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SAMIZDAT

Especial
www.revistasamizdat.com

17
junho
2009
ano II

ficina
SAMIZDAT 17
junho de 2009

Edição, Capa e Diagramação: Editorial


Henry Alfred Bugalho

Revisão Geral Aquecimento global, guerras, criminalidade urbana, impos-


Joaquim Bispo tos, dívidas, crise financeira global: os jornais estão recheados
de más notícias, e a cada dia que passa tudo parece piorar.
Assessoria de Imprensa
Desde cedo na História da Humanidade, o riso é um fator
de coesão social, libera as tensões e nos faz achar graça na-
Mariana Valle quilo que, normalmente, são tabus.
Nesta edição, os autores da SAMIZDAT se debruçaram e
Autores se arriscaram neste gênero tão menosprezado e subestimado
Barbara Duffles que é o Humor. Um gênero considerado menor, mas que exi-
Caio Rudá ge muito do escritor; causar o riso não é tão simples quanto
pode parecer a princípio.
Carlos Alberto Barros
Como toda edição especial, esta também passou por uma
Dênis Moura porção de percalços: Max Mallmann, romancista e roteirista
Giselle Natsu Sato de “A Grande Família”, não conseguiu nos enviar as respos-
Henry Alfred Bugalho tas para a entrevista em tempo hábil; também não consegui
Joaquim Bispo concluir o artigo sobre o riso na Literatura, além de vários
outros pequenos contratempos; no entanto, mesmo assim, a
José Espírito Santo
edição especial de Humor traz uma gama enorme de estilos
Léo Borges de textos humorísticos, desde o pastelão até a comédia mais
Mariana Valle cerebral.
Maristela Scheuer Deves Nós da Revista SAMIZDAT esperamos lhes causar algu-
Volmar Camargo Junior mas boas gargalhadas. E como diz a canção de Bob McFerrin:
“Don’t worry. Be happy!”
Autores Convidados
Henry Alfred Bugalho
Ricardo Thadeu
Rodolfo Bispo

Textos de:
François Rabelais Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada
Martins Pena a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.
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Sumário
Por que Samizdat? 6
Henry Alfred Bugalho

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho 8
Caio Rudá de Oliveira & Ricardo Thadeu 10
Caio Rudá de Oliveira 10
Joaquim Bispo 11

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA


O Juiz de Paz na Roça 14
Martins Pena

CONTOS
Um quase-palhaço 22
Carlos Alberto Barros

História do grego Onanágoras 24


Joaquim Bispo
A Verdadeira História do Velho do Saco 26
Volmar Camargo Junior

O Dilema do Morto-Vivo 28
Henry Alfred Bugalho
O Alvo Simbiótico 30
José Espírito Santo
Propaganda do produto revolucionário
das Organizações Tabajaras para Daniel
Dantas e afins: 32
Mariana Valle
Mistério Outonal 34
Léo Borges
Como substituir amores 38
Barbara Duffles
O Admirador ­– Parte 3: Suspeitos 40
Maristela Deves
A Peruca 42
Giselle Sato

Autor Convidado
Rodolfo Bispo 46

TRADUÇÃO
François Rabelais e o mundo às avessas 48
Henry Alfred Bugalho
Gargântua 50
François Rabelais

CRÔNICA
Firewall para Mercedes 55
Joaquim Bispo

Use Óculos 57
Caio Rudá de Oliveira

Prêmio Ig Nobel 58
Caio Rudá de Oliveira

Um vez idéia, sempre idéia 60


Caio Rudá de Oliveira

Oito horas de sono, dois litros de água e


menos de duas mil calorias 61
Volmar Camargo Junior

A Arma mais perigosa da Terra 62


Volmar Camargo Junior

Eu só quero chocolate 64
Maristela Scheuer Deves

O dia em que o mundo não acabou 66


Henry Alfred Bugalho
POESIA
A Poesia é uma graça 68
Caio Rudá de Oliveira
Laboratório Poético: dois pecados (um, pela
metade), e mais outras coisas sem sentido 70
Volmar Camargo Junior
Eu-Tu-Nada 72
Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT 73


Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
­distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu-


henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que
inclusão e exclusão. se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
O grupo dominante, pela
riam, ou não conseguiam,
própria natureza restritiva
fazer parte da máquina
do poder, costuma excluir ou
­administrativa - que esti-
ignorar tudo aquilo que não
pulava como deveria ser a
pertença a seu projeto, ou
cultura, a informação, a voz
que esteja contra seus prin-
do povo -, encontraram na
cípios.
autopublicação clandestina
Em regimes autoritários, um meio de expressão.
esta exclusão é muito eviden-
Datilografando, mimeo-
te, sob forma de perseguição,
grafando, ou simplesmente
censura, exílio. Qualquer um
manuscrevendo, tais autores
que se interponha no cami-
russos disseminavam suas
nho dos dirigentes é afastado
idéias. E ao leitor era incum-
e ostracizado.
bida a tarefa de continuar
As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais
simples de se compreender: obras e também as p ­ assando
o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi
perigoso, pois apresenta designado "samizdat", que
alternativas, às vezes, muito nada mais significa do que
melhores do que o estabe- "autopublicado", em oposição
lecido. Por isto, é necessário às publicações oficiais do
suprimir, esconder, banir. regime soviético.

A União Soviética não


foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
­Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo dum samizdat. Corte- logo
sia do Gulag Museum em Perm-36.

6
6
E por que Samizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substituam
possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal-
O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que
A indústria cultural - e o
o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandes
mercado literário faz parte
leitor. autores populares, que não
dela - também realiza um
perseguem ansiosos os 10
processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos.
ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outro
valor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõem
plicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parte
que contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­movimento
desconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, não
ser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós-
vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por ­modernistas, vanguardistas
pois os gastos seriam maio- seus acertos. ou q­ ualquer outra definição
res do que o lucro. que vise rotular e definir a
E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São
A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­interessados
duto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências e
dores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. A
não basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é uma
houver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas sim
mo o lixo possui prioridades
a heterogeneidade.
na hora de ser absorvido A serem obrigados a
pelo mercado. burlar a indústria cultural, Enfim, “Samizdat” porque a
os autores conquistaram algo internet é um meio de auto-
E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat”
em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um modo
dente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processo
produtores culturais atingi- od­ iálogo capaz de tornar a de exclusão e de atingir o
rem o público. obra melhor, a rede de conta- ­objetivo fundamental da
tos que, se não é tão influen- ­escrita: ser lido por alguém.
Este é um processo soli-
te quanto a da ­grande mídia,
tário e gradativo. O autor
faz do leitor um colaborador,
precisa conquistar leitor a
um co-autor da obra que lê.
leitor. Não há grandes apa-
Não há sucesso, não há gran-
ratos midiáticos - como TV,

SAMIZDAT é uma revista eletrônica


­ ensal, escrita, editada e publicada pelos
m
­integrantes da Oficina de Escritores e Teoria
Literária. Diariamente são incluídos novos
textos de autores consagrados e de jovens
­escritores amadores, entusiastas e profis-
sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas
literárias e muito mais.

