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PARA CHEGARMOS LÁ JUNTOS E EM TEMPO Caminhos e significados da educação popular em diferentes contextos
Moacir Gadotti

Introdução Os meus amigos do GT de Educação Popular da ANPED lançaram-me um desafio muito grande: o de preparar um texto que fizesse um balanço da situação da educação popular em diferentes partes do mundo e, ao mesmo tempo, apontasse possíveis caminhos no interior deste contexto. O tema exigiria uma pesquisa em profundidade que não tenho a possibilidade de realizar agora. Contudo, com base em trabalhos que já publiquei (Estado e Educação Popular na América Latina e Educação Popular: utopia latino-americana), na experiência vivida nos últimos anos, em contatos freqüentes com companheiros do ICAE, da ICEA, do SUM, da UNESCO e do UNICEF, posso apresentar algumas idéias e, possivelmente, lançar algumas hipóteses sobre o futuro da Educação Popular. Como concepção da educação, ela é uma das mais belas contribuições da América Latina ao pensamento pedagógico universal. Isso se deve, em grande parte, à atuação internacional de um dos seus mais importantes representantes: Paulo Freire. Ele deixou, por onde passou, as sementes de uma concepção popular emancipadora da educação. Essas sementes floresceram em numerosos grupos e organizações, nas últimas décadas, unindo conscientização e organização popular. A realização do Fórum Paulo Freire, para discutir o seu legado, nos últimos dias de abril deste ano, em São Paulo, com a presença de mais de 200 expositores de 24 países, foi uma demonstração da vitalidade deste movimento. Ao contrário de concepções educacionais nascidas nos gabinetes dos burocratas ou de pedagogos bem intencionados, a educação popular nasceu, na América Latina, no calor das lutas populares, dentro e fora do Estado. A educação popular, como prática educacional e como teoria pedagógica, pode ser encontrada em todos os continentes, manifestada em concepções e práticas muito diferentes e até antagônicas. A educação popular, como concepção geral da educação, passou por diversos momentos epistemológico-educacionais e organizativos, desde a busca da conscientização, nos anos 50 e 60, e a defesa de uma escola pública popular e comunitária, nos anos 70 e 80, até a escola cidadã, nos últimos anos, num mosaico de interpretações, convergências e divergências. Numa época de desencanto com os modelos populares e socialistas vale a pena retomar o debate da educação popular como utopia latino-americana e mundial que superou, de um lado, o otimismo pedagógico dos anos 50 e 60 e, de outro, o pessimismo pedagógico dos anos 70 e 80, constituindo-se na última década, em diversas experiências e sob diversas formas, como alternativa real a uma educação que não atende, com qualidade, aos interesses da maioria da população.

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No contexto brasileiro atual de debate dos Parâmetros Curriculares Nacionais, recoloca-se a necessidade de discussão do “paradigma” da educação popular, evidenciando sua potencialidade frente à concepção dominante de educação que reforça, na prática, a exclusão social e a falta de solidariedade humana. Na década de 50, a educação popular era entendida principalmente como educação de base, como desenvolvimento comunitário. No final dos anos 50 duas são as tendências mais significativas da educação popular: a primeira entendida como educação libertadora, como "conscientização" (Paulo Freire) e a segunda como educação funcional (profissional), isto é, o treinamento de mão-de-obra mais produtiva, útil ao projeto de desenvolvimento nacional dependente (UNESCO). Na década de 70 essas duas correntes continuaram, a primeira entendida basicamente como educação não-formal, alternativa à escola, e a segunda, como suplência da educação formal. A concepção libertadora de educação evidencia o papel da educação na construção de um novo projeto histórico, fundamenta-se numa teoria do conhecimento que parte da prática concreta na construção do saber e o educando como sujeito do conhecimento e compreende a alfabetização não apenas como um processo lógico, intelectual, mas também como um processo profundamente afetivo e social. Após um breve balanço crítico dos caminhos e dos significados da educação popular em diferentes contextos, indicarei alguns exemplos mais próximos de nós e tentarei analisá-los para deles tirar as lições de que precisamos para definirmos, numa visão prática, possíveis rumos para o nosso trabalho. 1 - Caminhos da educação popular: um balanço crítico A educação popular já conta com uma história muito rica na qual estão envolvidos numerosos educadores, movimentos sociais e populares e o próprio Estado. Ela está ligada a todo um movimento, de um lado, pela extensão da educação formal para todos e, de outro, pela formação social, política e profissional, sobretudo de jovens e de adultos. Muitas vezes define-se a educação de adultos por aquilo que ela não é. Por isso falamos em educação assistemática, não-formal e extra-escolar, expressões que valorizam mais o sistêmico, o formal e o escolar. A educação não-formal, assim entendida, seria menos do que a educação formal, posto que a primeira é concebida como "complementar de", "supletiva de", que não tem valor em si mesma. Os termos "educação de adultos", "educação popular", "educação não-formal" e "educação comunitária" são usados muitas vezes como sinônimos, mas não o são. Os termos “educação de adultos” e “educação não-formal” referem-se à mesma área disciplinar, teórica e prática da educação. No entanto, o termo educação de adultos tem sido popularizado especialmente por organizações internacionais como a UNESCO, para referir-se a uma área especializada da educação. A educação não-formal tem sido utilizada, especialmente nos Estados Unidos, para referir-se à educação de adultos que se desenvolve nos países do Terceiro Mundo, geralmente vinculada a projetos de educação comunitária. Nos Estados Unidos, no entanto, internamente, reserva-se o termo “educação de adultos” para a educação não-formal aplicada ou administrada ao nível local no seu país. Existe um grande número de “paradigmas” - isto é, uma combinação de teorias, lógicas de investigação e metodologias de ação - dentro da educação de adultos ou da educação não-formal. No Brasil, a educação de adultos tem sido, particularmente a partir da Segunda Guerra Mundial, de âmbito do Estado. Já a educação não-formal

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esteve principalmente vinculada a organizações não-governamentais, partidos políticos, igrejas etc., geralmente organizadas onde o Estado se omitiu e muitas vezes organizada em oposição à educação de adultos oficial. A educação popular, como uma concepção geral da educação, via de regra, se opôs à educação de adultos impulsionada pela educação estatal e tem ocupado os espaços que a educação de adultos oficial não levou muito a sério. Um dos princípios originários da educação popular tem sido a criação de uma nova epistemologia baseada no profundo respeito pelo senso comum que trazem os setores populares em sua prática cotidiana, problematizando-o, tratando de descobrir a teoria presente na prática popular, teoria ainda não conhecida pelo povo, problematizando-a, incorporando-lhe um raciocínio mais rigoroso, científico e unitário. Seria ainda preciso distinguir, à maneira de Carlos Rodrigues Brandão, em seu livro Saber e ensinar (p. 181), sem separar mecanicamente: 1º a educação de classe, entendida como os processos não-formais de reprodução dos diferentes modos de saber das classes populares; 2º a educação popular como processo sistemático de participação na formação, fortalecimento e instrumentalização das práticas e dos movimentos populares com o objetivo de apoiar a passagem do saber popular ao saber orgânico, ou seja, do saber da comunidade ao saber de classe na comunidade; e 3º a educação do sistema (oficial), isto é, os programas de capacitação de pessoas e grupos populares, sob o controle externo, visando a produzir a passagem dos modos populares de saber tradicional para modelos de saber modernizado, segundo os valores dos pólos dominantes da sociedade. Para Carlos Brandão, a educação do sistema conduz à reprodução do poder dominante. Contudo, depois das análises gramscianas, a teoria que considerava o Estado como um comitê de direção da burguesia tem sido contestada. O Estado é contraditório: é força e consenso. Por isso deve-se entender a classificação de Brandão dialeticamente: contraditoriamente, no interior dos sistemas (em especial nos sistemas municipais) podemos encontrar também educação popular e educação de classe (veja-se a proposta educacional do Movimento Sem Terra, implementada com recursos do INCRA e em parceria com a UNESCO). Mesmo para cumprir sua função principal de acumulação do capital, o Estado capitalista, para legitimar-se, deve impulsionar mecanismos massivos de participação, especialmente através de eleições periódicas. Deve também prover o mínimo de saúde, educação, seguro-desemprego, moradia etc., de que todos os cidadãos necessitam, e fazem jus, em virtude de sua participação na "res publica". Essas duas funções - de acumulação e de legitimação - são inerentemente conflituosas, dando lugar a todo tipo de contradições sociais e políticas, e convertendo o próprio Estado numa arena de luta de projetos alternativos. Nesse contexto, os movimentos sociais bem como os partidos progressistas têm identificado a educação pública como uma função fundamental do Estado capitalista democrático. E como ele financia e administra essa educação, ela está marcada pelas mesmas contradições sociais acima assinaladas. Lamentavelmente, a função educativa do Estado tem sido entendida, quase exclusivamente, como escolarização, deixando de lado as possibilidades da educação não-formal, especialmente na educação básica (que inclui a alfabetização) de jovens e adultos. Não é de se estranhar, portanto, que em vastas e fortes correntes pedagógicas da esquerda no país (possivelmente dominantes hoje), inspiradas no iluminismo, defendam apenas a escolarização, sem qualquer traço popular, mesmo reivindicando para si também o caráter popular da sua teoria. Eles se baseiam na tese, segundo a qual, “tornar

39). na Alemanha. a educação de adultos (popular) foi concebida como uma espécie de educação moral. a Conferência de Paris. como educação permanente. separada das "necessidades básicas de aprendizagem". que se caracterizou pela pluralidade de conceitos. A Conferência Mundial sobre Educação para Todos. em 1990. isto é. mesmo depois da escola.) que estão na raiz do problema do analfabetismo. 1984. Depois do II Conferência Internacional sobre Educação de Adultos. e. A CONFINTEA V aprovou uma “Declaração de Hamburgo” e adotou uma “Agenda para o futuro” que inclui a “Década da Alfabetização Paulo . a idéia de que a alfabetização não pode ser separada da pós-alfabetização. Dessa forma. etc. O analfabetismo acaba sendo a expressão da pobreza. educação rural. O objetivo da educação de adultos era reintroduzir jovens e adultos. O desemprego. Depois da III Conferência Internacional sobre Educação de Adultos realizada em Tókio (1972). Ela foi precedida por reuniões preparatórias em todos os continentes. em Hamburgo. A escola não havia conseguido evitar a barbárie da guerra. As necessidades básicas de aprendizagem dessa população são diferentes da população infantil. p. educação familiar. educação em saúde e nutrição. Por isso se fazia necessária uma educação "paralela". Ela não havia dado conta de formar o homem para a paz. educação vocacional. A partir da I Conferência Internacional sobre Educação de Adultos. Graal. saúde. Os jovens e adultos trabalhadores lutam para superar suas condições de vida (moradia. aparecem dois enfoques distintos: a educação de adultos (popular) concebida como uma continuação da educação formal. destinada sobretudo aos habitantes das periferias urbanas e zonas rurais. entendeu que a alfabetização de jovens e adultos seria uma primeira etapa da educação básica. os baixos salários e as péssimas condições de vida. a educação de adultos (popular) voltou a ser entendida como suplência da educação fundamental (escola formal). realizada na Dinamarca (1949). O Estado brasileiro ainda não deu conta do que vem chamando ultimamente de educação básica de jovens e adultos. A taxa de analfabetismo da população maior de quinze anos no Brasil é de 18. a educação popular era concebida como a extensão da educação formal para todos. Em julho de 1997 a UNESCO realizou. sobretudo os analfabetos. Em 1985 foi realizada a IV Conferência Internacional sobre Educação de Adultos. comprometem o processo de alfabetização dos jovens e dos adultos. transporte. "implodiu" o conceito de educação de adultos. fora da escola. que seria uma educação continuada para jovens e adultos. pós-alfabetização. emprego. assim. realizada em Jomtien (Tailândia). Foram discutidos muitos temas. alimentação. educação técnica. entre eles: alfabetização de adultos. a sua V Conferência Internacional sobre Educação de Adultos (CONFINTEA V).113 a escola ´popular´ não implica torná-la substancialmente diferente da escola das elites. na cidade de Paris. conseqüência inevitável de uma estrutura social injusta. 1. Ela consagrou. de outro lado. é esta a escola que as classes populares querem arrancar do Estado. no plano internacional. educação cooperativa. Perspectivas e dilemas na educação popular. a educação de base ou comunitária. educação da mulher. cujo objetivo seria contribuir para o respeito aos direitos humanos e a construção de uma paz duradoura. submetendo-a à sua crítica sem deteriorar sua qualidade nem abdicar do seu conteúdo” (Vanilda Paiva. no sistema formal de educação. realizada em Montreal (1963).3%. Participaram mais de 1500 inscritos de 130 países.1 – Contexto internacional Até a segunda guerra mundial.

