Você está na página 1de 6

FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

Teoria Geral de Direito Civil I

Tópicos de correcção do Exame/Frequência Final de 6 de Janeiro de 2009

I
A., nascido em 1994, é menor por não ter completado 18 anos de idade (art. 122.º, do Código
Civil (CC).
Os menores de idade inferior a 16 anos não podem casar (arts. 67º, 1600º e 1601, al. a), todos
do CC). Trata-se de uma incapacidade jurídica de gozo, isto é, não podem ser titulares de relações
jurídicas matrimoniais, excepção à capacidade jurídica de gozo genérica das pessoas singulares
(art. 66.º) e um impedimento dirimente absoluto. Não admite, portanto, suprimento. Assim, A.
não se pode casar com B.
A representação, através do poder paternal, dos pais de A. em relação a este é legal, isto é,
imposta por lei. Destina-se a suprir a incapacidade jurídica de exercício de A., ou seja, a medida
de direitos que se encontra impossibilitado de praticar pessoal e livremente (arts. 123º, 124º, 1878,
nº1 e 1881.º, nº 1, todos do CC). Neste sentido, veja-se, ainda, o consagrado no artigo 1612, nº 1,
do CC, no que se refere à autorização dos pais para o casamento dos menores de 18 anos e
maiores de 16 anos de idade. Porque a incapacidade para casar de A. é de gozo não podem os
seus pais supri-la através da representação legal.
A outorga da procuração (representação voluntária) por A. a favor de ambos os pais, não é
possível. Para tanto, seria necessário que A. fosse titular do direito que pretende atribuir poderes
representativos (art. 262.º, n.º 1, do CC).
A contratação por parte de B. dos serviços da Associação, suscita o problema da falta da
capacidade jurídica daquela pessoa colectiva porque visa a prática de um acto contrário aos seus
fins (art. 160.º, n.º 1, do CC).
Alguma doutrina entende que tal situação gera a nulidade do acto praticado (art. 294º, do
CC).
O Prof. Doutor Pedro Pais de Vasconcelos, no seguimento do Prof. Doutor Oliveira Ascensão,
sustente que a prática de actos ultra-vires por pessoas colectivas determina apenas a ilegitimidade
do acto praticado. Esta ilegitimidade não prejudica os interesses de terceiros que se relacionam
com a pessoa colectiva, de acordo com o princípio da tutela da confiança, sem prejuízo, in casu,
da responsabilização do gerente perante a Associação pelos actos praticado (artigo 6º, nº 4, do
Código das Sociedades Comerciais, aplicável por interpretação actualista e objectivista).
Segundo a doutrina perfilhada pelo Prof. Doutor Pedro Pais de Vasconcelos, A. tem
legitimidade para se opor como pai ao aborto de B., uma vez que estará a defender a vida do
filho ainda não nascido, isto é o direito à vida do nascituro, sendo este o mais importante direito
de personalidade (art. 24.º, da CRP), decorrente da suprema dignidade da pessoa humana que
impõe à Ordem Jurídica o reconhecimento da personalidade jurídica (a qualidade de ser pessoa).
A. estará, também, a defender o seu direito pessoal à paternidade de acordo com o princípio de
igualdade do pai e da mãe, agindo, por isso, ao abrigo da tutela geral da personalidade (art. 70.º,
nº1 do CC). Assim, A. pode requerer judicialmente as providências adequadas às circunstâncias
do caso, com o fim de evitar a consumação da ameaça (arts. 1474.º e 1475.º, do Código de
Processo Civil).
A divulgação da situação vivida por B. nos tablóides nacionais feita por A., constitui uma
violação quanto à intimidade da vida privada de B (art. 80º, nº 1, do CC e art. 26º, da CRP). Não
há nenhuma razão de interesse público na divulgação daqueles factos, a qual se trata de uma
ofensa ilícita à personalidade moral de B., nomeadamente da sua honra e reputação social. B.
pode reagir exigindo pretensão indemnizatória conta A., através do instituto da responsabilidade
civil (arts. 70º, nº 2, 483º, nº 1 e 562º e seguintes, do CC). Têm protecção não só os danos
patrimoniais sofridos, como também os danos não patrimoniais ou morais que, pela sua
gravidade, mereçam a tutela do direito.
A agência Look não tem legitimidade perante a situação jurídica concreta, para revogação o
contrato com B, com fundamento no art. 81.º, n.º 2, do CC. Tal faculdade, que configura um
verdadeiro poder potestativo (alteração da esfera jurídica de outrem sem o seu consentimento ou
até contra a sua vontade) só assiste, segundo o artigo 81, nº 2 do CC, ao titular do direito de
personalidade que o havia limitado voluntariamente, no caso B. Não sendo a revogação de B
válida continua obrigada a cumprir o contrato (art. 406º, do CC), não tendo de indemnizar B.
Por último, o facto de os pais de António se apresentarem na Conservatória, em nome do
filho e em sua representação não pode ter qualquer valor e produzir efeitos jurídicos, porque
como se disse supra, não têm poderes representativos, legais ou voluntários, para representar o
filho no casamento.

II

1.
Pessoa colectiva é uma organização mais ou menos complexa, que envolve uma estrutura de
cooperação e de acção comum, de institucionalização de fins humanos com regime análogo ao
das pessoas singulares, tendencialmente dotada de uma autonomia pessoal e patrimonial.
Quando ocorre um aproveitamento da pessoa colectiva com autonomia patrimonial perfeita
(v.g. associações, sociedades anónimas, por quotas) para obter uma fuga à imputação pessoal e
responsabilidade por parte dos seus associados/ sócios, pode ter lugar a desconsideração dessa
autonomia, através da desconsideração ou levantamento da personalidade jurídica das pessoas
colectivas, como forma de imputação subjectiva das acções e de imputação de responsabilidade
patrimonial.
Assim, existe uma extrema relevância da autonomia patrimonial das pessoas colectivas no
fenómeno da desconsideração da sua personalidade jurídica.
A afirmação não se afigura, portanto, correcta.

2.
A lei só define para integrante de coisa imóvel. Esta definição poderá ser adaptada para parte
integrante de coisa móvel. Assim, parte integrante de coisa móvel será a coisa móvel autónoma,
integrada materialmente e de forma duradoura numa coisa móvel composta. Quando assim
suceda, a parte integrante passa a ter um tratamento jurídico unitário com a coisa onde está
integrada, enquanto não for separada (por exemplo, o volante do carro).
As controvérsias em torno da inclusão ou exclusão de pertenças ou coisas acessórias no
negócio que tenha por objecto a coisa principal devem ser resolvidas, antes de mais, por
interpretação ou integração do negócio e pela concretização da sua disciplina, da qual pode
resultar de declaração tácita, do costume, das circunstâncias em que foi celebrado, do tipo legal
ou social do contrato, que certas ou algumas coisas acessórias devem acompanhar a coisa
principal. Na falta de declaração, costumes, usos comercias, deve aplicar-se a solução legal.
A afirmação não se afigura, portanto, correcta.

3.
O abuso e a falta de poderes inserem-se na temática da representação voluntária.
No abuso de poderes o representante tem poderes de representação mas actua com abuso,
isto é, faz um uso incorrecto, contrário ao que devia ser, o que exige para concretização o
discernimento dos critérios do uso devido e correcto dos poderes representativos, que se aferem
recorrendo à relação subjacente, em atenção aos interesses que regem o agir representativo.
Alguma doutrina e jurisprudência exigem, ainda, a consciência do abuso.
Na falta de poderes, o representante não tem os poderes de representação invocados, trata-se
de um falso representante.
Em caso de falta de poderes, o agir representativo é ineficaz perante o suposto representado e
também perante o terceiro (art. 268.º, do CC). Os actos praticados pelo falso representante não são
imputados à sua própria esfera jurídica, mas também não são imputados à autoria do suposto
representado, sendo que o regime é o da ineficácia absoluta, quer na relação externa, quer na
relação interna. Admite-se, porém, a possibilidade de ratificação.
O abuso de representação não acarreta, em regra, a ineficácia do agir representativo, salvo se
a outra parte (terceiro) conhecia ou devia conhecer o abuso, porque neste caso deixa de merecer
protecção (art. 269º, do CC). Havendo representação, o risco do abuso recai sobre o representado
que escolheu o representante, sendo o abuso uma questão da relação interna entre aqueles que
não pode, em princípio, ser oposta a terceiros.
A afirmação não se afigura, portanto, correcta.
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

