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um projeto RedeRPG

CirCo de Horrores

suplemento GenériCo de Horror

Créditos

Concepção, seleção e organização: Klaus Rilke Autores: Atailton Miranda, Davide Di Benedetto, Eduardo Zechini, Felipe Augusto Kopp, Guilherme Balan, Jefferson Neves, Klaus Rilke, Lucas Riello de Almeida, Leonardo Zarpellon, Marcelo M. Molinari e Márcio Ivan Coluchi Revisão: Igor “Valente” e Marcelo Telles Capa e ilustrações internas: Alexandre “BAR” Editoração eletrônica: Adriana Almeida

ApresentAÇÃo

Tudo começou com o Klaus Rilke, nosso redator para o Mundo das Trevas da Equipe da REDERPG. Ele viu um material feito por um fórum gringo como este e imediatamente viu que poderíamos disponibilizar algo assim, feito por jogadores brasileiros. A quantidade de contribuições foi menor do que gostaríamos, principalmente do que o Klaus estava prevendo, mas a qualidade do material compensou. Afinal, não é um concurso, não tem nenhum prêmio: é apenas uma pequena e assustadora coletânea de idéias e poesia, para ser disponibilizada gratuitamente. Então, agradecemos imensamente a todos os participantes por suas inestimáveis contribuições. Atrações belas e sombrias de um grande espetáculo aterrador. Como explicou o Klaus, Circo de Horrores é uma coletânea de pequenos contos e sementes de histórias, prontos para serem usados como base para uma crônica, apresentados como parte do passado de um personagem, transformados em cenas para se testar um novo sistema ou simplesmente lidos como uma antologia feita por jogadores de RPG para jogadores de RPG. Então, prossiga, vá para a página seguinte, e prepare-se para o espetáculo.

Marcelo Telles Coordenador da REDERPG

CirCo de Horrores

Atailton Miranda

AberrAÇÃo

A coisa enjaulada é horrenda; uma

aberração humanóide coberta de escamas. Ela me olha com desespero, lágrimas brotam de seus olhos rubros. Ela não é humana, apenas uma mera aberração de circo. Como ter pena? Aperto o gatilho. O monstro tomba

dentro da sua jaula. Ao ver o sangue escuro da besta, eu me pergunto se ela possuía

Não, com certeza ela não possuía!

Feras não têm alma! Fico alguns segundos parado, inebriado com uma estranha sensação. Ouço vozes; os funcionários acordaram com o som do tiro. Saio do meu estado de torpor e rapidamente fujo desse circo maldito, oculto pelas sombras. Hoje estou feliz, pois eliminei um monstro. Sou um assassino. Sou humano.

alma

***

Davide Di Benedetto

FrAGmento 01

Algumas poucas velas estavam acessas

no vasto e ricamente ornamentado salão de

festas de Tântalo, ancião e monarca da cidade

de Sípilo. Com a ajuda da luz argêntea que

irradiava por todas as janelas; fruto de uma mórbida lua obesa, as pequenas chamas feriam timidamente a escuridão com um brilho fantasmagórico.

Do alto do trono na parte mais elevada

do cômodo, o rei observou a mesa posta, guarnecida por um arsenal de talheres e

bandejas da mais pura prata, que refletia

o brilho moribundo do aposento. Cada

miligrama do metal precioso arrancado dos leitos dos rios de toda a Lídia pelas mãos de milhares de escravos.

Ao centro da mesa, uma grande travessa emanava um odor forte de carne cozida que se mesclava e diluía com o cheiro e a fumaça das centenas de braseiros alimentados por ervas aromáticas, queimando nervosamente pela

sala. O rei roia as unhas, se levantando a cada instante. Respirava ofegante. Não era sempre que tinha visitantes tão ilustres.

O primeiro deles chegou, como se na

verdade sempre tivesse estado ali, mais rápido

do que a própria sombra. A meia luz era difícil definir se era jovem ou velho, e mesmo seu sexo era uma incógnita. Em suas costas, asas negras, como as do corvo, dobradas como uma capa, serviam-lhe de única vestimenta. Revelou ser um arauto quando, junto às portas escancaradas do salão, empunhou um poderoso instrumento de sopro do qual explodiu um som trovejante que serviu de anúncio a um insólito cortejo de estranhos seres que foram adentrando o aposento. Um a um. Descidos do topo das montanhas mais altas enevoadas da terra.

Os deuses eram como muitos imaginavam

e ao mesmo tempo perturbadoramente diferentes de qualquer coisa já vista por um mortal. Eram altos e de longas cabeleiras, mas expunham sua nudez pálida e hedionda, os corpos magros quase translúcidos. Tal qual o primeiro a chegar, era difícil distinguir-lhes a idade ou o gênero. Como se fossem frias e incompletas estátuas de mármore; como o primeiro todos também vestiam asas de escuras plumas. O branco de seus olhos, sem pupilas, mesmerizava tal qual fosse um vislumbre do infinito. Tântalo se regogizou com as lembranças do banquete passado, ao qual fora convidado, do doce néctar vermelho e da ambrósia rubra que havia provado. Isso fora há mais de cem anos. Hoje era sua vez de retribuir o generoso convite.

