GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v.2,  n.

2  (2012)  

 

ARTIGO   O  TRABALHO  COM  A  HISTÓRIA  E  A  CULTURA  AFRO  PRATICADO  NA   INFÂNCIA  E  ADOLESCÊNCIA  MODIFICARÁ  HÁBITOS  VICIOSOS  QUE   LEVAM  À  PRÁTICA  E  À  ALIMENTAÇÃO  COTIDIANA  DO  RACISMO  
Rossiene  Santos  Sarlo1,  João  Pereira  dos  Santos  Neto2,  Eduardo  Santos  Sarlo3  

 

 

RESUMO     Trata-se de uma reflexão sobre o currículo praticado na educação brasileira no   enfrentamento de questões ligadas a educação intercultural e diversidade cultural diante de uma sociedade plural, multicultural, transcultural, miscigenada e hibrida. O direcionamento da Constituição Federal de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96 vai de encontro a práticas cotidianas muitas vezes conduzidas por livros didáticos com tendências ideológicas positivistas e/ou neoliberais que fortalecem o estabelecimento e legitimação do poder da cultura europeia e distante da realidade da nossa sociedade. Este estudo também coloca em discussão os pontos positivos da aprovação e implantação da Lei N.º 10.639 que institui no currículo escolar a obrigação dos estudos sobre a cultura da África e Afrodescendentes. Indica como caminho para diminuir ou acabar com os conflitos raciais no Brasil estudos cotidianos que coloquem temas relacionados a afirmação dos diferentes segmentos étnicos para que possam fomentar relações sociais, políticas e culturais mais respeitosas e harmoniosas. Palavras-chave: currículo, cutura afro, educação. ABSTRACT It is a reflection on the curriculum practiced in Brazilian education in dealing with issues of cultural diversity and intercultural education before a plural, multicultural, transcultural, hybrid and mixed. The direction of the Federal Constitution of 1988 and the Law of Guidelines and Bases of National Education 9394/96 will against daily practices often led by textbooks with ideological tendencies positivist and / or strengthen the neoliberal establishment and legitimization of the power of culture European and distant from the reality of our society. This study also calls into question the positive points of the approval and implementation of Law Nº. 10,639 establishing the required curriculum of studies on the culture of Africa and African Descent. Indicates as a way to reduce or end the racial conflicts in Brazil studies that place everyday themes of affirmation of different ethnic groups so that they can foster social, political and cultural more respectful and harmonious. Keywords: curriculum, cultural diversity, education.                                                                                                                
1  Pedagoga,  Professora  Universitária,  Doutoranda  em  Educação  –  PPGE/UNESA.   2  Professor  de  História,  Mestre  em  Educação  –  PPGE/UFES.   3  Advogado,  Especialista  em  Direito  Civil  e  Processual  Civil,  Professor  Universitário.

   

  ISSN  2238-­‐4170  

   

22  

   

modos de vida. Estudos e discussões vêm sendo feitas nas duas últimas décadas (CANDAU. SANTOMÉ. Convivemos. os superiores e os inferiores criando com isso muros segregadores que consideravam naturais devido sua origem. jovens e adolescentes foi garantido pelo seu direito à Educação Básica. dicotimizando a humanidade em dois grupos. tais como religião. A mesma observação vale para o termo “etnia”. 1998. Porém. traços físicos e o termo “etnia” para identificações baseadas em aspectos culturais. a garantia em lei não garante o direito ao acesso ao processo de ensino-aprendizagem e nem a possibilidade de entrada e saída com sucesso dos bancos escolares.2. O etnocentrismo ainda prevalece no imaginário das pessoas e o que é pior no imaginário dos professores. 2009. muitas vezes firmando e reafirmando as teorias positivistas do século XIX. Os dois termos foram bastante discutidos dentro da academia. p. SANTOS. SILVA 1999 e 2000. que já deveriam ter se livrado desses preconceitos. dos profissionais da educação. A moderna genética demonstrou que não existe nenhum conjunto de critérios físicos e biológicos que autorize a divisão da humanidade em qualquer número determinado de “raças”. da identidade cultural. Até mesmo a oposição que frequentemente se faz entre “raça” e “etnia” perde. porém o caráter excludente e desrespeitoso da educação continua a discriminar os sujeitos como desiguais e inferiores devido a mil fatores entre eles a questão da etnia. 100).GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. 2008. tipo de cabelo. 2002.   ISSN  2238-­‐4170   23       . maneira de se vestir. entre outros) não só do Movimento Negro contemporâneo como muitos outros. atualmente.  n. porém a formação de professores não vem cuidando desta questão com o respeito que deveria. com o crescimento da escola brasileira no que se refere à possibilidade de acesso das crianças e jovens brasileiros a mesma. É comum reservar-se o termo “raça” para a identificação baseada em caracteres físicos como cor da pele. língua. dessa perspectiva o sentido (SILVA. tem dedicado ricas reflexões a educação e a escola na análise dos conceitos de ‘raça’ e ‘etnia’ que se tornaram crescentemente problematizados.2  (2012)     Após a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional o acesso das crianças.

