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As figuras Alegóricas e Dramáticas de Goya.

( por Anderson Lopes )

Quando se tem um trabalho que nos leva a temas como: sombras do espírito, egoísmo
humano, falsa sensação de justiça e desequilíbrio em todos os sentidos, é pertinente
mencionar a vida e a obra do artista espanhol Goya, cujo trabalho é um verdadeiro
tratado sobre a estupidez humana.

Vivendo em tempos de guerra, a princípio, Goya retratava os massacres e as injustiças


que presenciava como forma de mostrar e criticar tais feitos. Prisões, torturas,
assassinatos, nada escapava aos olhos do artista.

Goya começou a mostrar os horrores dessa guerra através de pinturas de figuras


estranhas e monstruosas. São figuras que representam a alma humana, o mostro que ela
pode se tornar a partir de seus atos. Figuras alegóricas que mostram a imperfeição e o
descontrole humano. O artista então se isola para dentro de si e pinta os seus quadros
negros.

As pinturas negras não são propriamente pretas, vem de uma escuridão de espírito, do
egoísmo humano e da solidão em si. As 14 pinturas foram feitas em sua casa e ele as
mantinha no seu dia a dia, pois acreditava que iam além dos horrores vividos na guerra,
trata-se da mais completa compreensão do interior da alma humana.

Nunca antes se viu o retrato da solidão humana com tão radical renuncia e vazio de
figuras como no quadro de Goya de titulo “O Cão”, onde um cachorro prestes a se
afundar em areia movediça levanta a cabeça num gesto de esperança. Tudo que se vê do
cão é a cabeça que ocupa apenas 1% do plano pictórico do quadro e o restante da
composição permanece vazia de objetos. Isso junto do fato de ser a solidão de um
animal que foi retratada faz desse quadro uma visão única desse tema. Não é só a
solidão física que está presente no quadro, mas também a solidão da alma, a falta de
pessoas ou seres mais humanos no melhor sentido da palavra.
Um dos quadros mais famosos de Goya, o Três de Maio, também é um dos quadros
mais fortes e marcantes já feitos, ele mostra soldados franceses prontos para fuzilar um
grupo de pessoas possivelmente ligadas a algum movimento nacionalista. Giulio Carlo
Argan faz a seguinte afirmação sobre este quadro: É um quadro realista, documenta a
repressão impiedosa dos movimentos anti-franceses de maio de 1808. Os soldados não
têm rostos, são marionetes uniformizadas, símbolos de uma ordem que, pelo contrário,
é violência e morte (Cit. Argan, Giulio Carlo – Arte Moderna, PP. 41). Uma vez ao ser
questionado sobre por que teria retratado tamanha crueldade, Goya respondeu: “Para ter
o gosto de dizer eternamente aos homens que não sejam bárbaros”. Mas infelizmente a
barbárie persistiu e persisti até hoje, talvez por natureza humana ou por burrice pura e
simplesmente. O extremado sentido trágico da humanidade que um homem poderia
registrar em pequenos pedaços de papel, essa era a obra e o alerta de Goya aos seus
semelhantes.

Goya envelheceu e morreu surdo e exilado na França. Em 1901, seus quadros já eram
conhecidos, mas havia algo ainda pendente. Não considerando apropriado que um dos
maiores filhos da Espanha repousasse para sempre em solo francês, o governo espanhol
solicitou que seus restos mortais fossem exumados e devolvidos para serem sepultados
em solo espanhol. Eles foram transferidos para Madri. Depois, em 1929, decidiram
enterrar Goya debaixo do piso da igreja que ele decorara tão lindamente, mas dessa vez
o crânio desaparecera, e jamais foi encontrado. Goya não teve sua paz, nem depois de
morto.

Obs: este texto é parte integrante da Monografia: Alegoria da Sombra, 2008