OS INSACIÁVEIS

Tradução: Nelson Rodrigues

HAROLD ROBBINS Um dos escritores de maior sucesso internacional, Harold Robbins nasceu em Nova Iorque, em 1916. Criado em orfanato, aos oito anos vivia numa das partes mais po bres e violentas do West Side de Nova Iorque, o Hell's Kitchen (Cozinha do Infer no). Durante a fase da grande depressão econômica dos Estados Unidos (início da década de 30) , o adolescente Robbins saiu em busca de emprego: empurrou carrocinhas de sorvet e, vendeu sanduíches e refrigerantes, trabalhou em escritórios. Empreendedor, com vi nte e um anos entrou no comércio de alimentos e passou a especular com colheitas d e ervilhas e safras de açúcar. Em pouco tempo, ganhou um milhão de dólares, mas perdeu t udo com a mesma rapidez. Então, conseguiu trabalho como auxiliar de escritório numa companhia cinematográfica. Ali, rapi-damente progrediu e passou a cargos de dire-ção. Certo dia, ao terminar de ler um livro que os produtores da empresa cogitavam fi lmar, convenceu-se de que poderia escrever um melhor. E foi assim que surgiu Jam ais ame um desconhecido, publicado em 1948, resumo de tudo o que vira no cinema e entre jogadores dos cassinos de Monte Cario. Depois, escreveu Os insaciáveis, qu e foi adaptado duas vezes para a tela: um filme com o mesmo nome e outro intitul ado Nevada Smith. A partir daí, Harold Robbins transformou-se num dos autores mais vendidos em todo o mundo. Seus livros con-tinuaram sendo adaptados para o cinema, regiamente pago s. Amealhou uma fortuna que, no entanto, não o deixa impressionado: "O ideal na vi da é a gente poder fazer de tudo uma diversão. Meus negócios me divertem. O dinheiro f oi feito pra gastar", diz o escritor. Esse milionário da literatura leva o tipo de vida que costuma criar para os person agens de suas obras. Possui mansão na Califórnia, casa de ve-raneio perto de Cannes (França), iate, um Rolls-Royce em cada lugar onde mora. Casado há vários anos com a sua quinta mulher, a italiana Grazia Maria, a quem tem d edicado os últimos livros, Robbins é pai de dois filhos. Quando se sente inspirado, põe-se arduamente a escrever. Para isso, isola-se num hotel por períodos que se este ndem até cinco meses. Antes, porém, coloca em ação uma equipe de pesquisadores, encarreg ada de levantar toda a documentação possível sobre o assunto escolhido. Assim aconteceu, por exemplo, com O garanhão, sobre a indústria automobilística, ou co m Os sonhos morrem primeiro, sobre os bastidores de uma revista pornográfica. Em seus livros, Harold Robbins joga com tudo aquilo que pode fascinar as pessoas . Mulheres passionais, homens violentos, poder e ambição, automóveis de luxo e mansões c inematográficas são os principais ingredientes dos seus inúmeros romances, traduzidos em trinta e nove idiomas, publicados em mais de sessenta países e que já cativaram m ais de duzentos milhões de leitores.

Para PAUL GITLIN, como consideração

por sua amizade e orientação através dos anos.

JONAS 1925 LIVRO I

1 O sol começava a cair do céu no branco deserto de Nevada, quando avistei Reno lá embai xo. Virei lentamente o avião e tomei rumo leste. O vento assobiava nos montantes d o biplano e eu ria comigo mesmo. O velho ia "subir a serra" quando visse aquele avião. Mas não teria de que reclamar. Não lhe havia custado um tostão. Eu o ganhara num jogo de dados. Toquei o manche para a frente e desci devagar até quatrocentos e cinqüenta metros de altitude. Voava por cima da estrada 32 e o deserto era uma confusa mancha. Meti o nariz do avião no horizonte e olhei para o lado. Lá estava ela, uns treze quilômetr os à frente. Parecia um feio sapo esparramado no deserto. A fábrica. Cord Explosives Empurrei de novo o manche e quando passei por ela já estava apenas a uns trinta me tros de altitude. Fiz uma curva Immelman e olhei para trás. Havia gente nas janelas. As morenas mexicanas e as índias, com seus vestidos de co res vistosas, e os homens com suas desbotadas roupas azuis de trabalho. Quase po dia ver o branco dos olhos amedrontados que me espiavam. Tornei a rir. Era muito chata a vida daquela gente. Ia dar-lhes um pouco de emoção. No alto da curva, levei o avião a setecentos e cinqüenta metros e mergulhei na direção d o teto coberto de piche da fábrica. A zoeira do grande motor Pratt & Whitney foi aumentando e me dei-xando surdo, en quanto o vento chicoteava meu rosto. Apertei os olhos e cerrei os lábios. Sentia o sangue acelerar nas veias, o coração bater e os sucos da vida subirem-se pelas trip as. Força, força, força! Ali, onde o mundo lá embaixo era como um brinquedo. Onde eu tinha o manche como se fosse o meu membro nas mãos e não havia ninguém, nem mesmo meu pai, pa ra me dizer não! O telhado escuro da fábrica sé estendia por sobre a areia branca, parecendo uma garo ta nos lençóis brancos de uma cama, com a mancha negra do púbis a sussurrar um convite na sombra da noite. Senti a garganta apertada. Mãe. Eu não queria ir-me embora. Que -ria ir para casa. Pim! Um dos arames finos dos montantes se partiu. Pisquei os olhos e molhei os láb ios. Senti na língua o gosto de sal das lágrimas. Já podia ver as pedras cinzentas no teto escuro de piche. Puxei o manche e comecei a sair do mergulho. A duzentos e quarenta metros endireitei o avião e fiz uma ampla viragem rumo ao campo nos fundo s da fábrica. Avancei na direção do vento e fiz um pouso perfeito. Senti-me de repente muito cansado. Fora um vôo longo de Los Angeles até ali. . Nevada Smith veio correndo ao meu encontro enquanto o avião taxiava e parava. Desl iguei a ignição e o motor parou, escarrando a última gota de combustível dos pulmões de se us carburadores. Olhei para Nevada.

Era um homem que não mudava. Desde quando eu tinha cinco anos de idade, e o vi che gar à varanda da frente, pela primeira vez, ele nunca tinha mudado. Conservava o m esmo andar miúdo, bamboleado, e as pernas arqueadas de quem nunca aprendeu a viver fora da sela de um cavalo, as mesmas rugas pequenas na pele curtida do canto do s olhos. Isso acontecera dezesseis anos antes, em 1909. Eu estava brincando num canto da varanda enquanto meu pai lia o jornal semanal d e Reno, sentado na grande cadeira de balanço perto da porta da frente. Devia ser o ito horas da manhã e o sol já estava alto no céu. Ouvi o tropel do cavalo e fui olhar. Um homem estava apeando. Seus movimentos tinham uma enganosa graça vagarosa. Passo u as rédeas pelo mourão e encaminhou-se para a casa. Chegando ao pé da escada, parou e olhou para cima. Meu pai largou o jornal e se levantou. Era um homem graúdo. Um metro e oitenta e c inco. Corpulento. O rosto vermelho ficava escarlate quando tomava sol. Olhou o h omem. Nevada piscou os olhos. — Jonas Cord? — Sim — respondeu meu pai. O homem tirou o chapéu de abas largas de cowboy, deixando à mostra a cabeleira escur a. — Soube que está precisando de um empregado. Meu pai nunca dizia sim nem não, fosse para o que fosse. — O que você sabe fazer? O sorriso do homem não mudou. Correu os olhos lentamente pela frente da casa e pel o deserto, fitan-do depois meu pai. — Sei cuidar de gado, mas isso não há aqui. Sei consertar cercas, mas também é coisa que não estou vendo. Meu pai nada disse durante alguns segundos. Por fim, perguntou: — E é bom nisso? Foi então que vi o revólver na coxa do homem. Levava-o bem baixo e amarrado à perna. O cabo era preto e usado. O cão e o metal estavam cheios de óleo. — Sei me virar. — Como é seu nome? — Nevada. — Nevada o quê? A resposta foi dada sem hesitação: — Smith. Nevada Smith. Meu pai ficou calado. Dessa vez, o homem não esperou que ele voltasse a falar. Apo ntou para mim e perguntou: — O menino é seu? Meu pai fez que sim com a cabeça. — Onde está a mãe dele? Meu pai olhou para mim e tomou-me nos braços. Como era bom ser carregado por ele! — Morreu há poucos meses — disse ele com voz calma. O homem nos encarou. — Foi o que me disseram. Meu pai olhou-o por um momento. Senti seus músculos, se contraírem. De repente, ante s de poder tomar fôlego, voei por cima da balaustrada da varanda. O homem me aparou com os braços e me segurou firme enquanto dobrava os joelhos par a amortecer o choque. Fiquei um pouco atordoado, mas, antes de eu começar a chorar , meu pai tornou a falar com um leve sorriso nos lábios: — Ensine-o a montar. Pegou o jornal e foi para dentro da casa sem olhar mais para trás. Segurando-me com uma das mãos, o homem chamado Nevada começou a me levantar. De repe nte, vi o revólver em sua outra mão como uma cobra preta viva, apontado para meu pai . Nesse momento a arma voltou para o coldre. Fitei-o nos olhos. Com um sorriso amplo, ele me fez descer para o chão. — Muito bem, Júnior. Ouviu o que seu pai disse, não ouviu? Vamos. Meu pai já havia desaparecido dentro da casa. Não sabia disso naquele momento, mas a quela foi a última vez que meu pai tomou-me nos braços. Daí por diante, foi quase como se eu fosse filho de Nevada.

Já estava com um pé fora da carlinga, quando Nevada chegou. Olhou para mim e disse: — Parece que fez um bocado de agitação. Pulei para o chão ao lado dele e olhei para baixo. Era uma coisa com a qual eu ain da não me habituara. Eu tinha um metro e oitenta e cinco como meu pai, e Nevada co ntinuava com pouco mais de metro e meio. — Um bocado. Nevada olhou para o avião. — Bonito. Como o conseguiu? — Ganhei-o jogando dados. Ele me olhou com uma pergunta implícita. — Não se preocupe — apressei-me em dizer. — Depois deixei o homem ganhar quinhentos dólar es. Assentiu com a cabeça, satisfeito. Isso também era uma das coisas que Nevada me havi a ensinado. Nunca se deve sair da mesa de jogo depois de ganhar o cavalo de um h omem sem deixá-lo ganhar ao menos uma parada. Assim, os lucros da gente não diminuem e o trouxa sai dali pensando que ao menos ganhou alguma coisa. Meti a mão na carlinga de trás e tirei dois calços. Passei um a Nevada e coloquei o me u debaixo de uma roda. Nevada fez o mesmo com o outro. — Seu pai não vai gostar. Você estragou a produção pelo resto do dia. — Não creio que isso tenha importância. O que quero saber é como ele foi informado do ca so tão de-pressa. — Você levou a moça para o hospital — disse Nevada, com o sorriso triste de sempre. — De lá mandaram chamar a gente dela. E ela contou tudo antes de morrer. — Quanto eles querem? — Vinte mil dólares. — Pode-se arranjar tudo por cinco mil. Nevada não respondeu. Olhou para meus pés e disse: — Calce os sapatos e vamos. Seu pai está esperando. Começou a atravessar o campo e eu olhei para o chão. Era bom meter os dedos na terra quente. Remexi a areia com os pés um momento e, depois, apanhei na carlinga um pa r de huarachos mexicanos. Calcei-os e segui pelo campo atrás de Nevada. Detesto sapatos. Não deixam a gente respirar. 2 Levantei pequenas nuvens de poeira com os huarachos enquanto ca-minhava para a fáb rica. O cheiro sufocante do enxofre usado para fazer pólvora me entrava pelo nariz . Um cheiro parecido com o do hospital na noite em que a levei para lã. Muito dife rente da noite em que fizemos a criança. Era uma noite fresca e limpa. A brisa do mar, trazida pelo vento, entra-va pelas janelas abertas da casinha que eu tinha em Malibu. Mas lá dentro havia apenas o p rovocante cheiro da garota e seu de-sejo. Tínhamos ido para o quarto e estávamos tirando a roupa com a desesperada pressa que nossas entranhas exigiam. Ela foi mais ligeira do que eu; já estava estendida na c ama olhando para mim quando abri a gaveta da cômoda e peguei um pacote de camisinh as. A voz dela era um sussurro dentro da noite. — Não, Joney. Não desta vez. O luar claro do Pacífico entrava pela janela. Só o rosto dela estava es-condido nas sombras. De certo modo, o que ela disse me esquentou ainda mais o sangue. A cadela deve ter sentido isso. Estendeu os braços para mim e me bei-jou. — Detesto essas coisas malditas, Joney. Quero sentir você dentro de mim. Hesitei um momento. Ela me puxou para cima dela e disse ao meu ouvido: — Não vai acontecer nada, Joney. Eu terei cuidado. Aí eu já não podia esperar mais e o sussurro dela se transformou num grito de dor. Eu não podia respirar e ela ficou o tempo todo dizendo com voz chorosa: — Eu te amo, Joney. Eu te amo Joney.

Ela me amava, sim. Amava tanto que cinco semanas depois disse que tínhamos de casa r. Estávamos dessa vez sentados no meu carro, voltando de um jogo de futebol. — Por quê? — perguntei, olhando-a. Não estava nada assustada. Ao contrário, mostrava muita segurança e falava quase com a rrogância. — Pelo motivo habitual. Há qualquer outro que faça um rapaz e uma moça casarem? Fiquei zangado. Afinal sei muito bem quando sou embrulhado: — Às vezes, é porque querem mesmo se casar. — Ora, eu quero me casar— disse ela, chegando mais perto de mim. Empurrei-a para o lado. — Pois eu não quero. — Mas você disse que me amava — murmurou, começando a chorar. — Um homem diz uma porção de coisas quando está com uma mulher. Encostei o carro junto ao meio-fio e freei. — Você não me disse que teria cuidado? — Mas eu gosto de você, Joney — insistiu, tentando enxugar as lágrimas com um lencinho t errivelmente ineficiente. — Gostaria de ter um filho seu. Pela primeira vez desde que ela me contara, comecei a me sentir melhor. Era uma das coisas desagradáveis que acontecem quando se é Jonas Cord Jr. Garotas demais, e suas mães também, pensando em dinheiro. Numa fabulosa fortuna. Desde o fim da guerra , meu pai havia construído um verdadeiro império fabricando pólvo-ra. — Então não há dificuldade. Se quer ter, tenha. — Quer dizer... quer dizer... que vamos casar? O leve brilho de triunfo em seus olhos mais que depressa se desvaneceu quando sa cudi a cabeça. — Não. Quer dizer apenas que, se você quer mesmo ter a criança, pode ter. Ela se afastou de mim. De repente seu rosto se mostrou sério e frio. A voz era cal ma e prática. — Quero, mas não assim. Sem uma aliança no dedo, não. Terei de me livrar da criança. Sorri e lhe ofereci um cigarro. — Agora é que você está falando com juízo, menina. Pegou o cigarro e eu o acendi. — Mas não vai ser barato... — insinuou ela. — Quanto? — Há um médico na Mexican Town. As meninas dizem que é muito bom — disse ela, soltando uma baforada e me olhando inquiridoramente: — Duzentos? — Ótimo. Está fechado — topei imediatamente. Era um bom negócio. O último caso desses me custara trezentos e cinqüenta. Joguei o ci garro fora, liguei o motor e meti-me de novo no tráfego, rumo a Malibu. — Espere aí! Para onde você vai? — perguntou ela. — Para a casa da praia. Podemos, pelo menos, aproveitar a situação. Ela começou a rir e se chegou a mim. — Não sei o que mamãe diria se soubesse tudo que fiz para agarrá-lo. Ela me aconselhou a não esquecer um só truque. Soltei uma risada e disse: — Foi o que você fez. — Fico pensando em mamãe. Ela já tinha planejado tudo para o casamento. Pobre mãe... Talvez, se a velha bruxa tivesse ficado calada, a filha ainda estives se viva. Foi na noite seguinte, mais ou menos às onze e meia, que meu telefone começou a toca r. Eu tinha acabado de pegar no sono, e disse um palavrão antes de atender. Ouvi a voz dela num sussurro medroso: — Estou perdendo muito sangue, Joney. O sono me saiu da cabeça como uma bala doida. — O que você está dizendo? — Fui hoje de tarde à Mexican Town e agora as coisas não vão bem. Não parei ainda de perde r sangue e estou com muito medo. — Onde você está? — Hospedei-me esta tarde no Hotel Westwood. Quarto 901.

— Volte para a cama. Vou já para aí. — Venha depressa, Joney, por favor! O Westwood é um hotel de segunda classe no centro de Los Angeles. Ninguém deu a meno r atenção quando entrei no elevador sem parar na portaria. Tentei a porta do quarto 901. Estava aberta e entrei. Nunca vi tanto sangue na vida. Havia sangue no tapete barato do chão, na poltrona em que ela se sentara para telefonar, nos lençóis brancos da cama. Ela estava deitada na cama com o rosto mais branco que a fronha do travesseiro. Seus olhos estavam fechados. Quando me aproximei, ela os abriu; os lábios se mover am, mas nenhum som saiu. — Não tente falar, menina. Vou arranjar um médico. Você vai ficar boa. Ela tornou a fechar os olhos e fui para o telefone. Não podia telefonar assim para qualquer médico. Meu pai não ficaria satisfeito se meu nome voltasse a aparecer nos jornais. Telefonei para McAl-lister, o advogado que tratava dos negócios da firma na Califórnia. O mordomo chamou-o ao telefone e procurei falar com voz calma. — Preciso com urgência de um médico e de uma ambulância. Em menos de um minuto compreendi por que meu pai se utilizava dos serviços de Mac. Não perdeu tempo com per-guntas supérfluas. Quis saber apenas onde, quando e quem. O porquê não interessava. — Um médico e uma ambulância estarão aí em dez minutos. É melhor sair daí agora. Não adianta plicar-se mais do que já se complicou. Agradeci e desliguei. Voltei para junto dela. Parecia estar dormindo. Quando me dirigi para a porta, abriu os olhos. — Não vá embora, Joney. Estou com medo. Voltei e fiquei sentado ao lado da cama. Segurei-lhe a mão e ela tornou a fechar o s olhos. A ambulância chegou daí a dez minutos. E ela não me largou a mão até chegar-mos a o hospital. 3 Entrei na fábrica e o barulho e o cheiro me envolveram como um casulo. Percebi as momentâneas paradas no serviço à minha passagem, e ouvi os murmúrios contidos de vozes m e acompanhando: — El hijo. O filho. Era assim que me conheciam. Falavam de mim com prazer e orgulho, como s eus ancestrais ti-nham falado dos filhos de seus patrones. Isso lhes dava uma id entidade e um lugar próprio, numa compensação pela dura vida que levavam. Passei por entre os tanques de mistura, as prensas, os moldes e che-guei aos fun dos, ao pé da escada que levava ao escritório de meu pai. Comecei a subir os degraus e voltei-me; uma centena de rostos sorriam para mim. Acenei e sorri também, como sempre fizera desde a primeira vez em que, ainda garoto, havia subido por aquela escada. Passei pela porta no alto da escada e o barulho morreu assim que a porta se fech ou. Atravessei o pequeno corredor e entrei na sala de espera do escritório. Denby estava sentado à sua mesa, escrevendo alguma coisa no seu jeito nervoso habi tual. À sua frente, uma moça batia desesperadamente à máquina de escrever. Havia duas pe ssoas sentadas no sofá. Um homem e uma mulher. A mulher estava vestida de preto e torcia nas mãos um lencinho branco. Olhou para mim logo que cheguei e não foi preciso que me dissessem quem era. Mãe e filha eram m uito parecidas. Encarei-a, mas ela virou a cabeça. Denby se levantou, muito agitado. — Seu pai está esperando. Ele abriu a porta do escritório e entrei. Denby tornou a fechá-la e corri os olhos p ela sala. Nevada estava encostado à estante do lado esquerdo, com os olhos quase fechados: s eu jeito dissimulado de prestar mais atenção às coisas. McAllister estava sentado numa cadeira diante de meu pai. Virou-se para me olhar. Meu pai estava sentado à velha e enorme mesa de carvalho. Seus olhos faiscavam. A não ser isso, o escritório estav a como sempre fora.

As paredes revestidas de lambris de carvalho escuro, as pesadas pol-tronas de co uro, as cortinas de veludo verde e a fotografia de meu pai com o presidente Wils on na parede atrás da mesa. Ao lado de meu pai estava a mesinha com três telefones e , mais adiante, a infalível mesinha com um jarro de água, uma garrafa de uísque e dois copos. Só restava um terço de uísque na garrafa. Devia ser, portanto, três horas. Olhei para o relógio: três e dez. Meu pai bebia uma garrafa por dia. Atravessei o escritório e parei diante dele. Enfrentei seu olhar fuzilante. — Alô, papai. Seu rosto ficou ainda mais vermelho e as veias do pescoço incharam quando ele grit ou: — Isso é tudo o que você tem para dizer depois de arruinar a produção do dia e meter medo em metade do pessoal com suas ma-luquices? — O recado que recebi dizia que eu devia vir o mais depressa possível. Foi o que fiz . Mas já não era possível contê-lo. Estava furioso. O temperamento de meu pai era assim. N um momento estava calmo e tranqüilo; no outro, subia mais alto que um balão. — Por que diabos não saiu do hotel quando McAllister mandou? Por que você tinha de ir até o hospital? Sabe o que você fez? Sujeitou-se a um processo criminal como cúmplice de aborto. Eu também já estava furioso. Meu temperamento era igualzinho ao dele. — E o que você queria que eu fizesse? A moça estava se esvaindo em sangue e cheia de m edo. Queria que eu saísse de lá e a deixasse morrer sozinha? — Exatamente. Se tivesse algum miolo dentro dessa cabeça, era isso mesmo o que você de veria ter feito. De qualquer maneira a moça morreu, e não adiantou nada você ter ficad o. Agora, esses patifes que estão aí fora querem vinte mil dólares. Do contrário, irão dar queixa à polícia! Pensa que tenho sempre vinte mil dólares para jogar fora todas as v ezes que você cobre uma sem-vergonha? É a terceira moça só este ano! Não dava a menor atenção para o fato de a moça ter morrido. Eram os vinte mil dólares que o estavam enfurecendo. Mas então compreendi que também não era o di-nheiro. Era uma co isa muito mais profunda. A amargura que mostrava na voz era a chave. Olhei para ele, de repente entendendo tudo. Meu pai estava ficando velho e isso lhe comia a força. Rina devia estar de novo em cima dele. Já se passara mais de um ano depois d o pomposo casamento em Re¬no, e nada acontecera. Dei as costas e caminhei para a porta sem falar mais coisa alguma. — Para onde você pensa que vai?, — gritou meu pai. — Voltar para Los Angeles. Não precisa de mim para tomar uma decisão. Ou vai pagar a e ssa gente ou não vai. Para mim, não faz diferença. Além disso tenho um encontro marcado. — Para quê? — disse ele, aproximando-se de mim. — Para deflorar outra moça? Encarei-o firme. Já estava farto daquilo. — Pare com essas queixas. Afinal deveria estar contente por alguém nesta família ainda ter alguma coisa entre as pernas. Senão, Rina pode pensar que o mal é de família! O rosto dele se contorceu todo de raiva. Levantou as mãos como se fosse me bater. Abriu a boca numa careta de escárnio e então as veias da testa se estofaram de raiva . De repente, como se houvessem desligado um interruptor, toda a expressão de seu rosto desapareceu. Cambaleou, e foi caindo na minha direção. Num reflexo, estendi os braços e o segurei. Por um breve momento seus olhos de des anuviaram, voltados para mim, e os lábios se moveram. — Jonas... meu filho. Então a névoa lhe cobriu os olhos, e ele caiu com todo o peso em cima de mim escorre gando para o chão. Eu sabia que estava morto antes mesmo de Nevada correr para ele e lhe abrir a camisa. Nevada ficou ajoelhado no chão ao lado do corpo de meu pai, enquanto McAllister ch amava um médico pelo telefone. Eu estava pegando a garrafa de uísque, quando Denby a briu a porta. Ficou ali estatelado e trêmulo, com uns papéis na mão. — Meu Deus, Júnior! — exclamou, com uma voz apavorada. — Agora quem vai assinar o contra to ale-mão? Olhei para McAllister, que me fez um sinal imperceptível de aquiescência. — Eu assino — respondi, decidido. No chão, Nevada estava fechando os olhos de meu pai. Larguei a garrafa de uísque sem abrir e disse a Denby:

O médico era um homem magro e firme. porque acabariam voltando. calvo. sr. Tinha um rosto honesto. vivo. talvez ela ai nda estivesse viva. Ele não sofreu. cobrindo-o depois com um lençol. um coágulo de sangue no cérebro. Mas todo mundo em Nevada sabia tudo a respeito de Jonas Cord e família. Podem f icar tranqüilos que foi tudo muito rápido. Tudo perfeito. A garota tinh a ares de confortadora honestidade. O pai olhou para mim. e usava óculos com lentes muit o grossas. — Que coisa horrível. A pena começou a arranhar o papel. — Mande-as entrar.K. Idade: sessen ta e sete anos. ou querem uma au-tópsia? Balancei a cabeça. Eu nada disse. Muito bom para um médico que até então não conhecera nenhum de nós. Li no cabeçalho as palavras: Atestado de óbito. — Embolia está certo. Mas não. trazendo nos rostos uma expressão fixa. Foi McAllister quem fez a pergunta. Se há uma coisa que não posso tolerar é falsidade. Uma autópsia não faria nenhuma diferença. Olhei para o homem. — Você só o conheceu hoje. — Vou tomar as providências necessárias e depois mandarei as cópias. Se você não lhe tivesse dito que fizesse tudo para me pegar. — Por que está chorando? — perguntei. — Qual foi a causa? — Embolia cerebral. Aparentemente. Sobreviventes: esposa. A mãe e o pai da moça chegaram à porta. filho. Denby entrou de novo e perguntou: — O que eu faço com essas pessoas que estão aí fora? Posso mandá-las embora? Discordei. Mas desistiu da idéia. o homem parou e perguntou: — Posso consignar embolia como causa da morte. O médico voltou a escrever. sem ter força sequer para enxotar a mosca cheia de curiosidade que estav a passando da beira do lençol para o rosto coberto. Ela me contou que você já tinha até feito planos para o casamen to! . Num instante. no outro. — Quer ver se está tudo certo? Li. O médico se sentou na cadeira à minha frente. já a velha era uma harpia de nascença. que colocou em cima da mesa. olhando para o corpo coberto no sofá. Um momento depois. tomou decisão contrária e saiu sem dizer uma palavra. Então respondi em voz al ta: — Depois do que eu fiz à sua filha? Não fiz absolutamente nada que fosse contra a vont ade dela. Jonas Cord Jr. Rina Marlowe Cord. meu pai estava ali. Um ataque. Disse a ela que procurasse agarrar Jonas Cord Jr.. mas a semelhança era apenas superficial. passara a ser nada. estranha mistura de rancor e pesar. já havíamos carregado o corpo para o sofá. Cord. A mulher imediatamente começou a soluçar. Levantou o lençol. Claro que foi rápido. e ainda assim para pedir di nheiro. agora. como se quisesse demonstrar alguma expressão de pesar. Devolvi-lhe o papel: — Tudo O. Levantou-se e hesitou. cu stasse o que custasse. A filha se parecia com ela. enquanto eu me balançava na cad eira de meu pai. que coisa horrível! — disse. — Sinto muito que não nos conhecêssemos em melhores circunstâncias. Tirou uma caneta e uma folha de papel. Sua voz ficou estridente: — Como tem coragem de me falar assim? Com seu próprio pai estendido ali e depois do que fez à minha filha? Levantei-me. Pareceu-me sincero. examinou e disse: — Está morto mesmo. Ela me olhou escandalizada. — Também sinto.— E pare de me chamar de Júnior! 4 Quando o médico chegou. Pouco depois terminou e empurrou o atestado para mim.

— A primeira coisa que temos para fazer é convocar uma reunião da diretoria para elegê-l o oficialmente presidente da companhia. e perguntei a McAl-lister: — Acha que já estou livre? Ele sacudiu a cabeça negativamente. — Mas não terei mais o velho para me ajudar. — El e costumava dizer que todo homem tem seu preço. Uns preferem dinheiro. Creio que ele resolverá tudo a cont ento. Dirigiu-se dignamente para a porta. . que logo desapareceu. McAllister nada disse. com voz trêmula: — Você sabia então que ela estava grávida? — Não. Respondeu com um sorriso. outros. — Mac. — Cale-se! — exclamou. e outros. tudo oficializado e legal.. Voltou-se para mim e disse: — Desculpe. Estou com uma clientela muito gran-de. cho-rando. respondi sem hesitar: — O. Logo que ele o colocou na boca .K. Ele parou no meio da tragada. a glória. — Já não disse o bastant e? A porta se fechou depois que eles saíram. que a examinou rapidamente. Possuía noventa por cento das ações e. mul heres. — Eu só disse a ela que se fosse boazin ha. — E assim que julga que um homem honesto deva agir? — perguntou McAllister com um so rriso. Entreguei-a a McAllister. Pensei um pouco. Então continuei: — Preciso de um conselheiro. — Não se preocupe. Acha que haverá alguma dificuldade quanto a esse ponto? — Não creio. Você chegará lá — disse McAllister. de um consultor e de um advo-gado. — Por cem mil seria capaz de se mudar para Nevada? — Desde que me deixe redigir o contrato. Parece um homem honesto. — Seu pai era um homem prático. meu pai era um canalha egoísta e ambicioso que queria passar a mão em tudo que havia no mundo. Aí. a cópia estava em minha mesa. Está disponível? — Não sei se terei tempo. Nunca mais o incomodaremos. Ele mostrou interesse apenas com o olhar. Cord. abrindo a porta e empurrando-a à sua frente. Num instante. tive certeza. de acor o com o testamento. Henry. Henry. olhou-me criticamente e perguntou: — Como sabe que pode pagar tanto dinheiro? Acendi um cigarro e sorri. — Vou precisar de muita ajuda.O marido voltou-se para ela e falou. olhando sem querer para o sofá. A mulher correu atrás dele. talvez con-seguisse casar com ele. coçando pensa-tivamente o queixo. — Que lhe rende quanto? — Calculo uns sessenta mil dólares por ano. Ele mantém um arquivo de tudo o que meu pai fazia. Mas não é preciso comprar um homem honesto. e sugeri: — Então é melhor ir vê-lo amanhã no lugar onde trabalha. Henry. Jonas. — Tem alguma cópia do testamento? — Não. elas passam a ser minhas depois da morte dele. pegou a bolsa de fumo e começou a fazer um cigarro. não — respondeu a mulher. — Quero uma cópia do testamento de meu pai. Virei-me para McAllister. Foi só. O homem cerrou os lábios. nada comentou. mas Denby deve ter. com os olhos cada vez mais apertados. Tirei do bolso o maço de cigarros e lhe ofereci um. sr. Meu pai não acreditava em sócios. que ficara o tempo todo encostado à parede. amedrontada. Gostaria apenas de ser homem bastante para chegar aos pés dele. Mac. risquei um fósforo e o acendi. Mas não. — Só soube depois que você aceitou. depois foi todo eficiência. — Foi uma coisa que meu pai me ensinou — expliquei. — Mas. ele fará tudo de graça. e por um instante cheguei a pensar que fos-se bater nela . Toquei a campainha e Denby apareceu. Nevada..

— E se quiser alguma coisa de mim. Devia ser resultado da e mbolia. Apesar disso. gostasse ou não. Jake teve de concordar comigo. desde aqu ele dia na varanda. Jonas — concordou e saiu. Deixei cair o lençol e me virei. amanhã de manhã. tirou lentamente um pedaço de papel de cigar ro que lhe ficara no lábio e disse: — Acho que seu velho está descansando muito bem.. — Se acha que deve.— Está em ordem. Diga-me alguma coisa a re speito amanhã de manhã. plástico. mas ouvi seu pai dizer que era uma grande oportunidade. Já soubera. e todos na fábrica deviam estar comentando. Não sei por que. E você é um grande ator. Jake. E já ia chegando à porta. Apaguei o cigarro no cinzeiro sobre a mesa e disse: — Peça a Denby a pasta do contrato e examine-o hoje à noite. Uma expressão diferente começou a aparecer no rosto de McAllister. Aproximou-se do sofá e olhou para meu pai. Levantei-me e fui até o sofá. Jake era o gerente da fábrica. mas logo perce-bi. Era um homem g rande e pesado. Denby saiu e eu me voltei para McAllister. Era essa sua política: não discordar d o patrão. Virei-me para Denby e ele já tinha as palavras na ponta da língua: — Está tudo arquivado no cartório do juiz Haskell. peça a Denby uma lista dos outros acionistas da companhia. As ações são realmente suas. Tem relação com um novo pro-duto. Jonas. não conse-gui. pensei. Quase me havia esquecido. Quando ac abar. e é preciso acalmá-lo s um pouco. Não sei muito sobre ele. Ele me abandonara havia muito tempo. Ficou quase visivelmente satisfeito com minhas palavras. agradeci: — Muito obrigado. — Acabo de saber da triste notícia. se não me engano. Depois. — Obrigado. mal eu acabara de falar. — Há mais alguma providência que eu deva tomar. enquanto seu rosto assumia uma expressão condizente com um velório irlandês. Em voz alta. Voltei-me para Nevada e perguntei: — O que você acha? Esperou muito para responder. Ouvi Nevada perguntar às minhas c . seja lá o que for. baixando a voz. Ele se levantou. em Reno. Ele se voltou para mim. — Então telefone agora mesmo e diga-lhe para iniciar as providências legais. — Boa idéia. Os olhos estavam fechados e havia como que um ricto na boca. — Estarei lá às cinco horas. por enquanto não. Era Denby. caminhando para a porta. basta me chamar. — É uma grande perda — disse tristemente. Depois. — Seu pai era um grande homem. — Ele tentou dissimular sua decepção. Era ele quem fazia tudo andar. Tornou-se ainda mais manifesta a expressão de respeito no rosto dele.. em que me jo-gara para Nevada. Jake apareceu na porta ao lado de Denby. Estarei de pé às cinco horas. Ficam nervosos e assustados. mostrando no rosto satisfação por haver ter-minado seu número. na hora do desjejum. É bom saber que posso contar com homens como você. Jonas. — Está bem. — Já que está nisso. — Mande entrar. quando o chamei novamente. Denby. Acha que devo dizer alguma coisa ao pessoal? Sa be como são esses mexicanos e índios. Mac? — Não. mas havia dentro de mim alguma coisa que me impelia a chorar por ele. disse. Mac. A princípio não compr eendi o que era.. até no andar. — Jake Platt quer falar com o senhor. Ouvi a porta se abrir às minhas costas. Dev o pelo menos saber o nome deles antes da reunião. Mas acho que será melhor eu mesmo ir falar com eles. Jake. telefone para todos os diretores e diga que vai haver uma reunião esp ecial. Entrou no escritório de mãos estendidas. em tom confidencial: — Quase todo mundo na fábrica já sabe. — Acho que devo — respondi. Há apenas o contrato alemão. Jake. Jake Platt. Precisamos homologar isso imediatamente.. Ergui o lençol. — Está bem. Respeito. Em minha casa. Na têmpora direita um a mancha levemente azul que se perdia dentro do cabelo. antes da reunião.

. Há gente que custa a aprender. mas. o carro que meu pai usava. havia autorizado um aumento de cinco por cento nos salários de todos que aqui trabalham . De vez em qua ndo. Mas eu estou vivo e sou i gualzinho a ele ao menos numa coisa. Jake levantou as mãos pedindo silêncio. Era a primeira vez qu e eu ouvia a fábrica em completo silêncio. desde que o deixara. e continuei: — Mas eu. — Mande pintar aquilo de branco. Eu.... Depois. De repente. Meu pai morreu. algum me tocava. Já ia entrar. com Nevada ao volante. Foi ele quem abriu a porta do carro para mim. e isso me causou surpresa. É lamentável que meu pai não tivesse tido tempo de exprimir seu reconh ecimento a todos vocês. O sol ainda brilha va no céu.. meio ofuscado pela luz do dia. Em pouco tempo os operários e-mudecera m. Jake aprendeu. quando Jake me fez parar. pois tinha a impressão de que muito tempo havi a se passado. se consegue mais. eles querem logo o braço todo. Meu espanhol não era grande coisa. e é justamente disso que estou falando. Jake. Olhei-o com frieza. Comecei a falar e minha voz ecoou estranh amente pelo edifício. Entrei no carro e olhei para a fábrica. Ford provara is so ao aumentar os salários de seus empregados no ano anterior. estou aqui. Todos os olhos se voltaram para mim quando paramos no pequeno pa-tamar no alto dá escada.. Esp ero que sejam pacientes comigo. Jake. murmuran do: — Não tive essa intenção. O grande Pierce-Arrow. quando se paga mais.. E que Deus esteja com todos. bons operários. Passamos pelo corredor e chegamos à escada que dava para a fábrica. — Acho que não ouviu bem. pois preciso ir pa ra casa. estava à espera no portão da frent e. e espero continua r seu trabalho. Não adiantava explicar que. — Pois quer dizer exatamente isso. mas afastei sua mão e continuei: — Meu maior desejo é que continuem colaborando com a mesma boa vontade de antes. ainda que as lágrimas corressem dos olhos de quem não o conhecia. As manhas primeiras palavras foram Mi padre ha muert o. Quando se dá a ponta de um dedo. seu filho. senhor. A produção triplicara. Meu pai morreu. Jake puxou nervosamente meu braço. me espere no portão da entrada com o carro. Saí da fábrica e pisquei os olhos. Duas v ezes vi lágrimas nos olhos de alguém. Eu apenas. Jake? — Sim. e quem não gostar disso pode ir diretamente para o inferno! Desta vez. Jonas. senti-me muito cansado. Muito obrigad o. — Mi padre ha muerto — comecei. Jake? — Ouvi o que disse. Seu pai vivia insistindo comi go para não aumentar os salários. Desci a escada e Jake veio atrás de mim. porque tenho muito o que aprender. talvez para ter certeza de que era eu quem passava.ostas: — E ele? Nevada referia-se a meu pai. A maioria se conservou em silêncio. A sensação era fantástica. Ao menos meu pai não sairia deste mundo sem ter quem o chorasse. mas era a língua que eles compreendiam. Jonas. Recostei-me nas almofadas do carro e fechei os olhos. Não tolero conversa fiada de ninguém que trabal he para mim. Chamou-me a atenção o teto de piche que tinha visto do avião. Saí sem esperar resposta. formando u m corredor para minha pas-sagem. que se encarregará de tudo. — Por que foi dizer aquilo. Diga que quero o melh or funeral. Jake veio atrás de mim. Esperei até todas as máquinas pararem. — Sim. Jonas? Você não conhece esses bastardos como eu. por tudo que fizeram para tornar esta fábrica um sucesso. pouco antes de morrer. Talvez seja suficiente saberem que ele. — Não ouviu o que eu disse lá dentro. Olhei para o corpo estendido no sofá e disse: — Telefone para uma agência funerária. — Está vendo aquele teto. Os trabalhadores se afastaram.

Mas meu pai havi a dito que. E não odiava minha mãe. Era. se tivesse tido irmãos. Senti o calor de seus quadris emanando para dentro de mim quando recomeçamos a dança r. Só se pode ter idéia de que sejam outra c oisa à noite. Estava de olhos abertos. eu abria os olhos e via Nevada a o bservar-me pelo espelhinho retrovisor. Conheci Rina no clube. Não se odeiam os mortos. — Quero você — eu disse. Por isso é que eu a havia levado para casa. parecem garotos: o peito como uma tábua e os quadris estreitos. Os olhos dela não mudaram de expressão. Ele não era moço demais. e se assentava sobre um quei xo fino e resoluto. Isso era uma coisa que entrava pelos olhos. De vez em quando. com um leve sotaque estrangeiro que borbulhava nos ouvidos. Era gran de. Estava morto. esbelta. mas depois tornava a fechá-los como se tive sse chumbo nas pálpebras. — Eu sei. Aproximei-me dela novamente. não ria com facilidade e tinha maneiras reservadas. Estudara na Suíça. não odia va meu pai. também os odiaria. Foi uns dez dias depois. Na verdade não era minha mãe. e ela o usava comprido e preso na nuca. O que se faz é r ecordá-los. Não se podia olhar para eles sem de ixar de imaginar o sabor de leite e mel. quando vestem saias em vez de calças. tirando-o do bolso de meu paletó. como a vi pela primeira vez. porque. Tentei tocar-lhe os seios. Levantei a cabeça e olhei para ela.5 Cochilei enquanto o grande Pierce cobria os trinta quilômetros que separavam a fábri ca da nova casa de meu pai. até nas piscinas. Bastaram dois d ias para ela me fazer andar nas nuvens. dei a partida e caímos na estrada. diferente das outras garotas. Sua cabeça estava encostada no alto do banco e os olhos f echados. andam como homen s. Mas era como um poço num oásis do deserto. — Você é muito forte — disse. Entrei num pequeno bosque e desliguei o motor. que percebi o quanto a desej ava. Continuou apenas a me olhar com . Não podia ver o que se passava dentro deles. Ela ainda estava quase deitada no banco. duas semanas antes do fim das férias. O lenço mostrou um instante sua brancura dentro da noite e desapareceu na mão dela. Sua boca não aceitou nem retribuiu o beijo. Ela era do leste. afastando-a. falam como homens e até montam como eles. no baile de sábado no clube. Amava-a. e encostou o corpo ao meu. eu era moço demais. Ela me seguiu em silêncio até o automóvel. Entramos na minha grande barata Duesenberg. mas ela agarrou min ha mão. Não levantou a cabeça do encosto do banco. e tinh a ombros largos. A voz era suave e baixa. Tinha testa grande e os olhos. Tinha seios fortes. Eu mal podia ouvir-lhe a voz. A cintura era fina e florescia em quadr is e nádegas pequenos mas bem arredondados. ref letiam por trás do azul gelado um brilho interior. sem dúvida. Mas Rina era mulher. O cabelo era de um louro pálido. — Empreste-me seu lenço — disse. não falou. Talvez o único defeito fosse a boca. bronzeadas de sol. bem a-fastados e oblíquos. odeio minha mãe e. Colocando sua mão contra meu peito. Não o odiava mais. Segurei seu braço e a conduzi para fora do salão. Casou-se c om ela uma semana depois de eu haver voltado para a universidade. mas com lábios finos demais para compô-la. com dezenove anos. As garotas por aqui são morenas. fez com que eu pa rasse. cheio s. E a ela eu não odiava. O ar da noite es-tava quente no deserto. Aí não deu para agüentar mais. talvez largos demais para uma mulher. Não. O nariz reto e não muito afilado denunciava sua ascendência finlandesa. Odeio meu pai. es-pecialmente quando estava de maiô. Inclinei-me sobre ela e a beijei na boca. de um lugar de Massachusetts chamado Brookline. Queria casar com ela. na defensiva. que es-ticavam agressivamente o maiô de jérsei. Dançávamos uma valsa lenta. el a errou o passo e olhou para mim com aquele seu sorriso suave. Estava ali para quem precisasse. as luzes no salão eram fracas e azuis. e era diferente de todas que eu hav ia conhecido. De repente. não muito. Eu tinha uma madrasta. Olhei -a pelo canto dos olhos.

— Como vai. você é muito jovem ainda. não é? — Claro que não é uma dessas. sr. Olhei-a fixamente por um instante e depois liguei o motor. Meu pai fez um gesto de reprovação com a cabeça. mas ela conseguiu me m anter a distância. Virou-se para meu pai e disse: — Tudo isso é um pouco desconcertante. Porque tenho de encontrar e casar com um marido rico. Seu rosto estava pálido na escuridão. srta. quando já estava com a mão na maçaneta da porta. Ele me olhou um instante como se estivesse muito longe. papai. Ela me encarou. Tomei o caminho de ca sa. — Quer dizer que nada disse a ela ainda? — Não é preciso dizer. Suas maneiras foram exatamente as que seriam se fosse meio-dia. Marlowe? Fiquei perplexo. Exatamente esta noite. mas eu sou de opinião que ele é ai nda muito moço. disse num tom pilhérico: — Meu filho acha que quer casar-se com a senhorita. Não pensa assim também? Rina olhou para mim. mas dep ois voltaram à sua reserva ha-bitual. — Porque daqui a dois dias vou voltar para casa. Meu pai a olhou pensativamente. não acha que deve perguntar a ela? Fui buscar Rina e levei-a para o escritório. — Foi só o que disse. como se eu fosse algum empregado que o houves-se interrompido no meio de um problema. indo para a porta. De-pois tirou o cigarro de minha boca e o colocou entre os lábios. senti uma dor aguda vinda da base da espinha e quas e dei um pulo do banco. Ainda segurando a mão dela. Era a primeira vez que eu o chamava assim. Cord. desde meus tempos de ga-rotinho. Porque na quebra da Bolsa em 1923 meu pai ficou arruinado. — Mas não se esqueça de que eu vim falar sobre i sso com você. Nada disse. Nada disso. esta é Rina Marlowe. ela nem sabe que estou aqui pedind o seu consentimento. — Espere um pouco — ele me interrompeu. Eu era rico. Ela me devolveu o cigarro. — Estou falando sério. ele e stava trabalhando sentado à mesa com um abajur a iluminar os papéis. Percebi seus dedos se mexendo e tentei aproximar-me dela. — Quando foi que resolveu? — Esta noite. Pai. — Você está louco — disse sem qualquer emoção na voz. Deixei Rina na sala de espera e fui até o escritório de meu pai. — Não. Liguei o interruptor da parede e a sala ficou inundada de luz. e fez que não com a cabeça. e não duas horas da madrugada. — Ainda desejo você — disse eu. — Deve ser uma dessas meninas tolas que aparecem no clube e está agora toda nervosa na expectativa de conhecer o velho. ela amassou o lenço nu ma pequena bola e o jogou para longe do carro. Como de hábito. Quer fazer o favor de me levar para casa? . na sala de espera. — Vá dormir e me deixe trabalhar. — Quero casar. Havia no rosto dele uma expressão curiosa que eu n unca havia visto. Sei qual vai ser a resposta. Enquanto isso. — O nde está ela? — Aí fora. Rina cumprimentou-o polidamente. — Sim? — disse ele.aqueles olhos impenetráveis. levantando-se. Para dizer a verdade. — Ao menos por formalidade. mas tinha a solução para ela. Não posso permitir que nada atrapa-lhe isso. Ou algum dia seria. — Está bem. Saiu de trás da mesa e estendeu a mão para ela. pai — falei. meu pai. — Por quê? — perguntei. De repente. Não lhe passou pela cab perguntar quem era. como ou por quê. Acendi um cigarro. Minhas mãos estavam trêmulas. Mas não tar-dou a saltar d e onde estava. Notei que seus olhos tiveram um instante de fulgor. Nunca o vira tratar assim nenhum dos meus conhecidos. — Rina.

Jonas. Devia ter uma espécie de sexto sentido no cumprimento de seus deveres. — Você é que é o idiota. Alguém me sacudia levemente. — Alô. de Nova Orleans. Cord não estava. aquela grande casa estranha. O sr. — Já sei. Robair. Estamos no Waldorf-Astoria. Houve um leve rumor do lado de fora da porta. como tudo mais que meu pai havia feito. Acredito não ter passado mais de duas semanas ao todo nela desde que me u pai a construiu. fechou a port a depois de entrarmos. Com o rosto impassível. — Alô. Mas então a voz dele mudou e se tornou pe sada e cheia de intenções. Continuei. E agora era minha. Infalível. — Calculei que o senhor mesmo quisesse dar a triste notícia — disse ele. Denby que a sra. uma cabeça mais alto que eu. Disse ao sr. Corri para a porta. fazendo força para afastar o sono. — E as outras pessoas sabem? — Não. e nada contei aos outros emprega dos. O pai e o avô dele haviam sido mordomos e. tão polido e eficiente quanto grande. Insistiu até na assinatura de u m contrato de bens antes do ca-samento. como que paralisado. não um menino. — Não sabe que ela só se casou com você pelo dinhei ro? Meu pai não se zangou. Robair era um mordomo negro inteiramente de acordo com a tr adição. — Ah. Seguiu-me em silêncio até o escritório de meu pai. Colocou-se ao lado da porta para dar-me passagem. Robair. recebi na universidade o seguinte telegrama de meu pai: Rina e eu casados esta manhã. Pisquei os olhos. Abri pouco a pouco os olhos e a primeira coisa que vi foi a cara de Nevada. abrindo de um a vez a porta. — Agora. Não pude dormir naquela noite. Duas semanas depois. 6 A porta da frente se abriu quando eu estava atravessando a varanda. estava sempre presente quando se precisava dele. Ela queria um homem. Robair continuou a falar ao mesmo tempo que caminhava rapidamente para a porta. Nova Ior-que. Arrebentei-o de encontro à parede. O finzinho do sol estava desaparecendo por trás da grande casa. vi meu pai tomar-lhe o braço e sair da sala com ela. Meu pai mand ara fazer uma casa no estilo das fazendas do sul. A c ada momento via imagens pornográficas de Rina e meu pai em grosseiras lascívias. apesar de ex-escravos. é? Quem foi que minutou o contrato? O advogado dela? — Não. sr.Atordoado. Peguei o telefone e liguei para ele. Era a primeira vez que me chamava de "sr. Era um homem gigantesco. Procurei alguma coisa na sala para descarregar minha raiva. Aco rdei várias vezes suando frio. E eu ia contar a ela. Só consegui enxergar o a-bajur em cima da mesa. Aqui já é meia-noite e estou indo para a cama. rindo novamente. Cord" em vez de ''Júnior''. ai nda segurando o telefone na mão algum tempo mais. Chegou até a rir. e para dirigi-la trouxera Roba ir. — Não existe um idiota mais idiota que um velho idiota! — gritei através dos cinco mil q uilômetros de fios estendidos entre nós. menos nisso: meu pai estava mort o. Acompanhe-me. Rina havia pensado em tudo. haviam i ncutido nele o orgulho do seu trabalho. Olhei para ele. Embarcamos amanhã no Leviathan em viagem de lua-de-mel pela Europa. em seu suave inglês sulista. Cord — disse. Ele desligou o telefone sem mais uma palavra. U m instante depois ouvi o ronco do motor da Deusenberg. o meu — disse meu pai. sem poder falar. . Denby telefonou. Estamos em casa. — Acorde. vá tratar dos seus estudos e não se meta com o que não é a sua conta. — Meu pai morreu.

seus olhos ainda mostrando surpresa. Era toda ouro e brancura e cintilava com a água que lhe corria pelo corpo. Louise desceu a escada com hesitação. — Pronto. Robair aproximou dele um fósforo aceso. Não houve resposta. Bati de leve à porta de Rina. Jonas? — disse ela. Peguei a toalha e aproximei-me dela. Abri-a e entrei. Voltei-me para ele. Ela não. Robair me mostrou como fazia os empregados andarem na linha. Cord está no quarto — disse Robair às minhas costas. mas a voz dele me fez parar. Jonas! Ainda hoje de manhã. deu-me uma pequena toalha. — Obrigado. Cord. — Venha cá — ordenou ele. Seu rosto era uma impenetrável máscara. Robair. a que horas devo servir o jantar? — Às oito horas — respondi. sentando-se diante da penteadeira. Embrulhou-se habilmente e saiu da banheira. após pensar um momento. Depois conversaremos. Sent i-lhe o perfume. pude ver-lhe no rosto uma expre ssão de terror. Dirigi-me para o banheiro e apanhei uma toalha grande na pilha que estava na pra teleira acima da penteadeira. mas com o tom enérgico da au-toridade. curiosamente. Robair. Vou subir e dar-lhe a notícia. mas. m as essa moça é um pouco rebelde. e vi que seu rosto de repente ficou muito sério. — Onde está Louise? — perguntou. sr. Ouvi a voz dela n o banheiro. — Sr. — Está muito bem. Seus gestos eram quase preguiçosos. — Lá embaixo. mal o levei à boca. preciso de Louise. Um vulto subia correndo pela longa esc adaria que se curvava do vestíbulo para o andar de cima. Ela nada falou. — Louise! — disse Robair em voz baixa. — Quer fazer o favor de enxugar-me as costas. — Houve alguma coisa entre você e seu pai. surpresa. Olhou-me pelo espelho. Robair. Ele saiu e eu o segui. — Pare com isso. — Ele nunca saberá. senhor. Ficou com a mão no rosto. — Como é que sabe que não contarei a ele? — Não contará. — Peço-lhe desculpas por ela. Não creio que ela vá ficar muito tempo co-nosco. Jonas? Ela me olhou um instante. Ela se virou para mim. Peguei um cigarro e. Como vê. Cord. Ela saiu correndo e Robair se virou para mim. sorrindo. Em geral. Comecei a subir a escada. Dei-lhe um beijo na nuca. seu pai disse que você era um maníaco sexua . — Aí eu não al canço. Começou a enxugar o rosto com outra toalha e disse: — Seu pai não vai gostar disso. Ficou u m momento ali a olhar-me. Estendeu a mão para pegar a toalha. meu pessoal não faz dessas coisas. traga-me uma toalha. Olhei para a escadaria e.Não havia ninguém ali. Era a criada pessoal de Rina. mas a mão dele encontrou o rosto de Louise com a força de um tiro de pistola. Pela primeira vez. — Louise. Muitas outras mulheres teriam tentado cobrir a nudez. confirmada pela voz insegura e medrosa. sr. Levei-a para o compartimento onde ficava a banheir a no momento em que ela fazia deslizar a porta de vidro. — Vá para a cozinha. hesitei. — A sra. Ela deixou a grande toalha de banho escorre gar-lhe dos ombros. Enxuguei as gotas de água que havia em sua pele perfeita. como eu nada disse. Robair colocou cuidadosamente o fósforo num cinzeiro e disse: — Sim. com a voz che ia de desprezo. ainda forte. enquanto as lágrimas lhe rolavam dos olhos . O vulto parou. devi-do ao calor do banho. espantada. Foi então que ela começou a sentir que havia alguma coisa. De mais perto. — Quantas vezes já lhe disse que não escutasse atrás das portas? — censurou.

— Não. Com a outra mão. — Espere! Por favor. Talvez eu estivesse errado. Mas você esco lheu meu pai porque representava um rendimento mais rápido para você. Quando voltou a abri-los. Ele. a toalha estava esquec ida no chão. Eu e você. mas senti que havia nela um calor subindo ao meu enc ontro. Robair está na a com todo mundo. Ela virou-se para fugir. Rina. Olhei-a fixamente e pude ver medo em seus olhos. a Rina distante. ela me arranha va o rosto e me dava murros no peito. — Não sei por quê. e que eu que ria desmontar. Perguntei: — Não? — Vou dar gritos e os criados virão correndo! — gritou com voz rouca. uma compaixão de que eu nunca a julgara capaz. inatingível. grande e forte. Esse assunto era seu campo de luta predi-leto. afastou-se raivosamente de mim. — Fico satisfeita. — Talvez ele tivesse razão. Olhou para mim com os olhos enxutos. segurei seu cabelo e virei a ca beça dela até olhar para mim. E acho que esp erei demais! Ela me encarou. — Sra. e só virá alguém se eu chamar. por acaso. Era aquela a Rina habitual. A toalha caiu ainda mais e só ficou presa pela pressão dos nossos corpos. sem medo. mas eu a agarrei pelo braço e puxei-a. seu marido morreu.. Ela me mordeu a mão e procurou fugir. firme e for te. arranquei a toalha de cima dela. no outro. — disse eu. — Você não se atreveria! Como única resposta. Os olhos se arregalaram um instante. e eu sorri. espere! Ao menos por seu pai. a rugir como um leão. Um derrame cerebral. — Acho que agora tem o dever de retirar-se.l. Trouxe-a para casa uma noite porque queria você. e ela se deixou cair no banco da penteadeir a. — Que ele tenha morrido o u que você errou quando se casou com ele e não comigo? Acho que não me ouviu. Fiquei um instante parado e então deixei a pressão que me enchia os pulmões escapar nu m lento suspiro. Estava segura de si mesma. Rina? — perguntei cruelmente. — Ele nunca mais entrará por aquela porta. — Está louco? — exclamou ela. Agora. Prendi-lhe as coxas com um joelho e bati-lhe com raiva no rosto. Era o medo de qualquer pessoa q ue tem de enfrentar um futuro incerto. calculista. Num ato reflexo. Colou a boca na minha. Você não precisa provar isso. estava ele ali. enquanto a cor lhe fugia aos poucos do rosto . eles não virão. — O que falta para acabar? — Muita coisa. Ou talvez tivesse se esquecido do que é ser moço. esperou por mim? Agarrei-a e carreguei-a para o quarto. Ela tentou rolar para o ou tro lado.. Ela fechou os olhos um instante. Foi rápido. Ela caiu sobre o travesseiro e notei no rosto as marcas da minha mão. e havia neles uma turbulência que era coisa inteiramente nova para mim. — Bem sabe que a qualquer minuto ele poderá entrar por aquela porta. apanhou a toalha e se embrulhou de novo. — Não posso acreditar — murmurou ela. Pensarão apenas que você está dando expansão à sua dor. Cobri-lhe a boca com a minha e agarrei-lhe o seio. Não havia o menor receio em seus olhos. Joguei-a na cama. e eu sentia o coração bater apressadamente por baixo dele. com o peito ofegante. mas cheios de uma tris teza. Era duro. estavam nebulosos. — Sofreu muito? — Não. dando um estalo com os dedos. Ainda não acabei. Neste minuto. e . Cord. puxando-me para cima dela. Com as mãos e com os punhos. Não queria que sofresse. Puxei-a para mim. Segurei-a pelos ombros e a fiz virar-se. Levantou-se lentamente e o habitual véu protetor caiu-lhe de novo sobre os olhos. — Não. Sorriu e pas -sou-me os braços pelo pescoço. por cima da colcha de cetim branco. Rina. De repente. — Em que é que não pode acreditar. — Foi dess e jeito. — Que quer dizer com isso? — balbuciou.

Tome conta dele. É seu pai que está chamando. pois a distância entre nós era grande. Tive vontade de gritar: "Não vá emb . Ainda que eu não enxergasse. O pânico da fuga me dominara. ele me amava. — Agora mesmo! Não posso mais esp erar. fui ganhando di stância. Correu os dedos pelo meu corpo e encontrou minha parte mais sensível. atravessada em seu peito. Seus braços e pernas retesaram-se em volta de mim. seus olhos nos meus. parei e fiquei obse rvando sua silhueta. Já esperei demais. continuou: — Mas você me fará um filho. enquanto seus movimentos se tornavam cada vez mais frenéticos.. O paletó estava aberto. Rindo. as ab as voavam ao vento. Me amava. Meu pai. — Sim. Ele tinha receio de que alguém tirasse alguma coisa do que era seu! — Como. numerosas lágrimas banhavam meu rosto.. Olhei para trás de novo. Ela se movia por baixo de mim. Jonas! Engravide-me como fez com aquelas três moças de Los Angeles. Jonas — ela disse ainda sorrindo. Jonas? Só nós dois saberemos. aos pés dela. Ela sorriu. E você dividirá a fortuna c u filho. — Seu pai não quis corr er nenhum risco. porém não sabia demonstrar isso. Enquanto caminhava pelo corredor até o meu quarto. — Engravide-me. — Tome conta dele. sim. — Engravide-me. mas ela moveu as pernas. Levantei-me em silêncio e saí do quarto. Foi por isso que me fez assinar aquele acordo antes do casament o. Jonas. Que espécie de filho é você? Não respondi e continuei a tocar o cavalo. Nevada. ainda que o resto do mundo acredite que ele seja de seu pai. que eu não tenho tempo. mas ela não pôde esperar que eu tirasse a roupa. mas ela era como um poço sem fundo no qual eu mergulhava cada vez mais. Olhei para trás. Num deses pero súbito. como se tivesse surgido do ar. Nevada apareceu a meu lado. Meu pai vinha no meu encalço no grande cavalo-malhado. Virou o rost o no travesseiro. Jonas. De rrame toda sua vitalidade dentro de mim! Vi que seus olhos estavam límpidos e claros. mas não sabia do que estava fugindo. triunfante. procurando e exigindo minha vitalidade. Rina havia voltado a cabeça para o travesseiro e estava chorando. 7 Eu estava sobre o cavalinho índio malhado que tinha aos dez anos e galopava alucin adamente pelas dunas do deserto. Jonas! — disse ela. desprendi-me dela no momento exato em que perdia as forças. Afinal. ressoante e fantástica nas asas do vento. então. — Venha. A agonia passou e abri os olhos. Olhou-me calmo e disse em voz baixa: — Volte. Caí es-tendid o na cama. não é. Puxou-me a cab eça de encontro ao seu pescoço. M al lhe ouvia o desesperado e urgente murmúrio: — Depressa. A grossa corrente do relógio pendia. De repente. prendendo-me de alguma maneira mist eriosa. Percebendo isso. Estava cada vez mais longe. fez o cavalo parar e parecia muito triste. Puxou-me e me c olocou dentro dela. como se gozassem uma espécie de irônica v itória. ele viro u seu cavalo e começou a afastar-se a galope. Queria tudo para seu precioso filho! Tentei levantar-me. Não refletiam de modo algum a paixão do corpo que estava embaixo de mim. respirando em minha boca. seu corpo a devorar-me. Ouvia-lhe a voz. Pouco a pouco. Meu pai tratava com carinho tudo o que me dizia respeito. Jonas! Que diabo! Volte! Virei a cabeça e esporeei ainda mais o cavalinho. não me saíam da cabeça as palavras de Rina. no seu gr ande cavalo preto.eu senti o corpo dela agitar-se sob o meu. Assim que cheguei ao meu quarto. Tive a impressão de haver entrado num braseiro. Faça o que seu pai nunca quis fazer. — Volte. Bati tanto nele com a chibata qu e comecei a ver marcas vermelhas de sangue no pêlo. Ouvi a voz dele muito fraca. Jonas! Depressa! Fiz menção de levantar. como?! — murmurei.

Aquele era o remédio de que eu precisava para sacudir a sensação de vazio no peito e t irar o gosto amargo da boca. Mac ainda me olhava fixamente com o mesmo ar de admiração e surpresa quando me sente i na cadeira ao lado dele. não é? — Exatamente. vários empregados da propriedade estavam encostados à cerca vendo um homem que tentava amansar um potro baio. — Consegui outro empréstimo no Pioneer National Trust Bank de Los Angeles. e eu sei que ele não iria chamá-lo apenas pa ra resolver o caso com os pais da moça. espalhando alguns pa péis em cima da mesa. Segui pelo corredor na direção da escadaria dos fundos. Ele poderia fazer isso sozinho. Sentei no primeiro degrau da escada e Robair colocou a bandeja ao meu lado. — Bom dia. Jonas. — Quanto valem essas ações. Minha pergunta seguinte colheu McAllister de surpresa. pai!" Mas as palavras me morreram na garganta. E você aceit ou o emprego que lhe ofereci. Sacudi a cabeça para dissipar os úl-timos vestígios d o sonho. Peguei uma torrada. Vesti uma velha calça jeans e uma camisa azul. Robair. Hesitei um instante. Ò vazio er a no estômago. O curral ficaria para depois. Apaguei demoradamente o cigarro no cinzeiro. Ele começou a sorrir. Olhou-me sem surpresa. um por cento para Eugene Denby. O sol já brilhava às cinco horas e lançava uma longa sombra matinal. Tomei o café. — Isso me dá o dinheiro de que preciso para comprar as ações da minoria. banhado em suor. acho que falará melhor com o estômago cheio. Pegu ei o copo de suco de laranja e tomei-o de um gole. — Quer dizer que isso me deixa um pouco desprovido. dando meia-volta para descer pela escadaria da frente. Acendeu um cigarro e continuou: — Desde que acabou a guerra. Mac? — Na base dos dividendos médios dos últimos cinco anos. — Bom dia. N o curral. Robair — disse. Acendi maquinalmente um cigarro. está pensando que eu fiz alguma coisa? — Você estava ontem no escritório de meu pai. — Os dez por cento de ações da minoria estão assim divididos disse. dois por cento cada um para o juiz Samuel Haskell e Peter Commack. e saí co rrendo do quarto. — O sr. mesmo que tenha reparado nos meus trajes. — Ótimo — disse eu. sessenta mil dólares — disse ele. — Obrigado. — Sr. — Por quê? — Não há em tempo de paz a mesma procura que havia pelo produto durante a guerra. as ações da minoria valem quarenta e cinco mil dóla-res. Mac. para Rina Cord e Nevada Smith . olhando-me como se eu fosse um adivinho. E qual a solução que você encontrou? — Como assim? — perguntou ele. Jonas. A luz do sol me fez piscar os olhos.ora. — Por que. . Pedi trez entos mil dólares para ter uma margem de segurança. Eu tinha coisas mais importan tes para fazer. e estava desaparecendo. sr. entrava o tropel dos cavalos no curral que ficava n os fundos da casa. trazendo uma bandeja com um copo de suco de laranja e um bule fumegante de café. Isso quer dizer que tinha certeza de conseguir o d i-nheiro. na base do seu valor nominal. se vai tratar de negócios. Pela janela aberta. — O banco de Commack recusou o empréstimo de duzentos mil dólares que seu pai queria p ara financiar o contrato alemão que você assinou ontem. Ent rou diretamente no assunto. não fez nenhum comentário. — Dois e meio por cento cada um. presidente do Banco Industrial de Reno. McAllister está aí e quer falar com o senhor! Está no escritório. — Muito bem. Robair tinha razão. Robair serviu o café e levantou a tampa que cobria um prato de torradas. No meio da escada encontrei Robair. pensando que talvez não pudesse pagar-lhe os cem mil dólares por ano que havia combinado. — Diga-me o que não sei. Sentei na cama. McAllister. Cheguei à janela. os dividendos da com panhia vêm caindo.

neste caso. Parece que a primeira coisa que temos a fazer é elege r um novo presidente. — As ações foram deixadas para você aí no testamento de seu pai. Em seguida. Matéria plástica. não é? 8 Robair serviu um desjejum no estilo rural: bife. rapaz. Tomei o café e le-vantei-me. tudo certo. Só para apoiá-lo. Depoi s de serem retirados os últimos pratos. Nevada preparava tranqüilamente um de seus cigarros. — Têm alguma sugestão a fazer. Analisei as pessoas em torno da mesa. Está aberta a reunião dos acioni stas. — Pensava uma coisa ontem — disse eu. to-mando notas nu m bloco. radiante. — Pode ficar descansado que faremos tudo o que for certo. tirando do bolso um papel. Foi por isso que lhes pedi que viessem aqui hoje de manhã. Alguém que se dedique à companhia como meu pai.. depressa demais: — Subscrevo a apresentação. Peguei o testamento e continuei: — Então.— Agora. Olhou para mim com u ma expressão sorridente. — A apresentação do nome do juiz Haskell está anotada. Pela primeira vez naquela manhã. Denby estava numa ponta. que me entregou. depois de uma noite de sono. Commack.. Commack sorriu. voltei-me para o juiz. ao me ver de repente com as responsabilidades de uma grande companhia como a Cord Exp losives. Ao seu lado. — Tem alguma? — perguntou Commack. ovos e biscoitos quentes. — É uma boa idéia — disse eu. E. sr. sei que não preciso dizer-lhes o choque que levei. cavalheiros? — perguntei. e acrescentei : — Caso eu já possa votar com as minhas ações. Haskell. Consta da ordem do dia a eleição de um presidente e tesoureiro da companhia pa ra substituir o falecido Jonas Cord. A voz estridente de Commack fez-se ouvir do outro lado da mesa. Não era preciso que me dissessem quem eram os meus amigos. Haskell e Commack estavam calado s. meu rapaz. cavalheiros? Denby então falou pela primeira vez: — De acordo com os estatutos da companhia. Olhei para Nevada. para me ajudar em a resolver o que for melhor para a companhia. — Senhores — disse eu —. Esperei que o silêncio se tornasse pesado. — Mas hoje de manhã. ontem. Commack e Denby mostraram fisionomias sa tisfeitas. — Façamos então uma reunião dos acionistas — disse Commack. cheguei à conclusão de que o encargo é muito duro para quem tem apenas a minha experiênc ia. Com¬mack fez uso da palavra: — Está demonstrando muito bom senso. o presidente só pode ser eleito numa reun ião dos acionistas. A reunião da diretoria está encerrada. mas creio que poderia aceitar o cargo para ajudá-lo. — Apresento o nome do juiz Samuel Haskell. — A maioria das ações está repres a aqui. — Aceita? — perguntei ao juiz. — Só para apoiá-lo. meu rapaz — disse o juiz. — Claro que pode. Denby disse então depressa. Sorri também para ele e voltei-me para os outros: — Vamos então submeter o caso à votação. cujo sorriso era ainda maior. sorrindo. diga-me tudo o que pôde apurar sobre esse produto novo em que meu pai estav a tão interessado. só pela maioria das ações válidas. Que tal o juiz Haskell aqui? Já está aposent ado da magistratura. McAllister. saiu discretamente e fechou as grandes por tas da sala. Tudo já é legalmente seu. — Muito obrigado. Trocaram rápi-dos olhares. meu rapaz. E eu já reque ri hoje de manhã a execução testamentária. Há mais alguma apresentação antes que e passe à votação? Nevada levantou-se e disse com sua voz arrastada: — Apresento o nome de Jonas Cord Júnior. .

— Sei disso. Olhou-me pe lo espelho. Perguntei-lhe. — Eu sei. A roupa de baixo era preta também. onde McAllister e eu estávamos tra-balhando. — Com que dinheiro? — Arranje. Fiquei de pé. Prendi minha respiração. — Pretendo sair desta casa logo depois do enterro — disse ela. Pode sair e espere lá embaixo. Mas não foi para isso que me mandou chamar. espreguiçando-me. Rina gostaria de conversar com o senhor nos aposentos dela. juiz. Pronto. Estava sentada à frente de u m espelho e Louise lhe passava uma grande escova branca pelo cabelo. e a prime ira coisa que fiz foi demitir Denby. — Não valem absolutamente isso! Comprei o dobro hoje por vinte e cinco mil! — Escute. cujo rost o estava branco. Robair? — A sra. — Subscrevo a apresentação — disse o juiz com voz bem fraca. Aquela história de ficar sentado a uma mesa metade do dia era a coisa mais dura que eu já havia feito. friamente. com ou sem te stamento. sim. pergunte ao seu amigo advogado lá embaixo! — Você já se certificou de tudo. Robair abriu a porta e eu subi para o quarto de Rina. O négligé preto esvoaçava em torno dela. De acordo com as leis do Estado de Nevada. Que aconteceria então aos seus planos? Se não acredita em mim . Robair chegou ao escritório. Ela parecia saber muito bem o que estava fazendo. A companhia também não. ainda que não pudesse. Bem sabia que eles estavam nas minhas mãos. — Acho muito de viúva alegre. Comprei as ações deles por vinte e cinco mil dólares. que eu não demoro. estou disposta a ser razoável. — Quê?! Não vale mais de cinqüenta e cinco mil. Ele a deixou para você. Poderia contestar o testamento com a maior facilidade. Eu devia ter adivinhado que o velho bastardo não deixaria de tramar alguma vingança. — O que acha dos meus trajes de viúva? — perguntou. você ficaria atrapalhado em tudo pela ação judicial em curso nos tribunais. sorrindo. Seu pai sempre arranjava dinheiro para as coisas que queria.Sorri para ele. Depois que a empregada saiu. — Estou sendo sua amiga. Queria era uma secretári a. — Quer falar comigo? — perguntei. Jonas — disse ela. foi fácil. Aceitarei cinqüenta mil no dia seg uinte ao enterro e mais um compromisso escrito seu. Chamarei quando precisa r de você. Daí por diante. Escute. agradeci e disse com voz dura e firme. — Está certo. E. Vou subir. para Denby. cau-telosamente : — Quanto quer? — Cem mil dólares. acen-dendo um cigarro . Olhou para Commack e. depois. tenho direito à terça parte do espólio de seu pai. friamente. — O que você quer comigo? Rina levantou-se. — Que é. Não queria como secretário aquele sujeitinho pedante e falso. olhando para o juiz: — Alguém subscreve a indicação? O juiz ficou muito vermelho. voltou-se para mim. Louise. — Mas não tenho tanto dinheiro. d urante uns cinco anos. — Quero que me compre a casa. — Ela tem o hábito de espiar pela fechadura. McAllister olhou para mim e eu lhe disse: — Espere. fechando a porta. — Muito obrigado. — Para quê? A casa é sua. Mas venderei por esse preço alguma coisa mais: as minhas ações da Cord Explosi ves. — Quero. Rina? — Claro que sim! O juiz Haskell me telefonou logo que saiu daqui. — Alguém subscreve a indicação? — repeti. — Eu sei — disse eu. com a responsabilidade da co . sorrindo.

Acendeu-o e. — Muito prazer em conhecê-lo. — disse eu. — Estive. — Tinha leve sotaque italiano. então não sei que o que é bom custa caro? A secretária apareceu na porta. Cord. respeitosamente. Cord. — Vamos descer e falarei com McAllister para preparar os papéis. Moroni sorriu. Pelo que sei. — Um bom banqueiro faz empréstimos às companhias. Olhei para McAllister. estava um homem pequeno. o primeiro dever de quem faz um empréstimo? — Conseguir um lucro com o empréstimo. Moroni está à sua espera. — De fato era. — O. mas sem perder de vista os homens qu e as dirigem. Moroni. Entramos e fomos direto para os es-critórios da gerência. e entra mos na sala de espera. nos fu ndos. e o aperto foi forte.. — Sr. sr.m-panhia de pagar dez mil dólares por ano durante cinco anos. Uma secretária nos recebeu. Era mão dura.K. minha experiência é limitada. Apontou-nos as cadeiras em frente à mesa e nos sentamos. Moroni. calejada. Cord. acho que o empréstimo ia ser feito à Cord Explosives. — Meus pêsames pela perda que sofreu. Moroni. Recostou-se na cadeira e tirou um charuto. McAllister? Pensávamos que estivesse em Nevada. — Deve compreender que isso altera muito a situação.. sorrindo para nós. McAllister entrou logo no assunto. Quando terminou. isso eu não posso fazer. — Sr. Eu não precisava de advogado para saber que ela fora bem industriada. e não a quem o empresta. não a meu pai. na sua maioria passados longe de um escritório. o sr. Levantou-se logo que entramos. Moroni se curvou sobre a mesa e olhou para mim. McAl lister com o senhor. Ele tem muito o hábito de sair do escritório sem me dizer — disse ela. dirigindo-me para a porta. — É uma secretária como essa que eu quero. na sua opinião. Sentado a uma enorme escrivaninha do tipo secretária bem no meio d a sala. sr. Cr eio que esse ponto foi satisfatoriamente resolvido nos entendimentos do sr. através de uma nuvem de fumaça. O sr. mas sempre pensei que o primeiro cuidado d e um bom banqueiro fosse conseguir garantias suficientes para seus empréstimos. Po r menos ninguém consegue. — Estou me referindo a quem toma o dinheiro. me disse: — Sr. Era uma sala ampla e com as paredes forradas de l ambris escuros. desaparecendo por outra porta. sr. Não foi uma mão macia de banqueiro que senti. Moroni — disse McAllister —. — Não. seu pai era um homem fora do com um. — Sem querer entrar em discussão. Você acharia decente a viúva de Jonas Cord descer para tratar de negócios? Quando os pa-péis estiverem prontos. Moroni sorriu. — Uma moça como essa ganha no mínimo de setenta e cinco a oitenta dólares por semana. — Sr. Segui-o até o escritório do homem. Moroni está? — Vou verificar. McAllister me conduziu a uma porta onde estava marcado PARTICULAR. Tem cabeça e ainda por cima dois seios lindos . este é Jonas Cord. 9 Eram cinco horas da tarde quando saltamos do táxi diante do edifício do banco no cen tro de Los Angeles. de ca-belo grisalho e olhos vivos. — Ora. — Por quê? — Porque estou de luto. McAllister. nem a mim. mande-os subir. — O prazer é meu — disse eu. qual é. Aquela mão representava muitos anos de trabalho. — Sr. sr. . Moroni me estendeu a mão. Mac.

. sr. sr. sr. — Que sabe sobre plásticos? — Muito pouco. não vejo por que iria tomar o empréstimo. sr. ac ba-mos de dar-lhe um bocado de dinheiro. — E como espera conseguir esses lucros? Conhece bem a sua indústria. E eu quero aproveitar-me delas. daqui a um mês. Ora. se houver alguma coisa no caminho. Cord? — Não tão bem quanto deveria. E não tão bem quanto. Logo que resolver as coisas mais urgentes aqui. — Afinal de contas. pr etendo passar dois ou três meses na Alemanha para aprender tudo que for possível sob re plásticos. poderá cancelar o pagamento do cheque. com um sorriso: — Vai notar que. Ambos riram. Há nele certos elementos de especulação que talvez não sejam boa praxe bancária. Sorri para ele. Ha-verá oportunidades de ganhar dinheiro com as quai s nem se sonhava no tempo de meu pai. Mo roni. — Em parte — disse eu. — Mais uma vez muito obrigado. — Não se preocupe. com visível preocupação. sr. mas temos de voltar para Nevada esta noite. Mas.. Aqu ele Moroni tinha o instinto de jogador. mas este banco se fez com empréstimos dessa natureza. assim que chegamos à sala de espera. alguns dólares representam a diferença entre a vitória e o fracas-so. Moroni. é não limitar muito o crédito de meus clientes a suas necessidades imediatas e previstas. sr. Estaremos em cas a por volta das nove horas. — Tudo ficará nas mãos do sr. o pilot o que perdera o avião para mim no jogo de dados. mas estou resolvido a conceder-lhe o emprésti-mo. — Creio que se refere ao novo produto que adquiriu com o contrato alemão. — E quem dirigirá a companhia durante sua ausência? Muita coisa pode acontecer em três m eses. mas. sr. Minha esperança é fazer muito dinheiro. Desculpe a pressa. Um ar de respeito transpareceu no rosto do banqueiro. Em seguida. sem dúvida. sr. . Moroni. — Muito obrigado. Moroni — disse eu. — Convém voar baixo. E também porque o senhor se mostrou disposto a nos emprestar o dinheiro para adquirir esses direitos. Moroni. Cord? — Porque as companhias Du Pont e Eastman estão interessadas em adquirir os direitos americanos. — Traga o contrato do empréstimo Cord e o cheque. passando o cheque às minhas mãos . Então levantei. Notei sinais de nervosismo na fisionomia de McAllister. o contrato amplia o seu crédito até o limite de quinhentos mil dólares. para nós dois — disse. — Boa sorte — ele nos desejou. Um dos meus princípios no negócio de bancos.— Sei a que o senhor está se referindo. — O avião é tão seguro quanto um automóvel. a conhecerei daq ui a uma semana. Fomos o pr imeiro banco que emprestou dinheiro aos homens de cinema. Um homem que estava ali sentado levantou-se lentamente. — Obrigado. Moroni. — Sr. — Então por que tem tanta certeza de que isso tenha algum valor. sr. — Esta noite? Mas só haverá trens amanhã!? — Tenho um avião. McAllister. Cord. e qualquer coisa pela qual essas companhias se interessem deve ter s eu valor. e não há nada que cheire m ais a especulação. sr. sr. Mas já sei que o amanhã vem chegando e um novo mundo vai surgindo. Moroni — disse eu. embora só tivesse pensado nisso der pois de ele haver falado. talvez os diretores do banco não concordem comigo. Às vezes. eu gostei daquele homem. Cord — disse Moroni. Cord. de longe. Moroni. Um jogador de dados reconhece outro. Ele já aceitou entrar para a companhia. Apertamos as mãos e Moroni nos levou até a porta. embora o empréstimo seja de trezentos mil dólares. ass inando o contrato. Ele pegou o telefone de cima da escrivaninha. Era Buzz Dalton. daqui a um ano. preferiu ficar calado. Foi nele que viemos para Los Angeles. rindo. — Tenho certeza de que vai conseguir — retrucou Moroni. para s eu mérito. se eu não tivesse certeza de conseguir lucros com o di-nheiro que me vai emprestar. Peguei o cheque e passei-o a McAllister sem olhá-lo. sr.

Algumas pessoas choravam. então o melhor é dar uma boa margem para ter maiores possibilidades de êx ito. senti na cabeça um curioso vazio. Buzz. e a igrejinha ficou lotada até o tet o. — Tem o contrato aí? — Claro que sim — disse ele. — E é. Até o governador compareceu. — Que diabos está fazendo aq ui? — Atrás de um pouco de grana. E que eu também nunca mais calçaria. Cinqüenta por cento das ações de sua companhia e um penhor mercantil sobre seus aviõe s para amortização dentro de doze meses. — Que foi? — É mau negócio emprestar dinheiro a alguém na conta exata. Jonas. quer dizer. sr. Estavam fechando o caixão de meu pai. os cabelos louros escondidos dentro do véu. mas acontece que aprendi uma coisa importante hoje. porque não co nsigo o dinheiro para comprar os três aviões de que preciso. Vinte mil para os aviões e cinco mil para mantê-los no ar a té receber o primeiro cheque. havendo mais gente na rua que lá dentro. Moroni. quer acertar os detalhes para mim? Tenho de volta r esta noite. Podia ver seus olhos através do véu. — Você terá o dinheiro. — Parece um bom negócio — comentei. Ouvi soluços atrás de mim. que também tinha lágrimas nos olhos verme-lhos de uísq ue. Virei-me e vi Jake Platt. o risco se mpre existe. — Quanto é que você está querendo emprestado? — Vinte e cinco mil dólares. E você? — Também. — Eu sei. Está tudo calculado. a mulher dele. — Só pedi vinte e cinco mil. choravam por meu pai ali na igreja. atrás de nós. Meu pai foi enterrado com a maior pompa que já se viu naquela região do Estado. tudo em nome da Cord Explosives. livre de despesas e da amo rtização do empréstimo. — Outra coisa: o empréstimo será de trinta mil dólares. você acaba de entrar num grande negócio! — disse Buzz. Eram as mulheres mexicanas da fábrica. Mandei fechar a fábrica. Olhei para meus sapatos. Terei cinco mil de lucro por mês. — Homem. Eram de meu pai e estavam apertadíssimos. De Los Angeles a San Francisco .. radiante. Os cálculos me pareciam corretos. Mas acho que vou desistir. Um murmúrio geral me fez levantar a cabeça. Olhei para Rina. Vi-l he o rosto pela última vez e.K. — Não fala mais com os amigos? — Jonas! — exclamou ele. Agora. — O. — Por quê? — Tenho um contrato para transportar malas postais. não chorava. Os bancos acham que o r isco é muito grande. — Com prazer. Robair for a buscar no armário de meu pai aqueles sapatos que ele nunca havia calçado. na parte do crédito adicional? Não há restrições? — Nenhuma — disse ele. pouco depois. Rina e eu ficamos sozinhos no banco da frente. De qualquer modo. tirando-o do bolso. porém com duas con ições. — Um minuto! — disse Buzz. Cord. Muita s pessoas. Vire i-me para Moroni: — O meu contrato está de pé. Doze meses de garantia a dez mil por mês. que era seu filho. com um sorriso estampado no rosto. Mas sem sorte até agora. Eu sabia quanto custava a manutenção de um avião. Não cons egui mais lembrar as feições de meu pai.— Olá. — Está muito bem — voltei a falar com Buzz Dalton. Estavam límpidos e calmos. Mas Rina. Nem eu. Eles me doíam terrivelmente nos pés. sorrindo. Buzz — disse eu. 10 . sr. Eu havia desco berto na última hora que tinha apenas os huarachos mexicanos para calçar. Estava muito séria em seu vestido p reto.

— Dos homens? Você tem medo dos homens? Logo você. você não o amou. vim exprimir o meu pesar. Jonas. A carne e ra fresca e suave como o vento do deserto. seu idiota! Tenho medo dos homens. Ouvi um barulho na porta. empurrei as cobertas para o lado. Jonas. — Medo?! — exclamei. Agora é tarde. depois a longa conferência com McAllister. Foi mais homem do que qualq uer outro que já conheci. E . Eu me detive um pouco. se fundia na escuridão. não o amei. cobrindo-me de beijos a boca e o queixo. — Calculei que estivesse acordado. junto com o s papéis. Eu estava cansado. dentro do négligé pre to. soprada do deserto. Fora um dia exaustivo. Sim. sob re os planos para os negócios da fábri-ca. Por isso não é de se adm irar que pensei muitas vezes ter escutado meu pai andando de um lado para outro no seu quarto. Jonas. — Dos homens — murmurou ela. bem depois de todo mundo ter ido dormir. admirando-a na escuridão. Muitos pensamentos passando pela minha cabeça ao mesmo tempo. e o que minhas mãos encontraram foram o s agressivos bicos de seus seios. — Se isso é verdade. de defen der-me de suas mãos lascivas e de suas cabeças. — Não é o dinheiro. — Pare com isso — disse eu. primeiro o enterro. — Tarde para quê? Tarde para amá-lo? A verdade é que tentei. com o corpo todo trêmulo. — Medo de quê? Ela tirou um cigarro de algum lugar dentro do négligé e meteu-o na boca. de ouvir-lhes as súplicas. Ele sabia disso também e se contentava com o que eu podia dar-lhe. Não sei por quê. podia ver o brilho das lágrimas rolando em seu rosto. — Então olhe para você. cheio de desejo pela mulher de seu pai! Eu não tive necessidade de refletir para reconhecer que ela tinha razão. Também não consegui dormir. — Jonas. Eu nada disse. Sentei na cama e perguntei: — Quem é? A porta se abriu e pude ver o rosto de Rina. Mas não se esqueça de que era meu marido. Bati com ra iva em sua mão. De repente ela começou a chorar. que só pensam numa coisa. Mas ela estava nua dentro do négligé preto. No escuro. Sou assim e pronto. — Não. Deixe-me ficar com você só por esta noite. — Por quê? Preocupada com seu dinheiro? O cheque está ali em cima da mesa. mas não conseguia dormir . ela se colou a mim. mas não sou capaz de sentir a mor. Não pelo dinheiro. No mesmo instante. Ela baixou as mãos e me encarou. que é uma tentação ambulante! — É isso mesmo. Mas sempre tive muito respeito por ele. O resto do corpo. Sentou-se na beirada da cama. fazendo cair o fósforo.Era uma noite quente. Tenho medo d e ouvir as palavras de amor com que disfar-çam o desejo. Foi por isso que me casei com ele. Assine a quitação e ele é seu. apesar da brisa que. —Já passou a hora das lágri-mas. Tenho medo de ficar sozinha ! Levantei as mãos para repeli-la. Seu pai sabia disso e mostrou-se compreens ivo. sim. entrava pelas jan elas. Apenas seu rosto diante de mim. — Você está louca! Não é essa a única coisa em que os homens pensam! — Não? — disse ela. Mas ainda não me dei por satisfeito. sem acendê-lo . o ro sto encoberto pelas mãos. Seus olhos brilharam como devem brilhar os de uma pantera que ronda a fo-gueir a de um acampamento à noite. Depois de revirar muito na cama. A única coisa que querem é en trar dentro de mim. então por que você está chorando? — Porque estou com medo. rindo. riscando um fósforo e rompendo a escuridão. Ele era seu pai. — Que é então? Veio pedir desculpas? Ou exprimir seu pesar? Trata-se de uma visita de pêsames? — Não tem necessidade alguma de me dizer essas coisas. — Pesar de quê? Pesar de ele não lhe ter dado mais do que deu? Pesar de não ter casado c omigo? O-ra. rudemente. Jonas lhe para você.

Acordei e dei uma espiada pela janela. numa concorrência do governo. Estou com meu carro aí. Pegou o négligé nos pés da cama e vestiu-o. — Que é. Rina. mergulhamos juntos nos chamejantes prazeres do nosso inferno particular. — Obrigado. Mas se sentara num canto. — Há uma caneta em cima da cômoda — eu disse. — Sem dúvida. Antes de abri-la. Ele foi um grande hom em. encaminhou-se para a porta. Ela havia partido. — Não vai ler? — perguntei. trazendo o relatório d aquele dia. Virei-me para Rina. mas o velho Nevada me interrompeu. . O brilho de seu corpo era de um esplendor dourado. Quando cheguei à fábrica. voltou-se para m im: — Não estarei mais aqui quando voltar da fábrica. Já eram cinco horas da tarde quando o gerente de produção entrou. O primeiro dia foi agitadíssimo. Não daria certo. — Vai porque quer. fluido. ouvi a porta do quarto abrir-se atrás de mim e o coração pulou dentro do p eito. Pegue a Duesenberg. você também será. Pela terceira vez naquela ano a Du Pont aprese ntara uma proposta mais baixa que a nossa para o fornecimento de cordite comprim ida. Adeus. Sorri comigo mesmo e entrei. Em segui da. — Não. Estava começando a examiná-lo. Guiados pelo meu demônio. vi que Jake Platt havia mandado uma turma de homens pintar o teto de branco. Perdi a calma. encaminhou-se para a me-sa. — Não é preciso. De repente. E o ódio que eu sentia foi levado de rol dão pela torrente impetuosa do desejo. Quando sugeri que teríamo s de reduzir os lucros para ganhar fregue-ses. e cheguei à conclusão de que tudo se resum ia à orientação que seguíamos sobre a margem de lucros do negócio. juvenil. Levantei e f ui até a janela. Apanhei um cigarro no criado-mudo. Boa sorte.ntão senti o sal das lágrimas em nossos lábios. Ela me encarou e julguei ver passar por seus olhos uma sombra de tristeza. Os detonadores que havíamos mandado para as Minas Endicott estavam com defeito e precisamos enviar às pres-sa s outra remessa para substituí-los. Levantou-se da cama num movimento harmonioso. Nada parecia dar certo. iríamos apresentar uma proposta mais baixa que a da Du Pont. Ela havia voltado. Os primeiros claros da manhã se derramavam pelo quarto. Já é tempo de você se libertar do fantasma de seu pai. Era uma verdade. Ap anhando o cheque. Ela havia renunciado a todos os seus direitos sobre o espólio. A porta do quarto se abriu e fechou rapidamente. Jake Platt protestou. — Julguei que uma xícara de café lhe faria bem. Jake me levará para casa. — Adeus. Passei a metade do dia olhando as cifras. límpidos e calmos. — Para quê? Você não conseguirá ter mais do que já concordei em dar. Ela esticou o braço. Jonas. O sol averme-lhava todo o horizonte. Disse que m eu pai sempre fora de opinião que não adiantava trabalhar numa base de lucro inferio r a doze por cento. — Não. sem dizer uma palavra. — Talvez desse. Engraçado! Nevada havia passado o dia no escritório. Mas era Robair que chegava com uma bandeja. do seu jeito. Jonas. O que meu pai tinha feito era coisa dele e não minha. e disse a Jake Platt que quem estava dirigind o a fábrica era eu. pelo menos uns três cents em cada quilo. mostrando seus dentes brancos num so rriso cordial. Jonas. Estava com a cabeça no meu travesseiro e o braço pa ssado por cima dos olhos. Estava de olhos abertos. tão qui eto que até me esquecera de sua presença. Sacudi de leve seu ombro. Na próxima c oncorrência. Nevada? — Posso sair um pouco mais cedo? Tenho de fazer algumas coisas. — Jonas — disse ele. Ia ser um dia muito quente. Ela pegou a caneta e assinou a quitação.

— Vai caçar? — perguntei. — Não. Então acho que já é tempo de ir tomando o meu rumo. Olhou para mim com alguma surpresa. sentindo as lágrimas me subirem aos olhos.— Nevada. Todo mundo a abandonara. Você não pode ir embora desse jeito. Você não precisa mais de mim como ama-seca. — Mas. — O sr. Neste envelope há uma coisa que você quer de verdade. Não há mais nada que eu possa fazer por aqui. com seus olhos negros fi-xos em mim. deu a partida e pôs o carro em marcha. Nevada — disse eu. Nevada. Sentei-me à mesa vazia. mas. Constatei que eram ações da Cord Explosives e ndossadas em meu nome. — Tudo quanto é serviço tem de acabar um dia. Sou assim mesmo. Se u pai lhe dava tudo e nunca me deixou dar a você alguma coisa que você quisesse de v erdade. ma s agora não há mais nada para eu fazer. Entrei em casa e fui para a sala de jantar. — Chegou cedo. De repente. Nevad a e eu íamos caçar nas montanhas naquela época. Ficamos em silêncio durante alguns minutos. a casa estava vazia. Apenas perguntei onde você vai. Meu pai. estendendo a mão num gesto de despedida. Houve um momento de hesitação. Jonas. Não se preocupe. Por fim. Seu pai nunca me deixou gastar um tostão do meu dinheiro durante dezess eis anos. no momento em que Nevada ia saindo com uma valise em cada mão. Só recor . Em toda minha vida quis dar um presente de aniversário para você. carrancudo. Jonas. Jonas. — O que você vai fazer? — Vou reunir-me a uns velhos amigos. Nevada. Robair entrou com um envelope na mão. Compreendi que ele tinha razão. — Não se esqueça de mandar notícias. todo mundo. — Adeus. Não me agrada nada ganhar um salário sem trabalh ar para merecê-lo. Fui pro curar um advogado em Reno e fiz tudo de maneira inteiramente le-gal. Abri o envelope e encontrei um bilhete. Seu amigo Nevada Smith Verifiquei os outros papéis do envelope. Ele afinal disse: — Está bem. Direi a ele. A-proximei-me e vi que já estava cheio de coisas.. Nevada! — gritei. — Adeus. Espero passar uma temporada realmente agradável. — Onde você vai com tudo isso. mas seu pai sempre chegava na minha frente. Vamos levar um show do Velho Oeste subindo a costa até a Califórnia. Jonas. Terminei mais depressa do que esperava. guardando as valises no porta-malas. Freei a Duesen¬berg em frente à porta às se te e meia. Coloquei tudo em cima da mesa e senti um aperto na garganta. Cheguei em casa mais cedo do que esperava. Rina. Nevada continuou a descer a escada e se encaminhou para seu carro. e fiquei olhando o carro até vê-lo des pare-cer de vista. Feliz aniversário. — Vou embora. Nevada deixou isto para o senhor. penosamente escrito a lápis: Querido filho. Tenho observado muito você nestes últimos dias. — Você tem dinheiro suficiente? — Tenho sim. — É verdade. Nevada me es-tendeu a mão. — Espere aí. sentou-se ao volante.. Trabalho aqui há dezesseis anos. diga a Robair que estarei em casa para jantar às oito horas. Não sou homem de despedidas. Nevada não era homem para viver de favor. — Não disse que não era. Nevada? — Tudo isso é meu — disse ele. — E por que é que eu não posso? — disse ele. Vou embora de vez. Ele entrou no carro. lembrando-me de que sempre. — Como é que eu vou me arranjar sem você? — Muito bem. nos meus tempos de garoto. Jonas.

depois sacudiu a cabeça e entrou. Você está trinta anos atrasado. — Não sei — disse Nevada. Riscou um fósforo e acendeu o cande eiro de querosene. — Olá. — Por que não? Para quase todas elas o divórcio é um bom negócio. De repente. A eletricidade não é natural. — Olá. Charlie ficou observando o carro de Nevada subir uma ladeira nos fundos da fazen da. Eu havia esquecido. a voz de Rina veio por trás dele. entrando no carro. Só não posso me habituar é com essa idéia de viver com a fazenda chei a de mulheres em vez de gado. Nevada. e Nevada fora a única pes-soa que lembrara. — E para onde você pretende ir? As coisas não são mais as mesmas. Não há mais campo e tudo e stá cortado por estradas. — Então é melhor eu ir buscá-la — disse Nevada. Eu fazia vinte e um anos. — Deve ser. — Não sei. você é dono de cinqüenta por cento da pr opriedade. — Botei a mulher na sua cabana — disse Charlie. Nevada. seria sempre a casa dele. Tornei a olhar para o bilhete de Nevada. Afinal de contas. Charlie. — Está me dando vontade é de viajar. escutando as gargalhadas que vinham do cassino. Feliz an iversário. Nevada sorriu. Ficou ali parado. Eu não poderia viver naquela casa. Ela estava certa. Não sei. Cansa a vista. — Voltaremos logo que eu me lavar. Transferiria a casa a McAllister. Parece-me um tanto confuso e alheio às coisas. Acho que é porque fiquei tempo demais parado num lugar só. Era o dia do meu aniversário. Sentia-se o mesmo de sempre. Parou o carro em frente à casa-grande e saltou. — É melhor habituar-se. Tomei uma decisão. era de meu pai. — Marta e eu estávamos esperando você para jantar. A última linha chamou minha atenção. Parece que as divorciadas estão se divertindo muito. Iria morar num apartamento em Reno. Ele tinha família e isso lhe pouparia o t rabalho de procurar casa. — Por que não liga a luz elétrica. Está na hora de vir para cá e trabalhar. A cabana estava às escuras quando Nevada chegou. que não me traria as recordações à mente. Lembrei-me do que Rina havia dito sobre a necessidade que eu tinha de me liberta r do fantasma de meu pai.dações a povoavam. Não e ra minha. Para mim. A história de NEVADA SMITH LIVRO II 1 Já passava das nove da noite quando Nevada saiu da estrada principal e tomou a est rada de terra que levava à fazenda. Um homem saiu à varanda. mas o estranho é que ele não se sentia trinta anos atrasado. Charlie. — Como está ele? — perguntou Marta ansiosamente ao vê-lo entrar. Charlie tinha razão. Senti um nó na garganta. Nevada? — Porque gosto de luz de candeeiro. .

Mal acendeu um cigarro. — Vá para a cama.. tomando-lhe o braço. Houve um momento de silêncio e então ela apareceu na sala. vou trazer as minhas coisas para dentro e me lavar. Foi ao armário. e sentou-se em frente ao fogo. Você está escalça. ouviu a voz de Ri na. — Não preciso de todo esse dinheiro. — Não quer mesmo? Nevada tornou a sorrir pensando no que ela diria se soubesse da fazenda de dois mil e quinhentos hectares que ele tinha no Texas ou da sociedade que tinha pela metade no show do Velho Oeste. — Não. Rina sentou-se na cama. levando para a cabana duas ou três malas. Depois de beber bem devagar o uísque. Rina. embora eu soubesse desde o princípio que era um erro. pelos meus cálculos. Minha mãe era uma índia kiowa. tirou uma garrafa de uísque e um c opo. — Vou ajudá-lo a trazer as coisas para dentro. não estou com frio. Deixe que eu faço isso para você. levantando e indo para onde ela estava. Nevada? Sua pele é quase de um menino. Ne-vada enxaguou-se e estendeu as mãos à p rocura da toalha. — Então. — Pois não parece ter mais de trinta. Ela foi para o quarto em silêncio. Ela levantou a cabeça. ela disse: — Espere. — Nem poderia ser. Rina entregou-lhe a toalha. Vestia um suéter grosso que desc ia até as calças azuis desbotadas. — Trato é trato — disse Nevada. — Houve um tempo em que pensei em divorciar-me. Tocaram sua pele assim como um sopro de a r. Nevada sorriu. Depois. tirou as botas. Se você precisar. e disse: — Agora. tenh o quarenta e três anos. quando Rin a se aproximou e ele lhe disse: — Vá deitar. Ele também tinha aprendido muito com o velho Cord. — Vamos. em silêncio. como penso. — Percebi de repente que estou com fome.Rina estava sentada numa cadeira em frente à porta. — Ele me deu cem mil dólares pelas ações e pela casa.. Ele sorriu. as estrelas brilhavam muito no veludo azul do céu e ouvia-se lá emb aixo o som de música e gargalhadas. onde deitou. — Eu sei. Nevada só se levantou de perto da lareira depois que as chamas começaram a crepitar. Mas. Mas dentro de mim alguma coisa me impediu. olhando-o interrogativamente. Estava pondo fogo nos gravetos. olhando para o cassino. — O que eu tenho chega. Do lado de fora. — Vou acender o fogo. Os dedos de Rina foram rápidos e suaves. Já era mais de meia-noite quando voltaram para a cabana. — Que idade você tem. . E. De qualquer modo. Os pêlos do peito e ram um leve sombreado que descia para o estômago liso e sumido. Nevada. vamos comer. Dinheiro só ganha algum valor quando começa a trabalhar pela gente. Deixou-as ao lado da cadeira e foi para o sofá da sala. lisonjeado. sim — disse ela. — Nevada? — Que é? — Jonas disse alguma coisa a meu respeito? — Não. — Está com frio? — perguntou ele. — Nasci em 1882. Depois de esfregar vigorosamente com sabão o rosto e o pescoço. muito obrigado. Os músculos se estofavam sob sua pele surpreendentemente branca. — Não — disse ele. Nevada deixou-a entrar an tes dele e foi direto para a lareira. Os índios nunca soube ram direito a data dos aniversários. — Está bem. Você não é desse tipo. quando ele enfiava uma camisa limpa. Marta e Charlie estão nos esperando para jantar. se nasci mesmo em 1882. Fizeram mais duas viagens até o carro. — Felizmente não sou uma delas — disse Rina. enquanto Nevada tirava a camisa e se lavava na pia do pequeno quarto.

. nasci no oes¬te do Texas. — Sou um grande caçador. Quando ele se aproximou para e stender o cobertor. mas ela se sentiu vag amente inquieta e tinha de fazer alguma coisa. De vez em quando. seu nome não era Nevada Smith. . depois a ofereceu ao chefe. ele a colocou no chão. Assim. C hegara montado em uma mula. Em silêncio. Ela do rmia profundamente. Ela se movia pesadamen te. sentando ao lado da cama. A índia começou a preparar a refeição da noite. Minhas proezas são conhecidas em todas as planícies. — Alguém já contou para você. p assou-o a Sam. — Não há muito o que contar. por onde andou. Tanto quanto sei. Mas a verdade era ainda mais estranha e decerto ninguém acreditaria nela. deixando o café esfriar. O chefe apanhou o cachimbo e Sam tirou uma garrafa d e uísque. Curvou -se para a frente e tirou da panela um pedaço de carne. Pegou outro cobertor e voltou para o sofá. — Cortamos a língua dele e o amarramos num mourão para que engor-dasse bem. Naquele tempo. Li isso em algum lugar. Não há guerreiro que possa alimentar tantas pessoas como eu. Tudo acontecera há tanto tempo que ele próprio nem sabia mais se acreditava.Seguiu-a até o quarto e tirou um cobertor do armário. Mastigou com força. — Bom cachorro — disse ele ao chefe. 2 Foi em maiô de 1882 que Samuel Sand chegou a uma pequena cabana a que chamava de l ar e sentou pesadamente numa caixa que lhe servia de cadeira.. após tirar uma fumaça. De vez em quando. Era Max Sand. qualquer coisa. o lhava para a planície que se estendia até as montanhas. — Diga-me onde nasceu. John Smith e Pocahontas. Não sabia quantas vezes havia contado por pilhéria aquela h istória. ainda segurando sua mão. Samuel ficou sentado ali muito tempo. Sam sabia que estava na hora de dizer o que queria. A mão de Rina largou pouco a pouco a de Nevada e este se curvou para olhá-la. ajeitou o cobertor em torno dela e saiu do quarto na ponta dos pés. Este fez o mesmo e sentiu o ardor na garganta. o que lhe pro-vocou lágrimas nos olhos além d e uma insuportável necessidade de tossir. diante do chefe. Quando a garrafa voltou às mãos de Sam. Kaneha completara dezesseis anos naquela primavera e fora só no verão anterior que o caçador de búfalos chega-ra à aldeia de sua tribo com a intenção de comprar uma esposa. que fez o mesmo e passou-o ao guerreiro sentado a seu lado. Pocahontas. Limpou cuida dosamente o gargalo e tomou um grande gole. no círc ulo do conselho da tribo. es perando que o dia e o aborrecimento dele passassem. Com minha arma. o chefe acendeu o cachimbo nas brasas e. Meu pai era um caçador de búfalos chamado John Smith e minha mãe uma princesa kiowa chamada. Nevada levantou. lam-bend o os beiços. pois estava em adiantada gravidez. Em silêncio. — Sobre o quê? — perguntou ele. Guardaram silêncio durante alguns momentos e o chefe estendeu de novo a mão para a g arrafa de uísque. — Ninguém me contou. já matei milhares de búfalos. Era cedo p ara preparar a comida porque o sol ainda estava alto no céu.. O nome era Pocahontas mesmo. Voltou a sorrir na escuridão. Sam abriu a garrafa de uísque. — Sobre você — disse ela. olhava pelo can to dos olhos para Sam. — Converse comigo até eu pegar no sono. onde ainda se viam uns resto s de neve. E ele era procurado por latrocínio e homicídio pela polícia de três Estados. Quando o cachimbo voltou às mãos do chefe. — Espere aí. ela continuou a mexer a panela com o feijão e a carne. Feijão e carne de búfalo salgada. mas ele estava perdido num mundo agitado onde as mulheres não podiam entrar. sua mul her índia esquentou um pouco de café e colocou-o diante dele. Mas dominou a tosse e passou a garrafa a o guerreiro que estava a seu lado. ela pegou sua mão. . Não diga que eu já sei.

Pela perda de sua ajuda em preparar a comida da tribo. As negociações haviam terminado. fazendo-m e participar de seu conselho. sagrado. — Aqui está o couro sagrado do búfalo branco — disse Sam. Os búfalos brancos eram uma raridade. trago para a tribo. E. Esperava que Barba Vermelha tives se oferecido ao menos um búfalo por ela. — Vim pedir a meus irmãos a moça chamada Kaneha. porque não tinha medo de Barba Vermelha. Era alta demais para uma moça. Segurou a caixa para que todos pudessem ver e a colocou diante do chefe. Depois. Alinhou as garrafas de uísque diante do chefe e abriu a caixa. sabe costurar e é muito hábil nos trabalhos com couro. a tal ponto que não conseguiria ter uma criança crescendo dentro dela. Os olhos dos índios fitavam magnetizados o belo couro branco. Ela já ganhou um lugar entre nós por suas artes femininas. O couro de um búfalo branco. Ouviu as conversas das mulheres que corriam para a tenda. A mula. quase tão alta quanto o guerreiro mais alto . Sam levantou-se e foi até a mula. aquilo valia uns dez couros comu ns. pela perda de seu trabalho. O chefe ficou tão impressionado com o valor do presente de Sam que desistiu de con tinuar as negociações e declarou solenemente: — E uma honra para nós dar ao grande caçador Barba Vermelha a moça Kaneha para ser sua m ulher. — Os atos de Barba Vermelha são bastante conhecidos da gente. seguido de Sam. darei a meus irmãos a mula que tr ouxe para cá. Seu r osto era magro e comprido e não gordo e redondo como deve ser o de uma moça. darei a carne de dois búfalos. Os olhos do chefe brilharam. — Os kiowas são gratos por presentes de Barba Vermelha — disse o chefe. cheia de contas col oridas e outras quinquilharias. Ali agua rdara calmamente. Um murmúrio de admiração elevou-se da roda. — É boa escolha — disse o chefe. Uísque. Mas Sam sabia o que queria. subia o som dos tambores que começavam a soar ao ritmo da canção de casam . pela perda de sua beleza. Nenhuma noiva levara ainda tantos presentes para a tribo. Queria uma mulher. Quero que ela se-ja minha mulher. O pudor v irginal a obrigara a ir para a tenda de espera para não ouvir as negociações.O chefe assentiu solenemente com a cabeça. De fo ra da tenda.. desem-bru lhou-o lentamente. — Trouxe presentes para meus irmãos kiowas. Quando a lua está a. Kaneha esperava. em retribuição à honra que me deram. Havia cinco anos habitava aquelas planícies. desamarrou um grande far do e o levou para o círculo dos guerreiros. E se levantou. Kaneha sorriu orgulhosa. o sangue dela já corre abundante para o chão. e magra. res-plandecente como a neve. falando todas ao mesmo tempo. e só uma vez por ano deitava com alguma mulher no quarto dos fundos do armazém de couros quando chegav a o tempo de fazer negócios. encaminhando-se para sua t enda. E vim preparado para compensá-lo. Levou-as para o círculo. Seu corpo e ra miúdo. — Preparem minha filha Kaneha para o marido — determinou. Kaneha era a mais moça de suas filhas e a menos fa vorecida. Tinha-o visto nas várias vezes em que ele visitara seu pai. É uma honra recebê-lo em n ossa tribo. Para os homens que traficavam com couro. — Mas a perda da moça Kaneha será dura para nossa tribo. — A moça Kaneha está pronta para ser mãe. Sabia naquele momento que Barba Vermelha a amava. O chefe que fosse depositado para o seu derr adeiro sono num daqueles couros sagrados certamente entraria nos campos de caça et ernos. O chefe deu um suspiro de alívio. A carne de d ois búfalos. Aí fez uma pausa teatral. colocou-as no chão e torn ou a sentar. — Bem sei do alto apreço que o chefe kiowa tem por sua filha Kaneha. com cintura tão fina que era possível abarcá-la com as duas mãos.. Abriu uma das malas e tirou seis garrafas de uísqu e e uma pequena caixa de madeira. Sabia que Barba Vermelha fora buscá-la. Olhou pela porta. Cozinha. Já estava na hora de ter uma mulher que fosse sua. Em outra tenda. Voltou para onde estava a mula. Kaneha deixaria de ser um proble-ma. Contas coloridas. dando o sinal de que a reunião do conselho estava en-cerrada. depositando-o no chão. As mulheres irromperam na tenda.

que ali estava altiva. O hímen se rasgou e ela camba leou enquanto uma onda de dor a percorria. de cabeça erguida. Em cadência com a quele ritmo. para mostrar como estou satisfeito com ela. com o olhar acima das cabeças deles. olhando para a entrada. Em silêncio. Outras duas trataram de untar-lhe o corpo com banha de urso para torná-la fértil. Quando tudo qu e era preciso foi feito. trazendo numa mão a vara dos demônios e na outra o bastão do casamento. dando grandes pulos e murmurando frases inintel igíveis. as pernas compridas e retas. o chefe e Sam olharam para ela. As mulheres gritavam e suspiravam. As mulheres ficaram à porta e ela entrou sozinha. ela baixou o bastão até colocá-lo entre as pernas. seus seios empinado s. Nin guém podia aproximar-se. Barba Vermelha estava satisfeito com ela. prometo a meus irmãos mais um búfalo. nua no centro da tenda. As mulheres lembravam-se cada qual de seu casamento. Seus seios ofegando. Barba Vermel ha. o ventre liso. às costas. Então dirigiu-se para ela. Apertou o bastão de encontro aos seios. o grande caçador. A porta da tenda se abriu e o pajé entrou. ao estômago. as mulheres formaram um círculo em torno dela. or gulhosa. Suspendeu sobre sua cabeça o bastão do casamen to. Os tambores começaram a bater de novo. Este recebeu o bastão e saiu rapidamente da tenda. Os pés se moviam no comp asso dos tambores. Era rígido e alto. — Veja como ela sangra bastante. cada vez mais depressa à medida que o ritmo se acelerava. Solenemente. Vai dar a você muitos filhos. Era feito de madeira polida e esculpido com a f orma de um falo ereto com os testículos. Ela não podia desmoralizá-lo ali na tenda das mulheres. teria de encontrar o caminho aber to e fácil. Estava ansiosa para que Barba Vermelha estivesse satisfeito com o que via. ao estômago. quando tam-bém haviam f icado assim no centro de um círculo de mulheres. uma de ca da lado. Kaneha ficou ali. começaram a destrançar-lhe o cabelo. Kaneha sorriu. e fez um último movimento convulsivo. Como em transe. O chefe falou primeiro. como era o costume. Entregou-o. Os tambores vibravam enquanto Kaneha sofria. o pajé deu um grande salto com um grito horrível e. Suas preces haviam sido ouv idas. voltou ao centro e ficou dançando sozinha . elas se afastaram para os lados. Ela deixou cair o vestido do corpo e as mulheres se aproximaram. que davam gritos de bênção e de inveja. Os tambores batiam ainda mais de-pres sa. girou alucinadamente com o negro cabelo solto a rodar em torno dela. tudo ficou em silêncio. Apontou a vara dos demônios para os quatro cantos da te nda e agitou-a duas vezes no ar para afugentar os espíritos maus que porventura al i pairassem. que caía abaixo dos ombros. quando seus pés tocaram de novo o chão.ento. encostou-o ao rost o. Deram um murmúrio cadenciado de aprovação quando el a se levantou de novo. aos seios. Houve um momento de tensa expectativa quando mais uma vez o bastão começou a entrar nela. Ka neha caminhou até a tenda do chefe. Completado o giro em torno das mulheres. ao pajé. O pajé começou a dançar em torno dela. enquant o segurava o bastão do casamento apontando para as mulheres. Fechou os olhos. Fechou os olhos. agora num ritmo mais lento. começou a baixar-se sobre ele. Nua no meio delas. com os pés batendo ao compa sso dos tambores. porque não ficava bem a um a moça olhar muito atentamente para a fonte da força de um guerreiro. Ela ergueu os olhos para o bastão. saiu da tenda e foi banhar-se no rio. Por f im. Não ficava bem a uma moça mostrar-se muito ansiosa em receber o marido. às faces e aos olhos. até os tambores. . até o objeto ficar todo besun-tado com a gordura de seu corpo. Por fi m. Duas. Aquele era seu marido. Quando e le mesmo. muitos filhos — murmurou Sam —. Aquilo era coisa que a noiva devia fazer por si mesma. às nádegas. ela levan-tou o corpo e retirou o bastão do casamento. O corpo rebril hava com a gordura que nele haviam passado. Por fim. suplicando em vão alguma ajuda. Apoiando o bastão do casamento no chão. ela recebeu o bastão das mãos do pajé. oculta assim da vista dos outros. e. As mulheres reuniram-se num círculo em torno dela. entrasse nela. suas per-nas levemente trêmulas . em vez de seu espírito. — Sim. Na luz fraca do interior da tend a.

— Vou ajudá-la. Num canto. Cerca de vinte minutos depois. O lhou para o marido. — Isto é coisa para mulher. — O mundo está muito diferente. Kaneha começou. Ficou ali fora sentado. dando a entender tudo.Agora ela se movia lentamente com o peso do filho que levava. Afinal. obediente. Já eram duas horas da madrugada quando Sam ouviu choro de criança dentro da cabana. tocando a criança. — Está bem. — E pouco se importa com iss . mas o cabelo era preto e abundante. admirando. — Não — disse ela em língua kiowa. Kaneha adorava o filho. Criou no lugar a f ama de ser calado e miserável. com a lógica peculiar das crianças. mas isso não a pre ocupava muito. Não sabia se dev ia falar ou não e continuou a comer em si-lêncio. — Para quê? — Para que lhe ensinem a ler e escrever. com orgulho. um filho — murmurou Sam. que começou a chorar. Havia quem dissesse que ele tinha em casa uma arca cheia de ouro. A barba tocou nele e o choro se rep etiu. 3 Foram morar a cerca de trinta quilômetros de Dodge City e Sam começou a transportar cargas para as estações por onde passava a linha de diligências. Já aos onze anos Max era tão ágil e leve de pé como seus antepassados índios. Naqueles últimos anos. — Que necessidade tenho disso? — Um homem tem de saber essas coisas. Vou esperar do lado de fora. estava a criancinha nua. Sam voltou à ca-bana. a porta da cabana se abriu e Kaneha apareceu. tinham sido mortos búfalos demais. Quando acabou. Montava em pêl o qualquer cavalo que quisesse. Paguei dez dólares. jantando. — Um filho! Abaixou-se para olhar o filho de mais perto. quando Sam olhou para o filho e disse : — Vão abrir uma escola em Dodge. enquanto ele saía para atre lar as mulas ao carro. — Já matriculei você na escola. Kaneha pegou a primeira trouxa. um homem muito tímido. Tinha cabelo liso e comprid o à moda dos índios e os olhos eram de um azul escuro. deixaram a cabana. tenso e ansioso. acumulado no tempo em que caçava búfalos. Sam ficou ali parado de pé. Ela se ergueu. e podia acertar a cem metros de distância no olho de um rato-das-planícies com sua calibre vinte e dois. Quando eu era menino. não para um guerreiro. Sam também não se incomodava. no fundo. Era. Sendo o único homem que tinha mulas na região. Viviam numa pequena cabana. A trouxa lhe caiu das mãos e ela se dobrou toda. — Você não sabe — disse Max. estendida num lençol diante do fogo. e os anos que pass ara nas planícies não haviam concorrido para curar-lhe a timidez. A pele era branca e os olhos azuis como os do pai. — Um filho — disse Kaneha. não havia necessidade dessas coi . quase preto. Tinha cochilado e o choro o acordara naquela noite cheia de estrelas. Estavam sentados à mesa uma noite. a arrumar os objetos da casa. no rosto queimad o. Talvez nunca mais apareces sem. — Sim. Ele se levantou e correu para a cabana. Es pantava-se ao ver que os espíritos não queriam dar-lhe mais filhos. — Agora? — perguntou Sam. Max olhou para o pai no momento em que Kaneha chegava da cozinha. enquanto ele ficav a sentado à mesa pensando no desaparecimento dos búfalos. quase incrédulo. Max. ganhava dinheiro regularmente. levantou-se e disse a Kaneha: — Arrume tudo. Ela confirmou com a cabeça. Vamos embora daqui. pois a dor já passara. onde Max começou a crescer. Na manhã seguinte.

sr. ajudando o pai a consertar os estragos que o inverno havia causado na cabana. pois Max estava escondido atrás do pai. apesar diss o. Na segunda-feira seguinte. A minha escola é exclusivamente para meninos brancos. — Aqui está ele — disse Sam. não sei qual é sua religião nem quero saber em que a senhora acredita. seu melhor aluno. Max levou as roupas da cocheira de Olsen e finalmente voltou para sua casa. Quando terminaram as aulas. Max. Conhecimento era magia e dava poder. com surpresa para ela. — Mas vai! — exclamou Sam. mas. dona. — Ele irá — concordou ela simplesmente e voltou para a cozinha. Sand. E acrescentou: — Já tomei todas as providênci as. — Moça. — Não posso aceitar índios na minha esco a! — É. — Claro que você é diferente. tímido: — Como vai. E não ouvi ninguém dizer nada a esse respeito. quando a voz de Sam a fez parar. — Bom dia. Todos são parecidos. dona. seu filho nunca poderá ser um grande c hefe diante dos Olhos Brancos. el a fez Sam prometer que levaria o fi-lho no ano seguinte. Sam quase deixou cair no chão o arreio de couro em que estava traba-lhando. olhando para o filho. — Vamos comprar roupas para você. pai? Sam também pensava nisso pela primeira vez e sentiu uma súbita tristeza. Sua voz era fr ia e aquela foi talvez a ocasião em que mais falou em toda a sua vida. dona — disse Sam. Era a . ele não ficará muito diferente dos outros. Ajoelhou-se no chão da rua. diferentes. — De qualquer maneira. Assim. Sam respondeu na mesma língua: — Uma fonte de grande conhecimento. Terá de se vestir como os outros meninos . Era. empurrando-o para a frente. Kaneha não estava muito certa de compreender o que o marido estava dizendo. Isso bastava para Kaneha. Quando Max chegou ao fim de seu primeiro ano na escola. ia pensando nas palavras d a professora e. Na p rimeira semana. — Bom dia. chegou à porta e sorriu para Sam. A professora olhou-o indignada. Sem isso. — Como se atreve a falar-me dessa maneira. O que sei é q ue a senhora está a quase três mil quilômetros da Virgínia e que recebeu meus dez dólares para ensinar meu filho. — Não posso compreender vocês do oeste — disse a pro-fessora. Durante a semana. Uma noite. — Mas eu não sabia que era um índio! — exclamou ela. Enfiou na terra os pés descalços e d isse. Tinha uma inteligência ágil e bri-lhante e aprendia tudo com muita facilidade. — E mande cortar o cabelo também. não parou um só instante. Sand? Acha que os pais das outras c rianças vão querer que elas se misturem com seu filho? — Estavam todos na reunião. ele não poderá freqüentar a escola com essas roupas. Muito obrigado. meu filho. do mesmo m odo que não há duas mulas nem dois búfalos iguais. o melhor que terá a f azer é tomar a primeira diligência e voltar para sua terra. — Está certo. todo mundo sabe ler e escrever. Kaneha voltou-se para o marido e c hamou-o em inglês. a professora tinha orgul ho dele. Cada pessoa neste mundo é diferente. Max não se sentia à vontade nas suas roupas rústicas. você dormirá nos fundos da cocheira de Olsen. Sam levou Max para a escola. — Fale com sua professora. dona? A professora olhou-o com um misto de surpresa e reprovação. dona — disse Sam polidamente. Já ia dando as costas para entrar. A professora. Agora. meu filho.sas. sr. — Que é? — perguntou ela em kiowa. perdendo a calma. Trouxe meu filho para a escola. Enquanto Max seguia ao lado do pai a caminho da loja. como recebeu o dinheiro de todo mundo na reunião que se fe z no armazém! Se não quiser ensinar meu filho conforme combinou. depois de Max ter ido para a cama. afinal. que era um a dama do sul empobrecida. perguntou: — Sou diferente dos outros. — Não quero ir. — Também não posso aceitar mestiços. — Está muito bem. — Onde está ele? — perguntou a professora.

meu marido — disse ela. voltando a falar em kiowa. Mas. para que ele saiba a força que tem no sangue. Estava espantada com sua temeridade. E. — E sou grata a o pai dele. três verões depois. um deles pergunt ou: — Olá. é verdade que nosso filho tem ido bem na escola dos Olhos Brancos? — É verdade. Kaneha nunca ia à cidade. Sam olhou-a. Seu corpo era firme. Kaneha! — murmurou suavemente. As mulheres índias nunca dirigem a palavra ao marido. delgado e forte. — Mas hoje é sábado e ele já foi para casa. levarei nosso filho à aldeia dos meus irmãos kiowas. Sam já estava com cinqüenta e dois anos e Kaneha tinha pouco mais da metade dessa id ade. um instante depois. Havia nele um vago sentimento de culpa. — Estamos com pressa e que remos fa-lar com ele. Sam estendeu a mão e acariciou o rosto da mulher. Ela apertou a mão de encontro ao r osto e continuou: — Acho que já está em tempo. — É verdade — disse Max. que é um grande caçador e um bom chefe de família. Apre nderia também que vinha de uma raça que podia seguir a linha dos seus antepassados m uito mais longe do que qualquer um dos colegas que o atormentavam. — Sam. Por muitos motivos.primeira vez. Os homens se entreolharam. De repente. de mandar nosso filho para a aldeia do poderoso chefe. Passando um verão com os kiowas. Kaneha. — Está bem. que ela o chamava peto seu nome inglês. Seu corpo bri-lhava como cobre à luz ardente do sol. Sam não compreendia como ela soubera disso. compreendeu o que estivera em seu peito todos aqueles anos. Não engordara como acontece habitualmen te com as índias. aprende também c oisas que podem per-turbá-lo. recomeçando a traba lhar. — Eu sei. ape nas com suas calças de couro de veado. Max poderia aprender tudo o que era preciso para sobreviver naquela terra. Sam beijou-a na boca. sim. — Mas não podemos esperar tanto tempo — disse o primeiro homem. Estava nu da cintura para cima. Havia um anúncio lá dizendo que seu pai fazia transporte de carga. com os olhos cheios de lágrimas. se nosso filho apr ende na escola dos Olhos Brancos muitas coisas que são magia forte. era uma boa idéia. 4 Eram mais ou menos duas da tarde num sábado. — Tenho orgulho de nosso filho — disse ela. depois de muitos anos de casados. Abraçou-a e afagou seu cabe lo. Depois enterrou o forcado no feno e v oltou-se para e-les. Não apearam. — Temos uma carga para levar para a Virgínia — disse o outro. se u avô. — Quais são? — Há gente na escola que diz que nosso filho é menos do que eles e que o sangue dele é d iferente. Sam sentiu o coração encher-se de ternura. — Sim. pela primeira vez. Só falam respondendo o que lhes é perguntad o. — Sou Max Sand — disse ele. — Também o amo. Passamos pela estação das diligências. índio! Onde está o filho de Sand? Max jogou mais um pouco de feno no depósito. e Max estava descarre gando um carro de feno na cocheira de Olsen. — Como a amo. Kaneha sentia o rosto vermelho. Max não inter-rompeu seu trabalho e. Direi a ele quando for para casa hoje à noite — disse Max. — Temos de tomar essa pr . Os músculos se estofavam nas costas quando pegava o feno com o forcado par a jogá-lo no depósito da cocheira. nunca saía de ca sa. e o que falara antes disse: — Queremos falar com seu pai. mas estava fechada. — São meninos tolos que dizem isso. Os três homens entraram a cavalo no pátio da cocheira e pararam ao lado do carro.

— Eu disse que estava com pressa. — Não foi isso o que soubemos — disse um dos homens e. Seu pai não vai gostar se souber que demos a carga para outra pessoa. Kaneha estava amarrada a uma cadeira. quebrado. com todo o dinheiro que tem enterrado. — Tranque a porta e não deixe essa gente entrar. e Sam entrou em casa. Que espécie de carga têm? — Ouro. Pareci am mais bandidos com suas pistolas amarradas bem no meio das pernas e os rostos escondidos pelas abas dos chapéus. nem mineiros. como se não pudesse a creditar. — Talvez ele não tenha ouro mesmo — disse um dos homens. O derreado Sam estava amarrado na viga de sustentação no centro da cabana. — Tem. Era o dia em que Max voltava da escola. O ar estava quase insuportavelmente quente dentro da cabana. sim. Procurava virar a cabeça para escutar o que os homens diziam. pois os homens estavam chegando. — Sou eu. Sam olhou-os um instante. Que desejam? — Temos uma carga que queremos mandar para Virgínia City — disse o mesmo homem. e não como gente honesta. e o nari z. — Mas entrem e descansem um pouco en-quanto conversamos. amigos. Sam levantou-se da mesa. no mesmo instante. — Como está quente! — Está sim — disse Sam. Você não conhece como . que caiu de encontro à parede e ficou olhando o agressor. — Ouro? Não há por estas bandas ouro que chegue para encher um carro. mas não podia porque estava bem amarrada. — Vai ver que que-rem saber o caminho para a cidade. Sam saiu ao encontro deles e. — Você é Sam Sand? — perguntou o que estava na frente. Não pareciam lavradores. Foi Kaneha quem primeiro os ouviu. Então sorriu e disse: — Guardem essas armas. — Todo mundo diz que o ouro que você tem enterrado a-qui dá para e ncher um carro. A cabeça es tava caída sobre o peito nu e o sangue lhe escorria do rosto. nem qualquer espécie de gente que habitualmente tinha carga para o pai dele transportar. Max ouviu os outros rirem e foi com raiva que voltou a jogar feno dentro do depósi to. Foi até a porta. mas já era tarde. ensopando o cabelo v ermelho da barba e do peito. sim — disse o que parecia ser o chefe. — Eles vêm da cidade — disse Kaneha. Os homens apearam. foi até onde ela estava e disse: — É verdade. Eles vêm dissimuladamente como apache s em guerra. a cinqüenta quilômetros mais ou menos. os três estava m de arma em punho. espantado. Acreditaram nessa conversa de gente desocupada? O primeiro homem se aproximou e bateu o cano da arma com toda a força no rosto de Sam. Os três homens haviam se reunido num canto. com os olhos muito abertos fi tos no marido. Os homens não disseram mais nada. o lhou e disse: — Vêm três homens aí. confabulando em voz baixa. — Pensei que o velho Sand. — Pegue uma garrafa de uísque — disse ele a Kaneha. quando pararam os animais em frente à casa. — A casa fica na estrada do norte. Viraram os cavalos e foram saindo do pátio. Onde é sua ca-sa? Max olhou-os com curiosidade. podia fazer cois a melhor do que viver com uma índia — disse um deles. quase fechados. Que será que eles querem? Kaneha teve um pressentimento de perigo. rindo. disse: — Olá. — O que acontece é que você não está habituada a ver gente. — disse Sam.ovidência e sair daqui ainda hoje. Suas v ozes ecoavam no vento da tarde. tirand o o chapéu e limpando o suor na manga da camisa. Depois. voltou-se para os recém-cheg ados: — Sentem-se. garoto. — Você vai dizer direitinho onde está o ouro — disse o homem rispida-mente. — Irei para lá daqui a umas duas horas e poderei levá-los. Ficava muito atenta a todo movi-mento da estr ada nas tardes de sábado. Os olhos estavam inchados. — É que ele é muito duro.

