FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Filosofia da cultura
Brasil: luxo ou originalidade

Luiz Sergio Coelho de Sampaio

EDITORA ÁGORA DA ILHA

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

FICHA CATALOGRÁFICA
SAMPAIO, Luiz Sergio Coelho de - 1933 Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade / Luiz Sergio Coelho de Sampaio Rio de Janeiro, março de 2002 páginas 378 Editora Ágora da Ilha Ciência filosófica Pesquisa ISBN 86854 CDD-100 CDD-0001.4

COPYRIGHT: Luiz Sergio Coelho de Sampaio

lscsampaio@openlink.com.br

Direitos desta edição reservados ao autor, conforme contrato com a Editora. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa do mesmo. Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade - CIÊNCIA FILOSÓFICA / PESQUISA Capa: Talita Lobo Coelho de Sampaio Editor: Paulo França RIO DE JANEIRO, MARÇO DE 2002

EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.: 0 XX 21 - 3393-4212 agorailh@ruralrj.com.br

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Para meus pais Ascendino e Maria da Paz, que lá ficaram fixos e incomunicáveis em duas dobras tristes do tempo. E também para Lailce e depois, por ordem de entrada em cena, para Tatiana, Thais, Talita, Henrique, Ivo e Felipe.

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Sinopse
Uma proposta radical de revisão da noção de história, na
verdade, história da cultura (processo hiperdialético de realização plena do modo de ser-coletivo do homem, “fenomenologia do espírito” que ao invés de evitar a ciência e sua lógica, seja de fato capaz de subsumi-la). Tem como finalidade, entre outras, viabilizar a crítica da Modernidade, iluminar o horizonte de sua possível superação, reacender o pensamento utópico. Neste novo espaço histórico compreensivo situar o Brasil: reler sua real destinação, intuir suas responsabilidades maiores e contribuir para a implementação de suas estratégias de sobrevivência e realização.

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Sumário
1. Porque, também, uma filosofia da cultura.......33 2. Bases lógicas para uma antropologia filosófica..39
2.1. 2.2. 2.3. 2.4. Preliminares............................................. 39 A lógica ressuscitada..................................40 Uma antropologia esperançosa...................53 Situação e perspectivas brasileiras............67

3. Acerca da lógica e da cultura........................71 4. Desejo, fingimento e superação na história da cultura.........................................................89

4.1. Considerações introdutórias.......................92 4.2. Uma cultura e suas três lógicas..................95 4.3. Desejo, fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais...........................................100

4.5. Especulações acerca do futuro da cultura.....131

4.3.1. Nos antigos impérios de base agrícola - o mito e a pseudo potência sacerdotal.....................101 4.3.2. Entre os gregos - a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos..............................................104 4.3.3. Na Modernidade - a física e a biopirotecnia..110

5. Modernidade – das origens à globalidade etnocida.........................................................135

5.1. Antecedentes da Modernidade....................138 5.2. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso.................................................143

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
5.2.1. Ciência, sujeito liberal e, antes, a caça às bruxas....................................................................143 5.2.2. Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno, consumista e etnocida................................148

5.3. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade...........................................................159

6. Crítica da Modernidade................................167
6.1. Introdução...............................................167 6.2. A rematada impotência das ideologias.........169 6.3. Para além das ideologias...........................176
6.3.1. Heidegger – a ciência e a técnica..................178 6.3.2. A Escola de Frankfurt – os meios de reprodução e comunicação de massa............................185

7. História da cultura segundo Toynbee, Tillich, Hegel e Marx.................................................193 8. Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária....203 9. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural.................225

9.1. Re-estruturaçào do território lógico................229 9.2. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura...........................................233 9.3. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares.............................................236 9.4. Princípio antrópico renovado.........................241 9.5. Re-significação cósmica da história da cultura.248

10. A superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária...................253

10.1. A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto.....................................255 10.2. Superação da idolatria com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária........................259 10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente.............264 10.4. Afinal, Deus depois do adeus às idolatrias.269 10.5. Antecipações - a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano....273

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11. Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira..........................279 12. Considerações gerais sobre a história da culturas – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história, conjuntura e perspectivas brasileiras...............................................287

12.1. A história como processo hiperdialético....287 12.2. Um esboço de história da cultura.............295 12.3. Desejo, fingimento e superação................298 12.4. A Modernidade.......................................313 12.5. O Brasil e a Modernidade.........................317

praticamente extingue-se entre nós o interesse em pensar o Brasil. Digo pensá-lo e não “desconstrui-lo”. vieram os tempos da “Nova República”. vem reavivar aquela tradição. É interessante assinalar que Sampaio. está também dando continuidade a uma tradição já bem nossa. oferecendo-nos. A seguir. de buscar na filosofia os meios conceituais para iluminar os caminhos e descaminhos da brasilidade. cuja figura exponencial é Miguel Reale [1]. cada dia que passa. obviamente. se mantém viva em Tobias Barreto e se solidifica no que se convencionou denominar de culturalismo brasileiro. que registro a ressurgência do que até então fora uma obsessiva preocupação dos mais expressivos intelectuais brasileiros . posso dizê-lo. aos que o faziam e fazem vindo já de mais longe. Primeiro. Tal disposição nasce com a própria filosofia no Brasil. Refiro-me especificamente a Luiz Sergio Coelho de Sampaio que. Dentre as virtudes genéricas deste trabalho não posso deixar . com a presente coletânea Filosofia da cultura. com esta obra. pois. que trouxe o desinteresse pelo pensar. foi o tempo da “Revolução”. com satisfação.decifrar o ser e a destinação do Brasil.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 11 Prefácio Luxo ou originalidade − a propósito da problemática cultural brasileira Depois do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros. uma alternativa completamente nova para nossa auto-compreensão. menor se mostra o interesse pelo Brasil. 1955-1964). Não me refiro. nos quais. É.

Vejamos em detalhes cada um destes aspectos específicos. achei que. Por isso. mas o fazendo de maneira essencialmente crítica e inovadora. na mera compreensão. O pensamento não poderia tolerar que. Nestas . o fato da filosofia que lhe serve de base se constituir numa produção própria. entre o abstrato e o concreto e. sobretudo. visando sobretudo o melhor proveito do leitor. o grande problema da filosofia hoje seria medir-se com a ciência. mais valeria tudo reconsiderar. de antemão. embora já tivesse tido a oportunidade de analisar detidamente o pensamento filosófico de Sampaio [2]. indo mais além. um grau superior de simplicidade e clareza. entre o especulativo e o pragmático. sendo justificadamente mediada por uma sólida antropologia filosófica que se completa com uma conseqüente antropologia histórico-cultural. 1. que se sabe sempre possível. Trata-se sobretudo de aceder ao chamamento das coisas e dos acontecimentos como tais. sem mais. precisamente.12 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de assinalar o vertiginoso encurtamento de famigeradas distâncias: entre o denso e o legível. cuja verdade assumida. sabese. Por isso. radicada. se aventurando o autor a traçar os lineamentos de uma corajosa e incisiva ação estratégica cultural.a epoché como um honesto esforço de suspensão de preconceitos e não como flatus vocis. ao invés de apenas repetir ou resumir o que havia dito (que. terceiro.proporcionar uma nova e mais profunda compreensão da problemática cultural brasileira -. a renúncia àquela pretensão. Com respeito ao seu objetivo específico . como de costume. que a reflexão filosófica não se aplica ali. na tradição filosófica ocidental. destacaria três importantes aspectos: primeiro. o trato da problemática brasileira não se detém. sim. para desta sorte conquistar. desde Parmênides. está na postulação de ser e pensar como o mesmo. nem por isso. um mero sinal de adesão acadêmica oportuna a uma corrente filosófica de prestígio. é adaequatio. algo lhe pudesse para sempre escapar. à problemática cultural brasileira. Para Sampaio a linha mestra da filosofia ocidental. Preliminares lógico-filosóficos – ser e pensar para além da ciência O melhor caminho para a compreensão das idéias filosóficas de Sampaio é a epoché para valer . deixa de permanecer válido e atual). segundo.

no âmbito da Modernidade. capaz de “ultrapensar” a ciência ou. agora evidente. nada melhor do que subir nos ombros dos gigantes predecessores. em se conseguir levar aquela postulação mestra para além dos limites do saber científico [3].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 13 circunstâncias. que. com inteira razão. o âmbito mais próprio e inevitável do problema. sim. procurar “algo menor”. de todo o território lógico conhecido. a de se ultrapassar a dialética e alcançar um pensar maior ou mais complexo. pelo contrário. porém. que ombros mais altos. justamente por se almejar entre elas a mais alta. da Ciência da Lógica consumada. o procurado deveria estar por todo canto. teria que ser . a lógica. Em síntese: passar da dialética à hiperdialética. Isto posto. Ora. Tudo bastante simples: a referência. haveria do que os de Hegel?! Sobretudo. Tudo se resumiria. a questão primordial não estava em procurar. reta e imediatamente. pois. abdica de sua própria essência. no trânsito. subsumindo a lógica clássica formal. assume-se “pensamento das pequenas causas ou das realidades parciais e a varejo”. Kierkegaard (entrincheirado por trás do parado- . seria Hegel. quando já convicto estava de que sua filosofia (como qualquer outra). além de sempre bem largos.Pascal (que jamais cede quanto aos direitos do coração). mais precisamente. como tão judiciosamente observa Heidegger [4]. sempre dissimulado. cuja recuperação pudesse levar à re-significação da lógica clássica formal e. para enxergar mais longe. Já se disse. a lógica clássica formal que. É exatamente aqui que Sampaio consegue ser surpreendentemente óbvio: embora as aparências encaminhassem noutro sentido. ou a filosofia se deixa marginalizar. Sampaio vai então circunscrever toda uma plêiade de pensadores “desviantes” . ou enfrenta o desafio de pensar de mais alto a ciência. sobre a ciência impera. o Hegel da maturidade. a tarefa. oportunamente recalcado. de recuar. todo o tempo presente. a rigor.antes e mais do que fenomenologia uma lógica. fosse mesmo este o caso. precisando dar conta de seu próprio fundamento. iluminar-se-ia naturalmente um novo território lógico por conquistar. Tratando-se de filosofia. Tratava-se. algo superior ou mais à frente da lógica clássica imperante. a partir dela. por sua própria índole. que é o mesmo que compreendê-la em sua motivação desejosa e significação social última. algo que fora deixado para trás.

Duas seriam então as lógicas fundamentais: a lógica da identi- . Podemos sumariar as concepções filosóficas de Sampaio [6] dizendo que a lógica deve ser considerada um saber sobre os modos efetivos de pensar e não mera convencionalidade lingüístico-formal. no dizer de Sampaio. também com muita propriedade. Nietzsche (apostando no retorno vigoroso do mesmo). restaura-se o mundo da lógica conforme esta de fato se apresenta na tradição filosófica. que. que ele denomina lógica da diferença ou. e tantas e tantas outras coisas mais. Lacan iria isolar e denominar. E o que era mais importante: havia uma hiperdialética sucedendo a lógica clássica e subsumindo-a junto. subsumindo-a em conjunto com a lógica da simples diferença (ciclo contra-dialéico). pressupunha a dialética. mais exatamente. lógica do significante [5]. podia ser agora propriamente caracterizada como lógica da diferença reiterada. tal como hoje reivindicam os poderes acadêmicos. Heidegger (à escuta nostálgica do logos heraclítico). a simples condição de lógica recalcada revela-a como lógica trágica. podia-se então dizer que a dialética sucedia à lógica da diferença. assim como a lógica clássica ou da dupla diferença. Daí porque Platão precede a Aristóteles. A partir daí vislumbrava-se a verdade de um pensar potente para de fato compreender a ciência (e fazê-la instrumento) e a própria cultura que a sacraliza . Deleuze (surfando entre dobras e diferimentos) e outros . sucedia a dialética.14 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO xo). A lógica clássica. com a dialética e suas lógicas geradoras. lógica da simples diferença.a nossa própria Modernidade. Era ainda esta mesma lógica que operava nos inconscientes que a psicanálise tanto espreitava. Ora. Com esta concepção. porque o pai mítico precede ao filho submisso à lei de seus pares tanto quanto à gramática.e identificá-los como filósofos desta lógica esquecida. Tornava-se então mais do que evidente que a lógica clássica e agora também da dupla diferença. porque a patrística agostiniana precede a escolástica tomista. de modo necessário e desde sempre. subsumindo-a em conjunto com a lógica da identidade (ciclo dialético). lógica cínica dominadora. Com exatidão. inclusive. porque o socialismo científico do Outubro Vermelho teria mesmo que fracassar um dia diante dos desafios da ciência e da técnica.

I/D/D=I/D/2. também a si mesma. assim. a lógica clássica se constitui como uma analítica das totalidades por convenção. só que agora. e o que é real é racional). síntese das lógicas da identidade. lógica da tripla diferença. A partir delas. mas ao próprio poder fatual da ciência) e. D/D=D/2) subsume a dialética hegeliano/marxista (I/D). mas se recusa a confundir “co-pertinência” com estrita correspon- . das vicissitudes histórico-ideológicas dos últimos quase duzentos anos. da diferença. D/D/D=D/3. por convenção. Enquanto a dialética é um pensar sintético da totalidade enquanto tal. Cada lógica subsumindo todas as anteriores de que é síntese e. da diferença e dialética. hiperdialética qüinqüitária. por I e D. Por outro lado. são gerados os nomes de todas as demais lógicas. respectivamente. com o concurso da noção de síntese dialética generalizada representada por “ / ” (uma generalização da “intraduzível” aufheben hegeliana). ditas lógicas compostas: I/D. lógica da dupla diferença ou clássica. e não apenas na ordem transcendental (I). para que se vislumbre o caminho para a superação do “pensamento único” (D/2). Sampaio deixa. seguindo velha tradição. como reposta por Hegel (O que é racional é real. que se faz passar hoje por hegemônico. definitivamente claro. dialética trinitária. Aceita Sampaio a crítica heideggeriana relativa ao afastamento entre ser e pensar desde Platão e sua derivação em ontoteologia. Estas considerações formais são essenciais para que se possa dar conta do poder da ciência (hoje sob a forma de obsessiva informatização/sistematização do mundo) e para a compreensão. síntese das lógicas da identidade e da diferença. como a supera ao mesmo tempo que dela herda o poder totalizador. como havia sido posta por Parmênides (pois o mesmo é ser e pensar) ou dialético trinitário (I/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 15 dade (ou transcendental) e a lógica da diferença. a confrontação da dialética trinitária (I/D) com a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) é fundamental para a compreensão das limitações da filosofia hegeliana e marxista (frente não apenas à crítica científica. na ordem lógico qüinqüitário (I/D/2). D/D=D/2. síntese das lógicas da identidade. simbolizadas. deste modo. de que maneira a lógica clássica formal (lógica da ciência. em profundidade. dialética e clássica formal. a correspondência estrita entre ser e pensar. I/D/D/D=I/D/3 e assim por diante. Reafirma. também.

16 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dência.por isso pode ele hoje bem parametrizar a história da filosofia (história do esquecimento da questão do ser). dos modos efetivos de pensar). e é precisamente este o nível que se deve atribuir ao ser humano e à cultura. Passando pela antropologia filosófica e.. restabelece-se a posição pinacular do homem no universo que lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios . das demais filosofias . implica uma completa reestruturação do universo dos existentes. pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. 2. em todas as instâncias. Neste universo onto-lógico desdobrado nada existe de fato superior à hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2). daí. afirma Sampaio: . em plena consonância com o que está posto pela moderna antropologia estrutural. ou seja. capazes portanto de operar com .das lunetas ao Hubble -. que a ciência vinha progressivamente reduzindo à pura materialidade calculada (ciência bioquímica) e esta a Nada adequadamente recurvado (ciência cosmológica atual no que ela deriva da Relatividade Geral) [7]. da “mesmidade” de ser e pensar. aliás. a que ele diz se filiar. Isto posto. Esta última atitude distinguiria justamente as filosofias da esperança (Nietzsche as chamaria filosofias do ressentimento). associada à postulação. cínicas ou demissionárias.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). ganha aqui uma resposta bem precisa.trágicas ou nostálgicas. Esse afastamento era inexorável . onde então se pode repor a questão do estatuto do ser do homem. a uma antropologia cultural de índole histórica hiperdialética Seguindo as indicações de Sampaio. pode-se afirmar que o desvelamento/ordenação do universo lógico (ou seja. O estado de “co-pertinência” entre ser e pensar só pode ser de novo alcançado como resultante de uma visada transcendente. A passagem da natureza .. reverte-se o processo de “degradação do homem” promovido pela modernidade.[8] A velha razão suficiente leibniziana que responde à questão ontológica (no caso: por quê existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. Natureza?). o necessário produto e meio correlato desta sua capacidade operatória.

como era de se esperar. porém. a duplicava ou reiterava. Não se pode precisar a partir de quando a questão do ser do homem veio referenciar-se ao ser animal. dir-se-ia agora). pois perdia em termos de integridade e auto-determinação. habitado pelo logos. com o logos. do seu ser identitário. Precisamente aproveitando-se deste equívoco foi que o pensamento cristão pode realizar o prodígio de transformar a diferença que diferenciava numa identidade. A passagem do animal . e até muito mais. a diferença que os separava foi considerada como de natureza lógica: o homem é o animal habitado pelo logos. sem prejuízo.a diferença clânica. Do ponto de vista instrumental ou objetivamente operatório o homem é sem dúvida ser racional. O logos ampliava a capacidade lógico-analítica do animal. Inaceitável. O único erro aí cometido teria sido fazer do logos uma diferença essencial e irredutível. Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. O logos poderia se constituir deveras numa diferença especificamente humana. o homem estaria ganhando de um lado e perdendo de outro. como razão aristotélica (D/D). Tratava-se de uma concepção inconsistente. E. seu estatuto lógico tem que ser na verdade lógico qüinqüitário ou hiperdialético.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 17 símbolos convencionais (I/D) . Se assim fosse. expressa em termos antropológicos. dado que o logos.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) . capacidades sintéticas já reconhecidas como operantes no reino animal superior. ao preservar sua capacidade lógico-identitária herdada da animalidade superior (cordados). o fato é que. entretanto. já a posteriori articulado. o homem podia operar de modo duplamente lógico-diferencial (racionalmente. existencial ou subjetivamente operatório. que vinha por si só caracterizar o ser humano e não para se articular e/ou ampliar características e potencialidades operatórias de algum modo semelhantes pré-existentes. a rigor. desde que viesse para se compor com características operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo re-produzindo-as em nível operatório superior. mas assim o foi desde os tempos de Heráclito e com maior certeza nos de Aristóteles. como capacidade essencialmente analítica não podia caracterizar o homem em sua totalidade ou “maximalidade”.

para daí então alcançar. ou corporeidade libidinal (D) ao historicismo absoluto de Hegel (I/D). liberdade. lógico-diferenciais. é verdade . E é precisamente neste ponto que se deve retificar o pensamento estruturalista moderno. ou mesmo profundeza cultural (D) ao historicismo materialista de Marx (I/D). mas sim da identidade . passa a ser definida como diagonal de uma estrutura lógica quadripolar {I. alma. por exemplo. que permite a definição de regras de proibição de incesto em paralelo à imposição da exogamia. D.privilegiado. A diferença clânica. espírito etc. historicidade (I/D) à antropologia estrutural lévistraussiana (D).18 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ao homem não se devia mais a algo da ordem lógica da diferença. o fizeram em relação aos negros escravos e hesitaram não fazê-lo em relação aos índios). negar “animalidade” aos animais (como. Masculino/ feminino são assim os dois modos possíveis de realização do ser hiperdialético (I/D/2).daquela produção “genea-lógica”. I/D. mais tarde. restituindo ao animal a integridade lógica (I) e. contrastando com a bipolaridade {I e D} animal macho/fêmea. e o par {I/D e D}. por conseqüência. de modo hiperdialético qüinqüitário (I/D/D).sopro. isto é. Para a antropologia filosófica de Sampaio bastaria dizer que o animal superior opera de modo dialético trinitário (I/D) e o homem. ou seja. D/2}: o par {I e D/2} representando o masculino (pai e filho). ao mesmo tempo. Veja-se como se queira: estar-se-ia assim conferindo.. A sexualidade humana. tal como o haviam feito os gregos [9]. mediante uma segunda diferença. consciência. a historicidade dialética I/D). Apenas isto entretanto não basta. pois. seria um dentre muitos modos de manifestação . Esta se atualizaria ainda doutros modos. tanto (I) / (D/2) quanto (I/D)/(D) são . mas no fato de estar repondo a questão em seus devidos termos. pois continuaríamos insistindo perigosamente no mesmo equívoco grego. indiferentemente. o importante não está na resposta que viria dar. a historicidade hiperdialética (I/D/D). Não se apercebiam que isto era. Observa Sampaio que quando Lévy-Bruhl coloca o problema da vigência de uma mentalidade pré-lógica entre os povos primitivos em contraposição a um pensamento verdadeiramente lógico dos povos modernos. nem mesmo depois de especificada a diferença clânica. se pergunta se os primitivos têm ou não lógica (clássica formal). o feminino (filha e mãe).

onde Sampaio afirma: Quanto à significação religiosa. vale dizer. Na versão fraca do princípio. ao invés do super-homem. entretanto.. uma prova de que aquelas constantes teriam sido “intencional e convenientemente ajustadas”.do princípio antrópico [12]. Segundo ainda Sampaio entre as grandes tarefas da antropologia filosófica (ou filosofia da cultura) estaria o empenho na decifração da significação cósmica e religiosa do homem. o sentido de sua existência frente ao Absoluto. uma feliz coincidência. Somos de opinião. Sampaio acha que isto não nos deve consolar. porém.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. porque na verdade aí se revela mais uma vez a pré-potência do pensar científico. orientado exatamente no sentido inverso: . que depois de quinze bilhões de anos levou à emergência da espécie humana. O princípio baseia-se na constatação de que o curso do big bang. é pormenorizadamente tratada em A superação das idolatrias . A significação religiosa do homem. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão recuperará o seu interesse maior. segundo o princípio. cremos que nada há por enquanto de relevante. uma renovação profunda de nossas concepções onto-lógicas. está em estreita dependência da precisão dos valores de um pequeno conjunto de constantes físicas universais. dando alma a uma nova versão . Ele aceita a postulação de um princípio que guarde a inspiração do original. para as vestes e pinturas corporais consideradas como sendo uma terceira pele [10]. não importa a versão. muito mais. não há ascensão. na versão forte. mas sim o descenso do homem ao nível dos entes científicos.nem forte. para a moderna organização racional do trabalho.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 19 iguais a I/D/D = I/D/2. entrementes. [13] . Estruturações semelhantes vigeriam para as línguas naturais. nem fraca. o super-cosmos elevado à altura do homem logicamente à sua espera. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. Circula hoje a idéia de um princípio antrópico [11] postulando a existência de uma correspondência constitutiva entre o cosmos e o homem. e certamente. pois.. Os caminhos para tanto pressupõem. mas significante .

Depois vêm as culturas propriamente lógicas: judaica. No entanto. A história do homem seria assim a história da cultura. em cada cultura. Começa-se com as culturas tribais de caçadores/coletores do paleolítico. greco-romana. são seus próprios modos “desviantes”. mas a própria complexidade do processo hiperdialético permite uma série de tipos não nodais: anômalas. I. a Modernidade só será superada por uma cultura nova. é resolvida por Sampaio concebendo a história humana como história do insistente (mas não monotônico) autodesvelamento do seu próprio ser lógico-qüinqüitário [14]. D/D=D/2. pré-D (uma proto-diferença). telúrico ou libidinal (D).20 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A conciliação entre a tese da equivalência de todos os homens no que lhes é essencial e distintivo . prometéica.não há quem não esteja a seu favor -. cristã patrística trinitária I/D. pois. Esquerda e direita. Hoje. pré-I (uma proto-identidade que ainda se ignora) seguem-se as culturas neolíticas ou imperiais antigas de base agrícola. trata-se do sujeito liberal (I). a direita. de transição etc. ela se concentra exclusivamente sobre a questão de quem deva ser o sujeito da ciência: para o paradigma anglo-saxão. mistas (de que seríamos um bom exemplo). lutando pelo perfeição ética (I/D). Estas formam a seqüência das culturas nodais. O desvelamento de uma lógica implica necessariamente que dela se alcance uma representação simbólica objetiva. na variação temporal de seu vigor criativo.e a historicidade das culturas que se revela. para Paul . D.. para a esquerda. para a direita. dentre outras maneiras. tem por essência a sacralização e guarda de seu núcleo lógico invariante. científica. modos simétricos de um delirante estado almejado de perfeição. na enorme disparidade de poder de determinação de uma sobre outra.seu nível lógico operatório . romântico. a rigor. nada podem contra a Modernidade. do sujeito coletivo ou comunitário (I/D). na linhagem das culturas lógicas identitárias (culturas do tempo. como demonstrado pela História. pela perfeição estética (D). do Deus único. processo hiperdialético de desvelamento do seu próprio modo de ser lógico. A religião. A visão ideológica da Modernidade não tem a menor preocupação em fazer a crítica da ciência . A esquerda. do sujeito inconsciente cultural. A cultura moderna está associada à ciência e à lógica clássica formal que a governa. domina a cultura moderna.

que. que por isso irá se constituir em lógica de seu permanente desassossego. pensada por sua lógica oficial. toda cultura finge já ser ou incorporar as virtudes daquela que a ameaça e esta. para Toynbee) [15] enfim. para superá-la. pode enfim abrir novos caminhos para uma melhor compreensão da efetiva articulação entre ser-social e ser-pessoal. o desejo da cultura. similar ao desejo inconsciente pessoal. que busca sem descanso recuperá-lo. Sampaio propõe que se correlacione uma cultura não só com uma lógica manifestamente assumida (oficial ou sacralizada). convenhamos. ou seja. assim como com a lógica da cultura que a irá suceder. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. uma nova utopia em seu justo sentido. De outro lado. simula ou finge ser o que ainda virá. Isto nos faz compreender. através de um processo de reiteradas substituições. como as culturas. O ser correlato à lógica recalcada acaba se transformando no objeto de desejo da cultura de referência. técnicas e múltiplas artes. é o melhor que poderia . conhecimentos. porém. A efetividade da crítica e dos esforços para a superação da Modernidade exige portanto sua prévia re-historização.. o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. instituições. sob “forma” ou “roupagem” sacralizada. Como diz Sampaio: Toda cultura. afinal. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. Ao sentir-se ameaçada.. Para se alcançar uma mais exata compreensão da dinâmica cultural. culturas espirituais. terá que necessariamente desmascará-la por este estratagema. Como fazê-lo sem antes iluminar o horizonte de sua superação possível? A re-historicização da Modernidade é para Sampaio uma condição sin ne qua non para hoje pensar (e agir) subversivamente. mas também com a lógica que ela supera e recalca.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 21 Tillich. fica a lógica da cultura que irá suceder à cultura de referência. Segundo Sampaio estaria aí identificado: .[16] Esta concepção parece ser de grande importância teórica na medida em que o reconhecimento de um desejo social. isto é.

Mais importante do que tudo. assuma um papel de excepcional relevância. mas aristotélico-tomista (D/D). Isto nada mais é do que querer ver o mundo reduzido a apenas três variáveis fundamentais . pois não há melhores indicadores do real nível de vitalidade da Modernidade. nesta cultura. como o da cultura cristã trinitária. racional. assim tão drástico. são bastantes os sistemas de medidas. seria preciso observar as manobras de fingimento que denunciam o grau de temor da Modernidade em relação ao seu futuro. então. Não se pode por isso mesmo relaxar na vigilância dos sinais que possam testemunhar do vigor da física. [17] Acredito que. na circunstância. não se exclui desta perplexidade. não haja quem não desconfie que um tal esquematismo. o corpo. chega-se a uma compreensão da história da física de inexcedível clareza [18]. à vista da aproximação da era da ciência. Aí. mas sob a “forma” incorruptível ou espiritualizada (I/D). cgs. Até o próprio Sampaio. Como cultura dialéticotrinitária (I/D). A partir daí. Por outro lado. à primeira vista.tempo. Sampaio identifica a física como o cerne da Modernidade em razão de sua obsessiva pretensão de medir (D/D) o mundo tido como simples manifestações do unotrino (I/D). os acontecimentos são por demais claros e “auspiciosos”: . Depois. ou seja. seu real desejo será da ordem da lógica que a antecede. não mais platônico-agostiniana (I/D). escolástica. mks. como encontrar um bom contra-exemplo para pô-la em cheque? Em contrapartida os exemplos favoráveis não faltam. etc). se irá ver a cultura medieval cristã antecipar-se fingindo-se já Moderna. seja capaz de dar conta das passagens críticas do processo histórico cultural. fazendo com que ela. Tal desejo encontra precisamente na arte sua melhor expressão metafórica. A impressão é que melhor não se poderia pretender. A propósito disto. enfim. de modo confesso. porém. seria que o esquema não falhasse na compreensão da Modernidade.22 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. mormente em seu momento atual. espaço e matéria (por isso. Sampaio chama a nossa atenção para a grande quantidade por aí de “museus abarrotados de arte sacra” cristã. lógica da diferença (D).

se assistirá à reação desesperada: a ordem virá para a degola dos recém nascidos. Isto traz implícito que teríamos mesmo uma só destinação . ter problemas crônicos de nela ingressar. já. Já houve um grande esforço para se chegar a uma interpretação ideológica da marginalidade brasileira e Sampaio debita seu fracasso a causas que lhe são imanentes. o que justificaria os seus ingentes e continuados esforços para superar tal situação. Ele acredita que dualismo há. biblicamente instruídos. mas com toda a prudência. As ideologias têm de comum o propósito de apenas substituir o sujeito individualista sujeitado à ciência por um outro: a esquerda. aquela condição marginal tem sido diagnosticada como a conseqüência de um persistente dualismo: Brasil moderno/Brasil arcaico. menos retrospectivo do que propriamente prospectivo. a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . como se reservando para algo maior ainda por se realizar [20]. tida como de atraso. etc. sem mais. a boa nova: os prodígios da biopirotecnia. todos os dias. mas desconfia da natureza que em geral se lhe atribui. um imerso na Modernidade. outro que a ela se recusa. Ademais. Ou será que.alcançar o atual paradigma social anglo-saxão. Como sempre. mas bem outra sua natureza: ele seria mais cultural do que econômico. tal como interpretada pelas elites políticas e intelectuais da nação. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! [19] Como recusar tantas e tamanhas evidências?! Para Sampaio seria esta a hora de agir. 3. Sampaio não nega a condição de marginalidade nem o malestar daí decorrente. Brasil-Bélgica/ Brasil-Índia. Parece-lhe paradoxal que uma nação nascida com a própria Modernidade possa. sem jamais esquecer ou menosprezar as grandes lições da História (da cultura).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 23 Na TV e por todo canto. sempre com a mesma implícita conotação econômica. As opções culturais brasileiras – luxo ou originalidade (e seus riscos) Existe um quase consenso acerca de que o Brasil ocuparia uma posição de marginalidade em relação à Modernidade. etc. pelo . Haveriam sim dois brasis. em última instância. Esta seria nossa razão de ser histórica.a vida eterna.

que é sua especialidade) os seus velhos inimigos para que por aí fiquem vagando impotentes. Quem sabe. mesmo que não seja esta sua intenção. relativizar a Modernidade permitindo que a vista alcance mais além. todos nós estaríamos capacitados a de pronto perscrutar os sinais de fraqueza e declínio. fosse à esquerda. faz as vezes de profeta. esperança bem fundada de uma nova cultura. dificulta a sua . Como se viu anteriormente. o que leva a uma angustiosa inação [21]. para além da Modernidade científica e “mercado-lógica” existe a esperança. como para além da lógica clássica existe uma lógica hiperdialética qüinqüitária. pelo sujeito romântico ou libidinal. Esboçando as características mais marcantes da cultura nova. o que no fundo traduz idêntico desejo por um capitalismo perfeito. o Brasil se caracteriza pela confluência de um amplo leque de culturas. seus beneficiários não se disporiam até a ajudar (financeiramente. fosse à direita. Sampaio.24 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito coletivo. para evitar maiores riscos. uma concepção da história da cultura como auto-desvelamento do ser lógico do homem é o bastante para re-historicizar a Modernidade e iluminar o horizonte de sua possível superação. que se por um lado. bem como as oportunidades de ação cultural que ao mesmo tempo acelerem e minimizem os custos (historicamente enormes) do processo de superação da Modernidade. Fingimento e Superação na História da Cultura [22]. E chama a atenção que nas circunstâncias atuais. mas ocupando todos os lugares?! Jamais houve ou poderia ter havido saída lateral. Conforme Sampaio. A única saída viável estaria em investir numa crítica da cultura capaz de desbloquear o horizonte histórico. econômicos e culturais. a direita. Com o descortino dos mecanismos lógicos da dinâmica cultural em Desejo. Volta ele então à Historia do Brasil para compreender que sua marginalidade é também de certo modo resistência propositada. na medida em que ela não admite qualquer possibilidade de que se transcender a cultura em que se vive. Assim. a crítica ideológica é o que mais pode desejar o pensamento único. Ele mostra que dentre elas estariam a re-significação cósmica [23] e religiosa [24] do homem e a completa renovação das relações indivíduo/sociedade sob os aspectos políticos. É também por isso que Sampaio acha insuficiente a crítica frankfurtiana.

Sugere Sampaio que o Brasil se constitui. Deduz-se daí que a opção pela originalidade não está isenta de grandes riscos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 25 modernização. quanto ao limite expressivo) e da nossa música em todas as suas variantes.a continuada traição das elites políticas/econômicas e a alienação das elites culturais. em especial. finge-se pós-modernidade. vale dizer. entretanto. a TV. Afinal. em especial. fica um sério problema que ele identifica. qual a significação última desta desmedida NARRATIVA de Luiz Sergio Coelho de Sampaio jus- . constitui a base necessária à edificação de uma cultura nova realmente após moderna. a seu ver. No entanto. bem outra é reconhecê-lo ou não como acontecimento. mas duas: ou o luxo ou a originalidade. como nos instrui o Velho e o Novo Testamento. a seus cálculos. No cerne desta estratégia. Pode por isso continuar insistindo. a causa vale a pena. que seria aquela do esmorecimento do vigor criativo dos laboratórios científicos centrais. a fazer nascer no mundo uma nova cultura. A cultura dominante. e tenta a todos seduzir ofertando a vida eterna aqui mesmo na Terra através dos poderes cada dia maiores do que ele jocosamente chama bio(piro)tecnologia. No caso presente. quando desesperada. estes possam ser para ela mais perigosos. em entrar para o “Primeiro Mundo”. não estamos onde tudo acaba. por outro lado. E. Mas de qualquer modo. deve-se desenvolver em e para o Brasil uma estratégia cultural para sobreviver até à chegada da melhor hora. estaria a preservação com unhas e dentes das condições mínimas vitais para a criação e circulação da produção cultural brasileira e. talvez. Fosse o caso geral. ordenar a degola dos nossos terroristas recém-nascidos onde. muito ao contrário. mas pode alternativamente lançar-se na grande aventura da construção de um novo modo de ser pessoal. mas não o vimos aportar a solução: o ódio das elites ao povão . aqui se concluiria. E que portanto o Brasil não tem uma só destinação possível. já hoje finge ser sua própria posteridade. tanto denotativo e preciso. ainda que um pouco tardiamente. ao que pudemos perceber. para os próprios brasileiros. estamos sim onde tudo a rigor começaria. mostram insistentemente todos os meios de comunicação de massa. no único perigo real para a cultura dominante e também por isso. ela irá. Apreciar e mesmo julgar um trabalho intelectual é uma coisa. a defesa da língua (pelo uso. coletivo e cósmico. Por tudo isso.

cit. S. EDIPUCRS. aliás. capaz de se por na pele do outro (simbolicamente expresso pelo uso . 10. CÔRTES GUIMARÃES./FINEP. S. 1995.os neohegelianos. cit. Indiana U. capaz da piedade (Rousseau). “Noções de antropo-logia”. ______. logicamente otimistas. 9. 2000. fasc. “Acerca da lógica e da cultura”. de. S. 1988. abril/junho 1999. SAMPAIO. 7. Sumário das contribuições à filosofia. Incluído no volume ora prefaciado. 6. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. “A grande tarefa de nosso tempo: Uma nova filosofia” in Revista brasileira de filosofia. SAMPAIO. 5. ______. CÔRTES GUIMARÃES. Tendências da filosofia brasileira contemporânea . Porto Alegre. SAMPAIO. Projeto de pesquisa para o CNPq. Rio de Janeiro. já está em Nietzsche. Dado que o sistema nervoso central deriva da invaginação do próprio ectoderma. 1999.26 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tamente neste momento de convergência do pós-moderno europeu continental e do pragmático anglo-saxão transatlântico (especialmente. S. acabando de acordarem que a grande narrativa simplesmente não há?! Aquiles Côrtes Guimarães do Departamento de Filosofia do IFCS-UFRJ NOTAS 1. C. S. Paulo. de. L. C. mas de dominá-la.. “Lógica da diferença” in Revista brasileira de filosofia. Oficina do Autor/etc. 8. Rio de Janeiro. Paulo. pode-se dizer que os cordados são dotados de uma dupla pele. L.” 4. acerca do advento da cultura nova pós-científica” in Pensamento original made in Brazil. o homem. Rio de Janeiro. 1999. Por fim. L. e também “Sumário das contribuições à filosofia da parte de Luiz Sergio Coelho de Sampaio”.194. Esta disposição geral. 2. M. Aquiles. Segundo Sampaio. de. C. Antônio. fasc. op. isto é. 189. op. in Pensamento original made in Brazil. ser vivo implica ser dotado de uma membrana osmótica – a primeira pele. Problemática do culturalismo. PAIM. “Reflexões. HEIDEGGER. Hegel’s pPhenomenology of spirit. Aquiles. que em O livro do filósofo afirma: “Não se trata de aniquilar a ciência. Bloomington. novembro de 1994. EdUERJ. Rorty). 1998. 3. P. Rio de Janeiro.

“Desejo. 23. julho de 1999. op. 1998. seria dotado. 16. 20. 12.______. 21. 15. 1993/1997 e. S. SAMPAIO. Rio de Janeiro. op. L. cit. “A superação das idolatrias . Hegel e Marx”. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. op. Incluído no volume ora prefaciado. fingimento e superação na História da Cultura”. Ibid. L. UAB.______. Incluído no volume ora prefaciado. de. de uma terceira pele. . “Princípio antrópico . Ibid. novembro de 1999. 11. “Crítica da modernidade”. “Reflexões. op. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. “Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira”. novembro de 1999. “Noções de Antropo-logia”. “Desejo. Rio de Janeiro.______.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. 14. Tillich.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. 1999. C. cit.um novo fundamento e uma significação renovada”. S. “A superação das idolatrias . 19. Incluído no volume ora prefaciado.______. Apontamentos para uma história da física moderna.______. 24. mais recente.______.______. de. setembro. Incluído no volume ora prefaciado 17. Rio de Janeiro. Incluído no volume ora prefaciado. figuradamente. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. logicamente otimistas. Incluído no volume ora prefaciado. ______. cit. acerca do advento da cultura nova pós-científica”.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 27 de roupas ou pinturas corporais). SAMPAIO. op. C. cit. 22. Rio de Janeiro. 18. fingimento e superação na História da Cultura”. ______. 13. “A história da cultura segundo Toynbee. cit.______. op. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. Rio de Janeiro. outubro de 1999. cit.

acolhendo. aqui . estatísticas de importação de secos e molhados ou faturas sacadas contra a Santa Casa da Misericórdia? É óbvio: nisso não há mal algum.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 29 Apresentação O que se pretende? Inicialmente. na verdade.este é modo preponderante do “acontecer” no Brasil -. Recomeçar: preliminarmente. refletir: por que. não apenas o que há para . ou sobretudo. hipótese aventada por LévyBruhl e que teria sido radicalmente banida pela antropologia estrutural lévi-straussiana? E o reflexo. Considerar o novo mapa do território lógico. de coração aberto. da sociologia da cultura. também. tão só. não garante verdades de bom peso. além da etnologia. isto é. das antropologias de diferentes matizes. mas. a lógica ressuscitada. de tal querela? O que. uma filosofia da cultura? Por que existe a cultura e não somente nada (de cultura. até pelo contrário. às vezes. pelo mais inócuo: o exercício de vasculhar receitas em antigas farmácias homeopáticas. ganhou-se até agora substituindo o evolucionismo (discurso do colonizador de maus bofes) pelo relativismo multiculturalista (discurso do bem-bom colonizado) ou. lógica que há muito parecia morta. natureza)? Pôr em dúvida: estaria mesmo encerrada a disputa acerca de um suposto pensamento pré-lógico dos “povos primitivos”. cortada e as partes defumadas pelo formalismo imperante.

E. também. mistas. Fixar. em novos termos (vale dizer. assim como as enrolações . tida esta como apenas um modo metafísico de ser do homem (Heidegger). nem monotônico) auto-desvelamento do ser lógico-hiperdialético do homem (uma renovada fenomenologia de um espírito mais elevado. Não há saída nem à esquerda nem à direita. Por conseqüência. desde os pequenos bandos de caçadores/coletores do paleolítico à atualidade. Um zoom sobre as origens e fases da Modernidade para melhor inspecionar-lhe as entranhas (como foi um dia prática de adivinhos).30 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recuperar. a partir daí. Retomar: agora. sem descanso. desnecessariamente violentas (é só somar seus mortos empilhados ou no ar volatilizados ao longo do século XX). de transição etc. mesmo reconhecendo os méritos. das primeiras originarse-iam. primeiro e único. bem à vista. de mil maneiras. justo por tanto. especialmente. a temática lógica/cultura. logo. Descartar as ideologias por impotência e. Escarafunchar a dinâmica cultural em sua essência: desejo. desde os gregos). Revisitar: a história da cultura doravante considerada como o processo do paulatino (nem monótono. posto inteiro na ciência. das TVs. em todos os jornais impressos e nos horários. teríamos que considerar pouco mais que meia dúzia de culturas nodais e inúmeras culturas não-nodais – arcaicas. calculado na cruz – e não se deixar enrolar pela promessa da vida eterna now. as raízes de uma antropologia lógico-filosófica – o homem como ser mundano lógico-qüinqüitário. mas nem por isso tornado santo ou absoluto). fingimento e superação na história da cultura. – que. sim. não nos basta a crítica da técnica. por obra e graça da biopirotecnia que se anuncia. mas igualmente o que há para se avançar e conquistar. Chegandose à Modernidade. dos nobres aos mais pobres. atentar para o seu desejo. na física – o unotrino sob a roupagem lógica clássica formal.

Tão propositada quanto obsessivamente. Resistir: olhar e não desviar os olhos do que se verá. Enfrentar a questão cultural brasileira na presente conjuntura. religioso e social. com fundamento na substituição preventiva. Cassirer compreendia e queria assim. nem que seja um mero “buraco de verme . também copiando) o fascismo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 31 comunicativas em que se transmudou a badalada Escola de Frankfurt. não deixar qualquer falsa passagem. Ganhar. não fora a troca que fizemos da temática da alma por aquela do indivíduo/sociedade. em suas dimensões política. a re-historização da Modernidade. Três idéias que se poderia dizer kantianas. de outro lado. este. driblando a censura branca . econômica e propriamente cultural. se arriscar na criação de uma nova cultura. vermelha e negra por todos os lados. já nos espera. Anunciar bem alto: temos opções – de um lado. escolher o luxo (que agora já é lixo) ou a originalidade. esta bem mais sutil. pois não há outra alternativa metodológica à crítica lógicofilosófica da cultura. criminalizou todo e qualquer ato de legítima defesa cultural (com exceção. Pintar e bordar com linha grossa – é o que nos é hoje permitido – como a cultura nova implicará na re-significação do homem sob três grandes aspectos: cósmico. a certeza de que uma cultura nova lógico-hiperdialética advirá. Concitar à resistência: assumir os riscos da opção pela cultura nova lógicohiperdialética. de qualquer maneira. escolher o que. que. da cultura hegemônica etnocida e suas cúmplices e/ . e avançar. naturalmente. se assanhar e se prostituir com as sobras da Modernidade. mas infelizmente se deixou dobrar frente à fantasiosa onipotência do discurso científico. apesar da grande armação. mas também não amarelar. então. acima. do caráter não extensional pela autoreferencialidade. por sua vez. faturando (de certo modo. Forçar. não enrubescer.

deixando claro para as histórias futuras que a traição das elites políticas e a demissão das elites intelectuais do Brazil nunca foi assim tão ingênua quanto de costume. tenha sobrado alguma coisa!). Por isso. para o Egito. depois que chegamos ao ponto de ver um Presidente da República e seus pares quadrilheiros tramaram a substituição do sufixo BRAS no nome de uma empresa brasileira por considerá-lo depreciativo. Ter bem presente que é para voltar tão logo se possa. Estampar o registro de pelo menos uma dentre as muitas intervenções por nós realizadas em foros governamentais e acadêmicos. coincide já agora com aquela da restauração da legalidade. é preciso se fazer estratego: se abaixar no mato ou fugir. depois dos fatos acontecidos. Ouvir com seriedade o alerta bíblico reiterado: a Modernidade. não se deixará superar sem antes ordenar a degola de todos os supostos terroristas recém-nascidos. tentam elas nos fazer acreditar. este texto passa a ser também um brado de protesto e uma clara conclamação à resistência ativa e por todos os meios efetivos e eficientes. da compostura da autoridade e da dignidade da nação (na hipótese que desta. posto que a causa. como qualquer outra cultura lógicodiferencial. . no fundo.32 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou associadas). hoje. posto que a escolha fundamental terá que ser sempre a liberdade e não as águas do Nilo. E. por algum tempo.

muitas vezes lidando com informações de segunda mão. a segunda.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 33 1 Porque. também. a antropologia especificamente cultural. a etnologia. a história da cultura (ou das civilizações). uma filosofia da cultura Ce que la culture promet aux hommes. explicitando inter-relações funcionais entre os múltiplos aspectos. ainda que um tanto redutora. Cassirer – Logique des sciences de la culture Por que também uma filosofia. a sociologia da cultura? Poder-se-ia argumentar que a etnografia e a etnologia cuidariam apenas de culturas particulares: a primeira. et c’est la seule chose qu’elle puisse leur donner. estudando as relações com o meio geográfico. procedendo a análises comparativas inter-culturais e a descrição e avaliação de eventuais processos interativos entre culturas [1]. estribando-se sobretudo no trabalho de campo. mais de mériter ce bonheur. por um viés mais compreensivo. ao se perguntar pelo homem em . A antropologia. elaborando modelos. a arqueologia” das culturas (ou das mentalidades) e. antropologias de diversos matizes . ce n’est pas de gagner le bonheur suprême. funcionalista e estrutural -. E. se para cuidar da cultura já temos a etnografia. por um viés fenomenológico/descritivo.evolucionista.

configurando uma mentalidade ou o “estilo de vida” de uma época. em sua versão estruturalista as culturas se apresentariam como realizações. em boa medida. Em sua versão evolucionista ela se preocupa em adjudicar posições mais ou menos retardatárias numa escala que iria da animalidade à cultura do antropólogo em exercício. admite que a integridade do sercultural corre por conta da cerrada e coerente trama de relações entre os seus diversos aspectos e dos seus mecanismos internos de auto-regulação. com elevado grau de congruência. a sociologia da cultura vai se apresentar como o estudo do sub- . prefere ver a cultura como sendo a realização de imensa teia descentrada de relações. das possibilidades combinatórias de uma matriz ou estrutura formal subjacente. A antropologia cultural é quase um pleonasmo. arte.). irredutível. por definição. A arqueologia das culturas ou das mentalidades. já menos antipática. funcionalista. representações e fórmulas rituais religiosas etc. topa de imediato com a cultura como sendo seu traço mais essencial. assume um ponto de vista dialético. os processos de reprodução dos seus poderes e de sua integridade. A partir daí confunde-se o ser homem e ser cultural. procurando delinear uma totalidade/processo em que as culturas se apresentam apenas como momentos de relativa estabilidade. A sociologia desde suas origens se assume ciência positiva. tomando a sociedade como um objeto em si (sistema social). neste quadro de referência. para a antropologia política. todos eles justificados por sua contribuição à sobrevivência do grupo. A história das culturas. deixando o resto a cargo de antropologias vizinhas: para a antropologia econômica ficam os processos de reprodução material do grupo concreto. inconsciente para seus portadores. mas se justifica pela seleção e ênfase que dá às manifestações propriamente simbólicas (língua. à exaustão. que se aproxima da antropologia estrutural.34 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO geral.

que poderia trazer ainda de novo a filosofia da cultura? O ponto de vista da filosofia. diferença primordial entre o ser e o nada. com ares de certa gravidade. a especificidade da filosofia da cultura recairia justamente no enfrentamento daquela mesma pergunta. Não queremos dizer aqui que a preocupação ontológica seja coisa inteiramente nova no âmbito dos estudos da cultura. valeria compararmos. que podemos já agora identificar como sendo Natureza). para descartar ou subsumir é tradicionalmente aquele da pergunta pelo ser. pela essência última da cultura. Para ilustrar. de dar conta da diferença entre culturas estatuídas e até mesmo de universais culturais. enquanto que na filosofia da cultura a preocupação básica seria onto-lógica. ínclita guardiã da diferença onto-lógica. ao lado do sistema econômico e do sistema político. por exemplo. Ela de fato sempre esteve presente quando se perguntou de modo radical e sem preconceitos. fosse onde fosse. filosofia da cultura. voltada para o esclarecimento da diferença originária e abissal entre cultura e nada de cultura (Natureza). No cerne da filosofia da cultura estaria pois a pergunta pelo ser da cultura. para afirmar ou para negar. Estariam também no círculo das preocupações da filosofia da cultura (ou da antropologia filosófica) . a etnologia e a filosofia da cultura: a primeira teria uma preocupação apenas ôntica. transladada agora para o âmbito regional da cultura: por que há cultura e não tão apenas nada (de cultura. O que se quer aqui precisamente enfatizar é tão apenas que um tal questionamento não poderá deixar de estar presente de maneira conspícua num texto que se intitula. não se distinguiria de uma ontologia fundamental. Bem. depois de tudo isso. Isto posto. sinteticamente expresso por Leibniz [2]: por que existe algo e não tão somente nada? A filosofia. desta sorte. pelo ser do homem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 35 sistema cultural (ou simbólico) de uma particular sociedade.

a infinitude. a impossibilidade de uma efetiva totalização experiencial -. dado que o que aí se está buscando é um sentido último.apenas uma grande obra bastaria -. qual o sentido da presença do homem no cosmos? Segunda. qual o sentido da existência humana frente ao Absoluto. ou seja. por fim. qual seria sua significação em âmbito religioso? Terceiro. totalidades não acessíveis à experiência e.com as três idéias da razão pura kantiana. mas a auto-referencialidade.36 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tudo aquilo que de mais relevante houvesse no sentido de garantir a consistência da resposta dada à questão: que é o homem? Se aceitarmos que a significação é sobretudo uma exigência de contextualidade. por conseqüência. a auto-contextualidade social se torna também imperativa na medida em que reconhecemos na cultura o fundamento último da unidade do sersocial. a divergência se deve a que o critério de seleção em Kant é francamente negativo . sem referentes objetivos [3]. não deve ser pois a perigosa infinitude [4]. A experiência de qualquer autêntica obra de arte .o cosmos. A nosso juízo. chegaríamos à conclusão que três grandes questões se nos impõem: Primeira. ele põe a alma. Destoariam elas em apenas um ponto: onde pomos a sociedade. que representa a condição de ser-social do homem ou. a nosso juízo. o Absoluto e a sociedade . O cosmos precisa ser seu próprio referencial (eis a razão profunda das discussões acerca do papel da teoria da relatividade na cosmologia). o Absoluto. ainda que de maneira si- . O critério de escolha das idéias/contextos. pode facilmente nos instruir sobre o que significa ser. de modo equivalente. é necessariamente referencial de si próprio. enquanto que o nosso é intencionalmente positivo . quase que só pelo nome. qual o significado real das relações indivíduo/sociedade? Somos quase que imediatamente impelidos à comparação destes três contextos .a auto-referencialidade.

A filosofia da cultura. pelo fato da filosofia não se recusar a atribuir seu próprio status àquilo mesmo que a nega.estreitamente dependente dos valores de um pequeno conjunto de constantes universais . não .e a existência da espécie humana. até de maneira radical. uma renovação profunda das concepções onto-lógicas vigentes [7]. o próprio Criador) a dar testemunho daquele processo [6]. naturalmente. recuperará o seu interesse maior. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. o econômico e o propriamente cultural. de costume. e isto ocorre. é um saber com a peculiaridade de incorporar sua própria história. muitas vezes. Somos de opinião. convenhamos. estabelecendo um compromisso originário entre o processo cósmico (hipótese do big bang) . já pelo que lhe vem da tradição. talvez. é única (afora. cremos que nada há por enquanto de relevante. lembremos o já acontecido com todos os positivismos e o que hoje acontece. de parte a parte. Quanto à significação religiosa. segundo as três dimensões fundamentais do ser-social – o político. A filosofia. no nosso entendimento. Os caminhos para tanto pressupõem. com a psicanálise. se lhe dá. e isto. indivíduo e sociedade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 37 mulada. Já circula amplamente nos meios mais cultivados [5] a hipótese de vigência do chamado princípio antrópico. que afinal. que consideramos inevitável. A relação indivíduo/sociedade [8] precisa ter sua compreensão radicalmente revista para que se afaste em definitivo a simplória conotação topológica conteúdo/ continente que. o referencial de si mesmo! A questão da significação cósmica do homem vem sendo completamente renovada em função dos recentes progressos da cosmologia científica. Sem isto torna-se impossível perceber a complementaridade onto-lógica que condiciona. entretanto. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão. bem sob nosso olhar. Só para exemplificar.

cultural). nas histórias de longo curso. e de tudo mais que à sua volta acontece e que por natureza nela e por ela reverbera. na etnologia. econômica. . Assim. nos saberes psíquicos e vai por aí a fora. sem restrições de qualquer sorte. deve ela também se interessar pelas novas oportunidades de testes de coerência e adensamento da significação de suas concepções e até por acompanhar os movimentos de aberta contestação às suas posições conceituais. na lingüística.38 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO deveria se constituir numa exceção. em todas as antropologias específicas (política. E estas oportunidades estão por toda parte: para começar. Em suma. a filosofia da cultura é sobretudo o exercício do auto-conhecimento da própria cultura.

o que para nós seria o mesmo. a ontologia tende a confundirse com a lógica. não obviamente no sentido restrito que esta última vem assumindo nos meios acadêmicos. em consonância com uma velha tradição que remonta a Parmênides. 2. e que buscaremos também aqui resgatar. que serão fundamentalmente lógicos. Ils ne sont pas nombreux. aliás.1 – Preliminares . Nesta concepção filosófica. tentar satisfazer nossa curiosidade acerca da situação atual e das perspectivas brasileiras sob este crucial enfoque. Tudo isto irá requerer a exposição prévia dos nossos supostos filosóficos. seguindo um pouco mais além. Alain Badiou. Conditions Nosso principal objetivo aqui é apresentar as linhas gerais de uma antropologia filosófica ou. de uma antropologia [1] e. passa por Platão e chega até Hegel. na medida em que defendemos uma estreita correspondência entre ser e pensar. mas naquele que esteve sempre presente no curso da história da filosofia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 39 2 Bases lógicas para uma antropologia filosófica J’appelle philosophe contemporain celui qui a le courage de traverser sans faiblir la antiphilosophie de Lacan.

A lógica ressuscitada . do pensar inconsciente.2 . o mesmo. seria a lógica do outro. c) Existem duas lógicas fundamentais. su- 2. lógica do pior (Rosset) etc. e mais ainda o pensar hiperdialético (pensar síntese do um. porém.por isso a denominamos lógica transcendental ou da identidade. a primeira. seria a lógica do mesmo. lógica implícita do cogito cartesiano. ou. lógicas que não podem por qualquer modo ser uma “derivada” da outra.40 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As nossas principais teses lógicas – como já dito. de algum modo. que iremos denominar lógica da diferença ou. que inclua não apenas o pensar que visa o um. a segunda. lógica do paradoxo (Kierkegaard). lógica do significante (Lacan). vale dizer. igualmente onto-lógicas – seriam as seguintes: a) Ser e pensar são. já bem identificada pela tradição. por sua peculiar natureza as lógicas historicamente atingem diferentes graus de formalização. lógica I. o “ilógico” nietzschiano. sumariamente. o ser capaz de discurso. b) A tematização de um modo de pensar e a sua expressão discursiva arrazoada ou paraformal constituem uma lógica. considerado isto de uma maneira mais geral. do pensar consciente. logos heraclítico (segundo Heidegger). do transcendentalismo fenomenológico de Husserl . ou ainda. a lógica clássica ou aristotélica. até hoje mal cernida pela tradição . mas também o pensar dialético (pensar síntese do um e do múltiplo) visando a idéia (Platão) ou ainda a História (Hegel).lógica do coração (Pascal). mas nenhuma pôde ou poderá neste mister exceder aquela cuja especificidade é a forma abstraída. do sujeito transcendental ou crítico da ciência em Kant. do múltiplo e do múltiplo do múltiplo) que visaria o ser humano.

D/D/D =D/3.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE mariamente. Para contornar esta assimetria fazemos uma primeira diferenciação D1 discriminando S e não-S (ver figura 2. que não seja aquela de primeiro lugar à esquerda. I/D/D/D = I/D/3 e assim por diante. I/I/D/I= I/D. lógica do terceiro excluído. Esta última designação tem um sentido profundo. contratualmente . I/D/D= = I/D/2. que não pode jamais confundir-se com uma operação de tipo matemático ou formal. através de uma operação que denominamos síntese dialética generalizada simbolizada por uma /. onde I faz o papel de elemento neutro ou nulo à direita [3]. I/D. é a lógica dialética. o degrau um daquela. o produto cartesiano. por exemplo. e) A primeira lógica derivada. esta que passa a ser considerada. D}. 41 d) Todas as demais lógicas “derivariam das lógicas fundamentais. Estas denominações sintéticas das lógicas constituem um semimonóide [2] livre gerado pelo conjunto {I. A é algo por constituição sempre bem definido. D/D = = D/2. na verdade. como por exemplo. D/D = D/2. lógica D. ou ainda (D)/(I/D)/(I)=D/D. portanto. Teríamos assim as lógicas derivadas I/D. o que já não acontece com não-A que carrega inexoravelmente uma certa franja de indefinição dada a inesgotabilidade (pelo menos prática) do mundo. doravante. A segunda. será identificada à lógica clássica ou aristotélica. depois. síntese das lógicas da identidade e da diferença. não podendo obedecer ao princípio do terço excluído. pode ou deve ser desprezada. ela é uma generalização da aufheben hegeliana.a). Na prática isto quer dizer que qualquer ocorrência de I na designação de uma lógica resultante da articulação de quaisquer seqüência ordenada de lógicas. porque uma simples diferença A e sua negação não-A não formam uma par simétrico.

sim. I/D mais a lógica clássica (ou da dupla diferença) D/D = D/2 e. também a si próprias. interna ou condicionada a S. assim. Nestas circunstâncias.a . S im p les d iferen a nª o nª o - D u pla d iferen a nª o . subsume a lógica da identidade I. I/D. Esta. por convenção.A A = n ª o -n ª o -A D D D Figura 2. a si mesma. princípio este por nós considerado como realmente característico da lógica clássica. D. bem definidos ou esgotáveis. agora. de modo compacto.Diferença e dupla diferença f) Todas as lógicas derivadas subsumem (superam. por convenção. . a si própria. A e não-A tornam-se simétricos. o que vem constituir uma das formulações do autêntico princípio do terceiro excluído. a lógica dialética. doravante. aí então introduzimos uma segunda diferença D2. já a lógica hiperdialética I/D/D = I/D/2 subsume as lógicas I. porque ambos são. Assim sendo.42 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desconsideramos não-S o que transforma S numa totalidade por convenção. passa a ser por nós preferencialmente denominada lógica da dupla diferença ou. a lógica da diferença D e. não-não-A e A passam a ser também equivalentes. mas ao mesmo tempo conservam integrando) as que lhe são anteriores e. por exemplo. ainda por convenção. D/D = D/2 [4]. As demais lógicas sintéticas não foram ainda identificadas e nomeadas por razões que esperamos fiquem claras ao cabo do presente trabalho. ou de mesma natureza.

tu. C o sm .0 2 ∀x ∃φ(x) D =D 1 .-1 3 ∃x φ(x ) H =1 1 ∀x φ(x ) A =1 1 . em geral.ele G eo m Øtric a . S er ter h av e r esta r am a r?! A n im al Æ g u ia se rpe n te le ª o to uro h om em S ign o zo diac . L g ic a D ialØt. A steca Sul O este L este N orte u m b. P r prio s G eo m Øtric a ∃x φ(x ) I =I 1 . R e p ese n ta ª o L g. L g ic a . A q u Æ rio E scorp iª o L eª o To u ro L ibra C an cer A ire s C ap ric.-1 2 3 S =1 eu . etc. inconscientemente. Na figura 2.0 .b . da Id e n tid .b apresentamos alguns exemplos. c o n tin ge n. da L g. po ssibil.d o m u nd o C o res a zu l b ran co ve rm elh o pre to P o s. D. GŒ m eo s P e ix es S ag itÆ rio V irg em C an do m b lØ IfÆ O x alÆ O gu m Exu M o d alid a de ne cesse c. D ifere n . I/D. – as lógicas admitem um sem número de representações outras já efetivamente produzida pelas diferentes culturas históricas. L g ic a C lÆ ssica H ip e rd ia. (sign ific an te ) R eal sim b lic o M atem as laca nian o s O p erad o re s Val.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 43 g) Além da algébrica – I. F am iliar p ai m e filha filho fam lia Verb o au x. im p o ssib. Figura 2. D i-m e n sı es s/L ac an im ag in. N u m Øric a 1 2 3 4 5 E lem e n to s ar Æ g ua fog o te rra q uinta e ssŒ n. sem qualquer pretensão de esgotá-los. D/2.Representações histórico/culturais das lógicas .

Figura 2. de modo que no todo ficaríamos com um segmento de reta na vertical tendo na extremidade superior um I e na inferior D/0 = I.c). e assim sucessivamente (ver figura 2. No caso de I propriamente dita a representação canônica. o mesmo I em cima e em baixo . por coerência. Como exemplo daríamos a lógica dialética I/D. um cubo. para preservar a coerência com as demais. precisaria ser uma “pirâmide” cuja base estaria reduzida a apenas um ponto. a D/D = D/2 associamos dois segmentos de reta ortogonais. a D/D/D = D/3. tendo por base um “cubo” em n dimensões. por uma pirâmide de base quadrada. À lógica D associamos o segmento de reta. de sorte que à lógica I/D/n fica associada uma “pirâmide” em n+1 dimensões.44 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Vamos agora deter-nos um pouco mais demoradamente sobre o que denominamos representação geométrica canônica. representada então por um triângulo.Representações canônicas À lógica I associamos um ponto numa dimensão própria independente daquelas do conjunto das diferenças. vale dizer. ou seja. e a lógica I/D/2. um quadrado.c . três segmentos ortogonais.

D. D/2 e I/D/2. RES EXTENSA SER SUBJETIVO (PESSOAL OU SOCIAL). h) Somente as lógicas da família I. da forma I/D/n com n = 0. I. da lógica do mesmo.Níveis onto-lógicos No plano fenomênico temos apenas subsumida a lógica I à qual corresponderá o ser enquanto tal (ou ser fenomênico). no plano subjetivo temos cinco lógicas subsumidas. I/D. 2. . SER DISCURSIVO SER SISTÊMICO NÍVEL SUBJETIVO N=2 I D D/ I/D CONSCIÊNCIA ROJETO HISTÓRIA Figura 2.d) I NÍVEL FENOMÊNICO N=0 SER FENOMÊNICO D/ I/D 0 =I SER OBJETIVO OU SIMBÓLICO NÍVEL OBJETIVO N=1 I I/D/2 D DURAÇÃO OBJETIVA 2 INCONSC. I/D. ditos mundanos. definem planos onto-lógicos. como seria natural supor. às quais irão corresponder. os três primeiros. respectivamente. a res extensa (ou a espacialidade) e o ser simbólico (o conceito ou a idéia). (Ver figura 2. isto é. 1. por derradeiro. I..FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 45 nos mostra tratar-se. no plano objetivo são três as lógicas subsumidas. o trinitário ou objetivo correlato a I/D e o qüinqüitário [5] ou subjetivo correlato a I/D/2.d . D. seriam: o unário ou fenomênico correlato a I ( I/D/0 = I/I = I )... a duração (temporalidade objetiva).

precisa ser repensada. por exemplo. o sistema (ou papel organizacional) e o ser subjetivo na plenitude. a história .D/2 e I/D/2 -. porém. o inconsciente (ou ser desejante). de um lado. i) A passagem de um plano onto-lógico ao que lhe segue não se faz por simples agregação de ambos os lados. do lado da realidade visada. doravante tornada lógica das regras . a outras ex-totalidades.Remanejamento onto-lógico Não é muito difícil compreender: no plano ontológico objetivo I/D visa-se necessariamente uma totalidade que. precisa ser previamente des-totalizada para que possa ser então articulada. vale dizer. na circunstância. ao se passar de I/D a I/D/2 dáse. seja ele pessoal ou social. Como conseqüência. o que estava sendo pensado por D vai necessariamente se deslocar e ser re-pensado pela lógica D/2. (Ver figura 2.e . através de leis convencionais ou de regras. respectivamente.46 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que terão como correlatos. a mera agregação de duas novas lógicas .e) I I/D D I/D/ 2 D/2 D/0 =I I D I I/D Figura 2. acontece um remanejamento geral do ser visado. no plano seguinte. pela lógica D. o ser consciente como projeto.

“im-pensados” e impensáveis”. relevantes e unívocos apenas no contexto do discurso visado por I/D/2. a ser de novo pensado enquanto tal. onde D passa a pensar o corpo libidinal. e sim alguma coisa muito mais grave: a lógica para poder efetivamente visá-lo. estes passam a ser visados por D. D/2 e sim I/D. no caso de uma eventual doença ou acidente.f) As lógicas que desvelavam determinados aspectos de realidade são. a subjetividade se desagrega e o corpo físico vem. deslocadas para um outro plano. sim. do mais conspícuo dentre os saberes científicos – a física. como apenas significantes a serem articulados por regras sintáticas (morfológicas ou gramaticais) D/2 e assim constituir um suprasignificante de um supra-signo ou discurso a ser desvelado pela lógica disponível I/D/2. mas que deixa de sê-lo no plano subjetivo. A outra posição disponível não é. O desconhecimento deste imperioso fenômeno de remanejamento é fonte de dificuldades crônicas em quase todos os campos do saber [6]. mas signos contextuais. que irá visar signos. o que deixa os referidos aspectos. Um bom exemplo seria aquele do corpo físico pensado por D no plano objetivo. (Ver figura 2. pois. porque a algo estaria faltando mais do que o significante apropriado.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 47 constitutivas de um agregado de maior hierarquia. como é de sua natureza. representativo de uma nova totalidade a emergir no nível I/D/2. na passagem. acontece um outro importante fenômeno na passagem de um plano ontológico ao subseqüente e que denominamos recalque lógico. vale dizer. no plano subjetivo. então. inclusive. . j) Além do remanejamento. Tomemos a semiologia como referência: I/D no plano onto-lógico objetivo pensa os signos. Chamamos a isto recalque lógico. isto é. agora.

da seqüência dos planos onto-lógicos. para as quatro lógicas de base: verdade total (I). Isto nos assegura que o visado pela lógica de maior nível de um plano torna-se. uma exceção justificada por um princípio geral de continuidade do mundo e da vida. no plano subjetivo (I/D/2). ainda que apenas formal. parcial (D). o Deus único (I). no plano objetivo (I/D): o pleno domínio do signo convencional (episódio bíblico do bezerro de ouro) vai se mostrar condição necessária para que se possa pensar. vale dizer. l) Heidegger descobriu o comprometimento ontológico da verdade: verdade como alétheia (I) contraposta à verdade como adaequatio (D/2) (ver figura 2.g). pensável pela lógica I no plano subseqüente.Articulação dos níveis onto-lógicos Existe. através de seus matemas. Como exemplo. de impossibilidade da ocorrência de saltos instantâneos. tome-se a lógica I/D visando. Lacan estendeu-a. de algum modo.48 I I/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D I D/ 0=I Pré-I Pré-D D I D/2 I/D Pré-I Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Figura 2.f . parcial e total (I/D) e nem . contudo. o que permite uma articulação.

As verdades Nós podemos agora ir um pouco mais longe.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 49 parcial nem total. na estrutura ontológica subjetiva I/D/2 ). estará associado o princípio do no máximo n ou. respectivamente. por exemplo. a contar de I/D. adaequatio e amor (correspondentes a I. à . o que é o mesmo. vitória [ 8]. I/D. em virtude do seu caráter derivado. D. HEIDEGGER Adaequatio LACAN Parcial PROPOSTA Amor Gozo D/ 2 D Nem Parcial nem Total 2 D/ I/D/ 2 D I Alétheia I Total I/D Parcial e Total Alétheia Subjetiva Adaequatio D/ 2 V it I I/D r ia Alétheia Objetiva Pré-I Afecção ou Percepção Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Alétheia Fenomênica Figura 2. na estrutura onto-lógica objetiva I/D). alétheia objetiva. especificamente. para a qual tem-se n = 1. seguindo a seqüência de estruturas onto-lógicas definidas no item anterior: alétheia fenomênica (I na estrutura onto-lógica de mesmo nome). respectivamente. a lei do n+1 excluído. I tal que I2 (ψ) = I(ψ) (reflexividade ou lei do pelo menos um) e D tal que D 3 ( ψ ) = D(ψ ) (lei da negação em sua maior generalidade ou lei do pelo menos dois). A cada uma das demais lógicas.g . I/D. isto é. D/2 e I/D/2. gozo [7]. que nada quer com a verdade (D/2). m) Os símbolos I e D podem ser tomados como operadores. D. Assim. afecção ou percepção e êxtase simbólico (correspondentes a I. expresso por Xn(ψ) = ψ. alétheia subjetiva.

