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VIEIRA, Alberto (1991):

As POSTURAS Municipais da Madeira e


Açores dos séculos XV a XVII,

Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira,


Angra do Heroísmo, IHIT, vol. XLIX, pp.11-52

COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:

VIEIRA, Alberto (1991): As POSTURAS Municipais da Madeira e Açores dos séculos XV a XVII,
Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, IHIT, vol. XLIX, pp.11-52.,
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ALBERTO VIEIRA

AS POSTURAS MUNJCTPATS
DA MADEIRA E AÇORES
DOS SÉCULOS XV A XVII

IIISTÓRICO*DA

Separda do Boletim Hislónco dn Ilha Terceira


dn~nrfilafo
Volume XLIX - A no & 1991
Boletim do Instituto Histúrico da Ilha Terccii'a t1

AS POSTURAS MUNICIPAIS DOS AÇORES E MADEIRA


NOS SÉCULOS XV A XVII
(Bciififise comparada e sistemiitizaçfio do dircito local)

Por: Alberfo Vieira

As posturas municipais, mercê da sua dupla


I .
fundamentação, reflectem no seu enunciado as ordenações
regias, reescritas de acordo com as particularidades de cada
município, e os sentimentos comunitários do justo e do çon-
veniente, para isso 6 necessArio ter em conta que na sua
formulação o legislador deveria atender .ao prol e bom regi-
mento da terra. ''). Deste modo o seu articulado era o espe-
lho da vivencia quotidiana do municipio e da adequação das
ordenações e regimentos do reino às novas condições politi-
tas e econbrnicas .
-

( 1) De acordo com o enunciado das Q r d e n n ç ~Afonsinas , I . 66-28.


12 Bolctiin do Tnstituio Histórico dri Ilha Terceira b l c t im do Instituto Histórico da Illia Terceira 13

Tais condicionantes justificam o carácter precario e a De acordo com as condições acima enunciadas as
permanente mudança do c0digo de posturas, que conduziu a
posturas surgem como a fonte mais importante para o estudo
diversas compiIações e assiduas aiterações do seu articulado
do direito local. Mas a sua importAncia não se esgota aqui,
"" :reforma das posturas sucede-se com assidua fre- pois o facto destas reflectirem no seu enunciado as preo-
quência, sendo de registar, por outro lado, crue a leitura das
cupações e dominios de intervenção do burgo leva-nos a
vereaçóes nos revela essa incessante necessidade. Talvez
valorizá-las com uma importante fonte para o estudo e co-
por isso mesmo em muitos rnunicipios não se fez a neces-
nt-recirnento da realidade municipal .
sária compila.ção em livro, ficando estas apenas lavradas De acordo com essa situação decidimo-nos por urna
nas actas das vereações em que foram aprovadas. Por outro anhlise comparada das posturas das principais urbes insu-
lado o facto de estas serem, por vezes medidas legislativas lares dos arouipelagos da Madeira e Açores (Angra, Funchal
de circunstância levava a sua imediata desadequação e a e Ponta Delgada). no sentido de estabelecermos os principais
necessidade da sua reformwlação ou revogação. Assim em vectores sOcio-económicas ai institucionalizados e as poç-
1670 o procurador do concelho de Ponta Delgada justificava siveis ligaçbes entre os referidos códigos de direito local. Por
a alteração ou reforma das posturas, dizendo que as exis- outro lado o facto de se situarem nestes municípios os prin-
tentes e s t a v a m anticoadas e se goardavarn mal com que cipais vectores s6cio-económicos do Mediferráneo Atianfico
avia muitas desordens e malfeitores ( . . . )» 13'.
aortugues , pensamos ser possivel extrair dai informações
concludentes sobre a ar2iculação dos poderes e do interven-
I3 A obi.igaíorifdadc iJo.7 porluras s e r e m c3ia~adnsetii l i i r o prciprtu foi
d ef ~ t i r d anas oi~dciiaçdrsrPgius I v e ja-se ri . ..Ilorrucl IIESPrb~7I,1.flis tíirrri cionismo económico subjacente a essa realidade. Todavia a
das Trist~ruiçdes- . . , Foinrbro . 19S3. 2611. Assiin sirrgrnr as contpilaqfies necessidade de ampliar a analise dessa realidade levou-nos
d a s postura7 do Funcl~aldr 1572 e 1597 r\rquivo Iliçtfirico da Madzira. ao encontro doutros codigoç de posturas emanadas pelos
r o l . I c R, 1931-32; Avaro .llntiso de SOC7S,I, curiosidades Ilislóricns rJn municípios periféricos. Assim serão consideradas as pos-
iilta», iti Das Artes e Da JJistQria da MaJeira , supi. de O Jiirrial , ri' 4961- turas da Ribeira Grande e Vila Franca do Campo, estas 01%
SOdJO, 19491, enqttanto nos Açores lemos a reJorma das posturas d e
Angi-u a I 2 de Outzibro de 1655 1Lills dn Silva N D f I R O , Obras 11,
mas recolhidas por Urbano de Mendonça Dias "' . A razão da
Ilistória , Airyi.u do Hrrofsiiln. 1983, 361-4111, de Soo S e b u s f i ~ ode 1575 sua escolha radica-se no facto de terem sido reunidas e pu-
e d~ Poiita Delgada a 8 de Junho de 1670 Icompiladas pelo .Iforques de .
blicadas tornando-se fácil o seu acesso e estudo ".
Jdcotire COXRELI, *Posturus du cu"muro d e Porzfu Delgrlda do sPcir(o De acordo com o enunciado acima estruturamos o
X l T * , in Arquivo dos .,fçores, vol. X W , Ponfa Delgada. 1953. pp . 124- estudo das posturas em causa em dois dominios :
188). Sara os demais i~zunicfpiosde ambos os urquip&lagos ndo se coni'rece
qualquer compilaçdo d e posblras anterior ao sbculo X J ; s6 a partis dessa
data surgem as da IIor!a,pirblicadas por Antdnio Ferreira SERPrl (in Tns-
tituto, 1-01. LY17P, 19161, enqllanto tios arquivos n~uniripoisda Ribeira (4 A iida de iiossos avbs, YO[S. m,l Y , e Fm,Vi'iIoF r a ~ c ado Çanipo, 1948.
Grcrnde 118 171, Viil~? Franca do Canqo (1815-17 , 1877-1 91 71 e 17ila do (5) IIfi riol3cia dns Pusturar da 1-forla d e 1682-1845 Arquivo Distrital da
Porto 11780-1933) encontrain-se os respectivos livros de posturas Ilorta, na 13I ) e dp >frrc{ric~(Manuscrit~sda Ajuda-guia, t'o! . 1. Lisboa,
(3) Arquivo dos Açores, ,WY,173.
14 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira 15

1 . SisternatizaçClo e analise comparada da sua municipios portugueses procedendo a algumas alterações na


temática ; sua orghnica 17'.
2 . Confrontação das mesmas com o direito local do
reino, nomeadamente o código de posturas de 3. Para que a analise comparada das posturas sus-
Lisboa, com o intuito de definir a sua funda- gisse com maior clareza a sua abordagem sera feita a partir
mentação e expansão. dos seguintes aspectos :

