Você está na página 1de 32

EDITORIAL

Caros Amigos,

A despeito dos esforços de milhões de indivíduos engajados na de-

fesa do meio ambiente, por que razão a situação ecológica do plane-

ta,

ao invés de melhorar, continua piorando?

O

ambientalista e ensaísta Hervé Kempf identifica com muita propri-

edade o “nó” da questão: o divórcio litigioso entre a ecologia global e a

economia global. Enquanto cientistas e ambientalistas apresentam evi- dências irrefutáveis da destruição sistemática da “vida”, as elites eco- nômicas mundiais, que se beneficiam da pilhagem planetária, permane- cem insensíveis a tudo que não justifique seus lucros abusivos. E para impedir o relacionamento sustentável homem-meio ambiente, os do- nos do mundo disseminam “verdades” falaciosas que, ao semear pâni- co, impedem o desabrochar da nova – e possível – era de liberdade, ecologia e fraternidade preconizada por Kempf no artigo Como os ri- cos estão destruindo a Terra, publicado nesta edição.

O modelo econômico predatório baseado no “lucro pelo lucro” –

pouco importa que um bilhão de indivíduos esteja em crítica situação

de desnutrição crônica – também é devassado no relatório Global

Corruption Report 2008, recém-lançado pela Transparency Internati- onal (TI). Após a leitura do artigo de Charles Kenny, que desnuda a imoralidade da corrupção no setor da rede de distribuição de água, recomendamos que você acesse a totalidade do relatório disponível on-line, conforme link indicado no artigo.

O perverso “modelo de crescimento” ora praticado acelera a atual

crise econômico-financeira, a insustentabilidade e o débito de futuro

que legaremos às próximas gerações. No entanto, o desenvolvimento sustentável é possível, como prova um sem número de corporações, que ao investir em ações para minimizar os impactos negativos de suas atividades produtivas geram novas fontes de trabalho, além de riqueza e de inclusão social.

O desastre ambiental e humano não é inevitável. Como profetiza

Hervé Kempf, “apesar da escala de desafios a enfrentar, começam a

surgir soluções, e a necessidade de reconstruir o mundo está em fran-

co

renascimento.” O exercício pleno da cidadania, a implementação

de

políticas públicas inclusivas e a reabilitação dos preceitos huma-

nistas tornarão a destruição ecológica um negócio não mais rentável.

Hélio Carneiro

Editor

A revista Cidadania & Meio Ambiente é uma publicação da Câmara de Cultura Rua São

A revista Cidadania & Meio Ambiente é uma publicação da Câmara de Cultura Rua São José, 90, 11 o andar, grupo1106 Centro – 20.010-020 – Rio de Janeiro/RJ Telefax (55-21) 2432-8961 • 2487-4128

cultura@camaradecultura.org

www.camaradecultura.org

cultura@camaradecultura.org www.camaradecultura.org Diretora Regina Lima regina@camaradecultura.org

Diretora

Regina Lima

regina@camaradecultura.org

Editor

Hélio Carneiro

carneiro@camaradecultura.org

Subeditor

Henrique Cortez

henrique@camaradecultura.org

Projeto Gráfico

Lucia H. Carneiro

lucia@camaradecultura.org

Revisão

Vanise Macedo

Colaboraram nesta edição

Mason Inman Oded Grajew Charles Kenny Michael Donoghue Daphne Wysham Reinhold Stephanes Moises Velasquez-Manoff Gilberto Dupas Herve Kempf Rogério G. Teixeira da Cunha M. Nathaniel Mead Roberto Smeraldi UNEP/GRID-Arendal Henrique Cortez

Visite o portal EcoDebate [Cidadania & Meio Ambiente]

www.ecodebate.com.br

Uma ferramenta de incentivo ao conhecimento e à reflexão através de notícias, informações, artigos de opinião e artigos técnicos, sempre discutindo cidadania e meio ambiente, de forma transversal e analítica.

A Revista Cidadania & Meio Ambiente não se responsabiliza pelos conceitos e opiniões emitidos em matérias e artigos assinados. É proibida a reprodução dos artigos publicados nesta edição sem a devida solicitação por carta ou via e-mail aos respectivos autores.

Editado e impresso no Brasil.

Nº 18 – 2008

Capa: Foto Jeff Kubina

4

CO 2

é

para sempre

Nº 18 – 2008 Capa: Foto Jeff Kubina 4 CO 2 é para sempre As emissões

As emissões de CO 2 liberadas pelos combustíveis fósseis podem permanecer ativas na atmosfera por milênios, segundo novo modelo de simulação climatológico. Por Mason Inman

7

Enxofre no diesel: sentença de morte!

Acordo judicial para o não cumprimento da resolução 315, do CONAMA, que reduz a quantidade de enxofre no diesel, é um estímulo à impunidade. Por Oded Grajew

8

10

12

15

18

21

22

24

Água e corrupção: uma questão de ética pública

A

corrupção na administração da política pública da água afeta diretamente a sobrevivência

e

a sustentabilidade de milhões de indivíduos em todo o mundo. Por Charles Kenny

Mudar é mais fácil do que evoluir

A união dos estudos sobre a biodiversidade e a evolução nos corredores ecológicos permite

a compreensão dessa dinâmica na distribuição das espécies. Entrevista com Michael Donoghue

Lixo: os garimpeiros de Nova Déli

A instalação de um incinerador gerador de crédito de carbonopode acabar com o ganha-pão

dos catadores de lixo doméstico e de resíduos eletro-eletrônicos. Por Daphne Wysham

Cerrado: o futuro em cinzas

A tragédia das queimadas sem controle é um imenso desastre sócio-ambiental. Uma

agrosselvageria que legará às próximas gerações apenas cinzas. Por Henrique Cortez

A carne e a saúde do planeta

O crescente consumo de carne em escala global pode ter sérias conseqüências para a saúde do

planeta e da humanidade. Especialistas apresentam soluções. Por Moises Velasquez-Manoff

O desafio da Amazônia

A sustentabilidade da Amazônia exige a adoção de alternativas sustentáveis – e viáveis

economicamente – para o equilíbrio entre o homem e a natureza. Por Reinhold Stephanes

Como os ricos estão destruindo a Terra

A crise planetária se alimenta do modelo de gestão insustentável dos recursos naturais.

Descubra como é possível reinaugurar uma nova era de sustentabilidade. Por Herve Kempf

Débito de futuro : a crise definitiva

Ou freamos o consumismo desregrado, reduzimos o que achamos ser fundamental,

aumentamos a reciclagem, repensamos nosso estilo de vida e mudamos a nossa relação com

o meio ambiente ou só temos uma opção: a extinção! Por Rogério G. Teixeira da Cunha

26

Telefone celular e câncer: alerta vermelho!

Em estudo publicado na edição de maio de 2008 do International Journal of Oncology, pesquisadores suecos evidenciaram significativas associações entre o uso a longo prazo de celulares e o risco de desenvolvimento de tumores cerebrais. Por M. Nathaniel Mead

28

As lições de Santa Catarina

Independentemente de nossa capacidade em adotar medidas efetivas para mitigar a crise climática, os eventos naturais extremos intensificar-se-ão. Santa Catarina é a prova do desastre ambiental – e político – há muito anunciado. Por Roberto Smeraldi

30

Técnicas alimentares: saúde ou doença?

Consumimos alimentos contaminados por agrotóxicos e alterados pelo processamento. Será possível uma agricultura orgânica que gere mais saúde do que doenças? Por Gilberto Dupas

Mikecogh
Mikecogh
CO 2 é para sempre! AQUECIMENTO GLOBAL Foto: Stefan Gara
CO 2
é para sempre!
AQUECIMENTO GLOBAL
Foto: Stefan Gara

Climatologistas, liderados por David Archer alertam:

as emissões de dióxido de carbono – coadjuvante do aquecimento global – podem permanecer ativas na atmosfera por milênios. O modelo de simulação climatológico aplicado por Archer expande a discussão e quantifica os efeitos a longo prazo do CO 2 liberado pelos combustíveis fósseis.

D epois de o combustível fóssil aca- bar, por quanto tempo teremos o

aquecimento global? Embora essa ques- tão pareça simples, as respostas são com- plexas – e não completamente compreen- didas fora de um pequeno grupo de clima- tologistas. Quando os livros sobre mudan- ça de clima feitos para leigos – até mesmo os escritos por cientistas – mencionam o tempo de “vida” do CO 2 , a referência típica é um século ou mais, ou mais de cem anos.

“Isso é tolice completa”, diz Ken Caldeira, do Carnegie Institution for Science, de Stan- ford, na Califórnia. O relatório do Painel In-

por Mason Inman

tergovernamental sobre Mudança de Cli- ma (IPCC, em inglês) deu margem a muita confusão sobre o assunto e até o confun- diu, alega Caldeira e seus colaboradores, num estudo a ser publicado no Annual Re- views of Earth and Planetary Sciences 2 . Mas, agora, tanto Caldeira quanto outros climatologistas começam a divulgar que o CO 2 gerado pelo ser humano bem como o conseqüente aquecimento atmosférico, te- rão longa vida – a menos que tomemos medidas heróicas para arrancar o gás do ar.

O oceanógrafo David Archer, da Univer- sidade de Chicago, que realizou o estu-

do com Caldeira e outros, tem mais do que qualquer outro crédito para afirmar quanto tempo o CO 2 dos combustíveis fósseis durará na atmosfera. Ele diz, em seu novo livro, The Long Thaw:

“A vida útil do combustível fóssil CO 2 na atmosfera é de alguns séculos, mais 25 por cento que permanecerá para todo o sempre. Da próxima vez que você en- cher o tanque, reflita sobre isso” 3 . “Os impactos climáticos da liberação de combustível fóssil CO 2 na atmosfera serão mais duradouros que as cápsulas de tempo, os dejetos nucleares e todo o tempo de vida da civilização humana”, sentenciaArcher.

Os efeitos do dióxido de carbono na at- mosfera diminuem tão lentamente que, a menos que abandonemos nosso vício por combustível fóssil – parafraseando George W. Bush –, alteraremos os padrões regula- res de geada e de degelo da Terra, com mais de um milhão de anos. “Se a totalida- de das reservas de carvão forem usadas – diz Archer –, a glaciação poderá ser retar- dada por meio milhão de anos.”

RELATÓRIOS NEBULOSOS

“A longevidade do CO 2 na atmosfera é a parte menos conhecida da questão efeito estufa”, sentencia o paleoclimatologista Peter Fawcett, da Universidade do Novo México. “E não porque não esteja bem documentado no relatório do IPCC. O pro- blema é que isso está enterrado sob mui- tas outras informações.”

Pouco importa se os especialistas que re- digiram os antigos relatórios do Painel de Clima das Nações Unidas tenham feito declarações enganosas sobre a duração do CO 2 , afirma Caldeira e seus colabora- dores. O primeiro relatório de avaliação, de 1990, informava que a vida do CO 2 era de 50 a 200 anos. Os dos anos 1995 e 2001 revisaram o período para menos: de cin- co a 200 . Em virtude de os oceanos ab- sorverem enormes quantidades de gás por ano, a molécula de CO 2 passa, aproxi- madamente, cinco anos na atmosfera. Mas os oceanos também devolvem boa parte daquele CO 2 à atmosfera, de modo que as emissões provocadas pelo homem man- têm elevados os níveis do gás na atmos- fera durante milênios. E mesmo se os ní- veis de CO 2 caírem, estudos recentes evi9denciam que as temperaturas levarão muito tempo para também decrescer.

Os primeiros relatórios do painel incluí- ram salvaguardas, como “Não se pode es- tabelecer a vida útil do CO 2 devido às di- ferentes taxas de captação dos vários pro- cessos de remoção.” Porém, a mais recen- te avaliação do IPCC evita os problemas dos primeiros relatórios ao incluir salva- guardas que evitam oferecer estimativas numéricas de sobrevida para o dióxido de carbono. Richard Betts, do UK Met Offi- ce Hadley Centre e colaborador do estu- do, diz que o painel fez essa mudança ao reconhecer que “as estimativas de longa duração citadas nos relatórios prévios haviam sido potencialmente enganosas ou sujeitas a interpretações errôneas.”

– 1.600 Liberação de CO 2 – 1.400 – 1.200 – 1.000 Invasão oceânica -
1.600
Liberação de CO 2
1.400
1.200
1.000
Invasão oceânica - 300 anos
800
Reação com CaCO 2 - 5.000 anos
600
Reação com rochas ígneas - 400.000 anos
400
200
0
I
I
I
I
I
I
I
5.000
10.000
15.000
20.000
25.000
30.000
35.000
40.000
Ano d.C
Fig.1 – Modelo de simulação da concentração atmosférica de CO 2 para os
próximos 40 mil anos, após emissões do gás, em conseqüência da queima
de combustíveis fósseis. Diferentes frações do CO 2 liberado são recuperadas
em diversas escalas de tempo. Reproduzido de The Long Thaw 3-
CO 2 atmosférico (ppm)

Em vez de fixar um valor absoluto para a vida do CO 2 atmosférico, o relatório de 2007 descreve a dissipação gradual, com o pas- sar do tempo, ao afirmar: “Cerca de 50% do aumento de CO 2 serão removidos da atmos- fera em 30 anos, e um adicional de 30% será removido em alguns séculos. Os restantes 20% podem permanecer na atmosfera por milhares de anos.” No entanto, caso as emis- sões cumulativas fossem altas, os modelos sugerem que a porção remanescente na at- mosfera poderia ser mais alta. De modo glo- bal, afirma Caldeira, “a questão de nosso compromisso a longo prazo com a mudança de clima nunca foi realmente abordada ade- quadamente pelo IPCC.”

Os efeitos duradouros de CO 2 também re- presentam grandes implicações nas políti- cas energéticas, pondera James Hansen, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA. “Devido à longa vida do CO 2 , o problema climático não se reduz pela redução de emissões em 20%, 50% ou até mesmo 80%. Não importa muito o CO 2 emitido este ano, ano que vem ou a vários anos a partir de agora. Ao invés disso, te- mos que identificar a porção dos combus- tíveis fósseis que permanecerão nos solos ou capturados após a emissão e repostos no solo”, sentencia Hansen

ABSORÇÃO LENTA

Ao contrário dos outros gases de efeito es- tufa produzidos pelo homem, o CO 2 é dis- perso por uma variedade de diferentes pro- cessos; alguns rápidos, outros lentos. Daí

resulta a dificuldade de fixar-se um único dado numérico ou mesmo uma faixa de vida

para ele. Amaior parte do CO 2 que emitimos será sugada pelo oceano em algumas cente- nas de anos, sendo primeiramente absorvi- da pelas águas de superfície e, eventual- mente, pelas profundas, de acordo com um modelo climático de longo prazo estabeleci- do por Archer. Embora o oceano seja vasto, as águas de superfície só podem absorver certa quantidade de CO 2 . As correntes têm de bombear água fresca das profundezas até

a superfície antes que o oceano possa en-

golir mais dióxido de carbono. Então, em uma escala de tempo multimilenar, a maior parte do CO 2 remanescente fica aprisionado à me- dida que o gás dissolve-se no oceano e rea- ge com o calcário dos sedimentos do ocea- no. No entanto, esse processo nunca capta-

rá quantidade suficiente de CO 2 para devol-

ver ao planeta os níveis atmosféricos anteri- ores à industrialização, revela, em recente publicação 4 , o oceanógrafo Toby Tyrrell, do Centro de Oceanografia Nacional do Reino Unido, em Southampton.

Finalmente, o processo mais lento de todos é

o da fragmentação de rocha, no qual o CO 2

atmosférico reage com água para formar um

ácido fraco que dissolve as rochas. Acredita-

se que tal processo crie minerais, como o car-

bonato de magnésio, que seqüestra o gás de efeito estufa. Mas, segundo simulações rea- lizadas por Archer e outros, levaria centenas de milhares de anos para esses processos restaurarem os níveis de CO 2 aos valores pré-

industriais. (Fig. 1 - topo da pág.)

Cidadania&MeioAmbiente

Cidadania&MeioAmbiente

5

5

Embora diferentes em detalhes, várias mo- delagens de clima a longo prazo concordam com o fato de que o CO 2 antropogênico leva um tempo enormemente grande para se dis-

sipar. Se todos os combustíveis fósseis fos- sem queimados graças às tecnologias atu- ais, após 1.000 anos, o ar ainda conteria de um terço à metade das emissões de CO 2 .

“Parafinspráticos,500a1000anossãopara

sempre”, concluem Hansen e seus colabo- radores de pesquisa. Nesse lapso de tempo,

o planeta poderá assistir a ascensões e que-

das de civilizações, e as coberturas de gelo

da Groenlândia e da Antártica Ocidental po-

derão derreter substancialmente, elevando

o nível do mar o suficiente para transformar

a face do planeta.

Nova Iorque sob as águas

Foto: Jikamajoja

A queima contínua

de combustíveis fósseis poderá deixar uma herança de CO 2 que

durará milênios.

NOVO ESTADO DE ESTABILIDADE

modelo de clima 6 – a única discrepância

Em função de mudanças na órbita da Ter-

O

aquecimento gerado por nossas emissões

entre os dois refere-se à temperatura final

de CO 2 duraria efetivamente para sempre.

do planeta. Archer e Victor Brovkin, do Ins-

Um recente estudo, conduzido por Caldeira

tituto Potsdam para Pesquisa de Impacto

Damon Matthews, da Universidade de

Concórdia, em Montreal, revelou que não obstante o volume de combustível fóssil queimado, uma vez sustada a queima, em poucas décadas o planeta apresentará uma temperatura 5 mais alta. Como explica Caldei- ra, “a temperatura aumenta durante algumas décadas e permanece naquele patamar por pelo menos 500 anos” – prazo estipulado no modelo utilizado. “Não era o resultado que estava esperando”, diz ele.

e

Climático, naAlemanha, chegaram ao mes- mo resultado valendo-se de simulações 6 de longo prazo. Os modelos mostram que queiramos ou não emitir muito ou pouco CO 2 , as temperaturas subirão depressa e estabilizar-se-ão, baixando em apenas 1 o C num período de 12.000 anos.

ra, os mantos de gelo devem começar a aumentar nos pólos em poucos milhares de anos – não obstante a forte possibili-

O

resultado encontrado por Caldeira não

dade de que nossas emissões de gás es-

se

deve a alguma peculiaridade do modelo,

tufa consigam prevenir tal eventualidade,

que o mesmo comportamento é compro-

reflete Archer. Mesmo com o montante até

vado em um extremamente simplificado

hoje emitido, uma nova idade do gelo de-

verá iniciar-se por volta dos anos 50.000. Mas, se queimarmos todos os combustí- veis fósseis remanescentes, a Terra não conhecerá outra Idade do Gelo senão em meio milhão de anos, vaticina Archer.

Os efeitos, a longo prazo, de nossas emis- sões de CO 2 podem parecer remotos. Mas, como lembra Tyrrell, “Não deixam de ser assustadoras nossas preocupações com os resíduos radioativos produzidos pela atividade nuclear. Pois os impactos poten- ciais das emissões de CO 2 na atmosfera são ainda mais duradouros.”

Contudo, os efeitos indesejáveis de longo prazo ainda podem ser evitados se as novas tecnologias, em fase de projeto, encontrarem aplicação condizente. “Se a civilização foi capaz de desenvolver meios de seqüestrar CO 2 da atmosfera – diz Tyrrell –, é possível revertermos o efeito ressaca de CO 2 .

REFERÊNCIAS

Flannery, T. The Weather Makers: The History and Future Impact of Climate Change 162 (Atlantic Monthly Press, New York, 2005). Archer, D. et al. Ann. Rev. Earth Pl. Sc. (in the press). Archer, D. The Long Thaw: How Humans Are Changing the Next 100,000 Years of Earth’s Climate (Princeton Univ. Press, 2008). Tyrrell, T., Shepherd, J. G. & Castle, S. Tellus 59, 664–672 (2007). Matthews, H. D. & Caldeira, K. Geophys. Res. Lett. 35, L04705, doi:10.1029/2007GL032388 (2008). Archer, D. & Brovkin, V. Climatic Change 90, 283–297

(2008).

Mason Inman Escritor especializado em ciência. Artigo publicado online em Nature Reports Climate Change (20//1/2008) –

www.nature.com/climate/2008/0812/full/

climate.2008.122.html

AlterAlterAlterAlterAlteraçõesaçõesaçõesaçõesações prprprprprojetadasojetadasojetadasojetadasojetadas nonononono COCOCOCOCO 22222 eeeee nonononono Clima:Clima:Clima:Clima:Clima: rrrrresumoesumoesumoesumoesumo dosdosdosdosdos cenárioscenárioscenárioscenárioscenários sesesesesegundogundogundogundogundo ooooo IPCCIPCCIPCCIPCCIPCC (1992)(1992)(1992)(1992)(1992)

As

projeções das emissões de CO 2 , geradas pela sociedade huma-

na

a partir do uso de combustíveis fósseis, do desmatamento e da

produção de cimento, foram consideradas em alguns cenários do IPCC. O de maior emissão - IS92a - assume crescimento demo- gráfico moderado, alto crescimento econômico, farta disponibili- dade de combustível fóssil e uma fase sem energia nuclear. E o de menor emissão - IS92b - assume baixos crescimentos demográ- fico e econômico, além de graves entraves no fornecimento de combustíveis fósseis.

A compreensão de como as concentrações de CO 2 na atmosfera

sofrerão futuras alterações exige modelos de ciclo de carbono que simulem a relação entre as emissões e as concentrações atmos- féricas. A concentração estimada de CO 2 na atmosfera para cada cenário de emissão (calculada pelo modelo Bern) é apresentada no segundo gráfico. Ambos os cenários apontam, em 2100, um aumento das concentrações muito acima dos níveis pré-industri- ais (75 a 220% maiores).

As alterações climáticas induzidas não podem ser revertidas rapidamente. Mesmo se as emissões de CO 2 por ação humana forem estabilizadas ou reduzidas, o conteúdo de dióxido de carbono na atmosfera ainda aumentará por algum tempo.

Taxa de emissão (bilhão de toneladas de CO 2 por ano) Concentração de CO 2
Taxa de emissão (bilhão de toneladas de CO 2 por ano)
Concentração de CO 2 em ppmv (partes por milhão por volume)
Cenários de emissão de CO 2
Concentração de níveis de CO 2 resultantes
O dobro do nível pré-industrial

Fonte: Climate changes 1955, The Science of climate change, contribution of working group 1 to the second assessment report of the intergovernmental panel on climate change, UNEP and WMO, Cambridge press university, 199; Hadley center for climate prediction and research, United Kingdom, in Climate change information kit, Information unit for convenition (IUC), UNEP, Geneva, 1997.

IS92a - Cenário assume uma popula- ção mundial de 11.3 bilhões em 2100; crescimento econômico de 2,3-2,9% ao ano; e nenhuma ação para redu- zir as emissões de CO 2 2

IS92b - Cenário com população e cres- cimento econômico igual ao do IS92a, mas com o compromisso de muitos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Eco- nômico) em estabilizarem ou reduzi- rem as emissões de CO 2 2

S550 - Cenário ilustrativo de padrão de emissões visando estabilizar o CO 2 em aproximadamente o dobro de seu nível pré-industrial de emissões visando estabilizar o CO 2 em aproximadamente o dobro de seu nível pré-industrial logo após 2100.

de emissões visando estabilizar o CO 2 em aproximadamente o dobro de seu nível pré-industrial logo

-VISTAEDPONTO-

Foto: Paulo Fehlauer
Foto: Paulo Fehlauer

Enxofre no diesel:

sentença de morte!

O acordo judicial que adiou a resolução do Conama é um estímulo à impunidade. A sociedade brasileira deve cobrar explicações.

por Oded Grajew

E m outubro de 2002, o Conama (Con- selho Nacional do Meio Ambiente) emitiu a resolução 315, determinan-

do que, a partir de janeiro de 2009, a quanti-

dade de enxofre no diesel baixe de 2.000 ppm

– quando vendido nas áreas não-urbanas

(70% do total) – e de 500 ppm – vendido nas

áreas metropolitanas – para 50 ppm. Nos EUA, por exemplo, essa proporção é de 15 ppm; na Europa, de 10 ppm; e, em alguns países da América Latina, já é de 50 ppm.

O Conama determinou também que a in-

dústria automobilística passe a comerci-

alizar, a partir da mesma data, motores me- nos poluidores (Euro 4). A resolução deve-

se ao terrível impacto que as partículas de

enxofre têm sobre a saúde pública, sendo responsáveis por graves doenças pulmo- nares e pela morte prematura (sobretudo de crianças e idosos) de cerca de 3.000 pessoas por ano na cidade de São Paulo e

de 10 mil nas principais regiões metropoli-

tanas do país.

Embora tivessem quase sete anos para se prepararem, a Petrobras e a Anfavea (re- presentando a indústria automobilística) declararam que não irão cumprir a resolu-

ção, apesar de a Petrobras possuir imen- sos recursos financeiros e tecnológicos e

as indústrias automobilísticas fabricarem os motores da geração Euro 4 nos seus países de origem e mesmo no Brasil (só que apenas para exportação).

Ao assumir o Ministério do Meio Ambi-

ente, Carlos Minc declarou, publicamen- te, ser inadmissível o descumprimento da resolução. Pouco a pouco, atemorizando-

se diante de pressões econômicas e polí-

ticas, mudou de atitude e, em vez de con- tinuar exigindo o cumprimento, enviou o caso para o Ministério Público.

A promotora Ana Cristina Bandeira Lins,

encarregada de conduzir o processo, ado-

tou inicialmente, em declarações e entre- vistas, uma atitude firme pelo cumprimen- to integral da resolução. Pouco a pouco

se recolheu, passou a não atender a mídia

e afastou qualquer contato com a socie- dade civil, negociando basicamente com a Petrobras, com a Anfavea e com Minc.

Diante da mobilização e pressão de várias organizações sociais que tentavam evitar um péssimo acordo, o Ministro Carlos Minc comprometeu-se a promover uma au- diência pública com a sociedade civil an- tes da assinatura de qualquer acordo ju- dicial. Mas não cumpriu a promessa.

A promotora Ana Cristina aceitou pratica-

mente todas as propostas da Petrobras e da Anfavea (por exemplo, só em 2014 o diesel 2.000 ppm será substituído total- mente pelo diesel 500 ppm – o mesmo que

hoje já circula nas regiões metropolitanas)

e impôs compensações pífias (doação de

um laboratório e campanha educativa para regulagem de motores).

Todos os leitores deste artigo e suas famí- lias, especialmente se estiverem morando em algum centro urbano, terão a saúde afe- tada por essa decisão. Desse episódio, fi- cam uma pergunta e algumas conclusões:

Quem pagará pelas graves doenças pul- monares e pelas mortes resultantes do des- cumprimento da resolução 315 do Cona- ma? A Faculdade de Medicina da USP esti- ma em U$ 400 milhões por ano o custo para o SUS apenas na cidade de São Paulo. Descumprir a legislação ainda compen- sa, no Brasil, para quem tem poder polí- tico e econômico. A promotora Ana Cristina B. Lins, ao aceitar um acordo tão lesivo à saúde pú-

blica, ao cobrar um preço baixíssimo pelo desrespeito à legislação e ao recusar qual- quer diálogo com a sociedade civil, arra- nhou a imagem do Ministério Público, ins- tituição tão importante à democracia e a defesa dos direitos humanos no Brasil. Há ainda empresas que confundem res- ponsabilidade social com marketing, patro- cínios e ações filantrópicas; e não enten- dem que a ética deve se estender a todas as atividades produtivas e, de forma igual, a todos os países em que atuam. O Ministro da Saúde, José Gomes Tem- porão, não deveria aceitar passivamen- te pagar a conta em doenças, vidas e recursos, mas exigir o cumprimento in- tegral da resolução. O Ministro Minc, por descumprir a pala- vra e por se mostrar tão vulnerável a pres- sões econômicas e políticas, perde impor- tante patrimônio para um servidor públi- co: a credibilidade, a confiança e o respei- to da sociedade. Não se confundem ações pirotécnicas e performances midiáticas com real compromisso com o meio ambi- ente, com a saúde pública e com a ética.

O acordo judicial foi, na realidade, uma sentença de morte para milhares de brasi- leiros e um estímulo à impunidade. A soci- edade brasileira deve cobrar explicações e responsabilidade de quem patrocinou, participou, assinou e compactuou com essa lamentável decisão.

Oded Grajew – Empresário, integrante do Movimento Nossa São Paulo e presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. É idealizador do Fórum Social Mundial e idealizador e ex-presidente da Fundação Abrinq. Foi assessor especial do Presidente da Repúbli- ca (2003). Artigo transcrito de Tendências/De- bates, Folha de S. Paulo, 13/11/2008 e publica- do em www.ecodebate.com.br - em 14/11/2008

ÁGUA e CORRUPÇÃO uma questão de ética pública SEGURANÇA HÍDRICA Foto: Water for People
ÁGUA e CORRUPÇÃO
uma questão de ética pública
SEGURANÇA HÍDRICA
Foto: Water for People

por Charles Kenny

Recurso sem substituto, a água é vital à saúde, à segurança alimentar, ao futuro energético e ao ecossistema. Mas a corrupção que corrói a administração desse recurso afeta diretamente a sobrevivência e a sustentabilidade de milhões de indivíduos, como revela este artigo extraído do Global Corruption Report 2008, Part one:

Corruption in the water sector, publicado pela Transparency International (TI).

T odo o mundo precisa de água para viver. Mesmo assim, muitas casas, nos países em desenvolvimento,

não têm acesso à água encanada – quer por estarem fora de alcance da rede de distribui- ção, quer pelo colapso do sistema. A solu- ção é construir e manter os sistemas de dis- tribuição de água. No entanto, até mesmo quando os não-fáceis fundos de custeio de tais obras tornam-se disponíveis, a corrup- ção cobra sua parte e distorce as decisões sobre a aplicação dos recursos, desperdiça- os e, ao cabo de tudo, ceifa vidas.

Uma pesquisa da corrupção no fornecimen- to de água no Sul da Ásia sugere que os contratantes, freqüentemente, pagam su- bornos para abocanharem contratos, além da corrupção miúda que acontece nos pon- tos de entrega do serviço. O estudo, reali- zado entre 2001-2002, mostra que o custo da corrupção para as empresas e para o setor representa um fardo considerável,

com perda de enormes recursos quando a conta final é tabulada. Os subornos vari- am, em média, de um a seis por cento dos valores de contrato. Propinas pagas du- rante a construção oneram os custos em mais 11% do valor do contrato.

A formação de cartéis sancionados agra-

va o problema dos custos inflados, já que eles elevam os preços 15 a 20% a mais do que o praticado pelo mercado. Piora o quadro o fato de tais pagamentos impedi- rem as empresas de cumprirem as obriga- ções contratuais. As propinas tendem a mascarar um serviço de baixa qualidade e

a não entregar os produtos com as carac- terísticas contratadas.

O material não-fornecido é estimado em

três a cinco por cento do valor do contra- to. 2 O custo econômico de cada dólar em material não-fornecido deve ser re-estima- do em três a quatro dólares, pois implica na redução da vida útil e na capacidade de fornecimento da rede de distribuição. Esses custos somam outros 20% sobre os de contrato já inflacionados. Esse du- plo impacto da corrupção sobre a cons- trução de redes de água pode elevar o custo do acesso à água em 25 a 45%.

E quais são os custos econômico-sociais

dessa corrupção? A análise de dados de uma pesquisa em domicílios de 43 países em desenvolvimento sugere forte correla- ção entre o acesso à água e a mortalidade infantil. Para cada ponto percentual adici- onal de acesso doméstico, verifica-se uma redução na taxa de mortalidade infantil abaixo dos cinco anos: um declínio de uma morte para cada dois mil nascimentos. 3

Pesquisas comparativas entre países reve- lam que o custo da instalação de água do-

méstica situa-se em redor de US$400. 4 Le- vando em consideração o custo final da corrupção no aprovisionamento de água, aquela estimativa aumenta em 45%, che- gando a US$580. Como demonstra o exem- plo, o fracasso no combate à corrupção resulta em menos domicílios conectados à rede de distribuição de água, em pouco avanço na redução da mortalidade infantil

e em maiores desafios para se alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milênio re- lacionadas à água, saúde e pobreza.

Se considerarmos a estimativa do custo de conexão em US$400 por domicílio, o

Os subornos pagos pelas empreiteiras variam em média de um a seis por cento do valor contratual. E as propinas adicionais pagas durante a construção oneram os custos em mais 11%.

investimento de US$1 milhão em projetos de água encanada realizado em países com carência de tais instalações benefici- aria 2.500 famílias e salvaria 19 crianças por ano. 5 O acesso à água traria outros impactos positivos na saúde doméstica, na educação, no resgate da condição fe- minina e na pobreza. E os custos impos- tos pela corrupção, em 20 anos, signifi- cam que, o mesmo investimento de US$1 milhão, quase 30 % menos de domicílios teriam acesso à água, menos 113 crianças sobreviveriam, e todos os benefícios rela- cionados ao serviço ficariam definitiva- mente comprometidos.

Recente estimativa na determinação dos custos de investimento, baseados em ten- dências passadas, indica que países com baixo PIB teriam que investir US$29 bi- lhões em projetos de água para enfrenta- rem a demanda dos usuários na década que termina em 2010. 6 Os impactos de cor- rupção inevitavelmente criariam perda de recursos, arruinando a efetividade de tal investimento. Assumindo um contexto de baixa corrupção, a cada ano a taxa de mor- talidade infantil recuaria em 540.000 víti- mas, graças ao investimento em projetos de acesso à água realizados numa déca- da. Um ambiente de alta corrupção salva- ria, ao menos, 30 % de vidas.

Essa é apenas uma estimativa parcial. Como sinalizado, os impactos da corrup- ção no acesso doméstico à água vão mui-

to além do aumento da mortalidade infan- til. A falta de acesso à água implica tam- bém em doenças e mortalidade de crian- ças mais velhas, bem como de adultos. Menos água e mais doença representam perdas de dias na escola e no trabalho. As conseqüências do acesso reduzido à água deixam marcas duradouras na escolarida- de e na geração de renda domiciliar.

Para cuidar dos doentes, outros membros da família são obrigados a se afastarem das ativi- dades economicamente produtivas. Quando

o domicílio não é servido por água encanada,

muito mais tempo é gasto na coleta do líquido em pontos distantes. E, como tal tarefa é fre- qüentemente delegada às mulheres e às cri-

anças, as famílias são forçadas a se dividirem entre a educação e outras atividades. 7 Siste- mas de governo fracos e altos níveis de corrupçãocombinam- se em diferentes com- posições para afetarem os lares e arruinarem

o sustento das famílias. De qualquer modo, o

impacto mais surpreendente vem a ser o cus- to em termos de vida e de morte.

REFERÊNCIAS

1. As opiniões expressas neste artigo são do autor e não

refletem necessariamente as do Banco Mundial, de seus diretores executivos ou dos países que eles representam.

2. J. Davis, ‘Corruption in Public Service Delivery: Expe-

rience from South Asia’s Water and Sanitation Sector’, World Development, vol. 32, no. 1 (2004).

3. D. Leipziger et al., ‘Achieving the Millennium Develo-

pment Goals: The Role of Infrastructure’, Policy Research Working Paper no. 3163 (Washington, DC: World Bank, 2003). It is worth noting that this estimate is open to dispu- te: see M. Ravallion, ‘Achieving Child-Health-Related Mi- llennium Development Goals: The Role of Infrastructure – A Comment’, World Development, vol. 35, no. 5 (2007).

4. M. Fay and T. Yepes, ‘Investing in Infrastructure: What

is Needed from 2000 to 2010’, Policy Research Working

Paper no. 3102 (Washington, DC: World Bank, 2003).

5. Com base em domicílio médio de cinco pessoas e uma taxa

de natalidade bruta de 30 por 1.000 pessoas (a média nos países de baixa renda). As estimativas exatas são 18,75 e 12,93 mortes evitadas, respectivamente. Cálculo para o caso

de baixo custo: cada US$1 milhão investido conecta 2.500 (US$1.000.000/US$400) de lares com 12.500 indivíduos (2.500_ 5). Estes lares dão à luz 375 crianças a cada ano (0,03_ 12.500). Para estas casas, a cobertura aumentou 0 a 100 por cento, resultando em menos 100 crianças mortas por 2.000 nascimentos. Isso sugere que cada US$1 milhão possa salvar em média 18,75 crianças por ano (375_100/2000).

6. M. Fay e T. Yepes, 2003. As estimativas de custo são para

o período 2000 a 2010 e te por objetivo o aumento e a manu- tenção das redes de infra-estrutura de água. Não se baseia na infra-estrutura exigida para atingir-se os objetos estabeleci-

dos nas Metas de Desenvolvimento d Milênio, da ONU.

7. Veja artigo que começa à página 40.

Charles Kenny é economista sênior do Banco Mundial, emWashington, DC. O texto, com tra- dução da editoria de C&MA, foi extraído do Glo- bal Corruption Report 2008, Part one: Corrup- tion in the water sector, pp. 15-16. Dividido em 10 capítulos, o relatório de 346 pp. pode ser bai- xado em formato PDF de www.transparency.org/ publications/gcr/download_gcr#1 Primeiro rela- tório do gênero, ele identifica todas as questões relacionadasàágua.

CORREDOR ECOLÓGICO BIODIVERSIDADE
CORREDOR ECOLÓGICO
BIODIVERSIDADE

O plantio em mosaico,

técnica de manejo florestal sustentável,

com talhões menores entremeados por vegetação nativa, forma corredores ecológicos interligando as reservas natiurais

para a livre circulação

da fauna e flora.

Nas duas imagens, área florestal e de preservação da Mata Atlântica em Mucuri, Bahia.

Fotos: Ricardo Teles/ Suzano Papel e Celulose.

MUDAR É MAIS FÁCIL DO QUE EVOLUIR

Segundo Michael Donoghue, Professor de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade Yale, os corredores ecológicos são fundamentais para determinar a distribuição das espécies.

E m suas pesquisas, o Prof. Michael Donoghue procura entender por

que existem mais espécies em certas áreas do planeta e quais são os

fatores ecológicos e evolutivos que explicam os padrões de distri-

buição dos organismos. Seus estudos indicam que, ao ocorrer uma mudan- ça climática em determinado ambiente, a evolução pode se encarregar da adaptação das espécies locais. Mas é mais provável, de acordo com ele, que a área vá receber novas espécies, já adaptadas ao novo clima em outros locais – contanto que existam corredores que permitam essa migração. O problema, em seu parecer, é que a ação humana causou uma fragmentação da paisagem sem precedentes, dificultando a comparação com períodos de mudanças climáticas anteriores. Essa dificuldade, aliada à escassez de da- dos biológicos, torna as previsões extremamente difíceis. Em visita ao Bra- sil para participar do simpósio “Biologia evolutiva e conservação da biodi- versidade: aspectos científicos e sociais”, na sede da FAPESP (Fundação de Amparo ao Desenvolvimento da Pesquisa), em São Paulo, Donoghue con- cedeu esta entrevista àAgência FAPESP.

AGÊNCIA FAPESP – UM DOS FOCOS DE SEU TRABALHO É COMPREENDER POR QUE EXISTEM MAIS ESPÉCIES EM ALGUMAS ÁREAS DO PLANETA DO QUE EM OUTRAS. POR QUE É TÃO DIFÍCIL ENTENDER ESSA DISTRIBUIÇÃO?

Michael Donoghue – Há muitos anos estudamos a biodiversidade, mas ainda temos poucos elementos para responder a perguntas como essa. Por exemplo, não sabemos quantas espécies existem na Terra. Na realidade, não temos a menor idéia. Há 1,8 milhão de espécies descritas, mas estima-se que existam mais de 10 milhões ainda desconhecidas. Não conhecemos, prova- velmente, mais que 10% ou 20% do total das espécies na Terra.

FAPESP – TAMBÉM NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DAS ESPÉCIES CONHECIDAS?

M.D. – Sabemos muito pouco sobre isso. Se eu apontar para um animal específico e perguntar onde aquela espécie está distribuída na Terra, a resposta mais freqüente será “Não se sabe”. Não temos um inventário integrado que dê uma boa noção de onde os organismos vivem. Isso é especialmente verdadeiro para microrganismos. Temos realmente muito pouca noção de quantas espécies de microrganismos existem e onde elas estão distribuídas. Tentamos responder a essas questões muito amplas e temos que lidar com muitas lacunas de informação. Há muita informação básica que simplesmente não temos.

FAPESP – POR QUE SERIA IMPORTANTE RESPONDER A ESSE TIPO DE QUESTÃO?

M.D. – Se pudermos determinar com mais precisão o número de espé- cies e onde elas vivem, talvez possamos ter melhores respostas sobre as mudanças que elas sofrerão no futuro. Esse tipo de informação nos colo- cará em posição para fazer previsões sobre o futuro da biodiversidade.

FAPESP – QUE TIPO DE PESQUISA PRECISA SER FEITA PARA COMPREENDER POR QUE HÁ MAIS ESPÉCIES EM DETERMINADOS LUGARES DO PLANETA?

M.D. – Para explicar os padrões de biodiversidade é preciso conectar diver- sas áreas do conhecimento, unindo especialmente a biologia evolutiva e a ecologia. Precisaremos conhecer o máximo que pudermos sobre a ecologia desses organismos, mas também sobre sua história evolutiva, em que lugares suas linhagens tiveram origem e por quanto tempo ocuparam determinada área. Para construir essa biogeografia histórica, temos que unir muitos méto-

dos diferentes – moleculares e ecológicos – que precisam ser integrados.A combinação dessas informações provavelmente dará as melhores respostas.

FAPESP – ESSA COMBINAÇÃO NUNCA FOI FEITA?

M.D. – Até agora, ao observar-se a biodiversidade, os padrões de distri- buição e a razão de haver mais espécies nos trópicos, a ênfase tem sido principalmente focada nas características ecológicas. O que estamos ten- tando fazer é trazer essas informações para a história evolutiva. Acredito que isso possa fornecer um quadro mais refinado.

FAPESP – ALÉM DO INEGÁVEL AVANÇO CIENTÍFICO, ESSA COMBINAÇÃO DE CONHECIMENTOS TERIA IMPLICAÇÕES IMPORTANTES PARA A APLICAÇÃO?

M.D. – Imensas implicações, porque neste momento, estamos enfren- tando vários desafios ambientais. Temos a destruição dos habitats, o desmatamento, as espécies invasoras de diferentes áreas e as mudanças climáticas globais. Tudo repercute na biodiversidade e sua distribuição. Gostaríamos de fazer previsões sobre o que acontecerá com a biodiver- sidade onde houver mudanças climáticas. Os organismos vão apenas se mudar, outras espécies vão se extinguir, outras vão se originar? É o tipo de questão que teremos que responder.

FAPESP – O CONHECIMENTO SOBRE PERÍODOS ANTERIORES DE MU- DANÇAS CLIMÁTICAS TAMBÉM PODE CONTRIBUIR PARA TORNAR ESSAS PRE- VISÕES MAIS PRECISAS?

M.D. – É claro que no passado houve vários episódios de mudança climática e, portanto, esse conhecimento nos dará condições de começar a ter alguma idéia sobre as conseqüências que podem ocorrer. Mas a tarefa de fazer previsões atualmente é mais difícil do que nunca, porque estamos em um momento crítico. O ser humano construiu cidades e expandiu a agricul- tura, fragmentando a paisagem num nível inédito. Isso dificulta qualquer analogia com o que ocorreu anteriormente. Mesmo melhorando o conheci- mento do passado, será mais difícil projetá-lo.

FAPESP – SEUS ESTUDOS INDICAM QUE É MAIS FÁCIL PARA AS ESPÉCIES MUDAR DE LUGAR DO QUE EVOLUIR. PODERIA EXPLICAR ESSA IDÉIA?

M.D. – Se isolarmos uma montanha, fechando suas bases, as espécies que vivem na parte baixa podem evoluir e criar habilidades para viverem no topo. Essa seria uma maneira de se ter novas espécies no topo da montanha: elas fariam adaptações. Isso certamente ocorre. Mas, com freqüência, o que acontece é que os organismos já estão adaptados a viverem em um clima semelhante, mas desenvolveram essas adaptações em algum outro lugar. E aí eles simplesmente se mudam e tomam posse da nova montanha, antes que os organismos tenham chance de ir para cima. Os estudos mostram que é mais fácil mudar para uma área que desenvolver adaptações.

FAPESP – POR QUE ESSES ORGANISMOS MUDAM DE AMBIENTE?

M.D. – Algumas das mudanças são apenas por acaso, circunstanciais. Mas na maior parte das vezes trata-se de mudança climática. Os climas estão mudando e há novos ambientes ficando disponíveis. Quando surge uma nova montanha, também temos um novo ambiente. E se os organis- mos tiverem um corredor disponível – uma passagem para alcançarem esse novo ambiente –, eles se mudam e assumem o local. A questão, então, é: qual o equilíbrio entre as mudanças e as adaptações dos organis- mos? Isso também é crítico para se fazer previsões. Quando o clima muda, ocorre uma rápida evolução para se adaptar ao novo clima, ou simplesmente se verifica um remanejamento de organismos para outras áreas? Penso que não ocorre uma evolução rápida. Em vez disso, os organismos se mudam. Mas para isso é preciso haver um corredor. E nesse momento os humanos estão tornando essa exigência difícil porque estamos fragmentando a paisagem natural.

porque estamos fragmentando a paisagem natural. ■ Michael Donoghue – Professor do Depto. de Eco- logia

Michael Donoghue Professor do Depto. de Eco- logia e Biologia Evolucionária da Universidade Yale e diretor do Museu Peabody, fundado em 1866, um dos mais antigos museus de história natural no mundo. Email: michael.donoghue@yale.edu Entrevista realizada por Fábio de Castro, da Agência FAPESP e publicada no www.ecodebate.com.br (14/

11/2008).

DESENVOLVIMENTO E SUSTENTABILIDADE

■ Quando uma empresa adota um mo- delo de gestão empresarial que consi- dera a

Quando uma empresa adota um mo- delo de gestão empresarial que consi- dera a sustentabilidade em suas três di- mensões – social, econômico-financei- ra e social –, as agressões ao meio am- biente são minimizadas, e até anuladas via recuperação de áreas degradadas.

ano. Esse conceito aplica-se à colheita, reduzindo, assim, os impactos ambiental e visual. Além disso, a técnica de cultivo mínimo mantém o resíduo da colheita (folhas, cascas e galhos) no terreno para agregar nutrientes ao solo, protegê-lo da erosão e preservar a umidade.

As técnicas de manejo integrado pro- tegem o solo contra a erosão, evitam o assoreamento dos cursos d’água, preservam os mananciais via manejo integrado das microbacias e preser- vam a biodiversidade local.

É o caso, por exemplo, do método de gestão de manejo florestal implan- tado pela corporação Suzano Papel e Celulose. Suas áreas florestais planta- das em São Paulo, no sul da Bahia, no norte do Espírito Santo e no nordeste de Minas Gerais e Maranhão somam 513 mil hectares de florestas, dos quais 231 mil estão destinados ao plantio de eucalipto e 195 mil hecta- res constituem áreas de preservação de mata nativa, o equivalente a cerca de 40% da área total.

O sistema de plantio em mosaico demonstra que o problema não está no plantio do eucalipto em si mesmo. Ele reside na monocultura inten- siva predatória em vastas áreas, fato que compromete a diversidade biológica e cria os conhecidos desertos verdes. Tais monoculturas só têm um objetivo: o máximo lucro possível.

só têm um objetivo: o máximo lucro possível. ■ Uma das técnicas de manejo sustentável adotada

Uma das técnicas de manejo sustentável adotada pela corporação é o plantio em mosaico, com talhões menores, entremeados por vegetação nativa, formando corredores ecológicos para que a fauna e a flora possam circular livremente. Como o eucalipto é colhido aos sete anos, as áreas de plantio são divididas em sete setores e plantadas de forma rotativa, uma por

Para obter mais informações sobre esse modelo de gestão ambiental e social que reduz os impactos sobre o meio ambiente visite o site www.suzano.com.br

ECOLOGIA HUMANA

LIXO

os “garimpeiros” de Nova Deli

1
1
1 23 4 5 1 Sem-teto catador de lixo - Foto: Raaf . 2 Catador de

23

1 23 4 5 1 Sem-teto catador de lixo - Foto: Raaf . 2 Catador de
4
4
5
5

1 Sem-teto catador de lixo - Foto: Raaf . 2 Catador de lixo “flutuante” - Foto: Koshyk . 3 Vacas comendo lixo - Foto: Yonajon . 4 Crianças extraindo cobre de peças de computador, em Nova Deli - Foto: Greenpeace/Hatvalne . 5 Homem descansa em seu quarto atulhado de dejetos eletrônicos para reciclagem - Foto: Greenpeace/Hatvalne . Na página ao lado, homem “garimpando” lixo - Foto: Mattlogelin

POR DÉCADAS, OS RECICLADORES DE NOVA DELI TRANSFORMARAM LIXO

EM SOBREVIVÊNCIA. AGORA, A INSTALAÇÃO DE UM INCINERADOR GERADOR DE CRÉDITO DE CARBONO PODE ACABAR COM A FONTE DE RENDA DESSES DESERDADOS

SOCIAIS, QUE TIRAM SEU PARCO SUSTENTO DOS RESTOS DO CONSUMO INTERNO,

OU DOS RESÍDUOS ELETRO-ELETRÔNICOS EXPORTADOS PELOS PAÍSES RICOS LEGALMENTE OU NÃO PARA RECICLAGEMNA ÍNDIA.

oor Daphne Wysham

O s catadores de lixo (reciclado- res) da Índia – em sua maior parte mulheres e crianças – juntam-se às vacas e a outros

animais menos sagrados que, diariamen- te, vasculham os dejetos acumulados pe- las ruas e vazadouros de lixo. Há décadas,

são eles que reciclam os rejeitos descarta- dos, antes mesmo de a moda de recicla- gem ter sido adotada pelo Ocidente. E em Nova Deli, metrópole de 13 milhões de ha- bitantes, os catadores de lixo chegam a dezenas de milhares. Para esses morado- res de favela, a reciclagem de plástico, papel e metal – ou qualquer coisa que pos-

sa ser convertida em dinheiro – vem a ser

a única fonte de renda.

Bharati Chaturvedi, diretor e co-fundador da Chintan, uma pequena ONG que provê educação aos catadores de lixo, relata que mais de um por cento da população de Deli vive do lixo, reciclando até 59% dos dejetos da cidade. “Estes catadores de lixo executam um serviço público gratuitamen- te”, informa Bharati.

Mas essa situação pode logo mudar. Um novo incinerador que converte o lixo em eletricidade deverá ser instalado em Timarpur, um subúrbio de Deli. Como o projeto reduzirá a quantidade de gás me- tano produzido pelos aterros sanitários, ele vai gerar créditos de carbono, como preconizado pelo Protocolo de Kyoto. No entanto, o incinerador também emitirá substâncias causadoras de câncer como dioxina, mercúrio, metais pesados e cinza em suspensão. Serão nesse caso os cré- ditos de carbono disponibilizados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto válidos quando dizimam a fonte de subsistência de milhares de catadores de lixo?

O MDL de Kyoto foi originalmente cria-

do para financiar projetos de energia lim- pa nos países em desenvolvimento. Sob

a bandeira do MDL, os créditos de car-

bono gerados em países pobres podem ser vendidos aos ricos, possibilitando que estes últimos descontem de suas emissões domésticas de CO 2 as reduções de emissões bancadas pelos países po- bres. Entretanto, o MDL está se conver- tendo rapidamente em salvo-conduto de emissão para algumas das indústrias mais poluentes do planeta – como as gerado- ras de eletricidade alimentadas a carvão e

como as gerado- ras de eletricidade alimentadas a carvão e “ Mais de um por cento

Mais de um por cento da população

de Deli vive do lixo, reciclando até 59% dos dejetos da

cidade.

as aciarias –, e enriquecendo com o es- quema muitos intermediários, inclusive o Banco Mundial que, ao negociar os cré- ditos recebem 13% de comissão sobre to- das as corretagens que intermedeia.

Primeiro de uma série de incineradores a se- rem implantados no planeta para beneficiar- se do florescente mercado global de carbo- no, a unidade de Timarpur sequer leva em consideração a indústria de reciclagem in- formal e eficiente da Índia, país hostil aos incineradores. “No passado, havíamos con- seguido sustar uma meia dúzia desses pro- jetos duvidosos”, informa Gopal Krishna, pesquisador em saúde pública da Jawahar- lal Nehru Universidade, em Nova Deli. “Mas, neste momento, sob o álibi dos créditos de carbono, ações fraudulentas estão sendo cometidas na maior impunidade”.

No caso de Timarpur, usam-se os seguin- tes argumentos: (a) os incineradores ge- rarão energia a partir do lixo; (b) o lixo usa- do como combustível reduz o uso de com-

bustível fóssil; (c) desse modo, todas as emissões de CO 2 que teriam sido geradas pelo uso de combustível fóssil podem rei- vindicar créditos de carbono.

Para tornar o projeto ainda mais lucrativo,

as empresas instaladoras dos incinerado-

res podem alegar que estão capturando e queimando o metano que seria liberado do lixo em processo de degradação. E como este é um gás de efeito estufa 24 vezes mais potente do que o CO 2 – conti- nua o raciocínio –, sua queima no incine- rador evita a liberação de toneladas do potente metano, liberando apenas CO 2 , seu primo mais fraco.

A primeira proposta de construção de um

incinerador de lixo, em Nova Deli, nos pri- mórdios dos anos 90, morreu sem dizer ao que vinha. A razão dessa morte silenciosa:

“o lixo de Nova Deli não contem suficiente material combustível”, informa NeilTangri,

da Global Alliance for Incinerator Alternati-

ves. “O lixo também é úmido e contém muita cinza, areia e materiais inertes não combus- tíveis”. Em outras palavras, o lixo não con- tém muito plástico e papel graças, em gran- de parte, aos diligentes catadores de lixo, que os enviam à reciclagem.

Um estudo produzido em 1997 pelo Minis- tério de Ambiente e de Florestas da Índia concluiu ser a incineração na região de Nova Deli “não viável”, e que a via preferencial para o tratamento do lixo é a compostagem.

Tais projetos são um eco distante do de- senvolvimento limpo que o CDM preten- dia subsidiar. No entanto, há ainda outro motivo de preocupação: como descartar a cinza produzida pela incineração do lixo? “Viajei por toda a Índia”, informa Patricia Costner, conselheira científica da Global Alliance for Incinerator Alternatives (GAIA) e da International POPS Eliminati- on Network. “Sei o que acontece com a cinza do incinerador: a maior parte termi- na na margem das estradas. Não há ater- ros sanitários estruturados na Índia. A maioria dos países exige que os resíduos de cinza sejam tratados com muito cuida- do, fato impossível na Índia por carência de infra-estrutura.”

O tratamento impróprio dos resíduos do

incinerador coloca um novo problema para

os residentes mais pobres de Nova Deli.

“Quando é negado aos catadores o aces-

Cidadania&MeioAmbiente

Cidadania&MeioAmbiente

13

13

so ao fluxo de lixo, eles passam a vascu- lhar a cinza em busca de metal, a única substância que sobrevive intacta à inci- neração”, esclarece Neil Tangri, diretora de campanha para resíduos e mudança de clima da GAIA. “Eu já vi pessoas enterra- das até o joelho nas cinzas de incinerador à procura de restos de metal. O organis- mo humano passa a ser um absorvente tóxico. É como servir de colher, a cada catador, uma dose de elementos tóxicos”.

Segundo Tangri, os catadores de lixo es- tão sendo molestados e impedidos de acessar itens secos e altamente calóricos que o incinerador devora. “A instalação desse incinerador nega o sustento aos mais pobres dos pobres”, afirma Chaturvedi. “É crime negar-se esse último recurso de sobrevivência aos miseráveis. Especialmente nesse momento em que os preços dos alimentos estão em escalada crescente. O que farão essas pessoas? A

PARA ONDE VAI O LIXO?

A China recebe 90% do mercado de reciclagem asiático. Cerca de 100 mil recicladores (inclusive
A China recebe 90% do
mercado de reciclagem asiático.
Cerca de 100 mil recicladores
(inclusive crianças)
sem água potável
da
peninsula
árabe
da
América
do Norte
da
Europa
Principais países de reciclagem de e-lixo
Pontos de reciclagem de e-lixo
conhecidas
suspeitas
Principais portos receptores
e de despacho de e-lixo

Em função da constante atualização e desenvolvimento de novos produtos, a “vida média” dos modelos antigos torna-se a cada dia menor. À semelhança do que ocorre com os navios, a reciclagem de produtos eletrônicos (e-lixo) torna-se um problema tanto para os fabricantes quanto para seus usuários, que acabam enviando os produtos obsoletos para a Ásia, à Europa Oriental e à África. Mas, ao invés de agirmos de forma “ecologicamente correta”, acabamos por exportar problema para as coletividades que não têm opção senão escolher entre a po- breza e o veneno. Este gráfico ilustra os maiores receptadores de lixo eletro- eletrônico na Ásia.

Who gets the trash? (2004). UNEP/GRID-Arendal Maps and Graphics Library. http:/ /maps.grida.no/go/graphic/who-gets-the-trash Cartógrafo/designer: Philippe Rekacewicz, UNEP/GRID-Arendal

capacitação local para a reciclagem está

sendo eliminada. Logo ela, que é essenci-

al a uma sociedade sustentável.”

Daphne Wysham – Membro do The Insti- tute for Policy Studies (www.ips-dc.org) em Washington, DC; fundadora e co-diretora do Sustainable Energy & Economy Network e da Earthbeat Radio. Matéria publicada na edição de Julho/Agosto de 2008 de Mother Jones (www.motherjones.com).

TRÁFICO DE LIXO:

IMORAL E HIPÓCRITA

Até que a Convenção de Basiléia – que entrou em vigor em maio de 1992 – fixou regras internacionais para acabar com o tráfico de lixo, contudo os países autoproclamados desenvolvidos entupi- ram o Terceiro Mundo com lixo tóxico durante décadas. Mas o tráfico de lixo tóxico continua, e os mesmos criminosos ambientais de antes agora chegam com novo argumento: trata-se de exportação para reciclagem, com vantagens ambi-

entais (a reciclagem) e sociais (geração

de emprego e renda no Terceiro Mundo).

Milhares de pessoas na Ásia – em especi-

al na Índia e na China – “garimpam” pou-

cos gramas de metais preciosos em cente-

nas de quilos de lixo eletrônico, expondo-

se nesse mister a metais pesados e acu-

mulando toneladas de sucata tóxica. E esse lixo tóxico não se limita ao eletrônico; também ocorre com o químico e outros resíduos, como navios e pneus. Incontá- veis recicladoras de fachada servem para lavar esse comércio tóxico.

O Brasil enfrenta a União Européia na

Orgnização Mundial de Comércio (OMC)

na questão da importação de pneus usa-

dos para reciclagem. Em média, 10% dos importados são utilizados na recuperação

e os demais permanecem no lixo. Só que

em nossos aterros sanitários, não nos euro-

peus! Não é por outra razão que a União Européia insiste no direito de exportar pneus usados: quer o lixo longe de casa!

A exportação de lixo é imoral e ilegal.

Mas a exportação irresponsável, sob o disfarce da reciclagem sem controle e sem cuidados, é igualmente imoral e hi-

pócrita. Na verdade, o processo não pas-

sa de mais uma das incontáveis hipocri-

sias dos “senhores” do mundo, que jul- gam perfeitamente moral “exportar” lixo para aqueles que, no fundo, eles tam- bém consideram lixo.

Henrique Cortez portal EcoDebate

Coordenador do

CRIME AMBIENTAL

O FUTUROemCINZAS

Foto: Leo Ffreitas
Foto: Leo Ffreitas

por Henrique Cortez

No Cerrado, causar um imenso

incêndio é simples: basta amarrar,

com um grosso barbante, uma

tocha em um animal selvagem. Este, em pânico, espalhará o fogo por quilômetros, até morrer. As provas (a tocha e o barbante)

desaparecerão com as chamas.

Perverso e eficiente.

A tragédia das queimadas sem controle repete-se in-

cansavelmente, ano após ano. Os criminosos são os de sem- pre e fazem parte da mesma so- ciedade abalada e prejudicada pela irresponsabilidade daque- les que sempre afirmam, “ape- nas”, terem queimado um ino- cente roçado.

truição tem sempre a mesma causa – as queimadas ilegais praticadas por fazendeiros, pe- cuaristas e produtores rurais.

Apenas o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) confia na idéia de que os produ-

tores rurais obedecerão às porta- rias de proibição de queimadas controladas. Como se isso exis-

Impressiona o fato de am-

plas áreas e unidades de conser- vação estarem, literalmente, em chamas e que nada seja dito quan- to aos autores desse continuado crime sócio-ambiental. As autori-

dades, e até mesmo as manifesta- ções populares, agem como se os autores fossem desconhecidos.

Às autoridades cabe agir em defesa da sociedade, mesmo que isso signifique reprimir um

“aliado” politicamente influen- te e economicamente podero- so – o agronegócio, que se sen- te no direito de condenar a po- pulação à condição de cidadão

de segunda classe. E as autori- dades sabem que eles não são desconhecidos. Aliás, a socie- dade afetada também.

Todos os anos, incansavelmen- te, nossas unidades de conser-

Todo grande incêndio florestal

começacomuma“inocente”quei- tisse

ma de roçado, que qualquer pro- dutor rural sabe ser o início dos incêndios florestais, ainda mais em época de estiagem. Sabem, mas pouco se importam. Ignoram

que, além dos inestimáveis preju- ízos ao patrimônio natural, cau- sam sérias conseqüências à saú- de pública, atingindo principal- mente as crianças e os idosos. Crianças e idosos dos outros

A queima é simples, fácil e ba-

rata. Em tempo: barata, porque todos os custos sócio-ambien-

tais serão diretamente transfe- ridos à sociedade. A fumaça e

as cinzas atentam contra a saú- de da população da periferia das cidades e das populações indígenas. Pessoas com que o agronegócio e as autoridades não se preocupam. Melhor di- zendo, não ligam mesmo.Ades-

vação são atingidas por incêndi- os criminosos, com o único pro- pósito de sua destruição. Há al- gum tempo, contarem-me que, no Cerrado, causar um imenso in- cêndio é simples: basta amarrar, com um grosso barbante, uma tocha em um animal selvagem. Este, em pânico, espalhará o fogo por quilômetros, até morrer. As provas (a tocha e o barbante) de- saparecerão com as chamas. Per- verso e eficiente.

Recentemente, o Instituto Na- cional de Pesquisas Espaciais (Inpe) recebeu um merecido prê- mio internacional (“Tecnologi- as para novos desenvolvimen- tos em uma sociedade susten- tável”) pelo excelente trabalho de monitoramento de queima- das. O instituto está fazendo a sua parte, mas o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Iba- ma e os órgãos ambientais esta- duais estão muito longe de mos- trarem-se à altura do trabalho de monitoramento. A informação existe, mas nada acontece, por- que o país continua em chamas.

Guardadas as devidas propor- ções, a situação assemelha-se a um paciente crônico. O enfer- mo conta com a melhor tecno- logia para o diagnóstico clíni-

co, mas os médicos não iniciam

o tratamento ou não sabem o

que fazer. De fato, o monitora- mento é ótimo; mas e daí?

Se as eternas campanhas educa-

tivas são inúteis, não resta à so- ciedade outra alternativa a não ser a rigorosa fiscalização. De nada adianta proibirem as quei- madas, se isso não significar se-

verafiscalizaçãoepuniçõesexem-

plares. O poder público continua inoperante, e sua omissão preju- dica a população mais pobre e

mais frágil. Como sempre.

A tragédia das queimadas sem

controle é um imenso desastre sócio-ambiental, por suas con- seqüências à saúde pública, pela destruição de centenas de nascentes e olhos d’água, pela modificação do microclima e, ao longo do tempo, por potenci- alizar os períodos de estiagem.

Estaagrosselvageria irrespon- sável fará com que as próximas gerações recebam, como heran- ça, apenas as cinzas da Amazô-

nia e do Cerrado. E não será por

falta de aviso.

Henrique Cortez Coordena- dor do portal EcoDebate. E-mail:

henriquecortez@ecodebate.com.br

SEGURANÇA ALIMENTAR
SEGURANÇA ALIMENTAR

O aumento da renda

pessoal em escala global repercute no crescente

apetite pela dieta à base de carne. Mas essa esca- lada pode ter sérias con- seqüências para a saúde

do planeta e da própria

humanidade. Especialis-

tas discutem a questão e

indicam que para a Terra superpovoada a solução

será a dieta vegetal.

por Moises Velasquez-Manoff / Christian Science Monitor

N o primeiro trimestre de 2008, os

preços dos grãos sofreram uma

escalada nunca vista em 30 anos.

Em média, os preços dos alimentos estão 54% mais altos do que em 2007. Os grãos subiram 92%. Turbas famintas em busca da subsistência revoltaram-se no Haiti, no México e em Bangladesh. Os especialis- tas apontam uma “tempestuosa conjun- ção” de especulação, seca na Austrália e desvio de grãos para a fabricação de bio- combustíveis como responsáveis pela cri- se mundial de alimento. No entanto, para outros, a escalada do preço dos grãos é

apenas a concretizacão de uma previsão há muito anunciada: a crescente popula- ção mundial tem maior poder de compra, e os novos consumidores estão se banque- teando com mais carne! Por isso, boa par- te da crescente produção agrícola mundi- al é destinada ao consumo animal.

Embora os estoques de grãos sejam mais do que suficientes para alimentar a popu- lação do planeta, a atual escalada de pre- ços revela que essa provisão não garante que os mais pobres não passem fome. Em breve, chegará o dia em que não haverá

grãos em quantidade suficiente à alimenta- ção humana e à ração animal – ao menos nos EUA, aos atuais índices de consumo. Somem-se a isso os impactos ambientais da atual produção industrial de carne e não se pode deixar de pensar se, em 2050, com uma populacão mundial prevista para 9,5 bilhões, não estaremos todos condenados ao vegetarianismo.

Talvez nem todos, alegam os especialistas. Mesmo com as inovações tecnológicas ali- mentares, provavelmente comeremos muito menos carne. E, quem sabe, os habitantes da África subsaariana comerão um pouco mais. Um terço da terra cultivável do mundo é des- tinada à produção de alimento para gado e aves de corte, e aproximadamente 36% da produção mundial de grãos viram ração ani- mal. O problema, dizem os especialistas, resi- de na ineficiência da conversão do grão em carne. Para se produzir meio quilo de carne são necessários sete quilos e meio de grão. Para a carne de porco, a relação é de um para três; e para o frango, de um para dois. (Peixes de sangue frio, que não precisam de energia para manter temperatura corporal, são cria- dos com maior eficiência.)

O INSUSTENTÁVEL MODELO AMERICANO

“Os grãos usados para alimentar gado e não pessoas estão exercendo enorme pres- são sobre os estoques”, informa Katarina Wahlberg, coordenadora do programa de políticas econômicas e sociais do Global Policy Forum, ONG sediada na cidade de Nova Iorque.

Os atuais níveis de consumo são insus- tentáveis”. O americano médio consome aproximadamente 140 kg de carne por ano, informa a Organização das Nações Uni- das para Agricultura eAlimentação (FAO). Cada um deles consome 885 kg/ano de grãos, diz Lester Brown, autor de “Plan B 3.0: Mobilizing to Save Civilization”. E ape- nas 110 kg de grão são consumidos na forma de pão, massas e cereais. O restan- te é ingerido via produtos animais.

Se todos os habitantes do planeta con- sumissem grãos na escala dos EUA, sua atual safra mundial de dois bilhões de toneladas de grãos alimentaria apenas 2,5 bilhões de indivíduos – dois quintos da população mundial! Se o mundo comes- se no padrão italiano – 400 kg/ano de

grão por pessoa – tería- mos como alimentar cin- co cinco bilhões de pes- soas. E se todos nós ado- tássemos o regime alimen- tar vegetariano, típico dos habitantes da Índia – 5 kg/ ano de carne por pessoa ou 200 kg de grão –, a atu- al produção mundial de grãos poderia alimentar 10 bilhões de indivíduos.

Para Lester Brown, as com- parações acima têm sérias implicações. Mesmo se desconsideramos os as- pectos morais da questão, não podemos esquecer que pessoas fa- mintas conduzem ao desassossego soci- al – fato de conseqüências para todos. “Quantos estados desabarão antes do fra- casso global da civilização?”, interroga Brown. “Ninguém sabe a resposta, por- que ninguém jamais enfrentou tal realida- de. As tendências de consumo mundial indicam maior – e não menor – consumo de carne. De 1970 a 2005, a produção mun- dial de carne nos países em desenvolvi- mento mais que quintuplicou: de 30 mi- lhões para 162 de milhões de toneladas, segundo a FAO. Se a tendência continu- ar, a demanda global por carne aumentará pela metade novamente antes de 2030.

Por volta de 2050, a produção mundial de carne mais do que dobrará a do nível de 2000: alcançará 513 milhões de toneladas/ ano. O aumento do poder de compra em escala mundial acelera o apetite por car- ne. Segundo o relatório de 2003 da Natio- nal Academy of Sciences, aproximada- mente 1,1 bilhão de novos consumidores – pessoas com significativa renda dispo- nível – emergiu em décadas recentes. Um contingente que se soma aos 850 milhões de consumidores dos países ricos. Todos querem comer carne.

E, como os novos consumidores aumen- taram esse consumo de carne, também deixaram de ser menos saudáveis. Cerca de 1,6 bilhões de adultos ao redor do mundo apresentam sobrepeso (400 mi- lhões são obesos), informa a Organiza- ção Mundial de Saúde (OMS). Infelizmen- te, cerca de 800 milhões sofrem desnutri- ção crônica. “O mundo não precisa ter famintos”, diz a médica Polly Walkert,

não precisa ter famintos ”, diz a médica Polly Walkert, “ Um terço da terra cultivável

Um terço da terra cultivável no mundo é destinada à produção de alimento para gado e aves de corte, e cerca de 36% da produção mundial de grãos vira ração

animal.

diretora associada do Center for a Liva- ble Future, do Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, em Baltimore. “Trata-se de uma questão de justiça que deveria incomodar a todos.”

A CARNE E O IMPACTO AMBIENTAL

Mesmo abstraindo a questão da escassez de grãos, muitas vozes afirmam que o im- pacto ambiental é argumento suficiente para repensar a produção animal em esca- la industrial. A criação de animais para ali- mento gera 18% dos gases estufa na for- ma de metano, mais que todo o setor de transporte. “Mudar a dieta humana é es- sencial para controlar a mudança climáti- ca”, afirma Peter Singer, professor de Bio- ética da Universidade de Princeton, em New Jersey. Também é um modo simples e

rápido para cada indivíduo reduzir sua pegada de car- bono. “Essa providência pode ser tomada imediata- mente. É algo que poderí- amos fazer imediatamente. Não precisamos inventar nada renovável.”

O relatório “Livestock

Long Shadow”, da ONU,

de 2006, concluiu que a

produção animal, como é atualmente praticada, apre- senta uma gama de amea- ças a exigir atenção imedi- ata: da degradação de ter- ra à perda de biodiversida- de. Um relatório subseqüente da Pew Com- mission on Industrial Farm Animal Produc- tion ecoou aquelas conclusões, acrescen- tando que o uso rotineiro de antibióticos na criação animal aumenta o risco de se criarem os animais resistentes aos antibi- óticos. Até mesmo os oceanos são afeta- dos pela produção de animais de corte. Em águas litorâneas, as zonas mortas cau- sadas por despejos de nutrientes – boa parte proveniente de dejetos animais – tor- nam-se um problema crônico. E uma cota crescente da pesca mundial agora é trans- formada em farinha e óleo de peixe para ser adicionada à ração animal.

Os altos preços dos alimentos tornaram a pesca mais lucrativa, afirma H. Bruce Frank- lin, autor de “The Most Important Fish in the Sea: Menhaden and America.” Os pei- xes são freqüentemente vitais para seus ecossistemas, já que devoram volumosa quantidade de microorganismos e servem de alimento para os maiores. (O menhaden comum médio, com 20 cm de comprimen- to, filtra de quatro a sete galões de água do mar por minuto.) A exaustão dessas cri- aturas pode provocar o desequilíbrio em um ecossistema. “Os oceanos não podem mais agüentar esse tipo de pressão”, afir- ma Bruce Franklin.

AS PASTAGENS E OS ECOSSISTEMAS

Muitos estudiosos observam que os ani- mais de corte não precisam competir com os seres humanos por grãos, nem a ativida- de de criação tem necessariamente de ser destrutiva. Enormes parcelas de terra ao redor do mundo são próprias para pasta- gem. Os ruminantes – animais que digerem capim e plantas que o homem não come –

A produção animal, como é atualmente praticada, apresenta uma gama de ameaças a exigir atenção imediata:

da degradação de terra à perda de biodiversidade.

convertem esses vegetais em carne, alimen- to para os seres humanos. Se a criação de gado mimetizar as grandes migrações do bisão nas pradarias americanas – áreas na- turais comuns a mitos ecossistemas pré- existentes à instalação da pecuária –, a atividade pode melhorar o ecossistema em lugar de degradá-lo, afirma John Ikerd, pro- fessor emérito de Economia Agrícola da Universidade de Missouri, no estado de Columbia. “Contamos com um tremendo

potencial para produzir muito mais proteí- na, e conseguir isso da maneira correta, sem danificar o solo”, diz Ikerd.

Em muitas regiões, como grandes exten- sões da África, os animais garantem a pro- teína necessária que, caso contrário, seria indisponível. Lá, por exemplo, a criação de gado deveria aumentar, informa Pierre Gerber, co-autor do relatório “Livestock’s Long Shadow”. As preocupações ambien-

tais são importantes, diz ele, mas igualmen- te relevante é o bem-estar humano. “Não se deve parar a produção de proteína ani- mal devido a questões ambientais. Na ver- dade, é a questão ambiental que deve equa- cionar a atividade produtiva.”

Moises Velasquez-Manoff Artigo pu- blicado no Christian Science Monitor (18/7/ 2008) e em www.globalpolicy.org com o títu- lo Diet for a More-Crowded Planet: Plants.

A PECUÁRIA E A DEVASTAÇÃO NA AMAZÔNIA

A PECUÁRIA E A DEVASTAÇÃO NA AMAZÔNIA ■ Segundo levantamento realizado pelo Instituto do Homem e

Segundo levantamento realizado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), apenas 5% da car-

ne produzida em áreas de desmatamento da Amazônia são

exportadas. E dos 95% que ficam no país, quase 70% são enviados ao Sudeste. Só 12% viram alimento dentro da pró- pria Amazônia Legal.

A pecuária é o setor produtivo que mais influencia no des- matamento da Amazônia. Cientistas e ambientalistas esti- mam que mais de 70% das derrubadas florestais são feitas para a abertura de pastagens. Os pesquisadores do Imazon calculam que 253 mil km 2 na Amazônia foram ocupados por pastos, entre 1990 e 2006 – uma área maior do que o Piauí.

O rebanho da região aumentou 180% no mesmo período,

passando de 26 milhões para 73 milhões de cabeças, o equi- valente a 36% do total nacional. Entre 2000 e 2005, 27 frigo- ríficos instalaram-se na região.

Enquanto isso, no Sudeste, ocorreu o inverso: a área de pastagem diminuiu 15% e o rebanho encolheu 3% no perío- do 1996-2006, segundo dados do Instituto Brasileiro de Ge- ografia e Estatística (IBGE) compilados no Anuário da Pecuá- ria Brasileira (ANUALPEC), do Instituto FNP (www.fnp.com.br).

O aumento das exportações de carne, nos últimos anos, deixou um “vácuo” de abastecimento no mercado interno, que está sendo suprido, ao menos parcialmente, com carne produzida na Amazônia. As exportações nacionais do setor aumentaram 126% entre 2002 e 2006. “Como o Norte não tem ainda condições de exportar, o Sudeste exporta e a gente preenche a lacuna”, diz o diretor de pesquisa ambiental do Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (Idesp), Jonas da Veiga.

“A Amazônia abriu espaço para a pecuária crescer com pro- dução barata, caso contrário o preço da carne no mercado interno teria aumentado muito”, avalia o pesquisador Paulo Barreto, que coordenou a pesquisa. A grande vantagem da região é o preço baixo – ou quase nulo – da terra. “Fazen- deiros que se apossam de terras públicas ganham mais do que o normal, pois não compraram a terra, nem pagam aluguel pelo seu uso”, escrevem os autores.

O consultor José Vicente Ferraz, do Instituto FNP, vê a expan- são da pecuária na Amazônia como um “fenômeno natural” associado ao perfil “nômade” do setor, que está sempre em busca das terras mais baratas para produzir. “Como se costu- ma dizer, não existe boi barato em cima de terra cara”, diz. “As terras mais baratas hoje estão no Norte e Nordeste. O pecuarista vende um hectare aqui (no Sudeste) e compra 10 hectares lá.”

Fonte: Herton Escobar, de O Estado de S.Paulo (22/10/2008).

PONTO -DE-VISTA

Foto:Antonio Cruz/ABr

O DESAFIO DA AMAZÔNIA

por Reinhold Stephanes

Leo Ffreitas
Leo Ffreitas

gularização fundiária da Ama- zônia é tão necessária que de- verá merecer a criação de me- canismos próprios de acompa- nhamento, propostos pelo Mi- nistro Extraordinário de As- suntos Estratégicos, Manga- beira Unger, com aval do Pre- sidente da República.

A legislação ambiental contri-

bui, também, para engessar o debate sobre as melhores al- ternativas para a região. As leis

mudaram, os critérios foram al- terados, mas a realidade per-

Outra questão é a existência de duas Amazônias constan- temente confundidas: a do bi- oma e a legal.

Sobre o bioma amazônico, é simples: abrange a marca da floresta, embora registre ou- tros sub-biomas. A Amazônia Legal é uma ficção geográfi-

ca, fruto da busca pelos bene- fícios fiscais da União por par- te dos estados vizinhos à flo- resta. Alguns destes com par- te predominante dos territóri- os fora do bioma amazônico, sobretudo no Centro-Oeste, onde estão os biomas de cer- rado, pantanal ou caatinga. Mesmo assim, a lei ambiental equiparou áreas desses bio- mas às da floresta amazônica, impondo-lhes, em grande par-

N ão é preciso derrubar mais árvores na Amazô-

nia para expandir a agropecuá- ria brasileira, mas o mero conge- lamento da atividade não garan- tirá a preservação da floresta. Quem conhece a realidade local, bem distante de Brasília, identi- fica melhor as causas do desma- tamento, originadas, principal- mente, pela forma como a região foi ocupada, em uma época em que a própria lei estimulava a der- rubada da selva.

Hoje, carvoarias, madeireiras, assentamentos, produtores ru- rais e a população que, literal- mente, vive da floresta divi- dem, em vários níveis, a res- ponsabilidade pela redução gradual do bioma. Porém, o Estado brasileiro merece, tam- bém, uma parcela de culpa por ter subestimado a importância da Amazônia no passado.

O

desafio, agora, é dimensionar

siste. Por exemplo, até 2001, o

o

nível de responsabilidade de

Código Florestal obrigava os

cada agente, adotando alterna- tivas sustentáveis – e viáveis economicamente – que contri- buam para o equilíbrio entre o homem e a natureza na região.

produtores a preservarem 50% da área, e não 80%, como atu- almente. Quem derrubou me- tade da propriedade passou a ser obrigado a reflorestar. Foi

 

o

que aconteceu com os as-

te, as mesmas restrições.

Sob pressão externa, trata-se o

sentamentos incluídos recen-

desmatamento na Amazônia de forma emocional e nem sempre

temente na lista dos maiores desmatadores da Amazônia.

No que se refere ao agrone- gócio, repito, o Brasil tem al-

com base em dados confiáveis que, por sua vez, acabam justi- ficando medidas inconseqüen- tes. Tampouco a estrutura tec-

Vale lembrar que a legislação ambiental contempla o territó- rio nacional, mas não conside-

ternativas para a expansão. Há estudos técnicos apontando para o uso preferencial de áre- as agricultáveis, atualmente

nológica disponível é capaz de

ra

as diferentes realidades nem

ocupadas por pastagens que

detectar as ocorrências em tem-

as

regiões nas quais a agricul-

se encontram em vários níveis

po real, a fim de reprimi-las.

tura instalou-se há décadas. Se

de degradação. E isso deve

as

normas forem cumpridas à

acontecer fora do bioma ama-

Perdem-se meses discutindo a credibilidade das listas de des- matadores, quando, na verda- de, desconhecemos os propri- etários das terras. Aliás, a re-

risca, praticamente a metade das propriedades rurais do Centro-Sul do país, onde a agro- pecuária está consolidada, está ou estará fora da lei.

zônico. Basta lembrar que a pecuária utiliza 200 milhões de hectares em todo o país para um rebanho estimado de 180 milhões de cabeças de gado.

Ninguém, em sã consciência, discorda que essa distribuição pode ser refeita e até incenti- vada pelo Governo Federal. Além do apoio à atividade eco- nômica, a utilização correta das áreas degradadas evita a ero- são e a desertificação, que le- vam ao assoreamento dos rios e ao empobrecimento do solo, respectivamente.

A questão, porém, é haver áre-

as degradadas na região ama-

zônica que poderiam ser recu- peradas com culturas perenes, como o dendê e outras espéci-

es nativas que, além de seqües-

trarem carbono da atmosfera, re- cuperam o solo e geram empre- gos em quantidade suficiente para absorver os que por falta de opção sobrevivem consu- mindo a riqueza da floresta.

Compreende-se que a defesa da Amazônia exige uma posição protecionista mais rígida. Isso não pode impedir, porém, que ignoremos áreas agrícolas con- solidadas há gerações, sem en- contrar formas de flexibilização do uso do solo. Ambas as posi- ções são necessárias para al- cançarmos o desenvolvimento sustentável que a Amazônia e sua gente merecem.

Reinhold Stephanes Econo- mista, Deputado Federal licenciado (PMDB-PR), é o Ministro da Agri- cultura, Pecuária e Abastecimento. Foi Ministro do Trabalho e Previdência Social (1992-1995) e da Previdência e Assistência Social (1995-1998). Artigo transcrito de Tendências/ Debates, Folha de S. Paulo, em

Artigo transcrito de Tendências/ Debates, Folha de S. Paulo, em 16/11/2008. Cidadania & MeioAmbiente 2 1

16/11/2008.

Bonacheladas

REFLEXÃO

COMO

os ricos estão destruindo

aTERRA

por Herve Kempf

Nossa biosfera está morrendo e, com ela,

o sustento de bilhões de seres vivos.

Mas a elite globalizada que dita os modelos de interação homem-meio ambiente permanece insensível a tudo que não seja

o seu próprio ego e imensos lucros.

E, assim, a crise planetária cevada na insustentabilidade continua triunfando. Haverá meios de reverter esse quadro caótico?

Leia, aqui, como enfrentar as forças destrutivas para reinaugurar uma nova era de

LIBERDADE

ECOLOGIA

FRATERNIDADE

V ivemos uma emergência. Em menos de uma década, teremos de mudar de rumo – assumindo

que o colapso da economia norte-america- na ou a explosão do Oriente Médio não imponham uma mudança via caos. Para con-

frontar essa emergência, temos deentender

o objetivo do plano de ação: criar uma so-

ciedade sóbria; delinear o caminho para sair do impasse; realizar essa transformação com justiça, isto é, forçando os mais aqui- nhoados a segurarem o fardo da transfor- mação dentro e entre as sociedades e ins- pirarem-se nos valores coletivos de “Liber- dade, ecologia, fraternidade”.

OS PRINCIPAIS OBSTÁCULOS A ENFRENTAR

EM PRIMEIRO LUGAR, as arraigadas certe- zas recebidas – na verdade, preconceitos – que orientam a ação coletiva, sem que nin- guém realmente as analise em profundida- de. E a mais poderosa dessas idéias pre- concebidas é a crença no crescimento como único e exclusivo meio de solucionar os pro- blemas sociais. Uma crença ferozmente de- fendida até mesmo quando os fatos contra- dizem-na. Uma posição que descarta a eco- logia, pois seus apóstolos defensores têm consciência de que o crescimento é incapaz de solucionar a questão ambiental.

A SEGUNDA CERTEZA, menos convincen- te, embora amplamente disseminada, procla- ma que o progresso tecnológico soluciona- rá os problemas ambientais. A propagação dessa idéia dá aos indivíduos a esperança de não ter de enfrentar sérias mudanças nos comportamentos coletivos graças ao pro- gresso tecnológico. O desenvolvimento da tecnologia – ou melhor, de certos canais téc- nicos em detrimento de outros – reforça o sistema e avaliza proveitosos lucros.

A TERCEIRA CERTEZA vem a ser a inevita- bilidade do desemprego, concepção forte- mente atrelada a duas certezas prévias. O desemprego tornou-se uma determinante

fabricada pelo capitalismo para assegurar

a docilidade da população, muito especial- mente dos nichos operários. No entanto,

outra forma de olhar a questão indica que a transferência de riqueza das oligarquias à efetivação dos serviços públicos; um pe- sado sistema de tributação sobre o capital

e a poluição, não mais sobre o emprego;

uma política agrícola sustentável para os países em desenvolvimento e pobres e a

pesquisa em eficiência energética consti- tuem imensas fontes de emprego.

A QUARTA CERTEZA geralmente associa a Europa e os Estados Unidos a uma comuni- dade de riqueza. No entanto, os caminhos

de cada um deles divergem. A Europa ainda

é o arauto de um ideal universalista, cuja

validade é manifestada pela habilidade em reunir – apesar dos problemas – estados e

culturas tão diferentes. Outras característi- cas – como o consumo de energia, os valo- res culturais (por exemplo, o sentido crítico do alimento), a rejeição à pena de morte e à tortura, a desigualdade menos pronunciada

e a manutenção de um ideal de justiça soci-

al, de respeito ao direito internacional e de apoio ao Protocolo de Kyoto na questão climática – separam a Europa dos Estados Unidos. Aquela está distanciada do poder opressor e deve se aproximar mais dos paí-

ses pobres, a menos que este realmente mostre que pode mudar.

A OLIGARQUIA PODE SER DIVIDIDA

O primeiro obstáculo a vencer é o poder do próprio sistema. Os fracassos que ocorre- rão não serão em si mesmos suficientes para fragilizarem o sistema, pois, como sabemos, as forças oligárquicas podem criar pretex- tos para promoverem um sistema autoritário despido de qualquer grau de democracia.

De qualquer modo, o movimento social des- pertou e pode continuar ganhando poder. Mas, sozinho, ele não será capaz de enfren- tar abertamente o surgimento da repressão:

será necessário que as classes médias e par- te da oligarquia – não-monolítica – clara- mente optem pelas liberdades públicas e pelo bem comum.

A mais poderosa idéia preconcebida é a crença no crescimento como único e exclusivo meio de solucionar

os problemas sociais e acabar com a

pobreza.

Não obstante, nem todos os jornalistas estão escravizados; assim, poderiam ser galvanizados para o ideal de liberdade.

De qualquer forma, não devemos deixar de

ser otimistas. Otimistas, pois existem cada vez mais pessoas que entendem – ao con- trário de todos os conservadores – a novi- dade histórica da situação: estamos viven- do uma nova e nunca antes vista fase da história da espécie humana. Eis um momen- to em que após ter conquistado a Terra e atingido seus limites, a humanidade tem de repensar sua relação com a natureza, com

o espaço e com seu próprio destino.

Estamos otimistas pela amplitude da cons- cientização frente à importância dos de-

safios atuais, e pelo fato de que o espírito de liberdade e de solidariedade desper- tou. Desde Seattle e dos protestos contra

a Organização Mundial de Comércio, em

1999, o pêndulo começou a balançar em direção à preocupação coletiva acerca das escolhas futuras e da busca por coopera- ção em vez de competição.

A, até certo ponto, bem-sucedida, embo-

A

terceira força – manca – é a esquerda.

ra ainda incompleta, luta européia contra

Considerando que o componente social-

os Organismos Geneticamente Modifica-

democrata tornou-se seu centro de gravi- dade, esse grupo abdicou de toda e qual- quer ambição de transformar o mundo. Ao estabelecer um acordo com o liberalismo de livre-mercado, a esquerda mergulhou

dos; a perseverança da comunidade in- ternacional na efetivação do Protocolo de Kyoto, de 2001, apesar do boicote dos Estados Unidos; a negativa européia em participar da invasão do Iraque, em 2003;

de

cabeça em seus valores do liberalismo

e

o reconhecimento unânime e urgente

de

livre-mercado tão fortemente que já não

dos desafios propostos pelas mudanças

futuro começou a soprar.

ousa – exceto em condições muito caute- losas – deplorar a desigualdade social. Para coroar a questão, ainda se recusa a

climáticas são sinais de que o vento do

envolver-se verdadeiramente nas ques- tões ambientais.

Apesar da escala dos desafios que nos esperam, começam a surgir soluções – em oposição aos prognósticos sombrios

Os meios de comunicação de massa consti- tuem um desafio central. Hoje, eles apóiam

Assim, permanece aferrada à idéia de pro- gresso concebida no século 19 e ainda acre-

te o termo mais apropriado.

o

capitalismo devido à sua própria condi-

dita que ciência é produzida do mesmo modo

ção econômica. Em sua maioria, as mídias dependem de publicidade, fato que lhes tor- na difícil pleitear a redução do consumo.

como à época de Albert Einstein, e entoa o canto do crescimento econômico sem o mais leve traço de reflexão crítica. Além disso,

Além disso, o desenvolvimento de publi- cações independentes que precisam de

para ela, “capitalismo social” em vez de “de- mocracia social” tornou-se indubitavelmen-

publicidade aumenta ainda mais a pres- são sobre os jornais pagos de grande cir-

A despeito de tudo, poderão os desafios

culação, muitos dos quais abrigados nos estábulos de grandes grupos industriais. Embora imensa, não é certo que as possi-

do século 21 ser encampados pelas cor- rentes da tradição diferentemente daquela que um dia identificou na desigualdade seu

bilidades de informação geradas pela In- ternet– pelo menos enquanto a rede per- manecer com livre acesso – sejam fortes o suficiente para contrabalançarem o peso

motivo primário de revolta? Esse hiato está no coração da vida política. A esquerda renascerá ao unir as causas da desigual- dade e do meio ambiente – ou, incapaz dis-

dos meios de comunicação de massa, caso

so

– desaparecerá na desordem geral que

todos se tornem a voz da oligarquia.

se

baterá sobre ela e sobre tudo mais?

promovidos pelos oligarcas – e o desejo de reconstruir o mundo está em franco

renascimento.

Hervé Kempf – Jornalista especializado em

informaçãoambientaleecológicadesde1988.Edi-

tor de Meio Ambiente do jornal Le Monde, des- de 1998, e criador da revista ambiental Reporterre.

Também publica em jornais científicos e econô- micos. O texto acima foi extraído de seu novo li- vro – How the Rich Are Destroying the Earth (Chelsea Green Publish- ing, 2008) – e publicado em www. alternet.org/ environment/107988, em 22/11/2008. Tradução li- vre realizada pela edito- ria de Cidadania & Meio Ambiente.

realizada pela edito- ria de Cidadania & Meio Ambiente. Cidadania & MeioAmbiente Cidadania & MeioAmbiente 23

Cidadania&MeioAmbiente

Cidadania&MeioAmbiente

23

23

Enquanto o Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci (1452-1529), traduz as concepções de pro- porção,
Enquanto o Homem Vitruviano, de Leonardo da
Vinci (1452-1529), traduz as concepções de pro-
porção, simetria e equilíbrio aplicadas à natureza
humana, o burlesco Homer de Vitruvio (acima)
representa o desequilibrado homem contempo-
râneo, vitimado por seu consumismo insustentá-
vel (fast-food, eletrônicos, e-lixo, poluentes
CONSUMISMO
Foto: Guesus

Débito de

futuro:

a crise

definitiva

Temos que frear o consumismo desregrado, reduzir paulatinamente o que achamos ser necessidade, aumentar a reciclagem, repensar nosso estilo de vida e mudar a nossa

relação com o meio ambiente. Caso contrário, só teremos uma opção: a extinção!

E mbora a crise econômico-financeira atual motive preocupação, principalmente em

relação às conseqüências para os mais po- bres, preocupo-me muito mais com turbulên- cias de outra natureza, que só tendem a au- mentar e terão impacto muito mais profundo. Isso porque estou convicto de que as crises ocasionadas pela reação da natureza aos nos- sos despautérios ambientais (embora negli- genciadas pela maioria da mídia e da socieda- de) aumentarão muito em freqüência, serão muito piores e terão efeitos mais duradouros que aquelas geradas pela criatividade burra de engravatados milionários.

Ao focarmos nossa atenção apenas nos aspectos econômicos da crise atual, esta- mos perdendo uma importante chance de discutir com coragem as bases insusten- táveis da economia global. Ou seja, o mo- delo que se baseia no crescimento eterno

por Rogério Grassetto Teixeira da Cunha

e funciona no formato de um fluxo linear, que começa na extração de recursos na-

turais e termina na disposição de lixo. Mas não. O principal tema que domina as dis- cussões é o temor da recessão e da que- da no consumo, vendidas como mons- tros terríveis. Na verdade elas são, sim, monstros, mas apenas se aceitarmos esse modelo. Por isso que é preciso analisá-lo

e criticá-lo a partir de uma perspectiva ex- terna, para fugir das amarras que nos im- põe e mostrar suas incongruências.

CONSUMO E CRESCIMENTO SUICIDAS

Por exemplo, essa falsa necessidade de que

é preciso crescer, crescer sempre, crescer a

qualquer custo. Mas a economia não existe como algo que paira suspenso no vácuo (em- bora alguns financistas tenham lucrado mui- to vendendo essa idéia, antes que a bomba estourasse no colo de todos). Ela precisa de

dois elementos básicos, além do trabalho hu- mano: matéria-prima e energia. Como seu su- primento destes é finito, simplesmente não há recursos naturais suficientes para sustenta- rem um crescimento constante da economia. Aliás, não há recursos suficientes nem mes- mo para sustentar por muito tempo a taxa atu- al de consumo de recursos naturais, ainda que as economias permaneçam com a dimensão atual, sem crescimento algum! É até assusta- dor, de tão simples e óbvio.

Não há pirotecnia de argumentos tecnicis- tas que possam contradizer essa realidade inquestionável. Até uma criança pode en- tender isso facilmente (às vezes elas enten- dem melhor do que muitos adultos nas prin- cipais cadeiras das maiores universidades). Experimente. Dê a ela uma pilha de qualquer coisa (feijões, bolinhas, botões – que seriam os recursos naturais não-renováveis) e pro-

ponha um jogo: “Olha, toda a vez que você quiser brincar ou ganhar um doce (os obje- tos de consumo), você tem que jogar no lixo um item”. A criança trocará seus itens até que acabem, e só então irá abalar-se de ver- dade. Mas daí perceberá que os recursos finitos são justamente isso, finitos e, uma vez terminados, adeus consumo.

ESTAMOS EM DÉBITO DE FUTURO

Diversos cálculos já foram feitos mostran- do que o planeta não conseguirá suprir recursos naturais suficientes para susten- tarmos taxas até mesmo modestas de cres- cimento até o fim deste século. Outros cál- culos comparam a quantidade de recur- sos que consumimos a cada ano com aquela que o planeta é capaz de repor no mesmo período. Essas estimativas mos- tram que, a partir de meados de 1980, pas- samos a gastar mais recursos naturais do que o planeta pode repor. Com isso, cria- mos um débito de futuro.

Os responsáveis pela idéia usam uma me- táfora, pela qual vão somando o consumo diário de recursos desde o dia primeiro de janeiro. Na data em que o uso acumulado iguala a quantidade que o planeta é capaz de repor ao longo do ano inteiro, chega-se ao limite que poderíamos ter consumido naquele período. A partir daí, passamos a avançar nos recursos do futuro. E essa data tem chegado mais cedo a cada ano.

Ou seja, não estamos nem pagando e nem estacionando a nossa dívida, mas aumen- tando-a continuamente. Pior ainda, a pró- pria quantia que descontamos

a cada ano de nosso futuro tam-

bém vem aumentando. É como se estivéssemos na mão de um agiota cruel:nós mesmos! Por isso, ainda que toda a econo- mia do planeta parasse subita- mente de crescer, ficaríamos es- tacionados no volume atual e, mesmo assim, a Terra não agüentaria por muito tempo.

CONSUMISMO: A PRAGA QUE DEVORA A TERRA

Qual a solução? Bem, em pri-

meiro lugar, seria necessário que houvesse uma estagna- ção do crescimento e uma re- cessão por algum tempo, até que as economias chegassem

a um nível de consumo de re-

cursos que fosse inferior à capacidade de reposição do planeta. “Ah, mas recessão gera desemprego e pobreza”, dirão. Sim, é verdade, mas apenas se forem mantidos outros pressupostos e pilares dessa estru- tura socioeconômica. Se houvesse distri- buição mais eqüitativa da riqueza gerada,

o problema seria menor. Mais, se o lucro e

a produtividade não fossem os únicos pa-

râmetros a guiarem as atividades econômi- cas, e sim a função social das mesmas, terí- amos mais elementos positivos para com-

bater o desemprego.

Por fim, e mais importante, o problema seria imensamente menor se a estrutura econô- mica não fosse calcada no consumismo, num sem-número de necessidades fictícias que foram criadas nos últimos séculos, e sem as quais convivemos sem grandes crises du- rante 99,9% do tempo em que estivemos aqui neste planeta.

Reduzindo-se a necessidade de satisfação dos desejos de consumo, reduz-se também

a precisão de dinheiro para adquiri-los, o

que casa perfeitamente com uma distribui- ção mais eqüitativa da riqueza e com o foco

voltado à função social das produções in- dustrial, agrícola e de serviços.

E se você acha a proposta muito radical, é bom lembrar que a crise ambiental já vem apresentando-se aos poucos. É um furacão Catarina aqui, um desastre de Nova Orleans ali, uma abertura do mar do Pólo Norte aco- lá. Não sabemos ao certo se a catástrofe ambiental virá na forma de uma batida abrup-

ta contra o muro que afetará a todos (ou a maioria) de uma vez só ou se seguirá de for- ma mais gradual e dispersa, como tem acon- tecido, intensificando-se aos poucos. Po- rém, qualquer que seja o processo, logo não será questão de escolha: seremos forçados

a uma redução drástica no consumo. De-

pendendo da magnitude da crise, talvez se- jamos obrigados até mesmo a mudar para um estágio pré-industrial.

Não defendo agora um retorno ao estilo de vida pré-industrial como solução. Primeira- mente, porque não sei se seria preciso ser tão radical. Ademais, por julgar que nunca

conseguiremos isso por vontade própria, por mais que seja interessante do ponto de vis-

ta ambiental. Teremos sim (por bem ou por

mal) que frear muito o consumismo, reduzir paulatinamente o que achamos ser necessi-

dade (e no geral não o é

), mudar a nossa

relação com o meio ambiente, repensar nos- so estilo de vida, aumentar muito a recicla- gem e tentar ir equilibrando por aí.

Aqueles que começarem mais cedo esta- rão mais preparados e sofrerão menos (fí- sica e psicologicamente) com as mudan- ças que inevitavelmente virão. Bem, há outra opção: a nossa extinção.

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha – Doutor em Comportamento Animal pela Uni- versidade de Saint Andrews e biólogo, colunista do Correio da Cidadania (www.correio cidadania.com.br), parceiro estratégico do portal EcoDebate na socialização da informação socio- ambiental. Artigo publicado em www.ecodebate (12/11/2008) com o título As outras crises.

POPULAÇÃO MUNDIAL E CONSUMO

População em bilhões Média variável das projeções Nove bilhões de pessoas em 2050 Mundo População
População em bilhões
Média variável
das projeções
Nove bilhões de
pessoas em 2050
Mundo
População sustentável
ao nível de consumo
de renda média
A população da Índia
deve suplantar a da China
por volta de 2030.
População sustentável
ao nível de consumo
de renda alta

Os bens que hoje acumulamos serão resíduos e lixo amanhã. As projeções indicam que, antes do ano 2050, a Terra abrigará nove bilhões de indiví-

duos. Segundo o Global Print Network, nosso planeta é atualmente incapaz de garantir o sustento de dois bilhões de pessoas com padrão de consumo semelhante ao dos países mais ricos da atualidade. E já somos seis bilhões

e meio de almas.

De acordo com a pegada ecológica

– a métrica que possibilita calcular a pressão humana sobre o planeta –, se cada habitante da Terra vivesse o estilo de vida do cidadão americano médio, o sustento da população mun- dial exigiria nada menos do que cin- co Terras.

Fontes: Population Division of the Department of Economic and Social Affairs of the United Nations Secretariat, World Population Prospects:

The 2004 Revision; Global Footprint Network, 2005.

PÚBLICA

SAÚDE

Celular e câncer

C om três bilhões de usuári- os de telefonia móvel em

escala planetária – 122,8 milhões no Brasil 1 e mais de 260 milhões nos EUA 2 (46% de crianças na faixa etária de 8 a12 anos) –, a exposição do ser humano à radia- ção de baixa energia na faixa de 800-2.000 megahertz gama está em crescente aumento. E a mais re- cente revisão epidemiológica sis- temática para avaliar o risco do de- senvolvimento de tumores cere- brais relacionados à telefonia ce- lular traz novos esclarecimentos sobre essa experiência global.

“Evidenciamos que o uso de aparelhos celulares está associ- ado a gliomas (tumores cere- brais malignos) e a neuromas acústicos (tumores benignos do nervo auditivo cerebral) que co- meçaram a surgir nos últimos dez anos”, informa Lennart Hardell, coordenador da pesqui- sa, oncologista e epidemiologis- ta oncológico do Hospital Uni- versitário de Örebro, na Suécia.

No estudo que analisou indivídu- os expostos à radiação emanada pelo aparelho celular nos últimos 10 anos, o risco de glioma ipsilate- ral (do mesmo lado) dobrou, fato não-ocorrido contra-lateralmente (lado oposto da cabeça) em fun- ção do hábito de se segurar e de se falar ao celular em um ou outro ouvido. Verificou-se, ainda, um aumento de 2,4 vezes do risco de desenvolvimento de neuromas acústicos devido à exposição ipsi- lateral, e nenhum risco aumentado para meningiomas (tumores que acometem as membranas que co- brem o cérebro e a espinha dorsal).

ALERTA Foto: Gastev
ALERTA
Foto: Gastev

VERMELHO!

Em estudo publicado na edição de maio de 2008 do Internatio- nal Journal of Oncology, pesqui- sadores suecos evidenciaram sig- nificativas associações entre o uso a longo prazo de telefones celulares e o risco de desenvolvi- mento de tumores cerebrais.

por M. Nathaniel Mead

“Obviamente que precisamos de mais pesquisas a longo prazo sobre o uso da telefonia celular

para melhor balizar o risco de cân- cer”, informa o co-autor Michael Carlberg. Os telefones celulares

só passaram a ter seu uso popu-

larizado há cerca de uma década, enquanto os tumores cerebrais induzidos por radiação levam aproximadamente 10-15 anos para se desenvolverem, segundo a American Cancer Society.

A equipe de pesquisa de Hardell

foi a fonte de vários estudos, sendo incluída na meta-análise. Na edição de outubro de 2006 do World Journal of Surgical Onco- logy, os investigadores informa- ram 70% de aumento para o risco de desenvolvimento de astroci-

tomas de grau III-IV (tumores ce- rebrais altamente agressivos) nos usuários de telefones analógicos.

O mesmo estudo reportou uma

maximização de quase quatro ve- zes para neuromas acústicos após 15 anos de exposição aos celulares analógicos. No entan- to, não foi verificado risco au- mentado para câncer testicular, linfoma de célula B ou tumo- res da glândula salivar Portanto, os resultados observados não foram conseqüências de erros de interpretação dos dados.

Para verificar se as pesquisas an- teriores não poderiam ter influ- enciado as conclusões da meta- análise de 2008, a equipe omitiu seus próprios dados da análise,

e ainda assim encontrou risco

significativamente aumentado para gliomas e não-significativo para neuromas acústicos (au-

mentos de 50% e 210%, respectivamente) para exposições ipsilaterais. “Agora iden- tificamos um consistente padrão de au- mento de risco para glioma e neuroma acústico”, informa Kjell Hansson Mild, es- pecialista em radiação da Universidade de Umeå, na Suécia. “Tais evidências não são apenas reveladas por nossa pesquisa, mas também por todos os outros estudos focados em pelo menos 10 anos de perío- do de latência.”

As evidências apontadas sugerem que as crianças podem ser mais vulneráveis aos efeitos carcinogênicos potenciais de telefo- nes celulares e de outras tecnologias com emissão de microondas. “A preocupação sobre a vulnerabilidade potencial da crian- ça aos campos de RF (radiofreqüência) foi re-estimada devido à suscetibilidade poten- cialmente maior do sistema nervoso em de- senvolvimento”, alerta Leeka Kheifets, pro- fessor de epidemiologia na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e ex-diretor do programa de pesquisa do Electric Power Research Institute EMF . “Além disso, o te- cido cerebral da criança é mais condutivo, a penetração da RF é maior em relação à ao tamanho da cabeça, e sofrerá uma maior ex- posição durante sua vida [embora o grau de risco para qualquer agente carcinógeno seja determinado principalmente pelo tempo e pela magnitude de exposição].

A importância da caixa craniana mais fina e

das propriedades dielétricas discrepantes foi confirmada num estudo publicado em Physics in Medicine and Biology, de 7 de junho de 2008. Segundo esse trabalho, o cérebro de uma criança absorve até duas vezes mais RF do que o cérebro adulto. As crianças hoje experimentarão um período mais longo de ex- posição porque elas começam a usar celula- res em tenra idade. Esse dado é de alta rele- vância haja vista que doses cumulativas pa- recem fortemente influenciar o risco de tumo- res cerebrais. Não obstante, Kheifets chama

a atenção para a “falta de dados sobre os

efeitos de exposições em tumores cerebrais

infantis

[e] que outros fatores sobre a saú-

de também precisam ser analisados”.

A indústria de produtos eletro-eletrônicos

sem fio prefere manter uma visão cautelosa quanto à pesquisa. “O peso da evidência científica e as conclusões de boa quantida- de de resenhas especializadas mostram que os celulares não representam um risco à saú- de”, diz Joseph Farren, vice-presidente as- sistente para relações públicas da CTIA– The Wireless Association. “A indústria apóia o desenvolvimento de pesquisas à medida que a tecnologia evolui, mas tam- bém enfatiza o fato de haver por parte dos mais respeitados organismos de saúde um consenso sobre as pesquisas que apontam não haver razões para preocupação.”

Hardell concorda que ainda é muito cedo para determinar-se um limite seguro para o uso de telefone celular. “Ainda não pode- mos afirmar que uma chamada telefônica de dez minutos equivale a dez chamadas de um minuto. Até estarmos prontos para respon- der tal interrogação não se pode estabelecer um novo limite ou até mesmo afirmar os pa- râmetros ou as unidades que possam aju-

dar a definir aquele limite. No entanto, a par-

tir do momento em que detectamos um risco

aumentado para o desenvolvimento de tu-

mores cerebrais, torna-se necessário aplicar

o princípio de precaução a essa situação,

especialmente para exposições de longo al- cance, que parecem afetar as crianças em particular”. Na prática, a providência pode ser a limitação de uso de celular pelas crian- ças para minimizar a exposição de RF direta-

mente à cabeça.

REFERÊNCIAS

1 – O Brasil terminou em janeiro de 2008, com

122,8 milhões de celulares e uma densidade de

64,5 cel/100 hab, segundo a Rede de Informa- ção Tecnológica Latino-Americana (RITLA).

2 – Segundo dados da Nielsen Mobile libera- dos em setembro de 2008.

M. Nathaniel Mead Artigo publicado em Environmental Health Perspectives, Volume 116, Number 10, October 2008. EPH é publi- cado por The National Institute of Environ- mental Health Sciences.

http://www.ehponline.org/docs/2008/11610/

forum.html#stro

FONTES DE EXPOSIÇÃO AOS CAMPOS ELETROMAGNÉTICOS

Foto: Javier Martínez
Foto: Javier Martínez

Os campos eletromagnéticos são uma combinação de cam- pos de força elétricos e magnéticos invisíveis gerados por fenô- menos naturais e pelo uso da eletricidade. A maioria dos gera- dos pelo homem compreende as radiofreqüências altas (RF), como as dos celulares; as intermediárias (IF), como as geradas pela TV; e as extremamente baixas (ELF), como as das linhas elétricas. As radiofreqüências vão de 100 kHz a 300kHz.

Os campos de radiofreqüência (RF) são vitais aos sistemas de comunicação atuais. As fontes mais conhecidas são os celulares, os telefones e as redes sem fio e as torres de transmissão de sinais de rádio. Também utilizam campos de radiofreqüência os tomó- grafos médicos, os sistemas de radar e os fornos microondas.

Ao ser exposto a um campo de radiofreqüência, o organis- mo humano absorve energia. Não se pode precisar a quanti- dade que uma pessoa absorve diariamente, já que a exposi- ção depende de multifatores, sobretudo da distância que se- para o indivíduo da fonte emissora. A intensidade do campo diminui rapidamente ao se aumentar a distância, o que signi- fica que uma pessoa pode absorver mais energia de um dis- positivo próximo a si (o celular) do que de uma fonte mais potente (uma torre de transmissão) mais afastada.

A possibilidade de as radiofreqüências extremamente baixas (ELF) serem carcinogênicas não está descartada. Estudos preli- minares comprovam que crianças expostas a fortes campos magnéticos gerados por redes de alta tensão são mais pro- pensas a desenvolver leucemia

Fonte: Comitê Científico de Riscos Sanitários Emergentes e Recente- mente Descobertos (CCRSERI), 2007. Informações completas em http://www.greenfacts.org/es

DESASTRE AMBIENTAL

Independentemente de nossa capacidade de adotar medidas efetivas para mitigar a crise climática, teremos a intensificação de eventos extremos nas próximas décadas. As chuvas e inundações que devastaram o Morro do Baú, em Ilhota-SC (foto)constituem desastres ambientais – e sociopolíticos – há muito anunciados.

AS LIÇÕES DE SANTA CATARINA

E stão (parcialmente) errados os obser- vadores que atribuem o recente de-

sastre de Santa Catarina apenas ao des- matamento na Amazônia. É verdade que

esse é um forte determinante – tanto por meio de mudanças climáticas regionais quanto globais – dos fenômenos climáti- cos extremos, assim como tudo indica que

o acontecido nos últimos dias faça parte dessa categoria.

A ciência já identificou – apesar de não ex-

plicar completamente – a complexa relação que vincula as alterações na troca de umi- dade entre a floresta e a atmosfera na região amazônica tanto com o regime pluvial na bacia do Prata quanto com a convecção do vapor que afeta a temperatura da camada superficial dos oceanos, importante fator na geração de furacões e outros eventos ca- tastróficos. Mas a natureza extrema do fe- nômeno climático que afetou Santa Catari- na não é suficiente para explicar a dimensão dos impactos. Há também a vulnerabilidade sem precedentes do nosso território diante de um clima exacerbado.

por Roberto Smeraldi Fotos: Wilson Dias/ABr

Independentemente de nossa capacidade de adotar medidas efetivas para mitigar a

crise climática, teremos, de qualquer forma, uma intensificação de eventos extremos nas próximas décadas, além do que ocorreu nes-

ta, já sem precedentes. Podemos e devemos

fazer muito, agora mesmo, para mitigar essa tendência na segunda parte do século e nos vindouros, mas, infelizmente, já é tarde para evitá-la no curto prazo.

A vulnerabilidade extrema do território de

Santa Catarina – e a de outras importan- tes regiões do país – é devida principal- mente a desmatamento local, com altera- ções expressivas no uso do solo e na gestão das águas. Se o Código Florestal tivesse sido respeitado, especialmente no que diz respeito às áreas de preservação permanente (APP) – que incluem topos de morro, encostas e matas ciliares –, não veríamos erosão e assoreamento nessa escala. Fator agravante é a crescente po- pulação localizada em áreas de risco, o que reflete peculiar sensibilidade social por parte de nossos governantes: preo-

cupam-se tanto com as populações mais carentes que até se negam a retirá-las de onde a morte as ameaça.

Mas há outras contradições paradoxais, na contramão da história: enquanto as manchetes contabilizam as vítimas, no Congresso Nacional se cogita – acredi- te se quiser – “flexibilizar” o Código Florestal, tanto no que diz respeito ao desmatamento em geral (a chamada re- serva legal) quanto em relação às cita- das APPs. Em ambos os casos, a base do raciocínio é o reconhecimento do fato consumado.

Prevalece ainda a hipócrita cultura do perdão que, por trás de sua fachada de bondade, implica a socialização dos pre- juízos e, muitas vezes, assume a vitima- ção até mesmo de seus supostos benefi- ciários. Isso caracteriza a relação de um regime autoritário com seus súditos, e não de uma democracia com seus cida- dãos, que exige responsabilidade, certe- za do direito e cobrança mútua.

Assim, mete-se a mão no bolso do contribu- inte para enfrentar os danos da calamidade, mas não se realizam os investimentos, bem mais modestos, que poderiam fomentar a restauração das florestas, a recuperação das áreas alteradas e a proteção civil do territó- rio, além do desenvolvimento de uma eco- nomia de uso dos recursos florestais.

Se tivermos, como contribuintes, de sub- sidiar alguma parte no interesse supremo da sociedade, deveria ser a eliminação dos passivos. Ao contrário, subsidia-se, me- diante a impunidade e a tolerância, a ma- nutenção destes passivos, o que custa muito, muito mais caro.

Nosso Plano Nacional sobre Mudanças Climáticas foi lançado dia 1º de dezembro – o que vale uma comemoração –, mas com metas pífias para a Amazônia e sem meta para o cerrado – que se tornou, hoje, a pri- meira fonte de emissões do país – e para a Mata Atlântica, essencial para diminuir a vulnerabilidade de nossa população.

Prevalece ainda pernicioso provincianis- mo, pelo qual, ao reduzirmos de fato nos- sas emissões, estaríamos atendendo a in- teresses alheios antes dos nossos legíti-

atendendo a in- teresses alheios antes dos nossos legíti- lhota (SC) - Resgate das vítimas atingidas

lhota (SC) - Resgate das vítimas atingidas pelos temporais no Vale do Itajaí.

mos. Daí a preocupação em não assumir compromissos de descarbonização com- petitiva da nossa economia sem contra- partida no contexto internacional.

Quantos mortos são necessários para se entender que estamos entre os países mais vulneráveis à mudança climática? Nesta se- mana, em Poznan, reúne-se a convenção de clima: o Brasil está no topo da agenda da

mitigação” – por estar regularmente entre os cinco principais poluidores – , mas tam- bém daquela da “adaptação”, por sofrer as conseqüências mais graves da mudança em termos de saúde, segurança costeira, agri-

cultura e eventos catastróficos.

Roberto Smeraldi – Jornalista, é diretor da Oscip Amigos da Terra – Amazônia Brasileira. Artigo publicado na Folha de S.Paulo, 02/12/2008.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

PODEM

CRIAR

MILHÕES

DE

REFUGIADOS

AMBIENTAIS

CLIMÁTICAS PODEM CRIAR MILHÕES DE REFUGIADOS AMBIENTAIS R e f u g i a d o

Refugiados etíopes no Sudão - Foto: Daveblume

Danos ambientais provocados pelas alterações climáticas, como desertificação e inun- dações, vão provocar dramáticos êxodos populacionais nas próximas décadas. O fenômeno de migração ambiental está acelerando. Dados alarmantes indicam que mais de 40 países já não mais existirão ao final deste século devido às mudanças climáticas, e estima-se que até 2050 cerca de 200 milhões de pessoas serão desloca- das por problemas ambientais.

“Todos os indicadores mostram que estamos lidando com um grande problema global emergente”, sentencia Janos Bogardi, diretor do Instituto do Meio Ambiente e da Segu- rança Humana (Institute for Environment and Human Security, UNU-EHS), ligado à Uni- versidade da ONU. O número atual de refugiados ambientais varia de 25 a 27 milhões.

No passado, muitas vítimas dessa situação seriam qualificadas como migrantes eco- nômicos, classificação que não mais se aplica. A migração por motivos ambientais deve expulsar gente mais pobre – em sua maioria mulheres, crianças e idosos – de regiões gravemente atingidas.

Um estudo realizado por várias instituições européias expressou o temor de que redes de tráfico humano aproveitem-se dessa situação. Em Bangladesh, por exemplo, mu- lheres com filhos, cujos maridos morreram no mar durante o ciclone Sidr ou estão fora como trabalhadores migrantes temporários, são presa fácil de traficantes e acabam em redes de prostituição. Ou ainda, prestam-se ao trabalho forçado na Índia. A exploração de pessoas deslocadas por contrabandistas é relatada cada vez mais, conforme incha o fluxo de migrantes informais ou ilegais, revela o estudo.

Fonte: United Nations Unversity – Institute for Environment and Human Security /UNU-EHS [www.ehs.unu.edu]. Para mais informações sobre refugiados consulte - LISER: World Information Centre on Environmental Refugees [www.liser.org/]

Cidadania&MeioAmbiente

Cidadania&MeioAmbiente

29

29

TÉCNICAS ALIMENTARES: saúde ou doença? Podemos sonhar com uma agricultura orgânica que gere mais saúde
TÉCNICAS ALIMENTARES:
saúde ou doença?
Podemos sonhar com uma agricultura
orgânica que gere mais saúde que doenças,
produzindo comida de boa qualidade?
por Gilberto Dupas
PONTO - D E - VISTA
Haripako

A alimentação humana, contamina- da por agrotóxicos e pesticidas, e alterada em sua natureza intrínse-

ca pelo processamento radical, está sendo acusada por especialistas de ter sido trans-

formada em uma máquina de fabricar doen- tes e gerar verdadeiras epidemias contem- porâneas, como cânceres e diabetes.

Para complicar mais, ao produzir comida, agora se exige que a agricultura dispute as terras disponíveis com os biocombustíveis necessários para moverem outra praga glo- bal: a frota explosiva de automóveis.

Durante o século 19, as principais preo- cupações associadas a questões agríco- las e ambientais na Europa e na América do Norte eram o esgotamento da fertili- dade das terras, a crescente poluição das cidades e o desflorestamento de conti- nentes inteiros.

Com a exaustão dos fertilizantes naturais, agricultores europeus da época chegaram a invadir as regiões das batalhas de Wa- terloo e de Austerlitz para buscarem os ossos das catacumbas e espalhá-los moí- dos sobre seus campos. O primeiro barco carregado de guano peruano – esterco de aves marinhas – chegou a Liverpool em 1835; em 1847, já se importavam 222 mil toneladas anuais. Por volta de 1860, Marx havia se convencido da natureza insus- tentável da agricultura capitalista.

Suas contradições foram muito sentidas nos EUA com o bloqueio do guano peru- ano pelo monopólio britânico. O Decreto das Guano Islands, aprovado pelo Con- gresso em 1856, fez os norte-americanos apossarem-se de quase 70 ilhas e arreci- fes em todo o mundo. Com o esgotamen-

to das reservas peruanas, foi necessário

substituir o guano por nitratos chilenos.

Essa sucessão de crises impulsionou os grandes avanços na ciência do solo, esti- mulando a revolução agrícola com a in- dústria de fertilizantes.

Continuavam, porém, preocupações cres-

centes com a exaustão do solo e o proces-

so de destruição ecológica. Começaram,

então, a ser utilizados nitrogênio, fósforo,

potássio e os superfosfatos sintéticos.

Percebendo essa crise estrutural na ferti- lidade das terras, Marx acusou a agricul-

tura capitalista de larga escala e a indús- tria de se unirem para empobrecerem o solo

e o trabalhador; a grande propriedade fun-

diária iria reduzindo a população agrícola

a um mínimo e surgiria uma crescente po-

pulação industrial amontoada nas cidades.

Para ele, era uma falha irreparável no pro- cesso interdependente do metabolismo social, prescrito pelas leis naturais; o sis- tema industrial e o amplo comércio aplica- dos à agricultura debilitariam os trabalha- dores e ofereceriam aos produtores meios para exaurir o solo. As condições de sus- tentabilidade impostas pela natureza ha- viam sido violadas. Curioso que tal idéia aproxime-se da noção atual de desenvol- vimento sustentável.

A solução de Marx para essa grave ques-

tão era o tratamento racional da terra como propriedade comunal permanente, o que, porém, mostrou-se um fracasso quando aplicado às experiências de socialismo real.

Foi a agricultura capitalista de larga escala

– apoiada numa poderosa indústria global

de agrotóxicos, fertilizantes, pesticidas e produtos químicos avançados – que aca-

bou se impondo globalmente durante a segunda metade do século passado.

De fato, com essas tecnologias e mane- jos, o grande agronegócio global deu con- ta da oferta de alimentos básicos para cres- centes populações mundiais; contudo, a qualidade dos produtos alimentares resul- tantes degradou-se. Contaminados por pesticidas, antibióticos, hormônios e re- síduos tóxicos, alimentos padronizados e suas cadeias protéicas deixam atrás de si um meio ambiente devastado.

Os transgênicos, última promessa da téc- nica, são ditos capazes de revoluciona- rem o mundo dos alimentos. Mas omitem- se seus riscos, culturas tradicionais e va- riedades genéticas são destruídas, a pa- dronização aumenta, a qualidade final é posta em dúvida, os efeitos sobre a saúde causam preocupações e a dependência tecnológica concentra-se.

Será que podemos voltar a sonhar com uma agricultura orgânica que gere mais saúde que doenças, produzindo comida natural de boa qualidade, verduras e le- gumes sem agrotóxicos e não envenene terras cultiváveis e rios? Ou estaremos inevitavelmente condenados à esquizofre- nia de uma civilização que alerta cada vez mais sobre o risco dos alimentos contami- nados, mas obriga quem quiser ser sau- dável a procurar produtos orgânicos por mais do dobro do preço?

Gilberto Dupas Economista, coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP, presidente do Instituto de Estudos Eco- nômicos e Internacionais e autor de “O Mito do Progresso” e de “O Incidente”, entre outras obras. Artigo transcrito de Tendências/Debates, Folha de S. Paulo, em 4/11/2008.

Cidadania & MeioAmbiente 3 1
Cidadania & MeioAmbiente 3 1
Cidadania & MeioAmbiente 3 1
Cidadania & MeioAmbiente 3 1