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lógica dialética I/D estará associado o princípio do no máximo um, ou, o que lhe é equivalente, o princípio do segundo excluído, vale dizer, da totalidade, expresso por um operador H, H tal que H(ψ)= ψ; à lógica D/2, que segue imediatamente a I/D, estará associado, como é bem sabido, o princípio do terceiro excluído, expresso por um operador A, A tal que A2 (ψ) = ψ; e daí por diante; n) A homogeneização dos princípios das lógicas e de sua expressão operatória estabelecidas no item anterior, permite que a elas sejam aplicados os mesmos procedimentos formais da mecânica quântica, em particular, o postulado que formaliza o ato de mensuração expresso por Op ψ = lψ[9] onde Op é um operador hermitiano[10] representativo de um determinado instrumento de medida, ψ uma função representativa de um estado de coisas do mundo e λ um número. (Ver figura 2.h) Esta última equação, em associação com a equação caraterística de cada uma das lógicas conforme definida no item m anterior, permite que para cada uma delas seja determinado, de maneira unívoca, um conjunto de valores de λ, designados valores próprios (em lógica, denominados valores de verdade ) do operador em questão.
OP
Med.
1

i t 0

OP
Med. 2

i

* *= a
1 1 +a2 2

i …

i OP( i) = i i

i

Figura 2.h - Lógicas como operadores

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À semelhança do que ocorre na mecânica quântica, na qual o conjunto dos valores de λ representa o “lado objetivo ou mensurável do mundo físico, os valores de λ vão representar aqui a realidade visada pela lógica em consideração. No caso da lógica I, associada ao operador de mesma designação, teríamos como valores próprios 1 e 0 , ou se quisermos, o ser e o nada, respectivamente. (Ver figura 2.i) Já no caso de D, associado também a um operador de mesma designação, os valores próprios seriam 1, -1 e 0, respectivamente, o verdadeiro, o falso e, de duas uma: o paradoxal, se a negação de 0 for tomada como sendo 1; o nem verdadeiro nem falso, se estabelecermos -1 como a negação de 0. Em se tratando de I/D, associada ao operador H, temos apenas o valor 1, identificado com a noção de totalidade lógica. Por fim, no caso de D/2, os valores próprios do operador A que a representa seriam 1 e -1, o verdadeiro e o falso, sem confusão (ou superposição) e sem a possibilidade de qualquer outro valor, vale dizer, de qualquer terceiro; por isso, entre outras fortes razões, a lógica D/2 foi por nós identificada como sendo a lógica clássica.
L. transcendent.
I2=IeIψ=λψ

L. da diferen a
D3 = D e Dψ = λ ψ -1

0

0

1

1

L. dialØ tica
H = 1 e Hψ = λ ψ

L. clÆ ssica
A2 = 1 e Aψ = λ ψ -1

L. q inq itÆ ria
S3 = 1 e S ψ = λ ψ e2πi/3 e-2πi/3

1

1

1

Figura 2.i - Valores próprios das lógicas

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

Constata-se que a lógica D, objetivamente considerada, é dentre as lógicas de base, a mais rica, o que tem implicações antropológicas da maior importância. Este inesperado encontro da lógica com a mecânica quântica não é uma curiosidade, uma simples casualidade; é, sim, um encontro nas profundezas do conhecimento, que não se sabe bem porque, demorou tanto a acontecer; com ele dá-se uma mútua iluminação destes dois saberes cuja extensão não poderíamos aqui avaliar; o) As lógicas diferenciais Dn possuem 2(n - 1) valores próprios e as lógicas derivadas identitárias I/D/n, 2n –1 valores. No caso da lógica I/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; -0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; -0,5 - 0,5 = = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constituise numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) realI/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; - 0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; - 0,5 -0,5 = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constitui-se numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) real
VALORES DE VERDADE DA LÓGICA QÜINQÜITÁRIA
TU - 2 i/3 1 -1/2 -1/2 1 - 3 i/2 3 i/2 ELE

VALORES DE VERDADE DA LÓGICA DA DIFERENÇA -1 FALSO

e

e2

i/3

0 INDEFINIDO
EIXO IMAG.

1 EU
EIXO REAL

1 VERDADEIRO
EIXO REAL

Figura 2.j - Valores próprios de I/D/2

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Partindo destas proposições gerais sobre as lógicas, com a simples adjunção de algumas teses específicas, poderemos chegar a uma sólida antropologia filosófica. Vejamos: a) À diferença dos demais animais cordados superiores que operam a síntese do um e do múltiplo, isto é, I/D [11] e que lhes possibilita o acesso ao símbolo convencional, o homem é capaz de proceder à síntese da identidade, da diferença e ainda da dupla diferença, que o faz um ser lógico-qüinqüitário, ou seja, de nível lógico I/D/2. Isto está empiricamente atestado, dentre muitas maneiras, pela capacidade humana da discursividade (o simbólico articulado pela gramática). A moderna antropologia estrutural, tomando o registro da sexualidade, postula que o homem, do ponto de vista formal, está determinado pela dupla diferença: a primeira diferença, de estofo biológico - macho versus fêmea - e ainda uma segunda, de estofo propriamente cultural, dita diferença clânica. (Ver figura 2.l, a seguir.)
ANIMAL
I D1
Diferença Sexual Biológica

2.3 - Uma antropologia esperançosa

HOMEM
I/D I D1 I/D D2 I/D/2

Diferença Diferença Sexual Clânica Biológica

Figura 2.l - O homem como animal qüinqüitário Se a estas articularmos a identidade - pré-condição necessária do reconhecimento e assunção dos quatro pólos definidos pela dupla diferença chegamos finalmente à síntese por nós proposta: I/D/2 [12]. O caráter identitário (consciente) do homem

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

– descurado pelo estruturalismo, ainda que com atenuantes –, pode ser de pronto justificado se o assimilarmos a uma diferença colapsada [13] que, no registro da sexualidade, seria a diferença sexualmente maduro versus imaturo, na qual, de modo geral, o mesmo ser humano, no correr de sua vida, acaba ocupando as duas posições; b) À lógica qüinqüitária devemos associar um horizonte lógico, um além de I/D/D = I/D/2, a fim de que esta não se torne para os homens, ao mesmo tempo, lógica do Absoluto, tal como se deu com Hegel ao nível dialético trinitário, e que o levou a um iniludível panteísmo. Esta possibilidade do ser humano terá que estar suportada pela vivência de uma falta, que identificamos como sendo a impotência de abarcar ou dar conta, globalmente, de sua própria experiência inter-subjetiva. A lógica do saber sobre uma instância ontológica está necessariamente um degrau lógico acima de sua lógica de referência [14], de modo que, para o ser humano, de nível I/D/2, o saber respectivo será de nível D/D/D = D/3, logo, acima da sua capacidade lógica. (Ver figura 2.m). Em resumo, o ser humano é um ser lógico qüinqüitário incorporando um horizonte lógico que o transcende e que lhe é acessível (conquanto que dependente de uma decisão, visto existir a D/3 D/ 2 opção de considerar a falta como pura HORIZONTE imanência) como I/D/ 2 vivência de uma fal- I/D ta no âmbito de sua experiência de serHOMEM 2 D com-outro, diante D/ da qual ele não pode evitar o risco, deixar I I/D de responder com a Figura 2.m O homem e confiança ou negar seu horizonte lógico o amor;

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c) Pode-se constatar de modo empírico que nada existe no mundo que, no eixo lógico aqui considerado, supere o homem; restitui-se-lhe, assim, a posição pinacular na mundanalidade que, na Modernidade, lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios – das lunetas ao Hubble –, pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. Como conseqüência, doravante, todo saber deve ser considerado saber antropo-lógico: saber reduzido ou parcial (ciências “duras”), saber humano propriamente dito e saber especulativo (teologia natural recuperada) tal como começam a se dar conta alguns cientistas menos blindados quando aceitam discutir, pelo menos em sua versão fraca, o princípio antrópico [15]; d) Como já enfaticamente repetido, o ser humano é de nível lógico I/D/2, lógica que subsume, além de si própria, as que lhe antecedem: I, D, I/D, D/2, estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Isto leva a admitir que no ser humano a sexualidade precise ser re-definida, deixando de ser bipolar (representável por um segmento de reta), como nos outros animais, para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). O par diagonal {I, D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D, D} o feminino; e como (I)/(D/2) tanto quanto (I/D)/(D) são iguais a I/D/D = I/D/2, conclui-se imediatamente (ver figura 2.n) que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano. É importante notar que existem três modos possíveis de clivagem, por pares, das quatro lógicas de base: primeiro, a “sexuada” que acabamos de ver; segundo, a filosófica grega ou ontológica, contrapondo o lógico-identitário (I, I/D) ao lógicodiferencial (D, D/2); terceiro, a filosófica moderna ou epistêmica, contrapondo o “subjetivo” (I, D) e o “objetivo” (I/D, D/2).

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I/D/ D
2

LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
I/D/ D
2

D/ 2

D/

2

I
MASCULINO

I/D

I
FEMININO

I/D

Figura 2.n - Masculino x feminino Não é difícil perceber que, de todas, a primeira é a mais relevante, na medida em que ela é a única verdadeiramente simétrica e que, por isto mesmo, aponta inequivocamente para o mais acima, isto é, para a síntese qüinqüitária I/D/2. Aliás, excluída a tradição judaico-cristã, parece-nos que todas as demais culturas sentiram bem isto, embora constrangidas a expressá-lo pela óbvia metáfora (mito) sexual biológica! e) Todos os homens de todas as culturas são logicamente equivalentes (tese homóloga àquela do estruturalismo estabelecendo a equivalência de todas as culturas em razão da presença universal da lei de dupla face da exogamia/proibição do incesto, com a única diferença que esta é de nível lógico quaternário, enquanto que a nossa, de nível qüinqüitário. Fato é, entretanto, que as culturas ainda assim se distinguem de modo flagrante e essencial, mormente quando em confronto umas com as outras. Para compatibilizar estas duas determinações assim tão contraditórias – sem trapacear apelando a fatores extra-culturais –, não nos resta outro caminho senão o de caracterizar cada cultura pelo nível de desvelamento do seu próprio ser qüinqüitário a que estaria necessariamente associada uma representação objetiva ou simbólica;

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em outras palavras, uma cultura é determinada pela lógica mais ou menos implícita do seu núcleo religioso ou sacralizado – cultura do deus “unário (judaica), cultura prometéica ou do que é somente na medida em que se opõe aos deuses (greco-romana), cultura do deus trinitário (cristã patrística) e assim por diante. Existem culturas que não chegam a nenhum grau de desvelamento de seu ser lógicoqüinqüitário – elas serão chamadas culturas ecológicas –; quando nela predominar a identificação à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-I (cultura paleolítica dos povos caçadores/coletores tendentes ao nomadismo ao igualitarismo e ao xamanismo) e quando predominar a contraposição à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-D (cultura neolítica, sedentária, hierarquizada, dispondo de classe sacerdotal, com escrita e naturalmente escribas, com trabalho ordenado, de base agrícola estável). Desenha-se, assim, uma história da cultura em estreita consonância com uma filosofia da História, cuja essência seria o cumprimento de uma destinação. É preciso, entretanto, alertar que tal cumprimento não seja confundido com aquele implícito na concepção “unária” (I) ou judaica da História, que nos exige a fé para sua consumação; nem aquele implícito na concepção trinitária (I/D) ou hegeliano-marxista, que nos exige o completo engajamento; trata-se aqui, de maneira coerente, de uma concepção qüinqüitária (I/D/2) da História síntese hiperdialética das anteriores - para o cumprimento da qual exigir-se-á tanto a fé inabalável, quanto o irrestrito engajamento. f) Às culturas que correspondem de modo estrito a uma lógica e que historicamente foram as primeiras a fazê-lo, damos a denominação de tipo puro ou nodal (ver figura 2.o); às demais, a denominação de culturas não nodais. Recapitulando, e atendo-nos apenas “Ocidente”, as culturas nodais já

pré-D (neolítica. I. culturas anacrônicas. não se enquadrariam em qualquer destes tipos continuando a ser consideradas nodais. . cerca de 1000 anos após o apogeu da cultura grega (D). tudo se passa como se I aprisionasse dentro de si. D/2 jesuítico. e aproximadamente 300 depois da consolidação do cristianismo patrístico (I/D) no Concílio de Nicéia. o “projeto cultural cubano”. mas não chegam a alcançar o tipo nodal subseqüente (talvez o melhor exemplo seja o da cultura egípcia que tenta. sedentária. ficando assim sujeita a permanentes e radicais conflitos internos. que sobreviveram mesmo depois de superadas. porém. de base agrícola estável. I/D (cristã patrística) e D/2 (moderna. a saber: culturas de transição. D e I/D. mistura de D com I/D. criada mais de 1500 anos após o advento do judaísmo I. por isso ficamos apenas em três: a cultura bizantina. culturas mistas ou ecléticas. tendo I como sujeito intervalar aos sistemas). mistura de pré-D com I/D para formar um sujeito não sujeitado de D/2!). que partem de um tipo nodal. mistura de pré-I dos índios guaranis com o par I/D.58 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO consumadas seriam as do tipo pré-I (paleolítica. É preciso advertir que culturas nodais a seu tempo. nesta. I (judaica profética). um tipo nodal. como os impérios da antigüidade). na sua versão paradigmática. a “cultura das Missões”. D (greco-romana). mas não chega a alcançar o monoteísmo [16]. “socialismo moreno”. consumado tempos após a realização histórica do mesmo (um bom exemplo é o da cultura islâmica do Deus único radical (I). caçadores/coletores de tendência nômade). As culturas não nodais distribuem-se por vários tipos. ao mesmo tempo. que tentam a mistura de tipos nodais (os exemplos seriam inúmeros. como seriam os casos dos judeus e dos índios brasileiros enquanto não aculturados (se sobrar algum depois do advento da “República nova”?!).

anglo-saxônico ou o herói fordiano [17]. ou seja.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 59 I/D/ Cultura GrecoRomana 2 Cultura Nova Qüinqüitária D D/ 2 Cultura Moderna I/D Cultura Cristã Patrística Cultura Judaica I Pré-I Cultura Paleolítica Pré-D Cultura Neolítica Pré-Pré-D Pré-Pré-I Proibição do incesto/ Exogamia Figura 2. informacional/globalizante. D. sujeitado. é o sujeito liberal. de nível lógico D/ 2. de nível lógico transcendental I. I. que no caso paradigmático. (Ver figura 2. I/D. depois de passar pelas culturas pré-I.p. vive já há algum tempo o predomínio da cultura científica. tendo como motor principal o inconsciente “industrialmente” domesticado pelo marketing.) . ela só “vigora” com os préstimos de um sujeito intervalar.o . pré-D. presentemente vivendo sua fase civilizatória.Culturas nodais g) A humanidade. Sendo D/2 a lógica da morte.

machista. de outro lado. Ambas as ideo-logias. pentecostalismo etc. Elas são únicas justamente na medida em que propõem um sujeito I/D ou D (o par das lógicas femininas). deixa então de ser paradoxal que coincidam os períodos de caça às bruxas e de afirmação da ciência e do capitalismo paradigmático. vale dizer. não admite outra dominação que não a sua própria. telúrico. aparentetemente. D. I/D. 2. . que identificamos com o jesuitismo.p . ilusória ou apenas transitoriamente dominante. movimentos carismáticos. de um lado. a substituição do sujeito I pelo sujeito coletivo I/D (representado por um sujeito simbólico absoluto).60 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Sujeito Romântico D Pentecostal Fascista Pa r A ng ad lo igm -s ax a ôn ic o D/ 2 Ciência Jesuítico Socialista I I/D Sujeito Liberal Sujeito Coletivo Fig. que identificamos com o fascismo. – ideologias à direita. inexoravelmente destinadas ao fracasso pelo prosaico fato de que D/ 2 . sujeito libidinal D.A cultura moderna e suas variantes As únicas alternativas ideo-lógicas de subversão da Modernidade seriam. pelo sujeito romântico. é forçoso que se reconheça. subsumindo I. também ilusória ou apenas transitoriamente dominante. o marxismo etc. ou em seu modo arcaico. Não é preciso enfatizar que o paradigma liberal não fracassa (o que nada tem a ver com a condição de ser historicamente . lógicas que foram recalcadas a ferro e fogo para viabilizar a instauração da Modernidade.ideologias à esquerda -.

q ) e. é necessariamente lógico qüinqüitária ( (I/D)/(D) = (I/D/2) ). ainda. provocar o . no sentido que esta última assume com o estruturalismo (D). pois. Este fundamentalismo X-1 será de fato o único capaz de fazer frente à cultura imperante. marginalidades e retornos ao proscênio histórico. mas na verdade já exangue. é ser já per-vertido. haverá um. A História como história (I/D) da cultura. de um processo puramente ascendente. ela será. Em meio à pletora dos fundamentalismos reativos mais ou menos desesperados. visto que geradas por X mesmo (como é o caso do comunismo e do fascismo na Modernidade). e então. Ela. Seja uma cultura genérica X. àquela de Marx no irá passar do estágio de cultura propriamente dita ao de civilização . Não se trata. transformando em instrumento. h) Focalizemos um pouco mais detidamente a problemática da dinâmica cultural. ele irá provocar um período mais ou menos extenso de graves tensões. Olhemos um pouco mais de perto dinâmica cultural. ainda que après coup. conquanto seu curso seja inexoravelmente. ascendente.sua universalização ou horizontalização aparentemente irresistível. no plano cultural. referido à cultua X-1 (tipo essênio) que se distinguirá por sua disposição de subsumir. importunada pela cultura X-1 que a antecedeu: sob o modo negocial ou de simples adesismo (tipo saduceu). pois. sim. desconstruções. como veremos adiante). os fins da cultura X. por sua própria natureza. Começaríamos observando que ela não é lógico-dialética. do formalismo sem conteúdo (tipo fariseu) ou de sua variante terrorista (tipo zelote) (ver figura 2. mas que admite recuos. processo de cumprimento de uma destinação. só será sucedida pela cultura X+1 em condições extremas: esgotamento de suas possibilidades (tese homóloga. a cultura X. por muitos modos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 61 superável. por formas pseudo utópicas. que é bem mais complexa do que supunha Hegel.

.: Fariseus) TERRORISMO (Ex.1 (Ex.: Zelotes) Figura 2. deixar como um testemunho histórico vivo. confundindo-se assim com o marxismo. Cultura X +1 (Ex.q . depois do comunismo e do fascismo. uma ortodoxia de nível X-1.: Cultura Greco-romana)) FUNDAMENTALISMO X . não pelo reacionarismo da Cúria Romana.: Essênios) Cultura X .1 (Ex.A passagem de uma cultura diferencial à cultura subseqüente Na Modernidade este fundamentalismo realmente eficaz deverá ser o cristão originário ou patrístico (ou o equivalente em outras tradições culturais. mbaísmo verde.: Saduceus) FORMALISMO (Ex.62 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desvelamento da nova cultura e.: Cultura Cristã) Cultura X (Ex.: Cultura Judaica) COLABORACIONISMO (Ex. como era fácil prever. é o “inimigo” eleito pelo próprio stablishment cultural. O movimento denominado Teologia da Libertação deixou de ser uma real ameaça à civilização reinante. bigbangismo. metamorfoseouse em baleísmo. Com a falência do “materialismo real” a Teologia da Libertação. mas pelo seu próprio desvirtuamento ao abandonar a dialética do sentido ou do espírito (I/D como lógica suprema da estrutura onto-lógica objetiva) para se assumir dialética da história (I/D como uma entre outras lógicas de base na estrutura onto-lógica I/D/2). como a chinesa ou a hindu) e jamais o fundamentalismo islâmico que. eventualmente.

necessariamente. porque esta é justamente a prerrogativa específica do ser-social nesta cultura. como se fora ela um modo de consolidar ou mesmo eternizar a sua dominação. é de sua natureza. no que resulta D/n+1). de paralisar a História. em geral. bastaria anular o I da auto-identificação e substituí-lo por um D do distanciamento. sermúltiplo. continuaria com a tradução para o latim do corpus aristotélico e sua ampla divulgação pelo Ocidente. apenas por si. I/D/n. podemos conjeturar que o progressivo saber de si de uma cultura identitária é que possibilitaria e induziria a referida passagem. em uma cultura de nível lógico X? Duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. tudo isto no sentido de congelar o poder não só espiritual. podemos especular um pouco sobre o assunto. isto é. i) Qual a relação essencial entre ser-individual e ser-coletivo ou sociedade. No processo de superação de uma cultura da identidade genérica. Esta explicação cabe razoavelmente bem para a passagem do cristianismo patrístico (I/D) à Modernidade (D/2): o processo iniciar-se-ia com o movimento monacal. com a escolástica. Sabemos que.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 63 qüinqüiforcismo espiritual e outros ismos marqueteiros. não vislumbramos a mesma regularidade encontrada no caso anterior. enfim. o indivíduo de qualquer cultura opera. mas é impossível fazê-lo com I. como sa- . o saber de I/D/n é precisamente D/n+1 (para se obter a estrutura epistemológica referente a um nível onto-lógico qualquer I/D/n. mas também temporal da Igreja. o sersocial opera necessariamente com X. mas é impossível que o faça. Pode-se daí depreender o modo específico de articulação de indivíduo e sociedade. As passagens similares anteriores mereceriam uma pesquisa detalhada. de outro lado. pois. Levando-se isto em conta. com a lógica I. com a lógica X. porém.

r .(D/2). Figura 2.Articulação dos “extremos” Como o processo mediador no extremo I ← X é do tipo I (uma identificação) e no outro extremo I X é do tipo X. de nível lógico D/2: os indivíduos contribuem com seu poder decisório (I). através de um processo competitivo . eles fazem valer os seus desejos (D).mercado . para a ← .r). e a sociedade provê sua capacidade de decisão (I) por um processo social de nível X a partir da capacidade de decisão (I) dos indivíduos. no geral. para a formação da decisão coletiva (I). através de um processo contábil escrutínio . seria natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêm-se.64 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bemos. vale dizer.(I/D). Tomemos oexemplo da Modernidade. (Ver figura 2. uma velha questão filosófica [18]! Os indivíduos suprem seu caráter X por um processo de identificação (I) com o caráter X coletivo. em ordem inversa relativamente às lógicas de procedência também para todos os casos intermediários entre I e X. que as lógicas dos processos de mediação nos extremos estão invertidas em relação às lógicas de procedência.

ou seja. pelo planejamento central (D/2) e não pelo mercado competitivo (I/D).(D). a URSS apresentou a anomalia de inversão de dois de seus processos: de um lado.(I/D).s . isto é.o excedente ou capital . de outro lado. o processos de decisão coletiva (I). passou a ser feito de modo competitivo desregrado. 2. Ver figura 2. Para dar apenas um exemplo. j) Todas as culturas históricas têm sido castradoras dos indivíduos simplesmente porque . INDIVÍDUO SER-SOCIAL Fig.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 65 formação do desejo coletivo . podendo ocorrer.Formação paradigmática moderna Este seria apenas o paradigma. entretanto.demanda global . o processo de determinação do desejo coletivo (D) passou a ser feito através do cálculo. eles formam o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) do patrimônio coletivo . por fim eles se aculturam (D/2) identificando-se (I) com os papéis disponíveis na organização social (D/2). por eleição (D/2).s. pelo violento mercado político (I/D) ao invés de sê-lo de modo paradigmático pelo cálculo. como compensação. nos tempos modernos. ou seja. muitas espécies de distorções.

l) A grande interrogação que nos fica é aquela de . as mais encarniçadas serão as dos saberes da diferença (porque a lógica do inconsciente irá perder o governo da história da cultura. que as estará subsumindo juntamente com o saber psicanalítico e as “anti-filosofias” da diferença que lhe são correlatas (D) e com o saber científico e as “anti-filosofias” empiristas. Estas subsunções implicam necessariamente reações. mas não com a sua desesperança [19]. positivistas e fisicalistas que lhe são afins (D/2). do saber científico (porque este. da história ainda restrita. não passará ainda de um derivativo ou um soporífero para as tribulações de um dia inteiro de submissão à lógica da dupla diferença. vale dizer. sem que o faça. coincide com um bem conhecido juízo freudiano.66 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sempre abaixo da potencialidade lógica dos homens. Esta última. constituiu-se no momento ímpar do auto-desvelamento da cultura em sua essencialidade lógica (bastaria lembrar o episódio vétero-testamentário da adoração do bezerro de ouro!). como hoje sintomaticamente se vê por toda parte. Um indicador do efetivo engendramento do saber hiperdialético qüinqüitário está precisamente na sua capacidade de enfrentamento crítico direto da ciência. A superação da Modernidade assinala o fim do sub-reptício predomínio histórico do inconsciente. ainda bem mais. vale dizer. que ora pensa hegemonicamente o homem. o que. devemos lembrar.j do item anterior A lógica ressuscitada) e. A passagem de D/2 a I/D/2 será. tão dramática e cruenta quanto a passagem de pré-D a I. como história (I/D) da cultura (D). de I/D/2. inclusive figura 2. verá inverter-se tal relação). No plano “especulativo” a nova cultura engendrará um novo saber (I/D/2) na seqüência das filosofias transcendentais (I) e dialéticas (I/D). tendo-se em conta o seu caráter de matriz objetiva de todas as lógicas de base (ver itens n e o. deveras. aliás.

evitando esse grave pecado de soberba. o encobrimento ou disfarce. do sujeito da ciência. Eis aí.A situação e perspectivas brasileiras . nosso quadro referencial lógico ressuscitado e antropológico esperançoso. ou seja. sim.4 . mas requer alguns esclarecimentos. que deixa acima de si mesma. que poderíamos dizer acerca da situação brasileira atual e de suas perspectivas. Com a ciência estão todos 2. vale dizer. que desde seus alvores possuiu uma agro-indústria exportadora significativa – tanto em termos de quantidade quanto de qualidade – antes mesmo de que se tivesse formado um verdadeiro mercado interno? Como. o “espaço lógico” de onde há-de-vir(á) o Deus que nos poderá salvar. fundamentais: a) Como se falar de incompatibilidade com a Modernidade no caso de uma nação que se inaugura com a própria Modernidade. Diante disto tudo. tanto em relação à Modernidade quanto à nova cultura qüinqüitária? O cerne da problemática social do Brasil já foi por muitos bem diagnosticada [20]: a existência de uma certa incompatibilidade do seu processo de formação cultural com a Modernidade. de modo essencial. regenerado. passará direto à cultura I/D/2 que incorpora. num exasperado esforço de síntese. O diagnóstico é em essência correto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 67 se o homem passará da cultura D/2 à cultura I/D/2 “pura”. a um novo humanismo que o fará ídolo de si mesmo – tal como ocorreria com o hegelianismo e de fato ocorreu com o marxismo real dele derivado pela esquerda – ou se. mais precisamente. a nosso juízo. se começamos justamente pelo que se tem ainda hoje como o mais supimpa?! Toda discussão acerca da Modernidade é. no âmago. além. seu horizonte transcendente. de uma outra grave questão: aquela do sujeito da Modernidade ou.

o futuro a Deus pertence. esteja ele ainda enrustido na linguagem. como bem assinala Wisnik já citada na nota 20). de outro lado. Assim. da mesma família que D). em suma. os nacionalistas. pela opção preferencial (não exclusiva) do povão pelo sujeito libidinal. b) O paradoxal que muitos aí enxergam. em função do peso de sua herança cultural africana (pré-D. naturalmente. a grande “diferença” de Macunaíma. em especial. técnicos e burocráticos. vale dizer. desde que para pulverizá-las. os positivistas e os neopositivistas. o fazedor de futuros.68 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de acordo: a direita. a aludida incompatibilidade não é nem poderia ser de modo algum com a Modernidade em seus aspectos objetivos. e os internacionalistas também. desde que ela venha ao serviço do sujeito romântico (se isso fosse garantido. por uma Modernidade (D/2) já em processo de esgotamento e para a qual carecemos da necessária vocação his- . enfim. contra o empresário schumpeteriano. ao contrário. Nossa grande implicância está dirigida contra o sujeito de projeto (este último. não está onde parece. embora achemos que não sabem até hoje bem o porquê. seja ele de fato. de um lado. todos. pela opção preferencial das elites [22]pelo sujeito absoluto enquanto representação do sujeito coletivo. Tudo porque não se trata de um problema de lugar – encontrar um lugar na Modernidade ou um modo de inserção num mundo “globalizado” –. científicos. o seu representante absoluto. mas sim em não estar em parte alguma. idem. Para nós brasileiros. desde que ela venha para preservar fronteiras. em função do peso histórico dos jesuítas (I/D) sobre nosso sistema educacional [23]. contra o sujeito lógico I. como shall ou como will [21]. desde que ela venha para fortalecer o sujeito coletivo. até Nietzsche e Heidegger amariam a ciência e não vituperariam as vicissitudes da técnica) e a esquerda. e sim de tempo: decidir pelo curto prazo. Isto acontece.

depois dizimados ou “reduzidos”. no âmago. em que estamos a toda hora enredados. aliás bem cariocas: nossa escolha essencial é entre o luxo e a originalidade? Este é o nosso verdadeiro nó cego. é o verdadeiro Custo Brasil! Diante de tudo isto. mas. os negros vindos escravos da África para penar nos engenhos e nas lavras. mortes e mil outras tragédias que. (Ver figura 2. sem falar nas legiões de crianças abandonadas e de idosos desvalidos. ainda permanecer na dúvida acerca da causa em que devemos a vera nos engajar por todos os meios e modos a nosso alcance?! Guardadas as de- . mas que acabaram encompridando e alargando em muito a base territorial da nação. mas que a rigor já não mais existe. diante da responsabilidade em assumir nossa indelével destinação. os cristãos-novos e judaizantes perseguidos. entre nós brasileiros. pela cultura nova qüinqüitária (I/D/2).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 69 tórico-cultural ou. injustiças. multidões percebendo os mais vis salários do mundo. para a qual estaríamos já irrevogavelmente vocacionados? Em outras palavras. não seria demais lembrar que os custos inevitáveis historicamente constatáveis para se erigir uma cultura são cerca de 500 a 600 anos de opressões. sim. ora pela fé oficial. anos e anos a fio. ainda hoje.t) Para concluir. fazê-lo pelo longo prazo. violências. observaria o lúcido Caetano Veloso. sofrimentos. trememos e traímo-nos constantemente. não frente a um perigo objetivo. os incontáveis mulatos. caçados. ora pela inveja ou simples cobiça. poupança forçada que se esvai em pagamentos de juros sobre juros indecentes. por todas as grandes cidades do país este. os mamelucos enfurnados pelo sertão sofrendo e cometendo atrocidades. já foram mais do que pagos – que o digam os índios. de natureza eminentemente temporal. quem poderia. no caso do Brasil. tantos desterrados. parece-nos. sim. cafuzos e caboclos perdendo suas almas para legá-las à formação da alma brasileira.

. viciado e sobretudo manipulado. por si se agigantaram e acabaram hoje perdendo toda qualificação através do processo de globalização da insensibilidade e do cinismo. São estes processos de luta que precisamos sem pena abandonar ou rever.70 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Fig. ou. mas deixou rolar – e que. mais propício e não menos propiciatório de já irmos cozinhando e provando a nova cultura qüinqüitenária. 2. a propósito. a seguir. não passaram de um ensaio bem canhestro. as lutas recentes contra o autoritarismo e a corrupção – que o primeiro não inventou. com imaginação e coragem criar novos e levá-los realmente a sério.t . quando conveniente.Opções brasileiras: luxo ou originalidade vidas proporções. é o modo próprio. o que para nós seria o mesmo. pela grande mídia. agindo com um pouco de molecagem que.

los de las otras ciencias más particulares. trespassado pela emoção. Doctor Illuminatus in Ars magna et ultima. De modo geral. primeiro.. dos povos modernos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 71 3 Acerca da lógica e da cultura La razón exige y reclama que exista una ciencia universal de todas as ciencias. A diferença aparente dos desempenhos discursivos de uns e outros estaria na constância com que os primitivos se valem do processo de bricolage [5] simbólica. e não propriamente na lógica. entre os antropólogos da atualidade. Opinamos que isto deva ser repensado em profundidade. nenhuma diferença haveria entre a lógica dos povos primitivos e aquela dos povos modernos. y com pricipios universales en los que se hallen implícitos y contenidos como lo particular en lo universal. adstrito à pura forma. o tema lógica versus cultura vem imediatamente referenciado a Lévy-Bruhl [2] e à sua tese da prevalência.. mas de qualquer modo contestada pela antropologia estrutural de Lévi-Strauss [4]. entre os povos primitivos. Segundo esta última. eivado de sentimentos. A tese teria sido mesmo abandonada pelo próprio autor [3]. de um pensamento ainda pré-lógico. porque não .[1] Raimundo Lulio. contrastando com o pensamento propriamente lógico acabado.

a qual se vem juntar uma diferença específica. Nosso objetivo aqui é voltar à questão para discutila num âmbito maior e certamente mais apropriado. vige esta mesma referenciação. apenas com a agravante da rigidez própria dos copistas e dos pobres de espírito [6]. porque parece-nos estar ali também implícita uma concepção restrita. como também sua marginália histórica. segundo. aquele do pensamento filosófico estrito senso. lógica ressuscitada versus cultura não é aqui. depois a acompanha e lhe marca passo. em acordo com a moda atual. Parte-se da natureza . levando então à emergência do homem e consequentemente da cul- . nos irá remeter à velha Grécia [7]. cujas origens certamente se perdem nos tempos. não nos deve causar espanto. e no entanto paradoxalmente imprecisa. A reabertura da questão lógica versus cultura ou. Paralelamente estaremos superiormente armados com uma renovada concepção da lógica [8] que resgata não apenas a riqueza da tradição. ela se faz necessária em razão de que. a mesma lógica que. pois. Comecemos tomando como referência um esquema de compreensão evolutivo do ser humano. No Brasil. mas em flagrante desacordo com o melhor da tradição filosófica.72 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO aceitarmos esta separação drástica ali implícita entre o lógico e o simbólico (simplesmente porque existe a questão do estatuto lógico do próprio simbólico). um mero oportuno acadêmico. agora dito com bem maior cuidado. tudo isto convergindo para a demarcação precisa e o completo re-mapeamento do território lógico. no cerne da filosofia da cultura (ou o que para nós é o mesmo. naturalmente. da antropologia filosófica) estaria precisamente a questão da mutação lógica que levou ao advento da cultura. destarte.representada pelo animalidade em seu estado de máximo desenvolvimento -. diga-se de passagem. já o demonstramos alhures [9]. o que. do que seria a lógica.

O ser humano. detinha a mais e com exclusividade a função intelectiva. sendo este último.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 73 tura. que o logos aristotélico não era mais o logos heraclítico. dialético ou formal. logo. do ponto de vista formal. Pode-se argumentar.1 – O homem grego Segundo Aristóteles. além destas. a animalidade superior incorporava não apenas as funções vegetativas – de nutrição e de reprodução – como também as funções sensitivas – compreendendo os diversos modos sensoriais. a que se acrescia a autonomia locomotora. Na circunstância. Observe-se que o poder de por si e propositadamente movimentar-se é. ainda não degenerado em logos metafísico. já sem seu maior vigor.1). O homem era pois o animal superior onde ademais habitava o logos. a posse da razão discursiva (logos) [10]. (ver figura 3. CAPACIDADE DE MOVIMENTO AUTÔNOMO CULTURA HOMEM CAPACIDADE DE PENSAR ANALÍTICA Figura 3. animal racional. o modo como ele acabaria se mostrando. não importa se transcendental. isto pouco pesa. precisamente. pois . como provavelmente o faria Heidegger [11]. entretanto. o logos originário. no próprio Aristóteles. Entre os gregos este esquema bastante simples já vigorava de um modo preciso: o ponto de partida era então a animalidade superior à qual se agregava como diferença específica o logos ou a razão discursiva e chegava-se assim ao homem. de evidente caráter lógico-transcendental ou identitário (I). um poder de auto-determinação.

Dito em outras palavras: a razão grega valia por si e não como produto resultante de um poder diferencial que se vinha articular à outros poderes ou potencialidades operatórias similares pré-existentes. lógico-diferencial ou analítica. fica o fato que. para desta sorte ampliálas ou multiplicá-las. por si só. Em termos estritamente lógicos. Do nosso ponto de vista. Isto interpõe um degrau exagerado de descontinuidade entre o animal e o homem. tal como anteriormente assinalado [13]. sejamos obrigados – depois de Heidegger – a deixar em aberto a questão do logos cosiderado: se o simples lógico-diferencial (Heráclito) [12] ou se o duplamente diferencial ou formal (Aristóteles). articulando-se. A nosso ver a diferença especificamente humana não pode valer pelo que traz em si. Primeiro. O essencialismo grego suscita. a principal crítica à concepção grega do homem deve incidir sobre o caráter tipicamente agregativo/substantivo dado à razão (ou logos).74 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO opte-se por uma ou por outra interpretação. é e diz tudo. dir-se-ia que para . para os gregos. não pode caracterizar o ser humano em sua totalidade ou “maximalidade”. potencializa e/ou amplia. de fato. pelo moderno estruturalismo antropológico. porque a “razão”. no sentido de que ela ali funciona como uma “essência” constitutiva e não como um atributo superveniente. porque ao admiti-lo estamos implicitamente diluindo o caráter evolutivo da passagem considerada – o novo. Segundo. mas sim pelo que. veremos adiante. inconveniente que viria ser justamente contornado. o que fazia ser a humanidade era algo de natureza essencialmente lógica. duas sérias objeções. mormente quando já se tem por estabelecido que os animais superiores dispõem de uma capacidade sintética ou identitária inquestionavelmente manifesta em sua auto-determinação locomotriz. como capacidade analítica que realmente é. mais precisamente. conquanto.

o ser humano teria que ser pelo menos lógico-dialético (I/D). o esquema compreensivo que vimos tomando por referência. pois a dialética (própria e apta a pensar a idéia ou o conceito) era algo inerente ao próprio destino do pensamento grego. a criação do homem a partir do barro (natureza ou apenas res extensa) preserva. O cristianismo trinitário. sendo o animal superior pelo menos lógico-identitário (I) e a razão pelo menos lógico-diferencial (D). de outro lado. ou seja. o que acontecia não por força de uma infidelidade ou de uma traição. Foi precisamente a esta conclusão que chegou Platão – é verdade que por motivações e caminhos outros –. seja pela posição última na ordem da Criação. atribui-se um caráter puramente identitário (I) à diferença que fez ser o homem. res extensa (D). embora conferindo uma especial dignidade ao homem. Com Platão chegava-se. pervertendo-o do ponto de vista lógico. no entanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 75 os gregos. A propósito. algo que a ele em algum momento se desvelaria decretando – tem-se até o direito de lamentá-lo! – a sua própria superação. recusou a essência evolutiva do esquema grego e assumiu. um criacionismo paralelo de todos os entes. de fato. ao termo de uma etapa da história do pensamento (e. no caso. portanto lógico-dialético (I/D). o parecer nietzscheano e reiterado por Heidegger que Platão teria traído o espírito filosófico grego é uma reprimenda completamente descabida. como se lê em seu diálogo Parmênides [14]. sob o aspecto formal. que se confunde com o pensar da identidade recuperada para além da diferença. como reza o Gênesis. parte-se da matéria inerte ou da animalidade bruta ou carnal. mas pela inexorável exigência (lógica) da história (hiperdialética) em seu processo de auto-realização [15]. também da história da cultura). àquilo que concretiza a passagem da . seja pelo atributo da semelhança ao Criador. Entrementes. ainda que entendida metaforicamente. De um lado.

I) (ver figura 3. isto significava um evidente retrocesso relativamente ao que haviam pensado os gregos. livre arbítrio. transcendental ou identitária (I). Ao cabo.. o homem passava a ser concebido como um misto heteróclito de corpo (natureza. lógico-identitária. liberdade.2 – O homem cristão O mais espantoso nisto tudo é que o pensamento antropológico cristão não se apercebia da absurdidade da inversão. que negando consciên- . o cristianismo realiza a proeza de transformar a diferença que fazia a diferença numa identidade. alma. D) e alma (imaterial e eterna.2). consciência moral. lógico-diferencial. com a completa inversão das lógicas em jogo: aquela de partida era agora diferencial (D) e a nova. a algo de ordem lógico-diferencial. porém. pura consciência. matéria perecível. como para os gregos. Assim. Como se vê. interveniente. Seguindo seu antecedente judaico. mas sim de ordem lógico-identitária sopro. tudo isto era sem dúvida o que poderia haver de mais coerente com o estatuto lógico-trinitário (I/D) da cultura cristã – a dignidade do homem se devia à interveniência da alma (I) pertencente à mesma família lógica (lógico-identitária) a que pertencia o próprio ser divino (I/D). conservavam o mesmo esquema conceitual dos gregos. No entretanto. a passagem do animal ao homem não se devia mais. Aliás. Só assim se justificava a semelhança do homem ao seu Criador.76 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO natureza à cultura. NATUREZA BARRO/CORPO CULTURA HOMEM: CORPO E ALMA SOPRO ALMA Figura 3. espírito (mesmo que decaído) etc.

auto-transparência. Em suma. infelizmente. entretanto. concomitantemente res extensa e res cogitans. apesar de ainda carregar tantos vezos medievais. o homem se estruturava ainda como misto de corpo e alma. mas na liberdade-operativa. A Modernidade. mas não altera o estatuto lógico-transcendental do ser próprio de todos os homens (a especificidade humana não estava mais na alma-substantiva. de índios e negros africanos. em particular. o homem cartesiano não podia ser mais concebido como um ser lógico-trinitário. a circunstância de se tratar agora de uma res extensa submetida aos poderes de uma geometria métrica. entre o animal e o homem [16]. a ciência lançava-se à tarefa de homogeneização de todas as coisas. o inorgânico e o orgânico. demolindo as tradicionais diferenças entre o nada e a matéria.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 77 cia ou capacidade lógico-sintética aos animais superiores abria uma brecha para que daí a pouco os interesses coloniais levantassem também duvidas quanto à humanidade dos não-europeus cristãos. com plena justiça e de modo quase unânime. acabou mesmo acontecendo. o macro-molecular e o vivo. no caso. enfim. sua “espessura” lógica se ampliara fazendo explodir a estreiteza referencial da dialética cristã (I/D). acabou considerado. lógico- . enquanto que a res cogitans se constituía como lógico-identitária. E isto. provocado pelo ciclo dos grandes “descobrimentos” e colonizações. portanto sob o império da lógica da dupla diferença (D/D). parecia preservar a concepção cristã: em Descartes. sabemos todos. a princípio. Havia. o primeiro filósofo da Modernidade. porém. Instalada irreversivelmente a Modernidade. é levado ao reconhecimento do outro (cultural) como um igual. O Iluminismo continental [17] dos séculos XVII e XVIII. É exatamente por isso que Descartes. ambas se mantinham idênticas em seu estatuto lógico. pura reflexividade (I). depois. de muçulmanos e judeus.

a . busca estabelecer a continuidade (ou a indiferença) entre natureza e cultura: o primitivo era um macaco evoluído. na medida em que ele rompe abertamente com o inconsistente transcendentalismo cristão. Nas proximidades ainda do macaco. pois trabalho é precisamente o esforço que visa a outra coisa que ele próprio [18]. se pode conceber como uma espécie de neoliberalismo antropológico). naturalmente. Com isso começava de fato uma nova era na antropologia. uma espécie de anglosaxão retardado e muitos degraus abaixo. não pode ir muito mais longe em razão de que. desenvolvia-se o marxismo. posto que assim rompia-se com a concepção cristã que via na passagem do animal ao homem a intervenção de algo da ordem da identidade. A essência lógica do trabalho é a diferença. Em nada surpreende que deixassem de lado exatamente a problemática existencial e histórica da cultura. e o latino. uma nova maneira de fazer prosperar o cientificismo antropológico sem os inconvenientes do etnocentrismo desabusado e ostensivo do evolucionismo cultural darwinista. Surge então a antropologia funcionalista. argentinos e a “elite” brasileira no poder continuam firmemente a crer até hoje).78 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transcendental). por retroação. mas o trabalho (D). como é próprio de todo cientificismo. O marxismo. Chegamos então à teoria da evolução de Darwin (que hoje. brasileiros miscigenados (aliás. a que devemos o primeiro passo efetivo para a refundação da antropologia moderna. como no fundo da alma. europeus. (I). não possuía a “espessura lógica” suficiente para acomodar (ou poder compreender) a dupla diferença (D/D). Paralelamente. como a liberdade. estávamos nós. herdeiro da dialética hegeliana (I/D). não mais a alma ou algo equivalente. entretanto. interpondo entre o animal superior e o homem. que.

Com ele um grande passo é dado em direção de uma nova antropologia. tratava-se de uma lógica onde sentimentos e emoções ainda tinham um grande peso no processo de produção da “verdade inferida”. Perdoe-nos o leitor uma digressão relativamente longa acerca das origens da noção de pré-lógico em Lévy-Bruhl. entre os povos primitivos. ele renova radicalmente a indagação antropológica: ao invés de perguntar como se fizeram os jesuítas. não o faz no sentido de que fossem destituídos de lógica (o que seria mesmo um absurdo. de um pensar por analogias e proximidades significativamente carregado de sentimentos e emoções. no caso. Esta concepção remontava. pergunta se eles tinham lógica (clássica). Além de pugnar por um posicionamento mais “empático” do antropólogo em relação às cultura primitivas transformada em objeto” de estudo. Esta noção de pensamento pré-lógico em Lévy- . lógica que diferiria (o que não quer dizer que se opusesse ou negasse) da lógica formal hegemônica do Ocidente. se os primitivos tinham alma. já no início do século XX deparamonos. agora sim. mas como usuários de uma outra lógica. pelo menos. pois destituído de lógica é sinônimo de destituído de pensamento).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 79 lógica da ciência que à época já se apresentava como o traço fundamental da Modernidade [19]. com a figura de Lévy-Bruhl [20]. a Théodule Ribot (psicólogo francês conhecedor e apreciador sob muitos aspectos da psicanálise freudiana [21]. que a pergunta por si valia imensamente mais do que a resposta que se lhe viesse dar. Quando este faz uso desta expressão para caracterizar o pensamento dos povos primitivos. Voltando à tradição propriamente antropológica acadêmica. É evidente. Logique des sentiments é mesmo o título de sua principal obra) [22]. razão pela qual ele pode ser com justiça considerado um dos fundadores da antropologia moderna. que afirmava a prevalência.

foi trazer novamente a questão da cultura para o âmbito da lógica tal como ela fora posta originalmente pelos gregos. Pasmem: lendo o livro de Ribot. busca-se então a diferença humana já universalmente operante que vai ser identificada como a diferença clânica. de um lado. inspirada. assume-se que em qualquer circunstância o verdadeiro objeto científico é o ser-sincrônico e não o especulativo vir-a-ser-diacrônico – uma reação. é inquestionavelmente óbvio que o termo pré-lógico em Arthur Ramos. Em suma. Em suma. O principal mérito de Lévy-Bruhl. bastante próxima pois da ulterior lógica lacaniana do significante [24]. pré-condição da instituição do que seria a lei convencional por excelência: a lei de proibição do incesto. contraface . ao “totalitarismo” hegeliano! No âmbito da cultura. sobre a logique du sentiment de Ribot [23]. afirmávamos. tanto quanto em LévyBruhl e Ribot. Nestes três últimos casos há de comum o abandono da indagação pela origem ou pelo ser (como vir-a-ser) para se tomar como “objeto” próprio do saber a diferença já instaurada. mas sujeito à lógica do sentimento. é um declarado admirador da obra de LévyBruhl e bem informado sobre suas fontes. sabemos. na fonologia diferencial de Jackobson e sobretudo na teoria do inconsciente. pois é justamente ela que tem servido de pretexto para desmerecer a obra de um dos mais importantes estudiosos da formação da cultura brasileira – Arthur Ramos –. Eis que na segunda metade do século XX emerge a antropologia estrutural. ainda que bem tardia. facilmente identificamos sua lógica como aquela dos processos primários freudianos. de Freud. não quer dizer destituído de lógica. que. particularmente. e de outro.80 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Bruhl aqui no Brasil originou uma predisposição cheia de veneno e má fé. na lingüística sincrônica de Saussure. em Rousseau e no materialismo dialético marxista (anti-transcendental).

Ver figura 3. DIFERENÇA SEXUAL MACHO/FÊMEA DUPLA DIFERENÇA MATEMAS DA "SEXUAÇÃO" MASCULINO/FEMININO PRIMEIRA DIFERENÇA DUPLA DIFERENÇA DIFERENÇA CLÂNICA SEGUNDA DIFERENÇA Fig. ou seja. . 3. deixava a simples pela dupla diferença. Desta forma. Não é pois mero acaso que a “sexuação” humana em Lacan viesse encontrar sua melhor expressão nos famigerados matemas. mas vinha para se articular à diferença sexual animal bi-polar macho/fêmea. na verdade. Como conseqüência imediata. expressões não apenas de fisionomia. emerge aqui uma importante novidade: é que tal diferença não mais valia por si. a sexualidade humana se via compelida à redefinição. agora. justamente. Com isto instituíase a circulação das mulheres entre os homens reunidos em clãs. Entrementes. bem ao contrário do que nos queria fazer acreditar o cristianismo doutrinário. a importante contribuição lacaniana à compreensão da sexualidade humana tem como antecedente o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss e isto só pode ser devidamente compreendido e apreciado se. A troca das mulheres entre homens assim sub-agrupados se constituía no paradigma de todas as demais trocas e por conseqüência da solidariedade social.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 81 da obrigatoriedade da exogamia. levarmos em conta que tal aproximação tem como pano de fundo a lógica.3.A diferença clânica no estruturalismo Como é bem sabido.3 . no quadro mais amplo de uma estrutura lógica tetrapolar. retornava-se em definitivo a um dos aspectos fundamentais da concepção grega: a passagem do animal ao homem devia-se a um poder diferencial e não identitário.

4. sem dúvida. a c e b f d a c f e d b e a d c b f Figura 3. Devemos aqui abrir um parêntese. poderia estranhar nossa insistência na necessidade e mais ainda na suficiência da dupla diferença para a caracterização daquilo que é essencial e propriamente humano. O primeiro deles refere-se ao “logicismo” grego: no . diríamos que. por exemplo. o par esquerda (c)/direita (d). pode ser representada por um quadrado. Porém. mas muito bem articuladas entre si [26]. Ver figura 3. entretanto. uma diferença ilustrando o par em cima (a)/em baixo (b) e a outra. ficando a terceira automaticamente definida pelas duas diagonais.Duas diferenças e três relações Voltando à nossa linha de raciocínio. o estruturalismo representa um grande avanço em relação ao pensamento antropológico grego. mas. sobretudo. familiarizado com a doutrina estruturalista. Alguém. consangüinidade e filiação? Não é muito difícil demonstrar que a dupla diferença é o bastante para a definição das referidas relações. Agora fica evidente que podemos formar um terceiro par com os termos diagonais do quadrado (e/f). A dupla diferença. podemos redesenhar o quadrado tomando quaisquer duas relações para formar os lados do quadrado. de fato. três relações fundamentais – aliança. pena.4 . de essência realmente lógicas [25]. Como as três relações são equivalentes (ou quase). no simples átomo do parentesco não estariam implicadas tão apenas duas. que viesse acompanhado de dois outros grandes retrocessos.82 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas. que estas não são relações isoladas.

como deveras o faz [27]. pensá-la apenas no âmbito da res extensa. ele é tão apenas uma realização possível de um esquema lógico. Queremos dizer que. são ambas leis societárias convencionais. Passando-se do registro sexual ao simbólico. Negar isto é não con- . Ao mesmo tempo. formalmente. identifica-se ou assume sua determinação sexual: ele não é apenas macho. que pode também realizar-se sob outros aspectos. A lei da proibição do incesto é. mesmo já biologicamente marcado. isto não passa de uma simplificação. uma gramática. em que pese a denominação geral de estruturalismo antropológico dado a esta corrente de pensamento. Podemos considerar macho/fêmea como realizações de uma diferença D. De fato. especificamente dos cordados. tanto a diferença sexual de partida quanto a segunda diferença clânica valem por si. percebe-se isso ainda com maior clareza. pois é inegável o poder de simbolização arbitrária dos animais superiores. sua capacidade de operar dialeticamente (I/D) [30]. por mais significativo que seja o “modelo sexual”. o mesmo se dando com a fêmea. ou seja. a gramática é uma estrutura legal convencional necessariamente sujeita à lógica da dupla diferença D/D [29]. ele é macho que se assume macho. que está presente mesmo no registro sexual. Para ficarmos apenas num exemplo: a passagem da capacidade de operação simbólica (I/D) dos animais superiores à capacidade simbólico-discursiva (I/D/D) – proposicional no dizer de Cassirer [28] – do homem exige igualmente a introdução de uma segunda diferença.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 83 estruturalismo. Entretanto. facilmente constatamos sua radical incapacidade em relação à articulação gramatical (D/D). O segundo retrocesso em relação aos gregos refere-se ao “esquecimento” do caráter lógico-identitário dos animais superiores. são “substanciais e não apenas realizações de uma matriz essencialmente formal. pois o animal.

84 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO seguir distinguir a enorme diferença entre os pares porca/porco e porca/parafuso. teríamos que recuperar o que o estruturalismo desaprendeu dos gregos. a rigor. que permite a definição de regras de proibição de incesto paralelamente à imposição da exogamia. Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. sem dúvida. poderíamos agora aceitar que o logos constituísse a diferença especificamente humana. e fazendo-o sem prejuízo do seu ser sintético. no concomitante exercício de sua capacidade lógicoidentitária herdada da animalidade superior. na condição de ele vir para se compor com poderes e potencialidades operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo reproduzi-las em nível operatório superior. porém. habitado pelo logos. já a posteriori articulada. é verdade . ser racional. o homem se capacita a operar a nível duplamente lógico diferencial (racionalmente). Em compensação. A diferença clânica. seu estatuto lógico global tem que ser. seria um dentre muitos modos possíveis de manifestação . Para nós. portanto. bastaria dizer que o animal superior (cordados) opera a nível lógico dialético trinitário (I/D) e o homem a nível lógico hiperdialético qüinqüitário (I/D/D) (ver figura 3.5). Voltando aos gregos.privilegiado. porém.daquela produção “genea-lógica”. o logos estaria assim ampliando a capacidade lógico-analítica dos seres vivos. como razão formal aristotélica (D/D). lógico-qüinqüitário ou hiperdialético (I/D/D). na verdade. o fato é que. Com efeito. existencial ou subjetivamente. o homem é. . Do ponto de vista instrumental. ou objetivamente operatório. “duplicandoa” ou reiterando-a.

5 – O homem lógico-qúinqüitário Não é de admirar que culturas identitárias (judaico-critãs) atribuam à intervenção de uma identidade como sendo a razão de passagem da animalidade ao homem. Em princípio. que poderíamos denominar pósestruturarista (concepção estruturalista à qual restituímos a identidade perdida). da natureza à cultura. grega e moderna) atribuirão aquela passagem a uma diferença. com aquela de chegada. como Aristóteles. Do mesmo modo as culturas lógico diferenciais (pagãs.6.6 – Concepções masculina e feminina .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 85 I/D D I/D/D Figura 3. nossa referência de partida. Incoerente seria que o fizessem ao contrário ou mesmo indiferentemente! Seria interessante compararmos agora a antropologia aristotélica. o homem como síntese de I e D/D é de certo modo assumir um parti-pris machista [31]. concebê-lo como síntese de I/D e D não seria assumir um parti-pris complementar feminista?! I D/D I/D/D I/D D I/D/D Figura 3. Ver figura 3. pareceria que a segunda é um simples complemento da primeira: conceber.

capazes portanto de operar com símbolos convencionais (I/D) . no entanto. Existiria. A nossa concepção é definitivamente não-machista. logos de certo modo herdado e logos ao quadrado.7. Natureza e cultura se opõem. Gostaríamos ainda de chamar a atenção para o fato de que o esclarecimento da relação lógica versus cultura provoca uma reviravolta da velha querela acerca das relações entre natureza e cultura. sim. de estofo lógico dialética (I/D) e chega à cultura. inclusive com ajuda da figura 3.7. de estofo lógico transcendental (I). pelo menos do ponto de vista especulativo.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). Não rebaixamos a lógica do animal de I/D para I.86 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Parece-nos que não. a diferença clânica. A prestigiosa razão suficiente leibniziana que busca responder à questão ontológica (no caso: porque existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. segue com a natureza. uma seqüência aberta. A seqüência começa com o ser. sim. aqui uma simetria. apenas superficial. Esta abertura é essencial para que o homem possa se . mas a ela não se reduz. pressupõe deveras uma certa sensibilidade para o ser-feminino. como mostra a figura 3. ou seja. mas como termos de uma seqüência. ela permanece. Ora. que é. fica por aí evidente quão equivocado é o costume corrente de contrapor natureza e cultura de maneira meramente especular. E.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) -. concomitantemente. natureza?) [32]. logo. Voltaremos ao assunto um pouco mais adiante. não perdemos a precisão lógica da diferença que faz a diferença animal/homem e tornamos bem mais compreensível a incomensurável força do logos no homem. guardando um iniludível relacionamento hierárquico. de estofo lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). ganha então uma resposta bem precisa: a passagem da natureza . em termos antropológicos.

I/D/ 2 I/D I Cultura Natureza Ser Figura 3. sem. sem que se pense porque se pôde deveras chegar a pensar nisso.7 – Natureza versus cultura É importante notar que o estatuto dialético da natureza só é alcançado ao nível dos animais cordados capazes de operar com símbolos convencionais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 87 posicionar de fato no ápice da escala dos entes mundanos. E escapamos também assim dos humanismos de qualquer espécie. Concluiríamos afirmando que não há como pensar a filosofia da cultura. entretanto. na verdade não passaria do estatuto lógico diferencial (res extensa). de fazê-la geométrica. como pergunta pelo Absoluto. ou seja. pode então permanecer como ainda legítima. A religiosidade. Ela só nos parece de nível superior por efeito da atividade humana de mensuração. ou seja. ou seja. A natureza enquanto mundo físico. por isto se tomar por Absoluto. a “diferença” ontológica homem/natureza ou cultura/natureza sem o concurso da lógica. .

ao tentarem viver mais além. inventando as vogais. tiveram que inventar os mitos que os inventassem. .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 89 4 Desejo. Dordonha e Chauvet. os vencedores. fingimento e superação na história da cultura Os povos caçadores/coletores viveram porque ignoraram sua lógica e assim tiveram o que comer. e ainda nos deram de quebra o logos e a poesia trágica exorbitante. a agricultura a sustentá-los. o gosto da guerra e legaram. Os gregos. mil anos depois fazer levitar catedrais góticas inteiras e por fim legar museus repletos de arte sacra e em cima o presente Papa. legaram a arte na e pela pedra em Lascaux. inventam as consoantes e assim a escola. sua escrita mais suas criptas funerárias. Os homens do neolítico. O povo judeu. assentados. afora sua triste lembrança. A Modernidade pariu as “tecnologias” financeiras que transformam tempo em dinheiro tão eficientemente que não sobrou nenhum para criar e poder legar nada que prestasse. e ainda honrar profetas bem mais do que quadros sacerdotais. donde a paidéia e a pergunta pelo ser (sem a responder). Dispondo da dialética platônica pode o Medievo reanimar o Corpus Christi. Altamira. por freqüentar o deserto e o cativeiro. soube se libertar do bezerro de ouro e pode legar a lógica em pessoa (Eu sou o que sou).

pelo menos na atual circunstância. pelo menos um pouco de ar para que o pensar não sufoque e sucumba. o Nada não é mais nada. os futuros e junto todas as liberdades? Agora. o que se pode é bem dizer a insignificância que se vive. e com isso foi-se à breca a temporalidade. que veio para se apossar no atacado de todos os corações e imaginários? Enquanto isso. corpo e alma. terapeutas pela palavra assumidos.seu preço arbitrado pelo mercado expresso num código de barras? Nada há mais para acontecer senão negociar. Como conseguir ser subversivo na era em que o filósofo e filólogo virtuoso comete muitos acertos. senão a subversão. negociar-se. a mega-indústria do inconsciente. é verdade). não há cura. só na TV você decide! Como conseguir ser subversivo na era do marketing. negociar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 91 Antes de mais nada Como conseguir ser subversivo naquela que se anuncia a era de todas as eras. deixando de herança seu lugar ao longínquo poeta (grego)? Ainda anuncia. os artesãos do que é outro. e porque também alguns erros (graves. no círculo de aço-cromo-níquel da prostituição generalizada. Como conseguir. que agora só mesmo um deus pode vir salvar-nos. enquanto espera por si. que é . concluem que. na Modernidade que virou a própria pós-modernidade? Na era em que nada mais escapa à suprema medida . zombeteiro. se demite. Já se reparou que tudo tendo seu preço. na melhor das hipóteses.

Aliás. o poderá deveras salvar? Falando com bastante simplicidade. algo ainda mais complexo.92 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO quem. ainda que em nome de Deus. de um lado. o poder de discurso em sua dimensão plena [4].Considerações introdutórias . de natureza hiperdialética (I/D/D = I/D/2). mas a “razão” humana iria mais além. atestada de muitos modos. entre eles. operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I) [3]. a esperança? Em Noções de antropo-logia [1]. pela variabilidade temporal do vigor criativo das culturas. entre muitas outras coisas próprias aos homens.com a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. dialética (I/D) e clássica. Perguntamo-nos já naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização . mas. tomando-se por termo de comparação. a dialética trinitária. de outro. Os animais cordados (dotados de sistema nervoso central) atuariam no nível lógico dialético.em princípio. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) governa. válida para todos os homens em todos os tempos e lugares .1. ao menos. a fenomenologia do espírito de Hegel. como conseguir re-haver. formal ou da dupla diferença (D/D=D/2). Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). como poderia a nível hiperdialético qüinqüitário ser diferente? É uma simples questão de consistência 4. pela dissimetria de suas relações lógicas de determinação e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo-se a história da cultura como um processo de auto-desvelamento do próprio ser do homem. da diferença (D). caracterizamos o homem como o ente capacitado a operar no nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário [2].

clássica ou formal D/D = D/2 e a própria I/D/D = I/D/2). teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais (ver figura 4. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D). as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas [7]. cultura tribal. e que lhe confere. melhor. dialética I/D. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [6]. ambas naturalmente referidas à Natureza. a seguir. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo ou. Resumidamente. assim. inclusive. representativamente lógico na direção daquele desvelamento. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. pré-D.1): pré-I. cultura sedentária de base agrária. um essencial e particular comprometimento lógico [5]. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. e focalizando apenas o Ocidente e o Oriente Próximo [8]. cultura judaica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 93 ou até de simplória regra de três! Toda cultura teria. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento serão denominados culturas nodais. . I. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. da diferença D.

uma cultura à medida exata do homem. cultura hiperdialética qüinqüitária. pela primeira vez. porque. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). que só se pode manter porque os próprios fatos insistem em não desmenti-la. D/2. cultura moderna de base científica. por todos os títulos. Por certo há que se exigir mais. As culturas nodais D. cultura medieval cristã (patrística). uma manifesta síntese das culturas anteriores. que hoje domina o mundo. A tese uma cultura. uma lógica é obviamente uma desmedida simplificação. diríamos: em especial. cultura prometéica grega. para a tristeza e incômodo de todos os ideólogos e crentes da vida eterna da Modernidade (tanto do paradigma anglo-saxão. ainda por vir. não castradora. sobretudo. mais precisões e.1. e. mais numerosas e profundas incursões . I/D/2.94 CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D/ CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA 2 CULTURA MODERNA CÍNICA I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURAS LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES Pré-I Figura 4. I/D. até muito mais. quanto de suas indefectíveis alas esquerda e direita).

Esta mudança. uma cultura. correspondente à cultura que a antecedeu . ora clandestinos. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. o seu próprio futuro que resolveu madrugar. que ajudem a avaliar a potência e traçar os limites de validade desta concepção. com cada uma das demais lógicas mundanas. vale dizer. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. já foi assinalado. uma lógica. como se verá. porém. com aquela que a todas elas subsume (a hiperdialética qüinqüitária que caracteriza essencialmente o homem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 95 especulativas. Neste sentido é que vamos aqui tentar explorar ainda um pouco mais este veio dos determinantes lógicos da cultura. precisou ser feita preservando-se o postulado da igualdade de todos os homens. Nossa tese central aqui não será mais. Agora. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura. Em outras palavras. Tentemos melhor esclarecer. não discordamos). por coerência. sim. fonte de seu vigor criativo -. intentará simular ser. Cada cultura tinha já sua lógica de referência era essa nossa tese anterior [9]. como até agora. correspondente à cultura que a irá suceder .que determina o que ela. numa artimanha defensiva. algumas de alto risco. inclusive. a segunda. é óbvio. em que pese seu parti pris lógico. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda e da qual. entretanto. São vínculos ora claros e assumidos. toda cultura de algum modo dá testemunho de outras lógicas. Uma cultura e três lógicas . 4.2. ela fica necessariamente associada a mais outras duas lógicas: a primeira. três lógicas. fingir que não mais é o que é e.que determina o seu ser desejante.

os gêmeos. lógica dialética I/D . seu permanente pesadelo .o número 3.96 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para convencer-nos. lógica formal D/2 . o azul. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? Por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas: a) de um lado. as figuras especulares. seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica.o número 4. com a lógica da cultura que lhe sucederá. o segmento de reta. triângulos. as pirâmides de base quadrada. mandalas [10] de toda sorte. a serpente que se devora pelo rabo (o ser-um como resultado do colapso de uma diferença). procede a real ameaça à sua domi- .o número 2. o negro. a água e a serpente em hélice ou distendida. os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. mas que de algum modo permanece subsumida. para que ela pudesse advir em seu lugar.lógica que teve que ser superada (ou recalcada). bastaria pinçar alguns exemplos em meio à profusão de manifestações arquetípicas encontráveis nas culturas históricas: lógica da identidade I . b) de outro lado. o vermelho. o ar e a águia. a terra e o touro. o ponto. triângulos de círculos ou nós borromeanos.o número 1. lógica da diferença D . Dentro desse quadro geral. o branco. os quadriláteros em geral e as cruzes. o homem e a quinta-essência. por suposto. o círculo.o número 5. o fogo e o leão. com a lógica da cultura que lhe antecedeu . e que por vezes “retorna” ou se revolta como num sonho -. a estrela socialista. lógica hiperdialética I/D/2 .de onde.

perde-se o objeto que fora antes o mais digno e próprio de ser pensado. pelo menos. (Ver figura 4. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que ela de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural ou. técnicas e múltiplas artes. é de algum modo silenciá-la ou recalcá-la. Isto nos faz compreender. instituições. ou seja.2) . Desde sempre. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. por suposto. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. de modo mais ou menos claro. o desejo da cultura [11]. como as culturas. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou marginalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua.2) Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico-emocional dos indivíduos. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. o que se pode. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. Tenta-se então recuperar este objeto perdido captando-o ou “ vestindo-o” com a nova lógica. não se pode simplesmente apagá-la. na verdade. através de um processo de reiteradas substituições. é uma impossibilidade. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e bem exercida. Com isto. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 4. conhecimentos. afinal.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE nação de época. o que. 97 Do ponto de vista lógico.

finge tão completamente que chega a fingir que é pós-moderno o moderno que deveras jamais deixou nem pode por si largar de ser. simula ou finge ser o que ainda virá. tanto de suas excelsas realizações. e que a dissimulação aqui .pela violência em resposta ou preventiva (como a degola dos recém-nascidos). por exemplo) -. Lógica anter. onde uma mixórdia de estilos incluído aí o próprio velho moderno . CULTURA ANTERIOR RECALCADA DESEJO Figura 4. pela calúnia. tentando convencer-nos de que o mundo já entrou na pós-modernidade. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica.2. mas que ao final é o que a empurra para a frente. como de seus piores feitos. que é seu verdadeiro motor imanente. convenhamos.98 CULTURA POR VIR LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pseudo auto-superação CULTURA DE REFERÊNCIA FINGIMENTO Fim da simulação usurpadora SUPERAÇÃO Lógica poster. pelas ideologias. hoje. é o melhor que poderia mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História.metaforiza a chegada de uma nova cultura que a todas estaria subsumindo. Toda cultura teria pois uma disposição desejante. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. Modelo lógico Um exemplo salta de imediato à vista: a insistência dos ideólogos da Modernidade. Este estratagema fica ainda mais visível na arquitetura dita pós-moderna. logo no momento em que esta passa por uma de suas crises mais agudas. Lógica de refer. Toda cultura. que. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação .

pelo abandono de uma identidade ab initio perdida (I/D/n-1) em favor de uma identidade prospectiva (I/D/n) situada além da diferença (D/n) específica que ela por definição encarna. O golpe fatal sobre qualquer cultura. pois. E quando isto acontecer. Mas afinal. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua. formalmente. quem pode ser condenado por tentar sobreviver. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. No entanto. simulando se sobre-viver. sem que isto implique conotações organicistas descabidas. só que ao seu jeito. precisamente em seu fingimento. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. O mesmo esquema geral contínua válido no caso das culturas lógico-identitárias (I/D/n). as culturas são como todos nós . como não poderia mesmo deixar de ser. e que de maneira inexorável irá confrontá-la. Tendo-se por referência apenas as culturas lógico-diferenciais [12]. ela já percebe delineados em seu horizonte.lutam para viver. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (no caso. as conquistas “materiais” da cultura lógicodiferencial em processo de superação (D/n)). os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. mesmo certo de como e de que mal vai morrer?! Neste particular. também não se pode ter dúvidas. um radical comprometimento lógico-identitário (I/D/n-1)) com uma mui corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (no caso. pode-se perceber que o movimento de sua superação se dá. todas o pressentem sem engano possível.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 99 aludida é apenas um dentre eles. ameaçadores. só que a di- .

exige um pouco mais de “engenhosidade” para o seu efetivo enquadramento no nosso esquema geral. de outro lado. veremos os gregos (D). enfim. destacando seu desejo mítico. Ao invés de apresentarmos as culturas em sua estrita ordem lógica/cronológica preferimos fazêlo só subsidiariamente deste modo. com sua filosofia desejante. agora. preferimos dar prioridade à classificação identitária/diferencial. seu fingimento idolátrico sacerdotal e sua superação pela cultura da lógica do mesmo (I). no que se refere ao seu desejo. evitando ter que tratar logo de início com a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico. que pela peculiaridade de ser justo a primeira. do desvanecimento do seu próprio desejo. do esgotamento de seu vigor criativo. enfim. Por razões estritamente didáticas. que se estava já gerando em suas próprias dobras.3. o fruto esperado. Começamos com as culturas de antigos impérios de base agrícola (pré-D). como se fora tudo um simples renascimento. do conceito. tanto quanto terá sido negado. Alem do mais. da idéia. sua arte mimética exacerbada e sua superação pela cultura lógico-dialética do espírito. a entusiasta recuperação da sensibilidade e de alguns aspectos materiais da cultura lógico-diferencial anterior (D/n) e. em especial. tendo de um lado. depois. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. decidimos começar a exposição com a classe das culturas diferenciais. margens e desvãos [13]. A probabilidade de subversão/superação de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. Desejo. a interiorização ou subjetivação da espiritualidade em curso de superação (I/D/n).100 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO fícil e surpreendente equilibração se dará. do uno- 4. fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais .

1. cabe perfeitamente à cultura dos impérios antigos de base agrícola (pré-D). Nos antigos impérios de base agrícola . e por vezes radicalmente reinterpretados. perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. Tempo perdido. A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . O mito vem suprir exatamente este desejo de origem (ou de um pai). A agricultura tomada como base da subsistência. veremos. nas culturas evoluídas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 101 trino (I/D). metaforicamente. em essência. acompanhada de investimentos na organização da produção.3. na formação de estoques e na sua distribuição. teremos o que mais de perto nos interessa. em razão de inexcedível soberba e prepotência. sua prodigiosa capacidade de simulação tecnológica e. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. quer a cerealicultura (Tais mitos são mais raros. talvez. Como bem observa Mircea Eliade. com sua Física sofisticada e intensamente desejante. em desabalada carreira para sua própria superação pela cultura hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2 ).o mito e a pseudo potência sacerdotal Nosso modelo lógico articulando uma cultura a três lógicas. como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo . a liberdade pelo cativeiro. a Modernidade (D/D = D/2).o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. 4. (negritos nossos) [14] . por último. por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. Significam.

um herói civilizador sobe ao céu. E. ciosamente guardados pelos deuses. Ali vige o simbólico. o simbólico refém da espacialidade que. Jensen dava a esses dois tipos de mitologia os nomes de “Hainuwele” e “Prometeu” e os relacionava respectivamente com a civilização dos paleocultivadores (vegetocultura) e com a dos agricultores propriamente ditos (cerealicultura).102 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. apoderase de alguns grãos e com eles recompensa os seres humanos. Para tanto e muito mais. Neste tipo de cultura. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. em essência. Quanto aos mitos referentes à origem da cerealicultura. nas culturas de base agrícola (pré-D). Jensen julgava que o mito de Hainuwele é específico aos paleocultivadores de tubérculos. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O etnólogo alemão Ad. mas no céu. por isso não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. o sentido permanece ainda afeito ao traço. o constituiu. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. É então pela idolatria sistematizada que esta cul- . inventa-se a escrita possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. malgrado. que. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). colocam em cena um furto primordial: os cereais existem. mas sentido apenas como índex ou como análogo. entretanto. um entre os múltiplos atributos dos entes. (negritos nossos) [15] O mito.

vivas ou inanimadas. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). por nada subornável. da religião do Deus único. ora metonímicas (análogas aos processos primários psicanalíticos de condensação e deslocamento). ora metafóricas. uma intencionalidade atuante ainda que oculta. A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular. A todas as coisas. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. que irá permitir a expressão do lógico enquanto tal. como assinalamos. absoluto transcendente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 103 tura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm.3 . em definitivo saída da Natureza para o mun- . Como se fora numa pintura de Chagall. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer.Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Tudo isto. para fazer frente à grande ameaça do conceito. (Ver figura 4.3) D CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES MITO (DE ORIGEM) O ANIMALIDADE Figura 4. é atribuído um sentido. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes.

104 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO do da Lógica ou da Idéia (Hegel). não importa -. assumant ainsi la différentiation par laquelle. o círculo de seus adoradores . 4.a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos Chegamos aos gregos com sua lógica do outro ou da diferença (D) [16 ] que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser que é doravante ser outro (dos deuses). entrementes. posição que vai lhe custar o mais alto preço. Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. Isto é bem ressaltado por Beaufret ao comentar as concepções hölderlinianas sobre o que deveria ser a autenticidade grega: S’il y faut la fidelité. plus essentielle encore est l’infidelité où il se détourne comme un traître. inseparável do prédomínio do simbólico pleno ou convencional.2.três mil ou mais outros vinte tantos mil. O personagem símbolo aqui é Prometeu. en correspondance avec le détournement catégorique du divin. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. cuja gigantesca e emblemática figura. Esta relação com os deuses é crucial. é Moisés. Para que seja realmente autêntica. constituírem os gregos a cultura trágica por excelência. reunidos de dia. Daí. il est plus authentiquement lui-même que par la nostalgie de l’Un-Tout. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. à noite. necessita ser levada às últimas conseqüências. (negritos nossos) [17] . Entre os gregos . a fio de faca. à volta do bezerro de ouro. E se vê condenado a não mais retroceder.3. sabemos todos.

é que a relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo. Nesta. e isto precisa ser necessariamente assim porque a essência formal da diferença primordial está na especularidade [18]. em especial. ao invés. veremos que a pátria do ser como tal. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). ou seja. o homem grego precisava responder o détournement catégorique do divino com seu próprio détournerment em relação a Ele. porque é desta última. que se alimenta o vigor criativo dos gregos. Para compreendê-lo em toda sua significação.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 105 Nos próprios termos de Hölderlin. consumar-se-ia irrevogavelmente o autêntico ser grego. Hölderlin e Beaufret. à nostalgia do um-todo.4) . e não da outra. O que ambos não chegam a perceber. mas Graça!). uma profusão de profetas e suas duras admoestações contra a infidelidade dos homens à Promessa (que não é produto de roubo. no final do texto citado. (figura 4. considerada por eles fundamento lógico do trágico). e esta interpretação fica especialmente reforçada quando a vemos contraposta. do um-todo ou do Deus único. à filosofia. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. por falta do distanciamento. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. Só desta maneira. Reparando bem. mas. daquilo que foi e agora é falta). não produz filósofos e perguntas.

simular sua própria auto-superação como arte. beauté suprême.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. Afirma ela. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial. Para deixar isto ainda mais transparente.do que esta deveria. vale uma vez mais apelar à sensibilidade do poeta: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et.4 . grega no caso. além. sombra [19] Estes mesmos versos são comentados por Françoise Dastur em Hölderlin: Tragédia e Modernidade. pretensa extensão da natureza .Cultura prometéica grega (D) A arte grega. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. com certa gravidade: . lamentablement. o que encobre/ revela. de modo incontestável. a dissimulação que ela realmente é. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA I Pré-D Figura 4. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. particularmente a poesia trágica. malabarismo para uma sobrevivência impossível .106 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO D/ 2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. La Grèce. mas não chegara a realizar -.

com a agravante de terem sido alertados em tempo por um dos seus maiores . Hölderlin chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual. mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro.a arte tornou-se para eles não só modo de expressão e autocompreensão. Não conseguiram regressar ao pátrio. alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . ou seja. morrendo de excesso de arte porque não conseguiram conciliar em si. o que. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. não por serem imitadores. (negritos nossos) [20] Exato.Platão.e a filosofia. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [21] do que um clarividente. Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. à imitação da própria imitação. como se vê.seria necessário aduzir . para que fosse ele buscado além. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). demasiadamente exato. à fonte de seu próprio vigor. por excesso de fingimento. ou. Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão cirúrgica a laser. Por isso. sendo tam- . a verdade da parte pela da totalidade. como bem registra A República [22]. viria a ser a prerrogativa própria do conceito [23].que então exorbitava . mas também a grande arma na luta pela sua impossível auto-preservação. sabemos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 107 Os gregos não foram capazes de retornar ao que lhes era propriamente pátrio. porque . mais individual. natureza e cultura. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). alguém que não faltou aos seus.

[25] (p. mimésis. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère.. la poésie imite le vrai savoir. 92) Muito importante é observar que. . Cependent elle est imitatio.. mas era algo essencial à .. Fink nos agracia com um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. la poésie devient alors. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique.108 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bém mais universal e o mais universal. (negritos nossos) [26] (p. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. originelle. 90) Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos.. para Platão. (negritos nossos) [24] Perceber tudo isso não é assim tão difícil.. Dans un pressentiment obscur. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai.. Eugen Fink no que respeita a pretensão do belo ao vero. Il interprète plutôt le beau comme chemin et échelon vers le vrai. La poésie est essenciellemente mimétique. par conséquent sans savoir réelllement. imitation d’une imitation.. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie.

dialética da idéia} dirigea une violente attaque. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. que é a intervenção indireta da lógica formal D/2 na concepção da idéia platônica. à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. Assim. dissimulado. esboça seus primeiros traços em Platão. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. des spectacles contre qui la pensée métaphysique {isto é. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. paralelamente à concepção da matemática como linguagem da perfeição. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. 101) A nosso juízo. fazem de Platão um formalista radical avant la lettre (no sentido mesmo atual da filosofia da matemática). a analítica aristotélica (D/2) já era uma potencialidade que de um modo ou de outro acabaria emergindo da im- . on lui arracha son prétendu masque divin. que. mais do que 600 anos após. como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. num certo sentido. o conceito I/D perde boa parte de sua autonomia referencial para ficar quase que reduzido à pura intensividade [28] ou a seu ser sintático (D/2).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 109 própria afirmação da filosofia (bem entendido. como visto. A identificação do mundo das idéias com o real. Há aqui um importante detalhe a acrescentar. no conflito da idéia com o excessivo poético que. Com isto. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. (negritos e colchete nossos) [27] (p.

aceleração. Discute-se tudo na física.tempo (T). Seus grandes heróis são Galileu. a física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). indução magnética. espaço (L) e matéria (M) . no entanto. jamais. . a biotecnologia. Einstein e tantos outros. que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2). energia. pressão. Sua face desejante situa-se bem no cerne da sua gloriosa cientificidade . De fato. Newton. contudo. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses.110 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO precisão mesma das concepções platônicas sobre o conceito (as vacilações de Platão no Parmênides dão disto uma boa medida). entretanto. sua face disfarce é a técnica e seus excessos. densidade e o diabo [31]. constata-se com facilidade. a física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2). em linguagem matemática) segundo os quais o mundo fora criado. (figura 4. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto uno-trino desejado (I/D).a Física [30].5) . temperatura. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D). força. põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. Tudo isto.3.a física e a biopirotecnia Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [29]. agostiniano/tomista que seus diligentes teólogos não se cansam de tentar maquiar.suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade. 4. que sejam eles três . desejoso do uno-trino (I/D). particularmente.Na Modernidade . é herdado pelo universo conceitual cristão com sua crônica ambigüidade platônico/aristotélica. corrente elétrica. dialético/formal. Em suas grandes crises. spin. Em suma. mas sim os “planos” (escritos. hoje.3.

entretanto. com sua mecânica. a história da física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu mútuo comprometimento. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. daí porque.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA DESEJO DE QUE? HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) 2 111 I/D/ BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA I/D D Figura 4. à plenitude lógica.relatividade restrita. enganadora. de certo modo. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzidos (os transplantes seriam já uma preparação .tempo absoluto. espaço e matéria. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. a partir de então. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas .pré-assistido por Galileu e alguns outros -. simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica. eletro-dinâmica quântica . mecânica quântica. Um evidente e bem compacto oxímoro. espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível. como se fossem três absolutos . O fez. relatividade geral.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [32].5 . A técnica. em especial a biotecnologia. foi.Cultura científica moderna O mais notável dos feitos de Newton . De outro lado.

futuramente. de modo obrigatório. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. insensíveis. omissos. nada solidários. respectivamente. mas novo saber cristalizado (D/2). não é tecnologia. seres vivos e memórias. A lógica da técnica. não chega à hiperdialética qüinqüitária I/D/2. o saber científico. de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. Na técnica concorrem. constituindo-se apenas em seu arremedo. O avião já em vôo.112 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto). contra a morte em geral no mundo. metamorfoseado. mas. a propósito. agora. em juvenil anjo de Maxwell. além de um saber aerodinâmico (D/2). de um lado. assim para toda a eternidade. com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. pois. fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. inclusive. É também o fim da História que tanto se apregoa.à lógica . a lógica clássica ou formal D/2 e a lógica transcendental ou da identidade I. mesquinhos. sim. deixa bem à mostra quão circenses são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. entretanto. A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. É o velho “demônio” de volta. também a inabalável determinação para fazê-lo (I). cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. em compensação. a determinação ou o empenho numa realização. Continuaremos tal como somos . do homem em todos os seus pormenores. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume. o que. como também da recomposição informacional de todas as coisas. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das determinações à lógica formal da ciência . sem imaginação. Para se chegar a voar é preciso.egoístas. não se sabe como. de outro lado.

. por razões óbvias. como diria Richard Morse [33]. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna D/2. das regras de poder.sob a égide férrea sempre da primeira. como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. A verdadeira síntese qüinqüitária I/D/2. o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. a recuperação das lógicas da diferença D e dialética I/D. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. ou seja. Daqui por diante. não se pode apresentar ainda fatos. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 113 transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). entretanto. lá. reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. para buscá-lo à frente. em linhas muito gerais. exigiria muito mais: para começar. coetâneo e co-fundador à fixação das bases da cientificidade que viria justamente constituir a essência da Modernidade?! [35] Eis. ver como se dará a superação da atual cultura. mas talvez milhões ao mesmo tempo. das organizações burocráticas e similares. . para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade.ciência e consciência. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária I/D/2 através da pseudo síntese machista da ciência D/2 e de seu sujeito assujeitado (I) . o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos. Poder-se-ia assim dizer. mas tão apenas conjecturas. Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). além. com toda a precisão. da razão autenticamente feminina [34].a sistematicidade -. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. a rigor. Não é difícil. como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2).

Desejo.4.114 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas tão somente a sua subordinação aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética. que dominou o período paleolítico. 4.4 . COMPROMETIMENTOS L GICOS NAS CULTURAS L GICODIFERENCIAIS FINGIMENTO SUPERAÇÃO • DESEJO CULTURAS LÓGICODIFERENCIAIS BASE AGRÍCOLA PRÉ-D GREGA D MODERNA D/2 MITO IDOLATRIA SACERDOTAL PRÉ-D→PRÉ-I PRÉ-D ≈ I FILOSOFIA D→ FÍSICA D/2 → I/D MONOTEÍSMO MOISÉS PRÉ-D→ I POESIA TRINITARISMO EXORBITANTE PLATÃO D ≈ I/D D → I/D BIOPIROTECNIA D/2 ≈ I/D/2 CULTURA QÜINQÜITÁRIA D/2 → I/D/2 Serão aqui consideradas apenas as culturas lógico-identitárias historicamente já realizadas .Entre os bandos caçadores/coletores do paleolítico . fingimento e superação nas culturas lógico-identitárias . ficando a prometida cultura nova qüinqüitária (I/D/2) para ser tratada num item específico a seguir.1. Podemos então estabelecer o seguinte tabela resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógico-diferenciais: • Tabela 4.cultura das tribos nômades de caçadores/coletores (pré-I).1 .a animalidade e a “semeadura” rupestre Vamos enfim examinar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores. e que por ser lógica e historicamen- 4. cultura judaica (I) e cultura cristã patrística (I/D) -.

mas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 115 te primeira. Já pertence. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o alimentar-se e ser alimento para outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. em Théorie de la religion [36]. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. no entanto. na sua própria expressão. ele reconhecia. para sobreviver. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. Em outras palavras. A condição de caçador o identifica com a caça. ver-se obrigada a viver da caça a outros animais. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” pré-pré-D? Como pode se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. (Ver figura 4. é um preciso precioso testemunho de como tal relação primordial é deveras vivida [37]. recordemos. pois. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (Pré-Pré-D). como a água na água. Diferencia-se da cultura Pré-D porque esta se põe como outra da natureza. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. ao mundo da cultura. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (Pré-I). Georges Bataille. para sobreviver. no caso. Meu tio o Iauaretê. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. porém.6) . apresenta algumas peculiaridades bastante interessantes . que caçava onças com ira e culpas multiplicadas por se tratar de desavença entre parentes.

mas da renúncia a um ganho lógico (ganho de I/D para I/D/2). nem assim constitui uma verdadeira exceção. Com isso.. concluímos que as culturas tribais. in- . Segundo Eliade. mortos ou vivos. ou seja.6. Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. animais e homens. deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. Por um lado. o fato é que já se pode lá assegurar a vigência de algum tipo de xamanismo. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico.. a existência de um certo tipo de “xamanismo” na época paleolítica parece assegurada. (negritos nossos) [38] Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pele lógica da identidade de todos os entes. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas.116 I LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO PINTURA RUPESTRE Pré-D CULTURA AGRÍCOLA MITO (DE ORIGEM) HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL Pré-I CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 4. o xamanismo domina ainda em nossos dias a ideologia religiosa dos caçadores e dos que vivem do pastoreio. no que tange ao seu modo desejante. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. . Apenas.

[39] O fingimento nas culturas tribais. em La pintura prehistórica. conforme nos informa ainda Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. alguns felinos. Para tanto. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. isto é. e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. Observa Brodrick. da caça aleatória para a caça assegurada. de penetrar nos corpos dos humanos. aduzindo ainda que todas possuem um fim muito bem determinado. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. que seria o êxito naquilo que para tais comunidades é o mais essencial. (figura 7) Las pinturas {do Levante espanhol} son todas de animales: caballos. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente) criada pelos seus xamãs para conservar seu poder. uros (colchetes nossos) [40]. ou ainda por um espírito ou por um deus. precisaria simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. a caça: . postergando o advento da cultura de base agrícola regulada.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 117 clusive também os deuses. ciervos. cabras. Isto posto. cabras monteses. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. isto é.

não mais como o que se perdeu. . mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. no entanto. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). significa inquestionavelmente que se estaria assegurando uma regularidade na caça de certo modo equivalente à que lhes poderia proporcionar a agricultura que já se lhes avizinhava como uma nova possibilidade de vida.Caçada de veados. Toda esta artimanha representativa. Castellón. pelo trabalho agrícola. irá por água abaixo. Para el hombre primitivo éxito significa suerte en la caza. Se há dicho que la religión es en su origen una técnica para obtener éxitos. especificamente. Espanha No cabe duda de que la pintura prehistórica se ejecutó para ser utilizada. aqui. (negritos nossos) [41] Êxito. uma nova cultura cultura do neolítico e logo a seguir também das idades do bronze e do ferro.7 . por força de um movimento de subversão cultural.118 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. y que se utilizó para algún fin determinado.

os desenhos começam a perder a sua função e vão se tornando mais e mais abstratos: El arte esquemático. Después de la revolución que causaron la agricultura y las primeiras civilizaciones originadas en la propia agricultura. [42] Não se poderia esperar mesmo outra coisa. Conforme observa Brodrick. pero artes que todavía están íntimamente ligadas a la religión y a la magia. A agricultura se tornando um fato. estilizado. não mais se o devora. naturalmente. tendendo a um esquematismo que muito provavelmente será a origem dos primeiros sistemas de escrita ideogrâmica. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura lógica Pré-D (Ver notas 14 e 15). 4. O autor da proeza está historicamente perdido. aparece un nuevo modo de vida y com él nuevas artes destinadas a nuevos fines. A los dibujos mágicos suceden los esquemas mágicos.4. O identificamos como o herói prometéico. com o advento da agricultura.a terra prometida e a exterioridade farisaica A condição para a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem é. Esta plenitude é alcançada com a pura convencionalidade do . e mesmo em se tratando de um semelhante. o domínio pleno do próprio ser-simbólico. también se utilizaba. que surge de la pintura naturalista del paleolítico. contudo.Na cultura judaica .2 . bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. as pinturas rupestres do paleolítico superior vão logo perder seu caráter realista. e sim o escraviza.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 119 Visa-se o outro agora como meio. trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da agrícola.

o acesso ao pensar dialético (tal como há muito compreendido por Platão).formalmente. Este foi. à capacitação para a síntese de opostos. pois retirou o homem da esfera ecológica para re-situá-lo na esfera lógica que lhe era já constitutiva. a grande importância que devemos atribuir ao episódio bíblico da adoração do bezerro de ouro. ou seja. acontece aí a definitiva diferenciação do pensar dialético (I/D) a partir de sua matriz lógico diferencial (D). Isto veio representar a vitória do convencional/lógico (I) sobre o analógico/ mágico (na verdade. um passo gigantesco na história da cultura. o episódio representa a “tomada de consciência” ou a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem. Estes. na calada da noite. um pré-D fingindo-se de I. estariam representados pela dupla experiência da economia pastoril e da agricultura. logicamente. entre identidade (I) e . Com o signo convencional é que se chega à completa separação entre a coisa e sua representação verbal. o conflito entre temporalidade e espacialidade. do ponto de vista lógico. na cultura judaica. sem dúvida. A significação dramática dessa passagem fica bem marcada pela reação irada de Moisés quebrando as Tábuas da Lei gravadas pelo próprio Deus e depois com a trama e a degola. O termo convencional vem aqui se contrapor a analógico (este último. Daí. A conquista do simbólico convencional pressupõe. de milhares de adoradores diurnos do ídolo.120 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO significante com respeito ao significado. pelos partidários de Moisés. sendo o signo cujo significante ainda guarda alguma semelhança estrutural com aquilo que representa) [43]. simulando possuir uma determinação ou um poder fundador que não tinha). da liberdade no deserto e do cativeiro no Egito. esta mesma tensão também está presente no episódio envolvendo Abel e Caim . Em suma. Em termos puramente lógicos. como indica o nome.

a recalcou e desta maneira transformou-a no seu impossível . simbolicamente assumida por Abraão naquele episódio. Só a partir daí (I). poderá algum dia haver um filho que se autonomize ou rebele (D) e. por ter rompido com o estado ecológico. a essência mesma do ser-lógico. então. e sem este. é que se podia. depois. especificamente com a sua realização lógico diferencial (pré-D). mas não é suficiente ainda para a determinação de seu desejo mais recôndito e que será a razão de seu viver profundo e motor da criação de um riquíssimo acervo cultural. está em que só o sacrifício do filho define um pai enquanto tal. Agora que era alcançada a plenitude simbólica. mas sobretudo compreender a auto-definição do seu Deus: Eu sou o que sou (ou serei). Assim. isso pareceria um contra-senso: sacrificar o próprio descendente para garantir a descendência. Outro episódio bíblico reitera o estatuto lógicotranscendental ou identitário da cultura judaica: é a disposição de Abraão em aceitar o sacrifício do seu filho Isaac como o preço imposto pelo Deus todo poderoso para a sobrevivência de seu povo. foi possível a Moisés não só “ouvir”.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 121 diferença (D). nada se funda [44]. aconteça a reconciliação amorosa entre ambos (I/D). entretanto. Israel. A lógica do pai é precisamente a lógica transcendental ou da identidade (I). Só esta experiência aguda de opostos e a tensão que ela suscita. sim. representar de maneira apropriada a lógica da identidade ou transcendental. A princípio. pôde proporcionar as condições para a realização da síntese dialética que vem dar aceso ao simbólico acabado. não há princípio. retroativamente. Tudo se passa como préI e pré-D levassem à síntese pré-I/D (superação do analógico) que por sua vez vai eqüivaler ao lógico transcendental I “objetivado” (auto-definição lógica do Absoluto). O sentido profundo do episódio. Tudo isto serve bem para a caracterização do serlógico judaico.

122 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO objeto de desejo: a terra (aquela sobre a qual se exerce o trabalho. em particular seus reiterados constrangimentos e desterros impostos pelo arbítrio de seus vencedores e/ou senhores . pelo contrário. e até hoje persiste.a Terra Prometida. nada podia abalar a cultura judaica. fingimento e superação na cultura judaica Tanto isto é verdade que entre os próprios judeus houve. a cultura da diferença. como bem sabemos. que exatamente assinala o ser diferente vis-à-vis a Natureza) . A cultura judaica só veio ser profundamente abalada no contato com a cultura grega.8 .8) I/D FARISEANISNO (ESCRIBAS) D CULTURA GREGA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) I MAGIA (ANALÓGICA) DESEJO DA TERRA PROMETIDA Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA Figura 4. da diferença). A partir daí ela passa a viver uma permanente e dramática tensão interna que só se irá resolver muito mais tarde. foram múltiplas: . (figura 4. uma reação ao sionismo na medida em que a efetiva conquista de uma terra poderia enfraquecer o seu desejo mais essencial e levar mesmo à dissolução desta cultura milenar. Fossem quais fossem as derrotas militares judaicas. tais infortúnios acabavam sempre se constituindo num motivo para o maior reforço de seu desejo pela terra. com o advento do cristianismo.Desejo. As reações à cultura greco-romana (prometéica.assírios. persas (enquanto força militar) -. babilônios.

Futuros estudos sobre este assunto poderão revelar se de fato existiu tal influência e sua extensão. o “fundamentalismo de fachada dos escribas/ fariseus. nunca é demais lembrar que a filosofia. o superado/subsumido pode sobreviver como tal e também por si. inicialmente como comerciantes e depois como colonos. mera exterioridade. preliminarmente. acabou sendo o caso dos judeus no nascimento da Modernidade. a cultura judaica (I) precedeu a cultura grega (D). Consideremos agora a delicada questão da superação da cultura judaica. insistindo mais uma vez em que. A propósito. a pergunta pelo ser-um. por tratar-se aqui de um processo hiperdialético. o que possibilitaria às culturas judaica e grega se desenvolverem com uma certa independência uma da outra. emerge exatamente nas colônias gregas em ilhas próximas ou na própria orla da Ásia Menor. Contudo. Isto é feito esvaziando-se a interioridade da lei mosaica e transformando-a.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 123 as revoltas armadas macabéias. como um “resto” [46]. Estes últimos acabam sendo os mais importantes porque se valem da “estratégia” do fingimento. Bem. o terrorismo zelote. a meia adesão dos saduceus e. não está até hoje bem determinado o grau de influência das culturas semíticas sobre os gregos presentes na costa da Ásia Menor. e voltar inclusive a ter um papel ativo à frente do processo cultural global. como deveria ser. Devemos. Ademais. à moda grega. muito especialmente. porque tentam barrar a penetração da cultura da diferença através da “demonstração” de sua não necessidade. a aludida independência relativa permite que se levante a questão acerca de quem efetiva- . Os Evangelhos Sinóticos são bastante eloqüentes e insistentes nesta espécie de acusação a escribas e fariseus [45]. como. aliás. em um conjunto de convencionalidades sociais. ter em conta que as lógicas da identidade e da diferença são ambas fundamentais [47].

No cristianismo medieval . A transposição da Torah para o grego pode ser considerada como o mais importante acontecimento antecipador do cristianismo. as autoridades religiosas judaicas promoveram a tradução da Torah para o grego: trata-se da famosa Setenta (LXX ou Setuagina) [50].3 . lógico diferencial (D) com a cultura judaica lógico-identitária (I).124 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente teria consumado a superação histórica do judaísmo . como por todos bem sabido. A diáspora judaica. O conflito desde o começo com fariseus e escribas fingidores. Voltaremos a este importante assunto no item a seguir. com o seu Deus Uno-Trino) foi um processo lógica e historicamente bastante complexo na medida que está aí implícita a mediação de uma cultura prometéica ou da diferença. e mesmo tempos depois.a cultura greco-romana ou a cristã (patrística). a exata versão que posteriormente serviu de base para a composição do Evangelho cristão. com o seu Deus Único) ao cristianismo (Segunda Aliança.o corpo ressuscitado e o “lixo” escolástico O cristianismo originário (patrístico). o cristianismo escamoteou a real subsunção da cultura grega (D) através da artimanha de sua apropriação/ internalização simbólica. e a grande maioria de seus membros falava apenas o Grego e o dialeto local. A nosso juízo. é o produto inquestionável do encontro da cultura grega. a primeira. desde Alexandre até a época de Cristo. A passagem do judaísmo (Primeira Aliança.4. chegou a ser numericamente importante [49]. Entrementes. 4. a cruci- . Preocupadas com sua re-integração. como não lhe interessava uma ruptura ainda maior com sua herança judaica. Só nos parece a segunda em razão do modo que toda esta passagem é contada pelos cristãos interessados em omitir o que fora verdadeiramente subsumido [48]. inequivocamente.

por que me abandonaste [51] -. ressuscita cheio de força. entretanto. sensível e sensual (bio-psíquico). indo por isso ocupar a posição lógico-diferencial (D). D) entre os homens para que em seu lugar adviesse o Espírito Santo . O desejo do cristianismo estava pois na recuperação do corpo (D). o corpo ressuscita incorruptível. A partir daí . da doença. semeado desprezível. depois a ressurreição tendo como contrapartida o envio do Espírito Santo. O Cristo ressuscitado é exatamente esta referência ou protótipo daquilo que era então prometido a todos os mortais. como em São João. ressuscita reluzente de glória. lógico dialético I/D. São Paulo não poderia ser mais explícito e claro sobre este assunto: O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível. em conjunto.o corpo prometido. A figura do Cristo Crucificado e abandonado o faz logicamente outro do Pai (I). ressuscita corpo espiritual [52]. semeado na fraqueza.9). Sabemos que é o próprio Cristo que faz a comunicação que precisaria se anular como presença visível (significante. segundo São João) coetânea ao abandono pelo Pai. corpo beatífico necessário e suficiente para o exercício do amor a Deus (figura 4. A localização do desejo do cristianismo a partir daí se faz sem dificuldade. Era o corpo (o Filho encarnado). Devemos ver aí o corpo mesmo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 125 ficação (de responsabilidade dos fariseus. escamoteiam lamentavelmente os traços daquele prodígio. não como apenas corpo físico.Deus meu.Amor e símbolo da reconciliação entre Pai (I) e Filho (D). semeado corpo psíquico. Deus meu. Trata-se do que fora antes pensado pela lógica da diferença (D). formam uma bem arquitetada recapitulação simbólica. da dor e sobretudo da corrupção . agora livre do peso. portanto. mas como corpo biológico. a descida ao reino das trevas. A omissão das últimas palavras do Cristo Crucificado . mas sob a lógica da espiritualidade (I/D).

estabilidade de composição e olhar fixo vigilante das personas re- .9 . em especial nas artes românica e bizantina. não podiam acreditar ainda e permaneciam surpresos. a insistência no corpo crucificado e ao mesmo tempo imponderável.” Dizendo isso. de outro lado. mostrou-lhes as mãos e os pés.Desejo. fingimento e superação na cultura cristã patrística Esse desejo de um impossível corpo (D) espiritualizado (I/D) está profusa e ricamente expresso na arte sacra cristã. por causa da alegria. de um lado. então. disse-lhes: “Tendes o que comer?” Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. nem ossos. Tomou-o. Destaca-se. como estais vendo que eu tenho. irradiando a mais excelsa espiritualidade (figura 4. e comeu-o diante deles.10).126 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO melhor se compreende o episódio narrado por Lucas em que Cristo aparece aos seus discípulos desafiando-os insistentemente para que o toquem: “Vede minhas mãos e meus pés: Sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne. [53] I/D/ 2 ESCOLÁSTICA (TOMISMO) D/ 2 CULTURA MODERNA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCITADO I/D D POESIA EXORBITANTE CULTURA GREGA I Figura 4. E como. a representação de um corpo dis-psicologizado e reespiritualizado pela frontalidade.

se constituiu na própria espiritualização (I/D) da materialidade (D). se dispensar das imagens.11). na medida em que ela. quando os árabes promovem uma enxurrada de traduções de textos recuperados na sua expansão ao Oriente. valendo-se de um aparente paradoxismo. Embora seja um exagero afirmar que o Ocidente desconhecia a obra aristotélica (o Organon era certamente conhecido). Destacaríamos três importantes acontecimentos. a verdade é que ela só teve divulgação ampla para se tornar uma real ameaça à cultura estabelecida a partir dos fins do século XII. resolve denominar Revolução Industrial da Idade Média [54]. Ele é basicamente um lógico. acusadas de favorecer não a fé. Aí está também a razão profunda da Reforma. o primeiro lógico moderno. Por último. desde sempre. e portanto desejosa não da corporeidade e sim do uno-trino. que Gimpel. inclusive em âmbito teológico. Há um consenso mais ou menos geral que com Pedro Abelardo (1079-1142) vem ter início todo um processo de fundamentação racional das crenças em desfavor dos “argumentos de autoridade”. mencionaríamos. . tendo deixado uma Logica ingredientibus (Lógica para principiantes) destinada ao ensino das categorias aristotélicas A seguir destacaríamos a tradução para o latim das obras de Aristóteles. A ameaça à hegemonia epocal do cristianismo trinitário começa a se delinear entre os séculos XI e XII. já comprometida com a Modernidade. o primeiro surto de atividade econômica de caráter propriamente moderno pelo peso dado à técnica e à racionalização da produção. O desejo de ser-cristão se realiza simbolicamente na própria arte. mas a idolatria. no alvor do século XII. Vale a pena aqui chamar a atenção para algo muito especial no que respeita à relação entre arte e cultura na cristandade (autenticamente trinitária).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 127 presentadas (figura 4.

instado a manifestar-se sobre o valor real de sua grandiosa obra. pois o que ela deixa claro é que São Tomás. disciplinado. mas também justificada pela razão. a seu discípulo São Tomás de Aquino (1225-1274). Basílica de São Vital.10.128 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. XII) Figura 4. por ser a mais recente de todas. A meta estipulada foi a conquista da Universidade de Paris que. Sobre o último corre uma célebre anedota: o Doutor Angélico. já se constituía num dos principais centros de saber da Europa.11. foi também a mais firmemente intencionada em toda a história da cultura. Buscava-se assim demonstrar a não necessidade da ciência. séc. Imperadores Justiniano e Teodora (Mosaico. embora recém-fundada. Esta gigantesca operação diversionista. para o .” Não importa aqui a verdade histórica. teria respondido simplesmente: “Um lixo. VI) A reação à ameaça da razão formal se dá justamente pela aristotelização da teologia antes radicalmente platônico-trinitária (Patrística). Ravena. séc. na medida em que a teologia era então não apenas um affaire de pura fé. já em seu leito de morte. O Absoluto racionalizado se antecipava para tentar impedir o advento da Razão absolutizada. melhor preparada. O Cristo Crucificado (Românico alemão. A primeira investida coube a Santo Alberto Magno (12061280) e uma segunda. “cumpria ordens”.

Kepler e. constituíam um poderoso mercado financeiro inter-nacional. Descartes define o novo mundo como espaço medido tendo por sujeito o cogito. entre outras coisas. a consolidação de estados nacionais. a recuperação demográfica permite a retomada do processo de modernização econômica que se havia interrompido com as grandes epidemias e as tumultuadas cruzadas. em especial Lutero. caía automaticamente de algum lado (ganhava uma nacionalidade). Galileu. fora especialmente preparado e apoiado. definitivamente. a ciência se consolida com Copérnico. vêm os Descobrimentos [56]. diga-se de passagem. vão se empenhar em minimizar o poder da Igreja promovendo. atinge frontalmente a Universidade (Paris. Reacendia-se o processo de acumulação financeira dos banqueiros intersticiais que. pela teia de suas ligações afetivas e de mútua confiança. Quem lá vivia. Aristóteles: When I think of this lamentable state of affairs. de modo que com elas desapareciam os espaços intersticiais entre feudos. ao sentiremse já suficientemente fortes. ficaríamos com a Reforma. especificamente . I cannot avoid believing that the Evil One introduced the study of Aristotle. Caso fôssemos obrigados a escolher um marco de referência para a superação em definitivo da cultura cristã.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 129 que. Não se deve estranhar que tal guinada ideo-lógica acabasse se mostrando contraproducente. acelerando a deterioração do nível ético da hierarquia e acabando por provocar a Reforma. Os acontecimentos se atropelam: descobre-se a imprensa. antes de qualquer outra). [55] Já no início do século XIV. A “lógica espacial” das nações impunha que nítidas linhas de fronteiras (e aduanas para bens físicos) se formassem. a teologia racionalista de São Tomás de Aquino e por trás de tudo. ao mesmo tempo que. A acusação dos reformadores na esfera doutrinária. com Newton.

CIENTÍFICA TOMISMO GALILEU I/D→ D/2 I/D ≈ D/2 O VERO TRANSCENDENTE .2: • CULTURAS LÓGICOIDENTITÁRIAS TRIBAL PRÉ-I JUDAICA I CRISTÃ PATRÍSTICA I/D QÜINQÜITÁR. É precisamente isto que acaba resolvendo o grande problema que à nova cultura se impunha: quem deveria ser o sujeito autônomo da ciência. este sujeito foi posto pelo protestantismo como sendo o sujeito da fé. procurando minimizar.130 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pela separação radical que ela impõe à fé e à razão. a posteriori. Isto posto. os seus prejuízos. jesuítico. ESCRIBAS I → PRÉ-D I≈D CORPO INCORRUP. RUPEST. I/D → D CRISTO CRUCIFICADO/FILHO I→D ESCOLÁSTICA C. já que esta não tem como por si suceder-se? Como todos sabemos hoje. COMPROMETIMENTOS LÓGICOS NAS CULTURAS LÓGICO-IDENTITÁRIAS DESEJO FINGIMENTO SUPERAÇÃO PULSÃO DE XAMANISMO CULT. AGRÍCOLA MORTE CULT. PINT. HERÓI MÍTICO PRÉ-I→ANIM. o sujeito individualista liberal. podemos então estabelecer o resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógicoidentitárias (agora incluindo a cultura nova qüinqüitária). A Contra-reforma e correlatamente o Barroco já são manifestações do cristianismo superado. conforme mostra a tabela 4. I/D/2 • Tabela 4.2. PRÉ-I ≈ PRÉ-D PRÉ-I→ PRÉ-D PROMESSA FARISEUS/ TERRA PROM.

pois é óbvio que nada mais há. Agora. Assim.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 131 Esta visão de conjunto das culturas lógicoidentitárias deixa evidente que. Do mesmo modo. pré-I e pré-D.3. a cultura judaica. a cultura lógico-qüinqüitária (I/D/2). a cultura cristã trinitária. o homem perfeito? E é por tudo isto que a cultura hiperdialética qüinqüitária significa o termo do processo de auto-desvelamento do ser-lógico do homem. além de trinitária torna-se ao mesmo tempo pré-qüinqüitária (pré-I/D/2). na conquista do simbólico convencional ou pleno.12 reúne. a que preceder. foi igualmente pré-dialética (préI/D). ao mesmo tempo em que elas são o que são. A figura 4. Já vimos (item 4. é que ele pode escapar às dificuldades do processo simplesmente dialético (I/D) no que tange às problemáticas de origem e destinação [57]. 4. é o momento de vermos como tudo se resolve também satisfatoriamente com respeito ao tipo cultural derradeiro. A pergunta que logo salta à vista refere-se ao desejo da cultura lógico-qüinqúitária. Tendo o homem alcançado o último estágio de seu desenvol- . Especulações acerca do futuro da cultura Exatamente porque o processo hiperdialético qüinqüitário (I/D/2) é uma dialética de dialéticas. a totalidade das figuras anteriores relativas a cada um dos momentos da história da cultura antes recenseados.1) como se pode preservar a generalidade do processo hiperdialético com respeito à cultura originária. O sentido disto é óbvio: a pré-condição do cristianismo não teria sido precisamente Jesus. articulada de modo rigoroso. são também pré-formações das culturas da mesma classe que as sucederão. mundanamente. degrau zero da dialeticidade (I). se contarmos também as culturas ecológicas. subsumindo assim o processo transcendental unário.5. aquela dos bandos e tribos de caçadores/coletores do paleolítico (pré-I). ainda que lógico– transcendental (I).

como vimos. fingimento e superação na história da cultura Esta simples colocação nos faz lembrar que em todos os estágios culturais anteriores o que impulsionava a cultura em direção às suas tão de um desejo de morte da cultura ou da humanidade (ou seja. se o homem não se identificasse à caça. Embora onto-logicamente distinto. aquele desejo passa- . como poderia ele se manter desejoso de algo menor. simplesmente não comeria. e tendo-se em conta que este seria também o momento de seu pleno autodesvelamento.132 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vimento onto-lógico. tal como vinha acontecendo nas demais culturas? A manter-se o mesmo padrão. Nas culturas subsequentes. seria mesmo o homem da cultura qüinqüitária desejoso do ser-sistêmico-calculado antes governado pela lógica da dupla diferença (D/2)? CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) I/D/ 2 BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. era a condição mesma de sua sobrevivência física. Desejo. da lógica qüinqüitária recém conquistada) que. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL MITO (DE ORIGEM) CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 12.

de sorte que sua articulação se mantinha. o que é o mesmo que afirmar que a evolução cultural humana veio se fazendo de modo inconsciente. Constata-se sem dificuldade que a simetria global se recompõe à perfeição tão logo removamos aquele movimento hipotético”. articulados. sempre inferior à capacidade lógica humana I/D/2. Pode-se constatar facilmente que isto funciona para todas as culturas. cujo desejo vem ser pelo uno-trino (ver item 4. entretanto. ao mesmo tempo.3. Tudo isto pôde se manter assim porque quem presidia de fato ao processo cultural em sua globalidade era a lógica do inconsciente (D). mas apenas mudaria de sinal. desejo de poder na medida em que uma lógica vinha se apoderar do que fora já pensado por uma lógica menor anterior (ou por ela subsumida).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 133 va a ser. o desejo (D) e seu “objeto” (I/D) não achegam a ultrapassar a lógica qüinqüitária do ser humano I/D/2.3 anterior). inclusive para a Modernidade. simplesmente por ter afinal coincidido consigo mesma? Nossa resposta seria no exato sentido contrário: o desejo não desapareceria. Ele ape- .13 à direita). Isto não traz nenhuma inconsistência em virtude de que se tratou sempre de desejo por algo igual ou inferior ao ser-dialético (I/D). Mas então seríamos obrigados a aceitar que não haveria mais desejo na cultura lógico-qüinqúitária? Ela nada realizaria de relevante. agora justificadamente tido por espúrio (figura 4. de modo coerente. O mais espantoso. ao contrário de todas as culturas anteriores. pois seria a única “seqüência de movimentos” admitindo um quarto elemento (figura 13 à esquerda). o que nos parece uma obviedade. ocorre quando constatamos que um hipotético desejo da cultura qüinqüitária (I/D/2) pelo ser-sistêmico ou objeto científico calculado (que se revelara à lógica formal D/2) viria quebrar toda a harmonia do quadro geral do processo de desenvolvimento cultural. (D)/(I/D) = D/2 ≤ I/D/2. ou seja.

voltado para o mais alto. para se transformar em desejo apontando para “cima .O desejo na cultura qüinqüitária O homem estará deste modo experimentando um sentimento completamente novo de religiosidade. deixando de ser desejo voltado para “baixo .13 . . a vida autêntica a que fora destinado. DESEJO DE MORTE OU DE PODER HIPOTÉTICO DESEJO QÜINQÜITÁRIO I/D/ 2 DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE 3 D/ 2 I/D/ 2 3 D/ 2 3 4 3 I/D 3 3 3 2 3 3 I/D 3 2 3 2 D 2 D 3 2 I 2 2 I 1 2 1 1 1 Pré-D 2 1 1 2 1 Pré-D 2 2 1 1 Pré-I O Pré-I 1 1 O Figura 4. pelo mais elevado. para o que é de fato transcendente (não importa que este exista ou não. Terá ele então superado em definitivo seus antigos modos idolátricos (porque desejosos do que era inferior a seu próprio nível onto-lógico) para viver.134 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nas estaria se reorientando. jamais se poderá sabê-lo com certeza) [58]. pela vez primeira. num sentido que até agora não se lhe tinha ainda revelado. por isso desejo de poder.

mas sem que se necessitasse entrar em pormenores. dificilmente. iria emergir uma nova cultura. Europa Oriental e Extremo Oriente. valemo-nos apenas.. Algumas vezes fomos acusados de fazer previsões a posteriori. QUESTÃO XIV: A Monstruosidade dos Crimes de Bruxaria. só por aí. de um recurso retórico com propósitos meramente didáticos. tornaria mais ou menos óbvia a resposta a essa questão – uma nova cultura estaria. De qualquer . Entretanto. tanto aqui como alhures. Malleus maleficarum – O martelo das feiticeiras. É óbvio que não é este aqui o caso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 135 5 A Modernidade – das origens à globalidade etnocida QUESTÃO VII: Se as Bruxas são capazes de Desviar o Intelecto dos Homens para o Amor ou para o Ódio. à beira de eclodir no ocidente europeu. com maior probabilidade. um retrospecto histórico judicioso. onde se mostra a Necessidade de trazer a lume a Verdade sobre Toda a Matéria. 1484. mas há ainda muitas outras gravíssimas QUESTÕES. Fazendo apenas um corte no tempo lá por volta do ano 1300 ou 1400 e comparando Europa Ocidental. e pensamos que nunca o foi.. naquele momento. conseguiríamos atinar em qual das três.

136 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO modo. desfazendo-se assim de uma diferença já conquistada (seu passado greco-romano. como deveras aconteceu. há como se fartar noutras passagens do presente trabalho. A força da cultura greco-romana não tinha ainda se apagado inteiramente da memória coletiva. De certa maneira isto representava uma tentativa de obrigá-la a um recuo. Só não é justo que depois exclame. Contudo. O semitismo judaico. pode se desenvolver e tempos depois estimular decididamente o . que ampliara sua presença no Ocidente com a invasão. dali mesmo onde se instala. I). tal como uma cultura trinitária homóloga deve tê-lo feito no extremo oriente. D). da lógica do Deus Uno-Trino (lógico dialético. quem quiser previsões futurológicas para valer. Fora o Islã bem sucedido. nos interstícios feudais. meio psicológica. não se retirou in totum. como certa feita fez um famoso físico e cosmólogo brasileiro: “Ah!!! Mas nada disso que você diz sobre o que virá daqui para a frente está ainda empiricamente comprovado!” Não devemos esquecer que a Europa Ocidental fora cristianizada no início do século IV. o Ocidente foi violentamente puxado para trás e reagiu atirando-se com todo o ímpeto para a frente. iria ingressar. I/D) à lógica do Deus-Uno (lógico transcendental. resistindo. e a Europa teria simplesmente se volatilizado. com Constantino. pode nos ajudar na compreensão do que aconteceu: ainda não completamente estabilizado. a dar exatos dois passos culturais atrás. como boa parte dos muçulmanos. Isto se deveu ao fato da invasão islâmica ter ocorrido antes que a cultura cristã trinitária (Patrística) tivesse tido tempo suficiente para levar sua raízes a uma maior profundidade. até simplória. se tornado mera província peninsular asiática. e que a partir do ano 700 veio ser palco da invasão semítica islâmica. numa fase de instabilidade e de mudanças aceleradas. e. Uma metáfora meio mecânica.

a única opção para a Europa era mesmo partir para a edificação de uma cultura cínica lógico-formal. uma nova cultura de base científica eclode na Europa. que no caso seria a volta à cultura greco-romana (D). se afigurava a princípio uma disputa intrafamiliar (lógica da identidade I versus lógica dialética I/D. sim. uma disputa entre famílias lógicas – de um lado. à frente os franceses. Ao contrario dos anglo-saxões. Quem ignora o que isto quer dizer? Este capítulo apresenta uma primeira parte onde se procura detalhar os antecedentes da Modernidade a partir justamente das invasões muçulmanas e uma segunda parte onde tratamos diretamente da geração da Modernidade e de suas duas grandes etapas históricas. marcadas por seu modo econômico produtivista e. que mantêm ainda bem vivo este legado arcaico da Modernidade ao se quererem modernos (D/D) e herdeiros diretos e exclusivos dos gregos (D). a indo-européia (D). a semítica (I). pelos alicerces – a caça às bruxas – e só depois. Contudo. O item final será dedicado ao dramático papel das culturas semíticas na passagem à cultura nova. tratar da construção aparente: a ciência e o sujeito liberal a ela sujeitado. com o curso da luta e com o peso da língua e doutras tradições greco-romanas. consumista. Nesta segunda parte. dá-se a aristotelização da teologia cristã (Escolástica) e a constituição dos estados nacionais. reativamente. Como é impossível o recuo cultural. e. depois. de outro. Num primeiro momento. o surgimento do sujeito liberal. O confronto islâmico/europeu.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 137 processo de superação do cristianismo trinitário. ambas da família das lógicas identitárias). acabou tomando um sentido extrafamíliar. do ponto de vista apenas lógico. são os alemães e parcialmente os latinos europeus. a novidade será a de começar pelo óbvio. assim. isto é. após. calculadora do mundo (D/D). .

o grande mar daquele mundo era mesmo o Mediterrâneo. qualquer império. e assim o fizeram os gregos e seus vizinhos. os atlantes não tinham porque fazer exceção. até o Mar Tirreno (sudoeste da Itália). Antecedentes da Modernidade [1] . pequenos povos. Foram estes que agindo desta forma impediram a consecução do propósito geopolítico dos poderosos atlantes – fechar o cerco ao Mediterrãneo. vale a pena que relembremos rapidamente velha lição sobre os antecedentes da geopolítica. Entrementes. não importa sua potência.1) Como o Oceano Atlântico Norte praticamente não existia. como diz o nome. do Estreito de Gibraltar ao Egito.1. poderiam resistir-lhes. e o norte da África.138 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Antes de abordarmos a questão dos antecedentes da Modernidade. 5. tão poderoso que além de seu próprio espaço insular dominava também a Europa. (Figura 5. um mar em meio à grande vastidão de terras. só alcançaria a onipotência (e de quebra a prepotência) conseguindo fazer daquele único grande mar interno um mare nostrum. No caso. Na ilha formara-se um magnífico império. a oeste e relativamente próxima das colunas de Hércules. ainda maior do que toda a Ásia – a Atlântida – acompanhada de muitas outras pequenas ilhas que facilitavam a comunicação entre ela. desde que internamente unidos e decididos pela liberdade. uma ilha enorme. não importa se realidade histórica ou surrealidade mítica! No Timeu de Platâo (2) lemos que havia. Em tais circunstâncias. a Europa e a África.

não fizeram mares ad hoc se abrirem e fecharem. sem mover uma palha: não lançaram pestes. por isso. talvez para se divertirem. Sua grande estratégia geopolítica repetiu. valendo-se apenas de sua unidade interna e de seu amor à liberdade. e era tanto ansiado [4].1 . que há muito assumira foros intra-semíticos.Estratégia do Império Atlante Como para os gregos os homens são exatamente o outro dos deuses. em todos estes acontecimentos ficaram eles apenas assistindo lá de cima. o de tentar implodir a cristandade. Os pequenos povos tiveram que se virar sozinhos. isto é. estava também ensejando um ajuste de contas. não importa quanto tenha sido seu grau de consciência ou intencionalidade. prometéicos. Na medida em que teve elã e forças para assim atuar. não poderia ter tido outro desiderato. O Islã. depois de tudo decidido. nem provocaram terremotos providenciais com enormes lajes caindo sobre os opressores. é que os deuses decidiram fazer afundar a Atlântida. acreditamos nós. logicamente tardio e radical [3]. de cabeça para baixo. Agora. Bem. senão. aquela mesma dos romanos: a . não seria nada plausível esperar que eles se dispusessem a fazer alianças com criaturas tão pouco confiáveis. vamos aos fatos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 139 Figura 5.

Dizemos isto no sentido de que os romanos partiam para fazer e fechar o cerco a partir da Península Itálica e o Islão pretendeu fazê-lo chegando. sujeito de família (família lógica identitária/temporal ou lógica diferencial/espacial) Entrementes. por cima. conquanto que. que veio pôr fim ao Império Bizantino. em 711. Pela direita. seu grande êxito na referida estratégia só é alcançado com a tomada de Constantinopla (1453). a expectativa de provocar um retrocesso da História.2) Os muçulmanos atravessam o Estreito de Gibraltar e logo ocupam toda a Península Ibérica destruindo. não há vingança plena na História. Frustava-se desta sorte (boa ou má. algo de relevante já acontecera poucos anos antes da Batalha de Poitiers. conforme o lado) a estratégia muçulmana de envolvimento do Mediterrâneo. como bem sabem os sicilianos. por volta de 1500. Por não haver retrocessos. o reino visigodo que lá se instalara. Frustava-se também sua tentativa etnocida de implodir a cristandade. Adentram a Europa por esta segunda porta e só são detidos ao sul da Alemanha.140 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transformação do imenso Mediterrâneo num mare nostrum. justamente. Tudo corria bem e célere pela esquerda até que foram derrotados a oeste da França por Carlos Martel na Batalha de Poitiers (732). daquela mesma península. do lado esquerdo da Europa. por um e por outro lado. é aí que entra. . a não ser que alguém se assuma. em tempos desencontrados. tendo eles estado já bem próximo de realizá-la. (Figura 5. e com ela. também por baixo. a famigerada figura de Abraão à Santa Clara [5]. à esquerda e direita.

mas um providencial tremor de terra faz desabar parte da montanha. Dali parte para suas razias até que é perseguido e cercado em seu próprio refúgio. Pelayo.2 – Estratégias romana e islâmica Em 718. Deste foco de . atingindo fundo os invasores. resiste à invasão muçulmana fazendo da caverna de Covadonga seu quartel-general. Os mouros chegam a invadir a caverna. cristão convicto. mas deixando incólumes Pelayo e os seus soldados. um príncipe visigodo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 141 Estratégia romana Estratégia muçulmana Figura 5.

por conseqüência. mas boa parte dos judeus que os acompanhavam ficaram nos interstícios extra-feudais [6]. Ainda no ano de 718. pode-se mesmo dizer que de vida curta. por seus bons serviços bélicos. como o artesanato de calçados. em boa parte. nosso imenso Portugal. É nesta condição de marginalidade que pequenas populações judaicas se preservam e desenvolvem atividades que lhes serão típicas. o condado de Porto Cale. a medicina e. de cuja união nasce Don Afonso Henrique. futuro rei do Porto Cale independente. dos estados nacionais europeus modernos. e este. sobretudo. recebendo. já a partir do ano . por eruditos judeus. Henrique da Borgonha vem se aliar ao Reino de Leão na luta contra os sarracenos. No curso destas lutas. com base em sua sólida unidade cultural. unindo-se posteriormente a Aragão e Castela. Pelayo torna-se rei de Astúrias. durando mais do que 700 anos. vital para a constituição da Europa moderna. que se lhe torna possível promover e acelerar a formação – pela força de dinheiro. do mercado financeiro associado. armas. ditando a derrocada do cristianismo lógico-trinitário (I/D). Os mouros são por fim expulsos do ocidente europeu em 1492 numa longuíssima guerra. a cartografia. reino que se expande vindo depois a chamar-se Reino de Leão. um mercado financeiro acoplado ao sistema periódico das feiras que se expandia à sombra da miríade de castelos feudais. se comparada com a da cultura de mesmo nível lógico no Oriente. Isto irá liquidar com o poder absoluto político/cultural da Santa Sé. Textos aristotélicos trazidos pelos árabes começam a ser traduzidos do grego para o latim. ameaças e núpcias –. É tal o desenvolvimento destas feiras e. conseguem estruturar. Casa-se com uma filha do rei de Leão.142 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO resistência é que parte o processo da reconquista da Península Ibérica. vão juntos formar a Espanha moderna.

mas sim por ter sido encontrado um meio de injetar. tornara-se possível. não se deu em razão de terem as forças produtivas alcançado um certo patamar de eficácia. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso . fazer eclodir na Europa a Modernidade. Em meados do século XIII. ganhos de eficiência no aparelho produtivo: este meio foi a técnica sistema- 5. saberá aqui mesmo logo adiante. sujeito liberal e caça às bruxas O surgimento do processo de acumulação. Santo Alberto Magno e São Tomás de Aquino procedem à irreversível racionalização ou aristotelização da teologia cristã. 5. aproveitando agora a direção do vento – direção em que irreversivelmente ao homem desvelase sua própria lógica –. à lógica formal ou científica D/D (do Deus desempregado. com um pouco de argúcia cultural e grandes fundos financeiros.2. de forma regular e persistente. caracteriza a Modernidade.2. o epílogo está pronto para quem tiver coragem de decifrá-lo! Nestas considerações preparatórias vamos expor nossa visão do processo de constituição lógica da Modernidade. do ponto de vista econômico. o que permitirá melhor compreender seu caráter de “genérico” (sexuado) e o porquê da existência dos dois modos sucessivos de suas correlatas formações econômicas – o capitalismo produtivista e o capitalismo pleno ou consumista. um dos pilares do modo de produção capitalista que. Se não fora possível pela força fazer implodir (voltar ao Deus-Uno) o cristianismo trinitário. Em suma. do Deus Mercado). é a intervenção semítica que faz a Europa ocidental indo-européia passar tão rapidamente da lógica da simples diferença D (do politeísmo greco-romano) à lógica dialética trinitária I/D (do Deus Uno-Trino) e.1. se não. daí. vale dizer.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 143 1000. O que veio a seguir já se sabe [7].Ciência.

Entretanto. E para que possa se dizer minimamente esperto. como nas corporações medievais. acréscimo de estoques de matéria-prima e de produtos acabados. logo. se mantidas estas condições gerais. como é óbvio. mas como um acontecimento exógeno/contingente à esfera propriamente econômica. porque o não consumido. quando isso era ensaiado. só pode ser criado às expensas do consumidor (capitalistas. um péssimo exemplo de explicação [8]. ainda que em parcelas escalonadamente diferidas – o empresário eleva sua pedra. em períodos subseqüentes. Para que tal não aconteça existe uma única solução: que – des- . Noções muito elementares de contabilidade de custos bastam para compreender isto e também que um tal processo só pode ter continuidade se o empresário. isto é. acabará por matar à míngua sua galinha dos ovos de ouro. degrau após degrau. retorna ao sistema produtivo na forma de mais instalações e equipamentos. em boa medida. O argumento marxista que atribui o advento do capitalismo ao fato de se ter atingido um determinado patamar de produtividade se nos afigura um ótimo exemplo da aplicação da “lei de transformação da quantidade em qualidade”. Sabemos que o capital é o “excedente” [9] apropriado – no capitalismo. isto é. de maneira privada e necessariamente autoritária.144 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ticamente alimentada e aprimorada pela ciência. “seus” trabalhadores. novas competências técnicas adquiridas. o fato é que tudo isso acaba sendo integralmente devolvido (a preço de custo) às massas consumidoras na forma de depreciação. Ora. hoje. era drasticamente reprimido por severos e até cruéis regulamentos. e tal como Sísifo. Muitas vezes. Acrescentaríamos que melhoria técnica sempre houve. a vê inexoravelmente despencar escada abaixo. o “excedente”. conseguir de novo se apropriar dos excedentes. terá que fazê-lo numa proporção sempre superior àquela do período precedente [10]. só renunciam a consumo quando estão de regime!) – que.

uma lógica: no caso do saber científico a lógica clássica. que tem como seu núcleo exclusivo e irredutível a ciência e sua lógica calculadora do mundo. prático ou teórico. a ciência. por conseqüência. assome e de pronto se dissolva um sujeito transcendental. tanto quanto. necessariamente. diriam os marxistas). em princípio. esgotável/calculável. ano após ano. para que uma cultura científica possa sobreviver. A lógica clássica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 145 contada a pequena taxa de crescimento da população ativa – a produtividade do trabalho social médio cresça de modo continuado e compensatório relativamente ao acréscimo da taxa de exploração dos trabalhadores (mais-valia. como esforçamo-nos por ilustrar na figura 5.3. Não é difícil compreender que por trás do aumento de produtividade esteja. Assim. rolar sua pedra sempre um pouquinho mais para o alto. a melhoria das técnicas e. concreto ou simbólico. vale dizer. é preciso que. a matemática e uma parafernália de instrumentos de medida capazes de alimentá-la. para recompor um novo sistema em substituição ao anterior. lógica do terceiro excluído ou da dupla diferença [11]. bastante potente. Voltando ao mito: o empresário capitalista para sobreviver precisará. Correlato a um saber há obrigatoriamente um modo de pensar. tem como característica essencial o aprisionamento do que se considere digno de ser pensado num “universo” por tácita convenção pré-determinado. no curso do tempo. Por isso. bem se sabe. Em termos bem diretos: Capitalismo é o modo de produção próprio à Modernidade. entretanto. e entre um e outra. por trás desta. nenhum sistema. entre um sistema e outro. . poderia evoluir para acompanhar as vicissitudes que sempre o rio da história [12] nos traz. intervalar e por isso sujeitado ao processo.

tornando imperiosa a questão: se no verso estavam a ciência e seu sujeito li- . se consolidar política/espetacularmente com a revolução inglesa do começo do século XVII. ele está inapelavelmente acorrentado ao processo geral de instituição da racionalidade: a rigor é um sujeito sujeitado à nova cientificidade que vinha assumir o governo do mundo.3 . este sujeito é livre em relação aos sistemas (ou à ciência).4) Todo este edifício. então. (Ver figura 5. Como mostra a figura 1. não se sustentaria sem sólidas fundações. a face aparente risonha ou afirmativa da Modernidade. a potência mediadora do clero burocrático – interpondo-se entre o Céu e os demais entes terrenos – . o sujeito liberal intervalar pôde tomar dimensão social para. Ciência e sujeito liberal consciente – sujeito fordiano para os amantes do cinema [14] – passam a constituir. a seguir. mas de modo algum um autêntico self made man [13].O sujeito intervalar como condição de sobrevivência do ser-sistêmico Costuma-se atribuir a Abelardo a iniciativa de contrapor a racionalidade (moderna) ao “argumento” de autoridade de tanto sabor e prestígio na cultura cristã medieval. Com o movimento protestante.146 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SUJEITO LIBERAL INTERVALAR I SISTEMA SISTEMA RIO HIPERDIALÉTICO Figura 5. contudo. ou de modo significativo minimiza. que suprime.

capítulo derradeiro de uma Idade de Trevas”. aproximadamente entre os acmes de Copérnico e Galileu. sobretudo. adiantava-se o penoso trabalho das fundações: o resfriamento a ferros e fogo da feminilidade. E ainda. Neste processo de caça às bruxas. que é neste mesmo período que se consolida a maioria dos Estados europeus modernos. no entanto o consideramos um episódio histórico anômalo.A face aparente ou afirmativa da Modernidade Todos nós temos alguma informação acerca do longo processo (instrutivo e punitivo) de caça às bruxas. Ademais.000 mulheres teriam sido torturadas e . mais do que 100. o mais intrigante: como poderia toda esta azáfama fundacional acontecer e ter passado até hoje completamente despercebida? INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA Figura 5. que ele corre em paralelo com a institucionalização do pensamento científico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 147 beral intervalar. subterrâneo. Se era verdade que no verso tinha-se a instituição da ciência e seu sujeito liberal intervalar. entretanto. no reverso. simplesmente esquecemos que aqueles episódios dramaticamente repressivos ocorriam justamente após a racionalização (aristotelização) da teologia cristã programada por Santo Alberto Magno e tão bem executada por São Tomás de Aquino.4 . o que constituiria o reverso de tamanha magnificência? E. sintoma desesperado de uma cultura que desmorona. Deixamos de notar.

Processo de estruturação lógico.2.2 . se recalcasse a feminilidade – de um lado.5) INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA SUPERFICIAL PROFUNDO RECALQUE DA FEMINILIDADE CAÇA ÀS BRUXAS Figura 5. Dava-se. do outro. 5. na circunstância. Essas duas . nada mais nada menos. do outro. a melhor forma de apequenar o desejo no homem era sufocar o desejo na mulher. ciência/lógica clássica.5 . calvinistas.148 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mortas [15]. consumista e etnocida Na essência do capitalismo está pois a negação do desejo inconsciente e da história. Como o desejo é desejo de desejo. lógica dialética e lógica da diferença (ou igualmente lógica do significante.hierárquica da Modernidade A rigor. isto fora de certo modo inevitável: para ressaltar a masculinidade e suas lógicas – de um lado. particularmente.Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno. história/lógica dialética. do que “esfriar” as mulheres – e isso esteve sempre bem posto nos propósitos e discurso protestantes. (Ver figura 5. que o recalque da história (sentido/espírito) e do desejo inconsciente e de suas lógicas associadas – respectivamente. Para que os homens se concentrassem no cálculo de todas as coisas do mundo nada de mais funcional poderia haver. concomitantemente. inconsciente/lógica da diferença. o sujeito liberal/lógica transcendental – era preciso que. E o processo inquisitorial de caça às bruxas veio exatamente para concretizá-lo. desejo de reconhecimento. no jargão lacaniano [16]).

(Ver figura 5. representado este por um poder simbólico/absoluto. não se apagam ou desaparecem: de um modo ou de outro. sempre acabam voltando. contudo. já degenerada em história calculada. O “mal-estar” provocado pelo capitalismo produtivista foi a razão mesma do surgimento da ordem dos jesuítas. os determinantes profundos do modo de produção próprio à Modernidade. Propunham uma solução. conquanto que antes censurada. Num primeiro momento o capitalismo faz retornar a história. Suas características óbvias e decantadas – a racionalidade objetiva e o espírito individual de iniciativa – não seriam nega- . mas pugnando pela substituição “corretiva” do sujeito liberal pelo sujeito coletivo. desnaturada. Que se busca com isso? Tão apenas calcular o futuro. não conseguiam fazer uma crítica objetiva mais profunda da nova realidade científica/econômica que surgia sob seus olhos. Foram eles os primeiros a aceitar a ciência. propondo-se ela mesma como exemplar. no entretanto. mero processo de acumulação de capital.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 149 posições lógicas femininas.6) SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CIÊNCIA HISTÓRIA Figura 5. recalcadas. O maior mérito do marxismo está na sua acuidade para explicitar. pela metade. reduzi-lo a progresso [17]. sim.6 – A volta da história como progresso Basta observarmos o que é hoje uma empresa: ela é norteada prioritariamente pelo cálculo da taxa de retorno de capital. a rigor.

a Guerra Fria é a oportunidade para a sua vitória definitiva.7) Agora se pode ver com maior nitidez as razões da derrelição das propostas comunistas e socialistas. Como resposta às pressões revolucionárias e reformistas que se avolumavam por todo o século XIX e mais se aguçam nos primórdios do século XX. Somos de opinião que o capitalismo de marketing ou consumista já se anunciava teoricamente com os marginalistas austríacos [19] três décadas antes do fim do século XIX. E é isso que vemos hoje por todo canto. Contudo. tinha uma causa oculta e imanente – o processo de acumulação de capital.150 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO das. . assim. Configurava-se. finalmente. e que nela prevaleceu. o modo de produção próprio à Modernidade. mas primordialmente da capacidade de manipulação do imaginário das grandes massas pelas “técnicas” de marketing. desde seus primórdios ao início do século XX. pronto e acabado. mas. um presente inesperado que lhe fez o PCC). O dinamismo da economia atual não vem mais da produção. como vimos. não vem apenas do ímpeto do processo de acumulação. o mais importante para a compreensão de tudo aquilo que surgia. uma reação premonitória desesperada ao domínio iminente do capitalismo de marketing. tomou fôlego no início do novo século com a produção automobilística norte-americana. O fascismo. no entanto. Podemos denominar capitalismo produtivista ou de simples acumulação a este primeiro modo de produção vinculado à Modernidade. o capitalismo viu-se compelido a lançar mão de sua maior reserva estratégica – o desejo recalcado das massas [18]. agora exaurido em suas reservas estratégicas (afora um bilhão de chineses trabalhando 10 ou mais horas por dia a 50 dólares por mês. O desejo inconsciente teria sido afinal domesticado e integrado à economia. fez às vezes de grande prova de passagem. (Ver figura 5. experimenta um certo refreamento com a Grande Depressão.

Vimos que a Modernidade começa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 151 A esquerda não fazia uma crítica equivocada do capitalismo. CAPITALISMO PRODUTIVISTA SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CAPITALISMO CONSUMISTA DESEJO DOMESTICADO PELO MARKETING CIÊNCIA SUJEITO LIBERAL CIÊNCIA HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL HISTÓRIA DESEJO HISTÓRIA Figura 5. o que se fez através do processo de caça às bruxas. justamente quando os homens (cultura) impuseram em seus próprios bandos a diferença clânica. recapitulando por isso o “mito” de que a sociedade se teria constituído pelo “rebaixamento” do feminino (natureza). pré-condição formal da instituição da proibição do incesto/obrigatoriedade da exogamia.7 . pelo esfriamento à força da desmesurada” sexualidade feminina. ademais. no âmago. só conseguindo reagir com retardo – seu inimigo tornara-se já outro. havendo passado por uma profunda metamorfose..Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno ou consumista É boa a hora para procedermos a um resumo do que se disse até aqui. pelas fundações e pela construção e alocação de seus porões. Como ficou demonstrado. a Modernidade foi e continua a ser. o que transformava as mulheres em objeto paradigmático da troca. ou seja.. era o próprio Marx que nos advertia que nenhuma formação social poderia ser de fato derrubada antes de ver esgotadas todas as suas potencialidades realizadoras. como todo edifício. uma empreitada cultural concreta e metaforicamente sexuada: ela estabelece a dominação socio-lógica do masculino sobre o feminino. A racionalidade generalizada e o correlato desencantamento do mundo. que segundo Max Weber constituiriam a essência da Modernidade. mas uma crítica pela metade. Aliás. não são fenômenos assim tão .

intervalar e sujeitado da ciência [20]. de um lado.7 à direita.8) O feminino. de outro lado.152 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO gerais e muito menos tão profundos como ele acreditava. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade: segundo a hierarquia. desde que antes se tivesse bem trancafiada em seus obscuros porões a “irracionalidade feminina. SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO Figura 5. depois. o masculino (ciência e consciência) em cima e o feminino (história e inconsciente) embaixo.Estrutura lógico-sexuada da Modernidade com seus respectivos saberes Quando Marx denuncia o processo de acumulação de capital como o verdadeiro motor do capitalis- .8 . retorna para se integrar à funcionalidade da formação cultural: primeiramente. Fica assim estabelecido. conforme ilustra a figura 5. como desejo domesticado pelo marketing. como todo recalcado. mas não supresso. transmudada em progresso ou processo de acumulação de capital. O advento da ciência e da organização burocrático/racional foi apenas o primeiro passo na afirmação da lógica do masculino que estava já determinada a um passo complementar – a constituição do sujeito liberal como sujeito apropriado. apenas na superfície. de maneira irretorquível. como história censurada. Racionalidade sim. O protestantismo é sua instituição difusa e a revolução liberal do século XVII na Inglaterra sua consolidação político/espetacular. transmudado em demanda agregada – como gostam de chamá-lo os economistas –. (Ver figura 5.

embora dele melhor fosse nem falar. o ser transparente a si próprio. Paradoxalmente. alia-se à ciência. a face reversa ou o recalcado em que se apoiava o modo de produção moderno. Marx rejeita coerentemente as filosofias da consciência. era desalojado (em verdade. o sujeito liberal. à política propriamente dita. Em suma. quando passa da teoria à práxis. diríamos. propõe-se tão apenas desalojar o sujeito já sujeitado da ciência. ainda que pela metade. ele se vê compelido a pôr em seu lugar o ser transparente à História: a liberdade passa a ser tão apenas consciência da ou transparência à necessidade histórica. também. em especial Descartes e Kant. com bem maior propriedade). e colocar em seu lugar o ser coletivo ou corporativo. Assim. depois. só podia fazê-lo valendo-se do pensar dialético que. A ciência ficava mesmo onde estava. individualista. sobejamente demonstrado por Hegel. Em termos filosóficos. é aquele capaz e apropriado ao desvelamento do ser-histórico. Na verdade. pode ele descobrir. Que seria então da consciência e da liberdade? Recusado o cogito. que facilmente se degrada em oportunismo. e que destarte degenera [21]. Chama sua concepção teórica materialismo histórico (em contraposição a um pressuposto idealismo histórico de seu antigo mestre Hegel). entretanto. o inconsciente. toma como bandeira revolucionária a edificação do socialismo científico. em contraposição ao socialismo utópico ou idealista de seus precursores franceses. assumindo seu . Depois de tantas e profundas críticas. reivindica para seu pensamento o caráter genérico da cientificidade e. vale dizer. apenas o sujeito liberal. o que traduz uma impossibilidade lógica. rebaixado). tenta também inverter a direção de subordinação em que se encontrava o sujeito liberal. onde justamente residiria o núcleo duro do capitalismo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 153 mo (da primeira fase do modo de produção próprio à Modernidade. em terrorismo de estado. para nossa perplexidade.