2 . As posturas ao surgirem como normas regu- 1 . Regulação dos cargos municipais e da admi-
ladoras dos rniiltiplos aspectos do quotidiano do burgo são o niçtraçZio da fazenda municipal ;
indício mais marcante da mundivfdencia do rnunicipio. De
acordo com as ordenações e regimentos concedidos ao 2. Regulamentação das actividades econbmicas de
burgo, a municipio tinha atribuiçaes legislativas particulares acordo com os sectores de actividade, as as-
resultantes, nomeadamente. da necessidade de adaptaçáo pectos mais salientes da vivencia sbçio-eco-
das disposições gerais do reino 4s condiçdes do espaço a nbrnica do burgo - rural, oficina1 e mercantil em -
que seriam aplicadas: por um lado tinhamos as disposiçaes conjugação com os factores propiciadores dessa
gerais, estabelecidas pela coroa e por outro as normas de animação urbana ;
conduta institucionalizadas no direito consuetudinário, que
impregna e define as particularidades da vivencia local 3 . Institucionalização das normas de conduta e da
De um modo geral podemos considerar que o muni- sociabilidade mercê da regularização dos cos-
cipio portuguès nos seculos X V I e XVII disfruta de ampla tumes e do comportamento dos grupos marginais
autonomia e de uma elevada participação das gentes na go- -meretrizes, escravos. mancebos ;
vernança . Todavia com o decorrer da pratica municipal essa
autonomia revelou alguns atropelos que levaram a coroa a li- 4 . Medidas tendentes A criação de uma ambiencia
mitar a sua alçada por meio da intervenção de funcionários re- de salubridade no burgo tendo em conta o
gios , como o corregedor. Tendo em consideração essa am- necessario asseio e profiláctica das tradicionais
biencia os monarcas filipinos , aquando da união das coroas epidemias da &poça.
peninsulares (1580-1640). procuraram cercear os poderes dos

17) Se' ja-sc o estudo que apresentamos conjujzintamenle com Victw R O m G U f l


(6) F. Paul W G m S .Estudos de Direita Municipal. As Posturas, Lisboa. e Avelino .kEKEZES, A\funicfpio do Fgnclial. 1550-1650, in Coldquio
1938. 285. 302-303; A . Manuel HESPAWA , Ob . cit . , 265-283; Iria Ititcrnacional de HistQria da Madeira, FUh?CIIAL, 1986; Alberto r*mI e
GO-VÇALES, uPosturas Afunicipais e vida urbaw na baixa Idade Média: o r i t o r RODRíGUES, Adminisfraçdo do 3funicipio do finchal. 1470-
exeinplo de f i s b m , In Estudos Medievais, d 7. Porto, 1986, 155- 172. 148% in I1 Collqio Internacional de Histbíia da Madeira, F ~ n c h l 1989.
,
16 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira 17
Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira

A intervenção e alçada dos cargos municipais defi- Esta situaçáo de dominância dos sectores secundbrio
nidas nas ordenações e regimentos régios nao careciam de
terciário poderá resultar de diversos factores. Em primeiro
uma redefinição no cbdigo de posturas, e deste modo o
código das posturas apenas estabelecia normas para a lugar convém referenciar que as posturas incidem preferen-
intervenção dos funçionArios municipais empenhados na sua cialmente sobre a urbe, espaço privilegiado para a afirmação
aplicação: no caso os rendeiros do verde e os almotacks . do sistema de trocas e oferta de serviços. reanimado pelo
seu carácter atlantico e europeu. Assim as cidades do Fun-
A s çaracteristicas ou vectores das sociedades e
economias insulares reflectem-se no articulado das posturas.
chal, Angra e Ponta Delgada. ao surgirem como importantes
pelos de atracçáo do movimento comercial insular inter-con-
Deste modo a maior ou menor valoração é , sem d h i d a ,
resultado da premência do qu~tidianoinsular.
.
tinental verão afirmar-se esses sectores de actividade.
Alem disso a animação oficina1 e comercial do burgo pelo seu
De acordo com a divisão em sectores de actividade
carácter e ritmo acelerado implicava uma maior atenção mer-
econárnica constata-se a dominância do sector terciario com
cê tambkm do maior número de situaçbes andmalas .
53%das posturas, seguido do secundário com 39% e do A rnundividència rural perpetuava tkcnicas e relações
primário com apenas 8% ''I. Esta tendencia para a ter-
sociais ancestrais, sendo a sua animação regulada pela roti-
cearização da realidade sbcio-econdmica deverá resultar,
na e ritmo das colheitas e estaçóes do ano. Ai pouco ou nada
por um lado, do facto de o meio urbano gerar maior numero
mudava com o decorrer dos anos. Deste modo o legislador
de situaçdes que carecem da intervenção do legislador e, por
municipal canalizava a sua atenção para o quotidiano do bur-
outro, da expressáo plena da sua dorninancia na vida
go , marcado pelo sucedâneo de mudanças. Todavia para as
economica . Todavia e necessário ter em consideração que
sociedades
---- em que a faina rural se torna importante e defini-
esta realidade varia nos diversos municipios. No Funchal os
dora dos vectores sócio-econbmicos. esse espaço não poderá
sectores secundário e terciário encontram-se numa situação
ser menosprezado. Assim teremos cerca de 13%das posturas
muito prbxirna. ao contrário do que sucede com Angra onde
dedicadas a esse domínio, na sua maioria nos municípios d e
este ultimo sector tem uma posição dominante 'g'. Vila Franca do Campo e Ponta Delgada na ilha de S. Miguel .
A ocupação e exploraçáo do espaço insular fez-se
(8) AIberto UEIR.4, ctA questdo cercallfera nos Açores nos sécu[os XT'X1711
lelenzetttos posa o seu e s t t r d o h , i n Arquiptlago, s 6 r i e IIlst61-ia e
de acordo com os componentes da dieta alimentar do incola -
Fi[osofia, vol . KT.rP J , Ponla Delgada, 1585. pp . 135-138. trigolvinho - e dos produtos impostos pelo mercado europeu
19) Tara a sisrematizaçao das posturas d e acordo com os sectores d e ac- Para satisfaç8o das necessidades das praças europsias -
tividade tivenlos em consideração a seguinte definiçdo de cada sector: a~ucar/pastel.Todavia o primeiro grupo agricoia. pela Sua
Prirndrio - prodrrçdo de matfrias primas (agricultura. floresias, minas, importância na vivencia quotidiana das populaçóes insulares
pedreiras, pescas e salinas1 e os ofícios ou actividades a elas sela- Solicitava maior atençáo do município pelo que 58% das pos-
cionadas; secundbrio - actirjidade industrial (fabrico e tronsformnçdo dos turas relacionadas com a faina rural incidem sobre esses pro-
produtos manufacturados), consfruçdo imobilidria e obras peiblicas; dutos, enquanto o grupo sobrante merecia atenção em ape-
tercidrio - transporte, cdmtçrcio, serviços piibliços .
nas 15% dessas posturas.
18 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira Role1irn do Instituto Histórico da Tllia Terceira

A distribuiçElo dos referidos produkoç nos dois arqui-


das indiisirias de curtumes e calçado. Note-se que ao nivel
pkfagos obedecia as orientaçoes da política expansionista da da intervenç50 do legislador local essa situaçáo apresen-
coroa e dos vectores da subsistência e condições clirnAtlcas
tada na inversa uma vez que a Sua carencia implica uma
de cada ilha. Tais condicionantes Implicaram uma ambiençia
regulamentação mais cuidada e assídua do senado do que a
peculiar dominada pela complementaridade agricola das ilhas
- - - abundancia . Tal situação expressa-se na intervenç80
sua
ou arquipklagos . Deste modo as posturas articular-se40 de dos rnunicipios de Angra e Ponta Delgada que faziam de-
acordo com essa arnbiencia tipica do mundo insular atlantico, pender o seu abastecimento pecuArio das urbes ou ilhas
reflectindo no seu articulado a importância desses produtos vizinhas. Assim Ponta Delgada assegurava em Santa Maria,
na vivência de cada burgo. Ribeira Grande e Vila Franca do Campo a sua raç%ode carne
A abundância ou carência do produto em causa defi- e derivados, enquanto Angra fazia depender esse abas-
niam situações diversas na intervençao do legislador. No tecimento das ilhas de S . Jorge e Graciosa.
primeiro caso essa intervenç8o abrange todos os aspectos O desenvolvimento da indiistria de couro tinha im-
da vida económica do produto, enquanto no segundo incidem plicações ao nivel da salubridade do burgo pelo que-o senado
preferencialmente sobre o abastecimento do mercado in- sentiu a necessidade de regulamentar rigorosamente esta ac-
terno, definindo ai normas adequadas ao normal funciona- tividade, definindo os locais para curtir e levar os couros e o
mento desses circuitos de distribuiçzio e troca. Assim, se jus- modo de laboraçáo dos mesteres a essa indUstria ligados. A
tifica a similar irnportancia atribuida As posturas cerealiferas par disso procurava-se assegurar a disponibilidade desta
nas ilhas de São Miguel (Ponta Delgada e Ribeira Grande) e matéria-prima para a indlistsia do calçado, proibindo-se a
Terceira (Angra). Enquanto a primeira se pode considerar sua exportaç%o;note-se que esta medida e comum a Angra,
como importante celeiro do mundo insular a ultima surge, Funchal e Ponta Delgada.
desde meados do século XVI , como uma área carente que Esta situação aliada a outras medidas tendentes A
assegura o seu abastecimento nas ilhas vizinhas. Situação defesa da salubridade do burgo revelam que a pecuária tinha
semelhante ocorre com o vinho do Funchal, em Ponta Del- uma importancia fundamental nestas ilhas; era dai que se ex-
gada e Angra. Apenas com os produtos tipicos da economia traiam a carne para a alimentação, os couros, para a indiis-
colonial - açúcar e pastel - se define uma arnbiència idêntica tria de cutiumes e o estrume para fertilizar as terras, além
na ilha da Madeira e São Miguel. do usufruto da sua força motriz no transporte ou lavra das
A pecugria assume em todo o espaço agricolã insular terras; na realidade era urna grande fonte de riqueza que
uma dimensão fundamental merc8 da sua tripla valorizaçCio mereceu redobrada atençCio dos municípios do Funchal e
ecomómica da faina agricota, dieta alimentar e indústria do Ponta Delgada.
couro. Este sector tem uma posiçao relevante nos rnunicipios uma das mais destacadas preocupações dos muni-
de Ponta Delgada, Angra e Funchal . O seu incentivo con- cipios insulares resultava dos danos quotidianos do gado
duziu a urna valorização da intervenção municipal na venda s ~ l t o não
, apastorado , sobre as culturas, nomeadamente
de carne nos açougues municipais bem como a valorizaç50 na3 vinhas, searas e canaviais. Dai a necessidade de deli-
20 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira Boletim do Iiistituto Histórico da I l l ~ aTerccirn 21

rnitaçao das Areas de pasto e a obrigatoriedade de cercas as ,c"car, coexistiram os regimentos régios e as respectivas
terras cultivadas. Alem disso um conjunto variado de pragas posturas " I ' .
infestava, com assiduidade, as culturas o que obrigava a 0 s componentes da dieta alimentar insular adquirem
uma participação conjunta de todos os vizinhos. Uma das uma posição relevante na intervençio dos municipios que a
principais resultava da acçao dos pássaros, nomeadamente isso dedicaram 47% dos capítulos dos referidos códigos de
os canários e corvos: os primeiros incidiam sobre o rnunicipio O que demonstra as assiduas dificuldades no as-
de Vila Franca do Campo. Para os combater os municipios segurar dessa necessidade vital nos municipios. Essa preo-
estipulavam a obrigatoriedade de todos os vizinhos apresen- c u p a ~ á o ,no entanto, era muito variável no tempo e no espa-
tarem com periodicidade um niimero variado de cabeças dos ~ o adequando-se
. a realidade agricola de cada urbe e 6 con-
.
referidos pgssasos que. depois seriam registadas em livro juntura produtiva. Deste modo o seu articulado, para além de
prbprio; o seu numero era variavel de acordo com o espaço reflectir essa dupla dimensão esphcio-temporal evidencia
agricola de cada proprietário e com a urgencia do combate. uma das componentes mais destacadas da alimentação das
No domínio agricola a atençao do municipio variava, de gentes insulares.
acordo com a dominância das culturas existentes na extensa Tudo isto resultara. cedamente, do facto de a dieta ali-
orla agricola que cercava a vila. Assim no Funchal, que abar- mentar manter a sua ancestral origem rnediterranica , sendo
cava uma das mais importantes areas de produç5o açuca- deste modo pouco variada, o que colocava inúmeras dificul-
reira da ilha da Madeira, essa preocupaçao incidira sobre os ca- dades no abastecimento do meio urbano; o pouco uso dos
naviais e engenhos, definindo a cada um o complexo processo legumes e peixe derivava do uso abusivo do p?io e do vinho.
de cultura e transformação. Os Açores, conhecidos desde o Sendo os mares insulares ricos em peixe e marisco, e toda a
sbculo XV como o principal celeiro portugues , obviamente, vivencia dessas populações dominada pelo mar e extensa
maior atençso ser8 dediçada a questão cesealifera. costa não se percebe desse menosprezo pelas riquezas ali-
Estranhamente a cultura do pastel, que tinha uma im- mentares marinhas em favor da carne "*'. Note-se que as
portancia relevante na economia micaelense , não merece ai Posturas referentes a carne duplicam em relaçao As aue re-
grande atenção; em Ponta Delgada surgem apenas duas pos- feremiam o peixe. Apenas em Angra e no Funchal o peixe me-
turas e em Vila França do Campo sete, enquanto em Angra rece a atenção do legislador; ai regulamenta-se, n2o sb a
$6 se referencia uma hnica sobre a urzela. Essa pouca sua venda. mas tambern a pesca, dando-se especial atençao
atenção dada As plantas tintureiras devera resultar cer- em angra a forma da sua distribuição no mercado local.
tamente da exis28ncia de regimentos régios que regulamen-
tavam, ate a exaustão , o cultivo, transformaçSo e comércio (1 1) Fraiicisco Carueiro da Costn, A c u l t u r a do pastel nos Açores. Subsídios
deste produto '"'.Todavia no caso da Madeira, em relação ao para a sua Histbria, Porrta Delgada, 1966; Afaria Olfnipia da Rocha GIL,
d'i Açores e a nova economia de niercodo (st!culos XVI-XF.'IfI,* i n
Arquipelnga, Iii. Ponta Delgada, 1981, (serie Ciências ~ i u m a n a s ) ,
1105 Alberto YIEIRA, O corntrcio inter-insular nos séculos X V e X V I , 393-400.
Furtchd, 1987,29-30" (13 AlGei4re&EIRA, Ibidcm, 117-1 18.
22 Boletim do Instituto Histbrico da Ilha Terceira Boletim do .Instituto Histhrico da Ilha Terceira 23

A importância relevante do pão e da carne na Ao moinho sucedia s forno, colectivo ou privado,


alirnentaçáo insular implicou uma redobrada atenção das assegurava a cozedura do p8o consumido no burgo. A
autoridades municipais sobre a circulaçao e venda destes pública deste espaço resultava da existencia das
produtos. pelo que o código de posturas acompanha todo o do ecosistema insular; na Madeira e nos Açores,
processo de criaç2io , tsansformaç30, transporte e venda apbs uma fase inicial em que estes eram privilégio do sen-
desses produtos. De igual modo B atribuída particular horio, assiste-se a uma excessiva proliferação de fornos no
atenção ao quotidiano que envolve a actividade das azenhas, burgo e arredores. Todavia a maior parte do pão ai con-
atafonas , fornos e açougue municipal. sumido era oriundo dos fornos públicos. Deste modo o
O moleiro deveria ser habilitado e diligente no seu municipio procurava exercer um controle rigoroso sobre o
oficio. tornando-se obrigatório o exame e o juramento anual peso e preço do pão; ambos eram fixados em vereação de
em vereaçtio. Na sua acção diária atribuis-se particular acordo com a situação das reservas de cereal existente nos
atenção ao peso do cereal e da farinha bem como ao acto de celeiros locais. Alem disso em momentos de penuria era a
rnaquiar: na Madeira essa tarefa estava a cargo de um ren- vereaçao que procedia A distribuição do cereal pelas pa-
deiro dos moinhos. Apenas em Angra, Ribeira Grande e deiras.
Funchal este domínio merece uma cuidada atençao nas pos- Esta preocupação de abastecimento de pão ao burgo
turas; o mesmo n3o se poder8 dizer de Ponta Delgada, que surge apenas no Funchal; aqui 4 activa a intervençao dos
fazia moer o seu trigo nos moinhos existentes na vila da alrnotaces sobre o fornecimento do cereal e farinha, fabrico
Ribeira Grande '13'. do páo, com a conferencia do seu peso, e no estabele-
A necessidade de precaver o moinho contra qualquer cimento do preço de venda ao publico: tenha-se em conçi-
dano na farinha e farelo levou o legislador a estabelecer a deração que este municipio foi pautado, desde finais do
proibição de pocilga e capoeira nas suas imediaçaes . Alem século X V , por uma extrema carência de cereais, o que
disso a animação desusada do espaco circundante tornava gerou, como é óbvio, esta especial atenção par parte da
neceçsAria a intervenção do municipio a definir normas de vereação '''L 0 unico reflexo de urna similar intervenção
conduta social no sentido de moralizar e disciplinar o compor- municipal neste dominio nas ilhas açorianas situa-se apenas
tamento dos habituais frequentadores do moinho. Deste modo na feitura e venda do biscoito, elemento indispensável para a
na Madeira não era permitido As mulheres casadas ou man- dieta de bordo: sendo os portos de Angra, Funchal e Ponta
cebas permanecerem a i , ao mesmo tempo que Ihes era Delgada importantes entrepostos do comercio atlantico é
vedada a prestaç3o de qualquer serviço na moenda . natural o fabrico desse produto e a redobrada atenção que
Ihes atribuiam os municipios (15'.
113 ) Ibidem, 31; A . Santos PEREIRA, «O concelho de Ribeira Grande (S.
Miguell: aspectos ecort6micos e sociais no stsculo .WB,in Bolet irn do Ins-
tituto Histbrico da IIha Terceira, i o l . XLY. t . 11, Angra do Herotsmo. (14) Alberto KEW, ibidem , 36-40.
1988, 1113-1134. (1 5 ) Ibidem, 17-24.
24 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terccira Roletini do Tnstituto Histórico da Ilha Terceira 25

O açucar , ao invhs , *afirma-se na economia insulana l e c ~ á ocriteriosa dos seus agentes , que deveriam prestar
corno o principal incentivo para a manutençao e desenvol- juramento em vereaçáo todos os anos. Essa actuação era re-
vimento do sistema de trocas "". Tal situação associada ao forçada com a intervenção do lealdador. oficial concelhio que
caracter especialiazado da safra do açucar tornou necessaria tinha por rniss3o fiscalizar a qualidade do açúcar lahorado.
a sua coordenação pelo &digo de posturas na Madeira. A O uso abusivo, pelos seus agentes de transfor-
intervenção municipal não se resume apenas aos canaviais e mação, do produto em laboraçso levou o municipio a estipular
ao complexo processo de IaboraçZio do açbças mas tarnbkm pesadas coirnas para o roubo de cana, socas. mel e baga-
integra outros dorninios que contribuem de modo indirecto ç o . Além disso procurava-se evitar a existência de condi-
para o desenvolvimento da indústria em causa. Assim jus- ções que apelassem ao furto, definindo-se a proibição de
tifica-se a extrema atenção concedida As aguas e madeiras, posse de porcos a qualquer agente que laborasse no engenho
elementos imprescindíveis para a cultura e indústria açu- ou a impossibilidade do pagamento dos serviços ser feito em
careira . Neste dominio a intervenção municipal adequa-se as espécie.
condiçaes mesológicas de cada Area produtora, variando as O processo de laboraç50 e transformação de ar-
suas iniciativas de acordo com a maior ou menor disponi- tefactos surge como um polo destacado de animação do
bilidade de ambos os factores de produção. burgo ocupando um numeroso grupo de mesteres com as-
A Madeira, disfrutando de um vasto parque florestal sento em Areas ou arruamentos estabelecidos pelo rnunicipio.
e de abundantes caudais de água, n3o necessitava de inter- A necessidade de um apertado sistema de controle sobre a
vir exageradamente neste dominio reservando a sua atenç%o classe oficinal no sentido de uma exigência de qualidade dos
para a safra do engenho. Aqui as posturas definem os cuida- artefactos produzidos. de um tabelamento dos produtos e
dos a ter com a cultura dos canaviais. o transporte da cana tarefas condicionori essa desmesurada atenç5o do legislador
e lenha pelos almocreves, bem como a aççZio dos diversos insular com 21% das posturas em análise. Note-se que essa
mesteres no engenho. A esse numeroso grupo de agentes de intervenção não & uniforme nos dois arquipelagos , uma vez
produç8o que assegurava a laboração do engenho era exi- que a postura vai de encontro a uma multiplicidade de fac-
gido o máximo do seu esforço para que o açucar branco tores, condicionantes da desenvolvimento da estrutura
extraido apresentasse as qualidades solicitadas pelo mercado oficina1 . Assim teremos uma maior incidencia das posturas
consumidos europeu. Deste modo concede-se especial nesse dominio apenas no Funchal, Angra e Vila Franca de
atenç3o $ forrnaçao dos mestres de açucar, refinadores, pur- Campo. Todavia nos municipios açorianos esse sector de
gadores , ao mesmo tempo que era exigido ao senhor uma se- actividade não adquire a importancia relevante que assume na
- Madeira, o que podera ser indicio do fraco nivel de desenvol-
(16) A experiência de cuRivo da cana-de-açticar nos Açores (em S . Miguel. vimento dos serviços e do sistema de trocas.
Terceira e Santa :lfurial foi efémera e ndo se apresentou como uma com- É necesshrio ter em consideraçao que essa ex-
ponente relevante da economia do arquipélago, daí a sua ausência nas p r e s s a ~da vida oficinal do burgo n3o 8 igual em todas as
posturas; confm~te-seAlberto J5EiR.4, ibidem , I14 . posturas dos municípios estudados, apenas no Funchal 6
26 BoIetim do Instituto Histlárico da Ilha Terceira Boletim do Instituto Histbrico da Ilha Terceira 27

