria aquele do colapso de alguma diferença disponível. A força lógica deste argumento pode ser constatada na física moderna - nos modelos cosmológicos a 10 dimensões em que 6 colapsam , embora não desapareçam, resultando em nosso mundo aparente de 3+1 dimensões -, como também na embriologia, onde o tubo neural, inclusive o cérebro, resultam da invaginação (colapso) do tecido ectodérmico sensível, inicialmente disposto apenas como uma superfície.

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14. A pergunta pelo ser (I) exige a diferença ou o logos, ou seja, a filosofia (D); a pergunta pelo ser-objetivo (I/D) exige a dupla diferença, ou seja, a ciência (D/D) e portanto a pergunta pelo ser-humano (I/D/D) exigiria a tripla diferença, ou seja, “as ciências humanas”, o que , felizmente, é uma impossibilidade lógica, pois D/D/D não cabe em I/D/D. Ver Lógica e Realidade in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit.. 15. O princípio antrópico emerge da constatação de que admitidas mínimas variações nos valores das constantes universais transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo, que se tornaria impossível o advento do homem. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram, constantes e universais, então, desde o big bang, o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes, fecha-se o círculo: este Universo destinava-se, ab initio, ao homem, e o homem a ele; este é, em essência, o conteúdo do princípio antrópico. O princípio ainda sofre o repúdio de um número significativo de cosmólogos, entrementes, elaboramolhe uma versão baseada em argumentos não só físicos, mas igualmente lógicos, que não o deixa sujeito às restrições mais freqüentes até hoje contra ele levantadas. Para detalhes, ver Pricípio antrópico, a seguir neste volume. 16. Admitindo-se que a cultura egípcia, de fato, abeirou-se do monoteísmo. Ver especificamente MOISÉS E O MONOTEÍSMO - Freud, Obras psicológicas completas, v. XXIII, Imago, Rio, 1975 - sem que seja necessário concordar em toda latitude com as teses ali defendidas. 17. A referência aqui é ao diretor cinematográfico John Ford irlandês, embora atuando nos EUA - em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado, e tão logo o conseguia, deixava-se ir embora, solitário como chegara, pelas estradas. Pode-se haver algo mais expressivo do que isto, no caso?! 18. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato um velho questão que se arrasta até hoje, como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. O tema, não há dúvida, tem sido muito maltratado pelos pensadores da sociedade. Os marxistas, em especial, sempre o tiveram atravessado na garganta, desde Lenin, passando por Plekhànov, Adam Schaff, R. Garaudy, até chegarmos a Alain Badiou, que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico, sem a qual, é óbvio, tal problemática não poderia ser

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adequadamente tratada; ver Alain Badiou, Théorie du sujet, Paris, Seuil, 1982. 19. Ver especialmente O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO, Freud, Obras psicológicas completas, v. XXI, Imago, 1974. 20. Referimo-nos entre tantos outros a Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Novaes e José Miguel Wisnik. 21. Há muito fomos despertados para este tipo de questão pela leitura do provocante Linguagem e Realidade do pensador tcheco Vilém Flusser, publicado em 1963, quando ele ainda lecionava no Brasil. Só algum tempo depois é que tivemos notícia da tese similar hoje largamente conhecida como hipótese Whorf-Sapir. 22. O termo elite tem aqui um sentido bastante largo para ser aplicado o todos aqueles que exercem quaisquer posições de mando, não importa o nível da escala sócio-econômica considerada. 23. Em todas estas considerações omitimos o peso da nossa cultura autóctone, que classificamos como Pré-I ou ainda muito próxima deste tipo nodal. Em nossa opnião este tipo, por ser o mais originário, não traria um peso específico justamente por incarnar a cultura em sua generalidade. Não descartamos que uma compreensão mais profunda da problemática cultural brasileira venha nos obrigar a uma revisão profunda desta opinião.

Capítulo 3

1. Citado por I. M. BOCHENSKI, Historia de la Lógica Formal, Madrid, Gredos, 1976, p. 288. Tanto Bochenski quanto GILSON, Etiene (A filosofia na Idade Média, S Paulo, Martins Fontes, 1998) dão testemunho que a mathesis universalis de Leibinz teria sua inspiração na Ars Magna et Ultima de Lúlio. 2. LÉVY-BRUHL, La Mentalité Primitive, Paris, Retz, 1976 3. _______. Les Carnet de Lucien Lévy-Bruhl, Paris, PUF, 1949. 4. LÉVI-STRAUSS, Claude Antropologia Estrutural Um e Dois, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976 5. Bricolage: em geral, técnica oportunística de construção de novos objetos a partir do reaproveitamento de velhos objetos, de suas partes, até de seus caco ou pedaços. No caso, o termo está sendo transposto par o terreno simbólico e o reaproveitamento é fundamentalmente o de partes de estruturas conceituais já usadas em outros contextos. 6. Numa das sessões do XVII Congresso Nacional da SUSSESO, em 1984, quando ingenuamente falamos em pensamento pré-lógico - não no sentido de destituído de lógica, mas de ainda incapaz de uma representação simbólica objetiva de seu uso -, um companheiro de mesa, famoso

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antropólogo, do alto de sua autoridade midiático-doutoral, na impossibilidade de queimar-nos vivo pela heresia, teve um verdadeiro chilique diante do público. Inesquecível! 7. A remissão aos gregos é, na verdade, de natureza temática, pois como bem observou Mercio Pereira Gomes, do ponto de vista existencial, deveríamos remetermo-nos aos povos mais primitivos que, para simplesmente preservarem sua identidade, se vêm obrigados à operação lógica de nadificação do outro, ou seja, a se instituírem como os únicos verdadeiros humanos. Quanto às nossas opiniões, ver SAMPAIO, L. S. C. de, Noções de Antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, dezembro de 1996. (xerografado) e Desejo, fingimento e superação na história da cultura, Rio de Janeiro, 1998 (xerografado) 8. SAMPAIO, L. S. C. de. Noções Elementares de Lógica – Compacto, versão abreviada e significativamente modificada do volume I de obra homônima, Rio de Janeiro, I. CulturaNova, 1991 (xerografado) ou, numa versão mais recente BARBOSA, M. C. As Lógicas - As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. S. Paulo, Makron Books,1998. 9. SAMPAIO, Noções de antropo-logia, op. cit. . 10. ARISTÓTELES, Política, Brasília, UnB, 1988. I,2,1253 a 11.HEIDEGGER, M., Heráclito Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1998. Também nossos comentários em SAMPAIO, L. C. S. de, Crítica da Cultura. Rio de Janeiro, 1999. 12.Poder-se-ia argüir que em Heráclito o logos não é propriamente um atributo do homem como seria a razão em Aristóteles. Contudo, a confrontação continuaria ainda assim pertinente na medida em que, para Heráclito, estaria implícita como característica especificamente humana a capacidade de “escuta” do logos. 13. A afirmação que a competência para pensar, ou seja, para operar segundo a lógica está fundamentalmente associada à existência do sistema nervoso central (SNC) parece-nos óbvia, embora não nos pareça ainda fácil apontar em todos os casos as bases fisiológicas em que se apoia tal certeza. Vamos tentar justificar a afirmação precisamente no caso que nos parece de todos o mais problemático: o pensar consciente governado pela lógica transcendental (I). Começamos rastreando o processo de formação do SNC. Já mesmo em alguns entes unicelulares se pode distinguir regiões especificamente sensitivas e outras motoras (USHERWOOD, P. N. R. Sistemas nervosos, S. Paulo, Nacional-EDUSP, 1977). O primeiro passo na especialização funcional a nível celular se dá nos organismos pluricelulares, quando aparecem algumas células com funções exclusivamente sensoriais, e outras, exclusivamente motoras. Temos um terceiro momento, presente já em alguns

A expansão envolvente da formação extrema (antes preponderantemente olfativa) dá nascimento à córtex. isto irá viabilizar o aumento do porte do animal sem perdas no grau já alcançado de integridade/integração. ainda vindo no mesmo sentido. Estes canais permitem que sejam conservados os tempos de resposta mesmo a maiores distâncias. em que aparecem células com função especializadas na pura transmissão de sinais (neurônios propriamente ditos) ligando células sensoriais a células motoras. que paralelamente expande sua complexidade por meio de “dobramentos e redobramentos” que vão acabar dando o aspecto típico do cérebro humano. Com o cérebro surge a possibilidade de um verdadeiro processamento de sinais o que pressupõe a superação das limitações hierárquicas dos tipos (no preciso sentido que lhe dá Bertrand Russell). entre algumas outras. Dizemos que há uma superação desta limitação quando “informações substantivas” recebem codificação de mesma natureza que “informações relacionais” (informação sobre relações de “informações substantivas”) e “informações processuais” (informações sobre transformações de “informações substanciais”). é uma condição fundamental para a emergência da consciência.334 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celenterados. e por fim. o mesencéfalo ou cérebro médio. Contando do extremo para traz temos o prosencéfalo (que ainda se diferencia em telencéfalo e diencéfalo). as funções de integração de informações provenientes de diferentes órgãos sensoriais. que ocorra uma homogeneização na codificação dos sinais digitais. cinestésicos e luminosos. adicionalmente. Consolida-se um novo degrau de complexidade/especialização com a emergência de células inter-neuroniais que. Importa destacar que o simples aparecimento de células especializadas em transmissão é a pré-condição da digitalização dos sinais nervosos. que informações provenientes de órgãos de sensibilidade diferenciadas sejam representadas por sinais elétricos digitais da mesmo tipo. O passo seguinte é o aparecimento do tubo neural nos vertebrados e do cérebro: série de três intumescências que se formam na extremidade do referido tubo. assumirão funções de comutação de sinais. Consuma-se um novo passo com o aparecimento dos gânglios – formação cerrada de corpos neurais – que assumem. Do ponto de vista funcional. entre outras. Esta homogeneidade de codificação. temos regiões especializadas no trato de canais olfativos. o rombencéfalo. a nosso juízo. isto é. posto que só assim o animal terá condições de uma representação simultânea e compatí- . O surgimento de gânglios com funções integradoras pressupõe. possibilitando a ativação de canais de transmissão de alta velocidade.

recapitulado na sua ontogênese (fim da quarta semana). já o vimos. que a seguir se interioriza e em torno do qual virá se formar a coluna vertebral protetora. Pode ser facilmente observado nos jovens embriões dos vertebrados como o tubo neural se forma pelo processo de invaginação do ectoderma dorsal. desenvolver-se-á o cérebro. Trata-se do processo de formação do tubo neural.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 335 vel tanto dos estados do mundo exterior quanto de seus próprios estados internos e de suas respectivas modificações. A figura a seguir nos mostra uma seqüência esquemática das fases de formação do tubo neural explicitando suas ligações com os órgãos sensoriais. em cuja extremidade anterior. através dos nervos eferentes. Este fenômeno que ocorreu no curso da filogênese. ECTODERMA SENSÍVEL DISPOSITIVOS MOTORES TUBO ÓRGÃOS SENSORIAIS NERVOS AFERENTES NEURAL (INTERIORIDADE) NERVOS EFERENTES ÓRGÃOS MOTORES . Um fenômeno de enorme relevância é o modo como se dá a formação topológica do SNC dos vertebrados. cerca de 10 vezes mais numerosas do que os próprios neurônios. que conduziu à emergência dos vertebrados é. Não temos espaço aqui para entrar em detalhes acerca das células gliares. Este processo permite a formação de um tubo superficial. que por sua atividade “auxiliar de limpeza” podem garantir a permanente condição de higiene num exíguo espaço onde ocorre tão gigantesco nível de atividades. e com os órgãos motores. através dos nervos aferente. de certo modo.

simular diferentes cursos de ação sem ter que pagar o imprevisível preço de uma efetiva experimentação. Antes de encerrarmos esta nota. em direção contrária àquela do ectoderma que lhe deu origem [OAKLEY. No homem. dramática e definitivamente. a operação de identidade (I) se alicerçaria na homogeneidade da codificação no que diz respeito aos tipos lógicos e. As considerações topológicas referentes à formação do SNC nestes animais evidencia que. 1979 e SMITH. em termos de in-put e out-put e de uma única função de transformação os articulando. incluindo às vezes o próprio homem. constituiu-se também como uma superfície igualmente orientada. London. aproveitamos a ocasião para chamar a atenção sobre a insuficiência dos modelos condutivistas freqüentemente propostos para vertebrados. de um avesso. o que nos obriga a descartar o simples modelo bipolar em favor de um modelo tetrerapolar. constituir uma interioridade no corpo (espacial) do animal. Brain. sobretudo. em si. David A. U. suplementarmente. Nestas circunstâncias. levadas em consideração as orientações das superfícies em jogo. porém. behaviour and evolution. El Cerebro. outout-put. onde haveria espaço para discriminar quatro e não apenas duas intervenções: in-out-put. Em suma. 1972]. na homogeneização desta codificações com relação à diversidade de sensibilidades em jogo (diversos sentidos). C. in-in-put. Numa linguagem um tanto informal. Constitui-se assim um espaço imaginário onde é possível até refugiar-se momentaneamente fugindo às excessivas pressões do mundo. pois. Alianza. este espaço imaginário chega a constituir um mundo onde se pode dar explicações para o bem e o mal. que nele se cria um espaço interno em que se pode representar tanto o meio como seus próprios impulsos e disposições do próprio organismo. eles seriam dotados de um espaço interno. no próprio processo de formação do SNC por via da invaginação do ectoderma. e além. na codificação digital dos impulsos das células sensíveis e. proporse como seu próprio enigma ou pura e simplesmente dissolver-se na loucura. de certo modo. diríamos que a base filosófico para a operação lógico-diferencial (D) poderia estar. M. gozar o ilimitado poético e até. Esta especial orientação vai. diríamos que o animal passa a dispor. Methuen. Por outro lado. Se o consideramos como sendo uma superfície orientada – suposição inteiramente razoável se tivermos em conta que se trata de um tecido de células sensíveis – constataremos que o SNC. poderíamos estabelecer as .336 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria importante enfatizar alguns dos aspectos topológicos deste processo de invaginação do ectoderma. Madrid. de um lado. onde pode localizar suas origens míticas. out-in-put.

