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ÊÊXXOODDOO

VVVOOOLLLUUUMMMEEE III

S T T U U D D O O - - V V I I D

Witness Lee

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM UM

UMA PALAVRA INTRODUTÓRIA

A revelação divina nas Escrituras é progressiva, desdobrando-se e desenvolvendo-se

livro após livro e capítulo após capítulo. Os sessenta e seis livros da Bíblia foram escritos

durante um período de aproximadamente mil e seiscentos anos. Durante esse longo tempo, Deus não falou de uma vez por todas, numa época específica. Pelo contrário, falou a Seu povo progressivamente, era após era, por um longo tempo. Em Colossenses 1:25, Paulo disse ter sido feito ministro de acordo com a mordomia de Deus, "para completar a palavra de Deus" (grego). À época de Paulo, a revelação de Deus nas Escrituras não se havia completado. Por isso se fazia necessário Paulo tomar o encargo de falar e escrever, a fim de completar a palavra de Deus. É o escrito de João, porém, no livro de Apocalipse, que marca a conclusão da revelação divina nas Escrituras. Por estar completa a revelação, somos advertidos de não promovermos o acréscimo nem a exclusão de palavra alguma da revelação de Deus (Ap 22:18-19). Agora que se completou a revelação progressiva de Deus nas Escrituras, a ninguém é permitido adicionar-lhe coisa alguma. O que precisamos fazer hoje é ler, estudar e até mesmo pesquisar a Bíblia progressivamente, livro após livro.

I. UMA COMPARAÇÃO

Uma vez completado o estudo-vida de Gênesis, chegamos agora ao livro de Êxodo. Historicamente, Êxodo é a continuação de Gênesis; experimentalmente, entretanto, não o é. De acordo com a experiência espiritual, o que se retraía em Êxodo não é uma conti- nuação da experiência de Abraão, Isaque e Jacó, como se registra em Gênesis. Em nosso estudo de Gênesis, enfatizamos que as experiências de Abraão, Isaque e Jacó são três partes da experiência de uma pessoa, de um cristão: a experiência de ser chamado e de viver em comunhão com Deus pela fé (Abraão), a de desfrutar da herança (Isaque) e a de ser transformado (Jacó). Em Gênesis, temos uma figura clara das três seções principais da experiência espiritual de um cristão. Por apresentar tal figura vívida e pormenorizada da

experiência espiritual, o Antigo Testamento se me tornou muito precioso, e cheguei a tê-lo em alta conta.

A experiência espiritual tem não apenas seções, mas também lados e aspectos dife-

rentes. O retrato de nossa experiência em Gênesis só aborda um lado, uma linha. Em Êxodo, verificamos um outro lado, uma outra linha. O registro de experiência apresentado em Gênesis é maravilhoso, mas não é completo. Para sua conclusão, precisamos de um outro aspecto, que se encontra em Êxodo.

A. Uma Figura da Redenção

Ao compararmos Êxodo com Gênesis, podemos perceber como Êxodo apresenta um lado, ou linha, da experiência espiritual, que não se encontra em Gênesis. Neste, por exem- plo, não observamos um quadro claro da redenção. Em Abraão, observamos o chama-

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mento de Deus, mas não o relato de sua redenção. Ele foi exemplo de um típico chamado; foi chamado por Deus para fora da Caldéia, para fora da terra de Babel, uma terra de rebelião e idolatria. Quando ainda vivia em Babel, o Deus da glória lhe apareceu e o chamou (At 7:2, 3). Mas não existe uma palavra clara acerca da redenção. O que vemos em toda a experiência de Isaque é uma figura do desfrutar da rica herança, e não uma figura de redenção. Esta também não se faz presente no relato da experiência de Jacó. Embora fosse por fim tornado um Israel, um príncipe de Deus, não existe registro de sua experiência de redenção. Onde então Abraão, Isaque e Jacó foram redimidos? Foram redimidos em Êxodo. Neste livro, notamos um quadro claro e pleno referente à redenção de Deus. Que quadro de redenção poderia ser mais claro do que aquele da Páscoa? Nem mesmo no Novo Testamento encontramos um quadro mais pormenorizado. A Páscoa é um qua- dro maravilhoso de nossa redenção. Nele até existe uma indicação da cruz. Certa vez, li um artigo que descrevia como o cordeiro pascal era morto pelos judeus. De acordo com esse artigo, eles tomavam dois pedaços de madeira e faziam uma cruz. Depois atavam as patas traseiras do cordeiro ao pé da cruz e atavam as dianteiras, estendidas nos braços da cruz. Depois disso, matavam-no, de modo que se escorresse todo o seu sangue. Verificamos, assim, na figura da Páscoa, a cruz. Depois, ao considerarmos o retrato da Páscoa, rece-bemos uma impressão vívida do poder do sangue do Cordeiro de Deus. Êxodo 12:13 diz: "O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes: quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito." Tal quadro maravilhoso está em Êxodo, não em Gênesis.

B. O Cuidado do Senhor Para Com o Seu Povo Redimido

Percebe-se um outro contraste entre Gênesis e Êxodo na questão do cuidado do Senhor para com o Seu povo. Após ser chamado, Abraão começou a seguir o Senhor. Não saben- do para onde ir, desfrutou de Sua presença como seu mapa vivo. Simplesmente viajou, de acordo com a presença do Senhor. Embora percorresse a longa distância entre a Caldéia e a terra de Canaã, o livro de Gênesis não nos diz como o Senhor o sustentou ou cuidou dele. Sabemos, é claro, de maneira geral, que o Senhor o supriu de tudo o que precisava; mas, em Gênesis, não temos o mesmo tipo de exemplos específicos, mostrando o cuidado direto do Senhor para com ele, como os de Êxodo, que mostram o cuidado de Deus para com o Seu povo. Em Êxodo, desde o princípio temos um registro claro e pormenorizado de como o Senhor cuidou de Seu povo redimido. Quando lhes faltava comida. Ele os su- pria de maná. Quando não tinham água para beber, dava-lhes a água viva da rocha fendida. Em Êxodo, observamos não apenas a liderança do Senhor, mas também um retrato vívido de como Ele cuidou das necessidades diárias de Seu povo redimido. Nesse aspecto. Êxodo é mais minucioso e sólido do que Gênesis. Nem mesmo no Novo Testamento, encontramos tal figura do suprimento espiritual de vida. Isso deveria im- pressionar-nos quanto ao significado e à importância desse livro.

C. A Orientação do Senhor

Algumas comparações adicionais tornarão essa impressão ainda mais forte. Embora o Senhor guiasse Abraão em Sua presença, Sua orientação em Gênesis é ainda vaga e abstrata. Em Êxodo, todavia, ela é muito mais sólida e substancial, porque, em Êxodo, o Senhor guiou o Seu povo por meio da coluna, algo forte e sólido. Como todos sabemos, à

luz do dia, a presença do Senhor era uma coluna de nuvem e, durante a noite, uma coluna

de fogo. Porque a orientação do Senhor tinha uma substância visível, todas as pessoas

podiam reconhecê-la.

D. A Revelação e a Edificação do Lugar de Habitação de Deus

Em Gênesis 18, Deus visitou Abraão e comeu com ele; permaneceu ali uma parte do dia. Em Gênesis, todavia, não existe uma revelação clara do tabernáculo como lugar de habitação de Deus. Em Êxodo, não há somente a revelação do padrão do lugar de habitação de Deus, mas também se encontra um registro detalhado, de maneira prática, do verdadeiro edifício do lugar de habitação de Deus. Em Gênesis, Deus apareceu repetidas

vezes ao Seu povo escolhido, mas não teve um lugar de habitação tangível no meio deles.

O livro de Êxodo, entretanto, registra de maneira plena tanto a revelação quanto a

edificação do tabernáculo como lugar de habitação de Deus na terra.

E. Experiência Individual e Experiência Coletiva

Verifica-se um outro contraste entre Gênesis e Êxodo na diferença entre a experiência individual e a coletiva. A experiência de Gênesis é primordialmente indivi-dual, mas a de Êxodo é coletiva. Abraão, por exemplo, foi chamado como um indiví-duo. Até mesmo o que o Senhor ganhou por transformar Jacó em Israel foi algo individual. Jacó teve doze filhos, mas todos, exceto José, estavam abaixo do padrão. A experiência inteira retratada por Êxodo, pelo contrário, é coletiva. A redenção, a orientação, a revelação e a edificação são todas questões coletivas. Em nossa experiência espiritual, existem dois lados: o individual e o coletivo. Sem dúvida, o lado individual é básico; mas o coletivo é mais rico, mais elevado e maior. A consumação e conclusão definitiva de nossa experiência como cristãos não é indivi-dual, mas coletiva. Em Gênesis, notamos a experiência individual, básica; mas, em Êxodo, verificamos a experiência coletiva, definitiva. Considere como uma ilustração o uso do nome "Israel" nesses dois livros. O livro de Gênesis conclui-se com um Israel individual, mas o livro de Êxodo se conclui com um Israel coletivo. Êxodo 14:30 diz: "Assim, o Senhor livrou Israel naquele dia da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar". Nesse versículo, a palavra "Israel" é usada de maneira coletiva, para referir-se a todos os israelitas. Mas, em Gênesis, o nome "Israel" é usado de maneira pessoal e individual, referindo-se ao Jacó transfor- mado (Gn 35:10,21). Em Gênesis, Israel é uma pessoa individual; mas, em Êxodo, é um povo coletivo. O Israel individual do final de Gênesis pode ser comparado a um pequeno broto de uma semente; mas o Israel coletivo do fim de Êxodo é como uma árvore totalmente crescida, a dar frutos. O Israel coletivo, formado pelos descendentes do Israel individual, é o aumento e a expansão deste. Em Êxodo 40, não observamos um Israel limi- tado a uma pessoa, mas um Israel expandido, para ser uma entidade coletiva, composta pelos descendentes do Israel individual. É vital que o vejamos. Além do mais, a salvação de Êxodo não é uma questão individual, mas envolve todos

os filhos de Israel. Na época da saída do Egito, havia aproximadamente dois milhões de israelitas, todos eles salvos simultaneamente; passaram pelo julgamento de Deus ao mesmo tempo. Por um lado, nós, cristãos, fomos salvos pessoal e individualmente; todavia, por outro lado e aos olhos de Deus, fomos salvos conjuntamente. Fomos salvos coletivamente. Essa é

a concepção de Paulo em Efésios 2:6, onde lemos que fomos ressuscitados juntos e conjuntamente nos assentamos nos lugares celestiais. A palavra "juntamente" desse versículo significa um com o outro. Aos olhos de Deus, todos fomos ressuscitados ao mesmo tempo. Pedro não foi ressuscitado numa época, Estêvão em outra, e Paulo ainda em uma terceira. Não importa quando nascemos; fomos todos ressuscitados coletiva e simultaneamente em Cristo. Embora tenhamos sido redimidos coletivamente, em certo sentido fomos chamados individualmente. Nenhum de nós foi chamado juntamente com o apóstolo Paulo. Com re- ferência ao chamamento de Deus, existe um elemento individual; porém, quanto à Sua redenção, nada existe de individual, mas tudo é coletivo. Enfatizamos que, ao final de Gênesis, encontramos um Israel individual. Mas, no último capítulo de Êxodo, percebemos um vaso coletivo, a habitação de Deus, o lugar de Sua habitação com o homem na terra. Através desse contraste, podemos verificar a diferença entre a linha de Gênesis e a de Êxodo. Em Gênesis, vê-se a linha da experiência espiritual individual, ao passo que, em Êxodo, se verifica a linha da experiência coletiva. Em Gênesis, basicamente duas pessoas Abraão e sua esposa saíram da Caldéia; contudo, em Êxodo, mais de dois milhões de pessoas saíram do Egito. Que contraste!

F. A Glória de Deus

Embora seja um livro rico, não se nota em Gênesis a glória de Deus manifesta no meio de Seu povo de maneira palpável. Todavia, no capítulo quarenta de Êxodo, a glória de Deus desceu visível e substancialmente, ao se erigir o tabernáculo. Não apenas desceu sobre o tabernáculo, mas também o encheu.

G. A Queda

Percebe-se um outro contraste entre Gênesis e Êxodo na maneira de se apresentar a queda nesses dois livros. A Bíblia nos mostra aspectos diferentes da queda do homem. Em Gênesis, a queda foi rebelião e idolatria, isto é, uma queda em Babel. Antes de sermos salvos, estávamos em Babel, numa terra de rebelião e de idolatria. Mas também estivemos no Egito, lugar da queda descrita em Êxodo. O Egito é uma terra de deleite da carne. Tal prazer leva as pessoas à escravidão, ao cativeiro. Portanto, na Bíblia, o Egito tipifica o mundo como satisfação carnal que nos conduz à escravidão. Antes de sermos salvos, estávamos em Babel, por um lado, e, por outro, no Egito. Isso quer dizer que estávamos em rebelião e idolatria, e também no mundo com o seu deleite, incluindo os esportes e os divertimentos. O prazer carnal do mundo destina-se à satisfação do homem natural. Através desse deleite carnal e mundano, o homem caído é mantido sob cativeiro, tendo Satanás por seu Faraó. As pessoas caídas são como as de Babel e como os filhos de Israel no Egito. Se nos limitássemos à linha de Abraão, Isaque e Jacó, descrita no livro de Gênesis, veríamos tão-somente o aspecto de nossa queda retratada por Babel. Percebe- ríamos rebelião e idolatria, mas não escravidão nem servidão advindas do deleite munda- no. Até mesmo na queda do homem, existem duas linhas. Por um lado, somos Abraão, Isaque e Jacó; por outro, somos os filhos de Israel. Ao percebermos muitos dos contrastes entre Gênesis e Êxodo, não deveríamos mais, de acordo com nossa experiência, considerar este último como continuação do primeiro. Repetindo, Êxodo não é uma continuação da experiência espiritual de Gênesis; ele revela um outro lado, uma outra linha da experiência do cristão. A experiência de Gênesis é um

pouco vaga e abstrata, mas a de Êxodo é sólida e substancial. Todos os aspectos da expe- riência de Êxodo são sólidos, desde a presença do Senhor como coluna até a glória a encher o tabernáculo.

H. Um Livro de Figuras

Tanto Gênesis quanto Êxodo contêm figuras das experiências espirituais descritas no

Novo Testamento. As figuras de Gênesis, todavia, não são tão definidas como as de Êxodo. Do início ao fim, Êxodo é um livro figurado. Tanto Faraó quanto a terra do Egito, por exemplo, são figuras. Faraó tipifica Satanás, e o Egito retrata o aspecto rico e produtivo do mundo. (O aspecto pecaminoso do mundo é representado por Sodoma). Banhada pelo Nilo, a terra do Egito produz pepino, alho, alho silvestre e cebola. Durante os anos em que vagaram pelo deserto, os filhos de Israel se queixaram da falta de tais especiarias, de que desfrutavam abundantemente na terra do Egito. Nesta, os israelitas muito desfrutaram de sua produção; mas, no deserto, só tinham o maná para comer. Isso é uma figura. Enquanto lê o livro de Êxodo, tenha em mente que você não apenas está lendo palavras, mas olhando para as figuras. A celebração da Páscoa e a matança dos primogênitos pelo anjo exterminador são figuras. Enquanto todos os primogênitos eram mortos, os filhos de Israel desfrutavam de paz, descanso e segurança, ao comerem o cordeiro pascal em suas casas, sob a cobertura do sangue. Que quadro maravilhoso! A perseguição de Faraó e seus exércitos contra os israelitas também é uma figura de Satanás e suas hostes de anjos rebeldes em perseguição contra os redimidos de Deus, Quando chegamos ao livro de Êxodo, olhamos para um aparelho de televisão celestial. Nesta televisão, observamos figuras de nossa própria redenção e salvação. Faraó e seu exército perseguiram os filhos de Israel até dentro do Mar Vermelho, e lá se afogaram. Os israelitas, todavia, marcharam através do mar triunfalmente. Em nenhum outro lugar da Bíblia podemos encontrar tal figura. Notamos outras figuras no chamamento de Moisés. Quando o chamou, Deus primeira- mente lhe deu uma visão de uma sarça ardente, de uma sarça que ardia sem se consumir (3:2-4). Incapaz de escapar ao chamamento de Deus, Moisés expressou sua preocupação no sentido de que os filhos de Israel não cressem nele, nem lhe ouvissem a voz (4:1). Por isso, Deus lhe disse que lançasse sua vara na terra. Quando o fez, a vara se tornou uma serpente. Mas, ao apanhar a serpente pela cauda, ela se tornou novamente uma vara em sua mão (4:2-4). O Senhor então lhe ordenou que colocasse sua mão no peito. Quando a tirou de seu peito, ela estava "leprosa, branca como neve" (4:6). À ordem de Deus, colocou-

a novamente em seu peito e a tirou, e ela se tornou outra vez como a sua carne (4:7). Após

mostrar-lhe tais sinais, sinais esses que deveriam ser provas para os filhos de Israel de que

o Senhor realmente lhe aparecera, Este lhe disse: "Se nem ainda crerem mediante esses

dois sinais, nem te ouvirem a voz, tomarás das águas do rio, e as derramarás na terra seca;

e as águas que do rio tomares tornar-se-ão em sangue sobre a terra" (4:9). Esse deveria ser um sinal posterior. Tais sinais são muito significativos. A sarça denota o nosso homem natural. O fato de que o arbusto ardia sem se consumir indica que, quando nos chama, Deus não tem in- tenção de usar o nosso homem natural. A vara representa qualquer outra coisa além de Deus, na qual depositamos nossa confiança. A vara a se tornar uma serpente revela que qualquer outra coisa além de Deus em que nos apoiamos é uma serpente, o diabo. Assim, se você confia em seu esposo ou esposa, ele ou ela é uma "serpente". O mesmo é verdade com relação à sua educação ou

conta bancária. Quando obedecemos ao Senhor para lançar fora a vara, ela se torna uma serpente. Mas Deus não quer que a joguemos fora. Ao Seu comando, precisamos pegá-la novamente pela "cauda". Precisamos agarrar nossa educação ou conta bancária pela "cauda".

A mão de Moisés a ficar leprosa é uma indicação de que em nossa carne nada existe de

bom; ela é a incorporação da lepra. Se tocarmos a nós mesmos, ficaremos leprosos. Finalmente, a mudança da água do Nilo em sangue significa que o prazer do mundo é morte. Tais sinais indicam que Deus não utilizará nosso homem natural, que tudo em que confiamos além de Deus é Satanás, que nossa carne é leprosa, e que o prazer do mundo é morte. Essas são algumas das figuras de Êxodo. Existem outras nesse livro, relacionadas ao Mar Vermelho, ao maná, à água fluindo da rocha fendida e ao tabernáculo com seus utensílios.

II. UM ESBOÇO GERAL

O esboço geral de Êxodo primeiramente mostra como os filhos de Israel foram escravi-

zados no Egito (1:8-14). Depois, revela como foram redimidos e salvos (12:27; 14:30). Após sua redenção e salvação, foram eles guiados pelo Senhor através do deserto (13:17-18, 21- 22; 17:1; 19:1-2; 40:36-38). Foram guiados pela coluna de nuvem e pela coluna de fogo. Pos- teriormente, o maná caiu do céu, e a água viva jorrou da rocha fendida. Em suas jornadas, os filhos de Israel, finalmente, foram conduzidos pelo Senhor ao Monte Sião, onde recebe- ram uma revelação do Seu eterno propósito, que é ter Seu lugar de habitação na terra (25:8-9,40). Após receberem tal revelação, eles edificaram o tabernáculo para a habitação de Deus (39:32; 40:2, 34-35). Êxodo não é apenas um livro que conta como os israelitas saíram do Egito; é um livro de redenção, de suprimento, de revelação e de edificação. A saída do Egito foi simples- mente o início. A isso se seguia o suprimento, a revelação e a edificação.

III. O PENSAMENTO CENTRAL

O pensamento central de Êxodo é que Cristo é a redenção, a salvação e o suprimento do

povo de Deus, além de ser o meio de eles adorarem e servirem a Deus, de modo que, Nele, possam ser edificados juntamente com Deus, para que tanto eles quanto Deus se encontrem, se comuniquem e se habitem mutuamente. Percebemos Cristo ao longo de todo o livro de Êxodo. Como Páscoa, Ele é o meio de nossa redenção. Como grande salvação para o povo de Deus, Ele nos salva da mão de Faraó, de Satanás. Como maná e água viva, Ele é o nosso suprimento de vida. Além disso, o Mar Vermelho tipifica a morte de Cristo, onde somos batizados (1Co 10:2). Romanos 6:3 diz que os que foram batizados em Cristo são batizados em Sua morte. Em Êxodo, Cristo é vários outros itens: a coluna de nuvem e a coluna de fogo, as setenta palmeiras e as doze fontes de Elim, e o tabernáculo com todos os seus utensílios. Através do tabernáculo e seus móveis, o povo redimido de Deus podia servi-Lo e adorá-Lo. Isso indica que Cristo é o meio pelo qual servimos e adoramos a Deus. O Seu povo escolhido deve ser edificado conjuntamente em uma entidade, no tabernáculo, onde Deus e o homem mutuamente se encontram, se comunicam e se habitam. Em Cristo, nós e Deus, Deus e nós somos edificados juntos, encontramo-nos juntos e habitamos juntos. Esse é o pensamento central do livro de Êxodo.

IV. ASSEÇÕES

Podemos esboçar as seções de Êxodo de uma maneira simples. O livro é organizado em cinco partes: escravizados (1:1-22), redimidos e salvos (de 2:1 a 15:21), guiados (de 15:22 a 18:27), recebendo revelação (de 19:1 a 34:35), e edificando o tabernáculo (de 35:1 a 40:38). Com tal palavra introdutória diante de nós, entraremos nos pormenores deste livro nas mensagens posteriores.

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MENSAGEM DOIS

ISRAEL SOB ESCRAVIDÃO

No que diz respeito à composição, o livro de Êxodo é uma continuação de Gênesis. Isso se prova pela maneira como Êxodo começa: "São estes os nomes dos filhos de Israel, que entraram com Jacó no Egito" (1:1). Gênesis tem um início maravilhoso, mas uma conclusão lamentável. Começa com as palavras: "No princípio criou Deus os céus e a terra"; mas ter- mina com a afirmação: "Morreu José da idade de cento e dez anos; embalsamaram-no, e o puseram num caixão no Egito" (Gn 50:26). Gênesis, assim, termina com um homem morto, posto num caixão no Egito. Isso indica que o povo escolhido de Deus estava numa situação de morte.

Êxodo 1 é uma exposição adicional da condição do povo de Deus no Egito. Embora estivessem sob morte, não estavam inativos, pois estavam vivos e ativos na morte. Esse é o pensamento de Paulo em Efésios 2, onde lemos que aqueles que se acham mortos em transgressões e pecados, andam de acordo com a era do mundo, agem de acordo com as concupiscências da carne e realizam os desejos da carne e dos pensamentos. Os que estão espiritualmente mortos ainda têm suas obras; mas são obras mortas, obras de morte.

O capítulo primeiro de Êxodo é um registro minucioso das atividades do povo de Deus

em sua situação de morte no Egito. Forçados a trabalhar como escravos de Faraó, já esta- vam na morte; e, mesmo assim, estavam sendo diariamente mortos. Pode soar estranho dizer que os mortos estavam sendo mortos; mas isso é verdade na experiência espiritual. Embora as pessoas do mundo já estejam espiritualmente mortas, ainda estão sendo conti- nuamente mortas. A situação no meio do povo do mundo, hoje, assim como no meio do povo de Deus em Êxodo 1, caracteriza-se pela escravidão e pela morte. As pessoas primeiramente são escravizadas pelo mundo e depois mortificadas e mortas por ele. Elas podem pensar que a cultura humana esteja progredindo de maneira positiva; mas, aos

olhos de Deus, há mais escravidão e morte na terra hoje do que nunca. Antes de nos achegarmos a Cristo e sermos salvos, também fomos escravizados e mortificados. Além disso, antes de entrarmos para a vida da igreja, na restauração do Senhor, muitos de nós continuávamos escravizados e mortificados, mesmo após sermos salvos. Todos preci- samos estar alerta, para que não mais sejamos escravizados e mortificados novamente.

O livro de Gênesis tem um bom começo, mas termina com uma situação deplorável, ao

passo que Êxodo começa com uma situação deplorável, mas termina gloriosamente. Enfatizamos que Gênesis começa com a criação de Deus, mas termina com um homem morto posto num caixão no Egito. Êxodo, pelo contrário, começa com o quadro do povo de Deus escravizado e sob morte, mas se conclui com a arca no tabernáculo pleno da glória de Deus. Que grande diferença entre o final de Gênesis e o de Êxodo! Onde você prefere estar num caixão no Egito ou com a arca no tabernáculo pleno da glória de Deus?

I. COM RELAÇÃO A PRÓPRIA SUBSISTÊNCIA

Nesta mensagem, consideraremos o cativeiro dos filhos de Israel. Os israelitas nasceram em Canaã. Por causa da falta de comida, foram forçados a descer ao Egito, onde, por fim,

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foram escravizados. Com isso, percebemos que as pessoas se tornam escravas primeira- mente pela necessidade de manter a própria subsistência, pela necessidade de fazer a vida. As pessoas do mundo são levadas a muitos divertimentos, porque desejam um melhor meio de vida. De semelhante modo, elas hoje vão atrás de uma educação ou experiência técnica superior, a fim de assegurarem uma boa vida, até mesmo a melhor que puderem. Em todo o mundo, em nações desenvolvidas ou subdesenvolvidas, as pessoas são escravi- zadas pela necessidade de ganharem a vida. Essa também era a situação dos filhos de Israel no Egito.

A. O Egito Tipifica o Mundo

De acordo com a Bíblia, o mundo tem pelo menos três aspectos: o de rebelião e idolatria, tipificado por Babel; o de pecado, tipificado por Sodoma; e o de gozo e prazer, tipificado pelo Egito. A rebelião se relaciona à idolatria, à adoração de qualquer outra coisa além de Deus. Por estarem os adoradores de ídolos em rebelião contra Deus, a adoração aos ídolos tipifica rebelião. Na Bíblia, Babel é um símbolo do mundo rebelde e idólatra. Na terra, hoje, há ídolos por toda parte, até mesmo nos países cristãos. Abraão foi chamado para fora da terra de Babel, isto é, para fora do mundo de rebelião e idolatria. O fato de Deus o chamar para fora da terra de Babel simboliza a nós mesmos sendo chamados para fora do mundo rebelde e idólatra. Mas, como já enfatizamos, o chamamento de Abraão representa apenas um aspecto de nossa salvação do mundo.

1. Rico em Suprimento Material e Cheio de Gozo e Prazer Físico

O êxodo dos filhos de Israel do Egito representa um outro aspecto. O Egito tipifica o

mundo do gozo, o mundo do prazer. Os que se envolvem com esse aspecto do mundo não se acham enredados primeiramente pela rebelião nem pela idolatria; estão totalmente ocupados com o prazer, com o rico suprimento material e com o gozo físico do mundo (Gn 12:10; 42:1; Nm 11:4-5), O Rio Nilo, que irriga o Egito, torna a terra rica em produção. Quando vagavam pelo deserto, os filhos de Israel diziam: "lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos" (Nm 11:5). Todos esses itens representam as riquezas materiais do mundo, destinadas ao gozo e ao prazer. Antes de sermos salvos, estávamos não apenas no mundo da rebelião e da idolatria, mas também no mundo das riquezas e do gozo. Abraão foi chamado para fora do mundo rebelde, mas os filhos de Israel tiveram o seu êxodo para fora do mundo do prazer. O Egito era rico não apenas em suprimento de vida, mas também em ouro. Isso se prova pelo fato de eles darem ouro aos israelitas à época do êxodo.

2. Usurparam o Povo Que Deus Criara e Escolhera Para o Seu Propósito

O mundo tipificado pelo Egito usurpa o povo que Deus criou e escolheu para o Seu

propósito (5:6-9). Os filhos de Israel foram escravizados por aquele aspecto do mundo que

lhes dera subsistência e lhes proporcionara prazer. Quer sejam ricos ou pobres, muitos hoje são escravos do dinheiro. Trabalham arduamente para ganhar uma grande quanti- dade de dinheiro e, depois, em pouco tempo, gastam tudo o que têm na entrega de si próprios aos prazeres do mundo. Assim, muitos hoje não servem a Deus, mas ao dinheiro. Essa era a situação no meio dos antigos israelitas, na terra do Egito. Lá, tinham uma boa

vida e gozavam das riquezas do mundo. Mas o Egito os impedia de cumprir o propósito

para o qual Deus anteriormente os chamara. No Egito, os filhos de Israel se tornaram fortes. Êxodo 1:7 diz: "Mas os filhos de Israel foram fecundos, aumentaram muito e se multiplicaram, e grandemente se fortaleceram; de maneira que a terra se encheu deles." Num certo sentido, ficar forte é ficar rico. Sem dinheiro, uma nação não pode ser forte. Os Estados Unidos, por exemplo, são uma nação forte por causa de sua economia. Os filhos de Israel desfrutaram do aspecto do mundo tipificado pelo Egito. Não se encontravam no primeiro aspecto do mundo, tipificado por Babel, nem no segundo, representado por Sodoma; mas se achavam escravizados no terceiro, tipificado pelo Egito. Por estarem ocupados com as riquezas e prazeres do mundo, ficaram impedidos de cumprir o propósito para o qual Deus os criara e escolhera. No mesmo princípio, todas as pessoas do mundo de hoje foram dominadas por Satanás. Como resultado, não conhecem

o propósito de Deus. Como precisamos agradecer ao Senhor por livrar-nos do cativeiro do mundo e por libertar-nos da mão usurpadora de Satanás!

B. Os Filhos de Israel Caíram Sob a Tirania Egípcia

Por causa de sua necessidade de manter a própria subsistência, os filhos de Israel caíram sob a tirania egípcia (1:10-11). As pessoas do mundo, hoje, também estão sob tirania. Até a preocupação com divertimentos mundanos é um sinal de que estão sob a tirania de Satanás. Forçadas a seguirem um curso que as mantém sob a tirania de Satanás e que as separa do propósito de Deus, elas não têm liberdade, nem fazem as escolhas corretas.

II. A ESCRAVIZAÇÃO DE ISRAEL POR FARAÓ

A. Faraó Simboliza Satanás

Os filhos de Israel ficaram sob a escravidão de Faraó (1:8-11, 13-14), que tipifica Satanás,

o governante do mundo (Jo 12:31; Ef 2:2). Por ser a corporificação de Satanás, Faraó é uma figura de Satanás em Êxodo, um livro de figuras.

B. Faraó Fez o Povo de Deus Trabalhar Para Si

1. Tratou-os Astutamente

Faraó forçou o povo de Deus a trabalhar para si (1:10-11, 13-14). No versículo dez, Faraó disse: "Eia, usemos de astúcia para com ele". As pessoas do mundo não percebem como Satanás é astuto, nem percebem com que astúcia ele trata as pessoas, a fim de as usurpar, ocupar e escravizar. O objetivo de seus astutos tratamentos é a escravização da hu- manidade.

2. Forçou-os a Servir Com Rigor

O versículo treze diz: "Então os egípcios, com tirania, faziam servir os filhos de Israel". Algumas versões traduzem a palavra hebraica "tirania" como "aspereza". Essa palavra indica que os filhos de Israel não tinham liberdade, direitos nem descanso. Não importa

quais fossem as circunstâncias: eles tinham que trabalhar como escravos; tinham que fazer o que Faraó lhes ordenava.

3. Tornou Amargas as Suas Vidas com o Duro Trabalho

a. Em Argamassa, em Tijolo e em Todo Tipo de Trabalho

O versículo quatorze continua: "E lhes fizeram amargar a vida com dura servidão, em

barro e em tijolos, e com todo o trabalho no campo, com todo o serviço em que na tirania os serviam." Faraó tornou amargas as vidas dos israelitas através do duro trabalho. Hoje, aos olhos de Deus, todas as pessoas estão trabalhando no "campo". Você pode trabalhar

num hospital, fábrica ou escritório; mas, na verdade, você está trabalhando no "campo", fazendo "tijolos" e cimentando-os com "argamassa".

b. Edificaram Duas Cidades-Celeiros Para Faraó

Escravos no Egito, os filhos de Israel "edificaram a Faraó as cidades-celeiros, Pitom e Ramessés" (1:11). Pitom significa "boca de integridade", e Ramessés significa "trovão do padrão". Tais nomes indicam que as cidades-celeiros foram construídas para orgulho e demonstração de vaidade, como as pirâmides. Creio que, sob Faraó, os egípcios cons- truíram essas cidades-celeiros, a fim de se gabarem de sua integridade, honestidade e bondade, e também para propagarem seu padrão cultural. A boca de integridade ainda soa no mundo hoje. Toda raça, toda nação se gaba de sua bondade. Além disso, todo país, desenvolvido ou não, tem orgulho de seu padrão de realizações. Por milhares de anos, o mundo tem-se gabado de sua bondade e tem alardeado seu padrão. Hoje, as pessoas do mundo constroem cidades-celeiros para Satanás por causa de sua integridade e padrão. Contrastando com o povo do mundo, o Senhor Jesus não se gabou de Sua integridade. Em vez disso, palavras de graça saíram de Sua boca (Lc 4:22). Além disso, o Senhor não fez estardalhaço de padrão. Mateus 12:19 diz Dele: "Não contenderá, nem gritará, nem alguém ouvirá nas praças a sua voz".

c. O Mesmo Que em Babel

O labor dos filhos de Israel no Egito se igualou à labuta dos rebeldes na terra de Babel,

para fora da qual Abraão foi chamado. Os de Babel fizeram tijolos e os cimentaram com argamassa para a construção da cidade e da torre de Babel, a fim de erigirem um nome para si mesmos (Gn 11:3-4). No Egito, Faraó compeliu os filhos de Israel a construírem para ele cidades de tijolos e argamassa.

III. FARAÓ TIROU A VIDA DOS FILHOS DE ISRAEL

A. Matou os do Sexo Masculino e Poupou os do Sexo Feminino

Faraó não apenas escravizou os filhos de Israel, mas também procurou matar todos os meninos nascidos de mulheres hebréias (1:15-19). O versículo vinte e dois registra: "Então ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem aos hebreus lançareis no Nilo, mas a todas as filhas deixareis viver." De acordo com a Bíblia, a vida masculina destina-se ao propósito de Deus, e, principalmente entre as pessoas caídas, a

vida feminina destina-se ao prazer do homem. O que Faraó fez no Egito é exatamente o que Satanás faz hoje: mata a vida destinada ao propósito de Deus e preserva a que se destina ao prazer do homem. Como aqueles que crêem em Cristo, até nós mesmos podemos ser utilizados por Satanás a fim de matar a vida masculina - para o propósito de Deus - e preservar a feminina - para o prazer do homem. Todos os que crêem têm ambos os tipos de vida. Se não tivermos a graça do Senhor, diariamente seremos um Faraó a ma- tar a vida destinada ao propósito de Deus e a poupar a vida destinada ao prazer do homem. No dia do Senhor, por exemplo, muitos cristãos não têm coração para partici- parem de reuniões cristãs. Pelo contrário, gastam o dia em esportes, divertimentos e recreação. Todavia, no dia do Senhor, os que Nele crêem deverão juntar-se para adorá-Lo, ouvir-Lhe a Palavra e serví-Lo. E mais: no dia do Senhor, muitos matam a vida masculina, mas poupam a feminina. Com respeito à adoração do Senhor, no Seu dia, tais pessoas são mortificadas; mas, com respeito a tomar parte em muitos divertimentos e recreações mundanas, são ativas e muito vivas. Satanás está sempre em busca de oportunidades para matar a vida que tem por alvo o propósito de Deus e preservar a que se destina ao prazer do homem. Você alguma vez refletiu por que é tão mais fácil fazer mexericos do que orar? Orar é exercitar a vida masculina, mas fazer mexericos é exercitar a vida feminina. Talvez hoje mesmo você tenha sido um com Satanás, para matar em si a vida destinada ao propósito de Deus. Quando o Senhor nos incita a orar, mas nós, pelo contrário nos entregamos aos mexericos, estamos sendo utilizados por Satanás para matar a vida masculina e preservar a feminina. Isso indica que estamos fazendo hoje o mesmo que Faraó fez no primeiro capítulo de Êxodo. Você vive pela vida que tem por alvo o propósito de Deus ou pela destinada ao prazer do homem? Talvez, em parte do tempo, você seja um Faraó a entronizar o "ego" e a matar a vida que tem por objetivo o propósito de Deus, além de preservar a destinada ao seu prazer.

B. Utilizou as Parteiras Para Matar a Vida Masculina

Em Gênesis 3:1-6, verificamos que Satanás utilizou Eva, a vida feminina, para mortificar a vida masculina. Isso significa que Satanás usa a vida destinada ao prazer do homem para matar a que tem por alvo o propósito de Deus. Este, todavia, também utiliza a vida feminina para realizar algo para Si. No princípio do Antigo Testamento, Satanás visitou uma mulher, Eva, e a usou para matar a vida masculina; mas, no início do Novo Testamento, Deus visitou a virgem Maria e a utilizou para introduzir a Sua salvação. A visitaçao de Satanás a Eva causou a queda, rnas a visitação de Deus a Maria introduziu Sua salvação. No mesmo princípio, em Êxodo 1, Faraó procurou utilizar as parteiras para matar a vida masculina; mas Deus as usou para manter viva a vida destinada a Si e a Seu propósito. Pode ser fácil às irmãs serem usadas pelo inimigo, mas também lhes é fácil serem utili- zadas por Deus. Se a igreja vai ser mortificada ou liberta, isso depende das irmãs. Elas precisam ser as Marias de hoje. No Novo Testamento, há mais de uma Maria. À época em que o Senhor Jesus foi concebido e gerado, uma Maria foi usada. Quando foi crucificado e sepultado, ao menos duas Marias se achavam presentes. Depois, na manhã de Sua ressurreição, Ele apareceu a Maria Madalena. Todas essas Marias foram utilizadas pelo Senhor para o cumprimento de Seu propósito. O que é verdadeiro para as irmãs na vida da igreja, também o é para as mulheres de uma nação. Quando forem usadas por Satanás, o país será corrompido. Mas, quando

forem utilizadas por Deus, o país será preservado. De acordo com a História, quando a condição das coisas relacionadas a Deus é maravilhosa no jardim do Éden, na época do reaviva-mento, no auge de uma época gloriosa é que Satanás chega para se apoderar das mulheres e estragar a situação. Raramente ele é capaz de usar um homem assim. É na hora da degradação, todavia, da necessidade desesperada, que Deus vem para utilizar as mulheres, a fim de restaurar a situação e introduzir Sua salvação. Assim foi o caso de Êxodo 1. Satanás vem às mulheres nos melhores tempos, porque sabe que elas são os vasos mais frágeis. Por utilizar também as mulheres, o Senhor envergonha Satanás. Há uma forte indicação na Palavra de que as irmãs estiveram presentes todas as vezes em que houve uma necessidade urgente. Tanto pelo lado positivo como pelo negativo, a História demonstra esse princípio. As irmãs, consequentemente, precisam ser cuidadosas em tempos "maravilhosos", mas também precisam estar prontas para permanecer ao lado do Senhor como fizeram as parteiras e serem utilizadas por Ele em tempos de degra- dação e de necessidade urgente, para salvar a situação e cumprir o Seu propósito. A chave para a segunda parte de Êxodo 1 não está na vida masculina, mas na feminina. Faraó, a corporificação de Satanás, procurou usar a vida feminina as parteiras para destruir a masculina; mas Deus interveio, para utilizar tais parteiras, a fim de preservar a vida masculina. O princípio é o mesmo, tanto no caso das parteiras como no da virgem Maria. Todas elas foram utilizadas por Deus para introduzir a salvação. Esse princípio também se aplica hoje à vida da igreja. Sempre que as irmãs são usadas por Satanás, há corrupção na igreja. Mas toda vez que elas são utilizadas pelo Senhor, há salvacão. Contamos com o Senhor, para que Ele novamente utilize a vida feminina, a fim de salvar a situação, hoje, na vida da igreja!

IV. A SOBERANIA DE DEUS

A. Levou os Filhos de Israel a se Multiplicarem e a Ficarem Fortes

Embora Faraó escravizasse os filhos de Israel e tentasse ao máximo matar a vida mascu- lina, Deus ainda era soberano sobre toda a situação (1:7,12,17-21). Foi por Sua soberania, por exemplo, que os "filhos de Israel foram fecundos, aumentaram muito e se multipli- caram" (1:7). Hoje, a igreja frequentemente se torna forte sem nenhuma razão aparente. Só a soberania de Deus pode ser levada em conta para o fortalecimento. Ao longo dos anos, aprendi que não devemos confiar em nosso trabalho ou labor. Devemos confiar apenas na bênção soberana do Senhor. Quando Ele nos abençoa, até nossos erros cooperam para o bem. (Isso não quer dizer, todavia, que devemos fazer o mal para que o bem possa vir). Mas, se não houver bênção do Senhor, não veremos muitos resultados positivos, não importando toda a nossa bondade e retidão. Nossa confiança jamais deverá estar no que somos ou no que podemos fazer. Ela deve estar inteiramente no Senhor. Deveremos orar:

"Senhor, estamos simplesmente fazendo o nosso dever, enquanto Te seguimos. Mas, Senhor, Tu sabes que não confiamos no que somos, nem em nossa capacidade de fazer. Nossa confiança, Senhor, está totalmente naquilo que Tu és. Se Tu soberanamente abençoares a Tua igreja, ela se multiplicará e se tornará forte."