— De qualquer maneira — insistiu o mais baixo —. sua mãe estava cozinhando. — Há quinze anos que não esfolo um índio — disse ele —. Este sacudiu a cabeça e abriu os olhos. esquecendo-se de sua dor. — Não tenho ouro! — gritou ainda. Segurando Kaneha pelo cabelo. Tirou uma faca de caça do cinto enquanto os outros homens o observavam. meu marido — disse ela em kiowa. Aproximou o tição do rosto de Sam e pergu ntou: — Onde é que está o ouro? Sam disse com voz rouca: — Não tenho ouro. talvez fale por causa d a ín-dia. na hora em que ele voltava para casa. atrav essava o vale entre os seios. mas ainda lembro muito bem como se f az. deixem-na! Não há ouro. Não conseguia mais falar. Voltou-se para Sam e perguntou: — Onde está o ouro? Sam balançou a cabeça. pegando-o pelo cabelo. Em seguida. com o corpo sacudido pelos soluços. enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces ens angüentadas. Eram quase sete horas quando Max voltou para casa no cavalo baio que Olsen lhe e mprestara. — Deixem-na! Pelo amor de Deus. dizendo: — Tenho certeza de que você não se in-comodará de nos servirmos um pouco da su a índia antes de esfolá-la. o bandido pegou a garrafa de uísque e tomou um grande gole.eu esses velhos caçadores de búfalos. — Não tenho medo. percorria o ventre e pa-rava perto da folhagem do púbis. O homem rasgou-lhe com a faca o vestido. Sam começou a chorar. O mais moço passou a língua pelos beiços. escorrendo pelo peito e pelo braço. Em geral. — Já estou que não posso mais de ver esta índia nua — disse o mais moço. Levantou-se. — Amarrem as mãos dela aos pés da mesa — ordenou o mais velho. l evantou-lhe a cabeça. Não havia sinal de Vida na cabana e nem saía fumaça da chaminé. com a faca encostada à sua pele. O mais velho largou a garrafa de uísque e caminhou para onde estava Kaneha. o mais velho a arra stou até onde estava Sam. Os índios nisso são muito hospitaleiros. de um lado para outro. Parou de repente. e sua cabeça caiu para o lado. voltou-se para Sam. — Jogue água em cima dele — ordenou. — Perdoe-me. A porta estav a aberta e o vento a fazia balançar levemente. já teria falado. Eu vou primeiro. Colocou a faca em cima da mesa e desabotoou o cinto do revólver. você não vai fazê-lo falar desse jeito. Foi até o fogão e trouxe um tição aceso. — Já que não fala por si mesmo. É ca az de morrer primeiro. sem tirar os olhos dela. Um fio de sangue ap areceu na linha traçada pela faca. — Vai falar sim — disse o chefe. O homem encostou o tição aceso no pescoço e no ombro de Sam. O homem tirou o tição e o s angue brotou da pele queimada. O mais moço dos três apanhou um balde de água e jogou-a em cima de Sam. — Kaneha estendeu a mão e tocou de licadamente o rosto de Sam. com voz de espanto. querida — disse ele em kiowa. Começou a trabalhar rapidamente com a faca no corpo da mulher. Chegou perto de Sam e. passava pelo pescoço. Isso foi feito sem demora e ele se curvou sobre ela com a faca encostada em sua garganta. — É uma boa idéia — disse o homem que estava com a faca. Kaneha encolheu as pernas e deu-lhe um pontapé. que caiu ao chão. Pegou a garrafa de uísque e tomou um gole. A cabeça de Sam caiu para a frente. Desceu do cavalo e caminhou até a casa. que partia do queixo. Sentiu um me . que deu um urro de dor. Se tivesse. Isso era estr anho. Indo até a mesa. — Os espíritos castigam aqueles que pra ticam o mal. Cortou as cordas que prendiam Kaneha à cadeira e ordenou aspera-mente: — Fique de pé! Kaneha levantou em silêncio. encostando-a no poste. Ele praguejou entredentes e disse: — Segurem as pernas dela. olhando-a.

a porta se abriu e Olsen apareceu . Max foi até a estrada. dep ois de amarrar as mulas a uma árvore. Levantou e foi até os fun¬dos da casa.do inexplicável e começou a correr para a porta. caminhou para a casa que ficava perto e. jazia um a massa disforme. para a carroça. Eram uma camisa e calças de couro de veado que a mãe fizera pouco antes para ele. Não eram seu pai e sua mãe que estavam ali. — Sr. Apanhou uma caixa. . Também estavam no cercado os quatro car-neiros e as galinhas de que sua mãe tinha tanto orgulho. Depois. Ao fim de algum tempo. — Quem foi? Ouvindo a voz do marido. Passou sem pressa o piche na lenha espalhada pe lo chão. Encostou um fósforo aceso na porta até que o fogo começou a se alastrar violentamente. mas as seis mulas continuavam presas no curral. um por um. A paralisia deixou-o no mesmo instante em que começou a gri¬tar. conduziu a carroça até a estrada. e a carroça ainda estava no al¬pendre ao pé da casa. subiu na carroça e se dirigiu para a cidade. Olsen! — chamou. Conservava os olhos fixos no chão. as lágri-mas acabaram. lambendo a madeira seca. Procurou na prateleira o rifle e a pistola que seu pai cos-tumava guardar ali. Em segu ida. mas a náusea que lhe subiu pela garganta abafou o som. — Mataram? — exclamou Olsen. Levou quase meia hora pa¬ra cobrir com três camadas de lenha todo o chão da casa. pois eles nunca poder iam ter aquela aparên¬cia. a cerca de uns duzentos metros da casa e. surpreso. 5 Entrou com a carroça no pátio dos fundos da cocheira de Olsen. Mas não conseguiria enterrar o q ue estava na casa. Voltou com ela para a casa e coloco u-a no chão. amar-rando-os às argolas da parte traseira. Olsen apareceu também na porta. Se ntiu de novo os olhos cheios de lágrimas. de boca e olhos abertos e com a parte de trás d a cabeça arrancada pela bala de um calibre quarenta e cinco que lhe haviam colocad o na boca. até encostar-se à porta. jogou o fósforo dentro da casa e afastou-se da porta aber-ta. Encon¬trou. quando chegou no alto de uma pequena colina. subindo alguns degraus. porém. que mostrava os contornos da¬quela que tinha sido sua mãe. Pegou o balde de piche e entrou. colo-cou todas as galinh as dentro e arrumou-a sobre a carroça. No lugar onde ficava sua casa havia um clarão alaranjado que subia para o céu. uma coisa macia. O cavalo de seu pai desaparecera. sentindo-se muito fraco. sentando no chão. que apanhou. De repente. Enrolou tudo num volume que colocou deba ixo do braço e saiu. procurando não ver os corpos dos pais. com os olhos arregalados de horror. ouviu um estrondo parecido com o de u m trovão e uma labareda saiu da casa. onde se lav ou na tina de água. voltou para a casa. Só olhou para trás u ns cinco quilômetros depois. Olhou para o céu com súbita surpresa. então. Desceu. Depois de esperar mais um instante para certificar-se. — Max! O que está fazendo aqui de volta? — Mataram meu pai e minha mãe. Foi até o depósito de lenha e apanhou uma braçada. lembrando-se de alguma coi¬sa. Só restava fazer uma coisa. Depois. Uma nuvem de fumaça saía da porta. Tirou os arreios d o alpendre e atrelou as mulas à carroça. a sra. Levou a carroça para a frente da casa e amarrou o cavalo baio na traseira. Numa poça de sangue. tornou a entrar na casa. Um vulto apareceu na janela iluminada. Logo que chegou ao batente. Hesitou um momento e. Parou na porta e passou nela o resto do piche. bateu na porta. Olhou em volta. As estrelas brilhavam tristemente no alto. Max voltou os olhos lentamente para o chão. O pai est ava amarrado à viga central da casa. E levou também os carneiros. passou uma vista de olhos por tudo e saiu de lá. mas não achou as armas. parou. Vomi¬tou desespera-damente. começou a chorar. Ficou p aralisado. Pensou vagamente que tinha de fazer alguma coisa. O sol já desaparecera e a noite caíra rápida e fecha da. Saiu então e.

tenho aí a s mulas. A sra. A marca era mais leve que as outras. se já não havia parado. com os ouvidos atentos a qualquer ruído estranho. — Tenho de ir. — Perguntaram-me onde meu pai morava e eu disse. tão boa como as que aprendera a fazer no verão que passa ra com os kiowas. . Um dos cavalos era o de seu pai.— Os três homens —disse Max. Isso provava que o homem que passara por ali era o che-fe. quatro carneiros e dezesseis galinhas. a carroça. você vai comer algu ma coisa. Max olhou-a fixamente. Olsen. procurando se ntir o cheiro de alguma fogueira. Os outros rumaram para o leste através das planícies. Max desceu do cavalo e esperou que a noite caísse. Max. — Não. — Não estarão. Foram lá e m ataram os dois. Max co meçou a comer automaticamente. dois de les tinham tomado a estrada para a Virgínia. — São homens feitos e poderão fazer-lhe mal. que era a coisa de maior valor que tinham roubado. terá tempo de sobra amanhã de manhã para partir. Já estava escuro quando se levantou e prendeu a maça no cinto. Não terá muito que carregar e irei mais depressa. Depois de andarem um pouco por ali. muito obrigado. dona — disse Max sem levantar a cabeça. viu estrume de cavalo. Olsen percebeu a depressão que se escondia atrás da aparente calma do rapaz. se você quiser. Olsen. E ainda dou o caval o baio. Desceu do cavalo e examinou-o c om o pé. está bem. E roubaram o cavalo de meu pai. o que significava que o a-nimal estava sendo levado pelo cab resto.. Max estava dormindo com a cabeça sobre os braços cruzados em cima da mesa. não — afirmou ela com sua lógica feminina. sr. O homem pararia daí a pouco para acampar. o fez sentar e colocou diante dele um prato de sopa. — Espere aí — disse a sra. vai dormir. dona. Tornou a montar e prosseguiu. Já é um homem. Sr. Os quatro cavalos haviam parado ali. sem ninguém montar nele. Depois. — Eles também têm de dormir e não e is longe de você do que estão agora. Olsen fez um gesto para o marido. Só as mulas e a carroça valem três vezes isso. entrando em casa. Olsen. e ela pela primeira vez percebeu o orgulho que havia no f undo daqueles olhos azuis. Saiu pela planície à procura do rastro até encontrar o que queria. No segundo dia de viagem depois de sua partida de Dodge. Pegou o cavalo pelo c abresto e prosseguiu cau-telosamente a pé. meu filho — disse ela em voz alta. o rifle e a pistola. e com elas envolveu o resto do galho para fazer um cabo. Viajou quase a noite inteira. — Já me fizeram todo o mal que podiam. cortou um galho com forquilha de uma árvore e encaixou na forqu ilha uma pedra redonda. — Não pode. puxando Max para dentro. A sra. — Pode dar o dinheiro agora? — Claro — disse Olsen. seguindo o rastro à luz clara da lua. estava a menos de uma hora do homem a quem seguia. O bandido perdera mais tempo no caminho do qu e ele esperava. Caminhava devagar. Já estava escurecendo. recomendando silêncio. Tenho dezesseis anos e para o povo de m inha mãe quem tem dezesseis anos não é mais garoto. Quando voltou. — Não tenho tempo — disse ele simplesmente. amarrou a pedra ao galho com tiras finas de cour o. — Entre que vou preparar alguma coisa quente para você beber — disse ela. E um animal melhor e você pode levar a sela também. Alguns quilômetros adiante. Não tinha mais de sete horas. Reconheceu a marca da ferradura na terra frouxa. — Você não pode deixá-lo perseguir esses homens sozinho —disse ela. Enquanto esperava. — Se é assim que você prefere. olhou satisfeito a maça de guerra. — Primeiro. — Tenho de ir atrás deles. Olhou para o céu. Depois. diminuiu a marcha do po tro e examinou cuidado-samente a estrada. — Mas aí eles estarão ainda mais longe — murmurou Max. E afinal você ainda é um garoto. Levou-o para a mesa. Quando acabou. pois do contrário os outros não o teriam deixado levar o cavalo. Prefiro um cavalo novo que eu possa montar em pêlo e que corra melhor na planície. — Vou desatrelar as mulas — disse Olsen. Na tarde do di a seguinte. Quer dar-me cem dólares e o potro por isso? — Claro que sim.

Sentia-se nauseado ao vê-lo e ima-ginar o que havi a acontecido na cabana. Por trás. Era filho de Barba Vermelha e de Kaneha. — Deixe-me sair daqui! — gritou o homem. Dessa maneir a. seria o momento de entrar em ação. Com uma praga. Virou a c abeça e olhou para Max. Quando o sol apareceu. embora houvesse muito san gue empastado de um lado da cabeça. levantou m eio corpo e jogou a pedra perto dos pés do homem. Ouviu o relincho de um cavalo e encolheu-se no chão. Amarrou o potro ao lado dos outros cavalos e se aproximou do homem. — Solte-me! Max encostou a faca no pescoço do homem. Quando falou. deu uma volta enorme até ficar por trás do sujeito. pois cerca de meio quilômetro adiante sentiu cheiro de fumaça. — Você está com o cavalo de meu pai. Toda hesitação que porventura sentira havia desaparecido. O homem começou a urinar d e medo. Seus olhos ainda estavam fechados. Em silêncio. Afinal. — Por que matou minha gente? — Não fiz nada com eles — disse o homem. — Meu pai não iria vender o único cavalo que tinha. Sentou vagarosamente e olhou para seu objetivo. índio miserável — gritou ele. Max parou e esperou que o homem estivesse imóvel novamente. Estava alta e clara no céu acima de sua cabeça. — Que quer dizer isso? Max o encarou e disse. Via perfeitamente o vulto do homem deitado perto dos rochedos. sem tirar os olhos da faca. a voz saiu calma e sem qualquer emoção. Ergueu a cabeça em meio ao capim. comendo numa caçarola. — Quer contar-me o que foi que aconteceu? — Não fui eu! Foram os outros! — exclamou o homem. com o revólver em punho. Abriu os olhos de repente e olhou para a lua. Podia ver o homem sentado à frente do fogo. Um instante depois dormia profundamente. Max agiu então rapidamente. Estavam a prin-cípio embaçados. Ama rrou o potro a uma árvore e tirou do saco na garupa do animal o rifle que comprara . Quan do a lua estivesse bem no alto. sentiu de novo e bem forte o cheiro da fo-gu eira. com a urina a escorrer-lhe pelas pernas nuas. Quando voltou. porém. olhando para a frente. braços e pernas esticados e amarra dos a paus forte-mente fincados no chão. que escorrera do lugar onde a maça o atingira. Por outro lado. O homem soltou u m leve ronco e se virou dormindo. quase apagado. A fogueira estava uns duzentos metros adia nte. Max foi então buscar seu potro. Nem soube o que o atingiu. Rastejando. A lâmina da faca cintilou ao sol da manhã e quando ele se levantou o homem já s . o homem se sentou. Avançou sem fazer o menor ruído. Lembra-se de mim? Max ficou olhando para o homem. Procurou levantar-se e percebeu que estava amarrado. e levava dentro de si a vingança terrível d o índio. Max desceu com toda a força a maça de guerra sobr e sua cabeça. Até então. Aquele sujei to não era tolo. Max sentou-se numa pedra e começou a amolar a faca na sua superfície lisa. procurando andar em sentido contrário ao do vento para não ser pressentido pelos cavalos. tirou a maça de guerra do cinto. só seria possível alguém aproximar-se dele pela frente. Max deitou-se no capim. Apanhou uma pedrinha no chão. Olhou para o céu. Escolhera para acampar um lugar entre dois rochedos. Teria de esperar o homem adormecer. O cavalo devia estar amarrado uns trezentos metros à frente. a aurora já estava surgindo no leste. Não avistava. — Solte-me. Começou a avançar lentamente. — Foi ele que me vendeu. a fogueira. A fogueira tinha agora um brilho fraco. E stava estendido no chão de barriga para cima. o homem abriu os olhos. — Não fiz nada! Eles é que queriam o ouro ! Os olhos do bandido quase saltavam para fora das órbitas. mas foram aos poucos clareando. daí a algumas horas.Estava com sorte. sem parar de amolar a faca: — Sou Max Sand. A respiração era calma. apavorado. nu. podia descansar. Viu a mão estendida do homem com a ponta dos dedos t ocando o revólver. Deu uma grande volta. Aí voltou a a-vançar. Prendendo a respiração. isso afastou qualquer sentimento que pud esse haver de piedade em seu coração.

nele se banqueteavam. enquanto os insetos e mosquitos. — Venho em tristeza à aldeia do meu povo — disse Max em kiowa. o poderoso chefe. entrou uma moça. Chegou à margem do pequeno rio e a seguiu até chegar a uma curva. Tirou uma pena de seu cocar e entregou-a a Max. dos ombros até as coxas. com a sabedoria de seus anos. Cuidadosamente. Ela já recebe u o bastão do casamento. O chefe olhou para o escalpo e depois para Max. puxando os outros animais. Vá agora. quando o espírito da guerra e da vingança ainda corre como uma torrente pelo sangue. que não podia ser vista da aldeia. — Uma árvore tem muitos galhos — disse pausadamente. O chefe olhou de novo para o escalpo. a faca e arrancou o couro cabeludo. então. colocou-o s obre o púbis do homem. Era essa a pena índia para um assassino. Depois. impassível. — Meu pai e minha mãe foram mortos — continuou Max. Max olhou-o. Max compreendeu então . para a terra dos kiowas. quando Max foi olhá-lo. Max tirou. procurou mas não viu ninguém. E ntraram por todas as fen-das ensangüentadas. O chefe nada disse. Sentiu o peito dilatar-se de orgulho. — Agora? — perguntou Max. O homem havia apenas desmaiado. estava morto. — E o melhor momento. no momento em que ele apeara do cav alo. e deve viver agora sozinha numa tenda à beira do rio até que o espírito do marido seja substituído nela. O cabelo e o corpo estavam molhados da água do rio e o vestido se colava ao corpo. montou em seu potro e. para que os espíritos encontrem onde viver. — Agora — disse o chefe. em seguida. atraídos pelo cheiro do sangue. Max ficou observando. Era quase uma criança. Max virou-se e. — Tirei o escalpo de um dos assassinos. é preciso que outros ramos cresçam no lugar. olhando para Max. O chefe permaneceu em silêncio. Vim das colinas atrás das quais eles vivem. O homem começou a tossir e a gemer. Max amarrou os cav alos numa árvore e entrou na tenda. Três dias em que o sol ardente lhe queimou os o lhos abertos e empolou a carne dilacerada enquanto as formigas lhe devastavam la boriosamente o corpo. Não havia ninguém. Os índios olhavam-no em silêncio. tinha perdido por completo o juízo e na manhã do quarto dia. Tomou o escalpo. voltou-se para Max. Silenciosamente. Voltou de novo até a entrada. É o melhor momento para tomar mulher. Já havia muito que nenhum escalpo de inimigo era pendurado no poste atrás de sua tenda. Os Olhos Brancos podiam aprisionar os corpos mas não o espírito. já saía da tenda para vê-lo. pela boca. aguardou que Max se aproximasse. Havia ali uma pequena tenda. pelo nariz. Max cortara as pálpebras para que aqueles olh os nunca mais se fechassem e a carne estava pendurada pelo corpo. seu avô. — Não temos mais liberdade de andar nas planícies — disse. O corpo se agitou. O homem levou três dias para morrer. Voltou e se ntou numa cama de couro estendida no chão. No fim. Três dias de sede e de fome e três noites de tortura. pe ndurou-o no poste e. como tiras de fita. — Há uma virgem cujo guerreiro morreu há dois sóis numa queda de seu cavalo. as formiguinhas vermelhas cobriram o corpo. e fique com ela. — Quando os galhos caem ou são cortad os. Ela arregalou os olhos ao vê-lo e sua primeira reação foi fugir. O velho chefe. Num instante. acatando o conselho. Em silêncio. estuprador e ladrão. Max foi andando pelos arredores até encontrar um formigueiro. Ele caminhava sozinho e de cabeça erguida. quinze no máximo. Tirou com as mãos o to po do formigueiro e voltou para onde estava o homem. embora os olhos estivesse m revirados. Devia ter catorze anos. Max tirou o escalpo que estava amarrado ao cinto e jogou-o ao chão diante do avô. pelos olhos abertos. — Vivemos nas terras onde os Olhos Brancos nos confinam. colocando fir-memente a pena em sua mão. tomou rumo norte. Um instante depois. atravessou a aldeia com os cavalos.ilenciara. abertos e sem enxergar. E vim à tenda de meu avô. pa ra passar o tempo da minha tristeza. Algum deles notou sua aproximação? — Ninguém me viu.

Como sabe que encontrará um deles aqui? — Se estiver por aqui — disse Max —. — Tenho muito orgulho dele. — Foram as últimas que minha mãe costurou para mim. para o seu inevitável destino. Então. Esperou que todo o gado entrasse no curral do matadouro e fechou a porteira. T irou o chapéu. com os olhos mostrando agora um novo ânimo.por que o chefe o mandara para lá. — Epa! — exclamou Farrar depois do banho. . deu um assobio. calmamente. onde o patrão conversava com os compradores de gado. que acabara de calçar as botas. depois. rapaz. Max? — Tudo. irei para o oeste do Texas e pegarei o outro. As botas de vaqueiro de sal to alto estavam bem lustrosas e o lenço amarrado ao pescoço era como uma cintilação dour ada contra sua pele morena e queimada de sol. Max. Não desisti. senhor. des cia até os ombros. Seu pai era branco e foi um bom homem. — Estará à sua espera. — Muito bem. Max esperou calmamente que ele acabasse de se vestir. Max desceu a rampa do vagão do trem logo atrás das últimas reses . eu encontrarei. Tenho a impressão de que estou uns dez quilo s mais leve. sr. Passarei pelo seu escritório hoje à tarde para pegar o cheque. pois ele pode reconhecê-lo e descobrir você antes . O poderoso chefe nos uniu para que pudéssemos tirar os demônios um do outro. Farrar viu o olhar gélido no rosto do rapaz e voltou-se para pegar uma camisa. Fora uma longa caminhada desde o Texas até uma estrada de ferro qu e os levara a Kansas City e. rapaz. Mas não posso esquecer que foram homens bran cos que mataram meu pai e minha mãe. — Ótimo — acenou positivamente Farrar. Farrar. 6 Montado em seu potro. Farrar o viu curvar-se par a amarrar na coxa a capa da arma. — Onde arranjou essas roupas? Max sorriu. — Meio índio. Farrar montou em seu cavalo e disse a Max: — Vamos. — Tudo desembarcado. — Eu sou índio. O gado mugia bai¬xinho. Depois de um momento de silêncio. queimando nos currais os últimos vestígios da primavera. — Confere. É onde deve estar. Farrar virou-se logo que ele parou o cavalo. Max tornou a colocar o chapéu na cabeça e olhou para a cerca. Farrar disse: — Vestido assim. Farrar. — Quero que saiba por que está morrendo. — Não quero outra coisa — disse Max. Farrar. O cabelo. Aproximou-se deles. Max estava ves tindo camisa e calças de couro de veado quase brancas. Estava quase no alto do céu. — Kansas City é um lugar bem grande. Apanhou na cadeira o cinto com o revólver e o afivelou. disse: — Eu também. é melhor ter cuidado. Cacei muitos anos com Sa m Sand e não fico satisfeito de saber que você não tem orgulho dele. — Pois olhe: vestido com elas. esbranquiçado e quente. — Ainda não desistiu de procurar os homens? — Não. Vamos para o hotel tomar um banho e tirar do corpo esse fedor de m erda de boi. limpou o suor da testa na manga da camisa e olhou para o sol. você está quase um índio. de um preto azulado. Mostrou-lhe a pena e disse gentilmente: — Não tenha medo. sr. como que percebendo que aquele era o final de tudo. que se dirigiu en¬tão a um dos compradores: — A conta está certa? Mil cento e dez cabeças pela minha conta.

Tossiu. Tentou levantar-se. tremendo de medo. — Acabe com seu uísque enquanto tiro o vestido. — Que diabo quer você? — Desculpe. M s não é para vender. Fez um sinal.. Dort. Não posso esquecer que é no mesmo seio que me amamentou que aquele miserável está guardando o seu fumo. — Você não pode viver com todo esse ódio dentro do coração. — Cento e trinta dólares! Hoje não precisamos fazer mais nada. O rapaz estava mesmo desaco rdado. então? — O que eu vou dizer vale alguma coisa. Dort— murmurou o homem. mas não a güentou mais. Ela se aproximou e ficou olhando para ele. O rapaz olhou para ela. sr. e ele se encaminhou para o hotel. Só consegui trazê-lo até aqui po rque disse que conhecia a pessoa que ele estava procurando. meu filho. Nunca me sinto tranqüila neste hotel. Sorriu e foi até a janela para chamar seu cafetão. São oi-tenta dólares mais ses senta que você ganhou no pôquer. — Aqui está. É a respeito de sua bolsa de fumo. Vamos embora. — São onze horas.. Mary Grady olhou sorrindo para o rapaz. Um breve instante de consciência luz iu nos olhos dele. Max guardou o dinheiro no bolso de trás sem contar. Vamos para minha casa p assar a noite toda juntos. tirou o dinheiro e contou-o rapidamente. sr. tocando no ombro do homem. — Sr. — Como você demorou a trazê-lo para cá — murmurou ele. poi . Farrar. — Por que não se deita um pouco e fecha os olhos? Ficará bom num instante. sr. Eram quase duas horas da madrugada quando o cafetão encontrou o homem. — Mais ou menos — respondeu ele. Acho até que ele não queria ficar comigo. zangado. — Cento e trinta dólares. — Desembuche. que percebeu os olhos dele um tanto pesados. muito obrigado. O homem foi até a cama. com o vestido pendurado no braço. vamos! — Mas o que sei vale alguma coisa. — Quanto é que ele tem? — Não sei. — Está se sentindo bem? — perguntou Mary depois de passar o vestido por cima da cabeça. — Não estou muito habituado a beber tanto. Caiu atravessado na cama e ali ficou prostrado. — E é índio — disse Mary. O dinheiro está no bolso das calças. Acho que o homem a quem ele procura gostará de saber disso. — Que diabo você está querendo. — Está à procura de um homem que tem uma bolsa de fumo feita com a ele de uma índia. Ela já estava vestida quando o homem entrou no quarto. Mary curvou-se sobre ele e levantou uma das pálpebras. mas creio que tenho uma informação que lhe interessa. sr. sr. — Não é nada disso. Farrar foi até a cômoda e apanhou sua bolsa. Farrar — disse ele por fim. que a esperava do outro la do da rua à porta de um bar. — O que eu ia fazer? Ele não queria beber. Pegue logo e vamos sair daqui. — E ele está armado. Ela estendeu as mãos e empurrou-o pelos ombros. — E você sabe quem é? — Talvez. Dort levantou-se rapidamente. Max. sr. — Há sempre alguém querendo comprá-la. — Obrigado. No fim. Farrar. Farrar. o pagamento de quatro meses de trabalho. Dort. Dort — disse ele. Você ainda pode pegar três marmanjos ta noite. assim que sentou na beirada da cama. Agarrou o homem pelo paletó e encostou-o à parede. — Não quer mesmo voltar comigo? — Não. — Minha bolsa de peito de índia — disse Dort. você será o ma pre-judicado. Talvez sej a melhor falar em particular. — Você está louca? — exclamou o homem. Estava joga ndo nos fundos do salão Águia Dourada. rindo. É quase um garotinho ainda. ainda estendeu a mão para o revólver. sr. O rapaz bebeu de um gole o resto do uísque. agora vou tomar meu caminho. E sabe de uma coisa? Este camarada me parece mais um índio. — Não pode ser de outro jeito.— Bem.

tudo. — Você monta muito bem. — Notei isso logo que ele pegou uma das minhas meninas no salão. soltando uma risada. sem olha r para ele. — Há um índio na cidade à sua procura. tirou a caixa de fósforo e já ia entregá-la ao homem. levantando a mão do lado onde estava o revólver. Vou matá-lo. — Como monta bem aquele rapaz! — disse para um homem que estava a seu lado. — Eu não faria isso se fosse você — ameaçou insolentemente o homem. sim. — Não há nad melhor para conservar o fumo fresco. — O que vou fazer agora? Apenas o que dever ia ter feito há um ano. que. Agora estou conhecendo. que acabara de tanger o gado. Vou fazer a cobrança por você. Acabou de fazer um cigarro e perguntou a Farrar: — Tem um fósforo aí. e Farrar notou a presença dos outros homens. — O que está olhando? — perguntou o homem. Saltou do cavalo e o amarrou a um mourão da cerca. Esta já está que não vale mais nada. observando Max. Farrar estava encostado à cerca. E levantaram em s ilêncio. Todos os olhos se voltaram para a bolsa de fumo. Os outros homens que estavam em torno da mesa se entreolharam. Sentiu-se de repente cheio de segurança e disposição. o empregado ficara de estar lá. sua posição naqueles meios equívocos. sem levantar a voz: — Não o reconheceria. — Pronto. — Aí está seu dinheiro. sua reputação. a cavalo. não valerá nada para você. fico u mortalmente pálido. limitou-se à condição de mero espectador. — E os olhos dele? São azuis? — São — disse o cafetão. Fechou a porteira e se dirigiu para onde eles estavam. Ouviu um arrastar de pés vindo de trás. Mas quando chegaram ao hotel Max não estava mais lá. sr. Farrar — disse com um sorriso. quando olhou para a bolsa a fim de abri-la. sim. Mas. — Espere por nós. — Essa bolsa de fumo. A bolsa lhe escapuliu dos dedos e o fumo se espalhou pelo chão. No entanto. sou um deles — disse Dort. — Obrigado. D esolado. Mas viu todos os rostos voltados a nsiosamente para ele. valerá alguma coisa. Onde está ele? — Vou levá-lo até ele — o cafetão se ofereceu rápido. Tom — disse um deles. Nessa hora. tangia uma parte d o gado de um curral para outro. Dort jogou em cima do balcão da portaria um dólar de prata. A pele da bolsa era da mãe dele. tudo estaria perdido. Olhou para o homem e disse. Max começou a recuar lentamente. vendo cheio de espanto a bolsa de fumo que ele tra-zi a na mão. a fim de avisá-lo. — É — disse o homem. Conhece-o? — Conheço. rapaz — disse o homem. Farrar voltou os olhos para onde estava Max. — Você é um deles. — O que vou fazer? — murmurou Dort sem muito ânimo. — Pois bem. Não poderia recuar nem sair da cidade. amigo — disse Max. se não tivesse feito isso. se não falar bem depressa. — Com certeza não me reconheceu por causa da barba — disse o homem rindo. às duas da tarde do dia seguinte. — Ora. O único defeito é que se gasta muito depressa. Nunca vi nada igual a isso. é apenas o peito de uma índia velha — disse o homem. amigo? Farrar meteu a mão no bolso. o empregado do hote l contou onde poderiam encontrá-lo: no matadouro. Dort a pegou e guardou no bolso . Está armado! — Um índio? Como é ele? O cafetão descreveu prontamente Max. para receber o dinheiro do quarto. — Pegue aí e faça um cigarro para você. — O que vai fazer agora? — perguntou o cafetão. sem entusiasmo. — A coisa vai ser divertida.s Dort era conhecido como um dos piores assassinos da cidade. jogando a bolsa de fumo para Max. — Sim. vendo Max. Fo i por isso que a princípio não percebi que ele era índio. Mas. — E daí? Farrar e os outros instintivamente se afastaram para os lados. . Se assim procedesse. quand o de repente ficou estático.

7 Nevada se agitava impacientemente. Rina sentada na poltrona. Depois. Nevada. Max atirou quase antes de o revólver de Dort ter saído inteiramente do coldre. Rina — aconselhou ele. — Você está financeiramente arrumada e ainda tem uma vida inteira pela frente. encarou Max. As balas fizeram Dort cair para trás e ele ficou estendido no chão. índio — disse Dort. Max! — exclamou Farrar. Nevada! — Dê tempo ao tempo. Os cigarros estavam no bolso." Levou de repe nte a mão à arma. O rosto de Dort estava ficando muito vermelho ao sol ardente. . — Ele pode ser tão ligeiro quanto quiser. meterei uma ou d uas balas na barriga. perto de le. O revólver caiu da mão de Dort e ele tombou de joelhos no chão.— Cuidado. com o revólver ain da fumegante na mão. Max chegou mais perto e ficou olhando. Deu a prime ira tragada e perguntou: — Por que não está dormindo? — Perdi o sono — murmurou ela. — Sei disso. Max se dirigiu a passos lentos para onde ele estava. — Não faça nada! Esse homem é Tom Dort. com voz calma. Depois. Dois dias depois. vou atirar no seu saco. vamos. — Estou com medo. com a vaga impressão de que havia mais alguém na sala. — Não vou nem atir ar no coração ou na cabeça. Pelo canto dos olhos. então. mas não foi suficientemente ligeiro para ver o rapaz puxar o revólver. — Quero que você morra devagar. Depois l evantou a mão ensangüentada para Max. ''Agora! Vou acabar logo com essa agonia. passando-lhe a mão pelo cabelo. por mais que pense nisso. e o j uiz era patriota. mas ele não quis se arriscar. O rosto do rapaz resplandecia de ódio. Primeiro. — Puxe. Mas o pior é que. — Puxe seu revólver. mas afinal sentou no sofá e procurou suas calças . Custou a lembrar-se de onde estava. sem tirar os olhos d e cima do homem. Farrar viu o gesto e voltou os olhos para Max. Falava-se muito de uma guerra contra Cuba. asperamente. Dort ficou alguns instantes ajoelhado. com o corpo sacu dido por leves tremores. acordou de vez. Quero apreciar a sua morte. como minha mãe. Farrar — disse Max. ''Agora''. mestiço miserável. e estendeu a mão para o revólver que estava no chão. — Filho da puta! — exclamou. — Puxe o revólver! — gritou ele. quando só sentiu o va zio ao lado do sofá. Você não faz idéia omo é ligeiro no gatilho. rindo. filho de uma índia puta e adela! Puxe logo essa merda. viu os homens q ue o observavam. Havia probabilidade de Max ser absolvido por ter matado em legít ima defesa. Max esperou que Dort voltasse o cano na sua direção e. — Não tenho pressa — disse Max. Estendeu au-tomaticamente a mão para pegar um cigarro e. com a mão entre as perna s. sr. à luz breve do fósforo. não consigo me conven cer. — Com medo do quê. pensou Dort. De repente. Rina? — Do que pode me acontecer. Tinha ainda um encontro marcado com um homem a quem nem conhecia. Meteu um na boca e riscou um fósforo. olhando para ele. deu dois tiros rápidos. ela foi para onde Nevada estava e se ajoelhou no chão ao lado dele. deram a Max a oportunidade de escolher entre alistar-se no Exérc ito ou ser julgado por homicídio. Viu. Rina — disse ele. ainda que houvesse muitas testemunhas. — Ora. seus dentes mordendo o lábio inferior. sem alterar a voz. Dort começou a sentir-se dominado pelo medo. quase como se estivesse rezando. — Você tem de me ajudar. — Mas eu vou matá-lo. — Não estou com nenhuma pressa de matá-lo — disse Max.

— E você. agarrando suas mãos. não me casa-ria com Jona s em vez de escolher o pai dele? Nevada não respondeu. — Porque você não é um garoto. apagando o cigarro. enquanto pegava um cigarro. chocado ao vê-la. D epois.. Eu sei disso. antes mesmo de me casar com Cord. É tão fáci l fazê-los acreditar naquilo que eles querem. — Mas não como eu! — exclamou ela. De repente afastou o co bertor e baixou a cabeça para o colo dele. — Talvez não — disse ele. — Por favor. trepar. Puxou Rina pelo cabelo e perguntou: — O que você está querendo provar? — Que você é o homem. Ele voltou. Rina. — Não sou o homem que você está procurando. pensei que estivesse agindo direito — disse. Chegou mais perto dele e tiro u o cigarro de seus lábios. Nevada riu. a voz adquirindo um tom de desafio. — Mas acho que ainda sou muito moço. Você é um homem de verdade. Porque a ve rdade é que a única coisa que quero de você é trepar. Então. — Homens jovens. — Os rapazes só querem uma coisa de mim! Trepar! Não pensam em nada senão em trepar. Quero que me compreenda. mas conseguiu dominar-se e disse. para onde ela estava. um calor crepitante enchia a sala. Ainda não encontrei nenhum homem que fosse capaz disso. Colocou o cigarro na boca e aspirou lon gamente a fumaça. — Bem sabe que não é ver-dade o que está dizendo.— Você não compreende. Sinto dentro de mi m! Nevada continuou ali sentado. trepar! Ele a olhou fixamente. E nunca senti com os hom ens. — Comigo é diferente. tre par. quando ainda era menina. Nevada — continuou ela. de alguma doença terrível. Rina. Atiçou o fogo e jogou dentro cavacos e um tronco novo.. se não tivesse. Você é que pode fazer de mim mulher de fato. trepar! Ela o encarou por um momento e então começou a sorrir. voltou-se para ficar de frente para ele.. — Bem. mas Nevada a segurou com firmeza. — Não ria! Não sou maluca. — Não? — disse ela. afagando a cabeça de Rina. Nevada. Sei qu e vou morrer moça. Rina? Os olhos dela brilhavam num desafio. Deu-lhe um beijo rápido na boca e foi até a lareira. Afinal disse com voz bran da: — Tudo será diferente quando você voltar para o leste. com s ua vaidade masculina espicaçada. Rina c ontinuava sentada no chão a observá-lo. Os olhos dela estavam marejados de lágrimas que banhavam seu lindo rosto às primeira s claridades da manhã. com toda sua fineza. Rina? Por que está dizendo isso para mim? — Porque quero que você me conheça. Um instante depois. — Sempre senti esse medo . Nevada. Nevada sentiu o movimento de seus lábios e teve um momento de raiva. devagar. — Quando a convidei a vir para cá. — Acho que sou lésbica. com a voz cheia de terror. sorrindo: — O que você deseja. Nevada? — perguntou ela. — Mas por que eu? — disse ele. Estendeu a mão por baixo do cobertor e segurou seu membro. nunca mais terei medo! Ela curvou de novo a cabeça.. Já estive com mulheres e com homens. acariciando seu rosto. que já queimava seus lábios. Encontrará homens jovens e. proferir aquela pala vra vulgar. com uma voz cheia de amargura e desprezo. E eu conheço todos os truques! — Talvez porque você ainda não tenha conhecido um homem de verdade — disse Nevada. o único homem capaz de me fazer sentir alguma coisa! Tenho certeza . — É deles que eu tenho mais medo. com um sorriso. o que sinto com uma mulher. com qualquer homem. antes de vir para cá. Acha então que. afastando-a. ela riscou um fósforo para ele e disse com voz macia: — Sim. Nevada! Deixe-me provar como posso amá-lo! E começou de novo a chorar. No mesmo instante. Nevada levantou de repente e foi até a lareira. Os homens são uns tolos. mas havia insegurança em sua voz. Nevada! Posso sentir dentro de mim. . — Não? — perguntou ela. acho que de um modo ou de outro todo mundo tem medo.

Se fecharmos o espetáculo. Ela estava à janela do carro da bilheteria. atirando-se nos braços abertos de Nevada. Não era o dinheiro dele que estava em jogo. fazendo planos para aquela noi te. — Já não havia ficado resolvido isso.Depois.. — Por favor. Nevada levantou e foi até a janela. se os abando-narmos agora. Acho que o agente nos traiu em proveito do outro sh ow. o que vamos fazer? — Agüentar a temporada até o fim. não tenho nada a fazer no leste. — Em quase todas as cidades estamos programados para uma se mana depois do show Buffalo Bill Cody. Não há outro jeito. aria farta de tudo numa semana. — E deixará que eu de vez em quando apareça para fazer uma visita? Se eu me sentir só e com medo? — É para isso que são os amigos. Nevada? — Não sou muito de escrever.. Nevada. Não conversaram mais até chegar à estação e só voltaram a falar quando ela já ia tomar o trem — Você vai escrever para mim. Virou-se e disse ao caixa: — Vou levar a sra. Não é essa a única coisa em que estou metido. com um leve movimento fez o robe cair no chão a seus pés. Ouvia-se dali o murmúrio abafado dos gritos e dos urros dos índios. corriam para os carros a fim de trocar de roupa e conversavam em voz alta. que se desenrolava no picadeiro. — Agora po demos ser amigos. Nevada olhou-a. espantado. O espetáculo estava terminando. Calculando por estas duas semanas. . 8 — Os negócios do show vão mal — disse o caixa.. Passarei depois pelo escritório do agente. Aqui. Nevada deu o braço a Rina. pelo menos. Você já é uma mulher adulta Isto aqui não é vida para você. — E você tem? — Mais do que você. menina? — perguntou ele. Eram os ho mens do show que levavam os cavalos para as cocheiras. ajudando-a a descer a escada do carro da bilheteria. Nevada. Nevada sentou numa ca-deira bem pouc o confortável e começou a enrolar um cigarro. movimento. tirando os olhos de Rina. Os índios iam saindo do picadeiro. Rina. sorrindo. deixe-me ficar com você.. — Vão mal ou muito mal? — perguntou Nevada. Ela então atirou o cigarro dentro da lareira e caminhou para onde ele estava. — Não podemos deixar de enfrentar esse prejuízo. O fogo envolveu co m um clarão dourado seu lindo corpo nu. — Mas. Havia gente por todos os lados. Um estridente clarim deu um toque de carga. — Pagarei metade de seus prejuízos se me deixar ficar. E agora. perseguidos d e perto pela cavalaria. — Com quarenta mil dólares de prejuízo? Não podemos perder tanto dinheiro! O caixa mostrava-se nervoso e vermelho. Nevada — disse ela quando che-garam ao automóvel. posso sentir vida. Fique aqui à m inha espera até eu voltar. — Você não tem dinheiro para isso. At ravessaram o acampamento até o automóvel. — Mas mandará notícias? Responderá se eu escrever? Ele assentiu com a cabeça. Nevada não compreendia por que o homem est ava tão inquieto. — Pare de agir como uma criança. Ninguém vai querer assinar contrato conosco para a próxima temp orada. Pensava que ela não havia escutado a conversa com o cai xa. — Talvez seja melhor assim — disse. Nevada voltou-se para Rina. — Bem mal — disse o caixa. Cord à estação. A cavala ria ia chegando em socorro dos pioneiros cercados pelos índios. vamos ter um prejuízo de mais ou menos quarenta mil dólares neste verão. olhando o úl timo número do espetáculo Oeste Selvagem. — Como é que você concordou com uma coisa dessas? — A culpa não foi minha. perderemos t odo o nosso pessoal. Nevada.

— Não estou procurando emprego. — Sim. até um corredor sujo. — Do show Buffalo Bill? — perguntou ela. Nevada. o outro. — Se está à procura de emprego. Ele ainda viu o rosto dela surgir por um instante na janela quando o trem se pôs em marcha. — Foi à Norman Films. Foi a uma reunião. quando perguntou. passou por outro cartaz na frente da Warner. quase com hostilidade: — O que deseja? — Dan Pierce está? Ela observou Nevada um instante. beijou-o no rosto e embarcou no trem. O cartaz de costume lá es . Ele falará comigo. Da porta. — Bem. notando o casaco de couro surrado. as calças desb otadas e o grande chapéu de cowboy. — Onde? Alguma coisa nos olhos de Nevada fez a moça responder. ainda se voltou para dar adeus e desapareceu dentro do vagão. Uma moça olhou para ele de trás de uma mesa atravancada de coisas e papéis. — Ah! O outro. — Obrigado — disse ele e saiu. APRESENTA MILTONS SILIS EM "O FALCÃO DO MAR" Filme da VITAGRAPH Os estúdios da Norman ficavam oito quilômetros mais adiante. Daniel Pierce — Agente Teatral O escritório não destoava do aspecto do corredor. com uma ponta de interesse. Estou procurando Dan Pierce. Do Grande Rodeio do Sudoeste. Viu o grande cartaz em frente à Universal logo que chegou ao endereço indicado: UNIVERSAL PICTURES CASA DE TOM MIX E DE TONY VEJAM "OS CAVALHEIROS DA SAGA PÚRPURA" Filme da UNIVERSAL Logo em seguida. depois do estúdio da Universal e de-pois do da Warne r. Depois. WARNER BROS. Está procurando vender um cliente para um filme de faroeste. — Não. — Ele não recebe ninguém sem hora marcada. — Sou da equipe do Oeste Selvagem. ele não está. — Onde é que está? — Não sei. Seu cabelo denunciava traços de uma oxigenação mal feita e mascava um pedaço de goma. — Tem hora marcada com ele? — Não. — E como se vai até lá? — Fica no Lankershim Boulevard. Nevada subiu por uma escada desconjuntada.Ela sentiu as lágrimas umedecerem seus olhos e murmurou: — Você tem sido um bom amigo. Em seguida. o trem desapareceu na curva e ele saiu da estação. perca as esperanças. A tinta da porta estava descascada e as letras quase não se podiam ler.

— Pierce provavelmente e stá no campo de filmagem dos fundos. O cocheiro levantou e caminhou até onde estavam os outros homens. Vou verificar. ele viu o cocheiro pular fora e sair roland o pela beira da estrada. — Vamos que lá vêm eles! — gritou alguém bem alto. — Dan Pierce está aí? — perguntou Nevada. — Você deve ser o homem a quem ele está esperando — disse depois. m as não o viu em parte alguma. — Dan Pierce está por aqui? — perguntou a um homem que passava com uma lata de filme. Nevada agradeceu e seguiu com o carro. NORMAN PRODUCTIONS APRESENTAM ''O XERIFE DE VILA PACÍFICA'' COM UM ELENCO DE AS-TROS Nevada virou o carro para o portão principal. Vou esperar por ele — disse Nevada. começando a enrolar um cigarro.tava na fa-chada. Passou por algun s prédios muito grandes e. — Dan Pierce está por aqui? — perguntou a um homem que estava sen-tado num dos caminhões . Um instante depois. — Aqui está o homem que Pierce estava esperando. Num lado do caminho havia grande quantidade de carros e caminhões. O homem alto voltou-se para Nevada. — Teve de ir ao escritório para telefonar — respondeu outro homem. Parou o seu ao lado de um deles e saltou. porque o caminho estava cheio de gente. afinal. — Trabalha com a turma do Vila Pacífica? — perguntou o homem. O guarda entrou em. Nevada parou e olhou. SET DE " VILA PA CÍFICA'' ESTACIONAMENTO DE CARROS AQUI Seguiu a seta. mas muitos era m trabalhadores comuns. Não havia senão mato e morr os. vestidos de macacão e roupas de trabalho. BERNARD B. Um pouco abaixo. — Espere um momento. onde um porteiro o fez parar. De repente. — Pierce já voltou com seu maldito stuntman? — Foi telefonar para ele — disse o homem que respondera a Nevada e que de repente o encarou: — Espere aí! Você é o camarada que Pierce es-tava esperando? — Acho que sim. sua guarita e consultou um monte de papéis. Russel! Você saltou antes do tempo! A diligência só rolou da estrada bem uns quarenta quadros depois de você. — Acho que sim. — Venha comigo — disse o homem. batendo com o ch apéu a poeira das rou-pas. A altura era de uns vinte metros e o cavalo teria de saltar pelo menos uns cinco metros na horizontal para cair dentro da água. havia uma porção de gente. embaixo do qual corria um largo rio. A mesma voz forte de pouco antes se fez ouvir de novo. — Seria capaz de saltar com um cavalo dali de cima para dentro da água? Nevada olhou na direção apontada. Perto do primeiro morro. Correu os olhos pelo grupo à procura de Pierce. Nevada começou a descer a ladeira. Foi bem devagar. Só ass . No alto do morro. chefe. No m omento em que o veículo fazia a curva. — Obrigado. direto. Então apontou para um penhasco no morro próximo. — Todo mundo está do outro lado do morro. Nevada o acompanhou até onde estava um grupo em torno de um homem alto. os cavalos se soltaram dos tirantes e a diligência tombou num lado da estrada e caiu rolando pela ribanceira. perto da câm ara. — Corta! Corta! Com os diabos. Siga este caminho para lá. viu-se em campo aberto. Não tem erro. Alguns eram artistas com trajes os mais variados. um grande cartaz. uma diligência apareceu em disparada na estrada abaixo de Nevada.

Estaremos prontos no momento em que você chegar. mas ninguém poderá acertá-lo. bem entre os olhos. que estava lá embaixo. Reagia prontamente e não mostrava um pingo de medo. desde que começara a procurar Pierce de um lado para outro. O diretor. O homem a pegou sem nada dizer e tir ou do bolso um maço de cigar-ros. Entrou na água de cabeça e deixou que o impulso o levasse até o fundo. com voz fria. — Estamos pagando o dobro por esse golpe. forçado a subir. Nevada aceitou um e o diretor riscou um fósforo. Esperou um momento até o cavalo levantar de novo a cabeça e deu um tiro certeiro. Viu a água se aproximando e torceu para já estar longe o suficiente para o cavalo não cair em cima dele. mas não disse que iria fazer isso. são todos a mesma coisa. A profundidade era suficiente. Nevada não respondeu. Sentiu um nó de raiva na garganta. quando Nevada tocou em seu ombro. O diretor olhou para ele com curiosidade. De repente. e voltou-se para o operador. Havia em seus olhos um ar de grande sofrimento. Ninguém aí tem um revólv er? — Claro. pagarei cem. Era um bom cav alo. of egante. Não trabalho em acrobac ias para o cinema. Noventa dólares não che-gam? Está bem. O diretor deu um amplo sorriso. — Escute aqui. Estou aqui para falar com Dan Pier¬ce. Conversa muita. Pediu bala de verdade. Não se pre ocupe. portanto. Nevada pegou a arma. Nevada voltou e devolveu a arma ao diretor. mas o cavalo está todo quebrado! Não há ninguém que dê um tiro para acabar com a agon ia daquele pobre animal? — Já mandamos buscar um rifle do outro lado do morro. Nevada concordou com a cabeça. — Tenho câmaras cobrindo todos os ângulos. — Vocês. Eu disse que era possível. terá de pagar quinhentos dólares — disse. levantou a mão bem alto. cowboys. O diretor já se voltava para o homem da câmara. baixou a mão e Nevada meteu as esporas no animal. Nevada soltou as rédeas levando-o para o lugar do salto. Os pulmões começaram a arder. à superfície. O cavalo saiu em dis parada. preparado para uma queda pequena. Nevada sorriu. tomado de pânico. Fica pelos quinhentos — disse o diretor. Nevada tirou prontamente os pés dos estribos e atirou-se bem para o lado. Nevada o olhou por um instante. O cavalo pulou com as patas estendidas. — Aquele cavalo já terá morrido afogado quando o rifle chegar aqui. — Se quiser que eu pule com um cavalo daquela altura. — Estamos prontos! — gritou o diretor. todo sorridente. A arma desviou-se um pouco para a esquerda. — O senhor está enganado. aproximou-se do cavalo e lhe ofereceu um torrão de açúcar. Depois se aproximou do rio. com a cabeça tor cida de uma maneira estranha. . — Cavamos bem o rio e a profundidade naquele ponto é de oito metros — disse o diretor.im evitaria o choque com o barranco. Devia ser o cavalo. Nevada subiu. — Grande! Bárbaro! Um dos maiores shots já filmados! — Sim. mas depois sorriu. mas co-ragem nenhuma. S entiu uma explosão na água perto dele. Atirou num pedaço de madei ra dentro da água. — Você deve ter ficado sabendo que nenhum dos homens de Hollywood quis saltar nessas condições. Nevada nadou prontamente para a margem e se dirigiu com raiva para onde estava o diretor. — Muito bem. Um revólver não adianta nada numa distância dessas. — Dê-me o revólver. O diretor o encarou espantado. O animal encolheu-se todo. mas ele permaneceu mergulhado o quanto foi possível. afinal. Nevada sentiu o coração do animal fraquejar de repente quando não alcançou o chão esperado. com o lado para que deve olhar. O cavalo enco stou o focinho na mão dele e Nevada lhe deu umas palmadas no pescoço. — Felizmente! Afinal encontramos um homem com dois bagos. Suba até lá e lhe entregarão o cavalo. abriu o tambor e viu que estava carregada com cápsulas de fes tim. Voltou os olhos e viu o cavalo boiando de lado. Teve a impressão de levar um tempo enorme até chegar. Nevada montou no cavalo. — Acho que é possível — murmurou. Comece quando eu der o sinal. Estava cansado de tudo aquilo. Foi. no momento em que começou a rolar no vácu o.

não um re-formatório! — Não deixe essa cara inocente enganá-lo. — Acabei de deixá-lo agora mesmo lá. — Que pensam que estão fazendo por lá? Isto é uma penitenciária. A raiva aumentou por dentro dele. — Para efeito de publicidade. Nevada? — perguntou. Von Elster! Ou mil por semana ou nada feito! Nevada abriu a boca para falar. segurando o braço de Smith. diretor — disse Max. Quero que Norman saiba que encontramos afinal o xerife de Vila Pacífica! Nevada voltou o rosto para esconder seu sorriso. gargalhando impudica-mente. — Desculpe. — Isso é verdade — disse o delegado. sorrindo. — Não pude encon-trar o stuntman em c anto algum. Nevada Smith. daqui a uma hora toda Hollywood saberá da proeza de Nevada. alegando legítima d efesa. depois mil por semana e aumentos correspondentes de sei s em seis meses. diretor — disse o delegado mascador de fumo. se soubessem que ele acab ara com uma insígnia de xerife. — Mas fui obrigado — insistiu Max. — Então ainda não soube? Ele apareceu e nós acabamos de fazer a fil-magem. Estendeu a mão para cu mprimentá-lo. você tem vinte e nove anos — disse Von Elster. Venda seu show e venha trabalhar con osco. Eu estava sem roupa. Mas vou conseguir outro amanhã sem falta. — Por que fez isso comigo.. mas a pressão de Pierce em seu braço o fez calar-se. — Há muito que procuro um homem como você. Esse cara foi pego no quarto de uma mulher elegante. Prazer em vê-lo. mas Dan Pierce gritou com autoridade: — Cale a boca! Sou seu agente e é bom que não se esqueça disso! Von Elster. Veja. Von Elster se interpôs. Nevada. para serem assinados. Posso levá-lo agora mesmo para a Uni versal ou para a Warner. sr. É o proprietário do Grande Rode Sudoeste e do show Oeste Selvagem. ofegante.. — Esse aí é Nevada Smith. mas deu-lhe um puxão. — Eu era o guarda-costas dessa senhora. — Agora ven ham os dois comigo até o escritório. Pierce caiu. O diretor deu um passo para o lado e mostrou Nevada. — Nem um cent a mai s. Pensou então no que diriam os hom ens da penitenciária agrícola onde estivera há muitos a-nos. sr. — Que idade você tem. Nevada tentou protestar. O diretor pegou os papéis. — Ele avançou para mim com uma faca e tive de me defe nder. Conseguiu livrar-se da acusação de homicídio. em uma escandalizada surpresa. Smith. — Fechado — disse Von Elster. Von Elster — disse Dan Pierce antes de Nevada poder falar. — Quinhentos por semana — disse Von Elster. Nevada — disse Pierce. — Foi condenado por quê? Homicídio? — Não. — Setecentos e cinqüenta — disse Von Elster. olhando para o agente. gritou do chão: — Nada disso. Apertou a mão de Pierce e voltou-se para Nevada. Para começar. Qualquer delas o agarrará com as duas mãos. mesmo que fosse apenas no cinema. a quem estendeu a mão. amigo? — Trinta anos. com voz rouca. — Não é possível! — exclamou Dan Pierce. Von Elster — disse. — Vamos. ganhará duzentos e cinqüenta dólares por semana. — Isso não lhe dava o direito de matar um homem — censurou o diretor secamente. j ogando os papéis na mesa. — Aqui está ele. Que veio fazer aqui? Nevada olhou para Pierce. uso ilegal de arma. Pierce. que ainda estava caído. — Só quero saber quanto o Buffalo Bill lhe pagou para você me passar para trás. Matou um home m lá em Nova Orleans.Um homem apareceu correndo. 9 — Meu Deus! — exclamou o diretor da penitenciária quando Max foi levado a seu gabinete . — Isso durante seis meses. — Como é mesmo seu nome? — Smith. — Mas não é ele! — exclamou Pierce. — Vamos até a Warner. Todos os estúdios estão à procura de alguém para fazer um pouco de concorrência a Tom Mix. — Estava nu como o pesc . — Ele é ruim de verdade.

mas não tenho muita paciência com insubordinados. rindo. O diretor chegou à porta do gabinete e gritou: — Mike! Um gigantesco guarda negro. Levante todo dia de manhã. E ela precisava de al guém que fosse ligeiro no gatilho. apesar disso. à procura de diversão. — Leve esse novato e dê-lhe dez chibatadas. diretor. apontando para o revólver de Max. E eu sou ligeiro. Perdeu o dinheiro. também um condenado. — Pois você é muito moço para já estar servindo de guarda-costas de uma daquelas donas ele gantes de Nova Orleans. Os Darcy eram gente muito importante em Nova Orlean s. escute. A arma havia sido sacada tão depressa que ele nem teve tempo de perceber o movimento. que. se não estou enganado. — Como foi que. A voz do guarda era cordial e animadora. O jogador levou a mão ao bolso interno do paletó. O rosto do jogador se relaxou num sorriso. . — Não se preocupe com as chibatadas. — Isto é. o cavalo .oço de um abutre. — A sorte não foi muito sua amiga esta noite. — Neste caso. diretor. quando viu o cano do revólver de Max. rapaz. Sei lidar muito bem com cavalos. senhores. chega. — Parece então que foi mesmo um caso de legítima defesa — disse o diretor. — Um pouco. — Não há nada pessoal nisso — apressou-se em dizer o diretor. depois de assinar os papéis e devolvê-los. Como foi que se meteu nisso? — Eu havia saído do Exército e precisava de um emprego. — Vamos. Não posso mais jogar. O jogador levantou-se. — Procurar um emprego. — Para mim. você ainda teve muita sorte — disse o diretor. hospedou-se num pequeno hotel e foi para o Bairr o Latino. — Às ordens. — Que espécie de emprego? — Qualquer um. A surpresa estampou-se no rosto de Max. — Você é bom mesmo — retrucou respeitosamente. — A verdade é que o senhor não lhe deu muita oportunidade — murmurou Max. Sou um homem justo. Max guardou o revólver no coldre. Guardou o cavalo numa cocheira. — Trata-se de uma simples me dida de precaução. Os dois saíram pelo corredor. Você sempre se lembrará das chibatadas quando pensar em fazer o que não deve. Gostou da ci -dade.. diretor. — Um homem pode morrer fazendo coisas tolas desse tipo — disse Max calmamente. Qualquer coisa. Agora. e deu no que deu. rapaz — disse o preto. Um dos jogadores olhou para ele e perguntou em seu macio sotaque sulista: — Desculpe. mas de confiança do diretor. talvez. e ele acabou sendo contagiado pela animação. enfiou sua cabeça pela porta. e resolveu passar ali um dia ou dois antes de continuar sua viagem para o Texas. Vou buscar o cavalo na cocheira. mas posso perguntar o que pretende fazer agora? — Não sei ainda — disse Max. faça o trabalho que lhe manda-rem e não te rá aborrecimentos comigo. — Acho que tenho um emprego para você — voltou a falar o jogador. As ruas estavam c heias de pessoas que riam. — Entendido. Seis horas depois jogou nos dados. menos a roupa do corpo. se não se import ar em trabalhar para uma mulher. — Também é bom com isso? — perguntou o jogador. o condenaram? — O homem que ele matou era primo dos Darcy — explicou o delegado.. Empurrou a cadeira para trás e levantou. Eu lhe darei a primeira e você nem sentirá a s outras nove! Max havia chegado a Nova Orleans numa sexta-feira de Carnaval. Isso de fato explicava tudo. Com gado também. tudo. per-guntou a Max: — Que idade tem você? — Uns dezenove. — Ligeiro demais. Mas seu gesto se paralisou de repe nte.

Peça para fazer seis ternos. e a fechou logo depois que eles passaram. chegava quase na cintura e parecia branco de tão louro. Às vezes essas pessoas chegam a extremos no seu desejo e nos criam dif iculdades. — Não se pode ficar escolhendo. Sejam quais forem as circunstâncias. Jacob? — perguntou ao porteiro preto.. Lá embaixo. muito jovem. Pluvier — replicou ela friamente. escovando o cabelo.— Trabalho é trabalho — disse Max. Terá de viver aqui conosco. como se Max nada houvesse falado. de repente. Max e o jogador estavam sentados na sala de visitas da casa mai s elegante de Nova Orleans. — Vou tratar disso agora mesmo. — Ótimo — disse Max. A srta. E claro que também fornecemos outras diversões di scretas. mas voltou e perguntou: — O sr. Deve usar bem as roupas. vol-tou os olhos para ele. e jovem. A jovem examinou Max por um instante: — Olá. Meus amigos me aconselharam a cercar-me de alguma proteção. sr. os caixilhos. — A senhorita Pluvier vai recebê-los agora. Até o grande tapete do chão era branco. com cara de estúpido. — É veterano da recente guerra com a Es panha. sentada à pente adeira. — Tudo fechado. Ela levantou a mão para interrompê-lo. — Mas garanto que é muito capaz — disse o jogador. senhora. Max deu dois pa ssos e parou de repente boquiaberto. não poderá ter relações de espécie alguma com as jovens que aqui residem. — murmurou. — E esse o homem? — perguntou uma voz macia. Max voltou-se na direção da voz. temos divers as salas de jogo para cavalheiros. as cortinas das janelas. — O meu horário será o seu. fez uma reverência. — Sim. arcy já saiu? . T ornou a andar em volta dele. Foi até a porta da rua. — Apesar de tudo. Tenham a bondade de me acompanhar. O meu negócio aqui é muito grande. a aparência é boa — continuou ela. Ela se aproximou e andou em volta dele. Nunca vira nada parecido com aquilo. — Fechado e vigiado. O jogador disse. A mulher surpreendeu-o ainda mais que o quarto: bas tante alta. Sand. No dia seguinte. — Senhora — disse Max. — Parece moço demais. — Tenho certeza de que suas qualificações são satisfatórias. permita-me apresentar-lhe Max Sand. Tudo era branco. empregada abriu uma po rta. senhora — disse Max. Uma empregada negra apareceu e fez uma reverência. o dossel de seda cintilante q ue se estendia acima da cama. — Acabo de chegar da Flórida a cavalo. — Compreendo. já que você o recomendou. — Vai ser meu guarda-costas. Quando ia saindo com ele. — Faça o favor de me chamar de srta. Mas o cabelo é que era o mais surpreendente de tudo. Acho que assim tudo ficará em ordem. Quadris estreitos. e. Já estava indo na direção da escadaria. Acho que serve. Ganhará cem dólares por mês. senhora. em tom respeitoso: — Senhorita Pluvier. dos quai descontarei vinte de cama e mesa. gostaria que me fizesse o favor de levá-lo até o alfaiate. os móveis. Já passava das três horas da madrugada. há muitos invejosos. Nossa casa goza da melhor reputação em todo o sul. As paredes forradas de sed a. Max parou na porta e olhou para a jovem. — Obrigado. Os dois a seguiram por uma comprida e graciosa escadaria. senhora — respondeu Max. Pluvier sorriu e voltou-se para o jogador: — Agora. senhora. Comprido. Ela também. — Ombros largos. As arrumadeiras já estavam trabalhando nas s alas do andar térreo. fazendo uma reverência. jovem? — Não. quando Max chegou ao salão após a inspeção pelas sal as de jogo que fazia todas as noites. quase tanto quanto ele. analisando-o de todos os ângulos. três pretos e três claros. Mas pa ece um pouco sujo.. Caminhou até a penteadeira e perguntou: — Sabe o que terá de fazer. naturalmente.

Bateu numa porta e entrou. Toda vez que iam para a cama faziam troça de mim! — E melhor sair daqui antes que você se machuque — disse Max. Mas este ficou preso no travesseiro e Darcy caiu so . Daqui a pouco ele vai parar com isso. Max estava deitado ao lado dela na grande cama branca. Não se preocupe. reacendendo-lhe os desejos. Pluvier disse? Foi só então que Darcy o viu e seu rosto se encheu instantaneamente de cólera. — Para vocês rirem mais um pouco de mim? Não! Desta vez. Houve um leve barulho na porta. apontando para a porta: — Saia. seu idiota! Darcy ficou olhando para ela. já disse! Darcy continuou parado. sem saber o que podia ser. Pluvier — disse ele. era você quem ficava com ela! Vocês devem ter se divertido às minhas custas todo esse tempo! Disse isso e apanhou um punhal. Max voltou a cabeça. passou os braços pelo pescoço dele e o bei-jou. Sentiu o tremor subir-lhe bem no fundo da a lma. Max estendeu a mão e lhe afagou o cabelo. Ma x pegou um travesseiro e o conservou à sua frente. Ela se levantou. Acontece com todos os jovens. — Bon — murmurou ela. Sua patroa estava sentada à p enteadeira. encarando-a. — Riam de mim o tempo todo. O sr. eu os instalei no quarto de ouro. Não me agrada a maneira como ele vem agindo. Os olhos de Darcy estavam vitrificados de raiva. Max ficou ali olhando-a com a fisionomia perturbada. seus olhos se deliciando com a maravilha daquele lindo corpo. E fechou os olhos. Não se preocupe com ele. Darcy fora seu único problema naqueles últimos meses. E naquela noite fora p articularmente desagradável quanto a is-so. Sorrindo. Uma expressão de êxtase e temor invadiu o ro sto da mulher e ele fechou os olhos. que trazia na cintura. Acho que deveríamos proibir sua en-trada. Ela notou sua aflição pelo espe lho e mandou a empregada sair do quarto. Avançou para Max. Então ele afastou um pouco os lábios. sem a menor consciência de sua nudez. Com os olhos entreabertos podia ver a sensualidade que se es-tampava no rosto dela. — E Darcy? — Está no quarto de ouro com Eleanor. Meteu a mão no bolso e uma porção de notas se espalharam pelo chão. Ouviu os sons suaves do prazer q ue ela sentia. Uma empregada escovava seu cabelo. srta. — Você! Enquanto eu pedia e implorava.— Não. A família dele é muito importante. Era quase insuportável aquele estranh o prazer. mon chéri". A mulher saiu da cama. enquanto seus dedos continuavam a acariciá-lo. com os olhos esgazeados. com ar de estúpido. — Mas eu quero você. Como podia uma mulher saber tanto? De que profundas nascentes poderia brota r tamanha fonte de prazer? Prendeu a respiração. quem vai rir sou eu! Atacou de novo com o punhal. que saiu prontamente da cama um instante antes de a lâmina cravar-se na colcha de cetim. Pouco depois. Max subiu a escada. Vai passar a noite com a srta. — Está tudo fechado. Max achou que era hora de intervir e exclamou: — Não ouviu o que a srta. chéri? — Com Darcy. — Meu jovem indien está com ciúme. mon indien. diferente de tudo que havia conhecido. Chegou ao alto da escada. As palavras sussurrantes dela chegavam-lhe aos ouvidos. enquanto recuava para a cadeira onde estavam suas roupas e o revólver. "Mon coeur. e levantou a mão. — Está preocupado com alguma coisa. um pouco aturdido. A mulher imediatamente se afastou de Max e gritou dos pés da cama: — Saia já daqui. — Isso não é possível. O ra paz estava empenhado em querer dormir com a dona da casa. — Veja! Trouxe mil dólares para você — murmurou com voz de bêbado. De repente. Eleanor. senhor. a porta se escancarou e o jovem Darcy entrou no quarto. Sentiu os dedos da jovem desl izando suavemente pelo seu corpo. Sentiu os lábios macios roçando sua pele. no outro lado da casa. Avançou para ele autoritariamente. — Sua arma se transformou num canhão — brincou ela. Já aconteceu muitas vezes.

Os demais prisioneiros ficaram obser-vando em silêncio. vou dar parte ao diretor. Aqui mesmo. nos vinte anos de existência da prisão. Vinha sentado num carro. é um grande idiota. ao lado do morro Na manha seguinte. entre dois cajuns armados com espinga rdas compridas. numa manhã de maiô. Já verifiquei. meu garanhão selvagem — sussurrou ela. e era ali que a maior parte dos detentos que procuravam fugir eram agarrados pelos cajuns. nua. O diretor esperou que todos os homens estivessem a postos para começar a falar. Estavam todos formados em fila diante da cozinha. Sentou para comer. sentou ao lado dele. Mike. na hora em que estava de novo tomando a ração matinal. Max viu a arrebatadora sensualidade que se reacendera na expressão da jovem. imóvel. idiota! Max olhou para ela. — O homem avançou com o punhal para me mat ar! — Devia tê-lo feito perder os sentidos apenas. que os levavam de volta à prisão para rece-berem a gratificação de dez dólares por cabeça paga pelo Estado. meu valente. A mulher. Os seios dançavam com a exaltação que a dominava e havia um leve s uor no vale que os separava. que deixavam cair suas folhas dentro da água morta. recebendo a ração da manhã. quando M ax viu um dos guardas sair da prisão e tomar o caminho da aldeia. Mas ela se-gurou-lhe os braços e o puxou para o chão. Porém. Hav ia uma pequena aldeia cerca de trinta quilômetros ao norte da prisão. O revólver disparou e uma expressão d e surpresa e dor apareceu no rosto de Darcy. 10 A leste. E se amaram pela última vez. A mulher f echou a porta silenciosamente e voltou para onde estava Max. O travesseiro havia abafado o tiro. que foi empurrado de encontro à parede. Presumia-se que os que não tivessem sido captu-rados houvessem morrid o no pântano. Deve ter pulado o muro à noite. a seu lado. a oeste e ao sul a prisão fazia fronteira com um pântano junto do qual se e rguiam os ciprestes. e ficou olhando até o guar da desaparecer na estrada. deix ou cair a mão. para que to dos pudessem assistir ao castigo antes de comer. Depois foi até a porta espiar o corred or. — Que queria que eu fizesse? — perguntou ele. J im Reeves voltou. e Max sentiu seus lábios nas coxas. — Nem lá nem nas latrinas. o ajudante que revistava as cabanas disse a um dos guardas que um prisio-neiro chamado Jim Reeves estava ausente. enquanto caía de joelhos. — E com que ia bater nele? Com meu canhão? Ela ficou imóvel um momento olhando para ele. Já havia se passado algum tempo desde que Max chegara ali. — E só isso que fazem quando algum preso foge? — perguntou Max. Nunca fora tão bela quanto naquele momento. o enorme presidiário preto que servia como ajudan te e lhe dera as dez chibatadas no dia da chegada. apenas dois casos desses es tavam registrados. Tinha razão. — Não. Ficou esten dido no chão. — Não está nas cabanas? — perguntou o guarda. com certeza.bre Max. Espere só. — Então fugiu. Jim Reeves foi amarrado a um poste. — Que queria que se fizesse? O homem será pego. Anne-L ouise Pluvier entregou-o calmamente à polícia. Ela s e ajoelhou diante dele. . A casa toda estava em silêncio. depois de tomar-lhe o pulso. O único mei o de sair de lá era pelo lado norte. — Não era preciso matá-lo. para carregá-la até a cama. Os guardas arrumaram os prisioneiros em volta. através dos arrozais dos lavradores cajuns. No dia seguinte. ajoelhou-se ao lado de Darcy e. — Ven ha! Ele fez menção de apanhá-la. — Esse Jim Reeves. Bem. ali no chão. quando. Quando voltaram do trabalho naquela tarde. — Não se zangue com Anne-Louise. encostado à parede de uma das cabanas. c ompletamente despido.

Sem dizer uma só palavra. nem para ficar de pé. Ninguém ainda morreu desde que sou eu quem dá as chicotadas. determinando. O espaço só dava para ficar agachado ou com o corpo apoiado n os pés e nas mãos como um animal.— Todos sabem qual é a pena para uma tentativa de fuga: dez chibatadas e quinze dias de solitária por dia de ausência. logo que vim para cá. inconsciente. Quase parecia havê-lo acariciado delicadamente. — Estudei um bom meio — disse Reeves. Jim Reeves ali ficaria como um animal — sem roupas. então. A solitária era um cubículo de aço quadrado. Max virou o prato. o presidiário gritou. — Você não sabe de nada — retrucou o preto. ele es-tava todo abe rto em feridas nas costas e na frente. que não gosto de machucar os outros. Morreu daí a dois dias. enrolou um cigarro e o acend eu. Quando o tiraram do poste. — Sou capaz de comer a sua parte também. com uma crosta de sujeir a. já sei por que você serve aqui de ajudante de guarda. no meio dos seus excrem entos. os dois se recostaram na parede da cabana e ali ficaram. Ofereceu ao preto. Se você olhas se bem. e ninguém poderia falar com ele ou dar-lhe qualquer ajuda. Mike chegou perto dele. Mike aceitou e enrolou um cigarro. nem uma sobr e outra. vivendo a pão e água. — É essa a sua idéia? — disse o negro. índio. Durante trinta dias. da cama de Max e bateu em seu ombro. tiro u a bolsa com fumo e papéis de cigarro do bolso. o direto r mandava jogar um balde de água em cima dele para reanimá-lo. Não havia espaço nem para caminhar. vi um homem levar uma surra dessas. com pouco mais de metro e meio de cada l ado. Quero que fique consciente para deplorar a insen satez do que fez. mas quand o Mike puxou o instrumento de volta. Estou falando sério. Max sentou-se na cama. Quando empunha aquele chicote. No fim. — Quero sair daqui! — Isso todos nós queremos — disse Max. sem cuida dos médicos. E já faço isso há mais de doze anos. Largou o prato no chão. — Por que fez isso? — Mike ficou surpreso. A punição continuou em ritmo cadenciado. Jim Reeves entrou na cabana. — Não brinque comigo. na escuridão. O sangue corria pelas costas. Em silêncio. O rosto do enorme negro estava banhado de suor. Saíra da solitária havia um mês. Mike assentiu com a cabeça e avançou para o homem amarrado ao poste. mas alguém tem de dar as chicotada s. pausadamente. Naquele momento a-proximo u-se. J im Reeves urrava toda vez que o chicote lhe arrancava finas tiras de carne. Max ao vêlo perdeu a vontade de comer. Ficaria ali com suas dores. os homens começaram a se espalhar e fizeram fila para receber a comida. Jim Reeves ficou pendurado no poste. todo encurvado e com os olhos ferozes de um animal. Max apanhou o prato de carne e feijão e o levou para um lado da cabana de onde não e ra possível ver a solitária. a continuação das chibatadas. Ele desmaiou três vezes antes do término daquele suplício. — Há anos. . Os músculos de su as costas se retesaram e a língua comprida do chi-cote se enroscou levemente em to rno do corpo do detento. dos ombros às coxas. sob pena de rece ber igual castigo. Sem nada dizer. é isso o que penso. — Disse isso. Sei que há muita coisa errada no que faço. E posso muito bem ser eu. virou-se para Mike e acrescentou: — Não q uero que ele perca os sentidos. você está ajustando contas com o mundo. Max sentiu-se um pouco melhor depois de ouvir isso. Não havia a menor proteção do sol ou da chuva. — Agora. — Também estou falando sério. Mesmo sujeitos c omo Jim Reeves. fumando. — Sim. nem mesmo para estender inteiramente o corpo. jogando no chão o resto da comida. Sentou no chão e começou a comer devagar. sem se alterar. — Mas só dará resultado se forem dois homens. — Não está com fome? — perguntou Mike. Ainda em silêncio. — Desamarrem-no e levem-no para a solitária — ordenou o diretor. Quando isso acontecia. uma comprida fita de sangue borbulhou e sur giu à flor da pele. Foi po r isso que vim procurar você. veria que não há uma só marca de chicote na frente de Jim Reeves. A verdade é que ninguém conseguiu fugir ainda. em vez de ir embora des te inferno. No instante seguinte.

. em dúvida. não faça isso. Com um bote. sentando ao lado de Max. Não havia necessidade. São sessenta quilômetros de areias movediças. do outro lado da mesa.— Mas por que a mim? Por que não procura um dos homens condenados a sentenças longas? — Porque quase todos eles são homens da cidade e não durariam dois dias no pântano. Assim que Reeves saiu da cabana. Continuou calmamente a comer. Tudo foi fácil. O diretor costuma ceder-nos aos do nos dos arrozais e receber o dinheiro que pagam pelo nosso trabalho... Havia de sobra moças cajuns. e em abundância. Tinha era cansaço. 11 — Homem. Mostrando às pequenas o que tem dentro das calças. E há sem-pre botes por lá. — Não tem o que saber. com a bo-ca cheia de comida: — Já pegou alguma pequena? Max assentiu com a cabeça. O tempo da colheita de arroz vem aí. e foi diretamente à cama de Max. — Já escolheu alguma? — perguntou Reeves a Mike. O cheiro de mulher entrava pelas narinas de les. Mas não caia nessa asnei-ra. isto é comida de verdade! — disse Mike. Mike não respondeu. — murmurou Max. — Ninguém pode atravessar o pântano. Reeves. rapaz. rapaz. tripas. uma verdadeira esta fa depois de colher arroz durante todo o dia. — Estou muito cansado — disse Max. entusiasmado diante de um prato cheio de toucinho.. — Não sei. Os arrozais ficam dentro da água. — Passeando de um lado para outr o com o rifle na mão. De tudo o que Reeves dissera. — Já falou sobre isso com quase todo mundo e foi repelido por todos. carne de porco. Tem de ser pelos pântanos. jovens e fortes. cheio de surpresa. Por melhor que o pl ano possa parecer. que doía não só por causa dos ferros mas também por ter andado dentro da água o dia inteiro. não viam carne como a que ti-nham no p rato naquele momento. só uma coisa fazia sentido. Max teria vinte e um anos. — É melhor aproveitar. espalhadas pelos arrozais. — Pois eu não estou — disse o prisioneiro ao lado de Reeves. Reeves pouco se importa com as conseqüências para os o utros. pelo lado da aldeia. — Economizei forças o ano int eiro para esta semana. favas e batatas. trabalhando lado a lado com os homens de cabelo solto. — Eu também pensei assim. Max o olhou com enfado. — Agora tenho mesmo certeza de que você é maluco — replicou Max. — Vi você no campo — disse Reeves. Mike entrou. O único meio de f ugir é pelo norte. com saias c urtas e pernas e coxas musculosas. a impossibilidade de passar dois anos ali dentro. índio — disse Reeves. Quer perder ainda dois anos de sua vida aqui dentro? T em tanto tempo assim para jogar fora? — Vou pensar nisso e depois falo com você. Nem puseram os cachorros atrás de mim. Calculei então qu e em breve falaria com você. com o rosto sombrio. — Não há nada neste mundo igual a uma pequena ca jun. Pouco lhes importava que os homens que ali estavam fossem prisioneiros. pular o muro e pegar a estrada. — Um bote! — exclamou Max. Largou o prato e esfregou o tor-nozelo. Dali a dois anos. Reeves o lhou para ele e falou. Mike não respondeu. Mas Reeves estava insistente. Era m ho-mens. o que ele quer é sair daqui. jacarés e co-bras. Ficou de olhos abertos na escuridão. Por um mês inteiro. Começou a passar pedaços de pão no molho que ficara no prato. pensando. Achava que jamais conse-guiria ven cer aquele cansaço. Sem dúvida. Vou me fartar o bastante para agüentar até o ano que vem. Reeves e outro prisioneiro sentaram diante dele. era muito mel hor que a comida da prisão. — E onde é que vamos arranjar um bote? — Vou dizer. — Sempre há uma pequena pouco certa do juízo à procura de algum negro com um membro do t . Começou a comer sem muita vontade. Mas ele não tinha fome. — Disse a verdade — exclamou com entusiasmo o outro prisioneiro. Max tornou a deitar. com um brilho frio de ódio nos olhos. — Como é? Veio convidar você para fugir com ele pelo pântano? — Como sabe? — perguntou Max. Todos os malditos cajuns saíram à minh a procura.

— Palavra de honra que. Houve risos contidos aqui e ali. — Vão aparecer. — Não se preocupe. Juro que foi a melhor que já prov ei aqui. Voltou a cabeça para onde uma leve claridade brilhava no meio da escuridão. Reeves bateu na parede e escorregou até o chão. negro — disse Reeves. aprenda a calar o bico. E outro ainda. De repente. Max ouviu alguém dizer: — Ao menos desta vez poderemos ver a cara delas. — Aiii! — gemeu alguém. chegando à porta. Quase imediatamente. rato de prisão? Reeves estremeceu. — Estão tão ansiosas por isso quanto nós. — Não agüento mais. antes de sair daqui . rato de prisão — disse Mike. — Estava gostoso de verdade! — E com você que estou falando. — Eu sou um guarda e você é um prisioneiro. — Bem. Enrolou um cigarro. Max ouviu alguém riscar um fósforo. O guarda havia verificado os ferros que prendiam cada homem aos pés da cama. — E se elas não aparecerem? — perguntou alguém ansiosamente. angustiado. nada mais se ouviu senão o barulho dos prisioneiros. — Como está indo. Seu rosto já estava começando a ficar r oxo. E aposto que você está louco para enfiá-lo em alguma branca. Max estava fumando. Mike engoliu o último pedaço de pão. — Elas entrarão a qualq uer momento. Depoi s. Por mim poderiam ir para o inferno! — vociferou outro. Quase com displicência. Se quiser continuar a ter tanta saúde. — Pouco me interessa a cara — disse outro. Olhou com decepção para o prato vazio e levantou. rapaz — disse ele em voz baixa e tranqüilizadora. Passou cerca de meia hora. A luz da vela bruxuleou e se apagou. Por um instante se contraiu. O cigarro brilhou fracamente no rosto de Mike enquan to ele aspirava a fumaça. irado. curvou-se por cima de Max. Pela primeira vez. Reeves bateu os braços desordenadamente no ar. em meter nas mulheres brancas. rapaz? — perguntou Mike.. deixando o b arracão às escuras. — Vejo que está aprendendo — disse Mike. Max sentia o suor banhar-lhe a fronte e o coração bater com força. — Passe-me essa ponta de cigarro que eu quero puxar uma fumaça.amanho de meu braço. Mike olhou para ele. da cama vizinha. — Não virão mais — disse alguém.. Um dos homens acendera uma vela. deixara de estar cansado ou de ter vontade de dormir. sim — disse outro. com os olhos fitos em Mike. Suas mãos se tocaram de leve. sentindo o doce e forte calor do colchão invadir seu corpo. em silêncio. m as fez força e tornou a ficar de barriga para cima. Sen tiu-se contagiado pela an-siedade geral. qu e brilhava à cabeceira de sua cama. Moveu os lábios. que se a gitavam inquietos nas camas. Max se estendeu na cama. que em seguida pegou o prato vazio e acrescen tou: — Vou ver se arranjo um pouco mais de comida. Acendeu-o e aspirou profundamente a fumaça. Passei dia todo pensando nesta noite. ainda mato esse negro! Havia um ar de expectativa no barracão naquela noite. — Estava falando mesmo comigo. Agarrou Reeves pela garganta e o suspendeu no ar. — Vou matar esse negro! — exclamou. — Lembre-se apenas de uma coisa. — Não são mais que um punhado de fêmeas depravadas. Pegou o costume de se servir d e sua mãozinha branca. mas nenhum som saiu deles. Max ouvia os movimentos nervos os dos homens se agitando nas camas. Virou-se de barriga para baixo. — Quero é uma de peitos bem grandes. com a voz sufocada na garganta. deu uma gargalhada e saiu. a cerca de dois metros de dis-tância. com uma voz de quem estava pres-tes a chorar. com voz rouca: — Sua pica já deve ter esquecido o que se deve fazer. Seus dedos estavam trêmulos. no outro extremo do barracão. agora que a vela apagou. Mike o sacudiu mais duas ou três vezes e o jogou de encontro à parede. Durante algum tempo. Os risos foram gerais. É só nisso que vocês negros pensam. Reeves se levantou logo que o guarda saiu. O que esses idiotas não compreendem é que as m . empolgado por ansioso desejo.

— Você é jovem ou velho? —: perguntou uma voz sussurrante. o pântano resolverá. Está tudo certo. Está tudo combinado. — Quero. va i? — Você nem devia dizer uma coisa dessas. — A primeira coisa que o diretor faz é soltar o s cachorros. — Você vai fugir. Mike sentou ao lado de Max. — Trinta dias de solitária são muito mais compridos que o ano e meio que lhe falta. rapaz — disse o negro. Durante muito temp o. Max virou o rosto para a mulher. — Você vai fugir com Reeves agora que ele tem o bote? — perguntou Mike. que nem podia ver. O es conderijo que ela vai arranjar é perfeito. muito obrigado. Max olhou espantado para ele. só se ouviu o barulho das bocas mastigando e das colheres batendo nos pratos. Já pôs isso na cabeça — disse Mike. Max olhou para ele e sorriu. mas tive de esperar um momento em que aquele maldito negro não estivesse por perto. Por um momento. mas sou prisi oneiro como vocês e não alcagüete. Um instante depois. Dois sempre vão pelo pântano. Prometi que a leva ria para Nova Orleans se ela me ajudasse a fugir. — Não sei ainda se vou. Vai ficar naquele bosquezinho de ciprestes a o sul da prisão um dia depois de nós vol-tarmos. Colocou a mão no ombro do preto e disse com sincerida de: — Aconteça o que acontecer. A mulher pegou sua mão e a levou a seu rosto. E essa a regra. levantando e afastando-se devagar .ulheres não querem vê-los do mesmo modo que não querem ser vistas. Max. esperando poder ver alguma coisa da que iria para ele. você vai ver. Uma mão lhe tocou o rosto e ele teve um sobressalto. rapaz — disse Mike. Um intenso calor inundou suas entranhas. Max acariciou aquele rosto macio e quente. a porta do barracão se abriu e as mulheres foram entrando em s ilêncio. minha querida esposa. No quarto dia de trabalho nos arrozais. não fuja. Max ficou observando-o. — Escute. — Por favor. Max virou-se na cama. — Tem certeza de que ela não está enganando você? — Claro que tenho. Naquela noite. — Quer que eu fique com você? — perguntou ela. — Como sabe que fugiremos pelo pântano? — perguntou Max. até mesmo o rumor de seus passos era quase im-perceptível. de repente. — Não me obrigue a fazer nada contra você. Se os cachorros não resolverem o caso. Reeves chegou perto dele. Como Mike podia saber o que ele ainda não sabia? . Quando u m homem foge sozinho sempre vai pela estrada. — O quê? — Fale mais baixo. você será sempre meu amigo. Max continuou a fumar em silêncio. Como se viesse de uma grande distância. Ela subiu rapidamente para a cama e Max enterrou a cabeça no macio seio da mulher. O bote estará lá. agradecido. — Já sabia disso? — Não há segredos num lugar como este. o que estava sentindo? Como poderia dizer que ela trouxera gentileza e amor para ele? — Obrigado — ele sussurrou. tristemente. Mas não podia ver senão sombras deslizando e se perdendo na escuridão. — Não conseguirão — disse Mike. Ficaremos lá até desistirem das buscas. — Obrigado. Essas pequenas cajuns são todas a mesma oisa. — Mas talvez a gente consiga fugir. O diretor vai saber de tudo por sua conta. Quero ser seu amigo. Sentiu os lábios dela tremerem debaixo de seus dedos. Já ar-ranjei um bote. Fechou os olhos. Como poderia dizer àquela mulher. — Você não vai dizer ao diretor. — Como sabe? — Arranjei com minha pequena. Posso ser ajudante de guarda. Nem sabe a falta que tenho sentido de você. — Estava querendo falar com você — disse —. confuso. sentiu que as lágrimas lhe rolav am pelas faces e compreendeu que ela também ouvira. Quando a beijou. — Jovem. na hora da comida. ouviu um homem dizer baixinho: — Querida.

com os lábios inchados: — Estão chegando mais perto. Ali ficou imóvel durante quase quinze minutos até ver uma sombra indistinta passando no fundo da água. Reeves começou a procurar entre os ciprestes. Não conseguiu. O rosto de Reeves estava todo infla-mado e deforma do pelas picadas dos insetos. ouviam -se latidos de cachorros. mas eu não. — Pouco me importa — disse Reeves com raiva. — Como sabe que não estamos andando em círculo? — perguntou a Max.Mas foi só na noite seguinte. — Não podemos passar a noite aqui? — Nada disso. — Se estivéssemos andando em círculo. Ainda temos duas horas de luz. Estava quase escuro quando encontraram outra eleva-ção de te rra. Meteu a mão no bolso e tentou riscar um fósforo. mas ele mastigava cada pedaço demoradamente. Ao longe. Podemos andar mais uns dois quilômetros . — Estou para ficar maluco de tanto mosquito me picando. A carne era esponjosa e oleosa. Agachou-se ao lado dele e começou a tirar o couro do peixe. Max. Que adianta ter andado tanto para depois voltar e ficar preso na solitária? Vamos! Já descansamos bastante. No mom ento exato. D epois. Estavam ofegantes e respiravam em grandes haustos. voltando para junto de Reeves. Por que é que você não se incomoda com os mosquitos? Talvez não gostem de s eu sangue índio. Alcançaram uma espécie de ilhota de terra mais firme no meio do pântano e pararam par a descansar. e esperou que o vulto chegasse mais perto. Não posso comer peixe cru. Reeves estendeu-se no chão. agiu com rapidez. — Pegamos um bem grande desta vez — disse. Max olhou para o companheiro. entrou na água. — Acenda um fogo — disse Reeves. Até que começou a praguejar. andando dentro da água. Vamos. — Não sou índio como você. Ele devia saber o que estava fazendo. — Sim? — disse Max. — Três dias já se passaram e ainda não vimos nada. Andou por ali colhendo gravetos até juntar o suficiente para fazer uma pequena fog ueira. que compreendeu como Mike estava certo. Talvez seja também porque eu não me coço. — Talvez seja isso. Não olhou para trás. sacudiu a cabeça. lembrou-se do ódio feroz que havia no coração de Reeves e deixou de ter pena de le. depois de pular o muro e correr como um louco até o bo sque de ciprestes com Reeves. . que lhes chegava até a cintura. — Sente-se a léguas de distância o cheiro de um fogo. e murmurou desc onsolado: — Estão molhados. entrou na água. levantando. — Vamos comer este assado. que já estava mastigando um pedaço de peixe. — Escute aqui. — Aquela cadela! Aquela cajun mentirosa e ordinária! Não havia bote algum ali. só engolindo um pouco de cada v ez. esfregando dois paus juntos. Prendeu a respiração. mergulhado até os joelhos na água escura e estagnada do pântano. Vou deixar que me peguem. ouviu Reeves fazendo a mesma coisa. — Como? — Do jeito dos índios. Quando tirou a lança da água trazia espetado nela um grande bagre. mas um momento depois. — Você podia fazer um fogo — disse Reeves. Max tirou a faca e cortou uma vara forte de caniço. Max olhou para ele e por um momento quase teve pena. Em seguida. Reeves enxotou os insetos em torno da cabeça e disse. já teríamos sido agarrados. Vamos! Dizendo isso. — Você pode fazer isso. 12 Seguiram por entre os caniços. As roupas estavam em far-rapos. — Não agüento mais — disse Reeves. que continuava a comer tranqüilo o peixe.

Não valia grande coisa. Ficou imaginando quanto tempo os g uardas levariam ainda para alcançá-los. rapaz. Se fosse ele. — Você é um tolo. Foi então que Mike apareceu ao lado dele. então. — Mas eu tinha de esperar. — Toda a madeira por aqui está muito úmida. — Não posso comer isso! — exclamou. rindo. E ficarão satisfeitos quando pegarem Ree ves. Não sou mais prisioneiro. Max levantou-se. tirou um fósforo de uma bolsa bem fechada de oleado e acendeu um fogo. — Que mais eu podia fazer? — Ele no seu lugar não teria esperado. mas era a única arma de que dispun ha. Um momento depois. — Você não pode fazer isso. apon tando para o outro lado. Mike. Max entrou no pântano e começou a an-dar na direção da prisão. Tornou a ouvir o barulho. E isso quer dizer que posso ir para onde eu qui ser sem ter que dar satisfação a ninguém. Tomou a melhor po si-ção para arremessar a lança. Cruzou os braços sobre o peito e disse tremendo um p ouco: — Como está ficando frio aqui! Max sabia que não era o frio. Depois murmu rou: — Não posso fazer uma coisa dessas. A noite estava ch egando quase ao fim. Ouviu de novo o barulho. Um barulho estranho foi registrado no subconsciente e ele a-cordou instantaneamente. — Que quer dizer com isso? — Vá embora! — E o resto da patrulha? — Vão levar umas duas horas para chegar aqui. era grande. Max ficou um instante indeciso. Mas você não devia ter esperado. — Está certo — murmurou Mike. — Ele pegou a febre. Mike. Calculou que Reeves cairia doente a o fim de três dias no pântano. Max tra tou de juntar mato para fazer de algum modo um cobertor. — Apague esse fogo. Agarrou sua lança de pesca e agachou-se. a estas horas estaria bem longe daqui. — Tem razão. Reeves pegou o peixe. — Para onde vai. rapaz — disse a Max. se sentiu tomado de cansaço. — O diretor tinha razão. — Esse fogo está gostoso. Você oficialmente nem é mais prisioneiro. Apontou para o homem doente. Reeves. cuspiu fora. rapaz — disse Mike numa voz resignada. Estava ardendo em febre. . Com o pé. rapaz? Max parou e virou-se ao ouvir a voz de Mike. Coma um edaço do peixe. Reeves continuava a tremer convulsivamente debaixo do cobertor de relva do pântano e a gemer por entre os dentes que batiam. agachou-se ao lado de Max. Reeves ser atacado de malária naquela hora iria complicar muito as coisas. Fosse o que fos se. Tudo estava perdido e. — Devia ter juízo bastante para não acender fogo aqui. — Você é mais idiota do que eu pensava. mais forte dessa vez. Max jogou o resto do fogo dentro da água. balançando levemente o corpo.— Não dará resultado — disse Max. — Está bem. Vou cobri-lo com um pouco de mato para você não sentir frio. Mike então pegou Reeves como se fo sse uma criança e o botou no ombro. — O fim do pântano fica a coisa de quarenta quilômetros nesta direção — continuou Mike. com o rifle nos braços. com os olhos voltados para o pântano. Mike sentou-se junto ao fogo e aqueceu as mãos. Max olhou para o céu. rapaz. Reeves se estendeu no chão e Max tocou seu rosto. — Deite-se. e começou a mastigar. O rosto de Reeves estava cheio de gotas de suor e el e começava a tre-mer. com os olhos no chão. Não é tão ruim assim se você mastigar muito. Depois de alguma hesitação. — Mas é diferente se pegarem você me ajudando. — Fugimos juntos — disse Max calmamente — e é justo voltarmos juntos. — Talvez seja melhor você ir andando agora — disse o negro. Suspirou distraidamente. Cochilou sentado.

Max olhou para Mike e o negro assentiu com a cabeça. — Contei dois bancos no caminh o até aqui. Pode ser que estejam à nossa espera. seremos pegos. Três anos e meio antes. Nem pare-cia mais um índio. Deixavam para trás dois bancos roubados e dois mortos. Somos amigos mesmo. — Calma — disse Reeves. — Não parei quando chegou a hora de parar. o povo começou a se acostumar com o fato de Reeves ser o banqueiro da . Mas tinham tid o sorte. Max perguntou: — Por quê? Parecem fáceis. Ao lon-ge. Dois dias mais tarde haviam arranjado cavalos. — Vamos procurar alguma coisa honesta. estavam todos de roupa nova. Mike saiu de onde estava. — Se é uma cidade. animado. Comprou um pequeno rancho fora da cidade. Daí a menos de dois anos se transformara no mais importante homem do lugar. Depois de mais quatro dias. — E o que vamos fazer? — perguntou Max. A terra é ba rata e o Texas está crescendo. Atacaram o armazém às duas da mad rugada. pouco depois. Sentou-se na cadeira do barbeiro e mirou-se no espelho. Max levantou a cabeça. segurando-o pelo braço e o impedindo de levantar.— Se nos pegarem. da cadeira onde estava sentado no quarto do hotel barato. — Foi o erro que cometi da outra vez — disse Reeves. — Parece uma boa cidade — disse Max. Reeves achou a ocupação honesta que procurava numa cidadezinha. viu um pouco de fumaça no hor izonte. — Quanto devo? — Meio dólar pelo cabelo e vinte e cinco cents pela barba aparada. começou a comprar terras. Max queria roubar três cavalos da cocheira. fez reformas na casa e se mudou dos ap osentos que ocupava no andar de cima do sa¬loon. Já se falava até de sua eleição para pre feito. — Há uma cidade ali — disse. Estenderam-se no chão firme e seco. Max pagou com um dólar de prata e saiu. — Seguirão o nosso ras ro a cavalo muito mais depressa que a pé. Quando saí-ram. Um saloon e uma casa de jogo. Em meno s de um ano. — Vê-se logo que é um índio — disse Reeves sarcasticamente. A barba preta lhe escondia os ossos malares proeminente s. encostad o à parede de uma casa. cento e quinze quilôme tros ao sul de Fort Worth. haviam chegado a Fort Worth com sete mil dólares nos alforje s das selas. Pouco depois. deve haver um a rmazém. E assim ruma ram para o Texas. e começou a andar a seu lado. rapaz? Oito dias depois saíram do pântano. bem armados e com quase dezoi to dólares que haviam retirado da gaveta do caixa. O que eu sei é que não quero pegar no chicote para ba ter em você. — O trem já deve estar chegando — disse Max — e nós podemos ir para a estação. Nenhum deles fora identificado e haviam sido considerados desconhecidos . As oportunidades aqui são grandes. Max se levantou da cadeira. Não podemos facilitar. sabe disso. — Poderemos conseguir alguma comida que valha a pe na. transferiu o banco para um pequeno edifício na rua principal e deixou Max dirigindo o saloon. entusiasticamente. Aquela ca ra não era mais de garoto. Vamos assaltá-lo esta noite. e então pensaremos em cavalos. rouba ram um banco numa cidadezinha e conseguiram mil e oitocentos dólares. Vamos ficar longe da estrada durante uns dois ou três dias. — Isso está encerrado para nós — disse Reeves. Ainda estava amarelo pelo acesso de febre que já havia passado. Fundou um banco num canto do saloon e. 13 Max entrou em Fort Worth para esperar o trem que traria de Nova Orleans a filha de Jim Reeves. Ao vê-lo. procurando res pirar profundamente.

onde ficava o gabinete de Ree-ves. e faz dez anos que ele não a vê. Não mudei nada de ontem para hoje. — Eu de certo modo já esperava por isso — replicou ela. — Vamos — disse ele. ontem à noite você me beijou e jurou que me amava. Precisava de mai s uma coisa apenas para completar sua máscara de respeitabilidade. Max compreendeu que ela não sabia que o pai tinha estado na prisão. — Só sei o que Jim me disse. E assim começou a enriquecer. e não mais o dono do saloon.. Ela ficou calada e imóvel. você é me tem sangue de índio! — E só por isso você deixou de me amar? — Não sei. O banqueiro o olhou por trás de sua escrivaninha de tampa corrediça. — Agora já sabe — insistiu ele. Sem dizer mais nada. asperamente. rodeada de várias maletas e uma mala. — Eu nunca teria deixado as coisas chega rem a esse ponto se soubesse a verdade.cidade. Não só por isso. o medo que havia na voz da moça era tão pronunciado que Max não poderia dei xar de perceber. E não me pergunte mais nada. Max colocou as mãos em seus ombros e disse com voz rouca: — Betty. Betty? — perguntou ele. — Sou Max Sand. Foi diretamente para o banco na cidade e entrou na sala dos fundos. gentilmente. deu-lhe as costas e saiu da casa. — Ah. os passageiros foram saindo até que só ficou uma moça. — Acha que tem importância? — Tem. — Pap ai vive tão ocupado que há dez anos não aparece em casa. Mandou um telegrama e recebeu ou tro em resposta. tentando segurar-lhe a mão. Max encolheu os om-bros. Mand ou fazer investigações discretas em Nova Orleans. Pode arrum r-se e dormir lá esta noite.. friamente. e só começaremos a manhã. — Há um quarto à sua disposição no Palace Hotel. — Você sabe como ela é? — perguntou Mike. e murmurou: — Não é preciso ter medo de mim! Ela escapuliu de suas mãos e repetiu: — Não toque em mim! Dessa vez. afastando-se dele. mas também porque você. A filha de Reeves foi atender e ele notou que ela estava com o rosto cansado e vermelho. — Claro que sim — respondeu ela. Estou tão confusa! — O que mais seu pai lhe disse? — Disse que eu não posso casar com você. sim. é você! — disse ela em voz baixa. — murmurou ela. quando chegaram ao hotel. — Acha que é ela? — perguntou Mike. A viagem para casa leva uns dois dias. Max olhava da plataforma os passageiros que desembarcavam. Max amarrou o cavalo em frente à casa do rancho de Reeves. — Entre.. Subiu os degraus da var anda da casa e bateu na porta. A moça afastou-se e perguntou sem encará-lo: — Por que não me disse que era um homem fugido da prisão? — Isso faria alguma diferença. Olhava de um lado para outro da plataforma. Dirigiram-se para a moça e Max tirou seu chapéu Stetson. — Que história é essa? Isso são maneiras de entrar aqui? — interpelou-o. Soube que a mulher tinha morrido e que sua filha estava vivendo com a família da mãe. cheio de curiosidade. — Que foi que houve? — perguntou. . Pouco a pouco. — Srta. com uma ponta de tristeza. Max retribuiu o sorriso. não sei. como se houvesse chorado. Seu pai mandou-me vir esperá-la. avisando que a filha chegaria a Fort Worth no dia 5 de março. disse: — Não toque em mim! Max a encarou. Reeves? Um sorriso de alívio iluminou o rosto da jovem.. Max estava apaixo-nado pela prim eira vez na vida. depois de um longo silêncio. Vinte minutos depois. — Muito prazer em conhecê-lo — disse ela. — Já estava até pensando que papai não havia recebi o meu telegrama. Depois. Uma família.

Meteu a mão bolso de Max e tirou um punhado de notas. — Roubou? — replicou Max. pegando-o pelas pernas. — Nada mais importa agora. Você já me apron-tou uma boa com Betty . — Convém passar pelo saloon e levar também o negro amigo dele — disse Reeves. filho da puta! — exclamou Max. Mas. Vou embora. Ele me devia e me pagou. fez Reeves cair de n ovo. que o derrubou do cavalo. E o negro desaparecera . Mas só depois de você pagar a nossa parte. é isso que vai re-ceber. Estava muito contente. rapazes — disse o xerife aos ajudantes —. cantarolando baixinho. — Vai levar o negro também? — Vou. Voltava para seu rancho. o xerife o atingiu com uma coronhada na cabeça. Pela primeira vez se sentia em segurança. Reeves estava com eles. brandindo o terrível chicote. Foi exatamente nesse momento que Mike chegou à janela do quarto do saloon e viu o que estava acontecendo. — Só há quinhentos dólares aqui. — O que há. O xerife e dois ajudantes avançavam para ele de a rmas em punho. Jogou-as na frente de Max: — Pronto! Max contou o dinheiro e olhou para Reeves. — Está mesmo resolvido? — Estou. guardou-as no b olso e comentou: — Nunca pensei que fosse capaz de pagar com tanta facilidade. pois isso serviria apenas para piorar a situação. Conseguiu levantar-se e levou a mão ao revólver. Reeves. Reeves. Você deve a mim e a M ike. xerife? — perguntou Max. — Não disse? — Canalha. passamos por muita coisa j untos. mas outra chicotada fez a arma voar longe. — Afaste a mão de seu revólver — ordenou o xerife. antes de poder alcançá-lo. Max. explodindo finalmente e avançando para Reeve s. Mike avançou lentamente e. — Esse homem está louco! Esse dinheiro é meu. Só mesmo um negro para fugir assim quando as coisas ficavam difíceis. Já estava na rua a caminho do saloon. cinco mil dólares. levantou-se num esforço desesperado e tentou c orrer. Deu um grito de terror ao sentir de novo o chicote rasgar-lhe a carne. — Ainda deve ter nos bolsos o dinheiro que me roubou. Max não se atrever ia a falar. . no mínimo. avançando cheio de precaução. Ia tão engolfa do nesses pensamentos que nem ouviu o estalar do chicote de Mike. — Reviste-o — exclamou Reeves. Na noite passada ela havia prometido casar comigo. A minha parte só nisso é de dois mil e tre zentos dólares e não estamos perdendo dinheiro na casa de jogos. Não esperou mais nada. Pensei que fosse mais inteligente. e levem-no para a cadeia. quando ouviu às suas costas alguém gritar-lhe qu e parasse. Reeves virou-se no chão e viu o braço de Mike levantar-se ao mesmo tempo que a longa cobra do chicote se de-senroscava. — Não vou discutir com você — disse Reeves. Reeves olhou para Max estendido no chão e disse: — Eu devia saber que não se pode confiar num mestiço! — Peguem-no. Max apanhou as notas. Mike viu o xerife olhar para o saloon e dirigir-se para o mesmo. — É só isso? — Para mim chega. Voltou-se lentamente. — E quanto você esperava? — Chegamos a Fort Worth com sete mil dólares. Se é esse o seu cálculo. — Francamente. Começou a rastejar de quatro. — Deve ser cúm plice nesse roubo. Reeves recostou-se na cadeira e riu. Desceu pela escada dos fundos e desapareceu da cidade. Reeves ia a cavalo pela estrada. Reeves virou a cadeira e tirou algumas notas do cofre às suas costas.— Não venha com lorotas para cima de mim. Contou o dinheiro em cima da escrivaninha. — Afinal de contas. — Viu? — gritou Reeves.

Logo que chegavam. A única coisa que eu conheço capaz de deixar u m homem nesse estado é um daqueles chicotes compridos que se usam nas prisões de Lou isiana. teria compreendido que uma das razõe s de seu insucesso fora o fato de o povo não querer tanto quanto ele pretendia lhe dar. Haviam chegado à cantina sem fazer barulho. depois o dele. Era também o único lugar do México onde se podia conseguir uísque americano. Durante a noite. O homem agradeceu e voltou ao bar. Então. — Saia daqui com seu negro — insistiu o grandalhão. Hideout (Esconderi jo). O negro fez menção de levantar. O copo despedaçou-se no chão e um silêncio de morte se fez sobre a cantina. com um olhar. O xerife e os ajudantes aproximaram-se do corpo e ficaram olhando. Encarou-os por um momento e então vo ltou para o balcão. era sinal de que partiriam daí a pouco. Falou em espanhol. na manhã seguinte. Os olhos dele surpreenderam o alcalde. Eram de um az ul muito escuro. Um deles tiro u o chapéu e enxugou o suor frio que lhe cobria a testa. de modo que eles logo lhe deram um nome particular. Pobre Juárez! Queria dar tantas coisas ao povo e tinha conseguido tão pou co! Nunca saberia se o jefe. — Engraçado. mesmo que p agando quatro vezes mais do que valia. como agora. Era com interesse que o alcalde os olhava. alguém havia arrebentado as grades da única cela da prisão e Max fugira. O melhor uísque . os melhores quartos.. Pegou o copo e bebeu o resto de sua tequila. recordando a primeira vez que os vira. Olhou de novo par a o americano que havia pedido a bebida.Bem cedo. senor? — De modo algum — respondeu o alcalde. dispensav am as mulheres e. Foi só quando o americano levantou para ir até o balcão que o alcalde viu que ele não er a pequeno como havia jul-gado. Bateu nas costas do grandalhão. Quando começavam a beber tequila. com um traço de sotaque cubano. Começou a beber. sem dar a menor atenção ao outro: — Não admitimos negros aqui neste saloon. — O alcalde. Encheu primeiro o copo de seu amigo. . estariam saindo do l ugar. — Parece que é o banqueiro Reeves. Voltou então o pensamento para os americanos. senor — o homem do bar apontou para a mesa do fundo. haviam sentado à mesma mesa. — Era Reeves — disse o xerife. Seis quilômetros além da fronteira e a Justiça não podia fazer mais nada. 14 O nome da aldeia em espanhol era muito comprido e difícil de pronunciar para os am ericanos. ou quando se estava cansado de dormir na planície fria e de comer carne e feijão numa lata de co nserva. O alcalde estava sentado a uma mesa nos fundos do saloon e viu os dois americano s entrarem. cansados e cobertos de poeira da viage m. Garrafa e copos já estavam na mesa. o fez continuar sentado. queriam tudo do melhor. Havia nele alguma coisa que tinha chama do sua atenção. — O alcalde diz que meu amigo pode ficar — advertiu. Dentro em pouco. mas o outro. Só em comparação com o negro é que parecia pequeno. Sentaram à mesa perto da porta e o menor pediu tequila. o uísque. quando um grandalhão que estava bebendo no balcão se aproximou deles e falou ao mais baixo. Juárez teria gostado daquele homem. Mu-davam-se para um quarto mais barato. o xerife e seus dois ajudantes encontraram um corpo e stendido na beira da es-trada. O sangue índio que o jefe tinha sempre lhe mostrava quais eram os homens g uerreiros. as pequenas mais caras.. três anos antes. — Aquele mal-educado disse a verdade. Era um lugar seguro para ficar quando não se tinha para onde ir. Era sempre assim. Deu um suspiro. perto da entrada. por último. Era assim a vida. — Todos os que tiverem di-nheiro para pagar têm d ireito a entrar aqui. O americano nem levantou os olhos para ele. O americano caminhou para lá. Depois. o dinheiro ia acabando e começavam a reduzir as despesas. pensando em sua mocidade. — Quem faz as leis aqui? — perguntou ele calmamente ao homem do bar. antes de morrer.

o alcalde ainda se lembrava perfeitamente de tudo. Aquela vida não tinha encantos para eles. é como se eu o denunciasse. baixando a voz. — Peço desculpas pelo que provocamos contra a hospitalidade de sua encantadora vila — disse o americano ao alcalde. sem preci sar mais fugir. Parecia até que o revólver é que pulava para a mão dele. Teve toda razão. É bom demais para ser des perdiçado. Como o dinheiro acaba depressa neste lugar! — Acaba. pe rto do balcão. — Não tem importância. o uísque. carregando um gran de cartaz com seu nome escrito! — Está querendo livrar-se de mim. O ameri cano tinha a elegância natural de uma pantera. a porta se abriu e apareceu um enorme cow-boy ruivo. e levar ali u ma vida diferente. tomando mais um gole de tequila e c hupando outra rodela de limão. dorme comigo e não vai sair daqui — disse ele. — Pensei que estivesse a caminho de R eno. dan do à boca uma sensação de limpeza e frescura. morto. os dois amigos desapareciam e voltavam semanas ou meses depo is. — Talvez. depois de pensar um pouco. num lugar onde ninguém nos conhecesse. puxando o revólver. Mas deparei com a o maior lance que já vi na vida. Havia ocasiões em que sentia pena deles. O petróleo é uma das coisas mais malucas que já apareceram. mesmo. Estão procuran o por nós dois. O homem era mal-educado e inoportuno. c omo se tivesse vida própria. Juárez teria tido orgulho de um homem assim. O petróleo custa muito car o e os bancos de lá estão cheios da grana. — Que veio fazer aqui. — Um banco novo — disse Charlie. Talvez depois disso pudéssemos ir pa ra a Califórnia ou para Nevada. Charlie? — perguntou Max. Mike. — O que devíamos fazer é dar um grande golpe. Garçom. você possa assentar num lugar e viver uma vida direita. uma garrafa de uísque! O homem do bar trouxe o uísque e os copos. — Estava. Estava sentado. — Essa tequila vai ac ender uma fornalha no estômago de vocês. — Se você gosta tanto de negros. as mulheres. O americano intrometido estava estendido no chão. Mas a solução não é dar um golpe. iremos par a a Califórnia. c om voz fria. E agora estavam outra vez bebendo tequila. Ca va-se um poço bem fundo na terra e em vez de água sai o óleo preto que chamam de petróle o. rindo. Mas sempre o alcalde percebia neles uma solidão crescente. Nesse momento. sozinho. — Qual é o serviço? — perguntou Max. Max. aproximando-se dele por sobre a mesa. Se conseguirmos bastante desta vez. ca ramba! Nunca vira nada igual. que se aprox imou da mesa deles e deixou-se cair numa cadeira vazia. Charlie encheu os copos e eles beberam. Quando me vêem. não é? — Max sorriu. Enchem os barris com ele e mandam tudo para o leste. cada vez mais profunda. isso não quer dizer que se tenha de beber em companhia de negros. Não eram como os outros que apareciam na a ldeia. Depois virou-se de costas calmamente e voltou para sua mesa. bebe comigo. Temos é de nos separar. nem para outro lugar d aquela terra? Max bebeu a tequila e mordeu um pedaço de limão. — Parece coisa boa — disse Max. — Quanto ainda temos? — perguntou a Mike. E a cada vez traziam dinheiro para pagar os quartos. O americano deu a impressão de não ter feito qualquer movimento. — Fizemos um trato de ficar juntos. Quase três anos depois. — Lembra-se de eu haver dito na última vez que nos vimos que estavam tirando petróleo no Texas? Decidi passar por lá para v er como eram as coisas. — Meu amigo come comigo. — O velho Charlie Dobbs chegou mesmo na hora — disse ele. — Talvez dê para umas três semanas — respondeu Mike. Várias vezes por ano. mas num instante o revólver apareceu em sua mão com a fumaça saindo do cano e o eco de um tiro morrendo n as paredes da cantina.— E quem se importa com o que um velho imundo diz? Só porque estamos do outro lado d a fronteira. quando o americano zangado avançou para ele. juntos. Quantas vezes ainda sairiam assim até o dia em que nunca mais voltassem? Nem para aquela aldeia. O sumo ácido lhe chegou à garganta. agora vai ter de ficar junto com um negro morto! — gr itou. E como era ligeiro com uma arma. — Qual é a jogada? .

O encontro será nos fundos do ba nco às nove e meia em ponto. Ed e Char lie estavam à espera. quando estiverem saind o. encolhendo os ombros. todos avançaram empurrando-a para dentro com t oda a força. — Eu disse que precisávamos de quatro homens — exclamou ele. — Foi uma longa cavalgada. Estava apinhado de tra-balhadores e d e cowboys. disse a Charlie : — Esse homem. Já tinha dado alguns passos. para não chamar a atenção. inexpressivos. Charlie riu. — Quanto acha que conseguiremos. Max? — Eles costumam andar armados? — Com certeza. Chegaram na hora. — É justo. Ed despediu-se. . Depois de dizer isso. Max ficou olhando para o homem até vê-lo desaparecer na rua. 15 Max entrou no saloon atrás de Charlie Dobbs. poderão abrir o cofre para nós e não será prec iso arrombá-lo. — Que acha. — Cinqüenta mil dólares! — exclamou Charlie. com voz rouca. Havia gente se acotovel ando à espera de um lugar para jogar. Do outro lado da porta.— Um homem do lugar conseguiu o serviço e precisa de ajuda. O homem parecia andar perto dos cinqüenta e tinha um bigode amare-lado que lhe caía dos cantos da boca. Levei duas semanas para chegar aqui. mas quero saber todos os detalhes. O homem estava à espera deles na rua. Podemos esperá-los e. que Mike já deve estar inquieto sem saber o que está acon tecendo. à noite. Amanhã. Temos de partir amanhã. — Lá vêm eles! Max se encolheu todo na parede perto da porta. — Cinqüenta mil dólares. Vá encontrar-se comigo lá fora — disse Ed. Max viu dois olhos miúdos. Tem medo de tiros? — Não. — Atenção! — murmurou Ed. quando se volto u e perguntou a Max: — Já não o conheço de algum lugar? — Sei lá — disse Max. Quer a metade. Dessa maneira. — Não pense mais nisso. — Para quando é o serviço? — Logo depois do Ano Novo. Talvez mais. Max teve a impressão d e que o conhecia. O banco tem recebido um bocado de dinheiro para novas p erfurações. Seguiu na frente e levou-os para um beco esc uro entre dois prédios. mas não pôde lembrar-se de onde. Vamos. — Há outro homem. — Mas também tenho a impressão de que já o vi não i onde. — Não falei que este é um lugar cheio de dinhe iro? Dirigiu-se para o balcão e aproximou-se de um homem que estava ali sozinho. dando um assobio. jogando uma moeda em cima do balcão. Ed? — perguntou Charlie. O que você acha. — Por mim. — Iremos para lá um de cada vez. Geralmente acabam o serviço às dez horas. — Está bem. está certo — disse Charlie. Mike? Mike concordou. Acho que eu devia procurar saber quem é ele. Afinal. Ao sair deu uma olhada para Max. As mesas de jogo estavam atopetadas de gente. No momento em que a porta se abriu. nós os forçaremos a voltar. — Que foi que eu disse? — murmurou Charlie. Ed. — Está esperando fora da cidade. Ed — disse Charlie. — Está bem. sexta-feira. o presidente e o caixa do ba nco traba-lham até tarde para preparar as folhas de pagamento do pessoal dos poços. nervosamente. O resto é p ara dividir entre nós. balan-çando a cabeça. — Como você demorou a voltar! — disse o homem em voz baixa. Já se podia ouvir a voz dos dois homens prontos para sair.

— Então aprenda! — Ed deu-lhe um soco. Ed correu para a gaveta. — Talvez. Quando Ed levantou o pé para acertá-lo novamente. Max pegou o homem desacordado pelos ombros e o arrastou até os fundos do banco. Olhava para o companheiro estendido no chão com expressão de horror. não sei o segredo — disse o homem. Ed voltou-se para Max. dirá tudo o que sabe. — Palavra que não sei. — Fique de bico calado se quer continuar vivo — disse Ed ao outro homem.— O que é isso? O que está acontecendo? — exclamou alguém. — Ninguém — disse ele. sim! Há uns dez ou doze anos. — Não posso — disse ele. ele não poderá abrir o cofre. Max se ajoelhou ao lado do homem e levantou-lhe a cabeça. O sr. Ed estava ajoelhado em frente à estufa. Max voltou à sala. mate-o logo. Ed olhou para ele com desprezo. Não sei qual é o segredo do cofre.. — O sr.. e ordenou: — Vamos com eles para a sala dos fun-dos. A rua continuava quieta e deserta. A rua estava deserta e tranqüila. abra o cofre! O homem. Convenceu-se logo da ver dade. Tom Dort e eu aplicam os esse tratamento num velho caçador de búfalos e na índia que vivia com ele. Depois de amarrar o empregado do banco. — Abra o cofre! — Escute — disse o homem. — Se não gosta disso. raivoso. não sei. O homem caiu por cima de uma mesa. E eu vou pegá-los! Max já estava voltando para a porta da frente. que enfiou no bolso. Vo ltou para onde estava o empregado do banco e tornou a bater nele gritando: — Agora. Esse não vai mais acordar. Ouviu-se então o som abafado de uma pancada e o baque de um corpo no chão. Max sentiu um aperto no estômago e encostou-se à parede para não cair. soluçando.. Os jovens de hoje são muito cheios de contemplações. — Há cin-qüenta mil dólares naque e cofre. — Se acha que o homem está men-tindo. Max largou o homem no chão. Ao trabalho! — Ed retrucou. não sei. Ed chegou perto dele. O homem devia ter quase sessenta anos. angustiado: — Não sei. alarmado. é o único que sabe o segredo do ofre. Max bateu-lhe no ombro. — Ótimo. — Espere um pouco — disse Charlie. de volta. — Não adianta. Você bateu com muita força. — Aí é que está o problema. Charlie perguntoulhe: — O que vai fazer. voltando-se para o sujeito do banco: — Abra o cofre .. Gordon. Fechou os olhos . Max foi até a porta e olhou. Al guém riscou um fósforo e acendeu um candeeiro. Gordon era a única pessoa. Mas isso é o que vamos apurar já. abriu-a e tirou um maço de notas. Max foi até a porta da frente. Fique com ele s e não me bata mais. revolvendo um atiçador no m eio dos carvões acesos. — Há ali dentro daquela gaveta quatro mil dólares. Vá olhar de novo a porta. Rusty Harris.. — Vá verificar a porta da frente! — ordenou Ed.. que é o presidente. Ed? — Quando este ferro em brasa estiver perto dos olhos dele. Ed deu-lhe mais dois socos no rosto. não é mesmo? — Mas também não poderá abri-lo se ele não souber o segredo. — Acho que você vai ter de abrir o cofre de uma maneira ou de outra. — Acorde-o. estendido no chão. — Amarre esse patife naquela cadeira — disse Ed na sala dos fundos. surpre-so. — O que vai fazer? — perguntou o homem em voz desalentada. a ponto de desmaiar. Se nós o mat os. murmurava. pode dar o fora! — disse Ed. — Talvez ele esteja dizendo a verdade. — Mas não posso. de ol hos bem abertos. Ficou ali. — Meu Deus — exclamou o outro homem. mas parou no meio do caminho ao ouv ir a voz de Ed: — Isso dá resultado.

e o clarão ver-melho do incêndio contra o céu noturno. — Somos amigos. mas estava tudo acabado. Max enxugou-lhe o suor do rosto. muit o pálido e aflito. acendeu-o e o colocou na boca de Mike. Agora a náusea começou a dar lugar a um a fria determinação. Levara doze anos. Max enrolou um cigarro. — Toda a cidade estará aqui den tro de um minuto! Max deixou cair o ferro no chão e correu para a porta. — Não conseguiu — disse Max. não somos? Amigos de verdade? Max assentiu com a cabeça. Sou Max Sand. — E eu nunca lhe faltei. Max voltou da entrada da gruta e falou com seu amigo: — Como vai indo. Ed compreendeu tudo. Havia uma bolsa de dinheiro na parte de dentro. Ed abriu os dedos e deixou cair a arma. amarrado e morto. Dessa vez. — Vai amanhecer daqui a uma hora. O cheiro de carne queimada lhe entrava pelas nari nas. Max virou o cinto. uma massa di sforme e ensangüentada no chão. Trinta minutos depois. — Você nasceu com trinta anos de atraso para essa vida. — Não seja bobo. Max ficou um instante a olhá-lo. Voltou para a sala dos fundos. seguindo-os com uma saraivada de balas. Ed deu um grito de agonia quando o metal lhe entrou na carne. no exato mome nto em que Max avançava com o ferro incandescente em direção a seus olhos. — Desculpe. Mike levantou um pouco o corpo. pegando-o pelo braço. Não vou mais precisar viaja r. Eu vou ficar aqui com Mike. não foi? Mas agora vou morrer e nem eu nem você podemos fazer nada. — Como é que sabe disso? — Sei perfeitamente. com voz sumida. O re-vólver disparou . Nesse momento. Mike sorriu. puxando o revólver. com a voz estranhamente calma: — E conseguiu o ouro? Um ar de confusão se mostrou no rosto de Ed. Max. — Abra meu cinto. mas a água acabou. — Vá você. Ed ainda estava ajoelhado em frente a estufa. Charlie estava do outro lado. Não há mais lugar no mundo para um pistoleiro. Mike sorriu. Três dias depois. — Que está fazendo aqui? Não mandei ficar vigiando a porta? Max.. não havia ouro algum. — Ah! Assim está melhor. então. — Para começar. Max desapertou a fivela do cinto do amigo. É melhor irmos em frente. — Há cinco mil dólares aí dentro. rapaz. Mike tossiu. Mike? — Mal. Nós fechamos a retaguarda e só nos resta sair de cena. pulou para o lado. perguntou. e Ed correu para pegar a arma enquanto Ma x tirava da estufa o ferro em brasa. rapaz. Max acendeu um cigarro e olhou para o amigo em silêncio. — Cale a boca e descanse. uma patrulha saía no encalço deles. rapaz. que havia atravessado a sala e estava ao lado dele. Mike. Pegou a mão de Max e a apertou. No mesmo instante. Ed viu Max. Ed virou-se de arma em punho. Guardei esse dinheiro para o momento exato: agora. — Não faz mal. muito mal — disse o preto. Sacudiu a cabeça e sua mente voltou a clarear. Todo mundo em Dodge sabia disso.. Max tirou-lhe o revólver da mão com um pontapé. Ouviu-se então a voz de Charlie no fundo da gruta. Mike estava tomando conta d os cavalos e eles montaram imediatamente. — O velho avarento tinha um tesouro escondido dentro da casa. rapaz. — Vamos sair daqui! — disse Charlie. a mãe. Agora. Era para o dia em que mudássemos de vida. . Charlie.por um momento e reviu a cena trágica: o pai. encostando-se à parede da gruta. mas a bala se perdeu no teto. estavam refugiados numa pequena gruta nas montanhas. tudo se resolve para mim. olhe dentro do cinto. — Vou ficar com você — disse Max.

pegou o rifle. mulher de Charlie. lembre-se do que eu lhe disse. acho que já é tempo de eu ir tomando meu rumo. Mike! Mike riu e murmurou: — Posso resistir à patrulha o dia inteiro. não dá? — Já dei minha palavra. Aquela hora. o nome veio fácil. que o dia já v em nascendo. — Está na hora de mudar tudo. Viu a criança seguir seus movimentos com os olhos e deixou o revólv er cair no coldre. rapaz. sorrindo. o rendimento não dava para o sustento de ambos. Embora ele tivesse adiantado o dinheiro para a compra do rancho. rapaz. já deveria haver barulho d e tiros atrás dele. afastou-se e foi até onde estava seu cavalo. rapaz. Max deixou Mike descer lentamente para o chão. Mas o nome não lhe ocorreu até o momento em que se viu sob o ardente sol de Nevada. Max esporeou o cavalo e partiu. Esfregando o rosto recém-barbeado . você já estará tão longe no rumo no rte que eles nunca o pegarão. Max estava no topo da montanha seg uinte. No rosto de Max se acendeu um súbito sorriso. dizendo: — Você é muito mais moço do que eu pensava. Charlie e a mulher trocaram olhares rápidos. Max tinha razão. como acontece a v elhos amigos. — Acho que sim — murmurou Max. pode ter certeza de que acharei um jeito de voltar do inferno para colocar você no caminho certo. acendendo um cigarro. O amigo ferido cambaleou até a entrada d a gruta apoiado nele. Charlie levantou os olhos da mesa e exclamou: — Meu Deus! Nem eu seria capaz de reconhecê-lo! Martha. O menino o observava com olhos medrosos. Nevada Smith. Naquele momento. quando o sol já brilhava no céu. principalmente em vista da enorme arma que levava na mão.— Pode dizer o que quiser. Ficaram em silêncio. quase c omo se tivesse sido a vida inteira o seu. — Se você quebrar seu juramento. — Agora. — Sem a barba não me reconhecerão — disse Max. apreciando-se reciprocamente. Mike. rapaz. Riu mais e de repente parou. Mas o preto não virou a cabeça para seu lado um só instante. Não me faça pen ar nisso. Montou e ficou um momento olhando para Mike. — Posso detê-los aqui o tempo que eu quiser — disse Mike. Agora vá andando. E começou a se espantar com o silêncio. — Não me faça pensar que errei quando tomei aquela decisão no pântano. Você me dá sua palavra. — Já estamos aqui há três meses. Era um bom nome e nada dizia sobre ele. O rancho não dá para nós dois vivermos. entrou na cozinha. Ande direito e não se meta mais e m roubos nem em brigas de tiros. — E se alguém o reconhecer? — perguntou Martha. Sem barba. — É melhor pensar também num novo nome — sugeriu Charlie. . — Você é um merda. Por fim. teve a princípio a impressão de estar nu. Vamos deixar de ilusões. A noite se estendia vasta diante dele e uma leve brisa sop rava do alto dos montes. Ficaram ali durante algum tempo. Max deu as mãos a Mike e o puxou para cima. mas não vou deixá-lo aqui sozinho. Max ficou um pouco vermelho e sentou-se desajeitadamente. agora que estou morrendo. — Bem. Você não pode sair assim e abandoná-lo. diante do velho Cord e do jovem Jonas. Mike. — Metade desse rancho lhe pertence. Estendeu a mão para Max e disse: — Ajude-me a levantar. Uma hora depois. — Smith. muito sério. virou-se do fogão e sorriu. — O cartaz com seu retrato deve estar ag ora na sala de todos os xerifes do sudoeste. Dizendo isso. — Por quê? — perguntou Charlie. Nunca soube que Mike havia morrido no momento em que ele desapareceu no caminho. E mais bonito também. correndo os olhos pela encos ta. — Escute — disse Max. Sorriu. Depois disso. porque começou a escarrar sangue.

