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Escuridão

Por Alice Cullen


Acordei. Abri os olhos, mas não havia luz. Tentei me mexer. Meus pés queimavam, no
entanto, não havia fogo. Se houvesse fogo, haveria luz. Luz? O que estava acontecendo?
Senti o pânico me tomar, o coração disparando, eu podia ouvi-lo gritar, implorando-me
para fugir daquela escuridão. Fugir para onde? Eu nem sabia onde estava,... Percebi que
estava vazia. Vazia por dentro, não tinha lembranças, sonhos, muito menos explicações.
Não sabia quem eu era, ou o quê eu era, nem sequer um nome. Tudo branco, vazio.
Dolorosamente vazio.
Tentei me mover novamente. Os pés ainda queimavam e as articulações estalavam a
cada movimento, achei que estava me despedaçando. Todavia, depois de um longo
tempo, consegui me erguer. Minha cabeça girou. Sentei-me. Meus olhos, já habituados a
escuridão, agora revelavam meu refúgio: uma pequena mesa com um jarro e uma bacia,
uma cadeira e a cama onde estava. Havia uma porta a mais ou menos um metro. Por
debaixo dela escapava alguma luz. Pus-me de pé e fui trocando passos até a porta. Testei
a maçaneta e a porta se abriu. Um clarão invadiu meus olhos, cegando-me
momentaneamente. Apoiei-me na parede até que a visão retornou. Eu estava num
corredor longo, as paredes amareladas eram entrecortadas por várias portas idênticas,
dos dois lados. À frente havia uma escada que dava para uma porta de folhas.
Cambaleante, fui até ela. Encostei o ouvido na porta, tudo silencioso. Abri a porta. Um
ar de solidão reinava no lugar, entretanto não parecia um lugar calmo. Duas fileiras de
bancos atravessavam o recinto até o altar onde Cristo na cruz permanecia de braços
abertos, do lado oposto havia outra porta, adiantei-me até ela. Uma longa tábua a
mantinha fechada, removi-a sem esforço e ganhei a rua.
Os primeiros raios solares banhavam o ambiente, não havia ninguém. Eu estava só e
completamente perdida. Caminhei ao longo da rua observando as casas, muito
modestas, feitas de madeira, sem nada de especial. Avistei, em uma varanda um
calhamaço de jornal, peguei-o esperando encontrar algo que me fosse útil; olhei a data
“22 de setembro de 1910”, não significava nada. De repente, ouvi passos atrás de mim,
estaquei. Um aroma inexplicavelmente doce me invadiu, alcançando em meu interior
um instinto desconhecido. Eu salivava, meu estômago se contorcia. O aroma ficava
cada vez mais forte. “Mary? Mary Alice?!”, uma voz masculina se aproximava. Por um
único instante, encontrei sentido no que se passava comigo, mas foi só um instante.
Depois, perdi totalmente o controle de meus movimentos. Dos próximos minutos, tenho
apenas flashes de memória. Os gritos, o terror nos olhos do homem, meu salto feroz,... e
o líquido quente e reconfortante descendo pela minha garganta.
Quando dei por mim estava num lugar totalmente estranho. Era uma casa, parecia
abandonada. Sem janelas, sem portas. Havia alguns móveis cobertos por lençóis, teias
de aranha no teto, e uma grossa camada de poeira cobrindo o chão. A madeira rangia
conforme eu andava. Em um dos cantos da sala uma moldura chamou minha atenção.
Puxei o lençol que cobria o resto da peça, era um espelho. Tive um sobressalto ao ver-
me refletida. Eu era tão branca quanto o lençol, e pequena, e magra. O cabelo castanho e
liso mal cortado caia sobre meus ombros. Um filete de sangue escorria pelo canto de
minha boca, destacando-se na pele clara. Eu vestia uma camisola azul, muito larga que
ia até os joelhos, mas deixava os braços à mostra. Passei as mãos em minha silhueta,
delineando-a. Senti meu corpo muito rígido, rígido como o mármore. Foi então que
percebi meus olhos, eram escuros, negros, amedrontadores, sanguinários. Fechei-os
esticando os braços, apenas para afastar o espelho. Porém, quando o toquei, ele voou
contra a parede se dividindo em mil pedaços.
