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Telef (+351291)214970 Fax (+351291)223002 VIEIRA, Alberto (2005), Açúcar, Melaço, álcool e

VIEIRA, Alberto (2005),

Açúcar, Melaço, álcool e aguardente. Notas e Experiências de João Higino

Ferraz(1884-1946),

COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:

VIEIRA, Alberto (2005), Açúcar, Melaço, álcool e aguardente. Notas e Experiências de João Higino Ferraz(1884-1946), Funchal, CEHA-Biblioteca Digital, disponível em: http://www.madeira- edu.pt/Portals/31/CEHA/bdigital/avieira/2005-jhferraz-notas.pdf, data da visita: / /

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Açúcar, Melaço, Álcool e Aguardente

Notas e Experiências de João Higino Ferraz (1884-1946)

Governo Regional da Madeira

Açúcar, Melaço, Álcool e Aguardente

Notas e Experiências de João Higino Ferraz (1884-1946)

COORDENAÇÃO, PREFÁCIO E NOTAS ALBERTO VIEIRA

LEITURA, TRANSCRIÇÃO E NOTAS FILIPE DOS SANTOS

Governo Regional da Madeira

TÍTULO

Açúcar, Melaço, Álcool e Aguardente. Notas e Experiências de João Higino Ferraz (1884-1946)

COLECÇÃO

DOCUMENTOS Nº. 11

1ª EDIÇÃO

Dezembro de 2005

AUTOR

©ALBERTO VIEIRA FILIPE dos SANTOS

EDIÇÃO

CENTRO DE ESTUDOS DE HISTÓRIA DO ATLÂNTICO RUA DOS FERREIROS, 165, 9004-520 FUNCHAL TELEF. 291-229635/FAX: 291-223002 Email: ceha@avieira.net. Webpage: http://www.ceha-madeira.net

TIRAGEM

2000 exemplares

IMPRESSÃO

DEPÓSITO LEGAL

ISBN

972-8263-50-3

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

9

AS NOTAS DE JOÃO HIGINO FERRAZ E A HISTÓRIA DO AÇÚCAR

13

A DOCUMENTAÇÃO

15

NORMAS DE TRANSCRIÇÃO

16

LIVROS DE NOTAS

– Livro do armazem de conhecimentos uteis do assucar e melaços – cereaes – e Explicações sobre a Maltagem

23

– Livro de notas sobre fabricação d’assucar e alcool, e tabellas de calculos de João Higino Ferraz

51

– [Livro de Notas 1904-1905, açúcar e álcool]

161

3.º Livro de notas de Fabricação de 1910

193

– Livro da Quinta do Seiceiro – S. to da Serra e Cidreria 1913 a 1914

235

– Livro de Notas de fabricação assucar de 1915 N.º 2

239

– Livro de Notas 1915-1916 Assucar, alcool e diversos Nº 2 – 1 de 1916

263

– Livro de Notas 1917 Assucar, alcool e diversos Nº 1 Composição dosphosphatos e do aluminato baryta

315

– Livro de Notas 1918-1919 Sobre vinhos e xaropes d’uvas Nº 1

327

– Livro de Notas 1919 Assucar, alcool e diversos Nº 1

331

– Livro de Notas 1919 Sobre assucar alcool e diversos Nº 2

367

– Livro de notas 1920-1921 assucar, alcool e diversos Nº 3 Especialmente sobre a saccharificação do milho – cubas fechadas e fermentação Laboração de 1921

395

– Livro de Notas Vinharia Nº 2 1922

433

– [Livro de Notas 1922-1923, açúcar, vinho e álcool]

437

– Livro de Notas Vinharia e outros 1923 N.º 2

447

– Livro de Notas assucar vinhos e diversos N.º 5 1923

487

– Livro de despezas na construção da Vinharia fabrico. 1923-1924

505

– Livro de Notas 1924 assucar, alcool e diversos Nº 1

509

– Livro de Notas 1924 Fabricação etc. Nº 2

537

– Livro de Notas Vinharia 1924 Nº 3

567

AGENDA PORTUGUESA 1928

583

AGENDA PORTUGUESA 1929

681

– Livro de Notas Nº 3 – 1931-1932 Vinhos e outros Vinho-Maltine e cidrovinho-maltine

779

– AGENDA GABINETE 1932

783

– Livro de Notas Nº 2 1937 assucar, alcool e diversos Laboração de 1937 Vinhos no fim do livro

789

DOCUMENTAÇÃO AVULSA DE JOÃO HIGINO FERRAZ 831 DOCUMENTAÇÃO AVULSA DE OUTROS AUTORES 845

ÍNDICE ANALÍTICO DE EQUIPAMENTOS INDUSTRIAIS

853

INTRODUÇÃO

Noutro volume publicou-se a correspondência de João Higino Ferraz, que compreende o período de 1898 a 1937, aqui

daremos conta dos diversos livros de notas que conseguimos reunir sobre a actividade relacionada com o açúcar, melaço, álcool

e

aguardente, reservando os idênticos sobre o vinho para um terceiro volume. Enquanto as cartas revelaram a dimensão externa

e

interna do relacionamento de João Higino Ferraz com o seu entorno, já os apontamentos e cadernos de notas assumem um

carácter mais privado e tinham apenas como objectivo auxiliá-lo no labor de director técnico do engenho do Hinton. Os apontamentos e notas que ora se publicam são um dado precioso para entender, primeiro a História do engenho, e depois da evolução da tecnologia e química relacionadas com o açúcar, num período crucial como este de finais do século XIX e princípios do século XX. Os documentos, que abarcam os anos de 1884 a 1946, não abarcam todo o âmbito de intervenção de João Higino Ferraz no Hinton mas são suficientemente elucidativos sobre a realidade da indústria açucareira. Nos últimos anos a aposta na História do Açúcar tem revelado espólios documentais de excepcional valor, mas ainda não vimos um igual ao que tivemos a felicidade de encontrar. Aqui, quase de forma diária documenta-se o dia à dia do engenho nas suas componentes técnica e química, dando-se soluções, a propósito, que depois acabarão por ser usadas localmente e adoptadas como solução para outras situações semelhantes na Europa, África, América e Austrália.

A Europa sempre se prontificou a apelidar as ilhas de acordo com a oferta de produtos ao seu mercado. Deste modo,

sucedem-se as designações de ilhas do pastel, do açúcar e do vinho. O açúcar ficou como epíteto da Madeira e de algumas das ilhas Canárias, onde a cultura foi a varinha de condão que transformou a economia e vivência das populações. Também do outro lado do oceano elas se identificam com o açúcar, uma vez que serviram de ponte à passagem do Mediterrâneo para o Atlântico. Daqui resulta a relevância que assume o estudo do caso particular das ilhas, quando se pretende fazer a reconstituição da rota

do açúcar. A Madeira é o ponto de partida, por dois tipos de razões. Primeiro, porque foi pioneira na exploração da cultura e, depois, porque jogou papel fundamental na expansão ao espaço exterior próximo ou longínquo, incluídas as Canárias.

A rota do açúcar, na transmigração do Mediterrâneo para o Atlântico, tem na Madeira a principal escala. Foi na ilha que a

planta se adaptou ao novo ecossistema e deu mostras da elevada qualidade e rendibilidade. Deste modo, a quem quer que seja

que se abalance a uma descoberta dos canaviais e do açúcar, na mais vetusta origem no século XV, tem obrigatoriamente que passar pela ilha. Foi aqui que se definiram os primeiros contornos da realidade, que teve plena afirmação nas Antilhas e Brasil.

A cana-de-açúcar iniciou a diáspora atlântica na Madeira. Aqui surgiram os primeiros contornos sociais (a escravatura),

técnicos (engenho de água) e político-económicos (trilogia rural) que materializaram a civilização do açúcar. Por tudo isto torna-se imprescindível uma análise da situação madeirense, caso estejamos interessados em definir, exaustivamente, a civilização do açúcar no mundo atlântico.

A história do açúcar na Madeira confunde-se com a conjuntura de expansão europeia e dos momentos de fulgor do

arquipélago. A presença é multissecular e deixou rastros evidentes na sociedade madeirense. Dos séculos XV e XVI ficaram os

imponentes monumentos, pintura e a ourivesaria que os embelezou e que hoje jaz quase toda no Museu de Arte Sacra. Do século

XIX e do primeiro quartel do século XX perduram ainda a maioria dos engenhos da nova vaga de cultura dos canaviais. A cana

diversificou-se no uso industrial, sendo geradora do álcool, aguardente e, raras vezes, do açúcar. O açúcar é de todos os produtos que acompanharam a expansão europeia aquele que moldou, com maior relevo, a mundividência quotidiana das novas sociedades e economias que, em muitos casos, se afirmaram como resultado dele. A cana sacarina, pelas especificidades de cultivo, especialização e morosidade do processo de transformação da garapa em açúcar, implicou uma vivência particular, assente num específico complexo sócio-cultural de vida e convivência humana. A cana-de-açúcar é entre todas as plantas domesticadas pelo Homem a que mais implicações teve na História da Humanidade. Até hoje são evidentes as transformações operadas na agricultura, técnica, química e siderurgia, por força da

cultura da cana sacarina, beterraba e da produção de açúcar, mel, aguardente, álcool e rum 1 . A chegada ao Atlântico, no século

XV, provocou o maior fenómeno migratório, que foi a escravatura de milhões de africanos, e teve repercussões evidentes na

cultura literária, musical e lúdica. Foi no Atlântico que a cultura atingiu a plena afirmação económica, assumindo uma posição dominante no sistema de trocas. Fernand Braudel define de modo claro a forma de intervenção do açúcar no capitalismo:

Devastadora do antigo equilíbrio, a cana é tanto mais perigosa quanto é apoiada por um capitalismo poderoso, que, no século XVI, provem tanto de Itália, como de Lisboa ou de Antuérpia, e ao qual ninguém consegue resistir2 . A isto Vitorino Magalhães Godinho acrescenta que “a génese do mundo atlântico está pois, em grande parte, ligada àquilo a que Fernand Braudel chama muito apropriadamente dinâmica do açúcar.” 3

De verdade a cana sacarina começou por ser uma cultura do mundo insular, e em toda a expansão nos diversos espaços as

ilhas foram importantes áreas de aclimatação, mas foi nos continentes que a cultura terá adquirido maior dimensão e pujança.