B. Tornou Fortes as Mulheres Hebréias

Vê-se também a soberania de Deus ao serem tornadas fortes as mulheres hebréias (1:19). Quando Faraó perguntou às parteiras por que os meninos ainda estavam vivos, elas repli-

caram: "É que as mulheres hebréias não são como as egípcias; são vigorosas, e antes que lhes chegue a parteira já deram à luz os seus filhos" (1:19). Ao responderem assim a Faraó, as parteiras não estavam mentindo. Era verdade que as mulheres hebréias eram mais fortes do que as egípcias. Isso estava de acordo com a soberania de Deus. As mulheres hebréias eram fortes, porque Deus soberanamente assim as fizera. O mesmo é verdade com a igreja hoje. Seu fortalecimento ou debilitação independem do que fazemos. Tudo depende da soberania do Senhor. Mas isso não quer dizer que devemos ser preguiçosos ou negligentes. Por um lado, não devemos pensar que nossa obra acarretará a bênção de Deus. Por outro lado, não devemos pensar que, dependendo tudo da bênção do Senhor, não precisamos fazer nada. Precisamos trabalhar, cumprir o nosso dever, percebendo que, enquanto assim agimos, a condição da igreja e dos santos é uma questão da soberania de teus.

C. Utilizou a Vida Feminina Para Salvar a Masculina

Além disso, o Senhor utilizou soberanamente a vida feminina - as parteiras - para salvar

a vida masculina, no mesmo princípio como usou a virgem Maria para gerar o Salvador

(Gl 4:4-5). Em sua própria sabedoria, Faraó planejou eliminar a nação de Israel. Deus não lutou contra ele. Pelo contrário, soberanamente utilizou duas parteiras para salvar a vida masculina.

D. Tratou Bem as Parteiras e Constituiu-lhes Família

Os versículos vinte e vinte e um dizem: "Deus fez bem às parteiras; e o povo aumentou

e se tornou muito forte. E porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes constituiu família".

Ao tratar bem as parteiras, Deus constituiu-lhes família, a fim de que gerassem vida para o cumprimento de Seu propósito. Isso quer dizer que Ele utilizou a vida que tem por alvo o prazer do homem para produzir a vida destinada ao propósito de Deus. Nesse quadro,

percebemos que, se recusarmos ficar do lado de Faraó para estarmos com Deus, Este nos tratará bem, de modo a podermos produzir vida para o cumprimento de Seu propósito. Irmãs, quando vocês ficarem com Deus e não com Satanás, Deus lhes constituirá famílias. Isso significa que Deus estabelecerá unidades que produzam vida para o cumprimento de Seu propósito. Desta mensagem, podemos concluir que não importa o quanto Satanás possa procurar escravizar-nos ou mortíficar-nos; Deus ainda é soberano e pode utilizar-nos, para sermos as parteiras de hoje. Todos podemos ser aqueles que mudam a vida destinada ao prazer do homem em vida que tem por alvo o propósito de Deus. Se formos tais parteiras, Deus nos constituirá famílias repletas de pessoas que produzem vida para o cumprimento de Seu propósito. Na mensagem seguinte, observaremos que Moisés foi preservado através de três mulheres: sua mãe, sua irmã e a filha de Faraó. Louvado seja o Senhor pelas parteiras, pela vida feminina que se volta a Deus para o cumprimento de Seu propósito! Louvado seja Ele, porque, nas trevas de Êxodo 1, brilha uma luz resplandescente.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM TRÊS

A PREPARAÇÃO DO SALVADOR

No primeiro capítulo de Êxodo, Faraó manteve escravos os filhos de Israel e também procurou matar a todos os meninos nascidos de mães hebréias. No segundo capítulo, veri- ficamos a preparação de um salvador para os filhos de Israel, Embora esses dois capítulos estejam separados, há um assunto subjacente a ligá-los. Essa questão é que, em tempos de crise, Deus utiliza a vida feminina para o Seu propósito. Em Êxodo 1, por exemplo, utilizou as parteiras a vida feminina -- a fim de preservar a vida masculina para o cumprimento de Seu propósito. A intenção de Faraó era matar a vida masculina, que representa a vida destinada ao propósito dr Deus, além de preservar a feminina, que representa a que tem por alvo o prazer do homem. Sem dúvida, ele queria preservar a vida feminina para o seu próprio prazer. Tentou usar as parteiras para realizar sua intenção maligna. Mas, pela soberania de Deus, as parteiras recusaram cooperar com seu plano. Embora fosse ele um governante poderoso, um tirano, elas não o temeram, nem deram ouvidos à sua palavra. Em vez de matarem os meninos, elas os preservaram. Deus, assim, utilizou a vida feminina, a fim de resguardar a masculina para o Seu propósito.

1. ATRAVÉS DA VIDA FEMININA

Em Êxodo 2, observa-se a necessidade da preparação de um salvador que libertasse o povo de Deus da mão tirana de Faraó. Ao preparar o salvador, Deus primeiramente utilizou não a vida masculina, mas a feminina (ÊX 2:1-10). A mulher utilizada estrategi- camente por Deus para esse propósito foi encontrada na própria casa de Faraó - sua própria filha. Isso nos faz lembrar a palavra de Paulo em Filipenses sobre "os da casa de César" (4:22). Embora este houvesse lançado o apóstolo Paulo na prisão, pelo menos alguns de sua casa se tornaram cristãos. No mesmo princípio, embora Faraó tentasse matar todos os meninos entre os hebreus, Deus soberanamente utilizou-lhe a filha, para preservar o mais importante menino nascido aos filhos de Israel no Egito. Hebreus 11:23 diz que Moisés "foi ocultado por seus pais, durante três meses"; mas Êxodo 2:2 menciona que apenas sua mãe o escondeu por três meses. A razão de Êxodo 2 mencionar apenas a mãe é enfatizar o fato de que, em épocas de crise, a vida feminina é que é útil a Deus. Não fossem as parteiras do capítulo primeiro, Israel poderia ter sido exterminado. De semelhante modo, sem a vida feminina do capítulo segundo, não teria havido condições de Deus preparar um salvador que resgatasse os filhos de Israel. Em Êxodo 1, Ele utilizou a vida feminina para preservar Seu povo; e, em Êxodo 2, usou a vida feminina para preparar um salvador para o Seu povo, povo que Ele preservara para o cumprimento de Seu propósito. Não apenas as irmãs, mas também os irmãos deveriam ser gratos pela função da vida feminina. De fato, num sentido correto, todos os que crêem em Cristo, tanto irmãos quanto irmãs, deveriam ser mulheres aos olhos de Deus, porque a mulher retrata a vida dependente, a vida em total dependência de Deus.

A. Uma Filha de Levi

No capítulo segundo, muitas mulheres foram utilizadas por Deus. A primeira foi a mãe de Moisés, uma filha de Levi (2:1). O nome do pai de Moisés era Anrão, e o de sua mãe era Joquebede (Nm 26:58-59). A ênfase de Números 26 está nos nomes, mas a ênfase de Êxodo 2 está na vida feminina. Por isso, com exceção de Zípora, esposa de Moisés, esse capítulo não menciona os nomes de quaisquer outras mulheres. Após dar à luz a Moisés, sua mãe o ocultou por três meses. Quando já não mais podia ocultá-lo, colocou-o numa arca de papiro e o pôs entre os caniços das margens do Nilo. Mais tarde, entretanto, foi contratada pela filha de Faraó para cuidar dele por determinado tempo. Assim, a primeira mulher mencionada em Êxodo 2 foi a mãe de Moisés, a vida que o gerara e que dele cuidou.

B. A Irmã do Menino

A segunda mulher foi a irmã de Moisés, Miriã. O pai, a mãe e a irmã de Moisés devem

ter feito uma conferência acerca do que fazer com Moisés, ao não poderem mais ocultá-lo. Creio que o Senhor os guiou a confeccionar uma arca de papiro. A mesma palavra hebraica é usada para esse cesto e para a arca de Noé. Embora essa arca fosse bem menor do que a construída por Noé, a função de ambas foi a mesma: preservar a vida, fazendo com que os que estavam nelas passassem através da água. A família de Moisés devia saber que a filha de Faraó tinha o hábito de banhar-se em determinado lugar do rio, e deve ter sido a esperança deles que Moisés fosse descoberto e criado por ela. Com o pai de Moisés na retaguarda, a mãe e a irmã trabalharam juntas para efetuar o plano. A mãe tomou o cesto preparado, "largou-o no carriçal à beira do rio. Sua irmã ficou de longe, para observar o que lhe haveria de suceder" (2:3-4). Quando a filha de Faraó viu o bebê e dele se compadeceu, a irmã de Moisés recomendou-lhe que pedisse a sua mãe que cuidasse dele (2:7-8). A irmã de Moisés, assim, tomou conta da vida masculina e estabeleceu o contato entre a filha de Faraó e a mãe do menino.

C. A Escrava da Filha de Faraó

"Vendo ela (a filha de Faraó) o cesto no carriçal, enviou a sua criada, e o tomou" (2:5). Aqui observamos o papel desempenhado por uma escrava. Tal escrava é a terceira mulher mencionada neste capítulo. Novamente não se lhe dá o nome, a fim de que tenhamos nossos olhos voltados para a intenção de Deus, que é impressionar-nos com a vida feminina. Em Êxodo 2, vemos muitas mulheres reunidas à volta de um cesto onde fora posto um menino de três meses. Cada uma delas teve uma função diferente. A função da escrava foi servir. O seu serviço, particularmente, foi buscar o baú.

D. A Filha de Faraó

A filha de Faraó, a quarta mulher deste capítulo, também teve sua função. Ela, primeira-

mente, resgatou o menino e depois encarregou a mãe de Moisés de cuidar dele. Mais tarde, a mãe trouxe o menino "à filha de Faraó, da qual passou ele a ser filho. Esta lhe chamou Moisés, e disse. Porque das águas o tirei" 12:10). Sabemos por Atos 7:21 que "a filha de Faraó o recolheu e criou como seu próprio filho." Em Êxodo 2, verificamos um registro histórico; mas, em Atos 7 e Hebreus 11, temos um

registro espiritual. Por exemplo, Atos 7:20 diz que Moisés era "formoso aos olhos de Deus". Isso significa que, aos olhos de Deus, ele era muito bonito. Seus pais devem ter sido justos. Possuindo revelação e discernimento espirituais, perceberam que Moisés era uma criança muito promissora para o propósito de Deus. Ocultaram-no, portanto, por três meses "porque viram que a criança era formosa" (Hb 11:23). A ênfase de Êxodo 2 não está no significado espiritual da infância de Moisés, mas no importante papel desempenhado pela vida feminina. Embora seus escritos sejam sempre muito descritivos, em Êxodo 2 Moisés nos dá um registro muito simples, a fim de impressionar-nos com a maneira como Deus utiliza a vida feminina em tempos de crise. Em épocas críticas, a única vida que pode ser utilizada por Deus é a feminina, que opta por Ele e Dele depende. Estamos vivendo numa época de crise, numa hora em que a vida feminina se faz urgente-mente necessária. Alguém que deseje ser um varão, tornar-se-á um Faraó. Todos nós, inclusive os irmãos, precisamos ser mulheres. Numa hora de crise como esta, a vida masculina, independente de Deus, não é útil. Somente a vida feminina, que depende de Deus, é prevalecente. Se o enxergarmos, teremos em alta conta a vida feminina, a vida totalmente dependente de Deus. No capítulo segundo, Deus utilizou muitas mulheres para cumprir o Seu propósito de preparar um salvador. Uma delas, a mãe de Moisés, gerou-o e cuidou dele. Outra, sua irmã Miria, vigiou-o enquanto estava na arca e serviu como elemento de ligação entre a filha de Faraó e a mãe de Moisés. A escrava correu atrás da arca e a filha de Faraó o criou como seu próprio filho. Ela, provavelmente, também foi a pessoa através da qual Moisés aprendeu "toda a ciência dos egípcios" (At 7:22). Hoje também precisamos das diversas funções da vida feminina: a de conceber, gerar e alimentar; a de vigiar, recomendar e estabelecer as ligações corretas; a de ajudar e servir; e a de criar, ensinar e treinar. Por meio de quatro tipos de vida feminina, Moisés nasceu, cresceu e foi treinado para o propósito de Deus. Para a efetivação de Sua economia, hoje, o Senhor precisa desses quatro tipos de vida feminina. Precisa de muitas mães, filhas, escravas e princesas reais que efetivem o preparo para a libertação do Seu povo, de modo a poder este cumprir o Seu propósito.

II. PELO APRENDIZADO DA SABEDORIA DOS EGÍPCIOS

Atos 7:22 diz: "Moisés foi educado em toda a ciência dos egípcios, e era poderoso em palavras e obras". Debaixo da soberania de Deus, ele aprendeu toda a sabedoria egípcia, enquanto permaneceu no palácio real como filho da filha de Faraó. Através dessa educação egípcia, tornou-se ele muito culto e recebeu a mais elevada aprendizagem do mundo. Tornou-se, assim, poderoso tanto em palavras quanto em atos. Todavia, isso foi apenas o treinamento do lado natural; ele ainda precisava de preparação pelo lado espiritual.

III. PELA REJEIÇÃO POR PARTE DOS IRMÃOS

A. Esforçando-se Por Salvar Seus Irmãos

Atos 7:23 diz: "Quando completou quarenta anos, veio-lhe a ideia de visitar seus irmãos, os filhos de Israel". Na Bíblia, o número quarenta tipifica testes, provas e sofrimen- tos. Os filhos de Israel foram testados por Deus no deserto por quarenta anos; Moisés esteve no monte por quarenta dias, e o Senhor Jesus esteve no deserto por quarenta dias.

Os primeiros quarenta anos da vida de Moisés foram anos de provações, testes e

sofrimentos. Ao fim deles, Moisés estava confiante, julgando-se bem suprido, equipado, qualificado e aperfeiçoado para salvar os filhos de Israel. "Cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus os queria salvar, por intermédio dele" (At 7:25). Quando viu um egípcio oprimindo um companheiro hebreu, Moisés "matou o egípcio, e o escondeu na areia" (ÊX 2:12). Atos 7:22 diz que Moisés era "poderoso em palavras"; mas, em Êxodo 4:10, Moisés disse

pois sou pesado de boca e pesado de língua". Como

podemos conciliar esses versículos? Moisés era poderoso em palavras ou era lento na fala? Na idade de quarenta anos, ele considerou-se plenamente educado e qualificado. Agiu, assim, de maneira forte e ousada. Mas sua força e ousadia eram totalmente naturais. Deus não usaria sua habilidade, força ou ousadia naturais. Para quebrar-lhe a força natural, Deus providenciou, para que ele trabalhasse como pastor na terra de Midiã. Assim, aquele que crescera na família real egípcia e atingira o mais alto nível de cultura, tornou-se um pastor. Por outros quarenta anos, Moisés guardou o rebanho de seu sogro no deserto. Esta lhe foi a melhor "faculdade". Nessa "escola", ele foi treinado para não confiar em sua ha- bilidade natural. Humanamente falando, ele era eloquente, ousado, poderoso e forte; mas, espiritualmente falando, ele foi disciplinado, até perceber que nada tinha. Quando o chamou, no capítulo terceiro. Deus lhe mostrou o sinal de uma sarça ardente, uma sarça que ardia sem se consumir (3:2-3). Parece que Deus lhe dizia: "Moisés, você é apenas como uma sarça, através da qual desejo manifestar-Me. Embora o queira como Meu canal, não utilizarei sua energia nem sua força. Você é o vaso, e Eu sou o combustí- vel. Tudo o que você fizer, precisa fazer dependendo de Mim." Não pense que Deus utilizará sua força ou energia para o cumprimento de Seu propósito. Para sermos usados por Deus, precisamos ter um coração para Ele e para os Seus interesses; mas nossa força natural precisa ser posta de lado. Ele não tem intenção de utilizar nossa eloquência, conhecimento, talento, habilidade, energia ou poder naturais. Tudo o que for natural em nós não poderá ser utilizado por Ele. Deus gastou os primeiros quarenta anos da vida de Moisés para edificar um homem forte na vida natural, e depois gastou outros quarenta para despir esse homem de toda a sua habilidade natural. Pode parecer a muitos, principalmente aos jovens, que quarenta anos seja muito tempo para Deus tratar com nossa energia e habilidade naturais. Mas, como irmão mais velho, com mais de cinquenta anos de experiência no Senhor, posso testificar que quarenta anos passam muito depressa. Não espere crescer e desenvolver-se como um cogumelo. A maneira de Deus é primeiramente edificar-nos e depois, em certo sentido, cortar-nos. Ele queria que Moisés aprendesse toda a sabedoria e conhecimento dos egípcíos; mas tal sabedoria e conhecimento não deveriam permanecer em estado bruto, sem um processamento. Pelo contrário, eles devem ser sempre processados. Gostando ou não desse processo, precisamos passar por ele, a fim de aprendermos a não depender de nossa força ou habilidade naturais. Após ser marginalizado tudo o que foi edificado em nós de maneira natural, então serão úteis ao Senhor.

ao Senhor: "Nunca fui eloquente,

B. Rejeitado Pelos Irmãos

Neste capítulo, Moisés foi criado pela vida feminina e rejeitado pela masculina (2:11-15). Em tempos de crise, a vida feminina é utilizada por Deus, a fim de criar algo para o Seu propósito. Mas tudo o que Ele cria através da vida feminina é rejeitado pela masculina. Esse princípio pode ser aplicado à história do mover de Deus na terra.

Que vida você prefere: a criada ou a rejeitada? Se me dirigissem essa pergunta, diria que aprecio ambas e preciso de ambas. Preciso ser criado e também preciso ser rejeitado. Se, na restauração do Senhor, você nunca foi rejeitado, não poderá saber onde está. Somente os que foram rejeitados podem ser utilizados por Deus. Se você não foi rejeitado, ainda está "cru" e sem processamento. Para sermos processados, precisamos ser rejeitados. Fui rejeitado diversas vezes. O meu caráter e disposição precisam e merecem tal rejeição. Vimos que Moisés era naturalmente muito forte e supôs que seus irmãos hebreus o reconheceriam como seu libertador. Por ser forte, era franco. Essa é a característica de todos os fortes. Mas, como Moisés, quanto mais fortes, mais rejeitados seremos. Talvez somente os "geléias" sejam sempre bem-vindos. Tendo um bom coração e uma boa intenção, Moisés interveio na luta entre os dois hebreus. E disse ao que estava na contenda: "Por que espancas a teu próximo?" (2:13). Moisés parecia dizer: "Como irmãos hebreus, vocês deviam amar um ao outro. Por que você luta com seu irmão?" O hebreu que contendia com seu próximo, também hebreu, respondeu: "Quem te pôs por príncipe e juiz sobre nós? pensas matar-me, como mataste o egípcio?" (2:14). Assim foi rejeitado aquele que fora criado através da vida feminina. No mesmo princípio, o Senhor Jesus foi crucificado pela vida masculina, mas apreciado pela feminina. Quando foi crucificado, a presença das irmãs for uma demonstração de seu amor e apreço. Em tempos de crise, é sempre assim. Todos, portanto, precisamos ser mulheres.

C. Renunciando à Posição Real

Hebreus 11:24 diz: "Pela fé Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filho de Faraó". Alguns historiadores acreditam que, se permanecesse no palácio egípcio, Moisés seria o herdeiro do trono. Ele, todavia, renunciou à posição real no Egito, o mais alto posto do mundo daquela época.

D. Preferindo Sofrer Aflição Com o Povo de Deus

Hebreus 11:25-26 continua: "preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus, a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão." Perce- bemos, aqui, que Moisés pagou um preço por ficar com o povo de Deus. Preferiu sofrer aflição com o povo de Deus a ter o gozo temporário do pecado. O gozo do Egito, isto é, o gozo dos prazeres do mundo, é pecaminoso aos olhos de Deus. É o gozo do pecado, de uma vida pecaminosa. É temporário, de curta duração, transitório.

E. Deixando o Egito Pela Fé e Não Temendo a Ira de Faraó

Hebreus 11:27 diz de Moisés: "Pela fé ele abandonou o Egito, nem ficou amedrontado pela cólera do rei". Aparentemente, há uma contradição entre Hebreus 11:27, a dizer que Moisés não temia a ira do rei, e Êxodo 2:14, a mencionar que Moisés temeu. Na verdade, não existe contradição. Exteriormente, Moisés estava com medo e procurou escapar. Interiormente, todavia, considerou o preço e voluntariamente escolheu identificar-se com o povo de Deus.

F. Perseverando, Como Que Vendo Aquele Que é Invisível

Hebreus 11:27 também diz que Moisés "permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível". Permaneceu firme, perseverando, porque o Deus invisível trabalhava nele. A obra de Deus era tão real, que era como se Moisés visse o Deus invisível.

IV. ATRAVÉS DE SERMOS ACEITOS PELOS PAGÃOS

A. Ajudando as Mulheres Fracas e Sofredoras e Sendo Amado e Recomendado Pela Vida Feminina

Após ser rejeitado pelos irmãos e haver fugido para a terra de Midiã, Moisés ajudou as mulheres fracas e sofredoras, que tinham sido maltratadas pelos pastores (2:16-17). Em troca, foi recebido por elas. Moisés foi rejeitado pelos irmãos, por ser muito ousado; mas foi recebido pelas mulheres, por dar-lhes ajuda em seu sofrimento. As mulheres, sete filhas do sacerdote de Midiã, eram vasos mais frágeis. Quando alguns homens se apossaram do controle do poço, elas não puderam fazer nada. "Moisés, porém, se levantou, e as defendeu, e lhes deu de beber ao rebanho" (2:17). Como resultado, elas o receberam e falaram bem dele a seu pai. A vida feminina, portanto, não apenas é a vida que Deus pode usar a fim de criar algo para o Seu propósito, mas também é a vida que recebe o que Ele criou. Nesse capítulo, o quadro da vida masculina é, em sua maior parte, muito negro; mas o retrato da vida feminina é amável e muito positivo. Basicamente, em tempos de perseguição, os sofredores são confortados principalmente pelas irmãs. Ao ser liberto da prisão, por exemplo, Pedro não foi à casa de um irmão, mas de uma irrnã, onde alguns deles haviam se reunido para orar (At 12:11-12). A experiência do irmão Nee também ilustra esse princípio. As irmãs o apreciavam e o confortavam em época de tribulação. A maioria dos irmãos o colocaram na cruz, ao passo que as irmãs o receberam e o confortaram. Quando fiquei cônscio disso, em Xangai, aprendi a não ser um varão, alguém dissidente, frio ou neutro, mas a me tornar uma mulher, alguém receptivo e consolador.

B. Aceito Pela Vida Masculina Madura

Os varões hebreus que rejeitaram a Moisés eram todos imaturos e inexperientes. Mas, no sacerdote de Midiã, verificamos uma vida masculina madura e experimentada, que re- cebeu o vaso criado por Deus. Neste capítulo, todas as mulheres são positivas; mas os homens são de duas categorias: alguns com a vida que rejeita, e outros com a vida positiva, que acolhe. Os que rejeitaram eram inexperientes, enquanto o que recebeu era experimentado e maduro. Deus, consequentemente, podia utilizar essa vida masculina madura para aperfeiçoar o vaso que Ele criara. Moisés, sem dúvida, foi aperfeiçoado sob a mão de seu sogro. Eu, obviamente, desejo ser uma pessoa madura, que possa receber os outros e depois aperfeiçoá-los. Na vida da igreja, hoje, precisamos tanto da vida feminina quanto da vida masculina madura para a economia do Senhor. Se algo deve ser criado por Deus, precisamos ter muitas mulheres como a mãe e a irmã de Moisés, como as escravas, como a filha de Faraó e como as sete filhas do sacerdote de Midiã. Precisamos também dispor da vida masculina experimentada, a fim de realizar o trabalho final aperfeiçoador. Há uma necessidade especial de vida masculina madura.

Nestes dias, muitos de nós temos sido encorajados pelas mensagens de Efésios, a dizerem que todos podemos ser aperfeiçoados para sermos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Para nos tornarmos tais dons para o Corpo, precisamos não permanecer como aqueles que não foram processados, imaturos e inexperientes, aqueles que não são capazes de receber os vasos escolhidos por Deus. Precisamos ser criados através da vida feminina e aperfeiçoados através da vida masculina madura.

C. Ganhando Uma Esposa No Mundo Gentio

Durante sua jornada pelo mundo gentio, Moisés ganhou uma esposa, Zípora, filha do sacerdote de Midiã. Ela gerou-lhe um filho, "a quem ele chamou Gérson, porque disse: Sou peregrino em terra estranha" (2:22).

O. Permanecendo Em Midiã Por Quarenta Anos

Moisés permaneceu em Midiã por quarenta anos (At 7:30). Durante esses anos, Deus trabalhou nele, para aperfeiçoá-lo. Ao ouvirem isso, alguns jovens, poderão ficar desapon- tados, pensando não serem capazes de esperar tanto tempo pelo aperfeiçoamento. Se quisermos estar perfeitos após tão longo período de tempo, precisamos ter o coração correto, a atitude correta e a posição correta. Onde está o seu coração e qual é a sua posição? Nosso coração deve ser para o Senhor, e devemos posicionar-nos junto a Seu povo. Se tivermos tal coração e posição, estaremos dispostos a aceitar o Seu treinamento, não importando sua duração.

V. A NECESSIDADE DE UM SALVADOR

Ao final deste capítulo, observamos que entre os filhos de Israel havia uma urgente necessidade de um salvador: "os filhos de Israel gemiam sob a servidão, e por causa dela clamaram, e o seu clamor subiu a Deus" (2:23). Por essa razão, Deus ouviu-lhes as queixas, e lembrou-se de Sua aliança com Abraão, Isaque e Jacó, no sentido de introduzir os seus descendentes na boa terra. Deus foi obrigado a cumprir Sua promessa. O versículo vinte e cinco conclui o capítulo: "E viu Deus os filhos de Israel, e atentou para a sua condição". Isso indica que Deus lhes conhecia a situação e compreendia seus problemas. Os últimos poucos versículos de Êxodo 2 revelam que tudo o que transpirou neste capítulo se destinou à preparação do salvador, a fim de se retirar o povo de Deus do cativeiro. A situação é a mesma hoje. Se tivermos tanto a vida feminina quanto a vida masculina correta, Deus será capaz de criar algo e aperfeiçoar o que criou, a fim de salvar Seu povo e ganhar tais pessoas para o cumprimento de Seu propósito. Dessa forma, Ele será capaz de mudar esta era.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM QUATRO

A VIDA ÚTIL A DEUS

O livro de Êxodo revela o tipo de pessoa que Deus pode utilizar em Sua economia para

o cumprimento de Seu propósito. Sua intenção, como se vê neste livro, é ter um povo que

Lhe edifique um lugar de habitação na terra. Assim, ao final de Êxodo, erige-se o tabernáculo, para ser o lugar de habitação de Deus. Além disso, para o cumprimento de Seu propósito, há também a necessidade de um exército que lute pelos Seus interesses na terra. Os filhos de Israel saíram do Egito como um povo coletivo, e imediatamente foram organizados como um exército. Desde a hora de sua redenção até à conquista da boa terra,

tiveram que subjugar os inimigos, principalmente os que ocupavam e possuíam integral- mente a terra a eles prometida. Se quisessem desfrutar da boa terra e cumprir o propósito de Deus, edificando-Lhe um templo como Seu testemunho na terra, precisariam combater para livrar a terra da mão usurpadora do inimigo. Ser útil a Deus, portanto, relaciona-se à edificação do Seu lugar de habitação e à luta pelos Seus interesses na terra.

A vida útil a Deus nesses assuntos é a vida feminina. De acordo com o conceito natural,

todavia, a vida masculina é que deveria ser-Lhe útil. Isso porque os varões são bons guer-

reiros, ao passo que as mulheres são consideradas mais fracas. Poucas pessoas que leem Êxodo 1 e 2 enxergam o tema subjacente que liga tais capítulos. O capítulo primeiro mostra que o povo de Deus esteve sob escravidão, e o segundo revela como Deus preparou alguém para salvar Seu povo do cativeiro. O tema

básico é que Deus precisa de um determinado tipo de vida tanto para preservar o Seu povo quanto para preparar um salvador, a fim de libertá-lo da escravidão. Tanto a pre- servação do povo quanto a preparação do salvador foram alcançadas somente através da vida feminina. Na Bíblia, o conceito de um "varão" é rico em significado. Refere-se, é claro, a um homem, mas também indica uma vida independente. Além disso, refere-se a Cristo como

o único varão do universo. Todos os irmãos casados precisam perceber que são apenas

maridos em sombra, e que o verdadeiro marido é Cristo. Por ser Deus o único marido, Isaías 54:5 diz: "o teu Criador é o teu marido". No Antigo Testamento, Deus considerou Seu povo como sua mulher (Os 2: 19). Não importava se um israelita era homem ou mulher: ele ou ela eram uma parte da esposa coletiva de Deus. Na Bíblia, o termo "marido" indica liderança, e também indica uma vida independente. Quando falamos de varão, num sentido positivo, temos em mente um marido como o cabeça, tendo uma vida independente. Por ser Deus o único marido do universo, somente Ele é o cabeça e somente Ele tem uma vida independente. É uma blasfemia afirmar que Ele

precisa depender de alguém ou de algo. Também é uma blasfemia dizer que podemos ser independentes Dele. Como mulheres, as irmãs casadas não deveriam usurpar a liderança, nem deveriam viver de maneira independente. Pelo contrário, deveriam viver uma vida de dependência em relação a seus maridos, que nada mais são do que sombras do Senhor, o verdadeiro marido. Embora, em sombra, sejam maridos com relação a suas esposas, os irmãos casados, na verdade, são mulheres com relação ao Senhor. Não deveriam, portanto,

usurpar a direcão do Senhor, nem ter uma vida independente. Deveriam, também, ser submissos e viver uma vida de dependência.

I. DEUS É O CABEÇA DE CRISTO

Deus é o cabeça de Cristo (1Co 11:3). Não é muito correto dizer que Deus é nosso cabeça, porque Cristo é que é o cabeça do homem.

II. CRISTO, SOB A LIDERANÇA DE DEUS, É O CABEÇA DE TODO HOMEM

Primeira Coríntios 11:3 diz que o cabeça de todo homem é Cristo. Em si mesmo, Cristo não é o cabeça do homem; Ele é o cabeça de todos os homens sob a liderança de Deus.

III. O HOMEM, SOB A LIDERANÇA DE CRISTO, É CABEÇA DA MULHER

Assim como o cabeça de todo homem é Cristo, também é "o homem o cabeça da mulher" (1Co 11:3). O homem, todavia, não deve ser o cabeça da mulher por si mesmo. Deve ser o cabeça somente na medida em que ele mesmo está sob a liderança de Cristo. Por um lado, Cristo está sob a liderança de Deus, e, por outro, Ele é o cabeça de todo homem. De semelhante modo, o homem, por um lado, deve estar sob a liderança de Cristo, e, por outro, deve ser o cabeça da mulher. Não é algo fácil estar ao mesmo tempo sob a liderança e também ser cabeça de outros. Mas, na vida de Cristo, observamos um excelente exemplo de como isso ocorre. Os quatro Evangelhos revelam-No sempre sob a liderança de Deus. Todavia, ao mesmo tempo, Ele era o cabeça de todos os seus discípulos. Cristo jamais foi independente do Pai. Em João 5:30, Ele afirmou: "Eu nada posso fazer de mim mesmo"; e, em João 5:19, Ele disse: "Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz". O Filho estava sempre sob a liderança de Deus Pai. Ele, todavia, também exerceu liderança sobre os outros. Por exemplo, tratava Pedro muito severamente toda vez que este agia como se fosse o cabeça e vivia uma vida independente. O Senhor o corrigia, levando-o a perceber a liderança de Cristo. Assim como Cristo estava sob a liderança de Deus Pai, também Pedro precisava estar sob a liderança de Cristo. Nisto verificamos que Deus é o cabeça de Cristo, e que Cristo, sob a liderança de Deus, é o cabeça de todo homem. De igual modo, o homem, sob a liderança de Cristo, é o cabeça da mulher.

IV. O HOMEM, TIPIFICANDO CRISTO, SIMBOLIZA A VIDA INDEPENDENTE

Como um quadro a tipificar o relacionamento entre Deus e o homem, este, no casal, representa Deus, e a mulher representa o homem. Nesse sentido, o homem, tipificando Cristo, simboliza a vida independente. Com respeito à liderança de Deus, Cristo tem uma vida dependente. Mas, com respeito a ser o cabeça de todo homem, Ele tem uma vida independente. Isso quer dizer que Cristo é dependente de Deus, mas independente de nós. Com relação a Deus, Sua vida é dependente; mas, com relação a nós, ela é independente, O homem tipifica Cristo como Aquele que tem uma vida independente. Com respeito a Cristo, os irmãos casados têm uma vida dependente; mas, com respeito às suas esposas, eles têm uma vida independente.

V. A MULHER, TIPIFICANDO O HOMEM SIMBOLIZA A VIDA DEPENDENTE

Assim como o homem representa Deus, a mulher representa o homem, no relacionamento com Deus. Nesse sentido, a mulher, tipificando o homem, simboliza a vida dependente. No homem existem dois aspectos, tanto de dependência quanto de independência. Mas, na mulher, só há dependência. Foi Deus, não o homem, quem não permitiu à mulher ter uma vida independente.

VI. O HOMEM DEVE SER UMA VERDADEIRA "MULHER", VIVENDO UMA VIDA DEPENDENTE DE DEUS

O homem não deve ser um varão, mas uma "mulher", alguém que vive uma vida na

dependência de Deus. Somente essa vida "feminina" é útil a Deus. Em Êxodo, um livro de figuras, essa vida feminina é retratada pelas parteiras do capítulo primeiro e por todas as mulheres do capítulo segundo: a mãe e a irmã de Moisés, a escrava, a filha de Faraó e as fi- lhas do sacerdote de Midiã. Todos os homens deveriam ser tais "mulheres".

VII. A INDEPENDÊNCIA DO HOMEM COM RELAÇÃO A DEUS SIGNIFICA REBELIÃO.

A independência do homem com relação a Deus é rebelião. No momento em que ficamos independentes, torna-mo-nos rebeldes contra Deus. Por ser a vida masculina inde- pen-dente e rebelde, Deus não pode utilizá-la para o cumprimento de Seu propósito.

VIII. A MULHER, AO VIVER UMA VIDA INDEPENDENTE TORNA-SE UM VERDADEIRO "VARÃO".

Se uma mulher vive uma vida independente, torna-se um verdadeiro "homem". Hoje há

muitas mulheres que se tornaram "varões". Essa é a razão principal de haver tantas separa-

ções e divórcios.

IX. SOMENTE A VERDADEIRA VIDA "FEMININA" É ÚTIL A DEUS

Quer sejamos irmãs ou irmãos, todos precisamos ser "mulheres" e viver a única vida que é útil a Deus. Para sermos "mulheres", precisamos depender do Senhor. A árvore da vida, de Gênesis 2, tipifica dependência; e a árvore do conhecimento tipifica indepen- dência. A vida sempre nos torna dependentes, ao passo que o conhecimento sempre nos faz independentes. Antes de você ensinar algo a uma criança, por exemplo, ela depende de você com relação àquele assunto. Mas, tão logo aprenda, ela se torna orgulhosa e indepen- dente. A vida, pelo contrário, faz-nos dependentes de Deus. Este deseja que escolhamos a vida, e não o conhecimento. Isso significa que Ele quer que escolhamos a dependência, e não a independência. Viver uma vida independente significa viver pela árvore do conhecimento, mas viver uma vida dependente significa viver pela árvore da vida. Viver pela árvore da vida é, na verdade, viver pelo próprio Senhor. A videira de João 15 é uma excelente ilustração da vida dependente. João 15:5 diz: "Eu sou a videira, vós os ramos. Quem habita em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" (grego). Todos os ramos

dependem da videira. Habitar na videira é ser dependente dela. Assim, no que se refere à habitação, não deve haver independência. Não apenas as pessoas do mundo, mas também muitos cristãos vivem uma vida inde- pendente de Deus. Por consequência, a grande maioria dos cristãos tornaram-se inúteis a Deus. Por isso, precisamos aprender que quer sejamos homens ou mulheres preci- samos viver uma vida em constante dependência de Deus. Não importa o quanto tenhamos estado com o Senhor; ainda precisamos hoje depender Dele para a vida. Não podemos, por exemplo, tirar diploma de comer, beber e respirar. Seria tolice alguém afirmar que, por haver respirado durante setenta anos, já não tem mais necessidade de o fazer. Com respeito à vida, não existem formaturas. A estratégia de Deus é colocar-nos numa posição em que precisamos depender Dele. Precisamos orar: "Senhor, fora de Ti nada posso fazer. Preciso habitar em Ti e tomar-Te como minha vida. Diariamente, preciso comer da árvore da vida. Senhor, quero viver uma vida "feminina", uma vida que sempre dependa de Ti". Esse é o tipo de vida que Deus pode utilizar para o cumprimento de Seu propósito. Até aos quarenta anos, Moisés viveu uma vida "masculina", independente. Agindo independentemente de Deus, exercitou sua força natural para matar um egípcio. Moisés era realmente um "homem" independente. Durante os quarenta anos em que foi margina- lizado, Deus lhe ensinou que não utilizaria sua vida masculina. Não é algo fácil treinar um homem para que ele viva uma vida feminina. Entretanto, nos segundos quarenta anos de sua vida, Moisés aprendeu a ser uma mulher. Durante o seu terceiro período de quarenta anos, dos oitenta aos cento e vinte anos, ele viveu a vida de uma mulher. Somente numa circunstância, ao golpear a rocha pela segunda vez é que ele foi independente de Deus (Nm 20:7-13). Por agir como homem nessa ocasião, ofendeu ao Senhor, e assim lhe foi negado o privilégio de entrar na boa terra. Os leitores da Bíblia geralmente consideram Moisés como um líder dos filhos de Israel. Ele, todavia, não tinha tal conceito acerca de si mesmo; jamais assumiu uma posição de líder. Quando os filhos de Israel se rebelaram contra ele, considerou tal atitude uma rebelião contra Deus, não contra si mesmo. Ele simplesmente ia ao Senhor e Lhe apresen- tava os problemas. Ao agir assim, honrava o Senhor como o cabeça, como o único varão. Isso indica que ele vivia uma vida feminina, uma vida na dependência de Deus. Vê-se a vida feminina não apenas nos capítulos primeiro e segundo de Êxodo, mas também ao longo de todos os capítulos subsequentes. Já enfatizamos que Moisés foi treinado para viver uma vida feminina. Além disso, todos os guerreiros viviam uma vida feminina, na dependência de Deus. Se não aprender a ser uma mulher, você não se capacitará a lutar pelo reino de Deus. Ele só utiliza guerreiros femininos. Isso quer dizer que, se está vivendo uma vida masculina, independente, você é inútil no que diz respeito à guerra espiritual. Desejo enfatizar a questão de que ser um varão é ser independente de Deus. Um marido, por exemplo, pode tratar sua esposa de maneira independente de Deus; e uma mulher pode lidar com seu marido da mesma forma. Isso quer dizer que tanto o marido quanto a esposa podem ser "varões" no sentido negativo. Mas não devemos ser tais "varões", independentes de Deus, Devemos ser "mulheres", aqueles que dependem de Deus e nada realizam fora Dele. Em tudo o que dizemos ou fazemos, devemos depender Dele. Se essa for a nossa situação, então seremos verdadeiras mulheres, vivendo uma vida dependente. A história da igreja revela que, sempre que existe essa vida "feminina", Deus é capaz de realizar algo para o Seu propósito. Tome Martinho Lutero como exemplo. Ele foi um

homem que aprendeu a depender de Deus. Nasceu, sem dúvida, com uma vontade forte.

Aprendeu, todavia, a depender do Senhor. Não viveu, nem agiu como um "varão" forte, mas como uma "mulher" dependente.

O apóstolo Paulo também foi essa "mulher". Seus escritos testemunham tal fato. Como

"mulher", ele nada fez de modo independente do Senhor. Sua obra, seu comportamento e suas açoes eram resultantes de uma vida de dependência de Deus.

A. Deus Tratou Israel Como Sua Esposa

O povo de Deus, na Bíblia, é comparado a uma mulher. No Antigo Testamento, Deus

disse a Seu povo que Ele era o Seu marido e que eles eram a Sua esposa. Até mesmo o rei Davi, um poderoso guerreiro, era parte dessa esposa coletiva. Davi não era o marido dos filhos de Israel, mas Deus era. Sempre que se rebelavam contra Deus, os israelitas assumiam a posição de marido, e era como se eles se divorciassem Dele. Ao se separarem assim de Deus, estavam agindo independentemente Dele. Mas Ele era misericordioso e os chamava de volta a Si, o verdadeiro marido.

B. Cristo Considera Como Virgens os Que Nele Creem

No Novo Testamento, consideram-se virgens os que creem em Cristo. Em Mateus 25:1, o Senhor Jesus compara Seus discípulos a virgens. Além disso, em 2 Coríntios 11:2, Paulo diz: "Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo". Como pessoas que crêem, nossa posição e nossa vida devem ser de virgens. Cristo é o único marido, e, aos Seus olhos, somos todos virgens.

C. Cristo Ama Sua Igreja Como Seu Complemento

Efésios 5:25 diz: "Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela". Aqui percebemos que Cristo ama a igreja como Seu complemento, Sua esposa. A igreja jamais deve ser independente, jamais deve ser um "varão", mas sempre uma "mulher". É por isso que usamos um artigo feminino quando fa- lamos da igreja. Ela deve sempre viver uma vida na dependência de Cristo.

D. Cristo Desposará a Nova Jerusalém Como Sua Noiva No Milénio

Apocalipse 19:7 diz: "Alegremo-nos, exultemos e demos-lhes a glória, porque são chega- das as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou", isso se refere ao casamento de Cristo com a Nova Jerusalém, Sua noiva, no milênio. Quando voltar, Cristo desposará não um "varão", mas uma mulher, uma noiva.

E. Deus Desfrutará da Nova Jerusalém Como Sua Esposa Pela Eternidade

Por toda a eternidade, a Nova Jerusalém será a esposa de Deus (Ap 21:2-3,9). Isso indica que, pela eternidade, no novo céu e na nova terra, estaremos vivendo uma vida depen- dente.