Joguei-me no chão sem me importar com os cacos. Embora eu quisesse muito chorar e
deixar o desespero tomar conta de mim, eu não conseguia. Eu não sabia como fazer as
lágrimas saírem. Eu estava sozinha, perdida, sem lembrança e sem respostas. Tive o
impulso de gritar com todas as minhas forças, mas fui contida pelas brumas que
cobriram meus olhos. Eu estava em outro lugar, com pessoas iguais a mim. Eles riam e
se divertiam. Um homem alto, loiro, de olhos castanhos veio até mim e me saudou
“Bem-vinda ao lar, Alice Cullen” enquanto um garoto de cabelos avermelhados sorria
para mim. Ele dirigiu-se ao homem e disse: “Deixe que eu mostre a casa à ela,
Carlisle!”. Novamente as brumas apareceram e eu estava no chão empoeirado. Fiquei
tensa, muito mais confusa. O que se passara comigo? As perguntas jorravam em minha
mente agitada, deixando-me tonta. Agora, porém, eu sabia que não estava sozinha e
alguém poderia respondê-las para mim: Carlisle.
A Dama da Noite
Por Alice Cullen
Dias se passaram até que eu criasse coragem para deixar aquele sombrio lugar que me
servia de abrigo. Certamente Carlisle não estaria naquela cidade, na minha visão era um
lugar claro, de paredes muito brancas, ares muito claros, algo que parecia ser impossível
no local onde eu estava. Esperei a noite cair e arrisquei-me pelas ruas da cidade cujo
nome eu ainda desconhecia. Eu tinha uma missão: encontrar o tal Carlisle, e apenas
isso. Estava tão desesperada que nem me dei ao trabalho de duvidar da visão. Eu
poderia estar sonhando, delirando ou coisa semelhante, entretanto era TUDO que eu
tinha.
Vaguei durante a noite inteira e ao que me pareceu, alcancei os limites da cidade. Uma
placa velha e gigantesca anunciava: “Bem-vindo a Beaumont”. Segui por uma
estradinha de chão batido e durante as horas seguintes fiquei divagando sobre o nome da
cidade. Esperei ficar cansada, mas isso não acontecia, então eu não parava. O sol
apareceu, ascendeu a seu ponto máximo e eu ainda não vira uma alma sequer. Quando
as primeiras estrelas despontaram, avistei casinhas espalhadas no mesmo estilo daquelas
da outra cidade. Quanto mais eu andava, mais as casas ficavam aglomeradas. Havia uma
casa com uma porta de folhas duplas, sobre ela letras garrafais anunciavam: A Dama da
Noite. Vozes confusas escapavam lá de dentro. Tive um impulso de entrar correndo e
perguntar por Carlisle, mas detive-me ao recordar do primeiro dia, aquele homem... Eu
poderia perder o controle novamente. No entanto, tinha de encontrar as respostas, tinha
que descobrir o que eu era. Prendi a respiração - que já não me servia - e entrei.
A porta fez um ruído estrondoso, as vozes cessaram e todos os olhares se voltaram para
mim. Primeiramente, notei que ali só havia homens, nas mesas e no balcão, a maioria
tinha copos e canecos nas mãos. Passei os olhos sobre mim, tentando encontrar algo
errado. Felizmente eu havia trocado a camisola por um vestido florido que encontrara na
casa onde fiquei. De repente, um dos homens bateu a caneca na mesa, deu uma risada e
todos os outros voltaram para suas conversas barulhentas. Cuidadosamente fui até o
balcão e sentei-me num banco alto. Um homem veio me atender, era da minha altura e
um tanto arredondado. Sua cabeça era tão lisa que refletia a pouca luz do ambiente.
- Posso ajudá-la senhorita? – perguntou-me.
Evitei seus olhos, temendo o que poderia encontrar neles.
- Estou procurando um homem! – respondi avidamente.
- Acho que veio ao lugar certo. - retrucou, mostrando em volta.
Acompanhei o gesto com o olhar e creio que minha expressão ficou séria pelo
comentário.
- Sabe pelo menos o nome dele?
- Carlisle! – respondi-lhe rápido.
- Não é um nome comum, - ele pensou – espere um momento. – pôs a cabeça numa
janelinha que dava para outro cômodo e gritou – Meredith! Venha cá.
