A Pedagogia Dialógica de Paulo Freire : um poderoso antídoto contra a violência da escola e na escola.

Reuber Gerbassi Scofano
RESUMO O presente artigo tem por objetivo principal apontar elementos que expressem a atualidade das idéias de Paulo Freire especialmente de sua concepção dialógica. A partir de suas obras Educação com prática de liberdade, Pedagogia do oprimido, Pedagogia da Esperança e Pedagogia da autonomia procurei demonstrar como sua concepção educacional é democrática e forma cidadãos capazes de fazer uma leitura crítica do mundo e da vida. Em um mundo de relações cada vez mais frias e contingentes, sua concepção de educação é um verdadeiro antídoto contra a violência da escola e suas práticas de transmissão impositiva de conteúdos bem como da violência reativa dos alunos agredindo colegas e professores exatamente porque não são ouvidos nem respeitados em seus interesses.

Paulo Freire dispensa apresentações pois é o maior educador brasileiro com amplo reconhecimento internacional. Muito já se escreveu sobre ele e fica até difícil não repetirmos coisas que já tenham sido afirmadas sobre este pensador. O objetivo do presente trabalho é apresentar alguns aspectos entre tantos outros que poderiam ter sido apontados, que demonstram a extrema atualidade de suas reflexões e práticas educacionais especialmente no que se refere ao aprendizado do convívio respeitoso com o outro seja ele quem for. Toda a obra desse grande educador é um combate sem tréguas às praticas autoritárias tradicionais na educação que além de oprimir os alunos incutiam neles o espírito do opressor Filósofo de primeira grandeza pois além de ter como alicerce de seu pensamento clássicos do quilate de Karl Marx, Hegel, Karl Jaspers, Jean Paul Sartre e tantos outros soube criar uma série de conceitos de sua própria lavra, resignificando conceitos aprendidos com esses pensadores. Criou um pensamento filosófico próprio redescrevendo o ato educativo seja no que se refere ao papel da escola, do professor , do aluno ou da comunidade onde a educação se processa. O enfoque principal será o da nova relação que se estabelece entre educador educando proposta por Freire e que a meu ver é atualíssima pois em muitos aspectos não é sequer conhecida por muitos educadores.

Utilizarei como base desta reflexão obras como Educação como prática da liberdade, Pedagogia do oprimido, Pedagogia da esperança e Pedagogia da Autonomia. Estas obras serão a espinha dorsal do trabalho com o qual pretendo mostrar a importância do diálogo no pensamento educacional de Freire que chegou inclusive a criar um neologismo que reflete tal preocupação : a Dodiscência. Este termo é fundamental para compreendermos a redescrição que ele faz de todo o processo educacional.

Na obra Educação como prática da liberdade encontramos o DNA de todo pensamento educacional elaborado posteriormente por Paulo Freire. O interessante é que ao relermos essa obra podemos notar que ela ainda é de extrema atualidade e relevância para o nosso tempo. A valorização da cultura local e da bagagem que o aluno possui é um dos alicerces do pensamento de Freire e é algo que não pode ser desprezado por educadores de qualquer seguimento. Não estamos falando aqui somente de alfabetização ou do ensino de língua portuguesa mas de todas as áreas. São incontáveis as experiências educacionais baseadas em Paulo Freire seja no ensino de Matemática, Geografia, Historia, Língua Estrangeira, Filosofia, Física, Química, Sociologia, Programa da Saúde, Psicologia, Teatro, Artes Plásticas etc. Observemos a atualidade: “sempre confiáramos no povo. Sempre rejeitáramos fórmulas doadas. Sempre acreditáramos que tínhamos algo a permutar com ele nunca exclusivamente a oferecer-lhe” (Freire, 1977,pág.102).

Propõe que o educador se transforme também em educando de seu educando. pois demonstram uma visão centralizadora do processo educacional. Trata-se de autoridade conquistada na partilha de idéias e não de autoritarismo. nesses anos de magistério superior. inclusive de nível superior. a oportunidade de tornar suas disciplinas mais interessantes e vivas no contato com a turma. quais os seus costumes. frases como: “O que eu como professor formado e pós-graduado tenho a aprender com os alunos” .” Frases como essas expressam o grau de despreparo de muitos de nossos professores. “Paulo Freire foi um tanto quanto demagógico ao propor isso. qual a sua visão de mundo bem como o que pensam da disciplina em questão. obtendo um alto índice de rejeição entre os alunos tanto no que se refere ao conteúdo. É claro que o professor assume a liderança no processo. quanto à forma trabalhados. Ouvi. que pontos já conhecem e como podem relacionar o conhecimento a ser aprendido com o seu cotidiano. Perdem assim esses professores. O que sabem sobre ela. por parte de opositores da proposta de Freire. Ambos aprendem e ambos ensinam. Não é por acaso que muitos fracassam em suas disciplinas. Ele redescreve o ato educativo como troca de experiências entre professores e alunos. Paulo Freire nessa mesma obra já manifestava que tudo era um processo em construção: . É por isso que utilizam do terrorismo com as provas e testes para poderem manter a paz em suas salas de aula.Essa idéia de permuta é uma contribuição genial de Paulo Freire. Saber o que os alunos trazem. porém sem autoritarismo.

porém. uma palavra também carregada de tradição doadora. do que formulássemos nós mesmos em nossa biblioteca e que a ele entregássemos como prescrições a serem sugeridas. Daí jamais admitirmos que a democratização da cultura fosse a sua vulgarização ou por outro lado. de que só nas bases populares. Vários educadores. 1977. propôs o Circulo de Cultura. p. Paulo Freire chega a criar novos termos para ressignificar as concepções tradicionais de escola. abandonamos a convicção que sempre tivemos. Nunca. Ao invés de escola. Ao invés de professor. A aula diálogo substituiu a aula discursiva ou expositiva. A palavra aluno também foi substituída pelo termo participante de grupo.102). a doação ao povo. Na mesma linha de redescrição da educação colocando-a sobre um novo olhar.“Experimentáramos métodos.e com elas. técnicas. bem como bastante carregado de passividade. de professor e de aluno. unidades e pontos alienados foram substituídos por programação compacta reduzida em unidades de aprendizado. processos de comunicação. escola esta que reformulou toda sua estrutura na gestão de um educador freireano chamado José Pacheco Rubem Alves em sua obra A escola com que eu sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir nos fala do espanto que teve ao conhecer tal escola que lhe foi apresentada por uma das alunas: . Superamos procedimentos. propôs Coordenador de debates. seguiram essa trilha aberta por Paulo Freire. o que lhe parecia um conceito ultrapassado. poderíamos realizar algo de sério e autêntico para com elas. Na atualidade temos o melhor exemplo na Escola da Ponte de Portugal. (Freire. Os programas.