FrAGmento 02

A mitologia grega está repleta de lendas e histórias onde o tabu do parricídio, infanticídio,

canibalismo e do sacrifício humano aparecem

representados. Casos como o de Tântalo, o rei

da cidade primordial e dos pelsagianos, e de seu

neto, o rei Lycaon de Arcádia, ambos condenados a maldições terríveis por terem sacrificado seus filhos primogênitos e por terem tentado

ludibriar os deuses. Sobre o mito de Tântalo, é exemplar este fragmento recém descoberto em um monastério do que parece ser uma versão de As Metamorfoses do autor Ovídio em grego arcaico. Se testes confirmarem, essa pode ser

a obra que originalmente inspirou o poeta

em seu trabalho, que em verdade seria uma tradução ou adaptação para o latim. De acordo com o arqueólogo e pesquisador do oculto Dimitri Tatopolus, os versos podem lançar uma nova luz sobre os significados dos jogos e rituais em homenagem a Zeus que ocorriam ao redor do Monte Likayos na Grécia. “Nessa conjectura,

o sacrifício deixa de ser uma oferenda e passa a ser

uma afronta direta ao poder divino. Isso nos dá um vislumbre do que pode ter sido a manifestação de uma crença na luta prometéica da humanidade contra o despotismo das entidades sobrenaturais.” Esta é uma tradução livre em português de um trecho publicado pelo site da Sociedade Geográfica Internacional na terça feira passada:

Um a um os estranhos seres adentraram o salão do velho rei Tântalo. Um a um eles ocuparam os doze lugares vazios na mesa do banquete. Um a um. Sem gestos ou palavras. Um a um. Sem cortesia ou cerimônia. Debruçaram-se sobre o farto alimento. Mastigaram vorazmente a carne suculenta. Deleitaram-se ao sorver seu suco ferroso.

E quando se saciaram.

Das doces e tenras carnes humanas. Do príncipe e primogênito. Um a um. Sem gestos ou palavras. Um a um. Sem cortesia ou cerimônia. Desapareceram. Como se nunca antes tivessem estado ali. Velho tolo. Tua oferta recusada. Velho tolo. Toda tua estirpe amaldiçoada. Com a fome e a sede eternas da vingança. Uma a uma as almas da tua prole. As trevas do tártaro condenadas.

FONTE: Blog Maleus Maleficarum, 06/10/2002.

FrAGmento 03

A série de mortes que nos últimos dias

vem aterrorizando o pequeno município e intrigou todo país, adicionou hoje mais uma vítima, o professor de química Marcelo Antonneli, 40 anos. De acordo com o delegado local, Hélio dos Santos, o mesmo padrão das duas mortes anteriores: a do morador de rua Francisco “Chico Louco” dos Reis (32 anos) e da estudante Larissa Duarte (16 anos). A escultura no gelo é uma forma de arte hoje já bem conhecida graças a inúmeros e-mails de aficionados que circulam pela internet. Já praticada por esquimós, escandinavos e chineses, ela é hoje praticada ao redor de todo o mundo, nos mais diversos países e locais de clima frio do globo em grandes concursos sazonais. Castelos, palácios, estátuas megalíticas e formas de animais embelezam esses eventos de lirismo pós-moderno: no verão todo o gelo se desfaz e

as obras literalmente evaporam. “Essa é uma nova

forma de arte performática, o efêmero não pode ser

tolhido pelos ditames mercadológicos do capitalismo. Não são produtos. Experiência única e subjetiva, uma vez desfeita a obra só pode ser rememorada em foto” diz o artista plástico sino-americano Dingxiang Cheung (vencedor pela terceira vez consecutiva do Festival do Gelo de Oslo na Noruega). Essa arte ornamental já se encontra acessível aos brasileiros em livros de culinária especializados, que prometem dar aquele toque

a mais a suas bebidas e sobremesas naquela

próxima reunião de amigos na sua casa. =) O professor, homem solteiro e recluso, foi

encontrado morto pela empregada diante da casa,

] [

como

os outros corpos foi encontrado com todos os seus pertences, sendo a única evidencia de agressão física uma grande perfuração na altura do peito e outra no pescoço. Os peritos encontraram os ferimentos molhados bem como pequenas gotas de água ao redor das vítimas. É a “Adaga Polar”. Foi aperfeiçoada por um antropólogo inglês. Basta água e, um freezer. O processo é similar ao cultivo de uma estalagmite e requer paciência. Esculpir, de modo a torná-la útil requer horas de dedicação e o transporte com cuidados especiais. Aqui tem um link de um vídeo no Youtube que explica:

junto à porta de entrada que estava aberta, [

]

http://www.youtube.com/watch?v=odFEhp46z

] [ os locais onde as vítimas foram encontradas FrAGmento 04 sugere que possivelmente conhecessem
] [
os locais onde as vítimas foram encontradas
FrAGmento 04
sugere que possivelmente conhecessem o agressor, e
possíveis suspeitos já começam a ser investigados. O
delegado advertiu “Tranquem bem portas e janelas e
não saiam de casa desacompanhados”.
Era a noite antes do Natal, quando por
toda a casa nem mesmo uma única criatura
se movia. Nem mesmo um rato. Isso porque a

grande casa de fazenda estava abandonada. E quanto aos ratos Vindo do meu quarto, no andar de cima, desci devagar as escadas e contemplei por um momento o saguão de entrada deserto; a porta

aberta. O relógio marcava quase dois minutos para meia noite. Já era hora. Eu estava atrasado. Não, não havia estúpidas meias penduradas na lareira, ou um copo de leite morno com biscoitos feitos no forno pela mamãe em cima da mesa. Não havia neve lá fora, no jardim. Principalmente aqui, nesse hemisfério.