Uma mulher loira, de cabelos muito cacheados, presos num coque apareceu na janela.
Usava um vestido vermelho, muito apertado, o que fazia chamar muita atenção para
seus seios. Os homens no bar soltavam sons de admiração e chamavam seu nome. Ela
era "A Dama da Noite".
- Que foi Larry? – disse isso apoiando-se na janelinha.
- Essa menina está procurando um tal de Carlisle, conheces?
A mulher deu a volta atravessou uma porta. Veio em minha direção e se apoiou no
balcão. Os homens continuavam a gritar seu nome, e ela os ignorava.
- Carlisle, Carlisle... – ela repetia.
Descrevi-lhe milimetricamente o homem de minha visão. Meredith parecia escutar com
muita atenção. Por vezes brincava com um cacho de cabelo. Quando terminei, ela
questionou:
- Nossa! Este homem detém teu coração?
Não entendi a pergunta, mas ele não podia deter nada meu, pois eu mesma não tinha
nada.
- Não.
-Talvez eu não possa lhe ajudar, querida. Um homem tão peculiar,... Eu lembraria.
Lancei-lhe olhares suplicantes.
- Mas conheço alguém que pode! – ela continuou. – Posso te levar até ele amanhã, tudo
bem?
Assenti, enchendo-me de esperança. Carinhosamente ela tomou minhas mãos.
- Tens lugar para repousar essa noite?
- Eu,... – comecei. Ia dizer que não dormia, mas pelo que notei, todos dormiam. Eu era
A exceção. – Não tenho, não. – respondi, por fim.
- Então podes ficar no meu quartinho. – ela sorriu – Estás com fome?
- Não. – respondi, convicta.
- Bom, preciso trabalhar. – ela se dirigiu até os homens.
Alguém ligou uma vitrola que estava largada num canto. As notas preencheram o salão,
mas logo foram abafadas pelos gritos dos homens. De certa forma, eles pareciam
animais, aquilo me deu náuseas. Retirei-me para o fundo do bar, longe do tumulto.
Fiquei parada ali, retomando a visão reconfortante, ponto a ponto. Perdi-me em
pensamentos e fui surpreendida pelo silêncio do bar vazio quando Meredith me chamou.
Várias horas se passaram sem que eu percebesse.
Meredith mais uma vez ofereceu-me comida, e neguei gentilmente. Então ela levou-me
até seu quartinho nos fundos do bar. Havia duas camas. A mulher foi até o armário, tirou
um cobertor e me entregou, apontando a cama da esquerda. Ela deveria estar muito
cansada, pois assim que se recostou, dormiu. Deitei-me também. Apesar de não estar
cansada, era bom poder relaxar. Entretanto, no momento e que encostei a cabeça no
travesseiro, tomei consciência de minha condição, estávamos sozinhas e eu poderia
perder o controle num piscar de olhos. Fiquei tensa novamente.
Logo amanheceu. Meredith demorou a acordar. Quando ela finalmente levantou, pulei
da cama. Ela agora tinha ar angelical, trajava um vestido azul, solto no corpo e os
cachos lhe caiam nos ombros, seu perfume era doce. Era perigoso. Agora eu estava com
fome. Quis sair rápido, para evitar uma tragédia. Passamos pela porta da frente. O céu
estava completamente nublado, a chuva era iminente. Fiz todo o caminho em silêncio,
de cabeça baixa, deixando-me guiar apenas pelo aroma que emanava da pele de
Meredith. Acho que ela esperava que eu lhe fizesse muitas perguntas sobre a noite, eu
realmente tinha muitas perguntas. Mas tive que usar toda minha concentração para não
perder o controle.
Depois de algum tempo – Meredith andava muito devagar - chegamos numa construção
onde havia uma plaqueta de metal com os dizeres “Cartório Municipal”. A porta estava
aberta. Mas não pude avistar ninguém. O lugar cheirava a mofo. Havia uma
escrivaninha e uma cadeira, e do outro lado, um sofá. As paredes eram cercadas por
prateleiras repletas de papéis. Ao fundo havia uma portinha, Meredith foi até ela e girou
a maçaneta. Um homem apareceu na porta fazendo Meredith pular de susto. Ele, porém,
sorriu e ela retribuiu.
- Irmão, quero que conheça,... – ela percebeu que ainda não sabia meu nome.
