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Diretrizes SBD

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Métodos e critérios para o diagnóstico do diabetes mellitus

INTRODUÇÃO

A evolução para o diabetes mellitus tipo 2 (DM2) ocorre ao longo de um pe - ríodo de tempo variável, passando por estágios intermediários que recebem a denominação de glicemia de jejum al- terada e tolerância à glicose diminuída. Tais estágios seriam decorrentes de uma combinação de resistência à ação insulínica e disfunção de célula beta. No diabetes mellitus tipo 1 (DM1), o iní- cio geralmente é abrupto, com sinto - mas indicando de maneira contunden- te a presea da enfermidade. 1,2 O crité rio diagnó stico foi m odi ca - do, em 1997, pel a America n Diabetes Association (ADA), posterior m e nte aceito p el a O rgan iza çã o Mun dia l da

Sa úde (OM S ) e p el a Sociedade Brasil ei - ra de Diabetes ( SBD). 1, 2 As modi caçõ es fora m rea l izadas

com a fin a l idade de preve n ir de m a n ei - ra e caz as co mpl ica çõ es m icro e m a - crovascul ares do D M. 3 -5 At u a lm e nte s ã o três os critérios aceitos p ara o diagnó stico de D M co m u ti liza çã o da gl ice m ia (Quadro 1):

Si nto m as de po l i úria , po l idip sia e

p

erda p o n dera l acrescidos de gl ice -

m

ia cas u al > 200 mg/ dl. Co mp re -

e nde -se p or glicem ia cas u al a que l a

rea lizada a qu a lqu er h ora do dia ,

n de p en dente m ente do h orá rio das re fei çõ es (A). 1, 2

i

Gl

ice m ia de j e jum ≥ 1 2 6 mg/ dl (7

mm o l/l). Em caso de p equ e n as e l e -

va ções da gl icem ia, o dia gnó stico

de ve ser co nfir m ado p e l a re p etiçã o do teste em o u tro dia (A). 1, 2 • Gl ice m ia de 2 h oras s - sobrecar - g a de 75 g de gl icose > 200 mg/ d l (A). 1, 2

O teste de to l erân cia à glicose deve

ser efet uado co m os cu idados preco n i - zados pe l a OM S , co m co l eta p ara dife - ren cia ção de gl icem ia e m j e jum e 120

m

i nu tos a s a i ng est ã o de gl icose.

É

reco nhecido um grup o inter me -

di

ário de i n di d u os n os quais os níveis

de gl icem ia o p ree n ch e m os crité-

rios para o dia gnó stico de D M. S ã o, e n- treta nto, mu ito e l e vados p ara serem

co n siderados n or m ais. 7 N esses casos fora m co n sideradas as cate gorias de

gl ice m ia de j e jum a l terada e to l erân cia

à gl icose dim i nuí da, cuj os crité rios sã o

a p resentados a segu ir.

QUADRO 1 Valores de glicose plasmática (em mg/dl) para diagnóstico de diabetes mellitus e seus estágios pré-clínicos

 

CATEGORIA

JEJUM*

2 H APÓS 75 G DE GLICOSE

CASUAL**

Glice m ia n or m a l

< 1 00

< 14 0

 

To l erân cia à glicose

> 100 a < 1 2 6

≥ 14 0 a < 200

 

di

mi nuída

Diabetes m e ll itu s

≥ 1 2 6

200

200 ( com si nto m as c ssicos )***

*O j ejum é definido com o a fa l ta de i ngest ã o ca rica por no mín im o 8 h oras; **Gl icem ia pl as tica cas ua l é a qu e l a real izada a qua lqu er hora do dia , sem se obser var o i nter val o desde a últi m a refei çã o ; ***Os si nto m as c ssicos de D M in c lu e m p o l i ú ria , p o l idip sia e p erda o e xpl icada de peso. N ota: O diagnó stico de D M de ve se mp re ser confi r m ado pe l a re p etiçã o do teste e m o u tro dia , a m e n os qu e ha j a h i p ergl ice m ia i ne quívoca com descomp e n- saçã o m etaból ica a gu da o u sinto m as ó bvios de D M.

1

1

0

0

GLICEMIA DE JEJUM ALTERADA

• Glice m ia de j ejum > 100 mg/d l e <

12 6 mg/d l . Esse crité rio ain da o foi o cia l izado pel a OM S , p orém já

e xiste um a reco me n da çã o da Fede -

ra ção Inter n acio na l de Diabetes (ID F) acatan do o p onto de corte p ara 1 00 mg/ d l.