SAMPAIO. com a des-razão (coração. sendo por isso.out-output put 14. SAMPAIO. Lógica e Economia. talvez excessiva. . SAMPAIO.. S. natureza. logicamente otimistas. de . que acabava de ser recalcada justamente pela razão científica (D/D). não é aí que vamos encontrar sua razão de ser nem aquela de suas variantes. de Desejo. op. Rio de Janeiro. esquema lógico que desde Descartes caracteriza a Modernidade: logo. Sabemos que a citação aqui do Iluminismo é uma simplificação.in-input put SNC ação out-in.. 1999 17. necessária e essencialmente trabalho alienado.. 18. Flammarion.. C. Inst. S.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE seguintes correspondências: Sensação ↔ in-in-put Percepção ↔ in-out-put+ in-in-put Sensação cinestésica ↔ out-in-put Ação ↔ out-in-put + out-out-put. o capitalismo que criou o trabalho alienado nem o comunismo poderia aboli-lo. C. instinto. L. cit. Fingimento e Subversão na História da Cultura. na circunstância. Théététe. Não estamos aqui referendando a concepção marxista sobre o trabalho. Rio de Janeiro. Para maiores detalhes ver figura abaixo. L. 19. a essência do trabalho é se constituir num esforço que visa outra coisa que si mesmo. De modo geral o Iluminismo está comprometido com a liberdade (I) e com a razão formal (D/D). 16. emoção etc. de Reflexões.) (D). logicamente otimistas. 1988 (xerografado). Um exame mais atento mostrará que o mais importante no Iluminismo é o que ele se propõe fazer. Cultura-Nova. Parmênides. C. 1967 15. pois. S. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. Muito pelo contrário. Reflexões. acerca do advento da cultura nova pós-científica. 337 percepção in-out. intuição. Oficina do Autor/ etc. 1999. L. Não foi. PLATON. SAMPAIO. Rio de Janeiro. Paris.

Th. o grupo mais simples é o binário. S. L. 26. La logique affective et la psychanalyse. cuja tabela de multiplicação é: x ac ad bc bd ac ac ad bc bd ad ad ac bd bc bc bc bd ac ad bd bd bc ad ac . La Mentalité Primitive. como introdutor do modelo jacksoniano na França. 21. na companhia de Janet.b) pelo grupo homólogo (c.Arthur Ramos conhecia a fundo não só a obra de LévyBruhl como também suas fontes. LXXVIII 22. como inspirador de algumas idéias de Charcot e outras coisas mais. EdUERJ. o produto do grupo (a. cit. formado por dois elementos. La Logique des Sentiments. O fundamento disto se encontra na teoria dos grupos. cuja tabela de multiplicação é x a b a a b b b a O grupo de Klein é o quadrado do grupo binário acima.338 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 20. Rio.d). constatamos que ele pertenceu justamente a Arthur Ramos e guarda suas inúmeras anotações manuscritas à margem e em pequenos pedaços de papel nele inseridos. Fica a sugestão. Binet. R. Entretanto sua ligação com a pasicanálise ficaria bem melhor definida se transladássemo-nos para o plano lógico. por exemplo.SAMPAIO. LÉVY-BRUHL. Zahar. Afora a identidade isolada. Alcan. 1920 23. F. 1914.Théodule Ribot é citado duas vezes no volume 1 e muitas no volume 2 da História da Psicanálise na França de E. particularmente nas propriedades do denominado grupo de Klein. Philosophique. relatamos que ao consultar o exemplar de Logique du Sentiment de Ribot existente na Biblioteca Nacional. 24. Rio de Janeiro. Taine –. forçando um confronto entre sua Logique du Sentiment e a lógica do significante lacaniana. C. isto é. 1989 – em geral. ROUDINESCO. de Lacan e as Lógicas in Lógica ressuscitada. Paris._______. 25.RIBOT. Como curiosidade. op. a e b.

Ë precisamente isto que está logicamente por traz da piedade em J-J Rousseau. Desde que saibamos procurar. Pavlov nomeia (até muito corretamente). no caso. III e IV em 2 vídeos. S. onde. a rigor. logo. Ernst. 1999. A condição animal capaz de operar I/D requer um SNC e este. Rio.. . aquilo que só é em razão de outro. Ver capítulo 2 anterior. Já aconteceu mais do que uma vez em aula que esta nossa afirmação fosse contestada. uma filosofia da cultura. SAMPAIO. os elementos não identitários ( não ac) do grupo de Klein. é inquestionavelmente lógico-diferencial (D). Rio de Janeiro. trata-se de uma ratificação: a palavra (arco) reflexo é claramente lógicoidentitária (I) e a palavra condicionado. como a roupa (ou a pintura dos corpos) representando uma terceira pele. como vimos na extensa nota 13. sendo-lhe contraposta a “descoberta” pavloviana que o animal..d) e as três relações articuladas. EMBRATEL/UAB. Ele poderia ter chegado à mesma conclusão sem ter aporrinhado tanto seus cachorros.Existem outros bem interessantes. ICN. é uma dupla pele. S. Ser humano é. I. 28. na própria obra dos estruturalistas não faltariam muitos outros exemplos. de Introdução à Antropologia Cultural. 1988. estaria operando segundo o famigerado “mecanismo” do reflexo condicionado. Martins Fontes. L. perfazendo pois um “articulado” de três peles. Só na aparência isto é uma objeção. C. um diferença suplementar. Introdução a uma filosofia da cultura humana. 32. de Por que. portanto. A condição humana requereria. bc e bd.SAMPAIO. justamente. 1997 29. seguindo indicações lacanianas definimos o masculino pela par lógico {I. ser capaz de se por na pele do outro. S.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 339 As duas diferenças seriam representadas pelos subgrupos (a. também. 27. L.b) e (c. Ensaio sobre o Homem. 31. mas nada explica. operando por reflexo condicionado.Compacto. porque ele é simplesmente uma espécie de simulação formal (é óbvio que drasticamente empobrecida) da verdadeira dupla diferença que fez ser o homem. C. D}. bastando que se mantivesse fiel ao que lhe prescrevia a lógica do Partido. Portanto. Paulo. pelos pares ad. 1993 ou alternativamente Noções elementares de lógica . CASSIRER. D/D} e o feminino pelo par {I/D. com cerca de 3. o animal estará na verdade operando segundo a lógica dialética (I/D).. Este grupo aparece por toda parte.5 h de duração. II. uma terceira pele. 30.

Alternativamente. Ademais. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o que acontece (I/D). são apenas uma taquigrafia. daí. enquanto que a primeira sintetiza. M. de. As Lógicas. 4. Rio de Janeiro. além destas últimas. EMBRATEL/ UAB. Makron Books. então. II. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. UAB. Se considerarmos que ela subsume a si mesma. tomando-se. também conveniente. UAB. O termo hiperdialética refere-se a uma lógica mais complexa do que a lógica dialética. serão então cinco as lógicas subsumidas. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. D. As expressões I. como sabemos. desde que não as tema. SAMPAIO. 5. Noções de antropo-logia. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. pelo mesmo autor. constitui-se numa síntese das lógicas da identidade e da diferença. 1998. (5) é complacente ao Absoluto. I/D etc. Para maiores detalhes. C. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. a própria dialética e a lógica formal ou clássica. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. 1996. tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). Rio de Janeiro. I/D (lógica dialética). muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). ver SAMPAIO. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. Teríamos. cit. Rio de Janeiro. III e IV. um pouco abusivamente. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. são inúmeros os casos de cul- Capítulo 4 . Na esfera mundana. Noções de antropologia. Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. op. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. o vídeo Antropologia cultural. de. S. C. L. D/D=D/2 (lógica clássica). (2) só é na medida em que remete a outro (D). 1996 (xerografado) ou BARBOSA. Rio de Janeiro. a designação qüinqüitária. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/ 2 ). Luiz Sergio C. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). Noções de antropo-logia.340 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SAMPAIO. I. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. 1993. Esta.

cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. uma polêmica cheia de veneno e má fé. 7. de hoje “modernizar-se”. 12. para o bem ou para o mal. Aliás. cuja necessidade foi há muito pressentida. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. mas como dotado de uma outra lógica. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. não se dão conta que o fazem. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. chegou bastante cedo ao trinitarismo (I/D).como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. segundo o teólogo da cultura Paul Tillich o espaço sobre o tempo (Théologie de la Culture. Modernidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 341 turas logicamente híbridas. 10. Noções de antropo-logia. ou seja. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. Por isso ela é politeísta. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). por exemplo. aí se demorou tanto tempo que tem dificuldade de “recordar” suas fases lógicas anteriores e justamente por isso de se projetar. cit. daí porque não nos arriscamos à inclusão do Oriente. precisamente. em um modo próprio . que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. 11. 8. isto é. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. op. porém. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. crenças e ritos. é produto da sacralização de sua lógica própria. 9. De qualquer modo. logique du sentiment. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. além. 6. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. Paris. pode-se dizer que a China. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. Culturas associadas às lógicas em que prevalece a diferença sobre a identidade. vale dizer. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. a síntese da identidade com a dupla diferença. Não é surpresa. Ademais. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. pois. como em todas as culturas. . SAMPAIO. entre outros. A percepção do ritmo de sucessão lógica das culturas depende de uma certa familiaridade com a história tradicional da área considerada.

uma segunda diferença. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . Por isso. 15. 1981). o falso e. sua negação sendo destarte o verdadeiro. segundo o historiador das civilizaçòes. Mircea. v. vol. 13. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. História das Crenças e das Idéias Religiosas. como a Índia. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . internamente. o indefinido. Zahar.1968). o paradoxal. 58.Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. o valor indefinido. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. 3. p. daí. terá como falsa sua negação. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). ELIADE. porém. Tomo I. desconsiderado.342 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Denoel/ Gonthier. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. pois. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. enquanto que o segundo é um marginal. a materialidade sobre a espiritualidade (Estudio de la Historia. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. os subservientes negociadores (?!) do atual governo brasileiro. 1978. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. 14. e impondo-lhe então. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. pp. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso.o mundo se apresenta como sobredeterminado. lá e cá. O indeterminado. 59-60 16. .o mundo se apresenta como subdeterminado. Excluem-se aqui. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. daí a designação lógica da dupla diferença. representando o nem verdadeiro nem falso. Compendio IX/XII. um terceiro. por suposto. em profundidade. Madrid. isto é. Alianza. Ibid. Arnold Toynbee. Rio de Janeiro. das relações EUA/Brasil. pois na verdade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. 1.

transformar uma noutra. as luvas são a imagem reflexa uma da outra. S.25 18. Noções elementares de lógica . D2. nem esquerda. 1988. Monfort. BEAUFRET. nem direita. D1. G. o esquerdo e um estado intermediário “pontual”. uma primeira. relativa a um plano horizontal. para fazê-las coincidir. No caso. seriam eles: o direito. precisaremos que uma delas vire do avesso. Para melhor compreender a natureza da diferença ou negação no caso da lógica da diferença D e da lógica clássica ou formal D/2 (a que estamos habituados). Isto vai requerer a passagem por um estado intermediário em que ela se “desespacializa” (e o par se dissimetriza). J. onde ela não é nem uma coisa nem outra. Abstratamente talvez as coisas pareçam mais complicadas do que realmente são. L Ó G IC A D A R E F L E X Ã O D L Ó G IC A D A IN V E R S Ã O D / 2 R (a ) D D a a D/ R (R ( a ) )= I ( a ) a D / (a ) -1 2 2 R2 = I a 1 2 R (R ( a ) ) D (a ) Uma inversão pode ser concebida como uma dupla reflexão. relativa a um plano vertical. ICN. 0. podemos nos valer da metáfora gráfica a seguir.Compacto. A parte inferior da figura mostra que os estados de uma reflexão especular são três e não apenas dois.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA 343 DUPLA DIFERENÇA D/ 2 Ver L. C. Estes três estados podem muito bem ser expressos pela tríade numérica 1. Tomando-se por referência a reflexão no plano vertical. a correspondente re- . Brionne. No caso da reflexão. 17. ou seja. de Sampaio. 1983 p. Já no caso da inversão estão implicados apenas dois estados e podemos passar de um ao outro por uma simples rotação ou deslocamento espacial. Rio. uma segunda. -1. Hölderlin et Sophocle. por onde poderá se dar a passagem de um a outro dos estado anteriores.

