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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – ESCOLA DE ENGENHARIA DE SÃO CARLOS DEPARTAMENTO DE GEOTECNIA – SGS-404: FUNDAÇÕES

Professores: Nelson AOKI e José Carlos A. CINTRA

NOTAS DE AULA

Compilação: Mauro Leandro Menegotto Revisão: Prof. Aoki

AULA N.º 02: FILOSOFIAS DE PROJETO: SEGURANÇA E CONFIABILIDADE DE FUNDAÇÕES 26/02/2003 Prof.: AOKI

Objetivo: Apresentar os fundamentos das normas brasileiras NBR 8681 e NBR 6122, aplicados ao caso de Fundações.

1) INTRODUÇÃO

Etapas de uma obra de fundação:

Uma obra de fundação compreende as seguintes etapas:

a) Investigação geotécnica (sondagem);

b) Projeto;

c) Execução;

d) Observação do comportamento.

Papel da fundação em uma obra de engenharia civil: a) a superestrutura e a fundação são as

partes que constituem o sistema que denominamos obra de engenharia civil; b) a missão da superestrutura é receber e suportar as cargas funcionais e as cargas ambientais atuantes (forças ativas externas à obra), com segurança, economia e durabilidade; c) a missão da fundação é receber e suportar as solicitações provenientes da superestrutura com segurança, economia e durabilidade.

Norma NBR 8681 Ações e segurança nas estruturas – procedimento. Esta norma fixa a filosofia de dimensionamento de estruturas em geral, as ações atuantes e as combinações de cargas que devem ser consideradas, bem como, os coeficientes a serem utilizados.

Norma NBR 6122 Projeto e execução de fundações – procedimento. Esta norma fixa as

condições básicas a serem observadas no projeto e execução de fundações de edifícios , pontes e

demais estruturas.

Ação da cargas ambientais: são as cargas provenientes da ação do meio ambiente sobre a

construção civil, representada pela superestrutura ou a fundação. Ex.: ação da gravidade, vento,

correntes de água (cais), sismos, etc

Exemplo de carga ambiental que atua diretamente sobre a fundação por estaca: trata-se do

chamado efeito Tschebotarioff – tipo de carga que atua nas fundações de pontes sobre estacas

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adjacentes ao aterro de acesso, executadas em zonas de argila mole. Devido a este efeito, as estacas são solicitadas por pressões horizontais gerando momentos fletores nas estacas. Os blocos sobre as estacas afetadas podem sofrer deslocamentos horizontais que podem chegar a dezenas de centímetros.

Estrutura é conjunto formado pela (superestrutura + subestrutura).

Superestrutura: sistema formado por várias peças (ou elementos) estruturais discretas (viga,

escada, pilar, lajes, paredes, tirante, etc.) dispostos de forma ordenada para atender ao projeto de

arquitetura (vide figura 1). As formas e as dimensões destes elementos dependem do livre arbítrio do projetista. São as peças que geralmente recebem as cargas funcionais e que se encontram acima da cota da superfície do terreno.

superestrutura

F superfície terreno S = F
F
superfície terreno
S =
F

Figura 1. Superestrutura

Subestrutura: sistema formado pelos elementos estruturais, que estão em contato com o maciço

de solo, dispostos de forma ordenada para atender as solicitações provenientes das cargas. Ex.:

A

geometria das seções transversais, a quantidade e a disposição em planta destes elementos, dependem do livre arbítrio da projetista ao proceder o lançamento da fundação. Entretanto, a profundidade depende das características de resistência e compressibilidade do maciço de solo, ao longo e abaixo do elementos estruturais que compõem a subestrutura.

sapata, bloco, viga de fundação, estaca, tubulão, baldrame, paredes do subsolo, radier, etc

Elemento isolado de fundação: é o sistema formado por um elemento estrutural isolado da

subestrutura e o maciço de solo envolvente, sob a base e ao longo do fuste, que tem por finalidade

suportar um dado tipo de solicitação.