Contudo. de uma verdadeira revolução (cultural) alicerçada na crítica da cientificidade. objetivo (material)/ subjetivo (ideal). Era o advento do capitalismo de marketing ou consumista. Ela surge no momento histórico em que o capitalismo atinge sua plenitude lógico-estrutural com a mobilização de sua grande reserva estratégica – o inconsciente das grandes massas. a Modernidade per- . No fundo. ainda mais grave. ao desvelar de um lado. um a um. por atacado. ao invés de uma real subversão da Modernidade. O marxismo teve de fato o grande mérito de dar a partida ao processo de desvelamento dos porões ou do reverso da Modernidade.154 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lugar o sujeito coletivo. de outro vinha precisamente para encobrir o caráter sexuado da Modernidade. (Ver figura 5. ou seja. Num primeiro movimento.9) É quase inacreditável que a psicanálise acabasse seguindo rumo perfeitamente simétrico especular ao marxismo. mas na sua proposta de ação concreta. Foi deste modo que um autêntico ímpeto revolucionário transmudou-se numa força culturalmente reacionária. viabilizada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e das “técnicas” de propaganda. se propõe apenas à permuta do sujeito da ciência. Também com isso. Tudo isto acontecia como um quase natural desdobramento da domesticação. foi o fato de que. à construção do cientificismo perfeito. do vigor desejante dos imaginários. o que propunha o marxismo não era mais que substituir a crucial problemática masculino/feminino pela já gasta problemática epistemológica (marca característica do período moderno da filosofia) de cabeça para baixo. a psicanálise vem precisamente completar o processo de desvelamento do recalcado constitutivo da Modernidade – o inconsciente. o capitalismo sem jaça.

a cura. hiperdimensionando a incompreensão da . até então um modo de dominação econômica. e põe a nu o processo pelo qual se dava a estruturação do psiquismo – segunda tópica: id. mas. dos indivíduos. ego e superego. o indivíduo como ser de desejo. no caso. se via então transformado em máquina exterminadora das demais culturas [23]. com propriedade. um a um. ou seja. a Modernidade trocava sua condição de feroz opressora. O imperialismo. não iria propor como solução uma revolução social. de uma problemática do ser-subjetivo. O grande problema é que o próprio Freud não abria mão de reivindicar o estatuto de ciência para a psicanálise (ao mesmo tempo que remoía e resmungava. DES-SEXUALIZAÇÃO MARXISTA MARXISMO (SOCIALISMO CIENTÍFICO) CIÊNCIA SABER OBJETIVO OU MATERIALISTA SABER SUBJETIVO OU IDEALISTA ESTRUTURA SEXUADA DA MODERNIDADE PSICANÁLISE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO DES-SEXUALIZAÇÃO FREUDIANA PSICANÁLISE (CIENTÍFICA) CIÊNCIA SABER DA DIFERENÇA SABER DA IDENTIDADE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL FILOSOFIA DIALÉTICA Figura 5. de vetor de universalização de uma cultura [22]. pela de impiedosa etnocida. Este último era a presença legal/ repressora da civilização (cultura) internalizada no próprio psiquismo.9 .A sub-reptícia dissolução do caráter sexuado da Modernidade Freud desvela o inconsciente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 155 dia o caráter desbravador próprio de toda cultura e assumia o caráter civilizatório/conservador. como o marxismo. Tratando-se.

na verdade. sexualizava o indivíduo desde criancinha.156 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO comunidade científica). [25] Em suma. de outro lado. de um lado. Velada por uma problemática ontológica. Visa. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade. (Ver uma vez mais a figura 5. agora o fazia como diferença/ identidade. Com isso. A problemática humana assume assim um caráter ontológico (também de cabeça para baixo. como já fizera Marx. se diria melhor) o sujeito liberal ou cartesiano e pôr o sujeito inconsciente em seu lugar.9) O grande paradoxo: a psicanálise. a Modernidade. o cartesianismo lógico-transcendental: Je pense où je ne suis pas. um declarado radical freudiano. ao invés de se estruturar lógica e originariamente como masculino/feminino. donc je suis où je ne pense pas [24] e. uma segunda vez. se alia à ciência contra a filosofia a fim de desalojar (rebaixar. Chega mesmo a cortar pontes que se sabe já antes transitadas. dilui-se. sem descuidar de simultaneamente declarar guerra à filosofia em duas frentes – ocidental e oriental – às filosofias transcendentais ou da consciência (especialmente Descartes e Kant) e às filosofias dialéticas. especulativas ou materialistas (especialmente Hegel e Marx). característico de seus primórdios pré-socráticos: o pensar do mesmo ou do um (lógica da identidade) contrapondo-se à lógica do outro ou do múltiplo (lógica da diferença). Freud. mas sem pequenas fobias a leituras filosóficas. como fazia o marxismo em relação à problemática epistemológica) e ao mesmo tempo trágico. mas às . Lacan. o hegelianismo lógico-dialético: A Aufhebung é um desses bonitos sonhos da filosofia. é extremamente incisivo em seus ataques.

Não foram raros os que chegaram a sentir. sim. e a estrutura econômica da sociedade também influencia a quantidade de liberdade sexual remanescente. seu elã subversivo para se tornar uma dentre outras forças reacionárias.. suportada pela síntese simultânea de todas as lógicas de base. não como apenas não-todo. masculinas e femininas.. a verdade parcial sim. velava o real caráter repressivo da Modernidade. desta sorte. nem sempre alcançando a exata medida. posto que sua superação só se poderá dar pela sublevação do recalcado.? A nosso juízo. mas uma insubordinação e. perdia. a necessidade .. de repente. não há como negar. mas articulada à verdade total e parcial. É da maior importância que fique bem à mostra o caráter sexuado da Modernidade. a civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica. visto que uma grande quantidade de energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem que ser retirada da sexualidade.. seu fim estará além de si mesma: ela significará. A liberação do feminino será apenas meio. do feminino (inteiro e não despedaçado. a real liberação da humanidade. Não haverá uma inversão de mando. como se depreende do próprio texto freudiano: Nem todas as civilizações vão igualmente longe nisso. Além do mais. [26] Deste modo. Seguindo o próprio Freud. como sexualizar algo sem retirar (ou trazer de volta) a necessária energia de algum outro lugar. crente no princípio da conservação da “energia sexual”. Aqui. no caso. as mulheres logo se opõem à civilização e demonstram sua influência retardante e coibidora . como já sabemos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 157 expensas da sexualidade sócio-cultural. a re-sexualização do ser-social é uma condição necessária para a superação da Modernidade. o advento de uma cultura nova. recuperando sua integridade [27]).

optando pelo sujeito inconscien- . ou. Afirmamos acima a “perfeição” da oposição Marx/Freud. juízo de valor este que nos obriga a mostrar onde estaria escondida a “imperfeição” da oposição esquerda/direita. de modo equivalente. temporária ou eternamente?) ao fascismo. é um crítico acerbo da ciência e da técnica. este sim.158 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de se restaurar a integridade subversiva do ser-feminino. aquela com que estamos há muito acostumados – marxismo/fascismo. mas pretendendo fazê-lo justamente sob a égide do que era seu comum equívoco – a devoção à ciência. como também do sujeito liberal. preso entre instrumentos. Bem menos equivocada. isto é. e o uso torto maldoso dos meios de comunicação de massa. Antes de concluir este item. ao optar pelo sujeito coletivo. quanto ao valor da ciência. de suas alunas peladonas). com o que se vê inapelavelmente condenado ao imobilismo (ante o desfile desafiador. acabou enquadrado. A posição de Adorno é muito instrutiva. agora elevada ao quadrado. a psicanálise. de vista. levada ao delírio –. de articular Marx e Freud numa só compreensão. se mostrou a Escola de Frankfurt. o que o fez associar-se (pela metade. seu vizinho. mas não consegue vislumbrar qualquer possibilidade de transcender à sua própria cultura (científica. propõe como solução a revolução social. coerentemente. pois. Um dos primeiros foi Reich. se o marxismo. desejaríamos deixar uma palavra acerca da simetria especular marxismo/psicanálise que vem aqui deslocar. Heidegger. concordamos que de maneira até bem surpreendente. em pleno estrado magistral. esquerda/direita. quem seja o verdadeiro inimigo. mas sem chegar entretanto à completa compreensão do papel da ciência na formação cultural moderna. mas prefere descarregar seu ressentimento contra o marxismo. não perde. Ora. porque ele sabe bem criticar a ciência. por essência). instalações e grades. em especial.

. Não vamos tratar propriamente dos estertores da Modernidade. Queremos aqui focalizar apenas o papel que. pronto se depreende que a anomalia do fascismo ou “nacional socialismo está exatamente no fato de ele optar pelo sujeito inconsciente (romântico ou telúrico) e. terá coerentemente que propor como solução a cura. Daí. Nossa tarefa. o caleidoscópico mundo cultural muçulmano (I). Antecedentes semíticos do fim da Modernidade . pertencente à família lógicoidentitária. pelo menos durante sua etapa fundadora) se confunde com a classe das culturas semíticas. ao mesmo tempo. Ela soa deveras paradoxal (como um dia soou a expressão inversa socialismo num só país). se vê bastante simplificada quando constatamos que precisaremos nos ocupar apenas 5. terão as formações culturais semíticas – as culturas nodais judaica (originária) (I) e cristã patrística trinitária (I/D) e. à parte e tardio. a família das culturas lógico-identitárias (Is) (exclusive o Extremo Oriente. embora soando um tanto estranho. Como a cultura nova é de natureza hiperdialética (I/D/D). propor como solução uma revolução social.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 159 te. O título do presente item. mas perderia automaticamente tal caráter tão logo nos dispuséssemos a aceitar a existência real e não apenas retórica de um inconsciente coletivo (como bem sabemos fizeram os junguianos) . um a um. nos acontecimentos que estariam por vir. pois isto já está feito com bastante detalhes em diferentes oportunidades [28]. desconsiderada apenas a cultura paleolítica auroreal (pré-I). Vê-se que. entretanto. a auto-denominação nacional socialismo por si só diz tudo.3. diz bem o que pretendemos.. e. portanto. somos levados a imaginar que será intensamente dramática a situação e o comportamento dessas culturas nos momentos que irão anteceder à efetiva superação da Modernidade. Observando bem.

Afirmamos isto num duplo e grave sentido: a) Sob um ângulo. nesta condição. melhor adaptado às circunstâncias históricas sempre cambiantes. por via destas peripécias. Já estamos bem cientes de que a modernidade científica (D/D) [30] não poderia ter sobrevivido e chegado à sua pujança atual sem a instituição de um sujeito (I) intervalar à racionalidade cristalizada. por sua localização. para destarte provê-la de uma prótese vivificante [32]. pois a cultura cristã (patrística ou trinitária).160 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO com as culturas judaica e muçulmana. Ora. vive uma ‘justificada’ ilusão de liberdade. vimos. Ao contribuir decisivamente para a realização da cadeia que o aprisiona. A variante cultural semítica que assumiu este papel foi justamente. na sua maior inimiga. com a passagem da fase produtivista à fase consumista. sente fundo esta real ameaça e reage desesperada. capaz de sempre substituir um sistema que se torna obsoleto por um novo. Ele é de fato um sujeito livre em relação a determinado sistema. a qual. a cultura muçulmana. distribuição topológica. de per si. O grande drama que vive hoje a família semítica ou identitária – e que dentro em breve terá que vivê-lo ainda mais intensamente –. culturas . é que ela mesma acabou se transformando. é a presença ativa da cultura judaica que viabiliza a Modernidade. por motivos que esperamos ter deixado suficientemente claros nos dois itens anteriores. tornou-se compulsivamente etnocida. escolha e sabedoria estratégica. já fragilizada. mas não à cadeia de sistemas que se sucedem. foi precisamente a característica letal da razão formal que deu ensejo a que uma determinada formação cultural arcaica viesse a ela se acoplar de modo visceral. a cultura judaica da diáspora européia ocidental. salta à vista. seu papel é francamente intervalar e tributário [31]. praticamente hoje se extinguiu [29].

como a ameríndia do norte. através de sua formação cínica anglo-saxônica). também no advento do cristianismo (I/D) vimos um racha entre. uma parte da comunidade. quebrar a hegemonia asfixiante do trinitarismo cristão medieval. constatamos um racha entre. de um lado. Moisés e seus partidários. como a cultura neolítica negra. Seriam muitos os caminhos logicamente concebíveis para se chegar à cultura nova. É também muito provável que. b) Sob outro ângulo. o Holocausto venha a se constituir no fulcro . de um lado. o trinitarismo universalista.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 161 logicamente mais primitivas. é ela que dá sustentação à Modernidade. os adoradores do bezerro de ouro. especialmente na diáspora da América e Europa Ocidental. é razoável esperar que. o nacionalismo ritualístico formal fariseu. Com estes precedente históricos. desta sorte. cujo significado não teria sido outro senão a servidão voluntária vis-à-vis o racionalismo cientificista (D/D). Porém. no advento do judaísmo (I). Se isto permitiu. foram já exterminadas ou vão inexoravelmente em tal direção... Deveras. nos contemple com o mais belo de seus frutos: a cultura nova hiperdialética qüinqüitária. a justa avaliação e análise do “histórico familiar” levam-nos a conjeturar que o mais provável é que o colapso da Modernidade seja precedido de uma cisão profunda no seio do judaísmo. de um lado. e do outro. á sua própria consumação e. fez. a liderança cultural do mundo guinar em favor da família lógico-diferencial (ora dominante. por outro lado. impedindo que a própria família cultural lógico-identitária se desdobre em direção ao mais elevado. irá renegar a postura prómodernidade de quase um milênio (postura que se enrijece depois da expulsão da Espanha). talvez a maior. e de outro. intensificando-se a crise da Modernidade. e outras que não se cuidarem. por sua dimensão real e pelo investimento simbólico que vem acumulando.

passando a ser considerado menos um crime que um castigo ordenado pelo próprio Deus para punir uma grave falta no cumprimento dos sagrados deveres da Aliança (precisamente a adesão subordinada à Modernidade científica). só que em estado de falta. onde vinha operar o deveras outro. esta tensão interna já existe há muito entre os judeus e está precisa e profundamente gravada no conflito entre o historicismo unário tradicional (I) e o historicismo trinitário moderno (I/D) [33]. De certo modo. o povo judeu tinha a opção de. onde o outro é ainda o mesmo. Além de vivenciar a eternidade no próprio curso da história. tal como fora antes dado . vivenciá-la também como o caminhar para o eterno. Israel passava a contar com verdadeiros inimigos externos. ficando todo o vir a ser determinado integralmente pela polaridade obediência/rebeldia. já agora impossível de ser violada. Esta parte da comunidade irá então se juntar a outras forças culturais emergentes.162 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO emblemático desta reviravolta. configurando uma Terceira Aliança. como antigamente. o judaísmo pode ocupar o lugar que assim vagava . ao ajudar a empurrar o cristianismo patrístico trinitário (I/D) em direção à escolástica lógico-formal (D/D). Na realidade. isto é. dar oportunidade a que seu historicismo unário se bifurcasse. independente do tamanho de seus pecados e infidelidades. O historicismo tradicional tornavase assim o degrau zero da dialética. doravante. O papel de maior ou menor proeminência da comunidade judaica reconvertida em marcha para a cultura nova dependerá menos dela do que de quanto e quando outras forças sócio-culturais resistentes à Modernidade tenham conseguido tomar consciência de sua destinação possível e se arregimentar de modo eficaz para a sua consecução. Ele terá seu sentido reciclado. Em contraposição se podia agora assumir uma historicidade plenamente dialética.

O Holocausto não teria sido suficiente. o correlato do serviço que se presta à lógica do inimigo e. os judeus reentraram completamente na corrente da história. mas não tenho dúvidas de que sua imagem esteja sendo forjada. a comunidade judaica vive uma vida bifurcada. Isto nos dá uma medida da intensidade do drama que representa hoje aquela vida bifurcada.. é o fantasma que tanto inquieta e suscita ações preventivas. podemos estimar sua profundidade pelo peso que a cultura judaica teve e ainda tem na construção do mercado financeiro internacional e na constituição do sujeito da ciência. e ainda assim sua percepção de como chegaram ali e de onde estão é freqüentemente mais mítica do que real. retrata bem esta forte tensão interna no judaísmo de nosso tempo: Atualmente. o sucesso mundano seria. que. [34] (negritos nossos) A reentrada dos judeus na História é um fato. em verdade. Como resultado da emancipação da diáspora e da soberania nacional em Israel. não pela bigorna do historiador. O mesmo autor acrescenta: O Holocausto já engendrou mais pesquisas históricas que qualquer acontecimento da história judaica. apesar de tudo.. prestes a atrair sobre a comunidade a justa ira divina. Yerushalmi. alternativamente interpretável como grave ofensa à Lei. portanto. duas das mais fundamentais instituições da Modernidade. em seu livro Zakhor. por conseqüência. Sob a ótica desta última. [35] . mas pelo cadinho do romancista. ainda resiste. A vida bifurcada reflete o conflito entre estes fatos assumidos e o compromisso com a tradicional concepção unária da história. que no fundo não visam outra coisa senão impedir que se realize a vontade soberana de seu próprio Deus.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 163 aos cristãos originários.

. escrito ou filmado. São justamente nossas incursões de certo modo furtivas ao romance [36]. nos cadinhos dos romancistas. naturalmente. não mais são interpretados de modo alegórico. necessariamente também de evocação. esta última assertiva reflete uma profunda intuição. Aqueles que estão alienados do passado não podem ser levados a ele somente através da explicações. uma renovada acepção de leitura... conclui que este será um esforço baldado. não vem para ficar. os conflitos que em sua primeira metade opuseram as grandes nações européias. como tradicionalmente. desde já se poderia saber.. posto que a verdade da nova cultura irá se revelar justamente pela leitura. E se lamenta ele com boa razão: O divórcio entre história e literatura tem sido calamitoso para a narrativa histórica em geral e a judaica em particular. Yerushalmi percebe bem a concentração de estudos históricos em torno do Holocausto e mesmo sem atinar (ou resistindo a atinar?!) com o verdadeiro significado do fenômeno – um desesperado esforço de destarte subtraí-lo a uma interpretação tradicional unária (mítica?!). já no século XXI. como se fossem “as guerras de Gog e Magog”. aquele que opõe os EUA ao “terrorismo” islâmico. A nosso juízo. nos referidos conflitos os judeus se encon- . isto nos parece uma leitura simplista. pois a imagem daquela grande tragédia estaria sendo cosida alhures. Não. [37] Mas não ficam só aí os sintomas. na segunda metade opôs os EUA à URSS e agora. vale dizer. No recém-acabado século XX. que poderia colocar em dúvida o significado e valor do que ele chama ‘emancipação da diáspora’ ocidental –.164 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pareceria a princípio paradoxal: a nova historicidade hoje dominante. que hoje mais de perto prenuncia este modo de acesso à verdade do ser hiperdialético. Muito pelo contrário.

que não fosse outra vez as mesmas faltas e as mesmas punições? Isto é completamente incompatível com o papel que os judeus assumiram na Modernidade. ele é tão somente anti-dialético e reage mais fortemente quanto mais se vê ameaçado pelas concepções modernas de historicidade. (Ver figura 5. que os próprios (pelo menos os maiores beneficiários) tentam dissimular. o historicismo alemão do século XIX. nesse interregno. Não é nenhuma surpresa que a maioria dos historiadores modernos (dialéticos) estejam nas universidades americanas e européias e que esta corrente aparente hoje deter uma posição de hegemonia. há um processo temporal que vai da Criação a uma Escatologia. A tensão só poderá aumentar. . o mais que pode acontecer é a desobediência à Lei e o castigo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 165 tram bem firmes aliados sempre de um dos lados. Na concepção unária. como de fato ensaiou a Renascença (século XVI) e depois. até que venha ocorrer uma síntese hiperdialética (I/D/D) que subsuma o historicismo unário da fé (I) e o historicismo trinitário do engajamento (I/D). abertamente. contudo. Tal engajamento nestes eventos precisa ser rápido e intensamente encoberto pelo historicismo dialético moderno para impedir a todo custo a insurgência de interpretações ‘míticas’ tradicionais. O tradicionalismo judaico poderia parecer a muitos um anti-historicismo. o que soaria para nós como um paradoxo. Podemos entretanto ficar certos de que nenhuma das duas correntes irá prevalecer a médio ou longo prazo.10). Como é possível que a mais tradicional corrente ideológica de uma cultura descobridora da significação da história possa ser anti-histórica? [38] Na verdade. que de certo modo traduz uma capitulação lógico-cultural. forçando a história unária a sair do seu recolhimento e vir se articular com a história universal. Desde que isto está muito bem posto e atestado na Torá. que poderia depois suceder na história.

Estas não são profecias [40]. onde a lógica transcendental (I) é seu momento de tese. se bem que um pouco entradas já no novo ‘espírito qüinqüitário’. antecipada pelo romance “VIDA BIFURCADA” I/D/D I I/D I I/D I Figura 5.10 – Da “vida bifurcada” à resolução lógico-qüinqüitária A hiperdialética. já mostramos com detalhes. a dialética propriamente dita (I/D) seu momento de antítese e. . Hiperdialética. a hiperdialética seu momento de síntese (I/D/D) [39]. pode ser considerada como uma dialética das dialéticas.166 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Futura concepção qüinqüitária da História. são meras especulações lógicas. afinal.

T. ou um estádio histórico superior. a arte. talheres e cristais conservam suas mãos limpas. apenas para ocupar lugar.1. na realidade. pertence àquilo sobre o qual imagina alçar-se. Ernest Cassirer. mas. podemos identificar três posições críticas em relação à Modernidade. Há os que se alimentam só das sobras e migalhas. a religião.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 167 6 Crítica da Modernidade O crítico da cultura fala como se representasse uma natureza intacta. em essência. Criticam. Adorno. é como preferem legitimar. Agora. Não valem mais do que estas cinco linhas. a linguagem e até a ciência são hoje vistos como diversas variações de um tema comum .e a tarefa da filosofia é tornar esse tema audível e compreensível. W. Introdução . Seu semblante feroz parece assustar o poder que por sua vez simula que ao vê-la treme de medo e ambos. mas tacita- 6. Nem serão aqui contados. imprecando um contra o outro. Começamos com a crítica que aí está. Crítica cultural e sociedade O mito. Ensaio sobre o Homem. achando que com este prudente distanciamento das baixelas.

assim que mostre o menor sinal de esmorecimento. tomando-a não como um modo de produção. correndo os riscos inerentes à procura. É o que denominamos ideologia. da autenticidade onto-lógica. seriam três as posições que se pretendem críticas da Modernidade que aqui examinaremos: as ideologias. mas pelo que realmente é: uma cultura tipo nodal. deve-se reconhecer. Em segundo lugar. Em suma. há quem deveras critique o poder imperante porque já é capaz de reconhecer e apontar para o que lhe é o mais próprio . conseguem destarte afastar quaisquer terceiros e por aí o perigo de uma veraz subversão. Haveria ainda uma última posição crítica.o sujeito liberal sujeitado.ora a ciência (ou a técnica) como expressão terminal de uma insidiosa metafísica. a de quem espia da quinta margem do rio a história da cultura passando ao encontro de si mesma. Procede à critica da Modernidade. Contestam o poder porque o querem o mais perfeito. na medida em que se dispõe à crítica da Modernidade. cujo vigor se sustenta na ciência desejosa (do uno/trino) e no seu preciso complemento . mas não conseguindo vislumbrar o que a possa suceder. ora o uso sócio-espetacular dos meios de reprodução e comunicação. com fé e engajamento. as que ultrapassam as ideologi- . à Grécia e seus poetas trágicos. desconsiderando que estes já eram lá censurados por exorbitar em dialética e fingimento. só se dispõe mesmo a voltar atrás.168 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente justos e acertados. para mais além da Modernidade. naturalmente. trata-se da única posição subversiva. à esquerda e à direita do paradigma anglo-saxão moderno. não na soma de suas virtudes. A rigor. de prontidão para suportá-lo pegando de cada lado pelo sovaco. Somente desta posição é que se estará deveras enfrentando essa nossa velha preguiça de pensar o novo e. mas no encobrimento de sua mortal fragilidade.

Este já teria passado por duas etapas ditas ecológicas [4]. se coloca como o outro da Natureza (da pré-diferença ou pré-D). como um ser lógico-qüinqüitário [1]. clássico. vivendo a cultura científico/tecnológica. vai sendo aos poucos substituída pela horizontalidade imperial. e. da dupla diferença ou D/D=D/2). Estaria hoje a humanidade. cultura greco-romana (da diferença ou D). esta última. mas ficam aquém da crítica radical à cultura. capaz de operar um pensamento hiperdialético (I/D/D=I/D/2)[2] síntese do pensar da identidade (I). numa estreita homologia ao que a civilização romana foi para a cultura grega.2. indivíduo ou coletividade. cuja tônica é a identificação com a Natureza (em termos lógicos. em sua linha de avanço. pelos impérios de base agrícola da Antigüidade. cultura moderna ou científico/ tecnológica (formal. para completar. unidade dos dois anteriores (I/D) e formal. a história da cultura é então concebida como processo hiperdialético de auto-desvelamento do ser próprio do homem [3]. cultura cristã trinitária (dialética ou I/D) e. representada pelas sociedades tribais de caçadores/ coletores do paleolítico. De modo conseqüente. Partimos de uma antropologia filosófica que concebe o homem. Seguiram-se as etapas propriamente lógicas: cultura judaica (da identidade ou I). Em termos econômicos (obvi- 6. a segunda. da diferença (D). Esta se encontraria agora em sua fase civilizatória. já na atualidade. na qual a verticalidade criadora. em decorrência do próprio êxito. isto é. do terceiro excluído ou da dupla diferença (D/D=D/2). A rematada impotência das ideologias . pelo trabalho. que.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 169 as. governada pela lógica formal ou da dupla diferença (D/D = D/2). dizemos cultura da pré-identidade ou pré-I). a primeira. dialético.

mas de seu modo fingido. em especial nos últimos 150 anos. Ora. de certo modo. esgotadas em suas promessas. Mas o subterfúgio não pára aí. podendo voltar sobre si próprio como dissimulação da própria dissimulação.e aquilo que mais abertamente expõe sua fragilidade congênita .170 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO amente redutores). deixar de lado justamente aquilo que constitui a essência mesma do dinamismo da Modernidade a ciência . não pode ter outra função senão a de bloquear os caminhos que podem levar. a ciência e a técnica. isto é. dissimulada. proporcionar-lhe a imprescindível orientação e dela colher o primeiro e o melhor proveito? Insistimos no aspecto dissimulado das ideologias porque elas deixam sempre intocadas. aliás. o que está por trás de todas as disputas ideológicas do mundo moderno. Na verdade. ao abrigo de qualquer suspeita. à subversão da Modernidade.a técnica exorbitante . da promessa enganadora nela implícita de levar o homem à perfeição (biológica) ou à vida eterna [5]. Atente-se que a fragilidade não é da técnica enquanto tal. A simples caracterização da Modernidade como cultura governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) é o bastante. para permitir o mapeamento de todas as alternativas críticas ideológicas. que é o que hoje mais se quer ver. quem deve desenvolvê-la. paralelo. financiá-la. isto significa a passagem do capitalismo nacional de produção ao capitalismo globalizado de consumo. Quem deva ser o seu sujeito. uma promessa que não tem outro propósito senão o de tornar dispensável o advento do homem pleno lógico-qüinqüitário. todas elas já historicamente exercidas e. Para nós. a um inconseqüente capitalismo financeiro internacional. Para ilustrar isto de maneira exemplar. podemos tomar algo bem familiar a nós brasileiros - . de fato. ainda que descolado. como veremos. é a questão do sujeito da ciência.

Isto eqüivalia a uma discussão acerca do sujeito da razão científica (D/2). não têm limites. socialista de verdade.1. que de fato transcende os sistemas. parte superior) O poder hierárquico da lógica da dupla diferença funcionaliza o que seria próprio e específico às lógicas subordinadas: a política torna-se ciência política. instalações). tal como ele. mas apenas para colocar um sistema novo. concomitantemente invertendo o . temos de um lado a “opção” de esquerda . trazia. uma discussão sobre a adaptação da racionalidade moderna (capitalista) ao âmbito da latinidade. aquele que se decide pelo sujeito liberal I. distinguiríamos inicialmente o paradigma anglo-saxão. comunista. O leitor pode estar satisfeito. cinematográfico sujeito john fordiano . acriticamente a favor da ciência e da técnica? O rótulo Positivismo. no nosso caso particular. que também não é neo. de uma latinidade aquecida pelo trópico. (Ver figura 6. no lugar de outro já gasto ou ultrapassado pelos acontecimentos. revolucionária . É ele o sujeito que assegura com sua viva determinação ou iniciativa a continuidade da cultura da morte. Nos extremos. mas sim vétero-liberal! Bem. mas os dissimuladores não. pois chegam a se fantasiar de sociais-democratas para melhor impor sua prática neoliberal.que propõe a substituição do sujeito liberal I pelo sujeito coletivo (politicamente articulado) I/D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 171 o Positivismo. a psicologia da consciência torna-se psicologia adaptativa do eu. Que pode isto significar se todos as correntes ideológicas são.jesuítica. em estado de degradação voluntária. já de origem. velada. incansável empresário schumpeteriano. intacto. Dentre as “opções” ideológicas. a arte vira técnica de marketing (ou. de como proceder a substituição ali do indivíduo liberal anglo-saxão (I) por um presumido espirito comunitário (I/D) da latinidade jesuítica [6].

à direita) Figura 6. temos a “opção” de direita . pelo sujeito romântico.As ideologias . (Ver figura 6.1.172 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sentido de sua relação de subordinação com respeito à ciência. agora.fascista. o “povo” ou. De modo quase simétrico.1. telúrico.1 à esquerda) A designação socialismo (I/D) científico (D/2) não lhe poderia ser mais apropriada. que vai propor também a substituição do sujeito I. tradicionalista -. igualmente invertendo o sentido da relação subordinativa vis-à-vis a ciência. na sua versão mais primitiva. (Ver figura 6. nazista. porém. pelo sujeito libidinal.

Esta observação é importante na medida em que o aludido fenômeno aparece reiteradamente na história luso-brasileira. as leis trabalhistas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 173 Alertaríamos que a designação nacional (D) socialista (I/D) . na medida em que sua oposição à “opção de esquerda não acontece entre o nacional (D) e o científico (D/2). implantação da Cadeira de Moral e Civismo em âmbito nacional vendendo a imagem do Brasil Grande) e talvez muitos outros. mas como se fora uma simples particularização de um sujeito já dado.é. organização do ensino básico) e o Movimento de 64 (aniquilamento das ideologias “exóticas” internacionais. agora restrito ou particularizado (o nacional). e no Brasil o getulismo (consolidação do mercado interno.nazista . mas precisamente entre o nacional particular (D) e o comunitário universal (I/D). indefectivelmente acompanhada de propostas de modernização científico-tecnológica da produção e do sistema educacional. Haveria ainda uma quarta possibilidade. uma razão profunda para esta equivocação: é que com freqüência uma formação ideológica de direita se apresenta não como uma troca de sujeito. que não se interessam por quaisquer sujeitos. . que seria a recusa de qualquer sujeito . E mais. basta-lhes a lógica im-pessoal de um hiper-estático poder burocrático. Há. mesmo que fossem elas próprias. enganosa. porém. ademais. especificamente. criação das grandes empresas públicas.é a posição das “cúrias”. de algum modo. instalação do Colégio dos Nobres) e o salazarismo. profissionalização na educação básica. pelo deslocamento do social universal (ou internacional) em favor do mesmo social. D/2. Assim foi gerado em Portugal o pombalismo (expulsão do jesuitismo internacional. Sua designação mais própria seria nacional (D) científico (D/2) contrastando com socialismo (I/D) científico (D/2).

D e I/D . e uma burocracia de estado vai assumir um poder totalitário em seu exclusivo proveito. habitação etc. as duas “opções extremas.Sujeitos e inversões ideológicas Na opção jesuítica ou comunista.governando seus pretendidos e pretensiosos sujeitos -. e não ao contrário. Por isso."POV O" Figura 6. o que .alimentação. Em ambos os casos chega-se a uma impossibilidade. SUJEITO CO LETIVO R Ú SS IA I/D SOCIALISMO CIENTÍFICO A O M XÃ IG S A D A R LO PA NG A D/ 2 M O D E R N IDA D L Ó G IC A D A C IÊ N C IA NACIONAL SOCIALISMO OU "NACIONAL CIENTÍFICO“ AM ÉR ICA I D "E U R O PA" SUJEITO LIBERAL SUJEITO ROM Â NTICO OU NAC ION AL . saúde. Na opção nazi-fascista.subsume as lógicas I.. se iludem com a possibilidade de promoverem a inversão da relação de subordinação entre a ciência e seu sujeito. pois. mais dia menos dia. trata-se de direcionar a ciência e a técnica para a solução dos grandes e urgentes problemas (ditos) sociais .que governa a ciência . Ver figura 6. trata-se da pretensão de colocar a ciência e a técnica a serviço da preservação dos valores e da integridade do “espírito do povo” (D). educação.2. qualquer destas “opções” vai se inverter. as inversões propostas sempre revertem. esquerda e direita.174 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Como já tivemos oportunidade de mostrar [7].2 . Assim necessariamente acontece porque a lógica D/2 .

em especial. pois. decidindo sistematicamen- . ou à música dramática) sobre a política I/D. [10]” Na “opção” de esquerda acontece precisamente o contrário: a prevalência do político sobre a arte. A propósito. Uma conseqüência também evidente da posição de direita é a supremacia atribuída à estética D (ou à poesia. porém. o sujeito liberal se afigura um sujeito realmente transcendente ao sistema (I). como se depreende da teatralidade do barroco jesuítico. acordes em nada pensar para realmente mudar. No paradigma anglo-saxão o sentido da subordinação aparece tal como logicamente deve ser: por definição. examinada por nós anteriormente [9]. Não há. como a prática do fascismo. tendo-se em conta a essencial indiferença das diferenças ideológicas. um sintoma anotado com grande acuidade por Walter Benjamin: “Eis a estetização da política. fica aqui mais do que evidente. acabando todas reunidas em torno do pensamento único. que por isso mesmo jamais perverte [8]. não nos pode causar grande surpresa o troca-troca ideológico das “elites” do Brasil.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 175 acarreta a perversão dos “projetos políticos que se dizem fundamentados naquelas “opções . O comunismo responde com a politização da arte. na medida em que só lhe é permitido operar de modo intervalar entre sistemas (D/2) que se superpõem e se sucedem. nada de estranho quanto à afinidade entre o sintomático helenismo desmedido dos filósofos e poetas alemães. e a força que na Alemanha assumiu o fascismo. A similitude da “opção” de direita com a problemática cultural grega. Esta é uma configuração essencialmente perversa. assunto a que voltaremos mais detalhadamente no próximo item. da “pedagogia” grandiloqüente do realismo socialista e assemelhados. dos românticos e seus derivados. como a história do século XX bem o demonstrou. a ele sujeitado.

é hoje. que bem sabemos agora o porquê. Depois de fazerem das eleições um só balcão de negócios. que é real. de estofo lógico-filosófico. o passo decisivo para o encontro do homem consigo mesmo. para mais agravar sua constitutiva fragilidade. apenas (logicamente) para frente e para o alto. a dissimulação que é presentemente a técnica. alta traição aos interesses da humanidade. afinal. simulando que tudo aí acontece democraticamente. para o apressamento da chegada da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. consideramos as ideologias como 6. será preciso denunciar. em especial a biotecnologia. Paralelamente. para compreender de onde ainda dimana o seu vigor. na verdade. é. Para além das ideologias . o que nela representa a ciência e em particular a física.3. A insistência numa tomada de posição exclusiva de tal natureza nesta altura da História já não é mais um equívoco (que já antes era grave). Para não compactuar com o que aí está. Justamente estribados nesta compreensão geral é que negamos qualquer valor realmente subversivo à ação exclusivamente político-ideológica.176 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO te contra os mais elementares interesses da maioria do povo brasileiro. chegam ao ponto de controlar cuidadosamente a “compra de votos no Legislativo para assegurar uma cota de votos-contra. Não há saída nem à esquerda nem à direita. indefectivelmente presente em todos os diários. revistas e principalmente nos jornais e especiais das TVs [11]. Podemos agora nos aventurar para além do âmbito das ideologias. Só assim poderemos começar a nos mobilizar para a verdadeira subversão da Modernidade. é necessário proceder a uma crítica radical. da Modernidade. onde verdadeiramente começa o processo de crise e superação da Modernidade. conluio com o que há de pior na Modernidade. Recapitulando.

o enfoque crítico. sincrônico. buscando uma avaliação objetiva das condições de continuidade do vigor criativo da ciência. a compreensão do processo de crise e superação da Modernidade requer exatamente o contrário: que concentremos nosso esforço crítico sobre a ciência e a técnica. questionando-as. o homem jamais abandonará a busca da autenticidade. lógico-filosófico da problemática cultural. tentando decifrar os mecanismos ilusionistas associados à técnica. Localmente (isto é.3 tentamos pôr em evidência a relação conceitual conflituosa entre. reacionário. não irá faltar de modo algum ao encontro marcado que tem consigo mesmo.ao mesmo tempo para trás (ciência) e para a frente (técnica exorbitante) -. representado por um plano solidário à própria Modernidade.como é o caso na atualidade do chamado processo de globalização -. de outro lado. de um lado. o enfoque ideológico. como sua questão maior. cuja característica central é a desconsideração da ciência como questão (aqui não se discriminando ciência e técnica). e. visto de dentro da própria Modernidade) existiria ali uma certa ambigüidade processual . representado por uma linha que traspassa a Modernidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 177 um fenômeno social típico do mundo moderno. em contrapartida. Na figura 6. . qual deva ser o sujeito da ciência e o sentido de sua relação de subordinação a ela. mas que vista de um pouco mais longe se nos afigura como inexoravelmente ascensional. assumem. diacrônico. Ora. Pouco importam os percalços temporários .

1. Que pensaríamos.por exemplo. especificamente. Parece-nos que o que mais tem atrapalhado a compreensão daqueles acontecimentos históricos envolvendo o filósofo alemão tem sido a atitude apaixonada de todas as par- . ao mesmo tempo fosse um crítico feroz da ciência e da técnica? Seria ele um mero reacionário de direita ou um profeta da cultura nova? Ou ambos.178 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O HOMEM EM BUSCA DE SI MESMO (I/D/ 2 ) "LINHA DIACRÔ NICA" DO PRO C. CULT URAL TÉCNICA EXORBITANTE "PLANO SINCRÔNICO" IDEOLÓGICO Direita MODERNIDADE Esquerda D/ 2 CIÊNCIA NOSTÁLGICA (I/D) Figura 6. Heidegger – a ciência e a técnica Estamos agora um pouco menos mal preparados para enfrentar questões de maior complexidade.Plano sincrônico ideológico versus linha diacrônica do processo cultural 6. Embora este já se tenha tornado um tema recorrente. então.3 . de alguém que fizesse uma aberta “opção” por um sujeito da ciência .3.e. mas precisamente do caso Heidegger. ou nem um nem outro?! O leitor já deve ter percebido que não estamos diante de uma situação hipotética qualquer. do affaire Heidegger e o nazismo (incluída aí a ultrasensível questão do anti-semitismo). pelo “povo” . o fato é que até hoje não foi tratado com a devida profundidade e amplitude.

em particular. justo por isso. que a colocação maniqueísta: Heidegger. o que fortemente impactou a intelectualidade alemã [14]. por volta de 1800. sem dúvida. Este processo num primeiro momento é anti-islâmico. a mais dramática em . O surto de helenismo exacerbado e excludente talvez tenha sido sua irada reação inconsciente e. porque é exatamente daí que se pode derivar os mais importantes ensinamentos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 179 tes. quando ocorre uma significativa migração de famílias judias para Frankfurt. Aí está. Preliminarmente. na circunstância. Isto representou um grande impulso no processo de “modernização econômica” da Alemanha. entre as quais estavam algumas de já tradicionais banqueiros. Nada pior. tal qual ocorreu em Espanha e Portugal. pois. toma-se como pressuposto que ele tivesse. anjo ou capeta. É a partir de então que esta cidade passa a se constituir num dos principais centros financeiros da Europa [13]. Sendo ele o maior dos filósofos de nosso tempo. mas tem como seqüela desdobrar-se para alcançar seus primos remanescentes. razão pela qual consideramos imprescindível que se explicite e se aceite o contraditório e o paradoxal das palavras e das atitudes. para então bem decidir. Há um outro importante momento histórico. está muito longe de ser verdadeiro. valeria fazer um breve resumo da história do anti-semitismo alemão. à época do seu reitorado. com intensos reflexos na sua vida cultural. os judeus. a plena compreensão e o acesso às informações suficientes sobre a situação alemã e internacional. Isto. a Europa simplesmente não existiria e talvez ainda não tivéssemos nem mesmo entrado na Modernidade. É preciso compreender que sem uma vigorosa reação à expansão semítica. Começaríamos lembrando que coube em parte aos alemães do sudeste a resistência à penetração islâmica na Europa via oriente [12]. uma das raízes mais antigas e fundas do anti-semitismo europeu. a nosso juízo. o alemão.

ou nazismo. Antes. doravante. na Alemanha o nazismo ganhou a proporção que tomou. O nazismo acabou sendo. tem sua razão histórica. Por fim.para ele já se tornara evidente o processo de aburguesamento das massas européias logo aos alvores da era do marketing e do consumismo. antes de mais nada. Este movimento representa o abandono da expectativa da consolidação de um proletariado revolucionário internacional (I/D) . do movimento soreliano [15].180 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO suas conseqüências. Com o capitalismo de marketing o processo se inverte: doravante é a desarticulação da cultura (ou sub-cultura) periférica e das relações sociais tradicionais que se torna pré-condição da penetração econômica global. Em conseqüência. a implantação de atividades agrícolas ou extrativo minerais na periferia do capitalismo acabava provocando a desorganização das relações sociais em geral e do mundo da cultura. que era quem mais sofria. se apoderar por atacado do imaginário do outro [16]. Isto implicava que a expansão capitalista. sim. chamamos a atenção para o fato de que. fenômeno que não pode ser de modo algum explicado pelo ativismo de um punhado de desatinados. a agressão cultural passou a ser condição do lucro. Outro episódio de peso foi a chegada à Alemanha. ainda na passagem para o século XX. o capitalismo sofre uma grande mutação: a função de principal motor do sistema passa da acumulação/produção para o marketing/consumo. Por tudo isso. só se faria pela prévia agressão à cultura (dos outros). . econômica e emocionalmente. A agressão à cultura era então uma conseqüência do lucro desordenadamente buscado. É exatamente aí que a designação nacional socialismo. Nesta nova etapa da expansão capitalista importa. com a expansão do capitalismo financeiro internacionalizado. no início desse século. suas esperanças revolucionárias se voltam para a pequeno-burguesia nacional (D).

pelo trágico. lá pelos meados da década de 30. senão do sujeito da ciência? Onde então poderia estar.4 . diríamos nós) entre duas tenazes: de um lado a Rússia (tendo como sujeito da ciência o ser coletivo I/D. naturalmente. que não na posição lógico-diferencial D? Ver figura 6. pelo torrão natal. o filósofo [17]. está metafisicamente (logicamente. como o socialismo soviético foi uma reação retardada ao capitalismo produtivista ou de acumulação (além de representar a politização da arte!). pelos gregos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 181 uma reação antecipada ao capitalismo consumista ou de marketing (além de representar. pelas águas do Reno e do Neckar. que a Europa (tendo a Alemanha como centro). Ver figura 5. Em suma: pelo sujeito lógico diferencial ou prometéico. De quem estaria falando Heidegger. Heidegger [18] afirma. em particular da Alemanha. I/D/2 VONTADE POLÍTICA OU “ VONTADE COLETIVA” HISTÓRIA CIÊNCIA I/D F E S R CO A N LA K F D U E R T D/ A ÃO IC Ç N A C UL É T IM S D E I/ D /2 2 H P E H O V ID IS O E G T G Ó E R R IC O I VONTADE INDIVIDUAL D VONTADE NACIONAL OU VONTADE DO POVO CULTURA Figura 6. telúrico. acrescentaríamos nós) e de outro a América (tendo como sujeito da ciência o indivíduo liberal I). pelo povo. faz sua opção a que não se pode negar o caráter ideológico: o faz pelo sujeito romântico. no caso da Europa. este sujeito desejado.4. a estetização da política!). segundo ele.Heidegger e a questão ideológica . É neste contexto histórico que Heidegger. D. pela Floresta Negra.4. pela poesia.

deslocando-se da diagonal machista (D/2. É certo que ela não chega a ser lógico-qüinqúitária (I/D/2). a algo de determinado nível lógico só se pode contrapor algo . como se pôde ver. não pode caber a mínima dúvida quanto ao seu profundo e prolongado comprometimento com o nazismo.4 deixa bastante claro que não se pode logicamente contrapor povo e técnica.182 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Depois disso. a técnica é o próprio modo de ser do homem quando concebido como apenas animal racional. lo imaginado (lógica). mas é bem o seu simulacro. (colchetes nossos) [22] De fato. além das ideologias). e isto vinha já de Aristóteles. ser reduzida a uma mera tomada de posição ideológica precisamente em razão da crítica insistente e feroz que faz à ciência e à técnica. no lo racional en oposición a lo irracional (porque esta definición se basa en la frase: el hombre es un animal {I} racional {D/2}. Sua posição não pode. Estos son los conceptos fundamentales de nuestro futuro. I/D) [21]: El concepto no es aquí ya más lo pensado. I) para a diagonal feminina (D. Ademais. basta saber ler a própria lógica da situação e das escolhas possíveis. Heidegger então anuncia com bastante clareza em que direção irá se mover. ela é uma articulação entre a vontade individual (determinação de projeto) (I) e o saber científico (D/2). Heidegger é de uma enorme clarividência. Isto significa que ele vai muito além dos limites estreitos da questão ideológica e se coloca como um verdadeiro filósofo de sua época. Não se precisa do livro do Victor Farias [19] para se chegar a esta conclusão. A figura 6. De la necesidad de superar este antiguo “concepto” se sigue una mayor amplitud del novo concepto. sob o poder castrador do ultimo [20]. entretanto. Sob este ponto de vista. A técnica é algo de natureza metafísica (no caso. um radical crítico de sua cultura.

contra a sociedade tecnificada (D/2 I) dever-se-ia confrontar não apenas o povo (enquanto apenas vontade. él pasa a la historia (futuro) en tanto que se sale da historia (pasado). Tornar-se um povo histórico não é uma necessidade. a História. entrementes.El pueblo es hecho por la historia. síntese da identidade e da diferença (I/D). nada tem de uma simples sucessão de acontecimentos fortuitos destituídos de significação. Assim. [26] (negritos nossos) A opção pelo sujeito povo (D). [24] Entrementes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 183 de um nível lógico igual ou superior. vale dizer. ela aqui se mantém ← ← . para o nosso filósofo. D). estaria pois essencialmente associada à problemática de sua entrada ou saída na história (I/D). não é algo inerente à condição de ser povo. em Heidegger. a história aqui se reduz ao acontecer da própria tradição. um desdobrar-se em seu próprio ser aberto (além de D). Embora a lógica da história seja a dialética. mas o povo e sua vontade de tornar-se um povo histórico (D I/D). Ella es el carácter más propio del acontecer y lleva la determinatión propia por sobre nosotros hacia el futuro. mas uma decisão (não necessariamente consciente). na direção do futuro: . [25] (negritos nossos) Lo que es desde lo ya sido es la tradición. [23] Cuando um pueblo pasa a la historia ello quiere decir: él entra al futuro. é uma história sujeitada à lógica da repetição (do mesmo!). o acontecer só verdadeiramente acontece como modo próprio de ser da tradição: Historia y acontecer no son ya más un continuo de sucesos: Acontecer es tradiction. Pelo já visto.

2) Em que pese a sagacidade e o poder de enxergar para além das ideologias e mais ainda para aquém de seu próprio tempo seguindo ao reverso as marcas significantes deixadas meio às sendas do esquecimento do ser. talvez. porém.184 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ainda refém de sua proveniência. tendo a lógica da identidade I a seu serviço. A sujeição da história à tradição. por pressupô-lo apenas lógico-dialético trinitário (hegeliano) e não o que verdadeiramente é. mas acaba sendo também vítima desta mesma excentricidade [27]. Heidegger não consegue ir muito mais longe do que lhe facultava sua própria cultura. portanto. mais um modo pseudo-lógicoqüinqüitário (pseudo I/D/2). um pseudo ser lógicoqüinqúitário) acabe desembocando numa anti-técnica (governada pela lógica da diferença D tendo a lógica dialética I/D a seu serviço. deveras o fazia. imaginamos. Isto vai implicar em que sua crítica da técnica (governada pela lógica formal D/2. mas o tempo histórico das culturas. que não era o espaço. teria tido o maior horror a Lacan e seus “matemas da sexuação” ! [28] b) Não distingue ciência e técnica no que lhes é o ← ← . Em suma. (Ver figura 6. hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. apenas um simulacro. que se pode assim resumir: a) Embora tenha escapado dos estreitos limites do reacionário plano ideológico. constitui uma evidente anomalia lógica. não consegue se assenhorar do aberto em que se viu. também um pseudo ser lógico-qüinqüitário). que aquilo que vinha para se contrapor à técnica. Tira bom proveito de um certo descentramento alemão em relação à Modernidade. tal como a técnica. sem conseguir deixar de ser. sujeitada à lógica da diferença (D). o que a rigor propõe é a substituição da técnica machista (D/2 I) por uma anti-técnica feminista (D I/D). Conclui-se. Por tudo isso cometeu muitos e sérios enganos. a nosso juízo. Heidegger. pois.

não se deve estranhar que. como seria possível escapar à impotência. A Escola de Frankfurt .a exorbitância poética dos gregos -. É um juízo quase unânime que a Escola de Frankfurt. Sem isto. não em seu rosto. c) Não percebe que o problema da técnica não está no que ela é. Como pretendemos mostrar. porém. em que pese o nome. É bem conhecida a sua dívida para com Marx (I/D) e Freud (D). mas no que figura ser. ou pior. daí. dela não se apercebeu. por isso sub-avalia a força criativa da ciência e não consegue perceber quanta oportunidade há para denunciar a fragilidade da técnica quando em estado de ilusionista exorbitância. parece-nos. no fim de seu périplo filosófico.3. vale dizer. Havia um precedente que lhe era bem familiar . que ela é ainda maior para com Heidegger. [29) . em conseguir realizar uma reforma radical de sua própria universidade –. mas nas suas máscaras sedutoras. não chega a se configurar como uma verdadeira escola de pensamento: It may even be questioned whether they have anything in common beyond the programme for a restatement of Marxisme in the form of a ‘critical theory of society’. o que a Escola acaba mesmo realizando é uma “inversão interna” no esquema lógico heideggeriano. entretanto. talvez desencaminhado pelos hinos e encantos de Hölderlin. sua orientação diametralmente divergente na ordem do tempo: a primeira desejosa do que foi.2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 185 mais essencial. a nosso juízo se deve justamente a esta sub-avalição do poder da ciência na Modernidade. vá sugerir a volta à mesma exorbitância poética grega! 6.os meios de reprodução e comunicação de massa Vale a pena aqui fazer uma breve referência à Escola de Frankfurt (sempre Frankfurt!). de uma práxis política desastrada? Seu “fracasso” na reitoria – isto é. a segunda fingindo ser já o que está ainda por vir.

importa sim o seu conjunto que acaba se mostrando de surpreendente harmonia. na conjunção dialética e materialismo. não importam o âmbito e as circunstâncias. no caso. verdade do ser dialético. podemos chegar a uma visão relativamente coerente e precisa sobre o que de fato pretendem os defensores da Teoria Crítica. da “dialética negativa” de Adorno. pela dialética. entrementes. perde seu peso metafísico e por conseqüência deixa de se constituir suporte para os extremismos totalitários. b) Seguindo Karl Korsch (Marxismo e Filosofia 1923). Vejamos: a) Todos os membros reconhecidos da Escola passam pelo marxismo. completude e eficácia teórica. Não importa a ordem de apresentação nem o peso relativo de cada um dos “lances ou movimentos” por eles realizados. como é o caso.5. barra-se qualquer pretensão de onipotência do conceito. insistindo na sua desabsolutização.186 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria mesmo assim? Realmente reconhecemos uma certa dificuldade em apresentar uma lista de concepções comuns à Escola. pelo menos a nível lógicodialético. denuncia-se abertamente a aproximação do marxismo com o positivismo cientificista. sempre existiria um outro. porém. é o último que torna a primeira um processo infinitamente aberto. valendo-nos de uma estratégia geral de envolvimento. Ver figura 6. Isto é feito de diferentes maneiras. Tanto para Horkheimer como para Adorno. ali- . consequentemente. seja sobrevalorando o momento negativo da dialética em detrimento do seu momento de síntese. por exemplo. Isto significa que a noção de totalidade. que. seja dando mais peso à Fenomenologia do espírito e menos à Lógica hegelianas (Habermas). A desabsolutização da dialética é justamente o que vai permitir a sua articulação com outra lógica. Deste modo. como também de equivalência de ser e pensar. com a lógica do outro ou da diferença.

na verdade. Adorno é o mais crítico da razão identitária que a seu ver necessariamente suprime as diferenças. porém. mas.5 . c) Aceitação da psicanálise como um real contrapeso a eventuais desvios conceptualistas totalitários da dialética. [30]. Figura 6. a lógica transcendental ou da identidade que lhes dá suporte.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 187 ás. rejeita-se abertamente à psicanálise o estatuto de cientificidade com que tanto sonhara Freud. pelo valor que dão aos imperativos da razão prática. é comum à toda a Escola como assinala Kortian: The Critical Theory of Frankfurt School simply reproduces this metacritical paradigm in its merciless attacks on any rehabilitation of a prima philosophia. obviamente.A formação lógica da Teoria Crítica d) Rejeitando a prima philosophia e as filosofias subjetivistas e. com estas. não pelo transcendentalismo. Este posicionamento. teria suas raízes nas inegáveis ambigüidades do próprio Marx com respeito ao valor da ciência e da técnica. também taxando como suspeita a aproximação do próprio Freud com o positivismo. Kant e Fichte são aceitos. .

mas principalmente a arte. em sua autojustificação. portanto. da dialética I/D sobre a lógica da diferença D. porém. Horkheimer lamenta que a Modernidade tenha cortado do âmbito da verdade não apenas a política e a religião. rejeitam liminarmente o método e a postura objetivista da ciência por incapaz de dar conta da especificidade e da complexidade do ser histórico. Talvez. fazem uma crítica radical da técnica moderna e das ideologias que as justificam seja explicitamente. Adorno rebela-se contra a tecnificação que se faz hoje em escala planetária. a própria técnica transformouse em ideologia. deixando uma única alternativa: o comprometimento da Escola de Frankfurt com a mesma diagonal feminina por que optara Heidegger. g) A tudo isso colmatando. Habermas segue na mesma direção. Hoje a cultura teria se transformado em mera indústria de diversão para mistificação das massas.4. por serem de Frankfurt e não da pequenina Messkirch. invertendo a direção da relação de soberania – agora. denunciam que a história reduzida a simples natureza leva a que a práxis se reduza inexoravelmente à técnica. na região de Baden! Ver figura 6. seja por ardilosa omissão. A Teoria Crítica é assim um pensamento que con- . quem sabe. na Modernidade. Operando no “espaço lógico” o conjunto destas disposições se mostra extremamente constringente. Para Adorno. Marcuse. f) Embora não se furtem à pesquisa empírica. só que partindo de uma crítica profunda da noção weberiana de racionalidade. por dentro. nada melhor do que a arte para romper. e demonstra como.188 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO e) Não é de se estranhar que a estima pela psicanálise venha de par com a valorização da arte. vindo da esfera de influência heideggeriana. não podia deixar de atacar a tecnocracia e o totalitarismo inerente à razão técnica e científica. as falsas totalidades.

excetuando-se. mas. depois. Entretanto.como degraus ou como enormes pedras. os dois. em que pese a pretensão. conforme o uso que deles se faça.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 189 segue romper com o conservadorismo ideológico. Heidegger e.um dos mais proeminentes membros da Escola -. Crítica radical da cultura . deixando-a à vontade para pensar-nos. não alcança a altura suficiente para se constituir numa instância crítica radical da cultura. Em Heidegger. a Escola de Frankfurt. levado às últimas conseqüências. Não há mesmo saída à esquerda nem à direita.4. Não há dúvida de que faliram as ideologias. como contemporaneamente acontece por toda parte . a Modernidade não se reduz a um simples modo de produção. modos de pensar a meio caminho entre a penúria que ora se vive e o pensar pleno lógico-qüinqüitário . é porque não nos interessa mesmo a salvação. e sabemos hoje bem o porquê: não pretenderam outra coisa senão alcançar o capitalismo perfeito através da simples troca do sujeito sujeitado da ciência. que acredita que a Modernidade. ficando esta sempre impensada. qualquer que esta possa ser. tal como a técnica que ele critica. Se insistirmos em abdicar de pensá-la. Foi por assim acreditar que acabamos todos caindo onde caímos. por via reversa. trata-se ainda de um pensar tolhido. primeiro. Definitivamente. com a sua “indústria cultural”. Ora. a Modernidade é antes de tudo uma cultura em cujo âmago vive a ciência com o seu inesgotável poder de cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos.em todas as universidades. na era do pensamento único. Vimos também que poucos conseguiram até hoje ultrapassar os estreitos limites da crítica ideológica. não fo- 6. Esse juízo é emitido pelo próprio Adorno . São. fechou todas as portas que pudessem nos levar a um ponto de vista a ela transcendente [31]. em todas as logias -.

não será entretanto perdido se vier contribuir para que a filosofia reconquiste seu vigor originário grego. nada menos. não se pode pretender chegar à crítica da Modernidade sem um pensamento resoluto disposto a medir-se com a ciência. nada mais.que precisamente. igualmente. preferiríamos nós). Heidegger chamou nossa atenção para o fato de que os descaminhos da filosofia já vinham de bem longe. é lógica da diferença recalcada -. na Modernidade com as filosofias de Kant. a pior das emendas! O esforço heideggeriano de denúncia da essência metafísica da técnica (da ciência. em lógica formal (D/D=D/2). embora insuficiente. ou mesmo à só palavra poética. por ser tal. lógica por lógica. É fazer tábua rasa. na era da ciência e da técnica. Que era então o logos heraclítico que a própria filosofia paradoxalmente desconhecia? No referencial ali tacitamente assumido. também da ciência. No imaginário e na prática.190 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ram eles longe o suficiente para se constituírem como verdadeiras instâncias críticas da cultura e. com Aristóteles. mas quanto à sua significação e. Hegel e Leibniz. não apenas da filosofia. às suas ardilosas promessas. em lógica dialética (I/D). sob o império da lógica da dupla diferença (D/D) . A nosso juízo. com Platão. não obviamente naquilo que respeita a seus métodos e resultados. pleitear o retorno ao logos heraclítico. é se colocar à espera de um deus que se crê infantilmente vá um dia se arrepender e voltar. Tudo isto veio se repetir. que acaba sendo também a denúncia dos limite da crítica ideológica da Modernidade. mas da humanidade concreta no inexorável e penoso curso de seu auto-desvelamento. Hoje. do que o pensar da diferença (D) [32]. ainda de sua época grega: com Parmênides o logos se degradava em lógica transcendental (I). por conseqüência. respectivamente. sobretudo. de mais do que 2000 anos de história. Isto implicaria avan- . tintim por tintim.

Não há mais qualquer outra alternativa para um efetivo exercício crítico radical da Modernidade senão se postar à quinta margem do rio . a crítica da Modernidade se constituiria em auto-crítica da ciência (diga-se de passagem. em especial da cultura Moderna.não falamos do rio temperado e montanhoso de Heráclito. entre outras coisas. Jamais tivemos ou poderemos ter uma crítica científica da Modernidade. mas coerentemente de um rio amazônico bem mais caudaloso. à sua própria plenitude onto-lógica. Mesmo a antropologia já se declarou. lógico-qüinqüitária). trata-se sobretudo de uma tarefa para o Pensamento (tomado em sua acepção máxima mundana. ao invés de retroceder. de onde se pode espiar o homem cansado e sofrido. mas chegando e se achegando enfim à sua morada. de um poderio hiperdialético qüinqüitário que a capacite para a urgente e imprescindível tarefa de crítica radical da cultura. vazando assim os próprios olhos para não ver que não era o destino. como sendo o saber das culturas em desaparecimento. implicaria hoje na assunção. É óbvio que esta não é sua tarefa. onde vige o princípio da falsa identidade [33]). incompatível com sua própria lógica. Como poderia estar a ciência disposta à crítica profunda da Modernidade se é ela própria o seu fundamento? Em tal circunstância. preventivamente. . mas sua própria cultura que perpetrava tal extermínio em escala planetária. pela voz de seus maiores e com ares de sonsa gravidade. porque hiperdialético qüinqüitário -. dialético trinitário. ou seja. não há o que se esperar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 191 çar. E a ciência? Da ciência.

... outras concepções do processo histórico apareçam como meras simplificações.......... . o judeu teórico.. a simplificação a que aludimos se torna imediatamente visível. O cristianismo brotou do judaísmo... Pela razão óbvia de termos adotado uma concepção hiperdialética. casos particulares ou modelos reduzidos........... então. é mais do que natural que.. E quando algum autor se declara adepto e de fato se utiliza de uma concepção lógica explícita... à esquerda) [1] não difere assim tão extraordinariamente de outras conspícuas e bem conhecidas concepções. quando se lhe comparadas...... Hegel e Marx O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa... mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão............ Karl Marx.. de generalidade extrema..... Tillich... ...... A história da cultura aqui representada apenas pela sucessão de suas culturas nodais (figura 7.. E tornou a dissolver-se nele. portanto.. o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 193 7 História da cultura segundo Toynbee... o judeu é.... desde o primeiro instante.1. A questão judaica...... O cristão foi.............. portanto.. como teremos oportunidade de adiante constatar... como é o caso de Hegel e Marx (lógico-dialética)............

194 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para facilitar comparações. o preclaro teólogo alemão. O primeiro toma as civilizações como os reais sujeitos do processo histórico e adota uma concepção que poderíamos denominar de organicismo mitigado [3]. nos seus resultados bastante próximas da nossa.a nossa proposta hiperdialética e a “filosofia da história” de Toynbee -. ora espiritualista. Comparandoas . que seguiria uma tendência ascendente. para comprová-lo. que se proceda à mais ou menos óbvia identificação do ser logico-diferencial (D) com o caráter materialista. ademais. na qual a forma piramidal (hiperdialética) apareceria subsumindo as formas triangulares (dialéticas) [2]. Neste. isto não a obriga necessariamente a percorrer uma seqüência de fases pré-fixadas. emigrado depois da Segunda Grande Guerra para os EUA. porém. como seria conseqüente e mais funcional. ela pode sempre alongar sua existência à proporção que consiga dar respostas adequadas e eficientes aos desafios contingentes com que se venha defrontar. e do ser lógicoidentitário (I) com o caráter espiritualista. não suficientemente nítida. Ao final de sua vida intelectual. expressa por uma religiosidade cada vez mais abstrata (espiritual) e de âmbito mais universal. ainda por cima. Toynbee delineou uma filosofia da história na qual se alternariam culturas de caráter ora materialista. Paul Tillich. nós mesmos nos serviremos de uma representação geométrica trinitária (sucessão de formas triangulares) e não. cada civilização tem de fato o seu próprio ciclo de vida. Estas últimas teriam implicitamente o comando global do processo. . Inicialmente examinaremos as concepções de Toynbee e Tillich. bastando. constatamos que a última não é mais do que uma versão simplificada (lógico-trinitária) e. de uma representação propriamente lógico-qüinqüitária. da primeira.

de importância primordial na estruturação da mente humana e acaba por isso se refletindo no próprio processo de sua objetivação simbólica coletiva. mas um a priori constitutivo da própria mente humana .temporalidade. como em Toynbee. Ernst Cassirer.n. vale dizer. [n. Outro grande filósofo alemão da cultura. de fato. que elas coincidem exatamente com o que caracterizamos como culturas lógico-identitárias (família I). aliás. como não poderia deixar mesmo de ser. em profundidade. tendo-se aí a cultura judaica por seu ilustre paradigma: . também vem chamar a nossa atenção quanto à importância da análise das experiências de tempo (I) e espaço (D) para a compreensão. o “motor da história não é o desafio contingente versus resposta.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 195 trabalha diretamente com as culturas e adota uma concepção também implicitamente dialética do processo histórico. Aqui. entretanto. espacialidade e a luta pelo predomínio em que estão permanentemente empenhadas: L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps.[4] O papel que a tensão tempo (I)/espaço (D) exerce é. da problemática antropológica: Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. constatamos.] [5] Ao percorrermos a lista das culturas que Tillich aponta como comprometidas com o tempo. [negritos nossos. nas formações culturais históricas.

196 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Le peuple juif est comme aucun autre nation le peuple du temps. devemos atentar. pelas culturas do tempo. e o que é mais curioso. é a nossa. Os casos mais interessantes vão ser os de Hegel e Marx. Estas duas concepções da história são sobremaneira interessantes na medida em que não são apenas simplificações ou reduções. O último diz adotar uma versão materialista da dialética. (n. a torcida é para um dos lados. Para melhor compreendermos como foi possível a deformação conceitual cometida por Hegel. Car l’homme est capable d’agir en vue d’une fin située par-delá sa propre mort. [6] (n. Aqui.n. vão ser então identificadas como lógico-diferenciais (família D). para o seu radical apego à coerência lógica (dialética). grega e moderna. pelas culturas espirituais. sempre a mesma tendenciosidade (que. não escondemos. em primeiro lugar. enquanto que o primeiro adota uma versão especulativa (preferimos a denominação especulativa à idealista.n. também.) As culturas do espaço. como em Toynbee. cada uma com seu específico e dissimulado propósito. mais usual. em suma. também): Ce n’est que dans l’homme que le victoire finale du temps devient possible. mas que a nosso ver deturpa a intenção hegeliana). aqui. verdadeiras deformações da concepção hiperdialética. cada uma a seu modo. ambos declaradamente lógico-dialéticos. Admitido . lá.)[7] Depois disto tudo só nos resta afirmar que a concepção do processo histórico em Tillich pode ser também considerada como tão apenas uma versão simplificada da nossa proposta hiperdialética. Il représente la lutte permanente que se livret depuis toujours l’espace et le temps. mas porque constituem.

ele se vê obrigado a afirmar coerentemente que tal processo deva conduzir ao desvelamento de um ser lógico-dialético e não a outro qualquer tipo de realidade [8]. Esta deve ser. se o processo histórico ainda se encontra em aberto. desta sorte. assinala a passagem do analógico ao plenamente convencional. Sua expressão política.[10] Com o “rebaixamento” da cultura judaica. portanto. depois diferencial. o trânsito das culturas ecológicas (inicialmente identitária. por ex- . precisa demonstrar a todo custo que a cultura judaica pertence à família das culturas Diabólicas. no plano simbólico. à direita). esta deixa consequentemente de ser. deslocados de sua real posição lógico-identitária (I) para a posição lógico-diferencial arcaica (pré-D).1. Hegel toma estes episódios como significantes da ruptura dos vínculos do homem com a Natureza.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 197 o caráter dialético da história. respondendo à indagação de Moisés: “Eu sou o que sou (ou serei)”. a destinação da cultura alemã. Hegel. lógico-D-iferenciais.o perfeito e acabado ser lógico-trinitário (I/D). com o telúrico vigor que afinal o engendrara. sua meta tem que ser a auto-realização do espírito como espírito absoluto . se afigurando então como a realização/institucionalização deste mesmo ser lógico-trinitário! Espantoso! Em segundo lugar. passíveis da acusação de terem instaurado um pérfido dualismo. portanto. ambas ainda referidas à Natureza) em direção às culturas propriamente lógicas. Ela também representa. Os judeus são. o Estado prussiano. ou seja. Ele produz esta “demonstração” valendo-se exatamente da passagem bíblica referente à adoração do bezerro de ouro que. com muita precisão. uma concepção abstrata e alienada da essência humana (figura 7. por razões “psico-sociais” [9]. Ora. podese então trazer a cultura grega para o seu indevido lugar. Tal passagem se confirma com o episódio da auto-definição essencialmente lógica de Deus.

em I/D/D. a cultura trágica ou prometéica (D) para ressurgir como cultura identitária (I). Valendo-se da mesma artimanha. da tela e da pedra. os primeiros e mais dedicados amigos do ser [11]. Uma cultura realmente da identidade (I) produz profetas e não filósofos. Um absurdo completo. metaforizada à exaustão na “sublimação” da cal. Hegel pôde deslocar a cultura cristã trinitária da posição I/D para D. fica aberto o lugar para que uma nova realidade advenha em I/D. já lá instalado à espera para dar-lhe as boas vindas (assim como. o novo Estado alemão. HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA HEGEL: HISTÓRIA DIALÉTICA (VISTA PELA ÓTICA DA FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO) ONDE SE DEGRADA A CULTURA JUDAICA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D/ 2 D/2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA CULTURA MODERNA CÍNICA CULTURA ALEMÃ CULTURA GREGA TRÁGICA I/D D I/D D CULTURA CRISTÃ CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA GREGA TRÁGICA I PASSAGEM DEGRADANTE Pré-D CULTURA PRIMITIVA CULTURA JUDAICA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I Pré-I Figura 7. Depois de todos estes malabarismos. é o lugar de onde se pergunta pelo ser (distanciamento D) e não o do ser desejado (I). com Hegel. Não percebeu Hegel que grego. como atesta o incomensurável acervo da arte sacra que ele nos legou [12]. para ele. na filosofia. O essencial no cristianismo. não é mais o Deus Uno-Trino. como ele equivocadamente inferira. agora!).198 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celência. adivinhamos. pois o desejo do cristianismo é precisamente a “espiritualização” (I/D) do corpo (D). dirão com malícia que estamos nós à espera do Brasil.1 – Hegel e a história da cultura . seu profeta. mas o dualismo corpo/alma.