Relume-Dumará. Vê-se bem no esquema acima como surge a sua preocupação com uma pressuposta “tragédia moderna” e as razões profundas de sua impossibilidade ou até mesmo. Como pensar em tragédia (D) da época da cultura cínica D/2)?! 20. A reflexão especular representa a diferenciação ou negação primordial.Oevres Complètes. sua falta de sentido.344 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO presentação numérica seria pois 1. e sendo-lhes assim tão . justo a lógica clássica ou. O verdadeiramente outro de um Deus que lhes virava a face. sem dúvida. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . A nosso juízo exclusivo. 19. -1. a propósito. Reflexões. a dificuldade em se conseguir seguir o pensamento do poeta alemão está no recalque que implicitamente faz das lógicas identitarias (as culturas judaica I e cristã I/D. 1994. só se consumaria se virassem -Lhe a face também. François. R O M A N T IS M O A L E M Ã O 2 I/D / H Ö L D E R LIN A P O L ÍN E O D/ I/D REC ALQ UE DA ID E N T ID A D E I 2 D/ 2 CU LTU R A MODERN T R A G É D IA (M IM E S IS ) T R A G É D IA M ODERNA ? D CU LTURA GREGA D IO N IS ÍA C O D P R É -D H O M É R IC O P R É -I Hölderlin consegue captar bem a inversão de posição que se opera entre os gregos e a Modernidade. é a ocasião para relatar que boa parte do que vai no corpo deste artigo foi provocado pelas discussões com o amigo Aluisio Pereira de Menezes (que nem por isso tem a menor culpa do que aqui está sendo dito) em torno do tema Hölderlin e a essência do trágico. p. o grande culpado.Hölderlin. Rio de Janeiro. lógica do terceiro excluído. com inexcedível propriedade. Hölderlin: Tragédia e Modernidade in Höderlin. a diferenciação ou negação na lógica da dupla diferença D/2. F. 228. Esta. aquela da lógica da simples diferença D.DASTUR. e a inversão. pois. em que não há lugar para terceiro.Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo de mau e aconteceu é. aliás uma constante no pensamento alemão de lá até hoje. 21.

SAMPAIO. A República. p. 90. 1995. (negritos nossos) 24. Nesta última acepção o termo precisa fazer parte de um sistema dotado de uma sintaxe. em parte.opus citado. ou pior. massa (M) e tempo (T). Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. Todas as demais grandezas físicas . como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. Paulo. 92 27. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. sim. Rio de Janeiro. foi vítima deste tipo de “ilação”? 22. e sentido intensivo é aquele dado por um conjunto articulado de termos considerado equivalente ao termo em questão. de. sua oposição à filosofia. X Platão. Atena. é bom aduzir que não é de agora. Finalmente. Sentido extensivo é o conjunto de referentes a que um termo se aplica. A República. p. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. 30. FINEP/ etc. p. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular. Rio. 23. grama e segundo) ou mks (metro. 29. Eugen. Ibid. 2000. 31. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqúitária. Paulo. Paris. porém. 101 28. 59. A matemática formalista pretenderia reduzir todo sentido à pura intensividade. quilograma e segundo). Reflexões. muita antiga. Minuit. sistema cgs (centímetro. sem a menor cerimônia. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. FINK. A lógica clássica ou da dupla diferença. L. Platão. 1966.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 345 íntimo. S. inclusive) é crença corrente entre os gregos. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. l. Assim. 1966. Por exemplo. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. SOCRATES: . S. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. Difusão Européia do Livro. 26. ARISTÓTELES. Le Jeu comme Symbole du Monde. X.. p. ICN. por isso as subsume. Arte Retórica e Arte Poética. Ver Reflexões. S. Intensivo aqui se contrapõe a extensivo. C.. 1955. 1959. uma distinção que vem dos estóicos. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2.. o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. 25. herdado pela lógica clássica. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). em sua máxima generalidade. Ibid. Quem já não viu.

como só ele. L. opus citado. SAMPAIO. Brasília. 11 43. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. GUIMARÃES RODA. de C. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. S. Gallimard. de.MORSE. 43 40. de. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . ELIADE. 38. M. não de onças de humores e cores variadas. conclui-se. Esta feliz lembrança se deve a José Miguel Wisnik. SAMPAIO. A H. Noções de antropo-logia. BATAILLE. 1973 37. La Pintura Prehistórica. igualmente mencionado. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). Parcialmente publicado no JB em 07/09/80. D } o feminino. Companhia das Letras. S. mas de gente. George. SAMPAIO. Rio de Janeiro.II. 44. Económica. L. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). I. L. F. Paris. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). assim como. D. Paulo. 34. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. I/D. imediatamente. Théorie de la Religion. 1969. S. 9. BRODRICK. (en)cantador. A Permanente Revolução do Analógico ao Convencional – Rio de Janeiro. 1993/97. Ibid. D/2. 35. 32. as que lhe antecedem: I. Toda a “elite brasileira” quis enterrá-lo como se ele fosse o Moisés. Ibid. p. UAB. C.II e IV.O ser humano é de nível lógico I/D/2 . lógica que subsume. o vídeo Antropologia cultural. out. feito desejo domesticado pelo marketing. Apontamentos para uma história da física moderna. Na modernidade capitalista. Ibid. aquele que havia guiado o povo à beira da Terra Prometida. 1956. como era meu tio. 42. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. de. p. 23 41. R. A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. Cultura e Idéias nas Américas. C. S. O Espelho de Próspero. p. C. L. p. O par diagonal {I. 1988. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida. pelo mesmo autor. como nos outros animais. 1996 (xerografado): O melhor exemplo disso já foi aqui mencionado pelo Professor Janine Ribeiro – o enterro do Doutor Tancredo Neves. Estas estórias. p. João. além de si própria. José Olympio. 37 39. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. opus citado. 36. Nestas circunstâncias. México. de. Rio de Janeiro. SAMPAIO.346 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. 33. o povo nada mais tinha a fazer senão esperar sentado! O problema real e apavorante para a “elite” no poder era o Doutor Ulisses Guima- . S. C.

ou seja. Ao contrário do que aconteceria num processo dialético lógico-trinitário. 46. mandar o povão subir nos tanques (feito o que aconteceu na Rússia e se tentou lá na China. tardio. CULTURAS SEMÍTICAS OU LÓGICO. o sentimento de abandono do Cristo na cruz .IDENTITÁRIAS CULTURAS PAGÃS OU LÓGICO-DIFERENCIAIS CULTURA MODERNA REPRESÁLIA: OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA CRISTÃ PLATÃO TEÓLOGO segundo Nietzsche e Heidegger CRISTO TRÁGICO segundo Evangelhos Sinóticos OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA GREGA CULTURA JUDAICA . op. C. Ver BARBOSA. como todos nós vimos na TV). Lógicas fundamentais são aquelas capazes de gerar todas as demais por um especial processo de síntese dialética generalizada. As Lógicas. para evitar um suposto derramamento de sangue.agora. cit. e ele aí foi para casa com enxaqueca. a censura aos escribas e fariseus. o nosso Abraão. pisa sempre na bola. ou seja. que representava Abraão e não Moisés. na “hora H”.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 347 rães.desapareçam do Evangelho de S. E a gente não começa nunca! 45. 48. a superação num processo hiperdialético lógico-qüinqüitário não impede a sobrevivência por si (não apenas subsumida) de uma cultura e nem mesmo que ela venha a exercer um papel crítico posterior na história da cultura. São elas apenas duas: a lógica da identidade ou transcendental (I) e da diferença (D). que tinha que mandar o filho para o sacrifício. com toda a certeza. anteriormente mencionada. Resto no seu sentido aritmético. M. por isso mais longe dos acontecimento e mais perto das conveniências de um movimento sócio-religioso já triunfante. 47. seja lá quem for. É bastante sintomático que tantas coisas relevantes presentes nos Sinóticos . Esta “injustificada” omissão do cristianismo na passagem da cultura grega à Modernidade é uma represália à omissão feita pelas culturas semíticas do momento trágico grego na passagem do judaísmo ao cristianismo. João.

49. tanto em Nietzsche quanto em Heidegger. anglo-saxônica. D DISPOSIÇÃO PARANÓICA I REAÇÃO ANTI-SEMITISMO = ANTI-D PARMÊNIDES "PROFETA" DO SER AÇÃO ANTI--"ARIANISMO" = ANTI-I MOISÉS ADOTADO PELOS EGÍPCIOS Pré-D Pré-I DISPOSIÇÃO ESQUIZOFRÊNICA Concluindo. que internaliza o momento dialético (I/D) ao ocidente pagão é a contrapartida vingativa do Cristo trágico dos Sinóticos. na passagem de pré-I a I. se vale de Moises para poder omitir o momento pré-D (egípcio). É curioso observar que tudo isto vem reproduzir o ciclo anterior. para não sucumbir. a família ariana (D) vai à forra imaginando passar da cultura pré-D (mítica) à cultura D (trágica) valendo-se de Parmênides para omitir o momento identitário I. adota precisamente o sujeito liberal (I) como sujeito da ciência (D/D). que internaliza o momento diferencial (D) ao mundo semítico. porque esta.348 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O Platão “teólogo dialético trinitário. o anti-semitismo só irá se manifestar na variante ideológica à direita da Modernidade. abandonado pelo Pai. que tenta justamente substituir o sujeito liberal (I) pelo sujeito romântico ou inconsciente coletivo (D) e depois sonha que pode ir do grego (D) à modernidade científica (D/D) sem passar por I/D. não podemos deixar de assinalar que o “antisemitismo” da Modernidade não pode se manifestar em sua formação paradigmática. Diz-se que ainda antes de Cristo até cerca de 10% da população da Europa ocidental e África do Norte era de origem judaica. Johson situa a diáspora judaica ao tempo de . Chega-se ao detalhe de Platão vir se confrontar com os poetas exorbitantes (que fingem a dispensabilidade do conceito I/D) tal como o Cristo se confrontou com os fariseus (que fingem a dispensabilidade do significante D). em que a família semítica (I).

UAB. contrabandistas. JOHSON. 1520 in Selection from His Writings. A lógica dialética dá conta das peripécias da história. contra apenas 1 milhão na Palestina. L. que seria I/D/4. 1977 55. Lucas 24. luxo ou originalidade. An Appeal to the Rulling Class of German Nationality as to the Amelioration of the State of Christendom. Reza a tradição que setenta sábios teriam sido convocados para traduções independentes. Doubleday. Paul. o Papa. York. A History of Christianity. 46 52. 1976.. 12 50. 57. mas tem dificuldade de explicar origem e destino enquanto que a lógica da identidade só se interessa mesmo pela origem e pelo fim dos tempos. daí o nome Setenta. I Coríntios 15.. Sendo o homem de nível lógico I/D/2. C.por suposto.5 milhões de pessoas. C. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. C. A Revolução Industrial da Idade Média. 1961. GIMPEL. não estabelecia que as novas terras seriam de Portugal ou de Espanha. 51. Zahar. teriam que se conformar mesmo com os papéis marginais de piratas. New York. talvez porque nes- . p. Ver SAMPAIO. 58. 39-43 54. porque inspiradas -. Confrontadas a posteriori todas teriam sido coincidentes . Martin. 471 56. A tradução se fez por partes. A hiperdialética I/D/2 pode ser considerada como uma síntese das lógicas identitárias anteriores . A lógica da identidade I é tida então como o degrau zero da dialeticidade. Macmillan. que já andou por várias editoras que sempre “gentilmente” o recusaram. só poderá ter obviamente representações fragmentadas do Absoluto.1997. com exclusão de qualquer outros? Se quisessem participar. p. S. tornando-se assim uma dialética das dialéticas. LXX ou Setuagina. LUTER. Mateus 27. começando em meados do século III a. de Noções de Teo-logia. avalizado pelo próprio representante de Deus. Este texto é parte de nossa obra maior Filosofia da Cultura – Brasil.da identidade I e dialética propriamente dita I/D -. N. 42-44 53. Jean. Vale a pena observar que os Descobrimentos vêm acompanhados da entronização da lógica clássica ou do terceiro excluído: O Tratado de Tordesilhas. etc. Capítulo 5 1. e terminado em 1 a. Rio de Janeiro. SAMPAIO. Aí se mostra como ocorre a real experiência do possível transcendente e se especula acerca do seu estatuto lógico. opus cit. Rio de Janeiro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 349 Cristo em cerca de 4.