A TV não estava ligada naqueles

mentecaptos especiais que assolam a programação de fim de ano, com seus papais noéis, renas, grinchs verdes, adaptações inglórias de Charles Dickens, filmes da Xuxa e versões superficiais e deturpadas da moralidade cristã. Nenhuma peça na história do audiovisual foi capaz até hoje de captar a

sagrada essência dessa data, que há gerações e mantida pela nossa singela devoção. Não, não havia nenhuma dose profana de todo esse parvo sincretismo consumista

e hipócrita em nosso lar. Eles haviam

roubado a santidade daquele feriado e agora nós o levávamos de volta a sua raiz. Ao

seu puro júbilo fraternal. Ao resgate de seu verdadeiro significado. Atrás da casa, lá longe em meio à mata,

o presépio festivo começava. Uma centena de velas vermelhas queimava vivamente

iluminando meu caminho. À distância já podia

se ouvir a música alegre e contagiante. Amo a

minha família. Já podia ouvir. A lira e a flauta dos foliões. As gargalhadas bêbadas de vinho dos anciãos. Os gemidos abafados dos amantes.

Em frente ao altar já podia imaginar a saborosa

e tenra carne na fogueira sendo repartida entre

todos, descendo pela garganta até os estômagos

efervescentes pela bebida. Qual peregrino teria

se submetido à honra do sacrifício este ano?

Era sempre uma agradável surpresa. Corria pela trilha sentindo meu coração explodir de ansiedade. Deixei minhas roupas penduradas numa árvore. Na clareira minha irmã mais velha me esperava. Seu lindo corpo juvenil e completamente despido. Apenas o

seu rosto coberto pela máscara carnavalesca e

a

longa cabeleira vermelha.

Ela

se aproximou de mim me abraçando

e

deixando que eu acariciasse seus fartos seios.

Junto ao meu ouvido sussurrou:

Ho Saturnália! Feliz Natal!

FrAGmento 05

Eles sempre fazem tudo errado nos filmes de terror. Seguimos os ruídos vindos do bosque, é verdade, mas verdade mesmo é que qualquer cidadão “de bens” comum teria saído o mais rápido que pudesse dali, dados os eventos das últimas noites e ligado para polícia, o que já havíamos feito prontamente. Ótima cobertura de celular. Nós, é claro, não somos cidadãos, muito menos de bem ou o que se dirá “comuns”. Somos profissionais. Estamos aqui por motivos de trabalho. Quem somos nós? Segredinho. Na encruzilhada ninguém dá a patética sugestão de se “separar” para cobrir “uma área maior”. Nossa formação é estratégica, espartana. Não gritamos histericamente pelo resto de nossos companheiros que entraram na mata, cerca de meia hora atrás. Sabemos que já estão mortos. Cabe determinar pelo quê. Qual tipo de vorvolaka nós estaríamos enfrentando desta vez? Lobisomem? Vampiro? Muito óbvio, muito fora do modus operandi. O Marinho sugere um Saci. Maldita cultura popular, penso. Escutamos um ruído, não esperamos para ver se é um gato ou algum infeliz

sobrevivente, abrimos fogo de imediato. Como é que se derrota essa coisa? Bata duas vezes mais rápido e duas vezes mais depressa porque você não vai ter uma segunda chance. A nossa vanguarda cai na primeira onde de choque. Tragados por um redemoinho.

A

gargalhada demoníaca se espalha pelo ar.

O

Yuri passa a mão no lança-chamas. Tento

gritar, mas tarde demais: o tanque explode

e as chamas levam todo nosso meio-de-

campo. Malditos amadores. Atiro-me ao chão em espasmos de epilético para tentar apagar as chamas. Deite e role. O que sobra da nossa retaguarda volta cambaleando até um dos carros. É só um olho, senhor! Com metade da visão, dou a partida no veículo. O motor não morre, parte rosnado na primeira ignição. Devagar demais. Disparamos pela estrada e logo saímos daquele cafundó.

Os rapazes berram e gritam obscenidades lá atrás. Amadores. A Coisa nos abalroa e manda o Landcruiser para fora da estrada. Não se esqueça de usar o cinto. Um Air Bag acionado é quase uma ironia cósmica quando há um quilograma de fuselagem nas tuas entranhas. Meu corpo adormece à medida que o sangue jorra pra fora, o resto de minha visão começa a se turvar. Por um minuto acredito com um sorriso no rosto estar ouvindo o barulho de sirenes de carro de polícia. Lembro então que infelizmente a vida não é como nos filmes.

***

Eduardo Zechini

Ele já enfrentou as criaturas mais temidas do reino. Algumas ele aniquilou com as próprias mãos e os próprios dentes. Mas agora ele galopa em seu cavalo com o terror estampado na face. O cavalo corre o mais rápido que consegue. Aquele que o persegue nunca foi temido porque nunca foi conhecido. Nenhum documento humano de magia branca ou negra jamais registrou sua existência. Apenas os arcanjos mais graduados do sétimo céu ouviram rumores. Dizem que quando o arcanjo traidor foi lançado nas profundezas do abismo, o primogênito dos demônios encontrou na escuridão uma criatura que lá habitava desde antes, desde sempre. Ele quer que o animal corra mais rápido, mas o cavalo exausto tomba na areia. No horizonte não há montanhas. Não existe fim na planície que ele percorre. Ele abandona a inútil espada e corre sozinho, em cima de um plano infinito, sabendo que nunca chegará a lugar algum. O ruído, aquele ruído indescritível, causa-lhe insanidade, um temor além daquele que uma alma humana é capaz de suportar. A luz acaba e ele corre sem ver, como cego, tropeçando e levantando. Mas seu perseguidor o alcança. Ele sempre esteve ali, adiando. O humano deseja a morte, mas ela nunca chegará. Nunca! O humano então enfrenta aquele estado de existência que é proibido pronunciar, e assim permanecerá em dor, dilacerado para sempre, de dentro para fora, vivo por toda a eternidade em agonia, em

um grito que nunca cessa para retomar o ar dos pulmões. Pulmões que já não respiram, apenas doem entre seus próprios dentes, espremidos na boca que já não é mais boca, enquanto o grito, por toda a eternidade, permanece.

