-ISSN 1809-6298

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Texto Especial 138 – junho 2002

| Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius |

Cidades fantasmas (1) Fernando Freitas Fuão
Fernando Freitas Fuão é arquiteto, doutor pela Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona com a tese “Arquitectura como Collage”, 1992. Atualmente é professor na Faculdade de Arquitetura e no Programa de Pesquisa e Pós- Graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e autor dos livros “Arquiteturas Fantásticas” (org.) (Editora da UFRGS- Faculdade Ritter dos Reis, 1999), e “ Canyons – Avenida Borges de Medeiros e o Itaimbezinho” (Edição do autor, 2001) e de ensaios como “Folhas de Arquitetura”, “A Órbita da Collage”, “Brutalismo: a última trincheira do movimento moderno”, “Michele Finger: A persistência da memória”

Há muito tempo o imaginário deixou de ser fruto de uma percepção direta da realidade. Hoje, mais do que nunca, o imaginário se constrói através de uma visualização incessante das representações da realidade, das imagens técnicas. O imaginário do arquiteto, infelizmente, só pode compreender e assimilar aquilo que lhe é ensinado ou mostrado. E o que nós arquitetos temos feito, é mostrar, de alguma forma, a eterna perpetuação da ausência da figura humana na representação arquitetônica, seja por fotos, seja por projeções.
Sem título, 1999. Foto de Juliana Angeli, Câmara escura, tempo de exposição 4’ 20” Este ensaio surge a partir da leitura de um texto do filósofo Vilém Flusser intitulado Phantom City (2), escrito para uma exposição fotográfica que percorreu algumas cidades da Europa nos anos de 85 e 86. A exposição mostrava fotografias de vários autores, cujo tema era a cidade sem pessoas. Esse material constitui um desdobramento da visão premonitória do papel da fotografia como imagem técnica, e da exclusão do homem das atividades públicas da cidade.

Phantom City é, de certa forma, uma continuidade das idéias de Flusser apresentadas em sua famosa obra Filosofia da caixa preta, e serviu de referência a meus estudos realizados no final dos anos 80 sobre a fotografia de arquitetura (3), sendo fundamental para a descoberta de que não só as fotografias da referida exposição eram marcadas pela ausência da figura humana, mas que essa ausência também se apresentava em praticamente todas as imagens contidas em revistas e livros de história da arquitetura. Para fotógrafos e arquitetos, persiste até hoje o mito de que capturar a presença de um sorriso, a expressão de satisfação ou de tristeza de alguém se constitui numa linguagem fotográfica não científica e não aplicável à arquitetura; nada mais errôneo que a idéia de que a arquitetura e a cidade devem falar por si mesmas, sem a intromissão de seus moradores. Retirar a figura humana da fotografia de arquitetura é retirar a alma da cidade e da própria arquitetura, é ver nelas somente a beleza e o caráter objetivo.

Quando critico a fotografia. em sua totalidade. é um pálido reflexo que visa substituir o que realmente está “lá fora”. Essa divulgação. Nas palavras de Flusser: “(. O problema. Para captar esse vazio da cidade. e isso na verdade pouco tem a ver com a arquitetura. fazem . perde toda a sua virtuosidade. Obviamente. vem sendo acompanhada por uma desenfreada exibição pessoal dos arquitetos. Mostram a cidade como desejariam que ela fosse. O verdadeiro documento da arquitetura continua sendo ela mesma (4). ou seja. O fotógrafo e o arquiteto não deveriam se utilizar da pretensa virtude de isolamento do objeto para torná-lo algo objetivo e. enquanto a cidade estava ainda dormindo. (5) Notadamente. Uma das idéias que está por trás da exclusão da figura humana é a de mostrar como está feita a arquitetura e de como pode ser copiada e inspirar outras. que estas fotografias. que demorava a se formar no fundo da câmara. Nos filmes. ou saírem aos domingos. quando os objetos animados e as pessoas eram excluídas propositadamente porque perturbavam a imagem fotográfica. e nem a arquitetura sem os seus moradores. ela deve possuir claridade e legibilidade suficientes para a compreensão do espaço tal como é. Infelizmente. cujo objetivo era mostrar os admiráveis efeitos da perspectiva clássica proporcionados pela arquitetura. e quando digo atacar. a cidade não é independente do observador.A questão da fotografia de arquitetura deve ser colocada em dois níveis de reflexão: o nível específico da representação fotográfica e das atribuições da fotografia como representação arquitetônica. A fotografia em si não é o documento principal. as fotografias são documentos de uma intenção”.. do mesmo modo que não existe sujeito sem objeto. porque retira o homem da cena. as melhores representações de arquiteturas são as encontradas no cinema. analisável cientificamente como se fosse uma radiografia. onde se percebe as poucas pessoas existentes como fantasmas (6). a arquitetura aparece normalmente como pano de fundo. portanto. inanimada. é o alvo da flecha do observador. ficando tão fantasmagórica quanto aquelas pinturas de cidades ideais do Quattrocento de Piero de La Francesca. Proponho que se ataque a fotografia. os fotógrafos tinham que acordar muito cedo.. As fotografias de arquitetura têm por objetivo divulgar a produção arquitetônica. estou propondo o debate sobre as relações entre arquitetura em sua base de representação. no entanto. Se não mudarmos a nossa forma de ver o mundo. Arquitetos e urbanistas continuam achando que o que se vê nas revistas e nas fotos é exatamente aquilo que há "lá fora". e o nível que diz respeito ao âmbito da filosofia da comunicação. não existe a cidade sem as pessoas. em parte porque desfruta de uma posição privilegiada e oficial.) os fotógrafos manipulam a cidade. mostrada de forma fragmentária. em sua artificialidade de pose fotogênica. como em algumas fotografias de Nadar e Atget. porém. Parece que os fotógrafos de arquitetura não se libertaram da prática dos primeiros tempos. Na fotografia. Não existe objeto sem sujeito. tem sido utilizada como uma imagem para a promoção dos arquitetos. De qualquer modo. total ou mesmo como personagem. como requerem os desenhos técnicos. no entanto é a idéia por trás desse “tal como é”. e não conseguem perceber que estes edifícios. Ao contrário. Essa inversão da relação objeto-sujeito é totalmente anti-humanista. a “nova visão” será sempre a velha visão do mesmo. em realidade estou criticando o ponto de vista da utilização tradicional. quando ela própria se torna a única personagem. Nesse sentido. retirando as pessoas.

oikataie. às pessoas livres (em grego. res private). onde pouco circulamos. Se considerarmos as conotações dos termos que acabam de ser citados. em sua totalidade ou em partes. precisamente. Ele é aberto às pessoas vagarosas. E não é necessário que se pense em tecnologias atuais como o telefone. Uma cidade fantasma. com intensa atividade e outra real. desanimados e classificados como borboletas nas páginas de revistas e livros. É típico das imagens técnicas jogar ao mesmo tempo com a crença e com a descrença. em latim. afetada pelo impacto da informática e pela estética do desaparecimento (7). ou pouco existimos. A imprensa e o correio. essas tecnologias relativamente antigas. principalmente no novo mundo. Acho que seria oportuno entender as fotografias e imagens técnicas não como representações fiéis da realidade. fórum). o rádio e a televisão para entender este princípio. mas como o índex de um projeto. buscar instalar no nível da percepção uma segurança existencial cujos limites são nebulosos. Essa cidade que se “re-apresenta” nada mais é que uma coletânea de edifícios-imagens. em latim. que Flusser antecipou. o confinamento de nossos corpos em nossas próprias casas. Ocorreu algo parecido com os modelos de cidades ideais e reticuladas do Renascimento. polis. Essa gente ociosa abandona sua casa para encontrar outras pessoas ociosas e intercambiar idéias. às pessoas que não têm nada a fazer. entre outras coisas. res publica) se compõe de casas particulares (em grego. inicialmente existentes só em representações. de um lugar particular diretamente ao lugar particular do receptor. quando se pode solidificar a informação desejada por fax e usá-la imediatamente.parte de uma cidade imaginária. puro. Foi exatamente esse ponto de transformação das cidades. ou se podemos trocar idéias com nossos amigos por cartas. é o que os gregos chamavam de “Filosofia”. espectral que representamos hoje pode ser o modelo metafórico da cidade do amanhã. ou para levar para casa o que os outros exibiram. em substituir a cidade por um aparelho de comunicação diferente. A atual revolução da informação consiste. já o ilustram. e agora nas telas dos computadores. mas eficazes. que visa. a partir do século XVIII. mas que se concretizaram. totalmente oposta à cidade real. as informações enviadas no espaço privado e acelerar o ritmo da distribuição. Já não é necessário sair para fazer compras quando se pode ter a informação exibida em seu terminal. estabelecidos por regras de percepção cultural e universal ditadas por essas mesmas imagens. O princípio é fácil: deixar de lado o mercado e construir canais que levem a informação produzida pelo autor. Pode-se dizer que as fantasmagóricas cidades exibidas em revistas. O mercado não é unicamente aberto às pessoas que saem de casa para fazer negócios. são a visão de um futuro espectral de duas cidades: uma virtual. Não é necessário também ir ao banco se podemos ver o movimento de . observaremos que falam da essência mesma da existência humana. e de um mercado aberto (agorá. com grande lucidez e ironia: “A cidade (em grego. Não é unicamente aberto às pessoas que vão exibir o que fazem na intimidade. Esse intercâmbio de idéias vigorosas. ótium). Não precisamos ir à cidade. a crise da substituição de um modelo urbano por outro. se podemos ver o que se passa pelo jornal enquanto comemos. em latim. como metáfora do abandono do modelo da cidade moderna tradicional do século XX. de uma futura construção a ser criada. onde não mora ninguém. A única coisa que a revolução informativa faz é anunciar o bastante. schole. Pois a cidade é uma materialização da estrutura dinâmica da vida civilizada. A cidade imaginária.

dentro das fotografias. com a implantação da rede global de comunicação. nem participar da vida pública cara a cara. Paul Virilio. a partir dos anos 60 compreendeu-se que a arquitetura deveria significar. e todos os esforços se voltaram para os seus aspectos comunicativos e formais. na realidade. mas é o próprio “meio” de comunicação. Até aí. Victor Hugo acreditava que o livro impresso. Em 1964. ao longo da história. O que acontecerá é. da informática. um sistema de cabos irradiantes numa ponta.nossa conta em casa. Entretanto. Podemos ficar eternamente acomodados dentro de nossos próprios mundinhos. a imprensa. embutidos na TV. dentro de casa. Um dos exemplos mais expressivos da substituição em termos de suporte de representação e de narração foi o surgimento da imprensa e do livro. assim foi (9). mas podemos também imaginar que as pessoas não abandonaram a cidade. O que observaremos não serão casas particulares distribuídas por todo lugar. O que verão não será o povo substituindo as cidades. A casa não está mais na rua. nenhuma novidade. tampouco necessitamos ir às urnas nas eleições se podemos fazê-lo apenas apertando as teclas do computador doméstico. Surgiu uma série de livros sobre a linguagem e o significado da arquitetura e da cidade. onde há poucos emissores e. Hoje. conforme sugeriu Flusser. como designava Victor Hugo em seu célebre romance Notre Dame de Paris. efetivamente um dos princípios de transformação e renovação constante das cidades. no telefone. ao banco ou às lojas. como explicou antecipadamente Marshall McLuhan. o fórum. pois a arquitetura. uma massa enorme de receptores solitários e isolados” (8). continuam lá. com cabos e satélites que conectam cada casa particular com todas as outras. estão agora dentro de casa. retirar ou depositar através da Internet. que toda tecnologia gera gradualmente um ambiente humano totalmente novo. não se conseguia perceber que a arquitetura é uma extensão do homem como a vestimenta. Até então. como uma metáfora do abandono da cidade tradicional moderna. em contraposição às superfícies narrativas das paredes da catedral gótica. percebe-se que a arquitetura não só significa e comunica. o veículo. com os avanços da informática e de outros meios de comunicação como a telefonia e a Internet. mas a rua. sofreu constantemente este processo de oxigenação. “O meio é a . Tudo mudou e continua mudando. o agorá. abandonada. Em parte. só que dentro de suas casas. para ir ao mercado. mataria a função narrativa da arquitetura. Este é. Mc Luhan já mostrava em Understanding Media: the extensions of man. e que esses ambientes não são envoltórios passivos. A própria comunicação. na Internet. Jean Baudrillard. Também não precisamos ir ao cinema se podemos ver o filme na TV. Em suma. metidos e entretidos dentro da “rede”. comunicar. e muitas vezes substituindo o papel comunicativo da arquitetura. produziram uma forte crítica aos meios de comunicação de massa. o meio. em outra ponta. mas processos antigos e ativos. Hoje não precisamos mais sair de casa para fazer compras. Agora podemos ver as fotografias de arquitetura não só como parte de uma cidade fantasma. começa-se a perceber que estes meios acabam absorvendo. Hoje. o livro de pedra. curiosamente. a mensagem. As idéias de Flusser não são totalmente novas ou originais. Mc Luhan foi um dos primeiros críticos a antever o panorama globalizante e a relacionar a arquitetura e a cidade como meios e extensões do homem. Guy Debord entre outros. um meio de comunicação que se utiliza de energia. a revolução informática converte a cidade em uma coisa obsoleta em quase todos os aspectos da sua função comunicativa. O mercado.

clusters dos Smithson’s. depender dela como se fosse uma prótese. Paolo Soleri. Esse complexo de máquinas. Mas surpreendentemente. em minha opinião. é. Superstudio. . Alugar nossos olhos. e que muitos não conseguem ver é basicamente uma economia montada sobre o consumo de energia que transita de um lado a outro do planeta. de Peter e Alison Smithson. de interação física e emocional. na casa como lugar usado basicamente para dormir. Urban Struturing. identidade. uma espécie de mortos-vivos às avessas. Um novo nomadismo. O novo ambiente reprocessara o velho tão rapidamente quanto a TV reprocessara o cinema. Ligações e terminais. As propostas dos metabolistas japoneses. Qualquer invenção ou tecnologia é uma extensão ou ampliação de nosso corpo. no culto ao trailler. de uma comunicação de almas sem corpos. na teoria da mobilidade. da cultura hippie e do existencialismo. É essa contínua adoção de nossa própria tecnologia. o ócio. para Mc Luhan. entre outros. em particular a fenomenologia. da vivência em comunidades. da energia controlada pelas multinacionais e corporações de telecomunicações. nas cápsulas e células de morar. B. em termos da era eletrônica. esses pensamentos se concretizaram na exaltação da casa ambulante. as teorias de crescimento. relacionadas com a energia e a velocidade. ouvidos e nervos para interesses particulares é o mesmo que transferir a conversação comum para uma empresa particular ou dar a atmosfera terrestre em monopólio a uma companhia” (11). em contraposição à vida privada e a reclusão. A idade da angústia e dos meios eletrônicos que hoje vivemos é também a idade da inconsciência e da apatia. não envolvendo as pessoas no seu sentido mais amplo de comunicação. Mc Luhan também observava que: “A tecnologia elétrica está relacionada diretamente com nosso sistema nervoso central. Fuller. Contemplar. O que está embrulhado neste processo. e essa extensão exige novas relações e equilíbrio entre os demais órgãos e extensões do corpo. A mesma década que proclamou a revolução da comunicação. decididamente. mais diminui minha atração por essa parafernália. e deu os primeiros passos para a informatização do mundo. Trata-se. Com muita acuidade. utilizar ou perceber essas extensões de nós mesmos sob uma forma tecnológica implica necessariamente em adotá-la. Não é à toa que a teoria dos encontros. de modo que é ridículo falar do que o público quer brincando com seus próprios nervos. também é a idade da consciência do inconsciente. da extroversão. que já havia sido criado um ambiente novo cujo conteúdo era o antigo ambiente mecanizado da era industrial. O tema constante de Understanding Media (10) é que todas as tecnologias são extensões de nosso sistema físico e nervoso. Quanto mais me informatizo. proclamou também a revalorização da vida pública. Yona Friedmann. da vida ao ar livre. A rua voltava a desempenhar um papel fundamental nas relações sociais. a introspecção corporal. ouvidos e mentes.mensagem” significava. alimentando-se através de cabos e fios artificiais. Na arquitetura. no fundo fomentavam a vida pública. Poucos direitos nos restam a partir do momento em que submetemos nosso sistema nervoso e sensorial à manipulação particular daqueles que procuram lucrar arrendando nossos olhos. a compra e venda da invisibilidade. as utopias urbanísticas de Archigram. veja-se por exemplo. que nos coloca no papel de narciso da consciência e é responsável pelo adormecimento subliminar em relação às imagens que temos de nós mesmos. teve neste período uma certa repercussão. literalmente uma rede de comunicação que serve apenas para capturar os usuários. Isso se expressou nitidamente nas vivendas mínimas.

não é muito diferente dos antigos sistemas.Na economia energética. que a fadiga intelectual atua sobre o centro de subordinação localizado na base do cérebro regulando as oscilações da vida mental entre os estados de vigília e do sono. Certamente que não. em sua essência. para viver a vida materialmente organizada pela razão. Não é à toa que a proliferação da violência interessa a todas as grandes corporações de comunicação e informatização e aos grandes conglomerados de bancos e administradoras de crédito. desenvolve as características de uma nova variedade mental. O movimento e a pressa. via Internet. Todo esse aparato de comunicação e a velocidade das informações produzem benefícios. resultado de uma obrigação de pensar de maneira racional. que podemos denominar: o homem espectador” (13). tal qual foi concebida. encontra-se no filme Denise está chamando. o homem sábio e lógico. exercido pelo pensamento sobre si mesmo. se estabelece uma relação de consumo e demanda: consumimos energia das máquinas e elas consomem as nossas. permanentemente. Círculo evidentemente vicioso. no comportamento social. efeito que é direto. no qual a inteligência se fadiga criando e usando as máquinas que. O filme tem como tema um grupo de amigos que só se conhecem por telefone. através do constante estado de atenção e alerta que elas exigem. saudável ou não. não só a alma do edifício desaparece. Alcançando determinado grau de hipertrofia. o pensamento se torna ilógico. e que passam . percebera esse processo montado em cima da velocidade. mas cansado de ser. mas também são responsáveis pela ansiedade e a fadiga intelectual. Quanto mais perigosas e feias tornarem-se as ruas. o stress. e. Sob este aspecto. de raciocinar. já nos anos 50. Entretanto. consumindo energia e pagando pelo o uso das linhas para nos comunicarmos uns com os outros. sua energia também acaba desaparecendo.da fadiga do homem espectador. Sabe-se. por sua vez. própria da arquitetura. dentro da própria arquitetura e. que estão trazendo grandes e relevantes mudanças na organização das cidades. que cada lugar possui sua peculiaridade energética. “rola muita energia pela rede”. provocam a fadiga intelectual. com a substituição de um modelo por outro. Durante a vigília. indireto. o retrato mais fiel deste panorama de isolamento e desencontro entre pessoas. cujas vias correspondem ao pensamento logicamente organizado. Para mim. em seu artigo Fadiga do homem espectador (12). em maior ou menor grau. Em todos os graus do sono e do adormecimento. da aceleração da espetacularidade. O cineasta Jean Epstein. do físico pelo virtual. conseqüentemente. mais seremos forçados a ficar em casa. e a acumulação das ocupações da vida moderna aumentam tanto a fadiga cerebral como as conseqüências da mesma: a preguiça de ler. uma importante transferência de energia. desde a hermética até a geobiologia e a radiestesia. passa para os espaços virtuais. e partilhamos deste estado energético. "Sabemos pela psicofisiologia. o pensamento racional tende a paralisar-se e a desagregar-se pelo efeito da fadiga orgânica. criado por nós mesmos. Pouco a pouco. no caso. o esgotamento. mas possui pequenas e sutis diferenças. em parte. da receptividade periférica e da atividade extravertida. esse centro mantém o córtex cerebral em estado de comunicação constante com os órgãos dos sentidos. Muitos poderão argumentar que o sistema de comunicação informatizado. de Hal Salwen.

O desaparecimento de certos espaços não significa. e para ele devemos estar preparados. Muitas coisas da cidade tradicional estão desaparecendo ou já desapareceram. navegar. do agorá como espaço e local de encontro. Porém. Obviamente para os cinéfilos. . A cada dia a vida parece mais bonita pela TV. dar “mais realidade” à vida. conexões. Isso significa repressão. A cidade e a arquitetura. A informática faz alguns espaços desaparecerem em um passe de mágica e os tele-transporta para lugar nenhum. vendidos através da TV e da Internet. que resgatam um discurso que se perdeu no tempo: o da arquitetura como meio. serão reestruturadas. contando seu dia-a-dia através destes meios. Além de dar sumiço na arquitetura. simultaneamente. até porque. Com isso. poderão coexistir simultaneamente. plugados. encontrar-se. etc. a mensagem. substituindo pontes.. atados a esses fios como homens terminais. pois ele nos afeta. Marcam encontros com freqüência. do significado. site. tendem a encolher de tamanho e até desaparecer. deveria também ser da conta de arquitetos e urbanistas. a informática incrementa o controle. assim. e que não deve ser colocado em termos de oposição entre realidade e representação. Mas isto é próprio das representações na cultura ocidental. a janela. O discurso da estrutura informatizada. portais. Flusser observou a importância da janela como elemento de comunicação. o desaparecimento de nossa competência.. Parte da vida pública. oficinas. participar da vida da cidade. que agora se apresenta.o tempo todo se comunicando uns com os outros. Toda a rede de comunicação corresponde a uma arquitetura de cabos. mas sobre uma densidade e profundidade maiores. Estamos. da cidade virtualizada. Lugares públicos tradicionais como bancos. desde já. de certa forma. entretanto. no presente momento. mas por um motivo ou outro. parece impossível suprimir totalmente a arquitetura da existência humana. são os buracos que nos abrem para vida pública. quero dizer uma vez mais que a arquitetura é. Quando realmente resolvem se encontrar. nem mesmo em suas festas de aniversário. Deveríamos ter em mente que os cabos e os fios desempenham a mesma função das ruas: circular. Pode ser que isso explique por que os revolucionários gostavam de jogar pedras contra as janelas. de deixar sair e entrar. para a comunicação com os demais” (14). não se reconhecem. pelo cinema do que na realidade. está sendo substituída rapidamente pelas redes emissoras que funcionam como vitrines ou intermediários de toda sorte de produtos. por exemplo. Através dela podemos observar quando chove o que se passa lá fora sem nos molharmos. podemos acreditar que os dois sistemas. navegando em uma longa e densa rede difícil de ser mapeada e compreendida. Matrix é o sistema. A janela protege a intimidade. As janelas tradicionais da arquitetura estão sendo trocadas pelas falsas janelas da fotografia. o tradicional e o informatizado. “Tomemos. ruas. mas simplesmente tratar de reincorporar a beleza da representação à realidade e. têm a função de comunicar os corpos. windows. Retomando a linha de Phantom City. cinemas. e nos permite. retenção. Não mais a partir do valor comunicacional da imagem do edifício. a partir desses aspectos comunicacionais em voga. inibe o crescimento físico das cidades e dos espaços. Evidentemente não podemos ser paranóicos a ponto de pensar que um sistema substituirá o outro de modo totalitário. ao contrário das janelas. Basta ver a terminologia utilizada: infovias. acabam nunca se encontrando. estradas e trilhas. entretanto. o meio. transportar informações. dos monitores dos computadores. da TV. mercados. As portas. deixarão de ser o que eram. nem mesmo pelas fotografias ou fax de suas fotos. caminhos. terminais e malhas.

Mc Luhan observou que desaparece também o dinheiro. “Onde o homem global está envolvido não há trabalho. fazer suas compras. Com o desaparecimento de parte da cidade. de suas formas de apresentação e na busca de novos conceitos. algo jamais imaginado por Marx. que se visibiliza por alguns instantes. inclusive a pintura. não em atores. Mas o que se observou no decorrer do século foi que a fotografia era mais que um sistema de representação. não significava a troca de um modelo por outro. como se fosse um saco sem fundo. toda forma de transporte. A informatização e a rede absorvem tudo. vai se fundindo com as formas informacionais do cartão de crédito. que seja a única. entretanto. fantasmagórica. o receptor e a mensagem. Duvido. Às vezes. ou ainda se apresentar como uma pessoa fisicamente completamente diferente do que é. o cenário delineado é sedutor. no entanto. a fim de perpetuar-se enquanto estrutura. Todo meio. O mundo exterior dentro do interior. não apenas conduz. como seu alter ego. Na era da informação instantânea. Podemos colocar tudo nela. mas devemos estar atentos. “Em lugar de pensar em fazer compras pela televisão. era uma fabulosa superfície de absorção. espectral. o homem dá por fim o seu trabalho de especialização fragmentada e assume o papel de coletor de informações” (15). o dinheiro enquanto informação. mas traduz e transforma o transmissor. Algumas considerações terminais sobre cabos e fios ainda se fazem necessárias. realizações e fantasias. aos deslocamentos e à organização das grandes cidades.Esse confinamento. a espécie. essa transferência de certos espaços e usos de um mundo a outro talvez seja uma saída ao crescimento. está impondo também um fim à economia tradicional. o mito da megalópolis. Baudelaire acreditava que a fotografia era um sistema de representação que competia com a pintura. o termo . produzem acontecimentos. é justamente manter as pessoas em casa. só que agora convivendo simultaneamente com mais um: o da cidade virtual. olhando o mundo através dessas falsas janelas que trazem cada vez mais o trabalho e o lazer para dentro do lar. pois o trabalho começa com a divisão do trabalho. encontrar com seus amigos virtuais em bares. enquanto depósito de trabalho. Na medida em que o trabalho é substituído pelo puro movimento e circulação da informação. e num futuro próximo possa caminhar virtualmente dentro de um novo modelo de Shopping Center. tal como hoje conhecemos” (16). continuaremos tendo todos os modelos de cidades construídos ao longo da História. Esta absorção. Eles nos transformam em espectadores. Certamente. Algo bastante similar ocorreu com a pintura em relação à fotografia. enveredando por outros caminhos. Ela implicou numa reestruturação do modelo absorvido a partir de novas bases. e o fim do trabalho. capaz de absorver tudo. um suporte de reprodução quase infinito. Essa cidade espectral. Tal como aconteceu com a pintura realista. porque os meios. no abandono de suas funções anteriores. seria melhor que tivéssemos consciência de que a intercomunicação televisionada significa o fim das compras. mas não a conscientização dessas fantasias. toda arquitetura. Com o desaparecimento físico do mercado vieram o encolhimento e a poupança dos espaços físicos públicos. – além do desaparecimento e da fragmentação da sociedade em uma nova multiplicidade de pequenos pedaços desconectados fisicamente uns dos outros –. É possível que alguém encontre virtude nisso tudo. as extensões. Também outro objetivo da revolução da informática. Para o filósofo da Aldeia Global. em contraposição às propostas e utopias urbanísticas dos anos 60.

preconizados por Le Corbusier. as estradas e a palavra escrita estavam estreitamente interligadas. com o aparecimento do automóvel. de "centralidade" ao discutir os espaços urbanos. Os conceitos de tempo-espaço e deslocamento foram irremediavelmente alterados. Ela está se recolando num outro espaço imaginário. para o celular. e depois da transição da idéia de transporte para a idéia de informação. não é de se estranhar que o mundo resolva silenciar. a televisão e a Internet. fragmentada. circular. está desligado dessas formas elétrico-eletrônicas. Sob todos os aspectos. criam-se centros por toda parte. dos aviões. Certamente a fragmentação da cidade em dezenas de subúrbios. por meio da eletricidade. para mim já não faz muito sentido. o rádio. desenho urbano. Aquilo que os urbanistas chamam de escala humana. a cidade sofreu um impacto avassalador. vieram a apatia e o entorpecimento. inicialmente. deve-se muito mais ao aparecimento do automóvel. As extensões simplesmente contornam o espaço e o tempo. A cidade fantasma. Nossa conhecida cidade especializada. criando problemas e soluções sem precedentes na organização espacial humana. Tudo o que eles discutem atualmente em termos de urbanismo. referindo-se a estradas e pontes. ao longo do século XX. Este é o mundo novo da Aldeia Global. Depois da teoria do schock. E ter muitos centros significa não ter nenhum. baseada na estrutura centro-margem. 01. ao surgimento da idéia de transporte como comunicação. provocado pelos meios de comunicação de massa. rios e canais.comunicação já era empregado extensivamente na era da eletricidade. a arte é sempre reveladora e anunciatória. a cegueira e a surdez do mundo. dos grandes transatlânticos. rotas marítimas. é a dispersão urbana e o fim da idéia de um centro único. A partir do início do século. da consagração dos trens. Antes dele. habitar. Talvez não haja modo mais adequado de definir a natureza da era da eletricidade do que associá-la. da Carta de Atenas ou dos princípios de funcionais de trabalhar. Isolando todo o resto. tem o hábito de estar construídas sobre si próprias. algo bastante similar ao que está acontecendo agora. n. as quais exigiam novas formas de organização espacial. Notas 1 Artigo publicado originalmente na Revista do PROPAR. Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Outro ponto importante na mudança da estrutura físico-urbana. Talvez os únicos historiadores da arquitetura que chegaram a contemplar a importância da tecnologia foram Lewis Munford e Giedion. Com o advento da rede de comunicações e o transporte de massas. a criação de cidades satélites e jardins. acabaram por menosprezar e refutar os verdadeiros fatores incidentes sobre a transformação das cidades ao longo da história. de um modo geral. 2 . Tanto a história da arquitetura como a da arte. O espaço urbano é totalmente irrelevante para o telefone. Foi só com o advento do telégrafo que a mensagem no mundo começou a viajar mais depressa do que o mensageiro. a ponto de sua estrutura ter de ser readaptada às novas condições de transporte e comunicação. antes mesmo de ser transformado em movimento da informação. O meio tradicional está desaparecendo. dos transportes de massa do que propriamente às proposições do CIAM. Na era da comunicação. está subitamente experimentando uma reunião instantânea de todas as suas partes dispersas num todo orgânico virtual. recrear.

são uma profunda crítica ao espaço-tempo na fotografia. Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona. Revista Projeto. Fadiga del hombre espectador.. n. Folhas da arquitetura. Buenos Aires: Nueva Visión. 84-85. op.. Jean. 63.. 1994. 8 FLUSSER. 84-85. op. p.. p. jul. Ricardo Jaeger e Tiago Rivaldo). Veja também. Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Faculdades Integradas Ritter dos Reis. p.cit. 13 EPSTEIN. durante os anos de 1987-92. Os meios de comunicação como extensões do homemUnderstanding Media. n. 1985. Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona. 5 FLUSSER. Claiton Dornellles. p. p. Phantom City. Porto Alegre. Jochen Dietrich e o Clube da Lata (Adriana Boff. Betina Frichmann. 1999. (org. Dr. Arquitectura como collage. F. 1988. cit. 2. 248. Estética de la desaparición. op. 1985.. Bárbara Nunes. op. 1994. 4 Tratei do tema do papel da fotografia de arquitetura nas revistas no ensaio “Folhas da arquitetura”. cit. op. 10. Barcelona: Anagrama. La ciutat espectre.FLUSSER. Marshall. 1974. 11 Mc LUHAN. 7 VIRILIO. São Paulo: Hucitec. 176. 1957..cit. Universitat Politécnica de Catalunya. 13 6 Nesse sentido as fotografias obtidas através da Pin-Hole (câmara escura) utilizadas pelo Prof. do mesmo autor: 1. Vilém. São Paulo: Editora Cultrix. (Tese de Doutorado). Barcelona: Fundación Joan Miró.. 15 Mc Luhan. jul. cit. 1992. Universitat Politécnica de Catalunya. op. 9 9 Sobre as relações entre suportes de representação e arquitetura veja-se FUÃO. Paul. em " La esencia del cine". cit. | Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius | . p. publicado na Revista Projeto. 88 12 EPSTEIN. p. 16 Mc Luhan. cit. p.) "Fantástico na arquitetura" em Arquiteturas fantásticas. 160. p. 3 As relações entre fotografia e arquitetura foram desenvolvidas em minha tese de doutorado: Arquitectura como collage. 14 FLUSSER. op. 176. Veja do mesmo autor: Filosofia da caixa preta. Juliana Angeli. 10 Mc LUHAN.

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