10 Domingo, 30.6.

2013 / ABC DOMINGO

ESPECIAL

Para nem todo mundo “ver”
Lei que amplia audiodescrição na TV entra em vigor amanhã sem garantir inclusão
micheli aguiar/ges-eSPECIAL

SEM ACESSIBILIDADE - Em seu último discurso em rede nacional de rádio e televisão, a presidente Dilma Rousseff (foto) veio a público falar sobre as manifestações no País. No entanto, não havia nenhum recurso de inclusão em sua fala. Não houve uso de Libras nem de audiodescrição.

micheli aguiar

Para quem não enxerga ou tem baixa visão uma imagem não vale mais do que mil palavras. A máxima popular, aqui, dita ao contrário, quer exemplificar o que é necessário para a audiodescrição (AD): a fala. O recurso, conhecido desde a década de 1980 e ainda pouco utilizado no Brasil, tenta garantir as pessoas com deficiência visual experiências audiovisuais e cênicas, como, por exemplo, compreender o que acontece nas cenas mudas de um filme. A portaria 188, do Ministério das Comunicações, que entra em vigor amanhã, obriga as emissoras de televisão aberta a ampliar de duas horas para quatro horas a programação semanal com recurso inclusivo e acessível da AD. A quantidade de horas e, consequentemente, de programas com o recurso disponível, ainda é muito pouco perto do que países como Inglaterra e França oferecem. Os ingleses, por exemplo, têm 50% da grade televisiva com AD, sendo que a lei exige apenas 10% da programação com o recurso, informa o diretor da Iguale Comunicação de Acessibilidade, Maurício Santana. Segundo ele, a ampliação do horário exigido é um avanço na luta dos direitos das pessoas com deficiência, no entanto, é pouco diante de tudo que é oferecido de conteúdo pelas televisões no País. “Sabemos que ainda há muito que avançar, mas são essas conquistas que fazem o País oferecer condições cada vez mais iguais aos seus cidadãos”, explica. Para Paulo Romeu, responsável pelo Blog da Audiodescrição, o horário nobre seria o ideal para o uso das poucas horas exigidas da AD na televisão. “Este é o momento em que estão sendo exibidos os principais programas e em que a maioria das pessoas está em casa. Assim, as emissoras garantem que a audiodescrição seja realmente acessada por quem de fato precisa”, afirma.

DEDICADA: Cler é uma das defensoras da acessibilidade integral à população

A Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo teve nesta última semana uma sessão que contou com o recurso de audiodescrição. Feito de maneira voluntária pela jornalista e funcionária pública, Cler de Oliveira, 37 anos, o ato foi inédito em um legislativo do Estado. A sessão foi em homenagem à Associação dos Deficientes Visuais de Novo Hamburgo (Adevis NH), que completou 25 anos, e para a qual ela também faz trabalho voluntário. “Foi emocionante por uma série de fatores. Passei noites sem dormir para fazer este trabalho.” Cler é um exemplo quando se trata de acessibilidade. Mesmo não portando nenhuma deficiência visual ou auditiva, ela é uma dedicada aprendiz de audiodescrição, libras e braile. “Meu lema é o mundo todo para todo mudo.” E como exemplo do lema seguido, estão os blogs que Cler mantém. No www.aplicativosparapcd.com ela apresenta recursos para celulares ou computador para pessoas com deficiência. Já no hitnarede. com, um blog dedicado à música, Cler faz a descrição de todas fotos que posta. “Não preciso deixar exposto para quem tem a visão perfeita. Existem recursos para deixar esta descrição escondida e quem tem deficiência as encontra devido a programas que usam para acessar a Internet”, explica.

Aprender para ser acessível

Exemplo de roteiro AD

Divulgação

Pouca qualidade
O que acontece, no entanto, é que a maioria das faixas de programação que oferecem o recurso tem o público infantil como alvo e não oferecem qualidade. “A audiodescrição da TV brasileira é muito ruim ainda. Temos muito a evoluir. Enquanto usuário, acredito que a TV Aparecida, de São Paulo, ofereça um serviço bom, mas ainda longe do ideal”, avalia Felipe Mianes, 27 anos, historiador e com baixa visão. Uma das explicações para a deficiência no serviço é a falta de profissionais para realizar a roteirização do conteúdo a ser descrito. “O que temos hoje são pessoas da dublagem fazendo o trabalho de profissionais que precisam de qualificação, que saibam mais do que ler e atuar bem. Audiodescrição é muito mais do que isso, além de exigir a técnica correta”, explica Maines, que também é professor de audiodescrição. Para formar uma profissional habilitado a fazer AD são necessárias pelos menos 160 horas de sala de aula. Cursos de formação ainda são raros no Brasil e mais ainda no Estado. A profissão só foi reconhecida apenas este ano pelo Código Brasileiro de Ocupações.

SAIBA MAIS
A lei que exige a programação com audiodescrição não especifica em quais horários as emissoras devem usar o recurso. O resultado é a AD, basicamente, em programação infantil, filmes e seriados. SBT No SBT a AD pode ser conferida apenas no seriado Chaves nos seguintes horários: de segunda à sexta das 14h15 às 14h40, nos sábados, das 6 às 7 horas, e no domingo, das 9 às 11 horas. Rede Record A Record já oferece 5h45 semanais de programação nacional com AD. O recurso está disponível nas série Todo Mundo Odeia o Chris, às 15 horas dos sábados, e Dr. House, às quintas-feiras à meia-noite, e também no desenho Pica Pau, aos domingos, das 9 às 13 horas. Bandeirantes A Band já cumpre a cota em algumas séries do Band Kids exibido durante a semana pelas manhãs. A emissora não divulgou quais outros programas receberão o recurso para se enquadrar na nova lei. Rede Globo A Globo disponibiliza a AD nos horários de filmes da Tela Quente e da Temperatura Máxima, somente na televisão digital. Para atender à nova cota, o recurso passa a ser oferecido na série Revenge e no Domingo Maior, ambos exibidos nas noites de domingos. O telespectador pode acessar o recurso por meio da tecla SAP.

ADEVIS: atividade na Feira do Livro de NH O roteiro de audiodescrição, ou mesmo de descrição, pode ser usado para vários fins. Jornalismo, teatro, cinema, televisão, etc. Aqui no Rio Grande do Sul, no entanto, não está acessível em nenhum espaço fora da TV. No Rio de Janeiro, o Museu do Futebol é um dos exemplos positivos do uso do recurso. A seguir um exemplo de como o texto é construído. A descrição é de uma foto: “A foto colorida mostra a professora voluntária Sandra Louzzado ensinando braile. Os alunos, Bolívar, Cici, Fernando e Gilson, estão sentados, em torno de uma mesa redonda de vidro. Em frente a cada um, há uma folha branca, reglete e punção. Ao fundo, vê-se encostada à parede do estande uma impressora braile e a tela de um computador, que é operado por um homem de camiseta azul. Pela abertura do estande é possível ver parte da paisagem que compõe a Praça 20 de setembro, no Centro de Novo Hamburgo.”

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