Não sabia por que isso lhe deveria causar surpresa.— Bem. o garoto passou os braços pelo pescoço de Nevada e en-costou o rosto no rosto dele. acompanhado obedientemente pelo garoto. 16 Rina saltou do trem nas sombras claras e reluzentes da tarde que varriam a plata forma da estação. a convidara para a ssistir à estréia de um filme produzido por uma companhia na qual ele tinha consideráv eis inte-resses financeiros. Mas ler essas coisas nunca parecia corresponder à realidade. — Obrigada — disse Rina. Um motorista fardado se aproximou dela e perguntou. — Você vai ficar morando aqui com Wong Toy? — perguntou o garoto. N S Recostou-se no banco e procurou um cigarro. fora passar uma se mana em Nova Iorq ue para fazer compras. Pendurou-o num prego acima da cama e sa iu de novo para o campo banhado de sol. Nunca mais carregou uma arma. Nevada levantou-se com o garoto ainda agarrado a ele. quando sentiu o revólver pesar na cox a. tirando o quep e: — Srta. o garoto ainda o estava olhando cheio de interesse. até bordado nos tapetes e revestimentos internos do carro. — O sr. — Estou contente — disse ele. — Voltarei num minuto — disse ele e tornou a entrar no barracão. — Agora você pode me ensinar a montar. — Os cigarros estão nessa caixa perto de sua mão direita. Ficou preso no estúdio e mandou dizer qu e a verá na hora do coquetel. O chofer arrumo u prontamente as malas na frente e abriu-lhe a porta. Desamarrou rapidament e os cordões e tirou o cinto com o revólver. ouviu o que seu pai disse. . De repente. Júnior. senhora. Então começou a se lembrar de tudo o que soubera a resp eito de Nevada. amigo de seu pai. Três anos eram muito tempo. Rina acendeu o cigarro e examinou o carro. Ajoelhou-se ao lado dele e murmurou: — Ficarei aqui o tempo que você me quiser. Já ia montar atrás dele. Quando acabou de arrumar tudo. Marlowe? Rina assentiu com a cabeça. Smith pede desculpas por não esperá-la. Virou o rosto um instante para esconder sua decepção. Cinco meses depois de ter ido para o leste. quando um banqueiro. Lera muita coisa nos jornais a respeito dele. O brasão dourado estava por toda parte. — De verdade? Para sempre? Não vai embora como os outros? Como mamãe fez? Havia alguma coisa no olhar do garoto que o comoveu. Sua fazenda e a mansão de trinta quartos que ele mandara construir bem no centro de Beverly Hills. — Acho que sim. O chofer pegou as malas e disse: — Quer ter a bondade de me seguir até o carro. Escolheu uma das camas e estendeu nela as suas roupas. Saiu do barracão e o colocou na sela de seu cavalo. não foi? Foi até onde estava seu cavalo e o levou para o barracão. Fechou os olhos. senhora? Saíram da estação e caminharam até uma cintilante limusine Pierce-Arrow. A voz do chofer pelo in-terfone a as sustou um pouco. O pequeno brasão dourado na maçaneta atraiu sua atenção. — Vai mesmo ficar? — Vou.

Levou a mão à camisa e arrancou a estrela. Ele não olhou nem para um lado nem para outro. na rua. Todos olhavam para o xerife com o rosto transmiti ndo a emoção do duelo que haviam acabado de presenciar. enquanto a tela começou a escurecer. A garota apareceu numa varanda e o xerife parou diante dela. A morte estava vestida de roupas macias e caras. a calça remen dada cobrindo as pernas magras e ar-queadas. — Não tolero westerns. Chama-se Nevada Smith e. o xerife montou em seu cavalo e rumou para as montanhas. a tortura da decisão que lhe apertava os lábios.. — Quero ver o filme. A morte tomou a iniciativa. pensando não ter ouvido direito. Disse com voz rouca: — A mim também. o gosto voluptuoso d e matar. da multidão. Mas foram os olhos que a impressiona-ram mais. — E a primeira vez que um filme me emociona assim — justificou-se. O revólver que ele havia jurado nunca mais tocar. então. e começou a descer a rua vazia. Bernie Norman diz que é o maior western que já se fez. sim. c errando o queixo quadra-do e acentuando as linhas das maçãs proeminentes de índio. Houve silêncio quando as luzes se acenderam. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Já no final do filme. Começou a segui-lo e parou. ficou imóvel. Rina também sentiu um nó na garganta. e co ntinuou impassível a caminhar com a camisa desbotada já molhada de suor. e depois para o homem que se afastava. Deve ser um nome arranjado como os de todos esses artistas de cine ma. ombro s encurvados e cabeça baixa. Brilhando em seu peito. no cabo de marfim do revólver. dando as co stas. E depois aquele mundo pa-re cera desvanecer-se diante da magia das imagens na tela. a dor e a tristeza. das vidraças e das cortinas. Os olhos do xerife estavam cheios de tristeza. saindo das vidas do povo de Vila Pacífica para a luz fo rte do sol. . lentamente a arma. A garota olhou atônita para a insígnia. a arma do xerife pareceu saltar-lhe na mão. Puxou o chapéu preto para cima dos olhos a fim de protegê-los da clar idade. O povo da cidade espiava por trás das persian as. depois. O xerife foi até a porta a passos lentos e saiu. Ele tomou-lhe o braço. Os olhos de um homem que conhecia a futilidade.. Lembrou-se de sua chegada ao cinema. — Como é mesmo o nome? — perguntou Rina. — O xerife de Vila Pacífica —. Deu as costas ao morto e voltou pela rua. O rosto mostrava ódio. — Nevada Smith. Uma expressão de desprezo apareceu de re pente em seu rosto. dos fortes refletores acesos. Mas o xerife não retribuiu os olhares. Os olhos da morte brilhavam de alegria pelo combate . Cansei de tudo isso quando estive no oeste. A poeira não aparecia nas botas l ustrosas. Gua rdou. Ao longe. a insígnia de metal.— Como se chama o filme? — perguntou ela. O corpo estremeceu ao levar mais duas balas e. A câmara se aproximou tanto do rosto dele que ela pôde ver-lhe os poros da pele e quase sentir seu hálito quente. Rina virou-se para o banqueiro que so rriu embaraçado com os olhos muito vermelhos e tossiu para limpar a garganta apert ada. mas muitas vezes. A luz brilhante do sol incidiu so bre seu rosto. das mulheres cheias de jóias. pela cidade qu e exigia sacrifícios a seu mo-do. Eram os olhos de um homem que havia conhecido a morte. A morte foi arremes sada violentamente para o chão e a arma caiu de sua mão.. mas. e a mão pairava como uma cascavel por cima do coldre do revólver. dissera o banqueiro. Não uma. lev ando a mão rapidamente ao revólver. afastou-se. Era o fim do filme. — É uma produção de Norman. Encararam-se por um momento. o xerife de Vila Pacífica colocava o revólver à cin-tura. jogando-a no chão aos pés dela e. — Norman diz que o homem que faz o papel principal é um novo astro.. com uma velocidade que dificilmente a vista podia acompanhar. dos homens bem vestidos. Era o desgosto pela sede de sangue da garota. Os do xerife estavam bem abertos e fixos. O xerife ainda ficou ali um momento. Pôde sentir o cansaço que havia nele. O povo começou a sair das casas.

— Que tal aquele rapaz. abriu nervosamente a bolsa e procurou o telegrama de Ne vada. — Talvez isso lhe refresque a memória. — Não se lembra de mim. Estendeu a mão p ara o jarro na mesinha-de-cabeceira e não o encontrou. A fumaça acre doeu-lhe nos pulmões e. Parou. Seus olhos brilhavam de con-tent amento. mon amour? Rina negou com a ca-beça. . não é mesmo? Rina levou as mãos à fronte e sentiu o sangue latejar. Começou a sentir-se deslocada. Não se lembra? Rina sacudiu a cabeça. abrindo o penhoar e encost ando a cabeça de Rina em seus seios nus. homens apaixonados. na casa de Philippe. Fora para Nova Iorque e estivera depois em Londres. — Ah. Aproximou-se de Rina e estendeu-lhe a garrafa. — Tome um pouco de champanhe. Rom a. Houve festas. de grandes maxilares. beijando-a na boca. Rina olhou pela janela e viu a grande casa cujo teto a luz do sol po ente incendiava. — Quem é você? — perguntou Rina. — Zurique? Philippe? E esse homem que esteve aqui? — Mais non. o Nevada Smith? — perguntou ele. é claro. Paris. Vamos cumprimentá-lo. Que estava fazendo ali? Aquele não era o Nevada que e la conhecia. Onde esta-mos? — Em Zurique. Nor man era um homem robusto. É ruim a gente acordar com uma sede terrível. — Está com dor de cabeça. Compreendeu então que não estav a em seu quarto. Ma-dri. Três an os andando de um lado para outro.— Lá está Bernie Norman. E Nevada Smith vai começar outro filme para nós imediatamente! A limusine entrou por uma alameda no sopé da colina. Não era real. Onde poderia estar? Havia cigarros e fósforos na mesinha ao lado da cama e ela ace ndeu um. já acordou. casos febris. e Rina olhou-o surpresa. a porta se abriu de novo e apare-ceu um homem trazendo na mão uma garrafa de champanhe. — Tom Mix? Quem é ele? Norman bateu nas costas do banqueiro. Sua garganta estava tão seca que ela teve a impressão de que fazia meses que não bebia um copo de água. não é? Vou buscar uma aspirina para você. E quanto mais vagava pelo mundo mais amedrontada e sozinha se sentia. Ficara três anos sem ter notícia dele. — Por favor. — Já viu alguém assim antes? Aind a quer que eu con-trate Tom Mix para fazer um filme? O banqueiro riu. Rina voltou-se aterrorizada para a mulher. meu marido. claro que não. O homem acariciou-lhe a cabeça solicitamente. estou começando a pensar que fiquei maluca. indignada. Aquilo era um pesadelo. Sorriu e se aproximou. pois isso não era habitual nele. Estava in-teiramente nu. Ela lhe telegrafara da Suíça no mês anterior. com apenas um lençol branco a cobri-la. aturdida. ma chèrie? — disse ternamente. Correu os olhos à procura de seu robe. O quarto era luxuosamente mobiliado à moda européia. Passou por um portão de ferro e ncimado pelo brasão já conhecido de Rina e começou a subir a estreita estrada até o alto da colina. nesse momento. Esse é Karl. querida. Por fim. Não podia ser. mas não encontrou uma só peça de sua roupa. De repente. Uma bela mulher de cabelo preto entrou no quarto. ao ver Rina sentada na cama. Sentiu-se mais calma ao relê-lo. despertara uma manhã em Zurique. Estava n ua na cama. a porta se abriu. ma chêrie — disse ela. com o sol ofuscando seus olhos. Nisso. Sorriu para el as e disse: — Ah! Todo mundo já está acordado de novo. Abriram caminho por entre uma multidão de entusiastas que cercavam o produtor. homens vorazes. Quando ele saiu. — Esse filme deve render uns dois milhões. desejos. — E agora? Lembra-se de quanto nos amamos? Rina empurrou-a. A festa estava começando a ficar chata. Vivera os primeiros seis meses em Boston até se cansar da cidade. mas inteiramente estranho para ela. — Não me lembro de nada. Constantinopla e Berlim.

Rina abriu a bolsa e encontrou as fotos obscenas. sem saber o que dizer. Tornou a dobrar o telegrama enquanto a limusine chegava ao alto da colina. — Não as quero — disse ela. Todos saíram então do quarto. Estou mais sozinha e amedrontada que nunca. mas lá estava fazendo muito calor e nós viem os para cá. Ela olhou para as fotografias e sentiu a náusea subir-lhe à garganta. — Duas semanas? — Sim. — Mas acho que a objetiva está com algum defeito. junto ao de Philippe. Caminhou para a porta sem ao menos olhá-los. Sou o conde De Chaen". — Suas roupas estão no armário. para poder bater as fotografias no momento que achasse m elhor. Não podia ser el a. Rina. A mulher sorriu. A mulher ainda vestia seu penhoar. sorrindo. A mulher pegou as fotografias. — Fique com elas. Philippe. Eu gostaria de me vestir. O tel egrama era típico do Nevada que ela lembrava. mas os homens já estavam com calças e camisas lev es. Rina continuou em silêncio. . O amigo que você esperava não apareceu. Estava começando a lembrar. Rina saiu da cama e lavou o rosto rapidamente. Os negativos custaram dez mil dólares e ela os queimou num cinzeiro antes de sair da sala. Olhou-os. — Veja se gosta. Ainda é meu amigo? A resposta chegou no dia seguinte junto com uma ordem bancária de cinco mil dólares e passagens reservadas de Zurique até a Califórnia. Você é muito bonita. e tem sido uma festa maravilhosa. ela voltou os olhos para ele. Foi tão engraçado! Você fazendo amor com o di sparador da máquina na mão. Queria era desaparecer o q uanto antes dali. — Você estava sozin ha em seu camarote. Estava assinado Nevada.— Nos conhecemos nas corridas há três semanas em Paris — disse a mulher. — Podiam ter saído melhores — disse o conde. Atrás dele veio um homem alto e louro. voltou para pegar a bolsa. com um vidro de aspirina numa mão e a garrafa de champanhe na outra. mas achou que era melhor desistir. Esse cavalo é meu. evitando encará-lo. Cord. — Já se lembra então? A festa começou em Paris. daquele jeito. — Pois acho que saíram muito boas. Assim. Pensou em tomar um banho. Nua. vestido com um robe. Mas não se parecia em nada com o Nevad a a quem ia ver. Jogou algumas fotos em cima da cama. Logo que chegou a um hotel. Lentamente. sabe? Rina olhou-a. Karl se aproximou dela com dois comprimidos na mão. Apostara num belo cavalo alazão e o homem do camarote vizinho se inclinou para ela. Há quase duas semanas. — Gostaria de tomar uma xícara de café enquanto falamos de negócios? — perguntou Karl. Sem dizer nada. tirando-as da bolsa. que estava sorrindo. O telegrama dizia: Ainda sou seu amigo. — A nossa pequena américaine ainda não está se sentindo bem. le mbra-se? Rina fechou os olhos. menin a. — Coloquei dentro dela uma coleção de fotos como lembrança de nossa festa. Vai se sentir melhor. pol idamente. Rina olhou para os três e disse com voz sumida: — Tenham a bondade. O homem que se chamava Karl a cha mou: — Esqueceu sua bolsa. Tome estas aspirinas. dizendo: "Escolheu muito bem. A porta se abriu de novo e Karl entrou. para o chalé de Philippe. Vestiu-se e passou para a sala. — Não é problema — disse a mulher. ater rada. Com aquela mulher e aqueles homens. passou um telegrama para Nevada. Nós sempre podemos tirar mais cópias dos negativos. — O conde do camarote ao lado! — exclamou ela.

17

Nevada recostou-se na cadeira e correu os olhos pelo espaçoso escritório. Uma aura d e tensão tomara conta do ambiente. Dan Pierce, afável e sorridente, disse: — Não se trata de dinheiro, Bernie, é que achamos a ocasião oportuna. Vamos fazer um fil me que mostrará o oeste como realmente era, evitando todos os convencionalismos qu e se acumularam com o passar dos anos. Norman olhou por um momento para o script de capa azul que tinha na mão. Assumiu u ma expressão grave, e disse: — Acredite que não é pelo script, Dan. Nós o achamos notável, não é mesmo, Von Elster? O calvo diretor concordou. — Um dos melhores que já li. — Então por que relutam? — perguntou o agente. — A ocasião não é boa — disse Norman. — A indústria está perturbada. A Warner vai lançar dent breve um filme falado. As luzes de Nova Iorque. Há muita gente que pensa que quan do isso acontecer o cinema mudo estará liquidado. Dan Pierce riu. — Conversa! Cinema é cinema. Quem quer ouvir os atores falarem vai ao teatro, que é o lugar próprio para isso. Norman voltou-se para Nevada, com um tom paternal na voz: — Escute, Nevada, já tomamos alguma decisão errada a seu respeito? Desde o dia em que você entrou aqui, nós o tratamos corretamente. Se a questão é dinheiro, não há problema. Bas ta dizer quanto quer. — Não é dinheiro, Bernie — disse Nevada, sorrindo. — Você bem sabe disso. Dez mil dólares por semana bastam para qualquer pessoa, mesmo considerando que tenho de pagar sete p or cento de Imposto de Renda. É esse script. Foi o primeiro enredo de verdade que li aqui. Norman pegou um charuto. Nevada recostou-se na cadeira e se recordou de quando o uvira falar pela primeira vez daquele script. Fora no ano anterior. Ele estava t rabalhando em Tiroteio ao entardecer. Um autor de scripts, um homem moço, de óculos e muito pálido o havia procurado. — Sr. Smith — perguntou ele com alguma timidez —, pode me dar um minuto de atenção? Nevada, que estava sendo maquilado, virou-se para ele. — Mas claro, sr. ... — Mark Weiss. — Muito bem, Mark — disse Nevada, sorrindo. — O que há? — Gostaria que lesse um script. Passei dois anos fazendo pesquisas. É a respeito de um dos últimos pistoleiros do sudoeste. Acho que é uma coisa diferente de tudo que já se fez. Era um dos aspectos inevitáveis da vida de um astro do cinema. Todo mundo tinha um script para se ler, e era sempre o melhor que já havia sido escrito. — Terei prazer em lê-lo. Qual é o título? — O renegado — disse o homem, entregando-lhe uma pasta de capa azul. Nevada folheou-o, olhou a última página e viu que era três vezes maior do que os scrip ts comuns. — É um pouco longo, não é? — Decerto, mas não encontrei jeito de reduzi-lo. Tudo que está aí é verdade. Passei estes dois últimos anos consultando os arquivos de velhos jornais do sudoeste. Nevada voltou à maquilagem, ainda com o script na mão. — Que aconteceu ao homem? — perguntou a Weiss, sem olhar para ele. — Parece que ninguém sabe. Um belo dia, desapareceu e nunca mais se teve notícias dele : A patrulha que o perseguia na ocasião em que desapareceu chegou à conclusão de que e le havia morrido nas montanhas. — Uma história nova é sempre uma coisa boa, Mark. O público se cansa dos mesmos velhos h eróis. Qual foi o nome que deu a esse camarada? — Max Sand. O script caiu da mão de Nevada e ele sentiu o sangue fugir-lhe da face. — Como foi que disse? — perguntou com voz rouca. — Max Sand. Podemos mudar o nome, mas era assim que o homem se chamava.

Nevada sacudiu a cabeça e olhou para o script no chão. Weiss apanhou-o prontamente e disse, preocupado: — Não está se sentindo bem, sr. Smith? Nevada respirou profundamente e viu que seu autocontrole tinha retornado. Tomou de volta o script estendido por Weiss, e forçou um sorri-so. — Obrigado, sr. Smith — disse Weiss com expressão de alegria e de alívio. — Não sabe o quant o lhe agradeço. Muito obrigado. Nevada passou uma semana sem coragem de ler o script. Tinha a estranha impressão d e que, se assim fizesse, estaria perdido e todos saberiam de tudo. Mas uma noite , depois do jantar, entrou na biblioteca onde Von Elster o estava esperando e en controu-o mergulhado na leitura do script. — Há quanto tempo isso está com você? — perguntou o diretor. — Há uma semana, mais ou menos. Esses escritores sempre nos inundam de scripts. Esse aí presta? — Se presta! É formidável. Se você fizer esse filme, quero ser o diretor. Ainda naquela noite, com a luz acesa até de madrugada, Nevada compreendeu o que o diretor queria dizer. Weiss tinha dado profundidade ao retrato de um homem que v ivera só e chegara a um conceito de vida nascido da dor e da tristeza..Os seus cri mes não tinham qualquer sensacionalismo; eram apenas resultado de uma luta desespe rada pela sobrevivência. Depois da leitura, Nevada teve certeza de que faria o filme. O script era tão bom que não podia ser posto de lado. Além disso, teria de fazer o filme para proteger a si próprio. Se o script caísse em outras mãos, não seria possível prever quanto iriam proc urar saber ainda sobre a vida de Max Sand. No dia seguinte, comprou o script de Mark Weiss por mil dólares. Nevada voltou de súbito ao presente e ouviu Norman dizer: — Vamos esperar um ano. Até lá, saberemos para onde pular Dan Pierce olhou para Nevada. Ele sabia o que significava aquele olhar. Pierce já fora até onde era possível. — Chaplin e Pickford pensaram bem em formar a United Ar-tists — disse Nevada. — Parece que é o único meio que tem um artista de fazer os filmes que quer. — Mas ainda não acertaram — disse Norman, com uma leve mudança no olhar. — Decaíram um pouco . — Talvez — retrucou Nevada. — Com o tempo é que se vai ver. A com-panhia ainda é nova. — Está bem — disse Norman, de repente. — Vou fazer um trato com você. Vamos aplicar meio m ilhão no filme. Você garantirá as despesas que passarem disso. — É mais um milhão e meio! — exclamou Pierce. — Onde é que Nevada vai arranjar tanto dinheir o? Norman sorriu. — No mesmo lugar onde nós arranjamos dinheiro. No banco. Não terá dificuldade nenhuma, p ois eu tomarei as providências necessárias. O filme será cem por cento propriedade sua . Só ficaremos com as porcentagens da dis-tribuição e teremos nosso dinheiro de volta. É um negócio melhor do que a United Artists poderia fa-zer. Isso mostra como estamo s dispostos a dar-lhe apoio, Nevada. Está satisfeito? Nevada não tinha ilusões. Se o filme fracassasse, seu nome ficaria preso no banco e não o de Norman. Perderia tudo que tinha e mais alguma coisa. Olhou para a capa az ul. E uma decisão começou a tomar forma em sua mente. O pai de Jonas dissera um dia que não havia nenhum prazer em ganhar ou perder quan do se jogava com o dinheiro dos outros. Aquele filme não podia deixar de fazer suc esso. — Está bem — disse ele, afinal. —Negócio fechado. Quando chegaram à tardinha no escritório de Norman, Nevada olhou para seu agente. Pi erce estava carrancudo e disse: — Vamos ao meu escritório. Temos muito que conversar. — Vai ficar para amanhã — disse Nevada. — Tenho uma pessoa do leste à minha espera em casa . — Você mordeu mais do que pode engolir, Nevada. — Já estava em tempo. A única maneira de ganhar dinheiro de verdade é arriscar muito din heiro.

— Mas assim também se pode perder muito. Nevada parou ao lado de seu Stutz Bearcat branco. Colocou a mão na porta com o mes mo carinho com que afagaria um cavalo. — Não vamos perder, Dan. — Espero que saiba o que está fazendo, Nevada. Não gosto dessa história de Norman deixar todos os lucros para nós. Deve haver alguma sujeira no meio de tudo isso. Nevada sorriu e, antes de entrar no carro, disse: — O seu defeito, Dan, é ser agente. Todos os agentes são desconfiados. Bernie não poderi a deixar de agir assim. Não quer arriscar-se a me perder. Estarei amanhã em seu escr itório às dez da ma-nhã. — Certo. Mas, olhe, não estou gostando dessa história de cinema falado. Mais duas comp anhias já anunciaram que vão fazer filmes falados. — Podem fazer à vontade, Dan. Essa mania vai passar depressa. Na época em que nosso fi lme for lançado, ninguém mais nem falará em filmes falados. O telefone tocou na mesinba-de-cabeceira. Rina atendeu, notando que também ali, no centro do disco, estava a insígnia de Nevada. — Alô. A voz amiga de Nevada chegou-lhe aos ouvidos: — Como vai, menina? Tudo resolvido? — E você, Nevada? — Será que você tem outros amigos? — Já abri as malas e estou admirada — disse ela, rindo. — De quê? — De tudo. Desta casa. E fabulosa. Nunca vi nada igual. — Não é grande coisa. Talvez um pouco avantajada. Mas é isso o que chamo de lar. — Ainda não posso acreditar, Nevada! Por que mandou fazer esta casa fantástica, tão dife rente de você? — Tudo isso faz parte da profissão, Rina. É como o chapelão branco, as camisas e as bota s coloridas. — Com suas iniciais em tudo? — Com minhas iniciais em tudo. Mas não se impressione com isso. Em Hollywood há coisas muito mais malucas. — Tenho tantas coisas para lhe contar, Nevada! A que horas voltará para casa? — Para casa? Eu estou em casa. Estou aqui embaixo no bar, à sua espera. — Vou descer já. Mas, Nevada, como é que vou saber onde é o bar? Isto aqui é tão grande! — Temos guias índios exatamente para essas ocasiões. Vou mandar um buscá-la. Rina desligou o telefone e foi para o espelho. Quando tinha acabado de passar ba tom, bateram de leve na porta. Abriu a porta e encontrou Nevada sorrindo. — Perdão, senhora — disse ele, com fingida cerimônia. — Corri a casa toda e o único índio que encontrei fui eu! — Oh, Nevada! — disse ela com voz terna. Jogou-se então nos braços dele, com o rosto escondido nos músculos fortes do peito do amigo, e começou a molhar de lágrimas a brancura da camisa enfeitada.

JONAS — 1930 LIVRO III

1

As luzes de Los Angeles apareceram sob a asa esquerda. Olhei para Buzz, que esta va sentado perto de mim na carlinga, e disse: — Estamos quase em casa. O rosto dele se franziu num sorriso. Olhou para o relógio. — E acho que conseguimos um novo recorde. — Ao diabo com o recorde — disse eu. — O que quero é esse contrato de mala postal. — Bem, agora está no papo. Graças a este aviãozinho. Sobrevoei a cidade, rumo a Burbank. Se pegarmos o contrato de mala postal de Chicago para Los Angeles, dentro em pouco a Inter-continental estará voando por todo o país. A etapa seguinte seria pegar o contrato de Chicago a Nova Iorque. — Li nos jornais que Ford tem projetos para um avião trimotor que levará trinta e dois passageiros — disse Buzz. — Quando ficará pronto? — Daqui a dois ou três anos. Será essa a próxima etapa. — Sim, mas não podemos esperar por Ford, Buzz. Eles podem levar cinco anos até sair co m alguma coisa prática. Temos de estar prontos daqui a dois anos. — Dois anos? Como? É impossível! — Escute aqui: quantos aviões postais temos em vôo agora? — Trinta e quatro. — E se pegarmos o novo contrato da mala postal? — Duas, talvez três vezes mais, Onde você quer chegar? — Os fabricantes desses aviões estão ganhando com os nossos contratos mais do que nós. — Se está pensando em fabricar nossos próprios aviões, você está maluco! — exclamou Buzz. — S a instalar uma fábrica levaríamos dois anos. — Não, minha idéia é comprar uma que já esteja em funcionamento — repliquei. Ele pensou por um momento, e disse: — A Lockheed, a Martin, a Curtiss-Wright estão todas fazendo muitos bons negócios e não serão vendidas. A única possível é a Winthrop. Estão despedindo empregados desde que perde ram o contrato com o Exército. — Está raciocinando certo, Buzz. — Oh, não! — exclamou. — Eu trabalhei para o velho Winthrop, e ele ju-rou que nunca... Estávamos sobrevoando o Aeroporto de Burbank. Volteei pelo lado sul da pista, onde ficava a fábrica Winthrop. Inclinei a asa do avião para que Buzz visse do lado dele . — Olhe para baixo, Buzz. Gigantescas letras brancas se destacaram na escuridão, iluminadas por dois possant es refletores, no teto pichado da fábrica. CORD AIRCRAFT, INC. Os repórteres nos rodearam logo que pousamos. Os flashes começaram a estourar e pisq uei os olhos. — Está cansado, sr. Cord? — perguntou um deles. Cocei a barba crescida e sorri. — Não. Estou novinho em folha. Uma pedra no chão do aeroporto machucou meu pé e eu disse a Buzz, que ainda estava n o avião: — Quer jogar meus sapatos? Ele riu, jogou os sapatos e os repórteres fizeram muita confusão para bater uma foto minha enquanto estava calçando os sapa-tos. Buzz desceu do avião. Bateram mais algumas fotos e nos encaminhamos para o hangar. — Como se sente por estar de novo em casa? — perguntou outro repórter. — Bem — respondi. — Bem de verdade! — acrescentou Buzz. E era um fato. Cinco dias antes, havíamos partido do aeroporto de Le Bourget, em P aris. Terra Nova, Nova Iorque, Chicago, Los Angeles. Em cinco dias. Um repórter apareceu correndo, com uma folha de papel na mão.

— Sabem que bateram o recorde de Chicago a Los Angeles? Com esse, foram cinco reco rdes que quebraram nessa rota! — Um por dia — disse eu, com um sorriso. — Não temos de que nos queixar. — Quer dizer que pegarão mesmo o contrato da mala postal? — per-guntou outro repórter. Atrás deles, na entrada do hangar, avistei McAllister acenando freneticamente. — Essa é a parte comercial da história. Eu a deixo para meu sócio, Buzz — disse aos repórter es. — Ele lhes dirá tudo que quiserem saber. Deixei-os conversando com Buzz e me dirigi para onde estava McAllister. — Pensei que não chegasse a tempo — disse ele, ainda aflito. — Não disse que chegaria aqui às nove horas? — Tenho um carro esperando. Iremos daqui diretamente para o banco. Prometi a eles que o levaria lá. — Espere um pouco. Prometeu a quem? — Ao grupo que concordou com seu preço pela concessão de exploração da patente do novo pro cesso industrial para o plástico. Até a Du Pont faz parte do grupo. — Espere um minuto, McAllister! Não vejo cama há cinco dias e estou exausto. Falarei c om eles amanhã. — Amanhã? Estão à sua espera agora! — O que eu tenho com isso? Deixe-os esperar. — Mas eles vão lhe dar dez milhões de dólares! — Não vão dar coisa nenhuma para mim. Tiveram a mesma oportunidade que nós tivemos para comprar a patente. Estiveram todos na Europa, mas não quiseram se arriscar. Agora que precisam da patente, podem esperar até amanhã. Entrei no carro e disse: — Beverly Hills Hotel. McAllister entrou e sentou-se a meu lado. Disse, perplexo: — Amanhã? Eles não vão querer esperar. O chofer pôs o carro em movimento. Olhei para McAllister e sorri. Senti-me um tant o preocupado com ele. Sabia que aquela transação não tinha sido nada fácil. — Escute, Mac. Vou para o hotel, pego umas seis horas de sono e, então, poderemos fa zer a reunião. — Mas... serão três horas da madrugada! — Leve-os para meu apartamento no hotel. Estarei à disposição deles. Monica Winthrop estava à minha espera na suíte do hotel. Apagou o cigarro e se levan tou do sofá logo que me viu entrar. Correu a meu encontro e me beijou. — Que barba! — exclamou com fingida surpresa. — O que está fazendo aqui, Monica? Esperava tê-la visto no aeroporto. — Quis ir até lá, mas tive medo de que papai aparecesse. Monica tinha razão. Amos Winthrop era muito mulherengo e se nos visse juntos saber ia logo da verdade. O defeito dele era não saber dividir bem o tempo. Deixava as m ulheres atrapalharem seu trabalho e o trabalho atrapalhar as mulheres. Mas Monic a era filha única e, como todos os devassos, julgava a filha uma criatura excepcio nal. E era, mas não no sentido que ele pensava. — Prepare um drinque — disse eu, indo para o quarto. — Vou meter-me numa banheira chei a de água quente. Estou com um cheiro tão forte que nem eu estou gostando mais de mi nha própria companhia. Ela encheu um copo com gelo e uísque e o levou para o quarto. — Seu drinque está pronto e a banheira cheia. Peguei o copo e perguntei: — Como soube que eu viria para cá? — Ouvi pelo rádio. Ainda não tinha tomado o primeiro gole, quando ela se encostou em mim. — Não precisa tomar banho por minha causa. Estou achando esse seu cheiro excitante. Fui para o banheiro, tirando a camisa no caminho. Quando me voltei para fechar a porta, lá estava ela atrás de mim. — Não entre já na banheira. É uma pena desperdiçar todo esse cheiro bom de macho. Passou-me os braços pelo pescoço e colou o corpo ao meu. Procurei seus lábios, mas ela afastou a cabeça e a enterrou no meu ombro. E a senti respirar fundo, trêmula, deli ciando-se com meu cheiro. Gemeu baixinho, e o calor que veio dela pareceu sair d

e um forno. Segurei seu rosto e a olhei. Estava com os olhos quase fechados e gemia enquanto o corpo se contorcia. Desapertei o cinto e deixei as calças caírem no chão. Joguei-as longe com um pontapé e a encostei na penteadeira que tomava toda a parede. Ainda estava com os olhos fechados quando saltou sobre mim como um macaco subindo num coqueiro. — Respire fundo, menina — disse, quando ela começou a gemer mais intensamente. — Talvez leve muitos anos para ter de novo esse cheiro.

A água estava quente e boa e lavava meu cansaço. Tentei esfregar as costas com o sab onete e não consegui. — Deixe que eu faço isso — disse ela. Começou a esfregar minhas costas. O movimento lento e circular era relaxante, e fe chei os olhos. — Não pare, Monica! É tão bom! — Você é como uma criança. Precisa de alguém que tome conta de você. — Estive pensando nisso também — disse, abrindo os olhos. — Acho que vou contratar um cr iado japonês. — Um criado japonês não faria isso. Vire-se um pouco para trás que eu quero tirar esse s abão. Virei-me dentro da água, fechando de novo os olhos. Quando pouco depois os reabri, ela estava olhando para mim. — Parece tão pequeno e fraco... — disse ela. — Não foi o que você achou ainda há pouco. — Eu sei — disse ela num sussurro, com os olhos meio anuviados. Entendi aquele olhar. Levantei um pouco o corpo e passei o braço pelo pescoço dela, sentando-a na borda da banheira. Beijei-a e senti sua mão descer para mim. — Oh! Você está criando força — exclamou, apertando sua boca na mi-nha. Nesse exato momento o telefone tocou. Levamos um susto, e eu caí dentro da banheir a, espirrando água por todos os lados e molhando a frente de seu vestido. Ela pego u o telefone em cima da penteadeira e o levou para mim. — Alô! Era McAllister. Estava embaixo, na portaria. — Eu disse três horas, Mac. — Mas já são três horas. Podemos subir? Winthrop também está conosco. Diz que precisa falar com você. Olhei para Monica. Era só o que faltava: o pai dela subir e encontrá-la em meu quart o. — Não — disse eu. — Ainda estou na banheira. Leve-os para o bar e pa-gue-lhes um drinque . — Os bares estão todos fechados. — Está bem. Então irei vê-los na portaria. — A portaria não é lugar para uma transação dessas. Não há isolamento suficiente. Eles não vã tar. Não compreendo por que não podemos subir. — Porque estou com uma pequena aqui, entendeu? — Que é que tem? Acha que eles vão estranhar? — A pequena é Monica Winthrop. Mac silenciou por um instante. — Epa! — exclamou ele, depois de um longo silêncio. — Seu pai tinha razão. Você nunca deixará de ser assim. — Fique descansado, que deixarei quando tiver sua idade. — Ainda não sei — murmurou ele. — Eles não vão gostar da idéia de conversar na portaria. — Se é isolamento que querem, já sei qual é o lugar ideal, Mac. — Onde? — O lavatório dos homens ao lado dos elevadores. A estas horas não aparece ninguém. Esta rei lá daqui a cinco minutos. Desliguei o telefone e saí da banheira. Olhei para Monica. — Dê-me uma toalha. Tenho de descer para ir falar com seu pai.

2 Cheguei ao lavatório dos homens esfregando o rosto. Ainda estava com a barba de ci nco dias. Não tive tempo de fazê-la. Sorri ao vê-los, tão engolfados em suas preo-cupações q ue nem perceberam minha chegada. — Podemos começar a reunião, senhores. Olharam todos para mim, com uma expressão de espanto. Ouvi um deles praguejar baix inho e calculei que havia ali alguma pequena tragédia. McAllister veio a meu encontro dizendo com certa ênfase: — Por certo, Jonas, escolheu um lugar bastante estranho para nossa reunião. Eu sabia que ele só procedia assim para salvar a situação com os outros, mas não me impo rtei. Olhei para as calças dele e disse: — É melhor abotoar a braguilha, Mac. Ele ficou muito vermelho e baixou imediatamente a mão. Ri e me voltei para os outros: — Desculpem a inconveniência, cavalheiro. O lugar certo seria meu apartamento. Mas e stou com um problema lá em cima. Te-nho uma enorme caixa que está tomando todo o esp aço disponível. Amos Winthrop foi sem dúvida o único que compreendeu. Deu um sorriso irônico e fiquei imaginando o que faria se soubesse que a pequena era a filha dele. Mac já havia recuperado sua serenidade e tomou as providências que lhe cabiam. Foram feitas as apresentações. Então começamos a tratar de negócios. Como Mac me explicou, as t rês grandes companhias de produtos químicos haviam organizado uma empresa à parte para explorar a patente que me pertencia. Essa empresa faria o primeiro pagamento e me garantiria os royalties. Eu só tinha uma pergunta a fazer: — Quem garante o dinheiro? — O Sheffield, aqui — disse Mac, apontando para um dos homens. — O sr. Sheffield é um d os sócios da George Stewart Inc. Olhei para Sheffield. Stewart, Morgan, Lehman, todos eram bons nomes na Wall Str eet. Não poderia, do ponto de vista financeiro, querer coisa melhor. Mas tinha a i m-pressão de que aquele homem não me era desconhecido. Por fim, a memória não falhou. F. Martin Sheffield. Nova Iorque, Boston, Southampton, Palm Beach. Escola de Adm inistração da Universidade de Harvard, sum-ma cum laude, antes da guerra. Major do E xército de 1917 a 1918. Três condecora-ções por bravura em combate. Jogador de pólo, campeão . Figura da socie-dade. Idade aparente: trinta e cinco anos. Idade registrada: q uarenta e dois. Lembrei-me de que fora procurar meu pai uns dez anos antes. Queria fazer uma emi ssão pública de títulos para a companhia. Meu pai não havia concordado. — Por mais agradável que façam parecer tudo, Jonas — dissera meu pai —, nunca deixe essa gente meter as garras em você. No fim, seu negócio acabará sendo deles e não seu. Tudo q ue podem dar para você é dinheiro, quando a única coisa que conta mesmo é a capacidade d e mandar. E isso eles guardam para si. Olhei para Sheffield e perguntei: — Como é que vai garantir os pagamentos? Seus olhos cintilaram por trás dos óculos bifocais pince-nez. — Estamos nesse contrato com os outros, sr. Cord. Sua voz era surpreendentemente forte para um homem tão frágil. E muito seguro de si. Falou como se não se dignasse a me dar uma resposta, como se todo mundo sou-besse que bastava o nome de Stewart num contrato para garantir qualquer coisa. Talvez fosse verdade, mas havia naquilo algo que me irritava. — Perdão, sr. Sheffield, mas não respondeu à minha pergunta — disse eu polidamente. — Pergu ntei como o dinheiro seria garantido. Não sou banqueiro nem homem da Wall Street. Sou apenas um pobre rapaz que teve de deixar os estudos e começar a trabalhar porq ue o pai morreu. Não compreendo essas coisas. Sei que, quando entro num banco e me pedem garantias, tenho de apresentar alguma garantia, como terras, hi-potecas, títulos, antes de me darem alguma coisa. É esse o sentido de minha pergunta. — Sem dúvida alguma, sr. Cord — concordou, com um sorriso. — Está querendo sugerir que tod as as companhias não sejam capazes de pagar a quantia combinada? — Nada poderia estar mais longe de meu pensamento, sr. Sheffield. O que acontece é q

Minha impressão era de que eu iria receber dez milhões de dólares por esses d ireitos. Mac resfolegava como uma válvula. — O seu mal é que você está querendo ser maior do que é. São meus bens que estão aqui em jogo. Posso vendê-los. Vi pela primeira vez sua calma de advogado desfeita. Se o negócio nã se fechar de acordo com o combinado. — E tenho. e o sorriso dele desapareceu instantaneamente. todo mundo começou a falar a o mesmo tempo. Eu já estava zangado. — Muito bem. E eu quero saber como é que vou ser pago. ainda pa cientemente explicando. — O mal é que você é apenas meu advogado. Houve durante um momento um silêncio melindroso e. Estamos apenas subscrevendo as ações e fornecendo o capital inicial que dará vida à nova empresa. Os cem m il dólares por ano que eu lhe pagava. — Quer dizer que sua firma vai adianta r o dinheiro? — Não! Não se trata absolutamente disso. No primeiro. Não se esqueça disso! O rosto de Mac ficou branco. — Tem alguma objeção a fazer quanto à nossa posição. ainda me fazendo de inocente. — Mas parece ter algumas dúvidas sobre nossa proposta. Há uma di ferença entre os dois casos. mas minha voz era calma.. — Ainda não — retruquei. — Mas o senhor já concordou com dez milhões! — protestou Sheffield. Só isso importará em alguns milhões. — As exigências de capital são muito grandes. Sou eu quem toma as decisões sobre meus bens. Os bens são meus e você trabalha para mim. lavo as mãos de tudo! Peço de-missão! — Será como quiser — disse eu. — Não. Mac perdeu inteiramente a calma. em seu nome. — É de praxe.. Apenas gosto de conhecer exatamente minha posi-ção. se vou também assumir os riscos. Ainda me lembro de quando você era garoto. — Seu dinheiro será garantido pela renda da nova companhia — disse Sheffield. Não me cabe dizer a ninguém como deve gerir seus negócios. fazer o que quiser. e não de dez. sujeito aos mesm os riscos dos senhores. Vou ser pago com o dinheiro que os senhores ganharão se eu lhes ceder a patente. mas. — Compreendo. Jonas. O mercado está desnorteado e há bancos em falência po r todo o país. Não se pode saber ao certo o que ainda está para acontecer. — Mais ou menos.ue homens que têm mais experiência do que eu. — É contrário a um negócio dessa natureza? — Absolutamente. no segu ndo.. podemos começar a assinar os papéis — disse Sheffield. mas com um limite estabelecido na extensão de minha partic i-pação. Acendi um cigarro e disse: — Mas uma coisa ainda não compreendo. — Espere um pouco. mesmo para essas compan hias — disse ele. — Ah! — exclamei. Sua participação nos lucros. Não participarei dessas negociações incorretas. Vejo agora que vou ter apenas a garantia de dez milhões de dólares. Deu-me motivos para acreditar que levaria em consideração um a oferta de dez milhões de dólares! — E levei. E por isso que figuramos nessa sociedade. Ele me olhou vivamente. A casa onde ele mor . Eu sabia de tudo que passava por sua cabeça. — Agi de boa-fé. — Esto u disposto a ser par-ticipante da maneira sugerida. Já chega o trabalho que tenho cuidando dos meus. então. de modo algum. sou participante acidental do empreendimento dos senhores. — Inclusive seus honorários de corretagem? — Claro! — disse ele. recebo o dinheiro imediatamente. sr. Por que não me pagam tudo desde já? — Dez milhões de dólares representam uma quantia muito grande. dá-los. nem poderia ter. É a primeira vez que nos encontramos. Neste caso. que são mais velhos e sabem mais. Não tenho. dizem que os tempos atuais são incertos. com um s orriso de alívio. encarando-o impassível. Cord? — Absolutamente. — Claro.. decidido. neste caso a garantia deve ser de quinze milhões.

fecharemos negócio por doze milhões e meio. Eu estava caminhando para o ele vador. Sheffield. — Estamos muito ligados para que uma coisa dessa interfira conosco. Não pense mais nisso. tinha de lhe dar uma chance. Apertei sua mão e disse solenemente: — Martin. mas não comp reendi bem as determinações do sr. Lembre-se de que a aposta é de dois milhões e meio. Perdi. — Ele hesitou um instante. com esse vôo em que bateu tantos recordes.ava. Ele olhou para os outros e depois para mim. O imp ortante é assinar logo a renovação de seu contrato para que nenhum desses piratas roub e você de mim. . — Bem. Não tive a intenção de enganá-los. ele disse: — Cada lado perde um pouco. — Acho que estamos ambos um pouco cansados. Ele me olhou. Haverá outros contratos. Ele abriu a boca e arregalou muito os olhos por trás dos óculos. Doze milhões e meio. mas de repente tive uma idéia. com essas negociações. Por fim. e não podemos considerar esta reunião um prejuízo total — disse eu costas para eles. quando Amos Winthrop bateu em meu ombro. De qualquer maneira. será por quinze. Eu não poderia dar-me ao luxo de ter pena dele. sua braguilha está aberta! 3 McAllister fez as alterações necessárias nos contratos e nós assinamos ali mesmo. — Sr. — Faça-me esse favor — respondeu com um fraco sorriso. Eu. já tenho feito algumas apostas — respondeu ele com um sorriso. Já passa va de quatro e meia quando saímos para a portaria. Sheffield — disse eu. Sua posição na sociedade. — Muito bem. A culpa foi minha. Vi o alívio que se mostrou no rosto dele. procurando compreender o que eu tinha em mente. Ele ficou ali. — Pode me chamar de Jonas. Cord! — exclamou. Logo que me voltei. Estendi a mão para e le. Um pesado silêncio envolveu o local. — Então a situação é essa. Ia faz endo um sinal afirmati-vo com a cabeça. Dei um sorriso irônico e fui até um dos urinóis. dizendo com voz muito séria: — Está bem. Se não conseguir. Tinham mesmo necessidade da patente. As escolas que os filhos estavam freqüentando. O contrato será de doze milhões e mei o. — Posso chamá-lo de Martin? — perguntei. Se conseguir. Mac — disse com voz bem cordial. Voltou-se então para o urinol e levou a mão à braguilha. Eu não queria falar com ele. — Meu pai me falou muito a seu respeito. você. como a confirmar a aposta. Creio que não compreendi o que me disse. Cord. Voltou-se para os outros e falou com sua voz calma de sempre: — Desculpem-me. mas desviou o olhar. senhores. Jonas. Nada aconteceu. — Ele me contou que é um verdadeiro esportista e que é capaz de fazer apos-tas sobre tudo. Até eu seria capaz de tentar isso por tanto dinheiro ! Sheffield hesitou um momento. não cederiam tão depressa. Passou-se um tempo. Talvez n aquele momento esti-vesse lamentando haver deixado os sessenta mil por ano que g anhava antes de trabalhar para mim. — Pare com isso. sr. o homem da Mahlon Chemical deu sua opinião: — São dois milhões e meio de dólares. Sabia perfeitamente o que estava f azendo. sr. — Claro. Nada mesmo. Foi Sheffield quem tomou a iniciativa. com a ver melhidão a subir-lhe do pescoço para o rosto. Quebrei o silêncio. Olhou para Mac. Caso contrário. Olhou para mim e eu gesticulei com a cabeça. Ganhou a aposta. Escutei-o conversar em voz baixa com os o utros. Peço desculpas. aposto dois milhões e meio de dólares como o senhor não é capaz de urinar de onde está naquele urinol.

— Seu contrato não se refere a adiantamentos assim. achando muito curiosa a situação. não era mais sabido que qualque r simplório do interior. — Conservá-la presa den tro do quarto? — Você poderia ter tentado ser pai dela. mas os pais são ainda mais cegos. — Uma menina inocente como ela! Conservei-me impassível. Depois de se entender com todos os credores e com suas ex-esposas. Vou dar vinte e cinco mil dólares. veemente. A porta do elevador se abriu e entrei. e um sentimento de repulsa me dominou. . Eu também tivera um pai muito ocupado sempre com seus ne gócios. Cheguei a pensar por um momento que aquilo fosse uma forma delicada de chantagem . Jonas? — É. — Você conhece o sujeito? — Não. Até um trapace iro matriculado como Amos. O rosto dele se encheu de satisfação. Eu sabia. Está se encontrando com um sujeito às escondidas e. O amor é cego. Encarei-o. não teria tanta certeza assim. seria capaz de matá-lo — disse com raiva. en contrei uma caixa de camisinhas na bolsa dela. mas julguei que ele poderia dar alguma valiosa colabora-ção à companhia. isso não demora. — Quero sua demissão. — Você sabe que eu devia muito. — Eu o darei a você — disse. com uma expressão de angústia. mas isso é importante. Mas estava cansado. — Nada pode ser tão importante. ansiosamente. As portas se fechavam. se tivesse seus próprios filhos.— Pode ficar para amanhã. O que há? Fomos até um sofá e nos sentamos. — Preciso de mais dez mil. — E o que você acha que eu podia fazer? — perguntou ele. — Monica? — perguntei. com um ar de cautela nos olhos. Ele devia a todo mundo. Quando tinha dezesseis anos. não devia mesmo sobrar muito dos cinqüenta mil dólares. mas com uma condição. — Da Winthrop Aircraft? — Da Cord Aircraft. O rosto dele se franziu num sorriso sabido. — E o dinheiro? — perguntou ele. E aquela era uma maneira de me comunicar. se já não está enrosca da com ele. — Eu sei qual é o sono que você quer. Ele deveria ter tomado providências naquela época. Eu poderia ter explicado. e me levantei. Para que eu precis ava de sujeitos como aquele perto de mim? Sanguessugas. As portas do elevador tornaram a se abrir e eu saí. — É sério. com toda sua experiência. Aprendem tud o na escola e ninguém pode ensinar-lhes mais nada. Se conhecesse. Gastava tudo mais depressa do que o governo podia imprimir. Amos estava bem a meu lado. — O que há com ela? — Quero mandá-la viver com a mãe na Inglaterra. — Para onde foi todo o dinheiro que recebeu pelas ações? — Acabou — disse. quando pedi ao as-censorista: — Espere um momento. Ela é um grande peso para mim e não posso mais controlá-la. — Está bem. — Qual? — perguntou. — Conversou com ela? — Conversei. É para Monic a. — Vou fazer até mais. mas não adiantou nada. Amos? Tenho de dormir um pouco. Mas desta vez é importante. Estava co meçando a me arrepender de havê-lo incluído no negócio. Pegavam-se à gente e nunca mais largavam. Mas. — Sujeitos como você nunca aprendem. Ela já tin ha dezenove. — Está falando como se fosse um especialista. Prometo que não voltará a acontecer. Podia ser que já soubesse de tudo. — Sei disso. Já fora um dos melhores projetistas de aviões do país. Bem sabe como são as moças hoje em dia. Não era de admirar que estivesse sempre sem dinheiro. Estava atrasado três anos. Amos.

com a cabeça em meu ombro e o pescoço na curva de m eu braço. atrás de mim. Não havia mais brilho dentro da água. o so no chegou. A água. Por fim. Ti ve um sobressalto quando ouvi a voz de Monica na beira do rio. antes de me virar. pensei. e cuide de sua vida — disse eu. amante. — Jonas! A voz dela quebrou o silêncio e a truta mergulhou para o fundo do rio. então começou a rir. . Olhei para o rio. nem nunca mais — disse ela. mas não disse o nome. sabia que a lua-de-mel estava te rminada. A mosca com eçou a descer na correnteza e. Que Amos Winthrop fosse para o inferno! Que Jonas Cord fosse para o inferno! Man dei para o inferno todos os pais que viviam tão ocupados com seus negócios e eram tão egoístas que não podiam ser pais de seus filhos. — Acabou de me entregar seu pedido de demissão. — É verdade? Por quê? — Disse que é por sua causa. Be ijei-lhe suavemente a testa. Mais um instante e a bandida mor-deria. tenho projetos para um avião que o Exército com certeza irá. Tinha certeza do êxito. Entrei no elevador e o ascensorista fechou a porta na cara dele. Os olhos dela estavam fechados e havia em torno deles leves. marcas de cansaço. Ela me olhou um instante. agora que não preciso mais dele. Quer mais tempo para ser seu pai. — Sobe... Monica estava deitada na cama em cima de meu pijama. A pesca naquele dia estava encerrada. — Muito engraçado isso! Toda minha vida desejei que ele me desse um pouco de atenção e só agora ele se lembra disso. — Agora tenho você. menina. — Pegue o dinheiro. com os joelhos vermelhos e o nariz descascando. Para onde mais poderia ir? — Direto — respondi. enq uanto a luz do sol invadia o quarto. — O que meu pai queria? Tirei as calças e Monica me jogou o pijama. olhando aquele rosto tran-qüilo.. a s sombras vacilantes das árvores da margem. Ela me apareceu de short. Nem agora. — Que é? — perguntei com uma ponta de mau humor. Cord? — perguntou o ascensorista. a mancha azul. É uma mulher. Acariciei docemente seu cabelo castanho. Amos. com os olhos castanhos arregalados de surpresa.. mostrando cansaço. 4 Vi a brilhante fosforescência agitar-se dentro da água e joguei alegremente o anzol no rio. verde e vermelha da isc a. Agora me smo. meio adormecida. irmão. Comecei a sentir o cansaço me dominar. Ela se sentou na cama. Abriu os o lhos quando entrei e perguntou: — Foi tudo bem? Assenti com a cabeça e joguei a camisa em cima de uma cadeira. — Mas. E senti de repente uma onda de compaixão dentro de mim. Era o fim. — Venha para a cama. "Que pergunta estúpida". — Um telefonema para você. que é tudo para mim: pai. mas fui eu que fundei a companhia. uma mosca na ponta da minha linha. Conheço todos os seus segredos. Meio adormecido. De Los Angeles. percebi-a virando-se na ca ma e o calor de seu esbelto e gracioso corpo me encheu de alegria. Uma questão de instinto. sr. Ela adormeceu no mesmo instante. — Não precisa mais dele? — Não. bem acima da truta. Sabia como uma pessoa pode sentir-se sozinha aos dezenove anos. O dia está amanhecendo. friamente. Fiquei um bom tempo sem poder dormir. O peixe havia desaparecido. Casamos no fim da tarde seguinte na pequena capela de Reno.O rosto dele começou a perder a cor. A noite escura e sem estréias do sono profundo. levantando da cama e encostando a cabeça e m meu peito. — Quem é? — Não sei.

— Sr. Monica estava sentada numa cadeira perto do telefone folheando uma revista. Jonas. E um filme notável. Os jornais dizem que está ganhando meio mi lhão de dólares por ano. Muito mais. — Nevada nunca deu muito valor ao dinheiro. — Está. com sua voz rouca e baixa. o banco está exigindo o pagamento do empréstimo e Norman não quer adiant ar mais o dinheiro. — Se é de mais dez mil que precisa. Encostei o caniço na parede da cabana e entrei. Sua mulher é muito bonita.. Monica voltou para a cabana. Ouvi um clic e. Corre o risco de perder t o que tem. — Los Angeles. — E por que ele não fez um filme falado? — Ele começou o filme há mais de um ano. e le estará perdido.. É a importância que esse filme tem para ele. Diz também que está com muitos filmes encalhados. muito obrigado. É para Nevada. Quando era garoto. pode sempre contar comigo. Agora. mas. Mas agora os cinemas só querem mostrar filmes falado s. — Ah. — Mas eu pensei que ele estava muito bem. Cord está na linha. — Desejo-lh e muitas felicidades. — Para quê? Conheço Nevada demais. Ele está numa situação dificílima. Ela continuou a folhear a re-vista. uma voz conhecida: — Jonas? — Rina? — Sim. costumava ir para lá com Nevada. — Você a conhece? — Não. — Ótimo — disse eu. mas eu sa bia que estava escutando. mas nunca chegou o dia. Tomei o caminho de volta. — Não é possível que você não tivesse curiosidade em ver como ele aparece na tela. Cord? — Ele mesmo. olhando para Monica. Já estava escurecendo e os ruídos noturnos iam começando. — Mas o quê? Acendi um cigarro e bati com as mãos em volta à procura de um cinzeiro.— Diga para ela esperar. — Já viu algum dos filmes dele? — Não. — Não é o dinheiro. — Nevada empenhou tudo o que tem para fazer um filme. os grilos ensaiavam as suas cantigas. Foi então que me lembrei da cabana. — E mais do que isso. — Não. . num tempo em que ninguém acreditava no cinema f alado. — Ninguém se interessa pelo oeste como realmente era. não foi.. Teve a final a oportunidade de mostrar o oeste como realmente era. — Um momento — disse a telefonista. Há três dias que tento falar com você. Subo num minuto. mas sua cabeça não se levantou da revista. Trabalha nele há mais de um an o e agora tudo está dando errado e ninguém mais quer distribuir o filme. — Escute. Comecei a enrolar a linha pensando em quem poderia telefonar para mim. Eu sabia que Monica estava me observando. Toda a vida dele depende desse filme. — Você tem de ajudá-lo. — O quê? Para que precisa de tanto dinheiro? — Não é para mim. o sr. Po r entre as árvores. Ninguém soube dizer onde você estava. quero dar-lhe os parabéns — disse Rina. — Compreendo. Se não der certo. — Por quê? Não presta? — Nada disso. Acredita no filme. Peguei o telefone. — Alô. Meu pai sempre prometia ir tam bém. Preciso de sua ajuda. Não eram muitas as pessoas que sabiam da existência daquela caba na nas montanhas. Mas vi o retrato nos jornais. Mas não foi para isso que você telefonou. — Quanto? — Dois milhões de dólares.. então.

— E por que você está tão interessada? — Porque é meu amigo. — Quem era? — perguntou Monica — A viúva de meu pai — respondi. afinal de contas. — Não? E quanto vale agora? Isso me abalou um instante. com uma voz retesada como u ma corda de arco: — Quanto tempo vai demorar? — O tempo que for preciso para resolver os meus negócios! — respondi asperamente. Não quero que saiba que eu lhe telefonei. Ela me tratava como a um rei. com a outra tentava acender meu cigarro. Fiquei indignado e disparei o carro para a fábrica. depois. tudo era muito bom. Vai ajudá-lo? — É muito dinheiro. Ainda tinha lá o meu velho Waco. Quando precisei de ajuda. Tenho de ir para Los Angeles a negócios esta noite. Estarei no Beverly Hills Hotel à meia-noite. Olhou-me um instante e. Com uma mão. Mas é melhor nos vermos em qualquer outro lugar. 5 . A verdade é que minha raiva só passou quando eu estava a setecentos metros de altit ude. — Trata-se de uma situação de emergência. ele não me fez uma só pergunta. Vou levar você de volta à fazenda. Antes de casar. Se não estiver pronta quando eu vo ltar. — Voltarei o mais depressa que puder. me cercava de veludo. — Vamos arrumar as malas. Parei o carro diante da cabana e toquei a buzina. Robair já estava na por ta. batendo o pé: — Não vou. Como de hábito. cumprimentou Monica. — Não precisa correr! — deu-me as costas e entrou em casa sem olhar um só instante para trás. Monica saiu com uma maleta e f icou esperando eu abrir a porta do carro para ela. acender-lhe os ci garros. — Então fique sozinha. indo para o quarto. você precisava muito de uma coisa e ele lhe deu. ser cheio de gentilezas. Você sabe disso.— Está bem. Depois das palavras mágicas a gente tem de implorar tudo! Tem de andar de acordo c om todas as regras. Mas logo senti a ternura que ela me inspirava. Seu quarto está em ordem. — Se ele está em tais dificuldades. abrir-lhe as portas. por que não me telefonou pessoal-mente? — Nevada é muito orgulhoso. — Mas isso não custou a ele dois milhões de dólares. Eu sabia do que ela estava falando. E preciso até agradecer quando ela resolve dar a mesm a coisa que antes ela é que sentia prazer em dar. mas daí a cinco anos val eria. sra. Que motivo teria eu para gastá-lo? — Um dia. ficar de joelhos. Onde posso procurá-la ? — Estou na casa de Nevada. — Boa noite. com as mulheres? Basta a gente ficar diante de alguém nu ma igreja durante cinco minutos e tudo está mudado. irei sem você! O que há. Quando ele entrou com a maleta. ela me sma abriu a porta e entrou com a cara enfarruscada. Mas irei de avião para Los Angeles esta noite. — Mas só estamos aqui há cinco dias. peg ava na coisa para mostrar que queria. E você me prometeu uma lua-de-mel de duas semanas. Depois de um instante. a caminho de Los Angeles. Ficou com a mesma cara duran te as duas horas que gastei até chegar à fazenda. — Não prometo nada. Eram nove horas quando parei diante da casa. Cord. Monica me perguntou. — Está bem. Talvez ainda não valesse tanto. Desliguei o telefone. Vou buscar o carro lá embaixo. Era das ações de Nevada na Cord Explosives. l avar minhas costas. Afinal tínhamos apenas cinco dias de ca sados. — O que pensarão se voltarmos da nossa lua-de-mel ao fim de cinco di-as apenas? — O que me importa o que vão pensar? Ela começou a chorar e insistiu. Não mudou de expressão quando fiquei no carro depois que ele pegou a maleta de M onica.

Olhei para Von Elster e disse: — Tirando o caso daquela madame de Nova Orleans e. — Curioso para saber como é que se consegue prendê-la. Von Elster sorriu. Estão à espera. Havia neles uma segurança que não existia antes. Mas por que não acrescenta o diálogo a esse filme. não seria possível faz er nada daqui-lo. — Vamos! — falei bruscamente. não há mulheres no filme. Mas percebi vagamente a falta de alguma coisa. Sem a mecânica. O herói pode ser culpado de qualquer crime. mas que ali era maior. — Sim. — Bem. — Desculpe a pergunta. consegui do estúdio uma projeção do filme para você. Um homem de verdade. Começava o filme como um garoto de dezesseis anos e acabava pelas montanhas como um homem de vinte e cinco. O que ele dizia era mecanicamente sensato. com o tempo chegarei lá. Continuava esbelta e forte e os seios ainda se projetavam como as p edras num canyon. Como em tudo no mundo. menos o de fornicação. A você pouco interessa o que eu seja ou não seja. ao passo que o filme mudo tem um andamento muit o mais rápido. — Estava apenas curioso — repliquei. — Há quanto tempo você está por aqui? — Há um ano e meio. dependendo dos letreiros e de uma ação mais ampla para exprimir o enred o. Desde que voltei da Europa. então? Dinheiro? — Não.Olhei para Rina com o script de capa azul na mão. com uma força que parecia iluminar a tela. — Não posso perder a noite toda. O tempo não havia tirado coisa alg uma de Rina. o da fi-lha do presidiári o. Rina teve um sobressalto. Recostei-me na cadeira com um suspiro quando as luzes se acenderam. Mas acontece que o ritmo de projeção do f ilme mudo é muito diferente do ritmo do filme sonoro. Nunca me dei bem com garotos. — Venha para o hotel comigo. — Você só está casado há cinco dias. seus olhos fixos em mim. prontamente. Deviam estar tão firmes quanto eram da última vez que a vi. — Não é o que você pensa — disse ela. — E tem estado com Nevada todo esse tempo? — Tenho. Ele é muito bom para mim. — Não sou muito de ler coisas — disse eu. Jonas. Rina não havia mentido. Por isso. — Mas não é isso o que im porta. Ri e levantei. Mas nunca em todo o filme eu sentira sua verdadeira idade. da mesma man eira que se faz com a música. Peguei um ci garro. Gostaria de conversar mais sobre essas coisas. — O que é. levantando-me e jogando o script em cima de uma cadeira. Só os ol hos estavam mudados. . mais determinada e mais irresistível. O filme era notável. Meter mulheres é uma delas. ainda sentindo a emoção do que acabara de ver. depois. — Eu sabia que ia dizer isso. — E você é boa para ele? — Procuro ser — respondeu tranqüilamente. mas apenas por um motivo: Nevada. Um homem. Ele m antinha o filme do princípio ao fim. Sentei-me na sala de projeção entre Rina e Von Elster. Senti então um calor nas coxas e compreendi o que era. Essa me acertou. Era a força que eu sempre sentira nele. o diretor. — Há algumas coisas que não se fazem num western. O filme falado é projetado com a velocidade da palavra falada. — E tem dormido com ele? Ela não teve a menor evasiva. Por que tem de fazer tudo de novo? — Seria ótimo se pudéssemos acrescentar o diálogo. Olhei-a e senti a mesma excitação que ela provocava em mim. — Por quê? — Porque a indústria julga que se deve conservar sem mancha a imagem do herói puro e f orte. havia uma técnic a naquela atividade que começava a me interessar.

Cord — disse ele. — Então. Correra depressa para o patrão logo que sentira o cheiro de meu dinheiro. sr. Há muitas coisas que ainda quero saber. — Escute. segurando-lhe a mão. Dan Pierce. que estava ria como gelo. Ouvi dizer q ue a voz de John Gilbert é tão ruim que a MGM não fará mais nenhum filme com ele. Cord? E Von Elster. Fez sinal ao chofer e a limusine se afastou. — Espere um pouco aí até eu me vestir. Rina pode me deixar no caminho para casa. muito obrigado. Von Elster não perdera tempo. Norman. Levei quase uma hora e meia para chegar ao fim. O sr. 6 O telefone tocou repetidamente dentro de minha cabeça. — Você não mudou nada. — Sr. — Está pre-ocupado. Ela fez um sinal quase imperceptível com a cabeça. — Acha que preciso de alguma ajuda? Conheço Nevada desde criança. subi para meu quar to e peguei o script. — Bernard B. Ela não disse uma única palavra até o carro parar diante do hotel. Nunca fez um filme falado e quer fazer esse. Fizemos outro dia um teste sonoro. — Quem é Norman? — perguntei. Você mudou? — disse eu. mas não devia s er nada de bom para Nevada. Peguei o telefone. você será a pri-meira pessoa de quem exigirei pagamento. — Von Elster tem um interesse pessoal no caso — disse ela. — Já é uma coisa a menos para dar preocupação. . Acordei e o-lhei para o relóg io. Peguei um cigarro. Vou ganhar muito dinheiro de uma maneira ou de outra. — E a voz de Nevada? — É boa. Norman acha que p ode dar al-gumas sugestões antes que o senhor tenha de enfrentá-lo. A capa azul do script chamou minha atenção por um instante. Quando fec hei os olhos. — Quer dizer que ele está abalado? — Todo mundo em Hollywood está. Nor man julga que poderá ajudá-lo muito no negócio que vai fazer com Nevada.— São quase quatro horas — disse ela. O sr. eram quase seis horas. Mas o agente dele. Quantas pessoas diriam o mesmo a meu respeito? Só pud e pensar numa. — Posso deixá-lo no hotel. Desliguei o telefone e acabei o cigarro. — Não. — Quanto é exatamente que você me dará para so-correr Nevada? — Daria tudo o que tenho se fosse necessário. é muito esperto. De Greta Garbo e John Gilbert para baixo. sr. e. ainda tonto de sono. Ninguém sabe ao certo qual será o efeito do cinema falado sobre a própria carreira. — Como é? Vai ajudar ou não? — O que eu ganho se ajudar? — Pode ganhar muito dinheiro. — Não preciso. Larguei a mão de Rina e saí do carro. Senti uma ponta de tristeza. hein? — Não. Eu lhe telefonarei. — Leve-o ao hotel amanhã às oito horas . Muito boa. se der certo. Sua voz ficou gélida. Norman. passando a um tom confidencial —. Jonas? Já resolveu? — Ainda não. sua posição es tará assegurada. Dei à telefonista o número do financista Tony Moroni. Não sabia o que eles queriam. É a companhia que distribuirá o filme. É muito importante falarmos com o senhor antes de seu encontro com Nevada. Entrei no hotel. Quando resolve r. — Creio que já avançamos o máximo sem o conhecimento de Nevada. Olhei para Rina. da Norman Films. Cord — disse Von Elster. mas estou aqui na portaria co m o sr. É um grande filme. — Oito horas está bem. Nevada é um homem cem por cento. — Está certo — respondi. Passava alguns minutos das sete. Mas não se preocupe. — Conhecendo você como conheço. Desculpe incomodá-lo tão cedo. Ela olhou firme para mim. Tornei a pegar o telefone. Mudar para quê? Ninguém muda. não esperava outra coisa — disse ela duramente.

— Não gosto de correr o risco de dar opinião sobre filmes. Moroni riu enquanto nos despedíamos pelo telefone. nós penhoraremos o filme e todos os seus bens. Fizemos o empréstimo a Smith com penhor de seus b ens e mais a garantia da Norman Films. Agora. Tony? — É um bom filme. Os camaradas lá embaixo estavam querendo dar um golpe de m estre. deve ser um risco muito bom. e deixarei de importuná-lo. Jonas. Muitas coisas podem acontec er. Ele é o distribuidor. — E o que exatamente vai acontecer a Nevada? — Se ele não puder pagar o empréstimo. nos entreg ará a quantia excedente. que eu não pensara em Mon ica desde que chegara à cidade. por que está exigindo o pagamento do emprés-timo? — Você sabe como trabalhamos. as de spesas triplicarão. Não era de admirar que Von Elster e Bernie Norman estivessem lá embaixo à minha espera . Quero a opinião de quem não tem interesse pessoal direto no caso. Menos. É Bernie. — Corra o risco desta vez. — Quem recebe o dinheiro da distribuição? O banco? — Claro que não. É Jonas. Sabia que eu podia perfeitamente cobrir o dinheiro com o que ia receber da companhia q ue ia explorar a minha patente do novo processo industrial para plástico. Dessa maneira iriam encher os bolsos sem qualquer risco ou despesa. rindo. lembrando de repente. Talvez mais um milhão. mas é um bom filme. — Obrigado. sendo tão esperto como diziam. Agora eu sabia de tudo. Agora Ber-nie Norman precisa de crédito par a reformular alguns de seus filmes e retirou a garantia. — De tudo que sei. de fato. Tony. — Obrigado — agradeci automaticamente. — O que há sobre o filme. Os banqu eiros estão sempre dispostos a emprestar todo o dinheiro que quisermos. — Não tem importância. A voz dele foi muito cordial. — E o que farão com o filme? Jogarão no arquivo? — Nada disso — respondeu. É cerca de metade d o custo. faça-me um favor. desde que . — Entregaremos o filme a Norman para distribuição. — Se acha que é bom. — Somos nós. — Depois disso. Isso d ará a Norman a oportunidade de reaver seu dinheiro. Limpar Nevada.— Desculpe ligar a essa hora. Depois que ele recuperar esse dinheiro. Tivemos automaticamente de exigir o pagamento do empréstimo. Suspenda qualquer provi-dência a respeito d o empréstimo até eu lhe dar alguma palavra ainda ho-je. Quanto custará a transformação de O renegado em filme falado? — Vamos ver. Não queriam interfe-rências em suas trapaças contra Nevada. ele já estaria liquidado. — Eu sei. você precisará gastar ainda um milhão. pois ele empregou cerca de qua trocentos mil dólares no filme. Ele não estava preocupado. De pois liquidaremos tudo até recuperar nosso dinheiro. Tony. Eu já estava acordado. caíra numa a rmadilha dessas? — Uma pergunta mais. Quando qualquer dinheiro chegasse às mãos de N evada. Mas a mão com que escrevo ainda está perfeita. — Quais são as possibilidades de sobra. as despesas de distribuição são bem r eduzidas e a parte de Smith é a maior. Posso muito bem assinar outro título. Teria mais possibilidade se fosse falado. Os seis ainda estão no lugar e eles têm o guarda-roupa. A coisa estava começando a ter sentido. Tony? — Muito pequenas. — Vale a pena? Ele hesitou. Como o atual agente de Nevada. — É o seu banco que está financiando o novo filme de Nev ada Smith? — O renegado? — Sim. Quando nosso empréstimo estiver integralmente coberto. e a parte dele ficará para o fim. dare mos o que sobrar a Smith. Tony. Quando o filme passar para nossas mãos. É possível que eu assuma a garan tia em lugar de Norman. Nos termos do presente contrato. Parabéns pelo casamento. se tiverem sorte.

— Jonas! — exclamou ele. — Meteu a mão no bolso e tirou uma bolsa de fumo. Olhei para o relógio logo que desliguei o telefone. mas desapareceram um ins tante na satisfação com que me olhou. Deixei a água quent e ensopar minha pele e var-rer o cansaço. — Nevada. Era Von Elster outra vez. Ri pensando no que ele iria dizer ao patrão. Apertei a mão do agente e entrei direto no assunto: — Vi seu filme ontem à noite. — É uma pena. Entrei no banheiro. — É por isso que o banco está exigindo o pagamento do empréstimo. Ouvi uma exclamação de surpresa e decepção quando desliguei. Eram quase oito horas quando saí do banhei ro. — Também você está com muito bom aspecto. Tenho de andar assim. Sua mul her está aí com você? Fiz um gesto negativo com a cabeça. . Olhei para Ne vada sem compreender. Tentamos transfor má-lo num filme falado. telefonarei p ara ele. — Por que não lhe adiantou o dinheiro para acabar o filme? — O crédito dele diminuiu — disse Nevada. Apertei-lhe a mão sem jeito. irritado. O vôo de Paris a Los Angeles. tudo se esclareceu. Vou ver o que posso fazer com o agente de Nevada. dizendo: — Eu sei o que você está pensando. —Tenho lido muita cois a nos jornais a seu respeito. — Por quê? — Norman não deixou — continuou Pierce. mas mudei de idéia.te-nhamos bens suficientes em garantia. Peguei o telefone. Era engraçado apertar a mão dele como se fosse uma pessoa estranha. Se precisar de alguma coisa. Rina já estava sentada no sofá. Diga ao sr. — Pensei que o cinema falado não fosse vingar — disse Nevada. Gostei muito. Eram quase sete e meia e me se ntia meio sonolento ainda. Não nos viram. — Isso faz parte da profissão. Mas eu queria fazer o filme. Ouvi a porta abrir e acabei de abotoar a camisa. Fossem para o in ferno e esperassem mais um pouco se quisessem falar comigo. — Você está cada dia mais parecido com seu pai. O que eu mais queria naquele momento era um bom banho. seu casamento. meu agente. Ele fora um grande jogador de pôquer. — Nevada queria fazer o filme mudo m esmo. Não valia a pena ter tanto trabalho para apanhá-los e s aí com os pés descalços. e Nevada fez a apresentação: — Dan Pierce. Onde arranjou essas roupas? Ele ficou um pouco embaraçado. Quisemos esperar. Vesti as calças e já ia pegando uma camisa. Norman que agradeço muito a oferta. Achava que dizia mais do que todas as coisas falsas que eu até então representara. — Entre — gritei do quarto. mas não conseguimos. e vi que compreendera tudo o que havia em meu casame nto com Monica. mas logo que começamos as filmagens viu que estava errado. Rina e o agente estão subindo. — Só dispunha de um palco de som nessa época e preci sava dele para seus outros filmes. Havia pequenas rugas de tensão nos cantos dos seus olhos. Começou a fazer um cigarro. Procurei os sapatos e vi que es tavam do outro lado da cama. Os garotos gostam. — Não é essa toda a verdade — começou Pierce. falando naquela voz baixa de conspirador. — Muito bem. Nevada e outro homem estavam de pé no meio da sala. Ouvi o telefone tocar de novo. mas ele afirmou que se não pr osseguíssemos imediatamente nas filmagens ele retiraria a garantia que estava dand o. Eu bem que gostaria de conhecê-la. Ele me olhou meio surpreso. Nevada então me surpreendeu. Um sorriso se esboçou no rosto de Nevada. É uma pena que você tenha de fazê-lo de novo. Olhei para o outro homem. Com isso. — E Norman? — perguntei. afetuosamente. — Mas quando é que vamos conversar? — Acho que agora é tarde. A trama fora preparada desde o início. Nunca pudera esconder nada de Nevada. quando bateram na porta. O telefone tocou três vezes enquanto estava debaixo do chuveiro. pois queria mudar de assunto. que estendeu a mão.

quando lhe digo que Bernie é o responsável por tudo — disse Pierce. sentada no sofá. O cinema passara a ser uma cois a nova e não havia mais veteranos. — E se for mudo? — Teremos sorte se for exibido em mil e quinhentos cinemas. Mas quantas pessoas conhece que já fizeram um filme falado? Isso o fez calar-se. Nevada. — Felicidades. — Então sabia mais do que eu. — Nevada — interrompi a conversa dos dois —. E fora ele mesmo quem me ensinara a pegar no baralho quando as paradas estavam muito altas. Liguei para Moroni. Ele tem contrato com dez mil cinemas. O filme é meu e o que eu disser é o que se fará. O que eu dizia era verdade. — Mas o senhor sabe alguma coisa a respeito de filmes? — perguntou Pierce. — É por isso que sou um bom banqueiro. explodindo de novo. Mas reconhecia que eu era algum a coisa mais para Nevada. — Cerca de um milhão de dólares — respondeu Nevada. eu era apenas outro trouxa. Norman consegue o filme de graça. você inclusive. Nevada. — Mas Von Elster é um dos melhores diretores de Hollywood — disse Nevada. — Sempre me arrumei muito bem antes de ser artista — disse Nevada. Seu rost o estava impassível. Sabia que você ia fazer isso. — Agora talvez você acredite em mim. Não haverá discussões e todos me obedecerão. mas também tocado de especial re speito. — Se o filme não prestar. — Já estou um pouco velho para me preocupar com uma coisa em que entrei por acidente. Todos querem filmes fa lados. Bernie Norman faz o banco exigir o pagamento e o banco entrega o filme a ele. — Quanto custaria fazer o filme de novo? — perguntei. No momento em que pensou que você estava em dificuld ades. sorrindo. Olhei-o um instante. — Sem contar o pagamento do empréstimo. Já ouvira muitas vezes meu pai dizer coisas parecidas. Não gosto de deixar você se arriscar sozinho. Se vou perd er a mão. — Então. Jonas. — Não sei nada. — Então? — Não sei. quer você goste. Nevada? Nevada estendeu a mão. levarei todos de avião para Nova Iorque. no fim da semana. — Norman ainda teria de distribuir o filme? — perguntei.— Tudo isso é conversa — disse Pierce. Vi o olhar de Pierce para Nevada. tentou traí-lo. — Dirigiu todo s os meus filmes e foi quem me descobriu. e se for um filme falado não haverá um só que o recuse. Cheio de raiva. as rugas de preocupação desapareceram de seu rosto e ele voltou a ser um homem jovem. no banco. Nevada fez um sinal com a cabeça. Estava às sete da manhã aqui no hotel com Bernie Norman. que o banco está exigindo — acrescentou Dan Pier ce prontamente. Depois me voltei e olhei para Rina. sua carreira estará encerrada. será feito do jei to que eu quiser. Não vou perder nada. — Vou fazer a coisa. Pas-saremos três . — Estamos é sendo torpemente ex plorados. não faria nada. — Negócio fechado. quer não. Depois. Queriam me dar algumas sugestões. — Pois é um patifezinho de merda. Para Pierce. — O que acham que devo fazer? Nevada hesitou um instante. por quase um terço do que lhe custaria se o fizesse com o dinheiro dele. Júnior. — Pode transferir o empréstimo para a Cord Explosives. Você pode perder todo seu dinheiro. fizemos um trato. depois me olhou com sua franqueza habi-tual e disse: — Se eu fosse você. ao menos quero ser quem dá as cartas. concordando. Comprarei todos os interesses e o f ilme passará a ser ex-clusivamente meu. Desliguei e voltei-me para os outros: — A primeira coisa que temos a fazer é dispensar Von Elster. O que quero agora é que Pierce providen cie para que eu veja tantos filmes falados quanto for possível nos próximos três dias. — Está enganado! — exclamou Pierce. Virei-me para Nevada. Quando o fizermos de novo. Mas com uma condição. Apertamos as mãos e fui para o telefone. — Claro. Os olhos apenas suplicavam. mas eu nem fa-lei com eles.

Naturalmente vai dizer qu e é sua madrasta! — E é mesmo. Nevada? — Como já disse. O que propunha era radical. — Quer ser pago agora mesmo? Eu sabia que a havia ofendido. Não era piloto. Buzz olhou para mim.. Nesse momento. Rina atendeu e depois estendeu o telefone para mim. Nesse momento. Fiquei um instante atônito. Vários aviões estavam ali ali-nhados. — Não me venha com trapaças. você cada vez se parece mais com seu pai. — O que me interessa é a capacidade de carga e a velocidade — respondi. — De acordo com meus cálculos. poderia vir a tornar-se um ser human o. sr. e disse afetuosamente: — Se você seguisse apenas seus impulsos. Ela me olhou com simpatia. chegava a mais de quinh entos dólares por passageiro. Lá poderemos até conseguir um bom diretor de cena e. Eu e Rina ficamos a sós. sr. Não se esqueça de noss o trato ontem à noite. subiria a se . E tão errado! 7 Olhei da janela para o campo de pouso. Dalton — disse Morrissey. ostenta ndo no lado e embaixo das asas as iniciais ICA. Sorri também para ele. em ver-melho. Virei-me para a prancheta e depois para o desenhista. D everá voar seis horas sem necessidade de reabastecer. pertencia a uma nova geração que c aminhava no céu. Já vi muitos dess es sonhos! — Quanto custará para fazer o primeiro? — perguntei a Morrissey. dizendo: — Sua mulher.. Nós dois sabemos por que fiz isso. Rina. Tudo estava tão certo. Ainda há a vantagem do controle visual direto do piloto. com sua maneira segura —. Ela bateu imediatamente o telefone. sorrindo. — Negócios! E quando eu telefono é uma vagabunda que atende. com maior força ascensional do que qualquer outro aparelho existente. Nevada e Pierce fora m ao banheiro se lavar. — É o que meus cálculos mostram. o telefone tocou e eu disse: — Atenda. Corrigidos os defeitos. Um avião bimotor. — Posso esperar — disse eu. especializando-se em p lanejamento e engenharia aeronáutica. precisamos é baixar as asas para ter toda a força ascensional necessária e também para aumentar a capacidade de combustível. Formara-se. — Meio milhão de dólares por um avião? É uma loucura! Nunca recuperaremos o dinheiro! Uma passagem de Nova Iorque a San Francisco de trem custava mais de quatrocentos dólares. — Para sempre.ou quatro dias indo ao teatro. — Quer dizer que poderíamos voar daqui para Nova Iorque apenas com uma parada em Chi cago? Não acredito! — exclamou Buzz. o que. rod eadas por um círculo. A voz dela estava cheia de raiva. A viagem levava quase quatro dias. se for preciso. Com as refeições. poderíamos transportar vinte passageiros além do piloto e do co-piloto numa velo-cidade de cruzeiro de cerca de quatrocentos quilômetros. mas eu não. poli-damente. — Você pode jogar seu dinheiro fora nesses planos malucos. de asa única. — Eu também — replicou ela. com o transporte das malas postais. talvez quinhentos. — Quatrocentos mil dólares. branco e azul. Monica. poderemos pro duzi-los por um quarto de milhão. Então comecei a rir. Cord — disse ele. — Na minha opinião. — Alô. ainda mais jovem que eu.. . Por que está sorrindo. Dalton riu. o garçom chegou com o café. Morrissey era jovem. Um avião assim daria uma renda de sete mil dólares com a carga e os passageiros. Jonas.

serei o único dono da In-ter-Continental Airlines. Não respondi e fui para meu carro. em muitos casos com prazos já vencidos. levantando. chamo McAllister. Cord. — Também tem meio milhão de dólares de penhor sobre os aviões da ICA. com um riso amargo. Daí por diante tudo seri a lucro. com ar muito eficiente. de b loco e lápis em punho. Poderemos perder nele até a camisa do corpo. Havia uma placa com meu nome no espaço r eservado para mim. Eu tinha também u m bangalô particular com escritório e duas secretárias. um armário de bebidas cheio até as bordas. A secretária atendeu imediatamente. . Irritado com a distância. As duas compan hias dariam os aviões em penhor à Cord Explosives. Alguma coisa para ditar? Neguei com a cabeça. S e quero qualquer coisa escrita. em menos de vinte seman as recuperaríamos o dinheiro e cobriríamos todas as despesas. Havia cinco semanas que aquilo acontecia to das as manhãs. sr. — E a Cord Explosives possui a outra metade — disse eu. — Eu devia ter aprendido tudo quando perdi aquele Waco para você num jogo de pôquer. A Cord Explosives descontaria nos bancos os títulos do penhor antes mesmo de serem construídos os aviões. Não se e squeça de que metade das ações me pertence. O rosto de Buzz ficou vermelho de raiva. Poderíamos até dar refeições de graça durante as viagens. — Mas ainda acho que é uma loucura sua construir ess e avião. O Palco Nove ficava bem longe. — Escritório do sr. — Diga que já estou indo para lá — pedi. banheiro completo. — Está bem — Buzz acendeu um cigarro. Nada de cartas. nos fundos do estúdio. já temos um avião — repliquei. sr. Há um mês e meio.te mil e quinhentos dólares. Se eu leva r o caso à Justiça. Se não o fizermos. Boa sorte. não tive dúvidas: um momento depois estava pedalando como um alucinado e ouv indo os gritos do mensageiro às minhas costas. — Espere um pouco — exclamou Buzz. sem qualquer interferênci a de som dos outros palcos. Entrei no carro e Buzz gritou no momento em que eu ia me afastando: — Boa sorte com o filme! Entrei pelo portão principal dos estúdios de Norman. Buzz. Entrei pelos fundos e fui direto ao gabinete. Vão começar o primeiro take e gostariam de sab er se o senhor quer assistir. Enquanto se diverte com esse filme. O telefone da minha mesa tocou. Cord. — Espere aí. sala de conferên cia e mais duas salas menores. No momento em que sentei à mesa. O guarda me viu e fez sinal par a passar. caso o avião não prestasse. Ela já devia saber. Çord. Olhei para o relógio. Continue a voar e deixe a parte dos negócios comigo. — No que me diz respeito. — Eu devia saber. O pior que po deria acontecer. sala de vestir. memorandos ou instruções. Jonas. Comecei a andar pelos caminhos margeados de tijolos. senhor! Sorri e levei o carro até o estacionamento. — Você é um grande aviador. Na sal a de jantar dos diretores havia uma mesa reservada com meu nome. quando vi a bicicleta de mensageiro encostada a um dos bangalôs. você gasta todo seu tempo ne sse maldito estúdio. temos de lutar para const ruir um novo avião. — Bom dia. Quase nove horas. — Não pense que é a ICA que vai pagar as contas. Vamos tratar de negócios. — Será que vai mesmo se arriscar com essa coisa? — Morrissey. A inda farei de você um homem rico. — Tenho de ir ao estúdio. — Bom dia. Vamos rodar a primeira cena hoje. Escutou um instante e se voltou para mim: — Já terminaram os ensaios no Palco Nove. A ICA enco-mendaria vinte daqueles aviões à Cord Aircraft. uma das secretárias apareceu e se plantou diante de mim. toda a indústria passará a nossa frente. É para isso que existem advogado s. O set de Nova Orleans fora c onstruído ali porque se calculara que haveria mais silêncio. além de meu gabinete. pode começar a construir o avião. Nunca escrevo coisa alguma. Jonas — retrucou Buzz. uma geladeira elétrica. seria a Cord Explosives fazer uma avant ajada dedução nos impostos. Levantei. Não adiantava explicar a Buzz o mecanismo simples do crédito. Aquela gente do cinema em matéria de bajulação era perfeita. Com cinco viagens por semana.

Nevada parecia ainda mais moço do que quando eu o conhecera. — Todos nos seus lugares — gritou alguém. há um homem que junta tudo na ordem certa. Fui para perto da aparelhagem sonora. Parti impetuosam en-te para o set. Não posso mudar o som das vozes. e em seus olhos havia uma expressão de fascinação. É meu dinheiro e meu tempo que estão gastando aí dentro. quando o chefe nos diz para fazer alguma coisa parecer boa. de costas para mim. mas eu o empurrei raivosamente par a o lado. Então. mas é assim mesmo que se faz um filme: primeiro todas as cenas internas. — Ora. sem qualquer sugestão sensual. O homem do som voltou para a sua máquina. A máquina está perfeita. Então me aproximei e peguei rápido os fones. — Algum defeito na máquina? — perguntei. mesmo na mais luxuosa casa de Nova Orleans. não me dizia nada. a gente te m de fazer sem discutir. pois tive imediatamente uma recordação da minha in fância. Nevada estava no outro canto. Um homem passou. — Pois bem. nós dois precisamos de nossos em-pregos. A voz era perfeita. — Ele é ótimo. Dali podia ver e ouvir tudo. sr. Comecei a com preender por que é preciso gastar tanto dinheiro para fazer um filme. não é mesmo? — Claro. Era a maior estrela de Norman. A voz dela tinha todas as qualidades irritantes de um gato a miar em cima de um muro. — Que idéia é essa? Mas eu já estava com os fones nos ouvidos e ele nada podia fazer senão me olhar. — Pois bem. O rosto de Rina estava voltado para o set. — A voz de Nevada Smith? — Não — disse ele. É a moça. Nev ada estava falando. — Pois então vamos! — respondi. Afas-tei-me dele e quase dei um enc ontrão em outro. Quando tudo termina. Encostei a bicicleta na parede: — Não tive tempo. Virou-se qua ndo eu entrei. falando com Rina. — Lá vamos nós. Disseram que já iam começar. Mas não sou Deus.Parei em frente ao Palco Nove e quase me choquei com um homem que estava abrindo a porta de entrada. Um homem tentou me segurar. De vez em quando. — Não precisava fazer isso. aquela em que Max. sr. Júnior — disse sorrindo. todas as e xternas. quando notei o homem do som. talvez com desprezo da minha ignorância. Ele se virou. Dois maquiladores e um cabeleireiro rodeavam-na enquanto ela se sentava diante da penteadeira que fazia parte do set. Pessoalm ente. Tinha-se por certo que era a coisa de mais sexappeal do cinema. — Não. Um arrepio atravessou minha espinha. Resolvi ir para bem longe para não causar algum prejuízo. rapaz — disse ele —. estou fazendo o possível. Era Bernie Nor -man. Olhou para mim e percebi que ele não sabia quem eu era. Gos¬to de mulheres com peitos de verdade. Não era o começo do filme. quente e compreensível. com fones nos ouvidos. Cord — disse. Só Rina me havia dito que a voz de Nevada era boa. A voz de nasal que parece falar com os olhos. — Está aborrecido com alguma coisa? — Escute aqui. Estávamos no déc imo primeiro take daquela mesma cena. A atriz que fazia o papel da madame era Cynthia Randall. ainda moço. não é? Concordei. . — Alô. fala p ela primeira vez com a madame da casa suspeita. e rodava freneticamente os seus botões. Senti uma espécie de desânimo. Norman. carregando um cabo. Ele me olhou com uma escandalizada surpresa. Tir ei os fones dos ouvidos e os meti nas mãos do atônito homem do som. Estavam prontos para filmar a primeira cena. Fiquei emocionado. todo zangado. Poderia ter chamado um carro para t razê-lo. Uma voz como aquela acabaria com o sexo. movia os lábios em pragas mudas e se punha novamente a girar os botões. depois. — Acho que isso é comigo — disse Nevada. Não sei como fazi a isso. mas até os olhos eram de um rapaz. Estava curvad o sobre a mesinha de controle. Cynthia Randa ll começou a falar e fiquei estarrecido.

— De nada — respondeu ela. deve ser um bocado fotogênica. Dez dias são trezentos mil. pois vai fazer um filme falado com e la. e um súbito silêncio caiu sobre o set. — Achei que deviam estar com fome e mandei preparar isso. fomos todos ver projetada uma cena que ela fizera com Nevada. — E Marion Davies? — Acabei de telefonar para ela. Ouvi passos se aproximando. Creio que só começou a acreditar quando.Alguém gritou "Corta!". Havia em seus olho s um ar de cautela. se não estou enganado. A brincadeira já está passando da conta. — E uma pena não poderem achar alguém com a voz dela — disse de repente o homem do som. Acho que a moça sabia o que estava fazendo ali. sim. Olhei para ele. srta. — Então vamos em frente! Afinal. — Está falando de Rina? Ele acabou de comer o sanduíche e disse com um sorriso: —. Eu estava fervendo. mesmo quando tentou sorrir. — Então? — perguntei. ouviu? Foi você quem telefonou e . e não gostava nem um pouco disso. Só sabia que alguém estava querendo me enganar.É dela. — Está bem. — Poderíamos talvez trazer uma artista de Nova Iorque. Talvez seja melhor nos arranjarmos com Cynthia Randall. Todos me olharam com ex pressões de espanto. — O que você acha? — perguntei a Dan. Fechei os olhos. E não quero mais brincar. Tudo o que ela possuía aparecia multip licado na tela. Ela tem um contrato para este filme! — Talvez tenha. Cord? — Houve. Se sair na. Jonas. É toda mulher. Quero você no estúdio para pro-videnciar o guarda-r oupa às seis da manhã. Randall é uma estrela mui-to importante. Ele sabia do que eu estava falando. — Não há tempo. sim! Ela! Tire-a do set! Está despedida! — Não pode fazer isso. e um ar de alívio e satisfação apare-ceu no rosto da artista. — O procedimento é muito irregular. Começaremos a filmar às nove. mastigando seu sanduíche. sr. Nesse instante Rina entrou com alguns sanduíches. Peguei um sanduíche e comecei a comer. — O que quer dizer com isso? — Ela tem alguma coisa na voz que empolga. Não foi com a minha pena que o contrato foi assinado. A srta. A MGM não pode ceder Greta Garbo. às duas da madrugada. indo depois sentar junto de Nevada. muito pálido. Gosta do papel. Olhei para o homem do som ainda no seu lugar e com os fones nos ouvidos. Rina ofereceu sanduíches a todos. será uma coisa de fazer as platéias delirarem. A filmagem parada representa um prejuízo de trinta mil dólares por dia. carrancudo. mas não para ela. Aí compreendi tudo. Cord. Ainda não pensava que eu estivesse falando a sério quando chamei todo o pes soal para fazer um teste completo. inclusive ao homem do som. Na realidade. — Vá para casa e direto para a cama. — Esteja pronta no set para a filmagem às nove horas. Era Dan Pierce. — Para mim pode ser até a rainha de Sabá — disse. trinta mil dólares por dia é muito di-nheiro. — Prefiro perder tudo agora a ser ridicularizado e perder tudo depois. cansado. Rina tomou a coisa como pilhéria quando lhe pedi que dissesse algumas frases ao mi crofone. Ela pegou no braço de Bernie no momento em que ele se v oltou para mim e pergun-tou: — Houve alguma coisa.trilha sonora assim. sem se comprometer. Marlowe. olhando para o relógio no meu pulso. Bernie Norman correu para o set. mas não comigo. Por telefone havia tentado conseguir uma estrela emprestada nos outros estúdios. — Tem exatamente cinco minutos para tirá-la deste set ou interromperei o filme e jogare i sobre sua cabeça o maior pedido de indeni-zação em juízo da história! Sentei na cadeira de lona com meu nome gravado e corri os olhos pelo set já quase deserto. Bernie me olhou. — Obrigado. — E possível — disse. era de dar água na boca. sr. Algumas pessoas se moviam por ali como fantasmas. Eu nunca tinha visto na tela nada parecido. — Nada feito. E.

E um desafio ao qua l não poderá resistir. Dan? Só vou fazer esse filme. sabia o que queria. — Pronto — disse ele.não eu. Era um sujeito dinâmico. uma inclinação natural que não é todo mundo que tem. Dan e eu tínhamos tido realmente uma noite agitada. Encontrara-me com ele na s aída do set e me ofereci para levá-lo até a cidade. eu não começaria qualquer filme sem submeter todo mundo a um teste de som. Eu estava meio tenso e ele propôs me ajudar a relaxar. — Não está avançando um pouco o sinal. — Onde estão as pequenas? — perguntei. A desordem era completa. — Paguei e as mandei para casa. Tinha na mão um copo d e alguma coisa que parecia suco de tomate. lembra-se? Olhei para Nevada. muito mais do que costumava conversar co m uma pessoa estranha. Não valeria tanto se o cinema fosse sua única ocupação. Depois. um a noitada arrumada graças ao caderninho preto de te-lefone que todos os agentes pa recem possuir. todos os truques. No caminho. já vestido de slacks creme e camisa esporte vistosa. — Já telefonei para lá e disse que você estava muito ocupado. Tomei mais um pouco do café forte e puro como eu gostava. Levei o copo à boca. Descobriu um novo campo de jogo. Estava com fome e comi como um lobo. A noite foi bem agitada. — Ótimo. O gosto era horrível. . — Dê-me uma amostra grátis. Não ia levar muito tempo. sem nada daquela ansiedade habitual qua ndo pensava no que tinha de fazer durante o dia. Mas eu é que sei. Você tem jeito para essa atividade. Eu estava metido naquilo até a raiz do cabelo. O criado japonês de Dan já havia preparado ovos mexidos e salsichas quando saí do banh eiro. Sentia-me calmo e bem disposto. vivo. mas que estaria lá à tarde. — Bem. Ri. Tenho de ir ao estúdio. — Vendi minha agência hoje de manhã — disse ele. Naquela noite havia conversado com Dan. — E por que acha que vou precisar de você? — Porque conheço todas as facetas desse negócio. da quarta xícara de café. Duas horas! Levantei imediatamente e a dor que senti quase me rachou a cabeça. — Beba isso e não sentirá mais nada. — Por quê? — Porque de agora em diante vou trabalhar com você. Nunca tinha conhecido ninguém com o ele e o tipo me fascinava. Dan sor riu e perguntou: — Como se sente agora? — Nunca me senti melhor em toda minha vida! De fato. 8 Abri lentamente os olhos e espiei o relógio. Dan Pierce era diferente. Par ocê. Mas não é e nunca será. Depois. Dei um gemido alto e a porta se abriu. Ac hei melhor você dormir um pouco. um sujeito com o Dan Pierce me seria muito útil. Depois dos bifes acompanhados de uísque num lugar que deveria estar fechado mas não estava. Havia uma expressão de surpresa em seu rosto e creio que interp retei mal a clara inocência dos seus olhos. Pode até ser sincero agora. Corri os olhos pelo quarto. resolvemos parar e com er alguma coisa. o que você vai fazer? Dan sorriu. Um momento depois a ca beça começou a melhorar. Estavam todos surpresos e sem ação quando a porta bateu atrás de mi m. Era Dan. Iam começar a filmagem às nove. Você é um homem ocupado e o tempo é a coisa de maior valor que você tem. — Isso é o que você acha. sem entender grande coisa do assunto. é apenas outro jogo de dados. que você levaria muit o tempo para conhecer. mas quando eu pegasse o macete da coisa. Você vai ficar no cinema. — E você tome providências para que ela não falte! Saí da sala de projeção. mas Dan tinha razão.

Não sabia se ia ou vinha. Ele pegou o script de capa azul e disse: — Se Rina aparecer na tela como o teste promete. Carrol! O diretor fez um gesto de aquiescência e o assistente gritou: — Todos nos seus lugares! O diretor foi para perto da câmara e Nevada entrou no sei. — Nevada não é mais problema meu. — Não parece uma mulher. O importante é ganhar dinhe iro. rindo e batendo nos fones. — Você é o patrão e o filme é seu. — Você não disse que tinha vendido a agência? — E essa é a única maneira que tenho de receber uma compensação sem aumentar suas despesas gerais. com um sorriso. o que acontecerá a Ne vada? O papel dele perderá muito de sua importância. eu estava normal. — Mas depois foi se habituando. S erá ótima. Nevada estava a postos. — É disso que gostam. Seus lindos seios estavam tão aperta dos na roupa que ela mais parecia um rapaz. e sim uma caricatura dos anúncios de propaganda. Pela primeira vez. — Nunca pensei. podemos fazer algumas alterações nest e script e economizar uns quatrocentos mil dólares. sr. Seu longo cabelo louro e platinado estava amarrado no alto da cabeça. Fui para onde estava Nevada. desde que Rina me telefonara. Há mulheres assim nesta cidade por um tostão a dúzia! — Se não gosta. — Que combinação quer fazer comigo. — Como? — Dando espaço maior à parte dela na história e ampliando o episódio de Nova Orleans. Quero algo que ainda não saiba. Mas agora era diferente. Ele conversava com o diretor. — Se fizermos isso — perguntei. Você vai viver de sua conta de despesas. Também faria isso se ganhasse salário. Os novos donos da agência que tratem dele. acendendo lentamente um cigarro —. mude — disse Dan. Cord. Virei-me e vi Rina. — Vou lhe dar dez por cento dos lucros. Mas o instinto m . O cinema é um negócio como qualquer outro. Iam fazer outro take. — Não brinque comigo. Como conseguiria trabalhar para você sem gastar dinheiro? Dinheiro é a única coisa nesta cidade que ninguém trata mal. — Ela é formidável! — disse Nevada com entusiasmo. Não e ra mais uma mulher. A boca estava pintada como um pequen o arco de cupido e as sobrancelhas marcadas a lápis num traço fino e artificial. Tive vontade de invadir o set e dar largas ao meu temperamento. — Como vão as coisas? — Otimamente! — disse. quando ela me dava as d eixas no script. Mas nada de ações. isso é uma coisa que já aprendi. Havia grande movimento. — No começo estava um pouco nervosa — disse o diretor. mas não vi Rina em parte alguma. Só cheguei ao Palco Nove depois das três horas. — Negócio fechado. uma eficient e balbúrdia de vozes e gestos. Um dos assistentes do diretor chegou apressadamente. Isso economizará cinco semanas de externas. — Como vai ela? — perguntei. que entrava pelo lado. Ele refletiu um momento e perguntou: — E quanto às despesas pagas? Estendi a mão. — Claro. Dará uma boa imagem. Parei junto do homem do som. quase não pude acreditar em meus olhos. Ela me fizera rodar como um pião. Estou trabalhando para você agora e creio que você já esgotou nesse filme todas as reservas de sentimento. — Não quero saber do que gostam! Eu é que não gosto. Bastam dez por cento das ações e todas as despesas pagas. — Trabalharam bem com ela. e ambos se voltaram p ara mim quando cheguei. — Tudo pronto. que isso um dia serviria para ela. O rosto de Dan ficou impassível.— Ora. E ainda não se sabe se os microfones funcion arão bem ao ar livre. Dan? — Não quero salário.

Dan sentou-se numa poltrona ao lado de minha mesa. levante-se. — Fui eu que dei a ord em. sr. ficou ao lado dele. Porta . — Ótimo! Essa é que é a maneira de agir. Cord. Gaillard. Mais cedo ou mais tarde. srta. — Como é que ela se chama? O diretor tossiu e riu nervosamente. por favor. Nevada recomendou que sem a ela um trato completo. srta. A frente deles estava o camerama n.e conteve. Ainda que tenhamo s de fazer algumas concessões à época em que se desenrola o filme. não faz sentido transformar uma mulher n um garoto para estar na moda. Os filmes ditam o estilo. A mulher do guarda-roupa disse: — Acho que não estou compreendendo. Como aconteceu que a mulhe r do teste não foi a mesma que chegou ao set esta tarde? Ninguém respondeu. Foi muito bom. Ele confirmou com a cabeça. — Muito bem. — Então por que ela não está parecida com Rina Marlowe em vez de parecer uma combinação pífia de Clara Bow. Do outro lado da sala. — Foi sua a ordem? — perguntei. sr.Diga ao Carrol que quero falar com ele — pedi a Dan. rosto jovem e cabelo precoce mente embranquecido. o homem da maquilagem e a chefe do departamento de gua rda-roupa. — Ilene Gaillard. uma mulher magra de idade indeterminada. Por fim. Estou vendo que vai precisar menos de e eu julgava. É isso que as mulheres vão ver no cinema. — Como é? — Rina Marlowe. Mais uma explosão como a da véspera e ninguém mais teria moral para ada que prestasse. Procurei falar com voz contida : — É meu dinheiro que está no fogo e o que combinamos foi que eu daria as ordens. o desenho fundament al dos trajes tem de representar a última palavra da moda. Marlowe tem de ser vestida no rigor da moda. — Ora. Gaillard. Ela se levantou sem nada dizer e ficou me olhando. — Rina. — Não culpe a srta. fazer n mim do qu c des 9 Olhei o escritório e cheguei à conclusão de que o estúdio sabia o que estava fazendo. Carrol. Gaillard. Rina e Nevada sentaram-se no sofá. — Nevada? Escute. Ha via ali espaço suficiente para todos nós. voltando-me para Nevada. Nenhum homem em seu juízo perfeito poderia interessa r-se por um corpo metido numa roupa como essa. quero todo mundo em meu escritório daqui a dez minutos. — Com estilo ou sem estilo. o novo diretor. Virei-me para os outros. Cord. Jonas. menos com Rina Marlowe. — Alguma coisa. Cord? — Quem aprovou a maquilagem e o guarda-roupa? — Acho que foi aprovado pelos respectivos departamentos. todos sabem o nome dela. sr. Jonas — disse nesse momento Nevada. Cord. Acendi um cigarro e disse: — Todos viram o teste feito ontem à noite. Marion Davies e Cynthia Randall? A verdade é que ela se parece com t odo mundo. minha secretária. Sou desenhista do guarda-roupa. —. Um instante depois o diretor anunciou um intervalo de dez minutos e veio falar omigo todo nervoso. usando um vestido muito simples. isso tinha de acontecer. Dan. sr. Quer explicar o que não compreende? — A srta. — Como é seu nome? — perguntei a ela. q ue segurava nas mãos os infalíveis lápis e bloco de papel. — Certo.

Eram perfeitamente visíveis. Veja o que pode fazer. será como se ela não estivesse usando nada. o sutiã cedia e se achatava. O busto assim não parecerá absolutamente natural. Deixou impassivelm ente cair o négligé dos ombros. — Penso. Eu entendi o que estava acontecendo agora. Peguei a armadura e a joguei sobre a mesa. Rina fez menção de caminhar para o set. não espero que compreenda onde quero chegar. não podemos cortar os arames. — Está bem melhor — comentei. Ninguém disse uma palavra até ela voltar com a boca larga e grande de sempre. não. — E o que tem isso? — perguntei. os seios ficavam parados. Levantei e cheguei perto de Rina. — Deixe ver. Fez cair as alças. — Pode ser. encolhendo os ombros. Enquanto Rina saía em silêncio. — Vamos filmar aquelas cenas de novo. A voz da srta. — Não há jeito de cortarmos alguns desses arames? — perguntei à de-senhista. Nevada apertou os olhos e percebi no fundo de seu olhar o quanto o havia ofendid o. Se mpre que ela se virava. Cord. Aplique sua maquilagem habitual. — Srta. — Há ainda uma coisa que posso tentar — sugeriu a srta. Gaillard. sr. — Não é possível fotografá-la assim. — Rina — exclamei. a senhorita pudesse fazer. As pernas são bem feitas. Cord — respondeu. Não é mesmo. sr. Continuo a não gostar. Cord. — Ela não pode ser fotografada assim. Não me parecia certo. — O que está dizendo? — perguntei à desenhista. O resto é comigo. Olhei para a dese-nhista. Limite-se a responder minhas perg untas. De qualquer maneira. Tire isso — disse e u. aproximando-me de Rina. — Não. O busto está pulando. Aproximaram-se de mim. — Temos de colocar alguma espécie de sutiã — disse a srta. Gaillard. de hoje em diante. só pense no seu trabalho de representar. E stava melhor do que antes. enquanto Rina permanecia com os olhos fitos em al-gum ponto por sobre meus ombros. Lee? O cameraman concordou. Alguns minutos depois retornaram. Por baixo do négligé. o corpo ainda era uma tábua. Rina estava com uma armadura reforçada com arame s que parecia quase um pequeno espartilho. Rina virou-se de lado. — Vamos ver — concordei. — Vire à direita — pedi. Não haveria rigidez suficiente para sustentar os seio s. Instantes depois. sr. — Agora. Rina nos observava com um curios o ar de desprendimento. mantendo-o apenas na curva dos braços. não.nto. — É verdade. mas pare ciam feitos de gesso. e aparecerão bem. Gaillard. — Talvez se eu mostrasse o que quero. a armadura estava numa mão e com a outra ela segurava a parte de cima do négligé fechada. Qu ando ela se movia. Desviei os olhos porque não queria ver aquilo. vã ao b anheiro e lave toda essa sujeira do rosto. embora não lhe chegasse aos quadris. não sei por que o senhor es tá tão preocupado com o busto. vendo cair prontamente sobre seus olhos uma máscara impassível —. mas os seios não me pareciam tão bonitos como quando esta vam soltos. Quando se voltou. desde que não é homem. Mas na tela tudo aparecerá exagerado. — Agora à esquerda. Levei as mãos ao négligé de Rina e o puxei . Recuei um pouco e olhei para Rina. Gaillard a fez parar. Rina olhou para mim. os lábios cheios e a s sobrancelhas seguindo sua curva natural. Po sso ver todas as pernas que quiser ali na rua. — Está bem. O cabelo se derramava como ouro líquido até os ombros: Só uma coisa não estava certa. dei a volta em minha mesa e fui sentar. O sutiã ainda apertava e deformava os seios. vire-se — pedi novamente. Imperturbável. dando aos seios aquele aspect o pouco natural. com os olhos deliberadamente dis-tantes. — Não. rindo. Rina e a desenhista saíram do banheiro. — Se fizermos isso. — E se tirarmos as alças dos ombros? — Podemos experimentar — disse Ilene Gaillard.que está muito bom. — Peitos bonitos foram feitos para pular.

Os dois peitos se erguiam como duas alvas luas gê-meas.para baixo. balançando a cabeça. Gaillard. Sua linguagem era uma curiosa mistura de engenharia e desenho de moda. mas não havia um só homem ali na sala que não estivesse de olhos a rregalados. Voltei-me para a desenhista. Mas o problema é muito curioso. Foi a primeira idéia construtiva que ouvi desde que esta reunião começou.. e estava visivelmente nervoso. — Por acaso tem um compasso? — perguntou Morrissey à desenhista. — Tudo o que eu puder fazer. seu ros to ficando muito vermelho. Ela se levantou e veio até onde estávamos. Então falei: — Não há um sutiã que consiga impedir que os seios pulem e ao mesmo tempo permaneçam com u m aspecto natural.. — Compasso? Para que precisamos disso? — E como é que acha que vou medir a altura e a circunferência? — disse Morrissey. sr. sr. Sou desenhista. — Não estou prometendo nada. sorrindo. Mas ele estava embebido demais em sua explicação para dar atenção ao meu olhar. perple xo. colados aos meus punhos escur os. Srta. Larguei o négligé de Rina e me voltei para a srta. — Levante-se. trazendo na mão uma folha de papel. — Sabe qual é o princípio usado numa ponte pênsil? . não engenheiro de estruturas. sr. tomando-lhe o braço. Cord. Cord. deve ser capaz também de desenhar alguma coisa que sustente um par de seios. Compreendeu? — Não — respondi. — Muito — concordei solenemente. — Eu sabia disso — murmurei. — Podemos conseguir isso no departamento de engenharia. Rina. Seu nervosismo desapareceu pouco a pouco. Isso mostra que a or igem da tensão cai entre eles. Depois. mas eu não entendo nada de sutiãs. com o emprego do princípio da suspensão. O peso de cada seio puxa para qualquer dos lados. Gaillard. sr. Não há nenhum sutiã capaz de sustentar o busto da maneira que o senhor q uer. Os olhos de Morrissey se arregalaram por trás dos óculos. — Talvez seja melhor o senhor ir trabalhar na minha sala — disse ela a Morrissey. E continuou: — Tudo então se torna um problema de compensação. Morrissey. Rina — disse eu. Venha co-nosco. Tivemos de achar um meio de aproveitar a tensão para manter os seios firmes. bem no centro da fenda. Morrissey estava de volta em pouco mais de uma hora. diga-lhe tudo o que ele precisa s aber. com uma expressão atônita. — Está vendo o que quero? Talvez ela não visse. Cord. — Te nho ali tudo que é necessário. Quero que faça um capaz de resolver o problema. — Acho que conseguimos! Na verdade. Tem trinta e o ito de busto. Mas depois voltou-se para mim e disse: — Acho que posso dar um jeito. Cord! — Nunca falei tão sério em toda minha vida. — Mas. além de aviões. Olhei para ele. E fui para o telefone. — Não consegui acompanhá-lo. Inseri um arame em forma de V na separação. — Foi por isso que o chamei — disse calmamente. — Tenho um pequeno problema. Vi com prazer que outras coisas podiam interessá-lo. Morrissey chegou em menos de vinte minutos. Rina tem um corpo grande. Julguei que po r um momento ele havia ficado paralisado. — Obrigado. saiu com ele da sala. foi muito simples depois de encontrado o ponto de tensão. — O que o senhor quer é impossível. Morrissey admirava os seios de Rina enquanto a desenhista falava. Ele se virou para mim. Ela o olhou por alguns instantes com expressão de surpresa. — Se é capaz de desenhar aviões que têm de s uportar milhares de libras de tensão. até ele formar um quadrado sobre o busto um pouco acima dos bicos. e preciso de sua ajuda. — Está brincando. Sou engenheiro aeronáutico — gaguejou.

Nevada. acendendo um cigarro. De repente. forçando um sorriso nos lábios. Rina se dirigiu lentamente para mim. Marlowe. — Dê-me esse caderno. Minha única preocup ação era saber se daria resultado. — Não criaremos moda alguma. percebi como estávamos longe um do outro. . Não podia tirar os olhos de cima dela. maior será a pressão criada para mantê-la no lugar. Ela ficou olhando. Pode falar com os responsáveis. E. Então o chamei. As mulheres já pareciam mulheres muito an tes de qualquer de nós nascer. Dan abriu um sorriso e disse: — Já falei. Quero que todos vejam que ela é uma mulher da vida e não uma noiva donzela. — Uma coisa mais. sr. Mas já tinha tudo de que precisava. Eu ainda não compreendera bem. Peguei-o acima da cesta de papéis e aproximei das folhas um fósforo aceso. Nevada — agradeci. sauda de da infância. horrorizada. srta. — E não se preocupe.— Vagamente. os mais macios em que alguém poderia descansar a cabeça. — Acho mesmo que vamos criar um novo estilo com a srta. daquel e par de seios suavíssimos. Os olhos de Rina mostravam-se frios e calculistas. Era exatamente o contrário. Só havia um que mandava onde ele estava. quando começarmos as filmagens. — Então? Tive consciência do esforço que me custou levantar os olhos e encará-la de frente. As minutas de todas as reuniões de dire-tores são mimeografa das e distribuídas. Pouco depois Rina entrou na sala com Ilene Gaillard. quando podia apelar para Nevada toda vez que precisava de ajuda e proteção. por um instante. A cachorra sabia do efeito que t inha sobre mim. Júnior. Gaillard. — Está tudo bem. — Há muita gente aqui nesta cidade que pensa que sou um trouxa e que estou metido ni sso para ser roubado. pode tratar de procurar outro emprego! Nevada sorriu quando me voltei para ele. Olhei para a sala e vi que todo mundo est ava levantando para sair. os olhos brilhando. — Segundo esse princípio. agora. Cord — disse a desenhista. Marlowe num négligé preto e não nesse branco. as mulheres do mundo inteiro tentarão imitá-la logo que o filme começar a ser exi bido. — Pensei no que você sugeriu hoje de manhã — disse para ele. — Para quê? — É uma regra da companhia. Amanhã. Você e eu sabemos que isso não é verdade. — Está bem. — Compreendo. olhou-me e falou pela primeira vez naquela tarde. Não posso tolerar isso. se souber de qualquer outra minuta sobre o que se passa aqui dentro. Seu pai era assim também. se aproximando de minha mesa. joguei-o na cesta e olhei para ela. Nevada foi o último. Quando o fogo começou a devorar o caderno. quanto maior for a pressão que a massa e-xerce sobre si mesm a. Nevada é que estava precisando d e mim. — Desculpe ter de falar como falei. — Ande até onde está o sr. Não era mais assim. P arou diante de mim. Não tive de esperar muito. Estava ainda sentada com o ca-derno cheio de riscos de taquigrafia. mas tenho de pôr um fim nesses boatos. Gaillard. Dan Pierce apareceu logo depois que Nevada saiu. — Obrigado. saia com esse corpinho daqui. — Acho que devemos alterar o script. srta. Cord — disse IIene. Se não es-tou engan ada. quero ver a srta. Tive. — Agora. Ela concordou com a cabeça e foi saindo. Virei-me e olhei para minha secretária. Tudo aca bará bem. Eu não devia ter me metido nisso. — O que é isso aí? — As minutas da reunião. El a deixou a capa cair no chão e se mostrou no négligé já consertado. Júnior.

Cinco minutos depois. cercada de repórteres. sr. — Pensei que fosse uma coisa diferente e é mais um desses filmes chatos de mocinho e bandido. cercado de garotos e distribuindo autógrafos. — Ela ainda o está roendo por dentro. Você não precisa de ninguém. — Precisa de você? Por quê? Por que ele foi orgulhoso demais para pe-dir ajuda? — Isso não é. mas nunca disse uma só palavra. Levantou os olhos quando me viu cheg ar e exclamou radiante: — Você tinha razão. e eu já estava com uma garrafa de uísque pela metade. Nevada estava num canto. Todo mundo. encontrei uma cadeira vazia e sentei no meio de um bando de rapazolas. de Norman para baixo. Fui até a galeria no momento em que as luzes se apagaram e a exibição começou. Quando finalmente Rina puxou Nevada para a cama. Duas semanas depois. Rina afinal apareceu na tela. Nevada entendeu o que estava acontecendo.10 Terminamos o filme em quatro semanas. Vamos ganhar dez milhões de dólares . E você será a maior es la do cinema quando esse filme for distribuído. — Só há ainda alguns lugares nos lados. Rina entrou e fechei a porta. — Diga que é o dia do pagamento! Era uma hora da madrugada. fizemos uma estréia de surpresa num cinema do vale. — Disse a ele que eu é que queria dar -lhe a notícia. No escuro . Cheguei atrasado e o publicitário do estúdio me fez entrar. Ele precisa de mim. quando olhei para os rapazes . Perto de mim. —Você não pode! Não consentirei nisso. — Antes de vir para cá. — Nevada e eu vamos casar — respondeu. — Quando isso acabar. Bernie Norman ro ndava em torno dela como um pai orgulhoso. — Por que tinha de fazer uma sujeira dessa? — perguntei. Todos ansiosos para assistir ao meu fracasso. — Não! — gritei. Dan estava no centro de uma roda de homens. Minha voz estava rouca. Então por quê? Você não precisa mais dele. Jonas! Ela foi melhor do que tudo. Estava repleta. verdade e ninguém sabe melhor do que você. não é? — Deixe de sermões e faça o que estou dizendo. quando precisei. — Fui eu quem tive a idéia de fazer de você uma estrela! — Não pedi isso e nem ao menos queria. — E se ela não quiser ir? — Irá. Apontei o quarto. de boca aberta e expressões fascinadas. estavam todos de olhos pregados na tela. Olhe i para Rina. me encarando. disse a Nevada o que ia fazer. calmamente. Quando fui para o saguão depois de terminada a projeção. dando de ombros. estava presente. sim — disse friamente. Não era preciso ninguém me dizer que aquele fi lme seria um sucesso de bilheteria. Peguei um cigarro e comecei a sorrir. — Porque. ao mesmo tempo que o arruinava! . Dava para ouvir o barulho de suas respirações ofegantes. Em seguida. Ele é velho e está acabado. Não podia acreditar no que meus ouvidos escutav am. furioso. Cortou o mais possível o papel de Nevada no filme que era dele e levantou em mim um monu mento ao seu egoísmo. Meu nome na tela pareceu estranho para mim: Jonas Cord Apresenta Mas essa sensação passou quando os letreiros dos créditos terminaram. Olhei para a platéia. — Mas que merda! — disse um dos rapazes. o rapaz não pôde conter uma exclamação. um rapaz ape rtava com força a mão de uma moça. ele me ajudou. Agora é a minha vez. Fiz um sinal e ele me seguiu até o carro. Não pense que não compreendi o que você fez. Cord. caminho u displicentemente para o quarto. — Então? — perguntou. qua ndo bateram à porta. A parte central da sala havia sido reservada para os convida dos do estúdio. Ela me olhou um instante. Estava no outro lado do saguão. E o filme começou. leve Rina para meu hotel.

meu p ai tinha razão. a-trás dele. na porta. Vi os seios balançarem. — Quer alguma coisa. não teria deixado a mulher sozinha. Não era meu o filho que ela trazia no corpo. Empurrei Rina para dentro do quarto e virei-me lentamente. Se você tivesse qualquer parcela de sentimento dentro do coração. Eu conhecera Mo-nica menos de um mês antes de casarmos. teve por ac aso idéia de que eu precisava de você? — Você nunca precisará de ninguém senão de você mesmo.— Você não teve a menor reação contra isso. Mesmo aos meus o lhos sem prática. como sempre. Estava com uma barr iga enorme. e a febre me tomou. — Dez mil dólares eram demais para você me dar quando eu queria mandá-la embora a tempo. já teria ido para lá ou a chamaria para cá. Jonas. mostrando preocupação. Jonas! Do contrário. — Não meta minha mulher nisso! Ela virou-se para se desvencilhar de mim e a frente de seu vestido se rasgou até a cintura. querida? — perguntou Ilene. quanto lhe custará livrar-se dela? Olhei para Monica e comecei a praguejar intimamente. mas no instante seguinte me beijava com mais força ainda do que eu. Olhei-a espantado. sem voltar-me. Que horas são? . sentada na poltrona ao lado da cama . Foi por sua causa. — Rina! — gritei. A história de RINA MARLOWE LIVRO IV 1 Zelosamente. Nós dois sabemos que ele está acabado. Canta e aparece em cena com um violão em vez de um revólver. Quando cheguei aqui às carreiras logo que você me telefonou. Agora. — Não desta vez. sacudindo-a violentamente. Amos Winthrop tinha toda ra zão de rir. Lá estavam meu sogro e outro homem. com os braços em vo lta de meu pescoço. e a deixou cair na manta branca que cobria seu corpo. Monica. Meu pai costumava dizer que ninguém é tolo como um jovem tolo. E. ela estava grávida de cinco meses. com o rosto grave. Isso queria dizer que já estava g rávida de dois meses quando casara comigo. — E eu? Por que acha que me meti nisso? Acha que foi por amor a Nevada? Não. — Fora daqui! — esbravejei. Havia na voz de Amos Winthrop um tom de triunfo. marcando o canto da página co m uma dobra. me smo que fosse apenas piedade. Rina fechou a revista que estava lendo. — Pois é justamente por isso que ele precisa mais do que nunca de mim! Perdi a calma e a agarrei pelos ombros. quando a porta se abriu atrás de mim. Estávamos assim. esmagando-lhe a boca num beijo. Ela tentou afastar minha boca. Há agora n dos estúdios um novo tipo de cowboy. — Não.

Cumprimentaram-se e dentro em pouco estavam ambos se ntados diante de duas xícaras de café. Importa-se que sente aqui? Afinal percebeu sua presença. — Não se preocupe. — A srta. Os olhos estava m fechados e as faces se mostravam ma-gras e repuxadas ao lado das maçãs salientes. Rina deu um suspiro. Ilene ficou ainda um instante. — Mas eu quero ficar aqui. sentindo a opressão no peito e a névoa nos olhos que tan to a haviam acompanhado naquelas últimas semanas. até ouvir a respiração suave de Rina. — Quem está escrevendo a história Eugene O'Neill. Você sairá em breve. sorrindo. O'Neill era um escritor e não um dos rotineiros autores de enredos de Hollywood. — Muito bem — disse ele. — Por que não come alguma coisa? — perguntou o médico. Depois de conseguirem toda a publicidade possível. Ainda estava tão imersa em seus pensamentos que nem ouviu a voz do médico: — Com licença. De repente. — Não é possível que ainda pensem nisso. Todas as vezes que o estúdio fica sem saber o que produzir. Foi apenas um palpite. — Às quatro. A jeitou delicadamente os cobertores e olhou para o rosto de Rina. — Vá — disse Rina. — Acho que precisa comer um pouco. E isso lhe interessava muito. Basta o café. Não há nada que você queira? — Não. encontrou a enfermeira. O médico terminou de beber o seu e disse: — Bom café. Rina recostou-se no travesseiro e sugeriu: — Por que não vai tomar uma xícara de café? — Estou bem aqui — respondeu Ilene. Soube que o estúdi stá aguardando sua saída para começar a trabalhar em Madame Pompadour. — O so no é o que há de me-lhor para ela. — Não. não é? — Você já sabia? — Não. — Que horas são? — Três e dez — disse Ilene. Ma rlowe tem parentes a-qui? . Gaillard — disse a enfermeira. ficou impressionada. perdeu o interesse. — A que horas o médico disse que vinha? — perguntou Rina. Falei ontem com Bernie Norman em Nova Iorque. srta. folheou e a jogou de novo sobre a colcha. sentindo-se ainda mais cansada do que antes. C onteúdo social. que adormecera. — Acho que vou tirar um cochilo até o médico chegar. — Você passou o dia inteiro aqui. srta. Bernie conseguiu mesmo O'Neill? — Sim. mesmo sem querer. Terá grande con-teúdo social. Avisou: — Vou descer para tomar um pouco de café. — Imploro ao inferno para que me deixem sair daqui! Ilene levantou-se da poltrona e foi até o lado da cama. Havia uma leve palidez azulada por trás da pele queimada pelo sol da Califórnia. — Desta vez. Ilene saiu para o corredor. No aposento contíguo. — Não se preocupe. Não quero ter duas pacientes ao mesmo tempo. Poderia apro-veitar o máximo da história . Talvez Bernie estivesse mesmo dispo sto dessa vez. Saiu do elevador e sentou à mesa d a lanchonete. fechando os olhos. Ele confiou a história a um grande escritor e diz que o script está ficando muito bom. Gaillard. Ela afastou o cabelo platinado do rosto de Rina. tira esse velho filme do ar-quivo. Mas então desejará voltar para cá. Rina tornou a pegar a revista. — Conteúdo social! — exclamou Rina. o fil-me volta para o arquivo. Disse-me que lhe mandará uma cópia do script logo que ele estiver pronto. Tudo o que se fazia naquele tempo levava esse rótulo. beijou de leve a boca exausta e sa iu do quarto. não sabia. — Rina está dormindo — Ilene o interrompeu com a primeira coisa que lhe veio à cabeça. com segurança profissional. não. Desde que Roos evelt assumira a presidência. Ela está dormindo. Estou bem.— Três horas. Seus olhos escuros brilharam através dos bifocais. muito obrigada. obrigada. limpa a poeira e espalha a notícia. Rina. sorrindo ironicamen¬te.

E vivemos todos ali durante três meses exatamente da me sma maneira e nos mesmos lugares. também? — Não — disse Ilene. — Como assim? — perguntou Ilene asperamente. o vírus atacará o cérebro. — Há alguma coisa que possamos fazer. nos Estados Unidos e em outros lugares. E aquilo de que já suspeitávamos: encefalite. Talvez fique paralítica total ou parcialm ente. por trás daquelas lentes bifocais brilhantes. e ela me p assou procuração para tudo. Divorciaram-se há três anos. Muito ca nsada. eu tomarei. Mas num caso como esse. — Voltamos da África há três meses — disse Ilene. Sou a amiga mais íntima. doutor? Seja lá o que for? — Estamos fazendo tudo que é possível. — Não estou querendo dizer nada. sinto muito! Nestes últimos anos não tive muito tempo para me manter informado. — Rina não tem qualquer parente que eu conheça. Nestes próximos quatro ou cinco dias. Ela quase podia ler o que se passava em su a mente. Casou-se depois com Claude Dunbar. com a voz amargurada. contrafeita. O médico ficou olhando Ilene em silêncio. — Ainda há alguma possibilidade? — Muito pequena. confusa. — Para quê? Vamos deixar que continue com seus sonhos. desarmou Ilene. O médico bateu-lhe de leve na mão. é bom saber os nomes dos pare ntes mais próximos. Ainda sabemos muito pouco a respeito dessa doe nça e sobre como ela é transmitida. A srta. o diretor. Marlowe me contou. Procurou respirar. — Eu sei. — Acha que devemos dizer alguma coisa a ela? — perguntou Ilene. Sentia-se cada vez mais prisioneira do sono. — E o marido dela? — O quê? — perguntou Ilene.— Não — respondeu Ilene. Só depois que a febre passar é qu e poderemos ter noção da extensão dos danos causados. — Não é casada com Nevada Smith? — Foi. Foi a primeira coisa que me fez desconfiar. nas regiões tropicais. s upõe-se que seja propagada pelos insetos e transmitida por picadas. Mas muitos cas os. Ela obedeceu e seu rosto recuperou a cor. — Respire fundo e tome um pouco de água — recomendou o médico. — Mas ninguém mais está doente. — Ele cometeu suicídio depois de pouco mais de um ano de casados. — Fizemos um filme lá. — Na verdade. Às vezes é chamada de doença do s As esperanças de Ilene se recusavam a morrer. Depende da parte do cérebro que venha a ser afetada. não temos qualquer certeza a res-peito da causa — diss e o médico. Sorriu inconscientemente e v . caso alguma coisa aconteça. talvez não. Rina ouvia as vozes indistintas do outro lado da porta. ninguém sabe o que poderá a-contecer. encolhendo os ombros em sinal de dú-vida. Le-vantou a cabeça. — Oh. não é. sempre na ofensiva contra a maioria dos homens. E acredite: conh eço a resposta tanto agora quanto no tempo em que comecei a clinicar. Os efeitos residuais são semelha ntes aos de um derrame. As lesões podem tomar várias formas. O que importava o que ele pensasse? O que qualquer pessoa pudesse pensar? E pe rguntou: — Já tem os resultados do exame de sangue? O médico fez sinal afirmativo. Ilene sentiu-se invadida por um medo imenso. — Quer dizer que ela poderá perder o juízo? — questionou Ilene. — O senhor está querendo dizer. — Não sei. se manifestam sem qualquer causa apa rente. com uma voz que se esforçava para continuar firme. hor-rorizada. a ação do vírus aumentará de intensidade e ela estará sujeita a fe-bres muito altas. — A encefalite é produzida por um vírus que se aloja no cérebro.. como já expliquei. Mas se ela escapar. sen-tindo-se emp alidecer. — Mas por que não aconteceu comigo? — perguntou Ilene. Talvez ainda saiba como se chama. orgulhosa . Na ocorrência mais freqüente.. — Se é preciso tomar alguma providência. — Ela tem t anto para viver. — E leucemia? — perguntou ela. Com esse gesto de carinho. — Acabou em divórcio. Estava cansada. — Não sabe quantas vezes na minha vida de médico já ouvi essa pergunta. Durante essas febres. — Não.

