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O LUGAR DA PSICANÁLISE NA MEDICINA

A Demanda na Psicanálise e na Medicina

Samyra Assad

Quer queira quer não, o médico está integrado neste movimento mundial de

organização de uma saúde que torna-se pública e, por este fato, novas questões lhe

Se o médico deve continuar a ser alguma coisa que não a

herança de sua função antiga, que era uma função sagrada, é a meu ver, prosseguir e

manter em sua própria vida, a descoberta de Freud. Foi sempre como missionário do médico que me considerei; a função do médico assim como a do padre não se limitam ao tempo que nela se emprega 1 . J. Lacan

serão colocadas. (

)

INTRODUÇÃO

Para começar, devo dizer de um efeito curioso, ao preparar essa abertura aqui, introduzindo a questão da demanda na Psicanálise e na Medicina – algo que emergiu de forma inusitada, apesar de estar sempre presente desde o primeiro dia de funcionamento da Clínica d’ISS, há vinte e um anos atrás. Nada mais, nada menos, que o seu próprio nome, inspirado no livro de George Groddeck, o livro dISSO. A surpresa foi me deparar com aquilo que se colocou de forma contingencial a título de uma introdução, ou seja, a razão do nome de batismo dessa instituição, que se pautou naquilo que o médico contemporâneo de Freud aludiu, quando percebia em seus pacientes as

manifestações das mais selvagens do terreno inconsciente, daquilo que se manifestava de forma crua e nua, pelo caráter primário em estabelecer-se aí um princípio a ser seguido pelo sujeito. No prefácio desse livro, finalizado em dezembro de 1921, podemos encontrar a afirmação de que, além do diálogo que esse autor mantinha com Freud, o fato de que “ele devia ao próprio

Freud

se não o conceito, pelo menos a expressão das Es (em alemão), mais

conhecido como o id e que na verdade é o isso” 2 . Por outro lado, a homofonia

com o verbo dizer demonstra, de forma pontual, aquilo que se persegue na escuta do sujeito, ou seja, a sua enunciação, o seu dizer. Isso fala nele. A clínica diz além do dito, do enunciado.

1 LACAN, J. – “O Lugar da Psicanálise na Medicina”, Revista Opção Lacaniana, n. 32, São Paulo, Dezembro de 2001, p. 14.

2 GRODDECK, G. – “O Livro dISSO”, ed. Perspectiva, 1997, 4ª edição.

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De todo modo, essa instituição, por sua vez, se coloca como um dos efeitos de minha formação, envolvida dos pés à cabeça, como também a alma, com a psicanálise. Entre caminhares e tropeços, bem como entre algumas batidas de cabeça na parede, surpreendo-me agora com o nome da instituição

e aquilo que pretendo trabalhar aqui, em se tratando da questão da demanda,

na conjunção proposta entre Psicanálise e Medicina. Para dizer logo, não se poderia inaugurar um início que não colocasse em questão a manifestação do Isso, tanto no corpo quanto na palavra, em se tratando do momento em que uma demanda é endereçada ao médico ou ao analista. O nome, portanto, é uma criação. O trabalho é o efeito dessa criação, em torno da qual ele gira e girou até hoje. Da mesma forma em que nos colocamos a trabalho em torno do sintoma.

Já que nome e sintoma, portanto, podem se configurar como um par, oportuno seria lembrar que, mais além das classificações nosográficas dirigidas para a nomeação de um diagnóstico baseado nas manifestações sintomáticas de um sujeito, o sintoma é criado por cada um que tem um nome

próprio, ou seja, há uma apropriação do sintoma por parte de cada um, que, no final das contas e de uma análise, torna-se um nome próprio para o sujeito, ou seja, um nome próprio que amarra o seu modo de gozo, o modo disso se manifestar, a partir de uma certa (re)orientação, depois de explorado o terreno selvagem do Isso, do inconsciente. Logo, impossível seria encontrar o nome particular do sintoma de um sujeito em qualquer que seja o número de CID. Os tipos clínicos jamais irão abranger a unicidade de um caso único, tal como ele se coloca a cada um que bate à nossa porta. A impossibilidade de inexistência de sintomas, por mais normal que um sujeito venha a se considerar, certamente, se deve a essa parte mais arcaica do pensamento humano, nomeada por Freud em sua segunda tópica por id. É o id freudiano e o isso lacaniano, que grita na carne e se deita nas palavras. Isso fala, nos diz Lacan, ça parle; ça rate, nos diz Miller, isso falha, pois é incalculável em sua insistência para obter algum tipo de satisfação. E a palavra, ou a via simbólica, não dá conta de dizer tudo sobre o gozo do sintoma; algo sempre falha, não cessando de não se inscrever. N’isso, o chamado é feito para a investigação, portanto, sobre o gozo, na medida em que

o Isso é uma instância que exige uma satisfação pulsional, e assim não pede

licença para se alojar ou se vestir numa necessidade do sujeito, se é que estamos aqui tentando articular o isso e o sintoma. Estamos tentando articular o isso que fala e falha no saber totalizante sobre o sintoma, ainda que o sintoma, por outro lado, não cesse de se inscrever.