Fundação de uma obra: é o sistema formado pela subestrutura e o maciço de solo que o

envolve (vide figura 2). Ou ainda, fundação de uma obra é o sistema formado pelo conjunto (ou

grupo) de elementos isolados de fundação.

elemento isolado de fundação S = F superfície terreno superfície indeslocável fundação superfície R =
elemento isolado de fundação
S = F
superfície terreno
superfície indeslocável
fundação
superfície
R =
F
maciço indeformável
maciço de solo

Figura 2. Fundação de uma obra

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Maciço de solos: sistema formado por diversas camadas de solo de diferente granulometria,

formas variadas de camadas, constituindo um meio natural contínuo, no local de implantação da obra de engenharia civil. Em profundidade o maciço de solos é limitado pela superfície do terreno e

a superfície do indeslocável. A principal característica das camadas contíguas, que formam o maciço de solos, é a forma que é indefinida.

Solos lateríticos: tipo de solo com presença de óxidos de ferro/alumínio que se precipitam

devido à ação da infiltração da água das chuvas. A forma da camada é conseqüência de onde ocorre

mais ou menos precipitação. Deste modo, onde houver mais óxido de ferro o solo será mais resistente, preenchendo um volume de forma indefinida (nuvem).

Superfície resistente (vide figura 2): é o lugar geométrico das bases dos elementos estruturais de fundação. Esta superfície média deve ser tal que a fundação atenda simultaneamente aos estados limites último (ELU) e de utilização (ELUt).

Normalmente os projetistas da superestrutura consideram seu apoio indeslocável. Porém como

ocorre recalque da fundação, na realidade, os apoios não são indeslocáveis. Deste modo, os pilares internos da obra poderão sofrer um alívio de carga e os pilares externos (da divisa) um acréscimo de carga.

O efeito das ações sobre os elementos que compõem a estrutura e o maciço de solo, geram

esforços internos (forças, momentos ou tensões reativas) que denominamos solicitação atuante. No caso da estrutura, que é constituída por elementos discretos, as seções transversais dos elementos

isolados possuem seis graus de liberdade aos quais correspondem seis tipos de solicitações: força normal, forças cortantes, momentos fletores e momento torsor. No caso do maciço de solo, que é constituído por elementos contínuos, a solicitação é representada pelo tensor de tensões ou deformações. As solicitações devem ser determinadas considerando a interação solo - estrutura ou a interação superestrutura - fundação.

Resistência do elemento isolado: diz respeito ao sistema denominado elemento isolado de fundação.

Ruptura física. A figura 3 apresenta a forma da curva carga - recalque: o recalque tende para o

infinito quando a carga aplicada torna-se igual ao valor da capacidade de resistência do sistema

isolado de fundação.

Carga (Q ) Qu 0 Recalque (ρ) carga de ruptura Q u (ruptura física se
Carga (Q )
Qu
0
Recalque (ρ)
carga de ruptura Q u
(ruptura física se ρ→∞)

Figura 3. Carga de ruptura do elemento isolado de fundação

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Denomina-se coeficiente de segurança C s,isolado do elemento isolado de fundação à relação entre a carga de ruptura (que é igual ao valor da resistência na ruptura R i do elemento isolado de fundação) e, a solicitação S i de compressão, atuante no mesmo elemento isolado:

C s,

isolado

=

R

i

S

i

A Figura 4 mostra que, para uma dada fundação de uma determinada obra, formada por um

conjunto de elementos isolados de fundação, denomina-se coeficiente de segurança global C S , à distância relativa que separa a resistência média R m e a solicitação média atuante S m , ou seja:

Cs S R S m R m
Cs
S
R
S m
R m

Figura 4. Coeficiente de segurança global

Cs =

R

m

S

m

Carga estática: é o carregamento aplicado em estágios pequenos (infinitesimais), sendo cada estágio aplicado em tempo muito grande (infinito).