(figura 7. Com isso. tratavase. de colocar a filosofia de Hegel de cabeça para baixo! Para tanto. A maior parte da . Assíria. a artimanha não sendo mais aquela de deformar (a lógica das virtudes da cultura judaica. O escravismo é uma extensão mais ou menos permanente de um verdadeiro modo de produção. como em Hegel. à direita). agora colocadas ambas sob a rubrica comum: modo de produção escravista.2.. Deveras. todos de nível lógico pré-D) com a cultura trágica grega (de nível lógico D). desaparece da cena histórica a cultura judaica e com ela todas as suas articulações conceituais (lógicas) e históricas com as demais culturas. e o Egito antigo é um ótimo exemplo disso. Seria então o caso de se indagar por que seria Hegel tão cego à lógica formal (D/D) já ele sentado sobre ela? Em outras palavras. mas de simplesmente subtraíla à “objetividade cientifica” [13]. fosse qual fosse a data que tomássemos para o seu nascimento. Já se iam para mais de 600 anos que morrera Abelardo. e isto foi dito até com bastante franqueza.. que a realidade maior fosse de nível lógico dialético (I/D) e que a cultura judaica fosse dualista (pré-D). Marx simplesmente curto-circuita a cultura judaica. Assim. 50 que se instalara a revolução industrial inglesa. Babilônia. 100 que morrera Galileu.? O caso Marx é tão ou mais interessante que o anterior. seria ele.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 199 É importante lembrar que tudo isto acontecia numa Europa já imersa em plena cultura científica moderna. governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D). um ainda maior neurótico obsessivo. naquela altura dos acontecimentos. além de grande filósofo. Pérsia. A escolha da denominação escravista é um ato falho que vem ratificar o que estamos afirmando. só um gênio seria capaz de tais proezas: afirmar. e o faz por meio da identificação da cultura de base agrícola dos grandes impérios da Antiguidade (Suméria. Egito etc. 500 que morrera São Tomás.

em especial..corretamente. em préI. por fim. a cultura científica moderna com capitalismo. HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA MARXISMO: HISTÓRIA DIALÉTICA MATERIALISTA (HIST. ).Marx e a história da cultura No mais. em I/D/D. na posição I/D. O mais importante é que. D.. apagam-se completamente as marcas da passagem das culturas ecológicas (Pré-I e. Fica ainda o espaço suficiente para a conclusão do processo histórico através do advento do comunismo. mas reduzindo-a a I. e . onde justamente estava inconscientemente Marx. mas reduzida a I/D.2 . a sociedade sem classes. com a escamoteação da cultura judaica. diga-se de passagem . é só identificar . mas reduzindo-a a D.200 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO produção egípcia não era escravista (os egípcios não eram escravos em suas terras). e sem esta ruptura presente. DA CULTURA ONDE É ESCAMOTEADAA CULTURA JUDAICA) COMUNISMO AVANÇADO CULTURA MODERNA CÍNICA FEUDALISMO CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D I/D/2 D D/ 2 I/D I ESCRAVISMO CAPITALISMO I/D/2 D/ 2 I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA Pré-D CULTURA JUDAICA D CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS I PASSAGEM ESCAMOTEADA Pré-D Pré-I ESCRAVISMO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I COMUNIASMO PRIMITIVO Figura 7.. na posição D/D. apenas podia se dizer escravista. Assim fica bastante claro que a escolha do nome escravista para este modo de produção só se justifica da perspectiva judaica. a cultura cristã patrística com feudalismo. pré-D) para as culturas propriamente lógicas (I.a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico com comunismo primitivo.

escrevendo prefácios. dis-pensador da cultura judaica.. A história da cultura se reduz com este “apagamento” a um mero processo de desenvolvimento das forças produtivas em seu sentido puramente material. sempre o mesmo livro (o mesmo sistema). Ao contrário de Hegel. notas introdutórias e mesmo posfácios. que embora dialético (I/D) não conseguia se desembaraçar de sua neurose obsessiva (D/D). Pela simples contemplação da figura 7.2. que Marx acreditasse estar colocando o mundo filosófico de cabeça para cima. sem precisar acabar os seus. de cabo a rabo. E com isso ficamos nós sem nada saber de como foi possível a Marx. Marx. verifica-se como ele pode deveras realizar toda esta mirabolante deformação histórica. causar nenhum espanto. ficando assim obrigado a escrever.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 201 bem aparente. Não nos pode. chegar afinal onde chegou.. . a concepção ecológica (materialista. tomando a infraestrutura material (ecológica ou econômica) da sociedade como determinante. podia harmoniosamente conviver com a sua histeria (I/D). se poderia também dizer) da realidade social pode se prolongar e dominar a totalidade do processo histórico. portanto. toda a produção lógico/simbólica se reduzindo a mera super-estrutura determinada [14]. também dialético (I/D).

quanto tem de efetividade e poder. Começaríamos indagando: elas variariam ou não em função do tipo (lógico) da cultura considerada? Podemos tomá-las como um caso particular da também velha questão dos universais? Podemos tão somente reduzi-las a uma relação topológica. Os aspectos aqui considerados são aqueles que na nova cultura. .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 203 8 Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária É portanto mediante a cultura que o indivíduo tem aqui vigência e efetividade. esta é uma antiga questão filosófica [1]... II Este ensaio é o primeiro de uma trilogia em que assumimos o elevado risco de tentar delinear. Hegel. Consideramos que este é o momento oportuno para . Fenomenologia do espírito. aspectos da nova cultura lógico-qüinqüitária que virá suceder à atual Modernidade. tanto tem de cultura. conteúdo/continente? Como bem sabemos. a nosso ver. até hoje sem uma resposta aceitável. homem/ cosmos e homem/Absoluto. mais intensa e profundamente estarão contribuindo para a resignificação contextual do ser humano: falamos das relações homem/sociedade. com algum precisão. O tema central aqui é a relação entre indivíduo e sociedade. a nosso juízo.

portanto. por apenas reconhecer um determinado nível lógico que ela absolutiza/sacraliza em sua religião oficial ou hegemônica e que sanciona por todos os meios. embora tenha todos os seus membros de nível lógico-qüinqüitário (I/D/2). a nossa grande esperança . dialético (I/D). De per si.204 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO buscar-lhe uma resposta clara. já com vista à cultura nova lógico-qüinqüitária que. isto é.1 . Sabemos também que seja qual for a cultura. sem dúvida. por último.esta é. Coloquemos.1.Relações políticas e culturais invariantes numa cultura de nível lógico X . hiperdialético (I/D/D=I/D/2). agora. indivíduo e sociedade. em especial. tal como ilustra a figura 8. eles se constituem como entes de nível lógico-qüinqüitário [2].estaremos adentrando. por suas normas e práticas educacionais [3]. em muito pouco tempo . operando e existindo em cinco níveis ontológicos: transcendental ou identitário (I). ela se caracteriza justamente por um parti pris lógico. Figura 8. lado a lado. simples diferencial (D). clássico formal ou duplamente diferencial (D/D=D/2) e.

ele não estaria garantindo o que lhe é mais essencial: sua integridade. uma operação de natureza lógico-identitária (I). em especial. é aquele em que os indivíduos entram num processo interativo para produzirem. qualquer que seja a cultura focalizada. não pode por si determinar-se. em razão mesmo de ser múltiplo. Daí.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 205 Isto posto. Em contrapartida. naturalmente. falta-lhe por si a cultura. caso contrário. este mesmo ser-coletivo. que denominamos político. veremos sempre o indivíduo operando necessariamente em nível lógico transcendental (I). O mais interessante a observar é que o processo de assunção da cultura pelos indivíduos se faz por identificação. duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. de modo simétrico. a partir de sua capacidade individual de autodeterminação ou decisão. não importa o tipo de cultura sob consideração. Deste modo é que eles podem atingir seu mais elevado nível de estruturação interna e relacional. sua liberdade. O primeiro modo de articulação. o que nos leva a acreditar que. ou seja. em especial) e valores gerais que constituem a cultura de nível lógico X. que é necessariamente portador de cultura. o processo de produção da deci- . seu poder de decisão estrito senso. De outro lado. da língua. depreende-se que devam existir ao menos dois modos invariantes de articulação entre indivíduo e sociedade. seu poder de autodeterminação. aquilo que é falta constitutiva do ser-coletivo. O segundo. como é o caso. pois esta última é uma prerrogativa essencial do ser-coletivo. é aquele em que os indivíduos suprem sua carência cultural constitutiva assumindo ou se deixando tomar pelos esquemas de percepção. tal como ilustra ainda a figura 8. por exemplo. dentro do que permite a cultura de nível lógico X. que diríamos cultural. estruturas conceituais (a língua.1.

embora devamos saber que toda violação acaba tendo lá seu justo preço. Além das dimensões política (que engloba o poder ou a formação da determinação coletiva) e cultural (que engloba o sentido compartido que faz a unidade coletiva).1. somos obrigados. nada há de mais natural do que a política.206 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO são coletiva articulando as determinações individuais se faça por um modo operatório de nível lógico X [4]. confundindo-se o ser social com o ser político. ou pelo menos assim deveria ser. que denominamos dimensão econômica [7]. Para Aristóteles. por uma questão de completitude. para a sua própria consecução. a política era considerada a primeira dentre as ciências e o homem o animal político [6] por excelência. ao político e cultural. todo ser social comporta ainda uma terceira dimensão fundamental voltada para o provimento de meios em geral. na Ética a Nicômacos [5]. tudo isso é apenas uma disposição normativa. Sugerimos que se volte a ver a figura 8. Como exemplificaremos adiante. em especial. a fazer corresponder os níveis intermediários (entre I e X. Aceitar que o processo mediador num extremo ← (X X) é do tipo lógico-transcendental I (uma identificação) e no extremo oposto (I I) é do tipo lógico X. É bem razoável pensarmos assim. Como já adjudicamos os níveis lógicos extremos I e X. Em outras palavras. dos meios para a sua reprodução material. em geral. Entre os gregos da idade clássica não havia a menor dúvida que o fosse. exclusive) à dimensão econômica. se valer daquilo que a sociedade tem de melhor ou mais sofisticado – a essência (lógica) assumida de sua cultura. no mais elevado dentre os modos de interação social. respectivamente. é o mesmo que dizer que as lógicas dos processos de mediação nos extremos do leque das rela- ← . em termos de distorções estruturais compensatórias alhures. pois a política se constitui.

não apenas nos extremos. Insistimos. Seria. a realidade suprema aí seria o Espírito (I/D) e os indivíduos se tornariam cultos através do processo de identificação (I) com o espírito (I/D) de sua época. O processo de decisão coletiva (I) derivaria da autodeterminação individual (I) por meio de um processo de luta (I/D). sacraliza a lógica dialética (I/D). vale dizer. tanto no sentido do indivíduo para a sociedade. uma vez mais. naturalmente. tal como ilustra a figura 8. portanto. tomemos o caso das culturas cristã medieval (I/D) e científica moderna.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 207 ções indivíduo/sociedade culturalmente reconhecidas estão na ordem invertida em relação às lógicas que governam aquilo que elas justamente articulam. O sentido da determinação a partir de um qualquer dos extremos acompanharia àquele deste extremo. Nesta cultura. a meio caminho. natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêmse. (D/D=D/2) Sabemos que a cultura cristã medieval é lógicotrinitária que. por conseqüência. que todas estas assertivas valem apenas como uma norma. em ordem inversa relativamente às lógicas dos aspectos individuais/societários articulados. o nível cultural (coletivo) seria lógico-dialético. produto da . O estado de máxima elevação cultural seria o êxtase diante do Espirito de Deus. Para ilustrarmos tudo que foi até agora dito. Havendo um exato nível médio ele será igualmente determinado. muitos diriam que nem sempre assim acontece: a decisão poderia vir do diálogo e até como fruto maduro de um estado de comunhão. mas em todos os níveis dentro dos limites da lógica da cultura considerada. no geral. mas sua força determinativa iria se atenuando (permitindo que a determinação também se exerça mais e mais no sentido oposto) à proporção que nos aproximássemos do outro extremo e se inverteria. quanto no sentido inverso. Por certo. à esquerda.2.

logicamente D). consubstanciado apenas no trabalho (esforço que se faz com vistas a outra coisa que ele próprio. que em qualquer destas hipóteses continuaria sendo obviamente dialética. estribados no costume e na autoridade (incluída aí a força ou a ameaça de utilizá-la).208 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO graça derramada pelo Espírito (I/D). em geral) ou por terceiros. eleitoral. portanto. teríamos o processo político produzindo a decisão coletiva (I) a partir das decisões individuais (I) mediante um procedimento contábil (D/D). . A dimensão econômica nesta cultura restringir-se-ia ao nível lógico-diferencial. não importa. de nível lógico-clássico formal (D/D=D/2). à direita). Num dos extremos.Relações indivíduo/sociedade nas culturas cristã medieval e científica moderna Vejamos agora o caso da cultura científica moderna. de caráter plebiscitário ou representativo (ver figura 8.2. isto é. Figura 8.2 . aqui conta apenas a lógica do processo. O processo de distribuição social de seu resultado nada mais seria que a simples apropriação (D) pelo próprio trabalhador (camponês.

no nível D. o coletivo precisaria ser produzido a partir do individual. a nosso ver. o processo I/D como sendo o mercado competitivo. cuja determinação flui aí no sentido do coletivo para o individual. era justamente nisto que insistia Marx . A propósito. pois. estamos tratando do capital (I/D) [8]. então.no caráter social do excedente acumulado. mas tão apenas o progresso. Sobram assim dois níveis lógicos para serem adjudicados à dimensão sócio-econômica. a história desnaturada. Teríamos ainda que considerar o nível lógico I/D. em termos econômicos. induzida pelo cálculo da taxa de retorno do capital. do capital -. Em termos econômicos. como sendo a demanda agregada e. Do ponto de vista lógico ou formal. no entanto. Por isso. estão de fato presentes e operantes. ou. de maneira essencialmente invertida ou distorcida [10]. Quem desconhece o gráfico ascendente levemente serreado do processo da acumulação de capital . por fim. embora. O indivíduo sentese culto na medida em que se identifica com seus diferentes papeis ou correspondente títulos e tabuletas à porta. no caso da dialética não lhe corresponde a história. por simples questão de simetria. a demanda individual e o D coletivo. ficasse muito longe de perceber que esta assertiva tinha validade apenas do ponto de vista de uma cultura determinada. seu modo de ser social. que individualmente teria que ser produzido a partir do I/D coletivo através de um processo lógico D. Facilmente identificamos o D individual como sendo o desejo. É. através de um processo lógico-dialético (I/D). sob o aspecto dialético. ou seja. que no fundo governam a dimensão econômica. Precisamos lembrar que na cultura moderna (D/D) as lógicas femininas {D e I/D}. através da apropriação privada (D) [9] do capital social (I/D) que os indivíduos completam.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 209 O ser individualmente culto se realiza por simples identificação (I) com os papéis definidos pela organização (D/D=D/2) social.

e da apropriação do excedente ou capital. para a formação da decisão coletiva (I). de modo coletivo. segundo o paradigma anglo-saxão. sente-se naturalmente um excluído. e até muito. o político (I) e o cultural (D/D) ficavam assim reduzidos a simples efeitos secundários ou de super-estrutura. respectivamente. que se almejava fosse feita segundo sua natureza. Em razão mesmo da ideologia de esquerda que orientou sua formação . mas pela apropriação de parte do patrimônio coletivo acumulado. Interessava-lhe apenas os estratos lógicos D e I/D determinantes. isto é. apenas a dimensão econômica moderna (associada às lógicas D e I/D) foi considerada como socialmente relevante. diríamos que o indivíduo moderno. que se imaginava devesse ser atendido pelo cálculo. que forma o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) de parte do patrimônio coletivo. e que completa seu processo de integração identificando-se (I) com os múltiplos papéis definidos pela organização social (D/2). Desta sorte. o capital social (I/D). que faz valer os seus desejos pessoais (D) na formação do desejo coletivo ou demanda agregada (D) através de um processo competitivo. mesmo que trabalhe. Neste ponto vale a pena voltarmos à questão da normatividade dos esquemas lógicos aqui apresentados. através de um processo contábil.o materialismo dialético -.210 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pendurado na parede ao fundo dos retratos dos expoentes da vida econômica moderna?! Assim. o escrutínio (D/2). do modo de produção/distribuição. os indivíduos completam o processo de sua integração à modernidade. Resumindo. a demanda agregada (D). o mercado (I/D). é o que contribui com seu poder decisório (I). Quem não consegue do capital sua cota parte. Vamos considerar o exemplo excepcionalmente didático da União Soviética. ao invés . não pelo engajamento na história (que a ideologia dominante chega a crer que já não há mais).

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 211 de ser produzida através do mercado (I/D). passava lá a ser produzida pelo cálculo (D/D). como nas nações lideres da Modernidade. como mostra a figura 8. Em conseqüência. Fig. ou seja. o indivíduo deveria doravante com ele se identificar (I). as distorções não paravam aí. A política. Sendo vedada também a apropriação privada (D) do capital (I/D). aliás. em conformidade com sua essência (o que estaria sendo aplaudido pelo próprio Marx). bem característico das construções públicas soviéticas. passando então a mediar a decisão coletiva (I). pelo diálogo.3. por um efeito de re-equilibração estrutural. através de um processo de planejamento centralizado. outras por inspiração do “espírito partidário”!). passava a se fazer pelo mercado concorrencial (I/D) da intriga e da violência entre os membros de um círculo partidário restrito (algumas vezes. E foi mesmo para facilitar ao máximo esta identificação que se desenvolveu a estética socialista. Como bem . o tão enfático realismo socialista. a lógica do mercado (I/D) tinha que se deslocar. ao invés de eleições amplas e cálculo de votos (D/D).3.8. Inversões soviéticas do paradigma moderno Porém.

Por isso. em contrapartida. quando não se dispõe “culturalmente” de lógicas em número suficiente? Na verdade. ainda mais instigante. Seria o caso de se perguntar agora: como seriam aquelas relações entre os gregos (cultura D) e entre os judeus (cultura I). por membros do aparelho de estado da enorme quantidade de papéis ou cargos públicos (D/D=D/2).212 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO observou Walter Benjamin [11]. Teríamos apenas que admitir que. ou. esta que por seu turno viria a se tornar o apanágio do fascismo. Como dissemos. . naquelas culturas mais elementares. como já sugere a própria figura 8. por termos evitado a questão das relações políticas. uma alteração lógica cá tende a provocar uma alteração estrutural compensatória acolá. já terá percebido e. levando a administração pública a um grave processo de desagregação funcional e ética. até nos censurado. não há a menor dificuldade teórica. as três dimensões sociais estariam se confundindo parcial ou totalmente. era a politização da arte em contraposição à estetização da política. posto que tão somente a partir desta estava assegurada a existência de pelo menos um nível lógico para cada uma das três referidas dimensões sociais. que viriam então a ser utilizados como moeda de troca. econômicas e culturais em sociedades de nível cultural abaixo da dialética (I/D). Nosso arguto leitor. acontecia a apropriação privada (D).4. a esta altura. entre as culturas menos sofisticadas (pré-I e pré-D). quem sabe.

se ao Édipo Rei ou à Antígona de Sófocles [13]. Percebe-se agora com clareza que aquele que opta por Antígona está. mas reflexo do privilégio excepcional de a estar vivenciando em statu nascendi.é que a política pode enfim ganhar sua autonomia. vemos que é neste mesmo lugar que vai necessariamente nascer a política como uma dimensão autônoma da vida social. discutese acerbamente a quem se deveria conceder o estatuto de exemplaridade trágica. Não se tratava de uma simples preocupação de conjuntura. Aristóteles – em torno da política. Somente a partir dos gregos . Entre os estudiosos da cultura grega. até o advento da cultura judaica. Platão. não fazendo então muito sentido distinguir uma das outras. de modo intencional ou não.cultura lógicodiferencial (D) . enfatizando a corre- .Fusão das dimensões sociais Assim.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 213 Figura 8. Já vimos que a filosofia (a pergunta pelo ser ou pelo que é o mesmo) nasce onde nasce a tragédia [12]. Podemos agora melhor compreender as intensas e profundas discussões gregas – sofista. Sócrates.4 . as dimensões política e econômica estariam essencialmente comprometidas com a dimensão cultural.

A grande surpresa para o que se tem por saber histórico corrente é constatarmos que só a partir da cultura cristã medieval é que se destaca a dimensão econômica (ver figura 8. acabamos de ver. também não faltou foram normas severas e mecanismos eficazes limitando a criatividade técnico-econômica. Retornam. retornarem com enorme virulência [ 15]. Na verdade. O efeito quantitativo. como de costume. o que lá não faltou foi o dinamismo econômico. Algo bem semelhante não teria ocorrido antes. com respeito à política?! Um exemplo bastante óbvio daquela disposição encontramos nos drásticos regulamentos “auto-impostos” às corporações de ofício medievais. o que mais importa é o descontrole em que caem as forças econômicas represadas na cultura anterior.4). entretanto.214 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lação (logicamente fundamentada) que. de sua vida econômica e do papel que as autoridades governamentais [14] e eclesiástica católicas devem ter exercido no que tange à sua rígida regulação. ainda que em nível muito abstrato. em especial. De fato. não é o mais importante. existe entre a política e o espírito da tragédia. num exato paralelo com o acontecido com a política entre os gregos. entre os gregos. a nosso ver. Estas considerações. bem ao contrário do que amiúde se diz. na Modernidade elas são primeiramente recalcadas para. Este processo ideo-lógico (ou teratológico). já são mais do que suficientes para provocar uma profunda revisão de nossa compreensão da Idade Média. vindo a ocupar dois níveis lógicos. O que. no entanto. Com a Modernidade a dimensão econômica vai ganhar ainda maior peso. que absurdamente transmuda meios . em razão da ameaça que a autonomização recém-consumada da esfera econômica podia trazer para a integridade social. porém. já desnaturadas: o desejo individual domesticado pelo marketing e a história transformada em processo de acumulação pré-calculada de capital.

que os mais exaltados críticos da Modernidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 215 em fins. hiperdialética qüinqüitária. apenas num pretenso estado de delirante perfeição [16]. É em torno dela que ainda se acordam todos solidários: vétero e neoliberais. apesar de todo o acontecido. aquela que define o ser objetivo (I/D). ainda de cabeça para baixo. era o estágio de desenvolvimento das forças produtivas (ou seja da técnica) que de fato parametrizava a história humana [17]. As três culturas Pré-I. aquela que define o ser subjetivo (I/D/D). vai conseguir escapar da lixeira da história (hiperdialética da cultura)?! Examinemos um pouco mais detidamente a figura 7. desaparecera. não se propuseram outra coisa senão deixar tudo essencialmente no mesmo. sem falarmos dos invertebrados sociais-democratas da moda. marxistas e fascistas. tal como ilustra a figura 8. Pré-D e Pré-I/D (esta que se confunde com I). dando lugar a uma história econômica ou história dos modos de produção. hoje. em especial. agora definidas com precisão e objetividade como sendo as culturas nodais Pré-I e PréD. Quem não compartilha de toda esta loucura?! Por isso. que é similar à estrutura compreendendo as culturas I. elas fazem parte de uma estrutura dialética compreendendo as culturas Pré-I. Pré-D e I serão por isto .5. o que. que ao invés da lógica. Na verdade. ou pior.4. tendo conseguido mesmo instaurar um estado revolucionário. Deve-se notar. é de tal modo profundo e inconsciente. na esfera do pensar para valer. pela intervenção de forças obscuras. na parte referente às culturas primitivas. D e I/D. e a segunda por constituir apenas o ciclo inicial de uma estrutura majorante. E esta impressão. entrementes. que elas se mantêm distintas pelo fato de a primeira constituir uma estrutura lógico-dialética autônoma ou completa. Fixava-se a impressão de que a história da cultura. permanece ainda agora tal qual. meios transmudados em fins.

D/D e I/D/D subjetivistas. como a seguir veremos: a) Da mesma maneira que a cultura judaica (I) representa. se para a cultura judaica (I) tudo. caracterizando-se por isso como uma cultura de passagem ou de articulação. de uma tríade da qual ainda participa o fenomênico como sendo seu momento primeiro. forte e afirmativo.216 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ditas objetivistas. ESCRAVISTA DEBRAY: ESCRIBA = POLÍTICO PRÉ-I NÍVEL FENOMÊNICO MEIO = OUTRO OBJETIVO PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I PRÉ-PRÉ-D Figura 8. D. o antitético e o sintético. As conclusões que podemos daí tirar são muitas e importantes. I. e as cinco culturas I. a cultura tribal de caçadores coletores do paleolítico (Pré-I) representa. mas sim dois momentos. no fundo. seria tanto objetivista quanto subjetivista. É extremamente importante observar que a partir de agora as noções de objetivo e subjetivo não constituem mais. como de costume. tético. EXTERNO E INTERNO I PRÉ-I/D=I NÍVEL OBJETIVO I/D MARX: M. em nível objetivo. é cultura. assim. I/D. um par de opostos. no fundo. o estado cultural que deixa na indiferença uso/meio/troca (que em termos econômicos vêm realizar-se como valores de uso/trabalho/troca). A cultura judaica. em nível subjetivo. SER SUBJETIVO PESSOAL OU SOCIAL I/D/D NÍVEL SUBJETIVO OUTRO SUBJETIVO EXTERNO D D/D OUTROS SUBJETIVOS. para a cultura tribal (Pré-I). um estado cultural de indiferença do cultural/econômico/ político. de PROD.5 – Os outros . é troca ou reciprocidade. tudo.

em espe- . que caracteriza precisamente a noção de meio. já por nós analisado em detalhes [19]. Entretanto. A propósito. do totemismo nas culturas neolíticas Pré-D. c) É evidente a similitude da cultura pré-I (paleolítica tribal) com I (judaica). se vê a relação de similitude degenerar em simples identidade.é que. é dos mais flagrantes: ele reduz e engloba estas duas culturas num mesmo modo de produção. finalmente. de se colocar a cultura judaica (I) acima de qualquer consideração teórica. nem sempre consciente. Com a escrita nasce a função de escriba e. para Lacan. como escrita ou presença significante (por isso. com mais freqüência. operado por uma classe sacerdotal. cultura greco-romana. com ela. operado por xamãs isolados. já o vimos. que realiza a instrumentalização da religião como forma de controle social. ou seja. O caso Marx. também do nascimento do político como dimensão autônoma do ser social. O meio vai se realizar de múltiplos modos: como ação mediadora. apenas entre as do meio. também. cultura neolítica de base agrícola. Isto acontece pelo interesse ideológico. A correlata cultura “objetivista” PréD. dito escravista (escravismo que nem pode ser propriamente considerado um modo de produção. tem toda razão Lévi-Strauss quando afirma que a escrita parece favorecer a exploração dos homens. e.Pré-D e D . a lógica D deve se chamar lógica do significante). também. assinala o momento da diferenciação do outro subjetivo ou intencional. de I (judaica) com I/D (cristã medieval). Com isto podese agora bem distinguir o animismo nas culturas paleolíticas Pré-I. trabalho. tem como especificidade a emergência do outro objetivo. a classe sacerdotal. mais do que sua iluminação [18].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 217 b) A cultura subjetivista D. mas tão apenas um desdobramento. de préD (neolítica de base agrícola) com D (greco-romana). culturas lógico-diferenciais .

Este acontecimento é formalmente correlato à compreensão social do papel do simbólico pleno ou convencional. A elisão da passagem do objetivo (Pré-D) ao subjetivo (I) é a elisão do exato momento em que a humanidade se dá conta. de verdadeiros modos de produção). que emergira com a cultura Pré-D.em mera história dialética materialista ou econômica. porque a identificação que ele faz atem-se apenas ao nível lógico (ou “formal”) e não “substancial”. Na psicanálise. as confusões entre Pré-D e D são quase que a norma e tão amiudadas que deixamos ao leitor o fácil exercício de inventoriá-las. coletiva e simbolicamente. É precisamente esta operação de ocultação que permite a Marx transmudar a história humana . que se denuncia já no próprio título de sua conhecida obra: O escriba (Pré-D) – Gênese do político (D) [20].história da cultura . A classe sacerdotal (que na origem freqüentemente . do seu modo ser lógico. significante (objetivo) e inconsciente (subjetivo) são obviamente distintos. entretanto. que a bem fundada associação lacaniana entre lógica do significante (PréD) e lógica do inconsciente (D) não pode ser aí computada. embora sendo ambos governados pela mesma lógica D. Advertimos. tão bem ilustrado pelo episódio da confrontação da tábua (escrita em caracteres convencionais) da lei e o bezerro de ouro. d) Na cultura judaica (Pré-I/D que é o mesmo que I). A instituição do profetismo judaico dá um testemunho eloqüente de que para tanto seria imprescindível que de algum modo fosse confrontado o poder da classe sacerdotal (Sinédrio). Em outras palavras. diferencia-se a noção de troca em geral ou de reciprocidade como base da vida social. que teoriza sobre o inconsciente justamente governado pela lógica da diferença (D). sendo por isso correta.218 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ciais circunstâncias. Outro exemplo conhecido é o de Regis Debray.

o máximo dos máximos. econômicas e culturais – na cultura nova lógicoqüinqüitária. permanecendo o Absoluto com seus específicos direitos. e ao se apossar sub-repticiamente [21] dos deuses institui a idolatria. como ser-de-horizonte [22]. o novo espírito hiperdialético não se pretende logicamente máximo. podemos começar a enfrentar aquilo que é nosso objetivo maior neste trabalho: delinear como seriam as relações sociais – políticas. pois. menos ainda.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 219 se identifica com a classe dos escribas) nasce com o totemismo. O processo de integração propriamente cultural do indivíduo será feito. como mostra a figura 8. que parecem ser os de mais fácil compreensão. Desde já desculpamo-nos com o leitor. e depois. ao final. além. com o novo espírito qüinqüitário (I/D/D). como sempre.6. porque são ambos apenas trinitários. no caso. . nem com o espírito absoluto de Hegel. Isto posto. vamos começar pelos extremos. Dada a novidade e sobretudo a complexidade da questão. não teremos alcançado resultados com a precisão e clareza que de início almejávamos. por identificação (I) com a cultura. à diferença destes. porque. ele se quer tão apenas espírito humano em sua plenitude lógico-qüinqüitária. Primeiramente. fundamento ideológico da dominação social que ela vai exercer. É importante observar que este novo espírito qüinqüitário não pode de modo algum ser confundido com o Espírito Santo.

220 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 8. a partir do voto dos indivíduos (I). os sistemas eleitorais vigentes hoje por toda parte não passam de rematada farsa. como na Modernidade. em função da disponibilidade de vastas redes tele-informacionais. embora possamos antecipar que os mecanismos plebiscitários existirão. de todas as horas. mas se constituirão apenas num elemento entre outros em meio à sofisticada trama do novo processo político. completamente corrompidos e desmoralizados que estão pela força do dinheiro. do oligopólio dos meios de comunicação de massa e do marketing de todos os dias. é difícil responder. Quando é eleito um novo Papa diz-se que o foi por uma decisão dos cardeais sob a inquestionável inspiração .6 . o novo modo de decisão coletiva (I/D/D). até com grande freqüência. Aliás. Como será.Relação indivíduo/sociedade na cultura nova qüinqüitária No extremo oposto a legitimidade política não será mais um resultado contábil (D/D). concreta e detalhadamente.

levará inexoravelmente às fusões. As pré-condições para que isso venha ocorrer já estão em acelerado processo de concretização: primeiro. ou seja. sem que haja a necessidade de um órgão central de planejamento. Paralelamente. Para fazermos uma idéia do que será o processo decisório na cultura nova. calculada. a formação da demanda agregada a partir da demanda individual. destes às suas plantas fabris e respectivos fornecedores etc. apenas teremos ou ocuparemos estes ou aqueles cargos. enfim. deste aos fornecedores. que na Modernidade é mediada pelo mercado (I/D). guardando-nos ciosamente de a eles não . não por uma autoritária declaração de inquestionabilidade a priori. mas persistente baixa das taxas de lucros empresariais. entrementes. por um cálculo (D/D). depois. por sua vez. à empresa única . Não fica então a mínima dúvida quanto a como funcionará o sistema produção/consumo na nova cultura: teremos uma oferta/demanda completamente planejada. apenas por si e a posteriori. vale dizer. resistente a todo e qualquer questionamento! Vejamos agora os três estratos econômicos. etc. teremos o fim da competição e do mercado de bens de consumo.com isto. e todos conectados ao sistema bancário. Quanto à formação do D coletivo a partir do D individual. a gradual. podemos pensar numa decisão inspirada pelo Espírito Qüinqüitário. a formação de densa e extensa rede tele-informacional. que assim se afigura. Em contrapartida. na nova cultura passará a ser realizada por um processo lógico contábil. até que se chegue.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 221 do Espírito Santo. pensaria Hegel. Eis aí mais uma das inesperadas artimanhas da História.ligação das caixas dos supermercados ao controle de estoques. a integração dos diversos sub-processos econômicos . mas. melhor diríamos. por se mostrar. não nos identificaremos (I) mais com os papéis econômico-sociais (D/D)). muito ao contrário.

etc. déficit primário. a mais típica das instituições da cultura capitalista moderna. mas de pura lógica. não passa de ficção da pior espécie. veremos que ela pelo menos nos leva a compreender a natureza de nossas dificuldades. competitividade empresarial. não importa se oficial ou contestatória. e a mais desabalada dentre todas as ficções: o mercado de capitais. entretanto. E mais: tudo acontecendo bem no cerne da vida econômica da nova cultura qüinqüitária? Pelo que vimos até aqui. Acreditar em mula sem cabeça é muito menos irracional do que acreditar em capitais voláteis. o mercado de capitais. que ainda assim é boa bolada. Chegamos agora ao que se nos afigura o mais difícil de se prever. Aliás. sociedade da informação etc. em . um bom número. valendo isto também no sentido inverso. da sobra. precisamente. sob o ponto de vista econômico. o aspecto pessoal dialético (I/D) determinando o aspecto dialético coletivo (I/D) através de um processo lógico-dialético (I/D). e não se trata de uma questão de fato. por difícil de se bem compreender: que significa. o que procuramos é tão simplesmente o mercado de capitais?! Talvez um mercado de capitais renovado?! Esta resposta meio maquinal parece. como “exige” a lógica global desta cultura (alguns poucos apropriam-se de quase tudo. a princípio. direitos do consumidor. o que denominamos teoria econômica. opinião pública internacional. se pararmos um pouco para pensar. na verdade é o que ali simplesmente não existe. Então. qualidade total. poderíamos identificar I/D como o excedente ou capital e o processo de articulação I/D como mercado. Já vimos que na Modernidade os indivíduos se apropriam (D) simplesmente do excedente coletivo (I/D). se bem atentarmos. sem qualquer sentido. que se autodenomina classe média.222 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nos identificarmos. Ao contrário do que todo mundo acredita.

fingimento e superação na História da cultura [24]: todas as culturas. observaríamos que o fato da dimensão econômica vir ocupar agora três níveis lógicos {D. Na cultura nova qüinqüitária. o mercado de capitais! Só precisamos agora especificar. o maior dos espetáculos da Terra! [23] Tudo isto deixaria de soar assim tão esturdio se levássemos verdadeiramente a sério o que se diz em Desejo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 223 forma de cotas de fundos de pensão etc. I/D e D/D} pode dar a impressão de que com a cultura nova qüinqüitária iremos ingressar na era da mais completa hegemonia do econômico em relação às duas outras dimensões do social. O que denominamos mercado de capitais é apenas um mercado secundário. como isto irá funcionar. mas estrita e explicitamente controlada. Finalizando.eis.. na verdade. em detalhes. O inacreditável aqui é que tal arte de fingimento pudesse chegar um dia a tais prodígios. O mercado de capitais é exatamente a ficção que esconde esta simples e evidente verdade.I/D (medieval cristã). mas que ele é. dentro tantos. Se examinarmos o papel da economia na seqüência das culturas . vendo-se em perigo. conjunto de atividades meio. D/D (científica moderna).. mantida como o que verdadeiramente é. do que realmente se trata. no cerne da vida econômica existirá. a política e a cultural. uma marca da Modernidade em declínio.. hoje. à vera. para a surpresa de todos nós. Na segunda.). que o atual predomínio do econômico de fato existe. dando a impressão de ser o ser que é sem ter jamais sido gerado . em que tudo aquilo que foi cruamente apropriado circula com enorme estardalhaço. E não estaríamos já vivendo numa tal situação? Diríamos que não. a economia está associada às lógicas femininas . veremos que na primeira ela aparece pela primeira vez como uma dimensão social autônoma. fingem já ser aquela que a irá superar. I/D/D (nova qüinqüitária) -.

recalcadas. processo de acumulação de capital. De fato. isto só não é muito grave por representar um mal transitório inerente a uma fase necessária do nosso processo de autodesvelamento. como na Modernidade. um efeito de cultura. todo o marketing multinacional só aparentemente é comercial. progresso. conjuntos de atividades meio. Quem queira ver. Na terceira. outra face da volta do recalcado e já desnaturado . isto significa que as lógica femininas {D e I/D} estarão sendo abertamente subsumidas. mas conservadas e não. sua intenção sendo sempre decidida e inequivocamente etnocida. ou seja. porém. mesmo em se tratando da Modernidade. o predomínio da economia é. de volta. Isto também significa que aquilo que é em essência meio se vê de maneira absurda transmutado em fim. Teremos por isso uma economia superiormente dinâmica. I/D e D/D}. completamente subordinada às duas outras dimensões sociais. por exemplo.o desejo transformado em demanda comercial. a ação econômica é apenas o modo preferencial da cultura moderna hegemônica agredir as outras culturas. verá que. à cultural e à política. de modo explicito.224 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recalcadas {D e I/D} e o predomínio do econômico é tão apenas um efeito sintomático. . marginais que somos à Modernidade paradigmática anglo-saxã. suprimidas. subrepticiamente imperantes. Do ponto de vista lógico. na verdade. a economia só na sua aparência sintomática pode se afigurar como onipotente. as lógicas econômicas seriam realmente três {D. desnaturadas e. Como se fôssemos hoje uma cultura com sérios transtornos mentais. antigas ou em processo de gestação. desejo domesticado pelas técnicas de marketing e a história transformada em história calculada. Do nosso ponto de vista. mas desta feita todas determinando. É importante compreender que.

esturdia “matéria-prima” da criação divina. onde vinha situar-se. das que são enquanto são. a seus pés. o mundo criado. o homem. o nada que é nada. das que não são enquanto não são. a inferior. mesmo que rebaixado em alguns pontos. Abaixo de tudo.1) O homem cristão tornava-se então síntese de cor- . onisciente e onipotente. o homem. (figura 9. na interseção da materialidade com a espiritualidade. abarcando a totalidade dos seres inorgânicos e ainda o multifário mundo dos vegetais e animais. sendo o derradeiro. permaneceu Deus.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 225 9 Re-significação cósmica do homem e do processo de auto-determinação cultural O homem é a medida de todas as coisas. tinha um lugar proeminente. Na cosmologia bíblica. habitada por anjos organizados em nove coros e demônios em hordas ou avulsos. material. exclusivo. uma ordem intermédia. eram seis os degraus (dias ou eras) da Criação. como expiação pelo pecado de desmedida curiosidade. A teologia cristã acolheu e re-elaborou a hierarquia vétero-testamentária: acima de tudo. o mais bem acabado e porque também feito à semelhança do Criador. espiritual. naturalmente. distribuído em três ordens: a superior. Protágoras Já vigeram hierarquias que abarcavam o homem e tudo mais que se pudesse imaginar.

são na verdade quantitativas. O homem tinha também aqui o seu lugar distinguido. dissimulado. no seu estatuto da infinita perfeição. de estatuto lógico-dialético (I/D) para que assim se assemelhasse (logicamente) ao seu Criador. do lógicodiferencial (D) [1] e do lógico-identitário (I). DEUS UNO/TRINO Anjos e demônios Mundo espiritual Homem A CRIAÇÃO corpo/alma Mundo Inanimados. o Uno/ Trino (I/D). material vegetais e animais NADA Figura 9. do espacial e do temporal. concebidas como degraus ou quanta de perfeição. que persiste.226 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO po e de alma. embora nada assim tão excepcional: sempre o terceiro. embora substantivas na sua fisionomia. não importa se contado de cima para baixo ou em sentido contrário.1 – Hierarquia cristã dos existentes É importante notar que estas hierarquias. Mesmo quando valemo-nos da modalidade ‘infinita’ é ainda o aspecto quantitativo. estas e outras similares hierarqui- . onde Deus e homem são ambos lógicotrinitários (I/D). Isto fica bastante claro na hierarquia cristã. diferindo entretanto no grau de sua perfeição. portanto. Entrementes.

como na atualidade sói acontecer. a reordenação dos seus saberes correspondentes . Recuperado o princípio. o infalível mercado [3]. Encontrar de novo. que garantia estas hierarquias. o espírito absoluto. Acreditamos que daí partindo se consiga aportar sem maiores dificuldades à uma nova hierarquização dos existentes. de algum modo são o mesmo. em nível dialético (I/ D). todos os valores. o pensamento visando o ser. na ocasional falta desta. ao invés de nos deixarmos por ela pensar. que veio justamente para aplainar. que desta sorte marchava pelos próprios pés para a vala comum do Cosmos. que não seja tão apenas quantitativa. que a pensemos de verdade. Ele remonta à Grécia: a Parmênides. um lugar para o homem. Como fomos informados por Zaratustra. nestas cínicas (bem mais do que trágicas) circunstâncias. como nos quer impor a ciência. em plena praça pública aconteceu primeiro a morte matada de Deus. o que é o mesmo. exige que confrontemos de maneira resoluta a ciência. no limite. a nosso juízo. Vem de volta revigorado na Modernidade com Hegel. e. em nível transcendental (I). a seguir. em nível dialético (I/D). veio a morte do homem. Para tanto. Este é o incontornável pré-requisito para que possamos vir a dispor de uma nova referência para a ordenação dos existentes. pela mensuração. está também implícito em Platão. desta feita o pensamento visando a idéia ou o conceito. desta vez o pensamento visando a História ou. a renovação da hierarquia dos existentes passa a ter como condição primeira e necessária a reordenação dos modos de pensar ou.as lógicas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 227 as foram paulatina e inexoravelmente erodidas pela ciência [2]. não se fazendo esperar. deve-se começar resgatando o velho preceito filosófico que estabelece que ser e pensar. pelo que se poderá então restituir ao homem a devida dignidade onto-lógica e alcançar- .

como tanto desejamos. (3) será constatar que a mesma estrutura lógica que parametriza a história da cultura vai se revelar igualmente razão organizadora do mundo .. do que vem sendo até agora a história da cultura. sem dúvida. em primeira instância.Etapas que levariam à re-significação da história da cultura Como primeiro momento deste processo (1) vislumbramos uma reorganização geral do território lógico. . 4. A partir daí nasce (2) uma nova e mais precisa concepção do homem. a re-significação do seu processo de auto-realização (a história da cultura). que tem por imediato corolário a reavaliação. I/D. dando ensejo à explicitação/ institucionalização de um novo e potente eixo reordenador de todas as coisas deste e doutros mundos . 3.. lógica das partículas elementares I a I/D/D 5. Surpreendente para todos. algumas que estão já em curso ou até mesmo concretizadas (figura 9. cinco grandes etapas neste processo de des-encobrimento conceptual.. Reestruturação do território lógico.2 .228 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mos. 2. Redefinição do homem e da história da cultura I/D/D 1. D.. Distinguiríamos. o eixo onto-lógico I.Re-significação cósmica da história da cultura.2). em princípio. Desvelamento da estrut.o eixo das lógicas. Princípio antrópico renovado. o homem restituído ao pináculo do Cosmos Figura 9.

é de seu feitio. teremos também de algum modo enriquecida nossa compreensão da cosmogênese (teoria do big bang). que até então. de uma lógica da simples diferença. também. Deleuze. era apenas um lugar marcado. criticista-kantiana e fenomenológico-husserliana). sempre a meio caminho . agora de caráter cósmico. Depois. O princípio antrópico. como conseqüência.1. que se re-significa a partir daí. como acontecimento auroreal da história humana. quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. Re-estruturação do território lógico. mas até então não realizado. quanto da base sobre a qual erige-se o universo físico. Começa com a recuperação das lógicas segundo a tradição: além da unanimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). Heidegger. Rosset). especificamente do elenco das partículas elementares. fosse qual fosse a versão. forte ou fraca. estará proporcionando (4) um novo fundamento ao princípio antrópico [4]. que ganha assim uma segunda e definitiva significação. a sugestiva promessa do reencontro do homem e do Cosmos. o eixo onto-lógico Este trabalho já está de certo modo realizado [6].não só na tradição filosófica dos não conformistas” (Pascal. para além dessas. Kierkegaard. bem próximo do modo como já são hoje concebidas. 9. como na lingüística saussureana. arrola-se também a dialética (tanto platônica. na antropologia estrutural e também . pela constatação da necessidade de se assumir a existência. sempre às esgueiras. Nietzsche.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 229 micro-físico. irá (5) então suscitar uma re-leitura [5] da história da cultura. tanto da cultura em processo. doravante solidamente estabelecido. A homologia desvelada exata pelo comum-estruturar-se-segundo-as-lógicas. que se encontrava já presente . mas também em outras áreas do saber. Ortega y Gasset.

de modo natural. D/D=D/2. através da operação de síntese dialética generalizada ( / ). na medida em que incorpora o essencialmente outro.um. ter-se-ia também que considerar as lógicas de fato desviantes. D/D ≈ 2.. tanto paraconsistentes (ou paradoxais). Uma engenhosa re-nomeação.). D/D/D ≈ 3. mais um. tendo-se em conta que este é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos.. que não deixa de ser por isto menos pertinente. I/D/D = I/D/2. sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas . etc.230 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante). Na esfera do formalismo acadêmico em voga. um evidente sinal de sua profunda essencialidade. . D/D/D/D ≈4. a lógica da dupla diferença (D/D=D/2).lógica da identidade (ou transcendental) (I) e lógica da diferença (D) -. D/D/D = = D/3. I/D/D/D=I/D/3. vale dizer. que está aberto . D. destas quatro lógicas de base vem. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3). o monóide livre fundamental.) constitui o mais simples semimonóide livre [8]. -. sem descanso. limitando-se à mera “contabilização dos existentes” . Com isso são geradas a própria dialética (I/D). a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). enquanto que o semimonóide livre fundamental (seqüência das lógicas) é por essência criativo.. verificamos que o monóide livre fundamental (seqüência dos números naturais) não gera qualquer novidade. exemplificado pela seqüência dos números naturais (I ≈ 0. Sabe-se que a seqüência das lógicas (I. D ≈1. como uma exceção. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído.. e assim por diante. noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana. I/D.. mais um. quanto paracompletas (ou intuicionistas) [7]. Ao colocálos em confronto.

..definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos. tal como ilustra a figura 9.3.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 231 ao permanente “trabalho do negativo . . sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente.I. I/D.. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 9. I/D/2. As lógicas identitárias .3 – Encadeamento das estruturas lógicas .

o processo que a gera ou desvela será naturalmente aquele da reiteração do mesmo. se estiver em causa a geração ou o desvelamento do ser lógico-qüinqüitário. Parece-nos isto bastante intuitivo. a realidade maior que se visa é a simples existência contábil. 1 2 3 I I/D I/D I I/D D I/D/ 2 D/ 2 0 1 2 I= D/0 I D I D I= D/0 I D I I/D 0 1 Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D 0 Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Figura 9. e ainda. que se inaugura com Parmênides. por exemplo.4).4). na sua plenitude. a pré-disposição filosófica que identifica ser e pensar. se a realidade maior que se quer visar for a história ou o espírito absoluto. podemos ter a certeza de que este. só se irá entregar no curso de um complexo processo hiperdialético qüinqüitário (parte direita da figura 9.4). como acontece na matemática. como em Hegel. em especial.232 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Qual o sentido profundo desta articulação? Ela nos fala da essencial correlação que precisa existir entre o estatuto lógico da realidade que tenhamos admitido e aquele do processo que a pode deveras gerar ou desvelar. quando comparamos diferentes modos de ser e seus respectivos processos de desvelamento. prossegue com Platão e se reafirma com Hegel. Se. não . o processo que a gera ou desvela terá que ser lógico-dialético (parte central da figura 9.4 – Processo versus realidade Em suma. simples produtora de um número sucessor (parte esquerda da figura 9.

O mais avançado dos mamíferos não passa da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 233 pode de modo algum ser interrompida ou esquecida. a simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição extrema superior . É o caso. A rigor. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura . Agora. Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo.apenas o homem é capaz de operar em nível lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). torna-se possível a conceituação precisa do ser humano como ser lógico-qüinqüitártio. por exemplo. que lhe permite operar com símbolos plenamente convencionais.2. do homem como animal dotado do logos (Aristóteles). a nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. nada além. notáveis. mas apenas subsumidas. do “inventor” da diferença clânica que viabiliza a instituição das regras de proibição do incesto e correlata obrigatoriedade da exogamia (antropologia estrutural). mormente depois que tivermos compreendido que ela é a única via que nos pode levar à subversão/superação da Modernidade. Outras conceituações não são por isso rejeitadas. objetivo do ser próprio do homem. tomando-se como referência o eixo das lógicas. assim. no entanto. Ser e pensar são o mesmo. tais caracterizações constituem exemplificações concretas mais ou menos íntegras daquela capacidade lógica fundamental. um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos 9. A partir daí a história da cultura pode ser compreendida como processo de auto-desvelamento simbólico. do ser simbólico proposicional (Cassirer). também. Toda cultura teria. é bem verdade [9].

especialmente quando intenso. a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. não nos ocuparemos disto. O contato cultural. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas. inclusive. o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). Resumidamente. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. da diferença D. pré-D. ou seja.teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I. entretanto. come- . dialética I/D. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. e que lhe confere. clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2). onde se “inventa” o trabalho e como conseqüência. a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas. destes e de outros tipos não-nodais. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. cultura tribal. de imediato.o Ocidente e o Oriente Próximo . a seguir. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. cultura sedentária de base agrária. produziria culturas de tipo misto. uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza.234 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de sua religião oficial ou dominante. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. focalizando apenas uma área restrita .

já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). e. que hoje domina o mundo. não castradora. uma cultura à medida do homem (figura 9. pela primeira vez. cultura moderna de base científica. porque. D. por todos os títulos. de pré-I a I/D/2 . D/D ou D/2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 235 çando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade. uma manifesta síntese das culturas anteriores.5).5 – História da cultura. cultura judaica. I/D/D ou I/D/ 2 . cultura medieval cristã (patrística). Cultura tribal I Cultura judaica I/D Cultura nova I/D/ 2 Cultura moderna D/ 2 Cultura grega D I 0 I = D/ Animalidade Cultura tribal D Cultura imperial agrícola I Cultura judaica I/D Cultura cristã (patrística) PRÉ-D PRÉ-I Animalidade PRÉ-I Cultura tribal PRÉ-D Cultura imperial agrícola PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Animalidade Figura 9. cultura hiperdialética qüinqüitária. ainda por vir. I/D. I. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. cultura prometéica grega.

justamente por serem mais elementares). justamente por serem entes derivados. dando-se como prova a promiscuidade de todos os estilos em arte. De modo conseqüente contaríamos seis. as delícias de não ter mais nada a pensar. três forças compostas. forte (gluônica) e fraca –. pode-se de imediato perceber a sua estruturalidade conjunta: de um lado. será preciso proceder a uma re-interpretação dos dados atuais da micro-física. tendo como ponto de partida a recontagem do número de forças realmente atuantes na natureza [10]. ao invés de apenas quatro. Preliminarmente. ou pior. substituída pelo toma lá dá cá das negociações e negociatas. Com isto. com toda a certeza. Tomando-se agora como referência o modelo 9. que é mediada por pions). uma nova cultura de caráter lógico-qüinqüitário. com todos os seus mediadores já detectados. implicando menores níveis energéticos). portanto. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares .3. redutíveis às primeiras (eletromagnética. três forças simples (de Higgs. gravitacional e forte gluônica.236 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Esta ordenação lógica das culturas é suficiente para deixar a nu o discurso ideológico que alardeia o fim da História. forças da natureza. além das quatro forças hoje reconhecidas – gravitacional. ou o ingresso na pósmodernidade. com todos seus mediadores ainda não detectados. mecanismo pelo qual se proporciona massa explícita às partículas) e a antiga força forte de Yukawa (que garantia a integridade do núcleo atômico. Falsidades mais falsidades. também a força de Higgs (suscitada no processo de unificação eletrofraca. fraca e forte de Yukawa. eletromagnética. nos espera. oferecendo-se como justificativa a vigência do pensamento único e outros despautérios de igual jaez por aí forçados a circular. de outro. Trata-se basicamente de incluir.

ou seja.(t) tau b s u t c d neut. porém.(e) elétron BOSONS: gluon. aceitando-se a substituição do conjunto dos seis quarks pelo conjunto dos seis bosons representativos das forças. bem melhor equilibrado: TABELA 9.1 . podendo ser agora redefinidos para evitar as cargas fracionárias Aceitando-se a modificação por nos sugerida.1 nos permite uma visão comparativa do modelo standard com o modelo ora proposto. em termos de férmions e bosons o modelo. bosons fracos e fóton QUARKS: ainda existentes. torna-se relativamente fácil comprovar a perfeita homologia . que atesta a impossibilidade de sua existência em estado de isolamento.MODELOS PARA AS PARTÍCULAS ELEMENTARES MODELO STANDARD FERMIONS LÉPTONS QUARKS MODELO ALTERNATIVO PARTÍCULAS FUNDAMENTAIS FERMIONS BOSONS SIMPLES neut. graviton. substituindo os correspondentes três pares de quarks pelos três pares de bosons mediadores de forças. o que não deixa de estar acorde com a experiência empírica. porém.(m) mion neut.1. mion/neutrino do mion e tau/ neutrino do tau).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 237 standard (Tabela 9.(m) tau mion gluon graviton p/Higgs COMPOST. que não contradiz qualquer dado empírico e simetriza. considerados entes de razão. pion b.fracos fóton neut. Os quarks continuariam existindo. chegamos à conclusão de que devemos preservar integralmente o bloco formado pelos três pares de léptons (elétron/ neutrino do elétron. porém. à esquerda).(t) neut. A Tabela 9.(e) elétron neut. como entes de razão.

Para evidenciá-la. Sendo a posi- .238 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO existente entre o elenco fundamental de partículas com as lógicas. por exemplo. Nos restaria apenas preencher a posição Pré-PréD. o tau: τ(I/D/2)= =ντ(I/D) + π(D/2)= =ντ(I/D) + νµ(I) + µ(I/D)= =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + W(D)= =ν τ(I/D) + ν µ (I) + ν µ (I) + ν e(PrØ -I) + e(I) Como é bem sabido. tendo por condição a simples inversão de seu spin. com quase nenhuma hesitação.6 [11]. as etapas do processo de desintegração de apenas uma partícula. uma a uma. basta que acompanhemos. por suposto. tendo ainda disponíveis os três bosons simples (partícula de Higgs. Apenas este conjunto de equações representativo da desintegração do tau e o pressuposto bastante intuitivo de que todos os bosons (mediadores de força) devam ser alocados a posições lógico-diferenciais e todos os fermions (“peças elementares” de construção) a posições lógico-identitárias. É o caso. exceto uma. um elétron pode ceder parte de sua energia cinética emitindo um fóton. são suficientes para permitir-nos preencher. graviton e gluon). a mais complexa delas. o que nos permite dar ainda mais um passo na seqüência de equações anteriores: =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + νe(PrØ -I) + e(I) + γ(PrØ -D) + e(I). da radiação sincrotron provocada pela aceleração circular do elétron. talvez. todas as posições das estruturas lógicas.e[↑] = e[↓] + γ[↑↑] -. conforme ilustra a figura 9.

Não se pode ter grande dúvida de que este deva ser a partícula de Higgs. que age mediando estruturas já bem complexas (os quarks no interior dos barions). naturalmente. precisa receber mesmo a alocação de um boson. de pré-I a I/D/2 .(tau) {Quarks} PRÉ-D Fóton Graviton Fóton Elétron Graviton Neutr.6 – Lógica das partículas elementares.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 239 ção Pré-Pré-D uma posição lógico-diferencial. ficando o graviton junto ao fóton em pré-D e o gluon junto aos bosons fracos (W ± e Z0) em D. com o que se completa a adjudicação das partículas elementares às lógicas conforme ilustra a figura 9. a partícula de Higgs em Pré-Pré-D. Teríamos então. Também não poderia ser o gluon.6 [12]. Neutrino (elétron) I Elétron Neutr.Fracos D Pion D/ 2 I 0 I= D/ Partícula Neutrino de Higgs (elétron) D I I/D Muon Neutr. isto porque o graviton só pode atuar depois que a massa houver se manifestado.(mion) I/D Próton/Nêutron Tau I/D/ 2 Gluon Bos.Muon PRÉ-I PRÉ-D Partícula de Higgs PRÉ-I Neutrino (elétron) PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Partícula de Higgs Figura 9.

verificamos que três são mais elementares.junto com o tau em I/D/2 tem um excepcional significado que deixamos para comentar um pouco mais adiante. hoje experimental e definitivamente estabelecido e para os quais os físicos não encontram uma justificativa teórica. com a vantagem de poderem dispensar as incômodas cargas fracionárias).no caso. como já tivemos oportunidade de demonstrar [13]. servindo justamente para estruturar o mediador de uma força composta correlata (por isso.próton e nêutron. em sintonia com o resto do modelo. estranhamente. semelhantes aos quarks do modelo standard. na circunstância. a redução já realizada da força de Yukawa à força forte gluônica é disto a prova irretorquível que. O modelo ora proposto tem inúmeras vantagens sobre o modelo standard. é uma exigência lógica.240 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A alocação dos nucleons . . a palavra mais adequada) o número de forças. todas elas com características determináveis a priori em função daquelas das forças simples). os cientistas não querem ou não conseguem enxergar! c) o sub-modelo dos quarks é absorvido pelo novo modelo. os três níveis de férmions (agora também de bosons elementares].para serem seis (como os léptons e os quarks). que não são mais hoje considerados partículas elementares . dentre as quais destacaríamos: a) acaba-se com o absurdo de não se contar corretamente (honestamente. resolve-se o grave problema de não se dispor até hoje da menor justificação na distribuição das características das forças. deixam de ser quatro . na medida em que todos o bárions passam a ser considerados modos excitados de “partículas lógico-qüinqüitárias” (formalmente redutíveis a três “partículas lógico-trinitárias” [14]. b) ademais. seria. um valor completamente arbitrário . contando-se seis.

Quanta simplicidade e clareza! Bastaria considerarmos que a Física nasce de uma decisão cultural (logo. Princípio antrópico renovado . para os modernos é apenas algo levemente mais complicado . ab initio. a realidade (desejada) é o ser-um. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram constantes e universais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 241 os estados lógico-qüinqüitárias de mínima energia são ocupados pelos nucleons. duas interpretações do que. conforme o acima exposto. d) e.o ser-uno-trino (tempo. espaço e matéria)! O princípio antrópico [16] emerge da constatação de que admitidas variações. quase tão drástica e dramática quanto o foi a da Filosofia para os gregos: para estes. eis a essência do princípio. transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo que se faria impossível o advento do homem.4. Tudo isto não nos pareceria assim tão surpreendente se tivéssemos todos uma maior familiaridade com a filosofia da Física. ainda que diminutas nos valores das constantes universais [17]. então. o próton e o nêutron. o mais importante: põe-se às claras a estrutura lógica subjacente ao elenco das partículas elementares. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes. e o homem a ele. seria apenas um fato: uma 9. a priori. as determinações lógicas do mundo físico são muito mais profundas do que estariam os físicos dispostos a admitir [15]. forçando-se um pouco a mão fecha-se o círculo: este Universo destinava-se. De fato. apesar de todas as evidências acerca da incomensurável diversidade fenomênica do mundo. ao homem. de caráter nada experimental). desde o big bang o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. São geralmente reconhecidas duas versões do princípio. finalmente. a nosso ver.

tratar-se-ia da introdução de uma causa final). teríamos que pensar a questão das constantes concomitantemente à da estipulação das formas funcionais. a não aceitação de que se introduza no domínio científico outra espécie de causa que não a eficiente (no caso. O princípio. por exemplo. Assim sendo. que. uma entre inumeráveis outras já realizadas ou em processo permanente de realização. se fossem deuses diferentes. haveríamos que pressupor também um deus montador de formas funcionais. todas elas resultantes de flutuações quânticas de um “vácuo” altamente energizado (universos aleatórios. garantido o valor das constantes universais. de parte de um Deus que desejava ver por terceiros louvada sua bela obra. conforme Hugh Everett. mas o simples produto de um descontrolado impulso especulativo. Para estes críticos. da maioria dos cientistas. em que se pressupõe que ocorreu um pré-ajuste intencional das constantes. o princípio antrópico não seria um verdadeiro princípio científico.242 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO versão forte. Dentre os mais freqüentes e potentes argumentos que lhe são contrapostos destacaríamos dois: primeiro. que desmoraliza a versão forte e debilita aquela que já se tem como versão fraca do princípio: o que determina o curso do Universo não é apenas o valor das constantes. além do deus ajustador de constantes. o ajustador de constantes. ou seqüenciais. talvez. ainda sofre o repúdio. segunda. questão cujo sentido estaria ainda por ser precisado. paralelos. mas fundamentalmente a forma das equações. em que os valores das atuais constantes universais seriam na verdade uma realização totalmente probabilística. se fossem o mesmo. um pouco menos na fraca. Entrementes. para a . não se estará automaticamente assegurando o aparecimento do homem. segundo John Wheeler [18]). mais na sua versão forte. uma versão fraca. fruto de uma única tirada. não temos visto mencionado aquele que nos parece dentre todos o mais decisivo dos argumentos.

Em suma. de um fato extraordinário: a perfeita homologia entre a estrutura lógica (I/D/D). Por definição mesmo do que seja um encontro. em especial. apenas a partir da física ou da cosmologia. das modalidades de crítica contra ele até hoje assacadas. numa versão ainda mais radical. não passou de uma intuição ainda obscura. nos moldes daquela por nós já delineada [19]. que caracteriza o elenco das partículas elementares. de um lado. pelo menos. ele não poderia mesmo consumar-se.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 243 nossa sensibilidade. ainda permanece não visitado. mas como uma antropologia renovada. Como então sair de tal imbroglio? Somos de opinião que o princípio. mas. é marca distintiva essencial do ser humano. no caso. a nosso juízo. Isto sim. de outro a antropogia filosófica sustentada por uma lógica ressuscitada. o conjunto formado pelas partículas elementares. para nós. sim. e aquela que . realizado. tendo por base uma concepção alargada da lógica. na medida em que não falamos apenas de condições gerais de possibilidade de uma convergência. a cosmologia/física. até hoje. não seria propriamente um deus. pela lógica hiperdialética qüinqüitária que. afora a grandiosidade da intenção. e de outro a história da cultura como processo de desvelamento do ser (lógico) do homem é. entendida esta não como uma entre outras das chamadas “ciências humanas”. se estaria carecendo de uma justificação para o princípio antrópico que conjugasse. A homologia entre. traria ao princípio um verdadeiro sentido que o deixaria a salvo. ele requer também o comparecimento efetivo e independente do homem através da antropologia. no entanto. de um lado. de simples demarcação de um lugar de encontro que. mas apenas um demiurgo delegado ou subcontratante. porém. o novo fundamento que necessitávamos para o princípio antrópico. Podemos assim afirmar que estamos frente a uma reafirmação do antigo principio.

a correspondência se estabelece a nível qüinqüitária I/D/D (a leitura da estrutura das partículas eqüivale à leitura de um texto. serem também alocadas à mesma posição I/D/D . entre mundo e pensamento do mundo. ao cabo de 4 etapas. em 5 partículas realmente fundamentais e estáveis: τ = ντ + νµ + νµ + νe + e. se constitui no paradigma concreto da logicidade qüinqüitária? Para responder é necessário compreender como “a partir do” tau podem se formar estruturas homólogas. Mesmo considerando que o princípio já esteja suficientemente justificado. É importante observar que as antigas versões do princípio antrópico estabeleciam uma correspondência homem/universo a nível científico. por isso. em função de que ela se desintegra.244 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO referencia o processo de auto-realização cultural do homem. que precisam. alça o Universo à altura do homem. inversa e coerentemente. D/D ou D/2 (porque baseadas no conhecimento objetivo do mundo).referimo-nos aos nucleons. não precisamos temer os riscos de ir ainda um pouco mais longe. Isto é realmente possível através da substituição do neutrino do tau . porém. mais estáveis. na versão por nós ora proposta. o que de certa forma rebaixava o homem. ou seja. mas de nível energético mais baixo (menor massa) e por conseqüência bem mais estáveis [20]. Vimos que a posição I/D/D no quadro lógico das partículas (figura 9. enquanto que. próton e nêutron. como acima mostrado. rever nota 5 deste capítulo). Que pode isso significar. se o tau. a propósito. Acontece que existem outras partículas (barions) de mesma estrutura. o que.4) é ocupada pela partícula tau. A similitude entre a lógica das partículas e a lógica do ser humano vai a detalhes verdadeiramente insuspeitáveis.

que por sua vez também se desintegra num elétron (e)(I) e num neutrino do elétron (ne)(Pré-I). como ilustra a figura 9. isto é. . por um neutrino do elétron (ne). emite um W(D). por um anti-elétron (e). é sem qualquer dúvida feminina [21] . Nesta última os neutrinos do mion (nm) já estão saturados (por estarem ali presentes o neutrino do mion e a sua respectiva antipartícula). se desintegra (vida média de 925 s) pela força fraca. Vê-se que a “sexualidade” do nêutron. que. usa a própria energia cinética ou a interação com outra partícula para se transformar num próton (I/D/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 245 na estrutura do tau. TAU PRÓTON ( e +e) 0 NÊUTRON (W+q) e e e e e e W e q Figura 9. a outra. o que vai “ensejar” justamente a formação de um próton. quando isolado. sobra um quark (q)(I/D). por ser mais pesado do que o próton. “ensejando” precisamente a formação de um nêutron.7 – O tau e os nucleons O nêutron (I/D/D).7. razão pela qual só existem duas possibilidades de substituição do neutrino do tau (nt): uma. Com a desintegração.fundada num boson fraco W (D) e num quark q(I/D). por não poder existir em estado de isolamento. determinada por seu modo de desintegração.

como acreditava Freud?! O próton. servindo apenas para ampliar. o valor estimado da vida média do próton (já agora superior a 1032 anos [22]).8. ainda mais. o nêutron se desintegra. embora fisiologicamente definida macho ou fêmea. a desintegração almejada só poderia se dar pela emissão de um píon zero. Sua “sexualidade” é pois inequivocamente masculina. moléculas. Para nós não haveria propriamente tal fase de latência. quando em interação com o próton no núcleo atômico.246 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A comunidade dos físicos aposta na desintegração do próton como um dos modos de referendar a atual proposta de unificação da força forte com a força eletro-fraca (Teoria da Grande Unificação . constitui-se na mais estável de todas as estruturas qüinqüitárias. No processo de desenvolvimento normal. e esta é a razão pela qual a partir daí poderem se formar os demais agregados físicos – átomos. De qualquer modo. não seria exagero dizer) desintegração foram negativas. por ser a partícula de menor massa. O nêutron. Só existiria então um tipo de “energia sexual ou libido”. macromoléculas e assim por diante (figura 9. deixando como resto um elétron. fundada num elétron e(I) e num píon p(D/D= =D/2). também se torna estável [23]. O mais surpreendente é que vamos encontrar uma situação absolutamente análoga quando examinamos o processo de desenvolvimento do ser humano. todas as experiências visando a comprovação da aludida (ardentemente desejada. “masculinizando-se”. a criança. no interior do núcleo. segundo Freud. É interessante observar que o nêutron (feminino) só se conserva como tal na proximidade do próton (masculino). como já dissemos. após enfrentar e superar a problemática edipiana consumaria sua “opção” sexual definitiva e entraria numa fase de latência [24] à espera da maturação orgânica funcional.GUT). Entretanto. parte inferior). mas sim a passagem a um nível de estruturação lógica máxi- . isolado.

