GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v.2,  n.

2  (2012)  

 

ARTIGO   O  TRABALHO  COM  A  HISTÓRIA  E  A  CULTURA  AFRO  PRATICADO  NA   INFÂNCIA  E  ADOLESCÊNCIA  MODIFICARÁ  HÁBITOS  VICIOSOS  QUE   LEVAM  À  PRÁTICA  E  À  ALIMENTAÇÃO  COTIDIANA  DO  RACISMO  
Rossiene  Santos  Sarlo1,  João  Pereira  dos  Santos  Neto2,  Eduardo  Santos  Sarlo3  

 

 

RESUMO     Trata-se de uma reflexão sobre o currículo praticado na educação brasileira no   enfrentamento de questões ligadas a educação intercultural e diversidade cultural diante de uma sociedade plural, multicultural, transcultural, miscigenada e hibrida. O direcionamento da Constituição Federal de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96 vai de encontro a práticas cotidianas muitas vezes conduzidas por livros didáticos com tendências ideológicas positivistas e/ou neoliberais que fortalecem o estabelecimento e legitimação do poder da cultura europeia e distante da realidade da nossa sociedade. Este estudo também coloca em discussão os pontos positivos da aprovação e implantação da Lei N.º 10.639 que institui no currículo escolar a obrigação dos estudos sobre a cultura da África e Afrodescendentes. Indica como caminho para diminuir ou acabar com os conflitos raciais no Brasil estudos cotidianos que coloquem temas relacionados a afirmação dos diferentes segmentos étnicos para que possam fomentar relações sociais, políticas e culturais mais respeitosas e harmoniosas. Palavras-chave: currículo, cutura afro, educação. ABSTRACT It is a reflection on the curriculum practiced in Brazilian education in dealing with issues of cultural diversity and intercultural education before a plural, multicultural, transcultural, hybrid and mixed. The direction of the Federal Constitution of 1988 and the Law of Guidelines and Bases of National Education 9394/96 will against daily practices often led by textbooks with ideological tendencies positivist and / or strengthen the neoliberal establishment and legitimization of the power of culture European and distant from the reality of our society. This study also calls into question the positive points of the approval and implementation of Law Nº. 10,639 establishing the required curriculum of studies on the culture of Africa and African Descent. Indicates as a way to reduce or end the racial conflicts in Brazil studies that place everyday themes of affirmation of different ethnic groups so that they can foster social, political and cultural more respectful and harmonious. Keywords: curriculum, cultural diversity, education.                                                                                                                
1  Pedagoga,  Professora  Universitária,  Doutoranda  em  Educação  –  PPGE/UNESA.   2  Professor  de  História,  Mestre  em  Educação  –  PPGE/UFES.   3  Advogado,  Especialista  em  Direito  Civil  e  Processual  Civil,  Professor  Universitário.

   

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muitas vezes firmando e reafirmando as teorias positivistas do século XIX. maneira de se vestir. dos profissionais da educação. que já deveriam ter se livrado desses preconceitos. com o crescimento da escola brasileira no que se refere à possibilidade de acesso das crianças e jovens brasileiros a mesma. língua. A moderna genética demonstrou que não existe nenhum conjunto de critérios físicos e biológicos que autorize a divisão da humanidade em qualquer número determinado de “raças”. Estudos e discussões vêm sendo feitas nas duas últimas décadas (CANDAU. 2009.2  (2012)     Após a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional o acesso das crianças. atualmente. tais como religião. O etnocentrismo ainda prevalece no imaginário das pessoas e o que é pior no imaginário dos professores. SANTOS. porém o caráter excludente e desrespeitoso da educação continua a discriminar os sujeitos como desiguais e inferiores devido a mil fatores entre eles a questão da etnia. Porém. jovens e adolescentes foi garantido pelo seu direito à Educação Básica. 2008. tem dedicado ricas reflexões a educação e a escola na análise dos conceitos de ‘raça’ e ‘etnia’ que se tornaram crescentemente problematizados. porém a formação de professores não vem cuidando desta questão com o respeito que deveria. Convivemos.2. SANTOMÉ. tipo de cabelo. 100). SILVA 1999 e 2000. dicotimizando a humanidade em dois grupos. 1998. Os dois termos foram bastante discutidos dentro da academia. traços físicos e o termo “etnia” para identificações baseadas em aspectos culturais. Até mesmo a oposição que frequentemente se faz entre “raça” e “etnia” perde. p. da identidade cultural. modos de vida. a garantia em lei não garante o direito ao acesso ao processo de ensino-aprendizagem e nem a possibilidade de entrada e saída com sucesso dos bancos escolares. entre outros) não só do Movimento Negro contemporâneo como muitos outros.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v.   ISSN  2238-­‐4170   23       .  n. dessa perspectiva o sentido (SILVA. É comum reservar-se o termo “raça” para a identificação baseada em caracteres físicos como cor da pele. 2002. os superiores e os inferiores criando com isso muros segregadores que consideravam naturais devido sua origem. A mesma observação vale para o termo “etnia”.