Porém. no Brasil.2  (2012)     Atualmente. onde se afirma que:   ISSN  2238-­‐4170   24       . o mundo continua cada vez mais dividido entre países ricos e pobres que ditam a cultura dominante e nesta prevalece o eurocentrismo. paredes. Essa discussão demonstra o caráter cultural e discursivo dos termos “raça” e “etnia”. No entanto. É interessante perceber que o mundo sempre utilizou muros para isolar os diferentes: os muros das antigas cidades. toda produção de sentido não está centrada em agentes individuais”. distintos. pela migração e imigração constante e contínua. multicultural. o fato do termo “raça” não ter nenhum referente físico e biológico real não o torna menos “real” em termos culturais e sociais. menos violento em que as instituições possam voltar a ser referenciais de formação de um cidadão solidário com consciência terrena (MORIN. o mundo idealizado pelas teorias neoliberais emergentes e o mundo apresentado na prática são. Como afirma Carvalho (2009. Não podem existir muros. principalmente na baseada e inspirada pelo pós-estruturalismo. o muro das fronteiras imperialistas dos Estados Unidos da América e da União Européia. a prática é cruel. perde espaço e força na realidade do nosso contexto histórico-cultural.  n. Mas. crescem a violência e as novas construções de muros. as desigualdades persistem e. vendo o outro como não-eu. 2000). miscigenada e hibrida. na realidade. transcultural. 57) “Nessa perspectiva. pois o mundo está todo conectado em tempo real pelos diversos canais de comunicação. a noção de sujeito é substituída por agenciamento coletivo de enunciação. A ideia de distanciamento. p. esquece-se que vivemos numa sociedade plural. Vive-se na esperança de um mundo mais justo em que as diferenças sejam respeitadas. percebido e analisado a partir dos meus conceitos. ou seja. em consequência disso. pela necessidade de sujeitos coletivos e não individuais. Porém.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. No interior das sociedades. a muralha da China e o muro das fronteiras da Faixa de Gaza. não podemos nos esquecer do que é afirmado na teoria social contemporânea. o muro das mansões e o muro da justiça.2.

dados.639. Simultaneamente a tantas e tantas discussões. p. o preconceito e a discriminação dirigidos à comunidade afro-descendente foram. 29) “a tendência a atribuir a pobreza a uma inferioridade inata e os piores abusos das teorias racistas só se darão após os anos cinqüenta desse século”. a lei vem ganhando força. na infância e adolescência. durante esses mais de 500 anos. Mas. assumem seu erro histórico. Sancionada em janeiro de 2003. raça.. definitivamente estabelecidos. 1999. agora busca-se trocá-los por literatura. público e particular deve incluir o assunto no currículo. institucionalizado pelo Estado brasileiro. que existiam são um exemplo crucial disso: omitiam a história negra e restringiam personagens políticos apenas à figura de Zumbi.2. Os livros didáticos. Isso por si só já é um avanço. a promulgação desta Lei foi um grande avanço do ponto de vista político para o movimento negro e cultural para uma sociedade miscigenada como a nossa. Grande parte do que a escola ensina até hoje sobre a cultura afro-brasileira é folclore ou clichê.º 10.. etnia estão sujeitas a um constante processo de mudança e transformação (SILVA.] raça e etnia tampouco podem ser considerados como construtos culturais fixos. A lei é base na mudança do imaginário brasileiro. condição e oportunidade de acesso ao direito é outra. como estamos no Brasil. O racismo. Precisamente por dependerem de um processo histórico e discursivo de construção da diferença. Assim a   ISSN  2238-­‐4170   25       . se praticado desde cedo. 101). À medida que os poderes constituídos aprovam uma lei dessa natureza. com certeza modificará hábitos viciosos que levam à prática e à alimentação cotidiana do racismo.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Como afirma Patto (1999. A lei afirma que toda instituição de ensino fundamental e médio. O trabalho com a história e a cultura afro. Sem sombra de dúvida. política. arte e história por conta da garantia dada pela Lei N. Os livrinhos que não vão além das senzalas e dos navios negreiros.  n. muitas denúncias são feitas no cotidiano do contexto escolar onde ainda impera uma cultura de exclusão e insucesso da criança negra que teve início a partir da metade do século XX. p.2  (2012)     [. é sempre bom lembrar: direito é uma coisa.

