SUMÁRIO
A GESTALT-TERAPIA NAS SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA E EM DIÁLOGO COM O SUS: A CLÍNICA DO CONTATO, DO TRAUMA À REABILITAÇÃO Autor: Josélia Quintas .............................................................................................. 5 A CRÍTICA À SOCIEDADE COMO CONFLUÊNCIA Autor: Raphael Henrique Moreira........................................................................... 18 A ESCUTA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL VIVENCIADA NA MATERNIDADE Autor: Sara Bruno e Marcela Arrivabeni................................................................. 34 A ÉTICA COMO SUPORTE: SOLUÇÃO OU UTOPIA PARA UM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO? Autores: Claudia Baptista Távora, Laura Cristina de Toledo Quadros e Luciana Loyola Madeira Soares .......................................................................................... 45 A GESTALT-TERAPIA NAS SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA E EM DIÁLOGO COM O SUS: A CLÍNICA DO CONTATO, DO TRAUMA À REABILITAÇÃO Autores: Rosângelo Henrique dos Santos ............................................................. 63 A INFIDELIDADE CONJUGAL E SEUS MITOS: UMA LEITURA GESTÁLTICA Autor: Mariana Moura Magalhães .......................................................................... 76 A TRANSFORMAÇÃO PELO ENCONTRO: UMA EXPERIÊNCIA EM GESTALTTERAPIA Autor: Theny Mary Viana Fireman de Araujo ......................................................... 92 AS ALEGRIAS E OS DESAFIOS DA FORMAÇÃO EM GESTALT–TERAPIA NA CONTEMPORANEIDADE Autor: Myriam Bove Fernandes............................................................................ 109 ASPECTOS SAUDÁVEIS E NÃO SAUDÁVEIS DO AJUSTAMENTO EGOTISTA NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA: PERSPECTIVAS ATUAIS Autor: Cinthia Dutra Struchiner ............................................................................ 111 BRINCANDO DE OPERAR: GRUPO DE ACOLHIMENTO DE CRIANÇAS EM PROCESSO CIRÚRGICO Autores: Bianca Lopes de Souza, Livia Cooper, Rosa Mitre, Celita Almeida, Renata de Marca, Rafael Maia............................................................................. 126

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ECOS NA PSICOLOGIA: CONEXÕES DO PENSAMENTO GESTÁLTICO E ECOLÓGICO COM AS QUESTÕES DO CONTEMPORÂNEO Autores: Patrícia Albuquerque Lima e Marco Aurélio Bilibio ................................ 142 GESTAÇÃO DE RISCO E GESTALT-TERAPIA: UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL? Autor: Guilherme de Carvalho .............................................................................. 152 GESTALT-TERAPIA E ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO: DOIS CAMINHOS PARALELOS QUE SE CRUZAM Autor: Izabela Guedes Linhares ........................................................................... 165 GESTALT-TERAPIA E BEHAVIORISMO RADICAL: ENCONTROS E DESENCONTROS EPISTEMOLÓGICOS Autores: Rafael Rubens de Queiroz Balbi Neto, Diemerson Saquetto e Elizeu Batista Borloti............................... ........................................................................ 179 GESTALT-TERAPIA, PONTOS E TEATRO: POSSIBILIDADES E DESAFIOS NO CAMPO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL Autores: Ana Carolina Pacheco de Paula............................... ............................. 197 GESTALT-TERAPIA: APONTAMENTOS PARA A PRÁTICA NO CONTEXTO HOSPITALAR Autores: Maria do Rosário Camacho e Marcela Arrivabeni ................................. 207 GESTALT-TERAPIA: UMA POSTURA PSICOSSOMÁTICA Autores: Ana Rafaela Moreira da Rocha, Rafael Balbi Neto, Sandra Bonfim Leonel e Rafaela Teixeira Zorzanelli................................................................................ 219 GRUPO DE PAIS: CONSTRUINDO NOVOS CAMINHOS NO ATENDIMENTO CLÍNICO Autor: Daniela Magalhães da Silva ...................................................................... 230 IDEAL MATERNO, GESTAÇÃO E SEXUALIDADE: UM RECORTE DO FEMININO Autor: Julia Gama Tourinho ................................................................................. 241 OUSANDO REPENSAR OS CONCEITOS DE CONTATO E AWARENESS – UM DESAFIO POLÊMICO Autores: Angela Schillings, Jane Rodrigues, Lílian M. Frazão e Selma Ciornai .. 257 PAUL GOODMAN E OS OUTROS CAMINHOS DA GESTALT Autor: Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior .......................................................... 258

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PESQUISA FENOMENOLÓGICA: COMPREENDENDO O TEMPO VIVIDO POR ADOLESCENTES DO GÊNERO FEMININO COM EXPERIÊNCIAS DE VIVER NAS RUAS E EM ABRIGOS Autor: Virginia Suassuna ...................................................................................... 275 PROPONDO UMA VISÃO GESTÁLTICA SOBRE O AUTISMO Autor: Sandro Quintana Gonçalves...................................................................... 290 REFLEXÕES ACERCA DA ESQUIZOFRENIA NA ABORDAGEM GESTÁLTICA Autor: Ludmila Vieira ............................................................................................ 299 AÇÃO E GESTALT-TERAPIA Autor: Enéas Lara ................................................................................................ 316 UM OLHAR GESTÁLTICO SOBRE A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR NA CONTEMPORANEIDADE Autor: Mabel Cortinhas Pereira ............................................................................ 330 UMA LEITURA GESTÁLTICA QUANTO À EXPERIENCIA EMOCIONAL DE MÃES DE CRIANÇAS COM MFLP NO MOMENTO DO INGRESSO ESCOLAR: ARTIGO DE REVISÃO Autor: Juliane Cristine Koerber Reis .................................................................... 345

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A GESTALT-TERAPIA NAS SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA E EM DIÁLOGO COM O SUS: A CLÍNICA DO CONTATO, DO TRAUMA À REABILITAÇÃO.

RESUMO Os aspectos relativos ao sofrimento do sujeito-em-situação de adoecimento agudo, nas emergências dos hospitais, envolvem o paciente em sua totalidade num universo de questões bio-psico-político-sociais próprias daqueles que procuram a instituição de saúde para tratamento. O nosso objetivo foi discutir a saúde como campo do conhecimento e das práticas dos diversos profissionais cuidadores, em consonância com as demandas do Sistema Único de Saúde – SUS. O gestalt-terapeuta, atuando nesse contexto, é convocado a realizar ações psicológicas que favoreçam ajustamentos criativos e solucionadores, pelas rupturas que a situação vivencial pode provocar não só nos pacientes como em seus familiares. Por se tratar de um acontecimento potencialmente gerador de perdas significativas e capaz de desestabilizar a unidade do ser em questão, procuramos desenvolver uma prática clínica que atenda a demanda da experiência de “malestar” e sofrimento, favorecendo o processo de auto-regulação organísmica e possibilitando novos significados para o sujeito/paciente/hospitalizado. Enfatizamos o momento existencial e emocional do paciente utilizando um manejo técnico que viabilize ao paciente entrar em contato (estar awere) o mais completamente possível com a situação vivida e suas necessidades, enquanto sujeito enfermo/sofrente. Ancoradas numa relação dialógica buscamos a experiência imediata e de modo especial a exploração das possibilidades criativas e solucionadoras para o enfrentamento da situação, do modo mais adaptativo e fluente que ele puder. Nessa perspectiva, a Gestalt no hospital contempla seu objetivo, trabalhando com as possíveis interrupções e com a energia imobilizada em seu campo vivencial, pelas circunstâncias do momento podendo favorecer no paciente, o livre fluir das

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necessidades mais emergentes, do trauma à reabilitação.
Palavras-chave: emergência, gestalt-terapeuta, ser-doente-em-situação, contato, auto-regulação organísmica, interrupções, reabilitação.

“(...) é nesse momento que a gente descobre a reserva de força e acho que tudo que recebemos ajuda muito, mas só cada um pode dar uma direção à recuperação (...) o grupo auxilia porque você sente que não está só. A ajuda aqui está no sofrimento de cada um , procurando saída.” (fragmento de uma narrativa no grupo de apoio psicológico)

INTRODUÇÃO O presente trabalho é resultado da nossa experiência clínica, em duas décadas, em hospitais e pretende discutir os modos de atuação num contexto de alta complexidade - Centro de Tratamento de Queimados – CTQ - do Hospital da Restauração, o maior hospital da Rede do Sistema de Saúde - SUS, vocacionado para o atendimento de Emergência e de Grandes Traumas do Estado de Pernambuco, onde as ações integradas e de relação, consideram o ser em situação de sofrimento em suas dimensões bio-psico-social-política-espiritual. O CTQ é um Centro de referência para Tratamento de Queimaduras, classificado pelo Ministério da Saúde de alta complexidade e semi-intensivo, com 45 leitos, sendo 25 leitos de adultos e 15 leitos de pediatria, na maioria das vezes todos ocupados. Devido as características da patologia e conforme a gravidade do trauma, temos um tempo de permanência médio de 15 dias, podendo prolongar-se até 90 a 100 dias ou mais. As atividades de atenção à saúde, realizadas pela Psicologia se centralizam na atenção integral ao paciente e seus familiares. Atendemos em média,

considerando a rotatividade, 40 pacientes/ mês e respectivos familiares. O número

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de atendimentos seqüenciais chegam em média a 200 /mês, dependendo da ocupação dos leitos e da complexidade dos casos. As Avaliações iniciais (preventivas) nos auxiliam como indicadores para novos atendimentos atentando para a disponibilidade do paciente e as implicações emocionais decorrentes do momento vivido. No tocante à atenção psicológica, esta se inicia desde a admissão do paciente no CTQ, estendendo-se ao pós alta hospitalar ambulatorial, junto aos demais profissionais fisioterapeutas e médicos. Muitas vezes são necessárias cirurgias reparadoras das seqüelas cicatriciais, comuns nos pacientes queimados bem como o tratamento fisioterápico que pode durar anos. Nessa etapa do tratamento, pós alta hospitalar, os pacientes oriundos da cidade e da região metropolitana, são convidados a participar do Grupo de Apoio Psicológico à Reabilitação, realizados semanalmente, dando continuidade a atenção oferecida durante a hospitalização. O grupo representa um espaço de convivência, de escuta e de trocas de experiências de dor e sofrimento pelas dificuldades e estigma que a patologia impõe. É um Grupo temático, aberto e cada encontro se encerra em si mesmo. Os temas são figuras que emergem da própria dinâmica e como indica Cardella; “ os temas se entrelaçam e se relacionam criando uma rica tela de experiências, em uma dada situação existencial”.(p. 73-74) Nesses encontros, pela cumplicidade, alguns pacientes ultrapassam os limites da doença para as múltiplas implicações no âmbito pessoal e interpessoal, tornandose assim um espaço socioinstitucional propiciador de um enraizamento coletivo da nossa clientela, conforme nos diz Schimidt ( in Morato 1999). Nesse espaço de referência e de convivência, muitos comparecem para contar aos outros suas experiências e seus vínculos com a instituição e seguimos todos caminhantes, procurando sentidos, tecendo a trama do trauma à reabilitação. Diante das considerações iniciais e contextualizada a nossa clínica,

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passamos então a discorrer sobre a psicologia contemporânea. entre eles o hospital.” (p. culminando finalmente na demanda hospitalar. cujos princípios básicos são a universalização do acesso. Lembramos Perez (2005) “(. que caracterizam a situação emergencial. inserindo-se nas equipes de saúde e afastando-se da tarefa clínica tradicional . A GESTALT NO HOSPITAL: A CLÍNICA DO CONTATO O enfoque que queremos dar para o sentido do sofrimento no âmbito da saúde requer uma nova compreensão do verbo sofrer como sinônimo de padecer. Somos chamados para o público. visto ser outro o tema a ser discutido. Esta atenção favorece a comunicação e a elaboração da experiência de sofrimento que está para além do corpo e da patologia. e do privado para o coletivo. aponta para o suportar. Não nos deteremos aqui em tais princípios. com o seu olhar holístico para o sujeito. É de nosso conhecimento que a Gestalt-Terapia. a integralidade da atenção e a equidade.53) Há de se considerar que tal situação provoca uma alteração da continuidade existencial que constitui e sustenta o sujeito e que pede uma atenção e uma ajuda especializada. podemos dizer que sofrer. onde a população vive a experiência de ameaça e desamparo provocada pelo fluir da fragilidade humana em situações de crise aguda. tem desenvolvido trabalhos em outros espaços. constituindo-se numa nova compreensão sobre a saúde que considera os inúmeros fatores de dificuldade no cotidiano da população que são de natureza bio-psico-social-política-espiritual. comprometida com as questões sociais e com o Sistema Único de Saúde – SUS – que amplia seu olhar. hoje coincidente com os ideais de integralidade do SUS. Do ponto de vista existencial. a psicoterapia... 8 . lançam o sujeito no estado inicial da condição humana. provocadores de sofrimento e desamparo. o desamparo. atualizando o conceito de atenção integral já encontrado no pensamento holístico e modelo atual sugerido pelo SUS.) A vivencia do impacto do inesperado e o defrontar-se com a possibilidade de morte.

se descortina o sofrimento humano total e inevitável. sustentando e sendo. falando também do poder curativo da natureza. a vida apesar do sofrimento inevitável. destacando-se Hipócrates. a visão holística. Buscando também inspiração em Nietzsche (2006). ou seja o sujeito bio-psico-social-político-espiritual solicita da equipe uma atenção ao sofrimento em todas as suas dimensões. já apontavam para o bem-estar do indivíduo e para os fatores ambientais interferentes no aparecimento das doenças. que a fraqueza e a submissão é combatida. o que . a ameaça a sua integridade e as repercussões decorrentes das rupturas sofridas em seu espaço vital. temos nele. e sobre a necessidade de suportar e enfrentar seu tratamento. com os princípios da Medicina hipocrática. As ações médicas são marcadas pela objetividade científica e pela resolutividade da situação crítica vivenciada pelo paciente. dando lugar a uma vitalidade que afirma o homem: vontade de potência. o conceito de eterno retorno nos põe em contato com a vitalidade que afirma o homem. inerente à própria patologia. A dor e o sofrimento próprios da existência humana nos leva. a saúde dependia de um estado de equilíbrio entre influências ambientais. Para ele.. É necessário salientar que compomos uma equipe interdisciplinar numa rede de cuidados cuja prioridade é a sobrevivência e recuperação do paciente. (CAPRA.levando adiante. a pensar sobre a condição do paciente como serdoente-em-situação. vítima de um trauma agudo. No entanto. os médicos gregos. No hospital. Nem precisamos dizer que nesse contexto. consideramos o usuário e suas necessidades. dada a objetividade das ações e a dinâmica do 9 . modos de vida e outros componentes da natureza humana – Pathós – ou seja. humores e paixões que deveriam estar em equilíbrio. Em “Assim falou Zaratustra”. adotando um modelo que vise primordialmente a sua integralidade contextualizada. 1995 ). sobrepõe-se radicalmente a questão das necessidades pessoais do paciente e assim. ou seja. sendo. no hospital. Na Grécia antiga. e fugindo do sentido de padecimento.

83) Considerando as necessidades do organismo e sua auto-regulação. a totalidade nas análises de um fenômeno. quanto em relação ao usuário com suas múltiplas demandas. (2003). o campo.tratamento. Numa situação de contato estamos inevitávelmente. exercendo assim a clínica do contato e do diálogo. assimilando o meio a seu ser diferente. principalmente. tanto entre os membros da equipe que cuida.” ( p. mas de estruturas que têm um significado distinto da soma de suas partes. sua alteridade e. a energia mobilizada será integrada e a awareness eficaz naturalmente dependerá de como o paciente compreende sua situação atual e de como o self encontra-se nessa situação. doença aguda. Sugeriu que há uma atitude que faz com que os Pimentel indivíduos percebam que o mundo é composto não só de átomos. em seu campo vivencial. já aponta para a necessidade de um olhar interdisciplinar. o ambiente hospitalar. o que não-é-eu.) e com os perigos e supostas ameaças que tal situação poderá despertar nele. Perls desdobrou a tese do holismo estrutural. também comenta esse pensamento dizendo: “ Marcando o corte epistemológico com a Psicanálise.37) Isso por si. o paciente confronta-se com o estranho (com o novo. Perls enfatizou a importância de compreender como um fenômeno psicológico acontece considerando o ser em sua totalidade. 10 . assujeitados à possibilidade da novidade e do imprevisto. seguindo os princípios da Gestalt já citados. a equipe.. voltado para o diálogo. (p. chamou atenção também para a importância de se incluir o contexto.o novo. e o estranho. O organismo subsiste em relação com o meio. Entrando em contato com a situação. Nesse sentido lembramos Lofredo (1994): “ contato é o reconhecimento do outro. Nesse cenário e fazendo parte da equipe interdisciplinar. o lidar com o outro. o psicólogo precisou re-inventar suas concepções e técnicas exercendo uma clínica ampliada cujo “foco do trabalho é o sujeito integral” conforme aponta Spink (2007. o tratamento. evitando uma visão isolacionista. em seus aspectos estruturais e dinâmicos do psiquismo. o diferente. na maioria das vezes não é possível. p.. mantendo sua diferença. 93) enquanto que o gestalt-terapeuta no hospital trabalha efetivamente com paciente em sua totalidade.

fica claro que não conseguiremos dar conta do sofrimento humano e o gestalt-terapeuta se oferece ao paciente/sofrente como presença. Nossa atuação parte de uma avaliação compreensiva. importa. Tomando como fio condutor o conceito de auto-regulação organísmica. como disponibilidade para uma escuta clínica situacional que favoreça o contato e a reflexão sobre o modo como ele como se relaciona com os acontecimentos e o que fazer com aquilo que se apresenta como inevitável e como algo a ser solucionado. que 11 . Em Gestalt significa favorecer o afrouxamento de controles. conceito fundamental em Gestalt. caos. Sabemos que o modo sadio do sujeito deverá se revelar pela sua capacidade coerente entre sentir. acontece pela formação de uma figura contra um fundo. Nessa perspectiva. na prática. De qualquer modo nos perguntamos: Quem é o paciente? Em que circunstâncias ele adoeceu? Há alguma relação entre sua historicidade e seu adoecimento? Qual a dimensão dada ao seu sofrimento? E o grau de vulnerabilidade diante de tal acontecimento? Como poderemos favorecer o fluir da energia vital capaz de dar sustentação na travessia da hospitalização até a reabilitação? Diante de tais questionamentos. portanto.O contato é sempre dinâmico e por sua natureza relacional. pensar.ordem surgem como uma realidade a ser vivenciada. entre terapeuta e paciente para uma ação interventiva que objetiva o livre fluir da energia necessária ao enfrentamento e à recuperação da saúde. compreender como ele reage a sua condição de ser/sofrente e quais seus recursos disponíveis. dizer e agir e que como já visto na situação concreta de adoecimento esse modo será afetado em sua organização de maneira que organização- desorganização. trocas importantes com possibilidades de mudanças. possibilitando um espaço para a criatividade e a autonomia. ou estratégias de enfrentamento diante da situação a ser solucionada. Não podemos deixar de enfatizar que é na fronteira-de-contato que acontecem as comunicações entre o paciente e a equipe e particularmente com o psicólogo que favorece através dos encontros.

portanto. Querendo dizer com isso que existe a possibilidade da pessoa poder escolher e regular suas próprias vontades se estiver awere.65) Fica claro então. que é a awareness e a hierarquia das necessidades do paciente. além da agressão. fantasias e dificuldades. nesse momento de crise. mobilizando por demais a angústia já própria da existência humana. consequentemente.diz como o sujeito se relaciona com as situações. Cardella(2002) nos mostra que : “Para a Gestalt-Terapia. o que resulta em crescimento segundo processos de ajustamento criativo. da awareness do indivíduo. o sofrimento. No confronto com a dor. mas uma atitude de escolha e aprendizado que envolve o ser total numa compreensão daquilo que é (realidade atual) e que necessita da utilização de forças presentes para o enfrentamento da situação. pensa o corpo como unidade funcional e que todo fenômeno acontece no organismo total. a situação que se apresenta sugere que o gestal-terapeuta se utilize de ações facilitadoras de awareness. Perls. com sua própria vulnerabilidade. citado por Yontef (1998) diz que: “Existe apenas uma coisa que deveria controlar: a situação. mesmo sofrida. o paciente/sofrente poderá apropiar-se do momento vivido conseguindo uma maior fluidez e assim. enfatizamos que o contato com a situação de trauma e hospitalização que leva o sujeito a desestabilização própria das situações de risco iminente .”(p. decorrente das incertezas e das possíveis perdas. direcionadas ao foco de atenção do paciente (figura).” (p. 12 . seus medos.30) . tornar-se mais permeável a compreensão da realidade a ser enfrentada. deixando fluir a energia necessária ao processo homeostático. que poderão dar sentido a experiência vivida. Nesse sentido. ou seja. A teoria organísmica. o processo de auto-regulação organísmica depende. Enfatizamos que auto-regulação não indica acomodação ou resignação. assimilar o que é nutritivo e rejeitar o que é tóxico . de sua capacidade de discriminar e .Se você entende a situação em que está e se você permitir que a situação em que está controle as suas ações. então você aprende a lidar com a vida.

será um facilitador do processo gradual de passagem do apoio em suportes de outros para o reconhecimento e a criação de recursos próprios do indivíduo. O gestalt- terapeuta atuará junto ao paciente em sua unidade. e do suporte o paciente poderá modificar percepções distorcidas ampliando suas possibilidades e assim. considera. É justamente a inter-relação das suas dimensões humanas – suporte – que o paciente deverá fazer o movimento para o contato. uma dimensão constituviva do ser e. trabalhados através da explicitação da experiência existencial. corporeidade tem um sentido especial.49) Nessa perspectiva. o que afirma nossa prática como uma prática essencialmente fenomenológica-existencial. favorecendo o fluxo de energia e tornar-se agente de seu tratamento e da sua própria recuperação. portanto. segundo ele é um existencial. Desse modo.Por essa compreensão. então. Na dinâmica da sua totalidade. para que possa. estimulando a auto-regulação e o auto-suporte através de técnicas adequadas e de confronto com a situação e ao que se apresenta. se o paciente estiver awere. e mais uma vez citando Cardella (2002) temos que: “O terapeuta. utilizar recursos próprios. o paciente busca sua auto-regulação. é condição ontológica do sujeito e já aponta para a totalidade do ser. a Gestalt no hospital. visto que. Para Heidegger (2001). incertezas e dor.” (p. na maioria das vezes doloroso e ameaçador. o enfrentamento da situação ameaçadora de vulnerabilidade. de facilitar a solução de problemas. portanto inseparável da suas experiências e de seus significados Esse filósofo. desorganiizada pela crise. buscando a autoregulação e o auto-suporte. poderá encontrar meios de enfrentar e suportar as necessidades do tratamento. e colocando em destaque a situação de adoecimento e trauma agudo. então. a atenção psicológica oferecida ao paciente é norteada pelos acontecimentos experienciados no momento. expressa por movimentos desordenados em sua corporeidade. estabelecer contatos plenos. se estiver ciente daquilo que é. contempla seus objetivos. O corpo. no caso. O objetivo da Gestalt-terapia é portanto. o corpo para 13 . Através do encontro. como abordagem aplicada.

as fantasias. visão. articulamos novamente um dos conceitos fundamentais da Gestalt-terapia. os perigos. fala. No entanto. das trocas. onde o paciente experiência o estranho. MANEJO DA FRONTEIRA . considerado aqui como corporeidade é a casa do contato. entra em contato com sua situação atual ou presentificada. É o lugar do encontro. Trabalhamos com a noção de contato com o sujeito e suas possibilidades trazendo assim a compreensão do que se passa com o paciente como Perls acreditou: na ênfase dada a situação da pessoa no presente. Segundo Polster e Polster (1979) o contato acontece através das funções de contato. Acrescentando ainda em sua fala que os limites do corporar encontra-se num âmbito diferente do tocar e do ver.212). também. compreendemos que o corpo. “O corporar está em toda parte onde participa a sensorialidade. a noção de contato. alguns pacientes. expressões etc. olfato. gestos. já a primária compreensão do ser” ( p. mas no âmbito do imaginar e da possibilidade de presentificar. As intervenções clínicas psicológicas possíveis no hospital seguem a mesma metodologia da clínica tradicional e considerando o manejo da fronteira-de-contato acreditamos que as pessoas são capazes de fazer a travessia da situação e tomando consciência (estar awere) poderá mover-se em direção a sua autoregulação.. muito afetados em sua unidade relacional e transformador de 14 . destacando como essa pessoa..CONTATO NA SITUAÇÃO HOSPITALAR A fronteira-de-contato é onde tudo acontece. em conexão com o livre fluir.DE . o novo. e assim. para enfatizar o que pretendemos expor no momento. é também o lugar onde acontece o contato facilitador significado/sentido. toque. mas ai está sempre.além do organismo físico e sim como um modo de ser nas diferentes formas de afetação. Por essa compreensão.

que apontam para uma confusão entre o si-mesmo e o outro. as relações paciente/equipe. Os fenômenos decorrentes das situações de crise aguda muitas vezes provocam os bloqueios que apontamos acima. com a situação. o estado emocional comprometido e tais interrupções. adaptáveis às experiências em curso na vida do indivíduo. O gestalt-terapeuta compreendendo o movimento inadequado presente na fronteira-de-contato e considerando o modo próprio como cada sujeito se revela. temos os distúrbios de limite. redirecionando a energia para outros modos mais adequados flexíveis e naturais.” (p. aumentando sobremaneira o sofrimento daquele que necessita atravessar tal situação. interrupções no ciclo do contato etc. interrompendo o fluir natural do processo de ajustamento criativo. Cardella (2002) referindo-se aos distúrbios na fronteira-de-contato. podem ser um dos fatores que interfere no tratamento do paciente e na comunicação entre todos da equipe. o tratamento necessário. distúrbios de fronteira. a rigidez na fronteira-de-contato encontrada nos pacientes em situação de crise aguda. que recebem diferentes denominações em gestalt-terapia conforme diversos autores. Assim. As construções metodológicas que contemplam a clínica no contexto hospitalar estão na perspectiva dos significados/sentidos e nossas ações se 15 . além de ampliar a awareness deste em relação à sua forma de contatar e evitar. ou seja. a autora acima citada considera que é necessário não combater tal movimento e sim procurar tornar o paciente awere do mecanismo que utiliza. Diz a autora: “No processo terapêutico o que se procura é transformar esses mecanismos em estilos de contato. indica a utilização de mecanismos neuróticos. os define como a incapacidade se encontrar e manter o equilíbrio. No hospital. 58) Finalmente. Por essa compreensão. dificulta as trocas. poderá ajudá-lo a desfazer suas interrupções que bloqueiam o contato e a interação saudável consigo mesmo e com os outros e consequentemente.poderão apresentar dificuldades.

Assim. As reflexões aqui apresentadas acerca da atuação do gestalt-terapeuta na âmbito hospitalar se revela hoje como abertura para nossa inserção profissional num contexto público e social. No encontro. pelo contrário. a Gestalt-terapia mostra-se presente das diversas possibilidades de atuação clínica. Diz ele: “Enfrentar.direcionam para a possibilidade de ampliar o campo de visão sobre a situação a ser suportada e da saúde como unidade do ser bio-psico-social-político-espiritual. então. Para finalizar. é encarar os fatos e decidir. terapeuta e paciente poderão encontrar modos de enfrentamento solucionadores e capazes de mudanças significativas na vida do paciente. como Benjamin (2002) também acreditamos que pode ser possível para o paciente o enfrentar da realidade sem defender-se. o que fazer com eles.28). visto ser o adoecimento agudo um acontecimento que envolve o cotidiano do sujeito nas mais diversas atividades e dimensões existenciais. onde o desamparo e o sofrimento humano mostra-se em toda sua intensidade.” (p. nossa entrevista poderá ajudar mais do que se pode prever. negá-la ou distorcê-la. 16 . Se pudermos criar uma atmosfera em que o confronto seja alcançado. afirmando-se cada vez mais como uma abordagem atual e engajada com os ideais de cidadania e de autonomia do sujeito-em-situação.

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Later on there is an observation of the field of Community Gestalt Therapy with the objective of observing others forms of relationship with society that allows contact. society. keeping an articulation with society. mudança paradoxal. presented by Gestalt Therapy. paradoxal change. ABSTRACT The purpose of this work is to investigate the act of judging the contemporary phenomenons of society throw the eyes of confluence. judgement. acception. in constrast with judgement. Inicialmente busca-se uma fundamentação da visão de ser humano desta abordagem. 18 . mantendo uma articulação com a sociedade.A CRÍTICA À SOCIEDADE COMO CONFLUÊNCIA Raphael Henrique Moreira RESUMO O propósito deste trabalho é investigar o ato de julgar os fenômenos contemporâneos da sociedade a partir da ótica da confluência. aceitação. criticism. apresentada pela Gestalt-terapia. contrastantes portanto com o julgamento. At first it is searched groundings for the human being’s view of this approach throw a development of the notion of observation. crítica. julgamento. sociedade. Palavras-chave: confluência. Posteriormente faz-se uma observação do campo da Gestalt-Terapia Comunitária com o objetivo de observar outras formas de relacionamento com a sociedade que possibilitem contato. community. através de um desdobramento sobre a noção de observação. Keywords: confluence. comunidade.

somente quer 19 . Em contraste à posição crítica será apresentada uma proposta na base da observação em massa. evitação do encontro com a diferença que contribui para uma estagnação desse coletivo. que implicitamente ou explicitamente deixa claro um “deveria ser…”. a partir do conceito de ajustamento criativo que embasa a sua prática. Desse modo parte-se da crença de que o que seria crescimento pode ser estabelecido a priori da experiência. Acredita-se que dessa forma encontra-se uma verdade.INTRODUÇÃO As reflexões sobre a contemporaneidade são influenciadas pela importância de um olhar crítico. exclusivamente ao ato judicativo de adjetivar as qualidades da sociedade contemporânea. Restringe-se. será abordado esse julgamento da sociedade como uma tentativa de restauração da igualdade entre os membros. distingue-se o certo do errado. entende-se a ótica “não deveria ser” do fenômeno. afirma que o organismo se ajusta ao ambiente da melhor forma possível. da vivência atual. O objetivo de se manter tal olhar é o progresso da humanidade. Em congruência com essa noção. O presente trabalho enfoca a contribuição que a visão de ser humano da Gestalt-Terapia pode ter para a forma como são vistos os fenômenos da contemporaneidade. A partir da noção de confluência da Gestalt-Terapia. Isso não significa que está satisfatório. podendo então virar uma meta que guia nossos atos. portanto. ACEITAÇÃO E SOCIEDADE A Gestalt-Terapia. uns aos outros. e a fundamentação teórica de que esse pode ser um de jeito algo novo e uma possibilidade de uma melhor organização acontecer. Por crítica à contemporaneidade. temos que esse coletivo chamado sociedade está se ajustando da melhor forma possível. Nós somos o nosso melhor no momento.

considerando o presente. Também não significa que não poderá ser mais satisfatório futuramente. dos seus desejos. p. Assim como a crítica é a única possibilidade crítico naquela hora. e também não poderia ser diferente. Posso mover-me no sentido de aceitar você como você é. para que com o foco presente possamos participar dessa nova experiência com toda a nossa potencialidade: No diálogo posso mover-me no sentido de aceitar-me como sou e tornar-me disposto a enviar as mensagens de maneira clara. Ainda que consideremos o consumismo como 20 . eram a única coisa que eu podia fazer. 353). à medida que descubro e torno-me nós dois no diálogo. inclusive o ‘ser’ do meu desprazer com algumas das coisas que são. e para tal. Aceitação entra quando a não-aceitação se rende à natureza das coisas e fatos. Quando vejo a situação do seu ponto. por exemplo. do seu fundo. O tempo passa. posso perceber que no momento essa era a única coisa que você podia fazer – e que o meu ressentimento e a sua não expressão. Aceitação é dizer ‘sim’ àquilo que é. Uma mudança acontece no momento em que me deparo com a alteridade. mas esta escolha também é parte do seu ser neste momento e. etc. Juntos. movemo-nos no sentido da compreensão e aceitação mútuas. 1977. fenômeno contemporâneo muito criticado atualmente na sociedade. Volte cinco minutos no tempo. há alguma coisa que você possa fazer que não está fazendo? Talvez você tenha um sentido de escolha. preciso estar no presente. com aquilo que é. perdemos atenção do que somos agora e não temos ponto de partida e não temos como sair do lugar. Mas para que novas experiências sejam assimiladas por cada organismo que compõe a sociedade. surge da sua vida. pois só me deparo no aqui agora. Tomemos. e eu não posso voltar para mudar nada.dizer que não poderia ser diferente do que é. Se ficarmos enquanto coletivo com um ideal ou com o julgamento do que é atual. na sua imaginação: Há alguma coisa que naquele momento você poderia ter feito diferente? Nesse momento. pois novas experiências podem reorganizar de modo a levar a um ajustamento mais satisfatório. precisamos partir da massa que somos agora. o consumismo. (STEVENS. Não é algo que eu faço: é algo que permito. aceitando as suas mensagens sem distorção. Da mesma forma a sociedade é agora o que ela pode ser nesse momento.

o meu apegar-se. uma postura ativa. quando estamos bem. pois não tem nenhuma relação com este. o meu evitar. no trabalho psicoterápico. ou seja. a minha luta. Se nós nos impedimos de agredir.um sintoma. quando estamos mal. se tornar clara. portanto o que é. sentimo-nos gratos. Ainda assim é necessário levar em consideração que consumir em excesso não é necessariamente um sintoma. Essa necessidade não tem como surgir na observação do que esse sintoma “deveria ser”. p. 1 21 . A sociedade é o que dela fazemos. o juízo de valor do consumismo de nada contribuiria para uma mudança desejada por esse cliente. Sobre agressão e sua relação com ressentimento e culpa temos: Em relação aos nossos companheiros. que nada tem a ver com o embotamento da agressão. comumente chamado de conformismo. e que o único que pode realmente dar-se conta de se aquela forma é satisfatória ou não é o próprio indivíduo em questão. O sintoma está na superficialidade. p. é validar a sua existência: “Aceitação é uma questão de descobrir os meus laços e então soltar a minha interferência. Os valores da O termo “sistema de orientação e manipulação” refere-se à integração entre o sistema sensório e o sistema motor. etc. e no caso o próprio consumir. (PERLS. A aceitação é nesse sentido uma concentração do sistema de orientação. temos uma sensação de contato harmonioso. atacamos e tentamos modificar o ambiente.” (STEVENS. 352). se o pólo sistema de orientação1 focalizar o que acontece no presente. que transforma em passividade através da racionalização. aceitá-lo. Na crítica do sintoma focaliza-se o que o ajustamento não deveria ser. comum a vários indivíduos. É uma construção das diferentes forças no campo de todos os indivíduos que dela participam. Esta denominação foi apresentada por Perls no texto “Teoria e técnica da integração da personalidade”. que excesso é relativo. desconfirmando a melhor possibilidade que aquele organismo ou aqueles organismos têm para sobreviver naquele momento. 1977. 61). 1977. então sentimos ressentimento e culpa. ele é o melhor ajustamento possível para dar conta de uma necessidade que não encontra ou evita encontrar vazão no ambiente de forma satisfatória. E poder ficar com o que o fenômeno é. E essa necessidade subjacente só pode emergir.

e o que fica em seu lugar é a expectativa de ter uma moral absoluta como guia ou poder guiar os outros com ela (culpa ou ressentimento). o amante. etc. Isto não deixa de ter consequências. 1977. de diferentes formas e intensidades. o boxeador. Essa singularidade óbvia da experiência é alienada. Perls discursa sobre uma moral organísmica e sobre a projeção da experiência: O próximo passo é que em vez de nos apropriarmos de nossas experiências projetamo-las e jogamos sobre o estímulo a responsabilidade pelas nossas respostas. o quadro. a moralidade da autoconsciência. e isso é o que é. A vivência é vista como absoluta.). única e portanto o direcionamento que dela encontra-se serve para todos. Para considerar qualquer mudança numa sociedade é necessário enxergar que essa experiência é diferente. E observando o que é abre-se espaço para a possibilidade de ver necessidades genuinamente em comum. No momento em que rotulamos o estímulo de bom ou ruim. o julgamento da intuição. Nós dizemos que o aluno. com medo de nosso excitamento e fugimos da responsabilidade. somente. A experiência com essa construção coletiva é singular. é uma suposição. A sociedade vai surgir da inter-relação de cada discriminação. e a tentativa de expandir essa experiência única para os demais participantes através da crítica ignora exatamente essa alteridade. 52-53). a deliberação da espontaneidade. e sim ver o que é e não o que deveria ser. frígidos ou neuróticos confusos. nós tiramos o bom e o ruim da nossa própria experiência. o filho.contemporaneidade são criticados como se fossem externos. Mas essa discriminação é organísmica. Eles tornam-se abstrações e os estímulos-objeto são então correspondentemente arquivados. perdemos o ‘eu’. Uma vez que tenhamos isolado o pensamento do sentimento. o livro. 22 . p. isso não é acessível através da experiência com esse coletivo. Considerando a singularidade com que a satisfação ocorre não é factível considerar “o” certo. para assim poder discriminar. Aceitar não é deixar de discriminar. e como se a construção desses mesmos não tivesse a participação. de cada indivíduo. a essência da existência e tornamo-nos robôs humanos. ‘é’ bom ou ruim.. etc. pessoal. o verbal do não-verbal. não é possível saber o que é bom a priori para o coletivo. (PERLS. (Isto poderia acontecer porque ficamos assutados.

para falar da concentração da atenção no fenômeno como ele é. somente é possível mudar se o investimento estiver pleno no que se é naquele momento. para que esta possa mudar sistematicamente com as variações no equilíbrio dinâmico. ou seja mantendo seu 2 Grifos meus 23 . 1980. (BEISSER. 114). Somente percebendo que essa diferença existe e ficando com isso. aponta para a necessidade de awareness sensorial. que a mudança ordenada dentro dos sistemas sociais se realiza na direção da integração e do holismo. Isso requer que o sistema se torne cônscio dos fragmentos alienados internos e externos. com a sua existência. pois a tentativa de mudança não gera modificação alguma. Isso por sua vez. O ‘fragmento alienado’ mencionado é a própria diferença entre os diversos subgrupos que compõem a sociedade. p. existe uma conscientização. dentro do sistema. Primeiramente mencionando o pólo orientação do sistema orientação/manipulação. a partir da teoria da Gestalt-Terapia cunha o termo ‘Teoria Paradoxal de Mudança’.A TEORIA PARADOXAL DE MUDANÇA Beisser. 1980). aí faz-se possível paradoxalmente uma mudança (BEISSER. creio ainda que o agente de mudança social tem como sua função principal trabalhar com (e em) uma organização. Da mesma forma. esse fragmento é aceito como uma consequência legítima de uma necessidade funcional que é então explícita e deliberadamente mobilizada e recebe energia para poder operar como uma força explícita . para poder integrá-los nas principais atividades funcionais por processos semelhantes à identificação no indivíduo. dentro e fora da organização. de que existe um fragmento alienado. leva à comunicação com outros subsistemas e facilita um desenvolvimento integrado e harmônico de todo o sistema. em seguida. 2 O autor demonstra na parte grifada como o método utilizado na GestaltTerapia pode ser utilizado de uma forma social. pois. Primeiro. ele amplia a visão individual para o que chama de ‘Teoria Paradoxal de Mudança Social’: Acredito que a mesma teoria de mudança aqui esboçada também é aplicável aos sistemas sociais.

projection. Considerando o pólo manipulação. por medo e perda da fé nelas mesmas ou no seu ambiente. o excitamento. Beisser fala em mobilização e operação de energia. 3 24 . life as a fixed stare at a portion of one’s world. e tomamos o caminho a ser traçado como algo velho e já conhecido. Ela é fisiológica quando ainda assim existe uma disponibilidade para o fundo se diferenciar. boredom. submetendo-o à esteriotipia e à projeção. É a vida sem nenhuma vitalidade ou excitação.foco. an intention and its realization. e o amortecimento. a viver em meio ao que elas já conhecem bem demais. o resultado é a estagnação. realmente novo que poderia surgir desse encontro. confluence – represent anxiety at work substituting the known for the unknown (MILLER. confluência – representam a ansiedade em funcionamento substituindo o conhecido pelo desconhecido. out of fear and loss of faith in either themselves or their environment. the outcome is stagnation. subjecting it to stereotyping and projection. p. o excitamento tem então possibilidade de surgir para construir uma nova forma mais satisfatória de regulação deste coletivo. The disturbances of contact as Gestalt Therapy views them – introjection. abre-se então a possibilidade para emergir a necessidade dos diferentes indivíduos participantes. 1990. o tédio. e o que está dessensibilizado não pode mais ser reconfigurado frente ao ambiente então temos a confluência como evitação de contato: A sensing and the object sensed. It is life without any vitality or excitemenent. to living amid what they already know too well. retroflection. one person and another. Os distúrbios de contato tais como a Gestalt-Terapia os vê – introjeção. a vida como um olhar fixo para uma parte do seu mundo. 27). é concebida agora. and deadness. retroflexão. uma forma que só se torna possível frente a este excitamento. e seguimos em busca de um ideal futuro: When people resign themselves. projeção. 3 CONFLUÊNCIA. Quando esse estado se torna rígido. PERSUASÃO E SOCIEDADE A confluência é uma condição de indiferenciação. are confluent when there is no appreciation of a boundary Tradução: Quando as pessoas se resignam. Considerando um ideal perdemos a oportunidade de descobrir algo novo.

between them. hence no excitement. não há apreciação da diferença. Quando o foco está no que a sociedade deveria ser. O termo apreciação. poderá haver a experiência de ser aceito em sua diferença e aceitar a diferença do outro. manipulated. they Tradução: O que sente e o objeto sentido. por conseguinte não há excitamento. O foco em algo fantasioso (o que deveria ser ou o que não deveria ser) visa somente o referencial de julgamento. ou do que ela não pode ser. diferente de somente ter uma visão. hence no contact!. Without this sense of boundary – this sense of something other to be noticed. II. Mas se a atenção não está no que emerge no campo organismo/ambiente. quando não há discriminação dos pontos de diferença ou outredade que os distinga. são confluentes quando não há apreciação de uma fronteira entre eles. e sim somente no pólo organismo ou somente no pólo ambiente. p. 4 (PERLS. na confluência. 1951. 365). awareness e contato ficam impossibilitados. ainda sim. approched. ou será necessário o isolamento: If a discrepancy in their views becomes manifest. uma pessoa e outra. mesmo que pontos de vista não sejam modificados. Sem o senso de fronteira – essa noção de algo outro a ser notado. ou seja. Indiferenciado que fica com somente um ponto de vista como norteador. e se o desequilíbrio entre os pólos não é tolerável. que surge do que o que pensador quer para satisfazer sua ansiedade frente a novidade que pode transformar o que está assimilado nele. a intenção e sua realização. por conseguinte não há contato! 4 25 . manipulado. ou vai ser tentado a restauração do equilíbrio. notar a diferença. observar. perde-se o foco da diferença que existe. Isso já é algo novo. no sentido de olhar. No. Não ocorre mudança nenhuma. No encontro comunitário. enjoyed – there can be no emergence and development of the figure/ground. por conseguinte não há awareness. e essa compreensão muda a forma como posso estar com essas pessoas. É nesse encontro com a diferença que algo poderia ser modificado em ambos os pólos organismo/ambiente. HEFFERLINE & GOODMAN. abordado. they cannot work it out to a point of reaching genuine agreement or else agreeing to disagree. aproveitado – não tem como ter emergência e desenvolvimento de figura/fundo. hence no awareness. pois é possível compreender o que faz outros a terem tal ponto de vista. o desenvolvimento figura/fundo. when there is no discrimination of the points of difference or otherness that distinguish them. frente as diferenças na forma de encarar um certo conteúdo se houver possibilidade de escuta. é ponto primário para a experiência de contato.

must either restore the disturbed confluence by whatever means they can or else flee into isolation. one effaces his own individuality. or in other ways putting the brunt upon the other to make up. ou se ajustar ao outro. it may take the form of hostility. HEFFERLINE & GOODMAN. a segunda opção é a mais comum e mais comentada. ou outros modos de dispor-se do outro como um objeto de interesse. tries to make up. retirada. ou desesperando-se para restaurar a confluência. No outro caso. The latter may emphasize sulking. ou intimida. para essa apreciação de algo outro a mim mesmo. In the other case. 1951. eles precisam restaurar a confluência perturbada de qualquer maneira que puderem ou então fugir para o isolamento. esquecimento. 6 5 26 . and becomes slavish. ele usa de persuasão. propitiates. precisa de provas de aceitação total. 1951. or. preocupa-se com diferenças pequenas. bribes. ou outras formas de botar um peso para o outro fazer as pazes. pode tomar a forma de hostilidade. O respeito ao assimétrico é condição primordial para um diálogo. flagrant disregard. e se torna escravo. é o Tradução: Se uma discrepância de ponto de vista se manifesta. livros e artigos científicos. eles não conseguem resolver até um ponto de concordância genuína ou então concordar em discordar. or other ways of disposing of the other as an object of concern. No primeiro caso torna-se um homem-do-sim. Tradução: Para restaurar a confluência interrompida. A censura à contemporaneidade pode variar desde a persuasão até a intimidação. 6 Perls. p. 368). suborna. perdoa. Essas formas de tentativa de confluência ficam assim expressa: To restore interrupted confluence one attempts to adjust oneself to the other or the other to oneself. (PERLS. frets about small differences. ajustar o outro a si. where one cannot stand contradiction. jornal. 368). (PERLS. Ele apaga sua própria individualidade. one persuades. esse tenta ajustar-se ao outro. Ainda assim a primeira aparece nas diferentes formas de comunicação em massa. Considerando uma relação de forças já naturalmente desigual como o organismo e a sociedade (ambiente). withdrawing. tenta fazer as pazes. In the first case one becomes a yes-man. needs proofs of total acceptance. como televisão. compels or bullies. no qual ele não consegue aguentar contradição. II. 5 Duas são as opções para restaurar a igualdade na confluência. ou o outro a si. flagrante indiferença. being offended. O segundo caso pode enfatizar mal humor. compele. II. inclusive os ajustamentos não saudáveis de terceiros. HEFFERLINE & GOODMAN. despairing of restoring the confluence. p. ficar ofendido. forgetting. Hefferline e Goodman (1951) demonstram como no contato a diferença pode ser respeitada. A variedade na contemporaneidade. Não. onde a crítica dá uma possibilidade mais ampla de ajustar os outros à visão do crítico.

material que proporciona qualquer mudança. ou qualquer outra ação que seria possível e apropriada se a importância maior não tivesse sido dada à escrava restauração do status quo 8 7 27 . but actively welcome the animation and excitement that come with the airing of disagreements. 1951. is to restore the upset balance and mend the intolerable situation of broken confluence. elas não só respeitam as opiniões. What is avoided in such cases is actual contact with the person as a person. guilt and resentment. whether this contact were to take form of an explosion of anger. (PERLS. they not only respect their own and the other’s opinions. contact for excitement and growth. seja esse contato fosse tomar a forma de uma explosão de raiva. tastes. and responsabilities. é restaurar o equilíbrio perturbado e consertar a situação intolerável da confluência quebrada. Confluência contribui para a rotina e estagnação. curtir a satisfação do outro. HEFFERLINE & GOODMAN. o organismo somente leva em consideração sua necessidade ou a moral a que está ligado e ignora ou não admite a possibilidade do outro fazer algo diferente disso: The aim of these inconclusive attitudes of nagging oneself or nagging the other party. a generous act of understanding and forgiveness. Confluence makes for routine and stagnation. (PERLS. o contato para o excitamento e o crescimento. HEFFERLINE & GOODMAN. II. os sentimentos representativos são a culpa e o ressentimento (que é a demanda de que a outra pessoa sinta culpa). No ressentimento. 1951. not in confluence. pois deixa de frente com isso que é diferente. 368). II. gostos e responsabilidades suas e dos outros. e não em confluência. or any one of a number of other actions that would be possible and appropriate if first consideration were not given to slavish restoration of the status quo. O objetivo dessas atitudes inconclusivas de importunar a si mesmo ou importunar o outro. 370). 7 Na Confluência no pós-contato. um generoso ato de compreensão e perdão. p. mas ativamente recebem a animação e excimento que vem com o ventilar da discordância. O que é evitado nesses casos é o contato real com a pessoa como uma pessoa. ou a ideologia alheia e deixa de lado a experiência que viveu. culpa e ressentimento. p. being frank about oneself. enjoying the other’s pleasure. somente nesse encontro que pode-se ser minimamente modificado: When persons are in contact. 8 Quando as pessoas estão em contato. ser sincero. Na culpa o organismo se depara com a idéia com que se identificou.

Dentre as dificuldades encontradas nessa experiência. além de muitas reuniões focarem necessidades individuais. como se uma moral absoluta pudesse fornecer a verdade que ficará de parâmetro para a restauração da paz. (TOBIN. muitas pessoas persistem em seus ressentimentos. p. Eles pensam que a única forma de resolver um conflito é que uma das pessoas admita ser culpada. em termos de certo-errado. Polster (1999) descreve encontros feitos em uma cafeteria na década de 60 que reuniam até 250 pessoas. 1977. ruim ou estúpida. O julgamento aos fenômenos contemporâneos apresenta-se. demonstrando através de racionalizações persuasivas o quanto essa sociedade está errada: Julgar-se dono da verdade. Uma vez que admitir estes juízos é algo humilhante e degradante. esperando que o outro veja a luz e se humilhe admitindo estar errado. A satisfação está diretamente relacionada à espontaneidade. os chamados “encounter groups”. Ainda que houvesse uma mudança em prol do que é “certo” o status quo permaneceria insatisfatório pois a alteração não teria surgido de necessidades simultâneas. bom-ruim. sob essa perspectiva. Da mesma forma. 28 . a crítica à sociedade aparece como uma tentativa de reatar a confluência entre a sociedade e o crítico. é um fluxo natural. é um benefício colateral predominante na persistência. seria um ato coletivo de confluência. ele destaca a de ter uma continuidade. focar as questões ‘indivíduo e sociedade’ de uma forma diferente da encontrada nos consultórios clínicos são os encontros em grupos de larga dimensão ou comunidades. como muitos encontros religiosos conseguem ter. quando buscava-se uma participação das pessoas de uma forma abrangente. comum nos pacientes que avaliam qualquer conflito entre si e os outros. 164). como um ressentimento pela falha em comportar-se do jeito “certo”.O discurso confluente se torna um jogo de certo e errado. GESTALT-TERAPIA E COMUNIDADE Uma forma prática encontrada de utilizando-se da proposta da GestaltTerapia.

e dá a rica experiência da troca comunitária. como na terapia. as it is represented in personal observations such as I was disapointed in… or i am confused by… or i love to read…I have always Tradução: Uma influência fundamental no Life Focus Communities (Comunidade de foco na vida) será um precedente psicoterápico familiar: foco imediato na forma com que as pessoas. Tal foco terapêutico tão direto na terapia particular resulta em reconfiguração da perspectiva mental e comportamento. mas manter atenção nos fenômenos presentes. a procrastinação por exemplo. pois isso seria inviável. p. de ouvir experiências possivelmente opostas ou similares. Verticalmente. 2006. feel. pensam. 9 29 . acontece. Isso não garante que a procrastinação será resolvida. mas dá a ele uma oportunidade para tal. É uma forma de se manter um ambiente seguro. we will encourage simple awareness of simple experience. tem-se a experiência de não ser rotulado dessa forma. fazem estratégias. invent. dando importância a uma experiência mais básica e primordial que aconteça em um grande grupo. Essa percepção é importante para possibilitar a continuação do processo de contato: With this progression in mind. Polster acredita no poder das atividades que possibilitem awareness sensorial. Polster fala de duas formas de encarar um fenômeno. strategize. sentem. propício nos Life Focus group. movem-se. descobrindo a serviço de que situação inacabada um determinado sintoma. (POLSTER.A intenção em grupos de grande proporção não é ter uma atenção individualizada. ser exposto a propostas para tentar diferente e a oportunidade de dividir como foi essa tentativa. move. ser aceito. Se referindo a esses grupos no que posteriormente chama de Life Focus Communitites. Horizontalmente. and communicate. invetem e comunicam-se. uma atmosfera sem demanda nesse grupos de grande proporção. ele diz: A key influence in the Life Focus Communities will be a familiar psychotherapeutic precedent: direct focus on the way people think. verticalmente e horizontalmente. Such sharp therapeutic focus in private therapy results in mind-altering perspective and behaviours. 75) 9 Polster (2006) destaca a importância de se ter um ambiente benigno.

born in simple begginings. E com esse ponto objetiva a polaridade da observação da diferença. in emphasizing communal measures has created too much enphasis on universality and conformity while psychotherapy has focused too much on individuality. está relacionado com o direcionamento que guia as pessoas pela dinâmica complexa dos processos internos em direção aos objetivos próprios das pessoas. Sobre esse paradoxo ele diz: Neither the psychotherapy profession nor Western religions have sucessfully balanced the paradoxical needs.hated being an only child. enfatizando o que há de comum gerou ênfase demais na universalidade e na conformidade enquanto a psicoterapia focou demais na individualidade. 2006. 10 (POLSTER. mas tais afirmações simples são a âncora para uma complexidade maior. They have specialized. colocando a importância de formas saudáveis de não-saudáveis de se relacionar em sociedade e a necessidade de se observar ambas: Tradução: Com a progressão em mente. 2006. Esse continuum de consciência (awareness). p. A religião. Essas comunicações simples. O que eles fizeram é o que as pessoas normalmente fazem quando encontram um paradoxo. is imbedded with a directionalism that guides people through a complex dynamic of inner processes toward the person’s very own goals. cada um evitando o dilema reduzindo atenção para o que o outro lado do paradoxo exige. What they have done is what people often do when facing paradox. 11 (POLSTER. 11 10 30 . p. vamos encorajar awareness simples de experiência simples. fazem crescer a força de seu drama através do aumento de interesse quando as histórias se desenrolam e a pessoa move-se em direção à claridade e finalização. small by themselves. Litchenberg desenvolve sua tese de em congruência com a visão de Polster. Eles se especializaram. 97). Polster especificamente enfatiza a importância de poder perceber o que há de comum entre as pessoas na experiência em grandes grupos. This awareness continuum. These expressions may not seem to count for much. assim representadas por observações pessoais como eu me desaponto com… ou eu fico confuso com… ou eu amo ler… eu sempre odiei ser filho único. 79). but such simple statements are the anchors for a greater complexity. build the force of their drama through the swelling of interest as the stories unravel and the person moves to clarity and completion. as it is called in Gestalt Therapy. Essas expressões podem não parecer muito. Religion. These simple communications. nascidas em começos simples. Tradução: Nem os psicoterapeutas nem os religiosos ocidentais conseguiram balancear de forma bem sucedida as necessidades paradoxais. assim como é chamado na Gestalt-Terapia. pequenas como são. each avoiding the dilemma by reducing attention to what the other side of the paradox requires.

aceitos nos nossos melhores comportamentos mas também nos piores. accepted in our best behaviour but also in our worst. 6). qual a tendência na atenção ao observar um pouco mais. de que outra forma poderíamos fazer. nós precisamos de ambos suporte nas nossas limitações e desafio nas nossas resistências. percebendo como são esses fenômenos e como cada um se relaciona com ele.We human beings need to be seen as we are. e apesar disso ter outras semelhanças. encorajados em nossos esforços de sermos completos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Se existe a necessidade de se reconsiderar a forma como a sociedade acontece contemporaneamente é necessário então estar em coletivo visando uma observação dos fenômenos de massa. semelhanças. Talvez a moralidade não seja reconsiderada e sim a forma de se estar com ela. e permitir a escolhe de nunca ter e ainda sim pertencer ali. reconhecidos em nossa ambiguidade. Unsucessful social reformers and revolutionaries are tipically purists […] For us to became contemporary subjects of the realm. p. Esse encontro em comunidade tem o diferencial de buscar possibilitar a construção de suporte para lidar com o deparar-se com algo novo e visto como ameaçador no lugar de exigir do mesmo capacidade que esse indivíduo não tem ainda. a identificação e a alienação. o encontro permite uma experiência diferente do isolamento. 12 (LITCHENBERG. Tradução: Nós seres humanos precisamos ser vistos como somos. Uma observação na vivência com foco no presente. tanto a necessidade de se diferenciar quanto a de pertencer e ter uma vivência congruente. A integração dessas polaridades é o que a Gestalt-Terapia propõe como possibilidade para tal paradoxo. supported in our complexity. 12 31 . 1990. O ser humano é relacional. Reformadores sociais mal-sucedidos e revolucionários são tipicamente puristas […] Para nos tornarmos sujeitos contemporâneos do nosso domínio. apoiados em nossa complexidade. As duas formas de estar com outrem podem ser consideradas. we need both support in our limitations and challenge of our strengths. encouraged in our efforts to become complete. as diferenças. recognized in our ambiguity. Na consideração sobre o ambiente estas vivências podem estar polarizadas e vistas como contraditórias.

seja demais e este não consiga manter o foco.Se o que se apresenta é uma tendência à responsabilização de uma entidade “sociedade” pode-se convidar a olhar para a participação individual no fato. Ainda que para um indivíduo específico olhar sua participação. por exemplo. 32 . ele ainda tem oportunidade de ver outras pessoas terem essa experiência. Se o fenômeno que emerge é o julgamento da diferença tem-se a proposta de observar essa diferença e/ou o sentimento que emerge e/ou seu oposto reparar a semelhança. e olhar para uma repercussão em larga escala pode ser possível para ele e isso em si pode ser novo e transformador.

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a amenização da angústia. ou seja. p. Dessa forma. onde os atendimentos psicológicos prestados ocorreram na modalidade do plantão psicológico e tiveram como objetivo geral. localizado no município de Vila Velha . no intuito de proporcionar a esse contexto hospitalar. da psicologia. 34 . do cuidado. um atendimento humanizado e que fosse acolhedor. buscamos potencializar. além de prestar informações relacionadas à maternagem. 1987.ES. mais precisamente nos leitos da maternidade. centrado na vivência da problemática que emerge com sua ansiedade e força particulares no próprio momento de pedido de ajuda. grifo do autor). inserida nos moldes da psicologia Fenomenológico-Existencial. Palavras-chave: Plantão Psicológico. 1999. o atendimento as mães/gestantes alocadas nos leitos da maternidade.A ESCUTA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL VIVENCIADA NA MATERNIDADE RESUMO Este artigo descreve a experiência prática de estágio realizada dentro do contexto hospitalar. Atendimento Humanizado. Aceitar manter-se no momento presente. foi possível experienciar. Dessa aprendizagem. nos moldes do plantão psicológico. um atendimento mais humanizado. e. o encontro. sobretudo permitir o contato. objetivamos proporcionar aos leitos da Maternidade. que possibilita o atendimento em Plantão Psicológico (MAHFOUD. oferecer uma escuta e acolhimento diferenciados. vivenciar de forma mais plena. em sua maioria. Através de uma escuta fenomenológico-existencial. acompanhando a variação da percepção de si e das circunstâncias pela direção que a clarificação a levar – eis a disponibilidade do psicólogo-conselheiro. e nós. facilitando as relações estabelecidas no vínculo com o bebê. na expressão do afeto. Escuta Fenomenológico-Existencial. apud EISENLOHR. um atendimento diferencial. 139. entre as mães/gestantes. dos quadros de ansiedade. experienciada no Hospital Infantil e Maternidade Drº Alzir Bernardino Alves – HIMABA.

através do encontro estabelecido entre o profissional e o paciente. Os quadros de ansiedade eram freqüentes no ambiente hospitalar. de tratamento clínico. de nascimento pré-maturo. no plantão psicológico. no seu aqui e agora. de apatismo. privilegiamos o fenômeno tal qual ele se apresenta. Então. por nós da psicologia. o próprio fenômeno. entre outros. por isso a importância de um atendimento psicológico com vistas à minimização do quadro. 1997). da abertura a novas possibilidades para além daquela que nos é apresentada inicialmente. Nas rondas realizadas nas enfermarias da maternidade. é um procedimento que por si só já é terapêutico. em face do atendimento psicológico prestado. modificações dos sentimentos. que eram por si só. podem acontecer e gerar transformações (BARTZ. respeitando a experiência de cada um. de expectativa.] ‘a teoria é apenas uma conseqüência’. ou seja. p. Nas enfermarias. de rebeldia. “[.. 35 . de ansiedade. apud MERLEAU-PONTY. fazendo com que se sentissem mais fragilizadas. vimos o quanto uma escuta diferenciada dispensada às pacientes permitia a potencialização de formas mais humanas de servir a um ambiente hospitalar.. que é a pessoa com sua historicidade”. de sofrimento. Segundo Maichin (1999. Vale ressaltar também os outros diversos casos existentes na enfermaria. Tais sentimentos ora eram cheios de alegria. enfim. sua historicidade. 2004. vamos nos importar com o que vem antes dela. Desse encontro. E dessa relação estabelecida foi possível presenciar diferentes formas de lidar com a maternidade. A partir desse enfoque.19). cada um tinha seu contexto.O atendimento psicológico. que é tida como única. como os de aborto. angustiantes a essas mães. até mesmo no que ela representava para cada uma. vivenciamos e compartilhamos diferentes sentimentos junto às mães/gestantes. se é uma conseqüência.

. respeitávamos esse momento 36 . Quando as pacientes nos pediam ajuda com algo ou para chamar alguém da enfermagem. tocar. a oferecer atenção.. É de suma importância se remeter ao paciente pelo seu nome. pela sua história de vida. 1994. Um dos motivos pode está no grande fluxo de pacientes que entram e saem rotineiramente num hospital. uma forma de minimizar o processo de despersonalização que muitas vezes acomete os pacientes. o ajudar. a se interessar pelo que o outro tem a te dizer. Sendo assim. o psicólogo estará ajudando na humanização do hospital. foram formas de atuar plenamente no encontro com o outro. junto à equipe de enfermagem. perceptível até na forma de nos acolher. estar disposto a ouvir.. são momentos oportunos e ricos de se proporcionar uma escuta fenomenológica de qualidade. todas elas. se mostravam receptivas. Quando isso acontecia. Como nesse hospital não havia psicólogos no seu quadro de funcionários. a superficialidade se encontra mais presente. uma resistência em relação ao nosso trabalho. Notamos em alguns momentos. além da correria dos atendimentos prestados que o próprio contexto oferece. outras nem tanto. 18). os serviços psicológicos prestados eram por conta dos estagiários somente. pois seguramente é um dos maiores aniquiladores da dignidade da pessoa hospitalizada [.] Ao trabalhar no sentido de estancar os processos de despersonalização no âmbito hospitalar. de sentido. que ajude no restabelecimento da dignidade humana. Um ambiente em que muitas vezes. No decorrer das rondas havia mães que nos acolhiam muito bem. nem sempre era fácil conseguir esse apoio. a promoção de vida. o aqui e agora de cada paciente ali presente.] (CAMON.O estar disponível. p. e os profissionais acabam sendo acometidos por ela. são atitudes diferenciais que podemos realizar para a conquista de um ambiente mais humanizado e acolhedor. Num simples gesto como segurar sua mão. [..

dependendo da recuperação e do quadro apresentado. contrariamente ao processo psicoterápico não possui setting terapêutico tão definido e tão precioso. 37 . já o diferencia de um particular.87-88).não insistindo muito na conversa e nos colocávamos a disposição. buscando a compreensão da expressão de seus sentimentos. falhas. O próprio atendimento feito em hospital público.. muitas vezes..] (CAMON. por outra parte. caso alguma quisesse conversar num outro momento. ou até mesmo. 2004. Muitas nem sabiam a funcionalidade ou havia antes conversado com alguém da psicologia. no atendimento prestado ao serviço de saúde. 1994. seja para aplicação de injeções. Em cada enfermaria que entrávamos nos apresentávamos e falávamos qual era nossa proposta de atendimento psicológico oferecido a elas. A própria fala já permite o encontro.. nos casos em que era possível. Falar pressupõe o ouvir. Escutar é o estar aberto existencial do ser enquanto ser-com-o-outro.. Utilizamo-nos durante o plantão psicológico de duas ferramentas psicológicas importantes. O plantão psicológico possui algumas particularidades que o diferencia da clínica. Escutar é abrir-se ao outro. Como diz o autor. A Psicologia Hospitalar. como o fato de não possuir leitos individuais reservados às gestantes. contradições. ocultamentos. 25). a fala e a escuta. p. usamos a fala e o ouvir como recursos significativos para o alcance da experiência descrita pelo outro. ao sentido que faz para si a fala do outro.] (VALLE. é interrompido pelo pessoal de base do hospital. vivenciadas no encontro. as suas visitas/familiares. seja ainda para processo de limpeza e assepsia hospitalar [. dar uma volta pelos arredores da maternidade. que funciona como um facilitador para a compreensão da escuta prestada ao paciente. valorização de certas situações – o que pode ser revelador do seu modo de existir. o atendimento do psicólogo. No vivenciar da escuta fenomenológica. p. prescrição medicamentosa numa determinada faixa horária. Escutamos porque compreendemos [. Nos casos de atendimentos realizados em enfermarias. com limites. ao seu bebê.

visto que nos quartos não havia televisão. como não havia ventilador. constava apenas no projeto ainda. 25). os banheiros. ficavam com as janelas abertas para amenizar o calor. levando-as a pensar no pior. o descanso.. p. em muitos casos já se tratando da segunda gestação em diante. O espaço se tornava coletivo entre elas. que para muitas delas era angustiante. o da outra que está dormindo pode acordar com seu choro. as enfermarias. diminuindo a ansiedade de entrar sozinha nesse leito. no segundo semestre do ano de 2008. das próprias mães que estão ali dividindo aquela enfermaria. O ar condicionado foi posto recentemente. ou mesmo querendo conversar de forma mais reservada com nós da psicologia. Era gratificante poder acompanhar essas mães.. eram divididos com outras pacientes. O número de adolescentes grávidas era significativo na maternidade. dolorido.[.] No hospital. além de servirem de companhia para conversar. buscávamos 38 . Nos casos em que notávamos que a mãe se encontrava mais fragilizada. a pessoa hospitalizada será abordada pelo psicólogo em seu próprio leito. ao contrário do paciente que procura pela Psicoterapia após romper eventuais barreiras emocionais. em muitos casos. antes dele. Quando o bebê de uma mãe chora. na mesma situação ou não de internação. com esse paciente sequer tendo claro qual o papel do psicólogo naquele momento de sua hospitalização e até mesmo de vida (CAMON. e acabavam compartilhando suas experiências de vida um com as outras. ver seu bebê em meio a tantos aparelhos ligados sem saber a funcionalidade deles. 1994. e ver o quanto elas se sentiam mais seguras e calmas com nossa presença junto. No HIMABA. mas reclamavam dos mosquitos à noite. Algumas mães também estavam com seus filhos na UTIN (Unidade de Tratamento Intensivo Infantil) e nos colocávamos a disposição para acompanhá-las até esse setor. E. que estavam com bebês internados na UTIN. ou pode até mesmo incomodar o sono.

p. permitindo que elas tomassem consciência de si. também feito por nós.91). de suas preocupações. experienciamos o quanto se tornavam mais confiantes consigo. apenas nossa companhia num momento de dor. de aceitação incondicional por parte do terapeuta. de nutrição. na maternidade. E essa foi nossa proposta. potencializadores naquele momento. de seu poder (VALLE. para uma posterior resignificação dos seus sentimentos. que também passavam nas 39 . 2004. enfim. as terças-feiras. o que pode levá-lo. daquele momento que lhe causava incomodo. e agradecidas conosco pela atenção prestada. onde realizávamos nossas rondas as enfermarias. a transformar-se. ressurgir fortalecido. eram confortantes naquele contexto hospitalar. mas também de sua força. uma vez por semana. essa escuta. gerada em função do próprio ambiente. a todo o momento. o ser põe-se frente a si mesmo. em um clima de acolhimento. Os quadros de angústia que em alguns momentos acometia as mães/gestantes podiam servir como facilitadores na expressão de seus sentimentos. e em algumas semanas. Ela propicia a abertura do ser para uma existência autêntica.dar essa devida atenção em um local mais reservado. a ouvir. quando nos tinham por perto. de outras instituições de ensino. já eram por si só. revela-se em seu modo mais profundo e originário. em meio a tantas outras pacientes. abre o caminho do reconhecimento de si próprio. de serviço social. Às vezes. de desconforto ao lado delas. Ao oferecer esse acolhimento. era possível de ser minimizada. promover esse cuidado. dispostas a ajudar. principalmente por serem mais uma. dando-se conta de suas fragilidades. durante nossa permanência no hospital. A ansiedade. fazendo se sentirem mais cuidadas. existia uma equipe de estagiários de enfermagem. Além da psicologia. O atendimento psicológico prestado ocorreu durante todo o ano de 2008. O fato de saberem que estávamos ali ao seu lado. medos. havia o grupo de mães. Na angústia.

O encontro era destinado e aberto a todas. O grupo de mães era agendado pela Assistente Social. o oferecimento de carinho para com o recém-nascido. Realizamos aproximadamente 70 atendimentos com o plantão psicológico nas enfermarias da maternidade. as gestantes. Ao final do grupo. o estabelecimento do vínculo. nos colocávamos a disposição caso alguma quisesse conversar conosco em particular. dentre outros assuntos considerados importantes. Dessa forma. o processo de aprendizado da maternidade. e em algumas semanas também realizavam o grupo com as mães. visto que elas ficavam com seus bebês no colo. de tratamento clínico. a importância do aleitamento materno. podíamos direcionar o encontro dentro dos enfoques da psicologia. ou para aquelas que estavam passando por um processo de perda. as que estavam em tratamento clínico e as que estavam com bebês na UTIN. informações sobre cuidados especiais com os bebês. outras ainda esperando pelo parto. Não era obrigatória a presença das mães no grupo. mas todas eram convidadas a participarem. a potencialização da relação mãe e filho. separado de acordo com o tema e a área profissional informante. as mães. do afeto.enfermarias da maternidade realizando atendimento. e realizado em sua sala. 40 . O tempo de duração era de aproximadamente 30 minutos. O grupo não tinha a intenção de ser demorado. valorização do contato. Algumas apresentavam uma resistência maior para o encontro e não iam. Tivemos como objetivos específicos para o grupo a troca de informações e experiências grupais. de socialização do processo de maternagem em contato direto com seus filhos recémnascidos. que na maioria das vezes também participava conosco do encontro. O objetivo geral do grupo de mães foi promover um espaço de encontro.

Era uma forma delas se sentirem cuidadas por nós também. somente ronda. Sendo assim.]”. uma escuta fenomenológico-existencial. prestada de forma acolhedora. p. encontra-se o modelo de planejamento de um dos encontros... como sabonetes e toalhinhas infantis. potencializando os vínculos afetivos nesse âmbito. destacamos “[.No anexo. propiciando atuar de forma multidisciplinar. Segundo Winnicott (1978. Ao final de nossa permanência na maternidade do HIMABA.. como contribuir para a minimização da provável angústia e ansiedades desenvolvidas em virtude do quadro gestacional. Consideramos de grande importância a contribuição científica e social que o presente artigo nos apresenta. além de favorecer a humanização do atendimento. em alguns momentos também distribuíamos nas enfermarias algumas lembranças de utilidades para o uso com o bebê. visto que. entendida como uma relação de acolhimento e cuidado estabelecida com o bebê desde o seu nascimento [. preconizado principalmente pela escuta. Ao final destes.] a importância conferida à maternagem. através de uma escuta fenomenológico-existencial. enfocando o quanto é importante essa troca de carinho. insere o profissional psicólogo em contato com outros profissionais da área da saúde. alcançamos alguns resultados parciais. visto que. deixam de serem experienciados na relação mãe-filho. 32). ou de seus sintomas. muitas vezes. 2005. Nos dias em que não havia grupo. Além de contribuir para a promoção de uma ambiente hospitalar mais humanizado.. e de poder mostrar a elas que estávamos ali dispostas a ajudá-las no que fosse preciso e estivesse ao nosso alcance. esse cuidado. enfocamos o quanto uma escuta devidamente compreendida. Cuidado esse que buscamos resgatar para o mundo vivido das pacientes. apud AGUIAR. mola 41 . sempre entregávamos uma lembrancinha às participantes.

mestra do plantão psicológico. 42 . apoio e experiência de um encontro psicoterapêutico para os envolvidos nessa relação. pode favorecer há uma maior humanização do atendimento em saúde. além de cuidado.

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com música instrumental de fundo de bebê.. 3º passo: Falar sobre a importância de alguns cuidados com os bebês. façam carinho. 2º passo: algumas reflexões pertinentes ao encontro.O que é ser mãe para você? . apresentando seus bebês se for o caso.Aleitamento materno 4º passo: Para finalizar. a idade. do contato..Como uma boa mãe deveria ser? -Pensar nelas enquanto mãe.Descrever a si próprias como mães. se é a primeira gestação ou não. 1º passo: solicitar às participantes que se apresentem de forma breve (dizendo seus nomes. estimular a falaram um pouco mais sobre elas.O que representa a maternidade para vocês? . a relação mãe-filho. Quais mudanças de vida isso promove? Transformações do corpo. solicitar que as mães entrem em contato com seus bebês. .. da visão. do olfato. interajam com eles. . 44 .. vivenciar a partir do toque.Investimento afetivo (sentimento e afeto) . Apresentação dos facilitadores ao grupo de mães.Carinho (para que o bebê se sinta amado e valorizado) . etc. os observem.).ANEXO Preparação da sala. o que fazem. quantos filhos possuem.Auto-estima das mães . .Dedicação (cuidados físicos e emocionais para com os bebês) .

questionamos a possibilidade de utilizá-la como suporte para esse mundo complexo. Em meio à desconstrução de valores universais e do fim dos grandes esquemas ou ideais metafísicos. da justiça e da verdade são de delicada abordagem no domínio dos mal-estares vividos e/ou temidos. A coexistência entre o bem e o mal no mundo natural e no mundo das construções humanas se torna uma questão importante na contemporaneidade. Perguntamos sobre qual seria o limite entre o humano e o desumano e sobre o que poderia fazer uma real diferença em termos de atuação e intervenção psicoterapêutica. questões como as do bem. cujo tema foi ‘A Gestalt em ação num mundo em transformação’. 45 . intensificando a complexidade da vida e dos modos de pensamento e intervenção sobre a mesma. Para chegar a compreender algo entendemos que é preciso fazer várias aproximações para o mais amplo exame do tema em foco. contrastando a diversidade dos olhares e enseja o exercício do diálogo ao trazer diferentes vozes. INTRODUÇÃO Desta vez pretendemos junto à comunidade gestáltica do Brasil ampliar a discussão em torno de um tema que se faz imprescindível à prática psicoterápica em nossa abordagem. Considerando que ética não é moralismo. A comissão organizadora do referido congresso convidou as autoras para que falassem sobre o tema da ética em Gestalt-terapia a partir do título que ora reeditamos. escutas.A ÉTICA COMO SUPORTE: SOLUÇÃO OU UTOPIA PARA UM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO? RESUMO Esta mesa é fruto de uma bem sucedida experiência no II Congresso Estadual de Gestalt no Rio de Janeiro realizado em outubro de 2008. ecos e impactos.

mas não consistem no nascedouro da ética e que. Walter F. abarcando amplas possibilidades humanas. portanto. Afonso H. o próprio código disciplinar das profissões. realizações e sofrimentos do sujeito contemporâneo. Explicitaremos ainda que normas regulam o exercício das liberdades. Entendemos ética como intrinsecamente relacional. Na discussão proposta pelos integrantes da mesa. Paulo Freire. valoriza a dimensão dialógica da produção de subjetividade. não sendo necessário seguir regras para isso. Fonseca. Indicaremos que ser ético é sempre em relação a alguém. porém buscando o que há em comum em termos de perspectivas. destacando a face do outro como fonte primeira de conflito e de responsabilidade em nossa prática – e enfatizando o presente como o tempo e o lugar de exercício das tentativas legítimas de potencialização e desenvolvimento da vida e do humano. Olinto Pegoraro.Dentro do tema do ‘limite’. Emmanuel Lévinas. dentre outros. Apresentamos ética como busca permanente do sentido para a vida a partir das relações. mesmo sendo indispensável. Walter Benjamin. como reciprocidade interpessoal. chamado de ‘Código de Ética Profissional’. Zygmunt Bauman. sonhos. não pode (nem pretende) esgotar o horizonte da ética. portanto. Ribeiro. alguns temas da abordagem gestáltica serão confrontados com essas questões. 46 . A Gestalt-terapia apoiada na noção e na experiência de mutualidade. Destacaremos então a dimensão social de nossa abordagem terapêutica na gênese da ética do sujeito em seu contexto relacional. numa noção essencialmente dotada de cunho intersubjetivo. traremos também à discussão a condição do homem contemporâneo diante da perspectiva da finitude e da temporalidade. Para fundamentar nossa reflexão recorreremos a autores como Martin Buber. A discussão será ampliada para a própria atitude ética do gestalt-terapeuta em meio às relações no mundo contemporâneo.

a melhor maneira de descobrir-se e de criar-se. por vezes já estão “assimilados”no cotidiano sem julgamentos e sem “abandonar” a dimensão humana ? Recorremos a Buber. Do respeito à singularidade do sujeito que ama buscando o mínimo em comum com o outro humano.I .. Éticas das diferenças. da inclusão. de ser amado na diferença. É a possibilidade de estar com o outro no exercício da dialogicidade. a supervalorização destes marcos joga para segundo plano muitos outros 47 .A ÉTICA UTÓPICA DA AMOROSIDADE DO SER FINITO “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. do amor ao diferente. da ação transformadora. ou ‘tem que provocar’ alegrias e comemorações. mas da ação. angústia. como podemos integrar o sentido e o impacto dos acontecimentos que. na tradição do mundo ocidental o nascimento provoca. com os humanos. que desenhou a ética da amorosidade enquanto Encontro nas diferenças.” (Renato Russo) Se considerarmos Ética. o que nos resta esperar? Amar seres que são para a morte? Se. No entanto. como nos diz Afonso Fonseca. da incompletude. Não da espera passiva. Entendemos que na Gestalt-terapia praticamos uma dialogicidade da esperança. pânico. de encontrar-se consigo mesmo na finitude de nossas existências. sendo assim. Não seria isso o que temos em comum com todos os humanos: a noção da finitude? Se for assim. vislumbramos a possibilidade de desdobrar afetos em plena incerteza do amanhã. amorosidade e finitude. O pensamento de Buber nos ajuda a pensar a ética da Gestalt-terapia: ética da diversidade. numa relação entre diferentes onde privilegia-se a diferença. da permanente busca do encontro com o outro. a ação amorosa é a dialogicidade. por vezes nos chocam. No contexto contemporâneo. Para ele. a morte/finitude provoca ou ‘tem que provocar’ horror..

aponta para a reformulação. Os utopistas caminham vislumbrando sempre melhores possibilidades. Utopia entendida enquanto renúncia ao fatalismo. imediatista? É mais fácil deixar-se levar pelos deveriaismos? Funcionar por hábito que por auto-regulação? O que então nos dá suporte ético nesse cenário? O sentido utópico da ética. etc. exceto para quem aposta em criar-se. O próprio Afonso Fonseca escreveu que “Fatal mesmo é crer na fatalidade. consumista.” Mesmo a morte/finitude não é de fato o fim de todas as coisas. mas faz-nos caminhar. Ética e utopia são inseparáveis. Mesmo os que já morreram legaram-nos sua vitalidade. Observamos que somos instados a desistir de crer na potência criativa do encontro entre humanos. É lugar nenhum. Não há como ficar impassível diante disso. a própria perda do sentido da vida. Utopia é lugar nenhum. novas histórias. Aqui privilegio o mesmo que em meu ofício de terapeuta: o que toca tanto a fé quanto a perda de crença no poder de transformação. ‘não dá para confiar em ninguém’. Sua ausência faz surgir novas configurações. Ex: ‘ninguém mais presta’. O pessimismo da razão e o otimismo da vontade fundem-se na formulação da utopia e esta. pretensamente auto-suficiente. criando um caminho. Como terapeutas. 48 . é plausível apostar no humano desconectado de sua própria condição humana. fragmentado.sentidos do nascimento e da morte.

a 49 . de nossos sonhos. Ela emerge da dialogicidade. pois não é falta de realidade. que se afirmava utopista. numa perspectiva de mutualidade. desejar. se apostamos em conviver com as diferenças e. respirar. pois acreditamos que possa haver renovação quando tudo parece perecer. mas sempre acreditamos que podemos fazer algo. apoiado em convicções ideológicas. Talvez nós. Sua aposta na dialogicidade está inteiramente articulada nas formulações de Martin Buber. e é o que permite possibilidades até então não experimentadas. Utopia só existe e faz sentido no contexto do coletivo. criativo. desejos. Ele trabalhava pela libertação da palavra autêntica. transformar. Ela não é sonho. Como terapeutas sabemos que não podemos tudo. cultura. capaz de dar forma a sua existência a cada momento. criar. gestalt-terapeutas sejamos utopistas. Dialogar é falar ao outro. Paulo Freire. se apostamos em sonhar. teóricas. nos ilumina ao crer no diálogo como encontro de homens que se pretendem mais lucidamente humanos. principalmente daquilo que acreditamos que possa acontecer a partir de uma ação conjunta. sua própria palavra. se acreditamos na capacidade de formular projetos e de reformulá-los. É algo que se tece junto. Se acreditamos num ser humano ativo. medos. direcionando-nos para um propósito que se encarna numa ação que se propõe transformadora. no âmbito do diálogo.A utopia fala de nós mesmos. O sonho não é sujeito à ideologia. se acreditamos em promover escolhas cada vez mais responsáveis. e. para que cada um pudesse chegar a dizer. Este afirmava que palavreado não é sinônimo de diálogo autêntico. estar com o outro. enquanto que a utopia vem da tentativa de empurrar o sonho para a realidade. como ouvir. filosóficas.

