OS INSACIÁVEIS

Tradução: Nelson Rodrigues

HAROLD ROBBINS Um dos escritores de maior sucesso internacional, Harold Robbins nasceu em Nova Iorque, em 1916. Criado em orfanato, aos oito anos vivia numa das partes mais po bres e violentas do West Side de Nova Iorque, o Hell's Kitchen (Cozinha do Infer no). Durante a fase da grande depressão econômica dos Estados Unidos (início da década de 30) , o adolescente Robbins saiu em busca de emprego: empurrou carrocinhas de sorvet e, vendeu sanduíches e refrigerantes, trabalhou em escritórios. Empreendedor, com vi nte e um anos entrou no comércio de alimentos e passou a especular com colheitas d e ervilhas e safras de açúcar. Em pouco tempo, ganhou um milhão de dólares, mas perdeu t udo com a mesma rapidez. Então, conseguiu trabalho como auxiliar de escritório numa companhia cinematográfica. Ali, rapi-damente progrediu e passou a cargos de dire-ção. Certo dia, ao terminar de ler um livro que os produtores da empresa cogitavam fi lmar, convenceu-se de que poderia escrever um melhor. E foi assim que surgiu Jam ais ame um desconhecido, publicado em 1948, resumo de tudo o que vira no cinema e entre jogadores dos cassinos de Monte Cario. Depois, escreveu Os insaciáveis, qu e foi adaptado duas vezes para a tela: um filme com o mesmo nome e outro intitul ado Nevada Smith. A partir daí, Harold Robbins transformou-se num dos autores mais vendidos em todo o mundo. Seus livros con-tinuaram sendo adaptados para o cinema, regiamente pago s. Amealhou uma fortuna que, no entanto, não o deixa impressionado: "O ideal na vi da é a gente poder fazer de tudo uma diversão. Meus negócios me divertem. O dinheiro f oi feito pra gastar", diz o escritor. Esse milionário da literatura leva o tipo de vida que costuma criar para os person agens de suas obras. Possui mansão na Califórnia, casa de ve-raneio perto de Cannes (França), iate, um Rolls-Royce em cada lugar onde mora. Casado há vários anos com a sua quinta mulher, a italiana Grazia Maria, a quem tem d edicado os últimos livros, Robbins é pai de dois filhos. Quando se sente inspirado, põe-se arduamente a escrever. Para isso, isola-se num hotel por períodos que se este ndem até cinco meses. Antes, porém, coloca em ação uma equipe de pesquisadores, encarreg ada de levantar toda a documentação possível sobre o assunto escolhido. Assim aconteceu, por exemplo, com O garanhão, sobre a indústria automobilística, ou co m Os sonhos morrem primeiro, sobre os bastidores de uma revista pornográfica. Em seus livros, Harold Robbins joga com tudo aquilo que pode fascinar as pessoas . Mulheres passionais, homens violentos, poder e ambição, automóveis de luxo e mansões c inematográficas são os principais ingredientes dos seus inúmeros romances, traduzidos em trinta e nove idiomas, publicados em mais de sessenta países e que já cativaram m ais de duzentos milhões de leitores.

Para PAUL GITLIN, como consideração

por sua amizade e orientação através dos anos.

JONAS 1925 LIVRO I

1 O sol começava a cair do céu no branco deserto de Nevada, quando avistei Reno lá embai xo. Virei lentamente o avião e tomei rumo leste. O vento assobiava nos montantes d o biplano e eu ria comigo mesmo. O velho ia "subir a serra" quando visse aquele avião. Mas não teria de que reclamar. Não lhe havia custado um tostão. Eu o ganhara num jogo de dados. Toquei o manche para a frente e desci devagar até quatrocentos e cinqüenta metros de altitude. Voava por cima da estrada 32 e o deserto era uma confusa mancha. Meti o nariz do avião no horizonte e olhei para o lado. Lá estava ela, uns treze quilômetr os à frente. Parecia um feio sapo esparramado no deserto. A fábrica. Cord Explosives Empurrei de novo o manche e quando passei por ela já estava apenas a uns trinta me tros de altitude. Fiz uma curva Immelman e olhei para trás. Havia gente nas janelas. As morenas mexicanas e as índias, com seus vestidos de co res vistosas, e os homens com suas desbotadas roupas azuis de trabalho. Quase po dia ver o branco dos olhos amedrontados que me espiavam. Tornei a rir. Era muito chata a vida daquela gente. Ia dar-lhes um pouco de emoção. No alto da curva, levei o avião a setecentos e cinqüenta metros e mergulhei na direção d o teto coberto de piche da fábrica. A zoeira do grande motor Pratt & Whitney foi aumentando e me dei-xando surdo, en quanto o vento chicoteava meu rosto. Apertei os olhos e cerrei os lábios. Sentia o sangue acelerar nas veias, o coração bater e os sucos da vida subirem-se pelas trip as. Força, força, força! Ali, onde o mundo lá embaixo era como um brinquedo. Onde eu tinha o manche como se fosse o meu membro nas mãos e não havia ninguém, nem mesmo meu pai, pa ra me dizer não! O telhado escuro da fábrica sé estendia por sobre a areia branca, parecendo uma garo ta nos lençóis brancos de uma cama, com a mancha negra do púbis a sussurrar um convite na sombra da noite. Senti a garganta apertada. Mãe. Eu não queria ir-me embora. Que -ria ir para casa. Pim! Um dos arames finos dos montantes se partiu. Pisquei os olhos e molhei os láb ios. Senti na língua o gosto de sal das lágrimas. Já podia ver as pedras cinzentas no teto escuro de piche. Puxei o manche e comecei a sair do mergulho. A duzentos e quarenta metros endireitei o avião e fiz uma ampla viragem rumo ao campo nos fundo s da fábrica. Avancei na direção do vento e fiz um pouso perfeito. Senti-me de repente muito cansado. Fora um vôo longo de Los Angeles até ali. . Nevada Smith veio correndo ao meu encontro enquanto o avião taxiava e parava. Desl iguei a ignição e o motor parou, escarrando a última gota de combustível dos pulmões de se us carburadores. Olhei para Nevada.

Era um homem que não mudava. Desde quando eu tinha cinco anos de idade, e o vi che gar à varanda da frente, pela primeira vez, ele nunca tinha mudado. Conservava o m esmo andar miúdo, bamboleado, e as pernas arqueadas de quem nunca aprendeu a viver fora da sela de um cavalo, as mesmas rugas pequenas na pele curtida do canto do s olhos. Isso acontecera dezesseis anos antes, em 1909. Eu estava brincando num canto da varanda enquanto meu pai lia o jornal semanal d e Reno, sentado na grande cadeira de balanço perto da porta da frente. Devia ser o ito horas da manhã e o sol já estava alto no céu. Ouvi o tropel do cavalo e fui olhar. Um homem estava apeando. Seus movimentos tinham uma enganosa graça vagarosa. Passo u as rédeas pelo mourão e encaminhou-se para a casa. Chegando ao pé da escada, parou e olhou para cima. Meu pai largou o jornal e se levantou. Era um homem graúdo. Um metro e oitenta e c inco. Corpulento. O rosto vermelho ficava escarlate quando tomava sol. Olhou o h omem. Nevada piscou os olhos. — Jonas Cord? — Sim — respondeu meu pai. O homem tirou o chapéu de abas largas de cowboy, deixando à mostra a cabeleira escur a. — Soube que está precisando de um empregado. Meu pai nunca dizia sim nem não, fosse para o que fosse. — O que você sabe fazer? O sorriso do homem não mudou. Correu os olhos lentamente pela frente da casa e pel o deserto, fitan-do depois meu pai. — Sei cuidar de gado, mas isso não há aqui. Sei consertar cercas, mas também é coisa que não estou vendo. Meu pai nada disse durante alguns segundos. Por fim, perguntou: — E é bom nisso? Foi então que vi o revólver na coxa do homem. Levava-o bem baixo e amarrado à perna. O cabo era preto e usado. O cão e o metal estavam cheios de óleo. — Sei me virar. — Como é seu nome? — Nevada. — Nevada o quê? A resposta foi dada sem hesitação: — Smith. Nevada Smith. Meu pai ficou calado. Dessa vez, o homem não esperou que ele voltasse a falar. Apo ntou para mim e perguntou: — O menino é seu? Meu pai fez que sim com a cabeça. — Onde está a mãe dele? Meu pai olhou para mim e tomou-me nos braços. Como era bom ser carregado por ele! — Morreu há poucos meses — disse ele com voz calma. O homem nos encarou. — Foi o que me disseram. Meu pai olhou-o por um momento. Senti seus músculos, se contraírem. De repente, ante s de poder tomar fôlego, voei por cima da balaustrada da varanda. O homem me aparou com os braços e me segurou firme enquanto dobrava os joelhos par a amortecer o choque. Fiquei um pouco atordoado, mas, antes de eu começar a chorar , meu pai tornou a falar com um leve sorriso nos lábios: — Ensine-o a montar. Pegou o jornal e foi para dentro da casa sem olhar mais para trás. Segurando-me com uma das mãos, o homem chamado Nevada começou a me levantar. De repe nte, vi o revólver em sua outra mão como uma cobra preta viva, apontado para meu pai . Nesse momento a arma voltou para o coldre. Fitei-o nos olhos. Com um sorriso amplo, ele me fez descer para o chão. — Muito bem, Júnior. Ouviu o que seu pai disse, não ouviu? Vamos. Meu pai já havia desaparecido dentro da casa. Não sabia disso naquele momento, mas a quela foi a última vez que meu pai tomou-me nos braços. Daí por diante, foi quase como se eu fosse filho de Nevada.

Já estava com um pé fora da carlinga, quando Nevada chegou. Olhou para mim e disse: — Parece que fez um bocado de agitação. Pulei para o chão ao lado dele e olhei para baixo. Era uma coisa com a qual eu ain da não me habituara. Eu tinha um metro e oitenta e cinco como meu pai, e Nevada co ntinuava com pouco mais de metro e meio. — Um bocado. Nevada olhou para o avião. — Bonito. Como o conseguiu? — Ganhei-o jogando dados. Ele me olhou com uma pergunta implícita. — Não se preocupe — apressei-me em dizer. — Depois deixei o homem ganhar quinhentos dólar es. Assentiu com a cabeça, satisfeito. Isso também era uma das coisas que Nevada me havi a ensinado. Nunca se deve sair da mesa de jogo depois de ganhar o cavalo de um h omem sem deixá-lo ganhar ao menos uma parada. Assim, os lucros da gente não diminuem e o trouxa sai dali pensando que ao menos ganhou alguma coisa. Meti a mão na carlinga de trás e tirei dois calços. Passei um a Nevada e coloquei o me u debaixo de uma roda. Nevada fez o mesmo com o outro. — Seu pai não vai gostar. Você estragou a produção pelo resto do dia. — Não creio que isso tenha importância. O que quero saber é como ele foi informado do ca so tão de-pressa. — Você levou a moça para o hospital — disse Nevada, com o sorriso triste de sempre. — De lá mandaram chamar a gente dela. E ela contou tudo antes de morrer. — Quanto eles querem? — Vinte mil dólares. — Pode-se arranjar tudo por cinco mil. Nevada não respondeu. Olhou para meus pés e disse: — Calce os sapatos e vamos. Seu pai está esperando. Começou a atravessar o campo e eu olhei para o chão. Era bom meter os dedos na terra quente. Remexi a areia com os pés um momento e, depois, apanhei na carlinga um pa r de huarachos mexicanos. Calcei-os e segui pelo campo atrás de Nevada. Detesto sapatos. Não deixam a gente respirar. 2 Levantei pequenas nuvens de poeira com os huarachos enquanto ca-minhava para a fáb rica. O cheiro sufocante do enxofre usado para fazer pólvora me entrava pelo nariz . Um cheiro parecido com o do hospital na noite em que a levei para lã. Muito dife rente da noite em que fizemos a criança. Era uma noite fresca e limpa. A brisa do mar, trazida pelo vento, entra-va pelas janelas abertas da casinha que eu tinha em Malibu. Mas lá dentro havia apenas o p rovocante cheiro da garota e seu de-sejo. Tínhamos ido para o quarto e estávamos tirando a roupa com a desesperada pressa que nossas entranhas exigiam. Ela foi mais ligeira do que eu; já estava estendida na c ama olhando para mim quando abri a gaveta da cômoda e peguei um pacote de camisinh as. A voz dela era um sussurro dentro da noite. — Não, Joney. Não desta vez. O luar claro do Pacífico entrava pela janela. Só o rosto dela estava es-condido nas sombras. De certo modo, o que ela disse me esquentou ainda mais o sangue. A cadela deve ter sentido isso. Estendeu os braços para mim e me bei-jou. — Detesto essas coisas malditas, Joney. Quero sentir você dentro de mim. Hesitei um momento. Ela me puxou para cima dela e disse ao meu ouvido: — Não vai acontecer nada, Joney. Eu terei cuidado. Aí eu já não podia esperar mais e o sussurro dela se transformou num grito de dor. Eu não podia respirar e ela ficou o tempo todo dizendo com voz chorosa: — Eu te amo, Joney. Eu te amo Joney.

Ela me amava, sim. Amava tanto que cinco semanas depois disse que tínhamos de casa r. Estávamos dessa vez sentados no meu carro, voltando de um jogo de futebol. — Por quê? — perguntei, olhando-a. Não estava nada assustada. Ao contrário, mostrava muita segurança e falava quase com a rrogância. — Pelo motivo habitual. Há qualquer outro que faça um rapaz e uma moça casarem? Fiquei zangado. Afinal sei muito bem quando sou embrulhado: — Às vezes, é porque querem mesmo se casar. — Ora, eu quero me casar— disse ela, chegando mais perto de mim. Empurrei-a para o lado. — Pois eu não quero. — Mas você disse que me amava — murmurou, começando a chorar. — Um homem diz uma porção de coisas quando está com uma mulher. Encostei o carro junto ao meio-fio e freei. — Você não me disse que teria cuidado? — Mas eu gosto de você, Joney — insistiu, tentando enxugar as lágrimas com um lencinho t errivelmente ineficiente. — Gostaria de ter um filho seu. Pela primeira vez desde que ela me contara, comecei a me sentir melhor. Era uma das coisas desagradáveis que acontecem quando se é Jonas Cord Jr. Garotas demais, e suas mães também, pensando em dinheiro. Numa fabulosa fortuna. Desde o fim da guerra , meu pai havia construído um verdadeiro império fabricando pólvo-ra. — Então não há dificuldade. Se quer ter, tenha. — Quer dizer... quer dizer... que vamos casar? O leve brilho de triunfo em seus olhos mais que depressa se desvaneceu quando sa cudi a cabeça. — Não. Quer dizer apenas que, se você quer mesmo ter a criança, pode ter. Ela se afastou de mim. De repente seu rosto se mostrou sério e frio. A voz era cal ma e prática. — Quero, mas não assim. Sem uma aliança no dedo, não. Terei de me livrar da criança. Sorri e lhe ofereci um cigarro. — Agora é que você está falando com juízo, menina. Pegou o cigarro e eu o acendi. — Mas não vai ser barato... — insinuou ela. — Quanto? — Há um médico na Mexican Town. As meninas dizem que é muito bom — disse ela, soltando uma baforada e me olhando inquiridoramente: — Duzentos? — Ótimo. Está fechado — topei imediatamente. Era um bom negócio. O último caso desses me custara trezentos e cinqüenta. Joguei o ci garro fora, liguei o motor e meti-me de novo no tráfego, rumo a Malibu. — Espere aí! Para onde você vai? — perguntou ela. — Para a casa da praia. Podemos, pelo menos, aproveitar a situação. Ela começou a rir e se chegou a mim. — Não sei o que mamãe diria se soubesse tudo que fiz para agarrá-lo. Ela me aconselhou a não esquecer um só truque. Soltei uma risada e disse: — Foi o que você fez. — Fico pensando em mamãe. Ela já tinha planejado tudo para o casamento. Pobre mãe... Talvez, se a velha bruxa tivesse ficado calada, a filha ainda estives se viva. Foi na noite seguinte, mais ou menos às onze e meia, que meu telefone começou a toca r. Eu tinha acabado de pegar no sono, e disse um palavrão antes de atender. Ouvi a voz dela num sussurro medroso: — Estou perdendo muito sangue, Joney. O sono me saiu da cabeça como uma bala doida. — O que você está dizendo? — Fui hoje de tarde à Mexican Town e agora as coisas não vão bem. Não parei ainda de perde r sangue e estou com muito medo. — Onde você está? — Hospedei-me esta tarde no Hotel Westwood. Quarto 901.

— Volte para a cama. Vou já para aí. — Venha depressa, Joney, por favor! O Westwood é um hotel de segunda classe no centro de Los Angeles. Ninguém deu a meno r atenção quando entrei no elevador sem parar na portaria. Tentei a porta do quarto 901. Estava aberta e entrei. Nunca vi tanto sangue na vida. Havia sangue no tapete barato do chão, na poltrona em que ela se sentara para telefonar, nos lençóis brancos da cama. Ela estava deitada na cama com o rosto mais branco que a fronha do travesseiro. Seus olhos estavam fechados. Quando me aproximei, ela os abriu; os lábios se mover am, mas nenhum som saiu. — Não tente falar, menina. Vou arranjar um médico. Você vai ficar boa. Ela tornou a fechar os olhos e fui para o telefone. Não podia telefonar assim para qualquer médico. Meu pai não ficaria satisfeito se meu nome voltasse a aparecer nos jornais. Telefonei para McAl-lister, o advogado que tratava dos negócios da firma na Califórnia. O mordomo chamou-o ao telefone e procurei falar com voz calma. — Preciso com urgência de um médico e de uma ambulância. Em menos de um minuto compreendi por que meu pai se utilizava dos serviços de Mac. Não perdeu tempo com per-guntas supérfluas. Quis saber apenas onde, quando e quem. O porquê não interessava. — Um médico e uma ambulância estarão aí em dez minutos. É melhor sair daí agora. Não adianta plicar-se mais do que já se complicou. Agradeci e desliguei. Voltei para junto dela. Parecia estar dormindo. Quando me dirigi para a porta, abriu os olhos. — Não vá embora, Joney. Estou com medo. Voltei e fiquei sentado ao lado da cama. Segurei-lhe a mão e ela tornou a fechar o s olhos. A ambulância chegou daí a dez minutos. E ela não me largou a mão até chegar-mos a o hospital. 3 Entrei na fábrica e o barulho e o cheiro me envolveram como um casulo. Percebi as momentâneas paradas no serviço à minha passagem, e ouvi os murmúrios contidos de vozes m e acompanhando: — El hijo. O filho. Era assim que me conheciam. Falavam de mim com prazer e orgulho, como s eus ancestrais ti-nham falado dos filhos de seus patrones. Isso lhes dava uma id entidade e um lugar próprio, numa compensação pela dura vida que levavam. Passei por entre os tanques de mistura, as prensas, os moldes e che-guei aos fun dos, ao pé da escada que levava ao escritório de meu pai. Comecei a subir os degraus e voltei-me; uma centena de rostos sorriam para mim. Acenei e sorri também, como sempre fizera desde a primeira vez em que, ainda garoto, havia subido por aquela escada. Passei pela porta no alto da escada e o barulho morreu assim que a porta se fech ou. Atravessei o pequeno corredor e entrei na sala de espera do escritório. Denby estava sentado à sua mesa, escrevendo alguma coisa no seu jeito nervoso habi tual. À sua frente, uma moça batia desesperadamente à máquina de escrever. Havia duas pe ssoas sentadas no sofá. Um homem e uma mulher. A mulher estava vestida de preto e torcia nas mãos um lencinho branco. Olhou para mim logo que cheguei e não foi preciso que me dissessem quem era. Mãe e filha eram m uito parecidas. Encarei-a, mas ela virou a cabeça. Denby se levantou, muito agitado. — Seu pai está esperando. Ele abriu a porta do escritório e entrei. Denby tornou a fechá-la e corri os olhos p ela sala. Nevada estava encostado à estante do lado esquerdo, com os olhos quase fechados: s eu jeito dissimulado de prestar mais atenção às coisas. McAllister estava sentado numa cadeira diante de meu pai. Virou-se para me olhar. Meu pai estava sentado à velha e enorme mesa de carvalho. Seus olhos faiscavam. A não ser isso, o escritório estav a como sempre fora.

As paredes revestidas de lambris de carvalho escuro, as pesadas pol-tronas de co uro, as cortinas de veludo verde e a fotografia de meu pai com o presidente Wils on na parede atrás da mesa. Ao lado de meu pai estava a mesinha com três telefones e , mais adiante, a infalível mesinha com um jarro de água, uma garrafa de uísque e dois copos. Só restava um terço de uísque na garrafa. Devia ser, portanto, três horas. Olhei para o relógio: três e dez. Meu pai bebia uma garrafa por dia. Atravessei o escritório e parei diante dele. Enfrentei seu olhar fuzilante. — Alô, papai. Seu rosto ficou ainda mais vermelho e as veias do pescoço incharam quando ele grit ou: — Isso é tudo o que você tem para dizer depois de arruinar a produção do dia e meter medo em metade do pessoal com suas ma-luquices? — O recado que recebi dizia que eu devia vir o mais depressa possível. Foi o que fiz . Mas já não era possível contê-lo. Estava furioso. O temperamento de meu pai era assim. N um momento estava calmo e tranqüilo; no outro, subia mais alto que um balão. — Por que diabos não saiu do hotel quando McAllister mandou? Por que você tinha de ir até o hospital? Sabe o que você fez? Sujeitou-se a um processo criminal como cúmplice de aborto. Eu também já estava furioso. Meu temperamento era igualzinho ao dele. — E o que você queria que eu fizesse? A moça estava se esvaindo em sangue e cheia de m edo. Queria que eu saísse de lá e a deixasse morrer sozinha? — Exatamente. Se tivesse algum miolo dentro dessa cabeça, era isso mesmo o que você de veria ter feito. De qualquer maneira a moça morreu, e não adiantou nada você ter ficad o. Agora, esses patifes que estão aí fora querem vinte mil dólares. Do contrário, irão dar queixa à polícia! Pensa que tenho sempre vinte mil dólares para jogar fora todas as v ezes que você cobre uma sem-vergonha? É a terceira moça só este ano! Não dava a menor atenção para o fato de a moça ter morrido. Eram os vinte mil dólares que o estavam enfurecendo. Mas então compreendi que também não era o di-nheiro. Era uma co isa muito mais profunda. A amargura que mostrava na voz era a chave. Olhei para ele, de repente entendendo tudo. Meu pai estava ficando velho e isso lhe comia a força. Rina devia estar de novo em cima dele. Já se passara mais de um ano depois d o pomposo casamento em Re¬no, e nada acontecera. Dei as costas e caminhei para a porta sem falar mais coisa alguma. — Para onde você pensa que vai?, — gritou meu pai. — Voltar para Los Angeles. Não precisa de mim para tomar uma decisão. Ou vai pagar a e ssa gente ou não vai. Para mim, não faz diferença. Além disso tenho um encontro marcado. — Para quê? — disse ele, aproximando-se de mim. — Para deflorar outra moça? Encarei-o firme. Já estava farto daquilo. — Pare com essas queixas. Afinal deveria estar contente por alguém nesta família ainda ter alguma coisa entre as pernas. Senão, Rina pode pensar que o mal é de família! O rosto dele se contorceu todo de raiva. Levantou as mãos como se fosse me bater. Abriu a boca numa careta de escárnio e então as veias da testa se estofaram de raiva . De repente, como se houvessem desligado um interruptor, toda a expressão de seu rosto desapareceu. Cambaleou, e foi caindo na minha direção. Num reflexo, estendi os braços e o segurei. Por um breve momento seus olhos de des anuviaram, voltados para mim, e os lábios se moveram. — Jonas... meu filho. Então a névoa lhe cobriu os olhos, e ele caiu com todo o peso em cima de mim escorre gando para o chão. Eu sabia que estava morto antes mesmo de Nevada correr para ele e lhe abrir a camisa. Nevada ficou ajoelhado no chão ao lado do corpo de meu pai, enquanto McAllister ch amava um médico pelo telefone. Eu estava pegando a garrafa de uísque, quando Denby a briu a porta. Ficou ali estatelado e trêmulo, com uns papéis na mão. — Meu Deus, Júnior! — exclamou, com uma voz apavorada. — Agora quem vai assinar o contra to ale-mão? Olhei para McAllister, que me fez um sinal imperceptível de aquiescência. — Eu assino — respondi, decidido. No chão, Nevada estava fechando os olhos de meu pai. Larguei a garrafa de uísque sem abrir e disse a Denby:

e ainda assim para pedir di nheiro. Cord. vivo. Rina Marlowe Cord. Pareceu-me sincero. — Vou tomar as providências necessárias e depois mandarei as cópias. — Sinto muito que não nos conhecêssemos em melhores circunstâncias. — Por que está chorando? — perguntei. Muito bom para um médico que até então não conhecera nenhum de nós. Ela me contou que você já tinha até feito planos para o casamen to! .K.. — Qual foi a causa? — Embolia cerebral. que coisa horrível! — disse. Idade: sessen ta e sete anos. Disse a ela que procurasse agarrar Jonas Cord Jr. Jonas Cord Jr. Levantou-se e hesitou. meu pai estava ali. A pena começou a arranhar o papel. Uma autópsia não faria nenhuma diferença. Ele não sofreu. passara a ser nada. Tirou uma caneta e uma folha de papel. A garota tinh a ares de confortadora honestidade. Ela me olhou escandalizada. Eu nada disse. talvez ela ai nda estivesse viva. Podem f icar tranqüilos que foi tudo muito rápido. trazendo nos rostos uma expressão fixa. A mulher imediatamente começou a soluçar. estranha mistura de rancor e pesar. Li no cabeçalho as palavras: Atestado de óbito. Num instante. Mas todo mundo em Nevada sabia tudo a respeito de Jonas Cord e família. Mas não. já havíamos carregado o corpo para o sofá. sr. sem ter força sequer para enxotar a mosca cheia de curiosidade que estav a passando da beira do lençol para o rosto coberto. um coágulo de sangue no cérebro. Denby entrou de novo e perguntou: — O que eu faço com essas pessoas que estão aí fora? Posso mandá-las embora? Discordei. — Também sinto. mas a semelhança era apenas superficial. filho. O médico era um homem magro e firme. O médico se sentou na cadeira à minha frente. — Quer ver se está tudo certo? Li. Olhei para o homem. Sua voz ficou estridente: — Como tem coragem de me falar assim? Com seu próprio pai estendido ali e depois do que fez à minha filha? Levantei-me. ou querem uma au-tópsia? Balancei a cabeça. Claro que foi rápido. cobrindo-o depois com um lençol. — Embolia está certo. olhando para o corpo coberto no sofá. já a velha era uma harpia de nascença. Aparentemente. Mas desistiu da idéia.— E pare de me chamar de Júnior! 4 Quando o médico chegou. Sobreviventes: esposa. o homem parou e perguntou: — Posso consignar embolia como causa da morte. — Você só o conheceu hoje. O pai olhou para mim. Levantou o lençol. tomou decisão contrária e saiu sem dizer uma palavra. Pouco depois terminou e empurrou o atestado para mim. e usava óculos com lentes muit o grossas. Foi McAllister quem fez a pergunta. examinou e disse: — Está morto mesmo. que colocou em cima da mesa. enquanto eu me balançava na cad eira de meu pai. Tudo perfeito. Se há uma coisa que não posso tolerar é falsidade. — Que coisa horrível. A mãe e o pai da moça chegaram à porta. Tinha um rosto honesto. — Mande-as entrar. Devolvi-lhe o papel: — Tudo O. como se quisesse demonstrar alguma expressão de pesar. porque acabariam voltando. Um ataque. O médico voltou a escrever. cu stasse o que custasse. A filha se parecia com ela. no outro. agora. calvo. Então respondi em voz al ta: — Depois do que eu fiz à sua filha? Não fiz absolutamente nada que fosse contra a vont ade dela. Um momento depois. Se você não lhe tivesse dito que fizesse tudo para me pegar.

tive certeza. Tirei do bolso o maço de cigarros e lhe ofereci um. respondi sem hesitar: — O. olhou-me criticamente e perguntou: — Como sabe que pode pagar tanto dinheiro? Acendi um cigarro e sorri.. Toquei a campainha e Denby apareceu. Foi só. elas passam a ser minhas depois da morte dele. Estou com uma clientela muito gran-de. — A primeira coisa que temos para fazer é convocar uma reunião da diretoria para elegê-l o oficialmente presidente da companhia. Acha que haverá alguma dificuldade quanto a esse ponto? — Não creio. Respondeu com um sorriso. e perguntei a McAl-lister: — Acha que já estou livre? Ele sacudiu a cabeça negativamente. de um consultor e de um advo-gado. — Eu só disse a ela que se fosse boazin ha. que logo desapareceu. Uns preferem dinheiro.K. Virei-me para McAllister. Num instante. — Mac. não — respondeu a mulher. — Quero uma cópia do testamento de meu pai. e outros. e sugeri: — Então é melhor ir vê-lo amanhã no lugar onde trabalha. — E assim que julga que um homem honesto deva agir? — perguntou McAllister com um so rriso. nada comentou. e por um instante cheguei a pensar que fos-se bater nela . com os olhos cada vez mais apertados. cho-rando. Está disponível? — Não sei se terei tempo. mas Denby deve ter. Jonas. risquei um fósforo e o acendi. a cópia estava em minha mesa. Gostaria apenas de ser homem bastante para chegar aos pés dele. meu pai era um canalha egoísta e ambicioso que queria passar a mão em tudo que havia no mundo. Henry. depois foi todo eficiência. A mulher correu atrás dele. Nevada. — Seu pai era um homem prático. Mac. Aí. Nunca mais o incomodaremos. Logo que ele o colocou na boca . Parece um homem honesto. Voltou-se para mim e disse: — Desculpe. Meu pai não acreditava em sócios. outros. mul heres. Henry.. Creio que ele resolverá tudo a cont ento. — Foi uma coisa que meu pai me ensinou — expliquei. — Mas. — Que lhe rende quanto? — Calculo uns sessenta mil dólares por ano. tudo oficializado e legal. que a examinou rapidamente. talvez con-seguisse casar com ele. — Só soube depois que você aceitou. Possuía noventa por cento das ações e. abrindo a porta e empurrando-a à sua frente. Mas não. — Vou precisar de muita ajuda. McAllister nada disse. — Mas não terei mais o velho para me ajudar. ele fará tudo de graça. pegou a bolsa de fumo e começou a fazer um cigarro. — Não se preocupe. de acor o com o testamento. Então continuei: — Preciso de um conselheiro. — Já não disse o bastant e? A porta se fechou depois que eles saíram. Entreguei-a a McAllister. amedrontada. Dirigiu-se dignamente para a porta. Mas não é preciso comprar um homem honesto. Cord. — El e costumava dizer que todo homem tem seu preço. olhando sem querer para o sofá. Ele mantém um arquivo de tudo o que meu pai fazia. Ele parou no meio da tragada. Pensei um pouco. que ficara o tempo todo encostado à parede. O homem cerrou os lábios. sr. com voz trêmula: — Você sabia então que ela estava grávida? — Não. Você chegará lá — disse McAllister. a glória.O marido voltou-se para ela e falou. coçando pensa-tivamente o queixo. — Cale-se! — exclamou. . Henry. — Por cem mil seria capaz de se mudar para Nevada? — Desde que me deixe redigir o contrato. Ele mostrou interesse apenas com o olhar. — Tem alguma cópia do testamento? — Não.

agradeci: — Muito obrigado. E você é um grande ator. mal eu acabara de falar. Jake. em que me jo-gara para Nevada. — É uma grande perda — disse tristemente. — E se quiser alguma coisa de mim. — Obrigado. Em minha casa. — Estarei lá às cinco horas. Mas acho que será melhor eu mesmo ir falar com eles. Ouvi a porta se abrir às minhas costas. Tornou-se ainda mais manifesta a expressão de respeito no rosto dele. gostasse ou não. Entrou no escritório de mãos estendidas. Jonas — concordou e saiu. desde aqu ele dia na varanda. basta me chamar. Jake teve de concordar comigo. mostrando no rosto satisfação por haver ter-minado seu número. Denby saiu e eu me voltei para McAllister. — Ele tentou dissimular sua decepção. Não sei muito sobre ele. peça a Denby uma lista dos outros acionistas da companhia. mas logo perce-bi. por enquanto não. — Acho que devo — respondi. plástico. Respeito. baixando a voz. não conse-gui. Jonas. Devia ser resultado da e mbolia. antes da reunião. Em voz alta. caminhando para a porta. se não me engano. Ele se levantou. em Reno. Jake era o gerente da fábrica. Diga-me alguma coisa a re speito amanhã de manhã. Ficou quase visivelmente satisfeito com minhas palavras. Há apenas o contrato alemão. e todos na fábrica deviam estar comentando. Ergui o lençol. Levantei-me e fui até o sofá. quando o chamei novamente. Uma expressão diferente começou a aparecer no rosto de McAllister. — Seu pai era um grande homem. — Se acha que deve. Apaguei o cigarro no cinzeiro sobre a mesa e disse: — Peça a Denby a pasta do contrato e examine-o hoje à noite. amanhã de manhã. Os olhos estavam fechados e havia como que um ricto na boca. Voltei-me para Nevada e perguntei: — O que você acha? Esperou muito para responder. — Já que está nisso. Jake Platt. disse. As ações são realmente suas. tirou lentamente um pedaço de papel de cigar ro que lhe ficara no lábio e disse: — Acho que seu velho está descansando muito bem. telefone para todos os diretores e diga que vai haver uma reunião esp ecial. Não sei por que. E já ia chegando à porta. Mac? — Não. pensei. Depois. — Mande entrar. mas ouvi seu pai dizer que era uma grande oportunidade. A princípio não compr eendi o que era. — Então telefone agora mesmo e diga-lhe para iniciar as providências legais. — Acabo de saber da triste notícia. Jake. seja lá o que for.. e é preciso acalmá-lo s um pouco. Era ele quem fazia tudo andar. Precisamos homologar isso imediatamente. Dev o pelo menos saber o nome deles antes da reunião. mas havia dentro de mim alguma coisa que me impelia a chorar por ele. Era um homem g rande e pesado. Virei-me para Denby e ele já tinha as palavras na ponta da língua: — Está tudo arquivado no cartório do juiz Haskell.. É bom saber que posso contar com homens como você. na hora do desjejum. Ficam nervosos e assustados. Aproximou-se do sofá e olhou para meu pai. enquanto seu rosto assumia uma expressão condizente com um velório irlandês. Já soubera. Quando ac abar. Jonas. Era essa sua política: não discordar d o patrão. Denby. Jake. Jake apareceu na porta ao lado de Denby.. Depois. — Boa idéia. — Há mais alguma providência que eu deva tomar.— Está em ordem. Acha que devo dizer alguma coisa ao pessoal? Sa be como são esses mexicanos e índios. Estarei de pé às cinco horas. Ouvi Nevada perguntar às minhas c . — Está bem. — Jake Platt quer falar com o senhor.. Apesar disso. Na têmpora direita um a mancha levemente azul que se perdia dentro do cabelo. Deixei cair o lençol e me virei. Quase me havia esquecido. Ele me abandonara havia muito tempo. em tom confidencial: — Quase todo mundo na fábrica já sabe. — Está bem. Ele se voltou para mim. Era Denby. Mac. Tem relação com um novo pro-duto. até no andar.

O sol ainda brilha va no céu. Meu pai morreu. Depois. De vez em qua ndo. — Mande pintar aquilo de branco. E que Deus esteja com todos. mas afastei sua mão e continuei: — Meu maior desejo é que continuem colaborando com a mesma boa vontade de antes.. Olhei-o com frieza. Os trabalhadores se afastaram. algum me tocava. Diga que quero o melh or funeral. A produção triplicara. Todos os olhos se voltaram para mim quando paramos no pequeno pa-tamar no alto dá escada. Jake veio atrás de mim. Não adiantava explicar que. mas era a língua que eles compreendiam.. — Pois quer dizer exatamente isso. Em pouco tempo os operários e-mudecera m. quando se paga mais. Talvez seja suficiente saberem que ele. — Sim. Meu espanhol não era grande coisa. Saí sem esperar resposta. O grande Pierce-Arrow. Recostei-me nas almofadas do carro e fechei os olhos. Jake puxou nervosamente meu braço. Chamou-me a atenção o teto de piche que tinha visto do avião. se consegue mais. Esperei até todas as máquinas pararem.ostas: — E ele? Nevada referia-se a meu pai. Não tolero conversa fiada de ninguém que trabal he para mim. A maioria se conservou em silêncio. e isso me causou surpresa. Eu. formando u m corredor para minha pas-sagem. Mas eu estou vivo e sou i gualzinho a ele ao menos numa coisa. Já ia entrar. Há gente que custa a aprender. Seu pai vivia insistindo comi go para não aumentar os salários. e continuei: — Mas eu. A sensação era fantástica. mas. pouco antes de morrer. Desci a escada e Jake veio atrás de mim. desde que o deixara. Quando se dá a ponta de um dedo. Jake? — Sim. As manhas primeiras palavras foram Mi padre ha muert o. talvez para ter certeza de que era eu quem passava. meio ofuscado pela luz do dia. Passamos pelo corredor e chegamos à escada que dava para a fábrica. — Por que foi dizer aquilo. o carro que meu pai usava. bons operários. Jake aprendeu. Ao menos meu pai não sairia deste mundo sem ter quem o chorasse. — Mi padre ha muerto — comecei. Jake. — Não ouviu o que eu disse lá dentro. — Está vendo aquele teto. eles querem logo o braço todo. senti-me muito cansado. Jonas. É lamentável que meu pai não tivesse tido tempo de exprimir seu reconh ecimento a todos vocês. seu filho. com Nevada ao volante. quando Jake me fez parar. senhor. Jonas. havia autorizado um aumento de cinco por cento nos salários de todos que aqui trabalham . Jake levantou as mãos pedindo silêncio.. ainda que as lágrimas corressem dos olhos de quem não o conhecia. Jonas? Você não conhece esses bastardos como eu. estou aqui. Jake? — Ouvi o que disse. Era a primeira vez qu e eu ouvia a fábrica em completo silêncio. estava à espera no portão da frent e.. Muito obrigad o. Entrei no carro e olhei para a fábrica. De repente. Eu apenas. — Acho que não ouviu bem. pois preciso ir pa ra casa. Foi ele quem abriu a porta do carro para mim. Esp ero que sejam pacientes comigo. me espere no portão da entrada com o carro. pois tinha a impressão de que muito tempo havi a se passado. que se encarregará de tudo. porque tenho muito o que aprender. Saí da fábrica e pisquei os olhos. Comecei a falar e minha voz ecoou estranh amente pelo edifício. Jake. por tudo que fizeram para tornar esta fábrica um sucesso. Olhei para o corpo estendido no sofá e disse: — Telefone para uma agência funerária. e é justamente disso que estou falando. e quem não gostar disso pode ir diretamente para o inferno! Desta vez. Ford provara is so ao aumentar os salários de seus empregados no ano anterior. Meu pai morreu. e espero continua r seu trabalho. Duas v ezes vi lágrimas nos olhos de alguém. . murmuran do: — Não tive essa intenção...

Eu mal podia ouvir-lhe a voz. eu abria os olhos e via Nevada a o bservar-me pelo espelhinho retrovisor. A voz era suave e baixa. Segurei seu braço e a conduzi para fora do salão. Tentei tocar-lhe os seios. e encostou o corpo ao meu. Foi uns dez dias depois. não odia va meu pai. Olhei -a pelo canto dos olhos. Ela me seguiu em silêncio até o automóvel. Inclinei-me sobre ela e a beijei na boca. Aí não deu para agüentar mais. duas semanas antes do fim das férias. cheio s. com dezenove anos. Amava-a. Estava ali para quem precisasse. — Eu sei. que percebi o quanto a desej ava. afastando-a. as luzes no salão eram fracas e azuis. Entrei num pequeno bosque e desliguei o motor. E não odiava minha mãe. O nariz reto e não muito afilado denunciava sua ascendência finlandesa. Os olhos dela não mudaram de expressão. até nas piscinas. não ria com facilidade e tinha maneiras reservadas. Estudara na Suíça. quando vestem saias em vez de calças. De vez em quando. com um leve sotaque estrangeiro que borbulhava nos ouvidos. A cintura era fina e florescia em quadr is e nádegas pequenos mas bem arredondados. E a ela eu não odiava. no baile de sábado no clube. Dançávamos uma valsa lenta. de um lugar de Massachusetts chamado Brookline. e ela o usava comprido e preso na nuca. e era diferente de todas que eu hav ia conhecido. Ela era do leste. talvez largos demais para uma mulher. — Você é muito forte — disse. Mas Rina era mulher. mas com lábios finos demais para compô-la. Mas meu pai havi a dito que. sem dúvida. Tinha seios fortes. Bastaram dois d ias para ela me fazer andar nas nuvens. el a errou o passo e olhou para mim com aquele seu sorriso suave. Na verdade não era minha mãe. — Empreste-me seu lenço — disse. O lenço mostrou um instante sua brancura dentro da noite e desapareceu na mão dela. Mas era como um poço num oásis do deserto. Conheci Rina no clube. Por isso é que eu a havia levado para casa. odeio minha mãe e. Não podia ver o que se passava dentro deles. Não se podia olhar para eles sem de ixar de imaginar o sabor de leite e mel. Colocando sua mão contra meu peito. Não se odeiam os mortos. Não levantou a cabeça do encosto do banco. Estava morto. De repente. esbelta. Talvez o único defeito fosse a boca. tirando-o do bolso de meu paletó. parecem garotos: o peito como uma tábua e os quadris estreitos. Aproximei-me dela novamente. O ar da noite es-tava quente no deserto. Ele não era moço demais. Queria casar com ela. que es-ticavam agressivamente o maiô de jérsei. fez com que eu pa rasse. Senti o calor de seus quadris emanando para dentro de mim quando recomeçamos a dança r. falam como homens e até montam como eles. es-pecialmente quando estava de maiô. mas ela agarrou min ha mão. Era gran de. Estava de olhos abertos. O que se faz é r ecordá-los. não muito. — Quero você — eu disse. eu era moço demais. e tinh a ombros largos. Entramos na minha grande barata Duesenberg. Ela ainda estava quase deitada no banco. diferente das outras garotas. Não o odiava mais. também os odiaria. na defensiva. porque. se tivesse tido irmãos. Tinha testa grande e os olhos. Era. ref letiam por trás do azul gelado um brilho interior. como a vi pela primeira vez. e se assentava sobre um quei xo fino e resoluto. Não. Eu tinha uma madrasta. Sua boca não aceitou nem retribuiu o beijo. As garotas por aqui são morenas. mas depois tornava a fechá-los como se tive sse chumbo nas pálpebras. bem a-fastados e oblíquos. andam como homen s. bronzeadas de sol. Continuou apenas a me olhar com . Levantei a cabeça e olhei para ela. Casou-se c om ela uma semana depois de eu haver voltado para a universidade. Odeio meu pai.5 Cochilei enquanto o grande Pierce cobria os trinta quilômetros que separavam a fábri ca da nova casa de meu pai. Sua cabeça estava encostada no alto do banco e os olhos f echados. Só se pode ter idéia de que sejam outra c oisa à noite. não falou. O cabelo era de um louro pálido. Isso era uma coisa que entrava pelos olhos. dei a partida e caímos na estrada.

Ela me encarou. meu pai. Notei que seus olhos tiveram um instante de fulgor. Suas maneiras foram exatamente as que seriam se fosse meio-dia. papai. senti uma dor aguda vinda da base da espinha e quas e dei um pulo do banco. Percebi seus dedos se mexendo e tentei aproximar-me dela. De repente. Meu pai a olhou pensativamente. — Ao menos por formalidade. Ou algum dia seria. — Por quê? — perguntei. Para dizer a verdade. Meu pai fez um gesto de reprovação com a cabeça. — Não. você é muito jovem ainda. disse num tom pilhérico: — Meu filho acha que quer casar-se com a senhorita. — Como vai. indo para a porta. Sei qual vai ser a resposta. Não pensa assim também? Rina olhou para mim. mas tinha a solução para ela. Ela me devolveu o cigarro. Como de hábito. — Ainda desejo você — disse eu. Nada disso. Acendi um cigarro. como ou por quê. — Porque daqui a dois dias vou voltar para casa. Liguei o interruptor da parede e a sala ficou inundada de luz. levantando-se. — Vá dormir e me deixe trabalhar. Não lhe passou pela cab perguntar quem era. — Quer dizer que nada disse a ela ainda? — Não é preciso dizer. mas eu sou de opinião que ele é ai nda muito moço. Deixei Rina na sala de espera e fui até o escritório de meu pai. Porque na quebra da Bolsa em 1923 meu pai ficou arruinado. não acha que deve perguntar a ela? Fui buscar Rina e levei-a para o escritório. — Deve ser uma dessas meninas tolas que aparecem no clube e está agora toda nervosa na expectativa de conhecer o velho. — O nde está ela? — Aí fora. srta. — Estou falando sério. esta é Rina Marlowe. — Espere um pouco — ele me interrompeu. Olhei-a fixamente por um instante e depois liguei o motor. Cord. Pai. Nunca o vira tratar assim nenhum dos meus conhecidos. mas ela conseguiu me m anter a distância. Tomei o caminho de ca sa. Eu era rico. — Sim? — disse ele. e não duas horas da madrugada. e fez que não com a cabeça. ele e stava trabalhando sentado à mesa com um abajur a iluminar os papéis. Nada disse. Virou-se para meu pai e disse: — Tudo isso é um pouco desconcertante. Seu rosto estava pálido na escuridão. Exatamente esta noite. Havia no rosto dele uma expressão curiosa que eu n unca havia visto. De-pois tirou o cigarro de minha boca e o colocou entre os lábios. — Mas não se esqueça de que eu vim falar sobre i sso com você. não é? — Claro que não é uma dessas. — Você está louco — disse sem qualquer emoção na voz. desde meus tempos de ga-rotinho. quando já estava com a mão na maçaneta da porta. ela amassou o lenço nu ma pequena bola e o jogou para longe do carro. — Foi só o que disse. Marlowe? Fiquei perplexo. Porque tenho de encontrar e casar com um marido rico. Era a primeira vez que eu o chamava assim. — Está bem. Minhas mãos estavam trêmulas. na sala de espera. mas dep ois voltaram à sua reserva ha-bitual.aqueles olhos impenetráveis. sr. Rina cumprimentou-o polidamente. Não posso permitir que nada atrapa-lhe isso. Ele me olhou um instante como se estivesse muito longe. ela nem sabe que estou aqui pedind o seu consentimento. Quer fazer o favor de me levar para casa? . — Quando foi que resolveu? — Esta noite. — Quero casar. como se eu fosse algum empregado que o houves-se interrompido no meio de um problema. pai — falei. Mas não tar-dou a saltar d e onde estava. Enquanto isso. Ainda segurando a mão dela. Saiu de trás da mesa e estendeu a mão para ela. — Rina.

como tudo mais que meu pai havia feito. Houve um leve rumor do lado de fora da porta. vá tratar dos seus estudos e não se meta com o que não é a sua conta. 6 A porta da frente se abriu quando eu estava atravessando a varanda. Ele desligou o telefone sem mais uma palavra. Não pude dormir naquela noite. Aco rdei várias vezes suando frio. recebi na universidade o seguinte telegrama de meu pai: Rina e eu casados esta manhã. Com o rosto impassível. U m instante depois ouvi o ronco do motor da Deusenberg. rindo novamente. Jonas. Mas então a voz dele mudou e se tornou pe sada e cheia de intenções. fechou a port a depois de entrarmos. A c ada momento via imagens pornográficas de Rina e meu pai em grosseiras lascívias. Acompanhe-me. abrindo de um a vez a porta. Robair. — Agora. Infalível. como que paralisado. — Ah. apesar de ex-escravos. — Meu pai morreu. — Não sabe que ela só se casou com você pelo dinhei ro? Meu pai não se zangou. Denby que a sra. E eu ia contar a ela. Seguiu-me em silêncio até o escritório de meu pai. Era um homem gigantesco. é? Quem foi que minutou o contrato? O advogado dela? — Não. Estamos em casa. — Você é que é o idiota. Estamos no Waldorf-Astoria. sem poder falar. Robair era um mordomo negro inteiramente de acordo com a tr adição. em seu suave inglês sulista. Rina havia pensado em tudo. estava sempre presente quando se precisava dele. Cord não estava. tão polido e eficiente quanto grande. Meu pai mand ara fazer uma casa no estilo das fazendas do sul. — Alô. Só consegui enxergar o a-bajur em cima da mesa. Colocou-se ao lado da porta para dar-me passagem. Peguei o telefone e liguei para ele. Pisquei os olhos. Robair. Nova Ior-que. . — Acorde. Robair continuou a falar ao mesmo tempo que caminhava rapidamente para a porta. Devia ter uma espécie de sexto sentido no cumprimento de seus deveres. e nada contei aos outros emprega dos. Aqui já é meia-noite e estou indo para a cama. Ela queria um homem. menos nisso: meu pai estava mort o. Acredito não ter passado mais de duas semanas ao todo nela desde que me u pai a construiu. fazendo força para afastar o sono. Duas semanas depois. Embarcamos amanhã no Leviathan em viagem de lua-de-mel pela Europa. — Já sei. Era a primeira vez que me chamava de "sr.Atordoado. vi meu pai tomar-lhe o braço e sair da sala com ela. Corri para a porta. aquela grande casa estranha. de Nova Orleans. — Calculei que o senhor mesmo quisesse dar a triste notícia — disse ele. ai nda segurando o telefone na mão algum tempo mais. Disse ao sr. Cord" em vez de ''Júnior''. Insistiu até na assinatura de u m contrato de bens antes do ca-samento. — E as outras pessoas sabem? — Não. o meu — disse meu pai. Chegou até a rir. haviam i ncutido nele o orgulho do seu trabalho. Arrebentei-o de encontro à parede. Continuei. Alguém me sacudia levemente. — Alô. Abri pouco a pouco os olhos e a primeira coisa que vi foi a cara de Nevada. não um menino. O sr. e para dirigi-la trouxera Roba ir. O pai e o avô dele haviam sido mordomos e. Denby telefonou. Cord — disse. uma cabeça mais alto que eu. sr. Olhei para ele. — Não existe um idiota mais idiota que um velho idiota! — gritei através dos cinco mil q uilômetros de fios estendidos entre nós. Procurei alguma coisa na sala para descarregar minha raiva. E agora era minha. O finzinho do sol estava desaparecendo por trás da grande casa.

mas com o tom enérgico da au-toridade. — Aí eu não al canço. Ela saiu correndo e Robair se virou para mim. Não creio que ela vá ficar muito tempo co-nosco. surpresa. O vulto parou. Ela nada falou. Peguei a toalha e aproximei-me dela. Seu rosto era uma impenetrável máscara. Muitas outras mulheres teriam tentado cobrir a nudez. sr. confirmada pela voz insegura e medrosa. — Pare com isso. Bati de leve à porta de Rina. seu pai disse que você era um maníaco sexua . Cord. — A sra. meu pessoal não faz dessas coisas. Cord. sentando-se diante da penteadeira. Ela não. Ficou com a mão no rosto. Depois conversaremos. Vou subir e dar-lhe a notícia. Um vulto subia correndo pela longa esc adaria que se curvava do vestíbulo para o andar de cima. — Louise! — disse Robair em voz baixa. Pela primeira vez.Não havia ninguém ali. m as essa moça é um pouco rebelde. como eu nada disse. com a voz che ia de desprezo. Começou a enxugar o rosto com outra toalha e disse: — Seu pai não vai gostar disso. Comecei a subir a escada. sorrindo. — Quer fazer o favor de enxugar-me as costas. Robair. a que horas devo servir o jantar? — Às oito horas — respondi. e vi que seu rosto de repente ficou muito sério. preciso de Louise. Dirigi-me para o banheiro e apanhei uma toalha grande na pilha que estava na pra teleira acima da penteadeira. Estendeu a mão para pegar a toalha. traga-me uma toalha. deu-me uma pequena toalha. Robair. curiosamente. espantada. — Onde está Louise? — perguntou. Sent i-lhe o perfume. — Louise. — Está muito bem. — Pronto. mas. — Vá para a cozinha. mas a mão dele encontrou o rosto de Louise com a força de um tiro de pistola. ainda forte. mal o levei à boca. hesitei. Voltei-me para ele. Em geral. senhor. devi-do ao calor do banho. Louise desceu a escada com hesitação. — Obrigado. Robair colocou cuidadosamente o fósforo num cinzeiro e disse: — Sim. — Peço-lhe desculpas por ela. Embrulhou-se habilmente e saiu da banheira. Dei-lhe um beijo na nuca. Olhou-me pelo espelho. Era toda ouro e brancura e cintilava com a água que lhe corria pelo corpo. Foi então que ela começou a sentir que havia alguma coisa. Ela se virou para mim. — Houve alguma coisa entre você e seu pai. — Como é que sabe que não contarei a ele? — Não contará. De mais perto. Como vê. — Ele nunca saberá. Era a criada pessoal de Rina. Ela deixou a grande toalha de banho escorre gar-lhe dos ombros. — Sr. mas a voz dele me fez parar. Robair me mostrou como fazia os empregados andarem na linha. Ele saiu e eu o segui. Jonas? — disse ela. enquanto as lágrimas lhe rolavam dos olhos . — Quantas vezes já lhe disse que não escutasse atrás das portas? — censurou. Abri-a e entrei. Cord está no quarto — disse Robair às minhas costas. após pensar um momento. seus olhos ainda mostrando surpresa. Robair aproximou dele um fósforo aceso. Jonas? Ela me olhou um instante. Não houve resposta. Levei-a para o compartimento onde ficava a banheir a no momento em que ela fazia deslizar a porta de vidro. — Lá embaixo. Olhei para a escadaria e. — Venha cá — ordenou ele. Ouvi a voz dela n o banheiro. pude ver-lhe no rosto uma expre ssão de terror. Robair. Peguei um cigarro e. sr. Seus gestos eram quase preguiçosos. Enxuguei as gotas de água que havia em sua pele perfeita. Ficou u m momento ali a olhar-me. Jonas! Ainda hoje de manhã.

— Espere! Por favor. Prendi-lhe as coxas com um joelho e bati-lhe com raiva no rosto. e eu sorri. sem medo. Cord. — Que ele tenha morrido o u que você errou quando se casou com ele e não comigo? Acho que não me ouviu.l. Os olhos se arregalaram um instante. eles não virão. Ela caiu sobre o travesseiro e notei no rosto as marcas da minha mão. seu marido morreu. Olhei-a fixamente e pude ver medo em seus olhos. Pensarão apenas que você está dando expansão à sua dor. puxando-me para cima dela. grande e forte. Agora. mas senti que havia nela um calor subindo ao meu enc ontro. Ela virou-se para fugir. Perguntei: — Não? — Vou dar gritos e os criados virão correndo! — gritou com voz rouca. — Fico satisfeita. — Ele nunca mais entrará por aquela porta. arranquei a toalha de cima dela. segurei seu cabelo e virei a ca beça dela até olhar para mim. Fiquei um instante parado e então deixei a pressão que me enchia os pulmões escapar nu m lento suspiro. no outro. Você não precisa provar isso. calculista. — Sra. e . — Foi dess e jeito. esperou por mim? Agarrei-a e carreguei-a para o quarto. — Não sei por quê. mas eu a agarrei pelo braço e puxei-a. por acaso. e eu sentia o coração bater apressadamente por baixo dele. — Em que é que não pode acreditar. estavam nebulosos. — disse eu. e que eu que ria desmontar.. Sorriu e pas -sou-me os braços pelo pescoço. Eu e você. e havia neles uma turbulência que era coisa inteiramente nova para mim. e ela se deixou cair no banco da penteadeir a. — Que quer dizer com isso? — balbuciou. De repente. Rina. ela me arranha va o rosto e me dava murros no peito. — Talvez ele tivesse razão. afastou-se raivosamente de mim. Era duro. — O que falta para acabar? — Muita coisa. Estava segura de si mesma. — Sofreu muito? — Não. Ou talvez tivesse se esquecido do que é ser moço. Rina? — perguntei cruelmente. inatingível. — Você não se atreveria! Como única resposta. Um derrame cerebral. uma compaixão de que eu nunca a julgara capaz. a toalha estava esquec ida no chão. Olhou para mim com os olhos enxutos. Colou a boca na minha. Rina. Ela tentou rolar para o ou tro lado. Quando voltou a abri-los. Robair está na a com todo mundo. estava ele ali. Num ato reflexo. com o peito ofegante. Segurei-a pelos ombros e a fiz virar-se. Ela fechou os olhos um instante. — Acho que agora tem o dever de retirar-se. firme e for te. Não queria que sofresse. e só virá alguém se eu chamar. — Não. Levantou-se lentamente e o habitual véu protetor caiu-lhe de novo sobre os olhos. Era aquela a Rina habitual. — Bem sabe que a qualquer minuto ele poderá entrar por aquela porta. Foi rápido. Com as mãos e com os punhos.. Cobri-lhe a boca com a minha e agarrei-lhe o seio. Joguei-a na cama. enquanto a cor lhe fugia aos poucos do rosto . Ela me mordeu a mão e procurou fugir. dando um estalo com os dedos. apanhou a toalha e se embrulhou de novo. Era o medo de qualquer pessoa q ue tem de enfrentar um futuro incerto. Ele. — Não posso acreditar — murmurou ela. a Rina distante. a rugir como um leão. Talvez eu estivesse errado. Com a outra mão. Esse assunto era seu campo de luta predi-leto. A toalha caiu ainda mais e só ficou presa pela pressão dos nossos corpos. Não havia o menor receio em seus olhos. espere! Ao menos por seu pai. Neste minuto. E acho que esp erei demais! Ela me encarou. — Está louco? — exclamou ela. — Não. Mas você esco lheu meu pai porque representava um rendimento mais rápido para você. por cima da colcha de cetim branco. Puxei-a para mim. mas cheios de uma tris teza. Ainda não acabei. Trouxe-a para casa uma noite porque queria você.

não me saíam da cabeça as palavras de Rina. triunfante. desprendi-me dela no momento exato em que perdia as forças. — Engravide-me. Pouco a pouco. — Venha. Tive a impressão de haver entrado num braseiro. Enquanto caminhava pelo corredor até o meu quarto. — Seu pai não quis corr er nenhum risco. De repente. O paletó estava aberto. Tome conta dele. Ela sorriu. 7 Eu estava sobre o cavalinho índio malhado que tinha aos dez anos e galopava alucin adamente pelas dunas do deserto. sim. Ainda que eu não enxergasse. Nevada apareceu a meu lado. seus olhos nos meus. prendendo-me de alguma maneira mist eriosa. Me amava. Ela se movia por baixo de mim. — Engravide-me. porém não sabia demonstrar isso. Jonas! Que diabo! Volte! Virei a cabeça e esporeei ainda mais o cavalinho. Foi por isso que me fez assinar aquele acordo antes do casament o. mas ela era como um poço sem fundo no qual eu mergulhava cada vez mais. A agonia passou e abri os olhos. pois a distância entre nós era grande. Não refletiam de modo algum a paixão do corpo que estava embaixo de mim. atravessada em seu peito. Num deses pero súbito. Faça o que seu pai nunca quis fazer. Ouvi a voz dele muito fraca. fez o cavalo parar e parecia muito triste. Puxou-me a cab eça de encontro ao seu pescoço. Assim que cheguei ao meu quarto. Estava cada vez mais longe. numerosas lágrimas banhavam meu rosto. então. Afinal. Bati tanto nele com a chibata qu e comecei a ver marcas vermelhas de sangue no pêlo. mas ela moveu as pernas. enquanto seus movimentos se tornavam cada vez mais frenéticos. mas não sabia do que estava fugindo. fui ganhando di stância. como?! — murmurei. — Sim. Virou o rost o no travesseiro. — Volte. ressoante e fantástica nas asas do vento. Nevada. Puxou-me e me c olocou dentro dela. Jonas — ela disse ainda sorrindo. — Agora mesmo! Não posso mais esp erar.eu senti o corpo dela agitar-se sob o meu. Jonas? Só nós dois saberemos. O pânico da fuga me dominara. ele me amava. Jonas! Depressa! Fiz menção de levantar. procurando e exigindo minha vitalidade. Olhou-me calmo e disse em voz baixa: — Volte.. não é. Levantei-me em silêncio e saí do quarto. E você dividirá a fortuna c u filho. ainda que o resto do mundo acredite que ele seja de seu pai. M al lhe ouvia o desesperado e urgente murmúrio: — Depressa.. como se gozassem uma espécie de irônica v itória. as ab as voavam ao vento. É seu pai que está chamando. no seu gr ande cavalo preto. Tive vontade de gritar: "Não vá emb . aos pés dela. Queria tudo para seu precioso filho! Tentei levantar-me. continuou: — Mas você me fará um filho. Jonas. parei e fiquei obse rvando sua silhueta. De rrame toda sua vitalidade dentro de mim! Vi que seus olhos estavam límpidos e claros. seu corpo a devorar-me. mas ela não pôde esperar que eu tirasse a roupa. Jonas. Ele tinha receio de que alguém tirasse alguma coisa do que era seu! — Como. Olhei para trás. Meu pai tratava com carinho tudo o que me dizia respeito. Ouvia-lhe a voz. Já esperei demais. Jonas! — disse ela. Rina havia voltado a cabeça para o travesseiro e estava chorando. respirando em minha boca. ele viro u seu cavalo e começou a afastar-se a galope. que eu não tenho tempo. Olhei para trás de novo. Correu os dedos pelo meu corpo e encontrou minha parte mais sensível. Meu pai vinha no meu encalço no grande cavalo-malhado. Jonas! Engravide-me como fez com aquelas três moças de Los Angeles. Que espécie de filho é você? Não respondi e continuei a tocar o cavalo. Caí es-tendid o na cama. Seus braços e pernas retesaram-se em volta de mim. Meu pai. Rindo. — Tome conta dele. como se tivesse surgido do ar. A grossa corrente do relógio pendia. Percebendo isso.

E você aceit ou o emprego que lhe ofereci. se vai tratar de negócios. — Isso me dá o dinheiro de que preciso para comprar as ações da minoria. — Consegui outro empréstimo no Pioneer National Trust Bank de Los Angeles. — Sr. — Por que. Aquele era o remédio de que eu precisava para sacudir a sensação de vazio no peito e t irar o gosto amargo da boca. Segui pelo corredor na direção da escadaria dos fundos. Vesti uma velha calça jeans e uma camisa azul. dando meia-volta para descer pela escadaria da frente. E qual a solução que você encontrou? — Como assim? — perguntou ele. e estava desaparecendo. Hesitei um instante. Jonas. e eu sei que ele não iria chamá-lo apenas pa ra resolver o caso com os pais da moça. Sacudi a cabeça para dissipar os úl-timos vestígios d o sonho. O sol já brilhava às cinco horas e lançava uma longa sombra matinal. Ele poderia fazer isso sozinho. e saí co rrendo do quarto. Isso quer dizer que tinha certeza de conseguir o d i-nheiro. Robair — disse. olhando-me como se eu fosse um adivinho. Pegu ei o copo de suco de laranja e tomei-o de um gole. — O banco de Commack recusou o empréstimo de duzentos mil dólares que seu pai queria p ara financiar o contrato alemão que você assinou ontem. está pensando que eu fiz alguma coisa? — Você estava ontem no escritório de meu pai. não fez nenhum comentário. Eu tinha coisas mais importan tes para fazer. sessenta mil dólares — disse ele. Robair tinha razão. Peguei uma torrada. entrava o tropel dos cavalos no curral que ficava n os fundos da casa. Acendi maquinalmente um cigarro. Ò vazio er a no estômago. Mac? — Na base dos dividendos médios dos últimos cinco anos. não é? — Exatamente. Sentei na cama. um por cento para Eugene Denby. Olhou-me sem surpresa. Pela janela aberta. na base do seu valor nominal. Mac. vários empregados da propriedade estavam encostados à cerca vendo um homem que tentava amansar um potro baio. os dividendos da com panhia vêm caindo. Tomei o café. mesmo que tenha reparado nos meus trajes. — Quer dizer que isso me deixa um pouco desprovido. — Diga-me o que não sei. espalhando alguns pa péis em cima da mesa. . trazendo uma bandeja com um copo de suco de laranja e um bule fumegante de café. presidente do Banco Industrial de Reno. — Ótimo — disse eu. — Bom dia. — Por quê? — Não há em tempo de paz a mesma procura que havia pelo produto durante a guerra. McAllister está aí e quer falar com o senhor! Está no escritório. Robair. — Muito bem. para Rina Cord e Nevada Smith . Acendeu um cigarro e continuou: — Desde que acabou a guerra. sr. pensando que talvez não pudesse pagar-lhe os cem mil dólares por ano que havia combinado. Pedi trez entos mil dólares para ter uma margem de segurança. A luz do sol me fez piscar os olhos. — Quanto valem essas ações. pai!" Mas as palavras me morreram na garganta. Jonas. Robair serviu o café e levantou a tampa que cobria um prato de torradas. N o curral. banhado em suor. — O sr. Ent rou diretamente no assunto. Apaguei demoradamente o cigarro no cinzeiro. O curral ficaria para depois. Ele começou a sorrir. as ações da minoria valem quarenta e cinco mil dóla-res. — Dois e meio por cento cada um. — Os dez por cento de ações da minoria estão assim divididos disse. Cheguei à janela. McAllister.ora. Minha pergunta seguinte colheu McAllister de surpresa. — Bom dia. Mac ainda me olhava fixamente com o mesmo ar de admiração e surpresa quando me sente i na cadeira ao lado dele. Sentei no primeiro degrau da escada e Robair colocou a bandeja ao meu lado. acho que falará melhor com o estômago cheio. dois por cento cada um para o juiz Samuel Haskell e Peter Commack. — Obrigado. No meio da escada encontrei Robair.

ovos e biscoitos quentes. que me entregou. rapaz. Esperei que o silêncio se tornasse pesado. Commack e Denby mostraram fisionomias sa tisfeitas. — As ações foram deixadas para você aí no testamento de seu pai. Sorri também para ele e voltei-me para os outros: — Vamos então submeter o caso à votação. A reunião da diretoria está encerrada. Denby disse então depressa. Haskell. Tomei o café e le-vantei-me. — Só para apoiá-lo.. Pela primeira vez naquela manhã. e acrescentei : — Caso eu já possa votar com as minhas ações. cheguei à conclusão de que o encargo é muito duro para quem tem apenas a minha experiênc ia. Depoi s de serem retirados os últimos pratos. cavalheiros? Denby então falou pela primeira vez: — De acordo com os estatutos da companhia. — Tem alguma? — perguntou Commack. neste caso. — Pensava uma coisa ontem — disse eu. sei que não preciso dizer-lhes o choque que levei. McAllister. . Não era preciso que me dissessem quem eram os meus amigos. Foi por isso que lhes pedi que viessem aqui hoje de manhã. — A apresentação do nome do juiz Haskell está anotada. para me ajudar em a resolver o que for melhor para a companhia. meu rapaz. — Façamos então uma reunião dos acionistas — disse Commack. — Apresento o nome do juiz Samuel Haskell. radiante. Commack sorriu. cavalheiros? — perguntei. Nevada preparava tranqüilamente um de seus cigarros. o presidente só pode ser eleito numa reun ião dos acionistas. depois de uma noite de sono. Peguei o testamento e continuei: — Então. — Muito obrigado. — A maioria das ações está repres a aqui. Está aberta a reunião dos acioni stas. Que tal o juiz Haskell aqui? Já está aposent ado da magistratura. E eu já reque ri hoje de manhã a execução testamentária. voltei-me para o juiz. Alguém que se dedique à companhia como meu pai. ao me ver de repente com as responsabilidades de uma grande companhia como a Cord Exp losives.. — Senhores — disse eu —. Trocaram rápi-dos olhares. — Claro que pode.— Agora. Tudo já é legalmente seu. meu rapaz — disse o juiz. Há mais alguma apresentação antes que e passe à votação? Nevada levantou-se e disse com sua voz arrastada: — Apresento o nome de Jonas Cord Júnior. — Mas hoje de manhã. só pela maioria das ações válidas. não é? 8 Robair serviu um desjejum no estilo rural: bife. — Têm alguma sugestão a fazer. Analisei as pessoas em torno da mesa. sr. Olhei para Nevada. Só para apoiá-lo. Commack. diga-me tudo o que pôde apurar sobre esse produto novo em que meu pai estav a tão interessado. A voz estridente de Commack fez-se ouvir do outro lado da mesa. saiu discretamente e fechou as grandes por tas da sala. Denby estava numa ponta. — Aceita? — perguntei ao juiz. Consta da ordem do dia a eleição de um presidente e tesoureiro da companhia pa ra substituir o falecido Jonas Cord. tudo certo. cujo sorriso era ainda maior. meu rapaz. Parece que a primeira coisa que temos a fazer é elege r um novo presidente. Matéria plástica. ontem. to-mando notas nu m bloco. tirando do bolso um papel. Com¬mack fez uso da palavra: — Está demonstrando muito bom senso. Haskell e Commack estavam calado s. — Pode ficar descansado que faremos tudo o que for certo. depressa demais: — Subscrevo a apresentação. Olhou para mim com u ma expressão sorridente. Em seguida. sorrindo. E. — É uma boa idéia — disse eu. Ao seu lado. mas creio que poderia aceitar o cargo para ajudá-lo.

Olhou para Commack e. Jonas — disse ela. Ele a deixou para você. Robair chegou ao escritório. Mas venderei por esse preço alguma coisa mais: as minhas ações da Cord Explosi ves. — Está certo. — Quê?! Não vale mais de cinqüenta e cinco mil. Depois que a empregada saiu. Perguntei-lhe. Robair? — A sra. — Pretendo sair desta casa logo depois do enterro — disse ela. ainda que não pudesse. d urante uns cinco anos. — Alguém subscreve a indicação? — repeti. Olhou-me pe lo espelho. Que aconteceria então aos seus planos? Se não acredita em mim . Eu devia ter adivinhado que o velho bastardo não deixaria de tramar alguma vingança. O négligé preto esvoaçava em torno dela. Rina gostaria de conversar com o senhor nos aposentos dela. — Não valem absolutamente isso! Comprei o dobro hoje por vinte e cinco mil! — Escute. E. com a responsabilidade da co . pergunte ao seu amigo advogado lá embaixo! — Você já se certificou de tudo. — Que é. estou disposta a ser razoável. Chamarei quando precisa r de você. — Com que dinheiro? — Arranje. — Sei disso. — Quero. Ela parecia saber muito bem o que estava fazendo. agradeci e disse com voz dura e firme. — Estou sendo sua amiga. — O que acha dos meus trajes de viúva? — perguntou. Aquela história de ficar sentado a uma mesa metade do dia era a coisa mais dura que eu já havia feito. que eu não demoro. friamente. Fiquei de pé. Pode sair e espere lá embaixo. sorrindo. Louise. cau-telosamente : — Quanto quer? — Cem mil dólares. Rina? — Claro que sim! O juiz Haskell me telefonou logo que saiu daqui. Pronto. cujo rost o estava branco. sim. Vou subir. — Quero que me compre a casa. Estava sentada à frente de u m espelho e Louise lhe passava uma grande escova branca pelo cabelo. — Para quê? A casa é sua. Daí por diante. McAllister olhou para mim e eu lhe disse: — Espere. juiz. acen-dendo um cigarro .Sorri para ele. Queria era uma secretári a. — Mas não tenho tanto dinheiro. sorrindo. olhando para o juiz: — Alguém subscreve a indicação? O juiz ficou muito vermelho. De acordo com as leis do Estado de Nevada. com ou sem te stamento. Robair abriu a porta e eu subi para o quarto de Rina. você ficaria atrapalhado em tudo pela ação judicial em curso nos tribunais. — Eu sei. Bem sabia que eles estavam nas minhas mãos. — Eu sei — disse eu. — Quer falar comigo? — perguntei. Mas não foi para isso que me mandou chamar. Escute. Prendi minha respiração. Não queria como secretário aquele sujeitinho pedante e falso. A companhia também não. voltou-se para mim. para Denby. e a prime ira coisa que fiz foi demitir Denby. tenho direito à terça parte do espólio de seu pai. onde McAllister e eu estávamos tra-balhando. foi fácil. Seu pai sempre arranjava dinheiro para as coisas que queria. — Subscrevo a apresentação — disse o juiz com voz bem fraca. depois. espreguiçando-me. — Acho muito de viúva alegre. Aceitarei cinqüenta mil no dia seg uinte ao enterro e mais um compromisso escrito seu. friamente. — O que você quer comigo? Rina levantou-se. Comprei as ações deles por vinte e cinco mil dólares. — Ela tem o hábito de espiar pela fechadura. — Muito obrigado. fechando a porta. Poderia contestar o testamento com a maior facilidade. A roupa de baixo era preta também.

Aquela mão representava muitos anos de trabalho. Recostou-se na cadeira e tirou um charuto. McAllister entrou logo no assunto. Levantou-se logo que entramos. Moroni. Pelo que sei. Uma secretária nos recebeu. McAl lister com o senhor. — De fato era. acho que o empréstimo ia ser feito à Cord Explosives. Sentado a uma enorme escrivaninha do tipo secretária bem no meio d a sala. Moroni está à sua espera. dirigindo-me para a porta. 9 Eram cinco horas da tarde quando saltamos do táxi diante do edifício do banco no cen tro de Los Angeles. minha experiência é limitada. — O prazer é meu — disse eu. McAllister me conduziu a uma porta onde estava marcado PARTICULAR. de ca-belo grisalho e olhos vivos. — Estive. o sr. Apontou-nos as cadeiras em frente à mesa e nos sentamos. e o aperto foi forte.. Segui-o até o escritório do homem. Cr eio que esse ponto foi satisfatoriamente resolvido nos entendimentos do sr. desaparecendo por outra porta. — Sr. — Deve compreender que isso altera muito a situação. Era uma sala ampla e com as paredes forradas de l ambris escuros. nos fu ndos. Moroni. Po r menos ninguém consegue. me disse: — Sr. — Um bom banqueiro faz empréstimos às companhias. Era mão dura. sr. seu pai era um homem fora do com um. — O. Você acharia decente a viúva de Jonas Cord descer para tratar de negócios? Quando os pa-péis estiverem prontos. sr.K. Não foi uma mão macia de banqueiro que senti. calejada. estava um homem pequeno. através de uma nuvem de fumaça. — Estou me referindo a quem toma o dinheiro. Cord. Acendeu-o e. — Sr. este é Jonas Cord. — Não. na sua maioria passados longe de um escritório. Moroni está? — Vou verificar. Entramos e fomos direto para os es-critórios da gerência. respeitosamente. . Moroni sorriu. então não sei que o que é bom custa caro? A secretária apareceu na porta. — Vamos descer e falarei com McAllister para preparar os papéis. Quando terminou. Olhei para McAllister. não a meu pai. — Uma moça como essa ganha no mínimo de setenta e cinco a oitenta dólares por semana. — Sr. — Tinha leve sotaque italiano. — Meus pêsames pela perda que sofreu. Moroni me estendeu a mão. — Por quê? — Porque estou de luto. Cord. Moroni. Tem cabeça e ainda por cima dois seios lindos . qual é. — Muito prazer em conhecê-lo. Eu não precisava de advogado para saber que ela fora bem industriada. — disse eu. mas sempre pensei que o primeiro cuidado d e um bom banqueiro fosse conseguir garantias suficientes para seus empréstimos. isso eu não posso fazer. — Sem querer entrar em discussão. mas sem perder de vista os homens qu e as dirigem. — Ora. na sua opinião. Mac. Moroni — disse McAllister —. McAllister? Pensávamos que estivesse em Nevada. e entra mos na sala de espera. e não a quem o empresta. o primeiro dever de quem faz um empréstimo? — Conseguir um lucro com o empréstimo. Moroni se curvou sobre a mesa e olhou para mim. Cord. nem a mim. sr. McAllister. sr. Moroni sorriu. mande-os subir. sorrindo para nós. — Sr. — É uma secretária como essa que eu quero. O sr. Ele tem muito o hábito de sair do escritório sem me dizer — disse ela..m-panhia de pagar dez mil dólares por ano durante cinco anos.

Ele já aceitou entrar para a companhia. — Não se preocupe. Um dos meus princípios no negócio de bancos. — Traga o contrato do empréstimo Cord e o cheque. E eu quero aproveitar-me delas. — Muito obrigado. — Creio que se refere ao novo produto que adquiriu com o contrato alemão. Moroni. — Em parte — disse eu. — Obrigado. talvez os diretores do banco não concordem comigo. sr. Então levantei. e qualquer coisa pela qual essas companhias se interessem deve ter s eu valor. — Tenho certeza de que vai conseguir — retrucou Moroni.. alguns dólares representam a diferença entre a vitória e o fracas-so. sr. E também porque o senhor se mostrou disposto a nos emprestar o dinheiro para adquirir esses direitos.— Sei a que o senhor está se referindo. Cord? — Porque as companhias Du Pont e Eastman estão interessadas em adquirir os direitos americanos. Era Buzz Dalton. com um sorriso: — Vai notar que.. sr. é não limitar muito o crédito de meus clientes a suas necessidades imediatas e previstas. Ele pegou o telefone de cima da escrivaninha. — O avião é tão seguro quanto um automóvel. poderá cancelar o pagamento do cheque. para s eu mérito. Desculpe a pressa. Mas. mas estou resolvido a conceder-lhe o emprésti-mo. Um ar de respeito transpareceu no rosto do banqueiro. mas temos de voltar para Nevada esta noite. Cord. E não tão bem quanto. assim que chegamos à sala de espera. Ha-verá oportunidades de ganhar dinheiro com as quai s nem se sonhava no tempo de meu pai. — Que sabe sobre plásticos? — Muito pouco. Mas já sei que o amanhã vem chegando e um novo mundo vai surgindo. o pilot o que perdera o avião para mim no jogo de dados. sr. — Então por que tem tanta certeza de que isso tenha algum valor. Moroni. — Afinal de contas. o contrato amplia o seu crédito até o limite de quinhentos mil dólares. passando o cheque às minhas mãos . Moroni. sr. Peguei o cheque e passei-o a McAllister sem olhá-lo. para nós dois — disse. a conhecerei daq ui a uma semana. pr etendo passar dois ou três meses na Alemanha para aprender tudo que for possível sob re plásticos. sr. Em seguida. se eu não tivesse certeza de conseguir lucros com o di-nheiro que me vai emprestar. Fomos o pr imeiro banco que emprestou dinheiro aos homens de cinema. mas este banco se fez com empréstimos dessa natureza. Foi nele que viemos para Los Angeles. daqui a um mês. sr. embora só tivesse pensado nisso der pois de ele haver falado. sr. se houver alguma coisa no caminho. rindo. — Convém voar baixo. sem dúvida. Moroni — disse eu. Às vezes. Um jogador de dados reconhece outro. McAllister. embora o empréstimo seja de trezentos mil dólares. . Cord. sr. Minha esperança é fazer muito dinheiro. com visível preocupação. Um homem que estava ali sentado levantou-se lentamente. ass inando o contrato. Cord — disse Moroni. — Mais uma vez muito obrigado. sr. — Tudo ficará nas mãos do sr. não vejo por que iria tomar o empréstimo. Notei sinais de nervosismo na fisionomia de McAllister. — E como espera conseguir esses lucros? Conhece bem a sua indústria. Aqu ele Moroni tinha o instinto de jogador. — Boa sorte — ele nos desejou. mas. — Sr. Logo que resolver as coisas mais urgentes aqui. — Esta noite? Mas só haverá trens amanhã!? — Tenho um avião. — E quem dirigirá a companhia durante sua ausência? Muita coisa pode acontecer em três m eses. sr. Ora. Cord? — Não tão bem quanto deveria. eu gostei daquele homem. daqui a um ano. Sorri para ele. de longe. Estaremos em cas a por volta das nove horas. e não há nada que cheire m ais a especulação. Moroni — disse eu. ac ba-mos de dar-lhe um bocado de dinheiro. Moroni. Apertamos as mãos e Moroni nos levou até a porta. sr. Mo roni. preferiu ficar calado. Há nele certos elementos de especulação que talvez não sejam boa praxe bancária. Ambos riram. Moroni.

Olhei para Rina. Buzz. — E é. atrás de nós. Um murmúrio geral me fez levantar a cabeça. os cabelos louros escondidos dentro do véu. pouco depois. Mandei fechar a fábrica. Eu havia desco berto na última hora que tinha apenas os huarachos mexicanos para calçar. tudo em nome da Cord Explosives. senti na cabeça um curioso vazio. Doze meses de garantia a dez mil por mês. você acaba de entrar num grande negócio! — disse Buzz. — O. Eram de meu pai e estavam apertadíssimos.K. havendo mais gente na rua que lá dentro. choravam por meu pai ali na igreja. E que eu também nunca mais calçaria.. a mulher dele. Está tudo calculado. com um sorriso estampado no rosto. Vire i-me para Moroni: — O meu contrato está de pé. — Quanto é que você está querendo emprestado? — Vinte e cinco mil dólares. Mas Rina.— Olá. — Homem. — Você terá o dinheiro. Muita s pessoas. Terei cinco mil de lucro por mês. tirando-o do bolso. — Eu sei. Os cálculos me pareciam corretos. — Tem o contrato aí? — Claro que sim — disse ele. Eu sabia quanto custava a manutenção de um avião. sr. sorrindo. Eles me doíam terrivelmente nos pés. que era seu filho. — Parece um bom negócio — comentei. mas acontece que aprendi uma coisa importante hoje. 10 . na parte do crédito adicional? Não há restrições? — Nenhuma — disse ele. Meu pai foi enterrado com a maior pompa que já se viu naquela região do Estado. Agora. Cord. Cinqüenta por cento das ações de sua companhia e um penhor mercantil sobre seus aviõe s para amortização dentro de doze meses. o risco se mpre existe. Virei-me e vi Jake Platt. Vinte mil para os aviões e cinco mil para mantê-los no ar a té receber o primeiro cheque. não chorava. Jonas. — Não fala mais com os amigos? — Jonas! — exclamou ele. quer dizer. Ouvi soluços atrás de mim. Podia ver seus olhos através do véu. então o melhor é dar uma boa margem para ter maiores possibilidades de êx ito. De Los Angeles a San Francisco . que também tinha lágrimas nos olhos verme-lhos de uísq ue. sr. Estavam límpidos e calmos. — Só pedi vinte e cinco mil. Buzz — disse eu. — Um minuto! — disse Buzz. Rina e eu ficamos sozinhos no banco da frente. E você? — Também. — Com prazer. — Está muito bem — voltei a falar com Buzz Dalton. — Que foi? — É mau negócio emprestar dinheiro a alguém na conta exata. De qualquer modo. Olhei para meus sapatos. — Por quê? — Tenho um contrato para transportar malas postais. Moroni. quer acertar os detalhes para mim? Tenho de volta r esta noite. — Que diabos está fazendo aq ui? — Atrás de um pouco de grana. — Outra coisa: o empréstimo será de trinta mil dólares. Estavam fechando o caixão de meu pai. porque não co nsigo o dinheiro para comprar os três aviões de que preciso. Não cons egui mais lembrar as feições de meu pai. Estava muito séria em seu vestido p reto. Algumas pessoas choravam. radiante. Os bancos acham que o r isco é muito grande. porém com duas con ições. Nem eu. Até o governador compareceu. Robair for a buscar no armário de meu pai aqueles sapatos que ele nunca havia calçado. e a igrejinha ficou lotada até o tet o. Mas sem sorte até agora. Mas acho que vou desistir. Vi-l he o rosto pela última vez e. livre de despesas e da amo rtização do empréstimo. Eram as mulheres mexicanas da fábrica.

Ouvi um barulho na porta. Sou assim e pronto. — Calculei que estivesse acordado. você não o amou. Agora é tarde. Também não consegui dormir. Mas ainda não me dei por satisfeito. mas não sou capaz de sentir a mor. fazendo cair o fósforo. vim exprimir o meu pesar. Não pelo dinheiro. Foi mais homem do que qualq uer outro que já conheci. Muitos pensamentos passando pela minha cabeça ao mesmo tempo. Sentei na cama e perguntei: — Quem é? A porta se abriu e pude ver o rosto de Rina. Mas ela estava nua dentro do négligé preto. mas não conseguia dormir . —Já passou a hora das lágri-mas. Por isso não é de se adm irar que pensei muitas vezes ter escutado meu pai andando de um lado para outro no seu quarto. sim. No escuro. soprada do deserto. Sim. — Dos homens? Você tem medo dos homens? Logo você. — Se isso é verdade. — Então olhe para você. Eu nada disse. De repente ela começou a chorar. — Medo de quê? Ela tirou um cigarro de algum lugar dentro do négligé e meteu-o na boca. sem acendê-lo . com o corpo todo trêmulo. Ela baixou as mãos e me encarou. Eu estava cansado. ela se colou a mim. se fundia na escuridão. junto com o s papéis. — Por quê? Preocupada com seu dinheiro? O cheque está ali em cima da mesa. empurrei as cobertas para o lado. Seus olhos brilharam como devem brilhar os de uma pantera que ronda a fo-gueir a de um acampamento à noite. podia ver o brilho das lágrimas rolando em seu rosto. cobrindo-me de beijos a boca e o queixo. — Você está louca! Não é essa a única coisa em que os homens pensam! — Não? — disse ela. — Não é o dinheiro. — Medo?! — exclamei. Foi por isso que me casei com ele. e o que minhas mãos encontraram foram o s agressivos bicos de seus seios. Fora um dia exaustivo. — Não. — Jonas. Seu pai sabia disso e mostrou-se compreens ivo. dentro do négligé pre to. primeiro o enterro. No mesmo instante. O resto do corpo. Assine a quitação e ele é seu. Mas não se esqueça de que era meu marido. o ro sto encoberto pelas mãos. entrava pelas jan elas. rudemente. Sentou-se na beirada da cama. rindo. que só pensam numa coisa. bem depois de todo mundo ter ido dormir. depois a longa conferência com McAllister. Jonas. admirando-a na escuridão. Tenho medo de ficar sozinha ! Levantei as mãos para repeli-la. apesar da brisa que. Apenas seu rosto diante de mim. Ele era seu pai. então por que você está chorando? — Porque estou com medo. seu idiota! Tenho medo dos homens. — Que é então? Veio pedir desculpas? Ou exprimir seu pesar? Trata-se de uma visita de pêsames? — Não tem necessidade alguma de me dizer essas coisas. — Dos homens — murmurou ela. Ele sabia disso também e se contentava com o que eu podia dar-lhe. Deixe-me ficar com você só por esta noite. Eu me detive um pouco. sob re os planos para os negócios da fábri-ca. Jonas lhe para você.Era uma noite quente. que é uma tentação ambulante! — É isso mesmo. — Tarde para quê? Tarde para amá-lo? A verdade é que tentei. Tenho medo d e ouvir as palavras de amor com que disfar-çam o desejo. não o amei. Bati com ra iva em sua mão. Mas sempre tive muito respeito por ele. de defen der-me de suas mãos lascivas e de suas cabeças. A carne e ra fresca e suave como o vento do deserto. Não sei por quê. — Pesar de quê? Pesar de ele não lhe ter dado mais do que deu? Pesar de não ter casado c omigo? O-ra. — Pare com isso — disse eu. E . de ouvir-lhes as súplicas. A única coisa que querem é en trar dentro de mim. Depois de revirar muito na cama. cheio de desejo pela mulher de seu pai! Eu não tive necessidade de refletir para reconhecer que ela tinha razão. riscando um fósforo e rompendo a escuridão. Jonas. Jonas.

ntão senti o sal das lágrimas em nossos lábios. Estava começando a examiná-lo. Estava com a cabeça no meu travesseiro e o braço pa ssado por cima dos olhos. límpidos e calmos. encaminhou-se para a me-sa. fluido. Nada parecia dar certo. Passei a metade do dia olhando as cifras. Pegue a Duesenberg. mergulhamos juntos nos chamejantes prazeres do nosso inferno particular. Ela havia voltado. encaminhou-se para a porta. Jonas. O primeiro dia foi agitadíssimo. — Não. voltou-se para m im: — Não estarei mais aqui quando voltar da fábrica. Quando cheguei à fábrica. Quando sugeri que teríamo s de reduzir os lucros para ganhar fregue-ses. — Não é preciso. — Vai porque quer. Mas era Robair que chegava com uma bandeja. — Para quê? Você não conseguirá ter mais do que já concordei em dar. Nevada? — Posso sair um pouco mais cedo? Tenho de fazer algumas coisas. . e cheguei à conclusão de que tudo se resum ia à orientação que seguíamos sobre a margem de lucros do negócio. Acordei e dei uma espiada pela janela. Já eram cinco horas da tarde quando o gerente de produção entrou. você também será. Perdi a calma. Adeus. Ela pegou a caneta e assinou a quitação. Jonas. Jake me levará para casa. Rina. O sol averme-lhava todo o horizonte. Em segui da. — Não vai ler? — perguntei. Apanhei um cigarro no criado-mudo. Jonas. sem dizer uma palavra. Sorri comigo mesmo e entrei. Pela terceira vez naquela ano a Du Pont aprese ntara uma proposta mais baixa que a nossa para o fornecimento de cordite comprim ida. Jake Platt protestou. Ela havia renunciado a todos os seus direitos sobre o espólio. Antes de abri-la. — Julguei que uma xícara de café lhe faria bem. pelo menos uns três cents em cada quilo. Engraçado! Nevada havia passado o dia no escritório. — Há uma caneta em cima da cômoda — eu disse. ouvi a porta do quarto abrir-se atrás de mim e o coração pulou dentro do p eito. — Adeus. A porta do quarto se abriu e fechou rapidamente. O que meu pai tinha feito era coisa dele e não minha. Ela me encarou e julguei ver passar por seus olhos uma sombra de tristeza. Ele foi um grande hom em. Já é tempo de você se libertar do fantasma de seu pai. Sacudi de leve seu ombro. Mas se sentara num canto. Disse que m eu pai sempre fora de opinião que não adiantava trabalhar numa base de lucro inferio r a doze por cento. — Não. Na próxima c oncorrência. Virei-me para Rina. — Que é. Os detonadores que havíamos mandado para as Minas Endicott estavam com defeito e precisamos enviar às pres-sa s outra remessa para substituí-los. mostrando seus dentes brancos num so rriso cordial. Boa sorte. Pegou o négligé nos pés da cama e vestiu-o. Era uma verdade. e disse a Jake Platt que quem estava dirigind o a fábrica era eu. Os primeiros claros da manhã se derramavam pelo quarto. numa concorrência do governo. Guiados pelo meu demônio. Ela esticou o braço. trazendo o relatório d aquele dia. — Obrigado. Ia ser um dia muito quente. Ap anhando o cheque. vi que Jake Platt havia mandado uma turma de homens pintar o teto de branco. tão qui eto que até me esquecera de sua presença. do seu jeito. Estou com meu carro aí. — Sem dúvida. Ela havia partido. mas o velho Nevada me interrompeu. — Talvez desse. O brilho de seu corpo era de um esplendor dourado. — Jonas — disse ele. Estava de olhos abertos. De repente. juvenil. Levantou-se da cama num movimento harmonioso. E o ódio que eu sentia foi levado de rol dão pela torrente impetuosa do desejo. Não daria certo. iríamos apresentar uma proposta mais baixa que a da Du Pont. Levantei e f ui até a janela.

Não me agrada nada ganhar um salário sem trabalh ar para merecê-lo. Meu pai. Espero passar uma temporada realmente agradável. — Você tem dinheiro suficiente? — Tenho sim. — Vai caçar? — perguntei. Rina. penosamente escrito a lápis: Querido filho. Feliz aniversário. Jonas. Nevada me es-tendeu a mão. Nevad a e eu íamos caçar nas montanhas naquela época. Neste envelope há uma coisa que você quer de verdade. Jonas. Constatei que eram ações da Cord Explosives e ndossadas em meu nome. estendendo a mão num gesto de despedida. deu a partida e pôs o carro em marcha. Nevada? — Tudo isso é meu — disse ele. Não há mais nada que eu possa fazer por aqui. Em toda minha vida quis dar um presente de aniversário para você. Vou embora de vez.. — E por que é que eu não posso? — disse ele. Nevada! — gritei. Trabalho aqui há dezesseis anos. Sentei-me à mesa vazia. — Vou embora. Nevada — disse eu. — Chegou cedo. Nevada deixou isto para o senhor. ma s agora não há mais nada para eu fazer. Olhou para mim com alguma surpresa. Freei a Duesen¬berg em frente à porta às se te e meia. — Não se esqueça de mandar notícias. Abri o envelope e encontrei um bilhete. — Não. — É verdade. nos meus tempos de garoto. Todo mundo a abandonara. carrancudo. Compreendi que ele tinha razão. Nevada continuou a descer a escada e se encaminhou para seu carro. A-proximei-me e vi que já estava cheio de coisas. — O sr. Ele afinal disse: — Está bem. sentindo as lágrimas me subirem aos olhos. Então acho que já é tempo de ir tomando o meu rumo. diga a Robair que estarei em casa para jantar às oito horas. lembrando-me de que sempre. — Mas. mas. Ele entrou no carro. Tenho observado muito você nestes últimos dias. — Adeus. no momento em que Nevada ia saindo com uma valise em cada mão. Fui pro curar um advogado em Reno e fiz tudo de maneira inteiramente le-gal. Não sou homem de despedidas. e fiquei olhando o carro até vê-lo des pare-cer de vista. Você não precisa mais de mim como ama-seca. Nevada. Direi a ele. Seu pai nunca me deixou gastar um tostão do meu dinheiro durante dezess eis anos. guardando as valises no porta-malas. Seu amigo Nevada Smith Verifiquei os outros papéis do envelope. Se u pai lhe dava tudo e nunca me deixou dar a você alguma coisa que você quisesse de v erdade. — O que você vai fazer? — Vou reunir-me a uns velhos amigos. com seus olhos negros fi-xos em mim. Sou assim mesmo. — Onde você vai com tudo isso. Robair entrou com um envelope na mão. Nevada. Não se preocupe. Terminei mais depressa do que esperava. Jonas.— Nevada. todo mundo. — Não disse que não era. Você não pode ir embora desse jeito. Vamos levar um show do Velho Oeste subindo a costa até a Califórnia. Jonas. Só recor . Jonas. Houve um momento de hesitação. — Adeus. Entrei em casa e fui para a sala de jantar. mas seu pai sempre chegava na minha frente. Apenas perguntei onde você vai. — Tudo quanto é serviço tem de acabar um dia. — Como é que eu vou me arranjar sem você? — Muito bem. Cheguei em casa mais cedo do que esperava.. a casa estava vazia. sentou-se ao volante. Coloquei tudo em cima da mesa e senti um aperto na garganta. Nevada não era homem para viver de favor. — Espere aí. Ficamos em silêncio durante alguns minutos. Por fim. De repente.

Eu não poderia viver naquela casa. A cabana estava às escuras quando Nevada chegou. a voz de Rina veio por trás dele. Afinal de contas. Sentia-se o mesmo de sempre. Riscou um fósforo e acendeu o cande eiro de querosene. Não há mais campo e tudo e stá cortado por estradas. era de meu pai. — Olá. e Nevada fora a única pes-soa que lembrara.dações a povoavam. Para mim. — Não sei — disse Nevada. Parece-me um tanto confuso e alheio às coisas. A história de NEVADA SMITH LIVRO II 1 Já passava das nove da noite quando Nevada saiu da estrada principal e tomou a est rada de terra que levava à fazenda. escutando as gargalhadas que vinham do cassino. Eu havia esquecido. A eletricidade não é natural. que não me traria as recordações à mente. — Deve ser. Parece que as divorciadas estão se divertindo muito. Lembrei-me do que Rina havia dito sobre a necessidade que eu tinha de me liberta r do fantasma de meu pai. Tornei a olhar para o bilhete de Nevada. A última linha chamou minha atenção. Charlie. Ele tinha família e isso lhe pouparia o t rabalho de procurar casa. Está na hora de vir para cá e trabalhar. — Botei a mulher na sua cabana — disse Charlie. — Por que não? Para quase todas elas o divórcio é um bom negócio. De repente. — E para onde você pretende ir? As coisas não são mais as mesmas. Feliz an iversário. Nevada sorriu. Não sei. — É melhor habituar-se. Iria morar num apartamento em Reno. seria sempre a casa dele. — Voltaremos logo que eu me lavar. Charlie. Senti um nó na garganta. Ela estava certa. — Está me dando vontade é de viajar. Ficou ali parado. Charlie tinha razão. Nevada? — Porque gosto de luz de candeeiro. — Olá. mas o estranho é que ele não se sentia trinta anos atrasado. Eu fazia vinte e um anos. Acho que é porque fiquei tempo demais parado num lugar só. — Marta e eu estávamos esperando você para jantar. Você está trinta anos atrasado. Parou o carro em frente à casa-grande e saltou. . entrando no carro. Cansa a vista. — Então é melhor eu ir buscá-la — disse Nevada. Um homem saiu à varanda. Transferiria a casa a McAllister. você é dono de cinqüenta por cento da pr opriedade. Charlie ficou observando o carro de Nevada subir uma ladeira nos fundos da fazen da. Tomei uma decisão. Era o dia do meu aniversário. Nevada. — Não sei. Nevada. — Como está ele? — perguntou Marta ansiosamente ao vê-lo entrar. depois sacudiu a cabeça e entrou. Só não posso me habituar é com essa idéia de viver com a fazenda chei a de mulheres em vez de gado. — Por que não liga a luz elétrica. Não e ra minha.

— Houve um tempo em que pensei em divorciar-me. como penso. — Vá para a cama. — Não — disse ele. — Felizmente não sou uma delas — disse Rina. Foi ao armário. tomando-lhe o braço. vamos comer. Rina. e disse: — Agora. Fizeram mais duas viagens até o carro. Depois de esfregar vigorosamente com sabão o rosto e o pescoço. ela disse: — Espere. Nevada. Marta e Charlie estão nos esperando para jantar. Nevada? Sua pele é quase de um menino. Vestia um suéter grosso que desc ia até as calças azuis desbotadas. Houve um momento de silêncio e então ela apareceu na sala. Ela levantou a cabeça. olhando para o cassino. embora eu soubesse desde o princípio que era um erro. — Não quer mesmo? Nevada tornou a sorrir pensando no que ela diria se soubesse da fazenda de dois mil e quinhentos hectares que ele tinha no Texas ou da sociedade que tinha pela metade no show do Velho Oeste. E. tenh o quarenta e três anos. Depois. — Percebi de repente que estou com fome. olhando-o interrogativamente. Nevada sorriu. Os músculos se estofavam sob sua pele surpreendentemente branca. Você não é desse tipo. Deixe que eu faço isso para você.. — Está bem. — Trato é trato — disse Nevada. em silêncio. lisonjeado. muito obrigado. — Eu sei. levando para a cabana duas ou três malas. Rina entregou-lhe a toalha. Ela foi para o quarto em silêncio. Do lado de fora. Mal acendeu um cigarro. — Que idade você tem. onde deitou. . Tocaram sua pele assim como um sopro de a r. vou trazer as minhas coisas para dentro e me lavar. — Vamos. — Não preciso de todo esse dinheiro. De qualquer modo. e sentou-se em frente ao fogo. Minha mãe era uma índia kiowa. — O que eu tenho chega. — Não.Rina estava sentada numa cadeira em frente à porta. Ne-vada enxaguou-se e estendeu as mãos à p rocura da toalha. tirou as botas. sim — disse ela. Se você precisar. — Está com frio? — perguntou ele. — Nevada? — Que é? — Jonas disse alguma coisa a meu respeito? — Não. enquanto Nevada tirava a camisa e se lavava na pia do pequeno quarto. — Então. — Pois não parece ter mais de trinta. tirou uma garrafa de uísque e um c opo. levantando e indo para onde ela estava. Depois de beber bem devagar o uísque. Dinheiro só ganha algum valor quando começa a trabalhar pela gente. Nevada deixou-a entrar an tes dele e foi direto para a lareira. Deixou-as ao lado da cadeira e foi para o sofá da sala. Nevada só se levantou de perto da lareira depois que as chamas começaram a crepitar. não estou com frio.. Rina sentou-se na cama. — Ele me deu cem mil dólares pelas ações e pela casa. Já era mais de meia-noite quando voltaram para a cabana. se nasci mesmo em 1882. — Nasci em 1882. Ele também tinha aprendido muito com o velho Cord. Estava pondo fogo nos gravetos. quando Rin a se aproximou e ele lhe disse: — Vá deitar. Os pêlos do peito e ram um leve sombreado que descia para o estômago liso e sumido. Os dedos de Rina foram rápidos e suaves. quando ele enfiava uma camisa limpa. as estrelas brilhavam muito no veludo azul do céu e ouvia-se lá emb aixo o som de música e gargalhadas. — Nem poderia ser. — Vou ajudá-lo a trazer as coisas para dentro. Você está escalça. Os índios nunca soube ram direito a data dos aniversários. pelos meus cálculos. — Vou acender o fogo. Mas dentro de mim alguma coisa me impediu. ouviu a voz de Ri na. Mas. Ele sorriu.

Tanto quanto sei. por onde andou. que fez o mesmo e passou-o ao guerreiro sentado a seu lado. sua mul her índia esquentou um pouco de café e colocou-o diante dele. Mas dominou a tosse e passou a garrafa a o guerreiro que estava a seu lado. O nome era Pocahontas mesmo. C hegara montado em uma mula. ela pegou sua mão. De vez em quando. es perando que o dia e o aborrecimento dele passassem. Quando a garrafa voltou às mãos de Sam. E ele era procurado por latrocínio e homicídio pela polícia de três Estados. Era Max Sand. o chefe acendeu o cachimbo nas brasas e. sentando ao lado da cama. — Ninguém me contou.. Curvou -se para a frente e tirou da panela um pedaço de carne. Ela do rmia profundamente. . Kaneha completara dezesseis anos naquela primavera e fora só no verão anterior que o caçador de búfalos chega-ra à aldeia de sua tribo com a intenção de comprar uma esposa. Mas a verdade era ainda mais estranha e decerto ninguém acreditaria nela. — Converse comigo até eu pegar no sono. Não há guerreiro que possa alimentar tantas pessoas como eu. Sam abriu a garrafa de uísque. John Smith e Pocahontas. — Alguém já contou para você. p assou-o a Sam. Li isso em algum lugar. pois estava em adiantada gravidez. Pocahontas. — Não há muito o que contar. ajeitou o cobertor em torno dela e saiu do quarto na ponta dos pés. Mastigou com força. Minhas proezas são conhecidas em todas as planícies. Não diga que eu já sei. seu nome não era Nevada Smith. Limpou cuida dosamente o gargalo e tomou um grande gole. Nevada levantou. Guardaram silêncio durante alguns momentos e o chefe estendeu de novo a mão para a g arrafa de uísque. Em silêncio. — Cortamos a língua dele e o amarramos num mourão para que engor-dasse bem.Seguiu-a até o quarto e tirou um cobertor do armário. Era cedo p ara preparar a comida porque o sol ainda estava alto no céu. — Espere aí. — Bom cachorro — disse ele ao chefe. Assim. Feijão e carne de búfalo salgada. — Diga-me onde nasceu. Não sabia quantas vezes havia contado por pilhéria aquela h istória. o que lhe pro-vocou lágrimas nos olhos além d e uma insuportável necessidade de tossir.. qualquer coisa. — Sobre você — disse ela. Samuel ficou sentado ali muito tempo. . diante do chefe. ainda segurando sua mão. no círc ulo do conselho da tribo. De vez em quando. o lhava para a planície que se estendia até as montanhas. Sam sabia que estava na hora de dizer o que queria. onde ainda se viam uns resto s de neve.. A índia começou a preparar a refeição da noite. olhava pelo can to dos olhos para Sam. Em silêncio. A mão de Rina largou pouco a pouco a de Nevada e este se curvou para olhá-la. Meu pai era um caçador de búfalos chamado John Smith e minha mãe uma princesa kiowa chamada. O chefe apanhou o cachimbo e Sam tirou uma garrafa d e uísque. ela continuou a mexer a panela com o feijão e a carne. — Sobre o quê? — perguntou ele. ele a colocou no chão. Este fez o mesmo e sentiu o ardor na garganta. lam-bend o os beiços. Tudo acontecera há tanto tempo que ele próprio nem sabia mais se acreditava. Quando ele se aproximou para e stender o cobertor. mas ele estava perdido num mundo agitado onde as mulheres não podiam entrar. nasci no oes¬te do Texas. já matei milhares de búfalos. após tirar uma fumaça. — Sou um grande caçador. mas ela se sentiu vag amente inquieta e tinha de fazer alguma coisa. Com minha arma. Ela se movia pesadamen te. 2 Foi em maiô de 1882 que Samuel Sand chegou a uma pequena cabana a que chamava de l ar e sentou pesadamente numa caixa que lhe servia de cadeira. deixando o café esfriar. depois a ofereceu ao chefe. Naquele tempo. Pegou outro cobertor e voltou para o sofá. Quando o cachimbo voltou às mãos do chefe. Voltou a sorrir na escuridão.

— Aqui está o couro sagrado do búfalo branco — disse Sam. Havia cinco anos habitava aquelas planícies. fazendo-m e participar de seu conselho. — Bem sei do alto apreço que o chefe kiowa tem por sua filha Kaneha. Pela perda de sua ajuda em preparar a comida da tribo. Segurou a caixa para que todos pudessem ver e a colocou diante do chefe. Kaneha sorriu orgulhosa. sabe costurar e é muito hábil nos trabalhos com couro. — Vim pedir a meus irmãos a moça chamada Kaneha. Ali agua rdara calmamente. o sangue dela já corre abundante para o chão. Sam levantou-se e foi até a mula. Kaneha deixaria de ser um proble-ma. O chefe deu um suspiro de alívio. E se levantou. Sabia naquele momento que Barba Vermelha a amava. A carne de d ois búfalos. depositando-o no chão. É uma honra recebê-lo em n ossa tribo. colocou-as no chão e torn ou a sentar. Os búfalos brancos eram uma raridade. — Mas a perda da moça Kaneha será dura para nossa tribo. O chefe ficou tão impressionado com o valor do presente de Sam que desistiu de con tinuar as negociações e declarou solenemente: — E uma honra para nós dar ao grande caçador Barba Vermelha a moça Kaneha para ser sua m ulher. As negociações haviam terminado. Quando a lua está a. Aí fez uma pausa teatral. — É boa escolha — disse o chefe. Esperava que Barba Vermelha tives se oferecido ao menos um búfalo por ela. Kaneha era a mais moça de suas filhas e a menos fa vorecida. Queria uma mulher. De fo ra da tenda. As mulheres irromperam na tenda. darei a meus irmãos a mula que tr ouxe para cá. Tinha-o visto nas várias vezes em que ele visitara seu pai. em retribuição à honra que me deram. — A moça Kaneha está pronta para ser mãe. Depois. A mula. Um murmúrio de admiração elevou-se da roda. O couro de um búfalo branco. Seu corpo e ra miúdo. Seu r osto era magro e comprido e não gordo e redondo como deve ser o de uma moça. Kaneha esperava. Sabia que Barba Vermelha fora buscá-la. Uísque. desamarrou um grande far do e o levou para o círculo dos guerreiros.. dando o sinal de que a reunião do conselho estava en-cerrada. quase tão alta quanto o guerreiro mais alto . Já estava na hora de ter uma mulher que fosse sua. Nenhuma noiva levara ainda tantos presentes para a tribo. — Trouxe presentes para meus irmãos kiowas. seguido de Sam. porque não tinha medo de Barba Vermelha. pela perda de sua beleza. desem-bru lhou-o lentamente. aquilo valia uns dez couros comu ns. Olhou pela porta. cheia de contas col oridas e outras quinquilharias. sagrado. — Os atos de Barba Vermelha são bastante conhecidos da gente. — Preparem minha filha Kaneha para o marido — determinou. Para os homens que traficavam com couro. e magra. trago para a tribo. e só uma vez por ano deitava com alguma mulher no quarto dos fundos do armazém de couros quando chegav a o tempo de fazer negócios. Quero que ela se-ja minha mulher. O pudor v irginal a obrigara a ir para a tenda de espera para não ouvir as negociações. O chefe que fosse depositado para o seu derr adeiro sono num daqueles couros sagrados certamente entraria nos campos de caça et ernos. Ela já ganhou um lugar entre nós por suas artes femininas. falando todas ao mesmo tempo. Em outra tenda. Levou-as para o círculo. com cintura tão fina que era possível abarcá-la com as duas mãos. res-plandecente como a neve. Mas Sam sabia o que queria. Os olhos dos índios fitavam magnetizados o belo couro branco. Abriu uma das malas e tirou seis garrafas de uísqu e e uma pequena caixa de madeira. Era alta demais para uma moça. encaminhando-se para sua t enda. darei a carne de dois búfalos.. Os olhos do chefe brilharam. Ouviu as conversas das mulheres que corriam para a tenda. E. — Os kiowas são gratos por presentes de Barba Vermelha — disse o chefe. subia o som dos tambores que começavam a soar ao ritmo da canção de casam . E vim preparado para compensá-lo. Contas coloridas. Cozinha. pela perda de seu trabalho. Voltou para onde estava a mula. Alinhou as garrafas de uísque diante do chefe e abriu a caixa. a tal ponto que não conseguiria ter uma criança crescendo dentro dela.O chefe assentiu solenemente com a cabeça.

ao estômago. Como em transe. teria de encontrar o caminho aber to e fácil. Os pés se moviam no comp asso dos tambores. ao pajé. saiu da tenda e foi banhar-se no rio. o grande caçador. Fechou os olhos. encostou-o ao rost o. suplicando em vão alguma ajuda. Ela não podia desmoralizá-lo ali na tenda das mulheres. Nua no meio delas. Na luz fraca do interior da tend a. ela baixou o bastão até colocá-lo entre as pernas. or gulhosa. o pajé deu um grande salto com um grito horrível e. Aquele era seu marido. Em cadência com a quele ritmo. girou alucinadamente com o negro cabelo solto a rodar em torno dela. Era feito de madeira polida e esculpido com a f orma de um falo ereto com os testículos. Seus seios ofegando. enquant o segurava o bastão do casamento apontando para as mulheres. — Veja como ela sangra bastante. começou a baixar-se sobre ele. Ela deixou cair o vestido do corpo e as mulheres se aproximaram. Suas preces haviam sido ouv idas. as pernas compridas e retas. para mostrar como estou satisfeito com ela. Barba Vermel ha. Este recebeu o bastão e saiu rapidamente da tenda. o chefe e Sam olharam para ela. Ka neha caminhou até a tenda do chefe. Fechou os olhos. aos seios. porque não ficava bem a um a moça olhar muito atentamente para a fonte da força de um guerreiro. as mulheres formaram um círculo em torno dela. e. O chefe falou primeiro. Suspendeu sobre sua cabeça o bastão do casamen to. com o olhar acima das cabeças deles. agora num ritmo mais lento. Por fim. cada vez mais depressa à medida que o ritmo se acelerava. Em silêncio. Duas. O corpo rebril hava com a gordura que nele haviam passado. Apontou a vara dos demônios para os quatro cantos da te nda e agitou-a duas vezes no ar para afugentar os espíritos maus que porventura al i pairassem. às nádegas. dando grandes pulos e murmurando frases inintel igíveis. As mulheres gritavam e suspiravam. — Sim. As mulheres ficaram à porta e ela entrou sozinha. Era rígido e alto. começaram a destrançar-lhe o cabelo. o ventre liso. Então dirigiu-se para ela. que ali estava altiva. Apoiando o bastão do casamento no chão. O pajé começou a dançar em torno dela. Vai dar a você muitos filhos. com os pés batendo ao compa sso dos tambores. Outras duas trataram de untar-lhe o corpo com banha de urso para torná-la fértil. até o objeto ficar todo besun-tado com a gordura de seu corpo. Ela ergueu os olhos para o bastão. quando tam-bém haviam f icado assim no centro de um círculo de mulheres. que caía abaixo dos ombros. Deram um murmúrio cadenciado de aprovação quando el a se levantou de novo. Quando tudo qu e era preciso foi feito. tudo ficou em silêncio. Nin guém podia aproximar-se. Houve um momento de tensa expectativa quando mais uma vez o bastão começou a entrar nela. e fez um último movimento convulsivo. Solenemente. . Barba Vermelha estava satisfeito com ela. Por fi m. Os tambores começaram a bater de novo. As mulheres lembravam-se cada qual de seu casamento. de cabeça erguida. oculta assim da vista dos outros. ela levan-tou o corpo e retirou o bastão do casamento. ela recebeu o bastão das mãos do pajé. trazendo numa mão a vara dos demônios e na outra o bastão do casamento. Completado o giro em torno das mulheres. Os tambores batiam ainda mais de-pres sa. às faces e aos olhos. Estava ansiosa para que Barba Vermelha estivesse satisfeito com o que via. até os tambores. Kaneha sorriu. seus seios empinado s. nua no centro da tenda. prometo a meus irmãos mais um búfalo. As mulheres reuniram-se num círculo em torno dela. como era o costume. olhando para a entrada. às costas. suas per-nas levemente trêmulas . elas se afastaram para os lados. Não ficava bem a uma moça mostrar-se muito ansiosa em receber o marido. Os tambores vibravam enquanto Kaneha sofria. Por f im. uma de ca da lado. O hímen se rasgou e ela camba leou enquanto uma onda de dor a percorria. Kaneha ficou ali. Entregou-o. entrasse nela. Apertou o bastão de encontro aos seios. voltou ao centro e ficou dançando sozinha . A porta da tenda se abriu e o pajé entrou. Aquilo era coisa que a noiva devia fazer por si mesma. quando seus pés tocaram de novo o chão. muitos filhos — murmurou Sam —. em vez de seu espírito. ao estômago. Quando e le mesmo. que davam gritos de bênção e de inveja.ento.

Quando eu era menino. e podia acertar a cem metros de distância no olho de um rato-das-planícies com sua calibre vinte e dois. — Um filho — disse Kaneha. tocando a criança. Estavam sentados à mesa uma noite. tenso e ansioso. Vou esperar do lado de fora. Sam também não se incomodava. enquanto ele ficav a sentado à mesa pensando no desaparecimento dos búfalos. Ficou ali fora sentado. um homem muito tímido. Viviam numa pequena cabana. jantando. — Não — disse ela em língua kiowa. a porta da cabana se abriu e Kaneha apareceu. Havia quem dissesse que ele tinha em casa uma arca cheia de ouro. Criou no lugar a f ama de ser calado e miserável. Paguei dez dólares. Kaneha pegou a primeira trouxa. admirando. Ela se ergueu. Montava em pêl o qualquer cavalo que quisesse. — Isto é coisa para mulher. Sam ficou ali parado de pé. mas o cabelo era preto e abundante. Es pantava-se ao ver que os espíritos não queriam dar-lhe mais filhos. Sendo o único homem que tinha mulas na região. — Vou ajudá-la. — Já matriculei você na escola. — Você não sabe — disse Max. — Está bem. Já eram duas horas da madrugada quando Sam ouviu choro de criança dentro da cabana. Quando acabou. um filho — murmurou Sam. enquanto ele saía para atre lar as mulas ao carro. Kaneha começou. pois a dor já passara. Max olhou para o pai no momento em que Kaneha chegava da cozinha. Na manhã seguinte. — Que necessidade tenho disso? — Um homem tem de saber essas coisas. tinham sido mortos búfalos demais. O lhou para o marido. acumulado no tempo em que caçava búfalos.Agora ela se movia lentamente com o peso do filho que levava. Naqueles últimos anos. Talvez nunca mais apareces sem. dando a entender tudo. A barba tocou nele e o choro se rep etiu. onde Max começou a crescer. levantou-se e disse a Kaneha: — Arrume tudo. estava a criancinha nua. — O mundo está muito diferente. estendida num lençol diante do fogo. deixaram a cabana. — Agora? — perguntou Sam. A trouxa lhe caiu das mãos e ela se dobrou toda. — Sim. Não sabia se dev ia falar ou não e continuou a comer em si-lêncio. — E pouco se importa com iss . no fundo. não havia necessidade dessas coi . Tinha cabelo liso e comprid o à moda dos índios e os olhos eram de um azul escuro. Ele se levantou e correu para a cabana. Sam voltou à ca-bana. ganhava dinheiro regularmente. com a lógica peculiar das crianças. — Para quê? — Para que lhe ensinem a ler e escrever. que começou a chorar. Vamos embora daqui. quase preto. e os anos que pass ara nas planícies não haviam concorrido para curar-lhe a timidez. Tinha cochilado e o choro o acordara naquela noite cheia de estrelas. Ela confirmou com a cabeça. Era. Já aos onze anos Max era tão ágil e leve de pé como seus antepassados índios. quando Sam olhou para o filho e disse : — Vão abrir uma escola em Dodge. Cerca de vinte minutos depois. A pele era branca e os olhos azuis como os do pai. obediente. — Um filho! Abaixou-se para olhar o filho de mais perto. no rosto queimad o. mas isso não a pre ocupava muito. Kaneha adorava o filho. Num canto. Max. Afinal. quase incrédulo. a arrumar os objetos da casa. com orgulho. 3 Foram morar a cerca de trinta quilômetros de Dodge City e Sam começou a transportar cargas para as estações por onde passava a linha de diligências. não para um guerreiro.

Na p rimeira semana. Isso bastava para Kaneha. o melhor que terá a f azer é tomar a primeira diligência e voltar para sua terra. Kaneha não estava muito certa de compreender o que o marido estava dizendo. afinal. ia pensando nas palavras d a professora e. meu filho. com surpresa para ela. Era a . Todos são parecidos. dona — disse Sam. Max. E acrescentou: — Já tomei todas as providênci as. apesar diss o. Sam respondeu na mesma língua: — Uma fonte de grande conhecimento. Sem isso. perdendo a calma. — Está muito bem. Muito obrigado. — Que é? — perguntou ela em kiowa. ele não poderá freqüentar a escola com essas roupas. A minha escola é exclusivamente para meninos brancos. Sua voz era fr ia e aquela foi talvez a ocasião em que mais falou em toda a sua vida. — Também não posso aceitar mestiços. Tinha uma inteligência ágil e bri-lhante e aprendia tudo com muita facilidade. — Bom dia. — De qualquer maneira. Era. Trouxe meu filho para a escola. Kaneha voltou-se para o marido e c hamou-o em inglês. como recebeu o dinheiro de todo mundo na reunião que se fe z no armazém! Se não quiser ensinar meu filho conforme combinou. ele não ficará muito diferente dos outros. — Não posso aceitar índios na minha esco a! — É. — Não posso compreender vocês do oeste — disse a pro-fessora. sr. olhando para o filho. Conhecimento era magia e dava poder. perguntou: — Sou diferente dos outros. — Não quero ir. Terá de se vestir como os outros meninos . pois Max estava escondido atrás do pai. do mesmo m odo que não há duas mulas nem dois búfalos iguais. — Moça. Sand. Sand? Acha que os pais das outras c rianças vão querer que elas se misturem com seu filho? — Estavam todos na reunião. quando a voz de Sam a fez parar. mas. a professora tinha orgul ho dele. não parou um só instante. empurrando-o para a frente. dona. dona? A professora olhou-o com um misto de surpresa e reprovação. ajudando o pai a consertar os estragos que o inverno havia causado na cabana. E não ouvi ninguém dizer nada a esse respeito. Quando Max chegou ao fim de seu primeiro ano na escola. Quando terminaram as aulas. — Bom dia. que era um a dama do sul empobrecida. A professora. depois de Max ter ido para a cama. Cada pessoa neste mundo é diferente. Sam quase deixou cair no chão o arreio de couro em que estava traba-lhando. — Vamos comprar roupas para você. seu melhor aluno.sas. — Onde está ele? — perguntou a professora. Assim. Ajoelhou-se no chão da rua. A professora olhou-o indignada. Uma noite. — Aqui está ele — disse Sam. tímido: — Como vai. Durante a semana. pai? Sam também pensava nisso pela primeira vez e sentiu uma súbita tristeza. não sei qual é sua religião nem quero saber em que a senhora acredita. Agora. dona. Sam levou Max para a escola. el a fez Sam prometer que levaria o fi-lho no ano seguinte. — Mas eu não sabia que era um índio! — exclamou ela. chegou à porta e sorriu para Sam. Max levou as roupas da cocheira de Olsen e finalmente voltou para sua casa. diferentes. Max não se sentia à vontade nas suas roupas rústicas. sr. — Como se atreve a falar-me dessa maneira. você dormirá nos fundos da cocheira de Olsen. O que sei é q ue a senhora está a quase três mil quilômetros da Virgínia e que recebeu meus dez dólares para ensinar meu filho. Enfiou na terra os pés descalços e d isse. meu filho. — E mande cortar o cabelo também. — Ele irá — concordou ela simplesmente e voltou para a cozinha. dona — disse Sam polidamente. — Mas vai! — exclamou Sam. — Está certo. — Claro que você é diferente. seu filho nunca poderá ser um grande c hefe diante dos Olhos Brancos. Enquanto Max seguia ao lado do pai a caminho da loja. todo mundo sabe ler e escrever. — Fale com sua professora. Na segunda-feira seguinte. Já ia dando as costas para entrar.

— Mas hoje é sábado e ele já foi para casa. Sam beijou-a na boca. Os três homens entraram a cavalo no pátio da cocheira e pararam ao lado do carro. — É verdade — disse Max. Os homens se entreolharam. Kaneha sentia o rosto vermelho. Não engordara como acontece habitualmen te com as índias. — Eu sei. — Tenho orgulho de nosso filho — disse ela. Só falam respondendo o que lhes é perguntad o. Direi a ele quando for para casa hoje à noite — disse Max. — Temos de tomar essa pr . Havia um anúncio lá dizendo que seu pai fazia transporte de carga. — E sou grata a o pai dele. Apre nderia também que vinha de uma raça que podia seguir a linha dos seus antepassados m uito mais longe do que qualquer um dos colegas que o atormentavam. sim. Sam estendeu a mão e acariciou o rosto da mulher. para que ele saiba a força que tem no sangue. Não apearam. Abraçou-a e afagou seu cabe lo. — Sam. mas estava fechada. Por muitos motivos. — São meninos tolos que dizem isso. — Mas não podemos esperar tanto tempo — disse o primeiro homem. e o que falara antes disse: — Queremos falar com seu pai. recomeçando a traba lhar. depois de muitos anos de casados. — Sim. Havia nele um vago sentimento de culpa. nunca saía de ca sa. — Também o amo. Kaneha! — murmurou suavemente. Sam sentiu o coração encher-se de ternura. e Max estava descarre gando um carro de feno na cocheira de Olsen. Estava nu da cintura para cima. Max não inter-rompeu seu trabalho e. E. com os olhos cheios de lágrimas. pela primeira vez. Passando um verão com os kiowas. se nosso filho apr ende na escola dos Olhos Brancos muitas coisas que são magia forte. 4 Eram mais ou menos duas da tarde num sábado. — Temos uma carga para levar para a Virgínia — disse o outro. voltando a falar em kiowa. Ela apertou a mão de encontro ao r osto e continuou: — Acho que já está em tempo. se u avô. Seu corpo era firme. delgado e forte. um deles pergunt ou: — Olá. levarei nosso filho à aldeia dos meus irmãos kiowas. — Sou Max Sand — disse ele. aprende também c oisas que podem per-turbá-lo. era uma boa idéia. Seu corpo bri-lhava como cobre à luz ardente do sol. — Como a amo. Depois enterrou o forcado no feno e v oltou-se para e-les. de mandar nosso filho para a aldeia do poderoso chefe.primeira vez. Kaneha nunca ia à cidade. índio! Onde está o filho de Sand? Max jogou mais um pouco de feno no depósito. ape nas com suas calças de couro de veado. Estava espantada com sua temeridade. compreendeu o que estivera em seu peito todos aqueles anos. — Está bem. Sam não compreendia como ela soubera disso. Passamos pela estação das diligências. Kaneha. — Quais são? — Há gente na escola que diz que nosso filho é menos do que eles e que o sangue dele é d iferente. Max poderia aprender tudo o que era preciso para sobreviver naquela terra. que ela o chamava peto seu nome inglês. — Estamos com pressa e que remos fa-lar com ele. três verões depois. As mulheres índias nunca dirigem a palavra ao marido. que é um grande caçador e um bom chefe de família. um instante depois. Mas. Os músculos se estofavam nas costas quando pegava o feno com o forcado par a jogá-lo no depósito da cocheira. Sam olhou-a. meu marido — disse ela. é verdade que nosso filho tem ido bem na escola dos Olhos Brancos? — É verdade. Sam já estava com cinqüenta e dois anos e Kaneha tinha pouco mais da metade dessa id ade. De repente.

— Ouro? Não há por estas bandas ouro que chegue para encher um carro. o lhou e disse: — Vêm três homens aí. Depois. garoto. — Como está quente! — Está sim — disse Sam. Foi até a porta. — Não foi isso o que soubemos — disse um dos homens e. quebrado. com todo o dinheiro que tem enterrado. Acreditaram nessa conversa de gente desocupada? O primeiro homem se aproximou e bateu o cano da arma com toda a força no rosto de Sam. O ar estava quase insuportavelmente quente dentro da cabana. Então sorriu e disse: — Guardem essas armas. — Pegue uma garrafa de uísque — disse ele a Kaneha. foi até onde ela estava e disse: — É verdade. Os três homens haviam se reunido num canto. pois os homens estavam chegando. no mesmo instante. rindo. Sam saiu ao encontro deles e. Foi Kaneha quem primeiro os ouviu. Viraram os cavalos e foram saindo do pátio. sim. os três estava m de arma em punho. Que desejam? — Temos uma carga que queremos mandar para Virgínia City — disse o mesmo homem. — Irei para lá daqui a umas duas horas e poderei levá-los. — Eles vêm da cidade — disse Kaneha. Os homens não disseram mais nada. e não como gente honesta. Seu pai não vai gostar se souber que demos a carga para outra pessoa. podia fazer cois a melhor do que viver com uma índia — disse um deles. — Pensei que o velho Sand. quando pararam os animais em frente à casa. A cabeça es tava caída sobre o peito nu e o sangue lhe escorria do rosto. Suas v ozes ecoavam no vento da tarde. O derreado Sam estava amarrado na viga de sustentação no centro da cabana. e o nari z. — Você vai dizer direitinho onde está o ouro — disse o homem rispida-mente. Que será que eles querem? Kaneha teve um pressentimento de perigo.ovidência e sair daqui ainda hoje. — É que ele é muito duro. que caiu de encontro à parede e ficou olhando o agressor. disse: — Olá. e Sam entrou em casa. Max ouviu os outros rirem e foi com raiva que voltou a jogar feno dentro do depósi to. quase fechados. Os homens apearam. Onde é sua ca-sa? Max olhou-os com curiosidade. — O que acontece é que você não está habituada a ver gente. Pareci am mais bandidos com suas pistolas amarradas bem no meio das pernas e os rostos escondidos pelas abas dos chapéus. Ficava muito atenta a todo movi-mento da estr ada nas tardes de sábado. Não pareciam lavradores. — disse Sam. nem qualquer espécie de gente que habitualmente tinha carga para o pai dele transportar. — Eu disse que estava com pressa. — Você é Sam Sand? — perguntou o que estava na frente. — A casa fica na estrada do norte. mas não podia porque estava bem amarrada. — Mas entrem e descansem um pouco en-quanto conversamos. — Talvez ele não tenha ouro mesmo — disse um dos homens. como se não pudesse a creditar. com os olhos muito abertos fi tos no marido. — Tranque a porta e não deixe essa gente entrar. Sam levantou-se da mesa. espantado. Que espécie de carga têm? — Ouro. Você não conhece como . — Vai ver que que-rem saber o caminho para a cidade. ensopando o cabelo v ermelho da barba e do peito. confabulando em voz baixa. Os olhos estavam inchados. amigos. — Sou eu. a cinqüenta quilômetros mais ou menos. mas já era tarde. Kaneha estava amarrada a uma cadeira. Sam olhou-os um instante. sim — disse o que parecia ser o chefe. Procurava virar a cabeça para escutar o que os homens diziam. nem mineiros. tirand o o chapéu e limpando o suor na manga da camisa. — Tem. voltou-se para os recém-cheg ados: — Sentem-se. Era o dia em que Max voltava da escola. Eles vêm dissimuladamente como apache s em guerra. — Todo mundo diz que o ouro que você tem enterrado a-qui dá para e ncher um carro.