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O DIZER DO SINTOMA

Na criação (do sintoma) como efeito de uma formação, também, a

noção de inconsciente trouxe um limite ao saber pré-estabelecido sobre o corpo, e a intenção passa a ser a de colocá-la à prova – isso que levou Freud, sedento de ciência, por exemplo, partir de um projeto para neurólogos, e acabar por se curvar aos mecanismos ocultos na superficialidade dos dizeres sobre o mal estar relatados pelos pacientes que se dirigiam a ele, especialmente as histéricas que lhe ensinaram que uma paralisia motora pode não estar correlacionada às ligações sinápticas e que, desse modo, a ciência dos neurônios então não podia dar conta. Algo continuava não cessando de não se inscrever, e que, pelo contrário, a ciência se abstinha d’isso. A histérica

É fato então que a Psicanálise nasceu do campo da Medicina, do

Dr. neurologista Freud. O que teria nascido da Medicina depois disso? O lugar da Psicanálise na Medicina, podemos dizer, adveio do desejo de Freud. Quem então reler esse Projeto para uma Psicologia Científica pode extrair um pouco isso. Ali, sob a forma de uma célula, via o traçado da satisfação de um circuito que tende dessa maneira a se repetir, fazemos a leitura do que viria a ser um significante para se introduzir desde aí, uma orientação psicanalítica. No entanto, não vou me ater a esse aspecto, a não ser para abordar que o fato da extraterritorialidade, da marginalidade da Psicanálise em relação à Medicina se mantém enquanto tal, a partir de uma problematização da demanda e do saber a ela inerente que, por conseguinte, faz-se operar. Lacan, por exemplo, na ocasião do Colóquio intitulado como “O Lugar da Psicanálise na Medicina”, cujo texto foi publicado em 1966, lembra-nos que a significação de uma demanda é extraída da dimensão em que se exerce a função médica propriamente dita, mas, a complexifica quando retoma a estrutura da falha que existe entre a demanda e o desejo, dizendo-nos o seguinte:

queria falar

A partir do momento em que se faz esta observação, parece que não é necessário ser psicanalista, nem mesmo médico, para saber que, no momento em que qualquer um, seja macho ou fêmea, pede-nos, demanda alguma coisa, isto não é absolutamente idêntico e mesmo por vezes é diametralmente oposto àquilo que se deseja 3 .

Isso vem reafirmar o fato de que o paciente não espera pura e simplesmente a cura. Continua Lacan: “ele vem às vezes nos pedir para

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que vocês o preservem em sua doença” 4 . É

assim que uma clínica se constrói: no desafio de enfrentar o triunfo da pulsão

de morte do sujeito sobre a sua vida.

O desafio que se coloca, inclusive, nos tempos atuais, diz exatamente

disso, porém de modo escancarado, pelo fato da civilização hoje ter perdido a

bússola da inibição, da referência paterna, outorgando à busca do gozo, portanto, uma satisfação rápida e imediata, tal como vemos acontecer com os meios de consumo na era da globalização, bem como nas novas configurações familiares, além daquilo que transmite tudo valer em nome de um culto ao corpo, à imagem do corpo, tais como algumas recentemente falecidas manequins demonstraram para os que ficaram.

Já que devemos acompanhar a subjetividade contemporânea, longe de

um saudosismo romântico de apelo ao Mestre como uma referência, mas adeptos às possibilidades de novas amarrações ou conexões entre os elementos dispersos do gozo, às soluções particulares que cada sujeito pode encontrar diante desse desbussolamento da sociedade hipermoderna, interrogo como fazer emergir, primeiramente, uma demanda de tratamento, já que a busca do gozo ou da pulsão de morte predomina de modo inegável e surpreendente nos novos sintomas. Inclusive, aí se percebe uma suposição de saber no Outro reduzida a zero ou limitada à quantificação dos métodos terapêutico- comportamentais que querem tomar conta de tudo, na ilusão de controlar (o) ou medir o isso, se assim poderíamos dizer. No entanto, ainda que essa questão já demonstre uma dificuldade na clínica da demanda, dificuldade esta acentuada pela predominância dos atos do sujeito, ou mesmo das passagens ao ato, o que perseguimos é exatamente a dimensão ética que se estende em direção ao gozo: eis então duas balizas, nos diz Lacan, “primeiramente a demanda do doente, em segundo lugar o gozo do corpo” 5 . Com essas premissas assim introduzidas, iremos então trabalhar a demanda num caso de anorexia a seguir 6 .

autenticá-lo como doente, (

),

A QUESTÃO DA DEMANDA

4 Idem.

5 Ibdem, pág. 12.

6 Este caso foi apresentado pela Dra. Cristiane Cunha, médica endocrinologista do NIAB, e comentado por mim em duas vezes, de acordo com sua evolução, no Núcleo de Pesquisas em Psicanálise e Medicina, do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, no ano de 2007. O “Caso M”, tal como foi designado por Cristiane Cunha, foi apresentado na XIII Jornadas da EBP-MG em setembro de 2008, no XVII Encontro Brasileiro da EBP, em novembro de 2008, e também o será apresentado em Barcelona, no PIPOL, em Julho/2009.

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Há um trecho do Colóquio, o qual resume, de maneira pontual, o cerne

da questão relativa à demanda que procuramos não somente com lupa, como

também com aparelho de ausculta nos novos sintomas. Lacan aí diz o seguinte: “O que indico ao falar da posição que pode ocupar o psicanalista, é que atualmente ela é a única de onde o médico pode manter a originalidade de sempre da sua posição, qual seja, daquela de alguém que tem que responder a uma demanda de saber, ainda que isso possa ser feito conduzindo-se o sujeito a voltar-se para o lado oposto das idéias que emite para apresentar esta demanda 7 ”. Enfim, a abertura do inconsciente só pode servir ao sujeito em sua demanda de saber, caso o médico ou o analista não a tampone ou a impeça com suas respostas. Dessa maneira, na interlocução de Lacan com a Medicina, importa ressaltar, como ele diz, que, a partir disso, “o inesperado é que o sujeito confesse sua própria verdade e a confesse sem sabê-lo 8 ”. Vamos ver em que medida poderíamos aplicar isso no caso em questão, quando localizarmos o ponto aonde uma demanda poderia ser construída.