De uma forma clara podemos afirmar que as grandes inovações relacionadas com a cultura e tecnologia do açúcar aconteceram

nas ilhas. A primitiva muda de cana é originária das ilhas, pois foi na ilha Papua da Nova Guiné que o homem iniciou o processo de domesticação, mas hoje a cultura é conhecida mais pelos espaços continentais do que pelo mundo insular. Acresce ainda que no processo de transmigração para Ocidente as ilhas mediterrânicas, de Chipre e Sicília, foram destacados entrepostos de alargamento da cultura ao mundo ocidental e que, segundo a tradição, terá sido a partir da Sicília que as primeiras mudas de

cana chegaram à Madeira. Depois foi a expansão no Atlântico com as ilhas a serviram de novo como anteparo. Da Madeira

passou aos Açores, Canárias, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe e, depois destas às ilhas do Caribe e à ilha de S. Vicente, na

actual Baía de Santos, para depois dar o salto até ao vasto espaço continental brasileiro. Não fica por aqui o protagonismo das ilhas, pois para além da dimensão divulgadora da cultura aos insulares foi atribuída a tarefa de inventar novas formas de transformação do produto adequadas à dimensão da área cultivada.

O açúcar é, entre todos os produtos que no Ocidente se atribuiu valor comercial, o que foi alvo de maiores inovações no seu

fabrico. No caso do fabrico do vinho a tecnologia pouco ou nada mudou desde o tempo dos Romanos. Várias condicionantes favoreceram a necessidade de permanente actualização, situação que se tornou mais clara no século XVIII com a concorrência

da beterraba. Mesmo assim ainda hoje persiste em alguns recantos do Mundo, na China, Índia ou Brasil, onde a tecnologia da revolução industrial ainda não entrou.

O fabrico do açúcar está limitado pela situação e ciclo vegetativo da planta. A cana sacarina tem um período útil de vida em

que a percentagem de sacarose era mais elevada. A cana estava pronta para ser colhida e a partir daqui um dia que passasse era

uma perda para o produto. Acresce que a cana depois de cortada tem pouco mais de 48 horas para ser moída e cozida, pois caso

contrário começa a perder sacarose e inicia o processo de fermentação. Daqui resulta a necessidade de acelerar o processo de fabrico do açúcar através de constantes inovações tecnológicas que cobrem o processo de corte, esmagamento e cozedura. A isto junta-se o aumento da mão-de-obra, que se faz à custa de escravos africanos. A cana-de-açúcar não está na origem da escravidão africana mas sim no processo de afirmação da mão de obra escrava, que acontece a partir da Madeira. Enquanto a cultura se fazia em pequenas parcelas a maior parte das questões não se colocavam, mas quando se avançou para uma produção

1

Existe um conjunto variado de textos que valoriza o papel da cana como motor do progresso em vários sectores: Luiz del Castilho, A Fabricação do Assucar de Canna. Notas e formulas…, Rio de Janeiro, 1893, p.5; P. Horsin-Déon, Le Sucre et L’Industrie sucrière, Paris, 1894, p.5; D. Sidersky, Manuel du Chimiste de Sucrerie, Paris, 1909; IDEM, Aide-Mémoire de Sucrerie, Paris, 1936, pp.3; F. A. Lopez Ferrer, Fabricación de Azúcar de Caña Mieles

y

Siropes Invertidos com su Control Técnico-Quimico, Habana, 1948, p.V; IDEM, Maquinaria y aparatos en los Ingenios de Azucar de Caña, La

Habana, 1949; A. C. Barnes, Agriculture of the Sugar-Cane, Londres, 1954, p. IX; Andrew Van Hook, Sugar its Production, Technology and uses, N. York, 1969, p. III.

2

O

Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico, Lisboa, 1983 [1ª edição em 1966], p. 178.

3

Mito e Mercadoria Utopia e Prática de Navegar. Séculos XIII-XVIII, Lisboa, 1990, p. 478.

em larga escala houve necessidade de encontrar soluções capazes de debelar a situação. A viragem aconteceu a partir de meados do século XV na Madeira e deverá ter implicado mudanças radicais na tecnologia usada e na afirmação da escravatura dos indígenas das Canárias e dos negros da Costa da Guiné. É por isso que se assinala a partir da Madeira importantes inovações tecnológicas no sistema de moenda da cana com a generalização do sistema de cilindros. A história tecnológica evidencia que a expansão europeia condicionou a divulgação de técnicas e permitiu a invenção de

novas que contribuíram para revolucionar a economia mundial. Os homens que circularam no espaço atlântico foram portadores

de uma cultura tecnológica que divulgaram nos quatro cantos e adaptaram às condições dos espaços de povoamento agrícola. Aos madeirenses foi atribuída uma missão especial nos primórdios do processo. Na Madeira, um dos aspectos mais evidentes, da revolução tecnológica iniciada no século XV prende-se com a capacidade do europeu em adaptar as técnicas de transformação conhecidas a circunstâncias e às exigências de culturas e produtos tão

exigentes como a cana e o açúcar. O tributo foi evidente. Ao vinho foi-se buscar a prensa, ao azeite e aos cereais a mó de pedra. Por outro lado estamos perante uma permuta constante de processos tecnológicos e formas de aproveitamento das diversas fontes de energia. A tracção animal, a força motriz do vento e da água foram usadas em simultâneo com os cereais e cana sacarina. As mudanças ocorridas a partir de finais do século XVIII, com a plena afirmação da máquina a vapor, conduziram a uma transformação radical do complexo açucareiro que assume a dimensão espacial de uma fábrica, onde todas as operações se executam em série apenas numa planta. A revolução industrial legou-nos a fábrica, fez aparecer o laboratório, uma peça chave no fabrico do açúcar, e obrigou a uma especialização dos técnicos envolvidos. O mestre de engenho dá lugar ao engenheiro químico. Paulatinamente o processo de transformação da cana sacarina em açúcar retirou espaço à presença de mão-de-obra escrava, fazendo-a substituir por emigrantes europeus, indianos e chineses. Até ao advento do açúcar de beterraba em princípios do século XIX a tecnologia de moenda e fabrico do açúcar não sofreu muitas modificações. Ao nível da moagem da cana houve necessidade de compatibilizar as estruturas com a expansão da área

e o volume de cana moída, avançando-se assim dos ancestrais sistemas para a adaptação dos cilindros. Entre os séculos XV e

XVII as inovações mais significativas ocorrem aqui. Os cilindros passam a dominar todos os sistemas, de tracção animal,

humana, vento e água, destronando o pilão, o almofariz e a mó. Do simples mecanismo de cilindros duplos horizontais, evolui- se para os verticais, que no século XVII passam a ser de três, o que permite uma maior capacidade de moenda e aproveitamento do suco da cana. Com os dois cilindros poder-se-á aproveitar apenas 20% do suco da cana, enquanto com três até 35%. As técnicas experimentadas na moenda vão no sentido de um maior aproveitamento do suco disponível no bagaço da cana. A situação de Cuba na década de setenta do século XIX pode ser elucidativa da realidade 4 . Uma maior capacidade na moenda implica maior disponibilidade de garapa a ser processada para se poder dispor do melado ou do açúcar. Uma situação empurra a outra conduzindo a soluções cada vez mais avançadas. As dificuldades com a obtenção de lenhas ou os elevados custos do transporte até ao local do engenho conduzem a soluções que paulatinamente vão sendo adoptadas por todos. Primeiro reaproveita-se o bagaço da cana e depois através de um mecanismo de fornalha única consegue-

se alimentar as cinco caldeiras de cozimento. O sistema ficou conhecido por trem jamaicano, por, segundo alguns, terá tido aí origem, mas na verdade temos informação do seu uso, não tão apurado, na Madeira e Canárias, no século XVI. Em 1530 Giulio

Landi descreve o sistema de fabrico de açúcar com cinco caldeiras agrupadas.

Jamaica esteve na frente das inovações da tecnologia açucareira a partir da segunda metade do século XVIII. São os ingleses que dão o passo definitivo para a mudança radical através da introdução da máquina a vapor. O primeiro engenho horizontal de

tipo moderno foi desenhado em 1754 por John Smeaton na Jamaica, recebendo a partir de 1770 o impulso da máquina a vapor.

A nova tecnologia, que se aperfeiçoou com o andar dos tempos, poderá acoplar até 18 cilindros em sistema de tambor, tornando

mais rápida e útil a moenda. Com cinco cilindros o aproveitamento do suco pode ir até 90%, enquanto que com os tambores de 18 cilindros quase se atinge a exaustão com 98%. Por outro lado nos engenhos tradicionais a média de moenda por 24 horas não ultrapassava as 125 toneladas, enquanto que com o novo sistema a vapor começa por atingir mais de três mil toneladas de cana. Outro factor significativo da safra prendia-se com a velocidade a que o processo da moenda da cana deveria ocorrer, mais

uma vez no sentido de se retirar o maior rendimento da cana através da sacarose. A cana tem um momento ideal para ser moída

e depois de cortada os prazos para a moenda são curtos, caso queira evitar-se a fermentação, que é sinónimo de perda de

sacarose 5 . Nos avanços tecnológicos tem-se em conta esta corrida contra o tempo, criando-se mecanismos capazes de moer cana

4 João José Carneiro da Silva, Estudos Agrícolas, Rio de Janeiro, 1872, p. 94.

5 Cf. J. de Laguarrique de Survilliers, Manuel de Sucrerie de Cannes, Paris, 1932, pp. 29.

como maior rapidez 6 . Segue-se o processo de fabrico do açúcar que se distribui por quatro momentos: purificação da garapa, evaporação da água

e, finalmente, a clarificação e cristalização. Até aos inícios do século XIX o processo poderia durar de 50 a 60 dias, mas as

aportações tecnológicas conduziram a que o mesmo se passasse a fazer em apenas um mês em 1830 e apenas 16 horas em 1860, através do novo sistema de centrifugação. As primeiras mudanças ocorrem ao nível do processo de clarificação. Em 1805