***

Felipe Augusto Kopp

HumAno, demAsiAdo HumAno.

[Um miniconto para espíritos mortos]

Percorro aquilo que um dia foi uma cidade. As ruínas de um arranha-céu – o gigante de concreto morto; o mar de lixo a perder de vista; a ossada de um cachorro, ou quem sabe de um menino. Olho para cima e vejo aquilo que um dia foi um deus. Um céu cinza; uma nuvem corrosiva diluindo pássaros; o sol assassinado. No entanto, em um pedaço quebrado de espelho a maior surpresa. O reflexo me revela aquilo que um dia foi humano.

Além dAs CerCAniAs do senHor

17/10/1666

Senhor Deus, o mosteiro em que me puseram está distante de Teus domínios. Estou convicta de que este não é o Teu reino sobre Terra. Um dia, contudo, Tu reinarás absoluto e encontrarás estes escritos. Lembrar-se-á então da alma de tua filha.

18/10/1666

Quando digo que este não é Teu reino, Senhor, não blasfemo. Coisas horríveis acontecem aqui e eu não sinto mais a Tua presença.

20/10/1666

Ao que parece a irmã Nize foi violentada ontem, por quatro homens, quando saiu para buscar água. Talvez eu tenha ouvido seus gritos; ou talvez fossem apenas animais selvagens. Dizem que seu estado de saúde é grave. Tende piedade de sua alma, Senhor. Tende piedade de nós todos.

21/10/1666

Thereza contou-me sobre o padre Benjamin e sobre os restos de madeira queimada que estão no pátio. Ele foi condenado à fogueira por freqüentar a cela de uma das irmãs durante as noites. Não quiseram revelar-me o nome da irmã, apenas disseram não estar mais entre nós.

22/10/1666

Terrível!EncontreiocadáverdeNizequando

busquei água esta manhã. A Madre proibiu-nos de prestar-lhe auxílio alegando que o Mal adentraria

o convento em seu corpo condenado. Seu hábito

rasgado não lhe cobria nada; e o sangue coagulado no rosto e entre as pernas fizeram-me vomitar. Quis proteger seus restos do ataque dos animais selvagens, mas tive medo de tocá-los. A alma dela fica em Teus cuidados.

26/10/1666

Meu Bom Deus, posso garantir do fundo de meu coração que Thereza não pecou contra

a própria vida. Tenho absoluta convicção disto, por mais que a Madre macule seu corpo, ou pragueje acusando-a de suicídio. Perdoa a Madre também, ela está cansada de tudo isto. Somos apenas eu e ela agora.

31/10/1666

Pai, por que me abandonaste aos piores

suplícios?

Não pude ver quantos foram… doze…

talvez mais. Invadiram o convento e destruíram as portas de minha cela. O que fizeram comigo nem ao menos pode ser descrito… ainda sinto toda a sujeira deles dentro de mim… não eram homens, vi em seus olhos… eram demônios…

demônios…

Sinto que estes demônios ganham vida em meu ventre.

*Anotações encontradas nas margens de um livro de orações do século XVII em um convento medieval descoberto recentemente no interior da Itália.

***

Guilherme Balan

Eu vi vocês brincando de “o que causa

mais horror em alguém” e em mim eu sei bem. Já devem ter lembrado desses filmes horríveis que colam na nossa retina e aparecem quando

a gente fecha os olhos. Também já assisti tudo

isso que está na internet: tiro na cabeça, gente pegando fogo, desmembramento. Assisti Faces da Morte e li as histórias de “serial killers” famosos. Mesmo assim, o que eu vou contar pra vocês arrepia minha espinha toda vez que me passa pela cabeça. Imaginem qualquer coisa

horrenda correndo atrás de vocês ou de seus familiares e fazendo seja lá o que for, que vocês não vão chegar nem perto disso. Porque o que vou mostrar é que não precisa haver “coisa” nenhuma pra se morrer de medo. Claro que vou falar de horror pessoal, mas não vou envolver maldições ou problemas de cabeça. Nem morte de parente, possessão, acesso de raiva. Se colocasse a mente contra a pessoa já teria de novo uma “coisa”. Mas o meu pesadelo é sobre mim mesmo, mais nada. Nem

o Nada, isso seria ridículo. Estou falando sério.