Isso era estr anho.eu esses velhos caçadores de búfalos. deixem-na! Não há ouro. — Deixem-na! Pelo amor de Deus. querida — disse ele em kiowa. Pegou a garrafa de uísque e tomou um gole. Eram quase sete horas quando Max voltou para casa no cavalo baio que Olsen lhe e mprestara. percorria o ventre e pa-rava perto da folhagem do púbis. — Kaneha estendeu a mão e tocou de licadamente o rosto de Sam. passava pelo pescoço. — É uma boa idéia — disse o homem que estava com a faca. Foi até o fogão e trouxe um tição aceso. Tirou uma faca de caça do cinto enquanto os outros homens o observavam. l evantou-lhe a cabeça. olhando-a. na hora em que ele voltava para casa. que caiu ao chão. A cabeça de Sam caiu para a frente. — Jogue água em cima dele — ordenou. dizendo: — Tenho certeza de que você não se in-comodará de nos servirmos um pouco da su a índia antes de esfolá-la. pegando-o pelo cabelo. sua mãe estava cozinhando. Segurando Kaneha pelo cabelo. Levantou-se. Aproximou o tição do rosto de Sam e pergu ntou: — Onde é que está o ouro? Sam disse com voz rouca: — Não tenho ouro. Não havia sinal de Vida na cabana e nem saía fumaça da chaminé. meu marido — disse ela em kiowa. Sam começou a chorar. Começou a trabalhar rapidamente com a faca no corpo da mulher. — Os espíritos castigam aqueles que pra ticam o mal. Não conseguia mais falar. Colocou a faca em cima da mesa e desabotoou o cinto do revólver. que partia do queixo. Em seguida. Este sacudiu a cabeça e abriu os olhos. encostando-a no poste. — De qualquer maneira — insistiu o mais baixo —. O mais velho largou a garrafa de uísque e caminhou para onde estava Kaneha. esquecendo-se de sua dor. de um lado para outro. O homem encostou o tição aceso no pescoço e no ombro de Sam. Chegou perto de Sam e. já teria falado. o bandido pegou a garrafa de uísque e tomou um grande gole. A porta estav a aberta e o vento a fazia balançar levemente. Kaneha encolheu as pernas e deu-lhe um pontapé. — Vai falar sim — disse o chefe. enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces ens angüentadas. Isso foi feito sem demora e ele se curvou sobre ela com a faca encostada em sua garganta. Ele praguejou entredentes e disse: — Segurem as pernas dela. Sentiu um me . com o corpo sacudido pelos soluços. escorrendo pelo peito e pelo braço. O homem tirou o tição e o s angue brotou da pele queimada. Os índios nisso são muito hospitaleiros. O homem rasgou-lhe com a faca o vestido. atrav essava o vale entre os seios. — Não tenho ouro! — gritou ainda. Eu vou primeiro. voltou-se para Sam. — Perdoe-me. — Há quinze anos que não esfolo um índio — disse ele —. sem tirar os olhos dela. que deu um urro de dor. — Não tenho medo. — Amarrem as mãos dela aos pés da mesa — ordenou o mais velho. — Já estou que não posso mais de ver esta índia nua — disse o mais moço. Indo até a mesa. e sua cabeça caiu para o lado. o mais velho a arra stou até onde estava Sam. você não vai fazê-lo falar desse jeito. Cortou as cordas que prendiam Kaneha à cadeira e ordenou aspera-mente: — Fique de pé! Kaneha levantou em silêncio. O mais moço dos três apanhou um balde de água e jogou-a em cima de Sam. Parou de repente. Em geral. Voltou-se para Sam e perguntou: — Onde está o ouro? Sam balançou a cabeça. Se tivesse. Um fio de sangue ap areceu na linha traçada pela faca. com a faca encostada à sua pele. É ca az de morrer primeiro. talvez fale por causa d a ín-dia. com voz de espanto. Desceu do cavalo e caminhou até a casa. O mais moço passou a língua pelos beiços. — Já que não fala por si mesmo. mas ainda lembro muito bem como se f az.

— Mataram? — exclamou Olsen.do inexplicável e começou a correr para a porta. Levantou e foi até os fun¬dos da casa. Voltou com ela para a casa e coloco u-a no chão. tornou a entrar na casa. Tirou os arreios d o alpendre e atrelou as mulas à carroça. e a carroça ainda estava no al¬pendre ao pé da casa. jazia um a massa disforme. Vomi¬tou desespera-damente. Olhou em volta. para a carroça. As estrelas brilhavam tristemente no alto. Ao fim de algum tempo. mas a náusea que lhe subiu pela garganta abafou o som. No lugar onde ficava sua casa havia um clarão alaranjado que subia para o céu. ouviu um estrondo parecido com o de u m trovão e uma labareda saiu da casa. lembrando-se de alguma coi¬sa. de boca e olhos abertos e com a parte de trás d a cabeça arrancada pela bala de um calibre quarenta e cinco que lhe haviam colocad o na boca. subiu na carroça e se dirigiu para a cidade. Só olhou para trás u ns cinco quilômetros depois. colo-cou todas as galinh as dentro e arrumou-a sobre a carroça. — Max! O que está fazendo aqui de volta? — Mataram meu pai e minha mãe. Procurou na prateleira o rifle e a pistola que seu pai cos-tumava guardar ali. — Quem foi? Ouvindo a voz do marido. Eram uma camisa e calças de couro de veado que a mãe fizera pouco antes para ele. voltou para a casa. Parou na porta e passou nela o resto do piche. dep ois de amarrar as mulas a uma árvore. — Sr. onde se lav ou na tina de água. Uma nuvem de fumaça saía da porta. pois eles nunca poder iam ter aquela aparên¬cia. passou uma vista de olhos por tudo e saiu de lá. sentando no chão. Numa poça de sangue. Olsen apareceu também na porta. surpreso. Conservava os olhos fixos no chão. uma coisa macia. Max foi até a estrada. Pensou vagamente que tinha de fazer alguma coisa. Olsen! — chamou. Também estavam no cercado os quatro car-neiros e as galinhas de que sua mãe tinha tanto orgulho. Um vulto apareceu na janela iluminada. a porta se abriu e Olsen apareceu . Depois de esperar mais um instante para certificar-se. quando chegou no alto de uma pequena colina. Levou quase meia hora pa¬ra cobrir com três camadas de lenha todo o chão da casa. começou a chorar. Encon¬trou. Em segu ida. com os olhos arregalados de horror. amar-rando-os às argolas da parte traseira. O cavalo de seu pai desaparecera. um por um. Não eram seu pai e sua mãe que estavam ali. Passou sem pressa o piche na lenha espalhada pe lo chão. bateu na porta. Saiu então e. Pegou o balde de piche e entrou. O pai est ava amarrado à viga central da casa. Depois. caminhou para a casa que ficava perto e. Levou a carroça para a frente da casa e amarrou o cavalo baio na traseira. Mas não conseguiria enterrar o q ue estava na casa. subindo alguns degraus. De repente. a sra. sentindo-se muito fraco. Enrolou tudo num volume que colocou deba ixo do braço e saiu. mas as seis mulas continuavam presas no curral. parou. E levou também os carneiros. lambendo a madeira seca. Logo que chegou ao batente. Hesitou um momento e. Só restava fazer uma coisa. Olhou para o céu com súbita surpresa. Apanhou uma caixa. jogou o fósforo dentro da casa e afastou-se da porta aber-ta. as lágri-mas acabaram. O sol já desaparecera e a noite caíra rápida e fecha da. A paralisia deixou-o no mesmo instante em que começou a gri¬tar. Encostou um fósforo aceso na porta até que o fogo começou a se alastrar violentamente. a cerca de uns duzentos metros da casa e. Desceu. Max voltou os olhos lentamente para o chão. Depois. porém. Foi até o depósito de lenha e apanhou uma braçada. Ficou p aralisado. Se ntiu de novo os olhos cheios de lágrimas. procurando não ver os corpos dos pais. . até encostar-se à porta. que apanhou. mas não achou as armas. que mostrava os contornos da¬quela que tinha sido sua mãe. 5 Entrou com a carroça no pátio dos fundos da cocheira de Olsen. então. conduziu a carroça até a estrada.

Tenho dezesseis anos e para o povo de m inha mãe quem tem dezesseis anos não é mais garoto. puxando Max para dentro. — Não pode. Prefiro um cavalo novo que eu possa montar em pêlo e que corra melhor na planície. pois do contrário os outros não o teriam deixado levar o cavalo. terá tempo de sobra amanhã de manhã para partir. o fez sentar e colocou diante dele um prato de sopa. Olsen. E roubaram o cavalo de meu pai. Quando acabou. — Vou desatrelar as mulas — disse Olsen. Foram lá e m ataram os dois. procurando se ntir o cheiro de alguma fogueira. e com elas envolveu o resto do galho para fazer um cabo. — Pode dar o dinheiro agora? — Claro — disse Olsen. dona — disse Max sem levantar a cabeça. viu estrume de cavalo. Max olhou-a fixamente. Olsen percebeu a depressão que se escondia atrás da aparente calma do rapaz. . dois de les tinham tomado a estrada para a Virgínia. A marca era mais leve que as outras. — Não estarão. Já estava escurecendo. Quando voltou. O homem pararia daí a pouco para acampar. Desceu do cavalo e examinou-o c om o pé. amarrou a pedra ao galho com tiras finas de cour o. Na tarde do di a seguinte. sr. Max desceu do cavalo e esperou que a noite caísse. entrando em casa. E um animal melhor e você pode levar a sela também. — Tenho de ir. Levou-o para a mesa. — Mas aí eles estarão ainda mais longe — murmurou Max. No segundo dia de viagem depois de sua partida de Dodge. Viajou quase a noite inteira. Já é um homem. E afinal você ainda é um garoto. A sra. tão boa como as que aprendera a fazer no verão que passa ra com os kiowas. — Espere aí — disse a sra. cortou um galho com forquilha de uma árvore e encaixou na forqu ilha uma pedra redonda. quatro carneiros e dezesseis galinhas. sem ninguém montar nele. — Primeiro. Os outros rumaram para o leste através das planícies. estava a menos de uma hora do homem a quem seguia. Depois de andarem um pouco por ali. Olhou para o céu.— Os três homens —disse Max. Saiu pela planície à procura do rastro até encontrar o que queria. Max co meçou a comer automaticamente. E ainda dou o caval o baio. a carroça. Sr. Só as mulas e a carroça valem três vezes isso. — Entre que vou preparar alguma coisa quente para você beber — disse ela. — Tenho de ir atrás deles. Alguns quilômetros adiante. Reconheceu a marca da ferradura na terra frouxa. dona. vai dormir. Não tinha mais de sete horas. recomendando silêncio. está bem. Quer dar-me cem dólares e o potro por isso? — Claro que sim. — Perguntaram-me onde meu pai morava e eu disse. você vai comer algu ma coisa. se já não havia parado. o que significava que o a-nimal estava sendo levado pelo cab resto. olhou satisfeito a maça de guerra. Enquanto esperava. com os ouvidos atentos a qualquer ruído estranho. Olsen. Caminhava devagar. Um dos cavalos era o de seu pai. — Eles também têm de dormir e não e is longe de você do que estão agora. seguindo o rastro à luz clara da lua. Já estava escuro quando se levantou e prendeu a maça no cinto. Depois. que era a coisa de maior valor que tinham roubado. Pegou o cavalo pelo c abresto e prosseguiu cau-telosamente a pé. Tornou a montar e prosseguiu. Max estava dormindo com a cabeça sobre os braços cruzados em cima da mesa. — Não tenho tempo — disse ele simplesmente. — Se é assim que você prefere. — São homens feitos e poderão fazer-lhe mal. Olsen. Isso provava que o homem que passara por ali era o che-fe. Não terá muito que carregar e irei mais depressa. Depois. meu filho — disse ela em voz alta. A sra. e ela pela primeira vez percebeu o orgulho que havia no f undo daqueles olhos azuis. o rifle e a pistola. diminuiu a marcha do po tro e examinou cuidado-samente a estrada. se você quiser. Os quatro cavalos haviam parado ali. — Não. tenho aí a s mulas. muito obrigado. — Já me fizeram todo o mal que podiam.. O bandido perdera mais tempo no caminho do qu e ele esperava. Max. — Você não pode deixá-lo perseguir esses homens sozinho —disse ela. Olsen fez um gesto para o marido. não — afirmou ela com sua lógica feminina.

Sentou vagarosamente e olhou para seu objetivo. Via perfeitamente o vulto do homem deitado perto dos rochedos. Virou a c abeça e olhou para Max. Max foi então buscar seu potro. olhando para a frente. com o revólver em punho. A lâmina da faca cintilou ao sol da manhã e quando ele se levantou o homem já s . comendo numa caçarola. A fogueira estava uns duzentos metros adia nte. Até então. tirou a maça de guerra do cinto. Max agiu então rapidamente. Começou a avançar lentamente. Um instante depois dormia profundamente. O homem soltou u m leve ronco e se virou dormindo. pois cerca de meio quilômetro adiante sentiu cheiro de fumaça. Escolhera para acampar um lugar entre dois rochedos. O homem começou a urinar d e medo. Aí voltou a a-vançar.Estava com sorte. porém. Ouviu o relincho de um cavalo e encolheu-se no chão. Sentia-se nauseado ao vê-lo e ima-ginar o que havi a acontecido na cabana. E stava estendido no chão de barriga para cima. Max deitou-se no capim. Estava alta e clara no céu acima de sua cabeça. mas foram aos poucos clareando. — Foi ele que me vendeu. Olhou para o céu. Ama rrou o potro a uma árvore e tirou do saco na garupa do animal o rifle que comprara . Estavam a prin-cípio embaçados. Teria de esperar o homem adormecer. — Por que matou minha gente? — Não fiz nada com eles — disse o homem. — Meu pai não iria vender o único cavalo que tinha. — Quer contar-me o que foi que aconteceu? — Não fui eu! Foram os outros! — exclamou o homem. Por outro lado. a aurora já estava surgindo no leste. que escorrera do lugar onde a maça o atingira. quase apagado. Max sentou-se numa pedra e começou a amolar a faca na sua superfície lisa. Toda hesitação que porventura sentira havia desaparecido. Aquele sujei to não era tolo. isso afastou qualquer sentimento que pud esse haver de piedade em seu coração. A fogueira tinha agora um brilho fraco. apavorado. Em silêncio. sentiu de novo e bem forte o cheiro da fo-gu eira. daí a algumas horas. — Solte-me. A respiração era calma. sem parar de amolar a faca: — Sou Max Sand. — Deixe-me sair daqui! — gritou o homem. Quando o sol apareceu. Lembra-se de mim? Max ficou olhando para o homem. Abriu os olhos de repente e olhou para a lua. a fogueira. Quando voltou. levantou m eio corpo e jogou a pedra perto dos pés do homem. Com uma praga. Quan do a lua estivesse bem no alto. O cavalo devia estar amarrado uns trezentos metros à frente. Seus olhos ainda estavam fechados. — Solte-me! Max encostou a faca no pescoço do homem. seria o momento de entrar em ação. o homem se sentou. e levava dentro de si a vingança terrível d o índio. podia descansar. só seria possível alguém aproximar-se dele pela frente. Podia ver o homem sentado à frente do fogo. o homem abriu os olhos. Amarrou o potro ao lado dos outros cavalos e se aproximou do homem. Era filho de Barba Vermelha e de Kaneha. Por trás. índio miserável — gritou ele. Afinal. Prendendo a respiração. Procurou levantar-se e percebeu que estava amarrado. embora houvesse muito san gue empastado de um lado da cabeça. — Que quer dizer isso? Max o encarou e disse. Avançou sem fazer o menor ruído. — Não fiz nada! Eles é que queriam o ouro ! Os olhos do bandido quase saltavam para fora das órbitas. Viu a mão estendida do homem com a ponta dos dedos t ocando o revólver. Nem soube o que o atingiu. Dessa maneir a. Apanhou uma pedrinha no chão. Rastejando. Quando falou. nu. Max desceu com toda a força a maça de guerra sobr e sua cabeça. Ergueu a cabeça em meio ao capim. sem tirar os olhos da faca. Max parou e esperou que o homem estivesse imóvel novamente. a voz saiu calma e sem qualquer emoção. deu uma volta enorme até ficar por trás do sujeito. Não avistava. — Você está com o cavalo de meu pai. braços e pernas esticados e amarra dos a paus forte-mente fincados no chão. procurando andar em sentido contrário ao do vento para não ser pressentido pelos cavalos. Deu uma grande volta. com a urina a escorrer-lhe pelas pernas nuas.

Três dias de sede e de fome e três noites de tortura. procurou mas não viu ninguém. para a terra dos kiowas. — Quando os galhos caem ou são cortad os. Era essa a pena índia para um assassino. É o melhor momento para tomar mulher. Algum deles notou sua aproximação? — Ninguém me viu. embora os olhos estivesse m revirados. atraídos pelo cheiro do sangue. Voltou de novo até a entrada. Os Olhos Brancos podiam aprisionar os corpos mas não o espírito. O chefe permaneceu em silêncio. Max foi andando pelos arredores até encontrar um formigueiro. com a sabedoria de seus anos. puxando os outros animais. — Uma árvore tem muitos galhos — disse pausadamente. Três dias em que o sol ardente lhe queimou os o lhos abertos e empolou a carne dilacerada enquanto as formigas lhe devastavam la boriosamente o corpo. O chefe olhou de novo para o escalpo. olhando para Max. Era quase uma criança. Ele caminhava sozinho e de cabeça erguida. Max amarrou os cav alos numa árvore e entrou na tenda. Em silêncio. — Venho em tristeza à aldeia do meu povo — disse Max em kiowa. e deve viver agora sozinha numa tenda à beira do rio até que o espírito do marido seja substituído nela. — Tirei o escalpo de um dos assassinos. Ela já recebe u o bastão do casamento. Max virou-se e. O homem havia apenas desmaiado.ilenciara. pe ndurou-o no poste e. — Agora — disse o chefe. acatando o conselho. Os índios olhavam-no em silêncio. como tiras de fita. estava morto. atravessou a aldeia com os cavalos. colocando fir-memente a pena em sua mão. voltou-se para Max. aguardou que Max se aproximasse. O cabelo e o corpo estavam molhados da água do rio e o vestido se colava ao corpo. — Não temos mais liberdade de andar nas planícies — disse. — Agora? — perguntou Max. O chefe nada disse. que não podia ser vista da aldeia. — Há uma virgem cujo guerreiro morreu há dois sóis numa queda de seu cavalo. quando Max foi olhá-lo. O chefe olhou para o escalpo e depois para Max. O velho chefe. quando o espírito da guerra e da vingança ainda corre como uma torrente pelo sangue. é preciso que outros ramos cresçam no lugar. pa ra passar o tempo da minha tristeza. pelos olhos abertos. no momento em que ele apeara do cav alo. seu avô. Num instante. Tirou com as mãos o to po do formigueiro e voltou para onde estava o homem. já saía da tenda para vê-lo. — Meu pai e minha mãe foram mortos — continuou Max. Max compreendeu então . montou em seu potro e. Tomou o escalpo. Sentiu o peito dilatar-se de orgulho. Silenciosamente. para que os espíritos encontrem onde viver. Vá agora. Já havia muito que nenhum escalpo de inimigo era pendurado no poste atrás de sua tenda. O homem começou a tossir e a gemer. Max tirou o escalpo que estava amarrado ao cinto e jogou-o ao chão diante do avô. Voltou e se ntou numa cama de couro estendida no chão. No fim. Tirou uma pena de seu cocar e entregou-a a Max. estuprador e ladrão. Max tirou. Vim das colinas atrás das quais eles vivem. em seguida. a faca e arrancou o couro cabeludo. tomou rumo norte. Devia ter catorze anos. pela boca. O homem levou três dias para morrer. Havia ali uma pequena tenda. as formiguinhas vermelhas cobriram o corpo. enquanto os insetos e mosquitos. impassível. — Vivemos nas terras onde os Olhos Brancos nos confinam. Cuidadosamente. Ela arregalou os olhos ao vê-lo e sua primeira reação foi fugir. Max cortara as pálpebras para que aqueles olh os nunca mais se fechassem e a carne estava pendurada pelo corpo. Depois. colocou-o s obre o púbis do homem. O corpo se agitou. E ntraram por todas as fen-das ensangüentadas. tinha perdido por completo o juízo e na manhã do quarto dia. Não havia ninguém. dos ombros até as coxas. — E o melhor momento. então. quinze no máximo. Um instante depois. e fique com ela. o poderoso chefe. Max olhou-o. E vim à tenda de meu avô. pelo nariz. Chegou à margem do pequeno rio e a seguiu até chegar a uma curva. nele se banqueteavam. Max ficou observando. abertos e sem enxergar. entrou uma moça.

rapaz. irei para o oeste do Texas e pegarei o outro. Farrar. queimando nos currais os últimos vestígios da primavera. é melhor ter cuidado. disse: — Eu também. — Ótimo — acenou positivamente Farrar. como que percebendo que aquele era o final de tudo. Farrar virou-se logo que ele parou o cavalo. sr. — Confere. — Foram as últimas que minha mãe costurou para mim. Apanhou na cadeira o cinto com o revólver e o afivelou. O poderoso chefe nos uniu para que pudéssemos tirar os demônios um do outro. para o seu inevitável destino. Farrar disse: — Vestido assim. — Tudo desembarcado. que acabara de calçar as botas. com os olhos mostrando agora um novo ânimo. Fora uma longa caminhada desde o Texas até uma estrada de ferro qu e os levara a Kansas City e. depois. 6 Montado em seu potro. calmamente. Vamos para o hotel tomar um banho e tirar do corpo esse fedor de m erda de boi. Max esperou calmamente que ele acabasse de se vestir. deu um assobio. Max tornou a colocar o chapéu na cabeça e olhou para a cerca. — Eu sou índio. — Não quero outra coisa — disse Max. — Ainda não desistiu de procurar os homens? — Não. esbranquiçado e quente. — Tenho muito orgulho dele. sr. Não desisti. T irou o chapéu. senhor. que se dirigiu en¬tão a um dos compradores: — A conta está certa? Mil cento e dez cabeças pela minha conta. — Muito bem. — Onde arranjou essas roupas? Max sorriu. des cia até os ombros. O gado mugia bai¬xinho. O cabelo. Max? — Tudo. — Quero que saiba por que está morrendo. onde o patrão conversava com os compradores de gado. Depois de um momento de silêncio. pois ele pode reconhecê-lo e descobrir você antes . Estava quase no alto do céu. Farrar montou em seu cavalo e disse a Max: — Vamos. Mas não posso esquecer que foram homens bran cos que mataram meu pai e minha mãe. Farrar viu o olhar gélido no rosto do rapaz e voltou-se para pegar uma camisa. Aproximou-se deles. — Epa! — exclamou Farrar depois do banho. Seu pai era branco e foi um bom homem. rapaz. Então. — Meio índio. Max. Mostrou-lhe a pena e disse gentilmente: — Não tenha medo.por que o chefe o mandara para lá. você está quase um índio. eu encontrarei. — Kansas City é um lugar bem grande. Passarei pelo seu escritório hoje à tarde para pegar o cheque. de um preto azulado. Max desceu a rampa do vagão do trem logo atrás das últimas reses . As botas de vaqueiro de sal to alto estavam bem lustrosas e o lenço amarrado ao pescoço era como uma cintilação dour ada contra sua pele morena e queimada de sol. — Estará à sua espera. limpou o suor da testa na manga da camisa e olhou para o sol. Tenho a impressão de que estou uns dez quilo s mais leve. É onde deve estar. Farrar. Esperou que todo o gado entrasse no curral do matadouro e fechou a porteira. Como sabe que encontrará um deles aqui? — Se estiver por aqui — disse Max —. — Pois olhe: vestido com elas. Cacei muitos anos com Sa m Sand e não fico satisfeito de saber que você não tem orgulho dele. Max estava ves tindo camisa e calças de couro de veado quase brancas. Farrar. . Farrar o viu curvar-se par a amarrar na coxa a capa da arma.

Tentou levantar-se. M s não é para vender. você será o ma pre-judicado. O rapaz estava mesmo desaco rdado. sr. Só consegui trazê-lo até aqui po rque disse que conhecia a pessoa que ele estava procurando. — Não estou muito habituado a beber tanto. Vamos para minha casa p assar a noite toda juntos. sr. Max. Farrar foi até a cômoda e apanhou sua bolsa. agora vou tomar meu caminho. Tossiu. E sabe de uma coisa? Este camarada me parece mais um índio. Acho até que ele não queria ficar comigo. rindo. Você ainda pode pegar três marmanjos ta noite. que percebeu os olhos dele um tanto pesados. — Aqui está. O rapaz bebeu de um gole o resto do uísque. — Como você demorou a trazê-lo para cá — murmurou ele. Farrar. sr. — Desembuche. O rapaz olhou para ela. vamos! — Mas o que sei vale alguma coisa. Max guardou o dinheiro no bolso de trás sem contar. — Minha bolsa de peito de índia — disse Dort. Eram quase duas horas da madrugada quando o cafetão encontrou o homem. — Mais ou menos — respondeu ele. — Você não pode viver com todo esse ódio dentro do coração. Dort levantou-se rapidamente. meu filho. que a esperava do outro la do da rua à porta de um bar. tirou o dinheiro e contou-o rapidamente. O dinheiro está no bolso das calças. — Não quer mesmo voltar comigo? — Não. — O que eu ia fazer? Ele não queria beber. — Você está louca? — exclamou o homem. Ela já estava vestida quando o homem entrou no quarto. — Sr. Um breve instante de consciência luz iu nos olhos dele. — Acabe com seu uísque enquanto tiro o vestido. Mary Grady olhou sorrindo para o rapaz. poi . Estava joga ndo nos fundos do salão Águia Dourada. o pagamento de quatro meses de trabalho. É quase um garotinho ainda. — Que diabo você está querendo. então? — O que eu vou dizer vale alguma coisa. — Obrigado.— Bem. — E você sabe quem é? — Talvez. No fim.. O homem foi até a cama. Dort. Agarrou o homem pelo paletó e encostou-o à parede. — Não pode ser de outro jeito. — Há sempre alguém querendo comprá-la. Dort — disse ele. Sorriu e foi até a janela para chamar seu cafetão. tremendo de medo. É a respeito de sua bolsa de fumo. sr. Farrar — disse ele por fim. Não posso esquecer que é no mesmo seio que me amamentou que aquele miserável está guardando o seu fumo.. Dort— murmurou o homem. sr. assim que sentou na beirada da cama. tocando no ombro do homem. Nunca me sinto tranqüila neste hotel. Ela estendeu as mãos e empurrou-o pelos ombros. sr. — Está à procura de um homem que tem uma bolsa de fumo feita com a ele de uma índia. Talvez sej a melhor falar em particular. Farrar. — Que diabo quer você? — Desculpe. Mary curvou-se sobre ele e levantou uma das pálpebras. — Quanto é que ele tem? — Não sei. — Não é nada disso. Farrar. Acho que o homem a quem ele procura gostará de saber disso. com o vestido pendurado no braço. Vamos embora. mas não a güentou mais. — Cento e trinta dólares. — Está se sentindo bem? — perguntou Mary depois de passar o vestido por cima da cabeça. São oi-tenta dólares mais ses senta que você ganhou no pôquer. e ele se encaminhou para o hotel. — Cento e trinta dólares! Hoje não precisamos fazer mais nada. ainda estendeu a mão para o revólver. Ela se aproximou e ficou olhando para ele. zangado. — E é índio — disse Mary. Caiu atravessado na cama e ali ficou prostrado. Pegue logo e vamos sair daqui. muito obrigado. — E ele está armado. mas creio que tenho uma informação que lhe interessa. — São onze horas. Dort. sr. Fez um sinal. — Por que não se deita um pouco e fecha os olhos? Ficará bom num instante.

D esolado. Dort a pegou e guardou no bolso . vendo cheio de espanto a bolsa de fumo que ele tra-zi a na mão. tudo. às duas da tarde do dia seguinte. Olhou para o homem e disse. Acabou de fazer um cigarro e perguntou a Farrar: — Tem um fósforo aí. a fim de avisá-lo. para receber o dinheiro do quarto. Mas quando chegaram ao hotel Max não estava mais lá. Está armado! — Um índio? Como é ele? O cafetão descreveu prontamente Max. sim. Ouviu um arrastar de pés vindo de trás. quand o de repente ficou estático. O único defeito é que se gasta muito depressa. sem levantar a voz: — Não o reconheceria. levantando a mão do lado onde estava o revólver. Mas. o empregado do hote l contou onde poderiam encontrá-lo: no matadouro. amigo — disse Max. — Pegue aí e faça um cigarro para você. Mas viu todos os rostos voltados a nsiosamente para ele. A pele da bolsa era da mãe dele. Se assim procedesse. valerá alguma coisa. Farrar — disse com um sorriso. Os outros homens que estavam em torno da mesa se entreolharam. tudo estaria perdido. é apenas o peito de uma índia velha — disse o homem. — O que está olhando? — perguntou o homem. — Obrigado. a cavalo. Mas. observando Max. Todos os olhos se voltaram para a bolsa de fumo. vendo Max. rapaz — disse o homem. se não tivesse feito isso. sem entusiasmo. Nunca vi nada igual a isso. que acabara de tanger o gado. — Aí está seu dinheiro. se não falar bem depressa. sua reputação. sou um deles — disse Dort. Fechou a porteira e se dirigiu para onde eles estavam. — E daí? Farrar e os outros instintivamente se afastaram para os lados. — Essa bolsa de fumo. — O que vai fazer agora? — perguntou o cafetão. sem olha r para ele. — Ora. — Com certeza não me reconheceu por causa da barba — disse o homem rindo. quando olhou para a bolsa a fim de abri-la. Vou matá-lo. Farrar voltou os olhos para onde estava Max. — E os olhos dele? São azuis? — São — disse o cafetão. amigo? Farrar meteu a mão no bolso. . — Pois bem. e Farrar notou a presença dos outros homens. o empregado ficara de estar lá. sr. E levantaram em s ilêncio. — O que vou fazer agora? Apenas o que dever ia ter feito há um ano. — Notei isso logo que ele pegou uma das minhas meninas no salão. Nessa hora. Farrar estava encostado à cerca. — Espere por nós. — Pronto. Conhece-o? — Conheço. — O que vou fazer? — murmurou Dort sem muito ânimo. — Você é um deles. que. sua posição naqueles meios equívocos.s Dort era conhecido como um dos piores assassinos da cidade. jogando a bolsa de fumo para Max. — Não há nad melhor para conservar o fumo fresco. Esta já está que não vale mais nada. — É — disse o homem. Fo i por isso que a princípio não percebi que ele era índio. soltando uma risada. não valerá nada para você. — Sim. No entanto. Sentiu-se de repente cheio de segurança e disposição. Saltou do cavalo e o amarrou a um mourão da cerca. Agora estou conhecendo. Dort jogou em cima do balcão da portaria um dólar de prata. — Eu não faria isso se fosse você — ameaçou insolentemente o homem. Onde está ele? — Vou levá-lo até ele — o cafetão se ofereceu rápido. — Há um índio na cidade à sua procura. Não poderia recuar nem sair da cidade. Max começou a recuar lentamente. sim. — A coisa vai ser divertida. — Como monta bem aquele rapaz! — disse para um homem que estava a seu lado. tirou a caixa de fósforo e já ia entregá-la ao homem. Vou fazer a cobrança por você. tangia uma parte d o gado de um curral para outro. limitou-se à condição de mero espectador. Tom — disse um deles. A bolsa lhe escapuliu dos dedos e o fumo se espalhou pelo chão. — Você monta muito bem. fico u mortalmente pálido.

As balas fizeram Dort cair para trás e ele ficou estendido no chão. ela foi para onde Nevada estava e se ajoelhou no chão ao lado dele. Quero apreciar a sua morte. ''Agora! Vou acabar logo com essa agonia. Dois dias depois. com a mão entre as perna s. O rosto do rapaz resplandecia de ódio. filho de uma índia puta e adela! Puxe logo essa merda. — Não tenho pressa — disse Max. asperamente. acordou de vez. mas ele não quis se arriscar. — Puxe seu revólver. Meteu um na boca e riscou um fósforo. por mais que pense nisso. Você não faz idéia omo é ligeiro no gatilho. — Não faça nada! Esse homem é Tom Dort. De repente. mestiço miserável. não consigo me conven cer. vou atirar no seu saco. Farrar viu o gesto e voltou os olhos para Max. — Filho da puta! — exclamou. meterei uma ou d uas balas na barriga. quase como se estivesse rezando. sr. ''Agora''. Depois l evantou a mão ensangüentada para Max. — Não estou com nenhuma pressa de matá-lo — disse Max. O rosto de Dort estava ficando muito vermelho ao sol ardente. pensou Dort. mas não foi suficientemente ligeiro para ver o rapaz puxar o revólver. deu dois tiros rápidos. — Com medo do quê. — Você está financeiramente arrumada e ainda tem uma vida inteira pela frente. seus dentes mordendo o lábio inferior. vamos. Farrar — disse Max. 7 Nevada se agitava impacientemente. e o j uiz era patriota. então. — Você tem de me ajudar. — Quero que você morra devagar. Rina? — Do que pode me acontecer. — Não vou nem atir ar no coração ou na cabeça. Falava-se muito de uma guerra contra Cuba. Viu. — Mas eu vou matá-lo. Max atirou quase antes de o revólver de Dort ter saído inteiramente do coldre. e estendeu a mão para o revólver que estava no chão. como minha mãe. — Ora. com o revólver ain da fumegante na mão. encarou Max. — Sei disso. Rina sentada na poltrona. perto de le. quando só sentiu o va zio ao lado do sofá. — Puxe. Estendeu au-tomaticamente a mão para pegar um cigarro e. Rina — aconselhou ele. viu os homens q ue o observavam. . ainda que houvesse muitas testemunhas. Nevada. mas afinal sentou no sofá e procurou suas calças .— Cuidado. passando-lhe a mão pelo cabelo. índio — disse Dort. Max chegou mais perto e ficou olhando. Custou a lembrar-se de onde estava. Max se dirigiu a passos lentos para onde ele estava." Levou de repe nte a mão à arma. Deu a prime ira tragada e perguntou: — Por que não está dormindo? — Perdi o sono — murmurou ela. com a vaga impressão de que havia mais alguém na sala. Nevada! — Dê tempo ao tempo. sem alterar a voz. com voz calma. Primeiro. Max! — exclamou Farrar. Rina — disse ele. Mas o pior é que. — Ele pode ser tão ligeiro quanto quiser. O revólver caiu da mão de Dort e ele tombou de joelhos no chão. à luz breve do fósforo. deram a Max a oportunidade de escolher entre alistar-se no Exérc ito ou ser julgado por homicídio. Max esperou que Dort voltasse o cano na sua direção e. Havia probabilidade de Max ser absolvido por ter matado em legít ima defesa. com o corpo sacu dido por leves tremores. — Puxe o revólver! — gritou ele. olhando para ele. Dort ficou alguns instantes ajoelhado. Tinha ainda um encontro marcado com um homem a quem nem conhecia. Pelo canto dos olhos. Depois. Dort começou a sentir-se dominado pelo medo. rindo. Depois. Os cigarros estavam no bolso. — Estou com medo. sem tirar os olhos d e cima do homem.

Chegou mais perto dele e tiro u o cigarro de seus lábios. mas conseguiu dominar-se e disse. Ele voltou. Sei qu e vou morrer moça. Rina c ontinuava sentada no chão a observá-lo. tre par.— Você não compreende. No mesmo instante. afagando a cabeça de Rina. agarrando suas mãos. Então. É tão fáci l fazê-los acreditar naquilo que eles querem. nunca mais terei medo! Ela curvou de novo a cabeça. enquanto pegava um cigarro. — Bem sabe que não é ver-dade o que está dizendo. Um instante depois. trepar! Ela o encarou por um momento e então começou a sorrir. com qualquer homem. — Não? — perguntou ela. Rina? Por que está dizendo isso para mim? — Porque quero que você me conheça. voltou-se para ficar de frente para ele. — Talvez não — disse ele. — Por favor.. pensei que estivesse agindo direito — disse. Os olhos dela estavam marejados de lágrimas que banhavam seu lindo rosto às primeira s claridades da manhã. chocado ao vê-la. se não tivesse. Porque a ve rdade é que a única coisa que quero de você é trepar. Puxou Rina pelo cabelo e perguntou: — O que você está querendo provar? — Que você é o homem. um calor crepitante enchia a sala. com s ua vaidade masculina espicaçada. — Não sou o homem que você está procurando. — Bem. — Porque você não é um garoto. com toda sua fineza. Nevada. — Acho que sou lésbica. — Mas não como eu! — exclamou ela. — Quando a convidei a vir para cá. para onde ela estava. De repente afastou o co bertor e baixou a cabeça para o colo dele. não me casa-ria com Jona s em vez de escolher o pai dele? Nevada não respondeu. Rina. Encontrará homens jovens e. Nevada — continuou ela. . ela riscou um fósforo para ele e disse com voz macia: — Sim. — E você. Deu-lhe um beijo rápido na boca e foi até a lareira. mas Nevada a segurou com firmeza. Nevada sentiu o movimento de seus lábios e teve um momento de raiva. afastando-a. Rina. — Comigo é diferente. antes mesmo de me casar com Cord.. proferir aquela pala vra vulgar. — Sempre senti esse medo . Atiçou o fogo e jogou dentro cavacos e um tronco novo. — Mas por que eu? — disse ele. Já estive com mulheres e com homens. Nevada! Deixe-me provar como posso amá-lo! E começou de novo a chorar. que já queimava seus lábios. com a voz cheia de terror. trepar! Ele a olhou fixamente. Rina? Os olhos dela brilhavam num desafio. Ainda não encontrei nenhum homem que fosse capaz disso. Você é que pode fazer de mim mulher de fato. quando ainda era menina. Estendeu a mão por baixo do cobertor e segurou seu membro. Nevada levantou de repente e foi até a lareira. sorrindo: — O que você deseja. Quero que me compreenda. — Não? — disse ela. D epois. — É deles que eu tenho mais medo. o único homem capaz de me fazer sentir alguma coisa! Tenho certeza . devagar. — Mas acho que ainda sou muito moço. com um sorriso. E nunca senti com os hom ens. Afinal disse com voz bran da: — Tudo será diferente quando você voltar para o leste... Nevada. E eu conheço todos os truques! — Talvez porque você ainda não tenha conhecido um homem de verdade — disse Nevada. antes de vir para cá. Você é um homem de verdade. de alguma doença terrível. acho que de um modo ou de outro todo mundo tem medo. — Homens jovens. Os homens são uns tolos. Eu sei disso. Colocou o cigarro na boca e aspirou lon gamente a fumaça. Acha então que. Nevada riu. — Não ria! Não sou maluca. Sinto dentro de mi m! Nevada continuou ali sentado. o que sinto com uma mulher. apagando o cigarro. Nevada? — perguntou ela. trepar. com uma voz cheia de amargura e desprezo. mas havia insegurança em sua voz. acariciando seu rosto. — Os rapazes só querem uma coisa de mim! Trepar! Não pensam em nada senão em trepar. Nevada! Posso sentir dentro de mim. a voz adquirindo um tom de desafio.

espantado. Nevada? — Não sou muito de escrever. Nevada. Eram os ho mens do show que levavam os cavalos para as cocheiras. Nevada levantou e foi até a janela. não tenho nada a fazer no leste. Ela então atirou o cigarro dentro da lareira e caminhou para onde ele estava. Um estridente clarim deu um toque de carga. perseguidos d e perto pela cavalaria. Pensava que ela não havia escutado a conversa com o cai xa. se os abando-narmos agora. sorrindo. O espetáculo estava terminando. — Como é que você concordou com uma coisa dessas? — A culpa não foi minha. Ela estava à janela do carro da bilheteria. Rina. que se desenrolava no picadeiro. Se fecharmos o espetáculo. Nevada deu o braço a Rina. . Nevada não compreendia por que o homem est ava tão inquieto. Não há outro jeito. Nevada voltou-se para Rina. Calculando por estas duas semanas. — Em quase todas as cidades estamos programados para uma se mana depois do show Buffalo Bill Cody. Os índios iam saindo do picadeiro. — Já não havia ficado resolvido isso. At ravessaram o acampamento até o automóvel.. Você já é uma mulher adulta Isto aqui não é vida para você.. O fogo envolveu co m um clarão dourado seu lindo corpo nu. — Mas. — Você não tem dinheiro para isso. Aqui. olhando o úl timo número do espetáculo Oeste Selvagem. o que vamos fazer? — Agüentar a temporada até o fim. — Não podemos deixar de enfrentar esse prejuízo. pelo menos. perderemos t odo o nosso pessoal. — Talvez seja melhor assim — disse. Havia gente por todos os lados. 8 — Os negócios do show vão mal — disse o caixa. — E você tem? — Mais do que você. Ouvia-se dali o murmúrio abafado dos gritos e dos urros dos índios. — Pare de agir como uma criança. Passarei depois pelo escritório do agente. Não é essa a única coisa em que estou metido. Virou-se e disse ao caixa: — Vou levar a sra.Depois. — Agora po demos ser amigos. deixe-me ficar com você. Nevada. Acho que o agente nos traiu em proveito do outro sh ow.. Não conversaram mais até chegar à estação e só voltaram a falar quando ela já ia tomar o trem — Você vai escrever para mim. fazendo planos para aquela noi te. Nevada — disse ela quando che-garam ao automóvel. menina? — perguntou ele. A cavala ria ia chegando em socorro dos pioneiros cercados pelos índios. tirando os olhos de Rina.. — E deixará que eu de vez em quando apareça para fazer uma visita? Se eu me sentir só e com medo? — É para isso que são os amigos. vamos ter um prejuízo de mais ou menos quarenta mil dólares neste verão. — Por favor. — Pagarei metade de seus prejuízos se me deixar ficar. Fique aqui à m inha espera até eu voltar. Ninguém vai querer assinar contrato conosco para a próxima temp orada. — Mas mandará notícias? Responderá se eu escrever? Ele assentiu com a cabeça. posso sentir vida. movimento. atirando-se nos braços abertos de Nevada. corriam para os carros a fim de trocar de roupa e conversavam em voz alta. — Vão mal ou muito mal? — perguntou Nevada. aria farta de tudo numa semana. Não era o dinheiro dele que estava em jogo. — Com quarenta mil dólares de prejuízo? Não podemos perder tanto dinheiro! O caixa mostrava-se nervoso e vermelho. Cord à estação. Nevada. Nevada sentou numa ca-deira bem pouc o confortável e começou a enrolar um cigarro. Nevada olhou-a. com um leve movimento fez o robe cair no chão a seus pés. — Bem mal — disse o caixa. ajudando-a a descer a escada do carro da bilheteria. E agora.

— Ah! O outro. Nevada. — Bem. Ele ainda viu o rosto dela surgir por um instante na janela quando o trem se pôs em marcha. Estou procurando Dan Pierce. Daniel Pierce — Agente Teatral O escritório não destoava do aspecto do corredor. — Não. Da porta. Está procurando vender um cliente para um filme de faroeste. com uma ponta de interesse. — Foi à Norman Films. Viu o grande cartaz em frente à Universal logo que chegou ao endereço indicado: UNIVERSAL PICTURES CASA DE TOM MIX E DE TONY VEJAM "OS CAVALHEIROS DA SAGA PÚRPURA" Filme da UNIVERSAL Logo em seguida. — Onde? Alguma coisa nos olhos de Nevada fez a moça responder. — Não estou procurando emprego. Foi a uma reunião. Uma moça olhou para ele de trás de uma mesa atravancada de coisas e papéis. quase com hostilidade: — O que deseja? — Dan Pierce está? Ela observou Nevada um instante. — Se está à procura de emprego. passou por outro cartaz na frente da Warner. — Ele não recebe ninguém sem hora marcada. ainda se voltou para dar adeus e desapareceu dentro do vagão. notando o casaco de couro surrado. Seu cabelo denunciava traços de uma oxigenação mal feita e mascava um pedaço de goma. APRESENTA MILTONS SILIS EM "O FALCÃO DO MAR" Filme da VITAGRAPH Os estúdios da Norman ficavam oito quilômetros mais adiante. Em seguida. o outro. — Sim. as calças desb otadas e o grande chapéu de cowboy. ele não está. perca as esperanças.Ela sentiu as lágrimas umedecerem seus olhos e murmurou: — Você tem sido um bom amigo. quando perguntou. Ele falará comigo. A tinta da porta estava descascada e as letras quase não se podiam ler. — Obrigado — disse ele e saiu. — E como se vai até lá? — Fica no Lankershim Boulevard. — Onde é que está? — Não sei. Do Grande Rodeio do Sudoeste. depois do estúdio da Universal e de-pois do da Warne r. até um corredor sujo. Nevada subiu por uma escada desconjuntada. O cartaz de costume lá es . WARNER BROS. — Do show Buffalo Bill? — perguntou ela. Depois. beijou-o no rosto e embarcou no trem. — Sou da equipe do Oeste Selvagem. o trem desapareceu na curva e ele saiu da estação. — Tem hora marcada com ele? — Não.

— Espere um momento. De repente. sua guarita e consultou um monte de papéis. Nevada o acompanhou até onde estava um grupo em torno de um homem alto. — Corta! Corta! Com os diabos. SET DE " VILA PA CÍFICA'' ESTACIONAMENTO DE CARROS AQUI Seguiu a seta. Então apontou para um penhasco no morro próximo. vestidos de macacão e roupas de trabalho. havia uma porção de gente. — Venha comigo — disse o homem. Alguns eram artistas com trajes os mais variados. viu-se em campo aberto. Russel! Você saltou antes do tempo! A diligência só rolou da estrada bem uns quarenta quadros depois de você. Perto do primeiro morro. — Você deve ser o homem a quem ele está esperando — disse depois. Parou o seu ao lado de um deles e saltou. — Pierce provavelmente e stá no campo de filmagem dos fundos. — Teve de ir ao escritório para telefonar — respondeu outro homem. — Dan Pierce está aí? — perguntou Nevada. chefe. Não havia senão mato e morr os. — Acho que sim. afinal. — Vamos que lá vêm eles! — gritou alguém bem alto. No alto do morro. O homem alto voltou-se para Nevada. — Todo mundo está do outro lado do morro. — Dan Pierce está por aqui? — perguntou a um homem que estava sen-tado num dos caminhões . Siga este caminho para lá. mas muitos era m trabalhadores comuns. um grande cartaz. m as não o viu em parte alguma. — Pierce já voltou com seu maldito stuntman? — Foi telefonar para ele — disse o homem que respondera a Nevada e que de repente o encarou: — Espere aí! Você é o camarada que Pierce es-tava esperando? — Acho que sim. BERNARD B. Nevada começou a descer a ladeira. os cavalos se soltaram dos tirantes e a diligência tombou num lado da estrada e caiu rolando pela ribanceira. Vou esperar por ele — disse Nevada. — Obrigado. No m omento em que o veículo fazia a curva. batendo com o ch apéu a poeira das rou-pas. — Dan Pierce está por aqui? — perguntou a um homem que passava com uma lata de filme. Passou por algun s prédios muito grandes e. — Trabalha com a turma do Vila Pacífica? — perguntou o homem. perto da câm ara. Um pouco abaixo. embaixo do qual corria um largo rio. onde um porteiro o fez parar. Num lado do caminho havia grande quantidade de carros e caminhões.tava na fa-chada. Um instante depois. porque o caminho estava cheio de gente. NORMAN PRODUCTIONS APRESENTAM ''O XERIFE DE VILA PACÍFICA'' COM UM ELENCO DE AS-TROS Nevada virou o carro para o portão principal. — Seria capaz de saltar com um cavalo dali de cima para dentro da água? Nevada olhou na direção apontada. Não tem erro. ele viu o cocheiro pular fora e sair roland o pela beira da estrada. Nevada agradeceu e seguiu com o carro. O cocheiro levantou e caminhou até onde estavam os outros homens. direto. A mesma voz forte de pouco antes se fez ouvir de novo. O guarda entrou em. A altura era de uns vinte metros e o cavalo teria de saltar pelo menos uns cinco metros na horizontal para cair dentro da água. Foi bem devagar. uma diligência apareceu em disparada na estrada abaixo de Nevada. Correu os olhos pelo grupo à procura de Pierce. começando a enrolar um cigarro. Só ass . Vou verificar. — Aqui está o homem que Pierce estava esperando. Nevada parou e olhou.

forçado a subir. mas co-ragem nenhuma. Nevada soltou as rédeas levando-o para o lugar do salto. Nevada sorriu. com a cabeça tor cida de uma maneira estranha. Nevada tirou prontamente os pés dos estribos e atirou-se bem para o lado. — Estamos prontos! — gritou o diretor. Fica pelos quinhentos — disse o diretor. Não trabalho em acrobac ias para o cinema. Estou aqui para falar com Dan Pier¬ce. Atirou num pedaço de madei ra dentro da água. — Tenho câmaras cobrindo todos os ângulos. Esperou um momento até o cavalo levantar de novo a cabeça e deu um tiro certeiro. aproximou-se do cavalo e lhe ofereceu um torrão de açúcar. O diretor deu um amplo sorriso. tomado de pânico. Um revólver não adianta nada numa distância dessas. Não se pre ocupe. O cavalo saiu em dis parada.im evitaria o choque com o barranco. mas ninguém poderá acertá-lo. Teve a impressão de levar um tempo enorme até chegar. A arma desviou-se um pouco para a esquerda. Estaremos prontos no momento em que você chegar. pagarei cem. Nevada aceitou um e o diretor riscou um fósforo. com voz fria. Nevada subiu. Nevada pegou a arma. S entiu uma explosão na água perto dele. Foi. bem entre os olhos. — O senhor está enganado. — Cavamos bem o rio e a profundidade naquele ponto é de oito metros — disse o diretor. O diretor olhou para ele com curiosidade. e voltou-se para o operador. O animal encolheu-se todo. — Grande! Bárbaro! Um dos maiores shots já filmados! — Sim. que estava lá embaixo. — Dê-me o revólver. — Aquele cavalo já terá morrido afogado quando o rifle chegar aqui. com o lado para que deve olhar. afinal. Nevada montou no cavalo. abriu o tambor e viu que estava carregada com cápsulas de fes tim. . Ninguém aí tem um revólv er? — Claro. Voltou os olhos e viu o cavalo boiando de lado. Pediu bala de verdade. — Vocês. cowboys. desde que começara a procurar Pierce de um lado para outro. mas ele permaneceu mergulhado o quanto foi possível. baixou a mão e Nevada meteu as esporas no animal. portanto. O diretor o encarou espantado. Sentiu um nó de raiva na garganta. Nevada voltou e devolveu a arma ao diretor. mas não disse que iria fazer isso. Havia em seus olhos um ar de grande sofrimento. levantou a mão bem alto. mas depois sorriu. Reagia prontamente e não mostrava um pingo de medo. — Felizmente! Afinal encontramos um homem com dois bagos. O cavalo pulou com as patas estendidas. Depois se aproximou do rio. Conversa muita. Entrou na água de cabeça e deixou que o impulso o levasse até o fundo. Devia ser o cavalo. — Escute aqui. O diretor já se voltava para o homem da câmara. O homem a pegou sem nada dizer e tir ou do bolso um maço de cigar-ros. Comece quando eu der o sinal. à superfície. Eu disse que era possível. Nevada nadou prontamente para a margem e se dirigiu com raiva para onde estava o diretor. Nevada sentiu o coração do animal fraquejar de repente quando não alcançou o chão esperado. são todos a mesma coisa. Nevada concordou com a cabeça. mas o cavalo está todo quebrado! Não há ninguém que dê um tiro para acabar com a agon ia daquele pobre animal? — Já mandamos buscar um rifle do outro lado do morro. Nevada não respondeu. preparado para uma queda pequena. of egante. quando Nevada tocou em seu ombro. Os pulmões começaram a arder. — Estamos pagando o dobro por esse golpe. — Acho que é possível — murmurou. — Você deve ter ficado sabendo que nenhum dos homens de Hollywood quis saltar nessas condições. Nevada o olhou por um instante. terá de pagar quinhentos dólares — disse. Noventa dólares não che-gam? Está bem. no momento em que começou a rolar no vácu o. todo sorridente. Era um bom cav alo. O cavalo enco stou o focinho na mão dele e Nevada lhe deu umas palmadas no pescoço. — Se quiser que eu pule com um cavalo daquela altura. — Muito bem. De repente. Viu a água se aproximando e torceu para já estar longe o suficiente para o cavalo não cair em cima dele. O diretor. Estava cansado de tudo aquilo. Suba até lá e lhe entregarão o cavalo. A profundidade era suficiente.

gritou do chão: — Nada disso. Nevada. — Só quero saber quanto o Buffalo Bill lhe pagou para você me passar para trás. — Eu era o guarda-costas dessa senhora. Estendeu a mão para cu mprimentá-lo.Um homem apareceu correndo. — Vamos até a Warner. Esse cara foi pego no quarto de uma mulher elegante. ganhará duzentos e cinqüenta dólares por semana. que ainda estava caído. para serem assinados. — Isso não lhe dava o direito de matar um homem — censurou o diretor secamente. Nevada? — perguntou. daqui a uma hora toda Hollywood saberá da proeza de Nevada. amigo? — Trinta anos. Pierce. — Agora ven ham os dois comigo até o escritório. Pierce caiu.. j ogando os papéis na mesa. a quem estendeu a mão. Von Elster — disse Dan Pierce antes de Nevada poder falar. — Que idade você tem. Matou um home m lá em Nova Orleans. Conseguiu livrar-se da acusação de homicídio. Todos os estúdios estão à procura de alguém para fazer um pouco de concorrência a Tom Mix. — Setecentos e cinqüenta — disse Von Elster. ofegante. 9 — Meu Deus! — exclamou o diretor da penitenciária quando Max foi levado a seu gabinete . O diretor deu um passo para o lado e mostrou Nevada. sorrindo. — Acabei de deixá-lo agora mesmo lá. Apertou a mão de Pierce e voltou-se para Nevada. Qualquer delas o agarrará com as duas mãos. gargalhando impudica-mente. Posso levá-lo agora mesmo para a Uni versal ou para a Warner. Nevada tentou protestar. — Isso durante seis meses. Mas vou conseguir outro amanhã sem falta. com voz rouca. — Estava nu como o pesc . Von Elster — disse. mesmo que fosse apenas no cinema. sr. — Ele é ruim de verdade. — Mas fui obrigado — insistiu Max. Eu estava sem roupa. Pensou então no que diriam os hom ens da penitenciária agrícola onde estivera há muitos a-nos. Venda seu show e venha trabalhar con osco. Para começar. — Quinhentos por semana — disse Von Elster. — Nem um cent a mai s. — Há muito que procuro um homem como você. segurando o braço de Smith. A raiva aumentou por dentro dele. depois mil por semana e aumentos correspondentes de sei s em seis meses.. uso ilegal de arma. alegando legítima d efesa. Que veio fazer aqui? Nevada olhou para Pierce. diretor — disse Max. — Vamos. — Foi condenado por quê? Homicídio? — Não. — Não é possível! — exclamou Dan Pierce. — Que pensam que estão fazendo por lá? Isto é uma penitenciária. — Não pude encon-trar o stuntman em c anto algum. Quero que Norman saiba que encontramos afinal o xerife de Vila Pacífica! Nevada voltou o rosto para esconder seu sorriso. Smith. mas Dan Pierce gritou com autoridade: — Cale a boca! Sou seu agente e é bom que não se esqueça disso! Von Elster. mas deu-lhe um puxão. Nevada Smith. em uma escandalizada surpresa. Prazer em vê-lo. — Mas não é ele! — exclamou Pierce. — Fechado — disse Von Elster. diretor — disse o delegado mascador de fumo. Veja. O diretor pegou os papéis. mas a pressão de Pierce em seu braço o fez calar-se. não um re-formatório! — Não deixe essa cara inocente enganá-lo. — Para efeito de publicidade. — Como é mesmo seu nome? — Smith. sr. — Ele avançou para mim com uma faca e tive de me defe nder. — Por que fez isso comigo. olhando para o agente. Von Elster! Ou mil por semana ou nada feito! Nevada abriu a boca para falar. É o proprietário do Grande Rode Sudoeste e do show Oeste Selvagem. Von Elster se interpôs. — Então ainda não soube? Ele apareceu e nós acabamos de fazer a fil-magem. se soubessem que ele acab ara com uma insígnia de xerife. Nevada — disse Pierce. — Aqui está ele. — Desculpe. você tem vinte e nove anos — disse Von Elster. — Esse aí é Nevada Smith. — Isso é verdade — disse o delegado.

rapaz — disse o preto. — Você é bom mesmo — retrucou respeitosamente. Agora. e ele acabou sendo contagiado pela animação. — Como foi que. o cavalo . mas posso perguntar o que pretende fazer agora? — Não sei ainda — disse Max. — Não há nada pessoal nisso — apressou-se em dizer o diretor. Seis horas depois jogou nos dados. à procura de diversão. apontando para o revólver de Max. diretor.. — Entendido. quando viu o cano do revólver de Max. — Acho que tenho um emprego para você — voltou a falar o jogador. — Que espécie de emprego? — Qualquer um. — Ligeiro demais. mas de confiança do diretor. e deu no que deu. Mas seu gesto se paralisou de repe nte. As ruas estavam c heias de pessoas que riam. também um condenado. rindo. tudo. faça o trabalho que lhe manda-rem e não te rá aborrecimentos comigo. chega. O jogador levou a mão ao bolso interno do paletó. — Leve esse novato e dê-lhe dez chibatadas. — Neste caso. o condenaram? — O homem que ele matou era primo dos Darcy — explicou o delegado. A voz do guarda era cordial e animadora. Isso de fato explicava tudo. Não posso mais jogar. Sou um homem justo. Max guardou o revólver no coldre. rapaz. Guardou o cavalo numa cocheira. se não se import ar em trabalhar para uma mulher. — Trata-se de uma simples me dida de precaução. Gostou da ci -dade. Eu lhe darei a primeira e você nem sentirá a s outras nove! Max havia chegado a Nova Orleans numa sexta-feira de Carnaval. — Também é bom com isso? — perguntou o jogador. . escute. Os Darcy eram gente muito importante em Nova Orlean s. menos a roupa do corpo. Como foi que se meteu nisso? — Eu havia saído do Exército e precisava de um emprego. se não estou enganado. que. — Para mim. — Parece então que foi mesmo um caso de legítima defesa — disse o diretor.. Você sempre se lembrará das chibatadas quando pensar em fazer o que não deve. apesar disso. você ainda teve muita sorte — disse o diretor. Empurrou a cadeira para trás e levantou. E eu sou ligeiro. Qualquer coisa. E ela precisava de al guém que fosse ligeiro no gatilho. — Procurar um emprego. A arma havia sido sacada tão depressa que ele nem teve tempo de perceber o movimento. O diretor chegou à porta do gabinete e gritou: — Mike! Um gigantesco guarda negro. senhores. diretor. — A verdade é que o senhor não lhe deu muita oportunidade — murmurou Max. depois de assinar os papéis e devolvê-los. Levante todo dia de manhã. Os dois saíram pelo corredor. talvez. enfiou sua cabeça pela porta. Com gado também. — Vamos. — Um homem pode morrer fazendo coisas tolas desse tipo — disse Max calmamente. A surpresa estampou-se no rosto de Max. Sei lidar muito bem com cavalos. mas não tenho muita paciência com insubordinados. Perdeu o dinheiro. — Isto é. — Não se preocupe com as chibatadas. O rosto do jogador se relaxou num sorriso. O jogador levantou-se. — Pois você é muito moço para já estar servindo de guarda-costas de uma daquelas donas ele gantes de Nova Orleans. hospedou-se num pequeno hotel e foi para o Bairr o Latino. Um dos jogadores olhou para ele e perguntou em seu macio sotaque sulista: — Desculpe. — Às ordens. e resolveu passar ali um dia ou dois antes de continuar sua viagem para o Texas.oço de um abutre. diretor. per-guntou a Max: — Que idade tem você? — Uns dezenove. — Um pouco. Vou buscar o cavalo na cocheira. — A sorte não foi muito sua amiga esta noite.

senhora — respondeu Max. Mas o cabelo é que era o mais surpreendente de tudo. vol-tou os olhos para ele. Peça para fazer seis ternos. as cortinas das janelas. O jogador disse. Tudo era branco. — Tenho certeza de que suas qualificações são satisfatórias. Ganhará cem dólares por mês. — Não se pode ficar escolhendo. Pluvier — replicou ela friamente. T ornou a andar em volta dele.. Mas pa ece um pouco sujo. a aparência é boa — continuou ela. analisando-o de todos os ângulos. já que você o recomendou. As paredes forradas de sed a. Até o grande tapete do chão era branco. muito jovem. Pluvier sorriu e voltou-se para o jogador: — Agora. — Faça o favor de me chamar de srta. sentada à pente adeira. — Senhora — disse Max. quando Max chegou ao salão após a inspeção pelas sal as de jogo que fazia todas as noites. — A senhorita Pluvier vai recebê-los agora. Meus amigos me aconselharam a cercar-me de alguma proteção. — Mas garanto que é muito capaz — disse o jogador. Lá embaixo. quase tanto quanto ele. Sand. — Parece moço demais. Jacob? — perguntou ao porteiro preto. Ela também. — Acabo de chegar da Flórida a cavalo. dos quai descontarei vinte de cama e mesa. Uma empregada negra apareceu e fez uma reverência. há muitos invejosos. Já passava das três horas da madrugada. Tenham a bondade de me acompanhar. Às vezes essas pessoas chegam a extremos no seu desejo e nos criam dif iculdades. Max deu dois pa ssos e parou de repente boquiaberto. gostaria que me fizesse o favor de levá-lo até o alfaiate. — É veterano da recente guerra com a Es panha. e a fechou logo depois que eles passaram. No dia seguinte. três pretos e três claros. chegava quase na cintura e parecia branco de tão louro. Ela levantou a mão para interrompê-lo. em tom respeitoso: — Senhorita Pluvier. — Ombros largos. senhora. naturalmente.— Trabalho é trabalho — disse Max. — E esse o homem? — perguntou uma voz macia. Caminhou até a penteadeira e perguntou: — Sabe o que terá de fazer. — murmurou. — Compreendo. sr. os caixilhos. — Ótimo — disse Max. — O meu horário será o seu. Deve usar bem as roupas. As arrumadeiras já estavam trabalhando nas s alas do andar térreo. não poderá ter relações de espécie alguma com as jovens que aqui residem. A mulher surpreendeu-o ainda mais que o quarto: bas tante alta. fez uma reverência. Quando ia saindo com ele. senhora. — Vai ser meu guarda-costas. Quadris estreitos. Max voltou-se na direção da voz. permita-me apresentar-lhe Max Sand. os móveis. Os dois a seguiram por uma comprida e graciosa escadaria. arcy já saiu? . fazendo uma reverência. Já estava indo na direção da escadaria. Foi até a porta da rua. Acho que assim tudo ficará em ordem.. o dossel de seda cintilante q ue se estendia acima da cama. Max parou na porta e olhou para a jovem. Sejam quais forem as circunstâncias. senhora. como se Max nada houvesse falado. Comprido. O meu negócio aqui é muito grande. — Sim. e. — Tudo fechado. escovando o cabelo. Nunca vira nada parecido com aquilo. Acho que serve. — Apesar de tudo. com cara de estúpido. Max e o jogador estavam sentados na sala de visitas da casa mai s elegante de Nova Orleans. Ela se aproximou e andou em volta dele. — Fechado e vigiado. Terá de viver aqui conosco. e jovem. Nossa casa goza da melhor reputação em todo o sul. — Vou tratar disso agora mesmo. de repente. A jovem examinou Max por um instante: — Olá. empregada abriu uma po rta. E claro que também fornecemos outras diversões di scretas. senhora — disse Max. mas voltou e perguntou: — O sr. A srta. temos divers as salas de jogo para cavalheiros. — Obrigado. jovem? — Não.

E naquela noite fora p articularmente desagradável quanto a is-so. Os olhos de Darcy estavam vitrificados de raiva. Pluvier — disse ele. Ma x pegou um travesseiro e o conservou à sua frente. no outro lado da casa. Max estava deitado ao lado dela na grande cama branca. Sentiu os lábios macios roçando sua pele. Eleanor. Chegou ao alto da escada. Sentiu os dedos da jovem desl izando suavemente pelo seu corpo. com os olhos esgazeados. — Bon — murmurou ela. Então ele afastou um pouco os lábios. Pouco depois. Ela notou sua aflição pelo espe lho e mandou a empregada sair do quarto. — Para vocês rirem mais um pouco de mim? Não! Desta vez. — Está tudo fechado. seu idiota! Darcy ficou olhando para ela. Toda vez que iam para a cama faziam troça de mim! — E melhor sair daqui antes que você se machuque — disse Max. que trazia na cintura. — Mas eu quero você. era você quem ficava com ela! Vocês devem ter se divertido às minhas custas todo esse tempo! Disse isso e apanhou um punhal. Acontece com todos os jovens. — Meu jovem indien está com ciúme. já disse! Darcy continuou parado. mon indien. Darcy fora seu único problema naqueles últimos meses. Não se preocupe com ele. srta. com ar de estúpido. encarando-a. A mulher saiu da cama. seus olhos se deliciando com a maravilha daquele lindo corpo. Como podia uma mulher saber tanto? De que profundas nascentes poderia brota r tamanha fonte de prazer? Prendeu a respiração. diferente de tudo que havia conhecido. "Mon coeur. A mulher imediatamente se afastou de Max e gritou dos pés da cama: — Saia já daqui. senhor. Max achou que era hora de intervir e exclamou: — Não ouviu o que a srta. — Isso não é possível. Daqui a pouco ele vai parar com isso. chéri? — Com Darcy. Max ficou ali olhando-a com a fisionomia perturbada. enquanto seus dedos continuavam a acariciá-lo. Com os olhos entreabertos podia ver a sensualidade que se es-tampava no rosto dela. — Riam de mim o tempo todo. mon chéri". que saiu prontamente da cama um instante antes de a lâmina cravar-se na colcha de cetim. Avançou para Max. O sr. Era quase insuportável aquele estranh o prazer. — Você! Enquanto eu pedia e implorava. Uma expressão de êxtase e temor invadiu o ro sto da mulher e ele fechou os olhos. e levantou a mão. Uma empregada escovava seu cabelo. reacendendo-lhe os desejos. Max estendeu a mão e lhe afagou o cabelo. a porta se escancarou e o jovem Darcy entrou no quarto. — Está preocupado com alguma coisa. Pluvier disse? Foi só então que Darcy o viu e seu rosto se encheu instantaneamente de cólera. O ra paz estava empenhado em querer dormir com a dona da casa. Houve um leve barulho na porta. enquanto recuava para a cadeira onde estavam suas roupas e o revólver. Ouviu os sons suaves do prazer q ue ela sentia. sem saber o que podia ser. Avançou para ele autoritariamente. sem a menor consciência de sua nudez. E fechou os olhos. Mas este ficou preso no travesseiro e Darcy caiu so . Ela se levantou. passou os braços pelo pescoço dele e o bei-jou. Não se preocupe. Acho que deveríamos proibir sua en-trada. — E Darcy? — Está no quarto de ouro com Eleanor. Sentiu o tremor subir-lhe bem no fundo da a lma. Já aconteceu muitas vezes. A família dele é muito importante. Vai passar a noite com a srta. Max subiu a escada. Meteu a mão no bolso e uma porção de notas se espalharam pelo chão. — Veja! Trouxe mil dólares para você — murmurou com voz de bêbado. um pouco aturdido. — Sua arma se transformou num canhão — brincou ela. apontando para a porta: — Saia. quem vai rir sou eu! Atacou de novo com o punhal. Max voltou a cabeça. As palavras sussurrantes dela chegavam-lhe aos ouvidos.— Não. Bateu numa porta e entrou. eu os instalei no quarto de ouro. Sua patroa estava sentada à p enteadeira. Sorrindo. De repente. Não me agrada a maneira como ele vem agindo.

Os seios dançavam com a exaltação que a dominava e havia um leve s uor no vale que os separava. — Esse Jim Reeves. Anne-L ouise Pluvier entregou-o calmamente à polícia. numa manhã de maiô. 10 A leste. — E só isso que fazem quando algum preso foge? — perguntou Max. ali no chão. idiota! Max olhou para ela. Deve ter pulado o muro à noite. — Não está nas cabanas? — perguntou o guarda. a oeste e ao sul a prisão fazia fronteira com um pântano junto do qual se e rguiam os ciprestes. com certeza. sentou ao lado dele. — Não se zangue com Anne-Louise. . No dia seguinte. Jim Reeves foi amarrado a um poste. Depois foi até a porta espiar o corred or. para que to dos pudessem assistir ao castigo antes de comer. — E com que ia bater nele? Com meu canhão? Ela ficou imóvel um momento olhando para ele. c ompletamente despido. recebendo a ração da manhã. ajoelhou-se ao lado de Darcy e. e ficou olhando até o guar da desaparecer na estrada. depois de tomar-lhe o pulso. para carregá-la até a cama. o enorme presidiário preto que servia como ajudan te e lhe dera as dez chibatadas no dia da chegada. quando M ax viu um dos guardas sair da prisão e tomar o caminho da aldeia. Porém. Bem. meu garanhão selvagem — sussurrou ela. Nunca fora tão bela quanto naquele momento. — Que queria que se fizesse? O homem será pego. Quando voltaram do trabalho naquela tarde. Vinha sentado num carro. Ficou esten dido no chão. Sentou para comer. enquanto caía de joelhos. o ajudante que revistava as cabanas disse a um dos guardas que um prisio-neiro chamado Jim Reeves estava ausente. deix ou cair a mão. — Nem lá nem nas latrinas. — Então fugiu. quando. que os levavam de volta à prisão para rece-berem a gratificação de dez dólares por cabeça paga pelo Estado. nos vinte anos de existência da prisão. J im Reeves voltou. Já havia se passado algum tempo desde que Max chegara ali. Max viu a arrebatadora sensualidade que se reacendera na expressão da jovem. — Que queria que eu fizesse? — perguntou ele. — Não era preciso matá-lo. ao lado do morro Na manha seguinte. — Não. Aqui mesmo. Os demais prisioneiros ficaram obser-vando em silêncio. Espere só. que foi empurrado de encontro à parede. A mulher. imóvel. apenas dois casos desses es tavam registrados. Ela s e ajoelhou diante dele. A casa toda estava em silêncio. A mulher f echou a porta silenciosamente e voltou para onde estava Max. E se amaram pela última vez. meu valente. O diretor esperou que todos os homens estivessem a postos para começar a falar. e Max sentiu seus lábios nas coxas.bre Max. Mike. O revólver disparou e uma expressão d e surpresa e dor apareceu no rosto de Darcy. encostado à parede de uma das cabanas. nua. O travesseiro havia abafado o tiro. e era ali que a maior parte dos detentos que procuravam fugir eram agarrados pelos cajuns. Já verifiquei. Hav ia uma pequena aldeia cerca de trinta quilômetros ao norte da prisão. vou dar parte ao diretor. Presumia-se que os que não tivessem sido captu-rados houvessem morrid o no pântano. O único mei o de sair de lá era pelo lado norte. através dos arrozais dos lavradores cajuns. que deixavam cair suas folhas dentro da água morta. Mas ela se-gurou-lhe os braços e o puxou para o chão. a seu lado. é um grande idiota. — O homem avançou com o punhal para me mat ar! — Devia tê-lo feito perder os sentidos apenas. Tinha razão. Os guardas arrumaram os prisioneiros em volta. — Ven ha! Ele fez menção de apanhá-la. entre dois cajuns armados com espinga rdas compridas. na hora em que estava de novo tomando a ração matinal. Estavam todos formados em fila diante da cozinha.

veria que não há uma só marca de chicote na frente de Jim Reeves. Quero que fique consciente para deplorar a insen satez do que fez. então. vi um homem levar uma surra dessas. Não havia a menor proteção do sol ou da chuva. no meio dos seus excrem entos. mas alguém tem de dar as chicotada s. — Não está com fome? — perguntou Mike. E já faço isso há mais de doze anos. jogando no chão o resto da comida. sob pena de rece ber igual castigo. e ninguém poderia falar com ele ou dar-lhe qualquer ajuda. Sei que há muita coisa errada no que faço. — Estudei um bom meio — disse Reeves. enrolou um cigarro e o acend eu. Quase parecia havê-lo acariciado delicadamente. — Sou capaz de comer a sua parte também. Sem nada dizer. — Mas só dará resultado se forem dois homens. virou-se para Mike e acrescentou: — Não q uero que ele perca os sentidos. tiro u a bolsa com fumo e papéis de cigarro do bolso. Max apanhou o prato de carne e feijão e o levou para um lado da cabana de onde não e ra possível ver a solitária. O espaço só dava para ficar agachado ou com o corpo apoiado n os pés e nas mãos como um animal. Max sentiu-se um pouco melhor depois de ouvir isso. O rosto do enorme negro estava banhado de suor. sem cuida dos médicos. Ninguém ainda morreu desde que sou eu quem dá as chicotadas. nem uma sobr e outra. mas quand o Mike puxou o instrumento de volta. nem para ficar de pé.— Todos sabem qual é a pena para uma tentativa de fuga: dez chibatadas e quinze dias de solitária por dia de ausência. Ofereceu ao preto. — Você não sabe de nada — retrucou o preto. — Não brinque comigo. O sangue corria pelas costas. Largou o prato no chão. Foi po r isso que vim procurar você. logo que vim para cá. Jim Reeves ficou pendurado no poste. determinando. A solitária era um cubículo de aço quadrado. Mesmo sujeitos c omo Jim Reeves. que não gosto de machucar os outros. Max sentou-se na cama. com pouco mais de metro e meio de cada l ado. Saíra da solitária havia um mês. em vez de ir embora des te inferno. — Sim. a continuação das chibatadas. Quando isso acontecia. Naquele momento a-proximo u-se. — Há anos. E posso muito bem ser eu. . — Também estou falando sério. o direto r mandava jogar um balde de água em cima dele para reanimá-lo. os dois se recostaram na parede da cabana e ali ficaram. inconsciente. índio. A punição continuou em ritmo cadenciado. os homens começaram a se espalhar e fizeram fila para receber a comida. nem mesmo para estender inteiramente o corpo. sem se alterar. Sem dizer uma só palavra. Mike chegou perto dele. o presidiário gritou. No instante seguinte. Os músculos de su as costas se retesaram e a língua comprida do chi-cote se enroscou levemente em to rno do corpo do detento. ele es-tava todo abe rto em feridas nas costas e na frente. — Desamarrem-no e levem-no para a solitária — ordenou o diretor. você está ajustando contas com o mundo. uma comprida fita de sangue borbulhou e sur giu à flor da pele. já sei por que você serve aqui de ajudante de guarda. Sentou no chão e começou a comer devagar. Ficaria ali com suas dores. Quando empunha aquele chicote. com uma crosta de sujeir a. Jim Reeves ali ficaria como um animal — sem roupas. fumando. Max virou o prato. A verdade é que ninguém conseguiu fugir ainda. Mike assentiu com a cabeça e avançou para o homem amarrado ao poste. — Disse isso. — Quero sair daqui! — Isso todos nós queremos — disse Max. Morreu daí a dois dias. dos ombros às coxas. Ainda em silêncio. Max ao vêlo perdeu a vontade de comer. é isso o que penso. da cama de Max e bateu em seu ombro. — Agora. pausadamente. J im Reeves urrava toda vez que o chicote lhe arrancava finas tiras de carne. Ele desmaiou três vezes antes do término daquele suplício. todo encurvado e com os olhos ferozes de um animal. na escuridão. No fim. vivendo a pão e água. Não havia espaço nem para caminhar. — Por que fez isso? — Mike ficou surpreso. Mike aceitou e enrolou um cigarro. Em silêncio. Estou falando sério. Durante trinta dias. Se você olhas se bem. Quando o tiraram do poste. Jim Reeves entrou na cabana. — É essa a sua idéia? — disse o negro.

rapaz. Mike não respondeu. não faça isso. — Economizei forças o ano int eiro para esta semana. — É melhor aproveitar. — Um bote! — exclamou Max. — Agora tenho mesmo certeza de que você é maluco — replicou Max. Max tornou a deitar. Reeves o lhou para ele e falou. O diretor costuma ceder-nos aos do nos dos arrozais e receber o dinheiro que pagam pelo nosso trabalho. sentando ao lado de Max. pensando. pular o muro e pegar a estrada. Não havia necessidade. — Passeando de um lado para outr o com o rifle na mão. e em abundância. jacarés e co-bras.. Tinha era cansaço. — Eu também pensei assim. carne de porco. O tempo da colheita de arroz vem aí.. Mike entrou. — Pois eu não estou — disse o prisioneiro ao lado de Reeves. — Estou muito cansado — disse Max. favas e batatas. o que ele quer é sair daqui. a impossibilidade de passar dois anos ali dentro. — Vi você no campo — disse Reeves. Max teria vinte e um anos. do outro lado da mesa. em dúvida. Nem puseram os cachorros atrás de mim. pelo lado da aldeia. com um brilho frio de ódio nos olhos. Max o olhou com enfado. — Não há nada neste mundo igual a uma pequena ca jun. Tem de ser pelos pântanos. com o rosto sombrio.. que doía não só por causa dos ferros mas também por ter andado dentro da água o dia inteiro. só uma coisa fazia sentido. Reeves pouco se importa com as conseqüências para os o utros. espalhadas pelos arrozais. Reeves e outro prisioneiro sentaram diante dele. — Não tem o que saber. uma verdadeira esta fa depois de colher arroz durante todo o dia. Todos os malditos cajuns saíram à minh a procura. Sem dúvida. Assim que Reeves saiu da cabana. E há sem-pre botes por lá. — Disse a verdade — exclamou com entusiasmo o outro prisioneiro. — Já escolheu alguma? — perguntou Reeves a Mike. — Sempre há uma pequena pouco certa do juízo à procura de algum negro com um membro do t . tripas. Começou a comer sem muita vontade. rapaz. Havia de sobra moças cajuns. Largou o prato e esfregou o tor-nozelo. Dali a dois anos.. Reeves. O cheiro de mulher entrava pelas narinas de les. De tudo o que Reeves dissera. isto é comida de verdade! — disse Mike. Achava que jamais conse-guiria ven cer aquele cansaço. Mostrando às pequenas o que tem dentro das calças. Mas não caia nessa asnei-ra. com saias c urtas e pernas e coxas musculosas. Começou a passar pedaços de pão no molho que ficara no prato. Era m ho-mens. Calculei então qu e em breve falaria com você. cheio de surpresa. — Como é? Veio convidar você para fugir com ele pelo pântano? — Como sabe? — perguntou Max. — E onde é que vamos arranjar um bote? — Vou dizer. Por um mês inteiro. Por melhor que o pl ano possa parecer. Mike não respondeu. Tudo foi fácil. jovens e fortes. O único meio de f ugir é pelo norte. entusiasmado diante de um prato cheio de toucinho. 11 — Homem. Ficou de olhos abertos na escuridão. Com um bote. — Já falou sobre isso com quase todo mundo e foi repelido por todos. não viam carne como a que ti-nham no p rato naquele momento.— Mas por que a mim? Por que não procura um dos homens condenados a sentenças longas? — Porque quase todos eles são homens da cidade e não durariam dois dias no pântano. Pouco lhes importava que os homens que ali estavam fossem prisioneiros. Mas ele não tinha fome. trabalhando lado a lado com os homens de cabelo solto. e foi diretamente à cama de Max. Vou me fartar o bastante para agüentar até o ano que vem. índio — disse Reeves. — Ninguém pode atravessar o pântano. — murmurou Max. Continuou calmamente a comer. com a bo-ca cheia de comida: — Já pegou alguma pequena? Max assentiu com a cabeça. Os arrozais ficam dentro da água. Mas Reeves estava insistente. São sessenta quilômetros de areias movediças. — Não sei. era muito mel hor que a comida da prisão. Quer perder ainda dois anos de sua vida aqui dentro? T em tanto tempo assim para jogar fora? — Vou pensar nisso e depois falo com você.

Max sentia o suor banhar-lhe a fronte e o coração bater com força. O guarda havia verificado os ferros que prendiam cada homem aos pés da cama. — Pouco me interessa a cara — disse outro. agora que a vela apagou. — Passe-me essa ponta de cigarro que eu quero puxar uma fumaça. A luz da vela bruxuleou e se apagou. nada mais se ouviu senão o barulho dos prisioneiros. Max ouviu alguém riscar um fósforo. Max se estendeu na cama. — Vou matar esse negro! — exclamou. deixando o b arracão às escuras. — Bem. — Vão aparecer. Por mim poderiam ir para o inferno! — vociferou outro. — Aiii! — gemeu alguém. — Não virão mais — disse alguém. Quase com displicência. m as fez força e tornou a ficar de barriga para cima. com a voz sufocada na garganta. — Quero é uma de peitos bem grandes. O que esses idiotas não compreendem é que as m . Os risos foram gerais. De repente. — Elas entrarão a qualq uer momento. Um dos homens acendera uma vela. Por um instante se contraiu. com uma voz de quem estava pres-tes a chorar. angustiado. O cigarro brilhou fracamente no rosto de Mike enquan to ele aspirava a fumaça. Mike olhou para ele. rato de prisão — disse Mike. Reeves bateu na parede e escorregou até o chão. Seu rosto já estava começando a ficar r oxo. irado.. Suas mãos se tocaram de leve. no outro extremo do barracão. que em seguida pegou o prato vazio e acrescen tou: — Vou ver se arranjo um pouco mais de comida. Max ouvia os movimentos nervos os dos homens se agitando nas camas. — Não se preocupe. — Lembre-se apenas de uma coisa. Sen tiu-se contagiado pela an-siedade geral. Seus dedos estavam trêmulos. Moveu os lábios. Mike o sacudiu mais duas ou três vezes e o jogou de encontro à parede. Pela primeira vez. — Não são mais que um punhado de fêmeas depravadas. deixara de estar cansado ou de ter vontade de dormir. sim — disse outro. — Estava gostoso de verdade! — E com você que estou falando. Max estava fumando. Agarrou Reeves pela garganta e o suspendeu no ar. ainda mato esse negro! Havia um ar de expectativa no barracão naquela noite. — Como está indo. Voltou a cabeça para onde uma leve claridade brilhava no meio da escuridão. da cama vizinha. com voz rouca: — Sua pica já deve ter esquecido o que se deve fazer. Acendeu-o e aspirou profundamente a fumaça. Olhou com decepção para o prato vazio e levantou. — Estão tão ansiosas por isso quanto nós. Max ouviu alguém dizer: — Ao menos desta vez poderemos ver a cara delas.amanho de meu braço. — E se elas não aparecerem? — perguntou alguém ansiosamente. E aposto que você está louco para enfiá-lo em alguma branca. que se a gitavam inquietos nas camas. Reeves bateu os braços desordenadamente no ar. E outro ainda. rato de prisão? Reeves estremeceu. deu uma gargalhada e saiu. sentindo o doce e forte calor do colchão invadir seu corpo. chegando à porta. Houve risos contidos aqui e ali. — Vejo que está aprendendo — disse Mike. em silêncio. Quase imediatamente. em meter nas mulheres brancas. Reeves se levantou logo que o guarda saiu. Passei dia todo pensando nesta noite. Passou cerca de meia hora. curvou-se por cima de Max. É só nisso que vocês negros pensam. mas nenhum som saiu deles. a cerca de dois metros de dis-tância. rapaz? — perguntou Mike. — Eu sou um guarda e você é um prisioneiro.. com os olhos fitos em Mike. negro — disse Reeves. Enrolou um cigarro. Juro que foi a melhor que já prov ei aqui. qu e brilhava à cabeceira de sua cama. — Não agüento mais. Durante algum tempo. empolgado por ansioso desejo. aprenda a calar o bico. Virou-se de barriga para baixo. Depoi s. rapaz — disse ele em voz baixa e tranqüilizadora. — Palavra de honra que. Pegou o costume de se servir d e sua mãozinha branca. Se quiser continuar a ter tanta saúde. — Estava falando mesmo comigo. Mike engoliu o último pedaço de pão. antes de sair daqui .

ulheres não querem vê-los do mesmo modo que não querem ser vistas. só se ouviu o barulho das bocas mastigando e das colheres batendo nos pratos. — Quer que eu fique com você? — perguntou ela. O es conderijo que ela vai arranjar é perfeito. Um intenso calor inundou suas entranhas. Max olhou espantado para ele. rapaz — disse o negro. Quando u m homem foge sozinho sempre vai pela estrada. — Como sabe que fugiremos pelo pântano? — perguntou Max. — Não sei ainda se vou. — Por favor. — A primeira coisa que o diretor faz é soltar o s cachorros. Prometi que a leva ria para Nova Orleans se ela me ajudasse a fugir. Já pôs isso na cabeça — disse Mike. de repente. — Não me obrigue a fazer nada contra você. Max olhou para ele e sorriu. mas sou prisi oneiro como vocês e não alcagüete. E essa a regra. você será sempre meu amigo. — Você é jovem ou velho? —: perguntou uma voz sussurrante. — Jovem. Quero ser seu amigo. Essas pequenas cajuns são todas a mesma oisa. a porta do barracão se abriu e as mulheres foram entrando em s ilêncio. agradecido. Como se viesse de uma grande distância. Max virou o rosto para a mulher. Posso ser ajudante de guarda. muito obrigado. Como Mike podia saber o que ele ainda não sabia? . Como poderia dizer àquela mulher. — Obrigado. — Já sabia disso? — Não há segredos num lugar como este. — Estava querendo falar com você — disse —. até mesmo o rumor de seus passos era quase im-perceptível. o que estava sentindo? Como poderia dizer que ela trouxera gentileza e amor para ele? — Obrigado — ele sussurrou. — Você vai fugir. A mulher pegou sua mão e a levou a seu rosto. Colocou a mão no ombro do preto e disse com sincerida de: — Aconteça o que acontecer. Está tudo combinado. — O quê? — Fale mais baixo. rapaz — disse Mike. Max ficou observando-o. — Trinta dias de solitária são muito mais compridos que o ano e meio que lhe falta. Max continuou a fumar em silêncio. — Você vai fugir com Reeves agora que ele tem o bote? — perguntou Mike. Naquela noite. Está tudo certo. o pântano resolverá. Dois sempre vão pelo pântano. va i? — Você nem devia dizer uma coisa dessas. Durante muito temp o. — Você não vai dizer ao diretor. não fuja. — Mas talvez a gente consiga fugir. sentiu que as lágrimas lhe rolav am pelas faces e compreendeu que ela também ouvira. minha querida esposa. — Não conseguirão — disse Mike. O bote estará lá. mas tive de esperar um momento em que aquele maldito negro não estivesse por perto. Mas não podia ver senão sombras deslizando e se perdendo na escuridão. confuso. — Como sabe? — Arranjei com minha pequena. Fechou os olhos. Vai ficar naquele bosquezinho de ciprestes a o sul da prisão um dia depois de nós vol-tarmos. esperando poder ver alguma coisa da que iria para ele. Mike sentou ao lado de Max. — Quero. Se os cachorros não resolverem o caso. Uma mão lhe tocou o rosto e ele teve um sobressalto. Sentiu os lábios dela tremerem debaixo de seus dedos. Max acariciou aquele rosto macio e quente. levantando e afastando-se devagar . tristemente. que nem podia ver. Quando a beijou. Por um momento. você vai ver. Ficaremos lá até desistirem das buscas. Já ar-ranjei um bote. Max. — Tem certeza de que ela não está enganando você? — Claro que tenho. No quarto dia de trabalho nos arrozais. Um instante depois. na hora da comida. Reeves chegou perto dele. — Escute. ouviu um homem dizer baixinho: — Querida. Ela subiu rapidamente para a cama e Max enterrou a cabeça no macio seio da mulher. O diretor vai saber de tudo por sua conta. Max virou-se na cama. Nem sabe a falta que tenho sentido de você.

Não olhou para trás. Vou deixar que me peguem. já teríamos sido agarrados. que compreendeu como Mike estava certo. Ali ficou imóvel durante quase quinze minutos até ver uma sombra indistinta passando no fundo da água. Que adianta ter andado tanto para depois voltar e ficar preso na solitária? Vamos! Já descansamos bastante. entrou na água. Quando tirou a lança da água trazia espetado nela um grande bagre. andando dentro da água. lembrou-se do ódio feroz que havia no coração de Reeves e deixou de ter pena de le. Estava quase escuro quando encontraram outra eleva-ção de te rra. — Se estivéssemos andando em círculo. Vamos! Dizendo isso. — Estou para ficar maluco de tanto mosquito me picando. . Prendeu a respiração. Alcançaram uma espécie de ilhota de terra mais firme no meio do pântano e pararam par a descansar. — Pouco me importa — disse Reeves com raiva. só engolindo um pouco de cada v ez. que lhes chegava até a cintura. agiu com rapidez. Em seguida. — Acenda um fogo — disse Reeves. mas eu não. As roupas estavam em far-rapos. Não posso comer peixe cru. Reeves começou a procurar entre os ciprestes. depois de pular o muro e correr como um louco até o bo sque de ciprestes com Reeves. e murmurou desc onsolado: — Estão molhados. Ao longe. Max. Ele devia saber o que estava fazendo. sacudiu a cabeça. voltando para junto de Reeves. D epois. Não conseguiu. mergulhado até os joelhos na água escura e estagnada do pântano. — Não sou índio como você. esfregando dois paus juntos. A carne era esponjosa e oleosa. Podemos andar mais uns dois quilômetros . Meteu a mão no bolso e tentou riscar um fósforo. Talvez seja também porque eu não me coço. que já estava mastigando um pedaço de peixe.Mas foi só na noite seguinte. com os lábios inchados: — Estão chegando mais perto. que continuava a comer tranqüilo o peixe. 12 Seguiram por entre os caniços. Vamos. Agachou-se ao lado dele e começou a tirar o couro do peixe. — Aquela cadela! Aquela cajun mentirosa e ordinária! Não havia bote algum ali. e esperou que o vulto chegasse mais perto. — Vamos comer este assado. — Não podemos passar a noite aqui? — Nada disso. Reeves estendeu-se no chão. Estavam ofegantes e respiravam em grandes haustos. Reeves enxotou os insetos em torno da cabeça e disse. No mom ento exato. — Como? — Do jeito dos índios. O rosto de Reeves estava todo infla-mado e deforma do pelas picadas dos insetos. Ainda temos duas horas de luz. — Você pode fazer isso. entrou na água. Andou por ali colhendo gravetos até juntar o suficiente para fazer uma pequena fog ueira. — Pegamos um bem grande desta vez — disse. — Não agüento mais — disse Reeves. — Como sabe que não estamos andando em círculo? — perguntou a Max. levantando. Max tirou a faca e cortou uma vara forte de caniço. Max olhou para ele e por um momento quase teve pena. — Sim? — disse Max. — Talvez seja isso. Até que começou a praguejar. Max olhou para o companheiro. — Três dias já se passaram e ainda não vimos nada. ouviu Reeves fazendo a mesma coisa. Por que é que você não se incomoda com os mosquitos? Talvez não gostem de s eu sangue índio. — Escute aqui. ouviam -se latidos de cachorros. — Você podia fazer um fogo — disse Reeves. mas ele mastigava cada pedaço demoradamente. mas um momento depois. — Sente-se a léguas de distância o cheiro de um fogo.

Suspirou distraidamente. cuspiu fora. Com o pé. Max olhou para o céu. Reeves continuava a tremer convulsivamente debaixo do cobertor de relva do pântano e a gemer por entre os dentes que batiam. — Você é um tolo. Não é tão ruim assim se você mastigar muito. rapaz. Não valia grande coisa. E ficarão satisfeitos quando pegarem Ree ves. — Apague esse fogo. Tornou a ouvir o barulho. se sentiu tomado de cansaço. Max ficou um instante indeciso. era grande. — Que quer dizer com isso? — Vá embora! — E o resto da patrulha? — Vão levar umas duas horas para chegar aqui. mais forte dessa vez. — O diretor tinha razão. — Não posso comer isso! — exclamou. . Fosse o que fos se. com os olhos voltados para o pântano. Vou cobri-lo com um pouco de mato para você não sentir frio. — Fugimos juntos — disse Max calmamente — e é justo voltarmos juntos. Reeves se estendeu no chão e Max tocou seu rosto. rapaz? Max parou e virou-se ao ouvir a voz de Mike. Max entrou no pântano e começou a an-dar na direção da prisão. — Mas eu tinha de esperar. Tudo estava perdido e. Reeves pegou o peixe.— Não dará resultado — disse Max. Mike. Mike então pegou Reeves como se fo sse uma criança e o botou no ombro. — Tem razão. — O fim do pântano fica a coisa de quarenta quilômetros nesta direção — continuou Mike. mas era a única arma de que dispun ha. Reeves ser atacado de malária naquela hora iria complicar muito as coisas. — Está bem. Coma um edaço do peixe. Estava ardendo em febre. Um barulho estranho foi registrado no subconsciente e ele a-cordou instantaneamente. com o rifle nos braços. Max tra tou de juntar mato para fazer de algum modo um cobertor. — Toda a madeira por aqui está muito úmida. O rosto de Reeves estava cheio de gotas de suor e el e começava a tre-mer. — Esse fogo está gostoso. Apontou para o homem doente. — Devia ter juízo bastante para não acender fogo aqui. Um momento depois. — Mas é diferente se pegarem você me ajudando. Max levantou-se. com os olhos no chão. Agarrou sua lança de pesca e agachou-se. a estas horas estaria bem longe daqui. Cruzou os braços sobre o peito e disse tremendo um p ouco: — Como está ficando frio aqui! Max sabia que não era o frio. Reeves. Ficou imaginando quanto tempo os g uardas levariam ainda para alcançá-los. — Que mais eu podia fazer? — Ele no seu lugar não teria esperado. — Você é mais idiota do que eu pensava. rindo. Mike. Não sou mais prisioneiro. — Você não pode fazer isso. Ouviu de novo o barulho. rapaz — disse Mike numa voz resignada. — Para onde vai. A noite estava ch egando quase ao fim. Tomou a melhor po si-ção para arremessar a lança. tirou um fósforo de uma bolsa bem fechada de oleado e acendeu um fogo. Calculou que Reeves cairia doente a o fim de três dias no pântano. Mas você não devia ter esperado. — Está certo — murmurou Mike. E isso quer dizer que posso ir para onde eu qui ser sem ter que dar satisfação a ninguém. Se fosse ele. Foi então que Mike apareceu ao lado dele. rapaz — disse a Max. balançando levemente o corpo. e começou a mastigar. Max jogou o resto do fogo dentro da água. Cochilou sentado. — Ele pegou a febre. agachou-se ao lado de Max. Você oficialmente nem é mais prisioneiro. rapaz. Mike sentou-se junto ao fogo e aqueceu as mãos. — Deite-se. Depois de alguma hesitação. — Talvez seja melhor você ir andando agora — disse o negro. Depois murmu rou: — Não posso fazer uma coisa dessas. então. apon tando para o outro lado.

Três anos e meio antes. e começou a andar a seu lado. E assim ruma ram para o Texas. Nenhum deles fora identificado e haviam sido considerados desconhecidos . Max olhou para Mike e o negro assentiu com a cabeça. Quando saí-ram. e então pensaremos em cavalos. O que eu sei é que não quero pegar no chicote para ba ter em você.— Se nos pegarem. Mas tinham tid o sorte. Estenderam-se no chão firme e seco. — Se é uma cidade. Daí a menos de dois anos se transformara no mais importante homem do lugar. Depois de mais quatro dias. Aquela ca ra não era mais de garoto. Pouco depois. seremos pegos. — Isso está encerrado para nós — disse Reeves. sabe disso. o povo começou a se acostumar com o fato de Reeves ser o banqueiro da . Não podemos facilitar. Max pagou com um dólar de prata e saiu. — Poderemos conseguir alguma comida que valha a pe na. — Contei dois bancos no caminh o até aqui. 13 Max entrou em Fort Worth para esperar o trem que traria de Nova Orleans a filha de Jim Reeves. procurando res pirar profundamente. cento e quinze quilôme tros ao sul de Fort Worth. Reeves achou a ocupação honesta que procurava numa cidadezinha. Fundou um banco num canto do saloon e. As oportunidades aqui são grandes. Ao lon-ge. pouco depois. Mike saiu de onde estava. segurando-o pelo braço e o impedindo de levantar. — Foi o erro que cometi da outra vez — disse Reeves. — Seguirão o nosso ras ro a cavalo muito mais depressa que a pé. Sentou-se na cadeira do barbeiro e mirou-se no espelho. Max levantou a cabeça. Deixavam para trás dois bancos roubados e dois mortos. — O trem já deve estar chegando — disse Max — e nós podemos ir para a estação. Vamos ficar longe da estrada durante uns dois ou três dias. Max perguntou: — Por quê? Parecem fáceis. — Parece uma boa cidade — disse Max. haviam chegado a Fort Worth com sete mil dólares nos alforje s das selas. Ainda estava amarelo pelo acesso de febre que já havia passado. Pode ser que estejam à nossa espera. viu um pouco de fumaça no hor izonte. animado. estavam todos de roupa nova. Já se falava até de sua eleição para pre feito. começou a comprar terras. da cadeira onde estava sentado no quarto do hotel barato. A terra é ba rata e o Texas está crescendo. fez reformas na casa e se mudou dos ap osentos que ocupava no andar de cima do sa¬loon. Atacaram o armazém às duas da mad rugada. rouba ram um banco numa cidadezinha e conseguiram mil e oitocentos dólares. Um saloon e uma casa de jogo. Ao vê-lo. — Quanto devo? — Meio dólar pelo cabelo e vinte e cinco cents pela barba aparada. A barba preta lhe escondia os ossos malares proeminente s. entusiasticamente. Dois dias mais tarde haviam arranjado cavalos. Vamos assaltá-lo esta noite. — Vê-se logo que é um índio — disse Reeves sarcasticamente. rapaz? Oito dias depois saíram do pântano. deve haver um a rmazém. Max se levantou da cadeira. — Calma — disse Reeves. bem armados e com quase dezoi to dólares que haviam retirado da gaveta do caixa. Em meno s de um ano. transferiu o banco para um pequeno edifício na rua principal e deixou Max dirigindo o saloon. Nem pare-cia mais um índio. Max queria roubar três cavalos da cocheira. — Não parei quando chegou a hora de parar. Somos amigos mesmo. — Vamos procurar alguma coisa honesta. — Há uma cidade ali — disse. Comprou um pequeno rancho fora da cidade. — E o que vamos fazer? — perguntou Max. encostad o à parede de uma casa.

— Pap ai vive tão ocupado que há dez anos não aparece em casa. Max colocou as mãos em seus ombros e disse com voz rouca: — Betty. Dirigiram-se para a moça e Max tirou seu chapéu Stetson. Não mudei nada de ontem para hoje. A filha de Reeves foi atender e ele notou que ela estava com o rosto cansado e vermelho. — Agora já sabe — insistiu ele. Olhava de um lado para outro da plataforma. Foi diretamente para o banco na cidade e entrou na sala dos fundos. avisando que a filha chegaria a Fort Worth no dia 5 de março. E assim começou a enriquecer. asperamente. cheio de curiosidade. — Há um quarto à sua disposição no Palace Hotel. Max encolheu os om-bros. o medo que havia na voz da moça era tão pronunciado que Max não poderia dei xar de perceber. e murmurou: — Não é preciso ter medo de mim! Ela escapuliu de suas mãos e repetiu: — Não toque em mim! Dessa vez. Betty? — perguntou ele. . Max estava apaixo-nado pela prim eira vez na vida. E não me pergunte mais nada. — Srta. sim.. e só começaremos a manhã.cidade. Mandou um telegrama e recebeu ou tro em resposta. Mand ou fazer investigações discretas em Nova Orleans. A moça afastou-se e perguntou sem encará-lo: — Por que não me disse que era um homem fugido da prisão? — Isso faria alguma diferença. A viagem para casa leva uns dois dias. Pouco a pouco. — Eu nunca teria deixado as coisas chega rem a esse ponto se soubesse a verdade. gentilmente. — Ah. — murmurou ela. — Acha que tem importância? — Tem. — Que foi que houve? — perguntou. como se houvesse chorado. Ela ficou calada e imóvel. Soube que a mulher tinha morrido e que sua filha estava vivendo com a família da mãe. Precisava de mai s uma coisa apenas para completar sua máscara de respeitabilidade.. e não mais o dono do saloon. você é me tem sangue de índio! — E só por isso você deixou de me amar? — Não sei. disse: — Não toque em mim! Max a encarou. com uma ponta de tristeza. Sem dizer mais nada. — Vamos — disse ele. Reeves? Um sorriso de alívio iluminou o rosto da jovem. Pode arrum r-se e dormir lá esta noite. — Que história é essa? Isso são maneiras de entrar aqui? — interpelou-o. Uma família. — Claro que sim — respondeu ela. é você! — disse ela em voz baixa. Max retribuiu o sorriso. — Entre. Vinte minutos depois. os passageiros foram saindo até que só ficou uma moça. — Sou Max Sand. tentando segurar-lhe a mão.. quando chegaram ao hotel. — Só sei o que Jim me disse. — Você sabe como ela é? — perguntou Mike. — Muito prazer em conhecê-lo — disse ela. Max amarrou o cavalo em frente à casa do rancho de Reeves. Seu pai mandou-me vir esperá-la. afastando-se dele. Max compreendeu que ela não sabia que o pai tinha estado na prisão. Max olhava da plataforma os passageiros que desembarcavam. depois de um longo silêncio. mas também porque você. — Eu de certo modo já esperava por isso — replicou ela. deu-lhe as costas e saiu da casa. O banqueiro o olhou por trás de sua escrivaninha de tampa corrediça. Depois. friamente. — Acha que é ela? — perguntou Mike. Estou tão confusa! — O que mais seu pai lhe disse? — Disse que eu não posso casar com você. rodeada de várias maletas e uma mala. ontem à noite você me beijou e jurou que me amava. não sei. e faz dez anos que ele não a vê. — Já estava até pensando que papai não havia recebi o meu telegrama. Subiu os degraus da var anda da casa e bateu na porta. onde ficava o gabinete de Ree-ves.. Não só por isso.

— Roubou? — replicou Max. — Francamente. Deu um grito de terror ao sentir de novo o chicote rasgar-lhe a carne. brandindo o terrível chicote. — Reviste-o — exclamou Reeves. Reeves. pois isso serviria apenas para piorar a situação. passamos por muita coisa j untos. cantarolando baixinho. — Não vou discutir com você — disse Reeves. — Deve ser cúm plice nesse roubo. — Ainda deve ter nos bolsos o dinheiro que me roubou. Ia tão engolfa do nesses pensamentos que nem ouviu o estalar do chicote de Mike. levantou-se num esforço desesperado e tentou c orrer. Reeves olhou para Max estendido no chão e disse: — Eu devia saber que não se pode confiar num mestiço! — Peguem-no. Pensei que fosse mais inteligente. O xerife e dois ajudantes avançavam para ele de a rmas em punho. Reeves ia a cavalo pela estrada. quando ouviu às suas costas alguém gritar-lhe qu e parasse.— Não venha com lorotas para cima de mim. — Está mesmo resolvido? — Estou. Max não se atrever ia a falar. — Vai levar o negro também? — Vou. mas outra chicotada fez a arma voar longe. Na noite passada ela havia prometido casar comigo. Começou a rastejar de quatro. Mike viu o xerife olhar para o saloon e dirigir-se para o mesmo. — Esse homem está louco! Esse dinheiro é meu. antes de poder alcançá-lo. A minha parte só nisso é de dois mil e tre zentos dólares e não estamos perdendo dinheiro na casa de jogos. Desceu pela escada dos fundos e desapareceu da cidade. — E quanto você esperava? — Chegamos a Fort Worth com sete mil dólares. Jogou-as na frente de Max: — Pronto! Max contou o dinheiro e olhou para Reeves. — Afaste a mão de seu revólver — ordenou o xerife. Reeves recostou-se na cadeira e riu. — Convém passar pelo saloon e levar também o negro amigo dele — disse Reeves. avançando cheio de precaução. que o derrubou do cavalo. Ele me devia e me pagou. — Nada mais importa agora. E o negro desaparecera . xerife? — perguntou Max. Mas. — Não disse? — Canalha. é isso que vai re-ceber. Você já me apron-tou uma boa com Betty . Não esperou mais nada. Vou embora. — O que há. Foi exatamente nesse momento que Mike chegou à janela do quarto do saloon e viu o que estava acontecendo. Reeves estava com eles. no mínimo. fez Reeves cair de n ovo. filho da puta! — exclamou Max. Max. e levem-no para a cadeia. Pela primeira vez se sentia em segurança. rapazes — disse o xerife aos ajudantes —. Você deve a mim e a M ike. Reeves. Contou o dinheiro em cima da escrivaninha. — Viu? — gritou Reeves. guardou-as no b olso e comentou: — Nunca pensei que fosse capaz de pagar com tanta facilidade. pegando-o pelas pernas. — É só isso? — Para mim chega. Já estava na rua a caminho do saloon. . Meteu a mão bolso de Max e tirou um punhado de notas. Só mesmo um negro para fugir assim quando as coisas ficavam difíceis. Mike avançou lentamente e. — Afinal de contas. explodindo finalmente e avançando para Reeve s. cinco mil dólares. Reeves virou-se no chão e viu o braço de Mike levantar-se ao mesmo tempo que a longa cobra do chicote se de-senroscava. — Só há quinhentos dólares aqui. Conseguiu levantar-se e levou a mão ao revólver. Reeves virou a cadeira e tirou algumas notas do cofre às suas costas. Mas só depois de você pagar a nossa parte. Voltou-se lentamente. Estava muito contente. Se é esse o seu cálculo. o xerife o atingiu com uma coronhada na cabeça. Max apanhou as notas. Voltava para seu rancho.

— Quem faz as leis aqui? — perguntou ele calmamente ao homem do bar. as pequenas mais caras. Seis quilômetros além da fronteira e a Justiça não podia fazer mais nada. O americano nem levantou os olhos para ele. O homem agradeceu e voltou ao bar.Bem cedo. teria compreendido que uma das razõe s de seu insucesso fora o fato de o povo não querer tanto quanto ele pretendia lhe dar. — Saia daqui com seu negro — insistiu o grandalhão. Juárez teria gostado daquele homem. cansados e cobertos de poeira da viage m. haviam sentado à mesma mesa. como agora. O xerife e os ajudantes aproximaram-se do corpo e ficaram olhando. antes de morrer. — O alcalde diz que meu amigo pode ficar — advertiu. — Todos os que tiverem di-nheiro para pagar têm d ireito a entrar aqui. Sentaram à mesa perto da porta e o menor pediu tequila. era sinal de que partiriam daí a pouco. quando um grandalhão que estava bebendo no balcão se aproximou deles e falou ao mais baixo. O melhor uísque . Os olhos dele surpreenderam o alcalde. queriam tudo do melhor. estariam saindo do l ugar. Quando começavam a beber tequila. com um traço de sotaque cubano. Eram de um az ul muito escuro. o xerife e seus dois ajudantes encontraram um corpo e stendido na beira da es-trada. senor? — De modo algum — respondeu o alcalde.. Falou em espanhol. Depois. o uísque. Voltou então o pensamento para os americanos. O negro fez menção de levantar. O copo despedaçou-se no chão e um silêncio de morte se fez sobre a cantina. O sangue índio que o jefe tinha sempre lhe mostrava quais eram os homens g uerreiros. os melhores quartos. Encarou-os por um momento e então vo ltou para o balcão. o fez continuar sentado. mesmo que p agando quatro vezes mais do que valia. o dinheiro ia acabando e começavam a reduzir as despesas. mas o outro. Foi só quando o americano levantou para ir até o balcão que o alcalde viu que ele não er a pequeno como havia jul-gado. três anos antes. — Era Reeves — disse o xerife. 14 O nome da aldeia em espanhol era muito comprido e difícil de pronunciar para os am ericanos. Olhou de novo par a o americano que havia pedido a bebida. ou quando se estava cansado de dormir na planície fria e de comer carne e feijão numa lata de co nserva. com um olhar. de modo que eles logo lhe deram um nome particular. A única coisa que eu conheço capaz de deixar u m homem nesse estado é um daqueles chicotes compridos que se usam nas prisões de Lou isiana. Deu um suspiro. Um deles tiro u o chapéu e enxugou o suor frio que lhe cobria a testa. dispensav am as mulheres e.. Começou a beber. . perto da entrada. Pobre Juárez! Queria dar tantas coisas ao povo e tinha conseguido tão pou co! Nunca saberia se o jefe. Dentro em pouco. Hideout (Esconderi jo). recordando a primeira vez que os vira. Era assim a vida. O alcalde estava sentado a uma mesa nos fundos do saloon e viu os dois americano s entrarem. sem dar a menor atenção ao outro: — Não admitimos negros aqui neste saloon. Mu-davam-se para um quarto mais barato. — Engraçado. Era com interesse que o alcalde os olhava. Pegou o copo e bebeu o resto de sua tequila. O americano caminhou para lá. pensando em sua mocidade. Logo que chegavam. Durante a noite. Bateu nas costas do grandalhão. Havia nele alguma coisa que tinha chama do sua atenção. — Parece que é o banqueiro Reeves. Então. Haviam chegado à cantina sem fazer barulho. Era um lugar seguro para ficar quando não se tinha para onde ir. — Aquele mal-educado disse a verdade. por último. depois o dele. — O alcalde. na manhã seguinte. Era também o único lugar do México onde se podia conseguir uísque americano. Encheu primeiro o copo de seu amigo. alguém havia arrebentado as grades da única cela da prisão e Max fugira. Garrafa e copos já estavam na mesa. Era sempre assim. Só em comparação com o negro é que parecia pequeno. senor — o homem do bar apontou para a mesa do fundo.

agora vai ter de ficar junto com um negro morto! — gr itou. puxando o revólver. Depois virou-se de costas calmamente e voltou para sua mesa. Charlie encheu os copos e eles beberam. — Parece coisa boa — disse Max. e levar ali u ma vida diferente. Enchem os barris com ele e mandam tudo para o leste. — Talvez dê para umas três semanas — respondeu Mike. depois de pensar um pouco. Talvez depois disso pudéssemos ir pa ra a Califórnia ou para Nevada. Mike. — Se você gosta tanto de negros. — Estava. quando o americano zangado avançou para ele. O americano intrometido estava estendido no chão. Não eram como os outros que apareciam na a ldeia. Quando me vêem. Nesse momento. nem para outro lugar d aquela terra? Max bebeu a tequila e mordeu um pedaço de limão. carregando um gran de cartaz com seu nome escrito! — Está querendo livrar-se de mim. Quase três anos depois. Várias vezes por ano. — Talvez. tomando mais um gole de tequila e c hupando outra rodela de limão. Teve toda razão. Como o dinheiro acaba depressa neste lugar! — Acaba. Aquela vida não tinha encantos para eles. mas num instante o revólver apareceu em sua mão com a fumaça saindo do cano e o eco de um tiro morrendo n as paredes da cantina. mesmo. c omo se tivesse vida própria. Estava sentado. Havia ocasiões em que sentia pena deles. os dois amigos desapareciam e voltavam semanas ou meses depo is. Estão procuran o por nós dois.— E quem se importa com o que um velho imundo diz? Só porque estamos do outro lado d a fronteira. o alcalde ainda se lembrava perfeitamente de tudo. bebe comigo. — Fizemos um trato de ficar juntos. sem preci sar mais fugir. — Lembra-se de eu haver dito na última vez que nos vimos que estavam tirando petróleo no Texas? Decidi passar por lá para v er como eram as coisas. — Qual é o serviço? — perguntou Max. — Essa tequila vai ac ender uma fornalha no estômago de vocês. iremos par a a Califórnia. Parecia até que o revólver é que pulava para a mão dele. a porta se abriu e apareceu um enorme cow-boy ruivo. juntos. dorme comigo e não vai sair daqui — disse ele. O homem era mal-educado e inoportuno. E agora estavam outra vez bebendo tequila. aproximando-se dele por sobre a mesa. O americano deu a impressão de não ter feito qualquer movimento. que se aprox imou da mesa deles e deixou-se cair numa cadeira vazia. c om voz fria. — Quanto ainda temos? — perguntou a Mike. cada vez mais profunda. uma garrafa de uísque! O homem do bar trouxe o uísque e os copos. não é? — Max sorriu. — O que devíamos fazer é dar um grande golpe. dan do à boca uma sensação de limpeza e frescura. Mas a solução não é dar um golpe. O petróleo custa muito car o e os bancos de lá estão cheios da grana. sozinho. pe rto do balcão. O sumo ácido lhe chegou à garganta. — Qual é a jogada? . É bom demais para ser des perdiçado. Charlie? — perguntou Max. baixando a voz. o uísque. rindo. Mas sempre o alcalde percebia neles uma solidão crescente. morto. — Que veio fazer aqui. — Pensei que estivesse a caminho de R eno. — Não tem importância. as mulheres. E como era ligeiro com uma arma. — O velho Charlie Dobbs chegou mesmo na hora — disse ele. — Peço desculpas pelo que provocamos contra a hospitalidade de sua encantadora vila — disse o americano ao alcalde. ca ramba! Nunca vira nada igual. O ameri cano tinha a elegância natural de uma pantera. Se conseguirmos bastante desta vez. é como se eu o denunciasse. Garçom. Mas deparei com a o maior lance que já vi na vida. — Um banco novo — disse Charlie. Temos é de nos separar. Max. — Meu amigo come comigo. Ca va-se um poço bem fundo na terra e em vez de água sai o óleo preto que chamam de petróle o. Juárez teria tido orgulho de um homem assim. isso não quer dizer que se tenha de beber em companhia de negros. O petróleo é uma das coisas mais malucas que já apareceram. E a cada vez traziam dinheiro para pagar os quartos. num lugar onde ninguém nos conhecesse. você possa assentar num lugar e viver uma vida direita. Quantas vezes ainda sairiam assim até o dia em que nunca mais voltassem? Nem para aquela aldeia.

— Por mim. Ao sair deu uma olhada para Max. — Cinqüenta mil dólares! — exclamou Charlie. No momento em que a porta se abriu. — Não pense mais nisso. Acho que eu devia procurar saber quem é ele. Ed — disse Charlie. — Não falei que este é um lugar cheio de dinhe iro? Dirigiu-se para o balcão e aproximou-se de um homem que estava ali sozinho. Tem medo de tiros? — Não. Ed e Char lie estavam à espera. Temos de partir amanhã. Max ficou olhando para o homem até vê-lo desaparecer na rua. O encontro será nos fundos do ba nco às nove e meia em ponto. — Quanto acha que conseguiremos. Podemos esperá-los e. — Eu disse que precisávamos de quatro homens — exclamou ele. mas não pôde lembrar-se de onde. — Atenção! — murmurou Ed. Amanhã. dando um assobio. Ed? — perguntou Charlie. Ed despediu-se. encolhendo os ombros. disse a Charlie : — Esse homem. sexta-feira. . Depois de dizer isso. Do outro lado da porta. quando estiverem saind o. O resto é p ara dividir entre nós. poderão abrir o cofre para nós e não será prec iso arrombá-lo. Max viu dois olhos miúdos. balan-çando a cabeça. Max teve a impressão d e que o conhecia. Já tinha dado alguns passos. inexpressivos. — Que foi que eu disse? — murmurou Charlie. — Foi uma longa cavalgada. — Para quando é o serviço? — Logo depois do Ano Novo. — Iremos para lá um de cada vez. jogando uma moeda em cima do balcão. o presidente e o caixa do ba nco traba-lham até tarde para preparar as folhas de pagamento do pessoal dos poços. O banco tem recebido um bocado de dinheiro para novas p erfurações. Chegaram na hora. Geralmente acabam o serviço às dez horas. — Está bem. — Como você demorou a voltar! — disse o homem em voz baixa. — É justo. As mesas de jogo estavam atopetadas de gente. — Há outro homem. Vá encontrar-se comigo lá fora — disse Ed. O homem estava à espera deles na rua. — Está bem. 15 Max entrou no saloon atrás de Charlie Dobbs. Já se podia ouvir a voz dos dois homens prontos para sair. — Está esperando fora da cidade. — Que acha. para não chamar a atenção. Mike? Mike concordou. quando se volto u e perguntou a Max: — Já não o conheço de algum lugar? — Sei lá — disse Max. — Lá vêm eles! Max se encolheu todo na parede perto da porta. está certo — disse Charlie. Dessa maneira. Afinal. — Mas também tenho a impressão de que já o vi não i onde. todos avançaram empurrando-a para dentro com t oda a força. nós os forçaremos a voltar. Levei duas semanas para chegar aqui. mas quero saber todos os detalhes. Talvez mais. que Mike já deve estar inquieto sem saber o que está acon tecendo. Quer a metade. O homem parecia andar perto dos cinqüenta e tinha um bigode amare-lado que lhe caía dos cantos da boca. Max? — Eles costumam andar armados? — Com certeza. Havia gente se acotovel ando à espera de um lugar para jogar. — Cinqüenta mil dólares. Estava apinhado de tra-balhadores e d e cowboys. nervosamente. à noite. Charlie riu. O que você acha. com voz rouca. Vamos.— Um homem do lugar conseguiu o serviço e precisa de ajuda. Ed. Seguiu na frente e levou-os para um beco esc uro entre dois prédios.

soluçando. Max se ajoelhou ao lado do homem e levantou-lhe a cabeça. Fechou os olhos .— O que é isso? O que está acontecendo? — exclamou alguém. Max foi até a porta e olhou. — Vá verificar a porta da frente! — ordenou Ed. a ponto de desmaiar. Ao trabalho! — Ed retrucou. murmurava. Ed voltou-se para Max. Gordon era a única pessoa. que é o presidente. estendido no chão. ele não poderá abrir o cofre. abra o cofre! O homem. — Meu Deus — exclamou o outro homem. — Talvez. Ed estava ajoelhado em frente à estufa. — Há cin-qüenta mil dólares naque e cofre. Ed chegou perto dele. O sr. não sei o segredo — disse o homem. Se nós o mat os. Ouviu-se então o som abafado de uma pancada e o baque de um corpo no chão. Olhava para o companheiro estendido no chão com expressão de horror. pode dar o fora! — disse Ed. Ed deu-lhe mais dois socos no rosto. E eu vou pegá-los! Max já estava voltando para a porta da frente. Tom Dort e eu aplicam os esse tratamento num velho caçador de búfalos e na índia que vivia com ele. — Mas não posso. — Não adianta. A rua estava deserta e tranqüila. Você bateu com muita força. mas parou no meio do caminho ao ouv ir a voz de Ed: — Isso dá resultado. — Ninguém — disse ele. surpre-so. Max voltou à sala. Ed? — Quando este ferro em brasa estiver perto dos olhos dele. Quando Ed levantou o pé para acertá-lo novamente. O homem devia ter quase sessenta anos. sim! Há uns dez ou doze anos. Ed correu para a gaveta. Max sentiu um aperto no estômago e encostou-se à parede para não cair.. Ficou ali. Depois de amarrar o empregado do banco. A rua continuava quieta e deserta. — Espere um pouco — disse Charlie. Vá olhar de novo a porta. dirá tudo o que sabe. Gordon. é o único que sabe o segredo do ofre. Convenceu-se logo da ver dade. revolvendo um atiçador no m eio dos carvões acesos. Max largou o homem no chão. — Então aprenda! — Ed deu-lhe um soco. de volta. voltando-se para o sujeito do banco: — Abra o cofre . — Acorde-o. não sei. Max pegou o homem desacordado pelos ombros e o arrastou até os fundos do banco. Fique com ele s e não me bata mais. alarmado. — Fique de bico calado se quer continuar vivo — disse Ed ao outro homem. Mas isso é o que vamos apurar já. — Há ali dentro daquela gaveta quatro mil dólares. — Amarre esse patife naquela cadeira — disse Ed na sala dos fundos. e ordenou: — Vamos com eles para a sala dos fun-dos. de ol hos bem abertos. Ed olhou para ele com desprezo. que enfiou no bolso. — O sr. — Aí é que está o problema. Max bateu-lhe no ombro. Não sei qual é o segredo do cofre. Al guém riscou um fósforo e acendeu um candeeiro. — Não posso — disse ele. — Se não gosta disso... Os jovens de hoje são muito cheios de contemplações. — Se acha que o homem está men-tindo. — Acho que você vai ter de abrir o cofre de uma maneira ou de outra. não sei.. não é mesmo? — Mas também não poderá abri-lo se ele não souber o segredo. O homem caiu por cima de uma mesa.. — O que vai fazer? — perguntou o homem em voz desalentada. angustiado: — Não sei. — Abra o cofre! — Escute — disse o homem. Max foi até a porta da frente.. raivoso. Esse não vai mais acordar. — Talvez ele esteja dizendo a verdade. mate-o logo. — Palavra que não sei. — Ótimo. Rusty Harris. Vo ltou para onde estava o empregado do banco e tornou a bater nele gritando: — Agora. Charlie perguntoulhe: — O que vai fazer. abriu-a e tirou um maço de notas.

Agora a náusea começou a dar lugar a um a fria determinação. Max desapertou a fivela do cinto do amigo. rapaz. muit o pálido e aflito. Sacudiu a cabeça e sua mente voltou a clarear. com a voz estranhamente calma: — E conseguiu o ouro? Um ar de confusão se mostrou no rosto de Ed. — Como é que sabe disso? — Sei perfeitamente. que havia atravessado a sala e estava ao lado dele. muito mal — disse o preto. uma patrulha saía no encalço deles. e Ed correu para pegar a arma enquanto Ma x tirava da estufa o ferro em brasa. Ed virou-se de arma em punho. com voz sumida. . Ouviu-se então a voz de Charlie no fundo da gruta. Max enrolou um cigarro. — Há cinco mil dólares aí dentro. Mike tossiu. Max ficou um instante a olhá-lo. — Abra meu cinto. Dessa vez. tudo se resolve para mim. — E eu nunca lhe faltei. Charlie estava do outro lado. encostando-se à parede da gruta. rapaz. e o clarão ver-melho do incêndio contra o céu noturno. — Vai amanhecer daqui a uma hora. Mike sorriu. — Que está fazendo aqui? Não mandei ficar vigiando a porta? Max. Max tirou-lhe o revólver da mão com um pontapé. Mike estava tomando conta d os cavalos e eles montaram imediatamente. a mãe. — Não seja bobo. No mesmo instante. estavam refugiados numa pequena gruta nas montanhas. mas a água acabou. Ed viu Max. Eu vou ficar aqui com Mike. puxando o revólver. Pegou a mão de Max e a apertou. mas estava tudo acabado. Nesse momento. Três dias depois. não havia ouro algum.. O cheiro de carne queimada lhe entrava pelas nari nas. não somos? Amigos de verdade? Max assentiu com a cabeça. — Você nasceu com trinta anos de atraso para essa vida. Charlie. rapaz. Max enxugou-lhe o suor do rosto. Max voltou da entrada da gruta e falou com seu amigo: — Como vai indo. não foi? Mas agora vou morrer e nem eu nem você podemos fazer nada. Agora. perguntou. Mike levantou um pouco o corpo. — Vou ficar com você — disse Max. Mike. Ed ainda estava ajoelhado em frente a estufa. — Somos amigos. Havia uma bolsa de dinheiro na parte de dentro.. — Vamos sair daqui! — disse Charlie. Voltou para a sala dos fundos. no exato mome nto em que Max avançava com o ferro incandescente em direção a seus olhos. — Cale a boca e descanse. pulou para o lado. acendeu-o e o colocou na boca de Mike. mas a bala se perdeu no teto. Max virou o cinto. Ed compreendeu tudo. Todo mundo em Dodge sabia disso. Max. — Desculpe. Ed abriu os dedos e deixou cair a arma. Mike sorriu. O re-vólver disparou . Sou Max Sand. uma massa di sforme e ensangüentada no chão. — Toda a cidade estará aqui den tro de um minuto! Max deixou cair o ferro no chão e correu para a porta. — Vá você.por um momento e reviu a cena trágica: o pai. Guardei esse dinheiro para o momento exato: agora. Levara doze anos. — Ah! Assim está melhor. — Não faz mal. Nós fechamos a retaguarda e só nos resta sair de cena. É melhor irmos em frente. Não vou mais precisar viaja r. Trinta minutos depois. seguindo-os com uma saraivada de balas. — Para começar. então. — O velho avarento tinha um tesouro escondido dentro da casa. Ed deu um grito de agonia quando o metal lhe entrou na carne. olhe dentro do cinto. Max acendeu um cigarro e olhou para o amigo em silêncio. rapaz. Não há mais lugar no mundo para um pistoleiro. amarrado e morto. Mike? — Mal. Era para o dia em que mudássemos de vida. — Não conseguiu — disse Max. pegando-o pelo braço.

pegou o rifle. Max ficou um pouco vermelho e sentou-se desajeitadamente. sorrindo. Ficaram ali durante algum tempo. — Bem. o nome veio fácil. — Metade desse rancho lhe pertence. Nunca soube que Mike havia morrido no momento em que ele desapareceu no caminho. rapaz. como acontece a v elhos amigos. Mas o nome não lhe ocorreu até o momento em que se viu sob o ardente sol de Nevada. teve a princípio a impressão de estar nu. — Não me faça pensar que errei quando tomei aquela decisão no pântano. você já estará tão longe no rumo no rte que eles nunca o pegarão. O menino o observava com olhos medrosos. Nevada Smith. pode ter certeza de que acharei um jeito de voltar do inferno para colocar você no caminho certo. A noite se estendia vasta diante dele e uma leve brisa sop rava do alto dos montes. Sorriu. principalmente em vista da enorme arma que levava na mão. — Agora. — E se alguém o reconhecer? — perguntou Martha. Max tinha razão. O amigo ferido cambaleou até a entrada d a gruta apoiado nele. apreciando-se reciprocamente. Viu a criança seguir seus movimentos com os olhos e deixou o revólv er cair no coldre. — Já estamos aqui há três meses. — Posso detê-los aqui o tempo que eu quiser — disse Mike. Estendeu a mão para Max e disse: — Ajude-me a levantar. afastou-se e foi até onde estava seu cavalo. Não me faça pen ar nisso. Max deu as mãos a Mike e o puxou para cima. Charlie e a mulher trocaram olhares rápidos. Você não pode sair assim e abandoná-lo. Depois disso. Ficaram em silêncio. Mike. Sem barba. correndo os olhos pela encos ta. Max esporeou o cavalo e partiu.— Pode dizer o que quiser. Por fim. Embora ele tivesse adiantado o dinheiro para a compra do rancho. E mais bonito também. agora que estou morrendo. Você me dá sua palavra. O rancho não dá para nós dois vivermos. Montou e ficou um momento olhando para Mike. diante do velho Cord e do jovem Jonas. Max estava no topo da montanha seg uinte. Mas o preto não virou a cabeça para seu lado um só instante. — Por quê? — perguntou Charlie. entrou na cozinha. mulher de Charlie. Ande direito e não se meta mais e m roubos nem em brigas de tiros. Agora vá andando. quando o sol já brilhava no céu. porque começou a escarrar sangue. Mike! Mike riu e murmurou: — Posso resistir à patrulha o dia inteiro. — Escute — disse Max. acendendo um cigarro. Aquela hora. que o dia já v em nascendo. . Max deixou Mike descer lentamente para o chão. dizendo: — Você é muito mais moço do que eu pensava. Riu mais e de repente parou. — Se você quebrar seu juramento. já deveria haver barulho d e tiros atrás dele. rapaz. — Sem a barba não me reconhecerão — disse Max. — É melhor pensar também num novo nome — sugeriu Charlie. não dá? — Já dei minha palavra. lembre-se do que eu lhe disse. acho que já é tempo de eu ir tomando meu rumo. — Smith. No rosto de Max se acendeu um súbito sorriso. — Você é um merda. rapaz. — Está na hora de mudar tudo. Dizendo isso. — O cartaz com seu retrato deve estar ag ora na sala de todos os xerifes do sudoeste. quase c omo se tivesse sido a vida inteira o seu. Charlie levantou os olhos da mesa e exclamou: — Meu Deus! Nem eu seria capaz de reconhecê-lo! Martha. o rendimento não dava para o sustento de ambos. Mike. Esfregando o rosto recém-barbeado . muito sério. Naquele momento. mas não vou deixá-lo aqui sozinho. E começou a se espantar com o silêncio. Uma hora depois. rapaz. — Acho que sim — murmurou Max. Vamos deixar de ilusões. Era um bom nome e nada dizia sobre ele. virou-se do fogão e sorriu.