(Alves. menina de 9 anos. terá de esquecer tudo o que sabe sobre escolas. pois avança ainda mais nas propostas feitas pelo educador. Paulo Freire afirma que toda a programação de debates era sugerida pelos próprios participantes. Isso possibilitou a redescrição do ato educativo.A menina não se fez de rogada. a segui. Uma concepção educacional que trata o aluno como paciente no processo. Para dar conta da situação da extrema centralização no processo educacional ele redescreveu este processo criando um novo conceito. não temos alunos separados por classes. Ainda é bastante comum vermos em nossas escolas e até nas universidades tal prática. Ele o nomeou de Educação Bancária. não temos provas e notas”. não temos campainha separando o tempo. Sua crítica começou em relação aos processos de alfabetização de adultos . Chegando a porta ela parou. inspirada nitidamente em Freire levou a redescrição ao espaço escolar formal implodindo-o.2001. 41) A Escola da Ponte mostra a atualidade das idéias de Paulo Freire. A Escola da Ponte. a tarefa de mostrar e explicar a sua escola a um educador estrangeiro . Encaminhou-se resolutamente na direção da porta da escola e eu. Apesar de ainda conservar o nome de escola nada mais do que acontece em seu interior tem a ver com qualquer coisa que tenha sido feita antes. Ainda na obra Educação como Pratica da Liberdade. voltou-se para mim e disse em voz resoluta e confiante: “Para entender nossa escola o senhor. obediente. pág. nossos professores não dão aulas com giz e lousa. A pedagogia libertadora tinha como uma de suas marcas fundamentais a não formalidade. algo que ainda é raro em nossas escolas.Eu nunca tinha tido experiência semelhante e nunca imaginei que fosse possível que um diretor entregasse a uma aluna. Não temos turmas.

(IBDEM. parte da idéia de que o homem não apenas está no mundo. faz-nos refletir sobre uma revisão de práticas.. .Uma pratica que tratava o aluno como paciente no processo. após as durezas de um dia de trabalho ou de um dia sem”trabalho”. inclusive com previsões catastróficas devido à postura arrogante. de invenção e reivindicação.“A asa é da ave”. Um exemplo que poderíamos citar é o do grande líder seringueiro Chico Mendes que demonstrou em sua simplicidade e sabedoria como o homem poderia extrair seu sustento da natureza sem destruí-la. porque não fosse seu paciente. pág. característica dos estados de procura. lições que falam de ASA –“Pedro viu a asa” .somente com muita paciência é possível tolerar. A própria idéia de desenvolvimento sustentável em que o homem ao invés de ser um predador passa a ser um parceiro da natureza. muitas soluções para a relação do homem com o meio ambiente foram absorvidas. mas está com ele.do homem. O interessante no método Paulo Freire é que ao dar voz e vez às culturas locais e com elas também aprender.capaz de desencadear outros atos criadores. “Eva viu a uva”. Pensávamos numa alfabetização que fosse em si um ato de criação. Numa alfabetização em que o homem. Esta reflexão é atualíssima pois em um mundo que vive uma crise ambiental sem precedentes. 104) A concepção educacional de Paulo Freire tanto no processo de alfabetização quanto em qualquer outro momento do ensino. teve muita influência das culturas tribais ou mesmo de caboclos das mais diversas regiões. a vivacidade. desenvolvesse a impaciência. Essa critica começou em relação aos processos de alfabetização de adultos que se caracterizavam pela infantilização dos alunos e por serem extremamente reprodutoras na verdade. Llições que falam de Evas e de uvas a homens que as vezes conhecem poucas Evas e nunca comeram uvas. A natureza também foi oprimida. seu objeto.

(Ibdem. da esperança. da humildade. só o diálogo comunica. da fé.O dialogo como marca registrada do pensamento freireano se expressa de forma inequívoca quando na obra A Pedagogia da Autonomia ele cria o neologismo DODISCÊNCIA. Só aí há comunicação”. da confiança. É preciso crer no outro e nas suas potencialidades. Por isso. por isso ele redescreve a prática educativa com esse novo conceito que tenta dar conta educação.Instala-se. Nasce de uma matriz critica e gera criticidade. E quando os dois pólos do diálogo se ligam assim. com fé.pág. com esperança. não é humilde. na obra Educação como Prática de Liberdade que nos diz: ”E que é o diálogo? É uma relação horizontal de A com B. é desesperançoso. Ele é desamoroso. um no outro. Sua fonte foi o grande filósofo existencialista alemão Karl Jaspers que propunha o diálogo não só nas questões vitais para ordenação política mas nos mais variados sentidos de ser. No anti . do novo modo de fazer A importância vital dada ao diálogo começa porém. A experiência educacional se dá em sua plenitude na troca entre educador e educando. É desse pensador que nosso educador maior recebe a visão de que somente podemos chegar a ser nós mesmos quando os demais também chegam a ser eles mesmos. O anti diálogo implica numa relação vertical de A sobre B é o oposto de tudo isso. arrogante e auto suficiente. Nutre-se do amor.Trata-se do diálogo que se opõe ao anti diálogo que é algo tão entranhado em nossa formação histórico-cultural. se fazem críticos na busca de algo.entre docente e discente. 107) O diálogo no pensamento filosófico de Freire é indispensável.então uma relação de simpatia entre ambos. com amor.