 n. perde espaço e força na realidade do nosso contexto histórico-cultural. Essa discussão demonstra o caráter cultural e discursivo dos termos “raça” e “etnia”. Como afirma Carvalho (2009. esquece-se que vivemos numa sociedade plural. paredes. A ideia de distanciamento.2  (2012)     Atualmente. o fato do termo “raça” não ter nenhum referente físico e biológico real não o torna menos “real” em termos culturais e sociais. Mas. p. percebido e analisado a partir dos meus conceitos. pela migração e imigração constante e contínua. vendo o outro como não-eu. Porém. 2000). É interessante perceber que o mundo sempre utilizou muros para isolar os diferentes: os muros das antigas cidades. multicultural. miscigenada e hibrida. Não podem existir muros. o mundo continua cada vez mais dividido entre países ricos e pobres que ditam a cultura dominante e nesta prevalece o eurocentrismo.2. no Brasil. 57) “Nessa perspectiva. Vive-se na esperança de um mundo mais justo em que as diferenças sejam respeitadas. não podemos nos esquecer do que é afirmado na teoria social contemporânea. ou seja. a noção de sujeito é substituída por agenciamento coletivo de enunciação. No entanto. o muro das mansões e o muro da justiça. na realidade. transcultural. Porém. No interior das sociedades. as desigualdades persistem e. crescem a violência e as novas construções de muros. o muro das fronteiras imperialistas dos Estados Unidos da América e da União Européia. onde se afirma que:   ISSN  2238-­‐4170   24       . a muralha da China e o muro das fronteiras da Faixa de Gaza.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. pois o mundo está todo conectado em tempo real pelos diversos canais de comunicação. o mundo idealizado pelas teorias neoliberais emergentes e o mundo apresentado na prática são. principalmente na baseada e inspirada pelo pós-estruturalismo. a prática é cruel. menos violento em que as instituições possam voltar a ser referenciais de formação de um cidadão solidário com consciência terrena (MORIN. toda produção de sentido não está centrada em agentes individuais”. pela necessidade de sujeitos coletivos e não individuais. em consequência disso. distintos.

Como afirma Patto (1999. assumem seu erro histórico. condição e oportunidade de acesso ao direito é outra. a promulgação desta Lei foi um grande avanço do ponto de vista político para o movimento negro e cultural para uma sociedade miscigenada como a nossa. Sem sombra de dúvida.. institucionalizado pelo Estado brasileiro. na infância e adolescência.  n. muitas denúncias são feitas no cotidiano do contexto escolar onde ainda impera uma cultura de exclusão e insucesso da criança negra que teve início a partir da metade do século XX. raça. público e particular deve incluir o assunto no currículo. a lei vem ganhando força. O trabalho com a história e a cultura afro. se praticado desde cedo. p. Grande parte do que a escola ensina até hoje sobre a cultura afro-brasileira é folclore ou clichê.. Simultaneamente a tantas e tantas discussões. Isso por si só já é um avanço. A lei afirma que toda instituição de ensino fundamental e médio.2  (2012)     [.] raça e etnia tampouco podem ser considerados como construtos culturais fixos. 29) “a tendência a atribuir a pobreza a uma inferioridade inata e os piores abusos das teorias racistas só se darão após os anos cinqüenta desse século”. o preconceito e a discriminação dirigidos à comunidade afro-descendente foram. agora busca-se trocá-los por literatura.2. com certeza modificará hábitos viciosos que levam à prática e à alimentação cotidiana do racismo. Os livrinhos que não vão além das senzalas e dos navios negreiros. p. Precisamente por dependerem de um processo histórico e discursivo de construção da diferença. 1999. Os livros didáticos. durante esses mais de 500 anos. definitivamente estabelecidos. política. Assim a   ISSN  2238-­‐4170   25       . 101). O racismo. que existiam são um exemplo crucial disso: omitiam a história negra e restringiam personagens políticos apenas à figura de Zumbi. é sempre bom lembrar: direito é uma coisa. arte e história por conta da garantia dada pela Lei N. A lei é base na mudança do imaginário brasileiro.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Sancionada em janeiro de 2003. dados. À medida que os poderes constituídos aprovam uma lei dessa natureza. como estamos no Brasil. Mas.639.º 10. etnia estão sujeitas a um constante processo de mudança e transformação (SILVA.