- Mary Alice – cumprimentei-o. – Preciso encontrar alguém!
Ele sorriu novamente. Seus dentes eram muito brancos. Ele era alto e moreno. Tirando a
beleza, os dois não tinham mais nada em comum que lhes denunciasse o parentesco.
- Bom, Mary Alice, – fez um gesto indicando o sofá – quem você quer encontrar?
Ignorando o gesto, ia começar a descrição, mas Meredith me interrompeu:
- Desculpem. Tenho que ir, o bar está sozinho. – ela deu um beijo no rosto do irmão e
virou-se para mim – Boa sorte em sua busca, Alice. Espero poder te encontrar qualquer
dia desses.
E saiu, fechando a porta. Estremeci. Eu podia ouvir até mesmo as batidas do coração
daquele homem, parado, vulnerável, ali. Comecei a salivar. Tentava manter a mente em
Carlisle, se eu perdesse o controle naquele instante, eu também perderia a chance de
encontrá-lo.
- Você está bem? – ele perguntou-me. Mas não consegui responder. Desisti.
Novamente as brumas se aproximaram e me carregaram. Deixei-me levar totalmente
pela visão. Era Carlisle novamente, ele estava vestido de branco. O dia estava
ensolarado e sua pele brilhava mais do que a roupa. Ele parecia apreensivo, olhava para
os lados e andava muito rápido. Até que ele entrou num lugar que parecia um hospital...
As brumas me trouxeram de volta. Porém, só tive um momento de consciência, no qual
pude mirar os olhos preocupados daquele homem desconhecido que iria me ajudar.
Em questão de segundos seu sangue quente estava descendo por minha garganta gélida.
Anjo
Por Alice Cullen
“- Não! Eu não quero ser um monstro! – eu gritava. Dois homens seguravam meus
braços, erguendo do chão. Mas eles não eram homens, não como os outros que eu vira.
Eles eram iguais a mim, brancos, frios, rígidos como pedra. Eu me debatia inutilmente,
pois eu sabia que se fossem como eu, jamais se cansariam”.
Aos poucos as imagens ficaram turvas, até que brumas as levaram embora. Eu pude
novamente ver e ouvir.
Dessa vez, a visão não me incomodou tanto. Eu estava me acostumando com elas.
Apesar do terror que senti enquanto vi o medo que sentiria, não perdi o controle dos
meus movimentos. Ainda era eu mesma quando retomei a consciência, e nada havia
mudado. Eu não havia matado ninguém. Mas a sede continuava a queimar na minha
garganta. Eu não queria mais ser um monstro. Dolorosamente, eu tinha consciência do
que eu havia feito, do rastro de destruição que eu deixara pelo caminho. Estava certa de
que queria parar com isso, porém, eu precisava de algo que amenizasse minha sede.
Eu estava numa feira em New Hempshire. Com bandeirinhas coloridas tremeluzindo,
corações excitados, respirações ritmadas, risos, gritos de alegria, crianças correndo de
um lado para o outro com balões nas mãos... Aquilo me preencheu de esperança por um
momento. Havia barraquinhas espalhadas pelo parque, a maioria vendia comida. Nada
tinha um cheiro muito agradável para mim, todavia, eu quis tentar. Deveria tê-lo feito
antes, quem sabe era isso que meu corpo precisava. Peguei um bolinho redondo, muitas
crianças estavam comendo aquilo. Eu tranquei a respiração para não sentir aquele
cheiro, parecia terra ou areia, não fiz muita questão de definir. Fechei os olhos e dei uma
grande mordida, mastiguei algumas vezes e o bolinho se transformou numa massa
grudenta na minha boca, de jeito nenhum eu conseguiria engolir aquilo. Corri para trás
de uma barraca maior nos fundos do parque e cuspi no chão, atirando longe o que
restara do bolinho. Definitivamente não era isso que eu precisava. A comida só fez
minha sede aumentar, e agora minha garganta quase latejava. De repente, escutei um
coração bater acelerado.
- Você está bem?
Virei-me. Era uma mulher de meia-idade, mais alta do que eu, um pouco fora do peso,
cabelos castanhos revoltados e pele muito vermelha. Eu podia sentir o sangue pulsando
pelo seu corpo. Era oportunidade perfeita, ninguém nos veria, apenas um salto e a sede
iria embora. Então o vento passou por ela, seu delicado aroma me invadiu. Eu respirei
fundo, preparando o ataque.