Nada pode ser mais autoritário e menos dialógico que isso.. Por outro lado. a mutualidade. Então. Podemos legitimar o outro sem. que muito cedo em sua vida. somos utopistas. Moreno. a fecundidade do diálogo é o que deve ser buscado pelo terapeuta. nem prever o que vai acontecer a partir de nosso encontro. criador do sistema Psicodramático. Também Jacob L. Aí não há nada de ético ou utópico. Não podemos oferecer certezas para nenhum de nós. Mauro Amatuzzi.. quando diz dos perigos a que estamos expostos em nossa onipotente profissão se nos acreditarmos os salvadores da humanidade. contudo concordar com ele. após uma queda durante uma brincadeira ousada na qual quebrou um braço. descobriu que podemos até brincar de ser Deus. mas que nunca poderemos sê-lo de fato. Um dos maiores riscos a que estamos expostos como terapeutas é defendermo-nos de nossa própria angústia existencial tentando impor ao outro um modo se ser. Se acreditamos que a relação é sempre nova. baseando-se em Buber. afirma que a relação terapêutica não pode ser traduzida como diálogo pleno. um projeto de vida.. No entanto. Portanto. ele insiste que mesmo assim. mesmo que o vínculo seja antigo. 50 . em plena diferença. a utopia é tanto fascinante quanto ambígua. a desigualdade é incompatível com a mutualidade. Para sermos eticamente utópicos e utopicamente éticos precisamos contar com o suporte de nossos propósitos como terapeutas: a noção de que ali estamos desdobrando-nos em disponibilidade para acompanhar o outro no desvelar recursos para realizar suas melhores possibilidades existenciais. pois é atualização. Convém então lembrar de Walter Ribeiro. pois há uma diferenciação de papéis que é essencial para a definição do contexto. crescer.partir delas..

muitas vezes bem distanciados de seu sentido original.Ali somos seres para o encontro. por meio da cultura geral e psi de nossa geração. o Proletariado. os termos ou as palavras podem assumir sentidos diferenciados.A ÉTICA COMO SUPORTE: O QUE FAZ A DIFERENÇA QUANDO TUDO PARECE IGUAL? Quando vivemos – ou parece que vivemos .não chegando porém a nos retirar da condição de impotência pública que tanto nos incomoda. Se é assim no mundo natural. a Ciência. assim como alguns acontecimentos recentes. passando a incorporar os discursos dos poderes executivo. que contestou de forma radical diversas tradições e contribuiu para a aceleração da velocidade das 51 . a Política. pelo menos. uma caça às bruxas – às vezes às fadas . legislativo e judiciário! Assim se revelando mais como um ethos punitivo generalizado. do mundo das construções humanas? Não haveria de ser também assim? Bem e mal de nem tão simples distinção? Considerando a possibilidade do suporte na contemporaneidade. o Socialismo – as coisas se complexificaram. a Civilização. até a ética já tornou-se. bandeira oficial. com todos os conflitos que isso comportar. o Iluminismo. E nós não só sofremos mas também participamos ativamente de. Vale ressaltar que.sob uma espécie de ditadura da falta de alternativas à grande confusão e desencanto global.nos deparamos com o fim das grandes meta-narrativas ou dos grandes esquemas metafísicos – o Racionalismo. a Democracia. Amorosamente éticos e utopistas em nossa finitude e na crença nas ilimitadas possibilidades da existência. recentemente. mas porque nisso acreditamos e desta maneira escolhemos viver. a Moral. Afinal.Agimos assim não só no âmbito profissional. os Direitos Humanos. o que esperar então do mundo cultural. daí se dizer haver sido criado um deserto de valores e projetos. II . mesmo no âmbito do mundo natural o bem e o mal coexistem. parte dessa grande desconstrução.

por exemplo. o bem? Há especialista em direito de família que acreditam que as leis e o direito viriam para 52 . nos confrontando com a desapropriação de boa parte daquilo que criamos como espécie. nos confrontando com a alteridade. Então. com a face do outro. muito menos achar que a própria preferência é uma ordem. próximo ou distante. o que é isso. não é messianismo. face à complexidade da vida humana no mundo contemporâneo. por outro lado. para o qual não vale simplesmente proclamar a si ou a quem quer que seja juiz da humanidade.a destituição da idéia de busca e chegada à verdade. como fonte primeira de conflito e de responsabilidade. consideremos uma das mais importantes contribuições de Nietzsche à filosofia . dificilmente sustenta esse suporte. É. lembramos uma das versões da criação do mundo. a tecnologia. ao contrário. Mas algum suporte é. Pois afinal. que diz que assim que Deus o criou. olhou para ele e disse: “Oxalá se sustente!”.mutações. necessário. ou ainda defender a própria posição “óbvia” contra “o mal em si”. por fim nos assombrando com o repertório muito estreito de alternativas para o tamanho e a profundidade das mazelas e dificuldades do presente. Mas de que ética se fala? Lembrando as revoluções de pensamento de que participamos. vamos lembrar que ética não é dogmatismo. não é metafísica. em prol do “bem em si”. assim como se diz face a um recém-nascido que não sabemos se vai vingar) Essa transformação e desconstrução geral realiza algo de positivo? Porque o universal. seja ela qual for e sustentada por que teoria for. sejam mesmo os valores universais. sem dúvida. Mundo que é múltiplo em diversos sentidos: por um lado. não é moralismo. tema muito delicado. O que pode dar suporte a esse mundo tão complexo? O que pode sustentá-lo? Na falta de respostas simples. Então aqui nos perguntamos se a ética pode ser suporte para esse mundo e as transformações pelas quais ele passa.

escolha e decisão pessoal. escolhas e caminhos. ética seria um tipo de relação que estabelecemos conosco mesmos e com os outros e também .. dizia Henry David Thoreau. diferentemente da moral como assujeitamento e obediência. do aumento das capacidades de existir e de criar do corpo e da mente. a ética. não consegue. face aos exercícios de poder que permeiam a vida social. busca-se justamente a ênfase na ruptura com o paradigma que prega uma verdade absoluta. ou seja. caso ela transgredisse a outra superior. Será possível contextualizarmos tal princípio à atualidade? Acompanhando as discussões mais atuais dos Conselhos de Psicologia sobre Ética. passa a envolver o exercício permanente do pensamento avaliando situações e acontecimentos. mas também quem olhe por nós e nos conduza!?!. seria o espaço da liberdade . moral. em termos de potencialização da vida.. fundamental do homem. aos quais não se reduz. Segundo Spinoza. Assim. nada de senhores da verdade. seja a do homem comum ou a dos especialistas. natural e. Mas até que ponto o direito o conseguiria? É possível e/ou desejável seguir a lei. do bem ou da justiça? Isso parece bom!?! Mas será que sabemos usar essa liberdade? Imaginemos as vantagens de estarmos todos entregues à nossa própria sorte!?! Sem ter quem nos cerceie e nos limite. A Ética se contrapõe a esse sentido transcendente e fala de um sentido imanente. Então. Segundo Foucault. todas elas? Elas garantiriam o exercício do bem comum e da justiça? “É preferível cultivar o respeito do bem que o respeito pela lei”. uma prática refletida de liberdade.regular. pregava que todo homem teria o direito de desobedecer a uma lei. (Em Civil Disobedience. no campo das relações entre os homens. principalmente. da margem mínima e relativa de liberdade que possuímos a cada situação. também. 1849. Não corremos o risco de acabar como os cegos de Saramago e Meirelles que têm de se arranjar sozinhos em seu cárcere e para fora dele? Ou 53 . pensando o convívio comum com respeito a uma singularidade e não apenas na submissão a códigos e critérios externos. aquilo que a psicologia.

ÉTICA: SOLUÇÃO OU UTOPIA? “Cada um deve estar plenamente consciente de que sua própria vida é uma aventura. que é a da morte. p. 9). todo destino humano implica uma incerteza irredutível. III . sombria e devastada pela ambigüidade e pela força destrutiva do Coringa que quer encontrar e acionar o mal presente em cada um de seus cidadãos? Isso não nos levaria justamente ao animalesco e ao desumano.. uma única física – sequer a uma única psicologia. que não pode ter um ponto de vista apenas. Mutações. Pois por mais complexo que seja.. o homem contemporâneo só pode ser mesmo entendido como esse que não é mais uma idéia determinada.Sua ética decorre de seu modo de vida e da relação mútua de diversas soluções com as quais ele segue vivendo. p. pois ignoramos a data. acelerada” Edgar Morin – 2001 54 . não pode pertencer a uma única nação. de agora em diante. talvez seja preciso então andar na contramão da estereotipia. ao absurdo e ao desespero? Não é isso que temos visto acontecer na vizinhança e nos mais longínquos lugares?: É possível ainda mover pensamento e sentimento para descobrir ou inventar novas formas na unidade bruta desse mundo? Novas formas de ser só e com os outros? Para não permanecer presos a essa “herança sem testamento” que recebemos do mundo moderno (Adauto Novaes. (Adauto Movaes citando Paul Valery. sem essa multiplicidade contraditória de visões. Cada um deve estar plenamente consciente de participar da aventura da humanidade que se lançou no desconhecido em velocidade. mesmo quando se imagina encerrado em uma segurança burocrática. até na absoluta certeza. uma única confissão.como os cidadãos da Gotham City de Batman. uma única língua. esse que não pode viver sem várias idéias. 11-12).

daí se desenvolvendo para 55 .Quando Heidegger (1946) refletia sobre o que é ser humano numa perspectiva existencial ontológica e estabelecia a diferença de modo de existência. Por isso preferimos pensar “ser humano” como uma expressão composta de um verbo e um adjetivo a pensá-lo como um substantivo. 58) para o que é preciso ouvi-lo. mas requer uma atualização no sentido mais contemporâneo dessa palavra: Esse sentido vai além das concepções originais. é o terreno onde se pode trabalhar pelo engrandecimento e capacitação das pessoas comuns. como a um vizinho. e cuja essência passa a ser corresponder ao ser.. que oscilavam entre utopia como “o bom lugar. Ética. é o futuro”.. criava um terreno gigantesco onde essa definição do ser iria se dar. Quando Heidegger dizia que “o ser.. refleti-lo. cuja tarefa passa a ser guardar o ser. se é que de fato é algo. preferimos compreender a Ética mais como utopia do que como solução visto que tal termo pode nos remeter à idéia de soluções radicais .Ética como utopia combina mais. como por exemplo as diversas “soluções de extermínio”. Dessa forma.] (p. elevação da vida cotidiana dos homens e mulheres comuns a um nível mais alto de intensidade. Pensar o processo de procura do encontro do ser com o humano. A ética. nesse sentido. de antemão (para aplicar-lhe métodos de domesticação. inexistente”. se se quiser. [. lugar ideal” ou “lugar nenhum. ele realizava “uma espécie de descentramento do ser humano. pela qual o homem tem um mundo e está no mundo e dizia que a linguagem é a casa do ser. ou o outro. Deus ele próprio) é sempre outro. seja ao menos e simplesmente pela capacidade de sonhar mundos melhores e lutar por eles aqui e agora. só pode existir a partir de uma exercício intenso e contínuo de humildade. ao contrário da posição humanista clássica que assume o ser humano como dado essencial. treinamento e formação).autoritárias e ditatoriais. que o ser (mas.

Nós somos este tempo e somos este mundo também. A experiência existencial de indignação diante de situações violentas ou injustas nos 56 . O que vivemos hoje não deve nos deixar na platéia. um projeto sempre inacabado. Esta não deve ser uma realidade naturalizada. Utopia não como outro mundo. para conosco. A convivência exige uma aproximação que. tanto quanto possível. mas o reencontro com o real. O Homem. façamos de contexto.“plano de governo imaginário ideal” ou “projeto quimérico” (ver Thomas More. este Ser capaz der tantas nuances. além do respeito. pode gerar formas de nortear nossas ações produzindo uma realidade social que representa nosso modo de conduzir as relações. que tematiza o presente de forma dramática e diferente” (Távora). porém pode-se constituir num processo reflexivo. em busca de uma plenitude por vezes idealizada. Não a negação do real em nome do ideal. O Homem é um ser-no-mundo que realiza sua existência no Encontro. encontrando somente aqui a promessa ou esperança de um futuro. cultura e sociedade. em nossas viagens acompanhando pessoas que se encontram consigo mesmas. Se ética é o senso de reconhecer e desenvolver ações justas e respeitosas para com os outros e. se projetam e se supõem outras a cada passo do caminho. em constante movimento. Ela está aqui. mas como uma espécie de duplo desse mesmo mundo em que vivemos. sem abandono da espera da “inocência do devir” (l’amor fati de Nietzsche). Algo parecido com aquilo que procuramos em nosso trabalho cotidiano. mas sim nos incluir como atores sociais de uma realidade que não está distante. porque não. 1516). também a cada encontro e desencontro com outras pessoas. integração. podemos aprofundar nosso olhar neste cenário tão acelerado de acontecimentos. como propus em outras ocasiões. a reconciliação com o que existe. Assim. na construção. Torna-se uma “visão de mundo inserida no tempo. se estranham de si mesmas.

negociações e aproximações possíveis. Segundo Perls: “O homem que pode viver um contato intimo com sua 57 . Mas. A excelência complexa só pode ser incerta. Também não pretendemos reverenciar o caos. Tudo que se baseia na liberdade e na criatividade está no limite da desordem e do risco de desintegração” (Morin. de fato. mas sim a tolerância e a convivência com a diversidade pois “Se queremos liberdades.199). É uma abordagem de vanguarda que inclui os aspectos sociais sem uma perspectiva determinista e é essa a principal característica desta proposta. mutante. mente e ambiente.traz a possibilidade de validação do Humano sem maniqueísmos ou valores corretivos. pois Ética não deve ser reduzida ao campo normativo ou às regras de conduta. Estamos diante da complexidade não alcançável pela via da causalidade o que representa. um desafio para as Ciências Humanas neste momento de transição onde o caos e a desordem se interpõem às certezas e às estruturas constituídas até então. A Gestalt-Terapia é uma abordagem que trabalha com uma visão de homem contextualizada numa integração corpo. a sua fragilidade não nos permite fixar uma excelência durável. mas consideramos fundamental a idéia de um mundo onde as diferenças possam coexistir gerando conflitos. sem otimização definitivamente determinável” (p 199). modificável. tolerância a anomias e aceitação da possibilidade do crime. 2002. Uma sociedade mais justa e mais livre não é a utopia da igualdade. p. é preciso margens de desordem. confrontos. como ainda nos diz Morin (2002) “Como a complexidade comporta necessariamente antagonismos e incerteza.

sociedade. injustiças. o que ele nomeia de “outra globalização”. Apesar de podermos transmiti-la a partir da reflexão. pois ela está relacionada à opção de realizar a vida.O objetivo da psicoterapia é justamente criar tal homem” (1981. ela não é uma disciplina escolar.. a Ética se constitui na implicação. enfrentemos o que emerge neste momento. no engajamento e no envolvimento. Dessa forma. O geógrafo Nilton Santos debate a globalização distinguindo-a em três aspectos: a globalização como fábula. Para ele. 58 . sem violências. Ela se propaga na ação quotidiana através da sensibilidade e se estabelece nas relações. sem ser tragado por ela nem dela completamente afastado. talvez tenhamos que nos desapegar da idéia de solução. Se o único tempo “real” é o agora. Não há solução visto que esta não é uma solução matemática. Enquanto estivermos vivos. O predomínio da lógica econômica pode esmagar a lógica da solidariedade.. é um homem bem integrado. a globalização como perversidade que traduz o mundo como ele é e. Se pensarmos num mundo e na humanidade como um processo. é fundamental pensar um mundo novo a partir de nós próprios. podemos acreditar num mundo melhor. O lugar ideal é o lugar possível. Não podemos mais ignorá-las ou segregá-las. que representa o mundo como no9s fazem ver. Se não podemos fazer. As versões menos glamurosas da realidade estão gritando à nossa porta. Participemos da vida deste momento histórico deixando de lado o confortável lugar de expectadores. tristezas. entendendo-o não como um mundo asséptico. medos ou agressividade. o mundo como ele pode ser. mas é uma experiência viva que pode reverberar em qualquer contexto ou situação. p-40). podemos sentir.

multiplicação. enraizada no humano. no vivido e na experiência. auto-produtora de si e das transformações da experiência real. Por falar em rima. Fluidez e criatividade serão sempre possibilidades infinitas. preferimos propor que a ética seja uma rima para o mundo contemporâneo. do suporte para autonomia relativa e efetiva.. não descida do céu. ou no “mundo da vida” como dizia Husserl. para a vida como ela é.. nosso Drummond: 59 . O mundo parece feio e sujo. no que sublinhamos. bem mais que solução ou ainda um pouco mais que utopia. IV . mundo.. Porém podemos acreditar no diálogo. por exemplo menos no sintoma e mais na capacidade de invenção. no que vemos.Tais sentimentos também necessitam de espaço. A maior diferença que podemos fazer está no que escutamos. para que não fiquemos polarizados entre o bem e o mal. Essa ética rima com experiência vivida. pode ser que esse mundo que se coloca como tão problemático e merecedor de questionamento seja justamente o que demanda do ser humano a sua superação e exercício maior de dignidade. A consciência de que nosso conhecimento e nossos valores são construções sociais não significa que devemos abandoná-los ou pensar que não devem existir valores. degenerado e degradado. E de fato deve estar.CONSIDERAÇÕES FINAIS Sonhadores? Utopistas? Estamos vivos. Mas do mesmo modo como a saúde exige a doença para se conquistar. mas ainda acreditando.. experimentando cada momento em seus sabores doces ou amargos. mas nascida diretamente na terra. onde marcamos a importância. na interação. certo ou errado. Assim. Mas rima também com outras palavras de quem há muito quis rimar com o mundo.

Estou preso à vida e olho meus companheiros/ Estão taciturnos.” (Carlos Drummond de Andrade) 60 .“Não serei o poeta de um mundo caduco/ também não cantarei o mundo futuro. mas nutrem grandes esperanças.

Amor. BORGES. M. 7ª 61 . São Paulo: Centauro. Walter Reflexões Sobre a Criança. Pedang. Objetiva. L. São Paulo: Martins Fontes. 34ª edição. 1975. COMTE-SPONVILLE. COSTA. FREIRE. Eu e Tu. A Ética e o Espelho da Cultura. 1970. São Paulo: Abril Cultural. FONSECA. 2008. São Paulo: Editora 34. 2007. 1996. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Pascal A Euforia Perpétua. Jurandir F. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Afonso H. 2006. Ensaios em Gestalt Terapia.Observações acerca da obra de Nicolau Lescov. BAUMAN. Paulo Pedagogia da Autonomia. BENJAMIN. 1998.Ensaio sobre o dever de felicidade. Coleção Filosofia Passo-a-passo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2002. 10ª edição.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN. 2006. desesperadamente. Zygmunt Amor Líquido. Martin M. São Paulo: Ática. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Difel. A. amo vocês: política e vida privada na era da globalização. FERRY. 1996. Marilena Convite à Filosofia. São Paulo: Paz e Terra. o Brinquedo e a Educação. Paulo Pedagogia do Oprimido. 2004. Lisboa. L. Walter O Narrador. Maceió. Zygmunt O Mal-estar da Pós-modernidade. In: Coleção Os Pensadores. Rio de Janeiro: Rocco. 2005. 7ª edição. CHAUÍ. volume XLVIII. 2005 FREIRE. BUBER. Coleção Espírito Crítico. A Felicidade. 2000. BRUCKNER. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro. 1979. 2005. Famílias. BENJAMIN.

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é convocado a realizar ações psicológicas que favoreçam ajustamentos criativos e solucionadores. Ancoradas numa relação dialógica buscamos a experiência imediata e de modo especial a exploração das possibilidades criativas e solucionadoras para o enfrentamento da situação. enquanto sujeito enfermo/sofrente. procuramos desenvolver uma prática clínica que atenda a demanda da experiência de “malestar” e sofrimento. em consonância com as demandas do Sistema Único de Saúde – SUS. trabalhando com as possíveis interrupções e com a energia imobilizada em seu campo vivencial. a Gestalt no hospital contempla seu objetivo. atuando nesse contexto. do modo mais adaptativo e fluente que ele puder. Nessa perspectiva. Enfatizamos o momento existencial e emocional do paciente utilizando um manejo técnico que viabilize ao paciente entrar em contato (estar awere) o mais completamente possível com a situação vivida e suas necessidades. envolvem o paciente em sua totalidade num universo de questões bio-psico-político-sociais próprias daqueles que procuram a instituição de saúde para tratamento. O nosso objetivo foi discutir a saúde como campo do conhecimento e das práticas dos diversos profissionais cuidadores. pelas rupturas que a situação vivencial pode provocar não só nos pacientes como em seus familiares. pelas 63 . nas emergências dos hospitais. DO TRAUMA À REABILITAÇÃO RESUMO Os aspectos relativos ao sofrimento do sujeito-em-situação de adoecimento agudo. favorecendo o processo de auto-regulação organísmica e possibilitando novos significados para o sujeito/paciente/hospitalizado.A GESTALT-TERAPIA NAS SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA E EM DIÁLOGO COM O SUS: A CLÍNICA DO CONTATO. Por se tratar de um acontecimento potencialmente gerador de perdas significativas e capaz de desestabilizar a unidade do ser em questão. O gestalt-terapeuta.

As atividades de atenção à saúde. O número 64 . gestalt-terapeuta. classificado pelo Ministério da Saúde de alta complexidade e semi-intensivo.” (fragmento de uma narrativa no grupo de apoio psicológico) INTRODUÇÃO O presente trabalho é resultado da nossa experiência clínica. com 45 leitos.Centro de Tratamento de Queimados – CTQ . Atendemos em média. considerando a rotatividade..) o grupo auxilia porque você sente que não está só.SUS. O CTQ é um Centro de referência para Tratamento de Queimaduras. o livre fluir das necessidades mais emergentes.. procurando saída.. mas só cada um pode dar uma direção à recuperação(.do Hospital da Restauração. consideram o ser em situação de sofrimento em suas dimensões bio-psico-social-política-espiritual. em duas décadas. temos um tempo de permanência médio de 15 dias. reabilitação. 40 pacientes/ mês e respectivos familiares.. podendo prolongar-se até 90 a 100 dias ou mais. interrupções. “ (. do trauma à reabilitação. sendo 25 leitos de adultos e 15 leitos de pediatria. A ajuda aqui está no sofrimento de cada um . Devido as características da patologia e conforme a gravidade do trauma.circunstâncias do momento podendo favorecer no paciente. em hospitais e pretende discutir os modos de atuação num contexto de alta complexidade . na maioria das vezes todos ocupados. o maior hospital da Rede do Sistema de Saúde . ser-doente-em-situação.) é nesse momento que a gente descobre a reserva de força e acho que tudo que recebemos ajuda muito. onde as ações integradas e de relação. contato. auto-regulação organísmica. Palavras-chave: emergência. realizadas pela Psicologia se centralizam na atenção integral ao paciente e seus familiares. vocacionado para o atendimento de Emergência e de Grandes Traumas do Estado de Pernambuco.

de atendimentos seqüenciais chegam em média a 200 /mês . os pacientes oriundos da cidade e da região metropolitana. realizados semanalmente. Muitas vezes são necessárias cirurgias reparadoras das seqüelas cicatriciais. No tocante à atenção psicológica. em uma dada situação existencial”.(p. O grupo representa um espaço de convivência. dependendo da ocupação dos leitos e da complexidade dos casos. Nesse espaço de referência e de convivência. 73-74) Nesses encontros. dando continuidade a atenção oferecida durante a hospitalização. muitos comparecem para contar aos outros suas experiências e seus vínculos com a instituição e seguimos todos caminhantes. comuns nos pacientes queimados bem como o tratamento fisioterápico que pode durar anos. Os temas são figuras que emergem da própria dinâmica e como indica Cardella. de escuta e de trocas de experiências de dor e sofrimento pelas dificuldades e estigma que a patologia impõe. aberto e cada encontro se encerra em si mesmo. tecendo a trama do trauma à reabilitação. junto aos demais profissionais fisioterapeutas e médicos. Nessa etapa do tratamento. procurando sentidos. são convidados a participar do Grupo de Apoio Psicológico à Reabilitação. estendendo-se ao pós alta hospitalar ambulatorial. 65 . “ os temas se entrelaçam e se relacionam criando uma rica tela de experiências. pela cumplicidade. alguns pacientes ultrapassam os limites da doença para as múltiplas implicações no âmbito pessoal e interpessoal. esta se inicia desde a admissão do paciente no CTQ. tornandose assim um espaço socioinstitucional propiciador de um enraizamento coletivo da nossa clientela. pós alta hospitalar. É um Grupo temático. Diante das considerações iniciais e contextualizada a nossa clínica. As Avaliações iniciais ( preventivas) nos auxiliam como indicadores para novos atendimentos atentando para a disponibilidade do paciente e as implicações emocionais decorrentes do momento vivido. conforme nos diz Schimidt ( in Morato 1999).

” (p. visto ser outro o tema a ser discutido. a integralidade da atenção e a equidade . Lembramos Perez (2005) “(. a psicoterapia. atualizando o conceito de atenção integral já encontrado no pensamento holístico e modelo atual sugerido pelo SUS. que caracterizam a situação emergencial.. constituindo-se numa nova compreensão sobre a saúde que considera os inúmeros fatores de dificuldade no cotidiano da população que são de natureza bio-psico-social-política-espiritual . cujos princípios básicos são a universalização do acesso. A GESTALT NO HOSPITAL: A CLÍNICA DO CONTATO O enfoque que queremos dar para o sentido do sofrimento no âmbito da saúde requer uma nova compreensão do verbo sofrer como sinônimo de padecer. culminando finalmente na demanda hospitalar. Não nos deteremos aqui em tais princípios. podemos dizer que sofrer.passamos então a discorrer sobre a psicologia contemporânea. aponta para o suportar. Do ponto de vista existencial. provocadores de sofrimento e desamparo. 66 . hoje coincidente com os ideais de integralidade do SUS. inserindo-se nas equipes de saúde e afastando-se da tarefa clínica tradicional. e do privado para o coletivo.53) Há de se considerar que tal situação provoca uma alteração da continuidade existencial que constitui e sustenta o sujeito e que pede uma atenção e uma ajuda especializada. tem desenvolvido trabalhos em outros espaços. com o seu olhar holístico para o sujeito. entre eles o hospital.. lançam o sujeito no estado inicial da condição humana. comprometida com as questões sociais e com o Sistema Único de Saúde – SUS – que amplia seu olhar.) A vivencia do impacto do inesperado e o defrontar-se com a possibilidade de morte. Somos chamados para o público. o desamparo. onde a população vive a experiência de ameaça e desamparo provocada pelo fluir da fragilidade humana em situações de crise aguda. É de nosso conhecimento que a Gestalt-Terapia. Esta atenção favorece a comunicação e a elaboração da experiência de sofrimento que está para além do corpo e da patologia.

a ameaça a sua integridade e as repercussões decorrentes das rupturas sofridas em seu espaço vital. ou seja. destacando-se Hipócrates. sobrepõe-se radicalmente a questão das necessidades pessoais do paciente e assim.. ou seja o sujeito bio-psico-social-político-espiritual solicita da equipe uma atenção ao sofrimento em todas as suas dimensões. Em “ Assim falou Zaratustra”. Buscando também inspiração em Nietzsche ( 2006). Nem precisamos dizer que nesse contexto. a visão holística. As ações médicas são marcadas pela objetividade científica e pela resolutividade da situação crítica vivenciada pelo paciente . Para ele. falando também do poder curativo da natureza. A dor e o sofrimento próprios da existência humana nos leva. e sobre a necessidade de suportar e enfrentar seu tratamento. No entanto. humores e paixões que deveriam estar em equilíbrio. consideramos o usuário e suas necessidades. a saúde dependia de um estado de equilíbrio entre influências ambientais. vítima de um trauma agudo. 1995 ). sendo. (CAPRA. o que . já apontavam para o bem-estar do indivíduo e para os fatores ambientais interferentes no aparecimento das doenças. no hospital. que a fraqueza e a submissão é combatida. Na Grécia antiga. com os princípios da Medicina hipocrática. dando lugar a uma vitalidade que afirma o homem: vontade de potência. e fugindo do sentido de padecimento. adotando um modelo que vise primordialmente a sua integralidade contextualizada. É necessário salientar que compomos uma equipe interdisciplinar numa rede de cuidados cuja prioridade é a sobrevivência e recuperação do paciente. inerente à própria patologia. os médicos gregos.levando adiante. modos de vida e outros componentes da natureza humana – Pathós – ou seja. dada a objetividade das ações e a dinâmica do 67 . o conceito de eterno retorno nos põe em contato com a vitalidade que afirma o homem. temos nele. No hospital. se descortina o sofrimento humano total e inevitável. a pensar sobre a condição do paciente como ser-doente-em-situação. a vida apesar do sofrimento inevitável. sustentando e sendo.

seguindo os princípios da Gestalt já citados.37) Isso por si.. quanto em relação ao usuário com suas múltiplas demandas. O organismo subsiste em relação com o meio. o paciente confronta-se com o estranho (com o novo. mantendo sua diferença. p.) e com os perigos e supostas ameaças que tal situação poderá despertar nele. a equipe. doença aguda. o ambiente hospitalar. Perls enfatizou a importância de compreender como um fenômeno psicológico acontece considerando o ser em sua totalidade. e o estranho. 93) enquanto que o gestalt-terapeuta no hospital trabalha efetivamente com paciente em sua totalidade. o campo. em seus aspectos estruturais e dinâmicos do psiquismo. Perls desdobrou a tese do holismo estrutural. o lidar com o outro. a energia mobilizada será integrada e a awareness eficaz naturalmente dependerá de como o paciente compreende sua situação atual e de como o self encontra-se nessa situação.. mas de estruturas que têm um significado distinto da soma de suas partes. evitando uma visão isolacionista. tanto entre os membros da equipe que cuida.” ( p. Numa situação de contato estamos inevitávelmente. assimilando o meio a seu ser diferente. Sugeriu que há uma atitude que faz com que os Pimentel ( indivíduos percebam que o mundo é composto não só de átomos. voltado para o diálogo. principalmente. Nesse sentido lembramos Lofredo (1994): “ contato é o reconhecimento do outro. o diferente. 68 . o que não-é-eu. também comenta esse pensamento dizendo: “ Marcando o corte epistemológico com a Psicanálise. o tratamento. (p. em seu campo vivencial. Entrando em contato com a situação.tratamento. 2003). chamou atenção também para a importância de se incluir o contexto. na maioria das vezes não é possível.83) Considerando as necessidades do organismo e sua auto-regulação. sua alteridade e. já aponta para a necessidade de um olhar interdisciplinar. a totalidade nas análises de um fenômeno. o psicólogo precisou re-inventar suas concepções e técnicas exercendo uma clínica ampliada cujo “foco do trabalho é o sujeito integral” conforme aponta Spink (2007.o novo. assujeitados à possibilidade da novidade e do imprevisto. exercendo assim a clínica do contato e do diálogo. Nesse cenário e fazendo parte da equipe interdisciplinar.

Nossa atuação parte de uma avaliação compreensiva. Em Gestalt significa favorecer o afrouxamento de controles. portanto. conceito fundamental em Gestalt. dizer e agir e que como já visto na situação concreta de adoecimento esse modo será afetado em sua organização de maneira que organizaçãodesorganização. caos. que 69 . Sabemos que o modo sadio do sujeito deverá se revelar pela sua capacidade coerente entre sentir. Tomando como fio condutor o conceito de auto-regulação organísmica. pensar. entre terapeuta e paciente para uma ação interventiva que objetiva o livre fluir da energia necessária ao enfrentamento e à recuperação da saúde.O contato é sempre dinâmico e por sua natureza relacional. fica claro que não conseguiremos dar conta do sofrimento humano e o gestalt-terapeuta se oferece ao paciente/sofrente como presença. acontece pela formação de uma figura contra um fundo.. ou estratégias de enfrentamento diante da situação a ser solucionada. na prática.ordem surgem como uma realidade a ser vivenciada. trocas importantes com possibilidades de mudanças. Nessa perspectiva. De qualquer modo nos perguntamos: Quem é o paciente? Em que circunstâncias ele adoeceu? Há alguma relação entre sua historicidade e seu adoecimento? Qual a dimensão dada ao seu sofrimento? E o grau de vulnerabilidade diante de tal acontecimento? Como poderemos favorecer o fluir da energia vital capaz de dar sustentação na travessia da hospitalização até a reabilitação? Diante de tais questionamentos. possibilitando um espaço para a criatividade e a autonomia. como disponibilidade para uma escuta clínica situacional que favoreça o contato e a reflexão sobre o modo como ele como se relaciona com os acontecimentos e o que fazer com aquilo que se apresenta como inevitável e como algo a ser solucionado. Não podemos deixar de enfatizar que é na fronteira-de-contato que acontecem as comunicações entre o paciente e a equipe e particularmente com o psicólogo que favorece através dos encontros. importa. compreender como ele reage a sua condição de ser/sofrente e quais seus recursos disponíveis.

enfatizamos que o contato com a situação de trauma e hospitalização que leva o sujeito a desestabilização própria das situações de risco iminente . citado por Yontef (1998). consequentemente. pensa o corpo como unidade funcional e que todo fenômeno acontece no organismo total. Nesse sentido. então você aprende a lidar com a vida.” (p. deixando fluir a energia necessária ao processo homeostático. tornar-se mais permeável a compreensão da realidade a ser enfrentada. diz que: “Existe apenas uma coisa que deveria controlar: a situação. Perls. de sua capacidade de discriminar e . o sofrimento. Cardella (2002) nos mostra que : “Para a Gestalt-Terapia. com sua própria vulnerabilidade. da awareness do indivíduo.30) . decorrente das incertezas e das possíveis perdas. mas uma atitude de escolha e aprendizado que envolve o ser total numa compreensão daquilo que é (realidade atual) e que necessita da utilização de forças presentes para o enfrentamento da situação. Querendo dizer com isso que existe a possibilidade da pessoa poder escolher e regular suas próprias vontades se estiver awere. No confronto com a dor. o que resulta em crescimento segundo processos de ajustamento criativo. fantasias e dificuldades. que é a awareness e a hierarquia das necessidades do paciente. A teoria organísmica. portanto. além da agressão. Enfatizamos que auto-regulação não indica acomodação ou resignação. o processo de auto-regulação organísmica depende.diz como o sujeito se relaciona com as situações. direcionadas ao foco de atenção do paciente (figura).65) Fica claro então. seus medos.”(p. 70 . a situação que se apresenta sugere que o gestal-terapeuta se utilize de ações facilitadoras de awareness. Se você entende a situação em que está e se você permitir que a situação em que está controle as suas ações. mesmo sofrida. mobilizando por demais a angústia já própria da existência humana. o paciente/sofrente poderá apropiar-se do momento vivido conseguindo uma maior fluidez e assim. ou seja. assimilar o que é nutritivo e rejeitar o que é tóxico . que poderão dar sentido a experiência vivida. nesse momento de crise.

o corpo para auto-suporte. buscando a autoregulação e o existencial. se estiver ciente daquilo que é. se o paciente estiver awere.” (p. e colocando em destaque a situação de adoecimento e trauma agudo. no caso. Através do encontro. considera. é condição ontológica do sujeito e já aponta para a totalidade do ser. portanto. uma dimensão constituviva do ser e. o que afirma nossa prática como uma prática essencialmente fenomenológica-existencial. O gestalt- terapeuta atuará junto ao paciente em sua unidade. para que possa. a atenção psicológica oferecida ao paciente é norteada pelos acontecimentos experienciados no momento.Por essa compreensão. estimulando a auto-regulação e o auto-suporte através de técnicas adequadas e de confronto com a situação e ao que se apresenta. a Gestalt no hospital. expressa por movimentos desordenados em sua corporeidade. na maioria das vezes doloroso e ameaçador. como abordagem aplicada. o enfrentamento da situação ameaçadora de vulnerabilidade . poderá encontrar meios de enfrentar e suportar as necessidades do tratamento. O corpo.49) Nessa perspectiva. favorecendo o fluxo de energia e tornar-se agente de seu tratamento e da sua própria recuperação. desorganiizada pela crise. e mais uma vez citando Cardella (2002) temos que: “O terapeuta. visto que. corporeidade tem um sentido especial. então. estabelecer contatos plenos. Desse modo. segundo ele é um existencial. Para Heidegger (2001). trabalhados através da explicitação da experiência 71 . Na dinâmica da sua totalidade. o paciente busca sua auto-regulação. É justamente a inter-relação das suas dimensões humanas – suporte – que o paciente deverá fazer o movimento para o contato. contempla seus objetivos. O objetivo da Gestalt-terapia é portanto. será um facilitador do processo gradual de passagem do apoio em suportes de outros para o reconhecimento e a criação de recursos próprios do indivíduo. de facilitar a solução de problemas . utilizar recursos próprios. incertezas e dor. e do suporte o paciente poderá modificar percepções distorcidas ampliando suas possibilidades e assim. portanto inseparável da suas experiências e de seus significados Esse filósofo. então.

212). mas ai está sempre. É o lugar do encontro. Acrescentando ainda em sua fala que os limites do corporar encontra-se num âmbito diferente do tocar e do ver. em conexão com o livre fluir. MANEJO DA FRONTEIRA . das trocas. a noção de contato.. as fantasias. visão . Segundo Polster e Polster (1979) o contato acontece através das funções de contato. No entanto. considerado aqui como corporeidade é a casa do contato. também.CONTATO NA SITUAÇÃO HOSPITALAR A fronteira-de-contato é onde tudo acontece. é também o lugar onde acontece o contato facilitador significado/sentido. muito afetados em sua unidade relacional e transformador de 72 . mas no âmbito do imaginar e da possibilidade de presentificar.além do organismo físico e sim como um modo de ser nas diferentes formas de afetação. destacando como essa pessoa. As intervenções clínicas psicológicas possíveis no hospital seguem a mesma metodologia da clínica tradicional e considerando o manejo da fronteira-de-contato acreditamos que as pessoas são capazes de fazer a travessia da situação e tomando consciência (estar awere) poderá mover-se em direção a sua autoregulação. gestos. alguns pacientes. e assim. os perigos. onde o paciente experiência o estranho. compreendemos que o corpo.DE .. fala. entra em contato com sua situação atual ou presentificada.olfato. toque. Trabalhamos com a noção de contato com o sujeito e suas possibilidades trazendo assim a compreensão do que se passa com o paciente como Perls acreditou: na ênfase dada a situação da pessoa no presente. expressões etc. o novo. “O corporar está em toda parte onde participa a sensorialidade. articulamos novamente um dos conceitos fundamentais da Gestalt-terapia. para enfatizar o que pretendemos expor no momento. já a primária compreensão do ser” ( p. Por essa compreensão.

Assim. interrompendo o fluir natural do processo de ajustamento criativo. que recebem diferentes denominações em gestalt-terapia conforme diversos autores. o estado emocional comprometido e tais interrupções. Os fenômenos decorrentes das situações de crise aguda muitas vezes provocam os bloqueios que apontamos acima. ou seja. adaptáveis às experiências em curso na vida do indivíduo. 58) Finalmente. poderá ajudá-lo a desfazer suas interrupções que bloqueiam o contato e a interação saudável consigo mesmo e com os outros e consequentemente. podem ser um dos fatores que interfere no tratamento do paciente e na comunicação entre todos da equipe. interrupções no ciclo do contato etc. o tratamento necessário. que apontam para uma confusão entre o si-mesmo e o outro. além de ampliar a awareness deste em relação à sua forma de contatar e evitar. Cardella (2002) referindo-se aos distúrbios na fronteira-de-contato . a autora acima citada considera que é necessário não combater tal movimento e sim procurar tornar o paciente awere do mecanismo que utiliza . dificulta as trocas . a rigidez na fronteira-de-contato encontrada nos pacientes em situação de crise aguda. redirecionando a energia para outros modos mais adequados flexíveis e naturais.” (p. indica a utilização de mecanismos neuróticos. Por essa compreensão. com a situação. Diz a autora: “ No processo terapêutico o que se procura é transformar esses mecanismos em estilos de contato. os define como a incapacidade se encontrar e manter o equilíbrio. temos os distúrbios de limite. as relações paciente/equipe. As construções metodológicas que contemplam a clínica no contexto hospitalar estão na perspectiva dos significados/sentidos e nossas ações se 73 . aumentando sobremaneira o sofrimento daquele que necessita atravessar tal situação. distúrbios de fronteira. No hospital. O gestalt-terapeuta compreendendo o movimento inadequado presente na fronteira-de-contato e considerando o modo próprio como cada sujeito se revela.poderão apresentar dificuldades.

28) .é encarar os fatos e decidir. No encontro. As reflexões aqui apresentadas acerca da atuação do gestalt-terapeuta na âmbito hospitalar se revela hoje como abertura para nossa inserção profissional num contexto público e social.”(p. terapeuta e paciente poderão encontrar modos de enfrentamento solucionadores e capazes de mudanças significativas na vida do paciente. como Benjamin (2002) também acreditamos que pode ser possível para o paciente o enfrentar da realidade sem defender-se. afirmando-se cada vez mais como uma abordagem atual e engajada com os ideais de cidadania e de autonomia do sujeito-em-situação.direcionam para a possibilidade de ampliar o campo de visão sobre a situação a ser suportada e da saúde como unidade do ser bio-psico-social-político-espiritual. pelo contrário. Para finalizar. negá-la ou distorcê-la. Diz ele : “Enfrentar. Assim. visto ser o adoecimento agudo um acontecimento que envolve o cotidiano do sujeito nas mais diversas atividades e dimensões existenciais. onde o desamparo e o sofrimento humano mostra-se em toda sua intensidade. 74 .Se pudermos criar uma atmosfera em que o confronto seja alcançado. a Gestalt-terapia mostra-se presente das diversas possibilidades de atuação clínica. o que fazer com eles. nossa entrevista poderá ajudar mais do que se pode prever. então.

(1999) Aconselhamento psicológico e instituição: algumas considerações sobre o Serviço de aconselhamento Psicológica do IPUSP. G.São Paulo: Ed. SPINK. & PM PIMENTEL.(2003) Psicodiagnóstico em Gestalt-Terapia. Aconselhamento psicológico centrado na pessoa: novos desafios. LOFREDOA.BOSS. M. Belo Horizonte: Interlivros. (org.M. (1998) Processo . H.) A prática psicológica e suas interfaces com as doenças. (1995) O ponto de mutação. B.T. (2006) ECCE HOMO : de como a gente se torna o que a gente é. A. NIETZSCHE.M. In MORATO. HEIDEGGER. A.H. L. F. (2001) Seminários de Zollikon. M.M. G. BENJAMIN. S.J. Petrópolis:Vozes. (1994) A cara e o rosto : ensáios sobre Gestalt-terapia.P. São Paulo: Sumus. A. São Paulo: Escuta. CARDELA B. M. diálogo e awareness: ensaios em Gestaltterapia. (1979) Gestalt-Terapia integrada. São Paulo: Casa do Psicólogo. F.São Paulo: Martins Fontes. CAPRA. (2002) A entrevista de ajuda.H. M. (2002) A construção do psicoterapeuta: uma abordagem Gestáltica.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AURÉLIO. BACKES. São Paulo: Sumus. In ISMAEL..M. S.P. POLSTER.C.P. Cultrix Ltda. São Paulo: Casa do Psicólogo. Dicionário da Língua Portuguesa.M. São Paulo: EDUC. SCHI MIDT. E. São Paulo: Casa do Psicólogo. H. São Paulo: Sumus Editorial. F. 75 . Ed. (2007) A psicologia em diálogo com o SUS: prática profissional e produção acadêmica. (2005) O psicólogo na unidade de emergência. PEREZ . YONTEF.Trad. Porto Alegre: L.e POSTER.

O objetivo desse trabalho é gerar uma reflexão sobre a infidelidade conjugal e analisar mitos que dentro deste contexto podem ser utilizados como forma de resistência para encarar a realidade dos fatos. O enfoque estará nos casos em que mulher vivencia a dor da traição observando comportamentos que a pesquisadora percebeu como recorrentes.A INFIDELIDADE CONJUGAL E SEUS MITOS: UMA LEITURA GESTÁLTICA Mariana Moura Magalhães RESUMO O trabalho apresentado será baseado na monografia apresentada como requisito parcial para a conclusão do curso de Especialização em Psicologia Clínica. observando o papel da mulher em suas relações conjugais. falarei sobre o processo de infidelidade baseados num perfil romântico de monogamia verificando as reações das mulheres quando descobrem que foram traídas por seus cônjuges. O comportamento apresentado por essas mulheres serão apresentados sob uma ótica gestáltica. a maneira pela qual elas eram tratadas e o processo de monogamia. a atenção estará fortemente voltada para os conceitos de teoria de campo. Mulher. O trabalho será exposto da seguinte maneira: em primeiro lugar farei um breve levantamento histórico da relação conjugal desde nossos antepassados até os dias atuais. Infidelidade conjugal. Monogamia. mecanismos de defesa. 76 . disfunção do contato e contato. Durante a apresentação. Palavras-chave: Gestalt-terapia. fazendo uma relação com os mecanismos neuróticos e possibilitando uma discussão com os participantes. em seguida. Mitos.

mas. mostrando o quanto a infidelidade muitas vezes se presentifica nas relações. O material que será exposto será baseado na mulher que sofre a traição e que apresenta um comportamento deflexivo. criados como justificativas que viabilizem processar o sofrimento causado pela infidelidade. não contatando a experiência em si. 77 . é importante esclarecer que o termo aqui utilizado será descrito para o estabelecimento de uma nova relação amorosa quando já existe um compromisso estabelecido com outra pessoa. ainda assim mais assimiláveis. e construindo respostas distorcidas. Quanto a estas realidades distorcidas. Ao falarmos em infidelidade podemos pensar numa série de significados e conceitos diferentes. OBJETIVO O tema da “infidelidade conjugal e seus mitos” aguçou minha curiosidade na medida em que apresentava grande incidência no consultório. elas foram objeto de investigação.INTRODUÇÃO O trabalho aqui descrito foi baseado num trabalho monográfico apresentada como requisito parcial para a conclusão do curso de Especialização em Psicologia Clínica no Rio de Janeiro. associada a uma dificuldade do sujeito em lidar com a situação. construindo uma realidade distorcida para assimilarem o fato. uma vez que eram utilizadas como um mecanismo de defesa para aqueles que apresentavam dificuldades em contatar a infidelidade e aceitar seus verdadeiros desfechos. O objetivo deste trabalho é apresentar alguns exemplos da relação entre mecanismos neuróticos e a construção de mitos. A apresentação desses 13 O sentido da palavra mito será usada para designar crenças fictícias. que aqui chamarei de mitos13.

as idéias que seriam exploradas na monografia foram levadas a um grupo reduzido de indivíduos pertencentes ao universo pesquisado e assim. conceitos e idéias. artigos e pesquisas. Dessa forma. Outra forma de investigação foi o de conversas informais com mulheres que já havia experienciado a infidelidade. o uso de informações já existentes. sendo esta refletida e empregada no desenvolvimento desse estudo. O primeiro e mais consistente. Jablonski (1998). METODOLOGIA Os procedimentos metodológicos utilizados para esta elaboração foram de três tipos. & Polster. as informações obtidas como. o papel exercido pela mulher na 78 . Para dar início ao caminho que será percorrido nesta exposição é interessante conhecer alguns pontos históricos. como livros. foram exploradas. E. M (1979). que foram estudadas com o intuito de recolher informações e conhecimentos prévios a respeito do assunto aqui tratado e da hipótese que visava investigar. resultando em dados explicativos sobre o assunto pesquisado. procedimentos estes realizados para o desenvolvimento da monografia já referida. impossibilitando crescimento e autoconhecimento. Perls (1988. assim como a fundamentação teórica utilizada: Engels (1974). através da análise de dados secundários. 1997) Polster. foi um levantamento de natureza exploratória. Com base em tais procedimentos. trabalhei com a observação direta da experiência com clientes no consultório. Yontef (1998) e Zampieri (2004). vale ressaltar que o material exposto na apresentação trata da cultura ocidental. fundamentais para o desenvolvimento deste material. motivações. Feldman (2005). que são fundamentais para sobrevivência e construção de uma vida saudável. Hefferline (1997). como o surgimento da monogamia. Ribeiro (1997). isto é. entre outros.exemplos tem por finalidade gerar uma reflexão do gestalt-terapeuta quanta à importância de estar atento aos processos de fuga para saber diferenciá-los como uma boa forma de evitar o perigo ou uma maneira cristalizada de atuar. sentimentos. Em terceiro lugar. Rodrigues (2000).

mesmo com a entrada em cena da Igreja Católica. o modo como ela era tratada. Na Antiguidade. Assim. momento pelo qual o homem toma consciência de sua participação na reprodução da prole. mas sim de uma construção social que surgiu a partir da necessidade de estabelecer a certeza da paternidade com a finalidade de concentrar a propriedade e a riqueza nas mãos do homem..] a família monogâmica foi necessária ao processo de acumulação privada de bens.sociedade. Essa estrutura foi instaurada pelo homem e instituiu a política de monogamia através da qual ficaria assegurado o conhecimento de seus herdeiros. que aboliu essa prática e determinou que a condenação do adultério passaria a recair sobre o homem e a mulher.. surge o patriarcado. Dessa forma. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Para dar início ao caminho que será percorrido nesta exposição é interessante conhecer alguns pontos históricos. Além 79 . Ao homem era permitido viver a poligamia e. 1974). mas só era visto dessa maneira quando cometido pela esposa (ZAMPIERI. apenas a mulher reconhecia sua prole. Isso porque. já que a sexualidade feminina passa a ser controlada (ENGELS. mais exatamente após a origem da propriedade privada. de acordo com a explicação materialista o surgimento do casamento monogâmico não foi fruto do amor ou de um sentimento natural. como o surgimento da monogamia. a função paterna passou a determinar a organização familiar e a continuidade da propriedade privada na mesma linhagem. o papel exercido pela mulher na sociedade.d. a monogamia era um artifício que parecia se aplicado somente às mulheres. o sexo praticado tanto pelos homens como pelas mulheres. de que maneira era estabelecida a relação conjugal e as mudanças ocorridas nas últimas décadas. No entanto.). o modo como ela era tratada. Através da união monogâmica. até então. o resultado de tal infração era bem mais ameno a eles que a elas. Esta concentração só seria bem sucedida se houvesse o controle da sexualidade feminina (ENGELS apud MENDÉZ. O adultério era tratado como crime capital. s. fundamentais para o desenvolvimento deste material. embora não houvesse conhecimento do pai biológico. 2004). não exigia uma exclusividade conjugal. de que maneira era estabelecida a relação conjugal e as mudanças ocorridas nas últimas décadas. [.

como a mão de obra feminina que se fez necessária para suplementar o salário dos maridos. mas ainda assim. As idéias feministas começaram a ganhar espaço. consolidado com as leis do trabalho (1932 e 1943). Foi a partir desse momento que as mulheres passam a lutar por uma igualdade social. políticos e individuais sofreram mudanças. seus praticantes seriam castigados e condenados. isto é. passa a ser uma escolha e não uma imposição política 80 . como a abertura do ensino superior. Desde então. Apenas nas últimas décadas do século XIX. Apenas com o surgimento da pílula anticoncepcional. embora a desaprovação social das universitárias fosse muito grande. como reprimia a mulher em todas as estâncias. defendendo o controle de suas vidas e de sua sexualidade. a manutenção da monogamia. ficou estabelecido que o sexo visaria apenas a procriação. A luta era por igualdade social entre homens e mulheres no que diz respeito à participação na vida pública e nas decisões políticas. O grande marco nas transformações dos papeis femininos só acontece no final de 60 e início dos anos 70 do século XX. No entanto. negada e condenada e a função da mulher era apenas a procriação. os padrões sexuais vigentes passaram por uma reformulação. eram carregadas de desigualdades. A força do patriarcalismo perdurou por muitos anos e não se limitava apenas a restrição da sexualidade feminina.disso. algumas pequenas conquistas ficaram marcadas. caso contrário. Com a Revolução Industrial e as duas grandes guerras. não sendo esta detentora de direito algum. A exclusividade sexual. percebemos mudanças na constituição dos casais estando o casamento situado numa conjuntura afetivo/sentimental. os valores morais. muitas foram as transformações ocorridas. Neste contexto. estas transformações como o direito ao voto (1932) e a legislação trabalhista de proteção ao trabalho feminino. éticos. com a qual a mulher poderia controlar sua contracepção. Hoje falamos de mulheres independentes socioeconomicamente e que gozam de sua liberdade sexual. A sexualidade feminina era controlada. sendo os casamentos determinados pelos pais que vendiam suas filhas e obtinham um dote. as maiores consequências recaiam sobre as mulheres.

na interação com o 81 . provedores. Quando se relacionam com muitas meninas são considerados “garanhões” e normalmente invejados. brinca de casinha. promíscuas. competitivos. fazem esportes que envolvem luta. facilitam com que um busque no outro aquilo que lhe falta. sendo cada um a metade de um casal. o que pode gerar mudanças de paradigmas até mesmo na educação.ou religiosa. No entanto. paradigma este que nos traz liberdade para escolher um companheiro que supra nossas necessidades afetivas. Mas. A amostra de sua virilidade é bem vinda e reconhecida. Zampieri (2004) traz que as diferenças entre os gêneros. delicadas. Se falarem de seus desejos podem ser vistas como oferecidas. o que pode gerar esta quebra? Sem dúvida. doces. tão repressora com relação à mulher. As meninas devem ser frágeis. inclusive no que no que diz respeito a uma liberdade sexual. Atualmente. “fáceis”. vulgares. Essa idéia de busca e consequentemente de completude vão ao encontro das idéias do amor romântico. Os meninos jogam bola. mesmo com a quebra de alguns paradigmas e inserida num outro contexto. Por outro lado. Os homens são educados para serem durões. A criança do sexo feminino tem o quarto rosa. fortes. ou seja. se nos baseamos hoje no amor romântico através do qual temos a possibilidade de escolher nossos pares. são consideradas “galinhas”. Isso pode ser facilmente percebido em nosso processo educacional que é tão diferenciado entre os gêneros. nossa construção social histórica. trata as bonecas como suas filhas. brincam com armas e espadas. Os meninos recebem mais liberdade e possuem direitos diferentes das meninas como chegar mais tarde ou levar uma namorada pra dormir em casa. Ao se relacionarem com muitos. É certo que na luta das mulheres pela igualdade com os homens. deixa resquício em nossa cultura nos dias atuais. a não manutenção da fidelidade conjugal fala de uma quebra de lealdade e de confiança. muito desses estereótipos estão se transformando. a infidelidade conjugal continua em voga. As meninas são tratadas com mais submissão e não possuem a mesma liberdade.

que para a apresentadora ficou muito presente. O material apresentado fala de uma possibilidade. Quando falamos de uma relação conjugal é fundamental que o casal cuide dessa área. grande parte dos casos de infidelidade é consequência de uma relação desgastada e mal zelada. mulheres que dão mais atenção ao trabalho ou aos filhos. muito menos que todas as mulheres reagem da mesma forma num sentido linear de causa e efeito. sendo a infidelidade conjugal devastadora para uma relação. No entanto. é que o homem que trai é visto pela mulher como responsável único pelo sofrimento gerado pela infidelidade14.meio. o sujeito realiza um processo de auto-regulação através da satisfação de suas necessidades. 14 82 . No entanto. Se um dos pares apresenta uma queixa que precisa ser compartilhada com o outro é importante que eles conversem e tentem. em qualquer tipo de relação pode criar problemas. por exemplo. Porém. e as peculiaridades do campo. juntos. Embora não possamos determinar as causas geradoras da infidelidade. Vale ressaltar novamente que o trabalho apresentado fará uma referencia às mulheres que vivenciam a traição de seus cônjuges. O que ocorre é que a mulher deixa de relacionar-se com a experiência ficando impossibilitada de fazer contato com esta. dificuldade de relacionamento entre o marido e a família da esposa quando estes estão mais próximos ou vivem na mesma casa. ainda hoje. A falta de comunicação. Podemos citar como exemplos problemas com o sexo. O que muitas vezes acontece. é essencial ao gestalt-terapeuta observar o comportamento do casal buscando compreender seu funcionamento e a atenção que é dada à relação. o que implica o casal e não apenas aquele que trai. estando ou não envolvidas pela dor. é importante considerar que não estarei falando de regras de comportamento. é fundamental para seu estabelecimento. buscar uma maneira para solucionar aquela questão. deixando de lado sua relação marital. já que os problemas só podem ser resolvidos se falados e ouvidos. o amor romântico possui critérios e regras indispensáveis para o sucesso do casal e a monogamia. considerando sempre os diferentes contextos.

Sem dúvida é essencial para o sucesso de um casal. certamente é a causa mais comentada entre os homens. por trazer vantagens profissionais. o que poderia facilmente resultar em uma separação. fadada ao fracasso e com problemas 83 . manutenção de bens. são fatores facilmente observáveis. mesmo que o casal apresente uma relação insatisfatória em algum setor. Sua falta pode facilitar com que o homem procure outras mulheres que satisfaçam esse desejo. etc. algumas dessas necessidades insatisfeitas podem ser resolvidas com o diálogo. A necessidade de afirmar algo para si mesmo pode acabar trazendo danos para a relação. por exemplo. abrindo portas para a procura de uma pessoa que satisfaça as necessidades afetivas. medo de não ser mais desejada. como a necessidade de auto-afirmação. melhoria da vida social. No entanto. É certo que em alguns casos não são as dificuldades da relação que determinam um processo de traição. mas não nos completar. medo de ficar sozinha. o sexo é indiscutivelmente muito importante numa relação conjugal. É pouco provável que homens e mulheres que vivem uma relação se satisfaçam em todos os sentidos. sendo está permanente ou ocasional. em muitos casos o casal permanece unido por diferentes razões como filhos. é bastante comum que a união seja mantida e o que é faltante seja buscado numa relação extraconjugal. a traição não é sinônimo de uma relação ruim. No entanto. No entanto. Além disso. aceitação e afeto são características básicas para manter um casamento saudável e satisfatório entre os cônjuges. Outras podem favorecer a infidelidade conjugal. a atenção. senão a mais marcante. entender que o outro pode nos adicionar. Sentimentos pessoais.Outra razão que chama a atenção é o caso das necessidades insatisfeitas. O abandono ou a distância sexual por parte da mulher. admiração. Não menos importante que o sexo. O fato é que a infidelidade conjugal é uma ameaça aos casais. Não há como estabelecer uma quantidade ideal de sexo entre um casal para que a relação seja satisfatória. mas.

O que chamou a atenção para o desenvolvimento desse trabalho foi o fato de muitas mulheres. se agarrarem em explicações inadequadas. Reconhecer a própria responsabilidade quando o outro a trai significa perceber sua participação nos motivos que levaram com que o outro a traísse. criadas por elas mesmas. M. a descoberta de uma traição ou o rompimento amoroso não é fácil e pode trazer sentimentos quase que insuportáveis. compensar visualmente os vazios de um contorno. E. a gestalt que não foi completa. & POLSTER. quando não há esse fechamento. da mesma forma que seu comportamento também interfere no meio. perceber seu papel e sua participação na mesma. todo indivíduo é singular e detentor de peculiaridades. No entanto. revitalização de um casamento monótono ou a constatação de um amor que já tinha virado dúvida. entendemos que cada indivíduo vive um contexto e seus comportamentos são atravessados por uma série de variáveis como a cultura. 45).. ou mitos. seja pela interrupção do processo de formação da figura ou de sua destruição. a não formação de uma gestalt é incômoda para o sujeito. a escolha por essas explicações infundadas.. Porém. De acordo com os conceitos da gestalt-terapia. Segundo os Polsters. personalidade. torna-se uma situação inacabada. Um movimento natural do indivíduo é o fechamento de figuras. eventos sociais. Ainda assim. do self. podendo ele. inclusive. ao desvelarem a infidelidade de seus cônjuges. 1979.insolúveis. isto é. herança genética. que justifiquem a traição. p. é extremamente comum que a dor se presentifique em quase todos os 84 . educação. Assim. quando tratamos do comportamento humano. De acordo com os conceitos da gestalt-terapia. geralmente mostram a dificuldade da mulher em contatar a relação. eventos inter e intrapsíquicos. Nosso olhar se baseia na teoria de campo. nosso pensamento não pode ser linear no qual uma causa resulta num efeito. quando falamos de infidelidade conjugal. visto que ela pode acarretar a restauração de algumas relações. numa relação de reciprocidade. etc. A busca por uma explicação pode ser entendida como uma forma de fechar essa gestalt já que a “percepção visual vai além daquilo que pode ser visto” (POLSTER.

A mulher traída pode apresentar dificuldades em ter essa clareza. p. Segundo Perls (1988). 1998. desenvolve a prontidão para encarála e existe o momento exato para que cada uma atinja essa prontidão. isto é. 85 . POLSTER. é fundamental satisfazer nossas necessidades.. todo indivíduo passa por um processo chamado auto-regulação organísmica. “Algumas awareness15 são dolorosas demais para serem suportadas. como “estar fora de contato”” (YONTEF. em muitos casos. o meio de modificação da pessoa e das experiências que ela tem do mundo. 51). Através dele. o que pode. que é implícito no contato. gerar grande sofrimento. no seu próprio ritmo. teremos sempre a mudança (SILVEIRA. 138). 15 “Na Gestalt-terapia.102) De acordo com Silveira (2007. p. Considerando-se sua estrutura emocional e a dor que pode resultar do confronto com a realidade. Para isso.casos. Precisamos olhar com maior cuidado para esta questão. p. Além disso. a gestalt-terapia. O contato é uma necessidade psicológica de todo indivíduo.. processo pelo qual mantemos nosso equilíbrio. 2001. Observo no consultório que muitas mulheres se apropriam de justificativas inadequadas como forma de evitar esse sofrimento. 59) “o ato de contatar envolve sempre a percepção clara da situação”. 2005. p. Cada uma. 2007). M. E. O contato é o sangue vital do crescimento. pode trazer mais angústia e tristeza que a descoberta da traição já causou. Como resultado. algumas ações são difíceis demais para serem realizadas” (ZINKER. a awareness é concebida como “estar em contato”. A mudança é um produto inescapável de contato porque a apropriação da novidade assimilável ou a rejeição da inassimilável levará inevitavelmente à mudança (POLSTER.33). p. e a ausência de awareness. sabe-se que algumas pessoas jamais estarão prontas para conhecer as verdades de sua vida (FELDMAN. Cada pessoa tem a escolha entre viver ou não a verdade presente em sua vida. Esse sentimento gerado pela traição pode ser tão dilacerante que muitas pessoas escolhem protelar ou até mesmo não fazer contato com ela. 1979. nós assimilamos o que é nutritivo e rejeitamos o que é nocivo para nós. o processo de mudança.

“se o contato é superprolongado. pessoas que apresentam sintomas de deflexão agem da seguinte forma: As pessoas se comportam como se nada estivesse acontecendo. a fuga não precisa ser encarada como algo negativo. no entanto. 1988. Não podendo suportar a dor de uma possível traição. Para ele. Segundo Jorge Ponciano Ribeiro. p. 37). Vamos supor que uma mulher fique sabendo que seu marido foi visto jantando com “outra”. 16 86 . tendo mais suporte. 1997. no seu processo de contato. se reconhecer e não saber o que fazer com aquilo (RIBEIRO. é bem provável que esta interrupção traga novas interrupções e. Mantêm. 85). se mais tarde. Ao processo pelo o qual o indivíduo se torna incapaz de alterar suas técnicas de interação com o meio. Perls deu o nome de “mecanismos neuróticos” 16.Segundo Perls (1988). Estamos falando de um caso de deflexão. se a fuga é muito demorada. com naturalidade. p. interfere no processo de vida” (PERLS. torna-se sem efeito e doloroso. a negação da mulher diante da infidelidade de seu parceiro. Os mecanismos neuróticos também podem ser chamados de mecanismo de defesa ou mecanismo de resistência. interrompendo seu crescimento. Pelo contrário. evitar o contato através da fuga da realidade pode ser uma forma saudável de evitar certos tormentos. Não deixam os verdadeiros sentimentos aflorarem. O processo de fuga (ou resistência) é uma maneira criativa de lidar com determinadas situações. Até porque. com isso. quando a pessoa fica cristalizada. apesar talvez de muitas evidências. A organização fica com medo de olhar para dentro de si mesma. No entanto. a pessoa traída nega essa verdade. todo contato é ajustamento criativo o que significa que cada indivíduo. Contato e fuga são nossos meios de satisfazer nossas necessidades. ela pode ser vista como uma boa forma de enfrentar o perigo. escolhe uma boa forma de ajustar seu equilíbrio psicológico. impossibilitando o contato. comportamentos autodestrutivos. gere resultados desagradáveis. Observe como exemplo desses mecanismos. o indivíduo buscar novas formas de enfrentar a problemática não contatada.

M. 1979). Aqui. o foco está em citá-los como formas cristalizadas de interagir com o meio. a mulher traída poderia buscar explicações que justificassem aquele encontro. Em se tratando de uma negação. Dessa forma. 17 Todo contato ocorre na fronteira entre o “eu” e o “não-eu”. E. Nesse trabalho. um objeto. entre eu e o que está fora de mim. POLSTER. A seleção de justificativas distorcidas como formas para entender a traição do cônjuge. Isso porque. Segundo Erving e Miriam Polster. nos referimos à disfunção do contato. observo que esse sentimento pode não estar apenas relacionado com o processo de infidelidade do companheiro. quando cristalizados. etc. nessa fronteira. Vejamos alguns mitos recorrentes associados a mecanismos neuróticos e possíveis razões para seu surgimento. seja o meio. Estas fronteiras são particulares para cada pessoa. Olhando então às justificativas inadequadas que muitas mulheres se apropriam para não fazer contato. como uma forma de evitar o contato. p. até porque. funciona como um mecanismo de defesa. mas também com a incapacidade da mulher traída assumir sua responsabilidade nesse mesmo processo. outra pessoa. dificultam o contato. 93). (POLSTER.. É dada pouca ou nenhuma atenção ao que a outra pessoa diz. eles podem deixar de exercer essa função saudável. 87 . o contato é obtido através de funções ou evitado pela sua corrupção. evitando dessa forma o sofrimento. Porém. E. o calor é retirado do contato. Os mecanismos de defesa são processos criativos que podem ajudar o indivíduo a se orientar na busca de auto-regulação. falaremos sobre as disfunções de contato17.A deflexão “é uma manobra para se desviar de um contato direto com uma outra pessoa” (POLSTER. M. às vezes é mais fácil responsabilizar o outro pela traição e fechar os olhos para nossa participação. isto é. pois diferem pela maneira pela qual cada um contata com o meio. POLSTER. Se esse contato é bloqueado. 1979.

São ferramentas que poderão ser utilizadas no processo. Ele é uma pessoa totalmente nova (POLSTER. assumindo a posição de que. muito menos dirigir a terapia para que a mulher traída possa dar-se conta de que ela pode estar se apropriando de razões inadequadas para justificar o processo de traição. E. p. O terapeuta pode tentar facilitar com que a cliente olhe para as suas resistências. Mesmo porque. visando com que o cliente possa vir a se auto-governar.. 159). Rotular de meramente resistente o comportamento original é uma coisa enganosa. uma pessoa cresce através da resistência e. 1979. 63). muito menos criar rótulos interpretativos daquilo que os clientes nos trazem. no processo psicoterapêutico. conhecer como funciona a awareness do cliente. Cada passo no desenvolvimento da resistência se torna parte de uma nova formação da natureza do indivíduo. a Gestalt tem um olhar fenomenológico do cliente. isto é. M. POLSTER. p. 1998).Mitos Todo homem trai Quem ama não trai Mecanismo Neurótico Introjeção Introjeção e Projeção Possível Razão Acontecimentos Históricos Idéias assimiladas no processo de educação Contexto atual no qual a beleza é muito valorizada e incitada. acrescida de uma resistência que pode ser removida. manter ou desconstruir suas resistências. Assim. entenda suas funções e então possa dentro do seu processo de awareness escolher. Baixo-estima O amante é mais sexy que eu Eu sou culpada pela traição Introjeção e Projeção Retroflexão Embora estes exemplos mostrem uma maneira de escapar de uma realidade que pode estar carregada de sofrimento. na pior. ela “estuda o ‘campo’ conforme ele é experienciado por uma pessoa num dado momento” (YONTEF. na melhor das hipóteses. porque a pessoa que tem resistido é uma nova pessoa e não existe um caminho de retomo. estando ela favorável ou não a satisfação de suas necessidades traz para o terapeuta um conhecimento da capacidade da pessoa para o auto-suporte e para realizar seus contatos (YONTEF. o terapeuta não deve ter por objetivo desconstruir as resistências apresentadas pela sua cliente. 1998. é melhor colocá-la em foco. a resistência é uma parte de sua identidade. Ele não se torna a pessoa anterior. Ao associarmos os mitos apresentados aos mecanismos de defesa da Gestaltterapia não pretendemos fazer uma atribuição de causa e efeito. Remover a resistência para retornar à pureza préexistente é um sonho inútil. ela mesma. É importante frisar que o objetivo da terapia não 88 . tão logo ele se torne forte o bastante para removê-la. Em vez de procurar remover a resistência.

89 . Percebemos então. Para que a pessoa seja capaz de manter uma auto-regulação organísmica ela precisa estar aware. que conhecendo os comportamentos de nosso cliente e os mecanismos utilizados pelos mesmos para estar fora de contato. mas instrumentalizá-los para que eles sejam capazes de conduzirem suas vidas na direção da boa forma quando estiverem diante de novos obstáculos. teremos maior facilidade na condução do processo terapêutico.é apenas trabalhar as demandas dos clientes.

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tomada de consciência. além da Psicossomática que respalda o resgate minucioso do adoecer humano. que no exercício da amorosidade pessoal buscam sua autonomia individual fazendo um caminho para a alteridade. estimulando o auto-cuidado. através das falas significativas dos participantes. riscos cardiovasculares. propiciando suporte social.A TRANSFORMAÇÃO PELO ENCONTRO: UMA EXPERIÊNCIA EM GESTALTTERAPIA Theny Mary Viana Fireman de Araujo RESUMO Trabalho desenvolvido com grupo de pessoas portadoras de riscos cardiovasculares na perspectiva de promoção de saúde. onde as pessoas buscam compreender o como algo aconteceu a elas. processo de cura. promoção de saúde. 92 . Palavras-chave: gestalt-terapia. buscando diminuir os efeitos deletérios do estresse da vida contemporânea e estimulando o autoconhecimento. O desenvolvimento do trabalho baseia-se na prevenção de doença ampliando o nível de consciência da pessoa ao seu modo de viver. adoção de estilo de vida saudável e adoção de prática de falar dos sentimentos vivenciando-os no aqui e agora. O Programa Viva Melhor da Unimed-Maceió é um espaço de convivência para esclarecimentos. O trabalho se embasa nas concepções da Gestaltterapia através de conceitos essenciais como contato interpessoal restaurando o diálogo. contato. Apresentamos também os resultados obtidos. psicossomática. orientações e troca de experiências.

que é de promover a adoção e medidas que evitam. convocada pela Organização Mundial da Saúde – OMS. através de ações e serviços ofertados pelo setor público. As políticas de saúde no mundo estão relacionadas de acordo com a evolução histórica. se constituindo assim. Depois esse programa foi incorporando outros profissionais. E nela. pela primeira vez a questão de direitos e os princípios de promoção da saúde foram incluídos. A Unimed-Maceió criou um programa de promoção da saúde na praia de Jatiúca há mais de nove anos. tanto é que hoje ao falar-se em promoção de saúde. no Programa Viva Melhor Saúde na Praia. sendo desenvolvido em dois locais: No bairro do Farol. no Canadá em 1986. na realidade era mais uma ação de atividades físicas. conhecida como Constituição Cidadã. a participação e a parceria nas políticas de saúde como campo de ação. Naquela época o Brasil estava reescrevendo sua história com a elaboração da Constituição Federal – CF/88. a qual delineou a qualidade de vida. Essa perspectiva de se trabalhar com os riscos pode ser encontrada no artigo 5° da lei 8. reduzem e/ou 93 . que contava com sua fundadora a médica Maria Roseane Tenório Mendonça e alguns profissionais de Educação Física. propondo equidade e promoção de saúde. conforme delineia os princípios do SUS.080/90 (conhecida como Lei Orgânica da Saúde) quando se refere aos objetivos do SUS. nos leva necessariamente a lembrar da I Conferência Internacional de Promoção da Saúde. com a criação do Sistema Único de Saúde . antes era Saúde na Praia. A II Conferência veio a ser realizada em 1988.SUS. na Austrália.INTRODUÇÃO Esse trabalho visa relatar uma experiência em saúde coletiva na perspectiva de grupos com pacientes de risco cardiovascular. Atualmente a política de saúde no Brasil se configura prioritariamente na perspectiva da promoção de saúde e prevenção de doenças. E é a partir dessa experiência com os Grupos no Espaço Vera Arruda que trata este trabalho. político-social e econômica das sociedades. próximo ao Hospital da Unimed e na Jatiúca no Espaço Vera Arruda. outras práticas e outros saberes.

redução de riscos de acidentes e violências. conforme diz o ditado popular citado por Barreto. e em paralelo a própria Unimed-Maceió. bem como. conforme diz Ribeiro (1997. 3): “É muito importante falar com a boca. além da importância de falar de sentimentos. visto que é. (2005 p. ou seja. 94 . Porque quando a boca cala. a Secretaria Estadual de Saúde apresenta os eixos prioritários de ação governamental. Em última instância. promover uma melhoria na qualidade de vida de seus participantes. institucionaliza o Programa Viva Melhor. cujo objetivo é minimizar as conseqüências oriundas dos agravos cardiovasculares. reflexão e conscientização dos aspectos psicológicos presentes no processo de adaptação à nova rotina de vida. comunicação e troca de experiências entre os participantes. podendo ser ou não cliente da Unimed e querer participar de um Grupo com duração de seis meses. O PROCESSO DE PARTICIPAÇÃO Os participantes do Programa Viva Melhor são selecionados de acordo com alguns critérios. 2009). assegurando condições para a manutenção e sustentação da vida humana. os órgãos falam e quando a boca fala os órgãos saram”. entre eles o da Promoção da Saúde contendo as estratégias de ambientes livres de agravos controláveis. estimulando o auto cuidado. nosso objetivo é propiciar a vivência do contato. que podem estar comprometendo sua saúde e favorecendo a evolução da doença. tendo em vista a concepção de que o trabalho em grupo reduz custos. ter idade cronológica acima de 50 anos. Especificamente em Alagoas. orientação. através do convívio em grupo. adoção de falar de sentimentos para não adoecer e assim. Daí a importância de restabelecer o diálogo entre as pessoas. no diálogo coletivo que se ampliam as explicações de cunho psicossociais dos fenômenos da saúde e da doença. ser portador de riscos e/ou doenças cardiovasculares. segundo o Plano Estadual de Saúde para o período de 2008-2011. p. fortalece mudanças de hábitos. adoção de estilo de vida saudável e meio ambiente sustentável (ALAGOAS. Em outras palavras o Programa Viva Melhor é um espaço de esclarecimento. Essa política vem sendo implementada pelos municípios alagoanos.13) uma “palavra mágica. a adoção de estilo de vida saudável. compreendida como sendo.minimizam agravos à saúde.

manifestados em comportamentos mais autoconfiantes. O trabalho acontece com encontros semanais com as psicólogas e quinzenais com os outros profissionais. Trabalhamos com quatro Grupos chamados de Risco de Doenças Cárdio Vascular – RDCV e cuja proposta é a tomada de consciência do existir de cada um. com assiduidade às atividades. excesso de peso (sobrepeso e obesidade). sedentarismo (quando associado a qualquer fator de risco) e doenças pregressas relacionadas ao tema do Programa (angina. “o contato é saúde. ao entregar-se”. pois segundo salienta Ribeiro (1997. Para participar dos Grupos as pessoas precisam ser portador de um ou mais riscos de doenças tais como: hipertensão arterial sistêmica. da responsabilidade individual na melhoria da sua saúde e conseqüentemente. sem precisar adoecer. onde as pessoas buscam informações de como participar do Grupo. Qualquer interrupção do contato implica uma perda na saúde. suficientes ao bem-estar emocional. com duração de duas horas por semana. a médica coordenadora. p. O trabalho do Grupo foi realizado sistematicamente por duas psicólogas (uma com formação em Gestalt-terapia e outra com formação em Biossíntese). faz o que chamamos “Momento da 95 . porque algum amigo ou parente já participou ou participa. É convite ao encontro. Saúde é contato em ação.36). além de outros profissionais que também se encontram com os grupos e onde são realizados palestras e vivências. ou seja. Os participantes dos Grupos são contatados pelos funcionários da Unimed. após serem identificados no sistema de informação dos atendimentos ambulatorial e/ou hospitalar. derrames). Contato é processo de autoregulação organísmica” e quando a doença aparece o contato é interrompido. fazer as pessoas entrarem em contato consigo e com o outro. de mudança de vida. ou ainda através de demanda espontânea. melhoria na qualidade de vida.é sinônimo de encontro pleno. com disciplina no tratamento medicamentoso e alimentar e retomada da vida ativa no trabalho que representa um novo suporte social. diabetes Melittus ou pré-diabetes. obesidade abdominal. Após serem identificados os participantes é formada a turma. permitindo-se a viver e conviver com as emoções sem precisar escondê-las e. dislipidemias (gorduras alteradas no sangue). infarto. Percebemos que a atuação de vários profissionais conjuntamente propicia aos clientes uma sensação de proteção e cuidado. fundamentalmente.