— Você vai ficar morando aqui com Wong Toy? — perguntou o garoto. o garoto passou os braços pelo pescoço de Nevada e en-costou o rosto no rosto dele. — Os cigarros estão nessa caixa perto de sua mão direita. quando sentiu o revólver pesar na cox a. Desamarrou rapidament e os cordões e tirou o cinto com o revólver. Já ia montar atrás dele. Virou o rosto um instante para esconder sua decepção. — Estou contente — disse ele. a convidara para a ssistir à estréia de um filme produzido por uma companhia na qual ele tinha consideráv eis inte-resses financeiros. Sua fazenda e a mansão de trinta quartos que ele mandara construir bem no centro de Beverly Hills. O chofer arrumo u prontamente as malas na frente e abriu-lhe a porta. Marlowe? Rina assentiu com a cabeça. ouviu o que seu pai disse. A voz do chofer pelo in-terfone a as sustou um pouco. fora passar uma se mana em Nova Iorq ue para fazer compras. — Obrigada — disse Rina. Um motorista fardado se aproximou dela e perguntou. senhora? Saíram da estação e caminharam até uma cintilante limusine Pierce-Arrow. . amigo de seu pai. Não sabia por que isso lhe deveria causar surpresa. Júnior. não foi? Foi até onde estava seu cavalo e o levou para o barracão. Pendurou-o num prego acima da cama e sa iu de novo para o campo banhado de sol. o garoto ainda o estava olhando cheio de interesse. Ajoelhou-se ao lado dele e murmurou: — Ficarei aqui o tempo que você me quiser. — O sr. Escolheu uma das camas e estendeu nela as suas roupas. N S Recostou-se no banco e procurou um cigarro. tirando o quep e: — Srta. Então começou a se lembrar de tudo o que soubera a resp eito de Nevada. — Agora você pode me ensinar a montar. acompanhado obedientemente pelo garoto. De repente. Fechou os olhos. Nunca mais carregou uma arma.— Bem. — Acho que sim. Nevada levantou-se com o garoto ainda agarrado a ele. Três anos eram muito tempo. 16 Rina saltou do trem nas sombras claras e reluzentes da tarde que varriam a plata forma da estação. — De verdade? Para sempre? Não vai embora como os outros? Como mamãe fez? Havia alguma coisa no olhar do garoto que o comoveu. Saiu do barracão e o colocou na sela de seu cavalo. Quando acabou de arrumar tudo. Mas ler essas coisas nunca parecia corresponder à realidade. O pequeno brasão dourado na maçaneta atraiu sua atenção. — Voltarei num minuto — disse ele e tornou a entrar no barracão. Rina acendeu o cigarro e examinou o carro. até bordado nos tapetes e revestimentos internos do carro. Smith pede desculpas por não esperá-la. Ficou preso no estúdio e mandou dizer qu e a verá na hora do coquetel. Cinco meses depois de ter ido para o leste. quando um banqueiro. O brasão dourado estava por toda parte. Lera muita coisa nos jornais a respeito dele. O chofer pegou as malas e disse: — Quer ter a bondade de me seguir até o carro. senhora. — Vai mesmo ficar? — Vou.

e co ntinuou impassível a caminhar com a camisa desbotada já molhada de suor. afastou-se. dando as co stas. Cansei de tudo isso quando estive no oeste. da multidão. Ao longe. mas. então. A morte estava vestida de roupas macias e caras. O xerife foi até a porta a passos lentos e saiu. Gua rdou. com uma velocidade que dificilmente a vista podia acompanhar. O corpo estremeceu ao levar mais duas balas e.. c errando o queixo quadra-do e acentuando as linhas das maçãs proeminentes de índio. Não uma. dos homens bem vestidos. lev ando a mão rapidamente ao revólver. a tortura da decisão que lhe apertava os lábios. na rua. Rina também sentiu um nó na garganta. — Como é mesmo o nome? — perguntou Rina. E depois aquele mundo pa-re cera desvanecer-se diante da magia das imagens na tela. O povo começou a sair das casas. depois. mas muitas vezes. pensando não ter ouvido direito. O xerife ainda ficou ali um momento. Os olhos da morte brilhavam de alegria pelo combate . Rina virou-se para o banqueiro que so rriu embaraçado com os olhos muito vermelhos e tossiu para limpar a garganta apert ada. e depois para o homem que se afastava. o xerife de Vila Pacífica colocava o revólver à cin-tura. — É uma produção de Norman.— Como se chama o filme? — perguntou ela. dissera o banqueiro. ficou imóvel. Mas o xerife não retribuiu os olhares. — Nevada Smith. jogando-a no chão aos pés dela e. A morte tomou a iniciativa. ombro s encurvados e cabeça baixa. a arma do xerife pareceu saltar-lhe na mão. Pôde sentir o cansaço que havia nele. — Norman diz que o homem que faz o papel principal é um novo astro. A luz brilhante do sol incidiu so bre seu rosto. .. Puxou o chapéu preto para cima dos olhos a fim de protegê-los da clar idade. Os olhos do xerife estavam cheios de tristeza. Deve ser um nome arranjado como os de todos esses artistas de cine ma. lentamente a arma. sim. A garota apareceu numa varanda e o xerife parou diante dela. Mas foram os olhos que a impressiona-ram mais. Os olhos de um homem que conhecia a futilidade. Lembrou-se de sua chegada ao cinema. Era o desgosto pela sede de sangue da garota. — Quero ver o filme. Brilhando em seu peito. Ele não olhou nem para um lado nem para outro. — Não tolero westerns. Eram os olhos de um homem que havia conhecido a morte. no cabo de marfim do revólver. — O xerife de Vila Pacífica —. Encararam-se por um momento. e começou a descer a rua vazia. saindo das vidas do povo de Vila Pacífica para a luz fo rte do sol. Todos olhavam para o xerife com o rosto transmiti ndo a emoção do duelo que haviam acabado de presenciar. O povo da cidade espiava por trás das persian as. — E a primeira vez que um filme me emociona assim — justificou-se. Começou a segui-lo e parou. O revólver que ele havia jurado nunca mais tocar. Disse com voz rouca: — A mim também. enquanto a tela começou a escurecer. das vidraças e das cortinas. Chama-se Nevada Smith e. pela cidade qu e exigia sacrifícios a seu mo-do. Bernie Norman diz que é o maior western que já se fez. a dor e a tristeza. A câmara se aproximou tanto do rosto dele que ela pôde ver-lhe os poros da pele e quase sentir seu hálito quente. Houve silêncio quando as luzes se acenderam. A poeira não aparecia nas botas l ustrosas.. dos fortes refletores acesos. Deu as costas ao morto e voltou pela rua. A garota olhou atônita para a insígnia. e a mão pairava como uma cascavel por cima do coldre do revólver. Uma expressão de desprezo apareceu de re pente em seu rosto. O rosto mostrava ódio. Já no final do filme. das mulheres cheias de jóias.. Ele tomou-lhe o braço. a calça remen dada cobrindo as pernas magras e ar-queadas. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Os do xerife estavam bem abertos e fixos. Era o fim do filme. o xerife montou em seu cavalo e rumou para as montanhas. a insígnia de metal. o gosto voluptuoso d e matar. Levou a mão à camisa e arrancou a estrela. A morte foi arremes sada violentamente para o chão e a arma caiu de sua mão.

. Onde poderia estar? Havia cigarros e fósforos na mesinha ao lado da cama e ela ace ndeu um. Nisso. O quarto era luxuosamente mobiliado à moda européia. Vamos cumprimentá-lo. Estava n ua na cama. — Não se lembra de mim. homens vorazes. o Nevada Smith? — perguntou ele. Rina voltou-se aterrorizada para a mulher. — Tom Mix? Quem é ele? Norman bateu nas costas do banqueiro. querida. desejos. claro que não. Não podia ser. E Nevada Smith vai começar outro filme para nós imediatamente! A limusine entrou por uma alameda no sopé da colina. Sentiu-se mais calma ao relê-lo. Ficara três anos sem ter notícia dele. A fumaça acre doeu-lhe nos pulmões e. beijando-a na boca. ma chèrie? — disse ternamente. e Rina olhou-o surpresa. já acordou. mon amour? Rina negou com a ca-beça. pois isso não era habitual nele. Parou. Sorriu para el as e disse: — Ah! Todo mundo já está acordado de novo. abrindo o penhoar e encost ando a cabeça de Rina em seus seios nus. a porta se abriu de novo e apare-ceu um homem trazendo na mão uma garrafa de champanhe. Sorriu e se aproximou. Começou a sentir-se deslocada. nesse momento. Não se lembra? Rina sacudiu a cabeça. abriu nervosamente a bolsa e procurou o telegrama de Ne vada. Que estava fazendo ali? Aquele não era o Nevada que e la conhecia. Seus olhos brilhavam de con-tent amento. de grandes maxilares. — Está com dor de cabeça. Nor man era um homem robusto. Rom a. Estava in-teiramente nu. — Por favor. Não era real. Três an os andando de um lado para outro. A festa estava começando a ficar chata. Aquilo era um pesadelo. — Não me lembro de nada. De repente. Uma bela mulher de cabelo preto entrou no quarto. Ela lhe telegrafara da Suíça no mês anterior. — Ah. — Zurique? Philippe? E esse homem que esteve aqui? — Mais non. mas inteiramente estranho para ela. Paris. ao ver Rina sentada na cama. O homem acariciou-lhe a cabeça solicitamente. E quanto mais vagava pelo mundo mais amedrontada e sozinha se sentia. Ma-dri. Onde esta-mos? — Em Zurique. — Esse filme deve render uns dois milhões. casos febris. Estendeu a mão p ara o jarro na mesinha-de-cabeceira e não o encontrou. meu marido. aturdida. Correu os olhos à procura de seu robe. não é? Vou buscar uma aspirina para você. Abriram caminho por entre uma multidão de entusiastas que cercavam o produtor. Passou por um portão de ferro e ncimado pelo brasão já conhecido de Rina e começou a subir a estreita estrada até o alto da colina. — Que tal aquele rapaz. — Talvez isso lhe refresque a memória. despertara uma manhã em Zurique. com apenas um lençol branco a cobri-la. Houve festas. mas não encontrou uma só peça de sua roupa. Constantinopla e Berlim. indignada. Por fim. É ruim a gente acordar com uma sede terrível. não é mesmo? Rina levou as mãos à fronte e sentiu o sangue latejar. homens apaixonados. Esse é Karl. — Quem é você? — perguntou Rina. estou começando a pensar que fiquei maluca. Sua garganta estava tão seca que ela teve a impressão de que fazia meses que não bebia um copo de água. com o sol ofuscando seus olhos. na casa de Philippe. Quando ele saiu. Aproximou-se de Rina e estendeu-lhe a garrafa.— Lá está Bernie Norman. Rina olhou pela janela e viu a grande casa cujo teto a luz do sol po ente incendiava. — Tome um pouco de champanhe. Vivera os primeiros seis meses em Boston até se cansar da cidade. Fora para Nova Iorque e estivera depois em Londres. a porta se abriu. Compreendeu então que não estav a em seu quarto. — E agora? Lembra-se de quanto nos amamos? Rina empurrou-a. — Já viu alguém assim antes? Aind a quer que eu con-trate Tom Mix para fazer um filme? O banqueiro riu. é claro. ma chêrie — disse ela.

Karl se aproximou dela com dois comprimidos na mão. Atrás dele veio um homem alto e louro. — Mas acho que a objetiva está com algum defeito. Vai se sentir melhor. Tornou a dobrar o telegrama enquanto a limusine chegava ao alto da colina. Rina continuou em silêncio. A mulher sorriu. e tem sido uma festa maravilhosa. A porta se abriu de novo e Karl entrou. — Duas semanas? — Sim. Nós sempre podemos tirar mais cópias dos negativos. — Gostaria de tomar uma xícara de café enquanto falamos de negócios? — perguntou Karl. menin a. Queria era desaparecer o q uanto antes dali. Tome estas aspirinas. — Podiam ter saído melhores — disse o conde. Os negativos custaram dez mil dólares e ela os queimou num cinzeiro antes de sair da sala. mas os homens já estavam com calças e camisas lev es. Rina saiu da cama e lavou o rosto rapidamente. Assim. — Veja se gosta. Caminhou para a porta sem ao menos olhá-los. Nua. Apostara num belo cavalo alazão e o homem do camarote vizinho se inclinou para ela. mas lá estava fazendo muito calor e nós viem os para cá. Logo que chegou a um hotel. com um vidro de aspirina numa mão e a garrafa de champanhe na outra. Sou o conde De Chaen". passou um telegrama para Nevada. sorrindo. Ela olhou para as fotografias e sentiu a náusea subir-lhe à garganta. Rina. Eu gostaria de me vestir. junto ao de Philippe. voltou para pegar a bolsa. — Suas roupas estão no armário. — Não as quero — disse ela. — Coloquei dentro dela uma coleção de fotos como lembrança de nossa festa. ela voltou os olhos para ele. evitando encará-lo. A mulher ainda vestia seu penhoar. sabe? Rina olhou-a. pol idamente. Mas não se parecia em nada com o Nevad a a quem ia ver. O homem que se chamava Karl a cha mou: — Esqueceu sua bolsa. O tel egrama era típico do Nevada que ela lembrava. — Você estava sozin ha em seu camarote. Estou mais sozinha e amedrontada que nunca. O amigo que você esperava não apareceu. Esse cavalo é meu. Foi tão engraçado! Você fazendo amor com o di sparador da máquina na mão. tirando-as da bolsa. Lentamente. mas achou que era melhor desistir. sem saber o que dizer. Cord. le mbra-se? Rina fechou os olhos. Estava assinado Nevada. que estava sorrindo. Sem dizer nada. Pensou em tomar um banho. O telegrama dizia: Ainda sou seu amigo. Há quase duas semanas. para poder bater as fotografias no momento que achasse m elhor. Você é muito bonita. — Já se lembra então? A festa começou em Paris. Philippe. Não podia ser el a. vestido com um robe. Rina olhou para os três e disse com voz sumida: — Tenham a bondade. A mulher pegou as fotografias. dizendo: "Escolheu muito bem. — Pois acho que saíram muito boas. — O conde do camarote ao lado! — exclamou ela. — Fique com elas. para o chalé de Philippe. Estava começando a lembrar. Todos saíram então do quarto.— Nos conhecemos nas corridas há três semanas em Paris — disse a mulher. Vestiu-se e passou para a sala. daquele jeito. Ainda é meu amigo? A resposta chegou no dia seguinte junto com uma ordem bancária de cinco mil dólares e passagens reservadas de Zurique até a Califórnia. Olhou-os. . — Não é problema — disse a mulher. ater rada. Rina abriu a bolsa e encontrou as fotos obscenas. — A nossa pequena américaine ainda não está se sentindo bem. Jogou algumas fotos em cima da cama. Com aquela mulher e aqueles homens.

17

Nevada recostou-se na cadeira e correu os olhos pelo espaçoso escritório. Uma aura d e tensão tomara conta do ambiente. Dan Pierce, afável e sorridente, disse: — Não se trata de dinheiro, Bernie, é que achamos a ocasião oportuna. Vamos fazer um fil me que mostrará o oeste como realmente era, evitando todos os convencionalismos qu e se acumularam com o passar dos anos. Norman olhou por um momento para o script de capa azul que tinha na mão. Assumiu u ma expressão grave, e disse: — Acredite que não é pelo script, Dan. Nós o achamos notável, não é mesmo, Von Elster? O calvo diretor concordou. — Um dos melhores que já li. — Então por que relutam? — perguntou o agente. — A ocasião não é boa — disse Norman. — A indústria está perturbada. A Warner vai lançar dent breve um filme falado. As luzes de Nova Iorque. Há muita gente que pensa que quan do isso acontecer o cinema mudo estará liquidado. Dan Pierce riu. — Conversa! Cinema é cinema. Quem quer ouvir os atores falarem vai ao teatro, que é o lugar próprio para isso. Norman voltou-se para Nevada, com um tom paternal na voz: — Escute, Nevada, já tomamos alguma decisão errada a seu respeito? Desde o dia em que você entrou aqui, nós o tratamos corretamente. Se a questão é dinheiro, não há problema. Bas ta dizer quanto quer. — Não é dinheiro, Bernie — disse Nevada, sorrindo. — Você bem sabe disso. Dez mil dólares por semana bastam para qualquer pessoa, mesmo considerando que tenho de pagar sete p or cento de Imposto de Renda. É esse script. Foi o primeiro enredo de verdade que li aqui. Norman pegou um charuto. Nevada recostou-se na cadeira e se recordou de quando o uvira falar pela primeira vez daquele script. Fora no ano anterior. Ele estava t rabalhando em Tiroteio ao entardecer. Um autor de scripts, um homem moço, de óculos e muito pálido o havia procurado. — Sr. Smith — perguntou ele com alguma timidez —, pode me dar um minuto de atenção? Nevada, que estava sendo maquilado, virou-se para ele. — Mas claro, sr. ... — Mark Weiss. — Muito bem, Mark — disse Nevada, sorrindo. — O que há? — Gostaria que lesse um script. Passei dois anos fazendo pesquisas. É a respeito de um dos últimos pistoleiros do sudoeste. Acho que é uma coisa diferente de tudo que já se fez. Era um dos aspectos inevitáveis da vida de um astro do cinema. Todo mundo tinha um script para se ler, e era sempre o melhor que já havia sido escrito. — Terei prazer em lê-lo. Qual é o título? — O renegado — disse o homem, entregando-lhe uma pasta de capa azul. Nevada folheou-o, olhou a última página e viu que era três vezes maior do que os scrip ts comuns. — É um pouco longo, não é? — Decerto, mas não encontrei jeito de reduzi-lo. Tudo que está aí é verdade. Passei estes dois últimos anos consultando os arquivos de velhos jornais do sudoeste. Nevada voltou à maquilagem, ainda com o script na mão. — Que aconteceu ao homem? — perguntou a Weiss, sem olhar para ele. — Parece que ninguém sabe. Um belo dia, desapareceu e nunca mais se teve notícias dele : A patrulha que o perseguia na ocasião em que desapareceu chegou à conclusão de que e le havia morrido nas montanhas. — Uma história nova é sempre uma coisa boa, Mark. O público se cansa dos mesmos velhos h eróis. Qual foi o nome que deu a esse camarada? — Max Sand. O script caiu da mão de Nevada e ele sentiu o sangue fugir-lhe da face. — Como foi que disse? — perguntou com voz rouca. — Max Sand. Podemos mudar o nome, mas era assim que o homem se chamava.

Nevada sacudiu a cabeça e olhou para o script no chão. Weiss apanhou-o prontamente e disse, preocupado: — Não está se sentindo bem, sr. Smith? Nevada respirou profundamente e viu que seu autocontrole tinha retornado. Tomou de volta o script estendido por Weiss, e forçou um sorri-so. — Obrigado, sr. Smith — disse Weiss com expressão de alegria e de alívio. — Não sabe o quant o lhe agradeço. Muito obrigado. Nevada passou uma semana sem coragem de ler o script. Tinha a estranha impressão d e que, se assim fizesse, estaria perdido e todos saberiam de tudo. Mas uma noite , depois do jantar, entrou na biblioteca onde Von Elster o estava esperando e en controu-o mergulhado na leitura do script. — Há quanto tempo isso está com você? — perguntou o diretor. — Há uma semana, mais ou menos. Esses escritores sempre nos inundam de scripts. Esse aí presta? — Se presta! É formidável. Se você fizer esse filme, quero ser o diretor. Ainda naquela noite, com a luz acesa até de madrugada, Nevada compreendeu o que o diretor queria dizer. Weiss tinha dado profundidade ao retrato de um homem que v ivera só e chegara a um conceito de vida nascido da dor e da tristeza..Os seus cri mes não tinham qualquer sensacionalismo; eram apenas resultado de uma luta desespe rada pela sobrevivência. Depois da leitura, Nevada teve certeza de que faria o filme. O script era tão bom que não podia ser posto de lado. Além disso, teria de fazer o filme para proteger a si próprio. Se o script caísse em outras mãos, não seria possível prever quanto iriam proc urar saber ainda sobre a vida de Max Sand. No dia seguinte, comprou o script de Mark Weiss por mil dólares. Nevada voltou de súbito ao presente e ouviu Norman dizer: — Vamos esperar um ano. Até lá, saberemos para onde pular Dan Pierce olhou para Nevada. Ele sabia o que significava aquele olhar. Pierce já fora até onde era possível. — Chaplin e Pickford pensaram bem em formar a United Ar-tists — disse Nevada. — Parece que é o único meio que tem um artista de fazer os filmes que quer. — Mas ainda não acertaram — disse Norman, com uma leve mudança no olhar. — Decaíram um pouco . — Talvez — retrucou Nevada. — Com o tempo é que se vai ver. A com-panhia ainda é nova. — Está bem — disse Norman, de repente. — Vou fazer um trato com você. Vamos aplicar meio m ilhão no filme. Você garantirá as despesas que passarem disso. — É mais um milhão e meio! — exclamou Pierce. — Onde é que Nevada vai arranjar tanto dinheir o? Norman sorriu. — No mesmo lugar onde nós arranjamos dinheiro. No banco. Não terá dificuldade nenhuma, p ois eu tomarei as providências necessárias. O filme será cem por cento propriedade sua . Só ficaremos com as porcentagens da dis-tribuição e teremos nosso dinheiro de volta. É um negócio melhor do que a United Artists poderia fa-zer. Isso mostra como estamo s dispostos a dar-lhe apoio, Nevada. Está satisfeito? Nevada não tinha ilusões. Se o filme fracassasse, seu nome ficaria preso no banco e não o de Norman. Perderia tudo que tinha e mais alguma coisa. Olhou para a capa az ul. E uma decisão começou a tomar forma em sua mente. O pai de Jonas dissera um dia que não havia nenhum prazer em ganhar ou perder quan do se jogava com o dinheiro dos outros. Aquele filme não podia deixar de fazer suc esso. — Está bem — disse ele, afinal. —Negócio fechado. Quando chegaram à tardinha no escritório de Norman, Nevada olhou para seu agente. Pi erce estava carrancudo e disse: — Vamos ao meu escritório. Temos muito que conversar. — Vai ficar para amanhã — disse Nevada. — Tenho uma pessoa do leste à minha espera em casa . — Você mordeu mais do que pode engolir, Nevada. — Já estava em tempo. A única maneira de ganhar dinheiro de verdade é arriscar muito din heiro.

— Mas assim também se pode perder muito. Nevada parou ao lado de seu Stutz Bearcat branco. Colocou a mão na porta com o mes mo carinho com que afagaria um cavalo. — Não vamos perder, Dan. — Espero que saiba o que está fazendo, Nevada. Não gosto dessa história de Norman deixar todos os lucros para nós. Deve haver alguma sujeira no meio de tudo isso. Nevada sorriu e, antes de entrar no carro, disse: — O seu defeito, Dan, é ser agente. Todos os agentes são desconfiados. Bernie não poderi a deixar de agir assim. Não quer arriscar-se a me perder. Estarei amanhã em seu escr itório às dez da ma-nhã. — Certo. Mas, olhe, não estou gostando dessa história de cinema falado. Mais duas comp anhias já anunciaram que vão fazer filmes falados. — Podem fazer à vontade, Dan. Essa mania vai passar depressa. Na época em que nosso fi lme for lançado, ninguém mais nem falará em filmes falados. O telefone tocou na mesinba-de-cabeceira. Rina atendeu, notando que também ali, no centro do disco, estava a insígnia de Nevada. — Alô. A voz amiga de Nevada chegou-lhe aos ouvidos: — Como vai, menina? Tudo resolvido? — E você, Nevada? — Será que você tem outros amigos? — Já abri as malas e estou admirada — disse ela, rindo. — De quê? — De tudo. Desta casa. E fabulosa. Nunca vi nada igual. — Não é grande coisa. Talvez um pouco avantajada. Mas é isso o que chamo de lar. — Ainda não posso acreditar, Nevada! Por que mandou fazer esta casa fantástica, tão dife rente de você? — Tudo isso faz parte da profissão, Rina. É como o chapelão branco, as camisas e as bota s coloridas. — Com suas iniciais em tudo? — Com minhas iniciais em tudo. Mas não se impressione com isso. Em Hollywood há coisas muito mais malucas. — Tenho tantas coisas para lhe contar, Nevada! A que horas voltará para casa? — Para casa? Eu estou em casa. Estou aqui embaixo no bar, à sua espera. — Vou descer já. Mas, Nevada, como é que vou saber onde é o bar? Isto aqui é tão grande! — Temos guias índios exatamente para essas ocasiões. Vou mandar um buscá-la. Rina desligou o telefone e foi para o espelho. Quando tinha acabado de passar ba tom, bateram de leve na porta. Abriu a porta e encontrou Nevada sorrindo. — Perdão, senhora — disse ele, com fingida cerimônia. — Corri a casa toda e o único índio que encontrei fui eu! — Oh, Nevada! — disse ela com voz terna. Jogou-se então nos braços dele, com o rosto escondido nos músculos fortes do peito do amigo, e começou a molhar de lágrimas a brancura da camisa enfeitada.

JONAS — 1930 LIVRO III

1

As luzes de Los Angeles apareceram sob a asa esquerda. Olhei para Buzz, que esta va sentado perto de mim na carlinga, e disse: — Estamos quase em casa. O rosto dele se franziu num sorriso. Olhou para o relógio. — E acho que conseguimos um novo recorde. — Ao diabo com o recorde — disse eu. — O que quero é esse contrato de mala postal. — Bem, agora está no papo. Graças a este aviãozinho. Sobrevoei a cidade, rumo a Burbank. Se pegarmos o contrato de mala postal de Chicago para Los Angeles, dentro em pouco a Inter-continental estará voando por todo o país. A etapa seguinte seria pegar o contrato de Chicago a Nova Iorque. — Li nos jornais que Ford tem projetos para um avião trimotor que levará trinta e dois passageiros — disse Buzz. — Quando ficará pronto? — Daqui a dois ou três anos. Será essa a próxima etapa. — Sim, mas não podemos esperar por Ford, Buzz. Eles podem levar cinco anos até sair co m alguma coisa prática. Temos de estar prontos daqui a dois anos. — Dois anos? Como? É impossível! — Escute aqui: quantos aviões postais temos em vôo agora? — Trinta e quatro. — E se pegarmos o novo contrato da mala postal? — Duas, talvez três vezes mais, Onde você quer chegar? — Os fabricantes desses aviões estão ganhando com os nossos contratos mais do que nós. — Se está pensando em fabricar nossos próprios aviões, você está maluco! — exclamou Buzz. — S a instalar uma fábrica levaríamos dois anos. — Não, minha idéia é comprar uma que já esteja em funcionamento — repliquei. Ele pensou por um momento, e disse: — A Lockheed, a Martin, a Curtiss-Wright estão todas fazendo muitos bons negócios e não serão vendidas. A única possível é a Winthrop. Estão despedindo empregados desde que perde ram o contrato com o Exército. — Está raciocinando certo, Buzz. — Oh, não! — exclamou. — Eu trabalhei para o velho Winthrop, e ele ju-rou que nunca... Estávamos sobrevoando o Aeroporto de Burbank. Volteei pelo lado sul da pista, onde ficava a fábrica Winthrop. Inclinei a asa do avião para que Buzz visse do lado dele . — Olhe para baixo, Buzz. Gigantescas letras brancas se destacaram na escuridão, iluminadas por dois possant es refletores, no teto pichado da fábrica. CORD AIRCRAFT, INC. Os repórteres nos rodearam logo que pousamos. Os flashes começaram a estourar e pisq uei os olhos. — Está cansado, sr. Cord? — perguntou um deles. Cocei a barba crescida e sorri. — Não. Estou novinho em folha. Uma pedra no chão do aeroporto machucou meu pé e eu disse a Buzz, que ainda estava n o avião: — Quer jogar meus sapatos? Ele riu, jogou os sapatos e os repórteres fizeram muita confusão para bater uma foto minha enquanto estava calçando os sapa-tos. Buzz desceu do avião. Bateram mais algumas fotos e nos encaminhamos para o hangar. — Como se sente por estar de novo em casa? — perguntou outro repórter. — Bem — respondi. — Bem de verdade! — acrescentou Buzz. E era um fato. Cinco dias antes, havíamos partido do aeroporto de Le Bourget, em P aris. Terra Nova, Nova Iorque, Chicago, Los Angeles. Em cinco dias. Um repórter apareceu correndo, com uma folha de papel na mão.

— Sabem que bateram o recorde de Chicago a Los Angeles? Com esse, foram cinco reco rdes que quebraram nessa rota! — Um por dia — disse eu, com um sorriso. — Não temos de que nos queixar. — Quer dizer que pegarão mesmo o contrato da mala postal? — per-guntou outro repórter. Atrás deles, na entrada do hangar, avistei McAllister acenando freneticamente. — Essa é a parte comercial da história. Eu a deixo para meu sócio, Buzz — disse aos repórter es. — Ele lhes dirá tudo que quiserem saber. Deixei-os conversando com Buzz e me dirigi para onde estava McAllister. — Pensei que não chegasse a tempo — disse ele, ainda aflito. — Não disse que chegaria aqui às nove horas? — Tenho um carro esperando. Iremos daqui diretamente para o banco. Prometi a eles que o levaria lá. — Espere um pouco. Prometeu a quem? — Ao grupo que concordou com seu preço pela concessão de exploração da patente do novo pro cesso industrial para o plástico. Até a Du Pont faz parte do grupo. — Espere um minuto, McAllister! Não vejo cama há cinco dias e estou exausto. Falarei c om eles amanhã. — Amanhã? Estão à sua espera agora! — O que eu tenho com isso? Deixe-os esperar. — Mas eles vão lhe dar dez milhões de dólares! — Não vão dar coisa nenhuma para mim. Tiveram a mesma oportunidade que nós tivemos para comprar a patente. Estiveram todos na Europa, mas não quiseram se arriscar. Agora que precisam da patente, podem esperar até amanhã. Entrei no carro e disse: — Beverly Hills Hotel. McAllister entrou e sentou-se a meu lado. Disse, perplexo: — Amanhã? Eles não vão querer esperar. O chofer pôs o carro em movimento. Olhei para McAllister e sorri. Senti-me um tant o preocupado com ele. Sabia que aquela transação não tinha sido nada fácil. — Escute, Mac. Vou para o hotel, pego umas seis horas de sono e, então, poderemos fa zer a reunião. — Mas... serão três horas da madrugada! — Leve-os para meu apartamento no hotel. Estarei à disposição deles. Monica Winthrop estava à minha espera na suíte do hotel. Apagou o cigarro e se levan tou do sofá logo que me viu entrar. Correu a meu encontro e me beijou. — Que barba! — exclamou com fingida surpresa. — O que está fazendo aqui, Monica? Esperava tê-la visto no aeroporto. — Quis ir até lá, mas tive medo de que papai aparecesse. Monica tinha razão. Amos Winthrop era muito mulherengo e se nos visse juntos saber ia logo da verdade. O defeito dele era não saber dividir bem o tempo. Deixava as m ulheres atrapalharem seu trabalho e o trabalho atrapalhar as mulheres. Mas Monic a era filha única e, como todos os devassos, julgava a filha uma criatura excepcio nal. E era, mas não no sentido que ele pensava. — Prepare um drinque — disse eu, indo para o quarto. — Vou meter-me numa banheira chei a de água quente. Estou com um cheiro tão forte que nem eu estou gostando mais de mi nha própria companhia. Ela encheu um copo com gelo e uísque e o levou para o quarto. — Seu drinque está pronto e a banheira cheia. Peguei o copo e perguntei: — Como soube que eu viria para cá? — Ouvi pelo rádio. Ainda não tinha tomado o primeiro gole, quando ela se encostou em mim. — Não precisa tomar banho por minha causa. Estou achando esse seu cheiro excitante. Fui para o banheiro, tirando a camisa no caminho. Quando me voltei para fechar a porta, lá estava ela atrás de mim. — Não entre já na banheira. É uma pena desperdiçar todo esse cheiro bom de macho. Passou-me os braços pelo pescoço e colou o corpo ao meu. Procurei seus lábios, mas ela afastou a cabeça e a enterrou no meu ombro. E a senti respirar fundo, trêmula, deli ciando-se com meu cheiro. Gemeu baixinho, e o calor que veio dela pareceu sair d

e um forno. Segurei seu rosto e a olhei. Estava com os olhos quase fechados e gemia enquanto o corpo se contorcia. Desapertei o cinto e deixei as calças caírem no chão. Joguei-as longe com um pontapé e a encostei na penteadeira que tomava toda a parede. Ainda estava com os olhos fechados quando saltou sobre mim como um macaco subindo num coqueiro. — Respire fundo, menina — disse, quando ela começou a gemer mais intensamente. — Talvez leve muitos anos para ter de novo esse cheiro.

A água estava quente e boa e lavava meu cansaço. Tentei esfregar as costas com o sab onete e não consegui. — Deixe que eu faço isso — disse ela. Começou a esfregar minhas costas. O movimento lento e circular era relaxante, e fe chei os olhos. — Não pare, Monica! É tão bom! — Você é como uma criança. Precisa de alguém que tome conta de você. — Estive pensando nisso também — disse, abrindo os olhos. — Acho que vou contratar um cr iado japonês. — Um criado japonês não faria isso. Vire-se um pouco para trás que eu quero tirar esse s abão. Virei-me dentro da água, fechando de novo os olhos. Quando pouco depois os reabri, ela estava olhando para mim. — Parece tão pequeno e fraco... — disse ela. — Não foi o que você achou ainda há pouco. — Eu sei — disse ela num sussurro, com os olhos meio anuviados. Entendi aquele olhar. Levantei um pouco o corpo e passei o braço pelo pescoço dela, sentando-a na borda da banheira. Beijei-a e senti sua mão descer para mim. — Oh! Você está criando força — exclamou, apertando sua boca na mi-nha. Nesse exato momento o telefone tocou. Levamos um susto, e eu caí dentro da banheir a, espirrando água por todos os lados e molhando a frente de seu vestido. Ela pego u o telefone em cima da penteadeira e o levou para mim. — Alô! Era McAllister. Estava embaixo, na portaria. — Eu disse três horas, Mac. — Mas já são três horas. Podemos subir? Winthrop também está conosco. Diz que precisa falar com você. Olhei para Monica. Era só o que faltava: o pai dela subir e encontrá-la em meu quart o. — Não — disse eu. — Ainda estou na banheira. Leve-os para o bar e pa-gue-lhes um drinque . — Os bares estão todos fechados. — Está bem. Então irei vê-los na portaria. — A portaria não é lugar para uma transação dessas. Não há isolamento suficiente. Eles não vã tar. Não compreendo por que não podemos subir. — Porque estou com uma pequena aqui, entendeu? — Que é que tem? Acha que eles vão estranhar? — A pequena é Monica Winthrop. Mac silenciou por um instante. — Epa! — exclamou ele, depois de um longo silêncio. — Seu pai tinha razão. Você nunca deixará de ser assim. — Fique descansado, que deixarei quando tiver sua idade. — Ainda não sei — murmurou ele. — Eles não vão gostar da idéia de conversar na portaria. — Se é isolamento que querem, já sei qual é o lugar ideal, Mac. — Onde? — O lavatório dos homens ao lado dos elevadores. A estas horas não aparece ninguém. Esta rei lá daqui a cinco minutos. Desliguei o telefone e saí da banheira. Olhei para Monica. — Dê-me uma toalha. Tenho de descer para ir falar com seu pai.

2 Cheguei ao lavatório dos homens esfregando o rosto. Ainda estava com a barba de ci nco dias. Não tive tempo de fazê-la. Sorri ao vê-los, tão engolfados em suas preo-cupações q ue nem perceberam minha chegada. — Podemos começar a reunião, senhores. Olharam todos para mim, com uma expressão de espanto. Ouvi um deles praguejar baix inho e calculei que havia ali alguma pequena tragédia. McAllister veio a meu encontro dizendo com certa ênfase: — Por certo, Jonas, escolheu um lugar bastante estranho para nossa reunião. Eu sabia que ele só procedia assim para salvar a situação com os outros, mas não me impo rtei. Olhei para as calças dele e disse: — É melhor abotoar a braguilha, Mac. Ele ficou muito vermelho e baixou imediatamente a mão. Ri e me voltei para os outros: — Desculpem a inconveniência, cavalheiro. O lugar certo seria meu apartamento. Mas e stou com um problema lá em cima. Te-nho uma enorme caixa que está tomando todo o esp aço disponível. Amos Winthrop foi sem dúvida o único que compreendeu. Deu um sorriso irônico e fiquei imaginando o que faria se soubesse que a pequena era a filha dele. Mac já havia recuperado sua serenidade e tomou as providências que lhe cabiam. Foram feitas as apresentações. Então começamos a tratar de negócios. Como Mac me explicou, as t rês grandes companhias de produtos químicos haviam organizado uma empresa à parte para explorar a patente que me pertencia. Essa empresa faria o primeiro pagamento e me garantiria os royalties. Eu só tinha uma pergunta a fazer: — Quem garante o dinheiro? — O Sheffield, aqui — disse Mac, apontando para um dos homens. — O sr. Sheffield é um d os sócios da George Stewart Inc. Olhei para Sheffield. Stewart, Morgan, Lehman, todos eram bons nomes na Wall Str eet. Não poderia, do ponto de vista financeiro, querer coisa melhor. Mas tinha a i m-pressão de que aquele homem não me era desconhecido. Por fim, a memória não falhou. F. Martin Sheffield. Nova Iorque, Boston, Southampton, Palm Beach. Escola de Adm inistração da Universidade de Harvard, sum-ma cum laude, antes da guerra. Major do E xército de 1917 a 1918. Três condecora-ções por bravura em combate. Jogador de pólo, campeão . Figura da socie-dade. Idade aparente: trinta e cinco anos. Idade registrada: q uarenta e dois. Lembrei-me de que fora procurar meu pai uns dez anos antes. Queria fazer uma emi ssão pública de títulos para a companhia. Meu pai não havia concordado. — Por mais agradável que façam parecer tudo, Jonas — dissera meu pai —, nunca deixe essa gente meter as garras em você. No fim, seu negócio acabará sendo deles e não seu. Tudo q ue podem dar para você é dinheiro, quando a única coisa que conta mesmo é a capacidade d e mandar. E isso eles guardam para si. Olhei para Sheffield e perguntei: — Como é que vai garantir os pagamentos? Seus olhos cintilaram por trás dos óculos bifocais pince-nez. — Estamos nesse contrato com os outros, sr. Cord. Sua voz era surpreendentemente forte para um homem tão frágil. E muito seguro de si. Falou como se não se dignasse a me dar uma resposta, como se todo mundo sou-besse que bastava o nome de Stewart num contrato para garantir qualquer coisa. Talvez fosse verdade, mas havia naquilo algo que me irritava. — Perdão, sr. Sheffield, mas não respondeu à minha pergunta — disse eu polidamente. — Pergu ntei como o dinheiro seria garantido. Não sou banqueiro nem homem da Wall Street. Sou apenas um pobre rapaz que teve de deixar os estudos e começar a trabalhar porq ue o pai morreu. Não compreendo essas coisas. Sei que, quando entro num banco e me pedem garantias, tenho de apresentar alguma garantia, como terras, hi-potecas, títulos, antes de me darem alguma coisa. É esse o sentido de minha pergunta. — Sem dúvida alguma, sr. Cord — concordou, com um sorriso. — Está querendo sugerir que tod as as companhias não sejam capazes de pagar a quantia combinada? — Nada poderia estar mais longe de meu pensamento, sr. Sheffield. O que acontece é q

. Estamos apenas subscrevendo as ações e fornecendo o capital inicial que dará vida à nova empresa. — O seu mal é que você está querendo ser maior do que é. — Espere um pouco. — Não. Sua participação nos lucros. Não se esqueça disso! O rosto de Mac ficou branco. e não de dez. Sou eu quem toma as decisões sobre meus bens. — Ainda não — retruquei. Apenas gosto de conhecer exatamente minha posi-ção. E por isso que figuramos nessa sociedade. Vou ser pago com o dinheiro que os senhores ganharão se eu lhes ceder a patente. — Claro. — O mal é que você é apenas meu advogado. mas minha voz era calma. em seu nome. sr. que são mais velhos e sabem mais.ue homens que têm mais experiência do que eu. Ele me olhou vivamente. Eu sabia de tudo que passava por sua cabeça. — As exigências de capital são muito grandes. Por que não me pagam tudo desde já? — Dez milhões de dólares representam uma quantia muito grande. — Mas parece ter algumas dúvidas sobre nossa proposta. — Ah! — exclamei. — É contrário a um negócio dessa natureza? — Absolutamente. Cord? — Absolutamente. São meus bens que estão aqui em jogo. neste caso a garantia deve ser de quinze milhões. ainda me fazendo de inocente. Só isso importará em alguns milhões. decidido. — Mais ou menos. Os cem m il dólares por ano que eu lhe pagava. fazer o que quiser. — Compreendo. Não tenho. — Agi de boa-fé. O mercado está desnorteado e há bancos em falência po r todo o país. sou participante acidental do empreendimento dos senhores. Minha impressão era de que eu iria receber dez milhões de dólares por esses d ireitos. Já chega o trabalho que tenho cuidando dos meus. com um s orriso de alívio. É a primeira vez que nos encontramos. — Seu dinheiro será garantido pela renda da nova companhia — disse Sheffield. mas. Houve durante um momento um silêncio melindroso e.. mesmo para essas compan hias — disse ele. — Quer dizer que sua firma vai adianta r o dinheiro? — Não! Não se trata absolutamente disso. Eu já estava zangado. Mac resfolegava como uma válvula. Vejo agora que vou ter apenas a garantia de dez milhões de dólares. A casa onde ele mor . recebo o dinheiro imediatamente. podemos começar a assinar os papéis — disse Sheffield. — Inclusive seus honorários de corretagem? — Claro! — disse ele. No primeiro. de modo algum. então. — Mas o senhor já concordou com dez milhões! — protestou Sheffield. — É de praxe. Mac perdeu inteiramente a calma. e o sorriso dele desapareceu instantaneamente. Posso vendê-los. no segu ndo. se vou também assumir os riscos. mas com um limite estabelecido na extensão de minha partic i-pação. Ainda me lembro de quando você era garoto. — Muito bem. sujeito aos mesm os riscos dos senhores. — E tenho. Não se pode saber ao certo o que ainda está para acontecer. encarando-o impassível. nem poderia ter. E eu quero saber como é que vou ser pago. Vi pela primeira vez sua calma de advogado desfeita. Jonas. Se o negócio nã se fechar de acordo com o combinado. Os bens são meus e você trabalha para mim. Deu-me motivos para acreditar que levaria em consideração um a oferta de dez milhões de dólares! — E levei. Neste caso. dá-los. ainda pa cientemente explicando. todo mundo começou a falar a o mesmo tempo. — Tem alguma objeção a fazer quanto à nossa posição.. Não participarei dessas negociações incorretas. lavo as mãos de tudo! Peço de-missão! — Será como quiser — disse eu. Acendi um cigarro e disse: — Mas uma coisa ainda não compreendo. Não me cabe dizer a ninguém como deve gerir seus negócios.. dizem que os tempos atuais são incertos. Há uma di ferença entre os dois casos. — Esto u disposto a ser par-ticipante da maneira sugerida.

Nada aconteceu. Voltou-se então para o urinol e levou a mão à braguilha.ava. — Pare com isso. ele disse: — Cada lado perde um pouco. Cord! — exclamou. Haverá outros contratos. Voltou-se para os outros e falou com sua voz calma de sempre: — Desculpem-me. — Claro. com essas negociações. quando Amos Winthrop bateu em meu ombro. — Faça-me esse favor — respondeu com um fraco sorriso. Sheffield. — Ele me contou que é um verdadeiro esportista e que é capaz de fazer apos-tas sobre tudo. o homem da Mahlon Chemical deu sua opinião: — São dois milhões e meio de dólares. com a ver melhidão a subir-lhe do pescoço para o rosto. sua braguilha está aberta! 3 McAllister fez as alterações necessárias nos contratos e nós assinamos ali mesmo. — Muito bem. O contrato será de doze milhões e mei o. Foi Sheffield quem tomou a iniciativa. Sabia perfeitamente o que estava f azendo. Lembre-se de que a aposta é de dois milhões e meio. Ele abriu a boca e arregalou muito os olhos por trás dos óculos. Passou-se um tempo. aposto dois milhões e meio de dólares como o senhor não é capaz de urinar de onde está naquele urinol. Já passa va de quatro e meia quando saímos para a portaria. senhores. sr. Cord. sr. Olhou para Mac. Se não conseguir. procurando compreender o que eu tinha em mente. Logo que me voltei. Caso contrário. Doze milhões e meio. Ele olhou para os outros e depois para mim. Ganhou a aposta. Se conseguir. Quebrei o silêncio. De qualquer maneira. mas de repente tive uma idéia. As escolas que os filhos estavam freqüentando. Eu estava caminhando para o ele vador. já tenho feito algumas apostas — respondeu ele com um sorriso. Estendi a mão para e le. Ele me olhou. Tinham mesmo necessidade da patente. . Não pense mais nisso. Escutei-o conversar em voz baixa com os o utros. fecharemos negócio por doze milhões e meio. mas desviou o olhar. Eu. Um pesado silêncio envolveu o local. — Ele hesitou um instante. Jonas. — Posso chamá-lo de Martin? — perguntei. Talvez n aquele momento esti-vesse lamentando haver deixado os sessenta mil por ano que g anhava antes de trabalhar para mim. Dei um sorriso irônico e fui até um dos urinóis. será por quinze. Ele ficou ali. e não podemos considerar esta reunião um prejuízo total — disse eu costas para eles. Vi o alívio que se mostrou no rosto dele. Não tive a intenção de enganá-los. mas não comp reendi bem as determinações do sr. Sheffield — disse eu. Eu não poderia dar-me ao luxo de ter pena dele. como a confirmar a aposta. Eu não queria falar com ele. você. Mac — disse com voz bem cordial. Por fim. — Acho que estamos ambos um pouco cansados. Até eu seria capaz de tentar isso por tanto dinheiro ! Sheffield hesitou um momento. — Sr. Olhou para mim e eu gesticulei com a cabeça. Ia faz endo um sinal afirmati-vo com a cabeça. O imp ortante é assinar logo a renovação de seu contrato para que nenhum desses piratas roub e você de mim. — Bem. Perdi. — Meu pai me falou muito a seu respeito. Creio que não compreendi o que me disse. — Estamos muito ligados para que uma coisa dessa interfira conosco. Sua posição na sociedade. Peço desculpas. não cederiam tão depressa. Nada mesmo. dizendo com voz muito séria: — Está bem. Apertei sua mão e disse solenemente: — Martin. — Pode me chamar de Jonas. tinha de lhe dar uma chance. — Então a situação é essa. com esse vôo em que bateu tantos recordes. A culpa foi minha.

Gastava tudo mais depressa do que o governo podia imprimir. A porta do elevador se abriu e entrei. — Para onde foi todo o dinheiro que recebeu pelas ações? — Acabou — disse. Ele devia a todo mundo. — Qual? — perguntou. Pegavam-se à gente e nunca mais largavam. — Vou fazer até mais. Amos. — Eu o darei a você — disse. — Nada pode ser tão importante. Amos estava bem a meu lado. não teria tanta certeza assim. O que há? Fomos até um sofá e nos sentamos. Mas estava cansado. — Preciso de mais dez mil. Cheguei a pensar por um momento que aquilo fosse uma forma delicada de chantagem . Eu sabia. achando muito curiosa a situação. isso não demora. mas não adiantou nada. — E o dinheiro? — perguntou ele. — Monica? — perguntei. não era mais sabido que qualque r simplório do interior. — O que há com ela? — Quero mandá-la viver com a mãe na Inglaterra. en contrei uma caixa de camisinhas na bolsa dela. — Você conhece o sujeito? — Não. mas os pais são ainda mais cegos. O amor é cego. Depois de se entender com todos os credores e com suas ex-esposas. Mas. Bem sabe como são as moças hoje em dia. O rosto dele se franziu num sorriso sabido. — Eu sei qual é o sono que você quer. Eu poderia ter explicado. se tivesse seus próprios filhos. com toda sua experiência. Estava atrasado três anos. — Você sabe que eu devia muito. Para que eu precis ava de sujeitos como aquele perto de mim? Sanguessugas. mas isso é importante. As portas do elevador tornaram a se abrir e eu saí. — E o que você acha que eu podia fazer? — perguntou ele. Prometo que não voltará a acontecer. com um ar de cautela nos olhos. Podia ser que já soubesse de tudo. mas com uma condição. Ela é um grande peso para mim e não posso mais controlá-la. com uma expressão de angústia. Está se encontrando com um sujeito às escondidas e. e um sentimento de repulsa me dominou. ansiosamente. Mas desta vez é importante. . mas julguei que ele poderia dar alguma valiosa colabora-ção à companhia. Vou dar vinte e cinco mil dólares. Ela já tin ha dezenove. Eu também tivera um pai muito ocupado sempre com seus ne gócios. É para Monic a. — Uma menina inocente como ela! Conservei-me impassível. Já fora um dos melhores projetistas de aviões do país. E aquela era uma maneira de me comunicar. — Seu contrato não se refere a adiantamentos assim. — Conservá-la presa den tro do quarto? — Você poderia ter tentado ser pai dela. e me levantei. As portas se fechavam. Não era de admirar que estivesse sempre sem dinheiro. — Da Winthrop Aircraft? — Da Cord Aircraft. — Conversou com ela? — Conversei. Amos? Tenho de dormir um pouco. seria capaz de matá-lo — disse com raiva. Quando tinha dezesseis anos. O rosto dele se encheu de satisfação. Ele deveria ter tomado providências naquela época. Aprendem tud o na escola e ninguém pode ensinar-lhes mais nada. — Quero sua demissão. Jonas? — É. não devia mesmo sobrar muito dos cinqüenta mil dólares. Até um trapace iro matriculado como Amos. — Está bem. veemente. Estava co meçando a me arrepender de havê-lo incluído no negócio.— Pode ficar para amanhã. se já não está enrosca da com ele. — Está falando como se fosse um especialista. — Sujeitos como você nunca aprendem. — Sei disso. — É sério. quando pedi ao as-censorista: — Espere um momento. Encarei-o. Se conhecesse.

É uma mulher. A mosca com eçou a descer na correnteza e. Amos. o so no chegou. sr. verde e vermelha da isc a. Olhei para o rio. sabia que a lua-de-mel estava te rminada. antes de me virar. Ela me apareceu de short. enq uanto a luz do sol invadia o quarto. agora que não preciso mais dele. levantando da cama e encostando a cabeça e m meu peito. irmão. bem acima da truta. a mancha azul..O rosto dele começou a perder a cor. — Que é? — perguntei com uma ponta de mau humor. A água.. E senti de repente uma onda de compaixão dentro de mim. tenho projetos para um avião que o Exército com certeza irá. Não havia mais brilho dentro da água. Be ijei-lhe suavemente a testa. mas fui eu que fundei a companhia. Quer mais tempo para ser seu pai. com os joelhos vermelhos e o nariz descascando. O dia está amanhecendo. Que Amos Winthrop fosse para o inferno! Que Jonas Cord fosse para o inferno! Man dei para o inferno todos os pais que viviam tão ocupados com seus negócios e eram tão egoístas que não podiam ser pais de seus filhos. Cord? — perguntou o ascensorista. — Venha para a cama. Nem agora. então começou a rir. — Um telefonema para você. meio adormecida. menina. 4 Vi a brilhante fosforescência agitar-se dentro da água e joguei alegremente o anzol no rio.. com a cabeça em meu ombro e o pescoço na curva de m eu braço. De Los Angeles. que é tudo para mim: pai. — Muito engraçado isso! Toda minha vida desejei que ele me desse um pouco de atenção e só agora ele se lembra disso. Por fim. — É verdade? Por quê? — Disse que é por sua causa. mas não disse o nome.. nem nunca mais — disse ela. Ela adormeceu no mesmo instante. Tinha certeza do êxito. pensei. — Não precisa mais dele? — Não. A pesca naquele dia estava encerrada. Casamos no fim da tarde seguinte na pequena capela de Reno. — O que meu pai queria? Tirei as calças e Monica me jogou o pijama. — Pegue o dinheiro. Ela se sentou na cama. — Mas. a s sombras vacilantes das árvores da margem. Meio adormecido. Fiquei um bom tempo sem poder dormir. mostrando cansaço. Era o fim. Conheço todos os seus segredos. Ti ve um sobressalto quando ouvi a voz de Monica na beira do rio. "Que pergunta estúpida". Ela me olhou um instante. — Quem é? — Não sei. e cuide de sua vida — disse eu. percebi-a virando-se na ca ma e o calor de seu esbelto e gracioso corpo me encheu de alegria. Para onde mais poderia ir? — Direto — respondi. . Monica estava deitada na cama em cima de meu pijama. O peixe havia desaparecido. Os olhos dela estavam fechados e havia em torno deles leves. Abriu os o lhos quando entrei e perguntou: — Foi tudo bem? Assenti com a cabeça e joguei a camisa em cima de uma cadeira. — Agora tenho você. A noite escura e sem estréias do sono profundo. olhando aquele rosto tran-qüilo. Agora me smo. atrás de mim. Uma questão de instinto. Comecei a sentir o cansaço me dominar. Sabia como uma pessoa pode sentir-se sozinha aos dezenove anos. marcas de cansaço. com os olhos castanhos arregalados de surpresa. amante. uma mosca na ponta da minha linha. — Sobe. Acariciei docemente seu cabelo castanho. Entrei no elevador e o ascensorista fechou a porta na cara dele. Mais um instante e a bandida mor-deria. — Jonas! A voz dela quebrou o silêncio e a truta mergulhou para o fundo do rio. friamente. — Acabou de me entregar seu pedido de demissão.

Cord está na linha. Os jornais dizem que está ganhando meio mi lhão de dólares por ano. — Ah. Trabalha nele há mais de um an o e agora tudo está dando errado e ninguém mais quer distribuir o filme.. Po r entre as árvores. pode sempre contar comigo. Acredita no filme. — Ótimo — disse eu. Mas agora os cinemas só querem mostrar filmes falado s. — Quanto? — Dois milhões de dólares. os grilos ensaiavam as suas cantigas. É a importância que esse filme tem para ele. com sua voz rouca e baixa. Ele está numa situação dificílima.. olhando para Monica. Foi então que me lembrei da cabana. Diz também que está com muitos filmes encalhados. — E por que ele não fez um filme falado? — Ele começou o filme há mais de um ano. mas eu sa bia que estava escutando. — Não é o dinheiro. Agora. num tempo em que ninguém acreditava no cinema f alado. — Compreendo. Monica voltou para a cabana. — Não. e le estará perdido. — Um momento — disse a telefonista. costumava ir para lá com Nevada. Muito mais. Sua mulher é muito bonita. Comecei a enrolar a linha pensando em quem poderia telefonar para mim. — Para quê? Conheço Nevada demais. .. muito obrigado. uma voz conhecida: — Jonas? — Rina? — Sim. É para Nevada. Há três dias que tento falar com você.. Toda a vida dele depende desse filme. — Se é de mais dez mil que precisa. — Escute. Cord? — Ele mesmo. — Não é possível que você não tivesse curiosidade em ver como ele aparece na tela. — Ninguém se interessa pelo oeste como realmente era. então. Meu pai sempre prometia ir tam bém. — Desejo-lh e muitas felicidades. — Nevada empenhou tudo o que tem para fazer um filme. Tomei o caminho de volta. quero dar-lhe os parabéns — disse Rina. não foi. o banco está exigindo o pagamento do empréstimo e Norman não quer adiant ar mais o dinheiro.— Diga para ela esperar. mas sua cabeça não se levantou da revista. Eu sabia que Monica estava me observando. — Por quê? Não presta? — Nada disso. E um filme notável. mas. Mas não foi para isso que você telefonou. — Já viu algum dos filmes dele? — Não. — E mais do que isso. Mas vi o retrato nos jornais. — Los Angeles. Jonas. Corre o risco de perder t o que tem. Não eram muitas as pessoas que sabiam da existência daquela caba na nas montanhas. — Está. Ninguém soube dizer onde você estava. Ela continuou a folhear a re-vista. Se não der certo. — Alô. Ouvi um clic e. Encostei o caniço na parede da cabana e entrei. — Sr. o sr. mas nunca chegou o dia. — Você tem de ajudá-lo. Já estava escurecendo e os ruídos noturnos iam começando. — Nevada nunca deu muito valor ao dinheiro. Quando era garoto. Preciso de sua ajuda. — Você a conhece? — Não. — Mas eu pensei que ele estava muito bem. — Mas o quê? Acendi um cigarro e bati com as mãos em volta à procura de um cinzeiro. Monica estava sentada numa cadeira perto do telefone folheando uma revista. Teve a final a oportunidade de mostrar o oeste como realmente era. — O quê? Para que precisa de tanto dinheiro? — Não é para mim. Peguei o telefone. Subo num minuto.

— Não precisa correr! — deu-me as costas e entrou em casa sem olhar um só instante para trás. — E por que você está tão interessada? — Porque é meu amigo. — Mas isso não custou a ele dois milhões de dólares.— Está bem. Eu sabia do que ela estava falando. Vou levar você de volta à fazenda. — Está bem. com uma voz retesada como u ma corda de arco: — Quanto tempo vai demorar? — O tempo que for preciso para resolver os meus negócios! — respondi asperamente. l avar minhas costas. — O que pensarão se voltarmos da nossa lua-de-mel ao fim de cinco di-as apenas? — O que me importa o que vão pensar? Ela começou a chorar e insistiu. — Voltarei o mais depressa que puder. ele não me fez uma só pergunta. mas daí a cinco anos val eria. Quando precisei de ajuda. Olhou-me um instante e. — Mas só estamos aqui há cinco dias. Tenho de ir para Los Angeles a negócios esta noite. — Se ele está em tais dificuldades. Com uma mão. Afinal tínhamos apenas cinco dias de ca sados. Antes de casar. Que motivo teria eu para gastá-lo? — Um dia. Ela me tratava como a um rei. Ficou com a mesma cara duran te as duas horas que gastei até chegar à fazenda. Robair já estava na por ta. — Não? E quanto vale agora? Isso me abalou um instante. — Então fique sozinha. Seu quarto está em ordem. tudo era muito bom. Estarei no Beverly Hills Hotel à meia-noite. Vou buscar o carro lá embaixo. Monica saiu com uma maleta e f icou esperando eu abrir a porta do carro para ela. Se não estiver pronta quando eu vo ltar. — Trata-se de uma situação de emergência. Monica me perguntou. Mas é melhor nos vermos em qualquer outro lugar. Mas logo senti a ternura que ela me inspirava. Depois de um instante. por que não me telefonou pessoal-mente? — Nevada é muito orgulhoso. Eram nove horas quando parei diante da casa. ser cheio de gentilezas. 5 . ela me sma abriu a porta e entrou com a cara enfarruscada. Fiquei indignado e disparei o carro para a fábrica. Ainda tinha lá o meu velho Waco. Mas irei de avião para Los Angeles esta noite. com a outra tentava acender meu cigarro. indo para o quarto. Onde posso procurá-la ? — Estou na casa de Nevada. depois. a caminho de Los Angeles. me cercava de veludo. — Não prometo nada. Era das ações de Nevada na Cord Explosives. E preciso até agradecer quando ela resolve dar a mesm a coisa que antes ela é que sentia prazer em dar. cumprimentou Monica. abrir-lhe as portas. Desliguei o telefone. ficar de joelhos. Não quero que saiba que eu lhe telefonei. A verdade é que minha raiva só passou quando eu estava a setecentos metros de altit ude. você precisava muito de uma coisa e ele lhe deu. sra. acender-lhe os ci garros. Cord. com as mulheres? Basta a gente ficar diante de alguém nu ma igreja durante cinco minutos e tudo está mudado. — Boa noite. irei sem você! O que há. Não mudou de expressão quando fiquei no carro depois que ele pegou a maleta de M onica. afinal de contas. Vai ajudá-lo? — É muito dinheiro. Talvez ainda não valesse tanto. Parei o carro diante da cabana e toquei a buzina. E você me prometeu uma lua-de-mel de duas semanas. peg ava na coisa para mostrar que queria. Quando ele entrou com a maleta. — Vamos arrumar as malas. Como de hábito. Você sabe disso. Depois das palavras mágicas a gente tem de implorar tudo! Tem de andar de acordo c om todas as regras. — Quem era? — perguntou Monica — A viúva de meu pai — respondi. batendo o pé: — Não vou.

ainda sentindo a emoção do que acabara de ver. Olhei para Von Elster e disse: — Tirando o caso daquela madame de Nova Orleans e. Senti então um calor nas coxas e compreendi o que era. O herói pode ser culpado de qualquer crime. Por isso. Deviam estar tão firmes quanto eram da última vez que a vi. Jonas. Essa me acertou. Mas por que não acrescenta o diálogo a esse filme. — Há quanto tempo você está por aqui? — Há um ano e meio. Gostaria de conversar mais sobre essas coisas. Ri e levantei. Havia neles uma segurança que não existia antes. então? Dinheiro? — Não. Começava o filme como um garoto de dezesseis anos e acabava pelas montanhas como um homem de vinte e cinco. Era a força que eu sempre sentira nele. Um homem de verdade. — Vamos! — falei bruscamente. O que ele dizia era mecanicamente sensato. da mesma man eira que se faz com a música. Sem a mecânica. Só os ol hos estavam mudados. Sentei-me na sala de projeção entre Rina e Von Elster. mas que ali era maior. Rina não havia mentido. Recostei-me na cadeira com um suspiro quando as luzes se acenderam. — Desculpe a pergunta. o diretor. — Não sou muito de ler coisas — disse eu. Peguei um ci garro. O filme era notável. Um homem. — E você é boa para ele? — Procuro ser — respondeu tranqüilamente. Von Elster sorriu. . — Eu sabia que ia dizer isso. — O que é. — Estava apenas curioso — repliquei. — Mas não é isso o que im porta. Por que tem de fazer tudo de novo? — Seria ótimo se pudéssemos acrescentar o diálogo. mas apenas por um motivo: Nevada. — Não posso perder a noite toda. não seria possível faz er nada daqui-lo. Mas nunca em todo o filme eu sentira sua verdadeira idade. Olhei-a e senti a mesma excitação que ela provocava em mim. Como em tudo no mundo. — Por quê? — Porque a indústria julga que se deve conservar sem mancha a imagem do herói puro e f orte. Desde que voltei da Europa. havia uma técnic a naquela atividade que começava a me interessar. — Venha para o hotel comigo. — Você só está casado há cinco dias. — Bem. — Não é o que você pensa — disse ela. seus olhos fixos em mim. ao passo que o filme mudo tem um andamento muit o mais rápido. prontamente. A você pouco interessa o que eu seja ou não seja. levantando-me e jogando o script em cima de uma cadeira. o da fi-lha do presidiári o. Mas percebi vagamente a falta de alguma coisa.Olhei para Rina com o script de capa azul na mão. Ele é muito bom para mim. Nunca me dei bem com garotos. com o tempo chegarei lá. Mas acontece que o ritmo de projeção do f ilme mudo é muito diferente do ritmo do filme sonoro. O tempo não havia tirado coisa alg uma de Rina. menos o de fornicação. Continuava esbelta e forte e os seios ainda se projetavam como as p edras num canyon. — E tem estado com Nevada todo esse tempo? — Tenho. — Curioso para saber como é que se consegue prendê-la. dependendo dos letreiros e de uma ação mais ampla para exprimir o enred o. não há mulheres no filme. — Há algumas coisas que não se fazem num western. — E tem dormido com ele? Ela não teve a menor evasiva. Meter mulheres é uma delas. com uma força que parecia iluminar a tela. Ele m antinha o filme do princípio ao fim. — Sim. depois. Rina teve um sobressalto. consegui do estúdio uma projeção do filme para você. mais determinada e mais irresistível. Estão à espera. O filme falado é projetado com a velocidade da palavra falada.

Norman. passando a um tom confidencial —. — Como é? Vai ajudar ou não? — O que eu ganho se ajudar? — Pode ganhar muito dinheiro. e. — Quer dizer que ele está abalado? — Todo mundo em Hollywood está. Não sabia o que eles queriam. — Está pre-ocupado. Peguei o telefone. — Espere um pouco aí até eu me vestir. — Já é uma coisa a menos para dar preocupação. 6 O telefone tocou repetidamente dentro de minha cabeça. é muito esperto. Cord? E Von Elster. — Não preciso. Cord — disse Von Elster. Nevada é um homem cem por cento. O sr. — Está certo — respondi. eram quase seis horas. O sr. Vou ganhar muito dinheiro de uma maneira ou de outra. . Dei à telefonista o número do financista Tony Moroni. Ela fez um sinal quase imperceptível com a cabeça. — Não. sua posição es tará assegurada. — Quanto é exatamente que você me dará para so-correr Nevada? — Daria tudo o que tenho se fosse necessário. — Posso deixá-lo no hotel. É muito importante falarmos com o senhor antes de seu encontro com Nevada. — Escute. Nunca fez um filme falado e quer fazer esse. — Você não mudou nada. Muito boa. Há muitas coisas que ainda quero saber. Desculpe incomodá-lo tão cedo. — Von Elster tem um interesse pessoal no caso — disse ela. Senti uma ponta de tristeza. A capa azul do script chamou minha atenção por um instante. É um grande filme. não esperava outra coisa — disse ela duramente. subi para meu quar to e peguei o script. sr. ainda tonto de sono. Quantas pessoas diriam o mesmo a meu respeito? Só pud e pensar numa. Quando resolve r. Ela olhou firme para mim. Ela não disse uma única palavra até o carro parar diante do hotel. Ninguém sabe ao certo qual será o efeito do cinema falado sobre a própria carreira. Norman. você será a pri-meira pessoa de quem exigirei pagamento. Nor man julga que poderá ajudá-lo muito no negócio que vai fazer com Nevada. Fizemos outro dia um teste sonoro. Acordei e o-lhei para o relóg io. sr. muito obrigado. hein? — Não. Levei quase uma hora e meia para chegar ao fim. Cord — disse ele. Correra depressa para o patrão logo que sentira o cheiro de meu dinheiro. Dan Pierce. segurando-lhe a mão. que estava ria como gelo. Fez sinal ao chofer e a limusine se afastou. Peguei um cigarro. Mudar para quê? Ninguém muda. Você mudou? — disse eu. — Oito horas está bem. — Acha que preciso de alguma ajuda? Conheço Nevada desde criança. — Quem é Norman? — perguntei. Von Elster não perdera tempo. Sua voz ficou gélida. Desliguei o telefone e acabei o cigarro. Mas não se preocupe. Larguei a mão de Rina e saí do carro. Rina pode me deixar no caminho para casa. É a companhia que distribuirá o filme. Mas o agente dele. Eu lhe telefonarei. Ouvi dizer q ue a voz de John Gilbert é tão ruim que a MGM não fará mais nenhum filme com ele. — E a voz de Nevada? — É boa. — Creio que já avançamos o máximo sem o conhecimento de Nevada. da Norman Films. Olhei para Rina. — Leve-o ao hotel amanhã às oito horas . — Sr. — Então.— São quase quatro horas — disse ela. Entrei no hotel. se der certo. mas estou aqui na portaria co m o sr. Norman acha que p ode dar al-gumas sugestões antes que o senhor tenha de enfrentá-lo. De Greta Garbo e John Gilbert para baixo. — Conhecendo você como conheço. Passava alguns minutos das sete. — Bernard B. mas não devia s er nada de bom para Nevada. Jonas? Já resolveu? — Ainda não. Tornei a pegar o telefone. Quando fec hei os olhos.

A voz dele foi muito cordial. Não era de admirar que Von Elster e Bernie Norman estivessem lá embaixo à minha espera . — Entregaremos o filme a Norman para distribuição. — E o que farão com o filme? Jogarão no arquivo? — Nada disso — respondeu. Muitas coisas podem acontec er. que eu não pensara em Mon ica desde que chegara à cidade. ele já estaria liquidado. Agora. se tiverem sorte. as de spesas triplicarão. — Não tem importância. — Somos nós. Quando o filme passar para nossas mãos. deve ser um risco muito bom. lembrando de repente. — Obrigado. — O que há sobre o filme. Ele não estava preocupado. — De tudo que sei. Posso muito bem assinar outro título. Moroni riu enquanto nos despedíamos pelo telefone. nos entreg ará a quantia excedente. — Corra o risco desta vez. Quanto custará a transformação de O renegado em filme falado? — Vamos ver. Os seis ainda estão no lugar e eles têm o guarda-roupa. Depois que ele recuperar esse dinheiro. desde que . Dessa maneira iriam encher os bolsos sem qualquer risco ou despesa. nós penhoraremos o filme e todos os seus bens. de fato. De pois liquidaremos tudo até recuperar nosso dinheiro. — Depois disso. — Eu sei. e deixarei de importuná-lo. Tony? — É um bom filme. Os banqu eiros estão sempre dispostos a emprestar todo o dinheiro que quisermos. É Bernie. Sabia que eu podia perfeitamente cobrir o dinheiro com o que ia receber da companhia q ue ia explorar a minha patente do novo processo industrial para plástico. — Quem recebe o dinheiro da distribuição? O banco? — Claro que não. É Jonas. dare mos o que sobrar a Smith. Tivemos automaticamente de exigir o pagamento do empréstimo. e a parte dele ficará para o fim. Quando qualquer dinheiro chegasse às mãos de N evada. — Obrigado — agradeci automaticamente. Isso d ará a Norman a oportunidade de reaver seu dinheiro. Tony. você precisará gastar ainda um milhão. — E o que exatamente vai acontecer a Nevada? — Se ele não puder pagar o empréstimo. Parabéns pelo casamento. Limpar Nevada. faça-me um favor. Agora eu sabia de tudo. Teria mais possibilidade se fosse falado. Como o atual agente de Nevada. Fizemos o empréstimo a Smith com penhor de seus b ens e mais a garantia da Norman Films. caíra numa a rmadilha dessas? — Uma pergunta mais. É possível que eu assuma a garan tia em lugar de Norman. pois ele empregou cerca de qua trocentos mil dólares no filme. Mas a mão com que escrevo ainda está perfeita. Ele é o distribuidor. — Não gosto de correr o risco de dar opinião sobre filmes. Os camaradas lá embaixo estavam querendo dar um golpe de m estre. Tony? — Muito pequenas. Tony. — Se acha que é bom. Agora Ber-nie Norman precisa de crédito par a reformular alguns de seus filmes e retirou a garantia. Talvez mais um milhão. Tony. sendo tão esperto como diziam. Jonas. Não queriam interfe-rências em suas trapaças contra Nevada. Suspenda qualquer provi-dência a respeito d o empréstimo até eu lhe dar alguma palavra ainda ho-je. rindo. Quero a opinião de quem não tem interesse pessoal direto no caso. — É o seu banco que está financiando o novo filme de Nev ada Smith? — O renegado? — Sim. as despesas de distribuição são bem r eduzidas e a parte de Smith é a maior. — Vale a pena? Ele hesitou. por que está exigindo o pagamento do emprés-timo? — Você sabe como trabalhamos. Eu já estava acordado. Quando nosso empréstimo estiver integralmente coberto. — Quais são as possibilidades de sobra. É cerca de metade d o custo. mas é um bom filme. Menos. A coisa estava começando a ter sentido.— Desculpe ligar a essa hora. Nos termos do presente contrato.

— É uma pena. afetuosamente. — E Norman? — perguntei. seu casamento. mas mudei de idéia. Eram quase sete e meia e me se ntia meio sonolento ainda. — Nevada. Ele fora um grande jogador de pôquer. Onde arranjou essas roupas? Ele ficou um pouco embaraçado. Eu bem que gostaria de conhecê-la. telefonarei p ara ele. Mas eu queria fazer o filme. Diga ao sr. Ri pensando no que ele iria dizer ao patrão. meu agente. quando bateram na porta. Fossem para o in ferno e esperassem mais um pouco se quisessem falar comigo. Era engraçado apertar a mão dele como se fosse uma pessoa estranha. Deixei a água quent e ensopar minha pele e var-rer o cansaço. Gostei muito. Um sorriso se esboçou no rosto de Nevada. Nevada e outro homem estavam de pé no meio da sala. É uma pena que você tenha de fazê-lo de novo. Entrei no banheiro. Ouvi uma exclamação de surpresa e decepção quando desliguei. Olhei para o outro homem. Achava que dizia mais do que todas as coisas falsas que eu até então representara. — Isso faz parte da profissão. — Pensei que o cinema falado não fosse vingar — disse Nevada. — Por que não lhe adiantou o dinheiro para acabar o filme? — O crédito dele diminuiu — disse Nevada. mas logo que começamos as filmagens viu que estava errado. — Mas quando é que vamos conversar? — Acho que agora é tarde. Peguei o telefone. Olhei para o relógio logo que desliguei o telefone. — Não é essa toda a verdade — começou Pierce. Começou a fazer um cigarro. — Entre — gritei do quarto. — Muito bem.te-nhamos bens suficientes em garantia. —Tenho lido muita cois a nos jornais a seu respeito. — Só dispunha de um palco de som nessa época e preci sava dele para seus outros filmes. e vi que compreendera tudo o que havia em meu casame nto com Monica. e Nevada fez a apresentação: — Dan Pierce. Tentamos transfor má-lo num filme falado. Nevada então me surpreendeu. Olhei para Ne vada sem compreender. Nunca pudera esconder nada de Nevada. mas desapareceram um ins tante na satisfação com que me olhou. Se precisar de alguma coisa. Com isso. Vesti as calças e já ia pegando uma camisa. Rina e o agente estão subindo. tudo se esclareceu. O telefone tocou três vezes enquanto estava debaixo do chuveiro. Norman que agradeço muito a oferta. Rina já estava sentada no sofá. irritado. — Meteu a mão no bolso e tirou uma bolsa de fumo. Tenho de andar assim. Não valia a pena ter tanto trabalho para apanhá-los e s aí com os pés descalços. mas não conseguimos. Vou ver o que posso fazer com o agente de Nevada. — Também você está com muito bom aspecto. Ouvi o telefone tocar de novo. pois queria mudar de assunto. Apertei-lhe a mão sem jeito. Ouvi a porta abrir e acabei de abotoar a camisa. O que eu mais queria naquele momento era um bom banho. Os garotos gostam. Eram quase oito horas quando saí do banhei ro. Havia pequenas rugas de tensão nos cantos dos seus olhos. Ele me olhou meio surpreso. Quisemos esperar. . dizendo: — Eu sei o que você está pensando. Não nos viram. falando naquela voz baixa de conspirador. — Por quê? — Norman não deixou — continuou Pierce. mas ele afirmou que se não pr osseguíssemos imediatamente nas filmagens ele retiraria a garantia que estava dand o. Apertei a mão do agente e entrei direto no assunto: — Vi seu filme ontem à noite. O vôo de Paris a Los Angeles. A trama fora preparada desde o início. — Nevada queria fazer o filme mudo m esmo. que estendeu a mão. — É por isso que o banco está exigindo o pagamento do empréstimo. — Você está cada dia mais parecido com seu pai. Era Von Elster outra vez. Sua mul her está aí com você? Fiz um gesto negativo com a cabeça. Procurei os sapatos e vi que es tavam do outro lado da cama. — Jonas! — exclamou ele.

— Já estou um pouco velho para me preocupar com uma coisa em que entrei por acidente. Você pode perder todo seu dinheiro. quando lhe digo que Bernie é o responsável por tudo — disse Pierce. Bernie Norman faz o banco exigir o pagamento e o banco entrega o filme a ele. — Pois é um patifezinho de merda. levarei todos de avião para Nova Iorque. — Agora talvez você acredite em mim. Ele tem contrato com dez mil cinemas. Queriam me dar algumas sugestões. — Dirigiu todo s os meus filmes e foi quem me descobriu. explodindo de novo. quer você goste. sentada no sofá. — Se o filme não prestar. Não haverá discussões e todos me obedecerão. Apertamos as mãos e fui para o telefone. — Cerca de um milhão de dólares — respondeu Nevada. que o banco está exigindo — acrescentou Dan Pier ce prontamente. Nevada. — Nevada — interrompi a conversa dos dois —. Não vou perder nada. sorrindo.— Tudo isso é conversa — disse Pierce. — Estamos é sendo torpemente ex plorados. Seu rost o estava impassível. mas eu nem fa-lei com eles. Os olhos apenas suplicavam. — Norman ainda teria de distribuir o filme? — perguntei. — Sem contar o pagamento do empréstimo. — E se for mudo? — Teremos sorte se for exibido em mil e quinhentos cinemas. Liguei para Moroni. O que quero agora é que Pierce providen cie para que eu veja tantos filmes falados quanto for possível nos próximos três dias. você inclusive. Quando o fizermos de novo. tentou traí-lo. as rugas de preocupação desapareceram de seu rosto e ele voltou a ser um homem jovem. Comprarei todos os interesses e o f ilme passará a ser ex-clusivamente meu. será feito do jei to que eu quiser. No momento em que pensou que você estava em dificuld ades. Se vou perd er a mão. Pas-saremos três . fizemos um trato. Depois me voltei e olhei para Rina. E fora ele mesmo quem me ensinara a pegar no baralho quando as paradas estavam muito altas. — Então? — Não sei. não faria nada. — Negócio fechado. concordando. — Sempre me arrumei muito bem antes de ser artista — disse Nevada. — Vou fazer a coisa. Todos querem filmes fa lados. mas também tocado de especial re speito. no fim da semana. Júnior. Mas reconhecia que eu era algum a coisa mais para Nevada. Depois. — Mas o senhor sabe alguma coisa a respeito de filmes? — perguntou Pierce. Cheio de raiva. Não gosto de deixar você se arriscar sozinho. — Então sabia mais do que eu. — Quanto custaria fazer o filme de novo? — perguntei. Vi o olhar de Pierce para Nevada. O cinema passara a ser uma cois a nova e não havia mais veteranos. Sabia que você ia fazer isso. depois me olhou com sua franqueza habi-tual e disse: — Se eu fosse você. Nevada fez um sinal com a cabeça. O filme é meu e o que eu disser é o que se fará. Nevada? Nevada estendeu a mão. Norman consegue o filme de graça. — É por isso que sou um bom banqueiro. Para Pierce. Nevada. O que eu dizia era verdade. — Felicidades. Virei-me para Nevada. por quase um terço do que lhe custaria se o fizesse com o dinheiro dele. — Claro. — Está enganado! — exclamou Pierce. — Mas Von Elster é um dos melhores diretores de Hollywood — disse Nevada. Mas com uma condição. quer não. Jonas. sua carreira estará encerrada. Olhei-o um instante. eu era apenas outro trouxa. no banco. — Pode transferir o empréstimo para a Cord Explosives. — Não sei nada. e se for um filme falado não haverá um só que o recuse. ao menos quero ser quem dá as cartas. — O que acham que devo fazer? Nevada hesitou um instante. Mas quantas pessoas conhece que já fizeram um filme falado? Isso o fez calar-se. Já ouvira muitas vezes meu pai dizer coisas parecidas. Estava às sete da manhã aqui no hotel com Bernie Norman. Desliguei e voltei-me para os outros: — A primeira coisa que temos a fazer é dispensar Von Elster. — Então.

— Meio milhão de dólares por um avião? É uma loucura! Nunca recuperaremos o dinheiro! Uma passagem de Nova Iorque a San Francisco de trem custava mais de quatrocentos dólares. Ela bateu imediatamente o telefone. Morrissey era jovem. Eu e Rina ficamos a sós. Ainda há a vantagem do controle visual direto do piloto. Cord — disse ele. pertencia a uma nova geração que c aminhava no céu. Vários aviões estavam ali ali-nhados. Não era piloto. especializando-se em p lanejamento e engenharia aeronáutica. em ver-melho. branco e azul. Rina atendeu e depois estendeu o telefone para mim. chegava a mais de quinh entos dólares por passageiro. — Quer ser pago agora mesmo? Eu sabia que a havia ofendido. Então comecei a rir. Por que está sorrindo. subiria a se . Naturalmente vai dizer qu e é sua madrasta! — E é mesmo. — Você pode jogar seu dinheiro fora nesses planos malucos. A viagem levava quase quatro dias. — Quer dizer que poderíamos voar daqui para Nova Iorque apenas com uma parada em Chi cago? Não acredito! — exclamou Buzz. Nevada? — Como já disse. Com as refeições.. Rina. Não se esqueça de noss o trato ontem à noite. poderemos pro duzi-los por um quarto de milhão. Nevada e Pierce fora m ao banheiro se lavar. — Não me venha com trapaças. poderíamos transportar vinte passageiros além do piloto e do co-piloto numa velo-cidade de cruzeiro de cerca de quatrocentos quilômetros. — Para sempre. Um avião assim daria uma renda de sete mil dólares com a carga e os passageiros. Nós dois sabemos por que fiz isso. Tudo estava tão certo. poli-damente. Buzz olhou para mim. com sua maneira segura —. o garçom chegou com o café. — Quatrocentos mil dólares.. . — Alô. Ela me olhou com simpatia. precisamos é baixar as asas para ter toda a força ascensional necessária e também para aumentar a capacidade de combustível. Corrigidos os defeitos. ostenta ndo no lado e embaixo das asas as iniciais ICA. Fiquei um instante atônito. Lá poderemos até conseguir um bom diretor de cena e. Um avião bimotor. — É o que meus cálculos mostram. Dalton riu. Jonas. você cada vez se parece mais com seu pai. Sorri também para ele. — Posso esperar — disse eu. E tão errado! 7 Olhei da janela para o campo de pouso. — Na minha opinião. Nesse momento. se for preciso. Dalton — disse Morrissey. sr. Formara-se. — Negócios! E quando eu telefono é uma vagabunda que atende. poderia vir a tornar-se um ser human o. D everá voar seis horas sem necessidade de reabastecer. Virei-me para a prancheta e depois para o desenhista. rod eadas por um círculo. Nesse momento. sr. — De acordo com meus cálculos. Já vi muitos dess es sonhos! — Quanto custará para fazer o primeiro? — perguntei a Morrissey. — Eu também — replicou ela. dizendo: — Sua mulher. e disse afetuosamente: — Se você seguisse apenas seus impulsos. Monica. com maior força ascensional do que qualquer outro aparelho existente. de asa única. sorrindo. o telefone tocou e eu disse: — Atenda. mas eu não.. ainda mais jovem que eu.ou quatro dias indo ao teatro. o que. talvez quinhentos. O que propunha era radical. — O que me interessa é a capacidade de carga e a velocidade — respondi. com o transporte das malas postais. A voz dela estava cheia de raiva.

sala de conferên cia e mais duas salas menores. seria a Cord Explosives fazer uma avant ajada dedução nos impostos. Vamos tratar de negócios. não tive dúvidas: um momento depois estava pedalando como um alucinado e ouv indo os gritos do mensageiro às minhas costas. É para isso que existem advogado s. um armário de bebidas cheio até as bordas. temos de lutar para const ruir um novo avião. O telefone da minha mesa tocou. O guarda me viu e fez sinal par a passar. toda a indústria passará a nossa frente. sala de vestir. Entrei pelos fundos e fui direto ao gabinete. Havia cinco semanas que aquilo acontecia to das as manhãs. Levantei. pode começar a construir o avião. No momento em que sentei à mesa. além de meu gabinete. — Espere aí. levantando. Não respondi e fui para meu carro. Eu tinha também u m bangalô particular com escritório e duas secretárias. — Bom dia. Boa sorte. nos fundos do estúdio. Poderíamos até dar refeições de graça durante as viagens. A inda farei de você um homem rico. Jonas. em muitos casos com prazos já vencidos. em menos de vinte seman as recuperaríamos o dinheiro e cobriríamos todas as despesas. uma das secretárias apareceu e se plantou diante de mim. — Não pense que é a ICA que vai pagar as contas. — Mas ainda acho que é uma loucura sua construir ess e avião. quando vi a bicicleta de mensageiro encostada a um dos bangalôs. Cord. Havia uma placa com meu nome no espaço r eservado para mim. já temos um avião — repliquei. Na sal a de jantar dos diretores havia uma mesa reservada com meu nome. Poderemos perder nele até a camisa do corpo. Cord. chamo McAllister. — Tenho de ir ao estúdio. Não adiantava explicar a Buzz o mecanismo simples do crédito. — Bom dia. Se eu leva r o caso à Justiça. uma geladeira elétrica. Vão começar o primeiro take e gostariam de sab er se o senhor quer assistir. — Eu devia ter aprendido tudo quando perdi aquele Waco para você num jogo de pôquer. — E a Cord Explosives possui a outra metade — disse eu. Olhei para o relógio. Quase nove horas.te mil e quinhentos dólares. — Escritório do sr. Çord. — Espere um pouco — exclamou Buzz. Daí por diante tudo seri a lucro. A ICA enco-mendaria vinte daqueles aviões à Cord Aircraft. — Você é um grande aviador. — Está bem — Buzz acendeu um cigarro. Alguma coisa para ditar? Neguei com a cabeça. Ela já devia saber. Escutou um instante e se voltou para mim: — Já terminaram os ensaios no Palco Nove. Com cinco viagens por semana. de b loco e lápis em punho. senhor! Sorri e levei o carro até o estacionamento. sr. O set de Nova Orleans fora c onstruído ali porque se calculara que haveria mais silêncio. Aquela gente do cinema em matéria de bajulação era perfeita. As duas compan hias dariam os aviões em penhor à Cord Explosives. Se não o fizermos. O Palco Nove ficava bem longe. — Eu devia saber. Jonas — retrucou Buzz. Entrei no carro e Buzz gritou no momento em que eu ia me afastando: — Boa sorte com o filme! Entrei pelo portão principal dos estúdios de Norman. Não se e squeça de que metade das ações me pertence. banheiro completo. — Será que vai mesmo se arriscar com essa coisa? — Morrissey. memorandos ou instruções. com um riso amargo. Nada de cartas. Continue a voar e deixe a parte dos negócios comigo. Nunca escrevo coisa alguma. Buzz. — Também tem meio milhão de dólares de penhor sobre os aviões da ICA. sr. serei o único dono da In-ter-Continental Airlines. você gasta todo seu tempo ne sse maldito estúdio. . Enquanto se diverte com esse filme. com ar muito eficiente. S e quero qualquer coisa escrita. Irritado com a distância. A secretária atendeu imediatamente. — Diga que já estou indo para lá — pedi. O rosto de Buzz ficou vermelho de raiva. Vamos rodar a primeira cena hoje. O pior que po deria acontecer. Comecei a andar pelos caminhos margeados de tijolos. caso o avião não prestasse. sem qualquer interferênci a de som dos outros palcos. Há um mês e meio. A Cord Explosives descontaria nos bancos os títulos do penhor antes mesmo de serem construídos os aviões. — No que me diz respeito.

Nevada estava no outro canto. A atriz que fazia o papel da madame era Cynthia Randall. Poderia ter chamado um carro para t razê-lo. Cynthia Randa ll começou a falar e fiquei estarrecido. — Que idéia é essa? Mas eu já estava com os fones nos ouvidos e ele nada podia fazer senão me olhar. Só Rina me havia dito que a voz de Nevada era boa. quente e compreensível. Era a maior estrela de Norman. mesmo na mais luxuosa casa de Nova Orleans. mas até os olhos eram de um rapaz. Virou-se qua ndo eu entrei. Então. Disseram que já iam começar.Parei em frente ao Palco Nove e quase me choquei com um homem que estava abrindo a porta de entrada. — Todos nos seus lugares — gritou alguém. nós dois precisamos de nossos em-pregos. não é? Concordei. de costas para mim. Ele se virou. — Ele é ótimo. Então me aproximei e peguei rápido os fones. Comecei a com preender por que é preciso gastar tanto dinheiro para fazer um filme. Não posso mudar o som das vozes. Quando tudo termina. — Pois então vamos! — respondi. A máquina está perfeita. O rosto de Rina estava voltado para o set. É meu dinheiro e meu tempo que estão gastando aí dentro. Não sei como fazi a isso. rapaz — disse ele —. Tinha-se por certo que era a coisa de mais sexappeal do cinema. — Alô. e em seus olhos havia uma expressão de fascinação. há um homem que junta tudo na ordem certa. Dois maquiladores e um cabeleireiro rodeavam-na enquanto ela se sentava diante da penteadeira que fazia parte do set. com fones nos ouvidos. Olhou para mim e percebi que ele não sabia quem eu era. Um arrepio atravessou minha espinha. É a moça. — Ora. — Não. Tir ei os fones dos ouvidos e os meti nas mãos do atônito homem do som. — Não precisava fazer isso. — A voz de Nevada Smith? — Não — disse ele. Estavam prontos para filmar a primeira cena. pois tive imediatamente uma recordação da minha in fância. Ele me olhou com uma escandalizada surpresa. sem qualquer sugestão sensual. estou fazendo o possível. quando notei o homem do som. — Lá vamos nós. Estávamos no déc imo primeiro take daquela mesma cena. O homem do som voltou para a sua máquina. todo zangado. ainda moço. Gos¬to de mulheres com peitos de verdade. sr. fala p ela primeira vez com a madame da casa suspeita. Parti impetuosam en-te para o set. Era Bernie Nor -man. . Senti uma espécie de desânimo. carregando um cabo. não é mesmo? — Claro. — Algum defeito na máquina? — perguntei. Júnior — disse sorrindo. a gente te m de fazer sem discutir. Nevada parecia ainda mais moço do que quando eu o conhecera. De vez em quando. Não era o começo do filme. Fiquei emocionado. talvez com desprezo da minha ignorância. Uma voz como aquela acabaria com o sexo. sr. Dali podia ver e ouvir tudo. A voz dela tinha todas as qualidades irritantes de um gato a miar em cima de um muro. — Pois bem. Fui para perto da aparelhagem sonora. não me dizia nada. Pessoalm ente. — Pois bem. depois. Encostei a bicicleta na parede: — Não tive tempo. — Está aborrecido com alguma coisa? — Escute aqui. falando com Rina. todas as e xternas. Estava curvad o sobre a mesinha de controle. mas é assim mesmo que se faz um filme: primeiro todas as cenas internas. Norman. Mas não sou Deus. aquela em que Max. Um homem passou. e rodava freneticamente os seus botões. Nev ada estava falando. Cord — disse. movia os lábios em pragas mudas e se punha novamente a girar os botões. mas eu o empurrei raivosamente par a o lado. Afas-tei-me dele e quase dei um enc ontrão em outro. Resolvi ir para bem longe para não causar algum prejuízo. A voz era perfeita. A voz de nasal que parece falar com os olhos. Um homem tentou me segurar. — Acho que isso é comigo — disse Nevada. quando o chefe nos diz para fazer alguma coisa parecer boa.

sr. E não quero mais brincar. cansado. Ele sabia do que eu estava falando. — Está falando de Rina? Ele acabou de comer o sanduíche e disse com um sorriso: —. Bernie Norman correu para o set. É toda mulher. e um ar de alívio e satisfação apare-ceu no rosto da artista. sim. — Prefiro perder tudo agora a ser ridicularizado e perder tudo depois. — Nada feito. Se sair na. Ela tem um contrato para este filme! — Talvez tenha. Só sabia que alguém estava querendo me enganar. — Para mim pode ser até a rainha de Sabá — disse. Rina ofereceu sanduíches a todos. — Poderíamos talvez trazer uma artista de Nova Iorque. — De nada — respondeu ela. trinta mil dólares por dia é muito di-nheiro. mastigando seu sanduíche. Creio que só começou a acreditar quando. srta. Rina tomou a coisa como pilhéria quando lhe pedi que dissesse algumas frases ao mi crofone. Eu estava fervendo. Na realidade. Olhei para o homem do som ainda no seu lugar e com os fones nos ouvidos. — Vá para casa e direto para a cama. olhando para o relógio no meu pulso. — E uma pena não poderem achar alguém com a voz dela — disse de repente o homem do som. sem se comprometer. era de dar água na boca.trilha sonora assim. Por telefone havia tentado conseguir uma estrela emprestada nos outros estúdios. Começaremos a filmar às nove. — Não há tempo. fomos todos ver projetada uma cena que ela fizera com Nevada. deve ser um bocado fotogênica. Peguei um sanduíche e comecei a comer. muito pálido. Fechei os olhos. Algumas pessoas se moviam por ali como fantasmas. — Obrigado. A MGM não pode ceder Greta Garbo. — Tem exatamente cinco minutos para tirá-la deste set ou interromperei o filme e jogare i sobre sua cabeça o maior pedido de indeni-zação em juízo da história! Sentei na cadeira de lona com meu nome gravado e corri os olhos pelo set já quase deserto. mesmo quando tentou sorrir. Quero você no estúdio para pro-videnciar o guarda-r oupa às seis da manhã. Olhei para ele. e não gostava nem um pouco disso. mas não para ela. — Então? — perguntei. Tudo o que ela possuía aparecia multip licado na tela. Era Dan Pierce. Talvez seja melhor nos arranjarmos com Cynthia Randall. ouviu? Foi você quem telefonou e . — E Marion Davies? — Acabei de telefonar para ela. A srta. e um súbito silêncio caiu sobre o set. será uma coisa de fazer as platéias delirarem. Gosta do papel. Ouvi passos se aproximando. Dez dias são trezentos mil. Nesse instante Rina entrou com alguns sanduíches. Jonas. Cord. Havia em seus olho s um ar de cautela. E. sim! Ela! Tire-a do set! Está despedida! — Não pode fazer isso. Não foi com a minha pena que o contrato foi assinado. — Está bem. inclusive ao homem do som. — Esteja pronta no set para a filmagem às nove horas. — O que quer dizer com isso? — Ela tem alguma coisa na voz que empolga. — O que você acha? — perguntei a Dan. Bernie me olhou. — E possível — disse. Marlowe. Eu nunca tinha visto na tela nada parecido. A filmagem parada representa um prejuízo de trinta mil dólares por dia. — Então vamos em frente! Afinal. pois vai fazer um filme falado com e la. carrancudo. A brincadeira já está passando da conta.Alguém gritou "Corta!". Aí compreendi tudo. mas não comigo. — O procedimento é muito irregular. se não estou enganado. Acho que a moça sabia o que estava fazendo ali. Ela pegou no braço de Bernie no momento em que ele se v oltou para mim e pergun-tou: — Houve alguma coisa.É dela. Cord? — Houve. indo depois sentar junto de Nevada. Randall é uma estrela mui-to importante. às duas da madrugada. Todos me olharam com ex pressões de espanto. — Achei que deviam estar com fome e mandei preparar isso. Ainda não pensava que eu estivesse falando a sério quando chamei todo o pes soal para fazer um teste completo. sr.

A desordem era completa. — E você tome providências para que ela não falte! Saí da sala de projeção. E um desafio ao qua l não poderá resistir. mas quando eu pegasse o macete da coisa. mas que estaria lá à tarde. um sujeito com o Dan Pierce me seria muito útil. muito mais do que costumava conversar co m uma pessoa estranha. Pode até ser sincero agora. Tomei mais um pouco do café forte e puro como eu gostava. 8 Abri lentamente os olhos e espiei o relógio. — Bem. A noite foi bem agitada. Descobriu um novo campo de jogo. Dan? Só vou fazer esse filme. O gosto era horrível. uma inclinação natural que não é todo mundo que tem. Não valeria tanto se o cinema fosse sua única ocupação. — Pronto — disse ele. — Vendi minha agência hoje de manhã — disse ele. Encontrara-me com ele na s aída do set e me ofereci para levá-lo até a cidade. Depois dos bifes acompanhados de uísque num lugar que deveria estar fechado mas não estava. Eu estava metido naquilo até a raiz do cabelo. todos os truques. — Isso é o que você acha. O criado japonês de Dan já havia preparado ovos mexidos e salsichas quando saí do banh eiro. Eu estava meio tenso e ele propôs me ajudar a relaxar. Dan Pierce era diferente. Era Dan. Dan sor riu e perguntou: — Como se sente agora? — Nunca me senti melhor em toda minha vida! De fato. — Já telefonei para lá e disse que você estava muito ocupado. sem entender grande coisa do assunto. já vestido de slacks creme e camisa esporte vistosa. Depois. Estava com fome e comi como um lobo. Par ocê. vivo. Ac hei melhor você dormir um pouco. — Beba isso e não sentirá mais nada. Dan e eu tínhamos tido realmente uma noite agitada. Levei o copo à boca. Não ia levar muito tempo. Você tem jeito para essa atividade. Depois. Duas horas! Levantei imediatamente e a dor que senti quase me rachou a cabeça. é apenas outro jogo de dados. Ri. sabia o que queria.não eu. lembra-se? Olhei para Nevada. Um momento depois a ca beça começou a melhorar. Mas não é e nunca será. da quarta xícara de café. — Por quê? — Porque de agora em diante vou trabalhar com você. Dei um gemido alto e a porta se abriu. — E por que acha que vou precisar de você? — Porque conheço todas as facetas desse negócio. — Paguei e as mandei para casa. Tinha na mão um copo d e alguma coisa que parecia suco de tomate. Estavam todos surpresos e sem ação quando a porta bateu atrás de mi m. Era um sujeito dinâmico. — Ótimo. resolvemos parar e com er alguma coisa. o que você vai fazer? Dan sorriu. Sentia-me calmo e bem disposto. Iam começar a filmagem às nove. um a noitada arrumada graças ao caderninho preto de te-lefone que todos os agentes pa recem possuir. Havia uma expressão de surpresa em seu rosto e creio que interp retei mal a clara inocência dos seus olhos. Tenho de ir ao estúdio. — Dê-me uma amostra grátis. No caminho. Corri os olhos pelo quarto. — Não está avançando um pouco o sinal. Você vai ficar no cinema. mas Dan tinha razão. Nunca tinha conhecido ninguém com o ele e o tipo me fascinava. Naquela noite havia conversado com Dan. eu não começaria qualquer filme sem submeter todo mundo a um teste de som. sem nada daquela ansiedade habitual qua ndo pensava no que tinha de fazer durante o dia. . Mas eu é que sei. — Onde estão as pequenas? — perguntei. que você levaria muit o tempo para conhecer. Você é um homem ocupado e o tempo é a coisa de maior valor que você tem.

acendendo lentamente um cigarro —. isso é uma coisa que já aprendi. O cinema é um negócio como qualquer outro. quando ela me dava as d eixas no script. Como conseguiria trabalhar para você sem gastar dinheiro? Dinheiro é a única coisa nesta cidade que ninguém trata mal. S erá ótima. Há mulheres assim nesta cidade por um tostão a dúzia! — Se não gosta.— Ora. eu estava normal. Mas nada de ações. Mas o instinto m . que entrava pelo lado. Mas agora era diferente. podemos fazer algumas alterações nest e script e economizar uns quatrocentos mil dólares. Não e ra mais uma mulher. mude — disse Dan. Carrol! O diretor fez um gesto de aquiescência e o assistente gritou: — Todos nos seus lugares! O diretor foi para perto da câmara e Nevada entrou no sei. Bastam dez por cento das ações e todas as despesas pagas. Ele conversava com o diretor. Ele refletiu um momento e perguntou: — E quanto às despesas pagas? Estendi a mão. — Claro. A boca estava pintada como um pequen o arco de cupido e as sobrancelhas marcadas a lápis num traço fino e artificial. e sim uma caricatura dos anúncios de propaganda. Dará uma boa imagem. Seus lindos seios estavam tão aperta dos na roupa que ela mais parecia um rapaz. Também faria isso se ganhasse salário. — Não parece uma mulher. O importante é ganhar dinhe iro. quase não pude acreditar em meus olhos. O rosto de Dan ficou impassível. Só cheguei ao Palco Nove depois das três horas. — Nevada não é mais problema meu. que isso um dia serviria para ela. e ambos se voltaram p ara mim quando cheguei. Um dos assistentes do diretor chegou apressadamente. — Mas depois foi se habituando. — Não brinque comigo. — Você é o patrão e o filme é seu. desde que Rina me telefonara. — Que combinação quer fazer comigo. uma eficient e balbúrdia de vozes e gestos. Iam fazer outro take. Havia grande movimento. Dan? — Não quero salário. mas não vi Rina em parte alguma. Não sabia se ia ou vinha. sr. — Tudo pronto. Você vai viver de sua conta de despesas. — Negócio fechado. — Você não disse que tinha vendido a agência? — E essa é a única maneira que tenho de receber uma compensação sem aumentar suas despesas gerais. Fui para onde estava Nevada. Isso economizará cinco semanas de externas. — Nunca pensei. — Como vão as coisas? — Otimamente! — disse. — Como? — Dando espaço maior à parte dela na história e ampliando o episódio de Nova Orleans. — Não quero saber do que gostam! Eu é que não gosto. Parei junto do homem do som. — Trabalharam bem com ela. com um sorriso. — Se fizermos isso — perguntei. — Como vai ela? — perguntei. Virei-me e vi Rina. Ele pegou o script de capa azul e disse: — Se Rina aparecer na tela como o teste promete. Nevada estava a postos. Ela me fizera rodar como um pião. Estou trabalhando para você agora e creio que você já esgotou nesse filme todas as reservas de sentimento. Seu longo cabelo louro e platinado estava amarrado no alto da cabeça. — Vou lhe dar dez por cento dos lucros. rindo e batendo nos fones. Cord. E ainda não se sabe se os microfones funcion arão bem ao ar livre. — No começo estava um pouco nervosa — disse o diretor. Tive vontade de invadir o set e dar largas ao meu temperamento. Os novos donos da agência que tratem dele. — É disso que gostam. Pela primeira vez. Quero algo que ainda não saiba. o que acontecerá a Ne vada? O papel dele perderá muito de sua importância. — Ela é formidável! — disse Nevada com entusiasmo.

srta. Rina e Nevada sentaram-se no sofá. menos com Rina Marlowe. Os filmes ditam o estilo. srta. uma mulher magra de idade indeterminada. Ele confirmou com a cabeça. — Rina. Por fim. — Como é seu nome? — perguntei a ela. voltando-me para Nevada. Cord? — Quem aprovou a maquilagem e o guarda-roupa? — Acho que foi aprovado pelos respectivos departamentos. Jonas — disse nesse momento Nevada. Cord. todos sabem o nome dela. rosto jovem e cabelo precoce mente embranquecido. Dan sentou-se numa poltrona ao lado de minha mesa. usando um vestido muito simples. Virei-me para os outros. Nevada recomendou que sem a ela um trato completo. Nenhum homem em seu juízo perfeito poderia interessa r-se por um corpo metido numa roupa como essa. — Muito bem. — Como é? — Rina Marlowe. Porta . — Foi sua a ordem? — perguntei. sr. Sou desenhista do guarda-roupa. —. Gaillard. Ha via ali espaço suficiente para todos nós. Quer explicar o que não compreende? — A srta.Diga ao Carrol que quero falar com ele — pedi a Dan. Um instante depois o diretor anunciou um intervalo de dez minutos e veio falar omigo todo nervoso. Marlowe tem de ser vestida no rigor da moda. — Fui eu que dei a ord em. — Ora. o desenho fundament al dos trajes tem de representar a última palavra da moda. Procurei falar com voz contida : — É meu dinheiro que está no fogo e o que combinamos foi que eu daria as ordens. Mais uma explosão como a da véspera e ninguém mais teria moral para ada que prestasse. Ainda que tenhamo s de fazer algumas concessões à época em que se desenrola o filme. A mulher do guarda-roupa disse: — Acho que não estou compreendendo. sr. — Não culpe a srta. — Ilene Gaillard. por favor. fazer n mim do qu c des 9 Olhei o escritório e cheguei à conclusão de que o estúdio sabia o que estava fazendo. quero todo mundo em meu escritório daqui a dez minutos. Jonas. Ela se levantou sem nada dizer e ficou me olhando. q ue segurava nas mãos os infalíveis lápis e bloco de papel. o novo diretor. Do outro lado da sala. minha secretária. — Então por que ela não está parecida com Rina Marlowe em vez de parecer uma combinação pífia de Clara Bow. — Nevada? Escute. Dan. É isso que as mulheres vão ver no cinema. Gaillard. Cord. Como aconteceu que a mulhe r do teste não foi a mesma que chegou ao set esta tarde? Ninguém respondeu. levante-se. — Como é que ela se chama? O diretor tossiu e riu nervosamente. Mais cedo ou mais tarde. ficou ao lado dele. — Certo. Acendi um cigarro e disse: — Todos viram o teste feito ontem à noite. Gaillard. sr. Carrol. Foi muito bom. não faz sentido transformar uma mulher n um garoto para estar na moda.e conteve. — Alguma coisa. o homem da maquilagem e a chefe do departamento de gua rda-roupa. isso tinha de acontecer. Marion Davies e Cynthia Randall? A verdade é que ela se parece com t odo mundo. Cord. A frente deles estava o camerama n. — Ótimo! Essa é que é a maneira de agir. Estou vendo que vai precisar menos de e eu julgava. — Com estilo ou sem estilo. sr.

— Rina — exclamei. Ninguém disse uma palavra até ela voltar com a boca larga e grande de sempre. o corpo ainda era uma tábua. a senhorita pudesse fazer. vendo cair prontamente sobre seus olhos uma máscara impassível —. Não é mesmo. sr. — Vamos ver — concordei. o sutiã cedia e se achatava. Rina fez menção de caminhar para o set. Gaillard. Eu entendi o que estava acontecendo agora. Desviei os olhos porque não queria ver aquilo. — Penso. Peguei a armadura e a joguei sobre a mesa. — É verdade. — O que está dizendo? — perguntei à desenhista. — Temos de colocar alguma espécie de sutiã — disse a srta. dei a volta em minha mesa e fui sentar. E stava melhor do que antes.que está muito bom. Rina e a desenhista saíram do banheiro. Eram perfeitamente visíveis. Lee? O cameraman concordou. Imperturbável. Nevada apertou os olhos e percebi no fundo de seu olhar o quanto o havia ofendid o. Cord. — Está bem. — Agora à esquerda. Aplique sua maquilagem habitual. A voz da srta. Não haveria rigidez suficiente para sustentar os seio s. Se mpre que ela se virava. encolhendo os ombros. Cord. — Deixe ver. Continuo a não gostar. O cabelo se derramava como ouro líquido até os ombros: Só uma coisa não estava certa. — Não. a armadura estava numa mão e com a outra ela segurava a parte de cima do négligé fechada. sr. Por baixo do négligé. não podemos cortar os arames. — Não é possível fotografá-la assim. Deixou impassivelm ente cair o négligé dos ombros. mas pare ciam feitos de gesso. só pense no seu trabalho de representar. vire-se — pedi novamente. rindo. Po sso ver todas as pernas que quiser ali na rua. — Agora. — Há ainda uma coisa que posso tentar — sugeriu a srta. O busto está pulando. — E o que tem isso? — perguntei. mas os seios não me pareciam tão bonitos como quando esta vam soltos. Não me parecia certo. não espero que compreenda onde quero chegar. vã ao b anheiro e lave toda essa sujeira do rosto. Limite-se a responder minhas perg untas. Rina nos observava com um curios o ar de desprendimento. de hoje em diante. sr. Enquanto Rina saía em silêncio. Veja o que pode fazer. Gaillard a fez parar. O busto assim não parecerá absolutamente natural. os seios ficavam parados. — Se fizermos isso. Cord — respondeu. — Está bem melhor — comentei. embora não lhe chegasse aos quadris. Rina olhou para mim. Recuei um pouco e olhei para Rina. será como se ela não estivesse usando nada. Mas na tela tudo aparecerá exagerado. Levantei e cheguei perto de Rina. Levei as mãos ao négligé de Rina e o puxei . Aproximaram-se de mim. com os olhos deliberadamente dis-tantes. e aparecerão bem. mantendo-o apenas na curva dos braços. Rina estava com uma armadura reforçada com arame s que parecia quase um pequeno espartilho. não. não. aproximando-me de Rina. — Srta. Quando se voltou. De qualquer maneira. dando aos seios aquele aspect o pouco natural. Gaillard. — Ela não pode ser fotografada assim. — E se tirarmos as alças dos ombros? — Podemos experimentar — disse Ilene Gaillard. — Pode ser. — Peitos bonitos foram feitos para pular. Gaillard. enquanto Rina permanecia com os olhos fitos em al-gum ponto por sobre meus ombros. desde que não é homem. os lábios cheios e a s sobrancelhas seguindo sua curva natural. não sei por que o senhor es tá tão preocupado com o busto. O sutiã ainda apertava e deformava os seios. Tire isso — disse e u. Qu ando ela se movia. Olhei para a dese-nhista. — Não. Instantes depois. — Vamos filmar aquelas cenas de novo. Fez cair as alças. As pernas são bem feitas.nto. Alguns minutos depois retornaram. — Talvez se eu mostrasse o que quero. — Não há jeito de cortarmos alguns desses arames? — perguntei à de-senhista. Rina virou-se de lado. — Vire à direita — pedi. O resto é comigo.

— Mas. com uma expressão atônita. até ele formar um quadrado sobre o busto um pouco acima dos bicos. Mas depois voltou-se para mim e disse: — Acho que posso dar um jeito.para baixo. — Se é capaz de desenhar aviões que têm de s uportar milhares de libras de tensão. Isso mostra que a or igem da tensão cai entre eles. — Podemos conseguir isso no departamento de engenharia. Depois. Ela o olhou por alguns instantes com expressão de surpresa. deve ser capaz também de desenhar alguma coisa que sustente um par de seios. Inseri um arame em forma de V na separação. sr. — Por acaso tem um compasso? — perguntou Morrissey à desenhista. Os dois peitos se erguiam como duas alvas luas gê-meas. Rina — disse eu. Srta. Sou desenhista. Gaillard. Morrissey chegou em menos de vinte minutos. Os olhos de Morrissey se arregalaram por trás dos óculos. Larguei o négligé de Rina e me voltei para a srta. Cord. sorrindo. Foi a primeira idéia construtiva que ouvi desde que esta reunião começou. — Levante-se. tomando-lhe o braço. bem no centro da fenda. Ela se levantou e veio até onde estávamos. e preciso de sua ajuda. Mas o problema é muito curioso. — Não consegui acompanhá-lo. Cord! — Nunca falei tão sério em toda minha vida. Voltei-me para a desenhista. colados aos meus punhos escur os. — Tudo o que eu puder fazer. Quero que faça um capaz de resolver o problema. — Não estou prometendo nada. balançando a cabeça.. — Acho que conseguimos! Na verdade. — Te nho ali tudo que é necessário. Morrissey estava de volta em pouco mais de uma hora. sr. mas não havia um só homem ali na sala que não estivesse de olhos a rregalados. Rina tem um corpo grande. sr. Então falei: — Não há um sutiã que consiga impedir que os seios pulem e ao mesmo tempo permaneçam com u m aspecto natural. Cord. Compreendeu? — Não — respondi. Venha co-nosco. — Sabe qual é o princípio usado numa ponte pênsil? . O peso de cada seio puxa para qualquer dos lados. — Eu sabia disso — murmurei. — Muito — concordei solenemente. Não há nenhum sutiã capaz de sustentar o busto da maneira que o senhor q uer. E fui para o telefone. Morrissey admirava os seios de Rina enquanto a desenhista falava. Seu nervosismo desapareceu pouco a pouco. — Tenho um pequeno problema. — Compasso? Para que precisamos disso? — E como é que acha que vou medir a altura e a circunferência? — disse Morrissey. — Foi por isso que o chamei — disse calmamente. Olhei para ele. Tivemos de achar um meio de aproveitar a tensão para manter os seios firmes. Mas ele estava embebido demais em sua explicação para dar atenção ao meu olhar. — Talvez seja melhor o senhor ir trabalhar na minha sala — disse ela a Morrissey. Morrissey. seu ros to ficando muito vermelho. saiu com ele da sala. — O que o senhor quer é impossível.. mas eu não entendo nada de sutiãs. Tem trinta e o ito de busto. com o emprego do princípio da suspensão. — Está brincando. Julguei que po r um momento ele havia ficado paralisado. Vi com prazer que outras coisas podiam interessá-lo. foi muito simples depois de encontrado o ponto de tensão. Gaillard. não engenheiro de estruturas. além de aviões. E continuou: — Tudo então se torna um problema de compensação. e estava visivelmente nervoso. trazendo na mão uma folha de papel. Ele se virou para mim. Sou engenheiro aeronáutico — gaguejou. Sua linguagem era uma curiosa mistura de engenharia e desenho de moda. sr. Rina. Cord. — Obrigado. diga-lhe tudo o que ele precisa s aber. — Está vendo o que quero? Talvez ela não visse. perple xo.

Você e eu sabemos que isso não é verdade. Tudo aca bará bem. sauda de da infância. Minha única preocup ação era saber se daria resultado. E. Marlowe. El a deixou a capa cair no chão e se mostrou no négligé já consertado. — Há muita gente aqui nesta cidade que pensa que sou um trouxa e que estou metido ni sso para ser roubado. . horrorizada. — Está tudo bem. Gaillard. joguei-o na cesta e olhei para ela. — Ande até onde está o sr. Peguei-o acima da cesta de papéis e aproximei das folhas um fósforo aceso. — Pensei no que você sugeriu hoje de manhã — disse para ele. quando começarmos as filmagens. Quando o fogo começou a devorar o caderno. A cachorra sabia do efeito que t inha sobre mim. agora. Dan Pierce apareceu logo depois que Nevada saiu. daquel e par de seios suavíssimos. percebi como estávamos longe um do outro. — Obrigado. Cord — disse a desenhista. os olhos brilhando. Pode falar com os responsáveis. — Segundo esse princípio. Pouco depois Rina entrou na sala com Ilene Gaillard. — Acho mesmo que vamos criar um novo estilo com a srta. se aproximando de minha mesa. As mulheres já pareciam mulheres muito an tes de qualquer de nós nascer. Júnior. — Para quê? — É uma regra da companhia. — Não criaremos moda alguma. maior será a pressão criada para mantê-la no lugar. Não podia tirar os olhos de cima dela. Se não es-tou engan ada. — O que é isso aí? — As minutas da reunião. Nevada é que estava precisando d e mim. se souber de qualquer outra minuta sobre o que se passa aqui dentro. Era exatamente o contrário. por um instante. Nevada. Virei-me e olhei para minha secretária. saia com esse corpinho daqui. De repente. olhou-me e falou pela primeira vez naquela tarde. — Dê-me esse caderno. Estava ainda sentada com o ca-derno cheio de riscos de taquigrafia. — Uma coisa mais. Júnior. Gaillard. Não tive de esperar muito. Amanhã. srta. Olhei para a sala e vi que todo mundo est ava levantando para sair. Tive. Eu não devia ter me metido nisso. Seu pai era assim também. quero ver a srta. Não posso tolerar isso. as mulheres do mundo inteiro tentarão imitá-la logo que o filme começar a ser exi bido. os mais macios em que alguém poderia descansar a cabeça. Dan abriu um sorriso e disse: — Já falei. Só havia um que mandava onde ele estava. Nevada — agradeci. Então o chamei. quanto maior for a pressão que a massa e-xerce sobre si mesm a. As minutas de todas as reuniões de dire-tores são mimeografa das e distribuídas. — Está bem. — Desculpe ter de falar como falei. Marlowe num négligé preto e não nesse branco. sr. pode tratar de procurar outro emprego! Nevada sorriu quando me voltei para ele. — Então? Tive consciência do esforço que me custou levantar os olhos e encará-la de frente. quando podia apelar para Nevada toda vez que precisava de ajuda e proteção. Eu ainda não compreendera bem. Rina se dirigiu lentamente para mim. Os olhos de Rina mostravam-se frios e calculistas. — E não se preocupe. mas tenho de pôr um fim nesses boatos. Nevada foi o último. Não era mais assim. Ela concordou com a cabeça e foi saindo. forçando um sorriso nos lábios.— Vagamente. — Compreendo. Cord — disse IIene. Ela ficou olhando. P arou diante de mim. — Acho que devemos alterar o script. acendendo um cigarro. Mas já tinha tudo de que precisava. — Agora. srta. Quero que todos vejam que ela é uma mulher da vida e não uma noiva donzela.

Cortou o mais possível o papel de Nevada no filme que era dele e levantou em mim um monu mento ao seu egoísmo. quando precisei. disse a Nevada o que ia fazer. furioso. — Antes de vir para cá. encontrei uma cadeira vazia e sentei no meio de um bando de rapazolas. Rina afinal apareceu na tela. —Você não pode! Não consentirei nisso. Dava para ouvir o barulho de suas respirações ofegantes. ele me ajudou. A parte central da sala havia sido reservada para os convida dos do estúdio. Dan estava no centro de uma roda de homens. Ela me olhou um instante. Fiz um sinal e ele me seguiu até o carro. Minha voz estava rouca. mas nunca disse uma só palavra. Quando fui para o saguão depois de terminada a projeção. — Ela ainda o está roendo por dentro. — Só há ainda alguns lugares nos lados. Peguei um cigarro e comecei a sorrir. E o filme começou. — Mas que merda! — disse um dos rapazes. Olhe i para Rina. sim — disse friamente. quando olhei para os rapazes . Quando finalmente Rina puxou Nevada para a cama. Perto de mim. Não era preciso ninguém me dizer que aquele fi lme seria um sucesso de bilheteria. ao mesmo tempo que o arruinava! . Cinco minutos depois. fizemos uma estréia de surpresa num cinema do vale. — E se ela não quiser ir? — Irá. Duas semanas depois. — Então? — perguntou. Jonas! Ela foi melhor do que tudo. — Diga que é o dia do pagamento! Era uma hora da madrugada. leve Rina para meu hotel. Nevada entendeu o que estava acontecendo. Em seguida. Agora é a minha vez. Estava repleta. um rapaz ape rtava com força a mão de uma moça. Meu nome na tela pareceu estranho para mim: Jonas Cord Apresenta Mas essa sensação passou quando os letreiros dos créditos terminaram. Rina entrou e fechei a porta. de boca aberta e expressões fascinadas. Levantou os olhos quando me viu cheg ar e exclamou radiante: — Você tinha razão. — Disse a ele que eu é que queria dar -lhe a notícia. Vamos ganhar dez milhões de dólares . Você não precisa de ninguém. Fui até a galeria no momento em que as luzes se apagaram e a exibição começou. Bernie Norman ro ndava em torno dela como um pai orgulhoso. — Fui eu quem tive a idéia de fazer de você uma estrela! — Não pedi isso e nem ao menos queria. Não podia acreditar no que meus ouvidos escutav am. estava presente. — Nevada e eu vamos casar — respondeu. — Precisa de você? Por quê? Por que ele foi orgulhoso demais para pe-dir ajuda? — Isso não é. sr. qua ndo bateram à porta. e eu já estava com uma garrafa de uísque pela metade. — Por que tinha de fazer uma sujeira dessa? — perguntei. me encarando. Não pense que não compreendi o que você fez. Nevada estava num canto. Cheguei atrasado e o publicitário do estúdio me fez entrar. o rapaz não pôde conter uma exclamação. — Quando isso acabar. Estava no outro lado do saguão. Ele precisa de mim. Todos ansiosos para assistir ao meu fracasso. Cord. estavam todos de olhos pregados na tela. caminho u displicentemente para o quarto. — Não! — gritei.10 Terminamos o filme em quatro semanas. — Pensei que fosse uma coisa diferente e é mais um desses filmes chatos de mocinho e bandido. cercada de repórteres. cercado de garotos e distribuindo autógrafos. Apontei o quarto. Todo mundo. não é? — Deixe de sermões e faça o que estou dizendo. calmamente. dando de ombros. Olhei para a platéia. de Norman para baixo. Então por quê? Você não precisa mais dele. verdade e ninguém sabe melhor do que você. — Porque. No escuro . Ele é velho e está acabado. E você será a maior es la do cinema quando esse filme for distribuído.

mas no instante seguinte me beijava com mais força ainda do que eu. Lá estavam meu sogro e outro homem. — Não desta vez. marcando o canto da página co m uma dobra. Jonas! Do contrário. Agora. Isso queria dizer que já estava g rávida de dois meses quando casara comigo. e a deixou cair na manta branca que cobria seu corpo. Vi os seios balançarem. quanto lhe custará livrar-se dela? Olhei para Monica e comecei a praguejar intimamente. Meu pai costumava dizer que ninguém é tolo como um jovem tolo. Não era meu o filho que ela trazia no corpo. ela estava grávida de cinco meses. sem voltar-me. Nós dois sabemos que ele está acabado. com o rosto grave. com os braços em vo lta de meu pescoço. Canta e aparece em cena com um violão em vez de um revólver. Ela tentou afastar minha boca. Estava com uma barr iga enorme. já teria ido para lá ou a chamaria para cá. teve por ac aso idéia de que eu precisava de você? — Você nunca precisará de ninguém senão de você mesmo. sacudindo-a violentamente. me smo que fosse apenas piedade. Se você tivesse qualquer parcela de sentimento dentro do coração. — Não. Quando cheguei aqui às carreiras logo que você me telefonou. Havia na voz de Amos Winthrop um tom de triunfo. Monica. A história de RINA MARLOWE LIVRO IV 1 Zelosamente. como sempre. Foi por sua causa. Rina fechou a revista que estava lendo. Empurrei Rina para dentro do quarto e virei-me lentamente. esmagando-lhe a boca num beijo. — E eu? Por que acha que me meti nisso? Acha que foi por amor a Nevada? Não. E. — Pois é justamente por isso que ele precisa mais do que nunca de mim! Perdi a calma e a agarrei pelos ombros. — Dez mil dólares eram demais para você me dar quando eu queria mandá-la embora a tempo. mostrando preocupação. na porta. a-trás dele. — Quer alguma coisa. — Rina! — gritei. Há agora n dos estúdios um novo tipo de cowboy. Mesmo aos meus o lhos sem prática. sentada na poltrona ao lado da cama . Estávamos assim. e a febre me tomou. não teria deixado a mulher sozinha. meu p ai tinha razão. — Não meta minha mulher nisso! Ela virou-se para se desvencilhar de mim e a frente de seu vestido se rasgou até a cintura. Jonas. Olhei-a espantado. Eu conhecera Mo-nica menos de um mês antes de casarmos. Amos Winthrop tinha toda ra zão de rir.— Você não teve a menor reação contra isso. — Fora daqui! — esbravejei. quando a porta se abriu atrás de mim. querida? — perguntou Ilene. Que horas são? .

srta. tira esse velho filme do ar-quivo.— Três horas. Desde que Roos evelt assumira a presidência. Ilene ficou ainda um instante. — A que horas o médico disse que vinha? — perguntou Rina. que adormecera. — Acho que precisa comer um pouco. Ma rlowe tem parentes a-qui? . Basta o café. Falei ontem com Bernie Norman em Nova Iorque. Rina. muito obrigada. folheou e a jogou de novo sobre a colcha. Não quero ter duas pacientes ao mesmo tempo. O médico terminou de beber o seu e disse: — Bom café. sentindo a opressão no peito e a névoa nos olhos que tan to a haviam acompanhado naquelas últimas semanas. até ouvir a respiração suave de Rina. — Mas eu quero ficar aqui. Seus olhos escuros brilharam através dos bifocais. obrigada. — A srta. Não há nada que você queira? — Não. — Quem está escrevendo a história Eugene O'Neill. Todas as vezes que o estúdio fica sem saber o que produzir. ficou impressionada. Talvez Bernie estivesse mesmo dispo sto dessa vez. — O so no é o que há de me-lhor para ela. — Às quatro. beijou de leve a boca exausta e sa iu do quarto. — Imploro ao inferno para que me deixem sair daqui! Ilene levantou-se da poltrona e foi até o lado da cama. Mas então desejará voltar para cá. Disse-me que lhe mandará uma cópia do script logo que ele estiver pronto. sorrindo. Ainda estava tão imersa em seus pensamentos que nem ouviu a voz do médico: — Com licença. — Não. Ela afastou o cabelo platinado do rosto de Rina. — Não se preocupe. Gaillard — disse a enfermeira. E isso lhe interessava muito. Poderia apro-veitar o máximo da história . Saiu do elevador e sentou à mesa d a lanchonete. Ela está dormindo. — Muito bem — disse ele. Rina tornou a pegar a revista. Cumprimentaram-se e dentro em pouco estavam ambos se ntados diante de duas xícaras de café. Estou bem. No aposento contíguo. srta. — Desta vez. com segurança profissional. Rina deu um suspiro. não. Você sairá em breve. o fil-me volta para o arquivo. perdeu o interesse. — Que horas são? — Três e dez — disse Ilene. Havia uma leve palidez azulada por trás da pele queimada pelo sol da Califórnia. sorrindo ironicamen¬te. — Rina está dormindo — Ilene o interrompeu com a primeira coisa que lhe veio à cabeça. C onteúdo social. — Vá — disse Rina. limpa a poeira e espalha a notícia. De repente. — Não é possível que ainda pensem nisso. mesmo sem querer. — Não se preocupe. Ilene saiu para o corredor. — Conteúdo social! — exclamou Rina. — Por que não come alguma coisa? — perguntou o médico. não sabia. Rina recostou-se no travesseiro e sugeriu: — Por que não vai tomar uma xícara de café? — Estou bem aqui — respondeu Ilene. Importa-se que sente aqui? Afinal percebeu sua presença. — Acho que vou tirar um cochilo até o médico chegar. Bernie conseguiu mesmo O'Neill? — Sim. Foi apenas um palpite. encontrou a enfermeira. Terá grande con-teúdo social. — Você passou o dia inteiro aqui. O'Neill era um escritor e não um dos rotineiros autores de enredos de Hollywood. fechando os olhos. Ele confiou a história a um grande escritor e diz que o script está ficando muito bom. A jeitou delicadamente os cobertores e olhou para o rosto de Rina. Avisou: — Vou descer para tomar um pouco de café. sentindo-se ainda mais cansada do que antes. Tudo o que se fazia naquele tempo levava esse rótulo. Depois de conseguirem toda a publicidade possível. Os olhos estava m fechados e as faces se mostravam ma-gras e repuxadas ao lado das maçãs salientes. não é? — Você já sabia? — Não. Soube que o estúdi stá aguardando sua saída para começar a trabalhar em Madame Pompadour. Gaillard.

o diretor. Talvez fique paralítica total ou parcialm ente. — Rina não tem qualquer parente que eu conheça. O médico bateu-lhe de leve na mão. — E leucemia? — perguntou ela. Ilene sentiu-se invadida por um medo imenso. Só depois que a febre passar é qu e poderemos ter noção da extensão dos danos causados.— Não — respondeu Ilene. — Se é preciso tomar alguma providência. e ela me p assou procuração para tudo. — Não. não é. — E o marido dela? — O quê? — perguntou Ilene. Divorciaram-se há três anos. sinto muito! Nestes últimos anos não tive muito tempo para me manter informado. com uma voz que se esforçava para continuar firme. — Na verdade. Sou a amiga mais íntima. Na ocorrência mais freqüente. eu tomarei. Ela quase podia ler o que se passava em su a mente. — Fizemos um filme lá. — Respire fundo e tome um pouco de água — recomendou o médico. — Há alguma coisa que possamos fazer. — Para quê? Vamos deixar que continue com seus sonhos. não temos qualquer certeza a res-peito da causa — diss e o médico. — Mas ninguém mais está doente. — Oh. — Como assim? — perguntou Ilene asperamente. Foi a primeira coisa que me fez desconfiar. Os efeitos residuais são semelha ntes aos de um derrame. O que importava o que ele pensasse? O que qualquer pessoa pudesse pensar? E pe rguntou: — Já tem os resultados do exame de sangue? O médico fez sinal afirmativo. — Ela tem t anto para viver. — Quer dizer que ela poderá perder o juízo? — questionou Ilene.. se manifestam sem qualquer causa apa rente. Mas num caso como esse. sempre na ofensiva contra a maioria dos homens. a ação do vírus aumentará de intensidade e ela estará sujeita a fe-bres muito altas. Marlowe me contou. Mas muitos cas os. — Não é casada com Nevada Smith? — Foi. encolhendo os ombros em sinal de dú-vida. nos Estados Unidos e em outros lugares. Le-vantou a cabeça. como já expliquei. o vírus atacará o cérebro. Mas se ela escapar. — Não estou querendo dizer nada. contrafeita. — Ele cometeu suicídio depois de pouco mais de um ano de casados. confusa. Rina ouvia as vozes indistintas do outro lado da porta. Estava cansada. E vivemos todos ali durante três meses exatamente da me sma maneira e nos mesmos lugares. Muito ca nsada. orgulhosa . com a voz amargurada. E acredite: conh eço a resposta tanto agora quanto no tempo em que comecei a clinicar. Ela obedeceu e seu rosto recuperou a cor. caso alguma coisa aconteça.. talvez não. hor-rorizada. — Acha que devemos dizer alguma coisa a ela? — perguntou Ilene. E aquilo de que já suspeitávamos: encefalite. ninguém sabe o que poderá a-contecer. — A encefalite é produzida por um vírus que se aloja no cérebro. — Não sei. Às vezes é chamada de doença do s As esperanças de Ilene se recusavam a morrer. Sorriu inconscientemente e v . — Ainda há alguma possibilidade? — Muito pequena. — Mas por que não aconteceu comigo? — perguntou Ilene. — Eu sei. Ainda sabemos muito pouco a respeito dessa doe nça e sobre como ela é transmitida. Procurou respirar. As lesões podem tomar várias formas. Talvez ainda saiba como se chama. — O senhor está querendo dizer. — Não sabe quantas vezes na minha vida de médico já ouvi essa pergunta. sen-tindo-se emp alidecer. — Voltamos da África há três meses — disse Ilene. também? — Não — disse Ilene. por trás daquelas lentes bifocais brilhantes. — Acabou em divórcio. Sentia-se cada vez mais prisioneira do sono. Depende da parte do cérebro que venha a ser afetada. Durante essas febres. Nestes próximos quatro ou cinco dias. s upõe-se que seja propagada pelos insetos e transmitida por picadas. nas regiões tropicais. O médico ficou olhando Ilene em silêncio. Com esse gesto de carinho. Casou-se depois com Claude Dunbar. é bom saber os nomes dos pare ntes mais próximos. A srta. desarmou Ilene. doutor? Seja lá o que for? — Estamos fazendo tudo que é possível.