Fatores que influenciam a resistência de um elemento isolado de fundação:

a) condições iniciais do maciço;

b) geometria e material do elemento estrutural;

c) efeito da execução (ex.: uma estaca escavada desconfina o solo diminuindo a resistência; já uma estaca pré-moldada em areia, compacta o solo aumentando a resistência inicial durante sua execução;

d) efeito do confinamento provocado pelas solicitações atuantes (muda o tensor inicial de tensões confinantes);

e) efeito de escala: quanto maior a dimensão da seção transversal, menor a pressão na ruptura;

f) efeito do tempo (creep ou relaxação: diminui a resistência com o tempo; set up: aumenta a resistência com o tempo decorrido após a execução/instalação do elemento estrutural);

g) condições hidro-geológicas do maciço.

Variabilidade espacial do terreno: estacas próximas, com mesma geometria, podem apresentar diferentes curvas carga-recalque e diferentes cargas de ruptura.

Estacas pré-moldadas em areia: as primeiras estacas de um grupo podem ter comprimentos

maiores que as últimas cravadas, devido à compactação do solo durante a cravação (fig.5).

5

Sentido de cra vação (ce ntro pa ra perife ria)

5 Sentido de cra vação (ce ntro pa ra perife ria) Pla nta Corte Figura 5.
Pla nta
Pla nta

Corte Figura 5. Compactação do maciço de solos na execução

2) SEGURANÇA AO ESTADO LIMITE ÚLTIMO DO SISTEMA DE FUNDAÇÃO.

A segurança da fundação de uma obra depende dos valores médios (ou das modas) das curvas de densidade de probabilidade de ocorrência das solicitações e das resistências, referentes a uma determinada superfície resistente média dentro do maciço de solos, representativa da fundação da obra em estudo. Assim, o coeficiente de segurança global da fundação da obra refere-se à relação entre a resistência média (ou moda) e a solicitação média atuante (ou moda) na fundação da obra (conjunto formado pelo grupo de elementos isolados componentes). Define-se coeficiente de segurança do elemento isolado de fundação à relação entre a resistência de um elemento isolado de fundação qualquer do grupo e a solicitação que nele atua.

2.1) Coeficiente de segurança de um elemento isolado de fundação

Pilar Y (20 x 60 cm)

V=1000kN
V=1000kN

Figura 6. Bloco sobre 4 estacas do pilar Y

6

S i = solicitação vertical no pilar nº de estacas do tipo X

S i

=

1000

4

S i = 250 kN (solicitação vertical no elemento isolado de fundação por estaca de tipo e dimensão conhecidas).

O coeficiente de segurança C S, isolado de um elemento isolado de fundação será:

C S,isolado = resistência na ruptura do elemento isolado. solicitação atuante no elemento isolado

C S,isolado = Q u,i / S i

Portanto, para se conhecer este valor é necessária a realização de uma prova de carga estática ou dinâmica ou de um cálculo de capacidade de carga, a partir de uma sondagem no local deste pilar, de modo a se obter o valor da resistência na ruptura Q u,i do elemento isolado de

2.2) Coeficiente de segurança global de fundação de um determinado tipo e dimensão.

O coeficiente de segurança de um determinado tipo de fundação depende das curvas de

distribuição estatística dos esforços solicitantes atuantes e das resistências apresentadas pelo grupo

de elementos isolados que compõem a fundação da obra.

a) Curva de distribuição estatística dos esforços solicitantes

Como a fundação é constituída por um grupo de elementos isolados, há necessidade de se conhecer todos os valores de solicitação que atuam em todos os elementos isolados que constituem

o grupo. A partir destes valores pode-se estabelecer a curva de distribuição estatística de

solicitações atuantes nos elementos isolados de fundação de um determinado tipo e dimensão. Estas solicitações são obtidas a partir do estudo da interação superestrutura-fundação.