contemplando os afro-brasileiros. O resultado dessa prática foi reforçar o poder do branco. 2000. dia do Zumbi ou outros. na contextualização das situações. eles poderão aprender conceitos. valorizando a cultura negra e a viabilização de projetos pedagógicos. a formação do professor sobre questões essenciais relativas ao conhecimento. Percebe-se que existe nos meios educacionais. banalizando e folclorizando sua cultura.2. a fragilidade do índio e a força física e resistência do negro. Reforçando a visão positivista de analisar o outro a partir da interdependência da cultura dominante.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Não se pode fazer como comumente vemos acontecer de tratar a cultura negra e/ou de outro segmento social com superficialidade. propostas alternativas e produção de material didático e paradidático. a fim de transformála.  n. nas discussões de propostas pedagógicas uma nova cultura contra a exclusão e o insucesso da criança/adolescente/jovem negro no cotidiano escolar. Diante desse resultado forjado no imaginário do povo. ao estudar apenas aspectos relativos a seus costumes. Um pensar crítico sobre o etnocentrismo do currículo. ainda.2  (2012)     afirmação da identidade brasileira terá ganhos significativos a partir da prática efetiva desta Lei. s/p). analisar fatos e poderão. Pois. vestimenta e rituais festivos. ser capacitados para intervir na realidade em que estão inseridos. estabelecer uma conexão entre situações de diversidade com a vida cotidiana nas salas de aula é uma das melhores estratégias para levar alunos a posicionamentos críticos por meio de uma ação reflexiva e crítica da realidade onde estão inseridos. alimentação. É fundamental que o conteúdo não seja reduzido a estudos esporádicos ou unidades didáticas isoladas ou a projetos interdisciplinares para comemorar dia da abolição.   ISSN  2238-­‐4170   26       . Assim aconteceu durante anos ao estudarmos sobre os índios que só apareciam na história da humanidade depois do século XV e sobre o negro o sofrimento dos mesmos diante da escravidão sofrida por quatro séculos. são algumas das estratégias que tem sido empreendidas (ROCHA.

grifo do autor). são produtos políticos.   ISSN  2238-­‐4170   27       . mas do mundo cultural e social. 76): A identidade e a diferença têm que ser ativamente produzidas.. Os livros-textos. indígenas.. p. É pelo discurso e pela prática discursiva que se estabelece e se valoriza o que é considerado “normal” ou “anormal”. [. 1998. etc. A história do povo negro. etc. no contexto de relações culturais e sociais. habitantes da África setentrional.] Estes recursos pretendem estipular atitudes com relação ao mundo no qual estamos inseridos. [. A identidade e a diferença são. quando e onde podemos intervir... defendidos pelos grupos sociais que controlam o poder e/ou as editoras de livros-textos. Para que isso ocorra no cotidiano das escolas e no interior das salas de aula é necessário a preparação do professor para conduzir esse processo de maneira tranquila e sem constrangimentos para as partes envolvidas no processo. preconceitos. quem. a sua situação de marginalização construída historicamente por anos e anos e seus reflexos que foram incorporados como conteúdos do currículo escolar e dos livros didáticos deve ser discutida de maneira crítica.2. p. A identidade e a diferença são criações sociais e culturais. concepções. assim. como afirma Silva (2000. 169. (SANTOMÉ. sem considerar que cada indivíduo apresenta características específicas. assim como qualquer outro recurso didático. não podendo ser entendidas como coisas à espera de serem reveladas.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. resultado de atos de criação social. É muito enriquecedor que as diferenças existentes sejam discutidas para combatermos posturas etnocêntricas e desconstruirmos estereótipos e preconceitos atribuídos ao grupo negro. Elas não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental. etc. Isto explica que possamos contatar a existência de livros que reproduzem os mesmos valores. singulares e ímpares. refletida.] Sob o rótulo de livros racistas encontra-se aquele grupo de manuais que ignora a realidade de raças e minorias éticas sem poder: populações ciganas. Somos nós que as fabricamos.. A identidade e a diferença são interdependentes e resultantes da criação sóciohistórica humana por meio da criação linguística. a sua cultura.  n.2  (2012)     A visão de que existem diferenças entre grupos etnoculturais não significa superioridade ou inferioridade dos mesmos. próprias. e apóiam e defendem determinadas concepções e teorias sobre como e por que a realidade é como é. sobre de que maneira.

