Crónica Nº 144 – Sabem uma coisa?

Por Henrique de Almeida Cayolla

Só sei que nada sei – Sócrates filósofo grego 470 a.C.
O que Sócrates dizia fazer era a Maiêutica, algo como um processo de parto. Ele dizia que da mesma maneira que sua mãe (que era parteira) dava à luz as crianças, ele era parteiro de homens, fazia nascer o “conhecimento” que já estava dentro das pessoas, ou melhor, despertava um canal, um caminho através da dialéctica socrática a fim de, pela refutação buscar o “conhecimento” ainda que fosse o da consciência da ignorância. Há pessoas que dizem: “eu sei isso, sei aquilo, sei tudo. Já vivi muito e não tenho mais o que aprender.” Bem, quem acha que sabe tudo não está aberto para aprender, portanto não aprende. E se não aprende, não sabe, assim quem pensa que sabe tudo na verdade nada sabe. Ao contrário quem tem consciência que não sabe e está pronto para aprender, sabe muito e quanto mais sabe, percebe que mais tem a aprender… Este é o verdadeiro sábio, aquele que tendo consciência da sua ignorância abre o coração para ouvir, ler, viver, enfim aprender. Como dizia Sócrates: “Só sei que nada sei.” Com essas palavras, Sócrates reagiu ao pronunciamento do oráculo de Delfos, que o apontara como o mais sábio de todos os homens. Pois foi com esta referência, recolhida da página “BENITO PEPE”, na internet, que resolvi dar seguimento ao título, pois, de facto, à medida que procuro aumentar os meus conhecimentos, lendo livros como o de Paulo Morais, com o título «DA CORRUPÇÃO À CRISE. QUE FAZER», vou constatando que, de facto, muito pouco é o que sei sobre, por exemplo, “o peso que os nossos emigrantes têm nas nossas eleições” e “o que se passa com a nossa infância”. Sugiro portanto uma leitura muito atenta e cuidadosa, a toda a informação que nos é prestada por Paulo Morais, num acto de cidadania exemplar. No capítulo 5 – Um povo entre a espada e a parede, no tema EMIGRANTES, Paulo Morais escreve: Página 110 (parte)

Emigrantes
Um terço dos portugueses vive no estrangeiro. São cerca de cinco milhões de compatriotas nossos espalhados pelo mundo, mas mal-amados por Portugal. Em primeiro lugar, o corpo diplomático assume uma postura imperial. Os embaixadores, na sua grande maioria, menosprezam os emigrantes e restringem a sua função à integração de uma absurda brigada da mão fria, de copo gelado em punho, em cada festa de fim de tarde. Depois, os emigrantes são ainda maltratados pela rede consular, que deveria estabelecer a sua ligação ao país de forma estável, mas que actua numa lógica de funcionalismo público tradicional. Acaba por afastar quem se lhes dirige. Há poucos consulados portugueses competentes. Regra geral, a sua má prestação só encontra paralelo na ineficácia das nossas Câmaras municipais ou conservatórias, que encerram para férias ou reduzem serviços

Página 111
quando os emigrantes nos visitam em Agosto e mais necessitariam de tratar de um qualquer assunto oficial. A nível governamental, o cuidado não é diferente. Os executivos tratam dos assuntos das comunidades e das diásporas através do ministério dos ... Estrangeiros. E a secretaria de Estado com a tutela é a de menor peso protocolar. Os emigrantes são assim considerados estrangeiros, e ainda por cima estrangeiros de segunda! Para o Estado português, há portanto filhos como enteados. A situação dos emigrantes chega ainda a ser humilhante em termos de representação política no espaço português. O círculo da emigração, que conta com cerca de cinco milhões de portugueses e luso-descendentes, apenas elege quatro dos 230 deputados. Assim, temos mais de trinta por cento da população portuguesa representada por menos de dois por cento do Parlamento. Não será de espantar que os emigrantes ignorem os escrutínios e que apenas tenham participado cerca de 20 mil no último acto eleitoral das presidenciais. Para acabar com este modelo de representação ultrapassado e até profundamente antidemocrático, bastaria olhar para o que fazem de bem nesta matéria outras regiões e países europeus. Olhar, por exemplo, ali para o lado, para a Galiza, que confere aos galegos que residam em Santiago do Chile o mesmo peso eleitoral dos que vivem em Vigo. Votam assim no seu círculo eleitoral, nas mesmas condições que os residentes na região. E decidem governos. Muitos dos nossos compatriotas tiveram de sair de Portugal porque o país não foi capaz de lhes garantir qualidade de vida ou até condições de sobrevivência. Nessa aventura da emigração para a qual são empurrados, o país abandona-os depois à sua sorte. O que os