Exemplo: Consultar as planilhas de cargas nos pilares e distribuição de estacas em cada pilar dos edifícios 6 e 7: neste caso a solicitação predominante é o esforço normal de compressão e as fundações são constituídas por estacas premoldadas de concreto centrifugado de diâmetro igual a φ = 80 cm. A análise estatística dos dados fornecidos permite concluir que a solicitação média vale:

S m = 3300 kN, e o desvio padrão:

σ S = 312,2 kN

Portanto, o coeficiente de variação das solicitações ν s será igual a:

ν

s

=

σ

S

312,2

=

S m

3300

ν s = 9,46 %

A solicitação característica máxima S k com 95% de probabilidade será igual a:

S k = S m (1+1,65⋅ν s )

S k = 3815 kN

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b) Curva de distribuição estatística das resistências

Em projeto, determina-se a resistência de cada elemento isolado adotando-se a 2ª ou 3ª metodologia de projeto (ver: CINTRA & AOKI, 1999 1 ), para estabelecer a curva de distribuição de resistências do grupo de elementos isolados de fundação que compõem a fundação da obra . Durante a execução é desejável a existência de um meio de comprovação da resistência de cada elemento isolado de fundação que permita a intervenção para otimizar a execução.

Exemplo: Consultar as cópias das transparências dos edifícios 6 e 7. Neste caso, o controle da execução de cada elemento isolado de fundação, conduziu à seguinte estatística de resistências para as estacas de φ= 80 cm:

R m = 6957 kN (resistência média)

σ R = 560,0 kN (desvio padrão da resistência)

ν

R

=

σ

R

560

=

R m

6957

= 8,0 % (coef. variação)

R k = R m (1–1,65⋅ν R )

R k = 6033 kN

(resistência característica)

c) Comprovação do coeficiente global de segurança na filosofia da carga admissível

A Figura 7 apresenta a filosofia da carga admissível e o cálculo do coeficiente de segurança global CS.

FILOSOFIA CARGA ADMISSÍVEL Padm = S m =R m / C S = R m
FILOSOFIA CARGA ADMISSÍVEL
Padm = S m =R m / C S = R m / C S
=
=R
m / C S
(CS = coeficiente de segurança global aplicado à resistência)
S m .(C S -1)
resistência
média
constante !
S
R
= S m =R m / C S
Rm
R,S
Si ≤ Padm
densidade de probabilidade

Figura 7. Filosofia da carga admissível

No caso dos edifícios 6 e 7, a curva de solicitações prevista e a curva de resistências medidas por repique e nega de cada elemento isolado de fundação, encontram-se apresentadas na Figura 8.

1 CINTRA, J.C.A.; AOKI, N. (1999). Carga Admissível em Fundações Profundas. Livro, USP/SC, São Carlos, 61p.

8

0,0014 Solicitações 0,0012 Resistências 0,0010 0,0008 0,0006 0,0004 0,0002 0,0000 2000 3000 4000 5000
0,0014
Solicitações
0,0012
Resistências
0,0010
0,0008
0,0006
0,0004
0,0002
0,0000
2000
3000
4000
5000
6000
7000
8000
9000
Densidade de probabilidade
.

Solicitações, Resistências (kN)

Figura 8. Exemplo curvas R e S

Comprova-se que, neste caso, o coeficiente de segurança global vale:

C

S

CS

=

R

m

S

m

6957

=

3300

C S = 2,108 1,6, valor satisfatório.

2.3) Coeficientes de segurança parciais de fundação de um determinado tipo e dimensão.

Sendo as solicitações aplicadas à fundação e a resistência dos elementos isolados variáveis independentes, pode-se adotar coeficientes de segurança parciais, como acontece no cálculo estrutural.

FILOSOFIA COEFICIENTES PARCIAIS SEGURANÇA

γ S = 1/ (1-1,65 δ S) γ R = 1/ (1-1,65 δ R) CS
γ S = 1/ (1-1,65 δ S)
γ R = 1/ (1-1,65 δ R)
CS = γ S . γ f . γ m . γ R
S m (C S -1)
Sm( γ S-1)
Sk( γ f-1)
RK(1-1/ γ m)
Rm(1-1/ γ R)
S
R
0 Sm
Sk
Sd ≤ Rd
RK
Rm
R,S
densidade de probabilidade

Figura 9. Relação entre coeficientes de segurança

Exemplo: Considerando os resultados obtidos para a fundação por estacas de φ = 80 cm, dos Edifícios 6 e 7, tem-se:

9

CS = 2,108

γ

γ

S

r

=

=

S

k

3815

=

S

R

m

m

3300

6957

=

R

k

6033

= 1,16

= 1,15

Note-se que estes valores são dependentes das cargas iniciais (funcionais e ambientais) e da interação solo-estrutura, face às condições do meio ambiente e do grau de perturbação causado pela execução.