Eu tenho esses arrepios todos só de imaginar eu sendo tomado por isso que eu vou narrar a vocês e espero não tornar a vida de ninguém pior daqui pra frente, mas quero que conheçam

o que tira meu sono. Eu resolvo relaxar, como seu fosse me desligar, mas começo a entrar em um estado estranho. Minhas memórias não se conectam mais direito e não entendo mais nada, como se demorasse pra processar os detalhes. Não consigo mais lembrar do que acabei de fazer ou do que tem em volta de mim. Minha visão embaça e fico tonto, com a cabeça vazia, sem reconhecer nada. Tudo some. Eu fico assim paralisado por uns segundos ou algumas horas. Acordo de uma vez e os calafrios começam. Preciso repassar tudo, quem eu sou, o que fiz. Já morri muitas vezes, é o que penso. Eu continuo em choque, não me conformo. Meu maior desespero é que a minha morte de verdade chegue num momento em que eu não lembre que estou vivo. Seria muita covardia, não consigo pensar em horror maior do que esse. Pode ser um truque da mente, mas funciona muito bem. Estou sempre com medo. ***

Jefferson Neves

provérbios

Ele nem mesmo viu a coisa, mas o som daquilo já foi o suficiente para fazer o coração do jovem bater em um ritmo primitivo, o ritmo que fala ao que há de mais irracional no ser

humano, aquilo que o faz saber de imediato quem é caça e quem é caçador.
humano, aquilo que o faz saber de imediato
quem é caça e quem é caçador. Reconhecendo
o seu lugar, Josh correu pelo mato molhado
de orvalho, pensando apenas em sobreviver.
Sabia que a coisa estava atrás dele, seguindo
lentamente pelas sombras, espreitando à
espera de um único vacilo.
Não havia muito que fazer. Em sua
histeria de pavor, Josh nem se lembrava mais
em que direção havia estacionado o carro.
Puxou a faca da bota e agachou-se atrás de
pedras frias; tudo era frio naquele momento.
Algumas folhas cumpridas de mato roçavam
a pele do rapaz e aquilo lhe causava arrepios

seguidos, além de sustos, vendo assombrações em cada canto dos olhos. Por alguns segundos não se ouviu nada, apenas o vento arrastando o mato e fazendo-o dançar a seu bel-prazer. Os olhos do jovem arderam e ele parou de segurar as lágrimas, e não foi só de medo, mas sim por ver o rosto do avô em sua mente, desapontado com sua ação de

ter aberto o maldito casebre da fazenda. Passou

a mão diante dos olhos, procurando recuperar a

concentração

que irrompeu da garganta de Josh foi quase

mudo, mas o suficiente para fazê-lo ferver e até mesmo sangrar. A coisa que ele soltou era completamente inumana, sem definição e sentido. A mente parecia rachar-se ao vislumbrar a criatura inimaginável. Algo que simplesmente não deveria existir, algo inominável. A psique frágil era incapaz de assimilá-lo da forma que realmente era e por isso repudiava, tentava fugir, tornando-o um mero animal acudido. Pior que isso, tornava-o um animal acuado e louco. Incapaz de encarar aquela quebra total de realidade, que reduzia tudo o que era normal ao pó, a faca foi usada. Segurando-a firmemente no cabo deu apenas dois golpes, um em cada olho, para poupar-se da visão do massacre que viria a seguir. Sua garganta ainda sangrava, por aquele grito de desespero, e a única coisa que ecoava naquela paródia de mente com uma mera fagulha

de raciocínio era o provérbio do avô: “segredo

melhor guardado é o que a ninguém é revelado”.

Mas já era tarde demais. O grito

preÇo dA vinGAnÇA

Primeiro, ouvi o som do metal sendo arrastado. Calma e pesadamente, como alguém

que grita em agonia sem ter a menor esperança de ser ouvido. E o caso era realmente esse.

A figura trôpega que se revelou da neblina

carmesim era algo que cansou de sofrer. Algo quebrado e que não sente nada. Em meio à dor eterna, a figura marcada por chagas teve sua epifania macabra. Um corpo pálido, musculoso

e cheio de cicatrizes de ferimentos dilacerantes, cambaleando por corredores vazios, arrastando uma longa arma de execução Executor, é isso o que ele é. Mas do que vale ser um executor, se não existem vítimas? Apenas bestas, tão horrendas

quanto ele, assombravam os corredores da cidade

cinzenta. A coisa precisava de carne jovem, carne fresca, para saciar seus desejos sádicos. Desejos descobertos nas dores dos outros. Isso pouco importava, ele pagava todos os seus crimes minuto a minuto, carregando aquele aparato de tortura em sua cabeça. Os passos lentos eram

motivados apenas por isso

As luvas brancas encardidas davam a ele um ar de cirurgião que logo era quebrado pelo avental de açougueiro enegrecido pelo sangue velho de vítimas passadas. Por mais horror que seu aspecto me causava, minha devoção era evidente ao vislumbrar toda sua grandiosidade. Continuei prostrado no chão, em completa servidão, certo de que meus pedidos seriam atendidos. Todos os preparativos haviam sido feitos. A carne virgem estava preparada, dopada sobre o altar de mármore, e, assim que a figura imensa passou ao meu lado, pude confirmar que o som de metal não vinha apenas da arma ao chão, mas também do interior daquele tributo à dor que ostentava em sua cabeça. Não ousei olhar mais. Nem meio segundo se passou e o salão escuro foi inundado por uma cacofonia de vozes atormentadas, todas guiadas por uma única melodia. A que saia da boca do corpo virginal do altar. Não pude evitar chorar, extremamente emocionado por ter o privilégio de presenciar aquela cena abissal. Eu teria minha vingança assim que minha pequena filha terminasse de satisfazer o Anjo do Senhor. ***

Dor.