como cultura também é a obra de um grande escultor. Que cultura é a poesia dos poetas letrados de seu País.diálogo não existe a relação de simpatia entre os pólos. Que cultura é toda criação humana”. 109) Essa postura freireana trouxe o respeito mútuo para a relação e sem duvida valorizou a auto estima do educando que muitas vezes se via como inferior. Assim: “tanto é cultura o boneco de barro feito pelos artistas. Não faltam em nossas instituições de ensino professores que não estão preparados para o diálogo. muitos professores arrogantes. ainda se faz presente em boa parte de nossas salas de aula. ou de um grande pensador. Faz comunicados. de um grande místico. Essa postura que rejeita o diálogo. auto-suficientes e desamorosos. Há um episódio narrado por Freire na obra Pedagogia da Esperança que mostra o quanto ele valorizava o que o aluno possui. segundo Paulo Freire.pág. Outra questão atualíssima e que Paulo Freire já havia desenvolvido em Educação como Pratica da Liberdade é a valorização da cultura popular frente à cultura erudita. educandos e educadores. ( Freire. O educador deveria desde os primeiros encontros mostrar que não se trata de trocar uma cultura pela outra e sim estabelecer um troca de experiências que aumenta o repertorio cultural de ambos. O anti-diálogo não comunica. que caracterizam o diálogo.1977.seus irmãos do povo. inclusive no ensino superior que para usar uma expressão freireana ainda é extremamente Bancário. Quando um aluno lhe disse que eles eram ignorantes Paulo retrucou : . de um grande pintor. como também a poesia de seu cancioneiro popular. Existem ainda tal qual sinalizaram Jaspers e Freire.

vocês. Houve uns cochichos e um deles lançou a questão : -Que é curva de nível? Não soube responder. o clima era mais vivo do que quando começáramos. -Que relação há entre curva de nível e erosão? Três a três. -Para que serve a calagem do solo? Dois a dois. para funcionar bem. os gols que faremos eu. Registrei um a um. Começarei o jogo fazendo uma primeira pergunta a vocês. -Agora cabe a vocês fazer a pergunta a mim – disse. O jogo consiste em cada um perguntar algo ao outro. sei e vocês não sabem. exige de nós absoluta lealdade. -Que é um verbo intransitivo? Três a dois.Que significa a maiêutica socrática? Gargalhada geral e eu registrei o meu primeiro gol. Se o perguntado não sabe responder. -Qual a importância de Hegel no pensamento de Marx? Dois a um. em mim.” A essa altura. em que irei registrando. antes do silêncio. gostaria de lhes propor um jogo Que. precisamente porque assumira o “momento” do grupo. Vou dividir o quadro negro em dois pedaços. Primeira pergunta : . -Que significa epistemologia? Quatro a três. De qualquer forma. disse em resposta à intervenção do camponês “Aceito que eu . é gol do perguntador. do meu lado e do lado de vocês. em vocês. .“Muito bem”.

Ela é a tomada de posse da palavra. É um ato de critica frente ao que se lê.-O que é adubação verde? Quatro a quatro.do texto e da idéia que se transmite enfim. Em certo momento ficaram silenciosos e disseram que só eu poderia falar porque só eu sabia e vocês não. sucessivamente. Outra contribuição freireana que permanece atualíssima e altamente importante para educadores que pretendem alfabetizar tanto adultos quanto crianças é a idéia de que alfabetizar não é um ato mecânico de execução de leitura e escrita exclusiva de letras. Entende-se o que é lido e escreve-se ou fala-se o que é lido. ( Freire.1992. até chegarmos a dez a dez. É um domínio consciente. A alfabetização a partir desse momento passou a ser muito mais do que um mero domínio psicológico e mecânico de técnicas de escrever e ler. Pensem sobre isto. Ao me despedir deles lhe fiz uma sugestão : “Pensem no que houve esta tarde aqui. 48) Este relato demonstra como Freire valorizava a cultura que seu aluno possuía e propunha uma partilha de saberes. Fizemos um jogo sobre saberes e empatamos dez a dez. Vocês começaram discutindo muito bem comigo. Eu sabia dez coisas que vocês não sabiam e vocês sabiam dez coisas que eu não sabia. O que é construído na aprendizagem passa a fazer parte da leitura crítica também do mundo à nossa volta. Assim. p. .

Não seu sejamos contra os textos de leitura. Elas apresentavam a montagem da sinalização gráfica como uma doação e colocavam o alfabetizando mais como objeto do que sujeito da alfabetização. indispensáveis ao desenvolvimento do canal visual gráfico.Pág. médio ou superior uma nova postura em que o método utilizado é também instrumento do educando e não só do educador. (Freire. de palavras.“Implica.p. desgarradas de um universo existencial . A construção das sentenças deve ser resultado de um processo criativo.1977.Acrescentemos que a nossa experiência se fundamenta no aprendizado da informação através de canais múltiplos de comunicação. tanto na alfabetização quanto em qualquer outro momento da educação seja das primeiras séries. e que devem ser em grande parte elaborados pelos próprios “participantes”. o que ocorre é uma alfabetização de dentro para fora. 111) O papel do educador nesse modelo de alfabetização é fundamentalmente dialogal com o alfabetizando.( Freire. não uma memorização visual e mecânica de sentenças. ensino fundamental. muitos educadores. de silabas. inclusive não somente alfabetizadores passaram a relativizar o uso de livro didático pois além de muitas vezes . o jogo criador de combinações. Paulo Freire rejeita uma alfabetização feita de cima para baixo. para que faça ele mesmo. Não é uma doação oferecida pelo mestre pois. o fundamental na alfabetização em uma língua silábica como a nossa é levar o homem a aprender criticamente o seu mecanismo de formação vocabular. Paulo Freire agendou com essa nova visão.coisas mortas ou semimortas mas numa atitude de criação e de recriação. Implica numa autoformação de que possa resultar uma postura interferente do homem sobre seu contexto”. 1977.111) A partir dessa contribuição de Freire. A crítica de Paulo Freire às cartilhas vem dessa reflexão. Situações concretas do seu cotidiano são instrumentos com os quais se alfabetiza. construída pelo alfabetizando com a ajuda do professor. que são outra coisa. nota de pé de página.