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Microcontos junho de 2009

Gazeta de Notícias
Mulher mata e empalha marido

http://www.flickr.com/photos/curiousexpeditions/870716574/sizes/l/
Henry Alfred Bugalho muito melhor morto do que
vivo”. O maior piolho
Os moradores dum bairro Dona Dolores e Don Mi-
guel possuíam uma loja de ta-
do mundo
de classe média na Cidade
do México ficaram estarreci- xidermia, onde vendiam ani-
dos ao descobrirem que Dona mais silvestres e domésticos
Dolores, uma das senhoras empalhados.
mais benquistas na vizinhan- Quem descobriu o crime
ça, havia matado e empalha- foi uma criança, quando, uma
do o marido. tarde, jogava futebol na rua e
“Nós nem percebemos a bola acidentalmente caiu na
nada diferente”, afirma uma varanda. “Nós chamamos por
testemunha que prefere não Don Miguel, pedindo para ele
revelar sua identidade. “Todo nos devolver a bola, mas ele Arqueólogos encontraram
os dias, nós víamos Don Mi- não respondeu. Foi quando eu o que pode ser considerado o
guel sentado na varanda do subi lá e o vi daquele jeito”. maior piolho do mundo, com
prédio, por isto, tudo parecia Os peritos criminais fica- quatro metros de comprimento
estar normal”. ram surpresos com o cuida- por três de largura.
Na verdade, Dona Dolores do que Dona Dolores teve na O insecto, classificado como
havia assassinado a pauladas o hora de empalhar as partes Phthiraptera gigantos, foi des-
marido, Don Miguel, dez anos íntimas de Don Miguel. “Era coberto durante as escavações
atrás, após ele ter chegado bê- a parte mais importante do para a construção de um ba-
bado em casa, agredido-a e a corpo”, ri Dona Dolores. nheiro público, a sul de Paris.
violentado, segundo a versão “É um verdadeiro trabalho Alguns historiadores se
de Dona Dolores. “O pior é de mestre”, afirmam os peri- adiantaram em afirmar que se
que eu amava o desgraçado! tos, que cogitam a possibilida- trata de um dos vários piolhos
Jamais conseguiria viver sem de de leiloar Don Miguel para lendários de Gargântua, que
ele, então, resolvi empalhá-lo algum museu. aterrorizaram a França durante
e deixá-lo em casa para me a Baixa Idade Média, atacando
fazer companhia. E, acredi- mulheres e crianças cabeludas.
te em mim, ele é um marido

8 SAMIZDAT junho de 2009


8
O papa é pop
O papa fez revelações Em San Francisco, centenas de
bombásticas à imprensa esta milhares de homossexuais se
tarde numa coletiva de im- reuniram para comemorar
prensa. “Sou gay, ateu e apoio o anúncio do papa, enquan-
o uso da camisinha”. to que em Berlim grupos de
Este comentário causou co- neo-nazistas atearam fogo em
moção na cúpula do Vaticano, quatro igrejas e em cinco sa-
que delibera qual será o des- cerdotes católicos.
tino papal. “Isto pode alterar o rumo
Segundo a bula “Pastor Ae- da Igreja e dos países cató-
ternus”, proclamada durante licos”, afirma o porta-voz de
o Concílio Vaticano I, o papa uma das ONGs mais impor-
não erra e, quando ele se di- tantes em combate à AIDS.
rige à comunidade cristã, é “Que o papa era viado, todo
sempre infalível. Isto tem sus- mundo sabia! Ele já comeu
citado profundas reflexões te- metade dos cardeais!” garante
ológicas e atiçado grupos de uma fonte anônima.
minorias ao redor do mundo.

Canibal, mas sem perder a classe Apreensão recorde


de drogas
pre que eu ouvia relatos de
canibalismo, eu ficava choca- A polícia desbaratou, na
da. Agora será a minha vez de noite de ontem, a maior qua-
fazer a minha parte”. drilha de tráfico de drogas
A promessa de Thabatha do Rio de Janeiro e fez uma
será de levar bons modos e apreensão recorde de cocaína,
ensinar etiqueta a uma tri- maconha e ecstasy.
bo de canibais incrustada na “Estamos muito contentes
selva do Congo. “Entendo que com o eficaz trabalho da po-
o canibalismo seja um rito lícia”, declarou o delegado da
tradicional daquele povo; mi- divisão de narcóticos “e pre-
nha intenção não é mudar a tendemos dar uma boa desti-
A socialite Thabatha (“com cultura deles, mas sim acabar nação para o que foi apreen-
dois ‘h’s, sim senhor!”) está com aquela imagem de al- dido: revenderemos a droga a
viajando para o Congo esta guém com um fêmur huma- preços populares e doaremos
semana para cumprir uma no na boca e com a cara toda uma parte para comunidades
promessa: se sua Poodle so- ensanguentada”. carentes; o que sobrar, vai fi-
brevivesse até aos quinze Para as aulas de etiqueta car na delegacia mesmo – a
anos, ela faria algum ato de Thabatha está levando dúzias maconha é da boa e os inves-
solidariedade. de talheres de prata, porcela- tigadores estão loucos para
Juju – a Poodle – comple- na chinesa, guardanapos e to- queimar tudo até à última
tou o décimo-quinto aniver- alhas bordadas. ponta.”
sário mês passado, por isto, Quando questionada se ela O prefeito da cidade con-
Thabatha se viu na obrigação não tinha medo de ser co- fessou estar estarrecido com
de arcar com a promessa. mida pelos canibais, ela logo as declarações do delegado:
“Conhecer a África será respondeu: “Isto seria um “Pô, e eles nem me convida-
um grande sonho”, afirma a luxo! As minhas amigas iriam ram pra festinha!”, reclamou
socialite, que acrescenta “sem- morrer de inveja!” ele.