Klaus Rilke

memoriAm

Eu lembro de chegar aqui. Não de vir. Eu lembro de não saber nem pensar; eu lembro de não lembrar de nada. De repousar tranquilo e seguro em uma prisão de puro breu. Lembro de ser expulso, de dor, susto, desespero, luz – menos luz! Fui arrancado de meu próprio ventre, encharcado em pânico e sangue e suor e medo. Lembro quando apenas sonhava. Acordado ou dormindo, entendia tudo como uma valsa em que cores cortejavam sons e rodopiavam pela minha mente, ainda fraca, ainda assustada. Quando fecho os olhos vejo

os dançarinos rodopiando com uma leveza

delicada que logo evolui em uma violência sutil

e ágil, seus passos cada vez mais próximos de

mim; ainda fraco, ainda assustado. Eles riem

e sorriem uma alegria selvagem que remete a

monstros em becos e cantos. Cumprimentam-se, abraçam pares e logo se unem a um baile em que todos usam uma mesma máscara. Minha face escondendo milhares de faces. Lembro de ser posto em uma forja, um pequeno verme sob os cuidados de um Hefesto que não mancava nem hesitava. Seus golpes eram precisos e eficientes: com cada martelada uma parte de mim morria, mas nunca o todo. Eu ofegava no calor infernal da oficina, mas ele nem sequer suava. Havia certa graça em sua brutalidade, e ele também se uniu ao grande baile, deslizando sozinho entre os outros convidados. Vez ou outra se rendia aos seus instintos e, com uma fúria imbecil, punha abaixo uns sonhos aqui, uma lembrança ali; máscaras e sangue enfeitando e salão. Lembro de crescer, cada passo um metro. Em pouco tempo estava alto demais para ouvir, para pensar ou ser; os passos continuavam e isso importava. Um ou outro me escalaram na esperança de se comunicar comigo. Chegavam até meus ouvidos, gritavam qualquer coisa, esbravejavam, se desesperavam. Há muito que eu havia me perdido no salão, ensurdecido pela intensidade dos dançarinos incansáveis. Apareciam novos a cada dia, mas eu estava absorto demais para ouvir, pensar ou ser; apenas dançava de olhos fechados, cada passo uma vida. Eu lembro de filhos. Lembro de netos. Lembro de suas gargalhadas e choros e birras e amores e dores e nascimentos. Lembro de suas mortes. Via a mim mesmo em cada um deles, eu usando máscaras diferentes assim como os dançarinos me vestem como esconderijo e disfarce. Cheguei a imaginar se eles também não sonhariam com cores, sons, emoções, sensações, ideais e memórias em uma celebração hedonista suprema, mas lembrei que isso não era sonho. Era eu. E eu, eu lembro de chegar aqui. De sentar em uma poltrona, parar de correr, parar de andar. Não queria vir pra cá; não queria esse maldito grego em minha mente destruindo os poucos pedaços de vida que me restam; não queria ter me distanciado tanto de todos os outros; não queria essa horda de sátiros e demônios ao meu redor me convencendo a aceitar e apressar o fim. Pela

última vez, fecho os olhos e o mundo, escapando para dentro de mim mesmo. Eu busco um modo

de fugir do inevitável, de recomeçar ao invés de

terminar. A música toca cada vez mais alta e só

resta uma pessoa no salão. Ela tira sua máscara, e é como se eu olhasse em um espelho. Não há mais para onde ir.

Nós começamos a dançar e

finalmente reconheço a melodia que sempre me envolveu. É meu réquiem. Esqueço.

***

1, 2, 3, 4

Lucas Riello de Almeida

CAÇAdA

A cadeira vazia no centro da sala.

Ela contara, da entrada da velha casa até ali, sessenta e seis passos – com seus pés

pequenos, descalços e trôpegos. Cruzara um pequeno portão de madeira

e atravessara, descuidadamente, um quintal

poeirento cheio de pedras pontiagudas e cacos

de

vidro espalhados. Algo restara de seu braço esquerdo, como

se

o tivesse arrancado da boca de um leão, após

ter sido abocanhado. A débil mão retinha as unhas cravadas sobre si, como tentasse, à tênue força, adestrar o medo. As janelas deveriam ser lacradas de dentro para fora. Nem através delas algo poderia penetrar.

O sangue lhe escorria pela face, descendo

pelos braços e pernas, acabando por misturar-se com as lágrimas no chão. Como lançava o corpo

contraapesadaporta,escorregounapoçavermelho-

coalhado e bateu com a face no assoalho duro. Ouviu uivos enraivecidos e algo similar a corpos rastejando velozmente, vindo da entrada. Num gemido fraco, fazendo vibrar seus ossos

quebradiços, levantou-se e conseguiu cerrar a porta. Com as mãos empapadas de sangue esboçou algo na madeira velha e ao redor do batente. Como não soubesse mais o que fazer, esmurrou o olho- mágico, de modo que trincasse, impedindo-os de ver – não podia ser vista até sair. Pancadas começaram a ressoar com ódio, do outro lado. Um ruído lancinante invadiu o ambiente, como algo tentasse romper a parede, em direção

às janelas.

Desesperadamente, pôs-se a rasgar a

roupa em longas tiras, apenas com a mão direita, tendo os braços a tremer de medo, fraqueza e frio. Apesar de tudo, o frio ainda conseguia penetrar por aquelas paredes, alcançando-a pelas entranhas. O choro aumentou. Duas veias translúcidas escorriam de seus olhos tépidos amornando seu rosto magro. Chorava pelo desconhecido que era enveredar por esta trilha maldita. Mas também pelo consolo do que carregava. Era agora. Soergueu a face ao teto e, subitamente, a pálida luz amarela recolheu seu brilho pueril. Do escuro, escondida pelos ruídos do lado de fora, sua voz soou, quase emudecida.

As janelas, tremendo fortemente, estavam

fechadas com restos de sua roupa, que continham símbolos bordados toscamente. Depois de muitos instantes, quando eles finalmente destruíram a porta, encontraram apenas o corpo. Silêncio Somente uma silhueta vaga a mover- se lá dentro, a sombra de um pêndulo. Os pés, oscilando, a meio metro do solo.

A cadeira vazia, tombada no centro da sala. Enfureceram-se! Ela fugira com a jóia. ***

Leonardo Zarpellon

A bailarina, que ilumina e encanta os

lugares mais tristes e distantes Aquela vitrola velha rangia seus dentes para continuar tocando as mesmas músicas melancólicas e vagamente alegras que o circo fazia questão de tocar na esperança de atrair algum público. Há quem gostasse dela, ou que pelo menos tivesse alguma recordação do passado ao ouvi-la um pouco; todas lembranças tristes, todas lembranças mortas. Havia quem gostasse inclusive de dançá-

la, como a bailarina que surgia de vez em quando.

Branquela de tanta maquiagem, mas finamente

vestida, como uma bonequinha de porcelana.

Não havia quem não ficasse de olhos arregalados

ao vê-la dançar e sorrir. As dançarinas sempre

dançam com perfeição aquela música, mesmo que não tenha público, mesmo que não tenha música.

Sempre uma música triste, sempre uma pessoa que goste.

Nas entranhas do mundo, aonde a única coisa que chega além do inverno é o circo, uma

garotinha deixa de ver a bailarina durante um instante, para pegar o confeito que deixara cair no chão, abaixo das altas bancadas. Lá, ela percebe de longe um velho em seus trapos, sorrindo e rindo com uma caixinha de música em seu colo, admirando a pequena dançarina. Satisfeito com a música e a dançarina, ele fecha devagarzinho a caixa; a garotinha percebe que a música do salão, assim como a dançarina, encerram sua arte simultaneamente. A menina criativa pensa que a música do circo sai daquela caixinha de música, quem acreditaria? O velho observa-a e se aproxima em silêncio, com um sorriso mórbido na face. Sempre uma garotinha bela, sempre uma dançarina nova. Ele abre a caixinha, arranca a pequena bailarina de dentro e a arremessa para longe. Aquilo cresce de forma grotesca, imoral, vulgar. Assume a forma de uma mulher, como uma boneca. Não era uma bailarina bela e

Era um corpo inerte, mutilado,

violentado. Não havia pés

bem vestida

Não havia mãos

Não havia boca. Não era jovem, nem viva, nem morta. Muito menos feliz. O velho caminha lentamente para a menininha e dá corda para que a música volte a tocar; a garotinha se contorce, seu corpo se quebra por dentro, seus gritos são silenciados pela música; A bailarina dança, o velho sorri. A platéia se encanta com a beleza da dançarina, perfeita, bela, sorridente. Sempre uma música triste, sempre uma dançarina nova. Quanto ao circo, a música não para ***

Marcelo M. Molinari

A CAsA no bosque

Marco estava com muito medo. Ele farejava o ambiente em busca de pistas. Sua mão suava muito em torno do gatilho da besta de repetição. Poderia disparar doze flechas em questão de segundos. Ele era um excelente atirador. Andava com cautela naquele

descampado, o terror empesteava os ares. Sua

cauda oscilava trêmula no ar. A capa esvoaçava lentamente com o vento pouco intenso do fim

da tarde. Um capuz escondia sua face de roedor.

Um observador conseguiria ver apenas parte do

focinho e a massa de bigodes, jamais os doentios olhos âmbar. Suas botas eram de canos longos, esverdeadas e marrons. Ele amava suas botas tanto quanto adorava suas bestas e adagas. Em seu cinturão haviam duas grandes facas embainhadas. Em uma bandoleira, diversas adagas menores e balanceadas poderiam ser atiradas. Marco olhava para a enorme casa. Ela estava a mais de trinta metros. Precisava ser certeiro. Um erro e estaria morto. Havia algumas árvores até a casa. Em uma delas Marco percebeu que havia dois corpos de raposas mortas, enforcadas, em um dos galhos. Em outra árvore, maior, havia dois grandes texugos, mortos da mesma maneira.

A porta da casa e as janelas estavam abertas.

Elas dançavam com o vento. Não se percebia qualquer criatura viva. Marco aproximou- se lentamente dos texugos que estavam mais próximos a ele. Olhou durante alguns instantes para seus rostos, misturas de branco e negro. Pobres animais. Marco lembrou de velhas

histórias infantis. Histórias de texugos sábios e raposas astutas. Era uma cena nauseante. Viu vermes e escaravelhos que se amontoavam para começar o banquete sobre a carne morta. Foi quando aconteceu. O texugo sorriu para Marco. Em um sobressalto o corpo do roedor tremeu, um relâmpago repercutiu em suas vísceras. Sentiu um grande golpe nos joelhos, ouviu gritos e urros de animais. Uma poderosa pata

o atingiu na cabeça. Lembra-se apenas que

disparou três setas em direção ao texugo. Uma delas acertou seu ventre. Aturdido no chão, escutou risos medonhos e o farfalhar de folhas no chão. Via vultos ao seu redor. Havia uma imagem maior, diferente das outras. Marco tinha certeza que era ele. O maldito havia sido mais rápido. Um sentimento repressivo tomou o grande atirador. Um lapso de retorno a memórias de crianças era suficiente. Talvez morreria de maneira tortuosa ou ficaria preso como um criminoso em um calabouço. Previu um triste fim.