Todos precisamos viver essa vida dependente, hoje, nas igrejas locais. Nenhum de nós deve portar-se como "varão". O problema no meio dos cristãos e das igrejas é que os irmãos e as irmãs vivem uma vida "masculina", independente. Sempre que houver irmãos ou irmãs numa igreja local a viverem como "varões", surgirão problemas. Como preci- samos aprender a não viver independentemente de Deus! Se aprendermos essa lição, perceberemos que não devemos realizar determinadas coisas, não porque sejam erradas, mas porque, ao fazê-las, tornamo-nos independentes de Deus. Se todos tivermos um saudável temor da independência, não haverá problemas na vida da igreja. Além disso, não haverá problemas nos casais. Todos os problemas na vida da igreja, na vida conjugal e no meio dos irmãos vêm de uma única fonte, e esta é a independência. Precisamos ser como as parteiras de Êxodo; deveremos orar: "Senhor, não quero ser um "homem" forte, cheio de opiniões e sempre insistindo na minha maneira. Senhor, quero ser como as parteiras de Êxodo 1 e como as mulheres de Êxodo 2." Como veremos, ao enfrentar Faraó, Moisés não era um "varão". Em suas audiências com Faraó, ele foi uma "mulher" a depender de Deus. Nada decidiu, nem tampouco fez quaisquer propostas. Tudo o que ele fez foi iniciado por Deus. Honrou a Deus como o único iniciador. Vê-se claramente a obra iniciadora de Deus na edificação do tabernáculo. Moisés não se levantou em certa manhã com a ideia de edificar um tabernáculo para Deus. Pelo contrário, foi chamado por Deus, para subir à montanha, onde Ele lhe revelou o que estava em Seu coração, e então o encarregou de edificar o tabernáculo de acordo com o padrão mostrado no monte (25:40). Deus não lhe deu oportunidade de tomar decisões indepen- dentes. Moisés tinha que depender de Deus em todos os pormenores. Essa é a vida que Ele pode utilizar para o Seu propósito. Nestes dias, temos falado muito sobre o aperfeiçoamento dos santos para a edificação do Corpo de Cristo. Se quisermos ser utilizados para aperfeiçoar os outros, nós mesmos precisamos ter uma vida dependente. A única vida que o Senhor deseja ver aperfeiçoada é a vida dependente. Se vivermos e trabalharmos independentemente Dele, o resultado de nossa obra será que outras vidas serão aperfeiçoadas para serem independentes. Somente uma vida dependente pode gerar outra vida dependente. Somente uma vida que dependa de Deus em todas as coisas pode aperfeiçoar os outros para serem "mulheres". Suponha que determinada pessoa seja muito forte em si mesma, confiante nas próprias habilidades, propostas e decisões. Ela só poderá gerar vidas independentes, pessoas capazes, mas independentes de Deus. O resultado de tal obra não será a Nova Jerusalém será a Grande Babilônia, uma cidade independente de Deus e rebelde contra Ele. A igreja, todavia, é uma mulher. Como tal, ela não tem a liderança, nem tampouco uma vida independente. Seu cabeça é Cristo, e sua vida é uma vida dependente. Essa deveria ser hoje a situação da igreja. Se quisermos aperfeiçoar os outros de maneira correta e edificarmos a igreja, precisamos dessa vida "feminina". A razão por que a igreja, ao longo dos anos, tem sido destruída, em vez de ser edificada, é que os assim chamados construtores têm sido muito independentes. Eles têm sido varões, e não mulheres. Agradecemos ao Senhor, todavia, porque tem havido um pequeno número disposto a viver uma vida "feminina", em Sua dependência. O ponto decisivo é que não é uma questão do quanto podemos fazer, mas do quanto dependemos do Senhor. Já enfatizamos que, em João 15:5, o Senhor Jesus afirmou que fora Dele nada podemos fazer. Embora estejamos familiarizados com essa palavra, frequen- temente a esquecemos ou a desprezamos em nosso viver diário. O apóstolo Paulo, todavia, era alguém que a praticava. Em l Coríntios 2:3, ele disse: "E foi em fraqueza, temor e

grande tremor que eu estive entre vós". Ele temia que pudesse fazer algo por si mesmo, independentemente do Senhor. Como precisamos desse temor hoje! Que o Senhor possa ser misericordioso para conosco e proporcionar-nos tal tipo correto de temor. Se o tivermos, temeremos falar ou fazer qualquer coisa por nós mesmos, qualquer coisa independente Dele. Tudo o que fizermos independentemente do Senhor será rebelião. Até mesmo nossa pregação do evangelho ou nossa ajuda aos irmãos podem ser formas de rebelião. Podemos realizar muitas coisas para ajudar as igrejas; mas ainda assim tudo o que fizermos poderá ser rebelião, porque feito independentemente de Deus. Sou grato pela luz que o Senhor nos mostrou referentemente à vida feminina no livro de Êxodo. A única vida útil a Ele é a vida feminina. Todos precisamos aprender que Ele jamais utiliza a vida masculina. As mulheres do capítulo primeiro foram utilizadas para preservar os filhos de Israel, e as do capítulo segundo foram usadas para preparar o vaso que o Senhor levantara. Por fim, até o próprio Moisés foi treinado para ser uma "mulher"; ele se assemelhou a uma das parteiras do capítulo primeiro e às mulheres do capítulo segundo. Porque foi uma "mulher" para o cumprimento do propósito de Deus, pôde ser utilizado por Ele. Mas até Moisés, quando provocado pelos filhos de Israel no deserto, agiu certa vez como varão e, assim fazendo, perdeu a bênção de Deus. Em Sua economia e em Seu mover hoje para a Sua restauração, todos precisamos estar atentos, com temor e tremor, a fim de não agirmos independentemente de Deus. Que todos possamos ver que Ele somente poderá utilizar-nos, se formos "mulheres", dependendo Dele a todo o tempo e para todas as coisas. É decisivo aprendermos com o Senhor que somente a vida "feminina" Lhe é útil.

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EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM CINCO

O CHAMAMENTO QUE DEUS FAZ AO PREPARADO

(1)

No capítulo primeiro de Êxodo, observamos os filhos de Israel sob escravidão; e, no segundo, analisamos a preparação de um salvador. Nessa mensagem, chegamos a Êxodo

3, onde consideraremos o chamamento que Deus faz ao preparado.

I. O MOTIVO DO CHAMAMENTO DE DEUS

O motivo do chamamento de Deus foi o clamor dos filhos de Israel (2:23-25:3:7,9).

Êxodo 3:7 diz: "Disse ainda Jeová: certamente vi a aflição do meu povo, que está no Egito,

e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento" (hebraico). Deus não apenas lhes ouviu o clamor, mas também os visitou no lugar de sua aflição. Assim, sabia totalmente da situação deles e estava ansioso por resgatá-los.

II. A HORA DO CHAMAMENTO DE DEUS

Embora quisesse libertar os filhos de Israel do cativeiro, Deus tinha que esperar até Moisés estar totalmente preparado. Esses capítulos de Êxodo revelam que Deus é muito paciente. Mesmo antes do nascimento de Moisés, os filhos de Israel já sofriam no Egito. Mas Deus ainda esperou ao menos por oitenta anos. É fácil ser paciente quando não se tem força ou habilidade para realizar algo com referência à situação. Em tal caso, você nada poderá fazer, exceto esperar. Mas alguém capaz e qualificado, é-lhe difícil ser paciente. Deus certamente era capaz de libertar os filhos de Israel; Seu poder era suficiente. Ele, todavia, esperou com paciência. Às vezes, ficamos exaustos com a paciência de Deus e perguntamos: "Até quando, Senhor? Já ouviste nossas orações? Senhor, onde estás? Não te importas conosco? Quanto tempo ainda se passará, até que faças algo por nós? Parece que não há Deus neste universo." Nos salmos, tais perguntas são feitas repetidas vezes, porque os salmistas eram as mesmas pessoas que nós. É bom ficarmos esgotados com a paciência de Deus, porque, depois de exaustos, pode- remos descansar. Poderemos ficar tão exaustos, que haveremos de desistir de orar. Sabemos que Deus é verdadeiro e real, e que Ele tem o Seu tempo. Por essa razão, apren- demos a deixar o problema com Ele. Então poderemos descansar. Após se passarem quarenta anos de sua vida, Moisés não podia esperar mais para libertar os filhos de Israel. Recebera a educação mais elevada e se tornara um homem poderoso em palavras e atos (At 7:22). De acordo com sua própria estimativa, ele sem dúvida se julgava qualificado e pronto a agir em benefício de seu povo. Mas Deus o marginalizou por outros quarenta anos, até que ele estivesse completamente preparado, de acordo com o Seu padrão. Verificamos nisto a paciência do nosso Deus. O que compeliu Deus a esperar aqueles oitenta anos? Nenhum de nós estaria disposto a esperar tanto tempo. É claro que Ele desejava uma maneira de aparecer antes, mas não

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havia ninguém entre os filhos de Israel a quem Ele pudesse vir. Por isso, teve que esperar até que Moisés nascesse. Quarenta anos mais tarde, Moisés estava lá, e crescera, mas Deus ainda precisaria esperar mais, pois Moisés era muito natural. Deus teve de esperar, porque faltava alguém preparado. Observamos aqui um princípio. Em todos os tempos, Deus desejou realizar algo. O problema não esteve com Ele; sempre esteve com o Seu povo. A questão sempre tem sido esta: onde existe alguém pronto a receber o chamamento de Deus? Também em nossa era, Deus está ansioso por realizar determinadas coisas. Mas quem está pronto para o Seu cha- mado? Há mais de dezenove séculos, o Senhor Jesus disse que voltaria logo (Ap 22:7). Mas ainda não voltou. Se lhe perguntarmos por que Sua volta se atrasou tanto, Ele poderá responder: "Onde se acham aqueles que estão prontos para a Minha volta? Quando vir pronto um número suficiente, voltarei. Desejo ardentemente voltar, mas é preciso que exista algo para o que Eu deva voltar." Em Êxodo, Deus não poderia ter vindo, sendo Moisés uma criança ou estando ete ainda confiante em sua força e habilidade naturais. Ele teve de esperar até que Moisés tivesse oitenta anos. Aí, então, após Moisés ser preparado, Deus veio para chamá-lo. Os filhos de Israel clamavam por causa da tirania, da perseguição e da opressão; mas Deus ainda teve de esperar, até Moisés estar preparado. No mesmo princípio, o Senhor continua a tardar Sua volta, porque não há número suficiente em Seu povo, que esteja pronto para o Seu retorno. Nos capítulos segundo e terceiro de Êxodo, observamos os filhos de Deus perseguidos clamando a Ele, e o Deus de misericórdia, graça e amor ansioso por resgatá-los. Mas Moisés crescia lentamente, até a maturidade. O clamor dos israelitas era desesperado, e a ânsia de Deus era grande; mas o crescimento de Moisés era lento. A situação é a mesma hoje. Muitos cristãos têm suspirado e ansiado pela volta do Senhor, e Este está desejoso de voltar. Mas onde estão os preparados? Por essa razão, em vez de nos queixar ao Senhor da situação de hoje, deveremos entregar-nos ao crescimento de vida. Quando foi marginalizado pela soberania de Deus, Moisés deve ter ficado muito desapontado e deve ter perdido toda esperança. Ao perder a esperança, contentou-se em ser um pastor a apascentar um rebanho na terra de Midiã. Um homem educado no palácio real era agora forçado a viver como um pastor no deserto. À medida que se passavam os anos, ele ia perdendo tudo sua confiança, seu futuro, seu interesse, seu objetivo. Por fim, provavelmente, atingiu um estágio em que não mais cogitava ser aquele a quem Deus usaria para resgatar do cativeiro no Egito os filhos de Israel. Moisés deve ter-se dito: "Devo cuidar deste rebanho. Mas nem mesmo este rebanho é meu; pertence ao meu sogro. Não tenho império, nem reino. Nada me restou, exceto trabalhar para sustentar minha família. Minha preocupação imediata é descobrir grama verde e água fresca para o rebanho." Mas, um dia, havendo Moisés passado por um total processo, Deus lhe apareceu e o chamou. Com oitenta anos, aos Seus olhos, Moisés estava totalmente preparado e qualificado; e, no tempo exato, Deus lhe veio. O relato do chamamento efetuado por Deus a Moisés é maior do que o relato de Seu chamamento a qualquer outra pessoa da Bíblia. O relato do chamamento de Abraão é breve, e assim também é o de Isaías. O mesmo é verdade com relação ao chamamento de Pedro e ao de Saulo de Tarso. Mas o registro do de Moisés é mais longo e pormenorizado. Nesse relato, encontramos todos os pontos básicos concernentes ao chamamento de Deus. Assim, se quisermos conhecer o significado total do chamamento de Deus, precisamos prestar bastante atenção ao chamamento que Ele fez a Moisés em Êxodo 3. Moisés foi, na História, o primeiro servo completo, qualificado e aperfeiçoado por Deus.

Noé foi utilizado por Deus para construir a arca, mas não foi o mesmo tipo de servo que Moisés. Nem mesmo Abraão, o pai da fé, foi aperfeiçoado como servo de Deus do mesmo modo que Moisés. Por ser o primeiro servo de Deus totalmente qualificado na Bíblia, Moi- sés é o modelo-padrão do servo de Deus, e o chamamento que Deus lhe fez é o padrão de Seu chamamento a todos os Seus servos. Em princípio, todos precisamos ser chamados à mesma maneira de Moisés.

III. O LUGAR DO CHAMAMENTO DE DEUS

A. No Extremo do Deserto

Êxodo 3:1 diz: "Apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Midiã; e, levando o rebanho até o extremo do deserto, chegou ao monte de Deus, a Horebe" (he- braico). Um dia, Moisés levou o rebanho até ao extremo do deserto. Isso indica que podemos ser chamados somente no extremo de nossa situação, jamais quando estamos na dianteira. Creio que Moisés guiou o rebanho até ao extremo do deserto, porque estava procurando melhor pastagem. Deve ter ficado insatisfeito com os locais familiares, e deve ter desejado um novo lugar. Assim, foi até ao externo. Se quisermos receber o chamamento de Deus, precisamos também estar no local certo. Esse lugar é, primeiramente, o extremo de nossa situação. Se você for um professor, Deus não pode chamá-lo à frente de sua profissão. Você precisa estar no extremo. No mesmo princípio, se você for um negociante, precisará ir ao extremo de seu negócio, para ser cha- mado por Deus, Estar no extremo significa não estarmos contentes com nossa situação atual. Por anos a fio, Moisés guiou o rebanho pelo lado dianteiro do deserto. Mas, um dia, descontente e insatisfeito, decidiu ir até ao extremo, para ver o que havia por lá. Se você estiver insatisfeito com sua ocupação ou com seu casamento, tal insatisfação poderá levá-lo ao extremo. Todo aquele que foi chamado por Deus pode testificar que foi chamado no extremo. No chamamento de Moisés, quem veio a quem? Moisés veio a Deus, ou Deus veio a Moisés? Eu diria que ambos estavam viajando e, por fim, se encontraram num deter- minado ponto. Deus viajou, proveniente dos céus; e Moisés viajou, proveniente de onde vivia. Por essa razão, é difícil dizer quem veio a quem. De acordo com nossa experiência, um dia chegamos a um determinado lugar, e lá encontramos Deus.

B. O Monte de Deus

Indo até à extremidade do deserto, Moisés "chegou ao monte de Deus, a Horebe". Muitas vezes, o extremo de nossa situação se torna o monte de Deus. Moisés, contudo, não sabia que o monte de Deus ficava na extremidade do deserto. Ao fazer vagarosamente sua jornada com o rebanho até ao monte de Deus, entretanto, Este já o esperava lá.

C. Solo Santo

No versículo cinco, Deus disse a Moisés: "Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa". A "terra santa" desse versículo refere-se à terra não tocada pelo homem. Isso indica que o chamamento de Deus ocorre num lugar onde não há interferência humana. O Seu chamamento sempre chega a alguém que está

em solo virgem, solo tocado somente por Deus. Isso quer dizer que todo chamado genuíno chega a um lugar onde não há manipulação, nem opinião humana. Se quisermos ser chamados por Deus, isso deverá ocorrer num lugar totalmente reservado a Ele.

D. Do Meio de Uma Sarça

Nesse solo santo há uma sarça. O versículo dois diz: "Apareceu-lhe o anjo de Jeová numa chama de fogo do meio duma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia" (hebraico). A sarça representa o próprio Moisés. O fato de Deus chamar do meio de uma sarça indica que o lugar de Seu chamamento é dentro de nós. Ele não nos chama dos céus; chama de dentro de nós. Alguns poderão imaginar se esse princípio se aplica ao caso de Saulo de Tarso. Inicialmente, Saulo foi chamado pelo Senhor do céu; mas, depois, esse chamamento se tornou algo de seu interior. O Senhor que o chamara entrou nele, no "arbusto" de Tarso. Nossa experiência testifica o fato de que o lugar do chamamento de Deus é interior. Todo aquele que realmente foi chamado por Deus pode testificá-lo. No princípio, pode realmente parecer que Ele chamava dos céus. Por fim, entretanto, ficou claro que o seu chamamento provinha da "sarça".

E. Numa Chama de Fogo

O versículo dois fala também de uma "chama de fogo". Isso se refere à glória da santidade de Deus. Na Bíblia, a santidade de Deus é comparada ao fogo. Sempre que chama alguém, Deus o faz na glória de Sua santidade. Ao chamar assim uma pessoa, Ele a separa para a Sua santidade. Aparentemente, o chamamento de Deus ocorreu na extremidade do deserto; mas, na verdade, ocorreu na montanha de Deus e particularmente no solo santo. Experimental- mente, ocorreu no meio de uma sarça, e, por fim, da chama de fogo. Este foi o local do chamamento de Deus a Moisés: no extremo, no monte, no solo santo, no meio de uma sarça e na chama de fogo. No fogo, Deus chamava Moisés. Na verdade, Deus era a chama de fogo, porque a voz que chamava Moisés saiu do fogo. Consequentemente, era o fogo que falava, que chamava. Todos precisamos estar em tal lugar. Aí, então, o chamamento de Deus chegará até nós. Ser chamado por Deus não é simplesmente uma questão de nos consagrarmos a Ele, irmos à escola bíblica ou ao seminário, e depois sermos ordenados após o diploma. Tal "chamamento" nada significa aos olhos de Deus. O Seu chamamento ocorre no extremo de nossa vida no mundo, na Sua montanha e num lugar onde não há interferência humana. Além disso, somos chamados por Ele na glória de Sua santidade, do interior de uma sarça ardente.

IV. AQUELE QUE CHAMA

É de vital importância que o chamado conheça o nome Daquele que o está chamando. Êxodo 3 revela o nome de Deus o que chama de maneira completa; mais completa talvez do que em qualquer outra porção da Palavra. Quando Deus o chamou, Moisés disse: "Eis que quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?" (3:13).

Observamos aqui a preocupação de Moisés com referência ao nome divino. Queria saber o nome Daquele que o chamava.

A. O Anjo de Jeová

Aquele que o chamava era primeiramente o Anjo de Jeová (3:2). Em sua tradução, Darby inicia com maiúscula a palavra "Anjo", para indicar ser esse Anjo alguém exclusivo. Na verdade, Cristo, o Filho de Deus, era o Anjo de Deus, o único Enviado. De acordo com

a Bíblia, um anjo é um mensageiro, isto é, alguém enviado. No livro de Apocalipse, os líderes das igrejas são chamados de anjos, mensageiros, enviados. O Anjo do Senhor, portanto, em 3:2, é o Enviado de Deus.

Colocados juntos os versículos dois e quatro, verificamos que esse Enviado, o Anjo de Jeová, é, na verdade, o próprio Jeová. O versículo quatro diz: "Vendo Jeová que ele se voltava para ver, Deus, do meio da sarça, o chamou" (hebraico). Isso prova que o Anjo de Jeová é o próprio Jeová, e que Jeová é Deus. O Novo Testamento revela que o Senhor Jesus, o Filho de Deus, veio como o Enviado do Pai. Como o Enviado de Deus, Ele era o próprio Deus. Com o propósito de chamar e enviar Moisés, Deus, o que envia, apareceu-lhe como o Enviado. Somente o que foi enviado pode enviar os enviados. Os apóstolos, por exemplo, enviados do Novo Testamento, foram enviados pelo Senhor Jesus, o Enviado de Deus. Em João 20:21, o Senhor Jesus disse aos discípulos: "Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio". Nós, portanto, discípulos do Senhor, somos enviados pelo Enviado de Deus, que é Cristo, o Anjo de Jeová. De acordo com Êxodo 3, o Chamado é o Enviado. Esse é um ponto crucial no chamamento de Deus. Aquele que sabe usar seus empregados e supervisioná-los corretamente, é aquele que já fez o próprio trabalho deles. No mesmo princípio, sendo Cristo o Enviado de Deus, somente Ele sabe como enviar os outros. Sobre a criação, Gênesis 1 diz que no princípio foi Deus quem criou os céus e a terra. Mas, em Gênesis 2, ao vir Deus para contactar o homem e entabular com ele um relaciona- mento, o nome "Jeová" é usado. Aqui em Êxodo 3, Deus veio para chamar Moisés, não diretamente em nome de Deus nem primeiramente em nome de Jeová, mas em nome do Anjo de Jeová. Esse capítulo não é uma questão de criação nem de efetivar um relacio- namento com o homem; é uma questão de chamar Moisés. Para ser tal pessoa chamada, há

a necessidade de alguém com as qualificações de um enviado, qualificações encontradas

unicamente em Cristo, o Anjo de Jeová. Por ser o Enviado aquele que chama o enviado, o Anjo de Jeová, o Filho de Deus, veio para enviar Moisés. Por que o título "Anjo de Jeová" não é usado nos dois primeiros capítulos de Êxodo? Até o capítulo terceiro, Moisés não estava preparado e pronto. Por isso, Deus lhe veio como o Anjo de Jeová para o chamar e enviar. Para enviar Moisés, havia a necessidade de Alguém com a experiência de ter sido enviado. De acordo com Zacarias 2, Aquele que envia é o Enviado, e o Enviado é Aquele que envia. Verificamos o mesmo princípio ocorrendo no capítulo terceiro de Êxodo. O Anjo de Jeová é o próprio Jeová. O Enviado de Deus, o Seu Filho, é, na verdade, o próprio Deus. Aquele mesmo que estava no princípio com Deus, e que é o próprio Deus, foi enviado por Deus. O título "Anjo de Jeová" refere-se principalmente a Cristo, o Filho de Deus, enviado para salvar o povo de Deus de sua situação de sofrimento (veja Juízes 6:12, 22; 13:3-5, 16- 22). Aqui, em Êxodo 3, o Senhor apareceu para chamar Moisés para libertar os filhos de Israel do cativeiro. Assim Ele veio como o Anjo de Jeová.

B. Jeová

O segundo título revelado neste capítulo é Jeová, que significa "Aquele que era, que é e

que será". Esse título é composto basicamente pelo verbo "ser". Fora do Senhor, tudo o mais é nada. Ele é o Único que é, o Único que tem a realidade do ser. O verbo "ser" não deveria ser aplicado absolutamente a ninguém mais ou a nada mais exceto a Ele; Ele é o único ser auto-existente. No universo, todas as coisas nada são. Somente Jeová é "Aquele

que era, que é e que será". No passado, Ele era; no presente, Ele é; e, no futuro, Ele será. Hebreus 11 fala que aquele que se aproxima de Deus deve crer que Ele é. De acordo com esse versículo, Deus é, e nós precisamos crer nisso. Deus é, mas nós não. Se quisermos ser chamados por Deus, precisamos saber que o chamador é primeiramente o Enviado de Deus; e, em segundo lugar. Ele é Jeová, Aquele que era, que é

e que será. Precisamos saber que o Deus que nos chama é, e que nós não somos. Todos

precisamos conhecer a Deus assim. Esse Chamador é o próprio Deus (3:4, 6, 14). A palavra hebraica para Deus é "Eloim", que quer dizer "o Poderoso, que é fiel a Seu juramento". Deus não apenas é poderoso, mas também fiel para cumprir Sua aliança. Se quisermos ser chamados pelo Senhor, preci- samos perceber que Ele é poderoso e fiel: poderoso para fazer-nos tudo, e fiel para guardar Sua palavra.

D. O Deus de Nosso Pai

O versículo seis afirma: "(Deus) disse mais: Eu sou o Deus de teu Pai, o Deus de Abraão,

o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó". A expressão "Deus de teu pai" adquire a conotação de

uma história com Deus. Quando vem para chamá-lo. Deus não lhe deve ser um estranho. Se o for, você então não estará qualificado a ser chamado por Ele. Dizer que Ele é o Deus de nosso pai não significa que Ele é o Deus de nosso pai na carne, pois o nosso pai natural pode não ser um filho de Deus. Ao sermos salvos, ganhamos uma outra genealogia, uma linhagem espiritual. Por essa razão, Paulo disse aos Coríntios que os gerara no evangelho (1Co 4:15). Paulo não era casado, e assim não tinha filhos na carne. Mas teve muitos filhos espirituais. Todo aquele que crê em Cristo tem um pai espiritual. Aos olhos de Deus, o Senhor que o chama é o Deus de seu pai espiritual. O pai de Moisés na carne era um homem justo. Por isso, ao chamar Moisés, Ele fez menção ao Deus de "teu pai". Isso indica uma história com Deus. Quando apareceu a Moisés e o chamou, Deus não era um estranho, porque estivera há gerações com a família de Moisés.

O Deus do pai de Moisés era o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Isso

significa que Deus é o Deus de qualquer tipo de pessoa. Podemos ser urna pessoa boa como Abraão, uma pessoa razoavelmente neutra como Isaque, ou um suplantador como Jacó. Não importando tudo o que somos, Deus é o nosso Deus. O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó é o Deus todo-inclusivo. Sempre que Deus lhe vem, Ele é o todo-inclusivo. Deus é o Deus de nosso pai, e também é o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Esses títulos de Deus também mostram o Deus da aliança. O Deus da aliança destina- -se a todos. Não importa o que você é; Ele é o seu Deus e está qualificado a chamá-lo.

E. Eu Sou o Que Sou

Chegamos agora ao mais maravilhoso título de Deus: "EU SOU O QUE SOU" (3:14-15). No versículo quatorze, o Senhor instruiu Moisés: "Assim dirás aos filhos de Israel: EU

SOU me enviou a vós outros". O nome do Senhor é EU SOU. Em outras palavras, o Seu nome é simplesmente o verbo "ser". Não estamos qualificados a dizer o que somos. Não somos nada; somente Ele é. Por isso Ele se chama "EU SOU O QUE SOU". A versão chinesa fala Dele como "Aquele que auto-existe e existe para sempre". "Eu Sou" indica Aquele que auto-existe, Aquele cujo ser independe de qualquer outra coisa além de Si mesmo. Esse Alguém é também Aquele que existe para sempre, isto é, que existe eternamente, não tendo princípio nem fim. Em João 8:58, o Senhor Jesus disse: "Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, eu sou". Como o grande "Eu Sou", o Senhor é o Deus eterno, que sempre existe. Vimos que, em 3:14, o Senhor ordenou a Moisés que dissesse aos filhos de Israel que o "Eu Sou" o enviara. As palavras "Eu Sou" não constituem uma sentença completa, mas funcionam aqui como um nome, aliás, um nome único. Esse nome, como vimos, é, na verdade, o verbo "ser". Somente Deus está qualificado a ter esse verbo aplicado a Seu ser, pois somente Ele é auto-existente. Você e eu precisamos perceber que não somos auto- existentes. Como o "Eu Sou", Deus é tudo o que precisamos. As palavras "Eu Sou", podemos adicionar tudo o que precisamos. Você está cansado? O "Eu Sou" é o seu descanso. Você está faminto? Ele é sua comida. Você está morrendo? Ele é vida. No Novo Testamento, o

Senhor se serve de muitas coisas para descrever-se: "Eu sou a videira verdadeira" (Jo 15:1), "Eu sou o pão da vida" (Jo 6:35), "Eu sou a luz" (Jo8:12). Como o "Eu Sou", Deus é tudo céu, terra, ar, água, árvores, pássaros, animais. Isso não é panteísmo (crença religiosa que identifica Deus com o universo natural). Não digo que tudo seja Deus, mas declaro que Ele

é a realidade de todas as coisas positivas. Isso implica que Deus deve ser você, até mesmo

a realidade de seu próprio ser. Podemos dizer-lhe: "Senhor, Tu és eu". Se o Senhor não é nós, nós então nada somos, nem temos realidade. Esse grande "Eu Sou", o todo-inclusivo,

é Aquele que veio para chamar-nos. Não é heresia dizer que o nosso Deus é o todo-

inclusivo. Essa é uma verdade repleta de luz. Somente os cegos, que estão em trevas, se opõem a tal verdade. Posso testificar que, por mais de cinquenta anos de minha vida cristã, o "Eu Sou" me tem sustentado. Em razão de Seu suprimento com aquilo que Ele é, nunca voltei atrás. Além disso, tenho sido capacitado a continuar no ministério por mais de quarenta anos. Conheço Aquele que me chamou. Fui chamado pelo "Eu Sou". Aquele que me chamou sustenta-me todo o tempo. Nenhuma língua humana pode expressar adequadamente o que Ele é.

F. Jeová, o Deus dos Hebreus

Finalmente, o chamador é "Jeová, o Deus dos hebreus" (3:18, hebraico). A palavra "hebreu" significa "o que cruza o rio". Os que cruzam o rio são pessoas apartadas, pessoas separadas do mundo. Se quisermos ser chamados por Deus, precisamos ver que, como Chamador, Deus é o Deus dos que cruzam o rio, do povo separado. Como tal Deus, Ele não é o Deus dos que se acham em Babel, nem é o Deus dos que se encontram no Egito, pois estes não estão separados. Se não estamos apartados do mundo, Deus não poderá ser

o nosso Deus. Ele não é o Deus dos egípcios, mas dos hebreus, do povo que cruzou o rio para o cumpri-mento do Seu propósito.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM SEIS

O CHAMAMENTO QUE DEUS FAZ AO PREPARADO

(2)

Na mensagem anterior, abordamos quatro aspectos do chamamento que Deus faz ao pre-parado: o motivo, a hora e o lugar do chamamento, mais o Chamador. Nesta, consideraremos o objetivo do chamamento de Deus e a pessoa daquele que foi chamado.

V. O OBJETIVO DO CHAMAMENTO DE DEUS

A. Libertar os Filhos de Israel da Tirania dos Egípcios

Tanto pelo lado positivo quanto pelo negativo, o propósito de Deus ao chamar Moisés era muito elevado. Negativamente, chamou-o para livrar os filhos de Israel da tirania dos egípcios. Em 3:8, o Senhor disse: "desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios". À época do chamamento de Moisés, o Egito era o país líder da terra, e Faraó tinha poder absoluto. E ali se achava um homem, agora com oitenta anos de idade, alguém que gastara os últimos quarenta anos de sua vida apascentando um rebanho no deserto. Como poderia essa pessoa livrar os israelitas do poder tirânico de Faraó? A Moisés, isso deve ter parecido impossível. Esse, todavia, era o propósito do chamamento de Deus pelo lado negativo.

B. Tirar os Filhos de Israel do Egito, da Terra do Cativeiro, e Introduzi-los em Canaã, Terra que Manava Leite e Mel

O propósito do chamamento de Deus não era apenas tirar os filhos de Israel do Egito,

da terra da servidão, mas introduzi-los em Canaã, terra que manava leite e mel (3:8, 10,

17). Humanamente falando, o lado positivo do chamamento de Deus era ainda uma impossibilidade maior do que o lado negativo. Isso somente poderia ser um sonho. Mas

era exatamente para executá-lo que Deus chamava a Moisés, apesar de, quarenta anos atrás, este haver virado as costas à mais alta cultura de seus dias e ter ido, a seguir, apascentar um rebanho no deserto.

O Egito tipifica o reino das trevas, e Faraó tipifica Satanás, o diabo. Como poderia o

povo de Deus ser liberto da mão desse poder maligno e resgatado do reino das trevas? Hoje isso se faz pela pregação do evangelho. Não pense que pregar o evangelho para conduzir pessoas à salvação seja tarefa fácil. Tirar alguém da mão de Satanás e do reino das trevas é obra poderosa. Por esse motivo, a revelação divina do Novo Testamento atribui um valor muito elevado a essa pregação. Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus (Rm 1:16). O objetivo do chamamento de Deus é uma questão de profundo significado. Em tipologia, introduzir os filhos de Israel na boa terra significa introduzir as pessoas em Cristo, a pessoa todo-inclusiva, simbolizada pela terra de Canaã. Cristo hoje é uma boa terra, que mana leite e mel. Em Sua sabedoria, Deus utiliza a expressão "que mana leite e mel" para descrever as

riquezas da boa terra. Tanto o leite quanto o mel são produtos de uma combinação das vidas vegetal e animal. O leite provém do gado, que se alimenta de pasto. A vida animal produz leite a partir do suprimento da vida vegetal. O leite, consequentemente, é um produto da mistura de dois tipos de vida. O princípio é o mesmo com o mel. Este tem muito a ver com a vida das plantas. Deriva, principalmente, das flores e das árvores. É óbvio que parte da vida animal também se acha envolvida aquele insetozinho, a abelha. Assim, para a produção do mel, dois tipos de vida contribuem. Esses dois tipos se misturam, e o mel é produzido. Leite e mel simbolizam as riquezas de Cristo, riquezas essas que advêm dos dois aspectos de Sua vida. Embora seja uma só pessoa, Ele tem a vida remissora simbolizada pela vida animal e a regeneradora simbolizada pela vegetal. Por um lado, Cristo é o Cordeiro de Deus, que nos redime; por outro, é um pão de cevada, que nos supre. Ambos os tipos de vida eram parte da refeição pascal, pois na Páscoa havia o cordeiro e o pão asmo com ervas amargas. Essas vidas se harmonizavam para o desfrutar do povo redi- mido de Deus. O objetivo do chamamento de Deus, todavia, não é propiciar a Seu povo um pouco de gozo da vida animal e da vida vegetal no Egito, mas introduzi-lo numa terra espaçosa, que mana leite e mel. Você tem certeza de que, hoje, na vida da igreja, desfruta de Cristo como a boa terra? Posso testificar que diariamente desfruto Dele como uma terra espaçosa, que mana leite e mel. Quem estava qualificado a tirar o povo de Deus da terra do Egito e conduzi-lo a essa terra maravilhosa? Antes de Moisés ser soberanamente preparado por Deus, ninguém havia que pudesse fazê-lo. Mesmo antes de atingir a idade de quarenta anos, ele deve ter percebido que o seu povo os filhos de Israel estava no cativeiro e sofria perseguição. Ao percebê-lo, deve ter posto como meta para si aprender todo o necessário, a fim de equipar-se para resgatá-lo. Entretanto, bem provavelmente não viu com clareza que o objetivo não era apenas libertar o povo de Deus do Egito, mas introduzi-lo na boa terra. Após serem retirados do Egito, os filhos de Israel precisavam de um alvo, de um destino. Embora ainda não totalmente claro acerca do objetivo, mesmo assim Moisés esperava realizar algo em benefício de seu povo. "Recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus, a usufruir prazeres transitórios do pecado" (Hb 11:24-25). Aos quarenta anos, considerou-se maduro, qualificado e equipado para livrá-los. Em realidade, ele não era capaz de fazer nada. Em si mesmo, não tinha o poder de resgatar o povo. Tão logo a situação se tornou ameaçadora, elefugiu.

VI. O CHAMADO

A. Sendo Tratado e Preparado por Quarenta Anos

Deus gastou outros quarenta anos, até que esse homem capaz, apesar de frustrado, tivesse um fim. Não é algo fácil dar um fim a alguém. Passaram-se quarenta anos de disciplina, até que Moisés se percebesse desqualificado a libertar o povo do Egito e introduzi-lo na boa terra. Durante os seus primeiros anos de deserto, ele deve ter-se queixado de seu próximo, um hebreu, que recusara reconhecê-lo como libertador de Israel. Deve ter-se dito: "Como ele foi cego! Não percebeu que eu os haveria de libertar. Por sua causa, fui obrigado a fugir. Ninguém entre os filhos de Israel pode fazer o que eu poderia realizar. Mas agora

tudo está arruinado". Creio que, à medida que se passavam os anos, mudava gradativa- mente a atitude de Moisés; por fim, ele já não mais culpava os outros por sua situação. É fácil educar alguém, porém é muito difícil dar-lhe um fim. Após aqueles anos de deserto, entretanto, Moisés foi totalmente aniquilado. Quando Deus lhe apareceu na sarça ardente, ele se considerou bom apenas para morrer. Exatamente naquela hora, entretanto, ao se julgar exterminado, é que Deus veio para chamá-lo. Deus o tratou e preparou por um período de quarenta anos (At 7:30). Sabemos que ele foi tratado justamente pelo fato de ele precisar viver no deserto após ser criado no palácio real. Suponha que alguém criado nos Estados Unidos subitamente fosse forçado a viver num país muito subdesenvolvido. Dia após dia, tal pessoa teria o sentimento de estar sen- do tratada. Moisés, sem dúvida, teve esse sentimento no deserto, enquanto trabalhava como pastor, cuidando de um rebanho que não pertencia a ele, mas a seu sogro. Através desse tratamento, ele foi gradualmente preparado.

B. Perdendo a Confiança em Si Mesmo

Após aqueles anos de deserto, Moisés perdeu toda a confiança em si (3:11; cf 2:11-13). Quando Deus o chamou, ele respondeu: "Ah! Senhor! eu nunca fui eloquente, nem outrora, nem depois que falaste a teu servo; pois sou pesado de boca e pesado de língua" (4:10). Por que, então, Estêvão, em Atos 7:22, afirma que Moisés era "poderoso em palavras e obras"? Aos quarenta anos, ele era poderoso em palavras e atos. Isso quer dizer que ele era eloquente. Mas, após outros quarenta anos, perdeu a confiança em si mesmo, con- siderou-se alguém lento para falar. Os relatos de Êxodo 4 e de Atos 7 são ambos verda- deiros. O relato de Atos 7 se aplica ao Moisés de quarenta anos, ao passo que o registro de Êxodo 4 diz respeito ao de oitenta, após ser ele tratado e após ser extirpada sua habilidade natural. Poucos cristãos conhecem realmente a maneira de Deus tratar as pessoas. Encontrei um bom número deles muito confiantes no fato de haverem recebido um encargo de Deus, a fim de realizarem para Ele determinada obra. Todavia, sem exceção, tão logo começaram a executar algo, Deus interveio para tratá-los. Sempre que tivermos muita certeza de que fomos chamados e de que recebemos o encargo, deveremos esperar pelo tratamento de Deus. Poderemos esperar que os outros fiquem conosco, e eles, no entanto, vem para opor- se a nós. Desapontados com essa rejeição, poderemos decidir deixar totalmente o encargo. Mas não poderemos abandonar encargo algum que realmente venha de Deus. Se você pode abandonar um encargo, isso indica que ele não era primordialmente de Deus. Sempre que recebemos um encargo do Senhor, não podemos deixá-lo de lado, não impor- tando o quanto os outros possam opor-se a nós. Embora possamos ficar extremamente desapontados, o encargo permanece conosco. Mais cedo ou mais tarde, ele se erguerá novamente em nosso interior. Sem dúvida, ao ter Moisés quarenta anos, veio-lhe um encargo do Senhor. Estou con- vencido de que seus pais principalmente a mãe o consagraram a Deus. Sem dúvida, ele de boa vontade aceitara o Seu encargo. Todavia, por estar muito confiante na própria habilidade e poder para levar a cabo esse encargo, Deus providenciou, para que ele fosse rejeitado. Ele deve ter ficado profundamente frustrado. Ano após ano, Deus trabalhou nele, não para eliminar o encargo, mas para eliminar-lhe a habilidade natural e levá-lo a não confiar em si próprio. O nosso problema é este: se recebemos um encargo do Senhor, inclinamo-nos a utilizar nossa força natural para levá-lo a efeito. Mas, se nossa força natural é tratada, então

tendemos a deixar de lado o encargo. Não separamos o encargo de Deus de nossa força natural. Gostamos de casar essas duas coisas, mas Deus quer divorciá-las, mantendo o encargo e marginalizando nossa força natural. Por essa razão, Ele gastou quarenta anos para tratar com a força natural de Moisés. Em princípio, Ele fará o mesmo conosco.

Quando Deus o chamou, Moisés se disse lento no falar. Parece que ele dizia: "Senhor, agora que trataste com minha habilidade, já não aceito o Teu encargo. Quero renunciar. Não sou a pessoa adequada para ser enviada a Faraó, a fim de livrar os filhos de Israel de sua mão. Sou lento no falar. Como poderia conversar com Faraó?" Ao dizer dessa maneira

ao Senhor, Moisés aparentemente foi sincero. Deus, todavia, zangou-se com ele (4:14). Isso

indica que, pelo lado de Moisés, havia algum problema. Deus queria "contratá-lo", mas Moisés recusou aceitar o serviço. Ao negociar assim Moisés com o Senhor, sabia Deus o que estava em seu coração. Interiormente, Moisés deveria estar dizendo: "Senhor, há quarenta anos tentei ao máximo salvar os filhos de Israel, mas não me permitiste ter sucesso. Fui rejeitado e precisei fugir para o deserto, onde sofro há quarenta anos. Esqueci tudo o que aprendi no palácio real. Tornei-me nada. Agora dizes que queres que eu vá a

Faraó. Quando estava qualificado, Tu me despediste. Mas, agora, que estou desqualificado e incapaz, Tu me queres contratar?" Secretamente, Moisés deve ter culpado o Senhor. Essa deve ter sido a razão pela qual Deus ficou descontente com ele. Tanto em Deus quanto em Moisés havia algo que não era expresso. Em Seu interior, o Senhor devia estar dizendo: "Moisés, não quero que você faça nada. Você não vê lá a sarça? Ela arde, mas não se consome. Quero que você simplesmente Me manifeste. Moisés, não rejeite o encargo. Receba-o, mas não utilize sua habilidade e força para realizá-lo. Porque você se considera apto para a morte, posso agora utilizá-lo. Moisés, não Me rejeite. Não tenho intenção de usá-lo segundo o seu conceito natural. Quero usá-lo à Minha maneira, como uma sarça que arde sem se consumir." Não é fácil realizar algo para Deus sem utilizar nossa própria força ou habilidade. Com

o passar dos anos, tenho aprendido essa mesma lição, principalmente através dos sofrimentos e das falhas. Frequentemente, as pessoas têm a seguinte atitude: se lhes pedirem que realizem algo, elas serão capazes de o fazer à sua maneira, sem a interferência nem o conselho dos outros. Até mesmo os presbíteros da igreja podem ter essa atitude. O nosso sentimento pode ser: "Se você quer que eu o faça, então, por favor, fique longe e deixe-me executá-lo." Todavia, quando nos chama para realizar algo, Deus quer que o façamos, mas não por nós mesmos. Quando nos chama. Ele parece dizer: "Sim, quero que você o faça, mas quero que o realize através de Mim, não por si mesmo." O nosso problema, frequentemente, é que, se não pudermos executar determinada coisa por nós mesmos, então recusaremos inteiramente fazê-la. Essa atitude tem sido um grande empecilho para a obra da restauração do Senhor. Muitos irmãos sabem que precisamos da vida da igreja; mas, por estarem frustrados, insistem em não vir às reuniões. São como o Moisés frustrado do deserto, que fora tratado por Deus até perder a confiança em si mesmo. Ele, todavia, ainda estava disposto a receber o encargo do Senhor. Recebera-o de Deus antes dos quarenta anos. Todavia tinha que aprender a cooperar com Deus sem utilizar a própria habilidade e força naturais. O chamamento de Deus não poderia vir, até que ele perdesse toda a sua confiança em si mesmo. Em princípio, Deus trata conosco da mesma maneira. Quando já não confiamos mais em nós, Ele vem para chamar-nos.