Teoria Geral de Direito Civil I

Tópicos de correcção do Exame/Frequência Final de 6 de Janeiro de 2009

I
A., nascido em 1994, é menor por não ter completado 18 anos de idade (art. 122.º, do Código
Civil (CC).
Os menores de idade inferior a 16 anos não podem casar (arts. 67º, 1600º e 1601, al. a), todos
do CC). Trata-se de uma incapacidade jurídica de gozo, isto é, não podem ser titulares de relações
jurídicas matrimoniais, excepção à capacidade jurídica de gozo genérica das pessoas singulares
(art. 66.º) e um impedimento dirimente absoluto. Não admite, portanto, suprimento. Assim, A.
não se pode casar com B.
A representação, através do poder paternal, dos pais de A. em relação a este é legal, isto é,
imposta por lei. Destina-se a suprir a incapacidade jurídica de exercício de A., ou seja, a medida
de direitos que se encontra impossibilitado de praticar pessoal e livremente (arts. 123º, 124º, 1878,
nº1 e 1881.º, nº 1, todos do CC). Neste sentido, veja-se, ainda, o consagrado no artigo 1612, nº 1,
do CC, no que se refere à autorização dos pais para o casamento dos menores de 18 anos e
maiores de 16 anos de idade. Porque a incapacidade para casar de A. é de gozo não podem os
seus pais supri-la através da representação legal.
A outorga da procuração (representação voluntária) por A. a favor de ambos os pais, não é
possível. Para tanto, seria necessário que A. fosse titular do direito que pretende atribuir poderes
representativos (art. 262.º, n.º 1, do CC).
A contratação por parte de B. dos serviços da Associação, suscita o problema da falta da
capacidade jurídica daquela pessoa colectiva porque visa a prática de um acto contrário aos seus
fins (art. 160.º, n.º 1, do CC).
Alguma doutrina entende que tal situação gera a nulidade do acto praticado (art. 294º, do
CC).
O Prof. Doutor Pedro Pais de Vasconcelos, no seguimento do Prof. Doutor Oliveira Ascensão,
sustente que a prática de actos ultra-vires por pessoas colectivas determina apenas a ilegitimidade
do acto praticado. Esta ilegitimidade não prejudica os interesses de terceiros que se relacionam
com a pessoa colectiva, de acordo com o princípio da tutela da confiança, sem prejuízo, in casu,
da responsabilização do gerente perante a Associação pelos actos praticado (artigo 6º, nº 4, do
Código das Sociedades Comerciais, aplicável por interpretação actualista e objectivista).
Segundo a doutrina perfilhada pelo Prof. Doutor Pedro Pais de Vasconcelos, A. tem
legitimidade para se opor como pai ao aborto de B., uma vez que estará a defender a vida do
filho ainda não nascido, isto é o direito à vida do nascituro, sendo este o mais importante direito
de personalidade (art. 24.º, da CRP), decorrente da suprema dignidade da pessoa humana que
impõe à Ordem Jurídica o reconhecimento da personalidade jurídica (a qualidade de ser pessoa).
A. estará, também, a defender o seu direito pessoal à paternidade de acordo com o princípio de
igualdade do pai e da mãe, agindo, por isso, ao abrigo da tutela geral da personalidade (art. 70.º,
nº1 do CC). Assim, A. pode requerer judicialmente as providências adequadas às circunstâncias
do caso, com o fim de evitar a consumação da ameaça (arts. 1474.º e 1475.º, do Código de
Processo Civil).
A divulgação da situação vivida por B. nos tablóides nacionais feita por A., constitui uma
violação quanto à intimidade da vida privada de B (art. 80º, nº 1, do CC e art. 26º, da CRP). Não
há nenhuma razão de interesse público na divulgação daqueles factos, a qual se trata de uma
ofensa ilícita à personalidade moral de B., nomeadamente da sua honra e reputação social. B.
pode reagir exigindo pretensão indemnizatória conta A., através do instituto da responsabilidade
civil (arts. 70º, nº 2, 483º, nº 1 e 562º e seguintes, do CC). Têm protecção não só os danos
patrimoniais sofridos, como também os danos não patrimoniais ou morais que, pela sua
gravidade, mereçam a tutela do direito.
A agência Look não tem legitimidade perante a situação jurídica concreta, para revogação o
contrato com B, com fundamento no art. 81.º, n.º 2, do CC. Tal faculdade, que configura um
verdadeiro poder potestativo (alteração da esfera jurídica de outrem sem o seu consentimento ou
até contra a sua vontade) só assiste, segundo o artigo 81, nº 2 do CC, ao titular do direito de
personalidade que o havia limitado voluntariamente, no caso B. Não sendo a revogação de B
válida continua obrigada a cumprir o contrato (art. 406º, do CC), não tendo de indemnizar B.
Por último, o facto de os pais de António se apresentarem na Conservatória, em nome do
filho e em sua representação não pode ter qualquer valor e produzir efeitos jurídicos, porque
como se disse supra, não têm poderes representativos, legais ou voluntários, para representar o
filho no casamento.

II

1.
Pessoa colectiva é uma organização mais ou menos complexa, que envolve uma estrutura de
cooperação e de acção comum, de institucionalização de fins humanos com regime análogo ao
das pessoas singulares, tendencialmente dotada de uma autonomia pessoal e patrimonial.
Quando ocorre um aproveitamento da pessoa colectiva com autonomia patrimonial perfeita
(v.g. associações, sociedades anónimas, por quotas) para obter uma fuga à imputação pessoal e
responsabilidade por parte dos seus associados/ sócios, pode ter lugar a desconsideração dessa
autonomia, através da desconsideração ou levantamento da personalidade jurídica das pessoas
colectivas, como forma de imputação subjectiva das acções e de imputação de responsabilidade
patrimonial.
Assim, existe uma extrema relevância da autonomia patrimonial das pessoas colectivas no
fenómeno da desconsideração da sua personalidade jurídica.
A afirmação não se afigura, portanto, correcta.

2.
A lei só define para integrante de coisa imóvel. Esta definição poderá ser adaptada para parte
integrante de coisa móvel. Assim, parte integrante de coisa móvel será a coisa móvel autónoma,
integrada materialmente e de forma duradoura numa coisa móvel composta. Quando assim
suceda, a parte integrante passa a ter um tratamento jurídico unitário com a coisa onde está
integrada, enquanto não for separada (por exemplo, o volante do carro).
As controvérsias em torno da inclusão ou exclusão de pertenças ou coisas acessórias no
negócio que tenha por objecto a coisa principal devem ser resolvidas, antes de mais, por
interpretação ou integração do negócio e pela concretização da sua disciplina, da qual pode
resultar de declaração tácita, do costume, das circunstâncias em que foi celebrado, do tipo legal
ou social do contrato, que certas ou algumas coisas acessórias devem acompanhar a coisa
principal. Na falta de declaração, costumes, usos comercias, deve aplicar-se a solução legal.
A afirmação não se afigura, portanto, correcta.

3.
O abuso e a falta de poderes inserem-se na temática da representação voluntária.
No abuso de poderes o representante tem poderes de representação mas actua com abuso,
isto é, faz um uso incorrecto, contrário ao que devia ser, o que exige para concretização o
discernimento dos critérios do uso devido e correcto dos poderes representativos, que se aferem
recorrendo à relação subjacente, em atenção aos interesses que regem o agir representativo.
Alguma doutrina e jurisprudência exigem, ainda, a consciência do abuso.
Na falta de poderes, o representante não tem os poderes de representação invocados, trata-se
de um falso representante.
Em caso de falta de poderes, o agir representativo é ineficaz perante o suposto representado e
também perante o terceiro (art. 268.º, do CC). Os actos praticados pelo falso representante não são
imputados à sua própria esfera jurídica, mas também não são imputados à autoria do suposto
representado, sendo que o regime é o da ineficácia absoluta, quer na relação externa, quer na
relação interna. Admite-se, porém, a possibilidade de ratificação.
O abuso de representação não acarreta, em regra, a ineficácia do agir representativo, salvo se
a outra parte (terceiro) conhecia ou devia conhecer o abuso, porque neste caso deixa de merecer
protecção (art. 269º, do CC). Havendo representação, o risco do abuso recai sobre o representado
que escolheu o representante, sendo o abuso uma questão da relação interna entre aqueles que
não pode, em princípio, ser oposta a terceiros.
A afirmação não se afigura, portanto, correcta.