DE UMA VIA CRUCIS DO SUJEITO: A RELIGIÃO, O MITO Tanto o ritual da comunhão existente no cristianismo, quanto o mito de Totem e Tabu, de Freud, nos permitem fazer a leitura de que uma parte do corpo do pai é incorporada ou encarnada pelo filho. No primeiro, Cristo é encarnado pelo objeto oral, a hóstia, simbolizando a salvação da humanidade pela sua crucificação para retirar o pecado do mundo, e, no segundo, o “Pai” está em jogo no ato que instaura a lei, a partir da ingestão do seu corpo pelos membros da horda primitiva, após o seu assassinato 9 . Em ambos, a morte inaugura uma ordem simbólica. Por sua vez, essa abordagem nos permitirá, de forma embrionária, partirmos da relação que o alimento teria com a função paterna, pelo viés de uma incorporação: seja pelo símbolo através do qual a religião do cristianismo

a introduz, seja pelo mito que reveste uma estrutura linguística, de

incorporação da linguagem no ser falante. Assim, faremos do título do caso,

qual seja, “A Via Crucis de M”, uma introdução pertinente à abordagem da relação do sujeito com a função paterna, cujo fundamento, a princípio, se refere à posição do sujeito em relação ao distúrbio alimentar inerente à anorexia.

7 LACAN, J. – op. cit.,p. 13.

8 Idem.

9 Esta idéia na introdução deste trabalho é trabalhada num texto de Jean-Daniel Matet, como comentário que o autor fez de um texto de Nieves Soria Dafunchio, com o título: “Anorexia e Nome do Pai”, presente no volume Scilicet, que foi preparado para a ocasião do V Congresso da AMP. Este comentário, por sua vez, se encontra publicado no site da AMP (Wapol.org), em El Criticon, n. 3, abril/2006.

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Vejo a importância de se nomear ou titular um caso, naquilo que isso introduz em termos pontual e reduzido, revelando-se aí o que diz respeito ao sujeito, a saber, a sua essência. Desta, deduzimos então, a sua estrutura de gozo, seu aspecto singular, tal como dizemos anteriormente em se tratando da função de um nome.

Para nos referirmos ao caso de M, isso expressa, por exemplo, uma maneira ou modo de vida: “via crucis”, em cujo norte ou direção, está o “emagrecimento”, a qualquer custo – isso nos demonstra algo que vai mais além daquilo do que se pode entender pelo que se coloca diante dos nossos olhos ou dos nossos ouvidos. Digamos que a cruz seria o emagrecimento e sua via seria dada pelas drogas medicamentosas, as quais o sujeito faz uso, indiscriminadamente, para obter tal fim, como também o seu próprio fim como morte:

Jejum - almeja não comer, mas fracassa.

Purgações – Vômitos, laxantes (Lactopurga), diuréticos.

Exílio - Abandona a escola para evitar olhares que lhe seriam dirigidos; não come com ninguém. O alimento não é um objeto que faz uma ligação com o corpo: “quando como, saio fora de mim.

Auto-mutilação - Quando come, corta o corpo, inspirada no filme “Aos treze”. Ela se bate com o martelo de bater carne. Tenta cortar o braço para não pegar comida. Uma voz ordena: você comeu, se bata. M. fecha a boca e abre os ouvidos para este imperativo.

Na crucificação, tanto no aspecto religioso quanto mítico, de todo modo, parece que a idéia do resgate de uma certa ordem está em jogo ao se tratar da morte de um corpo.

No entanto, para a via crucis que antecede a uma crucificação do corpo no caso em questão, optaremos pela leitura de uma “ordem de ferro”, no lugar do Nome do Pai, esse organizador de uma estrutura neurótica . Tratar-se- ia de uma ordem que incidiria, pelo seu modo de funcionamento, sobre o corpo fechado e sem corte da anoréxica, um corpo esférico.

que incidiria, pelo seu modo de funcionamento, sobre o corpo fechado e sem corte da an

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DA LEI AO IMPERATIVO

Em 1974, Lacan, como uma espécie de visão do futuro, presumiu a perda da dimensão amorosa no que tangeria à subjetividade, exatamente a partir dessa ordem de ferro que substituiria a referência paterna ou o amor ao Pai da ordem simbólica. A ordem de ferro torna-se signo de uma “degeneração catastrófica”, tal como hoje, de fato, percebemos quando fazemos alusão à queda dos ideais, para uma ascensão privilegiada do gozo.

No lugar do Nome do Pai, portanto, esta ordem agora é trazida para indicar um certo “ser nomeado para algo”. Dessa forma, um funcionalismo radical vigora, em detrimento daquilo que poderia representar o sujeito numa cadeia significante, entre as linhas da lei do desejo. Para a ordem de ferro, outorga-se um nome e um corpo que só cabe ser crucificado, padecido 10 . Por conseguinte, a vertente nominalista ou estrutural, de classificação, está longe de nos dizer dos aspectos atuais que envolvem os novos sintomas. O que aí se evidencia, é o real da estrutura, sua parte cru e cruel, ressoando as respostas automáticas advindas de controles e reproduzindo assim, cada vez mais, seres em-ferro-(alo)jados, se podemos dizer.

E este “ser nomeado para”, vem no lugar de um furo que flexibilizaria os elementos do corpo simbólico, tamponando-o assim, com a “estabilidade” de um falso ser, esférico, fechado. “Os fenômenos existentes na anorexia no registro da imagem do corpo ou na impulsão bulímica, são considerados como um modo de tratamento de um gozo que não foi completamente extraído do

corpo, (

que se coloca é de que (

o Pai não se coloca enquanto um corpo simbólico

ou seja, nestes fenômenos dos distúrbios alimentares, a evidência

)

)

que conduziria à extração do gozo, ele é rejeitado pelo sujeito” 11 . Não há a

negativização da carne com a produção de um “incorporal”, tal como a introdução de um significante no ser falante faria para dividir o campo do gozo entre o corpo e significante, assim como Lacan se refere a essa operação em Radiofonia.

como Lacan se refere a essa operação em Radiofonia . Corpo anoréxico Corpo bulímico 1 0

Corpo anoréxico

refere a essa operação em Radiofonia . Corpo anoréxico Corpo bulímico 1 0 Sobre a questão

Corpo bulímico

10 Sobre a questão da ordem de ferro, dois casos de anorexia foram trabalhados num texto que se chama “Corpo e função paterna”, apresentados no 2º Encontro Americano de 2005, publicados em Papers n. 10, cujos autores são: Marcelo Barros, Alejandra Eidelberg, Cláudio Godoy e Mônica Gurevicz. Publicação virtual no site da Associação Mundial de Psicanálise – www.wapol.org 11 MATET-J. D. – op. cit.

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DA CHEGADA DE UM SUJEITO: A VIA CRUCIS DE “M”

Em primeiro lugar, observo como este sujeito adolescente nos é trazido pelo discurso dos pais. Em se tratando do endereçamento ao qual eles pretendem levar sua filha, este foi nomeado por eles como sendo um lugar ao qual se dirigisse um “último caso”. Esse acolhimento se configura, assim, naquilo que concerne ao “último caso”: seja da esperança, seja do lugar para o qual se dirigir, seja do que for que a princípio uma escuta nos convida a fazer.

Seguramente, não podemos desconsiderar uma preocupação dos pais em relação à filha de dezesseis anos de idade, vomitar há três meses, o que se

coloca como uma evidência. Mas, certamente, o que resta para se dizer a partir disso nos conduz em direção ao que está além das evidências, ao que está para além da clínica do olhar, do fenômeno, da urgência, ainda que nesta última um analista possa aí se colocar como um intruso, em seu dever ético de fazer operar o que estaria para além do corpo, ou seja, um sentido. Dessa forma, inicialmente, oportuno se faria interrogar, por exemplo, o que viria a ser esse “último caso”, portanto, em seu acolhimento. Pergunto-me se aí o sujeito encontra o seu lugar, reafirmado inclusive em seu movimento, por exemplo, de desautorizar os profissionais que a acompanham, quais sejam, o clínico, o psiquiatra, e a psicóloga. Por outro lado, isso permite dizer que é assim que esse sujeito “não mente”, quando diz que não encontrara a psicóloga no endereço que possuía às mãos. E também a maneira como ela concebe os elogios do namorado: “É mentira quando ele diz que meu corpo é bonito”. Assim, no discurso desta

paciente, é verdade quando ela diz que é mentira

verdade na interpretação que esse sujeito fez do desejo do Outro, e que ela não

Percebe-se a dimensão da

mente quando seu procedimento obedece, assim, à interpretação “do último caso para nós”, tal como diziam seus pais ao levá-la para o NIAB.

COMO FAZER CHEGAR O SUJEITO?

Pensamos que o dispositivo analítico se estabelece quando uma vacilação, ainda que mínima, toca à questão da verdade, a partir de uma falha no saber. Isso levaria a uma suposição de saber, portanto, em outro lugar. Assim, essa suposição pode advir da vacilação de uma certeza quanto àquilo que já está de alguma maneira congelado na significação que o sujeito faz do Outro; ou então, quando algo não funciona mais, instalando-se assim, o famoso mal estar, proveniente também, de “uma pergunta a mais”, tal como Celso Rennó sempre fez alusão a isso.

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Por exemplo, por quê, justamente, o sujeito se arrependeu quando tomou os vinte comprimidos de buscopan no dia da comemoração do seu aniversário? A princípio, a resposta em relação ao pra quê é repetitiva, esperada, e diz respeito à sua imagem do corpo. Mas, o por quê, talvez pudesse cavar um outro tipo de resposta que esse sujeito não sabe que tem, não sabe que sabe, e pode dizer respeito ao seu desejo.

Essa suposição de saber, portanto, seria originada por uma quebra da certeza do sujeito da ciência, que tanto pode ser aquele ao qual a ciência se dirige, visando um saber no real, quanto aquele sobre o qual a psicanálise deveria operar. Ou seja, uma suposição de saber incidiria naquele sobre o qual se restringe uma verdade em forma de cifra, que o sintoma encerra e faz calar as palavras, pela repetição em ato onde o corpo ganha cena principal no cenário hospitalar.

No entanto, em se tratando dos novos sintomas em nossa contemporaneidade, no lugar de uma suposição de saber, o que vem é o corte, um certo tipo de ausência: ausência do sujeito suposto saber. Sucede-se então o corte no corpo, o desligamento do Outro, o corte na

Em meio a tantos imperativos superegóicos ligados

ao ideal de gozo, provenientes de uma listagem “gozada” inerente ao “último caso”, percebe-se a ausência de uma referência para regular esse gozo, e mesmo, a ausência de alguma conexão entre os elementos da fala. Em outras palavras, podemos presenciar a queda dessa referência a favor da ascenção do gozo desenfreado. Eis o retrato dos novos sintomas, aonde o simbólico, a suposição de saber, praticamente, estão cortados. É o corpo que está em cena, o corpo no lugar do sentido. Único e tão somente: o corpo. Gordo ou magro, drogado ou não, sarado ou não, mas, o corpo. Trata-se de uma mostração do lugar do gozo por excelência, seja aquele que visa o olhar do Outro como apelo ao primeiro ou último caso, seja aquele que se faz ver para atestar o mínimo de sua existência, tamanha ausência de palavras para se dizê-lo. Nisso, portanto, fica em jogo uma apresentação, uma evidência, ambos em detrimento de uma representação simbólica que poderia se fazer deslizar numa cadeia do sentido. De tal modo que a resposta que o sujeito traz é sempre a mesma: “sou gorda”. Os atos e pensamentos também são os mesmos. E o corpo não fala. Não quer dizer nada. Diga-se de passagem, uma curiosidade se coloca pelos seguintes elementos: o pai trabalha com comida, e a mãe com limpeza. Qual a conexão possível em limpar o intestino com lactopurga, e o desaparecimento do sujeito depois ato de comer, quando ela diz “sair fora de si”? Procurar o elemento

comida, o corte, o corte

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entre a comida e a limpeza, entre a comida e a morte, entre a comida e o nada, será um grande desafio, dentre outros aos quais este caso nos convoca.

Entretanto, desnecessário seria apontar nisso tudo algo de muito cru e cruel. É possível extrair disso, no mínimo, como dizemos, a precariedade de uma representação em prol de algo que se impõe com muita força, e que, na maioria das vezes, traz uma sensação de impotência em relação ao que fazer. Parece-me que induzir uma certa conexão entre os elementos que estão dispersos no discurso pode ser uma aposta para cumprirmos com este desafio. Simplesmente uma aposta. Por conseguinte, não será pela via da adequação à uma suposta realidade que o sujeito enquanto tal será resgatado. Se nos dirigirmos à execução da defesa que este sujeito criou através do seu sintoma, teremos dificuldades em fazê-lo emergir. Essas operações costumam trazer o acting- out característico de uma anorexia mental, tal como Lacan a descreve no caso do homem dos miolos frescos, atendido por Ernest Kris 12 . Este analista operou sobre a realidade de que o seu paciente não plagiava idéias, levando-lhe a tirar isso da sua cabeça, quando, na “verdade”, essa idéia do paciente, que continha o receio sintomático de plagiar a idéia de outrem, era sustentada, por sua vez, pelo seu desejo de não fazer obnubilar a figura do seu pai, o qual não era um homem tão brilhante quanto ele mesmo e quanto ao seu avô paterno Simplesmente, este paciente, portanto, ao sair da sessão, foi comer miolos frescos Este exemplo nos permite pensar se no caso em questão nos aproximaríamos um pouco dessa via adotada pelo homem dos miolos frescos, quando a paciente que nos reúne aqui, ingere várias medicações no intervalo entre algumas consultas, quando se tentava orientá-la em direção ao alimento, ou ameaçar-lhe com o fio da morte pelo qual ela estava seriamente ligada. Esta seria uma de minhas dúvidas quanto a este caso. Mas sei que não é fácil atender um caso de anorexia – não é difícil nos submetermos à tentação de priorizar a necessidade de tentar eliminar o quadro que se apresenta, como se no pescoço clínico se esboçasse a navalha de ser um caso de vida ou morte No entanto, não recuemos. Vamos tentar desviar essa navalha para um outro lugar, um lugar de encontro. Um lugar possível de tentar escutar o encontro do sujeito com o seu desejo, que também não é fácil. Aí a lâmina cortante será a da verdade. Esta que, face ao real, pode variar.

12 Esta questão foi amplamente discutida no seminário “Sobre a tipicidade e a unicidade do caso clínico” coordenado por Jésus Santiago, na UFMG.

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Seria então pela via do desejo, da via crucis que este sujeito estabeleceu para crucificar o seu desejo, que a psicanálise poderá operar sobre ele, contingencialmente. Abordar o sintoma pela via do desejo implicaria então, por conseguinte, concordarmos com o fato de que ela não mente quando diz que é gorda, que ela não mente quando diz ter que sentir dor para existir, enfim, que ela tem fome do nada, que é verdade que ela não liga para a vida. Mas o quê, por outro lado, efetivamente, sustenta toda essa crença do sujeito? Será preciso que o lugar da interpretação para o sintoma anoréxico incida, portanto, sobre o desejo do sujeito e não sobre sua defesa. Isso nos permitirá dizer que o que implicaria nosso trabalho seria conduzir este sujeito do último caso para a última flor.

O LUGAR DA PSICANÁLISE NA MEDICINA: A ÚLTIMA FLOR

A demanda que nos coloca a trabalho, tanto aquela que se dirige ao

médico quanto aquela que se dirige ao psicanalista, abriu enfim, um campo sobre o qual distinguimos os saberes, a partir da visada que é a de encontrar um saber no real. A exemplo do discurso científico, nos diz Miller, “Lacan

exige em Psicanálise, a certeza, sim –, mas é para distinguir dois reais: existe um real para a ciência e um real para a psicanálise, que é o real do inconsciente” 13 . Esse é o desafio para a última flor da Medicina. Inclusive, Lacan situa a clínica médica em seu Ato de Fundação da Escola Francesa de Psicanálise, de 21 de Junho de 1964, num lugar privilegiado da Seção de Psicanálise Aplicada 14 .

A questão de origem que toca à distinção dos dois reais, portanto, diz

respeito, em última instância, à demonstração e à transmissão. Admite-se dizer

que a psicanálise demonstra o impossível numa contingência, naquilo que cessa de não se escrever. Miller nos diz que “nossa certeza está aqui, na medida em que a contingência é susceptível de demonstrar o impossível” 15 . Pontualmente, poderíamos localizar o que viria a ser esse encontro, exatamente no momento, por exemplo, crucial ao meu ver, quando Cristiane solicita uma conversa a sós com a paciente, da qual recebe a seguinte resposta: “Você pode fazer isso sempre comigo?” É inegável que houve um certo encontro aí, um bom encontro, aonde uma outra escuta, outro real diferente do da ciência se fez

13 Idem.

14 LACAN, J. – “Ato de Fundação”, Outros Escritos, J. Z. E., Rio de janeiro, 2003, p. 237.

15 MILLER, J.-A. – “Um real para a psicanálise”, Revista Opção Lacaniana, n. 32, São Paulo, dezembro de 2001, p. 16.

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apresentar e viabilizou a expressão da via crucis a qual o sujeito estava submetido. Este ato, mais além de reservar um espaço para o sujeito, de alguma

maneira, inscreveu algo em que ele foi capturado: a sua cola na designação relativa ao “último caso”, e suas possíveis ressonâncias em seu sintoma. É daí que pode nascer o significante da transferência, daí pode advir uma suposição de saber, tal como uma luz no fim do túnel O desafio para a última flor da Medicina, portanto, se colocaria sobre o

real do inconsciente, isso que se transmite “(

escoa, pelo que corre e não pelo que se move, por aquilo que permanece parado em seu lugar, que não pode ser de outro modo. 16 ” É assim que a psicanálise se torna um campo de saber onde o real que está em jogo seria diferente do da ciência. Até aqui, não questionamos o diagnóstico desta paciente. No entanto, poderíamos reproduzir a pergunta que ela faz, no momento em que na sala de espera, imagina o que os outros pensam, ao sentir-se observada e incomodada pelo olhar do outro. Ela imagina o que o outro pensa, a saber, “o que essa gorda está fazendo aqui?” Sim, o que ela está fazendo aí? A quê ela veio? Não seria o seu incômodo pelo olhar do outro a chance de se conduzir o sujeito ao lado oposto das idéias que emite, tal como introduzimos essa questão para se falar de uma demanda? Certamente, a responsabilidade maior estará do lado do próprio sujeito:

pela fuga do sentido, pelo que

)

tanto a escolha pela vida quanto a escolha pela morte, esta, em último caso, se

a escolha for crucificar o desejo e não se fazer demanda alguma, ou seja, fazer

É evidente que, por outro lado,

emagrecer ou desnutrir as palavras do corpo

não consentiremos com isso, se considerarmos que a existência da psicanálise

é contingencial e não necessária.

OS PASSOS DA VIA

Com esses índices, anotamos então, a possibilidade de construção de uma demanda a partir desses pontos: de como ela se sente olhada e da importância de um endereçamento para a fala de um sujeito.

Mas o emagrecimento parece se traduzir diretamente na carne – como se, entre a idéia insistente e a carne não houvesse intervalo, e essa idéia mestra funcionasse, ao mesmo tempo, como um martelo de bater carne, no ponto mesmo aonde os dois se chocam. Resta somente o barulho sobre a tábua de

16 MILLER, J.-A. – op. cit., idem.

13

carne – esse bife a ser devorado pelos ditados do Outro: “você comeu, se

bata!”

Pensando assim, haveria uma coisificação em jogo, a voz na carne. No entanto, por um outro viés, estaríamos supondo que a questão da fantasia, portanto, obedeceria ao fato de que esse sujeito fosse um último caso para os pais, tal como se concebeu uma primeira leitura desse caso.

Mas, desde o primeiro relato, é verdade que se pode perceber um outro indício de coisificação: a atividade da mãe, com limpeza, é seguida, quase que simultânea ou frequentemente, pela ingestão por parte de M de inúmeros

Pois bem, se a clínica analítica, hoje,

vai mais além de uma classificação estruturalista, procurando localizar o único

do caso, tomaremos como ponto de partida o fato de que o real é a estrutura. Dizemos que é isso que se transmite e permanece ao longo dos rearranjos das respostas do sujeito na evolução da civilização, deixando aberta a possibilidade da aparição de novos sintomas, diferentes dos já listados nas classificações, levando-nos, portanto, hoje, por exemplo, aos inclassificáveis. Observamos que a reincidência daquela voz na carne tornou possível uma intervenção decisiva: a voz ordena, mas você obedece. Vimos nisso a incipiência de um furo para flexibilizar o corpo esférico da anoréxica.

lactopurgas para se limpar o intestino

Dois elementos, portanto, se colocam lado a lado: a via crucis do corpo de M, e, o desejo do analista. O desejo do analista incidiria sobre as vias pelas quais este corpo pode ser interpelado, para que uma flecha de ferro, por uma questão de vida, cesse de se encravar ou de se inscrever pela possibilidade de

o sujeito aceder ao furo na esfera do seu corpo fechado, abrindo-se, com isso,

a chance desse corpo, por exemplo, se perguntar pelo feminino. Poderíamos

aqui se fazer equivaler o desejo do analista e a função de corte que poderia promover esse furo no corpo esférico da anoréxica, tornando-o assim, um corpo tórico:

da anoréxica, tornando-o assim, um corpo tórico: Não será surpreendente então que a se qüência lógica
da anoréxica, tornando-o assim, um corpo tórico: Não será surpreendente então que a se qüência lógica
da anoréxica, tornando-o assim, um corpo tórico: Não será surpreendente então que a se qüência lógica

Não será surpreendente então que a seqüência lógica do relato apresente

a fala de um certo desejo: “uma única vez, tomar uma bola de sorvete com o namorado”.

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Porém, as passagens ao ato a conduzem à internação. Ela afirma não ser doente e não querer ser bulímica: “queria mesmo era ser anoréxica”. Estava tudo sob esse tipo de controle, esse tipo de ordem

OS NOVOS SINTOMAS E O DESEJO DO ANALISTA

Portanto, para M, o título do caso traz, como aspecto central, a via crucis do sujeito que o levaria à morte, pelo viés da manutenção dessa mal- dita ordem de ferro, intacta e imponente com sua voz imperativa. Este seria um primeiro ponto a ser extraído, qual seja, a relação desta imposição com o declínio da função paterna nos tempos atuais.

Desse modo, é a clínica do sintoma que se colocará diante de nós, procurando-se extrair o único do tipo. Estamos frente ao fato da exceção ser a regra, isto é, “um caso jamais realiza completamente o seu tipo clínico, e por isso, poderá sempre ser considerado como único” 17 .

A EXPERIÊNCIA PSICANALÍTICA O que os novos sintomas apontam na subjetividade da nossa contemporaneidade, é que, a partir do remanejamento da estrutura real em nossa cultura, há um movimento oposto ao que implica a trajetória do percurso analítico para se alcançar uma destituição subjetiva. O sujeito já chega destituído de certa forma, e escapa a uma classificação, tal como uma paciente obesa, diga-se de passagem, enunciou em baixo e bom tom: “estou ausente No âmbito daqueles que já nos chegam dessubjetivados, o desafio, portanto, é detectarmos, sob a égide de uma continuidade dos registros, quais as amarrações possíveis foram feitas, ou que poderiam ser tecidas, para que eles sobrevivam à “via crucis pela qual todos passam!”, citando aqui Clarice Lispector 18 , em um conto, notadamente, “Via Crucis”, extraído de um de seus livros cujo título, curiosamente, é idêntico ao título que este caso ganhou, qual seja “A via Crucis do Corpo”. Tomando emprestado um pouco da literatura, da clínica dos novos sintomas e o que o caso M nos demonstra, percebemos que há um saber de estrutura que nos é transmitido, o real. No entanto, o que chamamos de segunda clínica de Lacan, sobre a qual a dominância se dá nos termos de uma amarração, esta segunda clínica, borromeana por assim dizer, não anula a

17 SANTIAGO, J. – texto veiculado no site da AMP, no boletim n. 4, nov/2006, “A variedade da prática: do tipo clínico ao caso único em psicanálise” – preparatório para o 3º Encontro Americano e XV Encontro Internacional do Campo Freudiano, realizado em Belo Horizonte, em agosto/2007. 18 LISPECTOR, C. – “Via crucis”, A Via Crucis do Corpo , Ed. Francisco Alves, 5ª ed., 1994, págs, 45-50.

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primeira clínica de Lacan, onde o princípio lógico de uma oposição e distinção entre termos estão presentes na construção de uma estrutura subjetiva, cuja dominância será a da representação, do atributo do Nome do Pai. A clínica borromeana não nos traz uma descontinuidade nem a predominância do simbólico, e sim, uma continuidade dos registros simbólico, imaginário e real, sob a égide de uma forclusão generalizada; o significante paterno não marca o gozo e sim o fortifica; há a ausência de classificação e o que prevalece é o real. Esta clínica está de acordo com os inclassificáveis ou as classes paradoxais.

A classe paradoxal, então, nos permitirá perceber que a neurose também

pode ter um déficit do Nome do Pai, ou mesmo, ter o Nome do Pai e não ter a significação fálica. Há também a possibilidade, na formalização da clínica

borromeana, do sujeito fazer uma amarração sem o Nome do Pai. Admite-se, com isso, uma equivalência entre o sinthoma (que caracteriza uma amarração especial, inventiva) e o Nome do Pai, deixando este de ser um atributo representável:

NP Ξ Σ

CLASSIFICAÇÃO

FORMALIZAÇÃO

Descontinuidade

Continuidade

Estrutura Ξ Significante

Estrutura Ξ Real

S

S

-

A

Sintoma

Presença ou ausência do NP

Sinthoma

Nome do Pai como um atributo

Nomes do Pai como função

* 19

DO CASO M

A questão da internação merece destaque. Essa palavra, “internação”,

foi proveniente da mãe, e toca ao sujeito, a ponto disto ser incorporado sem nenhuma pergunta, sem nenhuma mediação. O Outro a invade, ainda que isto, como se disse, não seria para ela. No entanto, M faz de tudo para ser internada – e segue essa ordem e se cega em sua via: o circuito mortífero é acionado, com o uso abusivo de diuréticos no feriado, se não me engano, de “Corpus

Christi” e a partir dos dizeres: “ninguém fica parado me ouvindo

podemos dizer que ela sim. Ela fica parada, ouvindo e se submetendo à voz do

”, porém,

19 * - anotações pessoais extraídas do seminário proferido por Jésus Santiago, no primeiro semestre de 2007, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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imperativo que intensifica o peso da cruz. Ela fica parada ouvindo o que advém do funcionamento de uma ordem de ferro. Curioso, diga-se de passagem, o pai solicita a alta hospitalar porque “a

Uma chora, a

outra tem que sair do hospital. O sujeito, além de ser o “último caso”, é trazido

no Outro. Mas, porque será que M diz que a internação a fez pensar que ela não

era doente? Talvez porque não seria por aí que passasse a sua demanda ou o

a internação, teria

sido introduzida e consentida a reboque de um funcionalismo radical, característico das ressonâncias de uma ordem de ferro. Sabemos como essa ordem oblitera a presença de um pai real que pudesse fundar um dizer

verdadeiro. Segundo a fala de M, a partir da qual a psiquiatra do hospital se levantou “e nunca mais olhou para ela”, qual seja, a de “preferir ser anoréxica

a ser bulímica”, isso nos faz entender que ser anoréxica (designação

nominalista), implica que o Outro não a olha, mas, de forma peculiar, deve emitir-lhe a sua voz. Ou seja, não comendo, o Outro há que falar algo a partir daí. Ou ainda, podemos dizer que o corpo, nesse caso, seria um empuxe à voz

seu consentimento de que algo não vai muito bem

mãe chorava muito”. Até para ele, mãe e filha são uma só

Talvez,

do

Outro Há algo que nos permite dizer da sua posição de objeto enquanto gozo

do

Outro, seja pela via do olhar (“o que essa gorda está fazendo aqui?”) 20 , seja

pela via da voz: “Você comeu, se bata”. E, mais ainda: “você deve ser internada”. Será que a ingestão indiscriminada dos remédios se faz quando alguma amarração se desfaz? Um elo do nó aí se romperia: talvez pela via da recusa dos pais, ou pela via do lugar preterido que presume ocupar diante da irmã, ou ainda, quando o sujeito divide a equipe de tratamento, a partir do risco de vida

que M dispõe ao olhar do Outro e da voz que dele quer escutar com isso. Por outro lado, isso não impede de pensarmos que a coisa se torna uma forma meio que selvagem, crua, do sujeito questionar o desejo do Outro Vamos supor que o que mantém uma amarração para este sujeito, seria alguém ficar parado, ouvindo – momento a partir do qual o analista poderia estar em conexão com a contingência! Seria esta a modalidade lógica através da qual algo cessaria de não se inscrever, admitindo-se a hipótese desta conexão poder viabilizar ou precipitar uma invenção deste sujeito, que esteja a seu favor.

20 Fala da paciente contida no primeiro relato deste caso, quando esta se encontrava na sala de espera, sobre a qual teci comentários a respeito da demanda, que poderia ser precipitada por um objeto em questão.

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Portanto, se tomássemos o corpo como o elo imaginário, o emagrecimento como o elo simbólico, e, a voz e/ou o olhar como o elo real, presumiríamos que o quarto nó, concebido por Lacan como sendo o do

sinthoma, que amarraria estes três, seria precipitado com a escuta de um índice do substrato de gozo que aí reside e resiste, qual seja, o olhar e a voz, os quais

já estariam, de certa forma, colocados previamente, de forma incipiente. Esse

substrato de gozo inerente ao sinthoma, trazido aqui como uma pista, faz-nos perguntar se ele não estaria revestido pelo viés do corte, este que cessou de não se inscrever, o corte então, aqui, de cabelo. Estaria aí uma conexão com a contingência?

O “CURSO” DO SINTHOMA

Certamente, a função do corte como intervenção no corpo esférico não significaria o próprio curso de corte de cabelo, mas, a partir de uma forma contingencial, que o sinthoma, como uma invenção do sujeito, pode aí trazer para o gozo. Isso não seria um elemento tão descartável assim, mesmo porque, esta pista nos foi trazida pelo próprio sujeito. Do curso de corte de cabelo: tratar-se-ia de um outro corte, diferente daquele da comida, no corpo, no braço, na vida. Mas um corte, que, paradoxalmente, supomos enodar ou rearranjar o elo entre o corpo, o emagrecimento, a voz/olhar. Um corte pela vida. Assim, tomando o Nome do Pai como uma função, esta implicaria desdobrá-lo em Nomes do Pai, tornando-o assim, como um simples semblante. Diríamos que o peso do “emagrecimento” alcançaria uma outra medida, no nível a partir do qual ele seria desdobrado, quem sabe, pelo corte, pela beleza, e o que quer que seja que estivesse na ordem desta função, a saber, da relativização de uma ordem de ferro.

Podemos inclusive, ler a existência de um certo apetite, por parte do sujeito, em relação ao “curso para cuidar dela”, do qual os pais a retiraram, com o eletrochoque da repressão através da qual eles pensam que poderiam controlar o sintoma da filha, retendo-a em casa. Parece que não devemos permitir a interrupção desse curso, talvez ele seja inventado ao lado da via crucis deste sujeito, ou melhor, colocando-a de lado.

Seguramente, as intervenções que visariam a função do corte para restabelecer a estrutura do corpo furado, tórico, implicará numa conseqüente interpelação à submissão automática do sujeito a essa ordem de ferro, ou, no mínimo, fazer ecoar os dizeres aos quais esse sujeito, acirradamente, ligou o

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seu corpo. Algo do estilo: “a ordem ordena, mas você obedece”. Apostamos na construção de uma demanda aí.

ENFIM, UM OUTRO CORPO

No Natal, M. dá um presente à analista: “é uma boneca, branquinha, de vestido e meiga como você”. Trata-se de um presente cujo lugar traz uma nova etapa no tratamento. Tanto o endereçamento do sujeito quanto a introdução de alguns intervalos nos permitem pensar isso. Por exemplo, depois das férias de fim de ano, M. retorna, sem vômitos, sem purgações, sem cortes. E vacila com a produção de um sonho: “estou comendo, acordo pensando em vomitar; fala da sua “decepção com o vômito”. Introduz-se aí um hiato onde só havia holófrase: sonha que está comendo, decepciona-se com o vômito. Além disso, relata ter melhorado e querer ser médica, para ajudar as adolescentes com anorexia e bulimia. Ela diz: “Essa parte está boa, mas não estou bem comigo mesma”. Assim, ela introduz sua dificuldade de voltar a estudar, ainda que gostasse disso, ela “não entende o porquê”. M. fala que não quer ser como sua mãe, sem estudos. Mas é difícil se aprontar para ir à escola, fazer novos amigos, ficar sozinha. M. havia pedido para comparecer ao NIAB quinzenalmente, por morar longe, os pais reclamavam de ter que acompanhá-la, o motorista da ambulância é grosseiro. Mas ela retoma o atendimento semanal prontamente, chegando a ir à Secretaria de Saúde para reivindicar o transporte. Ela que era sempre trazida e levada

M. abandona o tratamento com um psiquiatra ligado à família, para pedir uma entrevista com um psiquiatra do NIAB. Alcançamos, agora, o seguinte quadro: a família não é afeita aos estudos, ela quer estudar; abandona o psiquiatra indicado por eles. Comer, vender, comprar, limpar, fazer comida, ser gordo, são os significantes que marcam essa família. O movimento do sujeito demonstra uma passagem apontando um outro vetor: aquele da comida ao saber, ou do corpo à busca de um sentido. Dizendo de outra forma, uma operação de separação está em jogo no tratamento. É possível dizer que o deslocamento do sintoma anoréxico foi precedido do endereçamento transferencial. Isso permite introduzir também o percurso que implicou a oferta de um corpo real, para a oferta de um outro corpo, tal como o de uma boneca, por exemplo. Na perda de consistência do novo sintoma, talvez agora ela (a boneca?) passe a falar de outras coisas, dando lugar a um sintoma pela via da produção de um sujeito e na invenção de uma

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transferência. A aposta está dada nesse traço sobre o qual suas identificações provavelmente se alicerçam e aqui ele é imputado à analista, abrindo a dimensão do inconsciente transferencial, ou da série do saber inconsciente latente. Podemos dizer que houve a produção de um sujeito, de um corpo, ainda que precário. Partimos do “último caso” para a última flor da Medicina, a saber, a psicanálise. Do novo sintoma ao sintoma. Do ser ao ter um corpo.

Belo Horizonte, 02 de maio de 2009.