A maturação sexual. viria para obrigála a uma auto-realização.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 247 ma I/D/D=I/D/2. AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ .8 – Agregação para além de I/D/D Assim. em certo momento do seu desenvolvimento (lógico/lingüística). veríamos a criança ingressar numa fase crítica. assume ares de onipotência bem de acordo com a postura andrógina a que nos referimos. deixando-a suscetível de regredir (se desintegrar) a estados anteriores menos estruturados. entretanto. caracterizada pela auto-suficiência e onipotência que a incapacita à composição de agregados estáveis de nível superior e.ENTRE HUMANOS GRUPOS SOCIAIS ANDRÓGINO 2 I/D/ 2 FEMININO (I/D)/(D) FAMÍLIA I/D/2 MASCULINO (I)/(D/ 2 ) D/ 2 AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ 2 . ainda de nível lógico- . que de certo modo caracteriza o andrógino. ainda por cima. ao invés de ingressar numa tranqüila fase de espera. instável.ENTRE PARTÍCULAS ÁTOMOS/MOLÉCULAS TAU I/D/ 2 NÊUTRON (I/D)/(D) NÚCLEOS I/D/2 (I)/(D/2 ) D/ 2 PRÓTON PION Figura 9. Muitos psicólogos já chegaram à conclusão de que a criança.

mais estável. isto é. obrigá-la a assumir uma sexualidade propriamente humana ou socio-lógica. rebeladas contra os deuses. viria corroborar a tese da significação cósmica da sexualidade humana. Em outras palavras. ou (I/D)/(D).primeiro a “família” [25]. Com o princípio antrópico consolidado. tiveram como castigo. A partir daí então é que se podem constituir os agregados humanos . Ele o faz valendo-se do mito dos andróginos. a propósito. Malgrado a irrecusável homologia entre a estrutura das partículas elementares e as lógicas opera- 9. quando ali é dada a palavra a Aristófanes para que exponha sua concepção do desejo e do amor.5. depois a assembléia de pares. Estes foram criaturas que. feminina. Vimos anteriormente que em suas grandes linhas a história da cultura era aquela do autodesvelamento do ser lógico-qüinqüitário do homem. estava tudo já escrito no diminuto par de nucleons próton e nêutron . Como se pode ver. a nação etc. o que. evidente: o homem (ou a cultura) é o “lugar” onde o Universo dá conta de si mesmo em seu mais elevado nível. Re-significação cósmica da história da cultura . porém. Tudo isto já aparece de forma alegórica no Banquete de Platão [26]. masculina. por tão grande ousadia. Ela é uma realização a nível superior (consciente e simbolicamente representada) da lógica qüinqüitária no Universo.. condenadas assim à eterna busca de uma integridade perdida. correspondente a uma das duas possíveis diagonais de I/D/D: ou (I)/(D/D). serem secionadas bem ao meio. isto é. ficamos certos de que o homem representa o ponto mais alto do ser do mundo e o seu processo de auto-desvelamento ganha um sentido cósmico.esperando apenas por ser “lido”.248 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO qüinqüitário. Esta seria a origem mítica do desejo e do amor.

ainda que de uma maneira um tanto alegórica. Sob o primeiro destes aspectos as partículas caracterizar-se-iam individualmente por um conjunto de propriedades estritamente físicas mensuráveis . tão apenas na modalidade programática. compostos inorgânicos. propriamente físico ou concreto. o ADN do espírito [28]. outro. Pelo contrário. que postula a presença de um certo grau de consciência ou subjetividade a nível das próprias partículas elementares. se apresentariam sob um duplo aspecto: um.. Sem receio poder-se-ia então dizer que as partículas elementares seriam. A consideramos totalmente descabida. A partir daí dá-se um processo ascendente ou evolutivo que passa pela formação dos núcleos. sim. começa então a evolu- ← . carga etc. devemos afirmar que a contém de forma completa e perfeita.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 249 das pelo homem. é uma transposição formal ou estrutural da microfísica para o homem do tipo programa produto. numa ainda mais sofisticada e mal conhecida modalidade programática do programático. de modo algum. seres vivos dotados de sistema nervoso central. Prossegue com a evolução propriamente biológica que começa com os seres unicelulares e vai até os cordados. simbólico. inclusive a subjetividade humana. diríamos. Precisemos um pouco mais esta idéia: as partículas elementares. spin. O que se pode aceitar. ou talvez mesmo. assim. átomos. para sustentarmos que contêm. Neste sentido. Diríamos que chega-se. à animalidade estrito senso. pode-se dizer que as partículas elementares contêm em potência ou programaticamente a subjetividade. ou coisa similar. porém.massa. encampando a visão teillardiana [27]. como dissemos. é importante frisar que não estamos. mas não num grau menor ou imperfeito. na medida em que deixa transparecer uma conotação substancialista da consciência. depois aos orgânicos até a constituição do código genético: chega-se à vida.

Um segundo modo de realização haveria. que nos diz direta e imediatamente. as partículas se organizam numa obediência rigorosa à seqüência e às articulações das estruturas lógicas . uma primeira consecução. a cultura nova lógicoqüinqüitária (I/D/D). Pode-se. podemos. advirá o homem e a cultura como processo de sua auto-realização. devemos esclarecer que ele se refere não a partículas isoladas.I. de sorte que. Quanto ao aspecto simbólico. de modo alternativo. faz então emergir a cultura. mas ao seu conjunto básico completo. também diretamente lê-las. chegando-se deste modo ao homem.6. A “invenção da gramática. a destinação lógico/emocional do homem. ou equivalentemente da diferença clânica. da cultura que desvela e assume. I/D. pela nova leitura. a partir do que entramos num processo de evolução caracteristicamente socio-lógico. de natureza simbólica. algum dia. vale dizer. que este mundo. é um mundo para o homem e vice-versa. à cultura que se põe à altura do próprio homem. I/D/D -. concreta. em grau de plenitude. pois. considerar o processo de ascensão físico-químico-biológico como um dos modos de realização da mensagem. desde a origem. ao invés de só mensurá-las e/ou determinar empiricamente suas múltiplas formas e comportamentos agregados. um processo sobretudo de desenvolvimento do sistema nervoso central que conduz à formação e desenvolvimento da neocórtex. . assim. o processo seguirá inexoravelmente até o surgimento da cultura nova qüinqüitária. por fim.250 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ção propriamente animal. que leva ao surgimento do homem e da cultura e. uma mensagem cifrada: em algum lugar. O que lemos aí outra coisa não é senão o código genético do “espirito humano”. O elenco de partículas elementares se apresenta. Como mostramos na figura 9. como uma estrutura significante. A nosso juízo.

a transformar-se numa estrela gigante vermelha. por isso. por exemplo. portanto. Não nos deixemos surpreender daqui para frente com a repentina inversão de muitas significações. justo onde impera o seu máximo vigor lógico-qüinqüitário). Entretanto. a vida humana sobre a Terra. e passa a ser. o próprio Universo. ou mesmo pelo sofisticado sinal de sua curvatura -. o que nos leva a concluir que a vida teve que se realizar para que o espírito pudesse deveras se realizar. sim. o primeiro só se poderia realizar tendo a segunda como suporte. se mude de um lugar para outro. volume. exaurido. das que são enquanto são. não é mais. ou seja. separação espírito/matéria. é e será sempre sua pró- .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 251 É pelo menos curioso observar que o ADN do espírito e o “ADN da vida material estavam potencial e concomitantemente definidos nas partículas elementares desde o big bang. estas considerações são mais do que suficientes para liquidar de vez com a persistente. densidade. mas sim pelo mesmo parâmetro que mede a cultura. O episódico. sobretudo. pelo grau de realização de sua destinação. o esgotamento do processo de queima do hidrogênio. ainda que esdrúxula. com o conseqüente abrasamento da Terra. temperatura de seu ruído de fótons ou neutrinos de fundo. a partir de agora. para onde. que é. ser feita (ou só) referenciada a parâmetros físicos . das que não são enquanto não são. de ser um grave pecado ou mero infantilismo ontológica para transformar-se em exigência de uma superior coerência. O antropologismo deixa.pela idade. como em geral se imagina. A avaliação última ou mais significativa do estado do Universo não pode. Ademais. Há tempo mais do que suficiente para que o homem (na verdade. Assim já o pressentira Protágoras: o homem é a medida de todas as coisas. auto-desvelamento ou objetivação simbólica do seu modo de ser lógico. que levará o Sol. afinal.

damo-nos conta agora de que sua chegada é um acontecimento maior não apenas na história da humanidade.252 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pria morada. do que a deserção (dos que o sabem agora e dos demais. com respeito á cultura nova lógico-qüinqúitária. que haveria de mais degradante. hoje. Como podemos doravante sustentar que a vida não tem sentido? Que nossa vocação é mesmo o niilismo? Que causa ainda maior estaríamos exigindo para admitir que a vida vale a pena? Diante destes fatos. Particularmente. que já bem antes a adivinhavam) da luta pelo advento da cultura nova lógico-qüinqüitária? . mas igualmente daquela do próprio Cosmos.

ora espiritualistas. greco-romana (D) e científica ou moderna (D/D=D/2) [4]. ora materialistas. en tant qu’elle est une préoccupation ultime. vocacionada para a temporalidade e para a conquista de um superior patamar de espiritualidade. a que denominamos cultura nova lógico-qüinqüitária . Paul Tillich – Théologie de la culture Toynbee [1]. culturas lógico-identitárias . est la substance qui donne son sens à la culture. dos impérios de base agrícola da Antigüidade (pré-D). respectivamente. Paul Tillich [2]. as denominamos. et la culture est la totalité des formes à travers lesquelles la préoccupation fondamentale de la religion peut s’exprimer.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 253 10 Superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária La religion. judaica (I) e cristã patrística (I/D) . podemos de pronto inferir que a esta última irá suceder uma cultura da linhagem lógico-identitária.dos bandos de caçadores/ coletores do paleolítico (pré-I). Por este simples vai e vem histórico e tendo-se ainda em consideração o caráter cínico materialista contábil da Modernidade.e culturas lógico-diferenciais neolítica. já discriminava vagas civilizatórias alternantes. opondo culturas do tempo e do espaço. tomando como exclusivo parâmetro a lógica. faz discriminação similar. nós [3]. o preclaro teólogo teuto-americano da cultura. o eminente historiador britânico.

de modo algum. nos deverá trazer de volta a preocupação. teológico) e penetrar. à vera. portanto. confundido com a ola carismático/ midiático/supermercadológica que invade e infecta hoje os interstícios. com o transcendente e lá pelos seus confins. que ela estará ressurgindo integralmente renovada em seus fundamentos e em suas práticas. Nosso propósito aqui será o de tentar explicitar as preliminares deste renascimento religioso (e. devendo-se atentar. -SeptendecitÆ rio Antecipa ı es na Revelação Cristã .. com o Absoluto.. Nela veremos a revivescência de uma autêntica e consistente religiosidade. Para tanto. contudo. em sua significação mais profunda. o que não pode ser. desvãos e madrugadas da cultura científica dominante. seguiremos o seguinte roteiro: A l gica ressuscitada O eixo onto-l gico aberto Comprometimento l gico da cultura Dire ª o e sentido da morada divina O homem como ser l gico-q inq itÆ rio Desejo de ser (menos) da cultura Reversª o do desejo na cultura q inq itÆ ria ExperiŒ ncia da ausŒ ncia do transcendente Deus Uno-Trino-.254 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO (I/D/D=I/D/2). Esta cultura nova. por conseqüência. um pouco que seja.

implícitos na lógica dos diversos modos da Revelação Cristã.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 255 Partimos. a busca do Absoluto. a reorientação do desejo coletivo. da lógica ressuscitada que irá se constituir no grande eixo paramétrico a referenciar todos os existentes. e a recuperação do sentido da experiência interpessoal da ausência do transcendente – é o que nos irá reto conduzir ao desvelamento pós-idolátrico do Absoluto Uno-Trino-. de algum modo. que. teremos definido a direção e o sentido em que se pode encetar. não teremos dificuldades em reconhecer. De um lado.. mas geralmente mal percebida: a experiência interpessoal do transcendente. apenas formal. A convergência destas três poderosas determinações – o desvelamento da direção em que se possa buscar o Absoluto. se constitui necessariamente como “experiência de uma ausência ou de uma falta”. Com isso. o advento da religiosidade lógico-qüinqüintária. deverá vir ainda acompanhada de dois outros acontecimentos de grande significação para a história humana. como tal. representando o definitivo abandono da idolatria até hoje vigorante em todas as culturas históricas. atuais e concebíveis.A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto . os traços que. A partir daí.-Septendecitário (I/D/D/D/D= =I/D/ 4 ). De outro lado. sem nenhuma dúvida.. Mas a abertura desta possibilidade. agora voltado para o mais alto. como sói acontecer. já antecipam este grande acontecimento da história humana que será. de maneira conseqüente. haverá o despertar de um real desejo coletivo pelo transcendente. Começa com a recuperação das lógicas segundo a bem estabelecida tradição filosófica: além da una- 10. Este trabalho já está de certo modo realizado [5]. acontecimento deveras revolucionário.1. haverá a resignificação dramática de uma experiência bem cotidiana.

sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas: da lógica da identidade (ou transcendental) (I) e da lógica da diferença (D). a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3) e assim por diante. mas também em outras áreas do saber. sempre às esgueiras. Heidegger. de uma lógica da simples diferença. . não só na tradição filosófica dos “não conformistas” (Pascal. Sabemos que a seqüência das lógicas (I. D/D/D=D/3. para além dessas. Nietzsche. arrola-se também a dialética (tanto platônica. Ortega y Gasset. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído.que não deixa de ser por isto menos correta e pertinente -. noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana [6]. de modo quase natural. sempre a meio caminho -. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). como na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante) e também na antropologia estrutural. A geração se daria através da operação de síntese dialética generalizada ( / ). Deleuze). Com isso. embora desviantes.é de seu feitio. Esta já se encontrava presente . como uma honrosa exceção.256 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). sem descanso.) constitui o mais simples dos . D.. pela constatação da necessidade de se assumir a vigência. D/D=D/2. Kierkegaard. ter-se-ia também que considerar as poucas lógicas de fato lógicas. a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). no criticismo kantiana e na fenomenologia husserliana). I/D/D=I/D/2. Na esfera do formalismo acadêmico em voga. as paraconsistentes (ou paradoxais) e as paracompletas (ou intuicionistas). vem. Depois. Uma arguta re-nomeação destas quatro lógicas de base .. I/D/D/D= =I/D/ 3 . são geradas a própria dialética (I/D). quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. I/D.

um evidente sinal de sua profunda essencialidade.. I/D.. tendo-se em conta que o semimonóide é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 257 semimonóides livres [7]. sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente.definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos.1 .os números naturais. I/D/2.I. .Encadeamento das estruturas lógicas .. As lógicas identitárias .1. tal como ilustra a figura 10. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 10.

entretanto. Ela remonta a Parmênides. é importante observar. Em princípio. seu exclusivo usuário. pseudo I/D) [8]. bastante comum entre as pessoas “mais educadas” de nossa sociedade. vale dizer. O eixo lógico desvelado. que a institui em nível lógico-transcendental.diz-se jocosamente. na melhor das hipóteses. se venha a imaginar um Absoluto abaixo do nível humano. enquanto que forças e energias são de estatuto lógico D (ou. pois o “velho barbudo” é de estatuto lógico I/D/2. estando. em nível lógico-dialético. é a recusa em aceitar um Deus de semblante humano . definitivamente. pois impede. Como o menor (logicamente) pode criar o maior? O segundo é o de . e assim tudo o mais. na posição I. presentemente a reconhecemos também válida em nível lógico-qüinqüitário. o ser discursivo e o homem. Devemos notar que a simples instituição do eixo onto-lógico tem. dentre os quais poderá estar e imperar o inexcedível. na posição I/D. A este respeito. que nos traz a possibilidade formal de conceber algo para além do humano.258 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Todos os entes mundanos podem ser posicionados nesta escala paramétrica constituída pelas lógicas: o puro ser. um velho de longas barbas -. Um verdadeiro disparate. vale a pena citar três equívocos doutrinários bem atuais. O primeiro. temos aí uma escala aberta. o ser simbólico e os animais capazes de operá-lo. um poderoso efeito profilático conceitual. prontas a aceitá-lo como uma “força” ou uma “energia” cósmica. pode o eixo lógico complementarmente assumir um superior caráter onto-lógico. o Absoluto. na posição superior (I/D/D=I/D/2). permite também recapitular e estender a verdade da mais vetusta e essencial dentre as correlações filosóficas: aquela que vige entre ser e pensar. de imediato. A partir de então. é retomada por Hegel. ainda mesmo quando se lhe venha a atribuir o esturdio caráter de infinitude. acreditamos que agora.

o . pois. o estatuto lógico-qüinqüitário ((I/D) x (D)=I/D/2). E por que não também para a filosofia? De certo modo. aliás muito freqüente na teologia cristã. qualitativamente segmento. que o número permaneça qualitativamente número. lhe adjudicam automática e. Por exemplo. O fundamental é. pois. Superação da idolatria com o advento da cultura lógico-qüinqüitária Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. todo infinito é péssimo. o número infinito não é algo além ou acima dos números. corretamente. O mesmo vale para o segmento de reta infinito: ele é necessariamente um segmento de reta. mas um verdadeiro número. A esperteza de se introduzir a “noção” de infinito qualitativo é totalmente descabida. o que se nos afigura um absurdo. A noção de infinito é essencial e irredutivelmente quantitativa. entre outras coisas de grande importância. é da essência de qualquer infinito manter-se qualitativamente o mesmo que o seu finito de referência. 10. O terceiro equívoco. A grande questão é que deste modo o homem passa a ter um estatuto lógico superior àquele do Espirito Absoluto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 259 boa parte dos atuais seguidores do pentecostalismo [9]. não há bons e maus infinitos – pelo menos para a teologia. só que maior que qualquer número que se possa de modo ostensivo apresentar.2. o segmento. o que só faz obscurecer o seu entendimento. como já tivemos oportunidade de alertar [10]. Ao contrário do que acreditava Hegel. é de adjudicar o atributo infinito ao Absoluto. que se alcançasse uma conceituação precisa do ser humano . fora do estrito âmbito da matemática. só que maior do que qualquer segmento que se possa efetivamente exibir. Isto vale para qualquer tipo de infinito. tanto católica quanto protestante. Ao fazer do homem a arena onde se defrontam o espírito de Deus (I/D) e o maligno (D). aliás. como vimos. tornou-se possível.

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ente lógico-qüinqüitártio por excelência [11]. A simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição mais elevada do eixo das lógicas, visto que apenas ele é capaz de operar em nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). O mais avançado dos mamíferos não vai além da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D), esta que lhe permite operar com símbolos convencionais acabados, mas não com o discurso articulado (ou, o que seria sua principal pré-condição: operar com os conectivos lógico-proposicionais). A partir daí, a história da cultura pode ser compreendida como o processo do progressivo autodesvelamento simbólico objetivo do ser próprio do homem [12]. Toda cultura teria, assim, um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada, e que lhe confere, inclusive, as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I, da diferença D, dialética I/D, clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2), seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. Elas serão, de modo genérico, denominadas etapas ecológicas, distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e, a seguir,

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uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza, ou seja, onde se “inventa o trabalho e de imediato o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). O contato cultural, especialmente quando intenso, produziria culturas de tipo misto; a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição; a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas; destes e de outros tipos não-nodais, entretanto, não nos ocuparemos aqui. Resumidamente, focalizando apenas uma área restrita - o Ocidente e o Oriente Próximo - teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I, cultura tribal, dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico; pré-D, cultura sedentária de base agrária, começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade; I, cultura judaica, primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral; D, cultura prometéica grega, já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos); I/D, cultura medieval cristã (patrística), por todos os títulos, uma manifesta síntese das culturas anteriores; D/2, cultura moderna de base científica, que hoje domina o mundo; e, ainda por vir, I/D/2, cultura hiperdialética qüinqüitária, não castradora, porque, pela primeira vez, uma cultura à medida exata do homem. Como já visto [13], até que chegue a termo o processo de auto-desvelamento lógico da cultura, o dinamismo social tem se nutrindo, ainda que possa parecer paradoxal, de um desejo de regressão a níveis lógicos inferiores ao que teria já sido alcan-

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çado pela humanidade, por isso, em essência, um desejo de poder ou de morte, como se diria no jargão freudiano. Note-se que o mais velho ancestral do desejo de morte é coetâneo à própria instituição da cultura (I/D/2), como desejo de retorno à animalidade (I/D), que é logicamente eqüivalente ao desejo de violação da proibição do incesto. O que Freud não teve chance de perceber foi que, chegando a humanidade à altura de si mesma, vale dizer, ao desvelamento de seu privativo ao mesmo tempo que constitutivo caráter lógico-qüinqüitário (I/D/2), não teria ela outra alternativa senão redirecionar este seu desejo mais íntimo, desta feita, para cima, pela primeira vez em direção àquilo que lhe fosse verdadeiramente transcendente. Recordando, deuses já foram o todo ecológico e seus elementos - rios, lagos, montanhas e outros mais - já foram o Uno e o Uno/Trino, o múltiplo trágico e, quando reiterado, destarte, o múltiplo calculável, em geral, infinitamente mais isto e mais aquilo, entrementes, concebidos sempre abaixo da potencialidade lógica do apenas ser humano, de modo a que jamais escapassem ao estrito controle das instâncias sacerdotais. É precisamente isto que irá definitivamente mudar. Não há dúvida de que a sacralização da lógica de uma cultura tem por si um papel crucial na estabilidade desta cultura, podendo por isso ser considerado um invariante cultural. Entretanto, o fato da lógica assim simbolicamente sacralizada ter estado reiteradamente abaixo do nível lógico dos homens em particular dos homens que constituem a classe sacerdotal encarregada de zelar pelo sagrado -, dava ensejo a que estes, maliciosamente, pusessem a sobredita “superioridade” lógica para funcionar em seu próprio proveito. Mantendo deus em estado de total submissão podiam exercer um tirânico controle social, fosse de modo direto (por exemplo, sociedades teocráticas da América pré-colombiana,

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fase primeva da história egípcia etc.), fosse indiretamente, associando-se à plutocracia dominante (por exemplo, o Brasil, por quase toda sua história). Foi nestas condições que a idolatria ganhou um suplemento de valor que a fez ainda mais prosperar. A cultura Moderna, como suas antecessoras, não falta a este padrão, como mostra a parte esquerda da figura 10.2. Entrementes, com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária, a sacralização terá que incidir sobre a própria lógica hiperdialética qüinqüitária, o que automaticamente retira a possibilidade da dominação lógica do sacralizado, inviabilizando, por conseqüência, que se faça da simples administração religiosa um meio de dominação social. Mesmo que ocorresse uma acidental idolatria lógico-qüinqüitária, ou seja, um humanismo sacralizado, ele seria bastante instável e logo superado no processo de busca de uma mais consistente religiosidade.
CULTURA MODERNA CULTURA QÜINQÜITÁRIA
DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE
2

ESCOLÁSTICA

D/2

DESEJO INCONSISTENTE

I/D/

BIOPIROTECNIA
D/
2

I/D D

A FÍSICA DESEJO DO UNO-TRINO COMO DESEJO DE MORTE OU DE PODER

I/D

FÍSICA

Figura 10.2 – A reversão do desejo na cultura lógico- qüinqüitária Acresça-se ainda que a cultura lógico-qüinqüitária não pode, por múltiplas e ponderáveis razões [14], sustentar um desejo para baixo - no caso, este seria

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o desejo do ser-sistêmico abandonado pela lógica D/D, que se teria deixado subsumir por I/D/D -, tal como veio ocorrendo com as demais culturas. Dentre aquelas razões, destacaríamos o fato de que o advento da cultura qüinqüitária representa a chegada a uma destinação, a um estado de transparente autenticidade. Insistir, a partir de então, num desejo para menos, é decidir pela recusa de si próprio! Em outras palavras, a tensão entre ser e desejo de ser (que antecede mesmo a tensão entre ser e dever ser), que agora com mais precisão caracterizaríamos como desejo de ser (menos), não se sustenta na plenitude lógico qüinqüitária, a não ser que o diferencial de ser se re-oriente, se transmude em um novo desejo de ser (mais). Assim, chegando a humanidade à cultura lógico-qüinqüitária, veremos seu desejo mais profundo se inverter, deixar de ser um desejo de regressão ou de morte para se constituir num desejo de progressão e de vida. Ver parte direita da figura 10.2. Isto tudo irá representar uma profunda revolução psíquica e social, na medida em que a humanidade estará, desta sorte, alcançando pela vez primeira um estágio de autêntica e consistente religiosidade, abandonando para sempre o que foi sua disposição lógico-idolátrica de muitas e muitas eras. Podemos concluir este item certos da radical solidariedade entre o advento da cultura nova lógicoqüinqüitária e a emergência de uma religiosidade radicalmente renovada, com a qual a humanidade terá deixado de lado sua velha disposição idolátrica e seu antigo desejo de poder ou de morte, em favor de um desejo realmente amoroso de ser mais.

Todos os estudiosos da cultura identificam no homem de todas as épocas a existência de um impulso para o que lhe transcendia, que nomeavam

10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente

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religiosidade. Com a Modernidade, a ciência que tudo invade e calcula, “naturalizou as formações históricas concretas de religiosidade, tornando-as, destarte, conspícuos objetos do saber científico. Enquanto a religiosidade dos povos primitivos ficava por conta da tradicional antropologia, instituíase a sociologia da religião para o estudo científico da religiosidade das culturas “mais avançadas”. Para muitos, até tão distantes entre si como Hegel e Comte, a religião seria tão apenas um momento ou estágio de compreensão do mundo, a ser superado pela filosofia ou pela ciência. Com Freud ela é considerada um verdadeiro transtorno psíquico coletivo, uma ilusão obsessiva que o saber psicanalítico (científico!) acabaria por superar, ou melhor, curar. De fato, se o impulso religioso tivesse como motivação apenas o consolo imaginário diante da finitude (ou da consciência da morte), todos estes críticos da sociedade poderiam ter razão e a religiosidade ser considerada hoje um fenômeno social em extinção. A nosso juízo, entretanto, a religiosidade tem um fundamento mais radical e permanente, pois estaria baseada numa experiência cotidiana e fundamental de todo o ser humano, que não seria propriamente a do Absoluto, mas de sua gritante ausência. Assim, para nós continuará a fazer sentido falar em religiosidade, mesmo após a era da ciência. O homem, por ser consciente, ou seja, operar com a lógica transcendental, faz-se portador de uma falta originária correlata à sua inextinguível angústia existencial. Ser é ser sempre à beira de um insondável abismo, o Nada. Isto é muito bem sabido, mas em geral estamos pouco atentos para uma outra falta, que não é de origem, mas de destino ou de significação. Sabemos que a lógica do “espaço” epistemo-lógico [15] correspondente a um determinado nível onto-lógi-

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co fica determinada pela simples substituição da identidade (I) por uma diferença (D) correspondente à essência do conhecer, que é se deixar determinar completamente pelo outro (objeto). Para alcançarmos a lógica do espaço práxio-lógico (ou da ação) correspondente, basta-nos re-incorporar a identidade (I) o que traduz o retorno à cena do ser subjetivo e de seu poder de auto e hetero-determinação. Assim, por exemplo, a nível do ser objetivo (I/D), o saber correspondente será a ciência D/ 2, isto é, (D)/(I/D)=D/ 2), e o agir, a técnica I/D/2, isto é, (I/D)/(I/D)=I/D/2. Semelhantemente, no caso do homem caracterizado como ente lógico-qüinqüitário (I/D/2) as estruturas epistemo-lógica e praxio-lógica respectivas seriam D/3, isto é, (D/(I/D/2)/D=D/3 e I/D/3, isto é, (I/D)/(I/(D/2)= =I/D/3. Ora, estas estruturas - epistemo-lógica e práxio-lógica - não são inteiramente acessíveis ao homem, que sabemos limitado à lógica hiperdialética I/D/2. Como, porém, os demais elementos de ambas as estruturas lhe são acessíveis, as posições lógicas D/3 e I/D/3 , ainda que não diretamente acessíveis, acabam sendo vivenciadas como falhas ou carências estruturais. Ver figura 10.3. Esta é apenas uma descrição em termos lógicos da vivência cotidiana relativas à impossibilidade de compreensão completa do outro e, muito menos, de conseguirmos dominá-lo. Isto deixa mais do que evidente que a condição de escravo, ou mesmo a de neocolonizado (ameaça concreta que paira hoje sobre nós, brasileiros), encerra, no fundo, uma degradação onto-lógica.

pois o mais está presente no menos. seja fidei (K.3 Falhas estruturais epistemo-lógica e práxio-lógica humanas Assim. pois. e a falta de significação. Eis aí. porque a analogia não é nem pode ser um modo de saber. a base vivencial real para a admissão. O reconhecimento deste segundo tipo – falta estrutural – resolve um problema crônico de toda teologia. ou transcendental. Tomás). a da identificação de uma motivação concretamente vivida que justificasse a prontidão para a recepção da mensagem revelada. sim. não passou sempre de um ardil. . O insistente apelo a um presumido conhecimento por analogia. esta poderia facilmente se confundir com uma simples alucinação. no homem estão presentes dois diferentes tipos de falta. embora como falta. caso contrário. seja entis (S. o da abertura para o transcendente. um modo de expressão. Barth) [16]. conseqüente busca e aceitação do transcendente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE ESTRUTURA EPISTEMO-LÓGICA SUBJETIVA ESTRUTURA PRÁXIO-LÓGICA SUBJETIVA 267 I/D/ D/ I/D D I 2 3 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D I I/D D/ 2 Figura 10. qual seja. A falta estrutural por nós assimilada contorna a dificuldade. a falta originária. que exige o prévio conhecimento tanto do significado quanto do significante. mas. esta que podemos também denominar ausência viva do transcendente.

lhe dá acesso ao símbolo já inteiramente convencional (o que não quer dizer não motivado) e que a lógica I/D/2 do homem lhe dá acesso ao discurso que. como diria Heidegger [18]. onde estão co-presentes o ser e seu próprio horizonte: O homem é um ser lógico qüinqüitário.268 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO No plano do saber. vale dizer.. com D/2 e I/D/2. cujo acesso lhe é facultado pela vivência direta da falta estrutural epistemológica (D/3) e das falhas estruturais práxio-lógicas (D/3 e I/D/ 3 ). mas igualmente pelo que se possa ainda um dia dizer. faz emergir o sentido intensivo ou contextual. Não podendo. No plano da ação procede-se à sutura de D/3 e I/D/3. outros um pouco mais próximos da intuição. devendo-se precisar que a contextualidade aqui implicada é aberta. respectivamente. Tudo isto nos remete a uma mais precisa conceituação do homem. nem necessitando lembrá-los todos. reduzindo o saber sobre o ser subjetivo a impossíveis ciências humanas. o que reduz as inesgotáveis práticas intersubjetivas a meras técnicas de sedução e manipulação. . A insistência em que o homem deva incorporar seu próprio horizonte transcendente é de fundamental importância por múltiplas e importantíssimas razões. determinada não só por todos os já ditos. Dentre elas.. alguns menos. de nível lógico I/D/2. destacaríamos. [17] Existem ainda muitos outros modos de se mostrar a presença do referido horizonte. alguns mais. num horizonte transcendente. do animal dotado de sistema nervoso central. Isto significa igualmente que o homem passa a habitar a linguagem. gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que a lógica I/D. primeiro. mais do que constituir um super símbolo. não raro sutura-se D/3 com D/2. outros um pouco menos convincentes. que se realiza .

” Recordemos. Depois. tudo seria permitido. na segunda. o que bem justifica o que dizia o personagem dostoievskiano: “Se Deus não existisse.4. nos é vedado o acesso a um único elemento da estrutura que representa o referencial global daquela situação. que deixaria de ser um desejo para baixo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 269 que tal horizonte impede que ele se feche sobre si mesmo. consequentemente. nos são vedados 10. Afinal. e vimos que isto só era possível como presença de uma falta. Antes de mais nada instituímos o eixo onto-lógico no qual podiam-se distribuir todos os existente mundanos e no prolongamento do qual se poderia buscar coerentemente o Absoluto. a exemplo do que aconteceu em Hegel. que teria por isso que ser uma falta estrutural. para se tornar um desejo verdadeiramente amoroso pelo mais alto. Entrementes. precisávamos ainda de uma efetiva e vivida janela para o transcendente. desejo de morte e poder. Desde então seria toda a força da cultura que nos estaria empurrando em direção ao Absoluto realmente transcendente. consequentemente. porque a presença deste horizonte de ser “junto” ao próprio ser é o que possibilita a emergência e insistência tensional entre ser e deveser. Deus depois do adeus às idolatrias . Vimos também que esta era a situação do conhecimento e da ação intersubjetiva – na primeira. Depois. e. uma falha numa configuração cujos elementos nos fossem em boa parte acessíveis. vimos que com o advento da cultura lógico-qüinqüitária aconteceria a reversão da direção do desejo da cultura. que a filosofia acabe se reduzindo a um humanismo e a religiosidade a um panteísmo. que seria ocupado pela lógica D/3. da emergência da dimensão ética no mundo. Nota-se então que a emergência da dimensão ética é correlata à vivência do transcendente.

vale dizer. no seu limite autodesvelador. ele poderia ser D/n. Ora. ao fim. Podemos encontrar uma boa pista para a determinação do estatuto lógico do Absoluto se admitirmos. ambos na posição I [20]. a qualidade de ser Uno. uma simultânea e paradoxal afirmação de humanismo e de panteísmo. O mesmo valeria para o agir absoluto. mas que também o são ser e conhecer e ser e agir. D/3 e I/D/3. “sujeito” e “objeto” se mantêm em estado de copertinência. não só ser e pensar são o mesmo. Podemos. Vamos de pronto abandonar a primeira hipótese porque nela o Absoluto não constitui por si uma instância onto-lógica e também porque ela não preserva. é porque a estrutura epistemológica correspondente se reduz a D. ou quase. que para Ele. com n superior a três ou I/D/n. objetivo (I/D). pode estar habitando um espaço ontológico que o transcende. Ora. o Absoluto – em suma. Uma conclusão bem diferente daquela de Hegel que atribui ao homem o serdialético e faz deste mesmo ser. se ser e conhecer são o mesmo. quando. na verdade. na verdade. Não é definitivamente este o nosso caso. com n superior a dois [19]. subjetivo (I/D/2) – ficava bastante óbvio que o Absoluto precisaria ser buscado no prolongamento desta seqüência onto-lógica. são justamente as vivências destas faltas que evidenciam ao homem que ele não se constitui no nível lógico máximo. Se isto. vale dizer que ele. como no caso do nível fenomênico. onde D é apenas uma referência externa. assim. Em princípio. como é quase um consenso.270 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dois dos nove elementos estruturais de maior nível. a situação geral dos planos e respectivos níveis seria: . com o estabelecimento dos níveis onto-lógicos – fenomênico (I). restringirmo-nos ao Absoluto concebido como ser-lógico de nível I/D/n com n>2. Ora.

... mais uma vez o insistente e condenável vezo pelos infinitos e transfinitos matemáticos! Acrescentaríamos ainda que esta proposição .. tal reação é um mero preconceito quantitativo. uma autoridade que não pode nem mesmo ser desafiada.. o que dá ao primeiro uma superioridade fechada. e. D I/D Para que a distância entre o Absoluto e o homem se mantenha de pelo menos duas diferenças. cujas respectivas estruturas epistemo-lógicos e práxio-lógico seriam D/2 e I/D/2... I/D/n . Nível Subjet. Nível Absoluto Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D I/D D/2 I/D/ 2 I/D/2 D/3 I/D/ 3 .. I/D D/ 2 Nível Subjet... Teríamos. freqüentemente.. Absoluto I/D/3 D/ 2 I/D/4 D I/D I/D/2 I/D/3 I/D/2 Isto é o suficiente para que possamos sacar algumas importantes conclusões teológicas: a) O Absoluto constituir-se-ia na instância ontológica de nível I/D/4...FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 271 Nível Fenôm. Temos a experiência de que tal afirmação suscita... assim: Nível Fenom. reações. Nível Objet.. Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D Nível Objet.. I/D/2 D/ 3 Nível Nível Intermd. com a introdução de um nível onto-lógico intermediário onde n=3.. . para que seja preservada a máxima simetria do quadro anterior. como se ela significasse uma limitação à grandeza divina.. na verdade. também. dever-se-ia fazer n=4.

4). Notar que isto não se aplica nem mesmo aos entes angélicos (ou demoníacos). o Absoluto poderia até ultrapassar I/D/4. d) Seu conhecer é um estrito correlato de Seu ser. à perfeição. I/D. ganha aqui sua plena significação. D. O ABSOLUTO I/D/ 4 O TRANSCENDENTE I/D/ 3 2 O HOMEM I/D/2 D/ 2 I/D D I I/D/ I/D I O SER O SER Figura 10. é reconhecido pela . ambos em estado de co-pertinência na posição I da estrutura epistemológica D. similar em tudo seria também o Seu agir.-Septendecitário (I. e) Existe um nível intermediário entre o do homem e o do Absoluto que. na medida em que as lógicas humanas (I. além de Uno-TrinoQüinqüitário. finalmente.4 – Semelhança do homem a Deus c) O Absoluto seria. I/D. mas nós não teríamos condições de saber o que isso poderia significar. Septendencitário.272 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pode ser interpretada como o simples auto-reconhecimento dos limites imaginativos do homem. I/D/2. pois 17(2x2x2x2+1) são as posições na estrutura lógica de I/D/4. D/2 e I/D/2) representam. b) A semelhança de homem a Deus.. também Eneário e. aliás. I/D/3 e I/D/4) (ver figura 10.. as instância onto-lógicas de Deus Uno-Trino. em outras palavras. tão enfatizada pela teologia judaico/cristã.

Embora a revelação plena do Absoluto UnoTrino-. na cultura judaica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 273 maioria das grandes religiões do mundo. a nosso juízo. pouco importa suas existências efetivas. a que damos a denominação de nível angélico. traços do monoteísmo já se haviam manifestado em culturas pré-lógicas. pelo menos na aparência. Entrementes. até aí o problema permanece. pois. jamais o foi. Talvez não por falta de vontade e coragem. “medidos” em termos de complexidade lógica. não podemos negar que alguns de seus traços possam já se ter manifestado. em princípio.. mormente quando estas pertencem à mesma família. já sabemos agora. Deus pode dizer quem de fato é . em outras culturas.a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano . que homem poderia compreendê-lo em sua plenitude? Quem poderia simplesmente se considerar à altura da mensagem? Trata-se de um paradoxo. maior e menor.5. ainda que de modo fragmentar e inconsciente. mas de um instrumental lógico de suficiente potência 10.-Septendecitário seja uma prerrogativa reservada à cultura lógico-qüinqüitária. por exemplo. porém. assim como traços do trinitarismo cristão. É mais ou menos evidente a razão pela qual a Revelação tenha sido a solução encontrada para que o menor pudesse ascender a algum conhecimento do maior. na cultura trágica grega. Isto não seria uma novidade na história da cultura. mas que. Antecipações . excedendo à capacidade lógica do receptor. aquele próprio tanto a anjos como a demônios.. visto que o conteúdo significativo revelado continua. traços da cultura cínica moderna.para Karl Rahner [21] a radical inclinação à autocomunicação seria parte mesmo de Sua “essência” -. que precisava ser enfrentado pela teologia.

e muito menos quantitativamente infinitas -. enquanto tal. conquanto tenha ela seu alto preço. logicamente não cabe . A condição geral para a recepção é que a autocomunicação divina . Atente-se: o receptor da mensagem continua a ignorar o que possa ser. pode agora imaginá-Lo por trás de uma descrição cujos termos e sintaxe lhe são por completo acessíveis. que é não conseguir preservar incólume o estatuto lógico da mensagem. o Absoluto e seus inexcedíveis poderes. O Absoluto aparece assim como que dotado de um conjunto de atributos que são de algum modo extensões lógicas . ou seja.no homem qüinqüitário I/D/2 ? Pode-se agora vislumbrar uma resposta. Nada aqui excedeu ao “tamanho” lógico I/D/2. possa existir encarnado como homem (I/D/2). a mensagem eu sou o que sou (ou serei) sendo. A figura 10. sem deixar de sê-lo. Em nossa sistemática simbólica. pois estaríamos nos enleando num paradoxo ainda mais grave do que aquele que tínhamos de partida. O modo paradigmático de fazê-lo. pelo menos I/D/4 . podemos colocar a questão em termos bastante diretos: como é possível ao Absoluto Septendecitário I/D/4 revelar-se aonde. daqueles do próprio homem.e não analógica [22]. E se não fora assim. . acessível à compreensão humana.5 ilustra bem tudo o que aqui está posto. como ocupante da posição D numa estrutura I/D. é que Deus (I/D/4).274 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto. porém.especificamente. poderemos facilmente constatar.seja fragmentada em “pedaços”. deveras. e nesta circunstância proclame-se Filho numa configuração trinitária. pior seria. todos eles logicamente iguais ou menores do que I/ D/2. no caso.

não propriamente uma eclesia. porém. se constitui membro da Sagrada Família (I/D/2) e o seu correlato terreno passa a ser a Igreja. como fora o caso do Filho. após a Ressurreição. e. mais uma Confirmação do que uma nova Revelação) em que todos os elementos da mensagem revelada se mantêm ainda inferiores a I/D/2. mas uma organização (D/2). logo. Ele. o Cristo que ocupava a posição de Filho (D) na Trindade (I/D) vai ocupar a posição de Filho (D/2) na estrutura qüinqüitária (I/D/2). Trata-se da proclamação do Dogma Mariano (1950): Maria. é assunta ao Céu. tão necessária e insistentemente Virgem) numa estrutura qüinqüitária I/D/2.A Revelação paradigmática . Ver figura 10. não para ocupar a posição D numa estrutura trinitária I/D.6. mulher. sim. Em vista do remanejamento onto-lógico [23] que necessariamente ocorre na passagem da estrutura trinitária (I/D) à qüinqüitária (I/D/2). uma .como seria compulsório.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE LUGAR DO ESPÍRITO (TRINITÁRIO) CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO 275 LUGAR DO PAI LUGAR DO FILHO CRISTO HOMEM QÜINQÜITÁRIO I/D/ QUE DECLARA OCUPAR A POSIÇÃO D EM I/D 2 Figura 10. muito adequadamente denominada Corpo (D) Místico de Cristo (D) . de nível I/D/2.a Encarnação Podemos ainda identificar um segundo modo (na circunstância.5 . para ocupar a posição I/D (por isso.

isto é. Como se vê. apresentar-se exteriormente como uma organização. esta estrutura lógica é manifestamente sobre-humana.Revelação (Confirmação) Septendecitária por via do Dogma Mariano É interessante observar que neste modo revelador a Igreja vai ocupar a posição D/2. menos em lógica.. LUGAR DO ESPÍRITO (QÜINQÜITÁRIO) FAMÍLIA SAGRADA LUGAR DA MÃE INCONSC. posição que sabemos caber necessariamente à filha virgem. definidas como as diagonais ..6 . a Cúria pode errar em tudo. ESPÍRITO PENTECOSTAL CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO LUGAR DO FILHO CRISTO RESSUSCITADO CORPO MÍSTICO IGREJA 2 MARIA MULHER QÜINQÜITÁRIA ASSUNTA I / D / LUGAR DO PAI LUGAR DA VIRGEM Figura 10. diríamos até delirante. Como já mostramos em outra oportunidade [24]. enquanto que sua essência lógica passa automaticamente a ser I/D/D/D=I/D/3. Tomando-se por paralelo a sexualidade humana. Maria só poderia ser mesmo assunta para a posição que o referido remanejamento deixara vaga.276 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dupla diferença. I/D.

À primeira corresponde a figura do papa.O sexo dos anjos (ou demônios) É bastante evidente que assim se estabelece uma relação hierárquica extremamente rígida entre o Príncipe. P A R T ID O OU CLERO O 3 SE XO CASTRADO . o grande rebanho. Existiriam ainda outros modos reveladores combinando algumas das lógicas I. uma comunidade (I/D) dotada do saber científico (D/2). o segundo. temos então definidos três modos de ser sexual a nível I/D/3: o primeiro. À terceira. I/D/2 com D. o clero (especialmente o jesuítico). o clero e os crentes. a forte resistência dos protestante à promulgação do Dogma Mariano. D. infalível porque dotado da capacidade de imediata compreensão inter-subjetiva. de maneira muito óbvia. tomemos a mais simples dentre todas . para que não se veja associado ao mal (D). I/D com D/2. e I/D/2.7.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 277 de I/D/2 (I com D/2. reduzidos apenas à sua primeira componente I/D/2. porém. À segunda. Ver figura 10. D/2.7 . o feminino). 1 SE XO P A I O U G U IA O N IS C IE N T E O 2 SEXO E L IT E . único (I). I/D. POVÃO " A N IM A L I Z A D O " O I/ D / 3 I/ D / 3 I/ D / 3 I D / 3 I/ D D / 2 I/ D / 2 O MAL OU O IN C O N S C IE N T E D Figura 10. todos eles formalmente mais pobres do que os dois que acabamos de apresentar. I com D/3. os crentes. o terceiro. o masculino. Só para exemplificar. sobre-humana (D/3). o que vem explicar. I/D com D.

I e I. de uma revelação de Deus (I/D/4).278 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO as combinações: I. mas em seu modo mais elementar do Ser Único Criador frente à insignificância do ente criado. Trata-se. . não enquanto tal. Ela corresponde ao episódio em que Deus se revela a Moisés dizendo ser aquele que é (ou será). sem dúvida.

A nulidade crítica das ideologias não autoriza mais esperanças. não somos coetâneos à Modernidade? Já não seria tempo de trocarmos o nosso crônico mazombismo acadêmico pelo gosto de uma autêntica auto-compreensão? 11. O século XX demonstrou. os gozos minguados e quase sempre frustros ou ad aeternum diferidos. op- .2. dizem: o dualismo. A causa. alguns nos chamam Belíndia. Elas visavam apenas a substituir o sujeito liberal (sujeitado) da ciência. A insistência e os repetidos fracassos dos projetos de modernização geram o cansaço. e às vezes por trás também fatos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 279 11 Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira Em Pasárgada tem tudo É outra civilização. Manoel Bandeira. com enxurradas de fotos. Deveras. 11. junta-se o mal-estar da condição de “marginalidade voluntária”. Triste situação a brasileira: ao mal-estar na Modernidade. é flagrante paradoxo. no entanto. de bruços. a violenta impotência (que era já constitutiva) das ideologias [1]. concomitante a uma furtiva inversão de mando: a esquerda. na era da prostituição generalizada? Os ônus por anos a dentro chegam sempre de véspera e agigantados.1. que. que pode haver de mais constrangedor do que estar sempre por baixo.

4. obviamente. por suposto. a mais ousada: a passagem da estática à dinâmica cultural [6]. entretecidas e pró-jetadas [4]. desde a irrupção das tribos nômades de caçadores/coletores do paleolítico à atual modernidade científica [5].3. contemplamos a seqüência já realizada. também três tempos para cada: o tem- . Almejavam. o império hoje do pensamento único. idem para os híbridos – a “história” das mentalidades e o conglomerado frankfurtiano. para dar conta do processo de autodesvelamento do ser hiperdialético qüinqüitário do homem.280 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tando pelo sujeito coletivo. o que. de um lado. histórico-cultural) para mais além das ideologias. exige-se sejam as lógicas . a direita. (ver figura 11) 11. Em retrospecto. da lingüística e do estruturalismo antropológico. o capitalismo sem jaça. Em conseqüência. é inegável a insuficiência [2]. e de outro. Mas não se provou que não possa haver alguma saída. daí. por si e conjuntamente reavaliadas. perfeito. Uma cultura e doravante três lógicas associadas. muito nítida. das culturas nodais (lógico-inaugurais). mas não seguido (tal como valem os poetas). do hegelianismo e do marxismo. Propõe-se então a releitura da história da cultura parametrizada pela lógica [3]. 11. pelo sujeito romântico ou telúrico. Uma história hiperdialética é o mínimo que se requer. por coerência. o círculo quadrado. Como condição. Necessidade de uma pirueta. E a filosofia e mais as outras tantas “ciências” do homem? Embora precisem ser todas elas levadas em conta e muito a sério.as mesmas que lá estão mais ou menos soterradas na tradição . Heidegger vale ser atentamente ouvido. Torna-se agora óbvia a carência de uma compreensão histórica profunda (logo. todas. nada tem a ver com a nauseabunda e rose-blair terceira via(dagem) social-democrata (mais uma!). da psicanálise.antes ressuscitadas. Não há mesmo saídas laterais.

do sujeito liberal (no cinema. o tempo intenso do desejo de sua lógica recalcada e o tempo desesperado fingindo ter-se tornado a lógica de sua própria posteridade. o capitalismo consumista extensivo (desejos. “história” calculada) e. daí. note-se. a prémodernidade ibérica. sucessivamente. são os museus abarrotados de arte sacra!). mas domesticados adrede pelo marketing). no dizer já moribundo do disciplinado e terno Doutor Angélico). mas dela). na continuidade. o desejo da terra prometida (à exceção dos meio-irmãos filhos da empregada. pela sola fide. A força do impossível desejo de regressão lógica é o melhor guia no retrospecto reiterado: na vertente lógico-identitária. Um zoom sobre a Modernidade [8]. a tortura metódica (para que se confessassem números) de todas as coisas por meio de instrumentos e a medida pela fé de imaginários excessos sexuais femininos – enquanto se forjava o novo órganon exercitava-se à larga a caça às bruxas. as navegações e a expulsão suicida . ora. ainda vigente. Recordando: o confronto com o fingimento escolástico (reza a anedota que um ‘lixo’. o desejo do ser-uno (a velha filosofia) e. hoje. lógico-diferencial. sim. as correlatas “contestações” ideológicas.5. o desejo de origem (o mito). 11. o capitalismo calvinista de acumulação intensiva (a história desnaturada. da mecânica newtoniana de pontos materiais ao campo escalar de Higgs [7]). o desejo do ser-uno-trino (a física. o desejo da volta à animalidade (o mais velho ancestral do “desejo de morte”). preteridos!) e o desejo do corpo espiritualizado incorruptível (é só lembrar quantos. Tudo tão célere . na outra vertente. o didático herói john fordiano). o Protestantismo e a incontornável invenção. Inicialmente.que o diga Vieira! . à esquerda e à direita.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 281 po morno da lógica que ela sacraliza.dos cognominados da nação’. que queremos ver pelas costas (não nossas. pela ordem. o mesmo já do avesso. sucessivamente.

Fontes diversas recapitulando a história hiperdialética da cultura. a viabilização da oferta planejada. a re-significação religiosa (o fim das idolatrias. com a descoberta das minas de fundos de rio. aqui. expressa pela reversão do desejo da cultura. 11. por conseqüência. a re-significação cósmica do homem (tanto quanto do cosmos pela cultura!) [10].7. os homens só de carne e osso!). por não se tratar até agora de obra acabada. a inteligência e a sensibilidade destes e de muitos outros. é preciso estar alerta . os brasileiros. a certeza de uma cultura futura hiperdialética qüinqüitária. a nova verdade qüinqüitária e seu método correlato: o amor pela “leitura” [12]. por dentro. após. Entrementes.6. em direção ao ser de fato transcendente. Enfim. Para desvelar e seduzir (e por que não também um pouco para dar partida a hiperdialética qüinqüitária: o remanejamento das relações indivíduo/sociedade no plano político. conquanto que descentrada!) e cultural [9]. nem tanto. pela primeira vez. obra de desmedidos mamelucos. Agora nós. do fundamento lógico de todas as dominações sacerdotais [11]). Etapas intermediárias: a formação de uma territorialidade. e. a história desbloqueada. por fora a tez. o ser-feminino à altura exata do ser-masculino. O peculiar processo de formação da cultura brasileira [13]. econômico – entre as surpresas. cada um trazendo sua cota parte à nossa bela geléia geral.282 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que talvez se tenha hoje já à mostra os primeiros sinais do inexorável declínio. 11. sobremodo. Como tanto se almeja (mais os tempos. o mesmo valendo para as respectivas verdades: gozo e vitória nivelados à alétheia e adaequatio (o que nada tem a ver com o retorno ao mítico andrógino de Aristófanes). obra de seletos mulatos. meio sonolentos. a formação de uma interioridade. Sobretudo.

nem fraca. como se fosse a última e única. despudoradamente entreguista. à uma. em verdade. o super-cosmos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 283 aos perigos da globalização. cruel e debochada. Na TV e por todo canto. um se pôr sempre um pouco à parte à modernização: trata-se do povão fiel ao seu destino. elevado à altura do homem logicamente à sua espera. De modo algum somos Belíndia. Reagindo à inexorável superação. na cara. a originalidade? Trata-se da edificação da cultura nova hiperdialética qüinqüitária . Mas. atenção. uma resistência não reativa. todos os dias. a outra. para baixo. de ser-com-o-outro. o paradoxal dualismo: na verdade. sempre viva. subserviente. nossa elite burra. pedante – para cima. a artimanha de se fingir sua própria posteridade: eis.8. onde. 11. um reservar-se. Clarifica-se. à capela e murmúrio. 11. E por que não. afinal. a elitista retardatária pelo luxo (a rigor. a boa nova: os . Para nossa sorte.um novo modo de ser-consigo-mesmo. Há opções. na linha de resistência. em tudo clarividente. sem deixar de ser também sobre-humana (ao invés do superhomem. mas prospectiva. mas a vontade de Pasárgada. trombeteada. que em essência é cultural e por isso. amigos do rei. Ela é o cumprimento de uma destinação por demais humana. apenas pelas suas sobras e dejetos).do princípio antrópico [15]). de ser-com-todo-mundoem-paz-com-o-Absoluto. a pós-modernidade.9. prepotente. a popular auroreal pela originalidade [14]. para quem possa e as queira: uma.nem forte. a grande “marginalha” rural e suburbana. escancarada. dando alma a uma nova versão . que é a gente que de fato conta se o caso é cultura (não economia & finanças). em seu propósito último. mas significante . resolutamente etnocida. deveras. Na linha de frente (do inimigo). seremos tudo e por cima todos.

Ou será que. para não perder o fôlego.a vida eterna. Na circunstância. a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . por uns tempos. teremos. virá a grande depressão (econômica). já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! 11. é difícil resistir?! No entanto. haverá um (bastará um) pequeno grupo (LXX é um bom número!) que irá se propor. [16] Pessoalmente. nem explosões de casacos ou carros-bomba. mas deveras subsumir a ciência (com sua lógica. mas da própria . por amarelamento (como em 50 e 98). depois outra e mais outra. Se fracassarmos. seja preciso refugiarmo-nos no Egito ou nos agacharmos no mato. alhures. ademais. para não perder a língua.. tornando-se destarte a decisiva força revolucionária. nos atirado de alma e corpo inteiro à lata de lixo. seguida. grave impiedade ou. em última instância. Nas ruas. não repudiar.. a ordem tem que ser (culturalmente) sobreviver a qualquer preço. por desídia.10 Por isso. já. e. Talvez. se verá a reação desesperada: a ordem virá para a degola dos perigosos terroristas recém-nascidos. Como sempre. Dentre todos os fundamentalistas (reacionários). batucando. outro.284 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO prodígios da biopirotecnia. a necessidade iniludível de uma estratégia de sobrevivência pelo tempo que resta à Modernidade para que não faltemos ao encontro com a nossa destinação. como de costume. biblicamente instruídos. não só da história hiperdialética da cultura. ainda que numa caixa de fósforos. todos de braços dados. seus cálculos e seus três indefectíveis instrumentos – a balança. falando mais e o melhor possível. de repente. por certo fará vir ao mundo a cultura nova. um dia. nenhuma marcha interminável de fileiras. ainda que bem menos dotado e pré-destinado. a trena e o cronômetro). pela grande depressão psíquica (ou cultural). nenhuma classe atrás das barricadas. sim.

.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 285 cosmogênese. Com que cara iremos nos apresentar no Juízo Final. Situação cultural brasileira . POR OPÇÃO PELO LUXO 10 IMPOTÊNCIA DA CRÍTICA IDEOLÓGICA: DE DIREITA (FASCISMO SUJEITO ROMÂNTICO .I/D) 2 5 D/D CULTURA MODERNA 1 CULTURA MARGINAL BRASILEIRA 8 FIM.D) E DE ESQUERDA (MARXISMO SUJEITO COLETIVO . A DEGOLA DOS RECÉM NASCIDOS OPÇÃO PELA ORIGINALIDADE 4 I/D D I CRÍTICA DA CULTURA: ARQUEOLOGIA DA CULTURA PROCESSO DE FORMAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA 7 3 pré-D pré-I HUMANIDADE (I/D/D) ANIMALIDADE (I/D) Figura 11.?! CARACTERÍSTICAS DA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA Remanejamento das relações indivíduo/sociedade Re-significação cósmica Re-significação religiosa Real liberação do ser-feminino A verdade: o amor pela "leitura" 6 CULTURA QÜINQÜITÁRIA I/D/D HISTÓRIA DESBLOQUEADA ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA PARA A CONSUMAÇÃO DE UMA DESTINAÇÃO ASSUMIDA A 9 FINGIMENTO: BIOPIROTECNIA..

dito com maior precisão. A noção de História estaria originalmente associada à lógica transcendental ou da identidade (I) [3]. de uma lógica da História. estaremos nós aqui falando do futuro? É o que tentaremos precisar neste item introdutório. conjuntura e perspectivas brasileiras [1] Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. Paul Tillich Não existe a menor possibilidade de nos lançarmos aos estudos do futuro sem a prévia assunção de uma concepção. proceder à explicitação de tal pressuposto é.1 . De que lugar [2].A História como processo hiperdialético qüinqüitário . Nestas circunstâncias. também um imperativo de mínima ética.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 287 12 Considerações gerais sobre a história da cultura – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história. além de um entre muitos expediente para uma boa comunicação. 12. Ernst Cassirer L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. de uma filosofia ou.

solidária à verdade do Deus único. os “acontecimentos” intermédios. (Ver figura 12. DAS MENTALIDADES LÓGICO-DIFERENCIAL(D) HERMENÊUTICA CONSC. origem e destino.Concepções da História .1 . a liberdade e a própria consciência.1) HISTÓRIA NOVA HIPERDIALÉTICA (I/D/D) QÜINQÜITÁRIA FÉ E ENGAJAMENTO HISTÓRIA (I/D) HISTÓRIA HEGELIANA LÓGICO-DIALÉTICA(I/D) TRINITÁRIA ENGAJAMENTO “HISTÓRIA” SISTÊMICA LÓGICO-FORMAL (D/D) CALCULADORA CONSC. são mera conseqüência de incidentais descumprimentos pelos homens dos mandamentos divinos e do justo castigo que lhes é por isso infligido. O que esta concepção reclama de nós não pode ser outra coisa senão a fé inabalável de que Jó nos dá o melhor dos exemplos. para ela. Esta é a primeira dentre as concepções de história. TRÁGICA HISTÓRIA JUDAICA LÓGICO-TRANSCEDENTAL(I) UNÁRIA FÉ Figura 12. que iremos denominar com o neologismo unária. CÍNICA CULTURA (MENTALIDADES) (D) ARQUEOL.288 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que é o modo específico de se poder pensar a temporalidade. história judaica. momentos de criação e consumação dos tempos (escatologia). Ela é a História que se interessa primordialmente pelos extremos.

Assim. é a totalidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 289 Depois de Hegel. como em Marx/Engels. A noção de História é freqüentemente estendida para abarcar concepções lógico-diferencias que em essência a negam. ela apresenta uma deficiência intrínseca que a incapacita para a compreensão de origem e destino – daí. a revolução. por isso. como vimos. a dialética cria um modo imanente de dinamismo. que a dialética. e isto. a História seria o próprio processo de autodesvelamento do espírito absoluto [5]. esta história pode assumir também feição materialista. o paraíso. a noção de História ficou radicalmente associada à lógica dialética. o nosso engajamento. sobretudo. Ao internar a diferença. concluiu coerentemente Hegel. es- . Ela é uma história que solicita. Considerada sua essência lógico-diferencial. fazendo do conflito ou das contradições internas o seu verdadeiro motor. o comunismo primitivo. de sorte que a verdadeira história só pode ser aquela da totalidade lógico-dialética em busca de si mesmo. Além da versão original hegeliana. a nosso ver. o que torna esta história especialmente apta para explicar as mil peripécias do devir. entrementes. se constitui num evidente contra-senso. a sociedade sem classes e outras miragens para obnubilar a referida deficiência lógica. a que damos. a denominação de concepção trinitária. como enfatizava Lukács [4]. Como fazer compatíveis a temporalidade lógico-identitária e a espacialidade lógico-diferencial? Apelando à velha dialética? Mas esta está. o juízo final. Note-se. Em compensação. Concordemos em adiar por momentos uma resposta. especulativa (melhor dito do que idealista). A verdade da dialética. desvinculada do diálogo com outras modos de pensar. síntese das lógicas da identidade e da diferença. aqui também envolvida para poder dar a necessária volta por cima. pode facilmente degenerar em lógica da oportunidade e nosso engajamento em mero oportunismo.

contextual. De um lado. de seu apogeu e de sua queda. conforme sua opção lógica subjacente. da busca da explicitação de um sentido coletivo. governado por uma lógica da repetição. Identificam e medem fatores determinantes de seu surgimento. está a “história das mentalidades que. Sua postura é fundamentalmente hermenêutica: trata-se. De outro lado temos a “história” embalada como produto científico. os exemplo clássicos seriam Spengler [10] e Toynbee [11]. O homem não viveria propriamente uma história. de confessa inspiração nietzscheana. em geral. da condição a que fomos atirados não se sabe por que deuses tão francamente anti-einsteinianos. na circunstância. com bem maior propriedade. que procura isolar “unidades históricas” relativamente estáveis (em geral civilizações) para daí inferir padrões de regularidade.290 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tas paradoxais concepções históricas só podem se apresentar de duas maneiras. é a alegre (trágica) aceitação do jogo [9]. O que nos é dado. de sua continuidade. desenvolvida com o fim estratégico de permitir a mais tranqüila reprodução dos poderes. Hoje. de inspiração organicista. É uma concepção. o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss [7] e. onde impera o eterno retorno do mesmo. desta prolifera uma variante que poderíamos chamar “história científica e bem remunerada”. a genealogia de Foucault [8]. É um pensamento que abre mão do diacrônico em favor do sincrônico. deveríamos chamar arqueologia das mentalidades ou da cultura. mas o desdobramento epocal das mil máscaras do trágico se mostrando e se apagando num des-propositado jogo de forças. preocupando-se com as estruturas ou estratos profundos (em boa parte inconscientes) que constituem a alma de um agrupamento humano ou de uma época. sobretudo. marcada por uma visão trágica do homem e da sociedade. Teríamos como exemplos a escola francesa da “história das mentalidades” [6]. pre- .

Não podemos aqui evitar uma breve digressão lógica. DIFERENÇA D DUPLA DIFERENÇA D/2 NãoB B NãoB B NãoA A=NãoNãoA UNIVERSO CONVENCIONAL B = NãoNãoB Figura 12. que suicidem-se [12]. uma vinculando-se à lógica da diferença. embora seja o maior dos escândalos que não faça parte da cultura comum do cidadão [13].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 291 tendem-se um cálculo a médio prazo do ser temporal. solicitam mais verbas.2). outra à lógica clássica. como dissemos. é um indefinido. Estas duas concepções se distinguem. (Ver figura 12. o que é já o suficiente para revelar seu caráter cínico. diferentemente de B. Aos poderes. pois se trata de uma questão vital.Lógica da diferença versus lógica da dupla diferença . característica inalienável da lógica clássica. cuja negação não pode jamais vir a se constituir em algo melhor definido do que o próprio NãoB. História não há mesmo mais. Isto é simplesmente impossível porque NãoB. ou seja. que Não (NãoB) se iguale a B. por seu parti pris lógico. para deste modo poder se igualar a B. aos desgraçados. esta última precisando ser compreendida pelo que verdadeiramente é: uma lógica da dupla diferença.2 . Quando procedemos a uma diferenciação qualquer B. para ela. não nos é garantido o princípio do terceiro excluído. afinal.

por isto. O contra-senso da inclusão de concepções logicodiferenciais (espaciais e não. esta mera convenção promovida ao estatuto de verdade absoluta (exclusivismo da lógica clássica). dialética (concepção hegeliana/marxista ou trinitária I/D) e clássica. porque NãoA é tão bem definido quanto A. ou seja. I/D. de um faz de conta. muito bem simbolizada por Prometeu. D/D). e no entanto. Melhor a denominaríamos. sim. e abandonar NãoB. seja seguindo o vai e vem das concepções da histórias em geral (I. propriamente temporais) da História em um mesmo quadro referencial tem agora sua grande compensação. que uma primeira diferença pode produzir uma veraz totalidade. precisaremos tomar por referência uma primeira discriminação. A lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) deriva de um artifício. é que podemos ter de fato Não(NãoA) = A. formal. O caráter trágico da lógica da simples diferença (D) vem de que ela é o pensar da separação (relativamente ao Um/Ilimitado). B. lógica da dupla diferença. Agora. Agora nos é dado facilmente perceber o óbvio: que. da diferença (concepção trágica D). é tão só esta artimanha que permite o obsessivo cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos promovido pela Modernidade. em contraposição à lógica da simples diferença. seja seguindo . D. fazer de conta que B é uma totalidade e aí então. como requer o princípio do terceiro excluído. em que estão presentes as lógicas da identidade (concepção judaica ou unária I). Desenha-se um referencial perfeitamente homólogo à estrutura das lógicas de base [14]. nele. ainda mais precisamente. como deveria ser. transforma-a em lógica cínica.292 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para garantirmos a validade do aludido princípio. Muito simples. proceder a uma segunda diferenciação A. do terceiro excluído ou. lógica da dupla da diferença (concepção cínica D/D=D/2).

de nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 293 diretamente a linhagem das lógicas da temporalidade (I e I/D). I/D/2) da já bem conhecida lógica dialética (trinitária. Ela pode também ser entendida como uma dialética da dialética.(I/D)/(D)= I/D/D=I/D/2 -. tido agora não como um espírito-lógico-trinitário (I/D). desta feita. entre eles. Preliminarmente apresentamos na figura 12. Somos agora forçados a uma nova e breve digressão para salientarmos alguns dos principais traços que diferenciam a lógica hiperdialética (qüinqüitária. onde poderá situarse uma nova concepção da história. como uma síntese da concepção dialética hegeliana (I/D) com a hermenêutica das mentalidades (D).3 a dialética em dois ciclos subsequentes para fazê-la mais facilmente comparável à lógica qüinqüitária. Esta pode ser compreendida de diferentes modos. só que. coerentemente na linhagem das lógicas identitárias. transcendental e dialética trinitária. . resultando. Haveria ainda muito mais que o leitor poderá por si descobrir.à existência de um quinto lugar. chegamos sempre ao mesmo destino . à maneira de Hegel frente à sua dialética. tal como está destacado na figura 1. agora sim. mas como um bem mais complexo ser–lógicoqüinqüitário (I/D/D=I/D/2). numa síntese maior. Não é só: também pode ser compreendida de per si. síntese das concepções genuinamente temporais da história. I/D) [15]. como lógica do processo de auto-desvelamento do homem. lógico qüinqüitária .

294 DUPLO CICLO DIALÉTICO-TRINITÁRIO LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CICLO HIPERDIALÉTICO QÜINQÜITÁRIO I/D I I/D I CICLO DIALÉTICO I/D/D D I/D CICLO DIALÉTICO D/D CICLO CONTRA-DIALÉTICO CICLO DIALÉTICO D I D Figura 12. sabemos bem. dos procedimentos de cálculo do mundo que caracterizam essencialmente a Modernidade. Torna-se mais do que evidente que apenas desta perspectiva lógico-qüinqüitária é que se poderá proceder ã crítica radical da Modernidade [17]. necessária e coerentemente. mas sim um ciclo contra-dialético. ao primeiro ciclo dialético. tanto para o olhar. cuja complexidade vai inclusive requerer uma terceira dimensão representativa [16]. em especial. lógica da dupla-diferença. É a concepção lógico-qüinqüitária da história que. Um lugar por demais alto. que sabemos garantidora. um lugar de ar rarefeito.Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária Fica aqui evidente a maior complexidade da hiperdialética na medida em que nesta. certa- . Só depois o processo segue em direção a uma síntese maior.3 . segue-se não outro ciclo da mesma natureza. precisaremos assumir para poder efetivamente pensar a História da Cultura em toda sua amplitude. aquilo que esteja a emergir para além da Modernidade. quanto aos riscos a serem assumidos. que vai dar ensejo à síntese lógica clássica ou da dupla diferença. em última instância. De todas as lógicas mundanas [18] tão só a hiperdialética qüinqüitária subsume a lógica clássica.

enfim. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/2) governa. se põe na contramão. Perguntamo-nos naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização .válida para todos os homens em todos os tempos e lugares . respirar um pouco de esperança. Segundo nos informa Márcio Goldman [19]. dialética (I/D) e clássica. formal ou da dupla diferença (D/2). de certo modo. entre muitas outras coisas próprias aos homens.a cultura nova lógico-qüinqüitária! Devemos convir que deve soar ainda bastante estranha esta nossa pretensão de antropafagiar a ciência em nome e proveito da esperança ! Em Noções de antropo-logia [20] caracterizamos o homem como o ente dotado de um poder hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. lugar onde se pode. Citamos isto para que não alimentemos qualquer ilusão com respeito a quão estranho irá aparecer ao saber antropológico estabelecido. Os animais cordados operariam no nível lógico dialético (I/D).2. Por também subsumir as concepções judaica e hegeliana da história. o discurso articulado em sua plena acepção [21]. mormente aqui em Pindorama. da diferença (D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 295 mente. a assunção de um ponto de vista antropo-lógico que. na medida em que. mas mesmo assim. alerta ainda à espera de seu objeto. mas a razão humana iria mais além.e cita Frazer. Um esboço de história da Cultura . a maioria dos antropólogos .com 12. pouco mais do que nomeado . ela suscita e nos solicita tanto pela fé quanto para o engajamento. nem bem constituída.enxergou sua ciência desde sempre em crise. já contemplava ela a desaparição de seus mais caros objetos. Morgan. operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I). Tylor e Lévi-Strauss .

um essencial e particular comprometimento lógico [22]. mas não ainda um passo de natureza propriamente lógica na direção daquele desvelamento. mas algo ainda mais complexo. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [23]. pela variabilidade no tempo do seu vigor criativo e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo a história da cultura como um processo de autodesvelamento do próprio ser do homem. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D).296 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. da lógica por ela assumida e sacralizada. Esta última seria a expressão simbólica. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que teriam ocorrido significativos avanços. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. ambas naturalmente referidas à Natureza. e que lhe confere. como poderia ser diferente? Toda cultura teria. depois. inclusive. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. clássica ou formal D/2 e a própria I/D/2). de natureza hiperdialética (I/D/2). Aliás. assim. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I). (Ver figura 12. atestada de muitos modos. Elas serão genericamente denominadas etapas ecológicas [24]. dialética I/D. coletivamente objetivada. entre eles. pela idade.4) . da diferença D. por uma questão de coerência com o que vimos até aqui.

cultura medieval cristã (patrística). dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. I/D. cultura judaica. ainda por vir. D/2. cultura moderna de base científica. cultura sedentária de base agrária. I/D/2. não castradora. uma manifesta síntese das culturas anteriores [25] . cultura prometéica grega.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 297 Resumidamente e focalizando uma área restrita. pré-D. e. compreendendo apenas o Ocidente e o Oriente Próximo. cultura tribal. uma cultura à medida exata do homem. pela primeira vez. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. . I. cultura hiperdialética qüinqüitária. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. teríamos a seguinte seqüência histórica de culturas nodais: pré-I. que hoje domina o mundo. porque. D. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). por todos os títulos.

4 . algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura. uma lógica. entretanto.Esboço de uma História das Culturas Nodais É importante notar a perfeita homologia entre as figuras 1 e 4. pôde.3. 12. porém. uma lógica. descontado nesta última o “detalhe” das culturas “ecológicas”. Desejo. Nossa tese central daqui por diante.298 CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA I/D/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CULTURA MODERNA CIENTÍFICA OU SISTÊMICA D/D CULTURA CRISTÃ TRINITÁRIA (PATRÍSTICA) I/D CULTURA GRECO-ROMANA PROMETÉICA D CULTURA JUDAICA SIMBÓLICO CONVENCIONAL E MONOTEÍSTA I CULTURAS PROPRIAMENTE LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA DOS IMPÉRIOS DA ANTIGUIDADE PRÉ-D CULTURA TRIBAL PALEOLÍTICA CAÇADORES/COLETORES PRÉ-I CULTURAS ECOLÓGICAS Figura 12. não será mais uma cultura. fingimento e superação . Por isso. que vem demonstrar que por trás de ambas opera um mesmo arcabouço lógico. até aqui. a aparentemente desmedida simplificação da tese uma cultura. tão bem sustentar-se.

o número 1. Cada cultura tem sua lógica de referência .que determina o seu ser “desejante”. mas. triângulos de círculos . lógica dialética I/D . a cobra que se devora pela própria cauda. correspondente à cultura que a irá suceder que determina o que ela. como se verá. fonte de seu vigor criativo -. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda. correspondente à cultura que a antecedeu .o número 3. triângulos. o vermelho. vale dizer. a segunda. Tentemos melhor esclarecer. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas.o número 2. numa artimanha defensiva. de algum modo. a água e a serpente em hélice ou distendida. Para convencer-nos. lógica da diferença D . o ponto. o ar e a águia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 299 três lógicas [26]. figuras especulares em geral. com cada uma das demais lógicas mundanas. dá testemunho de outras lógicas. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. o segmento de reta. inclusive com aquela que a todas estas subsume. fingir que não mais é o que é. os gêmeos. já foi assinalado. Em outras palavras. associada a mais outras duas: a primeira. o círculo. o seu próprio futuro que teria resolvido madrugar. intentará simular ser. em que pese seu parti pris lógico. precisou ser feita mantido o postulado da igualdade de todos os homens. o azul. São vínculos ora claros e assumidos. agora.ficando. o branco. toda cultura. e da qual não discordamos). bastaria lembrar a profusão de manifestações arquetípicas que se pode recolher nas culturas históricas: lógica da identidade I . Esta mudança (de 1 para 3). o fogo e o leão. sim. ora clandestinos.que era nossa tese anterior .

de onde. com a lógica da cultura que lhe sucederá.o número 4. para que ela pudesse advir em seu lugar. o homem e a quinta-essência. lógica hiperdialética I/D/D ou I/D/2 . Dentro desse quadro geral. com a lógica da cultura que lhe antecedeu . lógica formal D/D ou D/2 . . a estrela socialista. e que por vezes “retorna” ou se re-volta como num sonho -.lógica que teve que ser superada (ou recalcada).5): a) de um lado. seu permanente pesadelo . seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. procede a real ameaça à sua dominação de época.o número 5. as pirâmides de base quadrada. a terra e o touro.300 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou nó borromeano. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? E por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas (Ver figura 12. mandalas [27] de toda sorte. os quadriláteros em geral e as cruzes. por suposto. b) de outro lado. o negro. mas que de algum modo permanece subsumida.

conhecimentos. Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. o que é ainda mais sutil. fingimento e superação Do ponto de vista lógico.Desejo. não se pode simplesmente apagá-la. é de algum modo silenciá-la. o desejo da cultura [28]. na verdade. como as culturas. Desde sempre. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. recalcá-la ou. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou margi- . toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. através de um processo de reiteradas substituições. ou seja. forçá-la a abandonar o já pensado por outro por pensar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA POR VIR 301 FINGIMENTO SUPERAÇÃO CULTURA DE REFERÊNCIA DESEJO CULTURA ANTERIOR RECALCADA Figura 12. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e duradouramente exercida. de modo mais ou menos claro. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. instituições. Isto nos faz compreender. o que se pode. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico/emocional dos indivíduos. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. afinal.5 . técnicas e múltiplas artes.

que. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. também não se pode ter dúvidas. como não poderia mesmo deixar de ser. mas que ao final é o que a empurra para a frente. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua. pelas ideologias. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. convenhamos. tanto de suas excelsas realizações. ameaçadores. pois já começam a se delinear em seu horizonte. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. como de seus piores feitos. . todas o pressentem. ou. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. e tantos mais) e que a dissimulação aqui aludida é apenas um dentre eles. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 12. Toda cultura. pelo menos. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação (pela violência.5) Toda cultura teria. E quando isto acontecer. uma disposição desejante. e que de maneira inexorável irá confrontá-la. No entanto. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. precisamente em seu fingimento. O golpe fatal sobre qualquer cultura.302 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. é o melhor que poderia mesmo fazer para tentar embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. que é seu verdadeiro motor imanente. inclusive aquelas à esquerda e à direita. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. simula ou finge ser o que ainda virá. até preventivamente mandando executar os recém-nascidos. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural. pois.

O mito vem suprir exatamente este desejo de origem. como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo . metaforicamente. seria o das culturas dos grandes impérios de base agrícola. A probabilidade de subversão de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. o fruto esperado. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa.o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. tanto quanto terá sido negado que estava já em gestação nas suas próprias dobras. da Antigüidade (pré-D). A agricultura tomada como base da subsistência. em essência. do esgotamento de seu vigor criativo. enfim. margens e desvãos [29]. perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. Como bem observa Mircea Eliade. quer a cerealicultura (Tais mitos são mais ra- .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 303 A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas. O primeiro. do desvanecimento do seu próprio desejo. Tempo perdido. A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . Tomemos alguns exemplos. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (por isso podem parecer retrógradas) com uma corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (por isso podem parecer delirantes). a liberdade pelo cativeiro. acompanhada de investimentos na organização da produção. Significam. na formação de estoques e na sua distribuição.

é atribuído um sentido. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. mas sentido apenas como índex ou como análogo. que irá permitir a . é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). ainda que oculta. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. nas culturas evoluídas. (Ver figura 12. o sentido permanece ainda afeito ao traço. que. por isso. ora metonímicas (análogas aos processos primários inconscientes de condensação e deslocamento). para fazer frente à grande ameaça do conceito. uma intencionalidade atuante. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. inventa-se a escrita.6) Tudo isto. como assinalamos. ora metafóricas. entretanto. Para tanto e muito mais. e por vezes radicalmente reinterpretados. ainda como um entre os múltiplos atributos dos entes. em essência. (negritos nossos) [30]. Neste tipo de cultura.304 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ros. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O mito. nas culturas de base agrícola (pré-D). o constituiu. malgrado. vivas ou inanimadas. Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. Ali vige o simbólico. A todas as coisas. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. o simbólico refém da espacialidade que. É então pela idolatria sistematizada que esta cultura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm.

CULTURA MONOTEÍSTA MAGIA ANALÓGICA I JUDAÍSMO MOSAICO Pré-D Pré-I MITO CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL Figura 12. sabemos to- .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 305 expressão do lógico enquanto tal.três mil ou mais outros vinte tantos mil. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. à volta do bezerro de ouro. que estiveram reunidos de dia. da religião do Deus único. o círculo de seus adoradores . religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. não importa -. Como se fora numa pintura de Chagall. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). a fio de espada.6 . à noite.Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade. cuja gigantesca e emblemática figura. absoluto transcendente. por nada subornável. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. em definitivo saída da Natureza para o mundo da Lógica ou da pré-Idéia. inseparável do pré-domínio do simbólico pleno ou convencional.

não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. Um segundo exemplo seria o da cultura grega comprometida com a lógica do outro ou da diferença (D). (Ver figura 12. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser. porque é desta última.7 . que é doravante ser outro (dos deuses). que se alimentará o vigor criativo dos gregos. em especial.Cultura prometéica grega (D) . Daí constituírem os gregos a cultura trágica por excelência. diria Hölderlin. que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). e não da outra. A relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. O personagem símbolo aqui é Prometeu. daquilo que foi e agora é falta). E se vê condenado a não mais retroceder. que se pode considerar como o fundamento lógico do trágico). posição que vai lhe custar o mais alto preço. um de costas para o outro.7) CULTURA DO CONCEITO OU DO ESPÍRITO CRISTÃ DIALÉTICA PLATÔNICA POESIA EXORBITANTE I/D D I CULTURA GREGA CULTURA DA IDENTIDADE FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA Figura 12. é Moisés.306 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dos.

o que encobre/ revela. a dissimulação que ela realmente é. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. de modo incontestável. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser.do que esta deveria. veremos que a pátria do ser. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. do um-todo ou do Deus único. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial.Hölderlin -: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. além. malabarismo para uma sobrevivência impossível . Reparando bem. pretensa extensão da Natureza . La Grèce. não produz filósofos e perguntas. mas. mas não chegara a realizar -. particularmente a poesia trágica. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. ao invés. lamentablement. sombra [31] Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. A arte grega.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. mas Graça!). Para deixar isto ainda mais transparente. com a agravante de te- . Nesta.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 307 Para compreendê-lo em toda sua significação. ou seja. por excesso de fingimento. por falta do distanciamento. à imitação da própria imitação. simular sua própria auto-superação como arte. beauté suprême. vale aqui apelar à sensibilidade do poeta . como tal. uma profusão de profetas e suas duras admoestações aos homens pela sua infidelidade à Promessa (que não é produto de roubo. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). grega no caso.

alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . Eugen Fink.e a filosofia. mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro. viria a ser a prerrogativa própria da idéia (ou do conceito) [34]. mais individual. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. para que fosse ele buscado além. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). Por isso. sendo também mais universal e o mais universal. não por serem imitadores. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. Hölderlin. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão micrométrica. como bem registra A República [33].que então exorbitava . Il interprète plutôt le beau . Apenas veríamos em Platão menos um traidor [32] do que um clarividente. Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico. sabemos. no que respeita a pretensão do belo ao vero. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique.Platão. chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D).308 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO rem sido alertados em tempo por um dos seus maiores ... (negritos nossos)[35] Perceber tudo isso não é assim tão difícil. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. como se vê. a verdade da parte pela da totalidade. o que. já lembrado. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. alguém que não faltou aos seus.

par conséquent sans savoir réelllement. . la poésie devient alors. des spectacles contre qui la pensée métaphysique { isto é. imitation d’une imitation. Dans un pressentiment obscur. [36] Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos. La poésie est essenciellemente mimétique.. Cependent elle est imitatio. (negritos e colchete nossos)[38] . la poésie imite le vrai savoir. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. on lui arracha son prétendu masque divin. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. mas era algo essencial à própria afirmação da filosofia (bem entendido. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre. originelle. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique.. para Platão. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux.. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie..FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 309 comme chemin et échelon vers le vrai.. (negritos nossos)[37] Muito importante é observar que. mimésis. Fink nos proporciona um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie.

Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. recordemos. pois. isto é. em Théorie de la religion [39]. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. Diferencia-se da cultura de base agrícola (Pré-D) porque esta se põe como outra da Natureza. como visto. por ser lógica e historicamente primeira. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega mais do que 600 anos após à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia.310 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A nosso juízo. no caso. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o . Como último exemplo. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. no conflito da idéia com o excessivo poético que. vamos tomar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores que dominou o período paleolítico e que. a pré-I? Como poderia se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. viver da caça a outros animais. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/D= =I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. porém. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. Já pertence. dissimulado. Georges Bataille. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. para sobreviver. ao mundo da cultura. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” anterior à “lógica”. esboça seus primeiros traços em Platão. apresenta algumas interessantes peculiaridades. que. no entanto.

Com isso.ganho da animalidade (I/D) para humanidade (I/D/2). ou seja. no que tange ao seu modo desejante. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. na sua própria expressão. concluímos que as culturas tribais. Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. mas da renúncia a um ganho lógico . Em outras palavras.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 311 alimentar-se de e ser alimento por outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. (Ver figura 12. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. o fato é que já se pode lá assegurar a . Apenas deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico.8. A condição de caçador o identifica com a caça. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (anterior a pré-I). para sobreviver.8) PINTURA RUPESTRE CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-D Pré-I HERÓI MÍTICO CULTURA ANIMALIDADE IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL O ANIMALIDADE Figura 12. mas. nem assim constituem uma verdadeira exceção. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (pré-I). como a água na água.

animais e homens. e mesmo em se tratando de um semelhante. não mais se o devora e sim o escraviza. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura de base agrícolas (Pré-D). fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. mortos ou vivos. isto é. Reconhecemos aí o herói . quando já se desenhava para eles o espectro da agricultura. contudo. isto é. da caça aleatória para a caça assegurada. ou ainda por um espírito ou por um deus. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. especificamente. Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. O autor da proeza está historicamente perdido. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente!) criada pelos xamãs para a conservação de seus poderes. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pela lógica da identidade de todos os entes. irá por água abaixo. precisariam simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. conforme nos ensina ainda. mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. (Ver figura 9) Toda esta artimanha representativa. postergando o advento da cultura de base agrícola. [40] O fingimento nas culturas tribais. no entanto.312 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vigência de algum tipo de xamanismo. não mais como o que se perdeu. Visa-se o outro agora como meio. por força de um movimento de subversão cultural. Isto posto. inclusive também os deuses. pelo trabalho agrícola. de penetrar nos corpos dos humanos. Para tanto.

10) O mais notável dos feitos de Newton . spin. De fato. força. entretanto. mas as equações matemáticas segundo os quais o mundo fora criado. espaço (L) e matéria (M) . Discute-se tudo na Física. Seus grandes heróis são Galileu. a Física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). corrente elétrica.tempo (T). com sua mecânica.a Física [42]. sua face disfarce é a técnica e seus excessos. porém. O fez. temperatura e o diabo [43]. porém. particularmente hoje. Em suma. desejosa do uno-trino (I/D). bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. jamais. que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2).foi. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. entretanto. (Ver figura12. indução magnética. Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [41]. põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. pressão. que sejam eles três . trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da sociedade de base agrícola. A Modernidade . Sua face desejante situa-se bem no cerne de seu glorioso cientificismo . energia. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses.pré-assistido por Galileu e alguns outros . essência lógica da cultura medieval cristã (I/D). Em suas grandes crises. Newton. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto unotrino desejado (I/D).tempo ab- 12. espaço e matéria.4. a biopirotecnologia. a Física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2). Einstein e tantos outros. como se fossem três absolutos .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 313 prometéico. aceleração.suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade.

em especial a biotecnologia. CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA POR VIR I/D/ SUPERAÇÃO 2 PÓS-MODERNIDADE BIOTECNOLOGIA ESPETACULAR CULTURA CIENTÍFICA MODERNA D/2 I/D CULTURA TRINITÁRIA CRISTÃ FÍSICA (CÁLCULO DO UNO/TRINO: REDUZUIDO A TEMPO. de certo modo. relatividade geral. mecânica quântica. eletrodinâmica quântica . A técnica.relatividade restrita.10 – A Modernidade De outro lado. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . pelo menos um gritante e bem compacto oxímoro. enganadora. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento.314 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO soluto. ESPAÇO E MASSA) Figura 12. espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível. à plenitude lógica. a partir de então. daí porque. a história da Física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu comprometimento mútuo. Se não uma “heresia triteísta .e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [44]. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética. simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzi- .

de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. a lógica clássica ou formal (D/2) e a lógica transcendental ou da identidade (I). omissos. enfatuados. agora. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. metamorfoseado. além de um saber da aerodinâmica (D/2). pois. deixa bem à mostra (e de costas) quão risíveis são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. O avião já em vôo não é tecnologia. não chega à hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). o que. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das de- . Na técnica concorrem. constituindo-se apenas em seu arremedo. Para se chegar a voar é preciso. assim para toda a eternidade! A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. a propósito. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume como da recomposição informacional de todas as coisas. entretanto. futuramente. sim. com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. do homem em todos os seus pormenores. nada solidários. não se sabe como. mas novo saber cristalizado (D/2). respectivamente. mas. insensíveis. É o velho demônio” de volta. de um lado. cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. sem qualquer imaginação. o saber científico. fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. A lógica da técnica. também a inabalável determinação para fazê-lo (I).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 315 dos (os transplantes seriam já uma preparação para tanto).egoístas. de modo obrigatório. em compensação. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. contra a morte em geral no mundo. em juvenil anjo de Maxwell. Continuaremos tal como somos . mesquinhos. de outro lado. a determinação ou o empenho numa realização. É também o fim da História que tanto se apregoa. seres vivos e memórias. inclusive.

. mas talvez milhões ao mesmo tempo. exigiria muito mais: para começar. como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. das organizações burocráticas e similares. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária (I/D/2) através da pseudo síntese machista da ciência (D/2) e de seu sujeito sujeitado (I). mas tão apenas conjecturas. como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). A verdadeira síntese qüinqüitária (I/D/2). Poder-se-ia assim dizer. o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. entretanto. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna (D/2). além. animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. das regras de poder. reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. a recuperação das lógicas da diferença (D) e dialética (I/D). Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). a rigor. em linhas muito gerais. da razão autenticamente feminina [45].a sistematicidade -. Não é difícil. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica para buscá-lo à frente. por razões óbvias.à lógica transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. Daqui por diante. coetâneo e co-fundador na fixação das bases do cientificismo que viria justamente constituir a essência da modernidade?! [46] Eis. vislumbrar como se dará a superação da Modernidade.316 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO terminações à lógica formal da ciência . lá. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. não se pode apresentar ainda fatos. ou seja. com toda a precisão. o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos.

tem que ser olhada não como a questão da opção por um paradigma. ou melhor.11.5. todo esse alarido sobre a modernização brasileira. Sabemos todos que Descartes é quem inaugura (reflexivamente) a Modernidade. tendo como seu sujeito. como uma nação que nasce com a Modernidade. A Modernidade. mas como a questão da sua ocultação ou dissimulação. completa- 12. Este é verdadeiramente o nosso grande conflito interno. é. Em suma. aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética. O Brasil e a Modernidade . o cogito. era ser-calculável. ali está posto de maneira implícita. um discurso acerca de qual opção de sujeito da ciência se intenciona deveras dissimular. a problemática brasileira é posta em termos do dilema ser ou modernizar [47]. entre a formação cultural brasileira. Vamos tentar esclarecê-lo com a ajuda da figura 12. para nós. pode ter o problema de se haver com a Modernidade? Não pode ser isto. no fundo. Ainda que inconscientemente. A partir daí fica fácil perceber a essência do problema da incompatibilidade entre a formação social do Brasil. uma nação que chegou a liderar o processo europeu de modernização. de Sérgio Buarque de Holanda. obedecendo à lógica do terceiro excluído. como de resto todo o discurso (ideológico) sobre a Modernidade. o que se está sempre na verdade evitando ou ocultando é a questão de quem deva ser o sujeito da modernização (racionalização) que. fundada por Portugal. Desde Raízes do Brasil. e a Modernidade. Entretanto. Por quê? Porque afirmou que o mundo objetivo era geometria.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 317 mas tão somente a sua subordinação ao Pensamento. Mas acho que temos que aprofundar e entender melhor como se dá essa incompatibilidade e porque persiste este dilema. entrementes.

sujeito de projeto. de qualquer coisa que o faz degringolar. põe de novo o sistema em funcionamento.318 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente transparente a si mesmo. Então surge um sujeito isolado – às vezes até um punhado de indivíduos isolados. que pode ser a chegada da estrada de ferro. depois de derrotar a adversidade. de uma catástrofe natural ou artificial. [48] Todos os filmes americanos são a mesma coisa . o famigerado herói fordiano . de índios. de ETs. ou. de um bando de assaltantes. se quisermos. obviamente -: existe um sistema comunitário funcionando. aí ocorre o contingente. mas nunca a comunidade – e.uma caricatura. Figura 12.11 .Problemática cultural brasileira . sujeito liberal.

E ganhou vários Oscars! E muita gente pensa ingenuamente que eles perdem tempo em Hollywood fazendo filmes só para nos enganar. a lógica funerária. ainda que similar. depois também vendem para cá sem correrem o menor perigo de que os imitemos. O sistema não pode por si produzir outro sistema. é a junta médica que pretende fazê-lo –. uma álgebra axiomatizada. Logo. passando do radical trinitarismo de Santo Agostinho (dialético I/D) para o tomismo (lógico-clássico D/2). ou seja. sujeito intervalar entre dois sistemas. portanto. não é o sistema vigente [49]. com a própria Igreja tentando demonstrar para todo mundo que a ciência seria desnecessária. porque nós não conseguimos ver o filme. Tudo começa no ano 1000. demorou cerca de 500 anos. não se podia mesmo ter uma cultura viva que fosse estritamente científica. o cientificismo. contra o exército americano. a lógica do sistema é a lógica da morte. Para tanto. Desvelar e instalar o sujeito da ciência. mas pela descoberta do sujeito que . um organograma. nós vemos outro filme. que tinha uma tática e ele executa outra por conta própria. Quando se faz um sistema de folha de pagamento. ou 1250. ou 1100. poderia facilmente perceber isso: o sujeito se rebela contra a junta médica – não é um médico que vai cortar a perna do herói. não pela adoção do cientificismo. A consolidação da Modernidade. mas como simples entretenimento). ao final. a única coisa que se enquadra bem nesta lógica . É necessário para tanto um sujeito fordiano. é uma história de seguidas insubordinações. Não! Eles fazem filmes para reiterar o que são. mas a cultura da sistematicidade. procedia à aristotelização de sua teologia.é o cemitério. Dançando com lobos. contra o regimento. o sujeito liberal. para educar. por exemplo. não dá para ele próprio gerar outra coisa. não uma lição de vida (cultural americana. Porém. O que se pode sacralizar.um retângulo com uma porção de retângulos dentro .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 319 Quem viu.

há também uma liberdade de fato. desenvolvimento tecnológico. Ou melhor. o tinham por lá até bastante. propondo que as verbas sejam destinadas à criação de tecnologias que venham contribuir para resolver os graves problemas “sociais” [52]. veremos a turma que segue o paradigma americano propor que as verbas sejam dadas aos indivíduos que apresentem o melhor projeto. precisamente aquela de um sujeito fordiano. à racionalização/burocratização do mundo. a ciência vai ser feita para quem. imediatamente. não constituíram/ consolidaram o sujeito que lhes seria apropriado. A cúpula da Igreja não queria discutir sujeito nenhum. sujeito de projeto. a turma à “esquerda” contra-ataca. mas o expulsaram! [51] O problema é pois quem deva ser o sujeito do sistema. porém. Então. É sempre a mesma coisa! Nós temos uma enorme dificuldade em aceitar aquele su- . foi obra dos protestantes [50]. havia a necessidade de dar-lhe uma resposta. não se mantiveram na vanguarda porque acreditaram que lhes bastasse o Tratado de Tordesilhas (a lógica do terceiro excluído imposto ao mundo com a benção de Deus). obviamente representado por um sujeito simbólico absoluto (delegado do Absoluto). por exemplo. Por isso. depois que o protestantismo colocou a sua solução. a Igreja deixou emergir o jesuitismo latente. por quem e em proveito de quem? No paradigma anglo-saxão. Assistindo-se a uma reunião em Brasília sobre. Existiriam alternativas? O mais interessante é que esta questão se pôs logo no início da Modernidade.320 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lhe seria próprio. ou seja. que formula uma contra-proposta (contrareforma): no lugar do sujeito calvinista (I) colocar-seia um sujeito coletivo (I/D). para permitir que os sistemas se reproduzam. o sujeito liberal. todos os cientistas estão a serviço da reprodução dos sistemas. Embora Portugal e Espanha tivessem dado partida à Modernidade.

ser aquele que fazia ciência para ele próprio “faturar”. Com que finalidade? Para ajudar numa reforma educacional. era uma parte da Polônia ocupada. e. para os jesuítas. uma reforma “modernizadora” no sentido dos tzares: ciência sim. foram se formar na Sorbonne. É incrível a carga que o Marquês de Pombal e os espanhóis fazem sobre a Ordem dos Jesuítas. sim. o sujeito liberal ou fordiano. no fundo . que acaba louco. Santo Inácio. exatamente por tal. se tornar um mau exemplo. Galileu herético. ela ordenaria “ortodoxar” a Polônia”. Resumindo. no caso. que sobe no muro e passa três anos procrastinando a decisão. e os ibéricos mais ainda o apertam até que a Ordem é “dissolvida”. ele fez de conta que acabou com a Ordem. Em que escola Lenin poderia ter aprendido o que fazer?! A exata fórmula jesuítica! É o maior absurdo dizer que a Igreja era contra a ciência se os jesuítas. Quem leu o livro do Pietro Redondi. a ciência deveria ser feita coleti- . isto é. entrementes. mas com um sujeito coletivo representado pelo monarca absoluto. pressionam um Papa. A Polônia ficou católico-romana exatamente porque o Papa recuou. mas do texto facilmente se o depreende . uma boa leva de seus integrantes continuou se refugiando na Rússia que. inclusive científico.de querer aparecer. fazer sucesso. com os jesuítas. e nada tem a ver com a ciência propriamente dita. pressionam o seguinte.não é o que diz Redondi. desde o fundador.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 321 jeito individualista. precisa ser representado por um sujeito emblemático absoluto: é a proposta ciência e absolutismo. até hoje. E. Catarina da Rússia então os recebe na Polônia e chega a ameaçar o Papa: se insistisse em dissolver a Ordem em seus domínios. a proposta jesuítica é a de um sujeito coletivo que. [53] verifica claramente que o problema de Galileu não é com a Igreja. todo jesuíta é formado em alguma coisa de cunho acadêmico. Ele foi acusado formalmente do não cumprimento de sua palavra e.

já estando pervertido. Em última instância. pelo Secretário Geral do Partido Comunista Chinês no continente e pelo patriarca da “família alargada” na diáspora chinesa por todo o mundo. Então. Tudo por uma simples razão: a lógica clássica (D/2) pressupõe e subsume a dialética (I/D). pretende-se que a comunidade ou o ser-comunitário (I/D) vá se servir da ciência (D/2) em seu próprio benefício. do Japão. pois. é também disso uma variante. é uma solução impossível. O que há aí de importante que precisa ser visto? A maioria das “pessoas de esquerda” no Brasil acha isso bom e nós também.11). sub-repticiamente também se propõe inverter a seta. Começou-se lá com a intenção de colocar a ciência a serviço do coletivo (NEP). só que optar pelo sujeito coletivo e ao mesmo tempo fazê-lo determinante. Basta lembrar a expressão socialismo científico: socialismo é o sujei- . e não tributário ou intervalar. Mas quando é proposta a solução à esquerda (D/2 com I/D). Isto é a grande ilusão de todas as esquerdas. de fato. mas sabe-se hoje no que isto. Ficou desde então este tipo de “alternativa . não vai perverter jamais [54]. no caso. que faz do último sujeito tributário do primeiro [ver de novo figura 12. não se pode inverter a seta que no capitalismo anglo-saxão ou paradigmático vai do sistema para o sujeito. resultou. é a lógica do sistema (D/2) que prevalece e o exemplo evidente é a URSS. ela é produto já de um ciclo contra-dialético. como mostramos no item 1. A seta que iria do sujeito coletivo para a ciência vai se inverter e se irá ter uma burocracia usando de uma ideologia para dominar a massa. O capitalismo anglo-saxão não tem esse problema. ou capitalismo oriental. é ciência (D/2) com sujeito coletivo (I/D) representado pelo Imperador. a primeira é lógica de um pensar mais poderoso do que a última.322 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vamente e em benefício da coletividade. pois o indivíduo do projeto (I) está a serviço do sistema. O que se está chamando hoje capitalismo confucionista.

O que faz ela da dialética (I/D). mas estão agora acabando com o respeito aos velhos. é repetir Descartes. de certa forma. . sujeito poético. da História? A faz história calculada. Precisa-se explicar mais?! O Japão vai pelo mesmo caminho. na verdade. a Modernidade). Maior evidência não existe! Não é isso que toda empresa faz? Sozinha. sujeito inconsciente. Marx é importante para criticar o capitalismo (melhor diríamos.o que. bem perto de nós. a posição dialética (I/D) não é o lugar de uma solução. sujeito telúrico. se baseia em ambos: ele é a afirmação das lógicas da diagonal masculina (I e D/2). Assim. entretanto. mas não para propor um sistema alternativo. povo. A Modernidade. Entremos numa empresa qualquer: a primeira coisa que se irá constatar é a obsessiva pré-ocupação com o cálculo da taxa de retorno do capital. ou. a lógica clássica posta a serviço da dialética. sendo. isto está hoje mais do que comprovado. que é a do sujeito romântico. uma outra alternativa. em essência. ele só está resistindo um pouco mais à perversão em razão de sua grande homogeneidade cultural. o que levará à sua própria dissolução cultural.. baseado num sujeito coletivo (I/D). isto porque são elas justamente as lógicas que a Modernidade está recalcando/desnaturando. entretanto. o empresário samurai. a estabilidade do emprego etc. ou seja. portanto. Com o esfacelamento da URSS.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 323 to como ser coletivo (I/D) e científico é o mundo objetivo (D/2). ele se baseia na racionalização do mundo (D/ 2 ) ou então no sujeito schumpeteriano (I) . os possíveis lugares de sua crítica. Existe. Pelo mesmo raciocínio. As outras duas lógicas (I/D e D) constituem o avesso da Modernidade. quem está apostando na China como a grande nação capitalista do século XXI irá se decepcionar. é apenas o lugar para uma crítica. eles aprenderam a bem usar a ciência e a técnica. Todos que se manifestam a favor do capitalismo dizem que.

entretanto. O fascismo é uma alternativa. Se fraqueja com a idade. um exagero – é comunitário/absolutista (I/D). porque tem lá sua cabeça jesuítica. O indivíduo aqui tem mesmo vergonha de ter lucro. mas igualmente os EUA (sujeito I). justo quando o capitalismo começava a deixar de ser produtivista para tornar-se essencialmente consumista.bem diferente da nossa. Vê-se agora uma simetria temporal perfeita: o marxismo é uma resposta retardada ao cálculo da História. Por isso. Lá começou-se a sentir. velhos rivais do logos heraclítico (D) [56]. bem depressa. e como já se viu. uma pseudo alternativa para a Modernidade.324 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito libidinal. o comunismo não tem mais futuro. vale dizer. Ele pode ficar rico. à acumulação pré-calculada do capital. mas no aspecto educacional sempre houve a preponderância do luso-jesuítico. ou capitalismo de marketing. Nós temos uma formação ibérica forte. Foi precisamente por isso que ela respondeu por antecipação ao consumismo [55]. Para Heidegger. ou seja. com o sujeito romântico (D) no lugar do sujeito liberal (I). mas o mesmo não se pode ainda seguramente afirmar do fascismo! Entrementes. perverte. Foi precisamente por isto que o fascismo apareceu tardiamente (como força social) em relação ao socialismo. (Retornar à figura 12. A tendência da “elite” brasileira – a generalização aqui é. antes do que em qualquer outro lugar. não faz uma grande doação benemerente a . e o fascismo é uma resposta antecipada ao consumismo. mas sempre com a consciência culpada.11) A Alemanha tem uma elite . sem dúvida.que sabe bem o que é cultura e sua importância. o marketing. é óbvio . o capitalismo e o seu novo motor. o inimigo da Alemanha (dizia Europa) não era apenas a URSS (sujeito I/D). porque também inverte a direção da determinação ciência/sujeito. melhor dito. vigente no paradigma anglo-saxão. como um agressor da cultura.

embora nós não queiramos ver (por isso se diz que o Brasil cresce à noite. O único jeito de o fazer é acabar com a elite. Entrementes. O atual Governo está mais ou menos seguindo esta dupla receita: põe a classe média para vender cachorro-quente e assim. matar de fome a baiana do acarajé. ou mesmo fazê-lo o ano inteiro para poder desfilar condignamente no Carnaval. De outro lado. pré-D). mas ninguém quer se botar no devido lugar (I). sem ninguém ver ou atrapalhar). mas simplesmente muda (se fantasia. principalmente onde pesa mais a cultura africana. na circunstância) para sujeito ostensivamente libidinal (D)! E o povão [57]. vale dizer. o negro só quer saber de magia e o português é patrimonialista. inves- . incrível. mais precisamente. melhor se diria. trabalhar racional e disciplinadamente sim. puxa para o lado do sujeito libidinal (uma forma arcaica de D: pré-D). Não há quem não o queira. Ou seja. Por que não se consegue modernizar o Brasil? Porque a elite puxa para o sujeito coletivo/absolutista (I/D) e o povão puxa para o sujeito libidinal (D. o Brasil está sendo construído. com isso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 325 uma universidade ou instituição filantrópica. não dá para fazer nada. dizem de um lado. Há um artigo seu. empresarial e até intelectual está traindo a causa brasileira. a dificuldade de modernizar o Brasil. como nos EUA. no qual afirma que o índio é preguiçoso. Boa parte de nossa “elite” política. e ninguém quer saber do projeto (I). se diz que com esse “povinho” não dá. no juízo (ou ausência de juízo) dele. Daí. mas para então poder gozar mais. e vende a economia brasileira em bloco para empresários monopolistas estrangeiros. poder tomar sossegadamente sua cerveja com os amigos. com toda nossa herança histórico-cultural. na sexta à noite. pela concorrência. Não se aproveita nada – é o que o Roberto Campos nos ensina. Trabalhar duro a semana inteira para.

Ademais. e também não adianta insistir em entrar para a Modernidade. no pensamento único. e nós já estamos bem próximos de alcançá-los! Apesar da cegueira das nossas “elites” políticas. Há. como acreditava Darcy Ribeiro. o Brasil não é um bom candidato ao luxo. Construir uma cultura é tarefa para 500 anos ou mais. pelo menos. porque temos. ainda. um nível de desenvolvimento cultural que seria o de uma cultura qüinqüitária. haveremos de chegar lá. na síntese. que está. ele está quase. para quê? Para ocultar nossa grande alternativa. eclesiásticas e intelectuais. ele o é deveras à originalidade. Só há uma coisa para a qual temos vocação: é a síntese lógicoqüinqüitária.326 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tindo no fim da História. Em suma. por vir. militares. para nós não há saída à esquerda e não há saída à direita. todos os componentes de base para tanto. . Eu não digo que o Brasil está pronto. mais do que quaisquer outros. empresariais. na qual exatamente deveríamos apostar.

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Notas

Capítulo 1

1. THOMAS, Louis-Vincent. A etnologia, mistificações e desmistificações in História da Filosofia – Idéias e doutrinas, dir. F. Châtelet, v.7. Rio de Janeiro, Zahar, 1974 2. LEIBNIZ, G. W. Princípios da Natureza e da Graça in Obras Escolhidas, Lisboa, L. Horizonte, ?. p. 149. 3. KANT, Crítica da Razão Pura, Lisboa, Gulbenkian, 1989. 4. O infinito matemático é um artifício para justamente ocultar, no mundo da matemática, a problemática do Absoluto, assim como o zero é o artifício similar para ocultar o Nada, que nos imporia a incômoda questão da origem dos números. Portanto, a atribuição da infinitude, qualificada ou não, feita ao Absoluto é um péssimo costume dos teólogos, na medida que sua essência é precisamente a ocultação, se não do Absoluto, pelo menos da visibilidade de sua simples problemática. 5. Só para exemplificar: I think the Anthropic Cosmological Principle brings us to an idea perhaps as old as humanity itself: that we are not at all just an accidental anomaly, the microscopic caprice of a tiny particle whirling in the endless depths of the universe. Instead, we are mysteriously connected to the entire universe, we are mirroured in it, just as the entire evolution of the universe is mirroured in us. HAVEL., Vacláv. The Need for Transcendence in the Postmdern World in THE FUTURIST, July-August, 1995. p.48. 6. SAMPAIO, L. S. C. de. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Rio de Janeiro, setembro, 1999 7. ______. Superação das idolatrias - a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária, Rio de Janeiro, novembro de 1999. 8. ______. Remanejamento das Relações Indivíduo/Sociedade na Cultura Nova Lógico-qüinqüitária. Rio de Janeiro, janeiro, 2000 (acrescentado a posteriori).

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1. Não desconhecemos que expressão semelhante foi usada há muito por George Balandier no título mesmo de seu livro ANTHROPO-LOGiQUES, Paris, PUF, 1974, mas, o próprio leitor poderá verificar, com uma motivação bem diferente da nossa. 2.Um semimonóide é uma estrutura algébrica, por nós definida, munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento, associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados, não importa se a direita ou a esquerda. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados, ainda pela operação/, indefinidamente, a partir de um conjunto finito de elementos fundamentais. Ver Sampaio, L. S. C. de, A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa, nua, na passagem dos semigrupos aos monóides in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios, Rio de Janeiro, EdUERJ, 1999. 3. Ser um operador nulo à direita é não exercer qualquer efeito quando ocorre à direita de outro operador. Assim, no monóide livre básico que representa a estrutura formal das lógicas,temos para qualquer X, X/I=X, em particular, D/I=D, o que já não acontece quando I ocorre à esquerda, pois, I/D ¹D. 4. Uma observação importantíssima é a de que, por exemplo, em sua máxima generalidade, D/2 não é uma forma abreviada de D/D, mas de (D)/(I/D), e que portanto a lógica clássica pressupõe a lógica dialética e, de certo modo, nega ao mesmo tempo que herda boa parte de seu enorme poder: a lógica clássica é, por isto mesmo, uma lógica das totalidades convencionadas, destarte, pai e mãe da matemática. Para maiores detalhes, ver SAMPAIO, L. S. C. de Lacan e as lógicas, Rio, 1992 (xerografado) e, ainda do mesmo autor, Dialética trinitária versus hiper-dialética qüinqüitária, in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit. 5. O termo qüinqüitário, no presente contexto, refere-se a uma lógica que subsume cinco lógicas, ou seja, à lógica I/D/2, assim como o termo unário referenciar-se-ia a uma lógica que subsume apenas a si mesma, a lógica transcendental ou da identidade I, e o termo trinitário, a uma lógica que subsume três lógicas, vale dizer, à lógica dialética I/D. 6. Na impossibilidade de explicações mais demoradas, confiamos nos conhecimentos e na intuição do leitor para identificar em alguns campos de saber o exato momento de passagem da estrutura conceitual trinitária à qüinqüitária. Na física, ele situar-se-ia na passagem dos leptons aos barions; na psicanálise, na passagem da fase fálica àquela de assunção da sexualidade propriamente humana ou tetrapolar; em eco-

Capítulo 2

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nomia, na passagem do feudalismo ao capitalismo; na etnologia, na passagem da cultura cristã trinitária ou patrística à modernidade cietífico-tecnológica; na semiologia, na passagem do símbolo ao discurso. 7. Acompanhando com atenção o seguinte texto lacaniano, mais facilmente consolidaremos nossa certeza de que a lógica da diferença D, também lógica do significante e da verdade parcial, tem por verdade própria o gozo: “Isso só se goza por corporizá-lo de maneira significante. O que implica algo que não o partes extra partes da substância extensa. Como o sublinha admiravelmente essa espécie de kantiano que era Sade, só se pode gozar de uma parte do corpo do Outro, pela simples razão de que jamais se viu um corpo enrolar-se completamente, até incluí-lo e fagocitá-lo, em torno do corpo do Outro. É por isso que somos reduzidos a um estreitamentozinho assim, a tomarmos um antebraço, ou não importa o quê - puxa!”. O Seminário, livro 20, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 35. Negritos nossos. 8. Quanto a que a dialética I/D tenha a vitória como sua verdade própria é suficiente atentarmos para o fato de que a História, por definição, já fez a sua escolha: sempre, pela “razão’” do vencedor. Ela é parcial e total pela simples razão de que todos os elementos em luta querem impor ao todo sua verdade, por definição, parcial ou partidária, o que aliás é uma impossibilidade. Muito se reclama por aí de que não se façam histórias dos vencidos; não poderia ser doutra forma, já que a verdade da dialética é mesmo a vitória. O que aconteceu de pior com o marxismo real não veio de uma acidental loucura, mas, de modo inexorável, de sua herança lógico-hegeliana. Para que ninguém se sinta com isso acabrunhado ou desiludido, alertamos que a dialética I/D, para o homem, não é sua lógica maior. 9. Trata-se do postulado que na física interna a ação de medir, que, em sua idade clássica, era algo de fantasmagórico; isto tornou-se essencial para a mecânica quântica cujos objetos são, em geral, microdimensionais e por isso facilmente perturbáveis. A rigor, o postulado refere-se a uma segunda medida que, em razão da continuidade do mundo, se executada imediatamente após a primeira, precisaria repetirlhe o resultado. Na primeira, teríamos Opy* fornecendo um número n e jogando o mundo num estado y ligeiramente diferente de y*. 10. Operadores hermitianos são aqueles cujos valores próprios são sempre números reais. Na lógica, tivemos que abandonar esta restrição que vige na mecânica quântica para podermos incluir num mesmo formalismo também o operador S, S tal que S3(y) = y, que representa a lógica do ser

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humano em sua plenitude, ou seja, I/D/2 , que dentre seus três valores próprios possui dois deles com parte imaginária. A propósito, esta é a “razão formal pela qual o ser humano só chega à plenitude em no mínimo três (correlatos aos pronomes pessoais eu, tu, ele ou nós, vós, eles), como já observaram Freud e, com maior precisão, Lacan em seus Seminários. 11. Ouve-se dizer que ao animais são capazes de operar por reflexos condicionados, como se esta locução fosse uma explicação “materialista” em bases empíricas do comportamento animal. De fato ela é importante, mas apenas do ponto de vista lógico: a palavra reflexo é obviamente de natureza lógica I e a palavra condicionado, isto é, determinado por outro e não por si, de natureza lógica D; portanto, em conjunto, a locução define uma capacidade lógico-dialética I/D. Assim, o cachorro de Pavlov, é mais hegeliano do que marxista, mais dialético idealista do que propriamente materialista. 12. À lógica I/D/2 correspondem tanto o indivíduo quanto o coletivo, em particular, a família nuclear e, às quatro lógicas por ela subsumidas, os componentes familiares típicos: os masculinos, I ao pai e D/2 ao filho; os femininos, D à mãe e I/D à filha (ou virgem). Pareceria haver aqui um conflito agudo com a noção de família nuclear do estruturalismo, na qual se incluiria o tio materno e não a filha. Acontece que se pode “provar” que as duas noções são equivalentes diferençando-se apenas em que a estruturalista é a posteriori da troca e a nossa, a priori da mesma. Ademais, a lógica a ser adjudicada ao tio materno, seria precisamente I/D na medida em que ele é pai (I) na outra (D) família nuclear, no sentido por nós proposto. Devemos declarar que estes esclarecimentos só se tornaram possíveis graças às observações críticas do antropólogo Mercio Pereira Gomes a quem, obviamente, agradecemos, mas que nada tem a ver com o modo pelo qual tentamos superá-las. 13. Dizemos com toda a generalidade porque, seja no sentido teológico judaico-cristão, seja no da cosmologia moderna (hipótese do big bang). o mundo advindo terá que sê-lo necessariamente como espacial, como essencialmente res extensa, logo, múltiplo. A identidade só pode aí emergir por um artifício a posteriori que seria aquele do colapso de alguma diferença disponível. A força lógica deste argumento pode ser constatada na física moderna - nos modelos cosmológicos a 10 dimensões em que 6 colapsam , embora não desapareçam, resultando em nosso mundo aparente de 3+1 dimensões -, como também na embriologia, onde o tubo neural, inclusive o cérebro, resultam da invaginação (colapso) do tecido ectodérmico sensível, inicialmente disposto apenas como uma superfície.

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14. A pergunta pelo ser (I) exige a diferença ou o logos, ou seja, a filosofia (D); a pergunta pelo ser-objetivo (I/D) exige a dupla diferença, ou seja, a ciência (D/D) e portanto a pergunta pelo ser-humano (I/D/D) exigiria a tripla diferença, ou seja, “as ciências humanas”, o que , felizmente, é uma impossibilidade lógica, pois D/D/D não cabe em I/D/D. Ver Lógica e Realidade in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit.. 15. O princípio antrópico emerge da constatação de que admitidas mínimas variações nos valores das constantes universais transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo, que se tornaria impossível o advento do homem. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram, constantes e universais, então, desde o big bang, o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes, fecha-se o círculo: este Universo destinava-se, ab initio, ao homem, e o homem a ele; este é, em essência, o conteúdo do princípio antrópico. O princípio ainda sofre o repúdio de um número significativo de cosmólogos, entrementes, elaboramolhe uma versão baseada em argumentos não só físicos, mas igualmente lógicos, que não o deixa sujeito às restrições mais freqüentes até hoje contra ele levantadas. Para detalhes, ver Pricípio antrópico, a seguir neste volume. 16. Admitindo-se que a cultura egípcia, de fato, abeirou-se do monoteísmo. Ver especificamente MOISÉS E O MONOTEÍSMO - Freud, Obras psicológicas completas, v. XXIII, Imago, Rio, 1975 - sem que seja necessário concordar em toda latitude com as teses ali defendidas. 17. A referência aqui é ao diretor cinematográfico John Ford irlandês, embora atuando nos EUA - em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado, e tão logo o conseguia, deixava-se ir embora, solitário como chegara, pelas estradas. Pode-se haver algo mais expressivo do que isto, no caso?! 18. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato um velho questão que se arrasta até hoje, como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. O tema, não há dúvida, tem sido muito maltratado pelos pensadores da sociedade. Os marxistas, em especial, sempre o tiveram atravessado na garganta, desde Lenin, passando por Plekhànov, Adam Schaff, R. Garaudy, até chegarmos a Alain Badiou, que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico, sem a qual, é óbvio, tal problemática não poderia ser

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adequadamente tratada; ver Alain Badiou, Théorie du sujet, Paris, Seuil, 1982. 19. Ver especialmente O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO, Freud, Obras psicológicas completas, v. XXI, Imago, 1974. 20. Referimo-nos entre tantos outros a Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Novaes e José Miguel Wisnik. 21. Há muito fomos despertados para este tipo de questão pela leitura do provocante Linguagem e Realidade do pensador tcheco Vilém Flusser, publicado em 1963, quando ele ainda lecionava no Brasil. Só algum tempo depois é que tivemos notícia da tese similar hoje largamente conhecida como hipótese Whorf-Sapir. 22. O termo elite tem aqui um sentido bastante largo para ser aplicado o todos aqueles que exercem quaisquer posições de mando, não importa o nível da escala sócio-econômica considerada. 23. Em todas estas considerações omitimos o peso da nossa cultura autóctone, que classificamos como Pré-I ou ainda muito próxima deste tipo nodal. Em nossa opnião este tipo, por ser o mais originário, não traria um peso específico justamente por incarnar a cultura em sua generalidade. Não descartamos que uma compreensão mais profunda da problemática cultural brasileira venha nos obrigar a uma revisão profunda desta opinião.

Capítulo 3

1. Citado por I. M. BOCHENSKI, Historia de la Lógica Formal, Madrid, Gredos, 1976, p. 288. Tanto Bochenski quanto GILSON, Etiene (A filosofia na Idade Média, S Paulo, Martins Fontes, 1998) dão testemunho que a mathesis universalis de Leibinz teria sua inspiração na Ars Magna et Ultima de Lúlio. 2. LÉVY-BRUHL, La Mentalité Primitive, Paris, Retz, 1976 3. _______. Les Carnet de Lucien Lévy-Bruhl, Paris, PUF, 1949. 4. LÉVI-STRAUSS, Claude Antropologia Estrutural Um e Dois, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976 5. Bricolage: em geral, técnica oportunística de construção de novos objetos a partir do reaproveitamento de velhos objetos, de suas partes, até de seus caco ou pedaços. No caso, o termo está sendo transposto par o terreno simbólico e o reaproveitamento é fundamentalmente o de partes de estruturas conceituais já usadas em outros contextos. 6. Numa das sessões do XVII Congresso Nacional da SUSSESO, em 1984, quando ingenuamente falamos em pensamento pré-lógico - não no sentido de destituído de lógica, mas de ainda incapaz de uma representação simbólica objetiva de seu uso -, um companheiro de mesa, famoso

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antropólogo, do alto de sua autoridade midiático-doutoral, na impossibilidade de queimar-nos vivo pela heresia, teve um verdadeiro chilique diante do público. Inesquecível! 7. A remissão aos gregos é, na verdade, de natureza temática, pois como bem observou Mercio Pereira Gomes, do ponto de vista existencial, deveríamos remetermo-nos aos povos mais primitivos que, para simplesmente preservarem sua identidade, se vêm obrigados à operação lógica de nadificação do outro, ou seja, a se instituírem como os únicos verdadeiros humanos. Quanto às nossas opiniões, ver SAMPAIO, L. S. C. de, Noções de Antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, dezembro de 1996. (xerografado) e Desejo, fingimento e superação na história da cultura, Rio de Janeiro, 1998 (xerografado) 8. SAMPAIO, L. S. C. de. Noções Elementares de Lógica – Compacto, versão abreviada e significativamente modificada do volume I de obra homônima, Rio de Janeiro, I. CulturaNova, 1991 (xerografado) ou, numa versão mais recente BARBOSA, M. C. As Lógicas - As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. S. Paulo, Makron Books,1998. 9. SAMPAIO, Noções de antropo-logia, op. cit. . 10. ARISTÓTELES, Política, Brasília, UnB, 1988. I,2,1253 a 11.HEIDEGGER, M., Heráclito Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1998. Também nossos comentários em SAMPAIO, L. C. S. de, Crítica da Cultura. Rio de Janeiro, 1999. 12.Poder-se-ia argüir que em Heráclito o logos não é propriamente um atributo do homem como seria a razão em Aristóteles. Contudo, a confrontação continuaria ainda assim pertinente na medida em que, para Heráclito, estaria implícita como característica especificamente humana a capacidade de “escuta” do logos. 13. A afirmação que a competência para pensar, ou seja, para operar segundo a lógica está fundamentalmente associada à existência do sistema nervoso central (SNC) parece-nos óbvia, embora não nos pareça ainda fácil apontar em todos os casos as bases fisiológicas em que se apoia tal certeza. Vamos tentar justificar a afirmação precisamente no caso que nos parece de todos o mais problemático: o pensar consciente governado pela lógica transcendental (I). Começamos rastreando o processo de formação do SNC. Já mesmo em alguns entes unicelulares se pode distinguir regiões especificamente sensitivas e outras motoras (USHERWOOD, P. N. R. Sistemas nervosos, S. Paulo, Nacional-EDUSP, 1977). O primeiro passo na especialização funcional a nível celular se dá nos organismos pluricelulares, quando aparecem algumas células com funções exclusivamente sensoriais, e outras, exclusivamente motoras. Temos um terceiro momento, presente já em alguns

Importa destacar que o simples aparecimento de células especializadas em transmissão é a pré-condição da digitalização dos sinais nervosos. Contando do extremo para traz temos o prosencéfalo (que ainda se diferencia em telencéfalo e diencéfalo). Estes canais permitem que sejam conservados os tempos de resposta mesmo a maiores distâncias. isto irá viabilizar o aumento do porte do animal sem perdas no grau já alcançado de integridade/integração. Esta homogeneidade de codificação. que ocorra uma homogeneização na codificação dos sinais digitais. o rombencéfalo. assumirão funções de comutação de sinais. o mesencéfalo ou cérebro médio. a nosso juízo. posto que só assim o animal terá condições de uma representação simultânea e compatí- . Consolida-se um novo degrau de complexidade/especialização com a emergência de células inter-neuroniais que. que informações provenientes de órgãos de sensibilidade diferenciadas sejam representadas por sinais elétricos digitais da mesmo tipo. as funções de integração de informações provenientes de diferentes órgãos sensoriais. que paralelamente expande sua complexidade por meio de “dobramentos e redobramentos” que vão acabar dando o aspecto típico do cérebro humano. Com o cérebro surge a possibilidade de um verdadeiro processamento de sinais o que pressupõe a superação das limitações hierárquicas dos tipos (no preciso sentido que lhe dá Bertrand Russell). Dizemos que há uma superação desta limitação quando “informações substantivas” recebem codificação de mesma natureza que “informações relacionais” (informação sobre relações de “informações substantivas”) e “informações processuais” (informações sobre transformações de “informações substanciais”). Do ponto de vista funcional. O surgimento de gânglios com funções integradoras pressupõe. e por fim. O passo seguinte é o aparecimento do tubo neural nos vertebrados e do cérebro: série de três intumescências que se formam na extremidade do referido tubo. A expansão envolvente da formação extrema (antes preponderantemente olfativa) dá nascimento à córtex. em que aparecem células com função especializadas na pura transmissão de sinais (neurônios propriamente ditos) ligando células sensoriais a células motoras.334 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celenterados. adicionalmente. é uma condição fundamental para a emergência da consciência. temos regiões especializadas no trato de canais olfativos. entre outras. isto é. ainda vindo no mesmo sentido. possibilitando a ativação de canais de transmissão de alta velocidade. cinestésicos e luminosos. Consuma-se um novo passo com o aparecimento dos gânglios – formação cerrada de corpos neurais – que assumem. entre algumas outras.

através dos nervos eferentes. Pode ser facilmente observado nos jovens embriões dos vertebrados como o tubo neural se forma pelo processo de invaginação do ectoderma dorsal. que a seguir se interioriza e em torno do qual virá se formar a coluna vertebral protetora. através dos nervos aferente. recapitulado na sua ontogênese (fim da quarta semana). desenvolver-se-á o cérebro. que por sua atividade “auxiliar de limpeza” podem garantir a permanente condição de higiene num exíguo espaço onde ocorre tão gigantesco nível de atividades. de certo modo. Este processo permite a formação de um tubo superficial. Não temos espaço aqui para entrar em detalhes acerca das células gliares. Este fenômeno que ocorreu no curso da filogênese. cerca de 10 vezes mais numerosas do que os próprios neurônios. A figura a seguir nos mostra uma seqüência esquemática das fases de formação do tubo neural explicitando suas ligações com os órgãos sensoriais. ECTODERMA SENSÍVEL DISPOSITIVOS MOTORES TUBO ÓRGÃOS SENSORIAIS NERVOS AFERENTES NEURAL (INTERIORIDADE) NERVOS EFERENTES ÓRGÃOS MOTORES . que conduziu à emergência dos vertebrados é. em cuja extremidade anterior. Trata-se do processo de formação do tubo neural.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 335 vel tanto dos estados do mundo exterior quanto de seus próprios estados internos e de suas respectivas modificações. e com os órgãos motores. Um fenômeno de enorme relevância é o modo como se dá a formação topológica do SNC dos vertebrados. já o vimos.

outout-put. Por outro lado.336 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria importante enfatizar alguns dos aspectos topológicos deste processo de invaginação do ectoderma. de um lado. C. que nele se cria um espaço interno em que se pode representar tanto o meio como seus próprios impulsos e disposições do próprio organismo. behaviour and evolution. levadas em consideração as orientações das superfícies em jogo. onde haveria espaço para discriminar quatro e não apenas duas intervenções: in-out-put. porém. El Cerebro. U. As considerações topológicas referentes à formação do SNC nestes animais evidencia que. gozar o ilimitado poético e até. suplementarmente. em si. pois. Antes de encerrarmos esta nota. diríamos que a base filosófico para a operação lógico-diferencial (D) poderia estar. este espaço imaginário chega a constituir um mundo onde se pode dar explicações para o bem e o mal. constituir uma interioridade no corpo (espacial) do animal. em direção contrária àquela do ectoderma que lhe deu origem [OAKLEY. eles seriam dotados de um espaço interno. Alianza. onde pode localizar suas origens míticas. proporse como seu próprio enigma ou pura e simplesmente dissolver-se na loucura. Nestas circunstâncias. 1979 e SMITH. Constitui-se assim um espaço imaginário onde é possível até refugiar-se momentaneamente fugindo às excessivas pressões do mundo. sobretudo. Brain. no próprio processo de formação do SNC por via da invaginação do ectoderma. No homem. 1972]. dramática e definitivamente. Esta especial orientação vai. Methuen. em termos de in-put e out-put e de uma única função de transformação os articulando. Em suma. Numa linguagem um tanto informal. o que nos obriga a descartar o simples modelo bipolar em favor de um modelo tetrerapolar. aproveitamos a ocasião para chamar a atenção sobre a insuficiência dos modelos condutivistas freqüentemente propostos para vertebrados. out-in-put. a operação de identidade (I) se alicerçaria na homogeneidade da codificação no que diz respeito aos tipos lógicos e. de certo modo. incluindo às vezes o próprio homem. de um avesso. Madrid. na codificação digital dos impulsos das células sensíveis e. simular diferentes cursos de ação sem ter que pagar o imprevisível preço de uma efetiva experimentação. London. poderíamos estabelecer as . Se o consideramos como sendo uma superfície orientada – suposição inteiramente razoável se tivermos em conta que se trata de um tecido de células sensíveis – constataremos que o SNC. diríamos que o animal passa a dispor. e além. na homogeneização desta codificações com relação à diversidade de sensibilidades em jogo (diversos sentidos). in-in-put. David A. M. constituiu-se também como uma superfície igualmente orientada.

instinto. 1999 17. S. L.in-input put SNC ação out-in.. de Desejo. cit. Théététe.) (D). Rio de Janeiro. L. acerca do advento da cultura nova pós-científica. 19. SAMPAIO. esquema lógico que desde Descartes caracteriza a Modernidade: logo. Sabemos que a citação aqui do Iluminismo é uma simplificação. 337 percepção in-out. PLATON. Oficina do Autor/ etc. talvez excessiva. de . Para maiores detalhes ver figura abaixo. Rio de Janeiro. SAMPAIO. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. de Reflexões. a essência do trabalho é se constituir num esforço que visa outra coisa que si mesmo. logicamente otimistas. C.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE seguintes correspondências: Sensação ↔ in-in-put Percepção ↔ in-out-put+ in-in-put Sensação cinestésica ↔ out-in-put Ação ↔ out-in-put + out-out-put. Paris. necessária e essencialmente trabalho alienado. Reflexões. S. na circunstância. SAMPAIO. que acabava de ser recalcada justamente pela razão científica (D/D). SAMPAIO. emoção etc. C. S. Lógica e Economia. 1999. o capitalismo que criou o trabalho alienado nem o comunismo poderia aboli-lo. pois. . Não estamos aqui referendando a concepção marxista sobre o trabalho. L. logicamente otimistas. Não foi. Flammarion.. 1988 (xerografado). Inst. op. Muito pelo contrário. Fingimento e Subversão na História da Cultura.. 16. com a des-razão (coração. natureza.out-output put 14. De modo geral o Iluminismo está comprometido com a liberdade (I) e com a razão formal (D/D). 1967 15. intuição. Rio de Janeiro. Cultura-Nova. 18. C. Um exame mais atento mostrará que o mais importante no Iluminismo é o que ele se propõe fazer. Parmênides. sendo por isso.. não é aí que vamos encontrar sua razão de ser nem aquela de suas variantes.

Philosophique. Alcan. o grupo mais simples é o binário. 1914. relatamos que ao consultar o exemplar de Logique du Sentiment de Ribot existente na Biblioteca Nacional. S.RIBOT. R. cuja tabela de multiplicação é x a b a a b b b a O grupo de Klein é o quadrado do grupo binário acima. La Logique des Sentiments.b) pelo grupo homólogo (c. como inspirador de algumas idéias de Charcot e outras coisas mais. de Lacan e as Lógicas in Lógica ressuscitada. Paris. LÉVY-BRUHL.SAMPAIO. La logique affective et la psychanalyse. F. 26. 21. Rio. Como curiosidade. isto é. por exemplo. particularmente nas propriedades do denominado grupo de Klein. forçando um confronto entre sua Logique du Sentiment e a lógica do significante lacaniana. Binet. 1989 – em geral. Rio de Janeiro.Théodule Ribot é citado duas vezes no volume 1 e muitas no volume 2 da História da Psicanálise na França de E. 24. op. a e b. constatamos que ele pertenceu justamente a Arthur Ramos e guarda suas inúmeras anotações manuscritas à margem e em pequenos pedaços de papel nele inseridos. EdUERJ. na companhia de Janet. L. Th. La Mentalité Primitive. ROUDINESCO._______.Arthur Ramos conhecia a fundo não só a obra de LévyBruhl como também suas fontes.338 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 20. formado por dois elementos. 1920 23. cit. O fundamento disto se encontra na teoria dos grupos. Zahar. cuja tabela de multiplicação é: x ac ad bc bd ac ac ad bc bd ad ad ac bd bc bc bc bd ac ad bd bd bc ad ac . LXXVIII 22. Fica a sugestão. Afora a identidade isolada. o produto do grupo (a.d). C. Entretanto sua ligação com a pasicanálise ficaria bem melhor definida se transladássemo-nos para o plano lógico. 25. como introdutor do modelo jacksoniano na França. Taine –.

é inquestionavelmente lógico-diferencial (D). D/D} e o feminino pelo par {I/D.. Pavlov nomeia (até muito corretamente). 30. D}. bastando que se mantivesse fiel ao que lhe prescrevia a lógica do Partido. Ë precisamente isto que está logicamente por traz da piedade em J-J Rousseau. 27.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 339 As duas diferenças seriam representadas pelos subgrupos (a. 1993 ou alternativamente Noções elementares de lógica . S. no caso.. de Introdução à Antropologia Cultural.Compacto. Ser humano é. 1999.b) e (c. Rio de Janeiro. L. pelos pares ad.Existem outros bem interessantes. também. portanto.d) e as três relações articuladas. Já aconteceu mais do que uma vez em aula que esta nossa afirmação fosse contestada. C. os elementos não identitários ( não ac) do grupo de Klein. logo. 32. justamente. Ver capítulo 2 anterior. uma terceira pele. Paulo. Ernst. o animal estará na verdade operando segundo a lógica dialética (I/D). trata-se de uma ratificação: a palavra (arco) reflexo é claramente lógicoidentitária (I) e a palavra condicionado. I. ICN. II. operando por reflexo condicionado. como vimos na extensa nota 13. a rigor. 1988. ser capaz de se por na pele do outro. A condição humana requereria. L.5 h de duração. . porque ele é simplesmente uma espécie de simulação formal (é óbvio que drasticamente empobrecida) da verdadeira dupla diferença que fez ser o homem. sendo-lhe contraposta a “descoberta” pavloviana que o animal. é uma dupla pele. 1997 29. perfazendo pois um “articulado” de três peles. seguindo indicações lacanianas definimos o masculino pela par lógico {I. uma filosofia da cultura. C.. Só na aparência isto é uma objeção. III e IV em 2 vídeos. 28. 31. de Por que. Ensaio sobre o Homem. S. com cerca de 3. Rio. Portanto. como a roupa (ou a pintura dos corpos) representando uma terceira pele. mas nada explica. bc e bd. onde. Martins Fontes. EMBRATEL/UAB. Desde que saibamos procurar. estaria operando segundo o famigerado “mecanismo” do reflexo condicionado. CASSIRER. S. A condição animal capaz de operar I/D requer um SNC e este. SAMPAIO. Introdução a uma filosofia da cultura humana. Este grupo aparece por toda parte.SAMPAIO. Ele poderia ter chegado à mesma conclusão sem ter aporrinhado tanto seus cachorros. um diferença suplementar. aquilo que só é em razão de outro. na própria obra dos estruturalistas não faltariam muitos outros exemplos.

Noções de antropo-logia. Rio de Janeiro. a designação qüinqüitária. As Lógicas. ver SAMPAIO. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o que acontece (I/D). I. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. M. de. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). daí. a própria dialética e a lógica formal ou clássica. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. desde que não as tema. D. As expressões I. Esta. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. Para maiores detalhes. enquanto que a primeira sintetiza. D/D=D/2 (lógica clássica). animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/ 2 ). (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. então. Se considerarmos que ela subsume a si mesma. II. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc.340 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SAMPAIO. pelo mesmo autor. Rio de Janeiro. de. também conveniente. SAMPAIO. 4. Luiz Sergio C. Rio de Janeiro. EMBRATEL/ UAB. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. Makron Books. O termo hiperdialética refere-se a uma lógica mais complexa do que a lógica dialética. constitui-se numa síntese das lógicas da identidade e da diferença. UAB. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. (5) é complacente ao Absoluto. Noções de antropo-logia. C. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. L. além destas últimas. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). um pouco abusivamente. 1996. Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. Rio de Janeiro. tomando-se. cit. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. III e IV. Teríamos. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Alternativamente. o vídeo Antropologia cultural. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. Ademais. S. I/D etc. 1998. I/D (lógica dialética). Na esfera mundana. 1993. serão então cinco as lógicas subsumidas. UAB. Noções de antropologia. 5. como sabemos. (2) só é na medida em que remete a outro (D). são inúmeros os casos de cul- Capítulo 4 . tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). C. são apenas uma taquigrafia. op.

a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). A percepção do ritmo de sucessão lógica das culturas depende de uma certa familiaridade com a história tradicional da área considerada. para o bem ou para o mal. Paris. a síntese da identidade com a dupla diferença. chegou bastante cedo ao trinitarismo (I/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 341 turas logicamente híbridas. Por isso ela é politeísta. . Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. vale dizer. 6. daí porque não nos arriscamos à inclusão do Oriente. é produto da sacralização de sua lógica própria. em um modo próprio . op. 11. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. não se dão conta que o fazem. De qualquer modo. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. 8. mas como dotado de uma outra lógica. de hoje “modernizar-se”. porém. 12. crenças e ritos. logique du sentiment. como em todas as culturas. Noções de antropo-logia. pode-se dizer que a China. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. ou seja. Modernidade. precisamente. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. segundo o teólogo da cultura Paul Tillich o espaço sobre o tempo (Théologie de la Culture. isto é. 7. Não é surpresa. Culturas associadas às lógicas em que prevalece a diferença sobre a identidade. cit.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. por exemplo. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. pois. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. 9. uma polêmica cheia de veneno e má fé. Aliás. além. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. 10. entre outros. SAMPAIO. aí se demorou tanto tempo que tem dificuldade de “recordar” suas fases lógicas anteriores e justamente por isso de se projetar. cuja necessidade foi há muito pressentida. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. Ademais. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente.

342 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Denoel/ Gonthier. Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. terá como falsa sua negação. pp. e impondo-lhe então. enquanto que o segundo é um marginal.o mundo se apresenta como subdeterminado. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. ELIADE. o indefinido. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. o paradoxal. 1981).Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. Ibid. das relações EUA/Brasil. lá e cá. 1. pois na verdade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. 13. os subservientes negociadores (?!) do atual governo brasileiro.o mundo se apresenta como sobredeterminado. em profundidade. isto é. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. daí. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença .1968). o valor indefinido. Rio de Janeiro. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. vol. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. 15. uma segunda diferença. Excluem-se aqui. o falso e. p. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . Alianza. como a Índia. porém. a materialidade sobre a espiritualidade (Estudio de la Historia. representando o nem verdadeiro nem falso. Madrid. Mircea. Compendio IX/XII. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. 1978. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. Zahar. sua negação sendo destarte o verdadeiro. pois. Tomo I. História das Crenças e das Idéias Religiosas. internamente. Arnold Toynbee. O indeterminado. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. desconsiderado. por suposto. . segundo o historiador das civilizaçòes. v. daí a designação lógica da dupla diferença. A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. 58. 59-60 16. 14. 3. Por isso. um terceiro.

25 18. nem esquerda. uma segunda. as luvas são a imagem reflexa uma da outra. 17. uma primeira. 0. relativa a um plano horizontal. No caso. -1. L Ó G IC A D A R E F L E X Ã O D L Ó G IC A D A IN V E R S Ã O D / 2 R (a ) D D a a D/ R (R ( a ) )= I ( a ) a D / (a ) -1 2 2 R2 = I a 1 2 R (R ( a ) ) D (a ) Uma inversão pode ser concebida como uma dupla reflexão. BEAUFRET.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA 343 DUPLA DIFERENÇA D/ 2 Ver L. ou seja. J. o esquerdo e um estado intermediário “pontual”. por onde poderá se dar a passagem de um a outro dos estado anteriores. nem direita. Já no caso da inversão estão implicados apenas dois estados e podemos passar de um ao outro por uma simples rotação ou deslocamento espacial. seriam eles: o direito. Isto vai requerer a passagem por um estado intermediário em que ela se “desespacializa” (e o par se dissimetriza). Para melhor compreender a natureza da diferença ou negação no caso da lógica da diferença D e da lógica clássica ou formal D/2 (a que estamos habituados). Rio. Estes três estados podem muito bem ser expressos pela tríade numérica 1. 1988. C. S. Brionne. podemos nos valer da metáfora gráfica a seguir. relativa a um plano vertical. de Sampaio. No caso da reflexão. Monfort. transformar uma noutra. D2. 1983 p. a correspondente re- . onde ela não é nem uma coisa nem outra. Hölderlin et Sophocle. D1. G. A parte inferior da figura mostra que os estados de uma reflexão especular são três e não apenas dois.Compacto. Abstratamente talvez as coisas pareçam mais complicadas do que realmente são. para fazê-las coincidir. ICN. Tomando-se por referência a reflexão no plano vertical. Noções elementares de lógica . precisaremos que uma delas vire do avesso.

Como pensar em tragédia (D) da época da cultura cínica D/2)?! 20. Esta.Oevres Complètes. em que não há lugar para terceiro. aliás uma constante no pensamento alemão de lá até hoje. e a inversão. -1. Relume-Dumará.Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo de mau e aconteceu é. R O M A N T IS M O A L E M Ã O 2 I/D / H Ö L D E R LIN A P O L ÍN E O D/ I/D REC ALQ UE DA ID E N T ID A D E I 2 D/ 2 CU LTU R A MODERN T R A G É D IA (M IM E S IS ) T R A G É D IA M ODERNA ? D CU LTURA GREGA D IO N IS ÍA C O D P R É -D H O M É R IC O P R É -I Hölderlin consegue captar bem a inversão de posição que se opera entre os gregos e a Modernidade. sem dúvida.Hölderlin. p. pois. Rio de Janeiro. 19. 21. é a ocasião para relatar que boa parte do que vai no corpo deste artigo foi provocado pelas discussões com o amigo Aluisio Pereira de Menezes (que nem por isso tem a menor culpa do que aqui está sendo dito) em torno do tema Hölderlin e a essência do trágico. o grande culpado. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . O verdadeiramente outro de um Deus que lhes virava a face. Reflexões.DASTUR. 228. A reflexão especular representa a diferenciação ou negação primordial. justo a lógica clássica ou. Vê-se bem no esquema acima como surge a sua preocupação com uma pressuposta “tragédia moderna” e as razões profundas de sua impossibilidade ou até mesmo. a propósito. 1994. F. sua falta de sentido. A nosso juízo exclusivo. aquela da lógica da simples diferença D. François. com inexcedível propriedade. Hölderlin: Tragédia e Modernidade in Höderlin. e sendo-lhes assim tão . a dificuldade em se conseguir seguir o pensamento do poeta alemão está no recalque que implicitamente faz das lógicas identitarias (as culturas judaica I e cristã I/D.344 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO presentação numérica seria pois 1. a diferenciação ou negação na lógica da dupla diferença D/2. só se consumaria se virassem -Lhe a face também. lógica do terceiro excluído.