conquistando um verdadeiro reconhecimento mútuo. a escola deve pautar sua prática pedagógica no reconhecimento. os autênticos. 120) a pedagogia: Busca tornar-se mais que a simples transmissão de conhecimentos. 1991). respeito. O desafio está em promover situações em que seja possível o reconhecimento entre os diferentes. sendo capazes de analisar nossos sentimentos e impressões. no lugar sociocultural do outro. os únicos válidos. pelos investimentos afetivos que trazem para o processo de aprendizagem (grifo da autora). visa à construção do comum no espaço e no tempo”. 156). Na estratégia contra esse contexto. E ainda “O livro-texto tentará oferecer ao corpo docente um esvaziamento cultural com a intenção de que o mesmo seja assimilado pelos estudantes” (p. segundo Carvalho (2009. p.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. 155): “Podemos dizer que são o instrumento através do qual ocorre a reprodução do conhecimento acadêmico. O professor torna-se um simples instrumento repetidor e mantenedor de ideologias que dominam a sociedade (FONSECA. Ela pressupõe que os estudantes e professores sejam movidos por suas paixões e motivados. por meio de “modelizadores”.   ISSN  2238-­‐4170   28       . 121) é baseada “no diálogo. sem caricaturas. num processo unificado e estável.2  (2012)     Nós educadores devemos ter muito cuidado e usar de muita reflexão ao fazer uso dos materiais didáticos que muitas vezes nos são impostos pelas escolas onde atuamos. os diferentes. em grande parte. nem estereótipos. descentrar nossas visões e estilos de afrontar as situações como os melhores. nem que seja minimamente. 2008. O/a educador/a tem um papel de mediador na construção de relações interculturais positivas. os verdadeiros.2. na leitura e na tradução. devido ao fato de os professores se prenderem única e exclusivamente a textos de livros didáticos. Trata-se também de favorecer que nos situemos como “outros”. p. aceitação da diversidade racial. exercícios que promovamos o colocarse no ponto de vista. grifo da autora). p.32. necessário apenas para aprovar e sobreviver nas instituições acadêmicas”. assim como todas as diversidades. a nossa comunidade é heterológica que segundo Carvalho (2009. Para isto é necessário promover processos sistemáticos de interação com os “outros”. são levados a reproduzir a ideologia do autor do livro e sua versão segundo a sua corrente filosófica.  n. É a partir daí. porque a diferença é um bem. que seremos capazes de construir algo juntos/as (CANDAU. o que não elimina a existência de conflitos. Dessa maneira. p. Como afirma Santomé em relação ao livro didático (1998. Segundo Faria (1989).