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Ria muito com pouco
Caio Rudá & Ricardo Thadeu
Ânus 70 dedos. As luzes da bola dos cadarços amarrados, o
cintilante dependurada do traficante estelar conseguiu
Há muito tempo, numa teto encandeavam os olhos desferir um golpe mortal no
discoteca muito, muito de Lé de Zé Pelim, alterando cambaleante Lé, cujo final foi
distante havia aquela cara, levemente o fenótipo de seu o contato brusco com o chão.
que abalava as noites de “azinho-azinho”.
sextas-feiras ao chacoalhar No meio da pista da dança,
freneticamente sua estrutura Da multidão, o amigo Vader um Ramone distraído foi
óssea em contratempos, surgiu e lhe entregou os testemunha do cumprimento
antecipando a filosofia dream- comprimidos. Ele os ingeriu da profecia. Como se tivessem
theateriana. Era Lé de Zé Pelim, depressa. Lentamente, as luzes apertado o review do vídeo
madeixas inimigas dos pentes cintilantes que encandeavam cassete de não sei quantas
e calças tão apertadas que seus olhos passaram a ser cabeças, Lé de Zé Pelim
por pouco não o rachavam ao projetar, tal qual lâmpadas retornou à posição inicial.
meio, aproveitando a fissura fluorescentes com som
glútea. acoplado. E num devaneio – Hey, ho! É um milagre
interplanetário, lá estava Lé de brasileiro! – vociferou sem
Em certa ocasião, ele que Zé Pelim duelando com seu acordes punk o Ramone.
esperava por Darth Vader amigo de outrora, Darth Vader.
para lhe vender as balinhas – Que a força esteja com você!
de menta, ia amarrando os O embate durou centenas – e sublimou o Lé de Zé Pelim.
cadarços da mente, com de milhões de anos-sem-luz,
um Hollywood entre os e, aproveitando o tropeço

Caio Rudá
Negócio da China

Em um camelo paraguaio de sotaque fran- Conto de Natal


cês: Não pude escrevê-lo pois passei mal de-
− Esse relógio é à prova d’água? pois da ceia.
− É, mas melhor não testar.
Apesar da queda do sr. Dow Jones, a tran- Sono
sação ocorreu sem maiores turbulências. No Vou escrever até...
final, o turco vendedor acena seu kipá.
− Hasta la vista, monsieur. Consulta Médica
O doutor:
- O senhor precisa comer ferro. Está com
suspeita de anemia.

Nova consulta, raio-x, desenhos estranhos,


objetos pequenos, cortantes:
- Mas que diabos. O que aconteceu com o
senhor?
- Sabe como é, doutor. O feijão tá caro, o
quiabo também...

http://www.flickr.com/photos/aidan_jones/1438403889/sizes/m/

10 SAMIZDAT junho de 2009


10
No tempo em que os
animais falavam Joaquim Bispo

O carneiro e o lobo
No tempo em que os animais falavam,
o Bush e o Saddam estavam a beber num
regato.
– Estás a sujar-me a água! – disse o Bush.
Confissão
– Eu? – ripostou o Saddam – Eu, como, se Saddam foi apanhado num domingo. Na
é daí que vem a corrente? terça-feira, descobriu-se que possuía do-
– Se não és tu, é o bin Laden! cumentos que o ligavam ao comando da
al-Qaeda. Quinta-feira, encontraram a docu-
E certeiro, espetou-lhe um corno no fígado.
mentação que provava inequivocamente que
o Iraque possuía armas de destruição maciça,
e no sábado, confessou que foi ele que lançou
duas bombas atómicas sobre o Japão.