Rio de Janeiro. sua oposição à filosofia. herdado pela lógica clássica. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. A lógica clássica ou da dupla diferença. (negritos nossos) 24. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular. uma distinção que vem dos estóicos. Finalmente. C. Difusão Européia do Livro. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. quilograma e segundo). Ibid. de. Intensivo aqui se contrapõe a extensivo. Minuit. 1966. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. por isso as subsume. Assim. ARISTÓTELES. é bom aduzir que não é de agora. 1955. 2000. l. Le Jeu comme Symbole du Monde. 101 28. A República. sistema cgs (centímetro. Paulo. o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. 90. FINEP/ etc. em parte. Sentido extensivo é o conjunto de referentes a que um termo se aplica. Reflexões.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 345 íntimo. Ver Reflexões. p. Paris. Quem já não viu. Rio.. p. 1959. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqúitária. 59. X. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. 1995. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). Atena. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. muita antiga. Nesta última acepção o termo precisa fazer parte de um sistema dotado de uma sintaxe. 25. X Platão. Eugen. 31. foi vítima deste tipo de “ilação”? 22. inclusive) é crença corrente entre os gregos. SOCRATES: . 23. massa (M) e tempo (T). A República. e sentido intensivo é aquele dado por um conjunto articulado de termos considerado equivalente ao termo em questão. porém. sim. A matemática formalista pretenderia reduzir todo sentido à pura intensividade. S. Por exemplo.opus citado. ou pior. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. 92 27. FINK. ICN... 30. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. Platão. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. S. p. 1966. Ibid. em sua máxima generalidade. grama e segundo) ou mks (metro. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. Arte Retórica e Arte Poética. SAMPAIO. 26. p. Paulo. S. L. 29. Todas as demais grandezas físicas . sem a menor cerimônia. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade.

as que lhe antecedem: I. Esta feliz lembrança se deve a José Miguel Wisnik. 1988. Toda a “elite brasileira” quis enterrá-lo como se ele fosse o Moisés. p. C. C. não de onças de humores e cores variadas. aquele que havia guiado o povo à beira da Terra Prometida. João. mas de gente. opus citado. George. o vídeo Antropologia cultural. L. Ibid. O Espelho de Próspero. Nestas circunstâncias. D/2. opus citado. como só ele. 43 40. como nos outros animais. UAB. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. 37 39. de. F. p. D } o feminino.346 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. La Pintura Prehistórica. Na modernidade capitalista. Gallimard. O par diagonal {I. 1993/97. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Rio de Janeiro. 9. I. Brasília.II. 42. S. SAMPAIO. 23 41. I/D. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . 44. C. Ibid. L. 33. Parcialmente publicado no JB em 07/09/80. p. México. S. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Théorie de la Religion. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). Ibid. R. 36. A H. 34. Paulo. conclui-se. Rio de Janeiro. Companhia das Letras. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida. SAMPAIO. Noções de antropo-logia. BATAILLE. M. A Permanente Revolução do Analógico ao Convencional – Rio de Janeiro. imediatamente. feito desejo domesticado pelo marketing. p. GUIMARÃES RODA. 1956. assim como. o povo nada mais tinha a fazer senão esperar sentado! O problema real e apavorante para a “elite” no poder era o Doutor Ulisses Guima- . além de si própria. de C. (en)cantador. de. 11 43. 1969. Cultura e Idéias nas Américas. p. de. 32. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). 1973 37. SAMPAIO. como era meu tio. S. A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. L. igualmente mencionado. L. Estas estórias. Paris. Apontamentos para uma história da física moderna. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). 38. de. BRODRICK. S. Económica. out. José Olympio.MORSE. ELIADE. S. 35.II e IV.O ser humano é de nível lógico I/D/2 . pelo mesmo autor. C. D. lógica que subsume. 1996 (xerografado): O melhor exemplo disso já foi aqui mencionado pelo Professor Janine Ribeiro – o enterro do Doutor Tancredo Neves. SAMPAIO.

Esta “injustificada” omissão do cristianismo na passagem da cultura grega à Modernidade é uma represália à omissão feita pelas culturas semíticas do momento trágico grego na passagem do judaísmo ao cristianismo. na “hora H”. C. o sentimento de abandono do Cristo na cruz . 47. Lógicas fundamentais são aquelas capazes de gerar todas as demais por um especial processo de síntese dialética generalizada. 48. por isso mais longe dos acontecimento e mais perto das conveniências de um movimento sócio-religioso já triunfante. anteriormente mencionada. com toda a certeza. a censura aos escribas e fariseus. ou seja.agora. seja lá quem for. o nosso Abraão. São elas apenas duas: a lógica da identidade ou transcendental (I) e da diferença (D). João.desapareçam do Evangelho de S.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 347 rães. M. tardio. mandar o povão subir nos tanques (feito o que aconteceu na Rússia e se tentou lá na China. Ao contrário do que aconteceria num processo dialético lógico-trinitário. E a gente não começa nunca! 45. CULTURAS SEMÍTICAS OU LÓGICO. As Lógicas. Ver BARBOSA. É bastante sintomático que tantas coisas relevantes presentes nos Sinóticos . Resto no seu sentido aritmético. pisa sempre na bola. cit.IDENTITÁRIAS CULTURAS PAGÃS OU LÓGICO-DIFERENCIAIS CULTURA MODERNA REPRESÁLIA: OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA CRISTÃ PLATÃO TEÓLOGO segundo Nietzsche e Heidegger CRISTO TRÁGICO segundo Evangelhos Sinóticos OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA GREGA CULTURA JUDAICA . op. a superação num processo hiperdialético lógico-qüinqüitário não impede a sobrevivência por si (não apenas subsumida) de uma cultura e nem mesmo que ela venha a exercer um papel crítico posterior na história da cultura. como todos nós vimos na TV). que tinha que mandar o filho para o sacrifício. ou seja. que representava Abraão e não Moisés. 46. para evitar um suposto derramamento de sangue. e ele aí foi para casa com enxaqueca.

que internaliza o momento diferencial (D) ao mundo semítico. anglo-saxônica. 49. para não sucumbir.348 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O Platão “teólogo dialético trinitário. abandonado pelo Pai. adota precisamente o sujeito liberal (I) como sujeito da ciência (D/D). se vale de Moises para poder omitir o momento pré-D (egípcio). a família ariana (D) vai à forra imaginando passar da cultura pré-D (mítica) à cultura D (trágica) valendo-se de Parmênides para omitir o momento identitário I. tanto em Nietzsche quanto em Heidegger. não podemos deixar de assinalar que o “antisemitismo” da Modernidade não pode se manifestar em sua formação paradigmática. que internaliza o momento dialético (I/D) ao ocidente pagão é a contrapartida vingativa do Cristo trágico dos Sinóticos. É curioso observar que tudo isto vem reproduzir o ciclo anterior. Johson situa a diáspora judaica ao tempo de . na passagem de pré-I a I. porque esta. Diz-se que ainda antes de Cristo até cerca de 10% da população da Europa ocidental e África do Norte era de origem judaica. D DISPOSIÇÃO PARANÓICA I REAÇÃO ANTI-SEMITISMO = ANTI-D PARMÊNIDES "PROFETA" DO SER AÇÃO ANTI--"ARIANISMO" = ANTI-I MOISÉS ADOTADO PELOS EGÍPCIOS Pré-D Pré-I DISPOSIÇÃO ESQUIZOFRÊNICA Concluindo. em que a família semítica (I). que tenta justamente substituir o sujeito liberal (I) pelo sujeito romântico ou inconsciente coletivo (D) e depois sonha que pode ir do grego (D) à modernidade científica (D/D) sem passar por I/D. o anti-semitismo só irá se manifestar na variante ideológica à direita da Modernidade. Chega-se ao detalhe de Platão vir se confrontar com os poetas exorbitantes (que fingem a dispensabilidade do conceito I/D) tal como o Cristo se confrontou com os fariseus (que fingem a dispensabilidade do significante D).

1977 55. não estabelecia que as novas terras seriam de Portugal ou de Espanha. Paul. GIMPEL. Doubleday. Capítulo 5 1. p. opus cit. L. SAMPAIO. LUTER. 58. que já andou por várias editoras que sempre “gentilmente” o recusaram. tornando-se assim uma dialética das dialéticas.da identidade I e dialética propriamente dita I/D -. 1976. York. talvez porque nes- . S. A History of Christianity. Reza a tradição que setenta sábios teriam sido convocados para traduções independentes. A hiperdialética I/D/2 pode ser considerada como uma síntese das lógicas identitárias anteriores . 42-44 53. UAB. An Appeal to the Rulling Class of German Nationality as to the Amelioration of the State of Christendom. Este texto é parte de nossa obra maior Filosofia da Cultura – Brasil. 1520 in Selection from His Writings. A tradução se fez por partes. 12 50. que seria I/D/4. Sendo o homem de nível lógico I/D/2. mas tem dificuldade de explicar origem e destino enquanto que a lógica da identidade só se interessa mesmo pela origem e pelo fim dos tempos. Macmillan. Confrontadas a posteriori todas teriam sido coincidentes . p. JOHSON. o Papa. Aí se mostra como ocorre a real experiência do possível transcendente e se especula acerca do seu estatuto lógico. luxo ou originalidade. porque inspiradas -. Rio de Janeiro. daí o nome Setenta. 39-43 54.1997. C. Mateus 27. A Revolução Industrial da Idade Média.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 349 Cristo em cerca de 4. avalizado pelo próprio representante de Deus. 51. de Noções de Teo-logia. e terminado em 1 a. I Coríntios 15. 57. Martin. 46 52. Vale a pena observar que os Descobrimentos vêm acompanhados da entronização da lógica clássica ou do terceiro excluído: O Tratado de Tordesilhas. Ver SAMPAIO. C. só poderá ter obviamente representações fragmentadas do Absoluto.5 milhões de pessoas. N.por suposto. A lógica da identidade I é tida então como o degrau zero da dialeticidade. etc. C. Zahar. começando em meados do século III a. contra apenas 1 milhão na Palestina. Lucas 24. com exclusão de qualquer outros? Se quisessem participar.. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. 471 56. contrabandistas. A lógica dialética dá conta das peripécias da história. New York. teriam que se conformar mesmo com os papéis marginais de piratas.. LXX ou Setuagina. Rio de Janeiro. Jean. 1961.

a cultura da diferença (grega. ou seja. Justamente por esta particular topo-logia é que houve um espaço físico para que a cultura judaica pudesse se preservar e desenvolver. SAMPAIO Luiz Sergio Coelho de. 7. cujas portas são aduanas frente a frente.350 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tes tempos de intolerância democrática (ou plutocrática. sujeitado. doravante. dos romanos. Filosofia da Cultura – Brasil. Tudo começa com as invasões de Alexandre. através do recalque da sexualidade (irracionalidade) feminina. a própria cultura da identidade (judaica). Feudos (trinitário imperfeito) tem a unidade garantida por sua semelhança à Cidade de Deus (trinitário perfeito). herói da resistência a invasão muçulmana da Europa. Critias. ao contrário. ou melhor. Radical porque tardio. Uma nação moderna. ou seja. da Dieneylandia). acaba precisamente aonde uma outra começa. 136-137 3. a defesa das culturas (com exclusão das dominantes) tenha sido criminalizada. 6. Timée. daquele que confronta os deuses) e a cultura dialética trinitária (do Deus Uno-Trino cristão). depois. no prelo) . havia muito. em Heidegger e o Nazismo. Primeiro. Les Belles Lettres. pp. Realmente. constitui-se numa reserva de mercado. mas fazia dos judeus. Por isso. 5. a ciência e. tardio (século VII) porque ela é uma cultura lógico-identitária (do real e do Deus único). Sabe-se quão doloroso foi para os judeus o contato com a cultura grega. a definitiva separação dos cristãos. quem sabe. que Heidegger faz sua primeira aparição política/pública. a cultura muçulmana não constitui na História uma cultura nodal (culturas que inauguram um novo modo de ser e pensar o mundo). do homem prometéico. do real como outro. luxo ou originalidade (algum dia . a constituição dos alicerces. chamou a atenção para o fato que foi justamente na cerimônia de inauguração de uma estátua deste religioso. a constituição de seu sujeito liberal correlato. 4. logo á frente. como é o caso da cultura judaica. um intenso drama que termina só com sua auto-mutilação. Paris. O interesse por Abraão à Santa Clara reacendeu quando Victor Farias. de Pluto. PLATON. que só surge depois que o mundo já conhecera. A formação dos estados nacionais (mercados econômicos nacionais) acabava com este espaço. Sua unidade cultural. depois. naturais de alguma parte. pela caça às bruxas. nações modernas têm sua unidade fundada no Outro. tornando-se assim a base para a solidificação do complementar mercado financeiro internacional. a invenção da racionalidade masculina: como primeiro passo. 1985. entretanto permanecia. que editor iria querer correr riscos de tal natureza?! 2.

sem que tal modo de produção tivesse emergido. Rio de Janeiro. um terceiro. 9. de sorte que. daí. 1988 (xerografado) Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . Lógica e Economia. pois a taxa de formação de excedente. em muitos momentos históricos se manteve por largo tempo acima da taxa vigorante na época que viu surgir o capitalismo. uma segunda diferença. o argumento marxista não tem fundamento histórico. construindo uma pirâmide.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 351 8. isto é. . o excedente DK é o produto global Y menos o consumo C. e duvidosa. internamente. Ver SAMPAIO. o “leva” para a esfera política. pois. desconsiderado. o que a faz uma lei lingüística. A quantidade anterior está acompanhada de uma qualidade e a qualidade posterior também acompanhada de uma quantidade. Um faraó se apropria do excedente e. Não é difícil imaginar que isto viesse a acontecer quando toda uma população era por outra militarmente vencida e escravizada. terá como falsa sua negação. o indefinido. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . Além do mais. tudo aquilo e mais algum.o mundo se apresenta como subdeterminado. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. daí a designação lógica da dupla diferença (D/D ou D/2). ou de mais-valia. de. representando o nem verdadeiro nem falso. IC-N. a lei transforma quantidade/qualidade em qualidade/quantidade. ou seja. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. Como podemos encontrar em qualquer manual elementar de economia. a rigor.o mundo se apresenta como sobredeterminado. DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA DUPLA DIFERENÇA D/ 2 A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. L. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. O diabo é que o empresário capitalista devolve o excedente à esfera econômica e fica obrigado a retirar à frente. S. o paradoxal. sua negação sendo destarte o verdadeiro. o falso e. e impondo-lhe então. O indeterminado. o valor indefinido. C. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. Y= DK + C 10. do prestígio.

que vai situar a fonte do dinamismo econômico. A obra data de 1484. de Lacan e as lógicas in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios. porém aqui um rio bem mais caudaloso (hiperdialético) para poder extravasar a todo cerco racional/ científico. N. não mais na oferta (projeto). pelas estradas. isto é. só com Giordano Bruno. H. constituindo-se num detalhado manual de identificação. 19. L. fica muito claro o aforismo nietzscheano: Ele (Renan) queria. A propósito. 2000. contra os aristocratas. alegando a ocorrência de um processo de aburguesamento do proletariado. 17. México. como é contextualmente lícito. EdUERJ. S. correndo no sentido de uma perfeição crescente. C de.. que não deixa aparecer que tal personagem não é origem. Rio de Janeiro. Brasília. que se subordina à continuidade do processo de sistematização do mundo. NATTEUCCI. Também chamada escola marginalista neo-clássica. 1994. e PASQUINO. algo mais sugestivo?! 14. no caso. e Ashéri. Trata-se de uma evidente alusão ao rio heraclítico (dialético). Ver Sternhell. A referência aqui é ao diretor cinematográfico americano John Ford (na verdade. Malleus Maleficarum (Martelo das feiticeiras). e logo que a conseguia. do início do século XX e que pode ser considerado um antecedente do fascismo. Naissance de l’idéologie fasciste. EdUnB. EMBRATEL/UAB. que estaria assim perdendo seu potencial revolucionário.5 horas de duração. Diccionario de Filosofia. 15. I. Entendida. cumulativo. surgida na Áustria. Sznajder. 1983 e ainda ABBAGNANO. mas no “corte”. deixava-se ir embora. com cerca de 3. 12. a democracia como ideologia da “mediocridade” liberal. Poderia haver. adquire o sentido moderno: modo de ser do processo histórico. FCE. KRAMER. 16. Rosa dos Tempos. J. e que à época eram bem numerosas. Ver SAMPAIO. Ele vai da esquerda para a direita.. tão solitário quanto chegara. Bodin e especialmente Francis Bacon. conluio dos fracos contra os nobres e fortes. 1989. Gallimard. L. julgamento e castigo de mulheres que praticavam a cópula com o demônio. N. BOBBIO. Paris. 1966. e SPRENGER. Ver SAMPAIO. no fim do terceiro quartel do século XIX.. vale aqui lembrar o movimento soreliano (referência a Georges Sorel). por . III e IV em 2 vídeos.352 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 11. nascido na Irlanda) em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado. Rio de Janeiro. II. 2000. Introdução à Antropologia Cultural. mas apenas elo de ligação. G. instrução de culpa. 13. 18. O teor ideológico não está propriamente no self made man. Embora o termo já se encontre entre os antigos (Lucrécio). C. N. Dicionário de Política . mas na demanda (desejo). S.

pois sua cultura e sua alma. Os exemplos mais claros seriam cultura grega/civilização romana e. convencendo populações autóctones que a evangelização é perfeitamente compatível com a preservação das suas culturas. FREUD. 24. Na verdade crua e bem nua. ser-no-mundo e ser-frente-ao-Absoluto. resultante do processo de horizontalização de uma cultura. Acontece que a lógica da ciência (a lógica clássica ou da dupla diferença) é mais potente que a lógica do ser-coletivo (dialética. Rio de Janeiro. civilização referenciar-se-ia a uma formação social mais ampla.p. LACAN. freirinhas italianas passeando no pátio silencioso de seu convento. tomada em seu sentido genérico. 27. O Mal-Estar na Civilização. Marcelo C. Atente-se para o fato que onde aqui aparece o termo civilização. 1966. Nietzsche. ser-com-o-outro. já terão ido direto para o inferno. ligar em uníssono la science e la noblesse: mas a ciência pertence à democracia. esquimós apertados em seu iglu etc. O Seminário. Relume–Dumará. Repare-se nos freqüentes anúncios de grandes empresas multinacionais mostrando como seus produtos automobilísticos e de informática são completamente compatíveis com as diferentes culturas (berberes montados em camelos atravessando um deserto. S. Se estas. ao cabo. cultura anglo-saxônica/ civilização informacional globalizada. 23.. para nós estaria vinculada a uma determinada lógica.. em nosso léxico estaria o termo cultura. conseguirem pelo menos salvar sua continuidade bioquímica. 21. L’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freud in Écrits I. 25. uma referência às noções de verdade parcial e total em Lacan. A propósito. J. julho de 1999 (xerocado). du Seuil. por esta santa via. Zahar. Ed. que. A esquerda percebe bem o caráter subordinado do sujeito liberal. e isso é palpável. p. Standard Brasileira das Obras Completas. 1982.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 353 exemplo..65 (parênteses e negritos nossos) 20. p. A palavra cultura estaria reservada para uma formação social que inaugura um novo modo de ser. 124. livro 20. Exatamente como faz a Santa Sé e outras menores. ver BARBOSA. LACAN. J. Aqui. Ver SAMPAIO. Paris. 125. síntese das lógicas da identidade e da diferença) e a relação invertida re-verte e os bons propósitos lá se vão. respectivamente pp. etc. estarão com muita sorte. a lógica clássica subsume a dialética. além de substituí-lo pelo sujeito coletivo se propõe a inversão da relação de mando vis-à-vis a ciência. Crepúsculo dos Ídolos. por isso. As lógicas - . Crítica da Modernidade. comentam entre si a excelência dos “novos” produtos). v. 277 26. mais recente. 115. XXI. Rio de Janeiro.

......... 31..... O cristão foi.. ... perdido na passagem da cultura cristâ (I/D) à Modernidade (D/D).. Os judeus só fizeram valorizar a posteriori esta diferenciação... o . O homem não é o outro da natureza. mks..... A ciência tem por desejo o cálculo do Uno-Trino. a teologia da libertação foi uma tentativa (mesmo?) neste sentido. usamos a expressão de per si para indicar que o trinitarismo dialético pode subsistir dissimulado... Isto é também evidente na matemática ocidental... menos pela repressão da Cúria do que por sua excessiva e equivocada aproximação com o marxismo.......... mas sem explicitar seu sentido –. Ademais..... o judeu teórico......... mais adiante...... A separação radical só existe nas palavras. mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão.. Hegel ficou obrigado a trazer o grego do trágico politeísta para o lugar do um (filosofia!).354 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio.... com a técnica) é um juízo preconcebido que vem de Hegel (e é assumido por Heidegger)... teremos oportunidade de exemplificá-lo. mas ao próprio Homem ou à primeira cultura que deveras realizou a proeza.. Makron Books...... e o trinitário cristão para o lugar do dois (separação corpo/espírito). O comprometimento direto e visceral da cultura judaica com a dominação da natureza (se diz hoje... Com a derrocada comunista...1998..... que trocou a seqüência contábil dos números (monóide... 28. 29.... etc... Depois desse escandaloso deslocamento.. assinalando-lhe o caráter lógico/religioso. Ver capítulos 4 e 8-11 da presente obra. São Paulo.. boa parte de seus ativistas se converteu ao capitalismo-solidário-cósmico-ecológico.. I/D) pelo grupo algébrico (D/D) – Oswald Spengler já observara isto em A Decadência do Ocidente.. Este se equivoca duplamente em relação aos judeus...). e não sossegou enquanto não fez do movimento transformador (I/D) mera derivada de posição (de mando) (D/D). Depois...... E tornou a dissolver-se nele..... O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa.. O cristianismo brotou do judaísmo.. como se fora apenas uma variante da cultura unária. no texto..... Estamos aqui considerando que a aristotelização da teologia católica significou o fim do trinitarismo dialético patrístico.. Isto não quer dizer que não possa ressurgir.. Só um grande gênio seria capaz de tamanha distorção onto-lógica! 32.... desde o primeiro instante.. 30.... a “culpa” disto não cabe aos judeus..... mas produto de uma auto-diferenciação desta última.... mas que degenerou.... Isto fica evidente na física (saber paradigmático da Modernidade) que insiste em reduzir o mundo tão apenas a três grandezas pré-emolduradas pelo cálculo (sistemas cgs.

não serão necessários xamãs. fica bem clara qual foi a lógica (I/D/D)! Capítulo 6 1. ver SAMPAIO. o encontro crucial entre o homem e o divino deslocou-se do reino da natureza e do cosmos para o plano da história. A Questão Judaica. YERUSHALMI. D/D) com feminino (I/D. C. 37. tornaram-se profetas (I). Agora sim.. 1992. Ibid. filósofos e mesmo cientistas. na defesa meio inconsciente do historicismo dialético.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 355 judeu é. Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. A propósito (ver nota 31 acima). Zakhor. Noções de antropo-logia. mas persistiram. Lógica trinitária versus lógica qüinqütária in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. 35. portanto. como ficam Hegel e Heidegger? 39. 2000. Breve fenomenologia do espirito qüinqüitário Xamãs (pré I) que foram forçados a aprender a irreversibilidade do mito-poético (proto D). tornaramse teólogos (I/D). pois do princípio ao fim expressa. de. Milan Kundera. C. p. profetas que foram forçados a aprender a irreversibilidade da filosofia (D). o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu. Rio de Janeiro. L. Y. SAMPAIO. A síntese romanesca do masculino (I. ao persistirem. Yerushalmi. tornar-se-ão enfim boa gente (I/D/D). 40. teólogos que estão sendo forçados a aprender a irreversibilidade da ciência (D/D). quanto a poetas. Rio de Ja- . se embaraça e dá uma conotação antihistórica ao tradicionalismo. K. S. 117 38.5 Ibid. Rio de Janeiro. porque cria um espaço virtual andrógino onde interagem autor e leitores. 117. concebida agora em termos do desafio divino e resposta humana. imaginariamente. S. talvez se encontre lá alguma serventia.115 36. S. L. tanto objetiva como subjetivamente. Ver especialmente item 9. L..Este livro merece ser lido na íntegra. op. p. mas persistiram. mais perto de nós. Imago. Marx. 33. por vezes. de. Especialmente item 7. H. D) é o que nos permite anteexperienciar. diante disto. o que não se coaduna com a aguda percepção que ele mesmo tem da essência histórica do judaísmo originário: . SAMPAIO. p. cit. Zakhor – História judaica e memória judaica. Na cultura nova. p. op. 28. de. o novo mundo lógicoqüinqüitário. Bastariam dois exemplos: Tolstoi e. O romance pode nos antecipar o que será a verdade pela leitura. Quanto à questão da leitura.1 da presente obra 34. a tensão entre a corrente moderna trinitária (a que o autor se filia sem esconder uma certa culpa) e a corrente tradicional unária (da qual o autor não consegue se desvencilhar). profetas e teólogos. EdUERJ. C. cit.

Noções de antropo-logia. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados 4. I. Rio de Janeiro. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. Les mystères de la trinité. Car la différrence des deux hommes en presence est que l’un. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. cabendolhes pois a designação de culturas ecológicas. uma polêmica cheia de veneno e má fé. faisait de la représentation de la mort dans la vie le fondement de son ordre symbolique et du lien social. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. l’homme binaire. SAMPAIO. 5. Teríamos. pelo mesmo autor. Na esfera mundana. Luiz Sergio C. Ademais. As expressões I. o vídeo Antropologia cultural. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). porém. Rio de Janeiro.356 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO neiro. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. II. desde que não as tema. Alternativamente. Aliás. I/D etc. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. (negritos nossos) DUFOUR. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. para simular a presença do homem lógico-qüinqüitário já em seu seio. por via de sua técnica. Rio de Janeiro. III e IV. mas como dotado de uma outra lógica. isto é. 1990. ver SAMPAIO. 1993. precisamente. alors que l’autre. UAB. M. I/D (lógica dialética). não se dão conta que o fazem. As Lógicas. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. D. C. Leia-se trinitaire como cultura lógico-dialética trinitária e binaire como cultura lógico formal ou moderna. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. 1998. l’homme trinitaire. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. DR. veut en fin de compte l’érradication de la mort. são apenas uma taquigrafia. acceptait la mort. Para maiores detalhes. O que este autor não chega a perceber é que a erradicação da morte (biológica) é uma artimanha da Modernidade. de. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. 3. EMBRATEL/ UAB. logique du sentiment. de prometer a vida eterna onde impera . Makron Books. D/D=D/2 (lógica clássica). 1996. 2. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. Paris. então. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Gallimard. UAB. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl.

. p. nada há de errado nesta inversão. Em jogo. a vida eterna. 14. The Course of Modern Jewish History. em suas manifestações públicas no início e no fim de carreira. with its Jewish population of six hundred families. com sua tática de ir pouco a pouco amealhando adiamentos. justamente intitulado Jewish Economic Life and the Frankfurt Tradition. 196. O trecho acima foi tirado do capítulo VI. está sendo usado no sentido inverso daquele que ele tem na psiquiatria e na psicanálise. York. Paulo. 1985. pois até hoje só pode proclamar um único sucesso. Heidegger et le nazisme. W. O Espelho de Próspero. do social (sócio-cultural) para o individual (psíquico).. who in turn controlled the twelve largest investiment firms in the city. Paris. 7. Trata-se de um estudo acerca dos textos sobre o cristianismo e o judaísmo elaborados por Hegel em sua estadia em Frankfurt. Item 3. Enquanto a Religião. most of them living in the squalid Judengass. à exclusão dos suicidas. Howard M. SAMPAIO. S. 12. Victor. “And in 1800 in Frankfurt am Main. 8. ela é.” SACHAR.123. a Ciência. fomos aos textos de Hegel e daí direto a procurar algum estudo sobre o que estavam fazendo os judeus lá. 1987 13. C. bastante coerente na medida em que tal inversão é a exata contrapartida da mudança de ponto de vista. pelo contrário. Hegel a Francfort de Bernard Bourgeois. promete-a para depois de. R. Não é por acaso que Heidegger. Indeed. Enquanto concentramos nossa atenção acadêmica nas novelas. diariamente. refere-se a Abrahan de Sancta Clara. Verdier. SAMPAIO. o combate da Ciência contra a Religião. naturalmente. Frankfurt may well be termed the cradle of Jewish finance in Europe. v. do ponto de vista lógico. Apenas levados por este estudo. Paulo. 11. N. 1. tomada pela soberba. fingimento e superação na história da cultura. É importante atentar que aqui o termo perversão. L. 43 per cent of the entire jewish capital was owned by sixty families. Delta Book. J.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 357 6. Entretanto. Rio de Janeiro. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. 1970. Cultura e Idéias nas Américas.2 10. perverso é o sujeito (I) que aceita a lei (D/2) desde que esta seja a sua própria. É eletrizante e interessa (inconscientemente) a todos. BENJAMIN. herói da resistência à penetração islâmica na Alemanha. Brasiliense. FARIAS. desenrola-se na TV. Companhia das Letras. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados. S. MORSE. 1977. cautelosa. dezembro de 1998. para provocar tamanha ira ao . S. 9. promete-a assintoticamente ao invés de. Paris. M. p. Vrin. 1988. de Desejo. Nestas últimas.

quando tempo significar apenas rapidez. Referência a Georges Sorel. e Ashéri. dentre as mais relevantes tarefas da filosofia. como História. com a Rússia de um lado e a América de outro. Heidegger e Habermas. consideradas metafisicamente. porém a mais importante delas para o que nos interessava foi a de Sachar. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. Ficamos simplesmente perplexos quando se levanta a questão de uma filosofia brasileira e logo acorrem os defensores da “filosofia perene” dizendo que isto não faz sentido. estando no meio . quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. como o grande homem de um povo. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. mas nos instrumentos psíquicos de apropriação do imaginário alheio usados pelos psicovampiros da cultura da Modernidade que havia já sido superada.Fichte. A Alemanha. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. A propósito. . supor- . Como sustentar tal posição diante do cortejo de filósofos alemães . quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. 18.existirão museus de horrores onde serão exibidas as peças promocionais que hoje infestam os nossos “meios de comunicação”. Essa Europa. só para ficar com os mais importantes -. é a crítica da cultura em que o próprio filósofo está imerso (Cassirer). quando o pugilista valer. cada um deles com seu. 15.então. 1989. Ajudados por nosso amigo Nelson Kuperman. Rússia e América. E é precisamente isto que faz “amarelar” os nossos. já citada na nota 46 anterior. Hegel. Discurso à Nação Alemã debaixo do braço?! Isso lá acontece porque sabem que. Gallimard. encontramos diversas obras.358 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nosso filósofo. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado técnicamente e explorado economicamente. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. Sznajder. Paris. mais ou menos explícito. Schelling. ver Sternhell. Ninguém estará mais interessado nos instrumentos de tortura corporal da cultura cristã medieval (I/D). quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio puder ser “vivido” simultaneamente. Dentro de uns 200 anos . se tivermos sorte . Nietzsche. 17. como um fantasma. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. pois tal aproximação conspurcaria a nobre filosofia. houver desaparecido da existência de todos os povos. hoje que não somos mais gregos.ou menos. Naissance de l’idéologie fasciste. 16.

22. 75 26.p. FARIAS. o mais ameaçado. 43 25. uma enorme vantagem como pressente qualquer estrangeiro de sensibilidade que aqui aporta. 1993. lhe é necessária também a firme determinação de fazê-lo (I). estas quatro por nós denominadas lógicas de base. as que lhe antecedem: I. 1966. desse modo. conclui-se. mas também nos torna vítimas potenciais desta mesma excentricidade. uma “vantagem econômico-competitiva” como. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. além de si própria. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . lógica que subsume. saber materializado (D/2). Tudo isto deve se constituir numa inestimável lição para todos nós brasileiros. ibid. HEIDEGGER. Lógica . ao terem notícia. é de novo simples saber. 73 27. Barcelona. Paris. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. 43 24. como nos outros animais. Verdier. A autora fornece informações suficientes para que acreditemos numa forte rejeição de Heidegger às idéias. embora de um outro tipo que a dos alemães de então. 79-80 19. p. p. p. mas que não é. Isto nos dá certas vantagens. não lhe basta um profundo conhecimento de aerodinâmica (D/D= D/2). deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). 21. M. Anthropos. É uma vantagem. Victor. Elisabeth. Heidegger (semestre verano 1934) en el legado de Helene Weiss. Rio de Janeiro. Isso implica e exige . irão certamente acreditar nossos “sociais-democrtas”. que vivenciamos uma posição excêntrica em relação à cultura paradigmática anglo-saxônica. Paris. 1987 20. É o povo que tem mais vizinhos e. ibid. imediatamente. Podemos exemplificar: para que um homem consiga voar. O avião. ibid. Fayard. 28. histoire d’un système de pensée. ao domínio originário das potências do Ser. como até mesmo . que esse povo ex-ponha Historicamente a si mesmo e a História do Ocidente. depois de pronto e voando. definitivamente. M. O par diagonal {I. em tudo isso é o povo metafísico. 77 23. a partir do cerne de seu acontecimento futuro. ibid. Heidegger et le nazisme. O ser humano é de nível lógico I/D/2 . D/2. Jacques Lacan – Esquisse d’une vie. Tempo Brasileiro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 359 ta a maior pressão das tenazes. Introdução à metafísica. 1991. D } o feminino. pp. D. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). Esta e as próximas citações provêm todas de HEIDEGGER. p. ROUDINESCO.Lecciones de M. I/D. mas.

Gabriel Cohn.Introdução a uma filosofia da cultura humana. Estudio de la Historia. 1999. Théologie de la Culture. v. 41. C. TILLICH. G. Crítica Cultural e Sociedade in Theodor W. Noções de Antropo-logia. especialmente. in S. 1990. SAMPAIO. a possibilidade do exercício da auto-crítica. TILLICH. Ernst. Garbis. 1996 2. a propósito. 1981. 1986 e entrevista a Der Spiegel. F. em conseqüência. setembro de 1999. Ver. Paulo. S. p. S. C. 1998. KORTIAN. que traduz justamente a propriedade de reflexibilidade e. 1968. Ibid. W. Paul. cit. Delta Book. p. UAB. L. 33. EGEL. Ver. XXX. Paris. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. CASSRER. in Os Pensadores. Paulo. 1997 6.Writings in the Philosophy of Culture. v. 25 30. Bernard. Rio de Janeiro. p. fingimento e superação na história da cultura. 49. Paul. 41 7. Madrid. 8. de. op.360 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO à pessoa de Lacan 29. York. episódio este que acabou sendo. T. de. 32. Cambridge UP . Howard M. 5. L. Cambridge. Ibid. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. Paulo. 4. A Lógica da Diferença. L. cit. 3 v. S. Ática. TOYNBEE. Org. Rio de Janeiro. A compreensão disto está na reação da intelectualidade alemã à migração judaica. 43 31. C. The Course of Modern Jewish History. 1. Vrin. A. SAMPAIO. p. O verdadeiro e óbvio princípio da identidade é A(A(x)=A(x). 1980. C. J. talvez.2 Berlin. W. 9. Na lógica clássica este princípio é escamoteado e substituído por sua ausência ou sua múmia. BOURGEOIS. ADORNO. Denoël/ Gonthier. SAMPAIO. De Gruyter. Metacritique – The Philosophical Argument of Jürgen Habermas. L. o capítulo III. principalmente de famílias de banqueiros. Abril. N. Adorno. de. Palmer. L. Rio de Janeiro. Rio de janeiro. p. ed. C. La Lutte entre le Temps et l’Espace e também a coletânea póstuma Main Works . Théologie de la Culture. de. 10. 3. Ensaio sobre o Homem . Alianza. 1969. 1974 e também Lecciones Capítulo 7 . para Frankfurt por volta de 1800. SAMPAIO. Martins Fontes. SACHAR. Desejo. Introdução à história da filisofia. Paris. M. 1977. S. de. S. S. a identidade “estática” A(x) = A(x) ou abreviadamente A=A. o principal indutor do processo de modernização da Alemanha. S. Hegel à Frankfort. op. 1970 e SAMPAIO.

Brasília. o fato que o desejo da cultura lógicoidentitária é pré-lógico-diferencial. Hannah. Robert. 1. até chegarmos a Alain Badiou. SAMPAIO. D’AMICO. Mas isto seria apenas uma desculpa para alguém de menor estatura e pretensão SAMPAIO. Madrid. 1982. D e até no início de D/D (quando não se tinha ainda definitivamente explicitado e fixado o seu sujeito apropriado. 3. passando por Plekhànov. MARX. Marx and the Philosophy of Culture. Paris.5 h de duração. cit. 2. como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. entretanto. ARENDT. Existiria. dezembro de 1996. Rio de Janeiro. Brasília. Ver também. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato uma velha questão que se arrasta até hoje. para comparação. O tema. tem sido muito maltratado pelos pensadores do ser social. Achiamé. sempre o tiveram atravessado na garganta. Théorie du sujet. ver Alain Badiou. 13. Desejo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 361 sobre la filosofia de la historia universal. em especial. 1985. London. 1994.. 4. Aristote et le Lycée in Histoire de la Philosophie 1. tal problemática não poderia ser adequadamente tratada. UnB. com cerca de 3. da sua exploração. La Question juive. como também Introdução à Antropologia Cultural. ARISTÓTELES. 1994. UAB. é óbvio. Adam Schaff. Alianza. 1988 e comentários por Capítulo 8 . Garaudy. R. s/d. op. 5. K. J-P. EMBRATEL/UAB. cit.(?) 14. livro I e comentários de AUBENQUE. A Questão Judaica. o sujeito liberal). por conseqüência. op. 11. Desejo. Os marxistas. a Terra Prometida. desde Lenin. I. Ética a Nicômacos. Um exame mais cuidadoso do embasamento teórico do pensamento de Marx pode mostrar que seu “economicismo” não era assim tão radical como em geral se o considera. 1969. fingimento e superação na história da cultura. 6. 12. Rio. ______. Ver. P. Política. fingimento e superação na história da cultura. 1982. não há dúvida. UnB. Houve escravidão nas culturas pré-D. que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico. Encyclopédie de la Pléiade. II. sem a qual. Isto tornou-se verossímil porque as culturas lógico-diferenciais foram as inventoras do trabalho (que pressupõe o colocar-se como outro da natureza) e. L’“Aufklärung” et la question juive e SARTRE. Ibid. especificamente. III e IV em 2 vídeos. Ibid. Noções de Antropo-logia. Seuil. Paris..

cit. D. 18 14. de. Fingimento e Superação na História da Cultura. Desejo. D/D). L. dinheiro por dinheiro. op. 8. 1. antecedendo ao liberalismo político e à revolução industrial. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. Lógica e Economia. logicamente otimistas. Jean-Pierre et VIDAL-NAQUET. Rio de Janeiro. SAMPAIO. Ambas são. UnB. hoje tão comum. Oficina do Autor/etc. cit. O recalque das lógicas femininas se fez preponderantemente pela Inquisição. o que é um evidente erro de categoria. ter. pois. 1999 13. 11. 16. Cultura-Nova. Seria o caso agora de se perguntar se a conversão de Constantino teria sido um acerto de contas teológico ou financeiro! 15. Os verbos auxiliares em Português (ser. Paulo. de se considerar a economia como dimensão primordial da vida social. Há uma quase unanimidade no Brasil em considerar as três dimensões fundamentais do social como sendo a política. Ed. John B.362 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO MORRALL. 1998 como também Reflexões. v. Brasiliense. Rio de Janeiro. Mito e tragédia na Grécia Antiga.196.D) com utilidades (valor de uso . Rio de Janeiro. S. 1988 (xerografado) 9. S. cap. Rio de Janeiro. e também Crítica da Modernidade. Na operação financeira troca-se o mesmo (I). Fica aqui também evidente o absurdo. Fingimento e Superação na História da Cultura.. SAMPAIO. Rio de janeiro. Desejo. Rio de Janeiro. junho de 1995. 1985. op. só que em quantidades diferentes (D) em datas distintas. Noções de Antropo-logia. Aristóteles. 2 10. julho de 1999. 1981 7. W. BENJAMIN. a econômica e a social mesmo. 12. de natureza dialética (I/D). C. 1999. Ao verbo ter. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. haver e estar) mantêm uma correspondência bastante estreita com as quatro lógicas de base (I. de. SAMPAIO. envolvendo necessariamente o mesmo (I) e o outro (D). Brasília . VERNANT. C. S. só justificado como uma “operação” ideológica para elidir a dimensão cultural e assim destruir a priori qualquer intento de uma real compreensão da dinâmica social e de uma conseqüente ação subversiva. C. p. S. corresponde exatamente a lógica da simples diferença (D). A dimensão delirante da crítica ideo-lógica à Modernidade foi por nós analisada em Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. 1999. Inst.I) diferentes (D) para cada um dos operadores. Perspectiva. pelo processo de caça às bruxas coetâneo à consolidação da ciência. de A Lógica da Diferença. e mais recente- . S. Paulo.. Pierre. I/D. já o demonstramos. L. p. L.. Na troca de mercadorias está envolvida a mesma (I) quantidade de trabalho (valor trabalho .

1983. respectivamente. DEBRAY. moderadamente otimistas. da diferença e às suas sínteses reiteradas.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. S. cit. 21. A superação das idolatrias . SAMPAIO. R. mas também uma crítica implícita à profundidade prometida. Capítulo 9 1. 24. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüintária in Pensamento Original Made in Brazil. Tillich. S. L. L. Desejo. 4. de. L. C. O Escriba – Gênese do Político. C. E na esfera lógico-qüinqüitária. de.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 363 mente em A superação das idolatrias . A história da cultura segundo Toynbee. Princípio Antrópico . novembro de 1999. Hegel e Marx. de. S. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Na esfera lógico-clássica ou científica alcança-se à verdade pela verificação empírica ou pela dedução a partir de um modelo formal consensado pela comunidade especializada. Em caso de conflito entre o Papa e o Mercado. Como em psicanálise. UAB. L. o fingimento cultural é o caminho para a verdade. 5. SAMPAIO.um novo fundamento e uma significação renovada. As letras I. p. 18. op. 1999 3. L. dada a própria essência da infalibilidade. C. Rio de Janeiro. O Escriba – Gênese do Político. 23. mas não cumprida de suas análises. Ibid. cit. S. S. 24 19. Este texto foi escrito de modo a ser compreendido independentemente da referência a estas abreviações que aí estão para facilitar a compreensão dos leitores que tenham uma anterior familiaridade com elas. SAMPAIO. L. Tillich. como lá se chegaria? Como se deve entender a “causalidade” lógico-qüinqüitária? Talvez o melhor exemplo que possamos hoje dar seja este da leitura que fundamenta a nossa própria versão do princípio antrópico. outubro de 1999. 2. C.. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 20. A . cit. a verdade como sintoma. op. de história da cultura segundo Toynbee. SAMPAIO. Citado em DEBRAY. Oficina do Autor/etc. C.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. op.1997. um terá mesmo que ceder. Retour. Régis. C. S. op. D e suas combinações são uma forma abreviada de referirmo-nos às lógicas da identidade. 22. e terá que ser o primeiro que tem patrimônio. cit. Ninguém melhor para dizer o futuro do que quem se vê por ele ameaçado de morte. SAMPAIO. Reflexões. de. de. O modo como isto acontece no pensamento marxista é detalhadamente exposto em SAMPAIO. Hegel e Marx. Trata-se de uma óbvia referência A Sociedade do Espetáculo de Michel Debord. invertida. mas hoje baixa liquidez. 17. Fingimento e Superação na História da Cultura.

Compacto. As Lógicas da Diferença – Rio de Janeiro. S.. L. não liam as próprias coisas. D. L. agindo igualmente à esquerda e à direita. de. L. entretanto. S. ou seja. D/D/D. nua. Nela está implícito que. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados.364 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO noção de leitura como produtora de verdade. conquanto que não a mais completa. UAB. 1998 (xerografado). C. é interessante lembrar. SAMPAIO.. porém. na passagem dos semigrupos aos monóides. 7. I/D. uma partícula alocada a D deva se desintegrar em duas partículas estáveis (W = ν + e ou γ = e + e. Ver SAMPAIO. Makron Books. D/D. 1988 e ainda BARBOSA. mesmo no detalhe. S.. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. Marcelo C. 6. Noções de Antropo-logia. tal qual postas por Deus. (π0 = γ + γ = e + e + e + e. Esta justificativa é a mais sumária e intuitiva que conhecemos. As lógicas . S. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. 11. 1995 (xerografado).As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. item 4. I. em 3 . por exemplo) . L. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. de. por exemplo. D. dezembro de 1996. mas tão apenas a monótona escala de seus instrumentos de medida. 9. O monóide livre fundamental seria pois I. ainda pela operação /. em 4. D/D. por nós definida. por exemplo) se alocada em I/D. O leitor poderá encontrar por si muitas e muitas outras e se surpreenderá de jamais encontrar nada que o leve a duvidar. 1984 e ainda Lógica da Diferença. indefinidamente. Paulo.. C.. Rio. Cultura-Nova. das adjudicações aqui feitas. C. munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. Também versão na língua portuguesa. S. C. EMBRATEL. Inst. de. por exemplo. Rio de Janeiro. apenas como uma esperteza para contornar a incômoda censura eclesiástica de sua época. Princípio antópico. foi proposta por Galileu e outros precursores da ciência moderna. se alocada a D/D. a seqüência dos naturais. I/D/D. Rio de Janeiro. Teríamos então o monóide livre fundamental I. Rio de Janeiro. de. SAMPAIO. C. S. The Octect of the Physical Beings – Vacuum. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores.. Rio de Janeiro. (xerografado) 10. 1988 (xerografado) ou Noções elementares de lógica . D. L. SAMPAIO. cit. Um semimonóide é uma estrutura algébrica. de. Ver Sampaio. 1998. SAMPAIO. a partir de um conjunto finito de elementos. ainda bastante constringente.. não importa se a direita ou a esquerda. 1999 (aguardando publicação) 8. Na realidade. op.

op.um novo fundamento e uma significação renovada. The anthropic cosmological principle. no novo moBARION QÜINQÜITÁRIO QUARK TRINITÁRIO GLUON GLUON QUARK TRINITÁRIO GLUON QUARK TRINITÁRIO 15. não constituem dificuldades. op. et LAMBERT. de. Nome proposto pelo astrofísico australiano Brandon Carter para um pretenso princípio estabelecendo uma correlação profunda entre o homem e o cosmos. L. que vai elucidar como de fato operam as forças simples. and TIPLER. Le principe anthopique . b e t. 19. Xuan Thuan. SAMPAIO. Os barions constituem uma estrutura qüinqüitária formada por três estruturas trinitárias (os quarks. 1994. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüitária. J. segundo o modelo standard). SAMPAIO. Para mais detalhes. Ademais. por exemplo) 365 . Medidas em Mev/c2.Quatro constantes relativas às intensidades das “quatro” forças da natureza e pouco mais do que uma dúzia de constantes relativa às características das partículas elementares. Indicamos ainda dois excelentes livros sobre o assunto: BORROW. DEMARET.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (µ = ν µ + W = ν µ + ν e + e. TRINH. Oxford U. Princípio Antrópico . cit. Talvez. Ver SAMPAIO. 17. ver nosso trabalho citado na nota 10 anterior. A topologia é tal que não deixa qualquer dúvida quanto à impossibilidade da existência de quarks em estado de isolamento. Noções de Antropo-logia. como a do fóton e do graviton. D. as massas referidas são: tau . P. que justamente já apresentava dois casos de dupla alocação de fermions (elétron junto com neutrino do mion e mion com neutrino do tau). ainda uma conseqüência do trauma que vem dos tempos em que eles eram obrigados a prestar contas à teologia oficial.. o mais recente. cit. 1988 e. s. d.. Colin. cit 20. Ao invés dos quarks u. op. Reflexões. Un Astrophysien. S. As alocações conjuntas. c. 1995. J. The Octect of the Physical Beings. D. 16. com cargas fracionárias do modelo standard. mas uma sugestão acerca de um recôndito parentesco entre elas. poderíamos ter. 12. op. Champs/ Flammarion. moderadamente otimistas. Oxford. isto contribui para maior simetria do modelo. J. 18. cit. Paris. F. C.L’Homme est-il le centre de l’Univers? Paris. Ver SAMPAIO. em Pré-D. 13. A. 14.

etc. Esta é uma forte razão suplementar para que a antiga força forte piônica deva ser considerada ainda uma força de per si. 28. como nos outros animais. o que não vale para agregados de nível superior. Théorie de la relativité complexe. nêutron = 939. cit.57. só depois.daí. Rio de Janeiro. que o fez no contexto de um teoria da relatividade geral complexa. e é precisamente isto que impede a desintegração do nêutron. 26. 1996. As idéias de Teillard de Chardin fizeram escola e foram retomadas inclusive por físicos . I/D. Esta. A Michel. lógica que subsume. S. Menon. necessariamente sexo-lógico. Com isto. D. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). CHARON. 22.5. C. O ser humano é de nível lógico I/D/2. Mesmo que se contestasse a necessidade da família burguesa. além de si própria. pois só vai até I/D . Colocamos o termo ‘família’ entre aspas para chamar a atenção de que se trata de um agregado de base. Para resolver este problema é necessário levar a criança de ambos os sexos à posição I/D/2 e.366 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO =1784. 27. de. as que lhe antecedem: I. 24. o feminino (I/D. expressões tão chocantes como ‘a mulher não possui superego!’. é suficiente para compreender a lógica do rapaz (D/2. Fedro.Um valor desmesurado dado que a unidade natural de tempo cósmico (tempo de Planck) vale apenas 10–43 s e o próprio Universo tem apenas cerca de 1. 25. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. imediatamente. D } o feminino.Ver SAMPAIO. 23. a ideologia burguesa que pretende constituir a sociedade a partir de indivíduos (pseudo-andróginos-virtuais. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2. 21. .1010 anos. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. D) fica logicamente diminuído. que embora redutora. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). 1977. No interior do núcleo (à distância de 10-15 m) prótons e nêutrons trocam pions (força forte de Yukawa). etc. por suposto). a problemática edipiana vai apenas até a aceitação da lógica da castração (D/2). é a prova da igualdade fundamental de homens e mulheres. conclui-se. Paris.30. teríamos que admitir em substituição um agregado de mesma natureza sexo-lógica. a propósito. Lacan et logiques.2. Ediouro. Princípio antrópico. sim. J. como é o caso de Charon. op.próton = 938. O par diagonal {I. Banquete. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). L. ‘o que quer uma mulher?’. pode haver uma opção sexual adulta. É um absurdo. Rio de Janeiro. Em Freud. 1992. PLATÃO. I). SAMPAIO. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. D/2.

7. O monóide livre fundamental seria pois I. As expressões I. Rio de Janeiro.. Rio de Janeiro. L. Na esfera mundana. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). fasc. 1968 3. 1979 2. TOYNBEE. D/D/D. Para maiores detalhes. Paris. Lógica da Diferença. D. por exemplo. C. a partir de um conjunto finito de elementos. Makron Books. não importa se a direita ou a esquerda. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. SAMPAIO. S. TILLICH. Paul. D. de. Noções de Antropo-logia. S. L. I/D etc.. de. 5. na passagem dos Capítulo 10 . Théologie de la culture. UAB. indefinidamente.. A sociedade do futuro.. D/D. abris/junho 1999 6. As Lógicas. M.. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. D. Rio de Janeiro. D. (xerografado) 4. munida de uma operação genérica “/” gozando das propriedades de fechamento. I/D (lógica dialética). então. Denoel/ Gonthier. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. são apenas uma taquigrafia. por nós definida.. Ver Sampaio. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. I/D/D. C. (EdUERJ 2000) Revista Brasileira de Filosofia. S.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 367 1. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. L. Paulo. SAMPAIO. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. nua. agindo igualmente à esquerda e à direita.. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. I/D. ou seja. enquanto que a nossa síntese dialética generalizada pode operar reiteradamente sobre elas e seus anteriores produtos. a seqüência dos naturais. D/D=D/2 (lógica clássica). Teríamos.194. Um semimonóide é uma estrutura algébrica. C. D/D. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. desde que não as tema. ver SAMPAIO. de. Arnold. Rio de Janeiro. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. Noções de antropo-logia. de. Luiz Sergio C. A aufheben hegeliana opera apenas a síntese das lógicas da identidade e da diferença. dezembro de 1996. Rio de Janeiro. UAB. C. 1998. Teríamos então o monóide livre fundamental I. Zahar. S. I. ainda pela operação /”.

22. que eu chefiava em 1993.As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. p. com o pensar de uma era ainda por vir: era da cultura nova qüinqüitária.1998 24. dezembro. a nosso juízo. Noções de teo-logia. (xerografado) 9. 19. Luiz Sergio C. Rio de Janeiro. Ibid. SAMPAIO. de um lado. Paris. S. de. Ver SAMPAIO. 1988 e Noções Elementares de Lógica – Compacto. 10.33 20. L. L. de. Hague. de outro. Luiz Sergio C. como também BARBOSA. 13. IC-N. SAMPAIO. de Desejo. Noções de onto-teo-logia. 12. tal como já insinuamos. L. Rio de Janeiro. Noções de teo-logia. não diferem em muito daqueles que se obtinham por via da analogia entis. I. Ver especialmente item 1. L. 1998 (xerografado) 14. S. S. opus cit. . S. RAHNER. As lógicas . SAMPAIO. 1968) que observa que entre as duas analogias não há outra diferença que aquela da simples ênfase relativa. C. 2 v.Questão de método. de. S. 16. a última identifica-se com a metafísica no seu sentido pejorativo. da imanência de Deus. Paulo. Os resultados a que chega a analogia fidei. Cultura-Nova. C. Rio de Janeiro. Existe uma fortíssima razão de simetria que não pode ser aqui convenientemente exposta. C. 18. 23. Curso fundamental sobre la fé. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. C. UAB. (xerografado). Rio de Janeiro.34. Fui chamado a atenção para o fato por um bolsista. C. 1996. Rio de Janeiro. Noções de teo-logia. pp. de. Ver especialmente. HEIDEGGER. S. M. o que é corroborado por Battista Mondin (The principle of analogy in protestant and catholic theology. de Desejo. C. Inst. Noções de antropo-logia. 1964. de.V . 8. SAMPAIO. de. Rio. com ela não se confunde. S. A expressão onto-teo-logia no título do trabalho em questão é uma óbvia alusão à ontoteologia heideggeriana. de. Ver SAMPAIO. L’être et le temps. opus cit. S. 1993/1997. fingimento e superação na história da cultura. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. Rio.368 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO semigrupos aos monóides. L. 1997. SAMPAIO. 1991. fingimento e superação na história da cultura. de. C. Noções de teo-logia. S. Herder. estagiário do DRH da EMBRATEL. Karl. Rio de Janeiro. opus cit. UAB. Rio de Janeiro. S. pp. SAMPAIO. CulturaNova. na transcendência. L.2 . Gallimard. L. L. 15. cit. porém. L. 47-48. 1984. Makron Books. Barcelona. 1995 (xerografado). cap. SAMPAIO. a primeira. (xerografado) 11. 17. 1985. junho de 1995. Ibid. SAMPAIO. de. SAMPAIO. C. 23-24 21. C. Marcelo Celani. op. Apontamentos para uma história da física moderna.

UAB. 15. _____. 1994 e também Considerações Gerais sobre a História da Cultura – Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da Situação Brasileira.194. A superação das idolatrias ._____. Ibid. 1991. vídeos. julho de 1999. 1993/1997 e The Octect of the Physical Beings – Vacuum. S. abris/junho 1999 5.. Crítica da Modernidade. Introdução à Antropologia Cultural. logicamente otimistas. Noções de Antropo-logia. Brasília. Tillich. Noções Elementares de Lógica – Compacto. S. Rio de Janeiro. 1999 3._____. Reflexões. cit. Oficina do Autor/etc. C._____. Rio de Janeiro.um novo fundamento e uma significação renovada. e Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. novembro de 1999 12. 1998 7. _____. 2. 1999. _____. op. EMBRATEL/UAB. cit. Rio de Janeiro. outubro de 1999. _____. 13. Rio de Janeiro. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces.. 11. 10._____. Hegel e Marx. UAB. Rio de Janeiro. cit. _____. Rio de Janeiro. Desejo. Introdução à Antropologia Cultural. Fingimento e Subversão ma história da Cultura.. 4. 1998 8. out. op.. Rio de Janeiro.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (xerografado) 369 Capítulo 11 1. cit. Noções de Antropo-logia. cit. Rio de Janeiro. 1999 9. _____. II. op. UAB. op. de. op. palestra no Evento anúncio do Programa do Laboratório de Estudos do Futuro. SAMPAIO. _____. uma versão abreviada e significativamente modificada do volume I da obra homônima e ainda Lógica da Diferença in Revista Brasileira de Filosofia. Noções de Antropo-logia. Princípio Antrópico. Paulo. Rio de Janeiro. L. _____. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. 6. 1996 14. Brasília. com cerca de 3. UnB. . setembro. III e IV em 2 vídeos. Rio de Janeiro. Princípio Antrópico . dezembro de 1996 e A história da cultura segundo Toynbee. Apontamentos para uma história da física moderna. cit. ICN.5 h de duração. fevereiro de 1997 e ainda Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. op.. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. fasc. _____. Rio de Janeiro. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. I. e também A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural.

o emérito professor Dr. arrojado descobrimento europeu ou se o início das tribulações e das penas de gentes que já aqui haviam e outras chegadas de outras partes que estão fazendo emergir. a pergunta por si constituía-se numa revolução: não se indagava mais se os primitivos tinham alma. _____. Lauro Morhy no evento Anúncio do PROGRAMA DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DO FUTURO. na nossa opinião. enfatizando que este primeiro item valeria por si. Dr. o que em si não traduzia nenhum menosprezo.370 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 16. Capítulo 12 1. A série de eventos. a Invenção do Brasil. perguntava-se se eles tinham lógica (clássica). sem dúvida. quando no almoço que precedeu à nossa apresentação. O presente texto teve origem nas notas para uma palestra realizada a convite do Magnífico Reitor da UnB. que. durante a nossa exposição fizemos reiteradas alusões ao episódio. espero que para muito breve. mas especialmente como uma terceira tentativa de resposta àquela . às vésperas do ano 2000. Roberto Cardoso de Oliveira. 2. que seria o coordenador das apresentações da tarde. Por isso. Considerávamos que. op. sim. Não é preciso enfatizar o quanto nos sentimos honrados por lá estar presentes e o melhor que podíamos fazer para nos aproximarmos um pouco do talhe da oportunidade que se nos era oferecida seria evitar as trivialidades. agora. presidindo a Mesa nos apresentou à platéia como economista e especialista em informática. de algum modo. Ainda. era de excepcional oportunidade e de uma grande importância. independentemente da resposta dada pelo pensador francês. mas levou-nos à convicção que não respondêramos satisfatoriamente à sua pergunta do almoço. a nosso juízo bem melhor. O professor Dr. cit. uma nova cultura sob o sol dos trópicos. Tentamos por duas vezes responder que partíamos da problemática levantada por Lévy-Bruhl referente à questão do pensamento pré-lógico dos primitivos. esta nossa velha preguiça de pensar o novo. as referências eruditas gratuitas e outras velharias para enfrentar. não estávamos ainda bem certos do que comemorar: se um. negamos e coetaneamente já somos. que estava sendo anunciada como atividade central do Laboratório de Estudos de Futuro para o próximo biênio. tema sobre o qual ele mesmo havia escrito um livro que tínhamos já na pasta e à mão. inclusive para lhe pedir que o autografasse. os déjà-pensées. Roberto Cardoso de Oliveira. Estas notas de palestra já estavam obviamente alinhavadas. posteriormente. Fingimento e Subversão ma História da Cultura. pois. Desejo. nos perguntou de que “lugar” nós iríamos falar.

Paris. D/D=D/2 (lógica clássica). 8. Gallimard. Compendio I/IV. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. 10. 6. A. G. AXELOS. As Lógicas. Brasília. possa tê-las como um conveniente e simples apoio de leitura. Vozes. Rio de Janeiro. 1976. Para qualquer dúvida sobre esta nota. 19 de out. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). 1998. As lógicas – As Lógicas Ressuscitadas Segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. só poderá ser bem compreendido com a ajuda desta nota. Georg. A Arqueologia do Saber. O psicanalista francês André Green. UnB. são apenas uma taquigrafia. O. Fenomenología del Espírito. 1981. Georges. SPENGLER. 1960 4. BARBOSA. C. W. B. 1971. de Minuit. Petrópolis. F. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. Rio de Janeiro. ver SAMPAIO. FCE. Eugen. Para maiores detalhes. D. desde que não as tema. de Minuit. M. Makron Books. consultar registro televisivo da sessão. LUKACS. 1977 e também FINK. por sua vez. TOYNBEE. (org. 3. LÉVI-STRAUSS. Noções de antropo-logia. A Decadência do Ocidente. declarou que. 7. 2. 12. 1982. 1966. Paris. S. 13. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. 1972. 1972. de. nos arquivos da UnB que. de 1996. UAB. Kostas. FOUCAULT. M. Contribuition à la Logique. S. de Minuit. 1998. C. . M. Paulo. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. I/D etc. Estudio de la Historia. México. História: método sem objetivo específico in NIZZA da SILVA. Cultrix. Teoria da História. M. Paris. entrevista de André Green em Jornal do Brasil. Paulo. I/D (lógica dialética). As expressões I. Le Jeu comme symbole du monde. Paris. 5. Teríamos. recentemente instado a justificar o seu pessimismo em relação ao mundo atual.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 371 sua mui justa e sábia indagação. C. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. Idéias.” Provocações do pensar. a seu ver. então. DUBY. “a proposta de nossos políticos para as gerações modernas é ‘suicidem-se’. Luiz Sergio C. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Alianza. 9. Histoire et Conscience de Classe. Madrid. HEGEL. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. Histoire des Mentalités.). Na esfera mundana.

A representação arquetípica da lógica qüinqüitária aparece em quase todas as culturas como uma figura de 5 elementos. Rio de Janeiro. As Lógicas. do saber inter-subjetivo (por isso. I. L. é produto da . entre outra coisas. Alternativamente. S. Rio de Janeiro. SAMPAIO. UFRJ/Gripho. (5) é complacente ao Absoluto. segundo Lacan. dialética (I/D). a pirâmide de base quadrada. D. 23. 14. inclusive o homem. é de grande importância. da diferença (D). Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. Rio de Janeiro. I/D e D/D. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o devir (I/D). Rio de Janeiro. SAMPAIO. tomando-se. 15. 1996. Ademais. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). Razão e Diferença. 17. cit. Márcio. 1998 18. tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). embora não permitam dar conta de modo compreensivo. o vídeo Antropologia cultural. 1995. pelo mesmo autor. L. Isto é valido inclusive para a Modernidade. SAMPAIO. de. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/2). porque suas diagonais. S. (2) só é na medida em que remete a outro (D). as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. de . então a diferença talvez não seja mais nenhuma. sendo a mais comum e sugestiva. Rio de Janeiro. de. II. As lógicas de base são as lógicas propriamente subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária: I. EMBRATEL/ UAB. C. III e IV. É o conjunto das lógicas da identidade (I). A religião na Modernidade. Noções de antropo-logia. é impossível o calculo do outro!) 19.372 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Makron Book. são inúmeros os casos de culturas logicamente híbridas. como em todas as culturas. 1998. Fingimento e Subversão na História da Cultura. Noções de antropo-logia. in Sete ensaios a partir da lógica ressuscitada.15. C. Ver BARBOSA. op. UERJ (no prelo) 16. S. que forma a base da pirâmide representativa de I/D/D. L. op. Este conjunto. 1994 20. SAMPAIO. um pouco abusivamente. 21. GOLDMAN. Desejo. 22. clássica ou da dupla diferença (D/D) e qüinqüitária (I/D/D) que permitem pensar todos os entes mundanos. cit. 1993. Ed. C. permitem a re-definição ou sobre-impressão da sexualidade no ser. UAB. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético.humano.

Ademais. pois. das relações EUA/Brasil. 29. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. 26. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza.pré-I. C. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. Desejo. isto é. não se dão conta que o fazem. pois na ver- . A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. 25. I. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. ou seja. entre outros. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). a síntese da identidade com a dupla diferença. que isto é o suficiente para demonstrar em definitivo que a História não é um processo dialético trinitário hegeliano (apenas). D e I/D). aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. 24. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. 27. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. além. Por isso ela é politeísta. Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. porém. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. pré-D. 28.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 373 sacralização de sua lógica própria.. contudo. SAMPAIO. Não é surpresa. isto é. crenças e ritos. S.. L. Aliás. Observaríamos. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. cuja necessidade foi há muito pressentida. op. cit. Isto tem implicações de uma incalculável amplitude que não podemos (ou talvez nem soubéssemos) aqui explorar. logique du sentiment. o cristianismo patrístico aparece como histórica. em profundidade. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. mas não logicamente qüinqüitário. ao todo 5 . precisamente. mas como dotado de uma outra lógica. como mereceriam. como pseudoqüinqüitário. em um modo próprio . mas um superior processo hiperdialético qüinqüitário. Consideradas todas as culturas nodais anteriores (ecológicas e propriamente lógicas. de. uma polêmica cheia de veneno e má fé.

32. ibid. como a Índia. inclusive) é crença corrente entre os gregos.374 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. ibid. 59. Paulo. foi vítima deste tipo de “ ilação”? 33. Gallimard. Théorie de la Religion. Rio de Janeiro. 228. Mircea. p. é bom aduzir que não é de agora. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. 90. F. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. 31. p. 1966 p. Difusão Européia do Livro. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. em sua máxima generalidade. pois. 1966. Tomo I.. Paulo. cit. Platão.opus citado. Finalmente. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . muita antiga. Por isso. ib1973. Paris. Le Jeu comme Symbole du Monde. p. FINK. enquanto que o segundo é um marginal. sem a menor cerimônia. (negritos nossos) 35. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. sim.. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. Minuit. George. SOCRATES: . p. Hölderlin. Paris. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo que acabou acontecendo. porém. é ele sem dúvida o grande culpado.. Reflexões. 40. e sendo-lhes assim tão íntimo. lá e cá. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. op. por excepcional (de exceção) o atual momento destas relações. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. A lógica clássica ou da dupla diferença. 92 38. 1959. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. p. p. 30. 36. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular . 34. 37. ELIADE. 1955. 43 41. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. Exclui-se aqui. Eugen. porém. ELIADE. 101 39. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. Zahar. 1978. 1. 58. S. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). Arte Retórica e Arte Poética. Atena. sua oposição à filosofia. por isso as subsume. As- . ARISTÓTELES. A República. História das Crenças e das Idéias Religiosas. S. Oevres Complètes. BATAILLE. vol. ou pior. Quem já não viu.

A Questão Cultural – Palestra proferida no workshop sobre A Questão Cultural. a maior parte de sua carreira atuando em Hollywood. 46. igualmente mencionado. o grande realizador cinematográfico irlandês. Apontamentos para uma história da física moderna. Por exemplo. Noções de antropo-logia. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D.II e IV. como nos outros animais. Todas as demais grandezas físicas estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. 44. (xerografado) 48. (2000) 43. feito desejo domesticado pelo marketing. opus citado. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. pelo mesmo autor. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. lógica que subsume. grama e segundo) ou mks (metro. S. Na modernidade capitalista. 42. em parte. O par diagonal {I. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida. mas sim o que era necessário . out. 1996. as que lhe antecedem: I. de. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. Ver Reflexões. L. 45. C. massa (M) e tempo (T). quilograma e segundo). Rio de Janeiro. D/2. O I. imediatamente. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqüitária. o vídeo Antropologia cultural. S. constata que isto foi tentado. L. 1993/97. além de si própria. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. C. I/D. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). Referência a John Ford. de. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. não criou a ciência. SAMPAIO. sistema cgs (centímetro. Quem vai a Westminster e vê o túmulo de Newton no centro mesmo da catedral. D } o feminino. Rio de Janeiro. por suposto. ingleses.II. SAMPAIO. Vide a última Carta Encíclica – “FIDES ET RATIO”. de.. UAB. herdado pela lógica clássica. S. D. FINEP/ etc.. 49. não pegou. C. assim como. O ser humano é de nível lógico I/D/2. 1995. a Igreja Católica sempre namorou a ciência. mas felizmente para eles. conclui-se. 50. Ao contrário do que se diz por aí. 47.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 375 sim. SAMPAIO. Rio. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Brasília. o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. L. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). A separação drástica luterana entre fé e razão. ICN. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L).

52. Isso implica e exige . tipo de psicose. para se constituir em sujeito da ciência. Paulo. 55. Pietro. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. estando no meio .376 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para criar uma sociedade ou cultura científica: nada mais nada menos do que o sujeito liberal liberado para ser sujeitado à ciência ou. Não somos nós a dizer isto. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. Segundo um programa de TV focalizando cada um dos países europeus. desse modo. quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. como o grande homem de um povo. É o povo que tem mais vizinhos e. S. houver desaparecido da existência de todos os povos. então. 1991. Os denominados problemas sociais nada mais são do que a banda podre do modelo econômico vigente. 51. o mais ameaçado. como um fantasma. Na perversão pessoal. 56. existe um empenho deliberado (por quem?) em desenvolver a gastronomia alemã com a finalidade de atenuar sua pressuposta inclinação belicista (ou anti-consumista. com a Rússia de um lado e a América de outro. Galileu Herético. consideradas metafisicamente. em tudo isso é o povo metafísico. mas. Companhia das Letras. acontece precisamente o contrário. Essa Europa. na perversão social. A Alemanha. 54. quando o pugilista valer. perguntaríamos nós). justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. REDONDI. que pela ousadia quase foi executado pela Inquisição. foram já muitos e entre eles o Padre Antônio Vieira. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio poder ser “vivido” simultaneamente. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. suporta a maior pressão das tenazes. simplesmente. que esse povo ex-ponha Histo- . como História. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. é o sujeito (I) que se sobrepõe à lei (D/D). Não há nada mais ridículo do que dividir o social em político. 53. Rússia e América. econômico e social mesmo. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente. Aqui deveria entrar o cultural e é precisamente para ocultá-lo que se comete o absurdo de considerar o social parte própria de si mesmo. Pessoal e social são sempre anti-simétricos. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. quando tempo significar apenas rapidez.

assim mesmo entre aspas. 1966. Povão é empregado aqui como uma verdadeira categoria sociológica. Tempo Brasileiro. 79-80. é seu justo contrário. por exemplo é freqüentado pelo povão. ao domínio originário das potências do Ser. M.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 377 ricamente a si mesmo e a História do Ocidente. 57. desde que em estado de congraçamento. que de certo modo pode incluir todos. Rio de Janeiro. a partir do cerne de seu acontecimento futuro. tipicamente brasileira. não importa que tenha extremos. incluindo até um miserável que se pôs sob um viaduto (D) recém-inaugurado e com um giz delimitou internamente retângulos (D) para alugá-los a outros ainda mais miseráveis. A “elite”. HEIDEGGER. pp. Introdução à metafísica. uma geral e uma tribuna de honra. . tornando-se assim um autêntico empresário schumpeteriano (I) (caso verídico ocorrido no Rio). O Maracanã.

378 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO EDITORA ÁGORA DA ILHA .

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