Para γ S = 1,0 (S m = S k ), as solicitações são determinísticas, ou seja, não apresentam variação em relação ao valor da solicitação média.

A NBR 6122 fixa o valor mínimo do coeficiente de minoração das resistências γ m = 1,2

para obra controlada e de γ m = 1,5 para obra não controlada. No presente exemplo deve- se adotar

γ m igual a 1,2.

A solicitação de cálculo S d vale:

S d = γ f S k

O valor do coeficiente de majoração das solicitações γ f fixado na norma NBR8681 vale:

γ f = 1,4.

No presente caso o coeficiente de segurança global da fundação é igual a:

C S = γ S . γ f . γ m . γ R

C S = 1,16 . γ f . γ m . 1,15 = 2,108

γ f . γ m = 1,58

γf 1,58 1,4 1,317 1,0 1,0 1,129 1,2 1,58 γm
γf
1,58
1,4
1,317
1,0
1,0
1,129
1,2
1,58
γm

Figura 10. Relação entre γ f e γm no exemplo

Fixando-se γ f =1,4, resulta γ m =1,129. Fixando-se γ m = 1,2, resulta γ f = 1,317.

Deste modo, verifica-se que os valores de γ f e γ m são interdependentes e não deveriam ser fixados arbitrariamente. Pode-se, evidentemente, fixar os seus valores mínimos. Por outro lado se:

10

γ s .γ r = γ v coeficiente que depende da variabilidade das solicitações e resistências;

γ f .γ m = γ o coeficiente de segurança parcial fixado em Norma (parte fixa do coeficiente de segurança global); então:

CS = γ v . γ o

Portanto, o coeficiente de segurança global C S pode ser subdividido em um fator γ v que depende da variabilidade das resistências e das solicitações e, de outro fator γ o referente à solicitação e à resistência, cujo valor mínimo pode ser fixado em Norma Quando se consideram as variabilidades da solicitação e da resistência, para utilização dos coeficientes de segurança parciais, a coerência entre o coeficiente de segurança global CS e os coeficientes de segurança parciais, exige que:

C S = γ S . γ f . γ m . γ R = γ v . γ o

Também é possível compatibilizar os valores mínimos dos atuais coeficientes de segurança globais CS com os valores mínimos préfixados de coeficientes de segurança parciais adotando-se, por exemplo, uma relação do tipo:

onde

γ

s

p

S

=

γ

m

p

R

p S = parcela de probabilidade de ruína (ruptura) devido ao excesso de solicitação; e, p R = parcela de probabilidade de ruína (ruptura) devido à falta de resistência;

Para o caso de uma obra controlada onde γ f = 1,4 e γ m = 1,2 o coeficiente de segurança global C S mínimo deveria ser:

C S = γ S . γ f . γ m . γ R

C S = γ S . 1,4 . 1,2 . γ R

C S = 1,68 . γ S . γ R

C S = 1,68 . γ 0 Por outro lado para uma obra não controlada onde γ f = 1,4 e γ m = 1,5 o coeficiente de segurança global C S mínimo deveria ser:

Cs

Cs

Cs

global

global

global

=

= γ

γ

S

S

⋅ γ

1,4 1,5 ⋅ γ

⋅ γ

⋅ γ

f

m

r

r

= 2,1⋅ γ

S

⋅ γ

r

= 2,1 γ v

Como γ s e γ r são variáveis, conclui-se que o C S,global mínimo, correspondente à valores de coeficientes parciais mínimos prefixados, é variável em cada obra de fundação e é dependente das variabilidades das solicitações e resistências (não pode ser fixado arbitrariamente) .

2.4) Confiabilidade de uma fundação de determinado tipo e dimensão.

