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História de Pirenópolis

 

Prefácio

A história de Pirenópolis, apesar de não ser uma cidade tão antiga e ter vivido um tempo de estagnação e isolamento, é vasta e não cabe em poucas letras. Coloco, então, aqui um pequeno resumo. Dividi a história de Pirenópolis em 4 ciclos: O ciclo do ouro; a agricultura e o comércio; isolamento e arte; e, por fim, a pedra e o turismo. Não sem antes expor um pouco da geo-história e da pré-história. Para os olhos de um estudioso, como eu, muito ainda tem por fazer, e muito ainda tenho para acrescentar. Mas para aqueles que querem um breve relato, ao final temos um pequeno resumo. A fonte mais rica, sem sombra de dúvida, da história de Pirenópolis é a bela obra de Jarbas Jaime, o Esboço Histórico de Pirenópolis, obra editada pela UFG, Universidade Federal de Goiás, em 1971, com 2 tomos e 618 páginas, que se tornou uma obra rara e valiosa que merecia ser reeditada.

 

Veja também:

 

Viagem à Província de Goiás do botânico francês August de Saint-Hilaire.

Relato de Silva Braga , alferes que acompanhou a Bandeira do Anhanguera, fundadora da Província de Goiás.

História da Terra e do Homem no Planalto Central Belíssima obra do historiador Paulo Bertran (pdf - 5,9MB).

Memória sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá Relato de viagem de 1818 - Autor: Luiz D? Alincourt - (.pdf)

Antes e depois , imagens urbanas antigas comparadas com novas

Pirene, a Deusa dos Pireneus - a origem do nome Pireneus

Comissão Cruls - Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil (1892)

 

Geo-história

História de Pirenópolis Prefácio A história de Pirenópolis, apesar de não ser uma cidade tão antigaO ciclo do ouro ; a agricultura e o comércio ; isolamento e arte ; e, por fim, a pedra e o turismo . Não sem antes expor um pouco da geo-história e da pré-história. Para os olhos de um estudioso, como eu, muito ainda tem por fazer, e muito ainda tenho para acrescentar. Mas para aqueles que querem um breve relato, ao final temos um pequeno resumo. A fonte mais rica, sem sombra de dúvida, da história de Pirenópolis é a bela obra de Jarbas Jaime, o Esboço Histórico de Pirenópolis, obra editada pela UFG, Universidade Federal de Goiás, em 1971, com 2 tomos e 618 páginas, que se tornou uma obra rara e valiosa que merecia ser reeditada. Veja também: ∑ Viagem à Província de Goiás do botânico francês August de Saint-Hilaire. ∑ Relato de Silva Braga , alferes que acompanhou a Bandeira do Anhanguera, fundadora da Província de Goiás. ∑ História da Terra e do Homem no Planalto Central Belíssima obra do historiador Paulo Bertran (pdf - 5,9MB). ∑ Memória sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá Relato de viagem de 1818 - Autor: Luiz D? Alincourt - (.pdf) ∑ Antes e depois , imagens urbanas antigas comparadas com novas ∑ Galeria de imagens antigasA História da Rua do LazerO Matutina MeyapontenseAs Lavras do AbadePirene, a Deusa dos Pireneus - a origem do nome Pireneus ∑ Comissão Cruls - Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil (1892) Geo-história É extremamente importante conhecer um pouco da geografia da região para que possamos nos localizar dentro de um contexto histórico. Estamos no centro do continente sul-americano, a milhares de quilômetros do litoral, motivo este de ser o estado de Goiás um dos últimos a ser colonizado. Para nosso estudo podemos dividir este imenso território em duas partes: O Planalto, região de formações savânicas, com clima bem definido em duas estações, as chuvas e as secas, e conhecido pelos indios tupis com tapuis, terras altas, e o Mato-grosso-goiano, terras baixas, vãos e nascentes dos caudalosos rios Tocantins e Araguaia, chamado pelos indígenas de Paraupava, que significa em tupi-guarani "água grande e rasa". Esta conformação topográfica definiu bem a colonização nestas áreas antes do descobrimento do ouro. Os rios eram as vias de comunicação da época, portanto as incursões pelos rios Araguaia e Tocantins eram mais freguentes que as excursões por terra pelo Planalto. Pirenópolis está no limite destes dois relevos. Está aos pé da Serra dos Pireneus, que faz parte das divisas do planalto, nas margens e próximo as nascentes do Rio das Almas, tributário do Rio Tocantins. Por estar próximo às nascentes, portanto de difícil navegação, chegava-se por aqui sempre por terra, tanto os indígenas como os europeus. Pré-história - os indígenas " id="pdf-obj-0-105" src="pdf-obj-0-105.jpg">

É extremamente importante conhecer um pouco da geografia da região para que possamos nos localizar dentro de um contexto histórico. Estamos no centro do continente sul-americano, a milhares de quilômetros do litoral, motivo este de ser o estado de Goiás um dos últimos a ser colonizado. Para nosso estudo podemos dividir este imenso território em duas partes: O Planalto, região de formações savânicas, com clima bem definido em duas estações, as chuvas e as secas, e conhecido pelos indios tupis com tapuis, terras altas, e o Mato-grosso-goiano, terras baixas, vãos e nascentes dos caudalosos rios Tocantins e Araguaia, chamado pelos indígenas de Paraupava, que significa em tupi-guarani "água grande e rasa". Esta conformação topográfica definiu bem a colonização nestas áreas antes do descobrimento do ouro. Os rios eram as vias de comunicação da época, portanto as incursões pelos rios Araguaia e Tocantins eram mais freguentes que as excursões por terra pelo Planalto. Pirenópolis está no limite destes dois relevos. Está aos pé da Serra dos Pireneus, que faz parte das divisas do planalto, nas margens e próximo as nascentes do Rio das Almas, tributário do Rio Tocantins. Por estar próximo às nascentes, portanto de difícil navegação, chegava-se por aqui sempre por terra, tanto os indígenas como os europeus.

Pré-história - os indígenas

Vários são os indígenas citados na literatura histórica de Goiás, a começar pelos próprios Goyá, queVeja o relato de August Saint-Hilaire . As primeiras expedições e a fundação de Goiás " id="pdf-obj-1-3" src="pdf-obj-1-3.jpg">

Vários são os indígenas citados na literatura histórica de Goiás, a começar pelos próprios Goyá, que deram nome ao Estado, que era conhecido como "o sertam dos gentios Goyás", tribo extinta e acredita-se de origem tupi, cujo significado é "os amigáveis", pois a região era habitada, há pelo menos 10.000 anos, por índios do tronco linguístico Macro-jê, estes inimigos dos tupis. Além dos goyás, habitavam a região os índios caiapós, acroás, bororos, carajás, xavantes, xerentes e xacriabás. Eram, em sua maioria, indígenas semi-nômades, caçadores e coletores. Erigiam aldeias, faziam roças de mandioca, habitavam aquele local por um tempo e depois se mudavam.

Considerados pelos desbravadores como índios selvagens e violentos. A maioria não se submeteu a dominação branca,tanto que tem diversos relatos de massacres, tanto dos índios como dos brancos. Expedições inteiras foram dizimadas, assim como tribos também. Dentre estes, os caiapós eram considerados os mais violentos e os últimos a serem reduzidos. Veja o relato de August Saint-Hilaire.

As primeiras expedições e a fundação de Goiás

Vários são os indígenas citados na literatura histórica de Goiás, a começar pelos próprios Goyá, queVeja o relato de August Saint-Hilaire . As primeiras expedições e a fundação de Goiás " id="pdf-obj-1-13" src="pdf-obj-1-13.jpg">

Bartolomeu Bueno da Silva - Teodoro Braga

Os primeiros contatos entre índios e brancos se deu no século XVI. A expedição mais antiga que se tem notícia é a de Domingos Luis Grou e Antônio Macedo, em 1590-93. Depois tivemos a de Sebastião Marinho que, em 1592, esteve pela região das nascentes do Tocantins. Muitas outras vieram depois. Do sul vieram os bandeirantes e do norte os jesuítas. Ambos investiram na futura capitania para a evangelização, captura de indígenas, para a escravidão, e para descobertas de riquezas minerais, porém nenhuma delas se fixou na região fundando povoações. Também vieram para Goiás, antes de sua fundação, pecuaristas da Bahia que usavam os campos naturais do alto do planalto durante o período chuvoso para a engorda do gado, construindo algumas fazendas, mas não povoamentos.

Isto somente se deu através dos bandeirantes paulistas. Tendo perdido a guerra dos emboabas, em Minas Gerais, viram-se impelidos a se estabelecerem em regiões do Triangulo Mineiro. Dalí, Goiás ficou um pulinho para os sertanistas experientes. Marcando a história de Goiás, temos o famigerado Anhanguera. Em 1682, Bartolomeu Bueno da Silva, empreendeu uma bandeira até o Rio Araguaia. Na volta, ao passar pelo Rio Vermelho, fez contato com uma tribo de indigena, os Goyá. Vendo as mulheres enfeitadas com pequenas lascas de ouro, usou do seguinte estratagema para obrigá-los contar onde acharam tal ouro: ateou fogo em aguardente na cuia e com a ameaça do pau-de-fogo

(espingardas) ameaçou de pôr fogo nas águas dos rios e nas matas, caso não contassem o local da mina. Deste modo, descobriu o ouro e ganhou a alcunha de Anhanguera que em tupi significa o diabo-velho, o espírito malígno.

Por volta de 1720, seu filho, Bartolomeu Bueno da Silva Filho, que também herdou a alcunha de anhanguera e sabia dos locais das minas de ouro do sertão dos índios Goyás, resolveu propor um negócio ao Governador de São Paulo, o Conde de Sarzedas, uma vez que a região fazia parte desta capitania. Ele, o Anhanguera, entregaria o local das minas com a condição que lhe fosse dado o direito sobre as passagens dos rios da futura capitania, uma espécie de taxa de pedágio, para ele e três futuras gerações e, também, a sua superintendência. O acordo foi feito sob a condição de que trouxessem para a exploração e administração das minas, portugueses, tendo em vista que a Corôa não confiava nos paulistas. Assim feito, deixou o Anhanguera, São Paulo, em 1722, capitaneando uma bandeira composta quase que exclusivamente por portugueses [veja o relato de Silva Braga]. Vagou esta bandeira, sob protestos revoltados dos portugueses, por longos três anos, demarcando o futuro território goiano. Voltou, Anhanguera, à São Paulo, para dar notícias, no ano de 1725 e retounou numa segunda bandeira em 1726, estabelecendo-se no Arraial da Barra, o primeiro arraial goiano. De lá, despachou os portugueses para um local chamado Meia Ponte, guiados por seu companheiro Urbano do Couto Menezes. Tal grupo fundou em 1727 as Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte, que passaria, em 1890, a se chamar Pirenópolis.

O Ciclo do Ouro - 1º período

(espingardas) ameaçou de pôr fogo nas águas dos rios e nas matas, caso não contassem og uera, São Paulo, em 1722, capitaneando uma bandeira composta quase que exclusivamente por portugueses [ veja o relato de Silva Braga ] . Vagou esta bandeira, sob protestos revoltados dos portugueses, por longos três anos, demarcando o futuro território goiano. Voltou, Anhanguera, à São Paulo, para dar notícias, no ano de 1725 e retounou numa segunda bandeira em 1726, estabelecendo-se no Arraial da Barra, o primeiro arraial goiano. De lá, despachou os portugueses para um local chamado Meia Ponte, guiados por seu companheiro Urbano do Couto Menezes. Tal grupo fundou em 1727 as Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte, que passaria, em 1890, a se chamar Pirenópolis. O Ciclo do Ouro - 1º período Assim chegando, os portugueses se lançaram a cata do ouro, que por estas plagas se encontrava no terreno aluvionário do Rio das Almas. Portanto, o tipo de garimpo aqui empreendido era o de aluvião, que consistia em revirar e lavar o cascalho das margens do rio até poder apurá-lo com a batéia. Os portugueses, em sua maioria oriundos do norte de Portugal, região do Porto, e Galícia, logo trataram de construir casas e igrejas formando um arraial. A Igreja Matriz foi construída por volta de 1728 a 1731 e é considerada hoje a mais antiga igreja de Goiás [ Veja sua história ] . 1727 - Início do povoamento - Meia Ponte Nome : Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte. Nativos que habitavam a região : Índios da nação Caiapó, caçadores, nômades e coletores. Habitantes : Portugueses, maioria oriundos do norte de Portugal e Galícia. Atividade econômica principal : Lavras de Ouro, garimpo de aluvião nas margens do Rio das Almas. Personagens : Manuel Rodrigues Tomar, Urbano do Couto Menezes, Antônio Rodrigues Frota, Antônio José de Campos. 1728 - A Igreja Matriz Nome : Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. Importância : A maior igreja construída no Centro Oeste Brasileiro. Técnica construtiva : Taipa de pilão, adobe, alicerces e portais em cantaria, armações de aroeira, telhas de barro(coxa). Uso : Missas, batizados, casamentos, funerais, cemitério, somente para a população branca. 1732 : As Minas foram elevadas a categoria de Distrito 1736 : O Distrito foi promovido a Arraial, Freguesia e sede de Julgado. Surge neste período o Povoado de Santo Antônio. 1750 - O apogeu do ouro Fatos : Maior produção aurífera, crescimento urbano, construção de quatro outras igrejas .. Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos : Igreja da população negra construída em 1747, era considerada a mais ornada (7 altares belissimamente cinzelados) - extinta. Igreja Nossa Senhora do Carmo : Igreja particular construída por Antônio Rodrigues Frota em 1750. Igreja do Nosso Senhor do Bonfim : Igreja particular construída por Antônio José de Campos em 1754. " id="pdf-obj-2-18" src="pdf-obj-2-18.jpg">

Assim chegando, os portugueses se lançaram a cata do ouro, que por estas plagas se encontrava no terreno aluvionário do Rio das Almas. Portanto, o tipo de garimpo aqui empreendido era o de aluvião, que consistia em revirar e lavar o cascalho das margens do rio até poder apurá-lo com a batéia. Os portugueses, em sua maioria oriundos do norte de Portugal, região do Porto, e Galícia, logo trataram de construir casas e igrejas formando um arraial. A Igreja Matriz foi construída por volta de 1728 a 1731 e é considerada hoje a mais antiga igreja de Goiás [Veja sua história].

  • 1727 - Início do povoamento - Meia Ponte

 

Nome: Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte. Nativos que habitavam a região: Índios da nação Caiapó, caçadores, nômades e coletores. Habitantes: Portugueses, maioria oriundos do norte de Portugal e Galícia. Atividade econômica principal: Lavras de Ouro, garimpo de aluvião nas margens do Rio das Almas. Personagens: Manuel Rodrigues Tomar, Urbano do Couto Menezes, Antônio Rodrigues Frota, Antônio José de Campos.

 
  • 1728 - A Igreja Matriz

 

Nome: Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. Importância: A maior igreja construída no Centro Oeste Brasileiro.

Técnica construtiva: Taipa de pilão, adobe, alicerces e portais em cantaria, armações de aroeira, telhas de barro(coxa).

Uso: Missas, batizados, casamentos, funerais, cemitério, somente para a população branca. 1732: As Minas foram elevadas a categoria de Distrito

1736: O Distrito foi promovido a Arraial, Freguesia e sede de Julgado. Surge neste período o Povoado de Santo Antônio.

 
  • 1750 - O apogeu do ouro

 

Fatos: Maior produção aurífera, crescimento urbano, construção de quatro outras igrejas .. Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: Igreja da população negra construída em 1747, era considerada a mais ornada (7 altares belissimamente cinzelados) - extinta. Igreja Nossa Senhora do Carmo: Igreja particular construída por Antônio Rodrigues Frota em 1750. Igreja do Nosso Senhor do Bonfim: Igreja particular construída por Antônio José de Campos em 1754.

 

Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte da Lapa: Igreja da população mestiça construída em 1760 - extinta.

Casa da Câmara e Cadeia: Construída em 1733, demolida em 1919.

  • 1800 - A decadência das minas

 

Fatos: Decadência das minas de ouro, êxodo da população urbana e fortalecimento da agropecuária.

Agricultura e Comércio - 2º período

 
Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte da Lapa : Igreja da população mestiça construída em

O Comendador Joaquim Alves de Oliveira

Com a decadência do ouro. Meia Ponte somente não sucumbiu às ruínas, como foram outras localidades auríferas, por causa da inicitaiva e empreendedorismo do Comendador Joaquim Alves de Oliveira que investiu em agricultura e comércio construindo engenho, plantando algodão, cana e mandioca e montando comércio tropeiro com entreposto e centenas de muares.

  • 1800 - A agricultura no lugar do ouro

 

Fatos: O algodão goiano tem excelente cotação na Inglaterra. A pecuária se intensifica. A cidade se esvazia. Empreendimento relevante: Engenho São Joaquim (Fazenda Babilônia), construída em 1800, cana e algodão. Principal atividade: Agricultura e comércio de algodão e cana de açúcar. Comércio tropeiro (mulas). Personagens: Comendador Joaquim Alves de Oliveira, comandante de Meia Ponte e dono do Engenho São Joaquim ..

  • 1830 - A Matutina MeyaPontense

 

Fatos: O Comendador publica o primeiro jornal do Centro Oeste, o Matutina Meyapontense, que servia de Publicação Oficial para a Província de Goiás e Mato Grosso. Circulo de 5 de março de 1830 a 24 de maio de 1834, totalizando 526 edições.

1819: Introdução da Festa do Divino. 1826: Introdução das Cavalhadas. 1832: O Julgado foi Promovido a Vila de Meia Ponte.

1838: O telhado da Igreja Matriz desabou sobre a arcada do altar-mor.Personagens: Padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, redator da Matutina Mayapontense; José Joaquim da Veiga Valle, renomado escultor.

  • 1851 - A morte do Comendador e a falência urbana

 

Fatos: Com a ausência do Comendador a economia meiapontense retrai-se e o comércio é deslocado para Santana das Antas (Anápolis).

1853: A Vila foi promovida a "Cidade de Meia Ponte".

1880: Bernard Amblard D´Arena montou garimpo de ouro (desmonte hidráulico) na Serra dos Pireneus (Abade) e construiu vila de cerca de trinta casas - As Minas do Abade.

1885: Surge o povoado de "Santana das Antas", fundado por comerciantes meiapontenses.

1887: 24 homens, representando a sociedade meiapontense inconformada com o garimpo, subiram a serra e destruíram as Minas do Abade.

Personalidades: Bernard Amblard D´Arena (Arena); Luiz Gonzaga Jayme, promotor, juiz e senador.

Isolamento e Arte - 3º período

Cine-Pireneus em estilo neo-clássico antes a reforma de 1936 Com a morte do Comendador a agriculturaComissão Exploradora do Planalto Central (Comissão Cruls) fica sediada em Pirenópolis e redige extenso relatório sobre a região. 1899: Construção do Theatro de Pirenópolis. 1919: Foi construída a Casa de Câmara e Cadeia próxima da ponte na beira rio. A antiga, construída em 1733, era ao lado da Matriz. 1924: A luz elétrica chega através de um pequeno gerador para iluminar o Theatro. 1925: Massacre de Lagolândia, reduto de Santa Dica, líder comunitária, espírita, guerreira, curadeira e santa. 1930 - A pedra aquece um pouco a economia Fatos: A construção de Goiânia (1930-1934) propiciou um ligeiro aquecimento na economia local com a exploração do quartzito-micáceo (Pedra de Pirenópolis). 1930: Construção do Cine Theatro Pireneus em estilo neo clássico, funcionando apenas como teatro. 1933: Início do transporte automotivo na cidade. O transporte de cargas deixa de ser no lombo de burros e passa a ser por caminhões. 1936: O Cine Theatro Pireneus é reformado, para exibir filmes de cinema, e sua fachada alterada para o estilo art-déco, passando a chamar-se Cine-Pireneus. 1937: Construção da Usina Velha gerando energia elétrica para todo cidade. 1941: A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário foi tombada com patrimônio histórico. 1944: Surgiu a primeira igreja evangélica, a "Igreja Cristã Evangélica". 1946: Foi inaugurada o nova " Ponte sobre o Rio das Almas" de alicerces de pedras. A antiga, toda de madeira, ruiu em 1941. Personagem: Benedita Cipriano Gomes - Santa Dica. Jarbas Jayme, escritor e historiador. Pedra e Turismo - 4º período " id="pdf-obj-4-3" src="pdf-obj-4-3.jpg">

Cine-Pireneus em estilo neo-clássico antes a reforma de 1936

Com a morte do Comendador a agricultura e o comércio tropeiro foram gradativamente perdendo forças, fazendo com que alguns comerciantes locais mudassem para o povoado de Santana das Antas, futuramente Anápolis, de local plano de mais fácil acesso. Com isso as rotas comerciais foram transferidas e Meia Ponte isolada.

  • 1890 - Pirenópolis e o início do isolamento

 

Fatos: Com a mudança das rotas comerciais para Anápolis, a cidade se vê economicamente isolada, muda de nome e busca ser um centro urbano cultural, local de reuniões, festas e espetáculos.

1890: De Meia Ponte a cidade passa a chamar-se Pirenópolis, a cidade dos Pireneus.

1892: A Comissão Exploradora do Planalto Central (Comissão Cruls) fica sediada em Pirenópolis e redige extenso relatório sobre a região.

1899: Construção do Theatro de Pirenópolis.

1919: Foi construída a Casa de Câmara e Cadeia próxima da ponte na beira rio. A antiga, construída em 1733, era ao lado da Matriz.

1924: A luz elétrica chega através de um pequeno gerador para iluminar o Theatro. 1925: Massacre de Lagolândia, reduto de Santa Dica, líder comunitária, espírita, guerreira, curadeira e santa.

  • 1930 - A pedra aquece um pouco a economia

 

Fatos: A construção de Goiânia (1930-1934) propiciou um ligeiro aquecimento na economia local com a exploração do quartzito-micáceo (Pedra de Pirenópolis).

1930: Construção do Cine Theatro Pireneus em estilo neo clássico, funcionando apenas como teatro.

1933: Início do transporte automotivo na cidade. O transporte de cargas deixa de ser no lombo de burros e passa a ser por caminhões.

1936: O Cine Theatro Pireneus é reformado, para exibir filmes de cinema, e sua fachada alterada para o estilo art-déco, passando a chamar-se Cine-Pireneus.

1937: Construção da Usina Velha gerando energia elétrica para todo cidade. 1941: A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário foi tombada com patrimônio histórico. 1944: Surgiu a primeira igreja evangélica, a "Igreja Cristã Evangélica".

1946: Foi inaugurada o nova " Ponte sobre o Rio das Almas" de alicerces de pedras. A antiga, toda de madeira, ruiu em 1941.

Personagem: Benedita Cipriano Gomes - Santa Dica. Jarbas Jayme, escritor e historiador.

Pedra e Turismo - 4º período

 
Com a morte do Comendador a agricultura e o comércio tropeiro foram gradativamente perdendo forças, fazendoComissão Exploradora do Planalto Central (Comissão Cruls) fica sediada em Pirenópolis e redige extenso relatório sobre a região. 1899: Construção do Theatro de Pirenópolis. 1919: Foi construída a Casa de Câmara e Cadeia próxima da ponte na beira rio. A antiga, construída em 1733, era ao lado da Matriz. 1924: A luz elétrica chega através de um pequeno gerador para iluminar o Theatro. 1925: Massacre de Lagolândia, reduto de Santa Dica, líder comunitária, espírita, guerreira, curadeira e santa. 1930 - A pedra aquece um pouco a economia Fatos: A construção de Goiânia (1930-1934) propiciou um ligeiro aquecimento na economia local com a exploração do quartzito-micáceo (Pedra de Pirenópolis). 1930: Construção do Cine Theatro Pireneus em estilo neo clássico, funcionando apenas como teatro. 1933: Início do transporte automotivo na cidade. O transporte de cargas deixa de ser no lombo de burros e passa a ser por caminhões. 1936: O Cine Theatro Pireneus é reformado, para exibir filmes de cinema, e sua fachada alterada para o estilo art-déco, passando a chamar-se Cine-Pireneus. 1937: Construção da Usina Velha gerando energia elétrica para todo cidade. 1941: A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário foi tombada com patrimônio histórico. 1944: Surgiu a primeira igreja evangélica, a "Igreja Cristã Evangélica". 1946: Foi inaugurada o nova " Ponte sobre o Rio das Almas" de alicerces de pedras. A antiga, toda de madeira, ruiu em 1941. Personagem: Benedita Cipriano Gomes - Santa Dica. Jarbas Jayme, escritor e historiador. Pedra e Turismo - 4º período " id="pdf-obj-4-65" src="pdf-obj-4-65.jpg">

Com a construção de Brasília a exploração do quartzito se intensifica e visitantes descobrem um cidade do século XVIII, em ruínas mas pouco alterada devido ao isolamento, com um folclore intenso e natureza magnífica.

  • 1960 - Brasília e a exploração de pedras.

 
 

Fatos: Com a construção de Brasília iniciou-se uma exploração mais intensiva do quartzito-micáceo. 1960: Nesta década aconteceu o calçamento urbano (pé-de-moleque) com as sobras da pedreira. 1968: A televisão chega a cidade.

1980: Foi inaugurada a primeira ligação por asfalto, a GO-431 (BR-153). Nesta década chegaram à Pirenópolis os

"hippies", montando comunidades alternativas e produzindo 1987: A estrada para Corumbá foi asfaltada.

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  • 1990 - O turismo é a atração

 
 

Fatos: Pirenópolis passa a fazer parte integrante do roteiro turístico de Goiás, atraindo milhares de visitantes. O turismo passa a ser uma das principais fontes de renda da população urbana. Nesta década surgiu praticamente toda a infra-estrutura e os principais atrativos turísticos.

1991: É inaugurada a Pousada dos Pireneus, o maior empreendimento turístico de Pirenópolis.

1997: Foi iniciado um processo de revitalização do Centro Histórico com a restauração das igrejas, reconstrução do Cine-Pireneus e reforma do Theatro de Pirenópolis.

2000: A Ponte do Rio das Almas é totalmente reformada.

2002: A fiação elétrica do Centro Histórico passa a ser subterrânea. Um incêndio consome totalmente a Igreja Matriz de Pirenópolis, sobrando apenas as paredes.

Resumo

Pirenópolis foi fundada em 07 de outubro de 1727 por portugueses, que vieram para o garimpo de ouro, com o nome

de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte e, mais tarde, Cidade de Meia Ponte. O Garimpo teve o auge em

1750

e sofreu a decadência em 1800. Após exaurir as minas voltaram-se, os meiapontenses, para a agricultura, pecuária e

comércio tropeiro. O principal produto agrícola foi o algodão, produto de exportação que ia direto para Inglaterra e era considerado como uma das melhores fibras do mundo. Havia também a produção de cana para açúcar para o comércio regional.

Figurava nesta época como comandante da cidade e região o Comendador Joaquim Alves de Oliveira, construtor da Fazenda Babilônia, a maior empresa agrícola do Centro-Oeste e um dos maiores engenhos de cana do Brasil. Meia Ponte se manteve como grande produtor agrícola e centro mercantil de Goiás, todas as picadas de Goiás passavam em Meia Ponte, até cerca de 1880, quando os principais comerciantes resolveram mudar-se para o Povoado de Santana das Antas, futura Anápolis, por sua localização menos acidentada. Daí em diante, sofreu grande decadência econômica, vindo a mudar seu nome, em 1890, para Pirenópolis, a cidade dos Pireneus, serra cujo nome lembrava por alguns os Montes Pireneus da Europa, divisa de Espanha com França.

Apesar da inatividade econômica, Pirenópolis manteve as tradições, as atividades culturais e as festas populares que a destacava das outras cidades desde os tempos da fundação. Foi em Meia Ponte que surgiu a primeira biblioteca pública; o primeiro professor público de boas letras, para ensinar a população a ler; o primeiro jornal do Centro-Oeste e o primeiro do Brasil a ser editado fora de uma capital, o A Matutina Meiapontense, que servia de correio oficial para a Província de Goiás e de mato Grosso; o primeiro cinema, o Cine-Pireneus; e três teatros na virada do século XIX para o XX. Com tudo isso, ganhou a fama de Berço da Cultura Goiana.

Durante os primórdios e meados do século XX, Pirenópolis só era lembrada por ocasião das festas, que sempre tiveram bastante destaque, como a Festa do Divino, festejada desde 1819, e um pouco de comércio de quartzito por ocasião da construção de Goiânia, em 1930. Até que com a chegada de Brasília, a atividade mineradora do quartzito se intensificou, melhoraram-se os acessos e começaram a chegar visitantes de outras localidades, como compradores de pedras para a construção de Brasília, políticos e viajantres hippies

Nos anos 80, alguns destes hippies mudarem-se na intenção de construir comunidades alternativas e ensinaram para os jovens do local o labor do artesanato de jóias de prata. Aqui se produzia, mas aqui não se vendia. Para a venda destes produtos era preciso viajar e, deste modo, divulgar a pequena cidade do interior de Goiás. Alguns ilustres políticos de Brasília, como o Embaixador Sérgio Amaral, compraram casa e mudaram. Neste momento Pirenópolis estava praticamente em ruínas, as igrejas descascadas, com goteiras e cupins, assim como as casas. Foi iniciado, então, um movimento de valorização do patrimônio histórico, já que a cidade havia guardado bens do período colonial.

Em 1989, a cidade foi tombada pelo IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, como conjunto paisagístico e em 1997 iniciou-se um projeto de revitalização do Centro Histórico, quando a Igreja Matriz, o Cine- Pireneus, o Teatro de Pirenópolis e outros monumentos foram restaurados, reformados e reconstruídos criteriosamente.

O turismo, como atividade econômica, teve um forte impulso a partir de 2000, com a divulgação maciça de Pirenópolis e Goiás através do Governo do Estado, por meio de novelas, anúncios televisivos, revistas, carnaval carioca, etc. E, aqui estamos.

 

Referências

 

História de Goiás FlashUCG

Brasil 500 anos Biblioteca Nacional

August de Saint-Hilaire Brasil Escola

Alencastre, José Martins Pereira de 1863 Anais da Província de Goiás

Brasília, Ed. Gráfica Ipiranga Ltda., 1979.

História, Goiás

Azevedo, Francisco Ferreira dos Santos

Annuario Histórico, Geografico e Descriptivo do Estado de Goyas para 1910

SPHAN/8ªDR, 1987. História, Goiás

Bertran, Paulo 1948-2005

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Pirenópolis Coletânea: 1727 - 2000

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Pirenópolis; Uma Cidade para o Turismo

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Viagem à Província de Goiás

 

Auguste de Saint-Hilaire - fragmentos de relato histórico - 1819

Biografia

∑ Palacin, Luiz Goiás: 1722-1822 2ª ediçao, Goiânia, Oriente, 1976. História, Goiás ∑ Palacin, Luiz OCap I - O Arraial de Meia Ponte ∑ Cap II - Uma Fazenda ModeloCap III - Os Índios Coiapós O Arraial de Meia Ponte Entre Corumbá e Meia-Ponte andei sempre paralelamente aos Pireneus, que ficavam à minha direita. A região era montanhosa e mais cheia de mata do que a que eu percorrera antes de chegar a Corumbá. Moitas de capim ressequido surgiam por entre as pedras que cobriam o solo, e não se viam flores em mata alguma. Nas matas muitas árvores ainda conservavam suas folhas, enquanto outras se mostravam interamente nuas. O chão estava juncado dos delicados folíolos de vários exemplares de Mimosas. Caminhei por algum tempo através de um planalto que encima um morro bastante elevado. É alí que a estrada da Bahia se junta à de Minas e do Rio de Janeiro que eu seguira até então. O caminho de descida do morro é pavimentado, o que na região constitui uma verdadeira raridade. Descemos sempre, durante o dia todo, e o calor se mostrou mais forte do que nos dias anteriores, principalmente no sopé do morro que acabo de mencionar. Antes de chegar a Meia-Ponte mandei José Mariano à casa do vigário, a fim de que me arranjasse uma casa desocupada onde pudesse alojar-me. O vigário atendeu ao meu pedido, indicando-me uma casa bastante confortável. Depois de instalar-me nela, fui apresentar a minha portaria ao comandante do arraial, de quem falarei mais tarde. Ele morava numa casa muito bonita e me recebeu numa sala bem mobiliada, imaculadamente limpa. Haviam quadros nas paredes, que eram pintadas até certa altura, depois caiadas até o teto. Um espelho pequeno, algumas mesas e um grupo de cadeiras dispostas caprichosamente compunham o mobiliário da sala. Feita a visita, fui apresentar meus agradecimentos ao vigário, cuja casa era tão bonita e tão bem mobiliada quanto a do comandante. O que a tornava realmente notável era o asseio tipicamente holandês que se via nela. De um modo geral, " id="pdf-obj-7-49" src="pdf-obj-7-49.jpg">

August de Saint-Hilaire Famoso botânico e naturalista francês, esteve em Meia Ponte (Pirenópolis) em 1819, por ocasião de uma viagem ao interior do Brasil. Seu relato é de grande importancia histórica pois, além de identificar e catalogar plantas, escreve com minúncias a região, os costumes e histórias da época.

Prefácio

 

Os três capítulos transcritos abaixo são de extrema importância para a história de Pirenópolis. Este viajante deixou dados preciosos e formou uma das poucas fontes sobre a população, meio-ambiente, economia e arquitetura da época. Estes três capítulos foram extraídos de extenso relato sobre quase todo o Brasil, por onde viajou no início do século XIX. O original é em francês e esta tradução é de Regina Regis Junqueira, São Paulo, Ed. USP, 1975. Boa leitura!

 

O Arraial de Meia Ponte

Entre Corumbá e Meia-Ponte andei sempre paralelamente aos Pireneus, que ficavam à minha direita. A região era montanhosa e mais cheia de mata do que a que eu percorrera antes de chegar a Corumbá. Moitas de capim ressequido surgiam por entre as pedras que cobriam o solo, e não se viam flores em mata alguma. Nas matas muitas árvores ainda conservavam suas folhas, enquanto outras se mostravam interamente nuas. O chão estava juncado dos delicados folíolos de vários exemplares de Mimosas.

Caminhei por algum tempo através de um planalto que encima um morro bastante elevado. É alí que a estrada da Bahia se junta à de Minas e do Rio de Janeiro que eu seguira até então. O caminho de descida do morro é pavimentado, o que na região constitui uma verdadeira raridade. Descemos sempre, durante o dia todo, e o calor se mostrou mais forte do que nos dias anteriores, principalmente no sopé do morro que acabo de mencionar.

Antes de chegar a Meia-Ponte mandei José Mariano à casa do vigário, a fim de que me arranjasse uma casa desocupada onde pudesse alojar-me. O vigário atendeu ao meu pedido, indicando-me uma casa bastante confortável.

Depois de instalar-me nela, fui apresentar a minha portaria ao comandante do arraial, de quem falarei mais tarde. Ele morava numa casa muito bonita e me recebeu numa sala bem mobiliada, imaculadamente limpa. Haviam quadros nas paredes, que eram pintadas até certa altura, depois caiadas até o teto. Um espelho pequeno, algumas mesas e um grupo de cadeiras dispostas caprichosamente compunham o mobiliário da sala.

Feita a visita, fui apresentar meus agradecimentos ao vigário, cuja casa era tão bonita e tão bem mobiliada quanto a do comandante. O que a tornava realmente notável era o asseio tipicamente holandês que se via nela. De um modo geral,

essa é uma das qualidades que distinguem os brasileiros. Por mais pobres que sejam, sua casas quase nunca são sujas, e se eles possuem apenas duas camisas, a que trazem no corpo é sempre limpa.

O encantador arraial de Meia-Ponte é ao mesmo tempo sede de um julgado e de uma paróquia. Situado a 15º30' de latitude S., numa região de grande salubridade, na intersecção das estradas do Rio de Janeiro, Bahia, Mato Grosso e São Paulo, distante de Vila Boa no máximo 27 léguas e rodeado de terras extraordinariamente férteis, o arraial era um dos mais bem aquinhoados da província e o de maior população.

A extensão da paróquia de Meia Ponte é de cerca de 32 léguas no sentido norte-sul e de 20 de leste a oeste. Embora menos extensa que a de Santa Luzia, sua população é bem mais numerosa, contando com sete mil habitantes. Dela dependem duas capelas, a de Corumbá e a de Córrego do Jaraguá, que descreverei mais adiante.

O arraial foi construído numa pequena planície rodeada de montanhas e coberta de árvores de pequeno porte. Estende-se ao longo da margem esquerda do Rio das Almas, numa encosta suave, e defronta o prolongamento dos Montes Pireneus. Tem praticamente o formato de um quadrado e conta com mais de trezentas casas, todas muito limpas, caprichosamente caiadas, cobertas de telhas e bastante altas para a região. Cada uma delas, conforme o uso em todos os arraiais do interior, tem um quintal onde se vêem bananeiras, laranjeiras e cafeeiros plantados desordenadamente. As ruas são largas, perfeitamente retas e com calçadas dos dois lados. Cinco igrejas contribuem para enfeitar o arraial. A igreja paroquial, dedicada a Nossa Senhora do Rosário, é bastante ampla e fica localizada numa praça quadrangular. Sua paredes, feitas de adobe, tem 12 palmos de espessura e são assentadas sobre alicerces de pedra. O interior da igreja é razoavelmente ornamentado, mais o teto não tem forro.

Da praça onde fica situada essa igreja descortina-se um panorama que talvez seja o mais bonito que já me foi dado a apreciar em minhas viagens pelo interior do Brasil. A praça foi construída sobre um plano inclinado; abaixo vêem-se os quintais das casas, com seus cafeeiros, laranjeiras e bananeiras de folhas largas; uma igreja que se ergue um pouco mais longe e contrasta, pela brancura de suas paredes, com o verde escuro da vegetação; à direita há também casas e quintais, e ao fundo outra igreja; à esquerda vê-se uma ponte semidesmantelada, com um trecho do Rio das Almas coleando por entre as árvores; do outro lado do rio avista-se uma igrejinha rodeada por uma pequena mata, com grupos de árvores raquíticas mais além, confundindo-se com ela. Finalmente, a cerca de légua e meia do arraial o horizonte é limitado ao norte por uma cadeia pouco elevada, que constitui um prolongamento dos Montes Pireneus. Nela se vê um pico arredondado a que dão o nome de Frota, o qual se projeta acima dos morros vizinhos.

Enquanto que os outros arraiais contavam, no máximo, com um professor de primeiras letras, Meia Ponte tinha um professor de Gramática Latina pago pelo governo. Tenho minhas dúvidas, porém, de que fosse grande o número de seus alunos e de que seus ensinamentos dessem resultados práticos.

Assim como em Tijuco, no distrito dos diamantes, existe em Meia-Ponte um asilo dos Irmãos da Ordem Terceira de S. Francisco, os quais se encarregam de recolher as esmolas dos fiéis para manutenção do Santo Sepulcro. Por ocasião da minha viagem esse asilo contava apenas com um Irmão. A quantia reunida por ele era entregue a um tesoureiro leigo do próprio lugar, o qual por sua vez a enviava ao tesoureiro geral, no Rio de Janeiro, que também era leigo. É bem difícil acreditar que, após passar por tantas mãos, entre Meia-Ponte e Jerusalém, esse dinheiro chegasse intato a seu destino.

Como já disse, o clima de Meia Ponte parece muito salubre. À época do calor mais forte todos os habitantes do lugar -- homens e mulheres -- banham-se regularmente no Rio das Almas, o que contribui para mantê-los em boa saúde. A doença mais comum alí é a hidropisia, não sendo rara também uma forma de elefantíases a que eles dão o nome de morféia.

O local onde hoje está situado o arraial foi descoberto em 1731 por um certo Manuel Rodrigues Tomaz. Os primeiros que se estabeleceram ali foram os caçadores de ouro, que queriam explorar as margens do Rio das Almas. Entretanto, como o povoado que então se formou ficasse situado na junção das principais estradas da província e por ali passasse antigamente um grande número de tropas, os seus habitantes, certos de que poderiam vender proveitosamente os produtos da terra, logo desistiram dos trabalhos de garimpagem, da qual atualmente restam poucos vestígios. Foram eles, ao que parece, os primeiros em toda a capitania que tiveram a glória de se dedicar ao cultivo da terra. As matas, abundantes nos arredores do arraial, favoreceram o trabalho dos agricultores. Foram derrubadas pelos antigos colonos e substituídas por plantações de feijão e milho. Atualmente abandonadas, essas lavouras cederam lugar às capoeiras.

Ainda hoje a maioria dos habitantes de Meia Ponte se dedica à agricultura e como só vão ao arraial aos domingos, as casas permanecem vazias durante toda a semana. As terras da paróquia são apropriadas a todo tipo de cultura, até mesmo a do trigo, mais é principalmente com a criação de porcos e a cultura do fumo que se ocupam os colonos da região. Os rolos de fumo e o toucinho são enviados não somente para Vila Boa, mas também para vários arraiais do norte da província.

Como já tive ocasião de dizer, o algodão produzido ali é de excelente qualidade. Um homem sozinho é capaz de cultivar um algodoal numa extensão de terra que comportaria a semeadura de um alqueire de milho. Os algodoeiros começam a produzir suas cápsulas desde o primeiro ano, e é suficiente capinar a terra uma vez, anualmente. Durante o prazo de cinco anos não é feita nenhuma poda nos seus ramos, mas passado esse tempo cortam-se os que ficam um pouco abaixo do pé e tira-se uma parte dos rebentos. Passados mais cinco anos é feita uma segunda poda. Tratados desta maneira, os algodoeiros conseguem dar uma longa série de safras. Um algueire plantado de algodoeiros rende 100 arrobas de algodão bruto, quantidade essa que, depois de retiradas as sementes, fornece um peso líquido de 8 libras.

É bem provável que os arredores de Meia Ponte pudessem produzir também um vinho excelente, pois durante a minha permanência no arraial saboreei uvas deliciosas, presenteadas pelo vigário. Pertencem à variedade que os

portugueses chamam de ferral. Desnecessário dizer que ali, como em Minas e provavelmente em todo o Brasil, as mudas de videiras são importadas.

Ainda que existam ao redor de Meia-Ponte mais terras do que seria possível cultivar e inúmeros córregos auríferos dos quais é fácil recolher um pouco de ouro, e embora haja escassez de braços para a lavoura e, em consequência, qualquer homem válido tenha possibilidade de encontrar trabalho, ao menos para prover ao seu sustento, não se consegue dar um passo no arraial sem esbarrar com mendigos. Vários deles, atacados de elefantíase, necessitam evidentemente de assistência. Outros são filhos naturais que poderiam trabalhar. Os fazendeiros mais prósperos de Meia-Ponte queixaram-se a mim do prodigioso números de mendigos que vagueiam pelas ruas do povoado. A maioria desse homens -- disseram eles -- poderiam ganhar a vida fazendo um trabalho útil. Mas como pedem esmolas dizendo pelo amor de Deus, ninguém tem coragem de negar, e assim se arraiga neles o hábito da indolência. Não há dúvidas de que esse sentimento tem algo de comovente e só poderia merecer louvores se fosse inspirado unicamente pelos infelizes que se acham atacados de uma moléstia repelente, a qual os afasta do convívio de seus semelhantes. Mas como podiam as bondosas pessoas que conversaram comigo sobre essas coisas acreditar que, ao darem a Deus uma prova de seu amor, estavam encorajando o vício?

Já disse que para chegar ao arraial de Meia-Ponte eu havia descido durante longo tempo. Enquanto permaneci ali o calor se tornou insuportável, o que me deixou em estado de grande irritação, aumentada pela fome que passei durante minhas várias caminhadas pelos arredores. O calor excessivo, ao que parece, teve também efeito negativo sobre os meus acompanhantes, pois eles se mostravam de um mau humor intolerável.

Antes de deixar o arraial (17 de junho) fui apresentar minhas despedidas ao vigário e ao jovem Padre Luís Gonzaga de Camargo Fleury, que eu já havia visto em sua companhia em Corumbá. Durante minha permanência em Meia-Ponte ambos me tinham cumulado de gentilezas. Fizeram-me várias visitas, durante as quais conversamos demoradamente. Luís Gonzaga era de origem francesa, como indica o seu nome de família. Tinha perfeita noção dos deveres que o sacerdócio lhe impunha, e de um modo geral achei-o bastante culto. Conhecia nossos bons autores franceses, lia muito uma de nossas histórias eclesiásticas e tinha algumas noções da língua inglesa. O vigário, que era ao mesmo tempo vigário da vara, reservara para si unicamente esta última função, dividindo a missão de conduzir suas ovelhas com o Capelão de Corumbá, com o do Córrego de Jaraguá e, finalmente, com Luís Gonzaga, a cujo cargo ficava Meia Ponte. Cada um dos três padres lhe entregava uma parte das rendas. Esse arranjo não era provavelmente muito legal, mas no que se refere à religião o Brasil, em geral, e a província de Goiás, em particular, estão fora de todas as regras.

Uma Fazenda Modelo

A 5 léguas de Gonçalo Marques parei na fazenda do comandante de Meia-Ponte, Joaquim Alves de Oliveira, para quem o governador da província me tinha dado uma carta de recomendação, tendo nessa ocasião feito grandes elogios a ele. A acolhida que me deu foi perfeita, e passei alguns dias em sua propriedade.

Joaquim Alves de Oliveira amealhara à custa do próprio esforço a sua fortuna, que era considerável. Tinha sido educado por um jesuíta, e parece que absorvera nessa escola o espírito metódico e equilibrado que o fazia sobressair entre os seus compatriotas. A princípio dedicou-se ao comércio, mas como tinha mais pendor para a agricultura, acabou por renunciar quase que inteiramente aos seus interesses mercantis. Não obstante, entregava-se ainda a transações comerciais quando esperava poder obter um lucro razoável. Assim, por ocasião de minha passagem por ali ele tinha acabado de enviar o genro a Cuiabá com uma numerosa tropa carregada de mercadorias variadas. Tinha, porém, o hábito de jamais falar com quem quer que fosse sobre os seus negócios, e ninguém ficava sabendo quando ele ganhava ou perdia dinheiro nas suas transações. Entre os brasileiros que conheci, era ele, talvez, o que tinha mais aversão à ociosidade. "Concedo a meus hóspedes", dizia-me ele sorrindo, "três dias de descanso. Ao cabo desse tempo, porém, descarrego sobre eles uma parte dos serviços da casa". As conversas de Joaquim Alves revelavam que ele era dotado de um grande amor à justiça e de uma religião sem mesquinhez. Era homem de muito senso, de uma grande simplicidade e de uma bondade extrema.

A fazenda, fundada por ele, nunca tivera outro nome a não ser o seu. Tratava-se, inegavelmente, da mais bela propriedade que havia em toda a região de Goiás que eu tinha percorrido. Reinavam ali uma limpeza e uma ordem que eu ainda não vira em nenhuma outra parte. A casa da fazenda era ao rés do chão e nada tinha de extraordinária, mas era ampla e muito bem conservada. Na frente, uma extensa varanda oferecia sombra e ar fresco em todas as horas do dia. O engenho-de-açúcar, conjugado à casa, fora construído de maneira que, da sala de jantar, pudesse ser visto o trabalho que se fazia junto às caldeiras, e da varanda, o que se passava no moinho de cana. Este último dava para um pátio quadrado. O corpo da casa se prolongava numa série de construções, que formavam um dos lados do pátio, nas quais estavam instaladas a selaria, as oficinas do serralheiro, do sapateiro, a sala dos arreios e, finalmente, a cocheira. Outro lado era construído pelos alojamentos dos escravos casados. Esses alojamentos eram cobertos de telhas e divididos em cubículos por paredes até certa altura. Um muro de adobe fechava os dois lados restantes do pátio.

A casa fora organizada desde o princípio com tamanha perfeição que o seu proprietário já não tinha, por assim dizer, necessidade de dar nenhuma ordem. Cada um sabia o que tinha de fazer e tratava de se colocar no seu posto de trabalho por sua própria conta. Para se fazer entender, bastava ao dono, se quisesse, dizer apenas uma palavra ou fazer um simples gesto. No meio de uma centena de escravos não se ouviam ordens gritadas nem se viam homens apressados andando de um lado para o outro, apenas aparentando grande atividade, mas na verdade sem saberem o que fazer. Em toda parte reinavam o silêncio, a ordem e uma tranqüilidade que se harmonizava perfeitamente com a que a Natureza costuma oferecer naqueles climas amenos. Dir-se-ia que um gênio invisível governava a casa. Seu proprietário ficava

sentado tranqüilamente na varanda, mas era fácil ver que nada lhe escapava e que bastava um rápido olhar para manter tudo sob controle

As regras estabelecidas por Joaquim Alves quanto ao tratamento dado aos escravos consistiam em mantê-los bem alimentados e vestidos decentemente, em cuidar deles adequadamente quando adoeciam e em jamais deixá-los ociosos. Todo ano ele provia o casamento de alguns, e as mães só iam trabalhar nas plantações quando os filhos já podiam dispensar os seus cuidados. As crianças eram então confiadas a uma só mulher, que zelava por todas. Uma sábia precaução fora tomada para evitar, tanto quanto possível, as ciumadas e as brigas: os quartos dos solteiros ficavam situados a uma boa distância dos alojamentos dos casados.

O domingo pertencia aos escravos. Eles não tinham permissão para ir procurar ouro, mas recebiam um pedaço de terra que podiam cultivar em seu próprio proveito. Joaquim Alves instalara em sua própria casa uma venda onde os negros podiam comprar as coisas que geralmente são do agrado dos africanos. Nas suas transações o algodão fazia o papel do dinheiro. Dessa maneira ele livrava os escravos da tentação do roubo, estimulava-os ao trabalho acenando-lhes com os lucros de suas lavouras, fazia com que se apegassem ao lugar e ao seu senhor, ao mesmo tempo que aumentava a produção de suas terras.

Durante minha permanência na casa do comandante de Meia-Ponte visitei as várias dependências de sua fazenda, o chiqueiro, o paiol, o moinho de farinha, o local onde era ralada a mandioca e onde ficava instalada a máquina de descaroçar o algodão, a fábrica de fiação, etc. etc., e em toda parte encontrei uma ordem e uma limpeza incomparáveis. Os fornos do engenho-de-açúcar não tinham sido feitos de acordo com as especificações da técnica moderna. Seu aquecimento era feito pelo lado de fora, o que pelo menos tornava menos penosa para os trabalhadores a operação de cozimento. Um tambor horizontal movido a água punha em movimento doze peguenas máguinas de descaroçar algodão. Era também a água a máquina de ralar mandioca, da qual darei aqui uma descrição. A casa onde se achava instalada era construída sobre estacas e embaixo do assoalho fora colocada uma roda em posição horizontal, que era movida pela água que caía de uma calha em plano inclinado. O eixo da roda atravessava o assoalho e se elevava até certa altura, tendo na extremidade outra roda horizontal cujo aro era revestido por um ralo de metal. O eixo e a roda superior ficavam encaixados dentro de um quadrado formado por quatro estacas,cada uma das quais tinha uma chanfradura na parte interna, ao nível do ralo. Quando a roda começava a girar, quatro pessoas seguravam as mandiocas, encaixando-as nas chanfraduras. Tendo esse ponto de apoio, seus braços podiam manter-se firmes e a ação da máquina não sofria interrupção.

Numa parte de suas terras o comandante de Meia-Ponte tinha deixado de lado o método primitivo adotado geralmente pelos brasileiros em suas lavouras. Passara a usar o arado e adubava a terra com o bagaço da cana. Dessa forma não havia necessidade de queimar novas matas todo ano. A cana era replantada sempre no mesmo terreno, que ficava situado perto da casa para facilitar a supervisão do dono e poupar tempo aos escravos. O açúcar e a cachaça eram vendidos em Meia-Ponte e Vila Boa, mas o algodão era exportado para o Rio de Janeiro e Bahia. Joaquim Alves foi o primeiro, como já disse, a demonstrar a vantagem dessas exportações, e seu exemplo foi seguido por vários outros colonos. Por ocasião de minha viagem ele estava planejando aumentar ainda mais suas plantações de algodão e tinha intenção de instalar no próprio arraial de Meia-Ponte uma descaroçadora, bem como uma fiação onde pretendia empregar as mulheres e as crianças sem trabalho. Depois de descaroçado, o algodão da região, cuja qualidade é excelente, era vendido no local a 3.000 réis a arroba. O transporte de Meia-Ponte à Bahia custava 1.800 réis a arroba, e até o Rio de Janeiro 2.000. O lucro obtido com as exportações a esse preço era tão garantido que Joaquim Alves não vacilara em se oferecer para comprar, à razão der 3.000 réis, o algodão produzido por todos os agricultores das redondezas.

Ao dedicar sua atenção a um produto que podia ser exportado com proveito, o comandante de Meia-Ponte incentivava seus compatriotas a tomar novos rumos, indicando-lhes o que devia ser feito para arrancar sua região do estado de penúria em que a mergulhara uma exportação do ouro mal orientada. Enquanto ele agia de maneira prática, vários de seus concidadãos afirmavam que só havia salvação para a província numa idéia absurda apresentada por Luís Antônio da Silva e Souza. Segundo eles, a única maneira de deter a decadência sempre crescente da província seria impedir a saída do ouro para fora de suas fronteiras, criando-se para isso uma moeda provincial. Poder-se-ia argumentar, entretanto, que se essa moeda não tivesse valor como metal não haveria força humana capaz de lhe dar algum crédito. Se, pelo contrário, ela fosse de cobre, de ouro ou de prata, acabaria saindo da província de uma forma ou outra, por mais rigorosa que fosse a proibição, como acontecem todos os dias com o ouro em pó. Uma vez fora de suas fronteiras, porém, ela só seria aceita pelo seu valor intrínseco, e em conseqüência os comerciantes de Goiás passarão a vender suas mercadorias por um preço que compense a sua desvalorização. O ouro adulterado que circula em Goiás já pode ser considerado uma espécie de moeda provincial, pois só é aceito ali, e quando o comerciante o remete para fora ele se vê obrigado a reduzi-lo ao seu valor real, purificando-o, para em seguida reajustar os seus preços de acordo com a redução de peso sofrida pelo ouro.

Depois de tantas jornadas tediosas e cansativas através dos sertões, senti-me feliz por me achar numa casa que reunia todo o conforto que a região podia oferecer, onde eu gozava de inteira liberdade e cujo proprietário, um homem esclarecido, tinha por mim toda consideração. O tempo que passei na casa de Joaquim Alves foi muito proveitoso. Meus homens fizeram uma esplêndida caçada nas margens de uma lagoa situada nas proximidades. Quanto a mim, passei para o papel uma parte dos dados que recolhera sobre vários assuntos e obtive novas informações em conversas com meu hospedeiro.

Deixei a fazenda cheio de gratidão pela excelente acolhida que me deu o seu proprietário e me dirigi a Meia-Ponte, distante dali uma légua.

Os Índios Coiapós

Chegando ao alto da serra tive uma ampla visão de todas as terras ao redor e distingui nitidamente Vila Boa, ao longe, parecendo um oásis no meio de um deserto. Mais longe ainda, avistei os dois cumes dos Montes Pireneus."

"Antes de chegar à Aldeia de S. José avista-se de longe o povoado. Entediado pela triste monotonia da região, é com prazer que o visitante vê o encantador efeito produzido na paisagem pela série de construções regulares que contrastam com o aspecto selvagem e desértico das terras circunvizinhas.

Essa aldeia, habitadas pelos índios Caiapós, ou Coiapós, como se diz geralmente na região, não foi originalmente destinada a essa nação indígena.

Desde os primeiros tempos da descoberta de Goiás, os aventureiros que se espalharam por estas terras fizeram contra os índios as mais temíveis crueldades, e estes se vingaram muitas vezes por meio de represálias não menos terríveis. O governo português, geralmente generoso em relação aos índios, tomou-os sob sua proteção, expedindo ordens para que fossem tratados com doçura, mandando chamar jesuítas para que os catequizassem e civilizassem, determinando que não fosse poupada nenhuma despesa e se fizesse um inquérito contra os seus carrascos. É grande, porém, a distância entre Lisboa e Goiás, e essas medidas bem-intencionadas não surtiram nenhum resultado.

Não obstante, foram fundadas algumas aldeias, com grande dispêndio de dinheiro, entre elas as do Douro e de Formiga, perto do Arraial das Almas, na parte setentrional da província. Inicialmente, foi confiada a direção dessas aldeias aos jesuítas, que logo exerceram sobre os Acróas ali reunidos uma enorme influência. Todavia, cinco anos mais tarde foi instalada uma guarnição militar junto aos indígenas. Estes se revoltaram e a maioria foi massacrada.

No governo do Capitão-geral José de Almeida, Barão de Mossamedes, por volta de 1773 ou 1774, eles tornaram a se revoltar. os chefes foram executados, e o resto aprisionado e levado para as proximidades da capital, onde todos os cativos foram instalados numa aldeia construída em 1755 a 5 léguas de Vila Boa. Era a Aldeia S. José de Mossamedes, ou S. José, como é simplesmente chamada, nome dado em homenagem ao capitão-geral.

Os acroás não tardaram a se extinguir ou se dispensar, e por volta de 1781 foram substituídos pelos Javaés e os Carajás, trazidos da Aldeia da Nova Beira, no norte da província, os quais por sua vez não tardaram a desaparecer.

Enquanto esses fatos iam se sucedendo, outros ocorriam em diferentes partes do país.

Tão logo foi descoberta a província de Goiás começou a guerra entre os aventureiros paulistas e os índios Coiapós, que vagueavam a sudoeste da província por vastas extensões de terras praticamente inexploradas. A guerra de desencadeava com igual crueldade de ambos os lados. Os Coiapós atacavam de surpresa as tropas de burros que vinham de São Paulo, tendo forçado os portugueses a abandonarem vários postos estabelecidos por eles na parte setentrional da província do mesmo nome. As hostilidades se prolongaram até 1780, quando então um simples soldado chamado Luís, que tomara parte em várias expedições contra os índios, tomou a si o encargo, sob a proteção do Capitão-geral Luís da Cunha Menezes, de subjugar os Coiapós, tido até então como indomáveis. Acompanhado apenas de meia centena de portugueses e três índios, ele se pôs a caminho em 15 de fevereiro de 1780, embrenhando-se no território dos Coiapós. Durante vários meses esses destemidos aventureiros viveram apenas do que caçavam e de mel silvestre. Aproximavam- se, com sinais de amizade, de todos os Coiapós que encontravam e conversavam com eles ajudados por três intérpretes. Mostravam-se afáveis, davam-lhes presentes e por fim conseguiram convecer um certo número deles a acompanhá-los até Vila Boa para conhecerem o grande capitão, nome que os índios dão ao chefe supremo. Um grupo de cerca de quarenta pessoas, composto de um velho, seis guerreiros, mulheres e crianças, chegou à capital da província com o soldado Luís, sendo recebido com toda pompa possível. Organizaram-se festas, deram-se tiros de canhão, cantou-se um Te Deum e batizaram-se as crianças. O velho encantado com essa recepção, declarou que não voltaria mais para suas matas. Permaneceu em Goiás com as mulheres e as crianças, mandando os seis guerreiros de volta e lhes recomendando que retornassem á cidade, passadas seis luas, trazendo um grupo ainda maior. No mês de maio de 1781 duzentos e trinta e sete Coiapós fizeram sua entrada em Vila Boa sob o comando de dois caciques, tendo uma recepção semelhante à dos primeiros. O capitão-geral mandou construir para todos eles, a 11 léguas da capital, uma aldeia que recebeu o nome de Maria, em honra de D. Maria I, Rainha de Portugal. Ali se instalou uma população composta de 600 Coiapós. Parece que, a partir dessa época, as tropas de burros jamais voltaram a ser atacadas pelos índios na estrada de S. Paulo."

"Habituados nas matas a dormir em choças, nas quais só podem entrar agachados, os índios acharam muito frias as casas de teto alto e cobertas de telhas que lhe foram reservadas, e eles próprios construíram outras, mais baixas, a poucos passos da aldeia. O teto destas é feito de palha e a sua estrutura é a mesma das casas lusos-brasileiras, compondo-se de varas fincadas no chão e atadas com cipó a compridos bambus dispostos transversalmente. Mas, enquanto que os portugueses costumam tapar com barro os espaços vazios entre as varas cruzadas, os Coiapós se limitam a trançar folhas de palmeiras entre elas, como outros indígenas, tentando imitar as construções européias. As choças que os Coiapós construíram nas proximidades da aldeia não ultrapassam uma dezena. É a uma légua de S. José, nas suas plantações, que se encontra a maioria de suas moradas."

"O governo geral da aldeia é confiado a um coronel que mora em Vila Boa e dirige todas as aldeias da província. Os Coiapós se acham em S. José sob a tutela imediata de um destacamento militar composto de um cabo, que tem o título de comandante, de um simples soldado dos Dragões - ambos pertencentes à Companhia de Vila Boa - e de quinze pedestres, dos quais dois são oficiais subalternos. Entre os restantes encontram-se um serralheiro e um carpinteiro, sendo o primeiro encarregado de consertar as ferramentas dos Coiapós e o segundo de fazer as construções da aldeia. O cabo-comandante tem autoridade para punir os índios, amarrando os homens ao tronco e aplicando a palmatória nas

mulheres e crianças. Os Coiapós cultivam a terra em comum, trabalhando cinco dias por semana, sob a supervisão do pedestre. A colheita é recolhida aos armazéns da aldeia e em seguida destribuída, pelo cabo-comandante, entre as famílias indígenas, de acordo com a necessidade de cada uma. O excedente é vendido à cidade ou aos pedestres, que são obrigado a custear seu próprio alimento. Com o produto dessa venda, o diretor geral compra sal, fumo, tecidos de algodão e utensílios de ferro, que envia ao cabo-comandante para que sejam distribuídos entre os indígenas. Há na aldeia um moinho de água que move ao mesmo tempo uma mó destinada a moer o milho, uma máquina de descaroçar o algodão e, finalmente, vinte e quatro fusos. Uma mulata recebe 50.000 réis por ano para ensinar as mulheres coiapós a fiar e tecer o algodão. O produto desse trabalho também pertence à comunidade, como os produtos da terra. Os dois dias de folga que tem os índios são o domingo e a segunda-feira, que eles aproveitam para caçar ou cuidar de pequenas plantações particulares de inhame e de batatas.

A forma de governo que acabo de descrever foi calcada na que havia sido adotada pelos jesuítas, e forçoso é admitir que ela convém aos índios, os quais, por sua total falta de previdência, são incapazes de governarem a si próprios. Mas não bastam apenas bons regulamentos. É preciso que haja também homens capazes de fazer com que sejam obedecidos, e não há ninguém que não perceba que é absurdo pretender conseguir com soldados o mesmo resultado obtido com missionários. Os jesuítas eram movidos por duas forças que sempre produziram grandes coisas: a religião e a honra. Eles teriam tido sucesso ainda que tivessem escolhido para os índios uma forma de governo mais imperfeita. Mas que se pode esperar de homens como os pedestres, todos eles mulatos e oriundos da camada mais baixa da sociedade, homens que não se deixam dominar nem mesmo pelo temor, pois vivem afastados de seus superiores, e que, mal remunerado, não têm outro objetivo senão o do se aproveitarem dos Coiapós em seu próprio interesse? Os índios se sentem insatisfeitos e fogem para as matas. São perseguidos e recapturados, mas tornam a fugir. Um único padre da Companhia de Jesus governava às vezes milhares de índios, enguanto que dezessete soldados mal conseguem manter reunidos duzentos Coiapós, sem nenhuma utilidade para o Estado e quase nenhum proveito para eles próprios."

"Os portuguêses deram, não sei porque, o nome de Coiapós ou Caiapós a esses indígenas. Pelo que me disseram, parece que um grupo deles, que ainda vive nas matas (1819), sem nenhuma outra tribo nas vizinhanças, não tinha nome que os identificasse, e por isso passaram a usar a palavra panariá a fim de se distinguirem, como raça, dos negros e dos brancos. De onde se deve concluir, ao que me parece, que essa palavra passou a ser usada posteriormente à descoberta, bastante recente, da região, e que antes dessa época os Caiapós provavelmente, se julgavam sozinhos no Universo.

São encontrados nesses indígenas todos os traços os traços característicos da raça americana: Cabeça grande, socada entre os ombros, cabelos lisos, pretos, duros e bastos, tórax largo, pele parda, pernas finas. As características particulares de sua tribo são a cabeça arredondada, a fisionomia aberta e inteligente, a elevada estatura, os olhos e a cor escura da pele. Os Coiapós são uma bela raça.

Matutina Meyapontense

Matutina Meyapontense

Nº 1 Sexta feira - 5 de março de 1830 Em 1829, o comendador Joaquim AlvesO Matutina Meyapontense original em acervo da Biblioteca Nacional " id="pdf-obj-13-3" src="pdf-obj-13-3.jpg">

Nº 1 Sexta feira - 5 de março de 1830

Em 1829, o comendador Joaquim Alves de Oliveira adquiriu no Rio de Janeiro uma oficina tipográfica,trouxe-a para Meya Ponte (antiga Pirenópolis) em lombos de mulas e fundou a Typografia de Oliveira na casa onde hoje funciona o Museu da Família Pompeu, rua Nova nº 39. Em 5 de março de 1830, fez publicar o Matutina Meyapontense, o primeiro jornal do Estado de Goiás, para não dizer de todo o centro-oeste, norte brasileiro e o primeiro jornal brasileiro publicado fora de uma capital. O jornal, um marco na imprensa nacional, publicava os atos dos governos provinciais de Mato Grosso e Goiás. Circulou de 5 de março de 1830 a 24 de maio de 1834, totalizando 526 edições.

Seu redator-chefe era o padre Luíz Gonzaga de Camargo Fleury, ilustre pirenopolino. Versado nas artes literárias, fez carreira eclesiástica em São Paulo, de onde voltou com formação em ?Latim, Teologia Dogmática, Retórica, Filosofia, Eloquência Sagrada, Moral e Outras?. Ocupou vários cargos públicos junto ao Governo da Província. O Matutina teve também colaboradores relevantes, como o Pe. Luiz Antônio da Silva e Souza, historiador, político e poeta que ajudou a enriquecer ainda mais a alma desse periódico, e vários correspondentes nas províncias de Goiás e de Mato Grosso.

Jornal de características liberais para os moldes da época, publicou diversas notícias, sempre defendendo os direitos humanos, a ética e a cidadania. Recebia cartas com codinomes e publicava-as na íntegra. Com humor, bom senso, liberdade e seriedade, deixou-nos um legado histórico marcante do Brasil Central imperialista e distante dos grandes centros.

Texto adaptado de Pirenópolis Coletânea 1727-2000, Adelmo de Carvalho Veja Também: O Matutina Meyapontense original em acervo da Biblioteca Nacional

Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil

O Movimento Mudancista

A quem é devida a mudança?

Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil O Movimento Mudancista A quem é devida a mudança?

A Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, chefiada pelo astrônomo Luiz Cruls, conhecida também como Comissão Cruls, esteve aqui em Pirenópolis nos anos de 1892 a 1894 para a demarcação dos limites do Distrito Federal e a determinação do local para a construção de Brasília.

Porém, antes de começarmos a contar a história desta famosa comissão, devemos voltar um pouco no tempo para entendermos o que foi que a motivou e quais eram seus reais objetivos.

Tiradentes e os inconfidentes

As primeiras idéias da mudança da capital do Brasil para o interior surgiram entre os inconfidentes mineiros durante o século XVIII. Tiradentes estava entre os maiores promotores desta ação. Influenciados pelos movimentos intelectuais da Europa, que deflagraram a Revolução Francesa e Americana, imbuídas de grande espírito nacionalista, os inconfidentes divulgaram a idéia da mudança da capital do Brasil para São João Del Rey, em Minas Gerais.

Os principais argumentos da proposta eram que a capital do país estando no interior seria fácil assegurá-la de ataques vindo do mar, reforçado com a ameaça do império napoleônico, e a integração do território nacional.

O local e o nome: Brasília

A discussão não morreu por aí. O cartógrafo italiano Francesco Tosi Colombina elaborou em 1749 a Carta de Goiás e Capitanias Próximas, quando sugeriu que a nova capital devesse se localizar na região do planalto Central Brasileiro. José Bonifácio, no entanto, em 1823, sugeriu o nome Brasília mas indicou a cidade de Paracatu, em Minas, para a localização da futura capital. Ainda em 1852, o Senador Holanda Cavalcanti, Visconde de Albuquerque, apresenta um projeto de lei que autoriza o levantamento de um terreno, nas latitudes entre 10 e 15 graus, para servir de território destinado à localização da futura Capital do Brasil entre os rios São Francisco, Maranhão e Tocantins . Em 1853, "o senador João Lustosa da Cunha Paranaguá, o segundo Marquês de Paranaguá, apresenta um projeto legislativo transferindo a capital do Rio de Janeiro para Monte Alto, no interior da Bahia".

A República e a Constituição de 1891

Por um bom tempo a idéia da mudança arrefeceu-se. Somente com a Proclamação da República e a Constituição de

1891 é que esta volta a tona e conseguem aprovar no artigo 3º a localização e a ordem para demarcar

"...uma

zona de

14.400 quilômetros quadrados, que será, oportunamente, demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital

Federal".

Deste modo, o Presidente Floriano Peixoto determina a formação de uma comissão multi-disciplinar de técnicos de diversas áreas do conhecimento humano, chefiada pelo astrônomo belga Luiz Cruls, para explorar e demarcar os 14.400 km2 do Planalto Central.

A Comissão Cruls

A Comissão Cruls

O pessoal da Comissão. Conta-se, em Pirenópolis, que esta foto foi tirada no quintal do casarão da Rua Direita

Em 9 de junho de 1892, partiu do Rio de Janeiro a comissão composta por 22 técnicos, entre eles, astrônomos, médicos, farmacêutico, geólogo, botânico, mecânico, auxiliares e militares com destino a Uberaba pela linha férrea da Companhia Mogyana. A partir daí, a comissão viajaria em lombos de cavalos, burros e mulas para o Planalto Central, servindo-se de podômetro, bússula e aneróide para determinação e orientação dos trajetos. Em 29 de junho, a comissão deixa a cidade de Uberaba com destino a Pirenópolis.

Em 11 de julho chegaram as margens do Rio Paranaíba, entrando em território goiano. Aos 14 de julho, chegam em Catalão. Daí rumam para Piracanjuba, chegando somente em 29 de julho e aos 1 de agosto de 1892, chegam em Pirenópolis.

Em Pirenópolis, devido a uma grande discordância entre os geógrafos sobre a altitude exata dos Picos dos Pireneus, a comissão decide verificar sua altura e conta-nos em seu relatório um pouco da história da geografia das grandes altitudes brasileiras: A opinião generalizada na época era que o Pico dos Pireneus estava a cerca de 3.000 metros de altitude. Referência publicada pelo Padre H. R. Des Genettes, erudito e morador de Pirenópolis, que em 1873, descreve este monte estando a 2.932 metros do nível do mar, desbancando, até então, os picos do Itacolomi, Itambé e o Itatiaia. Sendo então considerado o ponto mais alto do Brasil.

Ledo engano. A comissão, já como primeiro importante cálculo para a geografia brasileira, corrige a cota e verifica, através de barômetros e aneróides, a cota de 1.385 metros, ainda usada atualmente.

Os Pireneus de Goiás

Fotografia tirada do alto do pico. O local onde está o pessoal é onde encontra-se hoje

Fotografia tirada do alto do pico. O local onde está o pessoal é onde encontra-se hoje uma pequena construção de concreto abandonada. Percebam ao fundo a mata ciliar do córrego do Cabeludo.

Em 7 de agosto de 1892, a comissão inicia a subida da serra em direção aos Picos dos Pireneus. Destaca, em seu relatório, as Minas do Abade, já em ruínas, e afere sua altitude: 998 metros. A partir daí, a subida acindentada os leva a um ponto distante 5 km do pico e cuja visão é de 4 picos, em um terreno que fica quase ao nível da base dos picos. Por essa descrição, podemos crer que a turma subiu pelo vão do Rio das Almas em direção ao antigo curral do Inácio Lobo e nascente do córrego Barriguda, avistando o pico na altura da vila dos becos, próximo ao portal do parque. Pois é o único local que dista de 5 km quando, ao tombar a serra, se avista os 4 picos. Os outros pontos estão mais próximos e o quarto pico não é avistado.

Pernoitaram num acampamento mais próximo do pico, de onde só era possível avistar 3 picos e cuja altitude era de 1.123 metros. Pela descrição e altitude, eles só poderiam ter acampado próximo ao córrego Arruda, pois é a única área abaixo dos 1.200 metros de onde se pode avistar os picos e há água abundante.

No dia seguinte, dia 08 de agosto de 1892, empreeitaram a subida do pico e aferiram por fim sua altitude: 1385 metros. Concluindo, tiraram as seguintes deduções:

 

Pirenópolis: 740 m

Minas do Abade: 998 m

Acampamento: 1.123 m

Base do Pico: 1.318 m

Pireneus (cume): 1.385 m

O pico dos Pireneus visto de sua base No alto do pico eles deixaram encerrado numa

O pico dos Pireneus visto de sua base

"Ascensão ao Pico dos Pyreneus - Alto do pico mais elevado, em 8 de Agosto de 1892 - As 12 horas da manhã do dia 8 de Agosto de 1892, 4º da República dos Estados Unidos do Brazil, chegou-se ao alto deste pico, o mais elevado dentre os dos Pyreneus, a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brazil e aqui fez observação para determinar com a maior precisão as coordenadas desta posição.

E, para attestar em qualquer época a sua presença, lavrou este documento que é por todos assignados e que depois de convenientemente lacrado, fica depositado no alto do próprio pico.

Assignaram: - L. Cruls. - Antonio Pimentel. - H. Morize. - Tasso Fragoso. - Pedro Gouvêa. - A. Abrantes. - Alipio Gama. - Hastimphilo de Moura. - P. Cuyabá. - Henrique Silva. - Paulo de Mello."

Caixa esta que, infelizmente, não existe mais. Se existe, está guardada em algum lugar inacessível ao público por um cidadão avarento.

"Ascensão ao Pico dos Pyreneus - Alto do pico mais elevado, em 8 de Agosto de

Imagem vista do alto do Pico, sentido oeste

A demarcação do Quadrilátero Cruls

A demarcação do Quadrilátero Cruls

Ao retornar para Pirenópolis, no dia 9 de agosto, a comissão se prepara para partir em busca do almejado quadrilátero de 14.400 km2. Luis Cruls determina a formação de 2 turmas: uma, chefiada pelo próprio Cruls, que seguirá à cidade de Formosa via Serra do Urbano (Urbano do Couto Menezes) ou das Divisões (saída ao norte pelos divisores de águas); e outra, chefiada por H. Morize, que rumará à cidade de Formosa via Corumbá, Santa Luzia e Mestre D'armas (saída a leste).

De Formosa, a comissão se divide em 4 turmas, uma para cada vértice do quadrilátero. É notável a intenção de Cruls em formar o quadrilátero inserindo neste a região dos Pireneus. Segundo Cruls, o quadrilátero deveria conter as cabeceiras dos rios que vertem para as bacias do Tocantins, São Francisco e Paraná. Também se destaca no texto do relatório a dificuldade técnica em determinar com precisão as longitudes.

Foram determinadas às turmas que estas retornariam e se encontrariam, com todos os dados do trajeto e as coordenadas dos vértices, em Pirenópolis no mais tardar até o dia 10 de novembro de 1892.

A turma do vétice NW, chega em Pirenópolis no dia 16 de novembro de 1892. A turma do vértice SW, chefiada por Cruls, chegou em Pirenópolis no dia 17 de novembro. A turma do vértice SE chegou em Pirenópolis no dia 5 de dezembro. E a turma do vértice NE, que não fez a demarcação simultaneamente com as outras, voltou a Pirenópolis e somente no dia 18 de dezembro é que esta rumou para o vértice e de lá para Uberaba e Rio de Janeiro.

O quadrilátero de 14.400 km2 era cerca de 3 vezes maior que os atuais limites do distrito federal e, apesar das grandes discussões posteriores a demarcação deste quadrilátero, houve um período de esquecimento, várias tentativas de instalação da capital no Triângulo Mineiro e até na Bahia, o trabalho da Comissão Cruls foi bastante decisivo tal a sua complexidade técnica e seriedade.

De fato, o local escolhido detinha grandes méritos e a cidade de Pirenópolis foi peça chave na decisão. Pois, além de sediar a comissão, foi da vista dos picos a oeste pelo grande planalto, que foi descortinado o local escolhido para a área que iria sediar a futura capital. Local com grande salubridade, abundância de água boa e clima aprazível. Tivesse hoje o Distrito Federal as confrontações deste quadrilátero teríamos os picos dos Pireneus e a cidade de Cocalzinho dentro do Distrito Federal. Sorte ou azar, os Montes Pireneus ainda são Goiás.

Algumas considerações interessantes

Segundo Luis Cruls, pôde-se notar temperaturas muito frias nos meses de julho, chegando a 0º e a -2,5ºC, com vários registros de geada. Calculou-se também a temperatura média anual em torno de 19,5ºC. Coisa que hoje não se registra mais. A temperatura hoje subiu consideravelmente.

Em relação às águas, Cruls cita a superioridade da qualidade das águas da região oeste do quadrilátero, como dos afluentes do Corumbá, sendo superiores às do Leste, como as do São Bartolomeu, e mais ainda àquelas dos rios do norte. A quantidade das águas são ainda comparadas às de outras cidades populosas, como Paris, na ordem de 300 para 1.000 litros por habitante.

Quanto a topografia, Cruls embasa a localização com forte argumentação de que na região demarcada "se encontram planícies, entrecortadas de depressões pouco consideráveis com declividades suaves, se presta admiravelmente para a edificação de uma grande cidade".

Outra coisa interessante notada no relatório foi a desmistificação e ratificação de histórias contadas no sul das características e situações que existiam em Goiás. Era idéia comum que o Planalto Central não serviria para a nova capital por se tratar de uma região quente, insalubre, cheia de doenças e perigos como indígenas antropófagos e animais ferozes. No entanto, todos os relatórios dos técnicos, entre eles médicos, geólogos, sanitaristas, farmacêuticos e botânicos, dedicaram vários parágrafos desfazendo boatos e desmistificando fatos. Impressionaram-se estes com o oposto do que esperavam, encontraram uma terra salubre, sem perigos, com clima agradável e ótima condição de vida. Em suma, corroboraram ótimas condições e seus estudos foram determinantes para a localização do novo Distrito Federal.

Vale ainda ressaltar o valioso estudo que esta comissão fez sobre aspectos da fauna, flora, geologia, hidrologia e características sócio-econômicas da região ao final do século XIX, que resultou num extenso livro de 380 páginas.

 

Fontes

 

Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central - Organizado por Luis Cruls - Rio de Janeiro, 1894 -

Edição: Senado Federal, Brasília, 2003 A Mudança da Capital - José Adirson de Vasconcelos - 2ª Edição - Gráfica e Editora Independência Ltda - 1978 - Brasília

Operação Dom Bosco - Jarbas Silva Marques

 

Santa Dica de Lagolândia

Mulher, Santa e Guerreira

Benedita Cipriano Gomes nasceu em 17 de janeiro de 1903 na Fazenda Mozondó à 40 km

Benedita Cipriano Gomes nasceu em 17 de janeiro de 1903 na Fazenda Mozondó à 40 km de Pirenópolis. Por volta de 7 anos de idade, Benedita, ou melhor Dica como era chamada, caiu enferma culminando com a perda total de seus sinais vitais. Durante o banho do defunto, notou os familiares que Dica suava frio e muito. Com receio de enterrá-la, mantiveram o velório e após três dias, Dita ressurgiu viva da morte eminente.

Tal Fato espalhou-se pela região como um milagre. Romarias de fervorosos e crédulos roceiros migravam para pedir-lhe a benção e conseguir graças. Em poucos anos, já mocinha, Dica comandava legiões de adoradores que seguiam suas ordens com fiel devoção e em torno de sua casa formou-se povoado. Dica instituiu sistema de uso comum de solo e aboliu o uso genérico de dinheiro, fazia curas milagrosas, rezava missas e dava conselhos. Pregava a igualdade, abolição de impostos, a distribuição de terras. Para Dica a terra era de propriedade do Criador e foi feita para todos. Em sua fazenda não existia cercas e todos os recursos, oferendas e colheitas era revertidos para a comunidade. Para suas curas milagrosas recebia Dica os espíritos do Dr. Fritz, da Princesa Silveira e de um Comandante. Esperava a vinda do Messias para a libertação das doenças e pobrezas.

Com tal política chegou a reunir em torno de si 15.000 almas, 1.500 homens capacitados para o uso das armas e cerca de 4.000 eleitores. Seu poder incomodava os coronéis da região, que viam na Dica uma certa reprodução do episódio de Canudos com perdas de trabalhadores e poder sobre a população.

Porém a fama de Dica espalhou-se pelos sertãos atraindo mais e mais fiéis. Jornais goianos e mineiros denunciavam como um embuste a romaria fervorosa e pediam providências ao governo contra os fanáticos diqueiros, desertores de suas escravagistas fazendas. Até o clero suplicou, em vão.

O que era Rio do Peixe foi redenominado Rio Jordão e Dica reforçou sua força popular e política editando um jornal manuscrito: "A Estrela do Jordão Órgão dos Anjos, da Côrte de Santa Dica".

Os adoradores da Santa Dica, armados, juravam protegê-la contra qualquer tentativa de prisão. As autoridades de Pirenópolis com a polícia municipal se declaram impotentes contra os diqueiros. Restou ao Governo Estadual, em março de 1925, mandar um destacamento, sitiar o local e prender Dona Dica. Um mínimo seria o suficiente para o massacre. Quando um tio de Dica atirou contra os policiais choveu projéteis de metralhadoras sobre as palhoças e o sítio de Dica. Pela "boca do povo" diziam que as balas iam de encontro à Dica, enrolavam em seus cabelos, ou batiam em seu corpo, e caiam pelo chão. Tanto que houve apenas três mortes. Dica ordenou a todos que atravessassem o rio Jordão, que passa por trás de sua casa, para fugir do massacre. Dica foi resgatada por um de seus fiéis puxada do rio pelos cabelos e acabou sendo presa. Dizem na tradição oral que Santa Dica neste episódio amarrou uma sucuri no poção ao fundo de sua casa para que os soldados não pudessem atravessar o rio. Até hoje a população de Lagolândia acredita e não nada naquele local com medo da sucuri da Santa Dica.

A Prisão de Dica não durou muito tempo. Pressionados pela população e sem provas criminatórias o governo acabou cedendo e liberou-a. A partir daí Dica ingressou na política, seus seguidores votavam em quem ela mandasse. Formou exército e foi patenteada com a insígnia de cabo do exército brasileiro. Comandava tropa de 400 homens, que ficaram sendo conhecidos como "pés com palha e pés sem palha", pelo motivo de que sendo a tropa integrada por analfabetos confundiam esquerda com direita. Dica então usou o estratagema de amarrar um pedaço de palha em um dos pés para poder ensinar-lhes a marchar.

Em 1928 casou com o jornalista carioca Mário Mendes, eleito prefeito de Pirenópolis em 1934, e tiveram cinco filhos e adotaram mais dois. O exército dos "pés com palha e pés sem palha" participou da Revolução Constitucionalista de 1932 indo guerrear, com 150 homens, em São Paulo onde voltou sem nenhuma baixa, resultado atribuído aos milagres da santa. Episódio famoso foi quando seu exército precisava passar pela ponte de Jaraguá, em São Paulo. Esta estava minada e Dica mandou que um de seu soldados a atravessasse de olhos vendados, fato concluído sem detonar nenhuma bomba. E assim foi com a tropa toda que vendados um a um transpuseram a ponte, que veio a ruir após passar o último

soldado. Também teve Dica enfrentado a Coluna Prestes. Com uma tropa de 400 homens impediu que os mesmos ingressassem pelo Triângulo Mineiro.

Muito milagres foram realizados por ela. Histórias populares contam que ela andava sobre as águas do Rio Jordão, faziam muitas curas milagrosas e sua tropa era protegida milagrosamente, tanto que quando as balas atingiam seus soldados esta caíam no chão com caroços de milho.

Morreu Dica aos 9 de novembro de 1970 em Goiânia e foi sepultada, conforme seu desejo, debaixo de uma gameleira em frente a sua casa em Lagolândia. Legiões de seguidores cortejaram e velaram durante três dias o corpo da Santa, demonstrando o amor e devoção cativado pela linda moça da Fazenda Mozondó, guerreira e santa.

Lagolândia, hoje, é um povoado do município de Pirenópolis, com algumas centenas de habitantes e algumas dezenas de casas, que rodeiam uma bela praça onde o busto de Santa Dica lidera o espaço dividido entre bancos, flores, imagens de Nossa Senhora e o sepulcro sombreado da Santa. Em sua antiga casa descendentes mantém um visitado altar dedicado a Santa e toda o povoado vive à sua memória.

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