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O querido (e anônimo) conhecido

O sábio vendedor de revistas

“Um campus universitário sempre tem os tipos populares. Acho que ele faz parte desse tipo popular,
“Um campus universitário sempre tem os tipos populares. Acho que ele
faz parte desse tipo popular, faz parte de um contexto universtário”
Ticiana Melo, professora da Casa de Cultura Francesa da UFC

FOTOS: DIEGO SOMBRA

TEXTO ESCRITO POR AMANDA ALBOINO

“Tome um porre de leitura que a ressaca é de cultura!”

Por Amanda Alboino

“Tome um porre de leitura que a ressaca é de cultura!”. É com essa sábia e bem humorada frase que o vendedor autônomo, mais conhecido como o “Tio das revistas” pelos estudantes, conquista a clientela. O pacato vendedor, que trabalha há quase 30 anos no ofício, é um querido e velho conhecido dos estudantes, professores e servidores da Universidade Federal do Ceará (UFC). Embora as pessoas com quem conversei o conhecessem, nenhuma delas pôde me informar ao certo o verdadeiro nome dele ou algo sobre a vida pessoal que me ajudassem a localizá-lo. O que me atiçou ainda mais a curiosidade. Quem seria aquele senhor tão conhecido, e, ao mesmo tempo, tão desconhecido por todos?

Em minha procura, acabei descobrindo que sua venda não se limita apenas aos campi universitários (UFC, UECE, IFCE). Ele também percorre o centro, hospitais

e escolas da cidade. Fui colhendo informações aqui e

ali sobre seu paradeiro até que finalmente consegui

encontrá-lo vendendo suas revistas no bloco de Letras do Centro de Humanidades I (UFC). Ao abordá-lo para uma entrevista, ele foi esquivo explicando que “As pessoas sempre querem saber onde arranjo as minhas revistas para vender tão barato. Eu não gosto disso. Para que querem saber? A gente não pode revelar os segredos do comércio desse jeito por causa da concorrência”.

Tranquilizei-o e começamos a conversar. Em dois minutos de diálogo, dei-me conta de que estava diante de uma das histórias de vida mais encantadoras que eu já tinha ouvido falar.

BIOGRAFIA

Nascido na cidade de Independência, interior do Ceará, Paulo Augusto criou- se no município de Pedra Branca. Aos 14 anos, veio com os parentes para For- taleza, residir na Parquelândia, para dar continuidade aos estudos. “Meus pais vieram para Fortaleza para educar a família e aqui nós começamos a trabalhar

e a estudar. Lá em casa são sete homens e quatro mulheres. Há nove formados. Só os dois mais velhos, que casaram mais cedo, não conseguiram se formar. Um irmão meu, que foi pra Brasília, mandou me chamar, e eu fui pra lá.” Paulo ainda estava no ensino médio quando se mudou para Brasília. Tra- balhava durante o dia para ajudar o irmão e estudava no turno da noite. “Termi- nei o ensino médio no colégio Elefante Branco e prestei o vestibular para Direito

na Uniceub (Centro de Ensino Unificado de Brasília). Passei. Trabalhava durante

o dia e estudava durante a noite” A faculdade, que é particular, foi inteiramente

paga por Paulo. “Quando terminei a faculdade, voltei para o meu Ceará; encontrei uma moça

na Parquelândia e me casei; Tenho dois filhos, um de 25 anos que já terminou

Medicina aqui na Federal (Universidade Federal do Ceará) e outro de 22, que

está terminando o curso de Educação Física.” A esposa de Paulo, dona Francisca Maria Menezes Coutinho, é professora aposentada pela Prefeitura de Fortaleza. Sobre a vida como vendedor de revistas, ele conta com entusiasmo que apren- deu a vender com o pai: “[Desde quando] eu tinha 10 anos já trabalhava na mercearia de meu pai no interior. Aí herdei o tino e nunca mais parei. Estou com 63 anos, e toda minha vida foi vendendo, vendendo, vendendo e eu adoro meu trabalho. Graças a Deus eu amo o que eu faço.” Paulo se aposentou há alguns anos, mas não abre mão de suas vendas “Eu sou aposentado do INSS, mas da vida não sou não!” orgulha-se.