  ISSN  2238-­‐4170   29       . funções e status preestabelecidos. referência. produtivo (FERREIRA. eleita arbitrariamente em uma identidade específica como parâmetro. desenho. A escola deve estar alerta para a linguagem que é utilizada no cotidiano escolar. usando-se a cor branca como símbolo do que é limpo e a cor preta do que é sujo e ruim. mas simplesmente como a identidade (SILVA. apelidos depreciativos relacionados à cor. em que a valorização da figura humana passa por fatores relacionados à capacidade intelectual e a condições de produtividade. A força da identidade normal é tal que ela nem sequer é vista como uma identidade. instrumentalizando-o no sentido de fazer leituras críticas do material didático. p. 71). Vive-se numa sociedade de classe com papéis.2  (2012)     Deve ser meta dos cursos de formação de professores e também da formação continuada que deve acontecer na instituição escolar elevar o nível de reflexão de seu professorado. falas que depreciam o povo negro e sua cultura. em relação à qual as outras identidades são hierarquizadas e avaliadas. decoração. que estão e são distantes do padrão aceito como ‘normal’. Eufemismo para se referir ao pertencimento racial do aluno. 83.  n. de sociedade e de moralidade produzidas social e culturalmente em cada região e em diferentes intervalos de tempo. devem ser abolidos. única. “A identidade normal é ‘natural’. GUIMARÃES.2. paradidático ou qualquer produção escolar que não seja inclusiva. grifos do autor). comparação. de homem. desejável. qualificativo ou visão que construa ou fortaleça imagens estereotipadas do negro ou de qualquer outro grupo social. podendo-se constatar a existência concreta de sujeitos com traços característicos. p. pois esta é fortemente expressiva. Toda reflexão que envolva identidade e diferença deve levar em conta as diferentes visões de mundo. sadio. 2000. Valoriza-se sobremaneira o que culturalmente se convencionou como belo.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. que não respeite a diversidade. 2003. Uma das formas privilegiadas de hierarquização de identidades e de diferenças é fixada pela normatização/normalização. descrição. Banir de seu ambiente qualquer texto. forte. eficiente.

Temos que acreditar nas possibilidades da escola. 2000. p. a idealizar algumas características humanas como as representações legítimas e naturais do que seja ser humano.2. um ato de ‘fé’ na capacidade do ser humano de se transformar. nos filmes. Somos ‘treinados’ para não escutar vozes que vem sendo reiteradamente silenciadas. Aprendemos nos livros. brancos. por meio da exclusão da escola e na escola de alunos que não correspondem à identidade “normal. A escola.2  (2012)     As falas diretas e afetivas. natural. revistas. 2002. sem sombra de dúvida. Normalmente homens. desejável e única”. muitas vezes. jornais.   ISSN  2238-­‐4170   30       . ajudarão sensivelmente na construção positiva da identidade racial do alunado. como salienta Santos (2002). 91). enquanto organização. FISCHMANN. p. outdoors.. de respeito e valorização do grupo racial negro por parte dos educadores e todos os que estão e fazem a escola. capaz de superar as imensas limitações que a cercam e a oprimem. corroboram para produzir maiorias invisíveis e silenciadas. não tem sido um espaço democrático e de igualdade. A nossa formação como profissional da educação muitas vezes é marcada por inculcações de preconceitos que. na grande mídia. pois sem que perceba repete as relações de dominação e de exploração da sociedade. Reconhecer e respeitar a diversidade cultural existente obriga a revisarmo-nos e provavelmente levará a educação a desembaraçar-se de ter se tornado máquina de produção de profissionais e de diplomas burocratizantes. padrão euro-norte-americano de vestir e agir (TRINDADE. porque vivemos numa sociedade na qual a supremacia é a identidade ditada pelo modelo econômico e cultural ocidental. nos meios de comunicação. nas potencialidades da ação coletiva do professorado e em nossa capacidade de atualizá-las.  n. 11).GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Ser educador hoje no Brasil é antes de tudo. “É a necessidade de não ser espectador e ousar arriscar gestos” (KROHLING. como as dos afrodescendentes..

639/03 que alterou a carta magna da LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei N. A questão que se coloca segundo Silva (1999.  n. 102) “como desconstruir o texto racial do currículo. comida. trabalhando com várias atividades didáticopedagógicas que podem ser pensadas pelo coletivo de profissionais e alunos sempre procurando por meio de pesquisas a riqueza do Continente Africano com sua cultura que faz parte das nossas construções sócio-históricas. costumes.º 9. religião. significa prepará-los para a sobrevivência: da própria pessoa. da comunidade e das outras pessoas (TRINDADE. históricas e discursivas do racismo.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. festas. Para vencer o racismo de um currículo imposto e da prática pedagógica ‘ditada’/’imposta’ é imprescindível que se discutam as causas institucionais. Criar alternativas pedagógicas para possibilitar que tão difícil processo de construção/reconstrução seja pensado por todos que estão fazendo a escola hoje é   ISSN  2238-­‐4170   31       . identidade e poder que os temas da raça e da etnia ganham lugar na teoria curricular. Segundo Silva (1999) é por meio do vínculo entre conhecimento. brinquedos e brincadeiras. Entre elas o trabalho com músicas. 2000). danças e os grandes personagens negros/as de hoje e de ontem.º 10. pois se assim for. acabará por levar a uma prática pedagógica e a um currículo que se centram numa simples terapêutica de atitudes individuais consideradas erradas. O racismo não pode ser tratado como questão individual.2. Como questionar as narrativas hegemônicas de identidade que constituem o currículo?”. p. numa busca incessante de deixar evidente a rica herança cultural que nos construiu e nos constrói diariamente. Enfim.2  (2012)     Ensinar alunos afro-descendentes requer mais do que prepará-los para um sucesso individual. devemos buscar contribuir para a construção/reconstrução da identidade das nossas crianças/adolescentes e jovens/adultos afro-descendentes. da família.394/96. Não podemos nos esquecer que o conhecimento sobre raça e etnia que está incorporado ao currículo não pode ser separado daquilo que as crianças/adolescentes/jovens serão um dia como seres eminentemente sociais. atendendo a Lei N.