A confiabilidade da fundação de uma obra depende das formas das curvas de densidade de probabilidade de ocorrência das solicitações e das resistências, referentes a uma determinada superfície resistente média dentro do maciço de solos, representativa da fundação da obra em estudo. Portanto, a confiabilidade se relaciona aos desvios padrões ou melhor, aos coeficientes de variação das curvas das solicitações e das resistências.

11

8

o

a) Método da probabilidade de ruína

Qualquer medida da segurança ou da confiabilidade é função da posição relativa e do grau de dispersão das curvas de densidade de probabilidade da solicitação f S (S i ) e, da resistência f R (R i ). Considera-se que estas curvas referem-se a uma superfície resistente que representa a fundação da obra em estudo. Neste caso a probabilidade de ruína da fundação pode ser expressa [8] por:

p F = F R (y) . f S (y) dy

A equação acima é a convolução em relação à solicitação S e envolve a probabilidade de ocorrência de valores correntes de resistências R i iguais às solicitações S i . No ponto A da Figura 11, a densidade de probabilidade de solicitação e de resistência são iguais. A curva de densidade de probabilidade do valor p F encontra-se na região de superposição, ou seja, sob a curva de resistência à esquerda do ponto A e, sob a curva de solicitação à direita do mesmo ponto. Quanto maior a área sob esta curva, maior a probabilidade de ruína, ou seja, menor a confiabilidade da fundação.

Probabilidade de ruína pF (Ang & Tang)

S R A 0 pF y = ( R, S) S m R m densidade
S
R
A
0
pF
y = ( R, S)
S m
R m
densidade deprobabilidade

Figura 11 – Funções de densidade de probabilidade f R (R i ), f S (S i ) e p F (y)

b) Método do índice de confiabilidade (β)

A Figura 12 ilustra o método do índice de confiabilidade.

MÉTODO DO ÍNDICE DE CONFIABILIDADE

fronteira de ruptura Z = 0 falha sobrevivência Z< 0 Z > 0 Zm= β
fronteira de ruptura
Z = 0
falha
sobrevivência
Z< 0
Z > 0
Zm= β . σ Z
β =(Rm - Sm) / ( σ R 2 + σ S 2 ) 0,5
fZ =f (R-S)
Z
= ( R - S )
pF
R = resistência
S = solicitação
densidade de probabilidade

O Zm= (Rm- Sm)

Z

Figura 12. Método do índice de confiabilidade

12

Supondo que as distribuições estatísticas de resistências R e de solicitações S sejam normais pode-se efetuar a transformação:

Z = (R – S), onde Z = função margem de segurança

A ruína ocorre para R = S, ou seja quando Z=0. Portanto, a probabilidade de ocorrência de

valores no intervalo Z = 0 e Z = Z m é uma medida de confiabilidade da fundação. Em termos de unidades σ Z (desvio padrão de Z) este valor é igual a (β⋅ σ Z ) , onde β é denominado índice de confiabilidade, que é uma medida da probabilidade de ocorrência de ruína do estaqueamento. Deduz-se que:

β =

(R

m

S

m

)

(

σ

R

2

+ σ

S

2

)

0,5

Exemplo: Com os dados das fundações dos Edifícios 6 e 7, obtém-se para o esforço normal de compressão em estacas φ= 80 cm, a curva Z da Figura 13:

.

β .σ Z 0.0007 de nsi 0.0006 da de 0.0005 de pro ba 0.0004 bili
β .σ Z
0.0007
de
nsi
0.0006
da
de
0.0005
de
pro
ba
0.0004
bili
da
de
0.0003
0.0002
0.0001
0.0000
-1000
0
1000
2000
3000
4000
5000
6000
Z = R – S
(kN)
Figura 13. Curva de distribuição da margem de segurança Z

A Figura 14 apresenta o trecho ampliado da curva Z em torno da abcissa Z = 0.

7,0E-10 6,0E-10 5,0E-10 4,0E-10 3,0E-10 2,0E-10 1,0E-10 0,0E+00 -400 -300 -200 -100 0 100 200
7,0E-10
6,0E-10
5,0E-10
4,0E-10
3,0E-10
2,0E-10
1,0E-10
0,0E+00
-400
-300
-200
-100
0
100
200
300
Z = R – S
(kN)
Densidade de probabilidade

Figura 14. Função Z junto à origem

No caso do exemplo os valores são:

R m =

6957 kN;

R m = 3300 kN;

σ s = 312,2 kN;

σ R = 560 kN, portanto:

13

β =

3657

641,1

= 5,704

A área sob a curva entre as abcissas 0 e Z m representa a probabilidade das solicitações

médias serem maiores que as resistências médias. Para β = 5,704 a área vale 5,8x10 -9 , ou seja, ela indica uma probabilidade de 6 casos de ruína em 1.000.000.000 (1 bilhão) de eventos. Na área da engenharia de fundações considera-se aceitável um valor de β = 3, que conduz a uma área de 1,34x10 -3 , ou seja, cerca de uma e meia possibilidade de ruína em mil eventos. Neste caso a intervenção na execução da obra de fundação, obra controlada por repique e nega, conduziu à uma elevada confiabilidade. Deste modo, a norma deveria se preocupar em fixar a probabilidade de ruína mínima ou o índice de confiabilidade (β) mínimo e não um coeficiente de segurança mínimo.

EExxeemmpplloo ddee aapplliiccaaççããoo ddoo ccoonncceeiittoo ddee pprroobbaabbiilliiddaaddee ddee rruuíínnaa aa ppaarrttiirr ddee hhiissttooggrraammaass ddaass ffuunnççõõeess XX ((rreessiissttêênncciiaa)) ee YY ((ssoolliicciittaaççããoo))

A Figura 15 apresenta os histogramas de resistência X e solicitação Y, para uma dada

superfície resistente, da fundação de uma obra: 10 9 9 9 F Solicitação 8 Resistência
superfície resistente, da fundação de uma obra:
10
9
9
9
F
Solicitação
8 Resistência
8
8
8
r
8
e
7
7
7
7
q
7
ü
ê
6
n
5
5
5
5
c
5
i
4
4
4
4
a
4
3
2
2
2
2
2
1
1
1
1
1
1
1
1
1
000000000000 0000
000000000 0
0
1 2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27 28

y = valor de solicitação ou resistência

Figura 15 – Histogramas de freqüências de solicitação e resistência.

O

intervalo entre dois valores ao longo do eixo y é igual a y=1.

A

soma de eventos aleatórios considerados é igual a 65 valores de solicitações (Y) e 65

valores de resistências (X), escolhidas ao acaso.

O número acima dos retângulos que compõem o histograma indica a quantidade de vezes

que ocorreu o evento, cujo valor médio (retângulo verde = solicitação e vermelho = resistência), é

mostrado sobre o eixo horizontal y. Verifica-se que:

14

- a probabilidade (área sob a curva valor acumulado) de ocorrência de valores de resistências menores que 13 (y 13) é igual a F X (13) = 1/65. A freqüência (ordenada da curva) de solicitação f Y (13) = 8/65. Para o intervalo y = 1, resulta a correspondente freqüência de ocorrência de ruína (ordenada da curva de p F ) de:

1/65 8/65 1 = 8/65 2 = 1,893E-03

- a probabilidade de ocorrência de valores de resistências menores que 14 (y 14) é igual a

F X (14) = 2/65. A freqüência de solicitação f Y (14) = 7/65. Para o intervalo y = 1, resulta a correspondente freqüência de ocorrência de ruína de:

2/65 7/65 1 = 14/65 2 = 3,314E-03

- a probabilidade de ocorrência de valores de resistências menores que 15 (y 15) é igual a

F X (15) = 4/65. A freqüência de solicitação f Y (15) = 5/65. Para o intervalo y = 1, resulta a correspondente freqüência de ocorrência de ruína de:

4/65 5/65 1 = 20/65 2 = 4,734E-03

- a probabilidade de ocorrência de valores de resistências menores que 16 (y 16) é igual a