***

Márcio Ivan Coluchi

Aborto dos deuses

Que alma cruel seria capaz de fazer algo

assim?

Coisas rastejantes. Coisas, pois embora sejam feitas de carne ou algo próximo disso, não há ninguém no mundo capaz de chamá-las

de seres. Algum instinto primitivo as atrai para a luz e foi assim que se mostraram ao mundo:

atacando viajantes ao redor de fogueiras e invadindo casas iluminadas nas partes mais afastadas das vilas. Não é difícil perceber que elas se aproximam, são desajeitadas, algumas com pernas demais outras com nenhuma. A maioria com bocas ou cavidades guturais que lamentam

e gemem e cospem e mordem. Mas vê-las é

exatamente o que não deve ser feito porque

qualquerhomemcomomínimodesanidadesente

calafrios tão profundos que seu corpo estremece diante dessas “coisas que não deveriam ser”.

Esse rápido momento de hesitação gerado pelo

pavor é o suficiente para que elas se aproximem das vítimas e arrastem-nas para as sombras. Os relatos dos ataques começaram esparsos e infrequentes, mas pouco a pouco, como se o números dessas criaturas estivesse crescendo, as investidas foram aumentando. Surgiam estabanadas, horrorizando e agredindo, para então carregarem suas vítimas de volta

à escuridão – da onde nunca retornavam. Não

demorou os aldeões nos chamarem. Nossos nomes já eram sinônimos de valor

e bravura, nossas armas requisitadas sempre

que uma calamidade se aproximava. Somos exploradores experientes e o que ocorreu daquele momento até este são detalhes, como fizemos a armadilha, como seguimos as criaturas até um templo sem portas, aconchegante e isolado do mundo, as coisas hediondas que matamos, que ouvimos e sentimos Agradeço agora por termos visto todo aquele horror, pois é só a insensibilidade do terror diluído que está mantendo firme minhas pernas. O terror de saber que as vítimas sequestradas sempre retornavam, mas não na forma que eram conhecidas antes. O terror de descobrir um templo, um berço, moldado para guardar o resultado de uma união profana. Vivo e eterno, ao mesmo tempo incompleto, com o poder de

criar, mas sem o poder de ser, moldando coisas a sua imagem e semelhança. Sem
criar, mas sem o poder de ser, moldando coisas a
sua imagem e semelhança. Sem crueldade, sem
maldade e mesmo assim aterrorizante.
Minhas armas estão prontas, meus
companheiros se sacrificaram para que pudesse
chegar até aqui e ceifar o mal. Não encontrei um
vilão nem um monstro, apenas uma coisa, um
aborto dos deuses. Minha espada paira sobre ele
e eu me pergunto: tenho eu uma alma cruel o
bastante para fazer algo assim?
A CoroA de KÔnninGAr
Esta é a história de um grande rei e de
como ele amaldiçoou o que mais amava.
Este rei, que eu chamarei de Kônningar,
nasceu como um belo príncipe – assim como
nascem todos os reis. Sua beleza, força e
destreza tornaram-no, ainda muito jovem,
um cavaleiro habilidoso e carismático. Ele
era adorado pelo povo e muitos admiravam
suas virtudes, pois nem todos possuíam seus
dotes. Era o caso do rei, que não tão jovem
nem tão formoso quanto o filho, sucumbiu em
uma epidemia.
E foi assim, tendo que
enterrar o pai e liderar um
povo doente, que Kônningar foi
coroado rei. Ele buscou ajuda dos
sábios, abrigou o povo, ofereceu
recompensa a quem encontrasse
a cura e nada disso diminuiu
a dor e a morte. Ele era
uma estrela radiante em
um pântano de corpos
putrefatos.
“De que me
adianta a coroa, se
não posso ajudar
meu povo? De que
adianta ser forte,
se meu vigor serve
apenas para que eu viva
vendo-os sofrer?” eram os lamentos
do rei. E com estes pensamentos ele
tomou uma decisão. Procurou pelos
mais poderosos e reclusos feiticeiros
para que forjassem uma coroa, mas
certamente não era uma jóia comum.
O que eles fizeram, a mando do
desesperado rei, foi forjar um artefato
de bondade. Enquanto repousasse
sobre a cabeça do governante, sua magia se
estenderia a todo o reino, criando um elo de
poder entre o rei e seu povo, compartilhando a
radiância de Kônningar. Tão nobre e jovial o rei,
tão nobres e joviais seriam os súditos.
Rapidamente, após a nova coroação, o
reino retornou à prosperidade que o rei desejava.
Mas nenhum sorriso dura para sempre. As
perdas que ele já presenciara, as batalhas para
reconquistar as terras invadidas pelos reinos
vizinhos durante a praga, os ladrões que
desejavam sua coroa, o fardo de um reino inteiro
sobre a cabeça de um jovem. Logo a seriedade
e aspereza moldaram seu caráter e ninguém
percebeu o quanto Kônningar, mais velho,
tornava-se rabugento, pois cada súdito era tão
rabugento quanto ele.
Houve alguns que tentaram ajudar e tirar
a coroa de Kônningar, somente
para gerar a paranóia que logo
se alastrou em todas as mentes
do reino. Tristeza, aspereza
e medo são as sombras que
agora governam naquele
lugar. Não há mais homens
no reino de Kônningar,
apenas uma criatura hostil
e decante que vive dentro
de todos e cada um deles.