ETNOGRAFIA, ETNOGRAFIAS

Ensaios sobre a diversidade do fazer antropológico

Iracema Dulley e Flávia Melo da Cunha (orgs.)

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Agradecimentos

Gostaríamos de agradecer aos colegas e professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP pelo diálogo, incentivo e disponibilidade. Somos especialmente gratos aos orientadores das pesquisas aqui apresentadas: Bela Feldman-Bianco, Emília Pietrafesa de Godói, Guita Grin Debert, Heloisa Pontes, Maria Filomena Gregori, Omar Ribeiro Thomaz e Suely Kofes. Agradecemos ainda aos professores que nos deram aula, John Manuel Monteiro, Mariza Correa, Mauro William Barbosa de Almeida, Nadia Farage e Vanessa Lea, pelo papel central que tiveram em nossa formação. Finalmente, manifestamos nosso reconhecimento aos professores Omar Ribeiro Thomaz e Ronaldo Rômulo Machado de Almeida, que acompanharam e apoiaram nossa iniciativa de publicação do início ao fim.

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Sumário

Apresentação
Omar Ribeiro Thomaz

Notas sobre etnografias e métodos, 05
Iracema Dulley e Flávia Melo da Cunha

Etnografias do ciberespaço O universo simbólico neonazista na Internet: breve relato de uma experiência etnográfica, 13
Adriana Dias

“Não leve o virtual tão a sério”? – uma breve reflexão sobre métodos e convenções na realização de uma etnografia do e no on-line, 32
Carolina Parreiras

Glossário, 49
Adriana Dias e Carolina Parreiras

Etnografias da justiça Escolhas metodológicas e etnografia em um campo de interlocução entre Antropologia e Direito, 51
Daniela Moreno Feriani

Da investigação policial à investigação antropológica: implicações da proximidade e do distanciamento na pesquisa antropológica, 73
Flávia Melo da Cunha

Etnografias da arte Um picadeiro na Praça Roosevelt - Os Parlapatões, Patifes e Paspalhões, 93
Cauê Kruger

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Etnografia, mediação e relações interculturais: entre o geral e o particular na produção de “músicas do mundo”, 124
Paulo Ricardo Müller

Etnografias do colonial A missão de um ponto de vista relacional: um ensaio para a apreensão da prática a partir dos documentos, 147
Iracema Dulley

Visões do campo sobre o arquivo (e vice-versa), 173
Marcelo Moura Mello

Como qualquer etnografia: fundamentos para uma etnografia dos documentos escritos, 186
Olivia G. Janequine

Autores, 202

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contudo. gostaríamos de dedicar especial atenção aos ensaios reunidos nesta coletânea. a arte e o colonial – debruçam-se sobre tempos e espaços variados.Notas sobre etnografias e métodos Iracema Dulley e Flávia Melo da Cunha A possibilidade de discutir idéias. etnografias: ensaios sobre a diversidade do fazer antropológico apresenta artigos sobre abordagens e temas diversos: as etnografias – voltadas para o ciberespaço. mais do que proceder a uma recapitulação da tradição de pesquisa antropológica ou comentar o estado da arte da disciplina. Nossas reflexões particulares. contexto no qual se construiu uma profícua interlocução entre os autores. os relacionamentos afetivos e sexuais entre homens numa comunidade do Orkut. Alguns questionamentos perpassam os diversos textos: como articular um determinado objeto de estudo a uma metodologia de pesquisa? O que certa escolha metodológica permite revelar? Quais ganhos podemos auferir de uma abordagem teórico-metodológica? Sem a pretensão de oferecer generalizações. posicionamentos e análises que desenvolvemos devem muito à disposição para a troca e para a crítica dos colegas com quem partilhamos esse caminho. Assim. a diversidade de temas da coletânea reflete o alargamento das possibilidades abarcadas pelo campo antropológico. com base em trabalhos específicos. Com respeito aos objetos de pesquisa. A coletânea Etnografia. para um horizonte de diálogos possíveis. expectativas e experiências de pesquisa é sem dúvida um elemento fundamental no desenvolvimento de qualquer percurso acadêmico. e trazem reflexões acerca de objetos como o universo simbólico neonazista na internet. Os ensaios aqui reunidos foram produzidos a partir de pesquisas realizadas junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas. tarefa por demais hercúlea. os julgamentos de crimes de homicídio entre pais 5 . os textos aqui reunidos pretendem refletir a posteriori sobre um percurso de pesquisa que necessariamente passou por escolhas desse tipo. apontam. bem como das experiências de reflexão que podem constituí-lo. no Brasil e no exterior. Os argumentos. a justiça.

Adriana Dias. a comunidade negra rural de Cambará/RS. As antropólogas do/no ciberespaço oferecem ainda um glossário dos termos técnicos. o diálogo com ampla bibliografia acerca de estudos virtuais lhe dá subsídios para repensar a etnografia como prescindindo da noção de que uma comunidade deve se relacionar a um determinado espaço. experiência e formação de grupos nesse ambiente? Para dar conta da questão. favorecendo a compreensão da linguagem utilizada na rede mundial de computadores. configurações de sexualidades. Nesse sentido. Etnografias do ciberespaço. Com amplo domínio da linguagem hipertextual. as autoras discutem os desafios enfrentados na constituição de um campo de pesquisa pouco convencional. as missões católicas no Planalto Central de Angola. o cenário do teatro e da “música mundial” na metrópole paulistana. aborda os mecanismos através dos quais os sites neonazistas investigados interligam-se na rede mundial de computadores e tornam-se intencionalmente invisíveis. é relevante a discussão realizada pela autora acerca das similaridades e diferenças existentes entre uma pesquisa de campo tradicional e uma etnografia virtual: como pensar questões como identidade. que transita entre os limites do presencial e do virtual. O ensaio coloca como desafio compreender o universo simbólico neonazista no Brasil a partir de sua atuação na internet e revela em que medida a categoria “sangue” e o mito de Thor aglutinam os integrantes do movimento e seu discurso de ódio. 6 . Especialmente interessante é o detalhamento pela autora da metodologia de que se valeu para construir a rede de sites e compreender as estratégias neonazistas para desaparecer dos sistemas de busca. autora de “O universo simbólico neonazista na Internet: breve relato de uma experiência etnográfica”. a delegacia de mulheres em Manaus/AM. O livro está organizado em quatro partes: na primeira.e filhos em Campinas/SP. trata de sua etnografia de seis anos em ambiente hipermediado. simbologias e discursos. Os textos discutem o modo como ambos estão imbricados e inter-relacionados em processos de produção de identidades. compreendendo o ativismo político neonazista por meio da relação que os sites estabelecem entre si e com o restante da internet.

marcas e padrões do “mundo presencial” estão presentes no “virtual”. Os trabalhos que compõem a segunda parte do livro. A autora problematiza ainda sua inserção como mulher numa comunidade preocupada com “assuntos de homens”.A construção. observa o quanto convenções. de modo a questionar a rigidez dessas fronteiras. manifesta de forma múltipla e em referência a categorias e convenções presentes no mundo presencial. analisou os discursos dos processos criminais de modo a perceber como convenções de gênero e de geração surgem nos julgamentos. monitorando processos de homicídio e tentativa de homicídio entre pais e filhos. Entre suas conclusões. expressão e virtualização dos corpos e das homossexualidades são o problema investigado por Carolina Parreiras em “‘Não leve o virtual tão a sério’? Uma breve reflexão sobre métodos e convenções na realização de uma etnografia do e no on-line”. A identidade virtual não é vista como descontextualizada e fragmentária. Etnografias da justiça. apontando as implicações da conjuntura para a pesquisa. Baseada em etnografia realizada numa comunidade do Orkut composta por homens que se relacionam afetiva e sexualmente com outros homens. alinham-se ao campo de estudos de gênero e violência. O texto esquadrinha habilmente como as estratégias jurídicas denominadas pela autora como “moral familiar” e “saúde mental” são acionadas no julgamento dos casos. em “Escolhas metodológicas e etnografia em um campo de interlocução entre Antropologia e Direito”. mas atravessada por diversos marcadores de diferença e traços contextuais presentes em qualquer identidade. Daniela Feriani. A autora mostra como as 7 . os casos de crimes geracionais estudados foram comparados aos crimes entre cônjuges de modo a oferecer uma percepção mais refinada do modo como os crimes em família são interpretados no campo jurídico. a autora busca desvencilhar-se dos pares de oposição utilizados nas definições do presencial e do virtual e procura alternativas analíticas para essas dicotomias. percorreu os tribunais de justiça criminal de Campinas/SP. Além da observação do ritual judicial. Além da observação participante e do estudo documental dos processos criminais. Trata-se de compreender a construção e expressão da homossexualidade no virtual e a relação estabelecida entre on-line e off-line no que diz respeito à experiência dessa identidade.

objetividade e a produção das alteridades no trabalho de campo são algumas das questões trazidas no debate sobre o processo de conversão de policial a antropóloga. Através de uma descrição meticulosa.categorias de masculino e feminino podem ser acionadas para explicar a polaridade apreendida. Interessante é a discussão sobre a metodologia duplamente comparativa: o recurso simultâneo à pesquisa de campo e em arquivo e à comparação entre os crimes geracionais e os crimes entre cônjuges. Patifes e Paspalhões”. Etnografias da arte. voltou-se para os casos de lesão corporal grave registrados na delegacia. entre filhos e esposas e. a autora analisa com propriedade as especificidades da atividade policial e a rotina de atendimento nas delegacias. as implicações do multipertencimento profissional na produção da etnografia da delegacia de mulheres e a relação forjada com os sujeitos da pesquisa: policiais e mulheres vítimas de violência. bem como os desafios enfrentados para forjar sua identidade de antropóloga nesse campo. A formação do campo teatral paulistano e as disputas que o constituem são apreendidas com o auxílio da teoria dos campos de Pierre Bourdieu. A pesquisa. ainda. buscando compreender as semelhanças e divergências inerentes às profissões constituintes de sua experiência de pesquisa. por uma tentativa de aproximação do ofício do antropólogo ao ofício do policial. iniciada quando a autora trabalhava como policial numa delegacia de mulheres em Manaus/AM. a terceira parte do livro.Os Parlapatões. intitulado “Um picadeiro na Praça Roosevelt . A análise passa. Os limites e conflitos entre duas experiências profissionais distintas que se entrecruzam no encontro etnográfico foram problematizados por Flávia Melo da Cunha no artigo “Da investigação policial à investigação antropológica: implicações da proximidade e do distanciamento na pesquisa antropológica”. tematiza a cena do teatro e da “música mundial” na capital paulistana. por outro. Entre outros aspectos. entre maridos e pais. possibilitando olhar para a 8 . Patifes e Paspalhões. as possibilidades e os limites da teoria da performance para a realização de uma etnografia que dê conta ao mesmo tempo de um fenômeno estético e do contexto no qual se insere. por um lado. O ensaio de Cauê Kruger. apresenta os pressupostos. o autor analisa a trajetória e a atuação cênica do grupo de atores cômicos Parlapatões. Proximidade.

fronteiras. Geral. Nessa medida. É iluminadora a comparação estabelecida entre as trajetórias de Luiz Gonzaga e Bezerra da Silva no Rio de Janeiro e os grupos de “música do mundo” Mawaca. A etnografia surge como método privilegiado para compreender as articulações entre a globalização e a produção da diferença em contextos interculturais. Iracema Dulley parte de documentos produzidos nas missões católicas espiritanas do Planalto Central angolano para reconstituir as práticas de dois tipos de agentes: missionários e catequistas. Troupe Djembedon e Sexteto Mundano em São Paulo. A abordagem de documentos como fonte para a pesquisa antropológica é debatida nos três últimos ensaios. “Etnografia. além de fazer uma bela defesa da necessidade de se compreender um fenômeno estético em relação com a sociedade onde é produzido. A autora considera os documentos. A etnografia cumpre bem a proposta de inserir a atuação dos Parlapatões no contexto teatral paulistano. O argumento do texto se desenvolve de modo a avaliar o quanto a constituição de agentes permitiu apreender a produção de uma convenção de significação no universo da missão. “A missão de um ponto de vista relacional: um ensaio para a apreensão da prática a partir dos documentos”. reunidos na seção Etnografias do colonial. embora produzidos pelos missionários. ainda que através de uma abordagem teórico-metodológica distinta. O autor mostra como se configuram a valorização e a síntese das diferenças através das “músicas do mundo” e como as relações de poder determinam modos de enquadramento das experiências culturais e das percepções do que é geral e particular. que se debruça sobre as práticas de uma rede de músicos e produtores de “músicas do mundo” na cidade de São Paulo. mediação e relações interculturais: entre o geral e o particular na produção de músicas do mundo”. trânsito. analisa a questão da mediação entre cenários etnográficos e contextos sóciohistóricos. No primeiro deles.dimensão histórica e relacional do processo de consagração do grupo. particular. contato intercultural e mediação musical são questões debatidas pelo autor. como produto de uma relação que se estabeleceu na prática e envolveu diversos agentes. A necessidade de se relacionar um fenômeno estético com seu contexto de produção faz-se presente também neste ensaio. O ensaio de Paulo Muller. argumenta 9 .

De certa maneira. mas as relações a partir das quais se deu o processo de textualização do qual os documentos são produto. que de certa forma acabou por privilegiar a leitura de seus moradores sobre sua própria história. Passando em revista os pressupostos de autores clássicos e contemporâneos. que colocou a necessidade de se buscarem correspondências entre o que os habitantes de Cambará diziam e o que os arquivos apresentavam como “provas”. É interessante observar a dimensão diacrônica da pesquisa. a autora busca consolidar fundamentos metodológicos e epistemológicos para uma análise etnográfica de documentos escritos. os limites e as possibilidades colocados pelas fontes para a constituição de cada agente. para além de apresentarem estudos etnográficos desenvolvidos em contextos distintos. Em “Visões do campo sobre o arquivo (e vice-versa)”. uma vez que estes. Seu ensaio analisa a influência da experiência etnográfica na análise documental e viceversa. na tentativa de escapar do risco de determinação do oral pelo escrito. defende-se o argumento de que se deve atentar para as formas de lembrar. Nesse sentido.em favor do uso das fontes para analisar não só o “ponto de vista” missionário. iniciada no contexto da elaboração de um laudo antropológico. o texto reitera o argumento que interliga todos os ensaios. concluindo que os fundamentos de uma etnografia desse tipo seriam os mesmos de qualquer outra etnografia. e não para as deficiências da memória oral em relação ao arquivo. e finalizada com uma pesquisa sobre memória na mesma comunidade. A transversalidade das 10 . A confrontação entre registros escritos e relatos orais aparece como uma forma profícua de captar a memória e a história da comunidade. Em estreito diálogo com os argumentos apresentados nos outros artigos da última parte da coletânea. a internet e combinações entre esses métodos. discutem questões enfrentadas no decorrer de pesquisas que se valeram de metodologias diversas: o campo. Olivia Janequine apresenta uma original revisão da tradição antropológica no que diz respeito ao método etnográfico. o arquivo. ainda. Discutem-se. O autor tematiza ainda as assimetrias presentes ao lidar simultaneamente com relatos orais e escritos e apresenta possibilidades de superação do caráter assimétrico dessa relação. Marcelo Mello trata de sua experiência de campo na comunidade negra rural de Cambará/RS e de seu trabalho no arquivo com fontes relativas à comunidade.

etnografias. campo e arquivo. oral e escrito. O conjunto dos ensaios revela. o esforço dos autores para buscar alternativas analíticas e descritivas a classificações rígidas e dicotômicas. dando outro tratamento às tensões entre virtual e presencial. com recortes de pesquisa que buscam estabelecer uma relação entre universos simbólicos e práticas. articula-se nos textos a uma discussão metodológica surgida no trato com a empiria. ainda. voltadas para a compreensão de diferentes aspectos da realidade social. geral e particular. Resulta dessa disposição um refinamento das perspectivas de análise. relações de poder e história. 11 .

ETNOGRAFIAS DO CIBERESPAÇO 12 .

era possível identificar dezenas de outros. Criei um banco de dados em Access para cadastrá-los. cresce em média 8% ao ano e se baseia num radicalismo: a eliminação de “seus inimigos”. 2005) e. em língua espanhola. cujo resultado foi apresentado primeiramente em minha monografia de conclusão de curso (Dias. O ponto de partida para a localização destes sites foi a lista “Os 500 melhores sites NacionalSocialistas”. foram registrados dados de acesso. Embora se estime o número de 150 mil neonazistas no Brasil. 1 Entende-se que o termo Internet engloba tanto a estrutura técnica da rede (servidores e dados) quanto aos usos dessa estrutura (Di Maggio et al. em maço de 2006. A etnografia no virtual me possibilitava um fio condutor de leitura de um movimento que. mais de 400 mil visitas de IPs diferenciados. Quando comecei a pesquisa havia cerca de oito mil sites neonazistas na rede.Nesse banco de dados. fora preciso definir que material seria utilizado na análise. segundo o Alexa. além da URL principal do site. A partir dos mesmos. para um número muito maior do que o aferido por outras pesquisas. 2007). 2001). Muitos deles ofereciam links para outras ferramentas da rede. que permitiam grande fluxo de interação e comunicação. em sua primeira versão.O universo simbólico neonazista na Internet: breve relato de uma experiência etnográfica Adriana Dias Introdução O presente artigo retoma minha experiência etnográfica a respeito do neonazismo na Internet1. quando defendi o mestrado eles passavam de 13 mil2. canais de comunicação como MUDs e IRC. como redes sociais.500 sites durante a defesa de minha monografia de conclusão de curso. por exemplo. blogs. Esse banco de dados foi disponibilizado. Primeiramente. em CD. posteriormente. É importante notar que os dados do tráfego foram crescentes durante toda a pesquisa e apontaram. infelizmente. listas de discussão. com cerca de 8. apresentou. nas quais havia centenas de comunidades neonazistas. por meio de seus links. realizada durante seis anos. sempre. inglesa e portuguesa. o site brasileiro Valhalla88. em minha dissertação de mestrado (Dias. temas abordados e links que os sites estabeleciam. 2 13 . fóruns e chats.

listas de discussão e comunidades das redes sociais3 como “referências”. como o fórum Stormfront. governamentais e nãogovernamentais. durante a pesquisa. disponibilizando livros. como fonte “do melhor material nacional-socialista”. escolhi alguns fóruns. Há opção para língua portuguesa em apenas um terço delas. e seis blogs. 4 3 Rede Social se refere à forma de apresentação hipermediada. entre dezenas de outras. os que mais se relacionavam por meio de links com outros sites da Internet. inclusive o Saliento que minha participação nos sites e comunidades neonazistas se deu como observadora (nunca postei nestas comunidades) e que os sites em questão foram apresentados como “referência” nas discussões observadas. promotores e juízes que lidaram com o crime de neonazismo. cartazes. escolhi os mais acessados nas línguas citadas. no Brasil e em Portugal. selos. correspondi-me com dezenas de pessoas. Entre os sites. Busquei dados a respeito desses crimes nos Estados Unidos. contato com procuradores. músicas e outros materiais. São exemplos o Orkut. que objetivam medir e denunciar o neonazismo. de diversas entidades..A impossibilidade de abarcar todo esse gigantesco material impôs a necessidade de definir quais sites e quais ferramentas seriam objeto da pesquisa. o Facebook. os mais citados nos sites escolhidos. escolhi o Orkut por três motivos: interessava-me acompanhar os processos movidos pelo Ministério Público e denunciados pela SaferNet contra as comunidades neonazistas. a média foi de 200) e a configuração da rede social me permitia consolidar os dados de uma forma que privilegiava os debates entre os participantes. Entre as outras ferramentas disponibilizadas pelos sites. 14 . fóruns. inclusive o mediado por computadores e acessei ações públicas a respeito dos crimes que se deram em território nacional e/ou que foram cometidos por brasileiros. e os que eram reconhecidos pelos próprios neonazistas dos chats. Além do material encontrado na rede. no qual há debates de internautas de todo o mundo (identificados pelo endereço de IP). o LinkedIn. por conta da estrutura das comunidades e de seus fóruns. ou seja. era a rede social4 que possuía a maior quantidade de comunidades neonazistas (durante a pesquisa chegaram a existir mais de 300. os que ofereciam mais material para “ativismo”. na Espanha. Entre as redes sociais. sites centrais para o movimento neonazista. estabeleci. privilegiando os que possuíam maior número de participantes.

associações e relações nos locais mais inesperados” para alcançar. de camisetas com citações hitleristas a CDs de música de bandas neonazis. (Marcus. Com a emergência da Internet e sua exponencial expansão. loja virtual que comercializa diversificado material a respeito do movimento. nos processos que produzem tal discurso e que conferem aos agentes "os princípios de um poder que uma certa maneira de utilizar as palavras permite mobilizar" (Bourdieu 1998: 199-200). Nesta discussão. em especial dos conteúdos 15 . nessa pluralidade. Por fim. portanto. denuncia. as condições sociais de sua produção e utilização. surgiu de minhas interrogações: o que era aquele movimento? Quanto de seu discurso de ódio aqueles internautas vivenciavam fora da rede? Que conexões suas estratégias revelavam? Para atender a essa contínua circulação entre contextos. e como indicou Bourdieu. 1998: 80). fluxos e situações. A respeito desta relação entre discurso e prática. cada um. “traduções e aproximais” entre eles. tal discurso deve ser pensado "procurando fora das palavras". o “objetivo é acompanhar conexões. como os apresentados pelos neonazistas na Internet. fazia-se necessário um diálogo no plano das práticas e dos discursos – eles também práticas – que pusesse em relação os significados atribuídos a esses elementos pelos diversos agentes”. era preciso pensar quais questões metodológicas seriam centrais na abordagem etnográfica do neonazismo. O discurso neonazista dos sites pesquisados. ele mesmo uma prática central do movimento. a autora aponta para a idéia de que “os diversos agentes em interação” por ela analisados “viram-se às voltas com a necessidade de forjar uma convenção de significação que lhes permitisse ao mesmo tempo comunicarem-se uns com os outros e perseguir.digital. sua estratégia nessa disputa simbólica. Para tanto. A etnografia em ambiente hipermediado Definido o objeto. uma direção interessante se fez necessária: aquela proposta por George Marcus: uma etnografia multissituada. incluí também uma loja de “naziwear”. Como afirmou Marcus. Esta busca externa. uma abordagem interessantíssima está proposta por Dulley (2010). que ampliou minha etnografia.

argumenta ela. a idéia é “interrogar o método tradicional”. 2005 e 2006. objetivando. “etnografia virtual”. Hine discute a relação entre pesquisador e pesquisados. Hakken. inclusive conceituais: uma comunidade virtual pode ser pensada no mesmo sentido em que usaríamos o termo comunidade em outra situação de campo? Como as questões de poder se manifestam na rede? O que é uma identidade virtual? Como a Internet. novos tipos de sociabilidades e novas práticas comunicativas se tornaram objeto da atenção dos pesquisadores antropológicos. As idéias de “etnografia virtual” (Hine. 1994. Escobar. de uma elástica dimensão simbólica. refletir como a experiência do investigador e sua relação com o objeto de estudo afetam os agentes analisados. 1994) desejam problematizar especificidades das interações hipermediadas. Um resumo de sua pesquisa foi apresentado em 2006. durante o III Congreso Online del Observatorio para la Cibersociedad na conferência Virtual Ethnography. 1999. 16 . portanto. 2006). Mayan I Planells. traçando especificidades impostas pelo meio virtual. como poderiam ser realizadas etnografias no ciberespaço. segundo a autora. 2005 e 2006.5 Um dos termos mais utilizados. nas dezenas de redes sociais e nos milhões de blogs que se espalham pela WEB. 2000. afinal. foi amplamente discutido por Christine Hine (2005) 6 para pensar diferentes aproximações metodológicas para o estudo qualitativo da Internet. a respeito das relações interpessoais estabelecidas em uma comunidade da rede social Orkut composta por homens que se relacionam afetiva e sexualmente com outros homens. a respeito dos blogs de meninas anoréxicas e bulímicas e o de Carolina Parreiras (2008). No Brasil dois trabalhos importantes são os de Daniela Araújo (2004). inclusive. 2004) e de ciberetnografía (Escobar.produzidos por internautas. Dimaggio et al. 2001). “numa reflexão sobre se uma entrevista virtual pode ser considerada uma verdadeira entrevista. Cf. finalmente. Miller e Slater. preenchido. nós também podemos pensar mais profundamente sobre o que é que temos valorizado como metodologia no que se refere a entrevistas” (idem:10). 6 5 Em duas de suas obras principais: Virtual Methods: Issues in Social Research on the Internet (2005) e Virtual Ethnography (2000). 2000. o uso de ferramentas particulares para obter e sistematizar dados. remodela as experiências? Muitos teóricos têm se preocupado em teorizar o quão “ocidental” são as implicações das novas tecnologias da comunicação para pensar. de etnografia por meio da Internet (Beuaulieu. de etnografia do ciberespaço (Hakken. as definições imersas em alto grau de complexificação de “território virtual” e “temporalidade digital”. Williams. esses grupos oferecem para a apreensão antropológica várias questões. Mobilizando temas de interesses diversos. 1999. um “artefato cultural”.

Outro autor que se vale do mesmo termo (etnografia virtual) é Matthew Williams (2007). Em algumas comunidades. além de discutir estratégias de regulação. faz interessantes observações acerca da prática da etnografia virtual. ainda. Uma pergunta importante da autora. como o estudo realizado por ela entre profissionais do sexo. a natureza do "crime" e também sua configuração transnacional. na qual estudou a representação de perfis e avatares7 em comunidades virtuais. Virtually Criminal: Crime. em alguns aspectos. que durante muito tempo foi discutida por outros pesquisadores que desenvolveram etnografias na Internet é: “por que é mais fácil criar confiança nos relatos da vida real (idem: 55)?” Hine aponta. os “ambientes on-line”. o autor também se preocupa com as questões metodológicas que são levantadas. a etnografia no virtual é enriquecedora porque pode auxiliar a teoria antropológica no pensar-se. 17 . mas muito diferentes em outros”. exigiram métodos que problematizassem inclusive a rápida mutação dos mesmos e como isso retrata algo “da cibercultura”. Williams 7 Geralmente. Como Hine. e ambas facetas do método poderiam “enriquecer-se mutuamente. no que denomina “the application of research methodology to the online arena”. Em outra de suas obras. por serem similares. as ferramentas utilizadas nesse processo) e de que forma esses sites podem servir às pesquisas. e em sua pesquisa. com freqüência. os perfis podem ser restritos a contatos pré-determinados. por exemplo. perfis são as descrições a respeito de si mesmos que os participantes disponibilizam para os outros internautas. Outra importante observação de Hine é que no estudo de sites é preciso problematizar como estes são significativamente construídos (incluindo aqui. o uso da etnografia virtual poderia facilitar o acesso etnográfico. sobre a viabilidade de uma etnografia virtual. Deviance & Regulation Online (2006). por meio de diferentes abordagens teóricas sobre as comunidades on-line e off-line. o autor discute a natureza dos crimes cometidos no contexto de uma comunidade virtual on-line.Para Hine. num trabalho de etnografia vasto. que para determinados temas sensíveis. principalmente depois do “advento de novas tecnologias de banda larga e da expansão da linha gráfica”. Para Williams. nas redes sociais. no qual sugere. Os avatares são os desenhos gráficos (personagens) que servem como representação do internauta nas redes sociais.

da questão que dominou durante certo tempo o debate acerca do tema: a relevância da pesquisa virtual. a pauta. quanto ao modo como se abrange o objeto de estudo etnográfico. exatamente por seu questionamento da categoria “o campo”. “subvertendo a lógica. emprestaria aos temas certa “banalidade”.dá conta. ainda segundo o autor. por meio da “etnografia virtual”. esta se demarcou por uma nova atenção ao hipertexto e às hipermídias. e a estrutura do processo de investigação”. Isso se manifestaria. Os autores asseguram que novas pesquisas no campo virtual dependeram de uma interrogação crítica a vários conceitos. A idéia da etnografia em ambiente hipermediado exigiria uma superação da “suspeita noção de espaço-definido de uma 'comunidade' como um objeto de estudo. A idéia de “etnografia em ambiente hiper mediado” é discutida por Bella Dicks e Bruce Mason (1998) em Hypermedia and Ethnography: Reflections on the Construction of a Research Approach. “riam-se de nossas técnicas”. inclusive do ponto de vista dos internautas. que Mayan I Planells denominou “nossos indígenas”. segundo ele. como defenderam Marcus e Fischer (1986: 44). verdadeiramente mais centrada na mobilidade das forças sociais do que em suas relações de fixidez e 'habitação'” (Clifford. ainda. entre eles o "paradigma pós-etnografia" (Marcus e Fischer. concordam que haveria para os etnógrafos a eminente necessidade de "colocar seus assuntos firmemente no fluxo dos acontecimentos históricos". Os autores. 18 . os quais. ainda. 1986). 1997). na necessidade de se reafirmar a importância do virtual em cada pesquisa para justificar certa “irreverência e falta de seriedade” do “objeto de estudo virtual”. seria suplantada pela idéia de Marcus de etnografia multissituada. segundo o autor. Esta questão também é discutida por Joan Mayans I Planells: a denominada “trivialidade dos debates on-line” que. inicialmente. Neste artigo os autores precisam a necessidade de reconhecer e representar a complexidade envolvida na pesquisa etnográfica on-line e recordam que.

segundo o autor.)[. 2001: 15-16. fóruns e comunidades. Para responder à segunda era preciso pensar a relação desses sites entre si e com o restante da Internet..php?id=83.cibersociedad. discutir. como defendeu Hine. experiência. dois elementos articulados pelos sites e comunidades. Pensando em meu objeto de pesquisa.] não podemos abrir mão do fato de que devemos compreender a estrutura para conseguirmos dar continuidade à operação (. como a construção dos sites e comunidades específicos. inclusive. Os autores citados elucidam como a antropologia pode se enriquecer teórica e empiricamente com boas etnografias em ambientes hipermediados. Estas devem problematizar tanto o “processo social” da criação de novas tecnologias. Último acesso em 31/03/2009.as interrogações metodológicas dos diversos autores citados auxiliaram-me a responder a duas perguntas centrais: o que os sites neonazistas denunciam do universo simbólico do movimento e como se valem da rede para seu ativismo político. disponível em http://www. numa busca pelo “processo social de sua criação" (Hakken. (Siding-Larsen. David Hakken8 também se dedicou a discutir o quanto a por ele assim denominada etnografia do ciberespaço deve enfatizar a construção dos objetos etnográficos na rede..) 19 . Seria preciso. como as novas tecnologias de informação modificaram legitimação9. 2001: 14)..net/recursos/ressenya. em minha dissertação de mestrado..)[. como afirmou Hakken (2001: 14).] temos que possuir conhecimento tanto sobre a forma como sobre o processo”. deliberadamente apólogos da ideologia neonazista: a idéia de um “sangue Outra obra importante deste autor é Cyborgs@Cyberspace? An Ethnographer Looks at the Future (1999). Para responder à primeira questão era preciso analisar os próprios sites. 1984 apud Hakken. blogs. Publiquei uma resenha deste livro no OCS – Observatorio para la CiberSociedad. as condições de convívio. 9 8 O autor recordou: “Não é a primeira vez na história que uma nova tecnologia de informação tem alterado as regras para gerenciar o conhecimento (. privilegiei.Em Cyberspace and Anthropology. aprendizado e Etnografando o neonazismo na rede: o universo simbólico neonazista Pensando na primeira questão.

último acesso em junho 2008. esta atualização e este resgate.rac-usa.tk/. último acesso fevereiro de 2009. FE. Campaign For Radical Truth In History). e. transmissão hereditária. V88. para emprestar legitimidade à idéia de que há uma “nova Germânia” (NON. STO. Explicando de maneira simples. um “povo alemão” (todos os sites) a ser resgatado. disponível em http://www. para eles. AARG (Aaargh. disponível em: http://www.org/.com/. último acesso fevereiro de 2009. último acesso em fevereiro de 2009. mitocôndrias. último acesso em maio de 2006. que faz os agentes analisados nesta pesquisa “se moverem. normal. Este termo é presente em todos os sites pesquisados.com/. disponível em: http://www.zyklonbwear. RH (Revisão Histórica). o sangue se faz presente nos rituais e nos mitos neonazistas. último acesso em junho de 2008.com/. gametas.natvan.tripod. último acesso fevereiro de 2009. disponível em: www. disponível em: http://www. ZYK (Loja Zyklonb). como nos informa o Voz de Odin. seguem as seguintes siglas: 14W (14 Words). núcleo celular. WPS (White Power Sp). último acesso fevereiro de 2009. nenhum vínculo de ascendência com a nacionalidade alemã) e a maneira peculiar como narram o mito de Thor. Ambos são largamente utilizados nos sites. ainda que isto não signifique.revisaohistorica.html e http://rhistorico. disponível em: http://www. disponível em: http://www. disponível em http://www. V88 (Valhalla88). sem saber exatamente por que ou como”. defendem os sites e os participantes das comunidades e fóruns.nuevorden. último acesso em maio de 2008. último acesso em janeiro de 2004. o discurso é densamente povoado por expressões que envolvem todo um léxico genômico (DNA.blogspot. SG (Solar General). um teutonismo a ser atualizado.org/index. último acesso em fevereiro de 2009. 20 .com/.stormfront.html. é “o sangue” “aquilo que torna o real. V88.com/loja/. disponível em: http://www.blogspot.valhalla88. último acesso em maio de 2007. depende do “reconhecimento do mito pelo sangue” (V88) e da “ativação do sangue pelo mito” (V88). muitas vezes em cada URL. disponível em http://www. disponível em: http://www. WAU (Women for Aryan Unity).homemlobo.solargeneral. oriundas dos sites analisados. NON). 11 10 Biologizado por eles à exaustão.com. NON (Nuevorden). HLOBO (blog de um internauta de nickname Homem Lobo). Esta reconstrução.net/. NAr (Nações Arianas).ariano” 10 (muitas vezes também denominado sangue “alemão ou germano” (FE. interessando apenas que este sangue seja oriundo “de países brancos.org/wau/. associados. Revisionismo da II Guerra Mundial.kit. fórum do site Valhalla88. e os diversos “informantes” desta etnografia descrevem “o sangue” como chave para o “conhecimento social implícito”. acima de tudo. disponível em: http://www.vho. real e o normal.org/. NA) a ser construída. necessariamente. STO (Stormfront White Pride World Wide) http://www4. Numa intricada mistura de termos biológicos e discurso religioso11. os neonazistas na rede defendem que todo verdadeiro “ariano” é portador “do grande sangue alemão” (todos os sites).html. células. entre outros).hijasdeuropa. FE (Filhas Da Europa).whitepowersp.org/aaargh/port/port. As citações específicas. NA (National Alliance). último acesso fevereiro de 2009.net. com menos de 1/32 de cromossomos não-brancos”. último acesso em fevereiro de 2009.com/index.aryannations. disponível em: http://panzergirl.

cujas vestes são vermelhas.1990. uma Religião. nos botões e links que revestem os botões e banners. quando há restrições para novos postos de trabalhos. inspira padrões ritualísticos. Mas quando os neonazistas falam de sangue. veículo da alma. Aqueles que destroem seu sangue misturando-o ao dos que diferem de sua cor está destruindo seu próprio destino. mas enfatizar a linguagem como instrumento de ação social – nos sites. o sangue aparece “impregnado por um imaginário” específico (Héritier-Augé . sempre envolvidas em vermelho. é preciso não se excluir a função da linguagem para representar a cosmologia (em que se incluem os mitos) nos rituais. supremacia e poder expressos por uma condição de “sangue”. o veículo das paixões. Héritier. que repetida site a site. passagem simbólica que o autor compara à história de Parsifal. selado num gesto de perda eterna”. do que mais eles falam? Para Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (1995: 800). Internet afora. Um dos primeiros pesquisadores do movimento que defende a supremacia branca nos Estados Unidos. o sangue. o bem maior a ser preservado. é a bebida da imortalidade. expressa fertilidade. à força e à coragem. 1987: 344). Para Juan Eduardo Ciriot (1984: 509). seu futuro. como afirma um internauta. mais que uma raça. o calor e a vida. Afirma o autor que o discurso nazi catalisou o discurso racial em períodos de desordens econômicas. Para apreender o exato sentido “deste sangue”. o sangue se vincula ao ferro e. nas suásticas. Teria um caráter vital. este sangue aparece sob diversas formas de linguagem: ele está na cor vermelha das páginas. numa comunidade neonazista: “Brancos.aquilo que torna as distinções éticas politicamente vigorosas” (Taussig. amalgamado à idéia de honra. ele recorda. abundância e felicidade. 21 . portanto. O discurso nazificado se vale do sangue como símbolo máximo. 1991). seu EU. Neste discurso. Rafael Ezekiel se preocupa com o fato de a própria Ku Klux Klan ter nazificado seu discurso nos últimos vinte anos. por isso. o sangue representa todos os valores solidários com o fogo. ele é ao mesmo tempo o mito traduzido no texto e nas imagens e uma escolha técnica de cor. aparece quando a matéria passa do estado branco (albedo) para o vermelho (rubledo). veículo da vida. e os líderes dos movimentos nazis se tornam mais atrativos por apresentarem uma resposta pronta para o que deve ser realizado. Na alquimia.

em geral expressos por múltiplos meios. A carne e o sangue. A idéia do “sangue ariano”. abandonado pelo luteranismo alemão. traduzindo o autor: “O ritual é um sistema cultural de comunicação simbólica. Esta articulação é fundamentada na construção de uma categoria em torno da idéia mítica "do Sangue" (Blutmythos13) por um "amálgama de símbolos emprestados" (idem: 20). nele residiria a força vital. A ação ritual nos seus traços constitutivos pode ser vista como “performativa” em três sentidos: 1) no sentido pelo qual dizer é também fazer alguma coisa como um ato convencional [como quando se diz 'sim' à pergunta do padre em um casamento]. uma Antropologia do nazismo. Cornelia Essner. perpetuando-se.Associado às runas. de poder mágico. na antiga doutrina dos humores corporais. Ao mesmo tempo substância e símbolo. inclusive. o sangue ariano é eucarístico. É o sacrifício da carne. quando identificamos como 'Brasil' o time de futebol campeão do mundo” (Peirano. Nesse sentido. inserida no "dogma racial nórdico" (Essner. no sentido de valores sendo inferidos e criados pelos atores durante a performance [por exemplo. o dogma da transubstanciação católico. 22 . pois nele acontece “um sistema de comunicação simbólica construído socialmente” 12 (Tambiah. “sangue nórdico”. 1995: 18). "o Sangue" verte no vermelho das suásticas e por ele está disposto a morrer: "Ou o Estado nacionalista. no sentido que lhe dá Stanley Tambiah. transubstanciavam-se na raça alemã. estereotipia (rigidez). símbolos estes que resgatavam. Nas URLs pesquisadas. como pressupôs Tambiah nesta visão de cosmologia que pretende um encontro entre “o dito e o feito”. “forma e conteúdo”. para os neonazistas. entre outras associações encontradas. o sangue operacionaliza uma integração. é discutida pela autora de A Demanda da Raça. “sangue alemão”. Ele é constituído de seqüências ordenadas e padronizadas de palavras e atos. o sangue selava pactos rituais. nórdicos por herança genética e ritual. “santíssimo sangue”. “mito do sangue”. 2006: 8). O novo Pão e o novo Vinho são definidos: a carne dos soldados e o sangue nórdico de suas veias (Dias. integração entre relato cultural e análise formal. 13 Em alemão. condensação (fusão) e redundância (repetição). denominado ainda de “precioso sangue”. Estas seqüências têm conteúdo e arranjo caracterizados por graus variados de formalidade (convencionalidade). O sangue é um elemento divino. o sangue ocupa um lugar cosmológico. ou nossos cadáveres" (RH). o sangue se reveste. 2) no sentido pelo qual os participantes experimentam intensamente uma performance que utiliza vários meios de comunicação [um exemplo seria o nosso carnaval] e 3) finalmente. Presente nos rituais e nos mitos neonazistas. 2003). 1995: 131). verte-se pelos arianos do 12 Conforme cita Mariza Peirano. mantendo vivo o sangue.

em memória de seus antigos líderes. da primitiva raça criadora”. mas nunca se misturar. NAr. É desta forma que a morte dos líderes é lida nos sites. 14W. no limite. 23 . V88. beleza e progresso (NA. organiza. a condição da perpetuação da sua posição no espaço social" (Bourdieu. os menos radicais indicam: as raças podem colaborar entre si. FE. o que é quase sempre. WP.mundo. 1998: 17): vislumbra na idéia de raça um "lugar". em todas as sociedades. mas como sacrifícios que garantem a durabilidade. no sentido em que Homi Bhabha a utiliza. não como uma falsa representação da realidade. WAU. engenhos pelos quais se defende a manutenção e a legitimação do habitus neonazista14. mas como "uma forma presa. WAU. por envenenamento de sangue. fixa. Esses empreendimentos discursivos efetivados nos sites neonazistas podem ser pensados à luz da discussão proposta por Pierre Bourdieu (principalmente 1990 e 1998) como estratégias. seleciona. O sangue se faz presente nesse discurso dos perigos: é ameaçado na mulher pelo contato com o negro e o judeu. sua existência enquanto grupo. AARG. uma "realidade metassocial 14 Segundo Bourdieu (1990). É o sangue que precisa. ZYK). 1990: 94). inclusive a eternidade de sua causa. dado por uma "natureza sábia" (V88. as estratégias se consolidam num sistema de estratégias continuadamente produzido e reproduzido como seqüências organizadas e orientadas das práticas grupais empreendidas pelos agentes para formatar o grupo como tal. redistribui e articula poderes e perigos: a supremacia racial branca está no epicentro das discussões acerca dos poderes e a ameaça de sua extinção. rememora suas palavras: “a razão pela qual todas as grandes culturas do passado pereceram foi a extinção. WPS. “Nossa Nação é nossa raça”. escrevera o ditador em Minha Luta. de todo o senso de preservação. define o site Valhalla 88. Note-se: é o sangue que assegura estratégias que buscam uma "simplificação" das relações sociais. A ressonância hitlerista é clara. é no sangue dos mártires arianos que se perpetua a força restauradora da “nova nação”: a raça. Nestas estratégias o objetivo é "criar e perpetuar sua unidade. WPS. É ele garantiria à raça ariana toda sua superioridade: em cultura. STO. O discurso racista regula. em particular pela possibilidade de casamentos inter-raciais ou por adoção de crianças negras e emoldura as discussões a respeito dos perigos. não como derrotas. STO). mas permanece intacto no homem que estabelece o mesmo contato. NON. de representação" (Bhabha.

1998: 199-200). para eles. portanto.ou física (16)" e válida nos sites em questão como diferenças "naturais e biológicas" (NA) que se estenderiam a partir de origens "genômicas" a aspectos culturais. o site Valhalla88 relê. ergue seu martelo e a destrói”. para proteger o povo”. A criação. WAU). a própria história da justiça: a tradicional presença do martelo associada aos “juízes da corte” emanaria de “antigos povos europeus ao usarem o Mjollnir para comandarem uma sociedade justa. grafado nas runas e imortalizado em “todos os guerreiros arianos disponíveis a verter sangue pela causa”. que se inter-relacionam "em mundo presumido. agregar. fortalecida pelo poder “mágico” deste sangue para restaurar. ao ser atacado pela maligna serpente de Midgard (um monstro mítico). na qual Thor é personagem central. 14W. Para ativar esse “sangue” em cada “ariano”. o único que lhe[s] é dado a conhecer" (idem: 111). o Valhalla88 conta “um mito germânico que envolve Thor e o Mjollnir (o martelo do deus). Por sua vez. civilizar. garantir proteção. Rememorando outra história mítica. manutenção e participação em sites neonazistas devem. ser lidas como práticas para os agentes em questão. Prosseguindo na importância do martelo de Thor. pressentido e julgado. Em sua pescaria. tornar heróico. sociais. psíquicos. a ideologia do sangue afirma existir nele uma conexão entre história e memória. atualizado pela suástica. NAr. de modo que os agentes assim selecionados “[se] predisponham a reconhecê-lo absolutamente" (Bourdieu. vencer. políticos. por meio deste símbolo. Para os neonazistas. isto é. 24 . morais e comportamentais. “a serpente representa o poder do dinheiro e do sionismo e da supremacia judaica e o Mjollnir representa a Suástica que combate a usura e o inimigo dos povos” (V88. Exaustiva. A própria colocação acerca do “sangue ariano” como essencial para a compreensão do “mito ariano” demonstra que o discurso revela uma prática: "prega-se somente aos convertidos". os sites revelam: é preciso a suástica. é possível construir “uma analogia por um ponto de vista Nacional-Socialista”. o reconhecimento do discurso neonazista como verdade absoluta atesta o pertencimento à “comunidade do sangue ariano". STO. o “martelo de Thor”. Thor.

DENSITY MULTIMEDIA à média numérica de objetos multimídia por página. Segundo Susan Zickmund. Para viabilizar a utilização desses indicadores.Etnografando o neonazismo na rede: as relações dos sites neonazistas na rede Outro aspecto importante para pensar os sites neonazistas na Internet é o fato de que a rede vem afetando o desenho das próprias organizações subversivas. Mas. Para um detalhamento do método. VISIBILITY ao número total de links externos de um site. VALIDITY à porcentagem de links validos em relação ao número total de links. ENDOGAMY à porcentagem de links internos únicos em relação ao total de links. Também. No que se refere ao discurso neonazista. Na rede. os índices escolhidos do projeto de Cibermétrica15 da Universidade de Sydney. 16 Para detalhes acerca da construção desses bancos de dados ver Dias (2007). todos os sites foram baixados completamente no formato de pdf. DENSITY HIPERTEXTUAL à média numérica de links por página. 25 . CONNECTIVITY ao número total de links únicos recebidos por um site externamente. o ódio também. BROWSEABILITY à relação entre o número de links internos de um site e seu total de páginas. POPULARITY ao número de visitas diferentes num determinado período. ver Aguillo (2000). LUMINOSITY ao número total de links internos e externos que se dirigem ao site. FILES SIZE ao volume em bytes do total de filas do website. com poucas ligações estruturais maiores. IMPACT à relação expressa pela divisão do número total de links externos e do número total de páginas de um site. Para isto uma ferramenta foi de particular importância. esses subversivos estão agora descobrindo meios de propagar suas mensagens além dos limites estreitos de suas ligações preestabelecidas”. Austrália. a comunicação circula mais rápido e a menos custo. DEPHT ao número máximo de diretórios de um site. Mas com o advento do correio eletrônico e do acesso às páginas da internet. com o auxílio da ferramenta de pesquisa qualitativa N*Vivo foi construído um banco de dados em plataforma Access para analisar cada um desses índices16. como os sites neonazistas utilizam da Internet para este objetivo? Para pensar a questão era preciso elucidar como os sites neonazistas se relacionavam entre si e com o restante da rede. era possível visualizar os indicadores para que esta visão do todo apontasse caminhos e esclarecesse as melhores direções. Na análise desses índices concluiu-se: a rede neonazista na Internet produz sites muito profundos (nos quais há muitos diretórios em cada diretório 15 Os pesquisadores da Cibermétrica construíram vários indicadores para mensurar sites: SIZE se referia ao número total de WEB páginas de um website. Assim. “os indivíduos que propagam ideologias nazistas tradicionalmente operavam isolados.

