GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v.2,  n.

2  (2012)  

 

ARTIGO   O  TRABALHO  COM  A  HISTÓRIA  E  A  CULTURA  AFRO  PRATICADO  NA   INFÂNCIA  E  ADOLESCÊNCIA  MODIFICARÁ  HÁBITOS  VICIOSOS  QUE   LEVAM  À  PRÁTICA  E  À  ALIMENTAÇÃO  COTIDIANA  DO  RACISMO  
Rossiene  Santos  Sarlo1,  João  Pereira  dos  Santos  Neto2,  Eduardo  Santos  Sarlo3  

 

 

RESUMO     Trata-se de uma reflexão sobre o currículo praticado na educação brasileira no   enfrentamento de questões ligadas a educação intercultural e diversidade cultural diante de uma sociedade plural, multicultural, transcultural, miscigenada e hibrida. O direcionamento da Constituição Federal de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96 vai de encontro a práticas cotidianas muitas vezes conduzidas por livros didáticos com tendências ideológicas positivistas e/ou neoliberais que fortalecem o estabelecimento e legitimação do poder da cultura europeia e distante da realidade da nossa sociedade. Este estudo também coloca em discussão os pontos positivos da aprovação e implantação da Lei N.º 10.639 que institui no currículo escolar a obrigação dos estudos sobre a cultura da África e Afrodescendentes. Indica como caminho para diminuir ou acabar com os conflitos raciais no Brasil estudos cotidianos que coloquem temas relacionados a afirmação dos diferentes segmentos étnicos para que possam fomentar relações sociais, políticas e culturais mais respeitosas e harmoniosas. Palavras-chave: currículo, cutura afro, educação. ABSTRACT It is a reflection on the curriculum practiced in Brazilian education in dealing with issues of cultural diversity and intercultural education before a plural, multicultural, transcultural, hybrid and mixed. The direction of the Federal Constitution of 1988 and the Law of Guidelines and Bases of National Education 9394/96 will against daily practices often led by textbooks with ideological tendencies positivist and / or strengthen the neoliberal establishment and legitimization of the power of culture European and distant from the reality of our society. This study also calls into question the positive points of the approval and implementation of Law Nº. 10,639 establishing the required curriculum of studies on the culture of Africa and African Descent. Indicates as a way to reduce or end the racial conflicts in Brazil studies that place everyday themes of affirmation of different ethnic groups so that they can foster social, political and cultural more respectful and harmonious. Keywords: curriculum, cultural diversity, education.                                                                                                                
1  Pedagoga,  Professora  Universitária,  Doutoranda  em  Educação  –  PPGE/UNESA.   2  Professor  de  História,  Mestre  em  Educação  –  PPGE/UFES.   3  Advogado,  Especialista  em  Direito  Civil  e  Processual  Civil,  Professor  Universitário.

   

  ISSN  2238-­‐4170  

   

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2008. os superiores e os inferiores criando com isso muros segregadores que consideravam naturais devido sua origem. tais como religião. modos de vida. Estudos e discussões vêm sendo feitas nas duas últimas décadas (CANDAU. SANTOMÉ. entre outros) não só do Movimento Negro contemporâneo como muitos outros. Convivemos. porém o caráter excludente e desrespeitoso da educação continua a discriminar os sujeitos como desiguais e inferiores devido a mil fatores entre eles a questão da etnia. A mesma observação vale para o termo “etnia”. Porém. SILVA 1999 e 2000.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. língua. tipo de cabelo.2. SANTOS.  n. maneira de se vestir. 2002. É comum reservar-se o termo “raça” para a identificação baseada em caracteres físicos como cor da pele. 2009. 1998. atualmente. porém a formação de professores não vem cuidando desta questão com o respeito que deveria. p. 100). tem dedicado ricas reflexões a educação e a escola na análise dos conceitos de ‘raça’ e ‘etnia’ que se tornaram crescentemente problematizados. O etnocentrismo ainda prevalece no imaginário das pessoas e o que é pior no imaginário dos professores. dicotimizando a humanidade em dois grupos.2  (2012)     Após a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional o acesso das crianças. Até mesmo a oposição que frequentemente se faz entre “raça” e “etnia” perde. com o crescimento da escola brasileira no que se refere à possibilidade de acesso das crianças e jovens brasileiros a mesma. muitas vezes firmando e reafirmando as teorias positivistas do século XIX. Os dois termos foram bastante discutidos dentro da academia. dos profissionais da educação. jovens e adolescentes foi garantido pelo seu direito à Educação Básica. dessa perspectiva o sentido (SILVA. a garantia em lei não garante o direito ao acesso ao processo de ensino-aprendizagem e nem a possibilidade de entrada e saída com sucesso dos bancos escolares. traços físicos e o termo “etnia” para identificações baseadas em aspectos culturais. A moderna genética demonstrou que não existe nenhum conjunto de critérios físicos e biológicos que autorize a divisão da humanidade em qualquer número determinado de “raças”.   ISSN  2238-­‐4170   23       . da identidade cultural. que já deveriam ter se livrado desses preconceitos.