GUIMARÃES.   ISSN  2238-­‐4170   32       . Queiroz. C. P. FERREIRA.ed. A. Maria Helena Souza. Petrópolis: Editora Vozes. Portanto. Jurjo Torres. 2002 MORIN. como também a riqueza da nossa história. Multiculturalismo e educação: desafios para a prática pedagógica. Cotidiano escolar como comunidade de afetos. E. 2000. Produção gráfico-editorial: Mazza Edições. SANTOMÉ. São Paulo: Cortez. Petrópolis. C. 2. Janete Magalhães. São Paulo: T. 1998. Almanaque Pedagógico Afrobrasileiro: Uma proposta de intervenção pedagógica na superação do racismo no cotidiano escolar. FONSECA. PATTO. São Paulo: EDUSP. G.2. Os sete saberes necessários à educação do futuro. singularidades e maneiras de ser e estar no mundo. E.2  (2012)     de suma importância porque a sociedade continua a atuar no sentido de que se mantenha o status quo. A. O ensino de história na escola fundamental: do “samba do crioulo doido” à produção de conhecimento histórico. S. Educação inclusiva. São Paulo: Cortez Editora. H. 2 ed. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. 2008. 2003. Sabemos que ao confirmarem-se esses padrões e valores. p.. ao compreender as diversas e múltiplas subjetividades. 1991. FARIA. Rio de Janeiro: DP&A. CANDAU. 157-170. Mídia e Tolerância: a Ciência Construindo Caminhos de Liberdade. Vera Maria.  n.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Margarida Maria. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. M. Ideologia no livro didático. cooperamos para manutenção das relações de dominação. In: VEIGA.) et al. 1996. A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul Ldta. 13-37. Antonio Flávio Moreira. FISCHMANN. I. MARIA. CARVALHO. DF: CNPq. Rosa Margarida de Carvalho. RJ: DP ET Alii. G. Vera Maria. p. Escola fundamental: currículo e ensino. ROCHA. M. KROHLING. reimpressão. Roseli. Campinas: editora Papirus. estaremos contribuindo para o entendimento e a compreensão de como podemos contribuir para construirmos uma sociedade democrática onde não existe espaço para visões etnocêntricas e excludentes. REFERÊNCIAS CANDAU.8. 2000. (org. In: MOREIRA. 1989. Brasília. 2009. ed. L.

Olhando com o coração e sentindo com o corpo inteiro no cotidiano escolar. 2. RJ: Vozes.   ISSN  2238-­‐4170   33       . SANTOS. In: ______. da. Para um novo senso comum: a ciência. 2. 2000. Documentos de identidade: Uma introdução às teorias do currículo. TRINDADE. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. São Paulo: Cortez. cap. Multiculturalismo: mil e uma faces da Escola. 2000. Boaventura de Souza. o direito e a política na transição paradigmática. 1999. Belo Horizonte: Autêntica. 4.GESTÃO  CONTEMPORÂNEA    v. Petrópolis.). (org. 2002. A produção social da identidade e da diferença. p. ed. SILVA. Azoilda Loretto da.2  (2012)     SANTOS. ______. ed. Tomaz Tadeu.2. (Org.). 73 -102. Azoilda da.  n. In: TRINDADE. Rafael dos. Rio de Janeiro: DP&A.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful