Ler o mundo com a Geografia: o uso de conceitos geográficos como contribuição didática para o ensino nos anos iniciais

Eixo temático: Educação e Linguagem

Jordana Bogo

RESUMO: A presença da Geografia, ainda hoje, nos sistemas de ensino, muitas vezes é ensinada de forma desconexa da vida dos alunos e não utiliza em grande parte o aparato conceitual dessa ciência. Os anos iniciais marcam o começo do processo de educação e o momento em que são propícias as reflexões em torno das vivências dos educandos e a construção de conhecimentos em ambientes formais de aprendizagem. Os educadores exercem um papel fundamental nesse processo por serem mediadores entre o universo vivenciado pelos educandos e a linguagem conceitual na qual se estruturam as diferentes áreas do conhecimento. O presente texto busca discutir a presença da Geografia e seu corpo conceitual no sistema curricular, além de apresentar reflexões para uma prática pedagógica capaz de desenvolver um ensino de Geografia que, por meio de sua linguagem conceitual possa colaborar com práticas prazerosas para esse nível de ensino, valorizando o universo de vivência dos alunos. Palavras-chaves: ensino-aprendizagem; anos iniciais; conceitos geográficos; prática docente. ABSTRACT: The presence of Geography, still today, in the education systems, many times is taught of disconnected form of the life of the pupils and it to a large extent does not use the conceptual apparatus of this science. The initial years mark the start of the education process and the moment where the reflections around the experiences of the students and the construction of knowledge in formal environments of learning are propitious. The educators exert a basic paper in this process for being mediating between the universe lived deeply for the students and the conceptual language in which if they structuralize the different areas of the knowledge. The present text searchs to argue the presence of Geography and its conceptual body in the curricular system, beyond presenting reflections for one practical pedagogical capable one to develop an education of Geography that, by

E os educadores exercem papel fundamental nesse processo. conceituar e compreender o espaço social em suas inter-relações. early years. nas entrelinhas e nos reflexos de cada conceito geográfico. Isso afasta a realidade vivida dos sujeitos que constituem o processo de ensino-aprendizagem. geographical concepts. Muitas são as temáticas que envolvem a Geografia e muitos são os estudos e as preocupações que abrangem o ensino dessa ciência. valuing the universe of experience of the pupils. esse passa . Apesar de inúmeros estudos voltados ao tema. A cada caso. O educando e seu encontro com a Geografia nas primeiras vivências escolares No instante em que a criança se distancia um pouco do convívio familiar . a fim de que possam ampliar as vivências e concepções de mundo dos educandos por meio da ciência geográfica. ou melhor. o instrumental conceitual da ciência geográfica. evidencia-se ainda hoje metodologias de ensino que perpetuam uma Geografia ligada à metodologia tradicional. em vez de trabalhá-los de forma integrada. teaching practice. torna-se oportuno compreender as implicações didático-pedagógicas da reflexão acerca da utilização de conceitos geográficos no trabalho docente dos anos iniciais.means of its conceptual language can collaborate with practical pleasant for this level of education. São eles os mediadores entre o universo vivenciado pelos educandos e a linguagem conceitual na qual se estruturam as diferentes áreas do conhecimento.espaço onde mais circula na idade pré-escolar – para ingressar na instituição de ensino. Esse modelo valoriza as memorizações em oposição à reflexão e ao uso conceitual como forma de levar a compreensão do espaço vivenciado pelos educandos a um processo de ressignificação dessa própria prática. É comum observar seus conteúdos sendo classificados por listas de nomes e curiosidades sem o devido aprofundamento e sem a correta observação sobre o que há por trás. Diversos conceitos utilizados pela Geografia são empregados na linguagem científica de outras ciências e até mesmo falados em diálogos do cotidiano. Nesse sentido. Por isso. expresso por meio de sua linguagem científica. permite definir. Keywords: teaching and-learning. distanciando estudos naturais e sociais. os empregos e os significados podem possuir diferentes acepções em relação à sua aplicação. A Geografia faz parte dos currículos escolares e não raras vezes seu ensino é oferecido de maneira inadequada e superficial.

Ela passa a ficar envolta por mundos imaginários do faz de conta. suas estruturas curriculares e de organização. além da continuação de sua formação e da transformação de seu centro social. dessa forma. opiniões e direitos (HICKMANN. por meio da aquisição da leitura e da escrita. p. instituem a entrada do público infantil nesses ambientes desde muito cedo. Especialmente nessa fase. criando. pelas brincadeiras lúdicas e pelo convívio com colegas e educadores. Ou seja. As oportunidades oferecidas permitem um maior contato motor. práticas e afetivas. efetiva-se oficialmente a partir do 1º ano do Ensino Fundamental e se estende de forma sucessiva aos outros níveis. . social. para que possam se desenvolver melhor. As instituições escolares. afetivo e social. Também é o espaço em que ela passa a relacionar-se frequentemente com pessoas adultas. É nesse período que a estrutura cognitiva das crianças é colocada no embate entre suas habilidades e limites. para além daquilo que elas já conheceram e experimentaram.] uma articulação entre o ambiente físico e social e o processo de construção das múltiplas identidades que nos constituem ao longo da trajetória de vida (pessoal.. concorrência e individualismo.. que as levem à independência. A formalização deste período do processo de ensino-aprendizagem. 9-10). Significa refletir sobre a possibilidade de se proporcionar às crianças oportunidades de interação com outros indivíduos. também têm sentimentos. o educando é único e todas as peculiaridades de sua identidade e personalidade iniciam por meio de movimentos naturais e biológicos. que outrora se concentravam no interior da família. por meio de aportes legais. à cooperação e à colaboração voluntária e não à competitividade. A relação entre a transmissão e a construção do conhecimento constitui-se basicamente na transferência de modelos convencionados socialmente. com os quais convivem. ao perceberem que os outros. O início do convívio escolar se destina à familiarização da criança nesse novo espaço. 2002. cultural). muitas possibilidades de experiências. o contato com a escola propicia ampliações de seus horizontes. É oportuno oferecer a essas crianças o contato direto com inúmeras possibilidades de atividades lúdicas. devido às experiências quantitativas e qualitativas.a ser o lugar em que são estabelecidos os primeiros contatos com colegas da mesma faixa etária ou até em idade mais avançada. Essas aproximações significam [. determinados pelos contextos culturais de que faz parte.

Para tal. cabe ao professor em sala de aula oferecer condições ao aprendizado: “(. p. artísticas e corporais. ciências naturais. não acompanha os mesmos passos das mudanças e da variabilidade de eventos.. são o início da vivência socializadora em um grupo formal. definido muitas vezes por manuais didáticos e por acúmulo de informações fragmentadas. não se pode deixar de lado a vivência que ele tem fora da escola e aquela dos anos de vida que precederam a alfabetização (dentro e especialmente fora da escola). Callai (2002. necessitam abranger a multiplicidade de conhecimentos existentes. fragmentadas. Muitas são as questões levantadas e as propostas elaboradas para a divisão e a forma como se apresentam as disciplinas escolares neste nível de ensino: elas são. a escola. as crianças se deparam com a organização da ciência segundo componentes curriculares de matemática.) ele próprio tem de assumir essas características no seu aprendizado e na sua formação” (CALLAI. além da história e da geografia. em geral. e. organizado fora da criança e por motivos externos à ela.. 57) ressalta que: As séries iniciais. 10). Na escola. o conhecimento científico e os saberes foram fragmentados em divisões específicas. a conexão entre os saberes. às relações entre as pessoas e os lugares que vivem e percorrem. As primeiras caracterizam-se pelo formalismo. segundo Callai. período em que se dá a alfabetização. desarticuladas e compartimentadas. Essa colocação não exclui a importância do campo específico das ciências – forma . p. formalmente desenvolvendo a aprendizagem de certos aspectos da vida. é necessário ir além dos objetivos do ensino nos anos iniciais. voltando-se inicialmente à identificação do ‘ser’ do aluno. ocorrem as primeiras sistematizações do saber formal. Apesar de o período atual ser cada vez mais global e envolver processos multidimensionais. Sob tal circunstância. As propostas metodológicas práticas se valem de situações-problema. estratificadas por disciplinas. Durante essa trajetória instituída. na maioria das vezes. como em outros momentos. o que impossibilita. procurando educar estudantes abertos às relações de tudo que os rodeia. 2002. Se o aluno tem de vivenciar a sua vida dentro desse grupo. se utilizam das inúmeras realidades presentes na sala de aula. por envolverem o cotidiano.Para compreender a realidade. dos símbolos estabelecidos pela sociedade à qual pertencem. O desenvolvimento dos distintos campos do conhecimento permite inúmeras abordagens metodológicas: teóricas ou práticas. com as linguagens escritas.

as abordagens a serem realizadas devem ser concentradas a partir de fatos do cotidiano. Logo. a tomada de saberes como forma de interpretar o real. ou seja. não procuram sua aplicação metodológica. que não reconhecem sua estrutura teórica.que ainda hoje é mantida pela maior parte das instituições escolares. que além de ampliarem a compreensão do todo por parte do aluno. ela precisa ter a figura do professor como o sujeito que irá auxiliá-la. 35). ainda mais durante os anos iniciais.. A esse respeito. 1996. e. na linguagem.. portanto. Uma das especificidades marcantes deste nível de escolarização é a preocupação com a alfabetização ancorada nas disciplinas de Português e Matemática.) mecanismos cognitivos. não fundamenta a prática de muitos educadores. Ela é uma disciplina que muitas vezes é incipiente ainda hoje na formação de professores deste nível. A Geografia se insere nesse contexto. Para Callai (2003). presentes nas ações. O conteúdo das ciências sociais pode ser considerado. O espaço escolar nos anos iniciais. com a constante interferência do educador mediador sobre as crianças e suas diferentes infâncias. especialmente nessa fase de escolarização. por isso. nesta perspectiva. ainda. o pensamento ou inteligência. além da mediação dos signos presentes no ambiente escolar. Callai (2003. e. p. nas imagens. p. envolvendo assim os grupos sociais representados na individualidade de cada aluno. e pode ser aplicado a qualquer e a todas as extensões das áreas de interesse” (RAMALHO. Para que seja estabelecida a relação entre o mundo vivenciado pela criança antes de sua entrada na escola e as matérias escolares. o professor pode se valer desses diferentes contextos. Ao contrário. que tem como fundamental a alfabetização. o pano de fundo que embasa todo este processo de iniciação escolar. entre as grandes habilidades a serem desenvolvidas estão os atos de ler/escrever e de contar. a partir da leitura do mundo vivido da criança. 77) indaga e responde: Ler e escrever para quê? Consideramos que essas são atividades que vão instrumentalizar o aluno a viver no mundo. possibilitam. nas percepções. poderá ser um período propício a . a reconhecer esse mundo e situar-se nele como um cidadão. a riqueza de oportunidades de conhecimento e o espaço propício da escola e da sala de aula facilitarão ao aluno o desenvolvimento de seus “(. Trabalhar nesse nível de ensino uma proposta voltada ao aluno e não aos interesses estanques de disciplinas escolares é desenvolver uma postura aberta e flexível. ou melhor.

o homem se modifica. e vivencia uma cultura que guia seus processos cognitivos por meio de um plano interpessoal. a comunicação dos indivíduos com tudo o que os cerca ocorre por meio de sistemas de signos (numéricos. construções e reconstruções do conhecimento. o ser humano é inserido em um contexto social e histórico. ao considerar que os conceitos não são imutáveis. Portanto. p. Em cada momento. de suas idéias. destaca que: [. As funções cognitivas e comunicativas da linguagem tornam-se então a base de uma forma nova e superior de atividade nas crianças. pode recorrer a diferentes linguagens para resolver os problemas. que caracteriza o mundo em palavras. Desde o nascimento. transformando a natureza em objeto de conhecimento e a si em sujeito de conhecimento. artísticos.novas descobertas. por meio dela. O desenvolvimento cognitivo é oriundo das relações sociais. 38). p. cartográficos. LUQUE. afetivas e culturais que acontecem no decorrer da existência humana e passam por diferentes fases. Para ela. A infância é o período no qual são adquiridas capacidades que organizam o início desse processo que amadurece somente na puberdade e no decorrer das experiências individuais. mas sim um processo social e histórico. Para isso. distinguindo-as dos animais (1998. gráficos. e são convencionados na linguagem. de sua experiência. o contexto social no qual os indivíduos se encontram fornecem instrumentos de apropriação cultural. 189) ressalta que a atividade humana é produtora e. etc (CUBERO. .. ou seja. Vygotsky. Deste modo. de interação com os objetos e os indivíduos e de reconstrução pessoal. Cavalcanti (2005. ser e agir.) criados pela cultura. de seus conhecimentos. Nesse sentido: A apropriação é um processo ativo. o professor deve apresentar as inúmeras formas de conhecer. etc.. que possuem diversas formas e expressões. o conhecer não é um fenômeno individual e natural. A construção de conceitos cotidianos e científicos A relação entre os indivíduos e o mundo estrutura o funcionamento psicológico humano que envolve diversos processos mentais. p. 2004. primeiro e acima de tudo. Um processo ativo em que o sujeito tem distintas opções semióticas. para que o aluno supere o conhecido e avance na resolução de questionamentos que possui enquanto ser social e pensante. 98-99). as pessoas conferem significados às situações das quais participam e à sua própria atividade em função de suas características pessoais idiossincráticas.] Signos e palavras constituem para as crianças. um meio de contato social com outras pessoas. de seus interesses.

por meio de palavras. bem como da forma de como se desenvolverá essa ampliação de conhecimentos. Nesse momento (a partir dos dois anos).. se desenvolve por intermédio das diversas interações que a criança realiza diariamente no contato com outras pessoas. Já os conceitos científicos envolvem conhecimentos sistematizados e interrelacionados a partir de um processo orientado. com o objetivo de aprofundar e ressignificar aqueles já existentes. A aprendizagem obtida pelo sujeito. levando-se em conta a linguagem. deve-se considerar a relação entre o desenvolvimento cognitivo e a vivência dos educandos para que. Para Vygotsky (2000. decorre da formação de conceitos designados por Vygotsky de cotidianos e científicos. a criança possa entrecruzar suas experiências imediatas com os conhecimentos científicos e atribuir significados ao real. em contato com os signos encontrados na esfera social. Os conceitos científicos estão presentes nas propostas curriculares a serem desenvolvidas com os educandos. pressupõe não só a combinação e a generalização de determinados elementos concretos da experiência mas também a discriminação. objetos e fenômenos. por meio de sua linguagem. presente no cotidiano escolar.. A construção desses conceitos com as crianças passa a ser uma ação intencional e mediada. irão depender da categoria de conceitos que se pretende ensinar. Segundo Vygotsky (2000). os conceitos tomados dos adultos e utilizados pela criança. a abstração e o isolamento de determinados elementos e. o conceito: [.As construções sociais. muitas vezes. de sua capacidade de conhecer e conceber o mundo e nele atuar dependem das relações que os indivíduos estabelecem com o meio e de como apreendem tal realidade. No decorrer da construção desses conceitos. O primeiro grupo. A comunicação entre as pessoas ocorre. cujos significados e conceitos modificam-se de acordo com o desenvolvimento de cada um. o desenvolvimento do pensamento conceitual e a construção do saber necessitam da . ainda. por meio da aprendizagem escolar. Os instrumentos mediadores utilizados nesse processo.] em sua forma natural e desenvolvida. p. a habilidade de examinar esses elementos discriminados e abstraídos fora do vínculo concreto e fatual em que são dados na experiência. segundo o autor. o desenvolvimento mental dos indivíduos. 220). a fim de desenvolver conhecimentos científicos elaborados historicamente. se voltam somente para nomear objetos e episódios presentes em sua vivência imediata.

O desenvolvimento de capacidades individuais. em situações de aprendizagem escolar. Oliveira (1992.. sendo sistematizados e conduzidos intencionalmente e. no ato comunicativo. aplicada ao ensino. é possível articular. contextual e que é resultado da participação dos alunos em uma comunidade de prática” (CUBERO. As relações no mundo por meio de uma dimensão social. em geral. por meio de situações mediadas que desencadeiam os processos intra-pessoais. 26) complementa afirmando que “enquanto sujeito de conhecimento o homem não tem acesso direto aos objetos. pois através de sua apropriação. relacionadas às práticas escolares. “Em suma. para a teoria sociocultural. planejadas.. é que permite o encontro para a formação de conceitos científicos. isto é. as atividades educacionais escolares se diferenciam nitidamente de outros tipos de atividades educacionais pelo fato de se tratarem de atividades especialmente pensadas. feito através dos recortes do real operados pelos sistemas simbólicos de que dispõe”. professores. 105). amigos. 2004). permitindo uma expansão conceitual e de constituição do sujeito. 2004. A linguagem desempenha um papel importante nesse processo.). ao estabelecer relação com o “outro” ele se constitui como ser social. 121). A mediação social e escolar e as possibilidades de intervenção no desenvolvimento da criança O desenvolvimento entre as relações sociais e o pensamento dos indivíduos depende de instrumentos mediadores. Para Vygotsky. 2004. interativo. Nesse contexto. cultural e cognitiva permitem pensar o desenvolvimento dos indivíduos e a relação que irá estabelecer entre os conceitos cotidianos e científicos. p. efetivadas por meio da mediação.mediação com o outro (família. os signos à dinâmica cultural. é entendida como “[.] um processo distribuído. LUQUE. e executadas com uma intencionalidade educacional” (COLL. aumenta à medida que aumentam as possibilidades geradoras de sentidos e significados (COLL. mas um acesso mediado. que. p. p... A mediação resulta na aprendizagem. a mediação do professor desempenha um papel de equilíbrio na interação entre os sujeitos e os mecanismos facilitadores da . já que. a qualidade das atividades externas.. Essa interação ocorre por meio de relações interpessoais dentro da sociedade e de seus contextos culturais e sua apropriação se dá através da educação e do ensino.

e por isso. estabelecimento de relações. ele busca criar relações nas quais ele e seus educandos sejam sujeitos em interação e estabeleçam um diálogo coletivo em um processo dialógico. É essencial que a educação escolar possa orientar e influenciar as atividades cognitivas dos indivíduos por meio de atividades estruturadas de forma diversificada. que ocorrem ao longo do processo de educação e ensino. se faz necessário criar possibilidades futuras de crescimento e de aprendizagens. O trabalho docente por meio de conceitos pressupõe o reconhecimento de acontecimentos em diversas circunstâncias do cotidiano dos sujeitos envolvidos em sala de aula. conceitos são o que costumamos designar habitualmente de conteúdos.aprendizagem. bem como para reais potenciais de alcance. A diferença consiste na ressignificação de fatos e conteúdos estabelecendo uma relação de interdependência. o ato educativo deve sempre orientarse para os estágios de desenvolvimento ainda não atingidos pelos indivíduos. quando o professor desenvolve um trabalho pautado em grande parte nessas premissas. 2001. 101). p. ou seja. porém a abordagem em sala de aula por meio de conceitos ultrapassa meramente os fatos. manifestados pela informação . trocas de informações. Afinal. entre diversos conteúdos que por ora são atrelados em conceitos. a fim de que os alunos atuem com autonomia no seu meio social. questionamentos e resolução de problemas e o envolvimento do professor com sua prática. a criança não é uma “tábula rasa”. ambientes de descobertas onde estejam presentes aspectos que levem em conta. Nessa perspectiva. 2000). redes conceituais (COLL. sem conhecimentos prévios (LEONTIEV. A contribuição de conceitos geográficos para o mundo infantil No contexto escolar. para que atendam às características peculiares dos grupos envolvidos e possibilitem o desenvolvimento saudável da criança. além de fatos ocorridos em outras partes do mundo. ainda. As situações de ensino devem promover processos constitutivos que despertem para o novo. pelo confronto de ideias. Sendo assim. situações variadas de trabalho. As atividades escolares relacionadas ao processo de mediação docente necessitam ser permeadas pelo diálogo. acontecimentos ou listas de conceitos/conteúdos.

tendo em vista suas características cognitivas e afetivas (2000. Desta forma. pode ser destacada por contribuir e decifrar situações do cotidiano. que. ao momento da escolaridade em que se encontram e as capacidades que se espera que eles desenvolvam. no qual são estabelecidas relações significativas entre os fatos e as interpretações a serem realizadas pelos campos do saber. A partir da utilização do conceito e de sua apresentação. Para tanto. Esse processo se efetiva de forma progressiva e de acordo com o desenvolvimento de cada um. que são estruturados por conceitos. as categorias paisagem. Embora o espaço geográfico deva ser o objeto central de estudo. segundo Coll (2000. é importante considerar quais são as categorias da geografia mais adequadas para os alunos em relação à sua faixa etária. principalmente nos ciclos iniciais. território e lugar devem também ser abordadas. Paganelli (2006. o aluno desenvolverá a produção do seu conhecimento quando ele conseguir estabelecer uma ligação com essas representações por meio de suas próprias palavras. Não é suficiente dispor de dados e informações em sala de aula. são: Uma das formas de ajudar os alunos a modificarem as suas idéias prévias e basear a apresentação do conhecimento escolar em situações e contextos próximos da vida cotidiana do aluno. Neste sentido. de acordo com as exigências interpretativas.midiática. sobretudo aquelas relacionadas com contextos socioespaciais. O enfoque do trabalho pedagógico com as realidades vivenciadas e observadas. 75). a Geografia inserida no campo das Ciências Sociais. mas também útil (no sentido de que sirva para explicar fenômenos reais para o aluno e não somente situações hipotéticas). a ênfase em conceitos e sua aprendizagem consistem no estabelecimento de relações entre o conhecido e as atribuições de significados do seu real com as manifestações dos sujeitos envolvidos por meio da expressão de sua compreensão. p. p. quando se mostram mais acessíveis aos alunos. expressa por palavras. se vale de uma rede conceitual ancorada pelo conceito de espaço e. O conhecimento científico possui como objeto de estudo o homem em suas relações. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s): No que se refere ao ensino fundamental. assume modos de análise nos diferentes níveis de ensino. mas dispor de conceitos que permitam várias interpretações. 150) salienta que “a adequação dos conteúdos geográficos está associada aos conceitos a serem construídos. 40). A análise dos conceitos em sua complexidade e dos níveis de domínio pela criança e pelo adolescente deve ser considerada pelo professor . p. de forma que o saber científico se mostre não somente ‘verdadeiro’.

brincarem. 1998. espacialidades cotidianas em seu mundo vivido e vão contribuindo para a produção de espaços geográficos mais amplos. Estar e aprender sobre o espaço torna-se um processo amplo. seriam as atividades nos espaços que circulam. segundo a autora. Isso é necessário para que haja em um primeiro momento o confronto dos conhecimentos cotidianos do aluno com os científicos desenvolvidos em sala de aula: O importante é poder trabalhar. frequentam e convivem e. políticos e ambientais. com a capacidade de ler o espaço. No período escolar dos anos iniciais.no processo de ensino aprendizagem”. constroem lugares. assim. p. ao circularem. as pessoas. Ao construírem geografia. Esses incursos em que as relações são estabelecidas entre as pessoas e as coisas incidem diretamente em muitas dimensões espaciais e em vários contextos: culturais. dinâmico e sem limites. no momento da alfabetização. A utilização dos conceitos cotidianos e das primeiras impressões que os alunos possuem do espaço geográfico no qual vivem e percorrem todos os dias permite no trabalho escolar que exista o embate com a sistematização que o professor faz em sala de aula. devemos considerar que. em especial os estudantes. as práticas socioespaciais travadas no espaço geográfico entre as pessoas com as quais convivem e desenvolvem suas práticas diárias nos diferentes espaços. Espacialidades. por vivenciarem esse espaço. Segundo Cavalcanti: Em suas atividades diárias. trabalharem pela cidade. Todo educando possui um conhecimento espacial e ele será fundamental para que o auxilie no entendimento das dinâmicas que envolvem o ser humano enquanto ser social ativo que percorre o espaço estabelecendo relações. 33). envolvendo o espaço e os conceitos que nele e dele fazem parte. em diferentes experiências cotidianas as pessoas constroem uma geografia. nesse sentido. determinando uma vivência que determina uma espacialidade. pelos bairros. científicos. pois. 2005). torna-se relevante utilizar a vivência dos alunos como ponto de partida para as discussões em sala de aula por meio de situações do cotidiano em qualquer escala. eles também constroem conhecimentos sobre o que produzem. dessa forma. constroem uma(s) geografia(s) (CAVALCANTI. ou seja. delimitam seus territórios. que são conhecimentos geográficos (CAVALCANTI. alunos e professores constroem geografia. 2002. produzem espaço. o educador deve permear seu trabalho com a Geografia. econômicos. 2002. Assim. Tomando as contribuições de Cavalcanti. vão formando. com o saber ler a aparência das paisagens e desenvolver a .

ainda. A aprendizagem para a leitura espacial com as crianças permite desenvolver. É necessário olhar para o espaço vivido com o objetivo de identificar e apreender tal espaço. de permissão. p. a formulação de indagações. Um lugar é sempre cheio de história e expressa/mostra o resultado das relações que se estabelecem entre as pessoas. o processamento de evidências e a elaboração de explicações. marcam uma existência no espaço. mesmo que inicialmente. Callai atribui grande importância ao estudo do lugar. Essa postura ultrapassa o trabalho com conceitos fechados que distinguem paisagens naturais e culturais como se elas fossem compostas de objetos e formas estanques. Segundo ela. tem aspectos culturais e subjetivos: uma dimensão estética. os grupos e também das relações entre eles e a natureza (CALLAI. 60).capacidade de ler os significados que elas expressam. pois: Estuda-lo é fundamental. pois ao mesmo tempo que o mundo é global. Ao mesmo tempo em que o aluno realiza a leitura do espaço. que tem a ver com a identificação emocional das pessoas com esses lugares. (CALLAI. p. 2002. em especial nos anos iniciais a partir do local/lugar. uma dimensão afetiva. 2003. A realidade espacial se revela por meio da paisagem que é exercitada no ensino de/com a Geografia a partir do olhar espacial que consiste em uma forma de apreensão. determinando as paisagens terrestres. suas emoções e sentimentos se transformam com o tempo. conforme Shäffer (1998. a objetivos que se reportam a capacidades e . A constituição que assume o espaço geográfico por sua paisagem nas variadas escalas revela por quais acontecimentos ele passou (CALLAI. quem somos e refletirmos o que devemos ser no mundo. reconhece seu cotidiano mais próximo. 2005). O aspecto afetivo remete à noção de privacidade. os lugares e os objetos por meio das ações desses sujeitos. levando-as a perceberem que as pessoas. eles vão se tornando valiosos e desafiadores às crianças. as relações sociais se concretizam nos lugares específicos. E como tal a compreensão da realidade do mundo atual se dá a partir dos novos significados que assume a dimensão do espaço local. as coisas da vida. o local é a escala espacial que deve desencadear as abordagens conceituais de geografia. 89): Ler a paisagem responde. A ação do homem torna as paisagens interdependentes e. 2005. 2003. de território” (CAVALCANTI. 84). p. O espaço como escopo de uma rede de conceitos onde ele se constitui permite que nele sejam identificados nossas identidades. Construindo e contextualizando esses conhecimentos. “A forma dos lugares. expressa pelas paisagens. 234). p.

que. o ensino pautado na utilização de conceitos e na sua construção permite. o desenvolvimento da cidadania dos educandos. Torna-se importante que sejam estimuladas as capacidades de comunicação e afetividade a fim de que consigam estabelecer um confronto com suas estruturas e com a de seus alunos. no instante em que se depara com o corpo conceitual dessa ciência. pois passa a se constituir pela presença das diferenças. o registro. Em diversos lugares. por meio de sua crítica. ideologias e sonhos. Considerações finais A diversidade de tudo que o professor enfrenta em sala de aula o coloca a assumir uma postura investigativa de conhecer os sujeitos que fazem parte do contexto de suas práticas para perceber os avanços e os entraves decorrentes daqueles sujeitos que participaram de sua prática e quais são as posturas epistemológicas e metodológicas que ele deve adotar. Na esfera educacional. se constitua e participe igualmente do desenvolvimento de outros sujeitos. além das possibilidades de compreensão e leitura do espaço geográfico. tem um caráter especifico. além de reunir tais características. os seres humanos se encontram e confrontam seus conhecimentos. a comparação e a representação que. A presença da Geografia entre as disciplinas escolares permite ao educando. A paisagem é um recurso que permite desenvolver uma série de capacidades: a observação. É nesse contexto que a educação se constitui enquanto processo e possibilita que o ser humano. Criar um contexto em sala de aula para que o aluno utilize e adote para a sua linguagem conceitos geográficos faz com que ele tome para si uma linguagem que expressa. Este modo peculiar da Geografia e seus conceitos é que permitem desempenhar uma leitura de mundo. ao interagir com outras pessoas. Esse encontro torna-se uma situação privilegiada. constituído de um espaço geográfico em suas composições.atitudes. Propor alternativas de aprendizagem é possível se esse desenvolvimento for feito não somente no domínio teórico. em geografia. movimentos e formas estruturadas pelos diferentes grupos sociais que o determinam. impulsiona os educandos a avançarem em torno de desafios e objetivos comuns em relação à constituição de indivíduos capazes de atuar na historicidade e nos movimentos da sociedade. por sua vez é um desses lugares que permite reunir a diversidade de personalidades e de experiências individuais em um contexto. A escola. acontecimentos. a análise. a forma que assume o mundo do qual ele faz parte. compreender a multiplicidade de relações que .

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