perde espaço e força na realidade do nosso contexto histórico-cultural. percebido e analisado a partir dos meus conceitos. a prática é cruel. as desigualdades persistem e. na realidade. o muro das mansões e o muro da justiça. o mundo continua cada vez mais dividido entre países ricos e pobres que ditam a cultura dominante e nesta prevalece o eurocentrismo. toda produção de sentido não está centrada em agentes individuais”. Não podem existir muros. a muralha da China e o muro das fronteiras da Faixa de Gaza.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. não podemos nos esquecer do que é afirmado na teoria social contemporânea.  n. a noção de sujeito é substituída por agenciamento coletivo de enunciação.2  (2012)     Atualmente. multicultural. no Brasil. Como afirma Carvalho (2009. em consequência disso. principalmente na baseada e inspirada pelo pós-estruturalismo. Essa discussão demonstra o caráter cultural e discursivo dos termos “raça” e “etnia”. esquece-se que vivemos numa sociedade plural. 57) “Nessa perspectiva. o fato do termo “raça” não ter nenhum referente físico e biológico real não o torna menos “real” em termos culturais e sociais. 2000). menos violento em que as instituições possam voltar a ser referenciais de formação de um cidadão solidário com consciência terrena (MORIN. Mas. miscigenada e hibrida. pela necessidade de sujeitos coletivos e não individuais. pela migração e imigração constante e contínua. p. Vive-se na esperança de um mundo mais justo em que as diferenças sejam respeitadas. No interior das sociedades. onde se afirma que:   ISSN  2238-­‐4170   24       . paredes. distintos. o muro das fronteiras imperialistas dos Estados Unidos da América e da União Européia. transcultural. ou seja. vendo o outro como não-eu. É interessante perceber que o mundo sempre utilizou muros para isolar os diferentes: os muros das antigas cidades. Porém.2. crescem a violência e as novas construções de muros. pois o mundo está todo conectado em tempo real pelos diversos canais de comunicação. A ideia de distanciamento. o mundo idealizado pelas teorias neoliberais emergentes e o mundo apresentado na prática são. No entanto. Porém.

À medida que os poderes constituídos aprovam uma lei dessa natureza. p. dados. se praticado desde cedo. com certeza modificará hábitos viciosos que levam à prática e à alimentação cotidiana do racismo. como estamos no Brasil. a promulgação desta Lei foi um grande avanço do ponto de vista político para o movimento negro e cultural para uma sociedade miscigenada como a nossa. agora busca-se trocá-los por literatura.2. Como afirma Patto (1999. Simultaneamente a tantas e tantas discussões. A lei afirma que toda instituição de ensino fundamental e médio. o preconceito e a discriminação dirigidos à comunidade afro-descendente foram. arte e história por conta da garantia dada pela Lei N. Isso por si só já é um avanço. Mas. institucionalizado pelo Estado brasileiro. que existiam são um exemplo crucial disso: omitiam a história negra e restringiam personagens políticos apenas à figura de Zumbi. Sancionada em janeiro de 2003.] raça e etnia tampouco podem ser considerados como construtos culturais fixos. é sempre bom lembrar: direito é uma coisa. política.639. Sem sombra de dúvida. p. na infância e adolescência. Precisamente por dependerem de um processo histórico e discursivo de construção da diferença.. 1999. a lei vem ganhando força. O racismo. definitivamente estabelecidos. etnia estão sujeitas a um constante processo de mudança e transformação (SILVA. público e particular deve incluir o assunto no currículo. Grande parte do que a escola ensina até hoje sobre a cultura afro-brasileira é folclore ou clichê. Os livros didáticos. 101)..º 10. durante esses mais de 500 anos. 29) “a tendência a atribuir a pobreza a uma inferioridade inata e os piores abusos das teorias racistas só se darão após os anos cinqüenta desse século”. raça. A lei é base na mudança do imaginário brasileiro.2  (2012)     [. Os livrinhos que não vão além das senzalas e dos navios negreiros. assumem seu erro histórico. muitas denúncias são feitas no cotidiano do contexto escolar onde ainda impera uma cultura de exclusão e insucesso da criança negra que teve início a partir da metade do século XX.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Assim a   ISSN  2238-­‐4170   25       .  n. O trabalho com a história e a cultura afro. condição e oportunidade de acesso ao direito é outra.

Percebe-se que existe nos meios educacionais. ser capacitados para intervir na realidade em que estão inseridos.2. vestimenta e rituais festivos. propostas alternativas e produção de material didático e paradidático. Um pensar crítico sobre o etnocentrismo do currículo. eles poderão aprender conceitos.   ISSN  2238-­‐4170   26       . alimentação.  n. na contextualização das situações. ao estudar apenas aspectos relativos a seus costumes. dia do Zumbi ou outros. Assim aconteceu durante anos ao estudarmos sobre os índios que só apareciam na história da humanidade depois do século XV e sobre o negro o sofrimento dos mesmos diante da escravidão sofrida por quatro séculos. banalizando e folclorizando sua cultura. estabelecer uma conexão entre situações de diversidade com a vida cotidiana nas salas de aula é uma das melhores estratégias para levar alunos a posicionamentos críticos por meio de uma ação reflexiva e crítica da realidade onde estão inseridos. contemplando os afro-brasileiros. analisar fatos e poderão. a fim de transformála. 2000. ainda. Diante desse resultado forjado no imaginário do povo. Pois.2  (2012)     afirmação da identidade brasileira terá ganhos significativos a partir da prática efetiva desta Lei. valorizando a cultura negra e a viabilização de projetos pedagógicos. nas discussões de propostas pedagógicas uma nova cultura contra a exclusão e o insucesso da criança/adolescente/jovem negro no cotidiano escolar. a fragilidade do índio e a força física e resistência do negro. são algumas das estratégias que tem sido empreendidas (ROCHA. Não se pode fazer como comumente vemos acontecer de tratar a cultura negra e/ou de outro segmento social com superficialidade. a formação do professor sobre questões essenciais relativas ao conhecimento.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. O resultado dessa prática foi reforçar o poder do branco. s/p). É fundamental que o conteúdo não seja reduzido a estudos esporádicos ou unidades didáticas isoladas ou a projetos interdisciplinares para comemorar dia da abolição. Reforçando a visão positivista de analisar o outro a partir da interdependência da cultura dominante.

. A história do povo negro. É pelo discurso e pela prática discursiva que se estabelece e se valoriza o que é considerado “normal” ou “anormal”. quem. como afirma Silva (2000. defendidos pelos grupos sociais que controlam o poder e/ou as editoras de livros-textos. refletida. sem considerar que cada indivíduo apresenta características específicas. habitantes da África setentrional. próprias. indígenas. mas do mundo cultural e social. não podendo ser entendidas como coisas à espera de serem reveladas. (SANTOMÉ. assim. etc. etc. A identidade e a diferença são criações sociais e culturais. a sua situação de marginalização construída historicamente por anos e anos e seus reflexos que foram incorporados como conteúdos do currículo escolar e dos livros didáticos deve ser discutida de maneira crítica.. 76): A identidade e a diferença têm que ser ativamente produzidas. quando e onde podemos intervir.. concepções.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. [. É muito enriquecedor que as diferenças existentes sejam discutidas para combatermos posturas etnocêntricas e desconstruirmos estereótipos e preconceitos atribuídos ao grupo negro. no contexto de relações culturais e sociais.] Sob o rótulo de livros racistas encontra-se aquele grupo de manuais que ignora a realidade de raças e minorias éticas sem poder: populações ciganas.. Isto explica que possamos contatar a existência de livros que reproduzem os mesmos valores.2. A identidade e a diferença são. resultado de atos de criação social. singulares e ímpares. assim como qualquer outro recurso didático. Para que isso ocorra no cotidiano das escolas e no interior das salas de aula é necessário a preparação do professor para conduzir esse processo de maneira tranquila e sem constrangimentos para as partes envolvidas no processo.. 169.] Estes recursos pretendem estipular atitudes com relação ao mundo no qual estamos inseridos. grifo do autor).  n. sobre de que maneira. etc. são produtos políticos. e apóiam e defendem determinadas concepções e teorias sobre como e por que a realidade é como é.2  (2012)     A visão de que existem diferenças entre grupos etnoculturais não significa superioridade ou inferioridade dos mesmos. preconceitos. Elas não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental. a sua cultura. Somos nós que as fabricamos.   ISSN  2238-­‐4170   27       . A identidade e a diferença são interdependentes e resultantes da criação sóciohistórica humana por meio da criação linguística. p. p. 1998. Os livros-textos. [.

