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para-o-tratamento-prisional

Regras mínimas para o tratamento


prisional

A freqüência de rebeliões, motins, fugas, incidentes com reféns e


outros acontecimentos violentos nos últimos anos, alimentando a
percepção pública da crise carcerária, tem inspirado investigações ad
hoc do problema por parte do poder legislativo.
11/jun/2003

Tatiana Lopes de Andrade


tatianala@terra.com.br
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A s Regras Mínimas para o Tratamento de Prisioneiros (Regras
Mínimas) enfatizam a necessidade de uma fiscalização independente
e objetiva dos estabelecimentos penais.Uma grande parte dos abusos
em prisões ocorrem porque estes são instituições fechadas sujeitas a
muito pouco controle externo. Tais abusos são bem menos prováveis
quando as autoridades sabem que pessoas de fora estarão
inspecionando os estabelecimentos e que os abusos serão
denunciados.

A Lei de Execução Penal (LEP) sinaliza o reconhecimento desse


ponto ao estabelecer vários mecanismos de monitoramento externo
dos estabelecimentos prisionais. Ao todo, seis grupos são designados
às funções de fiscalização perante a lei: os juizes de execução penal,
o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, o
Departamento Penitenciário, o Ministério Público, os Conselhos
Penitenciários, e os Conselhos da Comunidade das várias varas de
execução penal.Três desses grupos--os juizes, o Ministério Público e
os Conselhos da Comunidade são incumbidos de inspecionar
mensalmente os estabelecimentos prisionais de suas jurisdições,
enquanto que os outros órgãos são incumbidos de tarefas de
fiscalização mais flexíveis. Apesar da aparente abundância de
autoridades responsáveis, muitos dos estabelecimentos penais que
nós visitamos não recebiam a visita de nenhum desses grupos por
meses e até anos.Em estabelecimentos que haviam recebido a visita
ocasional dessas autoridades, quase não encontramos presos que se
lembravam ter visto ou falado com um agente de externo de
fiscalização. Em grande parte, a falta de uma fiscalização eficaz,
particularmente por parte dos juizes e do Ministério Público, é
devida ao número insuficiente dessas autoridades. Para todo os
estado de Minas Gerais - um estado com mais de 12.000 presos -
existem apenas duas Varas de Execução Penal: a mais importante,
na capital, conta apenas com um juiz e três promotores públicos.

Em parte, o fracasso dos mecanismos de fiscalização externa reflete


outras aspirações não alcançadas pela Lei de Execução Penal. Por
exemplo, os conselhos da comunidade locais previstos por lei -
concebidos como um método significativo de encorajar o contato
com a comunidade e o envolvimento com os presos, não existem na
maioria das jurisdicões. O Conselho Nacional às vezes conduz
inspeções nos presídios, realizou aproximadamente oito inspeções
do tipo em 1997 e pelo menos quinze em 1998, até a elaboração
deste relatório,assim como outros órgãos de fiscalização, mas, dado
o alto número de estabelecimentos penais do país, essas visitas tem
um impacto ínfimo.

Juizes parecem ser o mecanismo mais eficaz de fiscalização. Isso se


dá porque os juizes possuem um poder significativamente maior do
que os outros órgãos em termos de por fim aos abusos, por serem
especificamente autorizados a interditar, no todo ou em parte,
estabelecimento penal que estiver funcionando em
condições inadequadas ou com infringência aos
dispositivos desta lei. Embora alguns juizes sejam totalmente
indiferentes para com a condição dos presos sob sua supervisão,
outros são admiravelmente ativos na tentativa de melhorar as
condições carcerárias.
Um exemplo positivo de tal ativismo judicial é o de um magistrado
de Porto Alegre, que emitiu ordens para limitar a superlotação dos
presídios, garantir visitas conjugais para presas, (as visitas conjugais
para presos há muito tempo já haviam sido garantidas) e proteger a
integridade física de presos ameaçados (uma das medidas era a de
separar os presos condenados por estupro, que normalmente são
atacados e até mesmo mortos por outros presos, do restante da
população carcerária). Um juiz em Brasília, de forma semelhante,
recebeu a atenção da mídia nacional em 1997 por ousar libertar
presos de delegacias superlotadas de forma desumana. Mais tarde,
ele disse que seus esforços para melhorar as condições de vários
presos fora recebida de forma ruim, tanto pública quanto de forma
privada e que ele fora apelidado como o "melhor amigo dos
bandidos".