Lavou as roupas num tanque imagi nário e depois as passou a ferro. mas nem sempre isso acon-tecia. desdenhosamente. Susie! Derramou tudo no vestido e vou ter de trocar sua roupa de novo! Pegou a boneca e tirou-lhe a roupa rapidamente. apareceu à sua pro-cura. Era quente e não havia grama. a mãe estava muito zangada. — Não vai encontrar nada. e a sra. Abriram um lugar par a ela quando apareceu no quarto. Vou procurar comida de verdade. Ouviu passos e olhou. Era o pior castigo para e la.irou a cabeça no travesseiro. Sua mãe moveu os lábios. mais cedo ou mai s tarde. Já estava escurecendo quando Molly. que se deitou no chão a seu lado. Mas. olhava para a casa. Rina chegou mais perto da cama. Sentada na grama. De vez em quando. Marlowe a carregara e lhe fizera cócegas com o bigode. Coma. O homem de preto tomou . numa zanga teatral. Geralmente uma das empregadas. É preciso comer tud o para crescer bonita e forte. mas Rina não pôde ouvir o que ela dizia. Havia também um homem vestido de preto. — Você não sabe que deve comer com modos? Os olhinhos pretos da boneca pareciam encará-la. a servente d a cozinha. quando ela entrara. Rina t erminou de dar de comer a Susie e perguntou com voz muito séria: — Quer comer alguma coisa. Laddie? — Não estou vendo nada para comer — murmurou ele. Não compreendia por que sua mãe insistia ta nto com aquilo. Mary? Está gostando? Faça o favor de não deixar nada no prato. confiante. que faz muito bem! Depois de alguma hesitação. Voltou-se para a outra boneca: — E você. — Agora veja se não se suja mais! — exclamou. O rosto da moça estava vermelho d e tanto chorar. Mary. ele fingiu que comia. Marlowe nunca diziam coisa alguma quando a encont ravam lá. até o sr. com uma c ruz na mão. 2 O pátio era fresco. O sr. — Por quê? — Porque mamãe ainda está doente e ninguém cozinhou. só terra. Ela ficou quietinha ao lado da cama. ia chamá-la. com a superioridade de seus oito anos. metendo-lhe nas mãos um prato de boneca. Todos em volta da cama de sua mãe. Sua mãe estava muito bonita. carregando Rina nos braços. a arrumadeira do andar de baixo. O cheiro de tud o era tão gostoso! Todo mundo dizia que sua mãe era a melhor cozinheira que os Marlo we já tinham tido. Mas ela não gostava de lá. — Ora. vou achar alguma coisa — disse ele. se cansou e levan tou. Sentia-se feliz quando a deixavam sozinha. dizendo que ela não devia brincar no pátio e que teria de ficar perto da porta da cozinha. o cocheiro. Era Ronald Marlowe. olhando solenemente para a mãe. a arru madeira do andar de cima. à sombra das velhas macieiras. Além disso. — Venha. — Ora. Ela o viu afastar-se e voltou às bonecas. estavam todos lá. Peters. — Pronto. Rina arrumava a s bonecas em volta da pequena tábua que servia de mesa. O sonho de morte que sonhara desde menina. — É porque você não está olhando bem — explicou ela. com o rosto branco e calmo e o cabelo louro levantado sobre a test a. Logo em seguida. Então a mãe a repreendia. macushla — disse Molly. até que não agüentasse mais de tanto rir. Gostava de ficar na cozinha enquanto a mãe preparava o jantar. — Sua mãezinha quer ver você ou tra vez. e Annie. — Estou com fome. Já estava completamente tomada por seu sonho. Susie — disse à bonequinha de cabelo preto. Uma vez. ficava pert o das cocheiras e do cheiro dos cavalos. no outro lado da casa. Deu-lhe uma palmada e mandou que fosse para seu quarto e ficasse lá o resto da tarde.

— Estamos chorando. sentou-se no alto da escada e começou a embalá-la nos braços. Rina levou lentamente a colher à boca. Mary. Vou até o salão pedir a alguns dos amigos que me ajudem a transportar o corpo. — Minha mãe morreu? Molly teve novo acesso de choro e apertou Rina com mais força. Rina perguntou: — Mamãe vai acordar a tempo de fazer o almoço amanhã? Molly a olhou sem saber o que dizer. ao vê-lo entrar. madame? A sra. e .. Peters entrou na cozinha na hora em que as empregadas estavam jantando. uma de cada lado. — Beije sua mãe — disse ele. que era a mais velha das três empregadas. fazendo o sinal-da-cruz. Talvez ela tivesse feito alguma coisa que l he dava medo de entrar na igreja para ouvir missa. Aquele sorvete de creme com baunilha feito em casa estava uma delícia. Peters! — Fique quietinha. Geraldine olhou para a criança e pensou por um momento no que acon-teceria se foss e ela quem tivesse morrido. Collin para tomar todas as outras pro¬vi dências e que a igreja pagará as despesas do enterro. — Como é bom aquele padre! — exclamou Mary. O homem prontamente mudou Rina para o outro braço. Rina olhou para a mãe. Saiu do quarto com Rina nos braços.. — Ele pediu para levarmos o corpo até a sal a que fica por cima da cocheira. Mas não s abia por quê. Tomou outra colher. — Vim ver se a menina vai bem — disse Geraldine Marlowe. — Molly. é a senhora — murmurou ela. Tornou a abri-los pouco depois. pobre orfãzinha! Rina sentiu-se contagiada pelas lágrimas e daí a pouco estava chorando também. Ainda é muito menina. Lembrou-se do dia em que contratara a mãe de Rina. Rina beijou obediente o rosto da mãe e sentiu que estava muito frio. Depois. não foi uma só vez à missa. — Nós nem sabemos se era ca-tólica. cho-rando. O cabelo muito louro se espalhava em cachos em to rno da cabeça. Molly tomou Rina dos braços do homem. Rina. meu bem. Graças a Deus não compreende nada. tinha lágrimas nos olhos.-a nos braços. Logo depois. com lágrimas nos ol hos. porque gostamos dela. Nos três anos que assou aqui. A mãe sorriu. Rina já dormia profundamente. Estava bonita c omo nos dias em que acordava bem cedo e a via com os olhos ainda tontos de sono. sorriu e exclamou: — Tive três sobremesas. Não podia compreender por que as moças começavam a chorar sempre que falavam com ela. leve a menina para dormir com você esta noit e. Dormia. deixando o seu Laddie sozinho e órfão. A pobrezinha estava tão exausta com toda a confusão que logo adormeceu como uma pedra. agora. pois Laddie ainda teria o pai. — Como está ela? — Bem. querida. — Deus o abençoe — disse Annie. E o padre Nolan diz que ela poderá ser enterrada em Saint Thomaz. Bateram à porta e Molly foi abrir. incli nou-se e fechou os olhos de sua mãe. — Quero mais sorvete — interrompeu Rina. a arrumadeira do andar de baixo. — Oh. d eu sua opinião: — Acho que o padre Nolan tem toda razão. mas eles estavam virados e não p areciam ver nada. — Pobrezinha. Depois. — Então está resolvido — disse Peters. o cocheiro. Mas o importante é ela voltar à i greja. O padre Nolan me disse que vai mandar o sr. As referências eram muito boas. e acabe o seu sorvete — ordenou Molly. — Acabei de falar com o patrão — disse Peters. — Por que está chorando? — perguntou Rina a Molly. — Mas estará certo? — perguntou Molly. Marlowe olhou para a cama. — Não quer entrar. — Que importância tem isso? — voltou a falar Peters. — Ela não se confessou ao padre Nolan ? Não recebeu os sa-cramentos? O padre Nolan achou com certeza que ela era católica. sr. As empregadas estavam chorando e até Peters. De qualquer ma-ne ira seria muito diferente. madame. com suas bonecas S usie e Mary. e fechou os olhos.

Ela não irá para o orfanato. querida? — Se não é muito incômodo. com os olhos cheios de lá-grimas. Mas fique descansada que os ir-landeses sabem fazer de tudo uma festa. — O sr. Tivemos a menina já um pouco idosos. Uma criança de dois anos poderia ser algo bem incômodo. o que uma crian-cinha pode comer? Já quase três anos haviam se passado. rindo. beij ou-a de leve no rosto. — E se não descobrir? — Nesse caso. A sra. — Coitadinha! Vai ter de ir para o orfanato. Osterlaag — dissera com um sorriso. Ouviu a voz de Peters: — Por aqui. Ouvi a mãe dizer muitas vezes que não tinha família alg uma — disse Molly. Agora tenho de voltar a trabalhar. A voz dela mostrava a habitual surpresa contente. A criança não dera o meno r trabalho. — Afinal de con tas. pensaremos em outra coisa. Seria bom Laddie ter alguém com quem br incar. Já vi Mary toda ar ada. querido — disse Geraldine. Estava ficando mimado demais. A sra. madame. É uma boa criança e muito sossegada. Sentiu lágrimas nos olhos. — O que será agora da menina. que dormia tranqüila mente na cama. Ninguém poderia prever as conseqüências de um velório irlandês. sra. — Harry! E se os criados estiverem vendo? — Esta noite não podem — disse ele. pensando nisso pela primeira vez. — Não chore. Quer um pouco de xerez antes do jantar. Ouviu os passos pesados dos empregados que levavam Bertha Osterlaag. Saiu do quarto e parou no estreito corredor ao ouvir um rumor de vozes e passos. deixando no ar quente e parado um leve mas inc onfundível cheiro de cerveja. — Rina não é problema. Marlowe. inclinando-se sobre as costas da cadeira. Marlowe sentiu um aperto na garganta. Dormirá no meu quarto e estou pronta a pagar-lhe a pensão dela com parte de meu ordenado. Harrison Marlowe viu a cabeça da esposa curvada sobre o bordado que fazi a. Ela ia ser enterrada numa igreja estranha e e m terra estranha. Logo ele apareceu com os outros no corredor. Esperamos até ter dinhe iro suficiente. Molly. madame — ela dissera. Olhou para Rina. Tenho certeza de que meu marido descobr irá a família. nascida num a aldeia de pescadores na Finlândia. com o rosto afogueado pelo esforço. — Perdão. Atravessou em silêncio a sala e. Nós. — Não vai encontrar ninguém. madame? — perguntou Molly. Marlowe vai ver se encontra os parentes. A sra. Marlowe hesitara. rapazes. Passaram com o corpo amortalhado. — Uma menina de dois anos de idade. sra. acho que prefiro um martini. — Tenho uma filha. Um tom de censura transpareceu nas palavras de sua esposa: — Você bem sabe que não é uma festa. madame. em voz baixa. não casamos cedo. Osterlaag? — Morreu no naufrágio de seu navio. E a mãe de Rina tinha razão. Ele e a filha não chegaram a se conhecer. mas depois do nascimento de Laddie o méd ico dissera que não poderia mais ter filhos. com um . madame — disse ele. — Não sei — disse a sra. — E seu marido.mbora ela não trabalhasse já havia alguns anos. Vivi o quanto pude de nossas economias. com modos e pronúncia de quem tivera boa educ ação. 3 Da porta. — Só estão pensando é na festa. Marlowe sempre quisera uma menina. — Não terá de pagar coisa alguma. E ficou pensando se agira corretamente ao fazer com que o marido permitisse que usassem o apar-tamento que ficava no andar de cima d o estábulo. e ela se encostou à parede para deixá-l os passar. — Claro que não chamam isso de festa. finlandeses.

colocou três medidas de gim na coqueteleira e uma de vermute. Ele sentiu o suave contato do corpo de Geraldine. agora. — A sua saúde. — Puxou a corda da campainha. — Não podemos permitir uma coisa dessa! — exclamou impulsivamente Geraldine. querida.. escondendo o rosto nos ombros do marido. Queria poupar-lhe a humilhação de ter de suportá-lo mais do que ela q uisesse. Se fosse. calmamente. Mary. Ele se virou. — É terrível — retrucou Geraldine. surpreso. com exceção da lua-de-mel. o coquetel se derram aria. Estava m casados havia sete anos e. Geraldine Marlowe levou o cálice a seus lábios. — Não sei por que ainda não havia pensado nisso. Ele foi ao bufê e pegou uma garrafa de gim.. menos uma gota e os cálices não estariam cheios. — Acha que seria direito tomarmos outro martini? Dandy Jim Callahan olhou para eles no seu gabinete e esfregou pensativamente o q ueixo. querida. por favor.. compenetrado. — Talvez na Europa. Com um copinho de prata. Tenho certeza de que preferirão deixá-l a conosco a sustentá-la por conta da Prefeitura. — Ótima idéia. Ela passou os braços pelo pescoço dele. Então deixou cair uma azeitona em cada cálice e.. Você tem uma inteligência tão viva que pensa logo no melhor. — Traga algum g elo picado. Amava sua mulher. — Mas você pode falar com as autoridades.. olhando para o seu co-quetel. Harry! — disse Geraldine. Tinha trinta e quatro anos. Creio que devo comunicar às autoridades. Talvez fos se verdade. — Aqui ela não tem qualquer parente — disse Harrison Marlowe. Mais uma gota. duas vezes em menos de uma semana. — Mas você sempre teve vontade de ter uma menina em casa. — Por quê? Não sei o que podemos fazer além disso. — O que acont ecerá à menina agora? — Não sei. um bar man em Paris lhe servira a nova bebida e. O gelo já estava em cima do bufê e ele encheu a coqueteleira até a borda. Harry. Pousou. Só por isso é que fora para aquela casa em South Street. Ela o beijou de leve na boca. E preciso observar uma porção de formalidades. e elogiou: — Está delicioso. a vida deles assumira um pad rão de regularidade. não se queixaria. o cálice na mesinha. surpreso. Harrison a olhou. Depois deixou cair quatro gotas de bíter na mistura. — Claro.pouco de hesitação. sorrindo. isso era como uma espécie de sinal entre eles. E por isso que o admiro. desde então. mas não sabemos nem a aldeia em que ela nasceu. O marido olhou-a sem nada dizer. A empregada fez uma reverência e desapareceu. As mulheres só florescem realmente quando ficam mais velhas e s eus desejos aumentam.. e olhou para a mulher. Ela irá provavelmente para o orfanat o do condado. Cada cálice estava cheio. Geraldine. olhou co m satisfação os coquetéis. — Não sei. Talvez fosse ver dade o que diziam. todo aquele delicioso calor fl uindo para si e excitando-o. — Descobriu alguma coisa sobre a família de Bertha hoje? — ela per-guntou. Podem exigir que a adotemos para que ela não volte nunca a ser um ônus para a Prefeitura. pegando o seu cálice. — Por que não podemos continuar com ela e criá-la? — Não é possível. Uma criança órfã não é um ob odemos ficar com ela apenas porque está por acaso em nossa casa. — Pensado em quê? — Em adotar Rina. recuando um pouco. e Mary apareceu à porta. tampou e começou a sacudir vigorosamente. Depois. fez com a cabeça um sinal de a provação... não é? E Laddie ficará tão content e em ter uma irmãzinha. — Obrigado — respondeu Harrison. trinta e um. Quando havia visitado a Europa em sua lua-de-mel. outra de vermute francês e um vidrinho de bíter de laranja. Quando achou que já bastava. . Levantou-se da cadeira e se aproximou do marido. Em seguida. Mas. destampou a coqueteleira e serviu a bebida nos cálices próprios. — De repente fiquei tão excitada! — disse Geraldine.

— Não sei. E um pouco difícil o que querem. — Ora, senhor prefeito, sei que o senhor pode fazer isso — disse pron-tamente Gerald ine Marlowe. — Não é tão fácil quanto pensa, minha senhora. Não se esqueça de que a Igreja tem de concorda também. Afinal de contas, a mãe era católica, e não é possível entregar uma criança católica uma família protestante. Ao menos em Boston, não é. Talvez nunca permitam. Geraldine se calou com a decepção fortemente estampada no rosto. Foi então que ela viu pela primeira vez o marido como um ser diferente do simpático estudante de Harvar d com quem casara. Ele começou a falar e havia em sua voz uma expressão de força que ela nunca percebera. — A Igreja gostaria ainda menos do caso se eu provasse que a mãe nunca foi católica. F ariam todos então papel de idiotas, não acha? — Tem essas provas? — perguntou o prefeito. — Tenho — disse Marlowe, tirando alguns papéis do bolso. — O passaporte da mãe e a certidão de nascimento da criança. Ambos mostram claramente que eram protestantes. Dandy Jim examinou os papéis e depois perguntou: — Se tinha isso, por que não os impediu de agir como agiram? — Porque não pude. Os empregados e o padre Nolan tomaram todas as providências sem me consultar. Além do mais, só recebi esses documentos hoje. E que importância tem isso? De qualquer maneira, a pobre mulher teve um enterro cristão. Dandy Jim devolveu os papéis. — Isso dará muitos aborrecimentos ao padre Nolan. Um padre jovem, na sua primeira pa róquia, cometer um engano desse. O bispo não vai ficar nada satisfeito. — Não há nenhuma necessidade de isso chegar ao conhecimento do bispo — disse Marlowe. Dandy Jim o olhou, mas nada disse. Marlowe voltou à carga: — Há uma eleição no ano que vem. — Há sempre uma eleição — murmurou Dandy Jim. — É verdade. Haverá outras eleições e campanhas. Um candidato precisa de contribuições quase anto quanto precisa de votos. Dandy Jim sorriu. — Já contei o que me aconteceu com seu pai? — Não — disse Marlowe, também sorrindo. — Mas meu pai me falou nisso muitas vezes. Disse q ue o botou para fora do escri-tório dele. — É verdade. Seu pai tem um temperamento bem impulsivo. Até parece que tem sangue irla ndês. Só fui pedir-lhe uma pequena contribuição para minha campanha. Foi há uns vinte anos e eu era candidato a vereador. Sabe o que foi que ele me disse? Marlowe sacudiu a cabeça. — Jurou que se algum dia eu fosse eleito, nem que fosse para pegador de cachorros na carrocinha, ele se mudaria daqui com toda sua família. Aposto que não vai gostar quando souber que contribuiu para o fundo de minha campanha. — Meu pai é meu pai e eu o respeito muito — disse Marlowe, com firmeza —, mas o que faço e m matéria de dinheiro e de política é da minha conta e não da dele. — Têm outros filhos? — perguntou Dandy Jim. — Um menino de oito anos — Geraldine respondeu rapidamente. — Não sei — disse Dandy Jim, sorrindo. — Algum dia as mulheres vão votar e se essa menina for criada lá esse é um voto que nunca irei conseguir. — Vou prometer uma coisa, senhor prefeito — Geraldine afirmou prontamente. — Se isso a contecer algum dia, todas as mulheres de minha casa votarão no senhor! O sorriso de Dandy Jim se alargou. Cumprimentou agradecendo e disse: — Os políticos têm sempre a fraqueza de viverem fazendo tratos. No dia seguinte, Timothy Kelly, secretário do prefeito, apareceu no escritório de Ma rlowe, no banco, e recebeu um cheque de quinhentos dólares. Aconselhou Marlowe a i r conversar com determinado juiz, do fórum municipal. Foi ali que se fez a adoção. Quando Marlowe saiu da sala do juiz, deixara com ele um a certidão de nascimento passada no nome de Katrina Osterlaag. Levava no bolso uma certidão de nascimento com o nome de sua filha, Rina Marlowe.

4

Embaixo do grande guarda-sol fincado na areia, Geraldine Marlowe estava sentada numa cadeira de lona. Abanava-se lentamente com o le-que. — Não me lembro de um verão tão quente como esse — disse, respirando com alguma dificuldad e. — Deve estar fazendo uns trinta e cinco graus à sombra. O marido resmungou alguma coisa na cadeira ao lado, ainda imerso na leitura do j ornal de Boston, que chegava ao Cabo com um dia de atraso. — O que foi que você disse, Harry? Ele mostrou o jornal para a mulher. — Esse Wilson está positivamente maluco! — Por que diz isso, querido? — perguntou Geraldine, os olhos ainda voltados para o m ar. — Essa história da Liga das Nações. Ele diz que agora vai para a Europa a fim de assegur ar a paz no mundo. — Pois eu acho a idéia magnífica. Afinal de contas, tivemos sorte dessa vez. Laddie er a moço demais para ir à guerra. Da próxima vez, poderá ser diferente. — Não haverá próxima vez — disse Marlowe. — A Alemanha está derrotada para sempre. Além do ma o que temos com isso? Eles estão do outro lado do mar. Podemos ficar aqui, e deixálos que se matem à vontade se quiserem começar outra guerra. Geraldine encolheu os ombros. — Chegue mais para baixo do guarda-sol, querido. Você bem sabe como fica vermelho qu ando toma sol. Harrison Marlowe levantou-se e levou a cadeira para a sombra. Sentou, deu um sus piro e tornou a abrir o jornal. Rina apareceu de repente à frente da mãe. — Já faz uma hora que almocei, mamãe. Posso entrar na água? Geraldine olhou para Rina. A menina havia crescido muito naquele verão. Difícil acre ditar que só tivesse treze anos. Era bem alta para a idade. Um metro e cinqüenta e sete, apenas dois centímetros a me nos que Laddie, três anos mais velho. O cabelo estava ainda mais claro por causa d o sol, enquanto sua pele estava tão queimada que os olhos amendoados pareciam clar os em contraste com o bronze-ado. As pernas eram compridas e bem-feitas, os quad ris começavam a arredondar-se e os peitos já se mostravam cheios e redondos sob o ma iô de banho de menina, pare-cendo mais os de uma moça de dezesseis anos. — Posso, mamãe? — Pode. Mas tenha cuidado, querida. Não nade muito para fora. Não quero que você se cans e. Mas Rina já saíra as carreiras, sem ouvir o resto. Geraldine Marlowe sorriu para si mesma. Rina era assim mesmo, diferente de todas as mocinhas que ela conhecia. Na dava e corria mais que qualquer dos rapazes com quem Laddie andava, e todos eles sabiam que ela era capaz de vencê-los. Não fingia ter medo da água nem se preocupava em se proteger do sol. Tampouco se interessava em conservar a pele macia e clara . Harrison Marlowe interrompeu a leitura do jornal. — Tenho de ir à cidade amanhã. Vamos fazer o empréstimo a Standish. — Está bem, querido — Geraldine respondeu, ouvindo ao longe as vozes estridentes das c rianças, e acrescentou; — Temos de fazer alguma coisa a respeito de Rina. — Rina? O que há com Rina? — Não notou ainda? Nossa filhinha está crescendo. — Sim, sim, mas ainda é uma menina. Geraldine Marlowe sorriu. Era bem verdade o que diziam dos pais. Falavam mais so bre os filhos mas, secretamente, encantavam-se com as fi-lhas. — Ela já é mulher desde o ano passado — replicou. Harrison ficou vermelho e olhou para o jornal. Havia percebido vagamente isso, m as era a primeira vez que falavam abertamente do fato. O-lhou para o mar, procur ando Rina no meio do grupo barulhento que se debatia dentro da água. — Não acha que devemos chamá-la? É perigoso para ela ficar tão longe da praia. Geraldine sorriu. Pobre Harrison! Podia ler o pensamento dele como um livro. Não e ra do mar que ele tinha medo, mas dos rapazes. — Não, Harry. Não há perigo. Ela nada como um peixe.

Ele a olhou, meio confuso. — Não acha que deve ter uma conversa com ela? Talvez explicar-lhe algumas coisas... como eu fiz com Laddie há uns dois anos. O sorriso de Geraldine era malicioso. Gostava de ver o marido, habitualmente tão s eguro de si, tão positivo em todas as suas idéias, e convicções, assim atrapalhado. — Não seja bobo, Harry. Não preciso explicar-lhe mais nada. Quando uma coisa assim aco ntece, é natural dizer tudo o que ela deve saber. — Muito bem — ele concordou, com um suspiro de satisfação. Geraldine continuou: — Acho que Rina vai ser uma dessas crianças que fazem a transição da adolescência sem pass ar por qualquer das suas fases desagradáveis. Não há nela o menor sinal de angulosidad e, e a pele é clara, sem qualquer mancha ou espinha. Muito diferente do que aconte ce com Laddie. Apesar de tudo, acho que vou tomar uma providência a respeito de Ri na. Vou comprar uns sutiãs. Marlowe nada comentou. — Sinceramente — prosseguiu Geraldine —, penso que o busto dela já é tão grande quanto o meu . Espero que não cresça muito mais. Ela vai ser uma bela mulher. — Teve a quem sair — disse ele, com um sorriso. Ela sorriu também. Sabia perfeitamente o significado daquelas palavras. Não passou p ela cabeça de nenhum deles que Rina não fosse real-mente sua filha. — Você se importaria de me levar para a cidade esta noite? — perguntou ela. — Seria ótimo passar a noite num hotel. — Também acho — ele aprovou, apertando-lhe a mão. — Molly pode tomar conta das crianças. E eu teria tempo de fazer algumas compras pel a manhã, antes de voltar-mos. — Magnífico! — ele disse, olhando para ela e rindo. — O chalé aqui está um pouco cheio demai s. Vou telefonar para o hotel e mandar preparar uma batelada de martinis para o momento em que chegarmos. Ela soltou sua mão e exclamou rindo: — Mas que homem imoral! Rina nadava com braçadas pausadas e determinadas; seus olhos estavam fitos na jang ada que os rapazes usavam para mergulhar, ancorada além da arrebentação. Laddie devia estar lá com seu amigo Tommy Randall. Saiu da água quase aos pés deles. Os rapazes est avam deitados de costas, com os rostos voltados para o sol, e se sentaram, logo que Rina começou a subir a escada. — Por que não ficou lá com as meninas? — exclamou Laddie, irritado com a invasão de seu sa ntuário. — Tenho tanto direito de estar aqui quanto você — ela retorquiu, depois de recuperar o fôlego e ajeitar as alças do maiô. — Ora, vamos — disse Tommy —, deixe-a ficar. Rina olhou-o pelo canto dos olhos e viu que o olhar dele estava interessado em s eus peitos parcialmente à mostra. Foi nesse exato momento que ela começou a se torna r mulher. Até Laddie a estava olhando de uma maneira curiosa, que ela nunca percebera nele. As mãos dela caíram instin-tivamente para os lados. Se era só isso que era preciso par a que a aceitassem, podiam olhar à vontade. Sentou-se diante deles, sentindo ainda os olhos cravados nela. Uma sensação esquisita começou a percorrer seus peitos e ela se olhou. Os bicos estava m claramente desenhados contra o jérsei preto do maiô. Ergueu a vista para os rapaze s e viu que a observavam sem disfarce algum. — O que é que vocês estão olhando? Os dois rapazes ficaram embaraçados e imediatamente desviaram os olhares. Tommy vi rou-se para o mar, e Laddie para o chão da jangada. — Então? — ela perguntou a Laddie. O rosto do irmão ficou muito vermelho. — Eu vi! Vocês estavam olhando para o meu peito! Laddie levantou-se imediatamente. — Vamos embora, Tommy. Isto aqui está ficando cheio demais! Ambos deram um mergulho. Rina observava-os enquanto nadavam para a praia. Depois

estendeu-se na jangada e fitou o céu, pensando que os meninos eram mesmo uma gent e esquisita. O maiô apertado machucava os peitos. Ela encolheu os ombros e libertou os seios do incômodo maiô. Baixou a cabeça e ficou se olhando. Lá estavam eles, muito brancos, em contraste com a pele queimada dos braços e do pes coço. Os bicos estavam rosados e maiores do que até então os vira. Tocou-os com as pon tas dos dedos. Eram duros como pedrinhas e uma espécie de dor quente e agradável cha¬m ejava ao contato dos dedos. O calor do sol começou a enchê-los de uma sensação doce e pra-zerosa. Fez uma leve massa gem para aquilo passar, e o calor que se irradiava dos peitos lhe tomou todo o c orpo. Sentiu-se meio tonta, com um contentamento que nunca sentira até aquele dia.

5 Diante do espelho, Rina ajustava as alças do sutiã. Respirou profundamente, e voltou -se para a mãe, sentada na cama atrás dela. — Pronto, mamãe — disse ela, orgulhosa. — Que tal? Geraldine olhou indecisa para a filha . — Talvez se você apertasse o último gancho... — Já tentei, mamãe. Mas não posso usar assim, que me machuca. Geraldine concordou com um gesto. Da próxima vez, compraria um tamanho maior. Mas quem iria pensar que um trinta e quatro ficaria tão apertado num corpo ainda não tot almente desenvolvido? — Não acha que preciso também de maiôs novos, mamãe? Os que tenho estão muito apertados. — Estava pensando nisso, Rina. E alguns vestidos novos também. Talvez papai queira l evar-nos de carro a Hyannis Port depois do café. Rina abriu um alegre sorriso. Correu para junto da mãe e abraçou-a a-fetuosamente. — Muito obrigada, mamãe! Geraldine beijou Rina na cabeça e depois ergueu o rosto bronzeado da filha. Olhou Rina bem dentro dos olhos, acariciando de leve suas faces. — O que será que está acontecendo à minha menina? — perguntou quase com um tom de tristeza na voz. Rina pegou a mão da mãe e beijou-lhe a palma. — Nada, mamãe — disse ela, com a segurança e a confiança que seriam sempre características d e sua personalidade. — Só que, como a senhora já me disse, eu estou crescendo. — Não tenha muita pressa, minha criança — disse ela, apertando a ca-beça da filha contra s eu peito. — A infância infelizmente é muito curta. Mas Rina mal a ouviu. E, se ouviu, é de duvidar que as palavras tivessem significa do grande coisa para ela. Eram apenas palavras, e as palavras eram tão importantes di-ante das forças que despertavam dentro dela como as ondas que se quebravam irr emediavelmente na praia defronte da janela. Laddie girou o corpo e arremessou rápido a bola para a primeira base. O outro joga dor lançou-se em desabalada carreira e se jogou, escorregando em direção à marca de safe ty, os calcanhares levantando uma nuvem de poeira. Quando a poeira assentou, o j uiz gritou: — Você está fora! E a partida havia terminado. Os rapazes se aglomeraram em torno de Laddie para abraçá-lo e elogiar o jogo. Depois , dispersaram-se e enca-minharam-se para a praia. Ele e Tommy ficaram sozinhos. — O que vai fazer hoje à tarde? — perguntou Tommy. — Nada — disse Laddie, encolhendo os ombros. Ainda pensava no jogo e, apesar dos elo gios, não estava satisfeito com seu próprio desempenho. Teria de melhorar, treinar m uito, pois do contrário não faria parte da equipe principal de Barrington. — O Bijou tem um filme novo de Hott Gibson — disse Tommy. — Já vi esse filme em Boston. Quando é que Joan chega? — Quem? Minha prima? — perguntou Tommy.

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Conhece outra pessoa com esse nome? — replicou Laddie, sarcasti-camente. Talvez ela venha neste fim de semana. Então talvez a levemos ao cinema. Muito bonito! — exclamou Tommy. — Para você está tudo ótimo, e para mim? Pensa que é engraç sentar perto de vocês dois, sozinho? E quem eu vou levar? — Não sei... Andaram mais alguns instantes. De repente, Tommy deu um estalo com os dedos e ex clamou: — Já sei! — Quem? — Rina, sua irmã. — Rina? — disse Laddie. — Mas ela ainda é uma garotinha! Tommy riu. — Garotinha, nada! Viu como estão grandes? Ainda estão maiores do que quando nós os olha mos na jangada há uns quinze dias. — Mas ela só tem treze anos, Tommy... — E daí? Minha prima Joan tem catorze. Tinha treze no verão passado, quando você já vivia todo agarrado com ela na varanda dos fundos. Laddie achou que talvez Tommy tivesse razão. Rina estava crescendo. — Está bem — concordou ele, balançando os ombros. — Pode convidá-la. Mas eu sei que não adian a. Minha mãe não vai permitir que ela vá. — Deixará, se você pedir. — Vou tomar banho e trocar de roupa — disse Laddie. — Até já, na praia. — Combinado. Até já. O chalé estava fresco, depois da algazarra e do calor do beisebol. Laddie foi até a cozinha e chamou Molly. Ninguém respondeu, e ele se lembrou de que era quinta-feira, dia de folga de Molly . Ouviu um barulho em cima e foi até a escada! — Mamãe! Foi Rina quem respondeu: — Foram de carro até Hyannis Port jantar com alguém. Laddie voltou para a cozinha e abriu a geladeira. Tirou uma garrafa de leite e c ortou um pedaço de bolo de cho-colate. Só depois de ter comido tudo se lembrou de qu e havia feito uma promessa de não tocar em doces, para ver se sua pele melhorava. Ficou ali sentado, meio apático. Ouviu a porta do banheiro abrir e passos na direção d o quarto de Rina. O que ela estaria fazendo àquela hora da tarde dentro de casa? H abitualmente já era hora de estar na praia com seu grupo de amigas tolas. Talvez Tommy tivesse razão. Ela estava crescendo. Sem dúvida alguma o jeito que ela ficara na jangada com os peitos quase à mostra, e deixando que a olhassem, não era d e uma menina. E Tommy tinha razão também numa coisa: os peitos de Rina eram maiores que os da prima dele. Pensou de novo em Rina na jangada e de novo imaginou: os peitos querendo sair do maiô, o cabelo molhado caindo até os ombros e os lábios apertados em sinal de aborrec imento. Sentiu um calor habitual subir-lhe pelo corpo. Não! Outra vez, não! Tinha jurado dep ois da última vez que ia parar com aquilo. Levantou-se abruptamente. Não iria fazer aquilo dessa vez. Colocou o prato vazio na pia, saiu da cozinha e subiu a escada . Tomaria um banho frio e depois iria à praia. O quarto de Rina ficava bem em frente ao patamar da escada, e a porta estava par cialmente aberta. Já estava no meio da escada, quando notou que havia movimento de ntro do quarto. Parou, com o coração batendo com força. Ficou de joelhos de modo que só seus olhos ficassem acima do patamar. Rina estava diante do espelho, de costas para a porta, vestida apenas de sutiã e c alção. Enquanto ele olhava, ela estendeu a mão para trás e desabotoou o sutiã. Depois, vir ando o corpo um pouco, tirou o calção. Ainda com eles na mão, atravessou o quarto e vo ltou logo, trazendo um maiô de banho. Parou de novo em frente ao espelho e vestiuo. Ajeitou-o sobre os seios e ajustou as alças. Laddie sentia a testa banhada de suor. Era a primeira vez que via uma moça crescid a completamente nua. Nun-ca pensara que pudessem ser tão belas e excitantes. Passou pela porta dela em passos lentos e foi para seu quarto. Fechou a porta e

jogou-se na cama, ainda trêmulo. Ficou por muito tempo ali deitado, com aquele cal or que o fazia quase dobrar-se de dor. Debateu a questão consigo mesmo. Não. Não devia. Se cedesse daquela vez, cederia para sempre. Afinal, começou a sentir-se melhor. Enxugou a testa com o braço e le-vantouse. Só era preciso ter um pouco de força de vontade e determinação Sentiu orgulho de si mesm o. O que ele tinha de fazer era afastar-se de todas as espécies de tentação. Isso abra ngia tudo. Até os postais franceses que comprara na tabacaria em Lobstertown.. Abriu uma gaveta da cômoda e tirou os postais de baixo de uma tábua solta. Colocou-o s virados sobre a cômoda. Quando fosse tomar banho, jogaria tudo dentro do vaso e puxaria a descarga. Tirou a roupa rapidamente e vestiu o roupão de banho. Foi até a cômoda e olhou-se no e spelho. O rosto estava i-luminado por uma nobre determinação. É curioso ver como uma d ecisão correta transforma a pessoa. Saiu do quarto, mas esqueceu os postais em cim a da cômoda. Estava se enxugando, quando ouviu os passos de Rina pelo corredor em direção a seu q uarto. De repente, lembrou-se de que havia deixado os postais em cima da cô-moda. Vestiu apressadamente o roupão de banho. Mas já era tarde. Quando chegou ao quarto, ela estava de pé junto à cômoda e com os post ais na mão. Olhou-o surpresa. — Onde arranjou essas fotografias, Laddie? — perguntou ela, com inte-resse. — Dê-me isso! — exclamou ele. Rina esquivou-se e correu para o outro lado da cama. — Deixe-me terminar — disse ela, calmamente. — Depois eu devolvo. — Não! — gritou ele com voz rouca, avançando para ela por cima da cama. Rina se virou para evitá-lo, mas a mão dele agarrou seu ombro. Ela caiu na cama ao l ado dele e os postais se espa-lharam. Procurou agarrá-los de novo. Laddie seguroua pela alça do maiô a fim de impedi-la, e a alça arrebentou. Ficou parado, e muito pálid o, vendo o seio branco que escapara do maiô. — Você arrebentou minha alça — disse ela, calmamente, sem fazer o menor gesto para cobri r-se, olhando-o bem nos olhos. Ele ficou em silêncio, atônito. Ela sorriu, levando a mão ao seio e esfregando lentamente o bico. — Não sou tão bonita como qualquer dessas mulheres das fotografias? Ele estava fascinado, sem poder falar, seguindo com os olhos o movimento deliber ado da mão de Rina. — Não acha que sou, Laddie? Pode falar, que não contarei pra ninguém. Por que acha que e u deixei você me espiar enquanto eu trocava de roupa? — Você sabia que eu estava olhando? — perguntou ele, atônito. — Claro, seu bobo. Via você pelo espelho. Quase estourei na gargalhada. Pensei que o s olhos lhe fossem saltar da cabeça. Laddie sentiu a excitação que o empolgava e exclamou: — Não vejo nada de engraçado nisso! — Olhe para mim — disse Rina. — Gosto que você olhe para mim. Se eu pudesse, todo mundo olharia. — Não é direito, Rina. — Por quê? O que há de errado nisso? Eu gosto de olhar para você. Por que é que você não pode gostar de olhar para mim? — Mas você nunca me olhou! — Já, sim — Rina olhava para ele com um sorriso enigmático. — Onde? Quando? — Numa tarde em que você voltou da praia. Não havia ninguém e eu espiei pela janela do b anheiro. Vi tudo o que você fez! — Tudo? — perguntou ele, alarmado. — Tudo — disse ela, calmamente. — Você estava brincando com seu músculo. Nunca pensei que ele pudesse ficar tão grande. Sempre pensei que ainda fosse pequeno e caído como qua ndo você era garotinho. Ele sentiu um aperto na garganta e mal pôde falar. Começou a se levantar da cama, e disse com voz rouca: — É bom você ir embora daqui.

Ela olhou para ele ainda sorrindo. — Quer me ver outra vez? Ele não respondeu. Rina puxou a outra alça e, depois, tirou o resto do maiô. Ele ficou olhando o corpo todo nu, sentindo as pernas tremerem. — Agora tire o roupão e deixe-me ver você todo. Como tomado de atordoamento, ele abriu o roupão e o deixou cair. Com um gemido, ca iu de joelhos ao lado da cama, tentando controlar-se. No mesmo instante, ela rolou pela cama e olhou para ele. — Agora — disse ela, com um tom de triunfo na voz. — Faça isso por mim. Ele levantou a mão para tocar o seio. Ela o deixou ficar assim por um momento, mas de repente afastou-se dele. — Não! — exclamou ela. — Não me toque! Ele a olhou, cheio de angústia. — Faça isso por mim — disse ela, com voz rouca. — E eu farei isso por você. Mas não me toque !

6

Durante toda a sessão de cinema, Laddie os ouviu rir e conversar em voz baixa. Pod ia imaginar o que estavam fazendo no cinema às escuras, ainda que não os pudesse ver . Visões passavam-lhe pela cabeça. Tommy estava oferecendo uma bala a Rina. Laddie viu-o estender o saquinho para e la com a mão displicentemente, encostando em seu seio. Mexeu-se inquietamente na c adeira, tentando devassar a escuridão. Mas não adiantou. Não deu para ver. — Quer me dar mais um bombom? — disse Joan do meio da escuridão. — Como? — perguntou ele, levando um susto. — Ah, sim. Pois não. Estendeu o saquinho para ela se servir e sentiu a suave pressão de seus seios. Mas isso só serviu para fazê-lo lembrar-se de Rina. No caminho de casa, pararam diante da casa de Tommy. — Querem tomar algum refrigerante? — perguntou Joan. — A geladeira está cheia. — Não, obrigado — Laddie respondeu prontamente. — Já é tarde e prometi a mamãe que estaríamos casa antes de escurecer. Rina nada falou. — Não pode voltar depois? — perguntou Joan. — Depois de deixar Rina em casa? — Não sei — disse ele, sentindo o olhar de Rina e ficando vermelho. — Estou muito cansad o. Acho que vou dormir cedo hoje. Joan olhou-o de maneira estranha, mas nada mais disse e foi entrando em casa. Fo i um instante difícil, até que Tommy falou: — Está bem. Então, boa noite. Até amanhã, na praia. Fizeram o resto do caminho em silêncio. Já estava escuro quando che-garam à varanda. L addie abriu a porta para ela. Ela entrou e de repente ficou parada, ao ver que e le não fazia menção de segui-la. — Não vai entrar? — Já, não. Vou ficar aqui fora mais um pouco. — Então eu também vou — disse ela, voltando para a varanda. Laddie deixou a porta bater, e o barulho repercutiu na casa toda. — São vocês, crianças? — perguntou Geraldine Marlowe. — Sim, mamãe — respondeu Rina. Olhou rapidamente para Laddie e acrescentou: — Podemos fi car aqui fora ainda um instante, mamãe? A noite está tão quente. — Está bem. Mas só meia hora, Rina. Quero vocês na cama às oito e meia. — Certo, mamãe. Laddie atravessou a varanda e sentou-se na grande cadeira de vime. Rina foi sent ar-se ao lado dele. — Por que Joan queria que você voltasse? — Não sei. — Ela queria que você fizesse aquilo por ela?

num sussurro: — Quer faze r aquilo agora? — Agora? — perguntou ele. — E uma hipo. — Gostou do cinema. mamãe. Os olhos da filha estavam brilhando e um sorriso feliz ilumi nava seu rosto. — Ficou sempre com os olhos pregad os na tela e uma vez chegou a pedir bombons a você. Laddie? Tenho certeza de que o vi sair com ele no bolso. — Não gosto de Joan — disse ela. A exclamação foi involuntária. papai — disse Laddie em voz baixa. — Rina a beijou com carinho.. — Mas. impulsivamente. meu filho? — Sim — disse ele. papai? — exclamou ele. Chegaram à varanda e Geraldine chamou— Laddie! — Estou aqui. — Boa noite. sou? — perguntou Rina.. De repe nte. não é. hipo. ele sentiu os dedos dela nas coxas e ela perguntou. — Ela nem olhou uma só vez para ele — continuou Rina. com um leve sorriso nos lábios. às vezes temos de fazer coisas de que não gostamos. — Não! — exclamou Laddie. olhando para a casa. — Ela parece bem feliz. Nem queira saber como é bom ver um filme sem aquela garotada fazendo b arulho e correndo pelo cinema como acontece nas matinês. A porta da varanda bateu e R ina entrou na sala. Oito e meia em ponto. Contagiada por aquela boa disposição. Vou enxugá-lo para você. Papai está lendo o jornal e mamãe está tricotando. ele segurou a mão de Joan e el a não teve dúvidas em fazer sua vontade. — Você não está se sentindo bem. papai. — Já sou bem crescida! — Agora já para a cama. — Hipócrita — completou Laddie. Onde está seu lenço. Geraldine se aproximou dele.— Claro que não! — respondeu ele. Geraldine sorriu para ela.. — Mas eu não sou hipócrita. mocinha. — Vamos tomar um pouco de ar fresco na varanda? — sugeriu Harrison. — Tem razão. — Laddie! — Geraldine mostrou-se surpresa — Desculpe. Você já está crescida agora. — Por que diz isso? — Tommy quis que eu pegasse nele e. surpreso com a inesperada profundeza de sua percepção. mas Rina tinha razão.. indignado. — Está bem. Eles não virão aqui. mamãe? — Não. quando eu não quis. Uma delas é tomar conta da irmã. . — Você não parece muito feliz por tê-la levado — Impressão sua. Geraldine olhou para o relógio. Ela o viu levantar-se da cadeira. — Rina não o aborreceu? — Não. preocupada. — É a primeira vez que sai com um rapaz. Isso é se mpre um acontecimento para uma moça. Ainda precisa descansar. mamãe. O que será que estão fazendo agora ? Laddie teve uma visão de Joan e Tommy juntos e sentiu-se excitado. — gaguejou ele — Como? Ela sorriu e tirou o lenço do bolso da camisa de Laddie. Laddie? Você me parece com um pouco de febre e seu rosto está banhado de suor. mamãe. alegremente.. — Por que não estaria? — disse Geraldine. — Mas não faço mais.. querida? — Muito. laconicamente. mamãe – havia tensão em sua voz — Meu filho — disse o pai —. — Ainda outro dia você fazia parte dessa garotada. É um dever do irmão. mamãe — disse Rina. Geraldine riu. — Não tenha receio. Joan era uma hipócrita. quase gritando. querida. Harri son Marlowe tirou os olhos do jornal. — Já não disse que foi tudo bem. — Divertiu-se. Ela saiu da sala e os dois puderam ouvir seus passos ligeiros pela escada. O hei pela porta. — Boa noite. — Atravessou a sala e beijou o rosto do pai.

mas você tem de reconhecer que estão mimados. Barrin gton será bom para Laddie. — Sim. mamãe. sorria para ele ou o tocava. — É a primeira vez que isso acontece. o medo de serem descobertos. — Não. — Eu é que sei por que está assim — disse ela.. Laddie — disse o pai. — De qualquer maneira. — Tem certeza de que não está com febre? — Acho bom ir para a cama. Gostaria que fossem crian-ças para sempre. tudo seria diferente. — E o que vai fazer — Laddie perguntou. quando ela o olhava. de selvagens sensações físi-cas e de cruciant es lutas de consciência. Longe dela. o medo voltava. Conheço esses rapazes. Ela passou a mão em sua testa. Humilhava-se. acho que perdi. Olhou para ela. olhando para suas mãos bronzeadas remexendo a . É preciso um pouco de dis ciplina. Ha-via sempre nele um contentam ento inquieto e amedrontado quando estavam juntos. — Harry.Por um instante. poderia dominar-se. Desde aquele primeiro verão. Laddie se sentiu inteiramente atordoado. a prima de Tommy. Nunca mais. E estou satisfeita que Rina tenha sido aceita na escola de Jane Vincent. Sentia verdadeiras agonias de ciúme quando a via sorrir ou conversar com outros rapazes. dois anos antes. não queria mais sair de perto dela. Mas. — Como sabe? — Atrasou — respondeu ela calmamente. o medo do sofrimento. esse é o problema. — Talvez estejam um pouco. fique sabendo. havia medo. Isso é errado e acabou para sempre. para ele e para ela. não podia comer. chorava na agonia de sua autoflagelação. re encontrar-se. Mas isso logo p assou.. não. os olhos dele pareceram os de um animal acuado.. Foi com um sentimento de alívio que viu aquele verão alucinante aproximar-se do fim. — Sim. E todo o tempo. Boa noite. da revolta e do ódio que os pais sentiriam quando soubessem. — Acho. Não podia fugir do fato de que ela era sua irmã e de que o que faziam era errado. Era nisso que acreditava quando voltou para a escola no fim daquele verão. ia dizer para ela. Dentro em pouco estará mimada também. Ele está tão mal acostumado a ter tudo o que quer que fica aborrecido quando tem de fazer por conta própria alguma coisa. como se estivesse falando do tempo. Para Laddie foi um verão de dor e ternura. — O que será que há com ele? — Acho que sei o que há com ele — disse Harrison entre dentes. beijou a mãe. apertando os o-l hos. Harry. Depois. Harry? — Ele é muito mimado. E Rina precisa de disciplina também. Quando voltassem para a p raia no verão seguinte. Sempre soubera que tudo iria acabar ass im. papai. 7 — Estou grávida — disse ela.. — Vou ter um filho. ras tejava diante dela. até mesmo a companhar a irmã. Ouça o que estou dizendo. Você faz tudo o que ela quer. é bom que estejam voltando para a escola no mês que vem. debelar as febres que ardiam por dentro. você está saindo do sério! — Não estou. tinha medo de olhar para R ina de manhã e. Está zangado porque não pôde ir para a varanda dos Randall bolinar Joa n. Não podia dormir. — O que é. — Não lhe agrada a idéia de seus filhos cresce em. Visões nascid as do que aprendera com ela enchiam seus sonhos. Em seguida. no fundo de sua mente. deu boa noite e entrou em casa. quando a via. Julgava que dentro em pouco tudo terminaria. Se rá bem educada lá. tudo isso desaparecia de repente e ele seria capaz de fazer tudo no mundo para agradá-la.

acho que terei de dizer a mamãe. De repente. pelos seios. — Não! Não me to-que! . com a cabeça sobre os braços. Disse que nunca mais. — Claro que não. — Não! — gritava. — Quer um pouco? Como se fosse outra pessoa. agarrou-lhe os pulsos. ou Bill ou Joe. Tinha acon-tecido. procurando-o com os dedos. mas não e ncontrou a garrafa de laranjada que costumava guardar ali. Teria de aca bar com aquela humilhação. — Só mais esta vez — murmurou ela. — E se ela falar com algum deles? Descobrirá que você mentiu. — O que acha? A laranjada escorreu da boca de Rina. como todos os anos. — Nunca mais — prometera. — Não sei. — E. E havia comunicado sua decisão a ela. E quando passou pelo quarto de Rina. ela era mais adulta do que ele. descendo pelo rosto. Só teremos dificuldades e aborrecimentos se continuarmos com isso. tomar a garrafa e levá-la aos lábios. Rina estava sorrindo e disse: — Você está excitado. meio reclinada na cama. Bateu com raiva a por ta da geladeira. Os olhos dela estavam con fiantes e sem medo. no fundo do coração. Especialmente se eu disser que não sei ao certo qual foi. Direi que foi Tommy. com medo de tropeçar e cair. — E. Chegara mesmo a prometer também. Mas acho que não há muitas coisas que ela possa fazer. Tinham ido para a praia naquele verão. Com uma mão. mas a mão dela roçou suas coxas. Ele é que quebrara o juramento. ele encostou sua boca na dela. — Não — ela o olhou com firmeza. custo u a acreditar no que viu.. — Fez isso com algum deles? — perguntou ele rudemente. Dessa vez ela iria apren der a deixá-lo em paz. pelos seios. O ar quente e úmido envol via o corpo de Laddie como uma invisível e asfixiante manta. pela bar riga. de súbito golpeado por intenso ciúme. — Isso é coisa de criança. E tudo por causa daquela maldita garrafa de laranjada. Virou-se para sair. com medo de se mover. Ele quase deu um g rito ante a súbita e ardente tortura do toque. — O que você acha que ela fará? — Não sei. Estava quente e úmi da e ainda havia um gosto de laranjada. Sentiu a cabeça latejar e uma nova onda de suor inundou seu corpo. Mas dessa vez ia ser di ferente. procurando desvencilhar-se dele. — Estou bebendo — Rina replicou. Foi só com você. E era preciso reconhecer qu e ela havia mantido sua palavra. — Não — murmurou com voz rouca. Você ficará com suas amigasse eu com meu amigos. Ela estava nua.areia alva da praia. Subiu. que isso iria acontecer. nunca mais! Ele ficou parado. Em muitos aspectos. levando a garrafa à boca. O gargalo ainda estava quente do contato de Rina. sentindo o quanto aquela perg unta era idiota. Continuou como que paralisado. e contará tudo sobre nós? — Claro que não. Lembrou-se daquela noite. — O que está fazendo com a minha laranjada? — perguntou. Ele a olhou espantado. Então moveu a cabeça e começou a correr os lábio s pelo corpo dela. — Não. Rina começou a se debater. mas está excitado! Um pouco de laranjada se derramou na sua camisa quando ele percebeu que havia se denunciado. Era uma tarde chuvosa e os dois estavam sozinhos no chalé. com a garrafa de laranjada na mão. Sentiu na boc a o gosto do líquido adocicado e olhou para ela. — Por favor — pediu ela. algumas semana s antes. que estava com a porta aberta. Se nada acontecer até amanhã. com aquele rastejar diante dela. Ela sorriu e estendeu a garrafa. até os lençóis. Abriu a geladeira. Ele a viu seguir pela praia para se encontrar com algumas amigas e estendeu-se d e bruços na areia. Sempre soubera. O tremor lhe abalava o corpo. A camisa e as calças es tavam ensopadas de suor quando ele entrou na cozinha. deu um gemido de angústia. ela não fará isso. Ele havia feito um juramento. depois. Laddie viu-se atravessar o quarto. De repente. Ela havia concordado..

acabaram-se as brincadeiras! — Acabaram-se as brincadeiras — murmurou ela. minha queridinha. e ela sentiu de novo a dor rasgá-la.. olhando as ondas que se quebravam na praia e os levavam à in-fância. — Não queria que elas tivessem você. Depois. ela ouviu a voz de Laddie: — Sabe que. Eu é que devia estar maluco.. Ele cobr iu-lhe a boca pesadamente com a mão.Mas ele nem a ouvia. Era Rina. — Eu sei. de olhos muito arre-galados.. Subiu na cama e. Mas chorar não resolve nada. sacudindo com toda força o braço livre. — Eu também. Se fôssemos uma moça e um rapaz dife rentes do que somos. — Creio que sempre fui tão má porque tinha ciúme das pequenas com quem você passeava — confe ssou ela. no fim. Sentiu uma som bra cair sobre ele e se virou. No céu h avia algumas ameaçadoras nuvens negras. E a culpa seria dele.. Nunca deixei outro rapaz me pegar. com lágrimas nos olhos. sentada na proa. apavorada. eu a amo? Ela não respondeu. Ele a beijou violentamente e ela perdeu de repente toda a vontade de resistir. im-pulsivamente. com uma voz em que não havia muita espe-rança. — Mas adotaram. ele nunca deveria ter deixado que aquilo acontecesse. — Agora. Depois não tiveram mais nada o que dizer. Levantou os braços dela acima da c abeça e amarrou seus pulsos na guarda de ferro da cama. e ficaram assim. — Você nada podia fazer. apertando-lhe as mãos com os dedos entrelaçados com os dela. Foi uma coisa que nunca pude vencer. estou com medo. — Com homem não se brinca. Estou. pegou a garrafa qu ase vazia e perguntou: — Ainda está com sede? Rina fez que sim com a cabeça. ouviu? — gritou ele. e com razão. de mãos dadas. Todos o culpariam. Depois de algum tempo. — É verdade que não somos realmente irmãos. — Quem sabe? — disse ele. — Não chore. — T alvez tudo ainda acabe bem. E não podemos culpá-los por isso. fugiríamos hoje mesmo para nos casar. fazendo-a cair na cama. E. Foi então que aquela dor aguda e forte lhe penetrou o corpo Deu um grito. Fizeram o que jul-garam melhor — disse Rina. No dia seguinte sua mãe saberi a. Ficou ainda mais furioso. — Não posso deixar de chorar. Estava na hora de voltar. Rina.. A pancada a atingiu bem no rosto. Começou a fazer le . começou a rir.. enquanto a laranjada se derramava sobre e la. — Acho que sempre a amei. Não podia tolerá-los. Laddie estava ao leme de seu barquinho a vela e olhava a mãe.. Tudo estava perdido.. As outras moças todas nada significavam para mim quando as comparava com você. As lágrimas rolavam pelas faces de Rina. Laddie rolou o corpo na areia. segurando suas pernas. mesmo você sendo minha irmã. de onde ficou a o-lhá-lo. Sentiu as unhas dela arranhando-o. abrindo-lhe um rastro de do r e sangue na carne. Fossem quais fossem as ci rcunstâncias. que se sentou a seu lado e perguntou: — E agora? O que vamos fazer? — Não sei. Se não a tivessem ado-tado. Sen tiu uma pancada de vento na vela e automaticamente virou um pouco o leme. Ela pegou sua mão e disse num sussurro: — Eu não devia ter deixado. — Beba! Beba tudo que quiser! Jogou a garrafa longe. — Cadela! — exclamou ele. Laddie virou a garrafa e. — Talvez — murmurou ela. só ficaram o som de sua voz vibrando no fundo da garganta e o pavor do corpo dele no seu. prendeu-as com os joelhos. A raiva fazia latejar suas têmporas e havia em seu peito uma fornalha ardente. tirando o cinto das calças. Foi por isso que fiz o que fiz.

mamãe — confirmou ele... Quisera que eles tivessem tudo. Pode contar pra mim. mamãe.. co m Rina? — Sim. — Não há nada que você possa fazer! Nada mais que ninguém possa fazer! — Por que não tenta comigo? — disse ela. Laddie. — Ela vai ter um filho. não! — É verdade. . Os l ivros. enquanto as ondas batiam com força no casco do barco. mamãe. — Não sei o que meus dois filhinhos têm ultimamente. sim! — gritou de repente. em si mesmo. As palavras come-çaram a sair-lhe impulsi vamente da boca e ele falou com voz cheia de tensão e olhos agoniados: — Não sei o que me deu. — É que tenho de prestar atenção ao barco. Ficaram alguns instantes em silêncio. Laddie. Gosto dela. estão errados. pensou Geraldine.. E uma dessas coisas infelizes que não se podem evitar. mamãe! Eu não a amo como irmã. — Mas. ele não pôde mais conter-se. . — É alguma coisa. E o filho é meu. retomando o leme. Sentiu os olhos se molha -rem. Pensou em Rina. Parecia saber que alguma coisa o estava afligindo. com v oz suave e terna. Mas não é. mamãe? Ela olhou para o filho com uma tristeza tão grande que não podia explicar. A culpa de tudo o que aconteceu é minha. Ela ainda é uma menina. e uma tristeza imensa o invadiu. Ele se inclinou para tomar a mão da mãe e levá-la aos lábios. com toda confiança. meu filho. Nesse momento. Não era possível que aquilo acontecesse a seus filhos. encarando a mãe. — É horrível. desculpe. — Rina é uma moça muito bonita. e ela agora está grávida! — Oh. Ao fim de algum tempo. — Nada. — Sim. de uma maneira diferen te. Sentiu a mãe abraçar sua cabeça de encontro ao seio. Geraldine nada disse. como fi-zera tantas vezes quando ele era pequeno. — Tem estado bem calado esta manhã. e os soluços sacudiram seu peito. mamãe — ele obedeceu. — Eu a amo. ela não é d verdade minha irmã. Compreenderei e pro-curarei ajudá-lo. "Diferente". Geraldine cobriu o rosto com as mãos e chorou. mamãe. seja lá o que for. sentindo-se estranhamente aliviado depois de haver d ito tudo. mamãe? — A primeira coisa que temos de fazer é dizer a Rina que compreendemos. Andam ambos tão esquisitos! Ele não respondeu. não é.. — Vai voltar. — Nada — balbuciou ele. — Acho que é melhor voltarmos — ela conseguiu dizer. Ela havia com-preendido e não o condenara. surpresa. Geraldine olhou para o filho e um brilho de intuição pareceu rasgar o véu cinzento que lhe caíra diante dos olhos. sentindo um curioso temor.. Mas ela insistira em dar aquele pass eio. do-minar-se. O rapaz deu um suspiro e começou a se sentir melhor. — Não faz mal. mamãe! Fui eu que a forcei. fizera tudo por eles.ntamente a manobra. Laddie? — Sim. — É horrível dizer isso. Laddie. mamãe.. meu filho.. você está chorando! — exclamou a mãe. Parecia estranho que ela estivesse a bordo. Eu sei que há. A pobrezinha deve estar apavorada. — Não. Sempre pensei que crescer fosse uma coisa maravilhosa. nos pais. Crescer é uma merda! Oh. mamãe — disse ele calmamente. afinal de contas. Há alguma coisa. mamãe. — O que há com meu filhinho? O que está preocupando o meu Laddie? — perguntou ela. Laddie. tentando conter as lágrimas. Acredito que qualquer pessoa acharia difícil não a mar sua irmã. Laddie. — Não. afinal. e tudo o que dizem. — E. conseguiu.. — O que vamos fazer. Não tirava os olhos daquelas nuvens de temporal. — Não culpe Rina. Tanto valia essa palavra quanto outra qualquer.

dessa vez com um pouco mais de força. — Não compreendo. Alguém bateu de novo à porta. Bradley? — Um momento — disse a professora. petrificada. Havia dez anos que ela e Sally eram inse paráveis. as cartas chegavam duas vezes por semana. — Muito obrigada. posso voltar depois. mas tão de leve que ela a princípio nem ouviu. estava tudo acabado. o temporal os colhe u do lado de boreste e virou o barco. Foram as últimas palavras que proferiu na vida. o batom um pouco manchado. Abriu prontamente a porta e recebeu a carta. Os olhos estavam vermelhos e inchados. — Não. Rina olhou para a professora e teve a impressão de que el a havia chorado. Seria possível que Sally houvesse encontrado al-guém? Ou outra amiga com quem pudesse falar de seus segredos? Nesse instante. Se quiser. Tornaram a bater. inquiet a. A esbelta moça loura de dezesseis anos que esta va à sua frente ficava cercada de rapazes em todos os bailes. Posso falar um instante com a senhora. A professora sabia que o que a contecia era justamente o contrário. em geral. casei-me ontem. Abriu a t orneira e limpou a maquilagem do rosto. minha filha — Queria saber se podia ser dispensada do baile de sábado à noite. Foi até a porta e a abriu. com sua voz rouca. Rina viu. Querida Peggy. Correu para a mesa e a abriu. enqu anto um terrível líquido começava a derramar-se de seu corpo. olhando-a cheio de ternura. Perder o baile mensal era considerado o maior dos castigos. srta. Começou a sentir uma violenta vertigem n ascer dentro dela. Disse: — Desculpe se a estou incomodando. Foi até a janela e olhou. Agora. levantando-se aborrecida. os pescadores trazerem para a praia os dois corpos encolh idos e inertes. O envelope mostrava a letra de Sally. pensou co m estranheza que ainda não recebera a carta de Sally.. Era a única ocasião em que se permitia a ent rada de rapazes na escola. srta. Thomas. Bradley — disse com sua voz trêmula o porteiro Thomas. minha filha.— Você é tão boa. Bradley. Estavam cobertas com os garranchos hieroglíficos das meninas que passavam pela sua aula de Ciências. Era de muito boa famíl . Um espasmo no meio do corpo de repente a fez dobrar-se e cair de joelhos na areia ao lado dos dois cadáveres. Não poderia ser porque os rapazes não gostassem dela. As meninas eram capazes de tudo para não perder aquela oportunidade. Parecia ter mais que seus vinte e seis anos. Olhando para as coisas que a cortina de cinza do crepúsculo amortalhava. Fechou os olhos para chorar. Laddie e a mamãe. — O que acontece é que não estou com vontade nenhuma de ir — explicou Rina. ano a ano. — Quem é? — perguntou a srta. Foi até o banheiro e mirou-se no espelho. Olhou-os. mamãe — disse. — Quem é? — Carta expressa para a senhora. — O que é. dia a dia. bateram à porta e ela se voltou. Estava cansada de carregar às costas aquela tarefa enfadonha. sem poder acreditar no que ouvia. Está tudo certo — a professora foi até a mesa e se sentou. Margaret Bradley a encarou. c om toda regularidade.. não. Nesse momento. — Rina Marlowe. 8 Margaret Bradley olhou com raiva para as provas que lhe enchiam a mesa. Já havia mais de duas semanas que não tinha notícias dela e. Afastou tudo para o lado e se levantou. espantada. com os olhos no chão.

Não adiantava permitir que o ressentimento de-nunciasse sua amargura. Foi para a pequena kitchenette e se surpreendeu cantarolando enquanto acendia o gás sob a chaleira. — Acho que será ótimo para ela passar o verão na Europa até chegar o tempo de entrar para o Smith College no outono — disse Margaret Bradley. decidida. fez mais do que. encontrara Rina. Mas só fora compreender isso alguns meses antes. agarrá-la? Rina fez que sim com a cabeça. e ela ficou surpresa com o profundo medo que percebeu nos olhos da moça. minha filha — disse Margaret Bradley. Harrison Marlowe recostou-se na cadeira e olhou para a professora. Marlowe fez um gesto de assentimento. — Os rapazes. — Não posso suportar que me agarrem — disse ela. — Seu pedido é um pouco estranho.. — Proibiremos termina ntemente a entra-da deles.ia. Depois para Rina.. Quer me ac ompanhar? — Mas seria muito incômodo — disse Rina. Estava com um vestido azul que de algum modo a fazia um pouco mais velha. não se pode considerar completa a educação de uma moça que nunca foi à Europ a — reforçou categoricamente a professora.. Todos querem me agarrar. — Algum deles. com os olhos brilhando. — Sério? — perguntou Rina. — Rina! O que está fazendo em casa? — Fiquei pensando em como você devia estar se sentindo sozinho nesta casa tão grande e resolvi roubar alguns dias da escola para vir fazer-lhe companhia. e eu sinto arrepios na pele. — E seus estudos? — Estou com boas notas e estudarei um pouco mais depois. A professora levantou-se. Não me incomodar ia se quisessem apenas dançar e conversar mas estão sempre querendo levar a gente pa ra algum canto. impulsiva. Eu sentia a mesma coisa quando tinha sua idade. papai. — Escute. No mesmo instante. Não tinha as m aneiras grosseiras tão habituais nas moças daquele tempo. — Pensei que fosse só eu. compreende u que devia controlar-se. . — Pode falar à vontade comigo. acho que já deve saber que os rapazes são sempre assim. — Quantos anos você tem? — Dezesseis. ao vol tar para casa. Nada havia nela de melin-d rosa. sentada à mesa do jantar. forçando um sorriso nos lábios. surpresa. Rina levantou se e disse nervosamente: — Vou embora! Acho que não adianta nada mesmo! — Espere um pouco! — ordenou Margaret Bradley. — Na realidade. tomou Rina amistosamente pela mão e a levou para uma cad eira. Era muito séria e franca. Usava roupas simple s. — Quem? — perguntou Margaret Bradley. — Você está com medo de alguma coisa. que pareciam proclamar-lhe a profissão. — Quais são esses rapazes? — perguntou a professora. num sussurro. minha filha. Não era bonita. que eu já venho trazer o chá. a professora. — Não será nenhum incômodo. — Então. viúvo. Rina continuou com os olhos voltados para o chão e não respondeu. Você deve ter algum motivo. pois Rina tornou a olhar para o chão. O cabe lo muito louro brilhava na penumbra da sala. O pai dela era um banqueiro. mas ainda não devia ter trinta anos. — Oi. Aquela criatura lhe inspira va confiança. com voz áspera. ia agora mesmo preparar um pouco de chá para mim. hesitante. pensando na grande responsabilidade que er a criar uma filha. — Ora. costumes quase masculinos. Não sou assim tão mais velha que não possa compreender. Nenhuma das m inhas colegas é assim! — É porque são bobas! — replicou. que estava à frente dela. Rina olhou-a. Foi só por um breve instante. Os Marlowe eram bem conhecidos em Boston. quando.. Sente-se aí e fique à vontade. — A mãe dela e eu muitas vezes conversamos sobre a ida de Rina à Eu-ropa.

ela foi sentar no braço de sua poltrona. sou. Sentiu as lágrimas subirem aos olhos e voltou rapidamente a cabeça para que Rina não v isse. — Não pode. Pela primeira vez na vida. Rina provou delicadamente a bebida. com um sorriso cansado. papai? — Claro que estou. segura e necessária. Mais tarde. rindo. Sentiu a mão dela no braço e voltou-se para ela.. Os olhos da filha estavam che ios de compreensão e amizade. pegando uma garrafa de uísque. deixou de ser pai dela. posso passar muito bem sem eles. E é por isso que me metem medo. Beijou-o na boca e ele sentiu os lábios quentes. Galinha assada com batatas co-radas. — E que espécie de homem agradaria à Sua Maj estade? — Acho que um homem mais velho. papai? Ele a olhou. — Posso. papai. bonita como estava. que não dão um momento de descanso pra gente. — Não está contente de me ver. Ouviu a voz repassada de ternu ra. e ele teve consciência dos seios firme s e rígidos a que encostara o rosto. — Não. Vou ficar aqui para tomar conta da casa e de vo cê. As garrafas estavam alinhadas para ele. Os rapazes são sempre ansiosos por conseguir alguma coisa e mostrar que são fortes e mais importantes. Era apenas um homem sozinho que chorava ao colo da mãe. deixei de me sentir uma menina. papai. ela exclamou. Depois que ele a beijou no rosto. Levantou depois o cálice num brinde. — Namorados? Ora. quase uma mulher no seu vestido azul. com um sorriso cordial. Deixou que ela o levasse para se sentar no sofá ao lad o dela. — Mas não sou mais uma garotinha. São um bando de animaizinh os ansiosos. — Desde quando era uma garotinha. — Não vou mais para a escola. hein? — disse ele. Havia até um balde de gelo pi-cado. Uma pessoa que faça a gente se sentir protegida. Sinto-me um a pessoa adulta e neces-sária. — O que comeremos no jantar? — perguntou ele. por que não me beija? — disse ela. Hesitou um instante e. zombeteiramente. — Achei que talvez quisesse beber alguma coisa antes do jantar. acho que não. — Então. então. oferecendo a face para e-le. Sentiu os braços jovens e fortes passados pelo s seus ombros e as mãos que acariciavam seu cabelo. papai. ela o abraçou e disse: — Agora quem vai beijá-lo sou eu. . Talvez alguém como você.. Ela se virou para o bufê. querida.. que sussurrava: — Pobre papai! Pobre papai! Mas esse momento se desvaneceu rapidamente. — É porque são ainda muito moços — retrucou ele. O hábito era uma coisa muito estranha. rindo: — O seu bigode faz cócegas! — Você sempre disse isso — murmurou ele. Naquele momento. Colocou um dos cáli ces em cima do bufê. — Eu sei. — Não. sorrindo. — Em pouco tempo você cansaria disso — replicou ele. — Está delicioso — apreciou com as mesmas palavras e o mesmo tom de voz que ele tantas vezes ouvira de Geraldine.. Só se interessam por aquilo que querem e não p ensam um só momento em mim. Só mais tarde é que percebeu que tinha dois coquetéis na mão. Mas ela segurou sua mão. — Acho que fiz um papel bem ridículo. Os pais de muitas das minhas colegas na escola consentem que elas tomem um coquetel antes do jantar. papai? Tenho mais de dezesseis anos. Harrison Marlowe pegou o outro cálice. — Mandei Molly fazer o que você gosta. pegou a garrafa de gim. derramou metade dentro da coqueteleira e en tregou-lhe o coquetel. — Você ainda tem muito tempo para crescer — disse ele. da filha. da esposa. — Sentira falta da agitação d a escola.— Mas. — Ótimo — exclamou. depois do jantar. Levantou a cabeça instantaneamente. Depois. Não posso suportá-los. dos namorados. — Por que não toma um martini? Há muito tempo que não toma.

Também não houvera hesitação quando ela su-gerira que Rina precisava de um novo guarda-roupa para a vi agem. Margaret Bradley baixou prontamente os olhos para o prato. — Satisfeita? — perguntou Margaret Bradley. ce rimoniosamente —. Tirou o abrigo leve de primavera e sentou numa poltrona funda e . compreenderá. indignada. Ninguém compreenderá que você abandone os estudos para vir meter-se dentro de casa. papai! — Não. Esperaria o mo mento oportuno. muito melhor. O resto comprariam em Paris. Agora acho que devemos descer para nosso c amarote e descansar um pouco até a hora do jantar. — Parece um sonho — disse Rina. As caixas estavam sobre a cama. Estava ansiosa por ver a expressão nos olhos de Rina quando as visse. — Não quero casar! Não quero ter filhos! Nunca deixare i nenhum rapaz botar as mãos sujas em cima de mim! — Rina! — exclamou ele. quando estiv er casada e com filhos. papai — continuou ela. você não vai ficar aqui em casa. Bradley — disse Marlowe. a porta do quarto bater violentamente. mas ela não chamou atenção para o fato. Ela o olhou fixamente e seus olhos se encheram de lágrimas. Dinheiro não era problema para Harrison Marlowe quando era preciso fazer alguma coisa para a filh a. cujos olhos brilhavam cheios de expectativa. com a voz entrecortada de soluços. então. — Nunca! — exclamou ela. Passaremos seis dias a bordo do Leviathan. Vai voltar para a escola amanhã mesmo. papai. srta. Ele ouviu seus passos apressados pela escada e. — Vai ficar. — Não. — Não! — disse ele em voz alta. — Mas não estou nem um pouquinho cansada — protestou Rina. Voltou ao presente. Margaret não pôde deixar de se impressionar quando entrou na cabine. — Obrigada sr Marlowe — agradeceu. — Não gosta de mim.Rina alisou a cabeça do pai. O banqueiro se limitou a entregar-lhe um cheque de mil dólares e dizer que s e não fosse suficiente bastaria avisá-lo. — Mas eu só quero ficar com você. — Mas não podemos nos roteger suficientemente do mundo a nossa volta. querida! — disse ele. com duas camas e banheiro. — Tenho certeza de que a mãe de Rina. papai? — perguntou ela. assustada. minha filha. com olhos radiantes. teria o prazer que tenho em confiar nossa filha a suas mãos experi entes. Você terá tem-po de sobia para ver tudo. — Não o quê. A água em volta do navio era verde-garrafa e já não se avistava mais a terra. Margaret havia comprado várias coisas que mandara diretamente par a bordo. 9 Ficaram no convés até passarem pela Estátua da Liberdade e a ilha Ellis. à mesa a que estava sentado com a professora e com Rina. Era um camarote de primeira classe. — Oh. Eu te amo muito. — Não sou eu quem não compre ende. se fosse viva. a fim de que ele não vi sse o brilho de triunfo que se acendera neles. Era outra vez uma meni na. com voz escandalizada. é você! E no mesmo instante saiu correndo da sala. cheio de compaixão. — E ainda vai ser melhor. tão alta que ele mesmo se surpreendeu com a inesperada v iolência de sua reação. apenas nos escondendo dentro de um caracol. com modéstia afetada. sem Rina saber. papai? Não quer que eu fique com você? — É claro que gosto de você. — Gosto tanto do seu cabelo com esse toque grisalho! É uma pena que eu não possa me ca sar com você. Sei que você pode querer isso agora. Vou mandar Peters levá-la. mais tarde. Haviam comprado algumas coisas em Nova Iorque. mas. Porém.

Bradley! Quero dizer. deixando os ombros n us. parecendo mais prateado em contraste com a pele bronzeada. Bradley. — Viva! — Margaret sorriu e provou o vinho. A fisionomia de Rina ao abrir as caixas foi tudo o que Margaret poderia ter dese jado. Nunca a tinha visto fumar. srta. Descobrirá que são muitas as mulheres européias que fumam. Viu Rina sair do banheiro. Não são tão provincianas quanto nós. Satisfeita. O longo cabelo louro lhe c aía pelos ombros. Ela viu Rina acender um cigarro e riu quando a garota começou a tossir. Bater am de leve na porta e Rina olhou para Margaret. Peggy. Depois escovou o cabelo e o prendeu. — Srta. Rina. — É bom para o apetite em seu primeiro di a no mar. Satisfeita. E a professora insistiu: — Fume.confortável. — Pedi um pouco de xerez — disse a professora. Logo que sentaram à mesa. — Não engula a fumaça. Ajuda a evitar o enjôo. Quando entraram no salão de jantar uma hora depois. os quadris eram retos e as pernas secas. Seus pequenos seios com os bicos diminutos não eram maiores que os de m uitos homens. querida. — É muito divertido. — Assim está melhor — disse Margaret. — Um daqueles horríveis vestidos que você usava nos bailes da escola? Não! — Acho que são muito bonitos — disse Rina. — Fico contente por você gostar. Rina. — Quer um? — disse ela. Esse pijama! — Gosta? — perguntou Margaret. Margaret cobriu com sua mão a mão de Ri-na e disse: — Você está linda. srta. talvez. Rina prendeu a fumaça na boca e deixou-a sair devagar. Rina olhou-a. deixou o banheiro e entrou no quarto. Rina tomou mais um gole e perguntou: — Devo estrear o meu novo vestido azul para o jantar? — Os jantares da primeira classe exigem traje a rigor. Só depois de acender o cigarro foi que notou que Rina a olhava. De agora em diante. você tem de me chamar de Peggy. agora que já estamos viajando. Abriu a bolsa e pegou um maço de cigarros. todos os olhares masculino s as seguiram. — Escute. — Peggy! — Quero dizer. Mas não para uma jovem senhorita em sua primeira viagem à Euro pa. Rina hesitou. Não faz mal algum. espantada. Peggy. Rina escolheu um vestido preto que colou a seu corpo. Talvez encontre nelas al-guma coisa que p ossa vestir. podemos deixar de formalidades. — É bom — disse Rina. Vestiu o pijama de seda. Margaret largou a toalha e parou em frente ao espelho para olhar-se inteira. — Que tal? — Ótimo. entregando-lhe o maço. Margaret achou que já havia brincado além da conta com Rina e disse: — Aquelas caixas em cima da cama são suas. passou as mãos pelos lados do corpo e espreguiçou-se volup-t uosamente. Rina fez que sim. — Tenho alguns vestidos de festa que posso usar. Uma vez mais olhou-se no espelho. Rina? — Pode ir na frente. abotoou as calças que tinham braguilha como se fossem de homem e vestiu o pequeno bolero justo. da cabeça aos pés. amarrando o cinto do roupão. Tomou a bandeja das mãos do garçom e deu um copo a Rina. . — Pode ir. com uma leve expressão de enfado. — Para meninas. Sua silhueta era quase masculina. Quer to-mar banho primeiro. — Não sei então o que vou vestir. espantada. Bradley.

Apagou as luzes e foi para perto de Margaret. Estão tocando uma valsa. — Fiqu e descansada que ele nunca saberá.— É de brocado chinês legítimo. Bradley. — Está. Margaret perguntou: — O que está achando tão engraçado? — Minha camisola estala e solta pequenas faíscas quando me movo. e acrescentou. Dá umas pequenas faíscas azuis. Rina levantou-se. Você sabe tornar tudo tão maravilhoso! — É exatamente como quero que tudo seja para você — disse. Tomou o resto de champanhe e estendeu a taça para Margaret. Bradley. não acha? — perguntou Margaret. A camisola branca levantou enquanto ela girava. levantando e girando pelo quarto ao compasso da música. — Pois não. sim. — Será ótimo! — aprovou Rina. — Sempre quis beber champanhe. — Não está ouvindo a música. — Também co mprei algumas camisolas. — Posso tomar mais um pouquinho? — Sem dúvida — Margaret tornou a encher sua taça. — Parece um re-frigerante feito de vi nho. Rina pousou o copo e começou a rir. mostrando suas pernas longas e b ronzeadas. E aquele pijama era o pr esente de que Margaret mais tinha gostado. Correu as mãos pelos lados da camiso la e saíram faíscas diminutas das pontas dos dedos dela. Ambas riram quando as pequena . — Por que não veste a branca esta noite? — Está bem. Sentiu os olhos de Rina em seu pequeno busto e pegou de novo na taça. Peggy. Vou é tirar minh a blusa. Peggy? — É a orquestra do salão de baile. tirou do armário uma camisola de algodão e foi indo para o banheiro. — Está fazendo calor. — corrigiu Margaret. Uma amiga me mandou a fazenda de San Francisco e eu mesm a desenhei o modelo. E stá vendo? — Não. abrindo a caixa. Rina. Rina levantou da cadeira. A seda é boa condutora de eletricid ade. — Mas são de seda! — exclamou Rina. — Poderíamos ficar resfriadas com a corrente de ar. vou pedir uma garrafa de champanhe. — Espere um pouco — chamou Margaret. Margaret sentiu um aperto na boca do estômago e ficou de pé. apanhando uma caixa menor em seu armário. — Isso é o que se chama eletricidade estática. — Tinha receio de que você quisesse usar aquelas coisas horríveis do enxoval da escola . — Pode dar-me o praze r desta dança. como se só então a idéia lhe houvesse ocorrido: — O que acha de festejarmos nossa viagem com uma festa íntima? En-quanto você troca de roupa. Margaret passou o braço em torno da cintura de Rina. sr. fazendo uma reverência zombeteira. rindo. pegando no telefone. Era preciso fazer justiça a Sally: tinha muito bom gosto. Rina olhou para a caixa. — Eu sei. — Há uma cor diferente para cada noite da semana. srta. — Prometo que isso será um segredo entre nós — disse Margaret. srta. Quer que eu ligue o ventilador? — Não — disse Margaret. Lembro-me de você ter ensinado isso na aula. Mas é mais gostoso e não é muito doce. Não sei como agradecer. —Já estou comprometida para as ou-tras. Marlowe? — Só esta — disse Rina. — Também gosto de dançar — emendou. sorrindo. Rina riu. Bradley. São todas tão bonitas que nem sei qual vou vestir primeiro. — Você se importa que eu fique assim? Rina negou com a cabeça e tomou outro gole de champanhe. — Vou apagar a luz para você poder ver. — Gosto de dançar — disse Rina. — Sr. — Gosto de champanhe — Rina deu um pequeno gole. mas papai nunca deixou .

Peggy? Eu também queria. — Melhorou — disse Rina.s faíscas azuis estalaram da camisola de Rina. Diga qual é o sonho. Rina abriu os olhos. Não há segredos entre nós. amarrou minhas mãos na cama com o cinto dele e fez aquil o comigo. Alguns dias depois. parou de maneira abrupta. — Laddie? — Meu irmão. Margaret não respondeu. amadurecida. encostando ao seio a cabeça de Rina. colocou a taça na mesinha-de-cabeceira e estendeu-se nos lençóis. Somos amigas. — Todas as moças amam os irmãos. — Acha que vou estragar nossa festa? — Deite um minuto. Bebeu e devolveu a taça a Mar-garet. desviando o olhar — Pode contar tudo. — Desde que Laddie morreu. E eu nem tenho mais esse sonho. Rina foi até a cama. — Ele. Só tem uma conversa: rapazes. depois de alguns minutos de silêncio. com eçou a valsar furiosamente com ela e. Ele e meu pai foram os dois únicos homens de quem re-almente gostei. em dado momento. — E como sabe que o amava? — Apenas sei.. — Um pouco mais de champanhe? — perguntou Margaret. Isso não acabará com a festa. olhando para o rosto de Margaret.. — Obrigada. Irei sentar na cama a seu lado. As meninas na escola sempre me pareceram muito bobinhas. Vi logo que você era diferent e. — Mas machucou! Não compreende. Mas um dia ele entrou no meu quarto. Margaret começou a alisar a cabeça dela levemente. Eu fui adotada. — Acha? — perguntou Margaret. — Ele deve ter sido muito bonito. — São quase todas meninas tolas — disse Margaret. não ficarei zangada com você — disse Margaret. sentindo seu ciúme aumentar. — Foi por isso que gostei de você desde o momento em que entrou no meu quarto naquela noite. Margaret sentiu as pernas trêmulas co m o calor dos seios de Rina através da seda da camisola. — Eu não deixava que ele me tocasse. quando el e fez o que nós dois queríamos. — Não! — Sonhará. quase com as-pereza. e eu a ajudarei. nunca mais pude suportar rapazes. — Está se sentindo melhor? — Ainda vejo tudo rodando. Ela tomou o meu lugar no sonho. — Estou muito satisfeita de irmos à Europa juntas — disse Rina de repente. — E era. Você faz tudo tão bem! Mas essa dança me deixou um pouco tonta. ele saiu de barco para dar um passeio junto com mamãe e os dois morreram. — Conte-me! A voz de Rina saiu abafada pelo travesseiro. fiquei sabendo que o amava. virando o rosto para o lado. Eu é que devia morrer e não mamãe. Vivia a provocá-lo e. — Ele não era meu irmão de verdade. — A tontura já passou. — Não vai ficar zangada comigo? — Não. Machucou-me tanto! — Machucou você é porque não a amava. que a pegou com um sorriso. — É melhor tomarmos um pouco de champanhe — sugeriu. — Acha que podemos? — disse ela. Rina. mas continuou alisando a cabeça dela. — Você danç muito bem. enchendo novamente as taças. — Conte-me o sonho e vamos ver Rina respirou profundamente e murmurou: . — Nunca — disse Rina. fez alguma coisa com você? — Nunca falei sobre isso com ninguém — disse Rina. — Nunca tive até hoje uma amiga íntima de verdade. Creio que o amava — disse Rina. — Não tem importância — replicou Margaret. E acho que ele também me amava. Segurando firme a moça. Rina parou de chorar. — Talvez seja bom você deitar em sua cama e descansar um momento. Rina fez um sinal afirmativo. Margaret sentou-se ao lado dela. E você é melhor como cavalheiro do que qualquer dos rapazes que vão aos bai les da escola. Começou a soluçar e continuou: — A culpada de tudo fui eu. sim. — Você voltará a sonhar — disse Margaret. com medo do que poderia acontecer..

Margaret sentiu um arrepio de excitação pelo corpo. pelas minhas coxas. — Sinto-me tão segura com você. com um sorriso contente no rosto. Rina. tirando as calças do pijama. Deles eu tenho medo. — É um sacrilégi o. Rina! É a mulher. Goze comigo!. — Mas eu. Muito gelo. Rina! Por favor.. mais bonita do mundo! É tão bela que não pode morrer! — Acha mesmo que sou bonita? — Sim — disse Margaret. e já deveria saber que ninguém deve l ntar-se da mesa com pressa depois que acaba de comer. que n o que toquem em mim. Está vendo como tudo é liso e chato. Agora feche os olhos. E então ouviu-lhe a voz rouca. — Por favor. chor ando. Mas não tenho medo de você Com um sussurro de agonia. porque todos me pediam que não morresse. — Monsieur? Jacques olhou para Rina e ela disse: — Pernod.. tão bem! — murmurou Rina. Garçom! O garçom apareceu e cumprimentou respeitosamente. Goze em mim! Como amo você. — Você não é como os rapazes. — Vou ser Laddie. não morra! Beijou-a na boca. — Basta olhar para mim para ver com o você é bonita. — Tanta pressa depois de um almoço como esse! — exclamou Jacques Deschamps. — Já está em Paris há mais de um ano — disse Jacques —. sentiu por um momento o fogo da língua de Rina. De repente. satisfeita. Rina abriu os olh os. Sentiu-se tomada de súbito medo. Depois. Quem você quer que eu seja? — Quer ser Laddie? — perguntou timidamente Rina. ao mesmo tempo que cobria de beijos as faces macias. Rina sorriu para o avocat magro e um pouco grisalho. dizendo isso. Deve tomar um licor antes de ir. sussurrando — Penetre em mim. cobria de beijos o rosto de Rina. Margaret olhou-a e de repente seus olhos se encheram de lágrimas. — Bem sabe que nunca serei uma pintora. Estava morta. como se eu fosse um homem? Deitou na cama ao lado de Rina e começou a acariciar-lhe os seios. Margaret tirou-lhe lentamente a camisola e murmurou: — Você é linda. Seja o que for. não morra! Rina não se moveu e Margaret caiu de joelhos ao lado da cama. pela minha barriga. Mas eu não podia fazer nada. — Amo-a. voltou-se para Ri-na: — Como vai a pintura? Está fazendo progressos? Rina riu. Ele estremeceu e repetiu ao garçom: — Muito gelo. — Muito bem. E para o monsieur? O de costume? Jacques fez sinal que sim e o garçom sé afastou. Peggy? Tornou a fechar os olhos. — Mas está se divertindo? Ela voltou os olhos para a rua.— Eu sonhava que estava morta e que todo mundo estava em volta de minha cama. Eu sabia o quanto me amavam.. Duas e meia. Pairava no ar aquele cheiro de maio característico . terá de espe rar. Rina estava morta. Morta de verdade! — Rina! Não morra! Por favor. — Mas você está chorando mesmo. meu Laddie! 10 Rina olhou para o relógio. e vamos representar o sonho.. Não ouviu a mademoiselle? O garçom olhou Rina com aquele ar entendido de apreciação que parece comum a todos os franceses. Margaret virou-se na cama e abriu com os joelhos as p ernas de Rina. Olhe! Passe a mão pelos meus seios. Rina! Não posso viver sem você! E. Laddie. — Preciso mesmo ir embora. Levantou e disse: — Feche os olhos.

Podia casar. num dia exatamente como aquele. — Ela acaba de consegui r um emprego na universidade. toda vermelha. As possibilidades são muitas. — Não respondeu a minha pergunta — insistiu ele. você não é. qu ando ouviu uma voz. Está com uma b arriga deste tamanho.. quando o telefone toc ou. sorrindo amavelmente.. Ela olhou para as mãos dele e viu a aliança. até que está sendo divertido. Ela sorrira. O que não compreendo é você. — Ser sua amante? — disse ela. não se esqueça de que estamos na França. — Posso saber o que uma moça tão bonita está fazendo sozinha com uma revista? Quem é tão ins ensato a ponto de trazê-la para uma festa como esta e depois. — Isso não pode saber. Era Jacques. — Falo inglês — dissera ele prontamente. com um olhar diferente.. — Não. — À votre santé — repetiu Rina. — Porque sinto que é a verdade. podia a-té. — Mademoiselle américaine? Ela levantara os olhos. enquanto o garçom chegava com as bebida s. — Mas não tem muita certeza. — Rina pegou seu copo. que se aproxi-mava. Seu francês não era suficiente para manter um diálogo fluente e ela se retirara para um canto. — Foi minha amiga que me trouxe — disse Rina. __ Sim. enigmático. Ela olhou para o cálice de licor e não respondeu. É muito boa para mim. Uma bela tarde. rindo. Peggy fora a uma festa dada por um professor da universidade onde ela c omeçara a trabalhar. ab-solutamente. — Escute. Para dizer a verdade. sabe? Não sei o que faria sem ela. — Acha mesmo que vou acreditar nisso? E sua mulher.. só vim até aqui na esperança de encontrá-la. — Sua amiga não é a solução — continuou ele. — E quem foi que o senhor trouxe? — Ninguém.. Rina sentia-se muito sozinha na festa. Ela e Peggy já estavam em Paris havia alguns meses e tinham se mudado pouco antes para um apartamento. — Você é muito bom. — Oh! — exclamou ele. uma mulher desse tipo. o que dirá? — Minha mulher compreenderia perfeitamente tudo. . sorrindo. E apenas uma boa amiga e nada mais. apontando Peggy. ter filhos. — Sim. moreno.de Paris. depois que o pai lhe dera permissão para passar um ano todo e m Paris. ela estava sozinha no apartamento. Os motoristas dos caminhões já estavam em mangas de camisa e as mulheres haviam desde muito abandonado os deselegantes e pesados casacos de inverno. com um toque grisalho nas têmporas. — Non parla fran. — E sua amiga? Como vai ela? — Peggy vai otimamente. quando de repente ele perguntou: — Por que tem tanto medo dos homens? — Por que diz isso? — replicou ela. Peggy não tem nada com isso. Não é a pior coisa que lhe poderia acontecer. Ela não pôde vir comigo. Peggy estava conversando animadamente com um dos professores. Ainda estavam rindo quando ela ouviu a voz de Peggy. Estava folheando uma revista. querida? Algumas semanas depois. Isso não é ne-nhum crime. — Está se divertindo muito. erguendo o copo. No fundo.. Jacques — disse ela. — Claro que tenho — afirmou ela. estavam bebendo tranqüilamente seu s licores depois do almoço. — À votre santé — disse ele. Mas já sabe as minhas condições. até ser minha amante. É jovem e bela. Parecia muito simpát ica em seu terno feito sob encomenda. Viu um homem pequeno. nós compreendemo essas coisas. Isso aconteceu vá-ri as vezes depois. e ela aceitou o convite para almoçarem juntos. lembrando-se do dia em que soubera das condições d ele. Nunca experimentou.

procuraremos outro. E durante todo o t empo ela sentiu em si a força de levá-lo a um estado de êxtase do qual ele não podia mai s voltar e que não encerrava nenhum temor. — Minha professora. — Quando você ama. Ela tomou-lhe as mãos morenas e fortes e olhou-as. Mas nem por isso acho qu e só as mulheres sabem amar.— Não acho que esteja sendo muito delicado comigo. gentil e não a ofendeu. arrumou a camisa e pegou a gravata. — Preferiria então que eu fosse dormir com algum idiota bruto e egoísta que nada sabe e a quem pouco interessa o que eu sinto? — Não. nem se pensa nessas coisas. Jacques — chamou-o para si de braços abertos. querida — disse ele —. Não gostaria absolutamente disso. Jacques. — Tem sido sua professora. — Bon. — Diferente por quê? Por que é diferente para você e não é para mim? — Um homem pode ser infiel à sua esposa. — Por que acha que com você seria diferente? — Porque sou um homem e não um garoto. Foi por isso que aluguei este apar-tamento. Foi bondoso. surpresa. — Não podemos continuar assim? Virei aqui sempre que quiser. — Não quer então se mudar? — Não posso. estou sendo grosseiro. Os garotos são co mo todos: só pensam em si mesmos. vendo a aliança brilhar. — Sim. — De fato. como esta pode ser infiel a seu marido. — Jacques? — Sim. Porque quero dar-lhe pra-zer. você é casado.. — Não compreendo por que seria diferente — continuou Rina. O que Peggy iria fazer? Ela precisa de minha ajuda para pagar o apartam ento. Ele se aproximou da cama e. Quanto a isso. — Foi como você disse que seria. sarcasticamente. — Você. pois ela podia sempre controlá-lo e contr olar-se. Jacques! — Rina deixou transparecer toda sua aflição na voz. E Peggy? — Que tem ela? Cest fini. esperava que dissesse isso. — Não estrague tudo agora . Olhou-o enquanto ele abotoava a camisa diante do espelho. é honesto — disse ela. — Mudar para cá? — perguntou. dando uma rápida gargalhada. Agora parecem duas lindas papoulas rosadas. Mas é que não gosto de ver uma mulher como você desper diçar-se assim. — Afinal. ela foi ao apartamento dele e tudo se passou como ele prometera. por exemplo? — perguntou ela. Alguns meses depois. seria capaz de me matar. — O que ele pensa que ela é? — O que sempre foi — respondeu Rina. Além disso.. os bicos dos seus seios são como ameixas maduras . Não compreende que não posso? Ele se levantou. com frieza. se . Lá em Boston. Pod e mudar-se hoje mesmo. numa tarde de chuva. — Mas não posso fazer isso. eu. com aquela lesbienne? — Você não conhece meu pai. O que eu gostaria era que fosse para a cama c omigo. tem razão. minha a-companhante. curvando-se. foi até o espelho da cômoda. — Se não gosta do lugar. Ergueu o rosto para ele e disse ternamente: — Acho que gostaria de ser sua amante. ao menos. se meu pai descobrisse. beijou-lhe o seio nu. chérie. sim — disse ele. rindo. — Fico satisfeito com isso. — Oh. Acha então que a tenho procurado repetidamente apenas porque tenho um int eresse puramente intelectual por você? — Você. — E ele não se importa de você viver com. Há homens que também respeitam e sabem despertar a sensib ilidade feminina. Por que não podemos continu-ar assim? — Não quer mudar-se para cá? — Não posso. — Eu acredito muito na verdade. — Venha cá. Quanto t empo poderia passar aqui? — Isso e diferente — disse ele.

Chegou à banheira e viu que teria de contentar-se com água morna. Jacques ficou a olhá-la até desaparecer. — Não compreendo. — São essas suas condições? Estava sentada. diz ele. — Por quê? — Diz ele que são muito grandes. Mas disse: — Se é assim que quer chamá-las. nua. — murmurou ela. há vinho e queijo em cima da mesa — avisou. com os seios magníficos a ostentar-se vitoriosamente . Olhou para o relógio. então? — Meu púbis. mas logo em seguida tornava-se fria e até mal-humorada. em seguida. — Mas por quê? — perguntou ele. deixando o fogo baixo. Jacques sabia como Pavan trabalhava. Fechou a porta. Mas um homem nunca é infiel à sua amante. Agora estava atr asada para preparar o jantar antes de Peggy chegar. o forno. — Deve estar louco para dizer uma coisa dessa. amargamente. — Não? — perguntou ele. Aquilo passaria. Jacques? Ela beijou rapidamente seu rosto e afastou-se pela calçada. Mas os artistas são mesmo malucos. E ela riu . e riu. havia terminado. Ainda teria tempo para um banho se a água estivesse quente o b astante. 11 Ela nem reparou no. são exatamente essas as minhas condições. Mas nós nunca contaremos a ele que você voltou vivo da ascensão.. — Mas Peggy não é um homem! — Não — replicou Jacques. arru mou-as num pra-to com um pedaço de queijo e começou a pôr a mesa. Rina sentiu o olhar do advogado descer para seu busto. — É pior do que um homem. Daí a poucos minu-tos. Isso havia acontecido muitos meses antes e o mais interessante de tudo é que eles tinham continuado amigos. O que é. continua ndo a caminho do banheiro . Ela levou o Pernod à boca e tomou tudo de um gole. Cortou algumas fatias de pão. Passara no ateliê mais tempo do que havia planejado. ele ficou sem ter o que dizer. Havia momentos em que estava alegre e simpática. agora? — Não. levantou altivamente a cabeça. Rina atravessou a pequena sala de estar e chegou à cozinha. — Não é o que você pensa.tiver vontade. finalmente. quand o ouviu a porta abrir. Tirou do embrulho a galinha assada que comprara na rôtisserie da esquina e colocou-a dentr o de uma caçarola no forno para conservá-la quente. nem uma mulher infiel a seu amante. Peggy era assim mesmo. na cama. polido cumprimento do porteiro ao subir correndo os três lance s de escada. Peggy! Peggy olhou para ela friamente e não respondeu. Procurava sempre criar a mulher ideal sem jamais conseguir. Rina encolheu os o mbros. Foi buscar a toalha e estava a caminho do banheiro. — É melhor você me jogar o vestido. Acendeu o bico do aque cedor da banheira e. — Se quiser algo antes do jantar. com o mesmo fósforo. Rina olhou-o um momento e. — Tenho de ir — insistiu. Jacques olhou-a e pensou que nunca em sua vida havia conhecido mulher mais bon ita. — Prometi a Pavan que estaria no ateliê dele às três horas. não é. Pela primeira vez desde que o conhecia.. — Chegou cedo. Usava muitos modelos para fazer uma só estátua. Estou servindo de modelo. e chamou o garçom: —Acho que vou querer mais um licor. — Porque é a montanha mais alta que qualquer homem poderá escalar. e mais hom ens morrerão tentando escalá-la do que ao Everest. já desabotoando a blusa. — Pavan? Está aprendendo escultura.

na falta de lugar melhor. encostando-se à parede. Pegou Rina pelos ombr os e começou a sacudi-la. E acrescentou. avançou furiosamente para Peggy. recusou polidamente uma bebida e foi par a seu lugar. Ainda era cedo quando Amru Singh chegou à festa que Pavan estava dando para festej ar o descerramento de sua grande estátua. — Não tive vontade de ir à escola — disse Rina. a dar amor? Então caiu de joelhos também e. encostou o rosto ao peito de Peggy. O amor é exatamente para isso. Rina sorriu. — Chore até aliviar a alma. E. Jacques não perdera tempo. Peggy. não chega ao meu íntimo. Devia ser seis horas quando Amru Singh a presentou cumprimentos ao dono da casa. — Mentirosa! Rina levou a mão ao rosto e ficou olhando Peggy. também por acaso. Peggy só tivesse ciúmes de Jacques. Mas tudo fica na superfície. — Não poderia fazer a grosseria de não aceitar. pela primeira vez desde que a conhecera. e ele me convidou para almoçar — explicou. freneticamente. é um homem — disse Rina. Alguém com certeza os vira no restaurante e contara a Peggy. não me olhe assim. Quase no mesmo instante. Rina levantou as sobrancelhas. — Toquei para o apartamento e ele não atendeu. não fui. dobrou-a cuidadosamente e colocou no chão. querida — murmurou Peggy. e começou a chorar... para me ensi nar a amar. deixou-se ir escorregando até ficar sentado na c . Mas Jacques. — Não sou a única loura de Paris. Depo is tirou os sapatos — não usava meias — e colocou-os ao lado da camisa. não acha? Peggy bateu com toda a força no rosto de Rina. Como era seu hábito. Você esta sempre ansiosa para me demonstrar seu amor. — Não é possível censurá-lo por isso. — Aí é que está o erro. — Não teria ido. — Não faça isso outra vez. de joelhos. com seu curioso sorriso con fiante e as têm-poras grisalhas. Perdão! É o ciúme louco que tenho de você Rina sentiu o rosto doer no lugar da bofetada. ao apartamento dele? — Não. Telefonei para um lugar e para outro a tarde toda até ficar quase morta de preocu pação. Estranh o que. Respirou profu ndamente e. — Querida. Nunc a se aborrecera com os homens mais moços. Caiu no chão e disse com voz queixosa: — Por que faz essas coisas comigo quando sabe como eu a amo? Rina a encarou. — Chore. Sentiu um arrepio pelo corpo e olhou para a c abeça encostada em sua saia. Esta ficou desnorteada com a violência do ataque. sentiu repulsa por P eggy e por si própria. mas porque queria evitar uma cena. — Ele foi visto quando entrava no apartamento com uma loura. Por que não pode me en sinar a sentir amor. com uma nota de desprezo na voz: — Um homem e não uma imitação de homem! — Ensinei-lhe mais coisas do que você poderia aprender com todos os homens do mundo! Rina teve um vislumbre da verdade. nunca mais! — Nunca. — Onde ficaram então a tarde toda? Você não estava na escola de arte e não estava em casa. Tomarei sempre conta de v ocê.Mas a mão de Peggy deu-lhe um violento puxão — Já lhe disse que não tornasse a falar com Deschamps! Então era isso. se agarrou às pernas de Rina. Não se zangue comigo. não porque tivesse m edo dos acessos de raiva de Peggy. encostado à parede na sala vazia. muito espantada. nunca! — prometeu Peggy. tirou a camisa. Em seguida. — Mas está acima de minhas forças pensar naquele porco pondo as mãos em você! — Ele não é um porco. — Encontrei-o por acaso. Peggy tornou a esbofeteá-la e ela sentiu a outra face arder. nunca deixara de exasperá-la. de todos os homens que ela conhecia. De repente se sentiu cansada de t udo aquilo. às quatro horas da tard e. — Quero saber a verdade! — Já contei a verdade! — gritou Rina.

— Então. a mulher morena. mas não desanimava. a qualquer mom ento. descobriu a estátua. — O nariz — murmurou. Pouco importava que o preço estabelecido por ele im pedisse para sempre a venda. A feia cópula que observava pelo espaço entre as pernas altas do sofá não se justi ficava nem mesmo por um culto sagrado do mal. Era assim que podia observar. monsieur? O que acha? Leocadia não olhou para Pavan. quase num sussurro. Eram a americana loura e a a miga dela. Num nicho perto da porta. Sua busca poderia. Houve silêncio na sala enquanto todos olhavam para a fria estátua de mármore. e muitas ve zes antes. Pavan aproximou-se ansiosamente do sujeito. terminar. parecia um cadáver envolto numa m ortalha. os atos de todas as pessoas na s ala. estava uma estátua drapejada sobre um pedestal. Pavan começou a gesticular. Tirei-os de diversas mulheres para conseguir a simetria que não há na natureza. E o rosto? Perfeito! Repare na testa. Voltou-se para os modelos. Sua avaliação era o reconhecimento da importância artística de uma obra. Sem mov er os olhos. dissessem todos o que dissessem. quando chegou ao fim. dos outros. monsieur? Leocadia ficou em silêncio. começou a chorar. — Ora! — exclamou Pavan. O nariz! Por que não me falou do nari z. o julgamento definitivo era o dele. De repente. E sua respiração se tornou mai s lenta e menos profunda. Tinha de manter sua reputação. Havia muitas pessoas ali. — O mercado de esculturas está muito fraco — murmurou. Isto é. Entretanto começou a sentir o espírito mau da deusa Kali solto pela sala. Nunca olhava para ninguém com quem falasse. Contraiu seus músculos ao máximo. Era um homem pequeno e grisalho. No fim. m as principalmente sobre as vaidades e ambições dos homens. Estava muito bêb ado. e disse: — Tragam uma garrafa de vinho para o monsieur. afastando de si o sentimento de decepção. Os artist as diziam que ele não tinha coragem de encará-los porque era um parasita que vivia à c usta do sangue deles. todos menos Leocadia. Havia si do esculpida em escala de dois terços do tamanho natural. Era ele quem determinava o valor. Amru ficou sabendo de quem se tratava. sem virar a cabeça. o silêncio foi quebrado e todos começaram ao mesmo tempo a tecer seus comen tários e a felicitar o escultor. Amru Singh estava à procura de um homem cujas vaidades e ambições transcendessem tudo o que fosse pessoal. A figura estava na ponta dos pés. talvez ainda naquela noite. ma s continuou com os olhos abertos e vigilantes. aspi rando apenas à glória que fora soterrada pelos séculos no fundo do espírito humano. num gesto rápido. — Sua obra está como sempre — disse evasivamente o nego-ciante. Resignou-s e interiormente. depois relaxou-os totalmente. Sobre o chão. o negociante de obras de arte. — Não quero saber do mercado. Bloqueou uma parte da mente durante poucos minutos. olhando a estatua. com mármore italiano rosa avermelhado. ao qual a luz da sala dava uma suave nuança de calor vital. o que lhe provocou uma sensação de conforto. com a luz de uma única lâmpada brilhando de cima para baix o. Fechou sua mente a ambas. encostados à parede. nas maçãs do rosto no nariz. escondidos. Ficou por um instante em silencio. com os lábios finos e apertados de usurár io. no canto atrás do grande sofá. com os braços estendidos acima da cabeça erguida à pro-cura de seu amante. . Era também nessa posição que podia pensar melhor. e quase caiu no momento em que. — Olhe aqueles seios. enquanto o relógio batia a h ora e Pavan iniciava sua palestra. segundo julgavam. Pensou nas posições obsce nas esculpidas no alto das paredes do tem-plo da deusa e sentiu o desgosto invad i-lo. Não ha via ainda encontrado esse homem. Não era senão uma repetição de tudo o que ele vinha dizendo todas as noites.amisa por cima das pernas cruzadas. mas daquela vez. um homem e uma mulher estavam cometendo u m ato de fornicação. Por fim. provocando aquela tensão peculiar. a porta se abriu para mais duas pessoas convidadas. nos olhos. Pensava sobre muitas coi-sas. Quero saber é da minha obra. voltado para a estátua. Não era a ocasião de dizer a Pavan que não percebera defeito algum no nariz. o sol.

murmurando: — De acordo! O escultor deu um verdadeiro urro de triunfo. e Rina se sentiu como que paralisada. quando nem conheço o modelo? Pavan olhou em volta. Pavan abaixou-se por entre os fragmentos e continuou a vibrar o mar-telo como um louco. mas logo todos a empurraram para onde estava Pavan. Al i estava uma coisa de que ele havia de gostar. Pavan começou a golpear desesperadamente a estátua. entre os des-troços. Com a mesma rapidez com que haviam chegado. pensou no jovem e gordo príncipe egípcio que havia aparecido em sua galeria. em atormentada frustração: — Está errado! Está tudo errado! Por que não me disse. O mármore rachou e a cabeça caiu no chão des pedaçada. Parecia apenas um pe daço de mármore quebrado. Depois. curiosos. com lágrimas nos olhos. Subiu a uma cadeira e procurou a melhor posição para o cinzel. Leocadia tornou a olhar para o pedaço de mármore. — Eu a amava e você me traiu! Afinal. Os braços caíram. Arranhou de leve a pe dra e depois poliu a superfície com a manga do casaco. Os modelos se entreolharam. Voltou-se para os outros artistas: — Só me oferece mil e quinhentos francos! Pois fique sabendo que não aceito um cêntimo a menos que dois mil e quinhentos francos e a encomenda de uma estátua da mulher qu e serviu de modelo para esta perfeição. Exclamou de repente. — Graças aos céus não destruí o único fragmento de belez avia na vastidão do meu erro! Quase todos se aproximaram para ver o que Pavan tinha na mão. — Mil francos — disse ele. Quase imediatame nte. O escultor tomou sua mão e virou-se para o negociante. De repente. virou-se e brandiu violentamente o martelo na cabeça da estátua. — Já vi onde foi que errei! Está vendo também? Leocádia olhou para o pedaço de mármore. deixou-se cair. — Agora compreendo o meu erro! É em torno deste pequeno núcleo que esculpirei na pedra a mulher perfeita! — exclamou dramaticamente. as lágrimas desapareceram. Pavan apontou o dedo: — Você! Venha cá! Todos seguiram o dedo de Pavan. caiu um do s ombros. — Ignorantes e cegos! Não sabem de onde vem isso? Não conhecem a alma da beleza de uma mulher? — exclamou Pavan. desviou o o-lhar. e ficou estendido no chão. Pavan estava empenhado na velha luta do artista com o negociante. procurando saber que m havia posado para aquela parte da estátua. Não sabia nem de que parte da estátua era. e Pavan com eçou a remexer de-sesperadamente os pedaços de mármore esparsos.— Meu cinzel! — gritou Pavan. — O que é isso? — uma das pessoas cochichou para outra. abrindo afinal a boca. Abraçou Rina e beijou-a nervosamente . — Graças aos céus! — exclamou Pavan. — Eu a amava! — exclamou ele. com as lágrimas a rolar pelas faces. exausto. Mas não devia falar. A estátua balançou no pedestal e t ambém rolou em pedaços pelo chão. monsieur? Por que me deixou passa r por esse ridículo? Leocadia ainda estava em silêncio. Leocadia olhou-a um instant e e. Mas mur murou com desprezo: — Mil francos! — Mil e quinhentos então — disse Leocadia. Limitou-se a fazer um vago gesto de assentimento. — Isso é uma coisa de que só os deuses podem aproximar-se! Olhou para o pedaço de mármore e seu olhar encheu-se de ternura. Pavan olhou para o negociante. O busto rachou-se e também se desagregou. Pavan olhou para o negociante com sua confiança subitamente restabelecida. Muito verm elha. Já sabia o que era. O mármore brilhou de novo e e le desceu da cadeira para olhar. logo depois. — Como posso fazer essa encomenda. Até que encontrou o que procurava. ficou sem saber o que fazer. Levantou-se com um fragmento nas mãos e mostrou-o ao negociante.

Ela sentiu mãos puxando seu vestido. ele se abaixou e calçou-o pé de Ri na. bateu com força a p orta atrás de si. olhando escada abaixo. Foi o próprio Pavan que a ajudou a descer. Até que ficou completamente nua sobre o pedestal. . De repente. calmamente. — Houve um acidente — disse ele. bela! Esculpirei sua beleza no mármore. a porta se abriu e dois convidados. Um estranho silêncio c aiu sobre a sala. Já está em tempo de eu pensar pela minha cabeça e não pela sua. todos os homens de Paris andarão como cães atrás de você! Você na turalmente adoraria isso. ouviu-se um grito e o barulho de um corpo caindo aos trambolhões pela comp rida escada. Todo mundo ali estava doido. Quase que arrastando Rina para a saída. muito pálida. — Você viverá para sempre. depois. Peggy estava à sua espera. Peggy. Ainda tinha na mão o sapato de salto alto e fino. Olhou a cintilante cabecinha loura. — Deixe o que tiver de ser dito para mim! Nesse momento. que saíam. Sentiu Rina começar a chorar em seu ombro. pela primeira vez na memória de todos os que ali estavam. com sua voz serena. — Prostituta. — Nem toquei nela! — Eu sei — disse Amru Singh. Amru S ingh saiu de uma festa antes do último convidado. — Você está louca? — A coisa não tem tanta importância assim. Rina entrou no banheiro e reapareceu momentos depois. Aquilo era uma loucura. Houve o som estalado de uma bofetada e. — Ela escorregou e caiu! — Não diga nada a ninguém — ordenou ele. Rina perdeu de repente as forças e teve de se apoiar nele. uma voz colérica: — Você é uma prostituta ordinária. com firmeza. e é assim que uma prostituta deve ser tratada! Fez-se um momento de silêncio.nas duas faces. E através do delgado biombo atrás de sua cabeça começou a ouvir vozes obscuras. "Moça de Boston escolhida como a vulva mais bonita de Pa ris!" — Parece até que está orgulhosa disso! — E não tenho motivos para estar? Afinal. cadela! É essa a única linguagem que você entende! Houve uma pausa e. Um olhar de estranha satisfação brilhou naquele rosto moreno. ergueu-a e colocou-a sobre o pedestal onde estivera a estátua. para que seja ven erada por toda a eter-nidade! Rina começou a rir. Estendeu os braços para se defender. apertando de tal modo o rosto de Rina ao seu peito que e la mal podia respirar. Amru Sin gh voltou-se para eles. — E se os jornais souberem? Já imaginou o que acontecerá se a notícia chegar a Boston? Rina riu. — Eu lhe disse que nunca mais fizesse isso! Amru Singh ouviu o estalo de outra bofetada. Pavan com eçou a cantar com voz rouca e a girar com ela numa dança sem medida e sem rumo. — Chamem um médico. De r epente. um grito: — Rina! Vibrou nesse grito a nota oculta do medo. uma das defesas da mente de Amru Singh se abriu. Então. — Talvez. Um dos modelos lhe entregou as roupas de baixo e o vestido rasgado. as roupas de baixo. depois. Tirando-o dela. — O que está fazendo? Largue esse sapato! Depois. Rina estava apoiada ao corrimão. Cobriu-a com um pano enquanto ela camin hava para o banheiro. — Posso até ver as manchetes. apareceram. Amru Singh sentiu o cor ação da moça pulsar aceleradamente contra seu peito. oh. muito menos falar. p ara não cair. Amru Singh pensou que parecia o grito de um domador de tigres que entra na jaula e descobre que o filhote se transform ou num tigre real. foi a primeira coisa em que já me destaquei na vida! — Quando isso se espalhar.

12 Rina estava de cabeça para baixo. dessa vez. — Oui — respondera. não iria receber o sacrifício de uma inocente como novo tributo ao seu poder. Rina já era uma pessoa bem diferente da atordoada moça daquela noite muitos meses an tes. Arqueou prontamente as costas e moveu as pernas. Ela sorriu para ele. com gentileza. mas não perfeitamente inglês.Seu presságio se realizara. — Antes eu não era feliz. — É bom ouvi-la rir — disse Jacques. — Quer chamar mademoiselle Marlowe ao telefone? — Infelizmente. — Estou de cabeça para. por m ais cuidadosamente que houvesse preparado tudo para fazer a culpa recair sobre e la. Acha-se em completo estado de choque. — Sua amiga parece em forte estado de choque — disse o inspetor de polícia. — Antes você não ria muito. o corpo esbelto dentro do maca cão de malha. — Já tomei essa providência — disse Amru Singh. Jacques riu. — Isso fui eu mesma que tive de descobrir. — Ela não falará com ninguém até o senhor che Jacques não compreendeu o que Amru Singh quisera dizer até ver o rosto pálido de Rina e seu olhar parado. Só queremos uma palav . — É um caso de pura rotina. inspetor. havia atacado. E tem razão. A polícia a havia isolado no pequeno quarto de vestir do ateliê. Ela precisa de sua ajuda. Pode dizer-me o que aconteceu? Vim em resposta a um telefonema de um amigo comum. mademoiselle Rina Marlowe. Não a deixe falar com ninguém até eu chegar. ainda tonto de sono. baixo. Kali. a deusa perversa. com um sorriso malicioso. depois que Jacques se apresentou. — É coisa grave? — Muito grave. Inclin ou-se. ela não está em condição de falar. Estarei aí dentro de meia hora. Não era possível deixa r de ver o convite que representava o ípsilon que ela formava junto à parede. o escultor. com um curioso sotaque que era inglês. Mademoiselle Bradley caiu da escada. Estou aqui com uma amiga sua. — Meu nome é Amru Si ngh. Mas. Nem queira saber como tudo é dife-rente olhan do de cabeça para baixo. colocando a cabeça entre as pernas abertas de Rina e beijou-a. com o corpo todo apoiado na parede quando Jacque s entrou no apartamento Ficou um momento a olhá-la. Mademoiselle Bradley morreu de uma queda e a polícia está criando dific uldades. — Monsieur Deschamps? — perguntara uma voz grave e calma. o cintilante cabelo espalhado pelo chão — O que está fazendo? — perguntou ele. — Onde está? — No ateliê de monsieur Pavan. — Isso estou vendo. Ele se lembrou do telefone tocando à cabeceira de sua cama. — Muita bondade sua. — Já mandei chamar um médico. O sangue lava a cabeça e a gente tem ou tra perspectiva do mundo. Sabe onde é? — Sei. — Será que Amru Singh ensinou também como se beija uma pequena que está de cabeça para bai xo? — Não — disse ela. Mas por quê? — Amru Singh diz que é muito bom para o cérebro. — Peço-lhe desculpas por perturbar seu descanso — continuou a pessoa a falar em francês. Ela se estendeu no chão às gargalhadas. Já estava bem desperto. — E é feliz agora? — Muito.

pensou. — O inspetor indicou o caminho. monsieur Deschamps. — Ela ficou muito impressionada co m o que aconteceu e parecia inclinada a assumir a culpa pela morte da amiga. Jacques teve um momento de reflexão. Rina ergueu lentamente a cabeça.ra de mademoiselle Marlowe. Do contrário. Ela parecia não vê-l o. — O médico irá apenas confirmar que ela está em choque — disse Amru Singh. O inspetor concordou. sorrindo. foram à delegacia de polícia. sem o menor sinal de reconhecimento. tranqüilamente. em voz branda. Jac-ques fechou a p orta. única pessoa que estava com ela na hora. Duas noites depois. Aqui. dizendo: — Se ele é seu amigo. No dia seguinte. monsieur Singh — disse Jacques. — Monsieur Deschamps? — perguntou o homem. Ja cques chegou inesperadamente ao apartamento e encontrou Amru Singh. — O que ela disse à policia? — Achei melhor que ela não falasse com a polícia — disse Amru Singh. — Muitas coisas ali a farão lembrar-se de sua falecida amiga. — Posso falar com ela? — Perfeitamente. Jacques assentiu com a cabeça. Amru Singh a levou até uma cadeira. — Jacques. — Sem dúvida alguma.. Deve haver mais alguma coisa. No mesmo instante seus olhos se enche ram de lágrimas e ela atirou-se nos braços dele. E quando ele chegar. e deu ao motorista o endereço do apartamento qu e havia alugado.. depois de alguma hesitação. Jacques deu ao motorista o endereço de Rina. — Seu amigo. Jacques! Eu sabia que você viria! Com o corpo sacudido de soluços. Fez um gesto e ela se sentou. — Creio que será melhor não levar mademoiselle Marlowe para o apartamento onde vivia — d isse prontamente Amru. está aqui. nada do que vi me leva a pensar assim. Foi exatamente isso que aconteceu. Chegou a sua vez de falar. — Teve ela alguma interferência no caso? — perguntou Deschamps. No táxi. — O senhor é medico? — Não. acariciando-a. Jacques estendeu a mão ao indiano. p or que Amru Singh o teria chamado? — Poderia ir até o quarto? — perguntou. Eu m esmo a acompanharei para depor amanhã à tarde em sua delegacia. — Mas a polícia já mandou chamar um médico. — Não posso mais f alar com você. De repente. — Vou deixar de carregá-la sobre meus ombros — disse ele. Passaram depois no apartamento que Ri na dividia com Margaret e levaram tudo o que era de Rina. — Calma — disse Jacques. — Como então conseguiu impedi-la de falar com a policia? — Disse-lhe que não falasse — respondeu Amru Singh. Amru Singh entrou no apartamento e Rina o seguiu docilmente. — Amru Singh é meu amigo — disse Rina. — Eu estava no local do acidente — disse o indiano. Jacques entrou no quarto e viu Rina sentada numa cadeira. a polícia poderá interpreta r erradamente o que ela disser. é meu amigo também. como se estivesse falando a uma criança. . que se levan tou ao vê-lo. viu Jacques. — Como já expliquei à polícia. Amru Singh disse então. — Para servi-lo. meio escondida atrás de um homem alto de turbante. olhando para Rina. inspetor. vou levar mademoiselle Marlowe pata a casa dela. Mas sugiro que seja em outro lugar. Singh. — Não tenha medo. depois que o médico-as sistente houver tratado dela. sou um estudioso. mademoiselle. com o rosto im-passível. começou a proferir palavras desco-nexas. Piscou os olhos como se estivesse despertando de um sono profundo. Tudo a-cabará bem. E Jacques falou ao inspetor: — Se me der licença. — Ela obedeceu? — Quase não teve outro jeito. Ouviu a porta fechar-se e percebeu que Amru Singh havia desaparecido. Rina levantou os olhos parados.

isso seria muito desagradável. A água estava quente e transmitia uma sensação repousante. diz endo que ia divorciar-se para que a criança nascesse na vila da família ao sul da Fr ança. Jacques. ac ompanhou-a até o quarto. tirou o vestido e sentou-se no chão numa posição de ioga. os três jantavam juntos ao menos uma vez por semana. afastou-se um pouco para deixar Rina entrar e. se eu estivesse pensand o em outra ligação. Bem sabe que um divórcio lhe arruinaria a carreira. Ela se levantou da cama. D epois. — Aquilo já tem mais de oi-tenta anos e ainda v ai ao Ópera. Sen tava-se sobre as pernas cruzadas e os braços formavam um quadrado à altura do peito. com essas idéias bobas e pro vincianas. sentou-se na ca-ma e esfregou os pés. não me esquecesse dele. Daí por diante. e Jacques teve a impressão de que ela se tornara de repente mais velha do que ele. — Então por que está dizendo isso? — Escute — disse ela. o pulsar acelerado de seu coração foi pouco a pouco voltando ao normal. poderei d izer que fiz um casamento errado e ninguém saberá de nada. — Ele também é meu amigo e eu não gostaria que uma frase minha dita de brincadeira pertu rbasse nossas rela-ções. Jacques começou a tirar a camisa. Jacques tirou as abotoaduras dos punhos da camisa e depositou-as sobre a cômoda. depois. Seu dia foi muito agitado. Jacques entrou na banheira. Era como . jogou longe os sapatos. Os exercícios só são importantes para as mulhe res que estão espe-rando filho. Amru Singh diz que cinco minutos de meditação ante s de dormir aliviam o corpo e o espírito de todas as tensões.Os dentes brancos do indiano brilharam num sorriso e as mãos se apertaram cordialm ente. — Estou me preparando para a meditação. — Deixe disso. — O dr. Eu terei a criança e tudo continuará como agora entre nós. Ela sorriu para ele. Você está agindo como um americano. vá tomar banho. Havia alguma coisa que o impressionou desagradavelmente na maneir a pela qual ela estava sentada à mesa. — Eu sei. Conseguiu os jornais de Boston para mim? — Estão na minha pasta. pondo um dedo em seus lábios. Ela olhou maliciosamente e replicou: — Monsieur le ministre também achou. Agora. — Seria capaz disso por minha causa? — Claro que sim. — Não compreendo para que isso pode servir. impassível. Jacques. Tanto que me disse que. porque neste ca-so eu teria de d eixar de ver Amru Singh. abraçando-a e beijando-a. olhou-a pelo espelho e disse: — Sabe que seria muito fácil eu ter ciúme de Amru Singh? — Para mim. Fornay diz que você me deixou enceinte. Jacques abriu a porta. Logo que ela entrou. dizendo: — Ah! Disso é que eu gosto! Ele ajoelhou-se à frente dela e fez massagens nos seus pés. — E se seu pai souber? — Não há nenhuma necessidade de ele saber. — Estava muito bonita esta noite — disse. — Que velho devasso! — exclamou Jacques. E como vai conseguir isso? — Ele está me ensinando os exercícios de ioga para o parto. — O que está fazendo? — perguntou Jacques. Isso me dará controle sobre todo o corpo. — O que aprendeu hoje com nosso amigo? — Há grandes possibilidades de que eu em breve possa livrar-me da vontade de morrer que tem governado quase todos os meus atos desde meus tempos de menina. Rina estava no quarto e ele foi até a sala de estar. Saiu do banheiro amarrando o cinto do roupão. porque é a você que amo. Quando voltar à América para visitá-lo. — Ótimo. No instante seguinte. Amru Singh é apenas meu amigo. Ela o fez calar-se. sorrindo. meu professor. — Rina! Ela voltou-se para ele e Jacques viu a profunda angústia que a dominava. surpreso. para não falar em out ras coisas. ele estava no chão ao lado dela. olhando firmemente para o jornal.

— Teremos outro filho. que se mantinha de pé ao lado do governa dor. Gostava do as pecto dela. Rina. Fornay me disse categoricamente que depois desse não haverá m ais filhos! 13 O grande ventilador do teto zumbia e o calor de agosto pairava pesado e úmido no g abinete do governador. Quando tudo isso estiver acabado. Mas a questão é que. falando de coisas pessoais. governador. Ela foi grata àquela maneira de lhe dar confiança. Nada daquelas tolices modernas que obrigavam as mulheres a fazerem r egime e cortarem impiedosamente o cabelo. minha querida! — ele a confortou. Havia no caso uma coisa que ele. não quero deixar um só inimigo. Ela se sentou e ficou olhando o secretário. O secretário franzino e nervoso levou Rina a uma cadeira em frente à grande mesa de trabalho. — É um dos poucos prazeres que os médicos ainda me permitem — disse ele. Fin almente as assinaturas terminaram e o secretário saiu do gabinete. o representante de cinco gerações de banqueiros de Boston Via-se abaixo um clichê de três colunas com o retrato de Harrison Mar-lowe. m esmo sussurrando. O belo cabelo da moça chegava até os ombro s. — Oh. — Como? As lágrimas molhavam o rosto de Rina. levando os papéis . O governador apanhou um charuto e perguntou: — O fumo a incomoda. — Na verdade. espalhando na sala o cheiro fort e e um tanto agradável da fumaça. embora falas se baixo. Jacques — sussurrou. como se fosse um ator habituado a se fazer ouvir mesmo nas galerias. pouco me importa viver tanto ou não. Ela apontou o jornal. — Es-pero viver mais de cem anos e os médicos dizem que talvez che gue lá se fu-mar menos. Ele riu e ela riu com ele. Jacques se aproximou e viu por cima do ombro dela uma manc hete que tomava toda a largura do jornal. HARRISON MARLOWE DENUNCIADO! Criminalmente respon-sável pela falência do banco da família. quando morrer. — Mas por quê? — perguntou ele. Havia nel e um ar de mocidade e vigor que desmentia as grandes manchas grisalhas do cabelo . esquecida por um momento do que fora fazer. entre soluços. Ele se recostou na cadeira com um sorriso levemente irônico. num fio de voz. — E eu queria tanto esse filho — murmurou ela. abraçando-a. — Não poderei ter a criança. — O dr. — Tenho de voltar para casa. — Tenho certeza de que chegará.se ela houvesse perdido todas as esperanças de salvação. com um sorriso em . apanhando folha por folha de papel à medida que o governador as assinava. você voltará para a Fra nça. — Não! — exclamou ela. sentindo-se já tremendamente infeliz. O governador a olhou. — Você era uma criança quando aprovei os seus papéis de adoção — ele disse. Tinha uma voz s imples mas extra-ordinariamente clara que enchia facilmente a sala. Marlowe? Ela sorriu em resposta e ele acendeu o charuto. srta. e a única maneira de conseguir isso é viver mais que todo s os que tenho. Jacques nem se deu ao trabalho de discutir com ela. compreendia perfeitamente: o dever filial. como francês. sentindo de novo a marcha inexorável do tempo.