Guillon, refinador do açúcar em New Orleans preconiza o uso do carvão para purgar, em 1812 Edward Charles Howard constrói

a primeira caldeira de vacuum, conhecida como “howard saccharine evaporator”, que veio revolucionar o sistema de fabrico

do açúcar. Três anos depois surge em Inglaterra o sistema de filtros de Taylor. O evaporador de múltiplo efeito foi inventado em 1830 por Norbert Rillius [1806-1894] de New Orleans, sendo usada nos primeiros engenhos desde 1834. Deste modo torna-

se mais fácil a retirada de cerca de 85% de água que existe no suco da cana e um maior aproveitamento do açúcar. As novidades na clarificação e cristalização ocorrem num segundo momento. Assim, em 1844 o alemão Schottler aplicou pela primeira vez

a força centrífuga na separação do melaço do açúcar branco, mas foi Soyrig quem construiu em 1849 a primeira máquina de

centrifugação, que abriu o caminho para o fabrico do primeiro açúcar granulado, em 1859. Este sistema vinha sendo utilizado desde 1843 na indústria têxtil. Os equipamentos contribuíram para acelerar o processo de purga do açúcar permitindo que se passasse do moroso processo de quase dois meses para apenas 16 horas e hoje em apenas alguns segundos. A segunda metade do século XIX foi o momento da aposta definitiva na engenharia açucareira, contribuindo para importantes inovações. O mercado ocidental foi inundado de açúcar de cana e beterraba. O desenvolvimento da indústria de construção de equipamentos para o fabrico de açúcar, seja de cana ou de beterraba, aconteceu em países onde esta assumia uma posição significativa na economia. Deste modo a França e a Inglaterra assumiram a posição pioneira no desenvolvimento da tecnologia açúcareira. À sua posição no início da indústria do açúcar de beterraba temos a colonial. Os Franceses detinham importantes colónias açucareiras nas Antilhas, enquanto os Alemães apostavam forte em Java. Os ingleses surgem por força das colonias nas Antilhas e Índia e os Estados Unidos da América com New Orleans e, depois o Havai. Cuba foi um dos espaços açucareiros onde mais se inovou em termos tecnológicos. As primeiras décadas do século XIX foram de plena afirmação da ilha, que se transformou em modelo para a indústria açucareira. Em França tudo começou com o químico Charles Derosne [1779-1846] que montou em 1812 uma fábrica de construção de

aparelhos de destilação continua. Nesta empresa passou a trabalhar em 1824 J. F. Cail na qualidade de operário de carvão, que em 4 de Março de 1836 passa à condição de associado. A sociedade Derosne et Cail manteve-se até 1850, altura em que passou

a chamar-se J. F. Cail et C ie , que em 1861 passou a cooperar com a nova C ie Fives-Lille, especializada no fabrico de equipamentos para fábricas de açúcar e caminhos-de-ferro. Os equipamentos, saídos da empresa Cail, chegaram às colónias holandesas, espanholas, inglesas e francesas, México, Rússia, Áustria, Holanda, Bélgica e Egipto. À indústria francesa juntaram-se outros complexos industriais na Europa: Inglaterra (Glasgow, Birmingham, Nottingham, London, Manchester, Derby), Holanda (Breda, Roterdão, Schiedam, Utrecht, Delft, Hengelo, Amsterdam), Estados Unidos da América (Oil City, Ohio, Denver, New Jersey), Alemanha (Magdeburgo, Zweibruecken, Halle, Dusseldorf, Sangerhausen, Ratingen, Halle), Bélgica (Bruxelas, Tirlemont). A Inglaterra foi desde meados do século XVII um dos mais importantes centros de refinação de açúcar na Europa. As refinarias proliferam nas cidades de Bristol, Essex, Greenock, Lancaster, Liverpool e Southampton 7 . Isto justifica o desenvolvimento tecnológico. Aqui, merece destaque a iniciativa de Mirless Watson. A abertura às inovações tecnológicas, como forma de tornar concorrencial o produto, acarreta algumas consequências para a indústria ao nível nacional. Os investimentos são vultuosos e, por isso mesmo só se tornam possíveis mediante incentivos do Estado. A inovação e recuperação da capacidade concorrencial só se tornaram possíveis à custa da concentração. Tanto em Cuba como no Brasil a década de oitenta foi marcada pelos grandes engenhos centrais.

6 Cf. Nilo Cairo, O Livro da Canna de Assucar, Curitiba, 1924, pp. 85-86, 109; A. Bernard, “A Evolução das Moendas de Canas”, in Brasil Açucareiro, XXXVIII, 2, 1951, pp. 73, 76.

7 John M. Hutcheson, Notes on the Sugar Industry of the United Kingdon, Greenock, 1901; Frank Lewis, Essex and sugar, 1976.

AS NOTAS DE JOÃO HIGINO FERRAZ E A HISTÓRIA DO AÇÚCAR

Os diversos livros de notas contemplam um período amplo e significativo da História do Açúcar no Ocidente, sendo a concorrência entre a beterraba e cana sacarina o factor principal dos avanços evidentes na técnica e química laboratorial. Em muitos situações relatadas estamos perante os principais problemas com que se debatia a indústria açucareira na época, como poderemos ver adiante. No conjunto de documentos destacam-se os relatórios anuais 8 do punho do próprio João Higino Ferraz, que serviam tanto de memória do funcionamento da empresa, como resultado e reflexão das inovações entretanto postas em marcha. Assiduamente refere-se ao processo de fabrico do açúcar no engenho do Hinton e às mudanças que foram sendo estabelecidas 9 . É de notar o especial destaque atribuído ao sistema definido nesta fábrica, numa junção das inovações de Naudet e do próprio João Higino Ferraz, que ficou conhecido como o sistema Hinton-Naudet 10 . A tudo isto acrescem pormenores sobre experiências ou soluções ao nível da mecânica e da química 11 . Ainda podemos assinalar o facto de o mesmo estar ao corrente sobre as informações concernentes aos avanços na tecnologia e química, através da assinatura de revistas e compra de livros, maioritariamente de língua francesa. As notas espelham a preocupação de alargamento e actualização de conhecimentos. A seguir se enumeram algumas publicações referenciadas nos livros de notas aqui transcritos.

PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS REFERENCIADAS

441

A.B.C. de Sampaio 12

299

Bolletin 13 Tomo XXX pag 894

55

Bulletin – de Nº 3 setembro 1903

149

Bulletin – Tomo XXIV (1906-1907) paginas 1660

297

Bulletin 1903 pg 749 e tomo XXI – p.59

298

Bulletin Association des Chimistes Tomo XXI pg 59

126

Bulletin Association des Chimistes Nº 6 de Dezembro de 1906 pag. 803

290

Bulletin Association do Cimiste[sic] Julho e Agosto 1914

149

Bulletin da Associação dos Chimicos – Tomo XXV (1907-1908) paginas 733

149

Bulletin da Association des Chimichs Tomo XIX (1902) pag. 1316.

785

Bulletin de Association des Chimistes de março 1931 pag. 108, e de Dezembro 1929 pag. 540.

8 Para os anos de 1903, 1905, 1906, 1907, 1908.

9 Sucede assim: [Livro de Notas 1904-1905, açúcar e álcool], Livro de Notas 1917 Assucar, alcool e diversos Nº 1 Composição dos phosphatos e do aluminato baryta, Livro de Notas 1919 Sobre assucar alcool e diversos Nº 2.

10 Cf

11 Cf. 3.º Livro de notas de Fabricação de 1910, [Livro de Notas 1922-1923, açúcar, vinho e álcool].

12 MELO, Manuel Jacinto de Sampaio e, 1774, Novo methodo de fazer o açucar ou reforma geral economica dos engenhos do Brazil, em utilidade

[Livro de Notas 1904-1905, açúcar e álcool], 3.º Livro de notas de Fabricação de 1910.

particular e publica: offerecido a sua magestade

D. João VI, Bahia: Na Typog. de Manoel Antonio da Silva Serva, 1816.

13 Era editado pela Association des Chimistes de Sucrerie de Distillerie et des Industries Agricoles de France et des Colonies e tinha o título de Bulletin de l’Association des Chimistes de Sucrerie, de Distillerie et des Industries Agricoles de France et des Colonies. O primeiro volume foi publicado em 1883.

317

Bulletin de l’Association des Chimistes Nº 10 a 12 – 1915 – 1916 – Pag. 227. Etudes sur la sucrerie de Cannes Por. Charles Fribourg. Vêr o Bulletin notas completas

56

Bulletin de l’Association des Chimistes Nº 3 setembro 1903 paginas 253

81

bulletin Nº 4 outubro 1900 pag. 200

275

Bulletin XXI – pag 59 sobre aluminato de baryta

546

Bulletin Association des Chimistes Nº 9 – 1923-1924

96

Do livro de Castilho 14 (Brazilleiro)

309

Estudo de Maurus Deutsch 15 18-2-903

555

Guide pratique de l’Experte Chimiste 16 Pg. 283

444

Jornal dés Fabricant de Sucre Nº 52

837

Jornal des fabricantes de Sucre De 10 de março 1928

144

Jornal des Fabricants de Sucre de 4 de Novembro 1908 Nº 45

516

Journal des Fabricant de Sucre 12 Janeiro 1924 – Nº 2

120

Jurnal des Fabricants de Sucre de 23 de stembro[sic] 1908

102

livro Brazilleiro de Luiz de Castilho

355

Livro d’Effront 17 (Les Catalyseurs Biochimiques) pg 734

766

livro de Fribourg 18 (analyses chimiques) pg. 238

343

livro de Gimel 19

504

livro de Siderky 20

751

livro de Vasseux 21 , Fabrication de l’alcool pg. 452

101

M. D. Sidersky – Bulletin de outubro 1905 Nº4

140

No Bulletin da Associação dos Chimicos – Tomo XXV – 1097[sic]-1908 – pag 221, tem a explicação do processo feito por Monsieur L. Levy e 1908-1909 – Tomo XXVI pg 69

89

Bulletin de Dezembro 1909

380

Por Monsieur Vasseux Bulletin Association des Chimistes Nº 10 a 12 – 1917-1918

101

Sucrerie Indigene 22 Nº 19 – 7 Novembro 1905

96

Sucrerie Indigene Nº 9 – 29 agosto 1905

95

Sucrerie Indigéne et colonial nº 17 – outubro 24 – 1905, 95

72

tabua de calculo de l’Inversão optica de Monsieur Buisson. Extrait – do Bulletin da Associação dos chimicos

693

The International Sugar Journal 23 de abril 1929

83

tratado de E. Legier 24 de fabricação do alcool tomo 2º pag. 410 e seguintes.

266

tratado de fabricação d’alcool de Bucheler e Légier Tomo I folhas 335

298

tratado de fabricação de assucar de beterraba e de canna de M. Grobert – 1º Volume pag. 420).

36

tratado de Saccharificação do malt ou Caldeação do malt para o fabrico da cerveja

297

tratado Fabricação assucar beterraba e canna de Crobert 1º volume

80

tratado sobre alcool de Legier Tomo I pag. 696.