WAU. para sites neonazistas. em especial os grandes sites de ativismo: NON. mas também por sua relação com a média geral de outros sites. V88. mas sua conectividade e visibilidade são reduzidas na rede como um todo e muito maiores (duzentas vezes) se os retratamos na rede racista. a média geral são de 80 páginas por site. e os externos apontam. FE. o que reforça os vínculos entre eles. Por que estes trezes sites escolheram “aglomerar-se” em vez de ocupar o espaço de quase trezentos. as páginas mais acessadas e deixarão as outras milhares imersas na denominada “web invisível” (e se acrescentarmos o fato de que cada URL pode conter dezenas. o que revela a tentativa de. todo material está disponível no mesmo lugar e se retirado do ar basta colocar tudo de novo em um mirror. esconder-se no mar digital: a possibilidade de ser achado é menor. por sua lógica algorítmica interna. Interessa-me em particular o uso que os sites fazem dos links. Mas estes fatores não facilitam sua busca por serem propositadamente detidos pela densidade hipertextual e pela profundidade de diretórios. dificultando mais uma vez seu encontro por sites de busca. ou ainda de quase mil sites? Um dos motivos. Os sites reproduzem-se aos milhares e a grande maioria ocupa o espaço de dezenas deles. com mais de 1500 URLs. AAARGH!. Os sites racistas são bastante acessados. o que torna os links internos menos visíveis aos canais de busca. que enumerarão. No mundo. Importa o tamanho destes sites porque ele revela a quantidade de informação disponibilizada por seus criadores. há muito mais links internos do que externos (o que confirma a idéia de que na verdade são vários sites em um). é desaparecer dos motores de busca. Nos sites racistas são comuns sites com milhares de páginas. com uma média de quatro diretórios dentro de outros. 26 . O número total de links é imenso. mais uma vez. entre outros. NA. Os sites são profundamente endogâmicos.anterior) e com enorme densidade de links internos e não-externos. Isto os torna visíveis para outros sites da rede neonazista. São em geral profundos. SG. o que facilita a maior parte do carregamento. em mais de 95% das vezes. evidentemente. e tanto a luminosidade quanto a broswseability dos sites é cerca de trinta vezes maior que a média da rede. numa média de 200 kb por página.

as mediações com os arquivos podiam oferecer ferramentas para autorizar os discursos e versões do passado” (Mello. o uso das câmaras de gás. peculiar na maneira como os links são organizados e. estaremos falando em milhões). 27 . muitas ferramentas. e que só pode ser compreendida pelo pertencimento ao sangue. arquivos de todos os tipos entram no debate para legitimar sua posição. Mas se pensarmos que em cada uma destas URLs há dezenas de links apontando para outras páginas do mesmo site. inclusive as produzidas pelas novas tecnologias. laudos. são em sua maioria esmagadora vínculos a outros sites do mesmo tipo. poderemos perceber que há uma modo de pensar a arquitetura dos sites que é peculiar a este grupo .muitas vezes centenas de laudas. fotos. Este elemento objetiva desacreditar a história do holocausto. textos. 2010). associam-se para manipular dados. o número de mortes. Outro exemplo de como as construções dos sites são direcionadas revela-se na análise do elemento revisionista presente em todos os sites neonazistas. Uma história que se vincula aos “mitos arianos”. um processo profundo e essencialmente endogâmico se revelará diante de nossos olhos. se pudermos olhar cada link como uma relação. por outro. por um lado. direcionados a outros sites. na absoluta maior parte das vezes. uma troca. aparecem apenas na medida suficiente para gerar e gerir a rede racista. mas a própria configuração do código-fonte. e há o “passado” que defendem. como as relações dos sites entre si e na Internet são escolhidas ou ampliadas e/ou interditadas. você só se torna “capaz de desconfiar e rejeitar a história oficial” se for “um verdadeiro ariano”. versões. O próprio passado passa ser objeto da luta política dos sites: para eles. NON). o discurso do sangue também se repete. produzido segundo os sites pelo “mundo sionista”. Nesse processo. há o passado oficial. portanto. arquivos. Para dar conta do revisionismo histórico os sites produzem milhares de páginas: sua versão dos fatos precisaria ser divulgada. “se o passado é um campo de disputas. para que os sites analisados possam se apresentar como possuidores da “versão verdadeira da história” (V88. Nesse sentido. Peculiar não é apenas sua escolha estética ou temática. sem contudo ser suficientes. Nesta produção. Como escreveu Marcelo Mello. Se pudermos observar que os links externos.

Os links apontam. endogâmica. levantam grandes construções (milhares de URLs).Conclusão Nesse sentido. não se relacionam com sites estrangeiros (como revela a intensa endogamia dos links). no sentido que Tambiah dá ao termo. para a valorização dos heróis e mitos. no “sangue ariano” que cada neonazista reconhece seu martelo de Thor. por representarem também como formas de programação. negação do holocausto. a presença da suástica. disposto a esmagar seus inimigos (em especial “o judeu” e “o negro” por eles construídos) para. memória e devir. ativismo político e discursos de gênero. para um comportamento contornado por uma opção megalomaníaca. a escolha das cores e imagens que emoldurarão o mesmo. produzindo um conteúdo gigantesco. portanto. É. Este “sangue” é a crisálida na qual se preparam para tornarem-se heróis. a escolha das fontes. É a representação dada a este “sangue” que materializa diversas articulações de sentido entre narrativas míticas. seus valores estão profundamente enraizados (diretórios dentro de diretórios). e arquivando este conteúdo em diretórios registrados em diretórios profundos e inalcançáveis pelos motores de busca atuais. ao mesmo tempo. recusam-se a utilizar linguagem simples de programação. Relacionando-se apenas entre si mesmos. cada um deles. links e formatação são escolhidos e usados em preferência a outros para dar conta da eficácia da ação ritual e de transmitir a mensagem “do sangue”. enfim. E se os links 28 . a construção de um site racista. os sites não apenas denunciam sua preocupação em compreender e utilizar para fins muito bem definidos as ferramentas disponibilizadas pela rede. mas também indicam o contorno de sua forma de pensamento: são grandes (em bytes). na qual suas crianças terão “o futuro”. como indica a densidade endogâmica dos sites. preferem códigos de programação formais. um novo Thor é. estética. depois levá-lo para casa. reafirmo. formalista. como revela o número de URLs dos mesmos. o debate direcionado para o medo da exterminação. léxico genômico. a grande Germânia. a disputa sobre a veracidade de seus dados podem ser lidos como “performatives”. seus valores estéticos são claramente definidos e expressados (são intensamente povoados de imagens e outros tipos de mídia).

Homi K. V. ______. Serie Sociedad de la Información. BOURDIEU. como ressaltou Lévi-Strauss (1955: 35). 1998. outra caracterização do link: como artefato construído dentro de um código (em geral HTML). Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. BHABHA. ARAÚJO. Mérida. é possível ver nos links as relações de troca e as configurações que assumem. que o link revela uma atitude: ele continua ou descontinua um contato e em cada enlace aproximações e distâncias são estabelecidas. São Paulo: Brasiliense. na medida em que revelam sentidos e classificações. Disponível em: http://www. Neste mar. Anne.nl/staff/anne-beaulieu/documents/mediating-ethnography. O que estou afirmando é. Universidade Estadual de Campinas. Do outro lado do espelho: anorexia e bulimia para além da imagem – uma etnografia virtual. grupos próximos e distantes. BEAULIEU. Moya Anegón). os links não são bons para enlaçar. Fundamentos y técnicas cibermétricas: modelos cuantitativos de análisis (C. descontinuada. Parafraseando Bourdieu. ARENDT. O local da cultura. Junta de Extremadura.P. Referências Bibliográficas AGUILLO. repetindo.Guerrero Bote. os links são uma demonstração de como os discursos revelam práticas. São Paulo: Diagrama e texto. portanto. “mas são bons pra pensar”. é nele que se processa a seqüência de instruções a serem seguidas e/ou executadas no redirecionamento do contato na rede. 1998. Belo Horizonte: Editora UFMG. é porque os construtores da linguagem. A economia das Trocas Lingüísticas. Mediating Ethnography: Objectivity and the Making of Ethnographies of the Internet. intensificando a narrativa “do sangue”. portanto. 2004. finalmente. Pierre. apontando para uma direção continuada. Dissertação de mestrado – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. na construção que os definem. Hannah.Faba Pérez. 139–163. revelando os tipos de alianças permitidos e os interditados. Coisas Ditas. foram levados por predisposições inconscientes que se movimentam nessas direções. Isidro. como representação de um padrão cultural estrutural. linkam-se somente os convertidos. 1990. Nesse sentido.pdf (último acesso em 23/02/2009). 18. F. In: Social Epistemology. p. É possível pensar. 18(2-3). 29 . como linguagem. Daniela Ferreira. 2004. repetindo-a novamente. Mais ainda. por ser um elemento textual e.virtualknowledgestudio. o link é uma canoa feita de bytes. Nos sites analisados. entre outra formas de “retorno e paralelismo”. como elemento da narrativa ritual do site. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 2000.destes sites agem desta forma. 1983.

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O Orkut é um programa de relacionamentos18 criado em 2004 e que. especialmente por não aparecer enquanto categoria do pesquisador ou como categoria “nativa”. é uma “comunidade on-line”. O Orkut. Facebook (www.com). Saliento que existe uma diferença conceitual entre os termos. 2008). são MySpace (www.Assim. mas essa diferenciação não se coloca como ponto chave para os fins almejados neste artigo. este artigo baseia-se em algumas das reflexões que propus em minha dissertação de mestrado (Parreiras. e o trabalho de Adriana Dias (2007) sobre grupos neonazistas na internet. o que fica claro é a existência de um amplo campo de debates.com). Especialistas em internet utilizam a nomenclatura “programas de redes sociais” para caracterizar os programas criadores e reprodutores de redes sociais na internet.“Não leve o virtual tão a sério”? – uma breve reflexão sobre métodos e convenções na realização de uma etnografia do e no on-line Carolina Parreiras Nos últimos dez anos vêm ganhando força na Antropologia estudos que tomam como foco o ciberespaço17 e as relações nele desenvolvidas. No caso brasileiro. a de Carolina Roxo Barreira (2004).com). que vão da separação ou não entre on-line e off-line à busca de adequar ou mesmo forjar novos instrumentos de pesquisa a fim de dar conta das realidades proporcionadas pelo virtual. Os atrativos do programa Outros termos aparecem como representantes do ciberespaço: internet.hi5. Exemplos desses programas. sobre blogs (diários virtuais) de meninas anoréxicas e bulímicas. conforme a definição constante no próprio programa. desde então.com) e Hi5 (www. tornou-se um dos sites mais acessados por internautas brasileiros. busquei pensar a respeito de algumas das interações desenvolvidas a partir do e no ciberespaço tomando como ponto de partida os relacionamentos estabelecidos entre homens que se relacionam afetiva e sexualmente com outros homens e participam de uma comunidade – denominada Eper – de um programa de relacionamentos: o Orkut (www. online.myspace.facebook. Acredito ser pertinente caracterizar brevemente o Orkut e a comunidade em questão a fim de facilitar a discussão. sobre a construção do corpo em salas de batepapo de deficientes físicos. De modo geral. 18 17 32 . além do próprio Orkut.orkut. realidade virtual. destacam-se pesquisas como a de Daniela Araújo (2004). por exemplo. Nela.

então. mostrou a existência de um número superior a mil comunidades agrupadas como “Gays. adicionar amigos e conhecidos. A Eper chamou minha atenção por ser uma comunidade bastante movimentada. bem como quais eram as convenções e categorias classificatórias empregadas. restringi a observação e participação apenas à comunidade Eper20. Em alguns momentos. 1. por meio de um perfil. 20 Utilizo o nome Eper a fim de não identificar a comunidade e seus membros. que ofereça alternativas aos pares de oposição correntemente utilizados. Diferentemente de outras comunidades que cheguei a observar. com discussões acaloradas entre os membros. Este nome corresponde à abreviatura do nome oficial da comunidade e é utilizado nas conversas e postagens por grande parte de seus membros. a comunidade contava com cerca de 3500 membros e se dizia um grupo com o objetivo de discutir o “universo masculino”. Busco. Para a realização da pesquisa. lésbicas e bi”. trocar mensagens e criar/participar de comunidades com as mais diversas temáticas. Entram também neste quadro a questão das identidades on-line e as maneiras como se dá a virtualização dos corpos e objetos. “Não leve o virtual tão a sério!” Não saberia dizer quantas vezes. Lésbicas e Bi”. trazer algumas breves reflexões a respeito destes aspectos metodológicos. buscando perceber se houve uma reiteração/reprodução ou subversão/rompimento com o off-line. selecionei comunidades classificadas como “gays. Devido à enorme quantidade19 de comunidades encontradas. o fórum de discussões não continha apenas “joguinhos” e “brincadeiras”. Durante a pesquisa. sempre estiveram as questões metodológicas referentes à realização de uma pesquisa de campo em um “local” que desloca muitas de nossas convenções e conceitos. É um ponto central nessa discussão compreender as dicotomias real/virtual e on-line/offline. com este artigo. mas o sentido mais amplo se 19 Um levantamento inicial. durante a pesquisa de campo. a palavra “virtual” foi substituída por “Orkut” ou mesmo “on-line”. feito através das ferramentas de busca disponíveis no próprio Orkut. Como pano de fundo de toda a discussão proposta. 33 . Minha intenção era compreender de que maneira as homossexualidades eram construídas e expressas no virtual (on-line). mostrando de que forma os enfrentei. li esta frase.consistem em. a fim de buscar uma visão mais alargada.

Em contrapartida. sexo. As práticas da “No Escuro” provocaram reações acaloradas. estes sim. Este exemplo deixa clara a existência de uma tensão constante entre dois universos – on-line e off-line –. uma espécie de acessório e espaço destinado ao lazer. supostamente portadores de HIV. ou mesmo como 21 Essa comunidade foi supostamente criada por membros dissidentes da Eper. até agressões e exposições da vida off-line de alguns de meus informantes e da minha própria. Mantenho aqui o nome original. onde tudo poderia ser dito desde que anonimamente. A justificativa principal dos enunciadores de frases desse tipo era de que a internet e o ciberespaço constituiriam domínios separados do restante da vida de cada um deles. ao etnografar uma comunidade on-line. bem como alguns dos usos. a ser utilizado como veículo de difamação e exposição de fatos da vida íntima de vários membros da Eper. revelar segredos e comportamentos de outro modo inconfessáveis. Um dos argumentos mais utilizados foi a divulgação da situação sorológica de participantes da Eper. buscar parcerias (amizade. presenciei inumeráveis situações que desmentiam a afirmação acima e mostravam o alto grau de imersão e investimento dos membros da comunidade nas relações estabelecidas no virtual: desde brigas por divergências de opinião. Este anonimato passou. apropriada como meio de estabelecer relações. 34 . Considero exemplar nesse sentido a criação de uma comunidade chamada “No Escuro21”. calúnias e agressões. contatos profissionais). já que muitos membros tiveram suas vidas expostas.manteve: as relações estabelecidas via internet não deveriam ser investidas de tanta importância. entretenimento e relações fugazes. então. com a revelação de fatos íntimos. significações e ressignificações da internet. e foram alvo das mais diversas ofensas. Eu mesma fui envolvida através de comentários que levantavam dúvidas quanto à seriedade da pesquisa e especulavam sobre minha sexualidade. sérios e importantes. a qual se intitulava um “dark-room virtual”. romances. passando pelo surgimento de paixões e relacionamentos sexuais e afetivos. nem sempre verdadeiros. tal como aparece no Orkut. sem permanência ou qualquer reflexo nos momentos “reais”.

a tensão também apareceu durante a incursão etnográfica.palco para conflitos. então. bem como das epistemes que lhes dão suporte. muito se escreveu nos últimos anos sobre as implicações metodológicas dos estudos que envolvem o ciberespaço. O objetivo mais amplo desse 35 . de diferentes modos. visto que os trabalhos que tratam do ciberespaço possuem como uma de suas características a subversão de pressupostos consagrados em sua elaboração. Refletir sobre o que significa fazer uma etnografia. de modo a lidar com a tensão on-line/off-line – presente em vários momentos da incursão etnográfica que deu origem a este texto – e buscar possíveis alternativas à separação rígida entre esses pólos. mas acredito ser necessário um breve histórico tanto da crítica à etnografia mais clássica quanto às etnografias do e no virtual. pesquisar e escrever um texto passou a constituir a pauta de discussões de diversas correntes teóricas. compreender os desenvolvimentos pelos quais o método antropológico passou e vem passando. Pensar a etnografia se coloca como uma empreitada necessária. a Antropologia também. debruçou-se sobre sua própria prática. propor um amplo questionamento das metodologias canônicas. a antropologia se defronta com a dicotomia on-line/off-line. diferentes em suas proposições. desde o começo da década de 90. agressões. Além disso. Do mesmo modo. então. divergências. compreendido como a imortalizada pesquisa de campo (delineada em seus métodos por Malinowski ainda na década de 1920) somada à escrita do texto antropológico. tendo sido acessada inúmeras vezes dentro da comunidade. discriminações e preconceitos. um recorte que caminha ao encontro de várias das questões que eu mesma me coloquei desde o início da pesquisa: refletir brevemente a respeito das proposições de alguns autores contemporâneos e sua implicação em uma pesquisa que pretendeu enfocar o ciberespaço enquanto espaço simbólico de sociabilidade e interação. desentendimentos. Além de buscar decifrar a organização social de variadas sociedades. Proponho. quando se iniciaram os primeiros estudos sobre o ciberespaço. Como afirmei anteriormente. desta maneira. sobre o fazer antropológico. Faz-se necessário. mas com a preocupação comum de abordar criticamente a própria antropologia e.

haveria o risco de que eu. Como eu não estaria familiarizada com esses “assuntos de homem”. inteligentes. bem como das posturas esperadas de ambos. É como se minha presença enquanto mulher desestabilizasse a organização da comunidade. Por ser a única mulher em uma comunidade composta apenas por homens. Ao elencarem esses adjetivos como definidores das mulheres. sem que entre eles houvesse qualquer coincidência ou interpenetração. A tensão entre on-line e off-line também é importante para entender as diferentes formas de construção identitária encontradas na Eper. intuitivas. A partir das conversas com integrantes da comunidade e da observação das discussões empreendidas no fórum. “exotizasse” os comportamentos descritos. mas em um ambiente fora da comunidade. off-line/on-line – e tentar pensar em alternativas a tal pensamento dicotômico composto por pares muito demarcados. constatei existirem na Eper diferentes tipos de perfis: 36 . mas ocorreram ressalvas. Para eles mulheres são lindas. existiriam assuntos de homens e assuntos de mulheres. bem como categorias fechadas e homogêneas: “os homens” e “as mulheres”. legais. na qual existem características próprias de homens e de mulheres.histórico é fornecer subsídios que venham a problematizar as dicotomias utilizadas recorrentemente para entender o ciberespaço – real/virtual. offscreen/on-screen. Além disso. o que ocorreu foi uma atualização e exacerbação de categorias e convenções de gênero do off-line baseadas nos binarismos. Muitos momentos da pesquisa de campo colocam em questão essa separação. sensíveis. Assim. minha entrada no grupo provocou uma série de reações. A meu ver. O principal argumento utilizado foi o de que aquela era uma comunidade de homens. no falocentrismo e na essencialização de um ser homem e ser mulher. minha interferência nas discussões não era bem-vinda. Havia um medo de que eu pudesse modificar o rumo das discussões e os comportamentos adotados. tratando-os como “bichos estranhos”. enquanto outsider. no entremeio destes pólos. eles se utilizam de uma postura convencional. para homens discutirem assuntos de homens. Um deles ocorreu quando entrei na Eper e comecei a participar das discussões. Tomar o online e o off-line como cristalizados pode levar à perda dos momentos e fatos situados na passagem. A maior parte delas era de aprovação.

a tradução literal evoca a idéia de algo que é falso. comunidades como a Eper funcionam como o único contato com questões e modos de vida gays. fakes espiões. Já os masks evocam a idéia de criação de máscaras. (homo)sexualidades e erotismo a partir de uma comunidade virtual”. preferências e descrições que não apareceriam no perfil “oficial”. Normalmente são colocadas no perfil mask características. os “masks” e os “fakes”. as quais não encontrariam qualquer ressonância em situações existentes no off-line. Sem dúvida. mas também familiares. nesse “meio gay” on-line. Minha hipótese. uma espécie de fingir ser.. são adicionados não apenas os amigos e conhecidos virtuais. Em uma situação off-line. Na Eper e no Orkut como um todo existia um padrão nos fakes criados. fakes eróticos e fakes “perfeitos” (chamados também de “fakes do mal”). Ao interpretar a realidade com a qual me deparei. a partir dos dados recolhidos durante a pesquisa. Os fakes são perfis exemplares no que diz respeito às diferentes possibilidades de manipulação identitária. publicado no livro Prazeres Dissidentes (Parreiras. acredito que o sentido de fake extrapola tais noções. principalmente aquelas de rosto ou de situações que demonstrem a pretendida veracidade das informações ali escritas. colegas de trabalho e amigos off-line.. Um ponto que distingue estes perfis dos demais é a utilização de fotos. então.22 Uma questão a ser pensada diz respeito à maneira como são construídas as identidades no virtual e de que modo a tensão on-line/off-line é colocada. este é um dos temas mais trabalhados nos estudos 22 Realizo esta discussão de forma mais aprofundada no artigo “Fora do armário. 37 . grande parte dos masks nunca teve qualquer experiência afetiva ou sexual com homens e nem mesmo esteve em ambientes GLS. nas conversas travadas no virtual. apesar das quase infinitas possibilidades de manipulação do perfil: fakes engraçados. as quais atuam no jogo de esconder e revelar determinadas informações.os “oficiais”. Aprender a “ser gay” se dá. Quando se utiliza a palavra fake. Para muitos desses masks. no prelo). Foi uma situação recorrente na Eper a crença de que os fakes estariam criando novas identidades. é que a internet representa um modo de “sair do armário”. Nesses perfis.dentro da tela: notas sobre avatares. fabricado. A maioria dos membros da comunidade utiliza seus profiles oficiais ou sociais.

Em outras palavras. A ausência dessas marcas permitiria a construção de subjetividades performativas. Acredito ser necessária uma ressalva: não pretendo sugerir que múltiplas identidades é algo específico do virtual. centrado e autônomo”. incorpóreo).sobre o ciberespaço. de certo modo.23 Outros autores24 vêem no on-line a possibilidade de criação de corpos sem marcas de cultura. Milne (2007). raça. idade ou qualquer outro marcador de diferença. mostra haver uma polarização dos debates. já que são sujeitos sem marcas. o sujeito poderia resistir a ser encapsulado nas estruturas hegemônicas existentes e atuantes apenas no off-line. Há teóricos que creditam ao virtual a capacidade de gerar sujeitos fragmentados e múltiplos. sem idade. em alguns casos. gênero. em que não há um “core estável. identidade e presença a partir de uma lista de e-mails. Assim. raça e classe. existem aqueles25 que pensam a identidade on-line como produto da conjunção de diferentes marcadores (raça. idade) e. 38 . flexíveis e descentradas. Autoras feministas têm um papel importante nesta vertente e advogam que as práticas discursivas encontradas nas comunicações por computador não só mantêm. em seu trabalho sobre intimidade. como também exageram os estereótipos de gênero. Milne fala especialmente de Byron Burkhalter e Elizabeth Reid. mas o estar on-line permite maior rapidez e sigilo na construção destas. sem gênero. de um diálogo com referentes encontrados no off-line. Destaca-se nessa vertente Steven Jones. Desse modo. incorpóreo. o virtual facilita a execução da idéia de que um pode se tornar vários. Por último. as comunicações mediadas por computador (CMC) teriam o papel de colocar numa posição de igualdade seus usuários. em que o “verdadeiro self” é revelado (sujeito sem gênero. Há uma contestação das visões que tomam o sujeito como descontextualizado. existe ainda um diálogo com categorias do off-line. nos quais não são visíveis marcas e convenções de gênero. que passam a ser tomadas como referentes (tanto como afirmação quanto como negação) das 23 24 25 Milne (2007) cita autores como Sherry Turkle e Mark Poster. classe. visto que o on-line exacerba a possibilidade de fragmentação identitária. Mas. sem raça.

em um primeiro momento. que colocam em evidência a difícil relação entre on-line e off-line. Caldeira (1988. Acredito que essas reflexões se inserem em um contexto teórico mais amplo. por isso. Talvez. e um exemplo disso foi a dificuldade do grupo em assimilar minha presença entre eles. nem estão em relação de oposição com o off-line – elas se comunicam com ele de diferentes maneiras. acredito não ser possível afirmar que as construções identitárias ali presentes não trazem qualquer marca de gênero. Ao contrário.identidades moldadas no on-line. marcado pelo questionamento de diversas diretrizes e conceitos utilizados pela disciplina. Estereótipos de gênero podem ser encontrados. 2. Feito o traçado desse primeiro quadro mais geral. A partir do cenário encontrado na Eper. antes de passar às considerações mais pontuais sobre pesquisas focadas na internet e no ciberespaço. raça. momento que mostrou a permanência de visões convencionais de feminilidade e masculinidade. 1989). não envolve qualquer tipo de contato face a face ou mesmo um deslocamento no sentido tradicionalmente adotado para o termo. acredito que esteja armado o pano de fundo para contextualizar as discussões propostas pelos estudiosos contemporâneos que trazem novas abordagens teórico-metodológicas para o virtual. essa crítica foi chamada de “pósmoderna” ou mesmo “pós-estruturalista”. aponta para a existência de mudanças metodológicas e 39 . classe e idade. Inspirada por suas formulações. meu objetivo é pensar sobre as dificuldades enfrentadas para a realização de uma pesquisa de campo que. então. com a apresentação de alguns momentos etnográficos marcantes. penso ser pertinente uma pequena discussão sobre as tentativas de classificar e nomear essas novas teorias e perspectivas. as quais fazem parte de um campo aberto a disputas e polêmicas. essas identidades on-line não sejam tão subversivas como pode parecer à primeira vista. Muitas vezes. ao refletir sobre os desenvolvimentos da antropologia norte-americana a partir da década de 80 e a pós-modernidade em antropologia. os avatares são contextuais e trazem consigo uma série de referentes e marcas.

ocorre um deslocamento nos temas de estudo. que passam a enfocar as sociedades “contemporâneas” (e não apenas sociedades e povos tribais). 1989: 3). mas se há um argumento válido naquilo que eu entendo melhor como pósestruturalismo. 1986). O argumento central de Butler reside na constatação de que o aparato conceitual está permeado por relações de poder. Judith Butler (1998) questiona se o que se chama de pós-modernismo é uma posição teórica ou uma caracterização histórica. Assim. a própria prática antropológica passa a ser tomada como questão. Ao refletir sobre a questão do pós-modernismo. é que o poder permeia o próprio aparato conceitual que busca negociar seus termos. Mas. e mais. Afirma que falar em “pós-modernismo” e “pósestruturalismo” representa uma solução para conferir unidade às diferentes posições teóricas e epistemológicas encontradas. ao reivindicar a condição de experimentos (Marcus e Fischer. que essa implicação dos termos da crítica no campo do poder não é o advento de um relativismo niilista incapaz de oferecer normas. a própria pré-condição de uma crítica politicamente 40 . o que esses teóricos pretendiam era adotar uma postura crítica em relação à disciplina. novos objetos e novas maneiras de pesquisa e análise (Caldeira. os quais só podem ser entendidos como contingentes. ao proceder deste modo – colonizar e domesticar essas teorias sob uma única rubrica – ocorre uma redução das várias posições e o campo do pós-modernismo é “produzido” como um “todo”. a representação é questionada. inclusive a posição de sujeito do crítico. com o privilégio de análises processuais. agrupando-as em um mesmo substantivo. há a crítica ao funcionalismo e estruturalismo. através do questionamento e da desconstrução de muitos dos seus pressupostos e de tentativas de incorporação de novos temas. mas ao contrário. De todo modo. Não sei em relação ao termo “pós-moderno”.teóricas: há uma ênfase no entendimento das questões de poder que envolvem as relações sociais e mesmo a relação do antropólogo com seus sujeitos de pesquisa. E são essas relações as definidoras dos fundamentos empregados pela teoria social. como um conceito universalizante.

A afirmação de Clifford na conclusão desse texto é elucidativa: Today I’ve been working. pela colagem. (Butler. O conceito de cultura só pode ser pensado com foco na representação etnográfica. Clifford fala. pela interação e pela idéia de processo. metropolitano. By “translation term” I mean a word of apparently general application used for comparison in a strategic and contingent way. “travel” as a translation term. “society”. contingenciais e parciais. diálogo. traduttore. contingência. Trânsito dá a idéia de mobilidade. assim. Em um contexto marcado por uma nova ordem de mobilidade mundial (e os meios eletrônicos como a internet estão aí para não deixar dúvida). produtores de conhecimento e etnógrafos. em constante movimento. It offers a good reminder that all translation terms used in global comparison – terms like “culture”. 26 No texto em português. Falar em “viajantes” faz com que se percam as características de transitoriedade e movimento envolvidas nos encontros entre pesquisador e pesquisados. mas acredito que seria melhor falar em “culturas em trânsito”. “mode of production”. formada pela escrita. “Travel” has an inextinguishable taint of location by class. É uma pesquisa de campo que exige residência. overworking. “modernity”. que parte em expedições e longas viagens até terras longínquas ou mesmo exóticas. gender.poderosa e forte que sublima. “peasant”. os nativos. em traveling cultures26 ou culturas em trânsito. também eles. anotando tudo e tentando entrar de algum modo na vida social daqueles que estuda. sugerindo. O que Clifford propõe é pensar o trabalho de campo como travel encounters. disfarça e amplia seu próprio jogo de poder. portanto. E os objetos de pesquisa – as antigas periferias – deixam de estar na pauta do dia. 1998: 17-18) Autores como James Clifford (1997) constatam uma mudança fundamental na escrita das etnografias e mesmo no encontro entre o etnógrafo e os pesquisados. race. viagem. In the 41 . “ethnography” – get us some distance and fall apart. and a certain literariness. visto que está mais coerente com a idéia que o autor deseja passar. a etnografia? Quando se pensa em Malinowski a primeira idéia que vem à cabeça é a do pesquisador em campo. então. Tradittore. então. Em que se transforma. pensar em um trabalho de campo nos moldes tradicionais da disciplina causa estranheza. “man”. permanência. a idéia de movimento. “art”. recorrendo a tropos de universalidade normativa. parcialidade. passam a ser. “woman”. Não se está diante de um pesquisador cosmopolita. Ainda falando em viagens e nos travel encounters propostos. eles podem ser pensados como traduções localizadas no tempo e no espaço e. o termo foi traduzido como “culturas viajantes”. munido de uma máquina fotográfica e um caderninho.

Assim. (Fischer. Diz ele que as novas realidades geradas pelo ciberespaço fazem com que os métodos e vocabulários tradicionais da disciplina precisem ser revistos em alguns âmbitos: na teoria. a etnografia deveria privilegiar tanto o local. estabelecendo as ligações entre essas duas ordens. enquadra-se a etnografia multilocal proposta por George Marcus (1986). multivocal. Do mesmo modo. to provide translation circuitry that recognizes its own relations to other circulating representations. além de multilocal). enough to begin to know what you’re missing. 1997: 39) 42 . to make visible and audible. you learn a lot about peoples. na qual o antropólogo deve tentar abarcar em um mesmo texto diferentes localidades. como o global. contending worlds of difference. Christine Hine (2001) também utiliza a idéia de viagem. but to ground. mostrando as relações e possíveis interdependências entre elas. físico. cultures. Há uma necessidade de ressituar a etnografia. no espaço e na linguagem. ela deveria apresentar os vários discursos. No caso de pesquisas na kind of translation that interests me most. etnograficamente esmiuçado.A grande crítica dirigida aos cânones da Antropologia se refere ao fato de que sempre foram privilegiadas as relações de permanência. material. Em outras palavras. Michael Fischer (1999) faz considerações sobre as pesquisas que tomam como foco o ciberespaço e sua relação com o estabelecimento de uma antropologia crítica. enunciados por diferentes sujeitos que falam e passam a ter voz no texto etnográfico (o texto é. and histories different from your own. ethnographies are challenged to no longer dwell merely in romantic tropes of discovery.(Clifford. na medida em que o ciberespaço promoveu o rearranjo de muitos de nossos conceitos e se configurou como uma realidade na qual todos nós vivemos. Nessa chave. 1999: 297) Ao abordar as etnografias realizadas na realidade virtual. O que ela pontua é que esta viagem vai além do deslocamento físico do etnógrafo. durante tantos anos índice de autoridade na realização das etnografias. estabelecemos algum tipo de relação e criamos representações de nós mesmos e dos outros. em que o “campo” simbolizava um ideal metodológico e um lugar concreto. no tempo. portanto.

bem como estende o sentido do virtual – ele é espaço. minha referência central é Stuart Hall (2003).e off-line. O papel do pesquisador é. Os fakes e masks encontrados na Eper. do texto e das imagens. pensar em autenticidade confere um diferencial importante e coloca como discussão a questão das identidades. Na maior parte dos casos. O “estar lá” aparece revestido por uma conotação diferente: não é presença física. colocado apenas pelo virtual. mas é um dos pontos-chave nos quais uma pesquisa – seja ela em um blog. assim. atestam essa possibilidade e mesmo as dificuldades em se traçarem fronteiras entre on. E este questionamento está diretamente relacionado ao processo de construção identitária: não necessariamente há uma relação de continuidade ou similaridade entre uma identidade27 off-line e uma on-line. que não estabelecer um contato face a face. em chats (bate-papos) ou em listas de discussão – deve se concentrar. O problema de autenticidade não é. é questionar aquilo mesmo que se chama de autenticidade. 27 Quando falo em identidade. 43 . o pesquisador – ao não recorrer ao face a face – tem maior dificuldade em depurar aquilo que é autêntico do que é inventado. A proposta. mas também é setting (cenário) no qual estas múltiplas identidades podem ser performatizadas (Hine. de modo algum. então. Indo um pouco além. por exemplo. não envolve obrigatoriamente um contato face a face e não está circunscrito a uma realidade material. diante dos cânones metodológicos consagrados.internet. Uma das questões que pesam negativamente quando se fala em pesquisas envolvendo a internet é a autenticidade. então. Nota-se. E é exatamente a ausência do face a face o fator que pode colocar em risco. em um programa de relacionamentos. em que há o intercâmbio de experiências e uma viagem através do olhar. em que a parte internauta é apenas um momento da performance. 2000: 41). manter sempre em mente que se tratam de performances identitárias. uma pesquisa no virtual. além de colocar novos pontos analíticos para o pesquisador. esta viagem física é substituída por uma “viagem experiencial”. permite um aprofundamento em campo diferenciado daquele em que a presença física está envolvida.

Pensar o virtual como texto requer considerá-lo como algo móvel e que pode ser lido independentemente do momento em que foi produzido. ao mesmo tempo. Além disso. portanto. presencial ou off-line – Miller e Slater (2004) trazem algumas considerações importantes e que permitem um novo tipo de abordagem da suposta relação de oposição entre on-line e off-line. produzido dentro de um determinado contexto cultural. um processo de leitura e escrita de textos: o etnógrafo lê o que é escrito. os autores apontam a necessidade de trabalhar sempre com a idéia de contextos. que serão lidos pelos sujeitos da pesquisa. sendo que um contexto particular está sempre em relação com outros contextos. evita-se recair em pré-noções 44 . igualmente interpretados e passíveis de réplica. O primeiro argumento apresentado é o de que uma etnografia on-line é possível por envolver todos os outros requisitos de uma etnografia off-line: há observação. em que etnógrafo e pesquisados são. Em relação às dicotomias normalmente utilizadas para se referir ao virtual e ao seu oposto – chamado de real. o face a face não é mais uma condição fundamental para a efetiva realização da pesquisa de campo. participação. é gerado um histórico perfeitamente acessível ao pesquisador tempos após ter sido escrito. a dimensão dialógica e intersubjetiva da etnografia e não se restringe a uma simples leitura de textos. interpreta. sendo pertinente o uso do termo intersubjetividades. Realizar uma etnografia do virtual é. sujeitos e objetos. e pode também ele escrever seus próprios textos. Ou seja. observadores e observados. os autores propõem pensar a etnografia e os dilemas colocados – por sua própria prática etnográfica quanto por grande parte da literatura sobre internet – quando se realiza uma pesquisa com foco no on-line. Isso significa que a interação virtual garante. O que se vê é um processo de mão dupla tanto na leitura quanto na escrita dos textos.Um ponto abordado por Hine e sobre o qual gostaria de me deter é a possibilidade de tomar a internet como texto. A partir de uma pesquisa realizada em cibercafés de Trinidad. do mesmo modo que a não-virtual. corroborando a idéia de que o encontro etnográfico coloca em contato as subjetividades do pesquisador e dos pesquisados. Desta maneira. textos e um relacionamento (diálogo) entre o pesquisador e os pesquisados. Operando desta maneira.

como virtualidade ou ciberespaço, as quais envolvem uma pressuposição metodológica em que o cenário poderia ser tratado como sui generis, autocontido e autônomo (Miller e Slater, 2004: 45). Do mesmo modo, o ciberespaço não deve ser tomado como dotado de unidade, mas sim composto por diversas partes, cada uma delas imersa em um contexto específico e em constante comunicação com outros contextos. A idéia é, então, desagregar o virtual em seus vários processos, interações e relações a fim de não tomá-lo como um objeto único. Assim procedendo, é possível transcender a divisão online/off-line e pensar na passagem (e suas nuances) entre os dois pólos. Uma pesquisa que pretenda trabalhar o on-line não deve se definir simplesmente a partir de uma divisão prévia em on-line e off-line. Essa divisão é, sobretudo, contingente e requer uma problematização a partir do contexto a ser abordado na pesquisa. Como alertam Miller e Slater,
estar off-line não significa automaticamente que se está fazendo uma etnografia, nem estar on-line significa que não se está fazendo uma etnografia. Novamente, a questão é uma escolha metodológica sobre o que constitui o “contexto”, uma decisão que só pode ser feita no contexto dos objetivos específicos de uma pesquisa. (Miller e Slater, 2004: 63)

*** Ao delimitar meu campo de estudo impôs-se também uma preocupação com a metodologia: a idéia de realizar uma etnografia da realidade virtual trouxe uma série de impasses, visto que não se trata de um campo comumente estudado e que, além disso, desloca muitas de nossas categorias, a começar por aquelas relativas a espaços e territórios. Falar dessas novas tecnologias de comunicação e das realidades por elas produzidas requer todo um posicionamento metodológico, o qual visa exatamente conferir legitimidade a um trabalho de campo que rompe com a regra primordial da prática empírica: não se trata mais de contatos face a face, mas de relações mediadas por um meio físico – o computador.Dessa forma, propus, a partir do traçado dos desenvolvimentos da prática etnográfica (prática empírica e texto dela resultante), buscar o local do on-line nas pesquisas realizadas em antropologia.
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E, nesse processo, foi fundamental questionar, já de início, o significado dos termos off-line e on-line. Acredito que um dos méritos de minha pesquisa tenha sido mostrar que, por mais que seja considerado por muitos um espaço revolucionário, o on-line carrega consigo diversas marcas, convenções e padrões. E isso não apenas no âmbito das sexualidades, mas também na construção das identidades, como atestam os masks e fakes, ou mesmo nas questões de gênero, como ficou claro a partir de minha inserção, enquanto mulher, em uma comunidade de homens. No âmbito das identidades, o que a experiência empírica mostrou foi a criação no virtual de avatares que tensionam a relação entre on-line e off-line. Essa descoberta corrobora a iniciativa empreendida de propor não mais uma separação rígida entre esses dois pólos, mas sim a existência de diversas linhas de comunicação e diálogo entre eles. Assim, on-line e off-line são espaços contextuais e contingentes e, ao mesmo tempo em que podem estar separados (como tradicionalmente se pensou), chegam a se confundir. Essas tensões são ainda mais amplas e mobilizam conceitos como os de realidade e autenticidade. Apesar das inúmeras possibilidades oferecidas pelo virtual, em muitos momentos, o que pôde ser notado entre os membros da Eper foi a busca pelas realidades, por extravasar a tela do computador e sair dos “quadrinhos”, buscando encontrar as pessoas por detrás dos avatares. Nesse processo, o conceito de autenticidade mostrou-se estratégico, visto que ainda persiste uma associação entre virtual/inventado e real/autêntico. Meu objetivo neste artigo foi trazer, mais do que respostas, questões e hipóteses a partir de algumas situações e de alguns dados etnográficos recolhidos durante a pesquisa de campo. Mesmo que parcialmente, acredito ter conseguido elencar pontos importantes ao se realizar uma etnografia no e do virtual e mostrar que, acima de tudo, ele deve “ser levado a sério”.

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Ao escolher seu nick (apelido) e um canal. na forma de produtor. inicia o bate-papo em tempo real com outros usuários dentro desse canal. 49 . Fóruns – O termo fórum se refere a uma página de discussão em que mensagens diversas são inseridas ("postadas") por pessoas diversas. Canais de comunicação como MUDs e IRC – Ferramentas de comunicação para usuários registrados. guardar arquivos e links de interesse. maior motor de busca de blogs). Links internos e externos – Link é o enlace de um ponto da rede a outro. os textos escritos por seu proprietário (que pode ser um indivíduo ou um grupo) recebe o nome de post. URLs – Uniform Resource Locator é o endereço de um recurso (como um site. a tela é dividida em duas. os blogs são diários virtuais. Novos sistemas permitem a criação de "salas" de conversa com formato de páginas da Web. os usuários podem interagir através de formas visuais. Existe a possibilidade de outro usuário tecer críticas. Cada parte contém o texto de um dos interlocutores. fazer contrapontos ou reflexões a respeito de um post. individuais ou coletivos. Listas de discussão – É uma lista de e-mails por meio da qual é possível registrar dados dos participantes. Nem todos os “blogueiros” disponibilizam a possibilidade de comentários em seus blogs. podem definir categorias e subcategorias de acesso. ainda. Não há. por possibilitar o acesso do internauta ao conteúdo da rede.Glossário Ambiente hipermediado – Ambiente mediado por computadores. Em alguns sistemas mais antigos de chat. Dezenas de milhares de blogs são construídos todos os dias (segundo o Technorati. uma impressora) na Internet ou numa intranet. Endereço de IP – O IP (Internet Protocol) é um número que identifica o endereço de um computador numa rede privada ou pública. Os MUD (Multi User Dungeon) são sistemas multiusuários e se apresentam como um ambiente em que. necessariamente a possibilidade de comunicação instantânea. ou seja. além do texto. Muitos que o fazem dialogam com os comentários de posts anteriores em novos posts. em outros. numa demonstração evidente de que há uma migração contínua da comunicação para o âmbito virtual. Em cada blog. Redes sociais – Sistema de relacionamento de usuários mediado por computador por meio do qual os internautas criam um perfil (uma apresentação) e podem estabelecer vínculos. além do chat entre os usuários. é possível manipular objetos visuais. previamente cadastradas. um link externo. aqui. um arquivo ou. elaborando comentários. Diretórios – Subdivisões de um endereço de site. Blogs – Considerado por muitos analistas de Internet o maior fenômeno do ciberespaço. criar e participar de comunidades de seu interesse e trocar mensagens. Chats – O termo chat designa a conversa em tempo real através da Internet. elas são restritas aos membros cadastrados. enviar um e-mail ao mesmo tempo a todos eles. os MUD’s requerem programas específicos e conexão a servidores que suportam programas desse tipo. Em alguns fóruns é possível ler as mensagens sem participar do grupo. que guardam sua identidade sob um pseudônimo (nick). o que torna o espaço muito polifônico. mais complexa que o chat. Um link interno remete ao mesmo site. a um site distinto. Assim como o IRC. O IRC (Internet Relay Chat) é um ambiente de conversação on-line no qual o usuário utiliza um programa específico e se conecta a um servidor de IRC.

ETNOGRAFIAS DA JUSTIÇA 50 .

seja nas entrevistas ou em conversas informais (nos corredores do Fórum. nesta coletânea. na qual analiso as práticas judiciais.Escolhas metodológicas em um campo de interlocução entre Antropologia e Direito Daniela Moreno Feriani Introdução Este artigo busca refletir sobre duas propostas de metodologias no âmbito do conhecimento antropológico: a relação entre campo e arquivo e a comparação. Percebi que o que os atores jurídicos29 dizem nos processos criminais não necessariamente condiz com o que dizem fora deles. promotores e juízes no julgamento de crimes de homicídio e tentativa de homicídio entre pais e filhos. nos intervalos de uma audiência a outra. 2009). contribuindo. 29 Utilizo o termo “atores jurídicos” para referir-me a advogados. que são os principais interlocutores deste trabalho. para uma visão mais geral sobre como os crimes entre familiares são interpretados pelos atores jurídicos. Sem perder 28 Para uma discussão sobre a relação entre campo e arquivo na pesquisa antropológica. implica em diferentes argumentos e trajetórias desses crimes na justiça. trazendo-me novas questões28. ver também Mello (2009). O interesse é mostrar como essas escolhas metodológicas permeiam o olhar do pesquisador e influenciam os resultados e as discussões teóricas de seu objeto de estudo. o que trouxe uma nova direção ao meu trabalho. 51 . em que medida a singularidade dos sujeitos envolvidos. promotores e juízes. bem como das relações entre eles. Ao comparar os crimes entre cônjuges e os crimes entre gerações. Outro método adotado em minha pesquisa foi a comparação. buscou-se compreender. Para isso. assim. ou seja. nos momentos de descontração). para além das similitudes e concepções sobre família que estão em jogo. O vínculo entre pesquisa documental (leitura e análise dos processos criminais e banco de dados referente ao perfil sócio-econômico de vítimas e acusados) e pesquisa de campo (acompanhamento de audiências e julgamentos e realização de entrevistas) permitiu-me refinar o olhar sobre os casos estudados. os argumentos e as estratégias de advogados. faço uso de minha pesquisa de mestrado (Feriani.

Minha pesquisa de mestrado teve como campo o Fórum de Campinas. boa dona-de-casa. mãe. ao comparar os crimes entre cônjuges. como se sua posição negativa ou “desvirtuante” numa escala hierárquica de papéis sociais fosse um motivo para 52 . os filhos. pude mostrar como o marcador de gênero também se faz presente nesses últimos. que incluem. filho ou filha. indução ao suicídio e aborto. uso os crimes entre cônjuges como um suporte para me ajudar a pensar os crimes entre pais e filhos. acaba por sofrer um processo de culpabilização. além de homicídio e tentativa de homicídio. alargando. mulher. podendo levar a uma atenuação da pena do acusado ou até mesmo à absolvição. assim. nos quais os estudos mostram como a categoria de gênero influencia o desfecho dos casos. A primeira delas tem como palavrachave o “controle” – controle daquilo que é considerado moralmente correto – o pai. pai. por exemplo. é a partir da comparação que podemos apreender tanto as diferenças quanto as semelhanças entre eles. seja homem. Encontrei um total de 34 processos. A maioria foi de tentativa de homicídio (21 casos). ser o provedor do lar. já que o não cumprimento de seu perfil social é visto como uma justificativa para sua sentença condenatória. a perspectiva comparativa é muito mais uma tentativa de trazer elementos para elucidar a criminalidade geracional. obedientes e sem vícios. um número significativo de casos para análise. Se o ditado jurídico é “cada caso é um caso”. a vítima. uma vez que tais casos não acontecem de maneira tão freqüente ou não chegam à justiça como crimes de homicídio e tentativa de homicídio. Muitas vezes. assim. sendo 21 de crimes de filhos contra pais e 13 de pais contra filhos. duas estratégias jurídicas principais se mostraram à análise: uma que chamei de “moral familiar” e outra de “saúde mental”. um período longo para encontrá-los e ter. portanto. mais especificamente o cartório do tribunal do Júri – o setor responsável pelos chamados “crimes contra a vida”. com os crimes entre gerações. a mãe.de vista a delimitação de meu objeto de estudo. Nesse sentido. seu alcance para além da relação conjugal. Dentro de uma mesma lógica – a lógica do Direito Penal -. ao não se encaixar no papel que dela é esperado. não atender a esses requisitos faz com que o réu. sendo necessário. O período selecionado foi de 10 anos (1992 a 2002). Além disso. caminhe mais rapidamente a uma condenação. Do mesmo modo.

com suas palavras. nesse sentido. não podendo ser responsabilizado pelo mesmo. Se o laudo concluir pela inimputabilidade e o juiz acatá-lo. relatá-los. ou seja. a estrutura do processo. quando o réu não era. o réu será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri. como tentativa ora de justificar o crime e/ou atenuar a pena do acusado. julgando o quanto se encaixam em modelos assimétricos e complementares. ao escrevente. mas o descontrole. Trata-se de falas interpostas: nos depoimentos de vítima. a figura do perito-psiquiátrico é fundamental: a loucura do réu precisa ser comprovada e diagnosticada por um laudo de sanidade mental. não sendo possível alcançá-los tais como foram. uma vez que. ou seja. O que se diz no palco jurídico e o que se diz fora dele Segundo Corrêa (1983). não se deve considerar apenas o texto. entra em cena a questão da inimputabilidade – termo jurídico . posteriormente. réu e testemunhas. mas o contexto – as posições e as performances dos sujeitos ao longo dos autos. Nesses casos. Quando o 53 . Assim. por uso de drogas. que pode assumir diferentes faces: descontrole por doença mental. pode ou não acatar o laudo. a partir da prerrogativa de livre convencimento. porém.um ímpeto. o que está em jogo não é a culpa.que eu chamei de argumento da saúde mental. transformam-se em versões diversas. Para além de fábulas. capaz de compreender o caráter ilícito de seu ato. O juiz. para usar uma expressão nativa. a estrutura do processo em si e o modo como os fatos são traduzidos podem ser vistos como uma fábula. Quando. ouvindo seus relatos para. por álcool ou por uma emoção exacerbada . o juiz faz as perguntas diretamente a eles. Caso o juiz o rejeite. ora de acentuar a gravidade do mesmo. Aqui. a questão não é o controle. ao tempo da ação.o crime do qual foi vítima. ao serem narrados. advogados e promotores jogam com os papéis sociais e posições na família de vítimas e acusados. os processos precisam ser vistos enquanto narrativas e. uma fúria ou. mas a cura. uma “violenta emoção”. sendo essa “tradução” que fica anexada aos autos. o réu deverá ser absolvido e poderá ser internado em um hospital psiquiátrico ou receber tratamento em casa.

Não se trata de uma narrativa qualquer – é preciso levar em conta aquilo que é específico do Direito Penal. por sua vez.advogado e o promotor fazem perguntas. devendo-se. Nesse sentido. e sim do que aconteceu aos olhos do direito. de um lugar ao outro. fazem-no indiretamente. pois. um meio e um fim interligados por um nexo causal. (idem: 259) Sendo a realidade muito mais complexa. em suas próprias palavras. novamente. Em seguida. a ligação de um crime com seu autor) e a idéia do livre convencimento do juiz (mesmo com as argumentações da defesa e da acusação. então o que seus olhos vêem também se modifica. transcreve. pelo menos. basicamente. Parafraseando Geertz (1989) sobre os textos antropológicos. a grande questão é como representar aquela representação (ibid). Os processos jurídicos são. representações. nas quais fatos são feitos (Geertz. os processos jurídicos operam uma simplificação dos fatos. por meio de um vocabulário técnico. é preciso que haja culpabilidade. os textos jurídicos são interpretações de segunda ou terceira mão. da existência do crime. plural e imponderável. as respostas ao escrevente para que as mesmas constem nos autos. não do que aconteceu. o juiz pode contrariá-las se não se convencer. Trata-se. um objetivo. a fim de contê-los ou adequá-los às leis. O jurídico não é simplesmente um conjunto de normas e leis e sim uma maneira específica de imaginar a realidade. Trata-se de documentos históricos e oficiais. há uma seleção dos eventos: enquanto uns são incluídos. 1998). ou seja. não basta a existência de um crime. duas versões para o mesmo fato). Enquanto narrativas. dirigem as perguntas ao juiz que. como a lógica do contraditório (ter. As questões morais são limitadas de tal maneira que podem ser solucionadas através do simples uso de regras específicas. Para isso. e se o direito difere. os processos jurídicos possuem um começo. a noção de responsabilidade como eixo central (para haver pena. outros são excluídos da análise. refaz à pessoa que está sendo ouvida. coerente e coeso. É preciso 54 . portanto. de uma época a outra. um outro exemplo seria contrariar o laudo psiquiátrico). levar em conta as dimensões de poder e interpretação neles presentes. o que demonstra uma intencionalidade. por exemplo. ou seja.

55 . nos julgamentos. fornece elementos “a mais” – no sentido de extra-oficiais – para complexificar o “dado”. ver Cunha (2009). em que um se revela no outro. transformando. o campo. É preciso levar em conta esses pormenores de documentos como os processos criminais para que não caiamos na armadilha de vê-los enquanto fontes primárias ou de tomar os discursos neles presentes como neutros. objetivos e científicos – apesar de ser assim que os atores jurídicos querem que sejam vistos. tais como o predomínio das construções passivas e das frases impessoais. nesta coletânea. ao menos em suas argüições técnicas e 30 Para uma discussão sobre a inserção e posicionamento do antropólogo no campo. Mesmo em situações de extrema violência. a partir de noções de proximidade e distanciamento. Isso é particularmente importante para a discussão que se segue. sendo um primeiro viés interpretativo. Para alcançar esses efeitos. Trata-se de uma via bidirecional. a família. o processo jurídico faz dos veredictos mais do que decisões judiciais: são concepções de mundo da sociedade na qual está inserido. Ao mesmo tempo em que o arquivo permite uma manobra de entrada e posicionamento no campo30.articular a linguagem do “se então” das normas genéricas ao idioma do “como portanto” dos casos concretos. nas conversas informais e descontraídas. a linguagem da imaginação na linguagem da decisão (Geertz. sobretudo dos advogados. neutralidade e universalidade (Bourdieu. a linguagem jurídica está repleta de estratégias sintáticas. por sua vez. *** O argumento de preservar a família é muito recorrente nas argüições dos atores jurídicos. nos corredores. Apesar de revelar uma concepção de mundo. para pedirem a absolvição do réu ou a desclassificação do crime para lesão corporal. 1998). a informação obtida nos documentos. Ao fazer isso. 2004). assim. mas a garantia da eficácia e legitimidade do discurso jurídico. a retórica das narrativas judiciais é a da impersonalidade. Tais recursos não são apenas uma máscara ideológica. na qual mostrarei como o argumento de preservar a família – tão freqüente nas argüições dos processos criminais para se justificar a absolvição do réu – pôde ter sua intenção revelada ao ser confrontado com as situações observadas nas audiências.

ela esteja abalada. nos casos de incidentes domésticos. além do próprio crime em si. a absolvição é mais conveniente que a condenação que poderá. a absolvição foi o resultado mais significativo. de fato. A visão da família enquanto “instituição quase divina”. Debert et alli afirmam que a absolvição nos casos de violência familiar “é conduzida pela lógica. os pesquisadores concluem que argumentos como violenta emoção. putativa ou de terceiros e inimputabilidade por insanidade mental são maneiras de “encobrir o caráter violento que a vida familiar pode assumir” (2008: 207). ainda presente. legítima defesa da honra. Somando as sentenças favoráveis (ausência de denúncia. Como compreender o alto índice de absolvições e desclassificações de delitos nos crimes em família? Alguns estudos sobre violência doméstica argumentam que a tentativa da justiça é de preservar a família ou.formais. Muitas vezes. 56 . resgatar uma certa harmonia. mesmo que. impronúncia e absolvição). Assim. Isso foi dito na defesa de um pai que estuprou a filha dos 16 aos 19 anos. por ora. nas palavras de um advogado. e de um marido que bateu na esposa ao longo de 22 anos de casamento31. ainda exista. 31 O réu é absolvido da tentativa de homicídio contra a esposa e condenado a 1 ano por lesão corporal contra a filha. chegando a engravidá-la. a favor do interesse social. E. temos 17 casos contra 08 condenações. Ao analisarem os processos de parricídio tramitados em duas varas do Júri do Fórum de São Paulo. leva a tratar os crimes que ali ocorrem como incidentes domésticos e a absolvição como o resultado mais conveniente: A jurisprudência e doutrina aconselham que. defesa própria. destruir uma harmonia que. de vez e para sempre. ao menos. mesmo precária. uma reconciliação entre as partes após o crime é mais importante para se determinar a sentença do que os antecedentes e personalidades de cada sujeito envolvido. é vista como instituição a ser preservada a qualquer custo: a impressão que se tem é de que é sempre possível recuperar. um ideal de família. da defesa da família e dos julgamentos a partir do perfil social considerado adequado de vítimas e acusados” (2008: 06). no período de 1990 a 2002.

por isso.. eu não vejo que a justiça enxerga aquilo como um crime familiar e... o que não significa. essa idéia de preservação da família estaria distante da realidade de conflitos... deve ser vista muito mais enquanto retórica..... Quem quer preservar a família não pensa em matar... que não tenha sentido ou relação com o empírico. mãe do filho dele. violências e crimes que cercam as relações familiares. constrói verdades. organiza as relações. percebi não se tratar de uma preservação ou defesa da família. porém.desculpe falar na gíria assim. Eu acho que é um problema isso...... uma muleta que faz parte do “show”. que ela não tenha uma força construtiva... ao entrevistá-los e ouvir conversas informais entre eles. freqüentemente enunciada nas páginas dos processos sobre crimes entre pais e filhos e maridos e esposas e também nas análises desses processos elaboradas por cientistas sociais.e você fala isso para os jurados e os jurados. tendo implicações importantes no mundo social.Aí fica esse discursinho de que ele matou porque queria voltar para casa... não tem colher de chá não. aceitam. não tem isso não. 57 . A frase tão clichê de “preservar a harmonia familiar”.. Porém. uma estratégia. queria nada...o que ele queria era não pagar pensão para ela. Enquanto retórica. já que pauta o cotidiano. viu. às vezes. Trata-se de uma visão da família muito presente no senso comum – a da família como reino do carinho e do cuidado -. é um crime que foi cometido e tem que ser julgado. vai procurar livrar.. (ADVOGADO) Eu acho que a justiça não vê isso como preservação da família não.é mentira... conforme podemos ver nos trechos a seguir: (PROMOTOR) Essa idéia de preservar a família é uma retórica. do lado de fora do palco..... tem um caso agora de um sujeito que tentou matar a mulher..sabe esse tipo de coisa? Fica esse papinho mole.... do que propriamente a opinião ou convicção desses atores quando despidos.Essa conclusão – de que o alto índice de absolvições se deve à tentativa da justiça de preservar ou defender a família – vai ao encontro das argüições dos atores jurídicos estampadas nas páginas dos processos criminais.

Se a idéia de preservar ou defender a família foi tida como retórica. nega... virou uma guerra de família. o filho é acusado de ter tentado matar o pai por disparo de arma de fogo. presenciei a seguinte conversa entre advogado. Segundo o juiz. Aí largou a esposa para ficar com a vítima. vai chorar e tal. A testemunha é o Rogério. A família sofreu muito. dois outros filhos da vítima do caso anterior são acusados de tentativa de homicídio contra a madrasta.. 58 . (Nesse momento.. seu salário estava atrasado). Foram as situações de campo. mas quando tem coisa eu falo mesmo. (PROMOTOR) – Não. não sei não. Rogério é um artista perigoso. Ricardo (promotor).. de observação de comportamentos.. é preciso buscá-la em outros contextos... os réus não tiveram intenção de matar a vítima. se eles se verem. dizendo que a vítima (madrasta) sempre o tratou muito bem.. a juíza chega para dar início às audiências). O crime de tentativa de homicídio é desclassificado para lesão corporal.. é bom ouvir o outro lado. gestos e falas que me permitiram problematizar esse argumento. já que o juiz entendeu que o filho não teve intenção de matar o pai. Enquanto aguardava o início de uma audiência. estava interessada no patrimônio da família e dopava o marido com remédios. não. não o tomando como “dado” para explicar as sentenças favoráveis ao réu.. Ele tinha uma vida estabilizada. O pai queria tomar a loja para sustentar a família. então. eu te falar essas coisas. Em suas palavras: “Ficou claro que os réus apenas queriam que a vítima saísse da casa do pai deles. Desculpe. (ADVOGADO) – Agora eu não sei se peço para pai e filho virem para cá. vai começar a maior baixaria. segundo ele. tentou matar os filhos. Aí saiu uma puta briga. Ela lapidou o patrimônio. pois acreditavam que essa iria dar um golpe econômico no ancião”. No outro caso.. Em um deles...... após uma briga por causa de dinheiro (o filho trabalhava na loja de carros do pai e.. Apesar da gravidade dos ferimentos (a madrasta fica em coma por 1 semana). mas apenas assustá-lo. A seguir. a qual foi fundamental para apreender o olhar “extra-oficial” da justiça sobre a família e os crimes que ali ocorrem. promotor e juíza32. porém. 30 anos mais jovem do que o pai.. a visão que a justiça tem dos crimes familiares? Se a visão que aparece nos documentos é antes uma estratégia do jogo jurídico. A vítima é a amante dele. relato uma dessas situações. qual é. 32 Os atores jurídicos se referiam a dois casos envolvendo a mesma família. (ADVOGADO para o promotor) – Isso é uma guerra de família.. o caso também é desclassificado para lesão corporal. porque vai ser teatro. O companheiro (pai dos réus). Os filhos alegam que a mesma. A testemunha só inventa coisas. O pai tentou acabar com tudo.

(JUÍZA) – Se der corda. Podemos perceber como é outra visão da família que está em jogo – não aquela enunciada nos processos criminais da família como reino do carinho e do cuidado. vai a tarde toda..(ADVOGADO para a juíza) – Excelência. mas a da família como palco de conflitos. Sentam no sofá. As falas dos atores jurídicos nas entrevistas e em comentários espontâneos e informais durante o intervalo de uma audiência e outra. teatro.. é isso? (ADVOGADO) – Não. Então eu deixei eles no meu escritório porque se o pai ver os filhos vai xingá-los. seus membros e seus crimes. confusão. está inventando coisa. intrigas. revelam-nos que 59 . contra a amásia dele. as quais denotam um menosprezo pela família. Quero ver o Júri desse caso: um velho de 60 anos com uma mocinha de 20 que destrói o lar! (PROMOTOR) – Parece novela mexicana! (JUÍZA) – O senhor foi contratado para essa confusão toda? (ADVOGADO) – Fui contratado. entra a vítima. os réus entram. Grifei algumas palavras que nos permitem pensar como os atores jurídicos vêem os crimes entre familiares: guerra... (JUÍZA) – Filhos contra o pai. A testemunha é o pai. caso complicado. Uma baita dor de cabeça. Começa o depoimento). os réus são os filhos e a vítima é a amásia do pai. São palavras com sentidos negativos. umas coisas absurdas. A vítima já fez vários BO’s de ameaça.. devendo ser preservada a qualquer custo... O pai já tentou matar os filhos. a audiência das 13:15hs é um caso complicado. decidiu pela desclassificação do crime.. Tô ficando louco com esse caso. baita dor de cabeça. baixaria.. extremamente formais e técnicas. (Nesse momento. novela mexicana.. ao reconhecer isso.. Em seguida. ao meu lado. diferentemente da retórica e das estratégias que delineiam em suas argüições nos processos criminais. ele me disse se tratar de um “ninho de briga de família” e que o juiz.. coisas absurdas.. (ADVOGADO) – Vai mesmo. Ao entrevistar um dos advogados do caso. violências e crimes..

02 por legítima defesa e 01 por negativa de autoria). como diria Foucault e como mostra Donzelot (1986). sendo que 04 destes foram em função da inimputabilidade do réu. Não se trata de preservá-la. não se trata. A inimputabilidade. houve casos em que se questionou 60 . uma “novela mexicana”. de darlhe um sentido à luz da distinção entre o bem e o mal. Portanto. essencial a todo grupo humano” (1999: 165). teve um peso significativo nos crimes de filhos contra pais. ao contrário. os ideais e as concepções que levam à criação do poder judiciário e seu funcionamento. com a absolvição do réu. de discipliná-la. deixando a justiça desarmada. Ao contrário. os crimes em família parecem desafiar essa capacidade de reintegração dos acontecimentos em uma ordem simbólica. Garapon compara o parricida ao toxicômano por não conseguirem integrar a dimensão simbólica. temos 07 casos. jogando-os para a psiquiatria ou devolvendo-os à família. não foi contestada em nenhum momento. mas. em termos numéricos. de expulsá-la do sistema de justiça porque ela é ingovernável e seus membros são incapazes de entender o que são direitos e deveres da cidadania. Os crimes em família. já que foi o principal motivo para impronunciar ou absolver o réu (somando impronúncias e absolvições. em perspectiva comparada Apesar de a estratégia da saúde mental não ser a preponderante.não se trata de ter um controle sobre a família. parece ser melhor expulsá-los do reino do judiciário e devolvê-los para a muralha que deve cercar a família e o terror destituído de qualquer sentido que ela pode alimentar e reproduzir. nos crimes de filhos contra pais. mas de se livrar de um “caso complicado”. Se para o autor “a meta do julgamento é de reintegrar o crime numa ordem simbólica. Justamente por verem os crimes entre familiares como uma “baita dor de cabeça” que tem levado advogados “à loucura” os atores jurídicos tiram-nos da alçada da justiça. uma “confusão” que impede o bom funcionamento da justiça e desafia a moral e os bons costumes.

Assim. em crimes de pais contra filhos. segundo o promotor. no art. há a mãe que se tranca com o filho no quarto e corta seu pescoço. por fim.em um deles.justamente a imputabilidade33 do réu. Em outro caso. o pai joga o filho do carro e depois bate a cabeça da filha em uma árvore. 26 do Código Penal. a aceitação da loucura. a qual é reconhecida pelos jurados. como a inimputabilidade por uso de drogas. em Plenário. promotores e juízes. 61 . aqui. ao tempo da ação ou da omissão. mas menos convincente. sendo psicopata. O conceito de sujeito imputável é encontrado. não seria inimputável. o laudo foi aceito. nesses casos. um novo laudo é feito. sendo aceita. defesa e acusação alegam. a estratégia da saúde mental não se mostrou tão significativa. já que. por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. portanto. do horror e da maneira chocante como esses crimes se deram . que trata da inimputabilidade por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado: “É isento de pena o agente que. concluindo pela semi-imputabilidade. arranca sua cabeça e coloca fogo. A proporção de casos em que aparece a inimputabilidade nas duas situações é praticamente a mesma: dos 21 crimes de filhos contra pais. A questão. semi-imputabilidade. fura seus olhos com uma chave de fenda. não é a de que a loucura é menos freqüente nos crimes de pais contra filhos. Imputabilidade penal é o conjunto de condições pessoais que dão ao agente capacidade para lhe ser juridicamente imputada a prática de um fato punível” (Jesus. capaz de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento. Imputável. Mesmo em casos polêmicos. é o sujeito mentalmente são e desenvolvido. em outro. tentando suicídio em seguida -. o mesmo foi cercado por dúvidas e fragilidades. aparece em 03 casos (23%). 1983: 420). era. Há ainda um caso em que.8%) e dos 13 crimes de pais contra filhos. 33 “Imputar é atribuir a alguém a responsabilidade de alguma coisa. o advogado discorda de que o réu. sendo contestado pelos atores jurídicos. o pai prega o filho na cruz. inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento”. Apesar da gravidade. nos três casos em que esse argumento foi acionado e comprovado por laudo médico. Enquanto nos crimes de filhos contra pais a conclusão dos laudos médicos pela inimputabilidade do réu era prontamente aceita por advogados. a contrario sensu. portanto. apesar de o laudo ter concluído pela imputabilidade do réu. Já nos crimes de pais contra filhos. tendo o apoio de sua esposa. ela aparece em 05 casos (23. trata-se de um transtorno provisório e voluntário.

35 Os estudos de Izumino (1998. como é necessário para os crimes de lesão corporal registrados nos Juizados Especiais Criminais. 62 . Outro elemento presente foi a autoridade paterna enquanto justificativa para o crime. A bebida. Assim. não querendo dar continuidade aos autos34. mas em sua redução. da violenta emoção. houve casos em que a vítima (filho ou filha) retira a queixa contra o réu (pai ou mãe). foi tida como algo que contribui para a exaltação dos sentimentos. um pai explica que matou seu filho porque este não o estava respeitando. no qual o pai é acusado de ter tentado matar a filha. em muitos crimes de pais contra filhos. deu-lhe apenas dois tapas”. longe de ser considerada uma droga que comprometeria o discernimento moral dos acusados. Nos crimes de pais contra filhos. por que parece ser mais fácil se deixar convencer pela loucura nos crimes de filhos contra pais? Como podemos pensar as singularidades de cada crime a partir desses dois campos: loucura e autoridade? E mais: como podemos compará-los com os estudos sobre crimes entre casais. os quais demonstraram haver duas figuras jurídicas principais – a legítima defesa da honra para maridos que matam ou tentam matar suas esposas e a legítima defesa da vida para esposas que matam ou tentam matar seus maridos? 34 Apesar de os crimes de homicídio e tentativa de homicídio serem de ação pública e não precisarem da representação da vítima para dar continuidade ao caso. “na qualidade de pai. que seria o argumento da saúde mental. 2002) sobre crimes entre cônjuges mostraram que mulheres vítimas de violência por parte de seus maridos retiravam a queixa com freqüência. Em outro caso. “Agora você vai aprender a respeitar o seu velho”. ou seja.encontrou resistência por parte dos atores jurídicos. dizendo “já ter esquecido o acontecido” ou que “já está tudo bem”. teria sido sua fala momentos antes de apertar o gatilho. o advogado alega que o réu. mesmo tendo sido comprovada pelo laudo psiquiátrico. o depoimento e a posição da vítima têm um peso significativo para o andamento e o desfecho dos casos. o que implica não na ausência de pena. A retirada da queixa por parte do filho35 e a autoridade paterna enquanto justificativa encaixam esses crimes em um novo domínio de inteligibilidade – o da autoridade e hierarquia familiar. O que isso sugere? Se pensarmos na idéia de livre convencimento do juiz. Além disso. os réus (pais) estavam entorpecidos pela bebida.

secundário e instintivo. o não controle. defender a vida é uma questão de sobrevivência. mas vítima. tomando-a como uma reação. o louco mata também em um momento de descontrole emocional. mas reage. são vítimas – seja da doença mental. retirando. Ao acionarem a legítima defesa da vida para os crimes de esposa contra marido. mesmo em casos de adultério do marido. uma questão de privilégio. Diferentemente da honra. os atores jurídicos encaixam esses crimes numa esfera biológica de necessidade ou sobrevivência. mas a legítima defesa simples. a mulher mata em geral num momento de desespero. a honra e a autoridade não retiram daquele que age o seu caráter de sujeito autônomo. Além disso. da vida. universal e igualitário. ao contrário de defender a honra. pondo-o no lugar do descontrole emocional. 1983:246). A tese de advogados e promotores é de que “. Ao contrário da legítima defesa (vida) e do argumento da saúde mental (loucura). Ao louco cabe a cura e não a responsabilidade. universal e igualitário. anônimo. seja da violência do marido.Corrêa (1983) mostrou que. Ambos são valores que remetem não ao indivíduo anônimo. Muito diferente é a conotação em torno dos conceitos de honra e autoridade37. a esposa que mata não age. A mesma conotação cerca o argumento da saúde mental. Ao contrário.. portanto. Ambos. racional e intencional. a legítima defesa retira a racionalidade do crime.. 63 . com isso. Para a discussão sobre honra. o não discernimento. algo. o caráter intencional e desencadeador da ação. Assim como a esposa que mata para defender sua vida. ver Taylor (1992) e Pitt-Rivers (s/d). a defesa não acionava a legítima defesa da honra. portanto. Enquanto reação. ver Foucault (2005). a uma posição hierárquica numa sociedade assimétrica. reforçam esses caracteres e justificam as ações daqueles que matam 36 37 Para essa discussão. a vida é o bem mais elementar e universal da humanidade. ou seja. retirando daquele que a tem a condição de pessoa para colocá-lo no domínio do indivíduo. não é propriamente ré. Dessa forma. São marcas da diferença – e de uma diferença positiva. A loucura é a não consciência. presente nos crimes de filhos contra pais. Ter honra e ter autoridade são privilégios – nem todos as têm. mas à pessoa – categoria associada ao status. prestigiosa. para escapar de uma situação que já se tornou insuportável” (Corrêa. a não intencionalidade36.

já que o marido começou a suspeitar de sua mulher. agiu dentro dos padrões morais e éticos que ele tem e que lhe foram estendidos pela sociedade campineira e que são os padrões morais de toda sociedade. de outro) não pela irracionalidade. pais. Após começar a trabalhar fora. a uma quebra de hierarquias. A “nova mulher” – a mulher moderna. maridos e pais. com o argumento da saúde mental. “doença de mulher”. Esses trabalhos mostram como mulheres consideradas “à frente de sua época” foram tidas como doentes/histéricas pela sociedade e por seus médicos. argumentando que a legítima defesa da honra está fundamentada em preconceitos. foi vista como algo essencialmente feminino. já que o réu. Após uma briga. no qual o marido (42 anos. irracionalidade. Enquanto o marido que mata sua esposa é absolvido. ver Showalter (1985. 38 Já o argumento da saúde mental. Isso é muito interessante para 64 . A defesa da vida pelas mulheres e a loucura dos filhos pertencem a um mesmo referencial simbólico – vitimização. mas por uma racionalidade extremada que chega a ser sensatez. descontrole emocional. considerado louco. agiu como age a maioria dos homens. branco. portanto. 39 Para uma correspondência entre loucura e feminino/feminismo. não pode ser condenado. Nas palavras de um advogado sobre o réu que matou a esposa com 08 facadas após a mesma tê-lo chamado de corno manso: Agiu dentro da normalidade. justamente por estar fora do padrão de normalidade. faxineira) após 16 anos de casamento. Porém. de um lado. No tribunal do júri. agiu com toda naturalidade. por ser diferente. com a legítima defesa da honra. apesar de serem valores da diferença. operário) matou a esposa (não consta a idade. é absolvido por legítima defesa da honra. dentro da normalidade. 1993). não atua como homem médio e. sendo associada a uma resistência às normas. Assim. tendo em comum três filhos. seus efeitos práticos são a normalização e banalidade dos atos – agir conforme o homem médio/normal. O réu vai a novo julgamento. em que a mulher o chama de corno manso e confessa que o traía. que lutava por seus direitos – era também a mulher nervosa. O promotor apela. branca. o filho que mata seus pais é absolvido. por ter agido como homem médio. de outro. tendo como base o homem médio e a normalidade. como acontece no caso das esposas e dos filhos. quando posto em prática pela tese de inimputabilidade. vítima e acusado passam a discutir freqüentemente. de um lado. A loucura. o marido a mata com 08 facadas.39 38 Caso 34 do estudo de Corrêa (1983). trabalhadora. mas é absolvido novamente pelo mesmo argumento – a legítima defesa da honra. é possível aproximar esposas e filhos. Ao pensar os crimes em família a partir de campos conceptuais. atua como um valor diferenciador.(maridos. é um valor normatizador e igualitário. não podendo ser julgado como um homem comum.

Por sua vez, a defesa da honra pelos maridos e a autoridade dos pais trazem como elementos a intencionalidade da ação, a racionalidade, o autocontrole, a pessoa em sua especificidade hierárquica. Esposas e filhos estariam, assim, em um pólo feminino; maridos e pais, em um pólo masculino. Para além de tais aproximações, parece haver uma maior indulgência para os crimes entre marido e esposa, pois, quando absolvidos, homens e mulheres vão, de fato, para suas casas. Já nos crimes entre pais e filhos, a absolvição em casos de insanidade mental é muito mais aparente do que efetiva: os réus não vão para a prisão nem tampouco para suas casas; vão para um hospital psiquiátrico. Trata-se, portanto, de diferentes conotações acerca da absolvição, o que sugere diferentes formas de se lidar com a violência conjugal e geracional. Além disso, enquanto os crimes entre casais podem ser lidos como uma “loucura desculpável”, momentânea, uma “loucura lúcida”, os crimes de filhos contra pais se encaixam muito mais numa “loucura insana”, condenável e contrária à ordem das coisas. Assim, em muitos casos de maridos ou esposas que matam por ciúmes, por amor ou por infidelidade, a chamada “violenta emoção”, os atores jurídicos falam em momentos de descontrole, transe emocional, furor; porém, tal loucura é acionada para tornar o crime mais humano e menos punível (Foucault, 2005). Em um dos casos, ao argumentar que o réu agiu “em transe de grande ciúme” ao tentar matar a ex-esposa em função de esta estar vivendo com outro homem, o advogado não pretendeu acionar a estratégia da inimputabilidade, ou seja, da loucura inexplicável, mas a tese da violenta emoção, a qual faz do descontrole algo razoável e, do crime, um ato passível de explicação – não através da insanidade mas da racionalidade e humanidade de se agir em prol de certos valores, como, por exemplo, o amor, a fidelidade, a família. Já nos crimes de filhos contra pais, a loucura acionada é a loucura má, irreparável, irracional, contrária à moralidade, estando já posta mesmo antes do laudo médico: assim, ao dizer para o diretor do Fórum que iria estudar os crimes de filhos contra pais, ele logo me disse: “Ah, aqueles em que o filho é maluquinho”; ou, nas palavras de um advogado,
pensarmos a correspondência entre esposas que matam seus maridos e filhos que matam seus pais: também os filhos, nesse caso, quebraram normas e hierarquias, sendo facilmente classificados como loucos.

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“matar a mãe é, por si só, um ato insano”. Parece haver, de antemão, uma conexão entre um certo crime – matar os pais - e loucura, ao mesmo tempo em que é justamente essa conexão que implica na absolvição do acusado. Ao olharmos para a violência conjugal, de um lado, e para a violência geracional, de outro, podem-se perceber diferentes significados e maneiras de a justiça lidar com cada uma delas. Nas palavras de um advogado,
Entre pais e filhos, é sempre mais grave, né? A conotação é muito mais grave. O espectro dele é muito maior, assim... Porque um filho que mata um pai ou um pai que mata um filho, escapa, um pouco, da natureza humana... é uma coisa meio monstruosa.... agora, marido e mulher, já muda.... é outra coisa..... e é muito mais fácil, viu, conseguir atenuantes... porque entre marido e esposa não faz tanto barulho assim..... agora, quando um pai mata um filho, um filho mata um pai, a repulsa é muito maior... e aí complica....

Essa idéia de que a violência entre pais e filhos é mais grave do que a violência entre cônjuges é compartilhada pelos advogados, promotores e juízes entrevistados. Em suas falas, a oposição entre natureza e cultura, consangüinidade e afinidade, sangue e lei era latente: como a relação entre pais e filhos é da ordem da filiação, os crimes entre eles foram lidos como antinaturais, anormais, monstruosos, graves, raros, inexplicáveis. Na tentativa de darem algum sentido a eles, todos acionaram a loucura como chave explicativa. Já os crimes entre cônjuges não tiveram essa conotação. Sendo uma relação estabelecida por um contrato de casamento, esposas e maridos possuem um vínculo frágil, vulnerável, podendo ser quebrado a qualquer momento. Os crimes entre eles não tiveram, assim, uma idéia de algo contrário à natureza humana, mas, ao contrário, foram vistos como parte da cultura, frutos de sentimentos demasiadamente humanos, como covardia, machismo, rivalidade, competição, egoísmo, paixão, ciúmes. Enquanto os pais que matam seus filhos e os filhos que matam seus pais são vistos como pessoas anormais, nos crimes entre cônjuges, a explicação passa justamente pela normalidade e intencionalidade do sujeito. Assim, mata-se a esposa por ciúmes, por covardia, por machismo; mata-se o

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marido para defender a própria vida. Agora, mata-se o pai ou a mãe por ser louco. A loucura, porém, apesar de significativa, não é o motivo majoritário (dos 34 casos entre pais e filhos, ela aparece em 11). Trata-se, portanto, de uma concepção sobre família, consangüinidade e geração, e não de um dado estatístico, apesar de ser assim que os atores jurídicos queiram demonstrar.40 Será que há mais filhos loucos que matam seus pais do que pais loucos que matam seus filhos ou do que maridos loucos que matam suas mulheres? Corrêa (1983) mostrou que o exame de sanidade mental foi pedido em 03 crimes de homicídio e tentativa de homicídio de marido contra esposa. Mesmo tendo sido atestada uma perturbação mental (como esquizofrenia e psicose) nos laudos psiquiátricos, o argumento da saúde mental não foi aceito em nenhum deles. Será que há mais esposas defendendo sua vida contra seus maridos do que maridos contra suas esposas? Será que os maridos defendem mais sua honra do que sua vida? E será que as mulheres defendem mais sua vida do que sua honra? Não se trata de uma questão numérica, mas sim de uma questão simbólica. Defender a honra, defender a vida e ser louco podem ter o mesmo efeito jurídico – a absolvição - mas não o mesmo efeito simbólico. É preciso optar entre a loucura e a criminalidade, entre a vida e a honra. Para usar uma linguagem foucaultiana, trata-se de uma disputa em torno da verdade. “É o princípio da porta giratória: quando o patológico entra em cena, a criminalidade, nos termos da lei, deve desaparecer” (Foucault, 2001: 39). E quando se trata de defender a vida, não há lugar para a honra. Em todos esses dispositivos ou estratégias jurídicas, o que vemos é um uso contrastivo do gênero enquanto jogo simbólico entre feminino e masculino, uma categoria de diferenciação ou, segundo Strathern (1995), “... como instrumento de comparação”. Nesse sentido, o conceito relacional de gênero é muito bem apropriado pelo discurso jurídico – o feminino é definido em contraste com o masculino; a esposa em relação ao marido, os filhos em relação aos pais, e vice-versa -, já que casa com a própria lógica do direito – a
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Para uma discussão sobre parentesco e os valores atribuídos à consangüinidade e afinidade em diferentes sociedades, ver Radcliffe-Brown (1973; 1982), Evans Pritchard (1966), LéviStrauss (1982); Dumont (1953), Schneider (1980), Overing (1975; 1999), Viveiros de Castro (2002) e Fonseca (2004).

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lógica do contraditório, em que é preciso ter, pelo menos, duas versões para um mesmo evento. A perspectiva relacional do gênero permite tomá-lo enquanto

complexidade e não totalidade, isto é, como “... uma coalizão aberta que afirmará identidades alternadamente instituídas ou deixadas de lado de acordo com os propósitos do momento...” (Butler, 1990 apud Jayme, 2001: 4). Nesse sentido, gênero mostra-se como um importante locus para afirmar, reconhecer e contrastar identidades. Para o discurso jurídico, isso se mostrou fundamental, já que o contraste identitário entre vítima e acusado, mais do que o crime em si, é o que será decisivo para o desfecho do crime. Assim, como dito, a esposa adúltera ou má dona-de-casa, em contraposição ao marido trabalhador e portador de uma honra a ser preservada, acaba por ser responsável pelo crime de que foi vítima. O mesmo ocorre com a mãe desleixada ou com o pai alcoólatra assassinados pelo filho obediente e submisso. Outra implicação da perspectiva relacional do gênero é a crítica à definição de gênero enquanto construção social embasada nas diferenças sexuais. Segundo essa definição, a diferença anatômica entre os órgãos sexuais é vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros. Tendo como sustentação a diferença sexual, vista como dada, natural, biológica, os pilares diferenciadores do gênero seriam levantados com rigidez e concretude. Tal perspectiva, além de essencializar as diferenças sociais, fornecendo a nós categorias dicotômicas de homens e mulheres e localizando o gênero na pessoa unitária, não percebe que a própria diferença sexual também é parte do arbitrário cultural. A não sobreposição entre gênero e dimorfismo sexual permite-nos pensar as configurações do feminino e do masculino em sujeitos em que a oposição principal não é a de sexo mas a de geração, como é o caso da relação entre pais e filhos. A categoria gênero transcende as categorias “homem” e “mulher”, uma vez que abarca duas outras mais gerais: masculino e feminino (Kofes, 1993:28-29). Não há, portanto, uma única masculinidade, assim como não há uma única feminilidade, justamente pelo fato de não estarem restritas, respectivamente, a homens e mulheres e, enquanto categorias, serem arbitrárias, contingentes e históricas. Isso possibilita explorar
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69 . em contraposição à masculinidade da lã. puderam ser lidos a partir de um campo masculino. É preciso descolar o conceito de gênero de uma base sexual para apreender suas ramificações em outros níveis. Sahlins (1979). uma vestimenta. com isso. ondulante. flexível. ao julgarem os crimes entre gerações. aproximando-se. Desse modo. a linha levemente curvada. precisão e é considerada positiva. em contraposição aos filhos que. Um objeto. preguiçosa. masculinas. tons pastel são femininos e cores escuras. entre gerações. do chamado “pensamento selvagem”. a textura dos tecidos e a direção das linhas) são marcadas por relações de gênero. não só entre marido e mulher. uma vez que masculino e feminino transcendem categorias como homem e mulher. como gênero. geração e violência doméstica. independentemente do sexo. dura. é possível apreender novas configurações do feminino e do masculino. já a linha reta sugere rigidez. refinando. O discurso jurídico sobre os crimes em família evidencia. tensa. também independentemente do sexo. por exemplo. temas importantes para a antropologia. o masculino e o feminino têm se mostrado muito férteis para os atores jurídicos em suas disputas simbólicas em torno dos crimes. pois. a seda é feminina. inflexível. aquilo que foi escrito por algumas teorias sobre gênero: as desigualdades e as relações de poder fundamentadas no gênero não são um atributo da relação homem-mulher ou da conjugalidade. fazendo-se ouvir em outras formas de oposição. os atores jurídicos. direta. foram encaixados numa simbologia do feminino. A assimetria entre masculino e feminino extrapola a oposição entre os sexos. Assim. pela prática. macia. acionam relações de gênero: os pais. Ao olhar para as gerações. uma cor. passiva. Inserido nessa operatória intelectual. A igualdade de gênero deve ser pensada para além da relação homem-mulher. e tomando o sistema de vestuário como objeto para sua análise. é frouxa. mostra como as vestimentas (a cor. rude e masculina. um artefato qualquer pode ser considerado feminino ou masculino.as relações geracionais também como uma configuração das relações de gênero. como. 1996). na tentativa de apreender o pensamento burguês como uma operatória totêmica. mas também entre pais e filhos. voluptuosa e feminina. Enquanto “metáforas de poder” (Almeida. rija. gentil.

novamente. esse tipo de investigação. Diante de tantas possibilidades de investigação. apesar de ser assim que os atores jurídicos querem demonstrar. Ao não olharem para o campo. os crimes de filhos contra pais ganharam inteligibilidade com o discurso sobre loucura. outros elementos se agregaram às pesquisas antropológicas. os estudos sobre violência doméstica “compraram” o discurso jurídico. umas vez que não se trata de um dado mas de uma estratégia de pesquisa. Já nos 70 . tais como o estudo em sociedades ditas capitalistas e a pesquisa de arquivo ou documental. não se trata de uma estatística mas de uma interpretação sobre esses casos: assim. a comparação permitiu-me uma maior compreensão de meu objeto de estudo através da percepção das recorrências e singularidades de cada caso estudado. Por fim. Longe de descaracterizarem a antropologia. é preciso fazer escolhas metodológicas e ter consciência delas – em outras palavras. conflitos e crimes”. vendo o quanto dela tem na pesquisa.Considerações finais A pesquisa de campo e o método comparativo são alguns dos elementos que constituíram a antropologia enquanto tal. enfocando apenas os arquivos. refinando meu olhar sobre os crimes estudados. vendo que as argüições dos atores jurídicos nos processos são estratégias cabíveis e condizentes com o ritual lúdico e teatralizado do Júri. permitiu responder a tais questões e não a outras. é preciso que elas fiquem claras tanto ao pesquisador quanto a seus leitores. explicando o alto índice de absolvições pela retórica da defesa e preservação da família. Isso me levou a um novo direcionamento: não se trata de uma defesa da família por parte da justiça. chegando aos seguintes resultados e não a outros. Em meu estudo. ou seja. Ao comparar os crimes. a pesquisa de campo permitiu-me “desconfiar” dos documentos. para usar uma expressão de Schritzmeyer (2001). os de pais contra filhos com as noções de autoridade e hierarquia familiar. Enquanto estratégia. De lá para cá. a metodologia deve fazer parte da reflexão do pesquisador. o quanto essa escolha. mas do reconhecimento de que ela é um “caso complicado”. novos contextos e novas questões. podemos ver quais os argumentos predominantes em cada situação – e. um “ninho de intrigas. esses novos instrumentos permitiram sua expansão para novos temas.

DUMONT. 71 . IZUMINO. Graal. Mariza. __________________. 54. Michel. pude discutir as diferentes configurações da categoria de gênero nos crimes em família: os filhos e as esposas foram lidos a partir de um pólo feminino. FOUCAULT. GEERTZ. 40: 283. Cláudia. 2002. 1998. “Violência. percebe-se (ou se deveria perceber) que foram eles que o guiaram. 2001. 1996: 161-189. n. “O saber local: fatos e leis em uma perspectiva comparativa”. In: O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. 1986. “Gênero. Rio de Janeiro: Revan. Daniela Moreno. Miguel Vale de. 2ª ed. EVANS-PRITCHARD. Petrópolis: Vozes. In: A interpretação das culturas. em um pólo masculino. família e gerações: Juizado especial Criminal e Tribunal do Júri. _____________. Porto Alegres: Editora da UFRGS. GARAPON. Ao cruzar essas interpretações. “Aliados e Rivais na Família: o conflito entre consangüíneos e afins”. P. CORREA. fofoca e honra: etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares. “The Dravidian Kinship Terminology as an Expression of Marriage”. Kinship and Marriage among the Nuer. Rio de Janeiro: Ed. ______________. esposas que matam seus maridos foram vistas como defendendo a vida. em um primeiro momento. In: Revista Brasileira de Ciências Criminais. Janeiro de 2009. História da loucura. Jacques. Oxford: Clarendon. 1953. Os anormais. ano 10. Dissertação de mestrado em Antropologia Social. 2004. 2001. 1989. FONSECA. Morte em família: representações jurídicas de papéis sexuais. Justiça e Violência contra a Mulher: o Papel do Sistema Judiciário na Solução dos Conflitos de Gênero. E. é preciso escolher os métodos – e se. São Paulo: Martins Fontes. Referências Bibliográficas ALMEIDA. Campinas: PAGU/UNICAMP. Graal. Antoine. masculinidade e poder: revendo um caso do sul de Portugal”. In: Coleção Encontros – Gênero. Diante da multiplicidade da antropologia. DEBERT et alli. “Delegacias de Defesa da Mulher e Juizados Especiais Criminais: Contribuições para a Consolidação de uma Cidadania de Gênero”. In: Man. 1998. 2005. 2008. Rio de Janeiro: Ed. FERIANI. 1983. A Polícia das Famílias. In: Família. Rio de Janeiro: LTC. São Paulo: Annablume/FAPESP. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. In: Anuário Antropológico/95. 1966. Clifford. Entre pais e filhos – Práticas judiciais nos crimes em família. ao final. é o pesquisador quem os tem na mão. São Paulo: Perspectiva. os pais e os maridos. E. Universidade Estadual de Campinas/IFCH. 2ª ed. enquanto os maridos que matam suas esposas defendiam a honra. Louis.crimes entre cônjuges. Família e o Tribunal do Júri”. O juiz e a democracia: o guardião das promessas. “Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura”. DONZELOT. W.

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o vizinho. religião. hoje. onde as fronteiras – a partir das quais as alteridades de antropólogos e “nativos” são construídas – aparentam maior nitidez. política etc. 73 . a pesquisa em contextos urbanos. o que compromete o estabelecimento de contornos rígidos para localizar as diferenças que distinguem os sujeitos no encontro etnográfico. geração. Por conseguinte. também em outros campos de estudo a dinâmica de separação e distanciamento entre “nós” e “eles” é problematizada. vida artística e intelectual. Para cumprir tal propósito. reflito sobre minha inserção no campo de pesquisa a partir da dupla condição de antropóloga e policial. essas questões não se apresentam somente no campo da antropologia urbana. que implicam lidar com a problemática da familiaridade e do estranhamento”. Diferente da pesquisa em sociedades geográfica e culturalmente distantes do antropólogo. confronta-se com sujeitos (pesquisadores e pesquisados) imbricados em múltiplos vínculos e papéis sociais. o amigo. por exemplo. gênero. já não é um empreendimento tão excepcional. Gilberto Velho (2003a: 15) O esforço de análise deste artigo é pensar o ofício antropológico em contextos nos quais os sujeitos vivenciam cotidianamente diferentes lógicas. multiplicam-se os trabalhos de pesquisa sobre camadas médias. Ao contrário. papéis e conflitos na trama de relações sociais das quais participam. mormente no que diz respeito à proximidade com o grupo pesquisado e aos limites de construção de alteridades no trabalho de campo. Meu intuito ao refletir sobre tal experiência é pensar as implicações metodológicas do encontro de duas atividades profissionais distintas. Obviamente. estudar o próximo. a penetração da pesquisa antropológica nos centros urbanos promoveu uma aproximação entre pesquisador e “objeto” que repercutiu na trajetória e nos métodos 41 Os argumentos deste artigo foram expostos anteriormente em minha dissertação de mestrado (Melo da Cunha.Da investigação policial à investigação antropológica: implicações da proximidade e do distanciamento na pesquisa antropológica41 Flávia Melo da Cunha “O fato é que.. a ênfase dada a essa discussão é do quanto mais evidente – ou menos disfarçada – essa relação se apresenta em determinado contexto. Nesse sentido. 2008). família e parentesco.

1986: 26). entre outros. homossexuais. a ausência de distanciamento geográfico e cultural e do desconhecimento da língua nativa – aspectos determinantes da etnografia clássica – impõe ao pesquisador adotar procedimentos que lhe possibilitem resguardar-se de sua cultura para melhor compreender o grupo estudado. Durham reconhece a relevância da empatia com os grupos estudados para facilitar a apreensão das categorias nativas. tais como mulheres. a construção do estranhamento dentro de uma realidade aparente ou circunstancialmente familiar (Velho. 2003a). Destarte. 1978. envolvimento que. é possível enumerar centenas de estudos nos quais a proximidade com o tema investigado não é algo extraordinário. instigando o olhar atento e cauteloso do pesquisador aos acontecimentos a sua volta. sobretudo se considerados familiares. atualmente. produzindo antes uma “participação subjetiva e observante” do que uma “observação objetiva e participante” (Durham. 1981). nem sempre contribuiu para a qualidade desses estudos. participar de uma mesma sociedade e guardar com o grupo pesquisado certo grau de compartilhamento cultural não constitui o conhecimento específico construído pela pesquisa antropológica e denota diferentes formas de estar no mundo e conhecê-lo. é através de uma rede de relações precedente à investigação que muitos pesquisadores chegam aos grupos e temas de seu interesse (Velho. tal interesse ancorava-se no compartilhamento de valores e convicções políticas. negros. Ademais. contudo. Da Matta. A pesquisa em tais circunstâncias exige. usuários de drogas. tal familiaridade não é sinônimo de conhecimento científico. Essa tendência é notada no Brasil desde meados dos anos 1960. dedicada a assuntos do cotidiano de grupos marginalizados. segundo a autora.antropológicos e estabeleceu uma dinâmica de permanente revisão de suas técnicas e refinamento de seu instrumental analítico a fim de garantir o controle da dimensão valorativa e lidar com o problema da familiaridade e do estranhamento. nos termos de Roberto Da Matta (1981). as pré-noções devem ser cuidadosamente avaliadas e colocadas sob a égide da típica suspeição antropológica. adverte para o risco de a 74 . Não raras vezes. moradores de rua. Eunice Durham (1986) assinala que desde os trabalhos precursores da antropologia no Brasil muitos estudos dedicaram-se aos problemas vividos na cidade e estes se configuraram como uma espécie de auto-etnografia da sociedade brasileira. Trata-se de uma proximidade relativa porque. Com freqüência. prostitutas. portanto.

elas costumavam chegar envoltas em xales. a inserção em determinados campos seria certamente mais difícil e mesmo inviável caso inexistisse um liame anterior entre pesquisadores e grupos ou instituições estudadas. prisionais e judiciais. Apesar de o rito – análogo ao da fotografia sinalética de Bertillon43 – transformar a confecção dessas fotografias em uma sucessão de posturas 42 Em razão da demora existente na apuração criminal e na tramitação dos processos judiciais. roupas largas. juntamente com o retrato falado e a datiloscopia (estudo das impressões digitais). os ferimentos sofridos. Isso é particularmente relevante no caso de pesquisas em instituições policiais. quando concluí a graduação em Ciências Sociais e trabalhei como investigadora de polícia civil na Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher de Manaus/AM (DECCM). Por tais razões. acessórios utilizados para ocultar. um conjunto de técnicas conhecidas como bertilonagem . sequer o laudo de exame de corpo de delito estava disponível quando das audiências na justiça criminal.e baseadas nos princípios da antropometria. Ora. A fotografia sinalética foi desenvolvida no século XIX e compõe. 43 75 . de frente e de perfil direito (Croce. sem sucesso. Nessas ocasiões. Dentre as atividades rotineiras na delegacia. lenços. Consiste em fotografia comum com distância focal que permita calcular o tamanho real do indivíduo. a delegacia de mulheres anexava fotografias das mulheres lesionadas à documentação enviada aos juizados especiais e às varas criminais. se tal proximidade é fator comprometedor da pesquisa sob alguns aspectos.denominação derivada do nome de seu criador. se todo o esforço da observação participante é obter a confiança do grupo para chegar às senhas de acesso aos códigos da cultura estudada. quando o pesquisador a possui a priori é necessário investir em outros aspectos a fim de que tal proximidade não deprecie a pesquisa desenvolvida sob tais condições. pois resultou da confluência de duas experiências vivenciadas concomitantemente entre os anos de 20012005. nas quais os pesquisadores freqüentemente se deparam com empecilhos para acessar documentos e dependências. 1995: 80). Todavia. A pesquisa de mestrado por mim desenvolvida no Programa de PósGraduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) caracterizou-se por essa proximidade. muitas das vítimas do crime de lesão corporal não mais apresentavam sinais físicos da violência e. em alguns casos.explicação nativa suprimir a antropológica. fui encarregada de produzir fotografias de mulheres lesionadas fisicamente para composição de inquéritos policiais ou termos circunstanciados remetidos à justiça42. e também no intuito de sensibilizar conciliadores e juízes. o francês Alphonse Bertillon . óculos escuros.

Inversamente. sistematizei muitas inquietações e constatações daquele período no projeto de pesquisa. logo. as mulheres atendidas. é um trocadilho de observação participante. a regulamentação é feita através do Estatuto do Policial Civil do Amazonas . 76 .previamente determinadas e com pouca ou nenhuma intervenção dos sujeitos fotografados. vivenciei esta experiência como estudante de Ciências Sociais e policial civil ao apropriar-me das categorias acadêmicas para interpretar os fatos típicos da rotina policial. Portanto. também empregada por Durham (1986: 26). Essa experiência foi intrigante e instigante. Ambivalências do exercício policial Na hierarquia da Polícia Civil do Amazonas44 existem quatro classes 44 Segundo a Constituição Federal de 1988 (art. mencionavam a vergonha sentida diante dos outros e do próprio corpo. segundo o qual o pesquisador deve construir uma inserção tal na vida da comunidade pesquisada de modo a garantir o máximo de compartilhamento possível das categorias nativas a fim de interpretar coerentemente a cultura estudada. Conhecer as histórias daquelas mulheres despertou meu interesse pelo estudo de casos de lesão corporal e provocou minha primeira aproximação com questões relacionadas à violência praticada contra a mulher e aos estudos de gênero. Esta relação é emblemática para a compreensão da construção do problema de minha pesquisa. método consagrado pela pesquisa antropológica. No caso do Amazonas. O ato de vê-las despidas de seus “disfarces” e a exibição de seus ferimentos causava grande constrangimento e desconforto a mim. são regulamentadas em leis estaduais específicas. é relevante refletir sobre o ethos de cada uma dessas experiências e as implicações desse multipertencimento. em conversas informais. 144 § 4º). foi através da “participação observante” que forjei as primeiras indagações de minha pesquisa de mestrado. por tal razão. mas principalmente a elas. A expressão.Lei nº 2. do percurso metodológico adotado e também do modo como minha análise foi forjada pela dupla inserção no campo. Meu interesse foi ainda mais aguçado pelo aparente agravamento dos casos de lesões corporais observado no ano de 2004. as polícias civis desempenham a função de polícia judiciária e são competência dos estados da federação e. Por ocasião dos estudos de pós-graduação.271 de 10/01/1994.

689 de 03/10/1941). função típica da polícia46. A essência dessa atribuição está relacionada à constituição do inquérito policial47. a investigação criminal foi atividade realizada exclusivamente pela polícia do descobrimento até o ano de 1827. O sistema procura fornecer ao juiz indícios para que a presunção seja transformada em realidade” (Kant de Lima. mas também para proteger aquele que acusa de eventuais represálias de um poderoso acusado. O sistema inquisitório não afirma o fato. vítimas ou autores de crimes. determinadas pela autoridade policial. agente da autoridade policial (investigadores). Segundo o estatuto do policial civil do Amazonas. Em 1841. 77 . isto é. supõe sua probabilidade. a atividade retornou à polícia. ao confronto público. efetuadas sem o seu conhecimento. de diligências investigativas atinentes à coleta de elementos de convicção destinados a embasar a acusação criminal” (Penteado Filho. 47 Artigos 4º a 23 do Código de Processo Penal (Decreto-lei nº 3. Todas as classes são subordinadas ao delegado de polícia e as classes de agente e auxiliar estão no mesmo patamar hierárquico. os depoimentos secretos das testemunhas. preservar vestígios do crime. cumpre o dever de constatar a existência do crime através de provas materiais e testemunhais e indicar os responsáveis por sua autoria. apurar a procedência das denúncias. não só para proteger a reputação de quem é acusado. presume um culpado e busca provas para condená-lo. compete aos investigadores de polícia a execução das ações constitucionais de polícia judiciária. peritos criminais. de tradição romana e canônica. A preponderância dessa lógica de formação da culpa é fundamental para compreender o ethos da atividade policial. executar prisões ou conduções coercitivas e zelar pela ordem e segurança da delegacia. 1989: 03)45. 45 Segundo Roberto Kant de Lima. Como a lógica judicial brasileira é fundamentada em “princípios inquisitoriais” (Kant de Lima. 46 De acordo com o delegado federal Célio Santos (2006). ocasião em que foi atribuída ao Juiz de Paz. feita uma denúncia. instrumento formal da investigação criminal presidido pela autoridade policial: “o inquérito policial existe em nosso ordenamento jurídico em face da formação da culpa (preliminar). auxiliar da autoridade policial (escrivães. efetuam-se pesquisas sigilosas antes de qualquer acusação. a investigação criminal. À defesa do acusado este sistema contrapõe o interrogatório do suspeito. preferindo-se as formas escritas às verbais. 1989: 04). “no sistema inquisitorial. ao final das investigações sigilosas e preliminares. assistentes sociais e psicólogos) e apoio à autoridade policial. até anônima. identificar e intimar testemunhas. Tais ações consistem em reunir provas.componentes do núcleo organizacional da instituição: autoridade policial (delegados).

Seu relato consistiu numa descrição detalhada da organização e funcionamento dos distritos policiais na cidade de São Paulo. prevenção. Dentre as várias atividades. Kant de Lima. 1982. A observação da rotina da delegacia de mulheres de Manaus/AM acrescentou outros elementos a essa reflexão. Com a mesma perspectiva de compreender a polícia através de suas ações. Mingardi enfatizou a importância do inquérito policial na dinamização da atividade da polícia judiciária e descreveu em pormenores os arranjos construídos em cada distrito policial para seleção e priorização de tipos de crime e vítimas. Mingardi. aconselhamento e investigação não-criminal. David Bayley (2006) realizou estudo comparativo detalhado sobre o trabalho policial em diferentes países e seus resultados indicaram uma surpreendente variedade de funções e atividades atribuídas à polícia que incluíam. DEAMS) no Brasil. muitos cientistas sociais brasileiros dedicaram-se ao estudo das práticas policiais no Brasil (Paixão. 2006). 1989. entre 1995 e 2006. além da investigação criminal. o autor indica a existência de um elemento geral de identificação da ação policial em todos os países analisados: o uso legitimado da força na regulação da vida social. O trabalho de Guaracy Mingardi (1992) merece destaque por seu ineditismo à época em que foi realizado: no ano de 1985 o autor decidiu ingressar na polícia civil para investigar a instituição a partir da observação participante.2002: 03). Nesse 78 . Poncioni. No entanto. 1992. compreender as práticas policiais requer muito mais do que a descrição de suas atribuições legais. Ademais. Dentre outros aspectos. hierarquização entre e interclasses e participação de colaboradores externos à polícia. definição do papel de cada uma das equipes da unidade. Menciono alguns deles. A mobilização política do movimento feminista incitou a criação das delegacias de mulheres (doravante. e os tipos de demanda desde então apresentados pela sociedade a essas delegacias especializadas atribuíram-lhe caráter e status muito distintos das demais unidades policiais. a importância do inquérito policial como principal atividade da investigação criminal foi cada vez menor nas delegacias de mulheres.

atendimento psicológico. em caso de caracterização da violência doméstica e familiar contra a mulher. A Lei nº 9. manutenção de armamentos. Durante o período em que trabalhei na delegacia de mulheres e realizei a pesquisa de campo. as atribuições desempenhadas pelos investigadores de polícia podiam ser organizadas em seis grupos: atividades cartorárias (registrar boletins de ocorrência. confeccionar requisições de exames periciais e intimações). mas a Lei nº 10.099 de 26/09/199548 ainda era aplicada aos crimes praticados contra a mulher no âmbito doméstico ou familiar49. encaminhamento a outros serviços). Esse processo repercutiu particularmente nas atividades típicas dos/as investigadores/as de polícia e a investigação criminal passou a ser cada vez mais suprimida por atividades de aconselhamento. 9. atividades burocrático-administrativas (entregar relatórios estatísticos. 50 49 A este respeito. A autora menciona a prevalência dos crimes de ameaça e lesão corporal dentre os processos encaminhados pela DEAM ao JECRIM. receber presos. atividades de recepção (dar informações. atividades de investigação (entregar intimações. a Lei nº 9. protocolar documentos) e atividades assistenciais (transporte de mudanças. na 48 Esta lei instituiu a definição de menor potencial ofensivo para crimes e contravenções penais cuja pena máxima fosse de até um ano. a equipe de investigação representava a porta de entrada à delegacia tanto para vítimas quanto para autores de crimes e. que estudou o tratamento da violência doméstica nos juizados especiais criminais de Campinas/SP. assistência social ou psicológica e orientação jurídica.259 de 12/07/2001 estendeu a definição às penas de até dois anos. blitz informativas). atender ao telefone e operar o rádio). Desde a vigência da Lei nº. consultar também o trabalho de Marcella Beraldo Oliveira (2006: 13). procedimento aplicado pela polícia judiciária aos crimes de menor potencial ofensivo. como a maior parcela de crimes atendidos pelas DEAMS foi englobada pela classificação de crime de “menor potencial ofensivo”. atividades de prevenção (palestras.099/1995 também criou os juizados especiais criminais (JECRIM) e formalizou um procedimento de apuração criminal segundo os princípios da celeridade e da informalidade que resultou nos termos circunstanciados de ocorrência. condução a hospitais.340 de 22/08/2006 (conhecida como Lei Maria da Penha). 11. segurança da carceragem e da delegacia). agendar audiências. especialmente na confecção dos termos circunstanciados de ocorrência (TCO)50. 79 .099/1995 não pode mais ser aplicada. orientar as usuárias. a atividade de investigação policial foi gradativamente esvaziada e a maior ênfase do exercício policial nas DEAMS concentrou-se em práticas cartorárias. em substituição do inquérito policial. a Lei nº. Por concentrar tantas atribuições.período. atenção a crianças.

as atividades que caracterizam o caráter assistencial do exercício policial são percebidas como depreciativas e distantes da função primordial de combate ao crime. como preocupação principal. (Poncioni. nota-se a existência de ao menos dois aspectos para compreender o exercício policial: o que a polícia é designada a fazer segundo o ordenamento jurídico de cada sociedade e as diversas situações não-criminais com as quais deve lidar frente aos problemas trazidos pela sociedade.maior parte das vezes. moldar o policial para um comportamento legalista. também observado em outras polícias do mundo. Esse é um aspecto importante não apenas na constituição das delegacias de mulheres. Não obstante tal realidade. A despeito de tamanhas contradições. Poncioni. 2006) reflete a escassez de recursos dessa população para administração dos problemas mais diversos e a conseqüente importância adquirida pela polícia para responder às demandas desse segmento da população. Destarte. quase exclusivamente. o recurso privilegiado dos mais pobres à polícia (Debert. Tais arranjos compunham a rotina dos/as investigadores/as de polícia da delegacia de mulheres. era a única à qual tinham acesso. numa versão burocráticomilitar com forte ênfase no “combate ao crime”. de acordo com Poncioni (2006). Em razão da orientação recebida nas academias de polícia. Das atribuições legais à diversidade de atividades realizadas. omite-se em sua preparação a multiplicidade de tarefas que é exercida no trabalho diário policial e que não se restringe apenas à solução de problemas estritamente legais ou penais. as academias de polícia orientam o exercício policial a enfatizar somente a perspectiva legal de suas atribuições. o conjunto de ações desenvolvidas por um policial resulta dos arranjos elaborados a partir desses aspectos. 2006: 158) Tal contradição acarreta prejuízos ao serviço prestado pelas polícias porque as ações “sociais” são inevitavelmente realizadas por agentes despreparados para tais fins e que não as concebem como apropriadas à sua função policial. como assevera Paula Poncioni (2006) em pesquisa realizada sobre academias de polícia civis e militares do Rio de Janeiro: [a] formação profissional nas academias de polícia expressa uma determinada concepção do fazer policial que privilegia. configurando-se como espaço público por 80 . 2006b. mas.

E.excelência para resolução de problemas aos quais a lei e as demais instituições sociais não respondem. propõe relacionar o inquisidor à confissão e o 81 . A proposta de Ginzburg (1989) parte da comparação entre atas dos tribunais eclesiásticos e textos antropológicos como os de E. Finalmente. Inquisidores. antropólogos e historiadores procuram coisas semelhantes através de métodos e finalidades diferentes: é aqui que a analogia entre inquisidores e antropólogos (e historiadores também) se revela ambígua nas suas implicações. Segundo Ana Paula Miranda (2001: 92). pois outros autores propuseram exercício semelhante ao relacionar analogamente o rito inquisitorial – princípio da investigação policial e da lógica judicial brasileira – ao rito da pesquisa científica. policiais e antropólogos Muito embora sejam atividades com grandes distinções. foi o artigo do historiador Carlo Ginzburg (1989) que adquiriu maior notoriedade. não se trata de um exercício original. tão diferente daquilo que procuramos – diferentes eram sim os meios que usavam e os fins que tinham em vista. ao refletir a respeito dos escritos de inquisidores sobre bruxaria e de EvansPritchard sobre a religião nuer. o primeiro a apresentar tal proposta foi o antropólogo Renato Rosaldo (1986). porém. Miranda (2001) discorda das semelhanças identificadas por Ginzburg. conclui que o esforço em traduzir e interpretar crenças desconhecidas faz parte das verdades construídas por inquisidores. algumas aproximações entre a pesquisa antropológica e o exercício policial são analiticamente possíveis. 1989: 206) Ao observar a seqüência de perguntas e respostas típicas dos interrogatórios inquisitoriais e das entrevistas dirigidas por pesquisadores – antropólogos ou historiadores – o autor reconhece nova semelhança e enfatiza a estrutura dialogal presente em ambas. antropólogos e historiadores. Na verdade. O que os juízes da Inquisição tentavam extorquir às suas vítimas não é. (Ginzburg. afinal. Evans-Pritchard para afirmar que inquisidores. muito embora ressalve que conflito e desigualdade são componentes desse diálogo nos dois casos.

Na abordagem antropológica. Com base nas narrativas oferecidas por usuárias e “informantes”. que também devem ser questionadas e problematizadas. a perspectiva dialogal pressupõe igualdade de direitos e condições eqüitativas de falar e ouvir. convertendo-as em processos criminais ou relatos etnográficos. Inspirada pelo debate suscitado nas reflexões de Ginzburg e Miranda. afinal. ausentes no interrogatório inquisitorial. que previamente escolhe seus “informantes”. considerando a relação construída entre usuárias da delegacia e policiais e entre sujeitos pesquisados e pesquisadores. policiais e antropólogos constroem suas verdades e confeccionam suas próprias narrativas. o repertório do diálogo entre eles e os convence ou não a participar da pesquisa. além das narrativas policial e antropológica. à espontaneidade e à eqüidade atribuídas pela autora à pesquisa antropológica. Muito embora pertinente. detive-me no tipo de relação estabelecida entre os sujeitos envolvidos na delegacia e no encontro etnográfico. os fatos em sua real dimensão são recortados. inventariei alguns aspectos característicos dos fazeres policial e antropológico no intuito de identificar aproximações e distanciamentos entre eles. Para a autora. que não está compromissada com a composição da culpa – como a atividade policial –. sua crítica é limitada. outras narrativas estão em jogo e tanto a usuária da delegacia quanto o sujeito pesquisado escolhe de acordo com interesses diversos o que policial e pesquisador devem conhecer. A primeira diferenciação diz respeito à abordagem. no primeiro caso de iniciativa das usuárias: são elas que interpelam o policial para comunicar um fato – criminoso ou não – e exigir providências. 82 . Nos dois casos.antropólogo à confidência e ressalta o aspecto compulsório da primeira relação e o espontâneo da segunda. O tipo de abordagem denota a relação estabelecida entre os sujeitos. O tipo de relação estabelecida é fundamental para distinguir a finalidade do conhecimento produzido pela antropologia. a iniciativa é do pesquisador. Para isso. delimitados segundo critérios diversos e traduzidos em linguagem apropriada para cada um dos campos nos quais estão inseridos. conforme as normas jurídicas ou científicas vigentes. muito embora também angarie provas para justificar seus argumentos. no primeiro caso de prestação de serviços e no segundo de colaboração ou adesão. Nesses contextos.

Por multipertencimento o autor designou a diversificação de experiências vivenciadas simultaneamente pelos indivíduos em diferentes âmbitos da vida nas sociedades contemporâneas. Implicações do multipertencimento profissional A confluência entre a pesquisa acadêmica e a atividade policial repercutiu na pesquisa desenvolvida durante o mestrado sob vários aspectos que pretendo discutir. refiro-me a minha participação em diferentes âmbitos sociais. antropóloga e militante feminista. psicóloga policial. o programa de pós-graduação e o movimento de mulheres. O primeiro diz respeito ao multipertencimento profissional. Nesse caso. mas valorizada como forma privilegiada de aproximação com mecanismos distintos de construção de verdades e intervenção social no intuito de enriquecer a pesquisa. No entanto. a interpretação antropológica foi privilegiada a fim de compreender os conflitos e sujeitos estudados nesta em sua complexidade. o cerne de ambas expressões designa a mesma experiência de múltipla participação.Em face de tais considerações. 2003b: 42). O diálogo da autora com a definição de Velho é notório. Preservo a expressão multipertencimento para assinalar o duplo vínculo com academia e polícia e refletir sobre suas implicações para a pesquisa antropológica. particularmente no que tange à condição de antropóloga e policial. expressão à qual atribuo acepção idêntica à empregada por Gilberto Velho (2003b). mas a ênfase atribuída à expressão engajamento denota sua adesão política ao movimento de mulheres. assinalando tanto o trânsito entre diferentes domínios como a diversidade de papéis sociais desempenhados em cada um deles (Velho. Reflexão semelhante foi desenvolvida por Victória Santos (2006). Não obstante. a autora adotou o termo multiengajamento para designar os vínculos com a polícia civil. pertencimento ou engajamento profissional. cujos pressupostos exigiram a transformação da condição de 83 . minha formação policial não foi omitida ou depreciada. acadêmico e/ou militante em diferentes âmbitos sociais. Ao classificar minha condição como multipertencimento profissional.

onde o processo de conversão antropológica é incessante. Foi justamente no intuito de estabelecer tal socialização controlada no processo da pesquisa de campo na delegacia de mulheres que adotei uma série de procedimentos. 2001: 131). pois o acesso privilegiado às informações de instituições e grupos com os quais existe um vínculo anterior exige prudência maior na 84 . ao ponderar minha condição de dentro e almejar a construção de um olhar distanciado. empiricamente ela não foi definitiva. mas construída cotidianamente no campo. A esse processo relaciono a analogia feita por Da Matta (1981) entre a iniciação no trabalho de campo na pesquisa antropológica e os ritos de passagem.. Por tais motivos. pude descortinar e criticar muitos dos procedimentos executados por mim mesma diversas vezes durante o exercício policial. a transição não aconteceu sem conflitos e foi observável apenas analiticamente. Em razão dos estudos de pós-graduação. No processo de conversão. afastei-me do exercício policial e retornei à delegacia um ano depois para realização de pesquisa de campo. Evidentemente. [. Meu retorno marcou nitidamente a passagem de um status a outro. Nesse caso. 1981: 152). como os ritos de passagem. Para os antigos pares hierárquicos – conhecedores de meu vínculo institucional – eu não era mais uma “colega de serviço”. para quem o “trabalho de campo pode ser visto como uma experiência subjetiva que faz da busca do outro um encontro consigo mesmo. manifesta inclusive na mudança do tratamento recebido dos funcionários da delegacia. tal como analisados por Arnold Van Gennep (1978) e Victor Turner (1974). “o trabalho de campo. é demasiado oportuna a assertiva de Victória Santos (2001). para os quais tais ritos atuam como mecanismos de inteligibilidade das mudanças vivenciadas pelos grupos sociais e também pelos indivíduos.policial à de pesquisadora.] e esta interação permite reflexões novas e interdiscursivas” (Santos. adotei alguns procedimentos com a finalidade de comprometer o menos possível os resultados da pesquisa e a utilização das informações policiais. muito embora não fosse uma pesquisadora “como as outras”. implica pois na possibilidade de redescobrir novas formas de relacionamento social por meio de uma socialização controlada” (Da Matta.. Segundo o argumento de Da Matta a respeito dessa passagem como marco do trabalho de campo na antropologia.

Durante a pesquisa na delegacia. Na ocasião.utilização de dados conhecidos antes mesmo da pesquisa. pois são marcas de minha trajetória e não pude. mas problematizadas a fim de que uma reflexão apurada sobre as exigências da proximidade e do estranhamento com nossos objetos de pesquisa seja construída. considerei importante utilizar documentos nos quais os mesmos critérios de classificação penal fossem empregados. a alteridade é uma construção. as condições de produção da pesquisa não devem ser eclipsadas. e não um dado. A alteridade não é uma questão resolvida de antemão. à realização de entrevistas com funcionários e à observação do caminho percorrido pelas usuárias da delegacia da confecção do registro de ocorrência até a execução dos procedimentos de apuração criminal. considerei o segundo ano de mestrado mais apropriado para a realização das entrevistas. Nesse sentido. Como não existe na cidade de Manaus outra delegacia de mulheres. muitas das informações do período de participação observante na delegacia ficaram presentes em minha narrativa. Quando as condições permitiram. selecionei mulheres que não conheci durante o exercício policial. uma possibilidade. o antropólogo se transforma no campo em um contínuo exercício de sair de si e não se projetar nas narrativas construídas sobre os outros. coleta de informações em associações de bairro ou grupos de proteção a mulheres –. pois. A despeito desses esforços. dediquei-me à consulta de arquivos. decidi desenvolver o levantamento estatístico dos casos de meu interesse nos arquivos da unidade. Haja vista que cada vez mais antropólogos se deparam com o multipertencimento e não raras vezes dediquem-se ao estudo de instituições e grupos dos quais participam. restringi as visitas aos dias de serviço de equipes plantonistas com as quais não tinha familiaridade. 85 . o ingresso facilitado às dependências e o acesso irrestrito aos arquivos da delegacia de mulheres foram fatores decisivos para elegê-los como ponto de partida da pesquisa. Ademais. Com o mesmo intuito. nem pretendi. apagá-las. Embora outras formas de identificação fossem possíveis – consulta a prontuários médicos do Sistema Único de Saúde (SUS) ou a processos judiciais das varas criminais.

Iracema Dulley (2008) sugere que esse processo de construção de diferenças e alteridades é produzido performaticamente segundo uma perspectiva relacional. A “facilidade” e o “privilégio” no acesso às informações provocaramme grande incômodo e me conduziram a opções metodológicas através das 86 . Uma de minhas maiores inquietações ao iniciar a pesquisa de campo na delegacia de mulheres estava relacionada às estratégias empregadas para reaproximar-me da instituição onde trabalhara e solicitar autorização para consulta aos arquivos e documentos que eu mesma ajudara a produzir. presumi que o acesso a funcionários e documentos não seria um obstáculo à realização da pesquisa. Esse processo implica. portanto. pois.A construção do lugar do outro na pesquisa A construção de alteridades implica na dinâmica de estabelecimento de diferenças entre eu e o outro. tal como asseverado pela autora em tela. isto é. os sujeitos envolvidos no campo são a priori distintos entre si e o trabalho de campo é construído com tal prerrogativa. é também adequada para pensar as relações construídas entre pesquisadores e pesquisados no encontro etnográfico como um arranjo resultante das representações que uns têm dos outros: a pactuação de códigos realizada pelos diversos agentes ao se depararem com a alteridade é performática. reconhecer e acirrar tais diferenças são exigências para construção do distanciamento. a construção do lugar do “outro” na pesquisa antropológica não depende exclusivamente do arsenal teórico-metodológico empregado pelo pesquisador. a participação de ambos e a representação de uns sobre os outros. mas do modo como a relação entre antropólogos e “nativos” é estabelecida no encontro etnográfico. Sua análise. Nesse sentido. Em decorrência da relação amigável estabelecida com a instituição. 2008: 137). no sentido de que é a partir da representação que se tem de outrem e da idéia que se faz da representação que esse outrem tem de si que se age de determinada maneira (Dulley. a relação construída no encontro etnográfico se fundamenta no pressuposto da diferença. Segundo a proposta antropológica. referente ao contexto de missionação em Angola e às relações entre missionários e evangelizandos.

Antes de solicitar a informação de que necessitava. “diferente das outras” e. não obstante todos os cuidados para estabelecer a distância necessária e não mais ser identificada como policial. Minha negativa. enfim. estava sentada em uma das mesas da recepção enquanto aguardava ser recebida pela delegada. porém. pela manhã. eu negligenciara justamente a dinâmica relacional do encontro estabelecido com os “outros” de minha pesquisa. ela retornou à fila de espera e eu pude escutar seu diálogo com outras mulheres que aguardavam atendimento: “Você já veio aqui antes? Aquela moça não é policial? É sim. A despeito de todas as precauções adotadas. minha trajetória e escolha de pesquisa me constituíram uma pesquisadora “da casa”. Eu imaginara que tais precauções fossem suficientes para dirimir os limites da familiaridade com meu objeto de 87 . respondi-lhe negativamente e encaminhei-a a uma policial plantonista para que fosse atendida. registrado em meu caderno de campo: Hoje. Fui interpelada por uma usuária que procurava explicações sobre como fazer uma denúncia na delegacia de mulheres. muito embora eu não me recordasse dela.quais percebi muito dos limites e possibilidades de minha experiência no campo. muito embora eu me imbuísse de um novo status. da escolha das equipes de trabalho. causou-lhe desconfiança porque não era a primeira vez que aquela senhora utilizava os serviços da delegacia e me reconhecera de outra ocasião. a senhora indagou-me se eu era policial. mas sem hesitar. ao chegar à delegacia de mulheres para mais um dia de observação. eu já vim aqui outras vezes e ela me atendeu!” (Diário de Campo) Dentre tantos cuidados. minha identidade policial seria “revelada” em episódios como este. no entanto. Todas as minhas precauções estavam exclusivamente relacionadas à minha proximidade com a rotina policial e os funcionários dessa instituição. Depois de obter a informação desejada. principalmente as mulheres vítimas de violência de quem eu também me reaproximara no percurso da investigação. da triagem dos dias de observação. Sua pergunta surpreendeu-me.

em determinada medida. eu não havia colocado o mesmo problema e tampouco planejado adotar tamanhos cuidados porque não me identificava com tais sujeitos. Demorei a perceber também nesta relação a exigência de construir mecanismos de estranhamento e distanciamento com a mesma clareza com que percebi isso em relação aos policiais e à rotina da delegacia. passei a reconhecer essa categoria como um recorte teóricometodológico que reduz a experiência e a trajetória dos “outros” de minha pesquisa à vivência da violência sem. definem e identificam somente a partir da experiência das relações violentas que vivenciaram. Em relação às mulheres. a diferenciação com o outro “outro” parecia mais “naturalizada”. No processo de construção do lugar dos “outros” na pesquisa. Foi somente depois do episódio narrado acima que pude perceber como a problemática da alteridade se apresentava com maior ênfase durante a pesquisa na delegacia de mulheres justamente porque naquele espaço eu me reconhecia em alguns dos “outros” de minha pesquisa. ignorava que a diferença radical construída em relação aos outros “outros” da pesquisa também deveria ser desnaturalizada. sugerida no processo de construção do estranhamento na delegacia. alcançou êxitos porque descobri coisas surpreendentes a respeito daquele universo e chego à conclusão de que a construção das alteridades exige um trabalho 88 . portanto.estudo. também o meu lugar. rotineiro. desempenhada com limites. Entretanto. Essa tarefa. ajudou-me inclusive a desconstruir a categoria mulheres vítimas de violência empregada para designar o grupo estudado e asseverar os caracteres que distinguia as mulheres de meu estudo. Naquele contexto. estabeleci aproximações e distanciamentos e pude observar com outras lentes aquele mundo que me parecia tão próximo. considerá-las como mulheres que se constituem. em relação às mulheres entrevistadas na segunda parte da pesquisa de campo. Nesse sentido. acirrei diferenças. eu não percebia proximidade alguma com as mulheres por mim categorizadas como vítimas de lesão corporal ou estigmatizadas. o lugar dos “outros” era. desnudo e simples. Por não partilhar da condição de mulher agredida. evidentemente. os policiais. Essa constatação. ao forjar o estranhamento e o distanciamento com policiais e mulheres vítimas de violência. isto é.

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ETNOGRAFIAS DA ARTE 92 .

2002:12).). em uma de suas passagens mais bem-humoradas de História do Riso e do Escárnio. Bergson e Freud. O Riso e o risível (1999). Quintiliano. a contribuição já clássica de Bakhtin (1999) para o estudo do tema. religioso e feudal da época” (Bakhtin. uma densa e competente revisão acadêmica acerca da questão do riso e de seus objetos no pensamento ocidental.. e 93 . Patifes e Paspalhões Cauê Kruger Ecos do Riso George Minois. hordas de filósofos. de historiadores. de psicólogos. 2003:15). que não são nada bobos. encarregam-se do assunto” (Minois.Os Parlapatões. É por isso que. Apesar da permanência e recorrência dos estudos canônicos. o realismo grotesco. (Alberti. que teria no carnaval sua manifestação paradigmática.) mundo infinito das formas e manifestações do riso opunha-se à cultura oficial. o desvio e o indizível fazem parte da existência (. Segundo o autor. em outras palavras.. Victor Hugo. ao tom sério. Para além da obra de fôlego de Minois. a chave para a compreensão da cultura popular na Idade Média eram o riso. ou. diversas outras contribuições vêm dando maior foco ao riso como objeto de reflexão. afirmou: “o riso é um caso muito sério para ser deixado para os cômicos. 1999:6). com Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento.Um picadeiro na Praça Roosevelt . ainda permanece a obra mais influente na área. Este “(. a festa e a comicidade medieval. Cícero. É o caso do livro de Verena Alberti. O riso e o cômico são literalmente indispensáveis para o conhecimento do mundo e para a apreensão da realidade plena. a autora afirma: O riso revelaria assim que o não-normativo. O estatuto do riso como redentor do pensamento não poderia ser mais evidente.. que se pretende um compêndio da produção teórica e literária sobre a comédia da Antiguidade até o século XX. Após ressaltar a importância dos escritos de autores canônicos como Aristóteles. desde Aristóteles.. de sociólogos e de médicos.

para Bakhtin: Todos esses ritos e espetáculos organizados à maneira cômica apresentavam (. As diversas festas medievais.. Este princípio. é fundamental destacar que Bakhtin não subestimava a seriedade e seu efeito sobre o povo. De qualquer modo. liberdade.. 1999:82). 1999:83). nem a civilização renascentista (Bakhtin. consciente e deliberadamente oposicionista” (Bakhtin.. ao lado do mundo oficial. 94 .. 1999:4-5). Isso criava uma espécie de dualidade do mundo e cremos que.) uma visão de mundo.. A liberdade oferecida pelo riso. Para o autor. uma vez que “os homens da Idade Média participavam igualmente da vida oficial e da carnavalesca” (Bakhtin. que por meio dela penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade. imagens e temas populares eram os principais veiculadores da concepção de mundo baseada no princípio do “baixo material e corporal” vigente até o século XVI. centrais para que a cultura do riso tenha conquistado um radicalismo e uma liberdade excepcionais no período.).. em vez de ser vista sempre como crítica e oposicionista.por meio destes fenômenos.. sem levá-la em consideração. rituais. Porém. e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas.. permitido apenas em período de festa. do homem e das relações humanas totalmente diferente (. apesar destes princípios. pareciam ter construído. um segundo mundo e uma segunda vida aos quais os homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporções. poderia freqüentemente ser só um luxo. também conhecido como realismo grotesco. “(. e seus privilégios excepcionais de licença e impunidade acabavam por criar um tipo de comportamento e comunicação particulares que aboliam a distância entre os indivíduos. não se poderia compreender nem a consciência cultural da Idade Média.) se revestiam sempre de um caráter crítico. hierarquias. etiqueta e padrões de conduta. podia-se acessar uma segunda vida do povo. O carnaval significava a abolição temporária das normas.) seria inexato crer que a desconfiança que o povo nutria pela seriedade e seu amor pelo riso (. igualdade e abundância.

(. “ao contrário”. Rebaixar consiste em aproximar da terra. a destruição absoluta. e onde tudo cresce profusamente. Naqueles contextos festivos da Idade Média. degradações. Realismo grotesco não conhece outro baixo. regenerador: é ambivalente. o parto. (Bakhtin.. a gravidez. Degradar significa entrar em comunhão com a parte inferior do corpo. negativo. e pelas diversas 1999:10) formas de paródias. entrar em comunhão com a terra concebida como um princípio de absorção e. ao mesmo tempo negação e afirmação. a ambivalência.. a absorção de alimentos e a satisfação das necessidades naturais. os fenômenos cômicos e carnavalescos concentrariam três características principais: a festividade contagiante. 1999:18-19). das permutações constantes do alto e do baixo (“a roda”). E por isso não tem apenas um valor destrutivo. mais e melhor. e o seio corporal. e portanto com atos como o coito. o caráter universal e geral. mas também para o baixo produtivo. a concepção. mas também um positivo. da face e do traseiro. o baixo é sempre o começo (Bakhtin. 95 . a do ventre e dos órgãos genitais. no qual se realizam a concepção e o renascimento. ao mesmo tempo.) caracteriza-se principalmente pela lógica original das coisas “ao avesso”. profanações. travestis. de nascimento: quando se degrada. amortalha-se e semeia-se simultaneamente. A degradação cava o túmulo corporal para dar lugar a um novo nascimento. relacionado com o nascimento e a ressurreição: O realismo grotesco e a paródia medieval baseiam-se nessas significações absolutas. o baixo é a terra que dá vida. pois os diversos procedimentos de rebaixamento do realismo grotesco veiculavam um princípio de absorção ambivalente. mata-se e dá-se a vida em seguida. Precipitase não apenas para o baixo. coroamentos e destronamentos bufões. Bakhtin demonstra que a relação entre o “alto” e o “baixo” revestia-se de um sentido absoluta e rigorosamente topográfico. para o nada.

em estabelecer seu sentido autêntico.) a tarefa dos historiadores e teóricos da literatura e da arte consiste em recompor esse cânon. 1979: 49). entre outros. conforme veremos na próxima seção. ibidem) Entretanto.. (idem. e (. Em O Paradoxo do Coringa. o religioso e o secular. Contudo. ao invés de sua perspectiva contextual e compreensiva.. ainda mais. a teoria do ritual que ressaltava a separação entre o sagrado e o profano. o cotidiano e o extracotidiano foi gradualmente se afirmando.. 1999: 26). Victor Turner.). Luis Felipe Baêta Neves sintetiza esta supervalorização.Percebe-se sustenta que que Bakhtin propõe uma teoria do riso visando “compreender a lógica original do cânon grotesco” (Bakhtin. Ecos do rito Desde as obras de James Frazer. Émile Durkheim. o cânon grotesco deve ser julgado dentro de seu próprio sistema. É inadmissível interpretá-lo segundo o ponto de vista das regras modernas (. Radcliffe-Brown e Max Gluckman (1966). ligado ao Rhodes-Livingstone Institute e sob a orientação de Max Gluckman. como uma forma renegada e estigmatizada de leitura crítica da opressão (Neves. diversas apropriações dos escritos de Bakhtin têm enfatizado excessivamente sua separação e distanciamento da esfera oficial e seu potencial crítico e libertário. dedicando-se a empreender uma crítica à “ideologia da seriedade”: A tarefa promissora a que uma antiideologia da seriedade deveria se propor seria a de procurar definir um conceito do cômico como uma totalidade em que fosse considerada a comicidade como uma forma específica de conhecimento do social e.. Essa tensão entre o mundo oficial e o popular pode também ser identificada ao longo da história da literatura antropológica no que se refere aos estudos acerca do ritual. passando pelas contribuições de Van Gennep. foi responsável por uma efervescência 96 .

então. “antiestrutural”. passando por rituais de diversos tipos. pela suspensão dos constrangimentos. A liminaridade é caracterizada. A fase final pode tanto restabelecer a ordem anterior através de processos de reintegração. que tende a desaparecer e a dar lugar novamente à dimensão “cotidiana” regida pelas normas sociais. papéis e deveres da vida social habitual. a partir de uma obrigação transgredida. “extracotidiano”. coerções. em que se torna explícita e não mais pode ser tolerada. que acabavam por colocar a mudança e as inovações como algo não pertencente ao sistema social. faz com que uma “brecha” se apresente. fundamentalmente. que vão desde repreensões de uma autoridade. uma interdição ignorada. dotado de um simbolismo efervescente e de uma qualidade criativa única. por exemplo. pois diversos mecanismos de compensação e reparo. como situações de confronto e conflito dotadas de qualidades performáticas e com particular visibilidade e projeção. chegando ao segundo estado.fundamental nos debates teóricos acerca da análise antropológica dos rituais. chamado “crise”. A terceira fase desse processo chama-se “ação compensatória” e possui qualidades performativas e reflexivas intensas. de sua aparição. uma estrutura de status ou honra ameaçada. Em seu estudo Schism and Continuity in an African Society (1957). performances teatrais ou julgamentos. 97 . Partindo da concepção narrativa e temporal do teatro grego e influenciado pela obra de Van Gennep acerca do processo ritual (1978). sobre a estrutura de parentesco em uma sociedade africana. Tais formas de confronto e conflito podem ser observadas através de uma sucessão de etapas relativas ao seu desenvolvimento: a primeira fase. Turner compreende os dramas sociais. podem ser ativados. quanto acabar consolidando um abismo irreparável que causará o fracionamento da comunidade e sua conseqüente separação. Essa situação ganha amplitude. Turner desenvolveu seu conceito de drama social de modo a questionar os modelos estáticos de sistemas sociais vigentes nas análises antropológicas de seu período. Percebemos então que Turner parte da idéia de liminaridade como um “momento” à parte da vida social.

do estrutural-funcionalismo à análise processual. pois permitiria destacar situações polêmicas. Para especificar sua postura metodológica. associadas pelos usuários. 1982:21). diferentemente daqueles que concebiam o ritual como um mero processo de inversão. pois os códigos normativos são deixados de lado e outros princípios podem emergir. volitiva e criativa dos indivíduos normalmente submetidos à estrutura social normativa. foi fundamental para impulsionar o estudo de variados fenômenos performáticos.. possui dimensões semânticas. para Turner “(. O corajoso percurso acadêmico de Turner. Turner invoca a perspectiva de Erving Goffman: se para este “o mundo é um palco”.) o drama social é um tipo de metateatro. afetiva. Muito influenciado pelos escritos de Wilhelm Dilthey. para Turner. isto é. Turner buscará derivá-lo 98 .. Entretanto. 1987:75-6). valores. Contudo. noções. possibilita formas mais livres de socialização e interação entre os participantes. etc. sentimentos. indicando a apreensão justa dos procedimentos da dinâmica social. apresentando qualidades criativas muito particulares. com referência ao significado na linguagem e contexto” (Turner. ao analisar o teatro. a ação e o pensamento. que estaria “envolvida nas relações entre símbolos e conceitos. uma linguagem dramatúrgica sobre a linguagem do desempenho de papéis sociais e da manutenção do status. Fenômeno essencialmente ambíguo. através da qual pôde perceber a estabilidade e a mudança. intérpretes ou exegetas: em síntese. muitas vezes caótico. mesmo que por um período de tempo e espaço específicos. a liminaridade passa a ser o fenômeno mais importante das manifestações culturais. com atenção para o significado produzido localmente e sua dinâmica. não-enquadrado.significando a liberação cognitiva. o mito e o rito como fazendo parte de um processo. performances e conflitos. que constitui a comunicação no processo social cotidiano” (Turner. não-classificado. Exemplo disto é sua proposta de inaugurar a área da “simbologia comparada”. ou seja. O drama social apareceria então como o ponto central das análises. Turner não deixava de valorizar uma perspectiva de compreensão sócio-cultural das manifestações expressivas.

. que poderiam satisfazer-se com a mera aplicação das etapas da estrutura ritual aos mais variados fenômenos simbólicos. (..) não da imitação. Como expressões ou textos performatizados...) mas especificamente. contextual e compreensiva.. leituras e performances são o que faz o texto transformativo e nos capacitam a re-experienciar nosso legado cultural. reintegração ou cisma – (. uma expressão nunca é um texto isolado e estático.) Um ritual tem de ser encenado. um romance lido. ao privilegiar uma fase de sua estrutura processual. coerentemente. uma narrativa contada. Edward Bruner. recitações. unidades estruturadas da experiência tal como histórias ou dramas é que 99 . declamações. 1986:41) Com esta manobra. uma peça performatizada. procura destacar.. crise. É neste sentido que os textos têm de ser performatizados para serem experienciados. (Bruner e Turner. a dimensão da experiência e sua relação complexa com o estudo dos fenômenos expressivos: Existem vãos inevitáveis entre a realidade. um mito recitado.) dos dramas sociais – quebra. Turner põe em risco sua perspectiva diacrônica. não como textos abstratos.. uma atividade enraizada numa situação social.(. em The Anthropology of Experience. ação compensatória. e acaba possibilitando utilizações simplistas de seu arcabouço teórico. uma forma de verbo.. com pessoas reais em uma cultura particular e em uma era histórica dada. da terceira fase. e estas encenações. Nesta perspectiva. da forma processual (. e a tensão entre eles constitui uma problemática chave na antropologia da experiência. e o que é constitutivo está na produção. Ao contrário. Expressões são constitutivas e moduladoras. Nós lidamos com textos performatizados. e especialmente da ação compensatória como processo ritual. mas na atividade que atualiza o texto. ela envolve uma atividade processual. da ação compensatória. reconhecendo que a antropologia da performance é uma parte da antropologia da experiência. editado logo após o falecimento de Turner. seja ela consciente ou inconsciente. a experiência e a expressão.

opera sempre em dois níveis: as pessoas que estudamos interpretam as suas experiências de formas expressivas e nós. aqui. Se por um lado o autor destaca adequadamente a necessidade da análise processual. (. sendo o sintoma mais comum a descontextualização da análise.. Bruner defende a aceitação irrefletida de um “recorte nativo” dos fenômenos performáticos. entretanto. nós interpretamos as pessoas como eles estão se auto-interpretando. por nossa vez. apesar de divergências evidentes sobre a especificidade da obra de arte.. representações e formulações das pessoas sobre sua própria experiência. semiólogos e historiadores. argumenta: A vantagem de começar o estudo da cultura através das experiências é que as unidades básicas de análise são estabelecidas pelas pessoas que estudamos e não pelos antropólogos como observadores externos. (Bruner e Turner. a ausência de função (ou o primado da 100 . Bourdieu argumenta que os filósofos.as unidades de significado são socialmente construídas. Expressões são as articulações. 1986:7). Nossa produção antropológica nada mais é do que nossas histórias sobre as histórias deles.) O processo interpretativo. interpretamos através do nosso trabalho de campo essas expressões para uma audiência doméstica de outros antropólogos. carnaval. chamando a atenção para o processo dinâmico e cultural da construção do significado das expressões em seu contexto. ou quaisquer outras expressões. Um dos autores que mais atenção chamou para esta questão foi Pierre Bourdieu. (Bruner e Turner. por outro. dramas. nós deixamos a definição da unidade de investigação às pessoas ao invés de impor categorias derivadas dos nossos padrões teóricos sempre em mutação. Ao ter em foco as narrativas. 1986:9-10) Se Turner conferiu anteriormente atenção excessiva à fase da ação compensatória dos dramas sociais na análise do teatro. concordam em atribuir à definição de arte propriedades tais como a gratuidade. Em As Regras da Arte. lingüistas. o que acaba por acarretar prejuízos para a adequada análise antropológica.

pelo desinteresse e o desprendimento (afasta as preocupações passadas e futuras) e. reprodução e fabricação da disposição estética que exigem.. uma universalização do caso particular (. (Bourdieu. de que (. a verdadeira ciência das obras de arte deveria: 101 . Sem perceber a historicidade dessa experiência e do objeto artístico. quanto do olhar sobre a obra” (Bourdieu. (Bourdieu. 2005:320). tais perspectivas não tratam das condições históricas e sociais da possibilidade da experiência artística. ou ainda Arthur Danto.) a atitude estética caracteriza-se pela concentração da atenção (separa – frames apart – o objeto percebido de seu entorno). 2005:323) Portanto.. Apesar de algumas teorias terem perspectivas distintas. 2005:319) Bourdieu discorda amplamente dessas perspectivas. para quem a diferença entre a arte e o cotidiano não é mais que uma instituição.. que se fundam mutuamente: sendo que a obra de arte só existe enquanto tal (. sem o saber. tanto da obra. etc.) operam.) se é apreendida por espectadores dotados da disposição e da competência estéticas que ela exige tacitamente”.) em norma transhistórica de toda percepção artística” (Bourdieu... como a de Panofsky. Segundo o teórico. por tomarem a experiência subjetiva da obra como aquela de seu autor. Para o autor. 2005:319) é a definição que Bourdieu traz de Harold Osbourne... “(. o “mundo artístico”. Assim. 2005:321). que define a arte como “o que exige ser percebido esteticamente” (Panofsky apud Bourdieu. pela suspensão das atividades discursivas e analíticas (ignora o contexto sociológico e histórico).) o habitus cultivado e o campo artístico. um exemplo típico deste processo de “dupla des-historicização. os autores dificilmente buscam compreender a arte em um duplo processo que trate da produção e reprodução juntamente com os processos de recepção necessários. o desinteresse. nem das condições de produção. para Bourdieu... enfim. a experiência da obra de arte como dotada de sentido e valor seria um efeito da relação entre as duas esferas da mesma instituição histórica: “(. pela indiferença à existência do objeto.forma sobre esta)..

bem 51 Por limitação de espaço. suas performances e discursos (tanto dentro como fora do palco). Histórica porque a trajetória do grupo. mas também seus discursos. fomentando uma viagem geográfica e histórica pelo teatro paulistano. especificamente na Praça Roosevelt. a pesquisa participante acabou por deslocar o olhar do pesquisador. produtores. que me permitia enfatizar a dimensão simbólica de suas encenações. compreendido como um “circuito alternativo” voltado à “experimentação teatral”. 102 . consumidores. Geográfica porque uma rede de sociabilidades com locus no centro de São Paulo. Como é de praxe nas experiências antropológicas. Para mais detalhes sobre estas. a constituição do campo artístico (na qual os analistas e os próprios historiadores da arte estão incluídos) como lugar onde se produz e se reproduz continuamente a crença no valor da arte e no poder de criação de valor que pertence ao artista (Bourdieu. bem como pela antropologia da performance. a literatura acadêmica e a experiência etnográfica acabaram por deslocar o foco central da discussão: a justa compreensão da especificidade do trabalho dos Parlapatões reivindicou necessariamente relacionar sua expressão estética51 com seu contexto. elucidando também princípios e visões de mundo comuns associados ao local. não poderemos dar aqui a devida atenção ao estudo das performances e peças dos Parlapatões. Patifes e Paspalhões.. Patifes e Paspalhões entre os anos de 2006 e 2007 e que resultou em minha dissertação de mestrado.) descrever a emergência progressiva do conjunto de mecanismos sociais que tornam possível a personagem do artista como produtor desse fetiche que é a obra de arte. ver Krüger (2008). envolvendo não apenas o fenômeno cênico. no início. concorrentes e a história de sua institucionalização. em que acompanhei o trabalho do grupo Parlapatões. logo se evidenciou. de modo que propunha buscar compreender a dimensão crítica.(. Esses marcos teóricos e metodológicos traduzem a tensão entre a análise antropológica e a pesquisa etnográfica que desenvolvi na cidade de São Paulo. Contudo. diretamente influenciada pela crítica da “ideologia da seriedade”. isto é.. reflexiva e política da forma de atuação dos Parlapatões. A proposta desse estudo foi. 2005:326).

em uma jornada de teatro promovida pelo SESC-SP. Literatura. construíram uma trajetória de longa duração e de tamanha projeção no cenário teatral como os Parlapatões. em 2001.54 Com sua formação reconstruída a partir das iniciativas de teatro de rua ocorridas em 1991. iniciam experiências artísticas que têm a comicidade como característica principal. Sobre o TBC. a ponto de terem sido escolhidos para assumir uma sala na reinauguração do Teatro Brasileiro de Comédia52 em 1999. Prêmio Shell de melhor cenografia para Não Escrevi Isto em 1998 e prêmio APETESP de melhor direção para Emílio Di Biasi pela peça ppp@wllhmshkspr. ver Prado (2007) e Pontes (2000 e 2008). consolidando uma das maiores expressões do processo de modernização. o nome de Associação Paulista de Críticos Teatrais (APCT). Os Parlapatões. de filiações. memórias e oposições frente a personalidades. na juventude.como a promoção de eventos. o grupo teve seu primeiro espetáculo de repercussão em 1993. em 1956. adotando seu nome atual e incorporando progressivamente os setores de Artes Visuais. 103 . Música Erudita e Rádio. 54 Os Parlapatões receberam os seguintes prêmios: Prêmio Estímulo da Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo com Zerói em 1995. Em 1972 sofreu uma reestruturação. adotando. Cinema. urbanização e metropolização da cidade de São Paulo. terem sido consagrados com indicações e prêmios de instâncias de consagração como o Prêmio Shell de Teatro e o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte53 para suas montagens.br em 1999. Música Popular. até ser 52 O Teatro Brasileiro de Comédias (TBC) foi criado em São Paulo por Franco Zampari em 1948 e acabou por ofuscar as iniciativas teatrais desbravadas no Rio de Janeiro até então. Dança. participarem do festival internacional de teatro de Edimburgo. conseguindo inserir-se no circuito dos festivais teatrais nos anos seguintes. Estabelecendo novos padrões de “apuro” das produções e interpretações e alavancando o teatro moderno nacional. na Escócia. prêmio Coca-Cola de teatro jovem com a peça “De cá pra lá de lá pra cá”. realizada pelos Parlapatões. Desde 1956 premia anualmente as melhores produções artísticas e seu reconhecimento é altamente valorizado no contexto teatral. pela consolidação da profissão teatral (até então malvista) e pelas primeiras reflexões sistemáticas acerca das teorias de interpretação. Patifes e Paspalhões: o riso entre o palco e o picadeiro Muitos são os grupos de amigos que. 53 A Associação Paulista de Críticos de Artes teve suas bases sedimentadas em 1951. Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte em 1997 com a exposição Vamos Comer o Piolim. o TBC foi responsável pela inserção de diversos encenadores estrangeiros no território nacional. grupos e conceitos relativos à história do teatro paulistano. Mas poucos são aqueles que. partindo de apresentações de palhaço improvisadas nas ruas do centro de São Paulo. Televisão. permitiu-me perceber a construção.

Daí em diante até 2008. conseguiu grande repercussão não apenas no meio teatral. que se propunha a tarefa irreverente de apresentar a obra compactada de Shakespeare em noventa minutos. sudeste e centro-oeste do país e ainda inaugurava seu novo espaço. Diversas outras “celebridades” acabavam por ficar quase anônimas. a partir de setembro de 2006.br. mobilizando ainda um patrocínio da Petrobrás para o evento de abertura. além de 55 O Espaço Parlapatões foi inaugurado em 11 de novembro de 2006. o grupo. coincidência reapropriada pelo grupo. Este exemplo ilustra a busca de posturas políticas que o grupo sempre se esforçou por alcançar em suas performances. produzimos 27 espetáculos. Hugo Possolo). apresentava-se em um circo itinerante próprio. debates. saiu de seu teatro em direção à rua portando aviões infláveis. No período em que iniciei a etnografia. Marcos Ricca. chamado "Projeto da Utopia". com destaque para Marcelo Drummond. Neste período. leituras dramáticas e pequenos festivais temáticos. todos com inserção em festivais. que. misturadas à multidão que permaneceu no local pela madrugada adentro. Rosi Campos. o grupo apresentou diversos espetáculos. No folheto de lançamento do Espaço Parlapatões e do evento de inauguração. viabilizado pela Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR). Mário Bortolotto e Sérgio Carvalho. mas também na mídia.convidado a dramatizar a trajetória do grande palhaço brasileiro Piolim em 1997. Sucesso de público e crítica. Jairo Mattos. José Celso Martinez Correa. gozando de ampla cobertura e divulgação. boa repercussão na mídia e público assíduo. Contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo (Lei 13. com a proposta de percorrer diversas cidades do sul.279/02) desde 2003. na performance de inauguração. Uma grande quantidade de artistas de teatro e televisão estiveram presentes. que se constituiu no maior trunfo de bilheteria e mídia do grupo: ppp@wllmshkspr. em uma dupla alusão ao atentado terrorista ao World Trade Center e à falência da companhia brasileira Varig. 104 . pode-se ler: Nosso Sonho de Palhaços chega à Praça Roosevelt Há quinze anos participamos ativamente da vida cultural paulistana.55 com uma extensa programação de apresentações. alavancou o convite seguinte. o único da América Latina sem mastro central. o grupo administrava o espaço de seu escritório. mantinha seu último espetáculo em cartaz (o primeiro solo de seu principal expoente.

produzida em grupo e tão significativa para a cidade de São Paulo. geralmente desprovidos de capital cultural ou formação teatral 105 . a estética do escracho. com várias vertentes de linguagem. eventos. Somar-se a esse movimento é parte de um sonho que começou nas ruas do centro e que agora ganha abrigo para seguir em seus delírios utópicos. publicações. Mesmo cometendo injustiças frente à inegável particularidade de cada trajetória. nenhum dos integrantes do grupo “nasceu” no picadeiro. damos um passo significativo ao estabelecer o Espaço Parlapatões na Praça Roosevelt. bem como um mapeamento das tendências e forças do campo teatral paulistano no contexto do surgimento e desenvolvimento dos Parlapatões. seus discursos e tomadas de posição. Hoje. palestras e debates. Todas essas ações. a influência do teatro de rua. numa intensa relação de arte e cidadania. espaços não-convencionais. interferências cênicas e performances. local que aos poucos se torna o eixo de uma produção diferenciada. feita de forma contínua. Uma retrospectiva da trajetória do grupo. Não é fruto do acaso que todos os Parlapatões – Hugo Possolo. que envolviam recursos financeiros de grande porte. além da escolha da figura do palhaço como elemento central de suas performances. de classe média. público cativo. a improvisação e interatividade. dentro ou fora do palco.participar de uma enorme quantidade de ações. além de uma profissionalização e divisão de tarefas dentro do grupo. Alexandre Roit. com as principais características cênicas dos Parlapatões: o estilo cômico. acabavam por contrastar. do sexo masculino. podemos estabelecer um padrão abstrato comum a todos os integrantes do grupo em formação: são jovens. Os ovos do ornitorrinco Apesar de os Parlapatões definirem-se como palhaços. Raul Barreto e Jairo Mattos. são fundamentais para compreender e explicar seu lugar social no teatro paulistano. Claudinei Brandão e Henrique Stroeter – chegaram ao circo através do teatro. organização de mostras. entre espetáculos de rua. à primeira vista.

posteriormente. ver Mencarelli (1999) e Veneziano (1991). Costa (1999) e Raulino (2006). as montagens de O Percevejo de Luiz Antônio Martinez Corrêa.58 dirigido por Cacá Rosset. discurso e proposta. Ridenti (2000). que carregavam em seu estilo cênico grande influência popular. da qual seria professor e diretor. A emergência da linguagem circense nos palcos teatrais nacionais acompanhou o próprio desenvolvimento da expressão cênica nacional. 1999). Schwarz (2008) e Napolitano (1998. Este movimento foi possibilitado e acompanhado por um processo de instituição de escolas circenses em São Paulo. foi possível concretizar a Academia Piolim de Artes Circenses. Silva (1981). Mas apenas a partir de 1976. a transferência da Academia para o pavilhão de circos do 106 .57 Porém. 58 Sobre o Teatro do Ornitorrinco. ver Guinsburg e Silva (1992). em uma quadra do Estádio do Pacaembu. principalmente com as formas de teatro ligeiro. Opinião e Oficina. 59 Mesmo com parcas verbas e em local inadequado. a primeira tentativa de instalação de uma escola de circo no país data de 1967. estas grandes matrizes do teatro nacional tiveram em comum a busca do nacional popular. Apesar de os dirigentes terem conseguido. na década de 80.59 Esta presença poderia ser reconstituída para destacar as filiações do circo com o teatro de revista brasileiro e demais gêneros “ligeiros”. os professores chegaram a ensinar. como influências fundamentais para a construção da linguagem teatral de diversos grupos. magia e outras modalidades a cerca de 700 alunos em menos de um ano. do grupo Teatro do Ornitorrinco. que acabam respondendo a uma “tendência de valorização do circo” que eclodiu na capital paulista na década de 80 e que é fundamental esmiuçar. trapézio. quando Miroel Silveira assumiu a Comissão de Circo. pholias physicas e pataphysicas. e principalmente Ubu. criada em 1978 (Costa. ver Campos (1988).56 e ganhou força na década de 60 nas montagens do Arena. 57 56 Ainda que pesem as distinções de estilo. constituíram-se como marcos. Sobre o assunto. Segundo Eliene Costa (1999) e Castro (2005). que permaneceu em funcionamento até 1982. 2001). seja a partir de esforços em prol de uma literatura dramática nacional. apresentou um projeto na Assembléia Legislativa visando construir em São Paulo a única escola de circo da América do Sul. seja a partir da influência musical ou mesmo ao propor um resgate da “brasilianidade” no palco. Sobre o Arena e o Oficina. Fernandes (2000). a primeira escola de circo de São Paulo. como destacam Arêas (1990) e Silva (1996). Em 1970 Waldemar Seyssel. quando se cogitou a construção do Circo Estadual de São Paulo. equilibrismo. acrobacia.específica. o palhaço Arrelia. entre eles os Parlapatões.

62 Ver Silva (1996). mais revelador do que ter visto o Ubu. em 1985. pregava uma linha “alternativa” e “contemporânea”. parte da revalorização da linguagem circense se explica por duas formas distintas de apropriação: a primeira procurava resgatar uma expressão “tradicional” e popular. é significativo que a maioria de seus alunos tenha sido proveniente das classes médias. Também Salvador passa a ter uma escola de circo quando. que por sua tradicionalidade. fundam a Escola Picolino de Artes do Circo. Se a proposta dessas instituições60 era “evitar a extinção da categoria circense”. a expressão cênica poderia ser performatizada como um ideal milenar. 107 . ícone de saber popular. iniciativa de José Wilson Moura Leite que transformou seu empreendimento. em uma escola não-profissionalizante com apoio da Secretaria Municipal. 60 Além da Piolim e da Picadeiro. mas também grande parte do elenco que realizava as performances circenses no mencionado espetáculo Ubu. o Circo Royal. que. um dos fundadores dos Parlapatões. buscando orientar crianças de rua através das artes circenses.61 Para além do capital espetacular de rápida aquisição que o circo possibilitava. devido a suas características espetaculares e sua tendência antiilusionista. ex-alunos da Piolim. itinerância e “precariedade”62 veiculava uma noção de oposição à modernidade.Contudo. Dessa forma. visando impedir a “extinção da categoria”. a cidade já contaria com outra escola de circo: a Circo Escola Picadeiro. que tinham “a finalidade de aprender algumas modalidades para aplicar em trabalhos artísticos” (idem). revela-se uma instituição pública de grande importância e referência no panorama circense do país. Luis Olimecha funda a Escola Nacional de Circo em 1982. oposta. destaca: “Para mim. basicamente jovens que procuravam um “entretenimento gratuito e diferente” (Costa. após dois anos do fechamento da “Piolim”. Alexandre Roit. ou como um caminho fértil para a performance. a segunda. Verônica Tamaoki e Anselmo Serrat. foi ter entrado no Circo-Escola [Picadeiro] e ver que todo mundo de teatro estava lá”. que em suas encenações com o grupo de teatro Mambembe explorou abertamente a técnica Anhembi (local muito mais apropriado). a falta de verbas mínimas fez com que a iniciativa se encerrasse. 1999: 124-5) ou artistas de televisão. cinema e teatro. fundamentais para nosso trabalho. devemos destacar que no Rio de Janeiro. Magnani (1998) e Bolognesi (2003). Exemplo da primeira tendência é a obra de Soffredini. Esta instituição forneceu não apenas a técnica e a assistência necessárias. por formar artistas de circo e reciclar profissionais. 61 Em entrevista ao autor concedida em setembro de 2007.

2006). é fundamental destacar a influência do movimento do Novo Circo. como ilustra a formação e explosão do Cirque du Soleil. dotando-a de caracteres diferenciais atualizados. que propunha ao ator um extenso treinamento corporal e emocional. o tempo prolongado. Sobre as grandes tendências de interpretação. o grupo mineiro Galpão e algumas produções de Gabriel Vilella. mesmo em sua vertente mais “visual” e próxima da performance art. o processo histórico de hegemonia do palco italiano e as críticas ao modelo naturalista. também chamada de naturalista. Para compreender adequadamente esta dimensão “moderna” associada ao circo. orientadas por seu método das ações físicas.da triangulação.64 associado. que tem no Cirque Du Soleil seu principal representante. seu principal representante. a expressão circense no palco foi também associada ao processo de crítica ao teatro “convencional” representado pelo palco italiano. ver Cohen (2002). A segunda tendência tem em Ubu Rei. ao menos desde o A performance art é um gênero cênico com influência do surrealismo e dadaísmo. Trata-se de uma expressão cênica menos convencionalizada e mais radical. 64 63 Esta forma de interpretação. é interessante destacar que. muito relacionado com o movimento do happening que o antecedeu. que se constituiu como a principal referência do estilo. 108 . As preocupações do diretor russo visavam erradicar as tradicionais atuações declamatórias e baseadas em clichês. Carlson (1996) e Glusberg (2003). Este movimento de revitalização do circo tem repercussões mundiais. o espaço reconfigurado. Mário Bolognesi. ver Roubine (1989). bem como a herança dos movimentos da performance art. e vale-se das características feéricas dessa expressão tradicional. texto de Alfred Jarry encenado pelo grupo Ornitorrinco. coreográficos e dramáticos (Bolognesi. a extinção do picadeiro e do apresentador e os fortes investimentos nos aspectos cênicos. Porém. um dos maiores estudiosos do país sobre o tema. afirma que o Novo Circo se caracteriza pela abdicação da narrativa épica.63 que aparecem no panorama teatral paulistano no período. tem em Constantin Stanislavski seu principal formulador teórico. Sobre o tema. etc.). centralidade do texto dramático e orientação interpretativa de influência stanislavskiana. bem como o Ventoforte. em que os atores interagiam por intermédio da platéia. que deveriam ser substituídas por expressões mais “verdadeiras”. em que os elementos teatrais são estendidos ao máximo (o texto pode ser suprimido. em um artigo crítico sobre o movimento.

Circo Zanni. o Acrobático Fratelli.66 Pode-se. ao longo da trajetória do grupo. A grande visibilidade ocorreu em 1993 com a vitória da Jornada SESC de Teatro. Patifes e Paspalhões tem origem.65 O circo apresentava uma forma de atuação distinta dos procedimentos tradicionais de interpretação. Tratava-se de uma narrativa paródica da vida e dos feitos de 65 Esta classificação das produções teatrais da época foi influenciada diretamente pela teoria cênica de Bertolt Brecht e de outros teóricos marxistas que influenciaram direta ou indiretamente as produções do Teatro de Arena. Centro Popular de Cultura e Teatro Oficina. partiram de princípios comuns a toda uma gama de grupos interessados em desempenhar um “teatro crítico” do status quo. tiveram a rua como palco e basearam-se em números de palhaço aprendidos no Circo-Escola Picadeiro. Da escolha e desenvolvimento de alguns desses quadros experimentados na rua derivaram seus primeiros espetáculos. para o espetáculo Sardanapalo. os Parlapatões passaram a distinguir-se dos demais por uma série de escolhas e tomadas de posição dentro e fora do palco. e permitia a utilização de técnicas de ilusionismo e amusement centradas nas evoluções tecnológicas (Cohen. As primeiras experiências cênicas. La Mínima. Porém. mas também o XPTO. Nariz vermelho: tradicional ou alternativo? O começo da atuação dos Parlapatões foi marcado pelo esforço para descolar a imagem do recém-formado grupo das montagens infantis iniciais. distinto do “comercial”. veiculando o circo como ícone associado a uma expressão popular. Sobre o assunto. Schwarz (2008). estimuladas pelos membros fundadores do grupo e alguns convidados. então. ver.teatro engajado da década de 1960. Linhas Aéreas. a Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes. 66 A estes se somarão os grupos Jogando no Quintal. a dimensão visual. que visavam a um circuito alternativo. a Nau de Ícaros. É nesse contexto que não apenas o grupo Parlapatões. no início de sua atuação. Farândola Troupe. 2002). Na Makaka. 2001) e Ridenti (2000). afirmar que os Parlapatões. a Doutores da Alegria e outros. Hollanda (1980). entre outros. Napolitano (1998. à burguesia e ao conservadorismo. 109 . entre vários outros que compõem de fato um campo teatral profissional desta expressão. o que possibilitou seu primeiro patrocínio. a Intrépida Troupe. que valorizava o performer.

centrado na improvisação. principal porta-voz do grupo. essa forma popular de teatro traz à atuação cênica um domínio específico.Alexandre. Este era. 68 67 Hugo Possolo. vistos como nobres e “clássicos”. não faz referência apenas ao seu sentido clássico. os atores empregavam a narrativa épica67 e buscavam a interatividade com a platéia. invariavelmente através de Possolo. pelo protagonista. que é responsável por estabelecer nas atuações um nível “horizontal” (de igualdade) entre artista e público. Embora a forma narrativa dos Parlapatões não utilize sempre esse efeito para promover a explicitação de situações políticas em cena. Segundo ele. Os Parlapatões nunca deixaram de valorizar a experiência do teatro de rua e a figura do palhaço como seus principais ícones diacríticos: o grupo sempre se representou (a seu público ou aos pares nos diversos eventos. Segundo os atores. porta-voz da equipe) como um coletivo de teatro cuja formação constituiu-se de forma nãoconvencional. aqui. em encontros e principalmente na experiência do teatro de rua. de narrativa de grandes feitos de um herói. a narrativa épica provocava um distanciamento em relação à forma ilusionista do teatro. fundamental para a forma de atuação do grupo. tanto a experiência de rua como a comédia são amplamente “pedagógicas” ao ator. o diferencial do grupo. voltada a manter sua atenção. que se valia desse distanciamento narrativo para produzir uma nova forma cênica. Além da paródia de acontecimentos. O grupo retratava-o dividido entre o desfrute da vida e a busca incessante pela ampliação de seu poder e explorava à exaustão as referências à Antiguidade (principalmente a relação do protagonista com o filósofo Aristóteles e as especulações acerca do suposto livro escrito pelo filósofo e destinado à comédia). que dava amplo destaque para a suposta crise existencial proveniente da tomada de consciência. de sua condição de mortal. destaca que a comédia é elemento de sedução do público. baseada em oficinas. como ocorre em Brecht. que procurava trazer “a rua para o palco”. 110 . funcionando como uma importante forma de referência ao artista) e descompromissada (sem as determinações do palco italiano). na utilização tridimensional do espaço (resultado do formato tradicional da roda) e na interatividade com a platéia. pois a comunicação com a platéia seria mais direta (a presença do público e o riso denotariam entendimento e fruição da cena. nos aprendizados recebidos na escola de circo. palestras e workshops. o Grande.68 É importante destacar que o termo. personagens e do imaginário associado à Antiguidade. mas também à influência da teoria de Bertolt Brecht. segundo depoimento de Hugo Possolo em entrevista ao autor em julho de 2007. procurando sempre romper com a narrativa de forma a explicitar a situação de representação.

é particularmente relevante por sua abordagem contextual. privilegiando espaços nãoconvencionais a partir de uma narrativa épica em tom crítico e questionador. a obra de Linda Hutcheon. centrada na figura do palhaço. 111 . Paulo em início de carreira. Assim. até a atualidade. a difusão na mídia. constituíam também uma forma de ruptura com as convenções teatrais ilusionistas. garantiram o sucesso da peça na valorizada classificação do “teatro alternativo” paulistano do início dos anos 1990. não raro atualizadas e fundidas com ícones da mídia. faz-se necessário frisar que ao mesmo tempo em que carregavam uma conotação popular. centrada nas modalidades de auto-reflexão da arte contemporânea 69 A obra de Garcia (1990). dando destaque não para os acontecimentos dramatizados. contribuíam para a metateatralidade freqüente nas montagens do grupo.Grande parte das características distintivas que o grupo conseguiu construir em sua trajetória já se apresentou na primeira montagem de sucesso dos Parlapatões. Sardanapalo: a atuação improvisada. que se propõe a resgatar o trabalho dos coletivos de teatro que optaram por uma postura marginal. indo para a periferia das grandes cidades e retirando-se do teatro comercial convencional. que destacava as qualidades críticas e inovadoras da montagem. as tomadas de posição específicas da equipe. todo o contexto relativo à viabilização financeira da montagem. com grande influência do teatro de rua. em sua obra Apocalípticos e Integrados (1970). valorizadas no contexto “alternativo” em que o grupo procurava firmar-se. entre outros fatores. além de fazerem constantes referências explícitas ao mundo do teatro paulistano. mas que vigora. A releitura ou carnavalização de representações compartilhadas presentes no imaginário da platéia. A posição ganhou tratamento já clássico por Humberto Eco. que expunha a estrutura cênica. A análise dos textos. colega de Possolo da faculdade de Jornalismo e crítico da Folha de S. A Theory of Parody. encenações e relações sociais que os Parlapatões estabeleceram com seu contexto permite destacar o discurso paródico como central no trabalho do grupo. porém. Para explicitar esta relação. tratando da construção dos princípios alternativos em relação de oposição à mídia e ao mercado. com algumas oscilações.69 A especificidade da fruição dos princípios circenses nesse contexto já foi destacada. mas para a forma e o modelo da atuação. A grande visibilidade conquistada pelos Parlapatões deve-se também à cobertura do espetáculo feita por Nelson de Sá. é sintomática da tendência nascente nos anos 70.

devem – ser quebradas. Estas funcionam como normas ou regras que podem – e claro. subversão permitida. 1985). contudo. A autora frisa que a paródia. adquire incidência e importância particular na arte do período. apesar de não ser uma expressão originária do século XX. inversão e transcontextualização de obras de arte já existentes (Hutcheon. (Hutcheon. A figura tradicional dos palhaços. ironia ou pastiche. características fundamentais da estética do grupo. suas licenças poéticas e a forma de interpretação distanciada do teatro de rua abriram as portas para a metateatralidade e os procedimentos paródicos sobre as convenções e o teatro como instituição. mas como o carnaval. Porém. semelhante ao conceito de 112 . mas Especificamente interessante é a passagem que destaca que a paródia (…) tem como pré-requisito para sua existência certa institucionalização estética que permite a identificação de formas e convenções estáveis e compreensíveis. a noção de paródia não se relaciona necessariamente com as concepções de comicidade. O texto paródico possui uma licença especial para transgredir os limites das convenções. à estrutura artística. a presença de esquetes tradicionais e o recurso freqüente a determinados temas nostálgicos ou que idealizavam personagens marginalizados promoviam um processo de heroicização do homem comum. juntamente com o circuito de inserção teatral “alternativo”. pode fazê-lo somente temporariamente e dentro das limitações autorizadas pelo texto parodiado. Para Hutcheon. passado. concebido em seu contexto como “moderno”. Central na definição da paródia para Hutcheon é a obra de Bakhtin. mas sim a um processo de revisão. o circo. que por si só condicionavam a atenção do espectador à forma da mensagem. a figura do palhaço. o palhaço. 1985:75) No caso dos Parlapatões. uma vez que a autora compreende o fenômeno como uma forma de discurso “duplamente consagrados direcionado”.e nas teorias da intertextualidade. do uma reapropriação paródica dos discursos não-oficial. a improvisação e outras características não deixavam de promover referências associadas ao estilo cênico “popular”.

que esta forma de expressão cômica. A particularidade da atuação dos Parlapatões está. Sobre Antunes Filho. Entre seus pares. Em um panorama teatral no qual Antunes Filho e Gerald Thomas eram as principais referências. geralmente compreendidas como ícones da expressão artística contemporânea.“romantismo revolucionário” utilizado por Marcelo Ridenti (2000)70 para descrever as expressões cênicas da década de 1960. 71 Se a existência de uma “sociedade pós-moderna” é tema de acalorado debate até a atualidade. é 70 Marcelo Ridenti classificou as expressões artísticas brasileiras dos anos 60 e 70 como “romântico-revolucionárias” por buscarem no passado. o império do fetichismo da mercadoria e do dinheiro” (Ridenti. Acerca de uma retrospectiva competente do aparecimento de características comuns na arte contemporânea (e principalmente na arquitetura). seja pelo recurso à interatividade ou mesmo pela obsessiva explicitação da teatralidade frente a uma platéia que detém os dispositivos necessários para sua compreensão. a paródia e a metateatralidade seriam “formas de compor” valorizadas no panorama dos anos 90. paródica. porém. a ironia. o consumismo. ver a coletânea de Fernandes e Guinzburg (1996). Sobre Gerald Thomas. 2000:25). ver Perry Anderson.. s/d) e Guimarães (1998). o “modelo cênico” alternativo. da dramaturgia e da “mensagem”.71 Para além do conteúdo. os artistas idealizavam o homem do povo (o camponês. 113 . distanciado. improvisada e metateatral. o que faz com que a “carnavalização” das convenções teatrais adquira significado particular. em uma expressão cênica que carrega ao mesmo tempo o estilema popular presente na atuação despojada da figura do palhaço e o contemporâneo a partir da narrativa épica. apoiado na comédia e na interatividade com a platéia. o rótulo “arte pós-moderna” não suscita tamanha oposição.. que destaca a própria forma de sua enunciação. a desconstrução. a citação com o senso comum. É importante destacar. buscando “(. metateatral e paródica. o texto vira pretexto e o fundamental na cena passa a ser a fruição do instante presente em uma atuação que “debocha” de seu próprio veículo. nas raízes culturais nacionais. portanto. Para o autor.) no passado elementos que permitiam uma alternativa de modernização da sociedade que não implicasse a desumanização. anti-ilusionista com a “horizontalidade” democrática e participativa. É esta a característica fundamental do grupo e a forma pela qual exige ser percebido. o migrante). ironizando as demais formas de um “fazer teatral sério”. As Origens do Pós-Moderno (1999). ver os trabalhos de George (1990. elementos para a construção de uma utopia do futuro. os Parlapatões foram a companhia que mais bem associou as referências do tradicional e do moderno: o fragmento. tão comum nas propostas de encenações pósmodernas.

eventualmente trabalha com críticas de espetáculos teatrais. mas também a construção de um discurso legitimador que destaque sua trajetória como vinculada ao “teatro alternativo” e também forneça elementos para a fruição de sua prática cênica específica. Tais situações. é fundamental para o grupo não apenas seu desempenho cênico. por sua formação de jornalista e conhecimentos da área. o Grupo Galpão. Neste ponto. palestras. 2005). tendo seus artigos publicados em periódicos como O Estado de São Paulo. 114 . um embate entre os estabelecidos e os que concorrem por prestígio e reconhecimento. com iniciativas e discursos que extrapolam o tempo-espaço do palco. estabelecendo. Folha de S. bem como a participação no meio artístico. mas também à construção de uma linguagem própria. de uma identidade cênica ao diferenciarem-se dos demais projetos em vias de consagração. bem como na socialização com os freqüentadores do Espaço Parlapatões) e centralizado em Hugo Possolo. percebidas no relacionamento social dos Parlapatões (em eventos. circenses ou de cinema. característica fundamental para a construção de sua identidade cênica em oposição direta à mídia.veiculada juntamente com um discurso legitimador da prática do grupo. Pode-se argumentar. A exploração da metanarrativa teatral é tanto uma forma de transferência dos “códigos” de percepção e recepção da obra de arte quanto um meio de parodiar o próprio veículo utilizado. capaz de reconstruir a seu modo sua perspectiva crítica do mundo. por fornecerem as disposições necessárias para que o público tenha a devida fruição dos espetáculos. assim. são tão importantes quanto a prática artística do grupo. as oposições e filiações aos ícones teatrais do período e à história do teatro brasileiro (como José Celso Martinez Corrêa e o Teatro Oficina. 72 Possolo. aos teatros “comercial” e “sério”. Paulo e Bravo!. Estes fatos apontam para a construção da posição de marginalidade dentro do campo artístico. representante e porta-voz da companhia72. diretor. Amir Haddad. que o sucesso dos Parlapatões não se deve apenas à viabilização de suas montagens. dentro mesmo desse campo. seja pela oposição aos cânones teatrais ou mesmo à mídia. entre outros). O discurso crítico veiculado dentro e fora dos palcos. Gerald Thomas e Antunes Filho. baseado no molde de “rebeldia” e “conformismo” (Bourdieu.

anônima mesmo para os que por ali circulam cotidianamente. freqüenta assiduamente. com sua ênfase nos fenômenos expressivos. Bakhtin constituiu referência fundamental para tratar da dimensão cômica de suas montagens. passando pela Rua da Consolação. Para estes. a criminalidade acabou por se deslocar da área (Guzik. vinculada ao teatro. 115 . Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vazques. Este local do centro de São Paulo. passou por um processo que seus freqüentadores conceituam como a “revitalização da praça” Roosevelt com a chegada do grupo de teatro Os Sátyros em 2000. é necessário ainda dar a devida atenção contextual a sua atividade teatral. permitiu a adequada orientação teórica para a análise das peças dos Parlapatões. trecho urbano da tímida Rua Martinho Prado. a “Praça Roosevelt” se resume apenas à quadra que vai da Avenida Consolação até a Rua Nestor Pestana. Assim. Um picadeiro na Praça? Os motoristas que trafegam no centro da capital paulista.são tão fundamentais para a construção da identidade (e do reconhecimento) artístico quanto as próprias tomadas de posição estéticas da companhia. mas aquela que um estrato da população paulistana. Avenida Rebouças. Ipiranga e Augusta. mas que desempenha importância ímpar nas relações sociais dos artistas teatrais paulistanos. Não a praça que os transeuntes indiferentes mal notam. 2006). se a antropologia da performance. atrás do famoso edifício Copan (projetado por Oscar Niemeyer) e da imponente Igreja da Consolação. ou mesmo os que do elevado Costa e Silva atravessam o túnel em direção à imensa RadialLeste. Segundo seus fundadores. não vêem a Praça Roosevelt. possibilitada pela análise etnográfica. e esta breve retrospectiva da trajetória do grupo iluminou sua particularidade cênica. à medida que a companhia passou a operar e conquistar seu público. tráfico e prostituição. anteriormente conhecido como ponto de assaltos.

mas se constitui como um pólo de sociabilidade e convivência de artistas que vem ganhando freqüentadores cada vez mais assíduos. o Repertório MPB. O local. o Teatro Fábrika São Paulo. o Teatro Studio 184 (uma sala de espetáculos gerenciada por um grupo de mesmo nome e que abriga em suas produções diversos artistas iniciantes). cristalizam o local como um ponto de boemia artística. razoavelmente movimentado durante as tardes.T. recebe uma grande quantidade de freqüentadores a partir do início da noite. Sem dúvida. estes. entre outros. além do recém-inaugurado Espaço Parlapatões. favorece a concentração de um público interessado em artes cênicas no local. Porém. o maior em amplitude). que permanecem no local até a madrugada. o Teatro Oficina. de forma que os clientes interajam com os transeuntes da Praça Roosevelt. 74 73 Uma vez que os teatros dos Sátyros e o Espaço Parlapatões recorrem à criação de bares ou cafés como forma alternativa (e constante) de manutenção de uma renda mínima. É interessante destacar que há uma prática comum entre estes espaços (exceto o dos Parlapatões. estimulados pela consolidação de um local de boemia artística74 que se firmou definitivamente com a inauguração do Espaço Parlapatões em 2007.X. o bar Papo. o N. o espaço da Companhia do Feijão. o elemento fundamental para a concentração de público é que a Praça Roosevelt não é apenas um local de fluxo e consumo de “produtos teatrais”. somados ao Café La Barca e ao bar Papo Pinga e Petisco. a proximidade da Praça Roosevelt com outros espaços culturais e teatrais. como o SESC Anchieta. de dispor parte das suas mesas na calçada.E. É importante ressaltar que a etnografia ocorreu no período de setembro de 2006 a setembro de 2007. principalmente pela presença dos atores que ensaiam por ali ou de demais pessoas integradas na produção das peças em cartaz. o galpão do grupo Folias da Arte. 116 . o teatro Sérgio Cardoso. um ateliê de artes e mosaicos. um bar-dançante.Nesta pequena quadra estão situados73 os dois espaços do grupo de teatro Os Sátyros (conhecidos pelas montagens que levam ao palco temáticas relativas a sexualidade e gênero). o Actor’s Studio (uma escola de interpretação teatral para amadores). Pinga e Petisco (nome que sintetiza os objetivos de seus freqüentadores). que contém também uma livraria de quadrinhos. o Teatro Brasileiro de Comédias..

do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. dramaturgos e diretores teatrais. Além do público “espontâneo” desta malha de teatros. principalmente o dos Satyros e dos Parlapatões. Este público simpatizante do “teatro alternativo”. A escolha de situar o Espaço Parlapatões na Praça Roosevelt não foi. Não é difícil reconhecer. de um “teatro alternativo”. rótulo que se opõe diretamente ao teatro Cultura Artística (situado na Rua Nestor Pestana. o grupo encontrou o local geográfico. o ambiente social e o espaço discursivo ideal para o desenvolvimento de suas atividades e a consolidação de sua identidade cênica. que elegeram esta área de São Paulo como seu “ponto de encontro” preferencial. Com ela. em sua grande maioria. estes freqüentadores da Praça Roosevelt compreendem as peças ali apresentadas como provenientes de uma produção teatral diferenciada. formado por jovens artistas iniciantes. geralmente firmados sobre estrelas e divulgação televisivas. ampliando ainda mais a circulação de pessoas pelo local. Com a abertura do Espaço Parlapatões a partir do final de 2007 na Praça Roosevelt. responsável pela agitada vida social da região. o grupo decidiu mobilizar o histórico e a atuação dos 117 . do Redemunho. utilizam seus teatros para abrigar montagens de grupos que não possuem teatro próprio. de Mário Bortolotto. atores do Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho. de forma alguma aleatória. da Companhia Cemitério de Automóveis. do Engenho Teatral. Apesar da grande disparidade entre as montagens dos diversos grupos destacados. é incentivado pelas peças de horário alternativo nos finais de semana. centro de São Paulo. logo atrás da Praça Roosevelt) e demais “teatrões” paulistanos como o Alfa. pelos arredores da praça. portanto. bem como por algumas personalidades locais. críticos. é fundamental destacar que os espaços cênicos ali localizados. do Teatro de Narradores. entre outros integrantes de coletivos de teatro. além da promoção de diversos eventos e festivais. com início à meia-noite. do Pessoal do Faroeste. dirigido por Eduardo Tolentino). integrantes do grupo Tapa (importante referência teatral. integrantes de grupos estabelecidos (ou em vias de consagração) envolvidos em alguma das muitas montagens em cartaz. que respondem geralmente pelo maior afluxo de público.Não é por acaso que o público da Praça Roosevelt é.

A crítica foi repudiada por diversos artistas . O material pode ser lido em http://laerteeomundo. que envolveu diversos grupos teatrais e expoentes da cidade de São Paulo. Como efeito principal da abertura do Espaço Parlapatões nota-se uma reformulação do público da praça. Aimar Labaki. Ao mesmo tempo em que se promoveu rapidamente como referência teatral da capital paulista. seja pelos diversos 75 É fundamental destacar que a Lei de Fomento (n. imprimindo nova modificação ao contexto. Entretanto.º 13279) é vista no contexto como o resultado vitorioso do evento Arte contra a Barbárie. Sérgio Audi. registrada em reportagem da Folha de São Paulo em 29 de dezembro de 2004. que reivindicaram incentivo estatal. que valoriza a existência de grande oferta de opções de lazer e entretenimento na cidade de São Paulo. uma vez que ambas as companhias já se constituíram como “referência teatral” no local.net/arch2005-01-23_2005-01-29. Cia do Feijão e Teatro Oficina. estimulando a manutenção de sua produção teatral.html 118 . o efeito do Programa de Fomento ao Teatro e a consolidação da Praça Roosevelt como um pólo teatral vêm acarretando algumas mudanças nas formas de percepção do “teatro alternativo” ali localizado. Sem dúvida. Não há como tratar do estabelecimento destas companhias teatrais em sedes e teatros sem mencionar a Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo . com trajetória e montagens reconhecidas. o espaço dos Satyros e dos Parlapatões confere aos espetáculos ali abrigados uma visibilidade muito maior do que a de seus vizinhos. se por um lado a lei vai ao encontro das expectativas da maior parte da classe artística paulistana. cuja programação geralmente é vista como menos importante. sua execução não passa isenta de muita polêmica.75 Trata-se de uma forma de incentivo municipal continuado que procura fomentar as produções de companhias estabelecidas. Hugo Possolo e coletivos como Cia do Latão.zip. dando origem à Lei. utilizando seu espaço como uma forma de “centro cultural”. denunciando o que concebia como prática do “teatro de compadres”.76 Dessa forma. canalizado pelo vereador Vicente Cândido.Satyros de modo a contribuir para este ambiente urbano do centro de São Paulo. seja pelas ações da mídia e pelas peças renomadas que passaram a abrigar. como Gianni Ratto.entre eles um dos principais integrantes do Teatro Fábrica São Paulo. 76 Exemplo disso é a crítica de Antunes Filho ao processo de seleção dos grupos que seriam contemplados com o fomento. bem como a de seu público. Muitas dessas companhias têm utilizado o recurso para estabelecer-se em local próprio.

ou mesmo pela participação inicial em uma rede de teatros “independentes” que ameaçava formar-se. workshops e festivais que promoviam. como é o caso de Thais Araújo. debates. seja através da política de curadoria das peças que adotavam em seu espaço. além de Mariana Ximenes. entre outros. que veio presenciar uma apresentação de Juca de Oliveira. Foram pouquíssimas as peças que não haviam conquistado (ou que não tiveram indicação para) os prêmios Shell. diretores ou do próprio espetáculo. A cobertura nos veículos especializados. seja através das palestras. foi possível perceber a presença de artistas nacionalmente conhecidos no Espaço. Estado de São Paulo e revista Bravo!. um palco externo e uma ampla área de 119 . procuravam estabelecer um “diálogo” com o público paulistano. Todos esses fatores contribuíram para promover a mudança de perfil do público que freqüentava a Praça Roosevelt. denotando a grande experiência e o bom relacionamento dos integrantes dos Parlapatões com profissionais da mídia. Guilherme Weber. A seleção das montagens para estrear no teatro dos Parlapatões constituiu estratégia fundamental para a construção do nome do espaço. APCA ou outras instâncias de consagração teatral.eventos que desenvolveu. Também é inegável constatar que o Espaço Parlapatões é muito mais bem equipado do que as demais sedes das imediações. De um estrato “marginal” e “alternativo”. o Espaço Parlapatões contribuiu para a ampliação e diversificação do público que freqüentava a Praça Roosevelt. uma vez que valorizou sempre a consagração prévia dos atores. particularmente quando. como Folha de São Paulo. dotado de um café-bar com produtos mais refinados. cuja estréia da peça Os Solidores no Espaço Parlapatões contou também com a presença de Lázaro Ramos. Paulo Gorgulho. os artistas desta malha de teatro do centro de São Paulo acabaram passando a comportar algumas personalidades com atuação nos meios de comunicação de massa. Jô Soares. Isso porque os Parlapatões estavam envolvidos em um circuito teatral que extrapolava em muito o mero desenvolvimento de seus espetáculos. no período da etnografia. Paulo Autran. Durante a etnografia. foi também surpreendente para um teatro recém-inaugurado.

Com a consolidação de sua identidade cênica. Marcelo Mansfield. o grupo continua se esforçando por não permanecer “rotulado”. a conquista de uma sede. para atingir seus objetivos de compreensão. 77 120 . Wanderlei Piras. Taís Araújo. Roberto Alvin. acredito ter contribuído para demonstrar como a antropologia da performance. não deve limitar-se ao recorte espacial e temporal dos fenômenos expressivos. Luiz Valcazaras. Não é casual o fato de o grupo ter montado seu primeiro drama em 2008: A vaca de nariz sutil. uma vez institucionalizada. de Campos de Carvalho. 1982:21). Fernanda D’Umbra. ciclos) realizados pela equipe. em uma tentativa de desvincular-se de classificações. repleta de mesas para o conforto de seus freqüentadores. seja pela qualidade e diversidade dos espetáculos que passou a abrigar. como Jacqueline Obrigon. e sim buscar compreender e explicar a complexa relação entre as expressões e Desde sua inauguração. produtores e amadores das artes. construída em oposição à aplicação meramente formal de uma teoria da performance. Além disso. a equipe. Juliana Galdino. Como contraponto à institucionalização do grupo. Aimar Labaki. necessário para a construção da posição do artista marginal. ilustrando o que Bourdieu (2005) concebeu como “lógica da revolução permanente”. seja pela sua “badalação” e pelo constante movimento de artistas.convivência. entre outros. Denise Weinberg. André Fusko. Condensando diversos artistas. ou mesmo de um modelo simplista de expressão cômica. entre outros artistas que vêm se destacando no cenário teatral paulistano. referentes ao “significado na linguagem e contexto” (Turner.77 Assim. A lista do elenco mobilizado por essas peças incluía artistas de destaque. Com esta análise. entrava também em uma nova fase de sua trajetória em que a relevância de seu Espaço acabava por ofuscar sua produção cênica. o teatro hospedou montagens dirigidas por Alexandre Reinecke. Gustavo Machado. Vivian Buckup. Mário Bortolotto. o discurso “alternativo” e algumas tomadas de posição procuram manter o processo de profanação do sagrado. Marat Descartes. ao mesmo tempo em que o grupo conquistava merecida consagração por sua trajetória. passa a buscar a construção de uma “escola” de forma a permanecer influente e impactante no panorama teatral. pelos diversos eventos (mostras. um local e uma voz dentro do cenário teatral paulistano. Nilton Bicudo. o espaço logo se tornou referência fundamental no circuito artístico paulistano. festivais.

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Este reconhecimento exige um esforço de explicitação e objetivação das questões que motivam antropólogos e etnomusicólogos a selecionarem determinados objetos e universos de pesquisa etnográfica. e estas formas de classificação do que são consideradas “outras músicas” suscitam o questionamento sobre o que é considerada a música “própria” ou “normal” neste contexto. As performances de “músicas do mundo” apresentam-se. 124 . realizada em São Paulo junto a uma rede de músicos dedicados à expressão da “diferença” cultural através da inserção de músicas de diferentes países e regiões do mundo no circuito e no mercado musical paulistano e brasileiro. tradicionais. como adições de referências “globais” à primeira e de referências “locais” à segunda. regionais. Essas músicas recebem diversas classificações: étnicas. locais. “do mundo”. como um problema metodológico e de produção textual por implicar na necessidade de se estabelecerem mediações que permitam a compreensão da interdependência entre o geral e o particular. A abordagem desta questão origina-se em minha própria experiência de pesquisa etnográfica.Etnografia. mediação e relações interculturais: entre o geral e o particular na produção de “músicas do mundo” Paulo Ricardo Müller Introdução A descrição é uma forma de interpretação na medida em que reflete o direcionamento do olhar do etnógrafo para determinados aspectos e características do cenário de pesquisa onde este procura se inserir. dessa forma. A relação entre os cenários específicos de pesquisa antropológica e os “panos de fundo” sóciohistóricos constitui-se. contextualizando-os em processos mais abrangentes de transformações e/ou disputas sociopolíticas que explicitem a contribuição da análise de casos particulares para a compreensão ampla do funcionamento das sociedades. A inserção de “outras músicas” no campo musical paulistano produz uma oposição simultânea às noções difusas de “música brasileira” e “música internacional” como segmentos do mercado e da mídia formados por grupos hegemônicos de gêneros e estilos musicais. assim.

Na segunda parte trago algumas abordagens etnográficas retiradas de diferentes pesquisas sobre situações de contato e processos de mediação e negociação de identidades. a caracterização da abrangência dos fenômenos observados a partir de sua ocorrência simultânea em vários cenários. procuro ressaltar a relevância da etnografia como um método para constituição de modelos de compreensão dos processos de universalização e particularização de determinados discursos e práticas tendo em vista. permitindo a caracterização dos mesmos fenômenos como experiências únicas ou particulares.78 O geral e o particular como posições de poder O que é geral e o que é particular referem-se. antes de mais nada. principalmente a música. Por fim. neste artigo. por um lado. 78 Agradeço às organizadoras pela iniciativa e diligência deste volume.g. em grande parte. assim. refletir sobre a questão da mediação entre os cenários etnográficos e os contextos sócio-históricos a partir da análise da relação entre determinados discursos universalistas e as formas de enquadramento de atores sociais e de pesquisas etnográficas nesses contextos. a nação – nos quais são enquadrados ou procuram se inserir conforme estratégias variadas. Na terceira parte analiso o circuito paulistano de “músicas do mundo” a partir da discussão sobre mediação e relações interculturais esboçada nas duas primeiras. o papel dos sujeitos sociais na produção de reflexões sobre a relação entre suas próprias práticas e os discursos e estruturas universalistas – e. das perguntas motivadoras de cada pesquisa. as formas de contextualização de pesquisas etnográficas interligadas pela análise de questões investigativas similares entre si.Buscarei. o mercado. que permitem. em sua constituição. a focos específicos privilegiados por pesquisadores. 125 . tendo em vista o papel da cultura expressiva.: a globalização. o que em determinadas abordagens é tomado como um contexto abrangente pode ser. por outro. Ou seja. Na primeira parte procuro discutir algumas abordagens antropológicas em relação a discursos universalistas como os do Estado-nação e da globalização. dependendo. assim como pelas sugestões e comentários à versão prévia deste artigo.

as condições de enunciação do que é geral e do que é particular pelos sujeitos no mundo social. nesse sentido. concebendo análises históricas particularizadas pelo foco em biografias e processos sociais situados em períodos de tempo considerados curtos. 79 De maneira geral. As formas vigentes de representação das sociedades – delineadas. a partir do qual é possível problematizar os papéis da antropologia e da história como domínios de produção do conhecimento social diferenciados pela abrangência espaço-temporal de suas abordagens típicas. etc. permitindo-nos compreender por que determinadas perspectivas se apresentam à observação como mais gerais ou mais particulares. reificando a distinção micro/macro construída pelo foco continuado da historiografia ocidental na análise de “mentalidades” formadas por fatores que caracterizam diferentes “épocas históricas” como unidades de análise. também. as contribuições que compõem a obra organizada por Revel sugerem uma redefinição metodológica do que vinham. À antropologia é pertinente a crítica ao entendimento do “local” como universo de pesquisa inserido em um contexto abrangente. derivada do debate sobre a micro-história proposto por Revel (1998) no contexto francês. até os anos 1970. pelos discursos nacionalistas e desenvolvimentistas. Para além do âmbito das pesquisas sociais. raciais. onde o foco em determinados fenômenos e grupos sociais é justificado como opção metodológica. é preciso problematizar. sobretudo se levarmos em conta situações de contato entre diferentes lógicas sociais como disputas pela instituição de diferentes modelos de organização social. de classe. Esta percepção do processo de construção dos objetos de pesquisas sociais é. por exemplo. em parte. – operam. tomado como um caso particular e vice-versa.por outras. como indicadores de hierarquias de poder e relações de dominação em grande parte internalizadas e naturalizadas pelos diferentes setores e grupos que a constituem. mas também pelas identidades culturais. Neste debate. 126 . Abèles (1998) refere-se ao modo como o “local” é de certa forma fetichizado como propriedade acadêmica da antropologia. sendo compreendidos como os objetos de pesquisa de historiadores.79 A possibilidade de trânsito entre “escalas” de observação sugerida pelos micro-historiadores não questiona suficientemente a existência do micro e do macro como propriedades dos fenômenos sociais pesquisados.

O papel político-administrativo da noção de fronteira coloca em evidência o papel do Estado-nação como uma estrutura definidora da percepção da relação entre o particular e o geral. A partir dessa idéia. assim. que. Da observação sobre a fronteira como palco de disputas e conflitos entre diferentes lógicas sociais é possível abstrairmos uma “situação social de fronteira” aplicável a cenários diversos como ferramenta de compreensão dos papéis desiguais desempenhados pelos sujeitos. imagens e descrições coletadas e produzidas por folcloristas. antropólogos. arqueólogos. no contexto geográfico da fronteira política entre o México e os Estados Unidos. enquanto as representações produzidas por outros atores no mesmo contexto são reduzidas ao estatuto de versões parciais do mesmo processo. A reificação da cultura material retratada pelas coleções de objetos e descrições etnográficas como representações perenes do “outro” constitui. Esta reflexão é aprofundada ao levar-se em conta a assimetria das relações de poder nos processos de contato entre diferentes grupos sociais – por exemplo. Essa tendência. proponho buscarmos compreender como se relacionam os discursos que se pretendem abrangentes e produzem um senso de “verdade” universal atribuída a modos particulares de construção e organização da sociedade com as lógicas sociais ligadas a modos de vida aos quais é atribuído o papel de “locais” ou particulares. uma visão “monumentalista” da noção de cultura. descontextualizam seu papel nas dinâmicas de transformação e diferenciação política e cultural que sucedem as conjunturas nas quais estes objetos são acessados. argumenta Rosaldo. produziu formas de descrever a cultura como o patrimônio específico de diferentes coletividades a partir de objetos. A reflexão antropológica 127 . principal contexto de reflexão do autor – onde as descrições e representações sociais produzidas a partir de visões de mundo hegemônicas são fixadas e difundidas como “verdades”.É particularmente útil para a compreensão desta asserção a reflexão de Rosaldo (1993) acerca da formação do pensamento sociológico ao longo do século XX desde sua busca por objetividade na definição dos objetos de pesquisa. reproduzidos pela opinião pública como representações objetivas do “outro”.

no lugar de uma relação geral/particular. constituemse como linguagens agenciadas de acordo com diferentes contextos de 80 Em referência a Oliven (1992). 2001). necessariamente. como também engendram políticas de diferenciação e essencialização estratégica das identidades socioculturais (Sahlins. consiste em um processo de racionalização de valores que expressam a ligação dos indivíduos a determinadas “comunidades imaginadas” como grupos diferenciados por características compartilhadas no espaço e no tempo. A crítica a certo determinismo da nacionalidade como identidade transversal aos grupos abarcados pelo Estado evidencia. sob o prisma dos diferentes projetos de sociedade em disputa por sua definição em períodos históricos determinados.sobre a relação entre “a parte e o todo”80 das identidades nacionais explicita dinâmicas excludentes implicadas na formação e consolidação do Estadonação a partir de modelos de organização social caudatários das concepções de sociedade oriundas de elites econômicas. A distinção entre lógicas estatais e sociais não corresponde. Pelo contrário. sejam estas projetadas como “culturas nacionais” ou associadas às “culturas locais” ou “regionais” supostamente circunscritas aos Estados-nação. dessa forma. uma relação de tensão entre diferentes lógicas e modelos culturais de organização e funcionamento das sociedades com condições desiguais de acesso a aparatos institucionais e de legitimidade para empreender ações políticas efetivas. 128 . As identidades nacionais devem ser analisadas. As representações das identidades nacionais não somente indicam processos históricos de “invenção das tradições” pelas elites políticas e econômicas a partir de referências. 1984). a distinções entre atores sociais. 2001. Nesse sentido. conforme a concebeu Anderson (1991). políticas e culturais que vieram a liderar e/ou orientar estes processos. símbolos e imagens culturais particulares (Hobsbawm e Ranger. que analisa diferentes aspectos da construção da identidade do gaúcho do Rio Grande do Sul em correlação com os discursos de construção da identidade nacional brasileira. o discurso nacionalista funda-se não apenas em um projeto de delimitação territorial e lingüística dos países. Yelvington. mas também na construção de uma história compartilhada pelos grupos sociais compreendidos neste processo. A constituição da “consciência nacional”.

2001a: 167-168) dos processos de inserção.interação entre sujeitos que representam interesses específicos. São estes contextos de interação. de buscarmos entender as posições assumidas por dois ou mais lados em uma disputa. A abordagem antropológica dessas situações nos permite analisar essa questão através da observação dos espaços de mobilidade dos sujeitos que fogem ao foco da visão macropolítica. portanto. circulação e expansão de modelos particulares de organização social. conflito e negociação que entendo como “situações sociais de fronteira” nas quais se posicionam grupos formados por sujeitos vinculados por histórias e projetos compartilhados – comunidades imaginadas – organizados de acordo com valores e linguagens sociais – territorialidades. dessa forma. democracia representativa. culturas expressivas – divergentes da lógica prevalecente no modelo de formação de sociedades nacionais baseado em discursos nacionalistas orientados pelo ideário modernista articulado pelos discursos do desenvolvimento. pelo foco nos “interstícios sociais” (Wolf. dessa forma. buscando explicitar as condições sociais nas quais determinados valores e discursos são generalizados ou universalizados. entendo que os discursos universalistas operam como argumentos que legitimam a posição dominante de modelos particulares de organização social através da prescrição de formatos “internos” – sistemas administrativos burocráticos. mas sim como a forma de organização social do Estado-nação veicula valores associados a sua constituição enquanto estrutura de referência para o imaginário sobre o particular e o geral/universal.81 Situações sociais de fronteira evidenciam. Não se trata. da democracia. tensão. – que operam como requisitos para o reconhecimento dos territórios nacionais como Estados de direito pela “comunidade internacional”. 129 . Ver Wallerstein (2007). estejam estes vinculados oficialmente ao Estado ou aos interesses locais ou regionais de onde provêm. restringindo as formas possíveis de formação e desenvolvimento nacional aos modelos estabelecidos pelas nações ou blocos que detêm poder de decisão e coerção na configuração política corrente em diferentes contextos. entre outros. 81 A este respeito. as assimetrias de poder implícitas na eficácia dos discursos que afirmam o que é universal e o que é particular. da globalização e dos direitos humanos. A compreensão de como os discursos e práticas se universalizam passa. sistemas partidários. códigos lingüísticos. internalizados como “verdades” universalmente aplicáveis não apenas pelos grupos que os produzem como também em diversos outros contextos. etc.

Para Canclini (1995). aqui. De forma alternativa. o autor propõe compreendermos a formação de grupos étnicos e dos nacionalismos africanos sob a ótica de uma “lógica mestiça” resultante dos movimentos de contato entre grupos étnicos africanos e com as culturas e modelos ocidentais de organização estatal. haver uma categorização das “culturas africanas” que as adéqua a uma concepção ocidental de nação definida como unidade sociocultural. expressões verbais – por líderes de equipes em competições de dança entre grupos étnicos.Discursos universalistas e contatos interculturais A reflexão sobre a constituição e expansão do modelo de Estado-nação serve. A disseminação das formas de industrialização e formação do Estado-nação a partir do eixo Europa Ocidental-Estados Unidos. 2001b: 186). Amselle (1998) sugere. com relação às representações etnológicas sobre as fronteiras entre países e grupos étnicos na África (especialmente na África ocidental). A análise de Mitchell (1956) sobre a dança kalela no contexto do colonialismo inglês na Rodésia do Norte (hoje Zimbábue) mostra como as formas corporais e musicais dessa dança são reelaboradas a partir da incorporação de símbolos europeus de prestígio – vestimentas. resultando em um tipo “híbrido” de organização política. como um ponto de partida para compreendermos esses processos. Situações de contato engendradas por movimentos de expansão desse modelo ensejam esquemas de compreensão que consideram a constituição de sistemas culturais representados pela sobreposição das lógicas sociais articuladas pelos grupos implicados nesses processos. as experiências de implementação e consolidação dos Estados independentes latino-americanos contribuíram para a institucionalização de conflitos entre elites informadas por valores eurocêntricos de modernidade e desenvolvimento e as concepções de sociedade e territorialidade de populações indígenas e de classes populares. produzindo um senso de universalidade das formas ocidentais de produção e sua associação com a noção de “moderno”. Cohen (1969) aborda a política de controle sobre o comércio de longa distância de bens alimentícios 130 . onde os processos em questão se constituíram historicamente. De uma perspectiva similar. insígnias militares. estabelece um modelo que restringe as possibilidades de construção nacional em períodos históricos posteriores (Wolf.

A condição ambígua do imigrante orienta o agenciamento de práticas políticas. exercido pelos Hausa (Nigéria) no início dos anos 1960 em uma cidade tradicionalmente ioruba. políticas e religiosas. sobre conflitos entre uma série de representações sobre o “ser” de determinado lugar. apontando como diferentes grupos étnicos também se constituem como “grupos de interesse” na busca por posições privilegiadas no fornecimento de produtos. criando condições sociais e políticas para a “etnização” do imigrante e de suas práticas culturais (Cardoso de Oliveira. políticas e culturais dos locais de destino geram demandas por classificações e enquadramentos do “outro” a partir da lógica local de reconhecimento e legitimação das identidades. nesse sentido. religiosas e culturais que buscam negociar os sentidos atribuídos a sua presença na sociedade receptora. A formação de espaços e redes transnacionais de atores sociais identificados com outros contextos nacionais inseridos nas relações econômicas. passando a uma “retribalização” processada em sua inserção nas relações familiares. expressando ao mesmo 131 . Pensando sobre o conceito de identidade vis-a-vis os processos de circulação transnacional contemporâneos. Cardoso de Oliveira (2000) analisa o papel de comunidades de imigrantes na produção de situações sociais nas quais as reelaborações de práticas sociais dos contextos de origem ou de residência operam como mecanismo ao mesmo tempo de diferenciação e de incorporação na sociedade envolvente. A relação entre o nacional e o imigrante é construída. Esse processo justapõe a nacionalidade do “outro” às identidades englobadas pela construção dominante de identidade nacional. A análise da concorrência entre esses grupos de interesse é marcada pela observação de estratégias de “destribalização” por parte de sujeitos que buscam estabelecer relações comerciais externas independentemente das hierarquias dos sistemas políticos “tribais” – os quais confeririam o papel de negociadores aos líderes políticos e religiosos das etnias –. 2000: 8).(gado e noz-de-cola). as práticas que se espera que advenham desse status e os projetos e expectativas dos imigrantes com relação a sua inserção na sociedade envolvente.

Práticas culturais expressivas são agenciadas nesses contextos para comunicar não somente uma identidade “de fora”. 132 . ao qual este deve “retornar” (Diehl. 1995. nesse sentido. mas também uma identidade “em crise” pela alienação dessas práticas em relação aos contextos sociais que servem de referência para sua realização. o agenciamento de determinadas práticas culturais aparece como mecanismo de reconstrução da memória social sobre o contexto de origem. colonialismos. Silva. 2005. 1999). Reyes. Dessa forma. A caracterização de fenômenos como globais ou locais é orientada. A abstração das fronteiras político-administrativas em função da desconstrução sociológica dos processos de naturalização do Estado-nação como estrutura 82 Beserra (2007) oferece o exemplo de como a imagem de um grupo de imigrantes brasileiras em Los Angeles é negociada em relação ao paradigma de mulher brasileira nos Estados Unidos: Carmen Miranda. Essas abordagens permitem caracterizar fenômenos sociais freqüentemente descritos em termos “macro” – nacionalismos. A análise da formação de uma comunidade e da criação de instituições culturais por refugiados tibetanos na Índia mostra o papel das práticas culturais. 2002: 63).tempo uma identidade estrangeira exotizada e uma identidade inserida nas relações locais de produção e consumo. como representações do patrimônio cultural construído no exílio como patrimônio de um Tibete idealizado. mas por performances e narrativas que minimizam o estatuto de refugiado como critério imediato de reconhecimento social (Malkki. depreendendo das relações observadas em trabalhos de campo as condições concretas de realização dos movimentos e como são percebidos no horizonte das práticas e representações sociais dos sujeitos pesquisados. especialmente a música.82 Em contextos de migrações forçadas. em alguns casos a adaptação de refugiados aos novos contextos de residência não se manifesta pela inclusão de novos elementos em suas práticas originais. respectivamente. à redução ou evidenciação de processos de diferenciação sociocultural abarcados por essas unidades de análise. migrações – de um ponto de vista etnográfico. estabelecendo um senso compartilhado do exílio ou do refúgio como uma etapa na construção de sua cultura ou de seu país de origem. por narrativas que tendem.

Em decorrência. A adequação de imigrantes a noções exotizadas de suas práticas culturais é agenciada como uma forma de inserção social através da expressão de uma diferença prescrita por noções estereotipadas de sua cultura. fixando essas práticas como a “música guineense” no imaginário ocidental. a reprodução dessas práticas e de hábitos de consumo propicia o surgimento de circuitos e mercados culturais identificados pelas nacionalidades de seus produtores. tuteladas pelo governo da Guiné (capital Conacri) após a independência (1958) no intuito de difundir a imagem de país unificado através da união dos grupos étnicos que compõem a população guineense no contexto de suas performances. ao percebermos as fronteiras como construtos históricos é que se torna ainda mais premente a análise do poder que determinadas visões de mundo exercem sobre as formas de construção social das sociedades e culturas. associando propriedades sonoras e performáticas a padrões de ação construídos como características dos países e dos sujeitos deles originários . Em diversos contextos. processo similar é desencadeado pelo incentivo do Estado Novo (19301945) à difusão de mensagens nacionalistas através do samba e promoção do carnaval como metáfora da sociedade nacional (Oliven. Exemplo paradigmático do processo é fornecido pela 133 . A música é um elemento constitutivo das representações de identidades nacionais. construída a partir de diferentes tradições musicais dessa região na forma de companhias de dança (Ballets Africaines). Pelo contrário. No Brasil. observa-se a produção de políticas de fomento à nacionalização de determinadas músicas como representação para o exterior de uma unidade política e cultural nacional. sistema cultural que abrange partes do Senegal. Por outro lado. músicos guineenses exilam-se em países da Europa. Gâmbia. 1982: 69). ocultando conflitos e tornando invisíveis outras influências inscritas nas histórias de suas expressões culturais contemporâneas. produzindo uma correspondência intrínseca entre “ser brasileiro” e praticar ou gostar de samba nas representações do Brasil no exterior. onde se tornam referências para a prática dos instrumentos e técnicas observadas nos Ballets. Guiné e Mali. Charry (2000) reconstitui a codificação da música mande.de transição do particular para o geral não implica uma desconsideração das conseqüências concretas que têm na vida social.

2004: 158). neste caso de um contexto “regional” para um contexto “nacional”. Bezerra da Silva. Assim. a partir daqui. creditando a autoria das músicas que gravava e cantava em seus shows a estes músicos (Vianna. Construída como um gênero por grupos de imigrantes cubanos e porto-riquenhos nos Estados Unidos. 1999). grande parte da produção fonográfica da música definida como cabo-verdiana é comercializada primeiramente na Europa e nos Estados Unidos. e como um gênero híbrido. A comparação entre as trajetórias dos músicos Bezerra da Silva e Luiz Gonzaga ilustra a concepção de mediação social/musical como categoria de compreensão de processos de mobilidade de atores sociais através de cenários culturais particulares ou universais. 134 . o problema da mediação entre os contextos etnográficos e os panos de fundo sócio-históricos vis-a-vis os processos de mediação social observados e analisados como estudos de caso antropológicos/etnomusicológicos. Com mais da metade da população residindo fora do país. representativo do “latino” dentro da segmentação étnica vigente nos Estados Unidos. 1994: 258). ritmo dançante que teria dado origem à “salsa” quando combinado com elementos estéticos do jazz (Manuel.análise da circulação e comercialização da música cabo-verdiana. para o Rio de Janeiro em busca de postos de trabalho. e chega ao Cabo Verde através de emigrantes que retornam ou visitam o país (Dias. muitos dos quais também migrantes ou descendentes de migrantes oriundos de estados do Nordeste. a “salsa” também é agenciada pelos praticantes do son em Porto Rico. a “salsa” ocupa um espaço de transição no imaginário musical internacional. dos quais registrou informalmente o repertório que posteriormente veio a utilizar em sua produção musical. lá construindo suas carreiras profissionais como músicos. nos anos 1960. Tanto Bezerra da Silva quanto Luiz Gonzaga são originários do interior de Pernambuco e migraram. sendo apresentada ao mesmo tempo como um ritmo caribenho. estabeleceu relações com sambistas de favelas cariocas. cubano ou porto-riquenho. Mediações culturais entre o geral e o particular Retomo. tendo passado períodos na pobreza. A disputa pela “salsa” ilustra o papel da música nas interações entre imigrantes e sociedades nacionais.

o triângulo e a zabumba –. também. distribuidoras fonográficas e radiodifusoras. A incorporação da isicathamiya – gênero de música vocal a capella associada à etnia zulu – ao álbum. foi questionada por parte da crítica musical internacional e por grupos nacionalistas na África do Sul por projetar a música sul-africana adaptada a moldes ocidentais de produção musical no cenário internacional. do músico norte-americano Paul Simon. distribuição. A relação entre Paul Simon e os grupos de “música sul-africana” mostra dois movimentos: a incorporação de elementos musicais retirados de uma cena “local” a um repertório de música pop internacional através da participação destes grupos no disco Graceland e a 135 . com capacidade para promover a divulgação e distribuição comercial de suas músicas no mercado nacional. representada pelos créditos e direitos autorais que o músico recebia referentes a este repertório (idem). Outro exemplo de “mediação musical” diz respeito à confecção do álbum Graceland. à época concentradas na região Sudeste.Luiz Gonzaga consagrou-se no cenário fluminense como o inventor do baião. a mídia musical também apontou a visibilidade conferida por Graceland ao Ladysmith Black Mambazo e outros grupos sulafricanos. difusão e consumo musicais. Já durante os anos 1980 surgiram críticas ao que seria a apropriação da cultura tradicional da sociedade sertaneja do Nordeste brasileiro. formas de ampliação de sua atuação profissional de um âmbito “regional” para o “cenário nacional” através de estúdios. Esses três casos abordam o trânsito de músicos e sons musicais por cenários culturais cuja abrangência é simbolizada pela disponibilidade de recursos de produção. 1990). lançado em 1986. transmitido e aprendido através da oralidade naquele contexto. cantada pelo grupo Ladysmith Black Mambazo. Os movimentos de Luiz Gonzaga e Bezerra da Silva para o Rio de Janeiro são. compondo uma obra que apresenta “misturas” de gêneros musicais populares sul-africanos com o repertório pop e rock de Simon. Por outro lado. do qual participaram alguns grupos musicais sul-africanos. gênero musical formatado a partir de elementos visuais e sonoros – o chapéu. assim como de um repertório característico de festas populares do sertão pernambucano. que passaram a fazer turnês e participar de festivais internacionais desde então (Meintjes. a sanfona.

g. etc.: a música. A noção de mediação trazida por essas abordagens permite que compreendamos as situações de contato intercultural tanto nos termos das disputas em torno das “apropriações” alegadas pelos atores nelas implicados quanto em termos de “influências” exercidas nos contextos de interação pelos sujeitos oriundos de diferentes países ou grupos sociais. O modelo hegemônico de “música brasileira” refere-se a gêneros e músicos difundidos e comercializados internacionalmente sob o rótulo genérico MPB.83 As músicas – assim como diversas outras formas de arte ou de cultura expressiva – criadas e produzidas em determinados países não necessariamente se enquadram nos moldes socialmente predominantes do que se concebe como a cultura ou a música nacionais. estabelecer um marco de diferenciação em relação tanto ao que reconhecem como o mainstream musical internacional quanto ao que reconhecem como o modelo dominante de “música brasileira”. dessa forma. a etnicidade. com isso. distribuição e consumo internacionais através da projeção do Ladysmith Black Mambazo nos mercados musicais europeu e norte-americano. produzindo questionamentos com relação à legitimidade de suas práticas. a religião. também para a dissolução de fronteiras entre os fenômenos pesquisados como “domínios” de análise especializada nestes discursos – e. ver Dulley (2009) neste volume. A observação destes casos contribui para a problematização da relação socialmente classificadora entre os discursos universalistas e a produção de expressões culturais que os representam.inserção da própria “música sul-africana” nos circuitos de produção. Por outro lado. o parentesco. neste caso. 136 . que incluiria 83 Contribuindo. da música popular produzida principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos. Buscam. Em pesquisa sobre a articulação da noção de “diversidade cultural” através da música na cidade de São Paulo. Para um alargamento desta discussão. o discurso das culturas nacionais também exclui expressões sonoras que não reconhece como próprias. O mainstream se caracteriza. analisei a constituição de uma rede de músicos e produtores de “músicas do mundo” que se caracteriza pelo agenciamento de “outras músicas” para compor seus repertórios. como os gêneros e músicos difundidos e comercializados em massa pela mídia musical e por distribuidoras fonográficas ao redor do mundo através dos segmentos pop e rock.

2004). A inserção de “músicas do mundo” no mercado musical paulistano/brasileiro passa por uma tensão com as formas de classificação engendradas pelos discursos generalizantes da “identidade nacional” e do “mercado internacional”. A identificação do Mawaca com a noção de “músicas do mundo” é. cujo repertório é cantado em mais de dez línguas diferentes. Magda Pucci. 84 Citação encontrada em diversos releases de imprensa do Mawaca em jornais e folhetos de divulgação de shows e discos. O grupo Mawaca é reconhecido na cena paulistana como um grupo formado por sete mulheres e sete instrumentistas.sobretudo as formas e movimentos musicais derivados de combinações do samba com expressões musicais urbanas cosmopolitas (por exemplo. A líder do grupo. A música Boro Horo. Foi o primeiro grupo brasileiro a participar do festival WOMEX (World Music Exposition). do disco Para Todo Canto (Mawaca. 137 . Magda Pucci aponta como fundamento para a realização desse arranjo a guturalidade da voz feminina que caracterizaria essas músicas em seus contextos tradicionais. construída a partir de sua inserção no mercado musical. também. e tem seus CDs distribuídos pelo selo de world music da gravadora paulistana Azul Music. a bossanova como Brazilian jazz). A crítica de Magda Pucci é dirigida às lojas e megastores que revendem os CDs e DVDs do Mawaca nas prateleiras de “música brasileira”. do repertório do Coro das Mulheres Búlgaras e Suuret Ja Soriat. Magda Pucci aponta como uma das principais dificuldades de inserção comercial dos discos e shows do Mawaca a interpretação nacionalista do produto musical baseada no contexto de produção. foi arranjada a partir de três músicas: Hirigo. música tradicional finlandesa gravada pelo grupo Värttinä. Para além das diferenças geográficas e lingüísticas. coletada e gravada pela musicista Marlui Miranda junto ao grupo indígena tupari. Bre Petrunko. Ainda assim. produz arranjos que combinam músicas oriundas de diferentes países/culturas de acordo com similaridades estruturais entre elas. foi considerado pelo músico paraibano Chico César – ganhador de dois prêmios Grammy de world music – como “o único grupo no Brasil que faz world music de verdade”84.

moço. muda a gente de lugar”. comunicação pessoal. árabe. 138 . Mas a banda é formada por brasileiros. “Não. nesse sentido uma “cultura da diversidade” ou mesmo uma cultura musical cosmopolita que apreende o “outro” através do consumo de produtos culturais que tenham como referência as culturas características de diferentes lugares do mundo. tem que ficar dentro da MPB. A gente tem que sair de lá. ia na gerência. a cultura aparece como “lugar de origem” da música. 15/05/2007). Essa relação mostrou uma distinção conceitual entre o que se buscava definir como “músicas do mundo” e o que se entendia como “música étnica”. para situações de contato com “outras culturas” que tenham funcionado como “fontes” de sonoridades ou de músicas para seus discos e performances. Esta última denominava músicos e grupos musicais dedicados a uma especialidade musical caracterizada pela música de uma etnia. Minha inserção nessa rede se deu pelo interesse em compreender como são incorporadas as “músicas do mundo” aos horizontes de produção e criação de músicos paulistanos e ao cardápio de atrações culturais da cidade. talvez goste do Mawaca. vocês são brasileiros. de um país ou de uma região específica. Quem gosta de música africana. atentando. A gente tem a ver com world music. do lado da Marisa Monte. tem que ser aí” (Magda Pucci. Eu já briguei um monte com essas lojas. busquei analisar a relação entre os repertórios musicais e as trajetórias sociais de músicos e grupos. Para isso. enquanto a primeira era utilizada para falar de repertórios formados por “encontros” e “fusões” de diferentes culturas. Por um lado. da Maysa. Essa distinção revelou uma tensão entre diferentes lógicas de representação da noção de cultura. Por outro. sobretudo.Por quê? Porque é feita por músicos brasileiros. reunindo um conjunto de características imaginadas como patrimônios dos povos aos quais ela se vincula. a “cultura” também é apresentada como o processo de construção da cena da “música étnica” ou de “músicas do mundo” em São Paulo. “pelo amor de deus. servindo de referência para os discursos de contextualização dos processos de incorporação desses elementos aos repertórios dos grupos. fica lá.

formato no qual músicos de diferentes “músicas étnicas” se juntam ao sexteto. cuatro venezuelano e kora. enquanto os primeiros atuam como “processadores” dessa diversidade.As situações de contato realizadas pelos atores dessa rede evidenciam dialeticamente os aspectos distintivos e conectivos de diferentes culturas musicais. onde os últimos operam como “fornecedores” de sonoridades e práticas musicais características das culturas que representam. a Troupe Djembedon estabeleceu uma relação de colaboração com o grupo Sexteto Mundano. produzindo músicas e repertórios resultantes do cruzamento de aspectos similares ou afins entre as culturas musicais agenciadas. Luis Kinugawa retornou ao Brasil casado com a dançarina guineense Fanta Konate. O sentido prático dessa abordagem é representado pela relação entre os grupos de “músicas do mundo” com os grupos de “música étnica”. Como um dos grupos reconhecidamente de “música étnica”. Em São Paulo. o saxofonista e flautista Beto Sporleder. O Sexteto Mundano é a base para a montagem da Orquestra Mundana. país da África Ocidental onde aprendeu as técnicas de execução do djembe e dos dununs e aspectos das narrativas históricas e culturais do grupo étnico mandinga. inserindo-se no circuito musical paulistano como um representante da música e cultura mandinga. O Sexteto Mundano é formado pelo próprio Carlinhos Antunes tocando viola caipira. onde fundou a Troupe Djembedon e o Instituto África Viva. mas também como referência de “música da Guiné” e da África Ocidental. o acordeonista Gabriel Levy e o percussionista Jotaerre. reconhecido na cena paulistana como instrumentista e compositor de “músicas de diferentes regiões do mundo” cuja principal característica é a formação de grupos e espetáculos com músicos oriundos de diferentes tradições/culturas musicais. maioria populacional daquele país. o saxofonista e rabequista suíço Thomas Röhrer. articulando ao mesmo tempo uma valoração da diferença e um projeto de síntese da diversidade cultural através da música. a Troupe Djembedon foi criada pelo músico Luis Kinugawa após sua permanência por dois anos na Guiné. pelo contrabaixista Rui Barossi. O disco Orquestra Mundana (Carlinhos Antunes. 2004) teve participações do tocador de kalimba – instrumento de percussão melódica associado ao grupo étnico 139 . liderado pelo músico Carlinhos Antunes.

Louis Plessier. em referência ao filme do cineasta franco-argelino Toni Gatlif (1993). a Orquestra Mundana86 teve as participações da cantora Sol Brasil. e Décio Gioielli com relação à kalimba. cuja temática era a música dos povos nômades. 140 . relações de concorrência pela representatividade destas culturas no contexto paulistano quando mais grupos realizam este movimento em direção aos mesmos países/culturas88. Sami Bordokan e William Bordokan. que conta com representantes de cada etapa – desde a Índia. respectivamente. na programação do Festival Visto Livre85. o violinista romeno Florian Cristea. durante todo o mês de março de 2007. até chegar à Europa Ocidental (Espanha. os diversos grupos de “música étnica” tem suas trajetórias profissionais fundamentadas em viagens aos lugares de origem dos instrumentos e repertórios que praticam e pesquisas em fontes literárias. alaúde e derbak. 85 Realizado e promovido pelo SESC Santana (Serviço Social do Comércio. Durante minha pesquisa em 2007. músicos descendentes de libaneses que realizam concertos de música árabe em São Paulo. difundindo uma noção de “cultura indiana”. cinematográficas. 86 O espetáculo foi batizado Latcho Drom. respectivamente. 88 São exemplos disso as relações entre os músicos Otávio Jr.xona. musicológicas e etnomusicológicas. unidade do bairro Santana). “cultura árabe”. folclóricas. ambos os casos analisados em Muller (2009). como representado pelo filme Latcho Drom. componente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Surgem. que retrata a jornada do grupo étnico Roma desde a Índia até a Europa Ocidental.. e o violonista francês. 87 É importante notar a complementaridade entre a narrativa da “jornada cigana” e a composição de palco do grupo. tocando.87 Assim como a Troupe Djembedon. e Fanta Konate e Luis Kinugawa dançando e tocando djembe. e entre os grupos Troupe Djembedon e Kamberimba com relação ao djembe e à cultura mandinga. o cantor congolês Josué. descendente de manuches – denominação dos grupos ciganos localizados na França –. os músicos Krucis na cítara indiana e Edgar Silva nas tablas. Leste Europeu (Romênia). França) – desse processo. desta forma. passando pelo Oriente Médio. do Zimbábue – Otávio Jr. históricas e antropológicas acerca destes lugares. os grupos de “música étnica” prelecionam aspectos destas culturas de acordo com suas experiências particulares. “cultura mandinga” ou “cultura cigana” que evidencia estes aspectos escamoteando outros. brasileira radicada na Espanha onde canta em grupos de flamenco. Ao se posicionarem no circuito paulistano como referências ou como representantes destas culturas.

à afinidade pessoal entre os músicos que os tocam. 141 . As escolhas por determinadas culturas ou músicas a serem utilizadas nesses processos também passam pela escolha dos músicos e grupos que dividirão o palco ou o estúdio de gravação. Nesse sentido. Os recursos sonoros – instrumentos. as práticas musicais étnicas remetem aos processos de construção de identidades em contextos que tensionam sua relação com os discursos do Estado e das fronteiras geopolíticas. por um agenciamento ao mesmo tempo estético e político das músicas e culturas disponíveis no cenário paulistano. explicitando. inseridas nos “encontros” e “fusões” articulados pelos últimos. assim. os sons musicais devem “encaixar” uns nos outros e na proposta do grupo que os utiliza. itens de repertório – utilizados em rede pelos grupos de “música étnica” e pelos grupos de “músicas do mundo” inserem-se na cena musical paulistana ao mesmo tempo como referências musicais específicas de outras culturas e como referências oriundas de um cenário “global” de trocas e circulação de saberes musicais. A “diversidade cultural” representada pelos grupos de “música do mundo” é composta. propiciando a ocorrência de insights criativos que levam às combinações observadas na rede de produção de “músicas do mundo”. escolares. processo desencadeado pela sensibilidade do músico às possibilidades de uso dos instrumentos com que tem contato ao longo de sua carreira. sendo relativamente restritos os eventos especificamente dedicados a cada país ou cultura representada por esses grupos. Apresentadas individualmente. político-partidários. A Troupe Djembedon aponta como fontes de repertório e técnicas da música mandinga tanto a “música das aldeias” quanto as “danças da capital”. Esteticamente. também. a relação dos grupos de “música étnica” com os de “músicas do mundo” também se apresenta como um mecanismo de acesso a recursos e espaços de produção e divulgação das propostas específicas dos primeiros. técnicas. a escolha dos sons refere-se. etc. tanto no palco – em termos de compreensão mútua de sinais não-verbais utilizados para a comunicação entre músicos durantes as performances – quanto extrapalco – laços afetivos. intelectuais.A inserção dessas músicas étnicas no circuito paulistano ocorre sobretudo em espaços destinados a “músicas do mundo”. assim. Politicamente.

processos de derivação da música considerada tradicional – que remontaria à constituição de um império mandinga. qual seja. Isso quer dizer que. por um deslocamento da perspectiva sobre as origens culturais e geopolíticas das músicas para uma perspectiva “cosmopolita”. No entanto. fonográfico. que apreende recursos e técnicas de produção e performance musicais tendo como fonte os próprios processos de circulação transnacional de músicos e grupos musicais através do mercado – informacional. assim. a noção de diversidade cultural é delineada pelas experiências de contato intercultural e das escolhas estéticas e políticas dos músicos que articulam as particularidades na forma de diversidade. Enquanto a “música étnica” é representada pelas especialidades de determinados músicos atuantes na cena musical paulistana. de cursos e workshops –. etc. a Gâmbia e o Mali – para uma “música nacional” constituinte da representação projetada pelos governos pós-coloniais como “cultura da Guiné”. bem como no circuito musical da “diversidade cultural”. A inserção das “músicas étnicas” nos repertórios dos grupos de “músicas do mundo”. ainda que constituída pela busca constante por expressões musicais “diferentes” das disponíveis no circuito musical paulistano. Por outro lado. aproximadamente onde hoje se situam a Guiné. ao posicionarem-se como mediadores do acesso de músicos de “música étnica” ao circuito de “músicas do mundo”. o Senegal. de shows e festivais. Considerações finais A abordagem etnográfica de práticas culturais classificadas pelos discursos universalistas nos permite colocar em perspectiva os vetores de influência e poder representados a partir de eixos geral-particular. é representado. as “músicas étnicas” são percebidas como “músicas do mundo” na medida em que permitem a produção de sínteses ou bricolagens de sons que buscam representar traços ou aspectos similares presentes nas diferentes culturas musicais agenciadas principalmente pelos músicos e grupos articuladores dessa rede social. os músicos articuladores – neste caso Carlinhos Antunes e Magda Pucci – 142 . as “músicas do mundo” são projetadas como representações da “diversidade cultural”. das migrações. no século XIII. apresentadas em conjunto.

A análise etnográfica dos processos de mediação e contato permite-nos explicitar. a partir de situações onde se revelam lógicas conflitantes acerca dos modos de enquadramento e classificação de produtos e experiências culturais. Ainda que sejam sínteses de influências de outros países e culturas. 143 . as relações de poder implícitas em cenários tomados como dados e compreender. combinadas entre si para dar uma idéia de “diversidade cultural”. por exemplo. a diversidade da cena paulistana não é a mesma de outros contextos. então. Ou seja. na posição considerada “chave” para a compreensão de como se configuram os cenários ou universos “mais amplos” de atuação dos sujeitos e das próprias pesquisas etnográficas. essa tendência é particularizada quando os grupos paulistanos de “músicas do mundo” se projetam além dela. Em uma primeira escala vemos que as “músicas étnicas” assumem posições “locais” quando difundidas enquanto “músicas do mundo”. Neste processo. os valores e pressupostos que informam a percepção socialmente construída do que é geral e do que é particular. delineando mapas de “músicas do mundo” a partir de coleções particulares de sons e instrumentos pesquisados e trajetórias pessoais de contatos com sujeitos representantes de “outras culturas”. representando a tendência que seria da própria cena cultural paulistana. permitindo que os discos do Mawaca. ainda que resultando em produtos sonoros diferenciados no que diz respeito à explicitação de símbolos. dessa forma.também restringem as experiências de contato do público com a diversidade. o particular e o geral são negociados através das relações de poder e influência sobre os mecanismos de decisão e acesso a recursos de produção e consumo. A relevância da observação dos papéis e das práticas de mediação está. recursos e expressões musicais de “outras culturas”. Falar da inserção de “músicas do mundo” em um circuito local significa falar de um processo de relocalização das práticas características de linguagens musicais específicas que servem como referência para as culturas de outros países/regiões. sejam revendidos juntamente com outros nomes da “música brasileira” que potencialmente também incorporam influências “internacionais”.

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ETNOGRAFIAS DO COLONIAL 146 .

Sendo meu material empírico documental. habitantes do Planalto Central de Angola. colocou-se a necessidade de realizar um esforço de constituição dos agentes envolvidos na disputa. marcados pela guerra de independência e por anos a fio de guerra civil. à abordagem proposta por Paula Montero (2006) para pensar a mediação no universo missionário e à reflexão desenvolvida por Roy Wagner (1981) acerca do processo de elaboração da alteridade90. compreender suas diferentes estratégias no espaço de mediação e disputa das missões católicas da Congregação do Espírito Santo no Planalto Central de Angola. como constituir agentes representantes de posições distintas numa arena de disputa simbólica a partir das informações disponíveis nos arquivos. 90 Para mais esclarecimentos acerca do partido teórico adotado. Assim. grupo equivalente a cerca de 40% da população do território angolano.A missão de um ponto de vista relacional: um ensaio para a apreensão da prática a partir dos documentos Iracema Dulley A prática e os documentos da perspectiva da mediação O presente texto passa em revista uma questão metodológica central da pesquisa que desenvolvi no mestrado: a apreensão da prática por meio de documentos escritos – mais especificamente. Ao considerar a produção dessa convenção de uma perspectiva relacional e pragmática. ver Dulley (2008). Não abordarei a questão em detalhe no presente texto por falta de espaço. Na pesquisa. território dos Ovimbundu89. busco avaliar o quanto o procedimento se mostrou profícuo e até que ponto essa escolha possibilitou dar conta de minha proposta inicial: constituídos os agentes. 89 O etnônimo Ovimbundu foi cunhado por missionários e administradores no período colonial para designar os falantes do idioma umbundu. A designação foi então assumida pelos próprios como identificação étnica. Para tanto. assumindo papel crucial nos períodos subseqüentes. 147 . coloquei-me o desafio de compreender o processo de comunicação e o engendramento de uma convenção de significação compartilhada no cotidiano das missões. recorri à teoria da prática de Pierre Bourdieu (especialmente 1972 e 2007). vi-me diante do desafio de lidar com textos produzidos por apenas alguns dos agentes envolvidos na prática do cotidiano na missão.

1951. Para um tratamento do material referente à tradução. França. 1983. fez-se necessário um período de pesquisa de arquivo na sede da Congregação do Espírito Santo em Chevilly-Larue. 1937) e etnografias missionárias (Estermann. reveladora de aspectos sutis das disputas simbólicas na missão não apreensíveis em outros tipos de fonte. como explicitarei a seguir. uma coletânea de fábulas (Valente. compilação do autor alemão em conjunto com os habitantes de Kasenje com o intuito de dar a conhecer os aspectos rituais e as crenças dos membros da comunidade “sob a ótica nativa”. realizado durante o mês de janeiro de 2007. Para além das situações etnográficas. voltei o olhar para as traduções missionárias.em que pese a preponderância quase absoluta de fontes missionárias. dicionários bilíngües (Alves. e o estudo de Berger (1979). ainda. sendo as últimas especialmente interessantes para acessar disputas sobre significado. que retrata o cotidiano de uma missão católica na aldeia de Epalanga. uma compilação de provérbios e adivinhas (Valente. Valente. Quanto ao recorte 91 Dada a quase inexistência de fontes referentes a meu objeto de pesquisa no Brasil. A exceção foram alguns estudos acadêmicos. 1985). uma gramática do umbundu (Valente. 1964a). 148 . Vali-me principalmente de fontes espiritanas: cartas e relatórios à sede da congregação e ao governo português consultados no arquivo dos espiritanos91. 1954). Valente e Guennec. instruções aos catequistas (Alves. figuras associadas pelos missionários à prática do “feiticismo”. buscando apreender o processo de mediação – fundamental para o estabelecimento de uma convenção de significação compartilhada – a partir das escolhas feitas no estabelecimento de equivalências entre os termos em português e umbundu92. a trabalhos de historiadores e antropólogos no período ou sobre o período. na década de 50. históricos e etnográficos realizados em meados do século XX. 1964b). tais como os íntimos laços de parentesco entre os catequistas católicos e os “pagãos”. especialmente capítulos 4 e 5. 92 Concentrarei aqui minha exposição nas situações etnográficas. a conivência dos primeiros com costumes “tradicionais” repudiados pelos missionários e a presença inelutável dos ovimbanda e olonganga. 2009). ver Dulley (2008. catecismos (Lecomte. Duas obras foram especialmente significativas: a etnografia de Edwards (1962). 1973). Recorri. As duas últimas se mostraram muito profícuas na revelação de aspectos do cotidiano local silenciados pelas fontes missionárias. 1989. 1972). extremo noroeste do Planalto Central.

considerando que os missionários são agentes interessados em operar. percebemos que o texto produzido por esse tipo de agente não poderia ser reflexo exclusivo de seu “ponto de vista”. nas disputas. entre aspas. O Concílio Vaticano II. cuja alteridade apresentou-se inicialmente como radical. assim. controvérsias e diálogos ali ocorridos. generalizações que permitam fixar uma convenção de significação com sentido para os diversos agentes envolvidos e. por sua vez. “mulatos” ou “cristãos” ao fazer referência aos diversos sujeitos Em 1961 foi deflagrada a guerra de libertação nacional. se os registros missionários advêm da relação com os “indígenas”94. 149 .temporal. teve início em 1962. não são simplesmente expressão de sua visão de mundo. por isso as aspas. mas também dos processos de negociação aos quais esta foi submetida e que a transformaram como condição de possibilidade da própria interação. Para uma discussão mais detalhada a respeito do indigenato. Utilizo-a da mesma forma como utilizarei. entre o estabelecimento das missões e a deflagração da guerra de libertação em 196193. passível de servir de esteio e força motriz à comunicação na missão. Ora. 94 93 “Indígena” foi a categoria utilizada pelo governo colonial português para classificar os “nativos” de suas colônias ultramarinas. de modo a torná-lo não só inteligível. num determinado contexto de disputa. os agentes e suas estratégias Na tentativa de constituir agentes. trata-se de um trabalho de decodificação de um “outro”. “assimilados”. Não obstante. mas produto dos significados sedimentados no cotidiano da missão. deparei-me com a seguinte dificuldade: as fontes produzidas pelos missionários e pelo governo colonial valiam-se de macro categorias como “indígenas”. Não tenho aqui absolutamente a intenção de valer-me dela como categoria de análise. ao momento de maior intensidade da ação missionária. Isso explica a periodização adotada. a pesquisa contemplou o período que vai do lento estabelecimento das primeiras missões em território ovimbundu. mas comunicável. outras categorias encontradas no discurso dos agentes. Os dois eventos trouxeram mudanças significativas para a prática missionária. ver Thomaz (2002) e Dulley (2008). O texto. entre o último quartel do século XIX e o primeiro quartel do século XX. visto terem sido minha porta de entrada para sua constituição a partir das fontes. Em suma. Contei como fontes primordialmente com produções missionárias. merecendo um estudo específico. “pagãos”. “brancos”.

tentarei mostrar como “missionários” e “indígenas” subdividem-se em diversas outras categorias. inclusive do ponto de vista comparativo. não apreensíveis a partir de categorias tão englobantes. optei por considerar as trajetórias de Estermann e Valente. tende a basear-se em macro instâncias como “Estado”. a despeito do papel fundamental que desempenharam como mediadores em localidades mais afastadas dos centros missionários. por exemplo.g. os chefes de posto e o mais-velho das escolas afastadas das missões. por sua vez. 1998 e 2001. e valer-me de generalizações menos metódicas ao abordar agentes como os catequistas. Se tais macro categorias eram de fundamental importância para compreender o contexto mais amplo no interior do qual esses agentes e as próprias missões atuaram95. No decorrer da exposição. Assim. 2). os agentes que busquei compreender claramente não se encaixavam nessas categorias de classificação. O mais 95 Este esforço foi realizado de forma mais detida em Dulley (2008. “Igreja” e as diversas denominações aplicadas à categoria colonial dos “indígenas” (e. missionários bastante significativos para as missões no Planalto Central. Pélissier. Grande parte do esforço aqui empreendido foi caracterizá-los enquanto agentes da missionação em Angola. O fato de considerar dois missionários específicos não implica tratá-los como indivíduos. O material empírico de que dispus obrigou-me a adotar abordagens distintas para as diversas categorias de agentes. Os “indígenas” Muitos dos agentes envolvidos no espaço de disputa das missões em Angola aparecem sob o guarda-chuva da categoria de “indígenas”. por vezes sobrepostas. Bender.presentes no contexto. A literatura historiográfica e antropológica sobre o período. 150 . especialmente cap. A abundância de dados biográficos a respeito dos missionários. Tal esforço mostrou-se de fundamental importância para revelar as relações no nível local da missão. Péclard. não encontrei uma única referência a catequistas católicos que fosse além de seus nomes e me permitisse considerar casos particulares para construir trajetórias. 1978. Em contrapartida. permitiu uma caracterização mais minuciosa. 1997).

o que era visto pelos missionários com enorme desconfiança. e. Evidentemente. batizá-los se assim o desejassem e desde que se convertessem. que viria a atravessar o Planalto Central. Aos catequistas competia administrar a extrema-unção. por sua vez. Os batismos. as aldeias ficavam entregues aos catequistas a maior parte do tempo. Praticamente todas as crianças da aldeia freqüentavam as escolas. As crianças filhas de pais “cristãos” podiam ser batizadas sem necessidade de conversão (Alves. Os catequistas. comunhões e casamentos eram sacramentos administrados exclusivamente pelos missionários. cuja eleição como veículo da evangelização católica no interior se deu após o fracasso da primeira estratégia missionária de conversão: a formação de “aldeias cristãs” em torno das missões. embora esta não fosse a periodicidade considerada ideal. na medida em que representavam a oportunidade de ascensão social mais certeira para seus filhos.importante deles. Idealmente. tornadas mais viáveis a partir de 1902. era freqüente que os missionários fossem transferidos de uma missão para outra tão logo estabeleciam com a população local as relações de proximidade tidas por necessárias ao trabalho de evangelização. formadas principalmente por ex-escravos resgatados pelos missionários (Koren. e também o menos explicitamente mencionado. Contudo. que atendiam a uma demanda dos próprios aldeãos: alguns informantes de Edwards chegaram a dizer-lhe que estavam no “tempo da escola” (Edwards. as missões deveriam contar com no mínimo dois padres europeus para que um deles pudesse permanecer na missão e o outro se encarregasse das visitas às aldeias. com a construção do Caminho de Ferro de Benguela. em caso de necessidade. dada a escassez de missionários para cobrir todo o território. em se tratando de “pagãos” adultos à beira da morte. Assim. deveriam fazer uma visita mensal à missão e comparecer às festas religiosas acompanhados dos “fiéis” de sua aldeia nas datas estabelecidas. 1954). 1982). parecem ser os catequistas. Além disso. Além de serem encarregados da administração de parte dos sacramentos. estes acabavam por visitar cada aldeia de uma a duas vezes por ano. 151 . os catequistas eram responsáveis pelas escolas das aldeias. objeto de grande interesse por parte de seus moradores. instituíram-se como método de controle de suas atividades as visitas periódicas dos missionários às aldeias do interior.

1962: 84), em contraposição ao “tempo da borracha”, período de grande prosperidade no Planalto Central pré-“pacificação”96. Na Instrucção aos catequistas, o bispo Alves, consciente do interesse dos “indígenas” na instrução de seus filhos, recomenda aos catequistas que sejam estudiosos e se esforcem por ensinar, para além da doutrina, as primeiras letras e os números a seus alunos (Alves, 1954). Edwards chega a afirmar que não era raro ver adultos comparecerem às aulas na escola da aldeia. Segundo o autor, os informantes identificavam seu pertencimento a uma determinada aldeia com base no local onde se localizava a escola que freqüentavam (Edwards, 1962). Essas escolas-capelas, ou écoles de brousse, serviam de arena aos interesses de vários agentes, em momentos distintos do cotidiano da aldeia: das primeiras instruções à evangelização; da narração de contos e histórias locais às narrativas bíblicas e orações; do exame dos catecúmenos pelos missionários à resolução de conflitos entre os moradores. Nesse cenário, o catequista surgia como figura dotada de grande prestígio, mediador dos interesses e intermediário entre a aldeia e a missão e, por vezes, o posto administrativo (Von Eichenbach, 1971). Os alunos
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das

escolas

incluíam

“cristãos”

(já

batizados)

e

catecúmenos.