F X (16) = 8/65. A freqüência de solicitação f Y (16) = 4/65. Para o intervalo y = 1, resulta a correspondente freqüência de ocorrência de ruína de:

8/65 4/65 1 = 32/65 2 = 7,574E-03

- a probabilidade de ocorrência de valores de resistências menores que 17 (y 17) é igual a

F X (17) = 10/65. A freqüência de solicitação f Y (17) = 2/65. Para o intervalo y = 1, resulta a correspondente freqüência de ocorrência de ruína de:

10/65 2/65 1 = 20/65 2 = 4,734E-03

- a probabilidade de ocorrência de valores de resistências menores que 18 (y 18)é igual a

F X (18) = 11/65. A freqüência de solicitação f Y (18) = 1/65. Para o intervalo y = 1, resulta a correspondente freqüência de ocorrência de ruína de:

11/65 1/65 1 = 11/65 2 = 2,604E-03

- a probabilidade de ocorrência de valores de resistências menores que 19 (y 19) é igual a

F X (19) = 12/65. A freqüência de solicitação f Y (19) = 1/65. Para o intervalo y = 1, resulta a correspondente freqüência de ocorrência de ruína de:

12/65 1/65 1 = 12/65 2 = 2,840E-03

Integrando-se (ou seja, efetuando o somatório desses produtos) estes valores tem-se a probabilidade de ruína de :

p F = (8+14+20+32+20+11+12)/65 2 = 2,769E-02

ou seja, cerca de 3 casos de ruína a cada 100 eventos.

A representação gráfica das curvas de distribuição de freqüências (relativa, absoluta e acumulada), da função probabilidade de ruína p F , na forma de um histograma, para cada valor de y corrente, encontram-se no quadro 1 e na figura 16.

15

Quadro 1. Histograma de freqüências de solicitação, resistência e probabilidade de ruína

y

Frequência relativa

Frequência acumulada

Frequência relativa

Frequência acumulada (número ruínas acum.)

(p

F )

(p

F acumulada)

(número ruínas)

12

0

 

0

0

0

13

1,893E-03

 

1,893E-03

0,123

0,123

14

3,314E-03

 

5,207E-03

0,215

0,338

15

4,734E-03

 

9,941-03

0,308

0,646

16

7,574E-03

 

1,7515E-02

0,492

1,138

17

4,734E-03

 

2,2249E-02

0,308

1,446

18

2,604E-03

 

2,4853E-02

0,169

1,615

19

2,840E-03

 

2,7693E-02

0,185

1,800

20

0

 

2,7693E-02

0

1,800

Soma

2,769E-02

 

--------

1,800 ruínas

------

As duas primeiras colunas referem-se à distribuição da função probabilidade de ruína e as duas últimas colunas referem-se ao número de ruínas esperadas no total de 65 eventos. Neste último caso a probabilidade de ruína será:

p F = 1,8 /65 = 0,02769

Os histogramas correspondentes, inclusive as distribuições das solicitações e resistências, encontram-se na figura 16:

Número total de eventos = 65

10 9 Solicitação Resistência 8 Ruína 7 Ruína acum. 6 5 4 3 2 1
10
9
Solicitação
Resistência
8
Ruína
7
Ruína acum.
6
5
4
3
2
1
0
0 1
2
3
4
5
6
7
8
9
10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29
Freqüência absoluta
(nº de ocorrências da variável)
.
0 0
0
0 0
0
0 0
0
0 0
0
0 0
0
0
0
1
0
0
1
0
0
2
0
0
4
0
0
5
0
0
7
0
0
8
0
0
9
0.123
1
8
0.215
1
7
0.308
2
5
0.492
4
4
0.308
2
5
0.169
1
7
0.185
1
8
0
0
9
0
0
8
0
0
7
0
0
5
0
0
4
0
0
2
0
0
1
0
0
1
0 0
0
0 0
0

Valores correntes

10

9

8

7

6

5

4

3

2

1

0

Figura 16. Histogramas de freqüências de solicitação, resistência e probabilidade de ruína