A formação dos estados nacionais (mercados econômicos nacionais) acabava com este espaço. tornando-se assim a base para a solidificação do complementar mercado financeiro internacional. daquele que confronta os deuses) e a cultura dialética trinitária (do Deus Uno-Trino cristão). que só surge depois que o mundo já conhecera. logo á frente. ao contrário. a própria cultura da identidade (judaica). naturais de alguma parte. de Pluto. a invenção da racionalidade masculina: como primeiro passo. como é o caso da cultura judaica. nações modernas têm sua unidade fundada no Outro. pela caça às bruxas. pp. 1985. a definitiva separação dos cristãos. chamou a atenção para o fato que foi justamente na cerimônia de inauguração de uma estátua deste religioso. Sua unidade cultural. no prelo) . a defesa das culturas (com exclusão das dominantes) tenha sido criminalizada. a cultura muçulmana não constitui na História uma cultura nodal (culturas que inauguram um novo modo de ser e pensar o mundo). do real como outro. 5. ou seja. SAMPAIO Luiz Sergio Coelho de. 4. a ciência e. Realmente. a constituição dos alicerces. Justamente por esta particular topo-logia é que houve um espaço físico para que a cultura judaica pudesse se preservar e desenvolver. Paris. 136-137 3. Primeiro. 6. quem sabe. luxo ou originalidade (algum dia . PLATON. Por isso. da Dieneylandia).350 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tes tempos de intolerância democrática (ou plutocrática. Radical porque tardio. mas fazia dos judeus. havia muito. a cultura da diferença (grega. que editor iria querer correr riscos de tal natureza?! 2. Sabe-se quão doloroso foi para os judeus o contato com a cultura grega. O interesse por Abraão à Santa Clara reacendeu quando Victor Farias. depois. depois. Feudos (trinitário imperfeito) tem a unidade garantida por sua semelhança à Cidade de Deus (trinitário perfeito). doravante. Uma nação moderna. em Heidegger e o Nazismo. ou seja. ou melhor. entretanto permanecia. Critias. através do recalque da sexualidade (irracionalidade) feminina. cujas portas são aduanas frente a frente. Tudo começa com as invasões de Alexandre. acaba precisamente aonde uma outra começa. herói da resistência a invasão muçulmana da Europa. um intenso drama que termina só com sua auto-mutilação. dos romanos. do homem prometéico. sujeitado. tardio (século VII) porque ela é uma cultura lógico-identitária (do real e do Deus único). a constituição de seu sujeito liberal correlato. Filosofia da Cultura – Brasil. Les Belles Lettres. 7. que Heidegger faz sua primeira aparição política/pública. constitui-se numa reserva de mercado. Timée.

do prestígio. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . o que a faz uma lei lingüística. IC-N. ou de mais-valia. o excedente DK é o produto global Y menos o consumo C. daí a designação lógica da dupla diferença (D/D ou D/2). 1988 (xerografado) Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. o paradoxal. o valor indefinido. sua negação sendo destarte o verdadeiro. sem que tal modo de produção tivesse emergido. terá como falsa sua negação. Ver SAMPAIO. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. Como podemos encontrar em qualquer manual elementar de economia. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . a lei transforma quantidade/qualidade em qualidade/quantidade. tudo aquilo e mais algum. C.o mundo se apresenta como sobredeterminado. internamente. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. e duvidosa. Rio de Janeiro. Lógica e Economia. S. DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA DUPLA DIFERENÇA D/ 2 A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. A quantidade anterior está acompanhada de uma qualidade e a qualidade posterior também acompanhada de uma quantidade. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. Não é difícil imaginar que isto viesse a acontecer quando toda uma população era por outra militarmente vencida e escravizada. ou seja.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 351 8. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. L. o “leva” para a esfera política.o mundo se apresenta como subdeterminado. isto é. desconsiderado. Um faraó se apropria do excedente e. O indeterminado. pois a taxa de formação de excedente. um terceiro. 9. Y= DK + C 10. daí. pois. O diabo é que o empresário capitalista devolve o excedente à esfera econômica e fica obrigado a retirar à frente. de sorte que. Além do mais. e impondo-lhe então. o indefinido. em muitos momentos históricos se manteve por largo tempo acima da taxa vigorante na época que viu surgir o capitalismo. o argumento marxista não tem fundamento histórico. . construindo uma pirâmide. o falso e. uma segunda diferença. de. representando o nem verdadeiro nem falso. a rigor. Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo.

mas apenas elo de ligação.. BOBBIO. 2000. KRAMER. e PASQUINO. 2000.352 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 11. com cerca de 3. algo mais sugestivo?! 14. nascido na Irlanda) em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado. L. mas na demanda (desejo). Sznajder. 12. Poderia haver. 13. Malleus Maleficarum (Martelo das feiticeiras). não mais na oferta (projeto). C de. pelas estradas. H. isto é.. Rio de Janeiro. Introdução à Antropologia Cultural. e Ashéri. alegando a ocorrência de um processo de aburguesamento do proletariado. 1994. EdUERJ. correndo no sentido de uma perfeição crescente. México. I. A referência aqui é ao diretor cinematográfico americano John Ford (na verdade. deixava-se ir embora. conluio dos fracos contra os nobres e fortes. Ver SAMPAIO. J. do início do século XX e que pode ser considerado um antecedente do fascismo. Ver SAMPAIO. 1989. mas no “corte”. Diccionario de Filosofia. como é contextualmente lícito. 18. Também chamada escola marginalista neo-clássica. e que à época eram bem numerosas. 16. 19. N. instrução de culpa. por . FCE. de Lacan e as lógicas in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios. contra os aristocratas. C. EdUnB. A propósito. II. G. Bodin e especialmente Francis Bacon. que não deixa aparecer que tal personagem não é origem. que estaria assim perdendo seu potencial revolucionário. Paris. Ele vai da esquerda para a direita. porém aqui um rio bem mais caudaloso (hiperdialético) para poder extravasar a todo cerco racional/ científico. S. só com Giordano Bruno. no caso. 1983 e ainda ABBAGNANO. O teor ideológico não está propriamente no self made man. S. Naissance de l’idéologie fasciste. no fim do terceiro quartel do século XIX. Dicionário de Política . Entendida. EMBRATEL/UAB. A obra data de 1484. fica muito claro o aforismo nietzscheano: Ele (Renan) queria. Ver Sternhell. 1966. vale aqui lembrar o movimento soreliano (referência a Georges Sorel). julgamento e castigo de mulheres que praticavam a cópula com o demônio. tão solitário quanto chegara.5 horas de duração. L. Rio de Janeiro. 15.. surgida na Áustria. Embora o termo já se encontre entre os antigos (Lucrécio). e logo que a conseguia. a democracia como ideologia da “mediocridade” liberal. Trata-se de uma evidente alusão ao rio heraclítico (dialético). Rosa dos Tempos. adquire o sentido moderno: modo de ser do processo histórico. que vai situar a fonte do dinamismo econômico. que se subordina à continuidade do processo de sistematização do mundo. constituindo-se num detalhado manual de identificação. III e IV em 2 vídeos. N. Gallimard. NATTEUCCI. cumulativo. e SPRENGER. 17. N. Brasília.

Na verdade crua e bem nua. A esquerda percebe bem o caráter subordinado do sujeito liberal. LACAN. Crítica da Modernidade.. conseguirem pelo menos salvar sua continuidade bioquímica. 23. Ver SAMPAIO. tomada em seu sentido genérico. ser-no-mundo e ser-frente-ao-Absoluto. 277 26. 115. 21. em nosso léxico estaria o termo cultura. civilização referenciar-se-ia a uma formação social mais ampla. 125. Paris. a lógica clássica subsume a dialética. para nós estaria vinculada a uma determinada lógica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 353 exemplo. p. comentam entre si a excelência dos “novos” produtos). esquimós apertados em seu iglu etc. 25. 1966. du Seuil. síntese das lógicas da identidade e da diferença) e a relação invertida re-verte e os bons propósitos lá se vão.. O Mal-Estar na Civilização. Nietzsche. Rio de Janeiro. 124. LACAN. Standard Brasileira das Obras Completas. v. uma referência às noções de verdade parcial e total em Lacan. por isso. S. Crepúsculo dos Ídolos. Zahar. resultante do processo de horizontalização de uma cultura. estarão com muita sorte. ligar em uníssono la science e la noblesse: mas a ciência pertence à democracia. freirinhas italianas passeando no pátio silencioso de seu convento. ser-com-o-outro. cultura anglo-saxônica/ civilização informacional globalizada. além de substituí-lo pelo sujeito coletivo se propõe a inversão da relação de mando vis-à-vis a ciência. ao cabo. convencendo populações autóctones que a evangelização é perfeitamente compatível com a preservação das suas culturas. que. Exatamente como faz a Santa Sé e outras menores. As lógicas - .. L’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freud in Écrits I. mais recente. respectivamente pp. Os exemplos mais claros seriam cultura grega/civilização romana e. A propósito. Atente-se para o fato que onde aqui aparece o termo civilização. e isso é palpável. Repare-se nos freqüentes anúncios de grandes empresas multinacionais mostrando como seus produtos automobilísticos e de informática são completamente compatíveis com as diferentes culturas (berberes montados em camelos atravessando um deserto. 24. O Seminário.65 (parênteses e negritos nossos) 20.pois sua cultura e sua alma. p. já terão ido direto para o inferno. julho de 1999 (xerocado). ver BARBOSA.p. Se estas. Ed. 1982. FREUD. Relume–Dumará. 27. J. livro 20. XXI. por esta santa via. J. Rio de Janeiro. Acontece que a lógica da ciência (a lógica clássica ou da dupla diferença) é mais potente que a lógica do ser-coletivo (dialética. Marcelo C. Aqui. etc. A palavra cultura estaria reservada para uma formação social que inaugura um novo modo de ser.

. boa parte de seus ativistas se converteu ao capitalismo-solidário-cósmico-ecológico. assinalando-lhe o caráter lógico/religioso.. E tornou a dissolver-se nele. 31.. que trocou a seqüência contábil dos números (monóide. mas sem explicitar seu sentido –. etc... São Paulo.... Isto fica evidente na física (saber paradigmático da Modernidade) que insiste em reduzir o mundo tão apenas a três grandezas pré-emolduradas pelo cálculo (sistemas cgs...... e o trinitário cristão para o lugar do dois (separação corpo/espírito).... mks.. o . mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão... ........... O cristão foi... Os judeus só fizeram valorizar a posteriori esta diferenciação......... como se fora apenas uma variante da cultura unária...... 29.. O homem não é o outro da natureza. Este se equivoca duplamente em relação aos judeus. usamos a expressão de per si para indicar que o trinitarismo dialético pode subsistir dissimulado. Hegel ficou obrigado a trazer o grego do trágico politeísta para o lugar do um (filosofia!).... mais adiante....... Isto é também evidente na matemática ocidental..). mas produto de uma auto-diferenciação desta última. A separação radical só existe nas palavras.. e não sossegou enquanto não fez do movimento transformador (I/D) mera derivada de posição (de mando) (D/D)..354 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio...... teremos oportunidade de exemplificá-lo. mas que degenerou...... Só um grande gênio seria capaz de tamanha distorção onto-lógica! 32.... O comprometimento direto e visceral da cultura judaica com a dominação da natureza (se diz hoje.... 28.. Com a derrocada comunista. a “culpa” disto não cabe aos judeus... Isto não quer dizer que não possa ressurgir. Depois. 30.. O cristianismo brotou do judaísmo. perdido na passagem da cultura cristâ (I/D) à Modernidade (D/D)....... A ciência tem por desejo o cálculo do Uno-Trino. Depois desse escandaloso deslocamento....1998... com a técnica) é um juízo preconcebido que vem de Hegel (e é assumido por Heidegger)... o judeu teórico.... Ver capítulos 4 e 8-11 da presente obra... I/D) pelo grupo algébrico (D/D) – Oswald Spengler já observara isto em A Decadência do Ocidente. a teologia da libertação foi uma tentativa (mesmo?) neste sentido.... Estamos aqui considerando que a aristotelização da teologia católica significou o fim do trinitarismo dialético patrístico..... mas ao próprio Homem ou à primeira cultura que deveras realizou a proeza... no texto.. Makron Books.. menos pela repressão da Cúria do que por sua excessiva e equivocada aproximação com o marxismo........ desde o primeiro instante...... Ademais.. O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa..