O catecumenato, período de instrução que antecedia o

batismo, geralmente durava de dois a três anos, conforme o domínio da doutrina demonstrado pelo aluno quando de seu exame pelo missionário. Ao batismo seguia-se a aquisição de um nome “cristão”, cobiçado inclusive pelos “não-cristãos”. É interessante notar que todos os catequistas mencionados por Valente em Paisagem africana (1973) têm um primeiro nome “cristão”, conquistado por ocasião do batismo, seguido de um sobrenome em umbundu. Possuir um nome cristão era, sem dúvida, uma marca de distinção cobiçada

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O período de “pacificação”, também conhecido como “avassalamento”, ocorreu em Angola entre finais do século XIX e início do XX. Durante o período, o governo português submeteu os territórios do interior ao seu domínio oficial, no mais das vezes por meios militares. As chamadas “guerras de pacificação” foram fundamentais para o estabelecimento da pax missionaria e envolveram, dependendo da localidade, de pequenas escaramuças militares a verdadeiras chacinas nos casos em que os habitantes do local se mostraram refratários à presença colonial (Pélissier, 1997).
97

Os alunos da escola eram todos localmente designados pelo termo vakwasikola, ou seja, “os da escola”. A designação era bastante bem vista pelos habitantes da aldeia, inclusive pelos que não freqüentavam a escola (Edwards, 1962).

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enquanto sinalizadora de um vínculo com o universo dos ovindele (“brancos”), aspecto a ser mais explorado adiante. O catequista conduzia as orações diárias na escola, pela manhã e ao cair da tarde, com os homens de um lado e as mulheres do outro. Poucos eram os presentes às orações matinais, sendo mais numerosos nas orações vespertinas, momento no qual o catequista anunciava as notícias da aldeia, como uma visita próxima do missionário ou a iminência de um recrutamento de mão-de-obra. Eram freqüentemente seguidas de cantos e danças variados, nos quais a liturgia cristã se misturava às danças locais. Aos domingos, praticamente todos os vakwasikola compareciam à cerimônia. As orações eram, via de regra, realizadas em umbundu, podendo ser cantado algum hino em português. Para além dos alunos regulares, alguns habitantes compareciam esporadicamente à escola para participar das orações. Grande parte dos entrevistados por Edwards, ainda que não freqüentassem a escola, manifestavam o desejo de serem batizados. Havia aqueles que, tendo participado do cotidiano das escolas em algum momento, haviam-se afastado, mas ainda compareciam ocasionalmente às cerimônias mais importantes, como as grandes procissões realizadas nas missões por ocasião de Corpus Christi (Edwards, 1962: 77). As visitas dos missionários às escolas eram acompanhadas de todo um cerimonial de boas-vindas envolvendo cânticos, vivas e discursos. Edwards compara a recepção do missionário à cerimônia dos casamentos locais: a semelhança se dava tanto no que diz respeito ao aspecto ritualístico quanto ao nível de comoção que suscitava. A presença do missionário associava-se à administração dos sacramentos: ouvia as confissões dos aldeãos, batizava os catecúmenos considerados aptos e rezava as missas nas quais os “fiéis” recebiam a comunhão. Quando da visita do missionário, competia ao catequista relatar-lhe os incidentes ocorridos na aldeia, principalmente a realização de casamentos ou funerais “pagãos”. O missionário inquiria o catequista também com relação ao “estado espiritual” dos freqüentadores da escola e fazia comentários e críticas a respeito do estado de conservação das construções e do conhecimento doutrinário de seus alunos. O catequista era responsável por relatar ao missionário a presença de “adivinhos” e “feiticeiros”

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e de unidades residenciais poligâmicas (os “feiticeiros” e polígamos batizados eram passíveis de detenção). As visitas eram ocasiões privilegiadas para apresentar ao missionário pedidos de intercessão em favor da aldeia junto ao posto administrativo. Semelhantes pedidos também podiam ser feitos por ocasião das visitas do catequista à missão, geralmente em torno de quatro por ano, conforme a distância da aldeia, a disponibilidade do catequista e as necessidades. Os catequistas preferiam não se envolver com o posto administrativo, procurando esquivar-se de tarefas como recrutamento de mãode-obra e levantamento de dados estatísticos para o censo. Preferiam colocarse como intermediários entre a missão e a aldeia, representando tanto os “pagãos” quanto os “cristãos” aos olhos dos missionários e dos administradores, o que nem sempre era possível. Não existem muitas informações acerca do mais-velho da escola para além do papel de fazer a ponte entre o catequista, freqüentemente jovem demais para ganhar o respeito da comunidade e conseguir dela autorização para estabelecer ali uma escola, e os habitantes da aldeia. O mais-velho seria necessariamente alguém com vínculos de parentesco fortes na localidade, respeitado por seus habitantes. O catequista vindo de fora contaria, portanto, com o prestígio do mais-velho para o bom andamento de seu trabalho. Conforme se optou por enviar catequistas às aldeias de seus próprios familiares, observou-se um acomodamento dos poderes relativos do maisvelho da escola e do catequista (Edwards, 1962: 77). Na aldeia, pode-se dizer que as posições mais fortes do ponto de vista do prestígio e do poder fossem as de chefe local, chefe do governo, catequista e mais-velho da escola. Essas posições não eram necessariamente ocupadas cada uma por um sujeito distinto; era bastante freqüente, por exemplo, que o chefe local – o “chefe tradicional”, do ponto de vista da administração portuguesa, a quem esta conferia tais poderes – acumulasse a função de chefe do governo, servindo de intermediário entre os habitantes da aldeia e o chefe do posto administrativo mais próximo. O mais-velho da escola também poderia acumular uma dessas duas funções de chefia, o que era bastante comum nos casos em que o próprio chefe da aldeia solicitava a presença do catequista. Este geralmente se limitava a essa função e ao cultivo de seus próprios

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campos ou trabalho em seu próprio ofício. Todos os quatro eram isentos do pagamento de impostos – o que não se aplicava aos catequistas protestantes – e de serem recrutados como mão-de-obra para trabalhos “voluntários”.98 Eram as figuras cuja posição tinha mais peso nos momentos de decisão sobre quem apresentariam ao posto por ocasião dos recrutamentos, que ocorriam periodicamente e com freqüência afastavam um número considerável de homens em idade produtiva de sua localidade durante um período de cinco anos (Bender, 1978). Os artesãos formados nas escolas de ofícios missionárias podiam ser dispensados do recrutamento mediante o pagamento de uma taxa. Os chefes do governo e da aldeia eram aqueles cuja posição gozava de menor estabilidade, uma vez que estavam sujeitos ao andamento de suas relações com o posto administrativo. Já o mais-velho da escola e o catequista, ligados às missões e preparados por elas, tinham posições mais estáveis. Seriam destituídos apenas no caso de perderem a confiança dos missionários ou envolverem-se em conflitos de difícil solução com os aldeãos. Os chefes de posto, que aparecem nas fontes como sendo exclusivamente brancos, eram representantes locais do governo colonial99. Além dos chefes de posto, trabalhavam neles um intérprete, funcionários com escolaridade primária e policiais, geralmente formados nas escolas das missões. O chefe da aldeia tinha a incumbência de visitar o posto administrativo de sua região mensalmente. Eram atribuições do chefe de posto o levantamento de dados para os censos, o recrutamento de mão-de-obra para os trabalhos compulsórios e a cobrança de impostos. O chefe de posto era uma figura ao mesmo tempo temida – por sua capacidade de influência, por exemplo, na deposição dos chefes e pelo poder de mandar prender os habitantes das aldeias que praticassem alguma contravenção – e prestigiada. Esse prestígio era manifesto em sua escolha por parte dos aldeãos para a arbitragem de conflitos para os quais não obtinham consenso na aldeia.
Os Ovimbundu foram, durante o período colonial, obrigados a prestar trabalho “voluntário” parcamente remunerado em minas, campos agrícolas e construção civil. A obrigação estendiase a todos os “indígenas”, preferencialmente não-cristãos. A proximidade da missão ou o apadrinhamento por algum branco ou “assimilado” eram formas de evitar o recrutamento.
99 98

Os postos eram subdivisões dos “concelhos”, delegados a um administrador, que por sua vez eram subdivisões dos distritos.

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Geralmente falavam umbundu muito mal, eram transferidos pelo governo para outro posto com freqüência e interessavam-se pouco pelos hábitos locais. Edwards afirma que o sentimento predominante em relação a eles era o medo. Não obstante, é digna de nota a recorrência com a qual os habitantes das aldeias requisitavam-nos para a resolução de conflitos (Edwards, 1962). Semelhante posição de prestígio tinham os “assimilados”, oficiais ou pretensos, geralmente comerciantes, que viviam nos entornos das aldeias, ou então nas aldeias formadas predominantemente por “cristãos”. As licenças para possuir estabelecimentos comerciais eram reservadas aos “assimilados”, aos quais os aldeãos também recorriam para solucionar conflitos. Entre os “assimilados”, os indivíduos pertencentes ao clero desfrutavam de status mais alto quando comparados aos comerciantes ou funcionários públicos. Pode-se argumentar que os “assimilados”, embora tivessem status social mais elevado do que os comerciantes brancos pobres e, portanto, freqüentemente habitassem lugares distantes dos aldeãos comuns e em condições distintas, tinham com estes maior proximidade do ponto de vista lingüístico e cultural. Assim, eram, ao lado dos missionários, as figuras mais requisitadas para resolver as querelas locais das aldeias. Edwards relata o caso de um pretenso “assimilado”, Justino, fazendeiro rico de Epalanga, para quem diversos moradores das aldeias vizinhas trabalhavam, que vivia à européia sem possuir documentos de “assimilado”. Seu principal passatempo nas horas vagas era arbitrar os conflitos surgidos entre “indígenas”, que o procuravam por admirarem sua posição. A despeito de se identificarem com os europeus, os “assimilados” mantinham seus vínculos com a população local, configurando uma classe de intermediários. Embora representassem uma possibilidade de ascensão social e equiparação aos europeus, não tinham posições políticas locais fortes no sentido de exercer liderança. Esse status diferenciado seria mais acentuado no interior, pois nas cidades a posição seria reduzida praticamente à isenção do recrutamento para trabalho e à maior chance de ocupar os cargos de funcionários de baixo escalão (Bender, 1978). As fontes apontam para uma acentuada identificação dos Ovimbundu com os “brancos” e seu modo de vida em comparação com os povos
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circunvizinhos. O fato de os “assimilados” viverem ao modo dos portugueses fazia com que fossem vistos como brancos por si mesmos e por outros negros. Essa aproximação ao universo ocindele parece ter sido desejada por grande parte da população ovimbundu e seria possibilitada basicamente por duas formas de ascensão social: o enriquecimento material e a aquisição de capitais culturais “brancos”.100 A relação com o universo missionário aparecia, sem dúvida, como uma porta de entrada para o alcance de tal objetivo, na medida em que era nas escolas que se tinha acesso a tais capitais, os quais, por sua vez, aumentavam as chances de ascensão social no contexto colonial. Havia momentos, entretanto, em que a aproximação dos “assimilados” ao mundo dos “brancos” era posta em questão. Edwards relata uma querela surgida porque Justino, a figura à qual aludi acima, dizia-se “assimilado”, embora legalmente não o fosse: baseava-se no fato de ser um fazendeiro de café e viver ao modo dos europeus para afirmá-lo. A briga ocorrera porque o chefe da aldeia ter-se-ia referido a ele como um otjimbundu tjango, “um simples negro”, fato que colocaria a possibilidade de um empregado seu ser recrutado como mão-de-obra pela administração colonial, pois apenas os empregados dos brancos e “assimilados” não o eram. A reclamação de Justino baseava-se no fato de pretender-se “assimilado”. Sua resposta teria sido Ame sitjimbunduko, “eu não sou um otjimbundu” (Edwards, 1962: 156). Sua réplica traz a polissemia da situação de “assimilado”: poderia ser, simultaneamente, traduzida como “eu não sou negro”, “eu não sou indígena”, “eu sou assimilado”, “eu sou branco” ou “eu sou cidadão português”. A equiparação dos “negros” aos “indígenas”, portanto, não era exclusiva dos registros dos “colonizadores”, mas se reproduzia no cotidiano das relações entre os agentes, que associavam uma determinada “cor de pele” a um determinado tipo de comportamento. Embora a disputa girasse em torno de estabelecer se Justino era ou não um otjimbundu, nota-se que o caráter pejorativo do termo não foi posto em questão por nenhum dos envolvidos na querela, nem mesmo pelo chefe, ele próprio
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É interessante notar que ocimbundu, singular de ovimbundu, quer dizer, em umbundu, “negro”, o que fazia com que os supostos “assimilados” se definissem como “brancos”, ou ocindele. Assim, a distinção entre os “assimilados” e os “indígenas” era estabelecida com base na cor de sua pele, fazendo com que os negros que se diziam assimilados se referissem a si mesmos como “brancos”. A cor negra era, portanto, assimilada ao modo de vida dito “primitivo”, ao passo que a cor branca seria característica do modo de vida “civilizado”.

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“não-assimilado”. A relação com a missão aparece, pois, como porta de entrada para outra classificação, a ocupação de outra posição no contexto local, no qual a aproximação à situação de ocindele era a medida de status corrente.

Os missionários Voltemos agora a atenção aos missionários, buscando compreender as bases da produção de registros sobre os “indígenas” por esses agentes. Para tanto, valer-me-ei de dois missionários atuantes em Angola no período de missionação mais intensa: Carlos Estermann e José Francisco Valente. O primeiro, renomado produtor de inúmeros estudos etnográficos, principalmente sobre os habitantes da porção meridional de Angola, e doutor honoris causa pela Universidade de Lisboa, foi personagem de monta tanto no meio eclesiástico quanto no cenário acadêmico da época. Desempenhou papel político central na empreitada missionária espiritana em Angola ao mesmo tempo em que produziu etnografias reivindicando “objetividade” e “rigor científico” na descrição dos “indígenas”. Valente, por sua vez, poderia ser caracterizado como missionário amante da brousse, cujo principal interesse era viver entre os “indígenas”, esquivando-se sempre que possível de responsabilidades burocráticas e administrativas, mas se dedicando a desvendar a “alma do povo bundo” de modo a aplicar esses conhecimentos na evangelização. Suas obras, pouco exploradas pela bibliografia angolanista, foram analisadas em outra oportunidade (Dulley, 2008, caps. 4 e 5). Por ora, gostaria de contrastar a posição assumida por Estermann e Valente na missão e relacionar sua produção etnográfica ao tipo de interação que estabeleceram com os evangelizandos. Logo nas primeiras páginas da obra Etnografia de Angola (Estermann, 1983), coletânea de artigos escritos por Estermann ao longo de sua vida, o leitor depara-se com um retrato seu datado de 1974: franzino e plácido, de barba comprida, a batina negra coberta de condecorações. Estermann nasceu em Illfurt, em território alsaciano, em 1896. Contam as crônicas missionárias que teria sido encaminhado a Saverne por seus professores após o término dos estudos primários devido ao grande potencial nele visto. Teve seus
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estudos para o sacerdócio interrompidos pela Primeira Guerra Mundial, na qual tomou parte na linha de combate. Levado como prisioneiro para Manchester, lá teria aprendido o inglês. Com o final da guerra, de volta a Chevilly, nos arredores de Paris, concluiu seus estudos e foi ordenado padre em 1922. Seguiu para Portugal com o objetivo de aprender o português e depois para Angola, onde lhe foi designada a Prefeitura do Cubango. Eram os tempos do estabelecimento efetivo da missão católica em território angolano. Sua ascensão foi rápida: em 1933 foi nomeado superior das missões da Huíla e vigário geral da Chela. Nesse período, construiu inúmeros edifícios nas missões pelas quais era responsável e fundou diversos colégios. É retratado como um homem “com visão de futuro”, “empenhado na promoção dos povos” (In: Estermann, 1983). Estermann era figura bastante popular em Angola e Portugal, sendo conhecido não só pelo trabalho de evangelização, mas também pelos artigos de etnologia publicados no meio acadêmico francês, inglês, americano e alemão. Em seu discurso, era recorrente a afirmação de que embora se dedicasse com afinco à produção de conhecimento sobre as populações “indígenas”, fazia-o principalmente com o objetivo de compreendê-las de modo a instrumentalizar esse saber para a evangelização e a “civilização”, aspectos de seu trabalho aos quais conferia maior importância. A despeito do histórico de intelectuais da congregação espiritana, é bastante notável a necessidade recorrente de justificar sua ampla produção “científica” e asseverar que ela não representava empecilho para sua vocação missionária, por um lado, e de legitimar o trabalho etnológico do missionário, por outro, reivindicando maior autoridade na compreensão dessa alteridade devido ao maior tempo de permanência em campo, ao domínio das línguas locais e ao conhecimento mais próximo dos “indígenas”. Estermann afirma:
Cremos que não há etnólogo nenhum, digno deste nome, que negue serem os missionários quem mais facilmente observar psicológicas a actividade dos nãopodem perscrutar a mentalidade, espiritual e medir as reacções civilizados. (Estermann, 1983: 325)

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falantes de “umbundo”). certamente o contexto no qual se deu sua formação. também em suas pesquisas. de dar conta do território como um todo e revestirse de todo um arsenal teórico-metodológico a ser explicitado como embasamento para as conclusões apresentadas. Lubbock. Lang. A preocupação com a etnografia é colocada por Estermann como indispensável à ação missionária porque. ocupando cargos de superior e visitador das missões de parte significativa do território angolano. missionários ou não. como Junod. Herskovits e van Wing. e vai ao encontro da necessidade de generalizar para estabelecer as diretrizes da missionação entre os “bantos”. a raça negra dos “bantos”). segundo ele. formadora de opinião a respeito dos “indígenas”. Nada mais condizente com tal posição do que a intenção. o conhecimento das etnografias de outra regiões. O escopo de seu trabalho relaciona-se a sua posição no campo missionário: personalidade prestigiada. somente uma observação cautelosa poderia embasar as generalizações necessárias para a compreensão das populações “indígenas”. e uma etnia a uma língua (como é o caso dos “bundos”. Em sua obra. Isso de uma perspectiva racialista. auxiliam-no na construção de suas generalizações. Jorge Dias. Um projeto etnográfico que desse conta da descrição e explicação da “cultura” de cada uma das “etnias” que habitavam o território angolano é recorrentemente mencionado. bem como por suas relações no meio acadêmico internacional e pela instituição dos cursos de etnologia e lingüística nos seminários. na qual a hierarquia da classificação relaciona um determinado grupo lingüístico a uma determinada “raça” (por exemplo. embora grande parte de seu trabalho como missionário tenha sido realizada entre os Kwanhama. A idéia de “estágios de desenvolvimento” alia-se à tentativa de compreender a “cultura” dos povos “indígenas” e o processo histórico de aquisição dos traços que a caracterizam. 160 . por exemplo. Assim. Seligman. Mendes Corrêa. Schapera. Estermann estabelece um diálogo bastante significativo com produtores de etnografias. somado a sua experiência de terreno.Esse discurso era legitimado pelas condecorações e pelo reconhecimento da academia portuguesa. sobre o “culto aos ancestrais” e o “feiticismo” em Angola. combinam-se influências do difusionismo alemão e do evolucionismo britânico.

retornando a Portugal em 1970. fundada por Valente após sua saída de Caconda. Nascido em 1912 em Unhais da Serra..S. Nota-se. Valente encaixa-se muito bem na categoria do missionário encantado com a vida entre os “indígenas”. em Luimbale. pelas correspondências e relatórios. dos aprofundava o conhecimento dos segredos costumes das gentes. com e estes. Faleceu em 1993 em Torre d'Aguilha. fez o noviciado na França e foi ordenado padre em Portugal em 1936. ao que parece. abordam problemas de relacionamento com outros padres e freiras e aludem a pedidos seus de que não seja trocado de missão para poder dedicar-se exclusivamente ao trabalho de evangelização. Esforçava-se por conseguir um posto no qual pudesse dedicar-se às visitas às catequeses no interior. Aportou em Angola em 1937. a função de superior das missões desagradava-lhe. em Caconda. no Bailundo. Os escassos dados biográficos encontrados a seu respeito foram garimpados nos relatórios sobre as missões e seus responsáveis e em suas próprias obras. sucinto. de volta ao Bailundo por desentendimento com outro padre. em Galangue na década de 30. em Balombo (1953). amante da brousse. Paris) Do que se depreende das poucas correspondências entre os missionários que o mencionam.Bastante distinta é a preocupação de José Francisco Valente. As poucas cartas trocadas entre ele e o superior da congregação. na Chicuma (1952). em Benguela (1953). pouco afeito às atividades burocráticas. entre outras. onde foi superior de 1941 a 1947. sendo encarregado da tarefa apenas por falta de substituto101.Sp. Passou grande parte do tempo em campo e ocupou poucas posições de destaque. Há pouquíssimos registros a seu respeito no próprio arquivo da congregação e nenhuma fotografia. que ao longo de seu tempo de missão foi trocado de estação mais de dez vezes. assim como cartas de outros missionários a seu respeito. Seu obituário. afirma: O seu ambiente preferido era no meio das crianças e dos velhos: com aquelas aprendia a língua e. onde passou 43 anos. Ao que tudo indica. apenas por imposição de seus superiores e em vista de seu voto de obediência. no Huambo (1960). tendo-o feito. tendo trabalhado. (arquivo da C. em Caluquembe. espiritano de origem portuguesa atuante nas missões do Planalto Central. 101 161 . se possível sem ocupar o cargo de superior.

Não obstante. Estermann relata a forma como se aproximou. (..Não obstante. vale-se com freqüência desta categoria mais ampla e situa os Ovimbundu como uma etnia pertencente a ela. não tendo a pretensão de fazer uma teoria generalizadora para todos os “bantos”. sal e tabaco. são vários seus trabalhos em umbundu. teriam afluído pessoas de todos os lados: 244 indivíduos em volta da nossa barraca de campanha. Já no dia da nossa chegada ao local previsto encontramos um grupo numeroso de gente “vermelha” graças à intervenção inteligente do catequista regional e da sua mulher. que sua obra não seja citada por Estermann. É verdade que a sua confiança ainda aumentou a olhos vistos graças à distribuição de abundantes rações de carne. que o próprio missionário denomina “locubrações lingüísticas”. são os principais procedimentos utilizados por Valente. no caso o umbundu. sendo ainda mais central do que em Estermann. massango. Nenhuma de suas obras é uma etnografia no sentido estrito do termo. embora comentários etnográficos permeiem todas elas. por sua vez. aproxima-se mais do tipo de narrativa etnográfica que situa o próprio autor em campo. A narrativa de Estermann. embora este o seja por Valente. a investigar e a tirar fotografias sem encontrar a menor relutância por parte destes selvagens. em fins de julho de 1924. A compilação enciclopédica e as associações entre significados em umbundu e português. é constante em todas as suas publicações. fica patente o escopo mais restrito dos escritos de Valente: este se limitou aos Ovimbundu. Numa das passagens mais marcantes de sua coletânea de artigos.) Em seguida começamos a fazer as nossas observações. (ibidem: 45) 162 . É curioso. A preocupação com a língua. Depois prosseguimos as nossas jornadas de carroça através da floresta ressequida e arenosa. Ao contrapormos a obra dos dois espiritanos. No dia seguinte. de um grupo de “bosquímanes” contatado já há alguns anos por intermédio do padre Carlos Mittelberger. superior da missão de Omupanda: Viajamos de carrinha até ao ponto do último estabelecimento comercial daquela terra. ambos pertencentes à nobreza cuanhama. inclusive..

de “carrinha” inicialmente. Após a aproximação inicial. na qual os missionários tentavam achegarse aos “indígenas” oferecendo-lhes comida e acolhida na missão. afluem diversos indivíduos dessa raça “vermelha” à barraca. em seguida. O afeto entre os “velhos missionários” e “seus indígenas” foi um dos principais mecanismos de manutenção da desigualdade da relação. mas à “nobreza cuanhama”. munido de seu caderno de apontamentos e uma câmara fotográfica. Em seguida. Estermann lamenta não ter sido possível estabelecer com os “bosquímanes” a mesma relação. com isso. entrevistas. não pertencentes ao grupo dos “bosquímanes”. estabeleciam-se pouco a pouco relações mais próximas e duradouras. Evidentemente.Ao ler o relato. restrito como estava principalmente à troca de carne de caça por produtos agrícolas da missão. Encontram-se. uma vez mais. nas regiões onde havia estradas. fotografá-los e realizar medições antropométricas de 25 adultos dos dois sexos. cujo intuito era principalmente observá-los. atraídos pela distribuição de alimentos e tabaco pelos missionários. contatada por intermédio do catequista e de sua mulher. com o “mesmo caráter de espontaneidade – diria mesmo cordialidade – que facilmente existe entre um velho missionário e os indígenas” (ibidem: 51). Aqui se vê. querelas resolvidas 163 . o grau de relação estabelecido com essas pessoas (os ditos “bosquímanes”) por parte dos missionários foi bastante irrisório se comparado ao convívio diário com os catequistas e alunos internos e externos das missões. relatos mais ou menos espontâneos. o leitor visualiza os missionários em viagem árdua pelo interior. na qual o missionário passava alguns poucos dias acampado em uma barraca na floresta. as etnografias produzidas sobre os povos entre os quais trabalhava eram produto de outro tipo de relação: convívio cotidiano no qual se observavam os hábitos e se aprendia a língua. com a “gente vermelha” procurada. e depois de carroça através da floresta inóspita. afirmar que a “espontaneidade” e “cordialidade” das relações na missão impliquem um equilíbrio na correlação de forças entre os agentes. a maior distância existente entre os missionários e seus evangelizandos nos ambientes distantes da sede das missões: a intermediação dos catequistas é necessária mesmo para terem acesso a parte da população. Diferentemente da situação descrita acima. Não pretendo.

conhecedores dos diversos contextos envolvidos nessa comunicação e intermediários privilegiados entre eles. mas pelos próprios “primitivos” que as relatavam: falantes do português. reservado principalmente aos catequistas. Ora. Num dado momento. freqüentemente. relatando o dia-a-dia da e os da conhecimentos possuídos das variadas fases vida mesmo. As descrições oferecidas a respeito dos “povos primitivos” eram. tendo convivido anos a fio com os missionários da congregação. etnia.. no mais das vezes filtradas não só pelo olhar do missionário. uma combinação de métodos que vão de viagens. (In: ibidem: 2) Muito metódico e fiel ao seu horário de trabalho. Regista. minuciosas diferenças e variantes. como nos penteados ou nos utensílios usados. não menosprezava todo o tempo que pudesse dar-se à vasta leitura e à recolha de comunicações dos evangelizandos. com as 164 . pois. as mais importantes para a conformação do saber missionário sobre os “indígenas”: sabemos que dispunham de pouco tempo para incursões demoradas ao interior. anotações sobre a cultura material e os rituais “indígenas” às conversas com os evangelizandos. Estermann revela de onde provêm suas informações: “Un informateur kwanyama qui m’est resté attaché depuis plus de vingt-cinq ans m’a déclaré ceci” (ibidem: 278). (In: ibidem: 5) Observa-se. Estermann foi um missionário sobrecarregado de funções administrativas e burocráticas. melhor se preparavam para a vida cristã. portanto. o predomínio da relação com os evangelizandos na constituição desses saberes era tanto maior quanto mais tempo o missionário passasse na missão. Sobre o método etnográfico de Estermann. afirmam seus colegas da congregação: Depressa se amoldou ao estilo da vida missionária.. anota tudo o que vê e ouve de interesse para o melhor conhecimento dos costumes e tradições da população local. Quanto mais estes se abriam. restrições à participação dos missionários nos rituais locais. contactando directamente com o povo.pelos missionários. e que os habitantes das regiões onde a presença missionária não era significativa impunham.) etnógrafo curioso. etc. Observador perspicaz e (. As informações obtidas junto a esse tipo de agente foram. sem dúvida.

com pretensão de “rigor científico”. O tipo de registro produzido como que prescinde da auto-afirmação de sua presença entre os “indígenas”. sobrepostos. uma coleção de impressões e julgamentos esboçados ao acaso. a presença em missões estabelecidas há pouco. passando longos períodos envolvido nas mesmas atividades burocráticas e administrativas.obrigações de visitas às missões do território. Assim. ibidem: 315. por outro lado. corroboradas por sua observação em campo durante 43 anos. Valente. preferiu o trabalho de terreno. apoiando-se em noções etnológicas correntes. que enumera entre seus informantes inclusive personalidades que foram ou ainda eram kimbandas (os mesmos agentes associados pelos missionários a práticas “feiticistas”) (idem. Ao método de Estermann contrapõe-se a vivência caótica do cotidiano de Valente. a participação no cotidiano dos “indígenas”. exceto quando este fosse “amigo” dos “indígenas”. aliado à menor formação acadêmica de Valente. meio e fim. tanto nas missões quanto no interior. Quando menciona o caso de uma rapariga indignada com a imposição de seu casamento por parte dos pais na Problemática. restavam-lhe poucos momentos de convívio com “indígenas” muito distantes do universo missionário. Valente menciona um ou outro “bundo” en passant. fariam com que o missionário 165 . O oposto ocorre com o alsaciano. o caso é trazido à luz como mera ilustração. reporta-se a situações concretas: a proibição por parte de alguns mais-velhos com relação à presença dos missionários nos rituais de casamento e enterros. de “locubrações” lingüísticas sobre o pensamento mais profundo dos “bundos”. sem a preocupação de reafirmar para o leitor a veracidade de seu relato. 344). bastante recorrente em Estermann. refletida na forma de suas obras: sem começo. por exemplo. com exceção das atividades de visitador e das viagens ao exterior. partindo sempre do particular para o geral. os serões em volta do fogo. Valente. Ao passo que este vez por outra enumera seus informantes já nas décadas de 30 e 40. Minha hipótese é de que o maior convívio com “indígenas” de diferentes contextos. Sua perspectiva é condizente com o formato de suas obras: metódico. somando-se a elas as inúmeras palestras e viagens ao exterior para divulgar o trabalho missionário e a produção “científica” sobre os “indígenas”. ao invés de enumerar personagens de seu convívio. embora tenha sido superior de diversas missões.

Todas são mulheres e mães de filhos. 166 . nem tampouco fazer menções constantes a sua presença em campo. agir por forma que ele faça abstracção da presença dum observador estranho. intimamente relacionado ao domínio do vernáculo: É por demais sabido que não é pelo método da interrogação directa (. mas uma característica do contexto colonial português no que diz respeito à produção de conhecimento sobre os territórios ultramarinos. que nos foram reveladas as novidades espíritas que estamos relatando. Duas contraíram matrimónio natural e a terceira vive em companhia de um homem cristão da mesma etnia. O artigo em questão tem o título “Inovações recentes no culto dos espíritos no Sul de Angola”. Não julga necessário apontar “indígenas” concretos. principalmente no que diz respeito a temas aos quais dificilmente teria acesso a não ser através de recém-conversos. Só assim ele descobrirá. todos os seus segredos. É preciso poder surpreender conversas e cerimónias. pouco a pouco. foi publicado em 1966 e refere-se ao que via como “novidades” introduzidas nos “tradicionais” cultos aos ancestrais: Foi num interrogatório feito a três catecúmenas muílas. que nos permite visualizar como conduzia suas entrevistas.. seria este o método etnográfico mais apropriado. Ela é inferida de seus amplos conhecimentos lingüísticos e dos detalhes do cotidiano “bundo”. pertencentes à mesma catequese. .) que se obtêm resultados apreciáveis e positivos. segue abaixo um interessante relato de Estermann. é preciso por à vontade o nosso selvagem. (ibidem: 41) Não obstante a preferência dada à “observação participante”. de entre 18 e 24 anos. Nas palavras do próprio Estermann.considerasse sua convivência com eles critério suficientemente válido para corroborar suas afirmações102. A primeira interrogada calhou ser a irmã mais velha de nome Nangombe..“Tens espíritos?” 102 A formação acadêmica mais restrita de Valente não é uma questão individual do missionário.

adaptada. ela era ainda habitada por quatro.. Tratase da “interrogação directa” desaconselhada na citação precedente.“Kutyinoñgonok'ale. Transcrevemos à letra o que ela .) parece que apanhaste um ataque”. Muito embora o missionário afirme que tenha empregado o termo 167 . Tyafwa wapanyala oatake”. em vez da primeira. .“Sim” . justamente por ser “a mulher do cristão”. uma relação de maior proximidade com o universo da missão. sua quantidade. no momento do exame. vem a reposta com a mesma franqueza. É de notar que ela emprega a segunda pessoa do singular. a mulher do cristão. Ele coloca as questões: se as interrogadas “têm espíritos”. ela exprime-se segundo esta expressão em português. consciente”. mas. na qual aparece. Interessantíssima é a resposta de Kakinda. pois a pobre mulher encontrava-se possessa por sete destes entes “supernaturais”. . Tradução: “Não podes fazer uma ideia (ou: “Não podes ter uma noção exacta. . (. Maior número indicou depois Kakinda. é claro.. como se apoderam do “possesso”. figura retórica aliás frequente no falar desta gente.respondeu com a maior naturalidade. à fonética da língua que fala. Como se vê. umbundização de “ataque”.“Quais são?” .. traduzir melhor o que sentiu naquele por lhe parecer momento.“Quatro”. um okamunano e um otyikangandyi. (ibidem: 356-357) Estermann aparece claramente como condutor do interrogatório. de qual tipo são. a respeito da qual se pode inferir. Felizmente que alguns deles já se tinham afastado. a palavra oatake.“Quantos tens?” Depois de uma curta pausa para fazer a contagem.“Dois ovikamwila.) Muito interessante a maneira como ela [Kakinda] explica o estado de espírito em que então disse: se encontrava. em meio à narrativa em umbundu.

ver Dulley (2009). Entretanto. faziase necessário um diálogo no plano das práticas e dos discursos – eles também práticas – que pusesse em relação os significados atribuídos a esses elementos pelos diversos agentes. o qual buscava compreender de maneira mais ampla ao interrogar essas mulheres. à porta de sua cubata. a “possessão” aparece como bastante próxima à histeria como descrita pelos estudos psicanalíticos. um termo. a despeito de haver um grande número de ovimbanda do sexo masculino. palavra de origem portuguesa cujo som se aproxima bastante do umbundu e se encaixa perfeitamente em sua gramática após adquirir o designativo de classe “o”. Para tanto. O relato acima é emblemático da forma como se vai conformando um código de comunicação nas relações cotidianas entre os agentes na missão. descrita pelos missionários no século XX não mais como “possessão diabólica”: tendo em vista a chave de leitura psicologizante dos fenômenos observados. configurou-se como noção plausível de ser compreendida por todos os agentes na missão em referência à “possessão” que antecedia a comunicação com os antepassados no “culto aos ancestrais”. 168 . cada um. O processo por meio do qual se teria chegado a tal compromisso foi a interação entre os agentes em momentos nos quais os “ritos de possessão indígenas” eram postos em questão. sua estratégia nessa disputa simbólica. Assim sendo.“por lhe parecer traduzir melhor o que sentiu naquele momento”. O “culto aos ancestrais”. um dos quais aparece inclusive em fotografia ao lado dos missionários. os diversos agentes em interação viram-se às voltas com a necessidade de forjar uma convenção de significação que lhes permitisse ao mesmo tempo comunicarem-se uns com os outros e perseguir. colocava esses agentes em 103 A esse respeito. foi sem dúvida foco de muita atenção dos missionários por representar um obstáculo de monta a sua proposta evangelizadora103. associado a práticas “feiticistas”. A “mulher do cristão” certamente não fazia idéia da leitura do missionário de sua “possessão” na chave da histeria. é possível enxergar aqui a pactuação de uma convenção referente à “possessão”. oatake. Oatake. Esta seria inclusive uma explicação para a predominância de relatos sobre os fenômenos de “possessão” por parte das mulheres. Este tampouco dominava completamente as convenções do ritual local.

como Estermann e Valente.comunicação. acredito ter sido possível apontar os principais agentes do universo missionário. A partir de meu material empírico foi possível formar um quadro mais completo de alguns agentes. e sugerir algumas das estratégias que teriam movido esse processo de comunicação. A ausência. de forma mais ou menos detalhada. poderia ser trabalhada em entrevistas com velhos catequistas atuantes nas missões no período. Não obstante. outros. mostrar como os documentos de que dispus não permitem somente aceder a uma visão dos missionários. mas da abertura uma série de questões novas. mas também a uma relação entre agentes distintos que não precisam ser reduzidos por categorias binárias. em princípio incontornável no âmbito de uma pesquisa documental. Sentidos divergentes confluíam de suas diversas posições no jogo. tendo em vista que a pretensão é constituir agentes em termos de suas posições e 169 . Conclusão Na exposição acima. A análise mostrou também em que medida o teor das fontes disponíveis estabelece limites às possibilidades de reconstituir agentes a partir de documentos com o intuito de apreender sua prática. qual seja. Gostaria de concluir este exercício apontando alguns caminhos alternativos para dar continuidade à pesquisa num aspecto bastante intrigante: o relativo silêncio das fontes a respeito da atuação dos catequistas. Julgo ter sido mais bem-sucedida em meu objetivo principal. tais como o lugar da memória sobre o período colonial e da própria guerra que o sucedeu na ressignificação da trajetória dos agentes. embora seu papel fosse central para compreender o espaço das missões católicas no Planalto Central como arena de disputa simbólica. Certamente não se trataria de um mero preenchimento das lacunas da documentação. como os catequistas. mas a criação de uma convenção de significação lhes permitiu entrar em comunicação. Não obstante. puderam ser vislumbrados apenas de relance. embora dotadas de sentidos distintos para cada agente específico. procurei dar conta de alguns agentes das missões espiritanas em Angola e mostrar como sua interação produziu algumas convenções de significação partilhadas. nem a um suposto “nativo” localizado “do outro lado” das fontes.

Por um lado. A adoção de uma perspectiva duplamente comparatista apresenta-se. 104 170 . por sua vez. o que permitiria uma reconstituição de trajetórias muito mais fina do que a possibilitada pelas fontes católicas. uma consideração atenta de suas narrativas. A pesquisa de campo junto a velhos catequistas protestantes. os relatos dos próprios catequistas “indígenas” vinculados às missões protestantes.estratégias no campo. seria de grande valor heurístico104. por outro lado. auxiliar a compreender os ruídos presentes nas fontes e lidos como indícios de disputa. por um lado. as respectivas fontes documentais apresentam semelhanças e diferenças bastante rentáveis do ponto de vista comparatista: se o tipo de material produzido se assemelha em linhas gerais. as compilações lingüísticas apontam para diferenças significativas entre missões católicas e protestantes no que diz respeito às escolhas realizadas nas traduções missionárias. e o trabalho com a documentação e a pesquisa de campo no sentido estrito do termo. ajudaria a contrapor dois universos missionários internamente bastante distintos. ainda que as relações das missões católicas e protestantes com o entorno se dessem de maneira inegavelmente distinta. com o intuito de estabelecer inter-relações entre o material empírico produzido Os trabalhos de Marcelo Mello e Daniela Feriani nesta coletânea trazem uma discussão mais aprofundada da relação entre trabalho de campo e arquivo. inexistentes nos registros católicos. existe nas fontes protestantes uma considerável produção de histórias de vida de missionários europeus e americanos. mas imersos num contexto semelhante do ponto de vista social. é sem dúvida uma fonte promissora a ser explorada. cultural e político. bem como da primeira geração de pastores “indígenas”. pois. colocando em diálogo os universos protestante e católico. como possibilidade para ampliar os horizontes da pesquisa. Outra possibilidade interessante seria o estabelecimento de uma comparação sistemática com as missões protestantes atuantes no mesmo local durante o período com o intuito de ampliar o entendimento acerca do contexto missionário e das possibilidades de agência em seu interior. ainda que cinqüenta anos mais tarde. ainda. acredito. por outro. As leituras protestantes a respeito do universo católico e vice-versa poderiam.

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tanto em campo como em arquivos. bem como a implicação das experiências de campo sobre a descrição. manejo e leitura dessas fontes. Agradeço às organizadoras deste livro pela rigorosa leitura e pelas valiosas sugestões. Os dois primeiros – ambos realizados no ano de 2002 – tiveram curta duração. *** Neste primeiro momento. buscando perceber as assimetrias que estão na base dessa relação. exponho os diferentes contextos nos quais realizei pesquisas de campo e em arquivos históricos envolvendo a comunidade negra rural de Cambará. Durante o texto. Farei isso por meio de uma breve exposição dos projetos de pesquisa que ali tiveram lugar.Visões do campo sobre o arquivo (e vice-versa)105 Marcelo Moura Mello O objetivo deste texto é refletir sobre o uso de fontes arquivísticas na pesquisa antropológica e sua relação com a produção etnográfica. A participação no último deles – desenvolvido durante dez finais de semana entre 105 Partes dos argumentos aqui reunidos foram expostos em Mello (2007) e Mello (2008a). a assunção identitária do grupo enquanto comunidade remanescente de quilombo foi determinante para o caráter que as pesquisas – e os procedimentos investigatórios – assumiram. localizada entre os municípios de Cachoeira do Sul e Caçapava do Sul. região central do estado do Rio Grande do Sul. além de sugerir diálogos entre o campo e o arquivo com o objetivo de mitigá-las. trago o contexto em que se deram as investigações sobre a história de Cambará. Ver-se-á que a confrontação entre registros escritos e relatos orais abriu novas potencialidades para investigar a memória e a história da comunidade. Três projetos de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) foram desenvolvidos em Cambará nos anos de 2002 e 2003. Como veremos a seguir. 173 . Na primeira seção. problematizarei a confrontação entre campo e arquivo para além da metodologia.

da História e das Ciências Sociais. Ora. Durante a elaboração do laudo. Supunha-se que seria possível localizar documentos que aludissem a esses eventos. privilegiou-se perceber as correspondências entre dito e escrito. há que se percorrer caminhos tortuosos para que os direitos previstos na Constituição tenham efetividade plena. Em 2005 a UFRGS. que reivindicava a titulação de suas terras com base no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias106. A UFRGS formou uma equipe que contou com professores e estudantes provenientes da Geografia. O dito e o escrito confirmavam-se. doravante denominada “laudo”. entre outras coisas. em convênio firmado com a Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Isso porque o investimento nos arquivos estava diretamente condicionado ao gênero de saber que estávamos produzindo. As narrativas dos moradores de Cambará por si só não eram garantia da 106 O artigo estabelece que “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. a peça que elaborávamos visava reconhecer direitos. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. começou a elaborar um laudo antropológico com vistas a instruir o INCRA sobre os procedimentos administrativos referentes a Cambará. 174 . Embora haja uma crescente flexibilização da legislação. realizar entrevistas com os moradores e coletar dados que pudessem servir de base para a possível elaboração de uma perícia antropológica. Já nessa época os estudantes que participavam desses projetos tinham por incumbência. Foi possível localizar em diversos arquivos farta documentação que reportava a muitos dos fatos narrados por homens e mulheres de Cambará. o que ulteriormente se confirmou. O fato de eu haver travado contato prévio com boa parte do grupo – detendo um conhecimento razoável dos eventos tidos por marcantes para os moradores do local – acarretou em meu envolvimento direto com as incursões aos arquivos desde o princípio. Foi nesse contexto de produção de um laudo que as pesquisas em arquivos se iniciaram. até mesmo em pormenores.os meses de setembro e dezembro de 2003 – permitiu minha inserção no grupo. equipe da qual fiz parte.

Destarte. caberia perguntar se os efeitos de autoridade dos laudos não resultam na institucionalização de um estado do cenário das lutas. Os quesitos a serem respondidos são elaborados num contexto no qual diversos agentes. Se o passado é um campo de disputas. por exemplo.validade do pleito. Passa-se algo diferente quando. a busca e a localização de documentos estiveram diretamente condicionadas a essa situação prática. investindo seus interesses e pré-concepções. além de fornecer subsídios que permitam estabelecer continuidades com o campo de disputas que se configura no presente. o papel e a competência que antropólogos são chamados a cumprir estão imersos em um campo de disputas. as mediações com os arquivos podem oferecer ferramentas para autorizar os discursos e versões do passado. Na situação de perícia. a intervenção de antropólogos em processos judiciais e administrativos deve ser tomada enquanto exercício de uma competência técnico-científica em meio a um complexo jogo de pressões e negociações que envolvem diferentes agentes. 2005). Mais fundamental ainda é saber se a análise dos relatos a partir dos documentos não acaba por desembocar numa postura assimétrica na qual não se problematizam os pressupostos que estão na base da confrontação entre oralidade e escrita. 175 . Está-se diante da constituição de um campo eminentemente político onde representações autorizadas sobre o presente e seus significados para diferentes atores estão particularmente sinalizadas e visíveis nos arquivos (Cunha. dialogam com o perito (e porventura o pressionam): a situação de perícia interfere na formulação e formatação das comunidades científicas e não-científicas (Anjos. Para tratar deste ponto. Como notou Oliveira (2002:258). introduzirei alguns exemplos que possibilitarão discutir metodologia de pesquisa na reconstituição do passado. 2005:111). sendo aquela avaliada apenas em função desta. analítico e ético investido neste tipo de intervenção. os relatos sobre o roubo de terras encontram equivalência no escrito. Por maior que seja o rigor conceitual.