Física. História. corrente educacional contemporânea. As etapas de construção do método de alfabetização proposta por Paulo Freire que são investigação do universo cultural. o lixo. O Construtivismo. Química. dialógica. Sua filosofia é uma redescrição das relações do homem com a natureza e os outros homens apresentando uma nova proposta de relacionamento que se caracteriza por ser móvel. Biologia. Língua Portuguesa. estático. o pensamento de Paulo . No clássico freireano Pedagogia do Oprimido o filósofo questiona o falar da realidade como algo fixo. Artes e Educação Física entre tantas outras áreas. aberta ao novo e criadora de infinitas possibilidades para a vida comunitária. elaboração do material didático e a conscientização não somente revolucionaram a alfabetização no Brasil mas também lançaram as bases para que professores das mais diversa áreas se inspirassem nelas. Língua Estrangeira. anti hierárquica. se apóia bastante nessa prática freireana. Geografia. Não é incomum um professor de Química antes de falar da molécula de H2O. não permitem que professores elaborem o material didático a partir de experiência conjunta construída com os educandos. hierarquizado e compartimentado. Filosofia. Não escapam dessa reflexão conversas sobre o esgoto. conversar com seus alunos sobre qual a importância da água em suas vidas e como ela é distribuída entre os diversos bairros da cidade. questões ambientais e toda sorte de informações que se fazem necessárias a uma formação cidadã. Professores de Matemática. Podemos sem dúvida aproximar nesse ponto .contribuir para a veiculação de ideologias. Sociologia. passaram a valorizar a cultura local dos alunos e a relacionarem com seus campos específicos de saber. Trata-se de uma concepção de mundo alheia à experiência de vida dos educandos. Teatro.

Quanto mais passivos. Belém para o Pára e Pará para o Brasil”. melhores os alunos para o modelo Bancário.pag. . Daí que seja mais som do que significação e assim.1981. melhor será não dizê-la. Freire utiliza a metáfora do aluno “vasilha” que vai ser enchido por depósitos que o professor faz.65) Trata-se de uma prática pedagógica que leva os alunos a uma memorização mecânica do conteúdo repassado. Uma educação que não ensina a buscar. o educador aparece como seu indiscutível agente. Pará capital Belém. dois dos requisitos fundamentais reclamados pela sociedade pós industrial. ele simplesmente faz comunicados que devem ser memorizados e assimilados pelos alunos. inventou um termo novo. Ao criar o conceito de Educação Bancária.(Freire. a pesquisar por conta própria dificulta a transformação ou a criatividade. A palavra. Quatro vezes quatro dezesseis. memoriza. uma metáfora genial e atualíssima para dar conta da práticas educativas transmissoras e conteudistas: “Nela. se esvazia da dimensão concreta que devia ter ou se transforma em palavra oca e alienada e alienante. A educaçâo ainda é em muitas situações uma experiência de depósito em que os educandos são os recipientes e o educador o depositante. desconectados da totalidade em que se engendram e em cuja visão ganhariam significação. repete. que o educando fixa. Por isto mesmo é que uma das características desta educação dissertadora é a “sonoridade” de palavras e não sua força transformadora. O que significa capital na afirmação Pará capital Belém. que aparece pela primeira vez na obra Pedagogia do Oprimido. cuja tarefa indeclinável é “encher” os educandos dos conteúdos de sua narração.Freire com o de autores da filosofia que alguns anos depois desenvolveram a teoria da Complexidade tais como Edgar Morin e Prigogyne.conteúdos que são retalhos da realidade. como o seu real sujeito. O educador não se comunica. sem perceber o que realmente é quatro vezes quatro. nestas dissertações.

b)o educador é o que sabe. os educandos os que seguem a prescrição . meros objetos. que opõe antagonicamente à liberdade dos educandos . os educandos. h) o educador escolhe o conteúdo programático .finalmente. veremos que a concepção bancária ainda impera. sendo dimensão da “Cultura do silencio” a “educação bancária” mantém e estimula a contradição. é o sujeito do processo . se acomodam a ele . Ela não trabalha com comunicados tão pouco com depósitos de . p. os que têm a ilusão de que atuam. os educandos. i) o educador identifica a autoridade do saber com sua autoridade funcional. os que são educados. os que não sabem c) o educador é o que pensa. os educandos. Em contraponto a essa concepção educacional Freire propôs o que ele denominou Educação Problematizadora. 1981. os educandos. Pelo contrário. f) o educador é o que opta e prescreve sua opção . ( Freire. então. não se verifica nem pode verificar-se esta superação. na atuação do educador . g) o educador é o que atua . jamais ouvidos nesta escolha. os disciplinados . d) o educador é o que diz a a palavra . e) o educador é o que disciplina . os educandos. estes devem adaptar-se às determinações daquele .Uma prova contundente da atualidade da crítica freireana ao modelo bancário pode ser retirada da Pedagogia do Oprimido e pode ser observada em diversas experiências educacionais no Brasil ainda hoje: Na concepção ‘bancária’ que estamos criticando. 67) Que atualidade! Se nos aproximamos com sinceridade do que se faz em muitas salas de aula no Brasil.os educandos. de transmitir valores e conhecimentos. que nela: a) O educador é o que educa. refletindo a sociedade opressora. os que escutam docilmente . para a qual a educação é o ato de depositar. os pensados. Daí. de transferir. j) o educador. os educandos. os educandos.Trata-se de um concepção radicalmente oposta à Bancária.