Todo dia, Paulo Augusto Leite Coutinho, de 63 anos, levanta às 6 horas da manhã; Toma
Todo dia, Paulo Augusto Leite Coutinho, de 63 anos, levanta às 6 horas da manhã; Toma
Todo dia, Paulo Augusto Leite Coutinho, de 63 anos, levanta às 6 horas da manhã; Toma
Todo dia, Paulo Augusto Leite Coutinho, de 63 anos, levanta às 6 horas da manhã; Toma

Todo dia, Paulo Augusto Leite Coutinho, de 63 anos, levanta às 6 horas da manhã; Toma seu café reforçado;

coloca de 50 a 100 revistas na bolsa e ganha o mundo. Com

sua malinha a tiracolo, pega a condução em busca de mais um dia de boas vendas. O destino? Para onde as revistas o mandarem. “As minhas revistas são baratas, então todo mundo pode comprar. Para onde eu vou, levo todo tipo. Se eu venho para a universidade eu pego a Galileu, Revista Literatura e Speak up; quando eu vou pelo Hospital do Câncer eu levo Caras, Contigo! Quem para as pessoas que estão se consultando”. As revistas que o seu Paulo vende são edições antigas de pouco ou nenhum valor comercial. O

vendedor as negocia por uma média de 2 ou 3 reais cada

exemplar a seus clientes. Apesar da pouca margem de lucro alcançada em relação ao preço dos produtos das bancas, Paulo acha que não teria sentido encarecer suas vendas:“Eu trabalho com revistas depois que saem das bancas, por repasse. Se eu for trabalhar com o preço do valor da capa, automaticamente minhas vendas irão cair. Então depois que essa revista sai da banca, embora sendo com a data vencida, muita gente compra porque não tem poder aquisitivo para comprar na banca. Preferem comprar de dois ou três meses atrás do que pagar ela de dez reais na banca. Eu acho bom assim e o cliente também”. Mas não é apenas o preço reduzido dos produtos que atrai a atenção de quem passa. Como comerciante experiente, ele diz que o segredo está no entusiasmo “Você tem que chegar alegre, contente e levar aquela energia positiva para o cliente. Aí todo mundo lhe compra, por que você envolve a pessoa. Então eu tenho carisma. Eu nasci para vender e vou morrer vendendo”, gaba-se.

DEPOIMENTOS

Carisma reconhecido pelos estudantes. Klenny Alves,

22, estudante de Publicidade da UFC conta como conheceu o negociante: “O Tio das Revistas eu conheço desde 2007

lá na UECE (Universidade Estadual do Ceará). Ele é meio

que onipresente, em todo canto que eu vou ele está lá!” ri a estudante. Klenny diz que o trabalho realizado por Paulo na universidade é interessante, pois permite aos acadêmicos ter o acesso a revistas por um baixo preço. Além disso, segundo a aluna, “Ele age de forma muito simpática. Tenta persuadir os estudantes de forma legal, puxando assunto e até brincando. Isso é bacana.” Alexandre Heverton, 19, estudante de Publicidade

e colega de Klenny, confirma: “A gente não fica irritado.

Não é como um vendedor chato de revista que faz a gente querer que ele saia logo”, compara Alexandre. Para Thyago Leitão, aluno do curso de Economia da UFC, o trabalho de Paulo é mais do que um ofício para

o sustento financeiro do vendedor: “Uma vez, quando

conversei com ele no ônibus, ele falou como se (a venda

de periódicos) fizesse parte da vida dele. É como se tivesse

uma história. E eu acredito que ele só venda revistas. Então já é uma característica dele. Não é só um simples

emprego. Acho que ele não quer abandonar isso”. Mas não é apenas entre os estudantes que o Tio das

Revistas é conhecido. Ticiana Melo, 45, professora da Casa

de Cultura Francesa, também acha importante esse tipo de acesso à informação a preços populares. “Ele tem aquelas revistas de inglês, espanhol, que vem até com um CD, e eu como professora de linguagem, acho que é um material importante. Eu já cheguei a comprar dele e vejo que tem sempre pessoas que se interessam. Ele é muito educado e tem sempre aquele jargão ‘um real, um real!’ ”. As famosas frases que Paulo utiliza nas vendas é outra maneira de conquistar a clientela. “Eu adoro ler.

Por isso, às vezes digo ‘tome um porre de leitura que a ressaca é cultura’, ‘quem lê chega mais longe do que os que não lêem’. Sempre costumo dizer essas minhas frases por aí. Leio muito livro de auto-ajuda e todas as frases

que edificam o ser humano eu anoto em uma agenda que

tenho lá em casa, depois gravo na mente. Aí, muitas vezes, aplico essas frases no meu trabalho”. Quanto à relação na universidade, o vendedor salienta “Quando chego vou logo

“Quando terminei a faculdade, voltei para o meu Ceará; encontrei uma moça na Parquelândia e me

“Quando terminei a faculdade, voltei para o meu Ceará; encontrei uma moça na Parquelândia e me casei”, Paulo e dona Francisca estão casados há mais de 25 anos.

brincando com um, brincando com o outro e formo aquele ciclo de amizade. Procuro trazer alegria e entusiasmo e assim vou enriquecendo os conhecimentos deles e vou aprendendo muito com os estudantes também.”

TRAJETÓRIA

Paulo revela que, durante muitos anos, foi vendedor

de assinaturas do Jornal Diário do Nordeste. “Eu peguei o anúncio no jornal e me apresentei lá. Depois de um ano que o Diário do Nordeste foi lançado eu entrei”. Em pouco tempo de trabalho, Paulo já começava a se destacar entre

os colegas “Eles fizeram uma meta de vendas para mim.

‘Olha se você fizer 50 assinaturas em um mês, além da comissão você ganha um prêmio’. Mas em vez de fazer 50 assinaturas no mês eu fiz 200. Aí eles cresceram os olhos”,

conta Paulo, entre risos. Segundo o comerciante, essa foi um tempo de grande

fartura para a família dele. Entretanto, depois de 12 anos

vendendo suas assinaturas, Paulo sentiu que seria melhor

deixar o emprego para apostar em outro negócio. “É porque veio a época da Internet. As pessoas já ficavam

olhando as notícias pelo computador e não queriam mais fazer assinaturas. Outra: congelou os preços. O preço da assinatura estava quase o mesmo preço da banca. Então a pessoa preferia comprar na banca só quando bem entendesse. Assim, eu resolvi partir para outro tipo de negócio que era oferecer as revistas porque não dependia de assinar cheque nem passar cartão. Era dinheiro pra cá e revista pra lá.” Além de trabalhar com assinaturas de jornal, Paulo chegou a trabalhar durante algum tempo para a Editora Abril, chegando até mesmo a ministrar palestras de vendas aos seus colegas. “As pessoas me perguntavam o que eu

fazia para vender tanto. Eu dizia que o segredo era chegar alegre para os clientes e envolve-los, conversando aqui e ali, então você termina vendendo” e comenta “[Hoje] muitas vezes, eu vendo cem revistas no dia, sem me esforçar”.

Apesar de trabalhar desde cedo, Paulo afirma que

teve uma infância feliz “Eu sou uma pessoa simples, fui criado no interior e em contato com a natureza. Lá onde eu morava, nem energia tinha. Fiz todo o tipo de pirueta com as crianças do interior: brincava de esconde-esconde, criava passarinho, tomava banho nos rios. Mas toda vida com papai me colocando pra trabalhar. Com dez anos já tomava conta da venda dele.” Paulo lembra, com orgulho, dos ensinamentos do pai e enfatiza a importância do trabalho na formação do caráter das pessoas “O trabalho é a maior terapia que pode existir na face da Terra. A pessoa que não trabalha não tem moral pra nada. Ela pode ser o que for, mas se

não trabalhar ela não tem moral nenhuma, porque é o

trabalho que edifica o ser humano” e ressalta “Eu estou

aposentado e pretendo continuar trabalhando. Eu tenho duas pernas, uma boca pra falar, então não pretendo me aposentar nunca. Quando o trabalho é feito com amor ele passa a ser um divertimento”.

É assim que o “Tio das Revistas” vai tocando a vida:

com simplicidade, humildade e, acima de tudo, com caráter e dignidade. Aquele senhor simpático e anônimo vendendo suas revistas todos os dias nos intervalos das aulas faz parte de um cotidiano que compõe a cultura histórica de Fortaleza e da Universidade Federal do Ceará. Sendo conhecidas, histórias como a do senhor Paulo tornam-se parte da comunidade, inspirando pessoas a admirar a vida e tentar tornar o mundo um pouco mais humano.

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