Contudo. A memória genealógica dos mais velhos em geral não ultrapassa três gerações. Os nomes de libertos e livres podiam variar de uma fonte para outra. em especial às lideranças. a situação complica-se mais ainda. embora a localização de dados históricos sobre Cambará continuasse sendo importante para sustentar os pleitos locais107. como demonstraram Moreira (2008) e Weimer (2008). novas questões e novos problemas foram surgindo. foi possível remontar a até cinco gerações. Ocorre que os registros de batismo. que não lembravam os nomes de alguns de seus predecessores. O apadrinhamento com outra família branca. A reconstituição de árvores genealógicas e tramas de parentesco esteve sujeita a diversas dificuldades e empecilhos. Mas o contrário também é verdadeiro: as fontes apresentavam lacunas preenchidas apenas pelo socorro às fontes orais. meus “achados” nos arquivos históricos continuaram a ser transmitidos aos moradores do local. comumente. As informações sobre cativos em geral se limitavam a seu nome. Em arquivos. Esses aspectos são exemplificados no que toca aos antecessores do grupo. as urgências práticas do laudo não se faziam mais presentes. descobriu-se o nome de bisavós e tataravós dos atuais moradores do local. Não raro. Via de regra. divergia em outros tantos e remetia a fatos não contemplados por elas.*** A descrição da trajetória histórica de Cambará. não foi possível estabelecer vinculações genealógicas seguras senão através do cruzamento de diversas fontes. O conteúdo registrado nos documentos correspondia às narrativas dos membros de Cambará em diversos pontos. a homenagem a santos católicos ou 107 De fato. essa não foi a única alternativa na vida em liberdade. idade e proprietário. eles incorporavam o sobrenome dos antigos senhores. A partir de assentos de batismo. Em minha pesquisa de mestrado. No caso de escravos. libertos e seus descendentes. Em alguns casos. 176 . no laudo. seja pela própria grafia. óbito e casamento são. não se restringiu a uma adequação ao contexto prático mencionado acima. imprecisos. o sobrenome de um mesmo indivíduo é grafado diferentemente em um mesmo tipo de fonte. entretanto. Com o tempo. seja pela supressão de parte do sobrenome.

por exemplo. As primeiras pesquisas em arquivos foram uma tentativa de localizar documentos que fizessem referência aos fatos tidos por marcantes para o grupo. À parte as diferenças entre alguns aspectos rememorados por cada narrador. Saber contar envolve um uso bem específico das palavras. localizou-se no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS) uma medição judicial. etc. ou de menções vagas como dizer que tal pessoa era escravo “dos Lopes”. a comunidade originou-se de uma “sobra de campo” de uma medição judicial “dada” pelos senhores a seus escravos. em Cambará. não existia equivalência entre o dito e o escrito. Há um núcleo comum de histórias de conhecimento geral no sentido de que as pessoas conhecem algo sobre determinados fatos. Com esta informação em mãos. transcorrida entre 18861888. uma pessoa pode ser identificada. das entonações. Lendo-o. não são todos os moradores do local que conhecem todas as minúcias do “tempo dos antigos”. As informações oferecidas pelos membros de Cambará permitiram estabelecer diversas vinculações genealógicas. A referência à família que era proprietária de escravos rendeu muitos frutos. mas não só. Em Cambará. e nem sempre os indivíduos são referidos de tal maneira nos documentos. porém. há um núcleo comum de histórias de conhecimento geral. Além do mais. a partir de seu “nome de casa” ou apelido. diversos antecessores de Cambará fazem parte deste registro. 108 177 . requerida por um antigo senhor de escravos da região. A referência às famílias escravocratas da região se faz a partir da rememoração dos patriarcas destas famílias. um proprietário de escravos poderia ser tido como pertencente “aos Lopes” sem que tivesse tal sobrenome.a conversão de um nome em sobrenome (por exemplo. Nas narrativas locais. Evidentemente. mas que apenas alguns sabem contar108. Segundo as narrativas. certos eventos são rememorados com freqüência pelos “sabedores” (aqueles que detêm o conhecimento do “tempo dos antigos”). Na maior parte dos casos foi o cruzamento entre fontes orais e escritas que permitiu definir essas relações. Neste documento de mais de mil folhas. de gestos. descobriu-se outra forma de A idade é fator preponderante na definição de alguém como contador. mas não necessariamente todos os detalhes. Em outros casos. As narrativas conferem menor importância às ramificações de parentesco entre as próprias famílias brancas. Rosa) foram outras opções.

nenhuma referência é feita à naturalidade do outro. tal como salientam as narrativas. percebe-se que lembrar os parentes prescinde da rememoração de indivíduos isolados. No caso mencionado acima. pois me muni de informações e pistas valiosas para minha investigação. Um deles certamente era africano (Benguela). por oposição a crioulo (nascido no Brasil). caso ativesse-me exclusivamente aos relatos. Outro acréscimo no conhecimento histórico advindo das pesquisas em arquivos foi facilitar minha interlocução com homens e mulheres da Cambará. Em algumas ocasiões procurei sanar minhas dúvidas falando sobre meus 109 Ou seja. O conhecimento obtido no arquivo expandiu minha pesquisa para novos fundos documentais. De fato. mas também por meio dos cruzamentos destas com as informações constantes nos relatos. saber do nome de um parente por si só não tem tanta importância como saber com quem ele casou e teve filhos. Ao invés de uma doação dos senhores aos seus escravos. foi possível definir a ascendência genealógica dos atuais integrantes do grupo em relação a esses antepassados com base principalmente em fontes documentais. ou quais famílias se uniram através do matrimônio. há que se ter cuidado para não confundir a ausência de lembranças com incapacidade de lembrar. Assim. não poderia ter reconstituído parte considerável da história de Cambará. escravos alforriados. Levando-se em conta que dois pretos-forros e suas respectivas famílias viviam em espaços próprios desde a primeira metade do século XIX e que os atuais moradores do local não guardam lembranças desta época e destes fatos. 1845 e 1855). o documento refere três compras de terras efetuadas por dois pretos-forros109 na primeira metade do século XIX (mais especificamente nos anos de 1835. Se levarmos em conta que o fundamental para o grupo não é tanto traçar uma ascendência genealógica o mais profunda possível. mas tudo indica que também era africano. mas sim rememorar as alianças entre as diversas famílias que foram se estabelecendo na região ao longo dos anos. impunha-se a reconstituição das condições de vida dos predecessores da comunidade durante boa parte do século XIX. Esses dois pretos-forros não estão presentes na memória genealógica do grupo e seus nomes nunca foram mencionados.territorialização das famílias negras. pois até a metade do século XIX “preto” era uma denominação geralmente dada a africanos. 178 . Mesmo assim.

Dias depois. Os sujeitos não evocam um passado acabado. Todos eles sabiam algo sobre Bida e contaram-me algumas histórias por ele protagonizadas. são elementos importantes na reconstituição do contexto da época. Processo-crime e outras. Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS). transcorridos entre 1916 e 1917. Caçapava. Em outros momentos. caixa 178. em campo. Maço 37. APERS. nada. os processos e relatos envolvendo Bida guardam uma particular importância. No caso em pauta. localizei três processos-crimes. as indagações do etnógrafo são também “provocações” que participam ativamente do “processo de produção da memória” dos agentes. Quando iniciei a leitura dos processos. Consultei algumas entrevistas e percebi que em uma delas Bida tinha sido mencionado por dois senhores de Cambará. tive a nítida impressão de que eu já o conhecia. Júri. 1917. fui a campo e perguntei aos mais velhos se já haviam ouvido falar dele. Cartório 1° Cível e Crime (1916-1917). podia tocar em assuntos sem necessariamente ter ouvido. há um risco de se confundir a influência do etnógrafo na conformação de lembranças com a importância atribuída aos fatos pelos próprios sujeitos da pesquisa. a respeito. chamado Bida. 110 Bida foi processado por abigeato em um processo e em outros dois por lesão corporal grave. Nesse sentido. Certa vez. E 91. Cachoeira. ou muito pouco.“achados” em arquivos – e o conteúdo dos documentos –. APERS. como salientou Arruti (2006:218). 179 . desta vez. como em muitas outras. foi o conhecimento obtido no arquivo que me fez lançar uma nova luz sobre os relatos orais. perguntando-lhes o que sabiam a respeito. M 56. Cartório do Júri. Esfaqueou alguns vizinhos negros certa feita e dois fazendeiros brancos noutra. Para mais informações. Estante 143G. A primeira delas diz respeito ao estatuto conferido a este tipo de história na descrição etnográfica. caixa 181. M 39. n°3666. n° 1725. Cachoeira. n° 3694. O ponto é saber qual a importância dos eventos por ele protagonizados. levando-se em conta que nos anos imediatos após a abolição diversos conflitos entre negros e brancos tiveram lugar em Cambará110. 1916. Novamente foi possível aprofundar o conhecimento histórico através da complementaridade de fontes. em que o réu era um negro que morava na região. ver Mello (2008b:161-187). Processo-crime e outras. Ou seja. Este caso incita-me a problematizar algumas questões. Prédio 2.

180 . criatividade etc. empreendidas em diferentes contextos e com objetivos específicos. implicando em assimetrias expressas em termos como ausência e presença (ausência e presença de cronologia.Valer-se de informações obtidas em arquivos no campo coloca também um problema ético. profundidade histórica. Talvez 111 Um bom exemplo disto são os instigantes livros de Price (1983. Como notaram Goldman e Lima (1999). o problema consiste no tipo de interface que é proposto. Deste modo. Alguns fatos. 1990). tampouco em razão de suas supostas “carências” em face dele. A oralidade não deve ser avaliada em face ou em função do escrito. as características negativas (ausências e “incapacidades”) normalmente atribuídas à oralidade são antes uma causa do ponto a partir do qual se estabelece a relação (o universo escrito tomado como juízo de relação) do que um atributo dela. Há que se estar atento para saber em quais momentos é possível obter mais informações. a projeção é um dos mecanismos responsáveis pela confusão entre juízo de relação e atributo do objeto: a transposição para outro domínio de discriminações operadas no dia-adia de sociedades letradas e baseadas em sistemas culturais particulares alimenta a partilha entre oral e escrito. Os exemplos trazidos ao longo desta seção demonstram a potencialidade do cruzamento de fontes na reconstituição do passado. Durante as diversas pesquisas realizadas em Cambará. complementar as descrições com novos elementos e preencher lacunas sem causar constrangimentos aos “informantes”. perguntando pelas assimetrias surgidas a partir daí. incluso problematizar a prevalência dada ao universo escrito. podem ser silenciados pelos sujeitos da pesquisa por uma série de razões. O silêncio é antes um dado fundamental da pesquisa do que um obstáculo para a reconstrução do passado. O uso de evidências externas às tradições orais é válido e acresce substância na leitura e interpretação das mesmas111. dado seu caráter traumático e/ou constrangedor. meu transitar entre o campo e o arquivo descortinou novas potencialidades. Propor diálogos entre o campo e o arquivo não se resume apenas a uma metodologia de tratamento das fontes. abrindo um novo leque de questões e revelando aspectos multifacetados dos fatos.).

O poder e o “silenciamento do passado” (Trouillot. 181 . lacunas e silenciamentos são fatores constitutivos do arquivo. “Há lugares da memória porque não há mais meios de memória” (Nora. de conceber o arquivo. induz a pensar o arquivo não apenas como um repositório no qual as potencialidades de reconstituir o passado são praticamente inesgotáveis. embora um tanto enfática. e os documentos. mas também como local onde ele se produz112. 1984:23). Num famoso conto. Borges (1996) recorda a história de um personagem dotado de uma rara capacidade de memorização. não é somente o local de estocagem e de conservação de um conteúdo arquivável passado. Supressões. *** Amparando-se em Foucault (2003 [1969]). a memória de Funes é um despejadouro de lixos. O arquivamento tanto produz quanto registra o evento”.uma das formas de contornar essas assimetrias consista em pensar sobre o arquivo e aquilo que tende a ser excluído dele. Não. Trata-se. a estrutura técnica do arquivo arquivante determina também a estrutura do conteúdo arquivável em seu próprio surgimento e em sua relação com o futuro. elas são criadas. Pode-se pensar a formação de grandes repositórios do passado como os arquivos como conseqüência de uma era condenada ao esquecimento. as presenças e ausências incorporadas nas fontes ou nos arquivos não são neutras ou naturais. com Derrida (2001:28-9): “O arquivo. Funes. generalizar e abstrair. mas também o contrário: lugar que sintomaticamente revela a fugacidade da memória numa época cada vez mais acelerada. que existiria de qualquer jeito e de tal maneira que. Recordações que sozinho teve-as mais que todos os homens. Como nota Trouillot (1995:48). escritura. é possível pensar o arquivo não só como espaço repositório do conhecimento sobre o passado. Com o tempo foi ficando evidente para mim que minha pergunta 112 Ou. prótese ou técnica hipomnésica em geral. segundo o contexto de relações de força onde surgiram. acreditaríamos ainda que aquilo aconteceu ou teria acontecido. ausências. 1995) estão na base de qualquer empreendimento historiográfico. sem o arquivo. como impressão. dada a imensa massa documental que capturou o tempo. a partir de Foucault. pois é incapaz de esquecer diferenças. para utilizar uma interessante idéia de Nora (1984). esta afirmação.

também. O interesse deve recair. portanto. em grande medida tributário de duas cesuras históricas decisivas – a invenção da escrita e da imprensa – reflete. imagens visuais. o “trabalho da memória” (Godoi. os estudos das formas orais não se caracterizam por uma terminologia comum ou claramente delimitada.deveria ser por que lembrar determinado evento (e não outro) é importante para os integrantes de Cambará. continua Fabian. é importante dar um passo atrás e perguntar por que não se lembra. 2008b). performances. continuamente depurado de todas as referências sensíveis ligadas à oralidade e à gestualidade. A constatação de Fabian é fundamental não só por expor o (recorrente) etnocentrismo. Ironicamente. Ao traçar as raízes históricas do “paradigma indiciário”. mas pelo conjunto de questões que atraem o foco investigativo dos pesquisadores. na medida em que a rememoração não necessariamente se dá através da verbalização. note-se bem) a Cambará. 2008a. incluindo músicas e cantos. Ginzburg (1989:157-158) salientou a progressiva “desmaterialização do texto”. rituais. uma “escolha cultural”. práticas corporais. dos gestos ou mesmo dos silêncios nas tradições orais. De acordo com Finnegan (1992). esquecer que outros povos lembram é um mecanismo para deixá-los esquecidos. nas formas de lembrar – que não se limitam apenas à verbalização. Como nota Fabian (2007:72). esquecer que outros povos lembram é um risco premente justamente nos estudos de tradições orais que só as levam em conta desde que correspondam ao mesmo tratamento metodológico dado às fontes escritas. e não quais suas limitações mnemônicas. Esse processo. vemos que o texto escrito relega ao 182 . mas principalmente por apontar para um problema metodológico que consiste no pouco preparo em identificar distintas formas de lembrar. Assim. Os rastros do passado respondem antes a um trabalho de seleção e fixação de relevância do que a uma incapacidade. 1999) em Cambará está diretamente referido a uma série de elementos que geralmente não são expressos em documentos escritos. Quer pensemos nas funções decisivas da entonação da voz. etc. A maneira de escapar à avaliação da oralidade em função do escrito parece-me ser inserir os relatos orais no interior das formas de lembrar e do trabalho da memória específicos (não exclusivos. Como demonstrei alhures (Mello.

as expressões. Esses efeitos de conhecimento. criaram seus filhos. a correlação entre capital fundiário e ocupação territorial. tentando perceber os diferentes tempos que ficam subsumidos pelo tempo cronológico. visualizava os gestos. cabe perguntar qual o estatuto da oralidade quando o historiador se debruça sobre documentos. Se aceitarmos o pressuposto de Ong (1998:16) de que a escrita nunca existe sem a oralidade. trabalharam sua lavoura. mas também uma dramaticidade da existência. A produção de um texto descritivo sobre esses encontros tornou-se o registro de várias historicidades: a dos artefatos que capturam o tempo. 183 . A escritura de compra e venda estava circundada por outras versões. Muitos documentos tratavam de eventos protagonizados por pessoas que eu conhecia por meio de relatos. mas remetia também a um “causo” protagonizado por seu beneficiário. São esses diferentes encontros e relações de conhecimento que descortinam outras possibilidades na produção de uma narrativa sobre o passado. as reações e falas dessas pessoas filtradas pelos narradores do presente. Uma alforria remetia às políticas de liberdade de certo período. acresceram uma maior sensibilidade para os fatos que lia e ouvia nos encontros com o campo e com o arquivo. estatísticas fundiárias. Nesses encontros com o arquivo. outras visões do fato. Por trás de termos regimentais. Os locais apontados em mapas. freqüentaram festas. no presente cotidiano do grupo. plantaram árvores. mas que estavam prementes hoje. a das memórias e lembranças compartilhadas em um momento específico e aquela produzida pela narrativa antropológica113. medições e registros fundiários eram menos uma localização geográfica e mais um palco onde pessoas construíram suas casas. para utilizar outra idéia de Fabian (1983). O registro de transmissão de terras revelava não só padrões de acesso a terra.mutismo os aspectos sensíveis que estão na base da produção de documentos. O passado compartilhado pelos homens e mulheres de Cambará com pesquisadores coloca a possibilidade de trazer à lembrança memórias e narrativas que estão ausentes justamente nos espaços 113 Cunha (2004) oferece reflexões interessantes sobre esses aspectos. afiguravam-se meandros ausentes na memória oficial. transmitidos por homens e mulheres de Cambará.

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tornam a antropologia uma atividade aporética. a relação entre pesquisa de campo e antropologia foi naturalizada e valorizada na forma de um modelo – a combinação malinowskiana de observação participante e escrita etnográfica – elevado a cânone. Os dois pilares básicos sobre os quais se erigiu a atividade antropológica institucionalizada no início do século XX – a pesquisa de campo e o texto etnográfico – subsumem usos do tempo diametralmente opostos. Monteiro. Janequine* A contemporaneidade radical da humanidade é um projeto (Johannes Fabian)114 Introdução Na primeira metade do século XX. Marta Jardim. Contudo. Limitações da crítica ao evolucionismo social com base na oposição entre presença e ausência de documentos escritos engendraram a manutenção de mecanismos epistemológicos de distanciamento que. a idéia de uma antropologia sem pesquisa de campo já não é tão estranha e muitos trabalhos recentes têm contribuído para sua legitimação. Iracema Dulley. de Lima. 186 . Ronaldo Almeida e Stella Z. Danilo P. Ramos. este modelo veio a ser criticado e o lugar da pesquisa de campo na antropologia foi historiado e revisto. nas palavras de Johannes Fabian (1983). di Giovanni. Paterniani. Leandro M. Thomaz. Flávia Melo da Cunha. requisito de qualquer diálogo. o pressuposto do texto * A autora agradece às seguintes pessoas pelos comentários ao texto e a fragmentos mais antigos que o constituem: Daniela Feriani. se a relação entre campo e disciplina já não é automática. Omar R. período de consolidação da antropologia como disciplina acadêmica. Hoje. problemas metodológicos e epistemológicos associados ao automatismo antes vigente permanecem. Julia R. John M. 114Esta e as demais traduções foram feitas por mim. O pressuposto da pesquisa de campo é o compartilhamento do tempo com o objeto da pesquisa.Como qualquer etnografia: fundamentos para uma etnografia dos documentos escritos Olivia G. Posteriormente.

publicado pela primeira vez em 1983. sustentado. a chamada crítica pós-moderna. o outro tipo inclui os mecanismos de formação de matrizes analíticas fundamentadas em grandes divisores. embora nesse caso a questão do tempo não ocupe um lugar tão central.etnográfico é que ele seja um discurso sobre um objeto. analisa o lugar do trabalho de campo (fieldwork) na antropologia e o legado de Malinowski. A crítica destes últimos também diz respeito ao problema do distanciamento. apesar de debater questões próximas a esta. Como complemento à defesa da etnografia de documentos aqui proposta. Trabalho de campo e antropologia No artigo entitulado “The Ethnographer’s Magic”. Ainda segundo Fabian. Acredito que eles sejam de dois tipos: um compreende os dispositivos de distanciamento temporal através dos quais construímos o objeto do discurso antropológico. O argumento geral é reforçado pelo comentário analítico de exemplos concretos de pesquisa centrado no artigo “Memory-work in Java”. por dispositivos discursivos que produzem o afastamento em relação ao objeto. O autor argumenta que a elevação da técnica de trabalho de campo/observação participante a fundamento da antropologia apóia-se na ênfase dada à “dimensão experiencial” do trabalho de campo. A pesquisa de Malinowski junto aos trobriandeses representou uma ruptura técnica importante com uma “antropologia de varanda”. não teve fôlego para superar esses mecanismos. Stocking Jr. sobretudo por substituir interrogatórios visando o 187 . de Ann Stoler (2002). uma novidade do modelo malinowskiano de pesquisa antropológica baseada em observação participante. percebemos que soltar os nós que amarram a disciplina a uma técnica específica implica também em desfazer o encadeamento aporético dos procedimentos de construção do conhecimento que caracteriza o modelo rígido (dito clássico) de antropologia. assim. O presente artigo apresenta uma síntese dos argumentos da crítica metodológica e epistemológica à antropologia centrados nesses mecanismos para fundamentar referências metodológicas para a análise etnográfica de documentos escritos. conforme procura demonstrar Fabian em Time and the Other (1983).

por exemplo. argumenta Stocking Jr. de antropólogos/sociólogos munidos do método comparativo. Ele nunca navegou numa canoa do kula. Ele estabelece a distinção entre a tarefa da reconstrução histórica e a tarefa da compreensão cumulativa das leis gerais da organização social. uma “história imaginária”. entende-as como tarefas complementares. mas separadas: a primeira sendo matéria de historiadores e etnógrafos e a segunda. na verdade. mas presencialmente. O trabalho do etnógrafo justifica-se e define-se pela ausência de documentos escritos sobre as sociedades estudadas pela antropologia social (Radcliffe-Brown. a forma do texto etnográfico apresentado n’ Os argonautas do Pacífico Ocidental (1978) é que permitiu ao autor ser alçado à posição de herói do mito evemerístico do surgimento da antropologia moderna.preenchimento de questionários formulados de antemão por observação do cotidiano e conversas menos dirigidas.. como demonstra Stocking Jr. O autor parece radicar sua distinção entre antropologia e história no fato de a coleta dos dados com que o antropólogo lida não se dar em arquivos. 1978).. muito do que é descrito como experimentado por Malinowski não o foi. O trabalho de campo e a escrita etnográfica. Um dos elementos centrais da reação contra o evolucionismo social é a recusa canônica da diacronia expressa nos termos de uma impossibilidade técnica: a ausência de documentos sobre os povos estudados pelos antropólogos. protagonizada pelo próprio Malinowski e por Radcliffe-Brown. embora o texto nos leve a acreditar nisso (Stocking Jr. esse modelo de pesquisa de campo e monografia etnográfica se consolidou no contexto da investida estrutural-funcionalista para superação do evolucionismo social. 1983a). o grande problema do evolucionismo social é a tentativa de fazer uma historiografia sem documentos. Para RadcliffeBrown. Porém. é como se víssemos através dos olhos do autortestemunha as coisas vividas por ele em campo. com base em ampla pesquisa acerca do exercício profissional de Malinowski. 188 . enquanto. A centralidade do trabalho de campo no argumento contra o evolucionismo social teve como resultado uma naturalização da relação entre antropologia e trabalho de campo. A “magia do etnógrafo” que alimenta o mito encontra-se na passagem do trabalho de campo ao texto etnográfico: na leitura. Ao longo das décadas de 1920 e 1930.

Em seguida. tornaram-se chancela necessária (e até suficiente) da antropologia como profissão e vocação (Giumbelli. Em conferência proferida em 1959 e posteriormente publicada com o título “Repensando a antropologia”. no marco da aproximação de Leach em relação ao estruturalismo de Lévi-Strauss.como delimitadores metodológicos da disciplina associados à experiência individual do pesquisador. Em resumo. sobre o arquétipo do “antropólogo enquanto herói” dá a dimensão dessa centralidade do trabalho de campo em relação ao conjunto das características fundamentais da antropologia naquele momento: É um tipo de experiência arquetípica compartilhada que informa. O comentário de Stocking Jr. possivelmente o mais rebelde dos herdeiros imediatos do estrutural-funcionalismo. No início do texto. reconhecendo a centralidade de Radcliffe-Brown e Malinowski e louvando a contribuição ao campo mais consagrada de ambos. O resultado é uma proposta ambígua. critica pesadamente o modelo metodológico estrutural-funcionalista. ou mesmo gera. um sistema de valores metodológicos ou ideologia disciplinar generalizado: o valor atribuído ao trabalho de campo em si como a experiência básica constitutiva não só do conhecimento antropológico. . sugerindo sua substituição por outro. o valor atribuído à igual valoração de tais entidades. esta tem sido a base de legitimação da alegação de autoridade cognitiva especial da antropologia (Stocking Jr. as propostas teórico-metodológicas de um e o modelo empírico paradigmático do outro. O interessante é que Leach pensa esse outro método como derivado da técnica estabelecida por Malinowski e devendo respeitá-la. o valor atribuído a uma abordagem holística das culturas (ou sociedades) que são tema desta forma de conhecimento. Uma passagem de Edmund Leach. voltado para generalizações abstratas. e o valor atribuído em seu papel especialmente privilegiado na constituição da teoria antropológica. reforça este argumento. 2002). respectivamente. 1983b: 7-8). o autor faz considerações acerca do método da antropologia a partir de uma visão muito clara sobre o desenvolvimento da disciplina na Grã-Bretanha. em que o nexo da 189 . mas dos antropólogos. é afirmada a unidade e a dupla paternidade da antropologia.

principalmente pela notória etnografia sobre Os Nuer. publicada em 1940 (1978). O ponto fundamental do texto em questão é o refinamento da metodologia da disciplina a partir da consideração da relação entre antropologia e história (assim como tempo e mudança). interessa mais notar a apologia ao trabalho de campo. e o envolvimento pessoal do antropólogo em seu trabalho reflete-se na sua produção (Leach. já no início dos anos 1960. é considerado o grande discípulo de RadcliffeBrown. Esse trabalho de campo é um tipo de experiência extremamente pessoal e traumática. o mesmo autor falaria sobre a profunda afinidade. A diferença entre antropologia e história é colocada como uma diferença de “orientação”. o autor gradativamente redimensionaria a centralidade do estrutural-funcionalismo na antropologia social britânica. Para os presentes fins. afastando-a das ciências naturais (EvansPritchard.atividade do antropólogo está ora na especulação abstrata. ora na empiria radicalmente individual. porém. entretanto. 1964: 184-186). Uma seqüência de comentários metodológicos de Evans-Pritchard também é reveladora da naturalização da relação entre antropologia e pesquisa de campo e da mencionada ambigüidade metodológica decorrente disso. O trabalho de campo é abordado nos seguintes termos: O âmago da antropologia social é o trabalho de campo – a compreensão do modo de vida de um determinado povo. do começo para o fim. ao mesmo tempo em que é classificado como técnica. “deve-se em grande medida à ênfase que damos ao trabalho de campo como parte de nossa formação”. A perenidade da indefinição metodológica em torno do trabalho de campo pode ser identificada até mesmo em autores que se opõem 190 . 2005: 14). embora tenha sido também aluno de Malinowski. A orientação peculiar da antropologia. No período subseqüente a esta publicação. Evans-Pritchard. 1950). Menos polêmico do que Leach. Em “Anthropology and History”. não de “objetivo”. identificado como traço distintivo da antropologia. e até mesmo sobreposição. curiosamente. entre antropologia e história. O autor completa o raciocínio dizendo que os “historiadores escrevem a história como foi. e nós tenderíamos a escrevê-la do fim para o começo” (Evans-Pritchard.

Muitas vezes. pois a autoridade científica é baseada na particularidade radical da experiência individual a ele associada. em algum tempo.” (Geertz. Segundo Fabian. a manutenção do procedimento de constituição do objeto do conhecimento da antropologia através de operações de distanciamento. naturalizada como elemento central e definidor da disciplina antropológica. tem sérias limitações. especialmente em sua dimensão experiencial. marcada por uma falta de reflexão sobre coleta. a solução que a proposta estrutural-funcionalista representou no esforço de suplantar o evolucionismo social teve como efeito colateral. por exemplo. Perde-se de vista “que crítica e reflexão não 191 . responsável por uma confusão entre método e técnica. assim. Segundo Giumbelli (2002). portanto. 1988: 153). também coloca a técnica de trabalho de campo numa posição sui generis. é. Por trás do problema de como classificar a pesquisa de campo está uma suposição de consistência metodológica e epistemológica. isso se expressa na ausência de codificação e normatização da prática antropológica. embora pertinente.declaradamente ao estrutural-funcionalismo. no plano epistemológico. A ênfase na dimensão experiencial da pesquisa de campo. por sua vez. o que o próprio Malinowski denomina “sinceridade metodológica”. análise e interpretação de dados. entre algum grupo. a crítica elaborada a partir dos anos 1969 ao positivismo embutido nas práticas da escola estrtural-funcionalista. Assim. a etnografia ”escrita aqui” deve se apresentar como “um relato autêntico elaborado por alguém pessoalmente familiarizado com o modo pelo qual a vida ocorre em algum lugar. deve ser a base de qualquer antropologia. esta parece não afetar a idéia de que o trabalho de campo. A fórmula “anthropology is what anthropologists do”. empiricismo exagerado e ausência de treinamento formal para pesquisa de campo. Se o questionamento do modo como se faz e se escreve sobre e a partir do trabalho de campo é um foco central de discussão. O problema maior estaria em fazer da proposta de exercício crítico e reflexivo na construção de conhecimento – que deve ser uma condição da prática científica – eixo central de uma suposta grande revelação. Na formulação de Clifford Geertz. a naturalização da pesquisa de campo como método inibe a reflexão sistemática sobre procedimentos de pesquisa que são um requisito da atividade da científica.

Trata-se do tempo por trás das categorias de classificação de estados como “com escrita vs. as operações de distanciamento fossem satisfatoriamente superadas. Industrial. que encenam um distanciamento objetivo em relação às “idades” e “estágios” que definem.são virtudes extraordinárias ou. Conforme o autor. da pré-história. Este hiperdimensionamento do conteúdo da crítica reflexiva às correntes antropológicas precedentes levou a um sentimento de falência referencial e um grande esforço de auto-análise sem que. principalmente em universidades norteamericanas – e à arqueologia. A tipologização do tempo mundano também permeia a discussão sobre povos com e sem história. feudal. moderno. conforme pretendo demonstrar a seguir. O segundo modo identificado pelo autor contempla dois subtipos: um é o tempo mundano. pior. é o que reconhece o tempo como “dimensão 192 . tradicional vs. São escalas amplas entendidas como objetivas e neutras e estão associadas à antropologia física – tanto a clássica quanto a que até hoje é produzida em departamentos de antropologia. é o que Fabian denomina tempo tipológico: aquele que marca o intervalo entre eventos significativos do ponto de vista sociocultural numa linguagem superficialmente não-temporal. o outro subtipo. (. faltou reconhecer que a crítica ao positivismo e a idéia de que a subjetividade do observador não deve ser ignorada e não pode nunca ser completamente neutralizada “tem sido colocada e debatida ao menos desde a reação romântica ao Iluminismo” (Fabian.) tribal vs. Fabian (1983: 21) define três modos como o tempo aparece e é manipulado na antropologia.. sem escrita. agrário vs. especialidades filosóficas.. rural vs. inclusive em suas versões mais sofisticadas. contudo. como nas escalas produzidas por evolucionistas sociais. [mas] o modo como a antropologia é feita mesmo por aqueles que dão pouca atenção ao assunto ou rejeitam a idéia como não-científica”. finalmente. 2000: ix-xi). como a distinção levi-straussiana entre sociedades quentes e frias (idem: 23). O tempo físico é o tempo das cronologias de longo prazo do processo de evolução biológica. mais independente do tempo físico como vetor. O terceiro modo. marcado por periodizações mais detalhadas. Distanciamento temporal e outros isolamentos Em Time and the Other. urbano”.

mundano e tipológico. Esta “esquizocronia” da antropologia é um indício da postura epistemológica que caracteriza a disciplina: “a tendência persistente e sistemática a situar o(s) referente(s) da antropologia num Tempo que não o presente do produtor do discurso antropológico”. já contido na oposição entre sociedades do contrato e sociedades do status. uma vez que seja mantido o pressuposto de que a antropologia se baseia necessariamente em pesquisa de campo. assim como as ações do outro afetam a mim e a ele próprio. Por outro. Fabian identifica a contradição que expressa o problema metodológico básico a que dirige sua crítica. o tempo intersubjetivo ocupa o lugar de fundamento epistemológico da disciplina. Coetaneidade ou compartilhamento do tempo é um modo temporal de relação que vai além do simultâneo – coexistência no tempo físico – e do contemporâneo – coexistência no tempo tipológico. É condição de possibilidade da ação mutuamente referida de observadores e observados e. especialmente. o distanciamento temporal produzido no texto etnográfico é a garantia da objetividade – e. condição da legitimidade – do conhecimento produzido a partir de uma situação necessariamente intersubjetiva. Eis a contradição. portanto. denominado tempo intersubjetivo. o conhecimento produzido a partir daí. em torno de uma atitude de distanciamento que se realiza em mecanismos baseados nos tempos físico. foi a presença 193 . Compartilhar o tempo é reconhecer ativamente que minhas ações afetam o outro e me afetam. articula-se. ou “negação da coetaneidade” (1983: 31). A partir desses conceitos. Por um lado.constitutiva da realidade social” e enfatiza a “natureza comunicativa da ação e interação humanas”. evidentemente. o modo temporal da pesquisa de campo. o texto etnográfico. em recente prefácio a um livro de Pierre Clastres. fundamentalmente a mesma coisa que. em geral. O distanciamento temporal identificado por Fabian como chave epistemológica da construção pela antropologia de seu objeto é. Os autores argumentam que a antropologia fundou-se a partir de um “grande divisor” entre um “nós” e um “eles” cujo critério primeiro. da ação política pautada no reconhecimento da possibilidade de ação política do outro. Márcio Goldman e Tânia Stolze Lima (2007) identificam como “isolamento do político” na constituição da antropologia. Este é. portanto. Segundo o autor.

a negação da coetaneidade é uma herança epistemológica persistente das opções primeiras da disciplina. que a antropologia logrou alcançar uma transformação epistemológica de sua abordagem do político. sendo que ambas foram elaboradas sob o pano de fundo do pós-guerra e do fim dos Estados coloniais europeus em África –. na crítica estrutural-funcionalista ao evolucionismo. Foi só a partir da abordagem de Pierre Clastres – e. no caso das sociedades de linhagens.).ou ausência do Estado. ir mais a fundo na questão do envolvimento cognitivo (Fabian. ainda hoje. contudo. Mello. 2003: 11-3. devemos acrescentar. e é o Estado. Isto significa que. 1983: 53). Segundo Fabian. A questão da mudança social e o estudo de contextos urbanos foram inovações sensíveis introduzidas na antropologia social pelo grupo de pesquisadores liderados por Max Gluckman e relacionadas ao momento de insurreição anticolonial em grande parte do continente africano. apresentando um grau de elaboração e formalização dos procedimentos de pesquisa possivelmente sem par na 194 . marcada pela opção radical pela sincronia. se a antropologia já há algumas décadas elabora a questão de seu envolvimento moral e político com o colonialismo. ao invés de ser superada. O “nós” continuava a ser definido pelo Estado. Posteriormente. por exemplo. o parâmetro para olhar para e falar sobre o “eles” sempre afastado do lugar do político onde se situa o antropólogo (Goldman e Lima. Assim como as formas de “isolamento do político” vigentes na metade do século XX foram desdobramentos do grande divisor presente nos primórdios da disciplina. “a negação da coetaneidade intensifica-se na medida em que o distanciamento temporal deixa de ser uma preocupação explícita e passa a ser um pressuposto teórico implícito”. eliminar a divisão e a assimetria entre as sociedades com Estado constituído e as outras. identificando sociedades mais ou menos evoluídas. cap. no parentesco. remontando a meados do século XIX. portanto. onde as funções do Estado estão por surgir ou são exercidas em outras instâncias da vida social. a antropologia britânica incorporou a política como tema sem. de Foucault. é preciso. A escola de Manchester e o Rhodes-Livingstone Institute foram também responsáveis por inovações técnicas importantes. À antropologia caberia o estudo das sociedades sem Estado.

Mitchell. 2006). Diante da percepção incontornável da “inovação constante”. não na imutabilidade do produto. na constituição da etnicidade. contrastiva e política de uma história putativa.. pois os procedimentos do “mecanismo relativamente simples de produção de assimetrias” facilmente 195 . põem em causa a própria noção de cultura. portanto. 2006. um isolamento da história. A noção de etnicidade – formulada inicialmente por Barth (1997). 1967. que discutimos até aqui como negação da coetaneidade e grande divisor. atribui a sociedades diferentes modos distintos de lidar com o tempo. O conceito de etnicidade realiza. da própria história. no marco da perspectiva relativista. O problema desta grande contribuição é a marca do pressuposto da tendência à estabilidade. Segundo Manuela Carneiro da Cunha: é nesse sentido que os estudos de etnicidade. O que se tem são historicidades inconciliáveis.) A produção cultural em uma sociedade dada é uma inovação constante e perceptível: a ênfase está na continuidade. Gluckman. de historicidades. Ao contrário. (. sistemas e premissas de organização social aparecem como sujeitos últimos da “mudança social” e. O problema não é simples.. há uma descontinuidade real e uma ênfase na imutabilidade aparente do produto (1985: 107-8). os modelos da estabilidade encontram seu último recurso ao localizar no coração do próprio movimento o elemento que recoloca a estabilidade: não são os modelos dos antropólogos que forjam a estabilidade. Mas este abster-se de impor as próprias concepções de tempo e história aos povos que se estuda é também um mecanismo bastante claro de distanciamento. mas as próprias culturas através do mecanismo da etnicidade. uma diferença que afirma num plano ao mesmo tempo abstrato e englobante a mesma divisão radical entre o que estuda e o que é estudado.história da disciplina (Epstein. essa construção de uma cultura da diferença. ou melhor. Estruturas. um discípulo de Gluckman inspirado pelo individualismo metodológico weberiano – alcança o limite dessa concepção ao radicar a dinâmica das relações sociais no presente na reinvenção situacional. por sua vez. A noção de historicidade. também presente na obra de Evans-Pritchard.

a pesquisa de campo. cap. em discussão afim. o caminho para evitá-lo começa com uma postura epistemológica crítica e autocrítica115: a partilha é o espaço que habitamos. 1999: 84)116. Ao longo do texto. Ela é a própria condição do projeto antropológico e de seu exercício. X 196 . modificado por ela” e à “idéia estruturalista de que cada sociedade atualiza virtualidades humanas universais e. não pelas dimensões técnica e metodológica. Etnografia e documentos Em texto recente.passam despercebidos. o tempo intersubjetivo ocupa. Não se pode perder de vista que a pesquisa de campo foi elemento fundamental do processo de emergência da mais elaborada consciência 115 Bourdieu et. metodológica e epistemológica. portanto. que o autor também identifica. al. num primeiro momento. mas porque “as próprias características epistemológicas da disciplina exigem a experiência de campo”. pois é a condição de sua premissa. ver Melo. A etnografia baseada em pesquisa de campo seria “a única forma de operar a síntese de conhecimentos obtidos de forma fragmentada e a condição para a justa compreensão até mesmo de outras experiências de campo”. Sua particularidade estaria associada ao fato de “que o etnógrafo também é. enquanto o problema do distanciamento temporal é revelado e problematizado nas dimensões técnica. Na argumentação de Fabian. trabalham com o conceito de “vigilância epistemológica”. o tempo intersubjetivo passa a ser também um modo de construir o conhecimento a ser elaborado e defendido. potencialmente presentes em outras sociedades” (2006: 29-31). a fronteira que transgredimos e um certo tipo de linha que traçamos.. o lugar de fundamento epistemológico da disciplina. Márcio Goldman (2006) advoga a favor da exigência da pesquisa de campo em antropologia. que seja sua conseqüência é algo que nos cabe evitar (Goldman e Lima. ou deveria ser. 116 Para uma outra discussão sobre o problema das fronteiras na construção do objeto de pesquisa.

antropológica. O trabalho de Ann Stoler. entendendo-a como um conjunto de princípios metodológicos a orientar pesquisas sobre certo conjunto de questões valendo-se. É possível. Ciente disso. e uma vez esclarecido o nó entre técnica. vida doméstica e relações de trabalho na ilha de Java. simultaneamente como premissa e objetivo. método e episteme ensejado pela centralidade da pesquisa de campo na antropologia. A associação entre antropologia e pesquisa de campo reiterada por Fabian e Goldman é questionável. gênero. os fundamentos metodológicos da etnografia: a busca pelo deslocamento do ponto de vista através do deixar-se afetar pelo outro. em especial o artigo entitulado “Memory-work in Java” (2002). expandir a idéia de etnografia. de uma invenção feita a partir da imagem da dança e da 197 . a coetaneidade de sujeitos e objetos na construção do conhecimento. O autor defende uma proposta de elaboração conjunta de pesquisa de campo e documental ao falar dos equívocos das interpretações correntes sobre a prática da dança do hula-hula no Havaí contemporâneo. é um exemplo interessante desse tipo de abordagem. por exemplo. no período da colonização holandesa – um incômodo crescente em relação à experiência dos trabalhadores domésticos javaneses e aos desdobramentos históricos das relações que estudava levou-a a realizar uma série de entrevistas com essas pessoas. para isso. Tais interpretações consideram o fenômeno do renascimento do hula-hula como um uso comercial. não obstante sua pertinência num certo período. No artigo. mas podemos manter no horizonte. entre as quais as de pesquisa de campo e as de leitura de fontes documentais. em 1998. no contexto do capitalismo contemporâneo. a autora relata como – após anos de trabalho documental sobre raça. por si só. das técnicas que a conjuntura aprouver. mas isso não compromete os pontos fundamentais dos argumentos dos dois autores e de Tânia Stolze Lima apresentados anteriormente. assim. Marshall Sahlins elabora questão semelhante. é preciso reconhecer que a pesquisa de campo. em Adeus aos tristes tropos (2004). Descartamos a suposição de uma raiz intersubjetiva comum a toda a disciplina. não garante a consistência do método historicamente associado a ela.

Stoler não foi a campo para suprir a necessidade de uma transformação pessoal com alcance epistemológico. Esse trabalho resultou numa perspectiva de não-vitimização dos colonizados e num questionamento sobre o significado histórico dos marcos cronológicos do colonialismo que. como vimos acima. na análise de fontes documentais diversas: fotografias. em Stoler. e não novidades que só podem ser entendidas a partir do que vem de fora. por sua vez. o caminho é o inverso e os resultados. A pesquisa presencial. Nesse caso. 2002: 162) que constituíam os problemas de pesquisa da autora. as supostas invenções são formas locais de apreender e provocar a mudança. Pesquisadora experiente até então sem experiência de campo. colonizadores e missionários no contexto do colonialismo. Sahlins propõe que se busque entender os havaianos como agentes da história do colonialismo e do capitalismo tanto quanto os europeus. não significou um contato mais imediato com “as percepções e práticas coloniais” (Stoler. atas jurídicas e manuais de boas maneiras. Para o autor. ainda que viagens possam ser experiências interessantes em diferentes momentos da vida. através de uma “etnografia histórica cujo objetivo é sintetizar a experiência de campo de uma comunidade através de seu passado documental” (idem: 503-4). 198 . entretanto. algo diversos117. O contato pessoal com extrabalhadoras e trabalhadores domésticos e a análise contextualizada de seus discursos acerca da experiência do período da dominação holandesa respondem à necessidade do esforço continuado de deslocamento do ponto de vista que marca a reflexão antropológica. de experiência e memória” (idem: 203). pelo contrário. a necessidade da pesquisa campo surgiu de um longo trabalho de problematização da relação de dominação colonial. 117 Para reflexões aprofundadas sobre a consideração conjunta de fontes documentais e pesquisa de campo ver os capítulos de Feriani e Mello. no sentido da compreensão do sujeito e da ação histórica. Em Sahlins. trata-se de confrontar os documentos com o conhecimento construído a partir da pesquisa presencial.havaianidade produzida por marinheiros. por exemplo. “estes relatos rechaçaram o colonial como domínio discreto de relações sociais e políticas. possibilitaram e demandaram a incorporação daquela outra fonte.

holandeses. A investigação acerca das “percepções e práticas coloniais” na ilha de Java entre os séculos XIX e XX levou a pesquisadora a buscar os discursos de diferentes agentes coloniais – homens e mulheres. o ponto de vista de trabalhadores e trabalhadoras javaneses. dentre os quais se destacam: um outro conjunto de marcadores cronológicos. administradores coloniais. indirecto. Na análise dos relatos dos javaneses. os relatos passam a ser observados como documentos discursivos. Se os discursos das diferentes categorias de brancos se revelaram indiretamente na análise e confrontação de diferentes tipos de documentos. inobservável nos documentos. y de manera ineludible. independientemente de las técnicas empleadas (Peixoto. isto é. 1992: 16). ainda que a análise destes demande técnicas específicas.Pregunto si en el caso de la perspectiva antropologica – cuyo acceso al “otro” pasa obligatoriamente por la consideración de sus “otros” . 2008: 30). ocupando diferentes posições na dinâmica colonial. a contextualização passa por abordar o processo de produção e arquivamento daqueles documentos e a complexidade das relações entre as diferentes categorias de brancos na metrópole e na colônia.este acceso no será siempre. Esta colocação de Fernanda Peixoto é um referencial interessante para situar o percurso de Stoler. por sua vez. cuja compreensão é mediada pela construção analítica de um contexto de significação (Comaroff e Comaroff. Na obra de Stoler. em que o período da ocupação japonesa é central. é colocado em cena através da pesquisa presencial. Não só foi a busca dos relatos provocada indiretamente pelo vazio encontrado nos documentos como. No caso dos diversos tipos de arquivos analisados pela autora. e a ansiedade. A sucessiva consideração desses pontos de vista através dos arquivos delineou a ausência discursiva que levou a autora a buscar um outro “outro”. e brancos em geral. capitalistas e trabalhadores. os silêncios e as meias-palavras que permeiam um discurso sobre 199 . o mesmo ocorre com os relatos de javaneses. a contextualização passa por identificar o conjunto de novos referentes ali presentes. ricos e pobres –. uma vez recolhidos.

No caso de Stoler. assim como diferem a contextualização de arquivos públicos e privados. Tanto no trabalho de Sahlins (2004) quanto no de Stoler (2002). numa outra dimensão. Teorias da etnicidade. A idéia reificada de cultura como jogo de interesses. a consideração conjunta do documental e do presencial. devemos concluir que os fundamentos para uma etnografia dos documentos são os fundamentos de qualquer etnografia: a postura epistemológica e os princípios metodológicos que nos permitam lançar mão das (ou mesmo inventar as) técnicas mais apropriadas para discutir os problemas que nos instigam. local e colonial vs. a autora dá um passo a mais ao contrapor. Jocelyne (orgs. Referências Bibliográficas BARTH. implica uma desqualificação da memória local em que está implícita uma noção de verdade histórica. implica uma problematização muito importante da relação entre história e memória. entre memória e história. 200 . Frederik. In: POUTIGNAT.). Tradução de Elcio Fernandes. Desse modo. em que se baseia a interpretação do renascimento do hula-hula como resquício do sistema mundial colonial-capitalista. problematizar os grandes divisores: global vs. os diferentes discursos presentes nos documentos e nos relatos presenciais e. pós-colonial. sob a perspectiva da equivalência epistemológica. São Paulo: Editora UNESP. assim como do presente e do passado. Grupos étnicos e suas fronteiras. Além disso. 1997. que estabelece uma equivalência entre os documentos e os relatos orais e.o poder elaborado à sombra do regime político autoritário que sucedeu os japoneses. Phillipe e STREIFFFENART. A diferença na abordagem de um e outro tipo de objeto restringe-se ao tipo de contextualização adequada a um e outro tipo de discurso. por exemplo. uma postura semelhante e o recurso à pesquisa presencial são alcançados a partir do refinamento da análise das fontes documentais coloniais. assim. p. Entendo que só é possível a Sahlins recorrer aos documentos a partir de uma postura epistemológica diversa. 187-227. Procuramos aqui demonstrar que a análise de documentos escritos ou de discursos recolhidos em pesquisa presencial pode ser realizada num mesmo marco metodológico e epistemológico.

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Seus interesses de pesquisa têm sido a etnografia virtual. Desenvolve banco de dados desde 1999 e sistemas e websites na Internet desde 2001. a economia. Angola. graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). na primeira metade do século XX. Suas principais áreas de interesse são: missões. tem mestrado em Antropologia Social pela Unicamp e atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP. financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Atualmente trabalha no Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu/Unicamp e é doutoranda do Programa de Doutorado em Ciências Sociais da Unicamp. os movimentos racistas. Possui experiência de pesquisa em comunidades remanescentes de quilombos e em arquivos históricos. Tem experiência nas seguintes áreas de pesquisa: estudos de gênero e violência. graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas e mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas. mediação. Flávia Melo da Cunha. gênero. a relação entre biografia e etnografia. geração. arquivos. crime. Atualmente é professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas e consultora da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres da Presidência da República. relações raciais. aos estudos sobre o ciberespaço e. Janequine é mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas e desenvolve pesquisa sobre administração colonial e comércio na então Guiné Portuguesa. o direito e a cultura. teoria antropológica. hoje Guiné-Bissau. membro da Associação Brasileira de Antropologia e da Latin American Jewish Studies Association. Daniela Moreno Feriani é mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) com a dissertação “Entre pais e filhos – Práticas judiciais nos crimes em família”. Cauê Kruger é mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).Autores Adriana Dias é doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de Campinas. antropologia jurídica. mais recentemente. etnicidade e escravidão. Paulo Ricardo Muller é mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e tem como principais temas de interesse os processos de circulação transnacional em suas relações com a política. colonialismo. a discussão acerca de crimes de ódio e. Carolina Parreiras é mestre em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do IFCH/Unicamp. recentemente. práticas policiais e avaliação de políticas públicas. Seus principais interesses de pesquisa se relacionam aos estudos de gênero e sexualidade. trabalhando com os seguintes temas: memória. Possui experiência de pesquisa em processos criminais. 202 . Olivia G. Iracema Dulley graduou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo. trabalhando com os seguintes temas: violência. família. às homossexualidades. Direito Penal e Tribunal do Júri. Migrações e metodologia da Antropologia Social são outras áreas de interesse. pornografia e erotismo. Marcelo Moura Mello é doutorando em Antropologia Social no Museu Nacional/UFRJ.

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