14 CASTILHO, Luis Alves de, ?-1898. A fabricação do assucar de canna: notas e formulas para uso dos fabricantes de assucar, refinadores e distilladores, precedidas de uma ligeira noticia sobre experiencias culturaes na Luizianna, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1893.

: Paris : M. Deutsch, 1900. Traduction et

15 O que conhecemos é a tradução de um texto: Stift, Antonin: Les Maladies de la betterave, par A. Stift, édition française par Maurus Deutsch.

Malzéville (Meurthe-

16 Pellerin, Georges (pharmacien-major), Guide pratique de l’expert-chimiste en denrées alimentaires, Préface de E. Jacquemin, et-Moselle) : Institut de recherches scientifiques et industrielles, 1906.

17 Effront, Jean, 1850-1931. Les catalyseurs biochimiques dans la vie et dans l’industrie,

Paris : H. Dunod et E. Pinat, 1907.

18 Fribourg, Charles, L’Analyse chimique en sucreries et raffineries de cannes et betteraves, Préface de Henri Pellet,

19 Gimel, Gilbert. Guide de l’emploi de l’acide sulfureux en vinification; applications diverses en œnologie, Malzéville, près. Nancy, Institut Jacquemin,

Ferments protéolytiques, Paris, H. Dunod et E. Pinat, 1914.

1923.

20 David Sidersky (1858/-), estudioso do tema com várias publicações em Bulletin de l’Association des chimistes e livros como: Analyse physico-chimique des masses-cuites, Paris : Association des chimistes, (1929); Manuel du chimiste de sucrerie, de raffinerie et de glucoserie. Paris, J.-B. Bailliere, 1909.

21 Traité théorique et pratique de la fabrication de l’alcool et de produits accessoires : éther sulfurique, acéton par fermentation, alcool synthétique / par J. Fritsch et A. Vasseux. Paris : Amédée Legrand, 1927.

22 Ou Sucrerie indigène et coloniale, é uma publicação do Comité central des fabricants de sucre de France et des colonies françaises desde 1866.

23 Publicação da especialidade desde 1899 em Chicago.

Paris : J. Fritsch, 1899. Trata-se de Émile

24 Reporta-se a Légier, Émile, Traité de la fabrication de l’alcool, par le Dr Max Bucheler,

Légier, editor de La Sucrerie indigène et coloniale entre 1894 e 1914, com vários estudos sobre o tema: Économie dans la filtration par l’emploi du

Halle a. d. Saale, Allemagne, Paris: impr. de A. Davy, 1914;

et Émile Légier,

,

filtre-presse Kelly, nouvelle invention américaine, Constructeurs

Wegelin et Hübner

Manuel de fabrication du sucre, Paris: aux bureaux de La Sucrerie indigène et coloniale, 1900.

Para além de tudo isto temos ainda a destacar que a documentação em apreço vem evidenciar um novo protagonismo para

a Madeira, certamente desconhecido de todos nós. O resultado do confronto entre a beterraba e a cana sacarina ao nível

tecnológico tem na Madeira o principal fruidor da situação. A proximidade da Madeira à Europa, o empenho e dedicação de proprietários e pessoal técnico, nomeadamente João Higino Ferraz, mas também o engenheiro Henri Marsden, conduziram a que a Madeira fosse um centro importante de avanço nas tecnologias açucareiras. A inovação francesa para a beterraba chegava rapidamente à ilha e as fábricas de maquinaria estavam interessadas nesta situação uma vez que se abriam novas possibilidades de mercado fora da Europa. Assim, as inovações para o fabrico de açúcar de beterraba foram primeiro adaptadas na Madeira ao fabrico de açúcar a partir da cana sacarina. Deste modo há um contacto permanente entre o engenho do Hinton e algumas das principais e mais destacadas fábricas de maquinaria e de engenhos para fabrico de açúcar de beterraba em França. O próprio João Higino Ferraz deslocou-se a França em 1929 para visitar engenhos de fabrico de açúcar a partir da beterraba. Por outro

lado a Madeira recebeu pessoal especializado de diversas origens que vinha à procura de soluções tecnológicas mais eficientes. Sucedeu assim com Charles Roussel, director químico em Concepcion Tucuman 25 .

A situação descrita revela de novo o pioneirismo e protagonismo madeirense na indústria durante a primeira metade do

século XX. O grande obreiro foi João Higino Ferraz, mas foi o promotor industrial, Harry Hinton, quem lhe deu todas as possibilidades para que isso pudesse acontecer.

A DOCUMENTAÇÃO

O corpo documental que agora sai do prelo provém do arquivo privado pessoal de João Higino Ferraz – director técnico da

Fábrica do Torreão, da firma William Hinton & Sons – e pode ser seccionado em três partes fundamentais: uma primeira constituída por nove Copiadores de Cartas; uma segunda por vários volumes a que damos o nome de Livros de Notas; e, por fim, documentação avulsa. Esta organização do arquivo pessoal de J. Higino Ferraz é, de certa forma, artificial, dado que foi

feita por nós e não pelo autor. De facto, se quisermos, é já uma elaboração arquivística que decorre da análise do conteúdo e da tipologia dos vários documentos que compõem tal espólio.

A primeira parte, composta por nove livros onde Higino Ferraz conservou, em cópia, muita da correspondência por si

remetida, e não só, cobre o período de 1898 até 1937, com um hiato temporal existente de finais de 1913 a inícios de 1917 e outro, possivelmente, de Janeiro a Outubro de 1919. Julgamos que estas lacunas deveriam estar contempladas em dois volume autónomos (temos uma leve certeza para o primeiro períoso, mas o mesmo já não podemos garantir relativamente ao segundo); contudo, se existiram, não chegaram esses livros até nós. A designação de Copiador de Cartas foi por nós tomada, pois os dois primeiros livros, que cobrem o período de 1898-1913, evidenciavam este título na capa – não aposto por João Higino Ferraz, mas como denominação da finalidade dos volumes. Entendemos por bem atribuir a mesma designação a todos os livros 26 , seguida da referência aos lapsos de tempo que abarcam. Uma segunda secção deste espólio documental transcrito é constituída por anotações e apontamentos vários – inscritos em livros autónomos –, versando nomeadamente sobre produtos, processos, aparelhos e técnicas industriais de produção e transformação de açúcar, álcool e aguardente; quase todos estes volumes têm título atribuído por João Higino Ferraz, que é respeitado e aceite por nós. Ainda que algo artificial, a denominação por nós dada a este conjunto, Livros de Notas, advém dos próprios títulos atribuídos pelo autor. Hoje dispomos apenas de uma parte dos Livros de Notas 27 conexados com a actividade de Higino Ferraz enquanto industrial

e director técnico da Fábrica do Torreão (e concernentes à indústria da cana-de-açúcar e derivados). Quando o autor remete para

25 Cf

26 Um copiador é, entre outras coisas, um «Livro em que se copiam cartas ou outros documentos» (FARIA, Maria Isabel, PERICÃO, Maria da Graça – Dicionário de Livro, s.l., Guimarães Editores, s.d.), designação que vai perfeitamente de encontro às características dos livros transcritos. Considerando

assim que os Copiadores de Cartas envergam títulos que, em parte apenas ou na sua totalidade, foram por nós atribuídos, os mesmos são por isso inscritos entre parêntesis rectos: [ ]. Algo idêntico acontece, diga-se desde já, com dois Livros de Notas.

27 João Higino Ferraz remete por vezes, especialmente nos Livros de Notas, para manuais e livros técnicos, concernentes a química, métodos de fabrico de derivados de cana-de-açúcar, periódicos científicos, etc. Muitos desses livros técnicos que estavam na posse do mesmo João Higino Ferraz estão a ser digitalizados e disponibilizados na biblioteca digital www.nesos.net.

[Livro de Notas 1904-1905, açúcar e álcool]

outros Livros de Notas, a que não tivemos acesso, percebemos que muitos mais houve 28 que se perderam.

A última secção, enfim, é constituída por documentação avulsa, e abarca: documentos epistolares, saídos do punho de

Higino Ferraz (particularmente cópias de cartas) ou tendo-o como destinatário (sendo seus autores, por exemplo, Harry Hinton, Marinho de Nóbrega, Antoine Germain, etc.); documentos referentes a aparelhos, processos e técnicas de fabrico e transformação de açúcar, álcool e aguardente (à imagem da informação exarada nos Livros de Notas); anotações manuscritas que João Higino Ferraz lançou nos forros da capa ou folhas de guarda de alguns livros ou manuais por si usados, que versavam sobre a cultura e produção de cana sacarina e seus derivados 29 ; e, ainda, apontamentos auto-biográficos. Refira-se que no espólio de Ferraz existem outros Livros de Notas e documentação avulsa que respeitam especialmente a vinhos, pelo que a sua transcrição e edição fica remetida para um volume separado 30 .

A sequência documental dada por nós aos Livros de Notas e documentação avulsa agora transcritos é de cariz cronológico.

NORMAS DE TRANSCRIÇÃO

Os Livros de Notas e os documentos avulsos não epistolares existentes no arquivo pessoal de João Higino Ferraz – aqueles com que pudemos contactar – formam, sem dúvida, o conjunto da documentação cuja transcrição se apresentou mais complexa,

difícil e até arriscada. Atendendo a que a informação veiculada, assim como a sua linguagem, eminentemente técnica, é de teor especial e específico; considerando que a documentação cobre um período temporal relativamente recente; lembrando, ainda, que é um conjunto apreciável de volumes (25 Livros de Notas, completos ou parciais, ao que acresce a referida documentação avulsa), exigindo assim normas de transcrição uniformes; observando, enfim, que ao procedermos a esta transcrição, tivemos de estabelecer de certo modo um compromisso entre a informação exarada nos vários livros e documentação avulsa – a sua linguagem, configuração ou disposição gráfica – e as ferramentas facilitadas pelo programa informático usado neste labor (o Microsoft Word), entendemos seguir as seguintes normas:

– Respeito integral pela grafia e pontuação do original, com as seguintes alterações:

– Desdobramento, de um modo geral, de abreviaturas e siglas, sem a indicação dos segmentos desdobrados,

consoante a forma desenvolvida da palavra encontrada na fonte (na ocorrência de variantes, optar-se-á por aquela mais vezes presente nos originais). Devido à especificidade da documentação transcrita, temos de considerar, a este respeito, os seguintes matizes e pormenorizações 31 :

– são desdobradas todas as abreviaturas e siglas referentes a unidades de medida, entendidas aqui num sentido lato:

- atm ou ath. a : “athmosfera”

- alm. de : “almude”

- B, B e : “Baumé”

- c.c.: “centimetro cubico” ou “centimètre cubique”

- C ou cent. ou centi.: “Centigrados”

- Cart., Carti: “Cartier”

- cent.: “centimetro”

28 Os Livros de Notas com os quais não contactámos e que são nomeados pelo seu autor (grafamos os seus títulos da mesma maneira que Higino Ferraz) são: Livro de Notas Nº 3 – 1922; Livro Notas 1922 Nº 2; Livro Notas Nº 1 – 1915; Livro Nota Nº 2 – 1914; Livro Notas de 1913 Nº 2; Livro Nota – 1914 – Nº2; Livro de Notas de 1912; Livro Nº 2 – 1916; Livro Notas 1918-1919 Nº 3; Livro Notas Nº 4 – 1917; Livro de Notas Nº 3 – 1917; Livro de Notas Nº 8 – 1917; Livro de Notas Nº 2 – 1918; Livro de Notas Nº 1 – 1920; Livro de Notas Nº 2 – 1918; Livro de Notas Nº 4 – 1917; Notas Livro Nº 1 – 1921; Livro Notas Nº 2 – 1916; Livro Nº 3 – 1916-1917; Livro de Notas Nº 1 – 1937; Livro Notas Nº 4 – 1923; Livro de Notas Nº 2 – 1922; Livro de Notas Nº 1 – 1921; Livro de Notas Nº 1 – 1922; Livro de Notas Nº 3 – 1922-1923; Livro de Notas de 1923 – Nº 6; Livro de Notas Nº 4 – 1932.