- Oh! Meu Deus! Você está brilhando!
Por um momento pensei que a mulher estivesse com medo, mas quando a encarei seu
rosto era um misto de preocupação e êxtase. Então eu vi, refletido em seus olhos, a
razão de sua perturbação. Onde o sol tocava minha pele, ela brilhava como se
fragmentos de cristais estivessem espalhados pelo meu corpo. Eu sorri, divertindo-me
com aquele fenômeno novo.
Você é um anjo? – a mulher perguntou, se aproximando de mim com cautela.
- O que é um anjo? – questionei sem desviar o olhar da minha pele.
- Anjos são seres de luz, que vêm nos transmitir a mensagem de Deus.
Olhei para ela novamente, eu esquecera da sede. Eu sabia o que era um deus. Lembrei-
me da Igreja onde eu acordara, a imagem de Cristo. “Por que eu lembrava dessas
coisas e não lembrava o que eu era?” Eu não poderia ser um anjo, a mensagem do deus
dela não poderia ser de terror e morte, pois era isso que eu trazia. Senti sua mão quente
tocar meu braço frio. Afastei-me bruscamente.
- Você está com frio? – sua expressão agora era de real preocupação, ela tirou seu
casaco comprido e pôs em meus ombros – Você está tão pálida, parece um pouco
adoecida. Como se chama, querida?
Talvez eu estivesse realmente doente. Por isso eu não gostava da comida, por isso eu era
pálida e fria e brilhante. Senti uma ponta de alegria dentro de mim, talvez eu ainda
tivesse esperança...
- M... Alice, senhora. – Mary me incomodava, e eu estava impressionada demais para
conseguir falar direito.
- Bom, me chamo Valentina. – ela abriu um largo sorriso acolhedor. – Seus pais estão
por aqui? – ela apontou para umas pessoas que riam com as crianças no parque.
- Não, eu não tenho pais. – a mulher pareceu ficar triste. – Na verdade, eu não lembro
de nada de antes de eu acordar. - dizer essas palavras despertou a dor em mim, o vazio,
a escuridão.
Meus olhos arderam com lágrimas invisíveis, tive o impulso de me jogar nos braços
daquela estranha, a imagem que fiz parecia tão reconfortante. Contudo, me contive. Eu
não arriscaria perder o controle com ela.
- Oh, pobrezinha. Você gostaria de ir até minha casa? Vamos chamar um médico para
você, e depois vamos encontrar seus pais, tudo bem? – a mulher passou a mão pelo meu
ombro e gentilmente foi me guiando para fora do parque.
A mulher estava bastante empolgada, ela falava muito. Eu gostava de escutar sua voz.
Eu não a interrompia, respondia-lhe sempre com poucas palavras.
Já lhe disseram que tem uma voz linda, Alice? Deveria cantar... Você gostaria de
cantar, querida?
O sol já não brilhava mais. No céu, tudo voltara a ficar nublado como antes. Entretanto,
em mim, uma nova luz se acendia.
Visões
Por Alice Cullen
A casa de Valentina era muito confortável. Cheirava a flores. Eu gostaria de poder ficar
com ela, se o médico me curasse. Ela era sozinha, sem marido, sem filhos, sem família.
E estava realmente preocupada comigo. Oferecia-me comida. Eu recusava sempre,
fazendo uma careta. Então, ela me fez ficar deitada, alegando que eu não deveria me
esforçar. Mandou chamar um garotinho, filho de uma vizinha, e lhe entregou um bilhete
dizendo “Leve ao doutor Carlisle, peça para ele vir aqui amanhã cedo”. Eu prendi a
respiração quando ouvi aquele nome. “Sim!” exclamei em pensamento. Dessa vez eu
estava no lugar certo. Rapidamente, construí uma imagem na mente: o homem das
minhas visões entrando pela porta, sorrindo, eu o abraçava... Mas nunca cheguei a ter
essa visão. Era tudo apenas imaginação.
Quando a noite chegou, tive outras visões, eu não sabia como detê-las. Estava
assustando Valentina, eu ficava estática, ofegava, murmurava coisas sem sentido. Então,
ela me abraçava, me embalava e afirmava que ia passar, que eu deveria estar tendo
alucinações porque estava fraca. E eu me assustava, pois não me sentia fraca, e sabia
que a qualquer momento eu poderia perder o controle e cravar meus dentes em seu
pescoço. A cada visão a sede voltava mais forte, eu trancava a respiração para evitar seu
aroma instigante. As visões eram como aquela que tive no parque, porém mais
assustadoras. Havia também uma mulher, seu olhar era furioso e as pessoas ao seu redor
se prostravam de dor. Em outro momento, vi uma guerra, na qual não se usavam armas,
todos eram extremamente fortes e habilidosos. Eles estavam descontrolados, desferiam
golpes para todos os lados, o sangue se espalhava pela terra, de vez em quando um
braço ou uma perna voava para longe. E de repente, tudo sumia.
Eu que procurava as visões agora, eu corria atrás das brumas, eu precisava saber a razão
disso tudo. Eu me sentia cega quando não funcionava, e me apavorava quando as via.
Mas eu segurava os gritos e fingia estar dormindo para que ela não ficasse mais
preocupada. Quando o sol já despontava, eu vi a guerra novamente, no entanto ela era
apenas um cenário. O foco da minha visão era um homem, loiro, não muito alto, tinha o
corpo coberto de cicatrizes. Ele gritava ordens que ressoavam por todo o campo de
batalha, os outros se moviam numa dança urgente, e mais sangue era derramado. Então,
duas mulheres de olhos vermelhos surgiram do nada e alguém exclamou “Cuidado!”.
Contudo, já era tarde. O homem das cicatrizes fora despedaçado pela fúria dos dois
monstros, depois tudo se transformou em chamas e gritos agonizantes.
Aos poucos o fogo se esvaía e eu pude ver e ouvir novamente, apesar de estar um pouco
desnorteada. Valentina apareceu na sala perguntando algo sobre a noite, apenas balancei
a cabeça afirmativamente e ela disse: “Logo Dr. Carlisle estará aqui!”.
Eu abri um sorriso e ela retribuiu, senti toda a esperança retornar. “Logo eu estaria
curada, logo eu seria normal”, pensei.
Alguém bateu à porta. Levantei-me, animada, mas não era o homem das minhas visões.
Eram dois estranhos. Fisicamente aparentavam meia-idade. Mas algo neles, talvez a
vestimenta antiquada, fazia-os parecerem velhos. Os tinham traços comuns, cabelos
escuros e olhos negros. Um vestia um manto bordô, e o outro, um manto dourado,
ambos com um brasão de família. Havia também uma garota, mais jovem do que eu.
Demorei alguns segundos para reconhecê-la. Deixei escapar um grito agudo quando
percebi que ela era a mesma da minha visão, aquela que levava dor aos outros. Os dois
homens pousaram os olhos em mim, em seguida se entreolharam. Imediatamente, o
homem que vestia um manto bordô puxou Valentina para perto e murmurou num tom
sarcástico “você viu demais”. Ela lançou um olhar suplicante a mim, porém não gritou.
Dei um salto em direção ao homem, mas algo me atingiu, algo que eu não podia ver.
Tombei no chão, contorcendo-me com a dor invisível. Notei os olhos da garotinha fixos
em mim. Escutei um estalo fraco, pude ver o homem cravando os dentes afiados no
frágil pescoço de Valentina, a dor em mim aumentou, e não era apenas a dor física, eu
sentia pena daquela mulher e ódio daqueles monstros, eu queria atacá-los, fazê-los
parar, e por mais que tentasse, eu não podia nem me mover.
O outro homem, o qual ficara apenas observando, se aproximou de mim e me ergueu.
Eu me debatia e gritava, mas ele estava impassível.
- Jane, pode parar agora. – Ele falou com um sorriso de satisfação nos lábios.
- A garota ergue as sobrancelhas.
- Tenho certeza que Alice se comportará. Ela já percebeu que está entre semelhantes. –
ele continuou sorrindo e apertou mais meu braço. – Logo ela estará pronta para ser um
de nós.
- NÃO! EU NÃO QUERO SER UM MONSTRO! - eu gritava e me debatia, inutilmente.
O homem de manto bordô largou o corpo de Valentina no chão e segurou meu outro
braço. Continuei a me debater e gritar, no entanto eu sabia que não havia mais chances
de escapar. No fundo eu sabia que jamais estivera doente, sabia que era como eles, eu
sabia que havia um monstro dentro de mim e mais cedo ou mais tarde ele se revelaria
novamente. Resolvi me entregar. Parei de tentar fugir.
- Mande Alec limpar essa bagunça! – ordenou o homem de manto dourado enquanto
atravessávamos a porta.
Recomeço
Por Alice Cullen
Havia um carro estacionado do outro lado da rua. Logo, outro carro desceu a estrada e
parou atrás do primeiro, alguém saiu e bateu a porta. Não me importei em olhar.
- Aro! Caius! Que surpresa vê-los nessa pequena cidade! – era uma voz conhecida.
- Carlisle! Soube que tem feito um ótimo trabalho aqui.
Sim! Era ele. Mas não mais minha esperança. Carlisle era um deles também, UM DE
NÓS. Tinha a mesma aparência assustadora, totalmente diferente daquele que eu
perseguia em minhas visões.
Os dois me soltaram e foram abraçar o médico. Eles já sabiam que eu não tentaria
escapar. Eu também sabia, já podia me ver junto deles, aterrorizando indefesos, tirando
a vida de inocentes.
- O que lhes trouxe aqui?
Carlisle passou os olhos em mim. Sua expressão era de pesar.
- Mais um recém-nascido descontrolado... – Caius, o de manto dourado, demonstrou
desinteresse em seu tom.
- Ela parece bem controlada para mim. – o médico-monstro fez menção de tocar meu
braço, desviei-me automaticamente.
- Sim, agora nos será muito útil.
Foram as últimas palavras que ouvi antes de ser acometida pelas brumas. Dessa vez elas
me tragaram por completo. Deixei de sentir meu corpo, transportei-me completamente
para aquela possibilidade futura. Era uma menina, imaculada, usando um vestido
branco. Eu estava lá, podia sentir seu perfume exageradamente doce corroer minha
garganta seca. Podia ver o sangue pulsando sob sua pele alva, sentir as vibrações que as
batidas do seu coração provocavam no ar. Conforme eu me aproximava, seu rosto
tomava feições do mais puro horror, e eu apenas ria de seu medo. Então, pude me ver
refletida em seus olhos. Quase não me reconheci, tinha olhos vermelhos quase saltados,
pele mais branca do que nunca, dentes afiados a mostra como um animal feroz. No
entanto, o que mais me assustou foi a expressão de prazer de Caius e Aros enquanto eu
sugava qualquer sopro de vida daquela inocente.
Quando as brumas me deixaram, não pensei muito. Eu sabia que aquele seria meu
destino, mas havia uma chance. Não me permitiria arrancar mais uma vida sequer!
Quase que instantaneamente me pus a correr. Deixei-os surpresos, pois levou algum
tempo para eu ver Jane correndo atrás de mim. Corri o mais rápido que pude, nem via
direito aonde ou por onde eu estava indo. Jane não estava mais tão longe de mim agora.
Ela era muito mais rápida do que eu. Certamente, pela distância que nos separava, ela já
poderia usar seu truque em mim. Preparei-me para a dor agonizante, mas não apareceu.
E não vi mais Jane. Entretanto, continuei correndo não sei mais por quanto tempo.
Posso ter passado dias e noites correndo que não notaria, meu corpo não se cansava.
Parei quando me dei conta de que estava num lugar totalmente diferente.
Era uma paisagem impressionante. À minha frente, tudo que via era o oceano, azul,
ritmado, sedoso, imponente; As ondas agrediam as pedras e deixavam escapar gotas
geladas de água salgada que salpicavam meu rosto. Mesmo assim, o mar estava tão
longe. O abismo que separava terra e água era muito maior do que qualquer coisa que
eu conhecia. A vastidão daquele lugar era imensurável para qualquer ser.