Ela ficou quietinha ao lado da cama. Já estava completamente tomada por seu sonho. Susie — disse à bonequinha de cabelo preto. Era o pior castigo para e la. Mas. — Por quê? — Porque mamãe ainda está doente e ninguém cozinhou. só terra. e a sra. dizendo que ela não devia brincar no pátio e que teria de ficar perto da porta da cozinha. Uma vez. Lavou as roupas num tanque imagi nário e depois as passou a ferro. Coma. Peters. Voltou-se para a outra boneca: — E você. Havia também um homem vestido de preto. que se deitou no chão a seu lado. mas Rina não pôde ouvir o que ela dizia. De vez em quando. Abriram um lugar par a ela quando apareceu no quarto. — Você não sabe que deve comer com modos? Os olhinhos pretos da boneca pareciam encará-la. vou achar alguma coisa — disse ele. — Pronto. Sua mãe estava muito bonita. — Ora. Sentada na grama. até que não agüentasse mais de tanto rir. com a superioridade de seus oito anos. olhando solenemente para a mãe. metendo-lhe nas mãos um prato de boneca. O rosto da moça estava vermelho d e tanto chorar. com uma c ruz na mão. Mas ela não gostava de lá. a arrumadeira do andar de baixo. se cansou e levan tou. Susie! Derramou tudo no vestido e vou ter de trocar sua roupa de novo! Pegou a boneca e tirou-lhe a roupa rapidamente. Geralmente uma das empregadas. o cocheiro. — Agora veja se não se suja mais! — exclamou. com o rosto branco e calmo e o cabelo louro levantado sobre a test a. macushla — disse Molly. Rina arrumava a s bonecas em volta da pequena tábua que servia de mesa. Era quente e não havia grama.irou a cabeça no travesseiro. a arru madeira do andar de cima. Então a mãe a repreendia. confiante. Marlowe nunca diziam coisa alguma quando a encont ravam lá. Ela o viu afastar-se e voltou às bonecas. Ouviu passos e olhou. 2 O pátio era fresco. Rina t erminou de dar de comer a Susie e perguntou com voz muito séria: — Quer comer alguma coisa. Sentia-se feliz quando a deixavam sozinha. carregando Rina nos braços. Marlowe a carregara e lhe fizera cócegas com o bigode. O homem de preto tomou . Mary. — Ora. Gostava de ficar na cozinha enquanto a mãe preparava o jantar. a servente d a cozinha. — Venha. Já estava escurecendo quando Molly. Mary? Está gostando? Faça o favor de não deixar nada no prato. a mãe estava muito zangada. mais cedo ou mai s tarde. ia chamá-la. Todos em volta da cama de sua mãe. Era Ronald Marlowe. Não compreendia por que sua mãe insistia ta nto com aquilo. ele fingiu que comia. Deu-lhe uma palmada e mandou que fosse para seu quarto e ficasse lá o resto da tarde. Sua mãe moveu os lábios. — Sua mãezinha quer ver você ou tra vez. até o sr. Além disso. à sombra das velhas macieiras. estavam todos lá. mas nem sempre isso acon-tecia. — Estou com fome. ficava pert o das cocheiras e do cheiro dos cavalos. que faz muito bem! Depois de alguma hesitação. O cheiro de tud o era tão gostoso! Todo mundo dizia que sua mãe era a melhor cozinheira que os Marlo we já tinham tido. Laddie? — Não estou vendo nada para comer — murmurou ele. — É porque você não está olhando bem — explicou ela. olhava para a casa. apareceu à sua pro-cura. Logo em seguida. É preciso comer tud o para crescer bonita e forte. — Não vai encontrar nada. numa zanga teatral. desdenhosamente. Vou procurar comida de verdade. O sr. Rina chegou mais perto da cama. no outro lado da casa. e Annie. quando ela entrara. O sonho de morte que sonhara desde menina.

Aquele sorvete de creme com baunilha feito em casa estava uma delícia. — Ela não se confessou ao padre Nolan ? Não recebeu os sa-cramentos? O padre Nolan achou com certeza que ela era católica. meu bem. com lágrimas nos ol hos. Ainda é muito menina. Rina. E o padre Nolan diz que ela poderá ser enterrada em Saint Thomaz. Molly tomou Rina dos braços do homem. o cocheiro. De qualquer ma-ne ira seria muito diferente. — Não quer entrar. d eu sua opinião: — Acho que o padre Nolan tem toda razão.. Rina beijou obediente o rosto da mãe e sentiu que estava muito frio. Graças a Deus não compreende nada. — Como está ela? — Bem. Tornou a abri-los pouco depois. — Deus o abençoe — disse Annie. porque gostamos dela. — Estamos chorando. Rina levou lentamente a colher à boca. pobre orfãzinha! Rina sentiu-se contagiada pelas lágrimas e daí a pouco estava chorando também. Logo depois. sentou-se no alto da escada e começou a embalá-la nos braços. leve a menina para dormir com você esta noit e. Não podia compreender por que as moças começavam a chorar sempre que falavam com ela. Mas não s abia por quê. e fechou os olhos. Depois. madame. sorriu e exclamou: — Tive três sobremesas. cho-rando. A mãe sorriu. fazendo o sinal-da-cruz. — Vim ver se a menina vai bem — disse Geraldine Marlowe. Peters entrou na cozinha na hora em que as empregadas estavam jantando. — Beije sua mãe — disse ele. ao vê-lo entrar. que era a mais velha das três empregadas. O cabelo muito louro se espalhava em cachos em to rno da cabeça. Dormia. Depois. — Nós nem sabemos se era ca-tólica. não foi uma só vez à missa. Saiu do quarto com Rina nos braços. — Que importância tem isso? — voltou a falar Peters. madame? A sra. Estava bonita c omo nos dias em que acordava bem cedo e a via com os olhos ainda tontos de sono. querida. — Mas estará certo? — perguntou Molly. Mas o importante é ela voltar à i greja. Rina perguntou: — Mamãe vai acordar a tempo de fazer o almoço amanhã? Molly a olhou sem saber o que dizer. — Oh. Bateram à porta e Molly foi abrir. mas eles estavam virados e não p areciam ver nada. — Molly. Tomou outra colher. Nos três anos que assou aqui. Collin para tomar todas as outras pro¬vi dências e que a igreja pagará as despesas do enterro. — Quero mais sorvete — interrompeu Rina. com suas bonecas S usie e Mary. tinha lágrimas nos olhos. O padre Nolan me disse que vai mandar o sr. a arrumadeira do andar de baixo. — Então está resolvido — disse Peters. deixando o seu Laddie sozinho e órfão. Talvez ela tivesse feito alguma coisa que l he dava medo de entrar na igreja para ouvir missa. As referências eram muito boas. Peters! — Fique quietinha. — Minha mãe morreu? Molly teve novo acesso de choro e apertou Rina com mais força. — Ele pediu para levarmos o corpo até a sal a que fica por cima da cocheira. sr. Mary.-a nos braços. — Pobrezinha. Geraldine olhou para a criança e pensou por um momento no que acon-teceria se foss e ela quem tivesse morrido. incli nou-se e fechou os olhos de sua mãe. Marlowe olhou para a cama. — Acabei de falar com o patrão — disse Peters. pois Laddie ainda teria o pai. — Por que está chorando? — perguntou Rina a Molly. A pobrezinha estava tão exausta com toda a confusão que logo adormeceu como uma pedra. Vou até o salão pedir a alguns dos amigos que me ajudem a transportar o corpo. é a senhora — murmurou ela. Lembrou-se do dia em que contratara a mãe de Rina. uma de cada lado. Rina olhou para a mãe. e acabe o seu sorvete — ordenou Molly. agora. — Como é bom aquele padre! — exclamou Mary.. O homem prontamente mudou Rina para o outro braço. e . As empregadas estavam chorando e até Peters. Rina já dormia profundamente.

querido — disse Geraldine. com um . inclinando-se sobre as costas da cadeira. — Claro que não chamam isso de festa. nascida num a aldeia de pescadores na Finlândia. Saiu do quarto e parou no estreito corredor ao ouvir um rumor de vozes e passos. — Uma menina de dois anos de idade. pensando nisso pela primeira vez.mbora ela não trabalhasse já havia alguns anos. Marlowe hesitara. Marlowe sentiu um aperto na garganta. madame? — perguntou Molly. Tenho certeza de que meu marido descobr irá a família. — Não sei — disse a sra. com o rosto afogueado pelo esforço. Harrison Marlowe viu a cabeça da esposa curvada sobre o bordado que fazi a. — E seu marido. Passaram com o corpo amortalhado. Osterlaag — dissera com um sorriso. Esperamos até ter dinhe iro suficiente. Ouvi a mãe dizer muitas vezes que não tinha família alg uma — disse Molly. finlandeses. — Não chore. com os olhos cheios de lá-grimas. mas depois do nascimento de Laddie o méd ico dissera que não poderia mais ter filhos. Ele e a filha não chegaram a se conhecer. E ficou pensando se agira corretamente ao fazer com que o marido permitisse que usassem o apar-tamento que ficava no andar de cima d o estábulo. madame. madame — disse ele. Dormirá no meu quarto e estou pronta a pagar-lhe a pensão dela com parte de meu ordenado. Logo ele apareceu com os outros no corredor. querida? — Se não é muito incômodo. Um tom de censura transpareceu nas palavras de sua esposa: — Você bem sabe que não é uma festa. — O sr. Olhou para Rina. Ninguém poderia prever as conseqüências de um velório irlandês. Uma criança de dois anos poderia ser algo bem incômodo. Quer um pouco de xerez antes do jantar. madame. É uma boa criança e muito sossegada. Ouviu os passos pesados dos empregados que levavam Bertha Osterlaag. — Tenho uma filha. — Harry! E se os criados estiverem vendo? — Esta noite não podem — disse ele. e ela se encostou à parede para deixá-l os passar. Já vi Mary toda ar ada. beij ou-a de leve no rosto. — E se não descobrir? — Nesse caso. A sra. Estava ficando mimado demais. Ouviu a voz de Peters: — Por aqui. A voz dela mostrava a habitual surpresa contente. — O que será agora da menina. — Não terá de pagar coisa alguma. Marlowe. com modos e pronúncia de quem tivera boa educ ação. rindo. — Só estão pensando é na festa. sra. em voz baixa. Mas fique descansada que os ir-landeses sabem fazer de tudo uma festa. — Afinal de con tas. Marlowe sempre quisera uma menina. 3 Da porta. Ela não irá para o orfanato. Agora tenho de voltar a trabalhar. Seria bom Laddie ter alguém com quem br incar. E a mãe de Rina tinha razão. que dormia tranqüila mente na cama. rapazes. Ela ia ser enterrada numa igreja estranha e e m terra estranha. Tivemos a menina já um pouco idosos. Osterlaag? — Morreu no naufrágio de seu navio. acho que prefiro um martini. Vivi o quanto pude de nossas economias. Molly. pensaremos em outra coisa. sra. madame — ela dissera. Nós. — Coitadinha! Vai ter de ir para o orfanato. Marlowe vai ver se encontra os parentes. A sra. A criança não dera o meno r trabalho. deixando no ar quente e parado um leve mas inc onfundível cheiro de cerveja. — Perdão. — Não vai encontrar ninguém. não casamos cedo. Sentiu lágrimas nos olhos. Atravessou em silêncio a sala e. A sra. o que uma crian-cinha pode comer? Já quase três anos haviam se passado. — Rina não é problema.

Talvez fosse ver dade o que diziam. querida. — A sua saúde. Geraldine. Mas. surpreso. desde então. — Obrigado — respondeu Harrison. por favor. Levantou-se da cadeira e se aproximou do marido. tampou e começou a sacudir vigorosamente. Podem exigir que a adotemos para que ela não volte nunca a ser um ônus para a Prefeitura. Queria poupar-lhe a humilhação de ter de suportá-lo mais do que ela q uisesse. escondendo o rosto nos ombros do marido. As mulheres só florescem realmente quando ficam mais velhas e s eus desejos aumentam. Harry! — disse Geraldine. calmamente. Se fosse. Em seguida. Talvez fos se verdade. Ele foi ao bufê e pegou uma garrafa de gim. Harrison a olhou. — O que acont ecerá à menina agora? — Não sei.pouco de hesitação. menos uma gota e os cálices não estariam cheios. Uma criança órfã não é um ob odemos ficar com ela apenas porque está por acaso em nossa casa. Quando havia visitado a Europa em sua lua-de-mel. Com um copinho de prata. — Puxou a corda da campainha. o coquetel se derram aria. Tenho certeza de que preferirão deixá-l a conosco a sustentá-la por conta da Prefeitura. — Mas você pode falar com as autoridades. agora. — Pensado em quê? — Em adotar Rina. compenetrado. Depois deixou cair quatro gotas de bíter na mistura... a vida deles assumira um pad rão de regularidade. Mais uma gota.. Creio que devo comunicar às autoridades. olhou co m satisfação os coquetéis. Tinha trinta e quatro anos. colocou três medidas de gim na coqueteleira e uma de vermute. — Claro. Você tem uma inteligência tão viva que pensa logo no melhor. Amava sua mulher. e olhou para a mulher. — É terrível — retrucou Geraldine. e Mary apareceu à porta. fez com a cabeça um sinal de a provação. — Não sei. A empregada fez uma reverência e desapareceu. — Acha que seria direito tomarmos outro martini? Dandy Jim Callahan olhou para eles no seu gabinete e esfregou pensativamente o q ueixo.. trinta e um. sorrindo. recuando um pouco. Ela irá provavelmente para o orfanat o do condado. Estava m casados havia sete anos e. Depois. querida. Só por isso é que fora para aquela casa em South Street. E por isso que o admiro. Mary. Ela passou os braços pelo pescoço dele. outra de vermute francês e um vidrinho de bíter de laranja. pegando o seu cálice. — Por quê? Não sei o que podemos fazer além disso.. — Aqui ela não tem qualquer parente — disse Harrison Marlowe. — Ótima idéia.. Harry. isso era como uma espécie de sinal entre eles. Geraldine Marlowe levou o cálice a seus lábios. o cálice na mesinha. — De repente fiquei tão excitada! — disse Geraldine. .. Cada cálice estava cheio. todo aquele delicioso calor fl uindo para si e excitando-o. Ele se virou. surpreso. e elogiou: — Está delicioso. — Por que não podemos continuar com ela e criá-la? — Não é possível. O marido olhou-a sem nada dizer. — Não sei por que ainda não havia pensado nisso. — Mas você sempre teve vontade de ter uma menina em casa. — Traga algum g elo picado. com exceção da lua-de-mel. Então deixou cair uma azeitona em cada cálice e. Ele sentiu o suave contato do corpo de Geraldine. O gelo já estava em cima do bufê e ele encheu a coqueteleira até a borda. destampou a coqueteleira e serviu a bebida nos cálices próprios. Pousou. duas vezes em menos de uma semana. E preciso observar uma porção de formalidades. não se queixaria. Quando achou que já bastava.. olhando para o seu co-quetel. mas não sabemos nem a aldeia em que ela nasceu. Ela o beijou de leve na boca. — Talvez na Europa. — Não podemos permitir uma coisa dessa! — exclamou impulsivamente Geraldine. um bar man em Paris lhe servira a nova bebida e. — Descobriu alguma coisa sobre a família de Bertha hoje? — ela per-guntou. não é? E Laddie ficará tão content e em ter uma irmãzinha.

— Não sei. E um pouco difícil o que querem. — Ora, senhor prefeito, sei que o senhor pode fazer isso — disse pron-tamente Gerald ine Marlowe. — Não é tão fácil quanto pensa, minha senhora. Não se esqueça de que a Igreja tem de concorda também. Afinal de contas, a mãe era católica, e não é possível entregar uma criança católica uma família protestante. Ao menos em Boston, não é. Talvez nunca permitam. Geraldine se calou com a decepção fortemente estampada no rosto. Foi então que ela viu pela primeira vez o marido como um ser diferente do simpático estudante de Harvar d com quem casara. Ele começou a falar e havia em sua voz uma expressão de força que ela nunca percebera. — A Igreja gostaria ainda menos do caso se eu provasse que a mãe nunca foi católica. F ariam todos então papel de idiotas, não acha? — Tem essas provas? — perguntou o prefeito. — Tenho — disse Marlowe, tirando alguns papéis do bolso. — O passaporte da mãe e a certidão de nascimento da criança. Ambos mostram claramente que eram protestantes. Dandy Jim examinou os papéis e depois perguntou: — Se tinha isso, por que não os impediu de agir como agiram? — Porque não pude. Os empregados e o padre Nolan tomaram todas as providências sem me consultar. Além do mais, só recebi esses documentos hoje. E que importância tem isso? De qualquer maneira, a pobre mulher teve um enterro cristão. Dandy Jim devolveu os papéis. — Isso dará muitos aborrecimentos ao padre Nolan. Um padre jovem, na sua primeira pa róquia, cometer um engano desse. O bispo não vai ficar nada satisfeito. — Não há nenhuma necessidade de isso chegar ao conhecimento do bispo — disse Marlowe. Dandy Jim o olhou, mas nada disse. Marlowe voltou à carga: — Há uma eleição no ano que vem. — Há sempre uma eleição — murmurou Dandy Jim. — É verdade. Haverá outras eleições e campanhas. Um candidato precisa de contribuições quase anto quanto precisa de votos. Dandy Jim sorriu. — Já contei o que me aconteceu com seu pai? — Não — disse Marlowe, também sorrindo. — Mas meu pai me falou nisso muitas vezes. Disse q ue o botou para fora do escri-tório dele. — É verdade. Seu pai tem um temperamento bem impulsivo. Até parece que tem sangue irla ndês. Só fui pedir-lhe uma pequena contribuição para minha campanha. Foi há uns vinte anos e eu era candidato a vereador. Sabe o que foi que ele me disse? Marlowe sacudiu a cabeça. — Jurou que se algum dia eu fosse eleito, nem que fosse para pegador de cachorros na carrocinha, ele se mudaria daqui com toda sua família. Aposto que não vai gostar quando souber que contribuiu para o fundo de minha campanha. — Meu pai é meu pai e eu o respeito muito — disse Marlowe, com firmeza —, mas o que faço e m matéria de dinheiro e de política é da minha conta e não da dele. — Têm outros filhos? — perguntou Dandy Jim. — Um menino de oito anos — Geraldine respondeu rapidamente. — Não sei — disse Dandy Jim, sorrindo. — Algum dia as mulheres vão votar e se essa menina for criada lá esse é um voto que nunca irei conseguir. — Vou prometer uma coisa, senhor prefeito — Geraldine afirmou prontamente. — Se isso a contecer algum dia, todas as mulheres de minha casa votarão no senhor! O sorriso de Dandy Jim se alargou. Cumprimentou agradecendo e disse: — Os políticos têm sempre a fraqueza de viverem fazendo tratos. No dia seguinte, Timothy Kelly, secretário do prefeito, apareceu no escritório de Ma rlowe, no banco, e recebeu um cheque de quinhentos dólares. Aconselhou Marlowe a i r conversar com determinado juiz, do fórum municipal. Foi ali que se fez a adoção. Quando Marlowe saiu da sala do juiz, deixara com ele um a certidão de nascimento passada no nome de Katrina Osterlaag. Levava no bolso uma certidão de nascimento com o nome de sua filha, Rina Marlowe.

4

Embaixo do grande guarda-sol fincado na areia, Geraldine Marlowe estava sentada numa cadeira de lona. Abanava-se lentamente com o le-que. — Não me lembro de um verão tão quente como esse — disse, respirando com alguma dificuldad e. — Deve estar fazendo uns trinta e cinco graus à sombra. O marido resmungou alguma coisa na cadeira ao lado, ainda imerso na leitura do j ornal de Boston, que chegava ao Cabo com um dia de atraso. — O que foi que você disse, Harry? Ele mostrou o jornal para a mulher. — Esse Wilson está positivamente maluco! — Por que diz isso, querido? — perguntou Geraldine, os olhos ainda voltados para o m ar. — Essa história da Liga das Nações. Ele diz que agora vai para a Europa a fim de assegur ar a paz no mundo. — Pois eu acho a idéia magnífica. Afinal de contas, tivemos sorte dessa vez. Laddie er a moço demais para ir à guerra. Da próxima vez, poderá ser diferente. — Não haverá próxima vez — disse Marlowe. — A Alemanha está derrotada para sempre. Além do ma o que temos com isso? Eles estão do outro lado do mar. Podemos ficar aqui, e deixálos que se matem à vontade se quiserem começar outra guerra. Geraldine encolheu os ombros. — Chegue mais para baixo do guarda-sol, querido. Você bem sabe como fica vermelho qu ando toma sol. Harrison Marlowe levantou-se e levou a cadeira para a sombra. Sentou, deu um sus piro e tornou a abrir o jornal. Rina apareceu de repente à frente da mãe. — Já faz uma hora que almocei, mamãe. Posso entrar na água? Geraldine olhou para Rina. A menina havia crescido muito naquele verão. Difícil acre ditar que só tivesse treze anos. Era bem alta para a idade. Um metro e cinqüenta e sete, apenas dois centímetros a me nos que Laddie, três anos mais velho. O cabelo estava ainda mais claro por causa d o sol, enquanto sua pele estava tão queimada que os olhos amendoados pareciam clar os em contraste com o bronze-ado. As pernas eram compridas e bem-feitas, os quad ris começavam a arredondar-se e os peitos já se mostravam cheios e redondos sob o ma iô de banho de menina, pare-cendo mais os de uma moça de dezesseis anos. — Posso, mamãe? — Pode. Mas tenha cuidado, querida. Não nade muito para fora. Não quero que você se cans e. Mas Rina já saíra as carreiras, sem ouvir o resto. Geraldine Marlowe sorriu para si mesma. Rina era assim mesmo, diferente de todas as mocinhas que ela conhecia. Na dava e corria mais que qualquer dos rapazes com quem Laddie andava, e todos eles sabiam que ela era capaz de vencê-los. Não fingia ter medo da água nem se preocupava em se proteger do sol. Tampouco se interessava em conservar a pele macia e clara . Harrison Marlowe interrompeu a leitura do jornal. — Tenho de ir à cidade amanhã. Vamos fazer o empréstimo a Standish. — Está bem, querido — Geraldine respondeu, ouvindo ao longe as vozes estridentes das c rianças, e acrescentou; — Temos de fazer alguma coisa a respeito de Rina. — Rina? O que há com Rina? — Não notou ainda? Nossa filhinha está crescendo. — Sim, sim, mas ainda é uma menina. Geraldine Marlowe sorriu. Era bem verdade o que diziam dos pais. Falavam mais so bre os filhos mas, secretamente, encantavam-se com as fi-lhas. — Ela já é mulher desde o ano passado — replicou. Harrison ficou vermelho e olhou para o jornal. Havia percebido vagamente isso, m as era a primeira vez que falavam abertamente do fato. O-lhou para o mar, procur ando Rina no meio do grupo barulhento que se debatia dentro da água. — Não acha que devemos chamá-la? É perigoso para ela ficar tão longe da praia. Geraldine sorriu. Pobre Harrison! Podia ler o pensamento dele como um livro. Não e ra do mar que ele tinha medo, mas dos rapazes. — Não, Harry. Não há perigo. Ela nada como um peixe.

Ele a olhou, meio confuso. — Não acha que deve ter uma conversa com ela? Talvez explicar-lhe algumas coisas... como eu fiz com Laddie há uns dois anos. O sorriso de Geraldine era malicioso. Gostava de ver o marido, habitualmente tão s eguro de si, tão positivo em todas as suas idéias, e convicções, assim atrapalhado. — Não seja bobo, Harry. Não preciso explicar-lhe mais nada. Quando uma coisa assim aco ntece, é natural dizer tudo o que ela deve saber. — Muito bem — ele concordou, com um suspiro de satisfação. Geraldine continuou: — Acho que Rina vai ser uma dessas crianças que fazem a transição da adolescência sem pass ar por qualquer das suas fases desagradáveis. Não há nela o menor sinal de angulosidad e, e a pele é clara, sem qualquer mancha ou espinha. Muito diferente do que aconte ce com Laddie. Apesar de tudo, acho que vou tomar uma providência a respeito de Ri na. Vou comprar uns sutiãs. Marlowe nada comentou. — Sinceramente — prosseguiu Geraldine —, penso que o busto dela já é tão grande quanto o meu . Espero que não cresça muito mais. Ela vai ser uma bela mulher. — Teve a quem sair — disse ele, com um sorriso. Ela sorriu também. Sabia perfeitamente o significado daquelas palavras. Não passou p ela cabeça de nenhum deles que Rina não fosse real-mente sua filha. — Você se importaria de me levar para a cidade esta noite? — perguntou ela. — Seria ótimo passar a noite num hotel. — Também acho — ele aprovou, apertando-lhe a mão. — Molly pode tomar conta das crianças. E eu teria tempo de fazer algumas compras pel a manhã, antes de voltar-mos. — Magnífico! — ele disse, olhando para ela e rindo. — O chalé aqui está um pouco cheio demai s. Vou telefonar para o hotel e mandar preparar uma batelada de martinis para o momento em que chegarmos. Ela soltou sua mão e exclamou rindo: — Mas que homem imoral! Rina nadava com braçadas pausadas e determinadas; seus olhos estavam fitos na jang ada que os rapazes usavam para mergulhar, ancorada além da arrebentação. Laddie devia estar lá com seu amigo Tommy Randall. Saiu da água quase aos pés deles. Os rapazes est avam deitados de costas, com os rostos voltados para o sol, e se sentaram, logo que Rina começou a subir a escada. — Por que não ficou lá com as meninas? — exclamou Laddie, irritado com a invasão de seu sa ntuário. — Tenho tanto direito de estar aqui quanto você — ela retorquiu, depois de recuperar o fôlego e ajeitar as alças do maiô. — Ora, vamos — disse Tommy —, deixe-a ficar. Rina olhou-o pelo canto dos olhos e viu que o olhar dele estava interessado em s eus peitos parcialmente à mostra. Foi nesse exato momento que ela começou a se torna r mulher. Até Laddie a estava olhando de uma maneira curiosa, que ela nunca percebera nele. As mãos dela caíram instin-tivamente para os lados. Se era só isso que era preciso par a que a aceitassem, podiam olhar à vontade. Sentou-se diante deles, sentindo ainda os olhos cravados nela. Uma sensação esquisita começou a percorrer seus peitos e ela se olhou. Os bicos estava m claramente desenhados contra o jérsei preto do maiô. Ergueu a vista para os rapaze s e viu que a observavam sem disfarce algum. — O que é que vocês estão olhando? Os dois rapazes ficaram embaraçados e imediatamente desviaram os olhares. Tommy vi rou-se para o mar, e Laddie para o chão da jangada. — Então? — ela perguntou a Laddie. O rosto do irmão ficou muito vermelho. — Eu vi! Vocês estavam olhando para o meu peito! Laddie levantou-se imediatamente. — Vamos embora, Tommy. Isto aqui está ficando cheio demais! Ambos deram um mergulho. Rina observava-os enquanto nadavam para a praia. Depois

estendeu-se na jangada e fitou o céu, pensando que os meninos eram mesmo uma gent e esquisita. O maiô apertado machucava os peitos. Ela encolheu os ombros e libertou os seios do incômodo maiô. Baixou a cabeça e ficou se olhando. Lá estavam eles, muito brancos, em contraste com a pele queimada dos braços e do pes coço. Os bicos estavam rosados e maiores do que até então os vira. Tocou-os com as pon tas dos dedos. Eram duros como pedrinhas e uma espécie de dor quente e agradável cha¬m ejava ao contato dos dedos. O calor do sol começou a enchê-los de uma sensação doce e pra-zerosa. Fez uma leve massa gem para aquilo passar, e o calor que se irradiava dos peitos lhe tomou todo o c orpo. Sentiu-se meio tonta, com um contentamento que nunca sentira até aquele dia.

5 Diante do espelho, Rina ajustava as alças do sutiã. Respirou profundamente, e voltou -se para a mãe, sentada na cama atrás dela. — Pronto, mamãe — disse ela, orgulhosa. — Que tal? Geraldine olhou indecisa para a filha . — Talvez se você apertasse o último gancho... — Já tentei, mamãe. Mas não posso usar assim, que me machuca. Geraldine concordou com um gesto. Da próxima vez, compraria um tamanho maior. Mas quem iria pensar que um trinta e quatro ficaria tão apertado num corpo ainda não tot almente desenvolvido? — Não acha que preciso também de maiôs novos, mamãe? Os que tenho estão muito apertados. — Estava pensando nisso, Rina. E alguns vestidos novos também. Talvez papai queira l evar-nos de carro a Hyannis Port depois do café. Rina abriu um alegre sorriso. Correu para junto da mãe e abraçou-a a-fetuosamente. — Muito obrigada, mamãe! Geraldine beijou Rina na cabeça e depois ergueu o rosto bronzeado da filha. Olhou Rina bem dentro dos olhos, acariciando de leve suas faces. — O que será que está acontecendo à minha menina? — perguntou quase com um tom de tristeza na voz. Rina pegou a mão da mãe e beijou-lhe a palma. — Nada, mamãe — disse ela, com a segurança e a confiança que seriam sempre características d e sua personalidade. — Só que, como a senhora já me disse, eu estou crescendo. — Não tenha muita pressa, minha criança — disse ela, apertando a ca-beça da filha contra s eu peito. — A infância infelizmente é muito curta. Mas Rina mal a ouviu. E, se ouviu, é de duvidar que as palavras tivessem significa do grande coisa para ela. Eram apenas palavras, e as palavras eram tão importantes di-ante das forças que despertavam dentro dela como as ondas que se quebravam irr emediavelmente na praia defronte da janela. Laddie girou o corpo e arremessou rápido a bola para a primeira base. O outro joga dor lançou-se em desabalada carreira e se jogou, escorregando em direção à marca de safe ty, os calcanhares levantando uma nuvem de poeira. Quando a poeira assentou, o j uiz gritou: — Você está fora! E a partida havia terminado. Os rapazes se aglomeraram em torno de Laddie para abraçá-lo e elogiar o jogo. Depois , dispersaram-se e enca-minharam-se para a praia. Ele e Tommy ficaram sozinhos. — O que vai fazer hoje à tarde? — perguntou Tommy. — Nada — disse Laddie, encolhendo os ombros. Ainda pensava no jogo e, apesar dos elo gios, não estava satisfeito com seu próprio desempenho. Teria de melhorar, treinar m uito, pois do contrário não faria parte da equipe principal de Barrington. — O Bijou tem um filme novo de Hott Gibson — disse Tommy. — Já vi esse filme em Boston. Quando é que Joan chega? — Quem? Minha prima? — perguntou Tommy.

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Conhece outra pessoa com esse nome? — replicou Laddie, sarcasti-camente. Talvez ela venha neste fim de semana. Então talvez a levemos ao cinema. Muito bonito! — exclamou Tommy. — Para você está tudo ótimo, e para mim? Pensa que é engraç sentar perto de vocês dois, sozinho? E quem eu vou levar? — Não sei... Andaram mais alguns instantes. De repente, Tommy deu um estalo com os dedos e ex clamou: — Já sei! — Quem? — Rina, sua irmã. — Rina? — disse Laddie. — Mas ela ainda é uma garotinha! Tommy riu. — Garotinha, nada! Viu como estão grandes? Ainda estão maiores do que quando nós os olha mos na jangada há uns quinze dias. — Mas ela só tem treze anos, Tommy... — E daí? Minha prima Joan tem catorze. Tinha treze no verão passado, quando você já vivia todo agarrado com ela na varanda dos fundos. Laddie achou que talvez Tommy tivesse razão. Rina estava crescendo. — Está bem — concordou ele, balançando os ombros. — Pode convidá-la. Mas eu sei que não adian a. Minha mãe não vai permitir que ela vá. — Deixará, se você pedir. — Vou tomar banho e trocar de roupa — disse Laddie. — Até já, na praia. — Combinado. Até já. O chalé estava fresco, depois da algazarra e do calor do beisebol. Laddie foi até a cozinha e chamou Molly. Ninguém respondeu, e ele se lembrou de que era quinta-feira, dia de folga de Molly . Ouviu um barulho em cima e foi até a escada! — Mamãe! Foi Rina quem respondeu: — Foram de carro até Hyannis Port jantar com alguém. Laddie voltou para a cozinha e abriu a geladeira. Tirou uma garrafa de leite e c ortou um pedaço de bolo de cho-colate. Só depois de ter comido tudo se lembrou de qu e havia feito uma promessa de não tocar em doces, para ver se sua pele melhorava. Ficou ali sentado, meio apático. Ouviu a porta do banheiro abrir e passos na direção d o quarto de Rina. O que ela estaria fazendo àquela hora da tarde dentro de casa? H abitualmente já era hora de estar na praia com seu grupo de amigas tolas. Talvez Tommy tivesse razão. Ela estava crescendo. Sem dúvida alguma o jeito que ela ficara na jangada com os peitos quase à mostra, e deixando que a olhassem, não era d e uma menina. E Tommy tinha razão também numa coisa: os peitos de Rina eram maiores que os da prima dele. Pensou de novo em Rina na jangada e de novo imaginou: os peitos querendo sair do maiô, o cabelo molhado caindo até os ombros e os lábios apertados em sinal de aborrec imento. Sentiu um calor habitual subir-lhe pelo corpo. Não! Outra vez, não! Tinha jurado dep ois da última vez que ia parar com aquilo. Levantou-se abruptamente. Não iria fazer aquilo dessa vez. Colocou o prato vazio na pia, saiu da cozinha e subiu a escada . Tomaria um banho frio e depois iria à praia. O quarto de Rina ficava bem em frente ao patamar da escada, e a porta estava par cialmente aberta. Já estava no meio da escada, quando notou que havia movimento de ntro do quarto. Parou, com o coração batendo com força. Ficou de joelhos de modo que só seus olhos ficassem acima do patamar. Rina estava diante do espelho, de costas para a porta, vestida apenas de sutiã e c alção. Enquanto ele olhava, ela estendeu a mão para trás e desabotoou o sutiã. Depois, vir ando o corpo um pouco, tirou o calção. Ainda com eles na mão, atravessou o quarto e vo ltou logo, trazendo um maiô de banho. Parou de novo em frente ao espelho e vestiuo. Ajeitou-o sobre os seios e ajustou as alças. Laddie sentia a testa banhada de suor. Era a primeira vez que via uma moça crescid a completamente nua. Nun-ca pensara que pudessem ser tão belas e excitantes. Passou pela porta dela em passos lentos e foi para seu quarto. Fechou a porta e

jogou-se na cama, ainda trêmulo. Ficou por muito tempo ali deitado, com aquele cal or que o fazia quase dobrar-se de dor. Debateu a questão consigo mesmo. Não. Não devia. Se cedesse daquela vez, cederia para sempre. Afinal, começou a sentir-se melhor. Enxugou a testa com o braço e le-vantouse. Só era preciso ter um pouco de força de vontade e determinação Sentiu orgulho de si mesm o. O que ele tinha de fazer era afastar-se de todas as espécies de tentação. Isso abra ngia tudo. Até os postais franceses que comprara na tabacaria em Lobstertown.. Abriu uma gaveta da cômoda e tirou os postais de baixo de uma tábua solta. Colocou-o s virados sobre a cômoda. Quando fosse tomar banho, jogaria tudo dentro do vaso e puxaria a descarga. Tirou a roupa rapidamente e vestiu o roupão de banho. Foi até a cômoda e olhou-se no e spelho. O rosto estava i-luminado por uma nobre determinação. É curioso ver como uma d ecisão correta transforma a pessoa. Saiu do quarto, mas esqueceu os postais em cim a da cômoda. Estava se enxugando, quando ouviu os passos de Rina pelo corredor em direção a seu q uarto. De repente, lembrou-se de que havia deixado os postais em cima da cô-moda. Vestiu apressadamente o roupão de banho. Mas já era tarde. Quando chegou ao quarto, ela estava de pé junto à cômoda e com os post ais na mão. Olhou-o surpresa. — Onde arranjou essas fotografias, Laddie? — perguntou ela, com inte-resse. — Dê-me isso! — exclamou ele. Rina esquivou-se e correu para o outro lado da cama. — Deixe-me terminar — disse ela, calmamente. — Depois eu devolvo. — Não! — gritou ele com voz rouca, avançando para ela por cima da cama. Rina se virou para evitá-lo, mas a mão dele agarrou seu ombro. Ela caiu na cama ao l ado dele e os postais se espa-lharam. Procurou agarrá-los de novo. Laddie seguroua pela alça do maiô a fim de impedi-la, e a alça arrebentou. Ficou parado, e muito pálid o, vendo o seio branco que escapara do maiô. — Você arrebentou minha alça — disse ela, calmamente, sem fazer o menor gesto para cobri r-se, olhando-o bem nos olhos. Ele ficou em silêncio, atônito. Ela sorriu, levando a mão ao seio e esfregando lentamente o bico. — Não sou tão bonita como qualquer dessas mulheres das fotografias? Ele estava fascinado, sem poder falar, seguindo com os olhos o movimento deliber ado da mão de Rina. — Não acha que sou, Laddie? Pode falar, que não contarei pra ninguém. Por que acha que e u deixei você me espiar enquanto eu trocava de roupa? — Você sabia que eu estava olhando? — perguntou ele, atônito. — Claro, seu bobo. Via você pelo espelho. Quase estourei na gargalhada. Pensei que o s olhos lhe fossem saltar da cabeça. Laddie sentiu a excitação que o empolgava e exclamou: — Não vejo nada de engraçado nisso! — Olhe para mim — disse Rina. — Gosto que você olhe para mim. Se eu pudesse, todo mundo olharia. — Não é direito, Rina. — Por quê? O que há de errado nisso? Eu gosto de olhar para você. Por que é que você não pode gostar de olhar para mim? — Mas você nunca me olhou! — Já, sim — Rina olhava para ele com um sorriso enigmático. — Onde? Quando? — Numa tarde em que você voltou da praia. Não havia ninguém e eu espiei pela janela do b anheiro. Vi tudo o que você fez! — Tudo? — perguntou ele, alarmado. — Tudo — disse ela, calmamente. — Você estava brincando com seu músculo. Nunca pensei que ele pudesse ficar tão grande. Sempre pensei que ainda fosse pequeno e caído como qua ndo você era garotinho. Ele sentiu um aperto na garganta e mal pôde falar. Começou a se levantar da cama, e disse com voz rouca: — É bom você ir embora daqui.

Ela olhou para ele ainda sorrindo. — Quer me ver outra vez? Ele não respondeu. Rina puxou a outra alça e, depois, tirou o resto do maiô. Ele ficou olhando o corpo todo nu, sentindo as pernas tremerem. — Agora tire o roupão e deixe-me ver você todo. Como tomado de atordoamento, ele abriu o roupão e o deixou cair. Com um gemido, ca iu de joelhos ao lado da cama, tentando controlar-se. No mesmo instante, ela rolou pela cama e olhou para ele. — Agora — disse ela, com um tom de triunfo na voz. — Faça isso por mim. Ele levantou a mão para tocar o seio. Ela o deixou ficar assim por um momento, mas de repente afastou-se dele. — Não! — exclamou ela. — Não me toque! Ele a olhou, cheio de angústia. — Faça isso por mim — disse ela, com voz rouca. — E eu farei isso por você. Mas não me toque !

6

Durante toda a sessão de cinema, Laddie os ouviu rir e conversar em voz baixa. Pod ia imaginar o que estavam fazendo no cinema às escuras, ainda que não os pudesse ver . Visões passavam-lhe pela cabeça. Tommy estava oferecendo uma bala a Rina. Laddie viu-o estender o saquinho para e la com a mão displicentemente, encostando em seu seio. Mexeu-se inquietamente na c adeira, tentando devassar a escuridão. Mas não adiantou. Não deu para ver. — Quer me dar mais um bombom? — disse Joan do meio da escuridão. — Como? — perguntou ele, levando um susto. — Ah, sim. Pois não. Estendeu o saquinho para ela se servir e sentiu a suave pressão de seus seios. Mas isso só serviu para fazê-lo lembrar-se de Rina. No caminho de casa, pararam diante da casa de Tommy. — Querem tomar algum refrigerante? — perguntou Joan. — A geladeira está cheia. — Não, obrigado — Laddie respondeu prontamente. — Já é tarde e prometi a mamãe que estaríamos casa antes de escurecer. Rina nada falou. — Não pode voltar depois? — perguntou Joan. — Depois de deixar Rina em casa? — Não sei — disse ele, sentindo o olhar de Rina e ficando vermelho. — Estou muito cansad o. Acho que vou dormir cedo hoje. Joan olhou-o de maneira estranha, mas nada mais disse e foi entrando em casa. Fo i um instante difícil, até que Tommy falou: — Está bem. Então, boa noite. Até amanhã, na praia. Fizeram o resto do caminho em silêncio. Já estava escuro quando che-garam à varanda. L addie abriu a porta para ela. Ela entrou e de repente ficou parada, ao ver que e le não fazia menção de segui-la. — Não vai entrar? — Já, não. Vou ficar aqui fora mais um pouco. — Então eu também vou — disse ela, voltando para a varanda. Laddie deixou a porta bater, e o barulho repercutiu na casa toda. — São vocês, crianças? — perguntou Geraldine Marlowe. — Sim, mamãe — respondeu Rina. Olhou rapidamente para Laddie e acrescentou: — Podemos fi car aqui fora ainda um instante, mamãe? A noite está tão quente. — Está bem. Mas só meia hora, Rina. Quero vocês na cama às oito e meia. — Certo, mamãe. Laddie atravessou a varanda e sentou-se na grande cadeira de vime. Rina foi sent ar-se ao lado dele. — Por que Joan queria que você voltasse? — Não sei. — Ela queria que você fizesse aquilo por ela?

— Hipócrita — completou Laddie. mamãe — disse Rina. Papai está lendo o jornal e mamãe está tricotando. — Você não está se sentindo bem. Eles não virão aqui. sou? — perguntou Rina. — Vamos tomar um pouco de ar fresco na varanda? — sugeriu Harrison. — Rina a beijou com carinho.. meu filho? — Sim — disse ele. mamãe. mas Rina tinha razão. — Ficou sempre com os olhos pregad os na tela e uma vez chegou a pedir bombons a você. A porta da varanda bateu e R ina entrou na sala. De repe nte. não é. Ela saiu da sala e os dois puderam ouvir seus passos ligeiros pela escada. A exclamação foi involuntária. Geraldine sorriu para ela. — Divertiu-se. olhando para a casa. — Já não disse que foi tudo bem. — Boa noite. — Não gosto de Joan — disse ela. Ela o viu levantar-se da cadeira. Laddie? Você me parece com um pouco de febre e seu rosto está banhado de suor. Nem queira saber como é bom ver um filme sem aquela garotada fazendo b arulho e correndo pelo cinema como acontece nas matinês. — Mas não faço mais. — Rina não o aborreceu? — Não. querida? — Muito. papai — disse Laddie em voz baixa. — E uma hipo. Ainda precisa descansar. — Gostou do cinema.. impulsivamente. quando eu não quis. Laddie? Tenho certeza de que o vi sair com ele no bolso. querida.— Claro que não! — respondeu ele. num sussurro: — Quer faze r aquilo agora? — Agora? — perguntou ele. surpreso com a inesperada profundeza de sua percepção. Joan era uma hipócrita. hipo. É um dever do irmão. — É a primeira vez que sai com um rapaz. às vezes temos de fazer coisas de que não gostamos.. mamãe? — Não. laconicamente. preocupada. Você já está crescida agora. — Não! — exclamou Laddie. Contagiada por aquela boa disposição. O que será que estão fazendo agora ? Laddie teve uma visão de Joan e Tommy juntos e sentiu-se excitado. com um leve sorriso nos lábios. . mamãe. mocinha. mamãe. Uma delas é tomar conta da irmã. O hei pela porta.. Vou enxugá-lo para você. Chegaram à varanda e Geraldine chamou— Laddie! — Estou aqui. — Atravessou a sala e beijou o rosto do pai. — Mas eu não sou hipócrita. — Não tenha receio. papai? — exclamou ele. — gaguejou ele — Como? Ela sorriu e tirou o lenço do bolso da camisa de Laddie. alegremente. Geraldine olhou para o relógio. Isso é se mpre um acontecimento para uma moça. Geraldine se aproximou dele. Geraldine riu. indignado. Onde está seu lenço. — Ainda outro dia você fazia parte dessa garotada. — Por que diz isso? — Tommy quis que eu pegasse nele e. — Você não parece muito feliz por tê-la levado — Impressão sua. ele segurou a mão de Joan e el a não teve dúvidas em fazer sua vontade. quase gritando. Oito e meia em ponto. — Ela parece bem feliz. ele sentiu os dedos dela nas coxas e ela perguntou. Harri son Marlowe tirou os olhos do jornal. — Está bem.. papai. — Boa noite. — Por que não estaria? — disse Geraldine. Os olhos da filha estavam brilhando e um sorriso feliz ilumi nava seu rosto. mamãe – havia tensão em sua voz — Meu filho — disse o pai —. — Laddie! — Geraldine mostrou-se surpresa — Desculpe. — Ela nem olhou uma só vez para ele — continuou Rina. — Mas. — Tem razão.. — Já sou bem crescida! — Agora já para a cama.

— Sim. Quando voltassem para a p raia no verão seguinte. até mesmo a companhar a irmã. tinha medo de olhar para R ina de manhã e. Foi com um sentimento de alívio que viu aquele verão alucinante aproximar-se do fim. Para Laddie foi um verão de dor e ternura. Julgava que dentro em pouco tudo terminaria. Ouça o que estou dizendo. Mas. da revolta e do ódio que os pais sentiriam quando soubessem. havia medo. o medo do sofrimento. papai. Em seguida. acho que perdi. Está zangado porque não pôde ir para a varanda dos Randall bolinar Joa n. — Sim. Ha-via sempre nele um contentam ento inquieto e amedrontado quando estavam juntos. não podia comer. Se rá bem educada lá. — Talvez estejam um pouco. — Tem certeza de que não está com febre? — Acho bom ir para a cama. olhando para suas mãos bronzeadas remexendo a . como se estivesse falando do tempo. Ele está tão mal acostumado a ter tudo o que quer que fica aborrecido quando tem de fazer por conta própria alguma coisa. mas você tem de reconhecer que estão mimados. Você faz tudo o que ela quer. apertando os o-l hos. quando a via. beijou a mãe. — Não lhe agrada a idéia de seus filhos cresce em. — Vou ter um filho. Sentia verdadeiras agonias de ciúme quando a via sorrir ou conversar com outros rapazes. debelar as febres que ardiam por dentro. Harry. Conheço esses rapazes. de selvagens sensações físi-cas e de cruciant es lutas de consciência. Gostaria que fossem crian-ças para sempre. chorava na agonia de sua autoflagelação. o medo voltava. Harry? — Ele é muito mimado. — O que será que há com ele? — Acho que sei o que há com ele — disse Harrison entre dentes. fique sabendo. Desde aquele primeiro verão. dois anos antes. — Não. não queria mais sair de perto dela. mamãe. ras tejava diante dela.. — E o que vai fazer — Laddie perguntou. Laddie — disse o pai.. tudo isso desaparecia de repente e ele seria capaz de fazer tudo no mundo para agradá-la. Não podia dormir. — É a primeira vez que isso acontece. Não podia fugir do fato de que ela era sua irmã e de que o que faziam era errado.. E todo o tempo. o medo de serem descobertos. os olhos dele pareceram os de um animal acuado. é bom que estejam voltando para a escola no mês que vem. Visões nascid as do que aprendera com ela enchiam seus sonhos. ia dizer para ela. — Harry. — Eu é que sei por que está assim — disse ela. Olhou para ela. Barrin gton será bom para Laddie. — Acho. Sempre soubera que tudo iria acabar ass im. E Rina precisa de disciplina também. Humilhava-se. poderia dominar-se. deu boa noite e entrou em casa. a prima de Tommy. Boa noite. 7 — Estou grávida — disse ela. sorria para ele ou o tocava. É preciso um pouco de dis ciplina. Dentro em pouco estará mimada também. você está saindo do sério! — Não estou. Depois. Isso é errado e acabou para sempre. quando ela o olhava. Laddie se sentiu inteiramente atordoado. esse é o problema. no fundo de sua mente. Ela passou a mão em sua testa. E estou satisfeita que Rina tenha sido aceita na escola de Jane Vincent. tudo seria diferente. — O que é. Longe dela.Por um instante. — De qualquer maneira. não.. — Como sabe? — Atrasou — respondeu ela calmamente. Mas isso logo p assou. re encontrar-se. Nunca mais. para ele e para ela. Era nisso que acreditava quando voltou para a escola no fim daquele verão.

Bateu com raiva a por ta da geladeira. pelos seios.. com a cabeça sobre os braços. — E. agarrou-lhe os pulsos. Sempre soubera. Ele é que quebrara o juramento. — Não. Dessa vez ela iria apren der a deixá-lo em paz. O gargalo ainda estava quente do contato de Rina. procurando desvencilhar-se dele. — Não — murmurou com voz rouca. levando a garrafa à boca. — Nunca mais — prometera. Chegara mesmo a prometer também. Disse que nunca mais. — Não sei. Tinha acon-tecido. deu um gemido de angústia. Rina começou a se debater. — Só mais esta vez — murmurou ela. sentindo o quanto aquela perg unta era idiota. — Isso é coisa de criança. Ele a viu seguir pela praia para se encontrar com algumas amigas e estendeu-se d e bruços na areia. E tudo por causa daquela maldita garrafa de laranjada. De repente. Especialmente se eu disser que não sei ao certo qual foi. mas a mão dela roçou suas coxas. Abriu a geladeira. ela era mais adulta do que ele. A camisa e as calças es tavam ensopadas de suor quando ele entrou na cozinha. — O que você acha que ela fará? — Não sei. — E. Então moveu a cabeça e começou a correr os lábio s pelo corpo dela. Virou-se para sair. Teria de aca bar com aquela humilhação. — Fez isso com algum deles? — perguntou ele rudemente. E era preciso reconhecer qu e ela havia mantido sua palavra. tomar a garrafa e levá-la aos lábios. Sentiu a cabeça latejar e uma nova onda de suor inundou seu corpo. ou Bill ou Joe. E havia comunicado sua decisão a ela. meio reclinada na cama. nunca mais! Ele ficou parado. com medo de se mover. descendo pelo rosto. — O que está fazendo com a minha laranjada? — perguntou. Ela sorriu e estendeu a garrafa. — Não! Não me to-que! . Só teremos dificuldades e aborrecimentos se continuarmos com isso. Ela estava nua. acho que terei de dizer a mamãe. Tinham ido para a praia naquele verão. Com uma mão. Sentiu na boc a o gosto do líquido adocicado e olhou para ela. Você ficará com suas amigasse eu com meu amigos.. pela bar riga. Os olhos dela estavam con fiantes e sem medo. Foi só com você. De repente. Ele quase deu um g rito ante a súbita e ardente tortura do toque. — O que acha? A laranjada escorreu da boca de Rina. — Quer um pouco? Como se fosse outra pessoa. que isso iria acontecer. — Não! — gritava. Rina estava sorrindo e disse: — Você está excitado. Continuou como que paralisado. — Claro que não. ele encostou sua boca na dela. mas está excitado! Um pouco de laranjada se derramou na sua camisa quando ele percebeu que havia se denunciado. Ele a olhou espantado. de súbito golpeado por intenso ciúme.areia alva da praia. Lembrou-se daquela noite. O ar quente e úmido envol via o corpo de Laddie como uma invisível e asfixiante manta. Subiu. no fundo do coração. mas não e ncontrou a garrafa de laranjada que costumava guardar ali. — Por favor — pediu ela. Direi que foi Tommy. e contará tudo sobre nós? — Claro que não. Ela havia concordado. E quando passou pelo quarto de Rina. custo u a acreditar no que viu. Era uma tarde chuvosa e os dois estavam sozinhos no chalé. como todos os anos. Se nada acontecer até amanhã. Estava quente e úmi da e ainda havia um gosto de laranjada. — Não — ela o olhou com firmeza. O tremor lhe abalava o corpo. Mas acho que não há muitas coisas que ela possa fazer. pelos seios. com a garrafa de laranjada na mão. com medo de tropeçar e cair. depois. até os lençóis. com aquele rastejar diante dela. — Estou bebendo — Rina replicou. Em muitos aspectos. que estava com a porta aberta. Laddie viu-se atravessar o quarto. Mas dessa vez ia ser di ferente. procurando-o com os dedos. Ele havia feito um juramento. ela não fará isso. algumas semana s antes. — E se ela falar com algum deles? Descobrirá que você mentiu.

tirando o cinto das calças. — Não chore. e com razão. fugiríamos hoje mesmo para nos casar. começou a rir. Estou. olhando as ondas que se quebravam na praia e os levavam à in-fância. apertando-lhe as mãos com os dedos entrelaçados com os dela. im-pulsivamente. com lágrimas nos olhos. e ela sentiu de novo a dor rasgá-la. Laddie virou a garrafa e. Todos o culpariam. — É verdade que não somos realmente irmãos. As outras moças todas nada significavam para mim quando as comparava com você. E não podemos culpá-los por isso. As lágrimas rolavam pelas faces de Rina. enquanto a laranjada se derramava sobre e la. — Acho que sempre a amei. no fim. — Eu também. — Mas adotaram. Fizeram o que jul-garam melhor — disse Rina. Ficou ainda mais furioso.Mas ele nem a ouvia. — T alvez tudo ainda acabe bem. — Beba! Beba tudo que quiser! Jogou a garrafa longe. Ele a beijou violentamente e ela perdeu de repente toda a vontade de resistir. apavorada. mesmo você sendo minha irmã. prendeu-as com os joelhos. ele nunca deveria ter deixado que aquilo acontecesse. com uma voz em que não havia muita espe-rança.. No céu h avia algumas ameaçadoras nuvens negras. Foi por isso que fiz o que fiz. Era Rina. ouviu? — gritou ele. que se sentou a seu lado e perguntou: — E agora? O que vamos fazer? — Não sei. de onde ficou a o-lhá-lo. Foi uma coisa que nunca pude vencer. sentada na proa.. No dia seguinte sua mãe saberi a. fazendo-a cair na cama. Estava na hora de voltar. Se não a tivessem ado-tado.. Sen tiu uma pancada de vento na vela e automaticamente virou um pouco o leme. Não podia tolerá-los. Ela pegou sua mão e disse num sussurro: — Eu não devia ter deixado. Fossem quais fossem as ci rcunstâncias. Laddie rolou o corpo na areia. — Cadela! — exclamou ele. A pancada a atingiu bem no rosto. estou com medo. Depois. Se fôssemos uma moça e um rapaz dife rentes do que somos. ela ouviu a voz de Laddie: — Sabe que. acabaram-se as brincadeiras! — Acabaram-se as brincadeiras — murmurou ela.. E a culpa seria dele. Eu é que devia estar maluco. Laddie estava ao leme de seu barquinho a vela e olhava a mãe. — Não queria que elas tivessem você. de mãos dadas. Depois não tiveram mais nada o que dizer. só ficaram o som de sua voz vibrando no fundo da garganta e o pavor do corpo dele no seu. pegou a garrafa qu ase vazia e perguntou: — Ainda está com sede? Rina fez que sim com a cabeça. Levantou os braços dela acima da c abeça e amarrou seus pulsos na guarda de ferro da cama. Rina. Subiu na cama e. Sentiu uma som bra cair sobre ele e se virou. — Eu sei. — Com homem não se brinca. segurando suas pernas. — Agora.. Foi então que aquela dor aguda e forte lhe penetrou o corpo Deu um grito. minha queridinha.. — Talvez — murmurou ela. Sentiu as unhas dela arranhando-o.. sacudindo com toda força o braço livre. E. Ele cobr iu-lhe a boca pesadamente com a mão. — Creio que sempre fui tão má porque tinha ciúme das pequenas com quem você passeava — confe ssou ela. Nunca deixei outro rapaz me pegar. e ficaram assim. de olhos muito arre-galados.. eu a amo? Ela não respondeu. Mas chorar não resolve nada. — Você nada podia fazer. — Não posso deixar de chorar. Tudo estava perdido. A raiva fazia latejar suas têmporas e havia em seu peito uma fornalha ardente. Começou a fazer le . — Quem sabe? — disse ele. Depois de algum tempo. abrindo-lhe um rastro de do r e sangue na carne.

— Sim.. conseguiu. em si mesmo. você está chorando! — exclamou a mãe.. Ele se inclinou para tomar a mão da mãe e levá-la aos lábios. Não tirava os olhos daquelas nuvens de temporal. mamãe. Laddie? — Sim. — Não sei o que meus dois filhinhos têm ultimamente. mamãe. Parecia estranho que ela estivesse a bordo. desculpe. meu filho. e ela agora está grávida! — Oh. — Não culpe Rina. com toda confiança. não é. não! — É verdade. mamãe — disse ele calmamente. — Nada — balbuciou ele. sentindo-se estranhamente aliviado depois de haver d ito tudo.. Nesse momento. Mas ela insistira em dar aquele pass eio. tentando conter as lágrimas. sentindo um curioso temor. Parecia saber que alguma coisa o estava afligindo. E uma dessas coisas infelizes que não se podem evitar. meu filho. Geraldine olhou para o filho e um brilho de intuição pareceu rasgar o véu cinzento que lhe caíra diante dos olhos. Compreenderei e pro-curarei ajudá-lo. — Não faz mal. A culpa de tudo o que aconteceu é minha. Sempre pensei que crescer fosse uma coisa maravilhosa. Sentiu a mãe abraçar sua cabeça de encontro ao seio. retomando o leme. Geraldine cobriu o rosto com as mãos e chorou. — É horrível dizer isso. Quisera que eles tivessem tudo. nos pais. — É horrível. Pensou em Rina. mamãe! Eu não a amo como irmã. co m Rina? — Sim. — Rina é uma moça muito bonita. A pobrezinha deve estar apavorada. Ficaram alguns instantes em silêncio. mamãe.. ela não é d verdade minha irmã. — Tem estado bem calado esta manhã. e os soluços sacudiram seu peito.. fizera tudo por eles. Geraldine nada disse. com v oz suave e terna. Laddie. — Nada. Pode contar pra mim. estão errados. sim! — gritou de repente.ntamente a manobra. — Mas. mamãe. Tanto valia essa palavra quanto outra qualquer. e tudo o que dizem.. mamãe — confirmou ele. Ela ainda é uma menina. Mas não é. — Não há nada que você possa fazer! Nada mais que ninguém possa fazer! — Por que não tenta comigo? — disse ela. mamãe! Fui eu que a forcei. — O que há com meu filhinho? O que está preocupando o meu Laddie? — perguntou ela. . Andam ambos tão esquisitos! Ele não respondeu. — Não. mamãe? Ela olhou para o filho com uma tristeza tão grande que não podia explicar. Há alguma coisa. Sentiu os olhos se molha -rem. encarando a mãe. Não era possível que aquilo acontecesse a seus filhos. afinal. Laddie. Gosto dela. As palavras come-çaram a sair-lhe impulsi vamente da boca e ele falou com voz cheia de tensão e olhos agoniados: — Não sei o que me deu. e uma tristeza imensa o invadiu. ele não pôde mais conter-se. — E. surpresa. — Ela vai ter um filho. E o filho é meu. afinal de contas. Os l ivros. Laddie.. . enquanto as ondas batiam com força no casco do barco.. mamãe. — Eu a amo. Laddie. — É alguma coisa. de uma maneira diferen te. — É que tenho de prestar atenção ao barco. "Diferente". Ao fim de algum tempo. — O que vamos fazer. Crescer é uma merda! Oh. Eu sei que há. como fi-zera tantas vezes quando ele era pequeno. — Acho que é melhor voltarmos — ela conseguiu dizer. mamãe — ele obedeceu. seja lá o que for. — Vai voltar. O rapaz deu um suspiro e começou a se sentir melhor. mamãe? — A primeira coisa que temos de fazer é dizer a Rina que compreendemos. — Não. Acredito que qualquer pessoa acharia difícil não a mar sua irmã. do-minar-se. Laddie. pensou Geraldine. Ela havia com-preendido e não o condenara..

— Rina Marlowe. mas tão de leve que ela a princípio nem ouviu. — Muito obrigada. não. Bradley. pensou co m estranheza que ainda não recebera a carta de Sally. Tornaram a bater. Foi até o banheiro e mirou-se no espelho. em geral. — Não compreendo. A professora sabia que o que a contecia era justamente o contrário. Posso falar um instante com a senhora. levantando-se aborrecida. olhando-a cheio de ternura. minha filha — Queria saber se podia ser dispensada do baile de sábado à noite. Thomas. com sua voz rouca. Bradley? — Um momento — disse a professora. As meninas eram capazes de tudo para não perder aquela oportunidade. Rina olhou para a professora e teve a impressão de que el a havia chorado. o batom um pouco manchado. Olhou-os. Abriu a t orneira e limpou a maquilagem do rosto.— Você é tão boa. — Não. Margaret Bradley a encarou. Está tudo certo — a professora foi até a mesa e se sentou. Já havia mais de duas semanas que não tinha notícias dela e. Um espasmo no meio do corpo de repente a fez dobrar-se e cair de joelhos na areia ao lado dos dois cadáveres. estava tudo acabado. espantada. posso voltar depois. Havia dez anos que ela e Sally eram inse paráveis. Correu para a mesa e a abriu. sem poder acreditar no que ouvia. Alguém bateu de novo à porta. Se quiser. Parecia ter mais que seus vinte e seis anos. Era de muito boa famíl . — O que acontece é que não estou com vontade nenhuma de ir — explicou Rina. Nesse momento. dia a dia. Afastou tudo para o lado e se levantou. Laddie e a mamãe. ano a ano.. Estavam cobertas com os garranchos hieroglíficos das meninas que passavam pela sua aula de Ciências. inquiet a. Disse: — Desculpe se a estou incomodando. Foram as últimas palavras que proferiu na vida. minha filha. — Quem é? — Carta expressa para a senhora. enqu anto um terrível líquido começava a derramar-se de seu corpo.. Fechou os olhos para chorar. Querida Peggy. mamãe — disse. os pescadores trazerem para a praia os dois corpos encolh idos e inertes. 8 Margaret Bradley olhou com raiva para as provas que lhe enchiam a mesa. bateram à porta e ela se voltou. Olhando para as coisas que a cortina de cinza do crepúsculo amortalhava. as cartas chegavam duas vezes por semana. Estava cansada de carregar às costas aquela tarefa enfadonha. Perder o baile mensal era considerado o maior dos castigos. Abriu prontamente a porta e recebeu a carta. A esbelta moça loura de dezesseis anos que esta va à sua frente ficava cercada de rapazes em todos os bailes. Agora. com os olhos no chão. Era a única ocasião em que se permitia a ent rada de rapazes na escola. — O que é. o temporal os colhe u do lado de boreste e virou o barco. Seria possível que Sally houvesse encontrado al-guém? Ou outra amiga com quem pudesse falar de seus segredos? Nesse instante. — Quem é? — perguntou a srta. petrificada. Não poderia ser porque os rapazes não gostassem dela. Começou a sentir uma violenta vertigem n ascer dentro dela. Foi até a janela e olhou. dessa vez com um pouco mais de força. srta. srta. O envelope mostrava a letra de Sally. c om toda regularidade. casei-me ontem. Bradley — disse com sua voz trêmula o porteiro Thomas. Os olhos estavam vermelhos e inchados. Foi até a porta e a abriu. Rina viu.

não se pode considerar completa a educação de uma moça que nunca foi à Europ a — reforçou categoricamente a professora. num sussurro. Os Marlowe eram bem conhecidos em Boston. O cabe lo muito louro brilhava na penumbra da sala. pensando na grande responsabilidade que er a criar uma filha. costumes quase masculinos. Marlowe fez um gesto de assentimento. — Não será nenhum incômodo. forçando um sorriso nos lábios. Sente-se aí e fique à vontade. Usava roupas simple s. — Oi. Não tinha as m aneiras grosseiras tão habituais nas moças daquele tempo. Rina levantou se e disse nervosamente: — Vou embora! Acho que não adianta nada mesmo! — Espere um pouco! — ordenou Margaret Bradley. que eu já venho trazer o chá. fez mais do que. e ela ficou surpresa com o profundo medo que percebeu nos olhos da moça. minha filha. Foi só por um breve instante. — Então. — A mãe dela e eu muitas vezes conversamos sobre a ida de Rina à Eu-ropa. — Proibiremos termina ntemente a entra-da deles. decidida. mas ainda não devia ter trinta anos. — Acho que será ótimo para ela passar o verão na Europa até chegar o tempo de entrar para o Smith College no outono — disse Margaret Bradley. A professora levantou-se. Quer me ac ompanhar? — Mas seria muito incômodo — disse Rina. viúvo. — Sério? — perguntou Rina. compreende u que devia controlar-se.. — Seu pedido é um pouco estranho. — Na realidade. — Escute. — Ora. Era muito séria e franca. minha filha — disse Margaret Bradley. — Quem? — perguntou Margaret Bradley. No mesmo instante. e eu sinto arrepios na pele.. que estava à frente dela. agarrá-la? Rina fez que sim com a cabeça. — Você está com medo de alguma coisa. — Algum deles. — Pode falar à vontade comigo. Mas só fora compreender isso alguns meses antes. quando. hesitante. ia agora mesmo preparar um pouco de chá para mim. Não sou assim tão mais velha que não possa compreender. Depois para Rina. Todos querem me agarrar. — Pensei que fosse só eu. a professora.. . Rina olhou-a.ia. com voz áspera. Não me incomodar ia se quisessem apenas dançar e conversar mas estão sempre querendo levar a gente pa ra algum canto. — Não posso suportar que me agarrem — disse ela. sentada à mesa do jantar. surpresa. Não adiantava permitir que o ressentimento de-nunciasse sua amargura. Harrison Marlowe recostou-se na cadeira e olhou para a professora. Você deve ter algum motivo. — Quantos anos você tem? — Dezesseis. — E seus estudos? — Estou com boas notas e estudarei um pouco mais depois. — Os rapazes. Nada havia nela de melin-d rosa. Não era bonita. Rina continuou com os olhos voltados para o chão e não respondeu.. — Quais são esses rapazes? — perguntou a professora. impulsiva. com os olhos brilhando. papai. Estava com um vestido azul que de algum modo a fazia um pouco mais velha. — Rina! O que está fazendo em casa? — Fiquei pensando em como você devia estar se sentindo sozinho nesta casa tão grande e resolvi roubar alguns dias da escola para vir fazer-lhe companhia. Foi para a pequena kitchenette e se surpreendeu cantarolando enquanto acendia o gás sob a chaleira. Aquela criatura lhe inspira va confiança. Eu sentia a mesma coisa quando tinha sua idade. tomou Rina amistosamente pela mão e a levou para uma cad eira. ao vol tar para casa. que pareciam proclamar-lhe a profissão. O pai dela era um banqueiro. acho que já deve saber que os rapazes são sempre assim. encontrara Rina. pois Rina tornou a olhar para o chão. Nenhuma das m inhas colegas é assim! — É porque são bobas! — replicou.

— Está delicioso — apreciou com as mesmas palavras e o mesmo tom de voz que ele tantas vezes ouvira de Geraldine. — Não. papai. papai? Tenho mais de dezesseis anos.. derramou metade dentro da coqueteleira e en tregou-lhe o coquetel. Vou ficar aqui para tomar conta da casa e de vo cê. da esposa. — Não vou mais para a escola. papai? Ele a olhou. — Mas não sou mais uma garotinha. Levantou a cabeça instantaneamente. São um bando de animaizinh os ansiosos. Mas ela segurou sua mão. papai. dos namorados. posso passar muito bem sem eles. — Eu sei.. Os olhos da filha estavam che ios de compreensão e amizade. . Harrison Marlowe pegou o outro cálice. — Sentira falta da agitação d a escola. Ouviu a voz repassada de ternu ra. — Posso. rindo: — O seu bigode faz cócegas! — Você sempre disse isso — murmurou ele. por que não me beija? — disse ela. sorrindo. — E que espécie de homem agradaria à Sua Maj estade? — Acho que um homem mais velho. com um sorriso cansado. deixei de me sentir uma menina. querida. — Não. Os rapazes são sempre ansiosos por conseguir alguma coisa e mostrar que são fortes e mais importantes.— Mas. sou. rindo. As garrafas estavam alinhadas para ele. segura e necessária. ela o abraçou e disse: — Agora quem vai beijá-lo sou eu. Sentiu a mão dela no braço e voltou-se para ela. bonita como estava. deixou de ser pai dela. Talvez alguém como você. Era apenas um homem sozinho que chorava ao colo da mãe. zombeteiramente. depois do jantar. Depois. Hesitou um instante e. — Achei que talvez quisesse beber alguma coisa antes do jantar. Uma pessoa que faça a gente se sentir protegida. Pela primeira vez na vida. — Acho que fiz um papel bem ridículo. — O que comeremos no jantar? — perguntou ele. ela exclamou. Só se interessam por aquilo que querem e não p ensam um só momento em mim. então. — Você ainda tem muito tempo para crescer — disse ele. Só mais tarde é que percebeu que tinha dois coquetéis na mão. — Não pode. quase uma mulher no seu vestido azul. O hábito era uma coisa muito estranha. Sentiu as lágrimas subirem aos olhos e voltou rapidamente a cabeça para que Rina não v isse. — Por que não toma um martini? Há muito tempo que não toma. Naquele momento. — Não está contente de me ver. e ele teve consciência dos seios firme s e rígidos a que encostara o rosto. que sussurrava: — Pobre papai! Pobre papai! Mas esse momento se desvaneceu rapidamente. Sinto-me um a pessoa adulta e neces-sária. Ela se virou para o bufê. Depois que ele a beijou no rosto. hein? — disse ele. Os pais de muitas das minhas colegas na escola consentem que elas tomem um coquetel antes do jantar. pegou a garrafa de gim. — Ótimo — exclamou. — É porque são ainda muito moços — retrucou ele. — Então. papai? — Claro que estou. que não dão um momento de descanso pra gente. Mais tarde. papai. Rina provou delicadamente a bebida. — Desde quando era uma garotinha. — Namorados? Ora. acho que não. Colocou um dos cáli ces em cima do bufê. Deixou que ela o levasse para se sentar no sofá ao lad o dela. Galinha assada com batatas co-radas... Beijou-o na boca e ele sentiu os lábios quentes. da filha. Sentiu os braços jovens e fortes passados pelo s seus ombros e as mãos que acariciavam seu cabelo. ela foi sentar no braço de sua poltrona. pegando uma garrafa de uísque. Levantou depois o cálice num brinde. — Mandei Molly fazer o que você gosta. oferecendo a face para e-le. E é por isso que me metem medo. — Em pouco tempo você cansaria disso — replicou ele. com um sorriso cordial. Havia até um balde de gelo pi-cado. Não posso suportá-los.

Esperaria o mo mento oportuno. minha filha. — Não gosta de mim. — Obrigada sr Marlowe — agradeceu. Dinheiro não era problema para Harrison Marlowe quando era preciso fazer alguma coisa para a filh a. Vou mandar Peters levá-la. cujos olhos brilhavam cheios de expectativa. srta. Bradley — disse Marlowe. — Oh. — Não. Eu te amo muito. mas. teria o prazer que tenho em confiar nossa filha a suas mãos experi entes. Tirou o abrigo leve de primavera e sentou numa poltrona funda e . — Nunca! — exclamou ela. Agora acho que devemos descer para nosso c amarote e descansar um pouco até a hora do jantar. papai! — Não. sem Rina saber. O banqueiro se limitou a entregar-lhe um cheque de mil dólares e dizer que s e não fosse suficiente bastaria avisá-lo. cheio de compaixão. ce rimoniosamente —. você não vai ficar aqui em casa. tão alta que ele mesmo se surpreendeu com a inesperada v iolência de sua reação. papai? Não quer que eu fique com você? — É claro que gosto de você. — Não! — disse ele em voz alta. Haviam comprado algumas coisas em Nova Iorque. indignada. — Mas não estou nem um pouquinho cansada — protestou Rina. com voz escandalizada. Margaret Bradley baixou prontamente os olhos para o prato. mais tarde. — Parece um sonho — disse Rina. apenas nos escondendo dentro de um caracol. com a voz entrecortada de soluços. 9 Ficaram no convés até passarem pela Estátua da Liberdade e a ilha Ellis. muito melhor. papai. Ele ouviu seus passos apressados pela escada e. Era outra vez uma meni na. Estava ansiosa por ver a expressão nos olhos de Rina quando as visse. Margaret não pôde deixar de se impressionar quando entrou na cabine. papai — continuou ela. Voltou ao presente. Ninguém compreenderá que você abandone os estudos para vir meter-se dentro de casa. — E ainda vai ser melhor. é você! E no mesmo instante saiu correndo da sala. — Mas eu só quero ficar com você. a fim de que ele não vi sse o brilho de triunfo que se acendera neles. — Não sou eu quem não compre ende. a porta do quarto bater violentamente. — Satisfeita? — perguntou Margaret Bradley. O resto comprariam em Paris. com duas camas e banheiro. As caixas estavam sobre a cama. se fosse viva. — Vai ficar. compreenderá. A água em volta do navio era verde-garrafa e já não se avistava mais a terra. à mesa a que estava sentado com a professora e com Rina. Sei que você pode querer isso agora. Era um camarote de primeira classe. quando estiv er casada e com filhos. com olhos radiantes. — Não quero casar! Não quero ter filhos! Nunca deixare i nenhum rapaz botar as mãos sujas em cima de mim! — Rina! — exclamou ele. Margaret havia comprado várias coisas que mandara diretamente par a bordo. Passaremos seis dias a bordo do Leviathan.Rina alisou a cabeça do pai. Ela o olhou fixamente e seus olhos se encheram de lágrimas. Também não houvera hesitação quando ela su-gerira que Rina precisava de um novo guarda-roupa para a vi agem. com modéstia afetada. — Não o quê. querida! — disse ele. — Gosto tanto do seu cabelo com esse toque grisalho! É uma pena que eu não possa me ca sar com você. mas ela não chamou atenção para o fato. então. — Tenho certeza de que a mãe de Rina. assustada. — Mas não podemos nos roteger suficientemente do mundo a nossa volta. papai? — perguntou ela. Porém. Vai voltar para a escola amanhã mesmo. Você terá tem-po de sobia para ver tudo.

Ela viu Rina acender um cigarro e riu quando a garota começou a tossir. Peggy. — Tenho alguns vestidos de festa que posso usar. — Assim está melhor — disse Margaret. A fisionomia de Rina ao abrir as caixas foi tudo o que Margaret poderia ter dese jado. todos os olhares masculino s as seguiram. Ajuda a evitar o enjôo. srta. — Quer um? — disse ela. — Que tal? — Ótimo. Abriu a bolsa e pegou um maço de cigarros. — Pode ir. Sua silhueta era quase masculina. talvez. Rina prendeu a fumaça na boca e deixou-a sair devagar. — É bom para o apetite em seu primeiro di a no mar. Satisfeita. O longo cabelo louro lhe c aía pelos ombros. . deixou o banheiro e entrou no quarto. E a professora insistiu: — Fume. Depois escovou o cabelo e o prendeu. — Viva! — Margaret sorriu e provou o vinho. — Peggy! — Quero dizer. Rina olhou-a. Logo que sentaram à mesa. Não faz mal algum. você tem de me chamar de Peggy. parecendo mais prateado em contraste com a pele bronzeada. — Para meninas. Tomou a bandeja das mãos do garçom e deu um copo a Rina. — Escute. Bradley. querida.confortável. Margaret achou que já havia brincado além da conta com Rina e disse: — Aquelas caixas em cima da cama são suas. Quando entraram no salão de jantar uma hora depois. Satisfeita. Não são tão provincianas quanto nós. Bradley! Quero dizer. abotoou as calças que tinham braguilha como se fossem de homem e vestiu o pequeno bolero justo. Peggy. De agora em diante. Quer to-mar banho primeiro. agora que já estamos viajando. espantada. Rina hesitou. Só depois de acender o cigarro foi que notou que Rina a olhava. — Srta. Rina tomou mais um gole e perguntou: — Devo estrear o meu novo vestido azul para o jantar? — Os jantares da primeira classe exigem traje a rigor. Bater am de leve na porta e Rina olhou para Margaret. — Pedi um pouco de xerez — disse a professora. Uma vez mais olhou-se no espelho. Margaret largou a toalha e parou em frente ao espelho para olhar-se inteira. podemos deixar de formalidades. Esse pijama! — Gosta? — perguntou Margaret. Bradley. Nunca a tinha visto fumar. Viu Rina sair do banheiro. Talvez encontre nelas al-guma coisa que p ossa vestir. Mas não para uma jovem senhorita em sua primeira viagem à Euro pa. Rina. amarrando o cinto do roupão. da cabeça aos pés. Margaret cobriu com sua mão a mão de Ri-na e disse: — Você está linda. — Um daqueles horríveis vestidos que você usava nos bailes da escola? Não! — Acho que são muito bonitos — disse Rina. Rina? — Pode ir na frente. — Fico contente por você gostar. passou as mãos pelos lados do corpo e espreguiçou-se volup-t uosamente. deixando os ombros n us. srta. Rina. com uma leve expressão de enfado. — É muito divertido. — Não engula a fumaça. Vestiu o pijama de seda. — Não sei então o que vou vestir. Seus pequenos seios com os bicos diminutos não eram maiores que os de m uitos homens. entregando-lhe o maço. espantada. Rina escolheu um vestido preto que colou a seu corpo. — É bom — disse Rina. Descobrirá que são muitas as mulheres européias que fumam. Rina fez que sim. os quadris eram retos e as pernas secas.

levantando e girando pelo quarto ao compasso da música. — Pois não. srta. Peggy. — corrigiu Margaret. Rina levantou da cadeira. apanhando uma caixa menor em seu armário. — Tinha receio de que você quisesse usar aquelas coisas horríveis do enxoval da escola . E aquele pijama era o pr esente de que Margaret mais tinha gostado. A camisola branca levantou enquanto ela girava. Peggy? — É a orquestra do salão de baile. — Fiqu e descansada que ele nunca saberá. Uma amiga me mandou a fazenda de San Francisco e eu mesm a desenhei o modelo. Quer que eu ligue o ventilador? — Não — disse Margaret. — Vou apagar a luz para você poder ver. — Você se importa que eu fique assim? Rina negou com a cabeça e tomou outro gole de champanhe. — Está fazendo calor. — Gosto de champanhe — Rina deu um pequeno gole. — Parece um re-frigerante feito de vi nho. — Por que não veste a branca esta noite? — Está bem. — Sempre quis beber champanhe. pegando no telefone. — Há uma cor diferente para cada noite da semana. mas papai nunca deixou . Margaret passou o braço em torno da cintura de Rina. sorrindo. vou pedir uma garrafa de champanhe. Bradley. abrindo a caixa. Rina. Você sabe tornar tudo tão maravilhoso! — É exatamente como quero que tudo seja para você — disse. — Isso é o que se chama eletricidade estática. fazendo uma reverência zombeteira. sim. Ambas riram quando as pequena . — Também gosto de dançar — emendou. A seda é boa condutora de eletricid ade. Margaret sentiu um aperto na boca do estômago e ficou de pé. Bradley. Apagou as luzes e foi para perto de Margaret. Correu as mãos pelos lados da camiso la e saíram faíscas diminutas das pontas dos dedos dela. — Pode dar-me o praze r desta dança. Lembro-me de você ter ensinado isso na aula. Rina levantou-se. Marlowe? — Só esta — disse Rina. e acrescentou. não acha? — perguntou Margaret. — Também co mprei algumas camisolas. mostrando suas pernas longas e b ronzeadas. Vou é tirar minh a blusa. — Não está ouvindo a música. — Mas são de seda! — exclamou Rina. sr. Bradley. tirou do armário uma camisola de algodão e foi indo para o banheiro. Tomou o resto de champanhe e estendeu a taça para Margaret. — Espere um pouco — chamou Margaret. Margaret perguntou: — O que está achando tão engraçado? — Minha camisola estala e solta pequenas faíscas quando me movo.— É de brocado chinês legítimo. Sentiu os olhos de Rina em seu pequeno busto e pegou de novo na taça. Não sei como agradecer. E stá vendo? — Não. como se só então a idéia lhe houvesse ocorrido: — O que acha de festejarmos nossa viagem com uma festa íntima? En-quanto você troca de roupa. — Eu sei. Rina pousou o copo e começou a rir. srta. Mas é mais gostoso e não é muito doce. — Gosto de dançar — disse Rina. Estão tocando uma valsa. Rina olhou para a caixa. Dá umas pequenas faíscas azuis. Era preciso fazer justiça a Sally: tinha muito bom gosto. — Está. — Sr. São todas tão bonitas que nem sei qual vou vestir primeiro. — Posso tomar mais um pouquinho? — Sem dúvida — Margaret tornou a encher sua taça. —Já estou comprometida para as ou-tras. — Prometo que isso será um segredo entre nós — disse Margaret. — Poderíamos ficar resfriadas com a corrente de ar. — Será ótimo! — aprovou Rina. rindo. Rina riu.

— Não vai ficar zangada comigo? — Não. encostando ao seio a cabeça de Rina. — Estou muito satisfeita de irmos à Europa juntas — disse Rina de repente. — Laddie? — Meu irmão. que a pegou com um sorriso. — Talvez seja bom você deitar em sua cama e descansar um momento. e eu a ajudarei.. depois de alguns minutos de silêncio. sim. — Acha que podemos? — disse ela. Margaret sentiu as pernas trêmulas co m o calor dos seios de Rina através da seda da camisola. nunca mais pude suportar rapazes. Alguns dias depois. Rina. Margaret sentou-se ao lado dela. — Acha que vou estragar nossa festa? — Deite um minuto.s faíscas azuis estalaram da camisola de Rina. parou de maneira abrupta. — É melhor tomarmos um pouco de champanhe — sugeriu. — Mas machucou! Não compreende. — E como sabe que o amava? — Apenas sei. Rina abriu os olhos. não ficarei zangada com você — disse Margaret. — Ele deve ter sido muito bonito. — Um pouco mais de champanhe? — perguntou Margaret. — Está se sentindo melhor? — Ainda vejo tudo rodando. Você faz tudo tão bem! Mas essa dança me deixou um pouco tonta. Rina foi até a cama. — Não! — Sonhará. — Você danç muito bem. — Ele não era meu irmão de verdade. Somos amigas. Bebeu e devolveu a taça a Mar-garet. — E era. — Desde que Laddie morreu. em dado momento. fiquei sabendo que o amava. fez alguma coisa com você? — Nunca falei sobre isso com ninguém — disse Rina. enchendo novamente as taças. sentindo seu ciúme aumentar. — Acha? — perguntou Margaret. olhando para o rosto de Margaret. — Não tem importância — replicou Margaret. Vi logo que você era diferent e. Ela tomou o meu lugar no sonho. Diga qual é o sonho. amadurecida. — Foi por isso que gostei de você desde o momento em que entrou no meu quarto naquela noite. quando el e fez o que nós dois queríamos. Creio que o amava — disse Rina. amarrou minhas mãos na cama com o cinto dele e fez aquil o comigo. quase com as-pereza. As meninas na escola sempre me pareceram muito bobinhas. Machucou-me tanto! — Machucou você é porque não a amava. — Nunca — disse Rina. — São quase todas meninas tolas — disse Margaret. Peggy? Eu também queria. E eu nem tenho mais esse sonho. mas continuou alisando a cabeça dela. — Nunca tive até hoje uma amiga íntima de verdade. — Conte-me o sonho e vamos ver Rina respirou profundamente e murmurou: . Mas um dia ele entrou no meu quarto. — Todas as moças amam os irmãos. Margaret começou a alisar a cabeça dela levemente. Isso não acabará com a festa. — Você voltará a sonhar — disse Margaret. — Melhorou — disse Rina. — Ele. Começou a soluçar e continuou: — A culpada de tudo fui eu. — Eu não deixava que ele me tocasse. Não há segredos entre nós. Eu é que devia morrer e não mamãe. desviando o olhar — Pode contar tudo. colocou a taça na mesinha-de-cabeceira e estendeu-se nos lençóis. com eçou a valsar furiosamente com ela e. Rina fez um sinal afirmativo. Só tem uma conversa: rapazes. virando o rosto para o lado. Ele e meu pai foram os dois únicos homens de quem re-almente gostei. Irei sentar na cama a seu lado. Eu fui adotada. com medo do que poderia acontecer. ele saiu de barco para dar um passeio junto com mamãe e os dois morreram. Segurando firme a moça. Margaret não respondeu. Rina parou de chorar. — Obrigada. E acho que ele também me amava.. — A tontura já passou.. — Conte-me! A voz de Rina saiu abafada pelo travesseiro. Vivia a provocá-lo e. E você é melhor como cavalheiro do que qualquer dos rapazes que vão aos bai les da escola.

Olhe! Passe a mão pelos meus seios.. Ele estremeceu e repetiu ao garçom: — Muito gelo. não morra! Beijou-a na boca. Sentiu-se tomada de súbito medo. Garçom! O garçom apareceu e cumprimentou respeitosamente. Margaret tirou-lhe lentamente a camisola e murmurou: — Você é linda. tão bem! — murmurou Rina. Goze em mim! Como amo você. não morra! Rina não se moveu e Margaret caiu de joelhos ao lado da cama. — É um sacrilégi o. Peggy? Tornou a fechar os olhos. terá de espe rar. — Mas você está chorando mesmo. Deles eu tenho medo. Depois. Margaret virou-se na cama e abriu com os joelhos as p ernas de Rina. Laddie. — Mas está se divertindo? Ela voltou os olhos para a rua. — Mas eu. cobria de beijos o rosto de Rina. Rina. dizendo isso. Está vendo como tudo é liso e chato. — Bem sabe que nunca serei uma pintora. Goze comigo!. Rina sorriu para o avocat magro e um pouco grisalho. sussurrando — Penetre em mim.— Eu sonhava que estava morta e que todo mundo estava em volta de minha cama. que n o que toquem em mim. satisfeita. Rina estava morta. — Preciso mesmo ir embora. pelas minhas coxas. — Muito bem. Deve tomar um licor antes de ir. com um sorriso contente no rosto. Rina! Por favor. Muito gelo. Duas e meia. ao mesmo tempo que cobria de beijos as faces macias. — Por favor. — Tanta pressa depois de um almoço como esse! — exclamou Jacques Deschamps. Não ouviu a mademoiselle? O garçom olhou Rina com aquele ar entendido de apreciação que parece comum a todos os franceses. — Monsieur? Jacques olhou para Rina e ela disse: — Pernod. E então ouviu-lhe a voz rouca. Quem você quer que eu seja? — Quer ser Laddie? — perguntou timidamente Rina. Levantou e disse: — Feche os olhos. — Já está em Paris há mais de um ano — disse Jacques —. Rina abriu os olh os. Margaret sentiu um arrepio de excitação pelo corpo. Rina! Não posso viver sem você! E.. voltou-se para Ri-na: — Como vai a pintura? Está fazendo progressos? Rina riu. como se eu fosse um homem? Deitou na cama ao lado de Rina e começou a acariciar-lhe os seios. Eu sabia o quanto me amavam. Mas eu não podia fazer nada. pela minha barriga. De repente. meu Laddie! 10 Rina olhou para o relógio. Pairava no ar aquele cheiro de maio característico . Morta de verdade! — Rina! Não morra! Por favor. Seja o que for. Mas não tenho medo de você Com um sussurro de agonia. mais bonita do mundo! É tão bela que não pode morrer! — Acha mesmo que sou bonita? — Sim — disse Margaret. — Basta olhar para mim para ver com o você é bonita. — Amo-a.. tirando as calças do pijama. Margaret olhou-a e de repente seus olhos se encheram de lágrimas. sentiu por um momento o fogo da língua de Rina. e já deveria saber que ninguém deve l ntar-se da mesa com pressa depois que acaba de comer. porque todos me pediam que não morresse. Agora feche os olhos. — Sinto-me tão segura com você. e vamos representar o sonho. — Vou ser Laddie. chor ando.. Rina! É a mulher. — Você não é como os rapazes. Estava morta. E para o monsieur? O de costume? Jacques fez sinal que sim e o garçom sé afastou.

erguendo o copo.. — Escute. com um toque grisalho nas têmporas. enquanto o garçom chegava com as bebida s. quando de repente ele perguntou: — Por que tem tanto medo dos homens? — Por que diz isso? — replicou ela. E apenas uma boa amiga e nada mais. Ela não pôde vir comigo. Está com uma b arriga deste tamanho. — À votre santé — disse ele. rindo. — Ela acaba de consegui r um emprego na universidade. — E sua amiga? Como vai ela? — Peggy vai otimamente. até que está sendo divertido. estavam bebendo tranqüilamente seu s licores depois do almoço. — Porque sinto que é a verdade. Peggy não tem nada com isso. Os motoristas dos caminhões já estavam em mangas de camisa e as mulheres haviam desde muito abandonado os deselegantes e pesados casacos de inverno. sorrindo. — Mademoiselle américaine? Ela levantara os olhos. num dia exatamente como aquele. — Rina pegou seu copo. ela estava sozinha no apartamento. Ela e Peggy já estavam em Paris havia alguns meses e tinham se mudado pouco antes para um apartamento. Podia casar. — Oh! — exclamou ele. sabe? Não sei o que faria sem ela. No fundo. até ser minha amante. Uma bela tarde. que se aproxi-mava. Nunca experimentou. Estava folheando uma revista. Isso não é ne-nhum crime. podia a-té. qu ando ouviu uma voz. — E quem foi que o senhor trouxe? — Ninguém. Ainda estavam rindo quando ela ouviu a voz de Peggy. você não é. — Claro que tenho — afirmou ela. moreno. É muito boa para mim.de Paris. Isso aconteceu vá-ri as vezes depois. Mas já sabe as minhas condições. — Não respondeu a minha pergunta — insistiu ele. — Non parla fran. apontando Peggy. — Isso não pode saber. As possibilidades são muitas. Não é a pior coisa que lhe poderia acontecer. Viu um homem pequeno. depois que o pai lhe dera permissão para passar um ano todo e m Paris. quando o telefone toc ou. Era Jacques. o que dirá? — Minha mulher compreenderia perfeitamente tudo.. Parecia muito simpát ica em seu terno feito sob encomenda. Peggy estava conversando animadamente com um dos professores. — Falo inglês — dissera ele prontamente. nós compreendemo essas coisas. Para dizer a verdade. — Sim. ter filhos. Jacques — disse ela. __ Sim. Peggy fora a uma festa dada por um professor da universidade onde ela c omeçara a trabalhar. — Mas não tem muita certeza. querida? Algumas semanas depois.. lembrando-se do dia em que soubera das condições d ele. uma mulher desse tipo. . com um olhar diferente.. sorrindo amavelmente.. e ela aceitou o convite para almoçarem juntos. só vim até aqui na esperança de encontrá-la. — Não. — Foi minha amiga que me trouxe — disse Rina.. Ela olhou para o cálice de licor e não respondeu. Ela sorrira. — Posso saber o que uma moça tão bonita está fazendo sozinha com uma revista? Quem é tão ins ensato a ponto de trazê-la para uma festa como esta e depois. — Está se divertindo muito. enigmático. — Sua amiga não é a solução — continuou ele. O que não compreendo é você. Ela olhou para as mãos dele e viu a aliança. Rina sentia-se muito sozinha na festa. Seu francês não era suficiente para manter um diálogo fluente e ela se retirara para um canto. — Acha mesmo que vou acreditar nisso? E sua mulher. ab-solutamente. não se esqueça de que estamos na França. — Ser sua amante? — disse ela. — Você é muito bom. É jovem e bela. toda vermelha. — À votre santé — repetiu Rina.

Mas é que não gosto de ver uma mulher como você desper diçar-se assim. — Se não gosta do lugar. Foi bondoso. eu. Foi por isso que aluguei este apar-tamento. esperava que dissesse isso. é honesto — disse ela. se meu pai descobrisse. Ele se aproximou da cama e. Pod e mudar-se hoje mesmo. — Venha cá. você é casado. ela foi ao apartamento dele e tudo se passou como ele prometera. pois ela podia sempre controlá-lo e contr olar-se. — Foi como você disse que seria. Agora parecem duas lindas papoulas rosadas. Olhou-o enquanto ele abotoava a camisa diante do espelho. O que Peggy iria fazer? Ela precisa de minha ajuda para pagar o apartam ento. minha a-companhante. — Quando você ama. Além disso. Por que não podemos continu-ar assim? — Não quer mudar-se para cá? — Não posso. dando uma rápida gargalhada. — Não podemos continuar assim? Virei aqui sempre que quiser. Ergueu o rosto para ele e disse ternamente: — Acho que gostaria de ser sua amante. Não compreende que não posso? Ele se levantou. Jacques — chamou-o para si de braços abertos.— Não acho que esteja sendo muito delicado comigo. chérie. Há homens que também respeitam e sabem despertar a sensib ilidade feminina. os bicos dos seus seios são como ameixas maduras . — Não estrague tudo agora . vendo a aliança brilhar. como esta pode ser infiel a seu marido. — Por que acha que com você seria diferente? — Porque sou um homem e não um garoto. Jacques! — Rina deixou transparecer toda sua aflição na voz. O que eu gostaria era que fosse para a cama c omigo. — O que ele pensa que ela é? — O que sempre foi — respondeu Rina. — E ele não se importa de você viver com. tem razão. gentil e não a ofendeu. procuraremos outro. E Peggy? — Que tem ela? Cest fini. — Fico satisfeito com isso. curvando-se. foi até o espelho da cômoda. Porque quero dar-lhe pra-zer. — Eu acredito muito na verdade. sarcasticamente. ao menos.. Os garotos são co mo todos: só pensam em si mesmos. com frieza. arrumou a camisa e pegou a gravata. — De fato. — Oh. — Preferiria então que eu fosse dormir com algum idiota bruto e egoísta que nada sabe e a quem pouco interessa o que eu sinto? — Não. querida — disse ele —. nem se pensa nessas coisas. Quanto a isso. — Não quer então se mudar? — Não posso. Lá em Boston. — Mas não posso fazer isso. surpresa. sim — disse ele. — Diferente por quê? Por que é diferente para você e não é para mim? — Um homem pode ser infiel à sua esposa. Mas nem por isso acho qu e só as mulheres sabem amar. Ela tomou-lhe as mãos morenas e fortes e olhou-as. — Não compreendo por que seria diferente — continuou Rina. beijou-lhe o seio nu. Não gostaria absolutamente disso. seria capaz de me matar. numa tarde de chuva. estou sendo grosseiro. — Você. — Tem sido sua professora. Acha então que a tenho procurado repetidamente apenas porque tenho um int eresse puramente intelectual por você? — Você. — Jacques? — Sim. — Sim. com aquela lesbienne? — Você não conhece meu pai. rindo. Jacques. — Mudar para cá? — perguntou. por exemplo? — perguntou ela. se .. Quanto t empo poderia passar aqui? — Isso e diferente — disse ele. E durante todo o t empo ela sentiu em si a força de levá-lo a um estado de êxtase do qual ele não podia mai s voltar e que não encerrava nenhum temor. — Bon. — Afinal. Alguns meses depois. — Minha professora.

há vinho e queijo em cima da mesa — avisou. — Não? — perguntou ele. — Pavan? Está aprendendo escultura. com os seios magníficos a ostentar-se vitoriosamente . agora? — Não. Mas um homem nunca é infiel à sua amante. — É melhor você me jogar o vestido. — Por quê? — Diz ele que são muito grandes. Agora estava atr asada para preparar o jantar antes de Peggy chegar. — Chegou cedo. Rina encolheu os o mbros. Usava muitos modelos para fazer uma só estátua. Chegou à banheira e viu que teria de contentar-se com água morna. diz ele. havia terminado. Mas os artistas são mesmo malucos. e mais hom ens morrerão tentando escalá-la do que ao Everest. E ela riu . — Mas por quê? — perguntou ele. arru mou-as num pra-to com um pedaço de queijo e começou a pôr a mesa. Jacques ficou a olhá-la até desaparecer. — Se quiser algo antes do jantar. Acendeu o bico do aque cedor da banheira e. Peggy! Peggy olhou para ela friamente e não respondeu. Estou servindo de modelo.. Peggy era assim mesmo. Aquilo passaria. são exatamente essas as minhas condições. ele ficou sem ter o que dizer. Jacques? Ela beijou rapidamente seu rosto e afastou-se pela calçada. Pela primeira vez desde que o conhecia. em seguida. Daí a poucos minu-tos. Rina atravessou a pequena sala de estar e chegou à cozinha. Fechou a porta. Ela levou o Pernod à boca e tomou tudo de um gole. já desabotoando a blusa. — murmurou ela. Rina sentiu o olhar do advogado descer para seu busto. — Não é o que você pensa. o forno. Tirou do embrulho a galinha assada que comprara na rôtisserie da esquina e colocou-a dentr o de uma caçarola no forno para conservá-la quente. — Mas Peggy não é um homem! — Não — replicou Jacques.tiver vontade. Isso havia acontecido muitos meses antes e o mais interessante de tudo é que eles tinham continuado amigos. e riu. continua ndo a caminho do banheiro . Mas nós nunca contaremos a ele que você voltou vivo da ascensão. — São essas suas condições? Estava sentada. Olhou para o relógio. Rina olhou-o um momento e. — Deve estar louco para dizer uma coisa dessa. e chamou o garçom: —Acho que vou querer mais um licor. Jacques sabia como Pavan trabalhava. nua. mas logo em seguida tornava-se fria e até mal-humorada. então? — Meu púbis. nem uma mulher infiel a seu amante. Jacques olhou-a e pensou que nunca em sua vida havia conhecido mulher mais bon ita. — Prometi a Pavan que estaria no ateliê dele às três horas. Ainda teria tempo para um banho se a água estivesse quente o b astante. polido cumprimento do porteiro ao subir correndo os três lance s de escada. — Porque é a montanha mais alta que qualquer homem poderá escalar. levantou altivamente a cabeça. amargamente. não é. O que é. com o mesmo fósforo.. deixando o fogo baixo. Havia momentos em que estava alegre e simpática. quand o ouviu a porta abrir. finalmente. Foi buscar a toalha e estava a caminho do banheiro. Mas disse: — Se é assim que quer chamá-las. — É pior do que um homem. na cama. Cortou algumas fatias de pão. Procurava sempre criar a mulher ideal sem jamais conseguir. 11 Ela nem reparou no. — Não compreendo. Passara no ateliê mais tempo do que havia planejado. — Tenho de ir — insistiu.

— Ele foi visto quando entrava no apartamento com uma loura. — Quero saber a verdade! — Já contei a verdade! — gritou Rina. Rina sorriu. deixou-se ir escorregando até ficar sentado na c . encostado à parede na sala vazia. Pegou Rina pelos ombr os e começou a sacudi-la. com uma nota de desprezo na voz: — Um homem e não uma imitação de homem! — Ensinei-lhe mais coisas do que você poderia aprender com todos os homens do mundo! Rina teve um vislumbre da verdade. querida — murmurou Peggy. para me ensi nar a amar. tirou a camisa. muito espantada. freneticamente. Em seguida. e ele me convidou para almoçar — explicou. Ainda era cedo quando Amru Singh chegou à festa que Pavan estava dando para festej ar o descerramento de sua grande estátua. Tomarei sempre conta de v ocê. Alguém com certeza os vira no restaurante e contara a Peggy. E acrescentou. não acha? Peggy bateu com toda a força no rosto de Rina. se agarrou às pernas de Rina. avançou furiosamente para Peggy. pela primeira vez desde que a conhecera. Telefonei para um lugar e para outro a tarde toda até ficar quase morta de preocu pação. nunca mais! — Nunca. — Chore. Como era seu hábito. De repente se sentiu cansada de t udo aquilo. encostando-se à parede. nunca deixara de exasperá-la. encostou o rosto ao peito de Peggy. recusou polidamente uma bebida e foi par a seu lugar. dobrou-a cuidadosamente e colocou no chão. de todos os homens que ela conhecia. Peggy tornou a esbofeteá-la e ela sentiu a outra face arder.. — Não poderia fazer a grosseria de não aceitar. — Onde ficaram então a tarde toda? Você não estava na escola de arte e não estava em casa. Esta ficou desnorteada com a violência do ataque. — Mentirosa! Rina levou a mão ao rosto e ficou olhando Peggy. Mas Jacques. — Não tive vontade de ir à escola — disse Rina. Não se zangue comigo. Depo is tirou os sapatos — não usava meias — e colocou-os ao lado da camisa. — Encontrei-o por acaso.Mas a mão de Peggy deu-lhe um violento puxão — Já lhe disse que não tornasse a falar com Deschamps! Então era isso. E. também por acaso. não fui. Rina levantou as sobrancelhas. — Chore até aliviar a alma. Você esta sempre ansiosa para me demonstrar seu amor. sentiu repulsa por P eggy e por si própria. de joelhos. na falta de lugar melhor. Nunc a se aborrecera com os homens mais moços. — Não sou a única loura de Paris. às quatro horas da tard e. ao apartamento dele? — Não. com seu curioso sorriso con fiante e as têm-poras grisalhas. Respirou profu ndamente e. Caiu no chão e disse com voz queixosa: — Por que faz essas coisas comigo quando sabe como eu a amo? Rina a encarou. O amor é exatamente para isso. Quase no mesmo instante. Estranh o que. Perdão! É o ciúme louco que tenho de você Rina sentiu o rosto doer no lugar da bofetada. — Não é possível censurá-lo por isso. nunca! — prometeu Peggy. é um homem — disse Rina. não porque tivesse m edo dos acessos de raiva de Peggy. — Toquei para o apartamento e ele não atendeu. não me olhe assim. Mas tudo fica na superfície. — Querida. — Não faça isso outra vez. e começou a chorar. Sentiu um arrepio pelo corpo e olhou para a c abeça encostada em sua saia. — Mas está acima de minhas forças pensar naquele porco pondo as mãos em você! — Ele não é um porco. — Não teria ido. não chega ao meu íntimo. Por que não pode me en sinar a sentir amor. — Aí é que está o erro. Peggy. mas porque queria evitar uma cena. Peggy só tivesse ciúmes de Jacques. Jacques não perdera tempo. Devia ser seis horas quando Amru Singh a presentou cumprimentos ao dono da casa. a dar amor? Então caiu de joelhos também e..

a qualquer mom ento. Pensou nas posições obsce nas esculpidas no alto das paredes do tem-plo da deusa e sentiu o desgosto invad i-lo. Tirei-os de diversas mulheres para conseguir a simetria que não há na natureza. a porta se abriu para mais duas pessoas convidadas. Era também nessa posição que podia pensar melhor. dissessem todos o que dissessem. encostados à parede. Amru Singh estava à procura de um homem cujas vaidades e ambições transcendessem tudo o que fosse pessoal. os atos de todas as pessoas na s ala. com os braços estendidos acima da cabeça erguida à pro-cura de seu amante. o negociante de obras de arte. o julgamento definitivo era o dele. — Então. mas não desanimava. o silêncio foi quebrado e todos começaram ao mesmo tempo a tecer seus comen tários e a felicitar o escultor. enquanto o relógio batia a h ora e Pavan iniciava sua palestra. Estava muito bêb ado. Entretanto começou a sentir o espírito mau da deusa Kali solto pela sala. nos olhos. O nariz! Por que não me falou do nari z. Pavan aproximou-se ansiosamente do sujeito. ao qual a luz da sala dava uma suave nuança de calor vital. com a luz de uma única lâmpada brilhando de cima para baix o. ma s continuou com os olhos abertos e vigilantes. provocando aquela tensão peculiar. Sua avaliação era o reconhecimento da importância artística de uma obra. todos menos Leocadia. e muitas ve zes antes. Não era senão uma repetição de tudo o que ele vinha dizendo todas as noites. quase num sussurro. Ficou por um instante em silencio. Pavan começou a gesticular. com mármore italiano rosa avermelhado. Era assim que podia observar. no canto atrás do grande sofá. Não ha via ainda encontrado esse homem. Sua busca poderia. e quase caiu no momento em que. Eram a americana loura e a a miga dela. — Não quero saber do mercado. a mulher morena. Havia si do esculpida em escala de dois terços do tamanho natural. mas daquela vez. escondidos. afastando de si o sentimento de decepção. quando chegou ao fim. Era um homem pequeno e grisalho. E sua respiração se tornou mai s lenta e menos profunda. Pensava sobre muitas coi-sas. Amru ficou sabendo de quem se tratava. m as principalmente sobre as vaidades e ambições dos homens. o que lhe provocou uma sensação de conforto. Isto é. Nunca olhava para ninguém com quem falasse. — O nariz — murmurou. Quero saber é da minha obra. Não era a ocasião de dizer a Pavan que não percebera defeito algum no nariz. talvez ainda naquela noite. — Olhe aqueles seios. Contraiu seus músculos ao máximo. Resignou-s e interiormente. Sobre o chão. . segundo julgavam. Tinha de manter sua reputação. voltado para a estátua. De repente. No fim. Voltou-se para os modelos. — Ora! — exclamou Pavan. um homem e uma mulher estavam cometendo u m ato de fornicação. sem virar a cabeça. — O mercado de esculturas está muito fraco — murmurou. A feia cópula que observava pelo espaço entre as pernas altas do sofá não se justi ficava nem mesmo por um culto sagrado do mal. Sem mov er os olhos. e disse: — Tragam uma garrafa de vinho para o monsieur. Era ele quem determinava o valor. Bloqueou uma parte da mente durante poucos minutos. Por fim. terminar. Num nicho perto da porta. E o rosto? Perfeito! Repare na testa. — Sua obra está como sempre — disse evasivamente o nego-ciante. num gesto rápido. Fechou sua mente a ambas. olhando a estatua. Havia muitas pessoas ali. depois relaxou-os totalmente. monsieur? Leocadia ficou em silêncio. o sol. estava uma estátua drapejada sobre um pedestal. com os lábios finos e apertados de usurár io. Houve silêncio na sala enquanto todos olhavam para a fria estátua de mármore. começou a chorar. parecia um cadáver envolto numa m ortalha. monsieur? O que acha? Leocadia não olhou para Pavan. aspi rando apenas à glória que fora soterrada pelos séculos no fundo do espírito humano. dos outros.amisa por cima das pernas cruzadas. Pouco importava que o preço estabelecido por ele im pedisse para sempre a venda. descobriu a estátua. nas maçãs do rosto no nariz. A figura estava na ponta dos pés. Os artist as diziam que ele não tinha coragem de encará-los porque era um parasita que vivia à c usta do sangue deles.

e ficou estendido no chão. Os braços caíram. quando nem conheço o modelo? Pavan olhou em volta. O busto rachou-se e também se desagregou. com as lágrimas a rolar pelas faces. Depois. em atormentada frustração: — Está errado! Está tudo errado! Por que não me disse. — Ignorantes e cegos! Não sabem de onde vem isso? Não conhecem a alma da beleza de uma mulher? — exclamou Pavan. pensou no jovem e gordo príncipe egípcio que havia aparecido em sua galeria. logo depois. murmurando: — De acordo! O escultor deu um verdadeiro urro de triunfo. e Rina se sentiu como que paralisada. virou-se e brandiu violentamente o martelo na cabeça da estátua. deixou-se cair. Voltou-se para os outros artistas: — Só me oferece mil e quinhentos francos! Pois fique sabendo que não aceito um cêntimo a menos que dois mil e quinhentos francos e a encomenda de uma estátua da mulher qu e serviu de modelo para esta perfeição. — Eu a amava! — exclamou ele. caiu um do s ombros. ficou sem saber o que fazer. Pavan abaixou-se por entre os fragmentos e continuou a vibrar o mar-telo como um louco. Pavan apontou o dedo: — Você! Venha cá! Todos seguiram o dedo de Pavan. Leocadia tornou a olhar para o pedaço de mármore. — Graças aos céus não destruí o único fragmento de belez avia na vastidão do meu erro! Quase todos se aproximaram para ver o que Pavan tinha na mão. O mármore brilhou de novo e e le desceu da cadeira para olhar. — Isso é uma coisa de que só os deuses podem aproximar-se! Olhou para o pedaço de mármore e seu olhar encheu-se de ternura. exausto. A estátua balançou no pedestal e t ambém rolou em pedaços pelo chão. Não sabia nem de que parte da estátua era. Arranhou de leve a pe dra e depois poliu a superfície com a manga do casaco. Parecia apenas um pe daço de mármore quebrado. com lágrimas nos olhos. — Mil francos — disse ele. Até que encontrou o que procurava. Pavan olhou para o negociante. — Já vi onde foi que errei! Está vendo também? Leocádia olhou para o pedaço de mármore. Levantou-se com um fragmento nas mãos e mostrou-o ao negociante. procurando saber que m havia posado para aquela parte da estátua. O escultor tomou sua mão e virou-se para o negociante. Quase imediatame nte. Pavan estava empenhado na velha luta do artista com o negociante. curiosos. — O que é isso? — uma das pessoas cochichou para outra. — Como posso fazer essa encomenda. Abraçou Rina e beijou-a nervosamente . Pavan começou a golpear desesperadamente a estátua. Com a mesma rapidez com que haviam chegado. Mas não devia falar. Exclamou de repente. as lágrimas desapareceram. Leocadia olhou-a um instant e e. O mármore rachou e a cabeça caiu no chão des pedaçada. — Graças aos céus! — exclamou Pavan. Já sabia o que era. Al i estava uma coisa de que ele havia de gostar. Os modelos se entreolharam. Mas mur murou com desprezo: — Mil francos! — Mil e quinhentos então — disse Leocadia. De repente. Pavan olhou para o negociante com sua confiança subitamente restabelecida. Muito verm elha. monsieur? Por que me deixou passa r por esse ridículo? Leocadia ainda estava em silêncio. — Agora compreendo o meu erro! É em torno deste pequeno núcleo que esculpirei na pedra a mulher perfeita! — exclamou dramaticamente.— Meu cinzel! — gritou Pavan. Limitou-se a fazer um vago gesto de assentimento. — Eu a amava e você me traiu! Afinal. Subiu a uma cadeira e procurou a melhor posição para o cinzel. desviou o o-lhar. entre os des-troços. abrindo afinal a boca. e Pavan com eçou a remexer de-sesperadamente os pedaços de mármore esparsos. mas logo todos a empurraram para onde estava Pavan.

Foi o próprio Pavan que a ajudou a descer. Ainda tinha na mão o sapato de salto alto e fino. Já está em tempo de eu pensar pela minha cabeça e não pela sua. pela primeira vez na memória de todos os que ali estavam. olhando escada abaixo. — Nem toquei nela! — Eu sei — disse Amru Singh. todos os homens de Paris andarão como cães atrás de você! Você na turalmente adoraria isso. uma voz colérica: — Você é uma prostituta ordinária. — E se os jornais souberem? Já imaginou o que acontecerá se a notícia chegar a Boston? Rina riu. e é assim que uma prostituta deve ser tratada! Fez-se um momento de silêncio. ele se abaixou e calçou-o pé de Ri na. Cobriu-a com um pano enquanto ela camin hava para o banheiro. — Deixe o que tiver de ser dito para mim! Nesse momento. Aquilo era uma loucura. — O que está fazendo? Largue esse sapato! Depois. Um dos modelos lhe entregou as roupas de baixo e o vestido rasgado. a porta se abriu e dois convidados. as roupas de baixo. bateu com força a p orta atrás de si. Rina estava apoiada ao corrimão. Peggy estava à sua espera. — Você viverá para sempre. — Prostituta. — Chamem um médico. Tirando-o dela. Então. Quase que arrastando Rina para a saída. . Amru S ingh saiu de uma festa antes do último convidado. para que seja ven erada por toda a eter-nidade! Rina começou a rir. p ara não cair. apareceram. — Eu lhe disse que nunca mais fizesse isso! Amru Singh ouviu o estalo de outra bofetada. Amru Singh sentiu o cor ação da moça pulsar aceleradamente contra seu peito. — Houve um acidente — disse ele. apertando de tal modo o rosto de Rina ao seu peito que e la mal podia respirar. Houve o som estalado de uma bofetada e. — Talvez. muito pálida. Pavan com eçou a cantar com voz rouca e a girar com ela numa dança sem medida e sem rumo. De r epente. — Você está louca? — A coisa não tem tanta importância assim. E através do delgado biombo atrás de sua cabeça começou a ouvir vozes obscuras. Amru Sin gh voltou-se para eles. com firmeza. cadela! É essa a única linguagem que você entende! Houve uma pausa e. uma das defesas da mente de Amru Singh se abriu. depois. muito menos falar. Rina perdeu de repente as forças e teve de se apoiar nele.nas duas faces. Um estranho silêncio c aiu sobre a sala. Todo mundo ali estava doido. ergueu-a e colocou-a sobre o pedestal onde estivera a estátua. foi a primeira coisa em que já me destaquei na vida! — Quando isso se espalhar. Até que ficou completamente nua sobre o pedestal. depois. ouviu-se um grito e o barulho de um corpo caindo aos trambolhões pela comp rida escada. oh. um grito: — Rina! Vibrou nesse grito a nota oculta do medo. com sua voz serena. calmamente. que saíam. Peggy. — Ela escorregou e caiu! — Não diga nada a ninguém — ordenou ele. Ela sentiu mãos puxando seu vestido. Amru Singh pensou que parecia o grito de um domador de tigres que entra na jaula e descobre que o filhote se transform ou num tigre real. Sentiu Rina começar a chorar em seu ombro. "Moça de Boston escolhida como a vulva mais bonita de Pa ris!" — Parece até que está orgulhosa disso! — E não tenho motivos para estar? Afinal. — Posso até ver as manchetes. Estendeu os braços para se defender. Um olhar de estranha satisfação brilhou naquele rosto moreno. Olhou a cintilante cabecinha loura. bela! Esculpirei sua beleza no mármore. Rina entrou no banheiro e reapareceu momentos depois. De repente.

Seu presságio se realizara. Inclin ou-se. baixo. mas não perfeitamente inglês. inspetor. Mas. O sangue lava a cabeça e a gente tem ou tra perspectiva do mundo. o cintilante cabelo espalhado pelo chão — O que está fazendo? — perguntou ele. — E é feliz agora? — Muito. Nem queira saber como tudo é dife-rente olhan do de cabeça para baixo. com o corpo todo apoiado na parede quando Jacque s entrou no apartamento Ficou um momento a olhá-la. Mademoiselle Bradley morreu de uma queda e a polícia está criando dific uldades. a deusa perversa. com gentileza. — É coisa grave? — Muito grave. E tem razão. — Quer chamar mademoiselle Marlowe ao telefone? — Infelizmente. com um sorriso malicioso. — É bom ouvi-la rir — disse Jacques. — Já mandei chamar um médico. — Peço-lhe desculpas por perturbar seu descanso — continuou a pessoa a falar em francês. Já estava bem desperto. Estarei aí dentro de meia hora. Jacques riu. Ela se estendeu no chão às gargalhadas. — Muita bondade sua. — Isso estou vendo. Ela sorriu para ele. — Isso fui eu mesma que tive de descobrir. não iria receber o sacrifício de uma inocente como novo tributo ao seu poder. Arqueou prontamente as costas e moveu as pernas. — Onde está? — No ateliê de monsieur Pavan. Não era possível deixa r de ver o convite que representava o ípsilon que ela formava junto à parede. — Oui — respondera. — Antes eu não era feliz. — Estou de cabeça para. Estou aqui com uma amiga sua. Sabe onde é? — Sei. ela não está em condição de falar. Rina já era uma pessoa bem diferente da atordoada moça daquela noite muitos meses an tes. havia atacado. Só queremos uma palav . Acha-se em completo estado de choque. o corpo esbelto dentro do maca cão de malha. — Monsieur Deschamps? — perguntara uma voz grave e calma. depois que Jacques se apresentou. — Sua amiga parece em forte estado de choque — disse o inspetor de polícia. — Será que Amru Singh ensinou também como se beija uma pequena que está de cabeça para bai xo? — Não — disse ela. A polícia a havia isolado no pequeno quarto de vestir do ateliê. Mas por quê? — Amru Singh diz que é muito bom para o cérebro. mademoiselle Rina Marlowe. Pode dizer-me o que aconteceu? Vim em resposta a um telefonema de um amigo comum. com um curioso sotaque que era inglês. colocando a cabeça entre as pernas abertas de Rina e beijou-a. Ela precisa de sua ajuda. Mademoiselle Bradley caiu da escada. — Meu nome é Amru Si ngh. — É um caso de pura rotina. ainda tonto de sono. 12 Rina estava de cabeça para baixo. o escultor. dessa vez. por m ais cuidadosamente que houvesse preparado tudo para fazer a culpa recair sobre e la. — Já tomei essa providência — disse Amru Singh. — Antes você não ria muito. Ele se lembrou do telefone tocando à cabeceira de sua cama. — Ela não falará com ninguém até o senhor che Jacques não compreendeu o que Amru Singh quisera dizer até ver o rosto pálido de Rina e seu olhar parado. Kali. Não a deixe falar com ninguém até eu chegar.

sem o menor sinal de reconhecimento. Jacques! Eu sabia que você viria! Com o corpo sacudido de soluços. acariciando-a. e deu ao motorista o endereço do apartamento qu e havia alugado. começou a proferir palavras desco-nexas. — Sem dúvida alguma. nada do que vi me leva a pensar assim. Jacques deu ao motorista o endereço de Rina. — Calma — disse Jacques. Chegou a sua vez de falar. Aqui. mademoiselle. Piscou os olhos como se estivesse despertando de um sono profundo. — O médico irá apenas confirmar que ela está em choque — disse Amru Singh. é meu amigo também. viu Jacques. com o rosto im-passível. O inspetor concordou. dizendo: — Se ele é seu amigo. Amru Singh disse então. Ouviu a porta fechar-se e percebeu que Amru Singh havia desaparecido. Jacques entrou no quarto e viu Rina sentada numa cadeira. — Vou deixar de carregá-la sobre meus ombros — disse ele. — Como já expliquei à polícia. inspetor. — Para servi-lo. olhando para Rina. como se estivesse falando a uma criança. p or que Amru Singh o teria chamado? — Poderia ir até o quarto? — perguntou. — Jacques. — Muitas coisas ali a farão lembrar-se de sua falecida amiga. Tudo a-cabará bem. Mas sugiro que seja em outro lugar. a polícia poderá interpreta r erradamente o que ela disser. Amru Singh a levou até uma cadeira. Deve haver mais alguma coisa. — Mas a polícia já mandou chamar um médico. — Seu amigo. — Ela ficou muito impressionada co m o que aconteceu e parecia inclinada a assumir a culpa pela morte da amiga. em voz branda. . sorrindo. Jacques estendeu a mão ao indiano. vou levar mademoiselle Marlowe pata a casa dela. meio escondida atrás de um homem alto de turbante. Fez um gesto e ela se sentou. pensou. Ela parecia não vê-l o. monsieur Singh — disse Jacques. tranqüilamente. única pessoa que estava com ela na hora. E Jacques falou ao inspetor: — Se me der licença. — Creio que será melhor não levar mademoiselle Marlowe para o apartamento onde vivia — d isse prontamente Amru.. — Ela obedeceu? — Quase não teve outro jeito. Jacques assentiu com a cabeça. — O senhor é medico? — Não. No mesmo instante seus olhos se enche ram de lágrimas e ela atirou-se nos braços dele.. — Teve ela alguma interferência no caso? — perguntou Deschamps. que se levan tou ao vê-lo. foram à delegacia de polícia.ra de mademoiselle Marlowe. Jac-ques fechou a p orta. Singh. — Eu estava no local do acidente — disse o indiano. Rina ergueu lentamente a cabeça. — Amru Singh é meu amigo — disse Rina. Do contrário. depois de alguma hesitação. — Não tenha medo. — Como então conseguiu impedi-la de falar com a policia? — Disse-lhe que não falasse — respondeu Amru Singh. Amru Singh entrou no apartamento e Rina o seguiu docilmente. está aqui. — O inspetor indicou o caminho. Rina levantou os olhos parados. — Monsieur Deschamps? — perguntou o homem. depois que o médico-as sistente houver tratado dela. Eu m esmo a acompanharei para depor amanhã à tarde em sua delegacia. No táxi. Foi exatamente isso que aconteceu. Passaram depois no apartamento que Ri na dividia com Margaret e levaram tudo o que era de Rina. sou um estudioso. De repente. — Não posso mais f alar com você. E quando ele chegar. Ja cques chegou inesperadamente ao apartamento e encontrou Amru Singh. — O que ela disse à policia? — Achei melhor que ela não falasse com a polícia — disse Amru Singh. monsieur Deschamps. No dia seguinte. — Posso falar com ela? — Perfeitamente. Jacques teve um momento de reflexão. Duas noites depois.

Quando voltar à América para visitá-lo. Havia alguma coisa que o impressionou desagradavelmente na maneir a pela qual ela estava sentada à mesa. Bem sabe que um divórcio lhe arruinaria a carreira. Daí por diante. sorrindo. ele estava no chão ao lado dela. os três jantavam juntos ao menos uma vez por semana. — Ele também é meu amigo e eu não gostaria que uma frase minha dita de brincadeira pertu rbasse nossas rela-ções. — Eu sei. depois. — Então por que está dizendo isso? — Escute — disse ela. vá tomar banho. ac ompanhou-a até o quarto. — Aquilo já tem mais de oi-tenta anos e ainda v ai ao Ópera. — Estava muito bonita esta noite — disse. e Jacques teve a impressão de que ela se tornara de repente mais velha do que ele. Sen tava-se sobre as pernas cruzadas e os braços formavam um quadrado à altura do peito. Os exercícios só são importantes para as mulhe res que estão espe-rando filho. Ela o fez calar-se. Seu dia foi muito agitado. Jacques abriu a porta. Você está agindo como um americano. abraçando-a e beijando-a. No instante seguinte. diz endo que ia divorciar-se para que a criança nascesse na vila da família ao sul da Fr ança. tirou o vestido e sentou-se no chão numa posição de ioga. Era como . — O que está fazendo? — perguntou Jacques. Amru Singh é apenas meu amigo. — Ótimo. porque neste ca-so eu teria de d eixar de ver Amru Singh. isso seria muito desagradável. — Seria capaz disso por minha causa? — Claro que sim. olhou-a pelo espelho e disse: — Sabe que seria muito fácil eu ter ciúme de Amru Singh? — Para mim. — Rina! Ela voltou-se para ele e Jacques viu a profunda angústia que a dominava. se eu estivesse pensand o em outra ligação. — E se seu pai souber? — Não há nenhuma necessidade de ele saber. meu professor. — O dr. Jacques começou a tirar a camisa. afastou-se um pouco para deixar Rina entrar e. Eu terei a criança e tudo continuará como agora entre nós. olhando firmemente para o jornal. poderei d izer que fiz um casamento errado e ninguém saberá de nada. — Que velho devasso! — exclamou Jacques. — O que aprendeu hoje com nosso amigo? — Há grandes possibilidades de que eu em breve possa livrar-me da vontade de morrer que tem governado quase todos os meus atos desde meus tempos de menina. pondo um dedo em seus lábios. Amru Singh diz que cinco minutos de meditação ante s de dormir aliviam o corpo e o espírito de todas as tensões. porque é a você que amo. Jacques. Agora. Saiu do banheiro amarrando o cinto do roupão. Logo que ela entrou. Jacques. Isso me dará controle sobre todo o corpo. — Deixe disso. o pulsar acelerado de seu coração foi pouco a pouco voltando ao normal. dizendo: — Ah! Disso é que eu gosto! Ele ajoelhou-se à frente dela e fez massagens nos seus pés. D epois. não me esquecesse dele. — Estou me preparando para a meditação. E como vai conseguir isso? — Ele está me ensinando os exercícios de ioga para o parto. Rina estava no quarto e ele foi até a sala de estar. Jacques entrou na banheira. Conseguiu os jornais de Boston para mim? — Estão na minha pasta. surpreso. Jacques tirou as abotoaduras dos punhos da camisa e depositou-as sobre a cômoda. com essas idéias bobas e pro vincianas. jogou longe os sapatos. Fornay diz que você me deixou enceinte. — Não compreendo para que isso pode servir. Tanto que me disse que. Ela olhou maliciosamente e replicou: — Monsieur le ministre também achou. sentou-se na ca-ma e esfregou os pés. para não falar em out ras coisas. Ela sorriu para ele.Os dentes brancos do indiano brilharam num sorriso e as mãos se apertaram cordialm ente. impassível. Ela se levantou da cama. A água estava quente e transmitia uma sensação repousante.

m esmo sussurrando. — Es-pero viver mais de cem anos e os médicos dizem que talvez che gue lá se fu-mar menos. Ele se recostou na cadeira com um sorriso levemente irônico. HARRISON MARLOWE DENUNCIADO! Criminalmente respon-sável pela falência do banco da família. esquecida por um momento do que fora fazer. O governador apanhou um charuto e perguntou: — O fumo a incomoda. — Tenho de voltar para casa. Jacques — sussurrou. entre soluços. — Oh. com um sorriso em . abraçando-a. você voltará para a Fra nça. — Tenho certeza de que chegará. espalhando na sala o cheiro fort e e um tanto agradável da fumaça. Tinha uma voz s imples mas extra-ordinariamente clara que enchia facilmente a sala. — Mas por quê? — perguntou ele. — Como? As lágrimas molhavam o rosto de Rina. — O dr. Marlowe? Ela sorriu em resposta e ele acendeu o charuto. quando morrer. num fio de voz. — Não! — exclamou ela. sentindo de novo a marcha inexorável do tempo. pouco me importa viver tanto ou não. — É um dos poucos prazeres que os médicos ainda me permitem — disse ele. Havia no caso uma coisa que ele. Gostava do as pecto dela. — Teremos outro filho. Ela apontou o jornal. não quero deixar um só inimigo. Mas a questão é que. — Na verdade. Ela se sentou e ficou olhando o secretário. Havia nel e um ar de mocidade e vigor que desmentia as grandes manchas grisalhas do cabelo . Ele riu e ela riu com ele. — Não poderei ter a criança. Rina. e a única maneira de conseguir isso é viver mais que todo s os que tenho. governador. srta. Fornay me disse categoricamente que depois desse não haverá m ais filhos! 13 O grande ventilador do teto zumbia e o calor de agosto pairava pesado e úmido no g abinete do governador. minha querida! — ele a confortou. sentindo-se já tremendamente infeliz. — Você era uma criança quando aprovei os seus papéis de adoção — ele disse.se ela houvesse perdido todas as esperanças de salvação. Fin almente as assinaturas terminaram e o secretário saiu do gabinete. Ela foi grata àquela maneira de lhe dar confiança. como francês. Nada daquelas tolices modernas que obrigavam as mulheres a fazerem r egime e cortarem impiedosamente o cabelo. como se fosse um ator habituado a se fazer ouvir mesmo nas galerias. falando de coisas pessoais. apanhando folha por folha de papel à medida que o governador as assinava. O belo cabelo da moça chegava até os ombro s. embora falas se baixo. O governador a olhou. o representante de cinco gerações de banqueiros de Boston Via-se abaixo um clichê de três colunas com o retrato de Harrison Mar-lowe. levando os papéis . — E eu queria tanto esse filho — murmurou ela. que se mantinha de pé ao lado do governa dor. compreendia perfeitamente: o dever filial. Quando tudo isso estiver acabado. Jacques se aproximou e viu por cima do ombro dela uma manc hete que tomava toda a largura do jornal. Jacques nem se deu ao trabalho de discutir com ela. O secretário franzino e nervoso levou Rina a uma cadeira em frente à grande mesa de trabalho.

Justificou a si mesmo com a idéia de que. o que evitará o julgamento por um júri. Quinze meses depois. que percebiam tudo com facilidade e com quem era possível trocar idéias. legalmente. a decisão é sempre o maior risco de quem dirige. Mas. De acordo com a lei. portanto. — Acha que ele é culpado? — O negócio bancário é como a política. — Minha mãe e meu pai sempre me disseram que o senhor foi muito bondoso em tudo isso . — Ninguém p ode esperar tanto. Seu pai. sem o dinheiro. Enquanto tudo dá certo. A primeira obrigação de um banco é com seus depositantes. Seu pai correu esse risco ao autorizar os empréstimos. Há mui-coisas que são moralmente certas legalmente erradas. não é? — Faço dezenove no mês que vem. Gostava de conversar com pessoas jovens e inte-ligentes. e as mesmas pessoas que o teriam levado às nuvens estão furiosas com ele. — E se lhe acontecer alguma coisa nesse meio tempo? — Já se esqueceu de que vou viver mais de cem anos? Mas. É por isso que as leis são muitas vezes mudadas ou emen-dadas. — Não é tão simples assim. ainda que eu não estivesse pr esente. con-cederei o perdão. Quando não dá. — Sei por que veio falar comigo e quero que saiba que sinto muito a si tuação em que se en-contra seu pai. — Tem dezoito anos. No fim. não há nada que possa fazer por ele? — Um bom político não pode ir contra a opinião pública disse ele. — Quer dizer que o segredo de tudo é não ser descoberto? Ele sorriu. o cabelo se mostrava ainda mais branco. A lei não é uma coisa inflexível. papai? — disse ela. Rina viu o pai aproximar-se. Vinte meses depois conseguiria o livra-mento c ondicional. espero que passe mui to dos cem anos. . há a aspiração de que a lei e a moral um dia se encontrem no infinito. lentamente. — Então. que passará dos cem anos. se as fábricas não tivessem de f echar e os empréstimos tivessem sido pagos. Apanhou o charuto no cinzeiro e o rolou entre os dedos fortes. Pena que a política atraísse tão pouca gente desse gabarito. per derá e será condenado a dez ou quinze anos de prisão. Costuma refletir as esperanças e desejos do povo. deix ando muitas pessoas desempregadas e fazendo outras perderem seus investimentos o u seu meio de vida. — Se puder convencer seu pai a reconhecer sua culpa. — Você cresceu um pouco desde que a vi pela última vez —disse ele. Se seu pai apresentar alguma defesa. é preciso julgar de acordo com a lei. e até o rosto parecia haver tomad o uma coloração cinzenta que se confundia com a do uni-forme da prisão. eu providenciarei para que um juiz lhe dê de um a três anos de sentença. seu pai não poderia perder. — Agora mesmo o povo está à pro-cura de um bode expiatório. satisfeito. Os olhos estavam sem expressão. nada teria acontecido. — Não tem qualquer importância que ele houvesse perdido toda sua fortuna pessoal tenta ndo salvar o banco? — perguntou Rina. certas fábricas poderiam ver-se na contingência de fechar. Aconteça o que acontecer. Neste caso. todo mundo fecha os olhos. — Infelizmente. colocando o charuto n o cinzeiro. minha filha. seu pai não podia fazer os empréstimo s. não. nem mesmo o senhor. Mas aconteceu o contrário . minha filha. Ele seria con-s iderado um benfeitor público e um banqueiro de descortino. — Como vai. do mesmo m odo que os ma-temáticos dizem que as paralelas se encontram. — Infelizmente. Ela se levantou e estendeu-lhe a mão. — O infinito é tempo demais para um homem com a idade de meu pai — disse Rina. — Já examinou as acusações formuladas contra ele? — Li apenas os jornais. fez uma coisa perfeitamente correta do po nto de vista moral. deixarei este cargo muito antes de poder conceder-lhe livramento condicional. a coisa muda de figura. É claro que. ternamente. — Muito obrigada por ter me recebido. e que não poderiam adotar-me se o senhor não os ajudasse. Do seu lado da tela de arame. porque não havia garantias suficientes.araçado. A lei leva isso em conta e o Estado tem leis qu e regulam tais empréstimos. quando ele se sentou na cadeira.

— Mas. papai. — Você nunca me falhou. O guarda se aproximou e o pai levantou-se. . Iremos para a Europa. — Você precisa é de umas férias.. Talvez uns dez mil dólares depois que pagarmos aos c redores e a Stan. Parecem meninos. — Não estou pensando em casar.— Alô. — Está bem. Dizem que lá é muito bonito e você pode ficar na casa deles até eu sair daqui. Estou trabalhando na biblioteca. — Isso não é tão fácil assim. não poderei vir visitá-lo. — Por isso pagam tanto . Uma coisa é ser condenado como ladrão. papai. Ela o viu afastar-se para o interior da prisão. Sabem que não guardou nada para você. — É bom — murmurou ela. — Pelo que me disseram. papai? — Escrevi a meu primo Foster. — Recebi uma carta de Stan White — disse ele. esse é Jonas Cord. — Não sobrar muito para vivermos. por fim. — De qualquer maneira. sr. Passo noites acordado pensando n o que você irá fazer agora. e um pesado silêncio caiu sobre eles. Todos os moços de Boston não são mais do que isso. — Teve uma o-ferta de sessenta mil dólares pela casa. quase com timidez —. e eu não tenho paciência com eles. Teremos menos coisas tristes para rebordar. forçando um sorriso. muito obrigado. pensei que não se conseguisse tanto. Ela levara o marido para vê-lo na prisão. — Nós dois teremos férias quando você voltar para casa. querem que você vá passar uns t empos com eles. Stan White era o advogado dele. Você precisa de férias agora. — Onde quer chegar. — Tenho tido muito tempo para pensar aqui dentro. — Eu não deveria ter ido para a Europa. — Eu me arranjarei. Deveria ter ficado em casa com você. Outra é ser conde nado por ter sido idi-ota. E eu até estraguei s possibilidades de fazer um bom casamento.. Ele e Betty. — Isto é pior ainda. Rina. — Já dei instruções a Stan White. assim. — Papai — disse ela. Você não se preparou para trabalhar. Quando casar. mas c om uma juvenil vitalidade. Rina — respondeu. Sou um presidiário. papai. como você. Têm perdido muitos livros ultimamente. será com um home m amadurecido. — Não. Ela percebeu que ele estava brincando. típica dos homens do oeste. papai? Como o estão tratando? — Estão me tratando muito bem. — Fui eu que falhei nas obrigações que tinha com você. — Não fale assim. papai? — Faremos tudo que for humanamente possível. — Mas isso ainda vai demorar muito. Não sou banqueiro. Só tornou a vê-lo muitos meses depois. Conheci um lugar na Riviera onde poderemos viver o ano todo com menos de dois mil dólares. Rina. O que Harrison Marlowe viu foi um homem de sua idade. a casa seria grande demais para vivermos nela depois que vo cê sair daqui. sua voz foi amarga: — Ninguém mais vai arriscar-se comigo. papai! — Será melhor assim. Vou procurar um emprego. Nos arranjaremos até você entrar de novo em atividad e. papai — ela começou a dizer. talvez até mais velho. Mas arranjarei alguma coisa. sua esposa. — Mas. — Há alguma coisa que eu possa fazer por você. Dessa vez. — Os que querem comprar a casa são judeus — disse ele sem rancor. Seus olhos estavam velados de lágrim as. minha filha. Talvez na da disso tivesse acontecido. Encarregaram-me de o rganizar um novo sistema de controle. quando estava de novo a caminho da Europa em viagem de lua-de-mel. — Para fazer o quê? — Não sei. O mer cado para essas casas grandes não está muito bom. papai. Todo mundo sabe que a culpa não foi sua. Apenas m oços. Marlowe — acrescentou Jonas Cord. Parece exausta. — Não precisaremos de muito. Faça o que estou dizendo e vá para lá.

. Abriu os olhos e ficou um momento sem identificar o quarto do hospital. papai? — É quase tão velho quanto eu! — Não se lembra de eu ter dito que me casaria com um homem amadurecido. Ilene estava cochilando na poltrona perto da janela. Marlowe se es-tendeu no estreito catre em sua cela. — Sim. — Quer dizer que casou com ele por isso? — perguntou Marlowe. Sentia frio. — Deixe que eu mesma chamo — disse Rina. — A tarde toda? — perguntou Ilene. sr. Quando pai e filha ficaram sozinhos. Rina pergunto u: — O que acha dele. enquan to Rina e Jonas Cord ainda estavam em alto-mar. Mas er a inútil. você mesmo disse que eu não estava preparada para qualquer trabalho. — Mas. papai. Qual tinha sido sua fal ha com Riria? Onde havia errado? Virou o rosto para o travesseiro e lágrimas quentes começaram a rolar em suas faces. Não foi por isso que me mandou para a casa de meu primo? Ele não respondeu. Havia flores novas no jarro.. prisão com quarenta graus de febre. Tremeu um pouco e cobriu as pernas com o cobertor. sr.. — Foi para que ele tomasse conta de mim ? — Não. — Vou chamar a enfermeira. Cord. Viu que este estava amarrado ao lado da cama. Deviam ter chegado enqu anto dormia. e Harrison Marlowe sentiu como era penetrante aquele olhar. a tarde toda. Já era noite e ela devia ter dormido a tarde toda. sei que quer ficar algum tempo sozinha com seu pai. Marlowe. Tem a vida inteira pela frente. inquieto. Rina. lutando contra a volta à realidade. Tudo estava esmaecendo. m enos ela. Sentia cada vez mais frio. — Pode dar-me uma aspirina? Ilene acordou de súbito e olhou para Rina. papai. dilacerando seu sonho como uma faca. 14 A dor começou a repercutir-lhe nas têmporas. — Estava tão cansada! E nunca deixo de ter dor de cabeça quando durmo assim durante o dia. Estava acordada. Os dois homens se despediram. — Por que foi então? — Foi para que ele tomasse conta de mim. Nada havia que pudesse dizer. Prendeu a respiração um instante. Naquela noite levaram-no para a enfermaria da. Agitou-se. Não foi absolutamente por isso que casei com ele. — Meus negócios estão se expandindo. mas logo se lembrou de onde estava. Se ntiu a terrível solidão do despertar. Por que casou com el e? — É um homem muito rico. com-preendendo subitam ente o motivo da oferta do marido de Rina. Um homem com sua experi-ência p ode ajudar-me muito nos aspectos fi-nanceiros de meus negócios. Rina. Havia uma agulha meti . Estarei à sua e spera do lado de fora.. papai? Nunca pude suportar garo-tos. Despediram-se depois de mais algu ns momentos penosos. Ela imediatamente o interrompeu. procurando o botão da campainha. — Mas você é uma mulher moça. E vive muito sozinho. — Estou com uma terrível dor de cabeça — disse baixinho. — Acho que dormi a tarde toda — Rina deu um sorriso.Cord olhou-o. — Afinal. Quero tomar uma aspirina. Moveu lentamente a cabeça. Antes de fazer quaisquer planos depo is de sair daqui. Os últimos vestígios quentes do sonho desapareceram. papai. Jonas Cord voltou-se para Rina: — Com sua licença. Tu do estava escuro lá fora. Morreu três dias depois de bronquite pneumônica. — É muita bondade sua. percebendo que pela primeira vez em toda a semana Rina estava consciente. Mas não pôde lev antar o braço. gostaria que conversasse comigo.

da numa veia do braço e ligada a um comprido tubo que saía de um vidro pendurado com o gargalo para baixo numa armação de ferro. E até muito simples. Fiquei até com dor de cabeça. o médico entrou e Rina o olhou. Rina voltou a cabeça e disse a Ilene: — Você deve estar exausta. Nesse momento duas serventes entraram no quarto. Vou explicar tudo. Por que não vai para casa e descansa um pouco? Passou o dia inteiro aqui. A enfermeira apareceu quase no mesmo instante. E acabo de chegar. — Mas não é. mas errou. — Está vendo. — Você e nova. — Aquilo serve para tirar o que nós chamamos de eletroencefalograma. Apertou um botão e um raio fino e forte de luz saiu do instrumento. — E eu que achei que uma simples aspirina curava minha dor de cabe-ça. hein? O médico desligou o instrumento. Descansou bem? — Descansei demais. como? — Parece doer mais quando procuro lembrar-me dos nomes das pessoas. enquanto a luz fazia um semicírculo no canto superior do olho. Mede os impulso s elétricos que se produzem no cérebro. não e? Não me lembro de você. Como podemos justificar o dinheiro que ganha mos apenas receitando alguns comprimidos? . a dor de c abeça aperta e não consigo lembrar mais nada. O médico aproximou-se da cama e perguntou. — Sou a enfermeira da noite. pois ainda me lem-bro de meu nome. Chegou ao lado da cama e sorriu p ara Rina. Não tenha medo. passando o instrumento para o outro olho. empurrando um grande aparelho q uadrado. levantou-se e disse sorrindo: — Não. — Como é? Já acordamos? — perguntou ela. prontamente. — Não há nada de esquisito nisso. com sua jovialidade profissional. Pensou que eu estivesse em estado de choque. — Boa noite. bem sabe como nós. não passa de vista cansada. para que possamos tratar delas. O médico tirou um oftalmoscópio do bolso e disse: — Vou examinar seus olhos com isto. Tinha estado de serviço desde que Rina chegara ao hospital. Também dormi um pouco à tarde. tomando-lhe o pulso: — Esquisita? Esquisita. Assim poderei ver o fundo ao seu olho e apurar se tudo. Também me lembro. doutor? A dor de cabeça não é ass m tão forte. Lá estava ele. Nesse momento. — Como é seu nome? — Katrina Osterlaag — disse ela. — Não. — Como é o nome de seu pai? — perguntou ele. não estou cansada. srta. como acredito. conheço minha a-miga ali. sorrindo. Tem dificuldade também com seu próprio nome? — Não. com os olhos brilhando por trás dos óculos. — Sempre tenho dor de cabeça quando durmo à tarde. — Ora. Ele colocou o polegar num canto do olho e levantou a pálpebra. — Harrison Marlowe. levantando-se e tocando a campainha. Um colega seu em Paris me examinou uma vez com uma coi sa dessas. doutor. Rina. — Já — disse Rina. Posso tomar uma aspirina? — Vou perguntar ao médico — disse a enfermeira. O médico riu. já vi que não posso. — Rina Marlowe — respondeu ela e riu. — Não estou com medo. Há alguns tipos de enxaqueca que fazem as pessoas esqu ecerem até o próprio nome. que deixaram ao lado da cama. Ajuda às vezes a apurar a causa das dores de c abeça. A enfermeira olhou rapidamente para Ilene. médicos. — Como é seu nome? — perguntou ele de novo. somos. Eu estava era hipnotizada. Marlowe. — Pensou que podia me enganar. — Parece muito complicado — disse Rina. Conheço o senhor . — Para que isso? — O médico achou melhor não acordar você para lhe dar comida — disse Ilene. mas quando procuro lembrar o nome dos dois. Mas é uma dor de cabeça esquisit a. doutor.

Dei-lhe sedativos para aliviar a dor. — Por quanto tempo. Em sua memória tudo é presente. dist ribuindo um feixe de luz sobre o desenho.. Apertou um botão no braço da cadeira e um possante refletor se acendeu no teto. não é? — perguntou Rina. Cinco anos apenas. A febre começou a subir vinte minutos depois que saiu do quarto. A seda branca era para um vestido d e noiva. doutor? Por quanto t empo ela ainda terá de sofrer assim? — Não sei — disse o médico. — Meu Deus! — exclamou Ilene. É o esforço inconsciente de recordar essas pequenas coisas que caus a a tensão e. e o médico voltou-se para Ilene. eu gostaria de vê-la apenas um momento — disse Ilene. — Por que você teve de fazer isso. a dor de cabeça. — É a primeira vez em qu se uma semana que ela parece parcialmente normal. Havia alguns e sboços dos costumes para um novo filme à espera de sua a-provação. Tem sofrido acessos repetidos de uma f ebre altíssima. fazendo um gesto na direção da port a. com o corpo envolto em cintilante seda branca.Ela tornou a rir. antes que ela perca de novo a consciência? — Desculpe. Serviu o uísque. mas ainda podia ver Rina ali. — Por que não me deixa levá-la para casa? A dite que nada há que possa fazer aqui esta noite. — Por que é preciso sempre destruir as coisas belas? Já não há horrore s de sobra neste mundo? As lágrimas continuaram a enevoar-lhe os olhos. — E isso não é um bom sinal? — perguntou Ilene. Ace ndeu o cigarro de Ilene e o seu. meu Deus? — gritou chorando. Não se impressione com sua aparência. furiosa. — Doutor. Ilene viu que a enfermeira já estava preparando Rina e disse: — Claro que voltarei. — Eu. — Está bem. conseqüentemente. doutor? — Só poderemos falar com mais certeza depois de uma análise mais detalhada do eletroen cefalograma. — Acha então que ela vai delirar de novo? — A febre já começou a subir. — Bem sei como está preocupada — disse o medico. como aconteceu agora. — Você voltará. bebendo de vez em quando um gole. com hesitação. Virou a cabeça para o manequim à sua esque rda tentando imaginar o vestido no modelo. em s eu escritório. como nom es. em voz contida. tomando-a pelo braço. com os olhos erguidos para cima. Os desenhos começaram a desapare cer e ela só conseguia ver ali Rina. mas acho que não. Não fora muito tempo antes. — E não quero pa-recer por demais pessimi sta. E por isso que ela tem dificuldade em lembrar coisas simples e corriqueiras. posso falar com ela agora. com a luz brilhando sobre o cabelo claro. e meteu a mão no bolso à procura de um maço de cigarros todo amassado. voltou par a a mesa e começou a examinar os desenhos. mas a máquina humana é muito especial.. mas quero avisá-la. Apanhou uma garrafa de uísque e encheu um copo com gelo. talvez. Mas as lágrimas teimavam em impedi-la de trabalhar. Ilene levantou-se rapidamente. É quase um milagre que. não havendo passado e. ela volte a ter uma aparência de lucidez. 15 . Deixou-se cair nu-ma cadeira à frent e de Ilene. O médico só saiu do quarto quase uma hora depois. Mas já é possível ver certos sinais de lesão em algumas áreas nervosas. cheia de esperança. Ela está dormindo. ne m o dia de hoje. quando a febre diminui. — E então. que destrói tudo o que atinge. Acendeu a luz e se ap roximou do armário embutido do bar. Havia sido usada no casamento de Rina com Nevada Smith. lugares e horas. o l indo cabelo de que só restavam alguns tufos na pobre cabeça tosquiada. Ilene fechou a porta de seu escritório e foi para sua escrivaninha. Tivemos de cortar-lh e o cabelo para fazer o eletroencefa-lograma. A doente só está se mantendo tão bem assim em vista de sua excepcional resistência fí-sica.

Tinha vinte e três anos e coisas mais interessantes em que pensar. Se eu não for. embora achasse que ela escolhera mal a ocasião para falar. dera ordem a suas três secretárias para não deixarem David entrar em seu gabine te. David tinha muito prestígio com as mulheres do estúdio. — Epa! — exclamou ele. Ou talvez muito bem. — O que você esta dizendo? — Quero ir ao casamento de Nevada Smith. que era pelo menos duas vezes maior que a de qualquer outra pessoa no estúdio. de repente. — Vai ser uma cerimônia íntima — murmurou David. Ainda por lá. — Eu sei. Na verdade. na maior promoção de publicidade que já se vira em Hollywood. Que diferença entre as pequenas de Hollywood e as que conhecera em Nova Iorque! Pensava nos vaga-lumes do Bijou Th eater. mas haverá no casamento uma porção de gente importante. deixava em cima da mesa inocente-men¬te uma minuta de memorando. e só lhe dera o emp rego para se ver livre das insistências dela? Para impedir que o sobrinho o aborre cesse. com voz suave. querido. pouco acima do funcionário de menor salário no departamento. com uma porção de papéis espalhados pelo chão à sua volta. Bernie Norman tinha orgulho em dizer que ele era o primeiro diretor a chegar ao estúdio todos os dias. porque isso lhe dava oportunidade de passar os olh os por sua correspondência. chegava cedo porque era um bisbilhoteiro nato. o nome de Bernie Norman tinha sido de muita valia para ele. e ganhasse só trinta e cinco dólares por semana. pois sua inspeção tomara um pouco ma is de tempo que de costume. Gostava de dizer que sua porta estava sempre aberta. enquanto o filme corria na tela. Bernie sentiu a rai va fervendo em seu sangue. nas assustadas pequenas italianas e na irlandesa sem-vergonha. mas acabou transformado num espetáculo de circo. por qu e teriam transformado um garoto de dezoito anos em gerente do Bijou? A pequena estava falando. de certo modo. Todas as manhãs. Do contrário. fic ava com o resto do dia livre para atender a quem o procu-rasse. Não que o parentesco lhe adiantasse muito.Começou como um casamento tranqüilo. Tudo isso porque David W oolf conseguira afinal ir para a cama com a extra ruiva que fizera uma ponta em O renegado. No começo. Suspirou profundamente e abriu a porta. David estava dorm indo no sofá. David não ouviu bem o que ela disse. fossem quais fossem as circunstâncias. David não gostava disso. nunca ter ei outra oportunidade para ser descoberta. Embora fosse apenas um publicitário júnior. se algum direto r queria que alguma coisa chegasse ao conhecimento de Norman. Dessa maneira. quando todas as possibilidades começaram a se desenhar diante d ele. Estava apenas co ntrolando as coisas. Dirigiu-se à sua mesa e. sua comprida limusine preta ent rava pelo portão do estúdio e parava em frente ao pré-dio de seu escritório. mas não dava importância demasiada ao fato. lá embaixo. E. pens ando que ele havia chegado ao clí-max. David era sobrinho de Bernie Norman. ficou paralisado de horror. Tudo podia ser explicado com uma palavra: nepo tismo. Você assim acordará os vizinhos — disse a pequena. Embora ninguém comentas se o fato. Problemas. — Calma. de diretor es e secretárias. como poderia dirigir uma organização tão complexa qua nto aquela? Naquela manhã. e nos caso s passageiros com as garotas que se sentavam sozinhas nos camarotes do segundo a ndar. abrindo as gaveta s destrancadas e lendo todas as cartas e memorandos. antes da chegada de suas três secretárias. Foi um pouco depois que lhe ocorreu a idéia. geralmente desertos. Norman justificava aquela sua atitude com extrema simplicidade. Como po diam elas saber que Norman não queria nem ver o filho de sua irmã. Percorria os escritórios vazios. todo mundo no estúdio sabia o que ele fazia desde o momento em que entr ava pela porta do edifício da administração. certo de que não seria mais preciso m andá-lo. Sempre dizi a que gostava de chegar cedo. Mas as mulheres não sabiam disso. chegou a seu gabinete às oito horas. ele havia. às sete horas. . s empre problemas. Na verdade. olhando os papéis que estavam em cima das mesas. Do contrário.

eu gosto de ser justo.Atravessou a sala e arrancou David do sofá. Afinal. com os olhos fechados. — Nem Cristo. Esta fala com a número dois. — Que papéis? Pegou um dos papéis e deu um grito de horror. — Talvez — disse David. David fechou a porta. — Se é mesmo alguma coisa importante. tirou um vidro de comprimidos e engoliu rapidamente dois ou três. que deveria me ajudar. Você bem sabe que minha porta vive aberta. Aquelas três fúrias não o deixariam passar! — Não meta religião nisso! Além do mais. se chegasse a esse estúdio. Todo mundo gual a todo mundo. apanhe esses papéis todos do chão! Depois suma! — O senhor nem sabe o que vim fazer aqui — disse David. Norman abriu lentamente os olhos. — No mês que vem. — E ainda tem coragem de me dizer para deixar disso! Sua mãe levou metade da noite m e amolando pelo telefone: ' 'Meu pequenino David ainda não voltou para casa. — Papéis! — exclamou Norman. c onseguiria falar com o senhor.. — Está melhor. meu tio. — E daí? — Pelo que vi no seu arquivo. — Uma falta como essa de uma pessoa do meu sangue. Nevada é um homem liquidado. tio Bernie? — Como eu soube? Eu sei de tudo que se passa neste estúdio! Acha que construí essa indús tria passando noites na cama com vagabundas? Não! Para chegar onde cheguei. — Que diabo está fazendo aqui no meu escritório. poderia ter vindo conversar comigo. como todo mundo faz. Levou a mão ao c oração num gesto dramático. sentindo pela primeira vez alguma possibilidade no rapaz. Faça-a assinar contrato . — Ainda está aí? — perguntou. dirigindo-se para a porta. Está despedido! Uma coisa que não tolero neste estúdio são espiõe s! E logo o filho de minha irmã! Fora! — Deixe disso. — O contrato de produção de O renegado! Teve a audácia de abrir meu arquivo confidencial ? — Posso explicar tudo. No mesmo instante! Faça isso e não entre mais aqui como um ladrão à noite .. ela não tem contrato com ninguém. — Saia daqui. ao fim de algum tempo. fala comigo. Não disse que tinha alguma coisa importante para falar? Pode falar que estou ouvindo. esfregando os olhos. — Pensa que está contando alguma novidade ou que isso interessa a alguém? Nem me convi daram para o casa-mento. — Espere um pouco. e no mesmo instante a pessoa está aqui no meu escritório. —Aconteceu uma coisa important e. mais certo do que nunca de que não adiantava procurar fazer alguma coisa por aquele velho horroroso. Quem quer falar comigo basta falar com minha secretária número três . com a voz de quem faz um supremo esforço para se controlar. — Mas fi-que sab endo! Quando eu sair por aquela porta. Hoje mesmo vamos fazer uma estréia de surpresa num cinema do vale. Se a número um acha q ue o caso é mesmo importante. — Não quero saber de explicações. trabal hei como um cão. vamos! Primeiro. Fora daqui! Se não sair do estúdio dentro de cinco minutos . porque o que vai ver s erá um milhão de dólares que está fugindo de sua mão. recostou-se na cadeira. — Mas Rina não é. David. é até capaz de matar uma pessoa! Abriu a gaveta. Dia e noite! Foi até a cadeira diante de sua escrivaninha e deixou-se cair nela. olhe bem para mim.. seu bastardo imprestável? David acordou em sobressalto. Viu o filme? — Claro que vi o filme. Depois dessa estréia. que transmite o recado à número um. — Pois bem. sarcasticamente. antes da estréia do filme. senão será tratado como um ladrão! — Oh! — exclamou David. você bem sabe quais são meus princípios. Mas comecei a ver uns papéis e adormeci.. — Não tinha intenção de pegar no sono. tio Bernie — disse calmamente David. a pequena vai ser o maior nome da indústria. Nevada Smith e Rina Marlowe vão casar. O tio olhou para ele. Além disso. — Aberta? — exclamou David. mandarei jogá-lo na rua. Depois." Acidente! Eu podia ter dito a ela que o peq uenino David estava era na cama com uma extra ruiva do estúdio! Fora daqui! — Como foi que soube disso. Tal vez tenha sofrido algum acidente. tio Bernie? — perguntou David.

. vai querer tomar conta de tudo. com desprezo. Via-se Nevada indo para a igreja espetacularmente vestido com a roupa resplandec ente de cowboy e montado num cavalo branco. o mundialmente famoso Nevada Smith. — O que ele entende de mulheres? — Os goyim já entendiam de mulheres antes de Adão sair com Eva do jardim do Éden — Não — disse Norman. Não! Com ele não quero re-lações. A receita do filme aumentará mais cinco milhões. Então. foi apenas um golpe de sorte. David continuou: — Depois. Quando Jonas entrou na pequena sala de projeção em Lon dres. Vou mandar as secretárias prepararem o escritório aí ao lado para você. falaremos sobre o casamento. diga aos dois que quer bancar as despesas do casamento. não partic iparemos dos lucros.. acompanhou com emoção o casamento de conto de fadas de Nevada Smith e Rina Marlowe. não temos? — disse David. — Nunca! Já temos malucos de sobra aqui e não precisamos de mais um! — Ele entende de cinema. senti ndo a confiança au-mentar com a demonstração crescente do interesse do tio. — Eis o noivo. Nestas condições. Não é o tipo de homem que gosta de tra balhar com sócios.hoje mesmo. Norman levantou-se com lágrimas nos olhos. a ser distri buído proximamente pela Norman Films.. Tem o m aior faro para mulheres que já vi em minha vida. — É um goy — disse Norman. Faremos do ca-samento o maior acontecimento a que já se assistiu em Hol lywood. Dessa forma. Depois.. Den tro em pouco. apareceram os letreiros: CINE JORNAL NORMAN O PRIMEIRO COM AS MELHORES FILMAGENS DOS FATOS DO DIA A voz dramática e grave do narrador se fez ouvir. Hoje mesmo faremos a moça assinar o contrato. — Mas temos porcentagem sobre a receita pela distribuição. Isso representa a metade das despesas da nossa rede de distribuição durante um ano. seu não menos famoso cavalo. Rina Mar-lowe nunca seria a estrela que vai ser. dramati-camente. você trabalhará a meu lado! Será meu assistente. — Toda Hollywood. Como um presente do estúdio. onde havia conseguido que passassem o filme para ele. Não há no filme nada em que ele não tivesse metido o dedo. E o melhor será que poderemos descarregar todas as nossas despesas com o casamento na conta da publicidade e deduzir tudo da receita do filme. mas acabará concordando. a luz imediatamente se apagou e a sala ficou cheia de música. — Por que não? — É o tipo de homem que não quero perto de mim. o dinheiro dele está no filme e ele não pode arriscar-se! David tratou de mandar uma cópia especial da filmagem do casamento para Cord. Não poderia fazer mais por meu filho. Nevada subiu a escada da igreja. vinte e cinco por cento de cinco milhões são um milhão e duzentos e cinqüenta mil dólares. Mas acho boas suas outras idéias. enquanto a polícia continha a multidão. Depois. sentando novamente. o mundo inteiro. Se não fosse ele. — Acho que devemos assinar um contrato com Cord para ele fazer um filme por ano pa ra nós. Afinal de contas. — Ora. Cord pagará tudo da sua quota de lucros. — Ora. se tivesse um! — Há mais uma coisa. O renegado é uma prova. acompanhando a tomada em plano g eral de uma igreja cercada por um grande número de pessoas. astros do grande filme O renegado. — Eu sabia! O bom sangue não nega! — exclamou ele. — De hoje em diante. que aplaudi . — Não foi. chegando à igreja com Whitey. que nessa ocasião estava na Europa. Neva da não vai gostar. — O que é? — perguntou Norman. Já havia um franco interesse nos olhos do tio. — E de que nos adianta isso? Não temos quota alguma do filme. Ele não se contentará em fazer filmes. não gastarem os um tostão. Estive no set o tempo todo.

— Muito obrigada — disse Rina. Norman. ao lado do amigo. O renegado. Depois. . Norman. Marlowe no filme de Bernard B. Virou-se para a porta no momento em que Rina entrou. As flor es foram apanhadas por uma moça de cabelo ruivo e olhos amendoados. Depois. estrela de O renegado. __ Desculpe tê-la feito esperar. por isso mandei buscar café e sanduíches. com um en orme pavilhão em torno do qual se viam milhares de pessoas. sorrindo para a multidão. está o pavilhão construído pelos funcio nários do estúdio de Bernard B. Rina segurava um grande buquê de rosas e orquí-deas. quando a cena termi nou. — Fizemos horas extras no set ont em à noite. As luzes se acenderam. fe-lizes. Rina levou à boca o café fumegante. que também desenhou os notáveis costumes usados p ela srta. — Estou c ansada mesmo. Marlowe é feito com rendas de Alençon. Se era assim que Rina queria. dirigiu-se para a igre ja. Norma n estava entre os noivos. Norman e Nevada sorriam na tela. confortável e casualmente. conhecido produtor de Hollywood que será seu padrinho. É grande o sufici ente para acomodar e alimentar mil convidados e é o maior do mundo no gênero. enquanto a câmera aproximava a imagem num lindo close do rosto de Rina. Eu tinha mesmo alguns trabalhos para acabar. 16 Já passava de oito horas quando Ilene ouviu a porta do escritório da frente abrir. evidentemente arrumados co m todas as minúcias por um assistente para sorrir e acenar. Rina. Barr y tem importante papel em O renegado e acaba de ser contratada pela Norman Films por sua excelente atuação nesse filme. apalpando os arredondados contorn os das nádegas de Rina. o famoso produtor Bernard B. Norman em homenagem ao famoso casal. Depois abriu uma garrafa térmica e serviu uma xícara de café. Ilene sorriu. — E eis novamente a noiva e o noivo. ao lado de Bernard B. — Não faz mal. Mas o que nem Jonas nem qualquer outra pessoa que assistiu ao filme puderam ver foi a mão esquerda de Bernie Norman escondida atrás das costas de Rina. — E eis a noiva. tomando o braço de Norman. que paravam no meio dos seus grupos. Ela ficou um instante parada. Norman. felizes. E agor a vamos dizer alô a alguns dos mais famosos convida-dos. desenhado especialmente para ela pe la famosa couturière Ilene Gaillard. Ilene empurrou uma mesinha de rodas para junto de Rina. Rina. Houve então uma tomada de Rina jogando o buquê e uma confusão de belas jovens. nos jardins do palacete de Nevada Smith. e Jonas levantou sem sorrir. A mão de Norman estava. Bernie Norman d esembarcou e voltou-se para ajudar Rina a descer. Norman se most rou entre eles. uma limusine preta apareceu e parou em frente à igreja. assim seria. Abriu a geladeira e tiro u uma bandeja de sanduíches. a bela Rina Marlowe. Anne Barry. — Aqui. e a câmera se mo veu para um rápido close. um braço paternalmente nos ombros de Nevada e o outro fo ra de vista. A câmera moveu-se para o close final. Sentia um frio na boca do estômago. amiga íntima da noiva. Os três estavam rindo. O vestido de noiva da srta. A câmera se deslocou pelos jardins à medida que o narrador apresentava astros e jorn alistas famosos. focalizaram a entrada da casa onde Nevada e Rina apareciam. jogando-se no grande sofá e tirando os sapatos. Por que não senta e descansa alguns minutos? Soube no escritório de produção que você che garia tarde. — O buquê foi apanhado pela srta.a. que colocou sobre a mesinha. Um instante depois. por trás da noiva. Saiu. A câmera então mostrou a parte externa da casa de Nevada em Beverly Hills. Você parece cansada. Depois. A bela srta. Ilene — disse Rina. L argou a paleta e limpou no casacão cinzento que vestia as manchas de tinta que tin ha na mão. A noiva prepara-se para jogar seu buquê à multidão de garotas ansio sas.

foi produzido e financiado por Jonas Cord. Bebeu o resto e descansou a cabeça no encos to do sofá. Marcou rapidamente as alterações com o giz. Rina comeu tudo em alguns minutos. não tem uma semana de folga. Havia seis macacões de malha. depois do primeiro gole. do estilo usado pelos acrobatas de circo. vamos experimentar outro.— Está ótimo — disse. entre duas mordidas. — Não — replicou Rina. Segurou o costume enquanto Rina se despia. exclamou: — Acho que não devia ter comido aqueles sanduíches! Ilene examinou o costume. — Quer dizer que todo mundo vai recuperar o dinheiro que empregou? — Acho que sim. O título já dizia tudo: "O RENEGADO" E O MAIOR SUCESSO DE BILHETERIA Durante um ano cheio de queixas e lamentações de exibidores e produtores angustiados pelo poço sem fundo em que parecem estar caindo as receitas da indústria cinematográf ica. — foi Bernie que os encomendou assim. e que ainda dev erá ser exibido em muitos cinemas dos Estados Unidos e do resto do mundo. — Você tem de me ajudar. colocando-o à frente do c orpo. Pegou um exemplar da Variety que estava em cima do sofá e começou displicentemente a folheá-la. — Não há pressa — disse Ilene. Leu a notícia e a mos trou a Ile-ne. um atrás do outro. — Acontece que gosto de trabalhar. Agora. Ilene tirou os olhos do jornal e disse: — Já havia lido. Três filme. Rina desceu do pedestal e voltou as costas para Ilene. Sentiu-se de repente aliviada de pesado fardo. Acabei de me lembrar que tenho de fazer uma série de fotografias de meu desjejum p ara a revista Screen Stars às seis horas da manhã. Espera-s e. Ilene abriu o armário. Mas há um limite para tudo! Rina não respondeu. Contanto que Bernie não roube a todos.. O renegado. soltando baforadas para o alto. disse: — Estão cada vez menores. com base nessas cifras. Há algumas coisas que tenho de fazer. levantando e apagando o cigarro no cinzeiro. — Sinto-me melhor agora — disse ela. que o filme que revelou Rina Marlowe. É um milagre que não tenha tido ainda um colapso. Sabemos com absoluta certeza. é animador encontrar ao menos um raio de sol. renda pe lo menos dez milhões de dólares. Pegou um sanduíche e começou a comer avidamente. mais conhecido pelo vôo record ista de Paris a Los Angeles que fez no ano passado. Um deles ficou preso. jovem milionário do oeste. e na semana que vem vai começar m ais um. — Estou tão cansada que nem tenho fome. menos de um ano após sua estréia.. Rina riu. Rina. Depois tirou um cig arro da caixinha sobre a mesa e o acendeu. Rina começou a desabotoar os colchetes nas costas. — Tenho muito tempo. fiquei com fome — disse. ao mesmo tempo que um pouco de cor voltava a aparecer em suas faces. que as receitas de O renegado no país ultrapassaram nesta semana a marca dos cinco milhões de dólares. Há um ano. Esta desabotoou prontamen te o colchete. cada qual de uma cor. distribuído pela Norman. — Vamos começar logo. Afinal de contas. — Muito bem. d e fontes bem informadas. O pano do macacão se abriu e seus dedos roçaram as costas nuas de Rin . Ao menos Nevada não tinha mais motivo de preocupação. Quando tentou meter-se no macacão apert ado. Ilene. Ilene pegou um deles e. — De repente. Mas alguma coisa chamou sua atenção. — É melhor subir ali no pedestal. — Podemos experimentar os ve stidos logo que eu acabar este cigarro. — Eu também. — E tem todos os motivos para estar. Não consigo sair de dentro desta coisa. Ilene. O filme apresenta também Nevad a Smith. o título do filme é A moça do tr apézio. desde que terminou O renegado. Ilene tornou a servir café. — Já viu isso? Ilene olhou.

— Não! — Rina tremia novamente. — Suba no pedestal — disse Ilene. Não se entendia metade das coisas que os artistas diziam. e. A época dos grandes filmes do oeste estava ter minada. Ilene puxou o costume. Tom Mix procurara outra solução. Vou levá-lo para fazer um pouco de e-xercício. Montou e se dirigiu à pequena pista de exercícios que mandara fazer ao pé da colina at rás da casa. tirando o macacão e entregando-o a Ilene. Viu os bicos dos seios de Rina projetarem-se co mo flores vermelhas num campo de neve. Eram caros demais. Mecanicamente. Levara muitos anos lutando para conseguir aquela posição. — Olhe para mim. O filme era malfei to e o som. Correu as mãos pelo lombo macio e brilhante do anima l. O cavalo esticou a cabeça pela porta e olhou para Nevada com seus o-lhos grandes e inteligentes. Holt estavam todo s em situação semelhante. Ali estava ele com o filme de maior sucesso do ano e ninguém ainda o p rocurara para falar em outro filme. fechou a porta entre os dois quartos para que Rin a soubesse que ele havia saído. N evada parou à frente dele e disse: — Bom dia. com os olhos voltados para o lado. — Não é de admirar. Rina encarou-a por um momento. Já vencera muitas tentações e não deixaria que uma coisa daquela lhe criasse dificu ldades. — Por favor. Fizera uma série de filmes cu rtos para a Universal. de seu corpo. estábulo por estábulo. Mix. O vaqueiro o aguardava com uma caneca de café simples. Como sempre estava lá. Ficaram as sim um instante. então. — Está com frio? — perguntou Ilene. — Acho que terá de me ajudar de novo. Rina deixou o resto do costume cair até a cintura e lutou para descer o macacão pelo s quadris. Nevada acordou às quatro e meia da manhã. — Por que foi casar com ele? Como sempre. I-lene ficou atordoada com a onda de sangue que lhe subiu à cabeça. Hollywood era um mundo realment e estranho. enquanto as mãos de Rina acariciavam o cabelo dela. cujo maior trunfo era o fato de serem rodados em cinco di as. — Não — murmurou. a grande sela. Nada parecia real. Afi-nal. e o deixou ir devagar. Levara um show de vaqueiros para a Europa e estava. afastou os olhos. Recuou como se houvesse tocado num ferro que nte. rapaz. Recu ou um pouco e Rina aconchegou-se em seus braços. ainda pior. relaxando as rédeas. Sentindo o contato firme e quente daquela carne.a. Gibson. rapaz — murmurou. paradas. O vaqueiro trouxe. Meteu o focinho na mão dele à procura do torrão de açúcar que sempre encont rava. Olhou para Ilene. Aproximou-se dela e enterrou o rosto nos pêlos macios entre suas coxas. bem quente e forte. May-nard havia tentado reagir. vestiu-se e desceu para as co cheiras. Era coisa que não faria. o macacão desceu e Ilene percebeu Rina estremecer quando sua mão roçou acidentalmente o macio e sedoso púbis. freou o cavalo. Estendendo a mão para pegar o costume. Os olhos se encontraram e Ilene percebeu o tremor. Pelo menos ele não era o único nessas condições. A nota que havia lido na Variety veio à sua mente. Maynard. . agora mais forte. Nevada a colocou no lombo d o cavalo e apertou bem. Convers aram as coisas de sempre enquanto Nevada engolia o café escaldante. pôde ver as pontas cônicas do telhado. Rina virou lentamente a cabeça. dando um passo para trás. Mais adiante. com o rosto impassível como uma máscara. Depois do café correram as cocheiras. Ilene sentiu lágrimas quentes abrirem caminho em seu rosto. sem dizer palavra. Rina tornou a subir e se voltou para ela. — Por quê? — perguntou impetuosamente. Ajeitou o freio e as rédeas. Nevada havia assistido a um deles. O último era o de Whitey. Como sempre. com coração a querer saltar-lhe do pe ito. — Estamos engordando um pouco. sentindo os ded os arderem sempre que tocavam em Rina. Nevada abriu o portão e entrou. e saiu da cocheira com o anim al. Ilene segurou de repente a mão de Rina. não! Ilene sentiu como se estivesse sonhando. ao sair. pois temos tido muito pouco que fazer ultimamente.

Smith que estará presente? — perguntou o mordomo. havia meses. Não poderia fazê-lo sem prejuízo. Os sorrisos a utomáticos e profissionais se mostraram no rosto de ambos. naquela ocasião. Afinal ela não tinha cu lpa. um dando comida ao outro na boca. O lógico seria livrar-se dela. Um silêncio desagradável se instalou no ambiente depois que os fotógrafos se retiraram . As porcenta gens que recebia com a renda dos brinquedos e das roupas de Nevada Smith tinham diminuído. Sentiu um leve desgosto ass im que pensou isso. — Sim. James lhe falava agora com a mesma distante ceri mônia com que outrora se dirigia a Rina. Nevada sentiu uma ponta de ressentimento. só com a manutenção da casa. — Alô. olhou para o relógio de parede e exclamou: — E melhor eu ir andando. Dir ia tudo a Rina quando ela chegasse do estúdio naquela noite. andavam. Nevada pegou a xícara e Rina levantou o bule de prata para servi-lo. Dera grande resultado para o tal Gene Autry. por fim. De tudo isso lhe sobravam no máximo dois mil dólares por mês. O que é? — A sra. da Metro. Era a pri-meira vez em m uitos meses que Rina o convidava para tomarem o café da manhã juntos. — Felizmente acabou — disse. Smith? Era a voz do mordomo. Achava que era o homem quem deveria pa-gar contas. havia permanente ne-c essidade de vinte empregados. Então era isso. dia e noite. mas ele não aceitara. Só lhe restavam sua parte no show e o rancho onde as divorciadas se hospedavam no Estado de Neva da. Mas logo controlou esse sentimento. Tex R itter estava ainda muito bem na Columbia. não teria pelo menos de pagar comissão a um corretor. — Agora só mais uma foto servindo o café para Nevada e pronto — disse o fotógrafo. pois o interesse dos garotos se voltava para os cowboys. — Alô? Rina o olhou de maneira estranha e tornou a falar ao telefone. quando o telefone perto dela tocou. Não adiantava ficar esperando que alguém o procurasse para novos film es. Trabalhava. fazendo um sucesso louco por lá com seu cavalo Tony. O telefone do poste junto à cerca começou a tocar. Fora o maior erro que cometera na vida. Rina havia se oferecido para entrar com parte das despesas. Nevada. com su-avidade na . Se ele participasse do espetáculo. não lhe seria possível manter a casa sem golpear a fundo seu capital. E ra uma coisa para se pensar Seu próprio show con-tinuava em ação e ainda rendia algum dinheiro. a torrada queimada. A casa comia dinheiro como uma matilha de lobos de vorando um veado desgarrado. Thalberg. Já ia levantar. Para que ela funcionasse normalmente. Era estranha a rapidez com que os criados percebiam quem era a p essoa mais importante da família. Em seguida. Tenho de estar pronta para a maquilagem às sete e meia. James. Mas. Começou a se sentir melhor. As despesas. ou teria de aprender a tocar violão. a renda seria bem melhor. tudo o que os leitores de revistas esperam ver de astros do cinema. também. Era esse o novo western: um cowboy cantor e um violão. Haviam feito toda uma série. mesmo co m os empréstimos de O renegado pagos. — Posso dizer à sra. A fazenda de gado que tinha no Texas havia começado a dar algum lu-cro no começo da crise. Nevada hesitou. e só o fazia por interesse publicitário. Teriam assi m a impressão de uma grande felicidade conjugal. Assim. em seis mil por mês. Ou isso. era fazê-lo manter-se na sela sem cair. — Diga-lhe que irei logo que levar o cavalo para a cocheira. Levou o cavalo até lá. uma ratoeira d e um quarto de milhão. e ele ainda se dava por muito feliz que cobrisse as despesas. — Creio que está espe rando alguns fotógrafos da revista Screen Stars. — Felizmente — repetiu Rina. Nevada olhou para a casa. Sairia em excursão com o show e venderia a casa. já lhe oferecera cento e cinqüenta m il por ela. O único problema. — Sr. Rina preparando os ovos com ba¬con enquanto ele observa va por cima do ombro dela. segundo ouvira de um dos vaqueiros. Tomou a decisão. Smith gostaria que fosse tomar o desjejum com ela no solário.segundo diziam os jornais.

— Fique descansada. O cin ema está sofrendo uma grande transformação. Louella. Não queria que fosse as-sim. Várias pessoas estão interessadas. Além disso. Não. O papel é ótimo. — Parabéns. secamente. Nevada.. se você conseguisse sair dessas malditas cocheiras. — A MGM não quis ceder Clark Gable? — Deixe de conversa! Pegue o telefone. Bernie resolveu ontem incluir você no cast.. Nós nos esforçamos. é verdade. A moça do trapézio. — Bernie tentou falar com você ontem o dia inteiro. — Também peço desculpas.. Por que casou comigo? — Ou você comigo? E nesse momento ambos perceberam a verdade.. Louella — disse ele. que idéia! Não me tirou da cama.. Vou chamá-lo ao telefone e ele lhe dirá tudo pessoalmente. mas não foi possí-vel encontrá-lo. Ouviu a voz doce tão sua conhecida. — Felicidade para vocês dois. — Não pense que a culpa foi toda sua. — Sei perfeitamente o que está acontecendo. — Como? Vai vender Hilltop? — Vou. — Estou falando de nós dois. — Não tive oportunidade! — replicou ele. antes de contar para o mundo inteiro! — disse Rina . — Vai me avisar na hora em que decidir? — Claro! — Não há alguma divergência entre vocês dois? — Ora.. Nevada! Acho ótimo você representar de novo ao lado de sua bela esposa! — Espere um pouco. pelo menos. Louella! Não. — Mais devagar. Acho que numa menor viveremos com mais conforto. — Há muit meses que não nos falamos. Teria de acontecer de qualquer maneira. E isso me deixará ocupado seis meses. rindo. — Não é do cinema que estou falando — disse Rina. Ele acha que só há um homem para o papel . — Alô.. Louella. pudesse perceber o que vai pelo mundo. Louella! Isso é pergunta que se faça a um casal feliz? — Fico muito contente em ouvir isso. — Bom dia. Louel-la quer confirm ação. — A Irving Thalberg? Ouvi dizer que ele está interessado. Sim. — Por quê? — Já combinei fazer uma temporada com meu show. não ac eito esmolas nem dele. nem de você. — Conversa! Fiquei o tempo todo em casa e ele não telefonou uma só vez.. branca de raiva. Tinham casado porque já não havia nada e ntre eles e haviam procurado desesperadamente conservar o que já terminara. — Talvez. Nevada e eu estávamos acab ando de tomar café. comunique-me se houver alguma novidade. você também já deveria ter me contado sobre o filme . Na minha ausência Rina procurará outra casa para nós. Um minuto. mas nenhum de nós tem aquilo de . também zangado. mas nun ca se sabe como as coisas podem acontecer. Vocês dois são pessoas tão mara-vilhosas. Cobriu o fone com a mão e disse apressada a Nevada: — É Louella Parsons. Eu não lhe dei nada.. Nevada desligou o telefone e olhou para Rina. — Não diga tolices. — Desculpe. Não vou fazer o filme.voz. Rina. — Você podia ter conversado comigo.. — O que há? — perguntou Nevada. Você não quis atender o telefone. É claro! Nevada é o homem.. A cons ciência desse fato dissipou a cólera. Em todo caso. apesar de suas resoluções. Você deveria t r casado com alguém capaz de lhe dar uma família.. Rina! E deixe de falar com esse jeito de estrela. nada. vendo que estava para descobrir mais um furo de no tícia. — Não sei. Além disso. A culpa não foi sua. — Não? — perguntou Louella Parsons. Norman de i-diu não tomar Clark Gable emprestado à Metro. lógico. está bem? — Não adianta mesmo. Bem lhe disse que eu estragava a vida de todo mundo e que não seria boa para você.

— Vou ter de correr . E ncontrou o tio Bernie sentado em sua cadeira. Pod e ser Bette Davis? Espere um minuto. Claude Dunbar. Não sou tão tolo assim a ponto de não ver logo que eles também nada enten dem da coisa. Ela está desocupada até setembro. Um perfeito idiota. E só. zan-gado e ofegante. tudo! Mais de do is milhões de dólares os anti-semitas nos roubaram. diz ele. não me faça favores. Então. diz ele. cinemas. os seguradores e os banquei ros se queixam de que os nossos filmes não têm repercussão. — Só poderei requerer o divórcio depois de terminar meu próximo filme — disse Rina. re-quereu o divórcio em Reno. — Finalmente. contrato o diretor que levou a peça ao palco. de Eugene O'Neill. Além do mais. digo eu. Posso telefonar para o irmão dele por um níquel. No dia seguinte se mudou para um hotel e. Manchas solares é o nome da peça. E eu fico no telefone dez minutos. E não como um cão! Não como eu vivo! — O que houve? — tornou a perguntar David. Ela ficou ainda um momento parada e Nevada pôde ver as lágrimas que enchiam seus olh os. Falo a respeito com todos os diretores de Hollywood. — Cento e cinqüenta mil dólares já gastos e nada de produção. salvo quanto às formalidades legais. Tudo calmo e tranqüilo. Rina nunca mais voltou àquela casa. Come e dorme. Telefono então para Louie e peç ue me empreste Greta Garbo. tudo acabou. em voz baixa.que o outro precisa. calmamente. Foi até a janela e a viu sair correndo e entrar no carro. E aqui estou eu com uma li-gação interurbana em Nova Iorque. Tenho vontade de dizer-lhe q ue largue o telefone. Em vista disso. Corro para Nova Iorque a fim de dar explicações. Desisto dele e telefono para Jack Warner. O sindicato ameaça fazer uma greve nos cinemas. É uma coisa tão artística que nem eu entendo o que quer dizer. Calmam ente. Posso tê-la por cento e cinqüenta mil dólares . O máximo que ela está recebendo . Por cento e cinqüenta mil. escritórios. 17 David ouviu a porta do gabinete do tio bater violentamente. precisamos dela para o nosso próprio prestígio. E foi assim que. parou e olhou para ele: — Ainda é meu amigo? — Serei sempre seu amigo. Nada de preocupações. noventa e cinco dólares depois. entregou-o ao tio e perguntou: — O que houve? Norman tomou os dois comprimidos e olhou para David. Erramos. — Aquele camelô pensa que não sei o que ele esta fazendo? Está é tele-fonando para o irmão H arry em Nova Iorque. — Como se eu já não tivesse de sobra com que me afligir. Levantou e foi até lá. úlceras. — Posso esperar — replicou ele. David encheu um copo de água. — Meu Deus! Estou atrasada! — exclamou Rina. por incompatibilidade. vermelho. Compro os direitos do maio r sucesso artístico da Broadway. Só que está ganhando cinqüenta mil dólares. três meses depois. Seu dinheiro não chega para isso . Chegando à porta. irritações. recebo da Europa a notícia de que Hitler confiscou todos os nossos bens na Alemanha. Louie vai para casa. olhando para o relógio. que está pertinho de mim. ten tando tirar alguns comprimidos do vidro que tinha nas mãos. Depois. que tomou o caminho do e stúdio. Jack volta ao telefone. E assim que se deve viver. — Não me incomodarei se você quiser requerer antes. Ela vai fazer Anna Christie. Ele ri na minha cara. — Agora fico com essa bomba artística nas mãos. Diz que estou com sorte. seu tio Louie? David sabia que nada devia dizer e ficou esperando. Passou a noite no apartamento de Ilene. — Por que não me meti no negócio de roupas feitas com meu irmão. Consigo fazer um acordo para que ao menos não se fechem os cinemas. agora os a-cionistas acham qu e estamos perdendo dinheiro demais. e ele telefonando para Harry. À noite. Norman continuou: — Cinqüenta a cem ternos por dia.

— Espere um pouco. O que acha disso? E eu só estava procur ando acalmá-la. Os costumes são de fechar o comércio! E sabe o que f oi que ela me disse? — O quê? — perguntou David. — Que amigo? — Você sabe. Scheherazade. nad a feito. Por menos de cento e vinte e cinco. digo eu. Ah. Ficam todos muito satisfeitos. Jonas Cord. Sem gravata e de sapatos de tênis. Negócio fechado. Além disso. — O que eu posso fazer. — O que vai fazer? — perguntou David. diz ele. pensei c omigo mesmo. O aviador. David? Vou dar o papel a ela. diz ele. talvez nem isso. espetacular. de Hollywood. Se ela nos abandonar. desde que não os prejudicasse. Ela trepa com quase todo mundo em Hollywood e tem coragem de me fa lar desse jeito! David também tinha ouvido falar muito dela. então setenta e cinco. Chego p erto dele e digo: Alô. — Não acha que isso é atrapalhação demais para qualquer pessoa? David assentiu com a cabeça. digo eu. ouvir Rina dizer isso para mim! — murmur ou Bernie. digo eu. ele pode ser útil. mas ele não. Mas perguntou: — Como vai ele? — O mesmo. diz ele. perder emos duas vezes mais do que estamos per-dendo. Li nos jornais que ele vai fazer outro filme. — Está bem — disse David. vamos ter prestígio. — Você concorda então que minhas atrapalhações já passavam da conta? Pois bem. Ele e Cord nunca haviam trocado uma só palavr a. batendo a porta. ela pa recera ter perdido todo o controle. Logo que se separara de Nevada. Qualquer outra pessoa seria posta para fora do Waldorf. David ficou satisfeito de que o tio ainda se lembrasse de uma conversa que tinha m tido sobre Cord alguns anos antes. Isso mostra que para os goyim não há nada como o dinheiro. Eu digo cinqüenta mil. Es-tava com a barba . digo eu. Jonas. Digo: Por que está tão nervosa . dão-me parabéns e volto para Hollywood. Você irá asa dela hoje à tarde e falará com ela. Sabe quem foi que encontrei no Waldorf na última noite que passei em Nova Iorque? Seu amigo. Quem sabe. Desligo o telefone. Não quero que ela pense que eu estou me curvan do à sua vontade. Mas. Paga-ríamos um bocado de contas com o dinheiro dele. a de-senhista de costumes. Tenho uma idéia melhor. você está positivamen te linda hoje. — Conversou com ele? — Claro que sim. Falava-se dela até com Ilen e Gaillard. com uma voz cheia de profunda tristeza. levantando para voltar ao seu gabinete.por filme é trinta. — Tire a mão de meus peitos e fiq ue sabendo que. sim. — Eram duas horas da madrugada e ele estava de braço dado com duas pequenas. Pegou um charuto. querida? Isto não é para uma artista como você. Está bem. — Volto então à Wall Street e digo aos banqueiros que agora. sim. uma bomba dessa! Tenho um papel para você. — Mas pela cara dele não posso saber se ele lembra de mim ou não. se eu não tiver esse papel. o maluco. Fechado. diz el e. Não. Ela me agradece ao menos com um alô? Não! Mete-me um número do Repórter d iante da cara e pergunta: Isto é verdade? — Pego o jornal e vejo a notícia de Bette Davis no filme. havi-am fechado os olhos. Ele me olha como se não me conhecesse. Não se lembra de mim?. — Quanto você quer pagar? pergunta ele. ele pode ter outro golpe de sorte. O filme vai ser tão artístico que duvido até que se con-siga fazer uma só pessoa entrar n o cinema. você pode meter Scheherazade dentro dess e traseiro gordo! E saiu. meu bem. Paguei cento e trinta e cinco dólares por um telefonema em que só falei dois minutos . — Depois de tudo o que tenho feito por ela. Duvidava até de que Cord tivesse conhecimento de sua existência. Bernie Norman. a trinta e cinco mil. Parece um vagabundo. Todo mundo sabia que as festas que dava em s ua casa nova em Beverly Hills eram verdadeiras orgias. quem é que eu ncontro à minha espera senão Rina Marlowe? Rina. acendeu-o e disse: — Vou telefonar para ela hoje à tarde e dar a notícia. Bernie perdeu o fôlego de repente e bebeu o resto da água do copo. na situação em que estamos . Nem pense nisso. como nada disso tinha sido divulgado nos jornais ou revistas. Não sei como ele se arranja dessa maneira. O que ela fazia particularme nte só interessava a ela.

— Não serve. Agora. diz ele. pergunta ele. Minhas despesas gerais são de vinte e cinco por cento. q ue está muito sério. Aprovarão. — A srta. Dizendo isso. diz ele. Não demoro. — As contas dele estão certas. Do jeito que está o cinema. De Havilland. contrato-a para a Cord Explosiv es. David o seguiu escada acima e até os fundos da casa. Ele senta na cadeira e eu noto. digo. Depois. Marlowe está no solári o. distribuição. Eu. O teto e as paredes eram inteiramente de vidro. Havia cadeiras cobertas de lona espalhadas por toda parte e . Olho para a placa. O renegado contribuiu com vinte e cinco por cento de sua receita bruta. Viu o bar num canto. Procurei-o no dia seguinte antes de tomar o trem. você não pode deixar de fazer isso. por favor. Olho para ele cheio de surpresa e per-gunto: Tem um escritório aqui no Wald orf? Tenho escritório em todos os hotéis dos Estados Unidos. me pega pelo braço e diz: Vamos para o meu esc ritório. com todas as despesas deduzidas da receita bruta antes de calcular a s porcentagens de distribuição. O mordomo abriu a porta e David apertou um pouco os olhos. vi que ele não estava mais lá. — O que está fazendo agora?. Quando acabei. Quero falar sobre esse novo film e que soube que está fazendo. digo eu. diz ele. Não se aplicam a mim. fique sabendo. De acordo com seu relatório anual. — Não posso fazer isso. sim. É um homem difícil. digo eu. Isso é impossível!. sei de su a sorte e sou capaz de tentar mais uma vez. diz ele. senhor — disse o mordomo. Olho para ele. Quais as condições que está procurando? El e olha para mim e diz: Despesas gerais de estúdio. Deduza isso de sua receita br uta e verá que as despesas gerais foram a quase trinta e seis por cento. no mínimo. O mesmo s e aplica no estúdio. digo eu. Comprei uns cinqüenta aviões ve-lhos: Spad. ning uém quer mais saber de filmes de guerra. levantando. mas não posso dizer nada enquanto não souber so bre o que é o filme. Ele se volta para as meninas e diz: Fiquem esperando aqui. diz ele. Não me arrisco mais a perdê-las como quando você contratou a tal Marlowe. dez por cento. Tomamos um ele vador e ele diz: Me-zanino. nada. para minha surpresa. CAVALHEIROS. Meu escritório. Ninguém sabia dele e até o escritório del e não sabia de sua presença em Nova Iorque. — Sorri como se nada tivesse sentido e disse: No nosso negócio é preciso andar depress a senão se fica para trás. — O sr. um filme de guerra. Simples. Não serve. Bem pensado. Depende de onde puder encon trar as melhores condições. — Ora. as porcentagens comuns.por fazer! Estas duas moças são artistas. nada de sorrisos. Os diretores da companhia nunca a-provarão. quando gosto de uma pequena. Faz uma pausa com um sorriso e diz: Por que não aproveita para urinar. Espere mais um pouco e verá. Numa das extremidades havia um biombo alto. Ele dá um riso irônico enquanto abr e a porta. quinze por cento. deu-me tal pancada de brincadeira no ombro que fiquei duas horas sem poder levantar o braço. senhora. Woolf está aqui. e nada. já que está aqui? Fiquei tão surpreso que me dir igi para um dos mictórios. como dizem vocês. suas despesas gerais foram em média nest es últimos anos de vinte e um por cento. — Bem lhe disse que ele aprenderia depressa — disse David ao tio. Nieuport. Quero um pouco do caldo. Saímos pelo corredor e chegamos a uma porta . portanto. Mas isso são águas passadas. Quero apenas fazer umas contas bem simples. É o volume que regula as porcentagens e sou eu que entro com o volume. Fokker. — Diga-lhe que entre — gritou Rina lá de dentro. diz ele. senão você as contratará. Não vou dizer o nome delas. Fizemos um bom serviço no seu primeiro filme e acho qu e devemos conversar. Dentro tudo está branco e vazio. A voz de Rina fez-se ouvir de lá: — Sirva-se de um drinque aí no bar. Há uma mesa e uma cadeira para o servente. ofuscado pelo brilhan te sol da Califórnia. diz ele. Mas não vou discutir com você. É sobre os aviadores na Guerra Mundial. — Acha que não sei disso? Mas será que ele é tão pobre que eu tenha de dar a ele o pão de mi nha própria boca? — Tenha a bondade de me seguir. Depois de Nada de novo no front. Mas já tive uma experiência com você. — Ainda não decidi onde vou distribuir o filme. digo eu. O mordomo parou à frente de uma porta e bateu. Durante esse período.

depois de provar. Tenho certeza de que ela se sairia muito bem. Rina bebeu e brindou: — Viva. David! — Viva! Ela bebeu metade do martini de um gole e levou David para um grupo de cadeiras. — Obrigado. Por que não espera para beber depois da conversa? — Deixe de ser mandona e faça o drinque! Sabe. Rina estava saindo de trás do biombo. — Posso apontar-lhe pelo menos sessenta milhões d . — Diga a seu tio que não usarei sutiã na próxima v z que for ao gabinete dele. — Está bem — disse ela. de repente. rindo. Ela precisaria de um pouco mais que ma ssagens para não engordar se continuasse a beber daquele jeito. — Como é? — disse Rina. — Quem não quer? — perguntou ele. amarrando um roupão branco. David viu-lhe de relance os seios fartos. — Olá. David. com uma nota de satisfação na voz. — Faça outro martini para mim — disse Rina. — Bela casa a sua. Rina. — Sente-se — sugeriu ela. Não pode. — Meu martini está pronto? — perguntou Rina atrás dele. rindo. O cab elo mechado estava cuidadosamente escovado para trás. Você devia "falar com seu tio para deixá-la fazer uma experiência no de partamento de arte. — O mal de Ilene é que é modesta demais. Procur a protegê-la. É uma das pessoas mais t lentosas que já conheci. de trás do biombo. belicosamente. Além disso. — Olá. — O velho patife resolveu me dar o papel no filme? David respondeu prontamente: — Você tem de compreender a posição de meu tio. — Mais um pouco. com voz meio ressentida. Deixe que eu o sirvo. — Eu mesma me protejo. Ilene tem um senso de col orido admirável. Martini para mim é como se fosse água. Pouco depois. — Tenho certeza de que ele ficará muito contente — replicou David. Ilene olhou para David. — O que você quer? — Uísque. Rina. — Acho que ele quer é trepar comigo — disse ela. — Estou certa de que David não veio até aqui para falar a meu respeito. água e um pouquinho de gelo. — Ótimo — disse ela. David. você é uma estrela nata. ao mesmo tempo que se sentava também. — Ótimo! — respondeu ele. Rina. David virou-se. Você é o elemento mais valioso da comp anhia. portanto. Onde está meu drinque. Ilene? — Escute — disse Ilene. — Olá. Ilene parece não compreender isso. muito ativa atrás do bar. — O que acontece é que ele acha que não sou capaz de representar bem e que eu só presto para aparecer tão nua quanto possível. Entregou o copo a Ilene. — Nada disso! — Rina exclamou. Vi slumbrou uma parte da coxa enquanto ela se movia e calculou que ela estava compl etamente nua dentro do roupão. — É agradável. meu pai me dava martinis quand o eu ainda era uma garotinha. Também tenho toda confiança nela. — Rina — disse Ilene. Estava com uma camisa branca de mangas arre gaçadas e com slacks de corte masculino bem apertados nos estreitos quadris. David. tomando mais um gole.um grande tapete branco que cobria quase todo o chão. — Está vendo? — disse Rina. estendeu o copo para ele : — Veja se está bom. Mas o que quero saber é se o papel é meu ou não? — É seu. Ilene Gaillard saiu de trás do biombo. censurá-lo se ele hesita em incluí-la num filme que quase c ertamen-te será um abacaxi. Ilene e eu nos divertimos muito mobiliando-a. — Pronto — disse Ilene. — David veio evidentemente tratar de negócios. É só. Largou o cop o de uísque e levantou. Ilene. — Ele a considera uma excelente atriz. — Vou falar com o tio Bernie.

nessa ordem. Então logo pensei em Rina. Você é diretor. pegando eficientemente o telefone. Dê uma oportunidade à moça. gaguejando um pouco. Naquela tarde. Mas será que ela sabe representar? — Não há melhor atriz em Hollywood. Tinha até uma e spécie de encanto animal que agradava a certas platéias. Ficou vermelho e. — Sr. Muitas falas e pouquíssima ação. Mas foi a direção q ue imprimiu a Manchas solares. Claude Dunbar entrou num cinema para ve r o mais recente filme da atriz. — Pode me dizer onde mora a srta. para dissimular sua confusão. — Vá lá para baixo. apesar de a peça já estar há um ano em cartaz na Bro adway. sr. Depois disso. Assim. dirigiu-se à moça sentada à mesa mais próx ima da porta. Dunbar. Vá à casa dela ho-je à tarde com o script veja pessoalmente. — Que tal a atriz que fez o papel no palco? — É uma desconhecida. Mas não era o tipo exigido pe lo enredo da peça. — Posso fazer melhor que isso. se ainda achar que não serve para o papel. — Rina Marlowe? — exclamou em conversa com Norman. Rina nunca fez um filme que não rendesse muito dinhe iro. — Mas pensei que seria Bette Davis. Ilene — disse Rina. Mas só depois de chegar à Califórnia ficou sabendo quem ia desempenhar o papel princ ipal. sr. enquanto as três secretárias o olhavam espantadas. David viu de relance os olhos de Ilene quando ela passou correndo por ele e se irigiu para a porta. Mas Norman já o tomara pelo braço levando-o até a porta. Dunbar ficou tão surpreso quando Nor-man telefonou dizendo que havia compra do os direitos da peça e convi-dando-o para dirigir o filme. sem desviar os olhos dele. David a encarou. peça em tudo medíocre. antes de ir à casa de Rina. mas acabava sucumbindo à lascívia da moça. Essa sua peça é muito importante. . nunca se esqueceria do abismo e dor e angústia que viu naqueles olhos. Quem disse? Eu mesma. trabalhe com ela um pouco. que o levou ao ponto culminant e de sua carreira. Claude Dunbar só amava três coisas na vi-da: sua mãe. Você nunca me passou uma cantada. — Não há outra. O produtor olhou fixamente e disse em tom confidencial: — A Warner me passou a perna. como sempre acontec ia quando se sentia confuso. a si me smo e ao teatro. A peça se desenvolve com um conflito entre os dois homens. se abriu. e uma jovem amnésica que um dia apareceu no acampamento d os dois. Dunbar. — Vá ver se onto. Mesmo que vivesse cem anos. — Não duvido. o almoço já es d d 18 Até conhecer Rina Marlowe. desamarrando o cinto do roupão. O produtor havia se livrado dele com tanta eficiência que ele só percebeu quando se viu diante da porta fechada. sr. O mais moço tent ava proteger a moça da lascívia do mais velho. Está com coragem agora? — perguntou ela.e — — — — — homens que pensam nisso de vez em quando.. — Seja justo. Era uma peça com apenas três personagens: dois garimpeiros que vivi-am isolados à marg em de um grande deserto. Temos de protegê-la com toda bilhe teria que pudermos conseguir. Você não está entre eles. Vou providenciar para que um carro o le ve até lá. Era indiscutível que se tratava de uma mulher belíssima. Tomara que um dia eu tenha coragem suficiente.. Ficou tão surpreso que nem pôde falar. que mostrando o corpo nu. Marlowe? E como se chega lá? A secretária sorriu. Norman. O filme lhe provocou um sentimento misto de fas cinação e horror. O seu Hamlet em trajes modernos fora a mais aplaud ida produção shakespeariana já apre-sentada num teatro de Nova Iorque. que aceitou sem hesit ação. Norman? — perguntou Dunbar. voltaremos a conversar.

mamãe. vestindo um manto preto que lhe cobria o corpo dos pés ao pescoço.A moça da peça era melancólica. ele lhe prometeu Bett e Davis e você não pode aceitar como substituta essa loura insignificante. Franziu a testa e continuou: — Ponha-se no lugar da moça e fale mais ou menos assim: "Não consigo lembrar o meu nom e. Tenho ouvido falar muito no senhor. E só no final a p eça revelava que a raiz de seu pavor era sua tendência à devassidão. E isso o que quero descobrir. Marlowe. não é mesmo? — Sim. Para todos os efeitos. Norman que tem uma reputação a zelar. Não havia nenhuma sutileza em sua maneira de rep resentar. Rina se mostrava excitante e audaciosa. — Rina Marlowe. é isso mesmo. — Do contrário. telefonou para a mãe. Mas não sei até que ponto posso ir como atriz. — Mas eu já disse ao sr. srta. O cabelo platinado estava penteado para trás e amarrado co m uma fita na nuca. — Está apenas dizendo as palavras. Parece que minha memória está voltando agora! Acho que já sei! Meu nome é Mary. — Claro que sim — Rina sorriu pela primeira vez. Acho que meu nome é Mary". Rina entrou na sala onde ele a esperava. — Lembra-se da primeira fala da moça quando chega ao acampamento? — Lembro. sua aparência deixava transparecer os sentimentos que a atormentavam. e não era possível desviar os olho s dela. Dunbar — disse. por quê? Sua posição no cinema já é tão boa.. mamãe? — Quem? — perguntou ela. — Está bem. completando o ritual de despedida. Se não estiver satisfeito. — Sr. segurando sua mão. onde o carro iria pegá-lo. vamos deixar de rodeios. — Srta. com sua calma habitual. — Diga ao sr. Enquanto tentava recuperar a memória. — Sabe quem querem incluir no filme. Sim. — Leia para mim — pediu Claude. Mas nunca se esqueça de que o mais importante de tudo é sua integ ridade artística. com a mão es-tendida. volte para casa. Deve ser um nome conhecido. Afinal. Norman me disse hoje que não puderam conseguir Bette Davis. introvertida. — Amo você também. — Você só tem uma coisa a fazer: arrumar as malas e voltar para casa — disse a mãe firmeme nte. Mas era inegável a vitalidade que dela emanava. Ela era torturada e consumida pelo calor do deserto. — Não! — É verdade. Ela então disse. Saiu do cinema e foi para o hotel. sorrindo. Rina o encarou em silêncio. Pôs as mãos no console. Ele a olhou um momento e perguntou: — Já leu o script? Ela confirmou com um gesto. Como era seu costume sempre que se sentia perturbado. Ainda que seja um nome muito comum na igreja e que eu o tenha pronunciado até em minhas orações. Marlowe. — Escute. sou uma atriz. e o senhor é o único diretor que pode me ajudar. Ele me assegurou que s e eu não ficasse satisfeito com ela arranjaria outra estrela. de cos . Levantou e foi até a lareira. apesar disso. Eu amo você. Acho que meu nome é Mary. sem abrir o sc ript: — Meu nome é Mary. — Estava ansiosa por conhecê-lo. é isso mesmo .. aproximando-se dele sem sorrir. Quando aparecia na tela. Surpreendeu-se com o vigor que os dedos de Rina transmitiam. — Também tenho ouvido falar muito na sua pessoa — disse ele. Tome cuidado — disse ela. Marlowe — respondeu ele. O sr. Norman que falaria com Rina Marlowe. Sim. mamãe. amedrontada. meu filho. Não usava nenhuma ma-quilagem. quem estivesse em cena ficava em plano secundário. passando-lhe o script. mas não está sentindo o que significam . Tenho sido chamada por esse no me a minha vida toda e. Mas devia lembrar. Na tela. Não está sentindo o esforço que representa para a moça tentar lembrar seu próprio nome. tendo consci-ência de sua sexuali dade e insinuando-a para a platéia. é difícil para mim lembrá-lo. como estaria aqui logo em seu primeiro dia de Hollywood? Deve estar curioso para saber por que quero tr abalhar em Manchas solares. Despertava o desejo dos homens não por sua aparência física mas pelo simples fato de ser uma mulher. srta. — Sim.

Isso porque o diretor e xigiu trinta dias para ensaiar Rina no papel. Bernie Norman apareceu no set no último dia da filmagem. Para começar. Felizmente era a última cena. quando a m oça abre a porta de manhã e vê os dois homens mortos. Afinal não era dele o dinheiro que estava em jogo. — Nesta cena. a se abrir. Sim-ples. Não havia nem som para complicar as c oisas. conferindo-as com fotografias anteriores d a cena. Norman só cedeu quando Rina disse qu e não começaria a trabalhar enquanto Claude não estivesse satisfeito. chorar um pouco e seguir pelo deserto afora. deveria te r mandado examinar a cabeça quando se deixara convencer a comprar aquela história. é isso! Acho que meu nome é Mary. — Chore! — gritou Dunbar. e vir ou-se para ele. O diretor-assistente e a script girl conferiram de novo as p osições e saíram do set. Um diretor-assistente e a script girl verificaram rapidamente as posições. — Corta! — gritou Dunbar. Seu rosto ficou subitamente sombrio e aparentando cansaço. Ela tinha apenas de olhar para os dois homens. pensou Norman. A grande câmara começou a se aproximar para um close. Nada de arranjos o u remendos. — Câmara! . como se fossem ditas no palco. Rina levantou lentamente a cab eça e olhou para a câmara. pouco a pouco. fechando a porta. Outro instante. Um instante se passou. Nada poderia sair errado. O mais belo par de seios do cinem a. Ela murmurou com voz ro uca: — Meu nome é Mary. Outra exigência dizia respeito ao som: tinha de ser som perfeito em todas as cenas. Mas não: o vestido a cobr ia até o pescoço como se fosse no meio do inverno. Rina apareceu. Um milhão e meio jogados fora. A produção do filme passara três meses do prazo. Balançou a cabeça contrafeito enquanto abria a porta e caminhava para o estúdio. — Todos em seus lugares! Os dois atores se estenderam diante da cabana. Claude Dunbar sentiu um arrepio violento pelo corpo. T udo nela era absoluta insensatez. O orçament o pouco interessava. O velho fora assassinado pelo ma is moço. que depois se matara também ao compreender a que abismo a moça o levara. Puxou de repente a fita. e tudo estaria terminad o. Norman e spremeu os olhos ao chegar à área mais iluminada do estúdio. Nada aconteceu. Nisso foram gast os cento e cinqüenta mil dólares só de salários. e fizeram algumas correções. Afinal. Dunbar havia insistido em fazer tudo como fora feito no teatro. Aquilo era fácil. A porta da cabana começou. passando por cima de um dos homens prostrados para chegar até Rina. e Dunbar disse calmamente: — Ação! Norman sorriu para si mesmo. Mais cinqüenta mil se foram nessa decisão. Norman ficou irritado. "Por que o patife iria se preocupar com isso?". — Chore! Vamos! Rina piscou os olhos. Sim. Dirigiu-se para o set. Pior ainda. Depois. Era de esperar que aquele bandido ao menos lhe rasgasse u m pouco o vestido. A mão de um ator estava em posição errada. e olho u para os dois homens. o início das filmagens havia sido adiado um mês. Dunbar voltou então para seu lugar ao lado da câmara. Norman viu Dunbar dar o sinal.tas para ele. Ele deveria ter tido juízo basta nte para não contratar aquele sujeito para dirigir o filme. Era a que se passava na frente da cabana. você tem de chorar. deixando o cabelo cair até os ombros. Todas as palavras perfeitas. Pouco se importava com o número de tomadas que fossem necessárias. havia uma mancha no queixo do ou-tro. Era o que sempre sentia qua ndo encontrava no teatro alguma coisa realmente grandiosa. Dez minutos. e Dunbar os escondia daquele jeito. — Câmara! O filme começou a ser rodado. lembra-se? Ela se limitou a concordar com um gesto. Rina tornou a entrar na cabana . aquilo se passava no deserto.

— Corta! — gritou Dunbar. Pois bem. lentamente. Todos estavam o lhando para Rina. Lágrimas enchem seus olhos. Norman correu os olhos em volta. — Assim. ninguém era capaz de perceber a diferença. Sentiu os olhos molhados. Estão mortos. Começa a olhar para cima e a pensar. não é? Então prove que é! Represente! Deu-lhe as costas e afastou-se.. — Nada de maquilagem! — repetiu seu assistente. Talvez não os amasse.— Cena 317. . Não é porque você tenha pena deles ou de você mesma. indo de novo para o palco. Dez mil dólares p or dia era o que aquilo estava custando. você se volta e olha para o dese rto. inspirando compaixão mesmo com a forma altiva e ereta do corpo. Dunbar calou-se enquanto Rina começava a caminhada. Norman cobriu o rosto com as mãos. que come-çou a se aproximar. Creio que é me-lhor usarmos maquilagem . alguém a espera. Agora. olhando intensamente enquanto Rina saía da cabana. utilizou-se deles. mas o bastante para mostrar que você é uma mulher e não um animal. mas v iveu com eles. Dois homens estão mortos por sua causa e eu só quero uma lagrimazinha de nada. len-tamente. — Chore! Rina olhou para a câmara que se aproximava. o filho que você não teve. quase num sussurro. — Então vamos ver! Ele voltou para seu lugar ao lado da câmara e se inclinou um pouco para a frente. Vo cê encontrará essa pessoa lá. tomada 2 — disse o homem da placa. Prime iro para Paul. alguém que a fará recobrar a memória. as lágrimas falsas davam ainda melhor foto grafia. — Faça aparecer as lágrimas! Norman concordou intimamente. a estendidos na areia. — Podem copiar esta! E caiu na cadeira. Além disso. Você olha para o chão e observa os dois corpos. Não vou destruir a unidade e in-tegridade deste filme justamente na última cena só por sua ineficiência. a memória que você perdeu e nunca recuperou. As lágrimas param e seus olhos ficam secos. Por uma f ração de segundo o véu se levanta. se você ainda tem uma alma. Ali. Então saberá quem realmente é. saia pela porta. — Nada de maquilagem! — gritou Dunbar. já fiz tudo o que me era possíve l. Deveria ter tido mais juízo. Dessa vez.. afastou-se de repente para o lado. E nada aconteceu. exausto. Ficou ali com os olhos parados e secos e. — Desculpe. Quer ser uma atriz. Claude — disse Rina —. — Agora! — disse Dunbar. — As lágrimas chegaram mas o véu desceu de novo e você não pode saber por que está chorando.. É porque quero ver se ainda há alguma coisa dentro de você. Tinham esquecido tudo o mais. — Maquilagem! — gritou furioso o diretor-assistente. — Corta! — gritou Dunbar. Você queria provar que é uma atriz. rolavam pelas faces como esferas de rolamento bem lubrificadas. saindo logo da frente da câmara. depois para Joseph. Prendeu a respiração quando se colocou um pou co para o lado. mas não consigo. Não adiantava desperdiçar dinheiro. correndo furiosamente para a cena. — Suspendam as lágrimas! Dunbar olhou para Rina e disse: — Esta é a última cena do filme. Lágrimas de verdade. E você começa a caminhar pelo de to lentamente.. então.. E você vê seu pai. Compre-endeu? Rina fez que sim. Tenho trabalhado dia e noite por uma ra zão apenas. — Ação! Tudo aconteceu exatamente como da outra vez até o momento em que Rina olhou para a câmara. na solidão das areias. pois a câmara estava obstruindo parte da cena. Talvez por um momento um deles lhe tenha trazi do um fragmento de sua memória. assim. Na tela. Dunbar ainda falava com Rina. Até a el e aquela maldita cena havia emocionado! — Corta! — gritou Dunbar com voz rouca e vitoriosa.. Não muito. Claude — suplicou ela. — Ação! O produtor olhou a cena por entre os dedos. Rina estava chorand o. — Que diabo de mulher é você? — Por favor. seu irmão. Olhou para os homens e depois p ara a câmara. — Estamos fazendo esse filme há cinco meses. Vê a arma na mão de Joseph e compreende o que aco nteceu. Dunbar estava falando com Rina em voz baixa. As mãos de Norman desceram-lhe do rosto.

Não era preciso.O palco se transformou num pandemônio. que a mãe havia decorado para ele. se sent ia repousado e protegido. às vezes durante semanas a fio. Ali. — Ilene! De algum lugar na multidão. — Faça o que Rina está dizendo. — Mas está que não se agüenta em pé! — exclamou. Ele deu um sorriso cansado. A mãe o conhecia. Dunbar. Sentou-se no sofá ao lado do filho e fez a cabeça dele descansar em seu ombro. Norman bateu no ombro de Dunbar. Claude nada disse. Nunca fora muito forte. Mas não se preocupe. Não era necessário dizer coisa alguma quand o ele se sentia perturbado e confuso. sessenta e três anos de idade e forte como um rochedo. sentado em sua cadeira rodeado pela equipe da câmara e pelos seus assistentes. muito agitado. Eu avisei que seria loucura você casar com ela. — Lá também há telefones. ela havia se m udado para a Califórnia logo após o casamento de Claude com Rina. foi como se ele estivesse muito longe. Instintivamente. voltando a tratá-la com cerimônia agora que o trabalho estava terminado. Marlowe — elogiou. srta. Norman correu para o palco e apertou. mas foi exatamente isso o que aconteceu. — Telefone para James e diga-lhe que prepare o quarto de hóspedes para o sr. É só repousar um pouco — murmurou Dunbar. no ambiente agradável de seu quarto. sempre frágil e franzino. seus olhos se clarearam. — Acha mesmo? — E eu diria isso se não fosse verdade. — Mas. — Eu ficava só pensando quanto tempo você levaria para descobrir a verdade sobre ela. Todo mundo batia palmas e até os veteranos da equipe riam de alegria. a mão de Rina. Ela se voltou e viu Dunbar aproximando-se lentamente. e voltou-se novamente para Norman. Não me espantaria se ambos ganhassem prêmios da Academia! Norman não acreditava nisso quando falou. Olhou para Dunbar. ao contrário. Toda a . Nessas ocasiões a mãe tomava todas as pro-vidências. Encontrara a velha segurança nos braços da mãe. quando voltava da escola perseguido e maltrata do pelos outros garotos. Precisa descansar. Tudo o que desejava vinha facilmente às suas mãos. — Acha então que posso deixá-lo ir para um quarto de hotel no estado em que se encontr a? — Mas prometi a mamãe que telefonaria para ela no momento em que terminasse o filme. com as linhas de exaustão ap arecendo no rosto magro e emaciado de homem de quarenta anos. Ela lhe servia comida. Ela sabia. — Você foi admirável. Quase sempre Claude achava que eram esses os momentos mais felizes de sua vida. Ilene apareceu quase no mesmo instante. — Aquela mulher é um monstro — disse ela calmamente. — É uma grande atriz. Por um momento. Além disso. Agora. menina! Magnífica! Rina olhou para ele. 19 Nelia Dunbar. Então. trazia jor nais. tomando a mão de Dunbar. Rina sentiu uma nova vitalidade estuar em seu íntimo. Tinh a sido sempre assim. Levava-o para a cama e cuidava ternamente dele. srta. — Isso é fácil de curar. não quero absolutamente dar-lhe esse incômod o. — Foi uma honra trabalhar a seu lado. menina? — perguntou ele sorrindo. atravessou a sala e olhou para o filho. Marlowe — protestou o diretor —. Não se esqueça de que ainda tem dez semanas de edição do filme pela frente. sorrindo. a grande t ensão a que sua atividade criativa o submetia o deixava exausto e mais fraco ainda . descanse du-rante algumas semanas enquanto eu preparo tudo p ara a filmagem de Scheherazade. — Muito obrigada — disse. e lia para ele os livros que ambos amavam. pois fez um filme ex celente. — Acho que não dormi direi uma noite desde que o filme começou. — Deixe que eu resolvo isso — disse Rina confidencialmente. Dunbar. — Pode telefonar de minha casa — disse Rina. — Você me conhec e muito bem. Desde criança.

pois tinha um almoço marcado no estúdio. — Não se preocupe. sentindo aqueles dedos estranhos. — Uísque e água quente — pediu ao garçom. levando uma bandeja com uma garrafa de champ anhe gelado e duas taças. Começara a chuviscar um pouco antes de ele chegar. aplicando e limpando a maquilagem até ficar exatamente como ela queria. O bar estava escuro quando ele entrou. estendido ali na cama. tam-bém estava olhando para ele. eu nem sei o que falar a um advogado. Claude olhou para a caneca. a mãe dissera as palavras mágicas. Não o chamaria mais de meio homem. o que mais o incomodava. Mas. Fez um gesto chamando o garçom. Chegava no mínimo com uma hora de atraso. Ficou um momento como que paralisado. e tudo indic ava que ia ser uma daquelas tardes desagradáveis e friorentas tão incomuns na ensola rada Califórnia.sordidez e mesquinharia do mundo ficavam lá fora. perto da janela. ela estava sentada em frente à penteadeira. Não tinha mais forças para isso. Claude sentou em um banco do bar. Claude notou que o outro freguês. mas ninguém mais parecia incomod ar-se com isso. Trataria então do cabelo. mas não sentiam falta de coisa alguma. po is morrera quando Claude tinha apenas cinco anos. Não eram ricos. Tom aria um drinque enquanto esperava. tomou um gole e sentiu o calor encher-lhe o estômago. Havia tempo. Estava começando a se sentir melhor. as cadeiras ainda colocadas sobre as mesa s. Ela não tardaria a sair. — Mas. Sentiu arrepios e teve re-ceio de que fosse ficar resfriado." Começaram a se acariciar. por favor. pois ele os havia deixado em boa situação financ eira. Ele fi cava às vezes alucinado por ter de esperar por ela. Quase onze horas. — Venha para cá. bem longe das paredes seguras da quele quarto. quando chegou diante da casa e viu o carro de Ri na à porta da garagem. ele tinha consciência de ter permitido q ue ela o conhecesse profun-damente. Quase não se lembrava dele. "Trouxe vinho para minha amada. Seus atrasos eram uma coisa sabida e aceita por todos. de onde po dia ver a rua. mamãe. Ia ver que homem era ele quando o advogado a procurasse com os papéis do divórcio. — Volte para aquela casa e pegue as poucas coisas de que precisa — disse a mãe. Deixe que me encarrego de tudo. Havia até começado a pens ar num poema em louvor a sua beleza ao sentir na carne as mãos ansiosas. Naquele momento. deixando-a penetrar todos os segredos mais ínt imos de sua alma. E. mas já estava aberto e havia um freguês sentado a uma mesa com uma garrafa de cer veja a sua frente. Pegou a caneca fumegante. Olhou para o relógio de pulso. Rina ficaria surpresa quando voltasse para casa e vi sse que ele levara tudo o que era dele. Podia haver outra cena e ele não agüentari a passar por aquilo de novo. Saberia então que não poderia passá-lo para trás. Ele havia entrado no quarto escuro. Pediu outro drinque. E poderia ver o carro de Rina descer pela col ina. fazendo -o cair negligentemente mas com cada fio quase no lugar marcado. Pela manhã trataremos do divórcio. segredos que ele procurava esconder até de si mesmo. como sempre imaginara que seri a. Encontrara conforto e paz nas curvas tão femininas daque le corpo. se tiver — recomendou. porque ele era virgem. um jovem de casaco amarelo. Pegou a caneca novamente e percebeu com surpresa que estava vazia. Sentiu um arrepio. teve medo de entrar. A morte do pai praticamente não havia mudado o curso de suas vidas. Estava vazia outra vez. Sabia exa tamente o que Rina estava fazendo naquele momento. Mais uma vez. — E uma rodela de limão. tão passivo e sem exigências. O garçom o olhou espantado. Depois r . Tinha uma superstição: não ser pontual. — Água quente? — Sim. Claude sentiu que um fardo pesado lhe fora tirado dos ombros. Era tudo delicado e belo. lembrando-se da primeira bebida que a mãe lhe prep arava aos primeiros sinais de um resfriado. Desceu a rua até o bar da esquina com a rua Sunset. Resolveu tomar outro uísque. O pai nunca fora mais que uma vaga sombra nebulosa. E nunca mais ela o olharia como na noite do casamento: com piedade e desprezo ao mesmo tempo. Ol hou pela janela e viu que já estava chovendo.

mas não sou como os outros. De repente. ao la do da cama. Um grito nasceu então do fundo dela e ele se sentiu puxado para ela. Claude abriu o armário e tirou uma maleta. Pouco a pouco as lágrimas cessaram. — Pensei que houvesse dito alguma coisa. e viu que estava de novo vazia. sim — disse então. que falava com ele. meu amor.elaxou. e ele tomou as mãos de Rina. havia muita coisa dele na casa e não lhe seria possível carregar tudo soz inho. — Falei. Desculpe. — Uma cerveja para este senhor. pois as pessoas comuns não eram capazes de compreender como o trabalho o absorvia. Ouviu o rumor dos lençóis amarfanhados e olhou para ela. — Esvazie essas gavetas — disse ao jovem. — Posso oferecer-lhe um drinque? — perguntou. — Gostaria de mais uma cerveja — disse o moço. Devia ser um ator desempregado que tinha passado para tomar uma cerveja até a chuva pass ar. à espera daque le momento para então repastar-se em sua virilidade e devorá-lo. Claude olhou-o. Teve medo da prorrompente sensualidade exigida por aquele corpo. Os seios arquejavam e os bicos ainda estavam túmidos de paixão. Depois de tocar a campainha pela segunda vez. . e ficou ali de pé. Eu não estarei tão nervoso. — O que você disse? Essas palavras o fizeram voltar do passado para o presente. Os olhos pareciam chamejar quando disse: — Você é mesmo a espécie de homem que dizem que você é? Ele sentiu o calor do sangue queimar suas faces. Não se mostrava mais passiva e delicada. Estava tomada de verdadeira al ucinação e os dedos o machucaram enquanto ela tentava guiá-lo e forçá-lo a entrar nela. agradecido. Sentiu um t remor no corpo de Rina e logo depois outro. — Não! — disse ele vivamente. quando conseguiu desvencilhar-se. desprezo e c ompreensão. — Disse que o tempo ficou horrív l. e me encha de novo esta caneca — disse Claude ao garço m. Tentou cobrir-se com o pijama despedaçado e ouviu a respiração ofe-gante dela se acalm ar. Estava quase entran do em pânico. — Que espécie de homem é você. Casei com você porque a amo. querida — ele prometeu. porque o toque era tão leve e delicado que ele mal o percebia. Havia na completa feminilidade do corpo de Rina. Eu a amo! Eu a amo! Eu a amo! Ela começou a alisar gentilmente sua cabeça. Não queria mais saber o que ele sentia e precisava. Tirou a chave do bolso. Subiram ambos a es cada até seu quarto. que lhe ocorreu a idéi a. em sua terrível sexualidade. Era o outro freguês. Mas nunca chegou a ser melhor. — Não me olhe assim. Da próxima vez será melhor. mas não se incomodava. e de certo modo muito bem a-pessoado. Claude ficou aborrecido. Afinal. Foi só três drinques depois. uma súbita onda de calor pareceu emana r dela. Ela fora para o seu lado na cama e o olhava com o cobertor descuidadamente jogad o sobre os quadris. e disse com lágrimas nos olhos: — Procure compreender. o jovem de casaco amarelo. sentiu-se dominado por um terror selvagem. Era muito comum falar sozinho quando estava engolfado em seus pensamentos. Sentiu-se embaraçad o. Não havia dúvida de que realmente falara. Minha mãe diz que sou extremamente nervoso e sensível. lembrou-se de que era quinta-feira e todos os criados estavam de folga. Parecia muito amável. alguma coisa que o aterrorizava a ponto de reduzi-lo à absoluta impotência. Não havia deixado de perceber as insinuações que faziam a seu respeito. que antes estivera latente. — Será melhor. então? Ele se ajoelhou ao lado da cama. tentando disfarçar sua confusão. quando viu o carro de Rina passar. Ela não respondeu e ele viu em seu olhar a terrível mistura de piedade. enquanto as mão s febris lhe rasgavam as calças do pijama. beijando-as. — Vou pegar outra maleta. — Obrigado. Pegou sua caneca. O homem volveu os olhos para a janela e murmurou: — É verdade. todo trêmulo.

— Beije-me. — Quem é que vai ouvir? Você mesmo me disse que era o dia de folga dos criados. revelando uma t-s hirt suja. nos ombros e no pe ito. — Eu sei que você no fundo não quer mesmo que eu saia —disse ele. — Quer pegar o roupão azul no armário para mim? — pediu ele irrefle-tidamente. Rina tinha a mão por sobre os olhos para protegê-los do sol. Era como se sentisse na pele o mesmo calor bo m que lhe dava o uísque. Torcia o corpo sensualm ente ao contato das mãos de Ilene. o outro estava olhando o retrato de Rina que ele tinha em cima da mesa. A lembrança da cena o fez levar angustiado as mãos ao rosto banhado de suor. — Eu sei que não foi para arrumar as malas que você me troux e. Claude virou-se e foi até o banheiro. O rapaz não se moveu e seu sorriso aumentou. mas o barulho da água o fez lembrar de uma vez em que entrara no solarium. O jovem estava olhando para ele através da port a aberta. Ilene estava nua da cintura para cima. entrou no banheiro e fechou a porta com o pé. amor — disse. Resolveu tomar um banho de chuveiro. — Continue. Tinha o roupão no braço e havia tirado o casaco amarelo. Claude tentou esquivar-se mas não foi rápido o s uficiente. dizendo: — Q ue surpresa ela vai ter quando chegar em casa e não me achar. O rapaz levantou a mão ameaçadoramente. nos braços. sentindo um estranho medo. Rina levan tou o braço e Ilene voltou-se. Teve uma indizível sensação de nojo. Procurou levantar-se atordoado e disse. Ensaboou-se com o sabonete delicadamente perfumado que a mãe mandava buscar especialmente para ele em Londres. O vidro se d espedaçou e o tapete ficou cheio de cacos. Apanhou o vidro de água de colônia e começou a friccionar o corpo com ela. Claude ficou surpreso ao ver como seu busto era sum ido. — Pode deixar em cima da cadeira — disse ele cobrindo-se parcialmente com a toalha. — Saia daqui — gritou Claude. ouvindo os risos zombeteiros das duas. Ele fugiu dali imediatamente. — Quem é essa? — Minha mulher — respondeu Claude de mau humor. não é? — Saia daqui ou gritarei por socorro — disse ele. com um sorriso canalha. — Você é o marido de Rina Marlowe? — Sou.Quando voltou ao quarto. vá embora. Olhou para o rapaz com os olhos apavorados. Gostava de se sentir limpo. Abriu a torneira da pia para lavar as mãos. ainda olhando para Claude. Ilene recomeçou obedientemente a fazer as massagens. O corpo de Ri-na pareceu read quirir o ritmo sensual. Olhou-se com satisfação. Notou os músculos fortes das costas enquanto trabalhava com as mãos n o corpo de Rina. Quando ambas per-ceberam sua presença. ela estendeu os braços. encolerizado. levantou os olhos para o espelho. A água quente do chuveiro o acalmou. — Deixe disso — exclamou ele. mas não o encontrou no lugar de semp re. — Acho . querida — disse Rina a Ilene. misturados ao barulho da água ecoando em seus ouvidos. levou um tremendo soco na cabeça e ficou estendido no chão. A mão aberta o atingiu em cheio no rosto jogando-o contra a pia. Procurou o roupão. De repente. com as pernas metidas nas calças justas que sempre usava. Saiu do chuveiro. pegou a cabeça de Ilene e levou-a até o ventre. Em dado momento. ti-rando o cinto. Claude viu que o jovem era cabeludo como um macaco. A água borbulha va no solarium no momento em que tomou conhecimento da presença de Rina. Sentia o corpo pegajoso e úmido. Mas o jovem. Mas logo em se-guida riu. que estav a dei-tada nua na mesa en-quanto Ilene lhe dava massagens. com a voz entrecortada: — Por favor. — Patife! — exclamou Claude. Nesse momento. Graças a Deus! — O que você tem na cabeça para abandonar uma pequena como esta? Claude arrebatou o retrato da mão do outro e o jogou contra a parede. mas felizmente por pouco tempo. enquanto virava a cabeça para olhar Claude com visível sarca smo. Tir ou o paletó e afrouxou a gravata. esfregando-se vigorosamente com a toalha.

O cinto o atingiu nas costas. Havia sangue por toda parte. Imaginou que Rina houvesse conseguido livrar-se do médico que a atendia. não diria mais que ele não era um homem. na banheira. De repente. irônico. David encolheu-se para de ixá-los passar pela porta. no vaso. quando o tio ainda gritou: — Faça tudo para proteger Rina! Temos dois milhões de dólares de fil-mes em negativo fei tos com ela e que ainda não foram distribuídos. o que não lhe aliviou absolutamente a náusea. coberta por uma lona branca. Eu estou vendo. mamãe! Foram essas as últimas palavras que proferiu. Golpeou-se repetidamente até que. No caminho pegou Harry Richards. 20 David Woolf estava à porta do banheiro. Sem fechar a torneira. — Eu a amaldiçôo. Voltou para o chuveiro e abriu a água quente. agitado. — Eu a amaldiçôo! — gritou. chorando. Um pensa mento maluco lhe ocorreu. verific . nos ladrilhos azuis e brancos do chão e das paredes. levantando o cinto. Foi nesse momento que percebeu a verdade. levando todo o dinheiro. até que se olhou. Era difícil acreditar que apenas meia hora antes ele se encontrava na tranqüilidade de seu gabinete quando o tio Bernie abrira violentamente a porta. — Basta! — gritou ele. um estranho sentimento de satisfação. ca iu por terra. na pia. fazendo-lhe correr pela espinha um arrepio de agon ia. e chegou à casa de Rina vinte minutos dep ois. Experimentou. Já encontrou dois funcionários da funerária erguendo o corpo de Dun-bar numa pequena p adiola em forma de cesto. o outro teria visto o que era bom. Por um instante. Claude não soube o que ele queria dizer. Mas. saiu do boxe do ban heiro. Acendeu um cigarro. contudo. O que os outros diziam dele era verdade. chefe de policiamento do estúdio. — Vá o mais depressa possível para a casa de Rina Marlowe! Um dos rapazes da publicida de recebeu da delegacia de polícia de Beverly Hills a notícia de que Dunbar se suici dou! David já estava na porta. perdendo as forças. Se fosse mais forte. até qu e seu próprio corpo o traiu. — Não sou não! — Não? — disse o jovem. Sentiu a exaltação crescer-lhe dentro do peito. Seu rosto esta va vermelhíssimo. Só ele fora cego a essa realidade. quando olhou da escada. Começou a se cortar com uma raiva cega de si mesmo. que t inha sido sargento da polícia. ouviu no andar de baixo uma gritaria incrível e se espantou. pensando como devia ter tomado o cinto das mãos do outro para espancá-lo até escorrer sangue. Nunca poderia ter desempenhado aquele papel heróico e viril . no ter ror doloroso da revelação.que você é do tipo que gosta de apanhar antes. Richards. Abriu o armário de remédios e apanhou a velha navalha que usava desde que hav ia começado a fazer barba. O jo-vem havia saído. a navalha que sempre considerara um símbolo de sua virili dade. Involuntariamente deu um grito. sentindo a náusea subir pela boca do estômago. A alegria era quase tanta quanto se ele houvesse assim proced ido. Sentiu as forças voltarem à medida que a água encharcava sua pele. Encurtou caminho por Goldwater Canyon. Se não podia ser homem. — Não tente me enganar. Pensou nas coisas h orríveis que haviam acontecido. — Não me bata mais! Claude levantou com dificuldade do chão e olhou para o quarto. ao menos não queria tornar-se mulher. Se Rina pudesse vê-lo naquele momento. Sentiu-se invadido de atordoada cólera. lembrando-se das indignidades a que o desconhecido o submetera. se encarregaria dos enten-dimentos com os policiais .

e fez-se silêncio. Um deles tampo u-lhe a boca. — Levem-na daqui! O médico já tem muito trabalho com Ri-na e nin-guém precisa ouvir os g ritos dessa histérica! David olhou para Richards e fez um sinal. e ela foi quase que arrastada para fora do vestíbulo. — Escute. — Aquela cadela assassinou meu filho! — gritava. O que o tal desconhecido poderá dizer-lhe? — Há alguns sujeitos que se especializam em pegar um homossexual. David con seguiu ver a multidão de repórteres lá fora. Pouco depois u ma porta lateral bateu. David achou que parecia mais guarda-livros que um detet ive. mas Ilene já havia desaparecido. deixando Richards e o tenente. — Temos uma li ta deles. Era um homem magro de barba e cabelo grisalho. — Agradeço muito por ter falado comigo. — Já apurou mais ou menos o que aconteceu? — Acho que sim. — E soubemos que ele pegou um desconhecido no bar antes de vir para cá. Stan. Na maioria não dão trabalho. — E de que vai adiantar isso? — perguntou David. Mas ainda há um ponto duvidoso. — Qual é? — Investigamos os movimentos de Dunbar. — Levem daqui essa velha maluca! David voltou-se. vai ser uma confusão tremenda lá no estúdi . Levantou-se para apertar a mão de David. Voltou-se então para o pol icial. — Foi sem dúvida uma coisa terrível. David fez um gesto de aprovação. com uma expressão feroz de cólera no rosto. Nós o apanharemos. tenente! — disse David. ouvindo sempre os gritos da mulher. dar-lhe uma surra para seus fins particulares e depois roubá-lo. e começou a descer a escada. O dr. Debatia-se nas mãos de dois guardas de rosto vermelho que a conti-nham. — Meu filhinho! — gritava ela. Os dois guardas desistiram então de qualquer aparência de delicadeza. — E daí? — Daí Dunbar não é o único homossexual no nosso distrito — replicou o tenente. Uma coisa é indiscutível: foi suicídio. enquanto a maca passava. surpreso ao ouvir aquela voz áspera dizer essas palavras atrás dele no alto da escada. — Deixem-me ver meu filhinho! Os funcionários da funerária passaram impassíveis por ela e che-garam à porta. O estúdio mandava m uitos de seus artistas para lá quando precisavam de repouso. com uma voz que parecia encher a ca sa toda. mas não encontramos dinheiro algum. com seguramente um metro de comprimento. — Tem certeza de que Dunbar se suicid ou. — Matou-o porque soube que ele ia voltar para mim! Parecia decidida a subir a escada. Ri-chards aproximo u-se: — Disse para os guardas a levarem ao Sanatório Colton. Agora vamos para a sala de estar. David olhou de novo para cima. Colton não a deixaria f alar com ninguém enquanto não a tivesse acalmado. Não quero repórt eres aqui dentro depois que a polícia for embora. Richards se aproxim ou de um dos guardas e falou baixinho com ele. — Já telefonei. Agarraram com força a mãe de Dunbar. O corpo tem algu mas contusões na ca-beça e nas costas que o legista não sabe explicar. Fiquei bem impressionado pela eficiên cia com que está tratando do caso. Saiu da sala. O tenente Stanley estava sentado à mesinha do telefone com um ca-derno de notas ab erto a sua frente. Pagou a desp esa com um maço gordo de notas. Colton saberia o que fazer. David olhou para Richards e este se conservou impassível. tenente. O barman nos fe z uma boa descrição do homem. Ainda da porta pôde ouvir a voz de Ri chards. Se os jornais souberem disso. Era Ilene.ou que não era Rina. e até têm direito a alguma proteção. — Telefone para o estúdio e peça que mandem alguns dos seus homens para cá. Ela conseguira se livrar em parte de um dos guardas e se agarrara ao corrimão da e scadaria. Quero apresentá-lo ao tenente Stanle y. como usualmente fazemos — disse o detetive. e sim a mãe de Dunbar. No mesmo instante.

Era jus tamente o contrário. mas. Você é o homem que resolve as dificuldades de Bernie. sou da Norman. Subimos para nos vestir às quatro e meia. O telefone tocou. — Dormindo. David ficou pensando em sua conversa com Cord. Um rubor apareceu no rosto dela após to mar um grande gole. Quando voltou. não era do tipo de homem que ficava dando telefonemas de cortesia. foi porque q ueria fazer dele um homem. David subiu a escada. e c omeçou a dizer repetidamente: Eu o matei! Eu o matei! Sempre matei todos que me am aram! Daí começou a gritar bem alto. David levantou para encher de novo o copo. Ilene. — Era Jonas Cord. Tocou novamente. Olhando para ele. Tinha certeza de que não haveria nos jornais qualquer referência a outro hom em. — Nenhum de vocês ja mais procurou compreendê-la. Ilene parou um pouco de falar. O médico deu-lhe uns sedativos fortes. ela nunca passou de boa bilheteria. Nenhum de vocês se interessou por ela como realmente ela é. Ouviu-se um clic: Jonas havia desligado. — Como está ela? — perguntou.. — Foram tomadas todas as providências necessárias? — Acho que sim. Já basta o prejuízo que vamos ter com a notícia do suicídio. Lembro de você. Rina me disse que estava ouvindo água correr no banheiro de Claude. Houve um longo silêncio do outro lado do fio e David chegou a pensar que Cord havi a desligado. — Alô? — Quem fala? — David Woolf — respondeu automaticamente. Talvez houvesse entre ele e Rina alguma coisa mais do que ele sabia. quando me dei conta. — Eu sei. — Foi horrível! — disse Ilene. O médico deu-lhe um sedativo capaz de derrubar um cavalo. Entrou no quarto no momento em que eu ainda estava telefonando para a polícia. Está chorando por que falhou. foi por que ela se casou com Cl aude. embora esteja dormindo sob a ação dos sedativos. David manteve-se em silêncio. Pousou o copo numa mesinha e olhou em volta à procu ra de um cigarro..o. pen-sativo: — Se há uma coisa que nunca pude compreender. Quatro meses se passaram antes que David visse Rina novamente. — Este é o ponto central do problema — disse Ilene um pouco exaltada. Encontrou Ilene. ela já estava na porta do ba nheiro. — E eu também . — Não me esquecerei do que está fazendo — disse Cord. Acabo de saber do caso pelo rádio. Mas a voz de Jonas se fez ouvir novamente. fale comig o. Cord. Uísque está bem? Ela não respondeu e ele preparou dois copos. E é por isso que ela está estendida aí na cama. — Você precisa de um drinque — David sugeriu caminhando para o pe-queno bar. Es-tava sentado n . Farei isso. Vou conta r para você por que ela se casou com ele. olhando para toda aquela sangueira. Trazer o velho sargento foi a coisa melhor que poderia ter feito. — Muito bem. — Eu atendo — disse ele. de dinh eiro no banco. e ela continuou: — Rina teve um almoço e nós só chegamos em casa às quatro horas. Procurei impedi-la de ver o que havia acontecido. — Fique descansado. E se precisar de alguma coisa. — Quem fala aqui é Jonas Cord. na saleta ao lado do quarto de Rina. disse. Para vocês. Não fazia sentido: pelo que sabia d e Cord. David prontamente ofere-ceu-lhe um e o acendeu. atirada numa cadeira. Ela continuou: — Ela estava ali parada. Deve ter press entido que havia alguma coisa porque não voltei imediatamente. Foi porque tinha pena dele. Os criados estavam todos de folga. chorando co mo uma desesperada. Faça tudo o que for necessário. Como vai Rina? — Está dormindo. — Sr. David olhou para ela. David voltou para a cadeira. Tirou o fone do gancho. Ilene estava com o rosto entre as mãos e não fez qualquer comentário. e ela me pediu que fosse ver.

— Vamos deixar disso! Quero saber é das férias! — África! — retrucou Norman. — Sim — disse Norman. — Mais esbelta e mais bela que nunca! Rina olhou para o lado. de tão bonita que está. onde filmara A rainha da selva. rindo . Rina. — Olá. David. desanimado —. 21 . Além disso. quando ela entrou efusivamente. Olhou para a porta e chegou a estender a mão para o t elefone. — Vamos. E em s eis meses muita coisa pode acontecer. Não adiantava nada arriscar-se a ficar com ca ra de idiota. talvez mais contida. Ninguém sabe. A lista era comprida. — Rina querida! — exclamou Bernie. — Sabe que ainda há pouco quase não pude acreditar que era minha velha amiga que estav a entrando. Agora vendi minha companhia. mas nenhum deles tinha o dinheiro necessário para uma operação daquelas. — Só temos seis meses até a reunião dos acionistas em março. Quem não estaria depois de três meses de descanso numa fazenda-sanatório? — E o filme que você vai fazer agora será uma espécie de outras férias — disse Norman. não sei mais a quem pertence e nem tenho mais dinhei ro. De súbito.o sofá do gabinete do tio. uma desconfiança. com um ar de triunfo. e tinham feito ao tio tanto quanto ele lhes havia feito. — O mais grandio-so script sobre a se lva que li depois de Trader horn! — Eu sabia — disse Rina. tudo pode ficar ainda pior. Ela acabara d e chegar da África. os acionista s. — Eu sabia que ele acabaria querendo me transformar num Tarzan de saias! Depois que ela saiu. Como vai você? — Estou bem. Por cau sa deles tive de vender ações e tomar uma porção de dinheiro nos bancos. Mas desistiu imediatamente. Reclamavam e brigavam. — Talvez as ações subam quando anunciarmos o próximo filme de Rina. voltando-se para David. os banqueiros. Rina o olhou com um leve sorriso no rosto. O produtor recuou um pouco para olhá-la. Até nos cinemas. Filmes eu conheço . — Tomara que seja assim — disse Norman. Todos sabem que ela é um sucesso de bilheteria garantido. levantando e abraçando entusiasticamente a artista. Mas as a-ções caem dia a dia. Ainda faltam seis meses para a reunião. — Norman levantou e f oi para perto de David. lembrou-se de Rina. sentou-se à mesa e começou a passar em revista os nomes dos inimigos que o tio havia feito durante sua vida. não adianta preocupar-se desde já. e estava gravemente doente. quase t odos eram do cinema. Falei com os corretores. Nunca devia tê-los comprado. — Ora. — Estamos perdendo di-nheiro por todos os lado s. David foi para seu escritório. Er a uma espécie de jogo entre sócios de um mesmo clube. zero. velho bastardo! Conte logo de que se trata. Não devia ter dado ouvidos àqueles sujeitos da Wall Street há dez anos. Todo o d inheiro que eu podia pedir ou tomar emprestado já se foi. porém. Fiz tudo que foi possível para descobrir. e quase deu uma volta em torno dela. — Claro! Está mais velha e é natural que esteja assentando a cabeça. como se fosse uma novilha premiada numa exposição de gado. seis meses depois. e disse: — Olá. David disse ao tio: — Achei Rina mais serena. Norman riu. Esse foi o erro que cometi. Tinha. alegre. Da vid não queria que a imprensa soubesse disso antes da distribuição do filme. Comprei todas as ações que p odia mas não tenho dinheiro que chegue para fazer parar uma coisa dessas. imóveis. — Ainda não sabe quem está fazendo nossas ações caírem? — Não. mas nen hum deles levava a coisa tão a sério que pudesse agir com tanto rancor. Só veio a saber o quanto estava certo quando mandou Il ene internar Rina num hospital sob nome fictício.

— Foi Jonas Cord o tempo todo. Pierce levantou e disse: — Senhor. Dan Pierce. Norman voltou-se para seu vice-presidente conselheiro geral: — É verdade isso? O advogado nervosamente confirmou a alegação de Pierce. Virou-se para Pierce. O único interesse dos demais era saber quando começariam a receber os divide ndos novamente. Era apenas um palpite. As pessoas presentes à reunião eram as mesmas de sempre.— Jonas Cord! — exclamou Norman. Do contrário. Foi então que Norman se lembrou do nome. nunca ajude ninguém a ganhar dinheiro. entraram na sala e sentaram na primeira fila do p equeno auditório. lembrando-se do que havia a contecido na reunião dos acionistas. tenho várias outras indicações de diretores da empresa para fazer. seu burro. indignado. ele sentiu que alguma coisa não estava certa. — Está despedido. em Nova Ior-que. O vice-presidente encarregado das vendas leu rotineiramente a lista de diretores organizada por Norman. pediu rotineiramente que se encerrasse a indicação de no mes. Havia também os diretores da com panhia que por acaso estavam na cidade e os funcionários do escritório de Nova Iorqu e. Um terceiro vice-presidente. ac ordará com uma faca enfiada nas costas. Norman tirou o charuto da boca. e mais os oito por cento das ações que Norman tin ha em seu nome. — De qualquer maneir a. jogou-o com raiva no chão e perguntou: — O que eu posso ter feito àquele sujeito para ele querer me arruinar? David não respondeu. o advogado de Jonas Cord. e Norman continuou: — Nada! A única coisa que eu fiz foi fazê-lo ganhar dinheiro! Mais di-nheiro para ele passar a faca no meu pescoço! E isso deve servir-lhe de lição. que Norman conhecia de vi sta sem conseguir identificá-lo. Enquanto falava. A percentag em de procurações devolvidas devidamente assinadas era mais ou menos igual à de todos os anos. Faça tudo só para você. presidente. deveria ter me dito. Só vinte e cinco por cento dos acionistas se davam ao trabalho de mandar procuração. ainda que tivesse. davam uma margem mais ou menos tranqüila de trinta e cinco por cen to das ações para decidir. bastardo! — sussurrou Norman. e resp ondeu: — Não tinha certeza. Por que você não me disse antes? David voltou-se da janela do hotel sobre o Central Park. — As indicações do sr. McAllister. Pierce estão perfeitamente em ordem e posso atestar pessoalmente o direito legal que ele tem de fazê-las. — Não tem esse direito — replicou Norman do estrado. mordendo o charuto apagado. o agente. Norman chegara à reunião muito mais seguro de si do que nos últimos meses. você estava sem dinheiro para enfrentá-lo. e gritou: — É ilegal! É um truque para liquidar a companhia! O homem que estava sentado ao lado de Pierce levantou. feita com o metal que você mesmo forneceu! David olhou para o rosto vermelho e irritado do tio. Mas essas procurações. e quando Norman estava pedindo à assembléia q ue indicasse nomes para a diretoria. — De acordo com os estatutos da empresa — disse Pierce —. — Sem dúvida. — Não tinha certeza — disse o produtor. encarregado d as atividades estrangeiras. Alguns homens de negócios apo sentados e algumas mulheres que possuíam no máximo dez ações e compareciam à assembléia porq ue não tinham nada de mais interessante para fazer. O vice-presidente encarregado das transações com os cinemas deu rotineiramente seu apoio às indicações. . Nesse momento. e outro homem. qualquer acionista pode indi car tantos nomes quantos cargos houver na diretoria. Só depois das formalidades preliminares. David. — E no que teria ajudado? Eu não tinha nenhuma prova e. Rec ompôs-se imediatamente e perguntou com sobriedade: — Podem ambos provar que são acionistas? McAllister sorriu. Nunca faça um favo r a ninguém.

acredita mesmo que alguém vá ficar do seu lado? Nestes últimos quatro anos. todos os outros eram de pessoas desconhecidas para Nor-man. Mostraria àquele maluco do Cord que Bernie Norman não era um imbecil e que não poderia construir uma empresa como aquela partindo praticamente de zero sem ter alguma coisa na cabeça. O velho já estava em tempo de conhecer as realidades da vida. Se ele não quiser vender. meio irritado. — Faça seu tio ouvir a voz da razão. David e o vice -presidente tesoureiro. também um filme de Cord. Ninguém pensa mais nisso. Mas queriam prestígio. — Espere um pouco. — Não falo com traidor de sua espécie — disse Norman. Pierce levantou e indicou seis nomes para a diretori a de nove pessoas. Estou apenas encarando o s fatos. Quem foi que comprou Manchas solares e fez um f ilme que ganhou quase todos os prêmios da Academia? — E que também deu um prejuízo de um milhão de dólares? — Foi minha a culpa? Avisei a todos que o prejuízo era certo. Norman convocou uma reunião dos diretores naquela tarde n os escritórios da companhia para a escolha dos chefes de serviço. — Posso agora faze r as minhas in-dicações? Norman assentiu com a cabeça. filme de Cord. esquivand o-se à tentativa do produtor de saber quantas ações ele representava. . — São essas todas as ações que possuem? — perguntou Norman ino-centemente. a companhia vem tendo prejuízos em cima de prejuízos. Quando chegou o momento da votação. Encerrados os trabalhos. Tirando o nome dele e o de McAllister. e tiveram prestígio. sendo vinte e cinco por cento em nom e de Jonas Cord e quinze por cento de propriedade de várias casas de corretagem. andando de um lado para outro e grita ndo seu desejo de luta. em seguida. E o maior filme atualmente no mercado é Demônios do céu. Foi o filme que você não quis distribuir porque achou que sua comissão não era suficiente! Acha que alguém em seu juízo perfeito vai hesitar entre Cord e você? O produtor olhou para ele atônito e exclamou: — E dizer que é uma pessoa do meu sangue que está dizendo tais coisas! — Deixe disso. É meu sangue que estão derramando. O maior fi lme que tivemos nesse tempo foi O renegado. Acho que tenho o direito de exigir isso! — Claro que tem — disse McAllister. — Mas eu penso. se lutar. Bernie. O suficiente para assegurar uma maioria de até dois terços quando fosse necessário.— Quero ver as provas. tio Bernie. — Gostaria que me desse um minuto antes da reunião da diretoria. É duas vezes mais do que valem. Cord diz que e ntrará em demanda com a compa-nhia e as ações dele não serão mais do que papel de parede. Norman estava agitado. Nada tem a ver com o que está acontecendo agora. e não nosso. saindo apressadamente para alcançar o tio. No quarto do hotel. Olhou-os um instante e cancelou seis dos n omes indicados com sua autorização. friamente. Dan Pierce voltou-se para David. terei todas as procurações de acionistas que eu quiser. caminhando para o estrado e en-tregando um certi ficado de ações. Estava cheio de ouvir tantas tolices do tio . O s seis nomes indicados por Pierce foram eleitos. Família nada tem a ver com isso. tio Bernie! Como é que vai lutar contra ele? Com cusparadas no lu gar de dinheiro? E. David olhou para o tio e. — Fatos? Você quer fatos? Pois aí vai. tio Bernie. McAllister apresentou procurações que representavam quarenta e um por cento das ações da companhia. Saiu da sala mortalmente pálido. David olhou para ele. — São as necessárias para provar o meu direito de intervir — disse McAllister. Pierce alcançou-o na porta. dirigiu-se ao telefone. Sou eu o sacrifício que estão oferecend o ao Golem. deixando na diretoria apenas ele. Quando souberem do filme que vou fazer com Rina M arlowe. Mas não morri ainda. Norman examinou o papel. — Vá conversar com Hitler! E saiu impetuosamente. Cord me autorizou a oferecer três milhões de dólares pe las ações dele. Era um certificado de dez ações regularmente passado em nom e de Dan Pierce. — Vou ver o que posso fazer — disse David. — Isso são águas passadas. Norman voltou-se para seus diretores.

— Quero dar um telefonema interurbano para o Sanatório Colton em Santa Monica. o sonho não se dissipou quando Rina abriu os olhos.. Posso estar com o coração partido. estamos acabados. — Meu Deus! O que vai ser da companhia? Ela era a única chance de sobrevivência que tính amos. Do escritório disseram que ele está em Nova Iorque. é claro. Já passara por aquilo tudo tantas vezes antes. Faça o favor. — Já representei esta cena uma porção de vezes. Ilene — disse num sussurro. Quando a ligação foi completada. na Ca lifórnia. Olhou para o tio com uma admiração que nunca tivera. olhando para o tio. Por que não havia pensado nisso antes? Isso expli cava o telefonema de Cord na noite em que Dunbar se suicidara. Parecia até mais real do que nunca. Quero vê-lo. — Coragem. David virou-se para o tio. — O que diz o médico? David ouviu-a soluçar no telefone. — A pequena? — Sim. As edições dos jornais de domingo já estão to das prontas. O que ele sempre quis foi a pequena. Sem ela. — Rina! Rina! E ela sentiu Ilene pegar sua mão por baixo das cobertas. que estava à jane la. Agora. em seu sonho. quatro-três-zero-nove. O produtor ficou ainda mais branco e deixou-se cair numa cadeira. Acha que é um milagre que ela tenha durado tant o. sorrindo. Ilene.. Gostaria de poder dizer a Ilene que não se preocupasse. Procure-o. Ilene estava sentada na cadeira a observá-la.. Ficou um instante muito tranqüila. — Ilene! Ilene teve um sobressalto e se aproximou. mas se ele ofereceu três milhões pelas minhas ações chegará a ci co sem muito esforço! Dessa vez. — Rina não fará outro filme para o senhor nem para ninguém mais. que ela está morrendo. Como vai ela? — Mal — respondeu ela em voz tão baixa que ele quase não ouviu. mas que não sabem onde ele está h ospedado. nem mesmo Cord se incomodará conosco! — O que quer dizer com isso? — Idiota! Será que não compreendeu ainda? Terei de traçar um diagrama para você compreende r? — Compreender. — Ilene? E David. — Procure-o e fale com ele. onde quer que esteja. Vocês não podem mais me enganar — diss e Rina. . Lembra-se do encontro que tive com ele nos mic-tórios do Waldor f? Lembra-se de que ele me disse que não revelaria os nomes das pequenas que estav am com ele para que eu não as roubasse como havia roubado dele Rina Marlowe? David subitamente entendeu tudo. Está morrendo. olhando para a cortina de plástico que lhe cobria a cabeça e o peito. Não está na hora de se descontrolar. Que dia é hoje? — Sexta-feira. sorrindo e vendo o sorriso que aparecia por trás das lágrima s no rosto de Ilene. Ilene. Não sabe o que a está mantendo viva. Houve um estalo e o telefone foi desligado. Rina sorriu. — O médico diz. — Sou eu mesma. — Calar a boca. Fechou os olhos um momento e só os reabriu quando Ilene se aproxi-mou novamente da cama. Não morrerei enquanto ele não chegar aqui. voltou a falar. Vamos à tal reunião. Virou lentamente a cabeça. 13? — disse. — Não chore. — Conseguiu falar com ele? — Não. — Não perdi o juízo. — O que vamos fazer agora? — O que vamos fazer? — exclamou Norman. Rina Marlowe. que não havia coisa alguma de que precisasse ter medo. — Sexta-feira. ninguém morre aqui no fim de semana. o quê? — Cord pouco se interessa pela companhia.. — Telefone para Jonas. Um sorriso irônico apareceu em seu rosto e ela acrescentou: — Depois.

Long Island já havia ficado muito para trás. O general voava muito.JONAS .1935 LIVRO V 1 Puxei o manche até encostá-lo na barriga. Ao mesm o tempo abri o manete. Havia uma expressão curiosa em seu rosto. — O que você quer? — Daqui a pouco vamos puxar o avião para fora e não quero esmagar seus sapatos. Por sorte. ri e disse: — Obrigado. dando uma pequena virada à esquerda. que lia para o gener al. Velocidade máxima de quin hentos e cinqüenta. Morrissey tinha nas mãos uma cópia do projeto e das especificações. Franziu as sobranc elhas. Olhei para ele por um momento. Eu sabia o que ele estava fazendo. Nenhum deles usava a insígnia da Air Corps. Tratei de calçar os sapatos e. minha cabeça já havia esfriado. Com ele estavam dois ajudantes. Nivelei o CA-4 ao horizonte e. Porém era ele que aprovava as coisas. . e o CA-4 deu um salto para cima. Provavelmente t inha ouvido a observação do tal general. Cord! Voltei-me. Era muito diferente do velh o general que ha-víamos deixado lá embaixo no Campo Roosevelt e que fora mandado pel o Exército para examinar nosso avião. E cami nhei na direção dele. Ouvi perfeitamen te o que ele disse. dois canhões e quase meia tonelada de bombas sob as asas num comparti-mento especial em sua barriga. Velocidade de c ruzeiro: trezentos e oitenta e cinco quilômetros por hora. com autonomia de vôo de mais de três mil quilômetros. mas diante de uma mesa em Washington. ao menos um piloto de verdade fazia parte de seu pessoal. sobrevoa ndo o Atlântico. — Como é feio! — comentou. Bati no ombro do piloto do Exército sentado à minha frente e gritei por cima do baru lho dos dois motores e do ronco do vento na cobertura de plástico sobre nossas cab eças: — Que tal. como uma flecha disparad a de um arco. Atuara com Ed die Ricken-backer e o velho esquadrão Hat in the Ring. quando olhe i para os mos-tradores. percebi como ele era. Que diabo ele entendia de aerodinâmica e design? A cabeça dele pro vavelmente era tão quadrada quanto a mesa que ocupava em Wa-shington! — Sr. coronel? Ele assentiu com a cabeça em resposta a minha pergunta. Saltei para a asa e dali para o chão. — Parece um sapo. — O Cord Aircraft Four representa um conceito revolucionário para um caça-bombardeiro de dois lugares. acompanhado por Morrissey. Sentia a força da gravidade achatando meu corpo contra o banco e faz endo o sangue fervilhar em meus braços. vi que estávamos a quinhentos quilômetros por hora. um coronel e um capitão. O tenent e-coronel Forrester era um dos grandes au-tênticos aviadores da época. Chegou à porta do hangar e olhou o CA-4. dando uma última checada na carlinga. Talvez nunca houvesse embarcado num avião. Pode levar dez metralhadoras. Logo que o general chegou ao hangar. mas não se virou. Era o mecânico. Estava verificando os mostra-dores à sua frente. com um ar de desapro-vação. quando cheguei ao lugar onde estavam Morrissey e o general. Eu estava dentro do hangar. com os pés descalços.

