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O que fazer com as teorias das Relações Internacionais? Uma contribuição crítica sobre três estratégias possíveis 1

Daniel Jatobá (UnB)

Introdução

1. O propósito do trabalho é apresentar uma opinião crítica sobre três estratégias

possíveis para lidar com as teorias dominantes das RI, no âmbito de nossas atividades de ensino, pesquisa e produção intelectual. Naturalmente, assumo o risco de apresentar estas ideias com a intenção principal de promover alguma discussão no presente encontro. Suponho

que a crítica é um elemento inerente à atividade intelectual nas ciências humanas e sociais: a crítica não é uma opção, mas um imperativo, algo que se impõe a todos nós como um dever de ofício. Acima de tudo, realizamos uma atividade ética quando nos engajamos intelectualmente nos assuntos humanos, como é o caso das relações internacionais. A tarefa deve ser empreendida com “amadorismo”, no sentido atribuído à expressão pelo crítico cultural Edward Said 2 , isto é, ela deve ser alimentada pela dedicação e pela afeição, nunca pelo simples lucro ou pela especialização egoísta e estreita. Cabe ao intelectual “falar a verdade ao poder”, tendo um compromisso empenhado com as ideias e os valores que apresenta na esfera pública, sempre com o necessário rigor metodológico. O ideal é evitar tanto os jargões incompreensíveis aos que não fazem parte da comunidade acadêmica como o profissionalismo que se põe passivamente a serviço da autoridade. Também devemos desconfiar de nacionalismos e tradições religiosas excludentes, pois estes são deuses que sempre falham. É com este espírito amador e aberto ao diálogo franco que submeto as seguintes ideias ao debate.

2. As RI, enquanto disciplina, possuem características bastante conhecidas por nós.

Trata-se de uma invenção do século XX, uma disciplina cujas origens são associadas aos esforços empreendidos por intelectuais e líderes políticos após a Primeira Guerra Mundial. Mesmo tendo se difundido por inúmeros países, isto nunca chegou a descaracterizar a hegemonia da produção acadêmica anglo-americana. Após a Segunda Guerra, os Estados Unidos assumiram uma posição de destaque dentro da Teoria das Relações Internacionais (TRI). Ao explicar as razões para o notável desenvolvimento das RI naquele país, Stanley Hoffman caracterizou-a como “uma ciência social norte-americana” 3 . Até os dias de hoje, há naquele país, como em nenhum outro, um número de instituições de ensino e de pesquisa que torna a

1 Texto preparado para o Seminario de Trabalho “Cómo se ha conformado el mundo internacional de nuestros días. De la expansión europea a la globalización: conflictos, resistencias y desarrollo desigual. El caso de América Latina”, a ser realizado na Universidade de Brasília, nos dias 7, 8 e 9 de novembro de 2011.

2 Said, Edward (2005[1994]). Representações do intelectual: as Conferências Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras.

3 Hoffman, Stanley (1977). “An American Social Science: International Relations”. Deadalus, 106: 41-60.

produção norte-americana a mais volumosa, além de ser aquela que traz à comunidade de especialistas a maior contribuição teórica, metodológica e substantiva. Há pouco mais de dez anos, Ole Wæver descreveu as RI como “uma disciplina não tão internacional”: a despeito das pretensões globais das teorias dominantes – em especial, o realismo e o liberalismo, em suas versões desenvolvidas nos Estados Unidos – ainda é muito clara a influência das circunstâncias

sociais e dos interesses políticos da maior potência mundial. A principal contribuição de Wæver é demonstrar como é pequena a distância entre os modelos teóricos dominantes norte- americanos e a disciplina supostamente “internacional” ou “global” 4 .

3. Nada disso é novidade, assim como não é novidade reconhecer que as teorias

dominantes carregam consigo um positivismo metodológico, uma ontologia materialista e uma base epistemológica racionalista. Porém, nunca é demais ressaltar as implicações políticas da hegemonia da academia norte-americana sobre uma disciplina que possui uma dimensão

prática fundamental: as teorias estão em diálogo permanente com as explicações e justificativas que os inúmeros agentes sociais dão para suas ações. Sendo assim, destaca-se a dimensão política do processo de construção de teorias, pois os esforços intelectuais de muitos indivíduos, mesmo quando se encontram separados no tempo ou no espaço, estão relacionados de modo complexo às práticas das relações internacionais, estas sempre circunscritas em relações de poder. Outro dado importante consiste no fato de que, desde a criação dos primeiros cursos universitários e centros de pesquisa, os estudiosos do campo vêm se esforçando para justificar a existência de uma área particular do conhecimento social, ainda que haja sempre ocorrido uma notável influência de inspirações provenientes de outras disciplinas sobre o pensamento produzido nas RI.