C. Percebendo a Própria Incapacidade

Moisés também teve que perceber a própria incapacidade (4:10-13). Percebeu integral- mente que, em si mesmo, não era a pessoa adequada para responder ao chamamento de Deus. Talvez, durante os quarenta anos de deserto, ele até mesmo tenha experimentado fracassos ao apascentar o rebanho. Deus soberanamente deve ter criado determinadas circunstâncias, as quais ele não foi capaz de vencer. Tudo isso foi arranjado para ajudá-lo a perceber a própria incapacidade.

D. Considerando-se Bom Para Morrer

Na hora em que Deus o chamou, Moisés não se considerou bom para nada, exceto para morrer. Lembre-se: quando Deus lhe apareceu no capítulo terceiro, Moisés tinha oitenta anos. O Salmo 90, escrito pelo próprio Moisés, diz: "Os dias da nossa vida sobem a setenta anos, ou, em havendo vigor, a oitenta: neste caso o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapidamente, e nós voamos" (v. 10 ). Isso indica que, aos oitenta anos, Moisés considerou-se pronto para morrer. Quando Deus o chamou, ele deve ter dito dentro de seu coração: "Senhor, por que não me usaste aos quarenta anos? Àquela época, sim, eu era capaz, ativo e jovem. Mas, agora, estou pronto para morrer. Tenho oitenta anos, e a hora de minha morte se aproxima. E, no entanto, agora, Senhor, Tu me vens e pedes que realize algo. Parece-me que estás vindo na hora errada. Senhor, já não sou mais capaz nem útil. Sou apenas um velho, pronto para morrer." Esse era o sentimento de Moisés acerca de si mesmo, quando Deus veio para chamá-lo, a fim de libertar os filhos de Israel do Egito. Em 1950, dei uma mensagem nesse teor aos jovens de Manila. No dia seguinte, eles começaram a fingir-se idosos e prontos para morrer. Embora muitos deles ainda fossem adolescentes, agiam como se tivessem oitenta anos. Esse comportamento, entretanto, durou apenas uns poucos dias. Se somos idosos, somos idosos; e, se somos jovens, somos jovens. Não há como fingir ou representar. Só podemos ser o que somos. Se você é como Moisés matando o egípcio, então isso é o que você é. E se você é como Moisés aos oitenta anos, isso é o que você é. Um dia, todos atingiremos o ponto em que nos consideraremos bons apenas para morrer. Todos os chamados pelo Senhor devem passar por um período de tempo em que percam a sua confiança, percebam a própria incapacidade e se considerem bons apenas para morrer. Por fim, teremos a nosso respeito a mesma percepção que Moisés teve de si aos oitenta anos.

E. Encarregado de Ser Um Enviado, Não Um Enviante

Exatamente na hora em que Moisés se considerou pronto para morrer, Deus veio para incumbi-lo de ser um enviado (3:10,15). Deus era o Enviante, o Iniciador, e Moisés devia ser o enviado, para realizar os desejos Daquele que o enviara. Para enfatizar esse ponto, a palavra "enviar" é utilizada repetidas vezes nos capítulos terceiro e quarto. No chama- mento feito a Moisés, Deus parecia dizer: "Moisés, Eu, o Senhor, o estou enviando. Você não é o enviante nem o iniciador, mas deve ser o enviado, a fim de efetuar a Minha von- tade." Em mensagem posterior, observaremos que, ao defrontar com Faraó, Moisés nada fez por si mesmo. Pelo contrário, agiu como enviado do Senhor, fazendo tudo o que Deus o encarregara de fazer. Ser enviado significa nada fazermos por nós mesmos. Pelo contrário, simplesmente

efetuamos os desejos Daquele que nos enviou. Ser um enviado é algo abençoado e que nos introduz totalmente no descanso. Para o sermos, precisamos passar por muito treino e disciplina. Diversas vezes, enviei pessoas, a fim de realizarem para mim algumas tarefas específicas. Embora se dissessem claras acerca do que eu queria que realizassem, elas, por fim, executaram as coisas à sua maneira. Isso indica que requer treino o ser um enviado.

F. Uma Sarça Que Ardia Sem Se Consumir

Antes de falar a Moisés, Deus lhe apresentou o sinal de uma sarça ardente. "Apareceu-

lhe

consumir. Vendo-a arder, Moisés disse; "Irei para lá, e verei essa grande maravilha, porque

a sarça não se queima" (v. 39). A sarça representava o próprio Moisés. Isso indica que todos os chamados por Deus devem perceber-se uma sarça com fogo a queimar dentro de

si, sendo esse fogo o próprio Deus. Embora deseje arder dentro de nós e sobre nós, Ele não

nos consumirá, isto é, não nos utilizará por combustível. De acordo com Gênesis 3, as sarças tipificam a maldição advinda em razão do pecado. Isso indica que, como chamado de Deus, Moisés era um pecador sob Sua maldição. Era uma sarça, não um cedro do Líbano.

O fogo arder no interior da sarça tipifica a manifestação da santidade de Deus. Gênesis

3:24 a primeira menção do fogo na Bíblia fala de uma espada flamejante "que se re- volvia, para guardar o caminho da árvore da vida". Esse fogo apareceu depois que o homem caiu, ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Essa chama excluía o

homem da árvore da vida, impedindo-o até mesmo de tocá-la. Em Êxodo 3 se menciona o fogo novamente. Ele, aqui, não exclui o homem de nada; pelo contrário, indica que a glória da santidade deveria arder no interior de Moisés e sobre ele, apesar de ser ele uma sarça, um pecador sob a maldição de Deus. Como é possível a santidade de Deus arder em nosso interior? Isso é possível somente através da redenção de Deus? que preenche os requisitos de Sua santidade. Por isso, Sua santidade hoje não nos exclui mais da árvore da vida; ela arde em nosso interior, embora tenhamos sido uma vez pecadores sob a maldição de Deus. O fogo santo agora é um com o pecador amaldiçoado, e até mesmo arde sobre ele.

O fato de a sarça arder sem se consumir indica que a glória da santidade de Deus deve

arder dentro de nós, mas sem nos exaurir. Se um servo de Deus se exaure, isso pode significar que ele está utilizando sua própria energia para realizar algo para Deus. Este não

quer utilizar nossa vida natural por combustível. Ele arderá somente tendo a Si mesmo por combustível. Devemos ser apenas uma sarça com fogo divino a arder no interior. Creio que Moisés jamais esqueceu a visão daquela sarça ardente. A lembrança daquela visão deve ter trabalhado em seu interior constantemente, reavivando-lhe a necessidade

de não utilizar sua força ou habilidade naturais. Através do sinal da sarça ardente, Deus gravou nele a ideia de que ele era um vaso, um canal através do qual Deus haveria de Se manifestar. Não é fácil aprender que somos apenas um arbusto para a manifestação de Deus. Ao longo dos anos, tenho aprendido uma lição: trabalhar para Deus sem utilizar a vida natural por combustível, permitindo-Lhe arder em meu interior. Em Marcos 12:26, o Senhor Jesus referiu-se ao arbusto de Êxodo 3:2. Em sua tradução, Darby adiciona as palavras "seção de" antes de "arbusto"; a Versão Padrão Americana acrescenta "lugar referente a". O registro da sarça ardente deve ser um memorial e um testemunho contínuo para os chamados de Deus, testemunhando o fato de que nada podemos ser, além de sarças.

Já observamos que, nos dias de hoje, todos os irmãos podem ser apóstolos, profetas,

numa chama de fogo do meio duma sarça" (v. 29), um arbusto que queimava sem se

evangelistas, pastores e mestres. Todavia, se quisermos funcionar como tais dons para o Corpo de Cristo, precisamos primeiramente ser sarças ardentes, que, como Moisés, não têm confiança em si mesmos, nem ardem para Deus de acordo com sua própria energia natural. Desde o dia em que Deus o chamou, Moisés já não mais teve confiança em si mesmo. Ao se rebelarem outros contra ele, não contendia, mas ia a Deus e se ajoelhava diante Dele. Ao agir assim, mostrava-se uma sarça ardente. Quando se prostrava diante de Deus, Este lhe aparecia imediatamente como fogo flamejante, manifestando-Se de dentro dele como sarça. Que este registro da sarça possa sensibilizar-nos, de modo que jamais o esqueçamos. Em nós mesmos, nada somos; somos meras sarças. Mas Deus ainda nos tem em alta conta e deseja manifestar-Se como chama de fogo em nosso interior. Devemos valorizar alta- mente o Seu arder, jamais pondo nossa confiança naquilo que somos de acordo com o homem natural. O nosso homem natural com sua energia, força e habilidade precisa ser eliminado e esquecido. Nossa habilidade e força nada significam. O que uma sarça pode fazer? Nada. Embora possa considerar-se capaz, você, por fim, haverá de perceber-se simplesmente uma inútil sarça. Todos precisamos ter essa visão de nós mesmos. Graças a Deus, porque Ele nos visita, fica conosco e arde sobre nós. Embora a chama divina, arda em nosso interior e sobre nós, nós mesmos não somos consumidos. Após Deus chamar a Moisés e o enviar a Faraó, não foi este, mas o próprio Deus quem tudo realizou e foi glorificado. Moisés não tinha arma; somente uma vara. Com ela, foi a Faraó pela palavra do Senhor, e Deus tudo realizou. Por esse motivo, a glória jamais foi manifestada por Moisés, mas sempre por Deus. No interior de Moisés e sobre ele, a glória de Deus se manifestava. Todos deveremos ser pessoas chamadas como Moisés. Mais cedo ou mais tarde, todos contemplaremos a mesma visão tida por ele no capítulo terceiro de Êxodo: a visão de uma sarça que arde sem se consumir. Essa visão precisa ser gravada em nosso ser. Depois, então, sempre que tocarmos a obra de Deus ou o serviço da igreja, lembrar-nos-emos de que nada mais somos do que uma sarça. Está chegando o dia em que todos nós o perceberemos.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM SETE

A SARÇA COLETIVA

Já observamos que a sarça de Êxodo 3 é um símbolo de Moisés como aquele que foi

chamado por Deus. Aos Seus olhos, Moisés era uma sarça. Ninguém considera uma sarça como algo importante. Embora rejeitado pelo homem, Moisés foi aceito por Deus, e o fogo de Sua glória ardeu em seu interior e sobre ele. Por essa razão, Moisés era uma sarça a queimar com a glória de Deus.

A sarça ardente de Êxodo 3, todavia, refere-se não apenas a Moisés como indivíduo,

mas também aos filhos de Israel como entidade coletiva. O povo de Deus os filhos de Is- rael incluia fracos e fortes. Moisés era apenas um no meio do povo coletivo de Deus.

Para o Senhor, a sarça a queimar, do capítulo terceiro, não era apenas um indivíduo, mas um povo coletivo. O meu encargo nesta mensagem é considerar o aspecto coletivo da sarça. Como indivíduos, todos somos os Moisés de hoje. Mas também somos parte da igreja, a sarça coletiva.

O objetivo de Deus ao tratar com Seu povo, os filhos de Israel, era obter um lugar

apropriado de habitação. Deuteronômio 33:16 fala de Deus como Aquele que habitava na sarça. Essa palavra, escrita por Moisés, indica que Deus tinha aquela sarça ardente como Sua casa, Seu lugar de habitação. Quem alguma vez pensou que a habitação de Deus na terra pudesse ser uma sarça? Moisés deve ter percebido que a sarça ardente, vista por ele quando Deus o chamou, era um símbolo de si próprio. À época de Deuteronômio 33, ele se considerou uma sarça; mas, para Deus, ele era o "homem de Deus" (Dt 33:1). Sob o prisma individual, ele era uma sarça; sob o aspecto coletivo, os filhos de Israel eram uma sarça. O Deus da bênção, todavia, habitava nessa sarça. Se Ele não habitar em nós, estaremos acabados. Sem Ele, nada mais somos do que sarças comuns. Embora venhamos a ser cavalheiros e damas, ou bem treinados profissionais, ainda assim seremos sarças, porque nossa natureza caída se vinculará aos espinhos e à maldição. Ao referir-se a Deus como Aquele que habitava na sarça, o coração de Moisés deve ter ficado pleno de agradecimento a Deus. Durante os últimos quarenta anos de sua vida, ele veio a conhecer-se apenas como uma sarça. Mas também veio a saber que Deus estava com ele. Todos precisamos ter essa percepção. Sempre que tivermos um espírito correto diante do Senhor, saberemos que somos uma sarça. Reconheceremos como sarças até mesmo as nossas virtudes naturais, como humildade, bondade e paciência. Às vezes, poderemos até sentir-nos prostrados diante do Senhor, confessando-Lhe o quanto somos miseráveis. Enquanto abençoava os filhos de Israel, Moisés deve ter tido esse sentimento a seu próprio respeito. Uma bem conhecida música de evangelização diz: "Sou apenas um pecador salvo pela graça". O sentimento que Moisés teve foi muito profundo, até mesmo mais terno e doce do que esse, pois ele percebeu-se uma sarça ardendo pela glória de Deus. Hoje, como aqueles que crêem em Cristo, não somos simplesmente salvos pela graça; somos uma sarça arden- do com o fogo da glória de Deus. Moisés o percebeu tanto sobre si mesmo quanto sobre os filhos de Israel, na condição de povo coletivo de Deus. Em seu profundo interior, ele viu a si mesmo pessoalmente e aos israelitas coletivamente como uma sarça.

44 | P á g i n a

I. A SARÇA E A CHAMA DE FOGO DE GÊNESIS 3

Precisamos perceber que há uma ligação entre Gênesis 3 e Êxodo 3. Em ambos os capí-

tulos, verificamos a sarça e o fogo. A sarça de Gênesis 3 indica que o homem está sob mal- dição (v. 17-18), e a chama de fogo mostra-o apartado de Deus, da árvore da vida (v. 22- 24). De acordo com Gênesis 3, os cardos (sarças) advêm da maldição oriunda do pecado. As sarças, assim, são um símbolo do homem caído sob maldição. Logo após ser proferida

a maldição, uma espada flamejante foi posta ao oriente do jardim "para guardar o caminho

da árvore da vida" (v. 24). O pecado, como consequência, introduziu a maldição, e esta acarretou a chama de fogo. A função do fogo de Gênesis 3 é excluir os pecadores da árvore da vida, isto é, de Deus como fonte de vida.

Se a Bíblia se encerrasse com Gênesis 3:24, nossa situação seria perpetuamente sem esperança. De acordo com os capítulos um e dois de Gênesis, fomos criados especificamente para receber Deus como vida. O homem por Ele criado foi posto diante da

árvore da vida. E depois, no capítulo três, o pecado chegou, o homem caiu sob maldição, e

o "fogo da santidade de Deus excluiu os pecadores amaldiçoados de qualquer contato direto com Deus como árvore da vida.

II. A SARÇA E A CHAMA DE FOGO DE ÊXODO 3

A situação do homem de Êxodo 3 é muito diferente da de Gênesis 3. Em Êxodo 3, a sarça amaldiçoada torna-se o vaso de Deus, e a chama de fogo torna-se uma com a sarça. Através da redenção, tipificada pelo cordeiro morto e oferecido a Deus pelo homem caído (Gn 4:4), retira-se a maldição, e o fogo se torna um com a sarça. Vê-se a realidade desta figura em Gálatas 3:13-14. O versículo treze diz: "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar". Isso quer dizer que, através da morte de Cristo na cruz, retirou-se a maldição. O versículo quatorze continua: "para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de

que recebêssemos pela fé o Espírito prometido". De acordo com esses versículos, portanto,

a maldição foi afastada, e o Espírito, o fogo, nos foi dado, Atos 2:3-4 indica que o Espírito derramado é tipificado pelas línguas de fogo. Esse derramamento do Espírito como fogo fora predito pelo Senhor Jesus em Lucas 12:49: "Eu vim para lançar fogo sobre a terra e bem quisera que já estivesse a arder". No dia de Pentecoste, o Espírito prometido, dado através da redenção de Cristo, que afastou a maldição, veio sobre os discípulos em forma de fogo. Esse fogo já não mais nos separa de Deus; pelo contrário, é a chama de Sua visitação. Consideradas à luz do quadro de Êxodo 3, notamos que a sarça e a chama são uma. Em Gênesis 3, o homem caído estava sob a maldição, tipificada pela sarça. Lá, a chama de fogo

o separava de Deus como árvore da vida. Em Êxodo 3, todavia, a sarça que pode ser

considerada um tipo de vaso e o fogo são um. Em Gênesis 3, o fogo aparta o homem, que está sob maldição, da árvore da vida; separa-o de Deus como fonte de vida. Mas, em Êxodo 3, a chama de fogo visita a sarça e nela habita. Isso indica que, através da redenção de Cristo, o próprio Deus, o Santo, cuja santidade afasta os pecadores de Sua presença, pode vir para visitar-nos, para ficar conosco e até mesmo para habitar em nós. Aleluia, Cristo afastou a maldição e lançou à terra o fogo do Espírito Santo! Agora que a maldição

se foi, já não mais estamos separados de Deus como vida. Louvado seja o Senhor, porque a chama causadora da separação de Gênesis 3 se tornou, em Êxodo 3, a chama que visita e

habita interiormente! A sarça amaldiçoada de outrora se torna hoje o lugar da habitação de Deus. Aqueles que são cristãos há muitos anos podem às vezes ser tentados a se considerarem muito bons ou santos. Se você tem seguido o Senhor e experimentado algum sucesso em sua vida cristã, pode considerar-se secretamente um "santo" proeminente, alguém mais espiritual do que os outros cristãos. Deveríamos perceber, todavia, que ainda somos um arbusto cheio de espinhos. Não se pense muito maravilhoso, nem tenha em tão elevada consideração aqueles que você admira. Todos somos ainda uma sarça. Estou bem cônscio do fato de que sou uma sarça. Se formos iguais a Moisés, o homem de Deus, teremos uma consciência dupla: por um lado, saberemos que somos sarças; por outro, estaremos conscientes da glória de Deus ha- bitando dentro de nós como chama ardente. Moisés se tornou um homem de Deus, mas ainda se considerava uma sarça. No mesmo princípio, a glória de Deus habitou no meio dos filhos de Israel e os tornou em Seu glorioso lugar de habitação; mas, ainda assim, eles eram uma sarça, até mesmo uma sarça coletiva.

III. MOISÉS COMO SARÇA INDIVIDUAL

Como sarça individual, Moisés foi redimido, santificado e transformado. Alguns poderão perguntar que base temos para dizer que ele foi transformado. Embora as palavras "transformado" ou "transformação" não se encontrem em seus escritos, os seus livros, não obstante, revelam o fato de que ele foi transformado. Já enfatizamos que, de acordo com Deuteronômio 33:1, ele era um homem de Deus. Isso implica transformação. Fora do processo de transformação, como poderia ele, um homem tão forte e ativo em sua vida natural, tornar-se um homem de Deus? Somente através da transformação poderia tornar-se tal pessoa. Um exemplo de sua transformação foi sua experiência com o Senhor no cume do monte. Após permanecer lá com o Senhor por quarenta dias, sua face brilhava, porque a chama do fogo santo de Deus havia inflamado seu interior. Moisés era como o aço lançado às chamas e lá mantido até brilhar com o fogo que arde em sua própria essência. Quando estava no cume do monte, a glória de Deus ardia dentro de seu ser. Ao descer da monta- nha, sua face brilhava. Assim "olhando Arão e todos os filhos de Israel para Moisés, eis que resplandecia a pele do seu rosto" (34:30). Não era isso um sinal de transformação? Era uma segura indicação de que Moisés estava sendo transformado. De acordo com o seu treinamento no palácio, ele poderia ter-se tornado um perito em toda a ciência egípcia. Mas, por ter sido redimido, chamado, santificado e transformado, ele, ao contrário, tornou-se, por fim, um homem de Deus. Certos elementos ou temas essenciais podem ser traçados ao longo das Escrituras. Sem uma compreensão adequada dessas questões, ser-nos-á impossível conhecer a Bíblia apro- priadamente. Esses elementos decisivos incluem a redenção, a santificação e a transfor- mação. Moisés foi redimido, santificado e transformado; nós, hoje, fomos redimidos e estamos sendo santificados e transformados. Moisés se tornou um homem de Deus, e nós também estamos tornando-nos homens de Deus. De acordo com a revelação do Novo Testamento, como aqueles que crêem em Cristo, estamos até mesmo nos tornando homens-Deus, aqueles que são um com o Deus Triúno e se acham amalgamados com Ele. Está chegando o dia em que todos seremos homens de Deus em realidade. Na restauração do Senhor, não nos preocupamos com um número elevado; preocu- pamo-nos com a genuína experiência de transformação. Estou feliz, porque estamos

debaixo do arder divino, do queimar que nos transforma e faz a nossa maneira de ser diferente das pessoas do mundo. Por arder o elemento de Deus em nossa natureza, estamos nos tornando homens de Deus. Isso é o que significa ser uma sarça ardente num sentido individual. De acordo com nossa natureza, ainda somos uma sarça; mas, segundo o arder de Deus dentro de nós, somos pessoas transformadas. Por um lado, somos uma sarça; por outro, somos homens de Deus.

IV. ISRAEL COMO SARÇA COLETIVA

Os filhos de Israel eram uma sarça coletiva. Nessa condição, foram eles redimidos (13:14-16), santificados (13:2), transformados e edificados. Talvez você ache difícil crer que eles tenham sido transformados. Quando jovem, eu também o achava. Mas algo aconteceu numa reunião de oração em Xangai, no início da década de 1940, que me ajudou a ver o povo de Deus como Ele o vê. Naquela reunião, uma experimentada irmã cooperadora, atribulada pela baixa condição da igreja, clamou ao Senhor pela situação. Enquanto orava, lamentava e deplorava a pobre condição da igreja. Ao término de sua oração, o irmão Nee rompeu em louvores ao Senhor e Lhe deu graças, porque a igreja nunca é fraca nem rasteira, mas é sempre elevada. Os irmãos se chocaram. Então ele nos ajudou a compre- ender o significado da profecia de Balaão sobre os filhos de Israel. Balaão fora contratado por Balaque para amaldiçoar os filhos de Israel. Mas, em vez de os amaldiçoar, abençoou- os. Falando por Deus, ele disse: "Não viu (Deus) iniquidade em Jacó, nem contemplou desventura em Israel (Nm 23:21). Além do mais, em Números 24:5, ele afirmou: "Que boas são as tuas tendas, ó Jacó! as tuas moradas, ó Israel!" Segundo esses versículos, Deus não via iniquidade nem perversidade em Israel. Pelo contrário, via somente bondade, formo- sura e beleza. O mesmo é verdade hoje com referência à igreja. Não diga que a igreja está rasteira, ou amortecida. Quanto mais você o afirmar mais você se colocará sob maldição. Todavia, se louvar o Senhor pela vida da igreja e dela falar bem, você se porá sob a Sua bênção. Durante todos os anos em que tenho estado na vida da igreja, jamais vi uma pessoa sequer que tenha falado negativamente acerca da igreja e tenha permanecido sob a bênção de Deus. Pelo contrário, todos os que afirmaram que a igreja era pobre, rasteira ou morta caíram sob maldição. Os que a proclamam positiva- mente, declarando-a amável, dizendo-a casa de Deus, recebem a bênção. Isso não é mera doutrina; é um testemunho que pode ser verificado através das experiências de muitos cristãos. Às vezes, ao ficar desapontado com a igreja e não pensar positivamente a seu respeito, o Senhor em meu íntimo me adverte que seja cuidadoso. Imediatamente Lhe peço que me limpe, e começo a declarar que maravilhosa é a igreja. Embora ela possa causar-me problemas, ainda a amo. Quanto mais falo assim positivamente, mais fico sob a bênção de Deus. Que palavra sobre a igreja é correta: a sua ou a do Senhor? Na eternidade, a palavra Dele provará ser correta, porque, em tal época, a igreja será maravilhosa, gloriosa e trans- cendente. Todas as acusações do inimigo referentes a ela são mentiras. Afirmá-la pobre ou morta é proferir uma mentira diabólica. A situação aparente dela é uma mentira. É uma mentira afirmá-la fria, morta ou rasteira. Ela é elevada e muito viva. Sou grato pela forte palavra do irmão Nee relativa à profecia de Balaão. Aquela palavra mudou totalmente o meu conceito com referência à situação presente da igreja. Desde o tempo em que a ouvi, descortinei a igreja a uma luz completamente modificada. Não queira examinar mais profundamente do que o Senhor. De acordo com a palavra

de Balaão em Números, Ele não viu iniquidade em Jacó. Como então você pode enxergá- la? Você é mais sábio ou mais perspicaz do que Ele? A Bíblia declara que Ele não vislumbrou perversidade em Israel. Mas você afirma que a vê na igreja. O que você escolhe: a visão do Senhor ou a sua? Se permanecermos com a concepção do Senhor

referente à igreja, seremos guardados de cair da bênção na maldição. Que todos possamos atentar à maneira como tratamos a igreja! Os filhos de Israel podiam ser uma sarça coletiva, porque foram transformados e edifi- cados. Deus acreditava nisso, e nós precisamos concordar com Ele.

O tabernáculo tipificava os filhos de Israel como lugar de habitação de Deus. Não consi-

dere o tabernáculo como algo apartado deles. Na verdade, eles próprios eram o lugar da habitação de Deus. O tabernáculo era um mero símbolo. Sempre que falo sobre a igreja de maneira não positiva aos irmãos responsáveis, arre- pendo-me posteriormente. Antes de falar-lhes, eu estava nas regiões celestiais; mas, após fazê-lo, perco minha paz. Se tentar desculpar-me, afirmando que não estava condenando a igreja, mas simplesmente relatando os fatos, ficarei ainda mais atribulado em meu interior.

Quanto mais me desculpar, mais ficarei sob condenação. Por essa razão, posso testificar de minha própria experiência que não é algo pequeno entrar em contato com a igreja. Sempre que nos referimos a ela, precisamos fazê-lo de maneira positiva. Aí então receberemos a bênção.

O Antigo Testamento revela que diversas vezes Deus veio repreender e reprovar os

filhos de Israel. Mas, ao atacarem os gentios ao Seu povo, sofriam eles alguma perda mais cedo ou mais tarde. Aos Seus olhos, os filhos de Israel foram redimidos, santificados, transformados e edificados, e Deus tinha em seu meio o Seu lugar de habitação. Todos precisamos ver essa realidade e crer nela. No mesmo princípio, precisamos crer que a igreja hoje é maravilhosa. Acautele-se contra sua visão natural. Se Deus não vislumbra iniquidade ou perversidade na igreja, como então você pode vislumbrar? Quando é misericordioso, Deus é rico em misericórdia. Embora os israelitas tivessem muitas iniquidades, Ele podia afirmar não ver iniquidade em Israel. O mesmo é verdade hoje com a igreja. Assim como os filhos de Israel, a igreja é uma sarça coletiva. De acordo com nossa natureza humana, temos na igreja muitas fraquezas, erros, falhas e defeitos. Precisamos, contudo, agradecer ao Senhor, porque, como igreja, fomos trans- formados e edificados. Não apenas Deus concorda com isso, mas até mesmo Satanás, o Seu inimigo, precisa reconhecê-lo. Como sarça coletiva, a igreja é transformada; mas, ainda assim, ela é uma sarça, não muda. Como podemos dizer que algo é transformado sem se mudar? Observe a sarça ardente de Êxodo 3. O fogo ardia em seu interior e sobre ela, mas ela não se mudava. Foi, todavia, transformada através do fogo ardente. Alguns poderão perguntar que base temos para declarar que somos a restauração do Senhor. Admitimos que temos muitos espinhos; talvez mais do que outros "arbustos". Em- bora sejamos cheios de espinhos, contudo, não podemos negar que o fogo divino arde dentro de nós. Outros "arbustos" poderão ter menos espinhos, mas não têm o fogo. O sinal da restauração do Senhor, portanto, é esse arder. O que torna a sarça coletiva da restau- ração do Senhor diferente de todas as outras é o arder da chama de fogo. Somente esta sarça está a arder. Após ser erigido o tabernáculo, ficou ele pleno da glória do Senhor (40:34-35). À noite, a nuvem de glória tinha a aparência de fogo (Nm 9:15-16). O fogo a queimar sobre o taber- náculo indicava que o povo de Israel era uma sarça ardente coletiva.

É fácil que os olhos humanos verifiquem defeitos na igreja. Tais olhos se acham particu- larmente postos sobre os presbíteros, os líderes. Tão logo se torna um presbítero, um irmão se sujeita ao exame de muitos santos, cujos olhos são rápidos em detectar qualquer falta. Deus, todavia, não tem tal tipo de olhos. Lembrem-se da palavra de Balaão: Deus "não viu iniquidade em Jacó, nem contemplou desventura em Israel". Enquanto Balaão profetizava, Deus parecia dizer: "Os filhos de Israel são muito agradáveis aos Meus olhos. São o Meu lugar de habitação". Se alguém argumentasse que os israelitas eram simples- mente uma sarça, Deus replicaria que eles não Lhe eram apenas uma sarça comum, mas um povo transformado e edificado para ser Seu lugar de habitação. É difícil afirmar se, ao falar de Deus como Aquele que habita na sarça, Moisés se referia à verdadeira sarça vista há quarenta anos ou a si mesmo e aos filhos de Israel, respectiva- mente como um indivíduo e como uma sarça coletiva. Creio que essa palavra inclui tudo isso. Por um lado, ainda somos uma sarça; por outro, através da redenção, santificação, transformação e edificação, somos o lugar da habitação de Deus. Aleluia, Deus hoje tem um lugar de habitação na terra! Satanás deve ter-Lhe dito: "O Teu povo é simplesmente uma sarça." Mas Deus deve ter replicado: "Arrede-se, Satanás! Você não sabe que este povo foi redimido, santificado e transformado? Também foram edificados e agora são um. Por essa razão, habito em seu meio. Você afirma que são uma sarça, mas Eu declaro que são o Meu lugar de habitação."

A igreja hoje é o lugar da habitação de Deus. Você pode pensar que ela seja feia, mas

para Deus ela é maravilhosa. Você pode criticá-la por suas falhas, mas Ele assegura não ver iniquidade em Seu povo. Acerca de Seu povo, Ele diz: "Não encontro falha neles. Estou no seu meio, e eles são o Meu lugar de habitação na terra". Isso é a igreja como sarça

coletiva.

V. EM RESSURREIÇÃO

O próprio Deus da sarça, Aquele que chamara a Moisés, era o Deus da ressurreição. Isto

se prova pela palavra do Senhor aos saduceus, em Marcos 12:18-27. Quando O testavam no tocante à ressurreição, Ele lhes disse: "Quanto à ressurreicão dos mortos, não tendes lido no livro de Moisés, no trecho referente à sarça, como Deus lhe falou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ora, ele não é Deus de mortos, e, sim, de vivos." O Senhor, aqui, apontou aos saduceus descrentes a parte das Escrituras referente à sarça. O título "Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó" implica Deus de ressurreição. Abraão, Isaque e Jacó morreram todos. Se fosse o Deus de Abraão, Isaque e Jacó e não houvesse ressurreição, Deus então seria um Deus de mortos. Mas Ele não é Deus de mortos: é o Deus dos vivos, o Deus da ressurreição.

O fato de que o Deus da ressurreição habitava na sarça indica que ser uma sarça

coletiva como lugar da habitação de Deus hoje é uma questão totalmente de ressurreição. Aquele que é Santo pode visitar-nos e habitar entre nós, porque Ele está em ressurreição. Ele é o Deus da ressurreição; e nós, o Seu povo, estamos em ressurreição. Estando nós ainda na carne, pode ser-nos difícil crer ou perceber que estamos em ressurreição. Se eu perguntar a você se está na vida natural ou na de ressurreição, é bem provável que você me afirme estar na vida natural. Se diz assim, contudo, você não tem fé. Precisamos ser fortes na fé e declarar que estamos em ressurreição, porque o nosso Deus não é um Deus de mortos, mas o Deus dos vivos. Em mim mesmo, estou na carne e na vida natural; mas, no meu Deus, estou em ressurreição. Desfrutamos hoje Dele como Deus de ressurreição. Em ressurreição, Ele é o grande "Eu Sou". Todos precisamos dizer pela fé

que estamos em ressurreição. Quanto mais o falarmos pela fé, mais isso se tornará nossa experiência. O que proclamamos é o que experimentamos. Se afirmarmos estar na carne, então esta- remos na carne; mas, se dissermos que estamos em ressurreição, então estaremos em ressurreição. Já que o próprio Deus que habita em nosso interior é o Deus da ressurreição, temos base para declarar que estamos em ressurreição. Aqui, em ressurreição, a sarça pode ser abençoada, a fim de ser o lugar da habitação de Deus. Percebemos que, no máximo, sornos apenas uma sarça. O grande "Eu Sou", todavia, o Deus da ressurreição, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, habita em nosso interior, e nós Dele desfrutamos. Individualmente somos uma sarça, e juntos somos uma sarça cole- tiva, que arde com o Deus da ressurreição. Esse é o quadro atual da vida da igreja.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM OITO

OS TRÊS SINAIS

Já observamos que o relato do chamamento de Moisés é o mais completo da Bíblia no

tocante ao chamamento de Deus. Quando chegou à extremidade do deserto e lá encontrou Deus, Moisés viu o sinal de uma sarça que ardia sem se consumir. Embora maravilhoso, esse sinal era um tanto objetivo. Nesta mensagem, consideraremos os três sinais do capítulo quatro, sinais esses muito subjetivos. É-nos importante analisar por que nos foram dados três sinais subjetivos. Ao final do capítulo três, o chamamento que Deus fez a Moisés parecia estar completo. Moisés vira o sinal objetivo da sarça ardente, e ouvira Deus falar-lhe. Deus lhe fez uma revelação completa de Si mesmo. Assim, pelo Seu lado, o chamamento feito a Moisés estava com- pleto. Pelo lado de Moisés, entretanto, não o estava. Êxodo 4:1 diz; "Respondeu Moisés:

Mas eis que não crerão, nem acudirão à minha voz, pois dirão: O Senhor não te apareceu." Essa palavra indica que, embora vendo um sinal muito maravilhoso e ouvindo a voz de

Deus, Moisés não foi inspirado nem movido. Por essa razão, foram-lhe dados os três sinais encontrados no capítulo quatro. Tais sinais deveriam ser a evidência final de que Moisés verdadeiramente fora chamado por Deus. O princípio é o mesmo hoje para os Seus chamados. Alguém que afirmar ser chamado por Deus deverá ter a marca desses três sinais subjetivos.

É significativo que o Senhor tenha mostrado a Moisés três sinais, e não dois, nem

qualquer outro número. Na Bíblia, o número três é um número significativo. Por ser Deus

Triúno, o número três se relaciona à Sua economia, à Sua dispensação. Em Lucas 15,

existem três parábolas relacionadas ao Filho, ao Espírito e ao Pai. Mas, em Êxodo 4, vêem-

se três sinais, tratando com a serpente, com a lepra e com o sangue. Como sabe todo leitor

da Bíblia, a serpente tipifica Satanás. Em Gênesis 3, encontramos Satanás, a serpente sutil.

A serpente de Êxodo 4 é a mesma serpente de Gênesis 3, que é chamada de "a antiga

serpente" pelo livro de Apocalipse (12:9;20:2). Não é adequado àquele que é chamado por Deus conhecer somente a Ele. Todo chamado também precisa conhecer a serpente. Não apenas deve-remos saber tratar com Deus, contactá-Lo, ter comunhão com Ele e Nele

confiar; precisa-remos também ser capazes de tratar com a serpente.

A lepra do segundo sinal é uma questão de podridão, de corrupção e impureza da

carne pecaminosa. De acordo com o Antigo Testamento, toda pessoa leprosa tinha que de-

clarar-se abertamente impura. O pecado tipificado pela lepra não é o pecado externo, mas o pecado subjetivo, o pecado que habita na nossa carne. É desse pecado que provém a podridão, a corrupção e a impureza.

O terceiro sinal é o da água que se transforma em sangue. O sangue aqui simboliza a

morte que foi introduzida pelo mundo mais o Seu deleite. Por essa razão, o sangue do terceiro sinal se relaciona ao mundo.

A serpente, a lepra e o sangue se relacionam respectivamente a Satanás, ao pecado na

carne e à morte introduzida pelo mundo. Os chamados por Deus devem ter não apenas o sinal objetivo da sarça ardente, mas também os sinais subjetivos da serpente, da lepra e do sangue. Como chamados, precisamos de algumas experiências subjetivas, algumas evidên- cias subjetivas, que mostrem aos outros que realmente fomos chamados e enviados por

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Deus. Tais evidências são a habilidade para tratar com o diabo, com a carne pecaminosa e com a morte introduzida pelo mundo. Suponha que determinada pessoa lhe venha, afirmando-se enviada por Deus. Se ela não souber tratar com Satanás, com a carne e com o mundo, você não deverá crer nela como enviada. O sinal de uma sarça ardente não é prova adequada de que alguém foi chamado por Deus. Um enviado deverá ser capaz de tratar com a serpente, com a lepra e com o sangue. Já enfatizamos que Êxodo é um livro de figuras. Que figuras maravilhosas existem no capítulo quatro! Verificamos nelas Satanás, a carne pecaminosa e o mundo de morte. Se soubermos tratar com essas coisas, então seremos verdadeiramente os enviados de Deus. É crucial todos conhecermos o significado dos três sinais subjetivos deste capítulo e termos tais experiências subjetivas.

I. UMA VARA SE TORNA UMA SERPENTE

A. A Vara Tipifica Aquilo em que nos Apoiamos

Quando Deus o chamou, Moisés tinha uma vara na qual se apoiava. Talvez, enquanto falava com Deus, Moisés, uma pessoa idosa, estivesse se apoiando naquela vara. Sua vara era o seu apoio. A vara, asssim, tipifica aquilo em que nos apoiamos.

B. A Vara é Atirada ao Chão e se Revela ser a Serpente

Moisés ficou temeroso de aceitar o chamamento de Deus; argumentou que os filhos de Israel o rejeitariam e diriam que o Senhor não lhe aparecera. Por isso, Deus lhe disse a respeito da vara: "Lança-a na terra. Ele a lançou na terra, e ela virou cobra. E Moisés fugia dela" (v. 3). Quando a vara foi lançada ao solo, a serpente oculta em seu interior foi exposta. Até mesmo antes de a vara ser lançada, a serpente já estava lá, mas de maneira muito oculta. A Bíblia revela que a serpente sempre tenta ocultar-se no interior, atrás ou debaixo de algo. A vara em que Moisés se apoiava era, na verdade, a serpente, Satanás, Aos seus olhos, ela era simplesmente uma vara em que ele podia apoiar-se; mas, aos olhos de Deus, era a serpente, cujo alvo era usurpar o homem. Tudo em que nos apoiamos é uma vara. O fato de um irmão se apoiar em seu emprego, por exemplo, se lhe torna uma vara. Mas, para Deus, a serpente está oculta em tal em- prego, pois, do esconderijo desse emprego, Satanás, a serpente, busca usurpar o irmão. Podemos apoiar-nos em muitas pessoas ou coisas: em nossa esposa ou marido, nossos pais, nossos filhos, nossa habilidade, nossa educação, nossa propriedade, nossa conta bancária. A Bíblia nos mostra que tudo aquilo em que nos apoiamos se torna a serpente usurpadora. Satanás, hoje, está usurpando toda a humanidade, ao ocultar-se no interior das varas em que se apoiam as pessoas. Todo aquele chamado por Deus precisa perceber que tudo em que nos apoiamos é um esconderijo da serpente. O usurpador inimigo de Deus pode ocultar-se em qualquer pon- to, qualquer coisa ou qualquer pessoa em que confiamos. Com o passar dos anos, tenho aprendido a confiar no Senhor, e a desconfiar de todo tipo de vara. Observe, por favor, que Deus não disse a Moisés que lançasse fora sua vara. Pelo contrário, ordenou-lhe que a atirasse ao chão, a fim de que sua verdadeira natureza fosse exposta. A questão aqui é que, não importando qual seja a nossa vara nosso marido ou esposa, nossa educação, nosso emprego, nossa habilidade, nossa conta bancária precisa ela deixar temporariamente a nossa mão. Se ela permanecer em nossa mão de cabeça para

cima, a serpente não será exposta. Mas, se a lançarmos ao chão, verificaremos então com os nossos próprios olhos que nossa vara é, na realidade, uma serpente. Êxodo 4:3 diz que, ao se tornar a vara uma serpente, "Moisés fugia dela". Aquela vara deve ter-lhe pertencido por muitos anos, e deve ter-lhe sido preciosa. Mas ao ser lançada ao solo, já não lhe era mais tão cara, pois a serpente, oculta todo esse tempo no seu interior, foi exposta.