29 Apesar de estas informações não caberem, em termos técnicos, na categoria de documentação avulsa, a sua especificidade obriga a que só nesta secção as possamos incluir.

30 Higino Ferraz dedicou-se, a título particular, a empreendimentos relacionados com produção, transformação e comercialização de vinhos.

31 Posto que temos também, neste espólio documental, inscrições por parte de outros autores (vide, em especial, a documentação avulsa), ainda que em ínfima quantidade relativamente à informação de que é autor Higino Ferraz, advirta-se que as siglas e abreviaturas nomeadas são apenas as deste último.

- centeci.: “centecimais”

- centigr.: “centigrama”

- decimt: “decimetro”

- frig., frigos: “frigories”

- gram., gr. ou grm.: “grama”

- H, HL, hect.: “hectolitro” ou “hectolitre”

- hectos: “hectolitros” ou “hectolitres”

- H. P.: “Horse Power”

- k: “kilowtts”

- k, kilog.: “kilograma”

- k os : “killos”

- klos: “kavalos”

- l, lit.: “litro”

- m: “metro”

- m/m, mm, m/gr.: “miligrama”

- m 2 , m 3 : “metro quadrado”; “metro cubico”

- s: “sacos”, “sacas”

- ton: “tonelada” ou “tonne”

– desdobramos siglas e abreviaturas de teor técnico, que se referem, mormente, a processos, aparelhos e matérias industriais:

- ag te : “aguardente”

- alcooli.: “alcoolisado”

- amo.: “amoniaco”

- app lho : “apparelho”

- ass: : “assucar”

- barbo. e barb.: “barbotagem”, “barbotado”

- bat.: “bateria”

- cant.: “canteiro”

- carb.: “carbonato”

- chlory.: “chlorydrico”

- clarifi.: “clarificado”

- Coeff te : “Coefficiente”

- cristali el : “cristalisavel”

- D.: “Densidade ou Densité”

- diff.: “diffusor” ou “diffusão”

- engarraf.: “engarrafamento”

- est.: “estufa”

- ext., extra.: “extrahido”

- fluor:: “fluorure” ou “fluorydrico”

- frigo.: “frigorifero”

- frigo., frigo co : “frigorifico”

- F. P.: “Filtro-Presse”

- F. F.: “Filtro Filippe”

- F. M.: “Filtração Mechanica” ou “Filtro Mechanico”

- F. S.: “Filtro Suchar”

- gluco: “glucosico”

- inferment, infermenti: “infermenticiveis”

- Lab.: “Laboração”

- malax.: “malaxeur”

- M. C.: “Melasse Cuite” ou “Masse Cuite”

- M. S.: “Materia Secca”, “Materias Seccas” ou “Matière Sèche”

- oxyg.: “oxygenação”

- pasteuroxy: “pasteuroxyfrigo”

- P. E.: “Petits eaux”

- pol., pola., polar: : “polarisação”

- refi.: “refinação”

- refrig.: “refrigeração”

- retifi.: “retificação”

- sacc: : “saccharificador”, “saccharificação”, “saccharificado”, “saccarose”

- saccha: : “saccharificação”, “saccharose”

- S. E. O.: “Salvo Erro ou Omissão”

- sou: : “soutiragem”

- s. chf: “surface chauffe”

- s. ref: “superficie refrigeração”

- sulfi.: “sulfitador”

- sup.: “superficie”

- surf.: “surface”

- T. E.: “Triple-Effet”

- T. G.: “Tanque Grande”

- T. P.: “Tanque Pequeno”

- tourt.: “tourteaux” ou “tourteau”

- turb., turbi.: “turbina”, “turbinado”, “turbinagem”, “turbinar”

- V. C. M.: “Vinho Canteiro Madeira”

– desenvolvemos, por uma maior inteligibilidade dos textos transcritos, muitos outros sinais convencionais usados por João Higino Ferraz:

- ad. V., ad. val.: “ad. Valorem”

- Alf. ga : “Alfandega”

- Amº: Amigo

- Ant o : “Antonio”

- aproxi., aproxi do : “aproximado”

- Attº: “Attencioso”

- B. A. des C.: “Bulletin Association des Chimistes”

- C/.: “Casa”

- c/ e c/a: “conta”

- cap.: “capacidade”

- cap. tal : “capital”

- C. H.: “Casa Hinton”

- C. N.: “Comp.ª Nova”

- C. de L.: “Camara de Lobos”

- C. F.: “Caminhos Ferro”

- Com. al : “Commercial”

- com ção : “comição”

- completa te : “completamente”

- corres.: “correspondente”

- ct., crt.: “courant”

- d: “dia”

- D.: “Diario”

- desp.: “despeza”

- D. G.: “Despezas Geraes”

- D. M.: “Diario da Madeira”

- D. N.: “Diario de Noticias”

- E.U.: “Estados Unidos”

- fict.: “ficticio”

- F: “Fabrica”

- F: “Funchal”

- Fran co : “Francisco”

- frs: “francos” ou “francs”

- G.: “Grande”

- h: “hora” ou “horas”

- indeter. das : “indeterminadas”

- J. A.: “Junta Agricula”

- J. or : “Junior”

- liq., liq o : “liquido”

- m.: “manhã”

- M., M r , Mr.: “Monsieur”

- M.M., Messrs.: “Messieurs”

- M el : “Manuel”

- m/: “meu”, “minha”

- n/: “nosso”

- n/c: “nossa conta”

- m/c: “minha conta”, “mon compte”

- M. to : “Muito”

- m. tre : “mestre”

- n.: “nuite”

- N.: “Norte”

- Ob. do : “Obrigado”

- P.: “Pequena”

- p. m. m.: “pouco mais ou menos”

- quali.: “qualidade”

- R.: “Rua”

- rend. to : “rendimento”

- R S , rs: “Reis” ou “reis”

- s/: “sobre”, “seu” ou “sua”

- S. A., S. de A.: “Sociedade Agricula”

- S. F.: “São Filipe”

- S. Mag.: “Sua Magestade”

- Snr: “Senhor”

- sub. me : “subscrevo-me”

- t.: “tarde”

- T, Temp., Temp a : “Temperatura”

- trata. to : “tratamento”

- W m : “William”

– mantivemos apenas algumas abreviaturas sobejamente conhecidas e utilizadas actualmente: Ex. mo (Excelentíssimo),

L. da (Limitada), C.ª ou Comp.ª (Companhia), Succ. or e Succs (Sucessor e Sucessores), pag., p.g. (página), ex. (exemplo).

– não desenvolvemos dois grafemas, de cariz comercial e abundantemente usados nestas fontes, que são alvo aqui de cabal elucidação:

- cif ou c.i.f.: siglas de cost, insurance, freight, isto é, custo, seguro e frete;

- fob.: siglas de free on board, ou seja, designação de cláusula de um contrato de compra e venda que determina

que as despesas do vendedor vão, somente, até à entrega da mercadoria no navio.

– não desdobramos N. B., “Note Bem”; assim como P. S., “Post-Scriptum”, ou P. E., que julgamos ser “Post-Escriptum”

(corruptela do anterior) ou “Pós-Escrito”.

– Procedemos à manutenção, na medida do possível, de algumas das disposições gráficas do original, assim como

parágrafos, esquemas, tabelas, arrolamentos, com a excepção, por motivos que se prendem com a exequibilidade da edição das mesmas fontes, das mudanças de linha e de página. Não considerámos pertinente nem viável assinalar a mudança de linha; já

a de página é indicada com a colocação de // seguida do número de página entre [ ] (exceptuando, apenas, quando uma página

não encerra qualquer informação ou quando tiver imagens, pelo que o uso de // é dispensável e até pouco aconselhável). No caso específico de três agendas aqui transcritas, e cuja numeração tem por base os dias do ano, colocámos à esquerda da informação reproduzida a referência à página.

– Tendo em conta que Higino Ferraz usa, por vezes, várias cores (em especial o vermelho) para além do azul e preto com

que usualmente escreve, escolhemos transcrever em itálico todos os vocábulos escritos a tinta vermelha ou a lápis da mesma cor. Em relação a outras cores, cuja presença é verdadeiramente residual, quer em palavras, quer em números, sublinhados,

traços de separação entre matérias e outros sinais diversos (chavetas, setas, etc.), julgámos desnecessário, após análise de toda

a documentação, a menção, em nota de rodapé, ao seu uso. Poderia, possivelmente, ser possível reproduzir as várias cores usadas por João Higino Ferraz; os custos, todavia, de uma edição desta mesma documentação nesses moldes seriam insuportavelmente onerosos.

– Transcrevemos, desenvolvendo algumas siglas e abreviaturas e levando a cabo uma certa modernização, os numerais

grafados, por exemplo, assim: 4 cc 2, 14 k 43, 16 l 74, 8º,5, etc., desta forma: 4,2 “centimetros cubicos”, 14,43 “kilogramas”, 16,74 litros, 8,5º, e outros.