Jamais trata o aluno como mero paciente mas como alguém ativo no processo de construção do conhecimento. não mais o educador do educando . não seria possível á educação problematizadora. . no processo. Mediatizados pelos objetos cognoscíveis que na prática “bancária” são possuídos pelo educador que os descreve ou os deposita nos educandos passivos. sem superar a contradição entre educador e educandos. que rompe com os esquemas verticais característicos da educação bancária.conhecimentos. (Ibdem. mediatizados pelo mundo. A liderança do professor é conquistada no convívio. ambos são investigadores. Como não lhe seria possível faze-lo fora do diálogo. 79) O educador problematizador está sempre reelaborando seu conhecimento ao estabelecer contato com o conhecimento do aluno. (Ibdem. trata-se de parceria. porém alguém que ao educar é também educado pelos educandos.pág. Ambos são sujeitos no processo educacional. Em verdade. mas educador-educando com educando-educador. Para que isso ocorra.pág. como tampouco ninguém se educa a si mesmo:os homens se educam em comunhão. 78) A pergunta que podemos fazer. não mais o educando do educador. Constroem-se-se juntos e não há argumento de autoridade. no entanto. O educador não é mais apenas aquele que educa. atestando a atualidade de Freire é: Qual a prática educativa que pode abrir mão de um diálogo aberto e franco nos dias de hoje? Somente através do diálogo é possível realizar o objetivo de Freire. Essa autoridade mansa se constrói com liberdade e não contra ela: Já agora ninguém educa ninguém. realizar-se como prática de liberdade. se faz necessária a superação da oposição entre educador-educando.

que olham para a frente. o seu objetivo. A temática central é da formação docente e o que ela deve valorizar. (Ibdem. os homens vão tomando conhecimento da realidade e acabam por intervir criticamente. para melhor construir o futuro. Paulo Freire faz uma espécie de apanhado dos principais temas que merecem sua reflexão educacional. Aparecem nessa obra certos aspectos que estão presentes em toda a sua obra anterior. “A educação problematizadora. como seres a quem o imobilismo ameaça de morte. Daí que se identifique com eles como seres mais além de si mesmos – como “projetos” – como seres que caminham para a frente. é futuridade revolucionária. que não é fixismo reacionário. esperançosa.Enquanto a prática bancária inibe o poder criador do educando mantendo-o imerso no cotidiano. Propõe os saberes necessários á prática educativa. Nessa ultima obra de Freire podemos observar claramente a coerência de seu pensamento trinta anos após a publicação de Educação como Pratica Liberdade e . quanto mais exercida proporcionará desafios. possibilitando assim um esforço permanente através do qual. Daí que se identifique como o movimento permanente em que se acham inscritos os homens . o seu sujeito. a idéia de que formar é algo muito mais amplo que somente treinar o educando para o exercício de tarefas . mas um modo de melhor conhecer o que está sendo. 84) No seu texto Pedagogia da Autonomia. movimento que é histórico e que tem o seu ponto de partida. A inconclusão do ser humano. Daí que seja profética e. como seres que se sabem inconclusos. a prática problematizadora investe na emersão das consciências que resulta numa insersão crítica na realidade. a consciência crítica em contraponto à consciência ingênua. Daí que corresponda à condição dos homens como seres históricos e à sua historicidade. para quem o olhar para traz não deve ser uma forma nostálgica de querer voltar.pág. Trata-se de uma obra atualíssima e felizmente bastante utilizada em cursos de formação para o magistério. A problematização. como tal.

não se reduzem à condição de objeto um do outro”. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ao ao anunciar a novidade”. Precisamos aprender a lidar com a pesquisa. Em total conformidade com o Paulo Freire em seu início de trabalho ele propõe que não há docência sem discência. a poluição . pelo contrário. no banheiro enfim em qualquer lugar que o educando possa exercer seu espírito de pesquisa. Vejamos alguns: Para Freire. constatando intervenho.Pedagogia do Oprimido. Não há necessidade de laboratórios. porque indaguei. o professor é alguém que continua buscando e procurando continuamente. com a curiosidade e levar os alunos a perceber que eles também podem pesquisar nos lugares mais simples. Não há ensino sem pesquisa tampouco não há pesquisa sem ensino. Alguns tópicos desse livro são bastante atuais. por exemplo. porque indago e me indago. ensinar é algo que exige pesquisa. pode ser no quintal. Ambas ensinam e aprendem e seus sujeitos. Ao exercer o magistério. hoje mais do que nunca ele deve mostrar a seus alunos que não há verdade absoluta em nenhum campo. 32) O professor não é portador de um conhecimento estático e fechado. na cozinha. intervindo educo e me educo. “Ensino porque busco. apesar das diferenças que os definem. Pesquiso para constatar. O respeito ao saber dos educandos permanece como um dos pilares da pedagogia freireana: Porque não aproveitar a experiência que têm os alunos de viver em áreas da cidade descuidadas pelo poder publico para discutir. (pág.

pag. quando foram produzidas as obras que deram a base para a concepção educacional freireana. (Freire. 38) Trata-se uma prática pedagógica que trabalha os conteúdos vinculando-os à realidade concreta dos alunos. Hoje. A experiência educativa tem um caráter forte de formação para o convívio. construtiva em prol do bem comum. . Isso pode ser feito em qualquer disciplina. Pode ter leveza e ser contundente e acima de tudo. Daí a importância de que essa postura crítica frente ao mundo seja banhada de ética e estética. Este convívio norteado pela ética de valorização da vida e da justiça não precisa ser algo . O papel do professor como provocador da consciência critica é algo fundamental em uma sociedade midiática como a nossa. O papel do professor como investigador e de instigador da reflexão dos alunos a respeito de como nos chegam as informações e de que maneira podemos utilizá-las em favor da comunidade é fundamental. A criticidade é outro tópico constante no pensamento de Freire e de atualidade impressionante. muito mais do que nos idos da década de sessenta. O impacto das mídias sejam elas quais forem pode ser algo devastadoramente alienante ou pode ser um belo instrumento de inclusão e valorização da democracia. se faz necessária uma leitura crítica da “realidade” que se nos apresenta. A criticidade porém não precisa ser algo ácido ou que engesse nossa visão de mundo tornando-nos donos da verdade.2003. os lixões e os riscos que oferecem a saúde das gentes.Por que não há lixões no coração dos bairros ricos e mesmo puramente remediados dos centros urbanos?.dos riachos e dos córregos e os baixos níveis de bem-estar das populações.