Mesmo assim, esforços judiciais para melhorar as condições


carcerárias nem sempre são eficazes. Um juiz do Rio de Janeiro, por
exemplo, ordenou uma vez que o governo do estado esvaziasse uma
delegacia de polícia que mantinha trinta e quatro presos em três
celas. O juiz ameaçou cobrar multa diária de R$11.600 (cerca de
US$10.600) se o estado não cumprisse a sua ordem em quinze dias.
Respondendo ao magistrado, o governador do Rio de Janeiro,
Marcello Alencar, determinou que a ordem fosse ignorada dizendo
que normas legais eram uma coisa e a realidade outra. Além disso,
disse que para cumprir com a Lei de Execução Penal a polícia não
poderia prender ninguém.

A freqüência de rebeliões, motins, fugas, incidentes com reféns e


outros acontecimentos violentos nos últimos anos, alimentando a
percepção pública da crise carcerária, tem inspirado investigações
ad hoc do problema por parte do poder legislativo. Essas
investigações resultaram em vários relatórios críticos, tais como o
relatório legislativo de 1992 sobre o massacre do Carandiru, em
1993, o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema
Prisional Nacional, o relatório de 1996 da Comissão Parlamentar de
Inquérito dos Estabelecimentos Penais do Estado de São Paulo, e o
relatório de 1997 da Comissão Parlamentar de Inquérito de Minas
Gerais. Alguns desses relatórios surtiram impactos importantes na
melhoria das situações abusivas.

Um pequeno número de jurisdições estabeleceram ouvidorias para


fiscalizar e denunciar o tratamento de presos mantidos em
delegacias. Esses incluem a Ouvidoria da Polícia de São Paulo e a
ouvidoria dos presídios estaduais de Pernambuco. A Ouvidoria da
Polícia de São Paulo, em particular, tem provado ser um mecanismo
vigoroso e eficaz de defesa, dedicado ao combate da impunidade em
casos de abusos cometidos por policiais.

A mais importante organização envolvida na fiscalização das


condições carcerárias é a Pastoral Carcerária da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Com padres e outros
voluntários por todo o país, a Pastoral Carcerária oferece assistência
religiosa aos detentos enquanto também fiscaliza as condições e o
tratamento aos presos. Representantes da Pastoral Carcerária, por
terem ganho a confiança dos detentos, normalmente atuam como
negociadores durante rebeliões.

Embora a Lei de Execução Penal garanta aos presos o direito à


assistência religiosa, a Pastoral Carcerária nem sempre tem acesso
pleno aos presídios. Várias autoridades prisionais e policiais têm
barrado a entrada da Pastoral a todos ou alguns dos
estabelecimentos penais sob a sua jurisdição. Em São Paulo, por
exemplo, onde a Secretaria de Segurança Pública concedeu à
Pastoral autorização plena para visitar todas as cadeias e delegacias
sob sua jurisdição, a Secretaria de Administração Penitenciária não
tem concedido a mesma abertura. Às vezes, a Pastoral teve seu
acesso a presos em celas de castigo negado, em sua opinião porque
as autoridades "temem que nós encontremos provas de tortura e as
revelemos ao público". (De fato, a Pastoral Carcerária tem servido
por muito tempo como fonte chave para informações sobre as
condições carcerárias no Brasil, creditada pela Comissão
Interamericana de Direitos Humanos e vários órgãos do poder
legislativo, dentre outros).

Outro órgão importante de fiscalização é a Ordem dos Advogados do


Brasil. Além de organizar a assistência jurídica gratuíta aos presos,
freqüentemente forma mutirões de advogados para prestar
assistência jurídica intensiva e chama a atenção para os abusos
cometidos nas prisões. A OAB, por exemplo, foi a primeira a
denunciar o massacre do Carandiru, valendo-se de seu poder e
prestígio para exigir uma investigação plena e imparcial do
incidente. Mais recentemente, pediu a condenação dos policiais que
mataram oito detentos no Presídio do Róger em João Pessoa,
Paraíba.

Finalmente, o Brasil possui muitos grupos de direitos humanos


locais que fiscalizam as condições carcerárias, embora seu sucesso
na obtenção de acesso não seja regular.

A população carcerária no Brasil, como no resto do mundo, é


formada basicamente por jovens, pobres, homens com baixo nível de
escolaridade. Pesquisas sobre o sistema prisional indicam que mais
da metade dos presos tem menos de trinta anos; 95% são pobres,
95% são do sexo masculino e dois terços não completaram o
primeiro grau (cerca de 12% são analfabetos). Devido à pobreza e
antecedentes à margem da sociedade, eles e seus familiares possuem
pouca influência política, o que se traduz em poucas chances de
obter apoio para colocar um fim nos abusos cometidos contra eles.