Página 112
faz regressar, investir em Portugal, financiar acções solidárias locais e até romarias só pode ser o grande amor que sentem pela pátria. Nos períodos de maior crise e dificuldade financeira em Portugal, as suas remessas salvaram o país da bancarrota. Os emigrantes guardam a nossa identidade cultural, são os maiores foliões das romarias e os adeptos que mais vibram com a selecção de futebol. São os emigrantes que nos dão a garantia que a nação portuguesa sempre sobreviverá, porque esta está onde estiver um

português. Vivendo no Porto, Viseu, Paris ou Newark - somos todos Portugal. Como país, somos bem melhores que o nosso Estado. E como povo, bem maior que o nosso chão. Também com maior peso político e eleitoral, os emigrantes poderão constituir os reforços de que o povo português necessita para se libertar dos incompetentes que nos têm governado.

Uma infância à mercê
As crianças portuguesas estão submetidas a esse veneno social que é a publicidade a elas dirigida. As mensagens publicitárias entram na intimidade de cada miúdo, e conseguiram-no sobretudo por via da televisão. Dos dois aos cinco anos, cada criança passa, em média, cerca de 23 horas por semana em frente ao ecrã televisivo. Isso significa que são mais de três horas por dia, muitas vezes muito mais tempo do que aquele que convive com os pais, irmãos ou restante família. Ver televisão é assim a tarefa mais frequente para mais de 90 % das crianças, tornando-se esses aparelhos verdadeiros encarregados de educação.

Página 113
Nesse tempo que passa em frente à televisão a ver os seus programas preferidos, cada criança recebe, em média, 25 mil anúncios por ano. Estando demonstrado que os mais novos não reconhecem às mensagens publicitárias os intuitos de persuasão que lhes estão subjacentes nem as distinguem da restante programação, estas doses maciças de propaganda ameaçam tornar-se autênticas lavagens aos cérebros. Assim, esses pequenos correm o risco de se converter maioritariamente em consumidores compulsivos. O que é particularmente relevante se pensarmos que a influência da publicidade no aparecimento do desejo de compra é tanto mais grave quanto mais carenciado é o seu meio socioeconómico. As consequências, sociais e familiares, da presença maciça de publicidade dirigida a menores estão à vista. Um dos primeiros resultados é a uniformização de comportamentos, com os miúdos a vestirem da mesma forma e a desejarem brinquedos iguais. Que, em muitos casos, motivam atitudes violentas, contribuindo para o comportamento hiperactivo das crianças, a indisciplina nas escolas e até a violência. Este fenómeno de uniformização é grave porque se repercute no futuro, e assim desde a infância ao longo da vida, a normalização dos comportamentos terá consequências na capacidade dos futuros adultos em manifestarem um sentido crítico. Em segundo lugar, a publicidade agrava problemas de saúde derivados de maus hábitos alimentares, porque apela continuamente ao consumo de comidas pouco saudáveis. A obesidade infantil afecta já hoje milhares crianças em Portugal. Destas, entre 50 a 80% virão a ser obesas na idade adulta, sofrendo todas as consequências que daí decorrem também em termos da sua qualidade de vida.