respeito à vida em todos os seus sentidos acompanhado da beleza. ao respeito ao outro e sua convicção. um signo importante para o aluno. Se fizéssemos como fez Paulo Freire. vamos ver que muitos momentos em que acontece realmente o aprendizado em nossas vidas. do prazer e da alegria. Deve corporificar suas palavras através de atos. foi via humor. inspetores ou coordenadores ficam a espreita das salas de aula onde ocorrem gargalhadas. Pode ter leveza e respeito. Deve estar atento as suas atitudes afim de que sejam estimuladoras da cidadania e do espírito democrático. Por uma educação romântica e A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir.ranzinza ou puritano. Conversas sobre educação. Por isso ele não abre mão da ética e da estética juntos na sala de aula. Há ainda em nossas escolas uma visão de que o riso e a alegria não devem ocorrer nas instituições de ensino. Há uma contribuição importante que Paulo Freire agenda e que se dá no contexto da relação entre o professor e seus alunos. à amizade. Estórias de quem gosta de ensinar. por exemplo. É por essa seara que. Em diversas escolas. um exame de consciência. Nesse sentido o professor é uma referência.desenvolverá sua visão de ensino o educador e pensador Rubem Alves em obras marcantes como: A alegria de ensinar. que uma das funções mais importantes do professor é de criar um clima favorável ao convívio. Um clima em que todos se sintam à vontade para participar das experiências oferecidas. Ele acredita assim como Carl Rogers e sua pedagogia não diretiva. O professor é muitas vezes mal visto por trabalhar com alegria e contagiar seus alunos a tal espírito. . além de beleza e alegria sem qualquer ranço patrulheiro de sentido moralista.

( Freire. A prática preconceituosa de raça. desafiar o educando com que se comunica e a quem comunica. sem idéias de formação. exercendo como ser humano a irrecusável. das águas.Esse tipo de visão freireana contribuiu muito para estimular alunos a atuarem mais em suas vidas e abandonar explicações mágicas sobre o porque das coisas. Tanto professor quanto aluno são seres inacabados e por isso em processo de construção permanente. sem politizar não é possível”. 42) A concepção de homem como ser condicionado mas não determinado é outra contribuição essencial de Paulo Freire para a educação. O professor freireano é aberto ao diálogo com a polissemia do mundo. ou teologia. podemos mudar determinadas situações mesmo que à custa de muito esforço. sem usar as mãos. “É neste sentido que para mulheres e homens. Estar no mundo. sem sonhar. sem ”tratar” sua própria presença no mundo.pág. sem esculpir. de gênero ofende a substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia (. aceitação do novo que não pode ser negado ou acolhido só porque é novo.) a tarefa coerente do educador que pensa certo e. prática de inteligir. assim como o critério de recusa ao velho não é apenas cronológico... sem filosofar. sem pontos de vista sobre o mundo.) A rejeição mais decidida a qualquer forma de discriminação. (pág. estar no mundo necessariamente significa estar com o mundo e com os outros.) (. sem musicar. (. sem assombro em face do mistério.. 64) . disponibilidade ao risco. O velho que preserva sua validade ou que encarna uma tradição ou marca uma presença no tempo continua novo. produzir sua compreensão do que vem sendo comunicado. Não há determinismo absoluto em nossas vidas. classe. Bebendo na fonte do Existencialismo trouxe para o âmbito da educação esse pensamento que dá força intensa a sua concepção educacional. sem pintar. sem fazer cultura. sem aprender.. sem ensinar.. Não há inteligibilidade que não seja comunicação e intercomunicação que não se funde na dialogicidade”. sem fazer ciência. sem cuidar da terra.A capacidade de aceitar o novo e reformular convicções é outra característica valorizada pelo filósofo.. sem cantar. Ibdem .

sua linguagem sua sintaxe e sua paródia. cumplicidade e bem estar entre educandos e educador. ignorância ou superstição o professor dá início ao diálogo franco e aberto.A partir dessa inconclusão humana é que se fundamenta a educação como processo permanente. A valorização da dignidade de cada um e o tratamento respeitoso sem qualquer estabelecimento de barreiras hierárquicas no ensino. pela tolerância e pela cidadania. Não foi a educação que fez o homem educável mas a própria consciência de inconclusão que gerou sua educabilidade. Esse clima fertilizado pela postura do professor propiciará um convívio banhado pela humildade intelectual. seu gosto estético. suas preferências. São parte do seu mundo e é inadmissível que o professor pós Paulo Freire humilhe o aluno ou desdenhe de seus saberes. . Nesse dialogo ambos aprendem e crescem na diferença. A valorização da autonomia do educando. Ao valorizar os elementos culturais presentes no cotidiano do aluno sem caracterizá-lo como crendice. Para Freire o homem é alguém educável na medida em que se reconhece como ser inacabado. Jamais desrespeitar a curiosidade do educando. se faz fundamental. é um outro saber absolutamente necessário à pratica educativa e que Freire destaca. Ele nunca abriu mão da alegria como base fundamental para a construção de um clima de parceria. Alegria e a esperança estão imbricadas em sua pedagogia pois esse processo educacional só se dá porque professores e alunos acreditam que podem aprender e ensinar juntos. A alegria e a esperança são componentes bastantes representativos no pensamento pedagógico de Paulo Freire.