Esse momento é fundamental para o estabelecimento da relação clientes e profissionais. hospedar. a ruptura de laços grupais. 248) apresenta seu estudo mostrando que as doenças cardiovasculares aparecem devido a alguns fatores como: “rápidas mudanças sociais ocorridas e quebra dos valores tradicionais. p. uma vez que o apoio social oferece estabilidade de proteção ao indivíduo em momentos estressantes. ter em consideração”.21) acolher é “receber. é oferecer uma atenção mais adequada possível. é escutar sem pressa a pessoa e tentar acalmá-la para que a mesma possa resolver sua dificuldade. E assim. Segundo algumas pesquisas que buscam entender a origem da hipertensão arterial. aumento da competição e do 96 . Conforme Ferreira (1964. p. dar acolhida. solidariedade e também o primeiro toque de contato. a melhoria na auto-estima e o aumento da rede de apoio social. se espalha entre os participantes. O TRABALHO PROPRIAMENTE DITO As duas psicólogas são as primeiras que recebem as pessoas de cada turma e uma das atividades mais importante é o momento da acolhida. acolher é aproximar. O trabalho busca atender o objetivo de que as pessoas. 1992. admitir. consigo mesmo. agasalhar. reforçando o dizer de Hycner (1995. e principalmente. Para nós. as turmas chegam ao belo Espaço Vera Arruda. é inclusão. Para controlar os riscos de doenças cardiovasculares faz-se necessário o desenvolvimento de técnicas que propicie a mudança de hábitos e de comportamento. criando uma rede de confiança. possam viver de uma maneira mais harmoniosa e prazerosa. Um fato que mais chama a atenção nos primeiros momentos e que é muito comentado pelos participantes é sobre o abraço afetuoso que é dado pelas duas psicólogas e que posteriormente. escutar. com o outro e com o mundo. é encontro.Sensibilização” que nada mais é do que mostrar os objetivos do trabalho a partir da perspectiva de promoção de saúde e qualidade de vida e não apenas prolongamento de vida. atender a. dentro das perspectivas de valorização da vida. p.16) “muito do sofrimento humano poderia ser diminuído se houvesse uma maior preocupação em estabelecer um diálogo genuíno entre as pessoas”. Groen (1975 apud CAMPOS.

257) os aspectos psicossociais como “ambiente competitivo. a responsabilidade. mostrando que as pessoas com riscos cardiovasculares apresentam algumas características específicas como: “comportamentos orientados para a excelência do desempenho de modo muito determinado. priorizando uma coisa de cada vez. podemos verificar que o ritmo alucinante da vida na atualidade. a premência de tempo. estabelecendo metas reais que possam ser alcançáveis. Assim. agressividade..individualismo e a elevação das taxas de doenças psicossomáticas”. Resumidamente podemos dizer que fatores psicológicos que perpassam as doenças cardiovasculares demonstram pessoas com comportamento de “engolir seco”. a transitoriedade das coisas.80). Para Ballone (2007. membro de uma rede de interações e comunicações que funcione de maneira franca e precisa. cuidado e protegido. possuem um ritmo agitado de vida. pois o grupo 97 . estão sempre acima da tensão que o corpo agüenta. tanto que a atualidade exige maior repressão às emoções conforme mostra Mower (1991 apud SILVA. • Propiciar ao indivíduo suportes sociais que o faça sentir-se amado. etc. agressividade reprimida. envolvimento excessivo com o trabalho. possuem um acentuado impulso para a competição e desejo de serem reconhecidos. sentimento exagerado de urgência de tempo. para prevenir a possibilidade de doenças cardiovasculares é necessário: • Ampliar o nível de conscientização do indivíduo sobre seu modo de viver. além de rever certos hábitos de vida que deteriora sua saúde. poderão ter maior ou menor influência na pessoa”. a instabilidade social. p. 83) no estudo de pacientes cardíacos elaboraram um construto descrevendo alguns fatores psicológicos. a valorização da melhor tecnologia e do individualismo crescente vem promovendo um aumento nas doenças psicossomáticas. impaciência e vigorosa atividade lingüística e motora”. 1994. valorizado. p. as mudanças do cotidiano. De acordo com as pesquisas de Friedman e Rosenman (1974 apud RAMOS 2006. p. Assim. das pessoas e dos valores. isolamento social e rompimento de laços afetivos. competitividade.

Assim sendo. 98 .42). p. • Estimular a ampliação do autoconhecimento através de técnicas psicoterápicas. Fisiologicamente. Ser continente implica ouvir. mas é o coração que simboliza o amor e o ódio. a alegria e a tristeza. Por isso. 21) “todo viver verdadeiro é encontro”. é preciso ter uma comunicação empática. orientando e estimulando no sentido de combater esses fatores. num processo contínuo de respeito. ou seja. a vida significado do coração. o comando da vida física e a modulação do comportamento humano estão centralizados no cérebro. p. formar o vínculo terapêutico e ser continente. • Conscientizar o indivíduo acerca dos efeitos deletérios do estresse e propor métodos para reduzi-lo. ouvir até mesmo o silêncio”. p. através de exercícios respiratórios. entendida como fenômeno que ocorre entre pessoas no aqui e agora. nem nos dois juntos. nos mostra que “cada órgão adoecido traz consigo uma bagagem simbólica construída ao longo da própria existência da humanidade. como resposta ao estresse.23) “o significado do inter-humano não será encontrado em qualquer um dos parceiros. Esses temas são discutidos nos encontros e conforme nos mostra Buber (1958 apud HYCNER. o coração é o templo das emoções. é utilizado também princípios da filosofia do diálogo. na perspectiva do que Hycner chama de ‘inter-humano’. sendo o “entre” a ponte que dá significado da interação com o reconhecimento da alteridade. E para alcançar esses objetivos é necessário dialogar sobre temas como sentimentos. a coragem e o medo. 1995. no ‘entre’ que é vivido por ambos”. no inter-humano a realidade é muito maior do que a soma dos dois juntos. a repercussão das emoções no corpo. relaxamentos e meditação. em conformidade com a concepção de Buber (1965b apud HYCNER. Oliveira Junior (2005. mas somente no diálogo entre eles.funciona como suporte social. pois. responsabilidade e resultado. devemos ver que o coração é o foco das queixas emocionais. a somatização. ‘dialógico’ e ‘entre’ como sinônimos. No trabalho desenvolvido com os grupos visando à promoção de saúde. • Informar sobre os fatores de risco da doença.

as emoções são fortemente sentidas quando da realização de exercício mais profundo. portanto. Além do mais. sofriam muito mais.29) “estar cônscio de tudo o que afeta os nossos atos. reclamavam bastante e. que me torno capaz de mudar”.Do total de cerca de 100 pessoas trabalhadas nos quatro grupos. da valorização e da bondade. E conforme ressalta Trindade (2006. Assim. p. dar-se conta e de tomada de consciência são realizados com a respiração e a meditação. p. deixando fluir seus sentimentos que agora são primeiramente sentidos e depois pensados e falados. propiciando que as pessoas se percebem como pessoas. depois que elas compreenderam que a auto-estima é construída nas relações familiares e que vai se consolidando nas relações sociais saudáveis. como diz Ginger (1995. além de serem portadores de risco ou doenças cardiovascular. era imprescindível.163) “o corpo e as palavras entram em ressonância”. Os exercícios de “awareness”. não se cuidavam. foi importante perceber que a sua participação no Grupo. é ter autoconfiança e é tentar ser feliz mesmo sendo portador de uma patologia crônica. é ser proativo. em contato. De imediato detectamos 40 pessoas com baixa auto-estima e constatamos que as mesmas não confiavam no seu potencial. atento”. já que a pessoa precisa se escutar e mudar sua maneira de agir. visto que ela é ao mesmo tempo consciência e corpo. era preciso estimular as pessoas a viverem conscientemente. p. buscando compreender o que está por trás daquela doença. 1995. 99 .19) “é no momento em que me aceito como sou. do respeito. tendo em vista que a força do grupo mostrava a necessidade do amor. as pessoas carecem viver conscientemente entendendo o que as levou a ter uma atitude que gerou sofrimento e dor. Outra questão também trabalhada se referiu à auto-estima. da ternura. o dar-se conta – awareness – uma forma de experimentar. é conforme Branden (1993. é levantar-se diariamente e agradecer por estar vivo. dizendo em Beisser (1961 apud Ginger. ou melhor. visto que está relacionada com crenças e atitudes que a pessoa tem de si mesma.31) a “consciência é o insight. Além de que nos grupos nossa atuação sempre foi de ressaltar a pessoa doente e não a doença em si. ter auto-estima é ter amor próprio. p. propósitos. percebemos características muito semelhantes entre os participantes. é gostar de si mesmo. Para isso. de estar presente. que necessariamente faz a pessoa olhar para dentro de si.

valores e metas”. ou seja. p. é vivenciado através de fechamento de gestalts pois. porque nada ficou em aberto”. Outra questão foi utilizar o conceito da Gestalt de que um “problema” está sempre em relação ao contexto que ele se originou. escolhe sua manifestação mórbida. AS BASES TEÓRICAS Nosso trabalho teve como referencial teórico a Psicossomática e a Gestalt-terapia que se baseia na busca de compreender o sentimento. o sentir. e o contato pode ser sentido como excelente. onde o comportamento de um membro. 1985. E. p.141). os problemas são visto na sua totalidade. que por sua vez. 43). Para nós. p.38) “só quando se fecha uma gestalt. conforme ressalta Briganti (1999. já que o “fenômeno significa manifestar-se (. então a doença é aquilo que aparece. ou seja. como bem diz Ribeiro. utilizá-la. formado através de uma interação. propiciar o ensinamento de como as pessoas podiam utilizar experenciando as técnicas no aqui e agora. Os princípios da Psicossomática estão contidos na afirmação de que “toda manifestação mórbida tem um sentido”. através do aqui e agora. é preciso fazê-lo se conscientizar da sua força e assim. propiciando seguir em busca da saúde e saúde com qualidade. com a necessidade de auto-proteção. como mobilizador de mudança focalizando a procura de saber como aconteceu o que aconteceu buscando verificar qual foi o sentimento ou a emoção que eclodiu. o processo seguiu seu curso.) fenômeno é aquilo que aparece” (Ribeiro. 1997.. a Gestalt se concentra muito firmemente no contato. Esta escolha está embutida na sua história de vida. desde os primórdios inconscientes. 100 .. que por sua vez. quando possível. O importante é compreender o fenômeno do adoecer. E sabendo que na Gestalt-terapia o homem é concebido como tendo todo equipamento necessário para enfrentar os problemas da vida. visto que a mesma é um processo complexo e sua compreensão está na arte de escutar a pessoa. Diante disso percebemos que é necessário entender o significado da doença. fizemos o máximo para fazer fechamento de gestalts. afeta e é afetado por outros. Esse foi nosso caminho.

p. O conceito de ressignificar. A forma que se pode modificar a relação eu-mundo é resignificando conforme Ballone (2002). a qual “funciona como uma propriedade facilitadora de busca de equilíbrio” de acordo com Ribeiro (1985. p.interdependência e vivência no processo de dar e receber. Usamos também a Psicossomática através do resgate minucioso do adoecer humano. é observar um determinado objeto e verificar o valor que o mesmo tem para o indivíduo. 35 participantes que “esqueciam” de tomar a medicação. A Psicossomática vem buscando juntar o que a pensamento cartesiano separou: mente e corpo e a Gestalt-terapia inclui nessa relação o espírito. a prepotência e conseqüentemente. Quando o significado se modifica. mensurar e controlar” os fatos observáveis. em última instância. disciplina. p. uma vez que não se adoece sozinho. 14) nomeia como “ternura. segundo Bandler (1980. Vale salientar que havia antes no Grupo. a Gestalt-terapia propicia a pessoa quando foca em si mesma.9) é “modificar o molde pelo qual uma pessoa percebe os acontecimentos. podemos entender a relação que o indivíduo faz com ele mesmo e com os outros no desenvolvimento da sua “doença”. o princípio da permeabilidade da teoria de campo de Kurt Lewin. suas sensações e sentimentos. cultivar a solidariedade que nada mais é do que a arte do contato que Ribeiro (1997. o mau-humor. uma vez que as relações humanas sempre começam com o “dar e o tomar” e isto é. descobrir. explorar e experenciar suas emoções. carinho. suavidade. Além do mais. a qual reduz a irritação.100). precisando apenas compreender o discurso. compreender como ele faz a correlação entre sua doença e os aspectos emocionais. muitas vezes são os verdadeiros alimentos do contato”. como conseqüência da sua subjetividade. uma vez que é difícil medir o grau de tristeza ou de sofrimento de alguém. a fim de alterar o significado. as emoções estão subjacentes a qualquer corpo. bem como. ressignificar quer dizer reavaliar o objeto com que o homem se relaciona. melhor se relacionar com o objeto para viver muito mais e ser feliz. já que a pessoa pode corrigir a forma de se relacionar com o mundo. a qual é imprescindível para sua vida. E mesmo sem poder “quantificar. sempre se adoece por alguém e para alguém (podemos verificar o contato). além do fato de nos mostrar como ele fez ou faz a adesão ao tratamento. clareza. as respostas e comportamentos da pessoa também se modificam”. Pela Psicossomática. A idéia básica é a (re)valorização do objeto visando melhorar a adaptação do indivíduo. É preciso exercitar a tolerância e a boa vontade. visto que 101 . Em outras palavras. onde as insatisfações pessoais vão demandar uma tentativa de auto regulação organísmica. tanto no nível de afeto quanto de sentimento. e assim.

para nos modificarmos no encontro. Nossa atuação foi trabalhar as pessoas do Grupo. compreendendo que toda pessoa precisa ser confirmada pelo outro e que a pessoa é um eterno vir a ser. contudo.29) o que une “os seres humanos é a dimensão invisível ‘entre’ nós”. depois verificamos através das falas. A awareness se desenvolve quando a pessoa investe na experiência atual. ou ainda conforme nos mostra Hycner (1997. aprender a superar as dificuldades. elas precisavam tomar consciência e se responder. ou seja. ela começa o processo de cura. na singularidade e individualidade de cada pessoa. pois quando a experiência ou sofrimento não pode ser falado verbalmente. como um “todo”. quando a pessoa permite que saia de si o que ela não aceitava. é expressa no corpo. isto é. p. Para Hycner (1997. como se dava o processo do adoecimento e sua forma de modificação. p. Resumidamente podemos dizer que nossa atuação estava focada em desenvolver um olhar diferenciado e uma escuta melhorada para desvendar o que se escondia por trás da porta do sintoma. por si só. A aceitação da relação Eu-Tu permite um aprofundamento do processo de awareness e é. ou seja. Isso nos mostra que somos o resultado das nossas relações ao longo do tempo. assim. sem exigências para mudá-la e sem julgamentos de que não deveria ser o que é. p. Para isso foi necessário discutir coletivamente. ele ressalta que a cura ocorre na relação. o próprio grupo criou estratégias para a lembrança. não terá chance de controle. ou a extensão da vida. precisávamos compreender que o corpo fala e traduz uma simbologia através da representação dos sentimentos das suas emoções. portanto. E para tal. quais as razões interiores que levaram as pessoas ao adoecer. E mais ainda. para o nós. fazendo delas oportunidades de crescimento. mostraram-se como uma elaboração coletiva e uma relação de cura. os contatos nos grupos. como nos lembra Perls (1970 apud HYCNER 1997. pois está em constante movimento. através de doenças.77) “a mudança ocorre com a awareness suportiva do que é.23) a Gestalt-terapia tem que ir além do individual e voltando-se mais para o coletivo. onde as ações e os objetivos estariam voltados para uma tarefa específica: melhorar enquanto pessoa. que a medicação se tornou “algo” que lhe dava vida. a concretização do pré-requisito para a mudança”. O corpo possui uma 102 .sem ela.

de mudança e de bem-estar. mas sim. projeção e confluência e após algum tempo vivenciando o experenciar e o contato as pessoas passaram a trabalhar na perspectiva de cura fluidez. introjeção. por excesso de rigidez de um lado. ação e retirada. amar. lutar. A força do grupo está no respeito da diversidade. tanto que essa situação é visualizada pelos membros das famílias que. consciência. Por trás de toda doença há sempre uma gama de significados e intenções. O RESULTADO DO GRUPO O trabalho com Gestalt-terapia em Grupos nos permitiu construir vínculos sociais e fortalecimento de redes de pessoas que reaprenderam a importância do diálogo e do outro na promoção de uma vida mais feliz. verificando mudanças e crescimento pessoal de seu ente querido. caracterizados. somos o que queremos ser e temos o que queremos ter. discernir.linguagem própria. p. já que para alguns autores. Assim. com nossos problemas e assim.49) “contato implica em atração e rejeição. abertura e fechamento são distúrbios de contato. fazendo um caminho para a alteridade. “o homem cria e é a sua doença. encontrarmos as nossas próprias soluções”. podemos pensar que.111). Assim. oportunizar o modus operante até então desenvolvido. em aproximação e distanciamento. mobilização. inicia-se o processo de cura onde o fator de cura se relaciona com a experiência em si. a doença vem para confirmar. em sentir. e para Cardoso (2006 p. ou de permeabilidade 103 . faz questão de verbalizar. no exercício da amorosidade pessoal. transformar. em grandes linhas. deflexão. determina a ela todos os seus significados pessoais. As pessoas chegaram ao Grupo com muitos bloqueios de contatos visualizados através da fixação. escolhe do que vai adoecer e quando e as condições necessárias para sua evolução ou fracasso. Perturbações de discriminação e de ritmo nos movimentos de aproximação e retraimento. avaliar. Sendo a doença uma desarmonia na consciência do homem é preciso reconstruir essa harmonia. E conforme Tellegen (1984. na verdade. detestar. na busca da autonomia individual. As nossas emoções não nos fazem adoecer por acaso. com a sensação de algo novo. para que possamos entrar em contato conosco. fala continuamente e era preciso entender essa linguagem. comunicar.

chorão. enquanto parte do campo. da experiência de vida de cada um. O Grupo tem a função de terapia grupal e a palavra terapia significa acolher. pela novela. (Desconstruindo.por outro. lembro o tempo todo de vocês. esquentada. servir e atender. recebo a força do grupo e me sinto forte”. “Trabalhar as recordações no grupo é muito bom e me faz muito bem. me cobro muito. levando o indivíduo. pois aprenderam a fazer contato conforme nos diz Polster (1979. alegre. Puxa vida! Falei tudo isso!” (surpreendendo-se) • “Sou sensível. ser caloroso. pois estou ótima”. genro. sou irmão. isso é hereditário. esposo. me seguro com dificuldade. (auto-regulação) “Depois que estou aqui. sou muito responsável. sou solidária. cobro muito. verdadeira. sou humano. “Meu médico falou para eu continuar no grupo. “Eu sou tímido. choro pela música. o Grupo busca promover a saúde através da cultura. filho de Deus. cada pessoa tem a chance de se encontrar com o mundo exterior de uma forma promovedora”: • • • • • • • • • “Quando venho para cá me sinto como uma criança”. quero saber sempre o “por que” das coisas. embora não seja necessário viver do passado”. (ampliando a fronteira do contato) “Estou nesse Grupo. Sou transparente. tanto que o sucesso do Programa Viva Melhor pode ser verificado através de “falas significativas” de alguns membros onde apresentam os seus sentimentos no melhoramento de suas vidas e de sua saúde. emotivo. Ah! Meu Deus é a primeira vez que eu consegui me colocar pelo avesso e falar tudo isso”. eu me identificava com ela. visando atingir os objetivos propostos que em última instância é garantir o empoderamento das pessoas. deixando cair às máscaras) 104 . p. investigativa. respectivamente. além disso. “Quando estou em casa me lembro de cada um de vocês e ao escutar nossa música. amigo. sou muito emocional. (trabalhando a racionalização) • “Vou me colocar pelo avesso porque pelo avesso a gente se coloca como é realmente. as coisas me atingem e me fere.100) “através do contato. “Meu marido falou que eu estou diferente. E esse grupo surgiu na minha vida na hora certa”. choro por tudo. eu sinto o sentimento das pessoas. sou pecador. depois que venho para cá”. porque também sou sensível. é do meu pai. ao isolamento ou à perda de diferenciação e identidade”. gosto tanto que não quero mais sair”. sou corajosa. “Esse encontro aqui me traz boas lembranças”. pois sou muito sensível. sou amante. articulado e reconhecido por todos. pela vitória do meu amigo. sou amigo. nunca mais me esqueci de tomar os meus remédios”. pai. do conhecimento que é valorizado. não admito falsidade. tio. sou gente. quando a colega falava. amo a vida.

Neuropsiquiatra e Gestalt Terapeuta de Brasília (DF). inclusive venho para cá sem forrar a minha cama. não só um melhor-ser. “Tenho que reconhecer o meu desenvolvimento aqui no Grupo. quando diz no seu belíssimo texto: A doença como Fonte de Transformação: um estímulo a Resiliência 105 . o corpo mexe. sou desconfiada. pois antes eu não sabia dizer NÃO e agora digo NÃO sem me sentir culpada”. às palavras de Mª Henriqueta Camarotti. sou amada pelo marido e filha. é movimento corpo e mente e para provocar. E mais. a dor da alma é aquela dor que decorre das perdas. “A UNIMED me chamou e achei bom. das disfunções relacionais e dos desajustes pessoais. que vão cronificando as emoções e deixando as pessoas cada vez mais distantes uma das outras. estou diminuindo o meu sentimento de culpa”. pois prevenir é estimular o grupo a usar sua criatividade e construir seu presente e seu futuro a partir de seus próprios recursos no aqui e agora. mas depois desse Grupo. p. gosto da coisa certa. até que aqui. 172) quando afirma “em psicanálise. conforme nos aponta Ginger (1995. tornando-se flexível) • • • • • • “Quero ressaltar as mudanças na minha vida. mas para mim que sou muito organizada isso é um avanço imenso”. Vale salientar ainda que saúde é um encontro harmonioso das partes.• “Apesar de não parecer sou muito tímida para falar. dos lutos. fruto desses trabalhos no Grupo”. em Gestalt. p. recorro ainda a Ginger (1995. “Quero ressaltar as mudanças na minha vida. “Tenho que reconhecer o meu desenvolvimento aqui no Grupo. mas um mais-ser. pois esse trabalho aqui está fazendo a diferença nas vidas das pessoas. fala-se do corpo. o corpo mexe e fala-se dele explicitamente”. mas ele não se mexe.15) “esteja procurando desabrochar melhor seu potencial latente. estou diminuindo o sentimento de culpa”. uma qualidade de vida melhor”. mas não se fala dele. fazemos nossas. eu relaxei mais. sou chata. é o canal expressivo da dor da alma se manifestando na dor corporal. que aparentemente é besteira. pois percebi que tem alguém cuidando de mim”. Diante disso se faz necessário que a pessoa. (ocupando seu espaço no mundo) Podemos dizer que esses comportamentos se baseiam na prevenção. acho que melhorei. E finalizando. perfeccionista. (sendo flexível. a dor metafísica expressa à dor física. Reforçando que a doença como linguagem e a fala do sintoma como uma forma de comunicação. pois acordo alegre e feliz. “Temos que agradecer a esse trabalho da Unimed e a vocês. é a energia vital dos relacionamentos. em psicodrama. fruto desses trabalhos aqui”.

Falta-nos ainda compreendermos os interstícios da angústia humana que perpassam a etiogênese das doenças”. anatomia. fisiologia. psicopatologia. Somos levados a fazer conexões entre o corpo biológico e os fatores etiológicos externos causadores das doenças. 106 .Comunitária: “Como profissionais da área da saúde somos preparados nos conhecimentos da biologia. Essa experiência é saúde. etc. Falta-nos ampliarmos essa compreensão incluindo os aspectos socioculturais que moldam as relações dos grupos sociais. Isto é Gestalt. Isto é Saúde Coletiva.

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grade curricular. Tendo estas questões como pano de fundo. os componentes do fórum poderão se debruçar sobre os aspectos formais dos cursos de Formação em Gestalt–terapia. enfim. Assim.AS ALEGRIAS E OS DESAFIOS DA FORMAÇÃO EM GESTALT–TERAPIA NA CONTEMPORANEIDADE TIPO DE APRESENTAÇÃO A sugestão é que se componha um fórum de debates ou uma mesa redonda convidando coordenadores e ou professores dos diferentes Institutos ou Cursos de Formação em Gestalt-terapia nos diferentes pontos do território nacional. discutiremos sobre as temáticas da contemporaneidade que interferem na formação do psicoterapeuta tais como ética profissional. questões de poder. trocar idéias sobre como oferecer as ferramentas 109 . horas aula. ecologia. Consideramos também a evolução da Gestalt-terapia não só no que concerne ao aspecto teórico como as mais recentes contribuições na prática profissional. a convivência na diversidade. Partindo de uma análise do campo levantamos algumas das necessidades que percebemos na comunidade que demandam a atuação do psicólogo ressaltando a abordagem gestáltica como uma excelente referência para a participação do psicólogo na sociedade. etc. organização de workshops. RESUMO DA APRESENTAÇÃO A discussão visa trocas entre os Institutos ou profissionais formadores de Gestalt terapeutas para debater algumas das questões pertinentes à Formação do gestaltterapeuta na contemporaneidade. liberdade e responsabilidade. tais como apresentação dos diferentes cursos. para que troquem experiências e idéias sobre o tema. violência.

Procuramos assim fortalecer a cooperação entre os vários professores e / ou Institutos Formadores de Gestalt Terapeutas.necessárias para que o profissional possa se desenvolver ainda mais. atender as necessidades do psicólogo que se encontra no início de carreira ou e/ou aquele que busca se aprimorar profissionalmente. grau de pertencimento. como fazer daquele local um lócus para a troca de conhecimentos. Esperamos assim proporcionar um rico espaço para trocas e sedimentar os liames que nos unem enquanto profissionais de mesma orientação que compartilham ideais semelhantes. É interessante fazer uma reflexão sobre a cultura que cada curso constrói. Como as pessoas se relacionam entre si e na Instituição. construção de redes. 110 . O que é comum e o que é particular à cada Instituição de ensino. enfim.

já vivemos a experiência de um encontro com alguém que parece falar apenas para se ouvir. uma só unidade. muito provavelmente. que tende naturalmente para o equilíbrio. sem estar interessada realmente nas respostas. descobrimos um pouco mais tarde que estava apenas preparando a sua próxima fala. uma pessoa que faz várias perguntas. Existe aqui uma perturbação no contato: uma rigidez na fronteira. No entanto. que diminui significativamente as possibilidades de troca com o meio. mas à pessoa como um todo. pensa ou sente. Nosso objetivo neste trabalho é trazer uma reflexão sobre este mecanismo de evitação de contato. Além disso. em Gestalt-Terapia. biológicos etc. O termo “organismo”. Essa pessoa na verdade. em seus aspectos psicológicos. apenas em mostrar aquilo que ela sabe. da qual a Gestalt-Terapia se apropriou a partir da Teoria Organísmica e da Teoria de Campo. Para compreendermos o conceito gestáltico de “ajustamento”. não está interessada em receber coisa alguma. Não faz sentido falar de um corpo que respira 111 . todos nós. Essa pessoa está realizando o que em Gestalt-Terapia se chama de “ajustamento egotista”. mas sempre como mergulhado em um contexto: ele é sempre parte de um campo organismo/ambiente. sociais. o mais negligenciado pela literatura gestáltica: o ajustamento egotista. não está interessada na troca. É como se a presença do interlocutor fosse detalhe quase dispensável à sua performance. refere-se não apenas ao organismo biológico. quando parece estar ouvindo. e. precisamos primeiro entender a noção de campo organismo/meio. esse organismo não pode ser concebido isoladamente. O organismo é uma totalidade.ASPECTOS SAUDÁVEIS E NÃO SAUDÁVEIS DO AJUSTAMENTO EGOTISTA NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA: PERSPECTIVAS ATUAIS INTRODUÇÃO A experiência de um encontro genuíno pressupõe um tipo de contato pleno que se caracteriza pelo interesse e pela disponibilidade entre as pessoas envolvidas. onde o que ocorre em qualquer uma das partes afeta inexoravelmente o todo.

e estes podem se apresentar de maneiras mais ou menos saudáveis. cristalizando-se como estruturas rígidas. É comum precisarmos. o indivíduo precisa sacrificar sua relação com o meio – ou o oposto: para manter a relação com o outro. portanto. Portanto.sem falar do ar. tóxico ou perigoso (e. uma relação de respeito com o ambiente (tanto social quanto físico). mantendo. vamos construindo diferentes formas de nos relacionarmos com o meio em busca da satisfação de nossas necessidades. por um lado. em determinados momentos. uma transformação do ambiente e. e aquilo que é prejudicial. através da discriminação entre o que é saudável e nutritivo (e. Apenas quando perdem seu caráter temporário e sua função espontânea. lançar mão de mecanismos para diminuir a intensidade ou mesmo evitar a realização de um contato pleno e genuíno. O organismo sobrevive e se desenvolve a partir da interação com o ambiente na fronteira de contato. por outro lado. Pelo contrário: podemos dizer que todos os mecanismos de evitação de contato são estados temporários adequados do processo de formação e destruição de figuras. necessariamente. na fronteira de contato. reciprocamente. nos importa saber de que forma isso se dá: como organizamos a nossa experiência. Nesse processo de auto-regulação e interação com o mundo. e pode ser necessário. os mecanismos de evitação de contato não são sempre sinal de um ajustamento criativo não saudável ou disfuncional. uma transformação do organismo). é que podemos falar deles 112 . simultaneamente. ao contrário. para satisfazer uma determinada necessidade. São estas formas de estar no mundo que denominamos de “ajustamentos criativos” (criativos porque envolvem sempre. utilizar-se de artifícios para evitar o contato). Essa pode ser uma saída saudável numa situação em que não é permitida a livre expressão de necessidades. nesse caso. os ajustamentos criativos se constituem em favor da expressão e satisfação das necessidades do organismo. portanto. ou falar do caminhar sem falar do chão e da lei da gravidade etc. No funcionamento saudável. assimilável). se o organismo sempre tende à organização. Quando. como por exemplo locais de trabalho ou o ambiente escolar (à criança não é permitido expressar livremente a sua raiva gritando com a professora. a pessoa suprime a expressão de suas necessidades – então estamos diante ajustamentos criativos não saudáveis. rejeitado). Pois bem.

43). a fronteira de contato se enrijece. Perls. No contato (ou contatando): o excitamento do apetite torna-se o fundo e algum “objeto” ou conjunto de possibilidades é a figura. de modo que permita trocas. Hefferline e Goodman. Entretanto. Hefferline e Goodman (1951/1997) propõem uma divisão didática da seqüência de “fundos/figuras”. é naturalmente na fronteira também que se observam os mecanismos de evitação. cabe uma distinção: enquanto a introjeção. qual seja. 113 .como mecanismos disfuncionais. o que ficou conhecido como as etapas do ciclo do contato: pré-contato. contato (ou contatando).208-209). introjeção. ao mesmo tempo em que contata o ambiente (ver Perls. como se a fronteira ficasse tão porosa quanto uma peneira. é preciso que a fronteira de contato se mantenha suficientemente permeável. a fronteira é tão tênue que a pessoa se “mistura” ao ambiente. enquanto no caso do egotismo. Hefferline e Goodman (1951) identificaram 5 mecanismos de evitação de contato: confluência. porém firme o bastante para exercer o seu papel. p. assemelhando-se mais a uma barreira. como os de deflexão e proflexão). o de limitar o organismo. contato final e pós-contato (ver p. Perls. contê-lo e protegê-lo. projeção. ao contrário. o egotismo e a confluência se distinguem das outras formas de evitação de contato por se referirem ao “estado” da fronteira. Há a escolha e a rejeição de possibilidades. e podem ser resumidamente descritas assim: No pré-contato: surge o apetite – uma necessidade é identificada. Apesar de o contato organismo/meio ser um processo único na busca da satisfação de uma necessidade emergente. a orientação e manipulação deliberadas (identificações e alienações do Ego). No caso da confluência. Vejamos o que isso significa. a projeção e a retroflexão são processos que se desenrolam no palco da fronteira de contato. Em um processo saudável de crescimento e desenvolvimento do organismo no meio. retroflexão e egotismo (outros autores desenvolveram mais tarde novos conceitos. a agressão ao aproximar-se de obstáculos e a superação destes. 1997. Se o contato sempre ocorre na fronteira organismo/ambiente. onde a troca entre o organismo e o meio fica bastante limitada.

devido a algum perigo ou a alguma frustração inevitável.. cit.209).. Há uma espécie de indiferenciação. fazendo com que o excitamento espontâneo fique sufocado. o realizado” (ob. o objeto torna-se um ‘Tu’.. importa especificamente o tipo de interrupção que ocorre na etapa do contato final. p. o tocado. é aquilo a que nos dirigimos.No contato final: a decisão já foi tomada.) durante o contato final e íntimo. “(. Segundo Perls. em qualquer etapa.. que não é uma figura/fundo” (Perls. não podemos escolher de outra forma. a qual favorece o crescimento. e já que esse objeto preenche o campo inteiro – qualquer outra coisa é experienciada com relação ao interesse do objeto –. Ao analisarmos a seqüência do processo de contato. mas o contatado. É o momento de se comprometer e usufruir da escolha. Durante a absorção espontânea do contato final. Está claro que no processo de ajustamento criativo deve haver tais impulsos ou motivações. p. não há necessidade de tal motivação. O sentimento de absorção é ‘esquecido-do-self’ (esquece-se dele). o conhecido. O resultado disso é a ansiedade. porque contatamos não uma fronteira. o sentido de ‘Eu’. Dependendo da etapa específica em que se dá essa interrupção. Hefferline e Goodman. “a deliberação. quando ocorre a assimilação do novo. Hefferline e Goodman. o desfrutado. 1997. O ‘Eu’ afunda-se inteiramente em seu sentimento de atenção: falamos de ser ‘todo ouvidos’. desaparece espontaneamente no envolvimento. ‘todo olhos’. um objeto a elaborar.. Para o nosso objetivo aqui nesse estudo. que põem em relação [1] a percepção do organismo de si próprio como um ‘eu’ e [2] a novidade ambiental percebida como um ‘Isso’. pois não há outras possibilidades. Empreguemos a 114 .249). No pós-contato: “há uma interação fluida entre organismo/ambiente. A “entrega” característica da etapa do contato final é magistralmente descrita pelos autores: “Tentemos analisar a absorção do contato final como sentimento (embora tenhamos que nos desculpar por nossa pobreza de linguagem). mencionamos a seqüência de motivações (. aprendemos um hábito neurótico específico . entretanto. e então as fronteiras não têm importância.um mecanismo de evitação de contato.). e qualquer ‘Isso’ possível torna-se simplesmente um interesse do ‘Tu’. dedicase completamente a seu objeto. Este processo pode ser interrompido a qualquer momento. 1951/1997.

etc. antes de me comprometer. Segundo Perls. pois se não há nem Ego nem Tu. a alegria. o amor. 1951/1997. Ou seja. 1997. um momento de retirada. obtuso. cético. Mas pode ocorrer aqui uma interrupção. No lado mais brilhante.222). Trata-se de uma parada natural. há um relaxamento. em lugar de serem operações de sentimento. são tais estados. em vez de com aquilo que é contatado. um impedimento de se abandonar totalmente à experiência. É natural que neste momento. por se tratar de uma preocupação última com as próprias fronteiras. p. a cor.257). Imagine que eu quero muito comprar um carro. mas se compromete” (grifo nosso). Perls. Comparados com os apetites e as emoções. o insight. o desespero. Hefferline e Goodman (1951/1997. O AJUSTAMENTO EGOTISTA Na etapa do contato final. a compaixão. de renúncia ao controle e à vigilância. 257). a espontaneidade deve poder suceder à deliberação: é preciso se permitir relaxar o 115 . são interesses. a serenidade. (. “uma redução da espontaneidade” em favor de uma “introspecção e circunspecção deliberadas adicionais para se assegurar de que as possibilidades do fundo estão realmente exauridas – não há ameaça de perigo ou surpresa – antes de se comprometer” (Perls.. o sentimento é como o de um abismo (Perls. Tomemos um exemplo. a apreciação estética. Nesse caso. “o egotismo normal é hesitante. antes do contato final. arredio. relaxar e usufruir a minha escolha. Hefferline e Goodman. eu dê uma parada e me volte para mim mesma (awareness reflexiva) e me pergunte mais uma (última) vez se realmente esta é a melhor escolha. os interesses têm determinada qualidade estática ou final. Dedico grande parte do meu tempo e energia a pesquisar preços. Hefferline e Goodman denominam esse tipo de interrupção de “egotismo”. para que o contato final ocorra. a ponderar se é melhor comprar um carro zero quilômetro ou usado. e podemos agora compreender como estes são terríveis. p.. p. de que forma eu quero ou posso pagá-lo etc. o luto etc. escolher o modelo.palavra ‘interesse’ para esse tipo de sentimento sem self. o egotismo é um momento necessário de preocupação com as próprias fronteiras antes de se comprometer com a assimilação e o crescimento.. Hefferline e Goodman. pois não são motivações.) De maneira mais soturna. E imagine que finalmente eu chego a uma escolha.

Perco a capacidade de abrir mão do controle sobre a experiência e de me comprometer com a decisão de comprar – ou de não comprar – o carro.131) sugere que este conceito. não tenha sido bem aceito pelos gestalt-terapeutas. mas sem que o ego possa optar por 116 . O egotismo é. entretanto. Robine (2006. p. no entanto. pois se os mecanismos neuróticos de evitação de contato se referem sempre a perda das funções de ego. dos mecanismos de evitação de contato o menos explorado na literatura gestáltica. mostrando que o paradoxo é apenas aparente. no entanto. pode-se falar de egotismo como um mecanismo neurótico. sensações especialmente desconfortáveis. imagine então que eu. se alongar sobre os possíveis motivos para tal rejeição.). p.controle. e de comprar este carro e não outro. Diz ele: “Excesso de ego envolvido nessa fase do self. para o pouco interesse teórico sobre o tema. nesse comportamento controlado e deliberado. o que talvez contribua. A minha opinião pessoal é a de que isto pode se dever a uma opção por não enfrentar o aparente paradoxo que envolve o termo "egotismo". é a de que Robine apenas alerta para o fato de que o conceito de egotismo “pode parecer um pouco paradoxal” [grifo nosso] (Robine. 2007. o encontro com o cliente predominantemente egotista pode suscitar no terapeuta. Perde-se a fluidez necessária ao contato saudável. sem. trata-se de “excesso ou perda das funções de ego” (id. p. O autor continua logo adiante. certamente. 2006. Hefferline e Goodman. ao explicar que o que acontece no egotismo é que “o controle não é controlado”.131). sem dúvida. no momento da “parada” (quando me questiono se a escolha que fiz de comprar um carro. é a mais satisfatória para mim). introduzido por Goodman. define-o como um ‘excesso’ de ego” (D’Acry. se soltar e ter a coragem de se comprometer. Quando há uma fixação nesse processo. No verbete “Egotismo” do “Dicionário de Gestalt-Terapia (Gestaltês)”. passando a existir uma espécie de “confluência com a awareness deliberada” (Perls. me enredo nas minhas próprias racionalizações e não avanço. a autora afirma que Robine (2006) “aponta para um paradoxo quando Goodman refere-se ao egotismo como perdas das funções do ego e. 81). afinal. como explicar o "excesso" da função ego no caso deste ajustamento específico? Além disso. conforme veremos adiante. em maior ou menor grau. 1951/1997.257). p. Retomando o exemplo da compra do carro. Nossa compreensão. levantando a questão sobre se.

da autoconfiança e do sentimento de auto-estima. O controle está fora de controle. Ver o Capítulo 7 – Ajustamentos Neuróticos. mas sim em relação a si mesmo (e isso acontece porque. em um momento está totalmente absorvida no contato. E isso é saudável. O AJUSTAMENTO EGOTISTA NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA ASPECTOS SAUDÁVEIS Perls. o egotismo é saudável e mesmo “indispensável em todo processo de complexidade elaborada e de maturação prolongada” (p. na satisfação de uma necessidade. “você não sabe” etc. Para compreender tal afirmação. inclusive em sua relação com a família e com seus pares. p. 2007). Esta é uma etapa fundamental para o reconhecimento do EU separado do OUTRO. mas pela inibição reprimida)18. com um exagero das características de onipotência e autoreferência. Por volta dos 2-3 anos de idade. É neste período que se criam as bases para a aquisição do autosuporte. Hefferline e Goodman (1951/1997) nos informam que.terminar seu controle. é que a perda das funções do ego (especificamente: o controle) se dá não em relação à sua atuação no ambiente. 18 117 . que pode ser visto como um egotismo primário. podendo estar mais centrado em si mesmo e escolher de forma consciente o que quer e o que não quer absorver em suas trocas com o meio. do livro Fenomenologia e Gestalt-Terapia (Granzotto e Granzotto. não obstante a possibilidade de se fixar como um mecanismo neurótico. “eu que faço“. em especial os subítens “Teoria da inibição reprimida: figura e fundo da neurose” e “A neurose como perda das funções de ego (para a fisiologia secundária)”. a diferença no caso do egotismo. basta pensarmos no próprio desenvolvimento infantil. Há fluidez e não fixação. num outro momento está totalmente fechada à troca com o meio (“é meu!”. De forma semelhante. é importante também para o adolescente discriminar suas próprias necessidades e deliberar em favor de satisfazê-las. Excesso e perda da função ego” (Robine. a criança passa por um período de individuação em seu desenvolvimento.). 2006. A mesma criança que. 131-2). essa função de controle não está sendo exercida pela função ego do self. na verdade.257). Portanto. em comparação com os outros ajustamentos neuróticos.

O ambiente deixa de ser uma fonte de nutrição e trocas possíveis e passa a ser algo a ser dominado: o foco do egotista não é mais contatar para crescer.131). inicialmente proveitoso para o organismo. fundamental que o adolescente não perca a capacidade de discriminar entre o que lhe é nutritivo e o que lhe é prejudicial. não é possível que seja a mais adequada a todas as situações. torna-se algo não-saudável e disfuncional. Portanto. o problema desse controle é quando ele não é controlado (ver p. Como o processo do self é obstruído. o desempenho de papéis sociais começa a ganhar muita importância e. e suas relações se estabelecem na base do “Eu-Isso”. sendo. ocorre um gradual afastamento do núcleo familiar e a inserção no mundo adulto. portanto. é como se alguém se alimentasse de um único tipo de comida: por mais saudável que possa parecer. e vive constantemente isolada: não existe mais um Tu com o qual se encontrar. É consenso geral que nesse período o indivíduo vive novamente um excesso de onipotência e auto-referência. mais uma vez o egotismo se configura como um mecanismo muito importante para o fortalecimento do auto-suporte. para que o adolescente consiga “bancar” as escolhas que julgar serem as melhores para si. à medida que os vínculos sociais vão se estabelecendo. mas em si mesmo. A pessoa se isola do ambiente para tentar se proteger das surpresas. o egotismo pode ser uma etapa necessária e até desejável ao longo do desenvolvimento humano. O AJUSTAMENTO EGOTISTA . portanto. 118 . as características avaliadas como necessárias para ser aceito pelo grupo. um conjunto de características vai sendo valorizado – muito especialmente. ainda que sejam diferentes das do grupo. em uma palavra: dos riscos. A pessoa se coloca numa posição do tipo: “nada que venha do ambiente me serve”. Segundo Robine (2006). Neste cenário. descrito por Martin Buber. o contato não finaliza e não se obtém a satisfação no meio. A satisfação parcial possível do estilo egotista. e certamente essa “dieta” vai acarretar algum problema nutricional.Durante a adolescência. Paralelamente. É nesses casos que o ajustamento criativo. do incontrolável. mas conhecer para controlar.ASPECTOS NÃO-SAUDÁVEIS Mas se o ajustamento egotista se cristaliza e vira um padrão de funcionamento rígido.

os nossos clientes neuróticos (ou . O que nos permite escapar dessa implicação é a nossa forma gestáltica de olhar o campo. p 317). terapeutas.como têm preferido os autores . quando um cliente que se ajusta de forma predominantemente egotista chega à clínica. em determinada fase do processo terapêutico.aqueles que fazem ajustamentos evitativos) dirigem ao terapeuta uma espécie de apelo (de forma mais ou menos explícita). O cliente que se ajusta de forma predominantemente egotista nos tenta transformar em “fãs” ou “ admiradores” em quem encontrem confirmação das múltiplas formas de controle das suas vidas. encontramos alguém que se perde em abstrações infindáveis.está na vaidade. que o cliente desacostumado a discriminar suas próprias necessidades e deliberar em favor de satisfazê-las. Uma vez que não vemos o indivíduo como um problema a ser resolvido. afinal. traz “problemas” – já equacionados – uma vez que não “vive” sua vida: “pensa” sobre ela. explicações e argumentos muito bem construídos que abarcam todos os assuntos. de modo a continuarem adiando a realização do contato final. o cliente de estilo egotista não traz para o consultório experiências. Entretanto. possa estar mais centrado em si mesmo e escolher de forma mais consciente o que quer e o que não quer absorver em suas trocas com o meio. O CLIENTE PREDOMINANTEMENTE EGOTISTA É saudável também. construindo um mundo inteiro fictício (racionalizado) que substitui o contato verdadeiro (vivo). E esse apelo pode ser identificado a partir daquilo que é suscitado em nós como reação ao ajustamento evitativo presente na situação (ver: Granzotto e Granzotto. uma etapa de fortalecimento do auto-suporte. O cliente está fixado no “falar sobre”. Portanto. E para que ele busca a psicoterapia? Granzotto e Granzotto (2007) nos ensinam que. quando chegam à clínica. na autonomia e na auto-suficiência. 2007. não assumimos uma postura assimétrica de quem detém o conhecimento 119 . inclusive em sua relação com o terapeuta. num controle “perfeito” de tudo (Granzotto e Granzotto. Esta postura poderia nos levar a questionar para que. ele precisa de nós. em direção a um hetero-suporte saudável. Assim. o egotismo pode ser uma etapa necessária e até desejável no processo terapêutico. 2004).

. ainda que o cliente nos requisite a assumir determinados papéis no desempenho de seus ajustamentos evitativos. blá.. Algo característico da fronteira de contato desaparece: justamente o intercâmbio organismo/meio. nos faria assumir.. nossa função terapêutica é frustrar essa tentativa de interrupção.de métodos ou técnicas que solucionariam suas questões.) ele vai dizer isso (... Mas o nosso olhar gestáltico sobre o cliente nos permite estabelecer a relação sobre outros pilares: sabemos que o nosso objetivo não é resolver problemas.. A onipotência do terapeuta na relação com esse cliente poderia estabelecer um modelo de competição que acabaria por reforçar o isolamento dele. CASO CLÍNICO Letícia. costuma trazer suas questões para terapia da seguinte maneira: “O meu problema com relação ao fulano não tem jeito. O olhar do outro. Conclusão: não tem jeito!”. o papel que ele reserva para todas as pessoas em sua vida: o de mero coadjuvante (ou “fã”). você está dizendo isso porque não conhece ele como eu conheço” e outras tantas formas possíveis de mostrar que nada que venha do outro pode ser de qualquer utilidade para ela. mas sim buscar a possibilidade de ajudá-lo a experienciar “como” ele vive a sua vida – e não “por que” o faz desta ou daquela maneira – e quais são as conseqüências disso para ele. por outro lado.) e aí eu vou ficar chateada. Para isso. que na verdade não tem nada de “útil” para lhe oferecer. uma adolescente de 15 anos... que faz com que o contato se processe. “O que estou tentando evitar”. Se eu fizer aquilo (. o fundamental é ajudar o cliente a endereçar a si próprio questões como: “Onde eu começo a me impedir?”.. blá.)”.). É fácil perceber o que acontece nas suas relações. e sei que não daria certo porque (. E sabemos também que. “Como tento evitar?”. eu já pensei nisso.) e não vai mais querer falar comigo.. no final do “embate”. a elasticidade da formação figura/fundo. ele vai se sentir assim (. Olha só: eu tenho duas opções: se eu fizer isso (. ou: “não.. blá.. Qualquer “sugestão” que as pessoas ao seu redor costumam lhe oferecer é sempre recebida com argumentos do tipo: “não. O papel da psicoterapia é ajudar o cliente a reestabelecer o fluxo do processo de contato. a voz do 120 . ou.

conforme eu verifiquei com os pais. você tem outras qualidades”. a opinião do outro são bloqueados. Esse termo se referia. e ela chegou a flexibilizar alguns de seus padrões de relacionamento com os colegas. com uma 121 . de forma que ela se fixa na posição de sustentar suas “razões” acima que qualquer coisa. enfatizava as qualidades dela. não empresta nada para minguém. o foco permanece apenas sobre as suas próprias ações. era discriminada por isso. Essa cliente tem uma história de isolamento e desconfiança em relação aos outros desde a infância.. minimizando a importância da aceitação do grupo (“não liga. como é comum acontecer nessa idade. deixa pra lá. pensamentos e sentimentos. sempre destacada na turma. Embora os pais tenham alegado dificuldades financeiras. finge que não ouve.outro. Nessa época. e a uma timidez excessiva. Quando a mãe dizia que ela podia parecer mal-educada. conseguimos construir uma relação de muitas trocas significativas. Ela era uma menina bem gordinha e. Ao longo de quase dois anos de terapia. Aos 14 anos ela retorna. ou mesmo um leve sorriso ao cruzar com alguém (conhecido ou desconhecido) pela rua. sua grande satisfação vinha através da sua competência intelectual. Ela era uma menina bem gordinha. coisas desse tipo). em vez de ajudá-la a desenvolver recursos para enfrentar a situação. embora dissesse que não se importava muito com o isolamento. Ainda criança. não aceita as opiniões dos outros e é muito “fechada”. ela sempre respondia que não tinha que sorrir para agradar ninguém e que os outros que a aceitassem como ela era.. ao fato de ela não ter amigos (o que pode ser entendido como isolamento). ela chega ao consultório com a queixa (dos pais) de que ela não consegue se relacionar com as outras crianças na escola porque tem muito ciúme das suas coisas. meio “emburrada”. Aos 11 anos. A família. Ela foi abrindo mão de encontrar a satisfação e realizar o contato final com o ambiente e se voltando cada vez mais para si mesma. incapaz de dar “bom dia”. Letícia abandonou a terapia. ela freqüentemente “descartava” a pessoa: “Quem não me aceita como eu sou não serve para ser meu amigo”. que fazia com que muitas pessoas jamais a tivessem visto sorrindo. Quando havia alguma discordância com algum amigo. estava claro que ela tinha atingido um grau de equilíbrio que lhe era satisfatório naquele momento.

Falávamos sobre as suas possibilidades de iniciar um namoro com determinado colega de escola. Se antes ela não se importava com a precariedade das suas relações de amizade. Ainda não era suficiente. então. e poucos dias depois. Sua energia. fiéis. eu buscava intervir questionando a capacidade que ela julgava ter de prever e controlar os desejos e movimentos das outras pessoas. além de ter toda uma explicação já preparada sobre o quanto isso tudo é.. na realidade. continuam suplicando sua atenção. agora ela se importava – e muito – com a rejeição dos meninos. Letícia tem uma auto-imagem tão grandiosa (reforçada por essas experiências de conquista sempre bem-sucedidas). além de a mais inteligente.Seria tão bom se a vida fosse assim como um jogo de xadrez. Letícia me brindou com uma metáfora bastante elucidativa do funcionamento egotista. se encontrar com ninguém. O contato final não se realiza. Em um de nossos encontros.configuração diferente: a chegada da adolescência havia trazido novas necessidades e a competência intelectual já não lhe dava mais satisfação suficiente. ela perdeu mais de 10 quilos e passou a ser também. Ela não se permite. ela “fica” com ele. Ela começou exercitar seu poder de sedução. se divide entre conquistar esse novo alvo e manter a legião de fãs que. a menina mais bonita da turma. no entanto. já totalmente desinteressada (e o menino totalmente apaixonado). apenas com ela mesma e sua infindável necessidade de ser admirada. Foi nesse momento que travamos este diálogo: L: . que de fato não lhe importa muito quem é esse outro no encontro. mas ela mesma usa expressões do tipo: “colocar o fulano na prateleira”. né? 122 . e enquanto ela tentava imaginar o que ela deveria fazer e/ou dizer para garantir que tal garoto iria propor namoro. uma “compensação” pelo fato de ela ter sido gorda e por esse motivo ter ficado “encalhada por tanto tempo”. amar e ser amada de fato por outra pessoa. “mantê-lo por perto” etc. ela já começa a articular seus contatos para atrair o próximo “alvo”. em pouco tempo o menino já faz declarações de amor. estabelecendo uma espécie de comportamento recursivo: se interessa por um menino. Determinada. O tom utilizado aqui nessa descrição pode parecer um tanto jocoso. sem se permitir. Ela não se compromete. se aproxima dele sempre através de uma conversa interessante e envolvente. em grande parte.

retrofletem suas mais íntimas necessidades para não se sentirem expostos em sua 123 . de fato. ela ganha. T: .. Robine (2006) acrescenta que : “Ele será manifesto e de grande amplitude nos indivíduos que apresentam perturbações narcisistas de sua experiência. Mas perde toda a riqueza e a vivacidade da experiência do contato final. E ele segue fazendo uma descrição da atuação dos outros mecanismos de evitação de contato no estilo egotista: “Apesar de parecerem não utilizar a retroflexão.Hummm.No xadrez. T: . Ele seria só uma das peças..Não sei. Segundo Spangenberg (2006). ansiosos ao se abrirem para o outro. pois sempre culminam suas ações dirigindo sua energia para o meio – ou para dizer de forma mais apropriada – ao objetivo que traçaram. A respeito do egotismo. ou ansiosos diante de um possível abandono posterior.Não faz mal. mas aí o jogo acaba.T: . quem ganhou fui eu! É possível que o caminho seja ajudá-la a se dar conta do que está tentando evitar e do que. mas a rainha pode andar quantas quiser. Não. Você lembra o que eu disse? Não seria eu contra ele no xadrez. O rei só pode andar uma casinha de cada vez. Ansiosos diante do soltar-se. E se a rainha cerca o rei..Você quer se relacionar ou competir com ele? L: . se ele fosse o outro jogador. está perdendo.. Se fosse uma competição.. não seria uma competição entre mim e ele. impede o desenvolvimento espontâneo das suas relações. tais indivíduos se isolam do ambiente e o reduzem a conhecimentos que possam ampliar seu controle e seu poder” (p. seria eu contra mim mesma..132). (pausa). Na verdade. não é? Então.Sim. L: . Eu ganhei. Como seria? L: . Mas assim não: na pior das hipóteses. ansiosos diante da perda do controle.. a entrega do encontro e o risco de um possível abandono.. eu correria o risco de perder. é um dos introjetos fundamentais nesses pacientes”. “considerar nossa maravilhosa fragilidade – portal para nossa humanidade – como uma deficiência ou uma falta. Obtém uma satisfação apenas parcial na vaidade e no poder. Ele seria o rei e eu a rainha.. ansiosos diante de uma possível aniquilação no Nós do encontro. se eu perder. Ao tentar evitar o contato. as peças só podem fazer determinados movimentos.

Ou. Hefferline e Goodman para a mesma: “Qualquer ato de autocontrole deliberado durante um envolvimento difícil é uma retroflexão” (1951. pode ser mais ou menos saudável. caindo na armadilha dos círculos de racionalização do cliente. centrando seu mundo de relações na competência e na luta pelo poder... a soberba e arrogância com que lidam com os outros. a retroflexão básica parece ser a da necessidade de receber amor: é mais seguro voltar essa necessidade para si mesma. De fato. que terminam sempre no mesmo lugar: ele tem razão. Egoísmo é um atributo. Egotismo é uma forma de ajustamento criativo que. Robine considera que o egotismo seja um tipo específico de retroflexão.. Na relação terapêutica com o cliente de estilo egotista. experimentamos uma dificuldade de perceber claramente qual o nosso lugar e corremos o risco de julgálos egoístas20 e “‘atuar’ na sessão o que certamente fora dela as pessoas que convivem com ele devem fazer: expulsá-lo de suas vidas” (Spangenberg.. e nas conseqüências que isso traz para ele. se despedem da vida sem jamais terem-se deixado tocar pela ternura e pelo amor” (p. (. o terapeuta pode se sentir intimidado e acabar projetando sobre o cliente suas próprias necessidades de aprovação.132).65). 2006. p. Se ele permitir. Compartilho da opinião desse autor de que as barreiras construídas pela pessoa predominantemente egotista. pelo contrário. p. teremos chance de ajudá-lo. aferrados até o final às suas ‘razões’. e se mantivermos o foco no “como” o cliente constrói seus vínculos. um juízo (negativo) a respeito da conduta de alguém. 19 124 . 80). Conforme Spangenberg.). 20 Cabe aqui uma breve distinção entre “egoísmo” e “egotismo”. apud Robine. pois corresponde a uma das definições oferecidas por Perls. 2006.vulnerabilidade.) Alguns (. Não são confluentes mais do que como uma concessão momentânea na busca de suas metas. p. Projetam suas fragilidades nos outros com a mesma atitude impiedosa com a qual se relacionam – nessa área – consigo mesmos. 2006. “em ambos os casos a terapia fica inutilizada” (Spangenberg. O egotista sente como uma ameaça terrível mostrar seu ‘lado incompetente’ e cada vez se apóia mais em suas habilidades. conforme já vimos. 80). No caso de Letícia. Se estivermos atentos a isso. do que arriscar dirigi-la ao outro19. produzem tanto rechaço social que fica difícil perceber a fragilidade e o medo da exposição que escondem. desenvolvendo uma postura narcisista.

São Paulo: Summus. L. P. (2007). M. SPANGENBERG. IGT na Rede. O Self Desdobrado: perspectiva de campo em Gestalt-terapia. Fenomenologia e Gestalt- 125 . J-M. E GOODMAN. L. Montevidéu. (2006).1.. ORGLER. Terapia Gestalt: Un Camino de Vuelta a Casa.1 n. A. (2005). E GRANZOTTO. Gestalt-Terapia com Crianças: Teoria e Prática. Psicolibros-Universidad. R. D’ACRI. (2006). (2007) Terapia. LIMA. Campinas: Editora Livro Pleno. São Paulo: Summus. GRANZOTTO. G. J. PERLS F. ROBINE. São Paulo: Summus. L. S. E GRANZOTTO. J. Dicionário de Gestalt-Terapia: “Gestaltês”. (1997) Gestalt-Terapia. (2004) Self e Temporalidade.. R. P. vol. São Paulo: Summus. M.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR. HEFFERLINE.. R. GRANZOTTO.

as estratégias de intervenções utilizadas na estruturação do trabalho objetivavam. Percebendo o elevado grau de ansiedade das crianças e seus responsáveis no dia da operação. Rosa Mitre. no ambulatório de cirurgia pediátrica do Instituto Fernandes Figueira (IFF/FIOCRUZ). sua família e a equipe de saúde ao longo deste processo. além do acolhimento. este artigo objetiva compartilhar esta experiência com outros profissionais da área de saúde. O Programa Saúde e Brincar. a chefia da cirurgia reconheceu a necessidade de um trabalho que pudesse auxiliar a criança. Isso significa dizer. criado em 1994. favorecer o contato da criança com seu processo cirúrgico. A partir desta demanda. tem a preocupação em auxiliar a criança e seus acompanhantes a elaborar e vivenciar o processo de adoecimento e hospitalização. A partir de minha vivência na Gestalt-terapia. desenvolvido desde fevereiro de 2007. a solução encontrada foi estruturar uma proposta de atendimento que tivesse como base o experimento gestáltico. que o projeto precisava ser escrito pensando como o brincar poderia auxiliar estas famílias a vivenciar a situação de hospitalização. Este projeto foi pensado a partir da demanda da chefia médica da enfermaria de cirurgia pediátrica deste instituto ao Programa Saúde e Brincar. e o despreparo da equipe da enfermaria para lidar com o estresse e a angústia da família. operação e recuperação. Dra. no sentido de possibilitar a ampliação da awareness e o fortalecimento do self destas ao longo do processo operatório. Assim.BRINCANDO DE OPERAR: GRUPO DE ACOLHIMENTO DE CRIANÇAS EM PROCESSO CIRÚRGICO INTRODUÇÃO O presente trabalho refere-se à implantação de um projeto de acolhimento de crianças em processo cirúrgico e suas famílias. especialmente gestalt-terapeutas. fui convidada pelo Programa Saúde e Brincar a escrever um projeto de acolhimento e preparação para estas crianças com orientação da Prof. através da promoção de atividades lúdicas nas enfermarias e ambulatórios do IFF. Sendo assim. com financiamento da FAPERJ. No sentido de 126 .

Este trabalho se justifica pela escassez de produção cientifica nacional sobre o tema. esta vivência pode ser emocionalmente ainda mais devastadora. isolamento. de ficar incapacitado. somam-se a insegurança. sentimentos de impotência. A EXPERIÊNCIA CIRÚRGICA INFANTIL: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Sabe-se que a experiência cirúrgica é potencialmente traumática. medo da morte. Aos sentimentos de perda. estresse ou outras condições adversas do estado emocional. Posteriormente. Quando os pacientes cirúrgicos são crianças. O presente artigo foi desenhado da seguinte forma: primeiro apresentamos uma breve revisão sobre a temática da preparação de crianças para cirurgia. Sentimentos de medo e ansiedade são reações consideradas normais no período pré-operatório. da mutilação. apresentamos o nosso caminho e os conceitos que nos guiaram na estruturação desta proposta. os resultados que temos conseguido e por fim algumas últimas considerações. o paciente apresenta respostas organísmicas que podem prejudicar o seu processo cirúrgico.possibilitar o enriquecimento de nossa atuação no ambiente hospitalar. de mudanças na imagem corporal. pode sentir-se intimidada pela separação da casa e pelo estranhamento do espaço hospitalar. No entanto. (2003) a criança pode perceber a necessidade da cirurgia como uma punição. Felder-Puig e col (2003) complementam afirmando que 127 . especialmente no âmbito da gestalt-terapia. redução das defesas contra infecção e aumento no consumo de anestésicos no período intra-operatório. na medida em que essas condições se elevam e se somam à tensão. o desconforto emocional. Crianças mais ansiosas durante o período pré-operatório exibem também comportamentos mais agitados durante o pós-operatório. Segundo Felder-Puig e col. etc. Guaratini (2006) afirma que as principais conseqüências médicas para a criança com elevado grau de estresse durante o processo operatório são: indução anestésica tempestuosa. além de poder apresentar desconfortos e dúvidas a cerca dos procedimentos a que será submetida. Em seguida. apresentamos nossa atual metodologia de trabalho. da dor.

choros noturnos. Aja visto que a resposta emocional das crianças é afetada pela percepção da família. p. Neste sentido. Entre os 6 meses a 4 anos a maior ansiedade concentra-se na própria ansiedade de separação. impulsividade. Para Guaratini(2006) alguns fatores podem prever graus elevados de ansiedade no período pré-operatório: temperamento prévio da criança. Hug e col. distúrbios alimentares e enureses noturna. Entre 4 a 6 anos a criança já consegue compreender algumas explicações e a maior ansiedade concentra-se na preocupação com a integridade do corpo e mutilação cirúrgica. visitas conturbadas aos consultórios pediátricos e níveis elevados de ansiedade dos familiares. Rice e col. no período de 0 a 6 meses a maior ansiedade é dos pais. Moro e Módolo (2004) afirmam que as diferenças etárias influenciam na forma como cada criança experimenta o processo cirúrgico. emocionalidade. Estes autores afirmam ainda que o envolvimento dos pais é fundamental para a redução da ansiedade das crianças na preparação no préoperatório. Segundo eles. desobediência. ansiedade de separação. Dentre estes comportamentos. (2008) citam como principais a presença de irritabilidade. Lopez e Lee (2007). toleram bem a separação. já que este registro é prioritariamente corporal. podem persistir por até um ano após a operação. podem comunicar com mais facilidade seu medo de acordar durante a 128 . são mais capazes de compreender explicações. níveis baixos de sociabilidade. como nos afirma Oaklander (1980. hospitalização. Segundo Moro e Módolo (2004). experiência cirúrgica prévia. comportamento adaptativo. É importante ressaltar que o grau de ansiedade dos pais influencia a ansiedade dos filhos. Pois. já que o bebê ainda não possui recursos para entender. a criança tem mais facilidade para ser aberta com seus próprios sentimentos e confusões”. pesadelos. “se os pais são capazes de confrontar abertamente os seus próprios sentimentos. Segundo Li. 275). A partir dos 6 anos. nem mesmo lembrar cognitivamente de eventos desagradáveis.algumas alterações de comportamento devido a perturbações ao longo do processo cirúrgico podem surgir em até duas semanas após a cirurgia. a maioria dos pais relata apresentar dificuldades em ajudar seus filhos a passarem pela situação estressora que é a operação. (2005) apontam a relevância de se estudar a percepção da família sobre a cirurgia.

Estes autores defendem que os efeitos destes programas são similares aos dos sedativos. de confiança. Dessa forma. Segundo Kain e col. (1998) recomendam que para crianças com 2 a 4 anos a preparação deve acontecer 1 a 2 dias antes da cirurgia e crianças com idades entre 5 e 12 anos. (2007) dentre as três estratégias de intervenção mais comuns são: administração de sedativos antes da cirurgia. fantasias acerca do processo. expectativas em torno dos procedimentos. Isto é. (2003). Estes programas contam com os mais diversos instrumentos de intervenção. segundo Li e Lopez (2006) a resposta emocional das crianças a cirurgia precisa ser acessada por um instrumento multidimensional. Tornando possível auxiliá-la na compreensão da situação vivenciada. inclusive seus medos e fantasias. Da mesma forma. descrevem um programa de preparação que utiliza um livro infantil na preparação das crianças e das famílias. o impacto na qualidade de vida da criança. atualmente vem sendo desenvolvido em diversos países diferentes estratégias de preparação de crianças para cirurgias. Na adolescência a ansiedade maior está no medo de perder o controle. a diferença etária das crianças também é determinante no planejamento do período em que a preparação para cirurgia deve acontecer. etc. Kain e col. em linguagem acessível e lúdica. autorização dos pais para estarem presentes na indução da anestesia. promoção de programas de preparação antes da cirurgia. A compreensão da resposta emocional da criança a cirurgia é essencial no planejamento e implementação das intervenções apropriadas a cada clientela. o significado simbólico da operação para criança e sua família. Mais do que informativos teóricos sobre a operação. é preciso criar um clima acolhedor.cirurgia ou não acordar. Estes autores defendem o uso do livro ilustrado como meio de antecipar para a família as possíveis situações a que serão submetidas. Neste sentido. Com o benefício dos programas terem custo reduzido para a instituição e nenhum risco para a saúde da criança. ou inventários de estresse e ansiedade. por exemplo. Felder-Puig e col. Já 129 . onde a criança possa se sentir segura para dividir sua experiência. um instrumento capaz de abarcar a complexidade presente nesta vivência: intensidade da ansiedade presente. 5 a 10 dias antes da cirurgia.

Dito isto. Por exemplo. visita ao hospital e o brincar com os instrumentos médicos. máscara comum e touca. Lopez e Lee (2007) apresentam como instrumento o brinquedo terapêutico. diminuir a potencial carga estressora da experiência. Patel e col. (2004) citam a musicoterapia. três folhetos sobre o que esperar no dia da cirurgia. Tonz e Kaiser (2005) apresentam a utilização de um CD-ROM com informações sobre a cirurgia. Já Kain e col. máscara de anestesia. CONCEITOS QUE NOS GUIARAM NA ESTRUTURAÇÃO DESTA PROPOSTA A partir do que dizia a literatura. Kain e col. Li. como distrair seu filho e treinamento em casa de certos procedimentos do centro cirúrgico.Hug. aliviar a tensão reproduzindo o que acontecerá no procedimento e sentir-se mais no controle da situação. Kain e col. Rice e col. O uso das bonecas para explicar os procedimentos pode fazer com que complicados conceitos sejam facilmente entendidos. traz a possibilidade da criança interagir com o material e o ambiente hospitalar de uma maneira não ameaçadora. Alguns autores descrevem mais de um instrumento no preparo das crianças e suas famílias. (2008) descrevem o uso da apresentação de slides sobre o dia da operação. as estratégias que utilizam o brinquedo terapêutico são importantes na medida em que possibilitam a criança se divertir. (2007) descrevem uma proposta que entrega um kit de preparação para a família com: vídeo de 23 minutos com entrevistas com pais e crianças sobre o momento da anestesia. Lopez e Lii (2007). de um longo período de observação da 130 . No entanto. Isto porque. articulado com visitas as instalações hospitalares por onde a criança circulará e ainda o contato com alguns instrumentos médicos. (2006) apontam o uso do vídeo-game. (2007) afirmam que os programas de preparação que apresentam resultado mais satisfatório são aqueles que articulam diferentes instrumentos e estratégias de intervenção e priorizam o brincar como mediador do atendimento. fica evidente a grande variedade de alternativas encontradas nos mais diferentes locais para oferecer a criança e sua família algum preparo para a operação. Segundo Li. Já Ellerton e Merriam (1994) apresentam a articulação entre a apresentação de um vídeo sobre o dia da operação.

ou seja. na sala de espera. Isto é. é respeitar. nosso trabalho teve início com a preocupação de acolher essas famílias na sua chegada ao serviço de cirurgia. Para que elas se sentissem mais seguras naquele território. é amparar. lugar de acontecimentos relevantes. as crianças e as famílias era muito silenciosa. É a partir do acolhimento que nasce a confiança e. Esse tempo – cronológico e afetivo – 131 . médicos.41). De maneira geral. a entrega. Nesse sentido. 2002. também. os responsáveis chegavam para a cirurgia com muitas dúvidas sobre os procedimentos e as rotinas do hospital. portanto fundamental para que a criança e sua família pudessem vivenciar a experiência cirúrgica com mais confiança. quanto nas crianças. e criar um espaço de troca de experiência e suporte emocional ao longo do processo cirúrgico das crianças. Sem conhecer a equipe de referência. Como nos propõe Carnè (2002. um terreno de incertezas. ao mesmo tempo. que fosse capaz de acompanhá-las ao longo do processo operatório das crianças. nem mesmo o espaço onde ficariam durante a internação da criança. p. É. a comunicação entre a equipe. Pudemos confirmar a existência de uma enorme demanda da equipe e das famílias por um trabalho que pudesse aliviar a angústia das crianças especialmente no pré-operatório. em que o ato de esperar produz um hiato que se situa entre o que está por vir e o que já foi vivido.41). angustiava a equipe de saúde e mais ainda a família. entendemos a necessidade de que o trabalho acontecesse exatamente onde estas pessoas estavam. consequentemente. tornandose palco das projeções de quem espera e é esperado. Descobrimos que a angústia da criança. “A sala de espera é um local de informalidade e. desconforto e muita insegurança tanto na família. é acompanhar. crianças e responsáveis.enfermaria de cirurgia pediátrica e de entrevistas com enfermeiras. Reforçamos a necessidade da estruturação de uma proposta de intervenção junto a estas famílias. Nossa motivação foi o desejo em conhecer melhor nossa clientela. p. Pouco se falava sobre a experiência cirúrgica naquele espaço e a sensação de acolhimento era praticamente inexistente. Embora a enfermaria fosse um lugar muito barulhento pelo intenso fluxo de pessoas. expectativas e angústias. Sendo assim.”(Carné. Entendemos que “acolher é cuidar. acreditamos que o acolhimento era parte do processo terapêutico e. Percebíamos desconfiança. pelos choros das crianças e apitos dos aparelhos médicos. pela passagem de macas.

para aprender a assumir responsabilidade pelo que faz. decidimos estruturar nossa proposta num trabalho de grupo de sala de espera. Para ela. p. Muitas esperavam confirmar a necessidade da operação. recebe crianças oriundas de diferentes localidades. muitas delas com indicações cirúrgicas de pequena.. outras o tipo e o dia da operação. algumas esperavam saber como estava sua recuperação e outras esperavam a alta do serviço. A periferia poderá ser igualmente estudada. toda criança precisa de contato com outras crianças. “ um tipo de grupo destinado a pessoas que desejam aprofundar-se em determinado tema (.. na medida em que viabiliza a troca de conhecimento sobre esta vivência entre as crianças. para saber que as outras têm sentimentos e problemas semelhantes”.)Todas as colocações devem girar sempre em torno do mesmo e único tema. Neste caso. mas sempre em referência ao tema central. O Instituto Fernandes Figueira/FIOCRUZ é referência na atenção à saúde da criança. Segundo Oaklander (1980. 1999 p. carregados de subjetividade. Sendo um local muito fértil para a troca de experiências e para construção de redes de apoio. que permanece sempre figura”(Ribeiro. Isto é. Além disso. e consequentemente a descoberta de instrumentos de enfrentamento da angústia e ansiedade presentes.” A sala de espera do ambulatório de cirurgia foi o lugar onde encontramos o maior o número de crianças esperando. Por essas características. e para experimentar comportamentos novos. Assim.que antecede a sessão representa momentos significativos. Sua clientela caracteriza-se em geral pela alta complexidade das doenças. pessoas e histórias se tornava mais evidente e localizável. do adolescente e da mulher. optamos por estruturar nossa proposta a partir do conceito de grupo temático. “aquele em que os membros do grupo entram e saem com facilidade. o tema central seria a experiência cirúrgica. optamos por estruturá-lo também como um grupo aberto. Não existe um 132 . 171). “O grupo é um lugar para a criança tomar consciência de como interage com outras crianças. Neste sentido. A sala de espera era o lugar onde esta diversidade de casos. isto é. média e/ou alta complexidade.315) “O trabalho de grupo é a situação ideal para crianças que precisem praticar suas habilidades contactuais”. No caso de crianças em processo operatório este contato é ainda mais importante. pois podem desencadear estados emocionais. Por se tratar de um grupo de sala de espera.

compromisso rígido de freqüência e de permanência. As pessoas desses grupos já sabem e aceitam o seu funcionamento dessa maneira. (...)Funcionam frequentemente como grupos de espera, de reflexão, onde um efeito terapêutico secundário pode acontecer e a prática mostra que acontece, pois basta que as pessoas se reúnam com sinceridade para que o encontro se torne viável”. ( Ribeiro, 1994, p.94)

Por tratar-se de um grupo de crianças, encontramos a necessidade de estruturar uma proposta que pudesse ser vivenciada ao longo do encontro. Algo que fosse mais do que a simples explicação dos procedimentos e das rotinas. Neste sentido nos fundamentamos no conceito de experimento. Na Gestalt terapia, segundo Polster e Polster (2001), o experimento é um meio de aprofundar o contato e uma tentativa de recuperação da conexão entre o falar sobre e a ação. Isto porque, o experimento é atuação. É mais que o discurso, é atenção focada naquilo que se faz quando se faz. É a integração entre o falar, o agir e o pensar. Para Zinker (2007, p. 145), “o experimento gestáltico é uma forma de pensar em voz alta, uma concretização da imaginação da pessoa, uma aventura criativa”. Segundo ele, os propósitos do experimento são: aumentar o alcance da awareness, ampliar o entendimento de si mesmo, expandir a liberdade de agir no ambiente com eficiência e aumentar o repertório de comportamentos numa variedade de situações. Zinker afirma que em grupo o experimento é poderosamente eficaz porque conta com o apoio da ampla criatividade de todos, e ainda, é apenas um caminho para iniciar e ampliar o processo de contato. Segundo ele, “O experimento se dirige ao cerne da resistência, transformando a rigidez em um suporte elástico para a pessoa. Não precisa ser pesado, sério, nem ter uma comprovação rigorosa; (...) não precisam brotar de conceitos; podem começar simplesmente como brincadeiras e

desencadear profundas revelações cognitivas”.

Neste sentido, o experimento

gestáltico se mostrou integralmente coerente com a nossa proposta de intervenção. Revelou-se um meio interessante de possibilitar o contato de cada criança com suas vivências anteriores, expectativas, ansiedades e angustias presentes no aqui-eagora, e ainda possibilitar a troca de experiências entre elas, no sentido de ampliar os instrumentos de apoio de cada uma e do grupo ao mesmo tempo. Mais do que isso, revelou o brincar como um meio de experimentação gestáltica. Sendo assim, optamos por introduzir o brincar como base para toda a estruturação de nossa proposta de intervenção. Entendemos o brincar como:
“uma relação de total aceitação e confiança no encontro corporal de uma pessoa com outra;

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com a atenção posta no encontro e não no futuro; não no que virá, mas sim no simples fluxo da relação - fundamental para o desenvolvimento da consciência corporal e o lidar com o espaço. (...) É portanto inocente e transcorre sem tensão e angustia, como um ato que se vive no prazer e é o fundamento da saúde psíquica, porque se vive sem esforço mesmo quando no fim há cansaço corporal.” (Maturana e Verden-Zoller, 2004, pag. 230)

As crianças são capazes de lidar com complexas dificuldades psicológicas através do brincar. Elas procuram integrar experiências de dor, medo e perda. Brincando a criança coloca-se num papel de poder, em que ela pode dominar os vilões ou as situações que provocariam medo ou que a fariam sentir-se vulnerável e insegura, como é, por exemplo, a situação cirúrgica. Para Kishimoto (2000), a brincadeira de faz-de-conta, também conhecida como simbólica, de representação de papéis ou sóciodramática, é a que deixa mais evidente a presença da situação imaginária. O faz-de-conta permite não só a entrada no imaginário, mas a expressão de regras implícitas que se materializam nos temas das brincadeiras. Para Oaklander (1980, p.161),
“Nos jogos dramáticos criativos as crianças podem aumentar a autoconsciência que possuem. Podem desenvolver uma consciência total de si próprias – do corpo, da imaginação, dos sentidos. O drama torna-se um instrumento natural para ajudá-las a encontrar e dar expressão a partes ocultas e perdidas de si mesmas, e com isso desenvolver força e identidade. Nos jogos dramáticos criativos, as crianças são chamadas a experienciar o mundo a sua volta, bem como suas próprias formas de ser. No sentido de interpretar o mundo a sua volta e transmitir idéias, ações, sentimentos e expressões, elas mobilizam todos os recursos que podem reunir dentro de si: visão, audição, paladar, tato, olfato, expressão facial, movimento corporal, fantasia, imaginação, intelecto.”

Sendo assim, o brincar é uma linguagem de possibilidades, na qual a criança se sente autorizada e segura para vivenciar suas mais íntimas fantasias. É, portanto um potencializador do contato. Entendendo contato como “a consciência “de” e o comportamento “para” com as novidades assimiláveis, e a rejeição das novidades não assimiláveis” como definem Perls, Hefferline e Goodman (1997). Ou ainda, “o sangue vital do crescimento, o meio para mudar a si mesmo e a experiência que se tem do mundo” (Polster e Polster, 2001). Por tudo isto, o brincar se revelou um rico instrumento de intervenção com crianças que experimentam situações de angústia e estresse. Nesse sentido, optamos por introduzi-lo em nossa proposta de intervenção. No nosso trabalho, desde o momento em que nos apresentamos até o momento em que nos

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despedimos utilizamos a linguagem lúdica como mediadora da nossa relação com as crianças, com as famílias e com a equipe de maneira geral. Nossos instrumentos, também são carregados desta forma de comunicação: utilizamos brincadeiras de apresentação, desenhos sobre o espaço hospitalar, contação de histórias infantis sobre a operação, brincamos de operar bonecos, nos fantasiamos de médicos, visitamos as enfermarias onde as crianças operam, cantamos músicas que nos ensinam a respirar quando estamos ansiosos, enfim, lançamos mão de uma rica gama de instrumentos lúdicos que potencializam o encontro durante os atendimentos.