C. A Serpente Foi Pega Pela Cauda e, Através Disso, Tornou-se em uma Vara de Autoridade

O versículo quatro relata: "Disse o Senhor a Moisés: Estende a mão, e pega-lhe pela

cauda (estendeu ele a mão, pegou-lhe pela cauda, e ela se tornou em vara)." O Senhor quer que lancemos nossas varas ao solo, não que as atiremos fora. Não lance fora sua educação

ou sua poupança lance-as ao chão. Após ser exposta a serpente oculta, precisaremos apanhá-la pela "cauda". Essa é a melhor maneira de tratar com a serpente. Se você a segurar pela cabeça, ela poderá picá-lo. Mas, se lhe agarrar a cauda, ela perderá o próprio poder e penderá frouxa de sua mão.

A figura de Moisés agarrando a serpente pela cauda mostra que deveríamos tratar com

as coisas de maneira inversa à prática das pessoas do mundo. O que estas fazem e têm é para si mesmas. Mas tudo o que fazemos e temos deve ser para o Senhor. Quando elas se casam, por exemplo, sua vida conjugal é para si mesmas. Mas nossa vida conjugal deve ser para o Senhor. No mesmo princípio, quando vão à faculdade, elas o fazem para os seus próprios interesses. Mas os jovens, na restauração do Senhor, devem ir às faculdades e estudar diligentemente, não para si mesmos, mas para o Senhor. Esse princípio pode aplicar-se ao nosso relacionamento com todos e com tudo. Tudo deve ser para o Senhor. Se tivermos determinada coisa ou fizermos algo de maneira comum, isto é, para nós mesmos, nossa vara então terá a cabeça da serpente no alto e sua cauda embaixo. Mas, se a agarrarmos pela cauda, nós a utilizaremos de maneira contrária a este século. Precisamos ter uma vida conjugal correta e uma boa educação; não deveremos, contudo, ter tais coisas de maneira comum, à maneira do mundo, mas à maneira do Senhor. A maneira Dele sempre leva a serpente a tornar-se ineficaz e frouxa. Na década de 1930, visitei uma das mais expressivas universidades da China, celebre por sua ótima escola de medicina. Muitos irmãos no Senhor estudavam medicina lá. Depois de se casarem, entretanto, quase todos esses irmãos foram desviados do Senhor, principalmente por suas esposas. Eles não souberam segurar seu casamento pela "cauda". A Bíblia de modo algum requer que renunciemos ao nosso viver humano. Pelo

contrário, precisamos ter um viver correto. Ela, por exemplo, não proíbe que os jovens obtenham uma boa educação. Mas eles precisam aprender a segurar sua educação pela "cauda". Também precisam casar-se. Mas, ao fazê-lo, não deverão segurar a serpente pela cabeça, mas pela cauda. Isso quer dizer que não deverão casar-se segundo a maneira comum, mas de maneira incomum, para Deus. Essa maneira se opõe à prática comum das pessoas do mundo. Todos os irmãos casados precisam amar suas esposas, mas não de maneira comum, isto é, segurando a serpente pela cabeça, porém de maneira incomum, agarrando-a pela cauda. Em todos os aspectos do nosso viver humano, desde o fazer compras até ao cortar o cabelo, precisamos segurar as coisas pela "cauda". Tudo pode ser um esconderijo para a serpente. Até mesmo em todos os pormenores de nosso viver diário prático, move-se furtiva a serpente usurpadora, pronta a picar aquele que a segurar pela cabeça, e não pela cauda. Aquele que se diz enviado pelo Senhor precisa saber que a serpente se oculta em todas as pessoas, em todas as questões e em

todas as coisas. Além do mais, precisa saber como lançar ao solo esse esconderijo e, depois, como tratar com tal situação pela "cauda". Por fim, a serpente presa pela cauda se tornará uma vara de autoridade (4:4, 17; Lc 10:19). Quando Moisés a tomou pela cauda, a serpente se tornou a vara pela qual ele foi capaz de operar sinais (4:17). Isso indica que, na mão dele, a vara transformada se tornou em vara de autoridade. Se formos aqueles que lidam com todas as situações pela "cauda", teremos poder e autoridade. A vara que tivermos então não será uma vara natural, mas uma vara transformada. Ela, então, estará numa posição invertida, de cabeça para baixo. Tal tipo de vara é que é a nossa autoridade. Muitos cristãos, nos dias de hoje, falam sobre poder. Mas, quanto mais falam, menos poder têm. Eles não têm o poder de tratar com a serpente oculta. Nós, ministros de Cristo, temos autoridade somente quando lidamos com as situações pela "cauda". Se um irmão, por exemplo, souber como segurar pela "cauda" a situação com sua esposa, espontanea- mente terá autoridade. Conheci, porém, muitos bons irmãos, bem dotados e qualificados, mas com um sério ponto fraco: davam muito lugar às suas esposas e lhes permitiam tornar-se a cabeça. Como resultado, tornaram-se fracos e inúteis. Para sermos chamados e enviados por Deus, precisamos aprender a lidar com nossos maridos ou esposas, com nossos filhos e com todas as situações, não de maneira vulgar, comum e natural, mas de maneira totalmente diversa pela "cauda". Se lidarmos com alguém ou com algo de maneira natural, isso se tornará um esconderijo da serpente. Moisés não utilizou sua vara de maneira comum. Se assim a usasse, a serpente ainda permaneceria oculta nela. Mas, após atirar a vara ao solo, a serpente oculta foi exposta. Isso indica que frequentemente precisamos tirar nossas mãos de uma situação e verificar o que sai dela. Mantendo nossas mãos distantes dessas coisas em que nos apoiamos, sua verdadeira natureza se exporá. Então diremos: "Isso não é bom nem amável é uma terrível serpente." Exatamente nessa hora, Deus nos ordenará agarrarmos a serpente pela cauda. Se a vara-tornada-em-serpente for nossa esposa, deveremos agarrá-la de novo e amá-la de maneira totalmente nova; deveremos segurar a situação toda pela "cauda". Uma vez que você se case, não poderá desistir da vida conjugal. Os que o fazem se tornam inúteis no que diz respeito ao Senhor. Você precisa permanecer casado, mas não de maneira comum. Tanto o permanecer casado de maneira comum quanto o desistir da vida conjugal são fáceis. Essa é a razão por que há tantas separações neste país. Em vez de tomar algum desses dois caminhos, deveremos agarrar nosso casamento pela "cauda" e lidar com ele para o Senhor. O sinal de uma vara a se tornar serpente é o quadro de uma experiência muito subjetiva. As pessoas ou coisas em que confiamos precisam, por fim, ser lançadas ao chão e depois seguras de volta, novamente, na palavra do Senhor. Quando os jovens irmãos ficarem desapontados com determinada situação particular, poderão querer tratar com ela atirando-a longe. Deveremos encorajá-los fortemente a não agirem assim. Em vez de afastá-la, deverão mante-la, não por si mesmos ou para si mesmos, mas pelo Senhor e para Ele. Não conduza as situações através de sua habilidade natural; manipule-as pela graça. Tratar com elas pela graça é segurá-las pela "cauda". Que todos aprendamos a tratar com as coisas para o Senhor e por Sua graça. Se aprendermos essa lição, tal será um forte sinal, uma forte evidência de que fomos chamados e enviados por Deus. Como Seus enviados, saberemos lidar com todas as situações como esconderijos da serpente, e saberemos tratar com a serpente agarrando-a pela "cauda". É dessa maneira que teremos autoridade.

II. A MÃO FICOU LEPROSA

A. Ao Ser Levada ao Peito

No versículo seis, o Senhor ordenou a Moisés que levasse sua mão ao peito. Este deve ter pensado, ao executar a ordem, que encontraria uma pérola, um diamante ou algum tesouro precioso. Pelo contrário, sua mão ficou leprosa. O peito tipifica algo que está em nosso interior, e a lepra tipifica o pecado (Rm 7:17-18). Isso indica que, além de conhe- cermos a Satanás, precisamos também conhecer a carne. A vara a qual nos apoiamos é uma serpente, mas a carne é a corporificação da lepra. Precisamos saber que em nossa carne somos leprosos. Nela não habita bem algum, apenas lepra. Se a tocarmos, ficaremos leprosos. Do versículo dois ao seis, o Senhor parece dizer: "Moisés, você Me pediu provas de que

o enviei. Uma prova é que você sabe como tratar com a serpente. Outra é que você percebe

que sua carne nada mais é do que um amontoado de lepra. Moisés, leve sua mão ao peito

e veja o que sairá de você." Há um ditado a dizer que, se alguém se considera bom, levará durante a quietude da noite sua mão ao seu coração e ver-se-á como realmente é. Se o fizer, você se descobrirá ma- ligno. Talvez, em companhia de outros, você possa gabar-se de sua própria bondade. Mas, ao considerar o que está em seu coração, em alta noite, numa hora de tranquilidade, perceberá que dentro de si nada existe exceto lepra, exceto pecado. Alguém que se gaba de suas qualidades não é alguém chamado por Deus. Toda pessoa chamada por Ele percebe que dentro de si há lepra. Após ver o sinal de sua mão a se tornar leprosa, Moisés soube que sua carne era a corporificação da lepra. Ele deve ter dito:

"Antes de o Senhor me mostrar aquele sinal, eu me considerava muito bom. Mas, quando Ele me ordenou levar a mão ao peito e a retirar novamente, ela se tornou leprosa. Isso me mostrou que em minha carne nada existe, exceto lepra". Todo aquele que é usado hoje pelo Senhor na igreja, precisa ter essa concepção a respeito de sua carne. Conhecer a carne dessa maneira subjetiva é uma evidência de que o Senhor nos chamou e nos enviou. Como pessoas chamadas e enviadas, precisamos ostentar o sinal indicador de que nada de bom habita em nossa carne. Todos somos uma textura de lepra, corporificação do pecado, da podridão, da corrupção e da impureza. Se você não crer nisto com referência à sua carne, sugiro que, no silêncio da noite, quando estiver totalmente só, toque sua consciência e ouça o que ela diz a seu respeito. Ela também revelará que sua carne nada mais é do que lepra.

Os enviados por Deus precisam conhecer a carne até esse ponto. Quando foi chamado pelo Senhor, Isaías exclamou: "Ai de mim! Estou perdido! porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos" (Is 6:5). Se é que fomos encontrados pelo Senhor, esse encontro haverá de expor nossa carne. Saberemos então que nela nada existe, exceto lepra. Temos ouvido nestes dias que todos os irmãos podem ser os apóstolos e os profetas de hoje. Mas, se quisermos ser tais dons para o Corpo, precisaremos saber que nossa carne é a corporificação da podridão, da corrupção, da impureza e do pecado. É a própria incorpo- ração do pecado. Nenhum dos nossos atributos externos e nenhuma das nossas habili- dades naturais podem qualificar-nos a sermos um enviado. Para sermos qualificados, pre- cisamos ver que em nossa carne não habita bem algum.

B. Limpa Por Guardar a Palavra do Senhor

No versículo sete, o Senhor disse a Moisés: "Torna a meter a tua mão no peito." Moisés então "a meteu no peito, novamente; e quando a tirou, eis que se havia tornado como o restante de sua carne." Isso indica que sua mão leprosa foi purificada pelo fato de ele guardar a palavra do Senhor. Guardar Sua palavra é obedecer-Lhe. Desobedecer-Lhe é o elemento básico do pecado. Quando Lhe obedecermos e guardarmos Sua palavra, estará conosco Seu poder purificador, e seremos purificados.

III. A ÁGUA SE TORNOU EM SANGUE

Para terceiro sinal, o Senhor disse a Moisés: "Tomarás das águas do rio, e as derramarás na terra seca; e as águas que do rio tomares tornar-se-ão em sangue sobre a terra" (v. 9). O rio aqui mencionado é o Nilo, que irrigava a terra do Egito. A água do Nilo tipifica o suprimento e o gozo terreno. De acordo com a Bíblia, o Egito é rico em comida e gozo produzidos pelo Nilo. O que a água do Nilo produz é aparentemente suprimento e gozo. Mas, aos olhos de Deus, nada é senão morte. Todo o suprimento, gozo e recreação do mundo nada são senão morte. Mas, para percebê-lo, precisamos derramar a água do Nilo sobre a terra seca. De acordo com Gênesis 1, a terra seca é a fonte de produção da vida. Quando o gozo do mundo e o suprimento terreno forem derramados sobre aquilo que produz vida, imediatamente a morte, tipificada pelo sangue, será exposta. Se guardar a água do Nilo num poço, num vaso, ou num cântaro, você ainda a considerará como fonte de suprimento e gozo. Mas, se a derramar sobre a terra, a morte imediatamente se exporá. O terceiro sinal, assim, revela que todo suprimento terreno e todo gozo do mundo nada são exceto morte. Todos os esportes e recreações de que hoje gozam as pessoas, são várias formas de morte. O próprio suprimento que o mundo nos proporciona também é morte. A água do mundo não é absolutamente água de verdade; é sangue. As pessoas do mundo não bebem água; bebem sangue, isto é, morte. Tudo o que desfrutam do mundo é morte. Uma pessoa chamada deve saber o que é o mundo. Para as pessoas do mundo, a água do Nilo é maravilhosa; mas, para nós, é sangue. Os chamados por Deus precisam ser capazes de dizer ao Seu povo que não permaneçam no Egito para beber da água do Nilo, mas que saiam de lá para o deserto, a fim de sorverem da água que mana da rocha fendida. Além de conhecer Satanás e a carne, precisamos conhecer o mundo. No Novo Testamento, Satanás, a carne e o mundo são expostos repetidas vezes. Os chamados e enviados por Deus conhecem a serpente, a lepra e o sangue; isto é, conhecem Satanás, a carne e o mundo. De acordo com o Novo Testamento, Satanás é contra Cristo (1Jo 3:8), a carne é contra o Espírito Santo (Gl 5:17), e o mundo é contra o Pai (1Jo 2:15), Satanás, a carne e o mundo, consequentemente, se opõem ao Deus Triúno em Sua dispensação. Por causa de Satanás, da carne e do mundo, Sua economia ainda não se efetuou. Na economia de Deus, como se vê nas três parábolas de João 15, o Filho vem buscar os caídos, e o Espírito os ilumina para conduzi-los de volta ao Pai. Mas o diabo labora contra o Filho, a carne luta contra o Espírito, e o mundo atrapalha as pessoas de se voltarem para o Pai. Alguém que seja enviado pelo Senhor precisa saber pegar a serpente pela cauda, tratar com a lepra e lidar com o mundo, seu suprimento e seu gozo. Se nos faltarem essas três qualificações, então não fomos chamados por Deus e, por conseguinte, não poderemos ser Seus enviados. Em alguém que Deus chamou, Satanás, a carne e o mundo perderam terreno.

O fato de Êxodo 4 registrar esses três sinais comprova que a Bíblia é divinamente inspi- rada. Nenhum autor humano escreveria tais coisas. No capítulo três de Êxodo, Deus mostrou a Moisés uma sarça que ardia sem se consumir. Depois, no capítulo quatro, mostrou-lhe três sinais subjetivos, a fim de dar-lhe uma visão concernente a Satanás, à carne e ao mundo. Isso indica que um chamado precisa primeiramente ter a visão da sarça ardente. Depois precisa de alguma experiência subjetiva, a fim de conhecer Satanás, a carne e o mundo. Louvado seja o Senhor pelos sinais daquele que é por Ele chamado e enviado! Nós Lhe agradecemos pelo quadro claro desses quatro sinais de Êxodo 4. Nestes dias, muitos irmãos almejam ser úteis na mão do Senhor. Mas, como já enfatizamos nesta mensagem, se quisermos ser-Lhe úteis, precisaremos conhecer a serpente, a lepra e o sangue; isto é, precisaremos saber como tratar Satanás, a carne e o mundo.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM NOVE

O AUXÍLIO MASCULINO E O FEMININO ÀQUELE QUE FOI CHAMADO POR DEUS

O registro do chamamento feito por Deus a Moisés é o mais completo de toda a Bíblia. Nesta mensagem, consideraremos como Arão (4:10-16) e Zípora (4:24-26) se relacionam a esse chamamento. Sem a porção referente a Arão e a Zípora, o chamamento feito por Deus a Moisés não estaria completo. O registro desse chamamento se encontra não apenas em Êxodo 3, mas também em Êxodo 4. Por esse motivo, se quisermos entender o chamamento feito a Moisés como um todo, precisaremos considerar até mesmo as pequenas porções do capítulo quatro como parte dele. Êxodo 4:14 diz que "se ascendeu a ira do Senhor contra Moisés". Mesmo após os sinais do capítulo quatro, Moisés ainda relutava em seguir adiante com o Senhor. Parece-me que ele deveria dizer: "Senhor, uma vez que me chamaste e me deste esses sinais, eu tomo a Tua palavra." Ele, todavia, mesmo assim pediu ao Senhor que enviasse outra pessoa. A essa altura, o Senhor se zangou com ele. Quando jovem, eu podia ver a razão da ira do Senhor sob um ângulo. Mas, sob outro ângulo, pensava ser Ele muito grande, afigurando- se tal situação muito insignificante, para que Sua ira se levantasse contra Moisés.

I. A PARCERIA DE ARÃO

A. No Princípio de Dois Como Um Testemunho

Creio que, bem no íntimo de Seu coração, o Senhor queria que Arão formasse par com Moisés. Quando enviou Seus discípulos, o Senhor Jesus os enviou dois a dois (Lc 10:1), isto é, no princípio de dois como um testemunho. Ficar sozinho é ser individualista, mas ser enviado com alguém é ser enviado segundo o princípio do Corpo. O fato de Arão fazer par com Moisés, consequentemente, estava de acordo com o princípio divino. Embora isso estivesse de acordo com Seu princípio, Deus não disse simplesmente que Moisés precisava de Arão como par. Mas, se lermos atentamente este trecho, verificaremos que isso já estava em Seu coração. O versículo quatorze diz literalmente: "Então se ascendeu a ira do Senhor contra Moisés, e disse: Não é Arão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele fala fluentemente; e eis que ele sai ao teu encontro e, vendo-te, se alegrará em seu coração." O Senhor esperava que Moisés percebesse a própria necessidade de ter alguém a complementá-lo. Embora estivesse pronto a fazê-lo, o Senhor não o enfatizou a Moisés, até que ele próprio se conscientizou de sua necessidade. O Senhor é muito sábio. Ele pode estar disposto a realizar por nós determinadas coisas; mas, frequentemente, nada fará, até percebermos nossa necessidade. Esse princípio tem aplicação entre nós, na vida da igreja. Embora você possa perceber que preciso de algo, é melhor que não me diga. Pelo contrário, você deverá esperar, até que eu perceba a minha própria necessidade. Se estivermos claros acerca do que estava no coração do Senhor, poderemos compre- ender por que Sua ira se levantou contra Moisés. Aparentemente, ela era desagradável; mas, na verdade, era bem doce. Somente os superficiais afirmarão ser desagradável aqui a ira do Senhor. Aqueles que Lhe são íntimos percebê-la-ão agradável. A ira aqui indica uma

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comunhão doce, íntima e humana. Alguns poderão imaginar como é possível que o Senhor tenha tido comunhão humana. Isso foi possível, porque Ele apareceu a Moisés como o Anjo de Jeová, um tipo de Cristo. Por Se constituir em Deus feito carne para Se tornar um homem, Cristo é misterioso. Por essa razão, é muito difícil compreender a aparição do Anjo de Jeová no Antigo Testamento. Em Êxodo 4, o Senhor dirigiu-se a Moisés como se fosse um homem falando a um outro homem. De acordo com o relato, a conversação pareceu mais ser entre amigos do que entre o Deus Todo-poderoso e um ser humano. Essa intimidade entre o Senhor e Moisés pode comparar-se à intimidade entre um homem e uma mulher. Às vezes, um homem se zanga com sua esposa; mas sua expressão de ira é doce e agradável. Não é a ira que ele mostraria a qualquer outra pessoa, por expressar ela um sentimento doce, íntimo. Isso se assemelha muito a esse sentimento existente entre o Senhor e Moisés. Sua ira com relação a Moisés, neste capítulo, é muito diferente de Sua ira contra Sodoma. A ira, aqui, é uma ira agradável, entre duas pessoas íntimas. Após falar-lhe o Senhor nos versículos onze e doze, Moisés replicou: "Ah! Senhor!

Envia aquele que hás de enviar, menos a mim" (v. 13). Estas suas palavras não constituíram uma áspera rejeição ao Senhor. Pelo contrário, foi uma expressão íntima de seu sentimento pessoal. A resposta de Moisés, contudo, levou o Senhor a zangar-se com ele. A sua reação forçou o Senhor, em Sua agradável ira para com ele, a abrir-lhe o coração, a fim de designar-lhe Arão como par. Em defesa ao princípio divino, o Senhor não haveria de permitir que Seu servo fosse individualista. Moisés precisava de Arão. Por conseguinte, a presença de Arão não foi acidental. Deus o preparara como complementação de Moisés. Este princípio de complementação aplica-se ainda hoje. Se você foi chamado pelo Senhor, precisa perceber a própria necessidade de alguém que o complemente. Já dis- semos que o Senhor Jesus enviou seus discípulos dois a dois. Quando o apóstolo Paulo surgiu para servir o Senhor, não se portou de maneira individualista. Sempre teve outros a comple-mentá-lo. Isto se prova pelo versículo de abertura de 1 Coríntios: "Paulo, chamado

pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo, e o irmão Sóstenes

escreveu sua epístola, nem Timóteo nem Barnabé se achavam presentes. Paulo, portanto, tomou a Sóstenes por parceiro; utilizou um irmão cujo nome raramente conhecemos, a fim de preservar o princípio. Agir de maneira individualista no serviço do Senhor não está de acordo com o princípio divino. Hoje, na economia do Novo Testamento, ser individualista é violar o princípio do Corpo. Não deveremos proceder de maneira individualista; pelo contrário, deveremos mover-nos e agir de acordo com o princípio da coletividade, tendo sempre ao menos um outro membro a nos complementar. Quanto mais membros tivermos a complementar-nos, melhor será. O Corpo não pode ser representado por indivíduos. De acordo com o princípio divino, a representação correta do Corpo sempre se realiza por aqueles membros que fazem parceria com outros. Fazer parceria, entretanto, é difícil. No caso de Moisés e Arão, o irmão mais jovem era o líder, e o mais velho era o coadjuvante. Fazer parceria com alguém é difícil; fazer parceria com um irmão na carne é mais difícil; e fazer parceria de modo que o mais jovem seja o líder é a coisa mais difícil. Meu irmão mais moço era um querido irmão no Senhor; ele O amava muito. Ainda na China continental, estávamos na mesma igreja local. Mas aprendi pela experiência que era difícil tê-lo por parceiro. Por ser Arão na carne o irmão mais velho de Moisés, era muito difícil a este último fazer-lhe parceria. Essa deve ter sido a razão para o Senhor não revelar a Moisés que Arão haveria de ser seu parceiro, até que

." Quando

Moisés se mostrasse completamente incapaz de responder ao Seu chamamento. Isso propi- ciou ao Senhor a oportunidade de dizer a Moisés que Arão lhe seria porta-voz. O Senhor lhe preparara Arão, e, não importando a dificuldade, ele não teve escolha, a não ser toma- lo por seu parceiro. Em Números 12, observa-se o registro de um incidente a envolver Arão e Miriã, revelando como foi difícil a Moisés fazer parceria com Arão. O versículo um desse capítu- lo registra: "Falaram Miriã e Arão contra Moisés, por causa da mulher etíope, que tomara; pois tinha tomado a mulher cusita". Isso indica como era difícil para Miriã e Arão, ambos mais velhos do que Moisés, considerá-lo como líder. O seu erro, ao desposar a mulher etíope, ensejou-lhe a oportunidade de deporem contra ele. O seu falar aqui não foi acidental; pelo contrário, foi uma expressão daquilo que já estava em seu interior. Como foi difícil a Moisés tomar a liderança sobre sua irmã e seu irmão! O Senhor, sem dúvida, preparou-lhe uma situação difícil. Em princípio, hoje ocorre o mesmo conosco. O Senhor frequentemente há de preparar- nos um parceiro problemático. Mas esse tal parceiro, na verdade, nos será de grande ajuda. Sem ele, não teremos quaisquer restrições, qualquer proteção ou qualquer guarda- costa. Na maior parte do tempo, Arão e Miriã foram submissos a Moisés. Mas, ao menos por um breve período de tempo, não o foram. Tal falta de submissão de sua parte era uma proteção para Moisés, guardando-o de ficar orgulhoso. Números 12:3 relata que "era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra." Miriã e Arão o ajudaram o tornar-se tão humilde. Todavia, não importando a elevada utilidade de Miriã e Arão para Moisés, Deus não lhes tolerava a maneira de falar contra ele. Os arranjos que Deus faz, ao combinar-nos uns com os outros, situam-se, às vezes, além de nossa compreensão. Não pense que um parceiro será sempre agradável. Poderá, na maior parte do tempo, ser agradável; mas, ao menos em parte do tempo, será desagradável. Mas esse desprezar é nossa proteção.

B. Para Levar a Cabo a Incumbência de Deus

Entre os cristãos de hoje, raramente se verifica esse tipo de parceria. Há bem pouca coordenação entre os obreiros cristãos, porque lhes falta a visão do princípio do Corpo. Sinto o encargo de que todos nós, como aqueles que foram chamados por Deus, preci- samos perceber a necessidade dessa parceria. Tenho conhecido alguns irmãos muito bem dotados, que se tornaram inúteis, porque se recusaram a aceitar um parceiro. Um parceiro nos amarra e restringe. Por essa razão, é difícil fazer parceria com os outros. Uma corrida-de-três-pernas ilustra o princípio da parceria. Nela, os corredores têm uma de suas pernas amarrada a uma das pernas de seu parceiro. O serviço do Senhor não é uma corrida disputada por indivíduos; é uma corrida disputada por aqueles que se encon- tram atados a um outro membro do Corpo. Não gostar desse arranjo é não gostar do serviço do Senhor. Se você quiser ter parte em Sua obra, precisa estar disposto a ser parte de uma dupla numa corrida-de-três-pernas. Se recusar ser ligado a um outro, você estará desclassificado da corrida. Por si mesmo, você pode ser capaz de obter muita coisa; mas o que fizer não aproveitará para a edificação do Corpo. Alguns poderão efetuar uma grande obra cristã; mas essa não beneficiará significativamente o Corpo. A obra da restauração do Senhor não é uma obra cristã ordinária: é a obra de edificação do Corpo. Se quisermos ser utilizados pelo Senhor na edificação do Corpo, precisamos nos dispor à disputa de uma corrida-de-três-pernas, isto é, precisamos estar dispostos a ser amarrados um ao outro, a fim de formar uma unidade.

Existem, a esse respeito, muitas lições a serem aprendidas, principalmente por aqueles que são capazes. É muito difícil a uma pessoa de capacidade ser ligada a uma outra. A situação do cristianismo de hoje o comprova. Todo pregador ou ministro bem dotado é individualista. Essas pessoas podem ter empregados, a quem contratam e demitem; mas não têm nenhum cooperador por parceiro. Uma pessoa contratada é muito diferente de um parceiro. Moisés não contratou Arão, nem Paulo contratou Timóteo. No entanto a maior parte dos bem conhecidos obreiros cristãos de hoje são individualistas. Se precisam de outros que os ajudem, eles os contratam; mas não os aceitam por parceiros. Tudo o que é realizado por esses obreiros cristãos não é de muito proveito para a edificação do Corpo. Na restauração do Senhor, há uma urgente necessidade de verdadeira obra de edificação. Tal obra de edificação, entretanto, somente poderá ser efetuada pelos cooperadores que tenham parceiros. Todos precisamos de parceria; não apenas de uma outra pessoa, mas de muitas outras. É através dessa combinação que a incumbência de Deus é levada a cabo.

C. Arão Tornou-se o Porta-Voz de Moisés, e Moisés Se Lhe Tornou Deus.

Muitos pensam que, por terem parceria com outros, perderão suas posições. Por essa razão, não querem que os outros realizem a mesma obra que eles estão fazendo. Mas observe novamente o caso de Moisés e Arão. Arão não levou Moisés a perder sua própria posição. Nada do que ele fizesse poderia substituir Moisés em sua posição de chamado por Deus. Em 4:16, Deus disse a Moisés sobre Arão: "Ele falará por ti ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus.” Esse versículo indica que não havia necessidade de Moisés preocupar-se com a possibilidade de ser substituído. O mesmo hoje é verdade para com os chamados por Deus. A sua posição de chamado provém do Senhor, e ninguém haverá de apoderar-se dela. De acordo com o registro, Arão deve ter sido mais capaz do que Moisés quanto ao falar; deve ter sido mais eloquente. Não deveria, contudo, tomar isso como oportunidade para orgulhar-se. Só poderia agir até certo ponto, porque Deus não lhe dera mais no que diz respeito a uma posição. Em verdade, o versículo dezesseis diz que Moisés haveria de ser para ele como Deus. Da parceria de Moisés e Arão, todos podemos aprender a importância de saber onde estamos. O lugar que ocupamos numa relação de parceria depende inteira- mente do arranjo do Senhor. Ele chamou a Moisés e lhe preparou Arão por parceiro. Não havia lugar para manipulação humana. Tudo estava de acordo com a economia e com o arranjo divino. Tenho-me envolvido em relações de parceria por quase cinquenta anos. Tenho aprendido que não é fácil suportar esse relacionamento por um longo período. Por isso precisamos receber graça do Senhor. Agora parece ser a época adequada para liberar essa palavra sobre a parceria. Espero que todos, nas igrejas locais, fiquem claros com referência à necessidade de serem corretamente coordenados, de modo a poderem existir em nosso meio parcerias constantes e permanentes.

II. O CORTAR DE ZÍPORA

A. Para Completar a Circuncisão na Família de Moisés

Chegamos agora ao registro referente a Moisés e a Zípora (424-26). O versículo vinte e quatro registra: "Estando Moisés no caminho, numa estalagem, encontrou-o o Senhor, e o quis matar." À época do versículo vinte e três, parecia estar completo o chamamento de

Moisés. Por esse motivo, ele tomou sua esposa e seus dois filhos, e começou a seguir seu caminho da terra de Midiã rumo ao Egito. Mas, na estalagem, o Senhor o encontrou e procurou matá-lo. Moisés deve ter ficado chocado, e Zípora terrificada. Esta pode ter-lhe perguntado por que Deus, que o chamara e enviara, procurava agora matá-lo. Ele deve ter-se perguntado o que havia de errado. Creio que ele imediatamente percebeu o problema: seu filho mais moço ainda não fora circuncidado. Como esposa gentia, Zípora deve ter-se entristecido quando Moisés circuncidou seu primeiro filho, e isso pode tê-la levado a opor-se à circuncisão do segundo. Por causa da fraqueza e da negligência de Moisés, unidas à oposição de Zípora, a exigência do Senhor não fora satisfeita; por esse motivo o Senhor procurava matar Moisés. Não era fácil a Zípora, uma mulher gentia, satisfazer tal requisito. Ela foi compelida a ceder, embora não se agradasse disso.

B. Com Uma Pedra Afiada

O versículo vinte e cinco diz: "Então Zípora tomou uma pedra aguda, cortou o prepúcio de seu filho e lançou-o aos pés de Moisés, e lhe disse: Sem dúvida tu és para mim esposo sanguinário." Ao cortar o prepúcio de seu filho, Zípora não utilizou uma faca; usou uma pedra afiada, um sílex, um instrumento cortante pouco usado. Talvez tenha usado esse instrumento, por efetuar-se a circuncisão num estado de emergência. O uso de uma pedra afiada também parece indicar que a circuncisão se realizou numa atmosfera de descon- tentamento. Isso é também indicado pelo fato de Zípora lançar o prepúcio aos pés de Moisés e exclamar: "Sem dúvida tu és para mim esposo sanguinário." Embora a atmosfera não fosse agradável, Deus permitiu que Moisés prosseguisse, após completada a circun- cisão. Se houvesse uma atmosfera agradável, Zípora, sem dúvida, expressaria seu arrepen- dimento e teria comunhão com Moisés. Pediria que ele realizasse a circuncisão, utilizando uma faca apropriada para executar o corte correto. O corte, então, não teria sido tão doloroso. Em nossa experiência, entretanto, apenas o próprio Senhor é quem utiliza uma faca apropriada para fazer a obra de corte. O cortar aqui é representado pela vida femi- nina, porque ele é subjetivo. Mas todos nós, velhos e jovens, irmãos e irmãs, somos aqueles que cortam. Na vida da igreja, ou cortamos ou estamos sendo cortados. Em quase todos os casos, esse cortar se realiza através de instrumentos rudes e rústicos.

C. Fazendo de Moisés Um Esposo Sanguinário

Fui, durante muitos anos, atribulado por esta porção da Palavra. Comecei a entendê-la somente após ter uma certa experiência. Através da experiência, percebi que os chamados precisam não apenas da ajuda masculina, a ajuda de Arão, mas também da feminina, de Zípora. A ajuda masculina é a parceria, mas a ajuda feminina é o corte. Todo chamado por Deus precisa tanto do auxílio masculino quanto do feminino, tanto da parceria quanto do cortar. Como todo irmão casado pode perceber, as esposas são bem hábeis no cortar. Há ocasiões em que até as esposas cristãs são "gentias" para com seus maridos. Se o marido não ama ao Senhor nem deseja com Ele prosseguir, a esposa poderá não ser uma "gentia". Mas, tão logo comece ele a amar ao Senhor, a andar no Seu caminho e para Ele viver, ela se revelará uma "gentia", uma "pagã". Isso significa que uma esposa que tenha sido cristã durante anos, poderá de repente comportar-se como alguém que não está apartada para Deus, nem vive para Ele. Muitos dos cristãos de hoje ainda são pagãos em seu viver diário, não amam ao Senhor, não estão apartados para Ele, nem tomam o Seu caminho. São

cristãos por terem sidos regenerados e por haverem recebido a vida divina; mas não o são em seu viver diário. Quando um determinado irmão se acha no mundo, sem qualquer preocupação para com os interesses do Senhor, sua esposa poderá não causar-lhe qualquer problema no que diz respeito ao Senhor. Mas, tão logo ele começa a viver para o Senhor, ela se comportará como uma Zípora pagã, uma mulher não totalmente apartada para o Senhor. Até certo ponto, sua esposa concordará com ele, assim como Zípora concordou com Moisés. Mas existirá em sua situação algo incircunciso, algo comum, pagão e não apartado nem santifi- cado para o Senhor. Se o Senhor não intervier na situação desse irmão, a natureza gentia da esposa poderá não ser exposta. Mas, tão logo o Senhor intervenha talvez ao estar o irmão para cumprir a incumbência de Deus e a atitude da esposa com referência à circuncisão da carne se exporá. Forçada a concordar com o corte do prepúcio, ela poderá efetuá-lo realmente, mas não o fará com um gesto positivo e agradável. Por dever aceitar a separação de seu marido para o Senhor, ela o olhará como um "esposo sanguinário". Ser um "esposo sanguinário" é estar sob morte. Aos olhos de Zípora a circuncisão signi- ficava que seu marido Moisés estava sob sentença de morte. Se nós, irmãos, somos abso- lutos para com o Senhor, também nos tornaremos um "esposo sanguinário" aos olhos de nossas esposas. Examine cuidadosamente o quadro de Moisés e Zípora em Êxodo 4. Estando eles a

caminho, para cumprir a incumbência de Deus, Zípora concordava um pouco com o que Moisés fazia. Este, todavia, era mais pelo Senhor do que Zípora. Ele se dispunha a circun- cidar seu filho, mas Zípora não. Embora não haja indicação de que Moisés e Zípora tenham contendido por causa do problema da circuncisão, havia, entretanto, algo entre eles que não era harmônico. Fazia-se necessária uma circuncisão, mas Zípora se opunha a ela. Discordou do corte da carne como sinal de separação para Deus. Mas é contra o princípio divino de Deus utilizar alguém que ainda viva na carne ou na vida natural. A carne e a vida natural devem ser cortadas. Deus só pode utilizar alguém que foi apartado para Si. O problema da circuncisão envolve um princípio crucial na economia de Deus. Sem circuncisão, é impossível participar-se da aliança feita por Ele com Abraão referentemente

à herança da boa terra. Além disso, uma pessoa incircuncisa não poderá ter parte no Seu

ministério. O significado de Deus vir para matar Moisés é que uma situação incircuncisa o levaria a ser eliminado do ministério de Deus. Mas o significado da circuncisão é ser introduzido no Seu ministério.

Portanto, estando Moisés a caminho para levar a cabo a incumbência de Deus, não poderia Este tolerar-lhe a negligência quanto à circuncisão. Assim, veio Ele para tratar com Moisés. Sem dúvida, este fora fraco ao render-se, pelo menos um pouco, à oposição que sua mulher fizera à circuncisão. Por constituir essa fraqueza uma afronta ao Senhor, procurou Ele matar a Moisés, Quando o encontrou, a situação toda foi trazida às claras. Moisés sabia que estava errado, e Zípora percebeu qual era sua responsabilidade. Por estar

a responsabilidade principalmente sobre ela, em face de sua oposição à circuncisão, foi ela forçada a agir. Cortou o prepúcio com um instrumento incomum, uma pedra aguçada. Precisamos, porém, enfatizar que ela fez o corte em amor. Amava a Moisés e queria salvar- lhe a vida. Ao promovermos a aplicação espiritual desse incidente, notamos que, com frequência, as esposas cortam seus maridos de maneira incomum. Se as irmãs levarem esse ponto ao Senhor em oração Ele haverá de mostrar-lhes as maneiras pouco usuais com que cortam

seus maridos. Não são sempre as esposas, entretanto, que realizam esse corte. O apóstolo Paulo jamais foi casado, mas certamente foi cortado pelos outros. A ajuda de Arão, a parceira, foi objetiva, ao passo que o auxílio de Zípora, o cortar, foi subjetivo. Às vezes, o Senhor nos coloca num ambiente onde somos cortados pelos outros, talvez até pelos nossos queridos irmãos no Senhor. Nessa hora, tais irmãos não fazem parceria conosco: eles nos cortam. Poderão não lutar contra nós; mas, mesmo ao concor- darem aparentemente conosco, funcionarão como cortadores. Todos precisamos estar prontos a receber esse corte. Deus nos preparou não apenas um Arão, mas, em Sua soberania, também providenciou uma Zípora. Não há necessidade de fazermos quaisquer escolhas. Deus tem os Arões e as Zíporas prontos a esperar-nos. Principalmente hoje, na vida da igreja, existem tanto aqueles que fazem parceria quanto aqueles que cortam. Lidar com os parceiros é difícil, mas lidar com os cortadores é ainda mais difícil, pois isso nos torna um "esposo sangui- nário". Após a parceria de Arão e o corte de Zípora, o chamamento de Moisés ficou completo. Ele estava pronto a ir para o Egito, a fim de levar a cabo a incumbência de Deus. Graças ao Senhor pelo quadro completo do chamamento que faz aos Seus chamados! Se levarmos esta palavra ao Senhor, Ele nos iluminará. Nós então diremos: "Senhor, como Te agradeço, pois comigo existem alguns Arões e algumas Zíporas. Eu Te louvo, Senhor, pela parceria e pelo corte."

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM DEZ

A VISÃO COMPLETA DO CHAMAMENTO FEITO POR DEUS A MOISÉS

Precisamos observar, nesta mensagem, a visão completa do chamamento que Deus fez a Moisés. De acordo com os capítulos três e quatro de Êxodo, esse chamamento abrange cinco pontos: a sarça ardente, a revelação de quem e do que Deus é, o propósito do Seu chamamento, os três sinais, e finalmente a parceria de Arão e o cortar de Zípora. Conside- raremos o propósito do chamamento na mensagem seguinte. Nesta verificaremos os seus outros quatro aspectos. Primeiramente, Moisés teve a visão de uma sarça ardente, que queimava sem se consumir. Essa visão era exclusiva. Após Moisés contemplar a sarça ardente. Deus Se lhe revelou. A revelação de Seu nome foi, em realidade, a revelação de Si próprio. Nenhuma outra porção da Palavra nos proporciona revelação tão clara e profunda do nome divino quanto o capítulo três de Êxodo. Deus disse a Moisés que o Seu nome era "EU SOU O QUE SOU". Isso indica que o nome de Deus aqui é uma forma do verbo ser. Apocalipse 1:8 diz que o Senhor Deus é "aquele que é, que era e que há de vir". Além disso. Deus disse a Moisés ser Ele o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Esse título O revela não apenas como o Deus que é, de existência, mas também como o Deus de ressurreição. No capítulo quatro, foram dados três sinais a Moisés: o da vara a se tornar serpente, o da mão a ficar leprosa, e o da água a se transformar em sangue. Ao final desse capítulo, recebeu ele a ajuda masculina e a feminina. A ajuda masculina, proporcionada por Arão, foi a parceria; e a ajuda feminina, proporcionada por Zípora, foi o cortar. Esse cortar o levou a ser um "esposo sanguinário", um homem sob sentença de morte. Só após receber esses dois tipos de auxílio é que o chamamento que Deus lhe fez ficou completo. A partir disso, Moisés se tornou útil ao Senhor e totalmente preparado para levar a cabo a incumbência de Deus. Se tivermos essa visão completa do chamamento de Deus uma visão que vai desde a sarça ardente até o cortar de Zípora ficaremos profundamente sensibilizados.