de optar nos fizemos seres éticos e se abriu para nós a probabilidade de transgredir a ética. de comparar. inacabado e consciente do inacabamento. de intervir. se buscasse sem esperança. e não diante da qual cruzar os braços. de escolher. de avaliar. 81) A educação para Freire é uma forma de intervenção no mundo. A esperança é um condimento indispensável à experiência histórica. pois ela também pode colaborar com a desocultação da realidade e implementar mudanças. Daí a minha recusa rigorosa nos fatalismos . A desesperança é negação da esperança. de decidir. primeiro o ser humano não se inscrevesse ou não se achasse predisposto a participar de um movimento constante de busca e segundo. (Ibdem.Seria uma contradição se. A educação não é um fazer neutro e indiferente. Essa intervenção vai muito além do conhecimento de conteúdos e tanto pode ser uma forma de transmissão alienante ou uma desbanalização do que chamamos realidade. Paulo Freire discordou deles afirmando que é um erro decretar a escola como unicamente reprodutora de ideologia dominante. Só há História onde há tempo problematizado e não pré-dado. pág. precisamente porque nos tornamos seres capazes de observar. “Ao reconhecer que. não haveria História mas puro determinismo. Sem ela. Possibilidade contra que devemos lutar. Muitos educadores nas décadas de 50 e 60 deram ênfase exclusiva a escola como espaço de reprodução entre eles figuram Pierre Bordieu e Jean Claude Passeron. a desesperança é o aborto deste ímpeto. jamais poderia aceitar a transgressão como um direito mas como uma possibilidade. A inexorabilidade do futuro é a negação da História. A esperança é uma espécie de ímpeto natural possível e necessário.

É ouvindo a fala do educando e dando. que o educador irá desenvolver um trabalho construído na partilha de ambos. irresponsabilizado-a por sua malvadez. É no exercício da escuta que aprendemos a falar com eles. desenvolvidas antes de Paulo Freire não valorizavam em nada a escuta. Paulo Freire agenda um paradigma educacional que se compromete de forma visceral com o papel político de educação. A idéia de que o educador deve ser alguém que sabe escutar é um outro aspecto fortemente presente em sua pedagogia.lhe vez e voz.quietistas que terminam por absorver as transgressões éticas em lugar de condená-las. com força é que nada justifica a minimização dos seres humanos no caso das maiorias compostas de minorias que não perceberam ainda que juntas seriam a maioria. Isso ocorreu e ainda ocorre exatamente porque são . Nada. O que quero repetir. Não posso virar conivente de uma ordem perversa. Grande parte das práticas educativas.incorporadora e acolhedora das informações que possam ser trazidas pelos nossos interlocutores alunos. ao atribuir a “forças cegas” e imponderáveis os danos por elas causados aos seres humanos. O sonho democrático não se realiza se centralizarmos o processo falando com os alunos de cima para baixo como se fôssemos donos da verdade. Essa escuta tem que ser paciente. A fome frente a frente à abastança e o desemprego no mundo são imoralidades e não fatalidades como o reacionarismo apregoa com ares de quem sofre por nada poder fazer. o avanço de ciência e/ou da tecnologia. que sua fome é uma fatalidade do fim de século”. 113) Como fica claro nesse texto contundente. pode legitimar uma “ordem” desordeira em que só as minorias do poder esbanjam e gozam enquanto as maiorias em dificuldades até para sobreviver se diz que a realidade é assim mesmo. (pág.

por isso mesmo. 132) O professor para Paulo Freire deve ser um provocador do aluno no sentido de aguçar e refinar a curiosidade. não é naturalmente. De um lado me proporciona que. ao escutar. mas resistir aos métodos silenciadores com que ela vem sendo às vezes realizada.práticas que tratam a educação como mero treino. Avaliação em que se estimule o falar a como caminho do falar com”. da libertação e não da domesticação. realmente comprometido com comunicar e não com fazer puros comunicados. de resto necessária. a dúvida. Fora disso. A questão que se coloca a nós é lutar em favor da compreensão e de prática de avaliação enquanto instrumento de apreciação do que-fazer de sujeitos críticos a serviço. E por ultimo e não menos importante. enquanto professores e alunos críticos e amorosos da liberdade. (Ibdem. ficar contra a avaliação.virando linguagem.gostaria de sublinhar um ponto legado pelo educador que a meu ver foi abandonado por muitos estudiosos de Paulo Freire. (Ibdem. de outro. 131) A escuta é um processo de aprendizado que o professor deve desenvolver exercitando através do controle de seu ímpeto de interromper o aluno. torna possível a quem fala. A proposta educacional de Freire inova ao propor a educação como formação integral do ser humano e que baseia-se no falar com.pág. A questão que se coloca a nós. Deve incitar o aluno afim de que ele construa a compreensão do objeto ao invés de recebê-lo pronto. As próprias avaliações nas práticas pedagógicas tradicionais eram estimuladoras do adestramento e não da formação dialogada. a fala comunicante de alguém procure entrar no movimento interno de seu pensamento. A importância do silêncio no espaço da comunicação é fundamental. a criação de quem escutou. Trata- . como sujeito e não como objeto.fenece a comunicação. mas insistindo em se passar por democráticos. “Os sistemas de avaliação pedagógica de alunos e de professores vêm se assumindo cada vez mais como discursos verticais. Daí a importância do silêncio no processo de comunicação. de cima para baixo. escutar a indagação.pág.