2000.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v.2. ser capacitados para intervir na realidade em que estão inseridos.2  (2012)     afirmação da identidade brasileira terá ganhos significativos a partir da prática efetiva desta Lei. nas discussões de propostas pedagógicas uma nova cultura contra a exclusão e o insucesso da criança/adolescente/jovem negro no cotidiano escolar. propostas alternativas e produção de material didático e paradidático. É fundamental que o conteúdo não seja reduzido a estudos esporádicos ou unidades didáticas isoladas ou a projetos interdisciplinares para comemorar dia da abolição. Pois.   ISSN  2238-­‐4170   26       . alimentação. vestimenta e rituais festivos. ainda. analisar fatos e poderão. eles poderão aprender conceitos. Diante desse resultado forjado no imaginário do povo. Um pensar crítico sobre o etnocentrismo do currículo. contemplando os afro-brasileiros. na contextualização das situações. ao estudar apenas aspectos relativos a seus costumes. a fim de transformála. a formação do professor sobre questões essenciais relativas ao conhecimento. banalizando e folclorizando sua cultura.  n. Assim aconteceu durante anos ao estudarmos sobre os índios que só apareciam na história da humanidade depois do século XV e sobre o negro o sofrimento dos mesmos diante da escravidão sofrida por quatro séculos. a fragilidade do índio e a força física e resistência do negro. valorizando a cultura negra e a viabilização de projetos pedagógicos. são algumas das estratégias que tem sido empreendidas (ROCHA. estabelecer uma conexão entre situações de diversidade com a vida cotidiana nas salas de aula é uma das melhores estratégias para levar alunos a posicionamentos críticos por meio de uma ação reflexiva e crítica da realidade onde estão inseridos. Não se pode fazer como comumente vemos acontecer de tratar a cultura negra e/ou de outro segmento social com superficialidade. Reforçando a visão positivista de analisar o outro a partir da interdependência da cultura dominante. O resultado dessa prática foi reforçar o poder do branco. dia do Zumbi ou outros. Percebe-se que existe nos meios educacionais. s/p).

] Estes recursos pretendem estipular atitudes com relação ao mundo no qual estamos inseridos. A identidade e a diferença são. etc. quem. É muito enriquecedor que as diferenças existentes sejam discutidas para combatermos posturas etnocêntricas e desconstruirmos estereótipos e preconceitos atribuídos ao grupo negro.2  (2012)     A visão de que existem diferenças entre grupos etnoculturais não significa superioridade ou inferioridade dos mesmos.. assim. 169. Somos nós que as fabricamos. concepções. quando e onde podemos intervir. como afirma Silva (2000. no contexto de relações culturais e sociais. Isto explica que possamos contatar a existência de livros que reproduzem os mesmos valores. resultado de atos de criação social. próprias. grifo do autor).. 1998. 76): A identidade e a diferença têm que ser ativamente produzidas. sem considerar que cada indivíduo apresenta características específicas. A identidade e a diferença são criações sociais e culturais. [.. preconceitos. habitantes da África setentrional. A identidade e a diferença são interdependentes e resultantes da criação sóciohistórica humana por meio da criação linguística. singulares e ímpares. mas do mundo cultural e social. Para que isso ocorra no cotidiano das escolas e no interior das salas de aula é necessário a preparação do professor para conduzir esse processo de maneira tranquila e sem constrangimentos para as partes envolvidas no processo.. a sua cultura. (SANTOMÉ.] Sob o rótulo de livros racistas encontra-se aquele grupo de manuais que ignora a realidade de raças e minorias éticas sem poder: populações ciganas. e apóiam e defendem determinadas concepções e teorias sobre como e por que a realidade é como é. Os livros-textos. p. É pelo discurso e pela prática discursiva que se estabelece e se valoriza o que é considerado “normal” ou “anormal”. sobre de que maneira. assim como qualquer outro recurso didático. etc. p. Elas não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental.   ISSN  2238-­‐4170   27       .2. são produtos políticos.  n. A história do povo negro. [. refletida. defendidos pelos grupos sociais que controlam o poder e/ou as editoras de livros-textos. não podendo ser entendidas como coisas à espera de serem reveladas. etc. a sua situação de marginalização construída historicamente por anos e anos e seus reflexos que foram incorporados como conteúdos do currículo escolar e dos livros didáticos deve ser discutida de maneira crítica.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v.. indígenas.