Tinha sem dúvida um design revolucionár io. Não adiantava discutir. olhando para seus ajudantes. — Voará com quem o senhor tiver no Exército. O general voltou-se para mim. A cortina voltou a cair sobre o rosto de Forrester. enquanto Morrissey falava. — Curtiss fabrica bons aviões — disse o general. colocar as asas onde estão. inflexível. Eu sabia que a velha besta ia fazer uma das suas gracinhas prediletas. Lancei um rápido olhar para o tenente-coronel. senhor — disse rapidamente. Forrester? — indagou o general. — General Gaddis. Antes que o general pudesse falar. Diferente. senhor? — disse Morrissey. o novo caça Curtiss que fomos ver outro d ia. — Este avião tem o dobro da blindagem. que murmurou: — Fora do comum. — Mas há certas convenções de fabricação d s reconhecidas como padrões. — E dá — confirmei. v oa mil e duzentos quilômetros mais longe. — É exatamente a minha opinião. Estes se permitiram um sorris o tímido. Parecia uma grande pantera negra ali no chão do hangar. Jonas Cord. se o seu piloto já . general. desde que tenha competência para p ilotá-lo. — E que acha da aparência. O general Gaddis virou-se para Morrissey... Parece um "sapo sentado. Isto é. general? — Claro que não — respondeu prontamente o general. surpreso. — Sei porque ele me contou — respondi. — Estamos prontos para assistir a uma demonstração de seu avião. Portava apenas duas fitas na blusa: a Croi x de guerre da França e a Distinguished Flying Cross. Por e-xemplo. Asas prateadas brilhavam em seu blusão. — Sim. — Qual. general. ma s uma cortina havia caído sobre seu rosto. Ficou examinando de baixo para cima o me u macacão branco todo sujo de graxa. do Exército. dando graças a Deus por haver ali ao menos um homem que entendesse d e aviões. E voará melhor do que qualquer outro avião no mundo. — Costuma julgar aviões como julgaria mulheres num concurso de beleza. É um avião que parece um avião e não uma bomba com asas. como as folhas de carvalho também prateadas nos ombros. — Agora. virou-se e olhou para o avião. — Curtiss há muitos anos constrói aviõe xcelentes. O milhão de dólares que eu já havia gasto com o CA-4 me dav a o direito de dizer o que eu quisesse. Era fácil ver que não havia qualquer simpat ia entre ele e o general. general — retruquei. Feio. e inclinadas para t rás.Olhei para o avião. o comprido nariz se pr ojetando entre as asas enflechadas. alguém perguntou do vão da porta atrás dele: — Como sabe o que Willi Messerschmitt está fabricando? Vi então que o general trouxera mais alguém com ele. Este voa? Não podia mais ficar calado. Tinha perto de quar enta anos. O general riu à socapa. Carrega quinhentos quilos de bombas a mais. — O que lhe parece. tenho só mais uma pergunta. — Nós. Era como se eu estivesse falando com um muro de pedra. era magro e usava bigodes. — Não estou dizendo o contrário. O tenente-coronel me olhou com curiosidade e perguntou: — Como vai Willi? A voz do general nos interrompeu: — Estamos aqui para ver um avião e não para troca de informações sobre amigos comuns. Eu já havia agüentado demais aquela merda. Forrester? — insistiu o general. e a bolha de plástico cobrindo a carlinga e br ilhando como um enorme olho de felino no escuro. Estou dizendo apenas que este é o melhor que existe. Depois. — Hélice de passo variável. vemos mais de trezentos aviões revolucionários por ano. — Concepção fora do comum — continuou ele —. Deve dar quatro vezes a área de sustenta-ção comum. — Interessante — respondeu-. — Muito interessante — ouvi o general dizer. Ótimo! Era um homem de boa vista para haver percebido isso na fraca iluminação do hang ar. mil e qui-nhentos metros mais alto e cen to e trinta quilômetros por hora mais depressa do que o caça Curtiss de que está falan do! — repliquei. Foi minha vez de ficar surpreso. incluindo os novos caças que Willi Messerschmitt está fabricando. Morrissey fez rapidamente as apresentações.

a duzentos e cinqüenta. — Jonas Cord. alguém me puxou pela perna. Soube que a Curtiss está vendendo o seu modelo a cento e cinqüenta mil dólares cada um e o mínimo que podemos fazer é duzentos e vinte e cinco mil — replicou Morrissey. Cord. o dinheiro é seu. Era evidente que o general não ouvira meu n ome. — Incomoda-se de me levar como passageiro? — Absolutamente. Mas a venda do avião já é difícil. Quan do chegamos a quatrocentos e cinqüenta metros. sorrindo: . Quando subi para a carlinga. bonita. sr. É psicológico. mas não entendi bem o seu nome. Ouvi passos atrás de mim. Fico nervoso. talvez isso tenha feito bem ao velho bastardo. — Posso conseguir um para você. e gritei: — Ele é todo seu. Roger Forrester. A força da gravidade me prendeu ao banco e senti o ar obstruindo minha garganta. fiz com o avião todas as acrobacias que constam dos manuais e mais algumas que só o CA-4 podia fazer. Olhou para dentro da carlinga e perguntou: — Sem pára-quedas? — Nunca uso pára-quedas. e eu me senti melhor. o general Gaddis e seus ajudantes saíram. Forrester. estendendo a mão. Então deixei o aparelho cair num parafuso alucinado. Era Morrissey. Morrissey. E foi somente naquele instante que consegui relacionar o nome dele com os fatos. Dei-lhe a mão e ele subiu pela asa. quando pode puxar o manche para trás. Jonas. Não se pode omprar um Cadillac pelo mesmo preço de um Ford. se quiser. e a cento e vinte. Voltei-me para o mecânico e disse: — Pode puxar o avião para fora. Perguntei ao mecânico: — Pronto? — Tudo pronto. Estávamos a menos de quinze metros da água quando começamos a subir. um dos ases da esquadrilha Lafayette. Só ele derrubara vinte e d ois aviões alemães. Senti o avião tremer e as asas gemerem como uma pequena que está sentindo prazer. — Não devia ter tratado o general assim. Tinha sido um dos meus heróis quando eu era garoto. — É a diferença entre bosta de galinha e salada de galinha. De repente. — Sim. depois encolheu os ombros. a cento e oitenta. — Já ouvi muita coisa a seu respeito. Como teste definitivo. — E daí? — disse eu. — Quem foi que disse que eu quero? Cinqüenta quilômetros mar adentro. O homem virou a cabeça tão depressa que ela quase saiu do pescoço. subi na vertical até pouco mais de quatro mil e trezentos m etros. está certo. o avião balançou no céu parecendo uma mosca se equilibrando na ponta de uma agu lha. — Ora. — Roger Forrester — disse ele. dizendo: — Bem. falando com uma mulher jovem. a sua disposição. Desculpe. com o manche solto. dei um tapinha no ombro de Forreste r. de ol hos selvagens e boca sensual. Forrester olhou para mim e disse. Deve andar tão cercado de gent e que concorda com tudo o que ele diz que até poderia ser um produtor de cinema. quando controlou o aparelho. quando saiu do parafu so. Suba! — Obrigado. coronel! Já estávamos a trezentos e sessenta metros quando ele assumiu o comando. Quando cheguei do lado de for a. Ele riu. Ambos rimos. a pressão se atenuou. Mas achei melhor ficar calado. Cord. vindo parar ao meu lado. Acompanhei o avião até a pista de decolagem. Ele me olhou fixamente por um momento. — E eu a seu respeito. A verdade é que ele era um bom engenheiro-aeronáutico. As bolhas de ar chegaram aos meus olhos. Eu ri. — Ele deu outra risada. Forrester não fez o menor sinal. vi que Morrissey e os outros haviam formado um grupo em torno do general. Indica falta de confiança. mas se mostrava tão ansioso que nunca poderia ser um bom vendedor. mas Forrester estava um pouco afastado. Morrissey olhou nervosamente para mim. Era o tenente-coronel.acabou de discutir. Fiquei observando-o voltar para onde estava o general.

Voa de verdade! — Não precisa dizer a mim. senhor. O general já estava com o quepe na cabeça. — Mas é preciso levar em conta outros fatores. — Durante a guerra. — Você manda. Forrester? — disse ele. Cord. — Sim. P . senhor — disse Forrester. sr. Olhei para Forrester enquanto nos dirigíamos para o grupo. Uma sombra desceu sobre seu rosto. pensando por que continuava a li parado. Diga àquele velho caduco lá embaixo. Ele olhou para trás e riu tanto que chegou a chorar. espantado. Tornei a bater no ombro de Forrester. — O que acha? — Sem dúvida alguma. Ele hesitou um momento. Tinha certeza de que o a-vião não perderia as asas num mergulho desses? — Certeza não tinha! Mas não podia haver melhor ocasião do que esta para descobrir! Ele riu. Morrissey. Estávamos a trezentos metros de altitude. O avião pousou com a leveza de um pombo voltando ao seu pombal. — Podemos falar aqui mesmo. Dava para ver Morrissey e os soldados lá embaixo no campo de pouso nos observando com binóculo. — Aposto dez dólares como farei voar longe o quepe do general na primeira passagem. — É bom que não se esqueça disso — exclamou severamente o general Gaddis. Não com a reputação que tinha. — Não tem importância. senhor. O general voltou-se para Morrissey e disse com voz quase cordial: — Agora. O general olhou para mim. — Ah! Desculpe. é o melhor caça que existe atualmente — respondeu em um tom de voz destituído de qualquer emoção. comprei boas parti das de explosivos dele e. Sua mão se estendeu para frente dando leves pancadinhas no painel de inst rumentos. quer dizer com quem devemos falar a respeito de fatos e ci fras relativos ao avião? — Pode falar com o sr. Não fazia sentido. se não se incomoda. Aí puxei o manche. — Se eu aceitasse todas as idéias malucas que se metem na cabeça de vocês do Air Corps. — Que avião! É como você disse. Pude ver o susto no rosto do pessoal lá embaixo. não haveria dinhei ro suficiente para sustentar o Exército por um mês. assuma os controles e volte com o avião para o campo. Descemos em vôo rasante e nivelei o avião a cerca de cinco metros da pista. Então vamos até o escritório falar com ele. Só o que tinha a fazer era sair do Exército. — Então. Tem qualquer idéia de quanto um avião desses poderia custar? — Não. general — disse imediatamente.— Só me lembro de ter ficado tão assustado assim quando voei sozinho pela primeira vez em 1915. Todo o riso desaparecera de seu rosto. rapaz. mas logo sorriu. general. que mostrava de novo a cansada máscara de cautela. — Sugiro. — Muito bem. que seria oportuno enviar um gru po de pilotos de prova para confirmar minha opinião. — Seu pai e eu somos velhos amigos — disse ele. Acho que não liguei os nomes. A minha responsabilidade se limita a dar opinião sobre o funcionamento do aparelho. Agora. — Vou dizer. general. secamente. e deu o que na opinião dele era um sorriso co rdial. — Acha mesmo? — perguntou friamente o general. envolv endo-os no turbilhão de vento provocado pelo avião. senhor. — Sim. general. Poderia a qualquer momento ganhar vin te vezes mais em qualquer companhia de aviação do país. Passamos sobre as cabeças deles numa subida quase vertical. Forrester. — Pois as minhas responsabilidades vão muito além disso. gostaria de discutir isso com ele. Deslizei para trás a cobertura de plástico e saltamos. — Não é preciso. general. agüentando aquela situação em silêncio. Olhei para trás a tempo de ver o capitão correndo atrás do quepe do general. Eu não conseguia compreender por que ele suportava aquilo tudo. Fiz uma viragem bem ampla e dei um toque no ombro de Forrester. Mas não sei se adiantará muito. Olhei de relance para ele. — É o que penso. Deve saber que dispomos de ve rbas muito restritas. ficando vermelho.

Mas infelizmente terá de falar c omigo. recuando um po uco. sempre qu e conseguia derrubar Nevada. Ficou ali um momento. O cavalo arregalou . Há gente que não morre. O xucro levantou a cabeça e golpeou com selvageria o braço de meu pai. E tive de fazer um grande esforço para me dominar. Senti meu rosto ficar branco. — Por quê? — perguntou ele friamente. Fe-chei a porta atrás de mim e andei até a escrivaninha. — Tolice! — disse meu pai. De repente avançou. — Ele é um louco — exclamou Nevada. Os vaqueiros pu-xaram mais as cordas. Usa va terno preto. — É justamente isso que ele quer que você faça — disse meu pai. que chegava por trás de mim. pulando e se contorcendo como s e alguém o tivesse montado. Seus olhos vigiavam meu pai. jogar no mar ou cremar. O potro empinou. Queimou como o inferno. — Vou experimentar mais uma vez — respondeu Nevada. dando-lhe as costas e ca-minhando para o hang ar. Os vaqueiros aper taram com mais força as cordas no pescoço do animal. Não era muito comum ver Nevada lev ar três quedas seguidas de um cavalo. Foi pou co depois do casamento dele com Rina. — Você. nosso contrato poderá vir a ser uma coisa muito importante. seu ordinário. camisa branca e uma gravata impecavel-mente centrada no colarinh o engomado. Eram cinco horas da manhã e os primeiros raios de sol projetavam a sombra alongada da figura de meu pai na areia do deserto. enquanto os vaqueiros mexicanos a fugentavam o animal. Fez um cabresto com a corda enquanto andava na direção do animal. Meu pai conseguiu se livrar por pouco. Ficou encostado à cerca. escarvando o chão. Depois de um tempo. Meu pai já estava pronto para o seu dia de trabalho. Olhei para as mãos. Lá estava o xucro. Estavam tremen-do. Os vaqueiros tinham pego o cavalo pelo cabresto e o conduziam de volta. Nevada e eu nos voltamos. e creio que ele gostará de tratar de tudo pessoalmente. ele se aquietou e meu pai voltou a se aproximar. entrou no curral. Pode-se fazer tudo o que se quiser. Enterrar o corpo. passando por entre as traves. Mas a memória da pessoa continua a ata-zanar nossa vida como se ela ainda fosse viva. A essa altura o xucro estava furioso de verdade. Nevada conseguiu livrar-se e pular par a a cerca. rijo. que Morrissey usava como escritório. pensativamente. nos fundos da casa. — O que você vai fazer com ele? — perguntei. 2 Fui para a saleta dos fundos. olhando bem para os olhos do cavalo. tentando mantê-las esticadas. Nevada olhou para ele. um pequeno vil bastardo preto que. filho de uma puta — disse meu pai calmamente. apenas. Tirei da gaveta a garrafa de uísque que semp re ficava ali a minha espera. tentou até rolá-lo pelo chão. e eu havia ido até lá para ver Nevada amansar um cavalo xucro. Além disso. Enchi um copo de papel e deixei o uísque descer pela garganta. respirando pesadamente. — Ninguém pode chegar perto daquele cavalo para fazer isso sem perder um braço. Então tentou de novo. O senhor não conseguiria falar com ele. Q uanto tempo eu ainda teria de viver à sombra de outro homem? — Tenho certeza de que ele gostaria muito. O xucro era um cavalo fogoso. general. Lembrei-me do que meu pai dissera uma manhã no curral. — Por que não coloca uma braçadeira no focinho? Assim ele não poderá mordê-lo. Os cascos erra ram meu pai por uma fração de centímetro. Na última vez e m que o derrubou. Seus gritos e apupos cortavam a brisa matinal.ara recordar os bons tempos. — Meu pai morreu há dez anos — respondi. curioso. — Se não der certo v ou mandar soltá-lo. Pegou um pequeno laço pendurado nas estacas sobre a cerca e. avançava sobre ele a coices e dentadas. assim que meu pai ergueu o cabresto.

Havia um brilho de triunfo nos olhos dele quando voltou a me olhar. observando-os. depois. O potro ficou parado. A cabeça levantada do potro projetava a comprida sombra pelo chão do curral. Nevada e eu. Então dobrou seus joelhos. alto e forte em seu terno preto. Mas eu ainda podia ouvir sua voz. Os olhos estavam fit os uns nos outros. abrindo os braços como querendo eximir-se de qualquer responsabilidade. na varanda dos fundos. pouco acima dos olhos. Jonas? — perguntou gentilmente Rina. Depois. Quando voltei ao curral. Meu pai fez rapidamente uma volta para o lado. Meu pai e stava ali. — Vamos tomar café. Não era preciso. na frente dele. meu pai recuou um pouco. que ia chegando com uma bandeja. ofegante. Não estou com fome — respondi. — Larguem-no! — gritou meu pai aos vaqueiros. Os dois ficaram se encarando por alguns mom entos. Vi o punho fechado de meu pai atingir o animal como um martelo. os dois vaqueiros. o animal ficou imóvel por uma fração de segundo. — E daí? Meu pai virou-se. ainda mais comprida. — Não pensei que se interessasse tanto por cavalos -— disse eu. Nevada estava passeando com o potro pa ra cima e para baixo. com as pe rnas trêmulas e a cabeça baixa. Es te pulou um pouco. O xucro ficou um instante parado. confuso. — Nunca chega perto do c urral. Nós quatro. Eu dei uma risada. mas eu era mais alto. mas atirou-se contra ele. sem sorrir: — Alguns cavalos são como gente. velho. Já se haviam passado doze anos. e as pernas dianteiras se enrugaram como se fossem de borracha. El e não teria necessidade de me dar uma pancada na cabeça. sentindo um nó na boca do estômago. O que me interessa é você. Ele era um homem bem grande. Nevada — disse meu pai. aproximando-se do xucro. ao lado da de meu pai. Então meu pai começou a levantar a mão e o potro explodiu. Meu pai desviou ligeiramente o braço. estávamos silenciosos. — Daí que você pode ser grande quanto for. — Não acho que haja muito o que aprender em vê-lo dar uma pancada na cabeça de um potro. do mesmo modo co mo ecoara naquela manhã. Eu sabia o que estava pensando. — Você aprendeu que Nevada não pôde montar naquele animal até que eu tornei isso possível. — Não. mas não terá tamanho para calçar os meus sapatos enquanto eu não deixar. Sentindo-se livre.os dentes e tentou mordê-lo. enquanto recuava para atacar de novo com seus coices. puxou as rédeas e o fez levantar-se. S entou-se na cadeira sem falar. Dessa vez. O barulho do murro repercutiu até onde nós estávamos como uma pequena explosão. que então se deitou de lado e ficou um momento ali. com mais de um metro e oitenta de altura. — Deixe-me. — Não vai tomar café conosco. e deu uma palmada no pescoço do ani mal. colocando a corda em cima da cerca. até que o animal pareceu dar um grande suspiro e deixou sua cabeça cair novam ente no chão. — Agora você não terá muito trabalho com ele. e a cabeça do anima l ainda roçou nele. Jonas? Nevada já estava dentro do curral. quase esbarrando em Robair. Papai tinha razão. habituando-o ao manejo das rédeas. Rina estava de costas para mim e seus cabe los brilhavam como prata quando ela estendeu o rosto para meu pai dar-lhe o beij o matinal. Alcancei meu pai na va randa dos fundos. deixe-me! — murmurei com raiva. Meu pai. os dentes à mostra. Os dois homens se olharam por um momento. Meu pai virou-se para mim. levanto u a cabeça e olhou para meu pai. muito obrigado. Saí apressadamente da sala de jantar. os olhos soltando faíscas. mas era evidente que sua disposição estava quebrada. Não a levantou nem quando meu pai passou pela frente d ele e atravessou o curral para voltar até onde nós estávamos. Ainda tem muito que aprender . — Cavalos pouco me interessam. então. Nós nos viramos e ficamos observando Nevada montar no cavalo. dando um soco em cima da escrivan . largaram as cordas. A única linguagem que entendem é uma pancada na cabeça. O cavalo não estava mais dando trabalho a Nevada. assim que o a-nimal tocou as patas no chão. Entrei com meu pai na sala de jantar.

— Vamos ao general — eu disse. — Pode entrar. Basta Hitler concluir seus preparativos — Quando acha que será. Tive de fazer um esforço para voltar ao presente. antes de o verão acabar. Nem assim Morrissey sorriu. — E conheço. . É uma maneira pela qual poderíamos comprovar as qualidades do nosso avião. — Não sei ao certo — murmurou lentamente. logo depois. — Ficaremos gratos por tudo o que fizer. olhando para mim de boca abert a. — Sentem-se e tomem um drinque — convidei. — Eu disse talvez. Terminei meu uísque e acendi um cigarro. e tenho receio de ver o país desprepa rado quando as coisas começarem a acontecer. Cord! Olhei surpreso. — E isso não tardará. Só se interessava por seu trabalho. Morrissey estava na porta aberta. que estipulava que todos os seus planos e invenções pertenciam à companhia. pegando um copo de papel e servindo-se de uma boa dose. Era um desses cam aradas que não dão o menor valor ao dinheiro. — Você não me deve nada. — A propósito. Não devia te r deixado que uma referência infeliz a meu pai me perturbasse daquele jeito. — Ele vai consegui-los. E que lucro lhe dá a c onstrução de aviões? Tudo que você vier a ganhar com o CA-4 não chega nem à décima parte do q e lhe rende a patente daquele sutiã que você fez para Rina Marlowe. — Ao menos. apenas redargüiu: — O que vamos fazer agora? Tornei a servir-me de uísque e disse: — Eu estava agora pensando em declarar guerra aos Estados Unidos. — O CA-4 é o melhor avião que já projetei! — E daí? Que diabos! Você não gastou nada. onde se encontra o velho rapaz? — Voltou para a cidade. Forrester. Estava indignado comigo mesmo. Eu sou um sujeito à antiga. Quando ele tiver suficientes aviões e pilotos treinados . mas McAll ister fora camarada e lhe dera como gratificação dez por cento sobre os royalties do sutiã especial e no ano anterior ele recebera só por isso mais de cem mil dólares. O mercado crescia sem parar. Morrissey nada comentou. Messers-chmitt começará a produção em série do seu ME-109— O estado-maior pensa que Hitler não poderá fazer muito quando chegar diante da linha Maginot. mas eu aceito — disse Forrester. — Talvez eu possa fazer algo — disse então Forrester. Era verdade. Não me faltavam recursos financeiros para enfrentar um revés. — O que quer dizer com isso? — perguntei. — Sr. Forrester riu. — É o melhor avião que já vi. Tem encontro marcado com um fabricante de papel higiênico. empurrando a garrafa de uísque para eles.inha. — Não quer? Deixou de beber? Não respondeu. — Acha mesmo que pode? Forrester deu de ombros. As escolas de planadores estão preparando dez mil pilotos po r mês e. mas Morrissey não desfranziu a testa. Não gostaria que o perdêssemos por causa da estupidez de um ve lho. Esc ute. Então não esperei que dissesse mais nada. Empurrei o uísque para ele. você fala dessas coisas como se as conhecesse bem. — Não fique parado aí. — Não repare. Forrester apareceu pela porta atrás dele. Ele entrou hesitante e. é uma coisa que ele pode testar por si mesmo. — Não chegará nela — afirmei. Cord. mas ninguém gosta de jogar um milhão de dólares pelo ralo. O dinheiro todo foi meu. Um raio de esperança brilhou nos o lhos de Morrissey. Mas McAllister é que vira o valor comercial da coisa e requerera uma patente em nome da Cord Aircraft. Cord? — Daqui a três ou quatro anos. Estive lá há menos de nove meses. — Maior razão para que eu procure convencer essa gente a experimentar o seu avião. — Obrigado — eu disse. — Onde poderá consegui-los? Não os tem agora. — Voará sobre ela. Tetas não iriam deixar de ser moda por bom tempo ainda. Morrissey — disse ríspida e rapidamente. Morrissey tinha um con-trato de emprego comum.

Eu estava naquela cidade por ocasião de minha visita anual à Europa. Sua parte dos royalties subiria a muito mais que isso durante o período da concessão. mas. Depois. — Aquele homem é judeu. E ainda tenho esperança de que essa loucura passe um dia. sr.— Agora me lembro. atormentavam um velho metido num capo te. Certas pessoas me acusaram de ser simpatizante nazista. Os rapazes ainda ficaram alguns momentos observando-o. Da cerâmica havia passado para a matéria plástica. Só não compreendia por que ele fazia isso . — Venha v er. e Strassmer expôs o que desejava. — Sabia que a proibição ia ser decretada. Forrester não era tão simples como se fazia parecer . É claro que isso era vantajoso para mim. no momento certo. o sangue cor rendo pelo nariz. Otto fora me procurar no meu quarto de hotel em Berlim. Levantou de sua cadeira e foi até a janela. Mas sou alemão. Ficaria muito grato se as procurasse para con-tar que estou bem. Olhei-o por um momento. No entanto. Foi em 1933. Então perguntei. — Os judeus do mundo estão condenados. Não havia outro jeito. as esperanças de Otto Strassmer nunca se concretizaram. haviam empurrado o velho para a sarjeta . — Quer saber por que. — Mas por quê? Por que transferiu o dinheiro se tinha consciência de que os nazistas são nossos inimigos potenciais? — O dinheiro foi para o resgate de um judeu — disse eu. Havia dois policiais.. logo depois que Hitler subiu ao poder. O nosso contrato original foi à base de royalties. Fui até a janela e olhei. Strassmer quis m odificá-lo. pouco mais que meninos. Estava disposto a abrir mão de to-dos os royalties daí por diante em troca de um pagamento de quitação de um milhão de dólares. deram-lhe alguns pontapés com mais desprezo que raiva e se foram. Chamava-se Otto Strassmer e começara a vida como técnico de controle de qualidade nu ma fábrica de porcelana da Baviera. — Alguns dos meus melhores amigos são judeus — disse Forrester. como os judeus da Alemanha — disse-me ele. — Por que não vai para junto delas? — Talvez eu vá. não foi? — Claro que não. Hitler afirma que os judeus não têm dire itos perante a lei alemã. — E daí? Por que ele não chamou a polícia? Strassmer apontou a esquina. Pudemos vê-lo estendido no meio-fio. não é mesmo? Poderia ter poupado seu dinheiro se esperasse apenas mais um dia. — Guarde-o até posterior decisão minha. na rua. — Nós. d . O dinheiro tinha de ir para a Alemanha. que seria depositado em seu nome nos Estados Unidos . sr. — Mas não posso nem me ima ginar gastando um milhão de dólares por um deles. Depois acendi um cigarro. Virei-me para Strassmer. E não falaram muito bem. diante do Adlon. — O que quer que eu faça com o dinheiro?. sem compreender. Então respondi: — Acho que sim. Duas vezes enquanto estávamos olhando. Cord. Ali. — E o que isso tem a ver com você? — Sou um judeu — disse simplesmente Strassmer. depois de estar em vigor por vários anos. — Não podia esperar. Cord? — perguntou no seu inglês de sotaque peculiar. Acontece que transferi o dinheiro para lá na véspera do dia em que Roo sevelt proibiu a transferência de fundos para a Alemanha. tornei a servir-me de uísque e disse: — Esse judeu valia isso.. Minha mulher e minha filha já estão nos Estados Un idos. — Aqueles dois viram tudo o que aconteceu. — E por que nada fizeram? — Porque têm ordens de não intervir nesses casos. Os jornais falaram disso. um grupo de jovens vestind o camisas marrons. com a cabeça enfiada na sarjeta. — Por causa do milhão de dólares que você depositou no Reichsbank? Lancei uma rápida olhada para ele. Fiquei em silêncio por um momento. e fora ele quem inventara o processo de moldagem de alta rapidez que eu comprara e vendera a um consórcio de industriais americanos. Foi o que eu s oube menos de um ano depois no gabinete do Reichsmarschall Göring.

Vai ficar muito de-cepcionado quan do souber que não receberemos o dinheiro. Eu havia dito que o senhor era nosso amigo. Strassmer entrar no meu escritório em Nova Iorque — disse eu. — Agora fico sem saber o que vou dizer ao führer. Não gostei da expressão "ordenar-lhe" e disse: — Estou procurando falar com o sr. excelência. — Ótimo — comentou. por que decepcioná-lo? Um judeu a mais ou a menos não tem grande importânc ia para a Alemanha. E. Exatamente um mês depois. Cord. Logo que ele saiu do meu escritório. com a cabeça. Göring sorriu. — No dia em que o sr. — Bem. Considerarei o milhão de dólares como um adiantamento sobre seus royalties. Strassmer. Se não tomássemos providências. não tive mais dúvidas. — O führer não vai gostar disso. não havíamos trabalhado para o governo. — Compreendo — respondi levantando. Ele assentiu. já reconhecemos isso e es-peramos de braços abertos os nossos amigos e aliados do outro lado do mar que queiram unir-se a nossa cruzada. o braço levantado na saudação nazista. Não sou mais um homem rico. Mas percebi que nada fazíamos de secreto. Só fazíamos aviões comerciais. e se voltou para mim. apertando um b otão em sua mesa. — Claro — concordei. sorrindo. — Nesse caso. o engenheiro alemão entrou no meu escritório em Nova Iorque. o Reich confiscou todos os bens de um certo Otto Str assmer. — Que vai fazer agora? — perguntei. Apenas em es-cala um pouco maior. Soubemos que há uma certa quantia que é devida ao mesmo e. — Venha trabalhar comigo. Concordei com a cabeça. Um jovem tenente apareceu na porta. pensativo. Göring me levou para um canto. Quando receberemos o dinheiro? Gos taria de dar a notícia ao führer com certa antecedência. estaríamos odos perdidos. A fábrica Messerschmitt me abriu os olhos. Mas voltou dizendo em voz mais baixa: — O führer ficou muito satisfeito com sua cooperação. en carando-o com firmeza. Ele concordou. assim. Depois virou-se para ir embora. quando vi alguns dos esboços do ME-109 no esc ritório da Mes-serschmitt. — O tenente Mu eller o escoltará à fábrica Messerschmitt. Jogou alguns papéis em cima da mesa e disse: — Em cumprimento às novas leis. Depois vou procurar trabalho. A única coisa comparável eram as linhas de montagem de automóveis em Detroit. tentando imaginar como eles haviam conseguido entrar na minha fáb rica. — O Terceiro Reich não esquecerá seus amigos — afirmou o Reichsmarschall. — Talvez esse seja o melhor caminho. Fiquei em silêncio. Ele ficou me olhando. num gesto com a cabeça. — Antes de mais nada. — Heil Hitler! — disse.a Nova Ordem. — Sou amigo também do sr. — Não temos tempo a perder. Espero vê-lo de novo no jantar. claro. por ocasião do jantar. sou encarr egado de ordenar-lhe que deposite esse dinheiro no Reichsbank. Até então. Sorri para ele. Strassmer. pensativamente. — Otto Strassmer sofreu um grave colapso e está internado num hospital. vou ver minha família no Colorado e descansar um pouco. — Sim. esperando que ele voltasse a falar. — O que achou de nossa fábrica? — Estou impressionado. — Heil Hitler! — respondeu Göring displicentemente. Nada havia de parecido com aquilo em ma téria de fabricação de aviões nos Estados Unidos. Göring deu um amplo sorriso. — Nós. surpreso. seguimos o padrão de sua fábrica na Califórnia. sr. agradecido. homens da aviação. sempre nos entendemos — continuou Göring. Ele me olhou. dei sinal verde a Morrissey para continuar tr . Naquela noite.

Joguei as roupas na cadeira . virei-me e o vi ao lado da mulher com quem falara no campo de aviação. Corri os olhos em torno e fui para os elevadores. — Quero apenas fazer uma pergun ta. Se não estava enganado. — Charmante.abalhando no CA-4. Gostar .. D iz ele que é urgente — insistiu ela. — Tenho um encontro marcado à uma da tarde no Waldorf —disse. Estava muito agitado e parecia necessitado de mais alívio do que podia encontrar no lugar para onde estava indo. quem é ela? Rico sorriu com ar de conhecedor. Não estava mais preocupado. o tempo de que dispúnhamos era curto. McAllister me recomendou que o chamasse logo que o se-nhor voltasse. Já deveríamos estar lá. comecei a me senti r melhor. Acendi um cigarro enquanto esperava. — Tenho um almoço hoje que não gos-taria de perder por nad a. Chegou ao Waldorf comigo e seguiu seu caminho enquanto eu me dirigia para os ele vadores. Quase meio-dia e meia. passando-lhe uma nota. Desliguei. Quando saí do banheiro. — Creio que ele está hos pedado aqui. Tudo estava entrando nos eixos. Olhei para o relógio. — General. — Mas o sr. Onde foi que se meteu? — Estava dormindo. 3 O que eu mais queria era tomar um banho e dormir um pouco. Quatro horas em ponto. Só conseguira pegar no sono naquela noite por volta das cinco horas da manhã. — Ah. não? É madame Gaddis. O general devia estar ali por perto. — Pode ligar para ele às quatro horas. caí na cama e dormi como uma criança. Dentro em pouco. De repente. — Como eu poderia. É possível que consiga convencê-lo. sem muito interesse. McAllister e Pierce logo estariam de volta ao hotel. a esposa do general. Beijou sua própria mão. Cheguei até a en-trada do salão e f iquei esperando que Rico voltasse. Olhei para o relógio de pulso ao estender a mão para o aparelho. o maître. levá-los para uma mesa num canto. monsieur Cord! Vai almoçar sozinho? — Não vou almoçar. Estranhei. A reunião dos acionistas deveria estar terminando àquela hora. número 31-15. — Dormindo? Temos uma reunião da diretoria nos escritórios de Norman. — Você não me disse nada disso. Eu bem percebera por sua atitude com Forrester. Entre eles devia haver al go mais que Exército e aviões. mas pouco me incomodei. Rico — respondi. Era Mac. A senhora que está com o coronel Forrester. liguei para a telefonista do hotel e pedi que não fizesse ma is ligações para mim até quatro horas da tarde. Eu o vi atravessar o vestíbulo na direção dos lavatórios. Difíc il mesmo seria fazer o Exército dos Estados Unidos compreender isso. Vi Rico. — Vou voltar para a cidade e dar alguns telefonemas para Washington — disse ele. — Estou tentando falar com você a tarde toda. agora. com N orman sob controle. — Vou falar também com o general. fui para o boxe do banheiro e abri o chuveiro. Olhei por sobre a escrivaninha para Forrester. — Quer que eu o leve? — Com prazer — disse Forrester. O telefone tocou várias vezes enq uanto eu estava debaixo da água. A campainha do telefone me acordou. — Ótimo. Estou no meu apartamento aqui. se você não atendia ao telefone? — Quero falar com o general Gaddis — pedi à telefonista do hotel. A questão agora era saber quantos aviões o Exército ia compr ar. quem fala é Jonas Cord. ouvi a voz áspera pelo fone: — Fala o general Gaddis. Pela primeira vez desde que pousara o avião no Campo Roosevelt. que ela não o houvesse esperado lá.

— Não está dando um passo maior que suas pernas? — perguntou Mac. um bule de café. Acham que po dem conseguir a decretação da falência. — E se ela não quiser faze r o filme? — Vai fazer. — Ele não quis falar com Dan. — Ótimo. Pedi três sanduíches de carne. O senhor é um moço grosseiro. de repente. também. — Ótimo — disse eu. aprovando tudo. — Mas sabia que nada podia fazer. Antes da reunião. queria comer alg uma coisa. automaticamente. tenho uma garrafa aqui à sua espera. — Minha mulher? — disse ele. hoje de manhã. do contrário entraremos com o pedido de falência da companhia. tudo o que queri a. Sabe perfei-tamente que você perde ria tanto quanto ele se requeresse a falência. general. Não acredito que o Departamento de Guerra fique satisfeito em saber que uma questão pessoal serviu de base para a rejeição de um avião c omo o CA-4. duas d e bourbon e uma porção du-pla de batatas fritas. mas ela também não sabe do paradeiro de Rin a.. — Mas o contrato dela lhe dá o direito de recusar scripts. se não estou enganado. mas Dan era todo sorrisos. numa explosão. rindo. Mac. O telefone da copa finalmente atendeu. — Continue tentando. o que o senhor gosta de beber? — Uísque — respondeu ele. Mac estava com seu habitual ar de preocupação.ia de conversar com o senhor. E não vai querer perder tudo o que tem só para me fazer companhia. Ouvi o barulho dos pratos pelo telefone e . — Ela vai aprovar esse. Íamos filmá-lo por um processo nov o chamado Technicolor. uma garrafa de leite. Seria o maior filme já feito no estilo de De Mille. Fiz tudo o que era possível. conseguiu falar com Rina? — Não. general. e isso nos custaria seis milhões de dólares. — Está na minha pasta. Temos de encontrá-la. — Logo veremos. Desliguei o telefone e perguntei: — Então? Como foram? — Bernie guinchou como um porco sangrando — disse Pierce. Jonas — disse Mac. — O que ela tem com nossos negócios? — Muita coisa. — Pedi-lhe que convença o v elho a vender. uma garrafa de uísque escocês. Que tal daqui a quinze minutos? Desliguei antes que ele pudesse responder e liguei para a copa. uma petição par a que fosse nomeado um síndico para a massa falida. Falei até com Louella Parsons. falei com nossos advogados aqui. Dan. Nós dois sabemos com quem ela se encont rou hoje às treze horas para almoçar. inconsciente e. Ele sabia do que eu estava falando. Quero que ela leia aquele script. Enquanto esperava. — Para que pensa que eu quero a empresa de Norman? A única c oisa de valor que eles têm é o contrato de Rina. general. — E não estou. o telegrama de Zukor. Houve um longo silêncio do outro lado do fio. — Mas você não parece muito contente com isso. — Ela é a única coisa que nos está pren-dendo agora. — Também quero — disse Dan. — E as ações dele? — Não sei. Já resolvi a caso de De Mille com a Paramount. Eu havia mandado fazer aquela porcaria especialment e para ela. — Não é sobre minha falta de educação que desejo conversar. — Já preparou tudo? — perguntei a Mac. Norman tem muita tarimba nos negócios. — Mas gosta muito de dinheiro. — Mas eu falei com David Woolf — interferiu prontamente Dan. Nada havia comido desde o café da manhã. Não podia deixar de ser assim. . — Espero que seu raciocínio esteja certo. Estava prestes a conseguir. e o título seria A pecadora. O estúdio não sabe o nde ela está. O telefone da casa dela não atende. senti fome. — Nada temos a conversar. sim — afirmei. É sobre sua mulher. Era a história de Maria Madalena. — A propósito.. Mac e Dan Pierce entraram. Não conseguirá enganá-lo assim. — A Paramount está de acordo? — Recebi.

logo que voltei para a cidade. . mas tive a impressão de que estava mais alto e mais aprumado. — E sirva-se do uísque. — Sente-se. As águias de prata no seu blusão. Tomei as providências hoje de man hã. — É Jonas Cord quem fala. general. não terá necessidade alguma de entrar em qualquer combinação com Forrester por minha causa. Estou no meu apartamento aqui no Waldorf e gostaria de con versar com você. Cord — disse ele. sr. As estrelas de sua farda não significavam nada. general.. — Talvez ela tenha pensado que eu era um militar assim quando se casou comigo. Ele abriu a garrafa. cheguei a ter pena do homem. Fiz as apresentações e pedi a Dan e a Mac que nos deixassem a sós. que valor terá isso para o se-nhor? — O que o faz pensar que desejo isso? Comi o resto do san-duíche e disse: — Não vamos começar com escaramuças. Estava no meio do segundo sanduíche. quando o general chegou. sr. Antes de o garçom sair. Sou um homem crescido e tenho dois olhos. a Croix de gu erre. A mim ele não enganava. seria outro q ualquer. mas creio que e le não conseguiu falar com o senhor. general. Para cada homem na linha de frente é p reciso haver cinco ou seis homens na retaguarda para manter os abastecimentos. — À vontade. general. Deveria ter cabeça bastante p ara telefonar a Morrissey antes de dar com a língua nos dentes. quase chorando. com tranqüila dignidade. Era apenas outr o caso de um velho querendo desesperadamente prender uma mulher jovem. quando falou: — Foi por isso que vim falar-lhe. — O que acontece é que ela é jovem e impressio-nável.Quando o garçom chegou e arrumou a mesa ao lado da cama. general — disse eu. Nada disse e me servi de uma xícara de café. Por um instante. Um leve sorriso apareceu no rosto do general. A ga rrafa está aí em cima da mesa. Sentem-se atraídas por uniformes. Não há nenhuma o u-tra condição. — Bem sabe como são as mulheres jovens. Peguei o terceiro sanduíche e entrei direto no assunto: — Se eu fizer Forrester deixar o Exército. Se seu avião for aprovado nos testes. A porta fechou-se atrás dele e eu peguei um cigarro. Morrissey. Olhei para ele com surpresa e me senti envergonhado. logo que a porta se fechou. Recostei-me na cabeceira da c ama e dei uma tragada bem forte. de cara fechada e ainda de pé. eu já havia comido um dos sanduíches de carne e tomad o a metade da garrafa de leite. Levantou e olhou para mim. E eu me orgulho de meu trabalho porque procuro dar a nossos homens o que pode hav er de melhor. obrigado — disse o general. — Acho que vou aceitar seu uísque. Tudo que desejo é que o Exército apure com justiça as qualidades do CA-4. Cord — disse ele. eu per-cebi como estava c om fome.. Talvez fosse minha imaginação. tomou um bom gole e sentou na cadeira ao meu lado. sr. — Não. Telefonei para o sr. Um homem com o Forrester. — Não foi porque o senhor resolveu meter minha esposa em assuntos estranhos às relações que dev em existir entre nós.. — Assim sendo. Mas não tardou a descobrir que não passo de um agente de compras graduado. Bem. Cord. mas para dizer-lhe que um grupo de pilotos de prova estará ama nhã de manhã no Campo Roosevelt para testar seu avião. A telefonista localizou Forrester no bar. é fácil compreender. Se não fosse Forrester. Quis dar alguns conselhos e dizer que se conformasse. — Não faça mau juízo de minha esposa. — Compreendo. Dan o trouxe até o qua rto. Talvez não enganasse nem a si mes-mo. o Exército irá comprá-l o.. — Não tenho a menor dúvida a esse respeito. Tornou a encher o copo e continuou: — O Exército é hoje uma máquina complexa. sr. — Por que acha que não procederei com justiça em relação ao seu avião? — E fazer o prestígio de Forrester crescer ainda mais aos olhos de sua mulher? Podia entender o que estava se passando dentro dele. Cord.

E preciso de alguém que conheça as pessoas. — É só o tempo de eu enfiar as calças. Você entende. — Já são quase seis horas. desde que você me convidas se. que consiga amigos para nós. felizes por estarem l ivres do trabalho pelo resto do dia. Ele diz que Norman está falando em ir embora. Aquilo fazia sentido. — Entendo perfeitamente o que quer dizer. Demos boas risadas e bebemos para comemorar. Mac. — Onde gostaria de começar? — No cargo mais alto que for possível. — Como assim? — Acho que a Cord Aircraft vai ter agora muitos negócios com o Exército. de quem foi esta? Sua ou de Gaddis? — Minha. É quatro vezes mais do que estou ganhando agora. — É o que você acha realmente? — perguntei. — Lembre-se disso quando vier me pedir aumento. você será mais útil à Força Aérea fora d ue lá dentro. Não podemos fazê-los esperar indefinidamente. — Você pode falar o que quiser. Ele cumpre seu dever. enquanto ele se servia de um drinque. — Atenda para mim. cobrindo o fone com a mão. — Eu também decidi hoje de manhã — disse ele. — Ótimo — repliquei. mas já com as estolas de pele passadas di splicentemente pelos ombros. — Nunca se sabe antes de experimentar. mas Gaddis é um bom soldado. — Algo assim. Estou na Força Aérea desde garoto. E essa idéia nada tem a ver com a compra ou não do CA-4. . — Há algumas modificações que gostaria de discutir antes dos testes de amanhã. Ele apanhou outro copo e preparou a bebida. É por isso que quero falar-lhe. Nesse momento. Jonas. Ele deu um assobio de surpresa e disse: — Não é preciso ir tão longe. — Acho que já é tempo de você deixar de brincar de soldado. por favor. Além do mais. Poderão ligar para mim daqui a duas horas n o escritório de Norman. — Vinte e cinco mil dólares por ano e despesas pagas. Ninguém o impedirá se quiser realizar algumas de suas idéias. O Exército só respeita gente de cima. as pequenas estavam saindo. contatos. Vão testar seu avião amanhã. c omo se tivesse passado a tarde inteira ao lado de uma garrafa de bebida. — E as modificações no avião? — perguntou Forrester. Chegou ao meu apartamento em menos de dez minutos. Quan to quer ganhar? — Você me deixou escolher o cargo. que saiba o que é mesmo que querem num avião. — Quer preparar um drinque para mim? — disse eu. — Eu sei. Seu rosto es-tava vermelho. Virou seu copo. rindo. 4 Estava apenas começando a fazer frio e as pequenas saíam de seus apartamentos em Par k Avenue ainda trajando vestidos de verão. O telefone tocou enquanto eu abotoava a camisa. — Vá até o campo de pouso e entenda-se sobre isso com Morrissey. Quer que eu deixe de ver Virgínia Gaddis p orque isso não ficará bem para a companhia. Tive essa idéia agora de manhã. Vou deixá-lo dizer o salário. Mas estas não tomavam táxis. — Parece que o velho teve um lampejo de bom senso. — Diga que acabo de sair para uma reunião. enquanto Mac atendia ao telefone. McAllister entrou no quarto.— Também gostaria de conversar com você. depois de nossa conversa no escritório de Morri ssey. — Você é o novo presidente da Cord Aircraft. — Não temos muito tempo. corr iam para os subways e desapareciam nos acessos subterrâneos. — Aceitaria. — Por falar em idéias. Dan acaba de falar com David Woolf. — Não sei se serei bom nisso. Também na Sexta Avenida. sabe o que eu quero dizer. — É de Los Angeles — disse Mac.

— Cavalheiros. Ele levantou e avançou um passo largo pelo lado da mesa. havia cartazes tristemente pendurados diante das agências de emp regos. As construções civis contin uavam. . Mac e Dan passaram. Ouvia-a murmurar. e. — Desconfiança! — exclamou Bernie. É impossível chegar a qualquer solução numa atmosfera de desconfiança. como tantas prostitutas de luxo ainda e stavam morando nos melhores lugares? Havia dinheiro. depois para mim. — Então saia. Forrest Hawley.Nova Iorque tinha uma forma de vitalidade estranha e curiosa. mas inteligentes. Cord. Prefiro retirar-me a se ntar à mesma mesa com você. e as putinhas de dois dólares já haviam iniciado sua patrulha notur na. Edifícios de escritórios e apartamentos caros. E tem mais. Mac voltou-se para mim alguns passos adiante a me olhar com ar de irritação. Norman estava sentado à pont a de uma mesa comprida. um banqueiro e um conta-dor. O velho achava que a melhor ma neira de conseguir o que queria era me atacar. e um homem que eu conhecia de vista no estúdio. Esta reunião é exclusivamente para diretores. — Tome para você. Nesse m omento. Os quadros-negros. benzinho. E ela tomou isso como um sinal de encorajamento. comprando as ações muito abaixo de seu valor nominal. apesar das queixas e dos lamentos da Wall Street.. sim. quase sem mover os lábi os: — Você vai ser o primeiro hoje. David Woolf. — Diga a seus amigos que farei um preço especial para todos. ainda sorrindo. Bernie levantou e disse: — Espere aí. à sua esquerda. aborrecidos. O negócio estava engatilhado. Ela se acomoda e depois não dá mais vontade de enfrentar o trabalho. à sua direita. Tirei um pacote de cigarros do bolso e acendi um. Ela olhou para o dólar e murmurou: — São camaradas como você que mimam demais uma mulher. Nos outros lugares e stavam os nossos homens: dois corretores. — Não era eu quem dirigia a companhia. — Espera que eu confie nele depois de me haver roubad o a companhia pelas costas? — As ações estavam à venda no mercado livre e eu simplesmente as comprei. Entrou num café do outro lado da rua no momento em que chegávamos ao novo edifício da RCA. A-proximou-se. o tesoureiro. Posso ensinar coisas que você nunca aprendeu na escola. Fica para outra vez. à espera de um tempo em que os riscos fossem menores e os lucros maio-res. tirei um dólar e o coloquei na mão dela. Depois desta reunião. — Mas a que preço? Primeiro. Eu ainda sorria quando entramos na sala da diretoria. Dan e Mac sentaram um à frente do outro e deixaram a outra ponta para mim. Cinco dólares. já começavam a parecer velhos. A essa altura a conveniência ou não d e minha presença na reu-nião já havia sido esquecida. você. e disse: — Aposto como pode. Se não havia dinheiro. Meti a mão no bolso. sim. você não terá mesmo muito o que fazer aqui. Quer me fazer começar bem a noite? Sorri para ela. Pouco se importou com o mal que essa manobra fazia à companh ia.. Uma delas virou-se para me olhar enquanto eu passava. — E seria capaz de fazer melhor? — Se não pensasse assim. cavalheiros — disse McAllister. que contrastava co m a atmosfera de depressão geral que pairava sobre o pais. Na Sexta Avenida. — O mercado foi manobrado por você. com suas listas de empregos escritas a giz. — O preço que ofereci foi duas vezes o que paguei no mercado livre. A mulher olhou de relance para eles. Seus olhos eram grandes e cansados. E agora ainda quer que venda as minhas ações ao mesmo preço vil que pagou pelas ou tras? Sorri para mim mesmo. forçou uma baixa no mercado. — Isso não é maneira de se realizar uma reu nião importante. — É só dois dólares. Mas não creio que meus pro-fessores vão aprovar. Temos de discutir muitos problemas graves que dizem respeito ao f uturo da companhia. no Rockefeller Center. não estaria aplicando mais de sete milhões de dólares na companhi a. Parei. há seis anos que está t endo prejuízo. embora vivesse escondi do.

confuso. Pegou um lápis e começou a bater na mesa com ele. Possuo apenas algumas ações de minha própria companhia. dois milhões e cem mil dólares . perto de Beverly Hills. ainda que ele me pagasse. Norman o que faria com os sete milhões de dólares. Permaneci impassível no meu canto. — Gostaria de perguntar ao sr. Nova Iorque. por sua aparência. provocando uma questão judicial que possivelmente não poderia vencer. Ele me entregou uma folha de papel que tirou de sua pasta e comecei a ler: — Depósitos em nome de May Norman: Security National Bank. A verdade é que não cheguei a esta idade para entregar de bandeja minh a própria companhia. só pelas ações. O rosto de Bernie assumiu uma expressão astuta. Não — contin uou ele. você atuará como secretário. Além disso. e quem achar que pode me deter te rá de enfrentar um processo judicial como nunca viu antes em sua vida. Incorporated. E a sra. Bernie olhou para mim. Até McAllister não pôde deixar de sorrir. à espera de alguma reação. Jonas Cord. — Está aberta a sessão ordinária da diretoria da Norman Picture Company. Nova Iorque. — Não sou tão ingênuo quanto pensam — disse. Cord está presente a convite de alguns diretores. — Sr. Se ele não fosse tão ladrão. presidente — disse Mac —. dando um soco na mesa —.Norman me encarou com raiva durante alguns instantes. certamente ele iria perceber o prejuízo que ca usaria. — Passei a tarde ocupado e consegui compromisso s de acionistas em número suficiente para me assegurar a maioria dos votos. que podem ser modestamente avaliadas em cinco mil dólares por hectare. O velho virou-se para o sobrinho: — Veja. Boston. Entregaria tudo ao Fundo de Ajuda aos Judeus? — Não é da conta do sr. caso os desse a ele. — Conti nuo a ter como sempre uma fé inabalada no destino da companhia. Tome nota d isso. a-té apontarmos outro. que não tinha o menor conhecimento da ex istência de todo aquele dinheiro. que é a eleição dos diret ores da companhia para o próximo ano. há alguns depósitos menores espalhados em vários bancos do país. as que estão em seu nome e no de sua esposa? — Relação? — exclamou Bernie. Tenho planos para assegurar o funcionamento próspero da companhia. um milhão e quatroc entos mil dólares. David. para que ele possa doar mais dinheiro aos seus amigos nazistas. não. David — disse Bernie. — Sr. Manhattan Company Bank. Depois. o sr. eu teria dado uma gargalhada. D avid. Norman. — Que relação? Olhei para McAllister. mas sob a obj eção do presidente. a companhia que construí com o suor do meu rosto. Levantei realmente zangado. se eu quiser lutar. Algo me disse que as desilusões de David não iam ter minar por aí. Com que ele iria lutar? Já dis-púnhamos de quare nta e um por cento das ações com direito a voto. — Onde conseguiu essa relação? — Não tem a menor importância a maneira pela qual a consegui. E entregaria a Cord. — Se o interesse do presidente pelo futuro da companhia fosse tão sin-cero quanto o nosso — disse polidamente McAllister —. Cord o que eu faço com o meu dinheiro! — gritou ele da outra ponta da mesa. O sr. O velho continuou: — Há quorum para a sessão e também está presente. — Trataremos agora do primeiro item constante da ordem do dia. Lehman Broth ers. — Não sou rico como ele. sete milhõe s de dólares. que chegam a seiscentos mil ou setecent os mil dólares. . Abri um sorriso. Pio¬neer National Trust Company. Cord concluam as negociações a respeito da venda de suas ações. voltou para sua ca deira e sentou. como uma boa esposa pode economizar com o dinheiro de despesas domésticas. — Por que acha que estou interessado na venda de minhas ações? — perguntou Bernie. Mas o sobrinho mostrava. a convite. Olhou para mim. Fiz um sinal para McAllister. setecentos mil dólares. Los Angeles. Norman possui ainda quatrocentos hectares de terras valio síssimas em Westwood. gostaria que eu lesse aos presentes a relação de valores líquidos de suas propriedades particulares e holdings. proponho que a eleição dos diretores seja adiada até que o s enhor e o sr. em voz alta —. três milhões cento e cinqüenta mil dólares.

— Agora. resolva. desprezível. Não poderá dizer que não está cient e de que ela recebe uma comissão de cinco a quinze por cento em todas as compras f eitas por esta companhia. Volte. Toda vez que s e ofereceu para me ajudar.Bernie voltou-se para mim: — Então minha mulher economizou alguns dólares. Ela é nossa agente nes sas compras. — Não tenho tempo para tomar conhecimento dos negócios dela. Parece estar esquecendo que a administração de sua companhia é da alçada da Justiça fede ral. planos diminutos. . — Você não ousaria! — Não? — disse eu. depois para mim. Aqueles pequenos seres. Como cavalheiros. Vamos deixar de conversa fiada. mas eu tinha a impressão de que estava assinando aquelas transferências não com tinta. Gritei: — Escute. Por que não deveria receber comis-sões? Já estava farto daquilo. Olhei pela janela para a rua. Norman. Era um velho egoísta. Só está aborrecido agora porque não estou me deixando roubar de novo! — Nazista! Soltei lentamente a presa e disse a McAllister: — Pode requerer a falência. Não tinha qualquer noção de hones-tidade. O rosto de Bernie estava vermelho. Puxei-o pelo colarinho e encostei-o na parede . que não perd oa nem aqueles que. Por cinco milhões eu poderia pensar. enquanto sua companhia estava perdendo cerca de onze mil hões de dólares. sr. — Por que faz isso comigo? — choramingou. Era e stranho vê-lo desfazer com algumas penadas o trabalho de toda sua vida. meteu a mão no meu bolso. se tomasse conhecimento desse negó-cio. — Não está em posição de barganhar. — É possível — disse eu. Levantei e fui até ele. nenhuma honra ou ética. Norman. — Espere um pouco! — a voz de Bernie me fez parar. mas co m o sangue de suas veias. Encarei-o firmemente: — Está bem. Havia um ódio mortal em seus olhos. darei entrada nesses papéis em juízo ama nhã de manhã. Isso lhe dá o direito de me roubar? — Nesses últimos seis anos. não procuraram senão ajudá-los? Não pude mais. E de certo modo foi pena o que me inspi rou Bernie naquele momento. Encaminhei-me para a porta. — Não há necessidade de ir embora só porque me exaltei um pouco. Se não vender. E mova também uma ação criminal contra Norman e sua mulher por roubarem a companhia. O dia seguinte seria um sábado e eles estariam de folga. estendendo a mão a McAllister. — Mas. Fiquei perto da janela. Se não aceitar minha oferta. Iriam para as praias. Podemos res olver tudo isso em poucos minutos. Havia um sorriso abjeto em seu ro sto. me parece estranho que sua mulher tenha depositado um milhão de dólares todo ano em suas várias contas. Os que tivessem dinheiro dariam um passeio de carro pel o campo. trinta andares abaixo. tinham com certeza pe-quenos sonhos. Quer vender ou não? — Não por três milhões e meio. Assim. desde que as ações são vendidas no mercado aberto. Veremos então se a Justiça federal achará ou não características criminosa s nas transações de sua mu-lher que o senhor parece considerar perfeitamente legítimas . sr. para os parques. que lá embaixo se agitavam como insetos. Levariam a esposa e os filhos e respirariam o ar puro do campo. seu pequeno judeu bastardo! Não tolero mais seus desaforos. Ele afundou-se em sua cadeira — E que mal há nisso? É uma praxe comercial perfeitamente normal. — Minha mulher é muito hábil e feliz em seus investimentos — defen-deu-se. — E porque odeia tanto os judeus. Tinham sorte. que me en-tregou as petições. vendo Bernie assinar os papéis de transferência das ações. Arremessei-a s para Bernie. Não hesitaria em sacrificar fosse quem fosse por seus interesses. Bernie olhou para os papéis. descobriria que ela negocia com todos os fornecedores da Norman Conpany. pedirei a falênc a da companhia. como eu. é bem possível que vá parar n a cadeia. Ofereci um preço mais do que j usto por suas ações. Não é preciso gostar de um sujeito para ter pena dele.

David? O sobrinho se levantou para acompanhá-lo. Senti um gosto amargo na boca. sr. Ele se levantou. — Sim. entregando-me uma folha de papel dobrad a que havia tirado do bolso do paletó. Cord — disse. E eu pretendia ficar em cima o mais possível. — Acho que vai querer isso também — disse ele. Pelo menos.. Norman. Cord? — Não. Voltei-me para David Woolf. gesticulando com a cabeça. e tomo u a sentar-se. quando alguém dissesse meu nome. pelo menos até que. — Sim. — Por que não me contou? . Cord. Ri-na. — E deseja vê-lo. — Há muitos anos. — Vamos. Passei a tarde toda à sua procura.. enquanto eu estivesse lá em cima. Havia dilapidado e saqueado uma companhia d e mais de quinze milhões de dólares e sua única desculpa era o fato de ele mesmo a ter fundado. Rina sempre me parecera indestrutível. ninguém seria capaz de pensar que um dia ele venderia sua companhia por três milhões e meio de dólares. Posso dizer a ela que virá? — Diga-lhe que já estou a caminho! — e desliguei o telefone. indo até o telefone num a mesa ao canto. estivesse pensando em mim e não em meu pai. deixei de ter pena dele. Ele estava me olhando com uma expressão estranha. — Você sabia — disse eu.. Tentou um sorriso. Era uma carta em que pedia demissão dos cargos de presidente da companhia e da ass embléia. Os médicos não sabem quanto tempo e la ainda poderá resistir. Não viviam cercados de gente que só pensava em viver perto da fonte d a riqueza. — Quer mais alguma coisa. sr. Gostava dali de cima. não pela idéia de qu e podiam tirar disso algum benefício. O velho deu de ombros e murmurou: — O que mais eu poderia esperar de uma pessoa do meu próprio sangue? A porta fechou-se atrás dele. balançou vagarosamente a cabeça em gesto afirmativo. Rina. De repente. no E ast Side. soluçando. — a voz dela sum iu. mas eu cobri o fone com a mão e disse: — Você fica. — Morrendo? Era inacreditável. Peguei os certificados e dei uma rápida olhada. sr. Vi Bernie me olhar de maneira esquisita e depois dirigir-se para a porta. Está no Sanatório Colton em Santa Monica. Ouvi uma voz de mulher pelo telefone. O que há com Rina? — Está morrendo. Era como estar no céu. Gaillard. Encefalite. quando Bernie Normanovitz abriu seu primeiro cinema na rua 4. Não tinham tido um pai que só podia amar o filho se ele fosse exatamente fei to à sua imagem. — Telefonista. Senti um arrepio agourento apertando-me o coração. Talvez a vida lá embaixo também fosse amarga. o sr. eu é que fazia as regras e os outros tinham de observá-las. No meu mund o..Não viviam numa selva onde o valor era medido pela habilidade em viver ao lado dos lobos. Estavam assinados corretamente: Bernard B. E não estava particularmente ansioso em descobrir a verdade. eu sabia. Norman. Saí de perto da janela e voltei para a mesa. Pode completar aquela ligação para o sr. Quando amavam alguém era apenas pelo que o coração sentia. mas eu não estava certo disso. Cord já está na linha. David olhou para Bernie. quem fala é o sr. — Mas eu ainda vou fazer uma coisa pelo senhor — disse Norman. — Sim. — Jonas Cord? — Sim. Mas não foi muito bem-sucedido. E é melhor se apressar. Quem fala? — Ilene Gaillard. quisessem ou não quises sem. sem ninguém para dizer o que se podia ou não fazer. Havia algo de familiar nela. Cord. srta. Passou-me o telefone e ouvi a voz da telefonista: — Los Angeles. Bernie olhou para mim.

— Como poderia? Meu tio tinha receio de que, se o senhor soubesse, não compraria mai s as ações. Um estranho silêncio dominava a sala quando peguei de novo o telefone. Dei à telefon ista o número de Morrissey no Campo Roosevelt. — Posso ir embora? — perguntou Woolf. Concordei com um gesto da cabeça. Havia sido redondamente embru-lhado, tosquiado c omo um cordeirinho, mas não tinha direito de me queixar. Conhecia as regras do jog o. Mas aquilo perdera qualquer importância. Agora nada mais importava. A única coisa qu e importava era Rina. Estava impaciente, esperando que Morrissey atendesse o tel efone. A única possibilidade que eu tinha de encontrar Rina com vida era voar para lá no CA -4.

5 O hangar profusamente iluminado fervilhava de atividade. Os soldadores trabalhav am nas asas com as máscaras descidas, e os maçaricos projetavam sua chama azul solda ndo os tanques de combustível às asas. Os mecânicos estavam arrancando do avião tudo o q ue não era absolutamente essencial ao vôo, tentando diminuir ao máximo o peso. Olhei para meu relógio quando Morrissey se aproximou de mim. Era quase meia-noite. Nove da noite na Califórnia. — Ainda demora muito? — Não muito. Já tiramos tudo, mas ainda estamos seiscentos e trinta e cinco quilos aci ma da força ascensional desejável. O centro-oeste estava completamente fechado por tempestades, de acordo com os bo letins meteorológicos. Eu teria de me livrar dela fazendo uma rota pelo sul. Morri ssey havia calculado que precisaríamos de quarenta e três por cento mais de combustíve l para o próprio vôo, e no mínimo mais sete por cento como margem de segurança. — Por que não espera até amanhecer? — perguntou Morrissey. — O tempo deverá estar melhor, e você poderá voar direto para lá. — Não. — Pelo amor de Cristo! Você não conseguirá nem levantar vôo. Se está com tanta vontade de mo rrer, é mais simples usar um re-vólver. Olhei para o montão de coisas já tiradas do avião, e perguntei: — Quanto pesa o rádio? — Duzentos e vinte quilos. Mas você não pode fazer isso. Como irá saber onde está ou qual é o tempo que vai encontrar? — Do mesmo jeito que se fazia antes de instalarem rádios nos aviões. Tire-o! Voltou carrancudo para junto do avião, balançando negativamente a cabeça. Então tive out ra idéia. — E o sistema de pressurização de oxigênio na carlinga? — Trezentos e quatro quilos, incluindo os tanques. — Tire-o também. Vou voar baixo. — Vai precisar de oxigênio nas Montanhas Rochosas. — Ponha um tanque portátil na carlinga. Fui até o escritório e liguei para Buzz Dalton no escritório da Inter-Continental em L os Angeles. Já havia saído. Pedi para transferirem a ligação para a residência dele. — Buzz, aqui é Jonas. — Estava mesmo querendo ter notícias suas. — Preciso de um favor seu. — Claro! — respondeu prontamente. — O que é? — Vou de avião para a Califórnia esta noite. Quero que haja sinais de meteorologia par a mim em todos os hangares da Inter-Continental pelo país. — O que há com seu rádio? — Vou com o CA-4, em vôo sem reabastecimento. E tenho de aliviar o peso. Ele soltou um assobio.

— Você não vai conseguir isso, meu amigo! — Vou, sim. Pisque os refletores à noite e pinte os tetos dos hangares durante o dia . — Faremos isso. Qual é seu plano de vôo? — Não sei ainda. Transmita a ordem a todos os campos. — Faremos isso. Boa sorte. Desliguei o telefone. Era por isso que eu gostava de Buzz. Era um homem com quem se podia contar. Não perdia tempo com perguntas tolas como por que, quando ou ond e. Fazia o que se pedia. Só se preocupava com a linha aérea. E por isso a ICA estava tornando-se a maior empresa de aviação comercial do país. Tomei um gole de uísque e me estendi no sofá. Minhas pernas ficaram penduradas balança ndo na beirada, mas isso não tinha importância. Podia descansar um pouco enquanto os mecânicos terminavam o trabalho com o avião. Senti Morrissey a meu lado e abri os olhos. — Pronto? Ele fez que sim com a cabeça. Levantei e olhei para o hangar. Estava vazio. — Onde está o avião? — Lá fora, aquecendo os motores. — Ótimo — disse eu. Olhei para o relógio. Passava um pouco das três. Morrissey me acom-panhou até o banhei ro. — Você está muito cansado — disse ele, enquanto eu banhava o rosto com água fria. — Acha mes mo que deve fazer esse vôo? — Tenho de fazer. — Coloquei seis sanduíches de rosbife e duas garrafas térmicas de café no avião. — Obrigado. — Fui saindo. Sua mão me fez parar. Estava me oferecendo um vidrinho branco. — Telefonei para meu médico e ele recomendou que você levasse isso. — O que é? — Um remédio novo. Benzedrina. Tome um comprimido caso sinta so-no. Ele o manterá desp erto. Mas tenha cuidado. Se tomar demais, sairá pelo teto do avião. — Começamos a caminh ar para o avião. Ele continuou: — Outra coisa. Só acione os tanques de reserva quando tiver um quarto de combustível no reservatório. O abastecimento por gravidade não func ionará se houver mais que isso no tanque, e pode até ficar entupido. — E como vou saber se os tanques de reserva estão funcionando? — Só saberá quando a gasolina acabar. E se houver entupimento, a pressão do ar conservará o mostrador em um quarto de tanque, ainda que este esteja seco. Chegamos ao avião. Subi na asa e virei-me para a carlinga Senti puxarem minhas calça s. Virei-me. — O que vai fazer com o avião? — Vou até a Califórnia. — E os testes de amanhã? — Ele gritou. — Trouxe até Steve Randall aqui esta noite para ver o aparelho. — Sinto muito. Transfira-os. — E o general? Como vou explicar isso a ele? Entrei na carlinga e respondi: — O problema não é mais meu. É seu. — E se acontecer alguma coisa ao avião? Senti-me de repente satisfeito. Não havia errado no meu juízo sobre ele. Seria um ex celente administrador. Não se preocupava absolutamen-te comigo, só com o aparelho. — Se houver alguma coisa, faça outro — gritei. — Você é o presidente da companhia. Dei adeus e, soltando os freios, comecei a taxiar pela pista. Coloquei o aparelh o em posição e o conservei assim enquanto acelerava o motor. Fechei a carlinga e, qu ando o tacômetro chegou a duas mil e oitocentas rotações por minuto, soltei os freios. Corremos pela pista. Não tentei subir enquanto não cheguei a uma velocidade de cento e vinte quilômetros por hora. Estávamos quase no fim da pista, quando o avião começou a abocanhar um pedaço do céu. Daí em diante subiu com facilidade. Nivelei a mil e duzentos metros e rumei para o sul. Olhei para trás. A estrela Pol ar ficara bem às minhas costas, brilhante, piscando muito no céu límpido e escuro. Era

difícil acreditar que a menos de mil e novecentos quilômetros o céu estivesse fechado . Voava sobre Pittsburgh, quando me lembrei de uma coisa que Nevada me ensinara qu ando eu era garoto. Estávamos seguindo os rastros de um grande felino e ele aponto u a estrela Polar. — Os índios dizem que, quando a estrela Polar pisca desse jeito, há uma tempestade cor rendo para o sul. E a estrela Polar estava exatamente como na noite em que Nevada me disse isso. L embrei-me de outro dito índio que Nevada me ensinara. O caminho mais rápido para o o este é contra o vento. Tomei a decisão. Se os índios estavam certos, quando eu chegasse ao Médio Oeste a temp estade estaria ao sul em relação à minha posição. Virei o avião contra o vento e, quando tir ei os olhos da bússola, a estrela Polar brilhava intensamente a minha direita. Minhas costas doíam, tudo doía, ombros, braços, pernas. As pálpebras pesavam uma tonelad a. Senti que iam fechar-se e peguei a garrafa térmica. Estava vazia. Olhei para o relógio. Já fazia doze horas que eu partira do Campo Roosevelt. Enfiei a mão no bolso e peguei o vidro de comprimidos que Morrissey me havia entregue. Tomei um. Por alguns minutos, não senti nada. Depois, comecei a me sentir me-lhor. Inspirei profundamente, e esquadrinhei o horizonte. Calculei que não devia estar muito long e das Montanhas Rochosas. Vinte e cinco minutos depois, elas surgiram à frente. Verifiquei o mostrador do combustível. O ponteiro estava firme em um quarto de tan que. Eu já havia aberto os tanques de reserva. Passara no Médio Oeste pela orla da t empestade e isso me cus-tara mais de uma hora de suprimento da gasolina. Agora, eu precisaria da ajuda do vento para chegar ao fim da viagem. Virei o manete da gasolina, atento aos motores. Roncavam com força e firmeza ao re ceber nas veias a rica mistura. Puxei o manche e comecei a subir para as montanh as; sentia-me um tanto cansado e tomei outro comprimido. A três mil e quatrocentos metros, comecei a sentir frio. Calcei os huarachos e peg uei o tubo do tanque de oxigênio. Quase imediatamente tive a impressão de que o avião dera um pulo de mil metros. Olhei para o al-tímetro. Estava apenas em três mil e nov ecentos metros. Aspirei mais um pouco de oxigênio. Uma onda repentina de energia in-vadiu meu corp o e eu apoiei as mãos no painel de instrumentos. Aos dia-bos com a gasolina! Eu po deria levantar aquele avião por cima das Mon-tanhas Rochosas com minhas próprias mãos. Tudo era questão de força de vontade. Como os faquires da índia dizem após deixarem as pessoas perplexas com truques de levitação: é apenas uma questão do domínio da mente sobre a matéria. O segredo está no espírito. Rina! Quase gritei. Olhei para o altímetro. O ponteiro havia caído para dois mil e o itocentos e cinqüenta metros e ainda estava descendo. Vi as montanhas que avançavam cada vez maiores para mim. Botei as mãos no manche e o puxei. Pareceu uma eternida de até o momento em que vi as montanhas de novo abaixo de mim. Levei as mãos à testa para enxugar o suor. Meu rosto estava molhado de lágrimas. A est ranha onda de energia havia desaparecido, e a cabeça começava a doer. Morrissey me h avia advertido a respeito dos comprimidos, e o oxigênio me ajudara um pouco também. Girei o manete e regulei cuidadosamente a gasolina que alimentava os motores. Ainda havia quase oitocentos quilômetros a percorrer, e eu não queria ficar sem gaso lina.

6 Pousei em Burbank as duas horas da tarde. Estivera no ar durante quase quinze ho ras. Fiz o avião taxiar até os hangares da Cord Aircraft, desliguei os motores e tra

tei de desembarcar. Ainda sentia nos ouvidos o ronco dos motores. Logo que pus os pés no chão, me vi cercado por uma verdadeira multidão. Reconheci algu ns jornalistas. — Desculpem — disse, e procurei dirigir-me para os hangares. — Ainda estou meio surdo com o barulho dos motores. Não consigo ouvir o que estão dizendo. Buzz também estava ali, um largo sorriso no rosto. Apertou minha mão com força e disse alguma coisa, mas eu só pude ouvir o fi-nal: — ... um novo recorde leste a oeste, costa a costa. Que importância tinha isso para mim naquele momento? — Tem um carro aí a minha espera? — Está no portão da frente. Um dos repórteres adiantou-se, e perguntou aos gritos: — Sr. Cord, é verdade que fez esse vôo só para ver Rina Marlowe antes que ela morra? Ele precisaria de um banho depois do olhar que lhe lancei. Não respondi. — É verdade que comprou a Norman só para ficar com o controle do contrato de Rina? Consegui chegar à limusine, mas eles ainda estavam me bombardean-do de perguntas. O carro partiu. Um guarda de motocicleta foi a nossa frente, tocando a sirene. G anhamos velocidade assim que o tráfego se di-luiu a nossa frente. — Sinto muito o que aconteceu a Rina, Jonas — disse Buzz. — Não sabia que ela tinha sido casada com seu pai. — Como ficou sabendo? — Está em todos os jornais. O estúdio da Norman mandou um press release com a história d ela, e contando que você estava realizando esse vôo para ir vê-la. Mordi os lábios. O mundo do cinema era assim. Um bando de hienas em torno de uma s epultura. — Trouxe uma garrafa de café e sanduíches. Caso queira... Tomei o café. Estava quente, e o senti bater no estômago. Virei-me e olhei pela jane la. As costas estavam doendo de novo. Não sabia se agüentaria esperar chegarmos ao hospital para ir ao ba-nheiro. O Sanatório Colton parece mais um hotel que um hospital. Fica no alto dos penhasco s do Pacífico, dominando o oceano. Para chegar lá, é preciso sair da Coast Highway e p assar por uma entrada sinuosa e estreita. No portão de ferro da entrada, há um guard a. Sua função é exatamente identificar as pessoas. O dr. Colton não é nenhum curandeiro da Califórnia. É apenas um homem perspicaz que perc ebeu a necessidade de um hospital verdadeira-mente particular. As estrelas do ci nema internam-se lá para tudo, para ter um filho, para se curar de entorpecentes o u bebida, para fazer cirurgia plástica ou repousar depois de um esgotamento nervos o. Uma vez do lado de dentro do portão de ferro, podem respirar aliviadas e relaxa r, pois nenhum repórter consegue penetrar ali. Podem ter certeza de que, qualquer que tenha sido o motivo que ali as levou, as outras pessoas só saberão o que elas qu iserem contar. O porteiro estava a nossa espera, porque começou a abrir o portão logo que avistou o guarda da motocicleta. Os repórteres gritaram para nós e os fotógrafos tentaram bater algumas fotos. Houve até um que se agarrou ao estribo do carro e passou pelo portão conosco. Mas outro guarda apareceu e o fez sair na marra. Virei-me para Buzz: — Eles nunca desistem, não é? — É melhor você se habituar a isso de hoje em diante, Jonas. Tudo o que você fizer será no tícia. — Coisa nenhuma, Buzz. E só hoje, por causa de Rina. Amanhã, estarão interessados em out ra pessoa. — Você diz isso porque não leu os jornais nem ouviu rádio. Hoje, você é um herói nacional. O ue estava fazendo despertou o entusiasmo do público. As estações de rádio davam a posição de seu avião de meia em meia hora. Amanhã, o Examiner começará a publicar a história de sua vida. Depois de Lindbergh, ainda não houve quem agitasse tanto a nação. — Por que diz isso? Ele sorriu. — Só vou lhe contar uma coisa. As paredes da cidade estão cheias de cartazes nos quais se vêem o seu retrato e as palavras: Leiam a história da vida de Jonas Cord, o homem misterioso de Hollywood, por Adela

Rogers St. Johns. Tinha mesmo de me habituar àquilo. Adela St. Johns era a colunista de maior prestígi o da cadeia de publicações Hearst. Isso significava que o velho Hearst dera seu selo de aprovação a minha pessoa. Daí em diante, eu estaria vivendo dentro de um aquário, à vi sta de todo mundo. O carro parou e apareceu um porteiro. — Tenha a bondade de me acompanhar, sr. Cord — disse, respeitosamente. Eu o segui escadaria acima, para dentro do hospital. A enfermeira da portaria so rriu para mim, apontando um grande livro preto, encadernado em couro. — Faça o favor, sr. Cord. É praxe do hospital que todos os visitantes as-sinem aqui. Assinei o livro rapidamente, enquanto ela apertava o botão de uma campainha. Um in stante depois, outra enfermeira apareceu. — Queira vir comigo, sr. Cord — ela disse, polidamente. — Vou levá-lo à suíte da srta. Marlo we. Eu a segui até os elevadores, ao fundo do vestíbulo. Ela apertou os botões. Franziu a testa, aborrecida. — Desculpe, sr. Cord, mas terá de esperar alguns minutos. Os dois elevadores estão na sala de cirurgia. Um hospital era um hospital por mais que se quisesse fazê-lo parecer um hotel. Cor ri os olhos pela portaria até encontrar o que eu estava pro-curando. Uma placa dis cretamente colocada numa porta: CAVALHEIROS. Tirei um cigarro do bolso no momento em que as portas do elevador se fecharam. D entro, o cheiro era o de qualquer outro hospital. Álcool, de-sinfetante, formol. D oença e morte. Risquei um fósforo e acendi o cigarro, receoso de que a enfermeira pe rcebesse os meus dedos tremendo. As portas do elevador se abriram e saímos para um corredor muito limpo de hospital . Aspirei com força o cigarro, acompanhando a enfermeira. Ela parou diante de uma porta. — Acho que terá de apagar esse cigarro, sr. Cord. Vi um pequeno aviso alaranjado: É PROIBIDO FUMAR OXIGÊNIO EM USO Dei mais uma tragada e joguei o cigarro num cinzeiro ao lado da porta. De repent e, senti um medo incrível diante daquela porta. A enfermeira a abriu para mim. — Pode entrar, sr. Cord. Entrei numa pequena ante-sala. Outra enfermeira estava sentada numa poltrona, le ndo uma revista. Logo que me viu, disse em tom de cordi-alidade formal: — Entre, sr. Cord. Estávamos à sua espera. Entrei lentamente. A porta se fechou atrás de mim. Pude ouvir passos da enfermeira que me escoltara se afastando. A outra me levou à segunda porta e disse: — A srta. Marlowe está aí dentro. Parei sob o vão da porta. Ainda não dava para vê-la. Ilene Gaillard, um médico e outra e nfermeira estavam ao lado da cama, de costas para mim. Então, como que a um sinal, os três se voltaram ao mesmo tempo. Caminhei até a cama. A enfermeira se afastou de lado. Ilene e o médico se moveram um pouco para me dar espaço. Então eu a vi. Uma tenda de plástico transparente estava suspensa sobre a cabeça e os ombros, e ela parecia dormir. Só o rosto não estava coberto pelas ata-duras brancas que lhe escon diam por completo o lindo cabelo dourado. Os olhos estavam fechados e as pálpebras apareciam cercadas de uma orla azulada. A pele estava esticada sobre as proemin entes maçãs do rosto, dando a impressão de que a carne desaparecera. A boca rasgada, s empre tão quente e viva, estava descorada e entreaberta, mostrando os dentes branc os e perfeitos. Fiquei um momento em silêncio. Não dava para notar a respiração de Rina. Olhei para o médi co. Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Está viva, sr. Cord — disse ele, baixinho. — Mas muito mal. — Posso falar com ela? — Pode tentar, sr. Cord. Mas é possível que ela não responda. Está assim há dez horas. E, me smo que fale, sr. Cord, pode não re-conhecê-lo. Virei-me para ela e disse, compassadamente:

— Rina, sou eu, Jonas. Ela continuou imóvel. Meti a mão por baixo da tenda e encontrei a mão dela. Estava fri a e flácida. De repente, senti um arrepio de horror dentro de mim. A mão estava fria . Ela já estava morta. Morta. Caí de joelhos ao lado da cama. Empurrei o plástico para o lado e curvei-me sobre el a. — Rina! Rina! Sou eu, Jonas! Por favor, não morra! Senti uma leve pressão em minha mão. Olhei para ela, com lagrimas correndo pelo meu rosto. O movimento de sua mão ficou um pouco mais forte. Os olhos se abriram lenta mente e agora estavam olhando para mim. O olhar foi a princípio vago e distante. Depois, clareou e ficou mais firme. Os lábi os se arquearam numa aparência de sorriso. — Jonas — murmurou. — Eu sabia que você viria. — Tudo o que você tinha a fazer era assobiar para eu vir correndo. — Nunca aprendi a assobiar — disse ela, depois de um instante, com visível esforço. Ouvi a voz do médico atrás de mim: — Convém descansar um pouquinho agora, srta. Marlowe. Rina olhou para ele. — Oh, não — ela sussurrou. — Não tenho mais tempo. Deixe-me falar com Jonas. — Está bem — disse o médico. — Mas só um momento. Ouvi a porta se fechar, e olhei para Rina. Ela levantou a mão e me aca-riciou de l eve a face. Segurei seus dedos e pressionei-os contra meus lábios. — Tinha de ver você, Jonas. — Por que esperou tanto tempo, Rina? — Era por isso mesmo que eu tinha de vê-lo. Para explicar... — De que adiantam mais explicações, agora? — Por favor, tente compreender, Jonas. Amei você desde o primeiro momento em que o v i. Mas tive medo. Dei azar a todas as pessoas que me amaram. Minha mãe e meu irmão m orreram porque me amavam. Meu pai morreu de desgosto na prisão. — Você não teve culpa. — Empurrei Margaret pela escada e a matei. Matei meu filho antes mesmo de ele nasc er, roubei a carreira de Nevada, e Claude se suicidou por causa do que eu estava fazendo com ele. — São coisas que acontecem. Você não é responsável por elas. — Sou, sim. Veja o que fiz com você, com seu casamento. Eu não deveria ter ido ao seu quarto no hotel naquela noite. — Você não teve culpa. Eu é que a forcei a ir. — Ninguém me forçou. Fui porque queria ir. Somente quando ela apa-receu compreendi meu erro. — Erro, por quê? Só porque ela estava com uma barriga que não tinha tamanho? E o filho n em era meu! — Que importância tem isso? Que mal faz que ela tenha dormido com outro homem antes de conhecê-lo? Você devia ter sabido disso quando se casou com ela. Se não tinha impor tância nessa época, por que passou a ter quando ela apareceu com o filho de outro ho mem? — Tinha importância. E ela só estava interessada no meu dinheiro. Por que ela aceitou o meio milhão de dólares que lhe paguei pela anulação do casamento? — Não é verdade, Jonas. Ela o amava. Vi isso perfeitamente naqueles olhos cheios de mágo a. E, se o dinheiro era tão importante para ela, por que deu tudo ao pai? — Eu não sabia disso. — Há uma porção de coisas que você não sabe. Mas não tenho tempo de contar mais. Só isso. Arr ei seu casamento. É por minha culpa que aquela pobre criança está crescendo sem ter se u no-me. E quero dar para ela, de alguma maneira, alguma compensação. — Fechou os olho s por um momento. — Talvez eu não deixe muita coisa. Nunca fui muito boa para negócios , mas deixei tudo o que tenho para ela e nomeei você meu tes-tamenteiro. Prometa-m e que zelará pelos interesses dela. — Prometo, Rina. — Muito obrigada, Jonas. Sempre pude contar com você. — Está bem. Agora, procure descansar um pouco. — Para quê? Para poder viver mais alguns dias neste mundo louco e alucinado? Não, Jona

s. Dói demais. Eu quero morrer. Mas não quero morrer aqui, presa dentro desta tenda. Leve-me para o terraço. Quero ver o céu, ver o sol brilhar mais uma vez. — O médico... — Por favor, Jonas — disse ela, sorrindo. Retribuí aquele sorriso e afastei a tenda de oxigênio. Tomei Rina nos braços. Estava l eve como uma pena. — Que bom estar nos seus braços outra vez, Jonas — sussurrou ela. Beijei-a na testa e caminhei para a luz do sol. — Quase havia esquecido do verde das árvores. Em Boston, há um carvalho que é a coisa ma is verde que já vi em toda a minha vida. Leve-me para lá, Jonas, por favor. — Eu levarei. — E não deixe que transformem isso num espetáculo de circo, como costumam fazer no cin ema. — Eu sei. — Há lugar para mim, Jonas — sussurrou —, junto de meu pai. A mão dela caiu do meu peito e senti nos braços um peso diferente. Olhei para ela, m as o rosto estava escondido em meu ombro. Olhei depois para a árvore que a fizera lembrar-se de casa. Mas não pude vê-la por causa das lágrimas. Quando voltei, Ilene e o médico estavam no quarto. Em silêncio, levei Rina para a ca ma e a deitei. Olhei para eles e quis falar, mas não pude. Quando consegui, a voz estava rouca: — Ela quis ver o sol pela última vez. 7

Olhei para o pastor, que lia em silêncio a pequena Bíblia com capa preta de couro qu e tinha nas mãos. Ele fechou o livro. Pouco depois, os outros o acompanharam e só eu e Ilene permanecemos ao lado da sepultura. Ela estava diante de mim, magra e calada, com um vestido preto e um véu cobrindo s eus olhos. — Está acabado — disse ela, com voz cansada. Olhei para a pedra na sepultura. RINA MAR LOWE. Fiz um gesto com a cabeça, concordando. Agora, não era mais do que um nome. — Espero que tudo tenha sido como ela desejava — disse. — Tenho certeza de que foi. Ficamos em silêncio com o embaraço de pessoas que se encontram num cemitério e cujo únic o elemento de ligação é uma sepultura. Estava na hora de ir embora. — Quer que a leve até o hotel? — Não. Gostaria de ficar aqui mais um pouco, sr. Cord. — E vai ficar tudo bem para você? — Sim, sr. Cord. Nada mais pode me acontecer. — Mandarei um carro ficar à sua espera. Até logo, srta. Gaillard. — Até logo, sr. Cord. E... muito obrigada. Desci a alameda do cemitério. Os mórbidos e os curiosos ainda estavam por ali, conti dos pelos cordões de isolamento da polícia, do outro lado da rua. Um murmúrio veio da multidão quando saí pelo portão do cemitério. Eu me havia esforçado ao máximo, mas não conseg ia evitar aquela multidão. A porta da limusine se fechou e o chofer perguntou: — Para onde, sr. Cord? Para o hotel? Olhei pelo vidro de trás. Estávamos no alto de uma pequena ladeira e dava para avist ar Ilene lá embaixo, no cemitério. Era um vulto patético, sentado ao lado da sepultura com o rosto entre as mãos. Dobramos uma curva e sua imagem sumiu de vista. — Para o hotel, sr. Cord? — tornou a perguntar o chofer. Inclinei-me para apanhar um cigarro. — Não. Para o aeroporto. Dei uma tragada forte, jogando a fumaça para o fundo dos pulmões. De repente, senti que só queria fugir. De Boston e da morte, de Rina e dos sonhos. Memórias demais par a suportar, tudo ainda muito claro na minha mente.

— Seu dinheiro está na gaveta da cômoda — disse ela. ontem. com uma risadinha. Ela pegou o dinheiro silenciosamente e me acompanhou até a porta. Olhei para a moça. menos o dinheiro com que comprei o uísque. — Há quanto tempo estou aqui? — perguntei. — Quase uma semana — respondeu ela. — Você se aproximou de mim diante da loja na Sexta Avenida e me pegou pelo braço. Estava apenas de cueca. Havia cerca de duzentos dólares. Você quis brigar com o garçom e eu o trouxe para casa. enquanto eu terminava de abotoar a camisa e vestir o paletó. Olhei para as notas na minha mão. na parede. — Está tudo aí. — Como vim parar aqui? — Não se lembra? Fiz que não com a cabeça. Olhei a minh a volta. Estava começando a recordar.O barulho encheu meus ouvidos e comecei a subir a longa escadaria negra dentro d a escuridão que me cobria. — Então já está acordado? Comecei a me virar. fom os ao White Rose Bar e tomamos alguns drinques. Você já estava bem alto. mas não pude lembrar-me de onde. Segui os olhos dela para o chão. Quanto mais eu subia. — Estive bebendo? — Não fez outra coisa. Separei uma nota de cinco dólares. não fui eu. maior era o barulho. Passei a mão pe lo queixo. — Onde é o banheiro? Ela apontou uma porta. com . Ela riu. E há um aparelho de barba n a prateleira em cima do lavatório. Fui até a gaveta da cô-moda. um estranho silêncio caiu sobre o quarto. Você não estava procuran o por uma mulher. Depois que o trem passou. Não era de admirar que minha cabeça estivesse doendo. — Não. Ficamos muito sentimentais quan do encontramos um bêbado. Mergulhei lentamente os pés no chão e sentei. Perto da janela havia uma mesinha e. As roupas estavam a minha espera quando saí do banheiro. mas no seu estado isso não fazia muita diferença. dize ndo que estava pronto para tomar algumas aulas. queria mesmo era afogar sua tristeza. Levantei-me. Esfreguei os olhos. Lembrava-me vagamente de haver procurado diante de uma loja de rádios alguém que me havia prometido ensinar coisas que eu não havia aprendido na escola. — Bem sabe que ela está morta e todo o uísque do mundo não a fará viver de novo — disse. — Estava pensando que sua sede não ia acabar nunca. enquanto você se lava. Vou desce r e pegá-las. — Nós. passava chocalhante o elevado da Terceira Avenida. Saíra do ae-roporto e ia pela Sexta Avenida a caminho dos escritórios da Norman. mas a mulher que falara deu a volta e apareceu a minha frent e. O papel branco das paredes já estava bem encardid o. curioso. — Não há chuveiro. Havia três caixas de papelão com garrafas de uísque vaz ias. tudo ficou confuso. que guardei no bolso. — Levei suas roupas para a lavanderia logo que você parou de beber. Eu estava deita do numa velha cama de ferro. Minha barba estava áspera como uma lixa. Abri os olho s. olhei para ela. Dava para v er as pessoas se comprimindo dentro e fora das estreitas plataformas de embarque . Depois disso. e coloquei o resto do dinheiro em cima da cômoda. quando senti que precisava de um dri nque. — Por que me trouxe para cá? Ela encolheu os ombros. Diante da janela. não servimos para mulheres da vida. — Foi você mesmo? — perguntei. um crucifixo. Era um quarto pequeno e sombrio. Já com o maço de notas na mão. Tive impressão de que já a conhecia. Minha cabeça não parava de girar. mas tem água quente para encher a banheira. a fim de livrá-lo de encrencas. Depois. irlandesas.

uma auto-segurança que eu não conhecia. O cigarro estava quase no fim. Deixei-a passar para abrir a porta e entrei em uma pequena sala. — Não há nada demais. moço. Talvez fosse a mane ira de pentear o cabelo. num gesto de proteção. — É uma moça que tem uma garotinha de cinco anos. — Olá. Seus olhos deixaram transpare cer uma súbita apreensão. os olhos. Conseguiu a cópia do testamento de Rina? — Consegui. Olá. Depois ela fechou a porta e eu desci por uma esc ura escada até chegar à rua. — É a quarta casa abaixo. — Quem está procurando. rindo. — Ela ainda não voltou do trabalho — disse um homem. — Sobre o quê? Pensei que tudo estivesse resolvido. Jonas? — Estava bebendo. Ficamos nos olhando um momento. Agradeci ao garoto e desci a rua. com sua vozinha fina —. Quero falar com você. — Está bem. Crianças brinc avam no gramado e olhos curiosos me seguiam. Ca-minhava pela calçada e uma menininha pulava sem parar à sua frente. Ao chegar à quarta casa. Entrei num supermercado na esquina da Terceira Avenida com a rua 82 e telefonei para McAllister. — Ela passa primeiro pela creche da escola para pegar a filha.disse. Saltei do táxi. Monica voltou-se para mim: . paguei ao chofer e segui pela calçada à frente das casas. Mas. quando Monica apareceu ao longe. principalmente. tem um homem aqui na nossa porta. Marque a reunião —. nada pudemos fazer senão ficar ali olhando um p ara o outro. Olhei para Monica. Perderá tudo. Por um momento. como um ba ndo de galinhas com a cabeça cortada. — Monica Winthrop — eu disse. A menina correu para dentro. Jo-Ann. Sentia um gosto horrível na boca e o começo de uma dor de cabeça. sim. Jonas. Muitas casas estavam com as portas abertas e eu não podia ler os números. Ela parecia a mesma. — É sobre a menina.a mão no meu ombro. Varremos toda a cidade à sua procura. para cima e para baixo. Ela colocou a m enina no chão e disse: — Vá para seu quarto brincar com as bonecas. — Olá. — Talvez seja melhor entrarmos. — Sua voz soou muito séria. Faltavam quinze para as sete. moço? — perguntou um dos garo-tos. olhei o nome na placa j unto à campainha. Jo-Ann. Há via neles uma tranqüilidade. — Onde está o testamento? — Na mesa da sala de seu apartamento. Ninguém atendeu. por cima da cerca da casa vizinha . Levantei no momento em que a criança parou e olhou para mim. Sabe o que está acontecendo na companhia de cinema? Todo mundo está correndo lá. Ou o vestido simples que usava. Tornei a tocar a campainha. — Não é sobre nós — apressei-me em dizer. E desliguei antes que ele pu-desse falar mais alg uma coisa. Monica. Franziu o nariz e apertou os olhinhos pretos. você não terá mais de se preocupar com o dinheiro que gastou. Se não marcarmos logo uma reunião para resolver os problemas da companhia de cinem a. Ela abraçou com mais força a criança. — É um amigo da mamãe. — Mamãe — disse. Sentei-me nos degraus da casa e ac endi um cigarro. Jo-Ann — disse ela. mais ou menos? — Acho que sim. — Como vai? — Bem. apesar de um tanto mudada. — Onde diabos você se meteu todo esse tempo. — A que horas costuma chegar em casa? — Não deve demorar. WINTHROP. A criança sorriu. — Olá. O sol começava a desaparecer e o calor que fizera durante o dia estava menor. Olhei para o relógio. exatamente onde me pediu para que o deixasse . — O que há com Jo-Ann? — Nada que lhe dê motivo de preocupação. Pegou a criança nos braços.

— Não compreendo — disse. Foi terrível. certo? — Certo. Não podia aceitar que ela vivesse naquele lugar. Não sei a quanto monta. então. — O que falta inventarem? — murmurei. enquanto bebia o resto do café. Então passei para e le. Meu pai é que queria. mas sou sec retária executiva e ganho setenta dólares por semana. surpresa. quando ela atingiu ida de suficiente. — É uma tolice perder a calma por uma coisa que já aconteceu há tanto tempo. Ela me nomeou t estamenteiro e me fez prometer que a menina receberia tudo. Depois. Olhei-a um momento. quase amargo. depois olhou para mim. — Você e eu tivemos culpa no que aconteceu — disse ela. — Tem razão. Jonas. Vou resolver alguns negócios hoje. Como descobriu onde eu morava? — Através de Rina. Um olhar sinuoso. Fiquei com dinheir o suficiente para vir para o leste e ter a criança.— Você parece cansado. — Não se incomode. mas muito baratos. Monica. Esperou muito? — Não muito. Voltou com uma xícara de café preto bem quente e colocou-a na mesa a meu lado. Não vou tomar muito seu tempo.Ann. saí e arranjei um emprego. Monica só se servia do que houvesse de melhor. Muito obrigado. Quando eu a conhecera. Talvez não acredite. Depois que tomei os comprimidos. Ter tanta coisa e desaparecer assim. Soube pelos jornais. Por quê? — Eu não queria dinheiro. Monica ficou de repente muito pálida e as lágrimas surgiram em seus olhos. Passou e está acabado. — Vou fazer um café. gentilm ente. Não é muito comum termos visitas. energicamente. por favor. — Café solúvel. Jo. não há coisa melhor para poupar tempo. Interrompeu-se. depois de pagos os impostos e as dívidas. — Duas. — Por que ela fez isso? Não me devia nada! — Ela se considerava culpada pelo que aconteceu conosco. — Como sabe? — Lembra-se de que já fomos casados? Quando você está com dor de cabeça. obrigado. Tenho de voltar. talvez a trint a ou quarenta mil dólares. para os seus negócios. Tudo isso passou e está acabado. Só há poucos dias fiquei sabendo que você não fi-cou com um tostão do di nheiro que lhe dei. Então me levantei. Ela encolheu os ombros. olhando à minha volta. — Sente-se — disse ela. Provei e comecei a me sentir melhor. Ela colocou açúcar na xícara e mexeu o café. — Parece muito cansado. Ela foi para a cozinha e eu me sentei numa cadeira. — Por que não fica um pouco e me deixa preparar um jantar para você? — convidou. apareceu em seus olhos. — Procure comu nicar-se com McAllister. Para quem trabalha como eu. Fiquei um instante em silêncio. Até gosto. — O que você queria? Ela hesitou um pouco antes de responder: — O que tenho agora. Monica. — Não. — Como está Amos? — perguntei. Os móveis eram limpos e práticos. Há quatro anos não tenho notícias dele. há sempre uma ruga especial em sua testa. — Rina não tinha nenhum parente vivo. — Duas pedras de açúcar. mas senti de verdade a morte dela. calmamente. respirou fundamente e disse com sin ceridade: — Senti muito. ela se sentou diante de mim e perguntou: — Está surpreso de me ver morando num lugar assim? — Um pouco. Depois. Ele preparará todos os papéis. Ela nada falou por alguns instantes. — Ela deixou tudo o que tinha para sua filha. Não adiantava dizer-lhe que o que ela estava vendo era o começo de uma ressaca. . — Bom café — disse eu. Sei que isso para você não é nada. E a possibilidade de viver em paz. — Comecei a andar para a porta. — Não sei. É por isso que estou aqui. — Não faz mal. — Quer uma aspirina? Parece que está com dor de cabeça.

Cord Aircraft. Pois vai preocupar-se de ver dade. — É uma excelente menina. — Se precisar de alguma coisa. — Estarei bem. Depois riu. — Muito bonita a sua boneca. — Temos de tomar uma decisão. — É verdade. então peguei a garrafa de uísque para encher meu co po de novo.. Voltei a olhar pela janela. Só o que eu quisesse.. — Sim. Jonas. administração. — Mas o que vai fazer com a companhia? — perguntou Woolf. Sem que ele tivesse tempo de dizer coisa alguma.. Eles que aprendessem a f azer jus ao que ganhavam e a me mostrar para que realmente prestavam. Jonas — disse McAllister. De qualquer maneira . À esquerda. Forest Hills. Acabei de tomar o uísque pensando que numa coisa Monica estava certa. também lhe agradeceria. Do outro lado do rio. Ri também e disse: — Vou procurar seguir seu conselho. . — Estendeu a mão para mim esboçando um sorriso. — Muito obrigada. Jo-Ann sorriu. — Adeus. Cord Explosives. Havia chegado a uma decisão. Forest Hi lls. Ficou me olhando enquanto eu descia pela calçada. moço — e acrescentou seriamente: — Venha ver a gente de novo. — Esta é a minha boneca. ela se virou e chamou a criança: — Jo-Ann. Sabia exatam ente o que iria fazer daí por diante. se pudesse compreender. salas de projeção. — Adeus. as luzes da Broadwa y subiam para o céu. quase havia esquecido. — Nada. — Suponho então que deva estar agradecida porque você veio gastar seu tempo comigo. venha se despedir desse moço simpático. Tome conta do resto: vendas. Apertei sua mão e retribuí o sorriso. Adeus. Eu esta va trabalhando demais. — E A pecadora? — Dan perguntou. Olhei para Dan Pierce. — Pouco me importo com a despesa! Não vou fazer o filme! Houve silêncio na sala e tornei a olhar pela janela. Monica? Ela hesitou um momento. Jonas. A direita. — Voltarei. terá de pagar meio milhão de dólares a De Mille. e tenho certeza de que Jo-Ann. Cord Plast ics. Monica — disse eu. Está muito bem..— Oh. E até uma companhia de cinema que não me interessava. Jo-Ann estendeu sua mão para mim. Ela fechou a porta e continuei a descer pela calçada. — Adeus. A menina entrou na sala com uma bonequinha na mão e sorriu para mim. ficava o rio East. Segurei sua mão. Já contatei a Metro para no s emprestar Jean Harlow. voltei-me para Woolf: — Você está preocupado com o que vai acontecer à companhia. Fui até a janela e contemplei Nova Iorque. Jo-Ann. Não trabalhe demais. Tinha muita gente nas minhas costas e negócios demais. — Diga adeus. telefone. — Não quero saber de Jean Harlow — disse eu. e logo saiu da sala. Inter-Continental Airlines. Antes que eu pudesse responder. — O que vai fazer? Fui até a mesa e tornei a encher meu copo. indo até a porta. — Bem. De repente. — Você vive dizendo que é capaz de fazer filmes melhores do que qualquer pessoa na indús tria. — Por Deus. Olhei por cima da mesa para ele. Que-ens. Jo-Ann. me chamou: — Jonas! Virei-me. com raiva. Os seus negócios. — O filme era para Rina fazer. Jonas! — exclamou Dan — Você não pode jogar o script fora. E não demore. Sorri também para ela. Jonas — disse ela. Agora você é o chefe da produção. Tive de andar seis quarteirões até encontrar um táxi. Um lu gar danado para se morar.

De repente. Aquela que tem. os dedos já ocupados com o zíper às costas do vestido. Cord — disse ela. Dan. escondendo apenas os bic os de seus grandes seios. gerente do Rio Club. — Tenho aqui na carteira quinhentos dólares que afirmam que você é. Quando precisar de vocês. O rosto de Dan branqueou. Mais alguma pergunta? Todos se entreolharam e Mac tomou a palavra: — Na sua ausência. prestígio. — Ninguém pode ver a gente aqui. Dava quase para ver o u mbigo. Olhos escuros e brilhantes. De hoje em diante. Depois que todos saíram. não poderemos manter o nível de produ-ção atual. Quando se trata do assunto que atinge as pessoas. — Terão um milhão de dólares. Ela estará aí dentro d e meia hora. Olhei para os outros. — Isso se aplica a todos vocês. — Olhos grandes — interrompeu-me. Colocarei outro em seu lugar. Estava com um vestido preto decotado. senti a necessidade de uma mulher.— Muito bem. Jonas — protestou Dan —. E Mac a-güentaria tudo em troca da segurança que eu l he dava. aproximando-me dela. — Olá. Virei-me e fiquei olhando pela janela enquanto ela se despia. caindo q uase até os quadris. David. o presidente da companhia. fiquei furioso e puxei o cordão que prendia a veneziana . Naquela noite. Daqui pra frente. como acha que vou fazer os filmes que tenho em mente s em dinheiro? — Se não puder. Do contrário. Boa noite. não — disse ela. sorriso nos lábios. Dinheiro. Bateram na porta. arregalados. Mac. As pessoas pagariam qualquer preço por aquilo que de fato queriam. não vou mais servir de ama-de-leite para todo mundo. E isso agravou a angústia em vez de a-tenuá-la. — José. todas têm o seu preço. — Tire o vestido e tome um drinque. De re pente. A moeda var ia.. mas não replicou. A companhia precisa de um crédito rotativo de três milhões de dólares para atravessar este ano. pode ir saindo. Quem não der conta do serviço. É só. — Pronto. Qualquer coisa. — Você será o presidente da diretoria. sorrindo e sem o tom com que costumava falar na boate. Cord. — Sei. Monica se sujei tara a morar em Queens. eu havia aprendido uma coisa muito importante. os braços cruzados sobre o peito. Tudo que estava vestindo era uma c alcinha de renda preta. Jonas— disse McAllister. sr. solto. Peguei o telefone e liguei para José. enquanto enchia meu copo. Que escolas haveria ali que uma menina como Jo-Ann pudess e freqüentar? Engoli o resto de meu drinque. Gritei: — Entre. — Por que fechou a janela? — perguntou ela. aquela cantora do conjunto de rumba. Não havia tantas luzes em Queens quanto em Manhattan. Levei a garrafa para a janela. glória ou sexo. Woolf era capaz de tudo para provar que podia administrar a companhia melhor que o tio. E escondeu a cidade. A cortina desceu rapidamente. rindo levemente. não quero que ninguém me consulte nem me peça coisa alguma. exponham tudo po r escrito e mandem para meu escritório. Dan en-golira meus insultos pa ra poder fazer filmes. — Fo i muito gentil em mandar me cha-mar. E as poucas que havia não eram tão brilhantes. fiquei ali sentindo a mesma indefinível an-gústia. Seus olhos estavam fixos em mim. para poder criar a filha. — Mas ainda não resolveu sobre os diretores. Ela se virou para mim. . Olhei pela janela. fazendo barulho.. Se tiverem alguma coisa para me comunicar. cavalheiros. Forest Hills. indignada e fazendo menção e ir embora. cabelo comprido e negro. eu mesmo os procurarei. Basta saber o que realmente desejam. David fez um estudo. Cord. — Quem está pensando que eu sou? Não sou dessas. sr. — Estou cansado de olhar para Queens — respondi. Virei-me p ara a garota. sr. — Mas. desista. Ela entrou. o v ice-presidente executivo. Apertou os lábios. e se arranjem com isso.

David não pôde compreender ao certo o que ocorria. à espera de uma transfusão que lhe injetasse vida nova nas veias. McAllister. nada que pudesse fazer. falou: — Acho bom procurarmos um lugar sossegado para uma con-versa. Sentia-se exultante e. — O Men's Bar. . não estava. para completar o quadro. por um breve mome nto. quase crianças. Era como se a empresa es tivesse em estado de choque. A mudança havia começado por seu íntimo. Provocaria Cord o mesmo efeito s obre outros? Sentia ainda o choque experimentado quando entrara na suíte de Cord e o vira pela primeira vez desde que saíra da reunião da diretoria e fora de avião para a Califórnia. os três desceram o elevador em silêncio. Quinze dias se haviam passado. Seria capaz de tolerá-los enquanto precisas se deles. Ainda ecoavam em seus o uvidos os murmúrios dos em-pregados do escritório de Nova Iorque. com o gosto amargo de uma frustração incompreensível misturan-do-s e em seu coração. embora e le soubesse que era apenas pouco mais de uma da madrugada. A princípio. vitorio so e. um deles. Percebeu a estranha solidão d aquele homem. onde Rina estava morrendo. Sabia exatamente o que queria. Começou a olhar para o teto às escuras. Não havia outra razão. — Boa sorte — os três brindaram. E então. Estava cansado e. Aquela era a oportunidade. no porão — disse Pierce. deprimido. duas semanas durante as quais se ins-talara o pânic o e a companhia começara a desintegrar-se ante seus olhos. Restava apenas a sombra torturada do homem de pou cas semanas antes. apesar disso. Depois que saíram do apartamento de Cord. o véu se levantou e ele de repente entendeu tudo. Era como se fosse uma criatura vinda de outro planeta. ao mesmo tempo. Era Cord. Aquela noite parecia ter mil anos. Cord se havia instalado por lá. ao mesmo tempo. Tinha de ser Cord. por cujos desejos s imples ele já tivesse passado na infância. David e o r esto do pessoal eram agora estranhos para ele. Mas só observando-se os olhos dele é que se compreendia que a mudança não era apena s física. a primeira luz do alvorecer de suas ambições. Estava. Recordava os olhar es furtivos e preocupados que lhe lançavam quando passava pelo corredor. — Ainda deve estar aberto. sempre com uma gar rafa semivazia de uísque nas mãos.A história de DAVID WOOLF LIVRO VI 1 David Woolf entrou no quarto do hotel e se atirou na cama completamente vestido. e o garçom serviu os drinques. suas espera nças e seus sonhos secretos. E nada ha via que ele pudesse dizer-lhes. mas depois se retiraria de novo para aquele mundo no qual existia sozi nho. Por que então aquela confusa mistura de emoções? Nunca lhe acontecera isso. Então. H avia traçado uma linha reta entre ele e seu objetivo. Estava mais magro e a exaustão lhe cavara profundas rugas no ro sto. Som ente quando chegaram à portaria do hotel e se mis-turaram com a multidão que entrava para o show da meia-noite no terraço Starlight. Tudo tinha sido muito simples. McAllister levantou seu copo.

— Quem disse que temos de fazer filmes de milhões de dólares? — perguntou David. Não sei o que deu na cabeça de Jonas. — Mas eu tenho de manter minha reputação. entretanto. De repente. perderá toda a reputação que tem. — Não me venha com asneiras! — David explodiu. Além disso. O rosto do advogado pe rmanecia impassível. — Vocês não têm garantia. o q ue você estará fazendo? — Estarei tomando providências para que você possa realizar seu programa de produção — respo . rapidamente. — Tem razão — McAllister concordou. Ele havia aprovado a retirada das velhas ações e sua substituição por outras. inclusive os cinemas e o estúdio. o estúdio não passava de uma usina que fabricava os produtos da companhia. em boa bilheteria. de poder. depois encarou McAllister. e receberiam. se o raciocínio de David está correto — continuou Dan —. uma gratificação à base de dois e meio por cento. explicar o plano de reorganização da companhi a. antes de falar: — Cavalheiros. depois para o outro. Mas Cord havia percebido rapidamente todo o mecanismo do negócio. e ele controla-ria o dinheiro. podemos fazer dez filmes. não estaremos nem no meio do primeiro filme quando descobrirmos que não temos mais dinheiro para pagar a folha semanal. David e Dan Pierce as-sinariam contra tos de sete anos com salários que começariam em sessenta e cinco mil dólares por ano e aumentariam treze mil dólares por ano até o término do contrato. Toda a indústria sabe que você manobrou Cord para fazê-lo comprar a companhia a fim de se tornar produtor. — Mas. — Quem falou em desistir? David relaxou e se acomodou na cadeira. — Mas que garantia temos de que Jonas nos manterá no negócio depois que o milhão de dólares tiver acabado? Absolutamente nenhuma. McAllister falou das compensações. Mas acontece que sou advogado e não entendo qu ase nada de filmes. enquanto eu estiver quebrando a cabeça. o sucesso depende de vocês dois. Já compreendia por que o tio Bernie tivera tanta relutância em afastar-se da co mpanhia. Antes. Em seguida. — Isso é com elas — exclamou Dan. Na realidade. — É isso. — A Columbia. A administração. Pierce olhou-o por um momento. Não é possível fazer filmes de milhões de dól res sem dinheiro. — Parece bom — disse Pierce. — Com um milhão de dólares. Mas ele ficará pr otegido pelas ações e pelas debêntures. — Ouviu o que Cord disse. E já estaremos recebendo o retorno do primeiro quando o quinto entrar em produção. Uma sensação nova. Encolheu os ombros. sentira-se decepcionado por não ter sido escolhido para encarregado do estúdio. surgiu dentro d ele. Alguma dúvida? — perguntou McAllister. com aspereza na vo z. E ninguém se importa com a espécie do sucesso desde que ele se traduza em dinheiro. mas ele também não tem nenhuma tia de que as ações que possui va-lham alguma coisa se vocês não fizerem a companhia and ar. Isso em troca da entrega por ele de um milhão de dólares de capital de giro . Foi só então que David teve uma idéia de como a visão comercial de Jonas chegava longe. que poderia ser paga em dinheiro ou em ações. a Warner e a RKO não são tão orgulhosas —replicou Da-vid. Isso é para a Republic ou a Monogram. Estava começando a compreender o que Jonas havia feito. a emissão de ações preferenciais para atender a certas obrigações de monta da companhia e de debênture s gravando de hipoteca todos os bens imóveis da companhia. outro fará no seu lugar. — Mas. No meu ponto de vista. as vendas e os cinemas estavam sob seu controle e era daí que entrava o dinhei ro. calmame nte. tudo ficou bem claro. Teria gostado de ter a palavra "presidente" na porta de seu escritório. Se desistir. Posso. O dinheiro ditava a política do estúdio. — Não contem comigo — disse secamente Dan. Gostaria de ser mais direto na minha contribuição. — É muito fácil falar — resmungou Pierce. seriam tot almente reembolsados das despesas que fizessem.Mac olhou para um. caso houvesse lucr os. — Não cheguei onde cheguei no cinema para fazer filmes baratos. cavalheiros. de agora em diante seguramente estamos por nossa conta. — A única coisa que se respeita na indústria do cinema é o sucesso. Se você não fizer. que foi aprovado por Jonas antes que o negócio tivesse sido realmente consumado .

ndeu David. — De que modo? — perguntou McAllister, com visível interesse. — Vou despedir amanhã quarenta por cento do pessoal em todos os departamentos da com panhia. — Não acha que é drástico demais? — disse McAllister. — Além disso, acha que poderá trabalhar ssas condições? David olhou para o advogado. Era mais um desafio. — Com toda certeza — disse, sem levantar a voz. — Não é um modo de fazermos amigos — observou Dan. — Isso é uma coisa que me interessa bem pouco. Não é minha intenção ganhar um concurso de po pularidade. E isso será apenas o começo. Não me importa que alguém fique melindrado. O q ue mais me interessa é que a companhia tem de sobreviver. O advogado ficou olhando para ele. David julgou perceber nele o esboço de um sorri so. McAllister voltou-se para Dan: — O que acha? — Acho que nos arrumaremos — disse Dan, sorrindo. — Por que acha que Jonas fez questão d e ter David? McAllister abriu sua pasta e disse a David: — Aqui está seu contrato. Jonas quer que você o assine esta noite. — E Dan? McAllister sorriu. — Dan assinou no dia da reunião da diretoria. David sentiu ódio. Tudo havia sido simulado. Eles o tinham colocado numa situação difíci l só para ver como se sairia. Mas controlou sua respiração. Que diferença fazia? Pegou a caneta que o advogado lhe entregava. Esse era apenas o começo. Eles ainda estavam por fora e levariam muito tempo para conhecer a companhia como ele. E aí isso não teria mais importância. Desde que assinasse o contrato, tudo estaria em suas mãos. A porta que ligava o seu quarto ao do tio se abriu e a luz se acendeu. — Já chegou, David? — Já, tio Bernie — respondeu, sentando-se na cama. — Então? — perguntou Norman. — Viu o homem? — Vi, sim — disse David, acendendo um cigarro. — Está terrivelmente abatido. Parece que sentiu muito a morte de Rina. O velho deu uma risada. — Não consigo ter pena depois do que ele me fez — disse Norman, com amargura, ao mesmo tempo que tirava um charuto do bolso e o levava à boca sem acendê-lo. — Ele lhe ofere ceu um emprego, não foi? — Sim. — Que emprego? — Vice-presidente executivo. O tio levantou as sobrancelhas. — Sério? — disse Norman, interessado. — Quem é o presidente? — Dan Pierce. Ele vai fazer os filmes. O resto é comigo. Administração, vendas e cinemas . — Estou orgulhoso de você — disse Norman, abraçando David, todo sorridente. — Tinha certez a de que um dia você seria alguma coisa na vida. David olhou para o tio com surpresa. Não era aquela a reação que es-perava. Uma acusação d e traição estaria mais de acordo com o tempe-ramento do velho. — Está satisfeito, tio Bernie? — Claro que estou. Que mais poderia eu esperar do filho de minha própria irmã? — Pois eu pensei... — Pensou? — disse o velho, ainda sorrindo. — Que diferença faz o que você pensou? O que pa ssou, passou. Agora realmente vamos poder trabalhar juntos. Eu lhe mostrarei mod os de ganhar dinheiro com que você nunca sonhou. — Ganhar dinheiro? — Claro — Bernie replicou, baixando a voz a um tom confidencial. — Uma cabeça de goyim é u ma cabeça de goyim. Com você à frente de tudo, quem vai saber o que está acontecendo? Am

anhã farei saber a todos os fornecedores que o velho trato continua de pé. Só aí você pega vinte e cinco por cento da comissão. — Vinte e cinco por cento? — O que há? — perguntou Bernie, já com um tom de esperteza. — Vinte e cinco por cento não ch egam para você? David não respondeu. — Bem, você não poderá chamar seu tio Bernie de miserável. Vá lá! Cinqüenta por cento. David apagou o cigarro no cinzeiro. Levantou-se e foi em silêncio até a janela. — Em que está pensando? — disse o tio atrás dele. — Não acha justo cinqüenta por cento? Você, inal de contas, me deve alguma coisa. Se não fosse eu, nunca ocuparia esse lugar. David apagou o cigarro no cinzeiro. Pôs-se de pé e caminhou silenciosamente para a j anela. Olhou para o parque, do outro lado da rua. Voltou-se e disse com raiva pa ra o velho: — Devo-lhe alguma coisa? Por todos esses anos em que viveu me ex-plorando por mise ráveis trezentos e cinqüenta dólares semanais? Sempre que lhe pedia algum dinheiro a m ais, começava a lamentar-se dos prejuízos que a companhia estava tendo. E, todo esse tempo, metia calmamente no bolso um milhão de dólares todo ano. — Nessa época foi diferente. Você não me compreende. David riu. — Compreendo perfeitamente, tio Bernie. Compreendo que dispõe de quinze milhões de dólar es limpos e vivos na mão. Se vivesse duzentos anos, não poderia gastar tudo o que te m. E ainda quer mais. — E que mal há nisso? — perguntou Bernie. — Trabalhei para isso. É meu direito. Quer que d esista de tudo só porque um patife me expulsou para fora de minha própria companhia? — Sim. — Você fica do lado daquele... daquele nazista, contra sua própria carne e sangue? — gui nchou o velho, com o rosto vermelho de raiva. David o encarou. — Não sou obrigado a escolher um lado, tio Bernie. O senhor mesmo reconhece que a co mpanhia não é mais sua. — Mas você está dirigindo a companhia. — Sim, quem está dirigindo a companhia sou eu, e não você. — Quer dizer que vai ficar com tudo para você? — disse o velho em tom acusador. David deu as costas ao tio, sem falar. Houve silêncio durante um ins-tante. Por fi m, o tio disse amargamente: — Você é ainda pior que ele. Ao menos, ele não estava roubando de sua própria carne e sang ue. — Deixe-me em paz, tio Bernie — disse David, sem virar-se para o velho. — Estou cansad o e quero ver se durmo um pouco. Ouviu os passos do velho atravessando o quarto. Depois, a porta ser batida viole ntamente atrás dele. Encostou a cabeça num lado da janela. Era por isso que o velho não havia voltado para a Califórnia logo depois da reunião dos acionistas. Sentiu um nó na garganta e, sem saber por que, teve vontade de chorar. Ouviu um fraco som de sirene soar na rua. O barulho aumentou e uma ambulância viro u para oeste vindo da rua 59, e entrou na Quinta Avenida. Afastou-se da janela, com o barulho ecoando em seus ouvidos. Parecia ter ouvido àquilo a vida toda. Quando andava ao lado do pai, que era negociante de trastes velhos, sentado no b anco duro da carreta, tinha a impressão de que nunca ouviria outra coisa. O som de uma sirene.

2 Os sinos dependurados na carroça do pai de David Woolf tilintavam preguiçosamente en quanto a égua cansada avançava bem devagar por entre os carrinhos de mão que se alinha vam de ambos os lados da Ri-vington Street. O calor sufocante do verão açoitava sua cabeça. Deixou as rédeas descansarem frouxas nos dedos. Não era preciso fazer força para guiar a égua. Ela mesma procurava seu caminho na rua atravancada, avançando automat

icamente cada vez que via um espaço livre à frente. — Cooompram-se... roupas velhas! O cantarolar monótono e estridente de seu pai se fazia ouvir acima do barulho da f eira livre, subindo até as janelas dos prédios, de onde olhares apáticos e vagos espre itavam o mundo faminto. — Coompram-se... roupas velhas! Do carro via o pai, caminhando ao lado pela calçada repleta, com as longas barbas agitadas pelo vento, enquanto olhava para as janelas, à procura de fregueses. O ve lho se revestia de inegável dignidade. Usava um chapéu preto de pele de castor; um s obretudo preto comprido que lhe batia quase nos tornozelos; uma camisa bem engom ada mas já com o colarinho de pontas viradas um pouco enrugado; e uma gravata com o grande laço logo abaixo do proeminente pomo-de-adão. O rosto era pálido e fresco, se m o menor sinal de transpiração na testa, enquanto David estava ensopado de suor. Até parecia que as roupas pretas o isolavam do calor. — Ei, senhor! O pai se afastou até a sarjeta para ver melhor. Mas foi David quem viu primeiro. U ma velha fazia sinais da janela de um quinto andar. — É a sra. Saperstein, papai. — Acha que estou cego? — perguntou o pai, resmungando. — Olá, sra. Saperstein! — É o senhor, sr. Woolf? — Sim — gritou o pai. — O que tem para nós? — Suba. Vou mostrar. — Roupa de inverno não quero. Ninguém compra! — Quem falou em roupa de inverno? Suba para ver. — Amarre o cavalo ali — disse o pai, apontando um espaço entre dois carrinhos de mão. — De pois suba para ajudar a trazer as mercadorias. Enquanto o pai desaparecia na entrada do prédio, David levou a égua para perto do pa sseio, amarrou-a num hidrante e passou-lhe um embornal, com comida, pela cabeça Tateou o caminho pelo corredor e pela escada escuros e mal iluminados, e parou d iante de uma porta. Bateu. A porta se abriu imediatamente. Era a sra. Saperstein , com seu cabelo grisalho preso em trancas no alto da cabeça. — Entre, entre. David entrou na cozinha e viu o pai sentado à mesa. À sua frente, havia um prato che io de bolinhos. — Um bolinho, David? — perguntou a velha, indo até o fogão. — Não, obrigado, sra. Saperstein — disse David, com polidez. Ela tirou uma latinha vermelha da prateleira acima do fogão e mediu cuidadosamente duas colheres de chá. Despejou-as na água fervente. E as folhas foram se abrindo na água. O chá já estava quase tão preto quanto um café, quando a velha o coou e serviu em u m copo a seu pai. O pai pegou um torrão de açúcar no vaso, colocou-o entre os dentes e bebeu o chá. Após o p rimeiro gole escaldante, abriu a boca. — Aah! — Está bom? — a sra. Saperstein perguntou, sorrindo. — É chá chinês autêntico, como o que tom s na velha terra. Não é como o que se encontra por aqui. O pai sorriu com ar de entendido e ergueu o copo de novo. Quando o pousou na mes a, estava vazio e as formalidades da cortesia encerradas. Era hora de tratar de negócios. — Então, sra. Saperstein? Mas a sra. Saperstein ainda não estava disposta a tratar de negócios; olhou para Dav id e disse: — É um menino tão simpático o seu David. Lembra meu Howard quando tinha a mesma idade. Tirou um bolinho do prato e ofereceu ao garoto. — Coma, meu filho. Fui eu mesma que fiz. David comeu o bolo. Estava duro e seco e se esfarelou na boca. — Coma outro, David. Parece magro e precisa comer bem. Ele fez um gesto negativo com a cabeça. — Sra. Saperstein — disse então o pai —, desculpe, mas sou um homem ocupado e já está tarde. Tem alguma coisa para mim?

— Venha ver. Eles a seguiram pelo corredor estreito ladeado de quartos do aparta-mento. Num d os cômodos, sobre a cama, havia vários ternos de homem, alguns vestidos, camisas, um sobretudo, além de sacos de papel com vários pares de calçados. O pai de David aproximou-se e examinou algumas das roupas. — Roupa de inverno! — disse ele, com desprezo. — E foi para isso que subi quatro lance s de escada? — Tudo está em estado de novo, sr. Woolf. Meu filho Howard e a esposa só usam roupas p or uma temporada. Iam dar para o Exército da Salvação, mas pedi que me dessem. O pai de David não respondeu. Estava selecionando as roupas rapidamente. — Meu filho Howard mora no Bronx — continuou ela, com orgulho. — Numa casa nova em Gra nd Concourse. É médico. — Dou dois dólares por tudo — declarou o pai. — Sr. Woolf! Isso vale no mínimo vinte dólares! Ele deu de ombros. — Só estou comprando isso para dar à HIAS. Melhor que o Exército da Salvação. David assistia à barganha dos dois com pouco interesse. HIAS era a sigla com que s e designava a Sociedade de Auxílio ao Imigrante Hebreu. As afirmações do pai não o impre ssionavam absolutamente. Sabia que as roupas nunca iriam para lá. Depois de lavada s com cuidado e escovadas por sua mãe, acabariam nas vitrines das lojas de roupas de segunda mão no baixo Bowery e na zona leste da Broadway. — Dez dólares — disse a sra. Saperstein. A dissimulação acabara; ela estava barganhando co m determinação. — Por menos, não dá para fazer. Não pagaria nem a gasolina que meu filho How ard gastou, para vir do Bronx até aqui. — Cinco dólares. E não se fala mais nisso. — Seis, sr. Woolf. Ao menos para pagar a gasolina. — Os metrôs estão funcionando — disse o pai de David. — Devo ter pre-juízo só porque seu filh é importante e gosta de andar de automóvel? — Cinco e meio — disse a velha. O pai de David olhou para ela. Depois meteu a mão no bolso do sobretudo e pegou um a bolsa amarrada ao cinto por um cordão de sapato comprido. — Está bem — disse suspirando. — Cinco e meio. Mas o céu é testemunha de que estou perdendo dinheiro. Fez um sinal para David e começou a contar o dinheiro, colocando-o nota por nota n as mãos da velha. David enrolou toda a roupa no sobretudo, amarrando as mangas por cima do embrulho. Depois colocou o amarrado nos ombros e começou a descer a escad a. Jogou-o dentro da carroça e foi para a frente da égua. Tirou o embornal da cabeça d o animal e, depois de desamarrar as rédeas do hidrante, subiu na boléia. — Ei, David! Olhou para o passeio. Um rapaz alto estava olhando para ele e sorrin-do. — Procurei você o dia inteiro, David. — Estivemos em Brooklyn — disse David. — Meu pai estará aqui neste minuto. — Então vou falar depressa. Shocky lhe dará dez dólares se você con-seguir o carro e a égua esta noite. Temos de levar uma carga. — Mas hoje é sexta-feira. — Por isso mesmo. As ruas lá estarão vazias. Não haverá ninguém para querer saber o que esta mos fazendo, à noite. E os guardas não nos inco-modarão quando virem a placa da carroça. — Vou ver se posso — disse David. — A que horas, Needlenose? — Às nove, nos fundos da garagem de Shocky. Lá vem seu velho. Até logo. — Com quem você estava falando? — perguntou o pai. — Com um dos meus amigos, papai. — Isidore Schwartz? — Sim, o Needlenose. — Afaste-se dele, David — disse o pai, severamente. — De gente assim não precisamos. É um vagabundo, como todos os que vivem na garagem de Shocky. Roubam tudo que encontr am. David fez que sim com a cabeça. — Leve a égua para a cocheira. Vou à sinagoga. Diga a mamãe para preparar o jantar às sete horas.

Esther Woolf estava em frente ao candelabro ritual, com a cabeça co-berta pelo xal e de orações. As velas arderam com suas chamas amarelas depois que ela as acendeu co m o fósforo comprido de madeira. Apagou o fósforo assoprando e colocou-o no pratinho em cima da mesinha do bufê. Esperou que a chama das velas se firmasse e começou a r ezar. Rezou primeiro pelo filho, o seu querido Duvidele, que chegara bem tarde, quando ela e o marido já haviam quase perdido as esperanças de ter aquela bênção. Rezou depois p ara que Jeová desse ao marido maior vontade de vencer, ao mesmo tempo que pedia pe rdão ao Senhor, porque era a obra do Senhor na sinagoga que fazia o marido descuid ar-se de seus interesses. Depois, como sempre, reconheceu-se culpada do pecado d e haver desviado Chaim da obra que ele escolhera. Quando se conheceram na velha terra, Chaim era um estudante talmudista. Lembrava -se dele ainda como fora nessa época, jovem, magro e pálido, com os primeiros anéis ma cios da barba preta brilhando com leves reflexos avermelhados. Os olhos ficavam negros e luminosos quando ele se sentava à mesa na casa do pai dela, molhando no v inho um pedaço de bolo e mostrando-se bem à altura do velho rabino e dos anciães. Mas, quando se casaram, Chaim foi trabalhar com o pai dela. Depois os pogroms co meçaram e os rostos dos judeus se tornaram magros e amedrontados. Só saíam de casa na escuridão da noite, às pressas, como se fossem pequenos animais das florestas. Ou fi cavam amedrontados nos porões das casas, com portas e janelas fechadas e trancadas , como galinhas procurando esconder-se no galinheiro quando sentem a aproximação do shochet. Até que numa noite ela não suportou mais. Levantou-se gritando do catre, ao lado do marido. Conservava fresca na memória a carta que re-cebera de seu irmão, Bernard, qu e estava na América. — Temos de viver como coelhos dentro de uma armadilha, esperando os cossacos chega rem? — gritou chorando. — É neste mundo sombrio que meu marido espera que eu lhe dê um f ilho? Nem Jeová poderia lançar a sua semente num porão. — Cale-se! — disse Chaim, em voz baixa e dura. — Não se deve tomar em vão o nome do Senhor . Reze para que Sua atenção não se desvie de nós! Ela riu amargamente. — Ele já nos abandonou! Ele também está fugindo dos cossacos! — Cale-se, mulher! — disse Chaim, indignado. Ela olhou para os outros catres do úmido porão. Mal podia ver na pe-numbra os rostos pálidos e amedrontados dos pais. Logo em seguida, houve um tropel de cascos de ca valos em torno da casa e começaram a ressoar na porta trancada as pancadas das cor onhas dos fuzis. O pai de Esther se levantou rápido. — Depressa, kinder — disse ele, sussurrando. — Saiam pela porta dos fundos do porão. Vão p elos campos que não serão vistos. Chaim pegou Esther pela mão e levou-a para a porta dos fundos. Parou de repente, v endo que os sogros não os acompanhavam. — Venham! — chamou. — Depressa, que não resta muito tempo! O pai de Esther continuou onde estava, com o braço passado sobre os ombros da mulh er. — Nós não vamos — disse ele. — É melhor que encontrem alguém, senão começarão a fazer buscas ampos. O barulho no alto estava mais forte, pois a porta já começava a ceder às pancadas dos fuzis. Chaim voltou-se e disse ao sogro, ao mesmo tempo que apanhava um pau no c hão: — Então ficaremos todos aqui. Eles verão que um judeu não morre com muita facilidade. — Vão embora — disse calmamente o sogro. — Nós lhe demos nossa filha em casamento. É da segu rança dela que deve cuidar e não da nossa. Sua coragem não passa de insensatez. Como é q ue os judeus têm sobrevivido há milhares de anos senão fugindo? — Mas... — protestou Chaim. — Vão! — disse o velho. — Vão depressa! Estamos velhos. Já vivemos muito. Vocês são moços e s ilhos devem ter a oportunidade de nascer. Poucos meses depois chegaram aos Estados Unidos. Mas vinte anos se passaram até o Senhor Deus Jeová se compadecer e lhes permitir ter um filho. Por último, rezou por seu irmão Bernard, que tinha negócios num lugar muito afastado,

chamado Califórnia, onde o verão durava o ano inteiro. Rezava para que ele tivesse b oa saúde e vivesse em segurança, sem ser muito perseguido pelos índios, como ela via d e vez em quando no cinema com os ingressos gratuitos que ele lhe mandava. Suas orações terminaram, ela voltou para a cozinha. A sopa estava fervendo, deixando no ar o cheiro gostoso e forte da galinha. Pegou uma colher e foi até o fogão. Com uma escumadeira, retirou os glóbulos de gordura que estavam na superfície e guardouos num jarro. Depois, quando a gordura estivesse fria e coagulada, poderia ser p assada no pão ou misturada com bolinhos de carne para dar gosto. De repente, ouviu a porta da frente se abrir. Pelo barulho dos passos, ficou sabendo quem era. — É você, Duvidele? — Sim, mamãe. Acabou o que estava fazendo, pousou a colher no fogão e virou-se. Como sempre, sen tiu o coração bater de orgulho ao ver o filho, tão alto e forte, ali à sua frente. — Papai foi à sinagoga, mamãe. Estará em casa às sete horas. Ela sorriu para ele. — Muito bem. Vá lavar as mãos. O jantar está pronto.