Ela se levantou e estendeu-lhe a mão. há a aspiração de que a lei e a moral um dia se encontrem no infinito. — Infelizmente. Enquanto tudo dá certo. Aconteça o que acontecer. minha filha. De acordo com a lei. A lei não é uma coisa inflexível. seu pai não poderia perder. — Não tem qualquer importância que ele houvesse perdido toda sua fortuna pessoal tenta ndo salvar o banco? — perguntou Rina. — Quer dizer que o segredo de tudo é não ser descoberto? Ele sorriu. É claro que. — Tem dezoito anos. não é? — Faço dezenove no mês que vem. deix ando muitas pessoas desempregadas e fazendo outras perderem seus investimentos o u seu meio de vida. — O infinito é tempo demais para um homem com a idade de meu pai — disse Rina. lentamente. não há nada que possa fazer por ele? — Um bom político não pode ir contra a opinião pública disse ele. — Infelizmente. — Ninguém p ode esperar tanto. e as mesmas pessoas que o teriam levado às nuvens estão furiosas com ele. minha filha. e até o rosto parecia haver tomad o uma coloração cinzenta que se confundia com a do uni-forme da prisão. ainda que eu não estivesse pr esente. fez uma coisa perfeitamente correta do po nto de vista moral. seu pai não podia fazer os empréstimo s. Vinte meses depois conseguiria o livra-mento c ondicional. Mas aconteceu o contrário . a coisa muda de figura.araçado. Rina viu o pai aproximar-se. que passará dos cem anos. nada teria acontecido. — Como vai. Do seu lado da tela de arame. A primeira obrigação de um banco é com seus depositantes. o cabelo se mostrava ainda mais branco. portanto. certas fábricas poderiam ver-se na contingência de fechar. Gostava de conversar com pessoas jovens e inte-ligentes. espero que passe mui to dos cem anos. No fim. quando ele se sentou na cadeira. — Se puder convencer seu pai a reconhecer sua culpa. Se seu pai apresentar alguma defesa. a decisão é sempre o maior risco de quem dirige. Pena que a política atraísse tão pouca gente desse gabarito. é preciso julgar de acordo com a lei. É por isso que as leis são muitas vezes mudadas ou emen-dadas. ternamente. Costuma refletir as esperanças e desejos do povo. con-cederei o perdão. deixarei este cargo muito antes de poder conceder-lhe livramento condicional. — Acha que ele é culpado? — O negócio bancário é como a política. — Você cresceu um pouco desde que a vi pela última vez —disse ele. papai? — disse ela. Mas. se as fábricas não tivessem de f echar e os empréstimos tivessem sido pagos. do mesmo m odo que os ma-temáticos dizem que as paralelas se encontram. nem mesmo o senhor. colocando o charuto n o cinzeiro. sem o dinheiro. — Já examinou as acusações formuladas contra ele? — Li apenas os jornais. per derá e será condenado a dez ou quinze anos de prisão. — Agora mesmo o povo está à pro-cura de um bode expiatório. todo mundo fecha os olhos. Ele seria con-s iderado um benfeitor público e um banqueiro de descortino. Há mui-coisas que são moralmente certas legalmente erradas. Apanhou o charuto no cinzeiro e o rolou entre os dedos fortes. o que evitará o julgamento por um júri. A lei leva isso em conta e o Estado tem leis qu e regulam tais empréstimos. — Não é tão simples assim. que percebiam tudo com facilidade e com quem era possível trocar idéias. Seu pai correu esse risco ao autorizar os empréstimos. satisfeito. — E se lhe acontecer alguma coisa nesse meio tempo? — Já se esqueceu de que vou viver mais de cem anos? Mas. eu providenciarei para que um juiz lhe dê de um a três anos de sentença. porque não havia garantias suficientes. Os olhos estavam sem expressão. Seu pai. . legalmente. Justificou a si mesmo com a idéia de que. — Muito obrigada por ter me recebido. — Então. e que não poderiam adotar-me se o senhor não os ajudasse. Neste caso. não. Quinze meses depois. Quando não dá. — Sei por que veio falar comigo e quero que saiba que sinto muito a si tuação em que se en-contra seu pai. — Minha mãe e meu pai sempre me disseram que o senhor foi muito bondoso em tudo isso .

sua voz foi amarga: — Ninguém mais vai arriscar-se comigo. forçando um sorriso. Outra é ser conde nado por ter sido idi-ota. E eu até estraguei s possibilidades de fazer um bom casamento. — Teve uma o-ferta de sessenta mil dólares pela casa. papai? — Escrevi a meu primo Foster. Não sou banqueiro. querem que você vá passar uns t empos com eles. não poderei vir visitá-lo. — Onde quer chegar. — Papai — disse ela. esse é Jonas Cord. — De qualquer maneira. Nos arranjaremos até você entrar de novo em atividad e. O mer cado para essas casas grandes não está muito bom. — É bom — murmurou ela. — Isto é pior ainda. — Recebi uma carta de Stan White — disse ele. como você. — Mas. papai. sua esposa. Ele e Betty. — Para fazer o quê? — Não sei. — Eu não deveria ter ido para a Europa. Você não se preparou para trabalhar. — Pelo que me disseram. — Não.. Rina.. Ela o viu afastar-se para o interior da prisão. Iremos para a Europa. — Mas. Deveria ter ficado em casa com você. minha filha. papai. Você precisa de férias agora. papai — ela começou a dizer. Dessa vez. Estou trabalhando na biblioteca. — Os que querem comprar a casa são judeus — disse ele sem rancor. quando estava de novo a caminho da Europa em viagem de lua-de-mel. Stan White era o advogado dele. papai. Teremos menos coisas tristes para rebordar. Seus olhos estavam velados de lágrim as. Talvez uns dez mil dólares depois que pagarmos aos c redores e a Stan. assim. Sou um presidiário. — Por isso pagam tanto . a casa seria grande demais para vivermos nela depois que vo cê sair daqui. — Não precisaremos de muito. — Eu me arranjarei. papai? Como o estão tratando? — Estão me tratando muito bem. talvez até mais velho. Mas arranjarei alguma coisa. O guarda se aproximou e o pai levantou-se. Ela percebeu que ele estava brincando. pensei que não se conseguisse tanto. Faça o que estou dizendo e vá para lá. — Isso não é tão fácil assim. — Há alguma coisa que eu possa fazer por você. Têm perdido muitos livros ultimamente. Todo mundo sabe que a culpa não foi sua. Talvez na da disso tivesse acontecido. — Já dei instruções a Stan White. — Tenho tido muito tempo para pensar aqui dentro. típica dos homens do oeste. O que Harrison Marlowe viu foi um homem de sua idade. Só tornou a vê-lo muitos meses depois. Parecem meninos. — Não sobrar muito para vivermos. Todos os moços de Boston não são mais do que isso. papai? — Faremos tudo que for humanamente possível. . mas c om uma juvenil vitalidade. será com um home m amadurecido. Rina. Parece exausta. — Está bem. Quando casar. Uma coisa é ser condenado como ladrão.— Alô. Rina — respondeu. Vou procurar um emprego. — Não fale assim. Conheci um lugar na Riviera onde poderemos viver o ano todo com menos de dois mil dólares. Marlowe — acrescentou Jonas Cord. muito obrigado. papai. Passo noites acordado pensando n o que você irá fazer agora. quase com timidez —. — Não estou pensando em casar. e um pesado silêncio caiu sobre eles. — Nós dois teremos férias quando você voltar para casa. Sabem que não guardou nada para você. Dizem que lá é muito bonito e você pode ficar na casa deles até eu sair daqui. — Fui eu que falhei nas obrigações que tinha com você. — Você nunca me falhou. Apenas m oços. por fim. — Você precisa é de umas férias. Encarregaram-me de o rganizar um novo sistema de controle. — Mas isso ainda vai demorar muito. e eu não tenho paciência com eles. Ela levara o marido para vê-lo na prisão. papai! — Será melhor assim. sr.

. você mesmo disse que eu não estava preparada para qualquer trabalho. — Mas você é uma mulher moça. — Acho que dormi a tarde toda — Rina deu um sorriso. Sentia frio. Se ntiu a terrível solidão do despertar. Marlowe se es-tendeu no estreito catre em sua cela. Não foi absolutamente por isso que casei com ele. com-preendendo subitam ente o motivo da oferta do marido de Rina. lutando contra a volta à realidade. — Vou chamar a enfermeira. Já era noite e ela devia ter dormido a tarde toda. — Por que foi então? — Foi para que ele tomasse conta de mim. e Harrison Marlowe sentiu como era penetrante aquele olhar. Agitou-se.Cord olhou-o. Não foi por isso que me mandou para a casa de meu primo? Ele não respondeu. procurando o botão da campainha. — Deixe que eu mesma chamo — disse Rina. — Mas. Tudo estava esmaecendo. Sentia cada vez mais frio. Naquela noite levaram-no para a enfermaria da. papai. Estava acordada. Jonas Cord voltou-se para Rina: — Com sua licença. Quando pai e filha ficaram sozinhos. Rina pergunto u: — O que acha dele. Quero tomar uma aspirina. — A tarde toda? — perguntou Ilene. papai? — É quase tão velho quanto eu! — Não se lembra de eu ter dito que me casaria com um homem amadurecido. Tu do estava escuro lá fora. enquan to Rina e Jonas Cord ainda estavam em alto-mar. E vive muito sozinho. — Afinal. papai? Nunca pude suportar garo-tos. papai. Os últimos vestígios quentes do sonho desapareceram. dilacerando seu sonho como uma faca. Estarei à sua e spera do lado de fora. Qual tinha sido sua fal ha com Riria? Onde havia errado? Virou o rosto para o travesseiro e lágrimas quentes começaram a rolar em suas faces. Por que casou com el e? — É um homem muito rico. Marlowe.. Ilene estava cochilando na poltrona perto da janela. sei que quer ficar algum tempo sozinha com seu pai. percebendo que pela primeira vez em toda a semana Rina estava consciente. Havia uma agulha meti . Antes de fazer quaisquer planos depo is de sair daqui. a tarde toda. — Estava tão cansada! E nunca deixo de ter dor de cabeça quando durmo assim durante o dia. — É muita bondade sua... — Foi para que ele tomasse conta de mim ? — Não. Nada havia que pudesse dizer. 14 A dor começou a repercutir-lhe nas têmporas. Os dois homens se despediram. Morreu três dias depois de bronquite pneumônica. Moveu lentamente a cabeça. Ela imediatamente o interrompeu. Cord. mas logo se lembrou de onde estava. Abriu os olhos e ficou um momento sem identificar o quarto do hospital. gostaria que conversasse comigo. Prendeu a respiração um instante. Tremeu um pouco e cobriu as pernas com o cobertor. sr. — Meus negócios estão se expandindo. Mas er a inútil. — Sim. Mas não pôde lev antar o braço. — Estou com uma terrível dor de cabeça — disse baixinho. Rina. Deviam ter chegado enqu anto dormia. Tem a vida inteira pela frente. — Pode dar-me uma aspirina? Ilene acordou de súbito e olhou para Rina. Havia flores novas no jarro. Viu que este estava amarrado ao lado da cama. inquieto. — Quer dizer que casou com ele por isso? — perguntou Marlowe. Rina. sr. papai. Um homem com sua experi-ência p ode ajudar-me muito nos aspectos fi-nanceiros de meus negócios. m enos ela. prisão com quarenta graus de febre. Despediram-se depois de mais algu ns momentos penosos.

Há alguns tipos de enxaqueca que fazem as pessoas esqu ecerem até o próprio nome. — Como é seu nome? — Katrina Osterlaag — disse ela. enquanto a luz fazia um semicírculo no canto superior do olho. Eu estava era hipnotizada. sorrindo. mas quando procuro lembrar o nome dos dois. Nesse momento duas serventes entraram no quarto. — Rina Marlowe — respondeu ela e riu. não passa de vista cansada. doutor. O médico tirou um oftalmoscópio do bolso e disse: — Vou examinar seus olhos com isto. — Já — disse Rina. — Aquilo serve para tirar o que nós chamamos de eletroencefalograma. Também dormi um pouco à tarde. levantando-se e tocando a campainha. tomando-lhe o pulso: — Esquisita? Esquisita. somos. — Como é o nome de seu pai? — perguntou ele. — Sou a enfermeira da noite. Ajuda às vezes a apurar a causa das dores de c abeça. Mede os impulso s elétricos que se produzem no cérebro. Vou explicar tudo. O médico riu. Ele colocou o polegar num canto do olho e levantou a pálpebra. A enfermeira olhou rapidamente para Ilene. Posso tomar uma aspirina? — Vou perguntar ao médico — disse a enfermeira. A enfermeira apareceu quase no mesmo instante. Como podemos justificar o dinheiro que ganha mos apenas receitando alguns comprimidos? . Pensou que eu estivesse em estado de choque. — Como é seu nome? — perguntou ele de novo. não estou cansada. hein? O médico desligou o instrumento. Assim poderei ver o fundo ao seu olho e apurar se tudo. conheço minha a-miga ali. Chegou ao lado da cama e sorriu p ara Rina. mas errou. como acredito. — Está vendo. levantou-se e disse sorrindo: — Não. — Não estou com medo. — Sempre tenho dor de cabeça quando durmo à tarde. o médico entrou e Rina o olhou. E até muito simples. médicos. Fiquei até com dor de cabeça. Descansou bem? — Descansei demais. para que possamos tratar delas. como? — Parece doer mais quando procuro lembrar-me dos nomes das pessoas. — Para que isso? — O médico achou melhor não acordar você para lhe dar comida — disse Ilene. Tinha estado de serviço desde que Rina chegara ao hospital. — Harrison Marlowe. não e? Não me lembro de você.da numa veia do braço e ligada a um comprido tubo que saía de um vidro pendurado com o gargalo para baixo numa armação de ferro. Marlowe. — Pensou que podia me enganar. O médico aproximou-se da cama e perguntou. — Como é? Já acordamos? — perguntou ela. — Mas não é. Conheço o senhor . — Não há nada de esquisito nisso. Rina voltou a cabeça e disse a Ilene: — Você deve estar exausta. doutor? A dor de cabeça não é ass m tão forte. com sua jovialidade profissional. Lá estava ele. Apertou um botão e um raio fino e forte de luz saiu do instrumento. bem sabe como nós. — Parece muito complicado — disse Rina. E acabo de chegar. doutor. que deixaram ao lado da cama. prontamente. empurrando um grande aparelho q uadrado. passando o instrumento para o outro olho. — Você e nova. — E eu que achei que uma simples aspirina curava minha dor de cabe-ça. srta. a dor de c abeça aperta e não consigo lembrar mais nada. Nesse momento. Mas é uma dor de cabeça esquisit a. — Boa noite. pois ainda me lem-bro de meu nome. — Não. — Ora. Por que não vai para casa e descansa um pouco? Passou o dia inteiro aqui. Um colega seu em Paris me examinou uma vez com uma coi sa dessas. Rina. já vi que não posso. Tem dificuldade também com seu próprio nome? — Não. com os olhos brilhando por trás dos óculos. Não tenha medo. Também me lembro.

— Eu. Não se impressione com sua aparência. Tem sofrido acessos repetidos de uma f ebre altíssima.Ela tornou a rir. Não fora muito tempo antes. Havia alguns e sboços dos costumes para um novo filme à espera de sua a-provação. como aconteceu agora. Mas já é possível ver certos sinais de lesão em algumas áreas nervosas. Mas as lágrimas teimavam em impedi-la de trabalhar. Ilene fechou a porta de seu escritório e foi para sua escrivaninha. com a luz brilhando sobre o cabelo claro. que destrói tudo o que atinge.. — E então. Ilene viu que a enfermeira já estava preparando Rina e disse: — Claro que voltarei. o l indo cabelo de que só restavam alguns tufos na pobre cabeça tosquiada. fazendo um gesto na direção da port a. talvez. furiosa. meu Deus? — gritou chorando. A seda branca era para um vestido d e noiva. O médico só saiu do quarto quase uma hora depois. — Por que não me deixa levá-la para casa? A dite que nada há que possa fazer aqui esta noite. E por isso que ela tem dificuldade em lembrar coisas simples e corriqueiras. em s eu escritório. Havia sido usada no casamento de Rina com Nevada Smith. A febre começou a subir vinte minutos depois que saiu do quarto. — E isso não é um bom sinal? — perguntou Ilene. não é? — perguntou Rina. Ela está dormindo. dist ribuindo um feixe de luz sobre o desenho. 15 . Acendeu a luz e se ap roximou do armário embutido do bar. ne m o dia de hoje. voltou par a a mesa e começou a examinar os desenhos. Dei-lhe sedativos para aliviar a dor. Apanhou uma garrafa de uísque e encheu um copo com gelo.. com o corpo envolto em cintilante seda branca. — Por quanto tempo. — É a primeira vez em qu se uma semana que ela parece parcialmente normal. não havendo passado e. — Doutor. posso falar com ela agora. com os olhos erguidos para cima. quando a febre diminui. — Por que você teve de fazer isso. mas quero avisá-la. Cinco anos apenas. mas acho que não. Tivemos de cortar-lh e o cabelo para fazer o eletroencefa-lograma. conseqüentemente. Em sua memória tudo é presente. Ilene levantou-se rapidamente. — Bem sei como está preocupada — disse o medico. eu gostaria de vê-la apenas um momento — disse Ilene. É quase um milagre que. Virou a cabeça para o manequim à sua esque rda tentando imaginar o vestido no modelo. — Por que é preciso sempre destruir as coisas belas? Já não há horrore s de sobra neste mundo? As lágrimas continuaram a enevoar-lhe os olhos. lugares e horas. A doente só está se mantendo tão bem assim em vista de sua excepcional resistência fí-sica. antes que ela perca de novo a consciência? — Desculpe. bebendo de vez em quando um gole. — Você voltará. com hesitação. Ace ndeu o cigarro de Ilene e o seu. — Meu Deus! — exclamou Ilene. — Acha então que ela vai delirar de novo? — A febre já começou a subir. mas a máquina humana é muito especial. doutor? — Só poderemos falar com mais certeza depois de uma análise mais detalhada do eletroen cefalograma. — Está bem. — E não quero pa-recer por demais pessimi sta. mas ainda podia ver Rina ali. Apertou um botão no braço da cadeira e um possante refletor se acendeu no teto. É o esforço inconsciente de recordar essas pequenas coisas que caus a a tensão e. e meteu a mão no bolso à procura de um maço de cigarros todo amassado. em voz contida. doutor? Por quanto t empo ela ainda terá de sofrer assim? — Não sei — disse o médico. ela volte a ter uma aparência de lucidez. como nom es. e o médico voltou-se para Ilene. cheia de esperança. Deixou-se cair nu-ma cadeira à frent e de Ilene. Serviu o uísque. a dor de cabeça. tomando-a pelo braço. Os desenhos começaram a desapare cer e ela só conseguia ver ali Rina.

David era sobrinho de Bernie Norman. Dessa maneira. nunca ter ei outra oportunidade para ser descoberta. mas não dava importância demasiada ao fato. . ele havia. Estava apenas co ntrolando as coisas.Começou como um casamento tranqüilo. o nome de Bernie Norman tinha sido de muita valia para ele. na maior promoção de publicidade que já se vira em Hollywood. — Epa! — exclamou ele. pens ando que ele havia chegado ao clí-max. Como po diam elas saber que Norman não queria nem ver o filho de sua irmã. fossem quais fossem as circunstâncias. pouco acima do funcionário de menor salário no departamento. porque isso lhe dava oportunidade de passar os olh os por sua correspondência. Dirigiu-se à sua mesa e. Você assim acordará os vizinhos — disse a pequena. por qu e teriam transformado um garoto de dezoito anos em gerente do Bijou? A pequena estava falando. abrindo as gaveta s destrancadas e lendo todas as cartas e memorandos. David não gostava disso. Tudo isso porque David W oolf conseguira afinal ir para a cama com a extra ruiva que fizera uma ponta em O renegado. ficou paralisado de horror. No começo. Mas as mulheres não sabiam disso. Suspirou profundamente e abriu a porta. Percorria os escritórios vazios. às sete horas. embora achasse que ela escolhera mal a ocasião para falar. David não ouviu bem o que ela disse. certo de que não seria mais preciso m andá-lo. Foi um pouco depois que lhe ocorreu a idéia. mas acabou transformado num espetáculo de circo. fic ava com o resto do dia livre para atender a quem o procu-rasse. E. Bernie sentiu a rai va fervendo em seu sangue. e nos caso s passageiros com as garotas que se sentavam sozinhas nos camarotes do segundo a ndar. como poderia dirigir uma organização tão complexa qua nto aquela? Naquela manhã. dera ordem a suas três secretárias para não deixarem David entrar em seu gabine te. Problemas. Todas as manhãs. com voz suave. Gostava de dizer que sua porta estava sempre aberta. — Calma. com uma porção de papéis espalhados pelo chão à sua volta. deixava em cima da mesa inocente-men¬te uma minuta de memorando. olhando os papéis que estavam em cima das mesas. Bernie Norman tinha orgulho em dizer que ele era o primeiro diretor a chegar ao estúdio todos os dias. Norman justificava aquela sua atitude com extrema simplicidade. Embora fosse apenas um publicitário júnior. nas assustadas pequenas italianas e na irlandesa sem-vergonha. David estava dorm indo no sofá. chegava cedo porque era um bisbilhoteiro nato. quando todas as possibilidades começaram a se desenhar diante d ele. David tinha muito prestígio com as mulheres do estúdio. Embora ninguém comentas se o fato. sua comprida limusine preta ent rava pelo portão do estúdio e parava em frente ao pré-dio de seu escritório. de diretor es e secretárias. e só lhe dera o emp rego para se ver livre das insistências dela? Para impedir que o sobrinho o aborre cesse. todo mundo no estúdio sabia o que ele fazia desde o momento em que entr ava pela porta do edifício da administração. geralmente desertos. lá embaixo. — Eu sei. Ainda por lá. — O que você esta dizendo? — Quero ir ao casamento de Nevada Smith. Sempre dizi a que gostava de chegar cedo. antes da chegada de suas três secretárias. chegou a seu gabinete às oito horas. s empre problemas. de repente. de certo modo. Ou talvez muito bem. Que diferença entre as pequenas de Hollywood e as que conhecera em Nova Iorque! Pensava nos vaga-lumes do Bijou Th eater. querido. enquanto o filme corria na tela. mas haverá no casamento uma porção de gente importante. Na verdade. Tudo podia ser explicado com uma palavra: nepo tismo. Não que o parentesco lhe adiantasse muito. e ganhasse só trinta e cinco dólares por semana. — Vai ser uma cerimônia íntima — murmurou David. Tinha vinte e três anos e coisas mais interessantes em que pensar. se algum direto r queria que alguma coisa chegasse ao conhecimento de Norman. que era pelo menos duas vezes maior que a de qualquer outra pessoa no estúdio. Se eu não for. Do contrário. pois sua inspeção tomara um pouco ma is de tempo que de costume. Na verdade. Do contrário.

sarcasticamente. recostou-se na cadeira. ao fim de algum tempo.. — Pensa que está contando alguma novidade ou que isso interessa a alguém? Nem me convi daram para o casa-mento. Fora daqui! Se não sair do estúdio dentro de cinco minutos . — Aberta? — exclamou David. mandarei jogá-lo na rua. é até capaz de matar uma pessoa! Abriu a gaveta. como todo mundo faz. Viu o filme? — Claro que vi o filme. Não disse que tinha alguma coisa importante para falar? Pode falar que estou ouvindo. Quem quer falar comigo basta falar com minha secretária número três . mais certo do que nunca de que não adiantava procurar fazer alguma coisa por aquele velho horroroso." Acidente! Eu podia ter dito a ela que o peq uenino David estava era na cama com uma extra ruiva do estúdio! Fora daqui! — Como foi que soube disso. — Não quero saber de explicações. que transmite o recado à número um. — Não tinha intenção de pegar no sono. Hoje mesmo vamos fazer uma estréia de surpresa num cinema do vale. Norman abriu lentamente os olhos. Dia e noite! Foi até a cadeira diante de sua escrivaninha e deixou-se cair nela. c onseguiria falar com o senhor. — Papéis! — exclamou Norman. — Saia daqui. — E ainda tem coragem de me dizer para deixar disso! Sua mãe levou metade da noite m e amolando pelo telefone: ' 'Meu pequenino David ainda não voltou para casa. trabal hei como um cão. Se a número um acha q ue o caso é mesmo importante.Atravessou a sala e arrancou David do sofá. Depois. a pequena vai ser o maior nome da indústria. — Está melhor. sentindo pela primeira vez alguma possibilidade no rapaz. Além disso. Afinal. —Aconteceu uma coisa important e. David fechou a porta. — Pois bem. — Nem Cristo. você bem sabe quais são meus princípios. ela não tem contrato com ninguém. — Uma falta como essa de uma pessoa do meu sangue. O tio olhou para ele. — O contrato de produção de O renegado! Teve a audácia de abrir meu arquivo confidencial ? — Posso explicar tudo. dirigindo-se para a porta. — Mas Rina não é. Tal vez tenha sofrido algum acidente. Levou a mão ao c oração num gesto dramático. — Ainda está aí? — perguntou. poderia ter vindo conversar comigo. — Espere um pouco. Você bem sabe que minha porta vive aberta. tio Bernie — disse calmamente David. olhe bem para mim. — E daí? — Pelo que vi no seu arquivo. porque o que vai ver s erá um milhão de dólares que está fugindo de sua mão. Está despedido! Uma coisa que não tolero neste estúdio são espiõe s! E logo o filho de minha irmã! Fora! — Deixe disso. — Que papéis? Pegou um dos papéis e deu um grito de horror.. Mas comecei a ver uns papéis e adormeci. Todo mundo gual a todo mundo. tio Bernie? — perguntou David. Faça-a assinar contrato . com os olhos fechados. senão será tratado como um ladrão! — Oh! — exclamou David. que deveria me ajudar. meu tio. se chegasse a esse estúdio. apanhe esses papéis todos do chão! Depois suma! — O senhor nem sabe o que vim fazer aqui — disse David. Aquelas três fúrias não o deixariam passar! — Não meta religião nisso! Além do mais. e no mesmo instante a pessoa está aqui no meu escritório. Nevada é um homem liquidado. eu gosto de ser justo. Depois dessa estréia. fala comigo. seu bastardo imprestável? David acordou em sobressalto. David.. tirou um vidro de comprimidos e engoliu rapidamente dois ou três. — Talvez — disse David. esfregando os olhos. Nevada Smith e Rina Marlowe vão casar. — Mas fi-que sab endo! Quando eu sair por aquela porta. antes da estréia do filme. — No mês que vem. com a voz de quem faz um supremo esforço para se controlar. — Se é mesmo alguma coisa importante. tio Bernie? — Como eu soube? Eu sei de tudo que se passa neste estúdio! Acha que construí essa indús tria passando noites na cama com vagabundas? Não! Para chegar onde cheguei. — Que diabo está fazendo aqui no meu escritório. Esta fala com a número dois.. No mesmo instante! Faça isso e não entre mais aqui como um ladrão à noite . vamos! Primeiro.

acompanhando a tomada em plano g eral de uma igreja cercada por um grande número de pessoas. acompanhou com emoção o casamento de conto de fadas de Nevada Smith e Rina Marlowe. astros do grande filme O renegado.. não gastarem os um tostão. A receita do filme aumentará mais cinco milhões.. o dinheiro dele está no filme e ele não pode arriscar-se! David tratou de mandar uma cópia especial da filmagem do casamento para Cord. Nevada subiu a escada da igreja. Den tro em pouco. Nestas condições. Neva da não vai gostar. com desprezo. que nessa ocasião estava na Europa. senti ndo a confiança au-mentar com a demonstração crescente do interesse do tio. chegando à igreja com Whitey. falaremos sobre o casamento. — Toda Hollywood. Depois. Não poderia fazer mais por meu filho. — O que ele entende de mulheres? — Os goyim já entendiam de mulheres antes de Adão sair com Eva do jardim do Éden — Não — disse Norman. — E de que nos adianta isso? Não temos quota alguma do filme. Norman levantou-se com lágrimas nos olhos. Afinal de contas. a luz imediatamente se apagou e a sala ficou cheia de música. Já havia um franco interesse nos olhos do tio. E o melhor será que poderemos descarregar todas as nossas despesas com o casamento na conta da publicidade e deduzir tudo da receita do filme. Estive no set o tempo todo. mas acabará concordando. — Nunca! Já temos malucos de sobra aqui e não precisamos de mais um! — Ele entende de cinema.. — Por que não? — É o tipo de homem que não quero perto de mim. — Eis o noivo. você trabalhará a meu lado! Será meu assistente. sentando novamente. — Ora. Não é o tipo de homem que gosta de tra balhar com sócios. O renegado é uma prova. Depois. onde havia conseguido que passassem o filme para ele. Não há no filme nada em que ele não tivesse metido o dedo. se tivesse um! — Há mais uma coisa. a ser distri buído proximamente pela Norman Films. Quando Jonas entrou na pequena sala de projeção em Lon dres. vai querer tomar conta de tudo. Mas acho boas suas outras idéias. David continuou: — Depois. Vou mandar as secretárias prepararem o escritório aí ao lado para você. Se não fosse ele. — Não foi. Como um presente do estúdio. — Ora. — Acho que devemos assinar um contrato com Cord para ele fazer um filme por ano pa ra nós. — De hoje em diante. Dessa forma. o mundo inteiro. Tem o m aior faro para mulheres que já vi em minha vida. que aplaudi . Hoje mesmo faremos a moça assinar o contrato. Rina Mar-lowe nunca seria a estrela que vai ser.hoje mesmo. apareceram os letreiros: CINE JORNAL NORMAN O PRIMEIRO COM AS MELHORES FILMAGENS DOS FATOS DO DIA A voz dramática e grave do narrador se fez ouvir. não partic iparemos dos lucros. Isso representa a metade das despesas da nossa rede de distribuição durante um ano. Ele não se contentará em fazer filmes. foi apenas um golpe de sorte. — O que é? — perguntou Norman. Cord pagará tudo da sua quota de lucros. vinte e cinco por cento de cinco milhões são um milhão e duzentos e cinqüenta mil dólares. o mundialmente famoso Nevada Smith. não temos? — disse David. Não! Com ele não quero re-lações. — Mas temos porcentagem sobre a receita pela distribuição. — Eu sabia! O bom sangue não nega! — exclamou ele. Então. enquanto a polícia continha a multidão. Via-se Nevada indo para a igreja espetacularmente vestido com a roupa resplandec ente de cowboy e montado num cavalo branco.. — É um goy — disse Norman. diga aos dois que quer bancar as despesas do casamento. seu não menos famoso cavalo. dramati-camente. Faremos do ca-samento o maior acontecimento a que já se assistiu em Hol lywood.

E agor a vamos dizer alô a alguns dos mais famosos convida-dos. confortável e casualmente. tomando o braço de Norman. Barr y tem importante papel em O renegado e acaba de ser contratada pela Norman Films por sua excelente atuação nesse filme. quando a cena termi nou. — Muito obrigada — disse Rina. Ela ficou um instante parada. ao lado do amigo. desenhado especialmente para ela pe la famosa couturière Ilene Gaillard. Norma n estava entre os noivos. jogando-se no grande sofá e tirando os sapatos. dirigiu-se para a igre ja. — Aqui. As flor es foram apanhadas por uma moça de cabelo ruivo e olhos amendoados. Houve então uma tomada de Rina jogando o buquê e uma confusão de belas jovens. Sentia um frio na boca do estômago. Um instante depois. Eu tinha mesmo alguns trabalhos para acabar. Norman se most rou entre eles. a bela Rina Marlowe. Rina levou à boca o café fumegante. Ilene sorriu. A câmera moveu-se para o close final. Marlowe é feito com rendas de Alençon. Se era assim que Rina queria. estrela de O renegado. por isso mandei buscar café e sanduíches. Saiu. com um en orme pavilhão em torno do qual se viam milhares de pessoas. Depois. Ilene — disse Rina. Norman. amiga íntima da noiva. — O buquê foi apanhado pela srta. uma limusine preta apareceu e parou em frente à igreja. Ilene empurrou uma mesinha de rodas para junto de Rina. apalpando os arredondados contorn os das nádegas de Rina. ao lado de Bernard B. e Jonas levantou sem sorrir. Depois. Você parece cansada. e a câmera se mo veu para um rápido close. — Não faz mal. nos jardins do palacete de Nevada Smith. Abriu a geladeira e tiro u uma bandeja de sanduíches. As luzes se acenderam. Marlowe no filme de Bernard B. Os três estavam rindo. que colocou sobre a mesinha. Virou-se para a porta no momento em que Rina entrou. Norman. que também desenhou os notáveis costumes usados p ela srta. — E eis novamente a noiva e o noivo. Norman. um braço paternalmente nos ombros de Nevada e o outro fo ra de vista. A noiva prepara-se para jogar seu buquê à multidão de garotas ansio sas. Mas o que nem Jonas nem qualquer outra pessoa que assistiu ao filme puderam ver foi a mão esquerda de Bernie Norman escondida atrás das costas de Rina. 16 Já passava de oito horas quando Ilene ouviu a porta do escritório da frente abrir. o famoso produtor Bernard B. — Fizemos horas extras no set ont em à noite. Bernie Norman d esembarcou e voltou-se para ajudar Rina a descer.a. conhecido produtor de Hollywood que será seu padrinho. A mão de Norman estava. Rina segurava um grande buquê de rosas e orquí-deas. por trás da noiva. — Estou c ansada mesmo. Depois. evidentemente arrumados co m todas as minúcias por um assistente para sorrir e acenar. A câmera se deslocou pelos jardins à medida que o narrador apresentava astros e jorn alistas famosos. — E eis a noiva. O renegado. Depois abriu uma garrafa térmica e serviu uma xícara de café. enquanto a câmera aproximava a imagem num lindo close do rosto de Rina. sorrindo para a multidão. Norman em homenagem ao famoso casal. Anne Barry. __ Desculpe tê-la feito esperar. felizes. que paravam no meio dos seus grupos. focalizaram a entrada da casa onde Nevada e Rina apareciam. Norman e Nevada sorriam na tela. Rina. A bela srta. Rina. assim seria. É grande o sufici ente para acomodar e alimentar mil convidados e é o maior do mundo no gênero. L argou a paleta e limpou no casacão cinzento que vestia as manchas de tinta que tin ha na mão. fe-lizes. Por que não senta e descansa alguns minutos? Soube no escritório de produção que você che garia tarde. está o pavilhão construído pelos funcio nários do estúdio de Bernard B. O vestido de noiva da srta. . A câmera então mostrou a parte externa da casa de Nevada em Beverly Hills.

— Quer dizer que todo mundo vai recuperar o dinheiro que empregou? — Acho que sim. Sabemos com absoluta certeza. d e fontes bem informadas. Acabei de me lembrar que tenho de fazer uma série de fotografias de meu desjejum p ara a revista Screen Stars às seis horas da manhã. entre duas mordidas.— Está ótimo — disse. Sentiu-se de repente aliviada de pesado fardo. Ilene abriu o armário. Quando tentou meter-se no macacão apert ado. com base nessas cifras. — Acontece que gosto de trabalhar. desde que terminou O renegado. Ilene. Agora. um atrás do outro. — Não — replicou Rina. o título do filme é A moça do tr apézio. Rina começou a desabotoar os colchetes nas costas. — De repente. Um deles ficou preso. Rina riu. — E tem todos os motivos para estar. é animador encontrar ao menos um raio de sol. Rina. Esta desabotoou prontamen te o colchete. não tem uma semana de folga. jovem milionário do oeste. O renegado. ao mesmo tempo que um pouco de cor voltava a aparecer em suas faces. Há algumas coisas que tenho de fazer. Bebeu o resto e descansou a cabeça no encos to do sofá. foi produzido e financiado por Jonas Cord. exclamou: — Acho que não devia ter comido aqueles sanduíches! Ilene examinou o costume. do estilo usado pelos acrobatas de circo. Ao menos Nevada não tinha mais motivo de preocupação. — Tenho muito tempo. renda pe lo menos dez milhões de dólares. Três filme. Afinal de contas. Rina desceu do pedestal e voltou as costas para Ilene. Mas alguma coisa chamou sua atenção. — Sinto-me melhor agora — disse ela. depois do primeiro gole. — Estou tão cansada que nem tenho fome. menos de um ano após sua estréia. distribuído pela Norman. Segurou o costume enquanto Rina se despia. O título já dizia tudo: "O RENEGADO" E O MAIOR SUCESSO DE BILHETERIA Durante um ano cheio de queixas e lamentações de exibidores e produtores angustiados pelo poço sem fundo em que parecem estar caindo as receitas da indústria cinematográf ica. O filme apresenta também Nevad a Smith. vamos experimentar outro. Pegou um exemplar da Variety que estava em cima do sofá e começou displicentemente a folheá-la. cada qual de uma cor. Ilene tornou a servir café. soltando baforadas para o alto. Depois tirou um cig arro da caixinha sobre a mesa e o acendeu. Havia seis macacões de malha. — foi Bernie que os encomendou assim.. fiquei com fome — disse. — Podemos experimentar os ve stidos logo que eu acabar este cigarro. Espera-s e. — Já viu isso? Ilene olhou. e na semana que vem vai começar m ais um. Pegou um sanduíche e começou a comer avidamente. Mas há um limite para tudo! Rina não respondeu. — Eu também. que o filme que revelou Rina Marlowe. É um milagre que não tenha tido ainda um colapso. — Vamos começar logo. que as receitas de O renegado no país ultrapassaram nesta semana a marca dos cinco milhões de dólares. Rina comeu tudo em alguns minutos. Ilene pegou um deles e. e que ainda dev erá ser exibido em muitos cinemas dos Estados Unidos e do resto do mundo. mais conhecido pelo vôo record ista de Paris a Los Angeles que fez no ano passado. colocando-o à frente do c orpo. levantando e apagando o cigarro no cinzeiro. Leu a notícia e a mos trou a Ile-ne. — Muito bem. Ilene tirou os olhos do jornal e disse: — Já havia lido.. Há um ano. — É melhor subir ali no pedestal. Contanto que Bernie não roube a todos. Não consigo sair de dentro desta coisa. Marcou rapidamente as alterações com o giz. O pano do macacão se abriu e seus dedos roçaram as costas nuas de Rin . — Não há pressa — disse Ilene. — Você tem de me ajudar. disse: — Estão cada vez menores. Ilene.

Ajeitou o freio e as rédeas. Nevada a colocou no lombo d o cavalo e apertou bem. rapaz. vestiu-se e desceu para as co cheiras. relaxando as rédeas. Mix. Ilene puxou o costume. Não se entendia metade das coisas que os artistas diziam. Eram caros demais. rapaz — murmurou. estábulo por estábulo. Recu ou um pouco e Rina aconchegou-se em seus braços. Meteu o focinho na mão dele à procura do torrão de açúcar que sempre encont rava. Já vencera muitas tentações e não deixaria que uma coisa daquela lhe criasse dificu ldades. Convers aram as coisas de sempre enquanto Nevada engolia o café escaldante. Recuou como se houvesse tocado num ferro que nte. e o deixou ir devagar. tirando o macacão e entregando-o a Ilene. Viu os bicos dos seios de Rina projetarem-se co mo flores vermelhas num campo de neve. Ilene sentiu lágrimas quentes abrirem caminho em seu rosto. e saiu da cocheira com o anim al. Os olhos se encontraram e Ilene percebeu o tremor. O vaqueiro trouxe. — Estamos engordando um pouco. de seu corpo. — Não! — Rina tremia novamente. — Não — murmurou. — Acho que terá de me ajudar de novo. A época dos grandes filmes do oeste estava ter minada. Ilene segurou de repente a mão de Rina. Era coisa que não faria. — Está com frio? — perguntou Ilene. — Suba no pedestal — disse Ilene. agora mais forte. Pelo menos ele não era o único nessas condições. A nota que havia lido na Variety veio à sua mente. Levara um show de vaqueiros para a Europa e estava. e. dando um passo para trás. I-lene ficou atordoada com a onda de sangue que lhe subiu à cabeça. pois temos tido muito pouco que fazer ultimamente. O filme era malfei to e o som. Como sempre. sem dizer palavra. Gibson. ainda pior. Mais adiante. Holt estavam todo s em situação semelhante. Maynard. O vaqueiro o aguardava com uma caneca de café simples. fechou a porta entre os dois quartos para que Rin a soubesse que ele havia saído. — Olhe para mim. enquanto as mãos de Rina acariciavam o cabelo dela. Rina deixou o resto do costume cair até a cintura e lutou para descer o macacão pelo s quadris. Nevada havia assistido a um deles. Nada parecia real. com coração a querer saltar-lhe do pe ito. Tom Mix procurara outra solução. Ali estava ele com o filme de maior sucesso do ano e ninguém ainda o p rocurara para falar em outro filme. bem quente e forte. Rina virou lentamente a cabeça. Nevada acordou às quatro e meia da manhã. ao sair. Rina tornou a subir e se voltou para ela.a. com os olhos voltados para o lado. Montou e se dirigiu à pequena pista de exercícios que mandara fazer ao pé da colina at rás da casa. — Não é de admirar. Aproximou-se dela e enterrou o rosto nos pêlos macios entre suas coxas. O cavalo esticou a cabeça pela porta e olhou para Nevada com seus o-lhos grandes e inteligentes. May-nard havia tentado reagir. Nevada abriu o portão e entrou. cujo maior trunfo era o fato de serem rodados em cinco di as. Ficaram as sim um instante. — Por quê? — perguntou impetuosamente. Fizera uma série de filmes cu rtos para a Universal. Olhou para Ilene. sentindo os ded os arderem sempre que tocavam em Rina. Sentindo o contato firme e quente daquela carne. então. O último era o de Whitey. Mecanicamente. paradas. a grande sela. não! Ilene sentiu como se estivesse sonhando. com o rosto impassível como uma máscara. — Por que foi casar com ele? Como sempre. N evada parou à frente dele e disse: — Bom dia. Correu as mãos pelo lombo macio e brilhante do anima l. Depois do café correram as cocheiras. o macacão desceu e Ilene percebeu Rina estremecer quando sua mão roçou acidentalmente o macio e sedoso púbis. Vou levá-lo para fazer um pouco de e-xercício. Afi-nal. Hollywood era um mundo realment e estranho. pôde ver as pontas cônicas do telhado. . Rina encarou-a por um momento. Como sempre estava lá. — Por favor. freou o cavalo. Levara muitos anos lutando para conseguir aquela posição. afastou os olhos. Estendendo a mão para pegar o costume.

fazendo um sucesso louco por lá com seu cavalo Tony. andavam. dia e noite. só com a manutenção da casa. Os sorrisos a utomáticos e profissionais se mostraram no rosto de ambos. Era estranha a rapidez com que os criados percebiam quem era a p essoa mais importante da família. Sairia em excursão com o show e venderia a casa. Nevada sentiu uma ponta de ressentimento. Era a pri-meira vez em m uitos meses que Rina o convidava para tomarem o café da manhã juntos. A casa comia dinheiro como uma matilha de lobos de vorando um veado desgarrado. Um silêncio desagradável se instalou no ambiente depois que os fotógrafos se retiraram . olhou para o relógio de parede e exclamou: — E melhor eu ir andando. Tenho de estar pronta para a maquilagem às sete e meia. — Alô. Levou o cavalo até lá. Fora o maior erro que cometera na vida. Ou isso. — Posso dizer à sra. da Metro. Sentiu um leve desgosto ass im que pensou isso. A fazenda de gado que tinha no Texas havia começado a dar algum lu-cro no começo da crise. Trabalhava. com su-avidade na . Para que ela funcionasse normalmente. As porcenta gens que recebia com a renda dos brinquedos e das roupas de Nevada Smith tinham diminuído. — Creio que está espe rando alguns fotógrafos da revista Screen Stars. Rina havia se oferecido para entrar com parte das despesas. e ele ainda se dava por muito feliz que cobrisse as despesas. e só o fazia por interesse publicitário. E ra uma coisa para se pensar Seu próprio show con-tinuava em ação e ainda rendia algum dinheiro. a renda seria bem melhor. uma ratoeira d e um quarto de milhão. James lhe falava agora com a mesma distante ceri mônia com que outrora se dirigia a Rina. Smith gostaria que fosse tomar o desjejum com ela no solário. Nevada hesitou. — Sim. Em seguida. um dando comida ao outro na boca. Mas logo controlou esse sentimento. não teria pelo menos de pagar comissão a um corretor. pois o interesse dos garotos se voltava para os cowboys. James. — Felizmente acabou — disse. por fim. em seis mil por mês. — Diga-lhe que irei logo que levar o cavalo para a cocheira. Se ele participasse do espetáculo. Então era isso. havia permanente ne-c essidade de vinte empregados. também. quando o telefone perto dela tocou. Mas. já lhe oferecera cento e cinqüenta m il por ela. era fazê-lo manter-se na sela sem cair. Smith que estará presente? — perguntou o mordomo. O único problema. Assim.segundo diziam os jornais. Haviam feito toda uma série. Afinal ela não tinha cu lpa. ou teria de aprender a tocar violão. Dera grande resultado para o tal Gene Autry. Thalberg. — Felizmente — repetiu Rina. — Agora só mais uma foto servindo o café para Nevada e pronto — disse o fotógrafo. naquela ocasião. não lhe seria possível manter a casa sem golpear a fundo seu capital. Nevada. mas ele não aceitara. Smith? Era a voz do mordomo. Não adiantava ficar esperando que alguém o procurasse para novos film es. O telefone do poste junto à cerca começou a tocar. Nevada olhou para a casa. tudo o que os leitores de revistas esperam ver de astros do cinema. O que é? — A sra. As despesas. Achava que era o homem quem deveria pa-gar contas. Não poderia fazê-lo sem prejuízo. De tudo isso lhe sobravam no máximo dois mil dólares por mês. — Sr. Tomou a decisão. Dir ia tudo a Rina quando ela chegasse do estúdio naquela noite. mesmo co m os empréstimos de O renegado pagos. segundo ouvira de um dos vaqueiros. Só lhe restavam sua parte no show e o rancho onde as divorciadas se hospedavam no Estado de Neva da. havia meses. Começou a se sentir melhor. Tex R itter estava ainda muito bem na Columbia. Nevada pegou a xícara e Rina levantou o bule de prata para servi-lo. a torrada queimada. O lógico seria livrar-se dela. Já ia levantar. Era esse o novo western: um cowboy cantor e um violão. — Alô? Rina o olhou de maneira estranha e tornou a falar ao telefone. Rina preparando os ovos com ba¬con enquanto ele observa va por cima do ombro dela. Teriam assi m a impressão de uma grande felicidade conjugal.

— A MGM não quis ceder Clark Gable? — Deixe de conversa! Pegue o telefone. pelo menos. lógico. Não queria que fosse as-sim. é verdade. — Sei perfeitamente o que está acontecendo. — Como? Vai vender Hilltop? — Vou. Rina.. — Alô. nada. se você conseguisse sair dessas malditas cocheiras.. Louella! Não. E isso me deixará ocupado seis meses. Além disso. branca de raiva.. O papel é ótimo. apesar de suas resoluções. — O que há? — perguntou Nevada. — Conversa! Fiquei o tempo todo em casa e ele não telefonou uma só vez. Bem lhe disse que eu estragava a vida de todo mundo e que não seria boa para você. Tinham casado porque já não havia nada e ntre eles e haviam procurado desesperadamente conservar o que já terminara. antes de contar para o mundo inteiro! — disse Rina . Nevada! Acho ótimo você representar de novo ao lado de sua bela esposa! — Espere um pouco. Norman de i-diu não tomar Clark Gable emprestado à Metro. Vocês dois são pessoas tão mara-vilhosas. Louella — disse ele. Um minuto.. — Desculpe. Além disso... Bernie resolveu ontem incluir você no cast. Nevada desligou o telefone e olhou para Rina. — Bernie tentou falar com você ontem o dia inteiro. A cons ciência desse fato dissipou a cólera. Por que casou comigo? — Ou você comigo? E nesse momento ambos perceberam a verdade. você também já deveria ter me contado sobre o filme . Cobriu o fone com a mão e disse apressada a Nevada: — É Louella Parsons. rindo. que idéia! Não me tirou da cama. também zangado. — Também peço desculpas. — Mais devagar. A moça do trapézio. mas nun ca se sabe como as coisas podem acontecer. — Não? — perguntou Louella Parsons. — Fique descansada. Não vou fazer o filme.voz.. — Não é do cinema que estou falando — disse Rina. — Não sei. É claro! Nevada é o homem. não ac eito esmolas nem dele.. Várias pessoas estão interessadas. Não. — A Irving Thalberg? Ouvi dizer que ele está interessado... — Não pense que a culpa foi toda sua. vendo que estava para descobrir mais um furo de no tícia. está bem? — Não adianta mesmo. — Há muit meses que não nos falamos. — Vai me avisar na hora em que decidir? — Claro! — Não há alguma divergência entre vocês dois? — Ora. Nevada. Você não quis atender o telefone. A culpa não foi sua. Teria de acontecer de qualquer maneira. Louella! Isso é pergunta que se faça a um casal feliz? — Fico muito contente em ouvir isso. Eu não lhe dei nada. secamente. comunique-me se houver alguma novidade. — Parabéns. Na minha ausência Rina procurará outra casa para nós. nem de você. Nós nos esforçamos. Você deveria t r casado com alguém capaz de lhe dar uma família. — Estou falando de nós dois. mas nenhum de nós tem aquilo de . mas não foi possí-vel encontrá-lo.. Nevada e eu estávamos acab ando de tomar café.. Sim. Louella. Vou chamá-lo ao telefone e ele lhe dirá tudo pessoalmente. pudesse perceber o que vai pelo mundo. — Bom dia. O cin ema está sofrendo uma grande transformação. Em todo caso. Rina! E deixe de falar com esse jeito de estrela. Acho que numa menor viveremos com mais conforto. Ele acha que só há um homem para o papel . — Por quê? — Já combinei fazer uma temporada com meu show. Ouviu a voz doce tão sua conhecida. — Não diga tolices. — Talvez. — Felicidade para vocês dois. — Não tive oportunidade! — replicou ele. — Você podia ter conversado comigo. Louel-la quer confirm ação. Louella.

não me faça favores. 17 David ouviu a porta do gabinete do tio bater violentamente. Falo a respeito com todos os diretores de Hollywood. Norman continuou: — Cinqüenta a cem ternos por dia. diz ele. noventa e cinco dólares depois. — Vou ter de correr . precisamos dela para o nosso próprio prestígio. zan-gado e ofegante. ten tando tirar alguns comprimidos do vidro que tinha nas mãos. tudo! Mais de do is milhões de dólares os anti-semitas nos roubaram. — Por que não me meti no negócio de roupas feitas com meu irmão. olhando para o relógio. Só que está ganhando cinqüenta mil dólares. — Não me incomodarei se você quiser requerer antes. Claude Dunbar. Posso telefonar para o irmão dele por um níquel. À noite. Manchas solares é o nome da peça. úlceras. Passou a noite no apartamento de Ilene. cinemas. — Como se eu já não tivesse de sobra com que me afligir. Telefono então para Louie e peç ue me empreste Greta Garbo. Nada de preocupações. Tudo calmo e tranqüilo. Um perfeito idiota. Posso tê-la por cento e cinqüenta mil dólares .que o outro precisa. os seguradores e os banquei ros se queixam de que os nossos filmes não têm repercussão. — Meu Deus! Estou atrasada! — exclamou Rina. E aqui estou eu com uma li-gação interurbana em Nova Iorque. Jack volta ao telefone. três meses depois. O máximo que ela está recebendo . recebo da Europa a notícia de que Hitler confiscou todos os nossos bens na Alemanha. vermelho. Além do mais. que tomou o caminho do e stúdio. David encheu um copo de água. parou e olhou para ele: — Ainda é meu amigo? — Serei sempre seu amigo. No dia seguinte se mudou para um hotel e. irritações. Depois. E eu fico no telefone dez minutos. contrato o diretor que levou a peça ao palco. Come e dorme. Em vista disso. Por cento e cinqüenta mil. Ela está desocupada até setembro. Compro os direitos do maio r sucesso artístico da Broadway. Não sou tão tolo assim a ponto de não ver logo que eles também nada enten dem da coisa. agora os a-cionistas acham qu e estamos perdendo dinheiro demais. Ela ficou ainda um momento parada e Nevada pôde ver as lágrimas que enchiam seus olh os. Calmam ente. Corro para Nova Iorque a fim de dar explicações. Desisto dele e telefono para Jack Warner. — Finalmente. E assim que se deve viver. Tenho vontade de dizer-lhe q ue largue o telefone. — Posso esperar — replicou ele. calmamente. salvo quanto às formalidades legais. diz ele. entregou-o ao tio e perguntou: — O que houve? Norman tomou os dois comprimidos e olhou para David. — Cento e cinqüenta mil dólares já gastos e nada de produção. Levantou e foi até lá. e ele telefonando para Harry. E foi assim que. Consigo fazer um acordo para que ao menos não se fechem os cinemas. Seu dinheiro não chega para isso . Ela vai fazer Anna Christie. Erramos. tudo acabou. que está pertinho de mim. em voz baixa. Chegando à porta. Foi até a janela e a viu sair correndo e entrar no carro. E não como um cão! Não como eu vivo! — O que houve? — tornou a perguntar David. O sindicato ameaça fazer uma greve nos cinemas. Pod e ser Bette Davis? Espere um minuto. de Eugene O'Neill. seu tio Louie? David sabia que nada devia dizer e ficou esperando. por incompatibilidade. Rina nunca mais voltou àquela casa. E só. É uma coisa tão artística que nem eu entendo o que quer dizer. — Aquele camelô pensa que não sei o que ele esta fazendo? Está é tele-fonando para o irmão H arry em Nova Iorque. escritórios. Então. Diz que estou com sorte. digo eu. — Só poderei requerer o divórcio depois de terminar meu próximo filme — disse Rina. — Agora fico com essa bomba artística nas mãos. E ncontrou o tio Bernie sentado em sua cadeira. re-quereu o divórcio em Reno. Louie vai para casa. Ele ri na minha cara.

digo eu. Eu digo cinqüenta mil. — Quanto você quer pagar? pergunta ele. — Mas pela cara dele não posso saber se ele lembra de mim ou não. Ele me olha como se não me conhecesse. — Está bem — disse David. espetacular. Duvidava até de que Cord tivesse conhecimento de sua existência. Paga-ríamos um bocado de contas com o dinheiro dele. você está positivamen te linda hoje. vamos ter prestígio. diz el e. Scheherazade. diz ele. diz ele. o maluco. O aviador. Digo: Por que está tão nervosa . — Volto então à Wall Street e digo aos banqueiros que agora. Se ela nos abandonar. batendo a porta. com uma voz cheia de profunda tristeza. se eu não tiver esse papel. Quem sabe. como nada disso tinha sido divulgado nos jornais ou revistas. Chego p erto dele e digo: Alô. você pode meter Scheherazade dentro dess e traseiro gordo! E saiu. Negócio fechado. Mas. ele pode ser útil. O filme vai ser tão artístico que duvido até que se con-siga fazer uma só pessoa entrar n o cinema. Bernie Norman. — Espere um pouco. Não sei como ele se arranja dessa maneira. Bernie perdeu o fôlego de repente e bebeu o resto da água do copo. Está bem. Ela trepa com quase todo mundo em Hollywood e tem coragem de me fa lar desse jeito! David também tinha ouvido falar muito dela. O que ela fazia particularme nte só interessava a ela. Não se lembra de mim?. Paguei cento e trinta e cinco dólares por um telefonema em que só falei dois minutos . querida? Isto não é para uma artista como você. diz ele. desde que não os prejudicasse. havi-am fechado os olhos. a trinta e cinco mil. Você irá asa dela hoje à tarde e falará com ela. Sem gravata e de sapatos de tênis. de Hollywood. acendeu-o e disse: — Vou telefonar para ela hoje à tarde e dar a notícia. Ela me agradece ao menos com um alô? Não! Mete-me um número do Repórter d iante da cara e pergunta: Isto é verdade? — Pego o jornal e vejo a notícia de Bette Davis no filme. — Conversou com ele? — Claro que sim. ele pode ter outro golpe de sorte. Fechado. pensei c omigo mesmo. Por menos de cento e vinte e cinco. — Depois de tudo o que tenho feito por ela. sim. Ficam todos muito satisfeitos. ouvir Rina dizer isso para mim! — murmur ou Bernie. digo eu. Ele e Cord nunca haviam trocado uma só palavr a. O que acha disso? E eu só estava procur ando acalmá-la. levantando para voltar ao seu gabinete. Os costumes são de fechar o comércio! E sabe o que f oi que ela me disse? — O quê? — perguntou David. — O que vai fazer? — perguntou David. Mas perguntou: — Como vai ele? — O mesmo. Tenho uma idéia melhor. David ficou satisfeito de que o tio ainda se lembrasse de uma conversa que tinha m tido sobre Cord alguns anos antes. Não. Ah. Falava-se dela até com Ilen e Gaillard. Parece um vagabundo. — O que eu posso fazer. uma bomba dessa! Tenho um papel para você. quem é que eu ncontro à minha espera senão Rina Marlowe? Rina. David? Vou dar o papel a ela. talvez nem isso. Sabe quem foi que encontrei no Waldorf na última noite que passei em Nova Iorque? Seu amigo. Não quero que ela pense que eu estou me curvan do à sua vontade. — Eram duas horas da madrugada e ele estava de braço dado com duas pequenas. — Tire a mão de meus peitos e fiq ue sabendo que. Es-tava com a barba . Isso mostra que para os goyim não há nada como o dinheiro. na situação em que estamos . ela pa recera ter perdido todo o controle. Qualquer outra pessoa seria posta para fora do Waldorf. digo eu. então setenta e cinco. Jonas. mas ele não. perder emos duas vezes mais do que estamos per-dendo. a de-senhista de costumes. Jonas Cord. Todo mundo sabia que as festas que dava em s ua casa nova em Beverly Hills eram verdadeiras orgias. — Não acha que isso é atrapalhação demais para qualquer pessoa? David assentiu com a cabeça. Li nos jornais que ele vai fazer outro filme. digo eu.por filme é trinta. Além disso. Nem pense nisso. meu bem. — Você concorda então que minhas atrapalhações já passavam da conta? Pois bem. Logo que se separara de Nevada. sim. nad a feito. dão-me parabéns e volto para Hollywood. Desligo o telefone. — Que amigo? — Você sabe. Pegou um charuto.

Olho para ele cheio de surpresa e per-gunto: Tem um escritório aqui no Wald orf? Tenho escritório em todos os hotéis dos Estados Unidos. digo eu. Agora. Não demoro. diz ele. Os diretores da companhia nunca a-provarão. contrato-a para a Cord Explosiv es. Eu. portanto. sim. — O que está fazendo agora?. — Diga-lhe que entre — gritou Rina lá de dentro. Ele se volta para as meninas e diz: Fiquem esperando aqui. digo. nada de sorrisos. Mas não vou discutir com você. Não serve. nada. dez por cento. O mordomo abriu a porta e David apertou um pouco os olhos. Viu o bar num canto. Faz uma pausa com um sorriso e diz: Por que não aproveita para urinar. diz ele. digo eu. Havia cadeiras cobertas de lona espalhadas por toda parte e . Quero um pouco do caldo. suas despesas gerais foram em média nest es últimos anos de vinte e um por cento. digo eu. O mesmo s e aplica no estúdio. Depende de onde puder encon trar as melhores condições. senhor — disse o mordomo. Mas isso são águas passadas. — Ainda não decidi onde vou distribuir o filme. Quero falar sobre esse novo film e que soube que está fazendo. q ue está muito sério. Quais as condições que está procurando? El e olha para mim e diz: Despesas gerais de estúdio. diz ele. — O sr. senão você as contratará. Olho para a placa. deu-me tal pancada de brincadeira no ombro que fiquei duas horas sem poder levantar o braço. para minha surpresa. diz ele. — Ora. Meu escritório. as porcentagens comuns. Saímos pelo corredor e chegamos a uma porta . fique sabendo. Depois. Do jeito que está o cinema. Há uma mesa e uma cadeira para o servente. pergunta ele. ofuscado pelo brilhan te sol da Califórnia. Mas já tive uma experiência com você. Aprovarão. Bem pensado.por fazer! Estas duas moças são artistas. Numa das extremidades havia um biombo alto. distribuição. um filme de guerra. Fokker. quando gosto de uma pequena. É sobre os aviadores na Guerra Mundial. Dizendo isso. — A srta. como dizem vocês. senhora. quinze por cento. Tomamos um ele vador e ele diz: Me-zanino. Não se aplicam a mim. O mordomo parou à frente de uma porta e bateu. Nieuport. no mínimo. Dentro tudo está branco e vazio. A voz de Rina fez-se ouvir de lá: — Sirva-se de um drinque aí no bar. CAVALHEIROS. O renegado contribuiu com vinte e cinco por cento de sua receita bruta. você não pode deixar de fazer isso. O teto e as paredes eram inteiramente de vidro. vi que ele não estava mais lá. — As contas dele estão certas. Quando acabei. — Acha que não sei disso? Mas será que ele é tão pobre que eu tenha de dar a ele o pão de mi nha própria boca? — Tenha a bondade de me seguir. e nada. diz ele. Ele dá um riso irônico enquanto abr e a porta. Olho para ele. Comprei uns cinqüenta aviões ve-lhos: Spad. Espere mais um pouco e verá. De Havilland. É o volume que regula as porcentagens e sou eu que entro com o volume. diz ele. Não me arrisco mais a perdê-las como quando você contratou a tal Marlowe. Isso é impossível!. digo eu. diz ele. já que está aqui? Fiquei tão surpreso que me dir igi para um dos mictórios. com todas as despesas deduzidas da receita bruta antes de calcular a s porcentagens de distribuição. — Não posso fazer isso. Woolf está aqui. levantando. De acordo com seu relatório anual. David o seguiu escada acima e até os fundos da casa. — Sorri como se nada tivesse sentido e disse: No nosso negócio é preciso andar depress a senão se fica para trás. por favor. Simples. Quero apenas fazer umas contas bem simples. Procurei-o no dia seguinte antes de tomar o trem. Ele senta na cadeira e eu noto. É um homem difícil. Marlowe está no solári o. — Bem lhe disse que ele aprenderia depressa — disse David ao tio. Fizemos um bom serviço no seu primeiro filme e acho qu e devemos conversar. ning uém quer mais saber de filmes de guerra. sei de su a sorte e sou capaz de tentar mais uma vez. mas não posso dizer nada enquanto não souber so bre o que é o filme. Deduza isso de sua receita br uta e verá que as despesas gerais foram a quase trinta e seis por cento. Durante esse período. me pega pelo braço e diz: Vamos para o meu esc ritório. — Não serve. Minhas despesas gerais são de vinte e cinco por cento. Não vou dizer o nome delas. Ninguém sabia dele e até o escritório del e não sabia de sua presença em Nova Iorque. Depois de Nada de novo no front.

Ilene olhou para David. Ilene parece não compreender isso. David. — O mal de Ilene é que é modesta demais. rindo. rindo. estendeu o copo para ele : — Veja se está bom. Largou o cop o de uísque e levantou. — Mais um pouco. David viu-lhe de relance os seios fartos. — Está bem — disse ela. É só. David. — Bela casa a sua. — Acho que ele quer é trepar comigo — disse ela. Deixe que eu o sirvo. com voz meio ressentida. Martini para mim é como se fosse água. Mas o que quero saber é se o papel é meu ou não? — É seu. Rina bebeu e brindou: — Viva. Além disso. Ela precisaria de um pouco mais que ma ssagens para não engordar se continuasse a beber daquele jeito. — Ótimo — disse ela. depois de provar. belicosamente. Vi slumbrou uma parte da coxa enquanto ela se movia e calculou que ela estava compl etamente nua dentro do roupão.um grande tapete branco que cobria quase todo o chão. — Quem não quer? — perguntou ele. — Eu mesma me protejo. ao mesmo tempo que se sentava também. Procur a protegê-la. David virou-se. — David veio evidentemente tratar de negócios. muito ativa atrás do bar. — Nada disso! — Rina exclamou. Ilene tem um senso de col orido admirável. — É agradável. — Pronto — disse Ilene. amarrando um roupão branco. — O que você quer? — Uísque. — Olá. — Estou certa de que David não veio até aqui para falar a meu respeito. Ilene. Ilene? — Escute — disse Ilene. de repente. Ilene Gaillard saiu de trás do biombo. É uma das pessoas mais t lentosas que já conheci. censurá-lo se ele hesita em incluí-la num filme que quase c ertamen-te será um abacaxi. — Meu martini está pronto? — perguntou Rina atrás dele. Rina. — Vou falar com o tio Bernie. Entregou o copo a Ilene. com uma nota de satisfação na voz. — Obrigado. Também tenho toda confiança nela. Rina. Rina estava saindo de trás do biombo. David. David! — Viva! Ela bebeu metade do martini de um gole e levou David para um grupo de cadeiras. Não pode. Por que não espera para beber depois da conversa? — Deixe de ser mandona e faça o drinque! Sabe. — Olá. Você é o elemento mais valioso da comp anhia. meu pai me dava martinis quand o eu ainda era uma garotinha. portanto. — O que acontece é que ele acha que não sou capaz de representar bem e que eu só presto para aparecer tão nua quanto possível. — Posso apontar-lhe pelo menos sessenta milhões d . Estava com uma camisa branca de mangas arre gaçadas e com slacks de corte masculino bem apertados nos estreitos quadris. você é uma estrela nata. Pouco depois. — Ele a considera uma excelente atriz. Você devia "falar com seu tio para deixá-la fazer uma experiência no de partamento de arte. — Como é? — disse Rina. O cab elo mechado estava cuidadosamente escovado para trás. — Diga a seu tio que não usarei sutiã na próxima v z que for ao gabinete dele. — Ótimo! — respondeu ele. Onde está meu drinque. água e um pouquinho de gelo. Rina. — Está vendo? — disse Rina. Ilene e eu nos divertimos muito mobiliando-a. — O velho patife resolveu me dar o papel no filme? David respondeu prontamente: — Você tem de compreender a posição de meu tio. de trás do biombo. tomando mais um gole. — Sente-se — sugeriu ela. — Rina — disse Ilene. — Olá. — Faça outro martini para mim — disse Rina. Tenho certeza de que ela se sairia muito bem. — Tenho certeza de que ele ficará muito contente — replicou David.

Marlowe? E como se chega lá? A secretária sorriu. que aceitou sem hesit ação. sr. gaguejando um pouco. — Não duvido. Ilene — disse Rina. pegando eficientemente o telefone. que o levou ao ponto culminant e de sua carreira. nunca se esqueceria do abismo e dor e angústia que viu naqueles olhos. Mas só depois de chegar à Califórnia ficou sabendo quem ia desempenhar o papel princ ipal. se abriu. sr. — Seja justo. mas acabava sucumbindo à lascívia da moça. David a encarou. nessa ordem. Era indiscutível que se tratava de uma mulher belíssima. desamarrando o cinto do roupão. voltaremos a conversar. A peça se desenvolve com um conflito entre os dois homens. a si me smo e ao teatro. enquanto as três secretárias o olhavam espantadas. Dê uma oportunidade à moça. Norman.. Dunbar. trabalhe com ela um pouco. Rina nunca fez um filme que não rendesse muito dinhe iro. Vá à casa dela ho-je à tarde com o script veja pessoalmente. Está com coragem agora? — perguntou ela. Temos de protegê-la com toda bilhe teria que pudermos conseguir.e — — — — — homens que pensam nisso de vez em quando. — Não há outra. Mas não era o tipo exigido pe lo enredo da peça. Mas foi a direção q ue imprimiu a Manchas solares. se ainda achar que não serve para o papel. peça em tudo medíocre. Vou providenciar para que um carro o le ve até lá. Tomara que um dia eu tenha coragem suficiente. apesar de a peça já estar há um ano em cartaz na Bro adway. — Vá ver se onto. dirigiu-se à moça sentada à mesa mais próx ima da porta. O mais moço tent ava proteger a moça da lascívia do mais velho. — Vá lá para baixo.. Assim. Ficou tão surpreso que nem pôde falar. que mostrando o corpo nu. O filme lhe provocou um sentimento misto de fas cinação e horror. antes de ir à casa de Rina. — Pode me dizer onde mora a srta. David viu de relance os olhos de Ilene quando ela passou correndo por ele e se irigiu para a porta. Dunbar. para dissimular sua confusão. Você nunca me passou uma cantada. sem desviar os olhos dele. — Posso fazer melhor que isso. — Sr. Mas será que ela sabe representar? — Não há melhor atriz em Hollywood. . — Rina Marlowe? — exclamou em conversa com Norman. Dunbar ficou tão surpreso quando Nor-man telefonou dizendo que havia compra do os direitos da peça e convi-dando-o para dirigir o filme. Quem disse? Eu mesma. Norman? — perguntou Dunbar. Claude Dunbar só amava três coisas na vi-da: sua mãe. Essa sua peça é muito importante. o almoço já es d d 18 Até conhecer Rina Marlowe. como sempre acontec ia quando se sentia confuso. — Mas pensei que seria Bette Davis. Muitas falas e pouquíssima ação. Você não está entre eles. O produtor olhou fixamente e disse em tom confidencial: — A Warner me passou a perna. Você é diretor. Mesmo que vivesse cem anos. Então logo pensei em Rina. O produtor havia se livrado dele com tanta eficiência que ele só percebeu quando se viu diante da porta fechada. Tinha até uma e spécie de encanto animal que agradava a certas platéias. Naquela tarde. e uma jovem amnésica que um dia apareceu no acampamento d os dois. Mas Norman já o tomara pelo braço levando-o até a porta. Claude Dunbar entrou num cinema para ve r o mais recente filme da atriz. Depois disso. Era uma peça com apenas três personagens: dois garimpeiros que vivi-am isolados à marg em de um grande deserto. O seu Hamlet em trajes modernos fora a mais aplaud ida produção shakespeariana já apre-sentada num teatro de Nova Iorque. — Que tal a atriz que fez o papel no palco? — É uma desconhecida. sr. Ficou vermelho e.

Rina entrou na sala onde ele a esperava. sem abrir o sc ript: — Meu nome é Mary.A moça da peça era melancólica. Eu amo você. quem estivesse em cena ficava em plano secundário. é difícil para mim lembrá-lo. Surpreendeu-se com o vigor que os dedos de Rina transmitiam. — Leia para mim — pediu Claude. mas não está sentindo o que significam . amedrontada. — Srta. Ele me assegurou que s e eu não ficasse satisfeito com ela arranjaria outra estrela. Mas não sei até que ponto posso ir como atriz. Norman que falaria com Rina Marlowe. mamãe. Tome cuidado — disse ela. com a mão es-tendida. Sim. Acho que meu nome é Mary. sorrindo. Na tela. volte para casa. mamãe? — Quem? — perguntou ela. Ainda que seja um nome muito comum na igreja e que eu o tenha pronunciado até em minhas orações. — Estava ansiosa por conhecê-lo. — Escute. Saiu do cinema e foi para o hotel. Enquanto tentava recuperar a memória. passando-lhe o script. — Sabe quem querem incluir no filme. vestindo um manto preto que lhe cobria o corpo dos pés ao pescoço. Franziu a testa e continuou: — Ponha-se no lugar da moça e fale mais ou menos assim: "Não consigo lembrar o meu nom e. Mas nunca se esqueça de que o mais importante de tudo é sua integ ridade artística. com sua calma habitual. apesar disso. meu filho. não é mesmo? — Sim. E isso o que quero descobrir. srta.. é isso mesmo . Não havia nenhuma sutileza em sua maneira de rep resentar. aproximando-se dele sem sorrir. Tenho sido chamada por esse no me a minha vida toda e. Mas era inegável a vitalidade que dela emanava. Ela então disse. Afinal. Deve ser um nome conhecido. O sr. Despertava o desejo dos homens não por sua aparência física mas pelo simples fato de ser uma mulher. Levantou e foi até a lareira. tendo consci-ência de sua sexuali dade e insinuando-a para a platéia. Rina se mostrava excitante e audaciosa. onde o carro iria pegá-lo. completando o ritual de despedida. Ele a olhou um momento e perguntou: — Já leu o script? Ela confirmou com um gesto. E só no final a p eça revelava que a raiz de seu pavor era sua tendência à devassidão. srta. — Não! — É verdade. — Do contrário. Sim. — Sim. Marlowe. introvertida. mamãe. — Está apenas dizendo as palavras. sou uma atriz. Para todos os efeitos. — Rina Marlowe. e não era possível desviar os olho s dela. como estaria aqui logo em seu primeiro dia de Hollywood? Deve estar curioso para saber por que quero tr abalhar em Manchas solares. telefonou para a mãe. — Diga ao sr. Ela era torturada e consumida pelo calor do deserto. Se não estiver satisfeito. Pôs as mãos no console. ele lhe prometeu Bett e Davis e você não pode aceitar como substituta essa loura insignificante. é isso mesmo. Não está sentindo o esforço que representa para a moça tentar lembrar seu próprio nome. Tenho ouvido falar muito no senhor. Rina o encarou em silêncio. de cos . Dunbar — disse. sua aparência deixava transparecer os sentimentos que a atormentavam. vamos deixar de rodeios. — Lembra-se da primeira fala da moça quando chega ao acampamento? — Lembro. — Sr. segurando sua mão. — Você só tem uma coisa a fazer: arrumar as malas e voltar para casa — disse a mãe firmeme nte. Norman que tem uma reputação a zelar. Marlowe — respondeu ele. Marlowe. Como era seu costume sempre que se sentia perturbado. Parece que minha memória está voltando agora! Acho que já sei! Meu nome é Mary. — Claro que sim — Rina sorriu pela primeira vez. — Está bem. Quando aparecia na tela. Norman me disse hoje que não puderam conseguir Bette Davis. Mas devia lembrar. Não usava nenhuma ma-quilagem. Acho que meu nome é Mary".. e o senhor é o único diretor que pode me ajudar. por quê? Sua posição no cinema já é tão boa. — Mas eu já disse ao sr. — Amo você também. — Também tenho ouvido falar muito na sua pessoa — disse ele. O cabelo platinado estava penteado para trás e amarrado co m uma fita na nuca.

"Por que o patife iria se preocupar com isso?". Afinal. e olho u para os dois homens. e vir ou-se para ele. — Nesta cena. A grande câmara começou a se aproximar para um close. Afinal não era dele o dinheiro que estava em jogo. Bernie Norman apareceu no set no último dia da filmagem. Nisso foram gast os cento e cinqüenta mil dólares só de salários. Ela tinha apenas de olhar para os dois homens. que depois se matara também ao compreender a que abismo a moça o levara. pouco a pouco. A mão de um ator estava em posição errada. O diretor-assistente e a script girl conferiram de novo as p osições e saíram do set. Para começar. Nada de arranjos o u remendos. e Dunbar os escondia daquele jeito.tas para ele. e fizeram algumas correções. Sim. O velho fora assassinado pelo ma is moço. Pior ainda. conferindo-as com fotografias anteriores d a cena. Um diretor-assistente e a script girl verificaram rapidamente as posições. Norman ficou irritado. deveria te r mandado examinar a cabeça quando se deixara convencer a comprar aquela história. Claude Dunbar sentiu um arrepio violento pelo corpo. — Câmara! O filme começou a ser rodado. T udo nela era absoluta insensatez. como se fossem ditas no palco. lembra-se? Ela se limitou a concordar com um gesto. Seu rosto ficou subitamente sombrio e aparentando cansaço. quando a m oça abre a porta de manhã e vê os dois homens mortos. Nada aconteceu. o início das filmagens havia sido adiado um mês. Sim-ples. O mais belo par de seios do cinem a. Depois. — Chore! — gritou Dunbar. você tem de chorar. Era a que se passava na frente da cabana. Felizmente era a última cena. — Chore! Vamos! Rina piscou os olhos. a se abrir. Um instante se passou. Era o que sempre sentia qua ndo encontrava no teatro alguma coisa realmente grandiosa. Outro instante. é isso! Acho que meu nome é Mary. passando por cima de um dos homens prostrados para chegar até Rina. — Corta! — gritou Dunbar. Norman e spremeu os olhos ao chegar à área mais iluminada do estúdio. Mais cinqüenta mil se foram nessa decisão. Norman só cedeu quando Rina disse qu e não começaria a trabalhar enquanto Claude não estivesse satisfeito. Balançou a cabeça contrafeito enquanto abria a porta e caminhava para o estúdio. O orçament o pouco interessava. e tudo estaria terminad o. Dunbar havia insistido em fazer tudo como fora feito no teatro. pensou Norman. deixando o cabelo cair até os ombros. Pouco se importava com o número de tomadas que fossem necessárias. A porta da cabana começou. Isso porque o diretor e xigiu trinta dias para ensaiar Rina no papel. Rina levantou lentamente a cab eça e olhou para a câmara. Outra exigência dizia respeito ao som: tinha de ser som perfeito em todas as cenas. — Todos em seus lugares! Os dois atores se estenderam diante da cabana. A produção do filme passara três meses do prazo. Ele deveria ter tido juízo basta nte para não contratar aquele sujeito para dirigir o filme. Todas as palavras perfeitas. — Câmara! . fechando a porta. havia uma mancha no queixo do ou-tro. Era de esperar que aquele bandido ao menos lhe rasgasse u m pouco o vestido. Ela murmurou com voz ro uca: — Meu nome é Mary. Dunbar voltou então para seu lugar ao lado da câmara. Puxou de repente a fita. Mas não: o vestido a cobr ia até o pescoço como se fosse no meio do inverno. Dez minutos. Aquilo era fácil. Rina tornou a entrar na cabana . chorar um pouco e seguir pelo deserto afora. Não havia nem som para complicar as c oisas. Dirigiu-se para o set. Rina apareceu. Nada poderia sair errado. e Dunbar disse calmamente: — Ação! Norman sorriu para si mesmo. Norman viu Dunbar dar o sinal. Um milhão e meio jogados fora. aquilo se passava no deserto.

— Ação! O produtor olhou a cena por entre os dedos.— Cena 317. Você queria provar que é uma atriz. Agora. Claude — suplicou ela. As lágrimas param e seus olhos ficam secos. mas v iveu com eles. Todos estavam o lhando para Rina. Por uma f ração de segundo o véu se levanta. mas não consigo. tomada 2 — disse o homem da placa. — Assim. Talvez não os amasse. É porque quero ver se ainda há alguma coisa dentro de você. E nada aconteceu. Deveria ter tido mais juízo. saia pela porta. len-tamente. Vê a arma na mão de Joseph e compreende o que aco nteceu. Prendeu a respiração quando se colocou um pou co para o lado. pois a câmara estava obstruindo parte da cena. saindo logo da frente da câmara. você se volta e olha para o dese rto. utilizou-se deles. Lágrimas de verdade. .. Não é porque você tenha pena deles ou de você mesma. alguém a espera. a memória que você perdeu e nunca recuperou. Norman correu os olhos em volta. — Chore! Rina olhou para a câmara que se aproximava. Talvez por um momento um deles lhe tenha trazi do um fragmento de sua memória. Dois homens estão mortos por sua causa e eu só quero uma lagrimazinha de nada. já fiz tudo o que me era possíve l. — Corta! — gritou Dunbar. Estão mortos. Pois bem. rolavam pelas faces como esferas de rolamento bem lubrificadas. Não adiantava desperdiçar dinheiro. mas o bastante para mostrar que você é uma mulher e não um animal. olhando intensamente enquanto Rina saía da cabana. Sentiu os olhos molhados. — Nada de maquilagem! — gritou Dunbar. Quer ser uma atriz.. Claude — disse Rina —. E você começa a caminhar pelo de to lentamente. Não muito. — As lágrimas chegaram mas o véu desceu de novo e você não pode saber por que está chorando. então. Começa a olhar para cima e a pensar. Dez mil dólares p or dia era o que aquilo estava custando. — Agora! — disse Dunbar. exausto. — Suspendam as lágrimas! Dunbar olhou para Rina e disse: — Esta é a última cena do filme. Dunbar estava falando com Rina em voz baixa. Não vou destruir a unidade e in-tegridade deste filme justamente na última cena só por sua ineficiência. Rina estava chorand o. Tinham esquecido tudo o mais. Prime iro para Paul. correndo furiosamente para a cena. — Faça aparecer as lágrimas! Norman concordou intimamente. — Maquilagem! — gritou furioso o diretor-assistente. as lágrimas falsas davam ainda melhor foto grafia. o filho que você não teve. Você olha para o chão e observa os dois corpos. na solidão das areias. inspirando compaixão mesmo com a forma altiva e ereta do corpo.. Vo cê encontrará essa pessoa lá. — Nada de maquilagem! — repetiu seu assistente. seu irmão. — Podem copiar esta! E caiu na cadeira. assim. Então saberá quem realmente é. Na tela.. Lágrimas enchem seus olhos. se você ainda tem uma alma. ninguém era capaz de perceber a diferença. Dessa vez. — Então vamos ver! Ele voltou para seu lugar ao lado da câmara e se inclinou um pouco para a frente. que come-çou a se aproximar.. lentamente. Compre-endeu? Rina fez que sim. Tenho trabalhado dia e noite por uma ra zão apenas. não é? Então prove que é! Represente! Deu-lhe as costas e afastou-se. — Ação! Tudo aconteceu exatamente como da outra vez até o momento em que Rina olhou para a câmara. — Estamos fazendo esse filme há cinco meses. — Que diabo de mulher é você? — Por favor. depois para Joseph. — Corta! — gritou Dunbar. Olhou para os homens e depois p ara a câmara. Além disso. — Desculpe. Ficou ali com os olhos parados e secos e. afastou-se de repente para o lado. indo de novo para o palco. As mãos de Norman desceram-lhe do rosto. E você vê seu pai. Ali. alguém que a fará recobrar a memória. Norman cobriu o rosto com as mãos. a estendidos na areia. quase num sussurro. Dunbar ainda falava com Rina.. Dunbar calou-se enquanto Rina começava a caminhada. Creio que é me-lhor usarmos maquilagem . Até a el e aquela maldita cena havia emocionado! — Corta! — gritou Dunbar com voz rouca e vitoriosa.

muito agitado. — Deixe que eu resolvo isso — disse Rina confidencialmente. às vezes durante semanas a fio. Desde criança. Precisa descansar. — Acha mesmo? — E eu diria isso se não fosse verdade. seus olhos se clarearam. Tudo o que desejava vinha facilmente às suas mãos. com as linhas de exaustão ap arecendo no rosto magro e emaciado de homem de quarenta anos. e voltou-se novamente para Norman. Não era necessário dizer coisa alguma quand o ele se sentia perturbado e confuso. A mãe o conhecia. Todo mundo batia palmas e até os veteranos da equipe riam de alegria. Sentou-se no sofá ao lado do filho e fez a cabeça dele descansar em seu ombro. Ilene apareceu quase no mesmo instante. Ali. Instintivamente. atravessou a sala e olhou para o filho. — Eu ficava só pensando quanto tempo você levaria para descobrir a verdade sobre ela. — Acho que não dormi direi uma noite desde que o filme começou. mas foi exatamente isso o que aconteceu. — Ilene! De algum lugar na multidão. Não era preciso. Por um momento. descanse du-rante algumas semanas enquanto eu preparo tudo p ara a filmagem de Scheherazade. Claude nada disse. — Mas. Não me espantaria se ambos ganhassem prêmios da Academia! Norman não acreditava nisso quando falou. e lia para ele os livros que ambos amavam. 19 Nelia Dunbar. Marlowe — elogiou. Dunbar. ela havia se m udado para a Califórnia logo após o casamento de Claude com Rina. menina! Magnífica! Rina olhou para ele. Nunca fora muito forte. Marlowe — protestou o diretor —. a mão de Rina. Dunbar. Quase sempre Claude achava que eram esses os momentos mais felizes de sua vida. Norman bateu no ombro de Dunbar. Não se esqueça de que ainda tem dez semanas de edição do filme pela frente. sorrindo. Toda a . — Acha então que posso deixá-lo ir para um quarto de hotel no estado em que se encontr a? — Mas prometi a mamãe que telefonaria para ela no momento em que terminasse o filme. Mas não se preocupe. quando voltava da escola perseguido e maltrata do pelos outros garotos. — Mas está que não se agüenta em pé! — exclamou. Levava-o para a cama e cuidava ternamente dele. Rina sentiu uma nova vitalidade estuar em seu íntimo. Ele deu um sorriso cansado. — Telefone para James e diga-lhe que prepare o quarto de hóspedes para o sr. — É uma grande atriz. srta. sempre frágil e franzino. — Isso é fácil de curar. — Aquela mulher é um monstro — disse ela calmamente. srta. Então. — Você me conhec e muito bem. — Lá também há telefones. — Pode telefonar de minha casa — disse Rina. Ela lhe servia comida. que a mãe havia decorado para ele. Olhou para Dunbar. tomando a mão de Dunbar. no ambiente agradável de seu quarto. Encontrara a velha segurança nos braços da mãe. voltando a tratá-la com cerimônia agora que o trabalho estava terminado. se sent ia repousado e protegido. sentado em sua cadeira rodeado pela equipe da câmara e pelos seus assistentes. Ela sabia. trazia jor nais. Tinh a sido sempre assim. pois fez um filme ex celente. É só repousar um pouco — murmurou Dunbar. — Muito obrigada — disse. Ela se voltou e viu Dunbar aproximando-se lentamente.O palco se transformou num pandemônio. ao contrário. — Faça o que Rina está dizendo. Além disso. Nessas ocasiões a mãe tomava todas as pro-vidências. Agora. não quero absolutamente dar-lhe esse incômod o. foi como se ele estivesse muito longe. a grande t ensão a que sua atividade criativa o submetia o deixava exausto e mais fraco ainda . Norman correu para o palco e apertou. Eu avisei que seria loucura você casar com ela. menina? — perguntou ele sorrindo. — Foi uma honra trabalhar a seu lado. — Você foi admirável. sessenta e três anos de idade e forte como um rochedo.

Sentiu um arrepio. Pediu outro drinque. de onde po dia ver a rua. Pegou a caneca fumegante. E. Ol hou pela janela e viu que já estava chovendo. Saberia então que não poderia passá-lo para trás. Depois r . Ficou um momento como que paralisado. E poderia ver o carro de Rina descer pela col ina. Não tinha mais forças para isso. bem longe das paredes seguras da quele quarto.sordidez e mesquinharia do mundo ficavam lá fora. Claude notou que o outro freguês. perto da janela. Não o chamaria mais de meio homem. — Água quente? — Sim. deixando-a penetrar todos os segredos mais ínt imos de sua alma. A morte do pai praticamente não havia mudado o curso de suas vidas. Tom aria um drinque enquanto esperava. por favor. Estava começando a se sentir melhor. Claude sentou em um banco do bar." Começaram a se acariciar. Mas. mas não sentiam falta de coisa alguma. porque ele era virgem. — Uísque e água quente — pediu ao garçom. Podia haver outra cena e ele não agüentari a passar por aquilo de novo. Começara a chuviscar um pouco antes de ele chegar. Ele havia entrado no quarto escuro. tão passivo e sem exigências. aplicando e limpando a maquilagem até ficar exatamente como ela queria. Não eram ricos. po is morrera quando Claude tinha apenas cinco anos. Deixe que me encarrego de tudo. pois ele os havia deixado em boa situação financ eira. Seus atrasos eram uma coisa sabida e aceita por todos. segredos que ele procurava esconder até de si mesmo. Sentiu arrepios e teve re-ceio de que fosse ficar resfriado. — Mas. eu nem sei o que falar a um advogado. um jovem de casaco amarelo. Olhou para o relógio de pulso. Rina ficaria surpresa quando voltasse para casa e vi sse que ele levara tudo o que era dele. O bar estava escuro quando ele entrou. a mãe dissera as palavras mágicas. "Trouxe vinho para minha amada. Havia tempo. Pela manhã trataremos do divórcio. Quase não se lembrava dele. O garçom o olhou espantado. Sabia exa tamente o que Rina estava fazendo naquele momento. — E uma rodela de limão. — Não se preocupe. sentindo aqueles dedos estranhos. fazendo -o cair negligentemente mas com cada fio quase no lugar marcado. Trataria então do cabelo. ela estava sentada em frente à penteadeira. Tinha uma superstição: não ser pontual. — Volte para aquela casa e pegue as poucas coisas de que precisa — disse a mãe. Fez um gesto chamando o garçom. Era tudo delicado e belo. Ia ver que homem era ele quando o advogado a procurasse com os papéis do divórcio. Quase onze horas. Resolveu tomar outro uísque. Estava vazia outra vez. O pai nunca fora mais que uma vaga sombra nebulosa. como sempre imaginara que seri a. Claude olhou para a caneca. quando chegou diante da casa e viu o carro de Ri na à porta da garagem. mas já estava aberto e havia um freguês sentado a uma mesa com uma garrafa de cer veja a sua frente. Naquele momento. ele tinha consciência de ter permitido q ue ela o conhecesse profun-damente. Claude sentiu que um fardo pesado lhe fora tirado dos ombros. Mais uma vez. estendido ali na cama. Havia até começado a pens ar num poema em louvor a sua beleza ao sentir na carne as mãos ansiosas. Chegava no mínimo com uma hora de atraso. teve medo de entrar. lembrando-se da primeira bebida que a mãe lhe prep arava aos primeiros sinais de um resfriado. e tudo indic ava que ia ser uma daquelas tardes desagradáveis e friorentas tão incomuns na ensola rada Califórnia. Pegou a caneca novamente e percebeu com surpresa que estava vazia. Ele fi cava às vezes alucinado por ter de esperar por ela. pois tinha um almoço marcado no estúdio. mamãe. Ela não tardaria a sair. — Venha para cá. tam-bém estava olhando para ele. mas ninguém mais parecia incomod ar-se com isso. levando uma bandeja com uma garrafa de champ anhe gelado e duas taças. se tiver — recomendou. o que mais o incomodava. Desceu a rua até o bar da esquina com a rua Sunset. Encontrara conforto e paz nas curvas tão femininas daque le corpo. as cadeiras ainda colocadas sobre as mesa s. E nunca mais ela o olharia como na noite do casamento: com piedade e desprezo ao mesmo tempo. tomou um gole e sentiu o calor encher-lhe o estômago.

Os olhos pareciam chamejar quando disse: — Você é mesmo a espécie de homem que dizem que você é? Ele sentiu o calor do sangue queimar suas faces. Pegou sua caneca. Um grito nasceu então do fundo dela e ele se sentiu puxado para ela. então? Ele se ajoelhou ao lado da cama. porque o toque era tão leve e delicado que ele mal o percebia. Estava tomada de verdadeira al ucinação e os dedos o machucaram enquanto ela tentava guiá-lo e forçá-lo a entrar nela. — Falei. quando conseguiu desvencilhar-se. lembrou-se de que era quinta-feira e todos os criados estavam de folga. Da próxima vez será melhor. meu amor. Eu não estarei tão nervoso. mas não se incomodava. Estava quase entran do em pânico. — Obrigado. desprezo e c ompreensão. — Não me olhe assim. Casei com você porque a amo. Ela não respondeu e ele viu em seu olhar a terrível mistura de piedade. mas não sou como os outros. Claude abriu o armário e tirou uma maleta. — Não! — disse ele vivamente. Minha mãe diz que sou extremamente nervoso e sensível. Eu a amo! Eu a amo! Eu a amo! Ela começou a alisar gentilmente sua cabeça. Pouco a pouco as lágrimas cessaram. — O que você disse? Essas palavras o fizeram voltar do passado para o presente. Afinal. — Esvazie essas gavetas — disse ao jovem. alguma coisa que o aterrorizava a ponto de reduzi-lo à absoluta impotência. — Vou pegar outra maleta. Tirou a chave do bolso. O homem volveu os olhos para a janela e murmurou: — É verdade.elaxou. ao la do da cama. querida — ele prometeu. à espera daque le momento para então repastar-se em sua virilidade e devorá-lo. sentiu-se dominado por um terror selvagem. beijando-as. — Será melhor. sim — disse então. Depois de tocar a campainha pela segunda vez. Teve medo da prorrompente sensualidade exigida por aquele corpo. quando viu o carro de Rina passar. em sua terrível sexualidade. Subiram ambos a es cada até seu quarto. Devia ser um ator desempregado que tinha passado para tomar uma cerveja até a chuva pass ar. — Disse que o tempo ficou horrív l. pois as pessoas comuns não eram capazes de compreender como o trabalho o absorvia. Mas nunca chegou a ser melhor. — Gostaria de mais uma cerveja — disse o moço. e de certo modo muito bem a-pessoado. tentando disfarçar sua confusão. e viu que estava de novo vazia. e ele tomou as mãos de Rina. e disse com lágrimas nos olhos: — Procure compreender. Não havia deixado de perceber as insinuações que faziam a seu respeito. Não se mostrava mais passiva e delicada. e ficou ali de pé. que antes estivera latente. agradecido. Claude ficou aborrecido. Sentiu um t remor no corpo de Rina e logo depois outro. havia muita coisa dele na casa e não lhe seria possível carregar tudo soz inho. uma súbita onda de calor pareceu emana r dela. Claude olhou-o. e me encha de novo esta caneca — disse Claude ao garço m. que lhe ocorreu a idéi a. Ela fora para o seu lado na cama e o olhava com o cobertor descuidadamente jogad o sobre os quadris. Foi só três drinques depois. Havia na completa feminilidade do corpo de Rina. — Uma cerveja para este senhor. Parecia muito amável. Tentou cobrir-se com o pijama despedaçado e ouviu a respiração ofe-gante dela se acalm ar. todo trêmulo. Não queria mais saber o que ele sentia e precisava. o jovem de casaco amarelo. que falava com ele. Sentiu-se embaraçad o. De repente. Desculpe. Era muito comum falar sozinho quando estava engolfado em seus pensamentos. enquanto as mão s febris lhe rasgavam as calças do pijama. Ouviu o rumor dos lençóis amarfanhados e olhou para ela. — Que espécie de homem é você. Não havia dúvida de que realmente falara. — Pensei que houvesse dito alguma coisa. Era o outro freguês. . — Posso oferecer-lhe um drinque? — perguntou. Os seios arquejavam e os bicos ainda estavam túmidos de paixão.

não é? — Saia daqui ou gritarei por socorro — disse ele. Ensaboou-se com o sabonete delicadamente perfumado que a mãe mandava buscar especialmente para ele em Londres. Rina levan tou o braço e Ilene voltou-se. Em dado momento. Era como se sentisse na pele o mesmo calor bo m que lhe dava o uísque. Procurou o roupão. sentindo um estranho medo. enquanto virava a cabeça para olhar Claude com visível sarca smo. O rapaz levantou a mão ameaçadoramente. revelando uma t-s hirt suja. ela estendeu os braços. A lembrança da cena o fez levar angustiado as mãos ao rosto banhado de suor. Torcia o corpo sensualm ente ao contato das mãos de Ilene. que estav a dei-tada nua na mesa en-quanto Ilene lhe dava massagens. Claude virou-se e foi até o banheiro. Sentia o corpo pegajoso e úmido. De repente. querida — disse Rina a Ilene.Quando voltou ao quarto. — Beije-me. Notou os músculos fortes das costas enquanto trabalhava com as mãos n o corpo de Rina. Rina tinha a mão por sobre os olhos para protegê-los do sol. encolerizado. Apanhou o vidro de água de colônia e começou a friccionar o corpo com ela. Olhou-se com satisfação. — Você é o marido de Rina Marlowe? — Sou. Claude ficou surpreso ao ver como seu busto era sum ido. Mas o jovem. com um sorriso canalha. Ilene recomeçou obedientemente a fazer as massagens. levou um tremendo soco na cabeça e ficou estendido no chão. O corpo de Ri-na pareceu read quirir o ritmo sensual. vá embora. Olhou para o rapaz com os olhos apavorados. nos braços. A água quente do chuveiro o acalmou. — Patife! — exclamou Claude. mas o barulho da água o fez lembrar de uma vez em que entrara no solarium. — Deixe disso — exclamou ele. Tir ou o paletó e afrouxou a gravata. esfregando-se vigorosamente com a toalha. Nesse momento. entrou no banheiro e fechou a porta com o pé. com a voz entrecortada: — Por favor. Abriu a torneira da pia para lavar as mãos. nos ombros e no pe ito. — Continue. Graças a Deus! — O que você tem na cabeça para abandonar uma pequena como esta? Claude arrebatou o retrato da mão do outro e o jogou contra a parede. Procurou levantar-se atordoado e disse. — Quem é essa? — Minha mulher — respondeu Claude de mau humor. Claude tentou esquivar-se mas não foi rápido o s uficiente. mas não o encontrou no lugar de semp re. — Eu sei que não foi para arrumar as malas que você me troux e. Quando ambas per-ceberam sua presença. O jovem estava olhando para ele através da port a aberta. misturados ao barulho da água ecoando em seus ouvidos. Claude viu que o jovem era cabeludo como um macaco. mas felizmente por pouco tempo. Ele fugiu dali imediatamente. A água borbulha va no solarium no momento em que tomou conhecimento da presença de Rina. Ilene estava nua da cintura para cima. dizendo: — Q ue surpresa ela vai ter quando chegar em casa e não me achar. — Quer pegar o roupão azul no armário para mim? — pediu ele irrefle-tidamente. — Quem é que vai ouvir? Você mesmo me disse que era o dia de folga dos criados. Saiu do chuveiro. amor — disse. pegou a cabeça de Ilene e levou-a até o ventre. — Pode deixar em cima da cadeira — disse ele cobrindo-se parcialmente com a toalha. ti-rando o cinto. ainda olhando para Claude. Gostava de se sentir limpo. ouvindo os risos zombeteiros das duas. com as pernas metidas nas calças justas que sempre usava. Teve uma indizível sensação de nojo. — Saia daqui — gritou Claude. Mas logo em se-guida riu. — Acho . O vidro se d espedaçou e o tapete ficou cheio de cacos. Resolveu tomar um banho de chuveiro. A mão aberta o atingiu em cheio no rosto jogando-o contra a pia. levantou os olhos para o espelho. O rapaz não se moveu e seu sorriso aumentou. o outro estava olhando o retrato de Rina que ele tinha em cima da mesa. Tinha o roupão no braço e havia tirado o casaco amarelo. — Eu sei que você no fundo não quer mesmo que eu saia —disse ele.

sentindo a náusea subir pela boca do estômago. 20 David Woolf estava à porta do banheiro. — Não tente me enganar. Voltou para o chuveiro e abriu a água quente. no ter ror doloroso da revelação. Acendeu um cigarro. verific . e chegou à casa de Rina vinte minutos dep ois. que t inha sido sargento da polícia. fazendo-lhe correr pela espinha um arrepio de agon ia. Começou a se cortar com uma raiva cega de si mesmo. Involuntariamente deu um grito. Mas. Era difícil acreditar que apenas meia hora antes ele se encontrava na tranqüilidade de seu gabinete quando o tio Bernie abrira violentamente a porta. mamãe! Foram essas as últimas palavras que proferiu. — Não sou não! — Não? — disse o jovem. — Eu a amaldiçôo! — gritou. Golpeou-se repetidamente até que. a navalha que sempre considerara um símbolo de sua virili dade. se encarregaria dos enten-dimentos com os policiais . Já encontrou dois funcionários da funerária erguendo o corpo de Dun-bar numa pequena p adiola em forma de cesto. até que se olhou. no vaso. Encurtou caminho por Goldwater Canyon. agitado. na banheira. No caminho pegou Harry Richards. Eu estou vendo. — Eu a amaldiçôo. A alegria era quase tanta quanto se ele houvesse assim proced ido. chefe de policiamento do estúdio. quando olhou da escada. Abriu o armário de remédios e apanhou a velha navalha que usava desde que hav ia começado a fazer barba. Claude não soube o que ele queria dizer. ca iu por terra. quando o tio ainda gritou: — Faça tudo para proteger Rina! Temos dois milhões de dólares de fil-mes em negativo fei tos com ela e que ainda não foram distribuídos. Por um instante. saiu do boxe do ban heiro. irônico. nos ladrilhos azuis e brancos do chão e das paredes. ao menos não queria tornar-se mulher.que você é do tipo que gosta de apanhar antes. Sentiu a exaltação crescer-lhe dentro do peito. pensando como devia ter tomado o cinto das mãos do outro para espancá-lo até escorrer sangue. Foi nesse momento que percebeu a verdade. o outro teria visto o que era bom. chorando. O cinto o atingiu nas costas. contudo. Sentiu-se invadido de atordoada cólera. ouviu no andar de baixo uma gritaria incrível e se espantou. não diria mais que ele não era um homem. Sem fechar a torneira. levantando o cinto. coberta por uma lona branca. perdendo as forças. — Não me bata mais! Claude levantou com dificuldade do chão e olhou para o quarto. Nunca poderia ter desempenhado aquele papel heróico e viril . Seu rosto esta va vermelhíssimo. até qu e seu próprio corpo o traiu. levando todo o dinheiro. um estranho sentimento de satisfação. O jo-vem havia saído. David encolheu-se para de ixá-los passar pela porta. Havia sangue por toda parte. Um pensa mento maluco lhe ocorreu. — Vá o mais depressa possível para a casa de Rina Marlowe! Um dos rapazes da publicida de recebeu da delegacia de polícia de Beverly Hills a notícia de que Dunbar se suici dou! David já estava na porta. na pia. Se fosse mais forte. Experimentou. Imaginou que Rina houvesse conseguido livrar-se do médico que a atendia. Sentiu as forças voltarem à medida que a água encharcava sua pele. Só ele fora cego a essa realidade. Se não podia ser homem. Richards. lembrando-se das indignidades a que o desconhecido o submetera. — Basta! — gritou ele. De repente. Se Rina pudesse vê-lo naquele momento. o que não lhe aliviou absolutamente a náusea. O que os outros diziam dele era verdade. Pensou nas coisas h orríveis que haviam acontecido.

e sim a mãe de Dunbar. com seguramente um metro de comprimento. — Foi sem dúvida uma coisa terrível. deixando Richards e o tenente. Colton não a deixaria f alar com ninguém enquanto não a tivesse acalmado. Os dois guardas desistiram então de qualquer aparência de delicadeza. Voltou-se então para o pol icial. vai ser uma confusão tremenda lá no estúdi . tenente. Saiu da sala. Levantou-se para apertar a mão de David. Mas ainda há um ponto duvidoso. Richards se aproxim ou de um dos guardas e falou baixinho com ele. Era um homem magro de barba e cabelo grisalho. No mesmo instante. Nós o apanharemos. ouvindo sempre os gritos da mulher. tenente! — disse David. — Qual é? — Investigamos os movimentos de Dunbar. — Levem-na daqui! O médico já tem muito trabalho com Ri-na e nin-guém precisa ouvir os g ritos dessa histérica! David olhou para Richards e fez um sinal. com uma voz que parecia encher a ca sa toda. Debatia-se nas mãos de dois guardas de rosto vermelho que a conti-nham. Agora vamos para a sala de estar. como usualmente fazemos — disse o detetive. — Tem certeza de que Dunbar se suicid ou. O estúdio mandava m uitos de seus artistas para lá quando precisavam de repouso. David con seguiu ver a multidão de repórteres lá fora. Uma coisa é indiscutível: foi suicídio. mas Ilene já havia desaparecido. Fiquei bem impressionado pela eficiên cia com que está tratando do caso. e até têm direito a alguma proteção. — Meu filhinho! — gritava ela. — Agradeço muito por ter falado comigo. enquanto a maca passava. — Temos uma li ta deles. O barman nos fe z uma boa descrição do homem. Se os jornais souberem disso.ou que não era Rina. Na maioria não dão trabalho. — Já apurou mais ou menos o que aconteceu? — Acho que sim. O tenente Stanley estava sentado à mesinha do telefone com um ca-derno de notas ab erto a sua frente. e fez-se silêncio. David achou que parecia mais guarda-livros que um detet ive. e ela foi quase que arrastada para fora do vestíbulo. — Levem daqui essa velha maluca! David voltou-se. Ela conseguira se livrar em parte de um dos guardas e se agarrara ao corrimão da e scadaria. Ri-chards aproximo u-se: — Disse para os guardas a levarem ao Sanatório Colton. Stan. David fez um gesto de aprovação. Era Ilene. Pouco depois u ma porta lateral bateu. mas não encontramos dinheiro algum. — E daí? — Daí Dunbar não é o único homossexual no nosso distrito — replicou o tenente. — Escute. Agarraram com força a mãe de Dunbar. — E de que vai adiantar isso? — perguntou David. — Telefone para o estúdio e peça que mandem alguns dos seus homens para cá. — Aquela cadela assassinou meu filho! — gritava. Quero apresentá-lo ao tenente Stanle y. — Já telefonei. Não quero repórt eres aqui dentro depois que a polícia for embora. com uma expressão feroz de cólera no rosto. — Matou-o porque soube que ele ia voltar para mim! Parecia decidida a subir a escada. — Deixem-me ver meu filhinho! Os funcionários da funerária passaram impassíveis por ela e che-garam à porta. Ainda da porta pôde ouvir a voz de Ri chards. Pagou a desp esa com um maço gordo de notas. David olhou de novo para cima. David olhou para Richards e este se conservou impassível. Um deles tampo u-lhe a boca. — E soubemos que ele pegou um desconhecido no bar antes de vir para cá. O que o tal desconhecido poderá dizer-lhe? — Há alguns sujeitos que se especializam em pegar um homossexual. e começou a descer a escada. Colton saberia o que fazer. O dr. dar-lhe uma surra para seus fins particulares e depois roubá-lo. O corpo tem algu mas contusões na ca-beça e nas costas que o legista não sabe explicar. surpreso ao ouvir aquela voz áspera dizer essas palavras atrás dele no alto da escada.

Um rubor apareceu no rosto dela após to mar um grande gole. Já basta o prejuízo que vamos ter com a notícia do suicídio. Subimos para nos vestir às quatro e meia. Era jus tamente o contrário. Uísque está bem? Ela não respondeu e ele preparou dois copos. Pousou o copo numa mesinha e olhou em volta à procu ra de um cigarro. David prontamente ofere-ceu-lhe um e o acendeu. Acabo de saber do caso pelo rádio. David ficou pensando em sua conversa com Cord. Está chorando por que falhou. — Foram tomadas todas as providências necessárias? — Acho que sim. Ouviu-se um clic: Jonas havia desligado. Olhando para ele. ela já estava na porta do ba nheiro. Você é o homem que resolve as dificuldades de Bernie. Cord. Encontrou Ilene. Ela continuou: — Ela estava ali parada. — Nenhum de vocês ja mais procurou compreendê-la. — Sr. — Eu sei. Procurei impedi-la de ver o que havia acontecido. quando me dei conta. embora esteja dormindo sob a ação dos sedativos. — Quem fala aqui é Jonas Cord. Tinha certeza de que não haveria nos jornais qualquer referência a outro hom em. disse. David levantou para encher de novo o copo. Quatro meses se passaram antes que David visse Rina novamente. O médico deu-lhe um sedativo capaz de derrubar um cavalo. foi por que ela se casou com Cl aude. — Eu atendo — disse ele. Os criados estavam todos de folga. — Fique descansado. e ela continuou: — Rina teve um almoço e nós só chegamos em casa às quatro horas. chorando co mo uma desesperada. Ilene. Lembro de você. Ilene parou um pouco de falar. E é por isso que ela está estendida aí na cama.. e c omeçou a dizer repetidamente: Eu o matei! Eu o matei! Sempre matei todos que me am aram! Daí começou a gritar bem alto. olhando para toda aquela sangueira. Tocou novamente. — Não me esquecerei do que está fazendo — disse Cord. Es-tava sentado n . Quando voltou. Ilene estava com o rosto entre as mãos e não fez qualquer comentário. E se precisar de alguma coisa. — Este é o ponto central do problema — disse Ilene um pouco exaltada. na saleta ao lado do quarto de Rina. — Alô? — Quem fala? — David Woolf — respondeu automaticamente. fale comig o. pen-sativo: — Se há uma coisa que nunca pude compreender. Deve ter press entido que havia alguma coisa porque não voltei imediatamente. O médico deu-lhe uns sedativos fortes. foi porque q ueria fazer dele um homem. Houve um longo silêncio do outro lado do fio e David chegou a pensar que Cord havi a desligado. O telefone tocou. Farei isso. Não fazia sentido: pelo que sabia d e Cord. David voltou para a cadeira.o. Como vai Rina? — Está dormindo. — Dormindo. Para vocês. e ela me pediu que fosse ver. David olhou para ela. Vou conta r para você por que ela se casou com ele. Faça tudo o que for necessário. — Foi horrível! — disse Ilene. Entrou no quarto no momento em que eu ainda estava telefonando para a polícia. atirada numa cadeira.. — Muito bem. Nenhum de vocês se interessou por ela como realmente ela é. — Você precisa de um drinque — David sugeriu caminhando para o pe-queno bar. ela nunca passou de boa bilheteria. sou da Norman. Foi porque tinha pena dele. Trazer o velho sargento foi a coisa melhor que poderia ter feito. Mas a voz de Jonas se fez ouvir novamente. David subiu a escada. mas. — Como está ela? — perguntou. Talvez houvesse entre ele e Rina alguma coisa mais do que ele sabia. David manteve-se em silêncio. de dinh eiro no banco. — Era Jonas Cord. — E eu também . não era do tipo de homem que ficava dando telefonemas de cortesia. Tirou o fone do gancho. Rina me disse que estava ouvindo água correr no banheiro de Claude.

o sofá do gabinete do tio. — Ainda não sabe quem está fazendo nossas ações caírem? — Não. Ainda faltam seis meses para a reunião. quase t odos eram do cinema. os acionista s. — Claro! Está mais velha e é natural que esteja assentando a cabeça. E em s eis meses muita coisa pode acontecer. — Mais esbelta e mais bela que nunca! Rina olhou para o lado. Tinha. 21 . Olhou para a porta e chegou a estender a mão para o t elefone. Quem não estaria depois de três meses de descanso numa fazenda-sanatório? — E o filme que você vai fazer agora será uma espécie de outras férias — disse Norman. desanimado —. — Sabe que ainda há pouco quase não pude acreditar que era minha velha amiga que estav a entrando. Não adiantava nada arriscar-se a ficar com ca ra de idiota. tudo pode ficar ainda pior. como se fosse uma novilha premiada numa exposição de gado. — Norman levantou e f oi para perto de David. e quase deu uma volta em torno dela. onde filmara A rainha da selva. Filmes eu conheço . — Estamos perdendo di-nheiro por todos os lado s. Rina. Ela acabara d e chegar da África. Fiz tudo que foi possível para descobrir. sentou-se à mesa e começou a passar em revista os nomes dos inimigos que o tio havia feito durante sua vida. voltando-se para David. — Vamos. Da vid não queria que a imprensa soubesse disso antes da distribuição do filme. Rina o olhou com um leve sorriso no rosto. — Sim — disse Norman. lembrou-se de Rina. Er a uma espécie de jogo entre sócios de um mesmo clube. Por cau sa deles tive de vender ações e tomar uma porção de dinheiro nos bancos. e disse: — Olá. — Vamos deixar disso! Quero saber é das férias! — África! — retrucou Norman. Agora vendi minha companhia. Todos sabem que ela é um sucesso de bilheteria garantido. Nunca devia tê-los comprado. não adianta preocupar-se desde já. mas nen hum deles levava a coisa tão a sério que pudesse agir com tanto rancor. A lista era comprida. De súbito. David. Como vai você? — Estou bem. — Tomara que seja assim — disse Norman. os banqueiros. O produtor recuou um pouco para olhá-la. Esse foi o erro que cometi. mas nenhum deles tinha o dinheiro necessário para uma operação daquelas. Reclamavam e brigavam. Mas as a-ções caem dia a dia. — Ora. levantando e abraçando entusiasticamente a artista. David foi para seu escritório. alegre. Todo o d inheiro que eu podia pedir ou tomar emprestado já se foi. — Eu sabia que ele acabaria querendo me transformar num Tarzan de saias! Depois que ela saiu. e tinham feito ao tio tanto quanto ele lhes havia feito. Comprei todas as ações que p odia mas não tenho dinheiro que chegue para fazer parar uma coisa dessas. seis meses depois. — Olá. com um ar de triunfo. Só veio a saber o quanto estava certo quando mandou Il ene internar Rina num hospital sob nome fictício. uma desconfiança. — Só temos seis meses até a reunião dos acionistas em março. porém. Norman riu. Mas desistiu imediatamente. Não devia ter dado ouvidos àqueles sujeitos da Wall Street há dez anos. Além disso. David disse ao tio: — Achei Rina mais serena. quando ela entrou efusivamente. velho bastardo! Conte logo de que se trata. rindo . — Talvez as ações subam quando anunciarmos o próximo filme de Rina. de tão bonita que está. imóveis. zero. — Rina querida! — exclamou Bernie. Ninguém sabe. e estava gravemente doente. não sei mais a quem pertence e nem tenho mais dinhei ro. Falei com os corretores. — O mais grandio-so script sobre a se lva que li depois de Trader horn! — Eu sabia — disse Rina. Até nos cinemas. talvez mais contida.

— As indicações do sr. bastardo! — sussurrou Norman.— Jonas Cord! — exclamou Norman. — Não tinha certeza — disse o produtor. Foi então que Norman se lembrou do nome. O vice-presidente encarregado das vendas leu rotineiramente a lista de diretores organizada por Norman. Norman chegara à reunião muito mais seguro de si do que nos últimos meses. ele sentiu que alguma coisa não estava certa. David. Por que você não me disse antes? David voltou-se da janela do hotel sobre o Central Park. e mais os oito por cento das ações que Norman tin ha em seu nome. O vice-presidente encarregado das transações com os cinemas deu rotineiramente seu apoio às indicações. As pessoas presentes à reunião eram as mesmas de sempre. Dan Pierce. Só depois das formalidades preliminares. Pierce estão perfeitamente em ordem e posso atestar pessoalmente o direito legal que ele tem de fazê-las. Enquanto falava. e resp ondeu: — Não tinha certeza. deveria ter me dito. — Não tem esse direito — replicou Norman do estrado. Norman tirou o charuto da boca. Era apenas um palpite. entraram na sala e sentaram na primeira fila do p equeno auditório. que Norman conhecia de vi sta sem conseguir identificá-lo. encarregado d as atividades estrangeiras. — E no que teria ajudado? Eu não tinha nenhuma prova e. qualquer acionista pode indi car tantos nomes quantos cargos houver na diretoria. lembrando-se do que havia a contecido na reunião dos acionistas. Alguns homens de negócios apo sentados e algumas mulheres que possuíam no máximo dez ações e compareciam à assembléia porq ue não tinham nada de mais interessante para fazer. e quando Norman estava pedindo à assembléia q ue indicasse nomes para a diretoria. Um terceiro vice-presidente. Pierce levantou e disse: — Senhor. ainda que tivesse. Havia também os diretores da com panhia que por acaso estavam na cidade e os funcionários do escritório de Nova Iorqu e. — De acordo com os estatutos da empresa — disse Pierce —. Rec ompôs-se imediatamente e perguntou com sobriedade: — Podem ambos provar que são acionistas? McAllister sorriu. nunca ajude ninguém a ganhar dinheiro. seu burro. Faça tudo só para você. Do contrário. davam uma margem mais ou menos tranqüila de trinta e cinco por cen to das ações para decidir. Só vinte e cinco por cento dos acionistas se davam ao trabalho de mandar procuração. o agente. McAllister. presidente. e Norman continuou: — Nada! A única coisa que eu fiz foi fazê-lo ganhar dinheiro! Mais di-nheiro para ele passar a faca no meu pescoço! E isso deve servir-lhe de lição. tenho várias outras indicações de diretores da empresa para fazer. e outro homem. Nesse momento. pediu rotineiramente que se encerrasse a indicação de no mes. jogou-o com raiva no chão e perguntou: — O que eu posso ter feito àquele sujeito para ele querer me arruinar? David não respondeu. você estava sem dinheiro para enfrentá-lo. indignado. Mas essas procurações. Nunca faça um favo r a ninguém. . mordendo o charuto apagado. A percentag em de procurações devolvidas devidamente assinadas era mais ou menos igual à de todos os anos. em Nova Ior-que. Norman voltou-se para seu vice-presidente conselheiro geral: — É verdade isso? O advogado nervosamente confirmou a alegação de Pierce. ac ordará com uma faca enfiada nas costas. — Foi Jonas Cord o tempo todo. — Está despedido. o advogado de Jonas Cord. — De qualquer maneir a. — Sem dúvida. O único interesse dos demais era saber quando começariam a receber os divide ndos novamente. e gritou: — É ilegal! É um truque para liquidar a companhia! O homem que estava sentado ao lado de Pierce levantou. Virou-se para Pierce. feita com o metal que você mesmo forneceu! David olhou para o rosto vermelho e irritado do tio.

— Gostaria que me desse um minuto antes da reunião da diretoria. sendo vinte e cinco por cento em nom e de Jonas Cord e quinze por cento de propriedade de várias casas de corretagem. todos os outros eram de pessoas desconhecidas para Nor-man. É meu sangue que estão derramando. Mas não morri ainda. Estou apenas encarando o s fatos. se lutar. filme de Cord. Olhou-os um instante e cancelou seis dos n omes indicados com sua autorização. Ninguém pensa mais nisso. — Faça seu tio ouvir a voz da razão. McAllister apresentou procurações que representavam quarenta e um por cento das ações da companhia. Quando chegou o momento da votação. Encerrados os trabalhos. — Vá conversar com Hitler! E saiu impetuosamente. Acho que tenho o direito de exigir isso! — Claro que tem — disse McAllister. caminhando para o estrado e en-tregando um certi ficado de ações. E o maior filme atualmente no mercado é Demônios do céu. Cord me autorizou a oferecer três milhões de dólares pe las ações dele. Foi o filme que você não quis distribuir porque achou que sua comissão não era suficiente! Acha que alguém em seu juízo perfeito vai hesitar entre Cord e você? O produtor olhou para ele atônito e exclamou: — E dizer que é uma pessoa do meu sangue que está dizendo tais coisas! — Deixe disso. — São as necessárias para provar o meu direito de intervir — disse McAllister. Quem foi que comprou Manchas solares e fez um f ilme que ganhou quase todos os prêmios da Academia? — E que também deu um prejuízo de um milhão de dólares? — Foi minha a culpa? Avisei a todos que o prejuízo era certo. terei todas as procurações de acionistas que eu quiser. Sou eu o sacrifício que estão oferecend o ao Golem. — Posso agora faze r as minhas in-dicações? Norman assentiu com a cabeça. O maior fi lme que tivemos nesse tempo foi O renegado. também um filme de Cord. O s seis nomes indicados por Pierce foram eleitos. Norman examinou o papel. dirigiu-se ao telefone. Bernie. andando de um lado para outro e grita ndo seu desejo de luta. Mas queriam prestígio. meio irritado. Dan Pierce voltou-se para David. Pierce alcançou-o na porta. Se ele não quiser vender. Norman estava agitado. . Família nada tem a ver com isso. Norman voltou-se para seus diretores. tio Bernie! Como é que vai lutar contra ele? Com cusparadas no lu gar de dinheiro? E. Nada tem a ver com o que está acontecendo agora. Era um certificado de dez ações regularmente passado em nom e de Dan Pierce. e tiveram prestígio. Tirando o nome dele e o de McAllister. David olhou para ele. — São essas todas as ações que possuem? — perguntou Norman ino-centemente. Mostraria àquele maluco do Cord que Bernie Norman não era um imbecil e que não poderia construir uma empresa como aquela partindo praticamente de zero sem ter alguma coisa na cabeça. saindo apressadamente para alcançar o tio. David e o vice -presidente tesoureiro. a companhia vem tendo prejuízos em cima de prejuízos. Norman convocou uma reunião dos diretores naquela tarde n os escritórios da companhia para a escolha dos chefes de serviço. tio Bernie. Cord diz que e ntrará em demanda com a compa-nhia e as ações dele não serão mais do que papel de parede. É duas vezes mais do que valem. — Não falo com traidor de sua espécie — disse Norman. — Vou ver o que posso fazer — disse David. tio Bernie. — Espere um pouco. friamente. acredita mesmo que alguém vá ficar do seu lado? Nestes últimos quatro anos. Pierce levantou e indicou seis nomes para a diretori a de nove pessoas. Quando souberem do filme que vou fazer com Rina M arlowe. Saiu da sala mortalmente pálido. David olhou para o tio e. e não nosso. Estava cheio de ouvir tantas tolices do tio . esquivand o-se à tentativa do produtor de saber quantas ações ele representava. — Mas eu penso. em seguida. O velho já estava em tempo de conhecer as realidades da vida. deixando na diretoria apenas ele. — Fatos? Você quer fatos? Pois aí vai. O suficiente para assegurar uma maioria de até dois terços quando fosse necessário. No quarto do hotel.— Quero ver as provas. — Isso são águas passadas.

Não está na hora de se descontrolar. Não sabe o que a está mantendo viva. Agora. voltou a falar. Virou lentamente a cabeça. — Sou eu mesma. Gostaria de poder dizer a Ilene que não se preocupasse. — Conseguiu falar com ele? — Não. mas se ele ofereceu três milhões pelas minhas ações chegará a ci co sem muito esforço! Dessa vez. David virou-se para o tio. ninguém morre aqui no fim de semana. O que ele sempre quis foi a pequena. — Já representei esta cena uma porção de vezes. Parecia até mais real do que nunca. sorrindo. Vamos à tal reunião. Rina Marlowe. que estava à jane la. onde quer que esteja. — Calar a boca. Do escritório disseram que ele está em Nova Iorque. Já passara por aquilo tudo tantas vezes antes. O produtor ficou ainda mais branco e deixou-se cair numa cadeira. — Rina não fará outro filme para o senhor nem para ninguém mais. Acha que é um milagre que ela tenha durado tant o. . nem mesmo Cord se incomodará conosco! — O que quer dizer com isso? — Idiota! Será que não compreendeu ainda? Terei de traçar um diagrama para você compreende r? — Compreender. na Ca lifórnia. — O que diz o médico? David ouviu-a soluçar no telefone. — Sexta-feira. Faça o favor. Quando a ligação foi completada. o sonho não se dissipou quando Rina abriu os olhos. Rina sorriu. Procure-o. Ilene — disse num sussurro. Ficou um instante muito tranqüila.. Como vai ela? — Mal — respondeu ela em voz tão baixa que ele quase não ouviu. Lembra-se do encontro que tive com ele nos mic-tórios do Waldor f? Lembra-se de que ele me disse que não revelaria os nomes das pequenas que estav am com ele para que eu não as roubasse como havia roubado dele Rina Marlowe? David subitamente entendeu tudo. estamos acabados. quatro-três-zero-nove. — Coragem. — Rina! Rina! E ela sentiu Ilene pegar sua mão por baixo das cobertas. Que dia é hoje? — Sexta-feira. é claro.. Vocês não podem mais me enganar — diss e Rina. Olhou para o tio com uma admiração que nunca tivera.. que não havia coisa alguma de que precisasse ter medo. — Meu Deus! O que vai ser da companhia? Ela era a única chance de sobrevivência que tính amos. olhando para o tio. — Ilene? E David.. Ilene estava sentada na cadeira a observá-la. — A pequena? — Sim. Está morrendo. Não morrerei enquanto ele não chegar aqui. o quê? — Cord pouco se interessa pela companhia. — O que vamos fazer agora? — O que vamos fazer? — exclamou Norman. em seu sonho. Um sorriso irônico apareceu em seu rosto e ela acrescentou: — Depois. — Não chore. que ela está morrendo. — Não perdi o juízo.— Quero dar um telefonema interurbano para o Sanatório Colton em Santa Monica. sorrindo e vendo o sorriso que aparecia por trás das lágrima s no rosto de Ilene. As edições dos jornais de domingo já estão to das prontas. Por que não havia pensado nisso antes? Isso expli cava o telefonema de Cord na noite em que Dunbar se suicidara. — Ilene! Ilene teve um sobressalto e se aproximou. Houve um estalo e o telefone foi desligado. Posso estar com o coração partido. olhando para a cortina de plástico que lhe cobria a cabeça e o peito. Quero vê-lo. — O médico diz. Fechou os olhos um momento e só os reabriu quando Ilene se aproxi-mou novamente da cama. mas que não sabem onde ele está h ospedado. — Procure-o e fale com ele. Ilene. Sem ela. — Telefone para Jonas. Ilene. 13? — disse.

Estava verificando os mostra-dores à sua frente. que lia para o gener al. quando cheguei ao lugar onde estavam Morrissey e o general. Eu sabia o que ele estava fazendo. Com ele estavam dois ajudantes. Por sorte. com autonomia de vôo de mais de três mil quilômetros. ao menos um piloto de verdade fazia parte de seu pessoal. — Parece um sapo.JONAS . percebi como ele era. vi que estávamos a quinhentos quilômetros por hora. Cord! Voltei-me. Velocidade de c ruzeiro: trezentos e oitenta e cinco quilômetros por hora. Eu estava dentro do hangar. Era muito diferente do velh o general que ha-víamos deixado lá embaixo no Campo Roosevelt e que fora mandado pel o Exército para examinar nosso avião. Franziu as sobranc elhas. mas não se virou. coronel? Ele assentiu com a cabeça em resposta a minha pergunta. Olhei para ele por um momento. Saltei para a asa e dali para o chão. como uma flecha disparad a de um arco. um coronel e um capitão. Provavelmente t inha ouvido a observação do tal general. com um ar de desapro-vação. dois canhões e quase meia tonelada de bombas sob as asas num comparti-mento especial em sua barriga. Era o mecânico. O tenent e-coronel Forrester era um dos grandes au-tênticos aviadores da época. Velocidade máxima de quin hentos e cinqüenta. mas diante de uma mesa em Washington. — Como é feio! — comentou. quando olhe i para os mos-tradores. Havia uma expressão curiosa em seu rosto. dando uma pequena virada à esquerda. Logo que o general chegou ao hangar. Tratei de calçar os sapatos e. Nivelei o CA-4 ao horizonte e. Atuara com Ed die Ricken-backer e o velho esquadrão Hat in the Ring. Chegou à porta do hangar e olhou o CA-4. Sentia a força da gravidade achatando meu corpo contra o banco e faz endo o sangue fervilhar em meus braços. — O Cord Aircraft Four representa um conceito revolucionário para um caça-bombardeiro de dois lugares. Nenhum deles usava a insígnia da Air Corps. dando uma última checada na carlinga. Que diabo ele entendia de aerodinâmica e design? A cabeça dele pro vavelmente era tão quadrada quanto a mesa que ocupava em Wa-shington! — Sr. Talvez nunca houvesse embarcado num avião. com os pés descalços. — O que você quer? — Daqui a pouco vamos puxar o avião para fora e não quero esmagar seus sapatos. Morrissey tinha nas mãos uma cópia do projeto e das especificações. E cami nhei na direção dele. ri e disse: — Obrigado. Long Island já havia ficado muito para trás. Bati no ombro do piloto do Exército sentado à minha frente e gritei por cima do baru lho dos dois motores e do ronco do vento na cobertura de plástico sobre nossas cab eças: — Que tal. minha cabeça já havia esfriado. . Pode levar dez metralhadoras. Ouvi perfeitamen te o que ele disse. Ao mesm o tempo abri o manete. e o CA-4 deu um salto para cima. sobrevoa ndo o Atlântico. Porém era ele que aprovava as coisas. acompanhado por Morrissey.1935 LIVRO V 1 Puxei o manche até encostá-lo na barriga. O general voava muito.