I. A SARÇA ARDENTE

Quando foi chamado por Deus, Moisés teve a grande visão de uma sarça ardente. Já enfatizamos que a sarça ardente se refere ao povo redimido de Deus. Éramos, antes, espi- nheiros sob a maldição de Gênesis 3; mas, em Êxodo 3, somos sarça redimida. Deus agora queima em nosso interior e sobre nós. Esta sarça ardente é tanto os filhos de Israel no Antigo Testamento quanto a igreja no Novo Testamento. Na igreja, hoje, ainda existem "espinheiros"; ela ainda não é uma pedra preciosa. Louvamos ao Senhor, todavia, porque estamos sendo submetidos a um processo de transformação. Em Deutoronômio 33:16, Moisés falou de Deus como Aquele que habitava na sarça. Essa palavra foi proferida quando Moisés tinha a idade de cento e vinte anos, quarenta anos após ter tido a visão da sarça ardente. Ele jamais esqueceu aquela visão, mesmo depois de se edificar o tabernáculo e de Deus vir habitar nele. Por que não falou Moisés, em Deuterônomio 33:16, da boa vontade Daquele que habitava no tabernáculo? Creio que

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falar de Deus habitando no tabernáculo não lhe seria tão suave quanto falar de Deus habitando na sarça. Acredito que, mesmo quando estivermos na Nova Jerusalém, have- remos de lembrar que certa vez fomos uma sarça habitada por Deus. Como é maravilhoso

o fato de que uma sarça pode hoje ser o lugar da habitação de Deus na terra! Desde Êxodo 3 até Apocalipse 21, podemos traçar a linha concernente ao lugar da habi- tação de Deus. O Seu alvo definitivo é obter um lugar de habitação. Isso quer dizer que o Seu eterno propósito é edificar Sua habitação. Notamos em Gênesis a revelação da casa de Deus em Betel, mas não temos a verdadeira edificação dela. No princípio de Êxodo, Ele habitava na sarça; mas, ao final desse livro, habitava no tabernáculo. O tabernáculo com a arca, assim, tornou-se o ponto central da história dos filhos de Israel. Por fim, o taber- náculo foi expandido até ao templo. O Senhor Jesus veio como o tabernáculo de Deus (Jo 1:14, grego) e como o Seu templo (Jo 2:19). A igreja hoje também é o templo de Deus (1Co 3:16). Ao final, esse templo haverá de resultar na Nova Jerusalém, que será o templo de Deus pela eternidade. No princípio, o lugar da habitação de Deus era uma sarça redimida; mas, gradualmente, ela está sendo santificada, transformada, conformada e até mesmo glorificada. O taber- náculo é uma ilustração da transformação. Nele havia madeira de acácia coberta de ouro e de linho bordado com linha dourada. Tanto a madeira de acácia quanto o linho tipificam a humanidade, e o ouro tipifica a divindade. Essa humanidade coberta e bordada é uma humanidade transformada. Em Êxodo 3, a habitação de Deus era uma sarça; mas, em Êxodo 40, Sua habitação era o tabernáculo formado pela humanidade coberta e entretecida com a divindade. Tanto a sarça quanto o tabernáculo são símbolos. O verdadeiro lugar de habitação de Deus não era a sarça física nem o tabernáculo; era o Seu povo. Após serem disciplinados por Deus, os filhos de Israel se tornaram madeira de acácia coberta com ouro e também linho bordado com linha dourada. A igreja é hoje o cumprimento desse tipo. Ela, atualmente, pode ser uma sarça redimida. Todavia está chegando o dia em que seremos

ouro, pérolas e pedra preciosa. Louvado seja o Senhor pela visão maravilhosa do Seu lugar de habitação. Essa visão abrange a habitação de Deus, desde o estágio inicial, a sarça, até ao estágio definitivo, a Nova Jerusalém. Quando foi chamado por Deus, Moisés viu o fogo santo a queimar no interior da sarça. Paulo também, ao ser chamado, teve a mesma visão, pelo menos em princípio. Viu o Deus Triúno que ardia no interior dos Seus redimidos. Através desse queimar divino, o fogo santo era um com a sarça, e a sarça era uma com o fogo, que é o próprio Deus Triúno. Hoje, Deus Pai no Filho, mais o Filho como Espírito desceram sobre nós como fogo. O Senhor Jesus certa vez disse que viera para lançar fogo sobre a terra (Lc 12:49). No dia de Pentecoste, o Espírito apareceu em forma de línguas de fogo. O Senhor hoje ainda está lançando fogo sobre a terra. Esse fogo santo, esse queimar divino nos capturou, e agora somos parte da sarça que arde com o Deus Triúno. O Deus Triúno está queimando no íntimo e sobre a igreja, que Ele escolheu e redimiu. A igreja, por conseguinte, é o Deus Triúno ardendo no interior de uma humanidade redimida. Assim é a economia divina (1Tm 1:4, grego). Essa economia foi revelada a Paulo (Ef 3:3-5,9). Este último é, na verdade, o centro da revelação divina. Moisés a viu em símbolo, mas Paulo a viu em realidade. Como louvamos ao Senhor, porque Sua economia também nos foi desvendada! Com toda ousadia, procla- mamos que temos tido a visão da sarça ardente. Toda igreja local é uma sarça a arder com

o Deus Triúno. Perguntaram-me por que sou tão perseverante e intransigente com relação à economia

de Deus e à Sua complementaçao atual nas igrejas locais. A resposta é que tive a visão celestial. Moisés e Paulo não podiam esquecer-se da visão que tiveram. As epístolas de Paulo revelam que nada até mesmo a prisão e o martírio poderia desviá-lo da visão. Ele foi inflexível até ao fim, porque fora capturado pela visão celestial. A morte dos que foram martirizados por causa do Senhor só pode levar a sarça a arder mais do que nunca. Milhares de nós, hoje, temos tido a visão da sarça ardente, e ninguém poderá mudar- nos. Não poderemos sequer mudar a nós mesmos. Se tentarmos desviar-nos, a visão não nos deixará ir. Fomos "arruinados" pela visão que tivemos. Nestes dias, estou totalmente convencido de que nada pode abalar os irmãos na restauração do Senhor. Os abalos só os tornam mais absolutos. Muitos têm testificado que não podem desviar-se da visão da igreja na economia de Deus. Os opositores deveriam perceber que é muito tarde para se levantarem contra a restauração do Senhor, pois muitos tiveram a visão da sarça ardente. Aleluia pela visão do Deus Triúno que arde no interior da igreja! Todos os aspectos do chamamento que Deus fez a Moisés podem ser encontrados nos escritos de Paulo. Em suas epístolas, percebemos a visão da sarça ardente. Em Efésios 1 e 3, verificamos a economia divina, o dispensar do Deus Triúno no interior de Seu povo redimido, de modo a poder ele tornar-se a Sua expressão. Esse dispensar traz à existência a igreja como a sarça ardente de hoje. Como fico feliz por ser parte desta sarça ardente! Por termos essa visão, não deveremos jamais voltar à religião. Pelo contrário, a visão nos leva a prosseguir. Até mesmo muitos dos jovens podem testemunhar que tiveram a visão da sarça ardente, a visão da economia de Deus hoje na igreja. Essa visão se revelou em nosso íntimo. Ainda que quiséssemos voltar ao mundo, não poderíamos eliminar a visão que tem queimado dentro de nosso ser. Você já não teve a visão da igreja? Você já não viu que o Deus Triúno está se dispensando no íntimo de Seus redimidos? Louvado seja o Senhor porque o vimos! Você pode ser fraco, ou até mesmo retroceder, mas essa visão não o deixará. Mesmo quando você não mais quer a visão, ela não o abandona. Você é parte da sarça ardente, e não há como escapar. Aleluia pela visão da sarça ardente! Essa visão é o primeiro aspecto do chamamento de Deus.

II - QUEM É DEUS E O QUE ELE É

a Eu Sou o Que Sou

O segundo aspecto é a questão de quem é Deus e o que Ele é. Ele é o único com existência própria. Tudo o mais vem e vai, mas Deus permanece. Nós nada somos, mas Deus, e apenas Ele, sempre é. Como temos visto, o Seu nome revelado a Moisés em Êxodo 3 é simplesmente o verbo ser. Isso indica que antes de qualquer outra coisa vir a existir, Ele era. Depois que muitas coisas deixarem de existir, Ele ainda há de ser. Deus era, é e será. Como Aquele com existência própria, Deus é a realidade de todas as coisas positivas. O Evangelho de João revela que Ele é tudo o que precisamos: vida, luz, comida, bebida, pas- tagem, caminho. É necessário conhecermos a Deus como Aquele que é. O céu e a terra poderão passar, mas Deus é. Você está desanimado por causa de suas fraquezas? Um dia elas deixarão de existir, mas Deus ainda será. Não creia em nada além de Deus. Não creia em sua fraqueza nem em sua força, porque tanto uma quanto outra hão de passar. Todavia, quando elas se forem, Deus ainda continuará a ser Aquele que é. De acordo com minha experiência, posso testificar que tanto a riqueza quanto a pobreza passam, mas Deus permanece. Quer seja- mos ricos ou pobres, Deus é. Não deveremos sequer depositar nossa confiança na esposa

ou marido que o Senhor nos tenha dado. Ainda que soframos a perda de nossa esposa ou marido, Deus ainda será. Nessa hora, precisaremos crer Nele como Aquele que existe para sempre. Se O conhecermos como Aquele que é, ficaremos muito encorajados, principal- mente nas horas difíceis. Muitos cristãos O conhecem de maneira superficial, talvez somente como o Deus Todo-poderoso. Mas esse aspecto de Deus não é revelado a Moisés em Êxodo 3. Pelo contrário, a revelação aqui se refere a Deus como Aquele que é. Basta dizer que Ele é. Há horas em que é difícil seguir adiante e dizer que Ele é capaz. De semelhante modo, não há necessidade de dizer que Ele é poderoso. Basta saber que Ele é. Em Si mesmo, Ele é sempre capaz e poderoso; mas a nós Ele poderá não parecer capaz nem poderoso. Considere a experiência de Paulo. No início de seu ministério, ele curou muitas pessoas. Até mesmo os lenços que entravam em contato com ele podiam curar os outros (At 19:11-12). Mas, ao final de seu ministério, ele não experimentou tanto o poder de curar. Quando Timóteo ficou doente, ele o exortou a tomar vinho para o bem do estômago e de suas frequentes enfermidades (1Tm 5:23). Além do mais, ao ser aprisio- nado, não pediu a Deus que pusesse abaixo as muralhas nem que miraculosamente abrisse a porta como fizera a Pedro em Atos 12. Há vezes em que Deus age como o Todo- poderoso. Mas, quando estava para ser martirizado, Paulo conheceu a Deus, não como o Todo-poderoso, mas como Aquele que é. Isso lhe foi uma fonte de conforto e força. Paulo conhecia a Deus e Nele acreditava não como Aquele que era capaz de libertá-lo da prisão, mas como Aquele que existe para sempre, como Aquele que é e que sempre será. Mesmo quando Ele aparentemente nada nos fizer, ainda assim deveremos crer Nele como Aquele que é. Todos os cristãos de hoje conhecem o Deus Todo-poderoso, mas nós podemos conhecê-Lo de uma maneira mais profunda como Aquele que é.

b O Deus da Ressurreição

Também cremos em Deus como o Deus da ressurreição, isto é, cremos Nele como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Embora Deus não o libertasse da prisão, Paulo sabia que, após o seu martírio, Ele haveria de vir para ressuscitá-lo. Antes de seu martírio, desfrutava Dele como Aquele que é. Mas, depois, Dele desfrutaria como o Deus da ressurreição. O martírio simplesmente lhe ensejou a oportunidade de experimentar Deus como o Deus da ressurreição. Não deveremos procurar conhecer a Deus somente de acordo com os Seus atos miracu- losos. Na verdade, não deveremos esperar milagres. Em João 2, o Senhor Jesus não Se comprometeu com os que buscavam milagres. Precisamos conhecer a Deus como Aquele que é e como o Deus da ressurreição; precisamos conhecê-Lo como Aquele que tem existência própria, que existe para sempre e que ressuscita. Se, como chamados por Deus, desejamos levar a cabo Sua incumbência em Sua restauração, não deveremos ser aqueles que esperam milagres, mas aqueles que conhecem a Deus como Aquele que é e como o Deus da ressurreição. Ele é o "Eu Sou", e Ele é o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Além de ter a visão da sarça ardente, precisamos desta revelação de Deus. Não conheça a Deus simplesmente de acordo com o que Ele faz, mas conheça-O de acordo com o que Ele é. Se Ele nos faz ou não algo, isso nada quer dizer. O ambiente poderá mudar de maneira drástica, mas Ele ainda é. Tudo poderá flutuar, mas Ele é, e é para sempre. Nele não existe mudança. Além disso, toda situação de morte Lhe propicia uma oportunidade para ser em nossa experiência o Deus da ressurreição. Minha experiência durante os primeiros dias em Formosa o confirma. Quando para lá fui enviado pela obra, em 1949, Formosa era muito atrasada e pobre. Embora enviado para

lá, não me proveram de qualquer sustento financeiro. Por estar totalmente ocupado com a obra do Senhor, não procurei um emprego. Todavia, com recursos financeiros muito limitados, mesmo assim tinha a responsabilidade de sustentar uma grande família. Desa- nimado a princípio com a situação, tudo o que eu podia fazer era olhar em volta para os pequenos comodos e me perguntar o que estava fazendo ali. Experimentei uma mudança drástica de ambiente ao mudar do continente, lugar em que a obra florescia e onde havia centenas de igrejas, para uma ilha subdesenvolvida. Embora quase todo o exterior tivesse mudado, entretanto, o meu Deus ainda era. Nos dias que se seguiram, experimentei o que Ele nos era, e vimos Sua bênção espiritual abundante e até mesmo Sua provisão material. Minha experiência foi a mesma, em princípio, quando cheguei a este país. Não recebi auxílio financeiro da igreja em Taipé e bem pouca ajuda da igreja em Los Angeles. Os irmãos deste país pensavam que as igrejas de todos os outros lugares estavam cuidando de minhas necessidades. Nenhuma delas, todavia, me enviava nada. De onde eu recebia o sustento para minha existência? Recebia-o Daquele que é. Naqueles dias, eu vivia do maná celestial. Mas não procurei milagres, porque o Deus em que eu acreditava é Aquele que é. No meio da tempestade dos últimos meses, nada fiz, porque creio que a restauração é a restauração do Senhor. Sendo esta a Sua restauração, homem nenhum poderá causar-lhe dano. A palavra do Senhor em João 2:19 se aplica hoje: "Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei". Eu simplesmente disse: "Senhor, faze algo para confirmar que esta é a Tua restauração. Senhor, não há necessidade de eu fazer nada. Se esta fosse a minha obra, eu então precisaria fazer algo para mante-la. Mas, Senhor, esta é a Tua restauração." Como precisamos agradecer-Lhe e adorá-Lo, por haver Ele feito tanto nos últimos meses. Isso nos encoraja a confiar em Deus como Aquele que é e em Deus como o Deus da ressur- reição.

III. OS TRÊS SINAIS

A. A Vara Se Tornou Serpente

Após termos a visão da sarça ardente e chegarmos a saber quem é Deus e o que Ele é, ainda precisamos dos três sinais. O primeiro é o da vara a se tornar serpente. A serpente sutil, que envenenou Adão e Eva em Gênesis 3, é exposta em Êxodo 4. Esse sinal nos ajuda a conhecer o Diabo. Indica que qualquer outra coisa sobre a qual nos apoiamos, além de Deus, é um esconderijo da serpente. Através dos anos, aprendi que sempre que confio em algo, aí a serpente se oculta. Já enfatizamos que a vara utilizada durante muitos anos por Moisés era um esconderijo da serpente usurpadora. Ele, todavia, não o percebeu, até que, na palavra do Senhor, lançou a vara ao solo. Aí então a serpente oculta se expôs.

B. A Mão Se Tornou Leprosa

O segundo sinal é o da mão a ficar leprosa. Esse sinal se destina ao conhecimento da carne pecaminosa. Não somos apenas leprosos, mas somos a própria lepra. Isso significa que somos pecado, não somente pecaminosos. Ao morrer na cruz, Cristo não só carregou nossos pecados (1Pe 2:24), mas também foi feito pecado por nós (2Co 5:21). Porque éramos pecado, Ele foi feito pecado por nós. Todo aquele que é chamado precisa ter o conheci- mento subjetivo de que sua carne é uma carne de pecado e que nada de bom habita nela. Nossa carne é constituída de pecado, podridão e corrupção.

C. A Água Se Tornou em Sangue

Além disso, aquele que é chamado precisa perceber que o mundo está saturado de morte. Isso é revelado pelo terceiro sinal, o sinal da água a se tornar em sangue. Para as pessoas do mundo, o prazer advém do suprimento e da recreação mundanos, tipificados pelo Nilo, que regava a terra do Egito. Todavia, aos olhos do chamado por Deus, o mundo não está cheio de água viva, mas pleno do sangue da morte. O que ele tem para oferecer não é água, que sacie nossa sede, mas morte, que nos envenena e mata. Como pessoas chamadas por Deus, precisamos conhecer o Diabo, a carne e o mundo. Paulo tinha esse conhecimento tríplice. Sobre Satanás, ele dizia: "não lhe ignoramos os de- sígnios" (2Co 2:11). Com referência à carne, afirmava: "porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum" (Rm 7:18). E, com respeito ao mundo, declarava:

"O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo" (Gl 6:14). Observamos nova- mente que Paulo experimentou em realidade o que Moisés tivera em símbolo.

IV. A PARCERIA DO IRMÃO E O CORTAR DA ESPOSA

A. A Parceria do Irmão

Após tudo isso, Moisés ainda precisava da ajuda masculina e da feminina. A ajuda masculina é a da parceria. Esse tipo de ajuda nos equilibra, restringe e faz humildes. Através da parceria de seu irmão, Moisés aprendeu a permitir que os outos realizassem o que ele era capaz de fazer. Não pense que Arão fosse mais eloquente do que Moisés. Tudo o que o primeiro fez, o segundo era capaz de realizar; mas ele foi restringido de fazer assim. Na vida da igreja, o Senhor frequentemente haverá de levantar uma circuns- tância que nos forçará a permitir que os outros realizem o que podemos fazer. Esse deverá ser um princípio a reger nosso funcionamento na igreja. Se um irmão é capaz de realizar algo, deixe-o fazê-lo, ainda que você possa executá-lo melhor. Isso o tornará humilde. Vi muitos, entretanto, principalmente irmãs, a insistirem em que lhes fosse permitido reali- zarem sozinhos determinada coisa. De acordo com nossa índole natural, não queremos que os outros interfiram naquilo que realizamos. Todos, entretanto, precisamos aprender a permitir que os outros façam o mesmo que somos capazes de executar. Não creio que Arão fosse mais capaz do que Moisés. Deus, todavia, levantou soberana- mente uma situação que lhe permitiu fazer o que Moisés era capaz de realizar. Na vida da igreja, não deveremos nós mesmos executar tudo. Pelo contrário, deveremos permitir que os outros executem o que podemos realizar. Isso não quer dizer, todavia, que deveremos ser preguiçosos. Pelo contrário, quer dizer que, numa relação de parceria, somos restrin- gidos, equilibrados e nos tornamos humildes. Tal restrição é uma defesa e proteção. Nada é proteção maior em nossa vida espiritual do que a parceria dos irmãos. Quanto mais somos coordenados, mais somos protegidos.

B. O Cortar da Esposa

Em 4:24-26, verificamos que Zípora foi utilizada por Deus para levar Moisés a ser um ''esposo sanguinário". A parceria é objetiva, mas o cortar é muito subjetivo. O homem, na Bíblia, representa a verdade objetiva, ao passo que a mulher tipifica a experiência subje- tiva. Por isso a parceria de Arão foi exterior e objetiva, mas o cortar de Zípora foi interior e subjetivo.

Se quisermos ser utilizados pelo Senhor em Sua restauração, precisamos ostentar um sinal de que fomos cortados. Isso não quer dizer que deveremos alardear o corte que expe- rimentamos. Pelo contrário, significa que deveremos silenciosamente suportar esse sinal. Deixemos que os outros digam que fomos cortados. Em Êxodo 4, foi Zípora, não Moisés, quem afirmou ser ele um "esposo sanguinário". Tanto na vida da igreja quanto na vida conjugal, precisamos ser esse "esposo sangui- nário". Se um irmão foi verdadeiramente chamado por Deus, ele precisa ser cortado de maneira subjetiva. Aprendemos muito através do cortar. Às vezes, minha esposa me restringe no comer. Esse cortar me mantém saudável e me impede de afrouxar. O seu cortar auxiliador não me deixa cair em frouxidão carnal quanto ao comer. O corte, assim, impede-me de viver de acordo com a vida natural. Fora da restauração, é difícil a um grupo de cristãos permanecerem juntos por mais de quinze anos, pois ninguém está disposto a ser cortado. Em vez de corte, existe politi- cagem. Somente os que se dispõem a ser cortados podem ser úteis a Deus. Todos os úteis são um "esposo sanguinário". Diariamente, e até mesmo a toda hora, precisamos experi- mentar a circuncisão da vida natural. Não basta simplesmente nos percebermos pecami- nosos. Nossa vida natural precisa também ser circuncidada, seja pelos de nossa família, seja pelos irmãos e irmãs na igreja. Estou disposto a ser cortado. Apresento-me alegre- mente aos que me cortam. Esse cortar é o último aspecto do chamamento de Deus. Só depois de sermos cortados é que poderemos levar a cabo a Sua incumbência. Depois de cortado, Moisés realmente foi útil em Sua mão. Ao compararmos os aspectos do chamamento de Deus vistos em Êxodo 3 e 4 com o registro do Novo Testamento, notamos que tudo aquilo que Moisés experimentou, Paulo também experimentou. Além disso, tudo isso precisa ser hoje nossa experiência. Preci- samos ter a visão da sarça ardente: o Deus Triúno ardendo no interior de Seus redimidos e sobre eles. Esse é o ponto central da revelação divina nas Escrituras. Precisamos, depois, conhecer quem Deus é e o que Ele é. A seguir, precisamos conhecer o Diabo, a carne e o mundo. Posteriormente, ainda, precisamos da parceria e do corte. Se nos dispusermos à experiência subjetiva da circuncisão de nossa vida natural, então viveremos pela vida de ressurreição e nos tornaremos úteis na mão do Senhor para o cumprimento do Seu eterno propósito, estando preparados para executar a Sua incumbência. Que todos os aspectos do Seu chamamento possam ser hoje nossa experiência na restauração do Senhor.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM ONZE

O OBJETIVO DO CHAMAMENTO DE DEUS

Moisés é um tipo das pessoas chamadas hoje por Deus. Não pense, como muitos, que ele seja muito superior a nós. Diversos cristãos o consideram como o mais notável servo de Deus do Antigo Testamento, e Paulo como o maior do Novo Testamento. Comparando-se a Moisés e Paulo, eles se têm como bem inferiores. Essa atitude é errônea. O chamamento que Deus nos faz é o mesmo, em princípio, que o Seu chamamento feito a Moisés e Paulo. O que Moisés experimentou em tipo, Paulo experimentou em realidade. Hoje, tanto o tipo quanto a realidade deveriam ser também nossa experiência. No Estudo-Vida de Efésios, enfatizamos que todos os irmãos podem ser aperfeiçoados para realizarem a obra de apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Assim como um professor de matemática aperfeiçoa seus alunos para executarem o que ele pode fazer, assim também os irmãos responsáveis aperfeiçoam os santos para fazerem exata- mente as mesmas coisas que eles. Paulo era um representante dos membros do Corpo de Cristo. Não importa a grandeza dele; ele ainda era apenas um membro do Corpo. Em princípio, o que ele era capaz de fazer, todos os outros membros também deveriam ser. Isso indica que todos os membros deveriam ser chamados como ele foi. Por esse motivo, todos precisamos conhecer o objetivo do chamamento de Deus.

I. LIVRAR O POVO ESCOLHIDO POR DEUS DA MÃO USURPADORA DE FARAÓ E DA TIRANIA DO EGITO

O objetivo do chamamento de Deus é primeiramente livrar Seu povo escolhido da usur- pação e tirania de Faraó e do Egito (3:8, 17). Faraó era um tipo de Satanás, e o Egito era um símbolo do mundo. Assim como Faraó era o governante do Egito, Satanás também é o governante deste mundo (Jo 12:31). Deus ainda busca livrar o Seu povo escolhido da mão usurpadora de Satanás e da tirania do mundo. Como chamados por Deus, precisamos ter a visão clara daquilo que o mundo é. Ele não é uma fonte de gozo; é um lugar de tirania. Nele Satanás prende sob sua mão usurpadora as pessoas escolhidas por Deus, destinadas ao cumprimento do Seu propósito. Todos os aspectos do mundo são uma forma de tirania. Em Êxodo, Faraó prendia os filhos de Israel sob tirania, forçando-os a um duro trabalho. O mesmo princípio se aplica hoje. Enquanto trabalham, as pessoas sofrem sob várias formas de tirania. Até mesmo dirigir um carro para o local de trabalho numa estrada movimentada é um tipo de tirania. De semelhante modo, a competição pela promoção e o medo de perder um emprego são também tipos de tirania. Aquele que não trabalhar para Faraó no mundo, todavia, não receberá o suprimento do Nilo. Para ganhar a vida no mundo, o povo escolhido por Deus precisava servir sob a tira- nia de Faraó. Fazer compras é outra forma de tirania do mundo. Muitas jovens são mantidas sob escravidão, de maneira sutil, pelo correr atrás da última moda. Recentemente, alguns irmãos me dissseram não ter tempo para orar nem ler a Bíblia.

Chamei-lhes a atenção para o fato de terem muito tempo para telefonar e ler os jornais. Isso indica que mesmo o telefone ou os jornais podem ser meios de tirania. É fácil pregar às pessoas; mas é muito difícil conduzi-las para fora da usurpação e da tirania de Satanás e do mundo. Como observaremos, Moisés não pregou aos filhos de Israel, mas foi capaz de resgatá-los de Faraó. Hoje também precisamos ter autoridade para tirar o povo de Deus da mão usurpadora de Satanás. Um aspecto do objetivo de Deus em Seu chamamento é usar-nos para livrar outros da usurpação e da tirania de Satanás e do mundo.

II. INTRODUZIR O POVO ESCOLHIDO POR DEUS NO DESERTO, EM JORNADA DE TRÊS DIAS

Um outro aspecto do chamamento de Deus é introduzir Seu povo escolhido no deserto, em jornada de três dias (3:18). Em qualquer outro lugar da Bíblia, o termo "deserto" não é positivo. Mas, em 3:18, é utilizado num sentido positivo, porque aqui o deserto se opõe ao mundo. É o lugar de separação do mundo. Tão logo alguém seja salvo, deve ser retirado do mundo para o deserto, onde não há elemento egípcio. Quando entraram no deserto, os filhos de Israel foram libertos do Egito. No mesmo princípio, se quisermos sair do mundo, precisamos entrar no deserto. Poucos cristãos, entretanto, foram conduzidos para esse lugar. Isso significa que alguns foram salvos, mas não libertos do mundo, nem separados dele. Como jovem que estava totalmente no mundo, eu era cheio de ambição com respeito ao meu futuro. Mas, ao ser salvo, fui salvo não apenas do lago de fogo, mas também do mundo. No dia em que fui salvo, todos os elementos do mundo saíram de mim, e fui conduzido ao deserto. Precisamos orar, para que o Senhor nos dê a habilidade para conduzir Seus filhos para fora do mundo e introduzi-los no deserto. De acordo com 3:18, Moisés e os anciãos de Israel haveriam de dizer ao rei do Egito: "O Senhor, Deus dos hebreus, nos encontrou. Agora, pois, deixa-nos ir caminho de três dias para o deserto, a fim de que sacrifiquemos ao Senhor nosso Deus". Três dias, na Bíbiia, significam ressurreição. Uma salvação completa e perfeita deve envolver uma viagem de três dias, isto é, uma viagem em ressurreição. Em nossa pregação do evangelho, deve haver o poder da ressurreição. Em nossa pregação do evangelho, hoje, percebe-se a falta de impacto. As pessoas podem ouvir nossa pregação e até mesmo se arrepender e receber o Senhor; mas ainda permanecerão em seus túmulos no Egito. Precisamos ter o poder da ressurreição em nossa pregação, de modo que os outros se levantem de seus túmulos e sejam introduzidos no deserto, em viagem de três dias. Essa viagem é simbolizada pelo batismo. Todo aquele que crê em Cristo precisa ser batizado, para dar testemunho do fato de que vive no mundo e está entrando em outro reino, de ressurreição. Precisamos orar, para que o nosso ministério da Palavra tenha impacto. Não queremos dar um mero conhecimento às pessoas. Pelo contrário, desejamos que algo de nossa prega- ção toque seus corações e as leva a deixar o mundo e a caminhar para o deserto em ressur- reição.

III. CONDUZIR O POVO ESCOLHIDO POR DEUS À MONTANHA PARA SERVIR A DEUS E A ELE SACRIFICAR

Em 3:12, o Senhor disse a Moisés: "Depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus neste monte". Isso indica que o objetivo do chamamento de Deus é também conduzir

Seu povo escolhido ao monte, onde possam servi-Lo e sacrificar a Ele (3:18); 19:1-2, 11; 24:16-18). Muitos cristãos nunca entraram no deserto, nem sequer se achegaram ao monte. Foram realmente salvos, porque creram no Senhor Jesus e foram lavados em Seu sangue. Estão, ainda, contudo, no Egito. Outros saíram do Egito para o deserto, mas não chegaram

ao monte. A revelação divina referente ao propósito de Deus foi dada a Moisés no monte.

A lei foi-lhe dada lá. Também foi no monte que ele recebeu a revelação referente ao

modelo do tabernáculo. Embora a maioria dos filhos de Israel, na verdade, não tenham subido ao topo da montanha, eles, entretanto, se acamparam perto dela. Moisés, Arão e

mais de setenta pessoas subiram à montanha para se encontrar com Deus (24:1, 9).

A montanha de 3:12 diz respeito a uma elevação do deserto. Não só precisamos ser

apartados do mundo, mas, neste ambiente de separação, precisamos subir a um lugar elevado. Somente nesse nível elevado é que poderemos receber a revelação do propósito

eterno de Deus. Embora determinados pregadores possam ser eloquentes e cultos, sua pregação não tem impacto sobre nós. Após ouvirmos suas mensagens, ainda permanecemos no mesmo

reino e atmosfera de antes. A única diferença é que adquirimos alguma nova informação.

A pregação de uma pessoa que foi chamada, todavia, é diferente. Depois que a ouvimos

pregando a Palavra de Deus, não podemos permanecer os mesmos. O seu falar nos liberta do Egito, nos resgata da mão usurpadora de Satanás e da tirania do mundo. Além disso, introduz-nos no deserto, e até mesmo nos conduz à montanha. Aqui, na montanha, onde o céu é claro (ÊX 24:10), temos a visão da economia de Deus. Aqui viemos a conhecer o que está no Seu coração e enxergamos o que Ele deseja ter hoje na terra. Percebemos que Ele deseja ter um povo que ande conforme os Seus estatutos e Lhe edifique um tabernáculo, para que Ele possa habitar em seu meio.

IV. EDIFICAR UM TABERNÁCULO

O objetivo do chamamento de Deus também é edificar um tabernáculo, que seja o Seu

lugar de habitação na terra (25:8-9.40). A visão e a edificação do tabernáculo ocupam quase

a metade deste livro. Moisés recebeu a visão no monte, e lá o tabernáculo foi edificado.

Isso se destinava à viagem posterior dos filhos de Israel rumo ao alvo final, que era entrar

na boa terra e edificar lá o templo.

V. CONDUZIR O POVO ESCOLHIDO POR DEUS A CANAÃ, A BOA TERRA, QUE MANA LEITE E MEL

Se pudermos livrar as pessoas da tirania do mundo, introduzi-las no deserto e conduzi-

las ao monte, onde tenham a revelação da economia de Deus e, por fim, Lhe edifiquem um tabernáculo, certamente ficaremos satisfeitos. Com o tabernáculo, entretanto, ainda não temos a sólida edificação, que é tipificada pelo templo da terra de Canaã. Depois, se

quisermos atingir o objetivo final do chamamento de Deus, precisaremos seguir viagem e entrar na boa terrra. Quando atingiram o Monte Sinai, os filhos de Israel ainda estavam bem longe de Canaã. A distância entre o Egito e o Monte Sinai é aproximadamente um quarto da distância entre

o Egito e a terra de Canaã. Do Monte Sinai, consequentemente, o povo escolhido por Deus tinha que seguir viagem até entrar em Canaã, uma boa terra, que manava leite e mel

(3:18,17).

Já enfatizamos que em Êxodo se fazem presentes muitos tipos das realidades espirituais

encontradas no Novo Testamento. Alguns dos tipos mais familiares são a Páscoa, a tra-

vessia do Mar Vermelho, o maná e a água da rocha fendida. Muitos interpretam o símbolo da travessia do Rio Jordão de maneira errônea. Aplicam-no à morte física e à ida para uma mansão celestial. A travessia do Jordão, entretanto, não se relaciona à morte física. Quando entraram na terra de Canaã, os filhos de Israel a descobriram cheia de inimigos. Se Canaã tipificasse o céu com as mansões celestiais, então isso significaria que o céu, onde Deus habita, está repleto de inimigos. Que ridículo!

A história toda dos filhos de Israel é um tipo. Ela inclui a Páscoa, a saída, a jornada pelo

deserto, o desfrutar do maná e da água viva, a edificação do tabernáculo, a entrada na boa terra, a derrota dos inimigos e o desfrutar do rico produto da terra. Ao derrotarem seus inimigos, os filhos de Israel ganharam o terreno para o estabelecimento do reino de Deus. Por fim, depois que o reino foi estabelecido e prevaleceu, construiu-se o templo. Deus então teve um sólido lugar de habitação na terra, no centro de Seu reino.

A maioria dos cristãos prestam atenção a símbolos como a Páscoa e o maná, mas não

atentam a tipos tais como o entrar na boa terra, o desfrutar do seu rico produto, a derrota dos inimigos na terra, o estabelecimento do reino e a edificação do lugar de habitação de Deus. Muitos de nós ouvimos mensagens sobre a Páscoa, o maná e até mesmo o taberná- culo; mas nada ouvimos com referência à boa terra como tipo do Cristo todo-inclusivo. Pelos tipos, verificamos que, para estarmos no monte, a fim de receber a revelação de Deus e edificar o tabernáculo como lugar temporário de Sua habitação, tudo o que precisamos fazer é desfrutar de Cristo como o cordeiro, o pão asmo, o maná e a água viva. Mas, após ser construído o tabernáculo, os filhos de Israel tiveram que prosseguir a jornada. Para isso, precisavam de Cristo, tal como é tipificado pelo maná. Mas, ao entrarem na boa terra, o maná cessou, e eles desfrutaram do produto dela (Js 5:12). Isso indica que o produto da terra era a continuação do maná, que o desfrutar de Cristo atingira um outro estágio. O primeiro estágio era aquele do cordeiro pascal no Egito; o segundo, aquele do maná e da água viva no deserto; e o terceiro, aquele do produto da boa terra. Raramente se vê qualquer comparação entre a terra e o cordeiro. O cordeiro é pequeno, mas a terra é espaçosa e rica. Além disso, que comparação existe entre a terra e o maná? Sem dúvida, é difícil livrar o povo escolhido por Deus da mão usurpadora de Satanás e da tirania do mundo e introduzi-lo na separação do deserto. Sem dúvida, é também difícil conduzi-lo ao monte, a fim de que receba a revelação da economia de Deus. Entretanto é muito mais difícil conduzi-lo à boa terra para desfrutar das riquezas do Cristo todo- inclusivo. Em Deuteronômio 8, observamos um quadro das riquezas da boa terra. Esse quadro retrata vários aspectos dessas riquezas: fontes, mananciais, trigo, cevada, vides, figueiras, oliveiras, mel, ferro e cobre (v. 7-9). O ferro destina-se à guerra, poder, autori- dade, proteção e, finalmente, à edificação do reino e do templo. As riquezas de Cristo, tipi- ficadas pelo produto da terra de Canaã, são abordadas pormenorizadamente no livro O CRISTO TODO-INCLUSIVO. Recentemente, enquanto orava, o Senhor me repreendeu a respeito de como eu vivo pouco por Cristo. Ele enfatizou que, apesar de as igrejas estarem no caminho certo e os ir- mãos estarem mergulhando na Palavra e na oração, existe uma grande falha quanto ao viver por meio de Cristo. Há anos tenho visto que Ele vive em mim, e tenho dado muitas mensagens sobre o assunto. É fácil afirmar: "Não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2:20) e "Para mim o viver é Cristo" (Fp 1:21). Mas a nossa prática é muito deficiente. Quando o Senhor me repreendeu, arrependi-me e confessei minha falha. Daquela hora em diante, tive a sensação de que a maior necessidade na restauração do Senhor, hoje, é que todos vivamos por Cristo de maneira prática. Quanto você vive por

meio de Cristo durante o dia? Pode ser que a única hora em que você viva por Ele seja a sua hora de oração. Enquanto ora, você está na boa terra. Mas, tão logo acaba sua hora de oração, você fica fora da terra. Nós nos arrependemos de falhas tais como perder a calma, mas podemos não nos arre- pender de nossa falha ao viver por Cristo. Quantas vezes você se arrependeu diante do Senhor por não viver Cristo? Até mesmo se o nosso procedimento é excelente, ainda preci- samos confessar ao Senhor nossa falta em não viver por Ele. Poucos oram ao Senhor dessa maneira. Temos o conceito do bom comportamento, mas não temos a concepção de tomar Cristo como nossa vida e de viver por meio Dele. Em 1970, muitas mensagens foram liberadas sobre o tomar Cristo como nossa pessoa. Mas agora, quase nove anos mais tarde, quem em nosso meio realmente toma Cristo como sua pessoa? A maioria de nós ainda tem a si mesmo como pessoa. Embora tenhamos ouvido mensagens sobre o assunto, precisamos confessar que, de maneira prática, não vivemos muito Cristo. Podemos cantar: "Há um homem na glória, Sua vida é para mim", ou talvez mudar as palavras para: "Há um homem em meu espírito. Sua vida é para mim". Mas, após cantarmos esse hino, por meio de qual vida vivemos: pela vida de Cristo ou pela nossa vida natural? Nas reuniões, proclamamos que a vida de Cristo é para nós; mas, em nosso viver diário, Sua vida não é para nós. Na prática, atentamos ao bom comporta- mento, não ao viver por meio de Cristo. Em João 16:9, o Senhor Jesus disse que o Espírito convenceria o mundo do pecado, "porque não crêem em mim". Isso indica que não crer no Senhor é o único pecado. Deus nos ordena crermos em Seu Filho. Qualquer pecador que se recuse a fazê-lo viola o mandamento de Deus. Assim não há necessidade de quebrar os dez mandamentos a fim

de se perder. Simplesmente a recusa de obediência ao mandamento de Deus no sentido de

crer em Cristo levará alguém a perecer. Além desse mandamento acerca de crer, Deus nos ordena aos que crêem em Cristo que vivamos por Cristo. Para um pecador, não crer em Cristo é cometer pecado. Para um cristão, não viver por Cristo é também cometer pecado. Em Sua economia, Deus deseja que Cristo seja nossa vida e nosso tudo, de modo a poder Ele ter a vida da igreja. Mas, em vez de nos preocuparmos com Cristo, preocupamo-

nos com outras coisas, como, por exemplo, bom comportamento. Isso é desobediência, até mesmo rebelião. Deus quer Cristo, mas nós buscamos o bom comportamento. Por essa razão, a vida da igreja na restauração do Senhor ainda não é tão rica nem prática. Para que ela seja rica e prática, Cristo precisa ser vivido por nós. Ao ouvirem falar da necessidade de viver Cristo, alguns poderão perguntar como viver por meio Dele. Admito que seja muito difícil viver por Cristo. Uma razão para essa difi- culdade é que, em vez de buscar o próprio Cristo, buscamos a santidade, a vitória ou a espiritualidade. Por isso, até a nossa busca espiritual constitui um obstáculo para viver Cristo. Queremos ser santos e vitoriosos sobre o nosso pecado que perturba, ou sobre algum elemento negativo de nosso ambiente. Além disso, desejamos ser espirituais. Entre- tanto, embora desejemos santidade, vitória e espiritualidade, não desejamos viver Cristo.

A intenção de Deus é que Cristo seja formado dentro de nós. Mas a nossa intenção é

desenvolver a nossa própria santidade ou espiritualidade. Isso é rebelião contra a economia de Deus. Mesmo se formos bem sucedidos, sendo santos ou espirituais, essa santidade ou espiritualidade ainda será rebelião. Ainda um jovem cristão, busquei meios de ser espiritual, vitorioso, santo e cheio do Espírito. Li livros que me diziam como ser assim e coloquei em prática todas as sugestões, tndavia desapontado, porque nenhuma das sugestões funcionou. Percebi, mais tarde, que

o próprio Cristo é o caminho para ser santo, vitorioso e espiritual. Se tivermos Cristo, teremos a santidade, a vitória e a verdadeira espiritualidade. Se tentarmos por nós mesmos tratar com nosso temperamento, seremos derrotados. Mas, se vivermos Cristo, nosso temperamento não nos será problema.

Embora tenhamos ouvido muito sobre viver Cristo, não praticamos em nosso viver diário o que temos ouvido. Pelo contrário, tentamos aperfeiçoar nosso comportamento. Se ficamos empolgados, devemos ficar empolgados para viver por meio de Cristo. O desejo de Deus é que entremos na boa terra. Precisamos estar empolgados, de modo a podermos prosseguir, para entrar na boa terra, para laborar nela, e para desfrutar do seu rico produto. Deus quer apenas Cristo; não quer o nosso zelo, comportamento ou ética.

Já dissemos que a terra de Canaã é um tipo de Cristo. Esse tipo, entretanto, ainda não

foi cumprido na experiência dos cristãos. Os tipos da Páscoa e do maná já o foram na experiência de milhares deles. Mas, embora muitos desfrutemos de Cristo como o maná, bem poucos desfrutam Dele como sua boa terra. Precisamos perguntar-nos se nós, nas igrejas locais, estamos realmente desfrutando de Cristo como a boa terra. Será que

conhecemos os montes e vales de Cristo? Será que experimentamos o trigo, a cevada e os minerais de Cristo? Todos esses Seus aspectos precisam ser cumpridos de maneira prática. Se considerarmos a boa terra e todas as suas riquezas como tipo pleno de Cristo, percebe- remos que precisamos da experiência Dele.