• Tol erância à glicose di m i nuí da . O corre qu an do, as um a sobre - carga de 75 g de gl icose, o va lor de gl icemia de 2 h oras sit ua - se e ntre 140 e 199 mg/dl ( B). 2 -6 O método preferencial para deter- minação da glicemia é sua aferição no plasma. O sangue deve ser coletado em um tubo com fluoreto de sódio, centri- fugado, com separação do plasma, que deverá ser congelado para posterior utilização. Caso o se disponha desse reagente, a determinação da glicemia deverá ser imediata ou o tubo mantido

a 4 o C por, no máximo, 2 horas. 8 Para a rea liza çã o do teste de to le - rân cia à gl icose ora l algum as con side - ra çõ es de ve m ser l evadas e m co nta :

• período de jejum entre 10 e 16 horas;

i ng est ã o de pe l o me nos 150 g de glic í dios n os três dias anteriores à rea l iza ção do teste ;

REFERÊNCIAS

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2. American Diabetes Association. Guide to diagnosis and classifica- tion of diabetes mellitus and ofter categories of glucose intolerance. Diabetes Care. 1997; 20(Suppl):

215-25.

3. Bennet PH. Definition, diagnosis and classification of diabetes mel- litus and impaired glucose tole-

ati v idade sica n or m a l;

co mun icar a prese a de i nfecçõ es,

i ngest ã o de medica me ntos o u in a -

ti v idade;

• u ti l izar 1,75 g de gl icose p or qu i - l o g ra m a de p eso at é o máx i m o de 75 g. 8

As tas co m rea g e ntes o s ã o t ão

p recisas qu anto as dosa g e n s pl as ti - cas e o devem ser usadas p ara o dia gnóstico. Em julh o de 2009 9 foi p ro p osta a u ti liza çã o de h em o gl obi n a gl icada (H b A1 c ) co m o crité rio de dia gnó stico

p ara o D M. A a l e g a çã o é qu e a m edida da H b A1 c ava l ia o gra u de e xp osiçã o à gl ice m ia du ra nte o te mp o e os va l ores se ma ntêm est áveis a s a co l eta . Em

j a neiro de 20 1 0 , a ADA m odi co u o cri -

tério i n icial. As reco m en da çõ es at u ais sã o as se gu i ntes : 1 0

1. Diabetes – H b A1 c > 6,5% a ser co nfi r m ada e m o u tra co l eta. Dis p e n s á- ve l e m caso de si nto m as o u gl icem ia > 200 mg%.

2 . Indi d uos co m a l to risco p ara o

dese nvolv i m ento de diabetes – H b A1 c entre 5,7% e 6,4%.

O v a l or de 6,5% f oi esco lh ido

co m base n o p o n to de i nfl e o p ara a p re v a lên cia de reti n o p atia . O v a l or de

rance. In: Kahn CR, Weir GC (eds,) Joslin’s Diabetes Mellitus. 13 ed. EEUU: Editora Lea e Febiger Phila- delphia. 1994; p. 193-15.

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6. Engelgau MM Thompson TJ, Her- man WH et al. Comparison of

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5,7 a p rese n ta um a se n sibi l idade de 66% e um a es p eci f icidade de 88%

p ara p redizer o dese nv o lv i m e n to de diabetes m e ll it u s n os 6 a n os s u bse - qu e n tes . 1 Entreta nto, ex iste m algun s p rob l e - m as p ara a apl icação desse p arâmetro co m o crité rio dia gnó stico do D M, mes - m o co m a exc lu s ã o de i mper fei çõ es n a padronização: hemoglobinopatias, ane - m ias h e m o tica e ferro p ri va . Ou tro p o nto a con siderar é a dis - cordân cia e ntre os res ul tados da gl ice - m ia e da H b A1 c qu an do, m esm o a s a rep etiçã o del es, so me nte um p er m a- n ecer a n or m al. N esse caso, a pessoa deve ser co n siderada diab é tica . Recente m ente 11 foi le va ntada a qu est ão da i nfluência das et n ias. Os i n- di d u os a frodesce n de ntes p oss ue m níveis m ais e l e vados de H bA1 c do que os cau casoides para va l ores i guais de gl ice m ia em todas as cate gorias : to l e - rân cia n or m al à gl icose, p ré- diabetes e D M. As razõ es p ara essa discre pân cia

ai n da o est ão elu cidadas. Em co n clu s ã o, os crité rios para diagnó stico de D M p or gl ice mia pl as-

tica p oss ue m níve l A de e v idên cia . Para a h e m o gl obin a gl icada sã o n ecess á rios m ais est u dos.

fasting and 2 hours glucose and HbA1c levels for diagnosing dia- betes. Diagnostic criteria and per- formance revisited. Diabetes Care. 1997; 20:785-91.

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