Página 114
Tudo isto poderia ser evitado ou, pelo menos, limitado no seu alcance social, se a publicidade dirigida a menores fosse proibida ou restringida como acontece na Europa civilizada. Seria uma bela forma de conseguir a Europa por que tantos políticos clamam.

Mas não é só às mãos da publicidade que o Estado abandona as crianças. Infelizmente, também as deixa muitas vezes completamente abandonadas à sua própria sorte. Em Portugal, há treze mil crianças a viver em famílias violentas, que a sociedade ignora e o Estado se demite de proteger. Há também perto de quinze mil menores institucionalizados, em cujo horizonte não entra a perspectiva de uma vida familiar harmoniosa. Muitos deles poderiam até ser acolhidos em agregados equilibrados, mas as entidades públicas não se têm mostrado nada diligentes na condução dos processos de adopção. Existem ainda as comissões de protecção de crianças e jovens (CPCJ), cujos resultados são frustrantes. Em primeiro lugar, os recursos de que dispõem são ridículos e o seu modelo organizativo é uma condenação ao insucesso. Nessas entidades, coexistem dirigentes de instituições de solidariedade com técnicos qualificados, das Câmaras ou da Segurança Social. Os primeiros têm tempo e vontade, mas falta-lhes formação técnica. Os segundos têm competências, mas escasseia-lhes o tempo no cumprimento do horário do expediente. A escassez de meios é recorrente e fatal. As CPCJ são assim apenas eficazes a identificar situações de crianças em risco, mas raramente conseguem soluções de intervenção familiar que resultem na efectiva protecção dos menores. Entregues a si mesmas, as crianças portuguesas estão sujeitas à violência e assim se explicam casos como o de Joana, no Algarve, ou o da pequena Vanessa, no

Página 115 (PARTE)
Porto. Só num contexto de total desdém pelas crianças seria possível montar esse estratagema imoral, conhecido pelo «caso Casa Pia», em que famílias sem meios confiavam ao Estado português os seus filhos que acabaram em redes de prostituição. Com a crise, aumenta o desemprego e as dificuldades económicas potenciam a violência doméstica. Esta situação agrava-se assim, já que a diminuição de meios disponibilizados às CPCJ, por parte de Câmaras, tribunais ou polícias, acontece numa altura em eles eram mais necessários. FIM DA TRANSCRIÇÃO.

NOTA FINAL
Em crónicas minhas anteriores, tenho referido uma ideia que não me canso de insistir aqui mais uma vez: O maior número possível de cidadãos deveria ter acesso a este livro, através das seguintes formas: a familiares e amigos, mas de uma maneira intensiva e interessada.

1ª – Adquirindo-o, e depois facultando a sua leitura, por empréstimo, 2ª – Um grande número de freguesias do país, deveriam possuir o livro,
para o emprestar aos seus habitantes. 3ª – Dever-se-ia fazer uma campanha urgente junto das bibliotecas fixas ou itinerantes, para que adquirissem o livro e o publicitassem.

4ª – As Câmaras Municipais deveriam interessar-se pela difusão do
livro.

5ª – Deveriam organizar-se palestras, por pessoas competentes,
pertencentes às paróquias ou às freguesias, para explicar o conteúdo do livro, e promover a sua venda.

6ª – Muitas firmas deveriam adquirir o livro e emprestá-lo aos seus
colaboradores.

7ª – Muitas entidades, tais como Bombeiros, Clubes com secção de
Lazer, etc., deveriam também ter o livro. Resumindo: Inventar todas as maneiras viáveis de fazer chegar o livro ao maior nº possível de cidadãos. A cidadania, seus direitos e deveres, constitui uma enorme lacuna na sociedade portuguesa . CIDADÃO MAL OU DEFICIENTEMENTE INFORMADO, É PRESA FÁCIL PARA SER MENTALMENTE MANOBRADO! É ASSIM QUE SURGEM AS DITADURAS E OS DITADORES, COM O SEU SÉQUITO DE OPORTUNISTAS, LACAIOS E SERVIDORES.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful