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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

PROCURADORIA DA REPÚBLICA NO MUNICÍPIO DE PONTA PORÃ - MS

PARECER MINISTERIAL

Autos nº 2008.60.05.001180-5
Mandado de Segurança com Pedido de Liminar
Impetrante: Flávio Coronel
Impetrado: Comandante da Unidade do 10º Regimento de Cavalaria Mecanizado

I - RELATÓRIO
Trata-se de mandado de segurança, com pedido liminar, impetrado por
FLÁVIO CORONEL, objetivando a suspensão do ato do Comandante da Unidade Militar
do 10º Regimento de Cavalaria Mecanizada de Bela Vista, que determinou seu
licenciamento ex officio das fileiras do Exército. Pugna por sua reintegração às fileiras do
exército brasileiro, para tratamento médico, até sua efetiva cura ou que seja reformado.
2. Apresentando documentos de fls. 26/75, sustenta, em síntese, que: (i) que
é cabo EP, estando a serviço da unidade militar do 10º RC Mec em Bela Vista/MS, tendo
sido incorporado em 01.03.2001 (ii) que, no dia 08 de janeiro de 2008, por volta das
08h30min, “sofreu um acidente em ato de serviço, no horário de Treinamento Físico
Militar – TFM, em uma partida de futebol, ao chocar-se com o goleiro adversário, sofreu
uma torção no joelho direito”, após tal contusão, foi diagnosticado: ruptura do corno
anterior do mecanismo lateral, ruptura oblíqua periférica no corno posterior do mecanismo
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medial, lesão grau II/III do menisco lateral medial, derrame articular de pequeno volume e
tendinopatia da pata anserina, provavelmente reacional às alterações ligamentares e
meniscais do compartimento medial (iii) que, por determinação do Comandante do 10º RC
Mec, foi instaurada uma sindicância para apurar as circunstâncias do acidente, tendo
concluído a autoridade responsável, aos 28.02.2008, que o fato ocorreu em ato de serviço
(iv) que, submetido a nova inspeção médica em 14.02.2008, foi declarado apto para o
serviço do exército (v) que, aos 29.02.2008, fora licenciado ex officio por determinação do
Comandante do 10º RC Mec, conforme Boletim Interno nº 041, sendo assim
desincorporado das fileiras do Exército Brasileiro por determinação do Chefe do Estado
Maior da 9º Região Militar (vii) que o ato é ilegal e abusivo, pois seus problemas de saúde
advêm de atividades físicas realizadas dentro de sua ocupação de militar no exercício (viii)
que há tratamento médico para a enfermidade da qual encontra-se acometido (ix) que o seu
licenciamento fere o disposto nos artigos 50, inciso IV, alínea “e”, 108, inciso III e § 1º,
109, caput e 121, § 3º, alínea “a”, ambos da Lei n. 6.880/80, bem como os artigos 21,
inciso XXXIV, “a” e XXXV, 146 e 156 da Portaria n. 816/03, pois a situação impugnada
não se enquadra em nenhuma das hipóteses enunciadas nestas disposições, carecendo,
portanto, de amparo legal.
3. A Autoridade inquinada coatora prestou informações às fls. 85/89,
sustentando, principalmente, a higidez e legalidade dos atos praticados, rebatendo as
questões levantadas pelo impetrante, alegando, ainda, (i) que o impetrante não fora
licenciado ex-officio e sim desincorporado, com base na Lei do Serviço Militar e seu
Regulamento, por tratar-se de praça não estabilizada (ii) que o licenciamento do impetrante
ocorreu após inspeção de saúde feita por médico perito, com a emissão de parecer nos
seguintes termos: “apto para o serviço do exército” (iii) que o Comandante do 10 R C Mec
determinou a abertura de sindicância para apurar se o acidente resultou de ato de serviço
(vi) que, em razão da sindicância ficou concluído que o requerente sofreu acidente em área
militar e durante atividade física prevista em QTQ (vii) que “o impetrante ao terminar seu
tempo de Serviço Militar a que se obrigou, foi licenciado por ter obtido a parecer 'Apto
para o serviço do Exército', quando inspecionado para fins de licenciamento” (ix) que o
impetrante requereu nova inspeção em grau de recurso, porém não se apresentou para
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exame de reavaliação da Junta de Inspeção de Saúde, o que restou evidenciado seu total
desinteresse em se submeter a aludida Junta Médica.
4. Pela MM. Juíza, foi deferida a liminar, face à presença da plausibilidade
do direito vindicado e do periculum in mora, determinando a suspensão dos efeitos do ato
de desincorporação do impetrante e sua reintegração às fileiras do Exército, bem como sua
submissão a tratamento médico adequado até o final julgamento do Writ (fls. 91/94).
II – ANÁLISE
5. Não merece acolhida a presente impetração.
6. Insta registrar que não se vislumbra, nos atos praticados pela autoridade
inquinada como coatora, qualquer ilegalidade ou abuso de poder, a qual procedeu de
acordo com o que determina as legislações vigentes e aplicáveis ao caso em questão.
7. Sustenta o impetrante que, em decorrência de exercícios físicos inerentes
a sua condição de militar, foi acometido de enfermidade, constatada através de exame
realizado por junta médica, composta por três médicos peritos, no qual atestou-se que o
impetrante sofreu ruptura do corno anterior do mecanismo lateral, ruptura oblíqua
periférica no corno posterior do mecanismo medial, lesão grau II/III do menisco lateral
medial, derrame articular de pequeno volume e tendinopatia da pata anserina,
provavelmente reacional às alterações ligamentares e meniscais do compartimento medial.
8. Após a constatação da enfermidade do impetrante, foi instaurado uma
sindicância a fim de apurar se o acidente resultou de Ato de Serviço, a qual concluiu que o
requerente sofreu acidente em área militar e durante atividade física prevista em Quadro de
Trabalho Quinzenal – QTQ.
9. O então Cabo Flávio Coronel, em fevereiro de 2007, passou por nova
inspeção de saúde, na qual os peritos atestaram sua aptidão para o serviço do Exército.
10. A inspeção, no caso em questão, tinha por fim o atendimento aos
requisitos legais para a efetivação de interrupção do Serviço Militar. Dessarte, FLÁVIO
CORONEL foi submetido à perícia médica, conforme disposição do artigo 431, do RISG,
a seguir transcrito:
Art. 431. O militar não estabilizado que, ao término do tempo de serviço
militar a que se obrigou ou na data do seu licenciamento da última turma
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de sua classe, for considerado “incapaz temporariamente para o serviço
do Exército”, em inspeção de saúde, passa à situação de adido à sua
unidade, para fins de alimentação, alterações e vencimentos, até que seja
emitido parecer definitivo, quando será licenciado, desincorporado ou
reformado, conforme o caso.
11. Assim, aos 14.02.2008, foi licenciado pelo Comandante do 10º RCMec,
atendendo ao que prescreve a Lei nº. 6.880 de 1980, do Estatuto dos Militares:
Art. 121. o licenciamento do serviço ativo se efetua:
I - (...)
II - ex officio.
§ 3º. O licenciamento ex officio será feito na forma da legislação que trata
do serviço militar e dos regulamentos específicos de cada Força Armada:
a) por conclusão de tempo de serviço ou de estágio;
12. Inconformado com o parecer da Junta Médica Militar, Flávio Coronel,
por sua conta, procurou atendimento na Clínica Regional de Fraturas, situada em
Jardim/MS, na qual obteve parecer médico que contesta o parecer da Junta Médica Militar
que o considerou “Apto para o serviço do Exército”, alegando, para tanto, que o
impetrante continua com o problema ocasionado pelo acidente de serviço, bem como
indicou intervenção cirúrgica para a completa recuperação das lesões sofridas.
13. Em que pese a apresentação de parecer contrário ao emitido por Junta
Militar, tal prova não deve ser considerada, haja vista inobservância aos preceitos relativos
a sua produção, como notificação da parte impetrada em respeito ao contraditório.
14. Além do mais, o impetrante requereu uma Inspeção de Saúde em grau de
recurso, a qual foi deferida aos 18.04.2008, entretanto, conforme mencionado alhures,
mesmo “após ser localizado e contatado”, ele não se apresentou para nova avaliação, fato
que evidencia seu total desinteresse em comprovar o que fora alegado no presente
mandamus.
15. Assim sendo, não há provas convincentes e seguras nos autos aptas a
amparar concessão da segurança, tendo em vista que o documento juntado pelo impetrante
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à fl.73, além de ser o único atestado médico recente, contraria parecer da Junta Médica,
carecendo, portanto, de dilação probatória, não amparada em sede mandamental.
16. 18. Portanto, o que se extrai do presente mandamus é que a autoridade
militar realmente praticou o ato baseado no parecer da Junta de Inspeção de Saúde e na
legislação pertinente à matéria, não se vislumbrando de plano qualquer ato abusivo ou
ilegal de sua parte.
17. Desta feita, em razão dos motivos supra delineados, não merece acolhida
o conjunto de alegações feitas pelo Impetrante com vistas à sua reintegração nas fileiras do
exército para tratamento de saúde ou ainda sua reforma.
18. De todo o exposto, tem-se que o ato discricionário do Comandante ora
combatido não se encontra eivado de ilegalidade, tampouco sendo arbitrário, já que
observou a incapacidade temporária apresentada pelo impetrante. Eventual direito que
julgue possuir o mesmo em razão de não se considerar ainda cabalmente restabelecido da
lesão no seu joelho, como já salientado, merece discussão somente possível de ser
ventilada pelas vias ordinárias.

III - CONCLUSÃO

19. Por todas as razões acima elencadas, o parecer é pela denegação da


segurança.

Ponta Porã, 23 de setembro de 2008.

BLAL YASSINE DALLOUL


Procurador da República

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