Identificação
Quando a coligação árabe invadiu alguns países ociden-
tais, distribuiu pelos seus soldados baralhos de cartas onde
cada carta tinha a fotografia de um ocidental procurado pela
https://wholesale.changingworld.com/catalog/images/CT-309.jpg

coligação. Isso ajudava os soldados a identificar com rigor os


elementos perseguidos, que aos olhos árabes parecem todos
iguais. Bush era o sheik de espadas e Blair a odalisca de paus.

O ambiente sob suspeita


– Sr. Presidente, temos que assinar o Protocolo de Quioto:
pela primeira vez em 10 000 anos, o gelo desapareceu do
Monte Kilimanjaro.
– Não assino nada. Se o gelo desapareceu, havemos de
encontrá-lo. Ele pode fugir, mas não se pode esconder!

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Significantes
Joaquim Bispo de modo que, uns tempos Komo Yátá?!
depois, usei a seguinte arma ***
As palavras têm, por vezes, de arremesso para terminar Ontem vi um livro com o
sonoridades e construções em beleza um desentendi- seguinte título: O que fazer
ortográficas que sugerem ou- mento no trânsito: «Ó meu depois de morrer
tras, com significados muito caro amigo, sabe o que é que Ora aí está um assunto
diversos. Pode, por isso, usar- eu lhe digo? – Vodafone!» com o qual devemos pre-
se a sonoridade e a entoação O outro ficou uns bons ocupar-nos. É, com certeza,
para dizer algo que, não três minutos, de olhos em fundamental que cada um
ofendendo ninguém, formal- alvo, a digerir a mensagem, programe meticulosamente e
mente, contém uma ferroada contaram-me depois! com antecedência as activi-
subjacente. *** dades que vai desenvolver
Um dia, um colega de Conheci um japonês, de depois de morrer para que,
trabalho chegou dizendo que, gestos tão bruscos como os quando chegar a altura, não
no meio duma discussão dos samurais dos filmes, que fique para ali indeciso e
no autocarro, uma mulher se chama Yátá ! A sua es- enfadado sem saber como
atirou para outra: «Vá para a posa, não tão dócil como as ocupar o tempo!
Bósnia, sua Herzegovina!» gueixas dos filmes, chama-se
O exemplo foi inspirador,

Gripe das aves


Joaquim Bispo
Os tempos perigosos que correm alteram até as rotinas
mais arreigadas. No meu bairro, havia uma velhota que
todos os sábados ia à mercearia comprar milho para dar
aos pombos. Certo sábado, vi-a comprar, para além do
habitual saquinho de milho, dois pacotinhos de lenços de
papel. Disse que tinha visto vários pombos a espirrar e
com o bico a pingar, coitadinhos.

***

Parece que a gripe das aves não constitui grande perigo


para o Homem, se este não tiver contactos próximos com
aves infectadas. Notícias do Olimpo fazem saber que Leda,
por precaução, já pôs o cisne a dormir no sofá!

http://farm1.static.flickr.com/53/175937525_157a348300.jpg?v=0

12 SAMIZDAT junho de 2009


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Autor em Língua Portuguesa

O Juiz de Paz
na Roça Martins Pena

Comédia em 1 ato

PERSONAGENS

JUIZ DE PAZ
ESCRIVÃO DO JUIZ (DE PAZ)
MANUEL JOÃO, lavrador [guarda nacional]
MARIA ROSA, sua mulher
ANINHA, sua filha
JOSÉ [DA FONSECA], amante de Aninha
INÁCIO JOSÉ
JOSÉ DA SILVA
FRANCISCO ANTÔNIO
MANUEL ANDRÉ
SAMPAIO (lavradores)
TOMÁS
JOSEFA [JOAQUINA]
GREGÓRIO
[Negros]

http://www.flickr.com/photos/dinamarco/2476046936/sizes/o/in/set-72157604941341523/