A diferença entre a igreja e uma organização social é que a igreja é uma entidade consti-

tuída de Cristo. Se O tivermos, então teremos a realidade da igreja. Mas, se não O tivermos, seremos então, na prática, uma organização social. Por nos faltar a experiência de Cristo, aparentemente poderemos estar praticando a vida da igreja; mas, na verdade,

estaremos desfrutando de uma vida social natural. Desejo enfatizar novamente que o propósito do chamamento de Deus não é apenas tirar

o Seu povo do Egito e conduzi-lo para o deserto e para o monte. Tampouco é apenas ter a

edificação do tabernáculo no deserto. O Seu propósito é introduzir o Seu povo em Cristo como a boa terra. Como chamados por Deus, precisamos ver que o objetivo do Seu chama- mento não é somente salvar as pessoas do mundo. Este é somente o aspecto negativo. Em última análise, o objetivo do Seu chamamento é introduzir o Seu povo na boa terra, de modo a poderem eles desfrutar de Cristo em Sua toda-inclusividade. Deus então será capaz de estabelecer o Seu reino (19:6; 2Sm 5:12; 7:12, 16; Rm 14:17). Além disso, ao intro- duzir o Seu povo escolhido na boa terra, Deus será capaz de ter um lugar de habitação edificado na terra (2Sm 7:13; Ef 2:20-22; 4:12). Precisamos ajudar os outros a experimenta- rem de Cristo em todas as Suas insondáveis riquezas, de modo a poder Deus ser capaz de estabelecer Seu reino e ter hoje o Seu lugar de habitação. Exatamente esse ponto é abordado por Paulo em Gálatas, Efésios, Filipenses e Colos- senses. Esses quatro livros revelam Cristo não apenas como o cordeiro, mas também como Aquele que é todo-inclusivo, isto é, como a terra todo-inclusiva. Colossenses 3:11 até diz que "Cristo é tudo e em todos". Essa palavra, sem dúvida, fala da toda-inclusividade de Cristo. Em 1 Coríntios, observamos a Páscoa e a travessia do Mar Vermelho; mas, em Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses, verificamos a terra todo-inclusiva. Efésios e Colossenses mencionam os principados e as potestades dos lugares celestiais. Nesses livros, é nos lugares celestiais que desfrutamos de Cristo como a boa terra. Também é lá que os principados e as potestades malignas, tipificados pelos povos perversos da terra de Canaã, hão de ser derrotados. Hoje, tais poderes malignos estão no ar. Nós, os chamados, precisamos libertar as pessoas do mundo e introduzi-las nos lugares celestiais, para tratar com os principados e as potestades. Quando os filhos de Israel

estavam comendo o cordeiro pascal, os egípcios foram tratados. Mas, após entrarem na boa terra, não lutaram os israelitas contra os egípcios, mas contra as nações da terra. Em tipologia, tais nações não são os povos do mundo, mas são os poderes malignos das trevas, os governantes perversos, os principados e as potestades do ar. Esses poderes, que ocupam os lugares celestiais, procuram impedir-nos de desfrutar das riquezas do Cristo todo-inclusivo. Por essa razão, para desfrutarmos de Cristo em Sua toda--inclusividade, precisamos derrotar os principados, os governos, os poderes e as autoridades dos lugares celestiais. Deus nos chamou com um objetivo. Esse objetivo é utilizar-nos para livrar as pessoas da tirania do mundo de hoje, conduzindo-as ao deserto, a um lugar de separação. Também é levá-las ao monte, onde possam ter a revelação da economia de Deus e o modelo do tabernáculo, de modo que este possa ser edificado. Além disso, é introduzi-las na boa terra, rica e todo-inclusiva, para derrotar o inimigo de Deus e desfrutar das riquezas de Cristo. Deus então será capaz de estabelecer o Seu reino, onde terá o Seu lugar de habi- tação na terra. Todos esses pontos são inteiramente desenvolvidos em Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses, quatro livros que constituem o coração da Bíblia. Tanto Moisés quanto Paulo foram chamados para esse propósito, e nós também o fomos. Precisamos conduzir as pessoas por todo o caminho, desde o mundo até ao Cristo todo-inclusivo, para o reino e a edificação de Deus. Oh, que nossa compreensão da Palavra de Deus possa ser elevada nestes dias! O que Deus deseja não é apenas o tabernáculo com o deleite inicial de Cristo como o cordeiro, maná e água viva, mas o templo com o rico gozo de Cristo como a terra todo-inclusiva. Dia a dia, precisamos exprimentar Cristo de maneira prática, como nossa vida e como nossa pessoa. Ele deverá ser-nos não apenas o maná, mas também todas as riquezas da boa terra. O que precisamos hoje, para o cumpri- mento do propósito de Deus, é a experiência genuína de Cristo como a boa terra de Canaã.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM DOZE

OS TRÊS ESTÁGIOS DO CUMPRIMENTO DO PROPÓSITO DE DEUS

Consideraremos, nesta mensagem, os três estágios do cumprimento do propósito de Deus, como Êxodo 3 menciona. No chamamento de Deus, o povo escolhido foi direcio- nado para três estágios diferentes. O versículo dezoito registra que os filhos de Israel deviam fazer "caminho de três dias para o deserto". No versículo doze, o Senhor disse a Moisés: "Eu serei contigo; e este será o sinal de que eu te enviei: depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus neste monte". Finalmente, nos versículos oito e dezessete, o Senhor prometeu a Moisés que tiraria os filhos de Israel do Egito para uma terra que manava leite e mel. Por isso, os três estágios abordados neste capítulo são o deserto, o monte e a terra.

I. AO DESERTO

Muitos mestres cristãos já enfatizaram a importância da experiência dos filhos de Israel no deserto, interpretam, todavia, o deserto como lugar de teste e provação. Embora em todo lugar da Bíblia o deserto tenha esse significado, tal não ocorre em 3:18. Aqui, o deserto indica um lugar de separação do mundo. De acordo com 3:18, os filhos de Israel deveriam fazer uma jornada de três dias deserto adentro, de modo a poderem sacrificar ao Senhor seu Deus. Era impossível ao Seu povo sacrificar a Ele no Egito. Para O servirem assim, precisavam estar num lugar de separação.

O deserto estava separado do Egito pelo Mar Vermelho. A travessia do Mar Vermelho é

um tipo do batismo. Após crermos no Senhor Jesus e tomá-Lo como nossa Páscoa, fomos batizados. Assim, a água do batismo nos separa do mundo e nos introduz no deserto,

onde podemos servir a Deus. Muitos salvos, contudo, ainda não foram libertados para o interior do deserto. Isso significa que, embora tenham sido salvos, não foram apartados do mundo.

O deserto, lugar de separação do mundo, é o primeiro estágio da libertação do Egito,

que Deus propicia ao Seu povo escolhido. Nossa experiência o testifica. Antes de sermos salvos, estávamos muito ocupados com as coisas do mundo. Mas a salvação de Deus nos libertou dessa preocupação e nos introduziu no deserto. Todos os corretamente salvos devem ter esse tipo de experiência. Vê-se isso tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. A única diferença é que o Antigo Testamento apresenta o tipo, a figura, ao passo que o Novo Testamento apresenta a realidade espiritual em palavras. Porque frequentemente nos é difícil aprender as coisas espirituais do Novo Testamento, Deus, em Sua sabedoria, utiliza as figuras do Antigo Testamento, para ajudar-nos a compreendê-las. A história dos filhos de Israel é um retrato da salvação plena de um cristão. A Páscoa, por exemplo, é um tipo de Cristo. Em 1 Coríntios 5:7, Paulo afirma: "Cristo, nosso cordeiro pascal, foi imolado". Além disso, em 1 Coríntios 10:1 e 2, ele indica que a travessia do Mar Vermelho é um tipo do batismo. E mais: o maná e a água da rocha fendida também são tipos de Cristo (1Co 10: 3-4). Não é difícil enxergar o significado desses tipos; dificilmente, entretanto, algum cristão percebe que a boa terra é também um tipo de Cristo. Por isso muitos consideram somente o estágio

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inicial da história dos filhos de Israel como tipo. Como agradecemos ao Senhor por mostrar-nos que toda a história dos israelitas é um retrato de nossa salvação.

Os filhos de Israel saíram do Egito e entraram no deserto através do desfrutar da Páscoa

(12:11, 31:41) e do batismo no Mar Vermelho (14:21-30). A Páscoa lhes foi um deleite; desfrutaram do cordeiro, do pão asmo e das ervas amargas. O suprimento recebido através desse desfrutar fortaleceu-os para saírem do Egito. Além disso, o batismo no Mar Vermelho os libertou dos egípcios. Isso indica que, por meio de Cristo como Cordeiro pascal e por Sua morte, somos apartados do mundo e introduzidos no deserto, o primeiro estágio do cumprimento do propósito de Deus.

II. AO MONTE

O segundo estágio é o monte (3:12; 19:1-2,11; 24:16-18), onde os filhos de Israel

receberam a revelação concernente a Deus e ao tabernáculo. Estiveram eles no Egito sob trevas por centenas de anos, num lugar onde não havia luz, nem palavra, nem falar de Deus. Mas agora, sob a luz, deveriam eles viver de acordo com a revelação de Deus e edificar o tabernáculo de acordo com o padrão por Ele revelado. Os filhos de Israel foram conduzidos ao monte pela árvore que tornou doce a água amarga (15:23-25), pelas doze fontes de Elim (15:27), pelo maná do céu (16:14-15, 31-32, 35), pela água viva da rocha fendida (17:6) e pela vitória sobre Amaleque (17:8-16). Quando chegaram a Mara, os israelitas "não puderam beber as águas de Mara, porque eram amargas" (15:23). Porque o povo murmurou contra ele, Moisés clamou ao Senhor, "e o Senhor lhe mostrou uma árvore; lançou-a Moisés nas águas, e as águas se tornaram doces" (15:25). Essa árvore tipifica Cristo e Sua cruz. Os filhos de Israel prosseguiram até Elim, onde havia doze fontes (15:27), e acamparam ao lado das águas. Quando cami- nharam para além de Elim, murmuraram novamente; desta vez, porque não tinham comida. Deus lhes satisfez as necessidades, enviando-lhes o maná, o pão celestial, para sustentá-los. De semelhante modo, ao murmurarem eles por não haver água, Deus fez

brotar água viva da rocha fendida (17:1-6). Todos esses itens tipificam os vários aspectos de Cristo como nosso suprimento de vida, como o próprio suprimento que Deus utiliza para conduzir-nos ao monte. Nós, nas igrejas locais, podemos testificar que fomos supridos pela água doce, pelas doze fontes de Elim, pelo maná celestial e pela água viva que mana da rocha fendida. Não era para o povo escolhido por Deus permanecer no monte, no deserto. A Sua intenção era que prosseguissem rumo à boa terra. De semelhante modo, hoje não deve- remos permanecer no deserto nem no monte. Pelo contrário, deveremos considerar ambos como lugares temporários de estada. O nosso destino definitivo é a boa terra. Em sua experiência, poucos cristãos chegaram ao monte. Muitos de nós podemos testificar que, antes de entrarmos para a vida da igreja, não estivemos no monte, no lugar da revelação. A maioria dos irmãos na restauração do Senhor, entretanto, chegou ao monte do deserto. Por um lado, é uma experiência maravilhosa estar no monte; por outro, é motivo de sofrimento permanecermos lá por longo período. Alguns que têm estado em Cristo por muitos anos, não avançaram além do estágio do monte. No décimo quarto dia do primeiro mês, os filhos de Israel celebraram a Páscoa no Egito, e, ao terceiro mês, chegaram ao monte (19:1). Permaneceram lá por aproximada- mente nove meses. No primeiro dia do ano seguinte, o tabernáculo foi edificado e preenchido pela glória (40:17, 34). Isso indica que não é normal permanecer no monte por tempo muito longo. Muitos de nós, na restauração do Senhor, enxergamos a revelação do

monte e compartilhamos com outros a edificação do tabernáculo. Embora maravilhoso, isto apenas é maravilhoso de maneira temporária. Se considerarmos o quadro dos filhos de Israel no deserto, notaremos que somente dois daqueles que saíram do Egito Josué e Calebe entraram na boa terra. Todos os outros, inclusive Moisés, Arão e Miriã, morreram no deserto. Para eles, o deserto não foi só um lugar de separação, mas também um lugar de teste e provação. Antes de os filhos de Israel chegarem ao monte, o deserto era positivo, porque era apenas um lugar de separação. Mas, depois do monte, o deserto se tornou um lugar de teste e provação, por causa da sua incredulidade. Quando estavam no monte, os israelitas receberam a revelação acerca do que Deus é. Não considere a lei simplesmente como alguns mandamentos. Ela era um testemunho, uma definição, uma descrição e a explicação do que Deus é. Por meio dela podemos conhecer o próprio Deus. Este exigia que o Seu povo escolhido vivesse de acordo com essa revelação de Si mesmo. Assim, no monte, Moisés recebeu uma revelação tanto do que Deus é quanto do tipo de vida que o povo de Deus deveria viver. Por ser Ele santo, justo e amável, Seu povo deveria viver uma vida caracterizada pela santidade, justiça e amor. Os capítulos 2024 de Êxodo revelam que Ele é minucioso em Sua santidade, justiça e outros atributos divinos. O Seu povo deve viver uma vida que corresponda a esses Seus atributos minuciosos. Essa revelação só pode ser tida no topo do monte. É no topo do monte que o povo de Deus também pode ter a revelação do desejo do coração de Deus. Aqui observamos que Deus quer que vivamos de acordo com o que Ele

é, pois o desejo de Seu coração é ter um lugar de habitação na terra. O tabernáculo foi

erigido como cumprimento temporário desse desejo. Antes de sua construção, uma revelação pormenorizada de seus aspectos foi dada a Moisés nos capítulos 2531. Os capítulos restantes abordam a experiência dos filhos de Israel no monte e falam da edifi-

cação do tabernáculo. No monte, verificamos a vida da igreja tipificada pelo tabernáculo.

A vida da igreja que temos hoje não é a vida da igreja de templo; pelo contrário, é a vida

da igreja que se move, o tabernáculo. Este não tem assoalho nem alicerces, mas foi erigido na terra. O templo edificado na boa terra, pelo contrário, tinha uma sólida fundação. Nenhum versículo do Novo Testamento diz que a igreja é edificada com madeira. Pelo contrário, tanto Paulo quanto Pedro dizem que ela é edificada com pedras (1Co 3:12; 1Pe 2:5). Isso indica que o tabernáculo, um tipo da igreja, era o lugar temporário da habitação de Deus. O seu lugar permanente de habitação deveria ser o templo edificado na terra de Canaã. Muitos cristãos, entretanto, não atingiram ainda o estágio do tabernáculo, a vida da igreja temporária, e muito menos o estágio da edificação sólida.

III. À BOA TERRA

Por ser o tabernáculo simplesmente o lugar temporário da habitação de Deus, não deve- remos ficar satisfeitos com a vida da igreja nesse estágio. Precisamos continuar até ao

estágio representado pelo templo da boa terra. No Antigo Testamento, o templo substituiu

o tabernáculo. Por fim, os utensílios existentes no tabernáculo foram transferidos para o

templo. Assim, o tabernáculo do deserto era o edifício temporário, mas o templo da boa terra era o edifícío definitivo. Por essa razão, os filhos de Israel precisaram prosseguir, do deserto até à boa terra. Se eu estivesse no meio deles, em Êxodo 40, ficaria plenamente satisfeito com a edificação do tabernáculo. O objetivo final de Deus, entretanto, ainda estava distante.

Ainda restavam para percorrer três quartos do caminho. Por esse motivo, os filhos de Israel tiveram que seguir viagem até ao terceiro estágio e entrar na boa terra.

A. Através da Arca Com o Tabernáculo

Analisamos os fatores que conduziram os filhos de Israel ao deserto e os levaram ao monte do deserto. Precisamos agora considerar o meio que os introduziu na boa terra. Esta

é a arca com o tabernáculo (Js 3:3, 6, 8, 13-17; 4:10-19). Quando os filhos de Israel entraram na boa terra, a arca entrou no Jordão, e as águas pararam. Antes dessa hora, eles tinham a arca como meio, mas não tinham a fé para utilizá-lo. Porém, ao final de seus anos de jornada pelo deserto, aplicaram a arca dessa maneira. Isso indica que hoje, na vida da igreja, Cristo como arca deve ser o meio pelo qual entramos em Cristo como a boa terra. De qual tipo de Cristo você desfruta? Você desfruta Dele simplesmente como o cordeiro pascal, como o pão asmo, como o maná e como a rocha que jorra água viva; ou você desfruta Dele como a boa terra? Colossenses 2:6 diz: "Ora, como recebestes a Cristo Jesus,

o Senhor, assim andai nele". Se o nosso Cristo é apenas o cordeiro pascal, o maná e a rocha que jorra água viva, como poderemos andar Nele? Se quisermos andar Nele, precisamos experimentá-Lo como a terra espaçosa. A experiência de Cristo no meio dos cristãos é de- ficiente; poucos O experimentam como a boa terra. Verificamos que os filhos de Israel desfrutaram do cordeiro pascal, do pão asmo, do maná e da rocha com a água viva. Deus, entretanto, não prometeu a Abraão que daria tais coisas aos seus descendentes. Deus prometeu dar-lhes a boa terra. De acordo com Gálatas

3, a bênção da terra prometida a Abraão é o Espírito. A bênção da terra, esse Espírito, é o Deus Triúno, que foi processado através da encarnação, crucificação e ressurreição, para tornar-Se o Espírito todo-inclusivo que dá vida. Esse Espírito é a bênção prometida pela fé aos descendentes de Abraão. Abraão tem dois tipos de descendentes: os descendentes pela carne e os descendentes pela fé. Os descendentes pela carne são a nação de Israel, e os descendentes pela fé são os que crêem em Cristo. Aos descendentes pela carne, a boa terra é um lugar palpável; mas, aos descendentes pela fé, a boa terra é uma realidade espiritual: Cristo como o Espírito todo-inclusivo. Sou grato ao Senhor, porque em todas as igrejas, na Sua restauração, existe a arca com o tabernáculo. A arca e o tabernáculo tipificam Cristo com a vida da igreja móvel e tempo- rária. Cristo como nossa vida da igreja é o meio pelo qual entramos no Cristo todo- inclusivo, tipificado pela terra de Canaã. Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses mostram-nos Cristo e a igreja na boa terra. Em 1 Coríntios, todavia, temos a igreja no monte. Esse livro fala da Páscoa e do batismo no Mar Vermelho, pelo qual somos libertos do Egito e introduzidos no deserto. Também nos fala de beber da rocha espiritual, um dos meios que nos conduzem ao monte. Isso indica que Cristo e a igreja, como revela 1 Coríntios, estão relacionados ao monte do deserto. Muitos de nós passamos por esse estágio. O meu encargo nesta mensagem é enfatizar que não há necessidade de vagarmos pelo deserto com a arca e o tabernáculo. Anos atrás, alguns de nós fomos apartados do mundo

e entramos no deserto. Depois, então, subimos ao monte, onde tivemos a visão de Deus,

da vida de Seu povo e do lugar de Sua habitação. Também erigimos o tabernáculo ao pé do monte. Somos, assim, cristãos com a vida da igreja, pelo menos na forma móvel e temporária: o tabernáculo. Precisamos, entretanto, prosseguir, cruzar o Rio Jordão e entrar na terra de Canaã.

B. Através do Sepultamento no Rio Jordão

O povo escolhido por Deus teve que cruzar duas porções de água: o Mar Vermelho, que

trata com o mundo, e o Rio Jordão, que trata com o "ego". As forças do mundo, tipificadas por Faraó e seu exército, foram sepultadas no Mar Vermelho. Mas doze pedras, represen- tando o velho "ego" dos filhos de Israel, foram sepultadas no Jordão (Js 4:1-9, 20). O que nos impede de entrar no Cristo todo-inclusivo não é o mundo é o "ego". Ele precisa ser sepultado no Jordão. O que capacita o "ego" a ser sepultado é a arca. As doze pedras não foram sepultadas no rio antes de a arca entrar. Pelo contrário, a arca primeiramente entrou no rio. Isso indica que Cristo com a vida móvel da igreja é o meio pelo qual entramos no Cristo todo-inclusivo. A vida da igreja que temos hoje não é o templo, mas o tabernáculo: a vida da igreja que ainda é móvel. Mas até mesmo essa vida da igreja é um meio de entrar na boa terra. Posso testificar que Cristo em tal vida móvel da igreja me ajudou grande- mente a entrar no Cristo todo-inclusivo.

C. Através da Circuncisão

Após entrarem na boa terra, havendo cruzado o Jordão, os filhos de Israel foram

circuncidados, isto é, sua carne foi cortada (Js 5:2-4). Assim, o "ego" foi sepultado no rio, e

a

carne foi cortada pela circuncisão. A vida da igreja com Cristo nos ajuda tanto a sepultar

o

"ego" quanto a cortar a carne.

D. Para Desfrutar as Riquezas da Boa Terra

Após o sepultamento e a circuncisão, os filhos de Israel começaram a desfrutar das riquezas da boa terra (Dt 8:7-10; Js 5:10-12). Naquela época, o maná cessou e foi substituído pelo produto da terra. Através do rico deleite da terra todo-inclusiva, o povo de Deus foi fortalecido para lutar contra o inimigo de Deus e estabelecer o Seu reino. Nesse reino, o templo foi edificado.

O Antigo Testamento revela dois estágios da vida da igreja: o do tabernáculo e o do

templo. A nossa vida de igreja hoje pode não estar ainda no estágio do templo, mas permanece no estágio do tabernáculo. A razão disso é que a maioria de nós ainda não anda em Cristo como a boa terra. Podemos testificar que Ele é o nosso cordeiro, o nosso pão asmo, o nosso maná, a nossa rocha com a água viva. Mas precisamos continuar, para experimentar Dele como a nossa terra espaçosa. Deveremos não só comer Dele, mas também andar Nele. As principais dificuldades para se entrar no Cristo todo-inclusivo não são o mundo nem o pecado, mas o "ego" e a carne. O mundo e o pecado são tratados nos dois primeiros estágios. Mas ainda precisamos de um sepultamento para tratar com o "ego" e de uma circuncisão para tratar com a carne. Se formos absolutos em continuar com o Senhor, estaremos, por fim, dispostos a ter o nosso "ego" e a nossa carne tratados. Tais tratamentos, contudo, não chegam facilmente. É principalmente difícil aos jovens sepultarem o "ego" e cortarem a carne. Na reunião, podemos declarar: "Para mim, o viver é Cristo"; mas, depois dela, vivemos no "ego" e na carne. Podemos proclamar: "Não mais eu, mas Cristo vive em mim". Isso, todavia, pode se tornar um mero ensinamento, porque em nosso viver diário estamos cheios do "ego". O "ego" e a carne nos impedem de experimentar a boa terra. Verifique novamente a figura do Antigo Testamento e repare que os filhos de Israel não desfrutaram do produto de Canaã enquanto não foi sepultado o "ego" nem cortada a

carne. Mas, tão logo tais coisas foram tratadas, eles começaram a desfrutar do rico produto da terra. Foram as riquezas da terra, não o maná do deserto, que os capacitaram a com- bater os inimigos na boa terra.

E. A Luta na Terra

Depois de entrarem na boa terra, os filhos de Israel tiveram que derrotar os cananeus, os inimigos que a ocupavam. Tais inimigos tipificam os principados e as potestades do ar, que procuram impedir-nos de desfrutar do Cristo todo-inclusivo. Em nosso interior, somos atribulados pelo "ego" e pela carne; e, acima de nós, no ar, estão os poderes malignos das trevas. Quando sepultamos o "ego" e circuncidamos a carne, os poderes das trevas do ar são expostos. O "ego" e a carne ajudam os poderes malignos. Na verdade, se ainda estivermos no "ego" e na carne, os principados e as potestades nada precisarão fazer para nos impedir, pois já estaremos sendo impedidos pelo "ego" e pela carne. Entretanto, tão logo tratemos com o "ego" e com a carne, as potestades das trevas virão para nos fazer guerra. Aí, então, precisaremos aprender a travar a batalha espiritual. A guerra espiritual se faz na boa terra, com o sustento do rico produto de Cristo. Já enfatizamos que a boa terra nos é hoje o Deus Triúno, processado para tornar-Se o Espírito todo-inclusivo. O Deus Triúno não é apenas o nosso Criador, Redentor, Salvador, Amo e Senhor: Ete também é o Espírito que dá vida, todo-inclusivo. Através da encar- nação, do viver humano, da crucificação e da ressurreição, Cristo, a incorporação do Deus Triúno, foi processado para tornar-Se o Espírito que habita dentro do Seu povo escolhido. Assim, o Deus Triúno chega até nós hoje como o Espírito que dá vida. Esse Espírito maravilhoso agora está em nosso espírito (Rm 8:16). Primeira Coríntios 6:17 afirma que aquele que se uniu ao Senhor é um espírito. Por isso o Novo Testamento nos ordena andarmos no espírito (Gl 5:16,25; Rm 8:4). Esse é o mandamento final. Não andar em Cristo é o maior pecado que um cristão pode cometer contra Deus. Se não anda em Cristo, você é rebelde, ainda que possa ser muito virtuoso. Porque o desejo de Deus é que Cristo viva e seja expresso através de nós, até mesmo nossa virtude natural é uma forma de rebelião contra Deus e Sua economia. Todos temos confessado ao Senhor nossos pecados, fracassos e erros. Mas você alguma vez pediu a Ele que lhe perdoasse por não viver por meio de Cristo? Poucos cristãos oraram desta maneira: "Senhor, perdoa-me por não tomar-Te como minha vida hoje. O meu comportamento foi muito bom, mas não vivi por Ti nem Te tomei como minha pessoa. Senhor, perdoa-me por estar em rebelião contra Ti. Tu quiseste viver através de mim; mas, pelo contrário, eu vivi de acordo com algo além de Ti. Vivi pela minha opinião, não pela Tua revelação. De acordo com essa revelação, deveria andar em Ti. Mas durante todo o dia, Senhor, não andei em Ti, absolutamente." Posso testificar que, principalmente nesses últimos tempos, tenho feito esse tipo de confissão ao Senhor quase que diariamente. É fácil ficar concentrado em muitas coisas além do próprio Cristo. Podemos nos concen- trar na religião, na ética, na moralidade ou na virtude, mas não estaremos concentrados em Cristo. Se o nosso comportamento é pobre, sentimo-nos arrependidos e pesarosos. Mas, se não vivemos por Cristo, podemos não ter percepção disso nem sentir necessidade de confessar. De acordo com João 16, o único pecado de um não-cristão é não crer em Cristo. Mas o pecado primário de alguém que crê é não andar em Cristo. O Novo Testamento não nos ordena andarmos de acordo com determinado ensinamento ou doutrina especial. Mas ordena-nos andar em Cristo, ou no espírito. Em Gálatas 5:25, Paulo diz: "Se vivemos no Espírito, andemos também no espírito". Em Romanos 8:4, ele afirma

que os requisitos de justiça da lei são cumpridos por aqueles que andam de acordo com o espírito. O espírito, aqui em Romanos 8, é o espírito amalgamado: o Espírito todo-inclu- sivo e o nosso espírito. Não pense que a terra de Canaã esteja muito longe e que você precisa ainda vagar por

anos, antes de entrar nela. Pelo contrário, a boa terra está dentro de nós, porque ela é o Deus processado, o Espírito que dá vida todo-inclusivo habitando em nosso espírito. Como Calebe, em Números 13:30, precisamos crer e declarar que, através da vida da igreja, com Cristo, somos suficientemente capazes de possuir essa boa terra. Lembre-se de que a arca com o tabernáculo é o meio pelo qual podemos entrar na boa terra. Louvado seja o Senhor, porque temos desfrutado da Páscoa, da água doce, do maná

e da água viva que sai da rocha fendida. Também O louvamos, porque no monte tivemos

a visão de Deus e de Sua economia, e edificamos o tabernáculo, a vida temporária da

igreja. Assim, todos temos a arca com o tabernáculo: Cristo com a vida móvel da igreja, como o meio pelo qual entramos na terra. Por causa desse meio, podemos ter a ousadia de entrar em nosso espírito, para desfrutar do Espírito todo-inclusivo como a boa terra. Esqueçamo-nos da religião, da filosofia, da ética e até mesmo da busca espiritual, e preocupemo-nos com Cristo e com ter contato direto com Ele em nosso espírito. Precisa- mos aprender a nada fazer nem nada dizer apartados de Cristo. Em João 15:4, o Senhor falou: "Habitai em mim, e eu habitarei em vós" (grego). No versículo seguinte, Ele con- tinuou: "Sem mim, nada podeis fazer". Precisamos ter o nosso viver e o nosso ser em Cristo como a boa terra. Ele é tanto o centro quanto a circunferência, tanto a centralidade quanto a universalidade. Como boa terra, Ele é tudo para nós. O nosso objetivo final deve ser passar pelo deserto e pelo monte, rumo à boa terra. Entremos nela, para possuirmos o Cristo todo-inclusivo e desfrutar de Suas insondáveis riquezas, a fim de que o reino de Deus possa ser estabelecido, e o templo possa ser edificado.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM TREZE

A EXIGÊNCIA DE DEUS E A TEIMOSIA DE FARAÓ

( 1 )

Com esta mensagem, iniciaremos as considerações referentes à questão da exigência de Deus e da teimosia de Faraó. Essas duas atitudes resultaram em muitos conflitos, registra- dos do capítulo cinco ao quatorze de Êxodo. Nesta mensagem, analisaremos o primeiro deles.

I. O PRIMEIRO CONFLITO

A. A Exigência de Jeová o Deus de Israel, o Deus dos Hebreus Feita a Faraó

Êxodo 5:1 diz: "Depois foram Moisés e Arão e disseram a Faraó: Assim diz Jeová, Deus de Israel: deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto" (hebraico). Nesse versículo, observamos um título importante de Deus: Jeová, Deus de Israel. No versículo três, Ele Se intitula "Deus dos hebreus". Por esse motivo, a exigência feita a Faraó foi realizada por Jeová, o Deus de Israel, o Deus dos hebreus.

Já enfatizamos que em hebraico o título "Jeová" é uma forma do verbo "ser". Isso indica

que Jeová é o único ser auto-existente. Ele é Aquele que era, que é e que há de ser. Somente

a Ele o verbo "ser" pode ser aplicado em sentido absoluto. Só Deus é; nós e todas as outras coisas não somos. Em 6:3, Deus afirma: "Apareci a Abraão, a Isaque, e a Jacó, como o Deus todo-suficiente; mas pelo meu nome, JEOVÁ, não lhes fui conhecido" (hebraico). Deus Se revelou pela primeira vez como Jeová em Êxodo 3. Abraão, Isaque e Jacó não receberam essa Sua revelação. Em 5:1, Deus também é chamado de Deus de Israel. Esse título difere de "Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó", título que pressupõe Deus como Deus de ressurreição. O título "Deus de Israel" mostra-O Deus de um povo transformado. Jacó era

o nome de um homem natural, mas Israel era o nome de um homem transformado. Por

nascimento, Jacó não recebeu o nome de Israel. Pelo contrário, foi chamado de Jacó, que

significa "segurador de calcanhar", "suplantador". Mas, ao longo do curso de sua vida, ele foi transformado, e Deus, por fim, mudou-lhe o nome para Israel. Esse nome implica vitória e realeza. Por um lado, as pessoas transformadas são vitoriosas, por outro, são reis. Mesmo quando os filhos de Israel estavam em situação terrível no Egito, Deus ainda os conside-rava Israéis, não Jacós. Aos Seus olhos, o Seu povo escolhido já havia sido transformado em pessoas vitoriosas e reis.

O mesmo princípio se aplica à maneira como Deus vê hoje a igreja. Aos Seus olhos, ela

já é gloriosa. Contudo, se nossos olhos forem postos em nossa condição espiritual, podere- mos considerar-nos como extremamente dignos de pena. Poderemos ver-nos como Jacós, não como Israéis. Todavia, quando Deus nos olha, somos Israéis. Em Seus entendimentos com Satanás, o perseguidor e usurpador, Deus Se lhe afirmou como Deus de um povo transformado, vitorioso e real. Todos precisamos ver e crer que somos um Israel. Você pode não crer nisso hoje, mas

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por certo haverá de crer no futuro, seja na era vindoura, seja na eternidade. Na eternidade, todo o povo escolhido por Deus será um Israel. Não seja alguém míope, limitado por sua situação atual. Deus não o considera alguém ainda sob o cativeiro de Faraó; pelo contrário, Ele o vê como alguém liberto e introduzido no Cristo todo-inclusivo, tipificado pela boa terra. Você ousa crer em si como esse Israel, vencedor e rei? Todos precisamos ser suficiente- mente ousados para crer nisso e proclamá-lo. Não mantenha o seu sentimento acerca de si mesmo, mas creia na palavra de Deus. Se Ele o considera um Israel, você então é um Israel, quer se sinta assim, quer não. É verdade que, no capítulo cinco de Êxodo, os filhos de Israel ainda estavam sob escra- vidão no Egito. Deus, entretanto, sabia que logo seriam libertos desse cativeiro, introdu- zidos no deserto, conduzidos ao monte e, por fim, à terra de Canaã. Na boa terra, eles seriam Israel, e Deus seria o seu Deus. Quando negociou com Faraó, Deus não ficou desapontado com a condição de Seu povo. Não fez Moisés e Arão dizerem a Faraó que Ele era o Deus de Jacó. Pelo contrário, permitiu que Faraó soubesse que Ele era Jeová, o Deus de Israel, Ele parecia dizer: "Faraó, você precisa notar que Eu Sou. Sou Aquele que era, que

é e que será. Você não pode mudar-Me. Além disso, aos Meus olhos, Meu povo foi

transformado num Israel. Eles também são os hebreus, os que cruzaram o rio. Porque são hebreus, não tente mante-los deste lado do Mar Vermelho. Sou Jeová, e tudo o que digo tem que acontecer. Digo que Meu povo são hebreus; por isso eles são hebreus. Você não pode mante-los no Egito. Precisa permitir que eles partam." Os títulos de Deus mencionados no capítulo cinco são extremamente importantes. Até mesmo nas relações diplomáticas entre as nações do mundo, os títulos têm grande signifi- cado. Se um representante de determinada nação for negociar com o governo dos Estados Unidos, precisa ter um título apropriado. Se for simplesmente um cônsul ou ministro, sua posição não será suficientemente elevada. Ele precisará ter o título de embaixador. Só então poderá envolver-se nas negociações diplomáticas. No mesmo princípio, ao negociar com Faraó, Deus Se apresentou munido do título apropriado: Jeová, o Deus de Israel, o Deus dos hebreus. Deixou Faraó saber que Ele era o grande "Eu Sou". Como "Eu Sou", Ele era tudo, e Faraó não era nada. Além disso, revelou-se a Faraó como o Deus de Israel, o Deus de um povo transformado para ser vencedores e reis. Com tal título maravilhoso, Ele fez Sua exigência a Faraó.

1. Permitir Que Seu Povo Saísse Para Poder Celebrar-Lhe Uma Festa no Deserto

Vê-se em 5:1 a exigência feita por Deus a Faraó. Falando em nome do Senhor, Moisés e

Arão disseram a Faraó: "Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto".

A festa contrasta com a escravidão, com o trabalho pesado. Jeová estava dizendo a Faraó

que libertasse Seu povo da escravidão, de modo a poderem celebrar-Lhe uma festa. A palavra "me" desse versículo indica que, quando o povo de Deus está celebrando, Ele está feliz. O seu festejar destina-se a Ele. Parece que Jeová dizia a Faraó: "Não estou contente em ver Meu povo sob escravidão no Egito. Deixe-os sair, para que celebrem e Me façam feliz. Gosto de ver Meu povo festejando e se regozijando. Fico alegre quando eles nada fazem, exceto comer e alegrar-se. Isso Me é uma festa." Esse celebrar ao Senhor é uma adoração dispensacional; ou seja, é adorar a Deus de acordo com o que nos foi dispensado. Enquanto comemos, bebemos, louvamos, cantamos e nos regozijamos em Sua presença, celebramos-Lhe uma festa. Como veremos, essa festa

Lhe é também um sacrifício. Sacrificar é adorar. A adoração dispensacional é uma adoração em que Deus se dispensa em nosso inteiror para o nosso gozo, de modo a podermos festejar em Sua presença, com Ele e para Ele. Essa é a adoração que Ele deseja. Isso é revelado não apenas no Novo Testamento, mas também se acha implícito no Antigo Testamento. Podemos considerar a celebração aqui como um festival, um feriado ou um dia santo, tempo em que o povo de Deus com Ele descansa e desfruta de Sua provisão. Três vezes ao ano. Deus ordenou períodos especiais de festejos para os israelitas. As três festas princi- pais eram a Páscoa incluindo a festa dos pães asmos a festa das semanas (Pentecoste), e a festa dos tabernáculos. Àquela época, não se permitia ao povo realizar qualquer obra; alguém que trabalhasse naqueles dias festivos seria eliminado do meio do povo de Deus (Lv 23:30). Essa celebração agradava ao Senhor, porque Lhe era uma adoração. De acordo com o conceito humano, as pessoas deveriam estar sempre traba- lhando; mas, de acordo com o conceito divino, o Seu povo deveria deixar de lado o seu trabalho por ocasião dos festejos, para descansar de seus negócios e celebrar com Ele uma festa em Sua adoração. Celebrar ao Senhor uma festa é adora-Lo. De acordo com o conceito natural, adorar é ajoelhar-se, dobrar-se, prostrar-se diante de Deus. Mas, de acordo com Ele, nossa verda- deira adoração é desfrutarmos Dele como nossa provisão e depois descansarmos na porção que Dele desfrutamos. Como João 4 revela, a adoração que o Pai busca é o beber da água da vida. Quando mais bebemos de Seu Filho como Espírito, mais adoração Deus Pai recebe. A verdadeira adoração é beber da provisão de Deus, que Ele próprio preparou para o nosso deleite. A festa mencionada em 5:1 deveria realizar-se no deserto. O deserto aqui tem um signi- ficado positivo. Era o primeiro estágio que Deus pretendia que Seu povo atingisse. No dia em que fui salvo, imediatamente fui introduzido por Deus no deserto. O deserto contrasta com o Egito. No Egito, saturado de cultura do mundo, havia as cidades-celeiros. Deus queria resgatar Seu povo das cidades-celeiros e da cultura humana, introduzindo-os num lugar de separação no deserto. Antes de sermos salvos, estávamos em uma das cidades à margem do Nilo. Mas, com a salvação de Deus, fomos tirados delas e introduzidos no deserto, onde não há cultura do homem nem edificação mundana.

2. Deixá-los Ir Caminho de Três Dias ao Deserto

No versículo três, Moisés e Arão disseram a Faraó: "Deixa-nos ir, pois, caminho de três dias ao deserto". É significativo que esse versículo mencione três dias, e não dois, quatro nem qualquer outro número. Na Bíblia, o número "três", principalmente três dias, tipifica ressurreição. O Senhor Jesus ressurgiu ao terceiro dia. Após a jornada de três dias, os filhos de Israel atravessaram o Mar Vermelho, onde as forças egípcias foram sepultadas. Depois de passar pelo mar, o povo de Deus estava em ressurreição. Passaram pela morte na noite da Páscoa e foram sepultados no Mar Vermelho. Por esse motivo, após uma jornada de três dias, o povo escolhido e resgatado por Deus estava em ressurreição. Alguns haverão de imaginar como poderiam os filhos de Israel ser sepultados, tanto no Mar Vermelho como no Rio Jordão. Isso não é difícil de entender, se o analisarmos à luz de nossa experiência cristã. No dia em que fomos salvos, fomos salvos para dentro da morte de Cristo. Desde aquela época, ficamos sujeitos à eficácia de Sua morte. Isso significa que, em nossa experiência, somos crucificados e sepultados repetidas vezes. Não posso contar- lhes quantas vezes fui submetido a essa crucificação e sepultamento. Isso quer dizer que

nossa experiência básica e inicial é a mesma, em natureza, que nossa experiência mais desenvolvida e avançada. Tudo o que experimentaremos na maturidade de nossa vida espiritual será o mesmo, em princípio, que nossa experiência de começo, do mesmo dia de nossa salvação. Quando fomos salvos, fomos introduzidos na morte de Cristo, fomos

sepultados e ressuscitados. Não podemos esgotar a experiência dessa morte, sepultamento

e ressurreição. Experimentei tudo isso no dia em que fui salvo, embora àquela época não

tivesse conhecimento dessa situação. Depois que saí da reunião de evangelização em que fui salvo, tive a sensação de que, enquanto andava pela rua, eu estava no deserto. Estar no

deserto é estar do outro lado do Mar Vermelho, em ressurreição. Estar nessa posição é ser um hebreu, alguém que cruza o rio, alguém transformado e ressurreto. Essa é a expe- riência normal de salvação. Todo aquele que foi salvo de maneira normal, foi levado em jornada de três dias ao deserto, e experimentou morte, sepultamento e ressurreição.

3. Para Sacrificar a Jeová, Seu Deus

Jeová também exigiu de Faraó que permitisse aos filhos de Israel que sacrificassem a Ele, Jeová, seu Deus (v. 3). "Sacrifício" é uma palavra análoga a "festejar". Para os filhos de Israel, a festa era uma festa; mas, para Deus, era um sacrifício. Sem o sacrifício, nada havia para se festejar. A festa que os filhos de Israel celebravam era o próprio sacrifício que haviam de apresentar a Deus. A Páscoa o ilustra. O cordeiro sacrificado a Deus era alimento para os filhos de Israel. Isso revela que a festa e o sacrifício são dois aspectos de uma só coisa. Tudo o que sacrificamos espontaneamente a Deus se torna nossa festa. Isso também é adoração dispensacional. Esse tipo de adoração não requer que nos prostremos diante do Senhor. Deus não disse: "Deixa meu povo ir ao deserto, de modo que se prostre diante de Mim". Ele não quer que Seu povo aja assim, mas quer que eles sacrifiquem a Ele

e Lhe celebrem uma festa. Na exigência feita por Deus a Faraó, verificamos uma salvação completa e perfeita para

o Seu povo. Tal salvação inclui o fato de Deus resgatar Seu povo da mão usurpadora de Satanás e introduzi-lo no deserto em ressurreição, de modo a poderem celebrar-Lhe uma festa e a Ele sacrificarem. Que salvação maravilhosa!