conquistando um verdadeiro reconhecimento mútuo. devido ao fato de os professores se prenderem única e exclusivamente a textos de livros didáticos.2  (2012)     Nós educadores devemos ter muito cuidado e usar de muita reflexão ao fazer uso dos materiais didáticos que muitas vezes nos são impostos pelas escolas onde atuamos. 1991). p. descentrar nossas visões e estilos de afrontar as situações como os melhores. os autênticos.   ISSN  2238-­‐4170   28       . O professor torna-se um simples instrumento repetidor e mantenedor de ideologias que dominam a sociedade (FONSECA. por meio de “modelizadores”. 156). porque a diferença é um bem. respeito. Segundo Faria (1989). Ela pressupõe que os estudantes e professores sejam movidos por suas paixões e motivados. O/a educador/a tem um papel de mediador na construção de relações interculturais positivas. num processo unificado e estável. É a partir daí. p. Trata-se também de favorecer que nos situemos como “outros”. assim como todas as diversidades. Na estratégia contra esse contexto. segundo Carvalho (2009. os verdadeiros. nem que seja minimamente. nem estereótipos. os únicos válidos. são levados a reproduzir a ideologia do autor do livro e sua versão segundo a sua corrente filosófica.  n. Para isto é necessário promover processos sistemáticos de interação com os “outros”. 120) a pedagogia: Busca tornar-se mais que a simples transmissão de conhecimentos. exercícios que promovamos o colocarse no ponto de vista. em grande parte. p.32. Como afirma Santomé em relação ao livro didático (1998. a escola deve pautar sua prática pedagógica no reconhecimento. os diferentes. O desafio está em promover situações em que seja possível o reconhecimento entre os diferentes. que seremos capazes de construir algo juntos/as (CANDAU. necessário apenas para aprovar e sobreviver nas instituições acadêmicas”. na leitura e na tradução. Dessa maneira. E ainda “O livro-texto tentará oferecer ao corpo docente um esvaziamento cultural com a intenção de que o mesmo seja assimilado pelos estudantes” (p. aceitação da diversidade racial. o que não elimina a existência de conflitos. 155): “Podemos dizer que são o instrumento através do qual ocorre a reprodução do conhecimento acadêmico. no lugar sociocultural do outro. sem caricaturas. pelos investimentos afetivos que trazem para o processo de aprendizagem (grifo da autora). sendo capazes de analisar nossos sentimentos e impressões. grifo da autora). p.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. a nossa comunidade é heterológica que segundo Carvalho (2009. visa à construção do comum no espaço e no tempo”. 121) é baseada “no diálogo.2. 2008.

funções e status preestabelecidos. p. 2000. Eufemismo para se referir ao pertencimento racial do aluno. que estão e são distantes do padrão aceito como ‘normal’. qualificativo ou visão que construa ou fortaleça imagens estereotipadas do negro ou de qualquer outro grupo social. A força da identidade normal é tal que ela nem sequer é vista como uma identidade. devem ser abolidos. eficiente.  n.2. instrumentalizando-o no sentido de fazer leituras críticas do material didático. forte. única. descrição. eleita arbitrariamente em uma identidade específica como parâmetro. em relação à qual as outras identidades são hierarquizadas e avaliadas. Vive-se numa sociedade de classe com papéis. pois esta é fortemente expressiva. em que a valorização da figura humana passa por fatores relacionados à capacidade intelectual e a condições de produtividade. Valoriza-se sobremaneira o que culturalmente se convencionou como belo. apelidos depreciativos relacionados à cor. grifos do autor). 2003. Banir de seu ambiente qualquer texto. desenho. que não respeite a diversidade. usando-se a cor branca como símbolo do que é limpo e a cor preta do que é sujo e ruim. podendo-se constatar a existência concreta de sujeitos com traços característicos. referência. 83. falas que depreciam o povo negro e sua cultura. 71). “A identidade normal é ‘natural’. comparação. Uma das formas privilegiadas de hierarquização de identidades e de diferenças é fixada pela normatização/normalização. produtivo (FERREIRA. desejável.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v.2  (2012)     Deve ser meta dos cursos de formação de professores e também da formação continuada que deve acontecer na instituição escolar elevar o nível de reflexão de seu professorado. de sociedade e de moralidade produzidas social e culturalmente em cada região e em diferentes intervalos de tempo. paradidático ou qualquer produção escolar que não seja inclusiva. decoração. sadio. GUIMARÃES. mas simplesmente como a identidade (SILVA. de homem. A escola deve estar alerta para a linguagem que é utilizada no cotidiano escolar. Toda reflexão que envolva identidade e diferença deve levar em conta as diferentes visões de mundo.   ISSN  2238-­‐4170   29       . p.

Ser educador hoje no Brasil é antes de tudo. nos meios de comunicação. A escola. um ato de ‘fé’ na capacidade do ser humano de se transformar. natural. ajudarão sensivelmente na construção positiva da identidade racial do alunado. jornais.. FISCHMANN.   ISSN  2238-­‐4170   30       . capaz de superar as imensas limitações que a cercam e a oprimem. Aprendemos nos livros. Reconhecer e respeitar a diversidade cultural existente obriga a revisarmo-nos e provavelmente levará a educação a desembaraçar-se de ter se tornado máquina de produção de profissionais e de diplomas burocratizantes. não tem sido um espaço democrático e de igualdade. desejável e única”.  n. 91). pois sem que perceba repete as relações de dominação e de exploração da sociedade.2  (2012)     As falas diretas e afetivas.2. p. sem sombra de dúvida. nos filmes. “É a necessidade de não ser espectador e ousar arriscar gestos” (KROHLING. por meio da exclusão da escola e na escola de alunos que não correspondem à identidade “normal. Normalmente homens. corroboram para produzir maiorias invisíveis e silenciadas. Somos ‘treinados’ para não escutar vozes que vem sendo reiteradamente silenciadas. 11). nas potencialidades da ação coletiva do professorado e em nossa capacidade de atualizá-las. 2002. 2000. na grande mídia. como salienta Santos (2002). A nossa formação como profissional da educação muitas vezes é marcada por inculcações de preconceitos que. brancos. como as dos afrodescendentes. porque vivemos numa sociedade na qual a supremacia é a identidade ditada pelo modelo econômico e cultural ocidental.. enquanto organização. padrão euro-norte-americano de vestir e agir (TRINDADE. outdoors. a idealizar algumas características humanas como as representações legítimas e naturais do que seja ser humano.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. muitas vezes. p. revistas. Temos que acreditar nas possibilidades da escola. de respeito e valorização do grupo racial negro por parte dos educadores e todos os que estão e fazem a escola.

639/03 que alterou a carta magna da LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei N. A questão que se coloca segundo Silva (1999. Como questionar as narrativas hegemônicas de identidade que constituem o currículo?”. festas. costumes. significa prepará-los para a sobrevivência: da própria pessoa. da família. históricas e discursivas do racismo.2  (2012)     Ensinar alunos afro-descendentes requer mais do que prepará-los para um sucesso individual. 102) “como desconstruir o texto racial do currículo. da comunidade e das outras pessoas (TRINDADE. Criar alternativas pedagógicas para possibilitar que tão difícil processo de construção/reconstrução seja pensado por todos que estão fazendo a escola hoje é   ISSN  2238-­‐4170   31       . acabará por levar a uma prática pedagógica e a um currículo que se centram numa simples terapêutica de atitudes individuais consideradas erradas.2. trabalhando com várias atividades didáticopedagógicas que podem ser pensadas pelo coletivo de profissionais e alunos sempre procurando por meio de pesquisas a riqueza do Continente Africano com sua cultura que faz parte das nossas construções sócio-históricas. religião.º 9. p.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Para vencer o racismo de um currículo imposto e da prática pedagógica ‘ditada’/’imposta’ é imprescindível que se discutam as causas institucionais. O racismo não pode ser tratado como questão individual. 2000). atendendo a Lei N. numa busca incessante de deixar evidente a rica herança cultural que nos construiu e nos constrói diariamente.394/96. brinquedos e brincadeiras. Segundo Silva (1999) é por meio do vínculo entre conhecimento. Enfim. identidade e poder que os temas da raça e da etnia ganham lugar na teoria curricular. pois se assim for.º 10. danças e os grandes personagens negros/as de hoje e de ontem.  n. comida. Não podemos nos esquecer que o conhecimento sobre raça e etnia que está incorporado ao currículo não pode ser separado daquilo que as crianças/adolescentes/jovens serão um dia como seres eminentemente sociais. devemos buscar contribuir para a construção/reconstrução da identidade das nossas crianças/adolescentes e jovens/adultos afro-descendentes. Entre elas o trabalho com músicas.

Sabemos que ao confirmarem-se esses padrões e valores. Portanto. CARVALHO. São Paulo: EDUSP. M. KROHLING. H. Almanaque Pedagógico Afrobrasileiro: Uma proposta de intervenção pedagógica na superação do racismo no cotidiano escolar. Multiculturalismo e educação: desafios para a prática pedagógica. Antonio Flávio Moreira. Produção gráfico-editorial: Mazza Edições.ed. PATTO. Janete Magalhães. Queiroz. Petrópolis. CANDAU. singularidades e maneiras de ser e estar no mundo. Jurjo Torres. Escola fundamental: currículo e ensino. 157-170. 1996. SANTOMÉ. 2000. S. como também a riqueza da nossa história. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. MARIA. 2009. Cotidiano escolar como comunidade de afetos.  n.2. São Paulo: Cortez. C. Campinas: editora Papirus. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Petrópolis: Editora Vozes. p. 1991. FONSECA. 2003. In: VEIGA. DF: CNPq. 1998.8. GUIMARÃES. Margarida Maria. estaremos contribuindo para o entendimento e a compreensão de como podemos contribuir para construirmos uma sociedade democrática onde não existe espaço para visões etnocêntricas e excludentes. M.) et al.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. 2008. O ensino de história na escola fundamental: do “samba do crioulo doido” à produção de conhecimento histórico. Os sete saberes necessários à educação do futuro. G. 2002 MORIN. FARIA. C. Vera Maria. 1989. Educação inclusiva. Rosa Margarida de Carvalho. Ideologia no livro didático. G. REFERÊNCIAS CANDAU.2  (2012)     de suma importância porque a sociedade continua a atuar no sentido de que se mantenha o status quo. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul Ldta. 2. A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia. São Paulo: Cortez Editora. Roseli. Vera Maria. P. São Paulo: T. Rio de Janeiro: DP&A. Mídia e Tolerância: a Ciência Construindo Caminhos de Liberdade. reimpressão. I. cooperamos para manutenção das relações de dominação. Brasília. p. A. RJ: DP ET Alii. A. ROCHA. FERREIRA. FISCHMANN. E. 2000. (org. ed. E.   ISSN  2238-­‐4170   32       . L. In: MOREIRA. ao compreender as diversas e múltiplas subjetividades. Maria Helena Souza.. 2 ed. 13-37.

4. Multiculturalismo: mil e uma faces da Escola. Para um novo senso comum: a ciência.   ISSN  2238-­‐4170   33       . da. cap. ed. Azoilda da. 2. SANTOS. SILVA. A produção social da identidade e da diferença. 2000. São Paulo: Cortez. Documentos de identidade: Uma introdução às teorias do currículo. Petrópolis. 73 -102.).2  (2012)     SANTOS. RJ: Vozes. In: ______. (org. (Org.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Tomaz Tadeu. 2002.2.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Boaventura de Souza. ______. Azoilda Loretto da. Belo Horizonte: Autêntica. In: TRINDADE. 2. p. 1999. TRINDADE. 2000. Olhando com o coração e sentindo com o corpo inteiro no cotidiano escolar.  n. Rio de Janeiro: DP&A. Rafael dos. o direito e a política na transição paradigmática. ed.

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