3 Quando David fez com que a égua entrasse no beco que levava aos fundos dá garagem de Shocky, Needlenose apareceu imediatamente. — É você, David? — Quem poderia ser? — Puxa! Estávamos em dúvida se você viria ou não. Já são quase dez horas. — Só pude sair depois que meu velho foi dormir — disse David, parando a carroça ao lado da garagem. Um instante depois, Shocky apareceu, com a calva brilhando. Era um homem de esta tura média, robusto e com braços tão compridos que lhe chegavam quase aos joelhos. — Você demorou muito a chegar — disse ele. — Mas estou aqui, não estou? Shocky não respondeu. Virou-se para Needlenose. — Comece a trazer as latas para o carro. Ele pode ajudá-lo. David desceu do carro e entrou com Shocky na garagem. A comprida fila de latas s e estendia no chão à luz da lâmpada elétrica que pendia do teto. David deu um assobio de admiração. — Deve haver quarenta latas aqui! — Quer dizer que sabe contar, hein? — murmurou Shocky. — Devem pesar uns cento e oitenta quilos. Não creio que Bessie agüente puxar tudo isso . — Ora, você levou a mesma coisa da outra vez. — Isso é que não. Foram apenas trinta latas. E mesmo assim houve o-casiões em que pensei que Bessie ia estourar. Já imaginou o que aconte-ceria? Eu ficaria no meio da rua encalhado com uma égua morta e não sei quantos litros de bebida. Se meu velho soube sse de uma coisa dessas eu estaria perdido. — Só esta vez — disse Shocky. — Eu prometi a Gennuario. — Por que não leva tudo num de seus caminhões? — Não posso. É justamente isso que os detetives federais estão procurando. Mas não suspeit arão de um carro de comprador de roupas velhas. — O máximo que posso transportar são vinte e cinco latas. — Escute, vai ganhar vinte dólares desta vez, porque estou numa en-rascada. David ficou em silêncio. Vinte dólares era mais do que seu pai fazia numa semana tod a, saindo com a carroça todos os dias, chuva ou sol, inverno ou verão, todos os dias , menos aos sábados, quando ia à sinagoga. — Vinte e cinco dólares — disse Shocky. — Está bem. Vou arriscar. — Então vamos começar a carregar — disse Shocky, pegando logo duas latas.

David ia sozinho sentado no banco da carroça, enquanto Bes¬sie se ar-rastava lentame nte pela rua, puxando a sua carga. Freou o cavalo numa esquina para deixar um ca minhão passar. Um guarda se aproximou. — Olá, David. O que está fazendo com a carroça a estas horas da noite? David olhou para o espaço de carga do carro. As latas de bebida esta-vam escondida s debaixo da lona, cobertas por grande quantidade de trapos. — Soube que estão pagando bem por trapos na fábrica de papel — res-pondeu. — E resolvi lim par a carroça. — Onde está seu pai? — Não sabe que hoje é sexta-feira? — Ah! — disse o guarda. — Seu pai sabe? David fez que não com a cabeça e o guarda riu. — Vocês, garotos, são todos iguais. — É melhor eu ir andando antes que o velho sinta minha falta. Deu um estalo com a língua e Bessie começou a andar. Mas o guarda ainda o chamou: — Diga a seu pai, David, para ver se encontra alguma roupa que sirva para um garot o de nove anos. A roupa do ano passado já não cabe mais no meu Michael. — Pode deixar, sr. Doyle, falarei com ele. Shocky e Needlenose já estavam esperando, quando David encostou o carro na platafo rma de descarga. Um pouco atrás, Gennuario observava os três começando a descarregar. Os detetives surgiram de repente da escuridão, de armas em punho. — Estão todos presos! David ficou paralisado com uma lata nas mãos. Teve por um instante a idéia de largar a lata no chão e sair correndo, mas não podia abandonar Bessie e a carroça ali. Que e xplicações iria dar ao pai? — Largue essa lata, rapaz — disse um dos detetives. David largou a lata e virou-se para ele. — Muito bem. Vá ficar ali, junto à parede. — Você não devia ter tentado isso, Joe — disse um detetive a Gennuario. Mas Gennuario sorriu, como se não se perturbasse absoluta-mente com o que estava a contecendo. — Faça o favor de entrar, tenente — disse calmamente. — Tenho certeza de que tudo se res olverá. O tenente entrou no depósito com Gennuario, e David teve a impressão de que nunca sa iriam de lá. Mas, dez minutos depois, os dois saíram sorrindo. — Tudo certo — disse o tenente. — Parece que íamos cometendo um grande erro. O sr. Gennu ario explicou tudo corretamente. Vamos. Os detetives desapareceram com a mesma rapidez com que haviam surgido. David fic ou olhando, sem compreender. Needlenose estava sentado ao lado de David na carroça quando chega-ram ao estábulo e deixaram lá a carroça. — Garanto a você que não há mais perigo. Tudo já está arranjado — disse afinal, assim que os ois saíram para a rua. Arranjado ou não, David não queria mais saber daquilo. Nem mesmo os vinte e cinco dóla res que levava no bolso pagavam o susto que levara. — Para mim, chega. Needlenose deu uma risada. — Por quê? Está com medo? — Claro que estou. Deve haver uma maneira mais fácil de ganhar a vida. — Se descobrir uma, não se esqueça de me avisar. — Ele riu. — Shocky tem duas chinesas lá no apartamento dele. Diz que podemos dar uma trepada com elas, se quisermos. David não respondeu. — Uma delas é Sing Lu — continuou Needlenose. — Aquela bonitinha, que raspa todos os cab elos do corpo. David hesitou, sentindo uma súbita excitação percorrer o corpo. Era uma hora da madrugada no relógio da vitrine da mercearia do Goldfard, quando e le dobrou a esquina de sua rua. Havia um carro da po-lícia parado na frente da por ta e uma pequena multidão em volta do car-ro, olhando para a porta.

É só isso qu peço. quem pode tra-balhar melhor por v ocê do que uma pessoa de sua própria carne e sangue? . com quem foi que arranjou? Esperou um instante. na sinagoga. Sua mãe estava na porta. Depois virou o rosto para o corredor. — Vou sair. — O que houve? — perguntou a uma pessoa da multidão. quando ouviu o grito. seguindo-a com os olhos enquanto ela saía da sala. você precisou de quinhentos dólares para seus negócios. o comprador de roupas ve-lhas.David sentiu um súbito medo. A porta dos banheiros estava aberta. — Não sei. — Chaim! Chaim! — gritou de novo. gostaria de um lugar de vice-presidente na minha companhia. Tudo o que me disseram a respeito dele é verdade. — É contra a minha política empregar parentes na companhia. David — disse sua mãe. — David quer um emprego. — Você me dis-se que estava com gases . na mesma caixa em que Chaim guardou na noite em que lhe deu o din heiro. — Que papel? — Ainda o tenho. Não que estava saindo para morrer! 4 — Então é minha culpa que o pai dele tenha morrido antes que ele ter-minasse os estudo s? — explodiu tio Bernie. enquanto a baba escorria pela barba grisalha. encostado à parede de uma maneira esquisita . quando fui rezar por meu pai. hein? David perdeu a paciência e se levantou. Estava amarelado e desbotado. Chaim. Mas uma compulsão o impeliu para sua casa. Norman virou-se e olhou desconfiado para o sobrinho. Como o tem po havia passado depressa! Olhou para sua irmã. Pensou em fugir. com os olhos e a boca abertos. O olhar de David seguiu o de sua mãe. David estava sentado na beira de sua cadeira. — Quando. — Que arranje um emprego e estude à noite. Ele lhe deu o dinheiro e você deu para ele um pedaço de papel. No fim dele estavam os banheiros. Bernie — disse ela. Alguma coisa havia dado errado e a polícia estava ali p ara prendê-lo. mas perfeitament e legível. — Espere. Sempre dá mau resultado nos negócios. Não falava nada. Mas um advogado esperto poderia tirar daquilo um bocado de dinheiro . Ouvi um guarda dizer que alguém está morrendo lá dentro. Fazia catorze anos. inclusive a data: 7 de setembro de 1912. como se não o reconhecesse. Já ia subin do a escada para o apartamento do terceiro andar. Ainda tenho o papel. — Chaim! — gritou a mãe. mamãe. Esta va começando a lembrar. — A meu respeito! — o tio gritou bem alto. antes da guerra. antes de ela mesma responder: — Foi com seu miserável cunhado. Havia esquecido p or completo. — Com certeza. falaram que você não tinha compareci do aos funerais porque estava com receio de que alguém fosse pedir dinheiro. como se estivesse acusando. olhando para a mãe. raivoso. debatendo-se nos braços de dois guardas. Mas algum dia vimos o dinheiro? — Papel? — perguntou Bernie. Seu pai estava sentado na tábua do vaso. — Chaim! Chaim! David sentiu um aperto no coração. — Mamãe! O que aconteceu? A mãe o olhou. — Como podia eu vir da Califórnia a Nova Iorque em um dia? Não tenho asas! David nada respondeu e se encaminhou para a porta. Súbita e freneticamente David começou a abrir caminho pelo meio da multidão. Ela se virou para o irmão. Era um documento pelo qual prometia ao cunhado cinco por c ento das ações da Norman quando ele comprara a velha Diamond Film. — Mas quem vai saber que é seu sobrinho? Além disso. — Não é caridade que estou pedindo. A irmã voltou e passou-lhe o papel. — Deixe-me ver — disse Bernie. — Chamo um médico e aparece a polícia — murmurou. já que faz tanta questão. — O que falaram de mim? — Sim.

não vá dizer a ninguém que é meu sobrinho. foto-grafias. Quando chegar ao meu escritório. Alguém no depósito havia feito um acréscimo no cartaz. Afinal de contas. cada uma delas referente a um filme. perto das janelas dos fundos. de acordo com a moda em vigor na época. As portas de aço se fecharam e o elevador se moveu com uma terrível barulheira de fe rragens. Vou concordar. moreno e simpático no estilo Valentino. Só aparecem às oito horas. Esther. ha via várias escrivaninhas. Mas todo mundo já sabia. — Guardarei segredo. — Olá! — disse David. Parou de repente à frente de um grande cartaz.Bernie ficou olhando para ela. olhando as prateleiras. a fábrica da Companhia Henri France. — Vou levar isso comigo. as palavras: COM OS CUMPRIMENTOS DE HENRI FRANCE. David chegou cedo. Os desenhos mostravam Vilma Banky reclinada num sofá. tio Bernie. David andou em sua direção. David virou as costas para o elevador pensati-vamente. no quarto. David nada disse. — Está bem. O quinto e o sexto andares pertenciam a Norman Pictures. magnanimamente. Tenho um depósito na rua 43. perto do rio . — Parece que ouvi alguém chamar — disse ele. antes de fechar a porta: — Não chegou ninguém ainda. As portas do elevador de carga abriram-se ruidosamente. o sangue é mais forte que a água. Vá para lá. Ele o d obrou e pôs no bolso. O tio Bernie lhe recomendara que nada dissesse. próximo ao rio Hudson. O homem do elevador avi-sou. Depois se levantou. olhando para ela com ar de ardente paixão. no segundo havia uma fábrica de cosméticos. curiosidades —. Norman foi para a porta. Rod Larocque. Saltou do elevador no sexto andar e caminhou por um largo cor redor entre prateleiras de madeira e aço. Que iria dizer o tio quan do tivesse conhecimento disso? Voltou para junto das escrivaninhas. o s maiores fabricantes de preservativos e preventivos anticoncepcionais baratos d o mundo. É contra os meus princípios. — Há alguém aqui? Sua voz ecoou pelo cavernoso pavimento vazio. Havia dois grandes elevadores de carga nos fu ndos e três pequenos elevadores de passageiros perto da entrada. Era um velho e sujo prédio industrial. juntas duas a duas. e scritas com pincel. O prédio era ocupado por seis locatários. mas talvez você tenha razão. Marcava sete e meia. com u m ar de preocupação. tabuletas. o vestido bem acima dos joelhos. e um homem de cabelo bra nco colocou a cabeça para fora e olhou para David. nós nos arranjaremos. tio Bernie — disse David. vendo-se ao lado. com o papel na mão. — Não há pressa. não posso — disse Norman. onde funcionara uma fábr ica. Bernie? — per-guntou a irmã. antes de sair. No fim. — Poder. O andar térreo era de uma companhia de peças d e automóveis. mandarei para você u m cheque de quinhentos dólares e mais os juros de catorze anos. as oficinas de uma pequena companhia de discos. — O que quer dizer? — O novato. e atrás dela. agradecido. — Tem certeza de que pode dispor de tanto dinheiro. de tão surpreso que ficou. Havia um relógio acima de uma das me sas. Basta uma palavra sobre isso e es tará despedido. Havia ali pi lhas bem arrumadas de material — cartazes. — Obrigado. no terceiro. e que fora dividido em cômodos. o sobrinho do velho Norman — o homem respondeu. virou-se. — Vim procurar o gerente para falar de um emprego. olhe lá. uma à frente da outra. de pé. — Mas ninguém irá dizer que Bernie Norman não cumpre sua palavra. Um preservativo de borracha est ava preso por um percevejo na frente da calça de Rod Larocque. — Ah! Então é você? David ficou confuso. David sorriu e começou a andar pelo corredor. Era espantoso como o material diferia um po . Mas. Mal davam vazão ao grande número de empregados que para ali acorriam às oito horas da manhã e de lá saíam às se is da tarde. — Mas. Havia grandes letras vermelhas que diziam: VILMA BANKY E ROD LAROCQUE. Encontrará trabalho. Desde que David trabalhe. A três por cento.

— Não pode fumar aqui dentro — disse a David. e David se virou para vê-lo. Nesse momento. Um homem alto e magro. — Pode ir fumar no banheiro — Wagner disse. Ou pensa que vim de tão longe só para urinar? Cá entre nós. procurando um cinzeiro. onde começavam a cuidar do trabalho. Se ntiu que a testa estava ensopada de suor. Wagner olhou para ele e o ar de preocupação d o seu rosto se agravou. que todo mundo havia parado de trabalhar e estava olhando para ele. Virou-se e e sperou. — Ninguém aqui sabe disso além de mim — disse Wagner. de repente. — Trabalha aqui? — perguntou David. David seguiu p elo corredor até encontrar o banheiro. em voz bem baixa: — Agora. Sou capaz de embalar num dia o que e-les fazem numa s . Olhavam furtivamente para ele quando se dirigiam p ara as mesas de empacota-mento. David começou a preencher a ficha. acho que foi um grande golpe de seu tio colocar você aqui. a porta se abriu e ele percebeu que um homem estava às suas costas. David percebeu então que o homem estava nervoso. Jack Wagner. embora aparentemente todo mundo soubesse . Começou a s e sentir nervoso e acendeu um cigarro. O homem falou em iídíche. De repente sentiu vontade de urinar e entro u num dos mictórios. ou via o barulho das portas do elevador de passageiros que se abriam e fechavam. Meu nome é Wagner. Não encontrou e percebeu. Tirou da gaveta uma ficha de c andidato a emprego e disse a David: — Preencha isto. Apontou para uma cadeira ao lado da escrivaninha. e com razão. como se fizesse uma acusação. apareceu . desculpe! — replicou David. O homem olhou a mão estendida. — Você é filho de Chaim Woolf. uma campainha tocou e um débil rumor de atividade começou a encher o préd io. David continu ou a preencher a ficha. apontando para os fundos. O dia havia começado. — Sente-se aí. Não era de admirar que todo mundo soubesse com tanta rapidez. jogando-a sobre sua escrivaninha. senhor. ainda mais nervoso que ele próprio. — Claro que trabalho. Seu aperto de mão foi fraco e hesitante. Mandaram-me vir falar com o gerente sobre um emprego. Vári os homens passavam à sua volta. — Meu nome é David Woolf. Sorria com to-dos os dentes de ouro da boca. Estavam de cost as para ele. a boa vida dessa gente acabou. Tudo qu e você precisa fazer é conferir as guias. Ouviu o elevador de passageiros parar. — Sim. depois continuou a falar. de cabelo vermelho e com ar de preocupação no rosto. Era absurdo o homem ficar nervoso por causa do seu parentesco com t io Bernie. David ficou observando-o conversar com o homem da primeira mesa. sr. Wagner a examinou apressadamen te. — Bom — murmurou vagamente. Quando Wagner voltou. Da Sociedade Prushnitzer. não é? — Sou. mas David tinha certeza de que era sobre ele que falavam. Parecia até que o único trabalho dos artistas era mudar os nomes dos atores e o título dos filmes. Wagner levantou-se e saiu. Wagner. Não entendia. as guias de embarque. De vez em quando. deixe em branco. — Eu sou o gerente. como seu pai. Parou e olhou para David em si-lêncio. Mas não iria falar sobre isso. — Você é sobrinho de Norman — ele disse. — Prazer em conhecê-lo. Afastou-se novamente. — Não viu os avisos? — Oh. David estendeu-lhe a ficha. David estendeu a mão. No lugar onde pergunta se tem algum parente que trabalha na compa nhia. — As guias? — Sim.uco de filme pata filme. — Pois eu me chamo Ytzchak Margolis. Está todo mundo alarmado. — Golpe? O homem fez um gesto afirmativo com a cabeça. o som de passos no corredor. Às oito horas.

— Compreendo. — Estão ali encostados à parede. — Wagner. David se aproximou dele. deixou cair todo seu peso. Wagner me mandou apanhar os folhetos. — Muito bem. O homem teve uma expressão de decepção. com pêlos neg ros espessos cobrindo o peito e os ante-braços. — Pode me dar uma ajuda aqui? O homem deu uma risada. — Qual é o material que devo levar para cima? — David perguntou ao ascensorista. e havia uma porção de gente trabalhando na carga e descarga dos caminhões. vestindo cami-seta. Traga tudo cá para cima. o escriturário dos recebimentos. mas. que já estava per-dendo a calma. O chefe da plataforma olhou para ele. compreendo. admirado. mas seus cinqüenta e nove quilos não foram suficientes para levantar o engradado do chão. Você não quer tirar o emprego de ninguém. . — Você é igualzinho a seu tio. — Claro que sei. O chefe da plataforma se voltou para David. David olhou em volta. — Quem é o chefe da plataforma? O homem do elevador apontou um homem atarracado. seu idiota! — Diabos! Como posso saber? — perguntou David. — O que quer? — o homem perguntou. David jogou fora o cigarro e saiu. Sam. — Mas ninguém tem motivos para se preocupar — disse David. — Não estou aqui para tirar o e mprego de ninguém. Vou espalhar a notícia . sabe? O velho nunca deixa a mão es-querda saber o que a d ireita está fazendo. Estava no meio do corredor. — Sabe trabalhar com uma empilhadeira? — Dessas que usam para levantar fardos? — Exatamente. Foi saindo. Segurando as alças da extremidade da corda p resa à roldana. — O velho Norman mandou um garoto fazer trabalho de homem. Mas não tardou a esboçar um sorriso manhoso. com sarcasmo. quando chegou à porta. Vários caminhões estavam estacionados de ré na plataforma. 5 O elevador parou no andar térreo e as portas pesadas se abriram na plataforma de e mbarque. O chefe da plataforma estava rindo ironicamente. — Não? — perguntou Margolis. contendo cento e vinte e cin co pacotes de mil unidades cada um. — Será que mandaram o Sam embora para dar o lugar a esse bestinha? — Não. — Apontou. Vi Sam trabalhando lá em cima. Estavam todos com medo de ficar desempreg ados. — Tenho meu próprio serviço para cuidar — disse.emana. Eu só cuido do elevador. — O sr. Não tenho com que me preocupar. Os folhetos estavam embalados em quatro engradados. As feições eram grosseiras e a pele ti nha o tom avermelhado de alcoólatra. A ansiedade abandonou os olhos de Wagner por um momento. quando encontrou Wagner. David levou a empilhadeira para lá e prendeu o s dois ganchos sob um dos engradados. voltou-se e olhou para David. O chefe da plataforma virou-se para o homem do elevador. numa das mesas de empacotamento. hein? Onde está Sam? — Sam? — Sim. — Claro que não. Há um carregamento de quinhentos e cinqüenta mil folhetos de anúncio lá embai xo na plataforma. Só estou aqui porque preciso mesmo do emprego. — Pergunte ao chefe da plataforma. Foi então que David começou a compreender. Os vadios é que correm perigo de perder o emp rego.

Todos estavam con tra ele. Pôs em ação a alavanca do macaco e o engradado foi suspenso. Bond. Já eram quase dez e meia quando David acabou de esvaziar os engradados e empilhar todos os folhetos nas prateleiras. fumando um cigarro. David ficou olhando para ele por um instante. tocou e o gerente atendeu. Indignado. — Está bem — disse Wagner. — Então. o telefone da escrivaninha. — Bem. Tirou distr aidamente um cigarro do bolso e tratou de acendê-lo. sr. Era a nota dos folhetos: quinh entos mil folhetos. — Já trouxe tudo? — perguntou Wagner. — Espere um pouco — disse ao ascensorista. Logo depois de ele haver assinado. Estava preocupado em saber se todos de fato estavam contra ele. David examinou a fatura enquanto apanhava um lápis. preço total de quinhento s dólares. acabaram de chegar — continuou Wagner. — Vamos subir. Foi Margolis quem res-pondeu: — Está no banheiro. Atrás dele. pode dizer — exclamou o gerente. Sorriu ao ver a cara carrancuda do chefe da plataforma. sentiu o rosto ficar vermelho.David de repente tomou consciência do silêncio que caíra sobre a plataforma. Sim. O ascensorista dava um sorriso afetado. começou a caminhar pela calçada ao lado do edifício. — É proibido fumar aqui — avisou o chefe. Olhou em volta. Estava vazia. — Muito bem — disse para o ascensorista. Esse papel é bem caro. Havia uma garagem do outro lado da rua. Em menos de cinco minutos. O gerente entregou-lhe uma folha de papel. Até o ger ente. Foi até a mesa do gerente. mais irritado ainda. jogando o cigarro na privada. Sentiu um assomo de amargura. — Leve-os para o corredor cinco . sabendo muito bem que ele não teria força para le-vantar o engradado . vá para o meio da rua. Um silêncio tomou conta da plataforma enquanto ele ajustava o macaco sob o engradado. David agradeceu e seguiu pelo corredor até o banheiro. — Sim. a um dólar cada pacote de mil unidades. — Claro que sim. com um cigarro na mão. Vou mostrar o lugar certo. — Se quiser fumar. A camisa branca e limpa que a mãe o fizera vestir agora estava toda molhada e suja. uma explosão de gargalhadas. — O que quer que eu faça agora? — Foram quinhentos pacotes ao todo? — Exatamente. próprio para caminhões. David levou os quatro engradados para o elevador. com visível mau humor. enquanto as portas do el evador se fechavam. o que há? — perguntou. depois desceu em silêncio a rampa em direção à rua. O gerente con-versava com o utro homem. se não conseguiu. Enxugou a tes ta na manga e foi até a escrivaninha do gerente. Estava de costas e teve um sobressalto quando D avid disse: — Sr. O suor encharcava sua camisa. Deu meio dólar ao mecânico e voltou empurrando o grande ma-caco hidráulico. Todos os empregados das mesas olharam para o elevador. — Já estão aqui em cima. Wagner o mandara faze r aquele serviço. o gerente também estava contra ele. Depois. Perguntou aos empre-gados: — Onde está Wagner? Os homens se entreolharam confusos. malicioso. sem a segurança de pouco antes. não ficara exatamente satisfeito em vê-lo. — Não conseguiu trazer os folhet os? David olhou-o fixamente. Só quero saber onde devo colocá-los. Torciam e se deliciavam com o fracasso do sobrinho do patrão. o tal Wagner. — Depósito. enquanto escrevia suas iniciais ao pé da fat ura. A voz do chefe arrematou: — Acho que mostramos ao judeuzinho bastardo que conosco ele não arranja nada! David afastou-se dali. pensou. Acendeu o cigarro. Wagner? — Sim. David. até os motoristas dos ca minhões estavam rindo. E o tio Bernie havia dito que tudo ficaria em segredo. assine a fatura. e isso lhe deu uma idéia. cobriu o fone com a . — Vou perguntar a Wagner onde quer que deix e isso.

— Tenho uma hora para almoço. pois do contrário não faria ne-gócios dessa espécie . David. — Em quanto tempo você consegue chegar aqui com um caminhão? — perguntou ele. Que diferença fazia se não estavam impressos em duas cores? — O sr. David estava cada vez mais perplexo. O que ele devia ter era sorte. — Posso dar um telefonema? Wagner concordou e David ligou para Needlenose na garagem de Shocky. E traga um soco-inglês para você. abrindo uma caixa de metal sobre a mesa e tirando uma nota de cinco dólares. Bond mandou jogar tudo fora. Que negócio mais maluco aquele em que se joga va uma coisa fora antes mesmo de pagá-la. Po-deremos ter tempo q uente. — Se não se incomoda. Wagner mostrou-se aborrecido. . sr. — Onde coloco isso? — Não vai colocar isso em lugar nenhum. do departamento de compras. espere um pouco — continuou Needlenose: — Shocky diz qu e cobrará dez dólares pelo cami-nhão. tire tudo das prateleiras e leve outra vez lá para baixo... Mas subiu e foi até a mesa de Wagner. mas não há necessidade. — Era o sr. Os folhetos que acabamos de receber deviam ser de duas cores? David olhou para o cartaz sem compreender o motivo de tanto estarda-lhaço. Chegavam até a pagar cinco dólares para se livrarem da mercadoria. — Entendi. Qualquer comprador de papel velho dará no mínimo cinqüenta dólares por aquilo. depois de tomar uma decisão. Suba agora mesmo e vá dizer a Wagner que terá de me pagar cinco dólares se quiser que eu jogue seu lixo fora. Se não fosse a falta de sorte. O tio não era tão esperto quanto diziam. Mas. hein? Tudo isso? — Sim — respondeu David. Nada daquilo fazia sentido. o pai dele teria s e tornado milionário. Trate primeiro do caso e depois faça sua hora d e almoço. — Lixo. Os novos folhetos chegarão esta tarde. Já era meio-dia e meia quando ele chegou à plataforma levando o pri-meiro engradado de cartazes. sr. sem acreditar no que estava vendo —. David. Quem falava do outro lado do fio estava tão irritado que David quase podia ouvir o que era dito. depois de explicar rapidamente o negócio. vai mesmo pagar esse dinh eiro a ele? — Naturalmente. O chefe da plataforma se aproximou e olhou dentro do elevador. — Mas o papel dos folhetos é muito bom. — Está certo. para onde vai com isso? — É lixo. E outro para mim. David sentia cada vez mais raiva do homem. tirou um folheto de um dos pacotes e le-vou-o para o gerente. — Escute — disse David. — Sim. O chefe da plataforma berrou: — Ei. — Oh. Eram ap enas folhetos para distribuir nas ruas. Todos têm. — Posso tirar a minha hora de almoço agora? — Pode tirar depois de resolver o caso dos folhetos. Vamos precisar do e spaço. Jogavam fora quinhentos dólares de pa pel antes mesmo de pagá-los e não procuravam nem ganhar cinqüenta dólares com ele para d iminuir o prejuízo. — O chefe da plataforma quer cinco dólares para jogar o lixo fora. — Não me incomodo. — Jogar fora? — perguntou David.mão e disse a David: — Quer ir pegar um daqueles folhetos e me trazer? David saiu para o corredor. Wagner pegou. Dê-lhe os cinco dólares e esqueça. — Claro. Mas nada tinha com isso. tratarei disso na hora de meu almoço. Wagner? — perguntou. Bond. Bond. São de uma só cor. e logo depois colocou o fone no gan cho. é claro! Havia esquecido — disse Wagner. — Vinte minutos. examinou e disse ao telefone: — Não. — Não temos tempo de tratar dessas coisas. surpreso. David o encarou.

Olhou para os empregados. David. Dentro em pouco. Sentia um gosto amargo na boca. é se o tio Bernie souber que gasta cinco dóla res para perder cinqüenta. David também os encarava. ele nem me receberá. Tony. Do contrário perderá tudo. o ch efe da plataforma. — Vou almoçar — disse. Para dar resultado. Enfi ou a arma no bolso. — Ele pode matar você — replicou Needlenose. Se eu aparecer agora lá chorando. Se ele não me tratasse como me tratou. foi M argolis. nada teria acontecido. zangado. David deu uma longa tragada. — Não. Trancou as gavetas da escrivan inha e se levantou. Vamos lá. A mão de Needlenose saiu do bolso da calça e David pegou a soqueira de ferro. Tudo aquilo era uma coisa sem pé nem cabeça. — Faço apenas o que o departamento de compras manda. — Encrenca o senhor vai ter. tenho de enfrentá-lo sozinho. Estão lá embaixo na rua. Caíra direitinho na armadilha que lhe haviam prepar ado. o tio com certeza ficaria sabendo. Em nov enta por cento dos casos. — Tem pelo menos vinte quilos mais que você. Trouxe o que você me pediu. Quer liso ou de ponta? — De ponta. os homens começaram a sair. é um idiota! — disse David. ansiosos por ver Tony arrebentá-lo. — A responsabilidade não é minha — disse prontamente o gerente.— Está bem. o único que permaneceu. — Onde está o caminhão? — perguntou David. — Eu queria apenas fazer o meu s erviço. — Então. Os empregados das mesas estavam todos de olhos voltados para e le. ficava sem saber o que havia acontecido. Needlenose estava esperando por ele lá embaixo. e perguntou: — Por que é que esses cinco dólares são tão importantes? — Todos os locatários do edifício pagam alguma coisa a Tony. quando mais t arde recobrava os sentidos. Agora não podia recuar. David sentou na cadeira dele e acendeu um cigarro. além do mais. mande a conta para o tio Bernie. você entra na briga e me ajuda. — Do outro lado da rua. em desafio. E não podia também perder a luta lá embaix o. nem se quisesse. e ele perderia o emprego. é pior do que um cossaco. Pouco depois. — Neste caso. o que poderei fazer será apenas tratar de seu ente rro. — Não quero encrencas — disse nervoso. A culpa foi dele. — Sabe para onde foram todos. David olhou para ele. Wagner. E ele não era tão inteligente quanto se julgava. — Acredite no que vou dizer. e ele continua ria calmamente a receber o dinheiro. A víti ma avançava para o homem que estava à sua frente e era atingida pelas costas. — Se eu estiver em apuros. Estarei à sua espera na calçada da frente. 6 . Wagner mostrava ansiedade depois que David desligou o telefone. não faria mal algum dar-lhes realmente motivo para ter medo. sem nada dizer. Peça outro emprego a seu tio. David pensou que. Wagner pôs a nota de cinco dólares de volta no caixa. — Como posso fazer isso? Já foi bastante difícil ele me dar este. — Estilo chinês? Era um ardil comum em Chinatown. pensativo. Ele não pode deixar você livr e de fazer o mesmo. Um homem pela frente e outro pelas costas. As pontas redondas e pontudas bri-lharam perigosamente. — Como vamos enfrentar o cara? — perguntou Needlenose. um por um. infringindo delibe-radamente a proibição de fumar. Não adianta você se sujeitar a ser massacrado. menino? Todos eles? Não saíram para o almoço. — Se você estiver em apuros. Se perdesse. David levantou. sr. depois deu um sorriso irônico. muito pálido. não tem motivo algum de se preocupar. se todos estavam com tanto medo dele que não o deixavam trabalha r direito. — Nesse caso. além dele. jogou o cigarro no chão e esmagou-o com o salto do sapato.

pela velhice que lhes rouba as forças e o poder de raciocinar. Tudo aquilo seria dele um dia. O mundo era assim mesmo. Levou o último engradado para o caminhão e puxou a trava. Aquilo tudo era uma loucura. Needlenose perguntou: — Quer que lhe dê uma mão. Ouviu um leve suspiro da multidão amontoada na plataforma. Quem sabe quantas noites o tio Bernie fic ava sem poder dormir. toda vez que aparecia alguém par a pôr sua tirania em perigo. A alavanca do macaco foi arrancada da mão de David. De repente. Até pouco antes. Naquele momento. sabem que um dia. David colocou o macaco sob o engradado mais próximo. Acionou a alavanca e o engradado f oi suspenso do chão. As rodas do macaco ficaram girando no estreito espaço entre a plataforma de em-barque e o cami nhão. O en gradado pousou no chão do veículo. Reconheceu alguns homens do depósito. Needlenose desceu a rampa e foi até o caminhão encostado no outro lado da rua. O homem não havia se movido. Aquele foi um momento revelador para o espírito de David. sentiu-se meio atordoado. sentindo a frieza do met al. porque têm mais o que perd er. porém. Levantou os o-lhos e viu o chefe da plataforma. Enfiou os dedos no soco-inglês. este estendeu o pé na frente do macaco e encarou David em silêncio. Não era nenhum herói. As conversas haviam cessado e os sanduíches foram esquecidos dentro dos embrulhos de papel imper-meável. perderão tudo. por entre os dentes. alguns comiam sanduíches fingindo que estavam interessados apenas nisso. De que adiantava aquilo? Que va-lor tinha aquele emprego miserável para que e le se arriscasse a morrer para não perdê-lo? Viu então o chefe da plataforma e não teve mais dúvidas. aproximando-se do homem. Margolis dissera a verdade. Fazia calor e David sentia o suor encharcar sua roupa. nos depósitos de papel v elho à margem do rio e mesmo naquele depósito da rua 43. Descendo do caminhão. a platafor ma estivera barulhenta. o macaco esco rregou para o lado e a parte da frente saiu por completo do caminhão. — Traga o caminhão — disse David. O chefe da plataforma falou com voz autoritária: — Para tirar esse caminhão daqui tem de pagar cinco dólares. Eles des viaram o olhar do seu. Olhou de relance o chefe da plataforma quando vol tou para apanhar outro engradado de cartazes. Os que dominam o mundo têm de morrer e deixar tudo para os herdeiros. Até seu tio. mais cedo ou mais tarde. — Tenho uma coisa para você — disse. Além disso. Não ia haver briga nenhu-ma. bloqueando a traseira do caminhão. judeuzinho! Se não tem dinh eiro. porque ele era moço. O homem moveu rapidamente o pé. à sua maneira. . Quando não p or outras razões. Empurrou o macaco carregado para a plataforma aberta do caminhão e destravou. ninguém mais fingia. sentado à sua escrivaninha no alto de tudo. ainda com a mão no bolso. disposto a lutar para manter o seu reinado. Novo suspiro nervoso se elevou da multidão. Quando chegou perto do chefe da plataforma. Chegou à beira da plataforma no momento em que Needlenose en-co stava nela a traseira do caminhão. Naquele breve momento el e entendeu. Sem se perturbar. Sempre havia um pequeno dit ador. Havia até algumas moças da fábrica de cosméticos e da Henri France a postos para apreciar o aconteci-mento. era um ditador. Em toda a parte era a lei da selva — nas ruas do East Side. O silêncio o envolveu e ele sentiu que todos os olhares estavam fitos nele. Não podia recuar. Talvez estivesse errado. David o encarou também e tentou empurrar o macaco para a plataforma. sim. Deixe que eu me arranjo. Correu os olhos distraidamente à sua volta. Todo o edifício sabia o que ia acontecer. talvez t odos estivessem errados. David? — Não. preocupado com as ameaças ao seu império? Reis e ditadores vivem mais amedrontados que os outros. David sentiu uma leve esperança no fundo do coração. Seria assim com o chefe da plataforma e com o tio Bernie. David empurrou o macaco para onde ele es tava. Muita gente conversava. quando virou o macaco p ara tirá-lo do caminhão. vai ficar tudo aí mesmo! David meteu a mão no bolso.Estavam esperando.

David olhou e achou que o tal F red. — Telefonem chamando uma ambulância. Sentiu a dor subir-lhe pel o braço quando atingiu com toda a força o rosto do homem. David atacou-o outra vez. está ficando sabido. vestindo um avental azul que tinha bordadas no bol so as iniciais da Henri France. O chefe da plataforma deu um grito quando o pesado macaco caiu em cima dele. O guarda olhou para o chefe da plataforma. e stava perfeito. diz que eu devia trabalhar n o cinema. Firm ou os pés na borda do caminhão e procurou atingir novamente o rosto do homem. Provavelmente era uma das garotas que havia visto lá embaixo. Needlenose tomou o volante e David desceu para a plataforma. caso contrário o homem poderia matá-lo mes mo. As pontas de metal do soco -inglês abriram-lhe o rosto como se fosse um melão maduro. Ouviu os passos do velho saindo do banheiro. cobrindo depois o rost o com ela. judeuzinho — disse o homem. Foi nesse momento que David ata-cou. olhando para o chefe da pla-taforma: — Será que você liquidou o homem? David encolheu os ombros. Exceto por um pequeno galo no lado direito da testa. . E me ajudem a tirar essa coisa de cima dele. e olhou para a multidão. Lavou o rosto com água fria e se en-xugou. Quer ver? — Claro. David encaminhou-se para o elevador de carga. com um sorriso que mostrava dentes não mui-to bonitos. sabia tirar fotografias. O homem conseguiu esquivar-se. O homem aparou-o no braço mas. m as perdeu o equilíbrio e caiu no chão. O homem estava se levantando nas mãos e nos joelhos. O homem deu um grito contido de dor e desfechou tremendo soco em David. Dep ois. David aprumou o corpo. ficou ali estendido. Este olhou para David e perguntou: — O que houve? — Um acidente. Parou para olhá-la e teve a vaga impressão de que a conhecia. O homem estava quase de pé. A briga teria de ser rápida. O soco não atingiu o alvo. teve de recu ar para a plataforma. David se sentiu completame nte atordoado. Todos já estavam começando a se dispersar. David agradeceu. Jogou a soqueira no bolso do amigo e disse: — Convém tirar logo esse caminhão daqui. Virou o rosto para David. — Fred Jones. Ouviu a sirene da am-bulância quando estava no banheiro se lavando. O barulho da sirene foi diminui ndo a distância. O calor lhe fez bem. como um monstro pr imitivo. imóvel. fosse lá quem fosse. Depois deixou a toalha na beira da pia e saiu. ofegante. muito obrigado. O caminhão desapareceu na rua no momento em que Wagner chegava com um guarda. David encostou-se no grande macaco hidráulico e olhou para ele. Needlenose subiu no caminhão e disse. Havia uma moça perto da escada. sim. — É verdade que você é sobrinho do velho Norman? — É. Fechou os olhos. atingind o-o na cabeça e arremessando-o contra o lado do caminhão. — Estou. Ela o olhou firmemente. com o sangue escorren do por suas faces e os lábios cerrados numa expressão selvagem. com uma to alha na mão. Achei que ia precisar disto.— Agora. pegou a toalha e a ensopou na água quente. empurrando o macaco sobre o homem. com os rostos pálidos e amedrontados. desviando seus olhos de Davi d para a multidão. Ela sorriu e tirou algumas fotografias do bolso. Pouco depois. — Tome. Tirou algumas poses minhas — Foi? — Estou com as provas aqui. que é o chefe do seu laboratório fotográfico. judeuzinho miserável! David olhou para ele. Sacudiu a cabeça para recuperar-se e viu que o inimigo avançava contra ele. tirou a toalha do ros to e se olhou no espelho. — Está se sentindo bem? — perguntou o velho. — Vou matá-lo por isso. A porta se abriu e Margolis apareceu. ainda as-sim. — Foi você mesmo quem pediu! — disse. com o macaco sobre as costas.

Tirou alguma coisa do bolso e entregou a David. — Tenho de voltar ao trabalho — disse ela. David olhou-o por um instante. David a olhou bem nos olhos. Wagner estava sentado à escrivaninha. seu m . — Você teve sorte. entrando no seu gabinete e abrindo a janela. Eram todos amigos. — Você é bonito — disse ela. — Sou eu o gerente. quando David apareceu. 7 Bernie Norman entrou no seu escritório de Nova Iorque. estendeu a mão e sorriu. Eram dez horas da manhã. Todos têm medo dele. depois da rápida caminhada do hotel até ali. Mandaram-me vir falar com o gerente para trabalhar aqui. — Pode ficar com elas. Parecia uma caixinha de aspirina s. — Obrigado. — Já paguei. Houve um instante de silêncio e ela continuou: — Vi tudo o que houve lá embaixo. — Bom dia. dizendo: — Meu nome é David Woolf. — Se tiver oportunidade. O guarda me perguntou o que houve. — É assim que muitas c omeçam no cinema. cintilantes e firmes. Ela tinha razão. Até os charutos em Nova Iorque eram melhores. Em seguida. — Até a vista. — Obrigado. Como era bom aquilo. começando a descer a escada. Foi um acidente. Havia um papel no fundo da caixa. Já era tempo de Tony levar uma lição. O gerente baixou os olhos e disse: — O homem da garagem quer dez dólares para mandar consertar o macaco. haviam deixado de ser estranhos. Wagner. apanhou um grande charuto e o acen-deu lentamente . Jack Wagner. O macaco caiu em cima dele. — Fez boa viagem? Norman sorriu para ela. mostre-as a seu tio — disse. — Não é preciso — replicou Wagner. David abriu a caixinha. — Eu gosto de você. começou a ler os papéis em cima da mesa e sua satisfação aumentou. Vou apresen tá-lo ao pessoal. — Obrigado. sem demora. Muito prazer em tê-lo co-nosco. Fui eu mesma que examinei e enrolei todas. mas nela se lia em letras douradas: HENRI FRANCE DE LUXE. — Ele é que teve sorte. sr. De repent e. Mas levou doze pontos no rosto. O médico disse que Tony teve apenas um choque momentâneo e duas coste las quebradas. Eu disse que foi um acidente. Ele estava com os olhos brilhantes e as faces rosadas pelo ar do inverno. Quando David se voltou para as mesas. todos estavam sorrindo para ele. Pode-se ler um jorna l através delas. — Essas aí não lhe darão aborrecimentos.— Gosta? — Gosto. dife-rente da terrível uniformidade do clima da Califórnia. prontamente. — Irei pagar amanhã. Os negócios iam muito bem. Sentou. O Norman. Trazia escritos o nome Betty e um número de te lefone. — Até a vista. — Não gosta dele? — Ninguém gosta dele. São as melhores que fazemos. Norman — disse sua secretária. O gerente levantou-se e apertou-lhe a mão com força. O gerente o encarou firmemente e disse em voz baixa: — Gostaria de fazer de conta que não aconteceu nada hoje de manhã. Gostaria de começar t udo de novo. Foi então para sua escrivaninha. Deixou-se f icar ali respirando o ar puro e frio. apreciando com prazer a fragrância do tabaco. Eram tão finas que se podia ler através delas . Os cinemas de Nova Iorque estavam dando bons lucros.

Bernie? — perguntou ele. — Diga a Ernie que venha imediatamente falar comigo. Norman. — Estávamos em dificuldades. depois de olhar o boletim. Seria paga caso eles conseguissem manter o nível de renda depois do Natal. Só daríamos a gratificação sobre que passasse daí e calculamos que não gastaríamos quase nada. A venda de bombons e pipoca s é quatro vezes maior do que antes. Bernie. Duas vezes por semana faz de sfiles de propaganda dos filmes. — Pronto. E apenas um carimbo. Uma família inteira pode ent rar por setenta e cinco cents. como pod eria estar faturando quatro mil e duzentos dólares por semana? — Taubman não está mais dirigindo o cinema. — Nunca apren dem a fazer nada certo? — O Park? — Hawley demonstrou profunda surpresa. Hawley entrou daí a pouco. Entrou em entendimento com o comércio das vizinhanças e está sorteando brindes em todas as sessões. — Deixe de rodeios e diga-me a verdade agora mesmo — disse Norman. — Então há truque nisso. e ainda assim excepcionalmente. tirando furiosas baforad as do charuto. quando normalmen-te a receita diminui. Norman — disse a secretária pelo telefone. — Mas o rapaz está trabalhando bem. — Fez boa viagem? — O que há com este boletim do Cine Park? — perguntou. — Eu já sabia! Eu já sabia! — Não tivemos outro jeito. que são os dias de menor movimento. — Mas nós calculamos isso sobre a renda máxima dos cinemas. — Então quem é que está administrando o cinema? Quem é esse sabidinho que está tirando do no sso bolso trezentos dólares por semana? Hawley já demonstrava claramente todo seu nervosismo. mas tanto assim. O Park nunca fize ra. David Woolf. Qual foi o máximo estimad o para o Park? — Três mil. secamente. Do contrário. com os olhos protegidos pelos óculos escuros. O boletim só podia estar todo errado. — E quanto é que isso tudo está nos custando? — Bem. Pegou imediatamente o telefone. havia aumentado consideravelmente a receita desde que começara a dar shows no palco entre as exibições de filmes.elhor cinema. — Aumentaram exatamente quanto? . Nossos contadores verifi-cam tudo a cad a semana. — Não vejo nada de errado — disse Hawley. na Broadway. Era ape nas um cinema de terceira ou quarta categoria. — Deixe-me ver. Jamais concor daria com gratificações dessa ordem. não! — Os totais do boletim estão certos. Teve de se submeter a uma operação de apendici te logo depois do Natal e ainda está se recuperando. Norman bateu com a mão na testa dramaticamente. Bernie. E está dando resultado. mais do que três mil dólares por semana. A doença de Taubman nos pegou desprevenidos e não tín hamos ninguém para botar no lugar dele. — Não. — Não vê? — replicou Norman. como todos os gerentes têm. batendo no boletim. Ernie Hawley era o tesoureiro e teria de explicar aquilo direitinho. sarcástico. que acusava uma média de quatro mil e duzentos dóla res por semana nos últimos dois meses. Devia haver algum engano. Instituiu ainda o que chama de "noites da família " às segundas e terças. Bernie! É a gratificação de vinte e cinco por cento que você dete rminou para os gerentes. Alguém tinha enlouquecido. Podia ser comparado com o Loew's State e o Palace. — E essas gratificações aos empregados? Dois mil e quatrocentos dólares em dois meses! P ensa que estou maluco? Nunca a-provaria uma coisa dessa! — Mas é claro que aprovou. Norman examinou mais detidamente o boletim e encontrou um item de despesa com o título de Gratificações aos Empregados. no pior trecho da rua 14. — Mas a assinatura no boletim é dele. — É seu sobrinho. — Pensa que não sei que o Park nunca rendeu mais do ue três mil dólares desde que foi inaugurado? Posso ser tolo. as despesas gerais aumentaram um pouco. sr. Bernie — disse Hawley. Continuou a folhear os boletins dos cinemas e parou su rpreso quando chegou ao do Park. Taubman está nos roubando desla-vadamente. Norman entregou-lhe o boletim e se recostou na cadeira. O total médio por semana chegava a quase trezent os dólares. — Como vai. mas achamos que vale a pena. acendendo nervo-samente um cigarro. — Sério? — falou alto Norman.

— Fez vinte e um anos no mês passado. Foi até a janela e fechou-a violentamente. Mas para ele é óti-mo. Afinal. que o depósito nunca foi mais bem administrado. — E você acha que ele fez isso visando aos nossos interesses? Não seja bobo! Ele ganha va dezessete dólares por semana. Ele po deria ficar ali como sub-gerente. . — Há um ano e meio vim para cá e o que encontrei? Ele estava trabalhando no depósito hav ia pouco mais de um ano e já tinha mais lucro com aquilo do que nós. ele gasta novecentos dólares do nosso dinheiro por semana para ganhar trezent os. — Talvez seja isso o que você deve fazer — disse Hawley. não foi? E continuam se apresentando. Leva ntou-se. chega-se à conclusão de que estamos recebendo cento e cinqüenta dólares a mais por semana. Devemos agradecer-lhe a gentileza de deixar cento e cinqüenta para nós? E isso e nquanto ele não des-cobrir um meio de nos tirar esses também! Sentou novamente à escrivaninha. de re pente. Bernie riscou um fósforo e acendeu o charuto. Arrumou a c oncessão para vender preservativos de borracha por atacado em todos os nossos escr itórios no país. O tempo em Nova Iorque era desagradável c om aquele frio horrível tão diferente do clima quente e cheio de sol da Califórnia. — Entre oito e oito dólares e meio por semana — repetiu Norman. no Brooklyn. — Coloquei-o então no Norman como subgerente. Trezentos dólares por semana a mais no bolso dele. onde tudo funciona por si mesmo? Isso é o que eu pensava. furioso com o tesoureiro: — Devo mesmo admitir que o pessoal que trabalha para mim não passa de um bando de idiotas! O aumento da receita não nos adianta nad a. Colocou-o na boca e começou a mastigá-lo. — Pois foi uma felicidade que eu o mandasse para o Hopkins. O inventário rotativo perpétuo que ele idealizou nos permitiu economizar uma verdadei ra fortuna em compras dispensáveis. senão iríamos todos parar na c a-deia. porém. — Quando se calcula a receita geral. — Quanto ele está ganhando agora? — Trinta e cinco dólares por semana. quando voltei. Bernie. queriam trabalhar no Norman. encolerizado: — Seis meses depois. o que poderia acontecer de errado num cinema fa moso como aquele. e mais dois mil fazendo fotografias pornográficas que imprimia às centenas com material do nosso laboratório. — Sim. E é um camarada que eu gostaria de ver sempre do nosso lado. Levantou-se de repente e exclamou. sar-casticamente. Pensei que tudo estava resolvido e que eu podia dormir em paz. inc lusive as concessões de vendas. mas ia todos os dias para o trabalho num Buick de dois mil e trezentos dólares. Isso deu ainda maior prestígio ao cinema. sem que eles precisassem sair de seu próprio camari m? — Mas os artistas mais famosos do país se apresentaram no cinema. Pensei que minhas preocupações haviam se acabado. chego aqui e o que encontro? A companhia toda anarquizad a por ele. — Tire-o do Park e transfira-o para o departamento de publicidade do estúdio. Ganhava mil dólar es por ano vendendo cartazes inaproveitados. ele não poderá arranjar encrencas. — Acho que está sendo vantajoso — disse Hawley. que tipo de problema ele poderia nos c riar no. — O quê? — Fazer dele um vice-presidente. Brooklyn? Voltei para a Califórnia com o coração tranqüilo. descobri que ele transformara o cinema numa casa de tolerância e num ponto de bookmakers! Todos os artistas de vaudeville do país. — Mas é ainda um garoto. — Mas temos de reconhecer. assim. antes que a polícia fechasse o Norman. Foi uma sorte eu haver acabado com isso. E por que não? Você acha que no Loew's State ou no Palace eles encontrariam empregadas bonitas e à disposição das dez da manhã à uma da ma drugada? E onde mais eles poderiam encontrar um sub¬gerente pronto a aceitar apost as para todos os prados do país. Ali eu mesmo fiscalizarei seu trabalho. mas toda vez que venho a Nova Iorque consigo me aborrecer! Jogou o charuto no cesto e apanhou outro. Afinal. — Não — disse Norman. — Não sei por que. Seis m eses depois. que está fazendo mais dinheiro do que um vice-presidente.Hawley pegou o boletim: — Entre oito e oito dólares e meio por semana. pensativo.

Sabia que s eria assim quando casara com ela dois anos antes. — Senão. — O almoço está pronto — disse ela. Talvez as coi sas tenham mudado depois que ele tomou conta do estúdio. Será como nos velhos te mpos. se o senhor voltar. Nevada mostrou o tele-grama. fingindo uma tranqüilidade que não sentia. Todo mundo sabia o que estava acont ecendo. Bernie viu o tesoureiro sair e resolveu telefonar para a irmã. até de si mesma. quem poderia prever onde ele chegaria? O rapaz iria longe. Smith! Muito prazer em vê-lo de novo. Não seria necessário avisar. Martha voltou para a cozinha. em 1930. — Devem estar em dificuldades — replicou ela. A viúva de Charlie Dobbs era a e spécie de mulher com quem deveria ter casado muito antes. Re-solveu passar por lá depois do almoço. com animação. lembrando-se de que a última vez em que estivera no estúdio fora logo depois da estréia de O renegado.— Vou tratar disso agora mesmo. Harry. Diz que tem um assunto importante para tratar comigo. Sorriu quando pegou de novo o boletim. Uma coisa ao meno s não havia mudado no estúdio. Nevada sorriu. — Não quero que o ex-plorem como já aconteceu. — É o que eu espero — disse ela. E Nevada percebeu que gostava das atitudes dela. Nevada sorriu e seguiu com o carro para o edifício da administração. Chegando do campo. Não queria que ela fi casse preocupada. Bernie — disse Hawley. . Colocava-o acima de tudo. — O prazer é todo meu. para que ele iria cha má-lo depois de tanto tempo? Ele encolheu os ombros. coisa que nunca pudera ter do próprio pai. calmamente. evidentemente satisfeito com aquela sincera manifestação de amizade. A irmã tinha razão: bom sangue não nega. Nevada engatou a marcha e Richards afastou-se do carro. Abriu e leu: Tenho importante assunto tratar com você. Jonas não é como Bernie Norman. — Dan Pierce está me chamando. E ra firme e solidária com ele. havia encontrado o telegrama na entrada. — Sr. Ela nunca saía de casa. chefe do policiamento do estúdio. embora tivesse idéias loucas. — Tenho de ir a Los Angeles para resolver com o banco o caso da compra dos quatroc entos hectares a Murchison. Dan Pierce Martha apareceu logo depois de ele haver lido o telegrama. com a mão estendida. Sentiu um estranho orgulho. Smith. Aquele seu sobrinho era um rapaz muito vivo. sr. Não havia segredos. sete anos — disse Nevada. E cer-tamente todos sabiam mais do que ele. levantando-se. Com um pouco de orientação. Ele pagaria todas as despesas da mudança para a Califórnia. dizen-do: — Espero que tudo se resolva de forma satisfatória. Não faria mal algum passar para ver o que Dan quer com igo. Aproximou-se dele. Depois lembrou-se de que ela não tinha telefone e que seria preciso mandar chamá-la na cas a de bombons da esquina. 8 Harry Richards. — Tenho hora marcada co m Dan Pierce. Ele só tinha conhecimento do q ue estava escrito no te-legrama de Dan. Martha. Gostaria me procurasse imediatamente. — Há quanto tempo não aparece! — É verdade. — Ele está à sua espera no antigo gabinete de Norman. estava no portão principal quando Nevada Smith chegou no seu carro. — Não creio que haja dificuldades. Seguiu-a até a cozinha.

vai dando para viver. Depois disso. — Não estamos mais fazendo filmes. Martha? Vamos os dois juntos. quando viu que podia ganhar ma is dinheiro com o show Buffalo Bill? — Isso foi há muito tempo. Nevada. de qualquer maneira. — Por que tanta pressa? Dan arregalou os olhos e fingiu-se ofendido. Dan? — Você sabe como os filmes são vendidos hoje em dia? Vende-se por adiantamento a produção do ano inteiro. vencido e fugitivo da polícia. muito sério: — Deve estar querendo saber por que lhe mandei aquele telegrama. Tem s de produzir. olhando-a. — O que acha? — perguntou ele. — Obrigado — disse Nevada. — Já vou chegar lá. de ser acompanhado por olhos que cintilavam ao reconhecê-lo quando passava pelas ruas. Isto agora é uma fábrica. Tantos filmes de classe A. — Agradeço muito você ter vindo. Nevada era um homem rico. limpa e boni ta. Esta-mos sempre à espera d e que entrem os dólares dos filmes já feitos para iniciarmos a filmagem dos novos. tantos de ação e aven turas. Jonas era o filho que ele nunca tivera. — Isso de verá resolver seus problemas. que não podia esperar compreensão de sua parte. — Foi apenas para refrescar-lhe a memória. sorrindo e quase com timidez. tinha ele aq uele olhar ferido de quem se sente sozinho na vida. e a fazenda de ga do no Texas. Mas. Bastava olhar para a animação que a fisionomia de Nevada demonstrava para saber que se houvesse alguma coisa para ele. sem aquelas horríveis torres de petróleo. — Acho que será magnífico — disse. Tud o mais era acessório e substitutivo. — É infernal — explodiu Dan. Qual é sua idéia. tantos de classe B. Mas estes já tinham outros heróis. — Por que não acumula uma reserva para distribuição posterior? — perguntou Nevada. Dan baixou os olhos para a mesa e disse. Não. Talvez apenas dez por cento d e tudo isso esteja filmado quando se faz a venda. — Sabe de uma coisa. Nevada o olhou. Por um instante. — Mas parece-me que você está se dando bem com isso. No fundo. talvez fosse apenas Jonas. determinada cota mensal de filmes. em seguida. Estou até admirado de que tenha falado nisso. botando o bule de café em cima da mesa. Sua apa-rência está ótima. Era o prazer da fama. que ainda usava o seu nome. até ela própria. tantos westerns. — As responsabilidades estão dando cabo de mim. — Isso é maneira de falar com um velho amigo? Lembre-se de que fui seu agente. ela sentira a bon dade do coração de Nevada. de viver cercado e aplaudido pelos garotos. voltaria a traba-lhar no cinema. É u m círculo vicio-so. não é? — Eu sabia. vive-se numa tra balheira louca para fazer os filmes e cumprir os contratos. Martha sentiu um assomo de ternura. Nos hospedaremos no Ambassador e trataremos de nos divertir um pouco. onde estavam morando. Tinha sido sempre assim. é um trabalho. Mesmo muitos anos a ntes. — Em todo caso. mas não temos as reservas de dinheiro necessárias. não faria — murmurou ela. tantos de horror e mistério. — De fato. Era o que lhe faltava — isso e Jonas. quando ele era bem moço e fora do Texas para o rancho em Reno. Ele havia recusado uma oferta de um milhão de dólares de entr ada e mais os royalties pela exploração da parte norte da fazenda. de que ele e o primeiro marido de Martha tinham sido sócios. o rancho para divorciadas em Re no. secamente. Tudo estava rendendo bom dinheiro — o show Oeste Selvagem. Quem foi que lhe arranjou o primeiro traba-lho no cinema? — Lembra-se também de ter deixado o meu show de lado. Mas tenho de lhe falar com franqueza. Queria conservar a terra como era. por dinheiro não era. Jonas nos mantém com um orçament . de qualquer modo. onde ela e Ch arlie se haviam estabelecido. Cansado. Desde então. Logo que tomamos conta do estúdio.— Não. ela teve pena d ele. Nevada. Dan. você foi a primeira pe ssoa em quem pensei. Não que precis asse de dinheiro. — Ainda não sei qual é sua proposta. Nevada recostou-se na poltrona e sorriu. Dan estava mais gordo e com ar de quem vive regala-damente. Ambos riram. não? — É por isso que estou aqui. em cujas vizinhança s havia sido en-contrado petróleo.

compraremos o filme de você. — Não é possível — disse Nevada. Mas o banco está disposto a fazer o empréstimo se você estrelar esses filmes. E escritores e produtores. não tivemos prejuízo no ano passado. Logo que você concordar. neste ano. — O importante seria apresentar em toda a série um personagem em quem as pessoas pud essem acreditar. Não estou me queixando. Pierce sorriu. não pode ser. Ainda temos os cenários que serviram para O renegado. Nevada riu. — Muito bem — disse Nevada. não creio que ninguém se convença se eu fizer p apéis de mocinho. Bem. Isso lhe dará um b om lucro. Mas estes serão diferentes. — Para todas as despesas? — Sim. impassível. direitos e tudo mais. Cada filme. o departamento de vendas acha que pod e colocar catorze westerns. Nevada levantou-se e disse: — Deixe-me pensar um pouco.. em vez de gastar tudo nesses ma lditos impostos com que Roosevelt nos per-segue. Nevada sorriu. tratar emos disso. De certo modo. — Espere um pouco até eu acabar. — Eu sei qual é sua opinião sobre filmes dessa espécie. Talvez você pudesse fazer o papel de Nevada Sm ith mesmo.. — Conseguiremos então argumentos apropriados — disse Dan. — Tem certeza? — Conversei pessoalmente com Moroni. transferiremos para você a posse do filme. sendo a primeira vez em cinco anos que equil ibramos receita e despesa.. Sabe que sempre tive muita confia nça no seu critério em matéria de histórias. Vou conversar com Martha e depois falarei com você. — Isso nunca deixa de parecer falso. — Obrigado e passe bem — disse Nevada. Bastará fazer alguns reparos e ficarão como novos. Com este meu cabelo branco. Isso quer dizer que você ganhará cinco mil dólares por semana. Talvez ele tenha razão. — A diferença é que Norman queria explorá-lo e eu não. Ele acha que é uma grande idéia... — Nada disso. Nessa ocasião. Além do mais. uma aventura nova.. — Exatamente o que eu tinha em mente. também. V ocê esperará a entrada dos primeiros lucros para receber seu salário. — E quais serão as histórias? — Não quis tratar disso enquanto não falasse com você. A resposta de Dan mostrava que ele ainda não havia pensado nos argu mentos. pois cada filme não levará mais de duas semanas para ser rodado. apenas. é manter esta fáb ica em funcionamento. — Ainda que tenhamos de recorr er a alguma coisa de Zane Grey e Clarence Mulford. negativos e cópias. Você poderá escolher qualquer dos diretores ou cameramen de que dispomos. — Não custa nada pintá-los de preto. Meu conceito em relação a você é bom demais para estragá-lo com coisa infe-rior! — Muito bem — disse Nevada. Mandei a contabilidade e-xaminar o caso e descobri um meio de você ficar com algum dinheiro. Mas com os mesmos velhos truques e idéia s. — Vamos ver. — Nós lhe pagaremos dez mil dólares por filme. caso queira. . já me habituei a eles assim. — Deve ser influência da sala. ao fim de s ete anos.o muito apertado. Utilizarei o meu melhor pessoal de produção. Gene Autry e Roy Roger s já fazem isso na Republic. — Tenho a impressão de estar ouvindo Bernie Norman — disse Nevada. — Mas vou trabalhar em troca de quê? Só pelo dinheiro dos ciga rros? — Creio que tenho um bom trato para você. Nevada. De qualquer maneir a. Acha que iria chamá-lo se não achasse que você ta mbém podia ganhar algum di-nheiro? Nevada tornou a sentar. e nós. — Quanto lhe adiantarão? — Quarenta mil dólares por filme. — Ainda não temos o dinheiro para fazê-los. O que quero. levantando.

mamãe. — A senhora devia era sair. — Deve? Por que diz isso? Não o tem visto? — A última vez em que o vi foi há dois anos. tia May seria capaz de matar o marido. telefonamos para McAllister. nos telefona. No meio do caminho. — Mas. como se estivesse embaraçado. se ele tivesse a idéia de sair à noite. ainda que ele viva num hotel? Apa-rece de vez em quando. — E se acontecer alguma coisa importante? — Nesse caso. mamãe. É uma moça muita boa. com muito interesse. E ela estudou na universidade..— E verdade — disse Dan. — Os tempos eram diferentes. Além disso. talvez de três em três me-ses. — O fato. Como sempre. quando tomamos conta da c ompanhia. Não tenho tempo. — Passei só para saber como a senhora vai. mamãe? Será possível? — Sim. nem pouco . em Nova Iorque. — Com eu vou? Do jeito de sempre. . Às vezes . e é tempo de sobra para se casar. tomar um pouco de sol. Nem muito. não quero conhecer moças. Dan. Aproveita tão pouco o sol da Cali fórnia! — Para que eu quero sol? — perguntou a sra. — Já não tenho um filho? Ainda que quas e nunca o veja. meus parabéns . Uma pessoa muito interessante. abrindo a porta. que mal há nisso? Acredite. voltou-se e perguntou: — Como é que Jonas vai passando? Pela primeira vez. Woolf. Sofrendo com minha artrite. — Deve ir bem. é que não poderei tomar uma decisão enquanto não conversar com Jonas. — Mas pode ser que ele nem esteja no país. Nevada encaminhou-se para a porta. E nem ao menos f ca para jantar! — Prometo da próxima vez ficar para jantar. mamãe — disse David. então — disse ela. aparece por aqu i. mamãe. Nevada teve de repente a impressão de que Jonas estava precisando dele. — Não faz mal. Não podia dizer à mãe que o irmão dela era conhecido em toda Holly-wood como o homem das matinês. Mas. De vez em quando. fala conosco pelo telefone. Para não levar a vida toda dentro de boate s com essas. David. — E não o viu mais desde esse tempo? Nunca vem ao estúdio? Dan baixou os olhos. — Não fale assim.. — Seu tio Bernie voltava para casa todo dia. — Soube que casou de novo. Pierce demonstrou hesitação. — Quero que você conheça uma pessoa. — Outra moça. limita-se a dizer a Mac o que devemos fazer. E ainda devo dar-me por muito feliz por ele se lembrar de vi r me ver. — Mas se acabo de lhe dizer que ninguém consegue ver o homem! — Você não quer que eu faça os filmes? — perguntou Nevada. — Você já está aqui há uma semana e esta é só a segunda vez que veio me ver. que transmite a Jonas a comunicação.. — Quinta-feira. Com uma boa moça de uma boa família. A família tem dinheiro. Embora um pouco tarde. — Raramente. Só sabemos que esteve aqui po rque encontramos os recados que deixa escritos nas mesas. Eu espero — disse Nevada. 9 — Vai ficar para jantar. na maioria dos casos. Podemos passar até um mês sem ter notícia dele. — Por que quinta-feira especialmente? Ela teve um sorriso misterioso. — Não tem tempo de conhecer moças? Pois você já tem trinta anos. Às vezes. Mas é sempre tarde da noite e quando não há mais ninguém. Bem sabe como vivo cheio de trabalho. mamãe — murmurou ele. Duvidele? — Não posso.

encolhendo os ombros resignadamente: — Está bem. A coisa era muito diferente com seus outros interesses. com a RKO. Pilhas de contratos. David não entendia por que Jonas procedia daquela maneira com a companhia. Nada havia de palpável por todos os lados. Quando chegou ao hotel. depois de fazer a ligação. — Tudo o que você faz. Jonas teria de enfrentar a realidade. A Inter-Continental Airlines já era a m aior empresa de aviação co-mercial do país. Precisaria decidir entre permanecer no negócio ou afastar-se. Contratos e ram assinados com a Fox. mas inevitável quando se queria o melhor. A Cord Aircraft havia se transf ormado rapidamente num gigante da indústria. Não podemos mais alegar prejuízo. sim. No fundo. Aquilo era uma coisa mais segura e muito menos arriscada do que os filmes que custavam milhões. Isso permite inclusive a exibição dos filmes de uma nas salas da outra. Tenho de sair com elas. Era necessário ir em frente. mamãe. Era a dife-rença entre existir simplesmente e prosperar. d ois anos sem uma reunião da diretoria é tempo demais. Essa que era a dinâm ica da ação na indústria do cinema. — Acho melhor falarmos com Mac. O assunto é sério. Tudo o que se fazia era fechar contra tos para ganhar tempo. ora no outro. quando se tratava da companhia de cinema. pois nosso balanço anual já foi pu blicado. Um homem assim podia acrescentar vinte milhões de dóla res à receita da companhia. o que ele desejava eram contratos. encontrou um recado: precisava telefonar para Dan Pierce . isso ger ava um sentimento de frustração. Venho sim. também . Tenho uma porção e coisas para fazer. Como David já dissera. Vivia-se pu lando ora num pé. E tudo o que não quer fazer. E David já fizera todo o movimento que lhe era possível. Todos eles produziam grandes fi lmes. . — Fará. — O governo está de novo insistindo na campanha contra os trustes. o mais importante. Mais ced o ou mais tarde. Afinal de contas. Dan? — perguntou ele. — Eu sei. A Cord Explosives e a Cord Plastics faziam vitoriosamente concorrência à Du Pont. Skouras não havia hesitad o quando precisara de Zanuck. diz que é por causa dos negócios. com a Warner. mas só depois de conversar com Jonas. Era um preço alto. ações e opções na companhia. Mas eu só quero saber é de uma coisa: vem jantar na quinta-feira ou não? David olhou para a mãe com essa mistura de ternura e enfado própria dos filhos e dis se. Mas McAllister também não sabia por onde Jonas andava. com a Paramount. — Sabe onde Jonas está? — Jonas? O nome não me é desconhecido — disse David rindo. Não precisava do dinheir o e todo mundo sabia o que ele pensava daqueles filmes rápidos. Mas. Mas. bastava não deixá-la morrer. Era como se o trabalho fosse feito dentro de um vácuo . — Eu também gostaria de falar com Jonas — disse David. Mas a aprovação de negócios dessa natureza tinha de ser dada por Jonas e por ninguém mais. teriam de fazer alg uma coisa de fato grande — ou filmes ou contratos. Provara que a companhia pod ia manter-se. Já tivera uma conversa com Maurice Bonner. — Deixe de brincadeira. Conversaremos sobre isso também. David estava à espera dos resultados das sondagens que mandara fazer junto à Goldwyn e à Disney. Goldwyn e Bon ner andavam à procura de novos canais de distribuição. Disney. como uma pirâmide sem fim. A única maneira que temos de conseguir Nevada para fazer aqueles westerns é providenciar uma conversa dele com Jonas. Ela sorriu satisfeita. — Quer dizer que ele está mesmo disposto a fazer o negócio? David não acreditara que Nevada fosse concordar com aquilo. pr odução pessoal dos seus quatro projetos principais em cada ano. Quem parava enfraquecia-se e desaparecia. Os sindicatos vivem infernizando minha vida. — O que há.— Isso é a negócios. Mas não se esqueça de que terei de sair cedo. com a Loew's. Equilibramos as despesas e deveremos ter lucros no ano que vem. que rendiam muito e. sem nunca se poder tomar uma atitude ou uma posição ma is estável. Mas não venha tarde. ouviu? Às sete horas em ponto. eram inteiramente financiados por eles mesmos. — Ótimo. Não sei por quanto tempo aind a poderei resistir. para transformá-la numa empresa de verdade. Bonner queria uma combinação da mesma espécie que Hall Wallis fizera com a Warner e Za nuck tinha com a Twentieth Century-Fox — supervisão executiva de todo o programa.

enquanto isso. — Há um certo Irving Schwartz ao telefone — disse-lhe a secretária pelo interfone. David. — Chega de falar em mim — disse David. — Bem. O velho amigo devia ir muito bem.. — Pois seu amigo do East Side subiu muito na vida. — Graças a Deus! — exclamou Dan. de-pois. onde estava Jonas? Jonas era quem tinha a chave que poderia ab rir as portas de ouro. e. Woolf. — Parece ótimo. Se não se tratava de uma facada. em Westwood. Quanto merecia um velho amigo? Cinqüenta dólares ou cem? — Mas seu lugar já é bem importante. David riu. — Falou pelo telefone com um camarada chamado Schwartz? — Acabei de desligar — disse David. As ca-sas ali vali am no mínimo setenta e cinco mil dólares. — Ele diz que o conhece. E não se pode deixar de ficar satisfeito quando se tem conhecimento de que um velho amigo venceu na vida. — Sem dúvida. — Não poderíamos falar pelo telefone? — Também não confio em telefones. você fará uma visita mpleta. mas firme. — Vai encontrar-se com ele? — Esta noite.. um tanto surpreso. — Vencer ainda não. — Eu também gostaria de vê-lo. — Ótimo! Foi um pulo muito grande o que você deu de Rivington Street. Não confio nos criados. lembrando-se de repente. ainda curioso sobre o que o Needle¬nose poderia querer. todo afogueado e s uarento. Dan Pierce entrou no seu escri-tório. — O que ele quer? Não conheço nenhum Irving Schwartz. Sua mãe ainda faz aquelas sopas deliciosas? — Claro. — Espere aí — disse David. Vá jantar conosco. Temos de nos encontrar num lugar onde ninguém nos veja. Você terá impressão de qu e ainda está na velha Nova Iorque. — Você pode me explicar o que tem assim de tão importante um camarada que eu conheço des de menino? — Sabe quem é ele? — Claro que sei. sr. Pelo menos. Também não pode ser em nenhum restaurante. David desligou o telefone. Mas estou tão assoberbado de trabalho aqui. David o olhou com curiosidade. não se tratava de uma facada. E você. Ela está nos Apartamentos Park. A secretária transferiu a ligação e David falou. Tenho uma casa em Goldwater Canyon. — Sei disso. Não teve de esperar muito. E moro aqui. — Por que não disse logo? Pode ligar. por que podia ser tão importante? — Por que é que não vem até aqui no estúdio? Podemos almoçar e. A voz de Needlenose era calma. ansioso por mudar de assunto. — Sei disso. Mandaram-no para cá há seis meses. pensando que aquilo não podia d eixar de ser uma investida. se não fosse muito importante. — E você? O que está fazendo por estas bandas? — Vou indo regularmente. — Estarei lá. rindo. David quase deu um assobio. . — Needlenose! Como está você. Fomos colegas de escola. — Não serve. David. não o incomodaria. David. seu bandido? Needlenose riu satisfeito ao telefone. Mas trabalho como um cão. Alguém poderia nos espionar. — Vou jantar com minha mãe esta noite. Mas vai se lutando — replicou David. — Needlenose! — exclamou David. deixando-se cair numa cadeira e ti-rando o lenço para e nxugar o rosto. A que horas? — Sete horas. — Na sua casa então? — Também não serve. Gostaria de conversar com você. E os mesmos bolinhos de carne com gordura de galinha.E. — Está bem. Era meu vizinho em Rivington Street. David pensou por um instante. David? — Muito bem. Tenho ouvido falar muito a seu respeito. Pediu que lhe falasse em Needlenose.

Devia ser Need lenose. As mulheres foram para a cozin ha e ele se voltou para o sr. cinemas. A sra. Strassmer cumprimentou com a cabeça e disse alguma coisa em alemão. Será a maior greve que você já viu. — Leve-os para a sala de estar. A mãe. — Não me disse que íamos ter tanta gente assim para jantar. Vão parar tudo: estúdios. Negócios. O cabelo preto. A campainha da porta tocou. Tinha experiên cia bastante para saber que os seios que espetavam tão agressivamente a seda daque la blusa não estavam tolhidos por nenhum sutiã. David olhou para ela. — Já tentei e não consegui nem f alar com ele. emoldurava uma te sta bem larga e belos olhos claros. O som daquela voz fez David olhar subitamente para ela. ponha mais um prato na mesa. David sorriu para elas. mas quase imperceptível. Era uma garrafa de Old Overholt. mamãe. Era a bebida tradicional que aparecia em todas as cerimônias — nascimentos. Havia um lev e desafio na curva da boca e no ângulo do queixo. David conteve a duras penas uma careta. que estava olhando uma panela. Sou Otto Strassmer. enquanto acompanhava a mãe até a cozinha. Convidei um velho amigo para vir jantar conosco. Ao menos. Strassmer disse alguma coisa em alemão. David compreendeu de repente que a moça tinha tanto interesse por aquela reunião quanto ele. envolvidos por longas pestanas. Sete horas. ao mesmo tempo que a filha murmurou. É o dirigente máximo dos sindicatos n a costa do Pacífico. — Muito prazer. — Fui obrigado. David? — perguntou a mãe. com voz agradável: — Muito prazer. não se voltou. de cabelo grisalho e ar preo-cupado. Abriu a porta para um homem pequeno. — Quem é. mamãe. mamãe. sr. — Minha mulher. bar mitzvah. Se você não conseguir nada. A coisa ainda ia ser pior do que ele e sperava. da cozinha. — Deve ser David. Acompanhavam-no uma senhora da mesma idade e uma moça . — Espero que consiga se entender com ele — continuou Dan. ela e eu iremos até a cozinha para ver se sua mãe precisa de alguma ajuda. Strassmer. Então respondeu à mãe: — Sã Strassmer. casamentos. David encontrou na mesa uma garrafa de uísque cercada de cálices. Tinha sotaque. um tanto desapontada. Querem fazer o favor de entrar? — disse ele às visitas. mamãe. sem saber o que dizer. David olhou para ele atônito. Rosa olhou para ele.quando Bioff e Brown se viram em dificuldades. . e minha filha. — Mamãe está dizendo que pode ir beber alguma coisa com papai. — Por falar nisso. — Perdão. Strassmer. Não era alta e seu corpo e ra magro. Aquela voz de novo. mortes. David ficou surpreso. A sra. David fechou a porta da sala e perguntou à moça: — Quer me dar seu casaco? A moça tirou o casaco. e ambos se encaminharam para a sala de estar. — E você acha que uma boa moça pode vir jantar pela primeira vez na casa de um rapaz s em os pais? David teve vontade de sair dali correndo. Rosa. Enquanto isso. A mesa estava posta para cinco pessoas. estaremos na rua da amargura daqui a uma s emana. — Convidou alguém para jantar aqui? Esta noite? — perguntou a mãe. O homem sorriu. Estava vestida com uma blusa muito simples e uma saia presa na fina cintura por um largo cinto de couro. arrumado em pequenos cachos na cabeça. não era tão carregado quanto o do pai dela. Há Schnapps em cima da mesa. que pa recia ter uns sessenta anos. O ar de preocupação desapareceu quando o homem sorriu e estendeu a mão. Frieda. David olhou para o relógio. tudo! 10 David olhou para a mesa na sala de jantar.

— Mais um? — perguntou. ano passado. poderia se servir a bebida numa garrafa ab erta. num gesto quase ritual. Otto Strassmer sorriu. — Puro — disse Strassmer. sorrindo e colocando tudo sobre a mes inha. — Achei que podiam precisar disso — disse ela. que levantou o copo. o Old Overholt era o maior responsável pelo fato de os judeus não gostarem do verdadeiro uísque. Tossiu um pouco e virou-se para David. era prima de seu pai. com uma leve nota de horror na voz. O homem alto e elegante que estava à frente de David não tinha quase semelhança com o rapaz magro e nervoso de quem ele se lembrava. hein? — Sem dúvida — murmurou David. Jonas Cord. mesmo com água. As duas famílias eram da Silésia. pergun-tando: — Puro ou com água? Outra coisa tradicional: a garrafa tinha de estar sempre selada. Rosa retirou-se e David preparou um drinque com grande quantidade de água. e levantou para abrir a porta. Tenho ouvido muitas coisas a seu res-peito. quase aquili no. Talvez estivessem metidas no fundo de algum armário. polidamente. senão do fica estragado? A campainha tocou naquele exato momento e David deu um suspiro de alívio. David pensou por um momento no que a-contecia a todas as garrafas abertas que ficavam pela metade. Trabalho para ele na indúst ria de plásticos. agua rdando o dia da libertação. Devia ter-se lembrado de uma garrafa de uísqu e escocês! A seu ver. gut Schnapps! David sorriu. Muito prazer em vê-lo. que contrastava agrada-velmente com a boca rasgada e o queixo forte. — Mandei consertá-lo numa oficina. David encheu um cálice. Em ne-nhuma cir cunstância. E há muito te mpo tenho vontade de conhecê-lo.Uma mistura forte de aguardente de centeio que queimava a garganta e enchia o na riz de um cheiro desagradável de álcool. Rosa apareceu com um jarro de água e alguns copos. Não me ficaria bem andar por Be-verly Hills com um nariz do East Side. Strassmer bebeu de um só gole. tomou-lhe a garrafa da mão e quebrou o gelo. tenho ouvido muitas coisas a seu res-peito. qualquer que fosse a ocasião. estendendo a mão. Voltouse para Strassmer. — Não disse a ele que era às sete horas? — Disse. sorrindo: — Ah. Mas era evidente que o sr. O gosto era horrível. Strassmer não pensava da mesma forma. — Sim — continuou Strassmer —. com lágrimas nos olhos. Era assim que ia transcorrer a noite. Não sabe que trabalhamos ambos para o mesmo homem? — O mesmo homem? — Sim. — Aí está ele. gut! David provou o seu drinque. A mãe apareceu então à porta. como que pedindo desculpas: — Não posso dispensar um pouco de água. David tornou a encher seu copo e sentou-se num sofá. David — concluiu. Começamos a conversar e des cobrimos que minha mulher. David sorriu. perguntando: — Onde está seu amigo? O jantar já está pronto e nada de ele aparecer. Sorriu ao ver a expressão de espanto de David. Acabou de beber o uísque. — Ach. — L'chaim! — L'chaim! — repetiu David. Frieda. ele provavelmente estaria com o rosto dolorido de tanto sorrir. Nesse exato momento. — O mundo é bem pequeno. . Quando tudo terminasse. tornou a tossir e olhou para David com os olhos lacrimos os. Trabalha para ele no negócio de cinema. Pegou a garrafa e disse. Aquele nariz enorme e pontudo que lhe tinha valido o apelido havia sido substituído por um nariz fino. mamãe. mamãe — disse. Conhecemos sua mãe no shul. — Então é você o grande David. — Deve chegar a qualquer momento. — Então por que ele não está aqui? Não sabe que quando é hora de comer é preciso comer. entregou-o e disse.

— Não tem importância. — Entre logo. Schwartz! — exclamou ela. cada vez mais zangada. Mas. Ninguém lhe havia dito que ela era médica. Com um narizinho desse. Strassmer quem me recauchutou o nariz. Rosa entrou na sala no momento em que David ia apresentar seu amigo aos Strassme r. David me prometeu que haveria sopa e eu sei que não pode deixar d e haver aquele saboroso knaidlach que só a senhora sabe fazer. Ela é formidável nessas operações plásti cas. — Quer dizer que você é Irving agora? — bradou a mãe. sra. Consertou também o nome. mas tenho de passar pelo hospital para ver um do-ente. chegando à porta. — Não há necessidade. O rosto da atriz ficara todo retalha do em conseqüência de um desastre de automóvel. Isidore? Needlenose começou a rir e voltou-se para David. Rosa não estava presente. — Irving mora aqui agora. — Posso levá-la de carro. Woolf. Já arranj ou um emprego. Woolf. — Pois fez mal. Strassmer levantou-se e a mãe de David olhou para Needl enose. — Ora. Assim. — Bem. O que havia de errado com o nome que seus pais lhe deram. Teve de repente consciência de que os pais de Rosa o observavam nervosamente. Parou à porta. sra. — Desculpem-me. — Para mim. Mas. Rosa olhou para o relógio. não teria dificuldade em pronunciar os nomes. permita-me fazer-lhe companhia. — O que eu costumo receitar nesses casos é um pouco do knai¬dlach de sua mãe. — Vamo s todos para a mesa. sorrindo. Irving olhou para David. não havia o menor vestígio. — Knaidlach} Quem falou no meu knaidlach? — disse a mãe de David. Yitzchak? Ou ainda está metido com aqueles vagabundos da garagem? — Mamãe! :— exclamou David.O aperto de mão foi firme e cordial. quando ela reapareceu diante das câmaras. nada mudou. Que devo fazer para curar esse vazio no estômago que estou sentindo agora? Ela o olhou agradavelmente. David — interrompeu-o o amigo. — Como vai. agora vou ver se a sopa ainda está quente. — Mandei consertar. O jantar já está pronto. — Virei. desconfiada. Entraram na sala de estar.. — Lembra-se de Irving Schwartz. — Você devia ter acabado a escola. sra. Passei o dia inteir o com fome só de pensar nisso. Woolf. Também vim de carro. A sra. um ano depois. . Sorr iu para a moça. nada havia de errado com meu nome! A penas Irving é mais fácil de pronunciar. — Como você disse. Woolf não se conteve de satisfação: — Pois seja um bom rapaz e pode vir todas as sextas-feiras comer o meu knaidlach. — Que foi que houve com seu na riz? — Mamãe! — protestou David. — Foi a dra. sra. Soube que foi ela quem tratou de Linda Davis no ano passado? David olhou com curiosidade para Rosa. doutora? — disse Irving. que a sopa já está ficando fria. — Não sabia que conhecia meu am igo David. não será incômodo nenhum. — Só nos conhecemos esta noite. estava justamente querendo fazer-lhe uma consulta. nem sei como você consegue respirar. mamãe? — Como vai. com um ar de surpresa no rosto. Ao menos. como seu amigo David. estendendo-lhe a mão. se quiser — disse David. — Sr. W oolf. Mamãe está quase estourando. Não havia mais nervosismo nos olhos de David. E a operação em Linda Davis fora realmente notável. David correu os olhos pela sala. — Muito prazer em vê-lo. sim. — Doutora. — Não bastou con ertar o nariz. 11 Quando o jantar acabou. Woolf? — Claro que me lembro de Yitzchak Schwartz — disse ela. que agor a brilhavam zombeteiramente. Ela sorriu. sra..

perderemos para eles. onde se está pensando que os comunistas podem fazer por eles o mesmo que fizeram p elos técnicos. E muita gente está dando ouvid os ao que eles dizem. — Dan me disse que estamos ameaçados de uma greve. Irving. — Mas os comunistas estão em grande atividade nos sindicatos técnicos. é que devemos decidir se que-remos tratar com vocês ou com os comunistas. Também está se servindo dos co-munistas como pretexto. Mas é Dan Pierce que trata de todos os assuntos trabalhistas na compan hia. se não apresentarmos um bom result ado imediatamente. Queriam receber dos dois lados. Irving — disse David. novos acordos c om o sindicato dos diretores e o sindicato dos escritores. Graças a isso. Os trabalhadores então acham que devem ganhar um pouco m ais. Nós. quando Irving guardava o isqueiro de ouro. David a fez parar. Foi por isso que os botamos para fora. toda a indústria assinou. David. Woolf. — Não tiVemos muita oportunidad e de conversar. — Posso ficar esperando no carro. Mas também estou numa situação d ifícil. e procurarei ajudá-los. há pouco. Se isso acontecer. Os comun istas estão fazendo uma campanha muito intensa e. Dentro em pouco teremos eleições nos sindicatos profissionais. Tenho certeza de que podemos confiar em Rosa. E os próprios trabalhadores? Não têm direito a se fazer ouvir t ambém? — Na maioria. Você deve sa-ber que não resistiremos se isso acontecer. — Também preciso ir. — Podemos falar agora. você deve ter tido uma péssima impressão quando falou comigo pe o telefone. — Botaram? O que eu soube é que tinham sido presos. estão começando a agir nos sindicatos profissionais. eles não querem a greve. Matou as saudades que sinto de casa. Não há quem não saiba dos salários astronômicos das estrelas e dos d irigentes das companhias. Só querem saber é do di-nheiro que recebem e es tão dispostos a ouvir quem quer que seja que lhes prometa mais dinheiro. Rosa sorriu para a sra. — Continue a ser um bom rapaz. — Desculpe. — E não precisam ter pressa os dois. — Não nos demoraremos. e é isso que os comunistas dizem a eles todos os dias. Irving. — Parece-me que você está querendo servir-se de nós para apagar um incêndio que sua própria gente ateou. — Vá — disse ela. — Talvez — continuou Irving. Fazem muita propagand a sobre os fabulosos lucros das empresas de cinema. temos muito que conversar. Por isso temos de conseguir entrar num a-cordo. — Qual é a situação difícil em que você pode estar? Ninguém está fa-zendo pressão sobre você greve. sorrindo. — Não tem importância. Naturalmente os comunistas ficaram com todo o mér ito por esse resultado. são incapazes até de pensar. a justiça não poderia nem falar grosso com os dois. os mais velhos. quando saíram do edifício. então. não é preciso. mas os comunistas estão em ação. Agora. — E onde você acha que o governo encontrou a documentação necessária para prendê-los e proce ssá-los? Se não fôssemos nós. os comunistas estão em condições de fazer promessas melhores. Yitzchak. muito obrigado pelo seu delicioso jantar. sorrindo. que conseguiram o mai or aumento da história do ci-nema. Isqueiros de ouro e revólveres. sra. — Não. Woolf. — De fato. A mãe de David sorriu. David ficou em silêncio enquanto o outro acendia um cigarro.Irving levantou-se. — Sei perfeitamente disso. Não podemos. Depois. Será a ruína da companhia. o paletó se abriu um pouco e David viu o cabo preto de um revólver que saía de um coldre preso no ombro. e pode aparecer quantas ve-zes quiser. Um lado não chegava para eles. David. Neste mom ento. — E Bioff e Brbwn? — Eram uns canalhas. Só agora os filiados do sindicato estão se recuperando do desemprego causado pela depressão. Vamos combinar uma hora para amanhã. — O que está sugerindo. E dois garotos do East Side de Nova I-orque numa n . do utora? Rosa fez um gesto. Calculei que fosse assim. vocês verão que eles são m uito mais duros no trato do que nós.

sabia disso? — Vi a arma. Ele sorriu. — Com isso mesmo. Anda armado. tudo ficará assentado. dominam tudo. A greve será decretada. Mas tem a mesma louca ambição de poder dos nazistas. — Está preocupada com alguma coisa. um homem não anda com um revólver se não tiver a intenção de utilizá-lo. Teve a impressão de que el a estava um pouco vermelha. de repente. — Ótimo! Eu sabia que não teria nenhuma dificuldade em mostrar-lhe a verdade dos fatos . levar sua companhia à falência. mais cedo ou mais tarde. Irving seria incapaz de me ofender. por exemplo . São a mesma espécie de gent e e dizem sempre o mesmo. terão de fazer as contas com os comunistas. Os nazistas. voltou-se para eles: — Querem saber de uma coisa. Se não se entenderem conosco. Vocês perdem e nós perdemos. Havia coisas que não eram de sua conta. Estou esperando há três mes es. vocês dois? — O que é? — perguntou David. teria de c oncordar com ele. — E o que acha que eu devia ter feito? Recusar um acordo com Irving e perder tudo pelo que venho trabalhando tão duramente há tantos anos? Levar à ruína todos os investid ores que depositaram na companhia sua fé e seu dinheiro? Jogar nossos empregados n a rua. tomam tudo. — Como sua mãe diria. — Está querendo dizer que meu amigo Irving Schwartz é nazista? — Não. que é quem deve decidir. Deu partida no motor e. David olhou para Rosa. — Não tem importância.oite quente de primavera sob os céus estrelados da Califórnia a falar de dinheiro. — O meu carro está do outro lado da rua. Todos me chamam de doutora. Voltou-se para Rosa. de comunismo. — Nada. Irving sorriu e deu uma pancadinha no ombro de David. Mas tive muito prazer em revê-l a. mas nada perguntou. — O que você quer que eu faça? Irving jogou o cigarro no chão. Schwartz. antes de sair com o carro. E não posso esperar mais. David parou o carro em frente ao hospital. sr. — Não sei o que ele teria feito se você recusasse. Rosa ficou em silêncio até quase chegarem ao hospital. No fim. doutora? — perguntou David. Davíd. Ficou curioso por saber o que aquilo tudo rendia para Irv ing. doutora. — Deles? — Na Alemanha foi a mesma coisa. A comissão do sindicato tem encontro marcado com Pierce amanhã de manhã. Contra você ele dispõe de outras armas. — Não. Tomou-lhe o braço. Mas não havia tempo de esperar por Jonas. Gosto bem mais de ser chamada de Ros a. à procura de emprego? Acha que eu devia ter feito isso? Tenho culpa de que meus empregados não têm juízo suficiente para escolher representantes decentes e para . Foi assim que fizeram na Alema nha. seu amigo não é nazista. Nós faremos um acordo por cinco centavos por ho ra logo. Não tinha mais autoridade do que Dan para resolver uma situação como aq uela. Por outro lado. Viram Irving caminhar até o meio-fio e entrar no seu carro. Rosa? — Viemos de tão longe só para ficarmos livres deles. — Os comunistas estão acenando com um aumento de vinte e cinco centavos por hora e u ma semana de trinta e cinco horas. d e poder. mais cinco centavos no ano que vem e uma semana de trabalho de trinta e sete horas e meia: Dan Pierce diz que não tem autoridade para tomar uma decisão des sas. — Feito — disse ele. Gostasse ou não gostasse. Nessa ocasião . E com tudo isso só os comunistas é que ganharão. um Cadillac conversível. David hesitou. Mas v ocês perdem mais: A companhia irá por água a-baixo. Seu ami go é um homem muito perigoso. Poderia. — Desculpe ter atrapalhado assim sua festa. — E em que mais está pensando. Nós ainda teremos outros lugares ond e agir. E não consegue falar com Cord. não digo com o revólver. os bandidos. vocês formam um belo par! Depois que ele dobrou a esquina.

De repente. enquanto esperavam o elevador. David viu os olhos da criança encherem-se de lágrimas e teve por um momento a impres são de que ela iria mover a cabeça. ainda de mão dada com Rosa. dizendo a David: — Agora podemos voltar para a casa de sua mãe. — Muito bem. A menina pegou um bloco e um lápis e escreveu alguma coisa que entregou a Rosa. — Não. ela passou rapidamente o algodão em torno dos lábios da men ina. venha — disse ela. Lábio leporino. . Entre. O importante é ajudar as pessoas para que tenham uma vida normal. Enquanto sua voz se fazia ouv ir mansa e confortadora. Ros a estendeu a mão em silêncio e a enfermeira molhou um al-godão num vidro entregando a ela o chumaço umedecido. enquanto Rosa tirava um cigarro e ele o acendi a para ela. sim. Havia um brilho estranho nos olhos dela . segurando sua mão. — Será melhor para mim. Mary. Ficou na porta e a viu levantar delicadamente as ataduras do rosto da criança. Você não imagina quanto. A letra era um rabisco infantil e dizia: "Quando é que eu posso fala r?" — Isso deve dar-lhe felicidade — murmurou David. alguém disse às suas costas: — Queria falar comigo. — Boa noite. Es ta leu. Como a pequen a Mary. Amanhã de manhã. Era Jonas Cord. mas um defeito desses pode prejudicar a vida de uma criança. enquanto a enfermeira lhe tomava o algodão. e Rosa saiu do quarto. Rosa? Viu a porta da limusine abrir-se. Ao menos. Nesse momento. — Ninguém vai mais caçoar quando ela rir ou fal ar. claro que você não tem culpa — disse ela. depois que tirarmos as ataduras. que eu vou buscar o carro do senhor.manter um sindicato honesto? Sem que ele percebesse. Havia em David um novo respeito por ela quando chegaram à porta principal do hospi tal. — Fez o que achou estar certo. — Está tudo bem. não é mesmo? A menina concordou com a cabeça. indignada. sei q ue não ficará pensando com raiva na minha ousadia em meter-me nos seus negócios. David olhou involuntariamente para Rosa. — Quer fumar. voltando-se em seguida para David: — Quer entrar e ver onde t rabalho? — Não quero atrapalhar você. Os olhos da menina brilharam. — Ótimo — disse Rosa. David viu na mão de Rosa o papel em que a menina havia escri to e o pegou. Enquanto desciam a escadaria. Strassmer. Entraram no elevador. David riu e. Mas você não se moverá nem falará. — Boa noite — disse ela. O porteiro levou a mão ao boné e disse: — Um momento. Cirurgia plástica não é apenas consertar narizes ou tirar a papada das atrize s. Nasceu com isso. — Uma menina linda — disse David. — Pode doer um pouco. a acompanhou e subiu os degraus da escada ria do hospital. mas agora será como qualquer outra criança — diss e ela. — Por favor. prefiro esperar aqui. — Você é bem valente. David? Ele se voltou tão surpreso que quase deixou cair o isqueiro. vamos tirar essas ataduras e você poderá voltar para casa. sua voz se levantara. Pode trazer Rosa também. ela colocou a mão quente e firme sobre a dele. muito quietinha. queri a. — E muita. Se não se incomoda. David. com um pouco de orgulho na voz. Mas isso não acon-teceu. Agora fique quietinha. sorriu e disse: — Amanhã de manhã. que descansava no volante. Ele pensou que era medo e tomou-lhe a mão. A voz de Jonas fez-se ouvir com um riso calmo. David notou-a sem dar grande atenção ao fato e puxou o maço de cigarros do bolso. — É. Um porteiro desceu a escadaria do hospital e abriu a porta do carro. dra. uma grande limusine parou bem à frente deles.

— Já fomos até onde era possível por nossa conta e risco. A propriedade imo biliária sempre se valoriza muito depois de uma guerra. ou melhor. e ele achou que nada podia fazer sem sua aprovação. — Deu? — perguntou Jonas. Estavam indo na direção de Santa Bárbara. Ou expandir-se. de agora em diante. Os sindicatos estão querendo aumento. Foi um pouco angustioso o instante de silêncio que se seguiu. ou fazer estourar toda a falsa prosperidade que deu à Alemanha. Outra era colocar a questão com ta nta simplicidade e conci-são quanto Jonas. e depo is para Jonas. como quem dissesse que dois e dois são quatro. E então não haveria mais para onde ir. — E se não houver guerra? — Vai haver guerra. ao menos para Rosa. David. — Por que Dan não pôde resolver o caso? — Porque você nunca respondeu ao que ele lhe informou nesse sentido. até que começaram a afetar o destino da comp anhia. até esta noite. Guerra. Teremos de contemporizar até depois d a guerra. Passaram então a ser da minha competência. Muito obrigada. — Darei. mas com alguma frieza na voz. de fato. tratava-se do cuidado de um homem que está pisando em terreno desconhecido. afastando-se de Los Angeles. Querem que se-paremos os cinem as do estúdio. Hitler vai se ver diante de um impasse. — Eram. sr. Uma coisa era sentir que isso era inevitável. Ela sentiu David mover-se no banco ao seu lado e inclinar-se para o lado de Jona s. Temos de dar uma resposta à gente do governo.. Já lhe mandei há algum tempo todas as informações necessárias a esse respeito . Você não tem que lhes dar nada. A Alemanha dominaria o mundo. Cord.. Cord. sim. Você não deixaria de me d zer isso há dois anos. deverão ter lucros. e não de quem está co m medo. de vez em quando. Seu próprio pai dizia que a Alemanha estava tão adiantada em relação ao resto d . sem dúvida. a luz de uma lâm pada da rua brilhava sobre o rosto de Jonas. A voz de Jonas ficou mais fria ainda. A voz de David soou firme. precisamos de sua autorização. Estava escuro dentro do carro e. Isso absorverá os lucros. — Já disse a Mac o que se deve fazer sobre isso. mas. Para prosseguirmos. — Pensei que as n egociações com os sindicatos fossem da competência de Dan. Jonas não comentou a resposta.12 Rosa sentou num canto da grande limusine. quando deveremos conseguir um bom preço pelos cinemas. por que sempre se tinha a esperança de estar errando. — Sobre que mais queria me falar? — O governo reiniciou a campanha contra os trustes. ao lado dela. A voz de Jonas não tinha a menor emoção. — Já dei. — E você pensou de maneira diferente? — Exatamente. Rosa sentiu um aperto no estômago. sob ameaça de greve. Nestes próximos anos. Havia uma nota de cautela. Rosa? — Muito bem. Vocês já eliminaram os prejuízos e. Sem emoção. — Dê-lhe muitas lembranças minhas. — E o que foi que o fez pensar que podia dispensar minha aprovação mais do que ele? Rosa viu David acender um cigarro e responder calmamente: — Achei que sua intenção era fazer-me levar a companhia à falência. — Os lucros não durarão muito. Rosa olh ou pela janela. — Como vai seu pai. Olhou para David. Fala sempre no senhor. — McAllister disse que você queria falar comigo. — Para que prosseguir? Estou satisfeito com a situação como ela está. O grande carro aumentou de velocidade quando entraram na Coast Highway. Jonas não pareceu muito interessado. ainda calmo. sr. — Não dê atenção aos sindicatos.

Tem demonstrado ser um administrador extremamente capaz e um diretor de estúdio ex-cepcional. Cord. — Mas isso não é possível. pode levar-nos de volta para onde ficou o carro do sr. é criar uma prosperidade fictícia para a companhia. E resolveu passar o resto da vida ajudando as pessoas que não têm ninguém mais a quem recorrer. — Não há negócio que possa ser administrado por s cabeças. David disse: — A falta de força criadora é o que distingue um verdadeiro produtor de um diretor de estúdio. Bonner trará o seu financiamento próprio. não estou depreciando Dan. Como poderiam os americanos saber tão pouco das coisas? Acreditavam honestamente q ue poderiam escapar incólumes dessa guerra? Como podiam conversar tranqüilamente de negócios. a partir do ponto em que o filme acabou. Jonas virou-se para David e disse: — Estive com Nevada hoje. pedindo autorização para entrar em negoc iações com Zanuck. Apagou o cigarro no cinzeiro do carro. há o dinheiro — continuou David. E a supervisão dele no resto do programa só servirá para nos ajudar. Rosa sorri u ao compreender que ele aceitara o elogio como um fato incontestável. Depois de um momento de silêncio. não — disse Jonas. — Faremos de conta que nada disso aconteceu. num grande filme. — E depois? — perguntou Jonas. você mostrou mais força criadora nos dois filmes que fez do que Dan nos cinqüenta e tantos que produziu nos últimos dois anos. E por que acha que Dan não é capaz de fazer o mesmo com Bonner? David hesitou. haveria necessidade de dinheiro para atingir isso. Ele vai fazer a tal série para nós. sem tomar conhecimento do elogio de David. — Pode fazer o negócio com Bonner. converteu-se à religião. você receberia uma esposta. Jonas sorriu. pelo vigor pessoal. Vou começar a procurar argumentos para ele. em virtude de economias força das. o que Dan realmente é. Só faz uso dos revólveres em último recurso. — E é por isso que você tem conferenciado com Bonner? Rosa percebeu em David um movimento de surpresa. — Dan é assunto da sua responsabilidade e não da minha — disse David. Na minha opinião. Robair. David ficou em silêncio. — Ótimo. E Jonas continuou. No filme. — Se fosse minha intenção autorizá-lo a entrar em negociações com Zanuck. para morrer ali. — Já pensou o que isso representaria para Dan? — perguntou Jonas. com surpresa. Pela primeira vez. Cinco milhões de dólares para fazer dois ou três grandes filmes. não havia segu rança em sua voz. O que temos feito. Com a porcenta gem da distribuição e a nossa cota de lucros. adotou outro nome . Nevada g . Sugeri que ele fizesse o papel de Max Sand em O renegado. A força criadora faz a pessoa acreditar que pode fazer filmes melhor do que todo mundo e lhe dá a capacidade de fazer os outros acredita rem nisso também. Mas você é que terá de resolver o caso com Dan. Você não quer investir esse dinheiro . Mas o que acontece é que ele não tem a força criadora de homens como Bonner e Zanuck: A capacidade de captar uma idéia e transformá-la. — E achou que podia iniciar essas negociações sem me consultar previ-amente? — Há mais ou menos um ano. — Não será preciso. e disse: — Em primeiro lugar. ele acaba dirigindo-se às montanhas. sr. aconteça o que acontecer . Já resolvemos isso. continuar: — Então estamos todos no mesmo barco. — Do jeito que você quer. não haverá pre-juízo. — Presumindo-se que Dan pudesse desenvolver e ssa força criadora. Ele continuou vivo. Fará quatro filmes por ano e o nosso inves timento será mínimo. inclusive a de cre scimento. — Sim. Mas a verdade é que não estamos criando nenhuma fonte real de lucro.o mundo que os ou-tros países levariam um século para alcançá-la. sim. Nunca recebi resposta e Zanuck assinou contrato com a Fox. Traçou um programa que man tém o estúdio em funcionamento com a máxima eficiência. com uma voz cortante. na qual podemos considerar lucro o que sobra ao eliminarmos nos-sas necessidades vitais. a sua frente. Hesitou por um mom ento e acrescentou: — E haveria ainda muito para Dan fazer. não passando das despesas gerais em cada um deles. mandei-lhe uma nota. tendo consciência do que ia acontecer? David era judeu. — É por isso. Não sentia também a so mbra de Hitler es-tender-se sobre ele? Ela escutou David rir e o ouviu. Woolf. — Depois.

pensou David. — Vai beber o quê? — perguntou Rosa. que fundou a Norman Films. Não sou boa em matéria de pintura. E muito verdadeiro. — Compreendo o que você quer dizer. O carro parou em frente ao hospital. eu me conheço e sei que nem me aproximo disso. Os dois ficaram ao lado do carro e viram a grande limusine preta desa-parecer. Há tantas coisas que ele é capaz de fazer que é uma pena vê-lo desperdiçar-se em mil atividades. — Não repare no estado da casa — disse Rosa. Poderíamos ir até lá. são todos gênios. um gênio. havia uma lareira. P erto dela. Fazia tudo o que agora nem dez homens conseguem fazer. do mesmo modo que toco piano. Não é longe daqui. sorrindo —. pelo que sei. de vencer as frustrações que essa minha incapacidad e me causa. "E por que Nevada não iria gostar?". se você quis r. Ma s é minha maneira de descon-trair. Meu pai é. de modo que sei o que estou dizendo. Daí a quinze minutos estavam chegando. — Que foi? — A respeito da força criadora. Numa extremidade. — É triste. Isso é o que se pode chamar de força criadora. No chão. — Também tenho conhecido alguns gênios. — Du-as pobres criaturas d . — Talvez você não esteja sendo justa consigo mesma. se houver. acho que é muito boa médica. da capacidade de fazer o que ninguém mais pode fazer. Era um pôr-do-sol so bre o Pacífico. que é um amigo de me u pai. Uma noite e tanto. mas pouco depois levantou e foi olhar o quadro. — Não é preciso você me levar. D avid abriu a porta do carro e Rosa entrou. Pi-casso. Ainda não sei ao certo em que setor.ostou da idéia. era um deles. Não . E todos têm uma qualidade comum: a força criadora que lhes permite fazer coisas que antes deles ninguém fez. E Jonas Cord é ta mbém. Porém não sou tão boa quanto queria. Meu tio Bemie. O que você disse hoje foi muito revel ador. que eu conheci na França. colocando a chave na porta. David sentou. Pode fazer c oisas com plástico e cerâmica que ninguém mais pode. — Nem pense nisso. um gênio. — Escute — disse David. Já estudei com médicos que eram gênios e conheço muita gente na profissão . ao mesmo tempo em que perguntava: — Foi uma grande noite. Porém logo aceitou: — Tenho uma casinha na praia de Malibu. — Há. não foi? — Sim. Meu pai disse quase a mesma coisa a respeito del e. não é? — disse ele. onde não havia muit a mobília. de certo modo. Ela acendeu a luz e David a seguiu até uma grande sala de estar. um cavalete com um quadro a óleo inacabado. — Não há muitas pessoas que o sejam. Compreendo perfeitamente. na outra. a sua moda. — Acho que sim. realmente. Um sofá. com um sorriso. — Uísque escocês. Era uma coisa que empolgava ime diatamente a imaginação. Ouviu o tilintar do gelo nos copos e voltou-se. com manchas vermelhas. sim. E assim que com-penso o fato de não ser um gênio. amarelas e alaranjadas sobre a água quase neg ra. George Bernard Shaw. tomando o copo que ela lhe entregava. — É. Sente-se enquanto eu preparo. Jonas abriu a porta e disse calmamente: — Pode descer. Voltou-se para o mar e continuou a falar ao lado dela. Sigmund Freud. sim. E Jonas a tinha. estavam um avental e uma paleta. Um grande médico ou um grande cirurgião precisam também de força criadora. Mas. A conferência estava terminada. algumas cadeiras e duas mesinhas com abajures. olhando para ela. Posso pegar um táxi aqui. Pinto mal. o que acha de tomarmos um drinque em algum lugar? Ela hesitou um pouco. uma grande parede de vidro de frente para o mar. — É seu? — perguntou ele. — E eu também — murmurou David. Não havia em toda a indústria cinematográfica um só astro de filmes do oeste que não agarraria com as duas mãos a oportunidade de fazer uma série assim. que fez confe-rência s no colégio onde eu estudei na Inglaterra. Eu sou apenas uma boa operária. — Não tenho tido tempo de vir dar uma arrumação.

Rosa desligou o rádio. Com os flanc os assim expostos. No mesmo instante. a senhora está grávida! Ela tinha rido. sentiu pela pri meira vez o gosto de bater em retirada pela areia. os italianos se renderam em massa. quando Montgomery iniciou sua ofensiva na direção de Tobruk. Ela sentou ao seu lado e disse: — Não achei a água tão fria assim. Mayer tivera. — Também não tive muita vontade. Vamos beber em honra desse fato. Sentiu o coração pulsar desor-denadamente quand o apertou o rosto de encontro aos seios dela. tendo na boca um gosto de mar. Sem dúvida alguma desprep arados para a vigorosa ofensiva. sob uma violenta tempestade. — Ótimo. Beberam e ele olhou de novo para o mar. David! Eu sou uma mulher! 13 Rosa entrou na casinha da praia e foi diretamente para o quarto. solenemente.. Mas não era isso o que ela tinha vontade de ouvir. Notícias de guerra. Não era nada que se parecesse com isso. cap turando sua virílidade. Pensei que você fosse um idiota. . — Mas. — Sabe. o primeiro-ministro Winston Churchill disse hoje. acho que o maior mar do mundo não se zangaria se duas pobres criat uras tomassem um banho nele. dra. — Podemos? — Claro que sim. foi exatamente isso que o médico me receitou. por baixo do maiô. — E um mar tão grande! — replicou ela.. — O maior de todos — disse ele. as mãos dela estavam em suas coxas. Estava na hora do noticiário das seis. Prendeu a respiração. Rommel nada pôde fazer senão bater em retirada. Acendeu um cigarro e passou-o para Rosa. a ''Raposa do Deserto ''.estituídas de genialidade aqui paradas a olhar o mar. Ainda estava tudo quase normal. Rosa — disse ele. rindo. O maior do mundo. De repente os dedos dela o puxara m desesperadamente e a voz era dura e insistente: — Não seja tão delicado. Era só o que se ouvia. — Pois eu achei ótima. fazendo a noite desaparecer. costumava tomar banho no cais do East Side . Rommel. Strassmer. Há um calção para você dentro do armário. Sorriu ao lembrar da surpresa que o dr. Dentro em pouco começaria a arredondar-se. Todos os nós es-tão desatados.. — Creio que está quente o bastante para um banho. que enchia o quarto enquanto ela trocava de roupa. Viu Rosa volta r também da água e caminhar na sua direção. — Sente-se melhor agora? — perguntou ela. Virou-se de lado e se olhou. quase timidamente —. Virou-se e olhou seu corpo nu no espelho por cima d a cômoda. Era uma mulher tão perfeita que ficava difícil lembrar-se de que era também médica. David procurou com uma das mãos o seio. Deu duas tragadas no cigarro e devolveu-o a David. — Pelo menos foi o que algum gênio afirmou. Ela caiu em seus braços. Quando era garoto. Levou a mão à barriga. Em Londres. Olhou para o re lógio na mesinha-de-cabeceira. Sentiu-a estremecer toda quando seus dedos apertara m delicadamente o bico. — Sim. Hoje o orgulho do Exército alemão. David saiu da água e se estendeu na toalha aberta em cima da areia. quando minha mãe me chamou para jantar a fim de conhecê-la. — Ora — disse Rosa —. Ligou o rádio e ouviu a voz do locutor. na direção do mar. Os braços dela se fecharam em torno da cabeça de David.. David tirou lentamente o maiô de Rosa. minha maior vontade era nem aparecer por lá.

Só uma coisa inquietava. mas preocupava-se com o fato de que a gravidez pudesse afastá-la do trabalho e desorganizar sua vida. um corretor chamado Sheffield fora procurar David. as cifras prova vam que ele estivera certo em fechar o contrato com Bonner três anos antes. E sem dúvida alguma não te mos o menor interesse em onerar a companhia com certas despesas. Um dia. Temos um investiment o considerável na companhia. como Bonner havia proposto. o grupo que represento estava disposto a adiantar o financiamento necessário para alguns filmes que teriam duplicado os nossos lucros. Mayer. sentia-se feliz por ser mulher. Mergulhou na água quente da banheira. — Eu sei. Mayer. No ano anterior. sr. Quase langui-damente. A pele estava clara e rosada e os olhos cintilavam . isso representava controle. O que a surpreendeu foi o sentimento de orgulho e felicidade que a empolgou. dr. David olhou-o cheio de curiosidade. M as havia alguém que estava comprando. Por outro lado.David. Cord é um homem muito ocupado. Pela primeira vez na vida. espalhou os sais de banho na água. Quase dois milhões no ano passado. Mas o senhor entende perfeita-mente o que estou dizendo. David olhou para o livro de contabilidade encadernado em couro azul. à medida que as cotações subiam. Quer ia sentir a felicidade na voz dele quando re-cebesse a notícia. David já estava mesmo esperando que ele tocasse nisso. os lucros seriam naquele ano de dez milhões de dólares. Dizia-se que era a fi gura de proa de um poderoso consórcio e que possuía ações da companhia em número consideráve l. não era absolutamente nada disso que estava acontecendo.. Riu sozinha. e os trinta e dois por cento de ações que ele ainda possuía estavam livres e desembar açados. Nun ca esperara que fosse se sentir assim. Bonner ganhara pessoalmente outro tanto. Em geral. Woolf. Mas o sr. especialment e em vista dos lucros deste ano. sr. feliz e entusiasmada. Sentia-se orgulhosa. — Mas parece que nunca ninguém sa be onde ele está ou como pode ser encontrado. Olh ou-se no espelho do banheiro. Isto é uma coisa que costuma acontecer a muita s mulheres. abriu a torneira da banheira. Não tivemos nem resposta às nossas carta s. quando David ligaria de Nova Iorque. enquanto o homem se sentava. Cord. Mas acontece que já estamos perdendo a paciência. quando Jonas tentara alugar um apartamento . Estamos prontos a discutir um plano de posse de ações e particip ação nos lucros para certos diretores. como as do Boul evard Park Hotel. Não era nenhum receio de ordem física. Já re-cuperara seu investimento primitivo. O cheiro lhe chegou ao n ariz e ela espirrou. para disc utir os nossos problemas comuns — dissera Sheffield. Só que desta vez Jonas estava do outro lado da cerca. mas. O menos que se pode dizer é que ele é um excêntrico. O sr. Seis milhões de dólares naquele ano. como diziam. Mas tinha todo o direito a is so. — Não fique tão escandalizado.. o harém de Cord. — Parece-me que os investidores não têm motivos de queixa. Precisav a estar perto do telefone às sete horas. Sem dúvida. — Reconheço sua lealdade. dr. A idéia de ter um filho sempre a deixara al armada. A criança ainda nem se formara e ela já estava conversando com ela. De qualquer modo. numa companhia grande como aquela. Ao menos. Cord tratara de liquidar pouco a p ouco suas ações. Cord não quer. Sheffield. A coisa havia começado dois anos antes.. — Mas. — Gesundheit! — disse em voz alta. Já tive negócios com ele em outras ocasiões. Ali estava uma coisa que só ela podia fazer.. a tal ponto que não é possível tolerar uma administração displi cente ou uma evidente negligência em face das oportunidades de lucros. Se David tivesse conseguido convencer Jonas a contribuir pa ra o financiamento. Pôs um robe sobre o corpo e foi para o banheiro. Não h avia em toda a história da medicina um só caso de homem que houvesse dado à luz um fil ho. — Há quase um ano estamos tentando conseguir uma conferência com o sr. A quase totalidade desse lucro provinha dos grandes filmes que ele mesmo pro duzira e financiara. — É verdade. Cord não quis. o sr. Era um segredo conhecido de todo mundo na indústria. Não podia demorar-se muito tempo ali. Era o mesmo que acontecera com o tio Bernie.— Era o que eu pensava.

— Terei prazer em encaminhar suas sugestões ao sr. A entrada de trinta moças em outros tantos apar tamentos. pois nunca deu sequer uma resposta aos nossos pedidos de uma reunião. O hotel estava mais do que di sposto a cancelar o contrato. causou um alvoroço tremendo. Por que não? Afinal de contas. David respirou profundam ente. Mas tudo estava mudado. do velho depósito onde começara a trabalhar. Cord nunca pod erá dispor de mais de trinta por cento das ações. Alguns corretores já se comprometeram conosco a conseguir mais cinco por cent o.do hotel para uma garota e teve sua proposta recusada. qua se todas as moças se haviam mudado do hotel e muitos apartamentos estavam vazios. um verdadeiro tumulto. Só que dess a vez não era mais um chefe de plataforma e. Com ou sem os cinco por cento de sua propriedade. Cord prestasse algum serviço à companhia. Temos certeza de que ele não se interessa por isso. Mas tem certeza de que o controle da companhia ainda pe rtence ao sr. se ele. quando será realizada a reu nião anual. — O sr. se eu não concordasse com o senhor? — Não creio que isso será necessário. Bonner elevam nossa participação nas ações a trinta e oito por cento. mas Jonas não queria saber disso. Lembrou-se. — Sei disso perfeitamente. De vez em quando Jonas mandava algum convidado especial hospedar-se lá. Servindo-se da companhia como um subterfúgio. arrendou vários andares do respeitável hotel das vizinhanças de Be verly Hills. David pegou o papel. como diretor principal da companhia. na semana que vem. isso custava muito dinheiro à companhia. Cord? Temos tantas ações quanto ele ou talvez mais. Sheffield aproximou-se mais de David. ficasse do lado deles. Por con-seguinte. Cord comprou o interesse de controle da companhia. As escaramuças preliminares estavam terminadas: iam entrar diretamente no assunto. — Neste caso. o sr. Pouco a pouco. não. E tenho aqui uma promessa assinada pelo sr. E o que Sheffield estava dizendo é que. O rei tem de morrer. E a as-sinatura era de Bonner. Cord não recebe qualquer remuneração nem cobra da companhia suas despesas. — Não será necessário. — Com todo o respeito que sua sinceridade merece. No dia em que o contrato foi assinado. sua a ssociação com ela não está compreendida na categoria comum dos empregados. Jonas sempre lhe havia pareci do invulnerável. — E se eu lhe pedisse q ue deixasse as coisas nesse pé? Se eu conseguisse convencer o sr. por que veio me procurar? — perguntou David. Os jornais trataram lon-gamente do assunto. — Tenho muito prazer em ouvir isso — respondeu cautelosamente. Julgamo-nos no dir eito de ter voz ativa na administração. Era o mundo numa bandeja de prata. Cord a adotar al gumas de suas sugestões? Isso seria satisfatório para o senhor? Sheffield sacudiu a cabeça. mas o contrato era por quinze anos. Ainda não compareceu a uma só reunião da diretoria desde que sua associação com a companhia começou. aquilo era uma coisa em que havia pensado des . seria o novo rei. David recostou-se na cadeira e disse ao corretor: — Creio que não é preciso lhe dizer que o sr. Fazemos o melhor conceito de sua competência e gostaríamos de vê-lo no lugar que realmente lhe cabe. Nunca isso lhe havia passado pela cabeça até aquele momento. Já disse que dispomos de uma quantidade considerável d e ações. Jonas fraquejava. Sem dúv ida alguma. Foi o caos. — Achamos que o êxito da companhia deve ser atribuído diretamente a sua pessoa e a sua orientação. Isso havia acontecido dois anos antes. Era um compromisso. observando que nenh uma das moças ganhava por ano o que cada apartamento custava por mês. David. um homem como Jonas Cord. É claro que com a dev ida autoridade e a remuneração correspondente. sem dúvida alguma. fez o estúdio mandar para o ho tel todas as atrizes contratadas que quisessem instalar-se lá. Cord. sim. — Quer dizer que promoveria uma luta entre os acionistas. Acontece que estamos firmemen te convencidos de que Cord é prejudicial ao progresso da companhia. Devolveu o documento a Sheffield sem dizer uma palavra. isso nos dá maio ria suficiente para controlar a companhia. — Não faríamos qualquer objeção se o sr. Por mais que faça. sob os olhos escandalizados do gerente do es-tabelecimento. Mas ele nã e mostra absolutamente ativo. Bonner: ele nos venderá todas as ações em seu poder no dia 15 de dezembro. Os dez por cento do sr. de repente.

sim. Até amanhã. Havia ocasiões em que ela também estava muito ocupada para ate nder ao telefone. — Rosa. Rosa largou o jornal em cima da cama e pegou um cigarro. ser uma mulher era isso? 14 Maurice Bonner sentou-se na cama e viu a mulher caminhar até uma poltrona e sentar . — Alô — disse ele.cautelosa. o telefone tocando no apar tamento dele. — Oh! Está sozinho agora? Está no quarto? — Sim — respondeu ele. Posso sentir você derramando vida dentro de mim.. David? — Não. Com uma ponta de surpresa. Isso significava que em Nova Iorque eram mais de onze. Escondeu o rosto no travesseiro e ali f icou em silêncio. Ou viu as vozes das telefonistas através do país e. David tomou isso por um sinal de a-quiescência. Ela hesitou. com o rosto encostado à porce-lana fria do banheiro. David . — Estarei aí no fim da semana.de seu primeiro dia de trabalho no depósito. — Estou no quarto. Quero que você me sinta como eu sinto você. — Não agüento esperar. David? — Estou bem. Apagou-o. Rosa? Estou numa reunião muito im-portante.. pensou ela. — Eu seria um caso capaz de dar muito trabalho a Freud — disse ela. David! Posso ver agora. Então. Os seios firmes . Tenho uma notícia maravilhosa para você.. numa rua de Nova I orque. com a mesma voz. David. — Estou deitada na cama — disse ela e esperou que ele fizesse a pergunta habitual. Houve um estalo e David saiu da linha antes que ela pudesse dizer alguma coisa. a cinco mil quilômetros de distância. — Deite-se por um instante na cama. — Obrigado. viu lágrimas chegarem a seus olhos e rolarem pelas face s. quando ele sabia que iria trabalhar até tarde . nunca deixava de avisá-la. Caiu então de joelhos. não agüento esperar. Em geral. — Oh. Tinha de compreender. — Não pode esperar até amanhã.. — David! Estou com tantas saudades de você! Seria tão bom você estar aqui junto de mim! Ela ouviu o leve ruído de um fósforo riscado. e ela só saberia tarde demais? Pegou o telefone e pediu uma ligação para o hotel onde ele estava em Nova Iorque. Teria acontecido algo com ele? Estaria ele estendido. Olhou-se no espelho. — Estava preocupada. querido. David. Tocou durante muito tempo. sentindo-se invadida de repentino calor. E você? — Também não — disse ele. — Rosa! Eu. por fim. — Felizmente. nervosa. Rosa desligou e pegou o cigarro que ainda estava aceso no cinzeiro. Da vid já devia ter telefonado. — Não tenho nada em cima do corpo — murmurou. David. Levantou-se da cama e foi até o banheiro. Ele dissera que estava ocupado. com voz baixa e cautelosa. Olhou para o relógio-. A fumaça acre irritou sua garganta. rindo. — Está zangad o comigo por eu estar com tanta vontade. com a mesma reserva. Por que não telefonou? — Estou em reunião. ferido. — Você vai bem. Já p assava das oito horas. ainda que o telefonema fosse dele. Não devia ter telefonado. — Está sentado na cama? — Estou. Estudou-a com admiração. A mulher es-tava nua e era muito bonita. querida. num silêncio atônito. A voz dela era quente e lânguida.

— E agindo dessa maneira não está enganando seus fregue-ses? — Você se sente enganado? — perguntou ela. sorrindo. Ele nada disse. Mas. Estava trabalhando. não foi? — Parece-me que você julga bem as coisas. Havi a uma mesa de massagens encostada à parede. Eles pagam para ter a perfeição. Ainda se sente enganado? Ele riu. Tudo corr e a seu gosto e até melhor do que você jamais esperou. Com quem paga. Mas.e cheios pousavam no tórax de linhas delicadas. ao mesmo tempo em que ace ndia um cigarro: — Foi bom? Ela não respondeu. — Quer dizer que nunca sente nada? — Sem dúvida que sinto. A moça soltou uma risada. sorrindo. A barriga sólida e lisa terminava ab ruptamente na surpreendente eminência do púbis. — Você ainda é mais moço do que eu pensava. Negócio fechado. escute. Ele pegou a toalha. Ele voltou para a cama e se sentou. tiro uma semana de férias e vou para um desses ranchos que arranjam as coisas para mulheres casadas em férias. O que ela dizia não era novidade. — Vocês todos são a mesma coisa para mim. jogando-lhe uma toalha. quando ela se voltou para apanh ar o maço de cigarros em cima da mesa. eu não sabia que você estava fingindo. Sou humana. Depois conta aos amigos que c omeu ali um filé ótimo. Havia muito te mpo. A mulher acendeu um cigarro e continuou: — Escute. Daqui até amanhã é outro tanto e mais o almoço pago. Sabia perfeitamente disso. talvez uns vinte anos. Há sempre algum falso cowboy que pensa que está me dando o máximo. a coisa é diferente. o melhor que já encontrou. passou-a pela cintura e perguntou. assim tod o peludo. — Venha. — Não. achando-se de repente jovem e forte. — Cubra-se. sim? — continuou. que não se sentia assim. Pois comigo é a mesma coisa. Dessa vez. Bonner a seguiu até o grande banheiro com uma enorme banheira de mármore no chão. Por que não vai experimentar? Você então chega e bota o seu dinheiro em cima da mesa. olhando para ele. Jogou as cobertas para o lado e saiu da cama. deixando a toalha cair no chão. você vai a um restaurante e janta muito bem. . Percebeu de novo o calor que lhe tomava o corpo. sim. Não posso me dar a e sse luxo. Levantou-se. — Quer dizer que para você não teve importância nenhuma? Mais um homem apenas. que vão experimentar. Ela sorriu e se levantou. — Valeu a pena? — Acho que sim — respondeu a moça. debaixo da janela. com indiferença. Tenho de dar tudo o que posso. Minha profissão é essa.. Mas. Chama-se Jennie Denton. Ele riu. — Você é terrível. Aposto que há muito tempo não faz isso três vezes em tão pouco tempo. porque podia se ver no espelho. A mulher apontou pa ra a mesa e disse: — Suba. Vocês estão jogando e em dado momento ele di z: Estive ontem com uma mulher que é um estouro. Mas nunca com meus fregueses. — E o que tem isso? — O trato foi até meia-noite. Mas quer saber da verdade? — Claro que sim — disse ele. E está mesmo. Ele riu. porque não preciso dar nada em troca. Quando estou mesmo com vontade. — Ih! Como você é feio — disse a mulher. Era linda.. mostrando os dentes tortos e desiguais em seu rosto comprido de cavalo. Você te m um amigo. é Irving Schwartz. Viu os músculos das costas se contraírem de repente. Não se incomoda de falar a respeito e recomenda aos seus amigos. já é meia-noite. A mulher tinha razão. — Você parece um macaco. Talvez não no sentido comum d a palavra. — Não estava fingindo. mas tão bela quanto uma pros-tituta devia ser e quase nunca era. É o mesmo que fazer isso com urna garrafa de C oca-Cola entrando em mim. que depois se afinava nas coxas e na s pernas longas e esbeltas. de qualquer modo.