– Adicionamos [sic] quando a verificação de erros ortográficos, de sintaxe ou morfologia, ou em caso de repetição de uma

mesma palavra. Colocado o [sic] logo a seguir a uma palavra, referir-se-á a um erro nesse mesmo vocábulo (casos, mormente de ortografia); quando após um espaço em branco, referir-se-á a erro constituído por vários vocábulos (repetição, faltas de concordância no género ou em número, frases truncadas, omissão de palavras, etc). Refira-se que nos Livros de Notas e na documentação avulsa referente a processos industriais, são recorrentes os erros de concordância de género e número em muitas

frases (fruto, com certeza, da não necessidade de manter um português polido), pelo que apenas assinalaremos os mais visíveis deste tipo de erros, um pouco, também, para ilibar o transcritor de possíveis suspeitas de transcrição dolosa.

– Acrescentamos sinais de pontuação, inseridos entre [ ], quando considerámos que o autor os omitiu involuntariamente.

– Acresentamos [Ass:] antes de qualquer assinatura ou rubrica de João Higino Ferraz, ou ainda de qualquer outro escriba que teve a oportunidade de escrever nos Livros de Notas ou seja autor de documentação avulsa.

– Colocamos entre < > todos os vocábulos que surgem entrelinhados nos textos originais.

– Modernizamos o uso do hífen nos verbos, no caso da sua omissão.

– Adicionamos [?] a propósito de dúvidas em relação à leitura de uma palavra (colocado imediatamente a seguir à mesma)

ou de um conjunto de palavras ou expressões (após espaço em branco), e, raramente, aquando a existência de uma palavra ou expressão cuja leitura não oferece irresoluções, mas cujo sentido ou significado é por nós desconhecido.

– Acrescentamos [

– Anexamos notas de rodapé, nomeadamente nas seguintes situações:

]

quando a leitura se revelou impossível.

- veiculação de informações acerca dos livros e documentos avulsos transcritos: numeração, medidas, páginas anexadas ou retiradas e outras informações;

- impossibilidade (ou extrema dificuldade) em reproduzir no corpo de texto algumas das informações transmitidas nas fontes documentais – notas nas margens 32 ; sinais gráficos, etc.

- elucidação da presença de outras caligrafias que não a de João Higino Ferraz;

- esclarecimento de espaços deliberadamente deixados pelo autor;

- menção a textos rasurados que, pela sua quantidade e / ou significância (um arrolamento, um parágrafo, um cálculo ), demandem a sua transcrição, ao contrário de meras rasuras a palavras e segmentos de palavras ou de frases, que serão completamente desprezadas.

- fornecimento, quando possível, do nome completo dos indivíduos que Higino Ferraz nomeia, a mais das vezes, através de um só nome, o próprio ou o apelido, ou ainda por meio de siglas. Tal procedimento, pela sua constância, poderá

32 Seguindo a nomenclatura veiculada numa obra de consulta já citada (FARIA, Maria Isabel, PERICÃO, Maria da Graça – Dicionário de Livro, s.l., Guimarães Editores, s.d.), quando nos referimos às margens das páginas (falamos particularmente dos Livros de Notas), usamos mormente as seguintes palavras ou expressões: cabeça («a parte superior de qualquer forma ou página», p. 49); pé («margem inferior de um livro, oposta à cabeça e à goteira», p. 264); margem dianteira («margem lateral correspondente à abertura do volume na parte oposta à lombada», p. 218); e margem interior («aquela que se encontra junto ao festo», p. 218) ou medianiz («margem interna da página de um livro», p. 221).

parecer pueril ou desnecessário, mas é decerto útil para situar e identificar certas pessoas num corpo documental que poderá ser de mera consulta. De igual forma, acrescente-se, mas em menor medida, providenciamos em nota de rodapé a designação completa de outras firmas, unidades de produção industrial 33 e até literatura científica e técnica a que se referia sumariamente o autor. Não podemos deixar de ajuntar a tudo isto que, algumas das páginas da documentação transcrita contêm desenhos, feitos por Higino Ferraz, de esquemas de produção industrial, de esboços e plantas de aparelhos ou máquinas industriais, etc. As gravuras foram fotografadas e incluídas, nos locais devidos, no texto da transcrição, de forma a facilitar a leitura e interpretação. Muita da informação escrita relativa a estas figuras, (indicações, explicitações, medidas, etc.) não foi transcrita porque, a mais das vezes, está de tal forma entrosada nos traços dos desenhos, que seria uma tarefa inglória e escusada. O Leitor não terá dificuldades em ler estes informes que acompanham as imagens e, quando confrontado com alguma sigla ou abreviatura, poderá consultar as listagens acima. Procurámos transcrever, relativamente às ditas imagens, tão só o título ou designação do que é representado, notas substanciais, a escala e a legenda.

LIVROS DE NOTAS

Título do livro

Datas

Nº páginas

Observações

limites

/ fólios

(páginas com desenhos)

Livro do armazem de conhecimentos uteis do assucar e melaços – cereaes

     

– e Explicações sobre a Maltagem

1884-1887

77

pp.

9, 11, 57

Livro de notas sobre fabricação d’assucar e alcool, e tabellas

   

folha de guarda início, 87, 115, 130, 131, 133, 148

de calculos de João Higino Ferraz

1900-1911

207

pp.

Bis, 156, 157, 160, 162, 163, 164, 166, 168, 173,

 

174, 176, 206 Bis, 207, forro da capa do livro

[Livro de Notas 1904-1905, açúcar e álcool]

1904-1905

121

pp.

67, 68, 69, 72, 73, 74, 75, 76, 94, 108, 112, 118, 119

3.º Livro de notas de Fabricação de 1910

1909-1912

196

pp.

55, 59, 147, 150, 151, 154, 156, 161, 164,

 

169, 170, 172, 174, 178, 179

Livro da Quinta do Seiceiro – S. to da Serra e Cidreria 1913 a 1914

1912-1921

100

pp.

 

Livro de Notas de fabricação assucar de 1915 N.º 2

1914-1915

96

pp.

57

Livro de Notas 1915-1916 Assucar, alcool e diversos Nº 2 – 1 de 1916

1913-1916

196

pp.

29, 47, 57, 58, 64, 79, 82, 83, 85, 87, 88,

 

89, 90, 91, 106, 107, 137

Livro de Notas 1917 Assucar, alcool e diversos Nº 1

     

Composição dos phosphatos e do aluminato baryta

1916-1917

44

pp.

28, 39

Livro de Notas 1918-1919 Sobre vinhos e xaropes d’uvas Nº 1

1917-1919

276

pp.

223, 244, 272

Livro de Notas 1919 Assucar, alcool e diversos Nº 1

1917-1920

132

pp.

23, 24, 52, 53, 55, 62, 65, 67, 69, 71, 73,

 

77, 118, 125, 126, 129, 131

Livro de Notas 1919 Sobre assucar alcool e diversos Nº 2

1918-1920

92

pp.

21, 25, 27, 28, 49, 50, 92

Livro de notas 1920-1921 assucar, alcool e diversos Nº 3 Especialmente

     

sobre a saccharificação do milho – cubas fechadas e fermentação

Laboração de 1921

1919-1922

244

pp.

87, 131, 142, 220, 240, forro capa fim

Livro de Notas Vinharia Nº 2 1922

1920-1924

136

pp.

25, 26, 27, 28, 29, 79, 80, 86, 87, 91, 99, 100, 121

[Livro de Notas 1922-1923, açúcar, vinho e álcool]

1922-1923

132

pp.

14

Livro de Notas Vinharia e outros 1923 N.º 2

1900-1924

272

pp.

78,82

Livro de Notas assucar vinhos e diversos N.º 5 1923

1922-1924

68

pp.

 

Livro de despezas na construção da Vinharia fabrico. 1923-1924

1923-1924

204

pp.

forro capa início, 186, 198, 201, forro capa fim

Livro de Notas 1924 assucar, alcool e diversos Nº 1

1919-1924

196

pp.

159, 171, 172

Livro de Notas 1924 Fabricação etc. Nº 2

1922-1925

197

pp.

20, 21, 48

33 João Higino Ferraz dá-nos informações de valor acerca de fábricas que existiam na Madeira (a Companhia Nova, de José Júlio de Lemos, Sucessores; a fábrica de São Filipe de Henrique Figueira da Silva, entre outras) e, ainda, sobre unidades de produção industrial do continente português, da África colonial (merecendo especial destaque uma nova fábrica implantada pela Sociedade Agrícola do Cassequel, Angola, onde Higino Ferraz tem acção directa), e ainda de outros espaços geográficos.

Livro de Notas Vinharia 1924 Nº 3

1923-1925

195

pp.

17, 64, 67, 69, 73, 89, 93, 96, 107, 144

AGENDA PORTUGUESA 1928

1915-1930

400

pp.

5

Janeiro, 3 Março, 26 Agosto, 27 Agosto,

 

11

Setembro, 12 Setembro, 14 Setembro,

15

Setembro, 16 Setembro, 1 Outubro, 7 Outubro,

10

Outubro, 16 Outubro, 29 Outubro, 2 Novembro,

4

Novembro, 15 Novembro, 18 Novembro,

19

Novembro, 20 Novembro, 21 Novembro,

24

Novembro, 25 Novembro, 26 Novembro,

28

Novembro, 30 Novembro, 8 Dezembro,

30

Dezembro

AGENDA PORTUGUESA 1929

1914-1930

401

pp.

5

Janeiro, forro capa fim

Livro de Notas Nº 3 – 1931-1932 Vinhos e outros Vinho-Maltine e cidrovinho-maltine

1931-1932

360

pp.

145, 261, 264, 265, 308, 329,

AGENDA GABINETE 1932

1932-1933

385

pp.

 

Livro de Notas Nº 2 1937 assucar, alcool e diversos Laboração de 1937 Vinhos no fim do livro

1935-1938

200

pp.

forro da capa início

Livro do armazem de conhecimentos uteis do assucar e melaços – cereaes – e Explicações

Livro do armazem de conhecimentos uteis do assucar e melaços – cereaes – e Explicações sobre a Maltagem

DESCRIÇÃO: Estamos na presença de um livro, em papel, 30 cm x 20,8 cm, em bom estado de conservação. As primeiras 19 páginas deste volume não foram numeradas pelo seu autor, pelo que a enumeração foi atribuída por nós, e consiste nas letras do alfabeto: a, b, c, d, e… Fazemo-lo desta forma para não permitir eventuais confusões relativamente à enumeração feita por Higino Ferraz a partir daquelas primeiras páginas. Acrescente-se que a informação presente na primeira parte deste volume, inserida nas páginas sem numeração de origem, deverá ter sido considerada por Higino Ferraz como despicienda. De facto, o âmbito temporal desta informação é anterior ao início de funções de Higino Ferraz no Torreão e poderá a mesma inserir-se nas actividades industriais que alguns membros da família de Higino Ferraz, incluindo ele mesmo, desenvolveram na segunda metade do século XIX, ou melhor, no último quartel de Oitocentos; além disto, os informes das primeiras 4 páginas, sobre vinho, e reproduzidas num volume separado a editar posteriormente, não saíram seguramente do punho do técnico da Fabrica do Hinton. Será um pouco difícil, porventura, a contextualização de alguma desta informação, mas transcrevemo-la ainda assim deixando aos potenciais leitores e investigadores o ajuizar da sua importância (tal como procedemos em mais alguns casos no decorrente desta transcrição).