1992. o encontro crucial entre o homem e o divino deslocou-se do reino da natureza e do cosmos para o plano da história. 117. D) é o que nos permite anteexperienciar. Lógica trinitária versus lógica qüinqütária in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. filósofos e mesmo cientistas. Rio de Janeiro. fica bem clara qual foi a lógica (I/D/D)! Capítulo 6 1. S. Quanto à questão da leitura. 37. mas persistiram. profetas que foram forçados a aprender a irreversibilidade da filosofia (D). talvez se encontre lá alguma serventia. Especialmente item 7. p. 40. na defesa meio inconsciente do historicismo dialético. o que não se coaduna com a aguda percepção que ele mesmo tem da essência histórica do judaísmo originário: . concebida agora em termos do desafio divino e resposta humana. 117 38. C. 28. EdUERJ.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 355 judeu é. K. Yerushalmi. 35. L. quanto a poetas..115 36. tornaramse teólogos (I/D).5 Ibid. p. S. Ver especialmente item 9. de.1 da presente obra 34. D/D) com feminino (I/D. teólogos que estão sendo forçados a aprender a irreversibilidade da ciência (D/D). diante disto. O romance pode nos antecipar o que será a verdade pela leitura. ao persistirem. YERUSHALMI. op. A propósito (ver nota 31 acima). de. tornar-se-ão enfim boa gente (I/D/D). ver SAMPAIO. mais perto de nós. p. profetas e teólogos. não serão necessários xamãs. S. Zakhor – História judaica e memória judaica. cit. Marx. se embaraça e dá uma conotação antihistórica ao tradicionalismo. Breve fenomenologia do espirito qüinqüitário Xamãs (pré I) que foram forçados a aprender a irreversibilidade do mito-poético (proto D). A Questão Judaica. cit. o novo mundo lógicoqüinqüitário. A síntese romanesca do masculino (I. Rio de Ja- . Ibid. Na cultura nova. C. a tensão entre a corrente moderna trinitária (a que o autor se filia sem esconder uma certa culpa) e a corrente tradicional unária (da qual o autor não consegue se desvencilhar). C. L.. imaginariamente. o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu. op. por vezes. Rio de Janeiro. H. mas persistiram. Imago. SAMPAIO. Noções de antropo-logia. como ficam Hegel e Heidegger? 39. 2000. Y. Bastariam dois exemplos: Tolstoi e. tanto objetiva como subjetivamente. pois do princípio ao fim expressa. Zakhor. Agora sim. tornaram-se profetas (I). portanto. de. p. porque cria um espaço virtual andrógino onde interagem autor e leitores. 33.Este livro merece ser lido na íntegra. L. Milan Kundera. Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. SAMPAIO.

UAB. As expressões I. l’homme trinitaire. 2. Ademais. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. Para maiores detalhes. não se dão conta que o fazem. por via de sua técnica. O que este autor não chega a perceber é que a erradicação da morte (biológica) é uma artimanha da Modernidade. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. UAB. alors que l’autre. C. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. DR. de. As Lógicas. D.356 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO neiro. Alternativamente. 3. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. Aliás. ver SAMPAIO. Rio de Janeiro. 1993. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. 5. Makron Books. 1996. cabendolhes pois a designação de culturas ecológicas. II. desde que não as tema. veut en fin de compte l’érradication de la mort. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. para simular a presença do homem lógico-qüinqüitário já em seu seio. então. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. isto é. 1998. acceptait la mort. Noções de antropo-logia. Luiz Sergio C. faisait de la représentation de la mort dans la vie le fondement de son ordre symbolique et du lien social. porém. Car la différrence des deux hommes en presence est que l’un. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. SAMPAIO. Rio de Janeiro. I/D etc. I. Leia-se trinitaire como cultura lógico-dialética trinitária e binaire como cultura lógico formal ou moderna. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. uma polêmica cheia de veneno e má fé. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. Teríamos. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. o vídeo Antropologia cultural. EMBRATEL/ UAB. de prometer a vida eterna onde impera . III e IV. 1990. I/D (lógica dialética). Paris. M. Na esfera mundana. (negritos nossos) DUFOUR. l’homme binaire. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. Les mystères de la trinité. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados 4. pelo mesmo autor. são apenas uma taquigrafia. Rio de Janeiro. D/D=D/2 (lógica clássica). precisamente. logique du sentiment. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). Gallimard. mas como dotado de uma outra lógica.

tomada pela soberba. Indeed. em suas manifestações públicas no início e no fim de carreira. M. “And in 1800 in Frankfurt am Main. who in turn controlled the twelve largest investiment firms in the city. v. naturalmente. promete-a assintoticamente ao invés de. Verdier. MORSE. SAMPAIO. herói da resistência à penetração islâmica na Alemanha.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 357 6. Enquanto a Religião. 1985. Nestas últimas. O Espelho de Próspero. ela é. Victor. Brasiliense. W. S. Paris. Hegel a Francfort de Bernard Bourgeois. do social (sócio-cultural) para o individual (psíquico).123. justamente intitulado Jewish Economic Life and the Frankfurt Tradition. O trecho acima foi tirado do capítulo VI. refere-se a Abrahan de Sancta Clara. pois até hoje só pode proclamar um único sucesso. É importante atentar que aqui o termo perversão. a Ciência. 1970.2 10. L. 12. está sendo usado no sentido inverso daquele que ele tem na psiquiatria e na psicanálise. 1977. p. cautelosa. do ponto de vista lógico. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados. J. 7. Paris. 8. N. FARIAS. Apenas levados por este estudo. York. SAMPAIO. a vida eterna. BENJAMIN. de Desejo. o combate da Ciência contra a Religião. 1988. C. Delta Book. Vrin. desenrola-se na TV. 14. with its Jewish population of six hundred families. diariamente. É eletrizante e interessa (inconscientemente) a todos. R. à exclusão dos suicidas. most of them living in the squalid Judengass. Enquanto concentramos nossa atenção acadêmica nas novelas. Cultura e Idéias nas Américas. Companhia das Letras.. 9. The Course of Modern Jewish History. bastante coerente na medida em que tal inversão é a exata contrapartida da mudança de ponto de vista. fingimento e superação na história da cultura. Paulo. com sua tática de ir pouco a pouco amealhando adiamentos. 43 per cent of the entire jewish capital was owned by sixty families. para provocar tamanha ira ao . Entretanto. Não é por acaso que Heidegger. 196. nada há de errado nesta inversão. Trata-se de um estudo acerca dos textos sobre o cristianismo e o judaísmo elaborados por Hegel em sua estadia em Frankfurt. Item 3. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. 1. Paulo. promete-a para depois de. Heidegger et le nazisme. S. Em jogo. Rio de Janeiro. perverso é o sujeito (I) que aceita a lei (D/2) desde que esta seja a sua própria. fomos aos textos de Hegel e daí direto a procurar algum estudo sobre o que estavam fazendo os judeus lá. Howard M. S. p. Frankfurt may well be termed the cradle of Jewish finance in Europe. . 11. 1987 13. pelo contrário.” SACHAR. dezembro de 1998.

Rússia e América. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. Nietzsche. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio puder ser “vivido” simultaneamente. mas nos instrumentos psíquicos de apropriação do imaginário alheio usados pelos psicovampiros da cultura da Modernidade que havia já sido superada. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. Essa Europa. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado técnicamente e explorado economicamente. Dentro de uns 200 anos . supor- . consideradas metafisicamente.ou menos. Hegel. Paris. ver Sternhell. é a crítica da cultura em que o próprio filósofo está imerso (Cassirer). A Alemanha. Heidegger e Habermas. 17. Schelling.Fichte. Gallimard. porém a mais importante delas para o que nos interessava foi a de Sachar. com a Rússia de um lado e a América de outro. mais ou menos explícito. encontramos diversas obras. Ninguém estará mais interessado nos instrumentos de tortura corporal da cultura cristã medieval (I/D). estando no meio . já citada na nota 46 anterior. dentre as mais relevantes tarefas da filosofia. Referência a Georges Sorel. E é precisamente isto que faz “amarelar” os nossos.então. . houver desaparecido da existência de todos os povos. como História. Como sustentar tal posição diante do cortejo de filósofos alemães . quando o pugilista valer.existirão museus de horrores onde serão exibidas as peças promocionais que hoje infestam os nossos “meios de comunicação”. e Ashéri. Ajudados por nosso amigo Nelson Kuperman. A propósito. 15. 18. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. Discurso à Nação Alemã debaixo do braço?! Isso lá acontece porque sabem que. quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. se tivermos sorte . como um fantasma. Ficamos simplesmente perplexos quando se levanta a questão de uma filosofia brasileira e logo acorrem os defensores da “filosofia perene” dizendo que isto não faz sentido. só para ficar com os mais importantes -. 1989. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. Sznajder. cada um deles com seu. quando tempo significar apenas rapidez.358 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nosso filósofo. hoje que não somos mais gregos. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. 16. como o grande homem de um povo. pois tal aproximação conspurcaria a nobre filosofia. Naissance de l’idéologie fasciste.

A autora fornece informações suficientes para que acreditemos numa forte rejeição de Heidegger às idéias. O ser humano é de nível lógico I/D/2 . Barcelona. 28. uma “vantagem econômico-competitiva” como. Tempo Brasileiro. 1987 20. Lógica . 73 27. M. uma enorme vantagem como pressente qualquer estrangeiro de sensibilidade que aqui aporta. Fayard. Introdução à metafísica. lhe é necessária também a firme determinação de fazê-lo (I). Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . p. é de novo simples saber. É uma vantagem.Lecciones de M. O par diagonal {I. Podemos exemplificar: para que um homem consiga voar. definitivamente. como até mesmo . 77 23. saber materializado (D/2). Verdier. ibid. como nos outros animais. p. irão certamente acreditar nossos “sociais-democrtas”. Isso implica e exige . 22. É o povo que tem mais vizinhos e. HEIDEGGER. ibid. histoire d’un système de pensée. Rio de Janeiro. as que lhe antecedem: I. I/D. ibid. Elisabeth. pp. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Heidegger (semestre verano 1934) en el legado de Helene Weiss. Victor. p. mas que não é. Heidegger et le nazisme. imediatamente. 1993. não lhe basta um profundo conhecimento de aerodinâmica (D/D= D/2). Isto nos dá certas vantagens. Paris. embora de um outro tipo que a dos alemães de então. lógica que subsume. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. ao terem notícia.p. ao domínio originário das potências do Ser. Jacques Lacan – Esquisse d’une vie. FARIAS. 75 26. 43 24. a partir do cerne de seu acontecimento futuro. ibid. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). Tudo isto deve se constituir numa inestimável lição para todos nós brasileiros. D. depois de pronto e voando. o mais ameaçado. 1991. D } o feminino. mas. que vivenciamos uma posição excêntrica em relação à cultura paradigmática anglo-saxônica. 43 25.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 359 ta a maior pressão das tenazes. Esta e as próximas citações provêm todas de HEIDEGGER. 21. além de si própria. 79-80 19. ROUDINESCO. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. M. que esse povo ex-ponha Historicamente a si mesmo e a História do Ocidente. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). conclui-se. D/2. O avião. mas também nos torna vítimas potenciais desta mesma excentricidade. p. Anthropos. Paris. em tudo isso é o povo metafísico. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). desse modo. 1966.

Paulo. a propósito. Martins Fontes. Ensaio sobre o Homem . S. F. Ática. a possibilidade do exercício da auto-crítica. C. de. cit. p. 4. S. SAMPAIO. principalmente de famílias de banqueiros. The Course of Modern Jewish History. 1968. EGEL. J. TILLICH. Ibid. 41. de. T. ADORNO. Na lógica clássica este princípio é escamoteado e substituído por sua ausência ou sua múmia. Abril. Desejo. S. 9. Rio de Janeiro. Crítica Cultural e Sociedade in Theodor W. Théologie de la Culture. Estudio de la Historia. p. C. SAMPAIO. Paulo. 1996 2. XXX. p. cit. 1998. Introdução à história da filisofia. Paris. S. A. 8. de. 1999. Vrin. N. Ver. 32. 33. Paul. A compreensão disto está na reação da intelectualidade alemã à migração judaica. C. Ver. BOURGEOIS. de. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. L. Org. Noções de Antropo-logia. Rio de Janeiro. Madrid. op. Delta Book. Metacritique – The Philosophical Argument of Jürgen Habermas. L. 1981. v. 5. 1970 e SAMPAIO.Writings in the Philosophy of Culture. in Os Pensadores. KORTIAN. fingimento e superação na história da cultura. L. L. M. L. Howard M. S. ed. setembro de 1999. p. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. 41 7. A Lógica da Diferença. Adorno. De Gruyter. La Lutte entre le Temps et l’Espace e também a coletânea póstuma Main Works . de. Paris. Denoël/ Gonthier. op. 1974 e também Lecciones Capítulo 7 . para Frankfurt por volta de 1800. Théologie de la Culture. 25 30. Alianza. G. TOYNBEE. O verdadeiro e óbvio princípio da identidade é A(A(x)=A(x). a identidade “estática” A(x) = A(x) ou abreviadamente A=A. p. W. 1980. 1997 6. SACHAR. W. Rio de Janeiro. 49. episódio este que acabou sendo. SAMPAIO. C. CASSRER. Cambridge. Ibid. Garbis. 3. 1969. UAB. talvez. Paul. que traduz justamente a propriedade de reflexibilidade e. Ernst. 1990. 1977. S.2 Berlin. Palmer. in S. Bernard. S. Paulo. TILLICH. C. 43 31. o principal indutor do processo de modernização da Alemanha. Cambridge UP . 1. em conseqüência. 3 v. especialmente. Rio de janeiro.Introdução a uma filosofia da cultura humana. o capítulo III.360 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO à pessoa de Lacan 29. SAMPAIO. York. 1986 e entrevista a Der Spiegel. v. Gabriel Cohn. 10. Hegel à Frankfort.

a Terra Prometida. fingimento e superação na história da cultura. Seuil. fingimento e superação na história da cultura. London. 1. até chegarmos a Alain Badiou. 1985. Ver. Aristote et le Lycée in Histoire de la Philosophie 1. 5. Isto tornou-se verossímil porque as culturas lógico-diferenciais foram as inventoras do trabalho (que pressupõe o colocar-se como outro da natureza) e. R. La Question juive. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato uma velha questão que se arrasta até hoje. como também Introdução à Antropologia Cultural. Paris. Ibid. 1969. MARX. sem a qual. entretanto. Achiamé. como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. Brasília. III e IV em 2 vídeos. J-P. 12. 1994. Rio de Janeiro. Hannah. Garaudy. Ética a Nicômacos. Ver também. cit. 6. ver Alain Badiou. cit. A Questão Judaica. SAMPAIO. 1982. Desejo. o fato que o desejo da cultura lógicoidentitária é pré-lógico-diferencial. ARENDT. tem sido muito maltratado pelos pensadores do ser social.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 361 sobre la filosofia de la historia universal. é óbvio. Ibid. I. Um exame mais cuidadoso do embasamento teórico do pensamento de Marx pode mostrar que seu “economicismo” não era assim tão radical como em geral se o considera. 3. Paris. ARISTÓTELES. K. EMBRATEL/UAB. com cerca de 3. Théorie du sujet. Brasília. 2. Mas isto seria apenas uma desculpa para alguém de menor estatura e pretensão SAMPAIO.(?) 14. ______. Adam Schaff. Encyclopédie de la Pléiade. Houve escravidão nas culturas pré-D. por conseqüência. 13. em especial. sempre o tiveram atravessado na garganta. Rio. Política. passando por Plekhànov. Robert. O tema. o sujeito liberal). s/d. tal problemática não poderia ser adequadamente tratada. desde Lenin. Existiria. 1988 e comentários por Capítulo 8 . P. 4. não há dúvida. UnB.. Marx and the Philosophy of Culture. D’AMICO. D e até no início de D/D (quando não se tinha ainda definitivamente explicitado e fixado o seu sujeito apropriado. UnB. que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico. Desejo. op. Alianza. 1982.5 h de duração. 11. dezembro de 1996. L’“Aufklärung” et la question juive e SARTRE. Madrid. para comparação.. da sua exploração. 1994. Os marxistas. UAB. especificamente. livro I e comentários de AUBENQUE. op. II. Noções de Antropo-logia.

haver e estar) mantêm uma correspondência bastante estreita com as quatro lógicas de base (I. Brasiliense. Cultura-Nova. p. 1999. D. Ao verbo ter. hoje tão comum.D) com utilidades (valor de uso . Paulo. cit. Rio de Janeiro. A dimensão delirante da crítica ideo-lógica à Modernidade foi por nós analisada em Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. SAMPAIO. 1. Desejo. Rio de Janeiro. Oficina do Autor/etc. S. pelo processo de caça às bruxas coetâneo à consolidação da ciência. cit. C. S. 1985. e também Crítica da Modernidade. Rio de janeiro. 1999 13. corresponde exatamente a lógica da simples diferença (D). Desejo. 1981 7. C. S. 18 14. Na troca de mercadorias está envolvida a mesma (I) quantidade de trabalho (valor trabalho . D/D). v. I/D. Paulo. O recalque das lógicas femininas se fez preponderantemente pela Inquisição. W. só que em quantidades diferentes (D) em datas distintas. a econômica e a social mesmo. cap. SAMPAIO. ter.. já o demonstramos. Lógica e Economia. 1998 como também Reflexões. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.. logicamente otimistas. L. 16. e mais recente- . Ambas são. de se considerar a economia como dimensão primordial da vida social. Noções de Antropo-logia. pois. julho de 1999. Há uma quase unanimidade no Brasil em considerar as três dimensões fundamentais do social como sendo a política. Brasília . p. 8. de. L. Fica aqui também evidente o absurdo. Perspectiva. junho de 1995. Pierre. 1988 (xerografado) 9. op.I) diferentes (D) para cada um dos operadores. Fingimento e Superação na História da Cultura. Na operação financeira troca-se o mesmo (I).. Seria o caso agora de se perguntar se a conversão de Constantino teria sido um acerto de contas teológico ou financeiro! 15. só justificado como uma “operação” ideológica para elidir a dimensão cultural e assim destruir a priori qualquer intento de uma real compreensão da dinâmica social e de uma conseqüente ação subversiva. SAMPAIO. S. L. Fingimento e Superação na História da Cultura. John B.196. Mito e tragédia na Grécia Antiga. C. VERNANT. Aristóteles. BENJAMIN. Ed. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. de. UnB. Jean-Pierre et VIDAL-NAQUET. op. Rio de Janeiro. 2 10.362 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO MORRALL. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. 12. de A Lógica da Diferença. antecedendo ao liberalismo político e à revolução industrial. Inst. o que é um evidente erro de categoria. de natureza dialética (I/D). S. 11. dinheiro por dinheiro. 1999. Os verbos auxiliares em Português (ser. envolvendo necessariamente o mesmo (I) e o outro (D).

DEBRAY. Hegel e Marx. S. Tillich. Retour. SAMPAIO. SAMPAIO. op. L. Citado em DEBRAY. cit. Rio de Janeiro. op. dada a própria essência da infalibilidade. Oficina do Autor/etc. SAMPAIO. C. C. cit. A . mas também uma crítica implícita à profundidade prometida. e terá que ser o primeiro que tem patrimônio. 17. O Escriba – Gênese do Político. invertida. de. Em caso de conflito entre o Papa e o Mercado. op. respectivamente. Reflexões. a verdade como sintoma. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüintária in Pensamento Original Made in Brazil. outubro de 1999. 24. R. Na esfera lógico-clássica ou científica alcança-se à verdade pela verificação empírica ou pela dedução a partir de um modelo formal consensado pela comunidade especializada. de. Trata-se de uma óbvia referência A Sociedade do Espetáculo de Michel Debord. 20. C. Como em psicanálise. Tillich. A história da cultura segundo Toynbee. Este texto foi escrito de modo a ser compreendido independentemente da referência a estas abreviações que aí estão para facilitar a compreensão dos leitores que tenham uma anterior familiaridade com elas. C. mas não cumprida de suas análises.um novo fundamento e uma significação renovada. Ibid. 1983.1997. As letras I. Rio de Janeiro. L. o fingimento cultural é o caminho para a verdade. E na esfera lógico-qüinqüitária. 24 19. D e suas combinações são uma forma abreviada de referirmo-nos às lógicas da identidade. S. O Escriba – Gênese do Político. op. L. Capítulo 9 1. L. da diferença e às suas sínteses reiteradas. C. Desejo. cit. Rio de Janeiro. O modo como isto acontece no pensamento marxista é detalhadamente exposto em SAMPAIO. de. 1999 3.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 363 mente em A superação das idolatrias . Régis. Princípio Antrópico . novembro de 1999. L. de história da cultura segundo Toynbee. 22. C. Ninguém melhor para dizer o futuro do que quem se vê por ele ameaçado de morte. 4. L. A superação das idolatrias . 18. mas hoje baixa liquidez. 21.. SAMPAIO. Hegel e Marx. SAMPAIO. S. S. moderadamente otimistas. p.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. UAB. Fingimento e Superação na História da Cultura. como lá se chegaria? Como se deve entender a “causalidade” lógico-qüinqüitária? Talvez o melhor exemplo que possamos hoje dar seja este da leitura que fundamenta a nossa própria versão do princípio antrópico. 2.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. S. um terá mesmo que ceder. Rio de Janeiro. cit. S. 5. de. de. 23. Rio de Janeiro.

é interessante lembrar. S. ainda pela operação /. (π0 = γ + γ = e + e + e + e. Um semimonóide é uma estrutura algébrica.364 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO noção de leitura como produtora de verdade. Rio de Janeiro. por exemplo) . Rio de Janeiro. C. op. indefinidamente. D. Noções de Antropo-logia. Rio de Janeiro. das adjudicações aqui feitas. ou seja. I/D/D.. 1998 (xerografado).Compacto. de. 11. C. Nela está implícito que.. apenas como uma esperteza para contornar a incômoda censura eclesiástica de sua época.. C. L.. 1988 e ainda BARBOSA. munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento.As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. 1998. I/D. ainda bastante constringente. 9. C. EMBRATEL. em 3 . the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. (xerografado) 10. entretanto. mas tão apenas a monótona escala de seus instrumentos de medida. Rio. D/D. de. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. de. L. conquanto que não a mais completa. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. tal qual postas por Deus.. Paulo. D/D/D. The Octect of the Physical Beings – Vacuum. 6. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. não liam as próprias coisas. O leitor poderá encontrar por si muitas e muitas outras e se surpreenderá de jamais encontrar nada que o leve a duvidar. Também versão na língua portuguesa. a seqüência dos naturais. item 4. Marcelo C. 1999 (aguardando publicação) 8. mesmo no detalhe. As Lógicas da Diferença – Rio de Janeiro. SAMPAIO.. L. S. porém. Na realidade. SAMPAIO. na passagem dos semigrupos aos monóides. de. Inst. Rio de Janeiro. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. 1988 (xerografado) ou Noções elementares de lógica . Ver Sampaio.. a partir de um conjunto finito de elementos. D. S. Princípio antópico. por exemplo. em 4. I. L. foi proposta por Galileu e outros precursores da ciência moderna. por nós definida. SAMPAIO. C. por exemplo. Ver SAMPAIO. dezembro de 1996. S. agindo igualmente à esquerda e à direita. cit. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. 7. S. L. se alocada a D/D. de. Teríamos então o monóide livre fundamental I. S. uma partícula alocada a D deva se desintegrar em duas partículas estáveis (W = ν + e ou γ = e + e. 1995 (xerografado). O monóide livre fundamental seria pois I. As lógicas . UAB. não importa se a direita ou a esquerda. Cultura-Nova. SAMPAIO. por exemplo) se alocada em I/D. D/D. Esta justificativa é a mais sumária e intuitiva que conhecemos. Makron Books. 1984 e ainda Lógica da Diferença. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. D. nua.

acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüitária. The anthropic cosmological principle. SAMPAIO. 19. Medidas em Mev/c2. A. Os barions constituem uma estrutura qüinqüitária formada por três estruturas trinitárias (os quarks. 13. que vai elucidar como de fato operam as forças simples. 1995. que justamente já apresentava dois casos de dupla alocação de fermions (elétron junto com neutrino do mion e mion com neutrino do tau). Ao invés dos quarks u. and TIPLER. Le principe anthopique . ver nosso trabalho citado na nota 10 anterior.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (µ = ν µ + W = ν µ + ν e + e. 1994. D. L. Paris. Colin. 14. não constituem dificuldades. 1988 e.L’Homme est-il le centre de l’Univers? Paris.um novo fundamento e uma significação renovada.. Princípio Antrópico . C. Xuan Thuan. b e t. o mais recente. c. Oxford. Champs/ Flammarion. cit 20. ainda uma conseqüência do trauma que vem dos tempos em que eles eram obrigados a prestar contas à teologia oficial. 17. op. com cargas fracionárias do modelo standard. Talvez. op.. Oxford U. Para mais detalhes. 12. Un Astrophysien. cit. DEMARET. Ver SAMPAIO. poderíamos ter. de. 16. como a do fóton e do graviton. Ademais. no novo moBARION QÜINQÜITÁRIO QUARK TRINITÁRIO GLUON GLUON QUARK TRINITÁRIO GLUON QUARK TRINITÁRIO 15. A topologia é tal que não deixa qualquer dúvida quanto à impossibilidade da existência de quarks em estado de isolamento. op. Indicamos ainda dois excelentes livros sobre o assunto: BORROW. F. op. as massas referidas são: tau . moderadamente otimistas. d. et LAMBERT. 18. J. Nome proposto pelo astrofísico australiano Brandon Carter para um pretenso princípio estabelecendo uma correlação profunda entre o homem e o cosmos. mas uma sugestão acerca de um recôndito parentesco entre elas. cit. P. D. isto contribui para maior simetria do modelo. The Octect of the Physical Beings. Ver SAMPAIO. SAMPAIO. J.Quatro constantes relativas às intensidades das “quatro” forças da natureza e pouco mais do que uma dúzia de constantes relativa às características das partículas elementares. s. Noções de Antropo-logia. por exemplo) 365 . em Pré-D. Reflexões. TRINH. cit. J. As alocações conjuntas. S. segundo o modelo standard).

Colocamos o termo ‘família’ entre aspas para chamar a atenção de que se trata de um agregado de base. pode haver uma opção sexual adulta. o que não vale para agregados de nível superior. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). que o fez no contexto de um teoria da relatividade geral complexa. op. e é precisamente isto que impede a desintegração do nêutron. As idéias de Teillard de Chardin fizeram escola e foram retomadas inclusive por físicos . etc.Ver SAMPAIO. necessariamente sexo-lógico. etc. Com isto. 24. lógica que subsume. A Michel. cit. só depois. 27. como é o caso de Charon. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). Rio de Janeiro. O par diagonal {I. Lacan et logiques. Para resolver este problema é necessário levar a criança de ambos os sexos à posição I/D/2 e. Menon. Banquete. é suficiente para compreender a lógica do rapaz (D/2. Rio de Janeiro. Ediouro. CHARON. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. de. L. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. C. sim. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. pois só vai até I/D . Em Freud. Théorie de la relativité complexe.30. I). O ser humano é de nível lógico I/D/2.57. I/D. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado).5. 26. é a prova da igualdade fundamental de homens e mulheres.Um valor desmesurado dado que a unidade natural de tempo cósmico (tempo de Planck) vale apenas 10–43 s e o próprio Universo tem apenas cerca de 1. conclui-se. a propósito. as que lhe antecedem: I. 1977. . ‘o que quer uma mulher?’. 1992.366 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO =1784. Esta é uma forte razão suplementar para que a antiga força forte piônica deva ser considerada ainda uma força de per si. D/2. SAMPAIO. 21. D. PLATÃO. imediatamente. que embora redutora. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. J. Mesmo que se contestasse a necessidade da família burguesa. 23. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2.1010 anos. S. Esta. No interior do núcleo (à distância de 10-15 m) prótons e nêutrons trocam pions (força forte de Yukawa). por suposto).daí. o feminino (I/D. Princípio antrópico. D } o feminino. D) fica logicamente diminuído. É um absurdo. a problemática edipiana vai apenas até a aceitação da lógica da castração (D/2). 28. além de si própria.próton = 938. 25. 1996. teríamos que admitir em substituição um agregado de mesma natureza sexo-lógica.2. expressões tão chocantes como ‘a mulher não possui superego!’. como nos outros animais. Paris. Fedro. 22. nêutron = 939. a ideologia burguesa que pretende constituir a sociedade a partir de indivíduos (pseudo-andróginos-virtuais.

Makron Books. A sociedade do futuro. D/D/D. fasc. D/D=D/2 (lógica clássica). O monóide livre fundamental seria pois I. Rio de Janeiro.. C. Noções de Antropo-logia. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. M. I. Arnold. 7. desde que não as tema. munida de uma operação genérica “/” gozando das propriedades de fechamento. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. por exemplo. de. ainda pela operação /”. L. UAB. C.. ver SAMPAIO. ou seja. D. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém.. não importa se a direita ou a esquerda. L. S. 1968 3. S. C. D. TILLICH. D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 367 1. Teríamos. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. 1998. Para maiores detalhes. Noções de antropo-logia. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. Rio de Janeiro. a partir de um conjunto finito de elementos. C. D. nua. agindo igualmente à esquerda e à direita. D/D. Na esfera mundana. TOYNBEE. L. Denoel/ Gonthier.. então. I/D/D.. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. As expressões I. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Teríamos então o monóide livre fundamental I.. abris/junho 1999 6. Théologie de la culture. são apenas uma taquigrafia. Paul. Rio de Janeiro. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. Paris. Zahar. 1979 2. Paulo. de. I/D (lógica dialética). indefinidamente. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). Rio de Janeiro. na passagem dos Capítulo 10 . SAMPAIO. Lógica da Diferença. I/D etc.194. UAB. de.. 5. Rio de Janeiro. enquanto que a nossa síntese dialética generalizada pode operar reiteradamente sobre elas e seus anteriores produtos. S. de. I/D. S. As Lógicas. a seqüência dos naturais. (xerografado) 4. Luiz Sergio C. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. Ver Sampaio. SAMPAIO. dezembro de 1996. por nós definida. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. D/D. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. (EdUERJ 2000) Revista Brasileira de Filosofia. A aufheben hegeliana opera apenas a síntese das lógicas da identidade e da diferença. Um semimonóide é uma estrutura algébrica.

Ver SAMPAIO. de. S. SAMPAIO. 16. 1995 (xerografado). Rio de Janeiro. a última identifica-se com a metafísica no seu sentido pejorativo. 10. S. S. Rio de Janeiro. 2 v. de. 22. A expressão onto-teo-logia no título do trabalho em questão é uma óbvia alusão à ontoteologia heideggeriana. Makron Books. Barcelona. C. com o pensar de uma era ainda por vir: era da cultura nova qüinqüitária. S. S. SAMPAIO. de. L. IC-N. C. 1988 e Noções Elementares de Lógica – Compacto. cap. SAMPAIO.V . L. 1964. de. 1985. na transcendência. I. C. L. 1996. opus cit. p. S. de. Noções de teo-logia. 1991. HEIDEGGER. porém.34. Existe uma fortíssima razão de simetria que não pode ser aqui convenientemente exposta. de Desejo. C. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. C. SAMPAIO. UAB. de um lado. Noções de teo-logia. C. Rio de Janeiro. 1993/1997.33 20. Curso fundamental sobre la fé. (xerografado). 1968) que observa que entre as duas analogias não há outra diferença que aquela da simples ênfase relativa. junho de 1995. 23-24 21. dezembro. 1998 (xerografado) 14. L. Noções de onto-teo-logia. Inst. Luiz Sergio C. Fui chamado a atenção para o fato por um bolsista. Ver SAMPAIO. Paulo. SAMPAIO. Luiz Sergio C. As lógicas . 1997. fingimento e superação na história da cultura. estagiário do DRH da EMBRATEL. de. de outro.As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. Os resultados a que chega a analogia fidei.1998 24. Noções de teo-logia. 12. Rio de Janeiro. (xerografado) 11. com ela não se confunde. a primeira. Rio. cit. pp. 23. Ibid. 18. Ibid. C. 15. 19. da imanência de Deus. fingimento e superação na história da cultura. opus cit. Rio. 17. não diferem em muito daqueles que se obtinham por via da analogia entis. Rio de Janeiro. L. SAMPAIO. op. Ver especialmente. S. S. de. Gallimard. Hague. Karl. Apontamentos para uma história da física moderna. (xerografado) 9. de. 47-48.Questão de método. Marcelo Celani. a nosso juízo. Noções de antropo-logia. L’être et le temps. S. o que é corroborado por Battista Mondin (The principle of analogy in protestant and catholic theology. 13. L. 1984. como também BARBOSA. SAMPAIO. de. tal como já insinuamos. . SAMPAIO. S. Ver especialmente item 1. C. C. L. CulturaNova. Cultura-Nova. Herder. SAMPAIO. UAB. 8. RAHNER. pp. L. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. M.2 . que eu chefiava em 1993. Noções de teo-logia. L.368 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO semigrupos aos monóides. Rio de Janeiro. de Desejo. opus cit. Rio de Janeiro. Paris.

Rio de Janeiro.5 h de duração. com cerca de 3. . EMBRATEL/UAB.._____. SAMPAIO.. II. Tillich. 11. _____. abris/junho 1999 5. S. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Noções de Antropo-logia.194. Brasília. op. Rio de Janeiro. op. vídeos. 10._____. Noções Elementares de Lógica – Compacto. ICN. Paulo. UAB. I. _____. cit. Princípio Antrópico. UnB. outubro de 1999.. 1991. UAB. Rio de Janeiro. Desejo. III e IV em 2 vídeos. op. Rio de Janeiro. e também A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. Princípio Antrópico . Rio de Janeiro. cit. Fingimento e Subversão ma história da Cultura. 2. uma versão abreviada e significativamente modificada do volume I da obra homônima e ainda Lógica da Diferença in Revista Brasileira de Filosofia. Crítica da Modernidade. op. 1998 8. 4. Rio de Janeiro. Brasília. julho de 1999. Rio de Janeiro. _____. 1996 14. Rio de Janeiro. Ibid. _____. _____. Reflexões. novembro de 1999 12. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. L. Noções de Antropo-logia.. e Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. S. Noções de Antropo-logia. Introdução à Antropologia Cultural. cit. 13._____. Oficina do Autor/etc. _____. 1999. A superação das idolatrias . cit. Introdução à Antropologia Cultural. 1999 3. _____. logicamente otimistas. Rio de Janeiro. setembro. 6. cit. Rio de Janeiro. dezembro de 1996 e A história da cultura segundo Toynbee. out. 1994 e também Considerações Gerais sobre a História da Cultura – Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da Situação Brasileira. fevereiro de 1997 e ainda Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. 1993/1997 e The Octect of the Physical Beings – Vacuum. Apontamentos para uma história da física moderna. Rio de Janeiro.um novo fundamento e uma significação renovada. op.. C. cit. UAB.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. Hegel e Marx. 15. _____. 1998 7. fasc. op. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. 1999 9. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. _____._____. palestra no Evento anúncio do Programa do Laboratório de Estudos do Futuro. de.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (xerografado) 369 Capítulo 11 1.

a nosso juízo bem melhor. inclusive para lhe pedir que o autografasse. sem dúvida. que estava sendo anunciada como atividade central do Laboratório de Estudos de Futuro para o próximo biênio. Capítulo 12 1. Estas notas de palestra já estavam obviamente alinhavadas. o que em si não traduzia nenhum menosprezo. agora. durante a nossa exposição fizemos reiteradas alusões ao episódio. Não é preciso enfatizar o quanto nos sentimos honrados por lá estar presentes e o melhor que podíamos fazer para nos aproximarmos um pouco do talhe da oportunidade que se nos era oferecida seria evitar as trivialidades. Roberto Cardoso de Oliveira. que. a Invenção do Brasil. de algum modo. uma nova cultura sob o sol dos trópicos. às vésperas do ano 2000. mas levou-nos à convicção que não respondêramos satisfatoriamente à sua pergunta do almoço. arrojado descobrimento europeu ou se o início das tribulações e das penas de gentes que já aqui haviam e outras chegadas de outras partes que estão fazendo emergir. A série de eventos. negamos e coetaneamente já somos. Dr. Tentamos por duas vezes responder que partíamos da problemática levantada por Lévy-Bruhl referente à questão do pensamento pré-lógico dos primitivos. as referências eruditas gratuitas e outras velharias para enfrentar. O professor Dr. os déjà-pensées. cit. pois. independentemente da resposta dada pelo pensador francês. Roberto Cardoso de Oliveira. op. nos perguntou de que “lugar” nós iríamos falar. enfatizando que este primeiro item valeria por si. posteriormente. que seria o coordenador das apresentações da tarde. Lauro Morhy no evento Anúncio do PROGRAMA DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DO FUTURO. Fingimento e Subversão ma História da Cultura. presidindo a Mesa nos apresentou à platéia como economista e especialista em informática. espero que para muito breve. a pergunta por si constituía-se numa revolução: não se indagava mais se os primitivos tinham alma. na nossa opinião. _____. Por isso. mas especialmente como uma terceira tentativa de resposta àquela . esta nossa velha preguiça de pensar o novo. Desejo. não estávamos ainda bem certos do que comemorar: se um. quando no almoço que precedeu à nossa apresentação.370 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 16. era de excepcional oportunidade e de uma grande importância. tema sobre o qual ele mesmo havia escrito um livro que tínhamos já na pasta e à mão. Ainda. 2. o emérito professor Dr. perguntava-se se eles tinham lógica (clássica). sim. O presente texto teve origem nas notas para uma palestra realizada a convite do Magnífico Reitor da UnB. Considerávamos que.