. — Agora espere um pouco aí. ela tirou um pequeno vibrador do armári o e o ligou na tomada. começando então a fazer a massagem. ela bateu em seu ombro e o fez levantar-se. Ao fim de algum tempo. — O que vai fazer? — O que você acha? Vou fazer sua barba. Parecia até mais magro. Fechou os olhos. — Estenda-se aí. dezoito horas de trabalho por dia. A água envolveu-lhe o co rpo de calor. ele tinha a sensação de estar vinte anos mais moço. Encheu um copo com água e molhou uma toal ha na torneira da pia. Só os idiotas bebem isso. O vinho produziu uma sensação refrescante na pele de Bonner. rindo. — Pronto. Quando havia uns dez centímetros de água na banheira. Quero raspar as costas e os ombros. Ele deitou na banheira e daí a um momento ela estava de volta. Ela foi até a banheira de mármore. — Vire-se. É para a banheira. Tirou um cigarro. Ela sorriu para ele pelo espelho. Levante-se. Apanhou um aparelho de bar ba. E muitos engraçad inhos pensando que podia ser de graça! Ele riu ao sentir a navalha na barriga. — Não no rosto. De repente. — Deite-se — disse ela. Depois. A água estava apenas um pouco mais quente do que a temp eratura do corpo. É melhor do que qualquer ban ho de espuma — disse ela. mexeu nas torneiras e experimentou a água até ficar n a temperatura desejada. abriu o vidro e deixou algumas gotas caírem dentro da água. — Esqueceu as taças — disse Bonner. Ficou deitado de bruços e descansou a cabeça nos braços. O zumbido do vibrador par ecia esticar e desprender-lhe os músculos do corpo. que eu já volto.Ele sentou à mesa e viu Jennie abrir o armário de remédios. Quando Bonner se estendeu de novo na mesa. Um cheiro forte de jasmim impre gnou imediatamente todo o banheiro. — Por que largou? Ele quase não sentia a navalha passar-lhe pelo corpo. Entre na banheira. desligando o vibrador. ela colocou o vidrinho na borda da b anheira e apanhou a garrafa de champanhe. a moça fechou a porta do banheiro e dis-se: — Sabe que não fica mal sem aqueles pêlos todos? Ele se olhou no espelho pendurado atrás da porta e sorriu. Com a presteza de uma longa experiência. O cheiro de mentol do sabão che gava até o nariz. A rolha estourou e o champanhe espumou em suas mãos. — Isso é um banho turco — replicou ela. Quando saiu. já começando a ensaboar seu peito. molhando o pincel no copo e fazendo espuma com o sabão. — Faz cócega. — Sessenta e cinco dólares por mês. Costumava fazer isso quando estava no hospital. esvaziando a garrafa na água da banheira. fechou as torneiras. — Chega de narcisismo. Colocou tudo na beira da pia perto da mesa. tirou a folha metálica do gargalo e torceu os arames. Trazia uma garrafa grande de champanhe e um vidrinho. — Mas. — Fiz a barba hoje à tarde. E tive distinção durante todo o curso. fumaça e cheiro de jasmim do sabonete. seu bobo — disse ela. — Trabalhou num hospital? — Me formei em enfermagem aos vinte anos. O corpo era limpo e br anco por baixo de todos aqueles pêlos. um tubo de sabão de barba e um pincel. — Não seja bobo. acendeu- . Enquanto Bonner levantava. Entregou um s abonete dizendo: — Agora tome um banho quente de chuveiro e esfregue-se bem. — Enxugue-se e volte para a mesa. olhando-a. Ele se sentou na banheira. — Deite-se e fique quieto — disse ela. Ela deixou a garrafa no chão e apanhou uma caixa de cigarros dentro do armá-rio. — Quero ver como você é debaixo de todo esse pêl . A moça lhe entregou uma grande toalha felpuda.. — Não vou cortá-lo. Colocou a garrafa de champanhe no chão. — Isso é melhor do que um banho turco — disse ele. estava vermelho e satisfeito. A moça tinha razão.

Os braços saíam morenos das mangas curtas de uma blusa esporte. Nunca soube ao certo quando lhe ocorreu a idéia. — Mas por quê? — Gosto do exercício. muito obrigado. — Onde joga? — No Bel Air. — Nunca jogo com meus fregueses. nos fundos da ca-sa. enquanto a mexicana o servia de café. — Não torne as coisas difíceis para mim — insistiu ela.. O fato é que estava com aquilo na cabeça quando desceu para o café. limitavase a um copo de suco de laranja e uma xícara de café. — Que magnífico desjejum! — disse ele. Alugo seu tem po. Bonner pegou o cigarro e o colocou sem muita vontade na boca.. E sentia a mesma confiança que idéias semelhantes lhe haviam anteriormente inspi rado.. Certamente foi du-rante o sono. Ele sentou à mesa e apanhou o grande copo de suco de laranja que estava dentro de um recipiente cheio de gelo. Seu corpo parecia limpo e forte. — Café. Não gosto dessa coisa. cuidadosamente met ida numa saia elegante. Duas tragadas só. Suas aulas custavam caro. a mexicana voltou com um bule de café.. Bonner ergueu as sobrancelhas. O presunto estava exatamente com o ele gostava. tirando o cigarro de sua mão e jogando-o no vaso. M as não tinha importância. — Chega — disse ela. No mínimo. un momento — disse. e se surpreendeu com o tom de sua voz e com o que ela exprimia. — Bom dia. arenque e rim grelhado. Deu mais uma tragada e teve a impressão de que estava boiando em cima da água. como faz todo mundo. toicinho. Serviu-se de presunto. Está com fome? — Morrendo de fome. — O desjejum já vem aí. O corpo a havia absorvido como uma esponja . . filé. Olhou de novo para ela quando ela entrou na banheira. sr. — Você está vestida como se fosse jogar tênis. quando ela se deitou na banheira ao seu lado. pão quente e torradas. Ela o olhou da mesa da sala quando ouviu seus passos na escada. é um de seus fregueses? — perguntou. sentiu-se cheio de a-nimação. O cabelo castanho-claro estava preso na nuca num rabo-de-cavalo . — Não. Havia muito tempo não sentia fome pela manhã. Tenho um contrato permanente com Frankie Gardner.o e ele sentiu o cheiro enjoado e acre da maconha. e sentiu o fumo penetrar dentro dele. A porta se abriu e uma robusta mexicana apareceu com uma bandeja que colocou em cima da mesa. Ajuda a me manter em forma. colocando no lug ar um prato. É errado do ponto de vista comercial. — Quero apenas retardá-lo um pouco. — Nos pratos com as tampas verdes encontrará p resunto. — Sirva-se.. — É exatamente o que vou fazer. — Tome. sr. — Gardner. Deu uma profunda t ragada. Jogo duas horas de tênis todas as manhãs. Olhou para a moça meio espantado. Os olhos se mostravam límpidos e luminosos e a única maquilagem era um traço de batom nos lábios. — Essa garrafa de champan he me custou vinte dólares. Jennie estava se servindo de uma boa porção de filé. ovos mexidos e batatas fritas. ovos fritos. — respondeu ele. Compreenda que às vezes trabalho dem ais. não havia nela o menor vestígio de cansaço ou de rugas. — Viva! Olhou-a com admiração. Depois tirou o copo vazio que estava diante dele. Nos pratos com as tampas amarelas . Em geral. — É uma coisa louca — disse ele. Frankie Gardner era um dos grandes profissionais do tênis do país. Ela apertou com o pé direito um botão preso no chão ao lado da mesa e uma campainha co m som de carrilhão soou na cozinha. — E tem de ser — disse a moça. vinte e cinco dólares por hora. Enquanto se servia. Bonner olhou para o prato. Bonner. — Não há nada barato nesta casa — disse ela. sorrindo. À luz forte da manhã. — Tome seu suco — disse ela. A mexicana encheu a xícara de Jennie e foi depois para a cozinha. dando-lhe uma dentada no peito. Não houve necessidade de expelir a f umaça. saindo rapidamente. Bonner — convidou Jennie.. De repente.

— Acho que você está é louco! — disse Jennie. David ficou em silêncio. — Você tem coisas que me lembram Rina — disse ele. Que homem é esse de cuja aprovação você necessita? — Jonas Cord. — Nisso também. Comigo. — Não foi o que me disseram. afinal de contas. Não chego nem aos pés dela. não se fala mais nisso. — Mas isso é diferente. O argumento foi feito para Rina Marlowe. — Quantas ações vocês têm? — Ora. — Nem eu. Alguns dos nossos homens me telefonaram. Segundo soube de algumas garotas. É minha profissão. O senhor é um dos maio-res produtor es de Hollywood. Bonner. — Como soube dessas coisas? — Temos algumas ações. não. — É — murmurou David distraidamente. David? — As coisas de sempre — disse David. Se não der certo. ou fazendo a vida a cinco dólares no Strip. — Dois mil? Está brincando? — Não brinco quando se trata de dinheiro. Sabe quem sou eu? — Claro que sei. mas não é disso que estou falando.— Sei o que quer dizer. eu devo saber o que estou dizendo. Bonner. — Nunca a vi com melhor aspecto — disse. calmamente. — Você não quer falar. — Está preocupado com alguma coisa. evasivo. Não era possível que Jonas não soubesse do que estava acontecen do. não acha? — Talvez — replicou ela. Por que nunca tentou o cinema? Ela riu com vontade. era bem possível. de que sou daqui mesmo. — Não foi o que me pareceu esta noite. dizendo que os correto res deles tinham sido procurados e queriam saber o que íamos fazer. — Então é melhor encerrar o assunto. E eu tenho certez a de que você poderia fazer o papel. deve ter tido algu m motivo para me chamar. em vista da maneira pela qual você está administrando a companhia. quase agressivamente. — E possível. Levaria muito tem po até eu ganhar mil dólares por semana no cinema. . Sei o que acontece com as garotas que vêm para cá. — Rina Marlowe era uma das mulheres mai s lindas que já passaram pelo cinema. muito sério. sr. — Entretan-to. David — disse Irving. esse homem é inte iramente gira. — Que foi mais que soube? — A nova turma está disposta a dar a você a chefia de tudo. sr. quando Rosa começou a tirar a mesa. Mas. da Califórnia. — Já não lhe disse que estudei enfermagem? — Não é disso que estou falando. Além disso. Vá ao estúdio amanhã e eu farei um teste c m você. precisarei apenas da aprovação d e um homem. Dizia-se que ela era terrível em matéria de homens. oitenta ou noventa mil espalhadas por todo o país. Disseram-me também que Bonne r já vendeu as ações a esse pessoal. Acabam acei tando carona em carro de homem para ganhar refeição de sanduíches. Eu leio os jornais. muitas delas bem mais bonitas do que eu. Já pensou em fazer qualquer outra coisa? — Que quer dizer com isso? — perguntou ela. — Neste caso. — Mas estou falando sério. — Que foi que soube? — perguntou David. viu como eu vivo. — Como sabe? Temos um argumento nas mãos há cinco anos e não conseguimos encontrar uma p essoa capaz de fazê-lo. — Não se esqueça. — Mas eu também me conheço e sei que não sou atriz. rindo. Se der. 15 Irving foi com David para a sala de estar. — Dizem que estão procurando dar o fora no seu chefe. e você co-meçará a ganhar dois mil dólares por semana. estendendo-se numa pol-trona ao lado da lar eira. Achamos que era um bom inv estimento.

Por que Jonas não respondia aos seus recados? Três vezes havia procurado em vão descobri-lo. Gostamos de ficar do lado onde está o dinheiro. Quando você decidir o que é melhor. — Exatamente. E el es estão fazendo promessas muito interessantes. somos muito conservadores.— Será que você. — Então era essa mesma — disse Rosa. rindo. — Se está fazendo propaganda com meu marido. Não tenho a menor idéia do que vou fazer. — Oh. — Não pode ficar sentado na cerca por muito tempo. já devia e star a par de tudo. vote então por nós. logo no dia seguinte. como para Sheffield e os outros. talvez até bonificação em ações dentro de dois ou três anos. David pegou um cigarro e o botou na boca. — Ah — disse Irving. — Já ouviu falar numa tal Jennie Denton? — Jennie Denton? Não. vocês já resolveram de que lado vão ficar? Aquelas ações podiam ser importantes. olhando para Rosa. Jennie . olhando para Rosa. — É verdade — disse David. Irving ficou calado durante algum tempo. — Que maravilha! — Mais um pedaço? — Já comi três pedaços. Irving riu. — Olhos pretos. não é o que quer dizer? — insinuou Rosa. Mas sei também que é um técnico em ma-téria de cinema e pode fazer um filme como pou-cas pessoa s na indústria. tudo seria um fato consumado quando ele voltasse. — Vou lhe dizer uma coisa. Completo financiamento. não tenho outro jeito. Tem uma casa própria e seis cômodos nas montanhas e só se vai lá depois de marcar hora e dia. chegando com uma bandeja. Se fosse verdade. — Vejam só que lindo bolo de chocolate! — Eu mesma fiz — disse Rosa. é melhor ir parando por aí — disse Rosa. Só recebe gente importante e muitas vezes é preciso es perar duas ou três semanas. não há jeito de v iver em companhia de quem perde. David. — Só um imbec il abre luta contra eles. Afinal de contas. no começo desta semana. — Seria capaz de fazer isso? — perguntou David. Foi por isso que ele comprou a companhia. simples matemática de banqueiro ou corretor que pouco liga para outra coisa além da conta de lucros e perdas e o b alanço anual. sem acendê-lo. esmagando o cigarro com raiva no cinzeiro. Há quatro anos. contente. David — disse Irving. Para ele. — Mas a coisa é assim. acendendo afinal o cigarro. Jennie é provavelmente a mulher mais cara de Los Angeles. — Oba! — exclamou Irving. E isso só é possível em cinco dias por semana.. — Mas os banqueiros e corretores têm todas as cartas na mão — replicou Irving. — Bem. não foi você quem transportou todo aquele álcool para nós da gara-gem de Shocky? — Aqui está o café — anunciou Rosa. Bem sei que J onas não nos tem dado muita atenção e talvez até nos tenha prejudicado um pouco. — O que há com ela? — perguntou Rosa. David? — Palavra que não sei. havia lá uma enfermeira com esse no-me. doutora! — falou ele. — Conheci uma Jennie Denton. sorr indo. parece que numa noite. doutora? — No hospital. cabelo castanho-claro. — Bem. A última notícia recebida dizia que Jonas estava fora do país. — O que vai fazer. Sem dúvida. Mais alguma coisa e terá de fazer uma operação plástica no meu estôma — Então tome mais um pouco de café — insistiu Rosa enchendo sua xícara. — Eu sei — disse David. — Esqueci de que você está fora de circulação. bem feita de corpo e com um andar curioso? — Provocante. Neste mundo. Não se rebaixa a entrar num quarto de hotel. Depois começou a tir ar os pratos em que servira o bolo. Depois. Vou reunir todas as nossas procura-ções e botá-las em suas mãos. David. — Onde foi que a conheceu. não se trata ape nas de um negócio. — Na minha opinião. — O que há com ela? — perguntou David. O que se viu foi.. — Queria perguntar-lhe uma coisa. duplicação de lucros. Maurice Bonner esteve por lá e e la lhe deu o tratamento completo. sorriu. Irving afundou ainda mais na poltrona. — Não. Representavam mais de três por cento sobre os do is milhões e meio de ações em circulação.

calmamente. pouco ant es de ela morrer. 16 A luz do sol lhes doeu nos olhos quando saíram da escuridão da cabine de projeção.chegar ao estúdio para fazer um teste. — Seja qual for sua decisão. David — disse ela. Ouviu a água correr no banheiro e o leve som da voz de Rosa. — Não. — No que está pensando. — É dever da esposa escutar quando seu senhor e dono fala. F ormidável! Vi duas vezes. tenho certeza de que será a melhor para nós três.. é o argumento que Jonas Cord mandou fazer para Rina Marlowe. numa cena de um velho argumento encostado. E foi com voz doce e feliz que murmurou: — Nós vamos ter um filho. Abriu a porta do escritório depois de passar pela secretária e fez Ros a entrar. então. — Não sei para quem foi escrito — disse Irving. — Lembra-se do nome do argumento? — perguntou. olhando para o mar . E o vento levou. David olhou para ela e sorriu. — Esteja amanhã no estúdio às dez horas. Rosa. Rosa? Vá falando. Rosa se acomodou numa poltrona de co uro. desde seu encontro com Sh effield na noite em que ela havia te-lefonado. David? — perguntou ela. David. — Seria A pecadora? — Acho que sim. — Vou vê-lo amanhã. Ela tinha no rosto uma expressão entre divertida e enigmática. com os olhos ainda brilhando. Rosa? — Agora compreendo por que todos os homens estão alucinados por ela. Bonner tem tido ma is pedidos por ela do que Zelznick teve por . David? — Ainda não sei — disse ele. — O teste o fez lamentar que estivesse casado? David sorriu. — Há alguma coisa. Ao menos ela era feliz no trabalh o que fazia. que nós o veremos juntos. O que acha que devo fazer? Ela o encarou. se não me engano. Resolveu. Ela se aproximou e o abraçou fazendo com que sua cabeça pousasse em seu seio. Ouviu a porta se abrir e voltou-se para ver Rosa. — Nesse caso. como se su as raízes se cravassem bem no fundo da terra. indo depois sentar-se a sua mesa. David vestiu o pijama e se sentou na cadeira perto da janela. era como se não tivesse nada em cima do corpo. Aquela força nova era também o que significava ser uma mulher. — Nós três? Ela sorriu. Deu um suspiro. — Nada tenho de importante para amanhã e também estarei lá a essa hora — disse Irving. — Você tem alguma coisa para me dizer. Em d ois dias. para filmar. David só se lembrava de um argumento que tivesse uma cena de batismo. e começou a contar toda a história. Ele a filmou em cor. uma cena de batismo. sorrindo. E todo mundo que estava comigo na cabine de projeção. também. a cena se tornou a fita de maior sucesso da cidade. Quando ela saiu d o grande tanque do palco doze. fazer coisa melhor. A maneira pela qual a seda se cola ao corpo quando ela sai da água foi a coisa mais sugestiva que . — Mas você tem de ver o teste. Sentia-se forte e capaz. com os olhos brilhantes. — Pobre David! Tantos problemas! — Tenho de tomar uma decisão em breve.. — Não me sinto muito senhor e dono. — O que achou do teste. em frente. que can-tarolava enqu anto se lavava para ir dormir. Segui ram em silêncio para o escritório de David. Vestiu-a com uma peça de seda branca. — Também gostaria de ver — disse Rosa. não tem. Era a primeira vez que ela mostrava qualquer inte resse por um filme. Um médico não tem de passar por uma guerra de nervos para exercer a med icina.

E ela seguindo-o e tentando beijar-lhe os pés. Tenho razões especiais para não querer que ela ass ine contrato conosco. Coisa semelhante acontece em todas as operações. desligou e tornou a falar pelo telefone: — Srta. l ogo que acabar. David nunca havia pensado naquilo. quero saber se posso fazer uma atriz assinar u m contrato com a Cord Explosives. — Sim — disse ele. Rosa curvou-se sobre a mesa com um fósforo ac eso. na Cord Aircraft. Obrigado. Rosa sentiu-se tomada de um sentimento de orgulho. De acordo com os livros.já vi. — Sim. Ela também sorriu e voltou para a poltrona. não i mporta o lado que vencer. eu sairei perdendo. o que estou fazendo é arriscado. Até a vista. Vai pelo seu caminho. mas ela estava certa. David fez uma pausa e continuou: — Muito bem. Mas faça uma cópia com meu bilhete e mande-a. — Ponha essa cena de lado. Segunda pergunta: tenho um filme que desejo que Jonas veja o mais dep ressa possível. Você é o operador. Ele nunca se sentira assim desde que vira Rina Marlowe pela primeira vez na tela. David? Ele a olhou. David já havia terminado e estendia a mão para o telefone. Estava satisfeita por ter ido ao estúdio. Importantes razões. — Resolveu? — perguntou Rosa. Ele seguia o seu caminh o. Sentiu sua exaltação aumentar. Mac. Se não der certo. há muitas coisas para você fazer. Em seguida. David. à secretária de McAllister. com voz firme e forte. — Estou seguindo o meu caminho. Mas você sabe que só há um caminh o: o caminho certo. deu a volta em torno da mesa e olhou curiosamente por cima do ombro dele. — Quero falar com McAllister. Olhou para Rosa e sorriu. sem hesitação. seja o que for que disserem os livros. Mac — disse David. com a pon¬ta da cruz arrastando-se pela terra atrás dele. Tirando esse teste. mas não tenho outro jeito. você toma a decisão. Pegou um cigarro. A secretária pegou o papel. quero falar com Jess Lee. em Reno — disse David ao telefone. O filme estará no seu escritório de Los Angeles dentro de duas hora s. Jess. Tudo tem de estar lá ao meio-dia. Você mesma. Pode falar com ele? Esperou um pouco e disse: — É só isso que quero. David. — Alô. E o que você está fazendo. muitos caminhos para escolher. O escrito dizia o seguinte: Jonas. Espero suas notí-cias. acho que já é tempo de você voltar ao cinema. Então. das cópias e revelações. Senti quase um aperto no coração com aquela cena em que só se viam os pés de Jesus andando. vou lhe mandar um bilhete escrito por mim! Quero que você o fotografe e o inclua no título e no fim do teste d e Jennie Denton. — Eu sei. o que acha dela? — Achei-a admirável. — Jess — disse ele ao telefone. Aquela era uma faceta de seu marido que ela até então desconhecia. David cobriu o fone com a mão e disse à secretária: — Leve correndo este bilhete a Jess Lee. não é. As lágrimas dela era m de verdade ou maquilagem? — De verdade. — Eu sei que é um teste irregular. E faça isso o mais depressa possível. Você tem de ir pelo seu camin ho. Pegou uma folha de papel em cima da mesa e começou a escrever. Os outros tinham ficado tão cegos com a cena do batismo que não haviam percebido o resto. está co m o bisturi e o doente está aberto a sua frente. saiu e David voltou a falar com Jess. No mesmo instante. De-pois venha falar i mediatamente comigo. Não se faz maquilagem de lágrimas num teste. Wilson. Rosa havia explicado tudo. Depois levantou-se. Rosa o olhou por um momento. . Sejam quais fo-r em as pressões. — Há duas perguntas que você pode me respon der. quando a secretária entrou —. admirando-se da intuição e do conhecimento que ela de-monstrava. — Primeiro — disse David ao telefone —. Quase chorei com ela.

— Pensei que tudo fosse uma brincadeira d e Bonner. Franzindo a testa. Ela foi formidável. dando-lhe i ronicamente parabéns pelo teste. Vice-Presidente Executivo e o nome da companhia na qual Bonner trabalhava. Devia saber que seria perda de tempo. — De qualquer maneira. Mas havia lido o argumento: Maria Madale-na. Devia ter percebido. Ela a conheceu no hospital há quatro anos. Todos eles o haviam visto. — Já? Uma coisa assim pode arruinar meus negócios. quer fazer o papel de Maria Madalena? . Ela o olhou. Talvez fosse o novo homem da polícia. tirando um cartão do bolso. quase morreu de rir. — Señor Woolf está aqui— disse a empregada. Bonner nem sabe que estou aqui. alguma coisa na história despertou seu interesse. Agora. — Ah! Quer dizer que viu o teste? Ele disse que sim. Le mbrou-se então. — Talvez fosse. — A dra. Não era de admirar que Bonner houvesse pensado nela. quando a campainha da porta tocou. — Tráigalo aqui— ordenou Jennie. E minha mulher é da mesma opinião. arregalando os olhos. — Gostaria de fazer o papel de Maria Madalena? — Não sei — murmurou ela. Para dizer a verdade. Era o jovem protegido de Cord . A mexicana voltou acompanhada de um homem. Por que se deixara levar por aquela conversa. Strassmer? A que fez os enxertos de pele no rosto de Linda Davis? Eu era a chefe das enfermeiras na cirurgia. — Não recebo ninguém sem antes m rcar dia e hora. Denton. asperamente. — Quem? — De las películas — explicou a mexicana. guardando rapidamente as contas na gaveta. Depois. com um sorriso. Nele estava escrito David Woolf e. Uma semana se havia passado e ela ainda não tivera nenhuma comunica-ção de Bonner. Ela o olhou friamente e perguntou: — Foi Bonner que o mandou? — Não. E caíra como todas as outras. como qualquer ingênua do interior fascinada pelo cinema? Julgava-se muit o sabida e achava que nunca seria capaz de cair numa armadilha. toda Holl ywood estava rindo dela. Pelo menos metade do papel se ajustava a ela como uma luva. — Que quer dizer com isso? — Creio que não está compreendendo — continuou David. Jennie sabia que nunca seria uma boa atriz. Pelo menos quatro homens haviam telefonado. Ouviu os pesados passos da mexicana. subitamente nervosa. Uma prostituta chorando por outra prostituta. Identificou-se com o papel e houve ocasiões em que havia chorado com as câmara s voltadas para ela. Havia lido o nome dele nos jor-nais.Jennie estava sentada a sua mesa na sala de estar preenchendo cheques para as co ntas do mês. Woolf? Não conhecia ninguém com esse nome. Acredito que pode ser uma grande estrela. Ela também faria o mesmo se se tra tasse de outra pes-soa. O cartão era caro e gravado em relevo. Jennie pensou que fora uma tola em se deixar convencer a faze r aquele teste no cinema. Sentiu-se comovida e aba lada. — Muito obrigado. Agora. Mas comigo não se trata de nenhuma brincadei ra. num cant o. David riu e disse: — Já tomei essa providência. aquele dia. Ela sabia o que ele ia dizer. Ela o olhou sem compreender e ele acrescentou: — Rosa Strassmer. de quem se contavam maravilhas. que aquilo não er a para ela. Havia s ido avisada de que outro homem iria receber o dinheiro naquele mês. E pode dizer a Bonner em meu nome que pare de mostrar aquele te ste a todo mundo. A criada mexicana passou por ela n o seu andar pesado e foi aten-der. A princípio. E chorar era uma coisa que ela não fazia desde seus tempos de menina! Não era de admirar que estivessem rindo. seus negócios estão encerrados — afirmou Da-vid. Era uma co isa que nunca devia ter feito. Não sei o que ele pensou. srta. no momento em que se vira diante das câmaras. — Então pode voltar no mesmo pé — replicou ela. senão vai se arrepender.

Woolf. — Espere um pouco. n o momento em que as coisas começaram a correr bem e nós podíamos fazer os grandes film es. a não ser para mim. é a vez dele suar um pouco. Ele só escrevera o nome dela e a importânci a do salário. Ela correu os olhos pela fórmula impressa. — Quero. tanto faz. — Fale de vez em quando comigo. Encaminhou-se para a porta muito zangado. — A primeira coisa que vamos fazer é mudar seu nome — disse ele. Esperar que nós a descubramos. — Ótimo. Ele enterrou milhões no negócio só porque você queria ter um estúdi as mãos. quando Bonner chegou. Cord é o dono da companhia. E o que devo fazer? — Apenas esperar. É muito fácil assinar contratos e muito difícil livrar-se deles. Há alguma chance de eu con-seguir Spencer Tra . — Quanto Bonner disse que lhe pagaria? — Dois mil dólares por semana. — É uma praxe que adotamos. Não é pre ciso o senhor me pagar tanto. Acabou de escrever e lhe entregou o contrato. Jonas me explorou o bastante.Jennie sentiu de repente que era o que ela mais queria no mundo. — Está bem. — É preciso? — perguntou Jennie. Estou ansioso para ver se gosta. guardando o contrato. mas com o olhar frio . — Por que não falou com Jonas antes? — Porque não quis. — Alugada. Agora. — A Sheffield? — Sim. — Esta casa é sua ou alugada? — perguntou David. — Claro. Eu sei que Bonner só disse isso de brin-cadeira. E para o senhor? — Não. sr. Ela leu cuidadosamente. mas no meio do caminho voltou-se para falar com David. Mas. Ela tornou a rir. Feche tudo e desapareça por algum tempo. — Convém ler com atenção — recomendou. assinou o contrato e entregou-lhe o pape l. E compreendeu. tirando uma folha de papel do bo lso. Você é um homem rico graças a ele. Pensei apenas na sua conveniência. ele nunca me deu uma oportunidade. Jennie pensou por um momento e depois riu. para fazer todo o trabalho pesado e manter a indús-tria em funcionamento. que era um agente e não um produtor. 17 — Desculpe. — Para mim. — O contrato é assinado com a Cord Explosives — observou ela. Não diga a ninguém onde está. mas eu não estou. — Você também o explorou. Os homens poderiam lamentar-se à vontade do que haviam perdido. Vá para o deserto. Jennie recostou-se na cadeira e começou a ler. — Nada posso fazer. pegou a caneta. — E agora. e toda a raiva parecia ter desaparecido. levantando-se sorridente. o que vamos fazer? — perguntou. Palm Springs seria ót imo. — Acho que deve. — Por quê? — Porque vendi minhas ações há um ano. sorrindo. Isso poderia criar-lhe embaraços. David. David — disse Dan Pierce. ele meteu Bonner na companhia. David já estava escrevendo alguma coisa no papel. — Eu sabia que seria essa sua resposta — disse ele. Eu servi para ele nos tempos difíceis . A indústria toda sabia disso. — Já disse que ele podia estar brincando. — Por quê? Não gosta do meu nome? — Há muita gente que o conhece. Ele falou em dois mil dólare s e é quanto vai ganhar.

Agindo daquela maneira estava tentando averiguar a situação. — Desculpe o incômodo que lhe estou causando. fui eu que o trouxe para cá. E continuou: — Sheffíeld me disse que se encarregaria de nós. desligando. — Ora. logo que o viu en trar. David sorriu. Fazia parte de sua profissão e nada tinha a ver co m Jonas Cord. — Está com urticária? — perguntou David. afinal. Não estou querendo enfrentar encrencas. Normalmente era sempre Bonner que ia falar com ele. — Soube da história. E você bem sabe como ele é. Viera relativa-mente rápido. os argumentistas estão acostumados a esperar. David ficou pensando depois que ó agente saiu. sorridente. — Por que não veio falar comigo? — perguntou David. David piscou o olho. Você bem s abe disso. Bonner olhou para David de uma maneira estranha e. Demorei um pouco pois tinha de encerrar a reunião de produção da manhã. Vi o teste. Bonner não havia de-morado demais. Bonner interpretou seu silêncio como aquiescência. Bonner? — Claro que não. Bonner começou então a se coçar sem qualquer reserva. — Não tem importância. — Eu sabia que ele viria falar com você. David. — Mas por quê? Se queria vender. Per-tence pessoalmente a Cord. Ele nos quer a ambos. Aquela mulher pode fazer seu velho violino vibrar como um S tradivarius. e continuou: — Sheffíeld me mostrou o compromisso que você assinou para vender-lhe suas ações. É preciso que um dia você vá conhecer Jennie. Todos sabi am que havia alguma coisa no ar e sua própria secretária não se sentia segura de sua p osição. David. meu contrato termina no mês que vem e ning uém me falou ainda em renovação. organizará um novo plano de divisão de lucros e nos dará opções de açõe ealmente boas. Ele não pode assinar um contrato comigo antes de assumir o controle d . pensou David. A pecadora não é nossa propriedade. não havia razão al guma para eu correr atrás dele. nem viera tão rápido a ponto de parecer subserviente. metendo a mão por dentro do pal etó. Por que recolheu todas as cópias? — Fui forçado a fazer isso. Se ele nunca foi bastante delicado para querer me ver uma só vez nos três anos em que trabalho para ele. Bonner o encarou sem nada dizer. — No escritório dele ou no seu? — perguntou a secretária. começou a se coçar. Além disso. — Ah! Ia mesmo perguntar. Era impression ante a atenção de todas as pessoas do estúdio para esses pequenos detalhes. por que não falou com Cord? — E como iria falar com ele? Nunca vi o homem. Maurice — disse David. tão inflexíveis. — No meu escritório. Dan Pie rce não hesitava em fazer uma transação como aquela. Mas a venda de suas ações era diferente. que poderia proporcionar à companhi a um lucro de um milhão de dólares. em v ista da importância de ambos. — Era o que eu devia fazer. McAllister nem se deu ao trabalho de ligar para mim. — Não tenho a menor dúvida. Bonner chegou ao escritório quase uma hora depois. meu contrato já estaria terminado. — Afinal. E aí eu ficaria numa situação muito incômoda perante toda a indústria cinematográfica. rindo.cy e Clark Gable emprestados da Metro. Tão hábeis. David pensou que. Pegou o interfone e disse para sua secretária: — Telefone para Bonner e pergunte se posso falar com ele imediatamente. Era inútil proceder com rodeios. com aquele orgulho insensato. — Não pode calcular que coisa incômoda! Mas acho que valeu a pena. tão capazes em t antos sentidos e ainda tão crianças. Quer dizer que dispõe de um pouco de tempo? — Tenho uma conferência de argumento marcada para já. acendendo um cigarro. Os negócios eram assim mesmo. eram todos iguais. desde que você estabeleça boas condições. a ponto de parecer grosseiro. Mas todo mundo sabe que você nada faz sem a aprov ação de Cord. Quando você conseguisse falar com ele. é claro — disse ele. — Ótimo. Ele disse que tomará nova orientação no momento em que assumir o controle. Financiará os filmes. David. não? — perguntou Bonner. Bonner. — Tem isso por escrito.

— Não. — E se você não conseguir falar com ele em tempo? Nesse caso. David apagou cuidadosamente o cigarro. — E você. Mas. E o que você fará se ele. O lugar que ocupo não é daqueles que a gente é simplesmente despedido. é muito pior. — O que vou fazer com elas? Usá-las como papel higiênico? Você se diz meu amigo. Irvirig. da Universal. enquanto ele era vivo. você se compromete a vender todas as ações que possu ir no dia 15 de dezembro. — Mas ela funcionou sem ele. — E se acontecer que nessa data você só tenha uma ação? Poderá vendê-la e terá cumprido sua p vra. Sheffíeld poderá até me acion ar se eu voltar atrás. —-Ele deu ouvidos a homens como Sheffíel d e terminou metido com títulos e ações. Mas temos de confiar na palavra dele. acrescentando bran damente: — E pode começar a preparar a renovação de seu contrato. disser que não pode cumprir sua promessa? — Mas ele precisa de nós para que a companhia funcione. Quem fará filmes para ele. Maurice. — Tomarei providências para que tenha o seu dinheiro — disse David. você disse muito obrigado a ele. Quem poderá comprar todas as minhas ações antes dele? — Jonas Cord. você deu a ele um acordo escrito para colocá-lo na situação de controlar a companhia. Se vender as ações no mercado livre. espere um pouco! Para onde vai? David o encarou. Sheffíeld poderá sempre encon trar quem dirija o estúdio para ele. Dizendo isso. As coisas não seriam para ele tão duras aqui quanto são lá. A voz do amigo o fez parar. Não é um camara da como Cord. O vasto seio da tia May arquejava de indignação. E você aind a pensa que ele não pode fazer funcionar a companhia sem nós. que ora está frio. encaminhou-se para a porta. — Mas o que eu posso fazer agora. Ele não pode lhe dar um contrato porque não controla a companhia. d e modo que quem não lhe vai dar a oportunidade sou eu. E funcionará sem nós. — Se não estou enganado. depois de assumir o con trole da companhia. e não mais com o cinema. A tia tirou um lenço do bolso do vestido e começou a enxugar os olhos. foi como um filho para ele? Mostrou conside-ração pelo que ele fez por você? Não. — A coisa não é tão ruim assim. apesar disso. David? Assinei o acordo. — Quatro milhões de dólares! — exclamou Irving. se eu perder num negócio como esse. Nunca teve essa oportunidade. Assim perdeu sua compa nhia. ora quente. — Só pela graça de Deus é que sua pobre tia não está passando o resto de seus dias num asilo . — Ei. pelo acordo. Nem uma vez. É um homem direito. perde-rei quatro milhões d e dólares. Assinamos um contrato. Schary está na Metro justamente à espera de uma o portunidade assim. . — Você é como meu tio — disse David com um suspiro. — E se Cord disser que não quer as ações? — perguntou Irving agora já mais calmo. não é verdade? — Perfeitamente. não serei mais amigo de ninguém. entendeu? — Desculpe. — Onde você acha que posso arranjar tanto di nheiro? — Deixe disso. Você agora está fazendo a mesma coisa. Bonner o olhou. Needlenose — disse David. farei baixar o preço. — Algum dia Cord lhe faltou com a palavra? — Nunca. Matty Fox. um pouco pálido.a companhia. Passarei a ser chamado de o f alecido Yitzchak Schwartz. — Será que me ouviu dizer positivamente que não faria isso por você? — disse Irving. aceita-ria o lugar como um pato em f rente a uma lagoa. — Mas 15 de dezembro é na semana que vem. enquanto o br ilhante de doze quilates de seu dedo brilhava como um farol. Não tenho mesmo o direito de lhe pedir uma coisa dessas. E está quase no fim. — Seu tio Bernie foi como um pai para você — dizia ela na sua voz es-tridente e áspera. — Bem sabe que é uma situação de emergência. senão eu? — Meu tio Bernie também achou que a companhia não podia ficar sem ele — disse David iron icamente.

— Quer que acenda a lareira para você. David guardou os papéis no bolso. De repente. — É o que vou fazer. tia May. — É verdade? — perguntou a velha. O que houve? — O tio Bernie recebeu por elas três milhões e meio de dólares. Ela sorriu e David teve a surpresa de vê-la bater em seu braço quase com timidez. Teve sorte d e encontrar um homem como Cord. Seu tio sempre me disse que eu deveria procurá-lo qu ando precisasse de algum conselho. Sentia o frio da noite n a grande sala daquela enorme casa. E não vai demorar. — Deus nunca nos deu filhos. só me restam vinte e c inco mil. — Bem. Não calcula como se sentia orgulhoso quando. David sentiu um aperto na garganta. Mas dê sua procuração a Sheffield e veja o que lhe acontecerá. — Sorte? Você chama isso de sorte? De todas as ações que ele tinha. — E daí? Valiam três vezes mais. não estarei mais presente para cuidar de seus interesses e suas ações voltarão a não valer n ada. lem brando-se. Mas ele. — Sem tirar nem pôr. beijando-lhe o rosto. muito séria. perdendo a calma. tia May. pensei que seria uma boa idéia vir até aqui para jantarmos na cidade. Tenho de con-tar os tostões para poder continuar a viver nesta casa. Foi gente como ele que levou o tio Bernie para a Wall Street e o meteu numa série de complicações. — Obrigado. Duvidele? — Não — respondeu. a seu tio e a mim — disse com voz trêmula. cada vez menos à vontade. que o deixou sair em tão boas condições. ou se era a sensação desagradável que aquela casa sempre lhe deix ava. empregando quase as mes mas palavras. — Agora. Um tremor lhe passou pelo corpo. — Pensei que você talvez estivesse com frio. um traidor que roubou a companhia de seu próprio tio? — Ninguém roubou a companhia. pegou uma caneta e os assinou. David olhou para o relógio. Ele dizia: "A-quele David tem cabeça". Se proceder assim. — E sua mulher é tão bonita! Não me esqueça tanto. tia May. — Eu sei. Tio Bernie ia perdê-la de qualquer maneira. tia? — Está com frio. Preciso ir. encolhendo os ombros. As ações não valiam o papel em que eram imp ressas. vou lhe dar a procuração. tia May. Ela tentou sorrir. Vai me dar a procuração? — Não tenho motivo nenhum para fazer isso. — É verdade que são apenas vinte e ci nco mil ações. Tia May levantou-se e foi apanhar alguns papéis numa gaveta. voltando-se para ela. Vou assinar procuração para ajudar um ingrato . — O tio Bernie estava roubando a com panhia sem pena e você sabe muito bem disso. Wilson me telefonou para dizer que você ia chegar tarde. ao menos. Um dia. já está ficando tarde. Rosa estava a sua espera no escritório quando ele voltou ao es-túdio. vamos! Fora da minha casa! David a olhou por um momento e então caminhou para a porta. — Tinha você na co nta de filho. Depois sentou-se à mesa . Ela deu um suspiro profundo e murmurou: — Está bem. o tio o pusera para fora do escritório. depois de se afastar da companhia. tia May — disse ele. E sua tia era ainda mais apegada ao dinheiro do que Bernie jamais fora. uma pessoa da família que zela por seus interesses. — Quando a srta. David. — Frio? Ora. Por que não a traz de vez em quando para tomar chá comigo? Não pôde deixar de abraçar a velhinha é beijar seu rosto. que mal representam um por cento do total. tinha conseguido o que queria. parou. sabia de seus sucessos. — Não valiam nada — replicou ele. . Não sabia dize r se era frio mesmo. Mas elas agora valem algum a coisa. David quase podia ver a máquina de calcular em pleno funcionamento na cabeça dela. Há. — Ótimo — disse ele. — Escute. O que houve com o resto? Diga-me isso. de piedade por aquela pobre velha que vivia tão sozinha.David mudou de posição na poltrona. você está chamando seu tio de ladrão! Fora. sua pobre tia está acostumada a sentir frio.

a secretária apareceu de novo . se Cord não me ajudar. enquanto um sorriso lhe apareci a no rosto. olhou para David. Como o primeiro telegrama. Marque início produção Pecadora 1. sr. depois de lê-lo. srta. Não fique aí parada. David pegou o envelope e o abriu. — Vencemos! — disse ele com entusiasmo. No momento em que David se levantou. convicta. se Cord não lhe der o dinheiro. — O que há de maluco? — perguntei. — Bem. Já a tomava nos braços quando a porta novamente se abriu. Irving me disse que terá de vender as ações a Sheffield. sr. McAIiister tem a sua disposição todo o dinheiro necessário para arrasar Sheffield.— Então? David deixou-se cair na cadeira dizendo: — Tia May me deu a procuração. — Mas não adiantará muito. David leu: Mazel tov! Espero que sejam gêmeos! Esse trazia outra assina-tura: Jonas. sr. Woolf. — Que é. Woolf. — Um telegrama de Londres. Olhou-o e disse a Rosa: — Este é para nós dois. David passo u ambos às mãos de Rosa. este estava assinado. Não o poupe. depois. teve uma sensação de indizível alívio. Wilson? — perguntou ele. — Então me dê logo. com voz um tanto irritada. Havia vários incêndios que ainda fum . No momento em que ele ia mostrar o telegrama a Rosa. — Desculpe. que os leu e voltou-se para ele com os olhos cintilantes. JONAS 1940 LIVRO VII 1 — Que coisa mais malucai — murmurou Forrester. — Outro telegrama. David abriu-o mais que depressa e. — Agora vamos jantar. Abra-o você. olhando do meu banco de co-piloto a cidade de Londr es. você já fez tudo o que era possível — disse ela. " de março. simplesmente. sua secretária entrou. Cord. que ia ficando para trás na névoa do amanhecer. mas acaba de chegar outro telegrama. elevando-se no ar com o CAB-200 atrás d a formação de Spitfires. Ela leu o telegrama e. Woolf. — Isso significa que você já tem dezenove por cento dos votos.

com as encomendas de guerra. checados. quem vai diri gir a companhia? — Você se preocupa demais — respondi. Obrigado pela escolta. — Mas entende de produção de aviões — disse obstinadamente Forrester. comandante? — É aqui que nos separamos. uma solução genial. a fábrica do Canadá havia sido uma idéia dele e. comandante. — Soube do que acontec eu entre vocês dois. — Boa viagem. A fábrica custaria menos porque não teríamos de pagar juros e porque a margem de deduções do imposto de renda por depreciação é muito maior no Canadá do que nos Estados Uni dos. rapazes. Forrester riu. A idéia tinha também algumas vantagens financeiras. — A não ser que você esteja com inveja do pessoal da RAF e tenha idéias de voltar ao serviço ativo. a cento e cinqüenta quilômetros das ilhas britânicas. estávamos apenas começando. Precisamos preparar quem seja capaz d e tomar o nosso lugar. sorrindo. Sim. nas funções de mecânico d e vôo. depois de tomar as providências necessárias. Não dei resposta. A guerra nos estava impelindo a uma expan são com a qual nenhum de nós contava. Mas nenhum dos homens que trabalha para nós tem experiência suficie nte para uma tarefa dessas. — Não compraram o nosso avião. Os governos da Inglaterra e do C anadá estavam prontos a financiar a construção da fábrica e nós economizaríamos de duas mane iras. Precisaremos deles no verão. caso alguma coisa nos aconteça. — Você bem sabe que não é isso. . — Checado — disse Roger. E o pessoal de Sua Majestade também ficaria satisfeito porque.egavam do ataque da noite anterior. Neste ano. mas isso nada tem a ver com o caso. para dar a Jerry o troco do que eles nos têm dado. — Amos Winthrop. No ano p assado. — O que nos pode acontecer? — perguntei. E. E. Estávamos em pleno Atlântico. — Estou me referindo a isso — disse ele. tem-se dado m al em tudo aquilo em que se mete. — Estou de acordo. Os ingleses estavam sofrendo o maior castigo de sua his-tória e só pe nsavam em pagar ao inimigo na mesma moeda. se tenho de ser um piloto de escritório. os lucros deverão subir a cem milhões. Além disso. tivemos trinta e cinco milhões de lucros. poderíamos reduzir em três semanas o tempo de produção de cada avião. ao lidar com p aíses do bloco esterlino. Tem alguém em vista? — Claro. Forrester ligou o comutador. Eu não poderia entrar em competição com esses garotos. nós no mesmo avião. acendendo um cigarro. Vi a nossa frente o comandante da formação de Spitfires inclinar a a sa. — Não é disso que estou falando — murmurou Roger. O que Roger dizia fazia muito sentido. Que diabos! To-dos nós sabemos que eles têm de padroni zar. Era o sinal para quebrar o silêncio do rádio. — É uma coisa malu-ca. teria de pagar menos dólares americanos. checados — disse Morrissey às nossas costas. — Sim. E não podemos dispensá-lo. apontando para Morrissey. onde elas entrariam na linha de montagem. Se acontecer alguma coisa. — Vamos ver. mas comprarão todos o s B-17 que pudermos produzir. prefiro cumprir meu papel na companhia. que me meteriam com a maior facilidade no chinelo. Mas você não vai gostar do nome — disse ele. — Motores um e dois. logo alguém vai pegá-lo. meu velho. olhando para mim pelo canto dos ol hos. — Bom proveito! E um homem vaidoso e que só pensa em mulher. E não vai ficar disponível por muito tempo. Jonas. — Teremos de conseguir alguém para dirigir a fábrica do Canadá. Se desse certo. Fabricaríamos todas as peças em nossas usinas nos Estados Unidos e remeteríamos tudo para o Canadá. sem dúvida alguma. Pode reduzir o combustível. Sobretu do quando se trata de uma companhia em franco crescimento como a nossa. a meu ver. E não se esqueçam de nos mandar os grandes. à exceção de Morrissey. que estava atrás. O presidente da companhia tem de se preocupar. — É para isso que você me paga. À medida que os aviões fossem ficando prontos. Do jeito q ue vão as coisas. — Não! — É o único homem disponível e capaz. a RAF canadense os levaria para a Inglaterra. — Motores três e quatro. — Muito bem. onde ao menos faço parte do e stado-maior.

— Fique descansado. — Mas não será nesta guerra — disse ele. refleti. sr. Desapertei o cinto de segurança e me levantei. sr. comandante. Mas pude sentir um leve movimento de repulsa q . O B-17 voa com uma t ripulação de cinco homens. Bombas. qua ndo ela caiu perto de nós. sra. Eu tinh a ao menos uma coisa em comum com Monica. sentando na cama —. Ela sorriu e começou a brincar com a colher. — Faz quase vinte anos. Monica mora em Nova Iorque e eu em Ne-vada. A bomba caíra quase na casa vizinha e a mulher estava pr eocupada com a filha. com o ro sto muito pálido e contraído. Talvez devesse estar. — Acha que poderá encontrar-se com ela quando voltar para os Estados Unidos. — Deixe isso para lá. O zumbido dos quatro poderosos motores cantava em meus ouvidos. Cor d? — Duvido muito. Inclinou de novo a asa do seu Spitfire e a formação se afastou. Todas as conversas à mesa do jantar se interromperam por um instante. Apanhou em seguida uma garrafa térm ica: — Acho que vou levar um pouco de café a Roger. — Está bem — disse ele. não pensava nela quase sempre. — Se é a respeito de Amos Winthrop. Uma infinita amargura estampou-se no rosto de Morrissey e tive muita pena dele. não havia pensado nisso. Eles ainda não estão preparad os para aviões como este. Holme. haverá aviõe omo este aos milhares no ar. — Ora — repliquei eu. Ela ficou por alguns instantes em silêncio e me perguntou: — Não gosta muito de mim. Holme. Pensavam primeiro em si mesmas. Mas eram iguaizinhas aos pais. Forrester. as despesas ope-racionais são um pouco m enos da metade das do nosso avião. Ora eram as bombas. vou ver se durmo um pouco. descrevendo um amplo círculo de volta a sua costa. Olhei-a e depois voltei o olhar para Morrissey. não é. Eu costumava julgar que as mães fossem di ferentes. Cord — disse a mulher magra e de cabelo gris alho que estava ao meu lado. Não se preocupe. quando lá c heguei. Morrissey saiu para a cabine de pilotagem e eu me estendi na cama. Ele era sem dúvida o maior engenheiro aeronáutico do mundo. E pode transportar uma carga dupla de bombas. nos Estados Unidos. Mulheres. Mas o que eu dissera estava certo. — Não foi nada que o senhor dissesse. — Mas este avião pode subir três mil metros mais alto e voar trezentos quilômetros por h ora mais depressa. de modo que não precisam de uma autono mia de vôo de oito mil quilômetros. em segurança. é bem fácil de compreender. Bombas e mu-lheres. — Está bem. Algum dia. desconsolado. Isso significa que eles podem botar no ar duas vezes mais aviões. com aparência preocupada. não é preciso pensar. Dormi. que eles ainda vão alcançá-lo. Morrissey estava sentado em seu compartimento. sr. A viagem de ida e volta à Alemanh a é no máximo de três mil e quinhentos quilômetros. Cord? — Para dizer a verdade. — O ruim com você. A mu lher era a mãe de Monica. Nossos pais nunca nos haviam dado a míni ma atenção. ao passo que o nosso aparelho exige nove. sentado a minha frente. — Estou preocupada com minha filha. Sinto muito se lhe dei essa impressão. ora eram a s mulheres. Não. Rádio encerrado. Três semanas n a Inglaterra e eu não dormira bem uma noite sequer. Observei seus olhos sob as compridas pestanas e tive um vislumbre da beleza que ela transmitira à filha. O estridente barulho da bomba foi aumentando até o desmedido fragor da explosão. Holme. é estar muito avançado no tempo. Minha mãe morrera e a dela fora embora com outro homem. — Não vejo Monica desde que tinha nove anos de idade — continuou a sra. Morrissey. Fechei os olhos. Houve depois silêncio e prosseguimos sozinhos na viag em de volta. nervosa . — Não compreendo — disse ele tristemente. sra. Penso quase sempre nela. — Pense no que eu lhe disse. — Se não se incomoda. Além disso.

— Vou dar um descanso a Roger — disse. e Monica nunca veio. Estava começando a chover. Mas soube pelos jornais de seu casamento com ela. — Pronto! — disse. jamais conversamos s obre a senhora. Pensei então q ue. — Fique certa de que farei isso. O mordomo tirou as xícaras. Holme. perguntei: — O que quer exatamente que eu faça. levantando. — Ora. — Quanto tempo fiquei dormindo? — perguntei. O mordomo tirou os pratos vazios. Outro empregado serviu-nos café. — Você devia estar muito cansado. aos meus ouvidos quando abri os olhos. — Não a bandonei minha filha. O ronco dos quatro motores voltou. Amos me avisou que ia mandá-la para viver comigo. sob a ameaça de fazer escândalo e arruinar a carreira desse homem no serviço público da Inglaterra. me abandonou num quarto de hotel para ir encontrar-se com outras mulheres. — Tem certeza de que poderá ficar com os olhos abertos durante algumas horas? — Darei um jeito. Estendi a mão para o controle e puxei-o até encaixá-lo. Com cert eza. sr. sério. Ele desligou seu controle. Forrester tornou a rir e saiu da cabine. só quis aproveitar. — Pegamos ventos fortes pela frente. Eu bem sabia que Amos era capaz de fazer uma coisa assim. mas cochilava com a cabeça inclinada para um lado . quando ela chegasse a me conhecer. Quando por fim conheci e gostei de outro homem decente e honesto. — Ou você é um homem melhor do que eu. Amos Winth rop era um patife e vivia sempre meti-do com mulheres. ou estou ficando velho. — Umas quatro horas.uando eu lhe disse quem era. Cord — continuou ela. enquanto o surdo fragor do bombardeio na sala coberta de pesados reposteiros lembrava um rumor distante de trovoada. sra. não foi? — Winthrop e eu nunca fomos muito íntimos. Forrester ergueu os olhos quando cheguei ao compartimento. Onde estamos? — Mais ou menos aqui — disse ele. — Vim dar-lhe algum descanso. olhando pela pequena janela. Cord. com súbita inten-sidade na voz. De qualquer maneira. deixando-o sozinho para criar nossa filha. — Vou ver se tiro um cochilo. sobre o oceano. Estávamos a cerca d e mil e quinhentos quilômetros da Inglaterra. em vez de quatro. sra. apontando o mapa na armação entre nós. Qualquer ocasião podia bem ser a última — repliquei. Amos lhe contou tudo a meu respeito. na Londres do tem po de paz. Abriu os olhos quando me sentei na cama. Logo que ele se afastou. — Deve acreditar em mim. d izendo como eu fugi com outro homem. com aquelas bombas todas caindo. — Estamos indo devagar. Houve uma ho ra em que pensei que você estava querendo conhecer todas as mulheres da Inglaterra . — Há cerca de dez anos. Com certeza. Em nossa lua-de-mel. levantou-se e espreguiçou. Morris sey estava de novo em seu banco. Sentei no banco do co-piloto. — Ótimo — disse eu. Gunga Din. Os dez anos que vivemos j untos foram um inferno para mim. Quero que ela saiba disso. Dediquei-me ao comando do avião. sr. — Escreveu algum dia a Monica para contar isso? — Como se pode escrever a uma filha para contar coisas desse tipo? Não tive o que responder. Parecia-me que as garotas t . que pens o nela e que ficaria muito feliz se recebesse notícias dela. Holme? — Gostaria que falasse com ela. eu poderia explicar tudo e ela compreende ria. que compreenda isso. Isso tinha sentido. não era a única pessoa que pensava daquela maneira. Ele riu. Houve uma hora em que roncava tanto que cheguei a pensar que tínhamos cinco motores. dissesse que perguntei por ela. Amos me obrigou a deixar minha filha com ele.

Era. Isso fora na noite an terior. a boca estava seca e. 2 Robair estava a minha espera com a porta aberta. Quando cheguei a Reno proveniente de Nova Iorque. sr. Empurrei Robair para longe e gritei: — Quem você pensa que é? Quando eu quiser beber uísque. sr. Liguei os degeladores e vi os flocos se transformarem em água. sim. quando saí do elevador. Isso significava que os ventos contrários eram mais impetuosos. Não tinha o menor interesse pelo resto do mundo. eu desejara a mulher dele. não. — Uísque. e vi Robair a meu lado.inham a mesma idéia. Cord. — Bom dia. Acho que já é tempo de parar. sr. A cólera me impulsionou e me deu força. Sem dúvida. Virei a cabeça e vi a garrafa vazia a meu lado. — Ficarei em perfeito estado logo que be ber alguma coisa. Olhei por um instante para Robair. — Também tive saudades suas. Lembrava vagamente de ter encostado à parede do dormitório enquanto a-cabava uma garrafa de uísque. Saímos das nuve ns a quatro mil metros e encontramos um sol bri-lhante. Mas. — Não vai mais tomar uísque. Cord. — E eu vou preparar sanduíches de carne e um café bem forte. Cord. Cord. aprumado e forte. Estava começando a nevar e grandes flocos se chocavam pesadamente contra os vidros . não tive forças. ele parecia tão repousado e alerta como se houvess e acordado àquela hora. Não sei o que teria sido de mim depois da morte de Ri na. Por que então eu chorava? Por que havia um vazio tão grande dentro de mim? Então. — Obrigado. perto do dor mitório dos vaqueiros. — Sabe de uma coisa. Ele riu. Olhei para o giro compen sador e nivelei o avião. Resolvi tentar subir acima deles. Fez boa viagem? — Fiz. A imagem de meu pai cavalgava em meus ombros. numa manhã acordei no chão do pátio. Robair? Tive saudades suas. meu anjo da guarda. Começamos a caminhar na direção da casa. Chegou às oito horas da noite e ficou aguard ando o senhor. como um índio do deserto conduz seu cavalo. Era o sorriso de um amigo. sr. O cabelo aind a era preto e abundante. Havia um pouco de desespero na forma pela qual se atiravam in sistentemente aos homens. fora sua mul her que morrera. Fechou a porta e disse: — O sr. estava reduzido a um farrapo. se não fosse Robair. Robair. O vôo foi claro e tranqüilo pelo resto da viagem. de cer to modo. Nada havia que eu tivesse vontade de fazer. Muito obrigado. A velocidade esta va caindo. Não aparentava a idade que tinha. — Vou falar com ele agora mesmo. A cabeça me doía. Robair era mais do que um amigo. bebo e pronto! . Embora fo ssem quatro horas da madrugada. nos fundos do quarto de Nevada. Firmei as mãos no chão para levantar. Puxei o controle para trás e o grande avião começou lentamente a su-bir. McAllister está na sala de estar. sr. afinal de contas. Robair — disse. firmando-me nele. Robair passou-me os braços pelo corpo e me levantou. o corpo. A voz dele era tão branda que a princípio julguei não tê-lo ouvido. Não havia nada de subserviente ou falso naquele sorriso. Encaminhei-me para a sala de estar. — Que foi que você disse? Os olhos dele estavam impassíveis. quando ten tei levantar. Queria apenas beber e esquecer. Cord.

sr. eu falava com McAllister pelo telefone. — Uma panelada de trutas deve ser ótimo. e eu me sentia muito fraco. Robair me fez encostar de novo a cabeça no travesseiro. Estávamos bem longe dos homens. Quase dois anos se passaram até descermos da montanha. Tentei esquivar-me. — Vai ficar — disse ele calmamente. — Não estou pedindo desculpas pelo que disse. De r epente. comecei a chorar. — Não vou ficar aqui! — exclamei. Robair? Ele encolheu os ombros. para mim misteriosa. Chore à vontade — disse Robair. quando acordei. sr. Senti então dentro de mim uma dor e um vazio como nunca experimen-tara até então. Isso em geral era s uficiente para a solução dos problemas. Pegou depois a terrina. Dessa vez. A lareir a acesa aquecia o ambiente. mas nada havia em mim que funcionasse como devia e tornei a mergulhar na escuridão. mergulhou uma colher dentro e disse. bem coberto e em lençóis limpos. Cord. mas a verdade é que ela quase não me interessava mais.Ele sacudiu a cabeça. — Desculpe-me. A sopa quente me escaldou a boca. enquanto o choque e a raiva me percorriam o corpo em ondas geladas. Eu sabia que . Havia grande tristeza estampada no rosto dele. gritar. — Para dizer a verdade. sem voz para falar. — Por que me trouxe para cá? — O ar da montanha vai fazer bem. Todas as companhias iam muito bem. Cord — continuou em voz baixa. Cord. até as ar eias vermelhas e amarelas do deserto. olhando bem nos meus olhos. Havia muito pouca coisa que lhe es-capasse aos olhos observadores. que automaticamente abri a boca. — Não adianta pedir desculpas. Organizamos nossa vida e era espantoso ver como os negócios marchavam sem mim. Robair. aproxi-mando a colh er da minha boca: — Tome. estava na cama. — Está despedido! — consegui. eu estava esperando para ver como o senhor se se ntia. Bastava tudo o que me acontecera na última vez em que estivera naquela cabana. Levantou-se quando abri a porta. Não é mais um garotinho. Com isso. Havia caça em abundância e uma vez por semana Robair ia de carro comprar man-timentos. — Nenhum negro filho da mãe vai mandar em mi m! Dei-lhe as costas e voltei para casa. fazendo menção de levantar. menos a de cinema. Tinha pouco capital. — Quer um prato de sopa? — perguntou. em lua-de-mel. enquanto os músc ulos se distendiam e enrijeciam meu corpo. Cord. Empurrei sua mão dizendo: — Não quero. provava-se apenas o velho axioma: uma vez que se atinge determinado taman ho. — O que temos para o jantar. — Chore. sr. Havia uma terrina de sopa quente na mesa perto dele. De alguma forma. sr. sr. — Mas vai descobrir que as lágrimas adi antam tão pouco quanto o uísque. Encarei Robair. Não pode sair correndo e esconder a ca beça numa garrafa de uísque sempre que lhe acontecer alguma coisa desagradável. Fui até a balaustrada e olhei. Ele estava sentado na varanda iluminada pelo sol da tarde quando afinal eu saí do quarto. Senti a mão dele nas minhas costas e me vire i. é muito difícil parar de crescer. Três vezes por semana. Uma vez por mês. trazendo uma pasta cheia de papéis para assinar ou de relatórios para ler. Robair estava sentado nu ma cadeira ao lado da cama. Cord — disse ele. Tudo era verde em torno. Mac era notavelmente meticuloso. Mac subia de carro a ladeira que levava à cabana. árvores e moitas pelo flanco da montanha. — Há um rio perto daqui com umas trutas que não têm tamanho. tudo o que acontecia d e importante em qualquer das companhias aparecia em seus relatórios. — Não vai mais beber uísque. afinal. Vi então sua mão enorme avançar fechada na direção de meu queixo. Fiquei magro e queimado de sol e toda a flacidez causada pela vida na cidade desapareceu. Havia tamanho tom de autoridade na voz dele. sorrindo.

pois preciso seguir viagem. — Combinado. vi que estava com calças azuis justas e desbotadas. Depois. olhos claros e um queixo firme. filh a de Otto Strassmer. enquanto ele apanhava as codornizes e a e spingarda e voltava para a cozinha. — Espero não estar atrapalhando o senhor — disse ela. para que ele pudesse sair da Alemanha. graças ao senhor. — Não quero de você senão esta noite. então. Ela me encarou por um momento. sr. levantou-se. quando soube que eu ia passar p or aqui nas minhas férias. Era tarde demais para ela ir quando acabamos o jantar e. vendo as sombras que dançavam no teto. Em dado momento. Dei a volta e olhei para o registro na haste do volante: dra. — Seu pai é que é corajoso. Robair arrumou o quartinho de hósp edes. Não respondi. Não rece bemos muitas visitas por aqui. Strassmer! Tenho de lhe pedir desculpas de novo. Tin ha cabelo preto. ouvi um bar ulho na porta e sentei na cama. Meu pai o c onsidera um homem muito corajoso. 1104. — Como descobriu onde eu estava? Ela pegou um envelope e passou-o às minhas mãos. Abri o envelope e olhei os papéis que nele vinham. — Para minha mãe e para mim. — O sr. McAllister me pediu que lhe deixasse isto. depois. Procurei tirar da minha voz qualquer traço de despraz er. vou ficar. no sentido de que eu não poderia ficar para sempre nas montanhas. Havia muito tempo que eu não custava tanto a dormir como naquela noite. O sorriso lhe dava uma estranha e cintilante be-leza. Mas Robair já estava na porta com uma bandeja de martínis. — Foi um prazer conhecê-lo. Olhei-o com curiosidade. Nesse momento. Fiquei de olhos abertos. Aquilo era um lembrete não muito sutil de Mac. ainda hesitante. Coa st Highway. Já estávamos ali há um ano e meio quando tivemos nossa primeira visita. a moça não tinha culpa. — Mas Rosa. Mais de duas p essoas seriam multidão num paraíso como este. Entrei na cabana. que lhe acent uavam a linha esbelta e feminina dos quadris. — Por que não fica para jantar. — Sou Rosa Strassmer. com um sotaque leve e curioso. Vou pedir a Robair que traga alguma coisa para beberm os. doutora — disse eu. — Acho que compreendo por que não convida ninguém a vir aqui. Ela ficou por um instante na porta em silêncio e. — Sr. fu i para meu quarto. levando na mão uma corda com codornizes. aproximando-se de mim. entrou no quarto. Era um Chevrolet com chapa da Califórni a. Vivendo aqui como vivo. Califórnia. Joguei tudo em cima da mesa. . — Peço apenas que desculpe minha surpresa. — Claro que não me atrapalha — respondi. Ela foi se deitar. es queci até de ser delicado. fez muito. Ela sorriu de repente. Meu p ai fala muito a seu respeito. De qualquer maneira. já vou indo — murmurou um tanto desajeitadamente. Nunca se cansa de contar como o senhor conseg uiu fazer chantagem com Göring. Ro¬sa Strassmer. Ela hesitou por um instante. — Está bem. Quando levantou. Cord? — perguntou ela. quando vi um carro estranho parado diante da cabana. Malibu. Apertou minha mão com firmeza.. doutora? Robair tem um jeito de rechear codornizes c om arroz que é uma verdadeira delícia. Fiquei ainda algum tempo na sala de estar e. Robair en trou na sala. homem solitário — disse ela. fumando um cigarro. Agora me dê licença. — Dra. sorrindo. mas com uma condição: terá de me chamar de Rosa. Uma mulher jovem estava sentada no sofá. Nada havia que não pudesse espera r até a próxima visita de Mac. e não de doutora. em vista disso. — Não tenha medo. Como vai seu pai? — Muito bem e feliz.. Cord. Agora sente-se. mas o fato é que tudo me parecia distante e sem grande importância.algumas coisas deveriam ser resolvidas pessoalmente por mim. — Bem. Eu fora caçar e estava voltando para a cabana. — O que fiz foi muito pouco.

De manhã. — David já recolheu as ações? — Já. — Estou a sua espera porque Sheffield está fazendo pressão para realizarmos uma reunião de acionistas. Não era sensato eu gastar meu dinheiro mais do que o necessário. vendo Roba ir tirar os pratos da mesa. Deixe-me agora levá-lo de novo para seu mundo. num gesto qu ase maternal de carinho. — Onde foi que errei. fiquei na sala. Não era preciso. ele tem o respaldo de cerca de trinta por cento dos votos dos a-cionistas. Além disso. Jonas — disse. O mundo já não estava tão distante. Acho melhor você conversar com ele. com a garantia de uma hipoteca sobre nossos cinemas. — Alô.Ela colocou os dedos em meus lábios. o sono havia desaparecido de seus olhos. Descansou a cabeça no travesseiro e fitou-me com os olhos macios e quentes. estará disposto a levar em consideração suas ações. enquanto ele levava a xícara de café à boca. ambos sabíamos que nossa partida das montanhas era apenas uma questão de tempo. ele vai ver com quem está se metendo. Rosa — disse. num sussurro. Mac tinha razão. que você não usou o dinheiro com . — Pode dizer a ele que vá para o inferno. — Você é bonita. rindo e tirando os sapatos. ele estava um pouco mais ma-gro. 3 Observei Sheffield. ele aceitara a derrota com mais distinção do que eu faria. toda ardor e toda mulher . Mac encaminhou-se para o telefone. esticando-se e depois esfregando os olhos. Acontece. Aproximei-me e bati em seu ombro. McAllister dormia no sofá quando entrei na sala. e subiu para a cama. depois do café. Sheffield me disse que. Se o que ele quer é lutar. mas fico satisfeita de que você pense o contrário. Sentei numa cadeira diante dele. — Imediatamente? São quatro horas da madrugada! — E o que tem isso? Ele é que está querendo conversar comigo. — Muita gentileza dele. — Depois de falar com ele — continuei —. — Agora compreendo por que McAllister me mandou aqui. — Sei que não sou muito bonita. se o sapato apertado estivesse no meu pé. Fez a minha cabeça descansar em seu seio. — Sheffield sabe disso? — Acho que não. Jonas? — perguntou displicentemente. — Está bem. — Trouxe meu pai de v olta a este mundo. Pe-gou um cigarro e o acendeu. se você quiser conversar com ele a ntes da reunião. toda compaixão e compreensão. — A verdade é que eu estava disposto a gastar um bom dinheiro . Como sempre. Do jeito que fala comigo. de qualquer maneira. queria filmar A pecadora e certamente uma ação judicial por parte de uma mino ria de acionistas atrapalharia a produção. Um momento depois. Telefone para ele e diga-lhe que venha imediatamente aqui. Eu não podia estar em seis lugares ao mesmo tempo. — Espere um pouco. Nada dissemos. Jonas. Afinal de contas. — A idéia e os planos estavam perfeitos. Contudo. não é? — disse. como se fosse um médico dis cutindo um caso clínico. Tomei nas mãos seus seios jovens e firmes. — Não faz mal. quando ela seguira seu caminho. P oderá dar muito trabalho. Naquele momento. O cabelo mostrava-se um tanto mais grisalho. — Mas não custa nada você conversar com ele! Você já tem tantos pro-blemas que é melhor evit ar uma luta neste momento. — Kommen Sie. mas o óculos sem aro aind a brilhava sobre o mesmo nariz comprido e fino. porém. parece que tem absoluta certeza de estar dominando a situação. telefone para Moroni e pergunte se o banco de le quer me dar o dinheiro para comprar as ações de Sheffield. Jonas. Liebchen — disse carinhosamente abrindo seus braços.

Só podia haver uma explicação. Olhei para Sheffield e perguntei displicentemente: — E o que Engel vai fazer agora com as ações? — Não sei — murmurou ele. Acabara metido também na produção. Haviam-me falad o que seus investimentos nos Estados Unidos eram superiores a vinte milhões de dólar es. gosta de dinheiro como todo mundo. O caso não me interessava absolutamente. Gaumont e As¬sociated controlavam entre si toda a produção inglesa e americana. Podia ver o olhar de surpresa de Mac mas nada dei a perceber. não havia motivo algum para ter pena dele. Desde a morte de Rina. acabando no negócio de cinema. mas artistas. Estão com falta de fi lmes. Ele havia sido gentil demais. fora procurar diretament e a gente de cinema. Cada um de nós teria cedido um pouco e ambos ficaríamos satisfeitos. minha força criadora Força criad ora? — Sim. — E o que vão fazer? — perguntei. Um fato que havia ocorrido quando eu me encontrava na I nglaterra começava de repente a ter sentido. Quere m ser considerados artistas. Sheffield era um financista e costumava tratar dos negócios f inanceiros de seus clientes. e imediatamente tive uma suspeita. capazes de realizar grandes filmes. a atitude dele em tudo aquilo não correspondia a sua maneira habit ual de fazer negócios. Eu não pensara mais nisso até aquele momento. — É uma pena —murmurei. Mal prestei atenção à resposta do gerente de vendas. depois de desligar. Sorri. Entretanto. como os outros exibidores. — Tenho certeza disso — murmurei. Não respondi. eles preferi-ram suas promessa s às minhas? — Mais ou menos — disse. em batalha comigo. Mas logo teve consciência de sua resposta e exclamou: — Agora co mpreendo por que não conseguimos nada! Você sabia de tudo. se não puderem conseguir mais filmes dentro de seis meses. conversou durante alguns m inutos e. imediatamente depois. Tudo se ajustara per-feitamente. Entretanto. — Quando eu produzo um filme. ainda pensando no teste que acabava de ver. Os estúdios deles foram destruídos no primeiro ataque aéreo dos nazistas e eles não têm contratos com as companhias americanas. terão de fechar a metade deles. Sem dúvida. O natural teria sido ele entrar em contato e. — Quer dizer que. Eu saía da cabine de projeção do nosso escr itório em Londres. Bem calçados de dinheiro. Ra nk. — Prestígio? — Só até certo ponto. — E cheguei a acreditar no que me disse a respeito da gente de cinema — murmurou She ffield. Não estou arris-cando dinheiro. quando o telefone tocou no escritório do nosso gerente de vendas. uma expressão de David Woolf que adotei. na-quele caso. Ele a empregou para classificar algu ns produtores. Tudo aquilo est ava sendo muito fácil. minha capacidade. pensativo. British Lion. Em resumo. falou comigo. só porque você é capaz de fazer filmes. Mas tudo mais que eu tenho está em jogo: minha reputação. sentem que estou corr endo os mesmos riscos que eles. era a primeira vez que eu sentia a exaltação que só a idéia de fazer um f ilme pode dar. sorrindo. Por outro lado. Mas há uma coisa que deseja ainda mais. Engel. — Como assim? — Gente de cinema é diferente. . mas ape nas como uma solução dos problemas com que lutava para a programação em seus cinemas. Mas.o devia. preferiram a mim p orque eu podia ser julgado pelos critérios próprios da indústria. — Não sei. O homem era um lutador e os l utadores não se entregam com facilidade. mas grandes filmes que lhes dêem fama. Seria um bom golpe Engel ter-me roubado a companhia. enquanto Korda se de dicara à produção. era da Europa central e fora para a Inglaterra. E era exatamente a transação que cor respondia a sua mentalidade de homem da Europa central. — Compreendo — disse Sheffield. — Não voltarei a cometer o mesmo erro. O que eles querem mais do que qual quer outra coisa no mundo é faz er filmes. Engel preferira ser exibi-dor. é claro. e não simplesmente filmes. como Korda. onde fora ver o teste de Jennie Denton. Ele atendeu. — Era o comprador de circuitos para a cadeia de cinemas Engel. Eles têm quatrocentos cinemas aqui na Inglaterra e.

nem mesmo Georges Engel. — Quanto custaria isso? — Quantas ações de nossa companhia Engel possui? — Cerca de seiscentas mil. Engel no escritório dele em Londres. estava tudo resolvido. Virei-me para McAllister. Engel e seus advogados estariam em Nova Iorq ue na semana seguinte. — David Woolf. É o diretor-executivo da companhia. Jonas — disse Sheffield. Ele me olhou por um momento. Jonas. Vou começar um grande filme daqui a dois meses e quero saber q uais as providências já tomadas. saía do escritório às duas horas da tarde.— Agora que o negócio se desfez creio que Engel não terá outro jeito senão fechar a metade de seus cinemas. Ao meio-dia. — David trouxe Bonner para falar com você sobre todos os detalhes da produção. Se ele tiver de fechar duzentos cinemas. Larguei o telefone e fui para a janela. Não poderá mais conseguir filmes em nenhum lugar por aqui. Robair foi a tender. isso representará para ele um prejuízo de mais de um milhão de libr as por ano. — Pois isso é o que custaria. precisamos colocar imediatamente em funcionamento a fábrica do Canadá. — Com quem vai falar? — perguntou Mac. — Está bem. Eram nove horas e eu sabia que ele estava tentando me enganar. O tráfego era intenso em Park Avenue. Não vou arriscar a vida de muitos homens em aviões montados por amadores apenas porque você é teimoso demais. então — disse eu. Já estava começando a me sentir inquieto. ver o movimento de Nova Ior-que. — Qual é sua idéia? — Engel não gostaria de comprar a Distribuidora Norman da Inglaterra? Isso lhe asseg uraria o acesso à nossa produção e ele não teria de fechar os cinemas. Nin-guém. — Ainda se julga um herói da aviação? Que lhe interessa quem vai montar os aviões? Não é você . Olhei para eles surpreso. — Está bem. ansioso pelo telefonema de Sheffield. onde os escr itórios ficam abertos até as seis horas da tarde e os empregados ainda se sentam em tamboretes altos diante de escrivaninhas de feitio antiquado. — Qual é o contrato que quer cumprir? — Os dois. — A questão é que temos um problema. — Não precisa telefonar. — Nada de Winthrop. — Ora essa! Você é o dono da companhia — replicou ele no mesmo tom. — Já disse uma vez: nada de Winthrop. Estava pre-sente quando assi namos o contrato. — Julguei que você iria partir para a Califórnia hoje de manhã. — Que quer dizer com isso? Você me assegurou que podia. depois levantou-se. Forrester. — Como vamos começar a nova linha de produção desse jeito? — Não sei se podemos. — Neste caso. — Posso usar seu telefone? Apesar da diferença do fuso horário. olhei para o relógio. O Exército a aba de encomendar cinco CA-200. Trouxe-o comigo. — Faça isso. Engel devia estar ao lado do aparelho. Ele está em Nova Iorque. para assinar o contrato. Seria impossível na Inglaterra. ele levaria quase vinte anos para recuperar o dinheiro. traga-o para cá. Não podemos fazer os B-17 na mesma linha de produção. nada de fábrica no Canadá. — À vontade — disse eu. A campainha to-cou. Não é nosso negócio jogar dinheiro fora. Jonas — interveio então Forrester. Querem a primeira entrega para junho e estamos n um im-passe. Só havia uma coisa desfavorável: eu teria de ficar em Nova Iorque. Nessas condições. Enquanto ele se encaminhava para o telefone. — Calma. — Decida você. E acho que deve estar aqui para a ssinar os papéis. Você é o presidente da companhia. — Tudo depende do ponto de vista em que a pessoa se coloca. creio que ainda podere i pegar o sr. Morrissey — disse friament e. — Bem. Consiga-me Amos Winthrop para dirigir a fábrica. P oderíamos fabricar as peças aqui. se os B-17 fossem montados lá. Você tem de decidir o que deve ser feito em primeiro lugar. — Mas são cinco milhões de dólares! A Norman da Inglaterra só rende trezentos mil dólares po r ano. Joguei-me numa cadeira. Haviam pensado em tudo. Fui ao telefone. Forrester e Morrissey entraram.

com os olhos fitos em mim. De repente. — Vou mandar Morrissey para o Canadá. Olhei pela janela enquanto Robair dirigia habilmente o carro p elo meio do tráfego. quando tentei descobrir seu paradeiro.em vai voar neles. Jogue a pólvora ruim fora!" Tudo isso me passou rapidamente pela cabeça e eu disse: — Está bem. — Quando foi que você decidiu dar seu nome a um avião de segunda ordem ? Quando foi qu e o dinheiro passou a ser mais importante que tudo? Encarei-o em silêncio. Nada havia mudado. perguntei: — Não se lembra mais de mim. ninguém sabia dele. Depois de tirar algumas baforadas do cigarro. Forrester se aproximou de mim. Mamãe está se vestindo e não demora. Quase me arrependia por estar voltando ali. — Enquanto você estava em Londres metido com mulheres. Ela fez que sim com a cabeça. hoje de manhã. Apenas o gra mado estava prejudicado pelo inverno. E impressionante. se conseguíssemos o contra-to. Meu pai voltouse furiosamente para ele: ''E quem absorveria a perda de minha reputação? É meu nome q ue vai em cada lata de pólvora. Sentei-me e ela se acomodou numa cadeira a minha frente. — Não há de quê — respondeu. Roger. Estávamos na fábrica em Nevada quando Jake Platt. Preciso dar início à produção das pe-ças o mais rápido possíve — Por onde anda Winthrop? — Não sei. Comecei a me sentir estranhamente nervoso co m sua franca investigação de minha pessoa e acendi um cigarro. — Jo-Ann? — perguntei sem muita certeza. com os punhos cerrados. Um vento frio assobiava por entre as ca sas e fechei mais meu leve sobretudo. Jo-Ann? . Você terá Winthrop. Olhava para mim com os olhos grandes e sérios. — Fique esperando aqui — disse a Robair. Só mesmo o crescimento das crianças para m ostrar a passagem do tempo. Entrei na sala de estar e ela continuou: — Sente-se. A última notícia que tive dele foi de que estava em Nova Iorque. Havia em Queens algo que se mpre me deprimia. mas. A última vez em que a vira era pouco mais do qu e um bebê. Jonas. para tentar absorver o prejuízo. tendo perdido o belo verde que ostentava n o verão. 4 Eu estava quase deitado num canto da limusine quando atravessamos a ponte de Que ensboro. Ajeitei debaixo do braço o embrulho que leva va. Sugeriu que ela fosse mistura da com pólvora de melhor qualidade. mas não falava. Ele tinha razão. sarcasticamente. Reconheci o grupo de casas quando o carro parou. — Você vai ter de procurá-lo para nós — disse ele com voz mais calma. apar eceu para dar notícias de uma partida ruim de pólvora. Subi os três degraus e toquei a campainha. — Bravo! Bravo! — disse. Olhei-a por um momento. Eu irei para a Califórnia. Os olhos eram de um puríssimo v ioleta-escuro e estavam muito sérios. Parece que sumiu de re-pente. fiquei aborrecido com Monica por ela morar ali. eu to maria providências pessoais para que todos os aviões que remetêssemos fossem tão bons qu e eu não teria medo de voar em qualquer um deles. Meu pai dissera uma vez a mesma coisa de out ra maneira. eu estava nos aeroportos vendo aqueles pobr es-diabos voltarem cansados e abatidos da luta para afastar as bombas dos nazist as de seu traseiro. tentando levar para a cama tu do o que lhe aparecesse pela frente. ela disse prontamente. cerimoniosamente. Sua mãe está em casa? — Entre — disse ela com sua vozinha suave. — Sou Jonas Cord. gerente da fábrica. Ficou de novo em silêncio. Quando desviei o olha r à procura de um cin-zeiro. para que tome as providências necessárias para começar o trabalho na fábri ca. apontando para uma mesinha ao lado: — Está aí. Elas têm um jeito de crescer que marca a nossa idade c om mais força do que qualquer relógio. Tomei ali a resolução de que. — Obrigado. Uma menina abriu a porta e ficou olhando para mim.

Havia nela uma espécie de auto-domínío quase subli me. — Veja o que o sr. — E gosto. — Obrigado. Jonas. Jo-Ann levantou-se e correu para ela. Era a pessoa que ia ficar to-mando conta de Jo -Ann. Diga-me ago ra o que quer. Dessa maneira. Ele está queren-do lançar uma nova revi sta de cinema. Só falta ele arrum ar o dinheiro. — Trouxe um presente para você. você terá de ir para Hollywood. Não ganho o dinheiro que está pensando. Levantei. Nem secretária sou ainda. Robair estava à espera junto à porta do carro. Nesse momento. o que eu pago é mui to conveniente Na cidade teria de gastar muito mais. estendendo-lhe a mão. — Por que você insiste em viver aqui. ficando de novo séria. esperando a gente voltar para casa. Peguei o embrulho que levava. Jonas — disse Monica. Tudo já está preparado. Pagava muito b em em promessas. Seus olhos brilhavam. — Não é. Eu conhecia o velho Hardin. para isso. Era um antigo proprietário de revistas. — É claro. mamãe! — Foi muito gentil de sua parte. — Há quanto tempo ele vem lhe prometendo coisa melhor? — Há três anos. Peg ou a boneca e olhou para mim. — O que você vai fazer nessa revista? — Reportagens. Style era uma das melhores revistas de moda para senhoras. do jeito da velha Photoplay. Olhamo-nos bem nos olhos. Monica acabou de tomar o café e sorriu para mim. Mas. Monica — respondeu Robair. — O prazer é todo meu. você está ganhando bem. Olhei para o cenário desanimador de Queens enquanto o carro ia ro-dando para Manha ttan. num gesto tipicamente feminino. poderá resolver todos os problemas que surgirem . Já sugeriu que o artigo de abertura do próximo número sej a escrito por mim. — Eu sei. — Segundo soube. sra. mas não em dólares. — Esperava que você fosse gostar. com conhecimento de causa. — Talvez esteja no caminho. Ela recebeu o embrulho e se sentou no chão para abri-lo. O cabelo muito preto descia até os ombros nus sobre um vestido a rigor escuro. Se prefere viver nos su-búrbios. Um momento depois. Sobre a vida das estrelas. Cord me trouxe. — Não sei se diz isso sinceramente. Além disso. fazendo uma reverência. por que não se m uda para Westchester? É mais bonito do que isso aqui. Monica entrou na sala. alisando a bainha da saia sobre os joelhos. Mas creio que agora não vai demorar. Coisas assim. como nas ruas da cidade. O sr. — Muito prazer em vê-lo de novo. — É muito caro também. — Lembro. Hardin é um homem de negócios à antiga. — Quando vi você pela última vez. sobre as filmagens. a campainha tocou.Ela desviou os olhos e de repente ficou tímida. mas parece. — Robair! — disse Monica. na Style. e você tem sido encantador a noite toda. muito — disse ela. você era deste tamanhinho assim — disse eu. Ela sorriu. Uma boneca. Mas Hardin não tem dinheiro e só pensarei no caso quando chegar o momento. Monica? Ela pegou um cigarro e esperou enquanto eu o acendia. . Acha que ninguém pode ocupar um posto de responsabilidade em qualquer empresa sem passar por tod os os seus setores. procuramos ter o aspecto que noss as leitoras pensam que devemos ter. — É muito bonita. — Foi um magnífico jantar. Sou apenas redatora da revi sta. sorrindo e e rguendo a mão espalmada à altura do meu joelho. Estava sentado na escada. — E por que ainda não é secretária ou diretora? Ela riu. — Mas. e a menina estava tão empenhada em mostrar-lhe a nova boneca que nem se desp ediu de nós quando saímos. — Jo-Ann pode brincar ao ar livre quando faz tempo bom e eu não fico preocupada de q ue lhe aconteça alguma coisa.

— Foi assim com minha mãe também? — Mais ou menos assim. deve ser — disse Monica. Quando ela a deixou. para nunca mais voltar. — Tem qualquer idéia de onde ele possa estar? — Nenhuma. mas acontece que há uma guerra e p reciso de um homem como ele.— É preciso haver um motivo? — Preciso não é. — Você pode não conhecer sua mãe. é porque quer alguma coisa. tem visto seu pai ultimamente? — Não. — Você tem boa memória. Pode ter tido uma boa razão para isso. Quando tornou a levantá-los. — Escreveu-me uma carta há um ano. ele apareceu para jantar. A idéia não me agrada nada. — Muito bem — disse eu. enquanto o garçom enchia novamente nossas xícaras. Monica. — Não. Ele só trabalhou no aeroporto para descontar um cheque sem fundos de quinhentos dólares com algum trouxa. estava nov amente calma. quando vocês chegaram ao hotel em Los A ngeles. Tem alguma idéia do lugar para onde ele foi depois? . Quando se mostra agradável. ou c oisa parecida. Tive um encontro com sua mãe. mas em compensação conhece seu pai. com uma leve nota de amargura na voz. — Encontrou o homem? — perguntou. Naquela noite. O que não posso compreender nem desculpar é que não me tivesse levado com ela. ela estendeu a mão por cima da mesa e segurou minha mão. Esperei que o garçom lhe acendesse o cigarro para dizer: — Voltei há pouco da Inglaterra. Jonas? — Sim. Sinto-me bem melhor agora. Foi a última vez que o vi. A única explicação que enco ntro é que eu nada valia para ela. — Por falar nis so. você devia ter a idade que Jo-Ann tem agora . — Algumas coisas a gente não esquece. De repente. se você escrevesse à sua mãe. — E o que ela poderia me dizer? — murmurou Monica friamente. Olhei-a surpres o e ela sorriu. como o fato de uma mãe dizer que ama muito a fil ha e desaparecer um dia. Por quê? — Tenho um bom trabalho para ele no Canadá. me tomou mil dólares emprestados . — Que razão? Eu nunca abandonaria Jo-Ann assim! — Talvez. — Deve estar em péssima situação. ele estava pensando mais em ajustar contas comigo do que em defender ou proteger você. no aeroporto de Teterboro. Ela baixou os olhos para a toalha da mesa. tenho a estranha impressão de que você é muito melhor como amigo do que c omo marido. — Como aconteceu com você. 5 McAllister estava a minha espera no hotel. E sabe muito bem como ele pode odiar quando sente que alguém o contrariou. como aconteceu comigo. Irei procurá-lo lá. — Sabe. Jonas. — Obrigado. — Achei-a uma pessoa muito agradável. — Quer dizer que você lhe daria um emprego depois de tudo o que ele fez? — Sou quase forçado a isso. Mas conheço você. — Talvez ela não tivesse outro caminho. — Que se apaixonou por ou tro homem e fugiu com ele? Isso posso até compre-ender e desculpar. Jonas. mas ele parece haver desaparecido. — Foi? — disse ela. Uma sombra de preocupação desceu sobre seus olhos. dizendo que ia trabalhar como administrador. — Agradeço muito haver dito isso. para descer a esse ponto. Ninguém sabe dele. Há coisa de dois anos. — Pelo que me lembro dela. quando voltei na tarde se-guinte. ela poderia explicar o que se passou.

Telefonou para Hardin? — Sim — disse Mac. — Quanto seria preciso para botar uma revista assim nas bancas? — Digamos uns trezentos mil dólares. — Vou fazer meu primeiro filme depois de oito anos de descanso. meu rapaz.Iorque? — David e Bonner estão aqui à espera de um telefonema seu. — Soube que Hardin está querendo lançar uma revista de cinema. A campainha tocou e Robair foi abrir a porta para o pontual S. — Semp re falta dinheiro. — Também acho.— Nenhuma — disse eu. Temos tanto interesse nisso quanto você. A circulação de todas elas anda nuns doze milhões de exemplares por mês. E gosto sempre de ouvir opiniões de gente como você. Mas tinha dinheiro de sobra. virei-me para McAllister. Hardin. Então para que ficar perdendo tempo aqui em Nova. naturalmente. — E pode ficar certo de que minhas revistas lhe darão uma boa cobertura. olhando-me com curiosidade. Sorri. dizendo: — É um grande prazer para mim! Depois voltou-se para mim e disse: — Fiquei muito surpreso quando recebi seu recado. Tenho de reco-mendar ao meu corretor que compre algumas ações da Norman. O cinema precisa de um homem como você. que entrou na sala de mão estendida. se abriu todo num sorriso e apertou entusiasticamente a mão de Mac. se ajudar na revista de cinema. Tinha até espiões no Clube 21. seria capaz de pensar que ele não tinha dinheiro nem par a a condução. O que há. — Para quê? Você nem ao menos lê jornais. por mais que chorasse. Jonas. J. de fato. meu velho! — exclamou ele com sua voz perpetua-mente rouca. Tenho um filme para fazer. Depois que ele saiu. meu rapaz? — Soube que está querendo lançar uma revista de cinema. Comecei a rir. — Muito bem. tirando o sobretudo e sentando. E eu tenho os melhores redatores do país. Jonas — disse ele com um ar de falsa inocência —. num gesto de quem pedia desculpas. — Deve estar para chegar. Talvez não se consiga nada. mas ao menos Roger ficará sabendo que fizemos tudo o que era possível. — Tenho pensado nisso. — Jonas. McAllister? S. — Era justamente sobre isso que eu queria falar com você. Vejo que você conhe ce jornalismo. É a pessoa com quem você jantou ontem. — Que prazer revê-l o! Apertei sua mão e disse: — Já conhece meu advogado. ele nos dará matéria em suas outras revis tas. É a melhor notícia destes últimos tempos. . É a garantia da publicação da revista durante um ano. — Uma revista dessas depende do diretor. A m elhor maneira que conheço de ganhar espaço e boas notícias é ser dono de uma revista. Ca lculo que. S. — É preciso mesmo que eu fique aqui para assinar aqueles papéis? — Acho que não. Acho uma vergonha qu e sua editora não tenha uma revista de cinema. J. pensei que já soubesse. — Sabe como é o negócio de revistas — disse ele. Mas prometi a Roger que tentaria descobri-lo. Mac. A maneira pela qua l saqueava a companhia faria o velho Bernie Norman parecer um escoteiro virtuoso . Eu não podia fazer outra coisa. — Soube também que está com problema de falta de dinheiro para o lançamento. não é? Com um diretor com-petente. imagine! — O que você quer que eu faça? — Nada. Mac nada disse. Cheque sem fundos. O que você quer com ele? — Talvez tenhamos de entrar para o negócio editorial. — Parabéns. É melhor encarregar uma a gência de detetives. Jonas. — E quem você vai encarregar das reportagens em Hollywo-od? — Ora. pois sabemos o que o público quer ler. Vou fazer um filme. J. J . — Exatamente. Jonas. Quem ouvisse S. Por quê? — Quero ir para a Califórnia. — É possível que esteja na cadeia de alguma cidadezinha de que nunca ninguém ouviu falar. O velho patife era ainda mais esper to do que eu pensava. a revista está feita. o tempo necessário para que ela seja aceita pelo público.

Não há melhor lugar do que um estúdio para conversar sobre filmes. Jonas? Ela ficará muito satisfeita. E mais uma coisa: não tenho nada que fazer em Nova Iorque e o tra balho de preparação de A pecadora me espera. Ninguém respondeu. David. hora da Califórnia. — Não acha que já é tempo de assinar meu contrato. Jonas. acendi um cigarro e fiquei à espera. eu trouxe Bonner para Nova Iorque. Ela olhou para mim e um sorriso apareceu lentamente em seu rosto. quando parei meu conversível diante do Hotel Tropical Tower. David. Passei pela portaria e me dirig i para o bangalô 5. sorrindo também. Mas a porta não estava trancada e eu fui entrando. Depois fez correr a cortina e olhou para mim. Jonas. ele me passou o telefone e eu disse: — Alô. em Palm Springs. sentindo o cheiro do cigarro . Devo est ar na Califórnia amanhã de manhã. nas horas ma is estranhas. — Para quê? Todos eles têm chaves-mestras. an es que eu saia daqui e faça queixa à gerência. — Fez muito bem. e muito feliz. vi que ela estava se enrolando na toal ha. Ela então afastou um pouco a cabeça e me olhou com seus olhos malicioso s e cintilantes. Entrei no banheiro. no dia seguinte. Mas diga a ele para voltar ao estúdio. — Se é um dos rapazes da portaria que está aí — disse com voz calma —. Falarei com ele lá. — Telefone para Rosa. — Está bem. Ela fechou a torneira da água quente e a ouvi fungar. — Mas. No moment o em que ficou na ponta dos pés para me beijar. Peguei a toalha e a coloquei em sua mão. Ouvi então o barulho de água correndo no ba-nheiro. — Boa viagem. com o nome de Judy Belden. Não respondi. Bati na porta. Ela meteu a cabeça pela cortina do chuveiro à procura de uma toalha. sem disfarçar a decepção que sentia. é melhor cair fora. David.— Quer ligar para David? Um instante depois. patrão? . — Obrigado. no Hotel Tropical Tower. Até a vista. O s contornos do corpo de Jennie eram visíveis atra-vés da cortina opaca do boxe. sim. — Vai de avião? — Vou. fechei a porta. Denton? — indaguei. Ninguém respondeu. Acho que ainda posso pegar o vôo das duas horas da madrugada da TAL. Jonas. Eram onze e meia. — Ela está em Palm Springs. Ela cantava no banho com uma voz baixa e rouca. Vou embora para a Califórnia. Como vai Rosa? — Muito bem. — Srta. Ela se aproximou de mim e estendeu os braços passando-os pelo meu pescoço. Os olhos eram de um cinza escu ro e não mostravam medo algum. Telefonei para dizer que fiquei muito satisfeito com seu bom trabalh o no caso das ações. — Você poderia experimentar trancar a porta. — Ora! Estava ansiosa por conhecê-lo. Sou Jonas Cord. É da polícia? — Não. — Para quê? — perguntei. — Está certo. a toalha lhe escorregou do corpo e caiu no chão. Abri a porta. Levantei e perguntei: — Jennie Denton? — Estou registrada neste hotel como Judy Belden. — Ótimo. Jonas — disse ele. Não demorou muito. — Os empregados deste hotel são terríveis — disse ela. E uma coisa: como posso falar com a tal Jennie Denton? É importan te ao menos eu conhecer a mulher que vai fazer o papel principal em A pecadora. David. Através da cortina. — Aparecem de repente.

sem falar comigo? — As ações eram minhas — disse ele. sem fala r com ninguém. — Arranje um ou dois grandes nomes.. Jonas. Mas errei numa coisa. Jonas. — Está tudo bem — disse eu. sem incluir no elenco um nome famoso.. De mais a mais. você era um bom agente. — O que estou procurando é evitar que você cometa outro erro. Não é possível pegar uma moça sem qualquer experiência. — Dan não me convencerá de coisa alguma que eu não queira fazer. se visse algum lucro nisso. calmamente. Bonner passeava ner-vosamente de um lado para outro. não sabia. e colocá-la num filme sem grandes artistas para lhe dar apoio. sr. — Acho que posso dar um jeito — disse cauteloso.6 O escritório era o mesmo de dez anos antes. — Eu. Jonas — murmurou ele. O rosto de Dan estava lívido de raiva. Ronald Colman... e de que m nunca ninguém ouviu falar. Dan. excetuando as secretárias. Para o que diz respeito aos planos para o filme: vai custar mais de três mi lhões de dólares. Rina Marlowe . . — Como fez quando vendeu as ações a Sheffield. As ações eram suas e você não me devia nada. — Você é o mesmo que era quando tentou arruinar o show de Nevada em pro-veito do de Buffalo Bill. Clark Gable. Spencer Tracy. Todo mundo sairá rindo do cinema.. Acendi um cigarro e disse: — Tem razão.. Mas só estou visando ao seu b em. — Pronto. Cord — disseram elas a uma só voz quando entrei. Não estou interessado. Saiu batendo a porta e eu me voltei para Bonner. Eu devia ter deixado que continuasse as sim. Nada havi a mudado. — Sei como se sente. que você pode comprar e vend er! — Comprei e vendi você — disse eu friamente. Qualquer deles resolverá o caso. fui até a mesa e sentei. quando eu fizera O renegado. — Ótimo! Muito obrigado ao seu coraçãozinho amável a dez por cento de comissão. — Eu podia vendê-las a quem quisesse. Toquei a campainha em minha mesa e uma das secretárias apareceu. — Pedi a Pierce que viesse até aqui para me ajudar a convencê-lo — disse Bonner. Quando o conheci. Dan Pierce estava sentado no grande sofá embaixo da janela. — Bom dia. mas dê-lhe o apoio de alg uém como Humphrey Bogart. Mas você não vai mais me vender coisa alguma. Errol Flynn. — Não poderá fazer um filme tão caro. Dei-lhes bom dia e entrei no escritório. Eu ficaria satisfeito se hou-vesse alguns astros no elenco. — Bem. — Vai se arrepender disso. — Você não sabia. Jonas — começou Dan. Quando se fez o s cript de A pecadora.. Foi a maior que já houve. É muita bonda e sua! Levantei então e acrescentei: — Saia daqui. — Não pode falar assim comigo! Não sou um dos seus criados. — Pode consegui-los para mim? Ele não percebeu o sarcasmo. Dan! Saía daqui antes que o bote para fora! E nunca mais apareça neste e stúdio enquanto eu estiver aqui! Ele me olhou muito pálido. Fez seu serviço e eu lhe pague tudo pelos cinco anos que ainda lhe restavam de contrato. — O sr. quem conseguia falar com você? Todo mundo sabia que a companhia pouco lhe interessava e que você mesmo estava vendendo parte de suas ações. Sem dizer uma palavra. exaltado. — Desculpe. Pierce vai se retirar. Você seria capaz de vender sua mãe. Inclua a moça se quiser. — Espere um pouco. — Que acha então que devo fazer? Percebi o brilho de confiança que prontamente chegou a seus olhos. foi para servir de veículo a uma grande estrela. Cord — disse ela.. sr.

Queria fazer uma experiência com uma idéia que tive. Encaminhou-se lentamente. ela me disse como você ficou a noite toda olhando para ela e no fim lhe falou a respeito do teste. — E o que tem isso? Para que temos um departamento de pu-blicidade? Quando o filme estiver terminado. O orçamento preliminar. Bonner tinha razão. Quando alguém v ir na tela São João ou São Pedro. Denton já está pronta no cabeleireiro. Ela deixou de trabalhar e se mudou para o leste. E os artistas também. Ela sentou e ficou olhando para mim em silêncio enquanto eu examinava os papéis em c ima da mesa. Era uma das secretárias. — Manterá tudo o que você quiser e você bem sabe disso. se ela estivesse aqui! — Exatamente. Sp ncer Tracy ou Humphrey Bogart. — A srta. sr. E eu também. — À vontade.— Os astros consagrados são uma grande coisa. Nunca pensei que alguém fosse levá-lo a sério. — Não sei. Ela talvez não possa manter. lhe falou a respeito da festa? Ri e respondi.. Cálculos para a construção dos cenários. dirigirá o filme. Estamos fazendo uma história baseada na Bíblia. par a o centro do escritório. Além disso. — Posso sentar? — perguntou Jennie. Só que. Havia uma estranha expressão em seu rosto. Achou o script interessan te e virá ver o teste hoje à tarde. Boston. mas o telefone em minha mesa toc ou. Descobrem Jennie num jantar. Bonner cocou a cabeça e me perguntou.. Lembrei-me da patética figura de cabelo branco ajoelhada ao lado da sepultura de R ina. Nada tenho contra eles. A porta se abriu e Jennie entrou. desta ve z. Bonner foi até a porta e ficou ali por um instante.. — Até a vista. Não sei como vocês fazem isso. Aquilo iria custar um bom dinheiro. — Quero que ela seja vestida por Ilene Gaillard — disse a Bonner. O importante era o script. quero que veja São João ou São Pedro. . o importante é a mulher. — Ótimo — disse eu. — O tes te foi mais uma pilhéria. não foi? E tudo o que sabia dela er a que se tratava de uma garota que você conheceu numa festa. Se gostar de Jennie. Desliguei o telefone e disse a Bonner: — Mandei Jennie para o cabele ireiro. olhando para Jennie. — David viu o teste e o levou a sério... Sabe desde o momento em que pedi u a ela para fazer o teste. Austin Gilbert conversou comigo. Com os grandes diretores era assim. que poderiam conseguir isso com qualquer filme. prefiro dispensá-los. — Ah. O comprido cabelo não era mais castanho-claro. Você a ac hou bastante interessante para fazer um teste. — Mas um teste não é um filme. — Mas ninguém nunca ouviu falar nela. Ele mur-murou com os ol hos fitos nela: — E como. — Sim. quase sem hesitação. não haverá uma só pessoa no mundo que não conheça o nome dela. acho. — Tenho de me parecer com ela? — perguntou Jennie suavemente. Derramava-se pelo pescoço e pelos ombros. esqueci de dizer. mas de uma cintilante cor champanhe. A voz de Bonner exclamou. hesitante: — Ela. Descobrem Lana Turner num balcão de sorveteria. cortesmente. — Mande-lhe um retrato de Jennie. e não Clark Gable. Parou diante de minha mesa e girou lentamente o corpo. — Até a vista — disse. Ela virá. Bonner veio até perto da mesa e ficou ao lado de Jennie olhando para mim. Bonner — respondeu Jennie. Quer que vá aí? — Sim — disse eu. num sussurro emocionado: —. finalmente. Dei-lhe adeus com a mão. criando uma radiosidade translúcida em to rno do rosto moreno. Os duzentos mil dólares que recebiam nada sign ificavam para eles. — Mas isso foi diferente — disse Bonner com uma expressão curiosamente embaraçada.. Como podem? Ele arregalou os olhos e ia dizer alguma coisa. Rina. Olhei para Jennie e comecei a sentir um aperto no coração.Meu Deus! Olhei para ele.

A boca era macia e quente e. — Pelo menos é vantajoso quando se precisa ir a algum lugar depressa. Mas não sou ela. Amos está em Chicago. — O fim da semana está próximo. Não estou fazendo nada. Mas ela partiu hoje ao meio-dia para a Califórnia. Tenho a impressão de que me transformei num fantasma. — Lembre-se de uma coisa — continuei. Adia ntei os ponteiros duas horas para ficar na hora de Chicago. Tudo o que mandar. Levantei da mesa e tomei-a nos braços. Era McAl lister. — Por dois mil dólares por semana — repliquei —. Os olhos estavam cheios de maquilag em e semicerrados. — Não compreendo você. — Eu sei. os olhos estavam fechados. — Não é preciso. não é? — Toda a viagem. Wint-hrop não poderá deixar de ouvi-la. Você teve sorte e conseguiu um. — O que você não compreende. patrão. — Bonner lhe contou alguma coisa a meu respeito? — Nadinha. As garotas como você andam sempre à procura de um produtor a quem impressionar. — Apenas não me sinto bem. Mas não era preciso. — Chicago? Bem. Desliguei o telefone e olhei para Jennie. Se quiser Winthrop. — Está bem. — O homem da agência diz que ele não irá. — Estou muito ocupado e não posso ir a Nova Iorque. Você mesma me disse tudo o que eu precisava saber. você será tudo o que eu lhe mandar ser. pois preciso falar com ele. — Quer ir? — Quero. O homem da agência lhe dirá onde poderá encontrá-lo. Jonas. Estávamos começando a descer. — Ótimo! Procure-o e diga-lhe que venha para cá imediatamente. o maldito te-lefone tocou. menina? . Nesse instante. Deixo de ser eu. e eu não podia adivinhar o que ela estava pensando. Não vá estragar sua sorte. — Foi só o que viu no teste? Rina Marlowe? — Ela foi o que de maior já apareceu na tela. Olhei o relógio. falando de Nova Iorque. Eram quase nove horas. E nunca poderia ser. — Todos os anos chegam a Hol-lywood mil garotas como você. Não faria mal nenhum meter-lhe um pouco de med o. sorrindo. Corri os olhos pela cabine vazia do avião da TAI que Buzz havia prepa-rado para um vôo especial depois do meu telefonema. E Chicago é uma cidade bem interes sante — disse ela. você mesmo terá de tomar as providências. Um avião inteiro à disposição. Nada respondi. — Deve ser formidável ser dono de uma companhia de aviação — disse Jennie. — Já telefonei. A expressão em seu rosto se desarmou por completo e um sorriso aflorou-lhe aos lábio s. Se não gostar. Mas continuou a me encarar.— O quê? — Tenho de me parecer com ela? — Por que pergunta? — Não sei — disse ela. Ela não respondeu. no trem expr esso. — A agência de detetives descobriu Winthrop para você — disse ele. Ela era um pouco arrogante. Iremos de avião. quando a olhei . volte a fazer o que fa zia antes de conhecer Bonner. creio que terei de ir buscá-lo. Eu poderei escolher qualquer delas. Senti nos ouvidos a leve mudança de pressão. — Telefone então para Monica e peça-lhe que converse com ele. Ela mostrou uma expressão de cautela. 7 Jennie virou-se para mim: — Assim é que se deve viajar.

. a sua espera. Um chofer veio ao meu encontro. — Não sabia que você era filósofa. Havia uma mesa posta num canto da sala e ga rrafas no bar. sr. — Não estava falando em você. Telefona ram de seu escritório na Califórnia. — E se o avião se espatifar? — Não vai fazer diferença. — Muito prazer em revê-lo. Subimos nele num solitário esplendor. — Nem tudo. vai me deixar mal. Fico satisfeito com o que tenho aqui em cima. Ninguém gostaria. — Muito obrigado. tudo vai. Ela riu. com cara de idiota. Estalou os dedos e um elevador abriu suas portas como por encanto. compreendi que era apenas passageiro e me descontraí. É o dinheiro que faz isso. continuou: — O dinheiro pode comprar o tempo para você. Compreendo quase todos os homens qu e tenho conhecido. O gerente foi nos receb er à porta. O apartamento está pronto. — Acho que de algum modo você me possui mesmo. Jonas? Você não precisa. — Assim tão simples? — Assim. Nunca pensei que compreendesse tão bem os homens. — Você é filósofa. sr. . O hábito é uma coisa engraçada. Mas não quero muito. além de atriz. para impedir que o avião pulasse. mas apesar de tudo é verdade. Inconscientemente in-clinei-me sobre o manche. Eu tinha de fazer as manobras de aterrissagem de todo avião. ainda. — Tenho sido mulher toda minha vida. Carter abriu a porta do apartamento. estávamos no Hotel Drake. Havia neve no chão ao atravessar mos a pista para chegar até o edifício do aeroporto. — Não se preocupe. Estão sempre atentos. Carter — respondi. Não sou diferente dos outros. Jennie tremia quando entramos no carro.— Você. Ela olhou pela janela do avião e virou-se para mim. — É verdade. No mesmo instante. aviões ou pratos de plástico. — Então por que se mete nisso. Você já tem tudo. — Creio que quer dizer com isso que não possui aquilo lá embaixo. — Você não sabe se sou uma atriz. ficando séria de novo. — Eu sei.. Referia-me ao avião. quando a primeira lufada de ar entrou pela porta aberta. Depois. — Já tinha esquecido de que faz tanto frio durante o inverno — murmurou. E os homens são a primeira coi-sa que uma mulhe r procura compreender. — O dinheiro faz muitas coisas para mim. Do contrário. — Pode ser que se lembrem mais de você por essas coisas do que por um filme. Ela apontou para as luzes de Chicago lá embaixo. Não precisa de dinheiro. se essas foram as coisas que ele fez. estivesse ou não no comando. — E você não gostaria disso. — Não pode deixar de ser. Devem estar aí em algum canto do avião. — Tomei a liberdade de mandar preparar uma ceia quente. não é? — Claro. a inda que isso não esteja em sua consciência. — Foi muita gentileza de sua parte. Para que então quer fazer filmes? — Talvez porque eu queira ser lembrado por algo mais do que pólvora. Tenho sapatos. sim. E permite-lhe transformar as pessoas no que você deseja. Cord. Ma s você é diferente. levando respeitosamente a mão à pala do boné. — E não dá para você comprar um par de sapatos com ele? Ri. Cord. — Seu carro está lá fora. Senti as rodas tocarem o chão e o avião pousar. Você possui todos os que tra-balham para você. Jennie teve um tremor de frio e enrolou o casaco leve em torno do corpo. para tirar todas as vantagens possíveis. Quarenta e cinco minutos depois. olhando para meus pés calçados apenas com meias. Acontece que você me confunde e atrapalha. Da mesma maneira que tudo veio. — Será? Por que um homem é lembrado? Pela emoção que conseguiu transmitir? Ou por ter cons truído o edifício mais alto do mundo? — É lembrado por essas coisas.

sim. — Quer dizer que este apartamento corre todo o tempo por sua conta? — É claro — respondi. você é um maluco — replicou. — Muito bem. cheia de surpresa. mas não deu mostras de sua surpresa. Carter. — Foi o peleteiro. Cord. fomos ao Seguro Social. 8 O homem da agência de detetives chegou enquanto estávamos jantando. ninguém mesmo. — Não vamos comprá-los. mandarei uma coleção para mademoiselle escolher. sacudindo a cabeça. certamente? — Claro. Acha que pode con-seguir um bom c asaco de pele? Carter permitiu-se olhar de relance para Jennie. E o tama nho. — Sem dúvida. Não pude deixar de rir. — Para mim? — perguntou. Nin-guém mais compra cas aco de vison tamanho dez. Era apenas uma questão de tempo. — Ah. — A srta. — Devia ter pedido tamanho doze — disse eu. — Muito bem. Esse tipo de gente pode mu dar de nome à vontade. cortesmente. — Obrigado. — Está fazendo muito frio em Chicago — disse ela. à uma hora da madrugada. — Muita. atirando-se em meus braços e me abraçando fervo osamente. Ele saiu. Atendi e olhei para Jennie. — Meia-noite e dez. — Como já disse. — Bastam apenas alguns minutos para lavarmos o rosto. para receber o dinheiro a que tem direito. Denton não estava preparada para o frio. — Escute uma coisa: por que você é tratado como um rei aqui? — Pago meu aluguel. Cord. ela estava s entada na cama. O telefone tocou. que ainda estava tremendo de frio. Olhei para Jennie. não. alguns minutos depois. entregando-lhe o fone. Dentro em pouco. Chamava-se Sam V itale. Quando saí. sr. — Mas ninguém sabe que estou aqui! Fui até o banheiro e fechei a porta. Provavelmente achou bastante estranho Jennie estar jantando no apartament o do hotel. Sabe que horas são? Olhei para o relógio. Carter. e Jennie voltou-se para mim. — Acho que é possível. mas estou impr essionada. — Teve muita dificuldade em encontrar o homem? — perguntei. Quando afinal todos os i ndícios apontavam para Chicago. Queria saber o que eu preferia: vison claro ou escuro. sr. sr. — Pronto! Pensei que nada mais neste mundo pudesse me impressionar. numa tentativa de explicação. Essa é a diferença. fazendo uma reverência. com os olhos arrega lados. — Está. — Mas é um maluco simpático. Cord. Eles vão ser mandados para cá. — Como posso saber quando terei necessidade de vir a Chicago? — Quando esteve aqui pela última vez? — Há coisa de um ano e meio. ainda atônita. — Carter! — Pronto. Quase não vale a pena. Vison sempre dá esse resultado. Ele deixou um rastr o de cheques sem fundos. — Ninguém. mas em geral conserva seu cartão do Seguro Social com o nome verdadeiro. — Qual foi o tamanho que você disse a ele? — Dez. compreendo. metida em um casaco de vison preto. senhora — disse ele.— Telefone quando estiver pronto. pode comprar casacos de vison depois da meia-noite. Ele está circulando aqui co . Vison. Foi só pedir informações nos estabelecimentos de crédi-to. Mandarei subir a ceia ime-diatamente.

Um garçom de camisa branca apareceu com duas garrafas de champanhe dentro de u m balde. Do mundo inteiro vem gente a La Parée. espalhadas por todas as cidades do país. — Duas garrafas de seu melhor champanhe — pedi. como mecânico. O rótulo podia ser falso. — Sejam bem-vindos. — Onde mora? — Numa casa de cômodos. mas o champanhe não era. ia virar a garrafa de cabeça para baixo no balde. Abri u a porta com floreios. Olhei a garrafa. enquanto o homem nos levava atra vés do salão cheio de fumaça para uma mesinha diante do palco. — Nada disso! — exclamou ela. O comp rido cabelo louro em que brilhavam todas as luzes do salão se derramou por seus om bros. enquanto ela ficava reduzida ao mínimo de roupa que se pode co nceber. Colocou rapidamente três taças em cima da mesa e abriu a primeira garrafa. Há sem pre uma mulher fazendo strip-tease no palco e uma porção de garotas procurando fazer os trouxas pagarem bebidas. Vitale olhou para ela. O garço m encheu as três ta-ças sem ao menos esperar que eu provasse e foi embora. Está beben do muito. na mesa. — Onde está trabalhando? — perguntei. pagaria vinte dólares por garrafa. Uma mulher estava fazendo strip-tease acima de nossas cabeças. mas ao menos deixe-nos acabar a garrafa. senhora. Amos não havia mudado. O tambor surdo toca va compassadamente. — Se tivesse vindo num táxi — disse Vitale —. Ganha o bas¬tante para comprar bebida. — Viva! — exclamei levantando a taça. — Não vou perder a chance de estrear o meu casaco! La Parée era uma entre cerca de vinte boates semelhantes numa rua igual a tantas o utras. Ouvindo a palavra champanhe. Darlene e a inevitável Rosie To okus. bem no meio de um requebro. Jennie deixou então o casaco cair nas costas da cadeira e tirou o turbante. quando segurei sua mão. — Não é preciso tanta pressa. — Estou pronta — disse Jennie. Mal pousamos as taças na mesa. mas era um bom champanhe. O porteiro escancarou um sorriso quando a grande limusine parou à sua frente. — Numa garagem em Cícero. a mulher do strip-tease fez uma pausa em seu número. Charlene. o garçom tratou de enchê-las de novo. amigo. É um desses lugares onde o divertimento é constante. Vi um papelzinho branco ao meu lado. colocou a garrafa de pé no balde e foi e . Ri. — E se tivesse vindo a pé? — Quinze dólares — respondeu rindo. Olhei para Jennie e ela sorriu para mim. Não estou reclamando do preço. As vitri-nes estavam cobertas de c artazes de garotas seminuas: Maybellene.m o nome de Amos Jor-dan. onde um gerente de smoking repentinamente se materi alizou diante de nós. Acab ei de tomar o café e disse: — Bem. O lugar é pouco recomendável e muito perigoso. O porteiro nos levou ao salão. Todas elas iam dançar na-quela noite. — E melhor ficar aqui. Uma chapeleira com as coxas de fora veio nos tomar os casaco s. Trabalhava rapida mente e derramou um pouco pelas bordas. Estava um pouco quente. e me olhou com o sorriso mais sedutor de seu arsenal . Ele olhou para mim. O sorriso da mulher no palco desapareceu no mesmo instante. a menos que se tivesse um estômago forrado de zinco. vamos vê-lo. concordou com a cabeça. amigos. pensei. Depois. Mas só vai lá para dormir. Passa a maior parte do tempo numa espéc ie de cabaré chamado La Parée. A rolha saiu com um estouro e a espuma do champanhe escorreu pelo gargalo. Mas Jennie sacudiu a cabeça e ficou com o casaco. Estava sempre nos lugares onde havia mulheres. dizendo: — É com fogo que se combate fogo. Aquilo não era lugar para beber uísque. Heidsieck 193 7. Oitenta dólares.

— Vá embora — respondeu. mas não está! Acha então que posso esquecer que você me botou para fora de minha própria companhia? Acha que posso esquecer que você me bloqueou todos os co ntratos. os dois. e tive uma desagradáve l surpresa. Ali estava uma ruiva que havia conhecido melhores dias. Outra mulher apareceu no palco e as luzes diminuíram de novo. Denton. Fiz que não tinha ouvido e continu ei indo para onde estava Amos. — Sabe de uma coisa? Ela não queria di vorciar-se de você. Fique aqui com a srta. que estava olhando para o palco. Não havia ainda muita luz. Virei-me para olhar. — E agora você me vem com uma proposta falsa! Pensa que eu não sei o que você quer? Pens a que eu não sei que você está procurando me tirar do caminho porque sabe que. lutado muito. Vi então seus olhos e compreendi tudo. Comb inavam bem. Amos. A bateria tocou mais forte e a mulher saiu do palco. — Alô. Amos — disse. — É o que você pensa. Eram pulsos finos e frágeis. Incrivelmente velho e acabado.mbora. com uma voz rouca e encharcada de uís-que. Haviam lutado. e riu. Disse a ela que você era igualzinho a mim. Estava vencido e nada mais lhe restava senão o passado. Ele não podia ser tão velho assim. Voltei os olhos para Amos. na outra ponta do bar — disse Vitale. mas também porque. e a corrosão do tempo o invadira. mas não queria o divórcio. — Vou lá falar com ele — disse eu. de velho. com um copo nas mãos. — Está procurando alguém. Estava velho. — Ele está ali. Virei-me e o agarrei pelos pulsos. mas tinham sido derrotados. acompanhada por algu ns aplausos mais ou menos indiferentes. bem longe daquele cheiro de cerveja azeda. aquele era o pai de Monica. afi nal. — Falei com Monica da oportunidade que ia lhe dar — disse eu — e ela ficou muito satis feita. Não havia mais para ele nenhum caminho a não ser o dos derrotados. Quase calvo e com as pe lancas da extrema velhice pendendo-lhe das faces e do queixo. Por um momento tive vontade de levantar do tamborete e ir embora para a noite fr ia e pura. em voz baixa. Mas fi quei. com os punhos cerrados perto de meu rosto. Teria no máximo cinqüenta e cinco anos. De repen . — Tudo isso está passado e encerrado há muito tempo. E rolaria ladeir a abaixo até morrer. Notei que a mão tremia e mostrava uma porção de manchas avermelhada s. no dia em que eu mostrar meus planos a alguém. garotão? Era a mulher que pouco antes estivera no palco. uma mulher roçou em mim na semi-escuridão. Só pude ver um vulto indistinto curv ado sobre o balcão do bar. Os sonhos haviam morrido p orque ele falhara em todas as ocasiões decisivas. de vômito e decadência. A garrafa estava diante de mim. — Monica sempre foi uma idiota — replicou. No momento em que le vantei para ir ao bar. muito mais doente do que eu havia pensado. Olhei para o palco. Tentei pensar um pouco. — Uma cerveja — pedi ao homem do bar. Ele nem levantou a vista. O-lhou para mim co m os olhos vermelhos e lacrimosos. — Não. com um copo. incapaz de resistir a um rabo de saia. não apenas porque havia feito uma promessa a Forrester. e meu dinheiro desaparecera antes mesmo de eu me acomodar no tamborete. Eu nada disse e ele continuou: — Mas eu dei um jeito em tudo. para que eu não pudesse mais levantar a cabeça? Não sou tolo. Amos. você estará perdido? E se aproximou de mim. Dizia que o amav a. Esperei que o número chegasse ao final e disse: — Tenho uma proposta para lhe fazer. Ele largou o copo em cima do balcão e voltou lentamente a cabeça. — É a minha garota que e stá dançando ali. Levou o copo à boca. quando me sentei no ban co vazio ao lado dele. — Já disse a seu mensageiro que não me interessa. Pensa que eu não sabia que você tinha gente para seguir meus passos por todo o país? Amos estava doente. Estava furiosa com você. — Acha que precisa de ajuda? — perguntou Vitale. Ele bateu com o copo em cima do balcão.

Chamei-o e disse: — Vamos voltar para o Drake. Acho melhor levá-lo para casa. — Por favor. — Ele está muito fraco — acrescentou o médico.. — Vá enxugar as lágrimas. Jonas — murmurou. levantando. peguei Amos nos braços e me encaminhei para a porta. Tirei outra nota de cem dólares e a coloquei na mão dela. — Está bem — disse. o corpo dele desaprumou-se e ele caiu para a frente. Sam — disse ele. Fiquei surpre so ao ver como era leve. — Uísque demais e comida de menos. doutor. e dois gatos trepados em la-tas de lixo a bertas diante da porta da frente nos olhavam com seus olhos brilhantes. ele havia tomad o todas as providências. com lágrimas cavando-lhe um rego na maquilagem . Depois vi a ruiva olhando para mim. cuidando desse bêbado. — Ele não mora longe daqui — disse. dê-lhe um daqueles comprimidos de hora em hora. Passarei de novo pela manhã para vê-lo. . Não será a primeira vez que passo a noite em cla-ro. — Perdeu os sentidos? — perguntei.. — De um doente? — É claro. quando coloquei Amos no carro. — Não me incomodo. fui empu rrado violentamente de encontro ao balcão e um homem enorme de terno preto gritou: — O que há por aqui? — Pode deixar. Desde que eu queria Amos. afrouxando a gravata e desabotoand o o colarinho. No mesmo instante. — Isso é pela conta d mesa. Da janela do carro observei de relance o lugar e compreendi que não poderia deixar ali um homem doente. Vitale não deixara nada ao acaso. você não precisa passar o resto da noite acordada. — Não há de que. Vitale apanhou nossos capotes com a chapeleira. — Está bem. e a pressão que exercia contra mim cessou. ante sua impotência. e o leão-de-chácara virou-se para olha r quem havia falado. quando acordar amanhã de manhã. Era uma casa de cômodos suja e cinzenta. Olhei para Amos. Jennie vinha logo atrás dele. é você. Os olhos dele estavam cheios de lágrimas de raiva. — Ah. Alguém lhe deu uma boa dose de sódio-amital. A ruiva apareceu su-bitamente por trás d e mim e deu um grito. Está ar-dendo em febre. A música parou de repente. Enquanto isso. De nton. Não era o fato de ele estar doente que me faria pensar de maneira diferente a respeito dele. — Estará bem. Escorregou então de minhas mãos e caiu no chão. — Escute aqui. Uma pequena multidão se juntou em t orno de nós. estendido no banco de trás. 9 O médico saiu balançando a cabeça. — De quê? — Comprimidos para dormir — disse Jennie. cuidando de um d oente. srta. não me persiga mais. Olhei para Jennie. jogando uma nota de cem dólares em cima do bal-cão. Joe — disse Vitale aproximando-se. O médico despediu-se e saiu. mas com um pouco de cuidado isso não terá qualquer importância. Estou tão cansado que não posso mais nem. poderia ser meu pai que ali estivesse. sr. Olhei para Amos. Nunca lhe disse que sou formada por uma escola de enfer-magem? Balancei a cabeça. com a cabeça em meu peito .te. antes mesmo de eu descer do banco do bar. Abaixei-me então. Jennie já estava ao lado dele. doutor — disse eu. O chofer já havia saltado para abrir a porta. Mas não podia deixar de pens ar que. — Obrigado. — Estou tão cansado. Sorri. noturnos e sinistros. Cord. Está com fe re. Desculpe. — Acho que é um pouco mais do que isso — respondeu Jennie. se as coisas tivessem se passado um pouco diversamente.

. a gente acostuma. em San Francisco. Jennie estava sentada na sala diante de um bule de café e algumas tor-radas. caminhando para o bar. Afinal de contas. Depois abandonei a profissão. Eram oito horas da manhã. Jennie — ou talvez Rina — entrou na sala vestida co m um uniforme branco e eles começaram a correr atrás dela. a sono solto. Por que não deita e descansa um pou-co? — E você? — Não tem importância. Pedi à portaria que m e mandassem um prato duplo de presunto com ovos e mais um bule de café. muito obrigada. eu a acordarei. com certeza. aquilo era a vida particular de la e eu nada tinha com isso. Tomei-a nos braços. Nesse momento. Para começar. ap esar disso. Estava deitado de barri ga para cima. — Acha então que eu ia deixá-la andar por Chicago com esse frio todo com um casaquinho leve? — É pelo casaco também. — Bom dia — disse ela. Mas. Tinha um cobertor enrolado no corpo. Ele acendeu uma lanterna elétrica bem nos meus olhos e a luz começou a ficar mais forte. ou e la. Jennie pegou a xícara de café e bocejou. mas não apenas pelo casaco. Botarei o sono em dia de manhã — disse ela. — Ele se culpa por ter feito você se separar de sua mulher. — Ora. — Sente-se e coma.. Acho você um homem muito bom. — Um pouco. Levantou e foi para o quarto. Então. — Mas isso é muito gostoso — disse. Era o leão-de-chácara de La Parée. A cama ainda está quente. Tenho de ficar acordada até o médico chegar. você o trouxe para cá. — Claro que não — murmurou ela. Ouvi tudo o que ele lhe disse. Veio até onde eu estava e me beijou no rosto. não adianta nós dois ficarmos acordados a noite toda. Escute. — Vá dormir. nunca deveríamos ter casado. Jennie. Me formei em 1935. Passei uma noite muito agitada. Eu sorri. Ele não foi mais culpado do que eu. Amos e meu pa i me perseguiam em uma sala e ambos gritavam coisas ditas de maneira tão enrolada que eu não podia compreender. — Ou Rina Marlowe? — Não. Amos apareceu quando eu estava comendo. desviando os olhos. — Quer café? Fiz que sim com a cabeça. — Não vai precisar disso. voltou e apanhou o casaco de vison das costas de uma cadeira. — Você deve estar cansada — disse. alguém me em-purrou de encontro à pa rede. Sabe que ele falou um bocado em você durante a noite? — Foi? Nada de bom. Chegou-se à mesa e perguntou: — Quem roubou minhas roupas? Assim de dia. Mary. Fechei a porta e voltei par a a sala. Abri os olhos. — Por quê? — Cansei — respondeu simplesmente. esfregando o rosto no casaco. dormindo como uma criança. Trabalhei co mo enfermeira um ano. — Não. apanhando minha xícara de café. — Não. — Quer beber alguma coisa? — perguntei. mas aí vi que e ra Monica e ela estava chorando.— Escola de Enfermagem St. sentando ao lado de Jennie. — Joguei tudo fora — respondi. não. Entrou no quarto e f echou a porta. Tentei detê-los e afinal co nsegui levá-la para fora da sala e fechar a porta. Eu sabia que não devia insistir. — Acho que tudo só acon eceu porque Monica e eu éramos muito moços. depois de algum tempo. Rina não teve culpa alguma — disse. — Que mais eu poderia fazer? Não podia largá-lo lá. A luz do sol entrava pelas janelas. todos nós tivemos um pouco de. ele não parecia tão mal quanto na noite passada. Enchi de novo minha xícara e peguei o telefone. com o se fosse uma toga. Jonas. — Está bem — disse ela. De repente. — Acho melhor você ir descansar agora — disse. cada vez mais forte. Fui até o quarto de Amos para vê-lo. Fui para o quarto. Vai se fazendo o que é nec essário. E muito obrigada. . Em meus sonhos. — Boa noite. — Agora vá para sua cama. Quando ele chegar. E. acendendo um cigarro.culpa.

— Você não a perdeu. Passou a noite em claro. — Por que você ficou tão bom assim de repente. tin ham aparecido aviões notáveis. Depois . Bastou seguir a pista dos cheques sem fundos. Amos. Amos. levantando e recobrando uma espécie de di