Sim eu sabia o que deveria ser feito para terminar com a ameaça. Para controlar de vez
o monstro dentro de mim. Arrisquei-me até o final do caminho, onde a ponta dos meus
pés já alcançava o vazio. O vento soprava forte, quase como se tivesse a intenção de
empurrar. Olhei para trás como se pudesse ver todo o caminho que me levara até ali,
sentindo cada aroma, ouvindo cada ruído, experimentando cada impressão. Hesitei um
momento, pesando mais uma vez as consequencias de permanecer. Não havia outra
saída. Se eu não fosse agora, eles me encontrariam e fariam de mim uma assassina
inescrupulosa. E mais uma vez, admirei o oceano límpido. Então, fechei os olhos, abri
os braços e deu um passo breve a fim de encontrar para sempre a escuridão.
***
- Não acredito que você pensou que seria tão fácil! – era uma voz incrível. Estaria eu
naquele paraíso sobre o qual ouvira os outros falarem?
Toquei em algo macio e quente; Não tão quente quanto Valentina, mas normal, normal
para mim. Fiquei aturdida por um instante até descobrir o que estava acontecendo. Eu
nem sequer havia caído na água, eu estava nos braços de um homem que cintilava
contra o sol. Entendi finalmente o que era um anjo.
- Acho que conheço você! – falei, revirando a minha memória em busca de alguma visão
especifica.
- Edward Cullen. – ele gentilmente me pôs de pé sobre uma pedra mais plana. - Prazer
senhorita Alice!
- Como você sabe quem sou? – encarei-o, inquiridora.
- Carlisle me mandou atrás de você para te levar a sua nova casa. - Ele tinha uma
feição séria, mas no canto do rosto abria-se um sorriso de divertimento.
"Sim, eu lembrava! Ele estava em minha primeira visão. Alto, cabelo um pouco
avermelhado, de olhos castanhos, saudando-me. Momentaneamente eu fixei meus olhos
em seu rosto, e o toquei. Sua pele era tão suave, tão branca... Eu era tão parecida com
ele e ao mesmo tempo, eu era tão diferente, eu tinha minhas mãos manchadas com
sangue de inocentes, e ele parecia tão puro."
- Você não é um monstro Alice, NÓS não somos monstros. – ele tomou minhas mãos e
levou-a a seus lábios e as beijou.
“Como ele poderia estar tão calmo? Caius e Aros provavelmente já estariam por perto
e iriam levá-lo também. A não ser que eles fossem cúmplices em seus assassinatos. Sim,
era o que acontecia! E eu não queria fazer parte disso. Preferia a morte. A morte,
sim!”.
Não soube dizer com o que Edward estava distraído, mas aproveitei-me disso para
tentar fugir. Fechei os olhos e novamente corri em direção ao mar. Fui interceptada
antes de deixar a pedra. Edward me tomou em seus braços e correndo rápido demais, até
para mim, levou-me para cima do penhasco. Pôs-me de pé sobre a grama orvalhada,
mas continuou a segurar meus braços, mirando meus olhos enquanto falava:
- Alice, você realmente acha que pode se matar dessa forma?
- Não quero ser como VOCÊS!
- Alice, querida, não somos como Caiu e Aros, nós somos DIFERENTES.- sua voz
permanecia calma. - Eles não estão mais atrás de você, Alice. Carlisle conhece Caius e
Aros, porém não compartilha de seus ideais. Então, ele os convenceu de que o melhor
lugar para você é conosco.
E eu vi Edward novamente, em meio às brumas, num futuro próximo. Ele me dava
Boas-Vindas, exatamente como da primeira vez. Um soluço brotou em meu peito e a
visão foi embora. Eu não poderia ficar, eu não conseguiria aguentar, eu jamais seria
como eles. Minha garganta voltava a queimar...
- E quanto à sede... Nós vamos te ajudar a controlar isso.
Não percebi que sua sentença veio em resposta a um pensamento o qual eu não havia
verbalizado. Deixei escapar um gemido, e os soluços agoniados vieram em seguida. Ele
me puxou para seu abraço terno, uma de suas mãos afagava meus cabelos e a outra
acariciava minhas costas. Eu sentia isso. Pela primeira vez eu sabia que não era um
sonho.
- Shh... Vai ficar tudo bem...
Tudo aquilo pelo qual eu havia passado agora fazia parte de lembranças agora.
Lembranças dolorosas que jamais me abandonariam, mas que seguiriam comigo para
lembrar-me de que eu não devo perder a esperança, pois quando caímos em nossa
tortuosa caminhada, sempre haverá um anjo esperando para nos reerguer.
FIM