Para isto é necessário promover processos sistemáticos de interação com os “outros”. sendo capazes de analisar nossos sentimentos e impressões. devido ao fato de os professores se prenderem única e exclusivamente a textos de livros didáticos. grifo da autora). no lugar sociocultural do outro. p. por meio de “modelizadores”. num processo unificado e estável. E ainda “O livro-texto tentará oferecer ao corpo docente um esvaziamento cultural com a intenção de que o mesmo seja assimilado pelos estudantes” (p. sem caricaturas. os verdadeiros. que seremos capazes de construir algo juntos/as (CANDAU. o que não elimina a existência de conflitos. O professor torna-se um simples instrumento repetidor e mantenedor de ideologias que dominam a sociedade (FONSECA. nem estereótipos. aceitação da diversidade racial. porque a diferença é um bem. exercícios que promovamos o colocarse no ponto de vista. Trata-se também de favorecer que nos situemos como “outros”.2  (2012)     Nós educadores devemos ter muito cuidado e usar de muita reflexão ao fazer uso dos materiais didáticos que muitas vezes nos são impostos pelas escolas onde atuamos. 155): “Podemos dizer que são o instrumento através do qual ocorre a reprodução do conhecimento acadêmico. 121) é baseada “no diálogo. Na estratégia contra esse contexto. p.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. O desafio está em promover situações em que seja possível o reconhecimento entre os diferentes. visa à construção do comum no espaço e no tempo”.2. É a partir daí. são levados a reproduzir a ideologia do autor do livro e sua versão segundo a sua corrente filosófica.  n. a nossa comunidade é heterológica que segundo Carvalho (2009. descentrar nossas visões e estilos de afrontar as situações como os melhores. pelos investimentos afetivos que trazem para o processo de aprendizagem (grifo da autora). Como afirma Santomé em relação ao livro didático (1998. 2008. os únicos válidos. os autênticos. Dessa maneira. assim como todas as diversidades. p. conquistando um verdadeiro reconhecimento mútuo. na leitura e na tradução. respeito. 156). a escola deve pautar sua prática pedagógica no reconhecimento. 120) a pedagogia: Busca tornar-se mais que a simples transmissão de conhecimentos. 1991). em grande parte. Ela pressupõe que os estudantes e professores sejam movidos por suas paixões e motivados. Segundo Faria (1989). O/a educador/a tem um papel de mediador na construção de relações interculturais positivas. nem que seja minimamente. p.32. necessário apenas para aprovar e sobreviver nas instituições acadêmicas”.   ISSN  2238-­‐4170   28       . os diferentes. segundo Carvalho (2009.