Mais adiante há 3 páginas não numeradas, cuja enumeração foi por nós aposta. [pp. a a d: informação sobre vinho publicada em volume separado]

[e]

34

[f]

Entrada

 

Assucar Total de killos

 

1884

 

Sacos

kilos

 

março

19

12

75

d’assucar da 1ª sorte

   

.900

14

75

Dito

dito

 

1.125

 

20

26

75

Dito

dito

 

1.950

 

–“–

23

dito

dito

 

023

 

26

10

75

dito da 2ª sorte

   

750

 

15

75

dito

dito

 

1.125

 

–“–

71

dito

dito

 

071

 

27

27

75

dito da 1ª sorte

   

2.025

 

28

23

75

dito

dito

 

1.725

 

29

25

75

dito

dito

 

1.875

 

30

16

75

dito

dito

 

1.200

 

–“–

48

dito

dito

 

048

 

6

75

dito da 2ª sorte

   

450

 

31

23

75

dito da 1ª sorte

   

1.725

 

8

75

dito da 2ª sorte

   

600

abril

1

8

75

dito da 3ª sorte

   

600

 

–“–

35

dito

dito

 

035

 

2

24

75

dito da 1ª sorte

   

1.800

 

3

33

75

dito

dito

 

2.475

 

31

75

dito da 2ª sorte

   

2.325

 

4

23

75

dito da 1ª sorte

   

1.725

 

6

37

75

dito

dito

 

2.775

 

25

75

dito da 2ª sorte

   

1.875

 

–“–

74

dito

dito

 

074

 

8

23

75

dito da lettra B

   

1.725

 

24

75

dito da 1ª sorte

   

1.800

 

29

75

dito da 2ª sorte

   

2.175

 

10

–“–

33

dito

dito

 

033

 

14

75

dito da 3ª sorte

   

1.050

 

25

75

dito da 1ª sorte

   

1.875

 

1

87

dito

dito

 

.087

 

// [g] Saida Total de killos

         

1884

Sacos

kilos

março

19

12

75

d’assucar da 1.ª sorte para o Armazem de venda

 

900

20

15

75

dito

dito

 

1.125

 

21

13

75

dito

dito

 

975

 

–“–

73

dito

dito

 

073

 

22

1

75

dito

dito

 

075

 

26

10

75

dito da 2ª sorte

 

750

 

27

11

75

dito branco seco

 

862

abril

1

8

75

dito da 3ª sorte

 

600

 

–“–

35

dito

dito

 

035

34 A página e não contém qualquer informação.

 

9

75

dito da 2ª sorte

675

 

3

150

90

dito da 1ª sorte – para Lisboa

 

13.500

 

7

10

75

dito da 2ª sorte – para o armazem de venda

750

 

9

10

75

dito

dito

750

 

4

75

dito da 1ª sorte

300

 

–“–

56

dito

dito

056

abril

12

10

75

dito da 2ª sorte

750

 

15

6

75

dito da 2ª sorte

450

 

18

10

75

dito

da

dito

750

 

–“–

20

dito

dito

020

 

5

75

dito da 1ª sorte

375

 

–“–

14

dito

dito

014

 

19

10

75

dito

dito

750

 

1

75

dito da 2ª sorte

075 //

[h] Entrada

 

Assucar

 

1884

 

Sacos

kilos

Total de killos

 
   

Transporte

   

Abril

 

19

79

75

d’assucar da 1ª sorte

 

5.925

 

21

64

75

dito

dito

 

4.800

   

22

22

75

dito

dito

 

1.650

   

–“–

67

dito

dito

 

067

   

12

75

dito da 2ª sorte

 

900

   

24

56

75

dito da 1ª sorte

 

4.200

   

10

75

dito da 2ª sorte

 

750

   

29

44

75

dito da 1ª sorte

 

3.300

   

20

75

dito da 2ª sorte

 

1.500

   

27

67

75

dito da 1ª sorte

 

5.025

   

20

75

dito da 2ª sorte

 

1.500

   

30

8

75

dito da 1ª sorte

 

600

Maio

 

2

68

75

dito

dito

 

5.100

   

3

75

dito da 2ª sorte

 

225

   

4

36

75

dito

dito

 

2700

   

55

75

dito da 1ª sorte

 

4.125

   

7

75

75

dito

dito

 

5.625

   

19

75

dito da 2ª sorte

 

1.425

   

10

37

75

dito

dito

 

2.775

   

72

75

dito da 1ª sorte

 

5.400

   

12

63

75

dito

dito

 

4.725

   

45

75

dito da 2ª sorte

 

3.375

   

15

33

75,

dito da 1ª sorte

 

2.475

   

90

75,

dito da 2ª sorte

 

6.750

   

16

37

75

dito

dito

 

2.775

   

8

75

dito da 3ª sorte

 

600

   

4

75

dito

dito

 

300

   

25

88

75

dito da 1ª sorte

 

6.600

   

27

63

75

dito

dito

 

4.725

   

29

75

dito da 2ª sorte

 

2.175 //

[i] Saida

1884

 

Sacos

kilos

 

Total de killos

       

Transporte //

 

[j] Entrada

 

Aassucar[sic] Total de killos

1884

 

Sacos

kilos

 
       

Transporte

 

maio

28

48

75

d’assucar da 2ª sorte

3.600

 

29

46

75

d’assucar da 2ª sorte

3.450

 

30

50

75

dito

dito

3.750

 

31

51

75

dito

dito

3.825

 

9

75

dito da 3ª sorte

675

 

4

45

75

dito da 1ª sorte

3.375

 

–“–

55

dito

dito

055

 

24

75

dito da 2ª sorte

1800

 

5

36

75

dito

dito

2.700

 

6

43

75

dito

dito

3.225

 

20

75

dito da 3ª sorte

1.500

 

7

13

75

dito

dito

975

 

10

10

75

dito

dito

750

 

32

75

dito da 2ª sorte

2.400

 

–“–

75

dito

dito

038

abril

14

55

38

dito da 3ª sorte

4.125

 

11

20

75

dito

dito

1.500

 

17

47

75

dito

dito

3.525

 

19

63

75

dito

dito

4.725

 

–“–

20

dito

dito

020 //

[k]

35

[l] 36

[m] 37

[pp. n a q: informação sobre vinho publicada em volume separado]

[r] Vendas d’assucar e aguardente –– Assucar ––

1886

   

–– Killos ––

Abril

3

A 2,7 sacos da 1ª sorte a –– 75, Killos ––

7302,

A 2 restos do dito a ––

115,

A 11 sacos da 2ª sorte a –– 75, dito ––

825,

A 2 restos dito a ––

133,

5

A 4 sacos d’assucar da 2ª sorte a –– 75, dito ––

300,

6

A 27 sacos dito

dito a –– 75 dito ––

2.025,

8

A 22 sacos dito da 1ª sote[sic] a –– 75 dito ––

1.650,

9

A 14 sacos dito

dito a –– 75 dito ––

1.050,

10

A 23 sacos dito

dito a –– 75 dito ––

1.725,

13

A 14 sacos B dito

dito a –– 75 dito ––

1.050,

35 Esta página encontra-se em branco

36 Esta página encontra-se em branco

37 Esta página encontra-se em branco

14

A dito da 2ª sorte a –– 75 dito ––

2 sacos

150,

16

A 7 sacos

dito

dito a –– 75 dito ––

525,

 

A 3 sacos

dito

3ª dito a –– 75 dito ––

225,

20

A 19 sacos dito

2ª dito a –– 75 dito ––

1.425,

21

A 8 sacos

dito

dito a –– 75 dito ––

600,

27

A 40 sacos dito

dito a –– 75 dito ––

3.000,

29

A 12 sacos e 40 killos dito dito a –– 75 dito ––

940,5 //

 

[s] Leivro[sic] d’Armazem –– Aguardende[sic] ––

1886

 

– Galões –

Abril

3

A aguardente de cannas em 26. 1 /2º ––––

180,

A dito

dito

em 27.º ––––

170,

A dito

dito

em 27 1 /2

205,

5

A dito B em 26.º ––––

dito

175,

A dito B en 25 1 /2 .º ––––

dito

155,

7

A dito B em 22.º ––––

dito

155,

8

A dito

dito E em ––––

100,

9

A dito

dito B em 26 ––––

165,

A vinho de estufa –––

 

530,

A 5 caxas de marca coração ––––

–– “ ––

A 9 dito

dito

Lião ––––

–– “ ––

A 15 dito

dito

Chaves ––––

–– “ ––

A 3

dito

dito coração pequenas ––––

–– “ ––

A 13 frascos

dito

Lião ––––

–– “ ––

16

A aguardende[sic] de cannas em 28.º ––––

165

A dito

dito

em 26 1 /2 ––––

157

A dito

dito

em 23 ––––

175 //

[1] 38 –– Guia do fabricante d’alcooles –– por N. Brasset. ––Grelagem da cevada A Grelagem da cevada comprende o amolecimento, a germinação, arijação, dessécação, a limpeza. Limitam-se o mais das vezes a cevada cerminada; os outros grãos são ordinariamente empregados no estado cru, pela rasão de que este modo de empregal’os não modifica sensivelmente o sabor do producto, em quanto que a cevada crua dá um gosto are[sic] e acerbo. É pois conveniente grelar toda a cevada ainda que a germinação não é necessaria para os outros grãos. Observação Geral –– Como é importante, para o sucesso da germinação, que todos os grãos sejam imbebidos uniformemente pelo umedecimento, tomão-se as percauções as mais minusiosas para operar por sua vez sobre a mesma sorte de grãos, d’uma mesma idade, d’uma mesma espessura de pelicula, que tenhão sido colhidos na mesma variedade de solo que seja da ultima colheita. Uma excelente medida a tomar consiste em fazer passar pela machina de limpar trigo os grãos que se destinão á grelagem. Amolecimento –– Os balceiros de amolecimento devem ser avantajosamente colucados por cima dos armazens e dos germinadores afim de econumisar a mão de obra. Elles são de madeira ou de pedra e cal cimentada. Os melhores são os furrados de chumbo [.] Calcula-se a capacidade de estes vasos na rasão de 120 litros por sem litros de cevada a empregar. Enche-se a cuba com agua bem clara e bem fresca, na propurção necessaria para que os grãos sejam cobertos de alguns centimetros de liquido. Uns querem que o excesso d’agua acima dos grãos seja de 5 a 6 centimetros, outros exigem que ella atinja 20 centimetros. Um termo medio de 10 a 12 centimetros paresse-nos muito conveniente para facilitar a manobra <mexensa> // [2] e elevamento dos grãos a <avariados>. Faz-se então cahir o grão lentamente na cuba e durante este tempo, mex-se[sic] e agita-se com cuidado, por meio d’um roudo. Logo que todo o grão está na cuba, eleva-se <(por si mesmo)> os