patente a sua maior incidência e variedade dos oficios abran-


municipios açorianos: aqui regulamenta-se, de forma exaus-
gidos, sendo menor nos municipios açorianos: por exemplo
t-.i .v-a, os oficios ligados à produção (canavieiro , esburgador).
em Vila Franca do Campo a preocupação dos vereadores in-
transporte (almocreve. barqueiro e mestre de navio). trans-
cide quase que exclusivamente sobre dois oficios ligados aos
formação (alfaiate. caldeireiro, ferreiro, ferrador. forneiros.
transportes - barqueiro e carreiro. Mas aqui & de salientar,
mestre de engenho, moleiro. oleiro. ourives, tacheiro, tanoei-
ainda, a importância atribuida aos oleiros, actividade com ro, sapateiro) e comércio (carniceiro, franqueira , mercador,
grandes iradiçbes neste município. Em Angra e no Funchal pescadeira, taverneiro e vendeira) nos produtos e adefac-
eram os moleiros que mais problemas causavam ao burgo e tos , enquanto nos Açores apenas, num ou outro sector de
por isso mesmo mereciam maior cuidado e vigilancia dos actividade, surgem referencias avulsas.
almotac8s. Essa ambi&ncia heierogenea resulta da situação
A maioria dos oficios referenciados pertence ao sec- sócio-econbmica de cada burgo . Assim em Vila Franca do
tor secundArio e terciArio, tendo o primário fraca represen- Campo, dominada por grandes areas agrícolas terá um de-
tatividade. Tal situaç%o expressa a irnporiancia que ambos senvolvimento importante do sector de transportes, neces-
os sectores de actividade assumem nos rnunicipios , e resulta sário ao escoamento desses excedentes. O mesmo suce-
do facto de estes dominios serem mais vulneráveis As mu- dera com a cidade de Angra em que a sua missão de porto
danças do dever historico e propiciadores da fraude e furto. oceanico conduziu ao elevado desenvolvimento dos oficios
Os oficios s3o o esqueleto em que assenta a vivgn- ligados A a!irnentação.
cia do busgo pois vivificam e animam toda a actividade dos A intervençso do legislador municipal na faina oficina!
arruamentos e praças. Dai o grande empenhamento dernons- orientava-se no sentido da regularizaçCio dessa actividade.
trado pelo cbdigo de posturas. A i destaca-se a actividade A i se definia de modo rigoroso o processo de laboraçao e a
transformadora e o sector da alimentação sendo maior, no tabela de preços para as tarefas e artefactos. A qualidade
primeiro caso, na industria do calçado e , no segundo, na do serviço e produto n3o resultava apenas da concorrência
rnoenda do cereal e venda de carne. na praça mas fundamentalmente da vigilância das corpo-
De um modo geral os oficios referenciados nas pos- rações e da exigência do exame ao aprendiz. O juramento
turas incidern sobre os sectores secundario (56%)e terciario anual associado A necessidade de prestação de fiança com-
(36%),com especial destaque para a actividade transfor- pletavam o controle municipal. Todavia na Madeira os Ou-
madora e sector alimentar. Tal situação vai ao encontro da rives e tanoeiros deveriam apresentar em vereação a sua
visão geral do articulado das posturas, mas aqui mantém-se marca para que constasse dos livros da Câmara.
o predominio do sector terciario e apenas no Funchal o se- A oficina da lugar ao mercado ou praça, espaço
cundario se aproxima deste, merçe do elevado desenvolvi- privilegiado para a distribuição e escoamento dos artefactos.
mento da estrutura oficina1. Note-se, ainda, que era no Fun- *i o municipio redobrava a sua atenção de modo a esta-
chal que se encontrava uma maior variedade de oficios, situa- belecer regras regulamentares do sistema de trocas. Esta
ção contrastante com a exígua referPncia e sobriedade dos surge como uma das principais preocupações do município
28 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira 29

pois das posturas referençiadas 28% incidem sobre o mer- terna implicava necessariamente condicionamentos no
cado, repartindo-se essa actuação entre o abastecimento de movimento de entrada. Ao invés a carencia. nomeadamente
bens alimentares e artefactos. Nesse dorninio B dada par- de bens alimentaress conduz ao estabelecimento de medidas
ticular atenção aos pesos, medidas e preços. incentivadoras na sua entrada e de um controle rigoroso do
A praça domina o espaço urbanizado , estabelecendo 5.U transporte e arrnazenamento. Estas ultimas estavam
uma peculiar compartimentação dessa Area de acordo com na limitação imposta a sua saida ou reexportaç30.
as exigências dos vectores internos e externos da vida ~ s t a oneste caso o cereal, vinho, azeite, pescado, gado,
econbrnica. Aos edificios da fiscalidade sucedem-se os carne, biscoito, linho e couro. Todavia a intervenção dos
armazéns e lojas de venda, orientados a partir desse cen- munfcipios insulares 6 variável, reflexo de uma diversa si-
t r o . A importância deste espaço no quotidiano ssth jus- t u a ~ sócio-econbmica
%~ .
tificada por uma dupla intervenção, primeiro submetendo os Os cereais, pela irnportancia que detem na vivência
diversos oficios B prestação anual de juramento e fiança, das populações insulares merecem redobrada atençao no
depois por meio de uma intervençZio permanente dos al- código de posturas. Ai o seu articulado terá de adaptar-se a
motacbs . conjuntura cerealifera municipal e insular o que conduz a urna
As normas reguladoras do mercado insular estru- permanente mobilidade do seu articulado. Estas são das
Zuravam-se da seguinte dorma : poucas posturas que se alteram com uma periodicidade men-
sal ou anual. A ilha de São Miguel disso exemplo pois o seu
1 . COMERCIOINTERNO, uma intervenção assente código frurnenthrio sofre constantes alteraçaes no século
num apertado sistema de vigilançia incidindo XVII , mercê da conturbada conjuntura cerealifera 'ln.
sobre o preço de venda, de mais bens alimera- A fragilidade do sistema economico insular associada
tares e artefactos, fixados em vereaçao ; a sua extrema depend8ncia do mercado europeu e âtlantico
condicioriaram o nivel de desenv~lvimentodo sistema de
2. COMÉRCIO EXTERNO, actuação no sentido de trocas. mascado por rnÚltip!as dificuldades no seu abas-
delimitar essas trocas com o exterior aos ex- tecimento. Deste modo as autoridades municipais fazem in-
cedentes ou produtos a isso destinados. cidir a sua acção sobre a sistema de trocas de modo a as-
segurar-se a subsistência das populaçães insulares. Dai o
Todavia neste último dominio a acçClo do municipio especial destaque atribuido As questbes de abastecimento
delineava-se de acordo com o nivei de desenvolvimento nas ilhas, onde o cereal era escasso ou o seu abastecimento
sócio-econbrnico de cada cidade. As cidades de grande era anormal. Esta ultima situaçao fundamenta o elevado
animaçao comercial com o exterior, como Angra, Funchal e nomero de posturas na ilha de S. Miguet, considerada, então,
Ponta Delgada, necessitavam de maior atenção e de uma
regulamentaçilo exaustiva do movimento de entrada e saida. (1 7 ) ..1fherfo J,TEIM, 4 questdo cerealff e r a nos Açores (no$ ~ficulosX17-
orientada de diferentes formas . A defesa da produçao in- mgh+,
jã citado.
30 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terccira Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira 31

