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INCLUINDO OS INCLUÍDOS: uma conversa sobre o bullying

Paulo Cezar Borges Martins


Doutor em Sociologia pela UnB
Professor da UESB
Quem não chegou em casa, depois de um dia estressante, e teve de ouvir
as queixas de que seu filho está indo mal na escola? Mais do que isso, dias
depois, no meio do expediente, teve de comparecer à escola do menino, onde a
diretora, a coordenadora e a orientadora educacional cobraram-lhe a fatura do
mau desempenho acadêmico de sua criança, sem que lhe tivessem prestado
qualquer tipo de esclarecimento. No máximo, informaram que ele perdeu o
interesse pelas aulas, anda desatento e não faz os deveres de casa e que, por
isso, as notas despencaram. No final, sem mais, chegam a insinuar que alguma
coisa deve estar indo mal em sua casa. Afinal, o fulaninho era tão bom aluno...
Aí, então, você começa a notar que seu filho tem andado meio triste,
inapetente, queixando-se de dores de cabeça ou estômago, sempre buscando um
pretexto para não ir ao colégio. Além disso, prestando mais atenção, vão surgindo
alguns detalhes até ali insignificantes, mas que, somados, parecem indicar alguma
coisa que você não sabe bem o que é. Por exemplo: quando ele volta da aula, seu
uniforme está sempre sujo, amarrotado e, às vezes, com rasgões; ele mesmo
freqüentemente se machuca, vem com arranhões, pequenos hematomas etc.; seu
material escolar nunca está completo, pois ele sempre perdeu algum item.
O pediatra pede exames e conclui, invariavelmente, que o menino está
bem. Resultado: você vai procurar aquela famosa psicóloga que tratou da
sobrinha de sua colega de trabalho. O que é, aliás, muito acertado, pois sua
criança pode estar mostrando que anda com auto-estima baixa.
Bem, antes que você assuma a culpa e corra para um psicanalista (talvez,
até precise, mas por outros motivos), pare e pense. Você não tem obrigação de
interpretar todos esses sinais, assunto, aliás, da competência de profissionais,
mas seu filho pode estar sendo vítima de uma forma muito comum de violência na
escola, o bullying. Segundo os especialistas, este é o nome do fenômeno de
maltrato e intimidação entre escolares. Bem, não fique aí parado, vá à internet e,
com qualquer mecanismo de busca, entre com aquela palavrinha. Para facilitar
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sua vida, passo aqui dois endereços muito úteis, o da ABRAPIA – Associação
Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência:
www.abrapia.org/homepage/bullying/Bullying.html; e o do Bullying Escolar:
www.bullying.net .
Embora o termo seja novidade, a prática do bullying deve ser tão antiga
quanto as escolas. Ela consiste em maltratos verbais, através de gozações e de
apelidos indesejáveis, além de acusações, insultos, ofensas, humilhações,
agressões morais por meio de comentários maldosos, ataques à propriedade,
discriminações, podendo chegar a agressões físicas e sexuais. Os agressores,
pasme, são os próprios coleguinhas de seu filho. Por isso, nem entre em pânico
pensando em adultos pedófilos, pois não é o caso.
O bullying, visto pelas lentes da Sociologia, tem tudo a ver com
mecanismos de exercício do poder nos grupos infanto-juvenis; é ferramenta óbvia
de controle social dos mais fortes sobre os que apresentam alguma debilidade. Os
tímidos, os que têm dificuldades de coordenação motora, os inábeis nos esportes,
são algumas das vítimas preferenciais dos valentões de plantão nos pátios de
recreio e até nas salas de aula.
Acima de tudo, converse com seu filho, demonstre seu afeto e faça-o sentir
que ele é importante para você. Procure incentivá-lo a falar do clima na escola e
passe esses dados para o profissional que estiver dando-lhe apoio. Mas não fique
só nisso, vá à luta. Saiba que o bullying é modalidade de assédio moral (não
confunda com assédio sexual, por favor) e, por essa razão, pode ensejar a
reparação por danos morais em juízo. Cobre a responsabilidade da escola, que
tem o dever de zelar pela integridade física e psicológica dos estudantes que são
confiados à sua guarda e que, por isso, tem que desestimular, inibir e reprimir tais
práticas, cujos resultados são sempre danosos, como problemas somáticos,
traumas psicológicos, perda de auto-estima, estresse, depressão, podendo levar
ao suicídio.
Não fique sozinho, mobilize o apoio de pais de outras de vítimas (seu filho
sabe quem são), peça auxílio ao Conselho Tutelar da Infância e Adolescência,
denuncie ao setor competente do Ministério Público. Lute pela inclusão!