de Carl Rogers agenda de forma cabal no pensamento educacional. 160) A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade. de fato. Para Freire ensinar exige querer bem aos educandos.se da afetividade que por muitos pode ser visto como pieguice mas nada mais longe de sua prática. Isto se constata claramente em diversas de suas obras como em sua militância como educador e também como formador de educadores. pág. Outro educador brasileiro que dará continuidade a essa prática freireana é o filósofo Rubem Alves que desenvolve uma . Paulo Freire . que não tenho medo de expressá-la. A afetividade nunca foi desprezada por nosso educador maior. (Ibdem. Na verdade. a importância da afetividade no processo de ensino aprendizagem. que serei tão melhor professor quanto mais severo. preciso descartar como falsa a separação radical entre seriedade docente e afetividade. O educador com inspiração freireana deve estar aberto a querer bem aos seus alunos. no trato dos objetivos cognoscíveis que devo ensinar. Não é certo. Isso não é algo tão óbvio pois ainda podemos encontrar professores que tratam os alunos como números ou cabeças vazias que irão receber seus ensinamentos. que afetividade não me assusta. mais distante e “cinzento” me ponho nas minhas relações com os alunos. mais frio. Significa esta abertura ao querer bem a maneira que tenho de autenticamente selar o meu compromisso co m os educandos numa prática específica do ser humano. na esteira. sobretudo do ponto de vista democrático. Significa.

a sensibilidade ou a abertura ao bem querer da própria prática educativa de outro. como se a alegria fosse inimiga da rigorosidade. E ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura. no entanto de uma afetividade alienada. (Ibdem. de um lado. a alegria necessária ao que – fazer docente”. Aprender a conviver é algo fundamental.pág. É falso também tomar como inconciliáveis seriedade docente e alegria. . quanto mais metodicamente rigoroso me torno na minha busca e na minha docência. A alegria não chega apenas no encontro do achado mas faz parte do processo de busca. fora da boniteza e da alegria. 161) Para Freire o educador jamais deveria perder o gosto de querer bem e o gosto da alegria partilhada com seus alunos. O desrespeito à educação. tanto mais alegre me sinto e esperançoso também. a vivência dialógica afetiva no espaço escolar pode ser formadora de uma concepção política cidadã. Pelo contrário.aos educandos. aos educadores e às educadoras corrói ou deteriora em nós. porém é esquecido pela grande maioria de nossas instituições de ensino que só tem olhos pra o preparo conteudista . Sem isso a educação perderia muito de sua razão de ser.pedagogia calcada na afetividade. A alegria no espaço educacional tem bastante valor em Freire: A atividade docente de que a discente não se separa é uma experiência alegre por natureza. Não se trata. Pelo contrário. no desejo do educando e também na escola como espaço de alegria e prazer. democrática e que esteja atenta aos direitos civis.

capacidade científica. jovem ou adulto. O nosso é um trabalho realizado com gente. os faria gente melhor. o exercício da curiosidade epistemológica não me fazem necessariamente um ser mal amado. de certos arrogantes. mas lamento neles a ausência de simplicidade que. Ou em outras palavras não é a minha arrogância intelectual a que fala de minha rigorosidade cientifica. Não importa com que faixa etária trabalha o educador ou a educadora. a prática educativa banhada pela afetividade e alegria. Nem a arrogância é sinal de competência nem a competência é causa de arrogância. reorientando-se. (Ibdem. à possibilidade de seu aperfeiçoamento físico e moral. artística. Os desejos. miúda.Tampouco a prática educativa apoiada no afeto não é algo que visa escamotear a falta de conteúdo dos professores. A prática educativa é tudo isso: afetividade. alegria. o que possa fazer em favor da boniteza do mundo como de seu enfeamento. os sentimentos e as emoções devem ser valorizados. Isso não implicava para ele como falta de rigor ou seriedade. não prescinde da formação científica nem tampouco da clareza política. mudando. Estou convencido. não diminuindo em nada seu saber. Gente mais gente”. de sua inteligência sendo produzida e desafiada. a dominação a que esteja sujeito. melhorando. capaz de negar valores de distorcer-se de recuar. a liberdade por que deve lutar. crescendo. mas gente em permanente processo de busca. 165) .pág. “Nada que diga respeito ao ser humano. Pelo contrário. religiosa e política. arrogante. nada que diga respeito aos homens e às mulheres pode passar despercebido pelo educador progressista. mas por que gente. filosófica. cheio de mim mesmo. Gente. a séria disciplina intelectual.pág. de transgredir” (Ibdem. porém de que a rigorosidade. os obstáculos e seu crescimento. 163) Paulo Freire jamais entendeu a educação como experiência fria e sem alma. Não nego a competência por outro lado. formando-se.

. Psicomotricidade entre outras áreas. é utilizado nas mais diversas experiências educativas.Conclusão Paulo Freire é pensador reconhecido no mundo inteiro com livros publicados nos mais variados idiomas e aqui mesmo no Brasil mesmo não sendo tão valorizado quanto deveria . Enfermagem. Como professor de Filosofia da Educação que leciona para vários cursos de Licenciatura. Ninguém melhor do que Paulo Freire para nos acompanhar no caminho da Dodiscência. Ainda é uma fonte atualíssima para a educacação de jovens e adultos como em diversas disciplinas específicas oferecidas em qualquer segmento desde a educação infantil até a Universidade. Fonoaudiologia. Fiz questão no entanto de pautar este trabalho por um aspecto que considero fundamental para a formação de professores na atualidade : aprender a dialogar. uma ferramenta poderosa para eliminarmos o autoritarismo escolar. Fisioterapia. Alunos de todas áreas presentes no currículo do ensino Fundamental e Médio bem como futuros professores ou mesmo profissionais de saúde como Psicologia. posso atestar que alunos de todas as áreas conseguem aplicar Paulo Freire na especificidade de seus campos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS : Alves. Campinas. __________. Rubem. Rio de Janeiro. . Paz e Terra. Papirus. 2001.1996. Pedagogia do Oprimido. ___________ Pedagogia da Autonomia. ___________ Pedagogia da Esperança. Paz e Terra. Paz e Terra. A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir.1981. . Paz e Terra. 1992. São Paulo.Paulo. Educação como prática de liberdade. 1977.São Paulo. Rio de janeiro. Freire. 1981.

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