B. Faraó Simboliza Tanto o Satanás Usurpador Como o Nosso "Ego" Usurpado e Possuído Por Satanás

Chegamos agora à teimosia de Faraó (5:2, 4-9). Ele simboliza o Satanás usurpador e o nosso "ego" usurpado e possuído por Satanás. Porque o "ego" é Faraó de maneira muito prática, podemos ser um Faraó tanto para nós mesmos como para os outros. Um marido e uma esposa podem ser mutuamente um Faraó, e os pais podem ser um Faraó para com seus filhos. Um Faraó é alguém que impede o povo de Deus de celebrar ao Senhor. Cinco irmãos, por exemplo, podem viver juntos numa casa de irmãos. Três deles podem desejar ir a uma reunião da igreja como normalmente o fazem, mas os outros podem atrapalhá-los e encorajá-los a ficarem em casa. Ao agirem assim, esses dois irmãos se tornam Faraós. A todo momento em que impedimos os outros de celebrarem ao Senhor ou de a Ele sacrifi- carem, somos um Faraó. Os pais, por exemplo, podem ficar tão preocupados com a educação de seus filhos, que venham a proibi-los de ir às reuniões da igreja e exijam que dediquem um tempo excessivo ao estudo. Quando se comportam assim, eles são Faraós para com seus filhos.

Às vezes, culpamos Satanás em demasia. Sim, o Satanás usurpador é Faraó de maneira objetiva. Mas nós somos Faraós de maneira prática, subjetiva. Podemos ser um Faraó para nós mesmos, não nos permitindo entrar no deserto para celebrar ao Senhor. Se observar sua experiência, perceberá que muitas vezes você mesmo se impediu de celebrar ao Senhor. Você se manteve distante das reuniões da igreja, talvez tendo o cansaço como

desculpa para não ir à festa da igreja. Embora reclamasse, dizendo-se muito cansado para

ir às reuniões, você estava pleno de energia para falar ao telefone. Não pense que hoje

somente o próprio Satanás seja Faraó. Todos podem ser um Faraó. Sempre que é possuído

e usurpado por Satanás, o "ego" se torna um Faraó subjetivo.

Contestou Deus-Jeová, Ignorou Sua Exigência e Não Permitiu Que Israel Partisse

O versículo dois registra a teimosia de Faraó de maneira pormenorizada: "Respondeu Faraó: Quem é Jeová para que lhe ouça eu a voz, e deixe ir a Israel? Não conheço Jeová, nem tão pouco deixarei ir a Israel" (hebraico). Observamos aqui que Faraó contestou a Deus-Jeová, ignorou Sua exigência e recusou deixar Israel partir. Até mesmo recusou reco- nhecer Jeová, negando-Lhe virtualmente a existência. Frequentemente, quando impe- dimos os outros de celebrarem ao Senhor, nós O contestamos e ignoramos Sua exigência.

O mesmo ocorre quando colocamos obstáculos para que nós mesmos sacrifiquemos ao

Senhor. De maneira bem prática, isso que dizer que, se ficarmos distantes das reuniões da

igreja, seremos como Faraó, que contesta o Senhor. Para nós, cristãos, a reunião é um ponto de grande importância. Sempre que nos reunimos de acordo com a ordenação do Senhor, celebramos-Lhe uma festa e sacrificamos ao nosso Deus. Suponha que nós, cristãos, não tenhamos um reunir correto. O que o Senhor seria capaz de fazer na terra? Não seria capaz de fazer nada, nem receberia qualquer adoração verdadeira. Com isso vemos que o reunir correto dos cristãos é de extrema importância. Alguns dos filhos de Israel poderiam pensar que, uma vez libertos da mão de Faraó e

do Egito, tudo estaria muito bem. Mas isso não seria verdade. O povo escolhido por Deus precisava não apenas de sair do Egito, mas também de celebrar uma festa para o Senhor no deserto e a Ele sacrificar. Por sua própria natureza, uma festa é algo coletivo. Ninguém pode realizar uma festa sozinho. Para que a façamos, precisamos juntar-nos a vários outros. Quanto mais pessoas houver, melhor será. Suponha que um jantar de muitos talheres seja preparado e posto na mesa de jantar de sua casa, e você então se sente e coma sozinho. Isso é uma festa? É claro que não! Para ser uma festa, você precisa convidar um grande número de pessoas, a fim de que comam com você. Se houver apenas umas poucas pessoas comendo, tal refeição ainda não será uma festa. Você precisa de um grande número de pessoas. No mesmo princípio, nenhum cristão poderá celebrar sozinho uma festa ao Senhor, ou com apenas uns poucos irmãos. Ele precisará ir a uma reunião correta

de cristãos.

Perder uma reunião da igreja é perder uma festa e privar-se de deleite. A perda que sofremos, ao agir assim, não é tão séria quanto a perda que Deus sofre. Se não vamos à festa, Deus não tem festa e não recebe o sacrifício. Que todos possamos ficar profunda- mente sensibilizados com a importância disso.

2. Intensificou o Trabalho Deles Com Rigor

a. Não Lhes Deu Mais Palha

No versículo sete, Faraó ordenou aos capatazes do povo e aos oficiais: "Daqui em diante não torneis a dar palha ao povo, para fazer tijolos, como antes. Eles mesmos que vão e ajuntem para si a palha". Em vez de deixar que Israel se fosse, Faraó na verdade aumen- tou-lhe a labuta com rigor. Ordenou até que não lhe dessem mais palha. Ocorre o mesmo em nossa experiência. Quando Deus hoje está para resgatar alguém do mundo, Satanás leva embora a "palha" desse indivíduo, isto é, priva-o do suprimento do mundo. Isso o força a trabalhar com mais rigor para ganhar a vida.

b. Exigiu Deles o Mesmo Número de Tijolo

No versículo oito, Faraó disse: "E exigireis deles a mesma conta de tijolos, que antes faziam, nada diminuireis dela". Aqui observamos que, além de cortar o suprimento de palha, Faraó ainda exigia o mesmo número de tijolos. Isso indica que passou a ser muito mais difícil ao povo de Deus ganhar o sustento diário. Muitos cristãos têm experimentado algo assim. Após serem chamados por Deus, ficou-lhes ainda mais difícil do que antes ganhar a vida. Simplesmente por terem sido tocados por Cristo, Satanás leva embora a sua "palha", sem diminuir suas exigências. Por essa razão, torna-se-lhes ainda mais difícil ganhar a vida.

Condenou-os Por Estarem Ociosos

Além disso, Faraó disse dos filhos de Israel: "Estão ociosos, e por isso clamam: vamos, e sacrifiquemos ao nosso Deus" (v. 8). De acordo com Faraó, por causa do ócio é que os israelitas queriam ir ao deserto sacrificar ao seu Deus. Aos olhos dos Faraós de hoje, principalmente dos opositores e dos incrédulos, nós, da restauração do Senhor, somos pre- guiçosos. Acusam-nos de ócio, por virmos tão frequentemente ao salão de reuniões da igreja ou do ministério da palavra. Condenam-nos, dizendo que não queremos trabalhar, estudar nem cuidar de nossos lares e famílias. De acordo com a compreensão deles, utili- zamos as reuniões como desculpa para o ócio.

d. Levou-os a Não Atentarem a "Palavras Vãs"

No versículo nove, Faraó disse: "Agrave-se o serviço sobre esses homens, para que nele se apliquem, e não dêem ouvidos a palavras vãs" (hebraico). Faraó não queria que o povo de Deus levasse em conta aquilo que ele considerava como "palavras vãs". Tais "palavras vãs", todavia, eram na realidade a palavra de Deus. O mesmo ocorre atualmente. Os Faraós de hoje consideram a palavra de Deus como nada mais do que palavras vãs. Para eles, nós, que damos ouvidos à palavra de Deus, proferida nas reuniões da igreja e nas do ministério, estamos ouvindo palavras vãs. O que fazemos na vida da igreja pode ser ocioso aos olhos das pessoas do mundo; mas o que eles estão realizando é vaidade aos olhos de Deus. O Egito está cheio de negócios. Todo aquele que ainda está sob o cativeiro do Egito é muito atarefado. Mas logo que alguém seja resgatado do Egito e introduzido no deserto, ele se torna ocioso. O que você prefere: o negócio ou a ociosidade? Prefiro esse tipo de ociosidade. Embora eu, sem

dúvida, não seja alguém preguiçoso, desejo estar naquilo que Faraó chama de ócio. Gosto, por exemplo, de limpar minha casa e de trabalhar no jardim. Mas, após despender algum tempo em limpeza e trabalho desse tipo, poderei ter que dizer: "Satanás, isso basta. Não farei mais nenhum trabalho agora. Pelo contrário, ficarei ocioso diante do Senhor". Como é

bom ficar ocioso dessa maneira! Há uma hora em que todos deveremos dizer: "Satanás, basta. Agora é tempo de eu ficar ocioso." Ficar ocioso nesse sentido significa celebrar ao Senhor e sacrificar a Ele. Aos olhos das pessoas do mundo, a vida da igreja é uma vida de ócio. Na verdade, não estamos nem ociosos nem ocupados estamos celebrando e sacrificando. Diante do Senhor, esse é o tipo correto de vida humana.

A salvação de Deus consiste em resgatar-nos da ocupação e introduzir-nos na ociosi-

dade. As pessoas de hoje estão muito ocupadas, zelando das coisas desta vida. Alguns são tão diligentes, que não têm tempo para celebrar ao Senhor. Precisamos estar livres desse trabalho, a fim de termos mais tempo para o ócio. Uma pessoa ociosa deverá ser treinada para estar ocupada. Alguém que esteja muito ocupado, todavia, deverá ser treinado para

permanecer ocioso, isto é, a despender mais tempo com os irmãos nas reuniões da igreja.

A vida crista não é uma vida de negócios mundanos; é uma vida de ócio correto. Não

deveremos estar tão ocupados com as coisas desta vida, a ponto de negligenciarmos a palavra de Deus. Como nos regozijamos por sermos ociosos e levarmos em conta as "pa-

lavras vãs" de Deus, proferidas nas reuniões da igreja!

A fim de vivermos para Cristo, precisamos existir. Sem nossa existência humana, não

poderemos viver Cristo. Mas hoje as pessoas do mundo caído não se preocupam com nada, exceto com sua existência; não se preocupam com o objetivo de sua existência.

Existir é uma coisa, mas existir para o propósito divino é outra. O objetivo traçado por Deus para a nossa existência é viver Cristo, manifestar Deus e ter o Seu testemunho. Mas

as pessoas deste mundo têm apenas a sua existência, não o objetivo dela. Fazem, enfim, da

própria existência um objetivo em si. De nada sabem, a não ser da existência em si. Satanás

agarra a existência dos seres ou do viver humano e a utiliza para enganar as pessoas de tal forma, que o mundo todo hoje só se preocupa com a existência, não com o objetivo de Deus nela. Todas as coisas necessárias à nossa existência humana precisam estar sob uma limitação divina. Tudo o que excede a nossa necessidade se torna mundano, "egípcio", algo de Faraó, e nos separa da economia do propósito de Deus. Em tudo, a economia de Deus deve ser o fator decisivo. O nosso viver não deverá ser como aquele dos "egípcios", das pessoas do mundo. Precisamos de um lugar onde viver e precisamos manter limpa a nossa casa. Mas, se continuamos nossa limpeza quando é hora de ir à reunião, nossa limpeza se torna "egípcia", algo à parte da economia do propósito de Deus. Estamos na terra não para limpar, mas para festejar ao Senhor. Até mesmo o tempo que despendemos com nossos filhos deveria ser decidido pela economia de Deus. Outros cristãos podem agir como as pessoas do mundo, mas nós temos que ser um povo santo, apartado.

O nosso viver e a nossa existência dependem da provisão da fonte celestial, não do

suprimento do mundo. Por esse motivo, precisamos de visão e precisamos do exercício de nossa fé. Moisés era um homem de grande fé, para guiar dois milhões de pessoas para fora do Egito, ao deserto, onde não havia suprimento terreno para a sua existência humana.

C. O Resultado do Conflito

1. Israel Sofreu Mais Crueldade

Chegamos agora ao resultado do conflito gerado pela exigência de Deus e pela teimosia de Faraó. O primeiro aspecto do resultado foi que Israel sofreu mais crueldade (5:10-21). Quanto mais intenso o conflito, mais sofreu o povo escolhido por Deus. Essa é a estratégia do inimigo. Não pense, entretanto, que o sofrimento crescente seja um sinal negativo. É, na verdade, um sinal positivo, porque indica que as negociações entre Deus e o inimigo estão ocorrendo, e que somos afetados por elas. O nosso sofrimento é um sinal de que Deus está efetivando a nossa libertação.

2. Moisés Ficou Atribulado e Desencorajado

Os versículos 22-23 indicam que Moisés se aborreceu e se desencorajou. E até pergun- tou ao Senhor por que o enviara. E ainda Lhe disse: "e tu de nenhuma sorte livraste o teu povo". Muitos de nós já tivemos experiências semelhantes. Quanto mais ministramos Cristo aos outros, mais eles sofreram. Isso nos levou a ficarmos aborrecidos e desani- mados. O nosso conceito é que, se ministrarmos de maneira correta, os outros serão aben- çoados. Achamos que os mortos serão ressuscitados, os doentes curados, os fracos forta- lecidos e os pobres enriquecidos. A situação, contudo, frequentemente se opõe ao que prevemos. Posso categoricamente testificá-lo de minha própria experiência. Muitas vezes, fiquei atribulado, como Moisés. Às vezes, eu ia ao Senhor e dizia: "Senhor, o que aconteceu? Tu me ordenaste ministrar esse ponto ao Teu povo. Parece-me que devias abençoá-lo e colocar Teu selo sobre o meu ministério. Mas quanto mais eu ministro às pessoas, mais dificuldades elas têm. Senhor, estou errado em algum ponto? Não compreendo o que está acontecendo."

3. Deus-Jeová Reconfirmou o Seu Nome e a Sua Aliança

Depois que Moisés expressou o seu desapontamento e perturbação ao Senhor, Deus- Jeová veio reconfirmar o Seu nome e a Sua aliança (6:1-8). Deus lhe disse: "Eu sou JEOVÁ. Apareci a Abraão, a Isaque, e a Jacó, como o Deus Todo-suficiente; mas pelo meu nome, JEOVÁ, não lhes fui conhecido. Também estabeleci a minha aliança com eles, para dar- lhes a terra de Canaã, a terra em que habitaram como peregrinos". (6:2-4, hebraico). O que é mais precioso do que a reconfirmação do nome de Deus e da Sua aliança? Por Sua reconfirmaçao, Moisés foi fortalecido e encorajado, tanto para voltar a Faraó como para falar novamente aos filhos de Israel. Em resumo, o nome do Senhor é aquilo que Ele próprio é, e a Sua aliança é Sua palavra proferida com uma promessa e confirmada com um juramento. Uma palavra dita de maneira vulgar não é uma aliança; mas uma palavra proferida com uma promessa e confirmada com um juramento se torna uma aliança (Veja Estudo-Vida de Hebreus, Mensagem 36). Deus falou a Abraão; depois falou com uma promessa referente à boa terra, promessa que foi confirmada repetidas vezes. Por fim, realizou-se um juramento, de modo que houve um acordo, um contrato, feito por Deus, firmado entre o próprio Deus e Abraão: a palavra prometida por Deus tornou-se uma afiança (Gn 15). A circuncisão foi um penhor dessa aliança (Gn 17).

Podemos hoje experimentar o Deus que reconfirma Seu nome e Sua aliança. Às vezes, depois de eu me queixar ao Senhor, Ele me confirmava o Seu nome com a lembrança de que Ele é o "Eu Sou", o único ser auto-existente. Nessas horas de reconfirmação, o Senhor parecia dizer: "Não posso falhar jamais. Eu cumpro tudo o que digo. Eu sou, mas os so- frimentos não são. Não creia em sua situação creia naquilo que Eu Sou." Em horas como essas. Ele também nos reconfirma a Sua aliança.

4. Israel Não Deu Ouvidos a Moisés

Em 6:6-8, o Senhor disse a Moisés algumas palavras muito encorajadoras, para que ele as repetisse aos filhos de Israel. Deus queria que Moisés lhes dissesse que os libertaria da opressão dos egípcios, os redimiria com braço estendido, os tornaria para Si como povo e os introduziria na terra que prometera dar a Abraão, Isaque e Jacó. O versículo nove, toda- via, afirma: "Desse modo falou Moisés aos filhos de Israel, mas eles não atenderam a Moisés, por causa da estreiteza de espírito e da dura escravidão" (hebraico). O espírito deles estava esgotado por causa de seus sofrimentos. Por isso eles não podiam levar em consideração a palavra de Deus dita por Moisés. Em sua falta de espírito, o povo de Deus era como um carro sem gasolina. Quando temos falta de espírito, não conseguimos suportar qualquer tipo de cativeiro nem sofrimento. Por essa razão, precisamos orar, para que o nosso espírito seja preservado e suprido. Precisamos pedir ao Senhor que nos guarde de termos falta de espírito. Nesta mensagem, analisamos o conflito entre Deus e o Seu inimigo. Faraó, que tipifica Satanás objetivamente e o "ego" usurpado e possuído por Satanás subjetivamente. Deus quer que façamos uma viagem de três dias ao deserto, a fim de que possamos celebrar-Lhe e a Ele sacrificar. Mas Satanás e o "ego" se levantam para contestarem Deus e para se recusarem a deixar-nos ir. Todavia, por causa da salvação completa do Senhor, muitos de nós fomos libertos do cativeiro do Egito e agora estamos no deserto, desfrutando da festa e oferecendo sacrifício ao nosso Deus.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM QUATORZE

O NOME DE JEOVÁ DEUS E A SUA ALIANÇA

Após o primeiro conflito entre Deus e Faraó, Moisés, o representante do primeiro, ficou atribulado e desencorajado (5:22-23). Em 6:1-8, Deus lhe disse uma palavra forte sobre o Seu nome e a Sua aliança. Por nos faltar ainda a experiência do nome de Deus e da verda- deira percepção da Sua aliança, precisamos atentar a esses pontos nesta mensagem.

I. O NOME DE JEOVÁ DEUS

A. O Seu Nome Indica a Sua Pessoa

Observaremos, primeiramente, o nome de Jeová Deus. O Seu nome mostra a Sua Pessoa. Não é um título vazio, mas, ao contrário, é a definição do que Ele é.

B. "El-Shaddai"

Em 6:3, Deus disse a Moisés: "Apareci a Abraão, a Isaque, e a Jacó, como o Deus Todo- suficiente; mas pelo meu nome, JEOVÁ, não lhes fui conhecido" (hebraico). Por anos a fio, fiquei intrigado com esse versículo. Sabia que, de acordo com determinados versículos de Gênesis, Abraão, Isaque e Jacó se familiarizaram todos com o nome Jeová (Gn 12:4; 26:25; 325). Como poderíamos conciliar tais versículos com a palavra do Senhor em Êxodo 6:3? A resposta está no fato de que uma coisa é conhecer um determinado nome, e outra é co- nhecer a Deus pelo Seu nome verdadeiro. As pessoas, em todo o mundo, por exemplo, conhecem o nome de Jesus. Nem todos os que conhecem esse nome, contudo, conhecem também o Senhor desse nome. Conhecer o nome de Jesus é uma coisas; mas conhecer o Senhor Jesus pelo Seu nome, através da experiência, é outra. Jesus significa "Jeová, o Salvador''. As pessoas podem estar familiarizadas com o nome de Jesus, mas podem não ter experiência com Jeová, o Salvador. Era essa a minha situação antes de ser salvo. Nasci no seio do cristianismo e minha mãe me ensinou a história de Jesus. Até mesmo falei de Jesus aos outros, e defendi o cristianis- mo contra os ataques. Eu mesmo, entretanto, não tinha experiência de Jesus como Jeová, o Salvador. Conhecia o nome, mas ainda não conhecia o Senhor daquele nome. No mesmo princípio, Abraão, Isaque e Jacó conheciam o nome "Jeová", mas não conheciam o Deus desse nome. Eles, entretanto, conheciam em realidade o Senhor como o Deus Todo-suficiente, isto é, como El-Shaddai. "El" significa "o Poderoso", e "Shaddai" significa "seio" ou "úbere". Esse título divino, por conseguinte, indica que Deus é forte e todo-suficiente. Nessa condição. Ele é o Deus que supre (Gn 17:1; 28:3) e que promete (Gn 35:11).

C. Jeová

Assim como El-Shaddai é o nome de Deus para o suprimento e a promessa, assim também Jeová é o Seu nome para a existência e o cumprimento. Como Jeová, Ele é o Deus

que existe (ÊX 3:14; Jo 8:24, 28, 58) e que cumpre (ÊX 6:6-8). Abraão, Isaque e Jacó morreram sem desfrutar do cumprimento da promessa (Hb 11:13). Em sua experiência, Deus era o Todo-suficiente, mas não era Jeová. Ele lhes era o Deus que prometia, mas não era o Deus que cumpria. Quando falou a Moisés em 6:1-8, Deus não falou como El-

Shaddai, o Deus que promete, mas como Jeová, o Deus que cumpre. Ele aqui não fez a Moisés uma promessa acerca da boa terra; pelo contrário, veio para cumprir a promessa feita a Abraão, Isaque e Jacó. Ao fazer uma aliança com Abraão, em Gênesis 15, Ele indicara nos versí-culos 13-14 que quatrocentos anos se passariam antes que se cumprisse

a promessa referente à boa terra. Esse tempo se completou quando Moisés tinha oitenta

anos. Isso indica que o que fora uma promessa para Abraão haveria de ser um cumprimento para Moisés e para os filhos de Israel. Por isso, no capítulo seis. Deus veio a Moisés e aos filhos de Israel não como o Deus Todo-suficiente, mas como Jeová. Para ser o Deus que cumpre. Ele precisa ser o Deus que existe; isto é, Ele precisa ser Aquele que auto-existe. Num sentido absoluto, o verbo "ser" somente a Ele se aplica. Esse verbo é um componente básico do nome "Jeová". Neste universo, somente Ele auto-existe. Como Aquele que prometeu. Ele é El-Shaddai; mas, como Aquele que cumpre Sua promessa. Ele é Jeová, Aquele que é. A existência de Deus de nada depende, além de Si mesmo. Ele existe eternamente, não tendo começo nem fim. Como Jeová, Ele simples- mente é. Aproximadamente há quatrocentos anos, Deus fizera uma promessa a Abraão acerca da boa terra. A Sua promessa ainda não se cumprira para o próprio Abraão, porque ele ainda não ressuscitara. Se Deus não fosse Aquele que auto-existe e que existe para sempre, a promessa feita centenas de anos atrás não poderia cumprir-se. Entretanto, porque Ele é e sempre será, não pode deixar de cumprir Sua promessa. Neste universo, existe Alguém que é, e esse Alguém é o Deus que cumpre. Tudo o que Ele diz acontecerá. Jeová cumprirá Sua palavra. Abraão, Isaque e Jacó experimentaram Deus como o Deus que supre e como o Deus que promete. Eles o conheceram pelo nome de El-Shaddai. Mas, por não receberem o cumpri- mento da promessa, não O conheceram pelo nome de Jeová, embora como já enfati- zamos conhecessem esse nome. Morreram na fé, sem receber o cumprimento da pro- messa. Mas, em Êxodo 6, Deus veio para cumprir Sua promessa feita a Abraão, Isaque e Jacó. Por essa razão. Ele disse a Moisés: "Eu Sou Jeová" (6:2, hebr.). Isso significa que Ele falou a Moisés e, através deste, aos filhos de Israel como Jeová, Aquele que é. Por anos a fio, tive dificuldade para compreender João 8. Por três vezes, nesse capítulo,

o Senhor Jesus referiu-se a Si mesmo como "Eu Sou" (v. 24,28,58). No versículo 58, Ele declarou: "Em verdade, em verdade eu vos digo: Antes que Abraão existisse, eu Sou". Como o grande "Eu Sou", o Senhor é o Deus eterno, que sempre existe. Assim, Ele é antes de Abraão. Espiritualmente falando, João 8 pode ser comparado a Êxodo 3, onde o Senhor Se revela a Moisés como o "Eu Sou" (v. 14). Já enfatizamos que o nome "Jesus" significa "Jeová, o Salvador". Não significa "El- Shaddai, o Salvador". Aquele que veio para ser o nosso Salvador é Aquele que existe para sempre, Aquele que é. Veio para cumprir todas as promessas feitas por Deus a Seu povo. Por esse motivo, Jesus não veio para prometer, mas para cumprir. Isso quer dizer que Ele não veio como El-Shaddai, mas como Jeová. No mesmo princípio, Deus veio a Moisés como Jeová, não como El-Shaddai. Parece que

o Senhor dizia: "Moisés, seus antepassados Me conheceram pelo nome de El-Shaddai. Mas agora quero que você Me conheça e Me experimente com um outro nome Jeová, o nome Daquele que é. Cumprirei tudo o que prometi."

O Senhor falou desse modo a Moisés, porque este se queixara a Ele por causa do resultado de suas negociações com Faraó. Moisés lhe dissera que Faraó maltratara o povo. Além disso, falou mais: "e tu de nenhuma sorte livraste o teu povo" (5:23). Por isso, Deus lhe disse ser Ele Jeová. Desejava que Moisés e todos os filhos de Israel O conhecessem por esse nome e O experimentassem como o Deus que existe e como o Deus que cumpre. Enquanto encorajava Moisés, o Senhor parecia dizer: "Moisés, não fique atribulado nem desencorajado. Você precisa perceber que estou aqui não apenas como El-Shaddai, mas como Jeová. Chegou a hora de você Me experimentar como "Eu Sou". Como Jeová, Aquele que é eternamente, cumprirei a Minha aliança." Quando veio a Moisés, Deus não lhe veio como El-Shaddai, mas como Jeová. Não veio para prometer, mas para cumprir a promessa já feita. Por esse motivo, não havia necessidade de Moisés ficar decepcionado nem desencorajado. Deus interveio na situação como Aquele que existe e cumpre. Isso não deveria ser-nos mera doutrina; deveria tornar-se nossa experiência de maneira prática. Na restauração do Senhor, hoje, não estamos no estágio da promessa, mas no estágio do cumprimento. Esse estágio inclui o cumprimento das promessas feitas tanto no Antigo como no Novo Testamento. Uma promessa do Novo Testamento é a palavra do Senhor: "Edificarei a minha igreja" (Mt 16:18). Essa palavra está se cumprindo hoje entre nós. Isso quer dizer que estamos experimentando o Senhor não apenas como El-Shaddai, mas também como Jeová. Precisamos confessar, entretanto, que em nosso viver diário nos falta a experiência do Senhor como o grande "Eu Sou". Embora gostemos de cantar o hino que fala das riquezas de Cristo (Hino 542), dia a dia podemos ainda permanecer na pobreza. Quanto você experimenta de Deus como Jeová? É bem mais fácil conhecê-Lo pelo nome de El-Shaddai e declara-Lo rico, todo-poderoso e todo-suficiente. Todavia, é outra coisa bem diferente ter a experiência real do "Eu Sou". Se quisermos conhecer a Deus pelo nome de Jeová, precisare- mos ter experiência. Caso contrário, seremos como Abraão, Isaque e Jacó, que conheceram esse nome sem dele ter qualquer experiência. Há mais de quarenta anos, a igreja foi levantada em minha cidade natal. Eu estava muito ocupado com o meu emprego numa grande companhia. Além disso, os afazeres da igreja requeriam muito do meu tempo. Era-me necessário falar nas reuniões da igreja ao menos quatro vezes por semana. A bênção do Senhor estava sobre nós, e o número de irmãos crescia. Fiquei cada vez com mais encargo para desistir do meu emprego e servir o Senhor em tempo integral. Por alguns meses, levei-Lhe esse assunto repetidamente, mas não fui capaz de decidir. Porque o Senhor não me deixava, eu não podia comer nem dormir bem. Por fim, atingi o ponto em que não podia mais continuar, enquanto esse problema não fosse resolvido. Certa noite, enquanto conversava com o Senhor, Ele me fez lembrar que eu Lhe prometera servi-Lo em tempo integral. Disse-lhe que fizera aquela promessa antes de ter esposa e filhos. Agora, eu estava muito preocupado em como pode- ria sustentar minha família se tivesse que deixar meu emprego para servi-Lo. Antes daquele tempo, cheguei a conhecer Suas promessas concernentes à Sua provisão. Eu soubera que, se buscássemos o reino de Deus e a Sua justiça, tudo o que precisássemos nos seria acres-centado. Todavia, não conhecera a Deus como o Deus que cumpre. Naquela noite, o Senhor não apenas me revelou Sua palavra, mas também revelou a Si mesmo como Aquele que cumpre as Suas promessas. Ele depois me deu um ultimato: escolhe-Lo ou não. Quando me levantei, disse com lágrimas: "Senhor, eu Te escolho". Quando me le- vantei, senti interiormente que a questão estava resolvida. Daquele instante até o presente momento, o Senhor tem sido real para mim como o Deus que cumpre. Experimentei-O re- petidas vezes como o "Eu Sou". Por ser Ele o Eu Sou, Jeová nunca falha. Ele jamais cessa de

existir; Ele é, e sempre será. Com base nos meus anos de experiência, posso testificar que Deus é. Aleluia, podemos conhece-Lo não só como o Deus todo-suficiente, mas também como Aquele que é. Jovens, o meu encargo nesta mensagem destina-se principalmente a vocês. Sou grato ao Senhor pela fidelidade de vocês para com a Sua restauração. Mas percebo que há uma longa jornada à frente de vocês e que muitas provas e testes os esperam. Quero testificar- lhes que o Deus a quem vocês estão servindo não é somente El-Shaddai, mas é também Jeová. Ele não é apenas Aquele que é suficiente e que promete, mas é também Aquele que existe e cumpre. Por ser Ele Aquele que é, há de cumprir tudo o que prometeu. Posso não ser capaz de manter a minha palavra, porque posso deixar de existir. Mas, porque Jeová existe eternamente e por ser Ele a realidade do verbo "ser", há de cumprir tudo o que disse. Quando encontrarem testes, provas e dificuldades, vocês deverão dizer: "Senhor, Tu és. Meus problemas terminarão, mas Tu, Senhor, serás para sempre". Faraó era muito mais poderoso do que os filhos de Israel. Todavia, pouco depois, ele se tornou nada. Pôde resistir ao Senhor somente por pouco tempo. Depois que ele deixou de ser, Jeová ainda era. No capítulo seis, o Senhor encorajou Moisés, levando-o a conhecê-Lo como Jeová. O Senhor parecia dizer: "Moisés, você precisa conhecer-Me pelo nome de Jeová. Você precisa conhecer-Me de acordo com o Meu ser, de acordo com a minha existência. Sendo Eu o grande "Eu Sou", por que haveria você de ficar desanimado?" O Senhor aqui o estava treinando a experimentá-Lo e conhecê-Lo pelo nome de Jeová. Você experimenta o Senhor somente como El-Shaddai, ou você também O experimenta como Jeová? Quando tiver uma necessidade ou estiver em dificuldade, não louve somente

o Senhor por Sua riqueza e suficiência. Você também deverá louvá-Lo por ser Ele Aquele

que é. Não apenas Lhe agradeça por ser Ele capaz e poderoso, mas declare com ousadia:

"Senhor, Tu és." Quando se acham em situação de necessidade, muitos cristãos oram ao Senhor como Aquele que é suficiente. Mas você já ouviu os cristãos louvarem o Senhor por

Sua existência eterna? Ele está desejoso de alguns que proclamem: "Senhor, Tu és!" Precisamos ser aqueles que O louvam dessa maneira. Não deveríamos simplesmente agradecer ao Senhor por Sua riqueza, suficiência e capa- cidade. Se recebermos Sua revelação como o Eu Sou, oraremos de maneira nova. Quando

o problema vier, iremos ao Senhor e Lhe diremos: "Senhor, aqui está um problema, mas Tu és. Tu és o Eu Sou, e eu creio em Ti."

A ALIANÇA DE JEOVÁ DEUS

Continuaremos agora com a aliança de Jeová Deus. Em Gênesis 12, Deus fez uma

promessa a Abraão. Em Gênesis 15, essa promessa se tornou uma aliança, e, em Gênesis 17, a circuncisão foi utilizada como penhor dessa aliança. Por essa razão, o que Deus fez a Abraão, ao final, não foi apenas uma promessa, mas também uma aliança com um penhor. A promessa de Deus é a Sua palavra (Rm 9:9). Sempre que Ele diz que nos fará algo, essa palavra é uma promessa. Quando, porém, se adiciona o juramento à promessa, torna-

se esta uma aliança, que garante a palavra de Deus. Tal aliança é como um contrato. Em 6:8, o Senhor disse a Moisés: "E vos levarei à terra, acerca da qual levantei a mão

para dar a Abraão, a Isaque e a Jacó; e vo-la darei como herança. Eu sou Jeová" (hebraico).

A promessa que o Senhor fez a Abraão, a Isaque e a Jacó foi uma aliança realizada pelo

levantar de Sua mão. Levantar a mão dessa maneira era fazer um juramento. Em Gênesis 14, Abraão disse ao rei de Sodoma que ele levantara sua mão ao Deus altíssimo para não

tirar nada dele (v. 22-23, hebraico). Isso quer dizer que Abraão fizera juramento referente àquele ponto em particular. No Antigo Testamento, a mão era levantada quando se fazia uma aliança. Mas, no Novo Testamento, a Pessoa inteira do Senhor Jesus foi levantada. Em João 8:28, o Senhor Jesus disse: "Quando levantardes o Filho do homem, então sabereis que eu sou". Ao ser levantado o Senhor Jesus, Deus proferiu um grande juramento, o qual fez com que Suas promessas se tornassem uma nova aliança. Nos quatro evangelhos, o Senhor fez muitas promessas. Ao ser levantado na cruz, tais promessas se tornaram a nova aliança. Agora, o Novo Testamento inteiro é uma aliança, um contrato assinado e avali- zado pelo Cristo que foi erguido. O Senhor foi elevado não apenas até à cruz, mas, por fim, ao trono de Deus no terceiro céu. Ele está agora sentado no trono como símbolo do maior dos juramentos do universo. Esse juramento foi feito em dois estágios: por ter sido o Senhor elevado primeiramente à cruz, e depois ao trono. Aleluia, Este, cujo ser inteiro foi levantado, está agora no trono! Por esse motivo, o que hoje temos em mãos não é uma promessa, mas uma aliança. Ao falar a Moisés sobre a aliança, Deus parece ter-lhe dito: "Moisés, você não percebe que fiz uma aliança com seus ancestrais? Levantei a Minha mão para introduzir o Meu po- vo na boa terra. Você acha que Faraó pode impedir-Me de levar Meu povo até à terra prometida? Moisés, não desanime. Eu sou, mas Faraó não é. Eu sou Jeová para cumprir a Minha aliança. Introduzirei Meu povo na boa terra e lha darei por herança. Moisés, reanime-se com a Minha aliança e com o Meu novo nome." Hoje também temos o nome do Senhor e a Sua aliança. O que estamos fazendo em Sua restauração não está de acordo com nossa imaginação, mas de acordo com a aliança de Deus. No passado, dissemos ao Senhor que o que praticávamos estava de acordo com Sua palavra. De agora em diante, precisamos dizer-Lhe que o que fazemos está de acordo com Sua aliança, a mesma aliança que Ele jurou cumprir. Ao lutarmos pelos Seus interesses, não só permanecemos com Sua Palavra pura, mas também com Sua aliança. Essa aliança foi avalizada quando o Senhor Jesus foi elevado à cruz e ao trono. Alguns afirmam ser impossível praticar hoje a vida da igreja. Também afirmam ser impossível ao Senhor ter a Sua restauração. Não parecem perceber que a restauração do Senhor foi prometida em Sua aliança. Desejo realçar o fato de que a restauração não está de acordo com o nosso pensamento, previsão ou imaginação. Nem mesmo está de acordo com a nossa visão. A restauração do Senhor está integralmente de acordo com a Sua aliança. Nessa aliança, o Senhor Jesus disse: "edificarei a minha igreja" (Mt 16:18). Ao longo dos anos, o inimigo tem tentado destruir a restauração. Mas, por estar ela de acordo com a aliança de Deus, não pode ser destruída. Reconhecemos que o caminho da restauração do Senhor não é fácil. O mesmo ocorreu com os filhos de Israel no livro de Êxodo. Antes de serem libertos do cativeiro, houve muitos conflitos entre Deus e Faraó. Não se tratou facilmente com Faraó. No mesmo princípio, também não se trata facilmente com o Faraó de hoje Satanás e o "ego" usurpador e possuído por ele. As vezes podemos estar desanimados, exatamente como Moisés e os filhos de Israel. Nessas horas, precisamos lembrar-nos de Jeová e de Sua aliança. Como é estranho que Deus não tenha aniquilado Faraó com um sopro! Pelo contrário, Ele propositadamente se envolveu em conflito com ele. Até mesmo deliberadamente fez com que seu coração se endurecesse. Se fosse Moisés, eu diria: "Senhor, já que endureceste o coração de Faraó, por que me enviaste?" Ao tratar assim com Faraó, o Senhor estava trei- nando Moisés e os filhos de Israel, para O conhecerem pelo nome de Jeová e para conhece-

rem a Sua aliança. Não importa qual tenha sido a intensidade do combate; Jeová, por fim, cumpriu Sua aliança. Não fique aborrecido com qualquer oposição que se faça à restauração do Senhor, nem fique desanimado quando a religião se levantar contra nós. O Faraó de hoje pode lutar, re- sistir e retardar; mas, por fim, não poderá prevalecer contra o Senhor e a Sua restauração, porque temos o nome do Senhor e a Sua aliança. Não estamos envolvidos numa obra cristã vulgar. O objetivo da restauração do Senhor é edificar a igreja de acordo como o nome de Deus e a Sua aliança. Lembre-se de que o Senhor foi elevado à cruz e ao trono. Ele está agora no trono como sinal seguro de que Sua aliança foi avalizada. Como Jeová, o Salvador, o grande Eu Sou, Ele haverá de cumprir Sua aliança e introduzir-nos na boa terra.

EESSTTUUDDOO--VVIIDDAA DDEE ÊÊXXOODDOO

MENSAGEM QUINZE

O TREINAMENTO ADICIONAL QUE DEUS PROPORCIONOU A MOISÉS

Nesta mensagem, consideraremos o treinamento adicional que Deus proporcionou a Moisés (6:1 a 7:7). Após o primeiro conflito com Faraó, Moisés sentiu que havia falhado. Deus o enviara para proferir Sua palavra a Faraó. Todavia, em vez de atentar a essa palavra, Faraó se tornou ainda mais perverso em seu tratamento para com os filhos de Israel; e o povo se queixou a Moisés. Este, sentindo-se derrotado, queixou-se por sua vez

ao Senhor: "ó Senhor, por que afligiste este povo? Por que me enviaste: Pois desde que me apresentei a Faraó, para falar-lhe em teu nome, ele tem maltratado este povo: e tu de nenhuma sorte livraste o teu povo" (5:22-23). A reação de Moisés mostrava-o necessitado de um treinamento adicional. Deus não o enviaria novamente a Faraó antes de lhe propiciar um melhor preparo.

Já enfatizamos que o chamamento que Deus lhe fez nos capítulos três e quatro deste

livro é o mais completo de toda a Bíblia. À época em que o chamou, Deus gastou com ele muito tempo, e Moisés tanto recebeu revelação como instrução. Tomou a palavra de Deus e fez tudo o que Ele o incumbira de realizar. As coisas, todavia, não aconteceram como ele esperava. Para sua surpresa, ele foi derrotado. Faraó saiu vitorioso, e os filhos de Israel sofreram todas as consequências. Esse foi o motivo pelo qual ele se queixou ao Senhor acerca da situação. Em Seu treinamento adicional dispensado a Moisés, o Senhor procurou sensibilizá-lo com o Seu nome e a Sua aliança. Lembrou-lhe ser Ele Jeová, Aquele que era, que é, e que há de ser. Também o lembrou da Sua aliança feita com Abraão, Isaque e Jacó concernente à boa terra. Disse-lhe que Ele estendera a Sua mão para dar a boa terra à sua descendência. Ao falar a Moisés sobre essas duas coisas. Deus o estava treinando para conhecer Sua pessoa e Sua palavra fiel em Sua aliança. Além de lhe falar de Seu nome e de Sua aliança, o Senhor lhe propiciou um treinamento

adicional sobre seis outros pontos. O primeiro deles foi a Sua palavra de certeza. Precisa- mos atentar à Sua palavra de certeza, a palavra que Ele nos fala repetidas vezes. Se quisermos hoje seguir o Senhor, para levar adiante o Seu testemunho em Sua restauração, precisamos aprender a levar em consideração Sua repetida palavra de certeza. Mas, quando vem essa palavra, poucos servos de Deus a reconhecem.

O segundo ponto foi a descrença dos filhos de Israel. De acordo com o nosso conceito

natural, aqueles a quem somos enviados deveriam ser como a casa de Cornélio, apropria- damente preparados e prontos para acatar nossa palavra. Imaginamos que, se Deus nos envia para falar a algumas pessoas em determinado lugar, os seus corações estarão abertos para receber tudo o que dissermos. Todavia, por causa de sua descrença, os filhos de Israel não deram ouvidos a Moisés. Em vez de ser encorajado por eles, Moisés foi distraído, desencorajado, e ficou decepcionado. Aqui há uma lição para nós. Se formos escolhidos por Deus para guiar certas pessoas, não deveremos esperar que elas sejam positivas em relação a nós. Suponha que Deus o estabeleça por presbítero de determinada igreja. Não pense que os daquela igreja haverão de ser positivos com relação a você ou que crerão em tudo o que você disser. Pelo

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