negro. indígena. de crianças e adolescentes. seminários. nas últimas décadas. Caribe. Mesmo não tendo direito a voto. que já tinha. A CONFINTEA V foi a primeira conferência que teve uma participação substantiva das organizações não-governamentais. em nível internacional. foi fundado em 1972. Ela objetiva desenvolver nas associações e movimentos (cooperativo. o papel dos meios de comunicação e a parceria entre Estado e Sociedade Civil. emprego. no Canadá. uma Associação Nacional de Educação Comunitária. como uma associação de educadores comunitários. A ICEA é hoje uma organização não-governamental da qual participam pessoas que trabalham em comunidades locais e movimentos populares e está implantada em 80 países. até então. buscando ampliar o papel da educação popular no conjunto das diretrizes políticas do governos presentes. facilita a utilização e a socialização de métodos. devemos mencionar o ICAE. ficava nos Estados Unidos. dentro deste mosaico de projetos e propostas a marcada concepção de educação popular como “educação continuada” nos países desenvolvidos e a educação popular como “escolarização popular” nos países em desenvolvimento. das minorias. Seu objetivo é melhorar a prática da educação de adultos através de publicações. vida familiar. oficinas. A Declaração realçou a importância da diversidade cultural e da equidade e dos temas da cultura da paz e da educação para a cidadania e para a democracia. Europa. Essa conferência demostrou ainda que existem concepções muito diferenciadas de educação popular e de adultos. que. das comunidades indígenas e dos grupos minoritários. a ICEA. transporte. de comunidades eclesiais de base. Para isso. cuja finalidade é contribuir para que os indivíduos construam suas vidas e encontrem seu lugar na sociedade. tais como: alimentação. educação. destacando a necessidade de diferenciar as necessidades específicas das mulheres. A história da Associação Internacional de Educação Comunitária (ICEA) começa nos Estados Unidos. ecológico. indígena. saúde. a incorporação da temática dos jovens (principalmente em situação de risco) e a terceira idade. moradia. o desenvolvimento sustentável e a transformação da economia. elas tiveram uma influência decisiva na preparação dos documentos regionais (veja-se a participação do CEAAL na elaboração do documento latino-americano) e também na elaboração do documento final da conferência. Ásia e Pacífico Sul. e o SUM. pesquisas. América Latina e América do Norte.) a capacidade de enfrentamento de problemas comuns. Destaca-se. Em 1978 a Associação internacionalizou-se com a decisão de fazer rodízio de suas lideranças e mudar o local de sua sede. em 1974.114 Freire”. de mulheres. A Declaração de Hamburgo sobre Educação de Adultos estabelece a educação de adultos como um direito de todos. Entre as instituições que participaram e desenvolvem projetos de educação popular. intercâmbios e ações de apoio a movimento sociais. Seu objetivo é desenvolver a prática da educação comunitária. direitos humanos etc. O ICAE (Internacional Council for Adult Education). cujo presidente honorário era Paulo Freire. . meio ambiente etc. Discutiu-se muito: educação de gênero. técnicas e subsídios de educação de adultos entre várias regiões do mundo. a educação para o trabalho e para a cidadania. mundo árabe. A proposta geral do ICAE é que homens e mulheres do mundo todo disponham de pelo menos “uma hora ao dia para a educação continuada”. desde 1966. e coopera com mais de 100 organizações autônomas nacionais de educação de adultos representando mais de 80 países e seis organizações regionais na África.

Os exemplos dados servem apenas para ilustrar uma tendência: a educação popular como concepção geral da educação pode ser aplicada em qualquer nível de ensino ou qualquer setor social. o desenvolvimento de projetos de educação para todos com base na comunidade. o trabalho de combate à peste através da educação em saúde comunitária realizado por Sibylle Riedmiller na Tanzânia. movimentos populares e associações locais. experiências com educação produtiva com populares urbanos no Uruguay. Desde a mudança de nome para Serviço Universitário Mundial. Francisco Gutiérrez. o teatro popular do dramaturgo Hansel Eyoh na República dos Camarões ou o teatro do oprimido de nosso Augusto Boal. na economia popular. grupos e instituições e na promoção da cidadania. 1995) de Cyrl Poster e Jürgen Zimmer. por exemplo.informações sobre o desenvolvimento da educação comunitária no mundo. por Bernardo Debezies. ela se dirige preferencialmente e majoritariamente às classes populares. Paul Wangoola há quase 30 anos vem mostrando em práticas concretas como a educação popular pode contribuir tanto para a formação da consciência crítica quanto para o desenvolvimento dos países descolonizados. e Luis Raseto.pessoas e organizações . editando livros. realizada por Rosa Maria Torres. na Costa Rica.115 A educação comunitária procura fazer com que as pessoas se conscientizem de seus direitos e participem coletivamente das decisões a serem tomadas para enfrentar os seus problemas. realizado pela educadora Izabel Hernandez. no campo da educação popular comunitária e no campo da economia popular solidária. sistematizaram muitas daquelas experiências. na Cisjordânia. fundada em 1920 com o nome de Apoio Europeu aos Estudantes. Em nível internacional. ajuda na criação de associações comunitárias. que trabalhou com Paulo Freire na África. realizado por Marta Arango Nimnicht. a organização começou a tomar a forma atual. o SUM evoluiu para uma política de ligação entre os recursos . O número de exemplos seria por demais exaustivo para ser apresentado num artigo como esse. nos Estados Unidos. contudo. Na África. a ICEA. a campanha de alfabetização do Equador. no Chile. na educação multicultural. aprendendo a sobreviver. Poderíamos ainda destacar os projetos de economia popular associados ao desenvolvimento comunitário autônomo tanto na América Latina quanto na África ou no sudeste asiático (ver os trabalhos de Elizabeth Marcelino nas Filipinas e Apichai Puntasen na Tailândia). a educar para uma identidade nacional e a educar para a paz em meio ao conflito entre judeus e árabes. bem como subvenciona projetos locais e nacionais ou busca apoio financeiro para realizá-los. empresas. o longo estudo. além de oferecer a seus associados . com grupos minoritários. dá orientações sobre projetos nessa área. Muitos dos trabalhos aqui citados foram apresentados no livro Educação Comunitária no Terceiro Mundo (Papirus. Ela pode ser praticada através de diversas instituições e organizações como. boletins e publicações em geral. A organização passou por consideráveis transformações. realizada por Arturo Ornellas. Muitos trabalhos e projetos poderiam ser destacados e que estão associados aos esforços dessas organizações internacionais: o trabalho de Munir Fasheh. no desenvolvimento da autonomia das pessoas. pesquisa e prática popular de educação bilíngüe para crianças mapuches no sul do Chile. Da preocupação exclusiva com a universidade. O enfoque europeu inicial foi gradualmente substituído por um enfoque internacional e comitês foram estabelecidos na África e Ásia e posteriormente na América Latina. organiza programas de visitas a experiências em outros países. O SUM é uma organização não-governamental. respectivamente. a conscientização de comunidades rurais no México por Elena de Florencia Vasquez ou de comunidades rurais indígenas no mesmo país. A filosofia da ICEA fundamenta-se no reconhecimento da diversidade cultural. em 1950. escolas.

Até os anos 40 a educação de adultos era concebida como uma extensão da escola formal. desde o século passado. útil ao projeto de desenvolvimento nacional dependente. alternativa à escola. Atualmente. Hoje essas escolas tem um papel importante na integração de crianças e jovens emigrantes naquele país. como suplência da educação formal. A V Conferência Internacional de Educação de Adultos nos mostrou que os países desenvolvidos estão investindo muito mais do que os países em desenvolvimento em projetos de educação popular ou comunitária. Na Dinamarca. Na década de 70 essas duas correntes continuam a primeira entendida basicamente como educação não-formal. Na década de 50 a educação de adultos era entendida principalmente como educação de base. Neste momento existem numerosas publicações naquele país sobre como envolver mais os pais e a cultura local nos projetos pedagógicos das escolas públicas. sob a inspiração do grande educador popular Grudvig. Era entendida como democratização da escola formal.116 educacionais das universidades e as necessidades das comunidades. como "conscientização" (Paulo Freire) e a educação de adultos entendida como educação funcional (profissional). na base democrática dos sistemas escolares naqueles dois países. Na conturbada Irlanda. 1990). No Brasil se desenvolve nessa corrente o sistema MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). a educação popular. nos Estados Unidos. O SUM apóia o direito à educação.2 – Contexto latino-americano No contexto latino-americano diversas concepções vão surgindo historicamente e se dividindo em múltiplas correntes e tendências que continuam até hoje. com princípios opostos aos de Paulo Freire. como o mostra Angelika Krüger no seu livro Community Education in the Western World (Routledge. mesmo numa tradição mais conservadora do que a educação popular latino-americana. em especial no que se refere aos direitos humanos e sociais. O Canadá e os Estados Unidos tem uma enorme tradição de escolas comunitárias ou paroquiais que. 1. com subsídios do Estado (o aluno paga uma pequena taxa e o Estado oferece o professor). um terço da população participa ativamente de cursos de educação permanente ou “recorrente” (alternância entre trabalho e estudo). e a segunda. Parâmetros Nacionais Curriculares). isto é. nos Estados Unidos. está-se buscando enraizar cada vez mais o currículo nos temas locais. De modo geral. Pauline Murphy há anos vem trabalhando na organização popular de grupos de mulheres. vem sendo desenvolvidas as chamadas “escolas populares”. se constituíram ao longo de mais de um século. o treinamento de mão-de-obra mais produtiva. está presente em toda a Europa. Em todas as partes do mundo a educação popular e comunitária tenta hoje influenciar os sistemas de ensino e principalmente o currículo. sob diversos nomes. Na Suécia. No final dos anos 50 duas são as tendências mais significativas na educação de adultos: a educação de adultos entendida como educação libertadora. como desenvolvimento comunitário. principalmente para a zona rural. . programas de ação que respondam a iniciativas locais e estimula a autogestão e o desenvolvimento sustentado. ocorre exatamente o contrário do que está acontecendo no Brasil: enquanto o Brasil está tentando unificar o currículo com uma base nacional (os PCNs. conscientizando-as sobre seus direitos e gerando maiores oportunidades para elas.

Na América Latina. O CEAAL apóia o desenvolvimento da educação de adultos na América Latina dando prioridade às organizações não-governamentais que atuam na área de educação popular. em vez de desaparecer. até a segunda guerra mundial. buscando nos mais recônditos esconderijos de nossa consciência para encontrar a energia coletiva que nos permitirá transformar nossa realidade” (in Moacir Gadotti. ficou por conta do CEAAL (Consejo de Educación de Adultos de América Latina y el Caribe). muitas vezes com objetivos políticos populistas. O movimento de educação popular na América Latina. sistematizar e desenvolver o mais valioso de nossas capacidades. no Brasil. poderia ser dividida em três períodos: 1º De 1946 a 1958. não perde de vista o imenso contingente dos que estão à margem da sociedade. 3º promover e favorecer encontros de experiências que contribuem para o esclarecimento e aprofundamento do debate teórico-prático. 5º promover a prática de educação popular comunitária integrada à economia popular. Formamos parte daqueles que continuam caminhando em busca da utopia postergada. um dos seus idealizadores. Filiado ao ICAE. Na última década vem destacando-se também a atuação da ICEA. org. Depois da segunda guerra. a ICEA constitui-se numa instituição prestadora de serviços com base nos seguintes objetivos: 1º contribuir para o fortalecimento do movimento de educação popular na América Latina. Paulo Freire: uma biobibliografia. chamadas de "cruzadas". de uma sociedade na qual possamos nos comunicar e crescer sem pobreza. A história da educação de adultos propriamente dita. sobretudo para "erradicar o analfabetismo". No Brasil. tentando capturar. 673). seu programa geral foi concebido considerando a relação entre educação comunitária e economia popular. p. “não é uma organização burocrática internacional. 4º apoiar especialmente projetos multiculturais de grupos ou de movimentos populares e as iniciativas de educação popular em nível local e comunitário. a ICEA promove o conceito e a prática da educação popular comunitária. que significava difusão do ensino elementar. Nesse sentido. tem crescido e amadurecido nestes duros anos. Além disso. . isto é. Em nível latino-americano. emergimos em todas as partes para enfrentar os novos desafios que nos colocam as novas realidades latino-americanas. seguindo tendências mundiais. o CEAAL. como não poderia deixar de ser. onde foram realizadas grandes campanhas nacionais de iniciativa oficial. o CEAAL é um dos Conselhos de educação popular mais atuantes no mundo. 2º colaborar estreitamente e apoiar as diferentes instâncias de coordenação que existem nos países latino-americanos e impulsionam o movimento de educação popular.117 A atuação mais destacada na América Latina. partindo do princípio de que o trabalhador. Filhos da visão e da intuição de Paulo Freire. Segundo Francisco Vio Grossi. mas um enorme espaço do encontro de toda aquela imensa quantidade de homens e mulheres latino-americanos que crêem ainda na capacidade humana de construir nossa própria história. uma educação para o povo. cuja história de lutas é muito conhecida pelos educadores populares. respeitando. ou seja. para conseguir melhor qualidade de vida. a educação de adultos foi integrada à educação chamada popular. os excluídos. E o fazemos a nossa maneira: dialogando. vê-se obrigado a trabalhar ao mesmo tempo em que se educa. sem dominação nem alienação. a educação de adultos foi concebida basicamente como independente da educação elementar.