4. Dito isto, as teorias das RI podem ser definidas como construções discursivas que

articulam determinados conceitos referentes à política mundial, isto é, às relações internacionais enquanto conjunto discernível de fenômenos. Em outras palavras, as teorias propõem-se a sistematizar o conhecimento sobre a realidade estudada, de forma logicamente coerente e em linguagem clara, e são consideradas indispensáveis para a compreensão desses fenômenos. Parece razoável sustentar que sem os finca-pés teóricos tanto os estudiosos como

os tomadores de decisão ficariam desorientados diante da complexidade dos fatos que compõem qualquer realidade social. Conforme a metáfora de Edward H. Carr, um dos primeiros a teorizar sobre a política internacional, “um fato é como um saco, não fica de pé até que se ponha algo dentro dele” 5 . Portanto, o que confere sentido à multiplicidade e à complexidade dos fatos históricos são justamente os discursos teóricos utilizados para interpretá-los.

5. Não obstante, há muitas formas diferentes de enxergar as relações internacionais, o

que talvez gere a impressão de que se trata de um confuso caleidoscópio de conceitos,

4 Wæver, Ole (1998). ““The sociology of a not so international discipline: American and European developments in International Relations”. International Organization, 52/4: 687-727.

5 Carr, Edward (1961). What is history? New York: Vintage Books.

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argumentos e visões de mundo inconciliáveis entre si. Para alguns, poderá mesmo parecer que este campo teórico se encontra em um estado caótico. Além do mais, os debates teóricos das RI não dizem respeito a questões secundárias, mas sim à própria razão de ser da disciplina, pois eles se referem ao seu objeto, ao método ou aos conceitos e argumentos fundamentais usados na área. Porém, digo com humilde otimismo que o aluno, professor ou pesquisador não deve desanimar diante disso. Ainda que não haja meios totalmente seguros para escolher entre as teorias rivais, pode-se argumentar que sem elas qualquer estudioso se encontraria ainda mais desorientado diante dos fatos e processos históricos (talvez lhe sirva de alento o exercício de imaginar-se neste mundo sem o auxílio incalculável das teorias disponíveis). Mas, se as teorias predominantes são produzidas no principal centro de poder mundial e se as teorias estão inevitavelmente conectadas à dimensão prática da disciplina, muitas vezes legitimando as práticas dos mais poderosos, o que podemos fazer com as teorias dominantes das RI?

6. Será que devemos apenas nos ajustar às suas visões de mundo e prescrições políticas,

buscando nelas o papel que nos cabe neste mundo, acomodando-nos em seus conceitos e argumentos, enquanto indivíduos ou em nossas coletividades? Será que devemos descartá-las, colocando alguma outra coisa em seu lugar, como “perspectivas nacionais” alternativas ou “perspectivas do Sul”, ou então preferindo abordagens alimentadas apenas por conceitos enraizados nas experiências particulares das diversas nações? Estas duas opções, contraditórias entre si e chamadas aqui de (1) ajuste/acomodação e (2) descarte/substituição, são analisadas a seguir, quando será argumentado que nenhuma delas é a mais interessante. Em seu lugar,

proponho a adoção de uma terceira estratégia, denominada (3) diálogo crítico. Esta opção pretende aproveitar o potencial contido nas novas abordagens teóricas provenientes de outras ciências sociais contemporâneas, para questionar o lugar do poder nas teorias dominantes e procurar um esclarecimento ético baseado no diálogo aberto sobre os valores carregados pelas diferentes teorias. Entendo que o diálogo crítico poderia propiciar o engajamento, em vez da mera submissão silenciosa ou do isolamento contraprodutivo diante das teorias que dominam atualmente nossa disciplina pseudo-internacional. O horizonte vislumbrado por esta opção, no cenário mais otimista, poderia gradualmente dar lugar a uma disciplina menos hegemônica, mais diversa e plural.

Uma contribuição crítica a três estratégias possíveis: o que fazer com as teorias das RI?

7. Ao contrário da concepção mais tradicional de teoria como mera representação ou

explicação da realidade, devemos considerar que todas as perspectivas teóricas possuem dois aspectos interdependentes. Por um lado, as teorias assumem determinadas premissas ou suposições sobre aquilo que constitui a “realidade” das relações internacionais. Este é o elemento ontológico das teorias, isto é, são identificados os diversos elementos que constituem

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a realidade e os modos como esses elementos, entidades ou processos sociais estão conectados entre si. Por outro lado, as teorias também assumem determinadas preferências normativas sobre como o mundo “deve ser” ordenado, mesmo quando alegam tratar do mundo como ele é, pois sempre são fornecidas bases para a elaboração de juízos sobre a realidade. O elemento ontológico e o normativo estão presentes nos diversos discursos teóricos. Embora passíveis de distinção analítica, na prática estes dois aspectos nunca são completamente independentes entre si. As teorias não são capazes de simplesmente descrever ou explicar um determinado estado de coisas, pois elas sempre nos apresentam certas possibilidades existentes para a ação humana, para a intervenção na realidade social. As teorias são construções intelectuais que apontam, para além de seus elementos supostamente descritivos ou explicativos, certos horizontes práticos e éticos.

8. Portanto, não se deve aceitar sem questionamento a divisão tradicional entre teorias

empíricas e teorias normativas, ou a divisão estrita entre análise teórica e crítica social, embora estas divisões sejam bem estabelecidas no senso comum. Para iluminar esta questão, talvez seja interessante relembrar a categorização formulada pelos filósofos da Escola de Frankfurt, ainda nos anos 1930, e retomada por Robert Cox em sua crítica à ortodoxia teórica das RI, no início dos anos 1980. Em uma das frases mais citadas da disciplina, Cox afirmou que “uma teoria é sempre para alguém e para algum propósito”, pois cada teoria contém certa perspectiva, não podendo assim ser divorciada de um ponto de vista no tempo e no espaço 6 . Pela concepção tradicional, que ele denomina “teoria de resolução de problemas”, uma teoria ajuda a solucionar os problemas postos nos termos de uma perspectiva particular que é seu ponto de partida. A validação de uma teoria depende da capacidade do estudioso de se desvincular de suas preferências normativas, pois é preciso que o conhecimento seja objetivo, fruto de um distanciamento entre o objeto e o teórico. Este ideal de neutralidade científica, no entanto, já foi questionado há muito tempo. Em seu lugar, defende-se a concepção da “teoria crítica”, cujo ponto de partida é o reconhecimento da relação entre conhecimento e valores. Uma teoria crítica pretende entender como cada teoria se situa dentro das ordens sociais e políticas prevalecentes, refletindo sobre o modo como os contextos afetam as diversas maneiras de teorizar, bem como as maneiras pelas quais as próprias teorias impulsionam mudanças sociais. Como se sabe, as teorias dominantes das RI são teorias de resolução de problemas, que, além de alegarem objetividade científica, ainda por cima pretendem à generalização. Ao contrário delas, as teorias críticas são autorreflexivas e questionam a própria ordem dentro da qual são produzidas.

9. Antes de discutir as estratégias para lidar com as teorias dominantes, cabe fazer uma

última observação, que diz respeito às imagens que possuímos sobre a disciplina de RI. Assim como ocorre nas diversas áreas do conhecimento, os estudiosos não produzem apenas

6 Cox, Robert (1981). “Social forces, states, and world orders: beyond international relations theory”. Millenium – Journal of International Studies, 10: 126-155.

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entendimentos da realidade baseados em suas respectivas teorias, mas também constroem imagens ou narrativas sobre o próprio desenvolvimento do campo. Elas podem ser mais ou menos apuradas, ter maior ou menor abrangência, sendo o seu alcance determinado pela finalidade que têm a cumprir. Em trabalho bastante conhecido, Steve Smith denominou estas narrativas produzidas sobre a disciplina de “autoimagens” 7 , as quais buscam descrever o desenvolvimento do campo ao longo do tempo ou o estado de coisas em um dado momento. O modo como a teoria das relações internacionais é descrita e categorizada ajuda a tornar certas interpretações privilegiadas, consolidando o domínio de certos entendimentos sobre a disciplina. Pois bem. Há muitas maneiras de descrever o estado-da-arte das RI, neste princípio de século XXI. Em particular, considero importante levarmos em conta que as teorias dominantes durante o último século hoje dividem espaço com as novas abordagens, como a teoria crítica neomarxista, o construtivismo crítico e o pós-moderno, o pós-estruturalismo, as

perspectivas de gênero, o pós-colonialismo etc. Em outras palavras, as discussões e perspectivas teóricas das RI têm sofrido forte impacto das teorias críticas, em sentido amplo, a maioria delas alimentada por inspirações antes ignoradas pela ortodoxia teórica global/norte- americana. Falar em teoria das RI já não é mais falar apenas das teorias dominantes ou ortodoxas, como o realismo e o liberalismo. Qualquer discussão qualificada sobre “o que fazer com as teorias das RI” deve levar em conta o influxo destas perspectivas inspiradas em outras ciências humanas e sociais contemporâneas.

10. A primeira estratégia é acomodar-se às teorias dominantes. Isto implica em utilizar as

visões de mundo e os conceitos e argumentos destas teorias, buscando discutir sua validade ou identificar as condições para a ação internacional dentro da ordem concebida por estes discursos. A influência das teorias dominantes sobre a produção de autores argentinos e brasileiros, por exemplo, é conhecida e já foi documentada 8 . Houve influência do debate entre realistas e idealistas, especialmente nas primeiras gerações de estudiosos, assim como houve quem adotasse a visão de mundo realista, embora orientando suas interpretações não desde a perspectiva da “luta pelo poder entre as grandes potências”, mas sim desde uma perspectiva periférica. De qualquer modo, ajustar-se é aceitar as regras do jogo, é perguntar-se, por exemplo: qual é o papel que cabe aos Estados menos poderosos ou países subdesenvolvidos dentro das estruturas de poder que caracterizam as relações internacionais? Esta primeira estratégia não questiona a ordem vigente, tentando no máximo lidar com ela de forma pragmática desde perspectivas não contempladas pelos teóricos originais.

7 Smith, Steve (1995). “The self-image of a discipline: a genealogy of international relations theory”. In: Booth, Ken; Smith, Steve (ed.). International Relations Theory Today. Pennsylvania: The Penn State University. 8 A título de exemplo, são encontradas boas análises destes esforços, chamados aqui de estratégia de “ajuste/acomodação”, nos dois livros seguintes: Russell, Roberto (ed.)(1992). Enfoques teóricos y metodológicos para el estudio de la política exterior. Grupo Editorial Latinoamericano: Buenos Aires; e Bernal-Meza, Raúl (2005). América Latina en el Mundo: el pensamiento latinoamericano y la teoría de relaciones internacionales. Buenos Aires: Nuevohacer/Grupo Editorial Latinoamericano.

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11. No entanto, a utilização da estratégia de ajuste/acomodação traz consigo algumas

limitações importantes. A primeira crítica a esta atitude consiste no fato de sermos transformados de estudiosos dotados de capacidade reflexiva em meros consumidores das teorias dominantes e, pari passu, das visões de mundo, conceitos, argumentos e valores carregados por elas. Não podemos abdicar da capacidade de conferir inteligência às relações internacionais de forma ampla, aprofundada e, até certo ponto, autônoma. Em segundo lugar, a prática pedagógica que prevalece – pelo menos no Brasil, que acredito conhecer melhor por ser o lugar onde trabalho como professor – é a simples reprodução das teorias dominantes, a julgar pelos materiais didáticos disponíveis no mercado editorial e pelos planos de curso que podemos acessar via internet. Isto parece indicar que não se trata, na maioria das vezes, sequer

de ajuste ou acomodação, mas de mera incorporação acrítica das teorias produzidas no núcleo norte-americano das RI. Por fim, mas não menos importante, a atenção quase exclusiva às

teorias dominantes deixa de levar em conta o papel crescente das teorias críticas, as quais têm modificado as características mais bem conhecidas do campo. Assim, na medida em que as teorias tradicionais não se preocupam em questionar a ordem mundial vigente, mas em solucionar problemas dentro de uma ordem dada, perde-se a oportunidade de formular visões críticas sobre o mundo contemporâneo, sua história e seu futuro.

12. Considerando tal estado de coisas, será que a melhor estratégia não seria

simplesmente eliminar ou recusar as teorias das RI? A segunda estratégia disponível é descartar as linguagens fornecidas por elas, substituindo-as por algo como conceitos enraizados nas

experiências contextualizadas das histórias nacionais ou regionais, ou por uma perspectiva metaforicamente representada pela ideia do “Sul” 9 . De acordo com Amado Cervo, “o alcance explicativo universal das teorias é forjado, visto que se vinculam a interesses, valores e padrões de conduta de países ou conjunto de países onde são elaboradas e para os quais são úteis”, enquanto os conceitos “expõem as raízes nacionais ou regionais sobre as quais se assentam e se recusam estar investidos de alcance explicativo global”. Boaventura de Sousa Santos é o mais conhecido defensor de uma “Epistemologia do Sul”, a qual se assenta em três orientações:

“aprender que existe o Sul; aprender a ir para o Sul; e aprender a partir do Sul e com o Sul”. Em resumo, as teorias e/ou os modelos epistemológicos dominantes deveriam dar lugar a novos locus de enunciação, a partir dos quais deveríamos guiar nossos estudos, bem como ações políticas diferenciadas daquelas que têm conformado as relações internacionais nestes últimos séculos.

13. À primeira vista, a estratégia de descarte/substituição carrega maior potencial crítico

do que a estratégia anterior. Entretanto, a intenção de descartar as teorias das RI e substituí-las

9 A título de exemplo, estas duas opções são sustentadas, respectivamente, nos dois trabalhos citados a seguir:

Cervo, Amado (2008). “Conceitos em Relações Internacionais”. Revista Brasileira de Política Internacional, 51(2): 8- 25; e Santos, Boaventura de Sousa (1995). Toward a New Common Sense: Law, Science and Politics in the Paradigmatic Transition. New York: Routledge.

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por conceitos aplicáveis aos fenômenos internacionais ou pela inovadora metáfora representada pelo “Sul”, salvo melhor juízo, não é a estratégia mais interessante, pelas seguintes razões. Primeiramente, mesmo que as teorias dominantes das RI possuam algumas características passíveis de crítica, como a tendência à generalização, a crença na objetividade científica ou mesmo a defesa de interesses e valores hegemônicos, não se pode perder de vista que muitas das novas abordagens da teoria das RI já questionam estas mesmas características. Portanto, não seria o caso de descartá-las por completo, sob pena de “jogar fora o bebê junto com a água do banho”, como afirma o ditado popular. Em segundo lugar, não se deve desconsiderar o fato de que as teorias principais influenciam na tomada de decisões dos principais centros de poder mundial. Sendo assim, elas também nos auxiliam a compreender as escolhas e as justificativas apresentadas pelas grandes potências, pois são elementos constitutivos das relações internacionais. Será que esta estratégia não levaria a um maior isolamento da nossa produção acadêmica? Em terceiro lugar, é difícil imaginar que os conceitos aplicáveis às relações internacionais possam prescindir de certos supostos teóricos, como, por exemplo, nas referências que são feitas às “forças profundas da história”, assim como é difícil acreditar que a formulação de perspectivas do Sul não geraria os mesmos problemas atribuídos à criticada parcialidade da epistemologia tradicional, isto é, supor que é possível formular conhecimentos mais adequados que os produzidos pelas teorias “do Norte”.

14. Para concluir, apresento as razões principais para defender o que foi denominado

como “diálogo crítico”. A terceira estratégia não descarta a viabilidade de um ângulo próprio de

estudos, que aumente a diversidade de pontos de vista sobre a política mundial. Porém, isto não significa que as teorias das RI devem ser descartadas como um todo, pois há teorias de resolução de problemas e teorias críticas, há pretensões de objetividade e de generalização e há epistemologias pós-positivistas que recusam estes ideais. Tudo isto faz parte da teoria das RI neste princípio de século XXI. É preciso atualizar nossas autoimagens da disciplina, aproveitando o influxo dos pensamentos de outras áreas do conhecimento social. Por isso, entendo que é necessário acompanhar os desenvolvimentos mais recentes, assim como estudar os clássicos, tanto das teorias dominantes como das teorias críticas. Sem conhecê-las em suas atualizações – dentro do realismo, por exemplo, há novas tendências e debates contemporâneos, assim como dentro do liberalismo – como é possível criticá-las com propriedade? Sem estudar seus conceitos e lógicas próprias, como identificá-los nas decisões e justificativas das grandes potências, por exemplo? Além disso, existe um potencial crítico a ser explorado nas novas abordagens, como em certas vertentes do construtivismo social, do pós- estruturalismo, dos estudos de gênero, do pós-colonialismo etc.

15. Por isso, sustento que devemos participar ativamente das discussões de natureza

teórica e epistemológica que marcam as RI contemporâneas, mantendo sempre o rigor metodológico e argumentativo, mas sem perder de vista o caráter ético e crítico de nossas intervenções intelectuais. É neste sentido que proponho à discussão minha humilde opinião,

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fundamentada naquilo que acredito serem boas razões para preferir uma atitude que propicie o diálogo com acadêmicos e não-acadêmicos de todo o mundo, por meio do engajamento, em vez da submissão silenciosa ou do isolamento contraproducente. É claro que ainda há muito trabalho a ser feito, pois a hegemonia da produção norte-americana na disciplina permanece evidente, apesar dos questionamentos às teorias dominantes, inclusive nos Estados Unidos. Porém, de todo modo, é por meio do engajamento crítico que podemos apontar para o lugar que o poder ocupa nas teorias dominantes e nas estruturas mais persistentes das relações internacionais. Quem sabe nosso empenho coletivo ajude a construir uma disciplina mais global e diversa, e, na hipótese mais otimista, no estabelecimento de um diálogo mais franco sobre os múltiplos interesses e valores carregados por nossos discursos sobre a política mundial.

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