38 Principia aqui a porção do livro numerada pelo seu autor.

grãos leves depois ao cabo de duas horas, faz-se escorrer esta primeira cana que traz em si as imporidades e as materias acres provenientes da pelicula. Sustitui-se em seguida este primeiro liquido por nova agua, tão fresca e tão pura quanto possivel. Duração do amolecimento –– A duração do amoleciemento varia segundo a edade e a espece do grão, sgundo[sic] a natureza da agua, a temperatura de este liquido e a do ar ambiente, segundo a estação da operação. Pode-se adoptar como meio termo o tempo seguinte 59 a 60 horas no inverno, 40 a 50 na primavera e outono e 30 a 40 no vrão[sic]. Convem não exceder o ponto de amolecimento conveniente do grão; logo que o olho está oprimido, o grão está condenado a apodrecer ainda que, elle não estaja de todo amulecido, pode-se supprir este defeito por regas cumplementares no cerminador. Temperatura da agua –– A experiencia tem demonstrado que a agua do amolecimento não deve passar de uma temperatura media de 10.º graus centigrados. Renovação da agua –– É persiso renovar a agua do amolecimento ao menos uma vez em cada 24 horas no inverno e de 12 em 12 horas no verão [.] É persiso renovar a agua mais frequentemente, se se observar um desprendimento gazouso, a superfice,

o qual é sempre um indicio de começo de decompusição que é persiso evitar o mais depressa possivel. Quantidade d’agua absorvida –– A cevada absorve, termo medio, 30 a 45 por 100 d’agua, segundo // [3] a sua idade, sua espece, e seu grau de scura[sic]. Os grãos grossos absorvem menos que os pequenos. Escorrimento –– Logo que a cevada absorveu toda a quantidade d’agua necessaria e que ella está suffisientemente amollecida, faz-se escorrer a agua do amolecimento, depois lava-se energicamente o grão por um jacto abondante d’agua fresca

e limpida que se faz escorrer logo em seguida, para arrastar todas as materias gomosas da superfice. A abertura ou torneira do

fundo daxa-se em seguida aberta até que o grão estaja bem esgotado, o que acontesse ao cabo de 6 horas. O trabalhadores [sic] que daxam a cevada nos amolecedores durante mais de 10 horas no verão, ou mais de 20 horas no inverno, expoêm o grão a tomar as alterações nusivas á germinação, e que, por conseginte nos são um influencia [sic] sobre a qualidade dos productos. É melhor não prolongar a estada nos amolecedores ou na esgotagem, mais de 6 a 8 horas, e fazer passar o grão para o germinador ou tanque. Para lá, deita-se á pá n’uma calha, que desce directamente no local onde se deve fazer a germinação. Amolecimento do trigo –– O amolecimento do trigo conduz-se como o da cevada, no ponto de vista da manipulação. Em geral, elle dura um pouco menos de tempo; 24 horas é o sufficiente para os trigos tenros; mas é preciso o dobro do tempo para os trigos duros. Este tempo deve ser augmentado um terço no inverno. A agua de amolecimento deve ser modade[sic] frequentemente todas as 18 horas no inverno e 3 vezes por dia no verão. O esgotamento faz-se como na cevada. // [4] O senteio amolece-se mais depressa, e é perssiso para elle algumas horas de menos que o trigo para amolecer ao ponto conveniente [.] O

milho tem necessidade de estar a amolecer durante 39 a 40 horas no inverno e 48 a 50 horas no verão; mas a agua do amolecimento deve ser renovada mais a miudo, porque este grão altera-se mais facilmente. Observação –– Segundo o senhor Balling, é melhor fazer um amolecimento mais curto, no intento de levantar a materia acre, extraida da pelicula, sem penetrar a amendoa Para isso uma estada de 6 a 8 horas na primeira agua, a cevada recebe uma segunda agua a 12 ou 16 horas, depois esgata- se[sic] a 18 ou 24 horas. O amolecimento ficá[sic] completo pela regadura no germinador. Nos preferimos esta maneira de proseder como o mais conforme aos verdadeiros principios, n’este caso occasiona uma perda menor das parte [sic] soluveis do grão e elle se expoêm menos ás alterações. Germinação –– O germinador deve ser <em forma escuante> o mais possivel, e a temperatura deve-se <manter> constante

e uniforme. Deve-se escolher um local sobre o solo ou uma cova, em que o solo seja bitumado, ou coberto de lajas, bem

cimentadas; a limpeza deve ser facil e a ventillação deve ser tal que se possa expolsar o acido carbonico e renovar o ar a vontade sem abaxar a temperatura. Pode-se facilmente obter este resultado por uma chaminé-tirante, establecida nas condisões que nos temos indicado para o arejamento e aquesimento das salas de fermentação. N. B. A germinação é em melhores condições desde o momento que se pratica ao abrigo da luz, isto é ás escuras – Convem dar ao germinador a superfice necessaria para a propurção do grão que se quer tratar: esta superfice deve ser inferior

a 1,25 metros quadrado por 100 litros de cevada; mas convem levar estas cifras até 2,20 metros para proceder mais lentamente

e obter um producto mais satisfatorios // [5] Logo que o grão está no germinador espalha-se este cuja altura ou espessura varia segundo a estação [.] No inverno, para um tempo frio, esta altura é de 70 centimetros a 1 metro e no verão de 35 a 55 centimetros. Daxa-se em seguida o grão em reposo durante 20 horas no inverno e 10 a 12 no verão, antes de se occupar de revolver o monte de cevada. É muito conveniente

39 Espaço deixado em branco.

40 Espaço deixado em branco.

cobrir <o monte da> cevada com um pano durante os grantes[sic] frios. Au[sic] cabo de 10 ou 20 horas segundo a estação, abre- se a massa á pá, voltando-a e estende-se um pouco, abaxando tanto mais a altura da cevada, quanto a estação é mais quente e

a temperatura do monte de cevada mais elevada. Au cabo de 9 a 12 horas, recommeça-se esta padejação, arejando o grão e

diminuindo a espessura da camada de cevada tanto mais quanto o aquecimento do grão é meior. Estas padejações repetem-se diminuindo a espessura da <camada de> grão á medida que a germinação avansa mais. Em geral a temperatura do germinador deve ser mantida a 10 graus centigrados, e a temperatura das camadas de cevada não deve transpassar de 20 a 22 graus. Estes limites de temperatura são dados theoricos e praticos, e é persiso resgordar-se, ou da daxar [sic] gelar o grão, o que destroi o germinação [sic] ou de expor a uma temperatura muito elevada, que faz perder ao grão um porção notavel de seus principios uteis. Cerca de 30 horas depois de <o> por em germinação e algumas vezes mais rapidamente ou mais lentamente segundo a epoca do anno e a temperatura, começa a <se> produzir uma <espece> resudação, depois ve-se apparecer uns pontos brancos que são a

extremidade dos rebentos ou <radiculos>. 24 horas depois o gumo começa a ser visivel na <casca da> cevada, o monte d’ella commeça

a desenvolver um cheiro vinhoso e o grão amolece cada vez mais. Os trabalhadores // [6] devem tomar cuidado em não esmagalos

O trabalho acaba logo que os rebentos tenham atingido uma vez e um quarto ou uma vez e meia o comprimento do grão, o

olho é pouco mais do comprimento do grão.

O modo que nos acabamos de descrever é o methodo ordinario, Ha praticas que querem dar á altura da camada do grão, uma

altura primitiva de mais de 15 centimetros e que, depois de um reposo de 15 horas pouco mais ou menos formam o monte a 20 ou 25 centimetros d’elevação. Com uma temperatura exterior media de 10 graus, elles operão a padejação e a arejação de 12 em 12 horas; mas elles <augmentão> esta operação, repetindo-a de 6 em 6 ou de 8 em 8 horas, se a temperatura é mais elevada.

É persiso notar que a padejação tem por fim fazer passar o grão da parte inferior do germinador para a parte superior e assim

sucessivamente

Arejação –– Logo que a cevada chegou a uma germinação sufficiente, e depois de a ter bubmetido[sic] a uma ultima padejação, que tem por fim diminuir a especura[sic] da cama e de parar o trabalho, quando está bem esfriado, transporta-se para os germinadores d’arejação para fazel-os pasar por um commeço de arejação sobre a influencia do ar atmospherico. Comprende-se que o germinador <d’arejação> deve ter um bom solho, bem junto, que deve ter bastantes aberturas para haver uma boa ventillação e que as aberturas devem ser tapadas com uma rede metalica para proteger os grãos contra os ataques de passaros. // [7] 41

[8] –– Technologia Rural – por – João Ignacio Ferreira Lapa 42 . –– Distillação das substancias farinaceas –– Todos os grãos e tuberculos farinaceos podem ser distillados e produzir alcool de melhor ou peior qualidade, e em meior ou menos abundancia. Esta pratica porém tem sido, quasi por toda a parte restringida á distillação do grão dos cereaes e das batatas.

–– Destruidas as partes amilaceas dos farinaceos, ficam as partes cellulosas, gordas, albuminosas e salinas, intactas ou pouco menos, e em estado de poderem ser aceitas e utilisadas pelos gados. –– Distillação das raizes e tuberculos farinaceos. –– A distillação das raizes, tuberculos, ou hastes farinaceas, teve em vista desde o seu começo resolver simultaniamente o problema agricola e industria