Em seguida. foram profundamente influenciados por essas idéias. com a "redemocratização" (1985). através da criação do FUNDEF (Lei 9424/96). Em 1958 foi realizado o 2 º Congresso Nacional de Educação de Adultos. enterrada pela "Nova República" e o auto-denominado "Brasil Novo" (1990) do primeiro presidente eleito depois de 1961. defendidas pelo governo popular/populista de João Goulart. Em 1989. 2º De 1958 a 1964. de início coordenada por Paulo Freire e depois por José Eustáquio Romão. uma educação instrumental. 2 – Orientações e perspectivas da educação popular Luiz Eduardo Wanderley (in Vanilda Paiva. deu um duro golpe na educação de jovens e de adultos. op. Pretendia-se distribuir os benefícios do . apresentado com grande pompa publicitária em 1990 e extinto no ano seguinte sem qualquer explicação para a Sociedade Civil que o havia apoiado. extinguiu a Comissão em 1997 e. como educação de base. uma doença como a malária. entendida como popularização da educação oficial sob a hegemonia das classes dominantes. 3º. Surgiu daí a idéia de uma programa permanente de enfrentamento do problema da alfabetização que desembocou no Plano Nacional de Alfabetização de Adultos. articulada com as "reformas de base". cit. Seria uma versão brasileira da "educação funcional" (UNESCO). O governo militar insistia em campanhas como a "Cruzada do ABC" (Ação Básica Cristã) e posteriormente. mas sem os recursos de que o MOBRAL dispunha. Estados e Municípios foram assim desestimulados a abrirem vagas para a educação de jovens e de adultos.118 entendido como uma "chaga". com a finalidade de preparar o Ano International da Alfabetização (1990). o qual contou com a participação de Paulo Freire. criou o PNAC (Plano Nacional de Alfabetização e Cidadania). A educação de jovens e adultos foi. integrando principalmente o campesinato. com objetivos mais democráticos.) distingue três "orientações" da educação popular no Brasil que podem ser encontradas em outros países da América Latina: 1ª a educação popular com a orientação de integração. Por isso se falava em "zonas negras de analfabetismo". nacional e popular. com o MOBRAL. apoiado pela Igreja e que durou até 1969. foi criada no Brasil a Comissão Nacional de Alfabetização. dirigido por Paulo Freire e extinto pelo Golpe de Estado de 1964. depois de um ano de funcionamento. Os CPCs (Centros Populares de Cultura). 2a educação popular com a orientação nacional-desenvolvimentista visando à implantação de um capitalismo autônomo. assim. extintos logo depois do golpe militar de 1964 e o MEB (Movimento de Educação de Base). O MOBRAL foi concebido como um sistema que visava basicamente ao controle da população (sobretudo a rural). a "Nova República" extingue o MOBRAL sem consultar os seus 300 mil educadores e cria a Fundação Educar. Ela foi criada com o objetivo de elaborar diretrizes para a formulação de políticas de alfabetização a longo prazo que não foram assumidas pelo Governo Federal. Pelo contrário.. vetando o inciso II do artigo 2 º que permitia a Estados e Municípios a inclusão dos alunos matriculados no ensino supletivo como alunos regulares do ensino fundamental para efeito da distribuição dos recursos do referido Fundo. com o objetivo de consolidar o capitalismo dependente. o Governo Fernando Henrique. A educação de adultos era entendida a partir de uma visão das causas do analfabetismo. desprezando completamente a educação popular.

119 progresso social e econômico sem questionar. crise exemplificada pelo fracasso da maioria dos programas de alfabetização dos países do Terceiro Mundo. O fortalecimento da Central de Movimentos Populares poderá ser um caminho de superação desse problema. A alfabetização na cidade e no campo tem conseqüências diferentes para os alfabetizandos. Existem também problemas metodológicos não resolvidos pela maioria dos programas implantados. a legitimidade social do modelo capitalista dependente. 1988). Nas últimas décadas temos assistido ao enfraquecimento gradativo das políticas populares de educação. 814 milhões em 1980 e 884 milhões em 1990. Alfabetizar não é uma coisa intrinsecamente neutra ou boa. contudo. Tailândia. Concretamente. 1990). sofremos todos da crise de paradigmas da educação em geral. A partir dessa orientação. buscando-se.204. Por outro lado. como há tempos observou Carlos Rodrigues Brandão (Idem. o número de analfabetos no mundo tem aumentado: 742 milhões em 1970.8% (1989). o que se nota hoje no Brasil. mas apareceu o problema da pulverização dessas iniciativas e da duplicação de esforços que até hoje não foi resolvido. 4º continuidade das experiências de educação popular de setores de vanguarda da Igreja. O Brasil engrossa essas estatísticas com uma gorda contribuição: ainda que a taxa de analfabetismo (em sentido restrito) tenha caído de 26% (1980) para 18. mas não demonstra vontade política para honrar os compromissos assumidos. educação política etc. regride ao analfabetismo. Parece-nos que hoje o governo está desarmado teórica e praticamente para enfrentar o problema da educação para todos os brasileiros. É um fator somado a outros fatores. Esse fracasso pode ser explicado também por problemas de concepção pedagógica. depende do contexto. 3ª a educação popular com a orientação de libertação com o objetivo de estimular as potencialidades do povo através da conscientização. sobretudo após a extinção do MOBRAL. por exemplo. certos grupos problematizaram e criticaram a ordem capitalista e começaram a exigir mudanças estruturais profundas.587. Segundo a UNESCO. combater o analfabetismo apenas através da oferta de maiores oportunidades de acesso ao ensino fundamental. 96-197) é: 1º uma retração do Estado e conseqüente ampliação dos setores da Sociedade Civil. 6º aumento de iniciativas populares como educação sindical. 3º acentuada ampliação dos trabalhos de educação dos menos qualificados. Com a retração do Estado multiplicaram-se as iniciativas da Sociedade Civil. apesar das várias tentativas dos centros de assessoria dos movimentos populares. da capacitação e de ampla participação social. o número de analfabetos (com 15 ou mais anos de idade) aumentou de 1983 até hoje de 17.041 para 17. principais documentos da Conferência Mundial sobre Educação para Todos (Jomtien. . Assinou a "Declaração Mundial sobre Educação Para Todos" e o "Plano de Ação para Satisfazer as Necessidades Básicas de Aprendizagem". 2o uma ampliação e diferenciação de programas. A alfabetização por si só não liberta.580 (IBGE. p. E o alfabetizando que aprende a ler e escrever. 5º aumento de agências civis de trabalho pedagógico. mas não tem como exercitar-se na leitura e na escrita.

Heredia. o professor precisa conhecer o sujeito e o objeto da alfabetização. resultante da participação popular em diferentes níveis e formas. angústia. principalmente em relação à escola. O alfabetizador não alfabetiza o aluno. que integre a comunidade e os movimentos populares na construção e definição de sua identidade. Enfim. ela deve ser autônoma. Isso merece certamente uma reflexão em maior profundidade. que vem buscando alternativas e retomando ao mesmo tempo os princípios.Escola pública popular: expressão da educação popular A expressão "escola pública popular" foi por mim cunhada em 1986. deflagrada por intelectuais e educadores. O aluno adulto não pode ser tratado como uma criança cuja história de vida apenas começa. numa democracia. Através da leitura das últimas publicações do CEAAL o que podemos constatar é que está havendo um certo refluxo das experiências de educação popular mais centradas na conscientização ideológica e reivindicativa e uma maior vitalidade de experiências que tendam dar respostas a problemas concretos. precisa ser estimulado. ninguém alfabetiza ninguém. É necessário oferecer escola pública para todos. isto é. Como dizia Piaget é o sujeito que constrói o seu próprio conhecimento para se apropriar do conhecimento dos outros. entre o sujeito e o objeto deste processo de apropriação do conhecimento. de sua moradia. Ao mesmo tempo. 1998). tem-nos ensinado que a realidade do adulto é diferente da criança. para que seja de qualidade. Costa Rica. Ele quer ver a aplicação imediata do que está aprendendo. de sua experiência frustrada da infância. criar autoestima pois a sua "ignorância" lhe traz tensão. Neste sentido. É preciso que tudo isso seja verbalizado e analisado. Isso implica a construção de novas alianças entre Sociedade Civil e Estado. ela deve ser democrática pela gestão participativa. Tratava-se de estudar a concepção de uma escola emergente. Mas não só. É o que podemos deduzir das experiências realizadas em administrações municipais populares como as de São Paulo (1989-1992) e de Porto Alegre (1989-1994). Uma pista nos foi dada por Francisco Gutiérrez (Ecopedagogía e ciudadanía Planetaria.120 Na verdade. como o caso do MOVA-SP. preparando um curso para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sobre as lutas populares por educação pública de qualidade para todos. apresenta-se temeroso. cidadã. sem ser principista. O primeiro direito do alfabetizando é o direito de se expressar. no final do século passado e começo deste. Ao . A expressão "escola popular" foi usada pela primeira vez na América Latina. sente-se ameaçado. Eliminar o analfabetismo em sua origem exige que o sistema público de ensino seja capaz de reter o contingente de alunos matriculados no ensino fundamental. 3 . O Estado. Mas isso só é possível quando o Estado é ocupado por partidos políticos que já tenham vinculações efetivas com os movimentos sociais. mas ainda não incorporamos esse princípio nas nossas metodologias. adequada à realidade onde está inserida. Há muitos anos que a andragogia de que nos falava Pierre Furter. Esta mediação consiste em estruturar atividades que permitam ao alfabetizando agir e pensar sobre a escrita e o mundo. Para exercer essa mediação. complexo de inferioridade. Ele é o mediador entre o aprendiz e a escrita. ILPEC. A educação popular promoverá novas alternativas para dialogar no conflito ao postular uma educação estatal vinculada aos movimentos sociais e às organizações não-governamentais. é o representante tanto dos setores médios quanto da burguesia e dos setores populares. Muitas vezes tem vergonha de falar de si. de modo sistemático e militante como categoria pedagógica na luta pela escola pública.

humanistas e cientistas o utilizam numa pluralidade de sentidos. O problema da escola pública. Existe hoje na América Latina um grande movimento emergente que valoriza a experiência cotidiana e que coloca a qualidade de vida como objetivo da educação. é. Mas isso não é tão simples: o termo "autonomia" significa muitas coisas. Querem discutir a função social dessa escola. Essa é uma educação que não ignora o Estado de miséria social e política das populações marginalizadas. por isso. nas relações pedagógicas e nos produtos dos processos educacionais". trabalhadores e crianças . na mentalidade dominante. controlar. A satisfação das necessidades básicas das camadas populares .jovens. o regional. Hoje. Esse movimento. O curso ministrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. moram cerca de 3 milhões de pessoas. a negação do Estado (os anarquistas). mobilizava a população em torno de seu direito à educação. mas também na "luta invisível" dos pequenos grupos. Os movimentos populares e sociais são movimentos participativos.nos mostraram que a história não se faz apenas com grandes idéias e a partir do poder do Estado. moradia. Esse novo movimento não nega o papel do Estado como o principal articulador das políticas sociais. em grande parte.saúde. Na Zona Leste da Cidade de São Paulo. Para uns. Seus protagonistas . significa "descentralização" (os tecnocratas). A escola latino-americana está inserida neste contexto de luta e num movimento histórico mais geral. Põe em questão as políticas públicas fundadas numa concepção da educação (burguesa) que expulsa tantas crianças da escola. pp. Como já nos alertava o sociólogo Florestan Fernandes (in Roque Spencer Maciel de Barros. Para uns ela se resume na criação de "conselhos" e. foi iniciado com a análise da experiência do "Movimento de Educação da Zona Leste".passa a ser também preocupação da escola. o local está. anarquistas. mas não querem apenas a extensão da escola burocrática do Estado. colocando em questão os seus conteúdos e sua gestão. 163-164) . Para nós. com suas próprias contradições. Cada escola. intimamente ligado ao nacional e ao internacional. iniciado em 1980. para outros. nos próximos anos. o problema de tornar popular o público e de elevar o popular ao nacional. dirigir. do comércio e de serviços. Este movimento deverá exercer uma profunda influência na própria concepção da escola pública latino-americana. de autogovernar-se. mas reivindicam autonomia face ao Estado. mulheres. a eleição direta dos diretores das escolas pela comunidade escolar e não-escolar é uma garantia de instituições escolares menos uniformes e com um mínimo de comportamento democrá­ . entre nós.121 contrário do movimento recente por escola pública. na sua maioria trabalhadores pobres da indústria. para outros. trabalho e alimentação . As classes populares reivindicam hoje escola pública. O ensino precisa ser democrático na sua estrutura. 1960. O popular. numa "maneira de ser". Nesse sentido. a autonomia não pode ser separada de uma concepção política e econômica."democratizar o ensino não significa apenas expandir a rede de escolas.um dos grandes líderes do movimento pela educação pública com caráter popular nos anos 60 . ao qual me referi acima. Isso implica a participação direta nas decisões. Tese de doutorado. A ilusão fecunda. é uma versão local desse grande movimento histórico-social. esse movimento reivindica autonomia para definir o novo pro­ jeto político-pedagógico da escola pública (Marília Spósito. a luta por uma escola popular do século passado restringia-se à extensão da escola pública liberal-burguesa para a massa da população excluída dos "benefícios" da educação. Diretrizes e bases da educação nacional. FE-USP). proletários. Pioneira. mantendo os padrões elitistas e o privilégio social. isto é. Tecnocratas. que defende a capacidade popular de decidir.

Não querem que o Estado os coopte nem os trate paternalisticamente. Um exemplo concreto: o Projeto da Escola Cidadã O Projeto da Escola Cidadã nasceu do inconformismo de muitos educadores e nãoeducadores com a deterioração do ensino público e da ousadia em enfrentar o discurso e a proposta hegemônica neoliberais. para designar esse movimento. Os movimentos sociais e populares mais avançados sabem. que as políticas sociais do Estado na sua maioria sempre foram falaciosas. Nos últimos anos. Para mudar o caráter da escola pública burocrática não se pode olhá-la apenas de dentro para fora. A tarefa da educação não pode ser uma tarefa exclusiva do Estado: é também uma tarefa da sociedade e uma obrigação do indivíduo. Toda corporação luta pelos seus interesses. estão sempre com um pé dentro e outro fora do Estado. Essa visão está fortemente enraizada no argumento de que a escola autônoma pode ser mais facilmente ser presa tanto pelo corporativismo quanto pelo regionalismo. de fora para dentro. A diferença está na questão da autonomia das escolas frente às obrigações do Estado. Recentemente esse inconformismo foi “sistematizado” pelo Instituto Paulo Freire (IPF) e apresentado sob a forma de uma proposta concreta que foi discutida com Paulo Freire no último ano de sua vida. Só uma sólida formação política evitará reivindicações corporativistas. entre elas. Ao nosso ver. principalmente em . A educação está ligada à questão da terra (Reforma Agrária). "escola pública popular autônoma". confrontando-lhes uma alternativa. ao endividamento (interno e externo). levou-me a utilizar diversas expressões. É por isso que. Uma escola pública autônoma tem maiores chances de garantir a qualidade de ensino do que uma escola obediente. Isso significa que os movimentos sociais e populares que reivindicam a educação popular. às condições de sobrevivência. é preciso saber o que isso significa. que irá se modificando com o avanço das forças populares. ao de­ semprego. mesmo diante das prefeituras progressistas. O corporativismo isola a questão da educação da questão social. ou participam como parceiros da elaboração de políticas sociais. ao transporte. A Escola Cidadã está fortemente enraizada no movimento de educação popular e comunitária que na década de 80 se traduziu pela expressão escola pública popular com uma concepção e uma prática da educação realizada em diversas regiões do país. submissa e burocratizada. algumas administrações municipais utilizaram a expressão "educação pública popular e democrática" para se distinguir da "escola pública popular" na concepção aqui apresentada. eles adotam uma postura de "estar taticamente dentro e estrategicamente fora". Nesta última visão das políticas públicas cabe ao Estado e não às escolas a definição de seu projeto político-pedagógico. a escola pública popular deve se caracterizar pela sua autonomia e capacidade de definir o seu projeto. porém.122 tico. e "escola cidadã". a evolução concreta das práticas político-pedagógicas de construção da escola pública popular. Esse é o olhar privilegiado dos movimentos sociais e populares. Quanto à crítica ao corporativismo. a partir de uma concepção democrática da educação e com base em experiências concretas de renovação do ensino. Reivindicam a parceria sem abrir mão de sua autonomia. Para evitar o regionalismo será preciso que a descentralização seja articulada com um plano mais amplo. Depois de 1986. mas olhá-la. interesses salariais dos professores. por exemplo. dialeticamente. Para que essa reivindicação não seja corporativista é preciso que ela se articule com a questão dos fins mais amplos da educação e da sociedade. etc. à questão da natureza do Estado. à doença.

uma escola estatal quanto ao financiamento. sobretudo. ou até mesmo. Para o IPF.o Planejamento tem um caráter ascendente. emprego. A sua formulação é precedida de um diagnóstico da situação das escolas. saúde. convivem e atuam na escola (Planejamento Socializado). evoluiu para um instrumento que. A Carta Escolar constitui-se num relatório detalhado.A educação básica de jovens e adultos como expressão da educação popular Os jovens e adultos trabalhadores lutam para superar suas condições de vida (moradia. conjunto de bairros. das forças em jogo. Falamos de "jovens e adultos" referindo- . das disposições políticas dos decisores e administradores dos recursos disponíveis. enfatizando. ele é metodicamente consolidado em níveis progressivamente mais abrangentes. democraticamente eleita.profissionais da escola e universo de pessoas coberto pela prestação de seus serviços . e objetiva alimentar o Planejamento Socializado Ascendente. o Projeto da Escola Cidadã tem uma formatação própria para cada realidade local. isto é. seu projeto político-pedagógico. Não se pode implantar a democracia por decreto. que é construída por meio de uma Pesquisa Etnográfica. um país). etc. que separa planejadores de executores.) que estão na raiz do problema do analfabetismo. de resistência.123 municipalidades onde o poder local foi assumido por partidos do chamado campo democrático-popular. elabore. Este diagnóstico é feito através de um instrumento. Município. lançados em base cartográfica. No entanto. quebrando a “espinha dorsal” da tradicional forma de planejar de cima para baixo. os ritmos e as conjunturas específicas. através de sua direção. com autonomia. acima de tudo. execute e implemente. de contestação que são facilitadores ou dificultadores da implantação do projeto políticopedagógico da escola. o IPF lançou uma série de livros e de cadernos: a série Guia da Escola Cidadã e os Cadernos da Escola Cidadã. de modo a respeitar as características históricoculturais. Em outros termos. no qual se confrontam os dados da oferta e da demanda educacional em uma determinada área geográfica (bairro. A escola precisa estar sensível às práticas educativas que nunca são registradas nos diários de classe preenchidos pelos professores. os baixos salários e as péssimas condições de vida. estes saberes e práticas interferem no seu dia-a-dia. comunitária e democrática quanto à gestão e pública quanto à destinação. alimentação. Ainda que se apresente com uma relativa uniformidade em seu escopo mais global. Num processo de discussão coletiva e interna e com agentes educacionais onde ela foi aplicada. comprometem o seu processo de alfabetização. incorporasse também aspectos descritivo-analíticos mais qualitativos e específicos de cada realidade analisada.informatizado ou não . Há fazeres aos quais a “história oficial” da escola está alheia. Além da participação de todos . a escola cidadã é. de opressão. Há saberes e práticas da comunidade que a escola ignora. ao lado do registro científico e sistemático . O esforço do Instituto Paulo Freire visou a construir parâmetros político-pedagógicos e instrumentos concretos para a viabilização desta alternativa. A Etnografia da Escola caracteriza-se por considerar aspectos relacionados à dimensão cotidiana da escola e da comunidade que faz parte de sua área de abrangência. entregando os recursos diretamente à escola para que ela. segmentos ou grupos comunitários e sociais que. assessorada por um colegiado representativo da comunidade escolar. Para subsidiar a implementação do Projeto da Escola Cidadã. direta ou indiretamente.de dados quantitativos. o Poder Público deve garantir sua manutenção. O desemprego. Estado. Subjacente a eles podem estar mecanismos de dominação. transporte. 4 . os elementos culturais dos sujeitos e dos segmentos que nela atuam direta ou indiretamente. Um projeto democrático de escola pressupõe uma metodologia também democrática. estes fazeres. denominado Carta Escolar. O Planejamento Socializado Ascendente pensa e realiza o planejamento enquanto processo que se constrói a partir da integração das forças de todos os sujeitos.

O sucesso de um programa de educação de jovens e adultos é facilitado quando o educador é do próprio meio. no contato direto com a cultura popular. a lógica do conhecimento popular. isto quer dizer que é a partir de uma referência local que é possível pensar o nacional.princípio que consiste em ficar esperando que a mudança venha de cima. Construímos o futuro a partir de um lugar. Quem é o educador de jovens e adultos? Já dissemos que. Não se pode medir a qualidade da educação de adultos pelos palmos de saber sistematizado que foram assimilados pelos alunos. É preciso criar o interesse e o entusiasmo pela participação: o educador popular é um animador cultural. porque aqueles que freqüentam os programas de educação de adultos. pelo contato direto. esses educadores precisam respeitar as condições culturais do jovem e do adulto analfabeto. Eles precisam fazer o diagnóstico histórico-econômico do grupo ou comunidade onde irão trabalhar e estabelecer um canal de comunicação entre o saber técnico (erudito) e o saber popular. muitas vezes baseando-se em pressupostos autoritários como o conceito de "segurança nacional". um organizador. Ler sobre a educação de adultos não é suficiente. Nós. nem sempre isso é possível. Como dizia Marx. organização. O analfabetismo não é uma questão pedagógica. É a negação de um direito ao lado da negação de outros direitos. sejam elas as condições objetivas. mas pelo impacto gerado na qualidade de vida da população atingida. sem levar em conta a mentalidade popular. sua estrutura de pensamento em função da qual a alfabetização ou a aquisição de novos conhecimentos tem sentido. conhecimento. É preciso formar educadores provenientes de outros meios não apenas geográficos. sobretudo na formação do educador. a moradia. Não pode ser um conhecimento apenas intelectual. mas uma questão essencialmente política. o emprego. suas lutas. Todavia. são majoritariamente os jovens trabalhadores. não pode ser avaliado apenas pelo seu rigor metodológico. Mas. Ela deve ser medida pela possibilidade que os dominados tiveram de manifestar seu ponto de vista e pela solidariedade que tiver criado entre eles. O espontaneísmo . enfim. habilidades. no mínimo. É preciso entender. como a história de cada grupo. como se costumava dizer entre nós. sem trabalho .124 nos à "educação de adultos". Daí a importância da organização coletiva. Seria ingênuo combatê-lo sem combater suas causas: é preciso partir do conhecimento das condições de vida do analfabeto. facilita muito a educação de jovens e adultos. um intelectual (no sentido gramsciano). conhecer profundamente. Contudo. conseqüência inevitável de uma estrutura social injusta. Mas isso é perfeitamente possível em pequenos grupos instituintes. em seu famoso livro Crítica ao Programa de Gotha. um articulador. conhecendo-as na convivência com ele e não apenas "teoricamente". o regional e o internacional. latino-americanos temos uma longa experiência de regimes autoritários tentando impor uma "identidade nacional". sua cultura. O analfabetismo é a expressão da pobreza. Os programas de educação de jovens e adultos estarão a meio caminho do fracasso se não levarem em conta essas premissas. como o salário. mas também sociais. O educador popular não pode ser nem ingênuo e nem espontaneísta. sejam as condições subjetivas.é sempre conservador. supor que o Estado faça isso de forma massiva é uma ingenuidade. sendo o educador do próprio meio. descobrirá rapidamente a diferença entre espontaneísmo e a espontaneidade que é uma característica positiva da mentalidade popular. por essa razão. A educação de adultos está condicionada às possibilidades de uma transformação real das condições de vida do aluno-trabalhador. O analfabetismo não é doença ou "erva daninha". Um programa de educação de adultos. sem esforço. O educador popular. sem disciplina. . formal.

é a filosofia do diálogo. então. A filosofia primeira na qual o educador de jovens e adultos precisa ser formado. O MOVA-SP reunia três condições básicas para que um programa de educação de jovens e adultos pudesse ter êxito: a) vontade política da administração. na Câmara Municipal de São Paulo. Colocaram. os alfabetizandos teriam acesso. a experiência deles a serviço do governo municipal. Paulo Freire. através do decreto n. Através desse processo de tomada de consciência de sua realidade. Os núcleos de alfabetização e pós-alfabetização do MOVA-SP foram sediados em equipamentos da própria comunidade e concebidos como focos aglutinadores e irradiadores da cultura local que incluía a história do próprio movimento popular da região. pelo Prof. a cidade. E o pluralismo é também uma filosofia do diálogo. são os principais meios educativos de que dispomos.125 Conhecemos o mundo.principal reivindicação dos participantes do I Congresso dos Alfabetizandos da Cidade de São Paulo. entendiam que o MOVA-SP deveria possibilitar o prosseguimento dos estudos em nível de pós-alfabetização.º 28. em 1991. buscando assim. progressivamente. contra a exclusão por motivos de raça. A partir da confluência entre a vontade política do Município e os interesses dos Movimentos Populares oficializou-se. alargamos nosso universo. isto é. sem com ele se confundir. a parceria entre governo e representantes da sociedade.302 de 21 de novembro de 1989. Trata-se de não desprezar e. A cidade é a nossa primeira instância educativa. sobretudo. Por isso que a educação de adultos deve ser sempre uma educação multicultural. entre eles Pedro Pontual. Com a gestão de Luíza Erundina. no final de 1990. primeiro através dos nossos pais. procurando ler. É ela que nos insere num país e num mundo em constante evolução. mas de garantir o direito à escolarização básica formal . Secretário Municipal de Educação na gestão da Prefeita Luíza Erundina de Souza. Não se trata de negar o acesso à cultural geral elaborada. Não se tratava apenas de alfabetizar. É uma educação para a compreensão mútua. Nesse sentido. O bairro. que se constitui num importante instrumento de luta para as minorias. cultura ou outras formas de discriminação. sistemática e progressivamente. incorporando-se à luta geral pela escola pública e popular. Trata-se de incorporar uma abordagem do ensino/aprendizagem que se baseia em valores e crenças democráticas e procura fortalecer o pluralismo cultural num mundo cada vez mais interdependente. contando com a participação massiva de Movimentos Populares da Cidade de São Paulo. de apropriação e criação de conhecimentos novos. eles se encontravam diante de uma administração que mostrava vontade política de enfrentar esse desafio. dessa maneira. uma educação que desenvolve o conhecimento e a integração na diversidade cultural. um programa de pósalfabetização interdisciplinar. sexo. b) empenho e organização dos Movimentos sociais e populares e c) o apoio da sociedade. Ele se propunha a se constituir numa arrancada inicial na luta por um programa de escolarização básica de jovens e adultos. Um exemplo concreto: o MOVA-SP O Programa MOVA-SP foi lançado dia 29 de outubro de 1989. instituiu-se no MOVA-SP o “Ciclo Ensino Fundamental I”. através do nosso círculo imediato e só depois é que. num esforço conjunto. não matar a cultura primeira do aluno. a conhecimentos cada vez mais . do ensino fundamental. Os Movimentos Populares aos quais Paulo Freire referiu-se no lançamento do Programa MOVA-SP surgiram muitas vezes em função da ausência do Estado no provimento da educação de jovens e adultos. contribuir para a superação do grave problema do analfabetismo em nosso país. Os seus idealizadores. para facilitar a expedição de atestados para o ingresso dos alunos na 5º série do ensino fundamental ou na Suplência II. e logo em seguida. a sua realidade de forma crítica.

os sistemas educacionais consolidaram-se com base na idéia de que a educação deve estar intimamente ligada aos interesses da comunidade. 75 reuniões de supervisão que se constituíam em formação permanente dos professores e 6 seminários gerais e regionais. 5 – A educação comunitária como expressão da educação popular No mundo anglo-saxão. dos educandos e dos movimentos socias e populares. Já os supervisores do programa eram escolhidos dentre os professores que recebiam formação científica. A idéia de sua criação surgiu no início de 1989 a partir de reuniões conjuntas entre a Secretaria e os grupos compostos por membros dos movimentos e por educadores comprometidos com a alfabetização de jovens e adultos de São Paulo. São novos conceitos surgidos numa época de profundas mudanças na concepção/realização da natureza do Estado e de crescente papel da Sociedade Civil como agente de mudança. ele passou a se reunir mensalmente para debater o andamento do projeto. impulsionada pela necessidade de ganharmos um novo patamar de desenvolvimento. A partir de sua criação. co-gestão. como: articulação. puderam unificar suas experiências e ampliá-las. sobretudo como educação de jovens e adultos. reciprocidade. O trabalhador não pode parar de trabalhar para se educar. Na parceria com os Movimentos Sociais. A meta . O MOVA-SP. O Programa MOVA-SP serviu de referência para outras experiências e se constituiu num processo muito significativo de formação para todos os que o promoveram. herdeiro da tradição do movimento de educação popular. A educação precisa estar relacionada com a quantidade de vida do trabalhador. rede. Com a criação do Fórum. a Prefeitura apoiou o programa com recursos financeiros e materiais. nos últimos anos. criou-se o Fórum dos Movimentos Populares de Educação de Adultos da Cidade de São Paulo. O grande saldo que ficou do MOVA-SP foi a experiência de articulação dos Movimentos Populares. mas também político-pedagógica. A educação comunitária se define por um certo vocabulário que expressa certos valores. ao trabalho. esse conceito de educação comunitária não é um privilégio dos países do Primeiro Mundo.126 elaborados. Hoje. cooperação. . etc. solidariedade. assim . parceria. constituídos hoje num novo e importante ator social na cidade de São Paulo. Com o propósito de assegurar uma relação de parceria bem sucedida entre a prefeitura e os Movimentos Populares. O processo de construção foi fundado em valores democráticos que resultou no aprofundamento de uma nova cultura política para a qual a educação é um instrumento fundamental. contrapartida. Em países como o Brasil. tendo em vista o compromisso daquela administração com as causas populares. Em 1990 foi realizado o I Congresso de Alfabetizandos da Cidade de São Paulo do qual participaram mais de 5000 educandos e educadores. ao emprego. A educação comunitária estende-se também ao processo produtivo. A maioria dos professores (ou monitores) do MOVA-SP pertencia à própria comunidade onde atuavam. Foram realizados nos 4 anos de sua existência (1989-1992) cerca de 20 cursos introdutórios de formação para monitores e supervisores. A avaliação realizada mostrou que ele trouxe ganhos relevantes para a formação dos educadores. conseguiu a façanha de reunir uma centena de movimentos populares que até então trabalhavam isoladamente e construiu uma forma particular de parceria entre Estado e Sociedade Civil. O programa MOVA-SP ousou trilhar um caminho novo: criar uma nova metodologia. à renda. identidade. em sujeitos da ação transformadora da sua própria realidade. Esses grupos já desenvolviam iniciativas isoladas para alcançar melhor desempenho na realização de seus trabalhos. diversidade cultural. constituindo-se. ele ganhou um grande espaço.parcialmente alcançada era até 1992 alfabetizar 60 mil pessoas. não apenas administrativo-financeira. Eles estavam comprometidos com as lutas que aí se desenvolviam e eram capacitados através de cursos de formação promovidos pela Secretaria.

alimentação. métodos e ferramentas para abordar a criança de rua sem mostrar. através dos movimentos populares emergentes. Nessa definição gostaria de destacar o que me parece específico da educação comunitária: a preocupação com a “qualidade de vida”. nem com a educação de adultos ou não-formal. o entendimento entre os diferentes. sob a coordenação da Prof. nos causa justa indignação. Um exemplo concreto: a pedagogia do educador social de rua Um exemplo de educação popular comunitária é o que vem sendo desenvolvido pelo Núcleo de Trabalhos Comunitários (NTC) da PUC-SP. Aprender através da atividade produtiva não significa limitar a aprendizagem a um quefazer técnico-produtivo. A pedagogia social de rua não poderia partir da apresentação de uma série de princípios. Fala-se de nível ou padrão de vida para designar a satisfação de uma parte das necessidades humanas. às vezes agride e. trabalho . moradia. que estão organizados em grupos de base. em particular. que produz a marginalidade. o povo da rua das cidades e o trabalhador sem terra dos campos. do organizativo e do educativo. muitas vezes. o paradigma da educação popular comunitária dá conta de um dos maiores desafios que se abrem para o próximo milênio: promover a eqüidade.O que é qualidade de vida? É um conceito distinto de conceitos tais como “nível ou padrão de vida”. Num contexto multicultural pós-moderno. É o sistema capitalista selvagem que cria lixões nas periferias das grandes cidades. Sem ela pode-se dizer que as pessoas não dispõem das ferramentas necessárias para tornarem-se protagonistas da sua própria história.a. principalmente as necessidades econômicas. mostrando uma realidade que às vezes emociona. como ela. percebe-se a importância da educação comunitária: ela é um direito. tanto em termos educacionais. . na América Latina a Associação Internacional de Educação Comunitária. tiveram a ousadia de realizar em favor dos setores mais excluídos da sociedade. além de ser uma necessidade. A “rualização” é conseqüência de um sistema econômico fundado na injustiça. ou. Qualidade de vida significa ter a possibilidade de decidir autonomamente sobre o seu próprio destino. A educação comunitária possibilita aos educandos-trabalhadores-produtores o acesso a um saber mais geral e a uma qualidade de vida melhor. afirma que “a educação comunitária é uma das formas de expressão da educação popular. políticos e econômicos. Maria Stela Santos Graciani. tais como a educação.127 A educação comunitária representa hoje uma grande força.saúde. etc. mediante a qual se busca melhorar a qualidade vida dos setores excluídos. Colocado o tema desta forma. . A educação comunitária incorpora de maneira articulada em seu quefazer os eixos do produtivo. quanto em termos sociais. lazer.mas também a satisfação daquelas necessidades não-materiais. Municípios. Quando nos referimos à qualidade de vida fazemos referência à satisfação do conjunto das necessidades humanas: não só das necessidades materiais básicas . em 1990.”. antes de mais nada o contexto de violência que gera o menino e a menina de rua. a pobreza. pequenas empresas. Nele ela deu a palavra ao educador e ao educando de rua. comunidades. cultura. Nisso ela encontrou um campo de trabalho próprio. isto é. A Carta de La Catalina (Costa Rica) que lançou. e se constitui num dos pressupostos da própria qualidade de vida. não se confundindo com a educação popular em geral. No livro Pedagogia do educador social de rua ela relata e sistematiza a prática do NTC e a de numerosos educadores populares que com ela.

a tecnologia avançada. a pedagogia de rua não visa a manter essa situação de crianças na rua. as gangues. Herdamos portanto a insensibilidade diante da miséria. De um lado a drogalização. envolvimento. a planetarização da cultura.128 onde se amontoam urubus. precisa educador também a família. 43% dos magistrados repudiam essa lei. de um lado a riqueza extrema. o repudiam. disputando as mesmas sobras do luxo das elites. Não podemos esquecer que o Brasil foi o último país do mundo a por fim à escravidão onde gente era comprada e vendida. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é completo. É uma pedagogia que se arrisca na aventura de construir o novo. produz a miséria extrema. que produz. ausência do pai que contribui apenas com o seu espermatozóide na criação dos filhos. ainda inacabada. É o sistema que produz perguntas ansiosas e cruéis como esta: “que hora eu vou ter para abraçar meu filho se passo todo o tempo da minha vida trabalhando ou indo e voltando do trabalho”? É um capitalismo que destrói a família e os laços mais íntimos entre pais e filhos. Ela visa a “desrualizar” a criança. mães que são o único e precário arrimo dessas crianças. cresce cada vez mais. Essa é a educação dominante. Necessitamos de uma pedagogia dos direitos e do educador social de rua não apenas para os educadores que trabalham na rua. sensibilidade. olhar. arrogante. a violência do extermínio e o confinamento em instituições totais. como diz Stela. Tempo para aprender e não para ensinar. Por isso precisamos de uma pedagogia dos direitos. o tratamento agressivo da polícia. promotores e a polícia também. advogados. O imediatismo não resolve e a pura preparação técnica também não. A descrição do cotidiano do povo da rua não poderia deixar de ser dramática: crianças que nascem e crescem nas ruas. as galeras e. 66% das donas de casa e 37% da população em geral. invadindo e desinstalando o saber burocrático. a cultura da solidariedade que possa neutralizar a banalização da vida à qual as elites brasileiras se acostumaram. Mais do que nos grandes discursos ou nos conhecimentos elaborados. não só os educadores. é um projeto para uma nova sociedade e seria estranho que a sociedade velha que produz a marginalidade o aceitasse. Os desafios de uma pedagogia de rua e dos direitos são enormes. para aprender a linguagem.. o ministério público. meninas de nove a dez anos que antecipam a maternidade em saunas ou confinadas em prostíbulos. alimenta-se no compromisso. A pedagogia social de rua. O Brasil é um país que nasceu com a marca da exclusão. juizes. muitas vezes deixadas acorrentadas em casa durante longas horas com medo de que sejam agredidas nas ruas. A pedagogia do educador social é. sustentada na cultura da indiferença. alegria. A violação do direitos é também resultado de um processo distorcido de “educação” daquelas mesmas pessoas que deveriam resguardar esses direitos. essa pedagogia. os códigos. o inusitado.. Nesse contexto. o significado de cada gesto. Segundo recente pesquisa feita no Estado do Paraná. o sentido. Este é um dos cenários da globalização econômica que compõem a chamada pósmodernidade. esse Estatudo é uma lei muito exigente. o saber militante. uma das redatoras do ECA. adultização precoce. de outro. É o sistema que divide o trabalho entre trabalhadores explorados e não trabalhadores. mais do que no refinamento ou na fundamentação teórica dos direitos da criança e do adolescente. Temos leis que protegem a criança. de outro. palavra. Como costuma dizer a Irmã Maria do Rosário. A competência técnica do educador social de rua . O alambrado entre a criança e o adulto responsável por ela. Esse é um país que ainda não aceitou e muito menos incorporou esse Estatuto. 77% dos militares. das comunicações e da economia e. animais e seres humanos. na paixão e na coragem de arregaçar as mangas e fazer alguma coisa diante do risco permanente em que se encontram essas crianças. É o sistema que não deixa tempo para as mães trabalhadoras educar suas crianças. uma contra-pedagogia que busca instaurar uma nova cultura. herança de uma civilização que nasceu com a marca da violência e do descompromisso com a sorte das maiorias. sobretudo para as elites. de certa forma. intolerante. Mas trata-se ainda de uma “legalidade não reclamável”. Esses são valores que a pedagogia tradicional não ensina ou não valoriza. de uma legalidade sem garantias concretas no dia-a-dia. Para entrar em contato com os meninos e meninas de rua exige-se tempo. como parte constituinte dessa pedagogia dos direitos. perambulando.

cortando o cabelo e colocando um boné na cabeça para não serem agredidas sexualmente. 6 – A educação ambiental como expressão da educação popular Os Estados membros das Nações Unidas na Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Esse é um trabalho de educação cívica: sem a conscientização da população.Como habilitar esse educador de rua? Onde ele se forma? Só na rua? Percebemos a fragilidade de sua formação já que a universidade brasileira e as teorias da educação não dão conta dessa tarefa. as grandes obras de infra-estrutura não resolvem os . Com freqüência. por exemplo. que meninas se disfarçam de meninos. devem investir parte de seus lucros em projetos de preservação do meio ambiente e aumento de áreas verdes. de “afetar”. Como pode ela construir a sua auto-estima e considerar a contribuição da nação afro-brasileira como marca da cultura brasileira se ela vê o negro representando sempre o oprimido? Em alguma lugar é preciso começar a desatar esse nó e todo lugar é válido: na escola. engenheiro ou médico? A criança negra acaba se envergonhando da sua história. mas que inclui a formação para a cidadania ambiental. Que referencial positivo pode ter a criança negra que vê no livros didáticos o negro sempre como escravo ou foragido e nunca como advogado. À insensibilidade social soma-se ainda o preconceito de muitos livros didáticos. Aprende então a perversidade de uma sociedade de adultos que nega a elas o direito fundamental de ser mulher. realizada no Rio de Janeiro em 1992.129 nasce no mergulho nessa realidade nova. do estudo e da constituição da família. Todos precisamos nos sentir afetados e responsáveis. Esse protocolo foi chamado de Agenda 21. vemos declarações de delegados e de populares como esta: “apagamos em tempo o futuro criminoso”. natural ou social. É preciso acima de tudo de afeto no seu sentido etimológico. por que não. Ao saneamento básico do ambiente externo deve corresponder um saneamento básico também nas nossas mentes. esse educador é ainda incompreendido e agredido. na empresa. Trata-se de formar a consciência da população de que não basta canalizar córregos ou asfaltar ruas se continuamos jogando lixo neles. Ele tem que confrontar-se com uma sociedade que deseja o extermínio dessas crianças. assumiram um protocolo de intenções em defesa de um desenvolvimento que não degradasse o meio ambiente: o “desenvolvimento sustentável”. Ma há obstáculos ainda maiores para ele enfrentar que o de sua formação: em vez de encontrar apoio no Estado e na Sociedade. o setor público obriga-se a vincular a realização de obras de infra-estrutura urbana .como a canalização de córregos . da criação de ambientes adequados que minimizem a falta de laços afetivos. de ter uma identidade feminina. . diante do assassinato de crianças de rua. o nível de poluição ambiental e aquelas que não conseguirem. Por outro lado. na rua? Mas além de mexer com a mentalidade. Um dos compromissos assumidos por essa Agenda é que as indústrias que poluem o meio ambiente devem reduzir. fazendo referência à chegada do novo século. com urgência essas crianças através do trabalho. Não há problemas humanos para os quais não tenhamos dentro de nós todos recursos para solucioná-los. Ele aprende. O educador de rua tem uma importância enorme para essas crianças e para uma sociedade que deseja ser justa. e. dentro de um certo cronograma. na universidade. que leva tempo. ele pode ser a última referência positiva de ser humano que elas terão. Eles fazem parte nosso meio ambiente. O primeiro encontro é decisivo para crianças acostumadas a enfrentar no seu dia-a-dia o lojista indignado e a polícia que as persegue. é preciso atender. Raríssimos são os estudos sobre a pedagogia dos direitos. mesmo não estando no trabalho de educar na rua. Ele pode representar para elas a última esperança de sobrevivência.a projetos ambientais que não se reduzem a plantar árvores. As ruas e córregos são extensões das nossas casas.

Ela não se dirige apenas aos educadores. ela surge no seio da Sociedade Civil. famílias. cremos que o papel da educação comunitária .hoje as crianças escolarizadas é que levam para os adultos em casa a preocupação com o meio ambiente . Eis aí um campo novo de trabalho para o educador comunitário a ser explorado por uma ecopedagogia: de uma educação para o desenvolvimento sustentável depende a sobrevivência do planeta. A escola pode contribuir muito e está contribuindo .o desenvolvimento sustentável tem um componente educativo fundamental: a preservação do meio ambiente depende de uma consciência ecológica e a formação da consciência depende da educação. com o contexto. Estes princípios deveriam. dessa formação da consciência ambiental. O planeta tornou-se nossa casa. Como movimento social e político. mas aos habitantes da Terra em geral. que está diretamente ligada ao tipo de convivência que mantemos com a natureza e que implica atitudes. de nada adiantarão os grandes projetos estatais de despoluição e de preservação do meio ambiente. Piaget nos ensinou que os currículos devem contemplar o que é significativo para o aluno. coleta seletiva. com o ambiente mais próximo. mas incompleto. Temos certeza de que os temas relacionados com o desenvolvimento sustentável e a ecopedagogia tornar-se-ão muito importantes nos debates educacionais das próximas décadas. antecipando-se às iniciativas do Estado. ações. por exemplo.130 problemas crônicos das nossas cidades. Ao mesmo tempo. Os conteúdos curriculares têm que ser significativos para o aluno e só serão significativos para ele se esses conteúdos forem significativos também para a saúde do planeta. de ecologistas. Trata-se de uma opção de vida por uma relação saudável e equilibrada. a começar pelo ambiente de trabalho e pelo ambiente doméstico. valores. Em torno dessa educação é possível também desenvolver projetos de geração de renda ecologicamente sustentável: hortas e fruticultura urbana. Nesse contexto. Trata-se de uma mudança radical de mentalidade em relação à qualidade de vida. A Sociedade Civil vem assumindo a sua cota de responsabilidade diante da degradação do meio ambiente. A ecopedagogia não é uma pedagogia escolar. de trabalhadores e de empresários preocupados com o meio ambiente. valorização do trabalho de autoconsumo e consumo solidário realizados por mulheres. unidades de vizinhança etc. a ecopedagogia pode ser vista tanto como movimento pedagógico quanto abordagem curricular. com os outros. Da mesma forma. para o contexto mais amplo. A ecopedagogia implica também numa reorientação dos currículos para que estes incorporem novos princípios (os novos PCNs – Parâmetros Nacionais Curriculares – incluem o meio ambiente como um dos “temas transversais”). as Organizações Não-Governamentais é que estão se movimentando mais na busca de uma pedagogia do desenvolvimento sustentável. em grande parte. A qualidade ambiental de cada região depende.mas a ecopedagogia pretende ir além da escola: ela pretende impregnar toda a sociedade. nosso endereço. nas organizações de educadores. O desenvolvimento que respeita essa casa . nortear a concepção dos conteúdos e a elaboração dos livros didáticos. entendendo que sem uma ação pedagógica efetiva. percebendo que apenas através uma ação integrada é que essa degradação pode ser combatida. O tema da ecologia já se inscreveu definitivamente na agenda da educação. da política e da economia deste limiar do terceiro milênio. reciclagem e reaproveitamento de resíduos sólidos. Sabemos que isso é correto. construção e administração de áreas de lazer. A conscientização ambiental pode melhorar a qualidade das atividades de geração de renda para que não sejam agressivas nem ao meio ambiente e nem à saúde da população.

construir uma pedagogia apropriada aos princípios da Carta da Terra (ecopedagogia). na Rio-92. criar e estimular espaços de afirmação social da Carta da Terra no campo da Educação nos diferentes países. negociados politicamente apenas pelos governos e por eles proclamados solenemente. O Instituto Paulo Freire (IPF). o seu nome. dando prosseguimento aos compromissos assumidos pelos Povos.que queira ajudar a escrever o futuro do nosso planeta. O desenvolvimento sustentável tornar-se-á o tema mais importante da educação das próximas décadas e o papel da educação popular comunitária será decisivo para a mudança de mentalidades e atitudes. Sem um processo educativo. enquanto membro da Coordenação Nacional da Carta da Terra. depois. deverão ser produzidos documentos para a A Carta da Terra na Perspectiva da Educação e para a formação dos novos educadores do próximo século. Ele estava participando de uma conferência na Universidade da Califórnia. Los Angeles (UCLA) e. que nos assegure que ao chegar ao próximo milênio. 3. O processo educativo deverá contribuir para a mudança de mentalidade também da população em relação à importância da educação para o desenvolvimento sustentável com eqüidade. acima de tudo. 4. É necessário que a Carta seja. Estados e Sociedade Civil. está incumbido de realizar a consulta mundial. vivenciada no cotidiano das pessoas. Educação e Cultura da Sustentabilidade. Para que isso aconteça de fato. 2. Um exemplo concreto: a Rede Mundial pela Carta da Terra No início da próxima década as Nações Unidas vão proclamar a Carta da Terra. Dessa experiência de trabalho coletivo. o IPF criou uma Rede Mundial pela Carta da Terra (RMCT) com o objetivo de: 1. sistemático e organizado. Entretanto. Não basta apenas ler e informar-se sobre a degradação do meio ambiente. Nações. 7 .131 será decisivo para a mudança de mentalidades e atitudes em direção da sustentabilidade econômica. é fundamental um processo coletivo de educação. o maior número possível de cidadãos do planeta tenha participado ativamente na sua elaboração. a Carta da Terra pode tornar-se mais uma declaração inócua de princípios. a divulgação e a comunicação de processos consolidados e experiências em andamento relacionados à Carta da Terra. todos os esforços nesse sentido pouco adiantarão se a Carta da Terra representar apenas um conjunto de princípios elaborados por especialistas. falou da importância de se criar um Instituto que pudesse proporcionar o encontro de pessoas e instituições que pesquisavam ou trabalhavam em torno da . Educação para a Cidadania Planetária e Sistemas Educativos Planetários de Comunicação e Intercâmbio.O “Fórum Paulo Freire” No dia 12 de abril de 1991 Paulo Freire sugeriu a um grupo de amigos a criação de um Instituto que levaria. Ela privilegia os seguintes eixos temáticos: Visão Prospectiva de Sistemas Educacionais. estimular o registro. A Rede Mundial pela Carta da Terra (RMCT) está aberta a tod@ cidad@ da Terra – não apenas educador@s . Para este fim. logo após sua apresentação. tanto no Fórum Global quanto na UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). através de acordo de cooperação com o Conselho da Terra. 5. propor projetos e programas educacionais adequados aos princípios da Carta da Terra. Pedagogias de Afirmação Ética. propiciar vivências interculturais. para sistematizar as contribuições à redação da Carta da Terra na perspectiva da educação.

aprofundando e fortalecendo vínculos entre aqueles que acreditam e lutam pela superação do mundo de exploração. são instrumentos vitais para enfrentar o neoliberalismo. em prol de uma educação popular libertadora. No contexto de desumanização das relações pessoais e sociais e da presença marcante de um discurso ideológico negador do sonho. apresentando nomes. cuja raiz está na cultura dos povos. para testemunhar um momento importante de concretização de seu desejo em relação a este Instituto: que reunisse pessoas e instituições. reconhecer-lhes voz e vez. Desde a sua criação. possibilitando a troca de experiências e fortalecimento dos vínculos entre as organizações que desenvolvem trabalhos e pesquisas em torno de seu legado. O pensamento e a práxis de Paulo Freire. opressão e humilhação a que milhares de pessoas estão submetidas. cuja fundação oficial veio a se dar em primeiro de setembro de 1992. Infelizmente não pôde estar presente no I Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire. começaram os primeiros passos para a criação do Instituto Paulo Freire. seu modelo de globalização econômica e sua pedagogia da exclusão. a diversidade cultural e a pluralidade de concepções. III – Reconhecer e respeitar a alteridade. as identidades específicas. em todas as formações sociais do Planeta. que irá reunir-se periodicamente. participando da discussão dos Estatutos. O I Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire reuniu educadores. na realidade. nos dias 28 a 30 de abril de 1998. seja pela banalização de seus princípios e idéias.132 educação popular e dos princípios que embasavam a sua pedagogia. constituído de encontros nacionais e internacionais de organização da reflexão coletiva e da reiteração de compromissos sobre/com o legado de Paulo Freire. por convocação e sob a coordenação do Instituto Paulo Freire. até após sua fundação oficial. princípios e encaminhamentos: I – Colocar-nos à disposição das lutas das vítimas de todas as formas de opressão e exclusão. a reflexão sobre a prática dos participantes e sobre a teoria de Paulo Freire. mais de 200 participantes de 24 países aprovaram na sessão plenária de encerramento a “Carta de São Paulo”. através do relato de experiências. CARTA DE SÃO PAULO Nós. através do diálogo e da ação solidária. inspirados e referenciados no legado de Paulo Freire. desde que não atentatórias aos direitos humanos. Neste encontro foi criado o “Fórum Paulo Freire”. II – Potencializar a crítica a toda forma de mitificação. tudo fazendo para. No final do encontro. reunidos em São Paulo (Brasil). Paulo Freire acompanhou todos os momentos da história do IPF. no sentido da promoção de sua participação nos processos decisórios e na implementação de políticas que busquem a inclusão de todos na cidadania crítica. tomando parte nas principais decisões e contribuindo sempre com suas valiosas e esclarecedoras reflexões sobre os projetos aqui desenvolvidos. fundamentados nos princípios de que a Democracia não se constrói na homogeneidade e no . e o encaminhamento de propostas que respondam aos desafios de inclusão dos marginalizados. a obra de Paulo Freire constitui um legado importante para a construção de uma sociedade solidária e equânime. se voltam contra os interesses dos oprimidos e excluídos. participantes do I Encontro Internacional do FÓRUM PAULO FREIRE. no final de abril de 1998. seja por proclamação oportunista e “legitimadora” de políticas e iniciativas que. O programa privilegiou o diálogo. deturpação ou usos indevidos da obra de Paulo Freire. potencializando. pesquisadores e outras pessoas interessadas em aprofundar o estudo do legado de Paulo Freire. da definição da linha básica de atuação. Dessa forma. firmamos o compromisso com as seguintes teses.

de modo a qualificar as intervenções de todos nessas determinações. IV – Prestar. em ambos. discriminação e exclusão. transformado pelos avanços tecnológicos e pelos processos de reestruturação social – usar este legado como modelo significa trair a própria orientação de Paulo Freire. cuidando para que as sínteses não comprometam as identidades dos movimentos. metodológica e praxiológica de sua incessante atualização da “leitura do mundo”. a solidariedade que deve presidir as relações humanas. VIII . às vítimas da opressão. com base no princípio de que é um direito inalienável de todo ser humano. transformando-o num centro de referência. priorizando. na prioridade econômica e na sociedade excludente. no Fórum Paulo Freire.Garantir. VII . de modo a ratificar a própria dialética de sua permanente reinvenção epistemológica. que apresentam identidade com os princípios freireanos. 30 de abril de 1998) . bem como a articulação de redes de comunicação de informações e intercâmbio de experiências da comunidade. a expressão da pluralidade de experiências. cuja riqueza de experiências aponta para a incorporação de graus de informalidade e desburocratização do sistemas formais de ensino. simultaneamente. de uma educação básica de qualidade e. que sacrifica na competitividade do mercado. o acesso e a conclusão. num espaço de sistematização das reflexões sobre sua história de lutas e num instrumento de aglutinação e articulação de seus agentes e atores. promovendo e estimulando a criação de espaços de ação/reflexão sobre as novas formas de exclusão decorrentes da produção e manipulação dos novos conhecimentos científicos e das novas tecnologias. a igualdade de direitos e de usufruto universalizado dos benefícios da civilização. em segundo lugar. VI . como instrumento permanente de diálogo com o mundo e com as mulheres e os homens.Valorizar a escola pública e gratuita em todos os níveis como espaço e instrumento da organização das reflexões sobre as determinações naturais e sociais. a ser realizado periodicamente. democráticas e justas. IX . como potencialização de perspectivas. com inspiração na história dos povos de que nenhuma nação conseguiu universalizar a educação básica de crianças e adolescentes sem. XI .Defender. XII – Trabalhar as possibilidades de alianças e parcerias que viabilizem os demais compromissos contidos nesta Carta. com sucesso.Tomar o legado de Paulo Freire como uma das referências para a continuidade e avanço da reflexão e fortalecimento das lutas dos oprimidos. em primeiro lugar. rechaçando o projeto de sociedade e de Estado neoliberais.Lutar pela garantia da expressão e implementação de iniciativas educacionais da Sociedade Civil organizada.Despender todos os esforços na construção de projetos pedagógicos alternativos ao projeto neoliberal e a qualquer proposta que atente contra a educação a ciência e a cultura como processos de conscientização e de transformação do mundo ou que privilegie a supremacia científico-tecnológica sobre os valores éticos da convivência humana. de todas as formas de discriminação e da exclusão. independentemente de idade. governamentais e não-governamentais. as políticas de formação continuada de educadores e educadoras inscritos (as) no campo da pedagogia crítica. estratégias e conquistas. rechaçando qualquer ortodoxia ou utilização de seus princípios e idéias como “receitas” ou modelos. políticas prioritárias de Educação de Jovens e Adultos.Mapear os movimentos sociais populares. junto aos governos. quer pela tematização de suas metas. especialmente nos países com altas taxas de analfabetismo. V . com vista à construção de sociedades solidárias.133 consenso e de que a riqueza cultural da humanidade só avança quando as diferenças são respeitadas e preservadas. nem de suas formas específicas de luta em prol da promoção das vítimas de todas as formas de opressão. que enfatizava os processos e não os produtos. no sentido de estimular sua integração e com o Fórum Paulo Freire. quer pela incorporação de suas representações. oportunizar a Educação de Jovens e Adultos. as políticas sociais promotoras do bem-estar de todos e a inclusão da maioria dos segmentos sociais pobres e discriminados do mundo. X . dos movimentos populares e dos membros do Fórum Paulo Freire (São Paulo.

algumas das intuições originais do paradigma da educação popular. bancária. apesar dos mitos e das avaliações auto-complacentes. do negro. Mas elas têm em comum. até a educação popular que produz pequenas peças de artesanato. imaginativo. fundamentadas. da manipulação. que custaram a vida de tantos militantes populares. junto com o atrofiamento do Estado e os planos de ajuste estrutural em diversas partes do mundo. e) a recusa do autoritarismo. portanto. cotejadas constantemente com a dureza dos fatos. nas diversas partes do mundo. esconde um momento de dominação. radical. do analfabeto e do trabalhador industrial. f) a defesa da educação como um ato de diálogo no descobrimento rigoroso. nos convidam a ser otimistas: a) a ênfase nas condições gnosiológicas da prática educativa. d) a defesa de uma educação para a liberdade. sua atualidade no contexto da crise da dívida externa e da crise fiscal. do oprimido. Trata de diminuir o impacto da crise social na pobreza. sérias. do camponês. com a emancipação humana.134 8 – O paradigma da educação popular frente aos sistemas de ensino A educação popular tem-se constituído num paradigma teórico que trata de codificar e descodificar os temas geradores das lutas populares. da razão de ser das coisas. uma delas. b) a educação como produção e não meramente como transmissão do conhecimento. pré-condição da vida democrática. brutais e sangrentas. por sua vez. O grande número de noções que fundam a educação popular. Uma série de perspectivas que coincidiram em várias opiniões. Estamos muito próximos do nascimento desse novo paradigma teórico para julgar suas possibilidades de futuro. resmungando com raiva ao lado do desempregado na periferia urbana. da mulher. e de dar voz a indignação e desespero moral do pobre. junta roupa usada. Todas refletem uma recusa à educação do colonizador. Desde o otimismo guerreiro da campanha de alfabetização da Nicarágua e o sistema de educação popular de adultos forjado com cheiro de pólvora. É verdade. até aqueles que buscam criar uma nova economia popular a partir das experiências de solidariedade comunitária. g) a noção de uma ciência aberta às necessidades populares e h) um planejamento comunitário e participativo. São perspectivas razoáveis. ao . colocando-a num plano diferente da educação tradicional. indica-nos que nosso otimismo não é infundado. da ideologização que surge também ao estabelecer hierarquias rígidas entre o professor que sabe (e por isso ensina) e o aluno que tem que aprender (e por isso estuda). e. sua eficiência no passado. necessariamente. mas uma recusa utópica e amorosa. Todavia. do indígena. A educação popular passou por muitos momentos epistemológico-educativos e organizativos. Desde a experiência das comunidades de base que lendo o mundo lêem a palavra e recriam a religiosidade popular. a busca de uma ciência social e educativa integradora. busca colaborar com os movimentos sociais e os partidos políticos que expressam essas lutas. o compromisso com os mais pobres. e a educação como razão instrumental. uma recusa que aceita duvidar das próprias condições de produção científica e das certezas alcançadas. Não uma recusa oportunista ou servil. para evitar a mistificação da razão prática. desde a busca da conscientização até a defesa dos direitos humanos aniquilados pelas ditaduras militares. porém. cognitiva e afetiva. hoje espalhada pelo mundo. c) a luta por uma educação emancipadora que suspeita do arbitrário cultural o qual. como paradigma teórico. a educação popular hoje se constitui num mosaico de teorias e de práticas.

é a docilidade aos dados empíricos. um grande número de experiências de educação popular. O avanço da humanidade na direção de maior liberdade. a formação de cooperativas nas agrestes montanhas Tarahumares no México ou a campanha de alfabetização no Equador. Nas últimas décadas assistimos à crescente crise no campo da educação. seja através de ideais políticos e econômicos. consciente de que é impossível separar a ciência dos interesses humanos. como se diz hoje. Quem estudou as inúmeras experiências de educação popular conhece as debilidades. realçando. diante do debate de novos parâmetros curriculares a educação popular coloca à sua disposição dos educadores um arsenal de experiências e de reflexão sobre elas. como MOVA-SP. elas representam tudo o que os homens sempre desejaram superar. organizativas e educativas: a educação popular vinculada aos movimentos sociais. Muitas das reformas tentadas nos últimos anos não se constituíram em alternativas transformadoras dos sistemas educativos. inclusive as fragmentadas e microscópicas. A primeira condição para a análise da realidade. como no projeto de Pais e Filhos em Santiago. no Chile. como a da Nicarágua e a de Granada. Paralelamente a essas tentativas de transformação escolar. a contribuição do paradigma da educação popular. que são construídos socialmente e lidos a partir da teoria. As mudanças tem sido poucas. como diz Paulo Freire no seu último livro: Pedagogia da autonomia. colocando em risco também o desenvolvimento econômico dos países periféricos ou. alguns neo-liberais entoam loas ao "fim da utopia". limitações. As alternativas experimentadas dentro dos sistemas educativos se mostraram insuficientes para modificar a crescente deterioração dos sistemas de ensino. As estratégias reformistas não obtiveram os resultados esperados. Esses problemas não desqualificam a educação popular in totum. seja através de perspectivas culturais ou educacionais. Tentam justificar o status quo por um pragmatismo político que não vê qualquer razão para sustentar ideais de solidariedade ou de possibilidade de outra sociedade a não ser a existente. na medida em que menospreza a luta de milhares de homens e mulheres que. a educação mapuche nos pampas argentinos. heurística. apoiada pelo setor público e pelas organizações da Sociedade Civil e inspirada na melhor tradição transformadora da educação popular. animados pela esperança numa humanidade emancipada. Ao contrário. e um esforço prático descomunal. durante séculos. à comunidade educativa. a educação popular vinculada a reformas revolucionárias do Estado. justiça e eqüidade. políticas. sempre foi movido pela utopia. Diante dessa crise dos sistemas de ensino. Por mais enraizado que esteja no momento presente de perplexidade paradigmática. 9 – A educação popular e o Estado democrático . Resgatá-la de todas as formas. ofereceram um sem número de alternativas teóricas. esse pensamento não deixa de ser iníquo. e a maioria das propostas postula reformas de caráter formal. empenharam suas vidas e sonharam com uma ordem social fundada na justiça. A irracionalidade e a degradação moral não podem ser consideradas pós-modernas. por exemplo. sobretudo após as mudanças ocorridas com a globalização da economia capitalista. Hoje. significa enfrentar a irracionalidade e promover a emancipação. mas convidam a um esforço teórico crítico de maior magnitude. “globalizados” (não-globalizadores). contra a lei da selva. omissões e mitos da educação popular.135 mesmo tempo. sustentados pelo desencanto com os modelos populares e socialistas.

Naquela época a América Latina estava dominada por governos autoritários. E' inegável que só o Estado pode dar conta de nosso atraso educacional. num plano estratégico de longo prazo. Respostas provisórias e compensatórias à ausência do Estado são inúteis. participar do esforço coletivo para a superação do atraso educacional. cabe também. Contudo. O Estado dever ser o principal articulador. esta fadada ao fracasso. principalmente municipais. o Estado. Por isso é necessário construir novas estratégias e parcerias. É uma maneira de caminhar para a profissionalização sem destruir o compromisso inerente ao voluntário. Qualquer mudança radical. uma remuneração. como nos grandes momentos das "campanhas". O setor privado. como vem fazendo atualmente o Instituto Paulo Freire com o “Projeto da Escola Cidadã” em cooperação com governos populares. estando no Estado. fazer exigências aos voluntários (ao nível do horário. Os voluntários e os movimentos sociais oferecem seu dinamismo anti-burocrático. o trabalho da alfabetização. A educação popular promoverá novas alternativas para dialogar no conflito ao postular uma educação estatal vinculada aos movimentos sociais e às organizações não-governamentais. ao militante. Muitas vezes. mas não o articulador exclusivo das políticas sociais. A contribuição pontual. numa democracia. discute-se a questão "profissionalismo versus voluntariado". para valorizar seu trabalho. da produtividade. mas como parceiros. Pois bem. É por isso que nós propusemos aos voluntários cursos e mesmo um pagamento. Muitos movimentos sociais e entidades estão hoje seguindo esse caminho e ampliando o seu potencial de intervenção. efêmera e passageira.). Mas não só. Não é de se . por exemplo. À Sociedade Civil cabe. também não dará conta. é o representante tanto dos setores médios quanto da burguesia e dos setores populares. na Conferência Mundial da ICEA em 1995 (Jomtien. nem a empresa privada tem condições efetivas. Nem a Sociedade Civil. em parceria com o Estado. instituindo novas alianças. no caso do MOVA-SP. é ineficaz. numa perspectiva popular. de enfrentar esse enorme desafio. de modo que possam dar conta do conjunto complexo de problemas concernentes à universalização da educação básica. sobretudo quando nunca foi submetido ao controle popular. etc. Mas isso só é possível quando o Estado é ocupado por partidos políticos que já tenha vinculações efetivas com os movimentos sociais. num Seminário latino-americano de educação popular. para contrabalançar as tendências burocráticas que todo aparato administrativo possui. seria ainda mais perigoso se nós procurássemos transformar voluntários (militantes). em julho de 1990 e. Defendi a tese da necessidade de construir novas alianças entre a Sociedade Civil e o Estado para enfrentar conjuntamente os problemas educacionais da América Latina. principalmente. em funcionários públicos. técnicas e financeiras. a igreja e os movimentos sociais precisam articular-se com o Estado. eu vejo que é muito difícil. Mas. sozinho. em Hamburgo (1997). É preciso um planejamento que compreenda a integração entre as várias esferas de poder. Tailândia) e na CONFINTEA V. dada pela Sociedade Civil. posteriormente. na minha experiência.136 Retomo aqui algumas idéias desenvolvidas numa exposição que fiz em La Paz. As condições políticas e sociais de hoje não são as mesmas que possibilitaram a educação da década de cinqüenta na América Latina e em particular no Brasil. o papel de contribuir na elaboração e fiscalização das políticas educacionais. não como dependentes dele. O Estado. bem como na gestão dos órgãos responsáveis por sua aplicação. mas feita num curto espaço de tempo.

na definição das políticas públicas e de inversão de prioridades. Hoje. dos que tratam de reconstruir as raízes africanas de suas culturas. que é. A título de conclusão: algumas pedras no caminho e motivos para otimismo . A educação popular refugiou-se. parceiros. direitos civil. procurando tornar popular e mais participativa a educação oferecida pelo Estado. Mas tem sobretudo uma nova arma teórica. para enfrentar os novos desafios. então. enfrentar esse desafio. de meninos e meninas de ruas etc. estamos agora na conquista de direitos que nos países desenvolvidos já são realidade há mais de um século. luta das mulheres. Os movimentos populares dos anos 60 e 70 viam o Estado como organizador do bem estar social e a questão era pressioná-lo na medida suficiente e oportuna para obter dele as demandas. na clandestinidade. alfabetização. muitos educadores populares encontram saída na interior do Estado capitalista. mas participar como sócios. Hoje. A grande utopia da educação popular dos anos 50 visava a conquista do Estado e a mudança radical da política econômica e social. Esses numerosos movimentos.e a educação de adultos como parte daquela . novos movimentos vinculados à religiosidade popular. Antes. a parceria. é essencial. se quiser. Na crise da educação popular na América Latina hoje.137 estranhar que a educação de adultos fosse concebida sempre como "alternativa" à educação oferecida pelo Estado. nem de deixar a “mão invisível” do Mercado controlar nossas vidas. abrindo espaço para a construção da educação pública popular. no limiar do novo milênio. com sucesso. autonomia e libertação. O diálogo. De certa forma. Hoje. Não se trata de concentrar todo o poder no Estado. que nasceu da prática da organização popular. uma educação cidadã. mas ganhando em diversidade. Passado esse vendaval autoritário – embora não estejamos a salva de novas tormentas. trazem no seu bojo uma nova concepção da educação popular e do Estado. direitos humanos.tem a seu favor o surgimento das novas forças do poder local democrático (o caso do Município de São Paulo) e também a presença nos aparatos burocráticos estatais de antigos militantes ou simpatizantes do movimento de educação popular. de produção associada. como queriam os socialistas burocratas. a nova visão que esses movimento têm do Estado baseia-se na idéia de construir novas alianças em que eles não querem apenas receber os benefícios sociais. movimentos ecológicos. os movimentos populares tinham um caráter mais revolucionário ou reivindicativo. ao mesmo tempo. por moradia. alguns casos. A educação popular . Para esse modelo de educação popular a conquista do Estado era fundamental. A educação popular nasceu na América Latina no terreno fértil das utopias de independência. a luta contra o analfabetismo tem a marca das organizações não-governamentais e dos movimentos populares. Trata-se de fortalecer as instituições civis independentes e formar cidadãos capazes de controlar o Estado e o Mercado. que propunham um modelo de desenvolvimento baseado na justiça social. na medida em que a injustiça social põe em risco a nossa frágil democracia há maiores possibilidades de colaboração (parceria) com o Estado. entre esses e o Estado. Hoje eles são predominantemente programáticos. perdendo aquela grande unidade teórica. internacional e histórico. nas organizações não-governamentais e. Porém esse processo foi interrompido pela brutal intervenção militarista e autoritária. lutando em múltiplos campos: luta pela terra. Esses pequenos grupos e movimentos são as verdadeiras forças instituintes da nova sociedade. o que assistimos é a educação popular dispersando-se em milhares de pequenas experiências.

vêm abrindo espaços cada vez maiores para a educação popular. para isso precisa remover algumas pedras do seu caminho. Nesse contexto a educação popular deverá responder de forma flexível e dinâmica. a educação popular precisa prestar atenção a esse fenômeno. O campo as carências é bem maior Na educação popular vem diminuindo. religiosidade popular. um academicismo desmobilizador. Da mesma forma. com base na educação democrática e da extensão da educação de qualidade para todos ou se confina na importante. pode levar o paradigma da educação popular a um crescente esvaziamento. Assim. O que já vem se notando pelos relatórios do CEAAL. Por outro lado. Há ainda o perigo de uma polissemia esvaziante (tudo parece educação popular). um certo basismo. na medida em que souber articular a Sociedade Civil e o Estado.educação popular associada à qualidade de vida e ao resgate das condições de cidadania (exemplo: o “planejamento socializado ascendente” ou o “planejamento participativo” como autogestão popular) vieram dar novo alento ao paradigma da educação popular. Como vimos. de outro.. e ampliando o setor informal da economia. Essa é uma carência tanto de qualidade técnica. exigindo renovação constante. existem motivos para otimismo entre os defensores da educação popular: o crescimento das organizações não-governamentais e a emergência de novos movimentos sociais (advocacy groups) e que apontam para um fortalecimento institucional da educação popular.. direitos civis. quanto de qualidade política. principalmente nas . Podemos detectar ainda alguns problemas. as mudanças tecnológicas no mundo do trabalho vem influenciando as relações de produção. uma boa notícia para a educação popular. contudo. ter uma influência mais importante sobre os sistemas de ensino. Há ainda uma carência que é a falta de pesquisas no setor e insipiente formação e capacitação de seus agentes. É condição básica para a sua sobrevivência como paradigma. que precisam ser superados. e. podemos concluir que o conceito e a prática da educação popular está ainda muito vivo e pode. O novo contexto mundial (globalização da economia capitalista e crise do socialismo real) exerce influência sobre as práticas de educação popular. Tudo isso nos mostra que a questão da educação popular não se restringe à educação de adultos ou à educação das classes populares. a ampliação do conceito de educação popular. Poderíamos apontar ainda a crise paradigmática que não atinge apenas a educação popular. nos próximos anos. ao lado da mobilização utilizando cada vez mais a multimídia. não entender uma educação popular como a educação popular. Mas. Portanto. “educação para os excluídos”. mas limitada. Contudo. No campo conceitual. de um lado. ecologia produção associada. valorizando a diversidade cultural (mesmo combatendo a diversidade econômica motivada pela má distribuição de renda). o que exigem cada vez mais qualificação e educação continuada. a interdisciplinaridade e a transversalidade . mas ainda persiste. Nesse contexto a educação popular passa da unidade à diversidade (mosaico de experiências: luta pela terra. À primeira vista isso poderia parecer uma heresia. educação de rua. indígenas. a formação continuada e educação à distância. democratismo e ativismo (antiintelectualismo e anti-teoricismo).138 Numa rápida panorâmica sobre o campo de reflexão proposto pelo GT de Educação Popular da ANPEd. vícios e carências que precisam ser enfrentadas para que sejam abertas maiores possibilidades para a educação popular no futuro. direitos humanos. mas também a educação em geral: a ênfase no discurso crítico-social de análise da realidade sem a contrapartida da atuação prática. A educação popular ou se consolida como um paradigma geral da educação.).

É isso que justifica o seu nome de “popular”. As soluções porém já não o são. como é o caso do Programa de Educação de Adultos (PEA) da Faculdade de Educação da USP e os programas de educação comunitária do Núcleo de Trabalhos comunitários (NTC) da PUC-SP. dos movimentos sociais e populares e dos partidos do campo democrático na busca de alternativas concretas que influenciem a abertura dos sistemas de ensino. a educação hoje de fronteira (de ponta). no passado. será preciso. Mas a educação popular não pode limitar-se à exposição de seus próprios princípios (principismo). A educação popular sempre foi ousada. Rompeu. Ela tem um papel importante principalmente na mudança do caráter da escola. O direito à educação é mesmo que estamos defendendo há tanto tempo. com esquemas rígidos. se constitui num real motivo de esperança para o desenvolvimento da educação popular no país. portanto. Não se trata. formais. Na era da informação. responder com novas metodologias à obsolescência do conhecimento. dificilmente mudará a partir de dentro. a educação do futuro.139 universidades . de onde pode partir a reestruturação curricular e a mudança de mentalidades. a educação para todos.tem aberto fronteiras não só para a educação popular. por exemplo. Não há dúvida de que. essencialmente antipopular. mas se fortaleceu e se desenvolveu toda vez que deu respostas concretas às necessidades populares. como pretende o paradigma da educação popular. de um punhado de voluntaristas chegarem lá na frente sozinhos. A cultura escolar dos sistemas de ensino é. Espera-se que hoje ela possa avançar e romper também com seus próprios preconceitos e que não tenha medo inclusive de superar-se a si mesma. de amanhã. mas também e principalmente para a educação dos excluídos. Na perspectiva da pedagogia da esperança (Paulo Freire). Isso não significa que o debate ideológico não seja importante. necessariamente popular. fiel ao princípio de buscar respostas para esse novo tempo. isso não ocorrerá pela extensão da educação “burguesa”. em geral. a educação popular não se limita a elas. será necessariamente popular. necessariamente excludente. Esse trabalho nas universidades. A qualidade em educação popular é medida pelo atendimento às necessidades do povo. mesmo sendo dirigida preferencialmente para as classes populares. . A educação popular sempre se enfraqueceu e entrou em crise toda vez que se perdeu no debate puramente ideológico. de renovar-se. inclusive através de cursos de educação de adultos. mas por uma outra educação. não elitista. Para que a educação um dia esteja ao alcance de todos. Dessa forma. Daí a importância e o papel das ONGs que tem maior vínculo com a cultura popular. As necessidades básicas de educação é que mudaram e para as quais nem sempre estamos respondendo adequadamente. Trata-se de todos chegarem lá na frente juntos e em tempo. aberto a muitas possibilidades. Os problemas são possivelmente os mesmos.Paulo Freire coordenou na PUC-SP um programa de “educação dos excluídos’ que funciona até hoje .