BARBOSA. de. recentemente instado a justificar o seu pessimismo em relação ao mundo atual. Rio de Janeiro. Paris. 1998. Georg. Rio de Janeiro. declarou que. C. UnB. “a proposta de nossos políticos para as gerações modernas é ‘suicidem-se’. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. 13. Cultrix. Histoire et Conscience de Classe. 1971. M. por sua vez. D/D=D/2 (lógica clássica). 6. . de 1996. Madrid. A. a seu ver. Le Jeu comme symbole du monde. Estudio de la Historia. Georges. nos arquivos da UnB que. Brasília. DUBY. Eugen. FOUCAULT. 9. 1960 4. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Gallimard. TOYNBEE.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 371 sua mui justa e sábia indagação. Kostas. C. LÉVI-STRAUSS.” Provocações do pensar. W. 1982. M. AXELOS. C. Para qualquer dúvida sobre esta nota. 19 de out. 3. 1972. As Lógicas. então. possa tê-las como um conveniente e simples apoio de leitura. Paulo. D. México. 1976. 1972. O. A Arqueologia do Saber. FCE. Teoria da História. desde que não as tema. Histoire des Mentalités. F. Vozes. só poderá ser bem compreendido com a ajuda desta nota. As lógicas – As Lógicas Ressuscitadas Segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. 7. A Decadência do Ocidente. Luiz Sergio C. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. Noções de antropo-logia. Paulo. Alianza. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. M. Paris. I/D etc. 1981. 12. entrevista de André Green em Jornal do Brasil. I/D (lógica dialética). As expressões I. História: método sem objetivo específico in NIZZA da SILVA. (org. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. de Minuit. Petrópolis. HEGEL.). Na esfera mundana. Fenomenología del Espírito. Contribuition à la Logique. de Minuit. 1966. S. Para maiores detalhes. SPENGLER. Compendio I/IV. Paris. 10. 1977 e também FINK. ver SAMPAIO. consultar registro televisivo da sessão. LUKACS. 5. de Minuit. 1998. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. G. B. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). 2. são apenas uma taquigrafia. S. Paris. 8. UAB. Makron Books. Teríamos. M. O psicanalista francês André Green. Idéias.

(2) só é na medida em que remete a outro (D). SAMPAIO. A representação arquetípica da lógica qüinqüitária aparece em quase todas as culturas como uma figura de 5 elementos. Ed. de. embora não permitam dar conta de modo compreensivo. Alternativamente. SAMPAIO. UFRJ/Gripho. cit. (5) é complacente ao Absoluto. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. pelo mesmo autor. op. 1998. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. de . Desejo.15. é de grande importância. in Sete ensaios a partir da lógica ressuscitada. 15. 22. é impossível o calculo do outro!) 19. inclusive o homem. um pouco abusivamente. C. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. Fingimento e Subversão na História da Cultura. da diferença (D). 23. Noções de antropo-logia. 1995. o vídeo Antropologia cultural. 14. 1998 18. Rio de Janeiro. Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. é produto da .372 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Makron Book. I/D e D/D. sendo a mais comum e sugestiva. UAB. As Lógicas. C. L. D. Rio de Janeiro. II. É o conjunto das lógicas da identidade (I). GOLDMAN. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. C. Este conjunto. tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). 1994 20. Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. permitem a re-definição ou sobre-impressão da sexualidade no ser. Isto é valido inclusive para a Modernidade. S. Rio de Janeiro. SAMPAIO. 21. (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). As lógicas de base são as lógicas propriamente subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária: I. que forma a base da pirâmide representativa de I/D/D. como em todas as culturas. a pirâmide de base quadrada. Razão e Diferença. de. Márcio. A religião na Modernidade. S. op. 1993.humano. 17. EMBRATEL/ UAB. são inúmeros os casos de culturas logicamente híbridas. dialética (I/D). clássica ou da dupla diferença (D/D) e qüinqüitária (I/D/D) que permitem pensar todos os entes mundanos. SAMPAIO. I. 1996. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). Noções de antropo-logia. tomando-se. segundo Lacan. entre outra coisas. S. L. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). Ademais. porque suas diagonais. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/2). III e IV. cit. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o devir (I/D). L. do saber inter-subjetivo (por isso. Ver BARBOSA. UERJ (no prelo) 16.

28. pré-D. mas um superior processo hiperdialético qüinqüitário. Observaríamos. isto é. isto é. como pseudoqüinqüitário. além.. entre outros. 27. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. Isto tem implicações de uma incalculável amplitude que não podemos (ou talvez nem soubéssemos) aqui explorar. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. SAMPAIO. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). Não é surpresa. mas como dotado de uma outra lógica. precisamente. a síntese da identidade com a dupla diferença. de. pois. Ademais. Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. 24. o cristianismo patrístico aparece como histórica. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. op. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. Aliás. cit. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. como mereceriam. S. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. em um modo próprio . 25.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 373 sacralização de sua lógica própria. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. em profundidade. que isto é o suficiente para demonstrar em definitivo que a História não é um processo dialético trinitário hegeliano (apenas). L. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. porém. cuja necessidade foi há muito pressentida. 26. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud.. contudo. logique du sentiment.pré-I. crenças e ritos. Desejo. ao todo 5 . não se dão conta que o fazem. uma polêmica cheia de veneno e má fé. ou seja. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. mas não logicamente qüinqüitário. Por isso ela é politeísta. I. das relações EUA/Brasil.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. pois na ver- . D e I/D). tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. C. 29. Consideradas todas as culturas nodais anteriores (ecológicas e propriamente lógicas.

Gallimard. ibid. Difusão Européia do Livro. pois.opus citado. (negritos nossos) 35. porém. Reflexões. porém. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. FINK. 1966 p. p. muita antiga. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. 43 41. Quem já não viu. 1966. 1978. 40. Théorie de la Religion. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. 1959. Le Jeu comme Symbole du Monde. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. 31. Arte Retórica e Arte Poética. Finalmente. sem a menor cerimônia. 1955. As- . A lógica clássica ou da dupla diferença. 36. 37. Paris. p. op. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). Zahar. 59. 34. George. S. 228. Tomo I. 92 38. lá e cá. 90. Eugen. Paulo. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D.374 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular . Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. S. sua oposição à filosofia. por excepcional (de exceção) o atual momento destas relações. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. cit. p. p. ELIADE. Mircea. ibid. e sendo-lhes assim tão íntimo. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. inclusive) é crença corrente entre os gregos. em sua máxima generalidade. Hölderlin. é bom aduzir que não é de agora. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . Exclui-se aqui. Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo que acabou acontecendo. Por isso. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. BATAILLE. ARISTÓTELES. 32. Platão. vol.. ou pior. sim. SOCRATES: . p. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. F. p.. como a Índia. 1. Paulo. ELIADE. História das Crenças e das Idéias Religiosas. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. foi vítima deste tipo de “ ilação”? 33. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. ib1973. Minuit. Oevres Complètes. Atena. é ele sem dúvida o grande culpado. 30. A República. 101 39. Paris. por isso as subsume. Rio de Janeiro.. 58. enquanto que o segundo é um marginal.

A separação drástica luterana entre fé e razão. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta).II e IV. 45. Na modernidade capitalista. não criou a ciência. ingleses. 1995. SAMPAIO. as que lhe antecedem: I. D } o feminino. S. 49. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. não pegou. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. O I. mas felizmente para eles. lógica que subsume. além de si própria. de. constata que isto foi tentado. Rio de Janeiro. herdado pela lógica clássica. o vídeo Antropologia cultural. 44. quilograma e segundo). opus citado. a maior parte de sua carreira atuando em Hollywood. UAB. 50. como nos outros animais. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqüitária. SAMPAIO. 47. Vide a última Carta Encíclica – “FIDES ET RATIO”. L. D. de. O ser humano é de nível lógico I/D/2. Por exemplo. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). Rio. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). S. feito desejo domesticado pelo marketing. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. imediatamente. S. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). L. o grande realizador cinematográfico irlandês. por suposto. pelo mesmo autor. D/2. I/D. 42. FINEP/ etc. C. a Igreja Católica sempre namorou a ciência. Ver Reflexões. sistema cgs (centímetro. L. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.II. Ao contrário do que se diz por aí. grama e segundo) ou mks (metro. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. assim como. Brasília.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 375 sim. Noções de antropo-logia. (xerografado) 48. igualmente mencionado. O par diagonal {I. out. o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . Quem vai a Westminster e vê o túmulo de Newton no centro mesmo da catedral. 1996. mas sim o que era necessário . C. 1993/97. A Questão Cultural – Palestra proferida no workshop sobre A Questão Cultural. Apontamentos para uma história da física moderna. 46. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. Referência a John Ford. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. ICN. SAMPAIO. em parte. Rio de Janeiro. conclui-se.. massa (M) e tempo (T). (2000) 43. C. de. Todas as demais grandezas físicas estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida..

Segundo um programa de TV focalizando cada um dos países europeus.376 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para criar uma sociedade ou cultura científica: nada mais nada menos do que o sujeito liberal liberado para ser sujeitado à ciência ou. quando o pugilista valer. Essa Europa. como o grande homem de um povo. 51. Pietro. Companhia das Letras. simplesmente. como um fantasma. quando tempo significar apenas rapidez. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. estando no meio . que esse povo ex-ponha Histo- . tipo de psicose. em tudo isso é o povo metafísico. então. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. foram já muitos e entre eles o Padre Antônio Vieira. existe um empenho deliberado (por quem?) em desenvolver a gastronomia alemã com a finalidade de atenuar sua pressuposta inclinação belicista (ou anti-consumista. desse modo. como História. A Alemanha. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio poder ser “vivido” simultaneamente. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. É o povo que tem mais vizinhos e. mas. consideradas metafisicamente. 53. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. Não somos nós a dizer isto. com a Rússia de um lado e a América de outro. 54. econômico e social mesmo. 1991. Os denominados problemas sociais nada mais são do que a banda podre do modelo econômico vigente. houver desaparecido da existência de todos os povos. o mais ameaçado. REDONDI. S. Pessoal e social são sempre anti-simétricos. Rússia e América. para se constituir em sujeito da ciência. Na perversão pessoal. 55. 52. Isso implica e exige . na perversão social. Paulo. que pela ousadia quase foi executado pela Inquisição. é o sujeito (I) que se sobrepõe à lei (D/D). Aqui deveria entrar o cultural e é precisamente para ocultá-lo que se comete o absurdo de considerar o social parte própria de si mesmo. perguntaríamos nós). acontece precisamente o contrário. suporta a maior pressão das tenazes. 56. Galileu Herético. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente. Não há nada mais ridículo do que dividir o social em político.

tornando-se assim um autêntico empresário schumpeteriano (I) (caso verídico ocorrido no Rio). uma geral e uma tribuna de honra. HEIDEGGER. a partir do cerne de seu acontecimento futuro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 377 ricamente a si mesmo e a História do Ocidente. tipicamente brasileira. assim mesmo entre aspas. incluindo até um miserável que se pôs sob um viaduto (D) recém-inaugurado e com um giz delimitou internamente retângulos (D) para alugá-los a outros ainda mais miseráveis. ao domínio originário das potências do Ser. que de certo modo pode incluir todos. 1966. é seu justo contrário. M. Rio de Janeiro. 79-80. por exemplo é freqüentado pelo povão. A “elite”. não importa que tenha extremos. Tempo Brasileiro. 57. Povão é empregado aqui como uma verdadeira categoria sociológica. Introdução à metafísica. desde que em estado de congraçamento. . O Maracanã. pp.

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