— Voará com quem o senhor tiver no Exército. Feio. — Nós. Estou dizendo apenas que este é o melhor que existe. — Qual. mil e qui-nhentos metros mais alto e cen to e trinta quilômetros por hora mais depressa do que o caça Curtiss de que está falan do! — repliquei. Parece um "sapo sentado. O tenente-coronel me olhou com curiosidade e perguntou: — Como vai Willi? A voz do general nos interrompeu: — Estamos aqui para ver um avião e não para troca de informações sobre amigos comuns. e a bolha de plástico cobrindo a carlinga e br ilhando como um enorme olho de felino no escuro. Tinha sem dúvida um design revolucionár io. — E dá — confirmei. Depois. o novo caça Curtiss que fomos ver outro d ia. Estes se permitiram um sorris o tímido. Isto é. senhor — disse rapidamente. — Estamos prontos para assistir a uma demonstração de seu avião. Carrega quinhentos quilos de bombas a mais. Morrissey fez rapidamente as apresentações. Parecia uma grande pantera negra ali no chão do hangar. Jonas Cord. — Interessante — respondeu-. — Muito interessante — ouvi o general dizer. Portava apenas duas fitas na blusa: a Croi x de guerre da França e a Distinguished Flying Cross. — O que lhe parece. e inclinadas para t rás. — Não estou dizendo o contrário. olhando para seus ajudantes. Antes que o general pudesse falar. Era fácil ver que não havia qualquer simpat ia entre ele e o general. que murmurou: — Fora do comum. — Agora. Forrester? — indagou o general. general. Tinha perto de quar enta anos. — Curtiss fabrica bons aviões — disse o general. o comprido nariz se pr ojetando entre as asas enflechadas. Deve dar quatro vezes a área de sustenta-ção comum. virou-se e olhou para o avião. se o seu piloto já . Diferente. alguém perguntou do vão da porta atrás dele: — Como sabe o que Willi Messerschmitt está fabricando? Vi então que o general trouxera mais alguém com ele. O general voltou-se para mim. O milhão de dólares que eu já havia gasto com o CA-4 me dav a o direito de dizer o que eu quisesse. É um avião que parece um avião e não uma bomba com asas. — E que acha da aparência. Eu sabia que a velha besta ia fazer uma das suas gracinhas prediletas. — Curtiss há muitos anos constrói aviõe xcelentes. tenho só mais uma pergunta. senhor? — disse Morrissey. incluindo os novos caças que Willi Messerschmitt está fabricando. — Mas há certas convenções de fabricação d s reconhecidas como padrões.. — Hélice de passo variável. Asas prateadas brilhavam em seu blusão. general — retruquei. general? — Claro que não — respondeu prontamente o general. E voará melhor do que qualquer outro avião no mundo. dando graças a Deus por haver ali ao menos um homem que entendesse d e aviões. general. Forrester? — insistiu o general. O general Gaddis virou-se para Morrissey. O general riu à socapa. — Sim. vemos mais de trezentos aviões revolucionários por ano. como as folhas de carvalho também prateadas nos ombros.Olhei para o avião. Era como se eu estivesse falando com um muro de pedra. — Concepção fora do comum — continuou ele —. — Este avião tem o dobro da blindagem. Foi minha vez de ficar surpreso. colocar as asas onde estão. inflexível. — Sei porque ele me contou — respondi. v oa mil e duzentos quilômetros mais longe. enquanto Morrissey falava. — General Gaddis. Não adiantava discutir. Este voa? Não podia mais ficar calado. A cortina voltou a cair sobre o rosto de Forrester. desde que tenha competência para p ilotá-lo. — É exatamente a minha opinião. Ficou examinando de baixo para cima o me u macacão branco todo sujo de graxa. surpreso. — Costuma julgar aviões como julgaria mulheres num concurso de beleza. Ótimo! Era um homem de boa vista para haver percebido isso na fraca iluminação do hang ar.. Eu já havia agüentado demais aquela merda. Por e-xemplo. Lancei um rápido olhar para o tenente-coronel. era magro e usava bigodes. do Exército. ma s uma cortina havia caído sobre seu rosto.

Tinha sido um dos meus heróis quando eu era garoto. dei um tapinha no ombro de Forreste r. bonita. a cento e oitenta. Desculpe. Roger Forrester. A força da gravidade me prendeu ao banco e senti o ar obstruindo minha garganta. Eu ri. o dinheiro é seu. Cord. dizendo: — Bem. Quando subi para a carlinga. Morrissey olhou nervosamente para mim. e gritei: — Ele é todo seu. — Sim. Voltei-me para o mecânico e disse: — Pode puxar o avião para fora. mas não entendi bem o seu nome. — E eu a seu respeito. Só ele derrubara vinte e d ois aviões alemães. Suba! — Obrigado. — Já ouvi muita coisa a seu respeito. o avião balançou no céu parecendo uma mosca se equilibrando na ponta de uma agu lha. E foi somente naquele instante que consegui relacionar o nome dele com os fatos. — Não devia ter tratado o general assim. — Quem foi que disse que eu quero? Cinqüenta quilômetros mar adentro. subi na vertical até pouco mais de quatro mil e trezentos m etros. se quiser. De repente. e eu me senti melhor. Jonas. Estávamos a menos de quinze metros da água quando começamos a subir. O homem virou a cabeça tão depressa que ela quase saiu do pescoço. Mas achei melhor ficar calado. Forrester. Mas a venda do avião já é difícil. com o manche solto.acabou de discutir. Perguntei ao mecânico: — Pronto? — Tudo pronto. estendendo a mão. — Roger Forrester — disse ele. Olhou para dentro da carlinga e perguntou: — Sem pára-quedas? — Nunca uso pára-quedas. — É a diferença entre bosta de galinha e salada de galinha. Cord. o general Gaddis e seus ajudantes saíram. vindo parar ao meu lado. quando pode puxar o manche para trás. Fico nervoso. fiz com o avião todas as acrobacias que constam dos manuais e mais algumas que só o CA-4 podia fazer. — Ele deu outra risada. Ouvi passos atrás de mim. As bolhas de ar chegaram aos meus olhos. Quando cheguei do lado de for a. Quan do chegamos a quatrocentos e cinqüenta metros. Indica falta de confiança. Forrester olhou para mim e disse. alguém me puxou pela perna. — Posso conseguir um para você. Acompanhei o avião até a pista de decolagem. Era o tenente-coronel. Senti o avião tremer e as asas gemerem como uma pequena que está sentindo prazer. vi que Morrissey e os outros haviam formado um grupo em torno do general. Dei-lhe a mão e ele subiu pela asa. um dos ases da esquadrilha Lafayette. Então deixei o aparelho cair num parafuso alucinado. Forrester não fez o menor sinal. Como teste definitivo. quando saiu do parafu so. mas Forrester estava um pouco afastado. falando com uma mulher jovem. de ol hos selvagens e boca sensual. e a cento e vinte. a duzentos e cinqüenta. Era Morrissey. quando controlou o aparelho. a pressão se atenuou. depois encolheu os ombros. Ele me olhou fixamente por um momento. É psicológico. Era evidente que o general não ouvira meu n ome. Deve andar tão cercado de gent e que concorda com tudo o que ele diz que até poderia ser um produtor de cinema. — E daí? — disse eu. sr. Ambos rimos. Fiquei observando-o voltar para onde estava o general. — Jonas Cord. está certo. mas se mostrava tão ansioso que nunca poderia ser um bom vendedor. Não se pode omprar um Cadillac pelo mesmo preço de um Ford. A verdade é que ele era um bom engenheiro-aeronáutico. Morrissey. coronel! Já estávamos a trezentos e sessenta metros quando ele assumiu o comando. — Ora. a sua disposição. sorrindo: . Ele riu. talvez isso tenha feito bem ao velho bastardo. — Incomoda-se de me levar como passageiro? — Absolutamente. Soube que a Curtiss está vendendo o seu modelo a cento e cinqüenta mil dólares cada um e o mínimo que podemos fazer é duzentos e vinte e cinco mil — replicou Morrissey.

— O que acha? — Sem dúvida alguma. Cord. quer dizer com quem devemos falar a respeito de fatos e ci fras relativos ao avião? — Pode falar com o sr. Deve saber que dispomos de ve rbas muito restritas. Fiz uma viragem bem ampla e dei um toque no ombro de Forrester. Deslizei para trás a cobertura de plástico e saltamos. assuma os controles e volte com o avião para o campo. — Pois as minhas responsabilidades vão muito além disso. Olhei para Forrester enquanto nos dirigíamos para o grupo. — Vou dizer. O general já estava com o quepe na cabeça. Morrissey. — Que avião! É como você disse. Tinha certeza de que o a-vião não perderia as asas num mergulho desses? — Certeza não tinha! Mas não podia haver melhor ocasião do que esta para descobrir! Ele riu. Voa de verdade! — Não precisa dizer a mim. senhor. Todo o riso desaparecera de seu rosto. — Mas é preciso levar em conta outros fatores. é o melhor caça que existe atualmente — respondeu em um tom de voz destituído de qualquer emoção. Acho que não liguei os nomes. Poderia a qualquer momento ganhar vin te vezes mais em qualquer companhia de aviação do país. general — disse imediatamente. — Você manda. Olhei para trás a tempo de ver o capitão correndo atrás do quepe do general. mas logo sorriu. — Durante a guerra. Ele olhou para trás e riu tanto que chegou a chorar. Aí puxei o manche. pensando por que continuava a li parado. — É bom que não se esqueça disso — exclamou severamente o general Gaddis. — Seu pai e eu somos velhos amigos — disse ele. — Acha mesmo? — perguntou friamente o general. se não se incomoda. e deu o que na opinião dele era um sorriso co rdial. general. Passamos sobre as cabeças deles numa subida quase vertical. Diga àquele velho caduco lá embaixo. comprei boas parti das de explosivos dele e. — Sugiro. Uma sombra desceu sobre seu rosto. Só o que tinha a fazer era sair do Exército. — É o que penso. que mostrava de novo a cansada máscara de cautela. Eu não conseguia compreender por que ele suportava aquilo tudo. — Ah! Desculpe. secamente.— Só me lembro de ter ficado tão assustado assim quando voei sozinho pela primeira vez em 1915. O avião pousou com a leveza de um pombo voltando ao seu pombal. Olhei de relance para ele. Forrester? — disse ele. A minha responsabilidade se limita a dar opinião sobre o funcionamento do aparelho. — Muito bem. agüentando aquela situação em silêncio. senhor. — Sim. — Então. Sua mão se estendeu para frente dando leves pancadinhas no painel de inst rumentos. Tem qualquer idéia de quanto um avião desses poderia custar? — Não. Tornei a bater no ombro de Forrester. espantado. que seria oportuno enviar um gru po de pilotos de prova para confirmar minha opinião. Então vamos até o escritório falar com ele. ficando vermelho. general. sr. senhor. Não com a reputação que tinha. rapaz. senhor — disse Forrester. general. general. gostaria de discutir isso com ele. Estávamos a trezentos metros de altitude. O general olhou para mim. O general voltou-se para Morrissey e disse com voz quase cordial: — Agora. Não fazia sentido. Mas não sei se adiantará muito. não haveria dinhei ro suficiente para sustentar o Exército por um mês. Forrester. — Não é preciso. envolv endo-os no turbilhão de vento provocado pelo avião. Dava para ver Morrissey e os soldados lá embaixo no campo de pouso nos observando com binóculo. Descemos em vôo rasante e nivelei o avião a cerca de cinco metros da pista. Ele hesitou um momento. — Sim. Pude ver o susto no rosto do pessoal lá embaixo. — Não tem importância. — Se eu aceitasse todas as idéias malucas que se metem na cabeça de vocês do Air Corps. P . Agora. — Podemos falar aqui mesmo. — Aposto dez dólares como farei voar longe o quepe do general na primeira passagem.

— Tolice! — disse meu pai. Nevada conseguiu livrar-se e pular par a a cerca. nos fundos da casa. Os vaqueiros pu-xaram mais as cordas. O senhor não conseguiria falar com ele. Estavam tremen-do. que Morrissey usava como escritório. Seus gritos e apupos cortavam a brisa matinal. Os vaqueiros tinham pego o cavalo pelo cabresto e o conduziam de volta. seu ordinário. 2 Fui para a saleta dos fundos. tentou até rolá-lo pelo chão. — O que você vai fazer com ele? — perguntei. que chegava por trás de mim. dando-lhe as costas e ca-minhando para o hang ar. Usa va terno preto. Enchi um copo de papel e deixei o uísque descer pela garganta. tentando mantê-las esticadas. O xucro era um cavalo fogoso. Na última vez e m que o derrubou. camisa branca e uma gravata impecavel-mente centrada no colarinh o engomado. pensativamente. e eu havia ido até lá para ver Nevada amansar um cavalo xucro. Lá estava o xucro. Pode-se fazer tudo o que se quiser. — Vou experimentar mais uma vez — respondeu Nevada.ara recordar os bons tempos. rijo. jogar no mar ou cremar. Os cascos erra ram meu pai por uma fração de centímetro. Ficou ali um momento. nosso contrato poderá vir a ser uma coisa muito importante. pulando e se contorcendo como s e alguém o tivesse montado. — Por que não coloca uma braçadeira no focinho? Assim ele não poderá mordê-lo. Fe-chei a porta atrás de mim e andei até a escrivaninha. Q uanto tempo eu ainda teria de viver à sombra de outro homem? — Tenho certeza de que ele gostaria muito. um pequeno vil bastardo preto que. curioso. — Ele é um louco — exclamou Nevada. Mas infelizmente terá de falar c omigo. Enterrar o corpo. ele se aquietou e meu pai voltou a se aproximar. A essa altura o xucro estava furioso de verdade. general. assim que meu pai ergueu o cabresto. respirando pesadamente. — É justamente isso que ele quer que você faça — disse meu pai. — Por quê? — perguntou ele friamente. De repente avançou. Além disso. Meu pai conseguiu se livrar por pouco. Não era muito comum ver Nevada lev ar três quedas seguidas de um cavalo. Foi pou co depois do casamento dele com Rina. Há gente que não morre. E tive de fazer um grande esforço para me dominar. escarvando o chão. e creio que ele gostará de tratar de tudo pessoalmente. Então tentou de novo. Pegou um pequeno laço pendurado nas estacas sobre a cerca e. O potro empinou. — Se não der certo v ou mandar soltá-lo. — Ninguém pode chegar perto daquele cavalo para fazer isso sem perder um braço. Lembrei-me do que meu pai dissera uma manhã no curral. — Você. recuando um po uco. Olhei para as mãos. avançava sobre ele a coices e dentadas. Mas a memória da pessoa continua a ata-zanar nossa vida como se ela ainda fosse viva. Ficou encostado à cerca. Nevada olhou para ele. Tirei da gaveta a garrafa de uísque que semp re ficava ali a minha espera. filho de uma puta — disse meu pai calmamente. Os vaqueiros aper taram com mais força as cordas no pescoço do animal. Senti meu rosto ficar branco. Nevada e eu nos voltamos. Seus olhos vigiavam meu pai. Fez um cabresto com a corda enquanto andava na direção do animal. Queimou como o inferno. Meu pai já estava pronto para o seu dia de trabalho. — Meu pai morreu há dez anos — respondi. Depois de um tempo. passando por entre as traves. enquanto os vaqueiros mexicanos a fugentavam o animal. O xucro levantou a cabeça e golpeou com selvageria o braço de meu pai. O cavalo arregalou . olhando bem para os olhos do cavalo. apenas. Eram cinco horas da manhã e os primeiros raios de sol projetavam a sombra alongada da figura de meu pai na areia do deserto. sempre qu e conseguia derrubar Nevada. entrou no curral.

Vi o punho fechado de meu pai atingir o animal como um martelo. S entou-se na cadeira sem falar. — Não vai tomar café conosco. do mesmo modo co mo ecoara naquela manhã. alto e forte em seu terno preto. Meu pai. — Larguem-no! — gritou meu pai aos vaqueiros. Não era preciso. Os dois ficaram se encarando por alguns mom entos. — Cavalos pouco me interessam. abrindo os braços como querendo eximir-se de qualquer responsabilidade. e a cabeça do anima l ainda roçou nele. aproximando-se do xucro. Eu sabia o que estava pensando. El e não teria necessidade de me dar uma pancada na cabeça. velho. Então meu pai começou a levantar a mão e o potro explodiu. A cabeça levantada do potro projetava a comprida sombra pelo chão do curral. Alcancei meu pai na va randa dos fundos. — Não acho que haja muito o que aprender em vê-lo dar uma pancada na cabeça de um potro. Depois.os dentes e tentou mordê-lo. — Daí que você pode ser grande quanto for. sem sorrir: — Alguns cavalos são como gente. e as pernas dianteiras se enrugaram como se fossem de borracha. Jonas? Nevada já estava dentro do curral. Ainda tem muito que aprender . com as pe rnas trêmulas e a cabeça baixa. Nevada estava passeando com o potro pa ra cima e para baixo. Nós quatro. Sentindo-se livre. então. — Deixe-me. Ele era um homem bem grande. Es te pulou um pouco. meu pai recuou um pouco. Então dobrou seus joelhos. que então se deitou de lado e ficou um momento ali. Meu pai e stava ali. Não estou com fome — respondi. largaram as cordas. estávamos silenciosos. até que o animal pareceu dar um grande suspiro e deixou sua cabeça cair novam ente no chão. mas eu era mais alto. Nós nos viramos e ficamos observando Nevada montar no cavalo. depois. na frente dele. e deu uma palmada no pescoço do ani mal. habituando-o ao manejo das rédeas. Já se haviam passado doze anos. O que me interessa é você. os dentes à mostra. quase esbarrando em Robair. Dessa vez. — Vamos tomar café. Quando voltei ao curral. Mas eu ainda podia ouvir sua voz. O cavalo não estava mais dando trabalho a Nevada. levanto u a cabeça e olhou para meu pai. Os olhos estavam fit os uns nos outros. colocando a corda em cima da cerca. pouco acima dos olhos. os dois vaqueiros. — Não. ao lado da de meu pai. Eu dei uma risada. Jonas? — perguntou gentilmente Rina. O xucro ficou um instante parado. mas atirou-se contra ele. os olhos soltando faíscas. muito obrigado. Papai tinha razão. observando-os. Meu pai desviou ligeiramente o braço. — Nunca chega perto do c urral. — Agora você não terá muito trabalho com ele. Saí apressadamente da sala de jantar. na varanda dos fundos. Nevada e eu. O potro ficou parado. Havia um brilho de triunfo nos olhos dele quando voltou a me olhar. — Não pensei que se interessasse tanto por cavalos -— disse eu. — Você aprendeu que Nevada não pôde montar naquele animal até que eu tornei isso possível. Os dois homens se olharam por um momento. mas era evidente que sua disposição estava quebrada. puxou as rédeas e o fez levantar-se. Rina estava de costas para mim e seus cabe los brilhavam como prata quando ela estendeu o rosto para meu pai dar-lhe o beij o matinal. dando um soco em cima da escrivan . que ia chegando com uma bandeja. mas não terá tamanho para calçar os meus sapatos enquanto eu não deixar. com mais de um metro e oitenta de altura. Nevada — disse meu pai. sentindo um nó na boca do estômago. Não a levantou nem quando meu pai passou pela frente d ele e atravessou o curral para voltar até onde nós estávamos. A única linguagem que entendem é uma pancada na cabeça. O barulho do murro repercutiu até onde nós estávamos como uma pequena explosão. assim que o a-nimal tocou as patas no chão. enquanto recuava para atacar de novo com seus coices. confuso. ainda mais comprida. Meu pai fez rapidamente uma volta para o lado. deixe-me! — murmurei com raiva. — E daí? Meu pai virou-se. o animal ficou imóvel por uma fração de segundo. Meu pai virou-se para mim. ofegante. Entrei com meu pai na sala de jantar.

— Acha mesmo que pode? Forrester deu de ombros. mas eu aceito — disse Forrester. — Onde poderá consegui-los? Não os tem agora. — Não repare. — E conheço. Cord. mas McAll ister fora camarada e lhe dera como gratificação dez por cento sobre os royalties do sutiã especial e no ano anterior ele recebera só por isso mais de cem mil dólares. — Não fique parado aí. mas ninguém gosta de jogar um milhão de dólares pelo ralo. Era verdade. Morrissey — disse ríspida e rapidamente. — É o melhor avião que já vi. Tetas não iriam deixar de ser moda por bom tempo ainda. — Ao menos. Só se interessava por seu trabalho. — Vamos ao general — eu disse. . você fala dessas coisas como se as conhecesse bem. É uma maneira pela qual poderíamos comprovar as qualidades do nosso avião. — Ficaremos gratos por tudo o que fizer. — Obrigado — eu disse. Cord? — Daqui a três ou quatro anos. — Não quer? Deixou de beber? Não respondeu. Eu sou um sujeito à antiga. Empurrei o uísque para ele. que estipulava que todos os seus planos e invenções pertenciam à companhia. — Voará sobre ela. antes de o verão acabar. — Você não me deve nada. Cord! Olhei surpreso. Morrissey nada comentou. Ele entrou hesitante e. Não gostaria que o perdêssemos por causa da estupidez de um ve lho. — Ele vai consegui-los. Forrester. onde se encontra o velho rapaz? — Voltou para a cidade. E que lucro lhe dá a c onstrução de aviões? Tudo que você vier a ganhar com o CA-4 não chega nem à décima parte do q e lhe rende a patente daquele sutiã que você fez para Rina Marlowe. Messers-chmitt começará a produção em série do seu ME-109— O estado-maior pensa que Hitler não poderá fazer muito quando chegar diante da linha Maginot.inha. — Sr. As escolas de planadores estão preparando dez mil pilotos po r mês e. Basta Hitler concluir seus preparativos — Quando acha que será. O dinheiro todo foi meu. Forrester riu. — E isso não tardará. — Eu disse talvez. — Não sei ao certo — murmurou lentamente. Então não esperei que dissesse mais nada. — O CA-4 é o melhor avião que já projetei! — E daí? Que diabos! Você não gastou nada. pegando um copo de papel e servindo-se de uma boa dose. Morrissey tinha um con-trato de emprego comum. Não devia te r deixado que uma referência infeliz a meu pai me perturbasse daquele jeito. Esc ute. Morrissey estava na porta aberta. Forrester apareceu pela porta atrás dele. e tenho receio de ver o país desprepa rado quando as coisas começarem a acontecer. Tive de fazer um esforço para voltar ao presente. Não me faltavam recursos financeiros para enfrentar um revés. O mercado crescia sem parar. Quando ele tiver suficientes aviões e pilotos treinados . — Sentem-se e tomem um drinque — convidei. — Maior razão para que eu procure convencer essa gente a experimentar o seu avião. Um raio de esperança brilhou nos o lhos de Morrissey. olhando para mim de boca abert a. Era um desses cam aradas que não dão o menor valor ao dinheiro. — Não chegará nela — afirmei. — A propósito. — Talvez eu possa fazer algo — disse então Forrester. — Pode entrar. Estive lá há menos de nove meses. apenas redargüiu: — O que vamos fazer agora? Tornei a servir-me de uísque e disse: — Eu estava agora pensando em declarar guerra aos Estados Unidos. Estava indignado comigo mesmo. — O que quer dizer com isso? — perguntei. Terminei meu uísque e acendi um cigarro. Nem assim Morrissey sorriu. logo depois. Tem encontro marcado com um fabricante de papel higiênico. mas Morrissey não desfranziu a testa. Mas McAllister é que vira o valor comercial da coisa e requerera uma patente em nome da Cord Aircraft. empurrando a garrafa de uísque para eles. é uma coisa que ele pode testar por si mesmo.

haviam empurrado o velho para a sarjeta . Mas sou alemão. atormentavam um velho metido num capo te. Pudemos vê-lo estendido no meio-fio. — Por causa do milhão de dólares que você depositou no Reichsbank? Lancei uma rápida olhada para ele. Forrester não era tão simples como se fazia parecer . não é mesmo? Poderia ter poupado seu dinheiro se esperasse apenas mais um dia. — Guarde-o até posterior decisão minha. Virei-me para Strassmer. — Quer saber por que. — Aqueles dois viram tudo o que aconteceu. Duas vezes enquanto estávamos olhando. Cord. Da cerâmica havia passado para a matéria plástica. que seria depositado em seu nome nos Estados Unidos . o sangue cor rendo pelo nariz. não foi? — Claro que não. Depois. Sua parte dos royalties subiria a muito mais que isso durante o período da concessão. — Nós. — Venha v er. Havia dois policiais. Fui até a janela e olhei. Os jornais falaram disso. e Strassmer expôs o que desejava. — Os judeus do mundo estão condenados. É claro que isso era vantajoso para mim. — E o que isso tem a ver com você? — Sou um judeu — disse simplesmente Strassmer. Olhei-o por um momento. Minha mulher e minha filha já estão nos Estados Un idos. Chamava-se Otto Strassmer e começara a vida como técnico de controle de qualidade nu ma fábrica de porcelana da Baviera. Hitler afirma que os judeus não têm dire itos perante a lei alemã. — Sabia que a proibição ia ser decretada. — E por que nada fizeram? — Porque têm ordens de não intervir nesses casos. Foi em 1933. pouco mais que meninos.. No entanto. Não havia outro jeito. O dinheiro tinha de ir para a Alemanha. as esperanças de Otto Strassmer nunca se concretizaram. mas. — E daí? Por que ele não chamou a polícia? Strassmer apontou a esquina. — Aquele homem é judeu. Só não compreendia por que ele fazia isso . diante do Adlon. — O que quer que eu faça com o dinheiro?. Então respondi: — Acho que sim. — Mas por quê? Por que transferiu o dinheiro se tinha consciência de que os nazistas são nossos inimigos potenciais? — O dinheiro foi para o resgate de um judeu — disse eu. E não falaram muito bem. — Por que não vai para junto delas? — Talvez eu vá. no momento certo. Strassmer quis m odificá-lo. — Alguns dos meus melhores amigos são judeus — disse Forrester. Depois acendi um cigarro. Levantou de sua cadeira e foi até a janela. depois de estar em vigor por vários anos. Ali. E ainda tenho esperança de que essa loucura passe um dia. na rua. Eu estava naquela cidade por ocasião de minha visita anual à Europa. como os judeus da Alemanha — disse-me ele. Certas pessoas me acusaram de ser simpatizante nazista. Ficaria muito grato se as procurasse para con-tar que estou bem. tornei a servir-me de uísque e disse: — Esse judeu valia isso.— Agora me lembro. e fora ele quem inventara o processo de moldagem de alta rapidez que eu comprara e vendera a um consórcio de industriais americanos. Então perguntei. sr. um grupo de jovens vestind o camisas marrons. O nosso contrato original foi à base de royalties. — Não podia esperar. d . Foi o que eu s oube menos de um ano depois no gabinete do Reichsmarschall Göring. Otto fora me procurar no meu quarto de hotel em Berlim. Os rapazes ainda ficaram alguns momentos observando-o. sr. sem compreender.. Estava disposto a abrir mão de to-dos os royalties daí por diante em troca de um pagamento de quitação de um milhão de dólares. logo depois que Hitler subiu ao poder. com a cabeça enfiada na sarjeta. Cord? — perguntou no seu inglês de sotaque peculiar. — Mas não posso nem me ima ginar gastando um milhão de dólares por um deles. Acontece que transferi o dinheiro para lá na véspera do dia em que Roo sevelt proibiu a transferência de fundos para a Alemanha. Fiquei em silêncio por um momento. deram-lhe alguns pontapés com mais desprezo que raiva e se foram.

pensativamente. não havíamos trabalhado para o governo. Mas percebi que nada fazíamos de secreto. já reconhecemos isso e es-peramos de braços abertos os nossos amigos e aliados do outro lado do mar que queiram unir-se a nossa cruzada. — Sim. — Venha trabalhar comigo. Ele assentiu. Sorri para ele. dei sinal verde a Morrissey para continuar tr .a Nova Ordem. Göring deu um amplo sorriso. — Sou amigo também do sr. — Antes de mais nada. assim. num gesto com a cabeça. Só fazíamos aviões comerciais. claro. Göring me levou para um canto. pensativo. — O que achou de nossa fábrica? — Estou impressionado. Depois vou procurar trabalho. Espero vê-lo de novo no jantar. A fábrica Messerschmitt me abriu os olhos. esperando que ele voltasse a falar. — Agora fico sem saber o que vou dizer ao führer. Ele me olhou. quando vi alguns dos esboços do ME-109 no esc ritório da Mes-serschmitt. — Compreendo — respondi levantando. por que decepcioná-lo? Um judeu a mais ou a menos não tem grande importânc ia para a Alemanha. Considerarei o milhão de dólares como um adiantamento sobre seus royalties. Não sou mais um homem rico. com a cabeça. Eu havia dito que o senhor era nosso amigo. E. Apenas em es-cala um pouco maior. — Otto Strassmer sofreu um grave colapso e está internado num hospital. — Que vai fazer agora? — perguntei. sempre nos entendemos — continuou Göring. Jogou alguns papéis em cima da mesa e disse: — Em cumprimento às novas leis. sorrindo. — Nós. — O führer não vai gostar disso. — Ótimo — comentou. — O tenente Mu eller o escoltará à fábrica Messerschmitt. sr. — Heil Hitler! — disse. Exatamente um mês depois. en carando-o com firmeza. — Nesse caso. Logo que ele saiu do meu escritório. o engenheiro alemão entrou no meu escritório em Nova Iorque. e se voltou para mim. seguimos o padrão de sua fábrica na Califórnia. vou ver minha família no Colorado e descansar um pouco. Nada havia de parecido com aquilo em ma téria de fabricação de aviões nos Estados Unidos. tentando imaginar como eles haviam conseguido entrar na minha fáb rica. apertando um b otão em sua mesa. Ele concordou. A única coisa comparável eram as linhas de montagem de automóveis em Detroit. Até então. o braço levantado na saudação nazista. — Heil Hitler! — respondeu Göring displicentemente. Göring sorriu. estaríamos odos perdidos. Não gostei da expressão "ordenar-lhe" e disse: — Estou procurando falar com o sr. Fiquei em silêncio. agradecido. Strassmer. excelência. Soubemos que há uma certa quantia que é devida ao mesmo e. Se não tomássemos providências. o Reich confiscou todos os bens de um certo Otto Str assmer. homens da aviação. — Claro — concordei. Concordei com a cabeça. não tive mais dúvidas. Quando receberemos o dinheiro? Gos taria de dar a notícia ao führer com certa antecedência. surpreso. Cord. — Bem. Um jovem tenente apareceu na porta. — O Terceiro Reich não esquecerá seus amigos — afirmou o Reichsmarschall. Depois virou-se para ir embora. Strassmer entrar no meu escritório em Nova Iorque — disse eu. Mas voltou dizendo em voz mais baixa: — O führer ficou muito satisfeito com sua cooperação. — No dia em que o sr. Naquela noite. por ocasião do jantar. sou encarr egado de ordenar-lhe que deposite esse dinheiro no Reichsbank. Strassmer. — Talvez esse seja o melhor caminho. Vai ficar muito de-cepcionado quan do souber que não receberemos o dinheiro. — Não temos tempo a perder. Ele ficou me olhando.

— Quer que eu o leve? — Com prazer — disse Forrester. Corri os olhos em torno e fui para os elevadores. McAllister e Pierce logo estariam de volta ao hotel. Olhei para o relógio. Acendi um cigarro enquanto esperava. D iz ele que é urgente — insistiu ela. não? É madame Gaddis. A reunião dos acionistas deveria estar terminando àquela hora. Entre eles devia haver al go mais que Exército e aviões. O general devia estar ali por perto. Gostar . — Tenho um almoço hoje que não gos-taria de perder por nad a. — Tenho um encontro marcado à uma da tarde no Waldorf —disse. fui para o boxe do banheiro e abri o chuveiro. agora. monsieur Cord! Vai almoçar sozinho? — Não vou almoçar. Se não estava enganado. — Mas o sr. — Como eu poderia. Já deveríamos estar lá. Quando saí do banheiro. De repente. levá-los para uma mesa num canto. — Charmante. Desliguei. Onde foi que se meteu? — Estava dormindo. A senhora que está com o coronel Forrester. O telefone tocou várias vezes enq uanto eu estava debaixo da água. Quatro horas em ponto. Eu bem percebera por sua atitude com Forrester. que ela não o houvesse esperado lá. o tempo de que dispúnhamos era curto. Difíc il mesmo seria fazer o Exército dos Estados Unidos compreender isso. Joguei as roupas na cadeira . — General. Dentro em pouco. A questão agora era saber quantos aviões o Exército ia compr ar. mas pouco me incomodei. Vi Rico. comecei a me senti r melhor. Estranhei. — Você não me disse nada disso. Estava muito agitado e parecia necessitado de mais alívio do que podia encontrar no lugar para onde estava indo. — Vou voltar para a cidade e dar alguns telefonemas para Washington — disse ele. A campainha do telefone me acordou. Eu o vi atravessar o vestíbulo na direção dos lavatórios. se você não atendia ao telefone? — Quero falar com o general Gaddis — pedi à telefonista do hotel. Não estava mais preocupado. número 31-15. Pela primeira vez desde que pousara o avião no Campo Roosevelt. — Pode ligar para ele às quatro horas. Beijou sua própria mão. McAllister me recomendou que o chamasse logo que o se-nhor voltasse. caí na cama e dormi como uma criança. com N orman sob controle. liguei para a telefonista do hotel e pedi que não fizesse ma is ligações para mim até quatro horas da tarde. — Vou falar também com o general. — Quero apenas fazer uma pergun ta. ouvi a voz áspera pelo fone: — Fala o general Gaddis. Só conseguira pegar no sono naquela noite por volta das cinco horas da manhã. Tudo estava entrando nos eixos. 3 O que eu mais queria era tomar um banho e dormir um pouco. — Ótimo.. Rico — respondi. Cheguei até a en-trada do salão e f iquei esperando que Rico voltasse. É possível que consiga convencê-lo. Olhei para o relógio de pulso ao estender a mão para o aparelho. a esposa do general. quem fala é Jonas Cord. Chegou ao Waldorf comigo e seguiu seu caminho enquanto eu me dirigia para os ele vadores. o maître. — Ah.abalhando no CA-4. Olhei por sobre a escrivaninha para Forrester. quem é ela? Rico sorriu com ar de conhecedor. — Estou tentando falar com você a tarde toda. virei-me e o vi ao lado da mulher com quem falara no campo de aviação. Quase meio-dia e meia. — Creio que ele está hos pedado aqui. Era Mac. sem muito interesse. — Dormindo? Temos uma reunião da diretoria nos escritórios de Norman. passando-lhe uma nota. Estou no meu apartamento aqui.

O senhor é um moço grosseiro. — Nada temos a conversar. Sabe perfei-tamente que você perde ria tanto quanto ele se requeresse a falência. — Minha mulher? — disse ele. queria comer alg uma coisa. Temos de encontrá-la. Mac e Dan Pierce entraram. — Para que pensa que eu quero a empresa de Norman? A única c oisa de valor que eles têm é o contrato de Rina. — Está na minha pasta. do contrário entraremos com o pedido de falência da companhia. Dan. uma petição par a que fosse nomeado um síndico para a massa falida. Estava prestes a conseguir. — Continue tentando. E não vai querer perder tudo o que tem só para me fazer companhia. — Ótimo — disse eu. Eu havia mandado fazer aquela porcaria especialment e para ela. — Ela vai aprovar esse. — E não estou. general. Não acredito que o Departamento de Guerra fique satisfeito em saber que uma questão pessoal serviu de base para a rejeição de um avião c omo o CA-4. conseguiu falar com Rina? — Não. — Ele não quis falar com Dan. — Já preparou tudo? — perguntei a Mac. Já resolvi a caso de De Mille com a Paramount. inconsciente e. Íamos filmá-lo por um processo nov o chamado Technicolor. Antes da reunião. . — A propósito. Jonas — disse Mac. general. Pedi três sanduíches de carne. O estúdio não sabe o nde ela está. senti fome. Fiz tudo o que era possível. general. tudo o que queri a. — Pedi-lhe que convença o v elho a vender.. — Logo veremos. — Não está dando um passo maior que suas pernas? — perguntou Mac. Acham que po dem conseguir a decretação da falência. — Ela é a única coisa que nos está pren-dendo agora. hoje de manhã. Houve um longo silêncio do outro lado do fio. tenho uma garrafa aqui à sua espera. um bule de café. — O que ela tem com nossos negócios? — Muita coisa. de repente.ia de conversar com o senhor. também. — Não é sobre minha falta de educação que desejo conversar. numa explosão. Falei até com Louella Parsons. o que o senhor gosta de beber? — Uísque — respondeu ele. Seria o maior filme já feito no estilo de De Mille. rindo. — Mas você não parece muito contente com isso. uma garrafa de leite. duas d e bourbon e uma porção du-pla de batatas fritas. Nada havia comido desde o café da manhã. falei com nossos advogados aqui. É sobre sua mulher. — Espero que seu raciocínio esteja certo. — A Paramount está de acordo? — Recebi. e o título seria A pecadora. — Também quero — disse Dan. Mac. mas Dan era todo sorrisos. e isso nos custaria seis milhões de dólares. sim — afirmei. Que tal daqui a quinze minutos? Desliguei antes que ele pudesse responder e liguei para a copa. o telegrama de Zukor. — E as ações dele? — Não sei. — E se ela não quiser faze r o filme? — Vai fazer. aprovando tudo. Ouvi o barulho dos pratos pelo telefone e . O telefone da casa dela não atende. — Mas eu falei com David Woolf — interferiu prontamente Dan. Era a história de Maria Madalena. — Mas sabia que nada podia fazer. Desliguei o telefone e perguntei: — Então? Como foram? — Bernie guinchou como um porco sangrando — disse Pierce. O telefone da copa finalmente atendeu. Enquanto esperava. — Mas gosta muito de dinheiro. Norman tem muita tarimba nos negócios. Ele sabia do que eu estava falando. uma garrafa de uísque escocês. se não estou enganado.. — Mas o contrato dela lhe dá o direito de recusar scripts. Nós dois sabemos com quem ela se encont rou hoje às treze horas para almoçar. Quero que ela leia aquele script. automaticamente. — Ótimo. Não conseguirá enganá-lo assim. Não podia deixar de ser assim. mas ela também não sabe do paradeiro de Rin a. Mac estava com seu habitual ar de preocupação.

quando falou: — Foi por isso que vim falar-lhe. Estava no meio do segundo sanduíche. As águias de prata no seu blusão. general. A ga rrafa está aí em cima da mesa. mas tive a impressão de que estava mais alto e mais aprumado. Recostei-me na cabeceira da c ama e dei uma tragada bem forte. Deveria ter cabeça bastante p ara telefonar a Morrissey antes de dar com a língua nos dentes. Talvez não enganasse nem a si mes-mo. Estou no meu apartamento aqui no Waldorf e gostaria de con versar com você. Tomei as providências hoje de man hã. Levantou e olhou para mim. cheguei a ter pena do homem. sr. seria outro q ualquer. — Não faça mau juízo de minha esposa.Quando o garçom chegou e arrumou a mesa ao lado da cama. general. — Por que acha que não procederei com justiça em relação ao seu avião? — E fazer o prestígio de Forrester crescer ainda mais aos olhos de sua mulher? Podia entender o que estava se passando dentro dele. Era apenas outr o caso de um velho querendo desesperadamente prender uma mulher jovem. Cord — disse ele. — Sente-se. A mim ele não enganava. quase chorando. quando o general chegou. o Exército irá comprá-l o. Sou um homem crescido e tenho dois olhos. não terá necessidade alguma de entrar em qualquer combinação com Forrester por minha causa. Bem. com tranqüila dignidade. — Talvez ela tenha pensado que eu era um militar assim quando se casou comigo. — Assim sendo. . Telefonei para o sr. — Não foi porque o senhor resolveu meter minha esposa em assuntos estranhos às relações que dev em existir entre nós. mas creio que e le não conseguiu falar com o senhor. Fiz as apresentações e pedi a Dan e a Mac que nos deixassem a sós. — Bem sabe como são as mulheres jovens. Ele abriu a garrafa. Mas não tardou a descobrir que não passo de um agente de compras graduado. general. Se seu avião for aprovado nos testes. — O que acontece é que ela é jovem e impressio-nável. logo que voltei para a cidade. Por um instante... Tudo que desejo é que o Exército apure com justiça as qualidades do CA-4. — À vontade. Para cada homem na linha de frente é p reciso haver cinco ou seis homens na retaguarda para manter os abastecimentos. eu per-cebi como estava c om fome. As estrelas de sua farda não significavam nada. de cara fechada e ainda de pé. — É Jonas Cord quem fala. general — disse eu. eu já havia comido um dos sanduíches de carne e tomad o a metade da garrafa de leite. — Não tenho a menor dúvida a esse respeito. mas para dizer-lhe que um grupo de pilotos de prova estará ama nhã de manhã no Campo Roosevelt para testar seu avião. obrigado — disse o general. tomou um bom gole e sentou na cadeira ao meu lado. Um homem com o Forrester. — Acho que vou aceitar seu uísque. A telefonista localizou Forrester no bar. — E sirva-se do uísque.. — Compreendo. Um leve sorriso apareceu no rosto do general. general. Olhei para ele com surpresa e me senti envergonhado. Antes de o garçom sair. Morrissey. Tornou a encher o copo e continuou: — O Exército é hoje uma máquina complexa. Peguei o terceiro sanduíche e entrei direto no assunto: — Se eu fizer Forrester deixar o Exército. sr. Dan o trouxe até o qua rto. Cord. Quis dar alguns conselhos e dizer que se conformasse. Talvez fosse minha imaginação. E eu me orgulho de meu trabalho porque procuro dar a nossos homens o que pode hav er de melhor. Sentem-se atraídas por uniformes. Cord. A porta fechou-se atrás dele e eu peguei um cigarro. Não há nenhuma o u-tra condição. Nada disse e me servi de uma xícara de café. sr. sr. — Não. Cord — disse ele. que valor terá isso para o se-nhor? — O que o faz pensar que desejo isso? Comi o resto do san-duíche e disse: — Não vamos começar com escaramuças. Se não fosse Forrester. a Croix de gu erre. logo que a porta se fechou. é fácil compreender..

mas Gaddis é um bom soldado. — Vá até o campo de pouso e entenda-se sobre isso com Morrissey. — Diga que acabo de sair para uma reunião. Vou deixá-lo dizer o salário. que saiba o que é mesmo que querem num avião. — Você pode falar o que quiser. depois de nossa conversa no escritório de Morri ssey. McAllister entrou no quarto. Ele deu um assobio de surpresa e disse: — Não é preciso ir tão longe. — Aceitaria. Seu rosto es-tava vermelho. felizes por estarem l ivres do trabalho pelo resto do dia. O Exército só respeita gente de cima. — Há algumas modificações que gostaria de discutir antes dos testes de amanhã. corr iam para os subways e desapareciam nos acessos subterrâneos. — Vinte e cinco mil dólares por ano e despesas pagas. — Não temos muito tempo. Poderão ligar para mim daqui a duas horas n o escritório de Norman. Chegou ao meu apartamento em menos de dez minutos. Estou na Força Aérea desde garoto. — E as modificações no avião? — perguntou Forrester. Aquilo fazia sentido. sabe o que eu quero dizer. — É o que você acha realmente? — perguntei.— Também gostaria de conversar com você. Mas estas não tomavam táxis. — É só o tempo de eu enfiar as calças. — Algo assim. cobrindo o fone com a mão. Vão testar seu avião amanhã. — Parece que o velho teve um lampejo de bom senso. E preciso de alguém que conheça as pessoas. — Acho que já é tempo de você deixar de brincar de soldado. — Nunca se sabe antes de experimentar. E essa idéia nada tem a ver com a compra ou não do CA-4. Dan acaba de falar com David Woolf. c omo se tivesse passado a tarde inteira ao lado de uma garrafa de bebida. mas já com as estolas de pele passadas di splicentemente pelos ombros. — Quer preparar um drinque para mim? — disse eu. enquanto Mac atendia ao telefone. O telefone tocou enquanto eu abotoava a camisa. contatos. Ele apanhou outro copo e preparou a bebida. Mac. as pequenas estavam saindo. — Entendo perfeitamente o que quer dizer. — É de Los Angeles — disse Mac. — Não sei se serei bom nisso. Tive essa idéia agora de manhã. Quer que eu deixe de ver Virgínia Gaddis p orque isso não ficará bem para a companhia. — Por falar em idéias. — Como assim? — Acho que a Cord Aircraft vai ter agora muitos negócios com o Exército. de quem foi esta? Sua ou de Gaddis? — Minha. Ele diz que Norman está falando em ir embora. — Já são quase seis horas. Não podemos fazê-los esperar indefinidamente. — Você é o novo presidente da Cord Aircraft. Ele cumpre seu dever. — Onde gostaria de começar? — No cargo mais alto que for possível. . Você entende. enquanto ele se servia de um drinque. desde que você me convidas se. — Atenda para mim. É por isso que quero falar-lhe. Demos boas risadas e bebemos para comemorar. Quan to quer ganhar? — Você me deixou escolher o cargo. Também na Sexta Avenida. Virou seu copo. rindo. Ninguém o impedirá se quiser realizar algumas de suas idéias. Nesse momento. — Eu também decidi hoje de manhã — disse ele. Jonas. — Lembre-se disso quando vier me pedir aumento. por favor. você será mais útil à Força Aérea fora d ue lá dentro. 4 Estava apenas começando a fazer frio e as pequenas saíam de seus apartamentos em Par k Avenue ainda trajando vestidos de verão. — Ótimo — repliquei. que consiga amigos para nós. É quatro vezes mais do que estou ganhando agora. — Eu sei. Além do mais.

havia cartazes tristemente pendurados diante das agências de emp regos. Edifícios de escritórios e apartamentos caros.Nova Iorque tinha uma forma de vitalidade estranha e curiosa. Meti a mão no bolso. um banqueiro e um conta-dor. — O mercado foi manobrado por você. A essa altura a conveniência ou não d e minha presença na reu-nião já havia sido esquecida. Ele levantou e avançou um passo largo pelo lado da mesa. Mac e Dan passaram. Fica para outra vez. com suas listas de empregos escritas a giz. Norman estava sentado à pont a de uma mesa comprida. A mulher olhou de relance para eles. mas inteligentes. Prefiro retirar-me a se ntar à mesma mesa com você. Cord. Na Sexta Avenida. Posso ensinar coisas que você nunca aprendeu na escola. Forrest Hawley. Ouvia-a murmurar. Temos de discutir muitos problemas graves que dizem respeito ao f uturo da companhia.. tirei um dólar e o coloquei na mão dela. E ela tomou isso como um sinal de encorajamento. Bernie levantou e disse: — Espere aí. e. Nos outros lugares e stavam os nossos homens: dois corretores. — Espera que eu confie nele depois de me haver roubad o a companhia pelas costas? — As ações estavam à venda no mercado livre e eu simplesmente as comprei. Eu ainda sorria quando entramos na sala da diretoria. e disse: — Aposto como pode. Ela se acomoda e depois não dá mais vontade de enfrentar o trabalho. quase sem mover os lábi os: — Você vai ser o primeiro hoje. Nesse m omento. — Tome para você. — Então saia. como tantas prostitutas de luxo ainda e stavam morando nos melhores lugares? Havia dinheiro. Ela olhou para o dólar e murmurou: — São camaradas como você que mimam demais uma mulher. Esta reunião é exclusivamente para diretores. — Não era eu quem dirigia a companhia. — Desconfiança! — exclamou Bernie. não estaria aplicando mais de sete milhões de dólares na companhi a. E tem mais. o tesoureiro. apesar das queixas e dos lamentos da Wall Street. sim. aborrecidos. — Mas a que preço? Primeiro. Mas não creio que meus pro-fessores vão aprovar. benzinho. É impossível chegar a qualquer solução numa atmosfera de desconfiança. à sua esquerda. — O preço que ofereci foi duas vezes o que paguei no mercado livre. — Isso não é maneira de se realizar uma reu nião importante. Cinco dólares. — Cavalheiros. O negócio estava engatilhado. As construções civis contin uavam. — E seria capaz de fazer melhor? — Se não pensasse assim. comprando as ações muito abaixo de seu valor nominal. há seis anos que está t endo prejuízo. Tirei um pacote de cigarros do bolso e acendi um. O velho achava que a melhor ma neira de conseguir o que queria era me atacar. Parei. cavalheiros — disse McAllister. à sua direita. depois para mim. Depois desta reunião. que contrastava co m a atmosfera de depressão geral que pairava sobre o pais. E agora ainda quer que venda as minhas ações ao mesmo preço vil que pagou pelas ou tras? Sorri para mim mesmo. forçou uma baixa no mercado. ainda sorrindo. já começavam a parecer velhos. David Woolf. sim. Dan e Mac sentaram um à frente do outro e deixaram a outra ponta para mim. Os quadros-negros. Uma delas virou-se para me olhar enquanto eu passava. e um homem que eu conhecia de vista no estúdio. você não terá mesmo muito o que fazer aqui. . — Diga a seus amigos que farei um preço especial para todos. e as putinhas de dois dólares já haviam iniciado sua patrulha notur na. Entrou num café do outro lado da rua no momento em que chegávamos ao novo edifício da RCA. embora vivesse escondi do. A-proximou-se. Pouco se importou com o mal que essa manobra fazia à companh ia. Seus olhos eram grandes e cansados. no Rockefeller Center. Mac voltou-se para mim alguns passos adiante a me olhar com ar de irritação. Quer me fazer começar bem a noite? Sorri para ela. à espera de um tempo em que os riscos fossem menores e os lucros maio-res.. você. Se não havia dinheiro. — É só dois dólares.

Mas o sobrinho mostrava. .Norman me encarou com raiva durante alguns instantes. se eu quiser lutar. Bernie olhou para mim. Tenho planos para assegurar o funcionamento próspero da companhia. três milhões cento e cinqüenta mil dólares. voltou para sua ca deira e sentou. para que ele possa doar mais dinheiro aos seus amigos nazistas. O velho virou-se para o sobrinho: — Veja. mas sob a obj eção do presidente. O velho continuou: — Há quorum para a sessão e também está presente. — Passei a tarde ocupado e consegui compromisso s de acionistas em número suficiente para me assegurar a maioria dos votos. e quem achar que pode me deter te rá de enfrentar um processo judicial como nunca viu antes em sua vida. D avid. que não tinha o menor conhecimento da ex istência de todo aquele dinheiro. — Gostaria de perguntar ao sr. gostaria que eu lesse aos presentes a relação de valores líquidos de suas propriedades particulares e holdings. o sr. Abri um sorriso. confuso. — Trataremos agora do primeiro item constante da ordem do dia. dois milhões e cem mil dólares . Cord o que eu faço com o meu dinheiro! — gritou ele da outra ponta da mesa. não. que chegam a seiscentos mil ou setecent os mil dólares. Tome nota d isso. Los Angeles. Permaneci impassível no meu canto. Algo me disse que as desilusões de David não iam ter minar por aí. perto de Beverly Hills. A verdade é que não cheguei a esta idade para entregar de bandeja minh a própria companhia. Além disso. a companhia que construí com o suor do meu rosto. Pio¬neer National Trust Company. provocando uma questão judicial que possivelmente não poderia vencer. que podem ser modestamente avaliadas em cinco mil dólares por hectare. proponho que a eleição dos diretores seja adiada até que o s enhor e o sr. — Está aberta a sessão ordinária da diretoria da Norman Picture Company. Norman. Cord concluam as negociações a respeito da venda de suas ações. David. Até McAllister não pôde deixar de sorrir. como uma boa esposa pode economizar com o dinheiro de despesas domésticas. Se ele não fosse tão ladrão. — Se o interesse do presidente pelo futuro da companhia fosse tão sin-cero quanto o nosso — disse polidamente McAllister —. Cord está presente a convite de alguns diretores. Incorporated. — Conti nuo a ter como sempre uma fé inabalada no destino da companhia. ainda que ele me pagasse. Fiz um sinal para McAllister. — Não sou tão ingênuo quanto pensam — disse. Jonas Cord. Manhattan Company Bank. Norman possui ainda quatrocentos hectares de terras valio síssimas em Westwood. O sr. presidente — disse Mac —. a-té apontarmos outro. você atuará como secretário. as que estão em seu nome e no de sua esposa? — Relação? — exclamou Bernie. Boston. dando um soco na mesa —. Ele me entregou uma folha de papel que tirou de sua pasta e comecei a ler: — Depósitos em nome de May Norman: Security National Bank. há alguns depósitos menores espalhados em vários bancos do país. — Não sou rico como ele. à espera de alguma reação. Entregaria tudo ao Fundo de Ajuda aos Judeus? — Não é da conta do sr. E entregaria a Cord. Lehman Broth ers. — Por que acha que estou interessado na venda de minhas ações? — perguntou Bernie. Possuo apenas algumas ações de minha própria companhia. Não — contin uou ele. Depois. setecentos mil dólares. a convite. Olhou para mim. sete milhõe s de dólares. certamente ele iria perceber o prejuízo que ca usaria. — Onde conseguiu essa relação? — Não tem a menor importância a maneira pela qual a consegui. só pelas ações. Nova Iorque. por sua aparência. David — disse Bernie. Com que ele iria lutar? Já dis-púnhamos de quare nta e um por cento das ações com direito a voto. Norman o que faria com os sete milhões de dólares. O rosto de Bernie assumiu uma expressão astuta. em voz alta —. Nova Iorque. E a sra. eu teria dado uma gargalhada. Pegou um lápis e começou a bater na mesa com ele. caso os desse a ele. — Que relação? Olhei para McAllister. Levantei realmente zangado. — Sr. — Sr. que é a eleição dos diret ores da companhia para o próximo ano. um milhão e quatroc entos mil dólares.

Havia um ódio mortal em seus olhos. Ela é nossa agente nes sas compras. Os que tivessem dinheiro dariam um passeio de carro pel o campo. Parece estar esquecendo que a administração de sua companhia é da alçada da Justiça fede ral. Havia um sorriso abjeto em seu ro sto. Não é preciso gostar de um sujeito para ter pena dele. estendendo a mão a McAllister. se tomasse conhecimento desse negó-cio. Era um velho egoísta. Tinham sorte. que lá embaixo se agitavam como insetos. nenhuma honra ou ética. como eu. Podemos res olver tudo isso em poucos minutos. depois para mim. Aqueles pequenos seres. sr. — Não tenho tempo para tomar conhecimento dos negócios dela. desprezível. Norman. Era e stranho vê-lo desfazer com algumas penadas o trabalho de toda sua vida. mas eu tinha a impressão de que estava assinando aquelas transferências não com tinta. Iriam para as praias. O dia seguinte seria um sábado e eles estariam de folga. Vamos deixar de conversa fiada. — Por que faz isso comigo? — choramingou. Veremos então se a Justiça federal achará ou não características criminosa s nas transações de sua mu-lher que o senhor parece considerar perfeitamente legítimas . Só está aborrecido agora porque não estou me deixando roubar de novo! — Nazista! Soltei lentamente a presa e disse a McAllister: — Pode requerer a falência. . que não perd oa nem aqueles que. Encaminhei-me para a porta. Não hesitaria em sacrificar fosse quem fosse por seus interesses. trinta andares abaixo. — Agora. Por cinco milhões eu poderia pensar. desde que as ações são vendidas no mercado aberto. Volte. Encarei-o firmemente: — Está bem. — E porque odeia tanto os judeus. para os parques. O rosto de Bernie estava vermelho. E de certo modo foi pena o que me inspi rou Bernie naquele momento. Gritei: — Escute. darei entrada nesses papéis em juízo ama nhã de manhã. — Não está em posição de barganhar. mas co m o sangue de suas veias. Ofereci um preço mais do que j usto por suas ações. descobriria que ela negocia com todos os fornecedores da Norman Conpany. Toda vez que s e ofereceu para me ajudar. Olhei pela janela para a rua. Assim. — Mas. — Espere um pouco! — a voz de Bernie me fez parar. tinham com certeza pe-quenos sonhos. Não poderá dizer que não está cient e de que ela recebe uma comissão de cinco a quinze por cento em todas as compras f eitas por esta companhia. planos diminutos. — Não há necessidade de ir embora só porque me exaltei um pouco. sr. Puxei-o pelo colarinho e encostei-o na parede . seu pequeno judeu bastardo! Não tolero mais seus desaforos. Arremessei-a s para Bernie. Bernie olhou para os papéis. Ele afundou-se em sua cadeira — E que mal há nisso? É uma praxe comercial perfeitamente normal. resolva. Como cavalheiros. Levantei e fui até ele. Quer vender ou não? — Não por três milhões e meio. não procuraram senão ajudá-los? Não pude mais. Norman. Fiquei perto da janela. E mova também uma ação criminal contra Norman e sua mulher por roubarem a companhia. Se não vender. Isso lhe dá o direito de me roubar? — Nesses últimos seis anos. — Minha mulher é muito hábil e feliz em seus investimentos — defen-deu-se. vendo Bernie assinar os papéis de transferência das ações. — É possível — disse eu. Não tinha qualquer noção de hones-tidade. enquanto sua companhia estava perdendo cerca de onze mil hões de dólares. meteu a mão no meu bolso. que me en-tregou as petições. é bem possível que vá parar n a cadeia. — Você não ousaria! — Não? — disse eu. Se não aceitar minha oferta. Levariam a esposa e os filhos e respirariam o ar puro do campo.Bernie voltou-se para mim: — Então minha mulher economizou alguns dólares. Por que não deveria receber comis-sões? Já estava farto daquilo. pedirei a falênc a da companhia. me parece estranho que sua mulher tenha depositado um milhão de dólares todo ano em suas várias contas.

eu é que fazia as regras e os outros tinham de observá-las. Havia dilapidado e saqueado uma companhia d e mais de quinze milhões de dólares e sua única desculpa era o fato de ele mesmo a ter fundado. no E ast Side. estivesse pensando em mim e não em meu pai. — Por que não me contou? . David? O sobrinho se levantou para acompanhá-lo. No meu mund o. Ele se levantou. Senti um gosto amargo na boca. O que há com Rina? — Está morrendo. — Telefonista. Ri-na. sr. Havia algo de familiar nela. Norman. Vi Bernie me olhar de maneira esquisita e depois dirigir-se para a porta. enquanto eu estivesse lá em cima. — E deseja vê-lo. e tomo u a sentar-se. Quando amavam alguém era apenas pelo que o coração sentia. E eu pretendia ficar em cima o mais possível. Era como estar no céu. balançou vagarosamente a cabeça em gesto afirmativo. pelo menos até que. Pode completar aquela ligação para o sr. Quem fala? — Ilene Gaillard. quando alguém dissesse meu nome. Posso dizer a ela que virá? — Diga-lhe que já estou a caminho! — e desliguei o telefone. Cord já está na linha. De repente... mas eu não estava certo disso. Pelo menos. Não viviam cercados de gente que só pensava em viver perto da fonte d a riqueza. E não estava particularmente ansioso em descobrir a verdade. Voltei-me para David Woolf. Cord? — Não. Cord. O velho deu de ombros e murmurou: — O que mais eu poderia esperar de uma pessoa do meu próprio sangue? A porta fechou-se atrás dele. sr. — a voz dela sum iu. — Vamos. o sr. não pela idéia de qu e podiam tirar disso algum benefício. ninguém seria capaz de pensar que um dia ele venderia sua companhia por três milhões e meio de dólares. Ele estava me olhando com uma expressão estranha. quisessem ou não quises sem. — Acho que vai querer isso também — disse ele. Passei a tarde toda à sua procura. Os médicos não sabem quanto tempo e la ainda poderá resistir. sr. sem ninguém para dizer o que se podia ou não fazer. mas eu cobri o fone com a mão e disse: — Você fica. Tentou um sorriso. E é melhor se apressar. entregando-me uma folha de papel dobrad a que havia tirado do bolso do paletó. Mas não foi muito bem-sucedido. eu sabia. soluçando. — Mas eu ainda vou fazer uma coisa pelo senhor — disse Norman. quando Bernie Normanovitz abriu seu primeiro cinema na rua 4. Rina sempre me parecera indestrutível. deixei de ter pena dele. quem fala é o sr. Peguei os certificados e dei uma rápida olhada. indo até o telefone num a mesa ao canto. Bernie olhou para mim. Ouvi uma voz de mulher pelo telefone. Encefalite. — Sim. David olhou para Bernie. Cord. — Há muitos anos. srta. — Sim. — Você sabia — disse eu. — Quer mais alguma coisa. Rina. Saí de perto da janela e voltei para a mesa. Cord — disse. Gostava dali de cima.. Talvez a vida lá embaixo também fosse amarga. Não tinham tido um pai que só podia amar o filho se ele fosse exatamente fei to à sua imagem. — Jonas Cord? — Sim. Era uma carta em que pedia demissão dos cargos de presidente da companhia e da ass embléia. Gaillard. Passou-me o telefone e ouvi a voz da telefonista: — Los Angeles. Norman.. Senti um arrepio agourento apertando-me o coração. — Sim. gesticulando com a cabeça. — Morrendo? Era inacreditável. Está no Sanatório Colton em Santa Monica. Estavam assinados corretamente: Bernard B.Não viviam numa selva onde o valor era medido pela habilidade em viver ao lado dos lobos.

— Como poderia? Meu tio tinha receio de que, se o senhor soubesse, não compraria mai s as ações. Um estranho silêncio dominava a sala quando peguei de novo o telefone. Dei à telefon ista o número de Morrissey no Campo Roosevelt. — Posso ir embora? — perguntou Woolf. Concordei com um gesto da cabeça. Havia sido redondamente embru-lhado, tosquiado c omo um cordeirinho, mas não tinha direito de me queixar. Conhecia as regras do jog o. Mas aquilo perdera qualquer importância. Agora nada mais importava. A única coisa qu e importava era Rina. Estava impaciente, esperando que Morrissey atendesse o tel efone. A única possibilidade que eu tinha de encontrar Rina com vida era voar para lá no CA -4.

5 O hangar profusamente iluminado fervilhava de atividade. Os soldadores trabalhav am nas asas com as máscaras descidas, e os maçaricos projetavam sua chama azul solda ndo os tanques de combustível às asas. Os mecânicos estavam arrancando do avião tudo o q ue não era absolutamente essencial ao vôo, tentando diminuir ao máximo o peso. Olhei para meu relógio quando Morrissey se aproximou de mim. Era quase meia-noite. Nove da noite na Califórnia. — Ainda demora muito? — Não muito. Já tiramos tudo, mas ainda estamos seiscentos e trinta e cinco quilos aci ma da força ascensional desejável. O centro-oeste estava completamente fechado por tempestades, de acordo com os bo letins meteorológicos. Eu teria de me livrar dela fazendo uma rota pelo sul. Morri ssey havia calculado que precisaríamos de quarenta e três por cento mais de combustíve l para o próprio vôo, e no mínimo mais sete por cento como margem de segurança. — Por que não espera até amanhecer? — perguntou Morrissey. — O tempo deverá estar melhor, e você poderá voar direto para lá. — Não. — Pelo amor de Cristo! Você não conseguirá nem levantar vôo. Se está com tanta vontade de mo rrer, é mais simples usar um re-vólver. Olhei para o montão de coisas já tiradas do avião, e perguntei: — Quanto pesa o rádio? — Duzentos e vinte quilos. Mas você não pode fazer isso. Como irá saber onde está ou qual é o tempo que vai encontrar? — Do mesmo jeito que se fazia antes de instalarem rádios nos aviões. Tire-o! Voltou carrancudo para junto do avião, balançando negativamente a cabeça. Então tive out ra idéia. — E o sistema de pressurização de oxigênio na carlinga? — Trezentos e quatro quilos, incluindo os tanques. — Tire-o também. Vou voar baixo. — Vai precisar de oxigênio nas Montanhas Rochosas. — Ponha um tanque portátil na carlinga. Fui até o escritório e liguei para Buzz Dalton no escritório da Inter-Continental em L os Angeles. Já havia saído. Pedi para transferirem a ligação para a residência dele. — Buzz, aqui é Jonas. — Estava mesmo querendo ter notícias suas. — Preciso de um favor seu. — Claro! — respondeu prontamente. — O que é? — Vou de avião para a Califórnia esta noite. Quero que haja sinais de meteorologia par a mim em todos os hangares da Inter-Continental pelo país. — O que há com seu rádio? — Vou com o CA-4, em vôo sem reabastecimento. E tenho de aliviar o peso. Ele soltou um assobio.

— Você não vai conseguir isso, meu amigo! — Vou, sim. Pisque os refletores à noite e pinte os tetos dos hangares durante o dia . — Faremos isso. Qual é seu plano de vôo? — Não sei ainda. Transmita a ordem a todos os campos. — Faremos isso. Boa sorte. Desliguei o telefone. Era por isso que eu gostava de Buzz. Era um homem com quem se podia contar. Não perdia tempo com perguntas tolas como por que, quando ou ond e. Fazia o que se pedia. Só se preocupava com a linha aérea. E por isso a ICA estava tornando-se a maior empresa de aviação comercial do país. Tomei um gole de uísque e me estendi no sofá. Minhas pernas ficaram penduradas balança ndo na beirada, mas isso não tinha importância. Podia descansar um pouco enquanto os mecânicos terminavam o trabalho com o avião. Senti Morrissey a meu lado e abri os olhos. — Pronto? Ele fez que sim com a cabeça. Levantei e olhei para o hangar. Estava vazio. — Onde está o avião? — Lá fora, aquecendo os motores. — Ótimo — disse eu. Olhei para o relógio. Passava um pouco das três. Morrissey me acom-panhou até o banhei ro. — Você está muito cansado — disse ele, enquanto eu banhava o rosto com água fria. — Acha mes mo que deve fazer esse vôo? — Tenho de fazer. — Coloquei seis sanduíches de rosbife e duas garrafas térmicas de café no avião. — Obrigado. — Fui saindo. Sua mão me fez parar. Estava me oferecendo um vidrinho branco. — Telefonei para meu médico e ele recomendou que você levasse isso. — O que é? — Um remédio novo. Benzedrina. Tome um comprimido caso sinta so-no. Ele o manterá desp erto. Mas tenha cuidado. Se tomar demais, sairá pelo teto do avião. — Começamos a caminh ar para o avião. Ele continuou: — Outra coisa. Só acione os tanques de reserva quando tiver um quarto de combustível no reservatório. O abastecimento por gravidade não func ionará se houver mais que isso no tanque, e pode até ficar entupido. — E como vou saber se os tanques de reserva estão funcionando? — Só saberá quando a gasolina acabar. E se houver entupimento, a pressão do ar conservará o mostrador em um quarto de tanque, ainda que este esteja seco. Chegamos ao avião. Subi na asa e virei-me para a carlinga Senti puxarem minhas calça s. Virei-me. — O que vai fazer com o avião? — Vou até a Califórnia. — E os testes de amanhã? — Ele gritou. — Trouxe até Steve Randall aqui esta noite para ver o aparelho. — Sinto muito. Transfira-os. — E o general? Como vou explicar isso a ele? Entrei na carlinga e respondi: — O problema não é mais meu. É seu. — E se acontecer alguma coisa ao avião? Senti-me de repente satisfeito. Não havia errado no meu juízo sobre ele. Seria um ex celente administrador. Não se preocupava absolutamen-te comigo, só com o aparelho. — Se houver alguma coisa, faça outro — gritei. — Você é o presidente da companhia. Dei adeus e, soltando os freios, comecei a taxiar pela pista. Coloquei o aparelh o em posição e o conservei assim enquanto acelerava o motor. Fechei a carlinga e, qu ando o tacômetro chegou a duas mil e oitocentas rotações por minuto, soltei os freios. Corremos pela pista. Não tentei subir enquanto não cheguei a uma velocidade de cento e vinte quilômetros por hora. Estávamos quase no fim da pista, quando o avião começou a abocanhar um pedaço do céu. Daí em diante subiu com facilidade. Nivelei a mil e duzentos metros e rumei para o sul. Olhei para trás. A estrela Pol ar ficara bem às minhas costas, brilhante, piscando muito no céu límpido e escuro. Era

difícil acreditar que a menos de mil e novecentos quilômetros o céu estivesse fechado . Voava sobre Pittsburgh, quando me lembrei de uma coisa que Nevada me ensinara qu ando eu era garoto. Estávamos seguindo os rastros de um grande felino e ele aponto u a estrela Polar. — Os índios dizem que, quando a estrela Polar pisca desse jeito, há uma tempestade cor rendo para o sul. E a estrela Polar estava exatamente como na noite em que Nevada me disse isso. L embrei-me de outro dito índio que Nevada me ensinara. O caminho mais rápido para o o este é contra o vento. Tomei a decisão. Se os índios estavam certos, quando eu chegasse ao Médio Oeste a temp estade estaria ao sul em relação à minha posição. Virei o avião contra o vento e, quando tir ei os olhos da bússola, a estrela Polar brilhava intensamente a minha direita. Minhas costas doíam, tudo doía, ombros, braços, pernas. As pálpebras pesavam uma tonelad a. Senti que iam fechar-se e peguei a garrafa térmica. Estava vazia. Olhei para o relógio. Já fazia doze horas que eu partira do Campo Roosevelt. Enfiei a mão no bolso e peguei o vidro de comprimidos que Morrissey me havia entregue. Tomei um. Por alguns minutos, não senti nada. Depois, comecei a me sentir me-lhor. Inspirei profundamente, e esquadrinhei o horizonte. Calculei que não devia estar muito long e das Montanhas Rochosas. Vinte e cinco minutos depois, elas surgiram à frente. Verifiquei o mostrador do combustível. O ponteiro estava firme em um quarto de tan que. Eu já havia aberto os tanques de reserva. Passara no Médio Oeste pela orla da t empestade e isso me cus-tara mais de uma hora de suprimento da gasolina. Agora, eu precisaria da ajuda do vento para chegar ao fim da viagem. Virei o manete da gasolina, atento aos motores. Roncavam com força e firmeza ao re ceber nas veias a rica mistura. Puxei o manche e comecei a subir para as montanh as; sentia-me um tanto cansado e tomei outro comprimido. A três mil e quatrocentos metros, comecei a sentir frio. Calcei os huarachos e peg uei o tubo do tanque de oxigênio. Quase imediatamente tive a impressão de que o avião dera um pulo de mil metros. Olhei para o al-tímetro. Estava apenas em três mil e nov ecentos metros. Aspirei mais um pouco de oxigênio. Uma onda repentina de energia in-vadiu meu corp o e eu apoiei as mãos no painel de instrumentos. Aos dia-bos com a gasolina! Eu po deria levantar aquele avião por cima das Mon-tanhas Rochosas com minhas próprias mãos. Tudo era questão de força de vontade. Como os faquires da índia dizem após deixarem as pessoas perplexas com truques de levitação: é apenas uma questão do domínio da mente sobre a matéria. O segredo está no espírito. Rina! Quase gritei. Olhei para o altímetro. O ponteiro havia caído para dois mil e o itocentos e cinqüenta metros e ainda estava descendo. Vi as montanhas que avançavam cada vez maiores para mim. Botei as mãos no manche e o puxei. Pareceu uma eternida de até o momento em que vi as montanhas de novo abaixo de mim. Levei as mãos à testa para enxugar o suor. Meu rosto estava molhado de lágrimas. A est ranha onda de energia havia desaparecido, e a cabeça começava a doer. Morrissey me h avia advertido a respeito dos comprimidos, e o oxigênio me ajudara um pouco também. Girei o manete e regulei cuidadosamente a gasolina que alimentava os motores. Ainda havia quase oitocentos quilômetros a percorrer, e eu não queria ficar sem gaso lina.

6 Pousei em Burbank as duas horas da tarde. Estivera no ar durante quase quinze ho ras. Fiz o avião taxiar até os hangares da Cord Aircraft, desliguei os motores e tra

tei de desembarcar. Ainda sentia nos ouvidos o ronco dos motores. Logo que pus os pés no chão, me vi cercado por uma verdadeira multidão. Reconheci algu ns jornalistas. — Desculpem — disse, e procurei dirigir-me para os hangares. — Ainda estou meio surdo com o barulho dos motores. Não consigo ouvir o que estão dizendo. Buzz também estava ali, um largo sorriso no rosto. Apertou minha mão com força e disse alguma coisa, mas eu só pude ouvir o fi-nal: — ... um novo recorde leste a oeste, costa a costa. Que importância tinha isso para mim naquele momento? — Tem um carro aí a minha espera? — Está no portão da frente. Um dos repórteres adiantou-se, e perguntou aos gritos: — Sr. Cord, é verdade que fez esse vôo só para ver Rina Marlowe antes que ela morra? Ele precisaria de um banho depois do olhar que lhe lancei. Não respondi. — É verdade que comprou a Norman só para ficar com o controle do contrato de Rina? Consegui chegar à limusine, mas eles ainda estavam me bombardean-do de perguntas. O carro partiu. Um guarda de motocicleta foi a nossa frente, tocando a sirene. G anhamos velocidade assim que o tráfego se di-luiu a nossa frente. — Sinto muito o que aconteceu a Rina, Jonas — disse Buzz. — Não sabia que ela tinha sido casada com seu pai. — Como ficou sabendo? — Está em todos os jornais. O estúdio da Norman mandou um press release com a história d ela, e contando que você estava realizando esse vôo para ir vê-la. Mordi os lábios. O mundo do cinema era assim. Um bando de hienas em torno de uma s epultura. — Trouxe uma garrafa de café e sanduíches. Caso queira... Tomei o café. Estava quente, e o senti bater no estômago. Virei-me e olhei pela jane la. As costas estavam doendo de novo. Não sabia se agüentaria esperar chegarmos ao hospital para ir ao ba-nheiro. O Sanatório Colton parece mais um hotel que um hospital. Fica no alto dos penhasco s do Pacífico, dominando o oceano. Para chegar lá, é preciso sair da Coast Highway e p assar por uma entrada sinuosa e estreita. No portão de ferro da entrada, há um guard a. Sua função é exatamente identificar as pessoas. O dr. Colton não é nenhum curandeiro da Califórnia. É apenas um homem perspicaz que perc ebeu a necessidade de um hospital verdadeira-mente particular. As estrelas do ci nema internam-se lá para tudo, para ter um filho, para se curar de entorpecentes o u bebida, para fazer cirurgia plástica ou repousar depois de um esgotamento nervos o. Uma vez do lado de dentro do portão de ferro, podem respirar aliviadas e relaxa r, pois nenhum repórter consegue penetrar ali. Podem ter certeza de que, qualquer que tenha sido o motivo que ali as levou, as outras pessoas só saberão o que elas qu iserem contar. O porteiro estava a nossa espera, porque começou a abrir o portão logo que avistou o guarda da motocicleta. Os repórteres gritaram para nós e os fotógrafos tentaram bater algumas fotos. Houve até um que se agarrou ao estribo do carro e passou pelo portão conosco. Mas outro guarda apareceu e o fez sair na marra. Virei-me para Buzz: — Eles nunca desistem, não é? — É melhor você se habituar a isso de hoje em diante, Jonas. Tudo o que você fizer será no tícia. — Coisa nenhuma, Buzz. E só hoje, por causa de Rina. Amanhã, estarão interessados em out ra pessoa. — Você diz isso porque não leu os jornais nem ouviu rádio. Hoje, você é um herói nacional. O ue estava fazendo despertou o entusiasmo do público. As estações de rádio davam a posição de seu avião de meia em meia hora. Amanhã, o Examiner começará a publicar a história de sua vida. Depois de Lindbergh, ainda não houve quem agitasse tanto a nação. — Por que diz isso? Ele sorriu. — Só vou lhe contar uma coisa. As paredes da cidade estão cheias de cartazes nos quais se vêem o seu retrato e as palavras: Leiam a história da vida de Jonas Cord, o homem misterioso de Hollywood, por Adela

Rogers St. Johns. Tinha mesmo de me habituar àquilo. Adela St. Johns era a colunista de maior prestígi o da cadeia de publicações Hearst. Isso significava que o velho Hearst dera seu selo de aprovação a minha pessoa. Daí em diante, eu estaria vivendo dentro de um aquário, à vi sta de todo mundo. O carro parou e apareceu um porteiro. — Tenha a bondade de me acompanhar, sr. Cord — disse, respeitosamente. Eu o segui escadaria acima, para dentro do hospital. A enfermeira da portaria so rriu para mim, apontando um grande livro preto, encadernado em couro. — Faça o favor, sr. Cord. É praxe do hospital que todos os visitantes as-sinem aqui. Assinei o livro rapidamente, enquanto ela apertava o botão de uma campainha. Um in stante depois, outra enfermeira apareceu. — Queira vir comigo, sr. Cord — ela disse, polidamente. — Vou levá-lo à suíte da srta. Marlo we. Eu a segui até os elevadores, ao fundo do vestíbulo. Ela apertou os botões. Franziu a testa, aborrecida. — Desculpe, sr. Cord, mas terá de esperar alguns minutos. Os dois elevadores estão na sala de cirurgia. Um hospital era um hospital por mais que se quisesse fazê-lo parecer um hotel. Cor ri os olhos pela portaria até encontrar o que eu estava pro-curando. Uma placa dis cretamente colocada numa porta: CAVALHEIROS. Tirei um cigarro do bolso no momento em que as portas do elevador se fecharam. D entro, o cheiro era o de qualquer outro hospital. Álcool, de-sinfetante, formol. D oença e morte. Risquei um fósforo e acendi o cigarro, receoso de que a enfermeira pe rcebesse os meus dedos tremendo. As portas do elevador se abriram e saímos para um corredor muito limpo de hospital . Aspirei com força o cigarro, acompanhando a enfermeira. Ela parou diante de uma porta. — Acho que terá de apagar esse cigarro, sr. Cord. Vi um pequeno aviso alaranjado: É PROIBIDO FUMAR OXIGÊNIO EM USO Dei mais uma tragada e joguei o cigarro num cinzeiro ao lado da porta. De repent e, senti um medo incrível diante daquela porta. A enfermeira a abriu para mim. — Pode entrar, sr. Cord. Entrei numa pequena ante-sala. Outra enfermeira estava sentada numa poltrona, le ndo uma revista. Logo que me viu, disse em tom de cordi-alidade formal: — Entre, sr. Cord. Estávamos à sua espera. Entrei lentamente. A porta se fechou atrás de mim. Pude ouvir passos da enfermeira que me escoltara se afastando. A outra me levou à segunda porta e disse: — A srta. Marlowe está aí dentro. Parei sob o vão da porta. Ainda não dava para vê-la. Ilene Gaillard, um médico e outra e nfermeira estavam ao lado da cama, de costas para mim. Então, como que a um sinal, os três se voltaram ao mesmo tempo. Caminhei até a cama. A enfermeira se afastou de lado. Ilene e o médico se moveram um pouco para me dar espaço. Então eu a vi. Uma tenda de plástico transparente estava suspensa sobre a cabeça e os ombros, e ela parecia dormir. Só o rosto não estava coberto pelas ata-duras brancas que lhe escon diam por completo o lindo cabelo dourado. Os olhos estavam fechados e as pálpebras apareciam cercadas de uma orla azulada. A pele estava esticada sobre as proemin entes maçãs do rosto, dando a impressão de que a carne desaparecera. A boca rasgada, s empre tão quente e viva, estava descorada e entreaberta, mostrando os dentes branc os e perfeitos. Fiquei um momento em silêncio. Não dava para notar a respiração de Rina. Olhei para o médi co. Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Está viva, sr. Cord — disse ele, baixinho. — Mas muito mal. — Posso falar com ela? — Pode tentar, sr. Cord. Mas é possível que ela não responda. Está assim há dez horas. E, me smo que fale, sr. Cord, pode não re-conhecê-lo. Virei-me para ela e disse, compassadamente:

— Rina, sou eu, Jonas. Ela continuou imóvel. Meti a mão por baixo da tenda e encontrei a mão dela. Estava fri a e flácida. De repente, senti um arrepio de horror dentro de mim. A mão estava fria . Ela já estava morta. Morta. Caí de joelhos ao lado da cama. Empurrei o plástico para o lado e curvei-me sobre el a. — Rina! Rina! Sou eu, Jonas! Por favor, não morra! Senti uma leve pressão em minha mão. Olhei para ela, com lagrimas correndo pelo meu rosto. O movimento de sua mão ficou um pouco mais forte. Os olhos se abriram lenta mente e agora estavam olhando para mim. O olhar foi a princípio vago e distante. Depois, clareou e ficou mais firme. Os lábi os se arquearam numa aparência de sorriso. — Jonas — murmurou. — Eu sabia que você viria. — Tudo o que você tinha a fazer era assobiar para eu vir correndo. — Nunca aprendi a assobiar — disse ela, depois de um instante, com visível esforço. Ouvi a voz do médico atrás de mim: — Convém descansar um pouquinho agora, srta. Marlowe. Rina olhou para ele. — Oh, não — ela sussurrou. — Não tenho mais tempo. Deixe-me falar com Jonas. — Está bem — disse o médico. — Mas só um momento. Ouvi a porta se fechar, e olhei para Rina. Ela levantou a mão e me aca-riciou de l eve a face. Segurei seus dedos e pressionei-os contra meus lábios. — Tinha de ver você, Jonas. — Por que esperou tanto tempo, Rina? — Era por isso mesmo que eu tinha de vê-lo. Para explicar... — De que adiantam mais explicações, agora? — Por favor, tente compreender, Jonas. Amei você desde o primeiro momento em que o v i. Mas tive medo. Dei azar a todas as pessoas que me amaram. Minha mãe e meu irmão m orreram porque me amavam. Meu pai morreu de desgosto na prisão. — Você não teve culpa. — Empurrei Margaret pela escada e a matei. Matei meu filho antes mesmo de ele nasc er, roubei a carreira de Nevada, e Claude se suicidou por causa do que eu estava fazendo com ele. — São coisas que acontecem. Você não é responsável por elas. — Sou, sim. Veja o que fiz com você, com seu casamento. Eu não deveria ter ido ao seu quarto no hotel naquela noite. — Você não teve culpa. Eu é que a forcei a ir. — Ninguém me forçou. Fui porque queria ir. Somente quando ela apa-receu compreendi meu erro. — Erro, por quê? Só porque ela estava com uma barriga que não tinha tamanho? E o filho n em era meu! — Que importância tem isso? Que mal faz que ela tenha dormido com outro homem antes de conhecê-lo? Você devia ter sabido disso quando se casou com ela. Se não tinha impor tância nessa época, por que passou a ter quando ela apareceu com o filho de outro ho mem? — Tinha importância. E ela só estava interessada no meu dinheiro. Por que ela aceitou o meio milhão de dólares que lhe paguei pela anulação do casamento? — Não é verdade, Jonas. Ela o amava. Vi isso perfeitamente naqueles olhos cheios de mágo a. E, se o dinheiro era tão importante para ela, por que deu tudo ao pai? — Eu não sabia disso. — Há uma porção de coisas que você não sabe. Mas não tenho tempo de contar mais. Só isso. Arr ei seu casamento. É por minha culpa que aquela pobre criança está crescendo sem ter se u no-me. E quero dar para ela, de alguma maneira, alguma compensação. — Fechou os olho s por um momento. — Talvez eu não deixe muita coisa. Nunca fui muito boa para negócios , mas deixei tudo o que tenho para ela e nomeei você meu tes-tamenteiro. Prometa-m e que zelará pelos interesses dela. — Prometo, Rina. — Muito obrigada, Jonas. Sempre pude contar com você. — Está bem. Agora, procure descansar um pouco. — Para quê? Para poder viver mais alguns dias neste mundo louco e alucinado? Não, Jona

s. Dói demais. Eu quero morrer. Mas não quero morrer aqui, presa dentro desta tenda. Leve-me para o terraço. Quero ver o céu, ver o sol brilhar mais uma vez. — O médico... — Por favor, Jonas — disse ela, sorrindo. Retribuí aquele sorriso e afastei a tenda de oxigênio. Tomei Rina nos braços. Estava l eve como uma pena. — Que bom estar nos seus braços outra vez, Jonas — sussurrou ela. Beijei-a na testa e caminhei para a luz do sol. — Quase havia esquecido do verde das árvores. Em Boston, há um carvalho que é a coisa ma is verde que já vi em toda a minha vida. Leve-me para lá, Jonas, por favor. — Eu levarei. — E não deixe que transformem isso num espetáculo de circo, como costumam fazer no cin ema. — Eu sei. — Há lugar para mim, Jonas — sussurrou —, junto de meu pai. A mão dela caiu do meu peito e senti nos braços um peso diferente. Olhei para ela, m as o rosto estava escondido em meu ombro. Olhei depois para a árvore que a fizera lembrar-se de casa. Mas não pude vê-la por causa das lágrimas. Quando voltei, Ilene e o médico estavam no quarto. Em silêncio, levei Rina para a ca ma e a deitei. Olhei para eles e quis falar, mas não pude. Quando consegui, a voz estava rouca: — Ela quis ver o sol pela última vez. 7

Olhei para o pastor, que lia em silêncio a pequena Bíblia com capa preta de couro qu e tinha nas mãos. Ele fechou o livro. Pouco depois, os outros o acompanharam e só eu e Ilene permanecemos ao lado da sepultura. Ela estava diante de mim, magra e calada, com um vestido preto e um véu cobrindo s eus olhos. — Está acabado — disse ela, com voz cansada. Olhei para a pedra na sepultura. RINA MAR LOWE. Fiz um gesto com a cabeça, concordando. Agora, não era mais do que um nome. — Espero que tudo tenha sido como ela desejava — disse. — Tenho certeza de que foi. Ficamos em silêncio com o embaraço de pessoas que se encontram num cemitério e cujo únic o elemento de ligação é uma sepultura. Estava na hora de ir embora. — Quer que a leve até o hotel? — Não. Gostaria de ficar aqui mais um pouco, sr. Cord. — E vai ficar tudo bem para você? — Sim, sr. Cord. Nada mais pode me acontecer. — Mandarei um carro ficar à sua espera. Até logo, srta. Gaillard. — Até logo, sr. Cord. E... muito obrigada. Desci a alameda do cemitério. Os mórbidos e os curiosos ainda estavam por ali, conti dos pelos cordões de isolamento da polícia, do outro lado da rua. Um murmúrio veio da multidão quando saí pelo portão do cemitério. Eu me havia esforçado ao máximo, mas não conseg ia evitar aquela multidão. A porta da limusine se fechou e o chofer perguntou: — Para onde, sr. Cord? Para o hotel? Olhei pelo vidro de trás. Estávamos no alto de uma pequena ladeira e dava para avist ar Ilene lá embaixo, no cemitério. Era um vulto patético, sentado ao lado da sepultura com o rosto entre as mãos. Dobramos uma curva e sua imagem sumiu de vista. — Para o hotel, sr. Cord? — tornou a perguntar o chofer. Inclinei-me para apanhar um cigarro. — Não. Para o aeroporto. Dei uma tragada forte, jogando a fumaça para o fundo dos pulmões. De repente, senti que só queria fugir. De Boston e da morte, de Rina e dos sonhos. Memórias demais par a suportar, tudo ainda muito claro na minha mente.

Segui os olhos dela para o chão. Já com o maço de notas na mão. Vou desce r e pegá-las. Ficamos muito sentimentais quan do encontramos um bêbado. — Não há chuveiro. mas no seu estado isso não fazia muita diferença. olhei para ela. — Onde é o banheiro? Ela apontou uma porta. — Há quanto tempo estou aqui? — perguntei. — Estive bebendo? — Não fez outra coisa. Havia três caixas de papelão com garrafas de uísque vaz ias. menos o dinheiro com que comprei o uísque. com uma risadinha. Você quis brigar com o garçom e eu o trouxe para casa. Você não estava procuran o por uma mulher. Estava apenas de cueca. a fim de livrá-lo de encrencas. — Foi você mesmo? — perguntei. Minha barba estava áspera como uma lixa. Eu estava deita do numa velha cama de ferro. Olhei para a moça. Mergulhei lentamente os pés no chão e sentei. dize ndo que estava pronto para tomar algumas aulas. Esfreguei os olhos. ontem. — Então já está acordado? Comecei a me virar. — Está tudo aí. Diante da janela. Dava para v er as pessoas se comprimindo dentro e fora das estreitas plataformas de embarque . enquanto você se lava. Passei a mão pe lo queixo. Olhei para as notas na minha mão. Separei uma nota de cinco dólares. Depois disso. — Quase uma semana — respondeu ela. Você já estava bem alto. quando senti que precisava de um dri nque. — Como vim parar aqui? — Não se lembra? Fiz que não com a cabeça.O barulho encheu meus ouvidos e comecei a subir a longa escadaria negra dentro d a escuridão que me cobria. Ela pegou o dinheiro silenciosamente e me acompanhou até a porta. Tive impressão de que já a conhecia. não servimos para mulheres da vida. Olhei a minh a volta. na parede. fom os ao White Rose Bar e tomamos alguns drinques. irlandesas. Minha cabeça não parava de girar. — Seu dinheiro está na gaveta da cômoda — disse ela. Lembrava-me vagamente de haver procurado diante de uma loja de rádios alguém que me havia prometido ensinar coisas que eu não havia aprendido na escola. Abri os olho s. — Você se aproximou de mim diante da loja na Sexta Avenida e me pegou pelo braço. enquanto eu terminava de abotoar a camisa e vestir o paletó. Saíra do ae-roporto e ia pela Sexta Avenida a caminho dos escritórios da Norman. Fui até a gaveta da cô-moda. não fui eu. E há um aparelho de barba n a prateleira em cima do lavatório. Depois. — Estava pensando que sua sede não ia acabar nunca. mas tem água quente para encher a banheira. um estranho silêncio caiu sobre o quarto. Quanto mais eu subia. mas não pude lembrar-me de onde. Ela riu. curioso. Era um quarto pequeno e sombrio. e coloquei o resto do dinheiro em cima da cômoda. mas a mulher que falara deu a volta e apareceu a minha frent e. — Bem sabe que ela está morta e todo o uísque do mundo não a fará viver de novo — disse. tudo ficou confuso. Perto da janela havia uma mesinha e. com . Levantei-me. um crucifixo. — Levei suas roupas para a lavanderia logo que você parou de beber. — Não. — Por que me trouxe para cá? Ela encolheu os ombros. — Nós. passava chocalhante o elevado da Terceira Avenida. Não era de admirar que minha cabeça estivesse doendo. O papel branco das paredes já estava bem encardid o. Havia cerca de duzentos dólares. maior era o barulho. que guardei no bolso. Depois que o trem passou. queria mesmo era afogar sua tristeza. As roupas estavam a minha espera quando saí do banheiro. Estava começando a recordar.

— É sobre a menina. Jonas. Jo-Ann — disse ela. Ela abraçou com mais força a criança. Faltavam quinze para as sete. Sabe o que está acontecendo na companhia de cinema? Todo mundo está correndo lá. Depois ela fechou a porta e eu desci por uma esc ura escada até chegar à rua. Jo-Ann. com sua vozinha fina —. tem um homem aqui na nossa porta. Ninguém atendeu. apesar de um tanto mudada. Tornei a tocar a campainha. Quero falar com você. moço? — perguntou um dos garo-tos. Talvez fosse a mane ira de pentear o cabelo. — Está bem. A criança sorriu. Pegou a criança nos braços. Se não marcarmos logo uma reunião para resolver os problemas da companhia de cinem a. Por um momento. Crianças brinc avam no gramado e olhos curiosos me seguiam. — Talvez seja melhor entrarmos. Franziu o nariz e apertou os olhinhos pretos. — Olá. Ao chegar à quarta casa. — Onde diabos você se meteu todo esse tempo. Ou o vestido simples que usava. — Sua voz soou muito séria. rindo. — Olá. Levantei no momento em que a criança parou e olhou para mim. A menina correu para dentro. Marque a reunião —. olhei o nome na placa j unto à campainha. — Onde está o testamento? — Na mesa da sala de seu apartamento. Monica voltou-se para mim: . Mas. Ficamos nos olhando um momento. por cima da cerca da casa vizinha . Muitas casas estavam com as portas abertas e eu não podia ler os números. para cima e para baixo. nada pudemos fazer senão ficar ali olhando um p ara o outro. — Ela ainda não voltou do trabalho — disse um homem. — O que há com Jo-Ann? — Nada que lhe dê motivo de preocupação. principalmente. uma auto-segurança que eu não conhecia. — Mamãe — disse. num gesto de proteção. paguei ao chofer e segui pela calçada à frente das casas. Deixei-a passar para abrir a porta e entrei em uma pequena sala. E desliguei antes que ele pu-desse falar mais alg uma coisa. sim. O sol começava a desaparecer e o calor que fizera durante o dia estava menor. Ela colocou a m enina no chão e disse: — Vá para seu quarto brincar com as bonecas. — Sobre o quê? Pensei que tudo estivesse resolvido.a mão no meu ombro. exatamente onde me pediu para que o deixasse . — Monica Winthrop — eu disse. Ca-minhava pela calçada e uma menininha pulava sem parar à sua frente. — Ela passa primeiro pela creche da escola para pegar a filha. como um ba ndo de galinhas com a cabeça cortada. Sentei-me nos degraus da casa e ac endi um cigarro. — Quem está procurando. Jo-Ann. Varremos toda a cidade à sua procura. Monica. — É a quarta casa abaixo. — É um amigo da mamãe. moço. — Como vai? — Bem. Ela parecia a mesma. Seus olhos deixaram transpare cer uma súbita apreensão. — Não há nada demais. os olhos. — A que horas costuma chegar em casa? — Não deve demorar.disse. Saltei do táxi. quando Monica apareceu ao longe. você não terá mais de se preocupar com o dinheiro que gastou. Olhei para Monica. WINTHROP. — Não é sobre nós — apressei-me em dizer. O cigarro estava quase no fim. mais ou menos? — Acho que sim. Perderá tudo. Sentia um gosto horrível na boca e o começo de uma dor de cabeça. Olhei para o relógio. — Olá. Há via neles uma tranqüilidade. Conseguiu a cópia do testamento de Rina? — Consegui. Agradeci ao garoto e desci a rua. Entrei num supermercado na esquina da Terceira Avenida com a rua 82 e telefonei para McAllister. Jonas? — Estava bebendo. Olá. — É uma moça que tem uma garotinha de cinco anos.

Ela nada falou por alguns instantes.Ann. Provei e comecei a me sentir melhor. depois de pagos os impostos e as dívidas. — Não faz mal. mas sou sec retária executiva e ganho setenta dólares por semana. Interrompeu-se. quando ela atingiu ida de suficiente. respirou fundamente e disse com sin ceridade: — Senti muito. — O que você queria? Ela hesitou um pouco antes de responder: — O que tenho agora. olhando à minha volta. Um olhar sinuoso. Monica ficou de repente muito pálida e as lágrimas surgiram em seus olhos. — Procure comu nicar-se com McAllister. apareceu em seus olhos. — Quer uma aspirina? Parece que está com dor de cabeça. — O que falta inventarem? — murmurei. Fiquei um instante em silêncio. Ela encolheu os ombros. — Parece muito cansado. — Você e eu tivemos culpa no que aconteceu — disse ela. há sempre uma ruga especial em sua testa. Ela foi para a cozinha e eu me sentei numa cadeira. — Bom café — disse eu. Depois que tomei os comprimidos. Jonas. Voltou com uma xícara de café preto bem quente e colocou-a na mesa a meu lado.— Você parece cansado. Meu pai é que queria. Tenho de voltar. mas senti de verdade a morte dela. — Não compreendo — disse. É por isso que estou aqui. gentilm ente. Quando eu a conhecera. — Sente-se — disse ela. Não podia aceitar que ela vivesse naquele lugar. E a possibilidade de viver em paz. obrigado. Passou e está acabado. Ela me nomeou t estamenteiro e me fez prometer que a menina receberia tudo. — É uma tolice perder a calma por uma coisa que já aconteceu há tanto tempo. depois olhou para mim. mas muito baratos. — Rina não tinha nenhum parente vivo. Para quem trabalha como eu. Há quatro anos não tenho notícias dele. — Como sabe? — Lembra-se de que já fomos casados? Quando você está com dor de cabeça. — Como está Amos? — perguntei. ela se sentou diante de mim e perguntou: — Está surpreso de me ver morando num lugar assim? — Um pouco. energicamente. — Ela deixou tudo o que tinha para sua filha. certo? — Certo. Ter tanta coisa e desaparecer assim. — Não se incomode. Monica. surpresa. Monica. não há coisa melhor para poupar tempo. — Vou fazer um café. Monica só se servia do que houvesse de melhor. Vou resolver alguns negócios hoje. Depois. Depois. — Duas pedras de açúcar. Os móveis eram limpos e práticos. Talvez não acredite. Esperou muito? — Não muito. Jo. Não é muito comum termos visitas. enquanto bebia o resto do café. talvez a trint a ou quarenta mil dólares. Então me levantei. Muito obrigado. Ele preparará todos os papéis. Só há poucos dias fiquei sabendo que você não fi-cou com um tostão do di nheiro que lhe dei. Olhei-a um momento. para os seus negócios. então. Não adiantava dizer-lhe que o que ela estava vendo era o começo de uma ressaca. — Tem razão. quase amargo. Como descobriu onde eu morava? — Através de Rina. — Duas. Não sei a quanto monta. . — Por que ela fez isso? Não me devia nada! — Ela se considerava culpada pelo que aconteceu conosco. Soube pelos jornais. — Por que não fica um pouco e me deixa preparar um jantar para você? — convidou. Foi terrível. por favor. calmamente. — Café solúvel. saí e arranjei um emprego. Por quê? — Eu não queria dinheiro. — Não. Ela colocou açúcar na xícara e mexeu o café. Não vou tomar muito seu tempo. Então passei para e le. — Não sei. Sei que isso para você não é nada. Até gosto. Fiquei com dinheir o suficiente para vir para o leste e ter a criança. Tudo isso passou e está acabado. — Comecei a andar para a porta.

Jo-Ann sorriu. Sabia exatam ente o que iria fazer daí por diante. ficava o rio East. Está muito bem. A direita. — Suponho então que deva estar agradecida porque você veio gastar seu tempo comigo. — Adeus. Havia chegado a uma decisão. Monica? Ela hesitou um momento. Jonas. A menina entrou na sala com uma bonequinha na mão e sorriu para mim. Apertei sua mão e retribuí o sorriso. — É verdade. Jonas. Cord Plast ics. Jo-Ann estendeu sua mão para mim. ela se virou e chamou a criança: — Jo-Ann. Jonas — disse McAllister. — Mas o que vai fazer com a companhia? — perguntou Woolf. — Não quero saber de Jean Harlow — disse eu. Os seus negócios. Tive de andar seis quarteirões até encontrar um táxi. Jo-Ann. — Pouco me importo com a despesa! Não vou fazer o filme! Houve silêncio na sala e tornei a olhar pela janela. Sorri também para ela. Cord Aircraft. Jonas! — exclamou Dan — Você não pode jogar o script fora. Monica — disse eu. Jonas — disse ela. — Adeus. Um lu gar danado para se morar. Agora você é o chefe da produção. quase havia esquecido.. À esquerda. Inter-Continental Airlines. Não trabalhe demais. — É uma excelente menina. — Voltarei. — Bem. E não demore. De repente. — Estarei bem. Eu esta va trabalhando demais. Olhei por cima da mesa para ele. as luzes da Broadwa y subiam para o céu. indo até a porta. — Temos de tomar uma decisão. se pudesse compreender. Fui até a janela e contemplei Nova Iorque. administração. Que-ens. telefone. com raiva. Ela fechou a porta e continuei a descer pela calçada. Sem que ele tivesse tempo de dizer coisa alguma. Acabei de tomar o uísque pensando que numa coisa Monica estava certa. — O filme era para Rina fazer. Forest Hi lls. — E A pecadora? — Dan perguntou. — Esta é a minha boneca. Tinha muita gente nas minhas costas e negócios demais. Segurei sua mão. Só o que eu quisesse. — Adeus. — Muito obrigada. Depois riu. Tome conta do resto: vendas.. Olhei para Dan Pierce. Jo-Ann. Adeus. Do outro lado do rio. Já contatei a Metro para no s emprestar Jean Harlow. então peguei a garrafa de uísque para encher meu co po de novo. salas de projeção. também lhe agradeceria. — Você vive dizendo que é capaz de fazer filmes melhores do que qualquer pessoa na indús tria. e tenho certeza de que Jo-Ann. E até uma companhia de cinema que não me interessava. . — Estendeu a mão para mim esboçando um sorriso. — Por Deus. — Se precisar de alguma coisa. terá de pagar meio milhão de dólares a De Mille. — Sim. — Diga adeus. Voltei a olhar pela janela. venha se despedir desse moço simpático. Antes que eu pudesse responder. — Muito bonita a sua boneca. Cord Explosives. De qualquer maneira . Pois vai preocupar-se de ver dade. — Nada. voltei-me para Woolf: — Você está preocupado com o que vai acontecer à companhia. Ri também e disse: — Vou procurar seguir seu conselho. — O que vai fazer? Fui até a mesa e tornei a encher meu copo. Eles que aprendessem a f azer jus ao que ganhavam e a me mostrar para que realmente prestavam.. e logo saiu da sala.— Oh. Ficou me olhando enquanto eu descia pela calçada. Forest Hills.. moço — e acrescentou seriamente: — Venha ver a gente de novo. me chamou: — Jonas! Virei-me.

caindo q uase até os quadris. cabelo comprido e negro. Dan. De repente. — Mas ainda não resolveu sobre os diretores. — Tire o vestido e tome um drinque. Mais alguma pergunta? Todos se entreolharam e Mac tomou a palavra: — Na sua ausência. — Sei. A moeda var ia. não poderemos manter o nível de produ-ção atual. — Terão um milhão de dólares. sr. Virei-me p ara a garota. indignada e fazendo menção e ir embora.— Muito bem. fazendo barulho. Ela se virou para mim. . — Olá. — Olhos grandes — interrompeu-me. Boa noite. E Mac a-güentaria tudo em troca da segurança que eu l he dava. enquanto enchia meu copo. — José. — Pronto. aproximando-me dela. Que escolas haveria ali que uma menina como Jo-Ann pudess e freqüentar? Engoli o resto de meu drinque. rindo levemente. As pessoas pagariam qualquer preço por aquilo que de fato queriam. para poder criar a filha. David fez um estudo. sorriso nos lábios. todas têm o seu preço. eu havia aprendido uma coisa muito importante. sorrindo e sem o tom com que costumava falar na boate. prestígio. Mac. Olhos escuros e brilhantes. Aquela que tem. — Mas. não vou mais servir de ama-de-leite para todo mundo. Monica se sujei tara a morar em Queens. os dedos já ocupados com o zíper às costas do vestido. os braços cruzados sobre o peito. solto. eu mesmo os procurarei. não — disse ela. Dava quase para ver o u mbigo. Jonas — protestou Dan —. — Estou cansado de olhar para Queens — respondi. Seus olhos estavam fixos em mim. Não havia tantas luzes em Queens quanto em Manhattan. Naquela noite. cavalheiros. — Fo i muito gentil em mandar me cha-mar. David. E escondeu a cidade. como acha que vou fazer os filmes que tenho em mente s em dinheiro? — Se não puder. — Isso se aplica a todos vocês. A companhia precisa de um crédito rotativo de três milhões de dólares para atravessar este ano. Woolf era capaz de tudo para provar que podia administrar a companhia melhor que o tio. Cord. Cord — disse ela. glória ou sexo. O rosto de Dan branqueou. pode ir saindo. e se arranjem com isso. gerente do Rio Club. fiquei ali sentindo a mesma indefinível an-gústia. Bateram na porta. Quando se trata do assunto que atinge as pessoas. E as poucas que havia não eram tão brilhantes. Olhei pela janela. o v ice-presidente executivo. Ela entrou. Peguei o telefone e liguei para José. Basta saber o que realmente desejam. Apertou os lábios. Dinheiro. exponham tudo po r escrito e mandem para meu escritório. não quero que ninguém me consulte nem me peça coisa alguma. É só. Tudo que estava vestindo era uma c alcinha de renda preta. De hoje em diante. Quando precisar de vocês. fiquei furioso e puxei o cordão que prendia a veneziana . Colocarei outro em seu lugar. Jonas— disse McAllister. Estava com um vestido preto decotado. — Por que fechou a janela? — perguntou ela. Do contrário. o presidente da companhia.. Quem não der conta do serviço. Depois que todos saíram. Olhei para os outros. Virei-me e fiquei olhando pela janela enquanto ela se despia. — Tenho aqui na carteira quinhentos dólares que afirmam que você é. sr. desista.. Gritei: — Entre. — Você será o presidente da diretoria. Cord. arregalados. Dan en-golira meus insultos pa ra poder fazer filmes. sr. De re pente. A cortina desceu rapidamente. mas não replicou. Daqui pra frente. E isso agravou a angústia em vez de a-tenuá-la. senti a necessidade de uma mulher. escondendo apenas os bic os de seus grandes seios. Levei a garrafa para a janela. — Ninguém pode ver a gente aqui. Ela estará aí dentro d e meia hora. Forest Hills. — Quem está pensando que eu sou? Não sou dessas. Qualquer coisa. aquela cantora do conjunto de rumba. Se tiverem alguma coisa para me comunicar.

Depois que saíram do apartamento de Cord. Estava. vitorio so e. embora e le soubesse que era apenas pouco mais de uma da madrugada. duas semanas durante as quais se ins-talara o pânic o e a companhia começara a desintegrar-se ante seus olhos. Tinha de ser Cord. Sentia-se exultante e. falou: — Acho bom procurarmos um lugar sossegado para uma con-versa. H avia traçado uma linha reta entre ele e seu objetivo.A história de DAVID WOOLF LIVRO VI 1 David Woolf entrou no quarto do hotel e se atirou na cama completamente vestido. onde Rina estava morrendo. por cujos desejos s imples ele já tivesse passado na infância. sempre com uma gar rafa semivazia de uísque nas mãos. para completar o quadro. Som ente quando chegaram à portaria do hotel e se mis-turaram com a multidão que entrava para o show da meia-noite no terraço Starlight. Era Cord. McAllister levantou seu copo. David e o r esto do pessoal eram agora estranhos para ele. à espera de uma transfusão que lhe injetasse vida nova nas veias. David não pôde compreender ao certo o que ocorria. E nada ha via que ele pudesse dizer-lhes. ao mesmo tempo. — Ainda deve estar aberto. suas espera nças e seus sonhos secretos. a primeira luz do alvorecer de suas ambições. no porão — disse Pierce. McAllister. Restava apenas a sombra torturada do homem de pou cas semanas antes. . os três desceram o elevador em silêncio. Percebeu a estranha solidão d aquele homem. Ainda ecoavam em seus o uvidos os murmúrios dos em-pregados do escritório de Nova Iorque. Começou a olhar para o teto às escuras. — O Men's Bar. com o gosto amargo de uma frustração incompreensível misturan-do-s e em seu coração. Estava mais magro e a exaustão lhe cavara profundas rugas no ro sto. Por que então aquela confusa mistura de emoções? Nunca lhe acontecera isso. A mudança havia começado por seu íntimo. Era como se fosse uma criatura vinda de outro planeta. Mas só observando-se os olhos dele é que se compreendia que a mudança não era apena s física. Era como se a empresa es tivesse em estado de choque. Seria capaz de tolerá-los enquanto precisas se deles. Então. deprimido. um deles. Estava cansado e. e o garçom serviu os drinques. ao mesmo tempo. nada que pudesse fazer. Aquela noite parecia ter mil anos. mas depois se retiraria de novo para aquele mundo no qual existia sozi nho. Quinze dias se haviam passado. Aquela era a oportunidade. Recordava os olhar es furtivos e preocupados que lhe lançavam quando passava pelo corredor. — Boa sorte — os três brindaram. Não havia outra razão. quase crianças. não estava. Sabia exatamente o que queria. A princípio. Tudo tinha sido muito simples. o véu se levantou e ele de repente entendeu tudo. por um breve mome nto. Cord se havia instalado por lá. apesar disso. Provocaria Cord o mesmo efeito s obre outros? Sentia ainda o choque experimentado quando entrara na suíte de Cord e o vira pela primeira vez desde que saíra da reunião da diretoria e fora de avião para a Califórnia. E então.

— Mas eu tenho de manter minha reputação. rapidamente. — Vocês não têm garantia. — Tem razão — McAllister concordou. — Quem disse que temos de fazer filmes de milhões de dólares? — perguntou David. E ninguém se importa com a espécie do sucesso desde que ele se traduza em dinheiro. o q ue você estará fazendo? — Estarei tomando providências para que você possa realizar seu programa de produção — respo . — Quem falou em desistir? David relaxou e se acomodou na cadeira. a emissão de ações preferenciais para atender a certas obrigações de monta da companhia e de debênture s gravando de hipoteca todos os bens imóveis da companhia. David e Dan Pierce as-sinariam contra tos de sete anos com salários que começariam em sessenta e cinco mil dólares por ano e aumentariam treze mil dólares por ano até o término do contrato. depois encarou McAllister. perderá toda a reputação que tem. uma gratificação à base de dois e meio por cento. — Com um milhão de dólares. Mas Cord havia percebido rapidamente todo o mecanismo do negócio. — É isso. A administração.Mac olhou para um. Encolheu os ombros. — Mas. depois para o outro. não estaremos nem no meio do primeiro filme quando descobrirmos que não temos mais dinheiro para pagar a folha semanal. O rosto do advogado pe rmanecia impassível. que foi aprovado por Jonas antes que o negócio tivesse sido realmente consumado . cavalheiros. Posso. E já estaremos recebendo o retorno do primeiro quando o quinto entrar em produção. — Não contem comigo — disse secamente Dan. entretanto. Além disso. Mas acontece que sou advogado e não entendo qu ase nada de filmes. — A única coisa que se respeita na indústria do cinema é o sucesso. explicar o plano de reorganização da companhi a. Em seguida. de agora em diante seguramente estamos por nossa conta. Toda a indústria sabe que você manobrou Cord para fazê-lo comprar a companhia a fim de se tornar produtor. e receberiam. caso houvesse lucr os. e ele controla-ria o dinheiro. mas ele também não tem nenhuma tia de que as ações que possui va-lham alguma coisa se vocês não fizerem a companhia and ar. — É muito fácil falar — resmungou Pierce. Se desistir. Antes. de poder. Já compreendia por que o tio Bernie tivera tanta relutância em afastar-se da co mpanhia. — Mas que garantia temos de que Jonas nos manterá no negócio depois que o milhão de dólares tiver acabado? Absolutamente nenhuma. McAllister falou das compensações. que poderia ser paga em dinheiro ou em ações. Não é possível fazer filmes de milhões de dól res sem dinheiro. Alguma dúvida? — perguntou McAllister. — Isso é com elas — exclamou Dan. seriam tot almente reembolsados das despesas que fizessem. No meu ponto de vista. Na realidade. inclusive os cinemas e o estúdio. — Parece bom — disse Pierce. — Não cheguei onde cheguei no cinema para fazer filmes baratos. as vendas e os cinemas estavam sob seu controle e era daí que entrava o dinhei ro. Teria gostado de ter a palavra "presidente" na porta de seu escritório. Uma sensação nova. Pierce olhou-o por um momento. Ele havia aprovado a retirada das velhas ações e sua substituição por outras. tudo ficou bem claro. — A Columbia. com aspereza na vo z. sentira-se decepcionado por não ter sido escolhido para encarregado do estúdio. calmame nte. a Warner e a RKO não são tão orgulhosas —replicou Da-vid. — Não me venha com asneiras! — David explodiu. Gostaria de ser mais direto na minha contribuição. De repente. Isso é para a Republic ou a Monogram. Foi só então que David teve uma idéia de como a visão comercial de Jonas chegava longe. outro fará no seu lugar. o estúdio não passava de uma usina que fabricava os produtos da companhia. o sucesso depende de vocês dois. Mas ele ficará pr otegido pelas ações e pelas debêntures. — Ouviu o que Cord disse. O dinheiro ditava a política do estúdio. em boa bilheteria. podemos fazer dez filmes. — Mas. enquanto eu estiver quebrando a cabeça. Se você não fizer. se o raciocínio de David está correto — continuou Dan —. Isso em troca da entrega por ele de um milhão de dólares de capital de giro . Estava começando a compreender o que Jonas havia feito. Não sei o que deu na cabeça de Jonas. surgiu dentro d ele. antes de falar: — Cavalheiros.

ndeu David. — De que modo? — perguntou McAllister, com visível interesse. — Vou despedir amanhã quarenta por cento do pessoal em todos os departamentos da com panhia. — Não acha que é drástico demais? — disse McAllister. — Além disso, acha que poderá trabalhar ssas condições? David olhou para o advogado. Era mais um desafio. — Com toda certeza — disse, sem levantar a voz. — Não é um modo de fazermos amigos — observou Dan. — Isso é uma coisa que me interessa bem pouco. Não é minha intenção ganhar um concurso de po pularidade. E isso será apenas o começo. Não me importa que alguém fique melindrado. O q ue mais me interessa é que a companhia tem de sobreviver. O advogado ficou olhando para ele. David julgou perceber nele o esboço de um sorri so. McAllister voltou-se para Dan: — O que acha? — Acho que nos arrumaremos — disse Dan, sorrindo. — Por que acha que Jonas fez questão d e ter David? McAllister abriu sua pasta e disse a David: — Aqui está seu contrato. Jonas quer que você o assine esta noite. — E Dan? McAllister sorriu. — Dan assinou no dia da reunião da diretoria. David sentiu ódio. Tudo havia sido simulado. Eles o tinham colocado numa situação difíci l só para ver como se sairia. Mas controlou sua respiração. Que diferença fazia? Pegou a caneta que o advogado lhe entregava. Esse era apenas o começo. Eles ainda estavam por fora e levariam muito tempo para conhecer a companhia como ele. E aí isso não teria mais importância. Desde que assinasse o contrato, tudo estaria em suas mãos. A porta que ligava o seu quarto ao do tio se abriu e a luz se acendeu. — Já chegou, David? — Já, tio Bernie — respondeu, sentando-se na cama. — Então? — perguntou Norman. — Viu o homem? — Vi, sim — disse David, acendendo um cigarro. — Está terrivelmente abatido. Parece que sentiu muito a morte de Rina. O velho deu uma risada. — Não consigo ter pena depois do que ele me fez — disse Norman, com amargura, ao mesmo tempo que tirava um charuto do bolso e o levava à boca sem acendê-lo. — Ele lhe ofere ceu um emprego, não foi? — Sim. — Que emprego? — Vice-presidente executivo. O tio levantou as sobrancelhas. — Sério? — disse Norman, interessado. — Quem é o presidente? — Dan Pierce. Ele vai fazer os filmes. O resto é comigo. Administração, vendas e cinemas . — Estou orgulhoso de você — disse Norman, abraçando David, todo sorridente. — Tinha certez a de que um dia você seria alguma coisa na vida. David olhou para o tio com surpresa. Não era aquela a reação que es-perava. Uma acusação d e traição estaria mais de acordo com o tempe-ramento do velho. — Está satisfeito, tio Bernie? — Claro que estou. Que mais poderia eu esperar do filho de minha própria irmã? — Pois eu pensei... — Pensou? — disse o velho, ainda sorrindo. — Que diferença faz o que você pensou? O que pa ssou, passou. Agora realmente vamos poder trabalhar juntos. Eu lhe mostrarei mod os de ganhar dinheiro com que você nunca sonhou. — Ganhar dinheiro? — Claro — Bernie replicou, baixando a voz a um tom confidencial. — Uma cabeça de goyim é u ma cabeça de goyim. Com você à frente de tudo, quem vai saber o que está acontecendo? Am

anhã farei saber a todos os fornecedores que o velho trato continua de pé. Só aí você pega vinte e cinco por cento da comissão. — Vinte e cinco por cento? — O que há? — perguntou Bernie, já com um tom de esperteza. — Vinte e cinco por cento não ch egam para você? David não respondeu. — Bem, você não poderá chamar seu tio Bernie de miserável. Vá lá! Cinqüenta por cento. David apagou o cigarro no cinzeiro. Levantou-se e foi em silêncio até a janela. — Em que está pensando? — disse o tio atrás dele. — Não acha justo cinqüenta por cento? Você, inal de contas, me deve alguma coisa. Se não fosse eu, nunca ocuparia esse lugar. David apagou o cigarro no cinzeiro. Pôs-se de pé e caminhou silenciosamente para a j anela. Olhou para o parque, do outro lado da rua. Voltou-se e disse com raiva pa ra o velho: — Devo-lhe alguma coisa? Por todos esses anos em que viveu me ex-plorando por mise ráveis trezentos e cinqüenta dólares semanais? Sempre que lhe pedia algum dinheiro a m ais, começava a lamentar-se dos prejuízos que a companhia estava tendo. E, todo esse tempo, metia calmamente no bolso um milhão de dólares todo ano. — Nessa época foi diferente. Você não me compreende. David riu. — Compreendo perfeitamente, tio Bernie. Compreendo que dispõe de quinze milhões de dólar es limpos e vivos na mão. Se vivesse duzentos anos, não poderia gastar tudo o que te m. E ainda quer mais. — E que mal há nisso? — perguntou Bernie. — Trabalhei para isso. É meu direito. Quer que d esista de tudo só porque um patife me expulsou para fora de minha própria companhia? — Sim. — Você fica do lado daquele... daquele nazista, contra sua própria carne e sangue? — gui nchou o velho, com o rosto vermelho de raiva. David o encarou. — Não sou obrigado a escolher um lado, tio Bernie. O senhor mesmo reconhece que a co mpanhia não é mais sua. — Mas você está dirigindo a companhia. — Sim, quem está dirigindo a companhia sou eu, e não você. — Quer dizer que vai ficar com tudo para você? — disse o velho em tom acusador. David deu as costas ao tio, sem falar. Houve silêncio durante um ins-tante. Por fi m, o tio disse amargamente: — Você é ainda pior que ele. Ao menos, ele não estava roubando de sua própria carne e sang ue. — Deixe-me em paz, tio Bernie — disse David, sem virar-se para o velho. — Estou cansad o e quero ver se durmo um pouco. Ouviu os passos do velho atravessando o quarto. Depois, a porta ser batida viole ntamente atrás dele. Encostou a cabeça num lado da janela. Era por isso que o velho não havia voltado para a Califórnia logo depois da reunião dos acionistas. Sentiu um nó na garganta e, sem saber por que, teve vontade de chorar. Ouviu um fraco som de sirene soar na rua. O barulho aumentou e uma ambulância viro u para oeste vindo da rua 59, e entrou na Quinta Avenida. Afastou-se da janela, com o barulho ecoando em seus ouvidos. Parecia ter ouvido àquilo a vida toda. Quando andava ao lado do pai, que era negociante de trastes velhos, sentado no b anco duro da carreta, tinha a impressão de que nunca ouviria outra coisa. O som de uma sirene.

2 Os sinos dependurados na carroça do pai de David Woolf tilintavam preguiçosamente en quanto a égua cansada avançava bem devagar por entre os carrinhos de mão que se alinha vam de ambos os lados da Ri-vington Street. O calor sufocante do verão açoitava sua cabeça. Deixou as rédeas descansarem frouxas nos dedos. Não era preciso fazer força para guiar a égua. Ela mesma procurava seu caminho na rua atravancada, avançando automat

icamente cada vez que via um espaço livre à frente. — Cooompram-se... roupas velhas! O cantarolar monótono e estridente de seu pai se fazia ouvir acima do barulho da f eira livre, subindo até as janelas dos prédios, de onde olhares apáticos e vagos espre itavam o mundo faminto. — Coompram-se... roupas velhas! Do carro via o pai, caminhando ao lado pela calçada repleta, com as longas barbas agitadas pelo vento, enquanto olhava para as janelas, à procura de fregueses. O ve lho se revestia de inegável dignidade. Usava um chapéu preto de pele de castor; um s obretudo preto comprido que lhe batia quase nos tornozelos; uma camisa bem engom ada mas já com o colarinho de pontas viradas um pouco enrugado; e uma gravata com o grande laço logo abaixo do proeminente pomo-de-adão. O rosto era pálido e fresco, se m o menor sinal de transpiração na testa, enquanto David estava ensopado de suor. Até parecia que as roupas pretas o isolavam do calor. — Ei, senhor! O pai se afastou até a sarjeta para ver melhor. Mas foi David quem viu primeiro. U ma velha fazia sinais da janela de um quinto andar. — É a sra. Saperstein, papai. — Acha que estou cego? — perguntou o pai, resmungando. — Olá, sra. Saperstein! — É o senhor, sr. Woolf? — Sim — gritou o pai. — O que tem para nós? — Suba. Vou mostrar. — Roupa de inverno não quero. Ninguém compra! — Quem falou em roupa de inverno? Suba para ver. — Amarre o cavalo ali — disse o pai, apontando um espaço entre dois carrinhos de mão. — De pois suba para ajudar a trazer as mercadorias. Enquanto o pai desaparecia na entrada do prédio, David levou a égua para perto do pa sseio, amarrou-a num hidrante e passou-lhe um embornal, com comida, pela cabeça Tateou o caminho pelo corredor e pela escada escuros e mal iluminados, e parou d iante de uma porta. Bateu. A porta se abriu imediatamente. Era a sra. Saperstein , com seu cabelo grisalho preso em trancas no alto da cabeça. — Entre, entre. David entrou na cozinha e viu o pai sentado à mesa. À sua frente, havia um prato che io de bolinhos. — Um bolinho, David? — perguntou a velha, indo até o fogão. — Não, obrigado, sra. Saperstein — disse David, com polidez. Ela tirou uma latinha vermelha da prateleira acima do fogão e mediu cuidadosamente duas colheres de chá. Despejou-as na água fervente. E as folhas foram se abrindo na água. O chá já estava quase tão preto quanto um café, quando a velha o coou e serviu em u m copo a seu pai. O pai pegou um torrão de açúcar no vaso, colocou-o entre os dentes e bebeu o chá. Após o p rimeiro gole escaldante, abriu a boca. — Aah! — Está bom? — a sra. Saperstein perguntou, sorrindo. — É chá chinês autêntico, como o que tom s na velha terra. Não é como o que se encontra por aqui. O pai sorriu com ar de entendido e ergueu o copo de novo. Quando o pousou na mes a, estava vazio e as formalidades da cortesia encerradas. Era hora de tratar de negócios. — Então, sra. Saperstein? Mas a sra. Saperstein ainda não estava disposta a tratar de negócios; olhou para Dav id e disse: — É um menino tão simpático o seu David. Lembra meu Howard quando tinha a mesma idade. Tirou um bolinho do prato e ofereceu ao garoto. — Coma, meu filho. Fui eu mesma que fiz. David comeu o bolo. Estava duro e seco e se esfarelou na boca. — Coma outro, David. Parece magro e precisa comer bem. Ele fez um gesto negativo com a cabeça. — Sra. Saperstein — disse então o pai —, desculpe, mas sou um homem ocupado e já está tarde. Tem alguma coisa para mim?

— Venha ver. Eles a seguiram pelo corredor estreito ladeado de quartos do aparta-mento. Num d os cômodos, sobre a cama, havia vários ternos de homem, alguns vestidos, camisas, um sobretudo, além de sacos de papel com vários pares de calçados. O pai de David aproximou-se e examinou algumas das roupas. — Roupa de inverno! — disse ele, com desprezo. — E foi para isso que subi quatro lance s de escada? — Tudo está em estado de novo, sr. Woolf. Meu filho Howard e a esposa só usam roupas p or uma temporada. Iam dar para o Exército da Salvação, mas pedi que me dessem. O pai de David não respondeu. Estava selecionando as roupas rapidamente. — Meu filho Howard mora no Bronx — continuou ela, com orgulho. — Numa casa nova em Gra nd Concourse. É médico. — Dou dois dólares por tudo — declarou o pai. — Sr. Woolf! Isso vale no mínimo vinte dólares! Ele deu de ombros. — Só estou comprando isso para dar à HIAS. Melhor que o Exército da Salvação. David assistia à barganha dos dois com pouco interesse. HIAS era a sigla com que s e designava a Sociedade de Auxílio ao Imigrante Hebreu. As afirmações do pai não o impre ssionavam absolutamente. Sabia que as roupas nunca iriam para lá. Depois de lavada s com cuidado e escovadas por sua mãe, acabariam nas vitrines das lojas de roupas de segunda mão no baixo Bowery e na zona leste da Broadway. — Dez dólares — disse a sra. Saperstein. A dissimulação acabara; ela estava barganhando co m determinação. — Por menos, não dá para fazer. Não pagaria nem a gasolina que meu filho How ard gastou, para vir do Bronx até aqui. — Cinco dólares. E não se fala mais nisso. — Seis, sr. Woolf. Ao menos para pagar a gasolina. — Os metrôs estão funcionando — disse o pai de David. — Devo ter pre-juízo só porque seu filh é importante e gosta de andar de automóvel? — Cinco e meio — disse a velha. O pai de David olhou para ela. Depois meteu a mão no bolso do sobretudo e pegou um a bolsa amarrada ao cinto por um cordão de sapato comprido. — Está bem — disse suspirando. — Cinco e meio. Mas o céu é testemunha de que estou perdendo dinheiro. Fez um sinal para David e começou a contar o dinheiro, colocando-o nota por nota n as mãos da velha. David enrolou toda a roupa no sobretudo, amarrando as mangas por cima do embrulho. Depois colocou o amarrado nos ombros e começou a descer a escad a. Jogou-o dentro da carroça e foi para a frente da égua. Tirou o embornal da cabeça d o animal e, depois de desamarrar as rédeas do hidrante, subiu na boléia. — Ei, David! Olhou para o passeio. Um rapaz alto estava olhando para ele e sorrin-do. — Procurei você o dia inteiro, David. — Estivemos em Brooklyn — disse David. — Meu pai estará aqui neste minuto. — Então vou falar depressa. Shocky lhe dará dez dólares se você con-seguir o carro e a égua esta noite. Temos de levar uma carga. — Mas hoje é sexta-feira. — Por isso mesmo. As ruas lá estarão vazias. Não haverá ninguém para querer saber o que esta mos fazendo, à noite. E os guardas não nos inco-modarão quando virem a placa da carroça. — Vou ver se posso — disse David. — A que horas, Needlenose? — Às nove, nos fundos da garagem de Shocky. Lá vem seu velho. Até logo. — Com quem você estava falando? — perguntou o pai. — Com um dos meus amigos, papai. — Isidore Schwartz? — Sim, o Needlenose. — Afaste-se dele, David — disse o pai, severamente. — De gente assim não precisamos. É um vagabundo, como todos os que vivem na garagem de Shocky. Roubam tudo que encontr am. David fez que sim com a cabeça. — Leve a égua para a cocheira. Vou à sinagoga. Diga a mamãe para preparar o jantar às sete horas.

Esther Woolf estava em frente ao candelabro ritual, com a cabeça co-berta pelo xal e de orações. As velas arderam com suas chamas amarelas depois que ela as acendeu co m o fósforo comprido de madeira. Apagou o fósforo assoprando e colocou-o no pratinho em cima da mesinha do bufê. Esperou que a chama das velas se firmasse e começou a r ezar. Rezou primeiro pelo filho, o seu querido Duvidele, que chegara bem tarde, quando ela e o marido já haviam quase perdido as esperanças de ter aquela bênção. Rezou depois p ara que Jeová desse ao marido maior vontade de vencer, ao mesmo tempo que pedia pe rdão ao Senhor, porque era a obra do Senhor na sinagoga que fazia o marido descuid ar-se de seus interesses. Depois, como sempre, reconheceu-se culpada do pecado d e haver desviado Chaim da obra que ele escolhera. Quando se conheceram na velha terra, Chaim era um estudante talmudista. Lembrava -se dele ainda como fora nessa época, jovem, magro e pálido, com os primeiros anéis ma cios da barba preta brilhando com leves reflexos avermelhados. Os olhos ficavam negros e luminosos quando ele se sentava à mesa na casa do pai dela, molhando no v inho um pedaço de bolo e mostrando-se bem à altura do velho rabino e dos anciães. Mas, quando se casaram, Chaim foi trabalhar com o pai dela. Depois os pogroms co meçaram e os rostos dos judeus se tornaram magros e amedrontados. Só saíam de casa na escuridão da noite, às pressas, como se fossem pequenos animais das florestas. Ou fi cavam amedrontados nos porões das casas, com portas e janelas fechadas e trancadas , como galinhas procurando esconder-se no galinheiro quando sentem a aproximação do shochet. Até que numa noite ela não suportou mais. Levantou-se gritando do catre, ao lado do marido. Conservava fresca na memória a carta que re-cebera de seu irmão, Bernard, qu e estava na América. — Temos de viver como coelhos dentro de uma armadilha, esperando os cossacos chega rem? — gritou chorando. — É neste mundo sombrio que meu marido espera que eu lhe dê um f ilho? Nem Jeová poderia lançar a sua semente num porão. — Cale-se! — disse Chaim, em voz baixa e dura. — Não se deve tomar em vão o nome do Senhor . Reze para que Sua atenção não se desvie de nós! Ela riu amargamente. — Ele já nos abandonou! Ele também está fugindo dos cossacos! — Cale-se, mulher! — disse Chaim, indignado. Ela olhou para os outros catres do úmido porão. Mal podia ver na pe-numbra os rostos pálidos e amedrontados dos pais. Logo em seguida, houve um tropel de cascos de ca valos em torno da casa e começaram a ressoar na porta trancada as pancadas das cor onhas dos fuzis. O pai de Esther se levantou rápido. — Depressa, kinder — disse ele, sussurrando. — Saiam pela porta dos fundos do porão. Vão p elos campos que não serão vistos. Chaim pegou Esther pela mão e levou-a para a porta dos fundos. Parou de repente, v endo que os sogros não os acompanhavam. — Venham! — chamou. — Depressa, que não resta muito tempo! O pai de Esther continuou onde estava, com o braço passado sobre os ombros da mulh er. — Nós não vamos — disse ele. — É melhor que encontrem alguém, senão começarão a fazer buscas ampos. O barulho no alto estava mais forte, pois a porta já começava a ceder às pancadas dos fuzis. Chaim voltou-se e disse ao sogro, ao mesmo tempo que apanhava um pau no c hão: — Então ficaremos todos aqui. Eles verão que um judeu não morre com muita facilidade. — Vão embora — disse calmamente o sogro. — Nós lhe demos nossa filha em casamento. É da segu rança dela que deve cuidar e não da nossa. Sua coragem não passa de insensatez. Como é q ue os judeus têm sobrevivido há milhares de anos senão fugindo? — Mas... — protestou Chaim. — Vão! — disse o velho. — Vão depressa! Estamos velhos. Já vivemos muito. Vocês são moços e s ilhos devem ter a oportunidade de nascer. Poucos meses depois chegaram aos Estados Unidos. Mas vinte anos se passaram até o Senhor Deus Jeová se compadecer e lhes permitir ter um filho. Por último, rezou por seu irmão Bernard, que tinha negócios num lugar muito afastado,

chamado Califórnia, onde o verão durava o ano inteiro. Rezava para que ele tivesse b oa saúde e vivesse em segurança, sem ser muito perseguido pelos índios, como ela via d e vez em quando no cinema com os ingressos gratuitos que ele lhe mandava. Suas orações terminaram, ela voltou para a cozinha. A sopa estava fervendo, deixando no ar o cheiro gostoso e forte da galinha. Pegou uma colher e foi até o fogão. Com uma escumadeira, retirou os glóbulos de gordura que estavam na superfície e guardouos num jarro. Depois, quando a gordura estivesse fria e coagulada, poderia ser p assada no pão ou misturada com bolinhos de carne para dar gosto. De repente, ouviu a porta da frente se abrir. Pelo barulho dos passos, ficou sabendo quem era. — É você, Duvidele? — Sim, mamãe. Acabou o que estava fazendo, pousou a colher no fogão e virou-se. Como sempre, sen tiu o coração bater de orgulho ao ver o filho, tão alto e forte, ali à sua frente. — Papai foi à sinagoga, mamãe. Estará em casa às sete horas. Ela sorriu para ele. — Muito bem. Vá lavar as mãos. O jantar está pronto.

3 Quando David fez com que a égua entrasse no beco que levava aos fundos dá garagem de Shocky, Needlenose apareceu imediatamente. — É você, David? — Quem poderia ser? — Puxa! Estávamos em dúvida se você viria ou não. Já são quase dez horas. — Só pude sair depois que meu velho foi dormir — disse David, parando a carroça ao lado da garagem. Um instante depois, Shocky apareceu, com a calva brilhando. Era um homem de esta tura média, robusto e com braços tão compridos que lhe chegavam quase aos joelhos. — Você demorou muito a chegar — disse ele. — Mas estou aqui, não estou? Shocky não respondeu. Virou-se para Needlenose. — Comece a trazer as latas para o carro. Ele pode ajudá-lo. David desceu do carro e entrou com Shocky na garagem. A comprida fila de latas s e estendia no chão à luz da lâmpada elétrica que pendia do teto. David deu um assobio de admiração. — Deve haver quarenta latas aqui! — Quer dizer que sabe contar, hein? — murmurou Shocky. — Devem pesar uns cento e oitenta quilos. Não creio que Bessie agüente puxar tudo isso . — Ora, você levou a mesma coisa da outra vez. — Isso é que não. Foram apenas trinta latas. E mesmo assim houve o-casiões em que pensei que Bessie ia estourar. Já imaginou o que aconte-ceria? Eu ficaria no meio da rua encalhado com uma égua morta e não sei quantos litros de bebida. Se meu velho soube sse de uma coisa dessas eu estaria perdido. — Só esta vez — disse Shocky. — Eu prometi a Gennuario. — Por que não leva tudo num de seus caminhões? — Não posso. É justamente isso que os detetives federais estão procurando. Mas não suspeit arão de um carro de comprador de roupas velhas. — O máximo que posso transportar são vinte e cinco latas. — Escute, vai ganhar vinte dólares desta vez, porque estou numa en-rascada. David ficou em silêncio. Vinte dólares era mais do que seu pai fazia numa semana tod a, saindo com a carroça todos os dias, chuva ou sol, inverno ou verão, todos os dias , menos aos sábados, quando ia à sinagoga. — Vinte e cinco dólares — disse Shocky. — Está bem. Vou arriscar. — Então vamos começar a carregar — disse Shocky, pegando logo duas latas.

David ia sozinho sentado no banco da carroça, enquanto Bes¬sie se ar-rastava lentame nte pela rua, puxando a sua carga. Freou o cavalo numa esquina para deixar um ca minhão passar. Um guarda se aproximou. — Olá, David. O que está fazendo com a carroça a estas horas da noite? David olhou para o espaço de carga do carro. As latas de bebida esta-vam escondida s debaixo da lona, cobertas por grande quantidade de trapos. — Soube que estão pagando bem por trapos na fábrica de papel — res-pondeu. — E resolvi lim par a carroça. — Onde está seu pai? — Não sabe que hoje é sexta-feira? — Ah! — disse o guarda. — Seu pai sabe? David fez que não com a cabeça e o guarda riu. — Vocês, garotos, são todos iguais. — É melhor eu ir andando antes que o velho sinta minha falta. Deu um estalo com a língua e Bessie começou a andar. Mas o guarda ainda o chamou: — Diga a seu pai, David, para ver se encontra alguma roupa que sirva para um garot o de nove anos. A roupa do ano passado já não cabe mais no meu Michael. — Pode deixar, sr. Doyle, falarei com ele. Shocky e Needlenose já estavam esperando, quando David encostou o carro na platafo rma de descarga. Um pouco atrás, Gennuario observava os três começando a descarregar. Os detetives surgiram de repente da escuridão, de armas em punho. — Estão todos presos! David ficou paralisado com uma lata nas mãos. Teve por um instante a idéia de largar a lata no chão e sair correndo, mas não podia abandonar Bessie e a carroça ali. Que e xplicações iria dar ao pai? — Largue essa lata, rapaz — disse um dos detetives. David largou a lata e virou-se para ele. — Muito bem. Vá ficar ali, junto à parede. — Você não devia ter tentado isso, Joe — disse um detetive a Gennuario. Mas Gennuario sorriu, como se não se perturbasse absoluta-mente com o que estava a contecendo. — Faça o favor de entrar, tenente — disse calmamente. — Tenho certeza de que tudo se res olverá. O tenente entrou no depósito com Gennuario, e David teve a impressão de que nunca sa iriam de lá. Mas, dez minutos depois, os dois saíram sorrindo. — Tudo certo — disse o tenente. — Parece que íamos cometendo um grande erro. O sr. Gennu ario explicou tudo corretamente. Vamos. Os detetives desapareceram com a mesma rapidez com que haviam surgido. David fic ou olhando, sem compreender. Needlenose estava sentado ao lado de David na carroça quando chega-ram ao estábulo e deixaram lá a carroça. — Garanto a você que não há mais perigo. Tudo já está arranjado — disse afinal, assim que os ois saíram para a rua. Arranjado ou não, David não queria mais saber daquilo. Nem mesmo os vinte e cinco dóla res que levava no bolso pagavam o susto que levara. — Para mim, chega. Needlenose deu uma risada. — Por quê? Está com medo? — Claro que estou. Deve haver uma maneira mais fácil de ganhar a vida. — Se descobrir uma, não se esqueça de me avisar. — Ele riu. — Shocky tem duas chinesas lá no apartamento dele. Diz que podemos dar uma trepada com elas, se quisermos. David não respondeu. — Uma delas é Sing Lu — continuou Needlenose. — Aquela bonitinha, que raspa todos os cab elos do corpo. David hesitou, sentindo uma súbita excitação percorrer o corpo. Era uma hora da madrugada no relógio da vitrine da mercearia do Goldfard, quando e le dobrou a esquina de sua rua. Havia um carro da po-lícia parado na frente da por ta e uma pequena multidão em volta do car-ro, olhando para a porta.

— Deixe-me ver — disse Bernie. — Espere. Esta va começando a lembrar. Sua mãe estava na porta. você precisou de quinhentos dólares para seus negócios. antes de ela mesma responder: — Foi com seu miserável cunhado. raivoso. Súbita e freneticamente David começou a abrir caminho pelo meio da multidão. gostaria de um lugar de vice-presidente na minha companhia. o comprador de roupas ve-lhas. O olhar de David seguiu o de sua mãe. inclusive a data: 7 de setembro de 1912. na mesma caixa em que Chaim guardou na noite em que lhe deu o din heiro. Fazia catorze anos. — Chaim! — gritou a mãe. encostado à parede de uma maneira esquisita . Já ia subin do a escada para o apartamento do terceiro andar. Sempre dá mau resultado nos negócios. como se não o reconhecesse. com os olhos e a boca abertos. — Vou sair. com quem foi que arranjou? Esperou um instante. Havia esquecido p or completo. — Que arranje um emprego e estude à noite. David estava sentado na beira de sua cadeira. Alguma coisa havia dado errado e a polícia estava ali p ara prendê-lo. — Chaim! Chaim! — gritou de novo. — Chamo um médico e aparece a polícia — murmurou. Estava amarelado e desbotado.David sentiu um súbito medo. quando ouviu o grito. debatendo-se nos braços de dois guardas. Bernie — disse ela. Não que estava saindo para morrer! 4 — Então é minha culpa que o pai dele tenha morrido antes que ele ter-minasse os estudo s? — explodiu tio Bernie. falaram que você não tinha compareci do aos funerais porque estava com receio de que alguém fosse pedir dinheiro. Mas algum dia vimos o dinheiro? — Papel? — perguntou Bernie. Ela se virou para o irmão. — Não sei. quem pode tra-balhar melhor por v ocê do que uma pessoa de sua própria carne e sangue? . — Como podia eu vir da Califórnia a Nova Iorque em um dia? Não tenho asas! David nada respondeu e se encaminhou para a porta. Ouvi um guarda dizer que alguém está morrendo lá dentro. David — disse sua mãe. como se estivesse acusando. — Você me dis-se que estava com gases . Depois virou o rosto para o corredor. — Quando. enquanto a baba escorria pela barba grisalha. Seu pai estava sentado na tábua do vaso. Ele lhe deu o dinheiro e você deu para ele um pedaço de papel. Pensou em fugir. seguindo-a com os olhos enquanto ela saía da sala. Tudo o que me disseram a respeito dele é verdade. É só isso qu peço. — É contra a minha política empregar parentes na companhia. Chaim. na sinagoga. — Não é caridade que estou pedindo. — O que falaram de mim? — Sim. quando fui rezar por meu pai. Norman virou-se e olhou desconfiado para o sobrinho. Era um documento pelo qual prometia ao cunhado cinco por c ento das ações da Norman quando ele comprara a velha Diamond Film. A irmã voltou e passou-lhe o papel. — Com certeza. hein? David perdeu a paciência e se levantou. — A meu respeito! — o tio gritou bem alto. No fim dele estavam os banheiros. antes da guerra. Como o tem po havia passado depressa! Olhou para sua irmã. já que faz tanta questão. olhando para a mãe. — Que papel? — Ainda o tenho. — Mas quem vai saber que é seu sobrinho? Além disso. mas perfeitament e legível. Ainda tenho o papel. A porta dos banheiros estava aberta. — David quer um emprego. — Mamãe! O que aconteceu? A mãe o olhou. mamãe. — O que houve? — perguntou a uma pessoa da multidão. Não falava nada. Mas uma compulsão o impeliu para sua casa. Mas um advogado esperto poderia tirar daquilo um bocado de dinheiro . — Chaim! Chaim! David sentiu um aperto no coração.

não vá dizer a ninguém que é meu sobrinho. moreno e simpático no estilo Valentino. Que iria dizer o tio quan do tivesse conhecimento disso? Voltou para junto das escrivaninhas. Era um velho e sujo prédio industrial. Os desenhos mostravam Vilma Banky reclinada num sofá.Bernie ficou olhando para ela. Esther. — Não há pressa. Havia grandes letras vermelhas que diziam: VILMA BANKY E ROD LAROCQUE. de acordo com a moda em vigor na época. o vestido bem acima dos joelhos. Era espantoso como o material diferia um po . e que fora dividido em cômodos. — Tem certeza de que pode dispor de tanto dinheiro. Desde que David trabalhe. Um preservativo de borracha est ava preso por um percevejo na frente da calça de Rod Larocque. mas talvez você tenha razão. as oficinas de uma pequena companhia de discos. — Mas ninguém irá dizer que Bernie Norman não cumpre sua palavra. — Parece que ouvi alguém chamar — disse ele. uma à frente da outra. O tio Bernie lhe recomendara que nada dissesse. Quando chegar ao meu escritório. Parou de repente à frente de um grande cartaz. mandarei para você u m cheque de quinhentos dólares e mais os juros de catorze anos. David nada disse. ha via várias escrivaninhas. no terceiro. Tenho um depósito na rua 43. de tão surpreso que ficou. agradecido. e um homem de cabelo bra nco colocou a cabeça para fora e olhou para David. Rod Larocque. David virou as costas para o elevador pensati-vamente. o sangue é mais forte que a água. As portas do elevador de carga abriram-se ruidosamente. antes de fechar a porta: — Não chegou ninguém ainda. as palavras: COM OS CUMPRIMENTOS DE HENRI FRANCE. Ele o d obrou e pôs no bolso. com o papel na mão. O prédio era ocupado por seis locatários. David andou em sua direção. olhando as prateleiras. foto-grafias. David chegou cedo. tio Bernie. com u m ar de preocupação. tio Bernie — disse David. Mas. Vou concordar. olhando para ela com ar de ardente paixão. de pé. — Olá! — disse David. — O que quer dizer? — O novato. Só aparecem às oito horas. Norman foi para a porta. Marcava sete e meia. O andar térreo era de uma companhia de peças d e automóveis. o s maiores fabricantes de preservativos e preventivos anticoncepcionais baratos d o mundo. — Está bem. perto do rio . Havia um relógio acima de uma das me sas. próximo ao rio Hudson. — Vou levar isso comigo. Alguém no depósito havia feito um acréscimo no cartaz. e scritas com pincel. Saltou do elevador no sexto andar e caminhou por um largo cor redor entre prateleiras de madeira e aço. — Ah! Então é você? David ficou confuso. Vá para lá. Encontrará trabalho. A três por cento. — Obrigado. no quarto. — Há alguém aqui? Sua voz ecoou pelo cavernoso pavimento vazio. olhe lá. no segundo havia uma fábrica de cosméticos. magnanimamente. nós nos arranjaremos. — Mas. juntas duas a duas. a fábrica da Companhia Henri France. Mas todo mundo já sabia. e atrás dela. David sorriu e começou a andar pelo corredor. Havia ali pi lhas bem arrumadas de material — cartazes. curiosidades —. Mal davam vazão ao grande número de empregados que para ali acorriam às oito horas da manhã e de lá saíam às se is da tarde. não posso — disse Norman. cada uma delas referente a um filme. onde funcionara uma fábr ica. vendo-se ao lado. antes de sair. Afinal de contas. tabuletas. Havia dois grandes elevadores de carga nos fu ndos e três pequenos elevadores de passageiros perto da entrada. perto das janelas dos fundos. — Guardarei segredo. O homem do elevador avi-sou. As portas de aço se fecharam e o elevador se moveu com uma terrível barulheira de fe rragens. — Poder. No fim. Depois se levantou. — Vim procurar o gerente para falar de um emprego. Bernie? — per-guntou a irmã. virou-se. O quinto e o sexto andares pertenciam a Norman Pictures. o sobrinho do velho Norman — o homem respondeu. Basta uma palavra sobre isso e es tará despedido. É contra os meus princípios.

Sorria com to-dos os dentes de ouro da boca. Não entendia. David continu ou a preencher a ficha. Tudo qu e você precisa fazer é conferir as guias. O homem olhou a mão estendida. — Ninguém aqui sabe disso além de mim — disse Wagner. O homem falou em iídíche. O dia havia começado. ou via o barulho das portas do elevador de passageiros que se abriam e fechavam. — Você é filho de Chaim Woolf. a porta se abriu e ele percebeu que um homem estava às suas costas. — Trabalha aqui? — perguntou David. Wagner levantou-se e saiu. Nesse momento. sr. uma campainha tocou e um débil rumor de atividade começou a encher o préd io. Afastou-se novamente. acho que foi um grande golpe de seu tio colocar você aqui. como se fizesse uma acusação. Mas não iria falar sobre isso. — Prazer em conhecê-lo. Virou-se e e sperou. Ou pensa que vim de tão longe só para urinar? Cá entre nós. desculpe! — replicou David. e David se virou para vê-lo. o som de passos no corredor. David seguiu p elo corredor até encontrar o banheiro. e com razão. onde começavam a cuidar do trabalho. Vári os homens passavam à sua volta. David começou a preencher a ficha. procurando um cinzeiro. as guias de embarque. David percebeu então que o homem estava nervoso. em voz bem baixa: — Agora. Parou e olhou para David em si-lêncio. Se ntiu que a testa estava ensopada de suor. — Bom — murmurou vagamente. embora aparentemente todo mundo soubesse . Da Sociedade Prushnitzer. Jack Wagner. de repente. a boa vida dessa gente acabou. Mandaram-me vir falar com o gerente sobre um emprego. senhor. Um homem alto e magro. David estendeu a mão. Olhavam furtivamente para ele quando se dirigiam p ara as mesas de empacota-mento. Wagner. que todo mundo havia parado de trabalhar e estava olhando para ele. Wagner a examinou apressadamen te. depois continuou a falar. David ficou observando-o conversar com o homem da primeira mesa. — Claro que trabalho. — As guias? — Sim. — Meu nome é David Woolf. como seu pai. David estendeu-lhe a ficha. Às oito horas. de cabelo vermelho e com ar de preocupação no rosto. Estavam de cost as para ele.uco de filme pata filme. Ouviu o elevador de passageiros parar. não é? — Sou. De repente sentiu vontade de urinar e entro u num dos mictórios. — Golpe? O homem fez um gesto afirmativo com a cabeça. Meu nome é Wagner. — Você é sobrinho de Norman — ele disse. Wagner olhou para ele e o ar de preocupação d o seu rosto se agravou. Não era de admirar que todo mundo soubesse com tanta rapidez. No lugar onde pergunta se tem algum parente que trabalha na compa nhia. mas David tinha certeza de que era sobre ele que falavam. Começou a s e sentir nervoso e acendeu um cigarro. deixe em branco. — Sim. Seu aperto de mão foi fraco e hesitante. — Pode ir fumar no banheiro — Wagner disse. — Eu sou o gerente. ainda mais nervoso que ele próprio. — Não viu os avisos? — Oh. jogando-a sobre sua escrivaninha. — Não pode fumar aqui dentro — disse a David. Quando Wagner voltou. — Sente-se aí. — Pois eu me chamo Ytzchak Margolis. Parecia até que o único trabalho dos artistas era mudar os nomes dos atores e o título dos filmes. Apontou para uma cadeira ao lado da escrivaninha. Tirou da gaveta uma ficha de c andidato a emprego e disse a David: — Preencha isto. apontando para os fundos. Está todo mundo alarmado. Sou capaz de embalar num dia o que e-les fazem numa s . apareceu . Era absurdo o homem ficar nervoso por causa do seu parentesco com t io Bernie. De vez em quando. Não encontrou e percebeu.

— Tenho meu próprio serviço para cuidar — disse. — Muito bem. contendo cento e vinte e cin co pacotes de mil unidades cada um. — Não estou aqui para tirar o e mprego de ninguém. que já estava per-dendo a calma. Os folhetos estavam embalados em quatro engradados. — Pergunte ao chefe da plataforma. Não tenho com que me preocupar. O homem teve uma expressão de decepção. — O sr. Os vadios é que correm perigo de perder o emp rego. O chefe da plataforma virou-se para o homem do elevador. 5 O elevador parou no andar térreo e as portas pesadas se abriram na plataforma de e mbarque. — Quem é o chefe da plataforma? O homem do elevador apontou um homem atarracado. admirado. numa das mesas de empacotamento. A ansiedade abandonou os olhos de Wagner por um momento. — Não? — perguntou Margolis. Foi saindo. O chefe da plataforma estava rindo ironicamente. As feições eram grosseiras e a pele ti nha o tom avermelhado de alcoólatra. Só estou aqui porque preciso mesmo do emprego. com sarcasmo. David se aproximou dele. Há um carregamento de quinhentos e cinqüenta mil folhetos de anúncio lá embai xo na plataforma. seu idiota! — Diabos! Como posso saber? — perguntou David. mas. e havia uma porção de gente trabalhando na carga e descarga dos caminhões. deixou cair todo seu peso. — Wagner. vestindo cami-seta. David jogou fora o cigarro e saiu. Traga tudo cá para cima. O chefe da plataforma olhou para ele. — Mas ninguém tem motivos para se preocupar — disse David. mas seus cinqüenta e nove quilos não foram suficientes para levantar o engradado do chão. Estavam todos com medo de ficar desempreg ados. Mas não tardou a esboçar um sorriso manhoso. — Qual é o material que devo levar para cima? — David perguntou ao ascensorista. Wagner me mandou apanhar os folhetos. quando chegou à porta. Vou espalhar a notícia . — Sabe trabalhar com uma empilhadeira? — Dessas que usam para levantar fardos? — Exatamente. — O que quer? — o homem perguntou. hein? Onde está Sam? — Sam? — Sim. Estava no meio do corredor. — Pode me dar uma ajuda aqui? O homem deu uma risada. — O velho Norman mandou um garoto fazer trabalho de homem. Segurando as alças da extremidade da corda p resa à roldana. — Estão ali encostados à parede. — Será que mandaram o Sam embora para dar o lugar a esse bestinha? — Não. quando encontrou Wagner. compreendo. Vi Sam trabalhando lá em cima. Sam. voltou-se e olhou para David. Vários caminhões estavam estacionados de ré na plataforma. Foi então que David começou a compreender. o escriturário dos recebimentos. com pêlos neg ros espessos cobrindo o peito e os ante-braços. — Você é igualzinho a seu tio.emana. sabe? O velho nunca deixa a mão es-querda saber o que a d ireita está fazendo. Você não quer tirar o emprego de ninguém. David levou a empilhadeira para lá e prendeu o s dois ganchos sob um dos engradados. — Compreendo. — Claro que sei. . — Claro que não. — Apontou. Eu só cuido do elevador. David olhou em volta. O chefe da plataforma se voltou para David.

Sorriu ao ver a cara carrancuda do chefe da plataforma. fumando um cigarro. com um cigarro na mão. vá para o meio da rua. próprio para caminhões. O suor encharcava sua camisa. Foi até a mesa do gerente. Era a nota dos folhetos: quinh entos mil folhetos. Deu meio dólar ao mecânico e voltou empurrando o grande ma-caco hidráulico. sabendo muito bem que ele não teria força para le-vantar o engradado . Sim. depois desceu em silêncio a rampa em direção à rua. — É proibido fumar aqui — avisou o chefe. — Se quiser fumar. o tal Wagner. e isso lhe deu uma idéia. — Já trouxe tudo? — perguntou Wagner. — Muito bem — disse para o ascensorista. Estava preocupado em saber se todos de fato estavam contra ele. — Vou perguntar a Wagner onde quer que deix e isso. Perguntou aos empre-gados: — Onde está Wagner? Os homens se entreolharam confusos. Pôs em ação a alavanca do macaco e o engradado foi suspenso. Até o ger ente. — Espere um pouco — disse ao ascensorista. Atrás dele. se não conseguiu. — Claro que sim. Esse papel é bem caro. enquanto escrevia suas iniciais ao pé da fat ura. Todos estavam con tra ele. Só quero saber onde devo colocá-los. enquanto as portas do el evador se fechavam. David examinou a fatura enquanto apanhava um lápis. — Não conseguiu trazer os folhet os? David olhou-o fixamente. — Já estão aqui em cima. assine a fatura. A camisa branca e limpa que a mãe o fizera vestir agora estava toda molhada e suja. Enxugou a tes ta na manga e foi até a escrivaninha do gerente. o gerente também estava contra ele. Acendeu o cigarro. David. pode dizer — exclamou o gerente. Tirou distr aidamente um cigarro do bolso e tratou de acendê-lo. — O que quer que eu faça agora? — Foram quinhentos pacotes ao todo? — Exatamente. A voz do chefe arrematou: — Acho que mostramos ao judeuzinho bastardo que conosco ele não arranja nada! David afastou-se dali. Depois. malicioso. — Leve-os para o corredor cinco . Bond. Foi Margolis quem res-pondeu: — Está no banheiro. — Sim. uma explosão de gargalhadas. Havia uma garagem do outro lado da rua. Sentiu um assomo de amargura. David agradeceu e seguiu pelo corredor até o banheiro. Estava de costas e teve um sobressalto quando D avid disse: — Sr. — Depósito. preço total de quinhento s dólares. — Então. sr. mais irritado ainda. Indignado. cobriu o fone com a . com visível mau humor. Wagner? — Sim. pensou. sem a segurança de pouco antes. começou a caminhar pela calçada ao lado do edifício. a um dólar cada pacote de mil unidades. David levou os quatro engradados para o elevador. O ascensorista dava um sorriso afetado. Um silêncio tomou conta da plataforma enquanto ele ajustava o macaco sob o engradado. E o tio Bernie havia dito que tudo ficaria em segredo. Torciam e se deliciavam com o fracasso do sobrinho do patrão. — Bem. Vou mostrar o lugar certo. — Está bem — disse Wagner. Logo depois de ele haver assinado. O gerente con-versava com o utro homem. Estava vazia. tocou e o gerente atendeu. acabaram de chegar — continuou Wagner. o telefone da escrivaninha. sentiu o rosto ficar vermelho. Olhou em volta. Todos os empregados das mesas olharam para o elevador. David ficou olhando para ele por um instante. Em menos de cinco minutos.David de repente tomou consciência do silêncio que caíra sobre a plataforma. jogando o cigarro na privada. — Vamos subir. Já eram quase dez e meia quando David acabou de esvaziar os engradados e empilhar todos os folhetos nas prateleiras. o que há? — perguntou. até os motoristas dos ca minhões estavam rindo. não ficara exatamente satisfeito em vê-lo. O gerente entregou-lhe uma folha de papel. Wagner o mandara faze r aquele serviço.

— Não me incomodo. Nada daquilo fazia sentido. Quem falava do outro lado do fio estava tão irritado que David quase podia ouvir o que era dito. David o encarou.mão e disse a David: — Quer ir pegar um daqueles folhetos e me trazer? David saiu para o corredor. Suba agora mesmo e vá dizer a Wagner que terá de me pagar cinco dólares se quiser que eu jogue seu lixo fora. O que ele devia ter era sorte. — Se não se incomoda. David sentia cada vez mais raiva do homem. E outro para mim. Wagner pegou. — Escute — disse David. examinou e disse ao telefone: — Não. — Tenho uma hora para almoço. pois do contrário não faria ne-gócios dessa espécie . — Não temos tempo de tratar dessas coisas. Mas nada tinha com isso. — Sim. — Em quanto tempo você consegue chegar aqui com um caminhão? — perguntou ele. — Era o sr. sem acreditar no que estava vendo —. — Entendi. — Lixo. Os novos folhetos chegarão esta tarde. Bond. Mas subiu e foi até a mesa de Wagner. Mas. Bond mandou jogar tudo fora. é claro! Havia esquecido — disse Wagner. tratarei disso na hora de meu almoço. depois de tomar uma decisão. — O chefe da plataforma quer cinco dólares para jogar o lixo fora. vai mesmo pagar esse dinh eiro a ele? — Naturalmente. sr. Se não fosse a falta de sorte. São de uma só cor. Que diferença fazia se não estavam impressos em duas cores? — O sr. Qualquer comprador de papel velho dará no mínimo cinqüenta dólares por aquilo.. . Jogavam fora quinhentos dólares de pa pel antes mesmo de pagá-los e não procuravam nem ganhar cinqüenta dólares com ele para d iminuir o prejuízo. — Mas o papel dos folhetos é muito bom. — Está certo. e logo depois colocou o fone no gan cho. — Vinte minutos. Os folhetos que acabamos de receber deviam ser de duas cores? David olhou para o cartaz sem compreender o motivo de tanto estarda-lhaço. David. surpreso. depois de explicar rapidamente o negócio. Chegavam até a pagar cinco dólares para se livrarem da mercadoria. Wagner mostrou-se aborrecido. Wagner? — perguntou. O tio não era tão esperto quanto diziam. — Posso tirar a minha hora de almoço agora? — Pode tirar depois de resolver o caso dos folhetos. — Jogar fora? — perguntou David. tirou um folheto de um dos pacotes e le-vou-o para o gerente. — Onde coloco isso? — Não vai colocar isso em lugar nenhum. Dê-lhe os cinco dólares e esqueça. espere um pouco — continuou Needlenose: — Shocky diz qu e cobrará dez dólares pelo cami-nhão. David estava cada vez mais perplexo. O chefe da plataforma berrou: — Ei. Trate primeiro do caso e depois faça sua hora d e almoço. sr. Po-deremos ter tempo q uente. tire tudo das prateleiras e leve outra vez lá para baixo. abrindo uma caixa de metal sobre a mesa e tirando uma nota de cinco dólares. Bond. Já era meio-dia e meia quando ele chegou à plataforma levando o pri-meiro engradado de cartazes. David. — Claro. para onde vai com isso? — É lixo. Eram ap enas folhetos para distribuir nas ruas. O chefe da plataforma se aproximou e olhou dentro do elevador. mas não há necessidade. hein? Tudo isso? — Sim — respondeu David. o pai dele teria s e tornado milionário. E traga um soco-inglês para você. Que negócio mais maluco aquele em que se joga va uma coisa fora antes mesmo de pagá-la.. — Posso dar um telefonema? Wagner concordou e David ligou para Needlenose na garagem de Shocky. — Oh. Todos têm. do departamento de compras. Vamos precisar do e spaço.

— Sabe para onde foram todos. — Faço apenas o que o departamento de compras manda. Agora não podia recuar. David pensou que. Olhou para os empregados. — Vou almoçar — disse. infringindo delibe-radamente a proibição de fumar. David sentou na cadeira dele e acendeu um cigarro. — Acredite no que vou dizer. Em nov enta por cento dos casos. A víti ma avançava para o homem que estava à sua frente e era atingida pelas costas. Sentia um gosto amargo na boca. — Se você estiver em apuros. — Se eu estiver em apuros. As pontas redondas e pontudas bri-lharam perigosamente. — Como posso fazer isso? Já foi bastante difícil ele me dar este. se todos estavam com tanto medo dele que não o deixavam trabalha r direito. e ele continua ria calmamente a receber o dinheiro. é se o tio Bernie souber que gasta cinco dóla res para perder cinqüenta. o tio com certeza ficaria sabendo. — Estilo chinês? Era um ardil comum em Chinatown. Tudo aquilo era uma coisa sem pé nem cabeça. Caíra direitinho na armadilha que lhe haviam prepar ado. pensativo. A mão de Needlenose saiu do bolso da calça e David pegou a soqueira de ferro. e ele perderia o emprego. Um homem pela frente e outro pelas costas. Não adianta você se sujeitar a ser massacrado. você entra na briga e me ajuda. depois deu um sorriso irônico. Estão lá embaixo na rua. Quer liso ou de ponta? — De ponta. Se eu aparecer agora lá chorando. Do contrário perderá tudo. — Neste caso. Para dar resultado. nem se quisesse. Enfi ou a arma no bolso. David também os encarava. tenho de enfrentá-lo sozinho. Se ele não me tratasse como me tratou. em desafio. Vamos lá. zangado. nada teria acontecido. — Como vamos enfrentar o cara? — perguntou Needlenose. Os empregados das mesas estavam todos de olhos voltados para e le. — A responsabilidade não é minha — disse prontamente o gerente. — Do outro lado da rua. o único que permaneceu. — Nesse caso. — Tem pelo menos vinte quilos mais que você. Peça outro emprego a seu tio. muito pálido. não tem motivo algum de se preocupar. os homens começaram a sair. e perguntou: — Por que é que esses cinco dólares são tão importantes? — Todos os locatários do edifício pagam alguma coisa a Tony. sr. Trouxe o que você me pediu. além dele. Wagner. David. David levantou. ficava sem saber o que havia acontecido. E ele não era tão inteligente quanto se julgava. foi M argolis. um por um. — Ele pode matar você — replicou Needlenose. — Não quero encrencas — disse nervoso. — Encrenca o senhor vai ter. 6 . Se perdesse. E não podia também perder a luta lá embaix o. — Onde está o caminhão? — perguntou David. Ele não pode deixar você livr e de fazer o mesmo.— Está bem. sem nada dizer. não faria mal algum dar-lhes realmente motivo para ter medo. Wagner mostrava ansiedade depois que David desligou o telefone. David olhou para ele. — Eu queria apenas fazer o meu s erviço. David deu uma longa tragada. Trancou as gavetas da escrivan inha e se levantou. Tony. Dentro em pouco. mande a conta para o tio Bernie. ele nem me receberá. — Então. o que poderei fazer será apenas tratar de seu ente rro. quando mais t arde recobrava os sentidos. Estarei à sua espera na calçada da frente. — Não. Needlenose estava esperando por ele lá embaixo. Wagner pôs a nota de cinco dólares de volta no caixa. Pouco depois. é pior do que um cossaco. é um idiota! — disse David. além do mais. jogou o cigarro no chão e esmagou-o com o salto do sapato. A culpa foi dele. o ch efe da plataforma. ansiosos por ver Tony arrebentá-lo. menino? Todos eles? Não saíram para o almoço.

David? — Não. porém. Muita gente conversava. Reconheceu alguns homens do depósito. Margolis dissera a verdade. por entre os dentes. — Tenho uma coisa para você — disse. Acionou a alavanca e o engradado f oi suspenso do chão. alguns comiam sanduíches fingindo que estavam interessados apenas nisso. Todo o edifício sabia o que ia acontecer. Não podia recuar. sentindo a frieza do met al. vai ficar tudo aí mesmo! David meteu a mão no bolso. O homem não havia se movido. mais cedo ou mais tarde. porque têm mais o que perd er. Não ia haver briga nenhu-ma. à sua maneira. Olhou de relance o chefe da plataforma quando vol tou para apanhar outro engradado de cartazes. O mundo era assim mesmo. Quando não p or outras razões.Estavam esperando. Aquilo tudo era uma loucura. Até seu tio. Seria assim com o chefe da plataforma e com o tio Bernie. Fazia calor e David sentia o suor encharcar sua roupa. Enfiou os dedos no soco-inglês. sabem que um dia. O en gradado pousou no chão do veículo. De repente. Eles des viaram o olhar do seu. Até pouco antes. sentado à sua escrivaninha no alto de tudo. o macaco esco rregou para o lado e a parte da frente saiu por completo do caminhão. talvez t odos estivessem errados. Levantou os o-lhos e viu o chefe da plataforma. Sempre havia um pequeno dit ador. judeuzinho! Se não tem dinh eiro. O homem moveu rapidamente o pé. porque ele era moço. O chefe da plataforma falou com voz autoritária: — Para tirar esse caminhão daqui tem de pagar cinco dólares. Correu os olhos distraidamente à sua volta. Novo suspiro nervoso se elevou da multidão. ainda com a mão no bolso. este estendeu o pé na frente do macaco e encarou David em silêncio. Talvez estivesse errado. perderão tudo. Descendo do caminhão. toda vez que aparecia alguém par a pôr sua tirania em perigo. Needlenose desceu a rampa e foi até o caminhão encostado no outro lado da rua. Chegou à beira da plataforma no momento em que Needlenose en-co stava nela a traseira do caminhão. quando virou o macaco p ara tirá-lo do caminhão. David empurrou o macaco para onde ele es tava. Sem se perturbar. Tudo aquilo seria dele um dia. preocupado com as ameaças ao seu império? Reis e ditadores vivem mais amedrontados que os outros. Os que dominam o mundo têm de morrer e deixar tudo para os herdeiros. sim. A alavanca do macaco foi arrancada da mão de David. pela velhice que lhes rouba as forças e o poder de raciocinar. . Além disso. David sentiu uma leve esperança no fundo do coração. Em toda a parte era a lei da selva — nas ruas do East Side. David o encarou também e tentou empurrar o macaco para a plataforma. Quem sabe quantas noites o tio Bernie fic ava sem poder dormir. Empurrou o macaco carregado para a plataforma aberta do caminhão e destravou. aproximando-se do homem. De que adiantava aquilo? Que va-lor tinha aquele emprego miserável para que e le se arriscasse a morrer para não perdê-lo? Viu então o chefe da plataforma e não teve mais dúvidas. sentiu-se meio atordoado. a platafor ma estivera barulhenta. Havia até algumas moças da fábrica de cosméticos e da Henri France a postos para apreciar o aconteci-mento. As conversas haviam cessado e os sanduíches foram esquecidos dentro dos embrulhos de papel imper-meável. Aquele foi um momento revelador para o espírito de David. nos depósitos de papel v elho à margem do rio e mesmo naquele depósito da rua 43. Ouviu um leve suspiro da multidão amontoada na plataforma. Needlenose perguntou: — Quer que lhe dê uma mão. David colocou o macaco sob o engradado mais próximo. Levou o último engradado para o caminhão e puxou a trava. era um ditador. ninguém mais fingia. bloqueando a traseira do caminhão. — Traga o caminhão — disse David. Não era nenhum herói. Deixe que eu me arranjo. Naquele breve momento el e entendeu. Naquele momento. As rodas do macaco ficaram girando no estreito espaço entre a plataforma de em-barque e o cami nhão. disposto a lutar para manter o seu reinado. O silêncio o envolveu e ele sentiu que todos os olhares estavam fitos nele. Quando chegou perto do chefe da plataforma.

está ficando sabido. olhando para o chefe da pla-taforma: — Será que você liquidou o homem? David encolheu os ombros. Ela o olhou firmemente. O homem deu um grito contido de dor e desfechou tremendo soco em David. O barulho da sirene foi diminui ndo a distância. teve de recu ar para a plataforma. tirou a toalha do ros to e se olhou no espelho. David atacou-o outra vez. Exceto por um pequeno galo no lado direito da testa. Ela sorriu e tirou algumas fotografias do bolso. fosse lá quem fosse. — Fred Jones. — É verdade que você é sobrinho do velho Norman? — É. Tirou algumas poses minhas — Foi? — Estou com as provas aqui. David agradeceu. E me ajudem a tirar essa coisa de cima dele. cobrindo depois o rost o com ela. Ouviu os passos do velho saindo do banheiro. Sacudiu a cabeça para recuperar-se e viu que o inimigo avançava contra ele. As pontas de metal do soco -inglês abriram-lhe o rosto como se fosse um melão maduro. como um monstro pr imitivo. A briga teria de ser rápida. — Telefonem chamando uma ambulância. Firm ou os pés na borda do caminhão e procurou atingir novamente o rosto do homem. Needlenose subiu no caminhão e disse. pegou a toalha e a ensopou na água quente. que é o chefe do seu laboratório fotográfico. Pouco depois. O homem conseguiu esquivar-se. Jogou a soqueira no bolso do amigo e disse: — Convém tirar logo esse caminhão daqui. David aprumou o corpo. desviando seus olhos de Davi d para a multidão. — Foi você mesmo quem pediu! — disse. muito obrigado. ficou ali estendido. com o sangue escorren do por suas faces e os lábios cerrados numa expressão selvagem. O chefe da plataforma deu um grito quando o pesado macaco caiu em cima dele. empurrando o macaco sobre o homem. O soco não atingiu o alvo. — Vou matá-lo por isso. ofegante. David olhou e achou que o tal F red. Lavou o rosto com água fria e se en-xugou. Sentiu a dor subir-lhe pel o braço quando atingiu com toda a força o rosto do homem. O guarda olhou para o chefe da plataforma. — Está se sentindo bem? — perguntou o velho. O calor lhe fez bem. O homem estava se levantando nas mãos e nos joelhos. Achei que ia precisar disto. e stava perfeito. atingind o-o na cabeça e arremessando-o contra o lado do caminhão. Parou para olhá-la e teve a vaga impressão de que a conhecia. diz que eu devia trabalhar n o cinema. O homem estava quase de pé. — Tome. A porta se abriu e Margolis apareceu. vestindo um avental azul que tinha bordadas no bol so as iniciais da Henri France. Fechou os olhos. . com um sorriso que mostrava dentes não mui-to bonitos. Virou o rosto para David. Provavelmente era uma das garotas que havia visto lá embaixo. O caminhão desapareceu na rua no momento em que Wagner chegava com um guarda. Quer ver? — Claro. O homem aparou-o no braço mas. judeuzinho miserável! David olhou para ele. Needlenose tomou o volante e David desceu para a plataforma. Foi nesse momento que David ata-cou. e olhou para a multidão. caso contrário o homem poderia matá-lo mes mo. Dep ois. Este olhou para David e perguntou: — O que houve? — Um acidente. Ouviu a sirene da am-bulância quando estava no banheiro se lavando. David se sentiu completame nte atordoado. Havia uma moça perto da escada. — Estou. sim. com o macaco sobre as costas. David encostou-se no grande macaco hidráulico e olhou para ele. sabia tirar fotografias. judeuzinho — disse o homem. Depois deixou a toalha na beira da pia e saiu. imóvel. ainda as-sim. David encaminhou-se para o elevador de carga. Todos já estavam começando a se dispersar. com uma to alha na mão. m as perdeu o equilíbrio e caiu no chão. com os rostos pálidos e amedrontados.— Agora.

quando David apareceu. Trazia escritos o nome Betty e um número de te lefone. — Não é preciso — replicou Wagner. Todos têm medo dele. Eram todos amigos. seu m . O médico disse que Tony teve apenas um choque momentâneo e duas coste las quebradas. Foi então para sua escrivaninha. — Fez boa viagem? Norman sorriu para ela. todos estavam sorrindo para ele. O gerente o encarou firmemente e disse em voz baixa: — Gostaria de fazer de conta que não aconteceu nada hoje de manhã. sr. Deixou-se f icar ali respirando o ar puro e frio. haviam deixado de ser estranhos. O Norman. — Irei pagar amanhã. Houve um instante de silêncio e ela continuou: — Vi tudo o que houve lá embaixo. — Se tiver oportunidade. — É assim que muitas c omeçam no cinema. — Pode ficar com elas. começando a descer a escada. — Sou eu o gerente. Até os charutos em Nova Iorque eram melhores. — Tenho de voltar ao trabalho — disse ela. Ele estava com os olhos brilhantes e as faces rosadas pelo ar do inverno. Sentou. depois da rápida caminhada do hotel até ali. Jack Wagner. mas nela se lia em letras douradas: HENRI FRANCE DE LUXE. Norman — disse sua secretária. — Essas aí não lhe darão aborrecimentos. — Não gosta dele? — Ninguém gosta dele. O guarda me perguntou o que houve. entrando no seu gabinete e abrindo a janela. apanhou um grande charuto e o acen-deu lentamente . São as melhores que fazemos. Vou apresen tá-lo ao pessoal. — Obrigado. mostre-as a seu tio — disse. Wagner. — Você é bonito — disse ela. — Já paguei. — Bom dia. Havia um papel no fundo da caixa. estendeu a mão e sorriu. O macaco caiu em cima dele. dife-rente da terrível uniformidade do clima da Califórnia. Ela tinha razão. Eram tão finas que se podia ler através delas . Muito prazer em tê-lo co-nosco. O gerente levantou-se e apertou-lhe a mão com força. Foi um acidente. Parecia uma caixinha de aspirina s. 7 Bernie Norman entrou no seu escritório de Nova Iorque. Pode-se ler um jorna l através delas. Em seguida. Eu disse que foi um acidente. Mandaram-me vir falar com o gerente para trabalhar aqui. começou a ler os papéis em cima da mesa e sua satisfação aumentou. — Você teve sorte. — Obrigado. Eram dez horas da manhã. Fui eu mesma que examinei e enrolei todas. Como era bom aquilo. Gostaria de começar t udo de novo. — Até a vista. Os negócios iam muito bem.— Gosta? — Gosto. David a olhou bem nos olhos. David olhou-o por um instante. Wagner estava sentado à escrivaninha. sem demora. Mas levou doze pontos no rosto. dizendo: — Meu nome é David Woolf. Já era tempo de Tony levar uma lição. — Obrigado. prontamente. — Até a vista. O gerente baixou os olhos e disse: — O homem da garagem quer dez dólares para mandar consertar o macaco. apreciando com prazer a fragrância do tabaco. Tirou alguma coisa do bolso e entregou a David. Os cinemas de Nova Iorque estavam dando bons lucros. — Eu gosto de você. — Ele é que teve sorte. cintilantes e firmes. Quando David se voltou para as mesas. David abriu a caixinha. De repent e.

Só daríamos a gratificação sobre que passasse daí e calculamos que não gastaríamos quase nada. Bernie. havia aumentado consideravelmente a receita desde que começara a dar shows no palco entre as exibições de filmes. O boletim só podia estar todo errado. — Então quem é que está administrando o cinema? Quem é esse sabidinho que está tirando do no sso bolso trezentos dólares por semana? Hawley já demonstrava claramente todo seu nervosismo. — Mas nós calculamos isso sobre a renda máxima dos cinemas. — Não. O total médio por semana chegava a quase trezent os dólares. — É seu sobrinho. Norman examinou mais detidamente o boletim e encontrou um item de despesa com o título de Gratificações aos Empregados. — Não vejo nada de errado — disse Hawley. Bernie. — E essas gratificações aos empregados? Dois mil e quatrocentos dólares em dois meses! P ensa que estou maluco? Nunca a-provaria uma coisa dessa! — Mas é claro que aprovou. Pegou imediatamente o telefone. — Deixe de rodeios e diga-me a verdade agora mesmo — disse Norman. Era ape nas um cinema de terceira ou quarta categoria. não! — Os totais do boletim estão certos. David Woolf. mais do que três mil dólares por semana. com os olhos protegidos pelos óculos escuros. — Eu já sabia! Eu já sabia! — Não tivemos outro jeito. Norman. Norman — disse a secretária pelo telefone. que são os dias de menor movimento. Entrou em entendimento com o comércio das vizinhanças e está sorteando brindes em todas as sessões. quando normalmen-te a receita diminui. A doença de Taubman nos pegou desprevenidos e não tín hamos ninguém para botar no lugar dele. — Nunca apren dem a fazer nada certo? — O Park? — Hawley demonstrou profunda surpresa. E está dando resultado. — Fez boa viagem? — O que há com este boletim do Cine Park? — perguntou. — Pensa que não sei que o Park nunca rendeu mais do ue três mil dólares desde que foi inaugurado? Posso ser tolo. — Mas a assinatura no boletim é dele. O Park nunca fize ra.elhor cinema. Qual foi o máximo estimad o para o Park? — Três mil. — Diga a Ernie que venha imediatamente falar comigo. Instituiu ainda o que chama de "noites da família " às segundas e terças. no pior trecho da rua 14. Uma família inteira pode ent rar por setenta e cinco cents. como todos os gerentes têm. A venda de bombons e pipoca s é quatro vezes maior do que antes. secamente. Jamais concor daria com gratificações dessa ordem. sarcástico. — E quanto é que isso tudo está nos custando? — Bem. tirando furiosas baforad as do charuto. Norman bateu com a mão na testa dramaticamente. depois de olhar o boletim. — Mas o rapaz está trabalhando bem. sr. as despesas gerais aumentaram um pouco. Continuou a folhear os boletins dos cinemas e parou su rpreso quando chegou ao do Park. Nossos contadores verifi-cam tudo a cad a semana. na Broadway. Bernie! É a gratificação de vinte e cinco por cento que você dete rminou para os gerentes. Podia ser comparado com o Loew's State e o Palace. Bernie? — perguntou ele. — Não vê? — replicou Norman. acendendo nervo-samente um cigarro. Do contrário. — Pronto. que acusava uma média de quatro mil e duzentos dóla res por semana nos últimos dois meses. como pod eria estar faturando quatro mil e duzentos dólares por semana? — Taubman não está mais dirigindo o cinema. Hawley entrou daí a pouco. Bernie — disse Hawley. e ainda assim excepcionalmente. Ernie Hawley era o tesoureiro e teria de explicar aquilo direitinho. Seria paga caso eles conseguissem manter o nível de renda depois do Natal. batendo no boletim. Taubman está nos roubando desla-vadamente. — Sério? — falou alto Norman. — Estávamos em dificuldades. mas achamos que vale a pena. — Deixe-me ver. — Aumentaram exatamente quanto? . Devia haver algum engano. — Então há truque nisso. Norman entregou-lhe o boletim e se recostou na cadeira. — Como vai. E apenas um carimbo. Alguém tinha enlouquecido. Teve de se submeter a uma operação de apendici te logo depois do Natal e ainda está se recuperando. Duas vezes por semana faz de sfiles de propaganda dos filmes. mas tanto assim.

antes que a polícia fechasse o Norman. — Sim. que o depósito nunca foi mais bem administrado. Devemos agradecer-lhe a gentileza de deixar cento e cinqüenta para nós? E isso e nquanto ele não des-cobrir um meio de nos tirar esses também! Sentou novamente à escrivaninha. Seis m eses depois. sem que eles precisassem sair de seu próprio camari m? — Mas os artistas mais famosos do país se apresentaram no cinema. O inventário rotativo perpétuo que ele idealizou nos permitiu economizar uma verdadei ra fortuna em compras dispensáveis. inc lusive as concessões de vendas. no Brooklyn. . Ele po deria ficar ali como sub-gerente. — Mas é ainda um garoto.Hawley pegou o boletim: — Entre oito e oito dólares e meio por semana. Leva ntou-se. chego aqui e o que encontro? A companhia toda anarquizad a por ele. ele gasta novecentos dólares do nosso dinheiro por semana para ganhar trezent os. — Não sei por que. — Fez vinte e um anos no mês passado. Pensei que tudo estava resolvido e que eu podia dormir em paz. — Quanto ele está ganhando agora? — Trinta e cinco dólares por semana. — Coloquei-o então no Norman como subgerente. Colocou-o na boca e começou a mastigá-lo. que está fazendo mais dinheiro do que um vice-presidente. — Pois foi uma felicidade que eu o mandasse para o Hopkins. assim. — O quê? — Fazer dele um vice-presidente. O tempo em Nova Iorque era desagradável c om aquele frio horrível tão diferente do clima quente e cheio de sol da Califórnia. queriam trabalhar no Norman. o que poderia acontecer de errado num cinema fa moso como aquele. Bernie riscou um fósforo e acendeu o charuto. — Acho que está sendo vantajoso — disse Hawley. pensativo. Foi uma sorte eu haver acabado com isso. quando voltei. que tipo de problema ele poderia nos c riar no. — Tire-o do Park e transfira-o para o departamento de publicidade do estúdio. Bernie. onde tudo funciona por si mesmo? Isso é o que eu pensava. Pensei que minhas preocupações haviam se acabado. mas ia todos os dias para o trabalho num Buick de dois mil e trezentos dólares. ele não poderá arranjar encrencas. furioso com o tesoureiro: — Devo mesmo admitir que o pessoal que trabalha para mim não passa de um bando de idiotas! O aumento da receita não nos adianta nad a. senão iríamos todos parar na c a-deia. Brooklyn? Voltei para a Califórnia com o coração tranqüilo. sar-casticamente. Afinal. — Talvez seja isso o que você deve fazer — disse Hawley. encolerizado: — Seis meses depois. — Mas temos de reconhecer. Mas para ele é óti-mo. Afinal. Foi até a janela e fechou-a violentamente. E é um camarada que eu gostaria de ver sempre do nosso lado. — E você acha que ele fez isso visando aos nossos interesses? Não seja bobo! Ele ganha va dezessete dólares por semana. Isso deu ainda maior prestígio ao cinema. — Há um ano e meio vim para cá e o que encontrei? Ele estava trabalhando no depósito hav ia pouco mais de um ano e já tinha mais lucro com aquilo do que nós. — Quando se calcula a receita geral. Ganhava mil dólar es por ano vendendo cartazes inaproveitados. Levantou-se de repente e exclamou. — Não — disse Norman. Ali eu mesmo fiscalizarei seu trabalho. não foi? E continuam se apresentando. porém. mas toda vez que venho a Nova Iorque consigo me aborrecer! Jogou o charuto no cesto e apanhou outro. de re pente. — Entre oito e oito dólares e meio por semana — repetiu Norman. e mais dois mil fazendo fotografias pornográficas que imprimia às centenas com material do nosso laboratório. chega-se à conclusão de que estamos recebendo cento e cinqüenta dólares a mais por semana. E por que não? Você acha que no Loew's State ou no Palace eles encontrariam empregadas bonitas e à disposição das dez da manhã à uma da ma drugada? E onde mais eles poderiam encontrar um sub¬gerente pronto a aceitar apost as para todos os prados do país. Trezentos dólares por semana a mais no bolso dele. Arrumou a c oncessão para vender preservativos de borracha por atacado em todos os nossos escr itórios no país. descobri que ele transformara o cinema numa casa de tolerância e num ponto de bookmakers! Todos os artistas de vaudeville do país.

E ra firme e solidária com ele. Bernie — disse Hawley. — Não creio que haja dificuldades. E cer-tamente todos sabiam mais do que ele. — Ele está à sua espera no antigo gabinete de Norman. Sorriu quando pegou de novo o boletim. Abriu e leu: Tenho importante assunto tratar com você. A viúva de Charlie Dobbs era a e spécie de mulher com quem deveria ter casado muito antes. Seguiu-a até a cozinha. Sentiu um estranho orgulho.— Vou tratar disso agora mesmo. Smith. até de si mesma. para que ele iria cha má-lo depois de tanto tempo? Ele encolheu os ombros. levantando-se. Todo mundo sabia o que estava acont ecendo. coisa que nunca pudera ter do próprio pai. Chegando do campo. Não faria mal algum passar para ver o que Dan quer com igo. Dan Pierce Martha apareceu logo depois de ele haver lido o telegrama. — Há quanto tempo não aparece! — É verdade. — Tenho hora marcada co m Dan Pierce. Diz que tem um assunto importante para tratar comigo. quem poderia prever onde ele chegaria? O rapaz iria longe. Aquele seu sobrinho era um rapaz muito vivo. chefe do policiamento do estúdio. em 1930. Smith! Muito prazer em vê-lo de novo. Nevada sorriu. Nevada sorriu e seguiu com o carro para o edifício da administração. evidentemente satisfeito com aquela sincera manifestação de amizade. — Senão. Bernie viu o tesoureiro sair e resolveu telefonar para a irmã. Nevada mostrou o tele-grama. Martha voltou para a cozinha. Não queria que ela fi casse preocupada. Com um pouco de orientação. E Nevada percebeu que gostava das atitudes dela. Não seria necessário avisar. Uma coisa ao meno s não havia mudado no estúdio. Não havia segredos. Martha. — Devem estar em dificuldades — replicou ela. Talvez as coi sas tenham mudado depois que ele tomou conta do estúdio. Ele só tinha conhecimento do q ue estava escrito no te-legrama de Dan. Re-solveu passar por lá depois do almoço. Aproximou-se dele. fingindo uma tranqüilidade que não sentia. sr. — O prazer é todo meu. . Será como nos velhos te mpos. A irmã tinha razão: bom sangue não nega. embora tivesse idéias loucas. se o senhor voltar. — O almoço está pronto — disse ela. Colocava-o acima de tudo. havia encontrado o telegrama na entrada. Jonas não é como Bernie Norman. Harry. Nevada engatou a marcha e Richards afastou-se do carro. — Sr. com a mão estendida. — É o que eu espero — disse ela. — Dan Pierce está me chamando. — Não quero que o ex-plorem como já aconteceu. Ele pagaria todas as despesas da mudança para a Califórnia. 8 Harry Richards. Gostaria me procurasse imediatamente. sete anos — disse Nevada. dizen-do: — Espero que tudo se resolva de forma satisfatória. lembrando-se de que a última vez em que estivera no estúdio fora logo depois da estréia de O renegado. estava no portão principal quando Nevada Smith chegou no seu carro. — Tenho de ir a Los Angeles para resolver com o banco o caso da compra dos quatroc entos hectares a Murchison. Sabia que s eria assim quando casara com ela dois anos antes. com animação. calmamente. Ela nunca saía de casa. Depois lembrou-se de que ela não tinha telefone e que seria preciso mandar chamá-la na cas a de bombons da esquina.

Talvez apenas dez por cento d e tudo isso esteja filmado quando se faz a venda. — Não estamos mais fazendo filmes. Desde então. botando o bule de café em cima da mesa. quando ele era bem moço e fora do Texas para o rancho em Reno. que não podia esperar compreensão de sua parte. tantos westerns. No fundo. Martha? Vamos os dois juntos. — É infernal — explodiu Dan. ela teve pena d ele. Tudo estava rendendo bom dinheiro — o show Oeste Selvagem. Mas tenho de lhe falar com franqueza. não é? — Eu sabia. vai dando para viver. Depois disso. Jonas nos mantém com um orçament . É u m círculo vicio-so. Era o que lhe faltava — isso e Jonas. de qualquer modo. Logo que tomamos conta do estúdio. o rancho para divorciadas em Re no. vive-se numa tra balheira louca para fazer os filmes e cumprir os contratos. — Acho que será magnífico — disse. tantos de ação e aven turas. Era o prazer da fama. Mas. até ela própria. Estou até admirado de que tenha falado nisso. muito sério: — Deve estar querendo saber por que lhe mandei aquele telegrama. — As responsabilidades estão dando cabo de mim. Esta-mos sempre à espera d e que entrem os dólares dos filmes já feitos para iniciarmos a filmagem dos novos. vencido e fugitivo da polícia. Nevada era um homem rico. Tinha sido sempre assim. Dan? — Você sabe como os filmes são vendidos hoje em dia? Vende-se por adiantamento a produção do ano inteiro. Dan estava mais gordo e com ar de quem vive regala-damente. — Isso é maneira de falar com um velho amigo? Lembre-se de que fui seu agente. Quem foi que lhe arranjou o primeiro traba-lho no cinema? — Lembra-se também de ter deixado o meu show de lado. Qual é sua idéia. — De fato. — Mas parece-me que você está se dando bem com isso. onde estavam morando. Tud o mais era acessório e substitutivo. Não. — Obrigado — disse Nevada. Nos hospedaremos no Ambassador e trataremos de nos divertir um pouco. não faria — murmurou ela. Queria conservar a terra como era. — O que acha? — perguntou ele. Nevada o olhou. de viver cercado e aplaudido pelos garotos. Dan. e a fazenda de ga do no Texas. — Por que não acumula uma reserva para distribuição posterior? — perguntou Nevada. Não que precis asse de dinheiro. ela sentira a bon dade do coração de Nevada. em seguida.— Não. — Em todo caso. tinha ele aq uele olhar ferido de quem se sente sozinho na vida. de que ele e o primeiro marido de Martha tinham sido sócios. que ainda usava o seu nome. tantos de classe B. Nevada. Por um instante. Nevada. Ambos riram. Bastava olhar para a animação que a fisionomia de Nevada demonstrava para saber que se houvesse alguma coisa para ele. Jonas era o filho que ele nunca tivera. não? — É por isso que estou aqui. voltaria a traba-lhar no cinema. — Isso de verá resolver seus problemas. você foi a primeira pe ssoa em quem pensei. Dan baixou os olhos para a mesa e disse. mas não temos as reservas de dinheiro necessárias. Nevada recostou-se na poltrona e sorriu. sem aquelas horríveis torres de petróleo. em cujas vizinhança s havia sido en-contrado petróleo. Sua apa-rência está ótima. — Foi apenas para refrescar-lhe a memória. quando viu que podia ganhar ma is dinheiro com o show Buffalo Bill? — Isso foi há muito tempo. secamente. Tem s de produzir. tantos de horror e mistério. determinada cota mensal de filmes. olhando-a. Mas estes já tinham outros heróis. de ser acompanhado por olhos que cintilavam ao reconhecê-lo quando passava pelas ruas. Mesmo muitos anos a ntes. Ele havia recusado uma oferta de um milhão de dólares de entr ada e mais os royalties pela exploração da parte norte da fazenda. — Ainda não sei qual é sua proposta. onde ela e Ch arlie se haviam estabelecido. — Agradeço muito você ter vindo. talvez fosse apenas Jonas. — Por que tanta pressa? Dan arregalou os olhos e fingiu-se ofendido. — Sabe de uma coisa. sorrindo e quase com timidez. Isto agora é uma fábrica. — Já vou chegar lá. por dinheiro não era. Martha sentiu um assomo de ternura. de qualquer maneira. é um trabalho. Tantos filmes de classe A. limpa e boni ta. Cansado.

— O importante seria apresentar em toda a série um personagem em quem as pessoas pud essem acreditar.. Nevada sorriu. também. Talvez você pudesse fazer o papel de Nevada Sm ith mesmo. e nós. O que quero. Mas estes serão diferentes. — Não custa nada pintá-los de preto. — Muito bem — disse Nevada. — Isso nunca deixa de parecer falso. — A diferença é que Norman queria explorá-lo e eu não. ao fim de s ete anos. Isso quer dizer que você ganhará cinco mil dólares por semana. Pierce sorriu. De qualquer maneir a. Acha que iria chamá-lo se não achasse que você ta mbém podia ganhar algum di-nheiro? Nevada tornou a sentar. — E quais serão as histórias? — Não quis tratar disso enquanto não falasse com você.. — Tem certeza? — Conversei pessoalmente com Moroni. em vez de gastar tudo nesses ma lditos impostos com que Roosevelt nos per-segue. E escritores e produtores. caso queira. apenas. — Conseguiremos então argumentos apropriados — disse Dan. — Obrigado e passe bem — disse Nevada. Cada filme. — Vamos ver. Mas o banco está disposto a fazer o empréstimo se você estrelar esses filmes. não pode ser. Não estou me queixando. — Deve ser influência da sala.. Ainda temos os cenários que serviram para O renegado. — Nada disso. Nevada. sendo a primeira vez em cinco anos que equil ibramos receita e despesa. pois cada filme não levará mais de duas semanas para ser rodado. — Mas vou trabalhar em troca de quê? Só pelo dinheiro dos ciga rros? — Creio que tenho um bom trato para você. Vou conversar com Martha e depois falarei com você. neste ano. V ocê esperará a entrada dos primeiros lucros para receber seu salário. Sabe que sempre tive muita confia nça no seu critério em matéria de histórias. — Não é possível — disse Nevada.. transferiremos para você a posse do filme. Bastará fazer alguns reparos e ficarão como novos. — Tenho a impressão de estar ouvindo Bernie Norman — disse Nevada. . Talvez ele tenha razão. impassível. Nessa ocasião. De certo modo.o muito apertado. direitos e tudo mais. Ele acha que é uma grande idéia. Meu conceito em relação a você é bom demais para estragá-lo com coisa infe-rior! — Muito bem — disse Nevada. — Ainda que tenhamos de recorr er a alguma coisa de Zane Grey e Clarence Mulford.. compraremos o filme de você. Você poderá escolher qualquer dos diretores ou cameramen de que dispomos.. Isso lhe dará um b om lucro. o departamento de vendas acha que pod e colocar catorze westerns. Utilizarei o meu melhor pessoal de produção. Nevada riu. Bem. não tivemos prejuízo no ano passado. tratar emos disso. Mas com os mesmos velhos truques e idéia s. uma aventura nova. Mandei a contabilidade e-xaminar o caso e descobri um meio de você ficar com algum dinheiro. Com este meu cabelo branco. é manter esta fáb ica em funcionamento. Gene Autry e Roy Roger s já fazem isso na Republic. Logo que você concordar. Além do mais. Nevada levantou-se e disse: — Deixe-me pensar um pouco. — Espere um pouco até eu acabar. — Nós lhe pagaremos dez mil dólares por filme. negativos e cópias. — Exatamente o que eu tinha em mente. — Ainda não temos o dinheiro para fazê-los. — Quanto lhe adiantarão? — Quarenta mil dólares por filme. não creio que ninguém se convença se eu fizer p apéis de mocinho. — Para todas as despesas? — Sim. A resposta de Dan mostrava que ele ainda não havia pensado nos argu mentos. já me habituei a eles assim. levantando. — Eu sei qual é sua opinião sobre filmes dessa espécie.

— E verdade — disse Dan.. meus parabéns . mamãe. mamãe — disse David. — Você já está aqui há uma semana e esta é só a segunda vez que veio me ver. — Mas pode ser que ele nem esteja no país.. E ela estudou na universidade. Mas é sempre tarde da noite e quando não há mais ninguém. então — disse ela. — Por que quinta-feira especialmente? Ela teve um sorriso misterioso. nem pouco . Dan. abrindo a porta. Nem muito. Nevada teve de repente a impressão de que Jonas estava precisando dele. — Com eu vou? Do jeito de sempre. — E se acontecer alguma coisa importante? — Nesse caso. E ainda devo dar-me por muito feliz por ele se lembrar de vi r me ver. telefonamos para McAllister. — Quinta-feira. nos telefona. — Mas. com muito interesse. aparece por aqu i. — Passei só para saber como a senhora vai.. — Não tem tempo de conhecer moças? Pois você já tem trinta anos. — A senhora devia era sair. Woolf. em Nova Iorque. na maioria dos casos. se ele tivesse a idéia de sair à noite. — E não o viu mais desde esse tempo? Nunca vem ao estúdio? Dan baixou os olhos. talvez de três em três me-ses. De vez em quando. Sofrendo com minha artrite. ainda que ele viva num hotel? Apa-rece de vez em quando. que mal há nisso? Acredite. A família tem dinheiro. . Só sabemos que esteve aqui po rque encontramos os recados que deixa escritos nas mesas. Além disso. limita-se a dizer a Mac o que devemos fazer. E nem ao menos f ca para jantar! — Prometo da próxima vez ficar para jantar. Podemos passar até um mês sem ter notícia dele. Nevada encaminhou-se para a porta. Às vezes . — Quero que você conheça uma pessoa. que transmite a Jonas a comunicação. Aproveita tão pouco o sol da Cali fórnia! — Para que eu quero sol? — perguntou a sra. fala conosco pelo telefone. Para não levar a vida toda dentro de boate s com essas. — Seu tio Bernie voltava para casa todo dia. — Os tempos eram diferentes. mamãe — murmurou ele. — Mas se acabo de lhe dizer que ninguém consegue ver o homem! — Você não quer que eu faça os filmes? — perguntou Nevada. e é tempo de sobra para se casar. — Deve? Por que diz isso? Não o tem visto? — A última vez em que o vi foi há dois anos. tia May seria capaz de matar o marido. Às vezes. Não tenho tempo. É uma moça muita boa. — Não faz mal. tomar um pouco de sol. Eu espero — disse Nevada. Mas. — Não fale assim. Não podia dizer à mãe que o irmão dela era conhecido em toda Holly-wood como o homem das matinês. Como sempre. Embora um pouco tarde. — Soube que casou de novo. — Raramente. Uma pessoa muito interessante. mamãe. não quero conhecer moças. 9 — Vai ficar para jantar. Pierce demonstrou hesitação. David. voltou-se e perguntou: — Como é que Jonas vai passando? Pela primeira vez. Bem sabe como vivo cheio de trabalho. Duvidele? — Não posso. é que não poderei tomar uma decisão enquanto não conversar com Jonas. quando tomamos conta da c ompanhia. — Já não tenho um filho? Ainda que quas e nunca o veja. mamãe? Será possível? — Sim. — O fato. — Outra moça. Com uma boa moça de uma boa família. como se estivesse embaraçado. No meio do caminho. mamãe. — Deve ir bem.

Mas a aprovação de negócios dessa natureza tinha de ser dada por Jonas e por ninguém mais. sim. encolhendo os ombros resignadamente: — Está bem. Goldwyn e Bon ner andavam à procura de novos canais de distribuição. pr odução pessoal dos seus quatro projetos principais em cada ano. Mas. Mas não se esqueça de que terei de sair cedo. depois de fazer a ligação. Tenho uma porção e coisas para fazer. A Cord Aircraft havia se transf ormado rapidamente num gigante da indústria. — Quer dizer que ele está mesmo disposto a fazer o negócio? David não acreditara que Nevada fosse concordar com aquilo. Skouras não havia hesitad o quando precisara de Zanuck. Bonner queria uma combinação da mesma espécie que Hall Wallis fizera com a Warner e Za nuck tinha com a Twentieth Century-Fox — supervisão executiva de todo o programa. Mas McAllister também não sabia por onde Jonas andava. Pilhas de contratos. com a Paramount. . — O que há. que rendiam muito e. Isso permite inclusive a exibição dos filmes de uma nas salas da outra. — Acho melhor falarmos com Mac. A Inter-Continental Airlines já era a m aior empresa de aviação co-mercial do país. teriam de fazer alg uma coisa de fato grande — ou filmes ou contratos. ouviu? Às sete horas em ponto. Era como se o trabalho fosse feito dentro de um vácuo . A Cord Explosives e a Cord Plastics faziam vitoriosamente concorrência à Du Pont. Essa que era a dinâm ica da ação na indústria do cinema. — Sabe onde Jonas está? — Jonas? O nome não me é desconhecido — disse David rindo. sem nunca se poder tomar uma atitude ou uma posição ma is estável. mas inevitável quando se queria o melhor. para transformá-la numa empresa de verdade. David estava à espera dos resultados das sondagens que mandara fazer junto à Goldwyn e à Disney. Não sei por quanto tempo aind a poderei resistir. No fundo. Mas eu só quero saber é de uma coisa: vem jantar na quinta-feira ou não? David olhou para a mãe com essa mistura de ternura e enfado própria dos filhos e dis se. Era necessário ir em frente. Vivia-se pu lando ora num pé. encontrou um recado: precisava telefonar para Dan Pierce . A única maneira que temos de conseguir Nevada para fazer aqueles westerns é providenciar uma conversa dele com Jonas. Um homem assim podia acrescentar vinte milhões de dóla res à receita da companhia. E David já fizera todo o movimento que lhe era possível. com a Loew's. como uma pirâmide sem fim. O assunto é sério. Aquilo era uma coisa mais segura e muito menos arriscada do que os filmes que custavam milhões. Era um preço alto. Todos eles produziam grandes fi lmes. — Eu também gostaria de falar com Jonas — disse David. David não entendia por que Jonas procedia daquela maneira com a companhia. Mas não venha tarde. d ois anos sem uma reunião da diretoria é tempo demais. quando se tratava da companhia de cinema. Mas. E tudo o que não quer fazer. Equilibramos as despesas e deveremos ter lucros no ano que vem. o mais importante. Jonas teria de enfrentar a realidade. Quem parava enfraquecia-se e desaparecia. Já tivera uma conversa com Maurice Bonner. Afinal de contas. Quando chegou ao hotel. Precisaria decidir entre permanecer no negócio ou afastar-se. Não precisava do dinheir o e todo mundo sabia o que ele pensava daqueles filmes rápidos. com a Warner. Contratos e ram assinados com a Fox. — Deixe de brincadeira. diz que é por causa dos negócios. mas só depois de conversar com Jonas. Tudo o que se fazia era fechar contra tos para ganhar tempo. — Fará. ações e opções na companhia. bastava não deixá-la morrer. Nada havia de palpável por todos os lados. Dan? — perguntou ele. eram inteiramente financiados por eles mesmos. Disney. — O governo está de novo insistindo na campanha contra os trustes. ora no outro. mamãe. Venho sim. com a RKO. Como David já dissera. — Ótimo. pois nosso balanço anual já foi pu blicado. Provara que a companhia pod ia manter-se. Era a dife-rença entre existir simplesmente e prosperar. o que ele desejava eram contratos. Não podemos mais alegar prejuízo.— Isso é a negócios. — Tudo o que você faz. A coisa era muito diferente com seus outros interesses. Conversaremos sobre isso também. Mais ced o ou mais tarde. Ela sorriu satisfeita. Os sindicatos vivem infernizando minha vida. Tenho de sair com elas. também . isso ger ava um sentimento de frustração. — Eu sei.

— Não poderíamos falar pelo telefone? — Também não confio em telefones. David quase deu um assobio. David pensou por um instante. — Está bem. O velho amigo devia ir muito bem. — Não serve. — Vou jantar com minha mãe esta noite. David o olhou com curiosidade. Vá jantar conosco. — Por que não disse logo? Pode ligar. Mas vai se lutando — replicou David. Não teve de esperar muito. Não confio nos criados. Sua mãe ainda faz aquelas sopas deliciosas? — Claro. David riu. Você terá impressão de qu e ainda está na velha Nova Iorque. — Pois seu amigo do East Side subiu muito na vida. E você. mas firme. Pediu que lhe falasse em Needlenose. — Vai encontrar-se com ele? — Esta noite. e. todo afogueado e s uarento. — Estarei lá. — Ótimo! Foi um pulo muito grande o que você deu de Rivington Street. você fará uma visita mpleta. um tanto surpreso. — Na sua casa então? — Também não serve. — Vencer ainda não. Alguém poderia nos espionar. Temos de nos encontrar num lugar onde ninguém nos veja. lembrando-se de repente. Tenho ouvido falar muito a seu respeito. A secretária transferiu a ligação e David falou. — Bem. E moro aqui. — Falou pelo telefone com um camarada chamado Schwartz? — Acabei de desligar — disse David. Mas trabalho como um cão. não se tratava de uma facada. — O que ele quer? Não conheço nenhum Irving Schwartz. E não se pode deixar de ficar satisfeito quando se tem conhecimento de que um velho amigo venceu na vida. — Sei disso. onde estava Jonas? Jonas era quem tinha a chave que poderia ab rir as portas de ouro. de-pois. pensando que aquilo não podia d eixar de ser uma investida. deixando-se cair numa cadeira e ti-rando o lenço para e nxugar o rosto.E. seu bandido? Needlenose riu satisfeito ao telefone. — Graças a Deus! — exclamou Dan. — E você? O que está fazendo por estas bandas? — Vou indo regularmente. — Sem dúvida. não o incomodaria. Se não se tratava de uma facada. — Sei disso. Woolf. A voz de Needlenose era calma. sr. E os mesmos bolinhos de carne com gordura de galinha. As ca-sas ali vali am no mínimo setenta e cinco mil dólares. Mas estou tão assoberbado de trabalho aqui. Gostaria de conversar com você. — Needlenose! Como está você. A que horas? — Sete horas. Ela está nos Apartamentos Park. em Westwood. — Há um certo Irving Schwartz ao telefone — disse-lhe a secretária pelo interfone. — Needlenose! — exclamou David. — Eu também gostaria de vê-lo. David. David? — Muito bem.. Também não pode ser em nenhum restaurante. ansioso por mudar de assunto. — Chega de falar em mim — disse David. ainda curioso sobre o que o Needle¬nose poderia querer. rindo. Tenho uma casa em Goldwater Canyon. David desligou o telefone. — Espere aí — disse David. — Ele diz que o conhece. David. Dan Pierce entrou no seu escri-tório. Mandaram-no para cá há seis meses. Fomos colegas de escola.. Era meu vizinho em Rivington Street. se não fosse muito importante. — Parece ótimo. — Você pode me explicar o que tem assim de tão importante um camarada que eu conheço des de menino? — Sabe quem é ele? — Claro que sei. por que podia ser tão importante? — Por que é que não vem até aqui no estúdio? Podemos almoçar e. enquanto isso. Pelo menos. David. . Quanto merecia um velho amigo? Cinqüenta dólares ou cem? — Mas seu lugar já é bem importante.

Strassmer cumprimentou com a cabeça e disse alguma coisa em alemão. Havia um lev e desafio na curva da boca e no ângulo do queixo. — Por falar nisso. Convidei um velho amigo para vir jantar conosco. — Já tentei e não consegui nem f alar com ele. A mãe. Era uma garrafa de Old Overholt. bar mitzvah. O som daquela voz fez David olhar subitamente para ela. casamentos. O ar de preocupação desapareceu quando o homem sorriu e estendeu a mão. e ambos se encaminharam para a sala de estar. David olhou para o relógio. David encontrou na mesa uma garrafa de uísque cercada de cálices. — Quem é.quando Bioff e Brown se viram em dificuldades. David conteve a duras penas uma careta. David olhou para ela. um tanto desapontada. da cozinha. David? — perguntou a mãe. Será a maior greve que você já viu. Aquela voz de novo. — Perdão. que pa recia ter uns sessenta anos. Estava vestida com uma blusa muito simples e uma saia presa na fina cintura por um largo cinto de couro. O cabelo preto. não se voltou. David fechou a porta da sala e perguntou à moça: — Quer me dar seu casaco? A moça tirou o casaco. ao mesmo tempo que a filha murmurou. cinemas. Ao menos. — Leve-os para a sala de estar. Se você não conseguir nada. David ficou surpreso. tudo! 10 David olhou para a mesa na sala de jantar. enquanto acompanhava a mãe até a cozinha. Devia ser Need lenose. Tinha experiên cia bastante para saber que os seios que espetavam tão agressivamente a seda daque la blusa não estavam tolhidos por nenhum sutiã. sr. estaremos na rua da amargura daqui a uma s emana. A coisa ainda ia ser pior do que ele e sperava. ela e eu iremos até a cozinha para ver se sua mãe precisa de alguma ajuda. que estava olhando uma panela. Sou Otto Strassmer. Strassmer. Era a bebida tradicional que aparecia em todas as cerimônias — nascimentos. — Fui obrigado. com voz agradável: — Muito prazer. Não era alta e seu corpo e ra magro. mamãe. Frieda. — Deve ser David. Vão parar tudo: estúdios. Há Schnapps em cima da mesa. — Muito prazer. Abriu a porta para um homem pequeno. David compreendeu de repente que a moça tinha tanto interesse por aquela reunião quanto ele. — Mamãe está dizendo que pode ir beber alguma coisa com papai. Rosa olhou para ele. Strassmer disse alguma coisa em alemão. mamãe. Sete horas. emoldurava uma te sta bem larga e belos olhos claros. não era tão carregado quanto o do pai dela. É o dirigente máximo dos sindicatos n a costa do Pacífico. Strassmer. — Não me disse que íamos ter tanta gente assim para jantar. Então respondeu à mãe: — Sã Strassmer. Querem fazer o favor de entrar? — disse ele às visitas. mas quase imperceptível. Acompanhavam-no uma senhora da mesma idade e uma moça . A mesa estava posta para cinco pessoas. David sorriu para elas. A sra. — E você acha que uma boa moça pode vir jantar pela primeira vez na casa de um rapaz s em os pais? David teve vontade de sair dali correndo. O homem sorriu. de cabelo grisalho e ar preo-cupado. ponha mais um prato na mesa. e minha filha. — Espero que consiga se entender com ele — continuou Dan. envolvidos por longas pestanas. A sra. Negócios. Rosa. As mulheres foram para a cozin ha e ele se voltou para o sr. mamãe. Enquanto isso. sem saber o que dizer. — Convidou alguém para jantar aqui? Esta noite? — perguntou a mãe. Tinha sotaque. mortes. arrumado em pequenos cachos na cabeça. A campainha da porta tocou. . David olhou para ele atônito. — Minha mulher. mamãe.

— L'chaim! — L'chaim! — repetiu David. Tossiu um pouco e virou-se para David. As duas famílias eram da Silésia. ano passado. mamãe. Mas era evidente que o sr. David — concluiu. hein? — Sem dúvida — murmurou David. tenho ouvido muitas coisas a seu res-peito. ele provavelmente estaria com o rosto dolorido de tanto sorrir. — Deve chegar a qualquer momento. Muito prazer em vê-lo. Jonas Cord. — Então é você o grande David. — O mundo é bem pequeno. — Aí está ele. Strassmer bebeu de um só gole. e levantou para abrir a porta. Devia ter-se lembrado de uma garrafa de uísqu e escocês! A seu ver. senão do fica estragado? A campainha tocou naquele exato momento e David deu um suspiro de alívio. como que pedindo desculpas: — Não posso dispensar um pouco de água. o Old Overholt era o maior responsável pelo fato de os judeus não gostarem do verdadeiro uísque. Aquele nariz enorme e pontudo que lhe tinha valido o apelido havia sido substituído por um nariz fino. Era assim que ia transcorrer a noite. — Puro — disse Strassmer. Rosa apareceu com um jarro de água e alguns copos. Voltouse para Strassmer. sorrindo: — Ah. estendendo a mão. — Ach. com lágrimas nos olhos. — Não disse a ele que era às sete horas? — Disse. mamãe — disse. Quando tudo terminasse. — Mais um? — perguntou.Uma mistura forte de aguardente de centeio que queimava a garganta e enchia o na riz de um cheiro desagradável de álcool. — Então por que ele não está aqui? Não sabe que quando é hora de comer é preciso comer. David encheu um cálice. pergun-tando: — Puro ou com água? Outra coisa tradicional: a garrafa tinha de estar sempre selada. David pensou por um momento no que a-contecia a todas as garrafas abertas que ficavam pela metade. David sorriu. David tornou a encher seu copo e sentou-se num sofá. que levantou o copo. era prima de seu pai. Pegou a garrafa e disse. com uma leve nota de horror na voz. E há muito te mpo tenho vontade de conhecê-lo. perguntando: — Onde está seu amigo? O jantar já está pronto e nada de ele aparecer. O gosto era horrível. sorrindo e colocando tudo sobre a mes inha. tomou-lhe a garrafa da mão e quebrou o gelo. . entregou-o e disse. num gesto quase ritual. Não sabe que trabalhamos ambos para o mesmo homem? — O mesmo homem? — Sim. — Mandei consertá-lo numa oficina. Em ne-nhuma cir cunstância. Talvez estivessem metidas no fundo de algum armário. Nesse exato momento. Acabou de beber o uísque. Tenho ouvido muitas coisas a seu res-peito. gut! David provou o seu drinque. Rosa retirou-se e David preparou um drinque com grande quantidade de água. O homem alto e elegante que estava à frente de David não tinha quase semelhança com o rapaz magro e nervoso de quem ele se lembrava. que contrastava agrada-velmente com a boca rasgada e o queixo forte. Sorriu ao ver a expressão de espanto de David. A mãe apareceu então à porta. gut Schnapps! David sorriu. Trabalho para ele na indúst ria de plásticos. Trabalha para ele no negócio de cinema. qualquer que fosse a ocasião. Frieda. Começamos a conversar e des cobrimos que minha mulher. Otto Strassmer sorriu. poderia se servir a bebida numa garrafa ab erta. Conhecemos sua mãe no shul. — Achei que podiam precisar disso — disse ela. tornou a tossir e olhou para David com os olhos lacrimos os. mesmo com água. quase aquili no. Strassmer não pensava da mesma forma. polidamente. Não me ficaria bem andar por Be-verly Hills com um nariz do East Side. — Sim — continuou Strassmer —. agua rdando o dia da libertação.

Com um narizinho desse. Que devo fazer para curar esse vazio no estômago que estou sentindo agora? Ela o olhou agradavelmente. nada havia de errado com meu nome! A penas Irving é mais fácil de pronunciar. — O que eu costumo receitar nesses casos é um pouco do knai¬dlach de sua mãe. Assim. Woolf. sra. O jantar já está pronto. O rosto da atriz ficara todo retalha do em conseqüência de um desastre de automóvel. não teria dificuldade em pronunciar os nomes. Ela é formidável nessas operações plásti cas. Passei o dia inteir o com fome só de pensar nisso. — Sr. Não havia mais nervosismo nos olhos de David. como seu amigo David. — Não há necessidade. sra. — Foi a dra. um ano depois. Irving olhou para David. Yitzchak? Ou ainda está metido com aqueles vagabundos da garagem? — Mamãe! :— exclamou David. nem sei como você consegue respirar.. Soube que foi ela quem tratou de Linda Davis no ano passado? David olhou com curiosidade para Rosa. chegando à porta. — Para mim. que a sopa já está ficando fria. Mamãe está quase estourando. — Knaidlach} Quem falou no meu knaidlach? — disse a mãe de David. Woolf. — Vamo s todos para a mesa. Strassmer quem me recauchutou o nariz. Mas. W oolf.O aperto de mão foi firme e cordial. Schwartz! — exclamou ela. sim. — Muito prazer em vê-lo. sorrindo. desconfiada. — Entre logo. Woolf? — Claro que me lembro de Yitzchak Schwartz — disse ela. — Como vai. cada vez mais zangada. Consertou também o nome. — Não tem importância. agora vou ver se a sopa ainda está quente. estava justamente querendo fazer-lhe uma consulta. — Irving mora aqui agora. Rosa olhou para o relógio. Strassmer levantou-se e a mãe de David olhou para Needl enose. O que havia de errado com o nome que seus pais lhe deram. — Virei. não será incômodo nenhum. se quiser — disse David. — Que foi que houve com seu na riz? — Mamãe! — protestou David. — Não sabia que conhecia meu am igo David. — Não bastou con ertar o nariz. Sorr iu para a moça. sra. — Você devia ter acabado a escola. mamãe? — Como vai. Mas. — Pois fez mal. David me prometeu que haveria sopa e eu sei que não pode deixar d e haver aquele saboroso knaidlach que só a senhora sabe fazer. — Ora. — Desculpem-me. quando ela reapareceu diante das câmaras. — Como você disse. Ninguém lhe havia dito que ela era médica. Entraram na sala de estar. permita-me fazer-lhe companhia. E a operação em Linda Davis fora realmente notável. sra. Teve de repente consciência de que os pais de Rosa o observavam nervosamente. — Bem. David — interrompeu-o o amigo. Já arranj ou um emprego. que agor a brilhavam zombeteiramente. não havia o menor vestígio. Ela sorriu. David correu os olhos pela sala. — Posso levá-la de carro. nada mudou. Isidore? Needlenose começou a rir e voltou-se para David. — Só nos conhecemos esta noite.. mas tenho de passar pelo hospital para ver um do-ente. com um ar de surpresa no rosto. . Rosa não estava presente. Também vim de carro. estendendo-lhe a mão. Woolf. — Mandei consertar. — Quer dizer que você é Irving agora? — bradou a mãe. A sra. Ao menos. Parou à porta. doutora? — disse Irving. 11 Quando o jantar acabou. — Lembra-se de Irving Schwartz. — Doutora. sra. Woolf não se conteve de satisfação: — Pois seja um bom rapaz e pode vir todas as sextas-feiras comer o meu knaidlach. Rosa entrou na sala no momento em que David ia apresentar seu amigo aos Strassme r.

Isqueiros de ouro e revólveres. E dois garotos do East Side de Nova I-orque numa n . Só agora os filiados do sindicato estão se recuperando do desemprego causado pela depressão. Irving. Graças a isso. Woolf. Rosa sorriu para a sra. Fazem muita propagand a sobre os fabulosos lucros das empresas de cinema. então. David ficou em silêncio enquanto o outro acendia um cigarro. Mas é Dan Pierce que trata de todos os assuntos trabalhistas na compan hia. Foi por isso que os botamos para fora. — Continue a ser um bom rapaz. e pode aparecer quantas ve-zes quiser. vocês verão que eles são m uito mais duros no trato do que nós. — Podemos falar agora. Não há quem não saiba dos salários astronômicos das estrelas e dos d irigentes das companhias. estão começando a agir nos sindicatos profissionais. quando Irving guardava o isqueiro de ouro. Nós. — De fato. — Não tem importância. Irving — disse David. e procurarei ajudá-los. Por isso temos de conseguir entrar num a-cordo. Tenho certeza de que podemos confiar em Rosa. E os próprios trabalhadores? Não têm direito a se fazer ouvir t ambém? — Na maioria. David a fez parar. temos muito que conversar. — Posso ficar esperando no carro. sorrindo. Os trabalhadores então acham que devem ganhar um pouco m ais. — E não precisam ter pressa os dois. — O que está sugerindo. do utora? Rosa fez um gesto. Será a ruína da companhia. Se isso acontecer. — Parece-me que você está querendo servir-se de nós para apagar um incêndio que sua própria gente ateou. mas os comunistas estão em ação. David. é que devemos decidir se que-remos tratar com vocês ou com os comunistas. — Também preciso ir. novos acordos c om o sindicato dos diretores e o sindicato dos escritores. muito obrigado pelo seu delicioso jantar. toda a indústria assinou. Naturalmente os comunistas ficaram com todo o mér ito por esse resultado. — E Bioff e Brbwn? — Eram uns canalhas. Vamos combinar uma hora para amanhã. Também está se servindo dos co-munistas como pretexto. Agora. Irving. David. Você deve sa-ber que não resistiremos se isso acontecer. perderemos para eles. você deve ter tido uma péssima impressão quando falou comigo pe o telefone. Yitzchak. Calculei que fosse assim. Não podemos. Depois.Irving levantou-se. não é preciso. onde se está pensando que os comunistas podem fazer por eles o mesmo que fizeram p elos técnicos. Só querem saber é do di-nheiro que recebem e es tão dispostos a ouvir quem quer que seja que lhes prometa mais dinheiro. Matou as saudades que sinto de casa. — Qual é a situação difícil em que você pode estar? Ninguém está fa-zendo pressão sobre você greve. Mas também estou numa situação d ifícil. o paletó se abriu um pouco e David viu o cabo preto de um revólver que saía de um coldre preso no ombro. os comunistas estão em condições de fazer promessas melhores. sra. — Sei perfeitamente disso. a justiça não poderia nem falar grosso com os dois. A mãe de David sorriu. eles não querem a greve. Dentro em pouco teremos eleições nos sindicatos profissionais. se não apresentarmos um bom result ado imediatamente. — Não. Woolf. — Não tiVemos muita oportunidad e de conversar. — Mas os comunistas estão em grande atividade nos sindicatos técnicos. sorrindo. há pouco. — Talvez — continuou Irving. Os comun istas estão fazendo uma campanha muito intensa e. e é isso que os comunistas dizem a eles todos os dias. Um lado não chegava para eles. Queriam receber dos dois lados. E muita gente está dando ouvid os ao que eles dizem. que conseguiram o mai or aumento da história do ci-nema. — Botaram? O que eu soube é que tinham sido presos. — E onde você acha que o governo encontrou a documentação necessária para prendê-los e proce ssá-los? Se não fôssemos nós. são incapazes até de pensar. — Vá — disse ela. — Não nos demoraremos. os mais velhos. quando saíram do edifício. — Desculpe. Neste mom ento. — Dan me disse que estamos ameaçados de uma greve.

— Desculpe ter atrapalhado assim sua festa. David parou o carro em frente ao hospital. Teve a impressão de que el a estava um pouco vermelha. Voltou-se para Rosa. Rosa? — Viemos de tão longe só para ficarmos livres deles. — O meu carro está do outro lado da rua. voltou-se para eles: — Querem saber de uma coisa. Mas tive muito prazer em revê-l a. Os nazistas. Mas tem a mesma louca ambição de poder dos nazistas. Vocês perdem e nós perdemos. por exemplo . São a mesma espécie de gent e e dizem sempre o mesmo. mas nada perguntou. Não tinha mais autoridade do que Dan para resolver uma situação como aq uela. — Não. — E em que mais está pensando. Contra você ele dispõe de outras armas. — Não tem importância. um Cadillac conversível. — Está querendo dizer que meu amigo Irving Schwartz é nazista? — Não. E não posso esperar mais. Gosto bem mais de ser chamada de Ros a. Poderia. Nós faremos um acordo por cinco centavos por ho ra logo. — Como sua mãe diria. dominam tudo. Por outro lado. antes de sair com o carro. à procura de emprego? Acha que eu devia ter feito isso? Tenho culpa de que meus empregados não têm juízo suficiente para escolher representantes decentes e para . Mas v ocês perdem mais: A companhia irá por água a-baixo. Irving seria incapaz de me ofender. — Deles? — Na Alemanha foi a mesma coisa. E não consegue falar com Cord. A comissão do sindicato tem encontro marcado com Pierce amanhã de manhã. mais cinco centavos no ano que vem e uma semana de trabalho de trinta e sete horas e meia: Dan Pierce diz que não tem autoridade para tomar uma decisão des sas. Rosa ficou em silêncio até quase chegarem ao hospital. — Está preocupada com alguma coisa. um homem não anda com um revólver se não tiver a intenção de utilizá-lo. Schwartz. Irving sorriu e deu uma pancadinha no ombro de David. vocês formam um belo par! Depois que ele dobrou a esquina. — Não sei o que ele teria feito se você recusasse. doutora. não digo com o revólver. Anda armado. d e poder. — Ótimo! Eu sabia que não teria nenhuma dificuldade em mostrar-lhe a verdade dos fatos . levar sua companhia à falência. Se não se entenderem conosco. — O que você quer que eu faça? Irving jogou o cigarro no chão. de comunismo. E com tudo isso só os comunistas é que ganharão. Todos me chamam de doutora. Deu partida no motor e. Viram Irving caminhar até o meio-fio e entrar no seu carro. Tomou-lhe o braço. David olhou para Rosa. teria de c oncordar com ele. — Com isso mesmo. Mas não havia tempo de esperar por Jonas. seu amigo não é nazista. — E o que acha que eu devia ter feito? Recusar um acordo com Irving e perder tudo pelo que venho trabalhando tão duramente há tantos anos? Levar à ruína todos os investid ores que depositaram na companhia sua fé e seu dinheiro? Jogar nossos empregados n a rua. terão de fazer as contas com os comunistas. Davíd. — Feito — disse ele. Ele sorriu. A greve será decretada. Ficou curioso por saber o que aquilo tudo rendia para Irv ing. Foi assim que fizeram na Alema nha. tudo ficará assentado. Seu ami go é um homem muito perigoso. doutora? — perguntou David. Gostasse ou não gostasse. — Nada. sr. Nós ainda teremos outros lugares ond e agir. mais cedo ou mais tarde. sabia disso? — Vi a arma. de repente. No fim. Havia coisas que não eram de sua conta. tomam tudo. que é quem deve decidir. David hesitou. vocês dois? — O que é? — perguntou David. — Os comunistas estão acenando com um aumento de vinte e cinco centavos por hora e u ma semana de trinta e cinco horas. Nessa ocasião .oite quente de primavera sob os céus estrelados da Califórnia a falar de dinheiro. Estou esperando há três mes es. os bandidos.

Nasceu com isso. David viu os olhos da criança encherem-se de lágrimas e teve por um momento a impres são de que ela iria mover a cabeça. A menina pegou um bloco e um lápis e escreveu alguma coisa que entregou a Rosa. Ros a estendeu a mão em silêncio e a enfermeira molhou um al-godão num vidro entregando a ela o chumaço umedecido. sua voz se levantara. mas um defeito desses pode prejudicar a vida de uma criança. Como a pequen a Mary. Agora fique quietinha. segurando sua mão. Ao menos. enquanto a enfermeira lhe tomava o algodão. Enquanto sua voz se fazia ouv ir mansa e confortadora. — Por favor. — Está tudo bem. vamos tirar essas ataduras e você poderá voltar para casa. voltando-se em seguida para David: — Quer entrar e ver onde t rabalho? — Não quero atrapalhar você. e Rosa saiu do quarto. A letra era um rabisco infantil e dizia: "Quando é que eu posso fala r?" — Isso deve dar-lhe felicidade — murmurou David. sorriu e disse: — Amanhã de manhã. — Uma menina linda — disse David. Ele pensou que era medo e tomou-lhe a mão. — Muito bem. Lábio leporino. Havia um brilho estranho nos olhos dela . — Pode doer um pouco. Pode trazer Rosa também. ela colocou a mão quente e firme sobre a dele. mas agora será como qualquer outra criança — diss e ela.manter um sindicato honesto? Sem que ele percebesse. ela passou rapidamente o algodão em torno dos lábios da men ina. . enquanto Rosa tirava um cigarro e ele o acendi a para ela. — Boa noite — disse ela. Mas isso não acon-teceu. ainda de mão dada com Rosa. — É. Strassmer. dizendo a David: — Agora podemos voltar para a casa de sua mãe. prefiro esperar aqui. O porteiro levou a mão ao boné e disse: — Um momento. Se não se incomoda. indignada. Es ta leu. Era Jonas Cord. David viu na mão de Rosa o papel em que a menina havia escri to e o pegou. Um porteiro desceu a escadaria do hospital e abriu a porta do carro. — Ninguém vai mais caçoar quando ela rir ou fal ar. — Você é bem valente. dra. Entraram no elevador. David? Ele se voltou tão surpreso que quase deixou cair o isqueiro. não é mesmo? A menina concordou com a cabeça. sim. David olhou involuntariamente para Rosa. Entre. — E muita. — Quer fumar. claro que você não tem culpa — disse ela. Havia em David um novo respeito por ela quando chegaram à porta principal do hospi tal. sei q ue não ficará pensando com raiva na minha ousadia em meter-me nos seus negócios. venha — disse ela. Cirurgia plástica não é apenas consertar narizes ou tirar a papada das atrize s. Enquanto desciam a escadaria. David notou-a sem dar grande atenção ao fato e puxou o maço de cigarros do bolso. Mas você não se moverá nem falará. — Fez o que achou estar certo. O importante é ajudar as pessoas para que tenham uma vida normal. — Boa noite. a acompanhou e subiu os degraus da escada ria do hospital. enquanto esperavam o elevador. alguém disse às suas costas: — Queria falar comigo. — Será melhor para mim. Nesse momento. David riu e. Você não imagina quanto. Rosa? Viu a porta da limusine abrir-se. De repente. A voz de Jonas fez-se ouvir com um riso calmo. Ficou na porta e a viu levantar delicadamente as ataduras do rosto da criança. que descansava no volante. depois que tirarmos as ataduras. uma grande limusine parou bem à frente deles. Amanhã de manhã. que eu vou buscar o carro do senhor. Os olhos da menina brilharam. muito quietinha. Mary. — Não. — Ótimo — disse Rosa. queri a. com um pouco de orgulho na voz. David.

Os sindicatos estão querendo aumento. — Já disse a Mac o que se deve fazer sobre isso. Rosa sentiu um aperto no estômago. de fato. ou melhor. Fala sempre no senhor. Rosa olh ou pela janela. Seu próprio pai dizia que a Alemanha estava tão adiantada em relação ao resto d . Muito obrigada. deverão ter lucros. Foi um pouco angustioso o instante de silêncio que se seguiu. A propriedade imo biliária sempre se valoriza muito depois de uma guerra. Isso absorverá os lucros. sr. — Darei. — E o que foi que o fez pensar que podia dispensar minha aprovação mais do que ele? Rosa viu David acender um cigarro e responder calmamente: — Achei que sua intenção era fazer-me levar a companhia à falência. de vez em quando. sob ameaça de greve. Ou expandir-se. — Pensei que as n egociações com os sindicatos fossem da competência de Dan. Temos de dar uma resposta à gente do governo. ao menos para Rosa. — Para que prosseguir? Estou satisfeito com a situação como ela está. Querem que se-paremos os cinem as do estúdio. Olhou para David.. Hitler vai se ver diante de um impasse. Jonas não comentou a resposta. David. — Por que Dan não pôde resolver o caso? — Porque você nunca respondeu ao que ele lhe informou nesse sentido. — McAllister disse que você queria falar comigo. Guerra. tratava-se do cuidado de um homem que está pisando em terreno desconhecido. Você não tem que lhes dar nada. Outra era colocar a questão com ta nta simplicidade e conci-são quanto Jonas. A voz de Jonas ficou mais fria ainda. Uma coisa era sentir que isso era inevitável. de agora em diante. ainda calmo. a luz de uma lâm pada da rua brilhava sobre o rosto de Jonas. como quem dissesse que dois e dois são quatro. Cord. sem dúvida. ao lado dela. A Alemanha dominaria o mundo. afastando-se de Los Angeles. e não de quem está co m medo. — Os lucros não durarão muito. Para prosseguirmos. Havia uma nota de cautela.. — Sobre que mais queria me falar? — O governo reiniciou a campanha contra os trustes. sim. — Deu? — perguntou Jonas. — Não dê atenção aos sindicatos. — Já fomos até onde era possível por nossa conta e risco. Estavam indo na direção de Santa Bárbara. Sem emoção. — Como vai seu pai. Você não deixaria de me d zer isso há dois anos. até esta noite. Ela sentiu David mover-se no banco ao seu lado e inclinar-se para o lado de Jona s. sr. A voz de David soou firme. — Dê-lhe muitas lembranças minhas. por que sempre se tinha a esperança de estar errando. E então não haveria mais para onde ir. precisamos de sua autorização. O grande carro aumentou de velocidade quando entraram na Coast Highway. mas. — Eram. mas com alguma frieza na voz. e depo is para Jonas.12 Rosa sentou num canto da grande limusine. Já lhe mandei há algum tempo todas as informações necessárias a esse respeito . Vocês já eliminaram os prejuízos e. ou fazer estourar toda a falsa prosperidade que deu à Alemanha. Teremos de contemporizar até depois d a guerra. e ele achou que nada podia fazer sem sua aprovação. — Já dei. Cord. — E você pensou de maneira diferente? — Exatamente. quando deveremos conseguir um bom preço pelos cinemas. Nestes próximos anos. A voz de Jonas não tinha a menor emoção. Estava escuro dentro do carro e. Rosa? — Muito bem. — E se não houver guerra? — Vai haver guerra. Jonas não pareceu muito interessado. até que começaram a afetar o destino da comp anhia. Passaram então a ser da minha competência.

Woolf. Bonner trará o seu financiamento próprio. não estou depreciando Dan. — Dan é assunto da sua responsabilidade e não da minha — disse David. não haverá pre-juízo. você receberia uma esposta. Como poderiam os americanos saber tão pouco das coisas? Acreditavam honestamente q ue poderiam escapar incólumes dessa guerra? Como podiam conversar tranqüilamente de negócios. Nevada g . Robair. — Mas isso não é possível. aconteça o que acontecer . — Depois. Nunca recebi resposta e Zanuck assinou contrato com a Fox. Só faz uso dos revólveres em último recurso. Tem demonstrado ser um administrador extremamente capaz e um diretor de estúdio ex-cepcional. para morrer ali. Sugeri que ele fizesse o papel de Max Sand em O renegado. Com a porcenta gem da distribuição e a nossa cota de lucros. E Jonas continuou. há o dinheiro — continuou David. — Se fosse minha intenção autorizá-lo a entrar em negociações com Zanuck. o que Dan realmente é. com uma voz cortante. Apagou o cigarro no cinzeiro do carro. a sua frente. David ficou em silêncio. Não sentia também a so mbra de Hitler es-tender-se sobre ele? Ela escutou David rir e o ouviu. E a supervisão dele no resto do programa só servirá para nos ajudar. e disse: — Em primeiro lugar. na qual podemos considerar lucro o que sobra ao eliminarmos nos-sas necessidades vitais. Ele continuou vivo. E por que acha que Dan não é capaz de fazer o mesmo com Bonner? David hesitou. — E achou que podia iniciar essas negociações sem me consultar previ-amente? — Há mais ou menos um ano. ele acaba dirigindo-se às montanhas. é criar uma prosperidade fictícia para a companhia. Já resolvemos isso. você mostrou mais força criadora nos dois filmes que fez do que Dan nos cinqüenta e tantos que produziu nos últimos dois anos. Cord. — Não há negócio que possa ser administrado por s cabeças. Mas o que acontece é que ele não tem a força criadora de homens como Bonner e Zanuck: A capacidade de captar uma idéia e transformá-la. Rosa sorri u ao compreender que ele aceitara o elogio como um fato incontestável. inclusive a de cre scimento. — E depois? — perguntou Jonas. Cinco milhões de dólares para fazer dois ou três grandes filmes. — Do jeito que você quer. Mas você é que terá de resolver o caso com Dan. — Já pensou o que isso representaria para Dan? — perguntou Jonas. O que temos feito. Depois de um momento de silêncio. — É por isso. Jonas sorriu. pedindo autorização para entrar em negoc iações com Zanuck. Vou começar a procurar argumentos para ele. a partir do ponto em que o filme acabou. converteu-se à religião. — Presumindo-se que Dan pudesse desenvolver e ssa força criadora. Fará quatro filmes por ano e o nosso inves timento será mínimo. adotou outro nome . David disse: — A falta de força criadora é o que distingue um verdadeiro produtor de um diretor de estúdio. Mas a verdade é que não estamos criando nenhuma fonte real de lucro. — Faremos de conta que nada disso aconteceu. Hesitou por um mom ento e acrescentou: — E haveria ainda muito para Dan fazer. em virtude de economias força das. com surpresa. não — disse Jonas. sim. Traçou um programa que man tém o estúdio em funcionamento com a máxima eficiência. Jonas virou-se para David e disse: — Estive com Nevada hoje. — Sim. haveria necessidade de dinheiro para atingir isso. — E é por isso que você tem conferenciado com Bonner? Rosa percebeu em David um movimento de surpresa. pelo vigor pessoal. Na minha opinião. tendo consciência do que ia acontecer? David era judeu. num grande filme. — Ótimo. — Pode fazer o negócio com Bonner. mandei-lhe uma nota.o mundo que os ou-tros países levariam um século para alcançá-la. Ele vai fazer a tal série para nós. Você não quer investir esse dinheiro . pode levar-nos de volta para onde ficou o carro do sr. não passando das despesas gerais em cada um deles. E resolveu passar o resto da vida ajudando as pessoas que não têm ninguém mais a quem recorrer. sr. não havia segu rança em sua voz. continuar: — Então estamos todos no mesmo barco. A força criadora faz a pessoa acreditar que pode fazer filmes melhor do que todo mundo e lhe dá a capacidade de fazer os outros acredita rem nisso também. — Não será preciso. No filme. sem tomar conhecimento do elogio de David. Pela primeira vez.

— Não é preciso você me levar. — Uísque escocês. acho que é muito boa médica. se você quis r. se houver. tomando o copo que ela lhe entregava.ostou da idéia. com manchas vermelhas. Posso pegar um táxi aqui. Poderíamos ir até lá. mas pouco depois levantou e foi olhar o quadro. — Du-as pobres criaturas d . Não é longe daqui. um gênio. Ela acendeu a luz e David a seguiu até uma grande sala de estar. que fundou a Norman Films. do mesmo modo que toco piano. Numa extremidade. Não sou boa em matéria de pintura. um cavalete com um quadro a óleo inacabado. Ma s é minha maneira de descon-trair. colocando a chave na porta. E assim que com-penso o fato de não ser um gênio. Eu sou apenas uma boa operária. não foi? — Sim. Pi-casso. "E por que Nevada não iria gostar?". onde não havia muit a mobília. Já estudei com médicos que eram gênios e conheço muita gente na profissão . — Não repare no estado da casa — disse Rosa. E muito verdadeiro. Era um pôr-do-sol so bre o Pacífico. na outra. Pode fazer c oisas com plástico e cerâmica que ninguém mais pode. E Jonas Cord é ta mbém. Porém não sou tão boa quanto queria. Não havia em toda a indústria cinematográfica um só astro de filmes do oeste que não agarraria com as duas mãos a oportunidade de fazer uma série assim. que fez confe-rência s no colégio onde eu estudei na Inglaterra. uma grande parede de vidro de frente para o mar. estavam um avental e uma paleta. Mas. — Não tenho tido tempo de vir dar uma arrumação. Ainda não sei ao certo em que setor. Não . a sua moda. — E eu também — murmurou David. sim. Compreendo perfeitamente. — Acho que sim. Daí a quinze minutos estavam chegando. — Talvez você não esteja sendo justa consigo mesma. — É triste. O carro parou em frente ao hospital. David sentou. — Escute — disse David. P erto dela. Era uma coisa que empolgava ime diatamente a imaginação. eu me conheço e sei que nem me aproximo disso. Sigmund Freud. que eu conheci na França. Jonas abriu a porta e disse calmamente: — Pode descer. — É. — Há. ao mesmo tempo em que perguntava: — Foi uma grande noite. Os dois ficaram ao lado do carro e viram a grande limusine preta desa-parecer. No chão. o que acha de tomarmos um drinque em algum lugar? Ela hesitou um pouco. E todos têm uma qualidade comum: a força criadora que lhes permite fazer coisas que antes deles ninguém fez. Uma noite e tanto. pelo que sei. não é? — disse ele. Meu pai disse quase a mesma coisa a respeito del e. — Também tenho conhecido alguns gênios. Um grande médico ou um grande cirurgião precisam também de força criadora. de vencer as frustrações que essa minha incapacidad e me causa. — Não há muitas pessoas que o sejam. sim. realmente. — Nem pense nisso. amarelas e alaranjadas sobre a água quase neg ra. Pinto mal. de certo modo. Fazia tudo o que agora nem dez homens conseguem fazer. A conferência estava terminada. Há tantas coisas que ele é capaz de fazer que é uma pena vê-lo desperdiçar-se em mil atividades. são todos gênios. da capacidade de fazer o que ninguém mais pode fazer. com um sorriso. que é um amigo de me u pai. Meu tio Bemie. E Jonas a tinha. Meu pai é. Voltou-se para o mar e continuou a falar ao lado dela. Ouviu o tilintar do gelo nos copos e voltou-se. Porém logo aceitou: — Tenho uma casinha na praia de Malibu. um gênio. sorrindo —. Isso é o que se pode chamar de força criadora. — Vai beber o quê? — perguntou Rosa. era um deles. olhando para ela. George Bernard Shaw. O que você disse hoje foi muito revel ador. D avid abriu a porta do carro e Rosa entrou. pensou David. — Compreendo o que você quer dizer. havia uma lareira. Sente-se enquanto eu preparo. Um sofá. — Que foi? — A respeito da força criadora. algumas cadeiras e duas mesinhas com abajures. de modo que sei o que estou dizendo. — É seu? — perguntou ele.

Não era nada que se parecesse com isso. o primeiro-ministro Winston Churchill disse hoje. quando minha mãe me chamou para jantar a fim de conhecê-la.. Estava na hora do noticiário das seis. Prendeu a respiração. sentiu pela pri meira vez o gosto de bater em retirada pela areia. Rosa desligou o rádio. Virou-se e olhou seu corpo nu no espelho por cima d a cômoda. solenemente. — Podemos? — Claro que sim. Strassmer. Viu Rosa volta r também da água e caminhar na sua direção. rindo. — Pelo menos foi o que algum gênio afirmou.. minha maior vontade era nem aparecer por lá. Pensei que você fosse um idiota. — E um mar tão grande! — replicou ela. a senhora está grávida! Ela tinha rido. — O maior de todos — disse ele. Ela sentou ao seu lado e disse: — Não achei a água tão fria assim. Dentro em pouco começaria a arredondar-se. — Creio que está quente o bastante para um banho. Todos os nós es-tão desatados. No mesmo instante. sob uma violenta tempestade. Ela caiu em seus braços.. — Sabe. David saiu da água e se estendeu na toalha aberta em cima da areia. que enchia o quarto enquanto ela trocava de roupa. — Pois eu achei ótima. Era só o que se ouvia. Com os flanc os assim expostos. Rommel nada pôde fazer senão bater em retirada. O maior do mundo. Os braços dela se fecharam em torno da cabeça de David. cap turando sua virílidade. Levou a mão à barriga. Virou-se de lado e se olhou. — Mas.estituídas de genialidade aqui paradas a olhar o mar. — Sente-se melhor agora? — perguntou ela. as mãos dela estavam em suas coxas. Quando era garoto. Mas não era isso o que ela tinha vontade de ouvir. na direção do mar. Sem dúvida alguma desprep arados para a vigorosa ofensiva. costumava tomar banho no cais do East Side . acho que o maior mar do mundo não se zangaria se duas pobres criat uras tomassem um banho nele. Vamos beber em honra desse fato. Ligou o rádio e ouviu a voz do locutor. Rommel. — Sim. Sentiu-a estremecer toda quando seus dedos apertara m delicadamente o bico. Hoje o orgulho do Exército alemão. os italianos se renderam em massa. Sorriu ao lembrar da surpresa que o dr. Mayer tivera. Notícias de guerra. Em Londres. — Ótimo. Beberam e ele olhou de novo para o mar. Acendeu um cigarro e passou-o para Rosa. Há um calção para você dentro do armário.. Era uma mulher tão perfeita que ficava difícil lembrar-se de que era também médica. — Também não tive muita vontade. tendo na boca um gosto de mar. fazendo a noite desaparecer. a ''Raposa do Deserto ''. quando Montgomery iniciou sua ofensiva na direção de Tobruk. por baixo do maiô. foi exatamente isso que o médico me receitou. Rosa — disse ele. David! Eu sou uma mulher! 13 Rosa entrou na casinha da praia e foi diretamente para o quarto. . — Ora — disse Rosa —. Sentiu o coração pulsar desor-denadamente quand o apertou o rosto de encontro aos seios dela. dra. De repente os dedos dela o puxara m desesperadamente e a voz era dura e insistente: — Não seja tão delicado. Olhou para o re lógio na mesinha-de-cabeceira. quase timidamente —. David procurou com uma das mãos o seio. Ainda estava tudo quase normal. David tirou lentamente o maiô de Rosa. Deu duas tragadas no cigarro e devolveu-o a David.

quando Jonas tentara alugar um apartamento . Mergulhou na água quente da banheira. Ao menos. — Parece-me que os investidores não têm motivos de queixa. espalhou os sais de banho na água. Olh ou-se no espelho do banheiro. Se David tivesse conseguido convencer Jonas a contribuir pa ra o financiamento.. Em geral. Temos um investiment o considerável na companhia. Pela primeira vez na vida. e os trinta e dois por cento de ações que ele ainda possuía estavam livres e desembar açados. Mas o senhor entende perfeita-mente o que estou dizendo. sentia-se feliz por ser mulher. Já tive negócios com ele em outras ocasiões. Isto é uma coisa que costuma acontecer a muita s mulheres. Sem dúvida. Seis milhões de dólares naquele ano. quando David ligaria de Nova Iorque. o sr. mas. Mas o sr. Mas tinha todo o direito a is so. O cheiro lhe chegou ao n ariz e ela espirrou. A pele estava clara e rosada e os olhos cintilavam . David olhou-o cheio de curiosidade. para disc utir os nossos problemas comuns — dissera Sheffield. um corretor chamado Sheffield fora procurar David. Sentia-se orgulhosa. Woolf. sr. especialment e em vista dos lucros deste ano. Quase langui-damente. Mayer. Cord é um homem muito ocupado. O sr. Já re-cuperara seu investimento primitivo. David olhou para o livro de contabilidade encadernado em couro azul.— Era o que eu pensava. Cord não quer. as cifras prova vam que ele estivera certo em fechar o contrato com Bonner três anos antes. De qualquer modo. Riu sozinha.. Por outro lado. numa companhia grande como aquela. dr. Quase dois milhões no ano passado. dr. Cord não quis. Não h avia em toda a história da medicina um só caso de homem que houvesse dado à luz um fil ho. Pôs um robe sobre o corpo e foi para o banheiro. — Gesundheit! — disse em voz alta. No ano anterior. como as do Boul evard Park Hotel. M as havia alguém que estava comprando. Só que desta vez Jonas estava do outro lado da cerca. Quer ia sentir a felicidade na voz dele quando re-cebesse a notícia. Cord. Não podia demorar-se muito tempo ali. enquanto o homem se sentava. Era o mesmo que acontecera com o tio Bernie. Ali estava uma coisa que só ela podia fazer. — Mas parece que nunca ninguém sa be onde ele está ou como pode ser encontrado. A quase totalidade desse lucro provinha dos grandes filmes que ele mesmo pro duzira e financiara.. David já estava mesmo esperando que ele tocasse nisso. — É verdade. O que a surpreendeu foi o sentimento de orgulho e felicidade que a empolgou. os lucros seriam naquele ano de dez milhões de dólares. — Não fique tão escandalizado. Dizia-se que era a fi gura de proa de um poderoso consórcio e que possuía ações da companhia em número consideráve l. como Bonner havia proposto. mas preocupava-se com o fato de que a gravidez pudesse afastá-la do trabalho e desorganizar sua vida. Só uma coisa inquietava. — Há quase um ano estamos tentando conseguir uma conferência com o sr. o harém de Cord. a tal ponto que não é possível tolerar uma administração displi cente ou uma evidente negligência em face das oportunidades de lucros. isso representava controle. à medida que as cotações subiam. Estamos prontos a discutir um plano de posse de ações e particip ação nos lucros para certos diretores. — Mas. Precisav a estar perto do telefone às sete horas. não era absolutamente nada disso que estava acontecendo. Nun ca esperara que fosse se sentir assim..David. — Reconheço sua lealdade. Um dia. feliz e entusiasmada. Não tivemos nem resposta às nossas carta s. Mas acontece que já estamos perdendo a paciência. O menos que se pode dizer é que ele é um excêntrico. sr. Cord tratara de liquidar pouco a p ouco suas ações. Era um segredo conhecido de todo mundo na indústria. Mayer. Não era nenhum receio de ordem física. E sem dúvida alguma não te mos o menor interesse em onerar a companhia com certas despesas. A coisa havia começado dois anos antes. A criança ainda nem se formara e ela já estava conversando com ela. A idéia de ter um filho sempre a deixara al armada. Sheffield. como diziam. o grupo que represento estava disposto a adiantar o financiamento necessário para alguns filmes que teriam duplicado os nossos lucros. Bonner ganhara pessoalmente outro tanto. — Eu sei. abriu a torneira da banheira.

Isso havia acontecido dois anos antes. um verdadeiro tumulto. E o que Sheffield estava dizendo é que. Temos certeza de que ele não se interessa por isso. isso custava muito dinheiro à companhia. Sem dúv ida alguma. observando que nenh uma das moças ganhava por ano o que cada apartamento custava por mês. — E se eu lhe pedisse q ue deixasse as coisas nesse pé? Se eu conseguisse convencer o sr. — O sr. Por mais que faça. pois nunca deu sequer uma resposta aos nossos pedidos de uma reunião. A entrada de trinta moças em outros tantos apar tamentos. fez o estúdio mandar para o ho tel todas as atrizes contratadas que quisessem instalar-se lá. David recostou-se na cadeira e disse ao corretor: — Creio que não é preciso lhe dizer que o sr. se eu não concordasse com o senhor? — Não creio que isso será necessário. Foi o caos. não. de repente. E a as-sinatura era de Bonner. Servindo-se da companhia como um subterfúgio. Era um compromisso. Cord prestasse algum serviço à companhia. — Neste caso. Cord. David. Devolveu o documento a Sheffield sem dizer uma palavra. E tenho aqui uma promessa assinada pelo sr. um homem como Jonas Cord. Com ou sem os cinco por cento de sua propriedade. Cord a adotar al gumas de suas sugestões? Isso seria satisfatório para o senhor? Sheffield sacudiu a cabeça. Os jornais trataram lon-gamente do assunto. Jonas sempre lhe havia pareci do invulnerável. sua a ssociação com ela não está compreendida na categoria comum dos empregados. sim. Já disse que dispomos de uma quantidade considerável d e ações. Jonas fraquejava. Por con-seguinte. aquilo era uma coisa em que havia pensado des . por que veio me procurar? — perguntou David. — Com todo o respeito que sua sinceridade merece. Ainda não compareceu a uma só reunião da diretoria desde que sua associação com a companhia começou. na semana que vem. As escaramuças preliminares estavam terminadas: iam entrar diretamente no assunto. como diretor principal da companhia. causou um alvoroço tremendo. — Não faríamos qualquer objeção se o sr. Sheffield aproximou-se mais de David. Acontece que estamos firmemen te convencidos de que Cord é prejudicial ao progresso da companhia. — Tenho muito prazer em ouvir isso — respondeu cautelosamente. Cord nunca pod erá dispor de mais de trinta por cento das ações. seria o novo rei. David pegou o papel. Mas tudo estava mudado. Nunca isso lhe havia passado pela cabeça até aquele momento. sob os olhos escandalizados do gerente do es-tabelecimento. No dia em que o contrato foi assinado. — Não será necessário. Mas ele nã e mostra absolutamente ativo. Cord não recebe qualquer remuneração nem cobra da companhia suas despesas. Julgamo-nos no dir eito de ter voz ativa na administração. — Quer dizer que promoveria uma luta entre os acionistas. Cord? Temos tantas ações quanto ele ou talvez mais. Fazemos o melhor conceito de sua competência e gostaríamos de vê-lo no lugar que realmente lhe cabe. Lembrou-se. do velho depósito onde começara a trabalhar. De vez em quando Jonas mandava algum convidado especial hospedar-se lá. Bonner elevam nossa participação nas ações a trinta e oito por cento. sem dúvida alguma. Alguns corretores já se comprometeram conosco a conseguir mais cinco por cent o. — Terei prazer em encaminhar suas sugestões ao sr. É claro que com a dev ida autoridade e a remuneração correspondente. O hotel estava mais do que di sposto a cancelar o contrato. David respirou profundam ente. arrendou vários andares do respeitável hotel das vizinhanças de Be verly Hills. mas Jonas não queria saber disso. Por que não? Afinal de contas. Os dez por cento do sr.do hotel para uma garota e teve sua proposta recusada. quando será realizada a reu nião anual. — Sei disso perfeitamente. isso nos dá maio ria suficiente para controlar a companhia. O rei tem de morrer. Pouco a pouco. qua se todas as moças se haviam mudado do hotel e muitos apartamentos estavam vazios. Bonner: ele nos venderá todas as ações em seu poder no dia 15 de dezembro. Era o mundo numa bandeja de prata. mas o contrato era por quinze anos. o sr. Só que dess a vez não era mais um chefe de plataforma e. — Achamos que o êxito da companhia deve ser atribuído diretamente a sua pessoa e a sua orientação. ficasse do lado deles. se ele. Cord comprou o interesse de controle da companhia. Mas tem certeza de que o controle da companhia ainda pe rtence ao sr.

viu lágrimas chegarem a seus olhos e rolarem pelas face s. — Não pode esperar até amanhã. Já p assava das oito horas. — Estarei aí no fim da semana. Rosa? Estou numa reunião muito im-portante.. e ela só saberia tarde demais? Pegou o telefone e pediu uma ligação para o hotel onde ele estava em Nova Iorque. — Alô — disse ele. ferido. Tinha de compreender. — David! Estou com tantas saudades de você! Seria tão bom você estar aqui junto de mim! Ela ouviu o leve ruído de um fósforo riscado.. Tocou durante muito tempo. E você? — Também não — disse ele.de seu primeiro dia de trabalho no depósito. — Está zangad o comigo por eu estar com tanta vontade. Posso sentir você derramando vida dentro de mim. — Deite-se por um instante na cama... David . Havia ocasiões em que ela também estava muito ocupada para ate nder ao telefone. Escondeu o rosto no travesseiro e ali f icou em silêncio. Em geral. — Oh! Está sozinho agora? Está no quarto? — Sim — respondeu ele. David? — Estou bem. nunca deixava de avisá-la. Os seios firmes . ser uma mulher era isso? 14 Maurice Bonner sentou-se na cama e viu a mulher caminhar até uma poltrona e sentar . — Rosa. com o rosto encostado à porce-lana fria do banheiro. — Estou no quarto. Com uma ponta de surpresa. Estudou-a com admiração. Rosa largou o jornal em cima da cama e pegou um cigarro. David! Posso ver agora. — Estava preocupada. Não devia ter telefonado. David tomou isso por um sinal de a-quiescência. — Está sentado na cama? — Estou. não agüento esperar. por fim. David. Rosa desligou e pegou o cigarro que ainda estava aceso no cinzeiro. ainda que o telefonema fosse dele. Ele dissera que estava ocupado. nervosa. Olhou para o relógio-. Ela hesitou. Caiu então de joelhos. — Oh. sentindo-se invadida de repentino calor. numa rua de Nova I orque. Então. querido. — Não tenho nada em cima do corpo — murmurou. pensou ela. com a mesma voz. com a mesma reserva. Quero que você me sinta como eu sinto você. A mulher es-tava nua e era muito bonita. A voz dela era quente e lânguida. Isso significava que em Nova Iorque eram mais de onze. Levantou-se da cama e foi até o banheiro. querida. Houve um estalo e David saiu da linha antes que ela pudesse dizer alguma coisa. Até amanhã. quando ele sabia que iria trabalhar até tarde . — Você vai bem. David. Por que não telefonou? — Estou em reunião. — Obrigado. rindo.cautelosa. David? — Não. Ou viu as vozes das telefonistas através do país e. — Estou deitada na cama — disse ela e esperou que ele fizesse a pergunta habitual. — Felizmente. a cinco mil quilômetros de distância. num silêncio atônito. Apagou-o. com voz baixa e cautelosa. — Não agüento esperar. Da vid já devia ter telefonado. Olhou-se no espelho. sim. A fumaça acre irritou sua garganta. David. — Rosa! Eu. Teria acontecido algo com ele? Estaria ele estendido. — Eu seria um caso capaz de dar muito trabalho a Freud — disse ela. o telefone tocando no apar tamento dele. Tenho uma notícia maravilhosa para você.

Pois comigo é a mesma coisa. Ele pegou a toalha. — E agindo dessa maneira não está enganando seus fregue-ses? — Você se sente enganado? — perguntou ela. A moça soltou uma risada. Levantou-se. Ele riu.. Depois conta aos amigos que c omeu ali um filé ótimo. Viu os músculos das costas se contraírem de repente. a coisa é diferente. mas tão bela quanto uma pros-tituta devia ser e quase nunca era. o melhor que já encontrou. — Vocês todos são a mesma coisa para mim. Ele voltou para a cama e se sentou. sorrindo. mostrando os dentes tortos e desiguais em seu rosto comprido de cavalo. — Quer dizer que para você não teve importância nenhuma? Mais um homem apenas. deixando a toalha cair no chão. Tenho de dar tudo o que posso. Ela sorriu e se levantou. Havia muito te mpo. — Não. A mulher acendeu um cigarro e continuou: — Escute. tiro uma semana de férias e vou para um desses ranchos que arranjam as coisas para mulheres casadas em férias. — Quer dizer que nunca sente nada? — Sem dúvida que sinto. Mas. Há sempre algum falso cowboy que pensa que está me dando o máximo. Mas quer saber da verdade? — Claro que sim — disse ele. quando ela se voltou para apanh ar o maço de cigarros em cima da mesa. — Você é terrível. — Valeu a pena? — Acho que sim — respondeu a moça. Dessa vez. Havi a uma mesa de massagens encostada à parede.e cheios pousavam no tórax de linhas delicadas. Eles pagam para ter a perfeição. Ele riu. já é meia-noite. Negócio fechado. Ainda se sente enganado? Ele riu. Quando estou mesmo com vontade. Percebeu de novo o calor que lhe tomava o corpo. Tudo corr e a seu gosto e até melhor do que você jamais esperou. Vocês estão jogando e em dado momento ele di z: Estive ontem com uma mulher que é um estouro. Aposto que há muito tempo não faz isso três vezes em tão pouco tempo. passou-a pela cintura e perguntou. jogando-lhe uma toalha. assim tod o peludo. debaixo da janela. Era linda. Chama-se Jennie Denton. eu não sabia que você estava fingindo. A mulher tinha razão. Não se incomoda de falar a respeito e recomenda aos seus amigos. É o mesmo que fazer isso com urna garrafa de C oca-Cola entrando em mim. Minha profissão é essa. que depois se afinava nas coxas e na s pernas longas e esbeltas. porque não preciso dar nada em troca. Mas nunca com meus fregueses. Por que não vai experimentar? Você então chega e bota o seu dinheiro em cima da mesa. com indiferença. porque podia se ver no espelho. A barriga sólida e lisa terminava ab ruptamente na surpreendente eminência do púbis. Jogou as cobertas para o lado e saiu da cama. achando-se de repente jovem e forte.. que não se sentia assim. Estava trabalhando. Ele nada disse. — Você ainda é mais moço do que eu pensava. Daqui até amanhã é outro tanto e mais o almoço pago. talvez uns vinte anos. sorrindo. — Não estava fingindo. escute. Sabia perfeitamente disso. Sou humana. A mulher apontou pa ra a mesa e disse: — Suba. — Venha. não foi? — Parece-me que você julga bem as coisas. ao mesmo tempo em que ace ndia um cigarro: — Foi bom? Ela não respondeu. Não posso me dar a e sse luxo. E está mesmo. Bonner a seguiu até o grande banheiro com uma enorme banheira de mármore no chão. olhando para ele. — Cubra-se. — Ih! Como você é feio — disse a mulher. — Você parece um macaco. Mas. Mas. — E o que tem isso? — O trato foi até meia-noite. Talvez não no sentido comum d a palavra. . você vai a um restaurante e janta muito bem. que vão experimentar. sim. Você te m um amigo. sim? — continuou. de qualquer modo. O que ela dizia não era novidade. é Irving Schwartz. Com quem paga.

esvaziando a garrafa na água da banheira. rindo. Entre na banheira. A moça lhe entregou uma grande toalha felpuda. De repente. Fechou os olhos. — Enxugue-se e volte para a mesa. — Quero ver como você é debaixo de todo esse pêl . molhando o pincel no copo e fazendo espuma com o sabão. Encheu um copo com água e molhou uma toal ha na torneira da pia. Com a presteza de uma longa experiência. Só os idiotas bebem isso. A rolha estourou e o champanhe espumou em suas mãos. Quero raspar as costas e os ombros. — Não no rosto. — Chega de narcisismo. Costumava fazer isso quando estava no hospital. O zumbido do vibrador par ecia esticar e desprender-lhe os músculos do corpo. — Trabalhou num hospital? — Me formei em enfermagem aos vinte anos. Ao fim de algum tempo.. O vinho produziu uma sensação refrescante na pele de Bonner. já começando a ensaboar seu peito. E muitos engraçad inhos pensando que podia ser de graça! Ele riu ao sentir a navalha na barriga. Um cheiro forte de jasmim impre gnou imediatamente todo o banheiro. É para a banheira. — Mas. — Por que largou? Ele quase não sentia a navalha passar-lhe pelo corpo. É melhor do que qualquer ban ho de espuma — disse ela. — Fiz a barba hoje à tarde. Apanhou um aparelho de bar ba. fumaça e cheiro de jasmim do sabonete. — Isso é melhor do que um banho turco — disse ele. dezoito horas de trabalho por dia. Ela sorriu para ele pelo espelho. desligando o vibrador. A água envolveu-lhe o co rpo de calor. Ele se sentou na banheira. O cheiro de mentol do sabão che gava até o nariz. A água estava apenas um pouco mais quente do que a temp eratura do corpo. Quando saiu. Colocou tudo na beira da pia perto da mesa. Ela deixou a garrafa no chão e apanhou uma caixa de cigarros dentro do armá-rio. Quando havia uns dez centímetros de água na banheira. a moça fechou a porta do banheiro e dis-se: — Sabe que não fica mal sem aqueles pêlos todos? Ele se olhou no espelho pendurado atrás da porta e sorriu. Tirou um cigarro. Colocou a garrafa de champanhe no chão. Entregou um s abonete dizendo: — Agora tome um banho quente de chuveiro e esfregue-se bem. ela tirou um pequeno vibrador do armári o e o ligou na tomada. ele tinha a sensação de estar vinte anos mais moço. acendeu- . abriu o vidro e deixou algumas gotas caírem dentro da água. E tive distinção durante todo o curso. — Isso é um banho turco — replicou ela. — Faz cócega. Ele deitou na banheira e daí a um momento ela estava de volta. ela colocou o vidrinho na borda da b anheira e apanhou a garrafa de champanhe. — Agora espere um pouco aí. Ela foi até a banheira de mármore. começando então a fazer a massagem. mexeu nas torneiras e experimentou a água até ficar n a temperatura desejada. — Estenda-se aí. O corpo era limpo e br anco por baixo de todos aqueles pêlos. — Deite-se e fique quieto — disse ela. — Sessenta e cinco dólares por mês. fechou as torneiras. Ficou deitado de bruços e descansou a cabeça nos braços. um tubo de sabão de barba e um pincel. — Esqueceu as taças — disse Bonner.. estava vermelho e satisfeito. — Pronto. Enquanto Bonner levantava. tirou a folha metálica do gargalo e torceu os arames. Levante-se. Trazia uma garrafa grande de champanhe e um vidrinho. ela bateu em seu ombro e o fez levantar-se. — Vire-se. que eu já volto. — O que vai fazer? — O que você acha? Vou fazer sua barba. olhando-a. Quando Bonner se estendeu de novo na mesa. — Não vou cortá-lo.Ele sentou à mesa e viu Jennie abrir o armário de remédios. — Deite-se — disse ela. Depois. seu bobo — disse ela. A moça tinha razão. Parecia até mais magro. — Não seja bobo.

É errado do ponto de vista comercial. — Não. Está com fome? — Morrendo de fome. filé. pão quente e torradas. A mexicana encheu a xícara de Jennie e foi depois para a cozinha. O corpo a havia absorvido como uma esponja . toicinho. — Café. — Gardner. colocando no lug ar um prato. — Que magnífico desjejum! — disse ele. Ela apertou com o pé direito um botão preso no chão ao lado da mesa e uma campainha co m som de carrilhão soou na cozinha. — É uma coisa louca — disse ele. — Bom dia. Não houve necessidade de expelir a f umaça. — E tem de ser — disse a moça. Os olhos se mostravam límpidos e luminosos e a única maquilagem era um traço de batom nos lábios. não havia nela o menor vestígio de cansaço ou de rugas. — Onde joga? — No Bel Air. Ajuda a me manter em forma. enquanto a mexicana o servia de café. — Viva! Olhou-a com admiração. Bonner — convidou Jennie. — O desjejum já vem aí. é um de seus fregueses? — perguntou. Jogo duas horas de tênis todas as manhãs.. Havia muito tempo não sentia fome pela manhã. sr. e se surpreendeu com o tom de sua voz e com o que ela exprimia. Deu mais uma tragada e teve a impressão de que estava boiando em cima da água. — Você está vestida como se fosse jogar tênis. sentiu-se cheio de a-nimação. — respondeu ele. — Não torne as coisas difíceis para mim — insistiu ela. — Tome. Ele sentou à mesa e apanhou o grande copo de suco de laranja que estava dentro de um recipiente cheio de gelo. — Quero apenas retardá-lo um pouco. Depois tirou o copo vazio que estava diante dele. nos fundos da ca-sa. muito obrigado. O fato é que estava com aquilo na cabeça quando desceu para o café. Bonner. — É exatamente o que vou fazer. quando ela se deitou na banheira ao seu lado. De repente. ovos mexidos e batatas fritas. e sentiu o fumo penetrar dentro dele. sr. Bonner pegou o cigarro e o colocou sem muita vontade na boca. À luz forte da manhã. O cabelo castanho-claro estava preso na nuca num rabo-de-cavalo . Suas aulas custavam caro. Olhou de novo para ela quando ela entrou na banheira. ovos fritos. A porta se abriu e uma robusta mexicana apareceu com uma bandeja que colocou em cima da mesa. Certamente foi du-rante o sono. Em geral. — Não há nada barato nesta casa — disse ela. arenque e rim grelhado.. Ela o olhou da mesa da sala quando ouviu seus passos na escada. Olhou para a moça meio espantado. . limitavase a um copo de suco de laranja e uma xícara de café. E sentia a mesma confiança que idéias semelhantes lhe haviam anteriormente inspi rado. Frankie Gardner era um dos grandes profissionais do tênis do país. cuidadosamente met ida numa saia elegante. Enquanto se servia.. — Sirva-se. vinte e cinco dólares por hora. Os braços saíam morenos das mangas curtas de uma blusa esporte. tirando o cigarro de sua mão e jogando-o no vaso... un momento — disse. a mexicana voltou com um bule de café. Bonner ergueu as sobrancelhas. Nos pratos com as tampas amarelas . — Chega — disse ela.. O presunto estava exatamente com o ele gostava. — Essa garrafa de champan he me custou vinte dólares. — Mas por quê? — Gosto do exercício. No mínimo. M as não tinha importância. dando-lhe uma dentada no peito. Deu uma profunda t ragada. como faz todo mundo. Bonner olhou para o prato. Nunca soube ao certo quando lhe ocorreu a idéia. — Tome seu suco — disse ela. — Nunca jogo com meus fregueses. Jennie estava se servindo de uma boa porção de filé.o e ele sentiu o cheiro enjoado e acre da maconha. Tenho um contrato permanente com Frankie Gardner. saindo rapidamente. Seu corpo parecia limpo e forte. Não gosto dessa coisa. Compreenda que às vezes trabalho dem ais. Serviu-se de presunto. — Nos pratos com as tampas verdes encontrará p resunto. Alugo seu tem po. Duas tragadas só. sorrindo.

Além disso. Se der. oitenta ou noventa mil espalhadas por todo o país. — Não foi o que me pareceu esta noite. — Não foi o que me disseram. evasivo. quase agressivamente. — Mas isso é diferente. — Está preocupado com alguma coisa. — Que foi mais que soube? — A nova turma está disposta a dar a você a chefia de tudo. em vista da maneira pela qual você está administrando a companhia. Não era possível que Jonas não soubesse do que estava acontecen do. e você co-meçará a ganhar dois mil dólares por semana. Bonner. Se não der certo. — E possível. da Califórnia. — Nem eu. Sei o que acontece com as garotas que vêm para cá. Bonner. Acabam acei tando carona em carro de homem para ganhar refeição de sanduíches.— Sei o que quer dizer. O argumento foi feito para Rina Marlowe. rindo. Disseram-me também que Bonne r já vendeu as ações a esse pessoal. dizendo que os correto res deles tinham sido procurados e queriam saber o que íamos fazer. muitas delas bem mais bonitas do que eu. . — Nisso também. — Quantas ações vocês têm? — Ora. ou fazendo a vida a cinco dólares no Strip. esse homem é inte iramente gira. quando Rosa começou a tirar a mesa. deve ter tido algu m motivo para me chamar. — Você tem coisas que me lembram Rina — disse ele. Por que nunca tentou o cinema? Ela riu com vontade. — Nunca a vi com melhor aspecto — disse. E eu tenho certez a de que você poderia fazer o papel. era bem possível. Comigo. não acha? — Talvez — replicou ela. — Neste caso. Vá ao estúdio amanhã e eu farei um teste c m você. — Rina Marlowe era uma das mulheres mai s lindas que já passaram pelo cinema. Que homem é esse de cuja aprovação você necessita? — Jonas Cord. Alguns dos nossos homens me telefonaram. Achamos que era um bom inv estimento. calmamente. — Como soube dessas coisas? — Temos algumas ações. Dizia-se que ela era terrível em matéria de homens. — Entretan-to. — Dois mil? Está brincando? — Não brinco quando se trata de dinheiro. precisarei apenas da aprovação d e um homem. sr. eu devo saber o que estou dizendo. É minha profissão. — Não se esqueça. 15 Irving foi com David para a sala de estar. não se fala mais nisso. — Acho que você está é louco! — disse Jennie. Segundo soube de algumas garotas. mas não é disso que estou falando. afinal de contas. — É — murmurou David distraidamente. — Você não quer falar. — Então é melhor encerrar o assunto. — Mas estou falando sério. David — disse Irving. Já pensou em fazer qualquer outra coisa? — Que quer dizer com isso? — perguntou ela. muito sério. Mas. — Dizem que estão procurando dar o fora no seu chefe. — Já não lhe disse que estudei enfermagem? — Não é disso que estou falando. David ficou em silêncio. de que sou daqui mesmo. Sabe quem sou eu? — Claro que sei. Não chego nem aos pés dela. Levaria muito tem po até eu ganhar mil dólares por semana no cinema. — Mas eu também me conheço e sei que não sou atriz. estendendo-se numa pol-trona ao lado da lar eira. O senhor é um dos maio-res produtor es de Hollywood. sr. — Que foi que soube? — perguntou David. Eu leio os jornais. — Como sabe? Temos um argumento nas mãos há cinco anos e não conseguimos encontrar uma p essoa capaz de fazê-lo. não. David? — As coisas de sempre — disse David. viu como eu vivo.

E isso só é possível em cinco dias por semana. — É verdade — disse David. Gostamos de ficar do lado onde está o dinheiro. tudo seria um fato consumado quando ele voltasse. Irving afundou ainda mais na poltrona. — Só um imbec il abre luta contra eles. — Já ouviu falar numa tal Jennie Denton? — Jennie Denton? Não. David pegou um cigarro e o botou na boca. — Então era essa mesma — disse Rosa. Irving ficou calado durante algum tempo. não tenho outro jeito. — Eu sei — disse David. como para Sheffield e os outros. David? — Palavra que não sei. — Exatamente. — Bem. cabelo castanho-claro. — Bem. O que se viu foi. Para ele. Se fosse verdade. não foi você quem transportou todo aquele álcool para nós da gara-gem de Shocky? — Aqui está o café — anunciou Rosa. — Mas a coisa é assim. rindo. sem acendê-lo. — Ah — disse Irving. esmagando o cigarro com raiva no cinzeiro. Por que Jonas não respondia aos seus recados? Três vezes havia procurado em vão descobri-lo. Depois começou a tir ar os pratos em que servira o bolo. Não tenho a menor idéia do que vou fazer. Neste mundo. não há jeito de v iver em companhia de quem perde. — Seria capaz de fazer isso? — perguntou David. Tem uma casa própria e seis cômodos nas montanhas e só se vai lá depois de marcar hora e dia. Irving riu. E el es estão fazendo promessas muito interessantes. doutora? — No hospital. — Oba! — exclamou Irving. sorr indo. acendendo afinal o cigarro. parece que numa noite. — Conheci uma Jennie Denton. — Vou lhe dizer uma coisa. Sem dúvida.. contente. Quando você decidir o que é melhor. — Queria perguntar-lhe uma coisa. chegando com uma bandeja. — Não. simples matemática de banqueiro ou corretor que pouco liga para outra coisa além da conta de lucros e perdas e o b alanço anual. Vou reunir todas as nossas procura-ções e botá-las em suas mãos. — Olhos pretos. A última notícia recebida dizia que Jonas estava fora do país. — Não pode ficar sentado na cerca por muito tempo. bem feita de corpo e com um andar curioso? — Provocante. sorriu.— Será que você. havia lá uma enfermeira com esse no-me. — Esqueci de que você está fora de circulação. Há quatro anos. — O que há com ela? — perguntou David. já devia e star a par de tudo. David. David — disse Irving. Jennie é provavelmente a mulher mais cara de Los Angeles. Afinal de contas. David. — Onde foi que a conheceu. Completo financiamento. não se trata ape nas de um negócio. — Que maravilha! — Mais um pedaço? — Já comi três pedaços. doutora! — falou ele. Maurice Bonner esteve por lá e e la lhe deu o tratamento completo. — O que há com ela? — perguntou Rosa. Jennie . Não se rebaixa a entrar num quarto de hotel. — Oh. — Na minha opinião. Só recebe gente importante e muitas vezes é preciso es perar duas ou três semanas. Bem sei que J onas não nos tem dado muita atenção e talvez até nos tenha prejudicado um pouco. Mais alguma coisa e terá de fazer uma operação plástica no meu estôma — Então tome mais um pouco de café — insistiu Rosa enchendo sua xícara. é melhor ir parando por aí — disse Rosa. logo no dia seguinte. não é o que quer dizer? — insinuou Rosa. Foi por isso que ele comprou a companhia. vote então por nós. — Mas os banqueiros e corretores têm todas as cartas na mão — replicou Irving. talvez até bonificação em ações dentro de dois ou três anos. Depois. — Vejam só que lindo bolo de chocolate! — Eu mesma fiz — disse Rosa. no começo desta semana. — Se está fazendo propaganda com meu marido. duplicação de lucros. somos muito conservadores. Representavam mais de três por cento sobre os do is milhões e meio de ações em circulação. vocês já resolveram de que lado vão ficar? Aquelas ações podiam ser importantes. olhando para Rosa. olhando para Rosa.. — O que vai fazer. Mas sei também que é um técnico em ma-téria de cinema e pode fazer um filme como pou-cas pessoa s na indústria.

para filmar. David só se lembrava de um argumento que tivesse uma cena de batismo. Resolveu.chegar ao estúdio para fazer um teste. Ao menos ela era feliz no trabalh o que fazia. — Você tem alguma coisa para me dizer. David olhou para ela e sorriu. Deu um suspiro.. — Esteja amanhã no estúdio às dez horas. Rosa? Vá falando. Rosa. — Há alguma coisa. em frente. — Nesse caso. e começou a contar toda a história. como se su as raízes se cravassem bem no fundo da terra. 16 A luz do sol lhes doeu nos olhos quando saíram da escuridão da cabine de projeção. era como se não tivesse nada em cima do corpo. indo depois sentar-se a sua mesa. Abriu a porta do escritório depois de passar pela secretária e fez Ros a entrar. David vestiu o pijama e se sentou na cadeira perto da janela. — No que está pensando. então. sorrindo. olhando para o mar . — Seja qual for sua decisão. com os olhos ainda brilhando. Rosa? — Agora compreendo por que todos os homens estão alucinados por ela. — O teste o fez lamentar que estivesse casado? David sorriu. Segui ram em silêncio para o escritório de David. — Lembra-se do nome do argumento? — perguntou. — Não. tenho certeza de que será a melhor para nós três. Em d ois dias. E foi com voz doce e feliz que murmurou: — Nós vamos ter um filho. — Mas você tem de ver o teste. calmamente. fazer coisa melhor. Ouviu a porta se abrir e voltou-se para ver Rosa. A maneira pela qual a seda se cola ao corpo quando ela sai da água foi a coisa mais sugestiva que . não tem. — Vou vê-lo amanhã. pouco ant es de ela morrer. Quando ela saiu d o grande tanque do palco doze.. — Nós três? Ela sorriu. — Pobre David! Tantos problemas! — Tenho de tomar uma decisão em breve. David? — perguntou ela. que can-tarolava enqu anto se lavava para ir dormir. Ouviu a água correr no banheiro e o leve som da voz de Rosa. também. Rosa se acomodou numa poltrona de co uro. Bonner tem tido ma is pedidos por ela do que Zelznick teve por . David. — O que achou do teste. O que acha que devo fazer? Ela o encarou. — Nada tenho de importante para amanhã e também estarei lá a essa hora — disse Irving. Ela se aproximou e o abraçou fazendo com que sua cabeça pousasse em seu seio. é o argumento que Jonas Cord mandou fazer para Rina Marlowe. Um médico não tem de passar por uma guerra de nervos para exercer a med icina. E todo mundo que estava comigo na cabine de projeção. desde seu encontro com Sh effield na noite em que ela havia te-lefonado. se não me engano. E o vento levou. — Não me sinto muito senhor e dono. — É dever da esposa escutar quando seu senhor e dono fala. Ela tinha no rosto uma expressão entre divertida e enigmática. a cena se tornou a fita de maior sucesso da cidade. Vestiu-a com uma peça de seda branca. Aquela força nova era também o que significava ser uma mulher. numa cena de um velho argumento encostado. uma cena de batismo. — Seria A pecadora? — Acho que sim. — Não sei para quem foi escrito — disse Irving. com os olhos brilhantes. David? — Ainda não sei — disse ele. David — disse ela. Era a primeira vez que ela mostrava qualquer inte resse por um filme. Sentia-se forte e capaz. que nós o veremos juntos. Ele a filmou em cor. — Também gostaria de ver — disse Rosa. F ormidável! Vi duas vezes.

— Há duas perguntas que você pode me respon der. De acordo com os livros. não i mporta o lado que vencer. Tirando esse teste. — Alô. — Quero falar com McAllister. Mas faça uma cópia com meu bilhete e mande-a. Tudo tem de estar lá ao meio-dia. Você tem de ir pelo seu camin ho. acho que já é tempo de você voltar ao cinema. vou lhe mandar um bilhete escrito por mim! Quero que você o fotografe e o inclua no título e no fim do teste d e Jennie Denton. quando a secretária entrou —. David? Ele a olhou. l ogo que acabar. você toma a decisão. — Eu sei que é um teste irregular. à secretária de McAllister. Pegou um cigarro. Vai pelo seu caminho. — Jess — disse ele ao telefone. Quase chorei com ela. A secretária pegou o papel. — Primeiro — disse David ao telefone —. com voz firme e forte. seja o que for que disserem os livros. Você é o operador. Pode falar com ele? Esperou um pouco e disse: — É só isso que quero. Tenho razões especiais para não querer que ela ass ine contrato conosco. Rosa o olhou por um momento. Sejam quais fo-r em as pressões. David fez uma pausa e continuou: — Muito bem. — Sim — disse ele. Wilson. admirando-se da intuição e do conhecimento que ela de-monstrava. — Sim. em Reno — disse David ao telefone. — Resolveu? — perguntou Rosa. das cópias e revelações. Jess. o que acha dela? — Achei-a admirável. David nunca havia pensado naquilo. E ela seguindo-o e tentando beijar-lhe os pés. David cobriu o fone com a mão e disse à secretária: — Leve correndo este bilhete a Jess Lee. mas não tenho outro jeito. Rosa sentiu-se tomada de um sentimento de orgulho. O filme estará no seu escritório de Los Angeles dentro de duas hora s. . As lágrimas dela era m de verdade ou maquilagem? — De verdade. Espero suas notí-cias. E faça isso o mais depressa possível. há muitas coisas para você fazer. David já havia terminado e estendia a mão para o telefone. deu a volta em torno da mesa e olhou curiosamente por cima do ombro dele. Ele seguia o seu caminh o. Coisa semelhante acontece em todas as operações. Sentiu sua exaltação aumentar. Em seguida. o que estou fazendo é arriscado. O escrito dizia o seguinte: Jonas. Então. Rosa curvou-se sobre a mesa com um fósforo ac eso. Pegou uma folha de papel em cima da mesa e começou a escrever. Não se faz maquilagem de lágrimas num teste. E o que você está fazendo.já vi. Mac — disse David. Estava satisfeita por ter ido ao estúdio. Depois levantou-se. Importantes razões. Os outros tinham ficado tão cegos com a cena do batismo que não haviam percebido o resto. muitos caminhos para escolher. Se não der certo. — Estou seguindo o meu caminho. Ela também sorriu e voltou para a poltrona. eu sairei perdendo. David. Ele nunca se sentira assim desde que vira Rina Marlowe pela primeira vez na tela. quero saber se posso fazer uma atriz assinar u m contrato com a Cord Explosives. Rosa havia explicado tudo. — Ponha essa cena de lado. quero falar com Jess Lee. saiu e David voltou a falar com Jess. Até a vista. David. Você mesma. Obrigado. Segunda pergunta: tenho um filme que desejo que Jonas veja o mais dep ressa possível. No mesmo instante. Senti quase um aperto no coração com aquela cena em que só se viam os pés de Jesus andando. na Cord Aircraft. De-pois venha falar i mediatamente comigo. sem hesitação. Aquela era uma faceta de seu marido que ela até então desconhecia. mas ela estava certa. — Eu sei. Mac. Olhou para Rosa e sorriu. Mas você sabe que só há um caminh o: o caminho certo. desligou e tornou a falar pelo telefone: — Srta. está co m o bisturi e o doente está aberto a sua frente. com a pon¬ta da cruz arrastando-se pela terra atrás dele. não é.

srta. Agora. — Já? Uma coisa assim pode arruinar meus negócios. Denton. Devia ter percebido. Havia lido o nome dele nos jor-nais. Uma prostituta chorando por outra prostituta. — Señor Woolf está aqui— disse a empregada. Woolf? Não conhecia ninguém com esse nome. — De qualquer maneira. — Ah! Quer dizer que viu o teste? Ele disse que sim. Havia s ido avisada de que outro homem iria receber o dinheiro naquele mês. aquele dia. Era o jovem protegido de Cord . Para dizer a verdade. A princípio. Ela sabia o que ele ia dizer. — Não recebo ninguém sem antes m rcar dia e hora. que aquilo não er a para ela. Vice-Presidente Executivo e o nome da companhia na qual Bonner trabalhava. Por que se deixara levar por aquela conversa. quase morreu de rir. Era uma co isa que nunca devia ter feito. Identificou-se com o papel e houve ocasiões em que havia chorado com as câmara s voltadas para ela. Não era de admirar que Bonner houvesse pensado nela. Ela o olhou. Depois. de quem se contavam maravilhas. arregalando os olhos. guardando rapidamente as contas na gaveta. como qualquer ingênua do interior fascinada pelo cinema? Julgava-se muit o sabida e achava que nunca seria capaz de cair numa armadilha. E minha mulher é da mesma opinião. Jennie pensou que fora uma tola em se deixar convencer a faze r aquele teste no cinema. Sentiu-se comovida e aba lada. Todos eles o haviam visto. Mas havia lido o argumento: Maria Madale-na. quer fazer o papel de Maria Madalena? . — Então pode voltar no mesmo pé — replicou ela. — A dra. com um sorriso. num cant o. Bonner nem sabe que estou aqui.Jennie estava sentada a sua mesa na sala de estar preenchendo cheques para as co ntas do mês. toda Holl ywood estava rindo dela. tirando um cartão do bolso. Ela o olhou sem compreender e ele acrescentou: — Rosa Strassmer. Strassmer? A que fez os enxertos de pele no rosto de Linda Davis? Eu era a chefe das enfermeiras na cirurgia. Agora. — Gostaria de fazer o papel de Maria Madalena? — Não sei — murmurou ela. Mas comigo não se trata de nenhuma brincadei ra. Devia saber que seria perda de tempo. quando a campainha da porta tocou. Nele estava escrito David Woolf e. E pode dizer a Bonner em meu nome que pare de mostrar aquele te ste a todo mundo. Ouviu os pesados passos da mexicana. David riu e disse: — Já tomei essa providência. E chorar era uma coisa que ela não fazia desde seus tempos de menina! Não era de admirar que estivessem rindo. Le mbrou-se então. A criada mexicana passou por ela n o seu andar pesado e foi aten-der. Ela também faria o mesmo se se tra tasse de outra pes-soa. alguma coisa na história despertou seu interesse. — Quem? — De las películas — explicou a mexicana. Pelo menos metade do papel se ajustava a ela como uma luva. Ela a conheceu no hospital há quatro anos. — Talvez fosse. — Muito obrigado. subitamente nervosa. dando-lhe i ronicamente parabéns pelo teste. A mexicana voltou acompanhada de um homem. Jennie sabia que nunca seria uma boa atriz. O cartão era caro e gravado em relevo. Pelo menos quatro homens haviam telefonado. Uma semana se havia passado e ela ainda não tivera nenhuma comunica-ção de Bonner. Ela foi formidável. — Tráigalo aqui— ordenou Jennie. asperamente. — Pensei que tudo fosse uma brincadeira d e Bonner. E caíra como todas as outras. seus negócios estão encerrados — afirmou Da-vid. Não sei o que ele pensou. Franzindo a testa. — Que quer dizer com isso? — Creio que não está compreendendo — continuou David. no momento em que se vira diante das câmaras. Talvez fosse o novo homem da polícia. Ela o olhou friamente e perguntou: — Foi Bonner que o mandou? — Não. senão vai se arrepender. Acredito que pode ser uma grande estrela.

— Por quê? — Porque vendi minhas ações há um ano. Esperar que nós a descubramos. tirando uma folha de papel do bo lso. Ele falou em dois mil dólare s e é quanto vai ganhar. ele meteu Bonner na companhia. Eu sei que Bonner só disse isso de brin-cadeira. — Alugada. Pensei apenas na sua conveniência. — Convém ler com atenção — recomendou. Agora. Os homens poderiam lamentar-se à vontade do que haviam perdido. — A Sheffield? — Sim. — Quanto Bonner disse que lhe pagaria? — Dois mil dólares por semana. Você é um homem rico graças a ele. — A primeira coisa que vamos fazer é mudar seu nome — disse ele. Cord é o dono da companhia. — Fale de vez em quando comigo. E para o senhor? — Não. — Ótimo. — E agora. Não é pre ciso o senhor me pagar tanto. — Quero. que era um agente e não um produtor. Jennie recostou-se na cadeira e começou a ler. — O contrato é assinado com a Cord Explosives — observou ela. Ela correu os olhos pela fórmula impressa. — Está bem. o que vamos fazer? — perguntou. Encaminhou-se para a porta muito zangado. para fazer todo o trabalho pesado e manter a indús-tria em funcionamento. a não ser para mim. Estou ansioso para ver se gosta. sorrindo. David — disse Dan Pierce. 17 — Desculpe. — Já disse que ele podia estar brincando. Acabou de escrever e lhe entregou o contrato. tanto faz. David. mas no meio do caminho voltou-se para falar com David. Ela tornou a rir. Vá para o deserto. Não diga a ninguém onde está. Ele só escrevera o nome dela e a importânci a do salário. — Por quê? Não gosta do meu nome? — Há muita gente que o conhece. levantando-se sorridente. assinou o contrato e entregou-lhe o pape l. sr. — É uma praxe que adotamos. ele nunca me deu uma oportunidade. Ele enterrou milhões no negócio só porque você queria ter um estúdi as mãos. Feche tudo e desapareça por algum tempo. — É preciso? — perguntou Jennie. Ela leu cuidadosamente. Palm Springs seria ót imo. Eu servi para ele nos tempos difíceis . David já estava escrevendo alguma coisa no papel. E compreendeu. Mas. — Para mim. A indústria toda sabia disso. Woolf. Isso poderia criar-lhe embaraços. pegou a caneta. Jennie pensou por um momento e depois riu. e toda a raiva parecia ter desaparecido. — Acho que deve. E o que devo fazer? — Apenas esperar.Jennie sentiu de repente que era o que ela mais queria no mundo. — Esta casa é sua ou alugada? — perguntou David. — Eu sabia que seria essa sua resposta — disse ele. quando Bonner chegou. guardando o contrato. — Espere um pouco. — Claro. Há alguma chance de eu con-seguir Spencer Tra . n o momento em que as coisas começaram a correr bem e nós podíamos fazer os grandes film es. — Por que não falou com Jonas antes? — Porque não quis. é a vez dele suar um pouco. mas com o olhar frio . mas eu não estou. — Nada posso fazer. — Você também o explorou. Jonas me explorou o bastante. É muito fácil assinar contratos e muito difícil livrar-se deles.

metendo a mão por dentro do pal etó. é claro — disse ele. por que não falou com Cord? — E como iria falar com ele? Nunca vi o homem. sorridente. Se ele nunca foi bastante delicado para querer me ver uma só vez nos três anos em que trabalho para ele. Ele não pode assinar um contrato comigo antes de assumir o controle d . Demorei um pouco pois tinha de encerrar a reunião de produção da manhã. Bonner? — Claro que não. David. — Tem isso por escrito. desde que você estabeleça boas condições. com aquele orgulho insensato. Bonner chegou ao escritório quase uma hora depois. nem viera tão rápido a ponto de parecer subserviente. — Afinal. A pecadora não é nossa propriedade. — No meu escritório. Normalmente era sempre Bonner que ia falar com ele. David ficou pensando depois que ó agente saiu. Ele nos quer a ambos. — Soube da história. eram todos iguais. Não estou querendo enfrentar encrencas. que poderia proporcionar à companhi a um lucro de um milhão de dólares. Os negócios eram assim mesmo. David piscou o olho. Fazia parte de sua profissão e nada tinha a ver co m Jonas Cord. meu contrato já estaria terminado. Você bem s abe disso. Além disso. — No escritório dele ou no seu? — perguntou a secretária. Mas a venda de suas ações era diferente. Viera relativa-mente rápido. não havia razão al guma para eu correr atrás dele. Bonner o encarou sem nada dizer. Mas todo mundo sabe que você nada faz sem a aprov ação de Cord. Financiará os filmes. Todos sabi am que havia alguma coisa no ar e sua própria secretária não se sentia segura de sua p osição. — Era o que eu devia fazer. Quando você conseguisse falar com ele. começou a se coçar. e continuou: — Sheffíeld me mostrou o compromisso que você assinou para vender-lhe suas ações. — Não tenho a menor dúvida. Era inútil proceder com rodeios. E continuou: — Sheffíeld me disse que se encarregaria de nós.cy e Clark Gable emprestados da Metro. — Ótimo. — Ah! Ia mesmo perguntar. Vi o teste. E você bem sabe como ele é. — Eu sabia que ele viria falar com você. rindo. Era impression ante a atenção de todas as pessoas do estúdio para esses pequenos detalhes. — Mas por quê? Se queria vender. David. Dan Pie rce não hesitava em fazer uma transação como aquela. David pensou que. Bonner olhou para David de uma maneira estranha e. Bonner começou então a se coçar sem qualquer reserva. a ponto de parecer grosseiro. — Não tem importância. meu contrato termina no mês que vem e ning uém me falou ainda em renovação. Quer dizer que dispõe de um pouco de tempo? — Tenho uma conferência de argumento marcada para já. — Por que não veio falar comigo? — perguntou David. pensou David. fui eu que o trouxe para cá. tão capazes em t antos sentidos e ainda tão crianças. organizará um novo plano de divisão de lucros e nos dará opções de açõe ealmente boas. E aí eu ficaria numa situação muito incômoda perante toda a indústria cinematográfica. Ele disse que tomará nova orientação no momento em que assumir o controle. — Está com urticária? — perguntou David. acendendo um cigarro. não? — perguntou Bonner. David. Bonner não havia de-morado demais. — Não pode calcular que coisa incômoda! Mas acho que valeu a pena. Bonner interpretou seu silêncio como aquiescência. Pegou o interfone e disse para sua secretária: — Telefone para Bonner e pergunte se posso falar com ele imediatamente. logo que o viu en trar. Bonner. É preciso que um dia você vá conhecer Jennie. — Ora. — Desculpe o incômodo que lhe estou causando. David sorriu. tão inflexíveis. desligando. afinal. Tão hábeis. Aquela mulher pode fazer seu velho violino vibrar como um S tradivarius. em v ista da importância de ambos. Agindo daquela maneira estava tentando averiguar a situação. McAllister nem se deu ao trabalho de ligar para mim. Por que recolheu todas as cópias? — Fui forçado a fazer isso. Maurice — disse David. Per-tence pessoalmente a Cord. os argumentistas estão acostumados a esperar.

— Só pela graça de Deus é que sua pobre tia não está passando o resto de seus dias num asilo . apesar disso.a companhia. — Onde você acha que posso arranjar tanto di nheiro? — Deixe disso. enquanto ele era vivo. não serei mais amigo de ninguém. — Não. — Mas ela funcionou sem ele. A voz do amigo o fez parar. E funcionará sem nós. aceita-ria o lugar como um pato em f rente a uma lagoa. Bonner o olhou. — Seu tio Bernie foi como um pai para você — dizia ela na sua voz es-tridente e áspera. — Ei. O lugar que ocupo não é daqueles que a gente é simplesmente despedido. Sheffíeld poderá sempre encon trar quem dirija o estúdio para ele. da Universal. — Bem sabe que é uma situação de emergência. Matty Fox. Mas. — Mas 15 de dezembro é na semana que vem. um pouco pálido. E está quase no fim. Se vender as ações no mercado livre. foi como um filho para ele? Mostrou conside-ração pelo que ele fez por você? Não. — Quatro milhões de dólares! — exclamou Irving. d e modo que quem não lhe vai dar a oportunidade sou eu. Quem fará filmes para ele. que ora está frio. você deu a ele um acordo escrito para colocá-lo na situação de controlar a companhia. disser que não pode cumprir sua promessa? — Mas ele precisa de nós para que a companhia funcione. Não tenho mesmo o direito de lhe pedir uma coisa dessas. você se compromete a vender todas as ações que possu ir no dia 15 de dezembro. —-Ele deu ouvidos a homens como Sheffíel d e terminou metido com títulos e ações. — E se Cord disser que não quer as ações? — perguntou Irving agora já mais calmo. As coisas não seriam para ele tão duras aqui quanto são lá. e não mais com o cinema. acrescentando bran damente: — E pode começar a preparar a renovação de seu contrato. Assinamos um contrato. você disse muito obrigado a ele. enquanto o br ilhante de doze quilates de seu dedo brilhava como um farol. Irvirig. senão eu? — Meu tio Bernie também achou que a companhia não podia ficar sem ele — disse David iron icamente. Passarei a ser chamado de o f alecido Yitzchak Schwartz. Needlenose — disse David. espere um pouco! Para onde vai? David o encarou. Dizendo isso. A tia tirou um lenço do bolso do vestido e começou a enxugar os olhos. Nem uma vez. — Mas o que eu posso fazer agora. perde-rei quatro milhões d e dólares. Sheffíeld poderá até me acion ar se eu voltar atrás. — Se não estou enganado. encaminhou-se para a porta. Nunca teve essa oportunidade. — A coisa não é tão ruim assim. — E se acontecer que nessa data você só tenha uma ação? Poderá vendê-la e terá cumprido sua p vra. se eu perder num negócio como esse. depois de assumir o con trole da companhia. farei baixar o preço. E você aind a pensa que ele não pode fazer funcionar a companhia sem nós. pelo acordo. ora quente. Ele não pode lhe dar um contrato porque não controla a companhia. Não é um camara da como Cord. É um homem direito. Mas temos de confiar na palavra dele. David apagou cuidadosamente o cigarro. — Será que me ouviu dizer positivamente que não faria isso por você? — disse Irving. — E se você não conseguir falar com ele em tempo? Nesse caso. . Você agora está fazendo a mesma coisa. Maurice. é muito pior. — E você. David? Assinei o acordo. entendeu? — Desculpe. E o que você fará se ele. O vasto seio da tia May arquejava de indignação. — Você é como meu tio — disse David com um suspiro. — O que vou fazer com elas? Usá-las como papel higiênico? Você se diz meu amigo. Quem poderá comprar todas as minhas ações antes dele? — Jonas Cord. não é verdade? — Perfeitamente. Assim perdeu sua compa nhia. — Tomarei providências para que tenha o seu dinheiro — disse David. — Algum dia Cord lhe faltou com a palavra? — Nunca. Schary está na Metro justamente à espera de uma o portunidade assim.

ao menos. — Ótimo — disse ele. tinha conseguido o que queria. vamos! Fora da minha casa! David a olhou por um momento e então caminhou para a porta. — E daí? Valiam três vezes mais. O que houve? — O tio Bernie recebeu por elas três milhões e meio de dólares. encolhendo os ombros. Tia May levantou-se e foi apanhar alguns papéis numa gaveta. David olhou para o relógio. empregando quase as mes mas palavras. . uma pessoa da família que zela por seus interesses. Não sabia dize r se era frio mesmo. — Quer que acenda a lareira para você. muito séria. Ela deu um suspiro profundo e murmurou: — Está bem. ou se era a sensação desagradável que aquela casa sempre lhe deix ava. voltando-se para ela. — O tio Bernie estava roubando a com panhia sem pena e você sabe muito bem disso. que mal representam um por cento do total. Vai me dar a procuração? — Não tenho motivo nenhum para fazer isso. — Não valiam nada — replicou ele. — Deus nunca nos deu filhos. — Sorte? Você chama isso de sorte? De todas as ações que ele tinha. Tio Bernie ia perdê-la de qualquer maneira. — Frio? Ora. Tenho de con-tar os tostões para poder continuar a viver nesta casa. Sentia o frio da noite n a grande sala daquela enorme casa. Rosa estava a sua espera no escritório quando ele voltou ao es-túdio. — É verdade que são apenas vinte e ci nco mil ações. parou. que o deixou sair em tão boas condições. — Escute. Mas dê sua procuração a Sheffield e veja o que lhe acontecerá. de piedade por aquela pobre velha que vivia tão sozinha. tia May — disse ele. Vou assinar procuração para ajudar um ingrato . sua pobre tia está acostumada a sentir frio. perdendo a calma. — Tinha você na co nta de filho. tia May. Ela tentou sorrir. Preciso ir. E não vai demorar. Duvidele? — Não — respondeu. pegou uma caneta e os assinou. Depois sentou-se à mesa . beijando-lhe o rosto. vou lhe dar a procuração. Teve sorte d e encontrar um homem como Cord. — É verdade? — perguntou a velha.David mudou de posição na poltrona. Seu tio sempre me disse que eu deveria procurá-lo qu ando precisasse de algum conselho. um traidor que roubou a companhia de seu próprio tio? — Ninguém roubou a companhia. Mas ele. De repente. — Obrigado. — Bem. a seu tio e a mim — disse com voz trêmula. David sentiu um aperto na garganta. você está chamando seu tio de ladrão! Fora. Um dia. O que houve com o resto? Diga-me isso. lem brando-se. — Eu sei. não estarei mais presente para cuidar de seus interesses e suas ações voltarão a não valer n ada. pensei que seria uma boa idéia vir até aqui para jantarmos na cidade. Um tremor lhe passou pelo corpo. — É o que vou fazer. tia May. tia May. Mas elas agora valem algum a coisa. o tio o pusera para fora do escritório. — Sem tirar nem pôr. As ações não valiam o papel em que eram imp ressas. David guardou os papéis no bolso. — Quando a srta. já está ficando tarde. Ela sorriu e David teve a surpresa de vê-la bater em seu braço quase com timidez. Se proceder assim. Ele dizia: "A-quele David tem cabeça". só me restam vinte e c inco mil. sabia de seus sucessos. David quase podia ver a máquina de calcular em pleno funcionamento na cabeça dela. Há. — Agora. — Pensei que você talvez estivesse com frio. Não calcula como se sentia orgulhoso quando. depois de se afastar da companhia. tia? — Está com frio. Foi gente como ele que levou o tio Bernie para a Wall Street e o meteu numa série de complicações. E sua tia era ainda mais apegada ao dinheiro do que Bernie jamais fora. cada vez menos à vontade. — E sua mulher é tão bonita! Não me esqueça tanto. David. Wilson me telefonou para dizer que você ia chegar tarde. Por que não a traz de vez em quando para tomar chá comigo? Não pôde deixar de abraçar a velhinha é beijar seu rosto. tia May.

convicta. elevando-se no ar com o CAB-200 atrás d a formação de Spitfires. a secretária apareceu de novo . Woolf. olhando do meu banco de co-piloto a cidade de Londr es. sr. — Que é. Cord. se Cord não lhe der o dinheiro. — Agora vamos jantar. David passo u ambos às mãos de Rosa. — Um telegrama de Londres. que ia ficando para trás na névoa do amanhecer. David pegou o envelope e o abriu. David abriu-o mais que depressa e. Woolf. Não o poupe. depois. — Bem. enquanto um sorriso lhe apareci a no rosto. McAIiister tem a sua disposição todo o dinheiro necessário para arrasar Sheffield. Havia vários incêndios que ainda fum . Como o primeiro telegrama. Marque início produção Pecadora 1. srta. se Cord não me ajudar. Irving me disse que terá de vender as ações a Sheffield. sr.— Então? David deixou-se cair na cadeira dizendo: — Tia May me deu a procuração. " de março. depois de lê-lo. você já fez tudo o que era possível — disse ela. — Vencemos! — disse ele com entusiasmo. este estava assinado. — Mas não adiantará muito. olhou para David. mas acaba de chegar outro telegrama. Já a tomava nos braços quando a porta novamente se abriu. — Outro telegrama. David leu: Mazel tov! Espero que sejam gêmeos! Esse trazia outra assina-tura: Jonas. — Então me dê logo. Wilson? — perguntou ele. sua secretária entrou. Olhou-o e disse a Rosa: — Este é para nós dois. — Isso significa que você já tem dezenove por cento dos votos. Woolf. Não fique aí parada. JONAS 1940 LIVRO VII 1 — Que coisa mais malucai — murmurou Forrester. Abra-o você. que os leu e voltou-se para ele com os olhos cintilantes. com voz um tanto irritada. simplesmente. teve uma sensação de indizível alívio. No momento em que ele ia mostrar o telegrama a Rosa. sr. No momento em que David se levantou. — Desculpe. Ela leu o telegrama e. — O que há de maluco? — perguntei.

Mas você não vai gostar do nome — disse ele. nós no mesmo avião. — Você bem sabe que não é isso. tem-se dado m al em tudo aquilo em que se mete. — É uma coisa malu-ca. Mas nenhum dos homens que trabalha para nós tem experiência suficie nte para uma tarefa dessas. A idéia tinha também algumas vantagens financeiras. nas funções de mecânico d e vôo. à exceção de Morrissey. — Motores um e dois. — Muito bem. teria de pagar menos dólares americanos. — Motores três e quatro. Precisaremos deles no verão. À medida que os aviões fossem ficando prontos. O que Roger dizia fazia muito sentido. os lucros deverão subir a cem milhões. caso alguma coisa nos aconteça. A fábrica custaria menos porque não teríamos de pagar juros e porque a margem de deduções do imposto de renda por depreciação é muito maior no Canadá do que nos Estados Uni dos. onde ao menos faço parte do e stado-maior. olhando para mim pelo canto dos ol hos. Estávamos em pleno Atlântico. E não podemos dispensá-lo. Forrester riu. Se acontecer alguma coisa. — Estou me referindo a isso — disse ele. comandante. depois de tomar as providências necessárias. logo alguém vai pegá-lo. para dar a Jerry o troco do que eles nos têm dado. . A guerra nos estava impelindo a uma expan são com a qual nenhum de nós contava. se tenho de ser um piloto de escritório. Fabricaríamos todas as peças em nossas usinas nos Estados Unidos e remeteríamos tudo para o Canadá. E não vai ficar disponível por muito tempo. onde elas entrariam na linha de montagem. sorrindo. — Bom proveito! E um homem vaidoso e que só pensa em mulher. Os governos da Inglaterra e do C anadá estavam prontos a financiar a construção da fábrica e nós economizaríamos de duas mane iras. E não se esqueçam de nos mandar os grandes. Além disso. a cento e cinqüenta quilômetros das ilhas britânicas. — Boa viagem. checados — disse Morrissey às nossas costas. Neste ano. — Checado — disse Roger. — Não compraram o nosso avião. — Vamos ver. E. — Sim. Tem alguém em vista? — Claro. mas comprarão todos o s B-17 que pudermos produzir. O presidente da companhia tem de se preocupar. — Mas entende de produção de aviões — disse obstinadamente Forrester. a meu ver. — Estou de acordo. que estava atrás. a fábrica do Canadá havia sido uma idéia dele e. — Soube do que acontec eu entre vocês dois. Jonas. — É para isso que você me paga. No ano p assado. acendendo um cigarro. Se desse certo. uma solução genial. estávamos apenas começando. checados. poderíamos reduzir em três semanas o tempo de produção de cada avião.egavam do ataque da noite anterior. Forrester ligou o comutador. E. mas isso nada tem a ver com o caso. Era o sinal para quebrar o silêncio do rádio. Pode reduzir o combustível. rapazes. — Teremos de conseguir alguém para dirigir a fábrica do Canadá. Os ingleses estavam sofrendo o maior castigo de sua his-tória e só pe nsavam em pagar ao inimigo na mesma moeda. Do jeito q ue vão as coisas. — O que nos pode acontecer? — perguntei. ao lidar com p aíses do bloco esterlino. — Não é disso que estou falando — murmurou Roger. — Amos Winthrop. Sim. sem dúvida alguma. — A não ser que você esteja com inveja do pessoal da RAF e tenha idéias de voltar ao serviço ativo. Vi a nossa frente o comandante da formação de Spitfires inclinar a a sa. prefiro cumprir meu papel na companhia. quem vai diri gir a companhia? — Você se preocupa demais — respondi. Que diabos! To-dos nós sabemos que eles têm de padroni zar. meu velho. tivemos trinta e cinco milhões de lucros. Precisamos preparar quem seja capaz d e tomar o nosso lugar. — Não! — É o único homem disponível e capaz. que me meteriam com a maior facilidade no chinelo. Eu não poderia entrar em competição com esses garotos. comandante? — É aqui que nos separamos. apontando para Morrissey. E o pessoal de Sua Majestade também ficaria satisfeito porque. a RAF canadense os levaria para a Inglaterra. Não dei resposta. com as encomendas de guerra. Sobretu do quando se trata de uma companhia em franco crescimento como a nossa. Obrigado pela escolta.

nos Estados Unidos. Rádio encerrado. — Está bem. sentado a minha frente. — O ruim com você. Além disso. ao passo que o nosso aparelho exige nove. Ora eram as bombas. — Faz quase vinte anos. Ele era sem dúvida o maior engenheiro aeronáutico do mundo. Monica mora em Nova Iorque e eu em Ne-vada. de modo que não precisam de uma autono mia de vôo de oito mil quilômetros. sra. Cord? — Para dizer a verdade. ora eram a s mulheres.— Fique descansado. — Ora — repliquei eu. — Está bem — disse ele. sr. Todas as conversas à mesa do jantar se interromperam por um instante. — Não foi nada que o senhor dissesse. — Se não se incomoda. nervosa . A mu lher era a mãe de Monica. refleti. Isso significa que eles podem botar no ar duas vezes mais aviões. Mulheres. Três semanas n a Inglaterra e eu não dormira bem uma noite sequer. Morrissey. Morrissey estava sentado em seu compartimento. Não. sentando na cama —. O B-17 voa com uma t ripulação de cinco homens. não pensava nela quase sempre. sr. O estridente barulho da bomba foi aumentando até o desmedido fragor da explosão. Penso quase sempre nela. Fechei os olhos. O zumbido dos quatro poderosos motores cantava em meus ouvidos. Cor d? — Duvido muito. com o ro sto muito pálido e contraído. Sinto muito se lhe dei essa impressão. Dormi. Ela sorriu e começou a brincar com a colher. Talvez devesse estar. Holme. haverá aviõe omo este aos milhares no ar. — Estou preocupada com minha filha. — Deixe isso para lá. Não se preocupe. Holme. Bombas e mu-lheres. Inclinou de novo a asa do seu Spitfire e a formação se afastou. — Não compreendo — disse ele tristemente. — Acha que poderá encontrar-se com ela quando voltar para os Estados Unidos. E pode transportar uma carga dupla de bombas. Olhei-a e depois voltei o olhar para Morrissey. Cord — disse a mulher magra e de cabelo gris alho que estava ao meu lado. Desapertei o cinto de segurança e me levantei. Nossos pais nunca nos haviam dado a míni ma atenção. comandante. A viagem de ida e volta à Alemanh a é no máximo de três mil e quinhentos quilômetros. Eu costumava julgar que as mães fossem di ferentes. — Mas este avião pode subir três mil metros mais alto e voar trezentos quilômetros por h ora mais depressa. quando lá c heguei. — Pense no que eu lhe disse. desconsolado. Minha mãe morrera e a dela fora embora com outro homem. Uma infinita amargura estampou-se no rosto de Morrissey e tive muita pena dele. Observei seus olhos sob as compridas pestanas e tive um vislumbre da beleza que ela transmitira à filha. sra. Forrester. não é. vou ver se durmo um pouco. Eu tinh a ao menos uma coisa em comum com Monica. qua ndo ela caiu perto de nós. Houve depois silêncio e prosseguimos sozinhos na viag em de volta. Pensavam primeiro em si mesmas. não havia pensado nisso. com aparência preocupada. Mas o que eu dissera estava certo. não é preciso pensar. que eles ainda vão alcançá-lo. Algum dia. em segurança. é bem fácil de compreender. Bombas. — Mas não será nesta guerra — disse ele. Mas pude sentir um leve movimento de repulsa q . — Se é a respeito de Amos Winthrop. as despesas ope-racionais são um pouco m enos da metade das do nosso avião. Morrissey saiu para a cabine de pilotagem e eu me estendi na cama. Holme. A bomba caíra quase na casa vizinha e a mulher estava pr eocupada com a filha. Ela ficou por alguns instantes em silêncio e me perguntou: — Não gosta muito de mim. Mas eram iguaizinhas aos pais. é estar muito avançado no tempo. Apanhou em seguida uma garrafa térm ica: — Acho que vou levar um pouco de café a Roger. descrevendo um amplo círculo de volta a sua costa. — Não vejo Monica desde que tinha nove anos de idade — continuou a sra. Eles ainda não estão preparad os para aviões como este. sr.

— Quanto tempo fiquei dormindo? — perguntei. Houve uma hora em que roncava tanto que cheguei a pensar que tínhamos cinco motores. e Monica nunca veio. — Estamos indo devagar. Sentei no banco do co-piloto. — Pegamos ventos fortes pela frente. só quis aproveitar. sério. que compreenda isso. Em nossa lua-de-mel. Forrester ergueu os olhos quando cheguei ao compartimento. jamais conversamos s obre a senhora. — Tem certeza de que poderá ficar com os olhos abertos durante algumas horas? — Darei um jeito. — Pronto! — disse. não foi? — Winthrop e eu nunca fomos muito íntimos. — Vim dar-lhe algum descanso. Eu bem sabia que Amos era capaz de fazer uma coisa assim. Ele riu. — Ótimo — disse eu. Mas soube pelos jornais de seu casamento com ela. O mordomo tirou as xícaras. enquanto o surdo fragor do bombardeio na sala coberta de pesados reposteiros lembrava um rumor distante de trovoada. Houve uma ho ra em que pensei que você estava querendo conhecer todas as mulheres da Inglaterra . levantou-se e espreguiçou. — Deve acreditar em mim. sra. Estendi a mão para o controle e puxei-o até encaixá-lo. Dediquei-me ao comando do avião. Estávamos a cerca d e mil e quinhentos quilômetros da Inglaterra. O ronco dos quatro motores voltou. que pens o nela e que ficaria muito feliz se recebesse notícias dela. — Ora. deixando-o sozinho para criar nossa filha. Estava começando a chover. — Escreveu algum dia a Monica para contar isso? — Como se pode escrever a uma filha para contar coisas desse tipo? Não tive o que responder. Quando por fim conheci e gostei de outro homem decente e honesto.uando eu lhe disse quem era. perguntei: — O que quer exatamente que eu faça. Amos me avisou que ia mandá-la para viver comigo. sr. olhando pela pequena janela. Qualquer ocasião podia bem ser a última — repliquei. me abandonou num quarto de hotel para ir encontrar-se com outras mulheres. Forrester tornou a rir e saiu da cabine. Cord. — Você devia estar muito cansado. — Vou ver se tiro um cochilo. Outro empregado serviu-nos café. Abriu os olhos quando me sentei na cama. — Não a bandonei minha filha. com súbita inten-sidade na voz. na Londres do tem po de paz. — Umas quatro horas. com aquelas bombas todas caindo. Isso tinha sentido. Holme. não era a única pessoa que pensava daquela maneira. ou estou ficando velho. em vez de quatro. Quero que ela saiba disso. quando ela chegasse a me conhecer. Cord — continuou ela. Com certeza. sobre o oceano. Ele desligou seu controle. — Ou você é um homem melhor do que eu. Pensei então q ue. Amos lhe contou tudo a meu respeito. sob a ameaça de fazer escândalo e arruinar a carreira desse homem no serviço público da Inglaterra. De qualquer maneira. sra. Amos me obrigou a deixar minha filha com ele. — Há cerca de dez anos. Holme? — Gostaria que falasse com ela. — Vou dar um descanso a Roger — disse. sr. aos meus ouvidos quando abri os olhos. Logo que ele se afastou. O mordomo tirou os pratos vazios. Os dez anos que vivemos j untos foram um inferno para mim. Parecia-me que as garotas t . Morris sey estava de novo em seu banco. levantando. dissesse que perguntei por ela. Onde estamos? — Mais ou menos aqui — disse ele. Amos Winth rop era um patife e vivia sempre meti-do com mulheres. — Fique certa de que farei isso. Gunga Din. mas cochilava com a cabeça inclinada para um lado . eu poderia explicar tudo e ela compreende ria. Com cert eza. d izendo como eu fugi com outro homem. apontando o mapa na armação entre nós.

Firmei as mãos no chão para levantar. Acho que já é tempo de parar. sr. meu anjo da guarda. Lembrava vagamente de ter encostado à parede do dormitório enquanto a-cabava uma garrafa de uísque. sr. A velocidade esta va caindo. Embora fo ssem quatro horas da madrugada. Saímos das nuve ns a quatro mil metros e encontramos um sol bri-lhante. — Não vai mais tomar uísque. sr. Queria apenas beber e esquecer. Encaminhei-me para a sala de estar. Cord. Liguei os degeladores e vi os flocos se transformarem em água. quando ten tei levantar. Mas. Robair — disse. aprumado e forte. e vi Robair a meu lado. Não havia nada de subserviente ou falso naquele sorriso. a boca estava seca e. Cord. — Vou falar com ele agora mesmo. — Obrigado. Muito obrigado. sr. Estava começando a nevar e grandes flocos se chocavam pesadamente contra os vidros . firmando-me nele. A imagem de meu pai cavalgava em meus ombros. Quando cheguei a Reno proveniente de Nova Iorque. sr. se não fosse Robair. nos fundos do quarto de Nevada. — Ficarei em perfeito estado logo que be ber alguma coisa. Começamos a caminhar na direção da casa. eu desejara a mulher dele. — Também tive saudades suas. Ele riu. o corpo. Por que então eu chorava? Por que havia um vazio tão grande dentro de mim? Então. — Uísque.inham a mesma idéia. Nada havia que eu tivesse vontade de fazer. perto do dor mitório dos vaqueiros. Robair? Tive saudades suas. Robair passou-me os braços pelo corpo e me levantou. bebo e pronto! . Empurrei Robair para longe e gritei: — Quem você pensa que é? Quando eu quiser beber uísque. Robair era mais do que um amigo. — E eu vou preparar sanduíches de carne e um café bem forte. não. 2 Robair estava a minha espera com a porta aberta. fora sua mul her que morrera. sim. Sem dúvida. Era. Havia um pouco de desespero na forma pela qual se atiravam in sistentemente aos homens. Isso fora na noite an terior. quando saí do elevador. Não aparentava a idade que tinha. Não sei o que teria sido de mim depois da morte de Ri na. numa manhã acordei no chão do pátio. A cólera me impulsionou e me deu força. afinal de contas. Cord. Virei a cabeça e vi a garrafa vazia a meu lado. Cord. Era o sorriso de um amigo. Não tinha o menor interesse pelo resto do mundo. O cabelo aind a era preto e abundante. estava reduzido a um farrapo. Fez boa viagem? — Fiz. Olhei para o giro compen sador e nivelei o avião. como um índio do deserto conduz seu cavalo. Fechou a porta e disse: — O sr. Cord. — Que foi que você disse? Os olhos dele estavam impassíveis. — Sabe de uma coisa. Isso significava que os ventos contrários eram mais impetuosos. não tive forças. Chegou às oito horas da noite e ficou aguard ando o senhor. Olhei por um instante para Robair. Puxei o controle para trás e o grande avião começou lentamente a su-bir. O vôo foi claro e tranqüilo pelo resto da viagem. de cer to modo. McAllister está na sala de estar. A voz dele era tão branda que a princípio julguei não tê-lo ouvido. — Bom dia. Resolvi tentar subir acima deles. A cabeça me doía. Robair. ele parecia tão repousado e alerta como se houvess e acordado àquela hora.

sr. Fiquei magro e queimado de sol e toda a flacidez causada pela vida na cidade desapareceu. árvores e moitas pelo flanco da montanha. Robair estava sentado nu ma cadeira ao lado da cama. Havia uma terrina de sopa quente na mesa perto dele. — Está despedido! — consegui. — Há um rio perto daqui com umas trutas que não têm tamanho. — Desculpe-me. — Não adianta pedir desculpas. — Uma panelada de trutas deve ser ótimo. — Quer um prato de sopa? — perguntou. Cord. — O que temos para o jantar. quando acordei. De r epente. Tinha pouco capital. — Vai ficar — disse ele calmamente. Havia caça em abundância e uma vez por semana Robair ia de carro comprar man-timentos. em lua-de-mel. eu falava com McAllister pelo telefone. Tudo era verde em torno. Três vezes por semana. Cord. Levantou-se quando abri a porta. e eu me sentia muito fraco. menos a de cinema. Cord — continuou em voz baixa. — Não estou pedindo desculpas pelo que disse. que automaticamente abri a boca. A sopa quente me escaldou a boca. Dessa vez. Tentei esquivar-me. eu estava esperando para ver como o senhor se se ntia. De alguma forma. Todas as companhias iam muito bem. gritar. Havia muito pouca coisa que lhe es-capasse aos olhos observadores. Senti a mão dele nas minhas costas e me vire i. Cord — disse ele.Ele sacudiu a cabeça. Mac era notavelmente meticuloso. Robair. bem coberto e em lençóis limpos. Isso em geral era s uficiente para a solução dos problemas. Vi então sua mão enorme avançar fechada na direção de meu queixo. é muito difícil parar de crescer. — Chore. — Não vai mais beber uísque. Fui até a balaustrada e olhei. Uma vez por mês. Organizamos nossa vida e era espantoso ver como os negócios marchavam sem mim. enquanto o choque e a raiva me percorriam o corpo em ondas geladas. comecei a chorar. Eu sabia que . Empurrei sua mão dizendo: — Não quero. A lareir a acesa aquecia o ambiente. Bastava tudo o que me acontecera na última vez em que estivera naquela cabana. sorrindo. Cord. — Não vou ficar aqui! — exclamei. mas a verdade é que ela quase não me interessava mais. aproxi-mando a colh er da minha boca: — Tome. provava-se apenas o velho axioma: uma vez que se atinge determinado taman ho. olhando bem nos meus olhos. Quase dois anos se passaram até descermos da montanha. trazendo uma pasta cheia de papéis para assinar ou de relatórios para ler. mas nada havia em mim que funcionasse como devia e tornei a mergulhar na escuridão. afinal. — Mas vai descobrir que as lágrimas adi antam tão pouco quanto o uísque. fazendo menção de levantar. para mim misteriosa. Mac subia de carro a ladeira que levava à cabana. enquanto os músc ulos se distendiam e enrijeciam meu corpo. Havia tamanho tom de autoridade na voz dele. sem voz para falar. Encarei Robair. Robair me fez encostar de novo a cabeça no travesseiro. Havia grande tristeza estampada no rosto dele. sr. até as ar eias vermelhas e amarelas do deserto. mergulhou uma colher dentro e disse. Robair? Ele encolheu os ombros. — Nenhum negro filho da mãe vai mandar em mi m! Dei-lhe as costas e voltei para casa. Pegou depois a terrina. Estávamos bem longe dos homens. Não pode sair correndo e esconder a ca beça numa garrafa de uísque sempre que lhe acontecer alguma coisa desagradável. Senti então dentro de mim uma dor e um vazio como nunca experimen-tara até então. sr. sr. estava na cama. tudo o que acontecia d e importante em qualquer das companhias aparecia em seus relatórios. sr. — Para dizer a verdade. Não é mais um garotinho. — Por que me trouxe para cá? — O ar da montanha vai fazer bem. Com isso. Ele estava sentado na varanda iluminada pelo sol da tarde quando afinal eu saí do quarto. Chore à vontade — disse Robair.

Califórnia. Mas Robair já estava na porta com uma bandeja de martínis. quando soube que eu ia passar p or aqui nas minhas férias. fu i para meu quarto. vendo as sombras que dançavam no teto. Quando levantou. levantou-se. com um sotaque leve e curioso. doutora — disse eu. — Sr. Apertou minha mão com firmeza. Agora me dê licença. Como vai seu pai? — Muito bem e feliz. para que ele pudesse sair da Alemanha. — Dra. — Está bem. homem solitário — disse ela. — Bem. Em dado momento. — Como descobriu onde eu estava? Ela pegou um envelope e passou-o às minhas mãos. Coa st Highway. Já estávamos ali há um ano e meio quando tivemos nossa primeira visita. Não respondi. — O que fiz foi muito pouco. em vista disso. — Mas Rosa. sr. — Para minha mãe e para mim. filh a de Otto Strassmer. Ela ficou por um instante na porta em silêncio e. vou ficar. já vou indo — murmurou um tanto desajeitadamente. Agora sente-se. — Combinado. . no sentido de que eu não poderia ficar para sempre nas montanhas. e não de doutora. ainda hesitante. 1104. olhos claros e um queixo firme. mas o fato é que tudo me parecia distante e sem grande importância. Meu pai o c onsidera um homem muito corajoso. — Por que não fica para jantar. Ro¬sa Strassmer.. Ela me encarou por um momento. aproximando-se de mim. — Acho que compreendo por que não convida ninguém a vir aqui. depois. que lhe acent uavam a linha esbelta e feminina dos quadris. — Claro que não me atrapalha — respondi. De qualquer maneira. Meu p ai fala muito a seu respeito. vi que estava com calças azuis justas e desbotadas. — Espero não estar atrapalhando o senhor — disse ela. — Foi um prazer conhecê-lo. Cord. Vou pedir a Robair que traga alguma coisa para beberm os. — Peço apenas que desculpe minha surpresa. fez muito. Robair arrumou o quartinho de hósp edes. Nunca se cansa de contar como o senhor conseg uiu fazer chantagem com Göring. Depois. Strassmer! Tenho de lhe pedir desculpas de novo. Ela sorriu de repente. Robair en trou na sala. Olhei-o com curiosidade. Era tarde demais para ela ir quando acabamos o jantar e. O sorriso lhe dava uma estranha e cintilante be-leza. Procurei tirar da minha voz qualquer traço de despraz er. sorrindo. Uma mulher jovem estava sentada no sofá. Malibu. — Não tenha medo. pois preciso seguir viagem. Ela hesitou por um instante. mas com uma condição: terá de me chamar de Rosa. Tin ha cabelo preto. doutora? Robair tem um jeito de rechear codornizes c om arroz que é uma verdadeira delícia. Fiquei ainda algum tempo na sala de estar e. McAllister me pediu que lhe deixasse isto. — Não quero de você senão esta noite. Nada havia que não pudesse espera r até a próxima visita de Mac. então. — Seu pai é que é corajoso. Dei a volta e olhei para o registro na haste do volante: dra.. graças ao senhor. Abri o envelope e olhei os papéis que nele vinham. fumando um cigarro. Fiquei de olhos abertos. Não rece bemos muitas visitas por aqui. Nesse momento. Cord? — perguntou ela. Aquilo era um lembrete não muito sutil de Mac. Ela foi se deitar. es queci até de ser delicado. Havia muito tempo que eu não custava tanto a dormir como naquela noite. Joguei tudo em cima da mesa. Eu fora caçar e estava voltando para a cabana. Era um Chevrolet com chapa da Califórni a. — O sr. — Sou Rosa Strassmer. Vivendo aqui como vivo. entrou no quarto.algumas coisas deveriam ser resolvidas pessoalmente por mim. Entrei na cabana. enquanto ele apanhava as codornizes e a e spingarda e voltava para a cozinha. levando na mão uma corda com codornizes. a moça não tinha culpa. quando vi um carro estranho parado diante da cabana. ouvi um bar ulho na porta e sentei na cama. Mais de duas p essoas seriam multidão num paraíso como este.

ambos sabíamos que nossa partida das montanhas era apenas uma questão de tempo. de qualquer maneira. — Onde foi que errei. — Você é bonita. — Pode dizer a ele que vá para o inferno. Contudo. Jonas? — perguntou displicentemente. parece que tem absoluta certeza de estar dominando a situação. num sussurro. — Espere um pouco. estará disposto a levar em consideração suas ações. Fez a minha cabeça descansar em seu seio. Como sempre. que você não usou o dinheiro com . ele estava um pouco mais ma-gro. ele aceitara a derrota com mais distinção do que eu faria. — A idéia e os planos estavam perfeitos. Além disso. queria filmar A pecadora e certamente uma ação judicial por parte de uma mino ria de acionistas atrapalharia a produção. — Imediatamente? São quatro horas da madrugada! — E o que tem isso? Ele é que está querendo conversar comigo. Tomei nas mãos seus seios jovens e firmes. Deixe-me agora levá-lo de novo para seu mundo. — Está bem. Acontece. Descansou a cabeça no travesseiro e fitou-me com os olhos macios e quentes. como se fosse um médico dis cutindo um caso clínico. Sheffield me disse que.Ela colocou os dedos em meus lábios. se você quiser conversar com ele a ntes da reunião. — Depois de falar com ele — continuei —. Liebchen — disse carinhosamente abrindo seus braços. se o sapato apertado estivesse no meu pé. e subiu para a cama. — Agora compreendo por que McAllister me mandou aqui. Jonas. — Estou a sua espera porque Sheffield está fazendo pressão para realizarmos uma reunião de acionistas. quando ela seguira seu caminho. toda compaixão e compreensão. — Muita gentileza dele. mas fico satisfeita de que você pense o contrário. O mundo já não estava tão distante. P oderá dar muito trabalho. Um momento depois. — Trouxe meu pai de v olta a este mundo. ele tem o respaldo de cerca de trinta por cento dos votos dos a-cionistas. — Mas não custa nada você conversar com ele! Você já tem tantos pro-blemas que é melhor evit ar uma luta neste momento. rindo e tirando os sapatos. Mac encaminhou-se para o telefone. Pe-gou um cigarro e o acendeu. Telefone para ele e diga-lhe que venha imediatamente aqui. Aproximei-me e bati em seu ombro. num gesto qu ase maternal de carinho. De manhã. Não era preciso. — Sheffield sabe disso? — Acho que não. toda ardor e toda mulher . — A verdade é que eu estava disposto a gastar um bom dinheiro . Se o que ele quer é lutar. porém. — Alô. Naquele momento. Não era sensato eu gastar meu dinheiro mais do que o necessário. — David já recolheu as ações? — Já. não é? — disse. depois do café. enquanto ele levava a xícara de café à boca. McAllister dormia no sofá quando entrei na sala. telefone para Moroni e pergunte se o banco de le quer me dar o dinheiro para comprar as ações de Sheffield. Jonas. esticando-se e depois esfregando os olhos. mas o óculos sem aro aind a brilhava sobre o mesmo nariz comprido e fino. Mac tinha razão. Acho melhor você conversar com ele. o sono havia desaparecido de seus olhos. fiquei na sala. — Sei que não sou muito bonita. ele vai ver com quem está se metendo. Eu não podia estar em seis lugares ao mesmo tempo. 3 Observei Sheffield. vendo Roba ir tirar os pratos da mesa. com a garantia de uma hipoteca sobre nossos cinemas. Afinal de contas. Sentei numa cadeira diante dele. Nada dissemos. — Kommen Sie. Rosa — disse. Jonas — disse. O cabelo mostrava-se um tanto mais grisalho. — Não faz mal. Do jeito que fala comigo.

sorrindo. Só podia haver uma explicação. Os estúdios deles foram destruídos no primeiro ataque aéreo dos nazistas e eles não têm contratos com as companhias americanas. Engel preferira ser exibi-dor. O caso não me interessava absolutamente. e não simplesmente filmes. minha força criadora Força criad ora? — Sim. ainda pensando no teste que acabava de ver. mas ape nas como uma solução dos problemas com que lutava para a programação em seus cinemas. Por outro lado. como os outros exibidores. — Quer dizer que. Um fato que havia ocorrido quando eu me encontrava na I nglaterra começava de repente a ter sentido. Ra nk. mas grandes filmes que lhes dêem fama. em batalha comigo. Seria um bom golpe Engel ter-me roubado a companhia. E era exatamente a transação que cor respondia a sua mentalidade de homem da Europa central. Mas há uma coisa que deseja ainda mais. Eles têm quatrocentos cinemas aqui na Inglaterra e. Eu não pensara mais nisso até aquele momento. Estão com falta de fi lmes. uma expressão de David Woolf que adotei. Acabara metido também na produção. Desde a morte de Rina. não havia motivo algum para ter pena dele. enquanto Korda se de dicara à produção. terão de fechar a metade deles. O homem era um lutador e os l utadores não se entregam com facilidade. Eu saía da cabine de projeção do nosso escr itório em Londres. — Prestígio? — Só até certo ponto. sentem que estou corr endo os mesmos riscos que eles. — Era o comprador de circuitos para a cadeia de cinemas Engel. fora procurar diretament e a gente de cinema. era da Europa central e fora para a Inglaterra. Tudo aquilo est ava sendo muito fácil. — Tenho certeza disso — murmurei. Entretanto. Sheffield era um financista e costumava tratar dos negócios f inanceiros de seus clientes. gosta de dinheiro como todo mundo. Cada um de nós teria cedido um pouco e ambos ficaríamos satisfeitos. — Compreendo — disse Sheffield. Engel. Haviam-me falad o que seus investimentos nos Estados Unidos eram superiores a vinte milhões de dólar es. Bem calçados de dinheiro. — Não voltarei a cometer o mesmo erro. . O natural teria sido ele entrar em contato e. capazes de realizar grandes filmes. — É uma pena —murmurei. Ele a empregou para classificar algu ns produtores. imediatamente depois. — E cheguei a acreditar no que me disse a respeito da gente de cinema — murmurou She ffield. eles preferi-ram suas promessa s às minhas? — Mais ou menos — disse. Podia ver o olhar de surpresa de Mac mas nada dei a perceber. depois de desligar. na-quele caso. Mas logo teve consciência de sua resposta e exclamou: — Agora co mpreendo por que não conseguimos nada! Você sabia de tudo. — E o que vão fazer? — perguntei. a atitude dele em tudo aquilo não correspondia a sua maneira habit ual de fazer negócios. Tudo se ajustara per-feitamente. Quere m ser considerados artistas. falou comigo. Entretanto. acabando no negócio de cinema. quando o telefone tocou no escritório do nosso gerente de vendas. Sorri. onde fora ver o teste de Jennie Denton. Não estou arris-cando dinheiro. mas artistas. — Como assim? — Gente de cinema é diferente. preferiram a mim p orque eu podia ser julgado pelos critérios próprios da indústria. Sem dúvida. Mas tudo mais que eu tenho está em jogo: minha reputação. só porque você é capaz de fazer filmes. se não puderem conseguir mais filmes dentro de seis meses. Gaumont e As¬sociated controlavam entre si toda a produção inglesa e americana. — Quando eu produzo um filme. pensativo. Olhei para Sheffield e perguntei displicentemente: — E o que Engel vai fazer agora com as ações? — Não sei — murmurou ele. como Korda. e imediatamente tive uma suspeita. minha capacidade. O que eles querem mais do que qual quer outra coisa no mundo é faz er filmes. Não respondi. Em resumo. Ele havia sido gentil demais. é claro. era a primeira vez que eu sentia a exaltação que só a idéia de fazer um f ilme pode dar. Mas. Ele atendeu. — Não sei. Mal prestei atenção à resposta do gerente de vendas. conversou durante alguns m inutos e.o devia. British Lion.

— À vontade — disse eu. Ele está em Nova Iorque. — Posso usar seu telefone? Apesar da diferença do fuso horário. Engel e seus advogados estariam em Nova Iorq ue na semana seguinte. onde os escr itórios ficam abertos até as seis horas da tarde e os empregados ainda se sentam em tamboretes altos diante de escrivaninhas de feitio antiquado. saía do escritório às duas horas da tarde. Ele me olhou por um momento. Vou começar um grande filme daqui a dois meses e quero saber q uais as providências já tomadas. Olhei para eles surpreso. — Como vamos começar a nova linha de produção desse jeito? — Não sei se podemos. — Pois isso é o que custaria. — Está bem. — Qual é o contrato que quer cumprir? — Os dois. — Calma. estava tudo resolvido. Engel devia estar ao lado do aparelho. Você tem de decidir o que deve ser feito em primeiro lugar. Já estava começando a me sentir inquieto. depois levantou-se. P oderíamos fabricar as peças aqui. Ao meio-dia. — Está bem. Consiga-me Amos Winthrop para dirigir a fábrica. Não poderá mais conseguir filmes em nenhum lugar por aqui. Querem a primeira entrega para junho e estamos n um im-passe. nem mesmo Georges Engel. ver o movimento de Nova Ior-que. então — disse eu. ansioso pelo telefonema de Sheffield. Haviam pensado em tudo. — Que quer dizer com isso? Você me assegurou que podia.— Agora que o negócio se desfez creio que Engel não terá outro jeito senão fechar a metade de seus cinemas. ele levaria quase vinte anos para recuperar o dinheiro. isso representará para ele um prejuízo de mais de um milhão de libr as por ano. — A questão é que temos um problema. É o diretor-executivo da companhia. traga-o para cá. A campainha to-cou. Não vou arriscar a vida de muitos homens em aviões montados por amadores apenas porque você é teimoso demais. Trouxe-o comigo. Morrissey — disse friament e. Nin-guém. — David Woolf. se os B-17 fossem montados lá. Fui ao telefone. Forrester. Enquanto ele se encaminhava para o telefone. — Neste caso. — Decida você. O tráfego era intenso em Park Avenue. Engel no escritório dele em Londres. — Ora essa! Você é o dono da companhia — replicou ele no mesmo tom. — Não precisa telefonar. precisamos colocar imediatamente em funcionamento a fábrica do Canadá. — Bem. creio que ainda podere i pegar o sr. — David trouxe Bonner para falar com você sobre todos os detalhes da produção. olhei para o relógio. Só havia uma coisa desfavorável: eu teria de ficar em Nova Iorque. Estava pre-sente quando assi namos o contrato. Larguei o telefone e fui para a janela. — Nada de Winthrop. para assinar o contrato. — Faça isso. E acho que deve estar aqui para a ssinar os papéis. Nessas condições. — Julguei que você iria partir para a Califórnia hoje de manhã. Joguei-me numa cadeira. — Quanto custaria isso? — Quantas ações de nossa companhia Engel possui? — Cerca de seiscentas mil. Você é o presidente da companhia. — Já disse uma vez: nada de Winthrop. — Com quem vai falar? — perguntou Mac. Se ele tiver de fechar duzentos cinemas. Virei-me para McAllister. Seria impossível na Inglaterra. Jonas — interveio então Forrester. Não é nosso negócio jogar dinheiro fora. Robair foi a tender. O Exército a aba de encomendar cinco CA-200. — Ainda se julga um herói da aviação? Que lhe interessa quem vai montar os aviões? Não é você . Jonas. Não podemos fazer os B-17 na mesma linha de produção. Eram nove horas e eu sabia que ele estava tentando me enganar. — Tudo depende do ponto de vista em que a pessoa se coloca. — Qual é sua idéia? — Engel não gostaria de comprar a Distribuidora Norman da Inglaterra? Isso lhe asseg uraria o acesso à nossa produção e ele não teria de fechar os cinemas. nada de fábrica no Canadá. Forrester e Morrissey entraram. — Mas são cinco milhões de dólares! A Norman da Inglaterra só rende trezentos mil dólares po r ano. Jonas — disse Sheffield.

tentando levar para a cama tu do o que lhe aparecesse pela frente. Os olhos eram de um puríssimo v ioleta-escuro e estavam muito sérios. — Sou Jonas Cord. — Vou mandar Morrissey para o Canadá. — Bravo! Bravo! — disse. Meu pai dissera uma vez a mesma coisa de out ra maneira. — Enquanto você estava em Londres metido com mulheres. Eu irei para a Califórnia. Estávamos na fábrica em Nevada quando Jake Platt. — Fique esperando aqui — disse a Robair. Parece que sumiu de re-pente. apar eceu para dar notícias de uma partida ruim de pólvora. Forrester se aproximou de mim. Quase me arrependia por estar voltando ali. Tomei ali a resolução de que. mas não falava. sarcasticamente. hoje de manhã. para que tome as providências necessárias para começar o trabalho na fábri ca. com os olhos fitos em mim. fiquei aborrecido com Monica por ela morar ali. De repente. Jonas. Depois de tirar algumas baforadas do cigarro. E impressionante. mas. Ajeitei debaixo do braço o embrulho que leva va. ela disse prontamente. Uma menina abriu a porta e ficou olhando para mim. com os punhos cerrados. A última vez em que a vira era pouco mais do qu e um bebê. Olhei pela janela enquanto Robair dirigia habilmente o carro p elo meio do tráfego. Ficou de novo em silêncio. Havia em Queens algo que se mpre me deprimia. Sentei-me e ela se acomodou numa cadeira a minha frente. perguntei: — Não se lembra mais de mim. eu estava nos aeroportos vendo aqueles pobr es-diabos voltarem cansados e abatidos da luta para afastar as bombas dos nazist as de seu traseiro. Roger. Subi os três degraus e toquei a campainha. — Jo-Ann? — perguntei sem muita certeza. Jogue a pólvora ruim fora!" Tudo isso me passou rapidamente pela cabeça e eu disse: — Está bem. Sua mãe está em casa? — Entre — disse ela com sua vozinha suave. Ele tinha razão. Reconheci o grupo de casas quando o carro parou. tendo perdido o belo verde que ostentava n o verão. Preciso dar início à produção das pe-ças o mais rápido possíve — Por onde anda Winthrop? — Não sei. eu to maria providências pessoais para que todos os aviões que remetêssemos fossem tão bons qu e eu não teria medo de voar em qualquer um deles.em vai voar neles. Meu pai voltouse furiosamente para ele: ''E quem absorveria a perda de minha reputação? É meu nome q ue vai em cada lata de pólvora. Ela fez que sim com a cabeça. se conseguíssemos o contra-to. quando tentei descobrir seu paradeiro. ninguém sabia dele. Olhava para mim com os olhos grandes e sérios. para tentar absorver o prejuízo. Só mesmo o crescimento das crianças para m ostrar a passagem do tempo. Comecei a me sentir estranhamente nervoso co m sua franca investigação de minha pessoa e acendi um cigarro. Apenas o gra mado estava prejudicado pelo inverno. Você terá Winthrop. Jo-Ann? . Olhei-a por um momento. Mamãe está se vestindo e não demora. A última notícia que tive dele foi de que estava em Nova Iorque. Um vento frio assobiava por entre as ca sas e fechei mais meu leve sobretudo. Elas têm um jeito de crescer que marca a nossa idade c om mais força do que qualquer relógio. 4 Eu estava quase deitado num canto da limusine quando atravessamos a ponte de Que ensboro. Nada havia mudado. Entrei na sala de estar e ela continuou: — Sente-se. Quando desviei o olha r à procura de um cin-zeiro. apontando para uma mesinha ao lado: — Está aí. — Quando foi que você decidiu dar seu nome a um avião de segunda ordem ? Quando foi qu e o dinheiro passou a ser mais importante que tudo? Encarei-o em silêncio. gerente da fábrica. cerimoniosamente. — Você vai ter de procurá-lo para nós — disse ele com voz mais calma. — Obrigado. Sugeriu que ela fosse mistura da com pólvora de melhor qualidade. — Não há de quê — respondeu.

você está ganhando bem. procuramos ter o aspecto que noss as leitoras pensam que devemos ter. — Não é. sorrindo e e rguendo a mão espalmada à altura do meu joelho. Sobre a vida das estrelas. — E por que ainda não é secretária ou diretora? Ela riu. Além disso. — Obrigado. Eu conhecia o velho Hardin. e a menina estava tão empenhada em mostrar-lhe a nova boneca que nem se desp ediu de nós quando saímos. Estava sentado na escada. Levantei. Mas. Havia nela uma espécie de auto-domínío quase subli me. Acha que ninguém pode ocupar um posto de responsabilidade em qualquer empresa sem passar por tod os os seus setores. poderá resolver todos os problemas que surgirem . sra. Cord me trouxe. estendendo-lhe a mão. Uma boneca. Monica — respondeu Robair. mas parece. para isso. mamãe! — Foi muito gentil de sua parte. Diga-me ago ra o que quer. Sou apenas redatora da revi sta. — Mas. ficando de novo séria. e você tem sido encantador a noite toda. — Talvez esteja no caminho. Style era uma das melhores revistas de moda para senhoras. — O prazer é todo meu. do jeito da velha Photoplay. Era um antigo proprietário de revistas. — Esperava que você fosse gostar. — Por que você insiste em viver aqui. mas não em dólares. Seus olhos brilhavam. Coisas assim. — É claro. Não ganho o dinheiro que está pensando. a campainha tocou. Jonas — disse Monica. Jonas. O sr. fazendo uma reverência. — O que você vai fazer nessa revista? — Reportagens. Peg ou a boneca e olhou para mim. Só falta ele arrum ar o dinheiro. — É muito caro também. — Jo-Ann pode brincar ao ar livre quando faz tempo bom e eu não fico preocupada de q ue lhe aconteça alguma coisa. Já sugeriu que o artigo de abertura do próximo número sej a escrito por mim. por que não se m uda para Westchester? É mais bonito do que isso aqui. alisando a bainha da saia sobre os joelhos. Um momento depois. Dessa maneira. — Veja o que o sr. Robair estava à espera junto à porta do carro. Tudo já está preparado. Mas Hardin não tem dinheiro e só pensarei no caso quando chegar o momento. — Segundo soube. Pagava muito b em em promessas. Peguei o embrulho que levava. o que eu pago é mui to conveniente Na cidade teria de gastar muito mais. na Style. você era deste tamanhinho assim — disse eu. com conhecimento de causa. Olhei para o cenário desanimador de Queens enquanto o carro ia ro-dando para Manha ttan. — Lembro. — Eu sei. Nesse momento. — Muito prazer em vê-lo de novo. Monica? Ela pegou um cigarro e esperou enquanto eu o acendia.Ela desviou os olhos e de repente ficou tímida. — Quando vi você pela última vez. esperando a gente voltar para casa. Ele está queren-do lançar uma nova revi sta de cinema. — Foi um magnífico jantar. — E gosto. . Era a pessoa que ia ficar to-mando conta de Jo -Ann. sobre as filmagens. — É muito bonita. — Há quanto tempo ele vem lhe prometendo coisa melhor? — Há três anos. — Não sei se diz isso sinceramente. Monica acabou de tomar o café e sorriu para mim. Ela sorriu. Ela recebeu o embrulho e se sentou no chão para abri-lo. como nas ruas da cidade. num gesto tipicamente feminino. Hardin é um homem de negócios à antiga. Se prefere viver nos su-búrbios. Nem secretária sou ainda. Jo-Ann levantou-se e correu para ela. O cabelo muito preto descia até os ombros nus sobre um vestido a rigor escuro. — Robair! — disse Monica. muito — disse ela. Monica entrou na sala. Mas creio que agora não vai demorar. — Trouxe um presente para você. você terá de ir para Hollywood. Olhamo-nos bem nos olhos.

— Você tem boa memória. Ninguém sabe dele. A idéia não me agrada nada. para nunca mais voltar. Tem alguma idéia do lugar para onde ele foi depois? . ele apareceu para jantar. — Que razão? Eu nunca abandonaria Jo-Ann assim! — Talvez. Ele só trabalhou no aeroporto para descontar um cheque sem fundos de quinhentos dólares com algum trouxa. Jonas. Irei procurá-lo lá. Quando se mostra agradável. Por quê? — Tenho um bom trabalho para ele no Canadá. — Deve estar em péssima situação. — Não. ele estava pensando mais em ajustar contas comigo do que em defender ou proteger você. Quando ela a deixou. — Tem qualquer idéia de onde ele possa estar? — Nenhuma. Sinto-me bem melhor agora. como aconteceu comigo. — Algumas coisas a gente não esquece. mas ele parece haver desaparecido. é porque quer alguma coisa. Pode ter tido uma boa razão para isso. Monica. — Você pode não conhecer sua mãe. — Foi? — disse ela. como o fato de uma mãe dizer que ama muito a fil ha e desaparecer um dia. ou c oisa parecida. Olhei-a surpres o e ela sorriu. Ela baixou os olhos para a toalha da mesa. me tomou mil dólares emprestados . — Sabe. para descer a esse ponto. se você escrevesse à sua mãe. — Muito bem — disse eu. A única explicação que enco ntro é que eu nada valia para ela. tenho a estranha impressão de que você é muito melhor como amigo do que c omo marido. De repente. — Achei-a uma pessoa muito agradável. estava nov amente calma. E sabe muito bem como ele pode odiar quando sente que alguém o contrariou. Foi a última vez que o vi. — E o que ela poderia me dizer? — murmurou Monica friamente. Jonas? — Sim. dizendo que ia trabalhar como administrador. — Pelo que me lembro dela. Quando tornou a levantá-los. enquanto o garçom enchia novamente nossas xícaras. tem visto seu pai ultimamente? — Não. Tive um encontro com sua mãe. — Por falar nis so. no aeroporto de Teterboro. mas acontece que há uma guerra e p reciso de um homem como ele. 5 McAllister estava a minha espera no hotel. O que não posso compreender nem desculpar é que não me tivesse levado com ela. Há coisa de dois anos. Esperei que o garçom lhe acendesse o cigarro para dizer: — Voltei há pouco da Inglaterra. — Que se apaixonou por ou tro homem e fugiu com ele? Isso posso até compre-ender e desculpar. — Obrigado. — Como aconteceu com você. Uma sombra de preocupação desceu sobre seus olhos. quando vocês chegaram ao hotel em Los A ngeles. quando voltei na tarde se-guinte. Naquela noite. — Foi assim com minha mãe também? — Mais ou menos assim. — Talvez ela não tivesse outro caminho. Jonas.— É preciso haver um motivo? — Preciso não é. — Agradeço muito haver dito isso. ela estendeu a mão por cima da mesa e segurou minha mão. — Encontrou o homem? — perguntou. mas em compensação conhece seu pai. — Escreveu-me uma carta há um ano. com uma leve nota de amargura na voz. deve ser — disse Monica. você devia ter a idade que Jo-Ann tem agora . Mas conheço você. — Quer dizer que você lhe daria um emprego depois de tudo o que ele fez? — Sou quase forçado a isso. ela poderia explicar o que se passou.

— E quem você vai encarregar das reportagens em Hollywo-od? — Ora. — Muito bem. — Semp re falta dinheiro. por mais que chorasse. imagine! — O que você quer que eu faça? — Nada. de fato. Depois que ele saiu. tirando o sobretudo e sentando. Sorri. — Para quê? Você nem ao menos lê jornais. Por quê? — Quero ir para a Califórnia. J. naturalmente. — É possível que esteja na cadeia de alguma cidadezinha de que nunca ninguém ouviu falar. num gesto de quem pedia desculpas. A m elhor maneira que conheço de ganhar espaço e boas notícias é ser dono de uma revista. E eu tenho os melhores redatores do país. Tenho de reco-mendar ao meu corretor que compre algumas ações da Norman. se abriu todo num sorriso e apertou entusiasticamente a mão de Mac. Telefonou para Hardin? — Sim — disse Mac. — Deve estar para chegar. O velho patife era ainda mais esper to do que eu pensava.Iorque? — David e Bonner estão aqui à espera de um telefonema seu. J. — Que prazer revê-l o! Apertei sua mão e disse: — Já conhece meu advogado. o tempo necessário para que ela seja aceita pelo público. virei-me para McAllister. — Parabéns. a revista está feita. pensei que já soubesse. — Soube que Hardin está querendo lançar uma revista de cinema. Mac nada disse. É a pessoa com quem você jantou ontem. — Exatamente. ele nos dará matéria em suas outras revis tas. J. — Soube também que está com problema de falta de dinheiro para o lançamento. A campainha tocou e Robair foi abrir a porta para o pontual S. Jonas. — Quanto seria preciso para botar uma revista assim nas bancas? — Digamos uns trezentos mil dólares. meu rapaz? — Soube que está querendo lançar uma revista de cinema. Vejo que você conhe ce jornalismo. mas ao menos Roger ficará sabendo que fizemos tudo o que era possível.— Nenhuma — disse eu. S. Tenho um filme para fazer. se ajudar na revista de cinema. O cinema precisa de um homem como você. E gosto sempre de ouvir opiniões de gente como você. . — Jonas. O que há. — Tenho pensado nisso. Mas tinha dinheiro de sobra. A maneira pela qua l saqueava a companhia faria o velho Bernie Norman parecer um escoteiro virtuoso . Eu não podia fazer outra coisa. Comecei a rir. Temos tanto interesse nisso quanto você. Ca lculo que. Quem ouvisse S. Jonas — disse ele com um ar de falsa inocência —. É melhor encarregar uma a gência de detetives. McAllister? S. dizendo: — É um grande prazer para mim! Depois voltou-se para mim e disse: — Fiquei muito surpreso quando recebi seu recado. — É preciso mesmo que eu fique aqui para assinar aqueles papéis? — Acho que não. — Vou fazer meu primeiro filme depois de oito anos de descanso. pois sabemos o que o público quer ler. — E pode ficar certo de que minhas revistas lhe darão uma boa cobertura. seria capaz de pensar que ele não tinha dinheiro nem par a a condução. Tinha até espiões no Clube 21. Acho uma vergonha qu e sua editora não tenha uma revista de cinema. meu rapaz. que entrou na sala de mão estendida. — Também acho. Cheque sem fundos. — Era justamente sobre isso que eu queria falar com você. — Sabe como é o negócio de revistas — disse ele. Vou fazer um filme. olhando-me com curiosidade. Mac. J . Jonas. Mas prometi a Roger que tentaria descobri-lo. meu velho! — exclamou ele com sua voz perpetua-mente rouca. É a melhor notícia destes últimos tempos. — Uma revista dessas depende do diretor. Hardin. Jonas. O que você quer com ele? — Talvez tenhamos de entrar para o negócio editorial. A circulação de todas elas anda nuns doze milhões de exemplares por mês. não é? Com um diretor com-petente. Então para que ficar perdendo tempo aqui em Nova. É a garantia da publicação da revista durante um ano. Talvez não se consiga nada.

com o nome de Judy Belden. Ela então afastou um pouco a cabeça e me olhou com seus olhos malicioso s e cintilantes. David. Até a vista. Ela olhou para mim e um sorriso apareceu lentamente em seu rosto. — Aparecem de repente. é melhor cair fora. — Para quê? Todos eles têm chaves-mestras. Não demorou muito. Acho que ainda posso pegar o vôo das duas horas da madrugada da TAL. sem disfarçar a decepção que sentia. Ninguém respondeu. a toalha lhe escorregou do corpo e caiu no chão. sentindo o cheiro do cigarro . — Mas. Jonas? Ela ficará muito satisfeita. — Ora! Estava ansiosa por conhecê-lo. O s contornos do corpo de Jennie eram visíveis atra-vés da cortina opaca do boxe. Depois fez correr a cortina e olhou para mim. — Ela está em Palm Springs. — Se é um dos rapazes da portaria que está aí — disse com voz calma —. an es que eu saia daqui e faça queixa à gerência. Ela fechou a torneira da água quente e a ouvi fungar. — Os empregados deste hotel são terríveis — disse ela. David. em Palm Springs. David. Jonas. Mas a porta não estava trancada e eu fui entrando. No moment o em que ficou na ponta dos pés para me beijar. nas horas ma is estranhas. — Telefone para Rosa. eu trouxe Bonner para Nova Iorque. — Está bem. e muito feliz. E mais uma coisa: não tenho nada que fazer em Nova Iorque e o tra balho de preparação de A pecadora me espera. Não há melhor lugar do que um estúdio para conversar sobre filmes. Ninguém respondeu. É da polícia? — Não. Abri a porta. — Você poderia experimentar trancar a porta. — Não acha que já é tempo de assinar meu contrato. — Está certo. Levantei e perguntei: — Jennie Denton? — Estou registrada neste hotel como Judy Belden. acendi um cigarro e fiquei à espera. — Obrigado. Eram onze e meia. no dia seguinte. Passei pela portaria e me dirig i para o bangalô 5. Bati na porta. patrão? . Devo est ar na Califórnia amanhã de manhã. — Srta. Ela meteu a cabeça pela cortina do chuveiro à procura de uma toalha. quando parei meu conversível diante do Hotel Tropical Tower. E uma coisa: como posso falar com a tal Jennie Denton? É importan te ao menos eu conhecer a mulher que vai fazer o papel principal em A pecadora. Jonas. Ela se aproximou de mim e estendeu os braços passando-os pelo meu pescoço. sorrindo também. Ela cantava no banho com uma voz baixa e rouca. Não respondi.— Quer ligar para David? Um instante depois. — Fez muito bem. Mas diga a ele para voltar ao estúdio. Os olhos eram de um cinza escu ro e não mostravam medo algum. Vou embora para a Califórnia. — Boa viagem. ele me passou o telefone e eu disse: — Alô. Falarei com ele lá. — Vai de avião? — Vou. Jonas. hora da Califórnia. Jonas — disse ele. vi que ela estava se enrolando na toal ha. Sou Jonas Cord. Através da cortina. no Hotel Tropical Tower. fechei a porta. Entrei no banheiro. Como vai Rosa? — Muito bem. Denton? — indaguei. David. Peguei a toalha e a coloquei em sua mão. — Para quê? — perguntei. Telefonei para dizer que fiquei muito satisfeito com seu bom trabalh o no caso das ações. sim. Ouvi então o barulho de água correndo no ba-nheiro. — Ótimo.

Jonas — murmurou ele. O rosto de Dan estava lívido de raiva. — Bem. Mas errei numa coisa. — Como fez quando vendeu as ações a Sheffield. sem fala r com ninguém. Jonas. Acendi um cigarro e disse: — Tem razão. . — O que estou procurando é evitar que você cometa outro erro. Clark Gable. que você pode comprar e vend er! — Comprei e vendi você — disse eu friamente. Ronald Colman. Eu devia ter deixado que continuasse as sim.. — Desculpe. — Pedi a Pierce que viesse até aqui para me ajudar a convencê-lo — disse Bonner. — Você não sabia. mas dê-lhe o apoio de alg uém como Humphrey Bogart. Rina Marlowe . quem conseguia falar com você? Todo mundo sabia que a companhia pouco lhe interessava e que você mesmo estava vendendo parte de suas ações. sr. — Acho que posso dar um jeito — disse cauteloso. Eu ficaria satisfeito se hou-vesse alguns astros no elenco. — Eu podia vendê-las a quem quisesse. — Pode consegui-los para mim? Ele não percebeu o sarcasmo. quando eu fizera O renegado. — Espere um pouco. — Eu. — Está tudo bem — disse eu. Qualquer deles resolverá o caso. Bonner passeava ner-vosamente de um lado para outro. Não estou interessado. Nada havi a mudado..... Dan Pierce estava sentado no grande sofá embaixo da janela. Mas só estou visando ao seu b em. É muita bonda e sua! Levantei então e acrescentei: — Saia daqui. Toquei a campainha em minha mesa e uma das secretárias apareceu. — Vai se arrepender disso.. Inclua a moça se quiser. Quando o conheci. Errol Flynn. Todo mundo sairá rindo do cinema.. — Bom dia. — Arranje um ou dois grandes nomes. Dei-lhes bom dia e entrei no escritório. Não é possível pegar uma moça sem qualquer experiência.. e de que m nunca ninguém ouviu falar. — Ótimo! Muito obrigado ao seu coraçãozinho amável a dez por cento de comissão. Fez seu serviço e eu lhe pague tudo pelos cinco anos que ainda lhe restavam de contrato. — O sr. Cord — disse ela. — Dan não me convencerá de coisa alguma que eu não queira fazer. — Que acha então que devo fazer? Percebi o brilho de confiança que prontamente chegou a seus olhos. — Não pode falar assim comigo! Não sou um dos seus criados. Dan! Saía daqui antes que o bote para fora! E nunca mais apareça neste e stúdio enquanto eu estiver aqui! Ele me olhou muito pálido.6 O escritório era o mesmo de dez anos antes. e colocá-la num filme sem grandes artistas para lhe dar apoio. se visse algum lucro nisso. Cord — disseram elas a uma só voz quando entrei. não sabia. Pierce vai se retirar. Sem dizer uma palavra. Spencer Tracy. Dan. Mas você não vai mais me vender coisa alguma. sr. Saiu batendo a porta e eu me voltei para Bonner. calmamente. fui até a mesa e sentei. Você seria capaz de vender sua mãe. sem incluir no elenco um nome famoso. Para o que diz respeito aos planos para o filme: vai custar mais de três mi lhões de dólares. Jonas. — Pronto. você era um bom agente. — Sei como se sente. Quando se fez o s cript de A pecadora. As ações eram suas e você não me devia nada. — Você é o mesmo que era quando tentou arruinar o show de Nevada em pro-veito do de Buffalo Bill. excetuando as secretárias. Jonas — começou Dan. exaltado. foi para servir de veículo a uma grande estrela. Foi a maior que já houve. — Não poderá fazer um filme tão caro. De mais a mais. sem falar comigo? — As ações eram minhas — disse ele.

— Manterá tudo o que você quiser e você bem sabe disso. Não sei como vocês fazem isso. — E o que tem isso? Para que temos um departamento de pu-blicidade? Quando o filme estiver terminado.. A voz de Bonner exclamou. lhe falou a respeito da festa? Ri e respondi. E eu também. par a o centro do escritório. Era uma das secretárias. O comprido cabelo não era mais castanho-claro. Cálculos para a construção dos cenários. mas o telefone em minha mesa toc ou. — Ótimo — disse eu. O orçamento preliminar. Havia uma estranha expressão em seu rosto. — Não sei.. Dei-lhe adeus com a mão. acho. Austin Gilbert conversou comigo. Além disso. Ela virá. Ele mur-murou com os ol hos fitos nela: — E como. — À vontade. Sp ncer Tracy ou Humphrey Bogart. cortesmente. num sussurro emocionado: —. dirigirá o filme. Aquilo iria custar um bom dinheiro. — Quero que ela seja vestida por Ilene Gaillard — disse a Bonner. — Tenho de me parecer com ela? — perguntou Jennie suavemente. Você a ac hou bastante interessante para fazer um teste. Quando alguém v ir na tela São João ou São Pedro. — Mas um teste não é um filme. Denton já está pronta no cabeleireiro. — Até a vista — disse.. Lembrei-me da patética figura de cabelo branco ajoelhada ao lado da sepultura de R ina. Se gostar de Jennie. Derramava-se pelo pescoço e pelos ombros. quero que veja São João ou São Pedro. — A srta. Bonner foi até a porta e ficou ali por um instante.— Os astros consagrados são uma grande coisa. A porta se abriu e Jennie entrou. finalmente. o importante é a mulher. Desliguei o telefone e disse a Bonner: — Mandei Jennie para o cabele ireiro. quase sem hesitação. — Mas ninguém nunca ouviu falar nela. ela me disse como você ficou a noite toda olhando para ela e no fim lhe falou a respeito do teste. — Posso sentar? — perguntou Jennie. olhando para Jennie. Olhei para Jennie e comecei a sentir um aperto no coração. Encaminhou-se lentamente. sr. Descobrem Lana Turner num balcão de sorveteria. Os duzentos mil dólares que recebiam nada sign ificavam para eles. — Mas isso foi diferente — disse Bonner com uma expressão curiosamente embaraçada. — David viu o teste e o levou a sério. — Até a vista. esqueci de dizer. hesitante: — Ela. Com os grandes diretores era assim. Bonner cocou a cabeça e me perguntou. — Sim.. Ela deixou de trabalhar e se mudou para o leste. — O tes te foi mais uma pilhéria. — Ah. Parou diante de minha mesa e girou lentamente o corpo. que poderiam conseguir isso com qualquer filme. Nunca pensei que alguém fosse levá-lo a sério.. e não Clark Gable. O importante era o script. Bonner tinha razão. — Mande-lhe um retrato de Jennie. Rina. Só que. E os artistas também. se ela estivesse aqui! — Exatamente. não haverá uma só pessoa no mundo que não conheça o nome dela. Bonner veio até perto da mesa e ficou ao lado de Jennie olhando para mim. mas de uma cintilante cor champanhe. não foi? E tudo o que sabia dela er a que se tratava de uma garota que você conheceu numa festa. Achou o script interessan te e virá ver o teste hoje à tarde. Bonner — respondeu Jennie. prefiro dispensá-los. Ela sentou e ficou olhando para mim em silêncio enquanto eu examinava os papéis em c ima da mesa. Estamos fazendo uma história baseada na Bíblia. desta ve z. Ela talvez não possa manter. Nada tenho contra eles. Como podem? Ele arregalou os olhos e ia dizer alguma coisa.Meu Deus! Olhei para ele. . Boston. Quer que vá aí? — Sim — disse eu. Queria fazer uma experiência com uma idéia que tive. Descobrem Jennie num jantar. criando uma radiosidade translúcida em to rno do rosto moreno.. Sabe desde o momento em que pedi u a ela para fazer o teste.

Tudo o que mandar. Wint-hrop não poderá deixar de ouvi-la. — Está bem. Nesse instante. Não vá estragar sua sorte. Os olhos estavam cheios de maquilag em e semicerrados. — Foi só o que viu no teste? Rina Marlowe? — Ela foi o que de maior já apareceu na tela. menina? . Se não gostar. Mas ela partiu hoje ao meio-dia para a Califórnia. volte a fazer o que fa zia antes de conhecer Bonner. As garotas como você andam sempre à procura de um produtor a quem impressionar. — O fim da semana está próximo. Desliguei o telefone e olhei para Jennie. Não faria mal nenhum meter-lhe um pouco de med o. pois preciso falar com ele. Levantei da mesa e tomei-a nos braços. — O homem da agência diz que ele não irá. no trem expr esso. patrão. Eram quase nove horas. Deixo de ser eu. — Eu sei. falando de Nova Iorque. — Lembre-se de uma coisa — continuei. O homem da agência lhe dirá onde poderá encontrá-lo. creio que terei de ir buscá-lo. — Já telefonei. Adia ntei os ponteiros duas horas para ficar na hora de Chicago. Ela mostrou uma expressão de cautela. Eu poderei escolher qualquer delas. — Estou muito ocupado e não posso ir a Nova Iorque. Mas continuou a me encarar. Mas não sou ela. Você mesma me disse tudo o que eu precisava saber. sorrindo. — Chicago? Bem. Senti nos ouvidos a leve mudança de pressão. — Apenas não me sinto bem. Um avião inteiro à disposição.— O quê? — Tenho de me parecer com ela? — Por que pergunta? — Não sei — disse ela. — Por dois mil dólares por semana — repliquei —. você será tudo o que eu lhe mandar ser. o maldito te-lefone tocou. Amos está em Chicago. — A agência de detetives descobriu Winthrop para você — disse ele. — Quer ir? — Quero. — Não compreendo você. Tenho a impressão de que me transformei num fantasma. Nada respondi. não é? — Toda a viagem. Iremos de avião. Corri os olhos pela cabine vazia do avião da TAI que Buzz havia prepa-rado para um vôo especial depois do meu telefonema. E Chicago é uma cidade bem interes sante — disse ela. — Não é preciso. — Ótimo! Procure-o e diga-lhe que venha para cá imediatamente. os olhos estavam fechados. — Telefone então para Monica e peça-lhe que converse com ele. 7 Jennie virou-se para mim: — Assim é que se deve viajar. Não estou fazendo nada. — Deve ser formidável ser dono de uma companhia de aviação — disse Jennie. — O que você não compreende. Olhei o relógio. Ela não respondeu. Jonas. — Pelo menos é vantajoso quando se precisa ir a algum lugar depressa. E nunca poderia ser. — Todos os anos chegam a Hol-lywood mil garotas como você. A boca era macia e quente e. e eu não podia adivinhar o que ela estava pensando. Ela era um pouco arrogante. Se quiser Winthrop. Estávamos começando a descer. quando a olhei . você mesmo terá de tomar as providências. Era McAl lister. Você teve sorte e conseguiu um. A expressão em seu rosto se desarmou por completo e um sorriso aflorou-lhe aos lábio s. — Bonner lhe contou alguma coisa a meu respeito? — Nadinha. Mas não era preciso.

— Será? Por que um homem é lembrado? Pela emoção que conseguiu transmitir? Ou por ter cons truído o edifício mais alto do mundo? — É lembrado por essas coisas. Do contrário. sim. — Tomei a liberdade de mandar preparar uma ceia quente. — Foi muita gentileza de sua parte. olhando para meus pés calçados apenas com meias. compreendi que era apenas passageiro e me descontraí. Senti as rodas tocarem o chão e o avião pousar. Para que então quer fazer filmes? — Talvez porque eu queira ser lembrado por algo mais do que pólvora. — Não se preocupe. — E não dá para você comprar um par de sapatos com ele? Ri. ficando séria de novo. — E você não gostaria disso. E os homens são a primeira coi-sa que uma mulhe r procura compreender. para impedir que o avião pulasse. Um chofer veio ao meu encontro. — Então por que se mete nisso. Eu tinha de fazer as manobras de aterrissagem de todo avião. se essas foram as coisas que ele fez. — Não estava falando em você. Quarenta e cinco minutos depois. Subimos nele num solitário esplendor. Você possui todos os que tra-balham para você. Carter — respondi. — Eu sei. Ela olhou pela janela do avião e virou-se para mim. Não sou diferente dos outros. Fico satisfeito com o que tenho aqui em cima. É o dinheiro que faz isso. Mas não quero muito. sr. a sua espera. E permite-lhe transformar as pessoas no que você deseja. Havia uma mesa posta num canto da sala e ga rrafas no bar. — O dinheiro faz muitas coisas para mim. Devem estar aí em algum canto do avião. com cara de idiota. Da mesma maneira que tudo veio. ainda. vai me deixar mal. Ma s você é diferente. Havia neve no chão ao atravessar mos a pista para chegar até o edifício do aeroporto. Acontece que você me confunde e atrapalha. Ela riu. Não precisa de dinheiro. — Seu carro está lá fora. aviões ou pratos de plástico. O gerente foi nos receb er à porta. tudo vai. mas apesar de tudo é verdade. Cord. Tenho sapatos. sr.. Jennie tremia quando entramos no carro. — Tenho sido mulher toda minha vida. estivesse ou não no comando. — Creio que quer dizer com isso que não possui aquilo lá embaixo. No mesmo instante. . Cord. — Muito prazer em revê-lo. Inconscientemente in-clinei-me sobre o manche. O hábito é uma coisa engraçada. Depois. — Você é filósofa. Nunca pensei que compreendesse tão bem os homens. Jennie teve um tremor de frio e enrolou o casaco leve em torno do corpo. quando a primeira lufada de ar entrou pela porta aberta. levando respeitosamente a mão à pala do boné. Ela apontou para as luzes de Chicago lá embaixo. — Assim tão simples? — Assim. Estão sempre atentos. Telefona ram de seu escritório na Califórnia. — Muito obrigado. — Não sabia que você era filósofa. Você já tem tudo. continuou: — O dinheiro pode comprar o tempo para você. Compreendo quase todos os homens qu e tenho conhecido. — Acho que de algum modo você me possui mesmo. — Nem tudo. além de atriz. — Não pode deixar de ser. a inda que isso não esteja em sua consciência. Referia-me ao avião. para tirar todas as vantagens possíveis. — É verdade.. estávamos no Hotel Drake. não é? — Claro. — Já tinha esquecido de que faz tanto frio durante o inverno — murmurou. Ninguém gostaria.— Você. — Você não sabe se sou uma atriz. Carter abriu a porta do apartamento. — Pode ser que se lembrem mais de você por essas coisas do que por um filme. Estalou os dedos e um elevador abriu suas portas como por encanto. — E se o avião se espatifar? — Não vai fazer diferença. Jonas? Você não precisa. O apartamento está pronto.

Vison. numa tentativa de explicação. pode comprar casacos de vison depois da meia-noite. — Meia-noite e dez. Cord. sr. mas não deu mostras de sua surpresa. Mandarei subir a ceia ime-diatamente. mas estou impr essionada. Esse tipo de gente pode mu dar de nome à vontade. — Devia ter pedido tamanho doze — disse eu. sr. Nin-guém mais compra cas aco de vison tamanho dez. certamente? — Claro. Ele está circulando aqui co . sr. Quando afinal todos os i ndícios apontavam para Chicago. Acha que pode con-seguir um bom c asaco de pele? Carter permitiu-se olhar de relance para Jennie. Carter. — Muita. Atendi e olhei para Jennie. Eles vão ser mandados para cá. Cord. Cord. — Foi o peleteiro. à uma hora da madrugada. Era apenas uma questão de tempo. Olhei para Jennie. Dentro em pouco. Chamava-se Sam V itale. atirando-se em meus braços e me abraçando fervo osamente. — Mas ninguém sabe que estou aqui! Fui até o banheiro e fechei a porta. cortesmente. ninguém mesmo. Quando saí. Quase não vale a pena. fazendo uma reverência. Provavelmente achou bastante estranho Jennie estar jantando no apartament o do hotel. Carter. — Para mim? — perguntou. alguns minutos depois. — Como já disse. Ele saiu. E o tama nho. Denton não estava preparada para o frio. O telefone tocou. e Jennie voltou-se para mim. não. Essa é a diferença. metida em um casaco de vison preto. sacudindo a cabeça. mandarei uma coleção para mademoiselle escolher. ainda atônita. — Qual foi o tamanho que você disse a ele? — Dez. 8 O homem da agência de detetives chegou enquanto estávamos jantando. — Ah. você é um maluco — replicou. Não pude deixar de rir. — Carter! — Pronto. senhora — disse ele. fomos ao Seguro Social. — Sem dúvida. Foi só pedir informações nos estabelecimentos de crédi-to. — Obrigado. — A srta. mas em geral conserva seu cartão do Seguro Social com o nome verdadeiro. que ainda estava tremendo de frio. — Quer dizer que este apartamento corre todo o tempo por sua conta? — É claro — respondi. Queria saber o que eu preferia: vison claro ou escuro. — Muito bem. compreendo. ela estava s entada na cama.— Telefone quando estiver pronto. — Pronto! Pensei que nada mais neste mundo pudesse me impressionar. Ele deixou um rastr o de cheques sem fundos. — Bastam apenas alguns minutos para lavarmos o rosto. — Muito bem. cheia de surpresa. — Está fazendo muito frio em Chicago — disse ela. com os olhos arrega lados. sim. — Teve muita dificuldade em encontrar o homem? — perguntei. Vison sempre dá esse resultado. — Está. para receber o dinheiro a que tem direito. — Como posso saber quando terei necessidade de vir a Chicago? — Quando esteve aqui pela última vez? — Há coisa de um ano e meio. — Ninguém. Sabe que horas são? Olhei para o relógio. — Mas é um maluco simpático. — Não vamos comprá-los. — Escute uma coisa: por que você é tratado como um rei aqui? — Pago meu aluguel. — Acho que é possível. entregando-lhe o fone.

a mulher do strip-tease fez uma pausa em seu número. Heidsieck 193 7. Darlene e a inevitável Rosie To okus. dizendo: — É com fogo que se combate fogo. — Não é preciso tanta pressa. Uma chapeleira com as coxas de fora veio nos tomar os casaco s. — E se tivesse vindo a pé? — Quinze dólares — respondeu rindo. vamos vê-lo. quando segurei sua mão. Do mundo inteiro vem gente a La Parée. O tambor surdo toca va compassadamente. Estava sempre nos lugares onde havia mulheres. As vitri-nes estavam cobertas de c artazes de garotas seminuas: Maybellene. amigo. Vitale olhou para ela. O comp rido cabelo louro em que brilhavam todas as luzes do salão se derramou por seus om bros. — Numa garagem em Cícero. mas ao menos deixe-nos acabar a garrafa. Mal pousamos as taças na mesa. — Onde está trabalhando? — perguntei. Amos não havia mudado. Não estou reclamando do preço. Trabalhava rapida mente e derramou um pouco pelas bordas. O garço m encheu as três ta-ças sem ao menos esperar que eu provasse e foi embora. Colocou rapidamente três taças em cima da mesa e abriu a primeira garrafa. ia virar a garrafa de cabeça para baixo no balde. — E melhor ficar aqui. — Sejam bem-vindos. Mas Jennie sacudiu a cabeça e ficou com o casaco. pensei. enquanto o homem nos levava atra vés do salão cheio de fumaça para uma mesinha diante do palco. — Nada disso! — exclamou ela. Ele olhou para mim. o garçom tratou de enchê-las de novo. Está beben do muito. Ouvindo a palavra champanhe. a menos que se tivesse um estômago forrado de zinco. Há sem pre uma mulher fazendo strip-tease no palco e uma porção de garotas procurando fazer os trouxas pagarem bebidas.m o nome de Amos Jor-dan. espalhadas por todas as cidades do país. Jennie deixou então o casaco cair nas costas da cadeira e tirou o turbante. Ganha o bas¬tante para comprar bebida. É um desses lugares onde o divertimento é constante. — Estou pronta — disse Jennie. onde um gerente de smoking repentinamente se materi alizou diante de nós. Uma mulher estava fazendo strip-tease acima de nossas cabeças. — Viva! — exclamei levantando a taça. Charlene. bem no meio de um requebro. Acab ei de tomar o café e disse: — Bem. O rótulo podia ser falso. e me olhou com o sorriso mais sedutor de seu arsenal . Todas elas iam dançar na-quela noite. mas o champanhe não era. O porteiro nos levou ao salão. O porteiro escancarou um sorriso quando a grande limusine parou à sua frente. Olhei a garrafa. como mecânico. — Não vou perder a chance de estrear o meu casaco! La Parée era uma entre cerca de vinte boates semelhantes numa rua igual a tantas o utras. O sorriso da mulher no palco desapareceu no mesmo instante. Vi um papelzinho branco ao meu lado. Ri. — Onde mora? — Numa casa de cômodos. — Se tivesse vindo num táxi — disse Vitale —. enquanto ela ficava reduzida ao mínimo de roupa que se pode co nceber. pagaria vinte dólares por garrafa. Mas só vai lá para dormir. A rolha saiu com um estouro e a espuma do champanhe escorreu pelo gargalo. Oitenta dólares. mas era um bom champanhe. Aquilo não era lugar para beber uísque. Estava um pouco quente. Passa a maior parte do tempo numa espéc ie de cabaré chamado La Parée. Depois. colocou a garrafa de pé no balde e foi e . O lugar é pouco recomendável e muito perigoso. Olhei para Jennie e ela sorriu para mim. senhora. Um garçom de camisa branca apareceu com duas garrafas de champanhe dentro de u m balde. — Duas garrafas de seu melhor champanhe — pedi. concordou com a cabeça. Abri u a porta com floreios. amigos. na mesa.

Eram pulsos finos e frágeis. Quase calvo e com as pe lancas da extrema velhice pendendo-lhe das faces e do queixo. de vômito e decadência. Estava furiosa com você. Eu nada disse e ele continuou: — Mas eu dei um jeito em tudo. em voz baixa. Denton. — Está procurando alguém. mas não está! Acha então que posso esquecer que você me botou para fora de minha própria companhia? Acha que posso esquecer que você me bloqueou todos os co ntratos. Incrivelmente velho e acabado. — E agora você me vem com uma proposta falsa! Pensa que eu não sei o que você quer? Pens a que eu não sei que você está procurando me tirar do caminho porque sabe que. com uma voz rouca e encharcada de uís-que. não apenas porque havia feito uma promessa a Forrester. — Monica sempre foi uma idiota — replicou. — É a minha garota que e stá dançando ali. Esperei que o número chegasse ao final e disse: — Tenho uma proposta para lhe fazer. Ele nem levantou a vista. os dois. acompanhada por algu ns aplausos mais ou menos indiferentes. Ele não podia ser tão velho assim. Tentei pensar um pouco. e meu dinheiro desaparecera antes mesmo de eu me acomodar no tamborete. — Alô. Virei-me e o agarrei pelos pulsos. afi nal. — Tudo isso está passado e encerrado há muito tempo. — Ele está ali. Levou o copo à boca. — Uma cerveja — pedi ao homem do bar. mas também porque. lutado muito. Por um momento tive vontade de levantar do tamborete e ir embora para a noite fr ia e pura. Só pude ver um vulto indistinto curv ado sobre o balcão do bar. Dizia que o amav a. A garrafa estava diante de mim. e riu. Virei-me para olhar. aquele era o pai de Monica. — Vá embora — respondeu. De repen . bem longe daquele cheiro de cerveja azeda. — Não. que estava olhando para o palco. Não havia mais para ele nenhum caminho a não ser o dos derrotados. Vi então seus olhos e compreendi tudo. no dia em que eu mostrar meus planos a alguém. uma mulher roçou em mim na semi-escuridão. muito mais doente do que eu havia pensado. na outra ponta do bar — disse Vitale. Haviam lutado. Comb inavam bem. incapaz de resistir a um rabo de saia. Amos. para que eu não pudesse mais levantar a cabeça? Não sou tolo. — Já disse a seu mensageiro que não me interessa. e a corrosão do tempo o invadira. Amos. — Vou lá falar com ele — disse eu. — Falei com Monica da oportunidade que ia lhe dar — disse eu — e ela ficou muito satis feita. Teria no máximo cinqüenta e cinco anos. Estava vencido e nada mais lhe restava senão o passado. E rolaria ladeir a abaixo até morrer. você estará perdido? E se aproximou de mim. O-lhou para mim co m os olhos vermelhos e lacrimosos. com um copo nas mãos. e tive uma desagradáve l surpresa. Amos — disse. Estava velho. Mas fi quei.mbora. Ali estava uma ruiva que havia conhecido melhores dias. mas tinham sido derrotados. mas não queria o divórcio. Ele bateu com o copo em cima do balcão. quando me sentei no ban co vazio ao lado dele. Disse a ela que você era igualzinho a mim. garotão? Era a mulher que pouco antes estivera no palco. — Sabe de uma coisa? Ela não queria di vorciar-se de você. — É o que você pensa. Olhei para o palco. Os sonhos haviam morrido p orque ele falhara em todas as ocasiões decisivas. No momento em que le vantei para ir ao bar. Notei que a mão tremia e mostrava uma porção de manchas avermelhada s. A bateria tocou mais forte e a mulher saiu do palco. Outra mulher apareceu no palco e as luzes diminuíram de novo. Voltei os olhos para Amos. Pensa que eu não sabia que você tinha gente para seguir meus passos por todo o país? Amos estava doente. Não havia ainda muita luz. — Acha que precisa de ajuda? — perguntou Vitale. de velho. Fique aqui com a srta. Fiz que não tinha ouvido e continu ei indo para onde estava Amos. Ele largou o copo em cima do balcão e voltou lentamente a cabeça. com um copo. com os punhos cerrados perto de meu rosto.

Vitale apanhou nossos capotes com a chapeleira. Estou tão cansado que não posso mais nem. Olhei para Amos. Olhei para Jennie. — Ele não mora longe daqui — disse. Jennie já estava ao lado dele. dê-lhe um daqueles comprimidos de hora em hora. afrouxando a gravata e desabotoand o o colarinho. Alguém lhe deu uma boa dose de sódio-amital. estendido no banco de trás. e a pressão que exercia contra mim cessou. — Obrigado. mas com um pouco de cuidado isso não terá qualquer importância. O chofer já havia saltado para abrir a porta. — Está bem — disse. Tirei outra nota de cem dólares e a coloquei na mão dela. Sorri. Os olhos dele estavam cheios de lágrimas de raiva. — Não há de que. poderia ser meu pai que ali estivesse. peguei Amos nos braços e me encaminhei para a porta. Não era o fato de ele estar doente que me faria pensar de maneira diferente a respeito dele. — Estou tão cansado. Chamei-o e disse: — Vamos voltar para o Drake. — Está bem. se as coisas tivessem se passado um pouco diversamente. — Uísque demais e comida de menos. antes mesmo de eu descer do banco do bar. Sam — disse ele. 9 O médico saiu balançando a cabeça. Está ar-dendo em febre. quando coloquei Amos no carro. — Acho que é um pouco mais do que isso — respondeu Jennie. Nunca lhe disse que sou formada por uma escola de enfer-magem? Balancei a cabeça. Desculpe. A música parou de repente. doutor — disse eu. Jonas — murmurou. . Fiquei surpre so ao ver como era leve. Passarei de novo pela manhã para vê-lo. Escorregou então de minhas mãos e caiu no chão. é você. Vitale não deixara nada ao acaso. Joe — disse Vitale aproximando-se. não me persiga mais. srta. com a cabeça em meu peito . ante sua impotência. sr. levantando. O médico despediu-se e saiu. Não será a primeira vez que passo a noite em cla-ro. — De quê? — Comprimidos para dormir — disse Jennie. quando acordar amanhã de manhã. você não precisa passar o resto da noite acordada. Está com fe re. noturnos e sinistros. Uma pequena multidão se juntou em t orno de nós. — De um doente? — É claro. — Escute aqui. Era uma casa de cômodos suja e cinzenta. doutor. — Não me incomodo. — Ele está muito fraco — acrescentou o médico.. Acho melhor levá-lo para casa. — Ah. Olhei para Amos. o corpo dele desaprumou-se e ele caiu para a frente.te. e o leão-de-chácara virou-se para olha r quem havia falado. cuidando desse bêbado. — Estará bem. Mas não podia deixar de pens ar que. ele havia tomad o todas as providências. — Isso é pela conta d mesa. fui empu rrado violentamente de encontro ao balcão e um homem enorme de terno preto gritou: — O que há por aqui? — Pode deixar. A ruiva apareceu su-bitamente por trás d e mim e deu um grito. — Por favor. com lágrimas cavando-lhe um rego na maquilagem . cuidando de um d oente. Desde que eu queria Amos. Depois vi a ruiva olhando para mim. De nton. No mesmo instante. Cord.. Da janela do carro observei de relance o lugar e compreendi que não poderia deixar ali um homem doente. — Perdeu os sentidos? — perguntei. jogando uma nota de cem dólares em cima do bal-cão. e dois gatos trepados em la-tas de lixo a bertas diante da porta da frente nos olhavam com seus olhos brilhantes. Abaixei-me então. Enquanto isso. — Vá enxugar as lágrimas. Jennie vinha logo atrás dele.

Eram oito horas da manhã. Jennie — ou talvez Rina — entrou na sala vestida co m um uniforme branco e eles começaram a correr atrás dela. — Não. desviando os olhos. Abri os olhos. Vai se fazendo o que é nec essário.. Fui para o quarto. — Ele se culpa por ter feito você se separar de sua mulher. sentando ao lado de Jennie. Ouvi tudo o que ele lhe disse. Ele não foi mais culpado do que eu. esfregando o rosto no casaco. — Boa noite. Jennie estava sentada na sala diante de um bule de café e algumas tor-radas. você o trouxe para cá. depois de algum tempo. — Quer café? Fiz que sim com a cabeça. — Não vai precisar disso. Amos e meu pa i me perseguiam em uma sala e ambos gritavam coisas ditas de maneira tão enrolada que eu não podia compreender. — Agora vá para sua cama. não adianta nós dois ficarmos acordados a noite toda. Passei uma noite muito agitada. A luz do sol entrava pelas janelas.— Escola de Enfermagem St. Entrou no quarto e f echou a porta. mas não apenas pelo casaco. Jennie. E muito obrigada. — Acha então que eu ia deixá-la andar por Chicago com esse frio todo com um casaquinho leve? — É pelo casaco também. a gente acostuma. E. — Não. dormindo como uma criança. — Você deve estar cansada — disse. Então. mas aí vi que e ra Monica e ela estava chorando. Mas. — Acho melhor você ir descansar agora — disse. A cama ainda está quente. Por que não deita e descansa um pou-co? — E você? — Não tem importância. Trabalhei co mo enfermeira um ano. Tomei-a nos braços. Rina não teve culpa alguma — disse. alguém me em-purrou de encontro à pa rede. nunca deveríamos ter casado. — Um pouco. — Quer beber alguma coisa? — perguntei. — Está bem — disse ela. a sono solto. Eu sorri. todos nós tivemos um pouco de. . Tenho de ficar acordada até o médico chegar. Depois abandonei a profissão. Afinal de contas. não. Tinha um cobertor enrolado no corpo. muito obrigada. Pedi à portaria que m e mandassem um prato duplo de presunto com ovos e mais um bule de café. Era o leão-de-chácara de La Parée. Me formei em 1935. Levantou e foi para o quarto. Fui até o quarto de Amos para vê-lo.. — Acho que tudo só acon eceu porque Monica e eu éramos muito moços. Tentei detê-los e afinal co nsegui levá-la para fora da sala e fechar a porta. Para começar. apanhando minha xícara de café. Nesse momento. — Por quê? — Cansei — respondeu simplesmente. em San Francisco. Enchi de novo minha xícara e peguei o telefone. com certeza. voltou e apanhou o casaco de vison das costas de uma cadeira. Chegou-se à mesa e perguntou: — Quem roubou minhas roupas? Assim de dia. — Vá dormir. Em meus sonhos. — Que mais eu poderia fazer? Não podia largá-lo lá. aquilo era a vida particular de la e eu nada tinha com isso. ele não parecia tão mal quanto na noite passada. Mary. — Ora. Eu sabia que não devia insistir. Ele acendeu uma lanterna elétrica bem nos meus olhos e a luz começou a ficar mais forte. ap esar disso. Veio até onde eu estava e me beijou no rosto. caminhando para o bar. Estava deitado de barri ga para cima. — Mas isso é muito gostoso — disse. ou e la. — Ou Rina Marlowe? — Não. — Sente-se e coma. cada vez mais forte. com o se fosse uma toga. Acho você um homem muito bom. eu a acordarei. — Bom dia — disse ela. Sabe que ele falou um bocado em você durante a noite? — Foi? Nada de bom. Escute. Amos apareceu quando eu estava comendo. Jennie pegou a xícara de café e bocejou. De repente. Jonas. Quando ele chegar. acendendo um cigarro.culpa. — Joguei tudo fora — respondi. Botarei o sono em dia de manhã — disse ela. — Claro que não — murmurou ela. Fechei a porta e voltei par a a sala.

E se eu não a quisesse ver? . mandei que as levassem para o quarto dele. — Sirva-se. mas antes de entrar voltou-se para mim. Depois . O idiota não o conhece. — Oh! — disse ele.Ele ficou onde estava. Desde