O GRUPO DE ACOLHIMENTO E ACOMPANHAMENTO DE CRIANÇAS PARA CIRURGIA DO PROGRAMA SAÚDE E BRINCAR

O projeto conta com uma equipe interdisciplinar formada por uma psicóloga, duas terapeutas ocupacionais, dois estagiários de psicologia e outro de pedagogia. Nossa metodologia de trabalho consiste na realização de grupos de acolhimento para crianças em processo cirúrgico e seus familiares. A base do trabalho é o brincar. Estes grupos acontecem uma vez por semana por um período médio de três horas. O ingresso no grupo pode se dar por encaminhamento médico ou por demanda espontânea da família do paciente. Trata-se de um grupo temático aberto, isto é, o foco da discussão é a operação. E as crianças podem entrar e sair do grupo quando desejarem. Não existe cobrança de freqüência, nem de permanência no grupo. O que mantém as crianças conosco é o desejo delas de permanecerem neste encontro. A dinâmica do grupo segue um roteiro de proposta de atendimento que abarca dinâmicas de apresentação, desenho, contação de histórias sobre operação, brincar temático, visitas a enfermaria de cirurgia pediátrica e oferta de uma cartilha interativa com informações sobre a operação em liguagem acessível e lúdica. Para isto, utilizamos como instrumentos de trabalho: mobiliário infantil, material de reprodução gráfica (lápis de cor, giz de cera e papel ofício), avental contador de história, bonecas temáticas, instrumentos médicos de brinquedo, vestuário médico, e

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cartilha temática, criado pelas pesquisadoras. Concomitante ao atendimento às crianças, acontece o atendimento aos responsáveis, através de breves entrevistas individuais sobre a experiência cirúrgica daquela família. A criança é acompanhada no grupo antes e depois da operação. E sempre que desejar. Os encontros acontecem na sala de espera do ambulatório de cirurgia pediátrica do Instituto Fernandes Figueira/ Fiocruz. Enquanto as crianças aguardam atendimento médico, podem participar das atividades conosco. Participam do trabalho crianças entre 3 e 11 anos em: investigação cirúrgica, pré-operatório, internação cirúrgica e pós-operatório e suas famílias, irmãos inclusive. O trabalho aborda crianças com mal-formações congênitas que necessitam passar por várias operações; bem como crianças com indicações cirúrgicas pontuais. Crianças internadas na enfermaria de cirurgia pediátrica em préoperatório também são convidadas, quando liberadas pela equipe médica. Semanalmente são atendidas em média 20 crianças e suas respectivas famílias. Representando um total de cerca de 960 atendimentos anuais. Após cada encontro é feito registro em um diário de campo dos atendimentos. Neste diário são registradas o número de crianças atendidas, as patologias e cirurgias de cada uma, a forma como cada uma esteve presente e contribuiu para o grupo, além de falas e observações trazidas por responsáveis ou membros da equipe médica do ambulatório. Para avaliação dos resultados, é feita uma leitura transversal do material registrado, seguindo a metodologia de análise de conteúdo proposto por Bardim (1979).

RESULTADOS

Os resultados aqui apresentados são produto de nossas observações no campo e de nossos registros dos atendimentos. Temos observado que, de maneira geral, as crianças que participam do grupo apresentam enorme prazer em brincar de operar e conversar sobre a operação conosco. Mostram-se receptivas ao encontro e abertas a dividir suas experiências. Quando internadas para a operação se remetem as histórias que são contadas no grupo e as brincadeiras que lá são realizadas. Em geral, apresentam-se mais colaborativas durante as consultas ambulatoriais e mais

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seguras durante o período de internação. Isso nos faz pensar que a nossa estratégia de intervenção vêm contribuindo para a criação de um vínculo de maior confiança entre esta clientela e a equipe da cirurgia pediátrica, como nos declarou uma cirurgiã “Vocês não sabem, mas ver as crianças entrando no consultório sorrindo, vestidas de médico, têm aliviado a tensão da rotina do ambulatório para quem atende e deixado as crianças mais colaborativas. Todos ficamos menos angustiados”. Durante os atendimentos é comum que as crianças expressem medos e fantasias sobre a doença, sobre o espaço, sobre a rotina e os procedimentos hospitalares. Isto aparece claramente no discurso com frases como, “operar é abrir a barriga e sangrar muito. Depois costura. E não pode brincar” dita por um menino de 6 anos em pré-operatório de uma hérnia. Ou ainda, “eles vão cortar o meu piru?” como nos perguntou um menino de 4 anos em pré-operatório de fimose. Mas também aparece na brincadeira e nos desenhos. Comumente durante o desenhar as crianças reproduzem seringas enormes, camas hospitalares, monstros no hospital, e mais raramente até pessoas mortas. Durante a brincadeira de operar elas também reproduzem nos bonecos o que acreditam que possa acontecer com elas. Todas as dúvidas e colocações são recebidas com muita espontaneidade e autenticidade. Acreditamos que é possível tratar da angústia da criança diante da operação de forma acolhedora, receptiva e verdadeira. Em hipótese nenhuma negamos os riscos que elas correm quando elas nos perguntam. Talvez seja essa veracidade que as deixa tão disponíveis para o encontro conosco. Ao permitir que as crianças expressem seus medos e fantasias, temos observado que elas se tornam mais autorizadas a questionarem sua própria doença, os procedimentos, as rotinas e até as relações com outros membros da equipe. Durante os encontros é comum que as crianças em determinado momento contem suas experiências no espaço hospitalar e perguntem como será a operação, como será o corte, se elas sentirão dor, se elas irão dormir e depois acordar, se elas vão poder brincar e ir para a escola, etc. Acreditamos que por utilizarmos o brincar como linguagem mediadora desta relação, conseguimos trazer estas informações de forma acessível e vivencial. Assim, o brincar se mostra um facilitador do contato da criança com outras, consigo mesma e com a própria situação. Dessa forma, podemos afirmar que o trabalho vem favorecendo a sociabilidade e a troca de

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experiências entre estas crianças, seus familiares e outros usuários que vivenciam experiências similares. A medida que as crianças contam suas histórias e as representam durante o brincar, outras crianças e famílias recebem estas histórias e refletem sobres as suas próprias. Durante o grupo é comum uma criança tentar consolar a outra contando-lhe suas próprias experiências, o que sabe sobre a operação, o que ouviu de outras crianças no grupo, o que viu nos passeios na enfermaria, etc. De certa forma, o grupo funciona como uma rede de apoio entre as crianças, mas também entre os responsáveis. Certa vez nos disse uma mãe cujo filho participa do grupo “É bom saber que toda vez que tenho dúvidas ou preciso apenas desabafar posso contar com o grupo. Conhecer todo o processo e trocar experiências com outras mães fazem toda a diferença”. Para os responsáveis o grupo funciona também como uma espécie de modelo. Ao verem como nós conversamos com as crianças sobre temas tão delicados, e ao perceberem como elas precisam falar do que elas estão pensando, como elas se tranqüilizam tirando suas dúvidas, os responsáveis se sentem mais encorajados a iniciarem estas conversas em casa. Reforçamos sempre a necessidade de serem autênticos e descobrirem sua forma de dialogarem com suas crianças a partir de seus instrumentos pessoais. A forma como o grupo conversa sobre a operação não é a única forma existente de lidar com esta problemática, é apenas a nossa forma. Assim, podemos afirmar que o trabalho vem possibilitando maior encorajamento dos pais para conversarem com a criança sobre a cirurgia. De forma geral, o trabalho vem transformado a relação da criança e sua família com o espaço hospitalar, fortalecendo a autonomia e a segurança da família nesta instituição. Comumente ouvimos declarações dos responsáveis como esta, “Estou mais confiante na operação. Agora sei que este hospital está preocupado conosco.” Isso nos faz pensar que nossas estratégias também estão contribuindo de maneira significativa para a humanização destes atendimentos.

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CONCLUSÕES

Assim como Zinker (2007) acreditamos que a gestalt-terapia é uma permissão para ser exuberante, sentir contentamento, para ser criativo. E este é sem dúvida um trabalho de criatividade. Utilizamos o brincar como suporte da nossa relação com as famílias, equipe e principalmente com as crianças. Estas estratégias vivenciais nos colocam em ação, em movimento. Assim, privilegiamos o encontro autêntico e espontâneo entre as pessoas. Porque acreditamos no potencial de saúde do ser humano. E principalmente porque entendemos que não é possível trabalhar com pessoas, qualquer que seja a temática central, se não de forma integral. Nesse sentido, o brincar e a gestalt-terapia conversam e compõe um rico cenário teórico e prático para a intervenção com crianças em processo cirúrgico. Com este trabalho, pudemos observar que através do brincar livre, articulado com outros experimentos lúdicos, as crianças ampliavam seu potencial de fazer contato com a situação cirúrgica, com seus medos, fantasias, suas dúvidas. Assim tornavam-se mais aware de si, e a mudança de um estado de desconfiança e angústia para um outro de maior tranqüilidade e autonomia fluía de forma espontânea. Bem como nos garante Polster e Polster (2001, pag.113) “A mudança é um produto inevitável do contato porque apropriar-se do que é assimilável ou rejetiar o que é inassimilável na novidade irá inevitavelmente levar a mudança. (...) A pessoa não precisa tentar mudar por meio do contato; a mudança simplesmente acontece”. É isso que experimentamos no grupo de acolhimento de crianças para cirurgia. Nosso trabalho de fato não se preocupou em mudar o estado de ansiedade das crianças, mas o fez na medida em que viabilizou o contato. Paradoxalmente, não acreditamos na possibilidade de preparar alguém para o que ainda não aconteceu. Nem vemos muito sentido nessa demanda. Nossa intenção é auxiliar a busca de autonomia e empoderar essas crianças e seus familiares durante o processo operatório. Acreditamos que ao se sentirem participantes nas escolhas e caminhos do seu tratamento a criança e sua família podem se sentir mais seguras para enfrentar os desafios e angustias inevitáveis da experiência operatória.

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É necessário explorar sua influência nas mudanças das relações afetivas e suas conseqüências psicológicas e sociais. Quais são as possibilidades relacionais da existência humana na era das relações virtuais? Quais os impactos que as novas redes relacionais que estão sendo desenvolvidas trazem para o indivíduo e para os grupos sociais? O tema central visa explorar o cenário contemporâneo a partir das inovações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas em nossa sociedade.” RESUMO Nossa proposta nesta mesa-redonda é promover uma reflexão nos participantes sobre a visão ecológica da Gestalt-terapia e da Ecopsicologia e das conexões destas escolas com a realidade sócio-ambiental que vivemos no momento. novos espaços virtuais sugiram e. aos poucos. E assim promover uma interrogação das questões existenciais e relacionais das possibilidades humana na era da Globalização. Com o desenvolvimento atual da tecnologia.“ECOS NA PSICOLOGIA: CONEXÕES DO PENSAMENTO GESTÁLTICO E ECOLÓGICO COM AS QUESTÕES DO CONTEMPORÂNEO. A partir destas questões. como os humanos estão praticando esse diálogo? A relevância deste tema surge a partir dos questionamentos acerca do modo 142 . Ecologia Humana e Globalização. pretendemos discutir o “como” a Gestalt-terapia se coloca frente a estes fenômenos e de possíveis propostas de atuação do gestalt-terapeuta neste contexto. Buscaremos falar um pouco da experiência do homem na atualidade através do olhar de alguns autores que tem tratado sobre os temas específicos da relação do homem com os fenômenos da contemporaneidade. ECOLOGIA HUMANA E GLOBALIZAÇÃO O presente trabalho tem como objetivo promover uma reflexão sobre Ecologia Humana no contexto contemporâneo. esse quadro está alterando os padrões sociais de comportamento.

O espaço e o tempo nas relações humanas foram alterados definitivamente com a nova realidade tecnológica. o ponto de partida será a compreensão do homem contemporâneo diante do processo da revolução tecnológica. sobre a experiência relacional de diversos clientes de terapia ao longo últimos anos e das conseqüentes mudanças ocorridas no comportamento humano. e particularmente para que se possa confrontá-la de maneira efetiva – o que ocorreu com todas as 143 . A partir de uma descrição do sociólogo Zymunt Bauman. é apresentada a idéia de uma mudança significativa da condição humana com o surgimento de uma “modernidade líquida”. O presente trabalho provém de inquietações e reflexões pessoais oriundas da atividade de psicoterapeuta individual e de grupos.peculiar com o qual a sociedade caracteriza suas redes de relações sociais. que funciona não mais por confinamento. mas como uma atitude. uma época. na sociedade. Em outro livro. Bauman retrata essa nova condição: “Vai levar muito tempo para que se assimile a nova situação global. por conseguinte. Que tipos de relações estamos vivendo? Quais os efeitos psicológicos no panorama da globalização? Que tipos de controle estão inseridos neste novo contexto contemporâneo? Segundo Deleuze: “Estamos entrando nas sociedades de controle. p. É importante ressaltar que as transformações tecnológicas que impactaram o cotidiano das relações geram conflitos significativos no funcionamento do indivíduo e. Amor Líquido. os clientes de terapia vêem apresentando novos tipos de relacionamentos que emergiram a partir das novas ferramentas tecnológicas disponíveis.” (2006. uma sociedade que não se fixa no espaço e que contrasta com a solidez de um ambiente previsível. Como nossas fronteiras estão sendo configuradas? Como o avanço tecnológico e científico se manifesta na qualidade das relações humanas e regem a organização social contemporânea? Segundo Bruno Latour define a modernidade não como um tempo. Fazendo um paralelo com as idéias de alguns sociólogos e filósofos e o advento das novas tecnologias. mas por controle contínuo e comunicação instantânea.216) Ao longo das duas últimas décadas.

Partindo desse princípio. talvez possa nos colocar na presença de uma complexidade das interações humanas e ambientais. gerando um ajustamento mais criativo para uma vida mais saudável. 42-43) Nas afirmações desses autores. a abordagem gestáltica sustenta uma concepção do ser integrado ao meio num processo de ajustamento criativo e alinhado com os novos paradigmas de ciência. a Gestalt-terapia é uma abordagem de psicoterapia que acredita no ser holístico. o homem precisa estar incluído na sociedade e. com o outro e com o mundo. Com um olhar dialógico para a Ecologia Humana.transformações realmente profundas da condição humana. pode-se buscar entender através das teorias de base da Gestalt-terapia – Organísmica. talvez seja possível refletir a importância do processo criativo de ajustamento dentro das situações de um sistema de contatos para o homem contemporâneo. o ser integrado ao meio. p. Durante o desenvolvimento do trabalho. dentro de uma visão biológica. psicológica e sociológica. assim como investigar qual a resposta emocional gerada nessa sociedade 144 . tais como fisiologia humana. Um dos pressupostos mais importantes desse trabalho é identificar e investigar os padrões e processos da Ecologia Humana na era da globalização. Segundo seus autores. Perls. a compreensão do indivíduo em seu momento presente. cultura e subjetividade. p. O propósito da Gestalt-terapia é a conscientização e.141) A idéia de uma sociedade líquida. É importante se refletir sobre as relações e interações que são estabelecidas dentro de um novo enfoque. psicologia ou psicoterapia. mas social. em qualquer estudo de ciências do homem. na estrutura de crescimento proposta pela Gestalt-terapia. O ser humano é dinâmico e. conseqüentemente. Holística.” (2003. por conseguinte. temos de falar de um campo no qual interagem pelo menos fatores socioculturais. Desse modo. A concepção de Fronteira de Contato. estabelece a experiência de fronteira entre o organismo e o meio. Hefferline e Goodman: “O organismo/ambiente humano naturalmente não é apenas físico. definindo-se como um estudo dos ajustamentos criativos. de Campo – quais as verdades inerentes a essa nova realidade relacional do indivíduo. animais e físicos. considerar a importância da experiência de integração. Uma vez que sua meta principal é a conscientização do indivíduo consigo mesmo.” ( 1997.

em 1926. Segundo Perls. 7) condizente com a concepção de campo. A TEORIA DA GESTALT-TERAPIA E A “FALTA DE TATO” DO HOMEM CONTEMPORÂNEO A Gestalt-terapia é uma das abordagens em Psicologia reconhecida com pertencendo ao eixo das escolas fenomenológicas e existenciais. 28)*.cit. propôs a adoção da Teoria de Campo como a mais adequada. Na introdução desta primeira obra de Perls (1969). p. o criador desta abordagem. No entanto. Jan Smuts.. o pensamento holístico e a Teoria organísmica. no período em que o casal residia na África do Sul. Acreditava que só através do conceito de 145 . residia também na África do Sul. escrito com a colaboração direta de Laura Perls e publicado no ano de 1942. para contrapor-se a este modelo. Ele recomendava a leitura do livro de Smuts não só para os profissionais das áreas biológicas mas também para aqueles das diversas áreas das ciências. Smuts.globalizada. havia feito uma séria crítica ao modelo científico que dominou o século XIX e. o Holismo é uma atitude pela qual nos damos conta de que “o mundo consiste “per se” não apenas de átomos. o contato de Perls com a obra de Smuts era anterior a sua ida para lá pois. A principal influência do pensamento holístico se faz através da importância da obra de Smuts na formação intelectual de Fritz Perls. mas de estruturas que possuem um sentido diferente do que o da mera soma de suas partes. já conhecia e admirava a obra deste autor. em sua obra. exercendo funções bastante significativas no governo daquele país. Diante destes pressupostos podemos afirmar que a Gestaltterapia possui afinidade com o olhar holístico e ecológico sobre o homem enquanto um ser bio-psico-social e cultural.” (op. Fome e Agressão” de Fritz Perls. É importante comentar que o termo Holismo foi tirado do livro “Holism and Evolution” (1926) cujo autor. O conceito de Holismo é apresentado no livro “Ego. desde que fora assistente direto de Kurt Goldstein. ele declara a intenção de utilizar-se do Holismo como “uma nova ferramenta intelectual” (p. Segundo Lima (2005). Tem como alguns dos seus pressupostos básicos a Teoria de Campo.

O Holismo seria uma tendência sintética do universo em evoluir através da formação de todos (wholes).. Grande parte das considerações feitas por Kurt Goldstein em seu livro “The Organism”. cit. Este método. Quanto à visão de ser humano. que uma visão da teoria de campo já se fazia presente na obra deste autor. Para ele: “Matéria e vida consistem. que Goldstein nomeou de holístico. publicado na década de 50 e recentemente reeditado nos Estados Unidos graças ao esforço do neurofisiologista Oliver Sacks. propunha-se a entender o organismo como um todo e não como a soma de partes isoladas. No livro “The Organism” Goldstein revela a intenção de propor um novo método para o estudo dos seres vivos. se não houvesse uma reconsideração desta visão. Pois. a limitação dos conceitos mecanicistas teve a função de simplificar os problemas das ciências e do pensamento da época mas. Pelo método holístico. são transpostas pela Gestalt-terapia para explicar o processo de auto-regulação organísmica do homem de modo abrangente. que por si só já apontava suas afinidades também com o pensamento holístico e com uma visão de campo. p. contida na teoria holística de Kurt Goldstein. desde seus primórdios. ao se estudar os seres vivos . Para ele. 97) Fica evidente nas idéias de Smuts. de unidades estruturais ordenadamente agrupadas em conjuntos naturais que denominamos corpos ou organismos.” (op. este defendia que o sentido de “ser” só é possível através da experiência conjunta de existência com os outros e no mundo. principalmente o homem.toda e qualquer forma de experiência é válida para o entendimento global do funcionamento deste ser. e adotadas por Perls. nenhum tipo de experiência deve ser excluída.campo a visão da natureza poderia ser restituída de seu caráter fluido e maleável. Esta visão fenomenal trazida pela teoria 146 . Outra influência bastante marcante na construção das bases epistemológicas da Gestalt-terapia é a Teoria Organísmica de Kurt Goldstein. pensar o universo nesta perspectiva é pensá-lo como um sistema de forças que interagem e se inter-conectam produzindo mudanças constantes. a ciência continuaria tratando dos processos da natureza dentro de uma ótica reducionista e superficial. atômica e celularmente. A realidade é ordenada e agregadora. Até mesmo as células são sistemas ajustáveis que funcionam em um modelo de auto-organização semelhante aos sistemas sociais.

com seu sentido de ser-no-mundo. ele perde um tanto do “tato” necessário no seu lidar com o mundo que o cerca. de modo a lhe oferecer informações precisas sobre as condições do meio e sobre si mesmo (contato consigo mesmo e contato com o meio). critérios de julgamento adequado daquilo que condiz com seu processo de auto-regulação organísmica. ao mesmo tempo. na 147 . Após o relatório do IPCC/ONU governos. Quando o homem experiencia um empobrecimento no seu ciclo de contato. cujas conseqüências tem sido alvo de alertas há décadas. sendo uma das premissas da abordagem gestáltica. agir neste meio. empresas e cidadãos foram chamados a assumir essa responsabilidade e encontrar formas de mitigar o impacto ecológico de nossa civilização. o homem na Gestalt-terapia é entendido como um ser em constante relação e que se constitui no mundo. Quando existem bloqueios neste ciclo do contato. em maior ou em menor grau. sem deixar de levar em consideração as implicações holísticas e ecológicas de suas próprias ações.organísmica de Kurt Goldstein é bastante próxima ao descrito também por Kurt Lewin na sua Teoria de Campo. Perde a possibilidade de discriminar suas próprias necessidades e. A base deste pensamento é a Teoria do Contato que acredita que a auto-regulação organísmica se dê em um fluxo interacional permanente entre o homem e o meio que o circunda. As pretensões tecnológicas de emancipação que vieram com a modernidade são vistas agora sob olhar crítico. Deste modo. ao mesmo tempo em que modifica a realidade constantemente. Para que este fluxo interacional se dê de forma satisfatória é imprescindível que os sistemas de contato do sujeito estejam funcionando de modo eficaz. O “adoecimento” na Gestalt-terapia pode ser compreendido como um processo de desconexão do homem com suas próprias necessidades e. ao mesmo tempo. o homem pode perder. A RELAÇÃO NATUREZA/NATUREZA HUMANA NO CONSULTÓRIO: UM DIÁLOGO ENTRE A GESTALT-TERAPIA E A ECOPSICOLOGIA Muito foi debatido na última década sobre a responsabilidade das ações humanas sobre as alterações do clima do planeta. Estar em contato siginifica apreender as informações que o meio nos dá e. do mesmo modo. de poder identificar quais as ações no meio adequadas à satisfação das mesmas.

como ciência. permite profundas reflexões sobre a qualidade das interações entre o ser humano e seu meio. no entanto. para além das dimensões políticas e econômico-tecnológicas? E quais as origens dessa visão dissociada? Até onde a Psicologia. a edição de primavera de 1995 do GestaltJournal foi totalmente dedicada às conexões entre Ecologia e Gestalt-Terapia. Até onde nossa visão de nós mesmos. A Política e Economia. sobre nosso afastamento de 148 .medida em que vamos nos dando conta do impacto ambiental da sociedade tecnoindustrial. foram feitos por Theodore Roszak (1995) em sua palestra como convidado especial da Décima Sexta Conferência Anual do The Gestalt Journal. no que Greenway (1995) chamou de wilderness effect. A visão de ser humano sustentada pelos fundamentos teóricos da abordagem gestáltica. Torna-se urgente explorar o alcance dos pressupostos teóricos da Gestalt-Terapia em situar e compreender o homem em crise com seu habitat planetário pois. que bem podem soar como provocações a nós gestalt-terapeutas. por exemplo. como à afirmação de Paul Goodman na Introdução do Gestalt-Terapia (1997). Até onde essas relações são funcionais? Até onde não esconderiam elementos de psicopatalogia? Onde se perdeu o sentimento de pertencimento ao ambiente. Na medida em que podemos admitir a presença dessa disfuncionalidade podemos fazer algo a respeito. de fato. não está por trás da atual situação de risco ambiental. talvez não sejam as únicas responsáveis por esse quadro. e nos remetem a uma Ecopsicologia – termo cunhado pelo próprio Roszak (1992) para definir o diálogo necessário entre os dois campos. como seres dissociados de um sistema maior. tem parcela de responsabilidade nisso? Esses questionamentos. e que está de acordo com a visão sistêmica e holística da Gestalt-Terapia com respeito a uma psicologia da saúde? Que respostas poderia nos oferecer a GestaltTerapia para um entendimento de nossas relações com os ambientes naturais intocados como. Como resposta a essas provocações. trata-se de um quadro de relações disfuncionais com o mundo natural. e isso nos remete tanto à proposição de Freud (1994) da necessidade de um psicanálise da cultura. um ser em relação. que outros povos souberam preservar. uma qualidade especial de awarness relatada após longos períodos em ambientes naturais? Muitas perguntas surgem destas reflexões.

ajustamento criativo. até onde isto ocorre? Quantos terapeutas foram testemunhas de tamanha mudança numa esfera que está além dos interesses e necessidades organísmicos? Ou será que são nossos condicionamentos culturais é 149 . e podem ser incoerentes com nossos papéis de gestalt-terapeutas. Porém. são também nossas referências como pessoas. Profundas implicações éticas. Serão focalizadas as implicações para o conceito de crescimento. neurose. a serviço de um roteiro social centrado na polaridade industrialismo/consumo. na esfera afetivo-existencial. bem como as respostas de gestalt-terapeutas a seus pontos de vista. Algumas crenças que condicionam valores e sentimentos estão tanto na raiz da cultura Judaico-Cristã como também na raiz da disfuncionalidade ambiental. à luz da visão gestáltica de saúde. teórica e filosoficamente. entre os mais preparados para acolhida da ruptura. coerente com a Teoria do Campo. estão presentes na transição para a consciência da interconexão e interdependência entre organismo e meio. E como refazer o caminho? Quais os limites do setting terapêutico gestáltico para integrar a vivência do aceitar-se natureza. até onde nós como cuidadores e parceiros do resgate da saúde não guardamos em nosso íntimo os valores disfuncionais da cultura? É sabido que os conteúdos psicológicos reprimidos na vida pessoal de um psicoterapeuta não são acolhidos quando trazidos por um cliente. quando este se dá na direção de um ego urbano. Porém. dissociado da ordem e dos ciclos observados apenas pelo contato direto com a natureza. rompendo a dissociação com nossa raiz biológica? Teoricamente nenhum. Compartilhamos nós da mesma insensibilidade cultural aos sistemas que dão suporte à vida? Não é improvável que um gestalt-terapeuta carregue tais introjeções. serão apresentados sucintamente os principais pontos do pensamento de Theodore Roszak (1995) expostos na citada Conferência. esclarecidas em Buber (1977). maturidade. do antropocentrismo. o setting gestáltico está.uma percepção sistêmico/gestáltica da realidade. responsabilidade e auto-regulação. Ao contrário. que é a forma natural e não fragmentada com que ocorre a percepcão. Permeando essa reflexão. Em outras palavras. como o antropocentrismo dominador em relação aos outros sistemas de vida. na prática. já que nossa abordagem foi a primeira das grandes escolas terapêuticas a assumir a então revolucionária perspectiva sistêmica.

natureza/natureza humana – de sentir-se parte do mundo natural. porém desqualificadas culturalmente? Embora imersa nesse contexto.que não nos permitem considerar que a esfera transindividual – organismo/meio. Essas reflexões exigem um aprofundamento de nossa compreensão sobre suas aplicações à nossa prática clínica. 150 . se revolucionária na época de seu surgimento. Integrar a dimensão humana que Roszak chamou de Inconsciente Ecológico a um quadro de referência gestáltico pode ser uma necessidade na formação de gestalt-terapeutas. são necessidades igualmente organísmicas. a Gestalt-Terapia traz uma perspectiva que. e que por ser sistêmica torna-a uma interlocutora privilegiada da Ecopsicologia. torna-se rapidamente a visão mais inspiradora da atualidade.

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visando a promoção da saúde das usuárias do pré-natal e destaca-se a importância da formação do profissional de psicologia na abordagem gestáltica. inclusive o hospitalar. pré-natal Gestalt-Terapeuta. A partir da observação da pouca produção na área. Palavras-chave: gestalt-terapia. objetiva-se criar um espaço de discussão onde são tratados alguns elementos específicos do atendimento em gestalt-terapia. 21 152 . Docente e supervisor (Universidade Estácio de Sá . Como resultado. associados a uma proposta de acolhimento de um novo paradigma denominado de Psicologia da Saúde. observa-se traçar uma articulação entre os temas em uma prática consciente e ética. e eficácia. de seu atendimento em um pré-natal de alto-risco e articulado à prática clínica da gestalt-terapia como suporte teórico e prático. trazendo destaque ainda para o papel do psicólogo em unidades hospitalares.GESTAÇÃO DE RISCO E GESTALT-TERAPIA: UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL? Guilherme de Carvalho21 RESUMO Este trabalho tem por objetivo propor uma aproximação entre o atendimento clínico em gestalt-terapia e o cenário de pré-natal a gestantes de alto-risco. gestante.RJ e Faculdades Maria Thereza Niterói). O papel do psicólogo hospitalar é discutido em termos da importância. Doutorando em Psicologia Clínica (Puc-RJ). no intuito de ampliarmos a área de influência da Gestalt-Terapia para diferentes ambientes. com contribuições significativas para o setor da atenção materno-infantil.

Contudo. inúmeros trabalhos sobre a atuação do psicólogo no hospital e o trabalho do mesmo em relação às idiossincrasias de cada ambiente ou setor da unidade (Campos. sobre a psicologia da saúde (Sebastiani. Nota-se. Sebastiani & Maia. englobam ações direcionadas ao cuidado com crianças. 2000. na literatura da área. a partir do referencial teórico da Gestalt-terapia. 2003). observou a necessidade de uma reflexão mais cuidadosa acerca da prática do profissional de psicologia em uma unidade de saúde pública – hospital geral – e. torna-se necessário um aprofundamento natural em relação ao como o processo de intervenção profissional pode ser realizado na área de pré-natal e atenção materno-infantil. díade mãe-bebê e avaliação gestacional. Buss. 1996. Neste sentido. A área da atenção materno-infantil tem progredido enquanto área de destaque e interesse científicos. Em trabalho recente.INTRODUÇÃO A atuação do psicólogo hospitalar. 2000b. Abarcando um leque enorme de possibilidades de atuação. 2008). existe um fraco interesse sobre a produção científica de um saber legitimado a respeito da eficácia terapêutica da abordagem gestáltica no trabalho do psicólogo em unidades de saúde. Ações de promoção da saúde. o que pode significar a abertura para um caminho frutífero de investigações sobre o tema. 2000. a inserção do profissional na equipe. 1995. 1992) etc. Campos. a operacionalização e articulação da prática clínica. visão acerca da temática da promoção da saúde (Barbosa & Mendes. 1992) e sobre a legislação (Ministério da Saúde. especificamente. A questão da 153 . 2000a. Trucharte. Silva. e o atendimento a gestantes. Nota-se a ausência de trabalhos na área que proponham interfaces entre Gestalt-Terapia e o atendimento de pré-natal. prevenção e manutenção têm obtido máxima preocupação por parte de equipes de saúde e de setores específicos do poder público envolvidos com a legislação e atenção à saúde da mulher e da criança (Ministério da Saúde. 2002). 2005. 2003. recém-nascidos. com ênfase na atenção materno-infantil. foram traçadas algumas aproximações entre o serviço de pré-natal de risco e a atuação/inserção do profissional de psicologia na equipe clínica de suporte à gestante (Carvalho. 2005).

do cuidado com os filhos. 1973). Diante do fenômeno. de fenômeno e de conscientização. desde 1951. de respeito à sua manifestação no momento presente. localizamos diferenças significativas em relação ao setting terapêutico. enfim. o gestalt-terapeuta. promove ajustamentos criativos. vem oferecendo uma nova visão para a ciência psicológica (Rodrigues. mas sim chamar a atenção para alguns elementos da prática clínica da abordagem gestáltica. a partir de um trabalho contínuo de promoção da conscientização dos elementos alienados da personalidade do cliente. assume hoje lugar central no debate entre profissionais “psi” no cenário acadêmico. E. Segundo 154 . A GESTALT-TERAPIA COMO CENÁRIO Inúmeras obras publicadas na abordagem gestáltica dedicaram-se com brilhantismo ao esquadrinhamento teórico e filosófico deste movimento que. através de uma atitude de potência e controle (Fagan & Shepherd. A partir da promoção de um ambiente facilitador. Este estudo não tem intenção de superar os trabalhos já realizados a respeito do histórico da abordagem. e de outro.maternidade. com a publicação da obra de Perls. Spangenberg. Hefferline e Goodman. Observando as três grandes abordagens no interior da ciência psicológica – Psicanálise. empático. e já demonstra impactos no que concerne à relação terapêutica nos consultórios particulares de profissionais de psicologia em diferentes correntes clínicas. 2000. a atitude do gestalt-terapeuta é. frutos do que se convencionar como awareness. 2007). Ribeiro. 2007. paradigmas e metodologias de trabalho. tem-se a plena manifestação do contato. 1985. em sua extraordinária singularidade. Enquanto uma abordagem fenomenológica. por um lado. acima de tudo. enquanto referência clínica e teórica. finalmente. Behaviorismo e Humanismo -. sua atuação pressupõe o entendimento de alguns elementos como a noção de contato. em suas rotinas. de forma a discutir seus alcances e limites. de entrega e disponibilidade ao encontro. Como afirma Spangenberg (2007). A proposta deste trabalho se configura como uma tentativa de discussão acerca da especificidade da Gestalt-Terapia. a parentalidade. todo modelo teórico possui uma metodologia de trabalho e se converte em um enquadre específico. para o atendimento a gestantes. na vida cotidiana das pessoas. que se traduz em um formato de relação terapeuta-paciente.

discussão e aprimoramento por parte do gestalt-terapia. conhecimento direto da situação atual e como o self está nesta situação (op. rumo à sua concretização. significações e vivências mais emocionadas. cit). a tarefa do gestalt-terapeuta. Sua diversidade pode ser discutida em termos de modificações ao longo do tempo (em sociedades distintas) e em uma mesma sociedade. a awareness. sem dúvida.awareness. de forma associada. neste estudo. a satisfação de uma necessidade vital. relacionados ao espaço clínico. a noção de família é geralmente articulada com casamento. a awareness. no sentido de “estar com”.. com aquilo que é” (p. que movimenta o organismo. cuidado com os filhos. e requerem. como família. dialogicamente. assim. Entende-se. A possibilidade de coexistência de modelos em determinados contextos históricos é uma realidade (Rocha-Coutinho. para que o mesmo consiga. junto a seu cliente. alcançar novos patamares. saúde. “awareness é uma forma de experiência que pode ser definida aproximadamente como estar em contato com a própria existência. Em termos históricos.. 2006). NOVOS MODELOS DE FAMÍLIA E DE PARENTALIDADE A proposta de entendimento da noção de família hoje possui uma diversidade grande de sentidos.Yontev (1998). etc. De outra forma. maternidade. 30) Com o intuito de organização e fechamento de gestalts inacabadas. Assim. assumindo diferentes modelos de organização familiar. promove um espaço de autonomia e de nutrição psicológica. Gough (1971) aponta para a delimitação da família a partir do momento em que um par casado ou grupo de parentes cooperam em termos de vida 155 . uma atitude dialógica e a empatia como três instrumentos terapêuticos fundamentais para a Gestalt-Terapia. energizada pela necessidade dominante atual do organismo requer auto-conhecimento.. tanto para o sento comum quanto para o discurso acadêmico. A tarefa terapêutica. Alguns temas são. é a de identificação e auxílio ao trabalho de conscientização da necessidade mais urgente. Enfim. a partir de trocas otimizadas com o “outro”. ao longo do processo terapêutico. configura-se em um projeto organizado e claro de auxílio clínico ao cliente. através de fronteiras de contato.

educação e o lar. estável e legalizada. Como aponta Samara (2004). mas não única). (. A estabilidade da família antiga dependia dessa indiferenciação de interesses individuais. atribuindo diferentes papéis na dinâmica familiar (Costa. desenvolve-se com maior destaque no Brasil a família conjugal moderna. esposa. a concepção de mulher como voltada para a família e para o 156 .” (Costa.econômica e criação de filhos/crianças.. O discurso médico-higienista reforçou estas transformações. 95). Surge a família burguesa.. a noção de família também demonstrou mudanças internas significativas. Existe uma intima articulação entre os interesses econômicos e os tipos de relação na família patriarcal. fundada no casamento por amor e na reformulação dos papéis de homens e mulheres. 1989). quando a influência da figura central do pater famílias em relação às demais figuras do conjunto familiar (filhos. “O pai representava o princípio da unidade de propriedade. de todos os valores que mantinham a tradição e o status da família. o chamado modelo de família extensa do tipo patriarcal. 1989. deve ser relativizado e compreendido enquanto um sistema de relações que assumiu diferentes configurações regionais (urbanas e rurais) e transformou-se com o tempo. esta relação oscilava da mais simples determinação da profissão de um filho até alianças matrimoniais. atenção e realização de desejos e aspirações particulares. escravos. agregados) era determinante.) O convívio familiar não devia nem podia ordenar-se de forma a privilegiar a escuta. De acordo com Costa (1989). da hierarquia. p. esta estrutura é garantida legalmente e dispõe de determinadas dimensões como a econômica. com a mulher como responsável pelo cuidado com os filhos. especialmente durante o período colonial. política e moral. embora tenha sido adotado pela historiografia tradicional com único representante de toda a sociedade brasileira. Com o declínio da antiga família patriarcal (hegemônica. da moral. da autoridade. enfim. Em conjunto com transformações na organização social brasileira. Neste cenário. De acordo com Wagner (2002).

. produtivo. em contraste com o valor atribuído ao trabalho exercido pela mulher no passado. afetivas e. de fora de casa e confere ao homem a possibilidade de realização de um trabalho rentável. isto é.sacrifício como “dona do lar” (Mizhari. baseada em papéis bem definidos quanto ao gênero e à geração. este eixo atribui um novo significado à família. em contraposição à família hierárquica. 2004. quando a glorificação da maternidade e suas responsabilidades não eram temais centrais. 2007. 1978) trouxe um modelo romântico de mulher.. 2006. 178). Tem-se. Partindo de uma compreensão mais ampla das possibilidades de definição de família. “(. devemos considerá-la como 157 . Este fato já traduz certa diferenciação em relação a períodos históricos anteriores. redistribuindo papéis e reestruturando crenças e expectativas em relação aos membros da família. desligando a mulher do trabalho dito “produtivo”. anti-autoritários. assim.” (Rocha-Coutinho. famílias de classes médias brasileiras apresentam hoje uma série de mudanças na sua estruturação. a devoção da mulher ao ‘trabalho de casa’ a tornou dependente das pessoas de quem ela cuida. produtos de sua maternagem. ofertando aos indivíduos (seus membros) uma variedade de escolhas e/ou pluralidade de estilos de vida. Como aponta Rocha-Coutinho (2007). com papéis baseados em valores individualistas. lugar de abrigo. 159). O processo de modernização pelo qual vem passando a família brasileira traz novos elementos a este cenário. Apontam para um direcionamento rumo à igualdade das relações. A partir deste binômio mulher/mãe. De maneira geral. “Assim. uma clara distinção entre um modelo de família igualitária. podemos compreendê-la como uma instância que envolve tanto relações sociais. ela se tornou emocionalmente dependente do marido — um homem escolhido por amor — e psicologicamente dependente de seus filhos. econômicas.) a criação dos filhos estava integrada a outros afazeres das mulheres e não era nem mesmo considerada uma de suas principais tarefas” (p. baseadas no diálogo e não em relações igualitárias (RochaCoutinho. portadora de virtudes e defensora do lar. Demos. p. 2007). ideológicas. como tal.

O surgimento de novas configurações (ou arranjos) familiares notifica mudanças qualitativas na organização familiar contemporânea. Mudanças internas no modelo familiar brasileiro talvez estejam relacionadas a esse movimento de mapeamento-descontinuidade-re-mapeamento. solicitam um re-dimensionamento paradigmático. Especificamente no que tange à atenção à gestante. tais considerações ganham destaque e devem ser analisadas com cuidado e atenção. temos a presença de ordens. familiar são. por vezes contraditórios. Parece que existem modelos co-existentes de família. e no caso.marcada por descontinuidades e contradições. no âmbito da família. a incerteza e a insegurança são sentimentos que permeiam as relações e são efeitos de perdas de referências trazidas pelas condições de vida dos centros urbanos. caracterização da clientela. a atuação do psicólogo clínico. mapas e formas contraditórios. envolvendo papéis de pais. em um trabalho multiprofissional em uma equipe de pré-natal. que geram descontinuidades. filhos. 158 . a partir de mudanças e avanços tecnológicos. avaliação dos agravos e balanceamento do binômio oferta-demanda. De acordo com Figueira (1987) e Almeida (1987). De acordo com Henriques. o conceito de desmapeamento sugere uma metáfora útil para o entendimento das descontinuidades inerentes à família. públicas e particulares. desta forma. Novos avanços da ciência obstétrica e da ginecologia em articulação com o crescimento exponencial da presença do profissional de psicologia em unidades de saúde. ou organização. As mudanças da vida. etc. No interior da organização da vida familiar. de novas relações de trabalho. Féres-Carneiro & Magalhães (2006). associadas à presença de diferentes mapas. do gestalt-terapia. etc. tensão e conflito. avós. Tais mudanças são associadas a transformações no mundo do trabalho e da parentalidade. a instabilidade. em termos de projeto de saúde. Tais elementos trazem certa instabilidade ou menos certezas para a construção natural de um modelo seguro de família. mais cedo ou mais tarde. de parentalidade e conjugalidade na atualidade e justamente a existência de diferentes mapas sobrecarrega o exercício das funções paterna e materna e afeta.

Na área da saúde pública. Aspectos como características biofísicas da pessoa. que abarca todos estes questionamentos e os articula de forma a considerar também aspectos sociais. A Psicologia da Saúde. na sua relação com os processos naturais da existência. preconizado pelo Comitê Técnico do Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (Ministério da Saúde. infelizmente os modelos de estudo do fenômeno humano ainda valorizam uma visão atomista-reducionista. Certamente. balizada pelo entendimento e valorização de sua forma específica de ser-no-mundo e ela necessária contextualização de seu adoecimento. na qualidade de ciência da saúde. o que dificulta a compreensão multifatorial. Neste sentido. 2000). organizada enquanto campo de saber tem como 159 . influentes rumo ao processo de adoecimento. De acordo com Sebastiani (2007). e não somente individuais. a Psicologia durante a construção de um modelo clínico precisava estar atenta aos reflexos naturais deste histórico mecanicista. herança do modelo biomédico. Torna-se importante atentar para uma prática clínica e concepção teórica que relativizem esta questão e que proponham uma visão mais global do binômio saúde-doença. poluição e agravos ambientais. A transposição de um modelo biomédico (causal) de influência para um modelo biopsicossocial tem como resultado maior a intenção de avaliar o indivíduo de acordo com uma visão integral do binômio saúde-doença.UM NOVO PARADIGMA EM SAÚDE Historicamente a ciência psicológica foi marcada pelo paradigma cartesianopositivista à medida que se estruturava enquanto disciplina formal. 1996). surge uma nova proposta denominada Psicologia da Saúde. não como instâncias estanques. isto é. estilo de vida e inadequação dos serviços de saúde refletem esta posição multicausal (Lalonde. mas sim como pólos de um processo mais ou menos funcional (criativo e auto-regulado) da existência de uma pessoa – hoje doente. a preocupação com uma visão global do indivíduo associada com a necessidade de mudança da relação da equipe de saúde com o doente lança luz ao tema da humanização. a compreensão global do paciente.

surgiu uma série de inquietações quanto ao formato da entrevista clínica oferecida às gestantes matriculadas regularmente no Programa de Pré-natal de Alto da Unidade. mas. 1999). A gravidez configura-se enquanto um momento de inquietações e ansiedade.principal função a promoção da saúde através do estímulo ao diálogo entre saberes. o parto. sua mãe. é preciso atentar para possíveis alterações psicológicas no interior 160 . vista enquanto potencial e não como conflito. na direção do redimensionamento do entendimento sobre o binômio saúde-doença. Trata-se de uma mudança significativa de paradigma nos níveis de atenção. Enquanto gestalt-terapeuta. promoção e manutenção da saúde. assim como o puerpério. a avaliação desta situação clínica em específico é marcada por um entendimento próprio do que se convém chamar de crise. no que envolve a paciente gestante de risco. 2002) como uma possibilidade de crescimento e mudança. alterações metabólicas e transformações clínicas são esperadas com maior destaque em gestações de risco. Elementos físicos. de forma complementar. ou ambos (Rosenberg. o climatério. Considera-se o momento da gravidez como uma possibilidade de crescimento e mudança. mas é tida aqui com uma oportunidade de atualização do self. A MATERNIDADE E A ABORDAGEM GESTÁLTICA: MITO OU REALIDADE? A partir da experiência pessoal do autor em uma unidade de saúde do Estado do Rio de Janeiro como componente de uma equipe multidisciplinar de pré-natal. O entendimento desta etapa como o resultado de um processo contínuo de ajustamento criativo (Ribeiro. 2006) parece aproximar a abordagem gestáltica do cenário hospitalar. 2007). instrumentalizar a busca de alternativas para a transformação da vida cotidiana. isto é. além de uma etapa natural para o ciclo de vida da mulher (Maldonado. A definição de risco para uma gravidez pode ser entendida como toda situação que gere uma evolução desfavorável para o concepto. responsabilizando população e gestores de saúde neste processo (Barros & Ferreira. incentiva a autonomia das pessoas na tomada de decisões para suas vidas e cria conscientização acerca das condições e determinantes de saúde. a menstruação. etc.

A Gestalt-Terapia insere-se neste cenário de maneira bastante otimista e traz consigo um olhar específico sobre a experiência do humano e sobre seu potencial criativo. é possível identificar dois momentos passíveis de intervenção psicológica: a gestação propriamente dita (tendo como cenário o espaço do pré-natal) e o puerpério (tendo como focos a situação de amamentação e os primeiros cuidados com o bebê). e a qualidade. Pita e Martins (2007). que possam eventualmente colocar em risco tanto a gestante quanto o concepto durante o período gestacional e em todas as situações peri-natais. pautado pela noção de awareness (Yontef. especialmente em parceria com a enfermagem obstétrica das instituições de saúde para a realização de um atendimento em regime de colaboração e de forma a legitimar este espaço de promoção de saúde. do vínculo gravídico-fetal e.do período gestacional. De acordo com Yamaguchi. Alguns elementos compõem a cena clínica em um atendimento de pré-natal. A avaliação da existência ou não de rede de suporte social de forma a auxiliar a gestante no enfrentamento da situação de risco também se 161 . “A gravidez e o puerpério são situações do ciclo de vida das mulheres que demandam uma atenção especial. Considera-se neste estudo a viabilidade da atuação do gestalt-terapeuta como uma possibilidade privilegiada de observação deste momento tão rico e transformador como a gravidez. À luz do paradigma maior do Humanismo. Em relação ao puerpério. (b) a existência. 1998) e baseado em uma proposta de mudança. se aposta em um trabalho de follow up. 118) Salienta-se que cabe ao psicólogo neste ambiente avaliar: (a) situações de risco psíquico. da visão fenomenológica e de uma atitude empática. daí a importância de um profissional de psicologia no interior da equipe de saúde para a identificação precoce de sinais disfuncionais. avalia-se positivamente a abordagem gestáltica como referencial clínico e teórico para o atendimento de pré-natal à gestante de risco. ou não. por serem estados em que freqüentemente encontramos importantes alterações psicofisiológicas e psicopatológicas” (p. De forma operacional. (c) estados psicopatológicos de destaque.

162 . e ressalta-se a necessidade da formação de novos gestalt-terapeutas conscientes a respeito deste setor tão rico de experimentações clínicas e aperfeiçoamento.é fisiologicamente sensível. a placenta e a constituição do feto . 2007) e uma avaliação psicopatológica mais ampla. Tal abertura ao diálogo é extremamente bem vinda nestas avaliações. pois o período gestacional (além do aleitamento) . Assim. a vantagem da Gestalt-Terapia em relação a outras abordagens clínicas advém de sua sensibilidade e abertura às transformações sociais. De outro lado. e a administração de medicações psicotrópicas constitui um risco em potencial para o feto devido à alta permeabilidade placentária das medicações psicotrópicas por terem um peso molecular baixo ao cruzar a barreira placentária (Rosenberg. especialmente em relação à atenção materno-infantil.mostra útil (Carvalho. 2008). acredita-se no potencial da abordagem gestáltica aplicada a instituições hospitalares. é possível associar a avaliação psicológica do movimento da Gestalt-Terapia. como por exemplo. Em suma. 2007). a Psiquiatria.por envolver sistemas integrados entre o corpo da mãe. em termos de bloqueios do ciclo do contato (Ribeiro. clínicas e teóricas da Ciência psicológica. com características consensuais em relação a outras disciplinas.

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such as functions and contact boundaries. experiments and phenomenology. psicose. gestalt-terapia. psycho. schizoid personality. personalidade esquizóide. O diálogo entre esses dois saberes tem se mostrado relevante no atendimento a clientes com diagnóstico de psicose e transtorno de personalidade borderline. social isolation. isolamento social. The dialogue between these two areas of study has been considered relevant in the treatment of patients with diagnosis of psychotic disorder and borderline personality disorder (BPD). as these are individuals who live under conditions of extreme social isolation and who can benefit from a practice that proposes to make them establish direct contact with practical and social life. 165 . e que podem se beneficiar de uma prática que se propõe a colocar os acompanhados em contato direto com a vida prática e com o social. borderline. tais como funções e fronteiras de contato. gestalt-therapy. Palavras-chaves: acompanhamento terapêutico. ABSTRACT The main purpose of this paper is to present a brief consideration of clinic practice of Therapeutic Accompaniment crossing it with some concepts from Gestalt-therapy. perpassada por alguns conceitos da Gestalt-terapia. Keywords: therapeutic accompaniment. experimentos e fenomenologia. borderline. em se tratando de indivíduos que vivem em situações de intenso isolamento social.GESTALT-TERAPIA E ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO: DOIS CAMINHOS PARALELOS QUE SE CRUZAM GESTALT-THERAPY AND THERAPEUTIC ACCOMPANIMENT: TWO PARALLELS PATHS THAT CROSS EACH OTHER RESUMO Este artigo tem como propósito maior fazer uma breve apresentação da prática clínica do Acompanhamento Terapêutico.

cuja raiz significa “colocar junto. literalmente. de imediato me deparei com a seguinte pergunta: foi-se o tempo em que podíamos conceber o mundo como uma coleção de partes dissociadas? E sem precisar escavar muito. eis que a resposta brota: acredito que esta visão reducionista deixou de ser suficiente . ou seja. Trazendo a reflexão para um âmbito mais específico e avaliando o que tenho vivido no dia a dia do trabalho clínico. para que alcancem melhores condições de autonomia e auto-suporte? Apesar de reconhecidos avanços sociais no campo da saúde mental. 22 Socorro. no Brasil. entendendo esta palavra conforme o grego synhistanai. eu já não sinto nada” 22 INTRODUÇÃO Ao iniciar a elaboração deste artigo. 166 . formulo algumas indagações: que lugar eu tenho ocupado na sociedade ao escolher atuar como terapeuta? Tal prática tem contribuído para um mundo mais humanizado? Que tipo de ajuda tem sido possível oferecer a clientes que relatam sofrimentos tão profundos? O que tem sido importante.“Socorro. estabelecer a natureza de suas relações. pois vivemos num mundo superpovoado e globalmente interligado e interdependente. As dificuldades de nossa época não podem ser entendidas isoladamente. ainda no século passado . e ciente da responsabilidade que temos perante os obstáculos dos tempos atuais. encruzilhada Socorro.” (CAPRA. torna-se mais que pertinente colocarmos em pauta nosso trabalho como gestalt-terapeutas e as implicações que nossa prática incide numa sociedade tão dicotomizada.” Logo. colocá-las dentro de um contexto. “entender as coisas sistemicamente significa.para lidarmos com os problemas que a sociedade contemporânea enfrenta cada vez mais. em suas trajetórias.diga-se de passagem. acostamento. p. alguma rua que me dê sentido Em qualquer cruzamento.39) Tendo como base esta recente ótica ecológica. onde somos um fio particular na teia da vida. música de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz. 1997. na década de 80. tudo e todos pertencem a um grande sistema. em especial a partir do movimento da Reforma Psiquiátrica iniciado.

p.2007. cuja posição é particularmente tão delicada frente a uma sociedade que pouco consegue lidar com as diferenças. 167 .infelizmente a loucura ainda é pensada pelo viés do abandono. tenho escolhido trilhar um caminho que rume nesta direção: do acolhimento.” (ARAUJO. a abordar alguns conceitos pilares da Gestalt-terapia. só para citar algumas ideias que permanecem no imaginário e na conduta popular. espero contribuir no sentido de ampliar os significados e as reflexões dos personagens envolvidos neste cenário e que. todos possam se beneficiar com tal passeio. da impossibilidade e da clausura. sempre visando um regime de variação constante em seu estatuto social assim como da forma que a sociedade entende e lida com a loucura. sejam eles acompanhantes ou acompanhados. Quais medidas nós podemos adotar. Só então poderei traçar as considerações finais acerca das minhas impressões. visando o acolhimento daquele que sofre com algum transtorno mental? “Se a loucura não se encontra mais entre muros de concreto – apesar deles ainda haverem (.) – é a função do acompanhamento terapêutico que poderá levá-lo ao contato direto com a sociedade. de alguma maneira. experimentos e fenomenologia. quais sejam: funções e fronteiras de contato. E para tal. Peripatetizando com e entre esses saberes.. 167) Destarte. passando.. da inclusão e da integração de tais indivíduos. venho apresentar algumas reflexões acerca do entrelaçamento do Acompanhamento Terapêutico com a Gestalt-terapia. questão absolutamente fundamental no presente trabalho. em seguida apresentarei uma breve conceituação destas personalidades que designo como “esquizóides”. da exclusão. Tomando como ponto de partida a contextualização histórica do surgimento da atividade e do termo denominado a partir de agora como AT. Passo a apresentar um estudo sobre o trabalho de Acompanhamento Terapêutico que venho realizando com alguns clientes com diagnóstico de psicose e transtorno de personalidade borderline (TPB). por fim.

Com este pensamento à frente do seu tempo. Franco Basaglia lançou a proposta de um novo modelo de atendimento em saúde mental. ganhou o nome de amigo qualificado. Em se tratando de uma atuação que se propõe em colocar os acompanhados em contato direto com a vida prática e com o social. É possível não só ajudar as pessoas a resgatarem atividades que aparecem comprometidas. a melhor e a mais adequada intervenção terapêutica. sociável. mas também a criarem outras até então incomuns? Como transformar antigos hábitos em novas formas de relacionar-se com o mundo? E o que acontece a partir dessa prática em que o socialis23 é envolvido de forma tão imediata? Em Trieste. se a proposta é desenvolver uma prática que mereça o status de clínica? Faz-se necessário 23 ETIM lat. Mas como podemos pensar na expressão “amigo que acompanha”. devo esclarecer que seccionar não é minha intenção. uma figura que desempenhava importante papel no tratamento em se tratando de ser aquele que acompanhava os usuários com dificuldades de reinserção social. não conseguem ou não podem se beneficiar do consultório..PERCORRENDO O AT Ao falar em Acompanhamento Terapêutico. o qual não tinha como base um único saber específico sobre a loucura ou alguma autoridade que soubesse. concernente à sociedade. quando os primeiros raios da Antipsiquiatria começaram a surgir. Foi desta maneira que surgiu o que. visão esta que parece colaborar com a separação de “neuróticos” para um lado e “psicóticos” para o outro. de alguma forma. desde buscando em casa os que não conseguiam sair sozinhos. estão cindidos em demasia na relação consigo próprio e com o outro. eis a justificativa para a escolha do público com quem venho trabalhando: indivíduos que. colocando-se cada vez mais em situações de isolamento. em sua maioria. um pouco acompanhantes. inicialmente. Basaglia germinou a ideia de que o rol de intervenções fosse aberto ao campo social. social. a priori. todos. convencionou-se o mito de que se trata de uma terapêutica endereçada a pessoas que. Porém. termo que na Argentina e no Brasil. no qual os técnicos pudessem ser. até auxiliando-os em pequenas tarefas cotidianas e/ou em atividades mais complexas. 168 . denominou-se voluntário.

de forma que. acreditando-se que as inovações produzidas na passagem para um setting aberto quase sempre dizem respeito a um “afrouxamento” das técnicas de consultório. irromper potencialidades. é justamente por o AT acontecer em um setting aberto que podemos afirmar tratar-se de uma clínica que pode se dar em qualquer lugar em que das paisagens surja um sentido. (op. parece-me oportuno fazer um esboço do que estou chamando de personalidade esquizóide. Nossa personalidade vai se delineando a partir da relação que estabelecemos com o mundo. O AT fala de uma clínica que se propõe a gerar qualidades. este que num primeiro momento é representado em primazia pela mãe. p. transformando qualquer lugar em um potencial clínico. cujo escopo foi mapear a rua como espaço clínico para a Gestalt-terapia. novo. Mas o que acontece quando esse contato inicial não pode estar atento a todas as necessidades do bebê? Se a criança não encontra estabilidade e segurança no meio ambiente. Partir em caminhada ao lado do que surge enquanto outro. devir”.ressaltar que não se está falando de uma prática pura e simplesmente assistencial. concebida nesta relação acompanhado-acompanhante? “Acompanhar na clínica teria. o sentido de colocar-se ao lado. 138) Outra comparação que acontece de forma equivocada diz respeito ao espaço onde a clínica do AT acontece. este modo encontrado pelo indivíduo para estar no mundo. dessa forma. que toda clínica é acompanhamento. o que acaba transferindo boa parcela das teorias desenvolvidas em práticas de setting fechado para o campo do AT. o que muitas vezes acaba passando a idéia de que o AT é uma prática clínica inferior ou auxiliar. Podemos dizer. desconhecido. PSICÓTICOS E BORDERLINES: PERSONALIDADES ESQUIZÓIDES Seguido a esta sucinta introdução do campo do AT. então. como se desenvolve seu senso de unidade? 169 . Contudo. nada que o difira daquela realizada entre quatro paredes.. Parece colaborar para este equívoco o fato de que ainda há uma literatura parca e dispersa sobre o tema. Neste sentido. sirva como ponto de partida para as posteriores apresentações conceituais. que não apresente peculiaridades terapêuticas.cit.

” (YONTEF. a experiência de déjà vu. que as condições esquizóides manifestas vão desde um estado transitório.cit. até a esquizofrenia propriamente dita. (. Essas características fazem com que a perda ou o afastamento do objeto sejam acompanhadas pelo sentimento de aniquilação do ego. p. como por exemplo. com isso.. tais pessoas assumem uma postura de isolamento. que podem acontecer em perturbações relativamente menores do sentido de realidade. podendo faltar-lhes um sentido essencial de si mesmos. pode auxiliar esses indivíduos herméticos a experimentar uma maneira mais nutritiva de estar no mundo? 170 .” (CELES. p. 1998. uma experiência profunda de desunião consigo próprio. assim como um sólido senso sobre o outro. uma fragmentação do eu. p. um colapso do potencial do indivíduo em sustentar uma totalidade. 306. 56).) Quanto maior o número de estratégias dissociativas para lidar com o objeto. Quero dizer. utilizando-se do arcabouço proposto pela Gestalt-terapia.“O processo de desenvolvimento consiste na diminuição da dependência e na progressiva diferenciação com respeito ao objeto.” Perante um mundo ameaçador à sua precária existência... até a despersonalização completa e a sensação de irrealidade. 55-56) Fairbairn (1980) afirma que “o fenômeno esquizóide fundamental é a presença de dissociações no ego”. maior seria a dependência infantil. grifo meu) Ainda segundo Celes et al (op. “as principais características da dependência infantil são as atitudes incorporativas e a identificação indiferenciada com o objeto. Como as experiências vivenciadas podem ir se integrando às construções a priori destes clientes? Como eles percebem e interagem com o mundo a partir das construções subjetivas acerca de si próprios e como o AT. referindo-me a esses clientes como os que “não conseguem manter um sentido coeso do self por meio de uma sucessão de momentos aqui-e-agora. ou a sua permanência e não superação. 2008. Entre os dois extremos incluo os portadores de transtorno de personalidade borderline e os portadores de transtornos psicóticos de um modo geral. guardando fechado a sete chaves seus conteúdos emocionais e demonstrando-se distante e com dificuldades em estabelecer empatia.

Tempos depois. Algumas semanas se passaram até que ela propôs que nos encontrássemos num parque da cidade. sucedendo a seguinte cena: 171 . senti que ela o havia feito numa proporção maior em relação a todo o restante do quadro. a fim de que pudesse pintar um quadro do meu perfil. como também usado muitas cores alegres. que me olhava profundamente. tais explicações intelecto-racionais não se sustentam frente às experiências concretas (ainda que. ela insista em apagá-las também). a vergonha que ela demonstra sentir em virtude de se considerar uma pessoa vil e desprezível precisa ser constantemente justificada. Ao olhar para o tamanho do meu colo na foto. ela não só havia feito várias “homenagens” a locais que tínhamos visitado. Por exemplo. fui tomada por uma forte emoção diante de toda a generosidade de Ana. Chegando lá. para mim. ao abrir o presente. de forma que os fatos se ajustem aos seus sentimentos. Argumentei que.ALGO ACONTECE NA RUA QUANDO A TOMAMOS COMO CLÍNICA Ana. A despeito de toda a emoção que tomou conta do momento. retroalimentando sua certeza quanto a ser abjeta. pediu que eu lhe emprestasse uma fotografia minha. aguardaria o momento e o local que ela escolhesse para o fazermos conjuntamente. pedindo que eu levasse o quadro. fui compartilhando todas essas minhas impressões com Ana. Ana começou a desfiar seu rosário de justificativas para os erros cometidos em sua pintura. contrastando com sua aparência e modos soturnos. tem como hábito “apagar” partes das experiências que vivencia. Porém. Essa cliente possui um incrível pendor artístico e no último Natal. não fazia sentido vê-lo sem que estivéssemos juntas. em um de nossos encontros. Ana entregou-me o quadro sob fortes protestos para que eu não o desembrulhasse na sua presença. Emocionada. sendo assim. Ao lado do meu rosto. havia ficado feio. uma cliente que acompanho há aproximadamente dois anos. imediatamente após o longo silêncio que se fez enquanto apenas nos olhávamos. por isso. pois ela considerava que tinha cometido muitos erros e. Foi quando um grupo de crianças que brincava nos arredores veio correndo em nossa direção. posteriormente.

. 2001. 111). com dúvidas sobre sua autonomia. . 112). de quem eu tinha ganhado o quadro de presente. p.cit. falando ao mesmo tempo: Sim. . cada pessoa tem a chance de encontrar o mundo de um modo nutridor (ou não) e a diminuição da capacidade de contatar aprisiona o homem na solidão. 172 . tocar.” (POLSTER. dando um sorriso reservado. .Menino: Respondeu que sim. soluçando discretamente) . mantendo-se fechados em seu mundo. “É apenas pela função de contato que a percepção de nossas identidades pode se desenvolver plenamente. mas ainda assim preciso encontrar você para viver. cheirar. Sorrir. os indivíduos com personalidade severamente esquizóide evitam estabelecer contato.Eu: Sorri. só então. APROXIMAÇÕES COM A GESTALT-TERAPIA Mediante contato. poder reunir-se novamente.Eu: Olhei para Ana.Ana: Imediatamente balançou a cabeça negativamente e sussurrou “não”. receber. isso nos possibilita sentir que estamos vivos.” (op. . é muito bonito. falar. que timidamente retribuiu o olhar. “Eu estou sozinho.Um menino: Nossa! É você! (apontando para mim) . p. Perguntei se eles tinham gostado. à medida que essa interação organismo/ambiente acontecer de forma débil. Perguntei se ele gostaria que eu a parabenizasse quando estivesse com ela. Diante dessa impossibilidade de se construir enquanto unidade.Outro menino: Quem pintou? ... (Ana abaixou a cabeça e começou a chorar.. o problema é a rigidez num pólo ou noutro. Expansão e recolhimento fazem parte do contato. ver.Os meninos. Estar em contato com alguém exige reconhecer que há um outro que não sou eu. o que requer separar-se para.Eu: Respondi para a criança que tinha sido uma artista. Se o bebê não pode contar com um ambiente acolhedor e continente. tanto mais restará apenas um esforço do organismo em buscar seus próprios meios numa tentativa de manter a si mesmo com vida. É através do contato que nos expressamos ao mundo e dele nos alimentamos.

Pelo contato queremos dizer a obtenção da comida e a sua ingestão. É uma questão das identificações e alienações do self: se um homem se identifica com o seu self em formação. se expressando através de vivências intercorporais primárias. ela entra em contato com este. devido a identificações falsas. toda função que tenha de ser considerada primordialmente como acontecendo na fronteira. HEFFERLINE & GOODMAN. p. de acordo com suas necessidades? O objeto que é difuso. entrar em conflito. 49) Estou chamando de self o sistema completo de contatos.. se ele aliena o que não é organicamente seu e. em geral. p. 1997. 179) Nessas personalidades esquizóides. não inibe seu próprio excitamento criativo e sua busca da solução vindoura. Contudo. as fronteiras parecem ser sentidas de maneira ambígua. num campo organismo/ambiente. perceber. inversamente. se ele se aliena e. incompleta. Dessa forma. neste caso ele é psicologicamente sadio.“Contatar é. Pensando em termos da própria forma que os seres vivos 173 . não pode ser vitalmente interessante. porque está exercendo sua capacidade superior. “A descrição de saúde e doença psicológica é simples. portanto. Diante da impossibilidade de discriminar qual o evento de maior importância no campo organismo/meio – o que chamamos de awareness – quais meios o organismo encontra para ajustar-se criativamente. pois dilacera a figura/fundo. que varia de acordo com as necessidades orgânicas imperantes e os estímulos ambientais imediatos.” (PERLS. tenta subjugar sua própria espontaneidade. ao organismo e ao ambiente. o crescimento do organismo. dividindo a totalidade da experiência em diversas partes. como se cada experiência se ligasse por tênues fios. agredir. locomover-se. sempre o mesmo ou indiferente não é um objeto de contato. ao contrário. amar e fazer amor. dando a sensação de ser uma pessoa fragmentada. e fará o melhor que puder nas circunstâncias difíceis do mundo. confusa e dolorosa. comunicar.cit. torna sua vida insípida. e. em geral. localiza-se na fronteira do organismo. aprender. mas a própria fronteira não está isolada do ambiente. não resultando em assimilação e crescimento.” (op. pertencendo a ambos.

tanto física quanto psíquica. operando seus sentimentos e ações abortados. O ego dissociado fica impossibilitado de funcionar dentro do sistema de identificações e alienações e “por meio do experimento o indivíduo é mobilizado para confrontar as emergências de sua vida. mas uma potencialidade que no contato se atualiza. gera uma multiplicidade incalculável de experimentações. Alguns formam uma fronteira. podendo resgatar sensações como “sou eu quem estou sentindo. 52-53) Como o modo terapêutico da Gestalt-terapia pode ser conclamado à presença nesses espaços rotineiros. 238) O contato direto com o socialis. um convite para participar da festa de uma criança num jardim público. numa tentativa de oposição ao tentador hábito de “falar sobre”. Um bar cheio de pessoas se confraternizando. um pedido de informação de terceiros. p. percebendo.. assustadores. Evocamos o sistema de ação do indivíduo.” (MATURANA. como também participa dela. fazendo e/ou escolhendo tal coisa. tecendo uma teia de continuidade e constância. propiciando que as interlocuções se tornem múltiplas e imprevistas. porque essa membrana não apenas limita a extensão da rede de transformações que produz seus componentes. condição que não é objetiva e imutável. visando promover o poder criativo de reintegração dessas partes que aparecem tão desconectadas? Os experimentos práticos em Gestalt-terapia têm como um dos propósitos principais intensificar a awareness do contato do ser no mundo. p. Não é um ensaio para um acontecimento futuro nem tampouco um ato póstumo de algo que já aconteceu. um medo ao encontrar uma pessoa conhecida – falo de um corpo em pleno estado de afetação24 num momento de tempo presente. 2001..têm pra se organizar. “o metabolismo celular produz componentes e todos eles integram a rede de transformações que os produzem. um temporal que desaba repentinamente.” (POLSTER. um limite para essa rede de transformações. desconhecidos. inexistentes.) No entanto. 2007.” 24 Ato ou efeito de afetar-se. essa fronteira membranosa não é um produto do metabolismo celular tal como o tecido é um produto do tear. que o AT proporciona. numa situação de segurança relativa. (. 174 .

O indivíduo ao relatar o seu estado de alma não está apenas sendo reflexivo. julgado ou tratado como a priori pelo acompanhante. Portanto. demonstrando compreensão. Ao entendê-la como a análise da dinâmica da alma. estamos falando de uma consciência absolutamente intencional. mas também demonstrando como se dá o seu acesso ao mundo. (RODRIGUES. seu reequilíbrio organísmico”. suspendendo qualquer opinião de valor frente à compreensão daquilo que se apresenta como percepção-percebida do cliente.A fenomenologia. sem a qual nada existe. “ciência descritiva das essências da consciência e de seus atos” – conforme a definia Husserl. Se. o significado que o cliente dá ao mundo fala a partir do seu horizonte existencial. “Consciência-de-alguma-coisa” e “objeto-para-um-sujeito” se definem. atentos ao nosso cliente como um todo. crenças e necessidades “entre parênteses”. O que se mostra não deve ser interpretado. o papel que desempenhamos é o de acompanhar o fluxo da energia que transborda de um mundo desconhecido. autonomamente. usado para designar as sessões de AT. p. oferecendo nossa presença para fazer este passeio ao lado. sua satisfação. é um importante pilar da Gestalt-terapia. 154) 25 Termo comum. Do acompanhante é requerido manter seus valores. neste lugar. “desde que tal participação contemple a prioridade da relação que se estabelece: que esta possa servir ao indivíduo que procura a terapia. cabe descrevê-lo fenomenologicamente. percebemos que ele se auto-revela permanentemente – a nós. esta que dá aos objetos do mundo um sentido (ao invés de contemplar um universo estático). tratamos a consciência sempre como consciência de algo. está sempre visando alguma coisa. a partir de uma correlação. durante as “saídas”25. pois. 2004. pois. entre os acompanhantes. nos situamos no aqui-e-agora. 175 . pois o que se passa na nossa mente não ocorre no vazio. para que ele alcance.

acredito que uma das minhas responsabilidades é vislumbrar potencialidades que podem transformar pessoas. O convite é lançado. Seja no lugar de terapeuta. Ana pôde vivenciar a confrontação entre sua ideia nefasta a respeito de si própria e o impacto que sua obra de arte provocou nas crianças. mas apenas ele pode decidir de qual lado realmente deseja viver. O tempo nos pertence. É ter a oportunidade de me reunir com minha própria humanidade As inquietudes frente às demandas da contemporaneidade servem para nos fazer querer deixar o status quo. os empecilhos. assim como a liberdade de re-escolher – sempre – o que e quem somos. e com suas próprias emoções. tolerante e humanizada. pôde ser vivenciado no aqui-e-agora a partir de um evento inesperado. e refletindo sobre o lugar que eu ocupo ao atuar como gestalt-terapeuta. E assumir a responsabilidade de estar junto ao outro nesse processo de resgate de humanidade é uma tarefa complexa. se aproximaram? Que emoção isso desencadeou em Ana? Como ela escolheu se perceber ao receber os elogios. ainda que indiretamente? Ela fez algo para não aceitá-los? De que maneira o contato com o outro. Lembrando (e homenageando) o 176 . frutificado numa sociedade mais generosa. me enche de esperança quanto à verdadeira possibilidade de crescimento individual. seja no do cliente. ao contrário. Estamos no mundo. oferecendo o suporte necessário para que o cliente se perceba como aquele que escolhe qual papel ele quer assumir: o de “doente” ou o de potencialmente capaz de adquirir saúde e melhor qualidade de vida. porém fascinante. os desafios. recriar-nos a cada instante. onde tudo e todos se transformam a todo instante. Como estamos falando em AT. dificultando que ela pudesse usar qualquer justificativa desatualizada para lidar com a situação? O que ela decidiu fazer com essa experiência? Transformar – formar novas feições – eis um grande desafio! Modificar-nos. vidas. Acreditar na possibilidade verdadeira de mudança e aceitar as diferenças a partir do que cada um escolhe para sua vida.CONSIDERAÇÕES FINAIS No exemplo relatado. expandir-nos. O que aconteceu que os meninos não se afastaram. as angústias servem como molas propulsoras para o crescimento. uma prática atenta à ocupação dos mais diversos territórios.

” (CERVANTES. é aquele que a transforma. e cidadão não é aquele que vive em sociedade. 2008. o fiel escudeiro de Dom Quixote de la Mancha. 2002. O que encontrarei pela frente? A estrada. no palco e na vida. e a mais necessitada. Augusto Boal: “temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. 97) 26 Mensagem em homenagem ao Dia Internacional do Teatro. Hoje está a mais desditada criatura do mundo. finalizo este percurso mirando o horizonte. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena. p.saudoso homem-do-bem e dramaturgo. Assim como afirmava Sancho Pança. os dois maiores caminhantes da literatura mundial: “cavaleiros de aventuras vem a ser um sujeito que em duas palhetadas se vê desancado. e amanhã terá duas ou três coroas reais. 177 ." 26 Após caminhar até aqui. é um eterno vir a ser. o imperador. Atores somos todos nós. assim como os que se põe a caminhá-la.

RJ: Vozes. in Psicologia em Estudo. DARTIGUES.H./mar. POLSTER. Escuta. – Estudos Psicanalíticos da Personalidade. 2008. K. RJ: 2007. 1998. M. – Dom Quixote de La Mancha. e M. 13. 1973. Rio de Janeiro: Interamericana. Tradução Eva Nick. jan. Petrópolis: Vozes. CELLES. J. F. – Um Passeio Esquizo pelo Acompanhamento Terapêutico: dos Especialismos à Política da Amizade. F. – Processo. R. CERVANTES. 1997. – Introdução à Gestalt Terapia. MATURANA H. v. n. PERLS F. VAN DER BERG. Edição original The web of life. Cultrix. Livro Pleno. Ensaios em Gestalt Terapia. CAPRA. São Paulo: Summus. São Paulo: Palas Athena. H. G. & SANTOS. 1996. LAING. R. RODRIGUES. – Gestalt Terapia Integrada. L. C. 2000. – O Paciente Psiquiátrico. – A Teia da Vida. HEFFERLINE R. São Paulo: Ed. FAIRBAIRN. Nova Cultural. – Gestalt-terapia. 2001. 1982. Niterói. – Uma Concepção Psicanalítica de Personalidade: Teoria das Relações Objetais de Fairbairn. 6ª ed. W. – O Eu Dividido. M. 53-61. – A Árvore do Conhecimento: as Bases Biológicas da Compreensão Humana. 2000.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO. Gary M. Maringá. 1. 178 . 2007. A.R.Acompanhamento Terapêutico. São Paulo: Ed. São Paulo: Ed. M.. Petrópolis. 1980. São Paulo: Summus. 1991. 2002. E. Diálogo e Awareness. São Paulo: Summus. 1997. ALVES. E.J. & VARELA F.. EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL-DIA A CASA – A Rua como Espaço Clínico . GOODMAN P. A. São Paulo. Ed.D. – O Que é Fenomenologia? Rio de Janeiro: Eldorado. YONTEF. A. C. p.

O arcabouço teórico dessas abordagens é sustentado em bases filosóficas que podem se aproximar ou se afastar. Epistemologia. Conclui-se que existem muito mais pontos de encontro do que previsto inicialmente. a despeito das afirmações de que estas teorias são antagônicas e que uma não tem nada a ver com a outra. Palavras-chave: Gestalt-terapia. Behaviorismo Radical. são explicados os fundamentos epistemológicos da abordagem da Gestalt-Terapia e da filosofia behaviorista radical para se finalizar com a discussão acerca dos seus possíveis 179 . Logo em seguida. O trabalho se inicia realizando um conciso histórico e teórico da Gestaltterapia e do Behaviorismo Radical. Dessa forma.GESTALT-TERAPIA E BEHAVIORISMO RADICAL: ENCONTROS E DESENCONTROS EPISTEMOLÓGICOS RESUMO Este trabalho tem por objetivo estabelecer os pontos de encontro e de desencontro das bases filosóficas da Gestalt-Terapia e do Behaviorismo Radical. do ponto de vista gestáltista) das bases filosóficas da Gestalt-Terapia e do Behaviorismo Radical (que deriva as abordagens clínicas denominadas Terapia Analítico-Comportamental e Psicoterapia Funcional Analítica). Para isto foi realizada revisão das principais correntes filosóficas que sustentam ambas as teorias: Fenomenologia. tornando-as convergentes ou divergentes em relação à meta da intervenção. Convergências ocorrem quando se compara a Análise do Comportamento e a Gestalt-terapia. Existencialismo Ateu. 1. Realismo e Determinismo. Pragmatismo. INTRODUÇÃO As várias formas de intervenção em Psicologia estão estruturadas em abordagens teóricas compostas de uma teoria ou de um conjunto de teorias interligadas. este trabalho tem por objetivo estabelecer os pontos de encontro e de desencontro (ou contato.

o Behaviorismo surge. HILLIX. há conceitos presentes na Gestaltterapia que estão ausentes na Psicologia da Gestalt e na Fenomenologia (MARX. A Psicologia da Gestalt foi desenvolvida no início do século XX e tem como seus principais autores Werthimer (1880-1943). Köhler (1887-1949) e Kofka (1886). (BAUM.1 GESTALT-TERAPIA E BEHAVIORISMO RADICAL: UM PANORAMA HISTÓRICO E TEÓRICO27 O termo “Gestalt-terapia” designa. Como teoria. na Psychological Review. 1999). mas apenas o uso do simples do perceber. por exemplo. a teoria da Gestalt surge como uma reação a Psicologia da introspecção (psicologia wundtiana). não são a mesma coisa. ou seja. a Fenomenologia é base filosófica da Psicologia da Gestalt ao mesmo tempo em que também é base filosófica da Gestalt-terapia.pontos de encontro e desencontro. com isso não havia a necessidade de treinamento do experimentador. quando John Broadus Watson (1878-1958) publicou o artigo “A psicologia como o Behaviorista a vê”. pode-se afirmar que a Psicologia da Gestalt e o Behaviorismo surgiram como uma reação à introspecção. Da mesma forma que. Enquanto que a reação da primeira era Neste item do trabalho dedicou-se mais na descrição da histórica e da teórica do Behaviorismo Radical e foi mais breve com estes conceitos na Gestalt-terapia. como era exigido na introspecção. uma abordagem teórica e uma intervenção psicoterápica. 1963). nos Estados Unidos. ao mesmo tempo. 27 180 . Estes fundamentavam a teoria da gestalt no método fenomenológico. Portanto. na Alemanha. possui alguns pontos de encontro com as bases filosóficas da teoria gestáltica (ou Psicologia da Gestalt). a Teórica de Campos e a Teoria Organísmica. também como uma reação a esta mesma Psicologia. Psicologia da Gestalt e Fenomenologia. HILLIX. Com isso a psicologia da gestalt passa a ser uma reação à introspecção ou psicologia introspectiva wundtiana (MARX. 1963). 1. já que este texto é direcionado a leitores que já dominam a história e a teoria da Gestalt-terapia. 20. 158-177. A Gestalt-terapia tem como fundamentação teórica a Psicologia da Gestalt. Porém devemos lembrar que Gestalt-terapia.

Comportamentos como o pensar. Tanto que o Behaviorismo Metodológico de Watson era tido como dualista. a reação do Behaviorismo apontava para o comportamento observável (por mais de uma pessoa) e a rejeição da experiência subjetiva imediata. 181 . limitada. o Behaviorismo inicial começou a se modificar e a se ramificar. O artigo “A Psicologia Como o Behaviorista a Vê” anuncia o rompimento com a Psicologia vigente na época (wundtiana). No princípio da década de 1930 entrou em uma nova fase historicamente engajada no ensejo de novas perspectivas teóricas e metodológicas. Acreditando que todos os comportamentos eram reflexos. mas negou-lhe status científico ao afirmar que não podemos estudá-la pela sua inacessibilidade. ao modelo mecanicista (causa-efeito) de determinação do comportamento. Deparamo-nos aqui com o que poderíamos chamar de uma aproximação semântica kantiana. 1999). por isto. pois tratava mente e corpo como sendo de naturezas diferentes (COSTA. que se sustentava nas escolas filosóficas do positivismo e do realismo (BAUM. em veto. As críticas na época (e que são anacronicamente reproduzidas atualmente) acusaram tal vertente behaviorista (Behaviorismo Metodológico) de ser bastante fisiológica. Essa revolução propunha que o objeto de estudo adotado pela Psicologia fosse o comportamento observável e que o método a ser utilizado para o seu estudo fosse o experimental.contra o treinamento do experimentador e enfatizava a valorização da experiência. o comportamento é compreendido em termos de formação e integrações de hábitos e é analisado a partir de observações e experimentações. Para ele. obedecendo. 2002). Era a fase dos behavioristas mediacionais. simplista e desumanizadora. É importante atentar-se para o fato de que Watson não negou a existência da mente. o ver e o sentir. objetivava-se a predição e o controle do comportamento. Assim. mecanicista. portanto. uma vez que a inacessibilidade da mente a coloca como realidade metafísica e. pois era observada apenas por uma pessoa (COSTA. 1999). diante do paradigma kantiano. Watson adotou o paradigma pavloviano S-R (estímulo-resposta). 2002). assim. não eram explicados satisfatoriamente e. eliminando o modelo introspectivo (BAUM. impossível de ser apreendida.