produtivo (FERREIRA. paradidático ou qualquer produção escolar que não seja inclusiva.   ISSN  2238-­‐4170   29       . que estão e são distantes do padrão aceito como ‘normal’.  n. sadio. grifos do autor). eleita arbitrariamente em uma identidade específica como parâmetro. usando-se a cor branca como símbolo do que é limpo e a cor preta do que é sujo e ruim. 2000. Uma das formas privilegiadas de hierarquização de identidades e de diferenças é fixada pela normatização/normalização. p. em relação à qual as outras identidades são hierarquizadas e avaliadas. descrição. podendo-se constatar a existência concreta de sujeitos com traços característicos. Banir de seu ambiente qualquer texto. falas que depreciam o povo negro e sua cultura. Toda reflexão que envolva identidade e diferença deve levar em conta as diferentes visões de mundo. funções e status preestabelecidos. p. eficiente. apelidos depreciativos relacionados à cor. que não respeite a diversidade. desejável. forte. de sociedade e de moralidade produzidas social e culturalmente em cada região e em diferentes intervalos de tempo. Eufemismo para se referir ao pertencimento racial do aluno. instrumentalizando-o no sentido de fazer leituras críticas do material didático. GUIMARÃES. “A identidade normal é ‘natural’. devem ser abolidos.2. Valoriza-se sobremaneira o que culturalmente se convencionou como belo. 83. qualificativo ou visão que construa ou fortaleça imagens estereotipadas do negro ou de qualquer outro grupo social. única. de homem. referência. A força da identidade normal é tal que ela nem sequer é vista como uma identidade. 71).GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. desenho. 2003. pois esta é fortemente expressiva. comparação. A escola deve estar alerta para a linguagem que é utilizada no cotidiano escolar. Vive-se numa sociedade de classe com papéis. decoração. em que a valorização da figura humana passa por fatores relacionados à capacidade intelectual e a condições de produtividade.2  (2012)     Deve ser meta dos cursos de formação de professores e também da formação continuada que deve acontecer na instituição escolar elevar o nível de reflexão de seu professorado. mas simplesmente como a identidade (SILVA.

capaz de superar as imensas limitações que a cercam e a oprimem. p. “É a necessidade de não ser espectador e ousar arriscar gestos” (KROHLING.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Temos que acreditar nas possibilidades da escola. brancos. FISCHMANN. por meio da exclusão da escola e na escola de alunos que não correspondem à identidade “normal. Normalmente homens. 91).. enquanto organização. muitas vezes.   ISSN  2238-­‐4170   30       .2.  n. 11). jornais. corroboram para produzir maiorias invisíveis e silenciadas. Reconhecer e respeitar a diversidade cultural existente obriga a revisarmo-nos e provavelmente levará a educação a desembaraçar-se de ter se tornado máquina de produção de profissionais e de diplomas burocratizantes.. ajudarão sensivelmente na construção positiva da identidade racial do alunado. 2000. como as dos afrodescendentes. a idealizar algumas características humanas como as representações legítimas e naturais do que seja ser humano. nas potencialidades da ação coletiva do professorado e em nossa capacidade de atualizá-las. de respeito e valorização do grupo racial negro por parte dos educadores e todos os que estão e fazem a escola. Aprendemos nos livros. sem sombra de dúvida. desejável e única”. pois sem que perceba repete as relações de dominação e de exploração da sociedade. porque vivemos numa sociedade na qual a supremacia é a identidade ditada pelo modelo econômico e cultural ocidental. nos meios de comunicação. na grande mídia. não tem sido um espaço democrático e de igualdade. p. A escola. 2002. como salienta Santos (2002). A nossa formação como profissional da educação muitas vezes é marcada por inculcações de preconceitos que. natural. padrão euro-norte-americano de vestir e agir (TRINDADE. Ser educador hoje no Brasil é antes de tudo. outdoors. um ato de ‘fé’ na capacidade do ser humano de se transformar.2  (2012)     As falas diretas e afetivas. nos filmes. Somos ‘treinados’ para não escutar vozes que vem sendo reiteradamente silenciadas. revistas.

394/96. acabará por levar a uma prática pedagógica e a um currículo que se centram numa simples terapêutica de atitudes individuais consideradas erradas. danças e os grandes personagens negros/as de hoje e de ontem. p. 102) “como desconstruir o texto racial do currículo. Enfim. brinquedos e brincadeiras. Como questionar as narrativas hegemônicas de identidade que constituem o currículo?”. costumes. identidade e poder que os temas da raça e da etnia ganham lugar na teoria curricular.639/03 que alterou a carta magna da LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei N. trabalhando com várias atividades didáticopedagógicas que podem ser pensadas pelo coletivo de profissionais e alunos sempre procurando por meio de pesquisas a riqueza do Continente Africano com sua cultura que faz parte das nossas construções sócio-históricas.  n.º 10. atendendo a Lei N. devemos buscar contribuir para a construção/reconstrução da identidade das nossas crianças/adolescentes e jovens/adultos afro-descendentes. históricas e discursivas do racismo. significa prepará-los para a sobrevivência: da própria pessoa. Entre elas o trabalho com músicas. comida. da comunidade e das outras pessoas (TRINDADE. 2000).GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v.2  (2012)     Ensinar alunos afro-descendentes requer mais do que prepará-los para um sucesso individual. Segundo Silva (1999) é por meio do vínculo entre conhecimento. Criar alternativas pedagógicas para possibilitar que tão difícil processo de construção/reconstrução seja pensado por todos que estão fazendo a escola hoje é   ISSN  2238-­‐4170   31       . Não podemos nos esquecer que o conhecimento sobre raça e etnia que está incorporado ao currículo não pode ser separado daquilo que as crianças/adolescentes/jovens serão um dia como seres eminentemente sociais.2. Para vencer o racismo de um currículo imposto e da prática pedagógica ‘ditada’/’imposta’ é imprescindível que se discutam as causas institucionais. da família.º 9. pois se assim for. numa busca incessante de deixar evidente a rica herança cultural que nos construiu e nos constrói diariamente. O racismo não pode ser tratado como questão individual. festas. religião. A questão que se coloca segundo Silva (1999.

E. Petrópolis: Editora Vozes. Petrópolis. cooperamos para manutenção das relações de dominação. Maria Helena Souza. Portanto. p. ROCHA. C.  n. A. Jurjo Torres. Antonio Flávio Moreira. estaremos contribuindo para o entendimento e a compreensão de como podemos contribuir para construirmos uma sociedade democrática onde não existe espaço para visões etnocêntricas e excludentes. A. GUIMARÃES. 1998. 2002 MORIN.2  (2012)     de suma importância porque a sociedade continua a atuar no sentido de que se mantenha o status quo. 2000. singularidades e maneiras de ser e estar no mundo. Brasília. A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia. E. São Paulo: EDUSP.2. 2003. M. Rio de Janeiro: DP&A. Cotidiano escolar como comunidade de afetos. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul Ldta. Rosa Margarida de Carvalho. In: VEIGA.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Vera Maria. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Ideologia no livro didático. Janete Magalhães. Campinas: editora Papirus. 157-170. 2. MARIA. como também a riqueza da nossa história. 2008. C. FONSECA. p. Almanaque Pedagógico Afrobrasileiro: Uma proposta de intervenção pedagógica na superação do racismo no cotidiano escolar. 1991. São Paulo: Cortez. RJ: DP ET Alii. S.ed. Educação inclusiva. Queiroz. 2009.   ISSN  2238-­‐4170   32       . Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Margarida Maria. 2000. Vera Maria. 1989. FISCHMANN. FERREIRA. G. ao compreender as diversas e múltiplas subjetividades. In: MOREIRA. 13-37. H. São Paulo: T.) et al. PATTO. Escola fundamental: currículo e ensino.8. M. Os sete saberes necessários à educação do futuro. SANTOMÉ. CANDAU. O ensino de história na escola fundamental: do “samba do crioulo doido” à produção de conhecimento histórico. FARIA. I.. (org. reimpressão. DF: CNPq. Sabemos que ao confirmarem-se esses padrões e valores. REFERÊNCIAS CANDAU. Mídia e Tolerância: a Ciência Construindo Caminhos de Liberdade. 2 ed. CARVALHO. G. ed. Produção gráfico-editorial: Mazza Edições. São Paulo: Cortez Editora. P. KROHLING. Roseli. L. 1996. Multiculturalismo e educação: desafios para a prática pedagógica.

Olhando com o coração e sentindo com o corpo inteiro no cotidiano escolar. TRINDADE. Belo Horizonte: Autêntica. ed. Petrópolis. o direito e a política na transição paradigmática.). ed.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. p. A produção social da identidade e da diferença. 2000. da.2  (2012)     SANTOS. 2. cap. In: TRINDADE. Documentos de identidade: Uma introdução às teorias do currículo. 4. RJ: Vozes.).   ISSN  2238-­‐4170   33       . SILVA. ______. In: ______. 73 -102. 1999. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Boaventura de Souza. Rafael dos. 2000. Azoilda Loretto da. São Paulo: Cortez. (Org.2. Para um novo senso comum: a ciência. Multiculturalismo: mil e uma faces da Escola. SANTOS. Azoilda da. Rio de Janeiro: DP&A. 2. Tomaz Tadeu. 2002.  n. (org.

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