o principal celeiro do mundo insular português. Saliente-se tretanto, no segundo caso, procurava-se evitar os proceç-
ainda que as mesmas se situam nas décadas de 30 e 4 0 ,
periodo critico para o abastecimento e comercio cerealifero
,,, fraudulentos na sua venda com a fuga ao pagamento da
imposiçá~,e à baleaçáo de vinhos de diferentes qualidades.
micaelense 'I8' . Assim cada taberna s6 poderia dispor de duas pipas de vinho
O articulado das posturas frurnentarias ia assim ao (branco e tinto). e ambas varejadas e abertas por um oficial
encontro da conjuntura particular de cada municipio e no geral oncelhio, o rendeiro do vinho. Aqui merece especial refe-
do mundo insular. Aí definiam-se medidas compativeis com rência a preocupação do municipio angrençe, que defende a
as reservas de cereal existentes nos graneis públicos e pri- do vinho atavernado, proibindo a mistura de outros;
vados, dando-se particular atenção ao preço, peso do p3o e as indicaç8eS ao uso de açúcar, mel de abelhas e canas na
contingentes para exportação. É de salientar que em todos do vinho dáo-nos a entender que a prática do
os rnunicipios , quanto ao fabrico da farinha, e a necessaria ,vinho a martelo* 4 antiga e jA tinha em Angra a sua ex-
intervençgo do moleiro é comum a preocupação dos rnuni- pressão 120' -
cipes e governantes. Os aspectos relacionados com o co- A carne e peixe, produtos cuja venda e manuseio
mkreio e distribuiç3o do cereal surgem apenas em Ponta DeE- exigiam especiais cuidados, ocupam também lugar de des-
gada e Funchal. Estamos perante dois municipios com uma taque nas posturas. Ai estabelecem-se normas reguladoras
situação diferente ao nivel da produção cerealifera mas que de todo o processo de circulação e venda. Assim não era
se debatem com os mesmos problemas de abastecimento lo- permitida a sua Venda fora da praça e mesmo ai deveria ser
cal; no primeiro o contrabando inviabilizava a incessante feita por Wentes habilitados pela vereaçáo . Deste modo aos
intervenção municipal, enquanto no segundo o excessivo in- pro~rietariosde barcos, arrais ou pescadores estava vedado
tervencionismo do município afugentava os mercados e mer- Q comercio a retalho. Ambos os produtos deveriam ser
cadores de cereal t'gh. almotaçados pelo alrnotacei e depois postos A venda. A
O vinho faz parte desse grupo de culturas ou pro- carne Para aiem do seu corte obrigatorio no açougue pelo
dutos atingidos por este tipo de medidas proteccionistas, marchante, que arrematava o seu fornecimento semanal ao
merc8 da sua importancia na dieta e sistema de trocas in- cancelha. a sua venda era vigiada, permanentemente, por
sulares. As posturas estipulam medidas de protecç3o da cul- um oficial concelhio
tura em face da depredação do gado nos vinhedos, furtos de A venda por peso ou medida facilitava o dolo dos
uvas, bem como normas para a venda do vinho atavernado. Pouco honestos que falsificavam os referidos
No primeiro caso proibia-se, em Ponta Delgada, Funchal e de mediçao. Deste modo o município era obrigado a
Angra a venda de uvas sem indicação ou licença do dono. En- redobrar a sua vigilancia sobre o retalhista, sendo o seu alvo
principal as vendedeiras. Dai o estipular-se o uso obrigatbrio
118) Ibidem. de pesos e medidas aferidos pelo padrão municipal, em todas
(I 9) Consulte-se as posturas 'n 6 0 4 2 , publicadas por Luis da Silva MELRO,
ob. cit . (?O) Ibidem.
32 Boletim do Tnstituto Histórico da Ilha Terceira 33
letim do Instituto Histórico da Ilha Terceira

as ilhas. sendo anual a respectiva conferência, a cargo do


Dortuarias do Funchal e Angra. Os escravos constituem.
alrnotacel .
iodavia, a principal preocupação dos municipios no dominio
A preocupaç30 do legislador insular inçidia, com
ericjal t 2 * ) . Deste modo, no articulado d a s posturas, eç-
maior assiduidade, sobre as questões económicas que pela
belece-se minuciosamente os padrões de comportamento
sua importância na vivência quotidiana justificavam essa
?çte grupo social, estipulando-se os limites da sua so-
redobrada atenção. A sociabilidade neste acanhado espaço
Liabilidade, bem como, formas de delirnitaçao ou segre-
insular n8o implicava essa permanente intervenção do
gação social. Assim ao escravo era vedado o acesso a casa
rnunicipio. Alem disso a marginalidade não era preocupante
prbpria e mesmo a possibilidade de coabitar na urbe. Este
rnesc8 da coacção exercida pela limitação espacial que im-
deveria residir nos anexos da fazenda ou quinta do senhor,
possibilitava uma fácil evasão e proliferaç30 destes. Em
nao podendo ausentar-se sem prbvia anuência do amo. Fora
certa medida essa relativa mobilidade das sociedades in-
do seu apertado circuito de movimentaç~oo escravo deveria
sulares, abertas As influencias do meio exterior contribuiu
ser identificavel pelo sinal e não poderia usar arma nem per-
para que se esvanecessem as cambiantes tipicas.
manecer fora de portas após o toque de recolher. Em face
A urbe, espaço compartimentado da mundividência disto o seu quotidiano deveria restringir-se ao serviço da
insular era animada com a acção dos diversos agentes casa e terras do senhor. Albm disso ningubm, nem mesmo os
económicas nos dorninios da produção, transformação, libertos, poderia acolher, dar de comer ou esconder qualquer
transporte e cornbrcio . Essa múltipla sociabilidade derivada escravo foragido.
de uma escala de estratos sócio-profissionais , forasteiros , A defesa da moral piiblica , devidamente regulãmen-
vizinhos e marginais implicava a necessaria definição de tadã nas ordenações do reino, mereceram as necessárias
convivência social adequada a normalidade do quotidiano e adaptações nas sociedades atlanticas , definindo o espaço e
relacionamento social. formas de convívio social no burgo. Com a finalidade de
A marginalidade, em terras em que a mao-de-obra defesa da reputação da mulher casada, delimita-se a área
detem uma importante componente escrava, resulta deste de intervenção e convivi0 da mancebia, ao mesmo tempo que
grupo social ou daqueles que a ele já pertenceram, os liber- se coagia o sexo oposto a manter um comportamento re-
tos. A estes associam-se os vadios, mancebos de soldada grado com as mulheres na fonte, ribeira e via pública. Na
e meretrizes. ilha Terceira 6 intençao do legislador estabelecer formas de
Enquanto os escravos se associam, preferencial- convivia nos espaços de maior aflu4ncia de vizinhos e foras-
mente, a safra do açúcar o que conduz a dominância dessas teiros, como as tavernas, de modo a evitar os delitos e des-
posturas na Madeira ' 2 u , as meretrizes abundam nas cidades cortezia.
A defesa das necesshrias condiçbes de vida do
(21) 11,funuelUIBO CADRERA , & esclavitud en las islas atlant icas: ,%fadeiray burgo completa-se com a procura de um nivel adequado de sa-
Can6riasr. I Colbquio Internacional de IIist6sia da Madeira, FunchaI .
1956.
Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira

lubridade deste espaço de convivi0 e labor social. A pre- limita~aodo espaço agricola assim O permitem afirmar. Note-
rnencia das doenças, nomeadamente a peste, colocavam a _,, .
que nas actas das vereações bem como o código de
obrigação de o rnunicipio intervir com medidas sanitarias '23'. poçturas. essa preocupação com o asseio das ruas e praças
Estas acentuam-se nos municipios de acordo com o nivel de é pouco relevante "I.
salubridade e dominancia de vivênçia rural, associada à
animação da actividade oficina1.
Da intervenção do rnuniciplo nesse dorninio é de des- 3 . A adesão da populaç5o a estas normas de con-
tacar o facto de as preocupaçbes sanitarias resultarem da duta é atestada pelas infsacçGes , prontamente combatidas
prernencia e circulaçiio de animais no burgo , do uso abusivo pela vereaçãio através das coirnas; por um lado esta fisca-
da água das fontes, poços, levadas e ribeiras para lavar, lizaç50 repressiva e , por outro, a sua assidua divulgação
beber e uso industrial, mais o necessário asseio das ruas e por meio dos pregões do porteiro da camasa, fizeram com
praças publicas. Dai a necessidade de por termo a essa que estas medidas fossem do conhecimento dos rnunicipes.
tendência exacerbada de rusalização do meio urbano, deli- A coirna, punição pecuniAria estabelecida no codigo
mitando a área de circulação e, no caso da Madeira, a cons- de posturas como forma de punição dos transgressores,
trução de abrigos para os animais, conhecidos com os pa- reforça O articulado da postura mercê da reIação existente
lheiros. entre o valor da mesma e a importância atribuída pelo muni-
A água, elemento vital do quotidiano e faina agricola cipio a cada aspecto regulamentado. Este regime penal mu-
insular, mereceu atenta regulamentação do rnunicipio onde se nicipal estava a cargo dos rendeiros e alcaide , procedendo o
procurava regularizar o uso de modo a evitar o furto e dano primeiro A cobrança, enquanto, o segundo procedia a apli-
das mesmas com as actividades artesanais - linho e couro. caça0 das penas de prisão e açoites. Note-se que a coirna
A fonte, espaço privilegiado do quotidiano da urbe, teve não se resumia apenas ao pagamento pecuniário , podendo
especial atenção neste contexto merce da necessidade de ser um misto de moeda e prisão, perda do produto em causa
regulamentar o seu uso e consumo de água. Aí restringe-se Qu ainda, pagamento dos danos. A intervençao do muni-
o uso destas como bebedouro para animais ou estenda1 de c i ~ i o ,a este nivel, era irnplachvel conforme se poder8 verifi-
roupa. Esta preocupação e dominante nas ilhas Terceira e
São Miguel .
Funchal' sem diivida ' de Os municipios
que disfrutawa de melhores condiçbes de salubridade. A sua
-
(24) Alberto W L m , O Com&lciohter-ln~ularnos Seeulrn XV c XVI,
Delgadu, 198s. EW 1578 O monarca ordenou que se aplicasse nos Açores
situação geogr Afica, talhada por tres ribeiras, associada à de-
regimento dos offcios feito para a Madeira 1Francisco Ferreira DRUM-
1kfOhD. Anais da ilha Terceira, I , 661). O mesmo sucederá com o
(23) Jfaria José P. Ferro TAVARES. d polftica municipal de saúde pfiblica
regimento do aImoxarifad0. da alfiindega e j u f t do mar (Urbano de
(s&cuIosXIY-XVh, in Revista de Histbria Econbmica e Social, na IP,
.
I987 J 7-32.
Afendonça QUS, A vida de nossos avós, 1. Vila Franca do 1941-
36 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira Boletim do Titstituto Histórico da Tlha Terceira 37

car pelo resumo das receitas municipais 425' e das interven- do usufruto de parte da coima. Em todas as locali-
çBes assiduas da vereação '28'. dades o denunciante recebia parte significativa da pena que
O referido código penal não era imutável e uniforme variava entre 1/3 e 1/2. AS partes sobrantes eram apli-
pois variava com o decorrer dos tempos de acordo com as cadas de modo diverso; na Madeira essa quantia, quando em
hreas em questão, adequando-se A realidade sócio- treç partes, era dividida pelo acusador, cativos e concelho
economica que 3he serve de base. A taxa era assim es- e , sendo em duas, atribuis-se metade ao acusador e a res-
tabelecida de acordo com o grau de gravidade e trans- tante ao concelho.
gressão. As penas assumiam uma forma diversa na sua O valor da pena pecuni6ria bem como o nirrnero de
aplicação de que se definem cinco formas : dias de prisão eram estabelecidos pela vereaçao de acordo
com uma tabela ou matriz que deveria existir em cada
I . Pagamento em dinheiro, que variava de 50 a muniçipio . Esta oscilava entre os 500, 1 . O00 e 2.000
6.000seis ; .
réis podendo em situaçbes excepcionais atingir valor supe-
2 . Pagamento pecuniario com pena de prisão que rior a 1 -500reis. Estas penas extraordinárias incidiarn
poderia ir ate 30 dias : preferencialmente sobre os aspectos que assumiam maior
3 . IndernnizaçZio pelos danos causados, nornea- importância para a vivência do burgo ou que eram suscep-
damente, pelo gado nas culturas agricolas ; tiveis de facil infracção. Assim os ofícios de moleiro, ven-
4 . Perda do produto OU artefacto produzido ou tran- deiro , carniceiro e boieiro situam-se entre os mais onerados
saccionado com certa quantia em dinheiro. pela m i m a . O mesmo sucedia com a regulamentação do
comércio externo. com especial incidencia para a saída do
A reincidência dos infractores poderia conduzir a vinho, cereal, linho e couro. Este bittimo dorninio mereceu
uma maior oneraçZio da coima. Usualmente a primeira vez especial destaque nas ilhas da Madeira e São Miguel .
era punida com pena dobrada e a segunda poderia ir at8 aos A Madeira definida como urna ilha carente em carne
açoites, desterro perpétuo ou temposario. Na Madeira essa fazia depender o seu abastecimento dos Açores e reforçou o
si2uaçáo conduzia no domínio da actividade oficina1 a perda valor da coima nos aspectos que envolvessem a distribuiçso
do oficio . deste produto. Ao invés em Ponta Delgada e Angra essa
A eficacia da aplicação e arrecadação das coimaç a t e W 2 ~incidira nas riquezas piscícoIas , alargando-se na
dependia, em certa medida, do empenhamento do denunciante Madeira A riqueza silvicola .

(251 A titulo de exemplo refere-se apenas a ,tfadeira no stculo A7: A .R .:V.. 4 . A forrnulaç5o destas posturas não 6 original uma
C . M.F. , nP 1295, j7s. 54-54vo. 'dez que tem o seu fundamento na legislação do reino, por um
( 2 6 ) Da intervençao d a vereagao funchalense na centúria quatrocentista des- lado, e no código de posturas de Lisboa, por outro, que Ser-
tacam-se algumas, veja-se, ibidcm , na 1297. f l s . QPro; ibidem , 'R viu de certo modo, de matriz. As ordenaçoes rhgias defini-
1298. jh.25, 89-89vo. ram 03 ~ar%meZrosde acfuaçáo do legislador insular. O facto
38 Boletim do Instituto Histõrico da Ilha Terceira
Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira 39
de o modelo institucional do municipio de Lisboa ter sido a
base para a constituição do madeirense e de este ter, por tas Ultimas são a matriz principal do seu enunciado; tenha-se
sua v e z , influenciado o articulado institucional da nova e, conçideraç30 que as posturas de Lisboa foram Zombadas
sociedade madeirense que terá repercussão nos Açores, entre 1422 e 1570
Gabo Verde, São Tomé e Príncipe e Brasil '*?', conduziu a Tendo em conta a anterioridade do processo d e
essa influência em cadeia. ,,upaçao madeirense e o facto de o cbdigo de posturas
No sentido de esclarecer essa realidade decidimo- funchalense ser o mais antigo, é natural que este tenha in-
-nos por uma anhtise comparada das posturas das tres prin- fluenciado de forma decisiva a elaboração das de Angra e
cipais cidades (Angra, Funchal e Ponta Delgada) com as Ponta Delgada; na realidade assim acontece, pois 37% das
exaradas no cbdigo de posturas de Lisboa e as recomen- de Angra e 22% de Ponta Delgada de acordo com o
daçbes afins nas ordenaçbes do reino; dai resultou a seguinte enunciado das madeirenses . Deste modo confirma-se que a
PnformaçCfo : influencia do modelo institucional madeirense foi decisiva para
a organizaçao da estrutura institucional açoriana e que essa
na^ se limitou apenas aos aspectos formais (='.
É de salientar o numero significativo de posturas
especificas de cada municipio que, a par da maior incidencia
.
em alguns domínios diferenciam dessa realidade. Estas
situam-se, maioritariamente, no dorninio da agricultura e da
produçilo artesana1, aspectos tipicos do mtiltiplo processo de
(1) Total das posturas analisadas em cada municipio desenvolvimento sbcio-económico de cada municipio ou ilha.
Um dos traços mais peculiares destes assenta na faina
A partir daqui conclui-se que o municipio de Angra foi açucareira, do pastel, do pascer do gado e do aprovei-
o que manteve maior fidelidade ao postulado nas ordenações tamento dos recursos do meio. Aí as situaç6es derivadas
do reino'*'', mas afasta-se do articulado das posturas de dessa diversa forma de exploração dos recursos implicavam
Lisboa, ao inves os municípios do Funchal e Ponta Delgada es- uma maior atenção do legislador local, e n5o encontravam
similar situação em Lisboa. Nesta Ultima cidade insistia-se
{27) Alberlo fieira. Ibidem . mais no asseio do espaço urbano, na actividade oficina1 e de
(28) Ordenaçbes Afonsinas, Livro I , l i f . XXW11, Livro V , t i t s . XII-XXIlT, troca, do que na faina agrícola {'
LXXXI,LXXXUII. LXXIX-CXXH;Ordenaçdes Manuelinas, Livro I. iit . Em síntese poder-se-á afirmar que os diversos cbdi-
X L X , Livro V, tit. X17-XX17.XXKiX,XLKW,L X X W . Um,L X X X W , gos de Posturas das novas sociedades do AtlBntico portugu8s
CIII; Leis Extravagantes, t i t s . I#. IV. VlII, PX. X I X . Ordenaçdes
Filipinas, Livro I , t i l . IXVTII. Livro V , tits. X I I I - X X X W , LXVIII, Livro de Posturas Antigas Lisboa. 1974.
uxm. (30) AIGerio W , ibidem .
(31) Iria GOR'ÇAUTS, art. cit.
Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira 41
Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira

resultam de uma simbiose das ordenações regias com os o ~ 6 d i g 0de posturas de acordo com as solici-
usos e costumes de cada burgo. A influência das posturas do tacóes d e rnundividencia do burgo. Esse rasgo de origi-
reino ter-se-& verificado nos prirnbrdios da criação destas nalidade acentua-se em todos OS municipios apenas no
novas sociedades, merc& da transplantação das normas de dominio s b c i o - e ~ ~ n .óDeste
~ i ~ ~modo o direito local canário
sociabilidade continental e dos usos e costumes dos locais de poderá ser definido Como autbnorno e uniforme , enquanto o
origem dos primeiros povoadores. Todavia o devir do pro- madeirense e açoriano surgirão como uniformes e arreigados
cesso histbrico çondicionou uma peculiar evolução destas As directrizes monopolizadocas e intervencionistas da coroa
sociedades o que conduziu a uma sistematização original P Q ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ -
deste direito insular, que surge de modo evidente nestas
posturas quinhentistas e seiscentistas .

4 . O cbdigo de posturas insulares, corno vimos.


surge como a expressa0 mais lidima do direito local do novo
mundo pois a sua elaboração fez-se de acordo com as con-
diçõles subjacentes a criaçao destas novas sociedades in-
sulases e atlânticas. Convem refenenciar, ainda, que se con-
siderarmos as posturas como reflexo das manifestaçBes mul-
tiformes da vivència sócio-econbmiça, lógico seta de admitir
uma diversa formulação em relação ao articulado das cidades
litorais e interiores da península. Assim as cambiantes
peculiares da mundividência insular definem, como vimos, o
código e articulado das posturas insulares.
Todavia. confrontadas as posturas das ilhas por-
tuguesas com as das CanArias 132' surgem algumas diferenças
pontuais neste dominio , pois o direito municipal não se ade-
qua A relativa autonomia definida pelos alvarAs e regimentos
régios. Assim, na Madeira e nos Açores, onde o poder local
disfruta de amplos poderes e a sua capacidade legislativa es-
tava entravada pela insistência das ordenações regias e
regimentos. o legislador açoriano-madeirense 6 forçado a -
' Amefte JERtA,adnstroduçdo ao estudo da direito local insular. As OS-
afinar pelo mesmo diapasáo peninsular, submetendo-se ao
furas d a .tfadejra, Açores e Canãrias nos sEçulos XU e X% in VI1
articulado das posturas de Lisboa. Ao invés, nas Canarias
a l b q u i o de Histaria Canario-Americana, Las Pal~nas.1986.
os municipes disfrutam de ampla capacidade legislativa ,
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CARGOS MUNICIPAIS

Pesos e Medidas
PRODUTOS
46 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira oletim do Instituto Histbrico da Ilha Terceira

OFICIOS
E OS SECTORES
DE ACTIVIDADE
A PECUARIA E AS POSTURAS

R Angra E Funchal

Angra F! Delgada H Funchal V. Franca R. Grande


i? Delgada !l
V. Franca
48 Boletim do Instituto Histbrico da Ilha Terceira noletim do Instituto Histbrico da Ilha Terceira 49
RELAÇÃO DOS VECf ORES DA ECONOMIA
DE SUBSIST~NCIAE TROCA REPARTI~ÃO DE PRODUTOS
DE ACORDO COM AS POSTURAS

1. Trigo

I . Componentes da subsiçt8ncia

2. Vinho

2. Componentes da economia de troca

3.Açúcar

Angra Funchal

R. Grande

F! Delgada fl V. Franca Angra H Funchal p Delgada R. Grande 0 V, França


r
50 Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira 51
Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira

AS POSTURAS E ALGUNS ASPECTOS DOMíNIO ESPACIAL


DA VIDA ECONÓMICA DAS ACTIVIDADES E QUOTIDIANO

1 . Alimentação
1.Rural

111,

1111

II'
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III
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1111,

2. Actividade Transformadora
2. Oficio

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3. Transporte 3. Mercado

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52 Bolctim do Instituto Histórico da Plha Terceira

MEDIDAS SANITÁRIAS E AS POSTURAS

Angra

F! Delgada