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Araguaína, 15 de maio de 2009.

 
Matéria: Fundamentos da Educação Especial 
 

O caso de “Victor de Aveyron  –  1798” 
 
Na  virada  do  século  XVIII  para  o  XIX,  o  aparecimento  de  uma  criança  com 
hábitos  selvagens  nas  florestas  do  Sul  da  França  despertam  imenso  interesse  entre 
filósofos  e  cientistas.  É  encontrado  nu,  aparentando  ter  de  12  a  15  anos  de  idade, 
mudo e parecia surdo. 
Na primeira etapa de sua temporada é transferido para o Instituto Nacional de 
Surdos‐Mudos, onde o selvagem de Aveyron ficara abandonado a si mesmo, embora 
Sicard  tivesse  tentado  utilizar  com  ele  seu  método  de  ensino  de  surdo‐mudo,  em 
língua de sinais. Sem esperanças nas possibilidades do selvagem, concorda com Pinel 
e também coloca em dúvida sua educabilidade. 
Itard, pelo contrário, ao examinar o menino, defendeu com convicção a idéia de 
educá‐lo  e  de  integrá‐lo  a  sociedade,  apesar  de  partir  dos  mesmos  princípios 
epistemológicos que inspiram o exame de Pinel, Itard presumiu que o estranho estado 
em  que  se  encontrava  o  garoto  se  devia  à  privação  do  contato  social  e  que  seria 
possível reeducá‐lo, desde que submetido a uma metodologia adequada. 
Adepto das idéias filosóficas de Condillac (empirista‐sensualista), Itard embasa 
seu trabalho inspirado em técnicas com vistas a atingir certos fins. 
Para podermos compreender o valor que Itard atribuiu para o desenvolvimento 
dos  sentidos,  temos  que  nos  remetermos  ao  que  Condillac  diz  a  respeito  do 
conhecimento  e  das  faculdades  dos  sentidos/sensações.  Não  havendo  possibilidade 
da existência de idéias inatas (como defende Loocke), afirma que o conhecimento é 
adquirido  à  medida  que  há  o  despertar  dos  sentidos,  tomando‐os  cada  um  deles 
isoladamente,  considera‐os  separadamente  porque  acredita  que  um  grande  número 
de sensações exprime toda ação do espírito. 
Baseado nestas idéias, Itard elabora seu programa educativo, buscando sempre 
criar  situações  que  possibilitem  o  despertar  da  sensibilidade  nervosa  e 
conseqüentemente das operações do entendimento. 
Após três meses de trabalho relativo à sensibilidade nervosa, Itard observa um 
nítido avanço no tato, no olfato e na gustação, mas o ouvido e a visão permanecem 
estacionados. Tal fato leva Itard concluir que estes três sentidos não passam de uma 
modificação do órgão da pele, enquanto os dois outros são mais complexos "e menos 
exteriores,  revestidos  de  um  aparelho  físico  dos  mais  complexos"  (BANKS‐LEITE  & 
SOUZA: 2000: p. 64) e por isso mereça uma educação particular. 
Em  relação  à  língua,  quando  Victor  é  encontrado  e  passa  inserido  em  meio 
humano, ele possui certo tipo de linguagem de ação. Para Condillac, esta linguagem 

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constitui‐se  do  primeiro  meio  em  que  os  homens  comunicaram  suas  idéias,  porém, 
adverte  da  existência  de  uma  linguagem  artificial  e  uma  natural,  dentro  dessa 
concepção,  as  línguas  são  consideradas  como  métodos  analíticos,  sobretudo,  para 
que as idéias se tornem claras e distintas para aqueles que a utiliza. 
Traçando um paralelo com Sicard, ao descrever os surdos em "estado natural", 
diz  que  estes  não  têm  símbolos  para  fixar  e  combinar  idéias.  Dessa  forma,  as 
sensações  são  transitórias  e  as  imagens  mentais  fugazes.  Por  essa  razão,  insiste  na 
necessidade de se educar os surdos, ensinando‐lhe através de sua própria linguagem 
de sinais e não pela inventiva metódica de I Epée. 
Segundo  BANKS‐LEITE  &  SOUZA,  Itard  ao  tentar  ensinar  a  linguagem,  este  o 
faz  como  se  procedesse  a  um  adestramento,  cujo  resultado  era  de  se  esperar,  não 
passava a um arremedo da linguagem. 
Victor em determinados momentos pronunciou várias expressões como Oh Dieu 
!  E  Gli  (madame  Guerin  e  o  nome  da  filha  de  Guerin)  ,  porém  Itard  foi  incapaz  de 
perceber  nessas  realizações  espontâneas  de seu  discípulo, ou seja, no que  acontecia 
independente do seu ensino‐método, um caminho fecundo a ser explorado. 
O  sucesso  de  Sicard  concentra‐se  primeiramente  na  relação  horizontal  que  se 
estabeleceu  entre  ambos,  a  relação  de  reciprocidade  entre  mestre  e  aprendiz, 
permitiu que enquanto o mestre ensinava os signos (artificiais) o discípulo ensinava os 
sinais mímicos de sua língua. 
Sicard  na  realidade  reconhece  o  valor  da  língua  de  seu  aluno  e  propôs‐se  a 
educar pressupondo a diferença e se deixando afetar por ela. Já o aluno de Itard, para 
agradá‐lo e ser amado, queria ser o desejo do mestre; o desejo de impossível de ser e 
de  comportar  a  partir  do  que  jamais  seria:  um  ouvinte  no  caso  dos  surdos,  um 
falante/escritor no caso de Victor. 
No final do segundo relatório, quando Itard efetua uma "avaliação" dos aspectos 
em  que  seu  trabalho  fracassou,  "ele  deixa  transparecer  mais  o  desejo  frustrado  do 
mestre do que uma preocupação com as necessidades reais do seu aprendiz" (BANKS‐
LEITE & SOUZA:2000: p.81). 
Na  realidade,  o  sucesso  duvidoso  do  trabalho  desenvolvido  por  Itard,  consiste 
por  ter  se  baseado  nas  concepções  filosóficas  de  sua  época  para  elaborar  seus 
métodos  (  empirista‐  sensualista),  em  outras  palavras,  Itard  torna‐se  vítima  de  seus 
próprios preconceitos. A postura adotada por ele não permitiu um remanejamento de 
suas práticas frente ao garoto, pois quando efetuava uma tentativa nesse sentido era 
sempre permanecendo fiel aos mesmos princípios básicos aceitos a priori, e, portanto, 
estranhos à própria relação que se desenrolava entre mestre e o aprendiz. Itard, não 
aprende nada  com  o menino,  permanecendo, por  assim  dizer,  pouco  permeável aos 
resultados da proposta que conduzia. 

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