A determinação do comportamento. O paradigma adotado era o S-O-R (estímulo-organismo-resposta) (COSTA. que tinham como representantes Tolman (1886–1959) e Hull (1884-1952) (COSTA. 1999). assim concebido. em português. É interessante apontar esta raiz. então. que significa estar-ter algo que se carrega em si mesmo de um modo particular. em inglês. o comportamento produz aquilo que o determina (de um modo selecionista). A visão de homem a partir deste noção de comportamento é monista (ou. 2002). numa concepção Gestáltica. adveio de conductus. em 1945. Skinner apresenta uma nova epistemologia ao behaviorismo: o Behaviorismo Radical. a palavra adveio da junção de be e de have. logo comportamento é relação. com os outros e com o mundo em que vive). é selecionista (e. pois não separa os eventos psicológicos em 182 . da mesma forma que Gestalt-terapia não é apenas Psicologia da gestalt. causariam o comportamento. adveio de comportare ou trazer junto. à raiz do termo behaviour (comportamento). O Behaviorismo Skinneriano é denominado radical. 1995. holística). sendo portar equivalente a carregar. indo. BAUM.ou neobehavioristas. uma vez que há uma tendência a ignorá-la quando se fala em Behaviorismo: em espanhol. ou apenas Teoria de Campo. possui semelhanças e diferenças. que quer dizer levar ou trazer junto. o Behaviorismo Radical não é apenas Behaviorismo metodológico ou mediacional. Este modo particular e único é a própria existência humana (interações do homem com ele mesmo. Os behavioristas mediacionais retomam uma visão idealista-subjetiva e dualistamecaniscista na qual os estímulos ambientais afetariam primeiramente o organismo a partir de processos mediacionais (cognitivos ou fisiológicos) que. Essas interações são naturais e Skinner as chamou de comportamentos (MATOS. o seleciona. portanto. 2002). Comparativamente falando. Insatisfeito com o dualismo e o mecanicismo destes neobehaviorismos. Em outras palavras. não mecanicista): o ambiente. portanto. pois rejeita a existência de eventos mentais fictícios e aceita estudar todos os eventos comportamentais dos quais se inferem a existência desses eventos mentais fictícios. produzido como a conseqüência do próprio comportamento.

isto aproxima Skinner da Fenomenologia: a evidência do mundo. E é sempre um organismo que. incluindo os eventos do mundo que são privados (pensar e sentir) e a experiência daquele que assim o evidencia e a tarefa do Behaviorismo Radical é analisar (descrever ou explicar) essa experiência como evento privado (e não como uma mente ou um self fictícios que teriam. é evento privado do tipo pensar ou sentir. O comportamento é tudo o que o homem é ou tem e que “carrega consigo” de modo funcional: sentir. e que o modelo S-R é reducionista como explicação de todo e qualquer comportamento. seja “junta” ou “separada” do corpo. na verdade nem é preciso que você exista. discorda totalmente dos behavioristas mediacionais. Para o behaviorista radical a evidência de que vejo você é meu comportamento diante da circunstância “você”. não existe uma “mente”. 2002). Aquilo que se chama erroneamente de “mental”. perceber. etc. p. intuir. (MATOS. não existe separação entre interno e externo. agir. “Ambiente é tudo aquilo que externo ao comportamento” e a relação entre ambiente e comportamento pode envolver interações com objetos ausentes e fatos passados. p. já que independe de uma contigüidade espacial ou temporal entre os eventos que definem a relação (MATOS. Skinner afirma que grande parte do comportamento humano é operante e não reflexo. 32). 183 . resolver problemas. E nem é preciso que você estejam presentes para que eu reaja ou “veja” você. quando esses se utilizam de variáveis mediacionais como explicação (COSTA. que tem a mesma natureza do comportamento público e do próprio corpo (ou seja. 31). sendo o comportamento uma função da vida. “comporta” tudo isto. e estar consciente (ou não) disso tudo. Para Skinner. Do mesmo modo. uma outra natureza). a conexão privado-mental ou privado-mediacional é rompida pelo Behaviorismo Radical. pensar. Discordando de Watson. portanto. Segundo Matos (1995). “mente”. na totalidade. o que existem são processos comportamentais privados que têm a mesma natureza dos públicos). como concebida pelo senso comum e pelas Psicologias dualistas. 1995.“mentais” e comportamentais. supostamente. falar. Assim. autoconhecer. Ao mesmo tempo. não existe. 1995. a evidência de que você existe também é meu comportamento. o que eles chamaram de mediação são eventos comportamentais privados a serem explicados.

A Gestalt-Terapia também foi desenvolvida no início do século XX. onde apresentou o trabalho “Resistências Orais”. o contextualismo é uma metáfora-raiz que especifica. Em 1942. entretanto. participou do Congresso Internacional de Psicanálise. Perls (1893-1970) (MARTINS. Todavia esse trabalho foi muito mal recebido pelos colegas psicanalistas da época. em 1936. o contextualismo é o modo sine qua non de compreensão do comportamento a partir de um critério de verdade que avalia a validade desta compreensão ao considerar uma rede de condições sob as quais o comportamento ocorre de modo contínuo e inseparável de seu contexto atual e histórico. pois. A Análise do Comportamento vê a experiência como comportamento. A verdade acontece a uma idéia. e depois de viver cerca de dois anos na África do Sul. emitido na própria experiência. é feita verdade pelos eventos”. a verdade da análise está na sua função. O conteúdo e o foco da Análise do Comportamento é o comportamentoem-contexto. A unidade mínima da compreensão do comportamento operante é uma contingência de três termos: a condição antecedente. a evidência do comportamento-em-contexto é a experiência com ele nesse contexto. No caso do Behaviorismo Radical. como escreveu James (1907. obra na qual destacou a necessidade da ingestão de “alimento” e sua 184 . Como dito. Ela torna-se verdade. Segundo Pepper (1942). emerge como figura em um fundo. publicou “Ego. 61): “A verdade de uma idéia não é uma propriedade estanque inerente a ela. com um critério de verdade. 1998). Perls foi psicanalista durante alguns anos. p. que é contexto (RIBEIRO.Assim. Isto tem relação direta com o pragmatismo. uma vez que o contexto tem grande importância também na nesta abordagem. Fome e Agressão”. 1985 e RODRIGUES. em Praga. uma visão de mundo. que é um campo de ação humana. Isto permite afirmar que a abordagem behaviorista radical é contextualista. todas as ações (ou respostas) de uma pessoa estão relacionadas às conseqüências que produzem dentro de um contexto específico que envolve o comportamento e as conseqüências do comportamento. foi um movimento da prática clínica surgido como uma reação à Psicanálise. Tem como principal autor Frederick S. Com isto. uma tentativa de complementar as “Resistências anais” de Freud. pois o fenômeno. em Durban. a ação e a condição conseqüente. 2000). Isto aproxima o Behaviorismo Radical da Gestalt-Terapia.

As Gestalt-terapia adota como teorias de base a Psicologia da gestalt. 1985). Daí temos a intencionalidade da 185 . Franz Brentano (18381917) analisou a intencionalidade da consciência humana. apenas “Gestalt-terapia” em 1997 (GINGER. logo se opondo. A fenomenologia e o existencialismo ateu são as principais correntes filosóficas em que se baseou Perls para construir a Gestalt-terapia. 1995). a Gestalt-terapia possui bases filosóficas que sustentam os princípios e métodos da Gestalt-Terapia. e abordou a descrição. GINGER. Como visto anteriormente. A FENOMENOLOGIA A Fenomenologia nasceu na segunda metade do século XX. Hefferline e Paul Goodman. assim como a agressividade como uma forma de satisfazer as próprias necessidades. compreensão e interpretação dos fenômenos que se apresentam à percepção humana. 2. a Teoria de Campo de Lewin e a Teoria organísmica de Kurt Goldstein. pois já trata de uma teoria do desenvolvimento humano. O conhecimento nos lança. tal distinção entre sujeito e objeto dão-se. desta maneira. um dos mais importantes títulos da Gestalt-terapia: “Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality” ou. o Behaviorismo Radical se aproxima da Fenomenologia. 2. como foi publicado no Brasil. A consciência manifesta-se diante alguma coisa. Em 1951. assim como Skinner. Ele se coloca contra a separação de "sujeito" e "objeto". a polaridade. Esta obra pode ser considerada o preanuncio da fundação da Gestalt-terapia. o corpo e a valorização da experiência pessoal. Perls e seus colaboradores integram com inteligência e êxito estas teorias que até então estavam aparentemente isoladas (RIBEIRO. à vivência do que nos aparece enquanto fenômeno. portanto. com Ralph F.assimilação. nos EUA. Perls publicou. 1997). porque a consciência age sobre os objetos.1. ao pensamento positivista da época (MATOS. FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA GESTALT-TERAPIA Como o Behaviorismo Radical. nunca em separado do mundo fenomênico. enfatizando a importância no presente.

temos clareza que o “Eu humano” não se reduz a sua cognição mesmo dando a devida importância à ordem da consciência diante do mundo. A atitude de investigação fenomenológica. para além do cartesianismo das “marionetes do pensamento”. percebe o todo do sujeito. pela pertença. uma vez que é justamente. cuja ‘realidade’ é naturalmente assegurada pelos exemplos” (HUSSERL. O que percebo não é a aparência de algo. entendida em sede puramente descritiva como peculiaridade interna de certas vivências. Husserl entende suspender todo julgamento sobre o que o rodeia a fim de não reter disso senão o resíduo. de modo que consideramos a definição de Bretano. por um ‘pôr fora do circuito’. ou Epoché. O objetivo é intuir a essência. que aparece como objeto intencional da consciência. O método fenomenológico se caracteriza como uma “volta às coisas mesmas”. entende que se deve “‘pôr entre parênteses’ o mundo empírico dos fenômenos.consciência. como uma definição essencial. como um saber mais confiável e 186 . mas o próprio algo na sua manifestação. que a ótima fenomenológica. permitindo a compreensão do fenômeno ou do processo. aquilo que surge à consciência. No entanto. o que se manifesta-se o faz enquanto fenômeno. 1988). uma vez que nosso psiquismo referencia-se no mundo dos objetos que se mostram a percepção consciente. ou seja. seguidor de Brentano. 1998). ao qual temos acesso apenas através da descrição. Husserl propõe uma Fenomenologia que reúna os dados da experiência em sua totalidade (fenômeno) e o pensamento racional (logos) (MARTINS. É pelo comportamento. o conteúdo imediato do fenômeno. uma busca pela essência do fenômeno. pelo fazer parte de um mundo vivido. repreende a psicologia da época por adotar uma metodologia objetiva que abandou a subjetividade e a intuição. Sobre a intencionalidade da consciência anos escreve Husserl: “A referência intencional. Ele afirma que a vida psíquica é um dado imediato. segundo a qual eles são ‘fenômenos que têm em si intencionalmente um objeto’. que o sujeito condiciona e alarga a sua intencionalidade. Husserl (1859-1938). representa para nós a determinação essencial dos ‘fenômenos psíquicos’ ou dos ‘atos’. ou redução fenomenológica.

ou à realidade. outros e etc. não são anteriores aos objetos (coisas. portanto. portanto: “Colocamos fora de ação a tese geral inerente à essência do comportamento natural. pois não se acham previamente existentes em lugar algum. Deve-se compreender o fenômeno. uma descrição das estruturas gerais da consciência do “sujeito transcendental. mas vivencial. mas que o que o homem é. o existencialismo parte do pressuposto de que a existência é anterior à essência. e não distante. dentro do contexto em que ele emerge e suas relações com os outros fenômenos (o si da coisa). homem. 2001). quanto em relação ao conhecimento. O EXISTENCIALISMO ATEU Em oposição às filosofias que se poderiam chamar ‘essencialistas’.). e que continuará a permanecer como ‘realidade’ para a consciência. as idéias. Na perspectiva do existencialismo. tanto ontológica quanto epistemologicamente. 2007. que está constantemente ‘aqui para nós’. em verdade e melhor chega a ser. As idéias. todo o mundo natural. Com a epoché fenomenológica. portanto. A fenomenologia é. são contemporâneas dos objetos. 320-321). o que essencialmente se quer significar é que o homem não tem uma ‘natureza ou essência’. Opera-se com a fenomenologia um sujeito não reduzido a “etiqueta científica” do psicologismo. Algo caro ao gestaltismo.sem preconceito” (HUISMAN. 1950). mas um “eu puro” e de vivências. ‘a nossa mão’. ou as “essências”. colocamos logo entre parênteses tudo o que ela abraça sob o aspecto ôntico: portanto. isso quer dizer tanto em relação ao ser. tornando-se um Eu concreto e mundano. ou essências. em sua universalidade e não em sua particularidade. p. e não tentar entendê-lo isoladamente (coisa em si).2. são os próprios objetos considerados de determinado ponto de vista. O Eu humano acaba. também do behaviorismo radical. que é condição ONTOLÓGICA de possibilidade das experiências humanas concretas nos diversos níveis e regiões da realização da existência” (SÁ. fundado a partir de sua existência. não mais conceitual. 2. é ‘feitura’ e ‘invenção’ da sua absoluta liberdade” 187 . mesmo que sejamos tentados a colocá-lo entre parênteses” (HUSSERL. “Quando algum filósofo existencialista afirma que ‘a existência precede a essência’. neste empreendimento.

e enfatizava a subjetividade e a existência humana. Entender o homem como um projeto. sendo este projeto uma escolha. um dos grandes nomes do existencialismo ateu. considerado como o pai do existencialismo. colocava de lado qualquer sistematização da realidade. Tal concepção de alteridade lança-nos a compreender o outro como aquele que antes nos vê. desenvolveu suas idéias a partir de sua experiência pessoal. não existe o absoluto hegeliano. É nesta intersubjetividade que se dá o julgamento de nós para com nós mesmos e para com o outro. Com isso.(CORDÓN. p. no entendimento existencialista. Além disso. 1990). Dessa forma. da mesma forma que se dá a empatia o reconhecimento mútuo. forma-se uma rede de escolhas. Somos (enquanto pessoas) responsáveis pelas escolhas de toda humanidade. o homem ao fazer suas escolhas não escolhe apenas para si mesmo. mas ser um projeto que se está vivendo. a pessoa ao escolher. está também apontando para como todas as outras pessoas também devem escolher. 188 . Para Kierkegaard. Sartre (1905-1980). O outro é o caminho para nossa existência como humanidade. a própria humanidade. mas também para toda a humanidade. MARTÍNEZ.130). nos traz a noção de “projeto” (o homem como responsável pela construção de sua essência) e de “responsabilidade” (o homem responsável por suas ações e decisões). Kierkegaard (1813-1855). 229). Da mesma forma. 1995. Nós nada somos sem o reconhecimento do outro. a pessoa que escolhe também está condenada às escolhas de outras pessoas. de responsabilidade do próprio homem. O conceito de um homem acaba por ceder aos modos possíveis de ser (BORIS. o que nas palavras do próprio Sartre: “Minha queda original é a existência de outro”. Não significa ser aquilo que se quer ser. O Existencialismo permitiu que a metodologia fenomenológica se concretizasse por meio da aplicação dessa metodologia nas questões da existência humana. mas um indivíduo que na sua existência exerce-se em subjetividade. faz dele responsável por aquilo que é. Meu projeto esvaísse de meu pertencimento. em um olhar-alheio que em minha consciência me instaura a necessidade a priori de modificar minha experiência. (REALI. ANTISIERI. 2008. No existencialismo sartreano atingimos o “nós” por meio do outro. p. Sartre afirma: “o homem antes de tudo é um projeto que se vive subjetivamente”.

O homem tem total liberdade para escolher em que vai se tornar.) E quando dizemos que o homem é responsável por si próprio. podridão ou couve-flor. se o homem quer ser livre. um projeto que vive por si mesmo subjetivamente. Dessa forma.. e mesmo assim nem menos livre porque. “Situação que me parece poder caracterizar dizendo que o homem é condenado a ser livre. em vez de ser musgo. e por conseqüência a humanidade. a escolha sugere um compromisso com a humanidade. (.. Com isso. (. 1973). e por outro existe um compromisso entre os homens dentro de suas escolhas. uma vez jogado no mundo. 3) O homem faz de si o que é. no exercício de liberdade. ou seja. depende do desejar que os outros também sejam livres.) [O existencialismo] pensa. a existência precede a essência. mas que ele é responsável por todos os homens” (SARTRE. Como já foi dito. 3. sem apoio ou auxílio. as minhas escolhas passam a ocorrer também a partir das coisas que quero para o outro e não apenas do que quero para mim. em primeiro lugar. Não aquilo que quiser ser. Ao escolher um projeto de vida. a liberdade do homem não depende de outro homem. portanto. a não ser suas próprias escolhas dentro de um contexto histórico-cultural. Por um lado. O homem. FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DO BEHAVIORISMO RADICAL O Behaviorismo Radical se estabelece dentro do contexto da tradição filosófica do pragmatismo e da fenomenologia. logo o Behaviorismo Radical se opõe ao realismo 189 . o homem será em primeiro lugar aquilo que tiver projetado ser.. está condenado em cada momento a inventar o homem” (SARTRE. Condenado porque não se criou pó si mesmo.. Logo não há como fugir da escolha nem da moral. que o homem. no existencialismo sartreano. pois escolher é se comprometer. 2) Não há nada que determine suas ações. Com isso. o homem está também escolhendo por uma moral. nada existe antes deste projeto: nada existe no céu inteligível. é responsável por tudo aquilo que faz. não entendemos que o homem é responsável por sua individualidade estrita. isto possibilita alguns desdobramentos: 1) O homem não pode passar a responsabilidade de sua condição existencial a uma entidade (essência). está condenado (a) as suas próprias escolhas.“O homem é. 1973).

como as perguntas sobre a existência de um universo real fora de nós ou se Deus existe. esse processo de unificar várias partes de nossa experiência é o que constitui a explicação. Novamente. Ao invés. Porém. indiretamente conhecido. em vez disso. como não temos conhecimento direto do mundo externo. a verdade de um conceito reside em sua capacidade de articular parcelas da nossa experiência. O pragmatismo. Nesta parte. não merecem atenção. Perguntas e respostas que nos ajudam a entender que o que acontece à nossa volta é útil. mas apenas de nossa experiência interna. concentra-se na tarefa de compreender nossas experiências. O PRAGMATISMO E O REALISMO O pragmatismo contrasta com o realismo. que nos é dada pelos sentidos. 2002). não faz nenhuma suposição sobre um mundo real externo. Na visão de Mach. 1999 e COSTA. vale lembrar o veto kantiano sobre a impossibilidade de acesso as realidades de ordem metafísica (BAUM. Perguntas que não fazem diferença para a nossa compreensão. Nossas experiências do mundo real são explicadas quando nosso raciocínio nos leva á verdade última sobre ele (BAUM. O mundo externo é considerado objetivo. enquanto o mundo da experiência interna é considerado subjetivo. desde que possamos falar sobre um evento em termos familiares. Para William James (1842-1910) e Ernst Mach (1938-1916).1. falar de maneira eficaz sobre nossas experiências isto é. Bertrand Russell argumentou que a ciência deve proceder raciocinando a partir de dados sensoriais sobre o que deve ser o universo objetivo.é exatamente o mesmo que explicar.1. organizá-las ou compreendê-las. O realismo sustenta que há um mundo real fora de nós e que esse mundo real externo dá origem a experiências internas em cada um de nós. a comunicação . a ciência consiste na descoberta da verdade sobre o universo objetivo. Não há verdade última absoluta. não merecem ser respondidas. No realismo. não haverá descrições da fenomenologia.e ao positivismo. Ele sustentava que. ele estará 190 . ao contrário. concepção adotada por muitos cientistas anteriores ao século XX e pelo behaviorismo metodológico do começo deste século. uma vez que já se foi tratado sobre isso no item 2. 1999). 3.

e olhar ao contrário para as coisas últimas. O determinismo afirma que toda ação humana se explica pela relação do homem (dentro de sua herança genética e história de vida) com o mundo em que vive. fatos” (JAMES. Consequentemente. Para o behaviorista radical. Na medida em que falar sobre eventos em termos familiares é chamado de descrição. que tem por escopo a melhoria da condição vital dos indivíduos. Para o realista. 3. das pretensas necessidades. o comportamento real ocorre no mundo real. Algo que revelará importância tanto para o comportamentalismo quanto para a gestalt (REALI. o mais próximo possível da fisiologia. e esse comportamento real é acessível apenas indiretamente. em vez disso. A mente. ANTISIERI. O behaviorista radical.explicado. sua utilidade. Para os resultados. conseqüências. Descrições pragmáticas do comportamento incluem seus fins e o contexto no qual ocorre. termos descritivos tanto explicam quanto definem o que é comportamento (BAUM. o behaviorismo metodológico (de Watson) se baseava no realismo. 2008:86). o behaviorista metodológico tenta descrever os eventos comportamentais em termos tão mecânicos quanto possível.2. nessa mesma medida explicação e descrição são a mesma coisa: A ciência descobre apenas conceitos que tornam nossa experiência mais compreensível (BAUM. James por sua vez compreendia a verdade como uma capacidade de “operar”. O termo “livre-arbítrio libertário” designa a suposta capacidade que tem o 191 . desta forma torna-se um instrumento adaptativo. A NOÇÃO DE LIBERDADE NO BEHAVIORISMO RADICAL A idéia de que o comportamento pode ser tratado cientificamente continua controversa. ou seja. através dos sentidos. busca termos descritivos que sejam úteis para a compreensão do comportamento e econômicos para sua discussão. dos princípios. das ‘categorias’. 1999). porque desafia a noção de que ele provém apenas da livre escolha do indivíduo. O pragmatismo é definido por James como um método que consiste na “disposição de tirar o olhar das coisas primeiras. 1963). Enquanto o behaviorismo radical se baseia no pragmatismo. 1999).

homem de escolher como agir. que ainda está nascendo. DISCUSSÃO Após as breves explicações acerca das bases filosóficas da Gestalt-terapia e do Behaviorismo Radical é possível iniciar uma discussão abordando os pontos de encontro e afastamento de ambas as correntes. sem levar em conta sua herança genética e sua história de relação com o mundo (BAUM. muito menos todas as formas de alterar esses fatores. baseada no Behaviorismo Radical. não-naturais ou aleatórios. A Ciência do Comportamento. diga-se em seu caráter eidético. Porém. 1999). com os outros e com o mundo). nem econômicos para sua discussão (BAUM. além de considerarem as possibilidades de estudo dos fenômenos privados (ou subjetivos) de cada pessoa. ou seja. pois acreditam na inseparabilidade de sujeito e objeto. não foi capaz de identificar todos os fatores que guiam os comportamentos humanos. Ambas as abordagens são sustentadas pela fenomenologia. emoção. O determinismo afirma que o “livre-arbítrio libertário” é uma ilusão fundada na ignorância dos fatores que determinam o comportamento humano (relações do homem com ele mesmo. sentimento. A fenomenologia é adotada pela Gestalt-terapia como pressuposto epistemológico e como método. como o “livre-arbítrio libertário” ou o inconsciente freudiano. se pratica a redução fenomenológica. 1999). não se permite acreditar que eventos naturais. essa ciência. como sonho. lembrança. como as ações humanas. já que o próprio comportamento de “tomar decisão” é um fator de condução do comportamento (BAUM. Não pode-se perder de vista também que esses fatores não-naturais. tenham fatores fictícios. prefere acreditar que esses fatores naturais ainda não foram todos descobertos. para a compreensão do fenômeno. não são úteis (pragmáticos) para a compreensão das ações humanas. 1999). Por outro lado o determinismo acredita na capacidade humana de auto-identificar fatores que estão determinando comportamentos e alterar esses fatores. imaginação e etc. assim como todas as formas de intervenção nesses fatores. ainda muito pequena. Já no Behaviorismo Radical além dos 192 . 4.

Por outro lado. ou seja. há explicações para o comportamento humano. e a Gestalt-terapia tem suas bases fincadas nas filosofias européias. Neste caso não se busca causas para o fenômeno. nega a existência de Deus como pressuposto. 2) o homem se responsabiliza pelo que escolhe. nem pela Gestalt-terapia. já que são correntes filosóficas norte-americanas. e da redução fenomenológica. já o existencialismo ateu. para depois se definir como homem). mas em apresentar sustentações teóricas que sejam úteis para a compreensão dos fenômenos que emergem. segundo a fundamentação de Kierkegaard. ele não se torna homem (ou pessoa) antes de se relacionar com o mundo (O homem existe no mundo. Logo. da existência de Deus. Todavia. No Behaviorismo há muitas idéias também presentes no existencialismo ateu. ou seja. Quanto às discussões das correntes filosóficas do pragmatismo e do realismo.pressupostos epistemológicos. não está preocupada em explica e sistematizar a realidade. há apenas uma divergência relevante do Behaviorismo Radical com o existencialismo ateu: no Behaviorismo Radical não há negação. e também é responsável por si mesmo e pelos outros. 3) O homem se constrói na relação com o mundo. Porém a Gestaltterapia tem uma tendência velada de ser prática. tenda-se compreender o contexto em que ele ocorre (redução fenomenológica) e também em função de que tal fenômeno ocorre. mas a função e o contexto do fenômeno. O conceito de liberdade em ambas as abordagens possui alguns pontos em comum: 1) o homem é livre para decidir sobre suas ações dentro das conseqüências que elas trarão para si e para outros. surge no mundo. presentes na análise funcional. ou seja. 2) existem fatores que guiam a tomada de decisão do homem. aplicada e vivencial. ou seja. a possibilidade de teorização absoluta da realidade não é aceita. como: 1) o homem tem poder de decidir sobre suas ações dentro das conseqüências que elas trarão para si e para outros. nem pelo Behaviorismo Radical. podemos dizer que a Gestalt-terapia não se preocupa em se alinhar diretamente com nenhuma das duas. há também a busca da função do fenômeno. como o próprio nome diz. 4) o Behaviorismo Radical leva em consideração a história de vida particular do indivíduo assim como o contexto histórico-cultural. há pontos de afastamento: 1) a Gestalt-terapia não aceita a possibilidade de se 193 . nem confirmação.

já que é impossível conhecer todos os fatores de controle do comportamento. no sentido de investigar as aproximações das práticas psicoterápicas de ambas as abordagens. a Gestalt-terapia defende que tal idéia é impossível de se alcançar. concluímos que a Gestalt-terapia e o Behaviorismo Radical. logo.FAP) de Kohlenberg e Tsai (2001) e da Terapia de Aceitação e Compromisso (Acceptance and Commitment Therapy ACT) de Hayes (1999). 194 . apesar de terem origens históricas separadas. Outros estudos podem ser elaborados.conhecer todos os fatores que controlam o comportamento. como o Behaviorismo Radical afirma. 5. CONCLUSÃO Após essas discussões. já que estas são baseadas no Behaviorismo Radical e são amplamente utilizadas na prática clínica atual. 2) já o Behaviorismo Radical considera que além de poder conhecer todos esses fatores é possível controlá-los. principalmente no que tange a prática da Psicoterapia Analítico Funcional (Functional Analytical Psychotherapy . acabaram se encontrando em alguns pontos dos pressupostos epistemológicos.

RS: Artes Médicas.: Paul Ricouer. MARTINS. HUSSERL. Acceptance and Commitment Therapy: An Experiential Approach to Behavior Change.icgt. Investigações lógicas: sexta investigação: elementos de uma elucidação fenomenológica do conhecimento. Psicoterapia Analítico Funcional: Criando relações intensas e curativas. M. E. C. O. História do Existencialismo. JAMES. GESTALT-TERAPIA: Solidificar para Expandir – Reflexões sobre as Possibilidades da Prática Social Gestáltica. JAMES. Idées directrices pour une Phénoménologie. . GINGER. (org) Psicoterapia comportamental e cognitiva: pesquisa. Trad.. p. HAYES. W. 1999. E. Pragmatism: A new name for some old ways of thinking. 7. New York: Longman Green and Co. Santo André. São Paulo: EDUSC. SP: ESETec. 2002. Terapia Analítico-Comportamental: dos fundamentos filosóficos à relação com o modelo cognitivista Santo André. Porto Alegre. MATOS. COSTA. 1963. 1998. de 29/11 a 02/02/1990. E. 1995.. em Recife. 1995. M. SP: ESETec. G. A. B. São Paulo: Summus. A. 1999. Coleção Os Pensadores. BORIS. BEHAVIORISMO METODOLÓGICO E BEHAVIORISMO RADICAL. & WILSON. Pragmatismo e Outros Ensaios. K. N. 1907. 15-25. K. J. D. New York: Guilford. Lisboa: Edições 70. comportamento e cultura. 1988. 195 .. R. TSAI. São Paulo. Gestalt: uma terapia do contato.6. GINGER. HUISMAN.doc. D. S. M. D. Paris: Gallimard. 1950. STROSAHL. Revista de Gestalt. T. GESTALT-TERAPIA E FILOSOFIA: ONDE E COMO NOS PERDEMOS? Conferência apresentada ao I Encontro Norte-Nordeste de GestaltTerapia. Nova Cultural. KOHLENBERG. N. C. trad. J.com. G. A. 2001. M. W. Joseph L. n.S. São Paulo. Bauru. J. HUSSERL.Rio de Janeiro: Lidador. Blau.. In: RANGE. Disponível em www. História da Filosofia. W. MARTÍNEZ. Compreender o Behaviorismo: ciência. CORDÓN. 2001.br/GESTALTTERAPIAEFILOSOFIA. REFERÊNCIAS BAUM. prática. B.

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uma proposta a partir da Gestalt-terapia” (2008) relatam a possibilidade de substituição da nomenclatura ajustamento psicótico pelo termo ajustamento de busca. falhado ou desarticulado. imediatamente apareciam como principais locais de atuação um consultório particular. Nas últimas décadas a sociedade tem sofrido uma metamorfose. estavam fora da lista de possíveis clientes. portadores de transtornos mentais e seus familiares. PONTOS E TEATRO: POSSIBILIDADES E DESAFIOS NO CAMPO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL INTRODUÇÃO Há alguns anos atrás quando pensava-se sobre os locais de possível atuação de um psicólogo. uma intervenção ludoterâpica ou a aplicação de avaliações psicológicas. Ele acreditava que todo ajustamento neurótico é um fenômeno figura-fundo e que a psicopatologia é um mal funcionamento deste fenômeno. que acabou não tendo resultados conclusivos.estudos recentes dos autores Marcos e Rosane Muller-Granzotto em seu artigo “Clínica dos ajustamentos psicóticos. cuja abordagem teórica norteadora é a gestalt terapia. Fome e Agressão”. 28 Tentativas socialmente integradas de organização do fundo de excitamentos espontâneos. 197 . debates. delírios ou de identificação de um fundo que está ausente. resultando em uma outra forma de ajustamento. Na obra “Ego. Em todo o mundo iniciaram reflexões. que recebiam o rótulo de “doentes mentais”. nas psicoses em geral e particularmente na esquizofrenia. o chamado ajustamento psicótico28. fóruns e movimentos de profissionais de saúde. Porém neste mesmo trabalho ele afirma que era cedo para afirmar os resultados de sua pesquisa. os chamados “loucos” saíram do cárcere desses hospitais. Essa busca significaria nesta expressão o trabalho criador de alucinações.GESTALT-TERAPIA. no lugar das atitudes de exclusão daqueles que fugiam as regras de “normalidade” em hospitais psiquiátricos. lutando por uma reinserção familiar e principalmente social. Perls (1942) afirma estar trabalhando em uma pesquisa sobre o que ele chamou de mal funcionamento do fenômeno figurafundo. A abordagem gestáltica aparentemente era limitada ao atendimento aos chamados neuróticos e todos os portadores de alguma psicopatologia.

visando a promoção da saúde de portadores de transtornos mentais. acima de tudo. Houve o reconhecimento dessa nova situação. teve que ser quebrada para dar lugar a um novo fechamento em conformidade com as novas relações estabelecidas na sociedade. foi necessário reestruturar-se para participar dessa reconstrução de saberes e práticas. um processo éticoestético. daqueles que por algum motivo psíquico ou neurológico não se ajustavam às regras da sociedade. 198 . tem conquistado na última década um número considerável de profissionais que apóiam este movimento e lutam por uma inclusão psicossocial. mas mostrou-se necessário uma reestruturação sobre o olhar dos profissionais sobre suas próprias limitações.p. preconceitos. e as pessoas antes excluídas. descrita por Paulo Amarante na citação acima. 2009. que embora já tenha 30 anos no Brasil. Por isso é. foram reconhecidos socialmente como sujeitos de direito e que necessitavam de novos direitos. tem investido em um olhar de desinstitucionalização sendo esta a mola propulsora de nossa reforma psiquiátrica. de serviços. que teve um amplo reflexo em toda a sociedade. se espalhou por vários países. não se limitou à visão e atuação com os clientes portadores de transtornos mentais. de novas e modernas terapias: torna-se um processo complexo de recolocar o problema. tabus e em especial sobre a “fábula” construída de que eram limitados à atender os chamados neuróticos. O Brasil seguindo o exemplo da experiência bem sucedida de Franco Basaglia.” (Amarante. de reconhecimento de novas situações que produzem novos sujeitos. de estabelecer novas relações. novos sujeitos de direito e novos direitos para os sujeitos.Essa luta pelo fim da exclusão em manicômios. desinstitucionalização não se restringe à reestruturação técnica. de reconstruir saberes e práticas.1) Dentro deste contexto de desinstitucionalização os gestáltistas precisaram ajustar-se criativamente. Essa reestruturação. Essa gestalt fixa existente no leque de atuações dos gestáltistas. “Nesse sentido.

Miriam. Erving. e está ação por si só torna-se algo terapêutico. neste trabalho. seu próprio senso de direção o impelirá para a experiência que deve vir a seguir. Assim como. confiando que quando ele obtiver um senso claro do que está acontecendo dentro de si. deve-se ficar claro que o que acontece psiquicamente com um desses pacientes não é tão diferente de nossos pacientes de psicologia clínica em consultórios particulares. este paciente deixa de ser apenas passivo de nossas intervenções e passa a ser ativo.” (Polster. para colocar algo sobre outra.p. que presumivelmente sabe menos. dizer que um usuário de CAPS portador de alguma psicopatologia pode penetrar em sua própria experiência e obter um senso claro do que está acontecendo dentro de si e através disso encontrar a direção que deve seguir. você percebe que tal afirmação não é incoerente como pode parecer ao primeiro olhar.METODOLOGIA Tendo em vista a necessidade de uma proposta de inserção social dos pacientes advindos dos hospitais psiquiátricos e portadores de transtornos psiquiátricos graves que necessitam de um atendimento intensivo ou semi-intensivo. porém compreender como ele vivencia sua própria patologia é o primeiro passo para auxiliá-lo na promoção de sua saúde e sua qualidade de vida. e não na sua interpretação reflete o espírito de protesto contra o autoritarismo que dá poder a uma pessoa. Esta proposta de atendimento tem como instrumentos adicionais ao acompanhamento médico. Em vez de brincar com jogos de adivinhação intelectual. Polster. as oficinas terapêuticas que são coordenadas por técnicos que compõem a equipe multiprofissional do CAPS e visam criar espaços onde o paciente pode expressar-se e optar dentro de seu projeto terapêutico. pelas oficinas que quer participar de acordo com sua subjetividade. “Essa ênfase na própria experiência.2001.34) Para muitos pode parecer algo incoerente. preferimos que um paciente penetre em sua experiência. criou-se o CAPS – Centro de atenção psicossocial. os chamados neuróticos a vivência dos usuários de CAPS tem 199 . pois essa deve ser nossa principal meta. Quando damos à possibilidade de escolha. Quando você vivencia a experiência de trabalhar em um CAPS. que presumivelmente sabe mais.

decidi iniciar uma oficina semelhante à de minha experiência anterior. que não deve está direcionada aos “achismos” do que parece ser o melhor para o paciente. mas sim entendido a partir de como o paciente relata sentir-se com aquilo. também da Costa Verde do estado do Rio de Janeiro.Atende pacientes que necessitam de um acompanhamento intensivo e semi-intensivo nos municípios que possuem menos de 70. Ao concluir o curso de graduação e iniciar meu trabalho como psicóloga trabalhando em um CAPS I30 de um outro município. Por isso. CAPS I. os terapeutas devem poder promover o deslocamento seguro dos ajustamentos com menor poder de contratualidade para ajustamentos com maior aceitação social. na pintura e na expressão corporal são enriquecedores em nossas intervenções terapêuticas. 30 200 . Considerando que os delírios e alucinações são constantes nos usuários do CAPS. o que de forma alguma se confunde com a 29 CAPSII. porém utilizando no lugar dos mitos contos infantis.apropriado para municípios com um número superior a 70.estejam estes ou não em surto. que só temos acesso quando nos colocamos a disposição de auxiliarmos a cada paciente a encontrar o seu senso de direção. que culminou em uma oficina terapêutica em um CAPS II29 de um município da Costa Verde do estado do Rio de Janeiro e em um trabalho apresentado no I Congresso Brasileiro de Saúde Mental em 2008.um significado único.000 habitantes. optamos por um trabalho que utilizasse esses instrumentos como metodologia de nossa oficina terapêutica. Inspirada pela experiência enquanto estudante de psicologia. em um grupo de estudo sobre mito e teatro.000 habitantes. não interpretados pela singularidade do terapeuta. E devem ser valorizados.de nossos pacientes. contos contados pelos pacientes que fazem de sua história de vida e histórias criadas pelos mesmos. devido nosso interesse pessoal na expressão corporal e nas artes cênicas. Para tanto. Dentro das possibilidades de entrar em contato com o mundo desses pacientes. o conteúdo expresso no desenho. mas sim por ações que colaboram para sua qualidade de vida. de acordo com o seu modo de vida. “A função do terapeuta é assegurar direito de cidadania aos ajustamentos psicóticos produzidos pelos consulentes . compreendemos que a arte é um instrumento que nos aproxima do conteúdo presente no modo de “ser no mundo” . uma coerência subjetiva e riquíssima.

contextualizando-a com sua história de vida. Em todos os encontros antes de dividimos as tarefas para apresentação da peça. descrita na citação acima. mostra-se como um modo de fazer valer o modo de vida e dos chamados ajustamentos psicóticos dos pacientes através da arte. DEMONSTRAÇÃO DO MATERIAL Podemos observar que quando os pacientes participam da oficina de contos e teatro e compartilhamos com o grupo contos infantis ou histórias que já são conhecidas pelos mesmos. cores e transformando-se em algo comum ao grupo através da expressão corporal e das artes cênicas. Muller-Granzotto. Entendemos que a utilização dos contos e das artes cênicas. Trata-se. de apoiar o consulente para que este possa fazer valer seu modo de vida.” (Muller-Granzotto. Marcos. vendo o mesmo tomar forma.24) Tendo em vista nossa função enquanto gestalt-terapeutas no trabalho com pacientes portadores de transtornos mentais.eliminação dos ajustamentos psicóticos em proveito de um padrão de comportamento adaptado. os leva a um novo olhar sobre a mesma. Mergulhamos no conteúdo expresso. porém que eles nunca haviam tido a experiência de visualizar-se enquanto um dos personagens. Cada encontro do grupo é singular. a interpretação em forma de peça teatral. também chamados de psicóticos. com a sociedade e contemporaneidade. em última instância. freqüentemente neurótico. p. corpo. utilizando sua imaginação como senso norteador para suas escolhas. Nesta oficina os pacientes também tem a oportunidade de criar ou contar uma história e participam da encenação da mesma ou a vêem sendo interpretada na oficina. O que. com estes materiais os próprios pacientes criam o figurino de cada personagem. Rosane. ilustra o caráter também “político” do trabalho de acompanhamento terapêutico de pessoas que se ajustam psicoticamente. Na oficina utilizamos fantasias. 2008. máscaras feitas pelos próprios pacientes. 201 . Durante este debate os pacientes verbalizam o que compreenderam sobre a história. TNT e materiais reciclados. tecidos. seus ajustamentos psicóticos nos contextos nos quais se insere. promovemos um pequeno debate sobre a mensagem que a história relatada traz. ao contrário.

não podemos colocar em evidência a lógica social da exclusão tão contraditória. (Hernáez. ele acreditava que a da interpretação de vivências de nossos pacientes em si era uma técnica terapêutica.p. Laura Perls estudou dança e Paul Goodman era poeta e escritor”. já que o próprio Perls sofreu uma importante influência do psicodrama de Moreno.1) A utilização de contos e do teatro não é algo novo para os gestalt-terapeutas. investimos nesta proposta terapêutica.2) Assim como os pacientes interagem de forma criativa interpretando os contos que ouvem na oficina.. Pautada nestes pressupostos teóricos e crendo na possibilidade e importância da reinserção social e familiar dos portadores de transtornos mentais.Selma 1995. e muitas vezes utilizava recursos de expressão artística em seus trabalhos. teve aulas de pintura . mas sim evidenciar as qualidades advindas da singularidade de cada 202 .p.” (Ciornai. os pacientes tem um contato criativo com a sociedade. (Ciornai. Angel M. “Poner en evidencia la lógica social de la exclusión no debe entenderse como un argumento contradictorio con el enfoque característico de las ciencias “psi” de interpretar el aislamiento y retraimiento sociales de los afectados como resultado de su enfermedad de base. 2009. sino como un intento de rescatar el mundo social de estos actores”. que por tanto tempo foram lançados a margem da sociedade. esse mesmo ajustamento criativo se maximiza para seu cotidiano.p. Resultante deste ajustamento criativo.FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA “A afinidade da Gestalt terapia com as artes existe desde o seu começo Frederick Perls trabalhou em teatro.2) Enquanto profissionais da área psi. assim como na citação acima de Hernáez afirma. “Ajustamento criativo e contato são conceitos chaves na Gestalt terapia pois implicam não apenas em “ajustamento” mas em “ajustamento criativo” e não só em “contato “ mas em “contato criativo”.Selma 1995.

por fim. MullerGranzotto. a uma patologia. relacionando-os com o self e o dito mal funcionamento do processo figura-fundo. enquanto psicólogos. ou não se apresentaram. se apresentaram de modo desarticulado. podemos perceber o positivo. O ajustamento psicótico não é uma doença. 2008. o potencialmente transformador. E é somente desta forma que poderemos “penetrar em sua paisagem”com sua. como reflexo daquilo que o constitui e. pode ser entendida como uma ação de promoção da saúde dos mesmos. uma das teorias que mais se aproxima das “pistas” deixadas por Perls sobre o trabalho com a psicose.. sobre como o trabalho com pacientes portadores de transtornos mentais pode ser compreendido teoricamente pautado nas diretrizes e conhecimentos gestálticos. 203 .11) Esta teoria apresenta um direcionamento para o nosso pensar. Ele também é um ajustamento criador. é entendida como uma forma particular de estar no mundo. “. dentro de seus ajustamentos psicóticos.sujeito que não se resume a um rótulo. mesmo diante dos limites e dificuldades mais severos.”(Pereira. essa invenção vem substituir os excitamentos que. ou se apresentaram de modo falhado ou. que mesmo diante de tantas limitações. Embora haja uma lacuna a ser preenchida no que diz respeito ao olhar gestáltico sobre o trabalho com portadores de transtornos mentais. diante do dado. em um caminho rumo a formas de encontro mais saudáveis e genuínas.. 2008. há ali um potencial criativo que constrói como pode sua forma particular de estar no mundo. Marcos. Acreditamos que aquela é a melhor configuração possível do sujeito naquele momento.. é a teoria dos ajustamentos psicóticos. acompanha-lo deste ponto em diante. p. a medida que sua forma de ajustamento “a sua paisagem”. p. É uma forma de viver face às condições de campo que a ele se impõem e que tem relação com um funcionamento atípico da função do id. Quando bem-sucedida. E é somente desta forma particular de estar no mundo. Nos ajustamentos psicóticos. o self inventa.182) A busca por os pontos positivos e transformadores que cada um dos nossos pacientes.junto os dados da fronteira de contato – a história que ele não pode reter ou espontaneamente arranjar. Rosane. O nosso objetivo deve ser resgatar o mundo social de nossos pacientes e não reforçar a cultura de exclusão..” (Muller-Granzotto. há um intenso trabalho de criação na fronteira do contato.nos ajustamentos psicóticos. ainda. “Através da visão gestáltica.

Sabemos que os pacientes portadores de transtornos mentais. assim como dos futuros psicólogos que se interessam pelo campo de atenção psicossocial e pela abordagem gestáltica. tem como ponto de intercessão seu fator criativo. A. tem a sua personalidade fragmentada e que não apresentam um prognóstico de cura apenas de remissão ou estabilidade de alguns sintomas. (p. porém conquistamos uma reestruturação. para ter como fruto um novo direcionamento respeitando. Acreditamos que posteriormente teremos mais pesquisas sobre o tema que favoreceram a capacitação dos psicólogos para atuarem nesta área. por isso muitas vezes ocorrem restrições de atuação terapêutica e inserção deles na sociedade. A prática tem nos impulsionado à busca do preenchimento da lacuna teórica. trata-se de artigos que assim como este.AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS Diedrich. No momento. A utilização de contos e teatro sob o olhar gestáltico em oficinas terapêuticos com usuários do CAPS. é algo que está sendo inserido recentemente na saúde pública e que tem dados bons frutos. 204 . porém os ajustamentos psicóticos. a maior parte do suporte teórico e de produções científicas nesta área. descrevem uma experiência prática bem-sucedida da união desses pressupostos teóricos. dos quais mesmo sendo diferentes dos ajustamentos neuróticos. uma nova organização. Podemos não obter como resultado final uma reintegração da personalidade. Mudamos a organização de uma gestalt fixa.385) comenta que Perls em seus seminários relatava que na dramatização há uma reintegração de fragmentos da personalidade e a reestruturação da mesma. Com este trabalho cremos que contribuímos para quebra de alguns tabus e para reaproximação e reinserção social e familiar destes usuários.

o que é um desafio constante dos profissionais de saúde engajados na reforma psiquiátrica brasileira. A oficina descrita neste artigo é apenas uma de muitas possibilidades de atuação dos psicólogos gestaltistas no campo da Atenção Psicossocial. É algo que deve ser estudado e debatido pelos gestaltistas. fantasias e lembranças reprimidas de sua infância e presentes muitas vezes em suas alucinações ou delírios. A arte pode derrubar barreiras. 205 . pois mostra-se como um campo fértil de trabalho. que também pode ser chamado de ajustamento psicótico. Esse chamado mal funcionamento do fenômeno figura-fundo. Devemos investir em produções científicas que explorem este tema. como era chamado por Perls. porém que necessita de adubo e cuidados.COMENTÁRIOS Podemos observar que os participantes da oficina entram em contato com sonhos. definir pontos de intercessão e dissolver desigualdades e preconceitos. Expressando e libertando algo que antes estava enclausurado em suas mentes. com o objetivo de preencher está lacuna que existe entre nossa produção teórica e nossa prática gestáltica na área de saúde mental.

2009 (CD-ROM) Ciornai. p. Más Allá De La Rehabilitació Psicosocial Metáforas de exclusión y tareas de inclusión. 206 . v.º8. p. Acesso em: 04 de maio de 2009.br.Cad. Paulo. Revista IGT na Rede. Fome e agressão”. Relação entre criatividade e saúde na Gestalt Terapia. Reforma psiquiátrica e Epistemologia. no I Encontro Goiano de Gestalt Terapia. Perls. nº9. Selma. Brasileiros de Saúde Mental.3-25. George Boris. 2008.1. Cad.2009 (CD-ROM) Müller-Granzotto. Antej.1. nº1. Pereira. Vol. Frederick. Revista IGT na Rede.168-184. Edição especial anais do I Congresso Brasileiro de Saúde Mental “Perspectivas em Saúde Mental: Diversidade e aproximações”.REFERÊNCIAS Amarante. Talent Is the Ability to Be in the Present’: Gestalt Therapy and George Tabori’s Early Theatre Practice. Disponível em: http://www.br. Palestra apresentada em 1995. publicada em 1995 na Revista do ITGT (Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt Terapia) nº 1 . Florianópolis: Abrasme: jan-abril. Florianópolis: Abrasme: jan-abril. Mabel. Angel M. 1995 Diedrich. “Ego.5. Gestalt-terapia e saúde mental: contribuições do olhar gestáltico ao campo da atenção psicossocial brasileira.psc. Goiânia. Acesso em: 04 de maio de 2009. Vol. Rosane Lorena.5. v.igt. 1942.psc. Trad. São Paulo: Summus. n. Muller-Granzotto. Hernáes. Edição especial anais do I Congresso Brasileiro de Saúde Mental “Perspectivas em Saúde Mental: Diversidade e aproximações”. Brasileiros de Saúde Mental. 2002. Marcos José. Disponível em: http://www. Clínica dos ajustamentos psicóticos: uma proposta a partir da Gestalt-terapia.igt. 2008. nº1.

Este artigo tem por objetivo apontar fundamentos conceituais da Gestalt-terapia que tem sustentado a prática psicológica no espaço do hospital. ou seja. O campo de estágio é o Hospital Infantil de Vila Velha/ES. plantão psicológico. M. pré-cirurgico e grupo com profissionais e com mães. desde então. Apontamos a importância da prática para a formação do psicólogo e a pertinência do plantão psicológico como lócus da escuta psicoterápica. Palavras-chaves: psicólogo. um projeto31 que se encontra na matriz fenomenológica apresentando-se como nova forma de prática O projeto se refere ao ORELHINHA: escutando a criança no HIMABA (Hospital Infantil de Vila Velha) elaborado em 2006 como espaço de realização de estágio supervisionado em psicoterapia oferecido pela Gestal-terapia e Abordagem Centrada na Pessoa e. ARRIVABENI. 31 207 . M. Enfermarias da Maternidade. Incluímos aqui as Abordagens da Gestalt-Terapia e Centrada na Pessoa as quais tem as autoras desse artigo como docentes responsáveis. A postura fenomenológica permeia a atuação nesses espaços sendo disponibilizada à população hospitalar. pré-parto. A metodologia segue uma organização dos estagiários nos setores do hospital – UTI Neonatal. formação do UMA PROPOSTA DE ESTAGIO CURRICULAR É no contexto do curso de formação do psicólogo oferecido pela Faesa/ES que se insere a oferta de estágio com fundamento fenomenológico-existencial..R. hospital. gestalt-terapia. Relata experiências das autoras no âmbito do estágio supervisionado em psicologia da Faesa/ES.GESTALT-TERAPIA: APONTAMENTOS PARA A PRÁTICA NO CONTEXTO HOSPITALAR CAMACHO. É nessa interface que emerge o projeto de estágio para o Hospital Infantil de Vila Velha/ES. em atividade.

O plantão psicológico tem sido realizado em instituições gerais. envolver-se emocionalmente. sob o titulo “Plantão psicológico: espaço de escuta das emergências emocionais”. empresas. sem perder tal movimento. angústia. Trata-se de projeto de Extensão e Pesquisa desenvolvido entre 2004-2006 nos hospitais Rio Doce e HGL (Linhares/ES). desabafo ou qualquer contexto que retire da pessoa sua capacidade de “tomar atitudes” que sejam promotoras de seu equilíbrio momentâneo. Neste espaços o plantão é destinado a pessoas que buscam um atendimento emergencial. O desafio de levar o estágio em psicoterapia para o hospital demanda novos enquadramentos teóricos e metodológicos. O trabalho a que se remete a autora foi realizado junto a comunidade de Linhares/ES e pode ser encontrado como artigo na revista “Luminis”: Faculdade de Ciências Aplicadas Sagrado Coração – UNILINHARES – v 1. caracterizada pelo sofrimento. unidades de saúde. escolas. centros universitários. 33 32 208 . P. A escolha justificou-se pelo trabalho32 de uma das autoras no contexto citado e por contato com profissionais33 que tem trilhado esse caminho. A idéia central desta modalidade de atendimento é o acolhimento às demandas emergentes da pessoa que “procura ajuda”. nº 1 – jul/dez 2006. Entendemos o fazer do plantão alicerçado numa disponibilidade que lança os envolvidos – cliente/psicoterapeuta – no solo do humano. Referimos-nos às trocas informais em congressos (ULAPSI/JORNADA FAESA) em especial com Henriette T. em situações de crise. sejam elas quais forem. clínicas. No cotidiano significa abrir-se à relação. Morato. Temos observado diferentes práticas sob a denominação “plantão psicológico”. Optamos por trabalhar no solo do plantão psicológico. De forma geral. distanciar-se e.para alunos interessados na realização do estágio em psicoterapia num contexto fora da Clinica-Escola. dúvidas. O foco na postura fenomenológica aponta para alguns cuidados na realização do plantão psicológico. o plantão psicológico tem sido concebido como um espaço no qual “qualquer pessoa que procure ajuda será atendida” pelo profissional plantonista do momento. desespero. como hospital. intervir no que se faz emergente. abrir-se ao contato com a dor da condição humana no encontro com a finitude. perdas. Ainda.

Caracterizamos nossa ação como plantão psicológico nos referindo à criação de um lugar de acolhimento do emergencial, lugar que perpassa o ambiente e repousa na pessoa do plantonista. Entendemos que o plantão funda-se na relação cujo norte é a postura fenomenológica.

A fenomenologia contribui com uma visão holística de homem e mundo. Tal visão se expressa no paradigma existencial-humanista que representa um corpo teóricometodológico importante na fundamentação de práticas que enfatizam uma visão de homem como totalidade. As Abordagens psicoterápicas como a Centrada na Pessoa (Rogers, 1961), a Gestalt-terapia (Perls, 1970) aglutinam propostas nesse caminho. Ainda, pesquisas qualitativas fenomenológicas emergem no campo da saúde, bem como, ações de práticas meditativas e relaxamentos. Justifica-se aqui o plantão no olhar fenomenológico-existencial-humanista.

UM CLIENTE HOSPITALIZADO

Nosso dia inicia-se com a chegada ao hospital. Aqui nos concentramos em grupo; trocamos brevemente algumas recomendações e nos dirigimos aos diferentes espaços para a realização do plantão. Estar como supervisora nesse campo é colocar-se como facilitadora de processos relacionais. Uma vez que o estagiário segue com a “ronda”, o supervisor caminha pelos corredores. É esta presença que sustenta tal fazer ao atuar como ponto de encontro e expressão de angústias vividas pelo estagiário, como bem o expressa Martin Buber (1958) “todo viver verdadeiro é encontro”. Terminada a jornada do dia nos encontramos novamente no grupo para aprofundamentos teóricos, reflexões e troca de experiências vividas.

Chegando – ir a um lugar chamado hospital não é tarefa das mais simples. O estigma34 de se tratar de “lugar para morrer” permeia o imaginário social. Ir a um

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Para aprofundamentos desse olhar sobre a instituição hospital, remetemos o leitor à leitura da obra

de FOUCAULT. M. Microfísica do Poder. 22ª ed. Rio de janeiro: Graal, 1979.

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hospital, para a população, significa ultrapassar medos na realização de um ato que se coloca fora do cotidiano. Vamos ao hospital, geralmente, para uma visita a alguém adoecido; outras, para celebrar um nascimento, mas como hospitalizado ou como alguém que oferece um serviço de psicologia, é uma “outra” experiência. Observamos, junto aos estagiários, a mobilização de uma energia afetiva para ir. Aqui ocorrem atrasos, esquecimentos do horário combinado, perda do crachá de identificação e, tantas vezes, “crises de pressão baixa”. Assim, a chegada se configura num acontecimento em que o grupo oferece suporte e se suporta; onde o supervisor é convocado à escuta desse fenômeno. O acontecimento “chegada” demarca o inicio do plantão, no entanto, muito antes, o campo vivencial desse plantonista já se encontra mobilizado. O supervisor é o lugar da realização desse plantão e se oferece como tal.

A “ronda” – organizados por setores, os quais foram escolhidos pelo estagiário, tem inicio a ronda. Trata-se de uma caminhada pelos corredores do hospital; da entrada em enfermarias; Utin; sala de parto. O fenômeno se apresenta à escuta: o entrelaçamento plantonista e espaço hospitalar torna-se mundo vivido.

O “cliente hospitalizado” é convidado ao encontro humano. A postura do estagiário é de uma ética “sem precedentes” – como testemunhará o próprio grupo de supervisão. A escuta, ou o plantão, não pode ser imposto. A presença do plantonista visa à relação Eu-Tu, porém, nas palavras de Richard Hycner (1995) “podemos apenas nos preparar para a possibilidade do encontro EU-TU. Não podemos ‘forçar’ sua ocorrência”.

A formação do psicólogo o preparou para um cliente “que vem até determinado espaço e se coloca para o processo psicoterápico”. Para um processo situado num tempo que permite retornos e feedback. O “cliente hospitalizado” não solicitou a psicologia, sequer pensa em psicoterapia ou “tem tempo para a mesma”. Configurase como essencial para prática do plantão no hospital o entendimento dessa relação que se propõe.

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A postura fenomenológica será o instrumento de abordagem a ser entendido, refletido e exercitado pelo aluno em formação. O que é um “atendimento” nesse contexto será a questão “arduamente” discutida e desconstruída na pratica denominada plantão psicológico.

A abordagem – a caminhada pelos corredores convoca o plantonista ao aqui-agora. Apontando para um conceito vivencial estamos atentos à caminhada. Assim testemunha o plantonista:

Faz algum tempo que chegamos ao Hospital. Será que estou pronta? Que surpresa me aguarda hoje. Já andei por “todos” os corredores e não consegui fazer atendimento. Lá está minha supervisora. Sentamos juntas. Falo dessa angústia. Que bom não ter pressa pra atender. Levanto. Caminho novamente, agora, pela Maternidade. Sinto meus passos; minha respiração; a mão fria. Meus olhos se encontram com os olhos daquela mulher ... (sic) (relato em diário de campo do estagiário).

Aqui-agora é processo vivido entrelaçado ao campo.Torna-se limitado localizar partes desse campo vivido; dizer, quem sabe, que a estrutura física, com seus desdobramentos, bem como a estrutura dinâmica do hospital, representada nas relações ali travadas, são as partes determinantes desse campo. O campo se concretiza no aqui-agora, constrói-se das infinitas possibilidades que se apresentam na relação. Acreditamos que campo, no contexto hospitalar, se define como possibilidades – o que é possível no aqui-agora vivido.Tal configuração emerge no relato abaixo:

Entro na sala de parto. Meus olhos se encontram com os de Teresa. Respondo a este convite: Teresa é uma menina de 17 anos, está em trabalho de parto. Perceboa calma e, bem “baixinho”, ouço seus gemidos. Penso: quais serão seus anseios para aquele momento tão especial na vida de uma mulher? Teresa me conta que é o seu primeiro filho e que está curiosa para ver seu rostinho. Entre gemidos a dilatação aumenta. Sinto-me presente para o momento do parto. Minha presença

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busca potencializar calma, conforto e segurança de que tudo sairá como esperado. Estou próxima, bem junto a esta jovem mãe. O bebê nasce. Vejo as feições de Teresa transformar: a alegria toma conta; seus olhos estão marejados e emerge um “chorar de emoção”. Eu respiro. Sinto-me grata!!(relato em diário de campo do estagiário).

A abordagem a este “cliente hospitalizado” é a abertura ao encontro genuíno. Novamente as palavras de Richard Hycner (1995) nos parecem pertinentes:
Essa abertura para encontros genuínos significa sempre uma disponibilidade de encontrar o inesperado, o mistério existencial entre pessoas, deixando de lado a segurança dos próprios métodos e da teoria (p. 40).

O assim colocado, “atendimento” acontece nesse lócus denominado campo. O fazer do plantonista sugere um movimento – chegar; perceber-se; abrir-se à caminhada; encontrar-se com o outro; abordar; oferecer-se como lugar de plantão; permitir-se ficar junto ao outro como pessoa; cuidar de si e do outro no fechamento desse encontro – estar como uma “árvore frondosa a oferecer sua sombra”, concluirá Henriete Moratto.Temos aqui caracterizado “o atendimento” na situação que ora refletimos.

No início, ainda tímida com relação à abordagem às pessoas, me senti um tanto incapaz, porém enquanto conversava com aquela menina, dentro da Utin, me senti tranqüilizada, pois percebi que somos sim capazes de trazer um acalento para as pessoas que estão ali naquele ambiente triste do hospital (relato de diário de campo do estagiário).

Partindo – o que demarca a finalização do plantão é a hora acordada entre plantonistas e supervisor; assim, vindo dos vários setores do Hospital, reúnem-se os integrantes do grupo. Grupo reunido iniciamos a troca de experiências. Contamos como foi o dia; relatamos as abordagens realizadas; falamos das dúvidas “vistas” na hora da prática; trocamos nossa experiência e a articulamos teoricamente. A formação do psicólogo encontra nessa experiência de plantão o exercício das

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habilidades desse fazer. A supervisão acolhe o vivido; oferece marcos conceituais como recurso para a caminhada desse profissional em construção. Juntos, em grupo, cuidamos de dores e limites para a partida. Haverá uma chegada, pois há outro lugar a nos esperar.

APONTAMENTOS E REFLEXÕES QUE EMERGEM DESSA PRÁTICA

O profissional plantonista, neste caso, o estagiário de psicologia, precisa desenvolver uma disponibilidade para se deparar com o inesperado, com o não planejado, com a possibilidade do encontro com a pessoa. Como também precisa acolher a pessoa no momento da sua necessidade e, assim, se desvencilhar da tendência de dar continuidade ao processo.

O plantão é uma oportunidade para o plantonista se colocar disponível à escuta e acolher a experiência da pessoa em vez de enfocar o problema, até porque, este não é o objetivo. É um exercício de desenvolvimento no plantonista /aluno de uma maior autonomia e consciência crítica de seu fazer psicológico, já que está desprovido de ferramentas, instrumentos técnicos que possam funcionar como amparo no encontro com o outro. No serviço de plantão psicológico, o plantão está no próprio plantonista.

A situação de hospitalização é geradora de uma vivência angustiante e desagregadora de uma crise cujos aspectos são uma interface entre fatores econômicos, sociais, espirituais, orgânicos, psicológicos, culturais e políticos, dentre outros. Neste sentido, a doença tal como é vivida pela pessoa engloba dois aspectos que devem ser considerados: o primeiro é o fato de que a doença, em qualquer lugar, será sempre entendida da mesma forma, ou seja, é estrutural, o segundo expressa a condição existencial concreta da pessoa doente, que se apresenta com suas emoções, pensamentos, cultura, corporeidade, linguagem, enfim, com sua singularidade.

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O binômio saúde-doença não pode ser mais analisado separado da pessoa que vivencia tal fenômeno. É preciso uma abordagem que acolha a pessoa na sua existência total. A perspectiva existencial-humanista-fenomenológica, ao

compreender a pessoa na sua totalidade, se caracteriza como um modo de estar-nomundo com o outro se aproximando do fazer psicológico na modalidade de plantão com todas as peculiaridades já refletidas.

O ser plantonista se des-vela nas vivências do cuidar, que acreditamos se expressar no cuidar-de e cuidar-com cuidando, que implica em proporcionar a pessoa a

oportunidade de se cuidar minimamente que seja em qualquer sentido.
Contato é uma palavra mágica, é sinônimo de encontro pleno, de mudança,de vida. É convite ao encontro, ao entregar-se. É um processo, cujo sinônimo é cuidado, a alma do contato (RIBEIRO, 1997, p.13).

O profissional do plantão psicológico tem uma oportunidade única de preencher este “papel de cuidador”. Entretanto, não é fácil estar neste lugar. Mas, quando se está aberto para tal experiência, para este encontro sem garantias e formas, muito se aprende sobre a arte de cuidar cuidando-se, já que acreditamos na resultante de um cuidado mútuo, profissional e doente se cuidam e se oportunizam um aprimoramento das dimensões do existir de uma forma mais plena.

Analisando nossa experiência no Hospital Infantil e Maternidade de Vila Velha/ES nestes anos (2006-2009) de oferta de estágio na modalidade de plantão, descobrimos o quanto tal vivência contribuiu para a formação profissional e pessoal dos alunos que verdadeiramente estiveram abertos para tais encontros, pois sabemos que o fato do estagiário estar em determinado campo de estágio não significa o estabelecimento de uma aprendizagem significativa. Muitas vezes, este aluno simplesmente ocupa um lugar por obrigação, por cumprimento dos créditos necessários para sua formatura. O que não aconteceu, felizmente, com muitos de nossos alunos que lá estiveram por períodos de um ano letivo.

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Cada uma de nós, supervisoras de estágio curricular, esteve responsável pelo acompanhamento, orientação e supervisão em dias diferentes por duas turmas, que eventualmente trocavam suas experiências nos espaços de consolidação de trocas, como jornadas científicas, seminários integrados, e outros eventos que fomentavam este objetivo.

A Gestalt-terapia apresenta fundamentos conceituais, filosóficos e metodológicos pertinentes à prática do psicólogo no contexto hospitalar. Apontamos o conceito de campo como contribuição central do entendimento da temática apresentada por esta população. O conceito se refere ao processo de organização como relações e forma, portanto, engloba sistema e estrutura.
O processo de organização é único, embora exista mais de uma área organizada dentro de um mesmo campo. Isto nos conduz aos conceitos de sistema e estrutura (RIBEIRO, 1985, p. 74).

O campo é lócus de processos psicológicos em desdobramentos na situação da hospitalização. As possibilidades de configuração do campo são mutáveis a cada abordagem ao “cliente hospitalizado”. A riqueza desse campo está nas nuances do vivido – a forma particular de colocar-se nesse espaço-tempo.

O plantonista move-se no campo vivencial e, a abordagem, acontece no campo. Torna-se difícil separar ou demarcar etapas desse vivido. Assim é; a existência se apresenta com tudo o que nela há, como reflete forghieri (1993). O vivido é a nossa percepção imediata, pré-reflexiva, do movimento existencial.
[...] nossa reação interior imediata àquilo que nos acontece, antes mesmo que tenhamos refletido ou elaborado conceitos. [...] está num plano da consciência onde o sentir e o pensar não se distinguiram ainda. [...] o vivido “se diz” dentro de nós, ele se expressa, e assim assume um significado. (AMATUZZI, 2001, pp. 53-55).

O plantonista caminha pelos corredores e, ao caminhar, vive o percurso. O viver ocorre no presente, no aqui-agora. Compreender o sentido vivencial do conceito aqui-agora é fundamento para este fazer. O campo se auto-constrói no aqui-agora, no movimento da vida. Soltar-se, confiar na sabedoria do campo, arriscar-se, enfim, abrir-se ao mistério são requisitos para o estar no tempo-espaço do hospital.

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isto é. no aqui-agora. Dentro desse campo a criatividade do plantonista é seu guia. Campo. aqui-agora e awareness são processos. Campo. Cremos que a criação da gestalt para o hospital aqui se diferencia. Tomar propriedade desse lugar e intervir como se fosse sua voz. são conceitos vivos que vão dando forma à prática do plantão psicológico no olhar fenomenológico-existencialhumanista. permite também a escolha sobre “se quer ir ou ficar” (RODRIGUES. O plantonista estará “de fronte” à própria finitude ao permitir o contato. vista sob uma ótica holística. além de permitir a escolha até “para onde se vai”. Estamos falando de uma teoria viva. aqui-agora. para além da escolha. Pensamos que o experimento tem suas raízes na proposta fenomenológica de “ir às coisas mesmas”. Partir de onde estamos. p. ser de projetos. O percurso anuncia o experimento – metodologia tão cara à Gestaltteapia. por escolha. aplicando-a num espaço que remete à morte. Estar awareness é incluir o fluir existencial no tempo-espaço. 216 . Lembramos Stevens (1988) awareness é “tornar-se presente”. Como pensar gestalt-terapia sem remeter-se à vida? O solo filosófico sustenta tal vôo. é continuum de consciência. 2002. A experiência da fronteira vida-morte é o que aguarda nos encontros do dia. fronteira de contato. Experienciar compreensão quando. olhar a narrativa do outro como se fosse sua. Awareness é deixar-se estar. das forças atuantes no campo vivencial da pessoa. ser lançado no drama do outro e ver-se dolorido na situação. ou seja. auto-compreender-se como ser finito. estamos falando de elementos vivos. é fluir perceptual. Nesse sentido o experimento é a escuta fenomenológica que se concretiza no campo vivencial que se apresenta. O experimento que funciona como uma concretização.Outro conceito debatido em nossas supervisões é awareness. 86). considera que é necessário começarmos qualquer caminhada exatamente de onde estamos. awareness. Estar awareness desse movimento e assim intervir comunicando que compartilha a condição humana desse outro. Experienciar compreensão ao.

que fenômeno é ato de criação – é a “menina dos olhos” que reflete este fazer-saber.O experimento é um convite ao contato que se realiza em ambos. Finalizamos aqui nossas reflexões vividas no espaço tempo de estar junto a formandos de psicologia no contexto hospitalar tendo. que sabe que sujeito e objeto não são separados. por instrumento. quem convida e quem aceita o convite. a Gestaltterapia e a ACP. O olhar compreensivo – aquele que se solta dos pré-conceitos. 217 . Estar como plantonista é responder sim ao convite e desdobrar-se em polaridades sequer imaginadas.

M. Psicologia fenomenológica: fundamentos. 1985. J. STEVENS. São Paulo: Summus.. Petrópolis: Vozes. R. métodos e pesquisa.. 2001. 1993. F. H. M. Gestalt-terapia. Gestalt-terapia: refazendo um caminho. GOODMAN. 2002. Introdução à Gestalt-terapia: conversando sobre os fundamentos da abordagem gestáltica. São Paulo: Summus. São Paulo: Summus. Eu e tu. PERLS. Tornar-se presente. São Paulo: Summus. São Paulo: Martins Fontes. Por uma psicologia humana. J. . 1979. H. (ORG). Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa: novos desafios. Temas básicos na Abordagem gestaltica. 218 . ______. 1977. HEFFERLINE. De pessoa a pessoa: psicoterapia dialógica. São Paulo: Casa do Psicólogo. M. 1995. ROGERS. S. J. Campinas: Alinea. R.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMATUZZI. E. P. RIBEIRO. R. RODRIGUES. São Paulo: Pioneira. MORATO. São Paulo: Cortez e Moraes. Tornar-se pessoa. 1988. T. FORGHIERI. BUBER. São Paulo Summus. O ciclo do Contato. O. 1999. C. Y. P. C. 1982.1997. HYCNER.

T. R. mente e doença na psicanálise freudiana. M. A fim de entender a discussão em torno do tema. Hipocrates não cunha o termo “psicossomática”. 2006). Este trabalho tem por objetivo descrever e analisar a conceituação de corpo. G. o monismo e o dualismo. a psicanálise freudiana. 2006). Nas primeiras civilizações humanas. vamos apresentar brevemente as escolas filosóficas acerca da visão de homem. na psicossomática moderna e da abordagem gestáltica.. “demônios” eram responsáveis pelas doenças humanas. M. Esta concepção sobrenatural das doenças se mantém na civilização grega e só começou a ser questionada com o aparecimento das idéias de Hipocrates (CASTRO. O homem desde muito cedo pensa sobre a etiologia do adoecer e as possíveis formas de intervenção sobre o doente. entidades sobrenaturais ou hipotéticas eram responsáveis pelas doenças.. a cura é por conta de uma figura religiosa.. e passa a buscar explicações naturais para esses fenômenos naturais (CASTRO et al.GESTALT-TERAPIA: UMA POSTURA PSICOSSOMÁTICA INTRODUÇÃO O pensamento humano em torno da origem das doenças existe desde a pré-história (cerca de 14000 AC). Ele é um dos primeiros a questionar a origem sobrenatural das doenças. ANDRADE. 219 . mas dá o ponta pé inicial no pensamento psicossomático. em seguida descrever as concepções de corpo. e a visão atual de psicossomática (psicossomática moderna). M. MULLER. C. Dentro desse contexto. mente e doença entre a abordagem gestáltica. ou seja. como um sacerdote ou xamã. como a assírio-babilônica.

visão hilomórfica. No Renascimento. que se relacionam de formas diferenciadas: 1) corpo e alma são de naturezas diferentes. podendo ser ou o corpo ou a mente (também chamado de alma por alguns filósofos). p.24). quando trata da psicogênese da histeria. no século XIX. Descartes. surge a diferenciação entre corpo vivo (corpus) e corpo morto (soma) (Volich. 49). 220 . no dualismo existem ambos. em que conflitos inconscientes seriam a causa de paralisias e outros sintoma. valorizando seu substrato material em detrimento do subjetivo. na escola monista “existe no homem um único principio vital” (2000. (Volich. formando uma única substância completa. no associacionismo (Séc. ou mente. no materialismo e no neopositivismo. 2) corpo e alma como tendo uma influência recíproca. O princípio monista também se evidenciou no empirismo (séc. 2000). embora sejam substâncias diferentes e separadas. que tinha uma visão dualista. A origem da psicossomática em Hipocrates é monista. 2000. em suas diferentes formas desde o século XIX. existem duas correntes filosóficas que marcam a discussão entre mente e corpo ao longo do tempo: o monismo e o dualismo. visão interacionista. p. Por outro lado. 3) Corpo e alma são independentes mantendo uma harmonia preestabelecida. enquanto na escola monista materialista o único princípio de vida é o corpo. no positivismo.A VISÃO DE HOMEM: MONISMO E DUALISMO Dentro da visão de homem. corpo e mente (alma). Segundo Volich. XIVII e XVIII). enfatizou a distinção do corpo e suas funções. Na escola monista idealista o único princípio de vida no homem é a alma. e 4) corpo e alma são manifestações distintas no organismo humano. A visão de homem monista entende que o homem se constitui apenas de uma maneira: ou corpo. no paralelismo psicofísico. (Volich. já que a alma era vista como parte orgânica do corpo. a Psicossomática passou por séculos de elaboração até ser definida pela primeira vez por Heinroth. Deste modo. 2000). o conhecimento da anatomia foi importante para compreensão do adoecer e da terapêutica. sendo retomada por Freud no século XX. no paralelismo. Ao questionar as vias que levam o conflito psíquico ás manifestações somáticas ele busca a compreensão das diferentes passagens e relações entre as manifestações psíquicas e corporais. XIX).

estavam relacionados com entidades não naturais (hipotéticas). e ao mesmo tempo em que mantinha a pesquisa clínica. 2006) O SISTEMA PSICOLÓGICO EM FREUD Em sua primeira tópica. Segundo Volich (2000. visto que fenômenos naturais. como a relação do sintoma orgânico com a dinâmica psíquica e o infantil. 1993). a dimensão econômica do funcionamento psicossomático foram referenciais para o desenvolvimento das teorias psicossomáticas atuais. Criou para isso a metapsicologia.Ele estabeleceu um marco na relação entre psique e soma. como as paralisas histéricas. Freud denominou e dividiu topograficamente em Inconsciente (Ic). Apesar de tudo. Freud percebe a necessidade de criar um esboço para tornar compreensível e viável o desenvolvimento de sua teoria. 1993). estrutura hipotética. cada um. p. ele faz uma abordagem dualista na visão de homem e do adoecer. a distinção entre as psiconeuroses e as neuroses atuais. Pré-consciente (Pcs) e Consciente (Cs). O sistema metapsicológico de Freud é uma topografia hipotética do aparelho psíquico. Freud realizou a sua própria estruturação teórica e concebeu um espaço em que atuariam dinamicamente as diferentes forças psíquicas. em que a psique está dividida aparentemente em três planos de força psíquica. desenvolvendo uma clínica e um aparelho teórico que buscam permitir a compreensão das diferentes passagens e relações entre as manifestações psíquicas e somáticas”. como representações afetivas e ideativas inconscientes. Como já foi dito este sistema é hipotético. investimentos energéticos que se deslocam de certa forma. Os conceitos derivados da teoria psicanalítica. 221 . que lhe serviu de base para construção de outros elementos estruturais da teoria psicanalítica (GARCIA-ROZA. este foi o caminho encontrado por Freud para conciliar um sistema teórico com os resultados de sua experiência clínica (GARCIA-ROZA.64) “Freud fundou a Psicanálise. (CAPITÃO et al. Assim. Como não podia encontrar ou explicar a origem dos sintomas histéricos por teorias da época.

“já que incide num ser sempre provido de soma e psique. um campo de pesquisa chamado de "Psicologia da Gestalt". esta se coloca dentro da visão de homem monista.. p. trazendo luz para questões fundamentais das relações intra e interpsíquicas. 2002.A VISÃO ATUAL DE PSICOSSOMÁTICA Atualmente a psicossomática se coloca como um campo de estudo e pesquisa ou uma visão de homem acerca do corpo e do adoecer (MELLO FILHO. 19). anatômica e funcionalmente” (MELLO FILHO. em sua forma especial de viver em e com o mundo [. gestáltica e em função da pessoa que a apresenta. 2006). e encarar o fenômeno doença de forma sempre global. no qual esta vertente da Psicologia Clínica encontrou terra fértil para crescer e qual sua visão de homem e suas concepções acerca das dicotomias corpo-mente e saúde–doença. dentro de uma visão holística de homem (CASTRO et al. A psicossomática moderna compreende a inseparabilidade dos aspectos psicológicos e biológicos e suas interdependências. entendemos que a psicossomática moderna considera que a mente ou psique é uma expressão ou aspecto do corpo humano. Dessa forma. “A tendência mais atual é abandonar os conceitos de psicogênese. retornando assim à visão primordial de Hipocrates. efetuarmos um breve panorama do contexto histórico. A ABORDAGEM GESTÁLTICA E SUA CONCEPÇÃO DE HOMEM Para uma melhor compreensão do que é a "Gestalt-terapia”. 222 .]”. 2002).21). antes. Além disso. surge na Alemanha. inseparável. toda doença é influenciada por aspectos psicológicos e biológicos do corpo. que primava pela consideração das relações entre as partes e na determinação da percepção do todo em confronto com a idéia do associacionismo. Segundo Mello Filho (2002. ou somatogênese. Herda da Escola de Chicago.. a concepção que toda doença é psicossomática. é importante. Em reação a estas visões. algumas abordagens apresentavam tentativas de compreensão da psique humana. p. com Franz Alexander. Dentro desta conceituação. No cenário mundial do início do século XX.

Ela pretende ser uma síntese criativa e coerente. a psicanálise de Freud. oriundos da Psicologia da Gestalt. (MARTINS. Os conceitos. Assim nasceu a Gestalt-terapia uma abordagem existencialfenomenológica.Esta vertente da psicologia foi um campo estritamente experimental. para construir um campo de conhecimento voltado especificamente para a área clínica. perceberam a importância do conhecimento que a Psicologia da Gestalt trazia e apropriaram-se desse e de outros pressupostos filosóficos como tais como o humanismo. são importantes bases para as noções de saúde e de doença da Gestaltterapia. a teoria acadêmica da Gestalt. a Teoria de Campo de Lewin. a fenomenologia. (PEARLS. 1995. primeiro autor da Gestalt-terapia. 1979) É dessa base de influências que se pode depreender a visão de ser humano da abordagem gestáltica. Frederick Perls. e a impossibilidade de compreender o homem sem uma visão holística do mesmo. Subjacente a estes e a outros conceitos oriundos da Psicologia da Gestalt está a diferença entre a realidade psíquica (o que eu percebo) e a realidade objetiva (o mundo das coisas). que visa o átomo: a menor parte ou elemento constitutivo das coisas. a Teoria Organísmica de Goldstein. o Taoísmo e o Zen-budismo. que se ocupou em trazer questionamentos que foram contrários à visão mecanicista (causa-efeito) e à visão atomística. dessas correntes filosóficas ou psicoterapicas. o existencialismo. que agrupe numa Gestalt (numa configuração) as partes deste homem bem como sua relação com os outros homens e com a natureza. Esse campo de pesquisas trouxe uma série de novas perspectivas para entender a maneira com a qual o homem se relaciona com o mundo. principalmente o que se refere à figura e fundo. Outro conceito básico importante é o que trata do aqui e agora em termos de percepção. e outros psicólogos seguidores dos princípios gestálticos. Além disso. (KÖHLER. a Análise Reichiana do Caráter. p. 55) De acordo com Martins (1995) a Gestalt-terapia ao assimilar partes dos conceitos de 223 . em constante transformação. 1980) Mais tarde.

o homem enquanto uma totalidade. o aqui-e-agora é o tempo e o lugar onde as modificações podem ocorrer. em que o ser humano é um ser de relação. quando estes ajustamentos se cristalizam assumindo 224 . o ser humano é um todo unificado que se auto-regula. ele é totalidade e integração (a pessoa como uma unidade psique-corpo-espírito). Podemos dizer que saúde é a expressão de um contato transformador. onde não há separação entre as partes que o compõem. A saúde é uma resultante de sermos capazes de realizar ajustamentos criativos em relação ao meio. o ser humano está constantemente interagindo com limites sociais e ambientais. Para Silva (2000). Sua mente. ele se encontra inserido. diz respeito à satisfação adequada de necessidades. Assim. formando uma unidade compreensível e saudável. o seu pensar e o seu agir. ou seja. uma nova gestalt. mente e corpo são indissociáveis a tal ponto que é mais interessante falarmos em “organismo”. se algo muda em qualquer uma das suas partes. então. SAÚDE E DOENÇA NA GESTALT-TERAPIA Dentro da abordagem gestáltica. portanto. seu corpo e suas manifestações são partes de um todo. integrados e contribuindo para a configuração desse todo. Pensar uma organização eficiente. organização e interdependência. surge uma nova organização. Essa visão holística da Gestalt-terapia aponta para uma compreensão do homem enquanto parte de uma totalidade mais ampla e mais complexa que representa o contexto no qual. funcionando com todo seu potencial é pensá-la como um movimento de partes harmonicamente entrelaçadas. mental. correlação. mas sim integração. o todo é reconfigurado.cada uma das correntes a que está vinculada constrói uma concepção nova e própria de homem. A VISÃO CORPO E MENTE. um sistema integrado e organizado. uma unidade indivisível corpo/mente. ou seja. seja um aspecto emocional. no entanto. físico ou espiritual. são formas diferentes de expressão daquele ser humano e estão. não há no homem separação entre o seu sentir. em um processo de auto-regulação entre pessoa e meio. (SILVA. 2000) A Gestalt-terapia compreende.

A doença é fenômeno como processo. parece ser uma boa estratégia para não perder de vista o ser integral e a noção de processo que fundamenta as teorias humanistas. Ribeiro (1997) alega que qualquer interrupção deste implica em uma perda da saúde. melhor do que suas próprias iniciativas de vir à tona. 225 . que não precisa ser debelada nem destruída. interesse e criatividade. é uma possibilidade de obter e manter a saúde. A “doença” implica uma necessidade não satisfeita e não deve ser considerado em si. bem como aspectos saudáveis da personalidade. 1997) O grande mérito da Gestalt-terapia não é ser uma terapia de ajustamento.formas crônicas de reação. A resistência é uma função. Crescer neste sentido é buscar desenvolver seus próprios recursos. é preciso que ela se encarne. então. é um processo. mas de auto-realização. Um outro instrumento que permite o ajustamento criativo do cliente sob sua própria responsabilidade. a auto-regulação. através do qual a pessoa experiencia algo novo. é a polissemia da leitura corporal. sentimentos naturais e desculpas para evitar os riscos do crescimento. Não deveríamos tratar a doença e sim a pessoa adoecida. "Estar doente" lembra do cuidado para não deixar com que toda a vida gire em torno de um diagnóstico imutável. é algo que precisa ser visto com respeito. reorientar-se para o viver criativo. se distorce. passa por um reajustamento das suas necessidades mais profundas. O termo "estar doente" ao invés de "ser doente". uma função básica do organismo. Nada pode trazer a pessoa a tona. A cura. para que ela seja eficaz. deixando de ter um funcionamento saudável. mas em relação à pessoa e ao campo no qual existe. (RIBEIRO. mas sim facilitada. escondendo atrás deste. pois ela é um dos melhores instrumentos de ajustamento da pessoa. Para Silva (1998). Neste momento. 1997) Sendo saúde o contato em ação. (RIBEIRO. os sintomas são sinais de sofrimento que vêm junto com avisos que dão sentido ao que a pessoa apresenta e com tentativas organísmicas contínuas de reajustamento e de retorno ao crescimento e ao equilíbrio. A palavra não é suficiente.

num processo criativo de adaptação e reajustamento. no qual o restabelecimento do pleno funcionamento e integração (contato) de seus elementos constitutivos garantem a satisfação de suas necessidades. É a capacidade de realizar esse processo que caracteriza o estado saúde de um organismo. passando por uma auto-regulação. a Gestalt-terapia surge com a proposta de ajudar esse ser em estado 226 . as diferentes formas de manifestação do organismo. não podendo ser analisados separadamente. Tem o cuidado de “não aprisionar a humanidade do homem” e a compreensão de que “o homem é responsável e capaz por si mesmo. Como a doença se caracteriza pela incapacidade do organismo satisfazer suas necessidades por meio do reajustamento adaptativo às novas condições apresentadas. pois estão plenamente integrados. escolhendo-se”. presa nos dualismos inconsciente/consciente e mente/corpo. alcançando sua realização. Sua posição é sempre afirmativa. a configuração total deste também será alterada.dons e talentos especiais. já que esta. a Gestalt-terapia compreende o ser humano como um organismo completo no qual soma e psique são indissociáveis. Portanto. não consegue ter uma visão mais ampliada do ser humano para uma percepção mais completa do processo saúde/doença. Vemos então uma grande diferença entre a visão de psicossomática em Gestalt-terapia e a visão de psicossomática na Psicanálise Freudiana. precisam ser compreendidas dentro da configuração global do organismo do qual fazem parte. logo assume uma postura psicossomática moderna para o entendimento da saúde e da doença. que se forja. que é o objetivo da Gestalt-terapia. se houver a alteração de qualquer elemento de tal organismo. saúde e doença. corporais ou psicológicas. humanizando-se. Assim como visão psicossomática atual. indo às coisas mesmas. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO A abordagem gestáltica mantém a visão monista e holística para o entendimento de corpo e mente. Desta forma. de valorização do que o cliente traz de saúde e de positividade em sua vida.

novas experiências. e a compreensão e eventual transformação dos padrões de relacionamento do indivíduo consigo próprio. pois apenas isso seria ainda uma visão parcial desse ser. trazendo tudo que for relevante para ser analisado no aqui-e-agora. busca compreender a pessoa em processo terapêutico considerando todos os aspectos de sua existência. Entender o corpo de maneira gestáltica. trazendo-a para o ‘aquie-agora’.de adoecimento a descobrir o seu potencial de cura e auto-realização a partir da valorização do que há de positivo e saudável em si mesmo. através do suporte da relação terapêutica. facilitando assim. trabalhando não somente com a fala e o pensamento. caracterização pela compreensão da funcionalidade do corpo-mente e numa ação integrada por meio da "awareness”. confirmando mais uma vez sua visão holística. A Gestalt-terapia dispõe de uma série de instrumentos terapêuticos para ajudar a pessoa em estado de adoecimento a trazer à tona sua capacidade de ajustamento criativo e auto-realização de suas necessidades. com os outros e com o mundo. Concluímos assim que a Gestalt-terapia está congruente com a visão atual de 227 . liberar a energia retida em situações antigas e inacabadas. Complementando esta idéia Ciornai (1995) nos fala: A terapia vem então para ajudar a expandir o fluxo de energia. O homem é um ser social e por isso todas as suas formas de interação precisam ser consideradas. suas interações com esse ambiente e as relações sociais estabelecidas. a elaboração interna daquilo que antes não pode ser bem elaborado. A Gestalt-terapia. inclusive o ambiente onde está inserida. tanto as internas quanto as externas. mas também com o corpo. despertando sua capacidade criativa de superação no aqui-e-agora. Não é possível ter uma visão global de um organismo humano analisando o funcionamento dessa pessoa de forma isolada de seu contexto. Portanto a análise os padrões de comportamento e relacionamento são de suma importância para uma compreensão mais completa desse complexo organismo. dentro dessa visão holística. motivando uma ação transformadora no processo de interação com limites sociais e ambientais. ainda que haja uma compreensão do ser como um organismo no qual mente e corpo não podem ser separados.

com planejamentos interdisciplinares de intervenção. mas também o considerando em sua totalidade.psicossomática. enquanto organismo e enquanto ser social. tratando cada paciente não só com individualidade. ela tem muito a contribuir também na elaboração de projetos de ação multiprofissionais em saúde. 228 . buscando compreender o homem de uma forma total e não fragmentada no processo saúde/doença. enquanto ser único. Podemos perceber que. além da importância da Gestalt-terapia no atendimento psicoterápico.

GARCIA-ROZA. O Ciclo do Contato: Temas Básicos na Abordagem Gestáltica. G. v. 2002. CIORNAI. março/abril de 1995.. v. C. G. São Paulo: Summus. 1993. . RIBEIRO. Psicossomática: duas abordagens de um mesmo problema.gestaltsp. p. PERLS. VOLICH. R. L. Relação entre Criatividade e Saúde na Gestalt-terapia. 2000. KÖHLER. São Paulo: Summus. Goiânia. 229 .html> Acesso em 31 mar. M. T.2.Psicologia da Gestalt. A Concepção de homem na gestalt-terapia e suas implicações no processo psicoterápico. n.21-29. Revista do VI Encontro Goiano de Gestalt-terapia. São Paulo: Casa do Psicólogo. n. 1980. Casa do Psicólogo: São Paulo. M. SILVA. 1995.1979. Corpo e Organismo. M.Escarafunchando Fritz -Dentro e Fora da Lata de Lixo. Revista do I Encontro Goiano de Gestalt-terapia. Revista do IV Encontro Goiano de Gestalt-terapia. maio de 2000. A Intuição e a Fenomenologia: A Dor e a Cura no Encontro. A. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. n. MARTINS.. Disponível em: <http://www.11.2. 1. Introdução à Metapsicologia Freudiana. 1979.39-43. Sérgio Buarque. S.1. Conceito mente e corpo através da História. 2009. Concepção psicossomática: visão atual.com. ANDRADE. Revista do ITGT.C. Belo Horizonte: Itatiaia.. Psicologia em Estudo.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CASTRO. SILVA. 1998. v. Antonio Elmo de Oliveira. R. M. MULLER. CARVALHO. J. E. Sérgio Buarque. Revista de Psicologia da Vetor Editora. Frederick . MELLO FILHO. Jorge Ponciano. jul/2006.abr. B.br/textos/criatividade. W. jan. CAPITÃO. p. 2006. Psicossomática: de Hipocrates à psicanálise.7.

Sei que não tenho muita paciência como mãe. não tive isso com meu pai. cálculos malfeitos.GRUPO DE PAIS: CONSTRUINDO NOVOS CAMINHOS NO ATENDIMENTO CLÍNICO Eixo temático: Prática da Gestalt-terapia na atualidade e os seus caminhos. rachaduras. (p. Atualmente eles falam de tudo com a garotada. A Marta pede para eu conversar com os garotos sobre sexualidade. esse selo. aprendi tudo com a vida. é trabalho que não dá férias nem concede descanso: haverá paredes frágeis. mãe de Beatriz de 9 anos Não sou de conversar com meus filhos.22) Lya Luft Diante da prazerosa tarefa de escrever a experiência com a formação do Grupo de Pais. um nós. Hoje sinto necessidade de fazer coisas que não fiz quando era mais jovem. esse sinete. Não tenho jeito para isso. Mas se abrirão também janelas para a paisagem e varandas para o sol.casa habitável ou ruína estéril . inicio este texto trazendo falas de pais e filhos decisivos para criação deste grupo. essa marca. que foram Fui mãe muito nova. O que produzir . eles vão aprender na escola. não estava preparada. do que nos fizeram pensar que valemos e do que fizemos para confirmar ou mudar isso. Quem sabe um pedaço que vai desabar. do quanto nos amaram e nos amamos. Carlos Alberto( pai de um menino de 10 anos e outro de 14) 230 . Constituir um ser humano. sempre achei um saco brincar! Se eu pensar bem não sou uma boa mãe.será a soma do que pensaram e pensamos de nós. Adriana.

Noto a preocupação dos pais em suprir as necessidades de crianças e adolescentes. ele está ficando insuportável. cheio de vontades e birrento. Há treze anos venho atuando como psicoterapeuta infantil.Tem dias que fico com tanta saudade que peço para vovó me levar no trabalho dela... Minha experiência com estes pequenos clientes revelaram ao longo dos anos que apesar das crianças terem um potencial para crescer e transformar o seu meio. Não quero parecer uma pessoa má. O tempo para convivência.. queria que a mamãe fosse igual a você. Márcia. Pais e filhos estão se distanciando. Trabalham exaustivamente para proporcionar conforto.. mãe de Yan de 5 anos Estou com muita raiva da faculdade da mamãe. o forte vínculo entre elas e a família são particularmente significativos e necessários para seu desenvolvimento saudável. acho que nós dois estamos precisando de ajuda. conversa. além de cursos e brinquedos. quase não vejo mais ela. oferecendo acolhimento para que situações delicadas sejam explicitadas e suporte para que novos caminhos sejam percorridos em busca de fortalecimento. 7anos. para troca de idéias ou valores e para experenciar sentimentos estão perdendo espaço na rotina das famílias. Na corrida desenfreada para ganhar cada 231 . uma boa educação. O trabalho com crianças e pais na prática clínica e escolar tem revelado de forma contínua e crescente que o tempo para o sentir e o espaço para estar junto estão cada vez mais raros.. 8 anos. Danilo. Carolina.Adoro vir aqui. Sinto-me privilegiada pela possibilidade de ajudar as crianças a passar por situações de vida tão adversas. Não consigo dar limites para o Yan. Você é muito legal! A gente brinca.. No fundo acho que estou errada. Por isso a escola pediu que eu viesse. já passo tanto tempo fora.

A sociedade é muito complexa. Os conflitos e dificuldades na relação pais e filhos são temas de 232 . segundo suas motivações e desejos pessoais. desviam a atenção do que os filhos geralmente mais precisam: carinho. com dificuldades de aceitar regras e respeitar seus semelhantes. de compartilhar suas conquistas. muitos pais deixam de fazer uso da autoridade na rotina das famílias. O valor do limite é exatamente dar-lhe uma determinada concepção de mundo. sendo ético. para um dia ter sua profissão. sendo generoso. já que as despesas não cessam nunca. No entanto é consenso entre muitos autores (Tiba.1999. de viver e de pensar. Shinyashiki. Concordo plenamente com Luft (2003) quando afirma “ Preparar alguém para viver não se faz com frases. e é essa bagagem que os ajudarão a conduzir suas próprias vidas no futuro. Somente abrindo espaços no cotidiano apressado e difícil é que teremos chance de passar nossa maneira de ser. para que depois. se faz sendo humano. o limite sinaliza até onde o filho pode ir. sua família. 1996: Zagury. caracterizado como um recurso que permite que a criança perceba uma fronteira entre o espaço dela e do outro. ela possa questioná-lo e transformar. Preparar alguém para futuros relacionamentos. Pode ser muito ameaçador para uma criança. a responsabilidade de sempre escolher o que é bom para ela. Outro elemento decisivo na criação dos filhos e tema de muitas discussões entre os educadores é o uso de limites. diálogo. de acalentar suas angústias. mas convivendo. sendo terno. Sem essa referência os filhos crescem sem a noção dos seus direitos e deveres. proximidade.vez mais dinheiro. Receosos de frustrar os filhos e com desejo de agradá-los como forma de compensar sua ausência. sendo firme.1992) que a atual geração de pais está completamente perdida na imposição de limites. Estou de acordo com o pensamento de Aguiar (2005) quando afirma: A criança precisa de regras: o convívio social exige isso e as regras costumam dar a sensação de conforto e segurança. sua vida. e a criança precisa e quer uma mão guia para entrar neste emaranhado de valores que é a cultura.” Enquanto nos deixarmos aprisionar por nossos compromissos perderemos a oportunidade de testemunhar o crescimento de nossos filhos.

tive a oportunidade de ficar perto das inseguranças e inquietações de muitos pais. O fato de não terem sentido que são amadas nem mesmo pelos pais. deixa um vazio e uma insegurança sem tamanho. sob a ótica de Zagury (1999) o comportamento permissivo dos pais prolonga bastante a permanência na adolescência gerando jovens dependentes. (. Elas podem tanto arriscar onde não deveriam quanto ter receio de coisas que não precisariam.. A oportunidade de conversar sobre o tema revelou que muitos não percebem que a 233 . Ao mesmo tempo que pais são testemunhas da crescente marginalização de jovens.) Não receber regras claras de como o mundo funciona ou receber regras inconscientes deixa as pessoas muito inseguras. Para autora a ausência de regras e a falta de demonstrações de amor por parte dos pais tem como conseqüências insegurança e baixa auto-estima. jovens com mais liberdade do que responsabilidades.publicações. programas de tv em horário nobre. coordenado pela psicóloga Lídia Weber com mais de 3000 jovens. mas direitos do que deveres. Segundo uma pesquisa feita pelo Núcleo de análise do comportamento da Universidade Federal do Paraná. do aumento do consumo de drogas e ao desprezo por normas de cidadania e valores éticos. Muitos estudos corroboram com esse pensamento. entrevistas e palestras. Mesmo assim a sociedade contemporânea assiste perplexa a cenas de abandono. a maioria dos pais com crianças e adolescentes entre 8 e 17 anos são negligentes. representantes máximos do afeto de alguém. Para Tiba (1996) os pais estão pagando um preço caro por não terem usado a autoridade com seus filhos. A ausência de limites e autoridade na formação dos filhos. maus tratos e violência contra crianças. agressivos e sem responsabilidades. tem ocasionado muitas dificuldades e conseqüências negativas na vida de jovens e crianças. a atual geração parece “ príncipes e princesas” . A baixa de auto-estima é muito freqüente em filhos de pais negligentes. o que implica em jovens com mais possibilidades de envolvimento com drogas e tendências depressivas.. Weber(2005) Durante os nove anos que atuei em uma instituição de ensino. associados a falta de diálogo.

seus medos e desejos. Mergulhados em dúvidas e desejos de reverter esse quadro. “como eu não vi isso antes” eram comumente ouvidas por mim e pela equipe pedagógica. A intimidade conquistada através do diálogo. A psicoterapia torna-se o lugar de regate do contato com seus sentimentos. É no espaço terapêutico que a criança tem a possibilidade de expressar suas fantasias. Para alguns os laços de sangue deveriam ser suficientes para garantir uma educação com respeito e amor. Lembro de rostos surpresos e assustados diante das atitudes dos filhos em sala de aula e nas dependências da escola. a criança sofre sem conseguir nomear seus sentimentos. algumas necessidades iam tomando forma e 234 . sem ter suas necessidades atendidas e sem saber o que fazer para reverter esse quadro. acreditando que fazem o melhor que podem no projeto de vida que escolheram. problemas de comportamento e dificuldades de aprendizagem são os motivos mais freqüentes para busca de uma psicoterapia.relação com os filhos necessita de investimentos e cuidados diários. Paralelamente ao acolhimento da demanda de atendimento a criança e ao processo de psicoterapia. Acompanho crianças e jovens cujos pais aparentemente parecem não se importar com a agressividade ou apatia de seus filhos. transferindo está tarefa para os especialistas. como corrobora Quadros (1999). Os pais não sabem o que fazer diante do sofrimento de seus filhos que aparece sob a forma de um comportamento reprovável. Nossa sociedade contemporânea tem dado cada vez menos espaço para o que não é tão bonito. Expressões como “esse não é o meu filho”. manifestando alguma disfunção no seu equilíbrio. da proximidade e do carinho só eram lembradas quando seus filhos tornavam-se estranhos em seus lares. tão perfeito e tão prático. pais e mães buscam ajuda de especialistas conferindo a eles o cuidado de seus filhos. Assim. Somatizações. e isso se reflete nos sistemas familiares.

gerando um movimento constante de influências e dependências.orientavam-me nas sessões de acompanhamento com os pais: . ela é porta-voz da dificuldade da família de se auto-regular.ajudá-lo a compreender as necessidades e desejos de seus filhos. a criança.”(p. algumas famílias não conseguem alcançar esse equilíbrio. saúde. reagindo e respondendo às expectativas do outro em busca da satisfação de suas necessidades. a saída dos filhos de casa. . Visto que os integrantes de uma família estão em constante interação. É assim que a criança chega à psicoterapia. o comportamento de um.30) Como pais. a cada situação com que a família se depara: a chegada de um bebê. seus pais e demais membros se relacionam. afetando uns aos outros na busca de equilíbrio. precisamos encontrar o equilíbrio entre a proteção e o desenvolvimento da autonomia. cabe a nós muitos deveres. escola. No entanto. mudanças de trabalho ou cidade. A necessidade de equilíbrio faz com que os integrantes da família façam ajustamentos criativos em busca de um funcionamento saudável. . influenciando.sensibilizá-lo para a dor e o vazio de seu filho. é importante enfatizar o papel da família no desenvolvimento infantil. . Não apenas por comida. mas pela personalidade desses filhos: mas complicado do que garantir uma sobrevivência física saudável. Devemos satisfazê-los em 235 . O processo de auto-regulação familiar é dinâmico. A família dentro de uma perspectiva gestáltica é concebida como uma totalidade inserida em outras totalidades e formada por diferentes elementos.a importância da confirmação no desenvolvimento de crianças e adolescentes e no fortalecimento da auto-estima. Constantes reconfigurações são feitas na dinâmica familiar.facilitar o contato com seu papel de cuidador. está vinculado ao do outro. a perda de um ente querido. a cada necessidade que emerge. separações. as pessoas que as compõem. No entanto. os ajustamentos criativos realizados não são satisfatórios para proporcionar equilíbrio aos seus integrantes. Concordo com Luft (2003) quando afirma: “Ter filhos é ser gravemente responsável.

Aguiar (2005) traz contribuições nessa perspectiva quando afirma: “Atualmente. (. onde as pessoas estão muito misturadas umas com as outras.. a ter seus próprios pensamentos e a frustrá-los nos momentos certos. Nessas famílias as crianças são deixadas aos cuidados de parentes próximos ou babás. pais que ao acreditarem precisam educar os filhos para a vida dão a eles mais responsabilidades e funções que ainda não podem abarcar. além de respeito pela separação e unicidade de cada pessoa. mas também em suas necessidades de segurança e afeto. precisamos caminhar de um pólo a outro.) Existe um propósito comum. O tempo de convivência entre elas e os pais é restrito. Ou as famílias individualistas. coesão e responsividade.77) Quando recebo a solicitação de psicoterapia para crianças. Um ritmo gracioso predomina.suas necessidades básicas.. solidariedade. da união e intimidade para a autonomia individual” (p. expressam dificuldades de perceber e aceitar suas diferenças e desejo em agradar. inseguras e carentes. pais que fragilizados em sua 236 . que são aquelas onde há muita distância entre seus membros e há pouco espaço para troca e para o cuidado. Tenho observado ao longo de minha experiência clínica e escolar mais casos de pais negligentes e omissos. cada vez mais nos deparamos com famílias que se apresentam nessa modalidade de cristalização de sua dinâmica: pais preocupados com o próprio crescimento profissional ou com questões da própria vida que relegam os filhos a um segundo plano. comumente estou diante de dois tipos de família: as extremamente confluentes. Na visão de Zinker (2001) “ as famílias funcionais são caracterizadas por fronteiras de subsistemas fluidos e flexíveis entre os indivíduos e os grupos de adultos e crianças. respeitando as diferenças de cada filho e acolhendo suas dificuldades. Ao mesmo tempo em que precisamos estimulá-los a crescer. Nossas atitudes precisam ser fluidas e dinâmicas. gerando crianças tristes.

mas complementares. O segundo. O intuito era esclarecer os objetivos. desafiadoras.condição de adulto apóiam-se na criança fazendo-a de confidente e cuidadora. Os objetivos do trabalho eram distintos. ou com sintomas obsessivos. checando se a proposta era pertinente com suas questões e expectativas. a forma de trabalhar e principalmente de ouvir e acolher as dúvidas e angústias dos pais. de uma natureza mais subjetiva era de facilitar a percepção do pai sobre a forma de se relacionar e conduzir a educação dos seus filhos. Tal iniciativa contou com a participação de uma profissional amiga educadora e psicomotricista . fóbicas.97) Diante desse contexto senti a necessidade de realizar um trabalho de caráter preventivo para os problemas citados. desligadas ou com sintomas físicos”(p. foi realizada uma entrevista individual com as pessoas interessadas em participar dos grupos. Após a estruturação do trabalho. sensibilizando-o para o papel de cuidador. Os temas foram: O brincar e o diálogo Limites Culpa Auto-estima e autonomia Agressividade e ciúme entre irmãos Sexualidade Divisão de tarefas entre o casal minhas mesmas 237 . O trabalho foi organizado em encontros semanais com duração de 90 minutos. agressivas. um espaço para dar voz as dificuldades e inseguranças das famílias. foi assim que surgiu o desejo de criar o Grupo de Pais. As crianças comumente se apresentam como mini-adultos. O primeiro de ordem mais prática era propiciar a informação e a reflexão de temas geradores de conflitos na relação pais e filhos.que compartilhava das preocupações. Distribuímos os assuntos sugeridos por nós e pelos pais em 8 encontros.

sendo interpretada como um ganho para todas. questionários. A partir das colocações das participantes registramos muito desejo por soluções e respostas prontas. Procuramos auxiliá-las a responder seus questionamentos mostrando a importância de contextualizar cada assunto e perceber todos os elementos que se encontram em permanente interação.Separação de pais O trabalho contou com os seguintes dispositivos de mobilização: leituras de texto. Sua própria faixa etária era bem variada. tinham estados civis diferentes. Tais variações foram muito enriquecedoras. relaxamento. (desde mães jovens em torno de vinte anos. Zagury (1997). número e idades de filhos diferentes. pois permitiram que a troca entra elas fosse constante. Percebemos com tal comportamento. dramatização. como se elas procurassem e existisse uma forma certa de educar. Percebemos com as reflexões trazidas que algumas mães foram realmente tocadas com o trabalho e passaram por um processo de transformação no decorrer do grupo. Sabemos que o ser humano é um ser em constante construção. É importante mencionar que todos os grupos foram formados somente por mulheres. o desejo de acertar e querer o melhor para seus filhos. influenciando uma tomada de decisão. música. Algumas situações de conflitos vividos em um encontro eram citadas em encontros posteriores com muito mais alívio e alegria. Durante todos os encontros foi dada especial atenção e ênfase ao papel do pai como cuidador e a importância da confirmação para o equilíbrio emocional de crianças e adolescentes e para o fortalecimento da auto-estima. debates e desenhos. A leitura que fizemos deste assunto é que apesar das pesquisas demonstrarem que os homens estão mais participativos na educação familiar. até as que se intitulavam mães. sabemos 238 . ainda cabe as mulheres a responsabilidade e iniciativa pelos interesses e compromissos de seus filhos. principalmente em moradores de cidades do interior como foi o caso do nosso trabalho. As mães que participaram dos encontros tinham as mais diversas características: Eram profissionais de áreas variadas.avós). o que é apontado como natural na visão de outros autores.

. Os filhos nos convidam todos os dias a visitar lugares esquecidos da nossa alma..... procuramos resgatar a beleza do desafio de educar para a vida. Eles são nossa missão e também nosso maior presente.. É tão comum escutarmos expressões “ser mãe é padecer no paraíso. Sem querer diminuir o trabalho que envolve a criação dos filhos.. precisamos despertá-los para a oportunidade que eles nos oferecem de sermos pessoas ainda melhores.também que os pais têm uma importância ímpar na formação de crianças e adolescentes. Nos emocionam com suas pequenas e grandes descobertas. que às vezes percebemos pais paralisados diante do cansaço de tal função. Os filhos nos relembram a arte de sorrir e gargalhar por motivos simples. Nos surpreendem com seu choro espontâneo. A ensaiar comportamentos mais criativos e atitudes genuínas diante do mundo. educar dá muito trabalho”. assim procuramos passar para estas mães nossa visão do quanto somos responsáveis pela formação desses pequenos seres. 239 . Como mãe da pequena Dominique. desprovidos de vergonha ou da preocupação dos que os outros vão achar. Nos ensinam a sermos mais tolerantes e generosos com o próximo. Mas não só isso... a sermos mais determinados e seguros com nós mesmos. acredito que....

Violet. 1992. 2005. “ Educar sem culpa – A Gênese da ética”. SHINYASHIKI. Tânia. Revista O Globo.Rio de Janeiro. Editora Gente. 2003. “ A evitação da dor na relação entre pais e filhos. “ Gestalt-terapia com crianças teoria e prática” São Paulo. 1995. São Paulo. São Paulo. Roberto. Editora Gente. São Paulo. “ Sem pai nem mãe. “ A busca da elegância em psicoterapia. Editora Record. ZINKER. “ Perdas e Ganhos. São Paulo Summus. Içami. “ Pais e filhos companheiros de viagem”. Tânia. Içami. TIBA. famílias e sistemas íntimos” . 1980. OAKLANDER. 240 . Luciana. WEBER.Uma abordagem gestática com casais. Record. Summus editorial. “ Descobrindo crianças”. LUFT. QUADROS. 1999. 2005. Editora Livro pleno.BIBLIOGRAFIA AGUIAR. 2001. Lya. Rio de Janeiro. Laura. Joseph. 1996. Editora Gente. Lídia. São Paulo. “Disciplina Limite na medida certa”. “Seja feliz meu filho” . Editora Record. TIBA. 1997. ZAGURY. ZAGURY. “ Encurtando a adolescência” Rio De Janeiro.

GESTAÇÃO E SEXUALIDADE: UM RECORTE DO FEMININO Julia Gama Tourinho RESUMO Este trabalho tem por objetivo refletir sobre universo feminino. fazendo um recorte sobre as questões de âmbito dominantemente feminino: Ideal materno e Gestação e sua ligação com a sexualidade. Buscando através da Gestalt-terapia aprofundar e entender as modificações e os mecanismos envolvidos nesse processo de tornar-se mãe. Maternidade e sexualidade. Buscando através da Gestalt-terapia aprofundar e entender as modificações e os mecanismos envolvidos nesse processo de tornar-se mãe. nós Gestaltterapeutas pouco temos de teoria sobre a maternidade e sobre o poder 241 . Feminino. As transformações femininas ocorridas ao longo da história foram acompanhadas por produções teóricas dentro da psicologia. Sexualidade. Em linhas gerais essa proposta visa interrogar a inserção da mulher na cena social. fazendo um recorte sobre as questões do ideal materno e da gestação com uma ponte para a sexualidade. O tema: “Mãe”. Entretanto. assim como estudado por Winnicott. sobretudo na abordagem psicanalítica. OBJETIVO A proposta desse trabalho é refletir sobre universo feminino. História e corpo.IDEAL MATERNO. por exemplo. A concepção. Palavras-chave: Gestalt-terapia. os valores sociais e a sexualidade feminina na atual sociedade em transformação. foi papel central da teoria de Freud. entre outros. Melanie Klein. Gestação. Maternidade.

Uma forma de refletir sobre o contexto social vivido e repensar nossos valores adquiridos. a gestação e a sexualidade sobre o prisma da Gestalt-terapia. muito difundido em nossa sociedade. Sem preparo. para mim tão apaixonante e de grande relevância. Até então. a nossa história. muitas mulheres se deparam com uma maternidade conturbada e uma série de conflitos pessoais. surgiu a partir do século XVII junto ao movimento higienista e ao iluminismo.transformador da gestação. o conceito de ideal materno. tão amplo e rico de significações. cuidar de uma criança era um estorvo e as famílias mais abastadas tinham o hábito de entregar seus filhos às amas. para sexualidade e para a vida da mulher de uma forma geral. Considero que pensar a condição feminina na atualidade através de um olhar para historia é estarmos conscientes de que somos. gestação e sexualidade tornou-se um incentivo a mais para a produção desse trabalho. O fato de haver pouca produção teórica em Gestalt-terapia sobre o tema. 242 . como um recorte sobre o universo feminino. também. Nesse sentido a Gestalt-terapia é de fundamental importância na descoberta de novos caminhos e na possibilidade de uma maior conscientização nesse processo de transformação. Esse trabalho que apresento hoje é fruto de minha vivência pessoal e acadêmica e tem o intuito de investigar e questionar a maternidade. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA O papel social da mulher-mãe se modificou muito nas últimas décadas e vem sofrendo constantes reconfigurações. maternidade. Dentro da correria do dia a dia. tem sobrado pouco tempo para reflexão e para vivenciar a gestação como elemento transformador. a) A Construção do Ideal Materno Apesar da maternidade sempre ter existido.

indigno de uma dama. levando à patologização da mulher. maternar. e sim aprendido. Como forma de reduzir a grande número de mortes de crianças enviadas as amas. para transformar-se em um saber emergente de um discurso profissional da medicina – na verdade. A maioria as entregava as amas que muitas vezes mal tinham condições de cuidar de si. Apenas quando se glorificou a função materna é que se começou o processo de construção do ideal de mãe que conhecemos. Ela virou a rainha do lar. Por fim seu corpo tornou-se objeto médico por excelência. A comparação da mulher a uma santa (um exemplo de devotamento e abnegação) que faria coisas que apenas ela tinha a capacidade de fazer deu a mulher um lugar de importância até então desconhecido. Deus criou as fêmeas para que gerasse e alimentasse seu o filho com o próprio leite. os especialistas começaram a fazer campanhas para que as mulheres amamentassem seus filhos. um discurso masculino sobre as mulheres. Entregar seu filho a uma ama era muita das vezes um infanticídio disfarçado e nos trás indícios de que o amor materno não é algo inato. tornando-se alvo do poder/saber normativo da higiene. A comparação com as fêmeas do reino animal não as convenceu que deveriam amamentar. despudorado. era o que convinha às mulheres. Nesse momento a maternidade deixou de ser uma experiência exclusivamente feminina. Este movimento muito antigo se acelerou no século XVIII. terreno onde mandava e desmandava – na educação dos filhos e nas tarefas domésticas – e nenhum homem deveria ousar se interferir. serem boas reprodutoras. Apesar de sempre ter sido considerada uma função feminina. 243 . Para eles. Elas não deveriam sentir prazer ou se envaidecer de seus órgãos. transmitida entre mulheres. afinal de contas isso era considerado um ato menor. Assim como na natureza. pois sua função essencial é gerar e amamentar. não oferecia nenhuma gloria ou reconhecimento. inclusive culturalmente.Poucas mulheres tinham condições e desejo de ter uma ama junto a si para cuidar de seu filho.

servindo de referência para a construção de valores sociais que se encarregaram de manter os comportamentos sexuais em níveis compatíveis com o convívio familiar e social. a exigência de resignação com devotamento e o incondicional desejo de ser mãe. de uma forma geral. mas também as relações conjugais e de gênero. não alterou só a função materna. que em realidade. Identidade Feminina e Construção do Self O amor romântico completou essa jornada de transformação da maternidade. para ser completamente mulher ela precisava cumprir a vocação materna. 244 . ou seja. O amor. As relações deviam ser duradouras. serviu como um mecanismo de união do casal e como uma estratégia para definição dos papeis que seriam representados por homens e mulheres. assumindo sozinha a educação completa dos filhos. mesmo que fossem sustentadas na duplicidade das experiências masculinas e no confinamento da sexualidade feminina. sempre frágil e doente que precisavam de cuidados e supervisão. Quando tentavam ser mais que isso eram quase sempre consideradas indutoras de doenças. Ser mãe não deixava tempo livre para a mulher. Houve uma verdadeira profissionalização da maternidade e uma conseqüente abertura a novas possibilidades que o exercício da função materna trazia. entre a tranqüilidade do ambiente doméstico e a sexualidade da prostituta.As mulheres da época foram reduzidas ao seu sexo. este contexto reafirmava a separação entre o público e o privado. sendo sua única função ser mãe. o que colaboraria para uma maior rigidez e diferenciação entre eles. Essa mãe de amor incondicional encarregava-se insistentemente de tudo. amamentar e cuidar dos filhos. Em verdade. b) Sexualidade. O caráter de novidade era a nova percepção do "ser mãe". As mudanças fluidas e sutis envolvem até aqui três enfoques: a natureza instintiva. que estava agora naturalmente vinculada à feminilidade.

Numa sociedade feita e pensada por homens. “Parecia que a inibição sexual de uma garota bem educada da classe média era exatamente o que deveria ser [. De fato. A sexualidade ficou também circunscrita as normas higiênicas. Sendo os de maior dimensão e renome os estudos feitos por Charcot e Freud. O ato sexual por prazer era considerado sujo.. p. Tais estudos contribuíram e muito para estigmatização da condição feminina. Em resumo a famosa frase: ‘inveja do pênis’” Reich. sendo a castidade um aspecto muito importante para a preservação da virgindade antes do casamento. apresentando-as como imperativos da natureza: para o homem a força física e o prazer sexual. porquanto não se esperava que as mulheres tivessem necessidades sexuais. em todos os aspectos.] não ocorria a ninguém indagar a respeito da inibição que a impedia de experimentar a satisfação sexual. 24) Sexo virou pecado. (LEIBLUM. 245 . mas era intimada a oferecer-se obedientemente ao marido sem participar ativamente no próprio sexo. o corpo da mulher transformou-se em corruptor e o prazer proibido. as mulheres eram vistas como seres inferiores e subordinados aos homens. para a mulher a submissão e a fidelidade.. p. e as mulheres. quer dizer: Homens e mulheres adultos casavam e praticavam o acasalamento monogâmico e heterossexual com a finalidade exclusiva de procriação. não se esperava que a mulher fosse erótica. Foi ao longo do século XIX que surgiram os primeiros estudos sobre a sexualidade feminina. usualmente. Desejar ser qualquer outra coisa que não ser mãe era uma inaceitação da condição feminina e rivalidade com a figura masculina. relata seu estranhamento com relação ao tratamento das histerias. com seus apetites sexuais impulsivos e lascivos.] Uma vez casada. A ausência de realização sexual para as mulheres não era especialmente critica. A mulher. contemporâneo de Freud. 1982. Os genitais transformaram-se em fonte de todos os males do mundo. 88).” (REICH. [. podiam desfrutar do sexo. 1975. Os homens. um ser inferior. se explicava cientificamente as características ‘supostamente’ típicas de cada sexo. estava na Terra para procriar e servir... não. além de um pecado.

de sentir. (BUARQUE. 2007) Afinal. 246 . origem na culpa e no medo.179) [. Questões aprendidas quanto ao universo feminino aqui abordado (ideal materno. o conceito de self é processual. em sua maioria. (RIBEIRO. o corpo é o lugar onde tudo acontece.. na medida em que nos deparamos com o que é estranho a nos... que nosso Self ganha propriedade no espaço tempo. (RIBEIRO. que vai registrando dia a dia nossa caminhada do hoje de cada dia. 1997.] mas um processo: o que acontece na fronteira de contato entre o organismo e seu meio” (GINGER. é nosso self visível.44) Em Gestalt-terapia. 2007) “O self [. 1995. p.... como um retrato eternamente retocado. pelo contrario.] integra sempre funções perceptivoproprioceptivas. em especial da maternidade. sexualidade. funções motor-musculares e necessidades orgânicas [. A neurose é sempre de origem social. p. p. como um proprium..]” (Perls in BUARQUE. “Todos os distúrbios neuróticos surgem da incapacidade do indivíduo encontrar e manter o equilíbrio adequado entre ele e o resto do mundo [.. de fazer. nasceu conosco. 2007. estando sempre em constante construção e transformação.Conhecer um pouco mais de onde viemos e a historia das mulheres.] e sente emocionalmente a adequação entre ambiente e organismo. nossa síntese contativo-existencial.” (PERLS. de falar. 2007. podemos especular que a gestação e o parto fazem parte desse processo de construção do self. 158) Uma abordagem que valoriza uma visão global do ser humano como a Gestaltterapia não poderia deixar de dar relevância a influência do social para a construção da subjetividade. gravidez) fazem parte da construção do Self. tende a ser uma profilaxia contra os mecanismos neuróticos que tem... Nosso jeito de pensar. 262) Sobre esse prisma. p. não é uma entidade psicológica separada do organismo. uma estrutura processual que se atualiza cotidianamente. “Self [..] não designa uma entidade determinada [. O Self se constrói na fronteira de contato.] nosso self é temporal. como uma entidade..

independendo de ser a primeira. “pois ser mãe de um filho é diferente de ser mãe de dois e assim por diante porque com a vinda de cada filho toda a composição da rede de intercomunicação familiar se altera” (MALDONADO. e se modifica o eixo da bacia. Sendo assim. a pessoa que é e que se construiu até então. esse mais discretamente. a segunda ou a terceira gestação. em alguma direção e de uma maneira nova.A gestação é um período de transformação e uma crise. esses momentos não acontecem somente durante a gestação. menopausa. 13) A gravidez trará elementos novos em todos os seus aspectos – incluindo a sexualidade – e promoverá alterações momentâneas ou permanentes. Considerando que o corpo guarda os registros das 247 . p. Grupamentos musculares que originalmente não tem função nítida ou constante passam a atuar. A gestação altera enormemente a estrutura do organismo e desorganiza toda ‘economia’ da mulher. p. No entanto essas mudanças não ocorrem aleatoriamente. 110)." (REZENDE. casamento. mas em muitos momentos durante a vida como: puberdade. 1980. É interessante refletir sobre esse aspecto: ‘todo eixo da mulher se altera e se reestrutura durante a gestação’. entre outros. toda a estrutura corporal da mulher se altera e ela passa a utilizar recursos antes desconhecidos. também "encurvam-se o segmento dorsal e o lombar. A gestação produz uma reconfiguração do Self. como define Maldonado (1980) “uma pessoa em crise não tem escolha: simplesmente tem que mudar. e ocorre de forma involuntária.. estirando-se e contraindo-se. A alteração do eixo de gravidade é a mudança corporal mais significativa durante a gestação. Quando o tronco da grávida se projeta para trás.” (p. 13) Entretanto. a gestante altera seu comportamento tendo como parâmetro o seu próprio Self.

podemos supor que movimentos diferentes ocorrerão na musculatura. uma desorganização.. na estrutura emocional e corporal dessa mesma mulher. podemos inferir que.. dizemos que houve um ‘fechamento de Gestalt’. seja a percepção de alguma coisa ou alguma pessoa com a qual podemos zangar.. textos específicos sobre as alterações corporais. 167-8) Uma emoção é [. na gravidez. esses afetos guardados. que surgiu com base no contato entre o homem e o meio externo. 1991. 137) Embora não tenhamos encontrado na bibliografia levantada. seja a fantasia. Quando essa solução não for viável. p. 212) Quando. a reestruturação corporal durante a gravidez..] uma relação entre o organismo e o ambiente [.] por meio da contração e de exercícios musculares é possível mobilizar combinações especificas de comportamento corporal. geralmente não compreendidas pela mulher que as vive. assim. esquema corporal etc (BARCELLOS. a emoção se desencadeará imediatamente com plena força e clareza. na medida em que a inibição das nossas expressões afetivas é traço característico da nossa cultura. em Ginger (1995).nossas emoções.” (LIMA. muitas vezes referentes a situações pré-verbais.. (PERLS.. em Gestalt-terapia.. São emoções de difícil decodificação. p. ao qual é difícil ter acesso pelo meio de mediação puramente verbal. podemos inferir que essas transformações têm uma inter-relação direta com o estado psicológico da mulher. 1997. mobilizando. 1991. traz a tona registros de gestalten inacabadas35 e emoções até então desconhecidas.. toda a estrutura do organismo-mãe é alterada em função das mudanças de seu corpo grávido. encontramos: “o corpo-a-corpo desencadeia gradativamente uma emoção profunda e costuma permitir a emergência de um material arcaico do período infantil pré-verbal. p. falamos que surgiu uma ‘Gestalt inacabada’. 248 35 . 138) A alteração de todo eixo da mulher e sua reestruturação durante a gestação pode evocar sentimentos injustificáveis como tristeza. assim como influenciar a vida sexual. que é muitas vezes vivida como uma sensação de perda de ‘controle’ de suas emoções.] Mas se acrescentarmos a essa propriocepção a awareness ambiental. (BARCELLOS. nesse caso a alteração corporal pode evocar essa emersão.” (p. sentimentos. [. provocando. angustia. entre outros. 127) Essa Gestalt inacabada tende a emergir novamente até ser solucionada. e estas estimulam um tipo de excitamento desassossegado [. p. “Quando há uma solução para essa necessidade.] pensando o organismo a partir de uma concepção unitária e o corpo sede das emoções. 2007.

mas o mecanismo psíquico é comum e explica o fato de que cada mulher que está em trabalho de parto está dando à luz a si mesma [. ao longo se sua existência.. é a futura mãe que está lá.] Não se pode generalizar porque cada história é individual. podem alterar a consciência corporal da mulher. Em primeiro lugar. em seu lugar. Podemos pensar no caso do parto vaginal como uma possibilidade de novas vivencias frente à sexualidade. Essa mulher reúne todas aquelas contidas na sua história. mas. É uma experiência emocional muito profunda que envolve uma regressão aos sentimentos mais básicos e primitivos. tudo isso misturado com a emoção de virar mãe e uma comunicação muito intima entre seu corpo e seu bebê. Acontecem intensas descargas de energia. é claro. c) Sexualidade na gestação A gestação pode trazer para algumas mulheres situações de impasse. vai sempre além da imaginação. em especial com relação à sexualidade.. como se tudo que você tivesse sido na sua vida estivesse presente naquele momento. a mulher social (que o médico conhece até então) desaparece e. Na hora do parto. O impasse faz parte do processo de amadurecimento e da mesma forma que 249 .. o parto e a maternidade são eventos de potencial transformação na vida de uma mulher. no seu nascimento e na sua primeira infância.. Essa abertura total do útero acontece somente uma vez.. que mesclam prazer e dor. que consiste em dar a vida e que. p.. Pode ser um momento de confrontação entre o que foi aprendido socialmente. 1993. a despeito das estratégias utilizadas para mantê-la sob controle. 244-5) Na fase de expulsão. p.] (SZEJER. ali estão presentes [. um dos momentos mais intensos do trabalho de parto é quando o bebê começa a coroar (a cabeça do bebê começa a aparecer no canal vaginal).. todas as filhas e todas as mães que ela foi. as expectativas e experiências individuais. produz-se um fenômeno [. já que a passagem do feto e a dilatação de músculos.] Vem daí o caráter revolucionário dessa experiência [. As sensações evocadas durante o parto são muito fortes e intensas. 1997. surge a mulher arcaica que ela mesma desconhece e que a transcende. de acordo com sua história. 138) A gestação.O parto é ponto final da gestação e o ápice dessa jornada.. (BALASKAS.] Confrontada com essa experiência arcaica. ou poucas. durante sua vida. Provavelmente acontece um relembrar inconsciente do que você viveu no útero da sua mãe.

então só fazendo essa afirmação produzirá imediatamente algum tipo de reação e alguma comunicação.. 153) De uma forma ou de outra a gestação marcará a sexualidade da mulher e de que forma isso acontecerá não tem como ser previsto antecipadamente. Ou odiá-lo. você me deixa embaraçado. É muito simples. (PERLS. a ser escrita todos os dias. segundo Perls (1981) é não utilizar máscaras para se esconder. mais femininas. 1981. 250 . sentemse feias e deformadas durante esse período. a história continua. um dilema entre a lealdade familiar e a unidade do casal.. Ter um diálogo honesto..] Nesse sentido.. No nosso caso a gestação pode oferecer a mulher uma grande oportunidade de crescimento. nesses casos a mulher tende a se sentir ameaçada. a relação do casal tem grande influência e o olhar do homem tanto poderá acentuar a insatisfação da mulher. como. As alterações corporais são muito significativas e podem ser vividas como desestabilizantes e angustiantes. ao contrário. p. pela aparência física que desagrada [. não sei o que dizer agora. p. é conscientizar-se e informar ao outro sobre o que sente. e acima de tudo. Necessitamos de outras pessoas para necessidades alimentares e sexuais. se você se dá conta de você mesmo. tomar formas diferentes. Poderá exaltar seu corpo que ela vê.apresenta o problema. De modo geral. (PERLS. [.. 144-5) As dificuldades que surgem com relação à sexualidade. durante a gestação. pois “se a história precede cada um de nós e nos influencia. de um diálogo honesto entre eles. visto que necessitamos de outras pessoas para um certo montante de sustentação de nossa auto-estima. algumas gestantes.. com grande satisfação. Que está muitas das vezes ligado as suas famílias de origem. 74) Apesar do enorme valor social atribuído à maternidade. entre outras coisas.] tem uma quantidade de outras pessoas envolvidas. superação e resignificação de seu comportamento e suas expectativas.] o enredo de vida de uma pessoa [. a mulher reagirá de uma maneira ou de outra a essas mudanças. A solução vem principalmente.” (SZEJER. na maioria das vezes trazem a tona um impasse do casal. p. 1981. também. 1997. fornece também a solução. Como por exemplo: estou paralisado.

(MURKOFF. para outros. por terem idealizado a maternidade. vivenciado como coisas inconciliáveis. 1983) É importante ressaltar que não são apenas as questões emocionais que interferem na atração sexual. p. 2006. ocasionando maior lubrificação vaginal na fase de excitação. tem raiz na separação e diferenciação entre maternidade e sexo. 1986. para alguns homens. pode ocorrer desconforto à penetração do pênis. Quase todos os casais passam por mudanças no seu relacionamento sexual durante os nove meses de gravidez. 335-6) Entretanto nem só as mulheres sentem dificuldades durante esse período. 1997. em específico. podem apresentar dificuldades 251 . [. 2001. modificações anatômicas e funcionais no organismo da mulher. 38). infelizes. Em algumas etapas da vida de um casal. também fazem parte do processo. pois já está. poderá contrabalançá-la. p. as alterações hormonais. 121) A gravidez é o único momento da vida da mulher em que ela realmente não tem preocupações em engravidar.. A dificuldade de adaptação da vida sexual nesse caso.ao contrário. 35) Além disso.] Há maior vascularização dos órgãos pélvicos. p. (MALDONADO. 1992. (SZEJER. A prática de sexo nesse momento fica caracterizada pela busca do prazer e pode ser vivida por algumas mulheres com um conflito. quando grávida.] Muitas crises poderiam ser facilmente resolvidas com a constatação de que a fase é natural e vai passar. [. que podem alterar a resposta sexual.. p. conseguiremos atenuar os medos e as preocupações e tornar a vida sexual (ou sua abstinência) mais aceitável e mais prazerosa. além do aumento do volume do útero. o aspecto do corpo da esposa durante a gestação é belo.. (BERENSTEIN.] Ao entendermos porque o sexo durante a gestação é diferente do sexo em outros períodos da vida.. 145) Muitos homens. inegavelmente. [. Alterações da região pélvica da mulher. Esposas cujos maridos se afastam durante a gestação podem ter dificuldades para não se sentirem rejeitadas. Existem. p. a falta de desejo da mulher aparece graças a um mecanismo da natureza criado para a preservação da espécie.. não. inseguras sobre seus atrativos sexuais (HEIMAN.. Pelo edema e congestão da parede vaginal. (CONCEIÇÃO. associadas ao aumento do volume abdominal e o aumento do peso podem reduzir a atração e o desejo e influir negativamente no desempenho sexual masculino.

1992). faz bem à gestante tanto física quanto emocionalmente: pode manter a mulher e o marido mais próximos. outras. De fato.. (SZEJER. Para que as experiências sexuais durante a gravidez sejam positivas é fundamental 252 . [. Embora a relação sexual durante a gestação possa ser diferente do que se vivenciava antes. p. de uma forma ou de outra.em se sentir atraídos por suas companheiras durante a gestação. 1997. Em contra partida. inclusive para o bebê. 340) Apesar de todos os possíveis empecilhos à prática sexual as estatísticas demonstram que a grande maioria dos casais praticam atividades sexuais até o oitavo mês de gestação. a gravidez pode ser um período de grandes descobertas amorosas. que a sexualidade do casal tem a ver com essa gravidez e será modificada por ela. a recomendam. a seu modo. preparando a musculatura pélvica para o parto.] Mas. todas essas superstições populares dizem bem. superada as dificuldades. É apenas necessário que a barriga fique livre ou apoiada em almofadas. Se o casal encontra-se disposto a vivenciar novas formas de fazer sexo – descobrir novas sensações sem que haja. considerando que para o bebê ‘crescer’ ele deve ser regado com o esperma do pai. 151) É importante ressaltar a gravidez é um evento único e significativo que. necessariamente. e é relaxante – o que é benéfico para todos. penetração. pode ajudar a manter a forma. Muitas vezes as mudanças são difíceis. Algumas tradições interditam a prática da sexualidade durante a gravidez. pois toda mudança traz o risco de se encarar o novo e o medo do desconhecido. modifica a sexualidade. 2001) Embora permitida. é na maioria dos casos perfeitamente segura. assim como novas posições – e se a intimidade lhes possibilita utilizar sua criatividade sexual tudo é permitido e a chegada de um bebê poderá uni-los ao invés de afastá-los. ao contrário. p. 2006. A posição mais recomendada pelos especialistas em sexualidade é a posição em que casal deita de lado e a mulher apóia a barriga. a penetração não é a única forma de obtenção de prazer do casal durante a gravidez. Esse período é vivido de maneiras diferentes em cada cultura. (MULLER. (HEIMAN.. A penetração pode ocorrer normalmente se não houver nem dor nem incômodo. (MURKOFF. seja qual for a orientação adotada – abstinência ou prática intensa –.

Ao longo do processo poderão emergir conteúdos intensos. O terapeuta que decide trabalhar com mulheres (ou casais) gestantes deve estar alerta que esse é um momento de profundas transformações – como uma condição psicológica especial – que exigem suporte afetivo. A falta de contato com as sensações e emoções nesse período pode levar às cristalizações e sofrimentos. A gestação é o momento da vida da mulher que representa a possibilidade de maior conexão com o feminino – o que para algumas mulheres inclui o resgate da autoestima – mas que depende essencialmente de como vai será vivenciado. diálogo e contato entre os parceiros. entre 253 . pois esse é um dos períodos mais ricos em subjetividade e também um dos mais delicados. Ele deve estar atento às necessidades da mulher ao longo de sua gestação. COMENTÁRIOS A relevância desse trabalho está em revisitar questões aparentemente tão óbvias quanto maternidade. oferecer suporte ajudando a grávida na manutenção de equilíbrio emocional. É fundamental para a Gestalt-terapia buscar o aprofundamento dos mecanismos envolvidos nesse período tão importante na vida de todo ser humano: O nascimento de outro ser.que exista intimidade. Esses eventos estão claramente relacionados ao nosso Self processual e é importante ao gestalt-terapeuta refletir sobre esse tema. A função do terapeuta é. Nesse sentido é tão importante estudarmos esse tema. basicamente. para que as mudanças normalmente existentes não gerem descompensações. auxiliando-a. Acompanhar terapeuticamente uma gestante é um privilégio que requer alguns cuidados. gestalten inacabadas muito vívidas e sentimentos difíceis de compreender. gestação e sexualidade podendo re-descobrir e colocar luz sobre possíveis formas de ser e descobrindo novos caminhos.

Nesse momento o terapeuta deve estar afinado com seus sentimentos e expectativas e ao mesmo tempo atento às necessidades da cliente para que possa perceber os limites do processo. auxiliá-la sem desestabilizá-la. a contribuição da Gestalt-terapia na busca dessas respostas. p. 214) Essa proposta visa interrogar os temas: maternidade e sexualidade. in ORGLER. principalmente. história e corpo. E. mas acontece se dedicarmos tempo e esforço a ser o que somos” (Beisser in Fagan.outros. 254 . “A mudança não ocorre através de uma tentativa coercitiva por parte do indivíduo ou de outra pessoa para mudá-lo. 2007. os valores sociais e a sexualidade feminina na atual sociedade em transformação. a concepção de mãe.

S. BARCELLOS. T. C. Gestalt Inacabada / Patrícia Lima. BUARQUE. 1995. In Instituto de Orgonomia Ola Raknes. In: Gladys D’Acri. I. – O que esperar quando você está esperando/ Heidi Murkoff. R. Rio de Janeiro: Objetiva. Sheila Orgler. – Rio de Janeiro: Objetiva. São Paulo: Summus. HEIMAN. E. MALDONADO. Leiblum. 1986. 1991. Joseph Lopiccolo. co-tradução e cotej 255 . 1983. 2001. 2001. Nelson Vitiello. – Psicologia da gravidez: parto e puerpério / Maria Tereza Pereira Maldonado. Gestalt Aberta. – Descobrindo o prazer: Uma proposta de crescimento sexual para mulher / Julia Heiman. – Princípios e Prática de Terapia Sexual / Sandra R. – Parto ativo: guia prático para o parto natural/ Janet Balaskas: Tradução Adailton Salvatore Meira – São Paulo: Graund. Relação e cura em Gestalt-terapia. Sandee Hathaway. – A inteligência hormonal da mulher / Eliezer Berenstein. Rio de Janeiro: Zahar. L. Daflon. 1997. LEIBLUM. Neurose In: Gladys D’Acri. Petrópolis. Sergio. São Paulo: Summus. Sexologia – II Comissão Nacional de Sexologia da FEBRASGO. Dicionário de Gestalt-Terapia: “Gestaltês”. São Paulo: Summus. MURKOFF. S – Gestalt. Patrícia Lima. Arlene Eisenberg. Jean Claude Nahoum. Laurence A. São Paulo: ROCA. tradução Paulo Fróes. São Paulo: Summus. Energia. Maria Lygia G. LIMA. – Da gestação à aquisição do olhar / Claudia de Oliveira Barcellos. 1980. Patrícia Lima. HYCNER. S. – Gestalt. Anne Ginger. 2007. BERENSTEIN. Rio de Janeiro: Conexão projetos gráficos. J. E. GINGER. Dicionário de Gestalt-Terapia: “Gestaltês”. Gestalt Fechada. – Gravidez e Sexualidade In: Nelson Vitelo. P. MULLER. Júlio Dickstein. Caráter e Sociedade n 2 – Ago/91. 1993. C. Pervin.uma terapia do contato / Serge Ginger. H. __________________Nós estamos grávidos /Maria Tereza Maldonado. 2007. Richard Hycner e Lynne Jacobs. M. J. Vozes. São Paulo: Summus. 1982. Rio de Janeiro: Bloch. Sheila Orgler. 1992. CONCEIÇÃO.BIBLIOGRAFIA BALASKAS. – 500 Perguntas sobre sexo: Respostas para as principais dúvidas de homens e mulheres / Laura Muller.

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Lílian Meyer Frazão. de psicoterapeutas em nossa abordagem. 1951. revisitando inicialmente suas definições mais conhecidas. Hefferline. mas para a awareness o contato é indispensável” (Perls. Gestalt Therapy. enquanto construtos teóricos importantes à teoria. Com base em muitos anos de experiência na prática e no ensino da Gestaltterapia e intrigadas com esta questão e seus desdobramentos para o ensino e treinamento apresentação: • • • rever os conceitos de awareness e contato citados anteriormente. Selma Ciornai. como contribuição à Gestalt viva que é nossa abordagem. propomos nesta 257 . à reflexão clínica e ao ensino da Gestalt Terapia. P. e Goodman. estes conceitos. em conjunto com os participantes do Fórum de Discussão. à prática. encontramos contradições nas definições destes dois conceitos e o uso. considerando a utilidade que nos oferecem.. tecermos nossas próprias reflexões concernentes às implicações destas definições. percebemos que mesmo no livro mais básico dos fundadores da Gestalt Terapia. sob um olhar mais criterioso. indiscriminado dos mesmos. as vezes. “Contato enquanto tal é possível sem awareness. Jane Rodrigues. R.“OUSANDO REPENSAR OS CONCEITOS DE CONTATO E AWARENESS – UM DESAFIO POLÊMICO” Angela Schillings. p viii) Contato e Awareness são dois conceitos chaves e fundamentais para a Gestalt Terapia. F. No entanto. propomos debater..

A partir de um olhar para a importância “histórica” do todo da obra de Paul Goodman. política e pedagógica. 258 . Paul Goodman. Paul Goodman tem suas obras antecedentes e posteriores pouco conhecidas e discutidas dentro da literatura gestaltica brasileira. tema de sua obra mais trabalhado até o momento. crítica biográfica. ao longo de mais cerca de 40 anos de produção artística e intelectual transitou por vários campos do conhecimento. para além das formulações sobre a Teoria do Self. até a crítica social. pela psicologia e psicanálise. amplificação e atualização da abordagem gestáltica. sinalizo para os diversos caminhos possíveis de interlocução desta com a Gestalt Terapia. Palavras-chave: Paul Goodman. Gestalt Terapia. Tais campos de conhecimento percorridos por Goodman. que vai desde a crítica literária. história.PAUL GOODMAN E OS OUTROS CAMINHOS DA GESTALT Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Neste trabalho trato da importância dada à obra de Paul Goodman dentro do contexto da Gestalt Terapia. finalizando sua obra retomando reflexões sobre a linguagem e a literatura. de forma transdisciplinar. Ocupando uma posição geralmente associada apenas como um marco histórico – sua contribuição como co-autor do Gestalt Therapy (1951) -. podem ser compreendidos como situados nas “fronteiras de contato” da Gestalt Terapia. apontando para possíveis caminhos de ampliação. passado pelo planejamento urbano.

temas ao qual se dedica principalmente na década de 60. apontarei para os caminhos já percorridos pelos críticos da obra de Paul Goodman e por teóricos de outras áreas. até então pouco conhecida e explorada. no entanto. tema de sua obra que é mais trabalhado até o momento. com a dissertação “The Formal analysis of Poems”. Após finalizar seus estudos. a dados da vida intima do autor – embora considere que tenham sua importância para a compreensão do percursos da sua obra como um todo e sobre seus desdobramentos. A OBRA DE PAUL GOODMAN Natural da cidade de Nova York. em escolas tidas como liberais. sendo expulso mais de uma vez dessas instituições. Inicialmente. posteriormente. I. e completou seu PhD pela Universidade de Chicago entre 1939 e 1940. não me atendo. dedicou-se na década de 30 à docência. influenciaria seu olhar sobre o sistema educacional americano e sobre a juventude. Paul Goodman graduou-se em Letras pelo The City College of New York. Posteriormente. Sua experiência como professor.INTRODUCÃO Nesse trabalho. 259 . dentro da literatura gestáltica. pretendo dar visibilidade ao lugar ocupado pela obra de Paul Goodman. filho de família de comerciantes judeus. em 1932. pontuando marcos importantes de sua obra. Pretendo sinalizar para outros “caminhos” empreendidos por Goodman ao longo de sua trajetória como intelectual da contemporaneidade. tende em vista a forte relação entre os momentos de sua vida e o desenvolvimento de seu pensamento. admitindo que sua contribuição para a Gestalt Terapia extrapola ou amplia os limites das formulações sobre a Teoria do Self. traçarei um panorâmica da vida e obra do autor. que posteriormente seria publicada sob o título The Structure of Literature (1954). principalmente no contexto de desenvolvimento da abordagem gestáltica no Brasil. acusado de seduzir seus alunos – e por defender o seu direito de fazê-lo. apontando para caminhos ainda pouco trabalhados.

(San Francisco: Colt Press. Por sua profunda erudição e conhecimento em filosofia – fenomenologia. ministrando palestras e cursos em universidades. em 1947. de editoração dos seus manuscritos. psicologia e psicanálise – tendo escrito textos críticos sobre Freud e Reich nos anos 40 -. já tendo publicado quase uma dezena de livros36. Conn. Paul Goodman. redigindo quase que integralmente a segunda parte do Gestalt Therapy. Paul Goodman já havia trilhado um longo caminho no campo da literatura. intitulada “Novelty.: 5 X 8 Press. N. em co-autoria com seu irmão Percival Goodman. adotando uma postura pacifista. The Copernican Revolution. or. 1949) e The Dead of Spring. novelista e crítico literário. (Saugatuck.: New Directions. engajou-se no grupo criador do Instituto de Gestalt Terapia de New York. The State of Nature. (Glen Gardner. Goodman também havia publicado. no período da Guerra Fria. (Norfolk. contrária ao movimento armamentista dos EUA. obra em que aborda principalmente o tema da educação e da juventude – retomando sua experiência como professor na década de 30. após essa participação em co-autoria com o Fritz Perls. Em função da sua habilidade na escrita. 1950) [volume três do The Empire City (1959)] 260 .: Libertarian Press. excitement and growth”. pelo seu estilo vanguardista e por sua vinculação política ao anarquismo. Sua fama e notoriedade acadêmica e como intelectual se dá somente nesse período. existencialismo. impossibilitado de continuar suas atividades como psicoterapeuta. Conn. porém sem grande notoriedade ou aceitação da crítica. e da capacidade de articular e desenvolver idéias em co-autoria. The Almanac of Alienation. como poeta. The Break-Up of Our Camp and Other Stories. do que seria o livro marco de formação de um nova abordagem psicoterapêutica. pragmatismo e taoísmo -. por indicação de um amigo. Na década de 60.: Dentre as obras dessa fase podemos citar: The Grand Piano. a realizar um trabalho pago.J. Goodman foi convidado pelo Fritz Perls. com a publicação do livro Growing up absurd: problems of youth in the organized system (1960). 1946). A. 1942) [volume um do The Empire City (1959)].Antes de inserir-se no movimento de criação da Gestalt Terapia. o livro sobre planejamento urbano intitulado Communitas. Paul Goodman passou a se dedicar principalmente à produção de obras de crítica social e política e sobre educação. Goodman acabou sendo o principal responsável pela fundamentação teórica da nova abordagem. e seu 36 N. (New York: Vanguard Press. no final da década de 40. proferindo seminários e atuando como terapeuta por um período de cerca de 10 anos. 1946) [volume dois do The Empire City (1959)].

depois como terapeuta e. que se desenvolveu na década de 70. sendo precursor do Movimento de Liberação Sexual. atuando junto ao movimento jovem.com/literature/am_lit2_gay_1900_1969. primeiro como escritor e crítico literário. A partir dessa obra. Nesta obra. se deu como um divisor de águas em sua construção como um intelectual da contemporaneidade. f. é possível intuir que sua participação no movimento da Gestalt Terapia. por fim. adotando uma postura de crítica ao movimento armamentista e à Guerra do Vietnã. abordou direta ou indiretamente a questão da homossexualidade. além de refletir sobre conflitos sociais envolvendo grupos minortários. ele acaba por desenvolver uma análise crítica ao sistema político-educacional norte-americano. a inserção de Goodman na Gestalt Terapia se deu como desdobramento de um longo período de “auto-análise”. no Movimento Libertário da Nova Esquerda. refletindo sobre a condição do jovem formado compulsoriamente em um modelo educacional focado em conteúdos curriculares e sistemas disciplinares.html 261 . bisexual. 1900-1969.contato com jovens de rua da cidade de NY. tema emergente de sua própria vivência bissexual – o que o coloca dentro do quadro de referência dos escritores e intelectuais que “saíram do armário” e colocaram a questão da identidade gay – ou queer – em foco. Ocorrendo num período de imenso descontentamento e descrença com a própria carreira como artista e “homem das letras” – modo como costumava se qualificar -. transgendet & queer culture. também feita sob encomenda. Escreve ensaios de caráter pacifista contra a Guerra Fria. J. embora ele mesmo tivesse críticas sobre a postura adotada pelos militantes gays37. político e educacional. Em muitos de seus escritos literários. Goodman passa a configurar-se como um dos principais “gurus” do movimento de contracultura.glbtq. devendo discorrer sobre delinqüência juvenil. como crítico social. In: GLBTQ (Na Encyclopedia of gay. Disponivel na web em: http://www. lesbian. CODY. com poucas possibilidades de ocupação e sem uma formação como cidadãos para viver em comunidade. como negros e homossexuais. Olhando para as fases que compõem a trajetória da Goodman. que se deu manifestou tanto no caráter 37 C. (s/d) American Literature: Gay Male.

trazendo reflexões sobre a linguagem e a literatura. Goodman olha para os fenômenos sociais e políticos a partir de um referencial terapêutico. reeditada sob o título Crazy hope and finite experience (1994). de ficção e ensaística. Sua ultima obra publicada em vida. o “Verbalizing and Poetry” e nos workshops ministrados no Instituto de 262 . produzida na década de 40 – fortemente influenciada por suas incursões na psicanálise -. e os reunidos na obra póstuma Little Prayers and Finite experience (1972).projetivo de sua obra literária. quanto pela autoaplicação das técnicas de vegetoterapia aprendidas nos seis meses de terapia iniciado com Lowen. Essa nova fase não se trata de um momento absolutamente novo. retoma seu momento como crítico literário. nos fins de década de 60 e início de 70. de 1969. a partir de um tom de confissão autobiográfica. Esses escritos são os ensaios “Memoirs of an Ancient Activist” (posteriormente publicado como “The politics of being queer”). Speaking and language (1971). como bissexual. não alienado. numa combinação entre práticas corporais e associações livres. nas teorizações sobre o self como contato. após a morte do filho num acidente de alpinismo e de vários parceiros como o Paul Weizs e o próprio Fritz Perls. Incorporando pressupostos da abordagem gestáltica. porém de um posicionar-se diante dos fenômenos psicológicos. como crítico político e social. Goodman retoma pontos de reflexão de sua carreira. justificando seus posicionamentos – às vezes por demais polêmicos . sobre a constituição dinâmica da personalidade como se dando nas interações organismomeio. já ensaiados no Gestalt Therapy.ao longo sua trajetória como “homem das letras”. sociais e pedagógicos. de uma “socioterapia”. prevendo a aproximação de sua própria morte. e continuando com os diários pessoas escritos entre 1955 e 1960. desenvolvendo pontos importantes enunciados no capítulo 7 do Gestalt Therapy. O momento em que se volta para a crítica social e pedagogia é decorrente da profunda reflexão e elaboração de sua carreira e de sua trajetória de vida. de forma mais engajada. passando pelo período de elaboração na terapia individual com a Laura Perls. podendo essa fase de sua obra ser compreendida como um desdobramento e uma amplificação dos pressupostos da Gestalt Terapia. No final de sua vida.

percorrendo um caminho intelectual singular. contemporâneos a ele e ainda hoje atuais. ainda a ser melhor exploradas e desenvolvidas. Goodman deixou um legado extenso e diversificado. é muitas vezes reduzida à mera condição de marco histórico. porém pouco se tem discutindo ou aprofundando as reais implicações de sua obra. na década de 50. 263 .Gestalt Terapia de New York. dentro do desenvolvimento da abordagem gestaltica no Brasil. em especial. educacional e política e da literatura. Creio que o conhecimento mais a fundo da obra do Paul Goodman serviria como uma fonte teórica importante para se compreender fenômenos políticos. É citando como um seu principal formulador e sistematizador teórico. mantendo porém uma constante interlocução com ela. PAUL GOODMAN E OS “OUTROS CAMINHOS” DA GESTALT Utilizo esse breve – e incompleto – panorama. A passagem de Goodman pela Gestalt-Terapia. da obra de Paul Goodman. propondo um olhar sobre a experiência poética e o dinamismo da linguagem enquanto criação. com uma média de publicação de uma obra/ano. apenas como argumento que sinaliza uma justificativa do porquê se estudar mais a fundo a sua obra. compreendendo-a em sua totalidade. crítica social. e na maioria das obras traduzidas sobre a Gestalt-Terapia. filosofia existencialista e pragmatista. e. adotando uma postura transdisciplinar – tão propaganda atualmente nos meios acadêmicos. discorrendo sobre diversos temas. da psicanálise. pela sua contribuição na autoria do Gestalt Therapy. II. não se vislumbrando os possíveis desdobramentos dela derivados. Nessa obra ele tece críticas a linguistas contemporâneos e ao modo positivista de fazer ciência e compreender a linguagem. articulando saberes diversos. porém tão pouco na prática – que expande a Gestalt-Terapia para além das fronteiras da Psicologia. Diante dessa restrição atual sobre o olhar para o todo de sua obra. para o desenvolvimento da abordagem gestáltica para além do enquadre clínico. Ao longo de uma carreira de cerca de 40 anos. do contexto clínico. faz-se necessário abrir o campo para novas perspectivas que se encontram latentes. sobre o título “The Pathology of Speech and Writing”.

a importância de rever essa História .bvspsi. se faria pela busca de fontes externas nem sempre compatíveis com o referencial gestáltico. Revista da Abordagem gestaltica. Sobre Paul Goodman. quanto mais elucidada. Disponivel na World Wide Web: <http://pepsic. dando um destaque especial a alguns membros do Grupo dos Sete – Fritz e Laura Perls.org. diante de uma escassa formulação teórica dentro das produções da literatura gestaltica.br/scielo. Gestalt-terapia no Brasil: recontando a nossa história. e filosofia. portanto. Paul Weizs e Isadore From. 13.sociais. 38 264 . mais clareza teremos do que somos e do que pretendemos”. F. senão na própria obra desse autor. da R. Ribeiro retoma considerações da própria Laura Perls. e modos diferentes de pensamento. ao recordar-se ele mesmo de sua própria formação como gestaltterapeuta: No início dos anos 80. um dos raros feitos na América. e música. n. que o aponta como um dos principais sistematizadores das primeiras teorizações da Gestalt Terapia. Paul Goodman. e antropologia. 2. discorre sobre a ignorância quase generalizada que se tem sobre a importância desse autor. pedagógicos e estéticos que. Paul possuía tudo isso em funcionamento integrado. Goiânia. vol. Aqui as pessoas usualmente não têm a educação e base para conhecimento de línguas. em muito desenvolvido a partir das contribuições do Paul Goodman. W.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672007000200010&lng=es&nrm=iso>. Walter Ribeiro (2007) trouxe em seu artigo sobre a história da Gestalt Terapia.com letra maiúscula -. Nesse artigo ele traz a importância do resgate da contribuição dos pioneiros da abordagem gestáltica. em seu artigo que discute o paradigma pós-moderno da Gestalt-Terapia. (2007). ISSN 1809-6867. concebendo-a como o “fundo do qual emergem as noções que temos sobre a nossa identidade e que. Recentemente. após minha formação e um tempo de prática em Gestalt-Terapia – em um primeiro momento de modo “perlsiano” (do RIBEIRO. 38 (s/p na versão eletrônica) Robine (2005). ao afirmar que “a influência de Paul Goodman era muito importante e penso que sem ele não haveria absolutamente uma teoria coerente de Gestalt Terapia” e ao descrevê-lo como um homem do Renascimento. e arte.

2007) têm se preocupado em desenvolver e refinar melhor esses conceitos. não pretendo me aprofundar. no presente trabalho.) Do mesmo modo. 2005. específico e atual nas discussões e teorizações da Gestalt Terapia. de ainda não ter feito o tour completo pelo modelo proposto por Goodman.. em prol de outro enfoque. n. depois de 15-17 anos. aprofundando as leituras do Gestalt-Therapy e articulando com outras concepções contemporâneas. na articulação organismo-meio. em especial. 2006. J-M. numa perspectiva interacionista do desenvolvimento humano. Tratava-se do enfoque de Goodman e Isadore From. 103) Dos “novos caminhos” referidos por Robine. 108. RJ: UERJ. pela ênfase dada por Goodman na compreensão de “suporte ambiental”40.. MullerGranzotto. p. nunca havia ouvido falar em nenhum dos dois.. um membro do grupo fundador da Gestalt-Terapia. Ano 5. Aliás. (. p. certas noções teóricas e certos preceitos éticos. apontando as contradições entre as “bases modernistas” da Gestalt terapia com sua compreensão estrutural de self. 103. 265 . tem trabalhado na crítica e resgate desses conceitos. Robine. Este repensar doloroso e radical levou-me a dar as costas firmemente a certas práticas. a partir da noção de “auto-suporte” de Perls. que eu já então percebia como sendo mais exigente (e eu ainda estava longe de medir todas as conseqüências). Cit. . baseada na compreensão de campo e de contato. eu estou longe de considerar que o modelo trazido por Goodman seja perfeito! Eu quero apenas dizer que novos caminhos foram abertos e que nos cabe identifica-los e explorá-los..eu tive a oportunidade de trabalhar por vários anos com Isadore From. pois ao longo de minhas duas formações anteriores em gestalt. tenho a impressão agora. Vários autores (Ribeiro. Sobre esse ponto teórico. 40 39 Op. (. (2005) A Gestalt-Terapia terá a ousadia de desenvolver seu paradigma pós-moderno? In: Estudos e Pesquisas em Psicologia. tem sido enfatizado principalmente as contribuições dele no que tange às construções sobre a Teoria do Self. era difícil para mim distinguir a contribuição de From daquela de Goodman.) Ao mesmo tempo. 1. 39 (p.período de Esalen) e depois modificada pela contribuição do Instituto de Cleveland (em particular dos Polsters). abertos pela contribuição de Paul Goodman. herdeira das idéias Freudianas e Reicheanas. e o “paradigma pós-moderno” que advém da noção de self enquanto contato. 1997. apenas me ROBINE. Robine. 1º semestre.

para fins de articulação. e no período póstumo. sendo possível entrever no mínimo nove eixos temáticos – ou nove possíveis “trilhas” abertas pela obra de Goodman. sendo possível imaginá-la talvez sob a forma de uma mandala. Ao visar o todo da obra de Paul Goodman. Abaixo ilustro num diagrama.referindo a ele como sendo o que considero o caminho mais “canônico” de compreensão da obra do Paul Goodman e desenvolvido dentro do campo da abordagem gestáltica. transversalmente. até o engajamento na crítica social e educacional. às vezes. Obras levantadas a partir do site da Wikipédia e organizadas por temas a partir das referências de Stoehr (1994). em interlocuções ou abordando temas diversos. desde a fase literária. pontos cuja conexão pode se organizar como planos temáticos. é possível perceber os vários campos abertos por ele e desenvolvidos de forma paralela e. ou de uma esfera constituída por interconectados. ao longo das 4 décadas de produção intelectual. 266 . Cada um desses “eixos” ou “trilhas” se interconectam ao longo de toda a obra de Goodman. as obras situadas temporalmente. e a transversalidade temática. como planos de trabalho. Diagrama provisório de “caminhos” ou “trilhas” da produção de Paul Goodman. de resgate da obra.

durante a década de 50 – quando do contato com o Living Theatre -. do período do doutoramento na Universidade de Chicago. quando dos últimos escritos referentes a sua reflexão existencial e às discussões sobre linguagem e literatura. e retomada nos fins das décadas de 60 e 70. o The Structure of Literature (1954). Kafka's Prayer (1947. Abaixo. articulando algumas dessas áreas e apontando para suas principais obras de referência: 1) o caminho literário-estético-filosófico. tento agrupar alguns possíveis planos de trabalho. poderiam – e deveriam – ser melhor explorados. Utopian 267 .ainda pouco visados da obra de Paul Goodman. Vai desde as primeiras reflexões formalistas sobre a poesia. correspondente ao período em que se dedicou à crítica literária e teoria da literatura.Diagrama representando os eixos temáticos contidos no todo da obra de Paul Goodman Esses vários “eixos temáticos” ou “trilhas” . as passagens sobre o artista contidos no Gestalt Therapy (1951). passando por ensaios psicanalíticos da década de 40. Desse período se situam as obras: Art and Social Nature (1946). 1976). referente a sua visão estética e literária. por escritos sobre a arte de vanguarda e o teatro.

que caracteriza-se pela sua visão anarquista. referente a escritos pacifistas da década de 40. 4) o caminho pedagógico. 2) o caminho psicológico-psicanalítica-gestáltico. à critica ao “sistema”. Drawing the Line: Political Essays (1977) Decentralizing Power: Paul Goodman’s Social Criticism (1994) e Format and Anxiety: Paul Goodman Critiques the Media (1995). Drawing the Line (1962). The Writings of Paul Goodman (1976). que envolve o período das décadas de 40 e 50. 3) o caminho da crítica social e política. o The May Pamphet (1945) e aos artigos de Goodman em revistas como . New Reformation: Notes of a Neolithic Conservative (1970) e as obras póstumas Little Prayers and Finite Experience (1972). e sobre psicologia social ou socioterapia. além de alguns artigos compilados nas obras pósumas Nature Heals: Psychological Essays (1977) e Creator Spirit Come! The literary essays of Paul Goodman (1977. The Society I Live In Is Mine (1962). no Gestalt Therapy (1951). 1979). O período compreendido de crítica social a partir da publicação do Growing up Absurd (1960) também pode ser incluído. Utopian Essays and Practical Proposals (1962).Essays and Practical Proposals (1962). referente às obras em que 268 . organização social e a política do Pós-Guerra e às propostas utópicas e comunitárias. Seeds of Liberation (1964). que vai do período antecede à incursão pela GestaltTerapia. presente em obras como: Growing up absurd: problems of youth in the organized system (1960). no que tange às reflexões sobre as relações de campo organismo-meio. que serviram como pano de fundo para o desenvolvimento do movimento de Contracultura. em fragmentos sobre a psicologia presentes no Five Years (1966) e nos ensaios reunidos na obra Nature Heals: Psychological Essays (1977). Five Years (1966) e Speaking and language: defence of poetry (1971). e principalmente às obras produzida nas décadas de 60 e início de 70. e toda a década de 50. presentes na leitura psicanalítica na obra de crítica literária como o Kafka’s Prayer (1944). da década de 60. 1967)]. e retomado nas obras póstumas Crazy hope and finite experience: final essays of Paul Goodman (1979). publicado como Like a Conquered Province: The Moral Ambiguity of America. The Moral Ambiguity of America [(1966). People or Personnel (1965). o movimento pacifista contra a Guerra do Vietnã. através dos ensaios sobre a psicanálise freudiana e sobre a obra de Reich.

5) o caminho da análise autobiográfica. num movimento de autoanálise. e propõe uma educação vivencial e comunitária. em que Goodman sintetiza essas diversas dimensões de sua obra articulando à sua própria vida. O olhar para a dimensão autobiográfica da obra de Paul Goodman nos favorece a compreensão dos desdobramentos de seu pensamento intelectual e as formulações sobre alguns temas ligados às sua própria existência. As elaborações. ao menos no que tange às possibilidades de articulação a partir da contribuição de Goodman para a Gestalt terapia. Esses diversos pontos temáticos da obra de Goodman. contidos nas obras: Growing up absurd: problems of youth in the organized system (1961). . principalmente nos textos que problematizam o tema da alienação – The Empire City (1959).critica o modelo de educação compulsória. sobre a homossexualidade Parents' Day(1951). constituem caminhos situados nas “fronteiras de contato” da Gestalt-Terapia. inspiração de Dewey. trazendo exemplos de sua própria vida e de seu movimento de autoconhecimento. (1964) e People or personnel and Like a conquered 269 . que envolve as décadas de 40 a 70. sobre o processo criativo e o ajustamento criativo e sobre a sexualidade em muito sobre interferência das vivencias de Goodman. Making do (1963) e em poemas. como o North Percy (1968). voltada para o desenvolvimento integral do humano. diretamente relacionado ao eixo de crítica social e política. que trata da morte de seu filho Mathew. que em muito podem favorecer a um processo de ampliação da abordagem gestaltica para outros campos além do enfoque clínico. por exemplo. 1979). Compulsory Miseducation province (1968). pode ser percebido também em obras literárias de Goodman. Presente no livro de memórias Five Year (1966). Our Visit to Niagara (1960). e em ensaios e poemas contidos nas obras póstumas Little Prayers and Finite Experience (1972) Nature Heals: Psychological Essays (1977) e Creator Spirit Come! The literary essays of Paul Goodman (1977. sobre a Psicologia do autor. e atravessa os 4 eixos anteriores.

principalmente em discussões referentes ao movimento anarquista. à sua contribuição na Contracultura da década de 60-70 (Roszak. social e político. havendo referencias mais atuais. refletindo sobre as implicações dos distúrbios de fronteira no campo clínico. 270 . em parceria com seu irmão Percival Goodman e nas articulações do Gestalt Therapy e de obras posteriores sobre a relação do organismo-meio ambiente. talvez sejam as referências mais consistentes de fortuna crítica. esta última em articulações principalmente com o pensamento de Ivan Illitch. respectivamente. Swartz. a obra de Bernard Vincent (1976) e a coletânea organizada por Parisi (1986). são artigos datados. que trata da questão do campo e dos ajustamentos neuróticos. Há referência à importância de Paul Goodman também no que ficou denominado como ecopsicologia (Knapp.1972). de Winter (1962. 1994. principalmente das décadas de 60 e 70 (Thompson . Esses últimos. Tal articulação indica um caminho de possível de articulação da Gestalt Terapia com o campo emergente da Psicologia ambiental. 1967.1999. o de Ayward (1999). a partir dos seus escritos sobre planejamento urbano. a partir de fontes acessíveis em artigos da internet e obras impressas que fazem referência ao pensamento do Paul Goodman. s/ data). 1974. ALGUNS CAMINHOS JÁ PERCORRIDOS Fazendo uma revisão da fortuna crítica sobre Paul Goodman. encontrei apenas dois artigos. Entre as publicações sobre a contribuição de Goodman para a Psicologia. Sobre o pensamento político de Goodman. numa perspectiva que busca amplificar e expandir as discussões clínicas da GT. que abordam a importância de Paul Goodman como intelectual anarquista e crítico político e social do pós-guerra. em revisões que incluem o autor na história do desenvolvimento da pedagogia contemporânea (Friedenberg. e ao movimento de desescolarização. embora hajam artigos de diversos outros autores. da política e da pedagogia. em especial para a Gestalt-Terapia. que sistematiza os principais pontos teóricos trazidos por Goodman para a da Gestalt Terapia. 2007). 2006) . Vaughan . mais recentemente.III. e. Spring. um mais antigo. 1979). foi possível evidenciar uma grande incidência de referencias sobre ele no campo de sociologia.

ela não adentra diretamente os textos do Paul Goodman. mais recentemente. Na literatura gestaltica brasileira. trouxe em foco. no entanto.Ayward (1999) aponta para uma compreensão que possibilite “uma expansão da consciência para a dinâmica das fronteiras. tanto no campo literário. quase nada se tem publicado. Sobre a contribuição de Paul Goodman no que tange ao campo da literatura. 271 . uma lacuna que teria a compreensão da obra de crítica social e política de Paul Goodman como caminho que inevitável. Temos também como principal referencia de fortuna crítica os textos de Taylor Stoehr. passando pelos momentos de imersão na psicanálise. Now (1994) detalhes minunciosos da história do autor. Adentrar e aprofundar essas discussões no campo de uma sociologia ou de uma psicologia social. considerando que o “ponto social e político da Gestalt Terapia. ocupando o lugar de porta-voz da Contracultura. sua formação acadêmica e carreira literária. a dimensão literária de sua obra. na Gestalt Terapia. sua inclusão no movimento da Gestalt Terapia e o posterior engajamento como crítico social e teórico da educação. Esta obra e outros escritos de Taylor. incluindo os impactos sociopolíticos e ambientais que influenciam e sustentam nossa condição humana”. recorrendo a aspectos da biografia do autor a partir de referências de comentadores. nas introduções das coletâneas reunidas após a morte de Goodman. são as fontes mais detalhadas sobre a biografia de Goodman e sua produção literária. Taylor descreve em seu livro Here. Em seu artigo. editor e principal comentador da obra de Paul Goodman. apenas Alvim (2007). apontando como uma contribuição de Goodman para o “fundo estético” da Gestalt Terapia. as características das obras de cada uma dessas fases. sobre a obra The Empire City apontando para sua dimensão pós-moderna e pósnarrativa desta obra. no. me parece algo ainda a ser trilhado. Next. com exceção do artigo de Morton (1993). no entanto. quando da crítica social e política. serviria de base teórica para o combate da desumanização”. descrevendo as principais fases do autor e suas transições. desde aspectos de sua vida pessoal. mascarado na forma de uma psicoterapia. e os principais caminhos para adentrar o pensamento de Goodman.

Quem somos. Esse caminho eu me mesmo me proponho a percorrer. como Laura Perls mesmo dizia. trazidos antes. abrindo novas possibilidade de articulação. “um dos raros feitos na América”. neste último instante. à dificuldade de acesso a essa extensa obra e à necessidade de sua tradução pela comunidade gestáltica.IV. da sexualidade e do processo de criação na arte. ao voltar-se para aspectos da sociedade. da educação. de onde viemos e para onde podemos ir. fazendo um convite dirigido a todos a esse diálogo. na literatura. em nossas investigações científicas e em nossas reflexões existenciais. Na condição de um intelectual erudito. principalmente. no teatro e na vida. APONTANDO OS CAMINHOS QUE AINDA PODEM – E PRECISAM – SER PERCORRIDOS Debruçando-me sobre a obra de Paul Goodman. torna-se claro para mim o imenso campo de possibilidades de articulação e expansão que a obra desse autor nos traz para ampliarmos as fronteiras de contato da abordagem gestáltica. da política. integrando numa gestalt plena e coerente. 272 . e. durante e após a sua participação do movimento da Gestalt Terapia. neste primeiro contato. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesse artigo pretendi apontar para os caminhos da obra de Paul Goodman que podem ser percorridos e para as articulações com temas que. psicológico-psicanalítico e político. Aponto também. filosófico. vida e obra. tal como concebido originalmente. para que possamos usufruir melhor dessas referências. Suas obras posteriores dialogam intimamente com o pensamento gestaltico e o amplifica. da juventude. Elas nos servem como norte para os novos caminhos possíveis que podemos percorrer. Seu conhecimento literário. Goodman dialogou com vários campos do conhecimento. servem para compreendermos melhor os fundamentando e as bases do pensamento gestáltico. em nossas atuações práticas. podem recorrê-la como referência. nos aponta para nossa própria identidade enquanto gestalt-terapeutas. sendo de interesse dos gestalt-terapeutas.

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mas como um espaço vivido. Dos resultados submetidos à análise ideográfica. Nesse sentido. o abrigo com a esperança de realizarem seus projetos existenciais. Recorrendo a estudos e pesquisas que investigam essa temática focamos a interrogação que revela a intencionalidade em compreender o modo como as adolescentes que se encontram em abrigos vivenciam o tempo. finalmente. o presente trabalho se propõe a compreender o tempo vivido por essas pessoas. Como a experiência é sempre vivida por um sujeito. Por meio de entrevistas semi-estruturadas e atividades de colagem. vivendo nas ruas e em abrigos. emergiram duas grandes categorias abertas: ‘modos de habitar’ e ‘modos de se perceber sendo’. com experiências de viver na rua e em abrigos. Estas revelaram que. sociologia. situado espaço-temporalmente no horizonte da historicidade do seu real vivido. as meninas habitam a rua como uma alternativa ao habitar a casa e.modalidade do fenômeno situado fundamentam a investigação. educação. na tentativa de possibilitar novos modos de atuação dos profissionais de saúde e áreas afins. meninas que estavam experienciando o habitar o abrigo por. no mínimo. quatro meses anteriormente ao início da coleta de dado. onde educadores e educandos estão sendo-uns-com- 275 . Os pressupostos filosóficos da investigação fenomenológica . sinalizam para o abrigo não como um espaço físico.PESQUISA FENOMENOLÓGICA: COMPREENDENDO O TEMPO VIVIDO POR ADOLESCENTES DO GÊNERO FEMININO COM EXPERIÊNCIAS DE VIVER NAS RUAS E EM ABRIGOS RESUMO A diversidade de modos possíveis das adolescentes construírem suas espacialidades e temporalidades. buscamos por um material que nos permitisse compreender as experiências relacionadas ao tempo vivido pelas participantes. seguida da elaboração de uma matriz nomotética. diante da exigência originária do ser-ai e da presença em buscar sua realização nos diversos modos de ser-com. participaram da investigação. Nesse sentido. entre outras áreas. tem sido focalizada sob diversas óticas nos campos da saúde.

Gestalt – terapia. vivenciam o tempo. por meio de ações vislumbrando satisfazer desejos. visando contemplar os paradigmas da academia: O tema foi focado no âmbito da região de inquérito da Psicologia. temporalidade e história. de que forma o pelas adolescentes é compreendido e abordado pela literatura estudada. Esta investigação possibilitou perceber. psicólogos. Palavras Chave: Tempo. as quais já foram mencionadas. também. 276 . As grandes categorias desvelam a vivência no presente tanto do passado. possibilitando¸ assim. que fundamentaram a gênese de minha inquietação. Adolescente. Existencialismo. pedindo por um des-velamento. psicopedagogos. destacando os seus modos de ser. tempo. focando a interrogação que revela minha intencionalidade em compreender o modo como as adolescentes que se encontram em abrigos. as adolescentes relaciona-se ao fato de possuírem singularidades. que o tempo vivido no abrigo se constitui em uma oportunidade para a atuação de equipe multi e transdisciplinar envolvendo educadores. Ao mesmo tempo estava interessada em verificar no doutorado como o gestaltterapeuta poderia ser instigado a participar em atividades sociais saindo as quatro paredes de seu consultório. Menores de rua Frente às questões pertinentes à temporalidade retrospectiva e prospectiva. Possibilitou ainda evidenciar a necessidade de uma reconstrução das políticas públicas de atenção às adolescentes que venham a contemplá-las em suas dimensões existenciais. formulo a proposta sob minhas perspectivas. assistentes sociais. especificamente. Sociologia e Filosofia. médicos. terapeutas ocupacionais. ações éticas baseadas na redimensão da própria existência e no arrependimento. a situação destas adolescentes apresentou-se a mim como fenômeno. como têm sido explicitados os modos de viver na rua e no abrigo. A proposta de investigar.os-outros. na esperança da reconstrução da decadência. lamentos e pesares. Abrigo. Percepção. enfermeiros. A meta foi apresentar trabalhos que envolvessem adolescentes vivendo em situações de rua e de abrigo. Nesse sentido. por intermédio das recordações. entre outros. assim como do tempo futuro.

que na sua ótica. relacionados às necessidades corporais ou rítmicas. focar o modo de viver existencialmente na temporalidade e na historicidade do real vivido. sente-se incompreendido por não ter suas necessidades ‘imediatas’ atendidas pela mãe diante do desejo de ter o vestido para o próximo baile. tanto frente ao temporal como ao espacial. qual seja. experimental ou ainda do tempo rítmico. Sociologia e Filosofia. o tempo?’ mas. defecar. baseado nos atos de comer. estudar. Como exemplo. sob minhas perspectivas. as falas dos sujeitos em direção à explicitação do compreendido sobre a questão formulada. construindo articulações entre autores estudados. Foram analisadas as convergências. O passado e o futuro são unidos. na perspectiva de adolescentes. às adolescentes que habitam a rua e abrigos para compreender como vivem sua historicidade. Knobel (1981). A discriminação temporal de – passado/presente/futuro – surge dos lutos típicos da adolescência – do corpo infantil. 277 . em um presente voraz e é apenas durante a adolescência que essas dimensões temporais vão sendo discriminadas. 1981). Trata-se do tempo vivencial. Isso significa que não tenho. ou seja. o que é urgente. geralmente é adiado e o que pode ser postergado. à luz da interrogação. brincar. dos pais da infância desenvolvendo o que ele denomina de tempo conceitual ou tempo cronológico (KNOBEL. os pensamentos do adolescente adquirem características particulares. Na psicologia focalizei entre outros. busquei fundamentos na Psicologia. fui à coisa-mesma. o adolescente acredita ter tempo para estudar. traz consigo a questão da temporalidade vivida. dentre outros. Surge também dos aspectos vivenciais. Para tanto.Assim. Porém. conduzida segundo os pressupostos filosóficos que fundamentam essa modalidade de pesquisa qualitativa. é antecipado. para compreender tal fenômeno. Não se trata de questionar ‘o que é isto. optei pela metodologia de investigação fenomenológica. Investigar sobre o modo pelo qual se dá esse habitar. dormir. embora o exame seja no dia seguinte. ou seja. ‘como flui o tempo vivido pelas adolescentes com experiência de viver na rua e em abrigos’. enfatiza que. então. O adolescente vive o tempo em um processo denominado por esse autor de ‘deslocalização temporal’. que sustentassem entendimentos sobre a temporalidade vivida pelos sujeitos pesquisados. do papel e da identidade.

nem o tempo em si. em sua própria descrição da temporalidade. se futuras. torna-se mais apropriado afirmar a existência do: presente das coisas passadas. passível de ser entendido em uma seqüência linear. em uma totalidade dinâmica.. presente das futuras [. também se preocupou com os modos de se viver o tempo. expostas por Brentano. pelos prognósticos preconcebidos por meio das coisas presentes que já existem e são observadas. só podem existir no presente. Husserl (1994) afirma que a consciência de uma temporalidade que aparece como a que surge ao se ouvir uma melodia. 222). não seria possível apenas com a consciência de um presente. mas as palavras concebidas pelas imagens que passaram pelos sentidos. A idéia de vincular ao presente a modificação do passado. presente das presentes. 1994). o presente e o futuro que. mas modos de viver-se temporalmente. passado.. afirma que não há como negar a existência de três tempos: o pretérito. em qualquer parte que estiverem. envolvendo presente. Considerado o pai do movimento fenomenológico contemporâneo (HUSSERL. já lá não estão e. se fazem existir no presente pela premeditação. Portanto. busco compreender o tempo concebido e tratado objetivamente. Esse mesmo filósofo tentou distinguir entre um tempo percebido e outro 278 . deslocandome para uma concepção de tempo vivido. Santo Agostinho (1987).] lembrança presente das coisas passadas. o tempo objetivo. assim como a idéia de tal modificação como algo contínuo. Enquanto futuras. ainda lá não estão. Enquanto pretéritas se fazem existir no presente pela memória que narra não os próprios acontecimentos. Se fossem pretéritas. futuro. mesmo com esses esclarecimentos. visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras (p. a interrogação motivadora desta investigação permanece buscando modos de espacialização e de temporalização vividos pelas meninas adolescentes que habitam a rua e abrigos. Entretanto. construindo espacialidades e temporalidades. são conservadas por Husserl. Nessa perspectiva. para Santo Agostinho (1987).como tema de investigação.

então. mas é também fruto da expectativa antividente (vorblickenden Erwartung). Para Husserl. para a duração e sucessão de sensações que sofrem modificações. apreensões do tempo que se fundem. em corrente permanente. numa consciência retencional sempre nova”. psiques e seus estados psíquicos. através da apreensão. mas antes o dado fenomenológico através de cuja apercepção empírica se constitui a referência ao tempo objetivo (HUSSERL. no sentido objetivo. aparece. o mesmo som está consciente como duradouro. O fragmento decorrido de uma melodia. 1994. O último é o tempo objetivo. têm suas posições determinadas pelo cronômetro. o primeiro. ouço de cada vez apenas a fase atual do som e a objetividade do som total duradouro constitui-se num ato 279 . assim temos nós que distinguir também entre um tempo “sentido” e um “tempo percebido”. como agora duradouro. é fruto da recordação (retenção). na qual coisas e acontecimentos. O tempo objetivo pertence à conexão da objetividade da experiência. mas investidos de caracteres de apreensões a estes relacionados. Durante todo o fluxo de consciência. Husserl (1994) salienta: Por conseguinte. sem dúvida. 40). Ao se ouvir uma melodia. nos mostra uma sucessão. a que chamamos então objetivamente percebido. não é ele próprio tempo objetivo (ou posição no tempo objetivo). p. (HUSSERL. tal como afirmava. Assim. 62). fruto da retenção. mas um dado fenomenológico que a ele se refere. Contudo.sentido. Esse filósofo alerta. O ‘depois’ diz respeito a um tempo ainda na retenção. a consciência primária do tempo constitui-se na apreensão do momento com suas fases de retenção e protensão. É pelas vivências temporais (Zeitauffassungen) que o temporal. temos a consciência de um processo sonoro que. para Husserl (1994) o tempo sentido não é aquele percebido objetivamente. 1994. Husserl prossegue: “o som agora se muda em somque-foi e a consciência impressional converte-se. p. nos torna conscientes de algo objetivo como dado de carne e osso (Leibhaft). a partir de sua afirmação: se denominarmos sentido um dado fenomenológico que. os dados temporais sentidos não são apenas sentidos. por exemplo. corpos e propriedades físicas. Portanto. captar um conteúdo tal como ele é vivido não significa captá-lo em um sentido objetivo.

Bicudo (2003) também enfatiza que. embora de imediato. independentemente do tempo do relógio. Para Minkowski (1965). esse autor visualiza um horizonte para direcionar suas reflexões que se estendem. um tempo imanente do curso da consciência. ou este. 1993). vivido pelo eu. é um estado da mente. horas podem ser vivenciadas como minutos e. extensão e espaço à concepção do tempo psíquico. principalmente em sua obra. A partir dessas observações. englobando um grupo de fenômenos. No existir cotidiano. produz o presente que mantém em si mesmo o agora. O agora é pontual. os caracterizados pelo tédio decorrem devagar. deformando o tempo-qualidade. O ‘devenir’. percepção e. Il tempo vissuto (1965). numa parte recordação. encontra. para um campo de pesquisa envolvendo manifestações psicopatológicas relacionadas às vivências do tempo na experiência dos doentes mentais. se expande. representado pelo espaço. 56-57). reflexões a respeito da aplicação imprópria de noções como quantidade. Minkowski (1965) por seu turno. ou seja. o ‘agora’ e o ‘presente’ pareçam semelhantes. intensidades e ‘extensibilidades’. Um tempo do mundo da experiência. numa outra parte ainda. o passado pode estender-se até o futuro. em Bergson. dirigida a uma análise fenomenológica da consciência primária do tempo. incluindo o agora. expectativa (p. retoma a psicologia descritiva de seu mestre. com suas leis naturais de duração. noutra parte pequeníssima. sendo mais flexível. são diferentes fenômenos temporais. enquanto o presente. Instantes vivenciados em sintonia passam rapidamente. 280 . e avança no sentido de uma psicologia fenomenológica mais originária. inversamente. sucessão e continuidade em relação ao eu. minutos como horas. em tempo-quantidade.contínuo que é. pode-se vivenciar o tempo com ‘velocidades’. Portanto. sem duração. que se diferenciam face às situações e sentimentos que delas decorrem. embora a ele não se restrinja. o presente é um ato de muita complexidade. pontual. tal como é percebida nas suas fases de retensão e protensão. até o presente (FORGHIERI. de forma original. Brentano.

por meio de intervenções nos elementos constitutivos do futuro – ‘atividade’ e ‘espera’. Para este teórico. em uma dimensão mais operacional. mas não no agora. a noção de direção do tempo. sob forma de memórias. o ‘desejo’ e a ‘esperança’. que. Outra.Nesse sentido. de cuidar de si mesmo. Mesmo que se reviva o passado. se ressignificados. prossegue a autora. ‘ação ética’ e a ‘prece’ – proporcionando. a ‘prece’ e a ‘ação ética’. na perspectiva de Minkowski (1965). o pensar a respeito da manifestação do tempo no discurso de alguns filósofos encontra-se também em Martin Heidegger. ao indivíduo. Em relação ao modo de viver o passado. visando perspectiva ampla e majestosa diante do eu. esse autor apresenta três categorias – a recordação. mimando-o. 281 . pois a atenção do eu é primariamente direcionada para ele. possibilidades de resgate de sua função de protagonista da própria vida. o modo de viver o futuro encontra-se relacionado aos seis fenômenos ou categorias do ‘élan vital’ do eu. manipulando-o. em alemão. Uma. o cuidado ou a solicitude são orientados para duas categorias temporais. Para este filósofo. que permitem viver intencionalmente o tempo: a ‘atividade’ e a ‘espera’. Neste percurso. Em estudos de Petrelli (1999) e em Costa e Medeiros (2008). fazendo e assumindo o encargo. colocando-o no colo. que contém. o modo de viver o tempo é fundamentalmente orientado para o futuro em razão do fenômeno do ‘élan vital’. mesmo que sutilmente. de forma primitiva. O futuro é vivido de maneira mais direta e imediata. Ainda de acordo com esse teórico. o remorso e o pesar – elementos capazes de abrir novamente o caminho para o futuro. contemporâneo de Minkowski. essa é uma questão de reviver ou de viver em. dominando-o. significa cuidar do outro. denominada Einspringende Fürsorge. ou se viva no passado. pode-se ficar no presente. ‘desejo’ e ‘esperança’. que é dele. observa-se a tentativa de elaborar uma reflexão teórica sobre cada constitutivo das categorias do tempo vivido.

“existimos sempre nesse horizonte histórico. autenticamente. como afirma Bicudo (2003). meu interesse direcionou-se para o acontecer da presença para adolescentes com experiência de habitar o espaço rua e abrigos que. 80). o que significa. como pela primeira vez. a grosso modo. sucessão e continuidade. Em m defesa de uma ciência descritiva das experiências vividas. A presença é. de duração. e o que é historicamente primário é o nosso presente”. antecipar-se a ele (ihm vorausspringt). A opção metodológica foi a fenomenológica. contém também a dimensão da temporalidade. a qual já possui seu modelo na matemática. mas convidado a voltar para si mesmo. de uma ciência não exata. então. cuja tradução é pular em frente ao outro. A presença ‘é’ o seu passado no modo de seu ser.denominada Vorspringende-efreieden. Nunca. facilitando-lhe assumir seus próprios caminhos e o encontro consigo mesmo. para Heidegger (2002): é sempre o seu passado e não apenas no sentido do passado que sempre arrasta ‘atrás’ de si e. que elas sempre ‘acontece a partir de seu futuro ( p. 48) Assim. em sua essência. sem espaço e tempo. incluindo o agora e as leis naturais. (p. sem contexto histórico. como propriedades simplesmente dadas. Um modo de cuidar no qual o outro não é protegido. Não. Conforme afirma Bicudo (2003). Presente que engloba um grupo de fenômenos. na busca por compreender a historicidade desses sujeitos. libertando-o diante de suas possibilidades-para-ser. sempre lançada ao mundo. Presença que. considerado o pai da fenomenologia 282 . as experiências passadas que ás vezes agem e influem sobre a presença. possui. desse modo. Edmund Husserl. Sempre com os outros e com todas as realizações que já foram presentes.

realidades objetivas. consciência e fenômeno se entrelaçam em uma correlação de co-originalidade. indagação ou interrogação. de modo que não o parcializa ou o explica a partir de conceitos prévios. expondo a perspectiva sob a qual o fenômeno é percebido. Afirmar que toda consciência é ‘consciência de alguma coisa’.A análise dos dados obtidos das descrições me levou à análise ideográfica referente às descrições de cada sujeito. segundo o pensar fenomenológico. de crenças ou de afirmações sobre o mesmo. por volta dos anos de 1990. os grandes invariantes. conforme afirmam Martins e Bicudo (1983). 283 . separação entre sujeito e objeto. “a fenomenologia procura abordar o fenômeno. Dessa maneira. Consciência e objeto não são compreendidos como dois polos absolutos e separados. seguida da elaboração de uma matriz nomotética.contemporânea. conforme afirma Dartigues (1994). mas volta-se aos fenômenos (GARNICA. A análise dos dados baseou-se no proposto por Martins e Bicudo (1989) sobre o ‘Método da Análise Qualitativa do Fenômeno Situado’. correlacionado à consciência que o vivencia. relações entre objetos e dados empíricos. o fenômeno se mostra àquele que o interroga. posicionando-se de maneira distinta do psicologismo e naturalismo. entendidos aqui como “ocorrências. não há. Ao focar intencionalmente uma pergunta. A perspectiva fenomenológica não se dirige aos fatos. enfim. Esse modo de ver justifica a preocupação central do método fenomenológico em relação à descrição da experiência vivida. A intencionalidade é uma característica fundamental da consciência. (sentido de intentio). Neste sentido. 113). todos os atos humanos são intencionais. Há aqui um jogo ‘percepção e percebido’ (BICUDO. finalmente. aquilo que se manifesta a si mesmo. no que se distinguem de fenômeno”. pela essência nos diferentes modos do fenômeno mostrar-se. busca. observáveis e mensuráveis.Neste percurso. de um referencial teórico” (p. procurei permanecer atenta no que se refere à busca de pluralidades e singularidades das vivências que iam sendo reveladas nos discursos dos sujeitos. 1999. já disponíveis e apreensíveis pela experiência. também denominados ‘categorias abertas’. e indicando. visando uma compreensão geral das estruturas psicológicas individuais. 2000). p. Nessa perspectiva. significa que a consciência só é consciência se estiver dirigida a algo. 10).

ou seja. entendido aqui como tudo relativo ao social e ao comunitário. desenvolver orientações vocacionais e acreditar na profissionalização dos adolescentes. Vislumbrei possibilidade de desenvolver atividades profissionalizantes deve assegurar um caráter realmente educativo. Esse empreendimento envolve uma compreensão de diversos casos individuais. como exemplos particulares.conforme sugerem Bicudo (2000) e Martins e Bicudo (1989). corroboro com a proposta de engajamento para ações mais abrangentes. não restritas ao espaço de um consultório psicológico. um outro modo de contribuir para melhor atuação de profissionais da área de saúde. o grupo de amigos. Além disso. Tais iniciativas podem colaborar para que eles ressignifiquem o passado. no sentido de prevenir o uso de drogas. p. de representações de idéias. em algo mais geral. (MARTINS E BICUDO. para Fierro (1995). Enquanto gestalt terapeuta e respaldada nos trabalhos de Alvim (2007) e Costa (2008). é necessário desvelar. garantir acesso à informações sobre sexualidade. nessa investigação. a finalidade de se chegar à análise nomotética é a estrutura geral psicológica. poderão refletir sobre a própria identidade. encontram um terreno fecundo para iniciar novos projetos de atuação. trata-se da análise da ideologia que permeia as descrições ingênuas do sujeito” (MARTINS E BICUDO. os quais são. 1989. para os educadores. é nesse recomeçar. 100). Assim. A análise ideográfica “refere-se ao emprego de ideogramas. os valores. como os psicólogos. 106). A estrutura psicológica geral é aquela resultante da compreensão das convergências e das divergências que se mostram nos casos individuais. Por sua vez. o valor que 284 . Nesse sentido. aprendam a lidar com o tempo da espera e elaborem ações inerentes às grandes tarefas do processo de adolescer. aspectos fundamentais das vivências nessa fase da vida. os quais apresentam a preocupação dessa abordagem com os âmbitos sociais e políticos. por meio de símbolos. a sexualidade. baseado na esperança depositada nessa instituição pelas adolescentes no que se refere à construção de seu futuro. que alguns deles. deve contribuir para o planejamento de ações inter e multidisciplinares. Diante de tais relatos. formulem projetos futuros. articuladas com a área da saúde. p. polis. evidenciou-se. 1989. a experiência e a experimentação de novos papéis. pois. Efetivamente.

As adolescentes. como por exemplo. favorece o relacionamento. a maternidade. ainda.sintetiza sua tarefa. Além disso. desistem do diálogo. fantasias e imaginações. em algumas delas. decorrentes dessas relações. orientados segundo as idéias teóricas e práticas da Gestaltpsicologia e da Gestalt-terapia. abrem-se novos horizontes de compreensão ao olhar para meu trabalho como gestalt-terapeuta e professora. entendida como a capacidade de compreender e tratar o ser humano na sua totalidade existencial. Nessa perspectiva. enfatizo a necessidade de trabalhar. optam por permanecerem caladas no sentido de evitar brigas e. cujas raízes históricas e espirituais remetem ao Humanismo. Para elas. Essa prática engloba conceitos pedagógicos. a presença de filhos desperta. embora não acreditem nas possibilidades de mudanças nas relações com a coordenação. conforme lembra Petrelli (1999). assim. sempre considerando as especificidades da idade. à Filosofia Existencial e à Fenomenologia. muitos conflitos. Fundamenta-se. Sobre isso. em particular. com os adolescentes. com experiências semelhantes. a intersubjetividade. nos conceitos da Psicologia Humanista. Assim. Resgatar a compreensão da sexualidade. Como afirma Costa (2002). estabelecer conexões com as propostas específicas das instituições. relacionandoas aos aspectos psicológicos que envolvem o sentir e as ações. segundo Burow e Scherrp (1985). daqueles. a partir de uma proposta pedagógica fundamentada na Gestalt-pedagogia. destacam que esses aspectos as atraiam e as mantinham vinculadas à instituição. Entretanto. apontam alternativas para o convívio diário. Os dados confirmam a necessidade dessa intervenção na medida em que as adolescentes expressam que a convivência com seus pares. com uma visão humanista existencial. seus desejos. É nesse momento que a presença intermediadora de profissionais da saúde. destacando a relevância de sua obra no horizonte existencial dos moradores de abrigos. Na categoria denominada nesse estudo de temporalidade. poderiam ser evitados. da importância das escolhas relacionadas às amizades masculinas e femininas e a relação com a maternidade são aspectos fundamentais para a vivência da 285 . essa autora sinaliza para a possibilidade de. explorando sonhos. singularidades da cultura e contexto social de cada um. precisa ser desenvolvida na relação educador-educando. o desejo de vivenciarem o papel maternal.

contrapondo-se. a do tempo vivido (kairós). rende-se ao irreversível kronos. sucessão e continuidade. principalmente no que se refere à possibilidade de vir a ter uma vida profissional. faz-se necessário configurar a atuação de profissionais em uma perspectiva na qual a temporalidade interna. No entanto. Agregar o vivido. o percebido e o desejado. impedido de consumar em seu élan vital. convertendo-se em direção a uma resignificação pelas habilidades das pessoas envolvidas. Conectá-los é uma das formas de superar grande parte da problemática do processo de desenvolvimento da adolescência. então. (kronos). seja contemplada O passado. Muitas dificuldades relacionais surgem face à imobilização do tempo. conforme salienta Petrelli (1999). Entretanto. elaborar projetos alicerça-se na percepção da própria existência e de que forma o passado. resultados da máxima restrospecção no tempo passado e da máxima prospecção no tempo futuro. Esses objetivos nortearam essa pesquisa. a habilidade do profissional em reconhecer a atuação do passado no presente depende de uma investigação a respeito de como 286 . à temporalidade mecanicista. Como afirma Costa (2004). possibilitando a análise compreensiva das falas. Todas as situações que não foram resolvidas no passado atuam aqui-e-agora. o profissional de saúde necessita direcionar seu olhar para as retensões e protenções. nesse sentido. Somos uma totalidade temporal e. Em todas as etapas vividas. nas relações que se estabelecem entre educador-educando e profissionais de saúde-adolescentes. percebo-me capaz de contribuir para além da categoria do futuro imediato.temporalidade. concepção que existe desde os primórdios dos tempos. manifestadas na experiência do sujeito. o presente e o futuro se fazem presentes no aqui-e-agora. que as experiências passadas e futuras se fazem presentes. cronológica. O ser humano é capaz de vivenciar – agora – seu passado e projetar – agora – seu futuro. perdendo a noção de duração. incluindo as dimensões das ações éticas e da prece. no aqui-e-agora de sua experiência imediata. o tempo presente pode ser considerado. o qual. Deste modo. como um convite vindo do futuro para ganharmos os domínios do tempo passado. é. Ainda segundo essa autora. presente e futuro encontram-se integrados no aqui-e-agora. portanto. parece sinalizar para a forma como as adolescentes dessa investigação vivem o tempo.

como salienta Petrelli (1999). de um modo geral. elementos fundamentais da postura fenomenológica do profissional de saúde. no papel que se dispõe a assumir. ainda. na sua relação com o paciente. É preciso.está se relacionando com o outro. abrindo possibilidades de costurá-los com sentido. aprendam a conciliar a generalidade dos conceitos teóricos à singularidade de cada pessoa. sentimentos. descrever o que se mostra por si mesmo. O dar-se conta de como o seu próprio passado atua nas relações estabelecidas com as adolescentes sinaliza para um imenso campo de atuação do gestalt-terapeuta. mas é o sentido da trajetória do ser que modifica a significação do passado e do presente. é necessário que desenvolva consciência de suas sensações. Em uma perspectiva fenomenológica. A vida somente pode ser compreendida olhando-se para trás. em cada encontro mantido. 287 . só pode ser vivida olhando para frente. Para Costa (2004). não é o passado que determina o presente. permitindo que as vivências apareçam à luz do sentido próprio de cada vida. Aprender a testemunhar e a identificar os rasgos existenciais da trajetória humana. segundo Costa (2003). que os profissionais. Mas. pensamentos e atitudes. nem esse o futuro. Assim. Evitar préconceitos diagnósticos e definições prematuras que comprometam o desvelamento do fenômeno.

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the conception of this person inside of the theory of the cycle of the contact. Palavras Chave: Autismo. Keywords: Autism. gestalt-terapia. autistic person.PROPONDO UMA VISÃO GESTÁLTICA SOBRE O AUTISMO PROPOSING A GESTALT-THERAPY VIEW OVER THE AUTISM Eixo Temático: Práticas da Gestalt-terapia na atualidade e os seus caminhos RESUMO Este artigo visa apresentar uma nova visão do autismo. searching to understand the resources necessary to the therapist to take care of their singular necessities. buscando compreender os recursos necessários ao terapeuta para atender suas necessidades singulares. articulando aspectos teóricos da gestalt-terapia com relatos e depoimentos de autistas e pessoas ligadas ao autismo. gestalt-therapy. a concepção desta pessoa dentro da teoria do ciclo do contato. 290 . Analisaremos a existência do ajustamento criativo na pessoa autista. We will analyze the existence of the creative adjustment in the autistic person. articulating theoretical aspects of the gestalt-therapy with reports and testimonies of autists and people connected to the autism. pessoa autista. ABSTRACT This article aims at to present a new vision of the autism.

de transmitir amor à criança e criar um ambiente seguro para a expressão de seus sentimentos. neurônios pré-motores que se ativam quando observamos uma ação ou quando percebemos a intenção de uma ação observada. 2006). Pesquisas mais atuais. através de seus próprios ajustamentos criativos. FIGURA E FUNDO Para começarmos a falar da pessoa autista a partir da gestalt-terapia. que muitas vezes é identificado como o próprio autismo. segundo a qual. o que mais esta pessoa é. e ir ao fundo. e muito mais o “como”. a psiquiatria e a educação. temos que nos desprender da figura. 1995). in Coll. a causa do autismo. Os primeiros estudos apontaram que a causa do transtorno estava na incapacidade dos pais. através da gestalt-terapia. e cada pessoa é única. nos importa muito menos o “por que”. mas a veracidade desta afirmativa reside no fato de que cada autista é uma pessoa. ou seja. Para tratarmos uma pessoa autista. particularmente da mãe. No presente artigo. o comportamento autístico. a forma como o ser da pessoa autista se configura para lidar com suas limitações e dificuldades. o autismo tem se apresentado como um mistério para a psicologia. tenho o objetivo de trazer uma visão diferente do autismo. gerando um bloqueio na mesma em sua capacidade afetiva. apontam para uma disfunção dos recém descobertos neurônios-espelho (Oberman e outros.INTRODUÇÃO Desde sua descoberta por Kanner e Asperger. 1967. nos meados dos anos quarenta. PARTE E TODO. além de autista? 291 . É comum ao conversar com profissionais que atendem pessoas autistas ouvir a frase “cada autista é único”. surge assim o termo “mães-geladeira” (Bettelheim. temos que primeiramente eliminar a separação entre pessoa e autista. dentro do campo do possível.

A relação estabelecida com o mundo não se caracteriza pela passividade. o autismo é uma condição pervasiva da pessoa que o possui. até porque falar em uma cura do autismo é no mínimo controverso. e patologizado como uma síndrome. Piaget ou Erikson. e também daquilo que temos insituído como “saúde” e “doença”.. porque ainda existe o pensamento de que ao se curar os comportamentos autísticos. Este conceito possivelmente deriva de nossa projeção do que seja uma vida feliz.” – Kris Brink. mas pela possibilidade – guardada as devidas 292 . é que essas duas coisas necessariamente não se excluem. O que não ocorre a algumas pessoas. “Eu entendo que o desejo de eliminar todos os comportamentos autísticos derivam provavelmente de uma falta de compreensão destes comportamentos.. fevereiro/2001. que deram grande importância ao desenvolvimento do ser humano na infância. UMA VISÃO GESTÁLTICA DO DESENVOLVIMENTO A gestalt-terapia não possui uma teoria do desenvolvimento formalizada ou divida em fases como ocorre com as teorias de Freud.“Autismo. portador da síndrome de Asperger. Para a gestaltterapia.” – Oliver Sacks (1995) Tratar uma pessoa autista não é o mesmo que curá-la do autismo. Chamo a atenção para este ponto. combinada com o desejo de que as pessoas tenham uma vida feliz. uma forma de identidade profundamente diferente. coloca que “. curaremos o autismo. também deve ser encarado como um modo de ser completo. embora possa ser visto como uma condição médica. faz parte de quem ele é. ou seja. o ser humano está em constante desenvolvimento ao longo de toda a sua vida. concebemos o desenvolvimento como um processo de inter-ação homem/mundo. Luciana Aguiar (2005). O que buscamos “curar”? O comportamento autístico? As dificuldades sociais e de aprendizagem que estas pessoas sofrem? Ou a nossa própria incapacidade de lidar com o diferente? Além disso.

ficando com aquilo que o nutre e recusando e/ou transformando aquilo que não lhe serve. Grandin diz que “Durante meus anos escolares primários. que por sua vez emergem no contato com o mundo. são necessidades tão importantes quanto ler um livro. e pelas possibilidades do meio.proporções determinadas pelos recursos do indivíduo por um lado.. por outro lado – de ação e transformação do meio com a finalidade de ajustar-se da melhor forma possível às circunstâncias”. Às vezes eu pensava logicamente comigo mesma. fala de sua infância: “Minha mãe e meus professores ficavam imaginando porque eu gritava tanto... Os gritos eram a única maneira que eu tinha para me comunicar. O comportamento descrito por Temple é uma mostra de um ajustamento criativo de uma criança autista. o desejo de ser abraçado. Sob este paradigma. ele é “criativo”. Estas necessidades não se resumem apenas as necessidades fisiológicas. que é o uso de músicas para tentar se comunicar. expressar um pensamento ou sentimento.) Cantar. ao qual denominamos de “ajustamento criativo”. mas também abarcam necessidades psicológicas e sociais. “eu vou gritar agora porque eu quero falar para alguém que não quero fazer determinada coisa”.” O que refere à outro ajustamento criativo relatado pelas mães de alguns autistas com quem tive contato.. a partir da emergência de nossas necessidades. A música “Água Mineral” do grupo Timbalada é relatada por estas mães como uma unanimidade entre seus filhos para 293 . uma mulher autista de 59 anos. a minha fala não era completamente normal (. a sede ou a fome. ou a necessidade de realizar um determinado movimento auto-estimulador. Aguiar continua: “O processo de auto-regulação organísmica objetiva então alcançar o melhor acordo possível entre organismo e meio a cada momento. que entende os organismos em constante busca de equilíbrio homeostático.” Temple Grandin (1992). Esta inter-ação ocorre através do conceito chamado auto-regulação organísmica. pois implica na ação do indivíduo no mundo a fim de torná-lo o mais assimilável possível.. Ela tenta recuperar o equilíbrio perturbado pela necessidade de expressar seu desagrado em fazer determinada coisa através dos recursos que dispõe para tanto. porém. organizadas por uma hierarquia que depende do contexto interacional do indivíduo. era bem fácil.

Satisfeitos. e a partir daí tomamos Consciência. é preciso desenvolver a awareness. A partir do momento que nos colocamos em um movimento interno. onde a patologia se formaria quando há um padrão de contato. nem toda defesa é patológica. buscamos a Sensação para nos situarmos. o ambiente ao seu redor. 1977 Jorge Ponciano Ribeiro. Quando nossa interação é plena alcançamos um Contato Final que nos traz Satisfação. Ser capaz de reconhecer. Quando sentimos. Quando este ciclo é interrompido. acolher. suas necessidades. em seu livro “O Ciclo do Contato” (1997). Com a tomada de consciência. quando o contexto mudou e esta elaboração criativa não mais é necessária ou benéfica. fazemos toda uma Mobilização para entrarmos em Ação.” – Fritz Perls. mas aqui opto por me utilizar da de “tornar-se presente”. e precisamos de Fluidez para nos movermos. Mas agir. agir em relação.indicar que estão com sede. Para isso. O Ciclo do Contato. os recursos criativos utilizados no passado em um determinado contexto continuam sendo utilizados hoje. descritos por autores como Perls. seu contexto no aqui e agora. e por isso nossa ação se torna Interação. O AUTISMO COMO UM PADRÃO DE CONTATO “Nem todo contato é saudável. entrar em contato com seu próprio organismo. os Polsters e Crocker. ou seja. é agir no mundo. propõem uma forma de diagnóstico em gestalt-terapia. podemos realizar uma Retirada até um novo contato. descrito por Ponciano. Zinker. que são exatamente os bloqueios no ciclo do 294 . pode ser resumido da seguinte forma: Alguma coisa nos tira de nosso estado de inércia. e organizados por Ponciano. respeitar e estimular os ajustamentos criativos da pessoa autista é um ponto fundamental do atendimento dos mesmos. ou seja. Awareness é um conceito em gestalt-terapia de difícil tradução. surgem os chamados “mecanismos de defesa ou de sobrevivência”. entramos em contato com nós mesmos.

fantasias. sem verificar as vantagens de tal situação. que ele descreve como “Processo pelo qual me movimento. ou seu próprio corpo e seus sentidos. sinto-me incapaz de explorar situações que flutuam rapidamente. dentre outras.contato descritos anteriormente.”(pp. Dentre os padrões descritos nesta obra. quero destacar um em particular que considero pertinente de ser aplicado no caso do autismo: “Fixação (“Parei de existir”): Processo pelo qual me apego excessivamente às pessoas.” Onde Ponciano fala de um temor diante do novo. sinto-me mais solto e espontâneo e com vontade de criar e recriar a minha própria vida”. Ponciano coloca que o fator de cura para a fixação é a fluidez. mas tente imaginar o medo que se origina da sensação de que nada separa você do caos do mundo. outros possuem fixações por insetos. 45) A descrição de Ponciano sobre a Fixação encaixa perfeitamente nas colocações de Kris Brink (2001): “Nós precisamos continuamente nos assegurarmos que certas partes de nós de fato existem. Às vezes. Pode parecer. eles se utilizam de fixações como um ponto seguro aonde se firmar em meio ao turbilhão do mundo. Alguns possuem fixações por números. o desconhecido. localizo-me no tempo e no espaço. permanecendo fixado em coisas e emoções. como o personagem de Dustin Hoffman no filme Rain Man. temendo surpresas diante do novo e da realidade. deixo posições antigas. baseado no conceito anteriormente exposto do ajustamento criativo para gerar uma fluidez dentro da própria fixação. e de como elas poderiam ter sido 295 . por isso. Pode ajudar se movermos o corpo muitas vezes. a primeira vista que para obtermos a fluidez temos que necessariamente eliminar toda e qualquer fixação. podemos tentar um caminho diferente. alguns dos meus comportamentos auto-agressivos têm essa causa. Grandin fala de suas próprias fixações. renovo-me. embora eu esteja sempre procurando subtituí-los. dinossauros. Pode ser difícil. acompanhar as transformações deste mundo às vezes é até doloroso para eles. Entretanto. idéias ou coisas e. e de lidar com as surpresas da vida. O mundo é um lugar caótico e imprevisível para o autista. Brink nos pede que imaginemos o medo de se estar desprotegido diante do caos do mundo.

por conta de suas próprias alterações sensoriais e de linguagem são incrivelmente imprevisíveis. É preciso que enquanto terapeutas. Este pensamento. Se uma criança se interessa muito por aspiradores de pó.” Pode parecer que se seguíssemos as indicações de Grandin descritas acima. neste mesmo artigo. mas como já foi colocado. Temple Grandin construiu aos 19 anos uma máquina de compressão que ela imaginava desde os cinco anos de idade. que poderia ser utilizado em qualquer atendimento realizado por um gestalt-terapeuta. no atendimento de pessoas portadoras de síndrome do espectro autista. entremos constantemente em contato com a pessoa diante de nós. O AJUSTAMENTO CRIATIVO DO TERAPEUTA Anteriormente. não estará em contato. E um terapeuta que não se encontre aware e fluído. suas forças. Pessoas autistas. é preciso que o ajustamento criativo do próprio terapeuta também seja trabalhado.utilizadas para estimulá-la na infância: “Mesmo que a minha atração por propagandas eleitorais tenha se iniciado por razões sensoriais. Com esta máquina. Calcular os pontos das eleições poderia me ajudar em Matemática. citei a importância do acolhimento e estímulo aos ajustamentos criativos da pessoa autista. A minha leitura poderia ser motivada através da leitura das propagandas e das pessoas que estavam concorrendo aos cargos políticos. o que lhe 296 . no entanto. estaríamos estimulando uma parte do problema ao invés de “curá-lo”. mas de buscar novas gestalts para a pessoa autista através de um ajustamento criativo. então use o livreto de instruções do aspirador como livro texto para essa criança. Meus professores deviam ter tirado proveito disso para me estimular e me fazer interessada em Estudos Sociais. numa verdadeira relação Eu-Tu. Ela descobriu que esta máquina tinha nela um efeito relaxante e reduzia a sua sensibilidade exacerbada ao tato. não se trata de buscar uma cura para o autismo. precisa ser reforçado ao lidarmos com autistas. eu acabei me interessando por eleições. buscando perceber suas dificuldades e principalmente. ela conseguia ter a sensação de um abraço. mas onde ela poderia controlar a força do mesmo para que este contato não se tornasse nocivo para ela.

“a pessoa é a maior conhecedora de si mesma”. pois ela sabe quais são as suas próprias necessidades e dificuldades. Espero que este artigo tenha dado novos ventos para aqueles que desejam singrar por estes mares ainda não mapeados. O autismo ainda é um território desconhecido. Não só devemos estimular a awareness da pessoa diante de nós. o objetivo deste artigo foi o de trazer um novo enfoque sobre o autismo. Lembrando que em gestalt-terapia. já munido de experiência clínica e de maior contato com o universo autista. o meu professor encorajou-me a ler jornais científicos para que eu pudesse entender porque a máquina tem um efeito relaxante. Com todos estes benefícios causados pela máquina. Temple descreve que “Enquanto o psicólogo queria eliminar a minha máquina de compressão. Devemos também estar atentos as nossas próprias necessidades e dificuldades na relação terapêutica.permitia entrar em contato mais facilmente com pessoas e animais. inclusive lhe desenvolvendo a empatia. mas nossa própria awareness precisa ser ampliada para que não nos prendamos ao comportamento autistíco e nem tentemos “curar” aquela pessoa. 297 . CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir de uma visão holística e organísmica. Isso se deve ao fato de meu contexto enquanto estudante. cheio de mistérios.. estou aware de que o mesmo se concentrou muito mais em uma correlação teórica e muito pouco em uma prática.” Este exemplo ilustra bem o que tenho desenvolvido desde o princípio deste artigo. Apesar do nome do artigo ser “O Atendimento ao Portador de Síndrome do Espectro Autista: Uma Visão Gestáltica”.” E continua “Se o psicólogo tivesse tido sucesso em tirar de mim a minha máquina compressora. talvez agora eu estivesse sentada em algum canto apodrecendo em frente a uma TV em vez de estar escrevendo. Gostaria de revisar este artigo daqui a alguns anos.. mas como uma forma diferenciada de ser. não mais como uma doença ou transtorno.

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REFLEXÕES ACERCA DA ESQUIZOFRENIA NA ABORDAGEM GESTÁLTICA RESUMO Este artigo é parte do trabalho “Psicopatologia na abordagem gestáltica: reflexões acerca da esquizofrenia”. segundo dados da Organização Mundial da Saúde – OMS). Toda a prática em saúde mental envolve a atuação de uma equipe multidisciplinar bem como a implicação da família. a atual política de saúde mental no Brasil preconiza o resgate da cidadania e autonomia da pessoa com sofrimento psíquico. INTRODUÇÃO A preocupação com o cuidado em saúde mental vem crescendo em decorrência da ampliação das políticas públicas em relação às ações e serviços de saúde. seja pela prevalência mundial (cerca de 1% da população. Intervenção. seja por sua sintomatologia. No artigo será dada ênfase à compreensão diagnóstica e ações terapêuticas na esquizofrenia. permitindo uma compreensão fenomenológica e pertinente à abordagem gestáltica. será abordado o ciclo do contato proposto por Jorge Ponciano Ribeiro. A 299 . dentre outros conceitos. Esquizofrenia. da sociedade e. da pessoa que sofre. respeitando a singularidade da vivência esquizofrênica. define-se a esquizofrenia como um dos transtornos mentais mais graves que existe. principalmente. elaborado para a conclusão do curso de especialização em Gestalt-terapia. Saúde mental. Terapêutica. Palavras-chave: Gestalt. apresentando pontos importantes da teoria e discutindo sobre uma possível conduta terapêutica nesses casos. O trabalho tem como objetivo compreender os sintomas da esquizofrenia dentro da perspectiva gestáltica. Sendo assim. Nesse sentido. bem como das mudanças ideológicas frente ao atendimento oferecido às pessoas com transtorno mental. Assim.

De acordo com o DSM-IV (2003) – manual diagnóstico em psiquiatria publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) – a esquizofrenia é definida nas suas características essenciais com presença de sintomas psicóticos. permitindo uma compreensão fenomenológica e pertinente à abordagem gestáltica. No artigo será dada ênfase à compreensão diagnóstica e ações terapêuticas na esquizofrenia. Este trabalho tem como objetivo compreender os sintomas da esquizofrenia dentro da perspectiva gestáltica. enfatizando a potencialidade do ser humano mesmo nos casos em que há um grave acometimento psíquico e existencial. alucinações. por seus princípios e concepções de homem e de mundo. tais como delírios. possibilitando um olhar integral da situação que compreende. Atualmente. podendo igualmente ocorrer na infância ou meiaidade. dentre outros conceitos. e não somente no diagnóstico. dissociação do pensamento. A proposta de se discutir as intervenções da abordagem gestáltica em saúde mental surge do possível diálogo entre o que preconiza a atual política de saúde e a teoria da Gestalt. o cuidado em saúde mental traz uma nova concepção em torno da compreensão da pessoa com transtorno mental e das suas possibilidades de mudança. a família e o meio social. respeitando a singularidade da vivência esquizofrênica. além do indivíduo. É um quadro complexo apresentando sinais e sintomas na área do pensamento. apresentando pontos importantes da teoria e discutindo sobre uma possível conduta terapêutica nesses casos. comportamento desorganizado ou catatônico e afetividade embotada. Será abordado o ciclo do contato proposto por Jorge Ponciano Ribeiro. Este cuidado considera o indivíduo e o seu sofrimento. 300 . causando prejuízo nos cuidados pessoais. tanto nos homens quanto nas mulheres. ocupacionais e nas relações interpessoais e familiares. percepção e emoções.esquizofrenia se manifesta no final da adolescência ou no início da vida adulta.

“uma Gestalt. O ciclo permite um olhar sobre o funcionamento do indivíduo ao mesmo tempo em que propõe intervenções terapêuticas. 301 . considerando seu funcionamento. p. a “um modelo (. Essa compreensão irá nortear uma intervenção terapêutica mais apropriada para o paciente. Souza (et al. p. o diagnóstico tem como objetivo identificar e explicitar o modo pelo qual o indivíduo se relaciona com o ambiente e de que forma significa a sua própria experiência (TENÓRIO.. A partir da figura abaixo se pode ter uma visão da forma como o autor41 propõe o ciclo do contato. O diagnóstico deve ser construído no contato. Refere-se ao campo no qual a pessoa expressa suas possibilidades dentro da realidade vivida. O ciclo do contato. O ciclo do contato corresponde segundo Ribeiro (2006. dentro do ambiente terapêutico. de que forma percorre o ciclo do contato. 2003). é considerado um indicador diagnóstico e de psicoterapia. o psicodiagnóstico e um programa de cura”..) que se propõem a explicar didaticamente o jeito como as pessoas fazem contato. p. 2003.24 apud PIMENTEL. por sua vez. Na Gestalt-terapia. p. assim como afirma Ribeiro (1995. produzindo.75).22). se expressando e bloqueando sua relação com o outro”. quais são os mecanismos de interrupção do contato que utiliza e qual o seu suporte disponível. vivendo.87). um paradigma ou um modelo para pensar a psicopatologia do sintoma.INTRODUZINDO O DIAGNÓSTICO NA PERSPECTIVA GESTÁLTICA: CICLO DO CONTATO O processo do diagnóstico em saúde mental envolve a identificação do padrão funcional de uma pessoa através da escuta. observação dos sintomas e compreensão da sua vivência.. 2001) acredita que ao diagnosticar: (…) é importante considerar de que maneira o cliente mantém o seu processo de awareness. 41 Ribeiro (2007.

A observação do self permite um olhar sobre a identidade de uma pessoa em contato. cognitivo e sensórioafetivo – e as funções do self. ação. Tal disposição do ciclo permite uma visão diagnóstica rápida ao se identificar os mecanismos do contato nos sistemas correspondentes e nas funções do self. níveis e funções que envolvem os fatores de cura e bloqueios do contato. Uma desarmonia ou interrupção nessa relação resultaria em um processo psicopatológico. p. 2007. de tal modo que o self é o retrato de como a pessoa funciona. interação. O fator de cura é definido por Ribeiro (2007. contato final. consciência. Cada um desses fatores é visto como um passo à saúde. p. mobilização. como forma de contato pleno. No centro do ciclo aparece o self como “um centro operacional de controle de energia em forma de contato.Este ciclo do contato corresponde a um ciclo integrado dos sistemas. satisfação.19-20). Os três sistemas destacados são elementos básicos da personalidade – motor.57) como: 302 . retirada. O ciclo do contato é composto por nove processos denominados fatores de cura: fluidez. sensação. em dado campo” (RIBEIRO.

é uma estratégia para reduzir a intensidade do contato como. segundo Delisle (1999). motivada. atendendo às condições da situação e às necessidades do indivíduo”. Como adaptação. Entretanto. no presente. de trocas com o meio e satisfação de necessidades.. O ciclo do contato. e. situações inacabadas.) um processo por meio do qual a pessoa experiencia. A deflexão. portanto. dependo da forma como o indivíduo se utiliza deles. em dado momento. Ainda segundo os autores citados anteriormente. sente-se inclinada. penetrou no seu universo cognitivo. através de uma consciência emocionada. provocada pela percepção de uma totalidade dinamicamente transformadora. a utilização de termos vagos e a expressão de forma exagerada.130). É importante observar que os mecanismos de defesa podem ser saudáveis ou patológicos. p. uma sensação de que algo novo.. “esses processos do contato possuem uma função saudável quando empregados flexivelmente. a deflexão permite 303 . assim como apontam Antony & Ribeiro (2004. É necessário observar a freqüência com que os mecanismos ocorrem e se estão sendo utilizados indiscriminadamente ou de forma cristalizada. por exemplo. De acordo com a teoria da Gestalt-terapia. O organismo diante da satisfação faz o fechamento do seu processo assimilando toda a experiência. motoras e sensório-afetivas que funcionam de modo integrado na mudança.(. Durante todo o processo estão presentes funções perceptivas. Através de tais mecanismos o indivíduo fica impedido de realizar contatos saudáveis a partir do momento que mantém. o desvio do olhar. portador de mudança e de bem-estar. “os bloqueios do contato são mecanismos psicológicos que exercem funções defensivas e constituem padrões de comportamento e percepção”. Observando a esquizofrenia no ciclo do contato. As necessidades identificadas mobilizam o organismo em busca de uma resolução. está relacionado ao processo de cura e mudança através de uma seqüência contínua de figura-fundo. a fixação e a dessensibilização. durante esse processo pode haver interrupções ou bloqueios que impossibilitem uma resolução satisfatória das necessidades do organismo. as disfunções mais comuns são as que correspondem à função id do self. fortalecida para mudar. sendo elas a deflexão.

reduzir a intensidade da experiência que seria insuportável. 1995 apud TENÓRIO. como ocorre na esquizofrenia. incluindo a esquizofrenia. desde que não interrompam a fluidez do ciclo. portanto. não é capaz de apreciar e valorizar sua própria experiência. a pessoa se sente anestesiada diante do contato.41). Para Ribeiro (2007. De acordo com a filosofia dialógica. São exemplos de disfunções “saudáveis”: a fuga. p.63). Entretanto. entrar em estado de choque. a regressão. 304 . alienando uma parte de si mesma. o interesse por sensações novas. apresenta diminuição sensorial no corpo e dificuldade para se estimular perdendo. idéias. Em conseqüência disso a criança “não pode sentir-se confirmada e. Ainda segundo o autor. p. tem de rejeitá-la. coisas e. tende a se manter fixada nas mesmas situações sendo incapaz de explorar novas possibilidades. no caso da dessensibilização. estaria relacionada a um estreitamento da relação do indivíduo consigo mesmo e com seu meio. no mais profundo modo de encontrar os outros. temendo correr riscos. conseqüentemente. 1998. As disfunções de contato apresentadas acima podem ser consideradas saudáveis em determinadas situações do cotidiano. o sono. São consideradas funções de segurança. prejudicando o contato e. a fixação refere-se ao processo através do qual uma pessoa se apega excessivamente a pessoas. conseqüentemente. sendo um aspecto do self indispensável à saúde. o seu desenvolvimento saudável. A COMPREENSÃO DA ESQUIZOFRENIA NA ABORDAGEM GESTÁLTICA A maior parte das psicopatologias. Isto significa que. a desestruturação psicótica deve-se a uma não-valorização da experiência pessoal pelo outro. quando utilizadas repetidamente tornam-se patológicas. essa pessoa não é ‘ouvida’ e sua voz torna-se monológica e tragicamente um ‘movimento interno’ (HYCNER. 2003. 1989 apud HOLANDA. os sonhos etc. (…) a psicopatologia é resultado de um ‘precoce diálogo abortado’. que vai tornar-se inconsciente” (HYCNER. pois nem sempre uma pessoa quer que o contato seja intenso.

então. o indivíduo tende a se afastar e se isolar da situação que gera sofrimento. A desconfirmação do self interrompe o contato do “eu” consigo 305 . ao ter que atender às expectativas de outras pessoas. Esse eu tornou-se desconhecido em virtude de tantas defesas e negações de si mesmo.39). na história familiar de pessoas com esquizofrenia nota-se que não houve espaço para que a criança tomasse como real o que ela percebia e sentia. Não sendo livre para sentir ou agir. a loucura. ou seja. De acordo com a passagem acima. Geralmente suas concepções foram coagidas a serem substituídas pela doutrinação dos pais. Não há uma concordância quanto à causa da esquizofrenia. no entanto. p. Por exemplo.p. “Na situação específica de um esquizofrênico. seus desejos. considerar e valorizar a experiência da criança. 2005.182) também aponta para a ausência de confirmação da experiência pelo outro no histórico de pacientes esquizofrênicos. 2005. pode-se dizer que na psicose há um comprometimento com a questão relacional.182). Friedman (1985 apud SANTOS.40) coloca que: Na psicose há um processo de profunda alienação de si mesmo e do outro. p. há um vazio da presença. a única opção (além de se tornar um só à medida que aceite por completo a imposição dos pais) é o isolamento total. Ele recorre à ‘segurança’ do seu isolamento na tentativa de não se sentir ameaçado por qualquer presença que possa mais uma vez desintegrar seu self diante nova desconfirmação (PETRELLI. Ainda em relação ao prejuízo no contato. na tentativa de minimizar a ameaça externa. Isto explica então o papel da presença neste tipo de personalidade. neste caso por uma fuga do contato. perde seu referencial deixando de entrar em contato consigo mesma. p. Diante da desconfirmação e da ameaça. O reconhecimento do próprio self é premissa básica para o fluxo contínuo do ciclo do contato. existe um obstáculo visível: a não-disposição do outro em sair de seu mundo próprio” (HOLANDA. por conta de uma total impossibilidade de se estabelecer um diálogo com o outro (EU-TU).41). (…) para o esquizofrênico. autênticos e nem mesmo possíveis. 1998. resultando em contatos distorcidos e limitados. Esta. pais que não foram capazes de entender. suas percepções e sentimentos não foram confirmados como sendo reais. O outro passa a ser visto como agente promotor de angústia e sofrimento uma vez que é fonte de desconfirmação. por exemplo. O outro teve que ser alienado por se revelar excessivamente poderoso e nocivo à preservação do eu. 2004 apud SANTOS. p. Tenório (2003. vontades e sensações.

quando a pessoa se vê fragmentada. principalmente psicopatologias que implicam em uma divisão interna muito profunda. O indivíduo perde a sua espontaneidade e a capacidade de focar na sua própria experiência ficando paralisado e interrompendo o contato. mas sim do outro. Segundo Robine (2006. se funde com outra pessoa. o esquizofrênico continua fixado nessa situação. Não há clareza na representação do “eu” em oposição ao “não-eu”.85 apud RODRIGUES.. Dessa forma. A fronteira não é experienciada refletindo na dificuldade para fazer contato.106). Na esquizofrenia a confluência surge de uma relação de não-contato com necessidades autênticas já que o indivíduo durante a sua vida criou uma “dependência” diante da desconfirmação e das escolhas do outro. Um exemplo disso são as alucinações presentes nos quadros de esquizofrenia. o paciente “(. Diante da “segurança” de buscar no outro a satisfação das suas necessidades. p. a confluência é “um apego a uma situação antiga que se tornou obsoleta”.. Neste caso surge a confluência. sendo submetido a sucessivas interrupções no fluxo natural entre figura-fundo gerando o sofrimento. a confluência acontece quando a fronteira de contato é tão ofuscada que não permite a distinção entre indivíduo e ambiente.mesmo e com o mundo. É comum encontrarmos psicopatologias graves em pessoas com tais históricos.125). 2000. como na esquizofrenia ou outras patologias esquizóides (ZINKER. Segundo Delisle (1999). 1979. sem intenção.) perde contato com o mundo em que vivem os Ao se observar o ciclo do contato. p. além da impossibilidade de diferenciação entre a própria experiência e a do outro que é imposta como única e verdadeira (fixação)42. 42 306 . Por não se tratar da sua necessidade. o indivíduo vivencia situações interrompidas ou não-satisfeitas. e cujas partes não entram em contato. A confluência ocorre quando o indivíduo é incapaz de focar na sua própria experiência e. A experiência alucinatória é vivenciada como real e natural. não estando separada do “eu”. p. a confluência (fator de cura: retirada) surge após o processo de fixação (fator de cura: fluidez) o que nos faz pensar sobre o quanto a “dependência” em relação às escolhas do outro leva a uma indiferenciação e negação de si mesmo. A indiferenciação entre o “eu” e o “não-eu” torna o indivíduo alienado do meio. ou tal contato é ocasional ou instável.

ao invés de ser distribuída de forma discriminada. p. “aparece em situações extremas onde há uma falta de equilíbrio das funções do self”. A psicose – incluindo a esquizofrenia – assim como afirma Goodman (apud GINGER & GINGER. 2008. (.. 1995. estando desconectado da realidade. p. the energy is unmanageable. ele simplesmente nega as frustrações e se comporta como se elas não existissem. e esta zona morta não consegue ser alimentada pela força vital. p. A psicose. p.) O psicótico tem uma camada de morte muito grande. p.127-128). segundo Latner (1973. Instead of being differentiated and distributed. O contato com o campo é severamente reduzido e leva a uma ruptura na coordenação dos modos id e ego gerando o conflito.... às necessidades vitais e. outros autores ainda chamam à atenção para o self – alvo da desconfirmação – e suas funções.135 apud LATNER. 44 43 Trecho original: “In psychosis. não está potencializado a compartilhá-la” (SANTOS. a energia presente não pode ser controlada e.). apresenta algo semelhante sobre a psicose: (.141). Uma coisa que sabemos ao certo é que a energia vital. entre outros (GINGER & GINGER.. A incapacidade para retornar ao funcionamento espontâneo. 1995. como nos atos automáticos de respiração.135 apud LATNER. 307 . 1973. Ocorre uma fragilidade do modo ego (perda de controle) diante de tanta energia (excitamento) que não é definida de acordo com a sua relevância do momento. Perls (1969. p. sua tradução corporal. Além da compreensão da relação baseada no dialógico.142). locomoção. “a uma perturbação da função id: a sensibilidade e a disponibilidade do sujeito às excitações externas ou internas estão perturbadas: ele não responde claramente ao mundo exterior nem as suas próprias necessidades”. p.) o psicótico nem mesmo tenta lidar com as frustrações. 1973..346). Perls (1969a. 1969a. A função id se refere às pulsões internas. Pela falta da capacidade de afastar-se de sua própria experiência. Toda energia disponível não consegue ser distribuída de forma equilibrada e funcional. sobretudo.indivíduos não-patológicos. faz com que o self se torne predominantemente id43. especialmente. p. energia biológica (.142) confirma tal compreensão ao afirmar que “nas psicoses.4). it comes out in spurts” (PERLS. p. 2006. torna-se incontrolável no caso da psicose. ela vem em excesso”44.173-5 apud MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO. p.128) corresponde.

a função id estaria. Em algumas desordens. “(…) o funcionamento com preponderância no modo id em geral são mais extremos e perturbados do que os que persistem no modo ego” (LATNER. como o narcisismo. p. acometido de uma espécie de ‘rigidez (fixação)’” (PERLS. Geralmente. tal como observado nos comportamentos por vezes descritos pela psiquiatria. como mostra Müller-Granzotto & MüllerGranzotto (2008. a frouxidão das fronteiras do id torna-se exacerbada e podem surgir disfunções do contato. como na psicose45. p. fato contrário ao que ocorre com a função id.. tais como introjeção. ausente. então. a megalomania e a paranóia. Latner coloca que essa é uma descrição geral dos aspectos presentes em desordens severas que se caracterizam pela perda de controle do self. 1973.9-10) (grifo do autor)..Com um contato escasso. o modo ego tende a assumir a dominância não-saudável em busca da ação. razão pela qual a função ego (caracterizada pela ação motora e linguageira) estaria desprovida dos motivos para lidar com o dado na fronteira de contato. procurando pelos excitamentos que a função id não foi capaz de fornecer ou forneceu de forma desarticulada.9-10): (. falhada ou desarticulada. por alguma razão. 308 .) a função id (que justamente se caracteriza pela formação e mobilização do fundo de excitamentos) não cumpriria seu papel. quando a função ego é bem desenvolvida e permite a manipulação do contato com o campo o indivíduo passa a ter mais habilidade para moderar as disfunções. 1951. “O sistema self seria. 2008. Ainda de acordo com este autor. p.34 apud MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO.143). Entretanto. HEFFERLINE & GOODMAN. Em geral. decorrentes da perturbação de si mesmo e do campo. como o uso de substâncias psicoativas ou doenças físicas. a ação do ego nesse funcionamento “emergencial” não é suficiente para assegurar a satisfação das necessidades. confluência. projeção. Várias situações podem desencadear uma psicose. p. Um exemplo disso poderia ser o descuido com a higiene pessoal que pacientes com o quadro de esquizofrenia 45 A “psicose” é um termo utilizado na psiquiatria e se refere a um estado mental no qual existe uma perda de contato com a realidade. A esquizofrenia apresenta-se como o principal transtorno psicótico segundo os manuais de classificação diagnóstica em psiquiatria.

o excitamento. não se identificando as figuras que precisam ser fechadas. O indivíduo se torna inseparável das coisas que participa e toda sua vivência está integrada ao meio. permanecendo diluído no fundo do self. A persistência modo id pode “aumentar nossa energia e atividades bizarras – ou talvez simplesmente parar-nos. ou vem em excesso. levando ao “pé da letra” tudo que lhe é dito. Dessa forma. dessensibilização e fixação – pode-se fazer uma rápida referência aos comportamentos observados na esquizofrenia para uma compreensão didática. o seu próprio corpo ou “dado”. Com base nos mecanismos de interrupção do contato correspondentes ao self na função id – deflexão. neste caso não seria percebido. p.costumam apresentar. A dessensibilização está presente nos casos em que o paciente ignora as sensações dolorosas. A deflexão pode ser observada nos casos em que há falta de contato com o outro no momento em que o paciente vivencia o contato com as suas vozes (alucinações auditivas). 1973. Já que as necessidades não são identificadas. o self permanece fechado para o fluxo de diferenciação com o campo estando unificado às experiências provindas do ambiente. A fixação pode ter relação com o pensamento concreto. De modo integrado às interrupções do contato. como colocam as autoras Müller-Granzotto. Como visto acima. Nessa passagem Latner resume o funcionamento do organismo no modo id quando o self está prejudicado. Ao se observar o ciclo do contato proposto por Ribeiro (2007) é possível perceber de que forma o self funciona dentro da função id e como a esquizofrenia é vivenciada no campo. Essas funções presentes no ciclo do contato correspondem às descrições obtidas nos manuais de classificação diagnóstica em psiquiatria quanto à referência do comprometimento 309 . ou não ocorre. passando a ser descuidado e até negado. as funções sensoriais e afetivas encontram-se comprometidas resultando na dificuldade apontada por Goodman: necessidades não identificadas e contatos interrompidos. Nesse movimento confluente o resultado é a perda da realidade onde o indivíduo não consegue se distinguir do meio e nem perceber o que está realmente acontecendo consigo mesmo.145). catatônicos” (LATNER.

a forma pela qual o indivíduo esquizofrênico é abordado é fundamental na possibilidade de interação com o outro (LAING. CONDUTA E INTERVENÇÕES TERAPÊUTICAS NA ESQUIZOFRENIA No funcionamento saudável e equilibrado. pode-se dizer que os mesmos não conseguem manter espontaneamente o contato consigo mesmo e com o mundo a sua volta de forma auto-reguladora. (…) o esquizofrênico vive a angústia da iminente desintegração do self. Ele consegue responder satisfatoriamente as suas necessidades. o paciente psiquiátrico “não consegue perceber sua morbidez e/ou suas necessidades pela incapacidade de entrar em contato consigo mesmo. quer seja por mecanismos de defesa ou até mesmo por déficit intelectual”. p. 1982 apud SANTOS. se transformando e se abrindo a novas possibilidades em busca do crescimento e desenvolvimento saudável. Outro sintoma fundamental no diagnóstico é o comprometimento afetivo que é manifestado através da diminuição na habilidade de expressar-se emocionalmente. uma percepção sensorial que ocorre na ausência do estímulo do órgão sensorial correspondente.sensorial e afetivo na esquizofrenia. ao mesmo tempo. Esse é o resultado esperado no tratamento de pacientes esquizofrênicos. inabilidade de experimentar prazer. Segundo Vicentini (2007). se diferenciar do ambiente. o indivíduo passa a identificar suas necessidades e. a confirmação e a presença tornam-se essenciais no 310 . Dessa maneira. Assim como colocado acima sobre a compreensão da abordagem gestáltica acerca da esquizofrenia. 2005. fechando processos. dentre outros. Diante do que foi abordado acerca da perturbação presente nas relações de contato de pacientes esquizofrênicos. As alucinações observadas nos quadros psicóticos se referem a um erro no registro sensorial.181). ou seja. Isso justifica o seu isolamento. Relacionar-se com alguém é o mesmo que ser destruído ou destruir o outro. perda de interesse pela interação social. mesmo que dentro dos seus limites. Entretanto. essa dificuldade pode ser minimizada através de intervenções que auxiliem na configuração de um novo funcionamento.

Alguns pacientes esquizofrênicos se esquivam do contato enquanto outros tendem a invadir o espaço do outro com atitudes inadequadas. como nos casos das alucinações e delírios. seja com a sociedade. p.181). No estabelecimento do diálogo é importante observar também as fronteiras de contato desse paciente. o que pensa. a conduta deve ser diferenciada em relação à fronteira do contato identificada: ampliação da fronteira para os que apresentam um contato limitado – respeitando os 311 . 2005. o que experimenta. O terapeuta também precisa estar presente nos momentos em que a awareness estiver prejudicada. 2005. por menores que elas possam ser. Para isto. a sua saúde.processo terapêutico. na relação terapêutica. “(…) confirmação se refere à validação da experiência do outro. p.. 2005. Ainda segundo a autora. A relação terapêutica terá por objetivo a tentativa de resgate das relações de confiança com estes pacientes. enfim. mas compreender e autenticar a experiência do outro como sendo possível.182) (grifo da autora). se levada em consideração a condição do ser esquizofrênico. Ainda segundo a autora.184). as possibilidades de “cura” e a construção do vínculo refletem o sucesso da terapia. um maior controle. Será um encontro diferenciado (.) tendo como fundo que a cura não é uma ausência de sintomas e sim uma melhor forma de administrar a sintomatologia. o enfoque do trabalho visará sempre o que o indivíduo traz no momento presente: o que sente. como afirma Vicentini (2007).. p. Em outras palavras. Vicentini (2007) mostra que pacientes psicóticos apresentam “uma fronteira de contato muito rígida porque suas vivências internas são tão intensas que estes pacientes podem interpretar o contato como uma ameaça a sua integridade física”. sobre si mesmo (SANTOS. sua postura corporal e sua respiração. “Vínculos talvez mais frágeis que. Não o ato de aceitar ou concordar. válida e real” (SANTOS. Por esse motivo. é importante perceber a fronteira de contato estabelecida entre paciente e terapeuta. seja consigo mesmo. uma maior responsabilidade sobre a sua vida. Santos (2005) expõe sua prática com pacientes esquizofrênicos apontando para a possibilidade de se estabelecer vínculo nesses casos. é uma grande conquista na história do tratamento” (SANTOS. Isso significa que o terapeuta deve levar em consideração a dificuldade que o paciente tem em perceber seu senso de integridade e os limites da sua fronteira que o separam do mundo.

107). o terapeuta não enxergará sua tentativa de contato como algo frustrado a partir do momento em que estiver disposto a aceitar a existência do outro na sua singularidade. o contato poderá ser trabalho no processo terapêutico. Mesmo que essa existência seja restritiva. Inicialmente podem existir dificuldades quanto à identificação. progressivamente. não posso entrar”. 312 . A relação que este tipo de paciente estabelece com o mundo está perturbada. para este paciente. Utilizar técnicas para a tomada de consciência pode “criar a possibilidade de que o indivíduo sinta a atenção que o terapeuta dedica a ele e incitar. não indo muito além da fronteira –.. não permitindo uma total abertura para o diálogo.175 apud HYCNER. “é necessário que o alucinante presentifique visualmente o alucinado. Com isto o trabalho da Gestalt-terapia será voltado para uma ampliação da consciência do indivíduo sobre seu próprio funcionamento. Segundo Santos (2006. O trabalho com as alucinações presentes na esquizofrenia seria um exemplo de focalização em si mesmo. Apesar de todas as possibilidades de conduta terapêutica para pacientes esquizofrênicos.. Isso pode ser visto numa passagem de Buber (1965b. p. p. p.49) quando o mesmo diz: “Posso conversar com um esquizofrênico na medida em que está disposto a incluir-me no mundo que lhe é próprio. entretanto o estímulo pode ser dado pelo terapeuta. ainda que seja algo irreal aos olhos dos outros. 1997. Entretanto. Mas no momento em que ele se fecha nesse mundo. 2006. minimizando o sofrimento diante do encontro com o outro. p. Na esquizofrenia é relevante um trabalho quanto à tomada de consciência de si mesmo focalizada na excitação presente no contato. e estreitamento para os invasivos. é preciso atentar para a questão dos limites do outro e das dificuldades de se estabelecer contato no momento. trabalhando com dados da realidade e limites.limites de cada um. do que se passa no seu interior. para que ele possa experienciar a si próprio como ser existente”. uma focalização na própria atenção” (ROBINE. observando os sintomas existentes.344).

CONSIDERAÇÕES FINAIS Em relação à proposta deste trabalho. o terapeuta não vislumbrará somente a possibilidade de cura. Ressalto aqui que o enfoque principal da Gestaltterapia é a própria relação do indivíduo consigo mesmo e com o seu meio. dos que são acometidos por transtornos mentais graves. mas. é importante destacar que o resultado esperado no tratamento de pacientes esquizofrênicos deverá levar em consideração as especificidades desse paciente. antes de tudo. Não se pretendeu esgotar aqui o assunto. a abordagem gestáltica pode ser utilizada em busca de um desenvolvimento saudável e pessoal de qualquer indivíduo e. No que se refere à conduta terapêutica. seu contexto e sua realidade. a possibilidade desse indivíduo se organizar dentro da sua sintomatologia. seus limites. Assim. 313 . tornandose responsável por si mesmo. cada vez mais. Devido a estas particularidades. mas creio ter tocado em alguns pontos principais da abordagem. foi possível elaborar uma compreensão da sintomatologia da esquizofrenia de acordo com a abordagem gestáltica.

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no ciclo de contato. Salienta os dados encontrados na pesquisa.AÇÃO E GESTALT-TERAPIA “nada no universo é ontologicamente estático. p. dentro da perspectiva da Gestalt-terapia. O conteúdo apresentado é fruto de pesquisa bibliográfica e o objetivo é levantar as diversas relações estabelecidas entre o tema e construtos desta vertente psicoterápica. como diferencial teórico psicoterápico. Apresenta a ação na teoria de campo de Kurt Lewin. cujo propósito é de utilizá-la como ponto de partida para uma reflexão teórica da relação estabelecida entre a Gestalt-terapia e a vertente da ação.2005. Pesquisas de campo relacionadas ao tema. Conclui ressaltando a necessidades de investigação sobre o tema e apresenta a relevância do mesmo para a realidade social e o seu diferencial em relação a outras linhas de psicoterapia.51) RESUMO O artigo destaca o tema da ação na Gestalt-terapia. O movimento é a essência do universo. bem como a carência de estudos em pesquisa de campo. na perspectiva organísmica e sua importância no humanismo e existencialismo. tanto físicos quanto psíquicos.” (RIBEIRO. Este estudo é fruto de pesquisa bibliográfica e indica alguns aspectos relacionados à ação. em relação a outras perspectivas psicoterápicas. é estático. ele não existiria. em Gestalt-terapia. Uma análise detalhada dos aspectos físicos e da estrutura lógica das leis relacionadas à ação transcende ao escopo deste estudo. INTRODUÇÃO Estudos sobre a “ação” na Gestalt-terapia são um diferencial metodológico de vanguarda. 316 . por isso nada. absolutamente nada. caso contrário. O tema é abordado através da percepção de diversos autores desta perspectiva psicoterápica.

não o fazem. por outros estudiosos.aguardam maiores investimentos e investigações. é sistêmico. fazendo parte de um sistema universal regido pelas mais diversas leis. Para este estudo. onde. por diversas razões. As investigações sobre o tema surgem em função da queixa de clientes. O Universo e todos os elementos que compõem a existência do ser humano. a pesquisa bibliográfica. tenha-se a impressão de uma estaticidade. Esta visão é ressaltada por Ribeiro (2005) ao referir-se sobre o universo que. vivendo uma continuidade. dentro da perspectiva de movimento e ação. 317 . As ações e movimentos relacionados ao não atendimento das necessidades dos indivíduos geram incômodos. alunos e trabalhadores que necessitam realizar ações para o alcance dos seus objetivos e que. Este cenário indica a necessidade de investigação teórica para posterior desenvolvimento de estudos de campo. além de estrutural. assimilando os conceitos e explorando aspectos já publicados. aqui aplicada à realidade da Gestalt-terapia. Odília (2006) cita que fontes primárias possibilitam o embasamento teórico do assunto pesquisado. Na realidade. É possível resistir à aplicabilidade das leis físicas à complexidade da existência humana em pesquisas. Esta é uma indicação da lacuna entre o querer e o fazer. Estrutura e processo caminham juntos. admite-se que elas estão ligadas à realidade do existir humano. tudo está em movimento. embora ao contemplá-lo. trazem uma visão atualizada e científica para o desenvolvimento de estudos em Gestalt-terapia. ou às suas partes. No entanto. segundo Barros (2007) é um levantamento do tema em seus tipos de abordagem. O ser humano. atomicamente. Há aqueles que se queixam de realizar ações sem perceber o sentido das mesmas. pertencente a um planeta em constante rotação. é colocado em processo interativo com as leis físicas e transcende estas dimensões para uma perspectiva mais ampla. tanto em seus aspectos físicos quanto psíquicos.

Os conteúdos aqui abordados são parcialmente explorados em ordem aleatória e contemplam aspectos tais como os filosóficos. leis. algo secundário a algo que aconteceu em primeiro lugar. aqui denominados de pessoação e pessoareação. onde um comportamento explicita a necessidade do homem. contradições: ações e reações estão entrelaçadas. Não são. aplicada à Gestalt-terapia. poderosa e objetiva em seu efeito. aplicando-os aos propósitos da ação nesta vertente psicoterápica. compromissos. [.. através do senso de necessidade. a Teoria do Ciclo de Contato e a Teoria de Campo de Kurt Lewin. no sentido de que: O organismo é o fator primário e o mundo é criado por suas necessidades? Ou há primariamente um mundo ao qual o organismo responde? Ambas as visões estão corretas in toto. O tema suscita. gestalt-terapeutas. p. uma vez que as reações podem seguir as ações. Há de se considerar ainda uma civilização cheia de exigências. em detrimento do seu sentido. não necessariamente causais. dentre outras. 2002. ainda. de campo. a partir da visão de diversos autores. Estabelece uma relação com outros construtos. A ação é elemento de interesse. convenções. organísmicos e cíclicos. de forma esteriotipada.82). suscita a reflexão sobre o campo. uma reflexão sobre ações e re-ações humanas. como um reflexo. Perls (2002) ao tratar destes aspectos. a réplica. onde os indivíduos são ações e reações.] A reação. A realidade coletiva. (PERLS. A teoria da Gestalt-terapia ainda aborda a questão de ações/reações. de forma alguma. é uma sequência.. implícita em teorias como a de Köhler. denomina-os de “realidade coletiva”. relacionados ao tema.AÇÃO E A TEORIA DA GESTALT-TERAPIA A Gestalt-terapia é considerada uma teoria de ação. é um conjunto de 318 . dificuldades sociais e econômicas que promovem um determinado número de obrigações a serem acatadas. por sua vez. A partir desta afirmação este estudo utiliza. A Teoria de Campo Lewiniana. onde as decisões não influenciam a sequência dos atos.

princípios epistemologicamente coerentes, congruente com a realidade moderna, usado em aprofundamentos teóricos dedutivos/qualitativos. Nela se encontra suporte para a compreensão do comportamento humano no ‘campo’, onde o contato se estabelece no existir humano. A teoria de campo, para Yontef (1998) é parte vital, sobre a qual se constrói a metodologia da Gestalt-terapia. Essa teoria engloba a teoria mecanicista newtoniana e encerra fenômenos que expandem a anterior e a torna mais abrangente. Neste estudo, vale considerar que as necessidades humanas e as demandas sociais ocorrem dentro do campo e podem ser focadas na perspectiva da ação.

A perspectiva da ação pode ser expandida quando nela é considerada a “pessoação”, sendo esta uma unidade de atitudes. Nela estão implícitas necessidade e intenção. Na ação, onde a pessoa se revela, existe energia e valoração mobilizando-a, indicando uma direção e/ou um objetivo, um alvo que

através dela se pretende alcançar. A ação, ainda que em termos epistemológicos, aqui fragmentada nos seus diferentes aspectos, é, em si, o existir humano.

Explicitando os conceitos contidos na Teoria de Campo de Lewin, Ribeiro (2005) aborda vários termos, como posição, locomoção, força ou tendência a locomoção e objetivo. Para fins deste estudo, dentro dos propósitos da Gestalt-terapia, estes termos estão implícitos na idéia de ação, uma vez que o indivíduo, ao interagir em um determinado campo, revela-se em ações a partir de um valor, de um alvo a ser alcançado. Ação é também uma realidade vívida do homem e esta transcende o seu desejo, mesmo porque, ainda que o indivíduo se encontre parado, o próprio corpo continua a se movimentar e o campo, ao seu redor, também continua em movimento. A partir da visão organísmica, o movimento da terra no universo pode estar atrelado a toda existência humana inserida no planeta. Viver é uma oportunidade de relação de contato, ação e experimento com todas as possibilidades de troca advindas do estar neste universo em movimento. O próprio indivíduo, assim como a terra, é uma unidade em movimento, que comporta outras unidades que também se movem, fazendo parte de um todo. O sentido de impermanência, tanto na terra quanto no

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homem, promove um sistema de mudanças, completa ciclos como as estações, não havendo uma só estação igual a outra, como também não existe um único período igual ao outro na existência da pessoa, onde cada etapa tem o seu momento histórico.

Tudo muda e está em movimento-ação. Ao abordar a questão da homeostase, Perls (2002) salienta que há fluxo em tudo e que a própria densidade de uma mesma substância muda, por diversas razões, de pressão, gravitação e temperatura. As idéias de ação, transitoriedade e “impermanência” somam para esta vertente teórica uma perspectiva dinâmica e exigente. Traz o sentido de fluidez, de captar o momento exato onde todo o sentido se revela no indivíduo/ação, que se mantém em transformação. Ao abordar tais aspectos, segundo Parlett (apud YONTEF, 1998, p.201), “O Princípio do Processo em Transformação refere-se ao fato de a experiência ser provisória, em vez de permanente. Nada é fixo e estático de maneira absoluta”. Para Ribeiro (2005, p.59), “Pela impermanência tudo está em contínua mudança. Nada é dinamicamente fixo, fixado, absolutamente permanente e igual. [...] O todo na parte, a parte no todo, de modo diferente, criador, relacional, transformador”.

DESEQUILÍBRIO NA AÇÃO

O confronto entre a necessidade percebida, a ação proveniente da “realidade coletiva” e o reflexo coopera para uma cisão no campo, interferindo na troca saudável do organismo/meio. Ribeiro (2006) afirma que o campo reflete a relação da pessoa com seu meio, num determinado lugar e momento. Ele é um campo energético e a energia que nele está precisa circular livremente e que:
[...] é possível afirmar que muitas patologias são disfunções energéticas, tendo em vista que as pessoas não conseguem lidar com a tensão, a valência e a força dos vetores presentes no campo, como condutores de necessidades. (RIBEIRO, 2006, p.86).

Ao abordar a interrupção entre mobilização de energia e ação, para Zinker (2007,

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p.123), “[...] a pessoa trabalha inutilmente, incapaz de agir com base em seus impulsos. Ela pode ser mobilizada, mas não consegue usar a energia a serviço da atividade que lhe proporcionaria aquilo que quer”. Para este autor, esse processo acontece normalmente com o que a clínica denomina de comportamento “histérico”.

A interrupção no fluxo de uma ação, por sua vez, pode indicar a presença de algum obstáculo. Perls (1997) considera obstáculo como parte da forma existente que precisa ser destruída e é atacado com ardor. Para ele, na medida em que a natureza frustrante do obstáculo se revela, o self se envolve numa tensão progressiva, havendo uma junção entre o apetite destrutivo com a necessidade de aniquilamento. Polster (2001, p. 237), amplia a visão, alertando para o fato de que “a ação que se baseia exclusivamente na deliberação passada, sem a influência facilitadora da invenção presente, tem grande possibilidade de se tornar mecânica e sem vida”. Interromper uma ação, ou escolher a “ação de não agir”, também encontra na Gestalt-terapia suas formas de expressão. A teoria aponta para aspectos onde a “ação de não agir” denota um tipo de movimento. A Gestalt-terapia também

promove outra reflexão sobre a ação de congelar um possível movimento. Isso pode refletir a melhor escolha para o momento ou, ainda, o consentimento dado pelo indivíduo em permitir uma interferência na finalização de algo, na completude ou “fechamento de uma gestalt”, o que já indica outro tipo de necessidade. Perceber o tipo de ação tomada promove a melhor compreensão dos eventos da vida, a configuração de um campo e os tipos de movimentos em um ciclo de contato.

Na ação interrompida a pessoa-ação perde sua fluidez. Higy-Lang (2008), alerta para o fato de que a liberdade se torna inútil, se as escolhas do indivíduo não se transformarem em ação, uma vez que a pessoa é capaz de se transformar, bem como a situação no seu entorno, pois o ser humano possui a ferramenta necessária para tal. Destaca também o fato de que os mecanismos de ação devem incluir a capacidade de reajustar nossas ações e nossas escolhas, à luz dos resultados que obtemos.

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AÇÃO E FLUIDEZ

De maneira implícita ou explícita, a proposta da reflexão sobre ação na abordagem da Gestalt-terapia, traz um diferencial, um avanço, uma singularidade para a perspectiva teórica. A abordagem Reichiana, por exemplo, destaca os bloqueios corporais, enquanto a Gestalt-terapia sugere uma expansão e revisão teórica através dos componentes agressivos, como os da destruição, aniquilação e a iniciativa. Perls (1997, p.150), propõe “[...] A passagem do impulso para a tomada de providências e a iniciativa: aceitar o impulso como nosso próprio impulso e aceitar a execução motora como nossa própria execução motora”, ainda que se reconheçam os movimentos provenientes de outros fatores que não os das necessidades pessoais ou orgânicas. Tomando o homem como um ser em relação, o seu organismo está em autoregulação com o meio. Ele é um ser em constante mudança e sua adaptação ao meio requer um movimento, no sentido de se ajustar às suas necessidades momentâneas, traduzindo-se numa existência essencialmente dinâmica, cíclica e fluida.

Tanto Zinker, como Clarkson e Ribeiro utilizam o termo ação em seus diferentes ciclos da teoria da Gestalt-terapia, variando na ordem e na nomenclatura deles. O primeiro denomina de Ciclo de Consciência-excitação-contato, onde a ação é o quinto item na ordem, a seguir: sensação, consciência, mobilização de energia, excitação, ação, contato e retraimento. Ribeiro o denomina Ciclo de Contato, considerando a proposta Gestáltica de fluidez e movimento, que promove crescimento e cura. Tanto ele quanto Clarkson mencionam a ação como elemento do ciclo. A concepção de Ribeiro segue a ordem conforme a figura abaixo:

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CICLO DO CONTATO E FATORES DE CURA Ação Projeção Mobilização Introjeção Consciênci a Deflexão Sensação Dessensibilizaçã o Interação Proflexão Contato final Retroflexão Satisfaçã o Egotismo Retirada Confluência Fluidez Fixação

Self

Fonte: Ribeiro, 2007 (p.45).

Observando as diversas concepções dos ciclos na Gestalt-terapia, a ação está contida no indivíduo e vice-versa, enquanto organismo no ambiente. O self está diretamente ligado à ação, a qualquer forma de expressão pela ação, a não ação, ao congelamento ou a forma como o indivíduo busca seu equilíbrio.

Em termos didáticos, a ação, no ciclo, é uma etapa que após o indivíduo sentir, tomar consciência e mobilizar energia, prepara o mesmo para interagir, possibilitando-o a experimentar, com contato, a busca da realização da sua necessidade, satisfazer-se e prosseguir com fluidez. Vale ainda destacar que a ação na perspectiva cíclica, também está contida na própria sensação, pela sensação de agir, no agir sentindo, como se uma e outra fizessem parte de um mesmo tópico. Neste sentido, a ação faz parte de todas as etapas do ciclo. Conscientização, por exemplo, é expressão profunda da ação de se perceber. Experimento é ação em expressão. Experimentar e agir unem-se como expressão de uma necessidade. Esta é a fonte da ação. Agir sem experimentar, não estabelecer contato com a ação, nem

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estar conscientizado dela, é estar distante de si mesmo e de perceber-se. É automatizar-se e perder a conexão com o movimento no entorno da vida. Por esta razão, a ação tem sido colocada como etapa permanente no ciclo de contato. Por ela há alívio e fluidez.

Para a Gestalt-terapia, na ação, encontra-se uma chance, entre outras, de compreender os elementos que possibilitam uma melhor relação entre experimento, contato e conscientização, já que ela contém e revela a expressão do self. Ribeiro (2006) ressalta que os mecanismos de bloqueio de contato permitem um funcionamento precário do ciclo, uma vez que o contato frágil interfere no fluir do processo da pessoa e na forma como a caminhada se realiza, influenciando a possibilidade de um contato pleno. Por outro lado, quando o ciclo está colocado de maneira saudável, a fluidez perpassa os outros pontos, fechando cada ciclo, possibilitando uma continuidade para o próximo ponto até a retirada e a preparação para uma nova experiência, onde novo ciclo se abre para novas ações. Fluidez, movimento e ação, neste sentido, caminham juntos para a possibilidade de novas experiências, a partir das interações estabelecidas. Este processo revela um viver, um estar-no-mundo.

Conforme Ginger (1995, p.106), o interesse, dentro dessa perspectiva, deixa de ser em fatos e estrutura das coisas, direcionando-se para suas interações, para a energia que circula no espaço-tempo, que faz a materialidade viver, separando ou unindo, revelando um estar-no-mundo.
[...] para a física quântica pós-einsteiniana “as partículas subatômicas não são ‘coisas’, mas interconexões entre as coisas” (Capra, 1983) existentes num universo quadridimensional de espaço-tempo ou que certas partículas (as “antipartículas”) não hesitam em se deslocar do futuro para o passado, sem nenhuma cadeia linear de causa e efeito. Sabemos agora que a massa nada mais é do que uma forma de energia e que não é mais associada a uma substância material [...]. Enfim, os átomos não são senão uma dança perpétua de energia.

Homem e terra, estações do ano e fases da vida possuem um elo ou eixo comum, encontrado na ação, na “impermanência” e nos fatores deles decorrentes, chamados de troca, mudança e equilíbrio. Para Perls (1997, p.32), “[...] o organismo cresce ao

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assimilar do ambiente o que precisa para o seu próprio crescimento. [...] Somente por meio da assimilação completa é que substâncias heterogêneas podem ser unificadas num novo todo.” As estações do ano também dependem da estrutura da terra, sua atmosfera e as transformações que ocorrem no planeta, de forma bem dinâmica, dentro da perspectiva do espaço-tempo. O ser humano depende da sua energia em um determinado momento, da sua escolha, do se perceber enquanto organismo em interação com o meio, bem como da percepção da maneira pela qual se relaciona com os diferentes obstáculos nos seus diversos momentos de vida. Na Gestalt-terapia, a relação que o indivíduo estabelece com o seu entorno, seu conhecimento das reações e relações “intra”, “inter” e “extra” corpóreas, indicam sua relação e a maneira que ele percebe, vivencia e reage aos eventos. A Gestalt-terapia ao apropriar-se de conceitos relacionados à ação através dos conceitos de energia, direção, vetor e ponto de aplicação, se coloca, então, como uma perspectiva dinâmica, moderna e fluida. Ribeiro (2007) ressalta que o grau de fluidez de uma pessoa indica o seu nível de mudança. Quanto mais fluidez houver, menor será a necessidade de força para a mudança, sendo função da psicoterapia, facilitar o processo de fluidez dos indivíduos.

A PROPOSTA TERAPÊUTICA COM FOCO NA AÇÃO

Para fins deste estudo, relacionado à Gestalt-terapia, cabe aplicar o apelo humanístico de Heidegger ao fato que:
[...] a essência do agir é o consumar. Consumar significa: desdobrar alguma coisa até a plenitude de sua essência: levá-la à plenitude: producere. Por isto, apenas pode ser consumado, em sentido próprio, aquilo que já é. O que todavia, já é, antes de tudo, é o ser. (RIBEIRO, 1985, p.30).

É, portanto, no agir que “aquilo que já é” se revela em necessidades, integração e contato. Segundo Perls (1997), o self, o sistema de contatos, integra sempre funções perceptivo-proprioceptivas, funções motor-musculares e necessidades orgânicas. É consciente e orienta, agride e manipula e sente emocionalmente a adequação entre ambiente e organismo. Não há boa percepção que não envolva a muscularidade e a necessidade orgânica; uma figura percebida não é vívida e nítida

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num espaço que lhe proporciona segurança relativa. buscando a totalidade significativa onde o agir. a necessidade e energia do organismo e as possibilidades plausíveis do ambiente são incorporadas e unificadas na figura. como é óbvio. mas o organismo-como-umtodo em contato com o ambiente que é consciente. através do experimento. De modo análogo. no sentido de consumar sua essência. Polster (2001) sugere que. que tem ritmo. no comportamento motor. é o movimento elegante. Nesse sentido o ser humano é visto como os contatos que fez e continua fazendo. 1997. na qual estão presentes vontade e liberdade. É um produzir existencial permanente. é o órgão vegetativo que sofre de um excedente ou de um déficit. manipula e sente. precisamente ao emprestar ritmo e movimento aos objetos da percepção. que se completa etc. o desdobrar-se até a plenitude da essência é a finalidade psicoterapêutica.45). privilegiando o agir. 2007) é o cliente agir com radicalidade. vigoroso. (PERLS. onde na intencionalidade do ato está a figura-desejo. Em ambos os casos. 326 . opera sentimentos e ações. em música. torna-se significativa. o agir se auto-informa. é o músculo que se movimenta. na perspectiva existencialista. A figura (gestalt) na awareness é uma percepção. não há graça ou destreza de movimentos sem o interesse e a propriocepção dos músculos e uma percepção do ambiente. o pensar e o expressar pela linguagem completam a relação entre o expressar-se e consumar-se da essência. o foco do indivíduo seja um sistema de ação dentro do consultório. A proposta de Ribeiro (1985. E a excitação orgânica se expressa. Expressando isso de outra maneira: é o órgão sensorial que percebe. onde são aplicadas as suas potencialidades desconhecidas ou não usadas. imagem ou insight claros e vívidos. Expandindo as propostas da Gestalt-terapia. evitando falar sobre um evento. onde se requer atenção aos modos pelos quais se procura satisfazer as necessidades num determinado campo. Para o autor. Esta consumação.a não ser que o indivíduo esteja interessado e concentrado nela e a examine. Ribeiro (2007) sugere que a Gestalt-terapia é uma Terapia do Contato em ação. p. Por meio do experimento o indivíduo se mobiliza a confrontar o que emerge na sua vida.

Zinker (2007. bem como no movimentar-se. de modo que a ação escolhida corresponda à experiência do cliente. Propõe que as ações sejam uma denúncia do existir humano. Ele transforma o falar em fazer” [. A espécie humana. conscientização e experimento de cada evento. uma retirada para o equilíbrio micro.] O experimento é a pedra angular do aprendizado experiencial. oferece aos seus pesquisadores uma vasta possibilidade de investigações. a fim de que este se ajuste às suas necessidades e desejos. uma oportunidade. referindo-se ao núcleo do problema em vez de a algum fenômeno tangencial associado a ele.] “o experimento criativo brota de uma diversidade de imagens. A Gestalt-terapia propõe um cuidar do processo da existência humana. na maneira como elas se apresentam.. Cada momento do dia e cada fenômeno têm o seu nascer e brilho. ao habitar a terra. P. sua própria juventude. permitindo um fechamento.. a partir da perspectiva da ação. é enfático ao afirmar que “[. sugerindo a compreensão das suas ações nas relações que estabelece com o ambiente e na maneira como se regula neste existir. a si mesma e promove crescimento. uma exigência. completude e retirada. vivam seu auge. produz frutos e passa por um recolhimento.141. seu auge e fim. O enriquecimento da ação está no contato. produzam seu fruto e se recolham para um novo momento. para que as coisas nasçam.. Cada dia tem um início. necessidades. meso e macro das Gestalten expressas. A pessoa muda seu entorno. Cada vida tem suas estações. É um diferencial. Toma atitudes e muda cada vez mais o meio-ambiente. 174). plenitude. deixando como saldo o crescimento humano. adquire a plena possibilidade de se relacionar com o universo que a circunda e com tudo que nele habita. ações.” CONCLUSÃO Investir numa psicoterapia que trata da ação humana é uma proposta atualizada e necessária ao cenário atual.. No campo científico. Pesquisar a ação 327 . a gestalt-terapia.Confirmando e acrescentando as idéias anteriormente expostas.

O momento histórico revela um senso de urgência e tomada de atitudes coerentes com as necessidades e consequente sentido de realização dos indivíduos. no momento histórico que vivenciam. objetivamente. 328 . quer terapêuticas. a necessidade de investigações e investimentos em estudos acadêmicos e em atividades práticas voltadas ao tema da ação. empresas. por exemplo. escolas e diversos grupos sociais focam a necessidade de tomarem atitudes. Pessoas. com pesquisas de campo. entre outras possibilidades. como. atender às demandas pessoais e sociais e buscar atividades. O cenário atual indica. Este tema sugere uma. uma vez que este tema se estabelece como um diferencial a ser enriquecido. de consultoria ou pesquisa científica. individuais ou de grupo. ocuparem seus lugares no espaço onde se encontram.pode contribuir para o crescimento desta vertente teórica.

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a Psicologia ocupa-se do que se passa no campo escolar: psicólogos debruçam-se sobre as escolas e seus alunos. Psychology deals with what is happening in the schools: psychologists focuses on schools and their students.UM OLHAR GESTÁLTICO SOBRE A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR NA CONTEMPORANEIDADE A GESTALTIC VIEW THROUGH THE SCHOOL PSYCHOLOGIST’S PRACTICE AT CONTEMPORANEITY RESUMO Desde o início do século passado. vemos que ele não é constante ao longo do tempo. Atualmente ainda percebemos um campo heterogêneo. após uma breve observação de seu objeto de estudo e intervenção. Palavras-chave: Gestalt-terapia. trazendo os pressupostos teóricos da Gestalt-terapia para embasar uma prática contemporânea em Psicologia Escolar. but also for the recognition of this field of work by professionals from other areas of Psychology and Education. Acreditamos ser de grande importância a sistematização e um registro desta prática. O presente artigo tem como objetivo contribuir para esta discussão. not only to enrich the theoretical school psychologists themselves. we see that it is not constant over time. mas também para o reconhecimento deste campo de atuação pelos profissionais das demais áreas da Psicologia e da Educação. Believe to be of great importance to systematic and a record of this practice. However. seeking to analyze. compreender e estudar os fenômenos presentes na educação formal. Key words: Gestalt-therapy. Psicologia escolar. Currently still realize a heterogeneous field. buscando analisar. Educação ABSTRACT Since the beginning of the last century. com práticas diversas e uma teoria pouco delineada. bringing the theoretical assumptions of Gestalt-therapy for a contemporary practice in school psychology. with several practices and a theory just outlined. understand and study the phenomena in the formal education. The present article aims to contribute to this discussion. after a brief observation of its object of study and intervention. undergoing changes along with the identity of the school psychologist. Porém. sofrendo transformações juntamente com a identidade do psicólogo escolar. não apenas para o enriquecimento teórico dos próprios psicólogos escolares. School Psychology. Education 330 .

A partir da crença na existência de um padrão de aprendizagem e desenvolvimento considerado normal. Uma vez encontradas. Andrada (2005) aponta que. nessa 331 . nasce imersa no projeto científico da modernidade. uma visão conservadora e adaptativa da Psicologia Escolar: O que nos parece estar subjacente. assim como muitas outras áreas da Psicologia.A Psicologia Escolar/Educacional. Os testes e avaliações psicométricas tornam-se suas principais ferramentas de trabalho. 2005. a Psicologia Escolar aproxima-se do pensamento moderno. que isolado na sua deficiência deve alcançar sucesso por vontade própria. Fica designada ao psicólogo escolar a função de reconhecer e tratar estes alunos desajustados. caracterizando segundo Andaló (1984). PATTO. 1984). LIMA. a escola e suas práticas não são questionadas. ao separar os aptos dos não aptos para a aprendizagem. 2005).197) Nesta perspectiva. retirando o aluno da sala para readaptá-lo. por uma visão marcadamente individualista. sendo seu destino para sempre selado. aproximando a Psicologia Escolar do pensamento da vertente clínica da Psicologia da época (ANDALÓ. os problemas escolares são compreendidos como dificuldades de ajustamento e adaptação dos alunos ao sistema de ensino. que fracassam na tarefa de aprender. e devolvêlas à sala de aula bem ajustadas (ANDALÓ. para corrigi-lo.cit. mas nem sempre claro. p. com objetivo de medir as capacidades e habilidades individuais de cada aluno e identificar aqueles que não apresentam o rendimento esperado. que focaliza o aluno e suas características pessoais como principal objeto de estudo e intervenção (ANDRADA. as deficiências são trabalhadas fora do contexto da sala de aula – em uma sala de atendimento alheia ao restante da instituição escolar – com objetivo de promover a integração destas crianças aos padrões de comportamento desejados pela escola. adequado e esperado. É a ordem da moderna ciência na psicologia: excluir para adaptar às categorias universais (ANDRADA. como tal. Caracteriza-se. op. excludente e linear: Utilizando-se de testes ou laudos. 1984. todo o fracasso é colocado nos ombros do aluno.. onde a responsabilidade pelos insucessos do processo educativo recai exclusivamente sobre os educandos. 1984).

. é a idéia de que a escola como instituição é tomada como adequada.43) No fim da década de setenta e início dos anos oitenta. 2004). quanto seus condicionantes sociais. “Os ‘problemas de aprendizagem’ passaram a ser vistos como um fenômeno complexo. como cumprindo os objetivos ideais a que se propõe. dos programas. Os estudos realizados nesta época trazem à tona o papel domesticador e excludente da escola e alertam para uma contribuição da Psicologia à manutenção desta ordem social (PATTO. Meira (2003) também aponta.perspectiva. cit. p. como importante conseqüência destas reflexões. 2005. e o ensino-aprendizagem como um processo relacional.cit. diversos autores começam a desenvolver uma perspectiva que considera a escola inserida em um contexto social e político. até os dias atuais. cuja análise deve abarcar os aspectos históricos. segundo Patto (2004). constituído socialmente.. Andaló (1984) propõe uma atuação deste profissional como agente de mudanças dentro da escola. constituindo um período que. op.46) Desde a década de noventa. p. bem como a adequação da relação professor-aluno estabelecida. em que estão implicados tanto os sujeitos da aprendizagem. funcionando como “um elemento catalisador de reflexões. um conscientizador dos papéis representados pelos vários grupos que compõem a instituição” (ANDALÓ. observamos esforços 332 .21). o destaque da necessidade de rompimento com este modelo clínico de atuação do psicólogo escolar – centrado nos alunos considerados problemáticos – e o conseqüente redirecionamento do olhar e das análises da Psicologia Escolar para os processos educacionais como um todo. políticos e sociais” (LIMA. Nesta perspectiva. desta forma. das técnicas de ensino-aprendizagem empregadas. O aluno passa a ser visto como sujeito histórico e sua conduta no espaço escolar é compreendida a partir das relações que se estabelecem neste espaço. o foco do trabalho dos psicólogos escolares deixa de estar apenas no aluno e em suas características individuais. op. (ANDALÓ. ampliando-se para toda a instituição escolar. tornou-se decisivo para a redefinição dos objetivos da Psicologia Escolar. econômicos. Inspirados em concepções histórico-dialéticas. o anacronismo dos currículos. recíproco. diversas críticas a esse modelo de atuação e a essa concepção de Psicologia surgem e ganham força. Permanecem inquestionados. p.

Souza (2000. Neste contexto. embora a Psicologia Escolar tenha ampliado seu olhar e incorporado a análise dos determinantes sócio-históricos. ainda em construção. construída a partir de teorias que reflitam sobre a realidade da escola no Brasil. predomina em grande parte dos profissionais de educação uma visão pautada no paradigma clínico de normalidade X anormalidade. a presença de concepções críticas sobre a queixa escolar ainda perde espaço para leituras psicologizantes do processo de escolarização. mais pelas expressões comuns presentes nas ações dos profissionais. surgem tentativas de delinear a identidade do psicólogo escolar.voltados para a construção de propostas que traduzam em ações as tendências apontadas pela década anterior. 2003) pondera que. Da mesma maneira. Acreditamos que a abordagem gestáltica fornece elementos importantes para a fundamentação de uma prática em Psicologia Escolar coerente com as críticas elaboradas por uma visão histórico-dialética. Entretanto. na formação e atuação do psicólogo escolar no Brasil. que denomina como “crise” da Psicologia Escolar. Maluf (2003). cit. Andrada (2005) cita alguns fatores para este fenômeno. “não adaptado”. para a autora. entendemos que o trabalho de construção da 333 . op. p. apud. do que pela existência de um discurso único. a nova Psicologia Escolar não se apresenta sob um paradigma unificado. um ensino e uma prática voltados para uma atuação clínica/terapêutica.137). podendo ser reconhecida. na qual se multiplicam ações afirmativas. Compartilhamos da perspectiva crítica histórico-dialética. Meira. ainda é grande a demanda das escolas para que o psicólogo trabalhe com o aluno “desviante”. em um momento histórico específico. afirma que “a Psicologia Escolar no Brasil está entrando em uma nova fase. que compreende o homem como um ser constituído nas relações sociais por ele estabelecidas. sobretudo na década de 1980” (MALUF. Em primeiro lugar. que dão respostas a vigorosas e pertinentes críticas formuladas. onde se espera do aluno um padrão de comportamento que conduz ao sucesso escolar. Por fim. ainda predominam. Maluf (2003) também reconhece que. excludente e individualista. Além disso. apesar destas iniciativas. Assim como Maluf (2003). carecemos de uma prática elaborada para o trabalho do psicólogo no contexto escolar.

p. dos conhecimentos psicológicos na elaboração das propostas de trabalho das escolas. visando à melhoria das práticas pedagógicas e compreendendo a humanização como o objetivo primeiro da educação. mas deve estar voltado para “a compreensão das relações entre os processos psicológicos e os pedagógicos. reforça a necessidade de superação da dicotomia entre as atividades de ensino – que seriam de responsabilidade do professor – e o comportamento dos alunos – que por sua vez seriam. segundo estes autores. cit. garantindo com isso a especificidade de nossa atuação” (RAGONESI. supostamente. nem ao sujeito psicológico. o encontro entre os sujeitos e a educação. op. pode 334 . para a compreensão do encontro entre a subjetividade humana e o processo educacional” (MEIRA. op. não é um mero divulgador de teorias e conhecimentos psicológicos.. op.22). situa-se no compromisso com a tarefa de construção de um processo educacional qualitativamente superior. Alguns autores da vertente histórico-dialética vêm buscando delimitar o papel do psicólogo escolar na realidade brasileira contemporânea.cit. Ragonesi (1997. Um campo complexo como a realidade educacional brasileira requer olhares igualmente plurais. LIMA. A finalidade da Psicologia Escolar. uma verdade universal fechada a qualquer possibilidade de questionamento. com base nesta vertente teórica.. contribuindo para que a escola cumpra seu papel de socialização do saber e de formação crítica: O psicólogo escolar não é um ‘resolvedor’ de problemas. por parte dos psicólogos escolares.139). aponta para a necessidade da utilização. “capazes de iluminar a reflexão e a ação numa concepção processual de conhecimento científico que permite enfrentar com maior probabilidade de êxito os problemas educacionais que se nos apresentam” (MALUF. por exemplo. Esta autora também pontua a necessidade de “situar mais adequadamente os processos psicológicos no interior do processo pedagógico. o olhar deste profissional não pode ser limitado. p. em seus limites e especificidade. apud. de responsabilidade do psicólogo.identidade do psicólogo escolar não significa necessariamente a busca de uma teoria única. Para Meira (2003). cit. Para isso.55). Ele é um profissional que. 2005). nem um profissional onipotente capaz de fazer tudo o que a escola precisa. ou em outras palavras. nem ao contexto educacional. p. Tanamachi & Meira (2003) compreendem como objeto de trabalho do psicólogo escolar.

Nesta ótica. pois se deve considerar as múltiplas versões de um mesmo fenômeno. cabe ao psicólogo escolar criar um espaço para escutar as demandas da instituição e formas de reflexão com todos os sujeitos que dela fazem parte. Atualmente. já não é possível eleger um único modelo de explicação para os problemas encontrados na escola. Para a autora. Na psicologia. 2000). apresenta-se como diretriz para a construção de uma nova prática em Psicologia Escolar. Machado (2004) refere-se à realização de uma prática psicológica voltada para a intervenção nas relações. Na contemporaneidade. o modelo de ciência moderna como um todo – com seu ideal de racionalidade. tampouco se faz neutro na escola e nas relações que ali estabelece. Neste novo paradigma. favorecendo o processo de humanização e desenvolvimento do pensamento crítico (MEIRA. pois suas simples presença já modifica o sistema observado” (ANDRADA. p. Andrada (2005) aponta a necessidade de se perceber a escola e os problemas ali presentes sob outro paradigma: não mais o da causalidade linear que permeou o pensamento moderno. p.ajudar a escola e remover os obstáculos que se interpõem entre os sujeitos e o conhecimento. a teoria sistêmica. percebemos a presença de uma concepção de ser humano construída histórica e socialmente. Propondo uma prática que envolva todos os segmentos do sistema educacional como participantes do processo de ensino-aprendizagem. Da mesma maneira. Esta necessidade de se perceber e explicar os fenômenos de forma mais ampla e contextualizada não está presente apenas na Psicologia Escolar. 1998). as diretrizes pós- 335 . apontando-se para a idéia de que os problemas escolares são produzidos em uma história coletiva. Nesta abordagem atenta-se para o campo de forças atuantes na problemática escolar. Em todos estes exemplos de atuação do psicólogo escolar. op. 2003.cit. Além disso. grifos da autora). seu método de decomposição dos fenômenos em relações simples de causalidade e a elaboração de leis gerais – vem sendo questionado (SOAR FILHO. diversos autores trazem uma nova perspectiva de ser humano e sociedade como unidades complexas e multidimensionais (MORIN. mas o da causalidade circular presente no pensamento sistêmico.198).58. objetividade e neutralidade do conhecimento. este profissional “não mais possui hipóteses verdadeiras sobre os problemas do aluno.. juntamente com uma visão histórico-cultural.

198). Algumas características marcam a Gestalt-terapia como uma abordagem fundamentalmente diferente daquelas existentes até então. Desloca. 2005. nós somos o produto do contexto de nossas conversações e dos significados que fazemos derivar socialmente disto. a perspectiva organísmica de Kurt Goldstein traz para a abordagem gestáltica a compreensão do organismo como um “sistema aberto. (ROBINE. o próprio ‘todo’ supera a soma das partes que o compõem. enfatizando o singular.cit. o mundo e qualquer outro fenômeno a ser estudado. Nesta perspectiva. 2005. Dentre elas. em permanente contato e troca com meio exterior” (LIMA. 2005. p. enquanto totalidades formadas por partes em complexa interação. ROBINE. Da mesma forma. transcendendoas” (NUNES. o idiossincrático e o contextualmente situado: Na perspectiva pós-moderna. as trocas entre o organismo e o ambiente no qual está inserido) é a realidade simples e primeira. tal como derivado da ciência moderna vigente na época de sua concepção. NUNES. p. a visão holística.10) A abordagem gestáltica. p. Além disso. o posto de investigação da experiência psicológica. Contrariando a noção reducionista da ciência moderna – que isola os organismos para estudá-los da forma mais neutra possível – os fundadores da abordagem gestáltica compreendem que o contato (ou seja. desta forma. 2005. Vários autores consideram-na. do interior de um indivíduo encapsulado para a fronteira entre o organismo e o ambiente. uma abordagem congruente as novas diretrizes do paradigma científico contemporâneo (LIMA. que permite compreendermos o homem. o foco é na evolução dos contextos e uma preocupação em pôr em perspectiva vai substituir a fascinação com a história pessoal.187). op. 2008a). apesar de ter seus arcabouços teóricos definidos na metade do século passado. sob diversos ângulos. apresenta uma visão ousada e revolucionária que se afasta do modelo reducionista e linear de investigação científica. o como as mudanças podem ocorrer vai predominar sobre o porquê das significações descobertas.modernas reformulam seus temas e práticas.. Nunes (2008a) aponta que nesta interação “cada parte é superada ao ser afetada e transformada pelas outras ‘partes’ com que se relaciona. que deve ser o ponto de partida para qualquer estudo sobre o tema: 336 .

HEFFERLINE & GOODMAN.. colocou adiante a idéia de que self é contato. psicológica ou sociológica. o descentralizaram e o temporalizaram. grifos do autor) Perceber o papel fundamental que o campo interacional organismo/meio exerce na constituição do ser humano é compreendê-lo como ser-no-mundo. o self gestáltico passa a ser entendido processualmente. se manifestaria. cada organismo é uma totalidade indivisível e única. com elementos que se articulam e influenciam mutuamente e que adquirem sentido a partir desta interação. estamos nos referindo sempre a este campo interacional e não a um animal isolado. Em contraste. Perls e Goodman introduziram uma mudança de rumo fundamental. 2005. 1951/1997. temos de partir da interação entre o organismo e seu ambiente.) Denominemos este interagir entre organismo e ambiente em qualquer função o ‘campo organismo/ambiente’..85). e lembremo-nos de que qualquer que seja a maneira pela qual teorizamos sobre impulsos. por exemplo. Na abordagem moderna. é reformulado pelos autores da Gestalt-terapia.Em toda e qualquer investigação biológica. Para além de suas características isoladas. ou falar de comer sem mencionar a comida (. ele não existe a priori. O que chamamos de self só existe quando e onde há contato.7. Aquilo que ele é e faz deixa de ser resultado da realidade interna da pessoa e passa a ser estudado a partir de uma complexa teia de forças 337 . (ROBINE. compreendemos o homem como uma configuração total. Afastando-se de uma compreensão topológica e estrutural. p. resultado da interação entre as diversas partes que o constituem. cuja influência levou a teoria nessa direção. Na abordagem gestáltica. p. e da articulação destas com os demais componentes do meio no qual está inserido. Não mais o self existiria anteriormente e se revelaria. Goodman. que os coloca no coração daquilo que mais tarde será chamado pósmodernidade: eles deslocaram o self. como “fronteira de contato em funcionamento” (PERLS.42). o si individual era reconhecido como a única realidade. etc.. não possui uma essência interior imutável. HEFFERLINE & GOODMAN. 1951/1997. se expressaria no contato. (PERLS. de um animal que respira sem considerar o ar e o oxigênio como parte da definição deste. comumente associado a um “si” individual e intrasubjetivo. Isto é. instintos. O próprio conceito psicológico de self. Não tem sentido falar. solipsista. mas sim é contato. p.

de um simples relacionamento entre um indivíduo independente e o ambiente externo. Nunes (2008a) aponta que. que percebem a realidade educacional como uma determinação de múltiplos fatores (LIMA. 2005). nos aproximamos da visão das teorias críticas da Psicologia Escolar. “O indivíduo é definido.cit. p.cit. num dado momento. tudo o que nela acontece passa a ser multideterminado e articulado com as demais partes que a compõe. suas dificuldades de aprendizagem. portanto. 2005. como possíveis causas do problema. a Gestaltterapia transcende um olhar dicotômico e fragmentado e constrói uma visão de homem relacional e integradora: Gestalticamente.) só adquire sentido na relação com a realidade escolar que o cerca. p.190).) representam-no em sua relação total com o mundo. biológico e cultural. percebemos ser impossível compreender o que acontece na escola limitando nosso olhar para o aluno OU para o professor OU para a família. Não se trata. O campo é uma totalidade. e o campo só pode ser definido pela experiência ou do ponto de vista de alguém” (YONTEF. Como visto anteriormente. etc. com esta perspectiva. o aluno necessita ser percebido como parte deste campo e aquilo que ele apresenta (seus déficits de atenção. apenas pelo campo do qual faz parte. substituindo o vício reducionista de dicotomização do real pela valorização do global. mentais. o homem é a um só tempo individual e social. Assim. devolve ao homem e aos problemas do mundo a complexidade que lhes é inerente. 2005. Percebendo a escola como um campo. etc. op. ANDRADA. o campo ambiental/organísmico. singular e dotado de regularidades no coletivo. uma pessoa e seu meio são de-um-campo. suas indisciplinas. Com isso. Desta maneira. Trazendo esta perspectiva para o trabalho em Psicologia Escolar. MEIRA. (NUNES.inter-relacionadas. que reagem umas às outras e são influenciadas pelo que acontece em qualquer outro lugar do campo. livre e determinado. quando nos deparamos com uma criança com dificuldade de 338 . emocionais. Por exemplo. composta de partes em relacionamento imediato. o ser humano gestáltico é compreendido como uma totalidade e todas as suas manifestações (sejam elas comportamentais. op. Como definido por Yontef (1993/1998). orgânicas.187 grifos da autora) A abordagem gestáltica utiliza-se de uma perspectiva de campo para compreender o que se passa com o homem e com o mundo.

e os diferentes tipos de relações sociais que se estabelecem cotidianamente na escola. recebendo dele sua origem e sentido. é alguém que não está aprendendo nesse momento. a 339 . Ao contrário. compreendendo-os no conjunto de relações institucionais. sabemos que esta criança busca o melhor equilíbrio possível a cada momento. nessa escola.aprendizagem – demanda tão comum para os psicólogos clínicos e escolares – entendemos que esta não é uma questão restrita às funções cognitivas do aluno. o déficit de atenção ou a hiperatividade não têm significados em si mesmos. Como uma unidade auto-regulada. a Gestalt-terapia nos ensina que uma pessoa é sempre em relação e num-campo. que concebe o indivíduo como interioridade isolada e com o paradigma reducionista e causal que determina que problemas de aprendizagem são ‘problemas internos’ como se houvesse uma fronteira rígida entre um interior e um exterior absolutos. mas a compreendemos como uma manifestação do seu ser global no campo (AGUIAR. (NUNES. Desta forma. 2005).3) A ênfase no aspecto relacional da atividade educacional também está presente na vertente crítica da Psicologia Escolar. nessas relações: A Gestalt-terapia não coincide com esta lógica. formando uma configuração única e indivisível. propondo uma intervenção do psicólogo escolar com base nesta afirmativa: O discurso crítico sobre a escola precisa vir acompanhado do questionamento dos ‘problemas de aprendizagem’. Para a Gestalt-terapia. p. o que torna a fronteira entre o ‘dentro’ e o ‘fora’ bastante tênue. psicológicas e pedagógicas que constituem o dia-a-dia escolar. por exemplo. Apesar de um aluno apresentar características e comportamentos semelhantes a outro.cit. Segundo Nunes (2008b) uma criança que não atinge os objetivos de aprendizagem da turma. Eles são sintomas que se destacam como figuras diante de um fundo que lhe serve de base. As regularidades que ele possui em comum com outros alunos se encontram em uma intrínseca relação com seus demais aspectos e com o campo. op. e o sintoma que ela apresenta é uma forma criativa de assinalar suas dificuldades de interação com o meio. não reduzimos nossa compreensão de seu problema a uma categoria diagnóstica universal. o fracasso escolar. nesse campo. históricas. em um processo fluido e dinâmico. Meira (2005) aponta para a existência de uma clara correspondência entre a qualidade das práticas pedagógicas.

(TANAMACHI & MEIRA. Indagamos ‘para que’ um aluno precisa se comportar ou se relacionar de determinada forma dentro do contexto escolar a fim de manter seu equilíbrio. esta proposta se afasta da tentativa de encontrar explicações para a queixa escolar. familiares. podendo ser denunciadora de um ambiente escolar que necessita ser problematizado. 2005. Hefferline & Goodman (1951/1997). p. restrição. professores. (MEIRA. tirando o foco de investigação da busca por possíveis causas destas manifestações. p. 2005. “A pergunta é: que tipo de exigência. expectativa. existem elementos que impedem ou dificultam sua possibilidade de construir novas formas de satisfazer suas necessidades e a escola. 340 . Ao contrário. segundo esta lógica. 2005. amigos e a criança. Nos diversos campos do qual faz parte. as concepções que a produziram. A queixa escolar encaminhada ao psicólogo é. necessitando ser compreendida por meio de uma investigação com todos os envolvidos: escola.intervenção do psicólogo deve possibilitar o ‘pensar junto’ com as crianças e professores. ou seja. p. e que elementos deste campo contribuem para isso. segundo esta lógica. Da mesma forma. entendendo que “o pensamento e a ação humana não se reduzem a determinantes do psiquismo individual assim como o indivíduo não se reduz à descrição das características de indivíduos em geral”. entendida como “aparência”.24) Assim como Perls. um movimento de saúde. buscamos uma compreensão fenomenológica acerca das formas disfuncionais de existência.55). como uma tentativa de equilíbrio. buscamos descrever e compreender como as disfunções se apresentam. autores da vertente histórico-dialética da Psicologia Escolar partem das relações sociais para chegar à ‘biografia’ do indivíduo. é um destes campos. os acontecimentos. A manifestação sintomática dos alunos – que motiva a queixa escolar demandada ao psicólogo – é compreendida.23). buscando nos diversos campos as ações. sem dúvida. bem como as práticas que estigmatizam e excluem. recurso. aquilo que aparece no nível mais imediato. Assim como a Gestalt-terapia. ela [a criança] encontra nesse contexto para que precise agir desta forma ou usar deste artifício para se auto-regular?” (AGUIAR. e de que forma estas contribuem para um funcionamento não saudável e insatisfatório do indivíduo como uma totalidade integrada.

Entender o aluno como um ser cuja vivência singular é construída e reconstruída a partir das relações que estabelece com o campo. mudanças que gerem a possibilidade de que a escola cumpra seu papel social de possibilitar a todos que por ela passarem a apreensão dos saberes construídos pela humanidade ao longo do tempo. op. familiares e com o próprio estudo. para culpabilizar a família e/ou a escola. (TANAMACHI & MEIRA. um trabalho com os professores. trabalhar com os alunos. da mesma maneira.Não se trata de desfocar a criança. Mudamos a pergunta. um campo se reconfigura a partir de mudanças em alguns de seus elementos: podemos alterar uma parte e esta modificação terá efeito nas demais. do que concluímos que a base de nossa avaliação é o resgate histórico das situações concretas que permitiram a existência da ‘queixa’. p. e não mais objetos passivos de ações sobre as quais não tem qualquer controle. Na escola. em vez de nos dirigirmos a pessoas ou situações isoladas – o que tem efeito paralisador – buscamos as circunstâncias. o psicólogo que atua na instituição deixa então o papel de técnico e passa a trabalhar como elemento mediador de um processo pedagógico qualitativamente superior. coordenadores ou familiares pode trazer resultados visíveis nos alunos e nas queixas elaboradas sobre eles. em um processo ininterrupto de busca de auto-regulação e crescimento. fornecendo um espaço de reflexão e responsabilização diante daquilo que eles apontam como críticas à escola e à família. (TANAMACHI & MEIRA. 2005) Transformam-se.cit.. p.17) Como um sistema dinâmico. participantes fundamentais desse processo de transformação..) A avaliação aqui adquire caráter investigativo e não classificatório. métodos de ensino e escolhas didáticas que são feitas pela escola. os conteúdos. (LIMA. porque estas podem ser transformadas (. juntamente com os atores que compõem o cenário pedagógico e da escola. assim. alunos. 2005.. nos permite uma visão mais 341 . avaliando juntamente com os educadores. Por outro lado. pode ter resultado direto nas relações que estes estabelecem com os professores. familiares e demais funcionários. O fazer psicológico escolar crítico tem como objetivo realizar.32) Partindo desta compreensão da queixa escolar. os “pacientes” com os quais a Psicologia Escolar trabalhava em sujeitos ativos.

342 .ampla de suas possibilidades de existência. Podemos propor que as pessoas presentes na vida do aluno revejam as relações que com ele estabelecem. Acreditamos nas potencialidades e na capacidade de transformação do ser humano e sabemos que relações mais facilitadoras possibilitam a emergência de formas de estar no mundo mais saudáveis e satisfatórias. buscando se colocar de forma mais verdadeira e presente.

C. p.17-23.) Psicologia Escolar: ética e competências na formação e atuação profissional. Campinas: Editora Livro Pleno. In: HOLANDA A. N.18. ANDALÓ. O papel do Psicólogo Escolar. In: ALMEIDA S. São Paulo: Casa do Psicólogo. Breve histórico da psicologia escolar no Brasil. M. A.42 p. O. F. (orgs. Campinas: Editora Livro Pleno. LIMA. Psicologia: Reflexão e Crítica. 343 . 1984. 2003. S. F. A. LIMA. MALUF. E. M. A. (orgs) Psicologia Escolar: Teorias Críticas. M. São Paulo: Cortez.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR. Curitiba.1. M. P. Psicologia Argumento. E. V. C. n. 2005. p. 2005.R. 2004. E. v.M & SOUZA M. Brasília. 2003. C. MACHADO.196-199.P. & FARIA N. Campinas: Editora Alínea. ANDRADA. 2005. MORIN. Construindo uma concepção crítica de Psicologia Escolar: contribuições da pedagogia histórico-crítica e da psicologia sócio-histórica. Relato de uma intervenção na Escola Pública. Psicologia Escolar: novos olhares e o desafio das práticas.) Gestalt-terapia e contemporaneidade: contribuições para uma construção epistemológica da teoria e da prática gestáltica. A.23.) Psicologia Escolar: em busca de novos rumos. G. Gestalt-terapia com crianças: teoria e prática. M. (org. R. A Gestalt-terapia no contexto científico intelectual contemporâneo. (orgs. n. Porto Alegre. M. M. jul/set 2005. In: MEIRA. v. & ANTUNES. M. L. In: MACHADO.4. Novos paradigmas na prática do psicólogo escolar. A. M. Psicologia: Ciência e Profissão. J. v. Sete saberes necessários à educação do futuro.43-46. E. A. São Paulo: Casa do Psicólogo. MEIRA.

1. Trabalho apresentado no II Encontro Dialógico de Gestalt-terapia. R. H. Diálogo e Awareness: ensaios em Gestalt-terapia São Paulo: Summus. Novos paradigmas da psicologia e das terapias psicológicas pósmodernas. PATTO.14.psc. São Paulo: T. v. PERLS.102126. In: MEIRA.A. M. 2008b. M. p. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2008a. jun. Disponível em http://www. SOAR FILHO. Processo. E. Rio de Janeiro. Pensando gestalticamente a contemporaneidade.P. 2004. 344 . (orgs.185-199.R. A atuação do psicólogo como expressão do pensamento crítico em psicologia e educação. G. Psicologia e Ideologia: uma introdução crítica à Psicologia Escolar. 1993/1998. & ANTUNES M. _______________ Prefácio do livro Psicologia Escolar: em busca de novos rumos MACHADO. A. A gestalt-terapia terá a ousadia de desenvolver seu paradigma pósmoderno? Estudos e pesquisas em psicologia. HEFFERLINE R.9.2000.). 2003. E. & MEIRA. Psicologia: Teoria e Pesquisa. YONTEF. (orgs. M. 2005. vol.M. Revista IGT na rede. 1998. n. & GOODMAN P.) Psicologia Escolar: Práticas Críticas..5. Rio de Janeiro. São Paulo: Casa do Psicólogo. J.M. São Paulo: Summus.B. L. ROBINE. S. 1951/1997.igt. M. A.M & SOUZA M. TANAMACHI. Brasília. NUNES. 1984.J. no. v. p. Gestalt-terapia. F. Queiroz. E.br ___________ Problematizando o atendimento clínico de crianças com diagnóstico de ‘problemas de aprendizagem’: interlocuções entre a Gestalt-terapia e o pensamento de Michel Foucault. E.5.

em 1994. pretende-se discutir como a Gestalt-terapia pode realizar sua função social. INTRODUÇÃO A inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais tem sido tema objeto de discussões e articulações sociais e políticas no Brasil. em relação ao conceito de contato. Gestalt-terapia. ganha importância 345 . permitindo o convívio. contato. enfocando como mães vivenciaram o processo de início da atividade escolar de seus filhos e sua influência no tratamento multidisciplinar. Ao final. suas funções e disfunções (resistência).UMA LEITURA GESTÁLTICA QUANTO À EXPERIENCIA EMOCIONAL DE MÃES DE CRIANÇAS COM MFLP NO MOMENTO DO INGRESSO ESCOLAR: ARTIGO DE REVISÃO RESUMO Este artigo revisa sob a ótica de conceitos da Gestalt-terapia. As percepções e conclusões do autor são discutidas em conformidade com a compreensão gestáltica. por meio do contato com a diversidade e a valorização das diferenças. principalmente a partir de considerações sobre a teoria de campo de Kurt Lewin (conforme a leitura de Ribeiro. Palavras chave: inclusão. o relato de uma pesquisa qualitativa. má formação lábio-palatal. o ciclo. de amplificação da awareness sobre a questão e delineamento de estratégias. realizada no Núcleo de Pesquisa e Reabilitação de Lesões Lábio Palatal (NPRLLP) vinculado à Secretaria de Saúde da cidade de Joinville (SC). especialmente desde a assinatura de acordos internacionais como a Declaração de Salamanca. a aprendizagem mútua e o crescimento dos grupos sociais como um todo. 1999). Assim. Desde então muito já foi realizado e atualmente esta parcela significativa da população (estima-se 10% do total) tem oportunidades mais justas e igualitárias quando se pensa na sua condição de alunado.

o que é profundamente relevante quando se trata da deficiência na infância. respeitadoras. A deficiência torna-se. No processo deste movimento. 1984) envolvidos no processo de inclusão escolar. na intencionalidade. em suas formas de estabelecer relações intrapsíquicas e interpessoais e nos recursos adaptativos (ajustamentos criativos) e/ou mal-adaptativos (resistências ou disfunções de contato) adotados. regulamentado em nosso país pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996. e interferindo na relação grupo-indivíduo. DESENVOLVIMENTO Segundo a bibliografia pesquisada pelo autor. pois a percepção da condição é concomitante ao desenvolvimento psicológico. 1999.a realização de estudos que procuram identificar os fenômenos. afetando o comportamento das pessoas envolvidas. um elemento constitutivo dos aspectos estruturais da pessoa como um todo e se reflete na sua organização egóica. criando condições para que se tornem pessoas mais sensíveis. problemas e complicações médico-odontológicas associadas à má-formação (incluindo a alimentação. “estrutura reunindo dialeticamente. referidas à educação inclusiva. afetivo e 346 . 2007. ao longo dos anos. e concebido em termos de mútua interdependência. “totalidade dos fatos co-existentes. o homem e o mundo. 41 in Forghieri et al. passaram a conviver no ambiente das escolas regulares sempre que possível e recomendável. enfim. mais completas. incrementando as vivências pessoais de todos. 57). p. p. alunos com diferenciadas características pessoais e de aprendizagem. “a criança portadora de má formação lábio palatal (MFLP) possui um defeito físico congênito que repercute na estigmatização devido à idolatria da perfeição e da beleza física impostos pela sociedade” (Miguel. Há significativas mudanças acontecendo na educação brasileira. Desta forma o campo fenomenológico. em dado momento. está sofrendo importantes transformações. audição e desordens de fala). 9). p. cuja significação depende da percepção dessa correlação entre sujeito e objeto” (Ribeiro. a significação e a existência” (Rezende. criativas. desde o nascimento. além de apresentar.

podem surgir sentimentos de culpa). pois o desejo de constituí-las traz. com todas as conseqüências sociais. 2006. cuja elaboração dependerá de diversos fatores. na 347 . sente-se diferente e assim o será numa organização social feita para seres inteiros. tipo de personalidade e reações de cada um. representações estas anteriores à própria existência da dupla homem-mulher. desde ajustamentos criativos (Ribeiro. A nova dinâmica gerada entre os fenômenos (ou zonas) do campo formado pela dupla mãe-pai origina tensões e a necessidade de mudanças em relação às expectativas prévias.(Regen et al. condição constitucional.cognitivo. posição do filho na prole. 46) O nascimento de um bebê com MFLP (fenômeno inesperado que se inscreve no campo existencial da dupla. é afetado e influencia sua dinâmica) deflagra novos desafios. implicitamente. podendo ser expressos matematicamente” (Ribeiro. comportamento de um indivíduo num dado momento. grau de preconceito em relação às pessoas com deficiência. 60). “normais” e configurada para a realização total do ser. sendo eles partes constituintes da realidade e não apenas partes ou um conjunto aditivo. 2001). 64-8) saudáveis até soluções muito disfuncionais. acusações e até rompimentos). quais coexistentes determinam e o mutuamente interdependentes. 2003. Sua influência na formação do indivíduo depende de inúmeros fatores e o espaço vital: totalidade dos fatos ou eventos os possíveis. A anomalia. qualidade do relacionamento do casal. expectativas quanto aos filhos que serão gerados na união do casal. Da mesma forma as famílias são afetadas. 1999. apresenta-se muito variável entre os indivíduos com esta condição. A condição acarreta o desenvolvimento de variadas repercussões psicológicas. p. nível de expectativa. anterior ao casamento. como: aceitação ou não da gestação (em caso de rejeição da gravidez. que é diferente das demais. tipo de relacionamento com a família estendida (podem surgir comentários. mesmo que a má-formação seja desconhecida. é um estado incompleto quando comparado à normalidade. p. transitando da inclusão social desejada à polaridade de exclusão e isolamento da sociedade. (Reis. Como parte deste campo está a criança com uma deficiência física. e com quem interage.

criança com MFLP . a importância da reabilitação e do trabalho multidisciplinar. p. Era um campo freqüentemente vivenciado com segurança e proteção. economia. com a atenção também voltada ao meio em que ela está inserida. que interfere neste todo. p. como um fundo que pode favorecer a estruturação de uma figura . que normalmente se dá ao nascimento. estético. 2007. de um modo geral. tanto na escola. educação. entre outras. surge uma nova demanda. Também a família poderá ser beneficiada no processo.saúde. entendido como “a máxima exploração das potencialidades de cada ciência. trabalho. 1995.resiliente (Lima e cols. ao sentir-se apoiada e orientada nas suas dúvidas e angústias. a criança estava ao abrigo da família e do centro de reabilitação. 2007. da diversidade e da criatividade” (Miguel. Segundo o autor. às vezes. A parte “criança com MFLP” adquire novos significados no todo representado pela escolarização: “uma parte num todo é algo bem diferente desta mesma parte isolada ou incluída num outro todo” (Ginger e Ginger. 18). ou pela necessidade de trabalho dos pais. oferece-nos um recorte bastante perspicaz e sensível de uma questão pouco referida. p. Destaca deste modo. Esta inclusão deve ter um sentido amplo. 14). A família. Até então. o autor da pesquisa em estudo. um todo continente e afetivo. fisiológico e psicológico” (Miguel. a escola e os profissionais que fazem parte deste eixo de desenvolvimento devem ser orientados no sentido de tomarem decisões que garantam o êxito do tratamento em todos os seus aspectos. primeira etapa de amplificação do seu processo de socialização. Dentro do panorama da educação inclusiva. é o 348 . e que muito interfere no processo da escolarização em geral: a vivência emocional das mães de crianças com uma necessidade especial (MFLP) no momento em que seus filhos entram em contato com o ambiente escolar. aparentemente homeostático. 2007) e capaz de se incluir. como nos desafios sociais subseqüentes (fundo). no momento em que o ambiente social se amplia. Com a chegada da idade escolar. “O processo de inclusão da criança portadora de má formação lábio palatal deve se estabelecer no momento do diagnóstico. Entretanto. 18).

preconceito diante do impacto visual causado pela desfiguração da face, da fala anasalada, e outras diferenças, que pode se revelar figura dominante no campo atualizado. Percebe-se a supervalorização do olhar e do ver como função de contato (Amaral, 1996 apud Miguel, 2007, p. 26), em detrimento das demais (audição, olfato, gustação e movimento), limitando sobremaneira as possibilidades de interação e focando a interação principalmente na falta (ou deficiência). Desta forma, a MFLP repercute na estigmatização da pessoa, reforçada pela idolatria da perfeição e beleza física vivida atualmente. O autor, ao realizar um levantamento bibliográfico sobre o tema, refere que crianças com MFLP têm ao menos duas vezes mais riscos de problemas comportamentais comparados com crianças sem este tipo de problema. Pais parecem ter uma menor expectativa em relação ao desenvolvimento intelectual e de habilidades sociais de seus filhos; podem optar pelo ocultamento destes, revelando com isto o caráter de fuga destas famílias em relação ao meio que os cerca, constrangidos em mostrar seu filho (a), com medo das possíveis reações do público à aparência de sua criança. As crianças criam, então, um isolamento voluntário e iniciam uma luta íntima tentando vencer o constrangimento de ter que se apresentar entre outras pessoas, comprometendo também o desenvolvimento de outras habilidades, como a fala (Figueira, 1997; Dülger-Hâfner,1997 apud Miguel, 2007, p. 27). Fuga (ou evitação) são mecanismos de defesa do espectro da deflexão, utilizados para evitar o contato com o elemento causador da dor ou sofrimento psíquico, e segundo Perls (1977, p. 79), “a fobia da dor é a inimiga do desenvolvimento – a relutância em sofrer um mínimo que seja”. A energia é desviada e a retração não pode acontecer, havendo necessidade constante de criar nova estratégia de evitação (Ginger e Ginger, 1995, p. 138). Em geral, relaciona-se a introjetos dos quais a pessoa não está aware (Ribeiro, 2006, p. 74-7), neste caso representados pelo próprio preconceito familiar em relação à deficiência, que pode ser expresso em excessiva superproteção. De um modo geral, são crianças que, desde o nascimento são constantemente manipuladas e submetidas a intervenções mais ou menos invasivas, em que seu espaço vital é freqüentemente invadido. Dois aspectos da imagem corporal estão usualmente incluídos: o que uma pessoa considera ser uma

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imagem ideal ou desejada e o que ela vê como seu corpo real. Foi notada nas crianças deficientes uma tendência para achar que as não-deficientes são perfeitas e existe o perigo de que a sua imagem corporal ideal seja totalmente diferente do modo como se vêem a si mesmas. A sociedade tem seus padrões estéticos bem definidos, os introjeta (Ginger e Ginger, 1987, p. 134) e os reproduz nas relações. Afirma o autor que “o momento em que este paciente inicia sua vida escolar se configura como a quebra da barreira de proteção do lar contra qualquer tipo de discriminação”, e que “estes pais devem ser apoiados pela equipe multidisciplinar e orientados no sentido de que, a forma como os pais enfrentam esta dificuldade, modela o comportamento do filho(a) que estará mais ou menos apto a enfrentar a curiosidade dos outros”. (Miguel, 2007, p. 77-8) Realizou, então, entrevistas com sete mães de crianças atendidas no NPRLLP no máximo, matriculadas há dois anos em escola regular de ensino do município ou que estavam na expectativa de matrícula no próximo período letivo escolar. A participação do marido na reabilitação muitas vezes se deu apenas na forma de apoio em casa; às vezes todo o encargo está na responsabilidade das mães, noutras o marido opina, mas não participa ativamente nas consultas e reuniões, e outro, conforme o autor, “se envolve nas decisões, acompanha de perto o tratamento e a evolução da criança. Ele conhece a professora e a escola, procurando saber o que acontece com seu filho”. (Miguel, 2007, p. 103) O contexto existencial das mães abordadas pela pesquisa é caracterizado por idade jovem (faixa dos 20 anos, à exceção de uma com 32 anos); escolaridade variável (de ensino fundamental incompleto a ensino superior completo, com predomínio de ensino médio completo); renda familiar também variável (de zero a quinze salários mínimos); casadas (à exceção de uma, solteira, cujo companheiro não aceitou a deficiência da criança); com freqüência regular aos tratamentos embora com pouca participação do cônjuge; os filhos encontram-se entre três e seis anos; a maioria tem outros filhos além desta criança; e, à exceção de uma, não havia casos anteriores na família. São descritas, pelo autor, como “solícita, mas muito nervosa e dependente do centro”, “muito segura”, “muito segura e superprotetora”, “negando o defeito e superprotegendo”, “demonstrando calma e esclarecimento”, “extremamente dominadora”, “extremamente depressiva” (Miguel,

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2007, p. 63-7). Identifica variadas reações psicológicas ao problema em questão, e evidencia a importância da equipe estar apta a perceber qual a necessidade de suporte psicológico às mães e ter estratégias de intervenção adequadas. O roteiro das entrevistas foi elaborado com perguntas abertas que tiveram a função de organizar a fala das mães, mas não de limitá-las. Daí surgiram vários temas relacionados à escolarização e trabalho da instituição. (Miguel, 2007, p. 6971) Quanto às reações e expectativas com a saída de casa e o início escolar da criança com má formação lábio palatal, o autor encontrou nos relatos das mães a preocupação (pré-ocupação ou ansiedade, “tensão entre o agora e o depois”, Perls, 1977, p. 73) com a exclusão dos seus (suas) filho (as), em como seria encarada a má formação e o problema da fala na criança, com temor de que suas necessidades não viessem a ser supridas, sugerindo uma expectativa diminuída das mães em relação ao desempenho escolar. Este comportamento pode gerar isolamento social da criança (e da família) no período pré-escolar e sentimentos de insegurança e de hostilidade diante do meio. O contato com o mundo além do ambiente familiar mostra ser vivenciado com muita ansiedade e expectativa de rejeição e insucesso. Provavelmente há distorções perceptuais nesta relação, influenciadas pelos próprios sentimentos de rejeição (e medo desta), dificuldade de aceitação, autoestima comprometida pela incapacidade em gerar um filho perfeito, quebrando a imagem projetada do filho ideal. Enrijecem-se as fronteiras de contato (Ginger e Ginger, 1987, p.127) com a fantasia de que, agindo assim estarão protegidos, pais e prole. O ciclo de contato não se completa, não há retração nem a possibilidade de outros investimentos de energia. Introjeção, projeção e deflexão (Ginger e Ginger, 1987, p. 134-8) entrelaçam-se, afastando a díade mãe-filho do convívio saudável com a escola e reforçando o estigma, além de criar um mundo externo frio e cruel, diante do que a confluência pode vir a ser o recurso (resistência) utilizado. A awareness está comprometida e pode haver uma paralisação do processo. Há necessidade de considerar a existência (ou não) de auto-suporte, assim como a qualidade deste, para lidar com as questões que se colocam, assim como o perfil de personalidade anterior destas mães, se era mais ou menos dependente do apoio ambiental.

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O autor afirma que “a permanência do filho em casa, sem a iniciação escolar, isolando o filho da convivência social criou a falsa expectativa de proteção contra qualquer tipo de discriminação”, o que reforça a necessidade do apoio da equipe multidisciplinar para o enfrentamento desta nova realidade. (Miguel, 2007, p. 78). Relata sua percepção de um auto-suporte fragilizado, dependente do meio, ao que sugere a possibilidade de resolução de conflitos pessoais e familiares com a atuação do NPRLLP: “importância do acompanhamento e desenvolvimento escolar por centros especializados, no sentido de detectar problemas e fornecer o apoio necessário não somente à família e à criança, mas também à escola”. O trabalho integrado traz efeitos percebidos pelas mães e a evolução das crianças após o ingresso nas atividades escolares cria expectativa e satisfação da família em relação a esta nova fase, principalmente na comunicação e desenvolvimento de habilidades, o que também é percebido pelos profissionais do NPRLLP. Houve dificuldades em relação à escolha da escola e o início escolar. O adiamento da escola (que poderia ser um mecanismo de ajustamento se estivesse em função de fazer uma escolha mais adequada) foi percebido nas falas como uma forma de contornar (evitar?) o problema do medo do relacionamento com os pares. E o mecanismo de confluência como forma de lidar com a fragilidade percebida (e projetada) na criança, diante do novo meio, na fantasia de fortalecê-la diante dos desafios que, então, se colocam. A projeção idealizada do ambiente desejado parece também ter sido um dos mecanismos utilizados, tanto nos critérios de escolha quanto na justificação da evitação de uma escolha. O acompanhamento diário na escola foi associado ao medo do preconceito com a MFLP e não uma preocupação com a situação pedagógica e cognitiva escolar do filho (a), de acordo com a percepção do autor. A resistência em permitir uma vinculação espontânea e saudável da criança em seu novo ambiente também poderia encontrar-se relacionada à introjetos sociais destas mães tanto quanto ao seu papel de maternagem (Outeiral et al, 1991), já abalado pela geração de uma prole imperfeita, como aos valores e expectativas da sociedade com que convivem. As dificuldades de relacionamento de seus filhos (as) portadores de MFLP e o preconceito vivenciado em várias situações do cotidiano também foram identificados pelo autor nas suas entrevistas. Referenda o autor que os pais das

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crianças portadoras de MFLP se mostraram mais tolerantes a comportamentos socialmente inapropriados (Tobiasen, Hilbert, 1984 apud Miguel, 2007, p. 87); também a dificuldade na fala faz com que a criança se isole, não participando das atividades normais para sua idade. As mães procuram se adaptar a nova realidade e o NPRLLP lhes dá suporte psicológico a esta difícil fase, o que identifica como este trabalho e o papel desempenhado por elas, genitoras, no tratamento são de grande importância. O campo experiencial sofrerá grandes variações qualitativas

dependendo dos elementos que o compõem, aqui-e-agora, assim como das dinâmicas (forças vetoriais) que se estabelecem no seu interior. A família que estiver fora do apoio dos serviços de reabilitação de um centro poderá perceber o problema da má-formação de forma muito diversa do que aquelas participantes dos programas e, provavelmente, com recursos psicológicos menos aprimorados para um enfrentamento saudável da questão. O fenômeno reveste-se das características que nele são percebidas, na relação que com ele se estabelece; a clarificação das partes e a awareness sobre as dinâmicas criadas com o fundo permitem uma ação mais eficaz e com menos desperdício de energia. “O terapeuta precisa, também, conhecer as implicações que uma deficiência congênita, física ou mental, trará para o desenvolvimento e ajustamento de uma criança que, já ao nascer, apresenta uma condição orgânica diferente e que, portanto, vai constituir-se como pessoa a partir de uma estrutura orgânica peculiar”, o que lhe exige “a compreensão das limitações funcionais impostas pelas deficiências e a compreensão das condições afetivo-emocionais que as acompanham” (Amiralian, 2000, p. 35). Frente às dificuldades de relacionamento e o preconceito em relação a outras crianças, as mães procuram ajuda pela comunicabilidade, ficando ao seu lado, procurando socorrê-lo e explicando suas deficiências a outras crianças com que seu filho procura interagir. O autor afirma que “ela se tornou a porta voz da criança, traduzindo a sua linguagem alterada pela deficiência anatômica provocada pela fissura lábio palatal” (Miguel, 2007, p. 90). Pode ser uma reação diante da awareness de uma necessidade identificada pela mãe no filho (ajustamento criativo); porém, sua persistência além do necessário, ou a ausência de estímulo ao

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desenvolvimento de novos recursos comunicativos,

retoma, defensivamente, o

mecanismo confluente (Ginger e Ginger, 1987, p. 133) como forma de enfrentar a dificuldade no contato, podendo mais uma vez restringir as possibilidades de crescimento da criança, também complicadas por freqüentes períodos de afastamento para intervenções cirúrgicas. Segundo o autor “a criança inicia uma luta íntima sentindo a necessidade de aprender e ao mesmo tempo vencer o constrangimento de se apresentar entre as outras crianças”. Ciclos de contato da mãe e do filho são sobrepostos, confundidos e misturados como se todos fossem um só, mesclando e distorcendo as necessidades de cada um. Resulta a frustração da satisfação. As dificuldades de relacionamento e o preconceito em relação aos adultos e o meio em que vivem refletiram-se no círculo de amizades dos pais. A fala, muitas vezes anasalada, é motivo de risos e deboches da criança por parte dos adultos. A idade da criança e sua fala denunciam que ela não se desenvolveu, possui limitações, o que é motivo de brincadeiras não aceitas pelas mães. (Miguel, 2007) Papéis e clichês são priorizados em detrimento da experiência do encontro genuíno entre as pessoas, desprovido de preconceitos e capaz de vivenciar a plena aceitação do outro. O espaço pessoal encontra-se comprimido, invadido e a família cede lugar às exigências externas. A fala revelou-se a principal preocupação independente da classificação da fissura. “O não ser entendido, não se fazer entender despertou, por parte das mães, grandes preocupações com a interação social no convívio com os adultos”, e “procurar escolas muitas vezes longe de casa, onde está uma professora conhecida ou a facilidade de participar do dia a dia do seu filho”, (Miguel, 2007, p. 95) configuraram-se como um fator de segurança a mais refere o autor. O meio psicológico inscreve-se no meio social mais amplo e com ele realiza trocas nas suas fronteiras. Apenas um indivíduo (e uma família) resiliente poderá colocar-se de forma ajustada e saudável, mantendo sua capacidade para ajustamentos criativos, e se relacionando com o ambiente externo sem, no entanto sucumbir a ele e às suas pressões. Diante disto, o autor observa que as reações das mães em relação ao meio onde vive a criança portadora de MFLP procuraram principalmente proteger a criança. As mães relataram a preocupação com a socialização da criança e nesta

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preocupação permaneceram mais ao lado de seus filhos, procurando protegê-los. Aqui se inscreve também o impacto da situação do filho fora do lar que algumas mães resolvem acompanhando-o neste momento, mas, ao mesmo tempo demonstrando problemas em relação a uma desvinculação psicologicamente saudável. No seu extremo, revelam-se esforços no sentido de tentar controlar uma situação até então desconhecida e que desperta intensos temores, podendo levar a condutas inadaptativas, como o isolamento social. Outras conseguem retornar ao trabalho procurando adequar o horário do trabalho com o horário da escola da criança Manifestam sentimento de agradecimento aos profissionais em relação à comunicação de melhora de seus filhos e todo o auxílio no processo de início escolar. Diz o autor que “é importante ressaltar o aspecto multidisciplinar que deve envolver todo o processo de reabilitação desse paciente. A interação entre as várias especialidades deve procurar, dentro de um planejamento muitas vezes em longo prazo, buscar a reabilitação do paciente portador de má formação lábio palatal e também dar suporte para as pessoas próximas envolvidas com o tratamento. (Miguel, 2007, p. 109)

CONCLUSÕES O início escolar pode ser considerado como um momento de grande relevância para a inclusão social de qualquer criança, suscitando sentimentos, emoções e comportamentos diversos, do ajustamento criativo a disfunções de contato e, em especial, na criança com necessidades educacionais especiais e sua família. Oscilam entre superproteção, frustração, desconfiança, negação, aceitação condicional, revolta, culpa, isolamento social, medo, evitação, contato graduado, ajustamento saudável, o que depende do campo psicológico, pessoal e social em que o conjunto faz contato, suas características e dinâmica. A informação dos pais de uma criança com MFLP sobre a patologia e o plano de tratamento estabelecido em conjunto com a equipe multidisciplinar, elemento importante na promoção do bem-estar pessoal, grupal e coletivo, é desenvolvida por meio do apoio, intervenções e orientações, incluindo a escola da criança.

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tanto em nível individual como coletivo. criando tantas configurações quantos fenômenos educacionais ocorrerem. A Psicologia. em que a integração da pluralidade do grupo profissional reflete a dinâmica da diversidade em que a própria criança está sendo incluída.e incrementando o auto-suporte. criando condições para desenvolver habilidades e conhecimento. revela-se como grande fator de intermediação entre a família e a instituição de ensino. uma visão holística. vista desta forma. Apesar da vivência do início escolar no relato das mães ser muito individual. A inclusão escolar. dependendo do conjunto aqui-e-agora. escola acessível. ambivalência materna. a projeção e a confluência mostram-se predominantes no grupo estudado. está inserida no todo do tratamento do paciente portador de MFLP. preconceito. isolamento social. implica em uma profunda revisão de condutas onde não somente o paciente-aluno deve deixar de ser visto como centro das atenções. não atratividade facial e capacidade de comunicação da criança. aqui identificada pela Gestalt-terapia. perceber a totalidade desta demanda. suporte ambiental. que deve privilegiar sua relação com a saúde geral. com o ambiente e com sua qualidade de vida. A homeostase préescolar é abalada pela iminência da escolarização. Segundo o autor. insegurança com o meio. das figuras-fundo que se estabelecem. é papel dos profissionais da área da saúde produzir conhecimento e não simplesmente incorporá-lo e consumi-lo. como se flexibiliza o movimento figura-fundo da educação. das relações entre todo-parte de cada sistema. dinâmica familiar. aparece como disciplina possível 356 . A escolha da escola torna-se um processo desvinculado do aspecto didático pedagógico da instituição e o apoio da equipe à escola.Fenômenos como o impacto do nascimento. A falta deste apoio pode favorecer o desenvolvimento de disfunções de contato. interagem segundo leis configuradas em cada totalidade relacional. A intersecção entre conhecimento e educação poderá proporcionar a transformação necessária contribuindo para a formação global do ser humano. sendo que a deflexão. com efeitos profundos na função familiar. onde também o psicólogo está inserido. suporte prestado pelo NPRLLP. Cabe aos profissionais da equipe multidisciplinar. despertando competências e proporcionando conscientização para uma melhor qualidade de vida para todos.

Estudos como este indicam a necessidade de aprofundamento das questões psicológicas que envolvem a pessoa com necessidades educacionais especiais para promover o sucesso da inclusão escolar.” (Reis. neste estudo com a Odontologia. tanto curativas quanto preventivas. é antes uma arte que se aprende e desenvolve. “Ouvir e aceitar o outro não é um dom.de interagir multidisciplinarmente. produzindo um novo conhecimento acerca da MFLP e suas repercussões e delineando estratégias holísticas de intervenção. 2003) 357 .

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