14 SAMIZDAT junho de 2009


14
[A cena é na roça.] MARIA ROSA - Fica tomando conta aqui,
enquanto eu vou lá dentro. (Sai.)
ATO ÚNICO
ANINHA, só - Minha mãe já se ia demo-
CENA I rando muito. Pensava que já não poderia
falar co senhor JOSÉ, que está esperando-
Sala com uma porta no fundo. No meio me debaixo dos cafezeiros. Mas como
uma mesa, junto à qual estarão cosendo minha mãe está lá dentro, e meu pai não
MARIA ROSA e ANINHA. entra nesta meia hora, posso fazê-lo entrar
aqui. (Chega à porta e acena com o lenço.)
MARIA ROSA - Teu pai tarda muito. Ele aí vem.
ANINHA - Ele disse que tinha hoje muito CENA II
que fazer.

MARIA ROSA - Pobre homem! Mata-se Entra JOSÉ com calça e jaqueta branca.
com tanto trabalho! É quase meio-dia e JOSÉ - Adeus, minha ANINHA! (Quer
ainda não voltou. Desde as quatro horas da abraçá-la.)
manhã que saiu; está só com uma xícara
de café. ANINHA - Fique quieto. Não gosto des-
tes brinquedos. Eu quero casar-me com o
ANINHA - Meu pai quando principia um senhor, mas não quero que me abrace antes
trabalho não gosta de o largar, e minha de nos casarmos. Esta gente quando vai à
mãe sabe bem que ele tem só a Agostinho. Corte, vem perdida. Ora diga-me, concluiu
MARIA ROSA - É verdade. Os meias-caras a venda do bananal que seu pai lhe dei-
agora estão tão caros! Quando havia valon- xou?
go eram mais baratos. JOSÉ - Concluí.
ANINHA - Meu pai disse que quando des- ANINHA - Se o senhor agora tem dinheiro,
manchar o mandiocal grande há-de com- por que não me pede a meu pai?
prar uma negrinha para mim.
JOSÉ - Dinheiro? Nem vintém!
MARIA ROSA - Também já me disse.
ANINHA - Nem vintém! Então o que fez
ANINHA - Minha mãe, já preparou a jacu- do dinheiro? É assim que me ama? (Chora.)
ba para meu pai?
JOSÉ - Minha ANINHA, não chores. Oh, se
MARIA ROSA - É verdade! De que me ia tu soubesses como é bonita a Corte! Tenho
esquecendo! Vai aí fora e traz dous limões. um projeto que te quero dizer.
(ANINHA sai.) Se o MANUEL JOÃO viesse
e não achasse a jacuba pronta, tínhamos ANINHA - Qual é?
campanha velha. Do que me tinha esqueci-
JOSÉ - Você sabe que eu agora estou pobre
do! (Entra ANINHA.)
como Jó, e então tenho pensado em uma
ANINHA - Aqui estão os limões. cousa. Nós nos casaremos na freguesia,

15
sem que teu pai o saiba; depois partiremos que é cousa grande! Há uns cavalos tão
para a Corte e lá viveremos. bem ensinados, que dançam, fazem mesu-
ras, saltam, falam, etc. Porém o que mais
ANINHA - Mas como? Sem dinheiro?
me espantou foi ver um homem andar em
JOSÉ - Não te dê isso cuidado: assentarei pé em cima do cavalo.
praça nos Permanentes.
ANINHA - Em pé? E não cai?
ANINHA - E minha mãe?
JOSÉ - Não. Outros fingem-se bêbados, jo-
JOSÉ - Que fique raspando mandioca, que gam os socos, fazem exercício - e tudo isto
é ofício leve. Vamos para a Corte, que você sem caírem. E há um macaco chamado o
verá o que é bom. macaco major, que é coisa de espantar.

ANINHA - Mas então o que é que há lá ANINHA - Há muitos macacos lá?


tão bonito?
JOSÉ - Há, e macacas também.
JOSÉ - Eu te digo. Há três teatros, e um
ANINHA - Que vontade tenho eu de ver
deles maior que o engenho do capitão-mor.
todas estas cousas!
ANINHA - Oh, como é grande!
JOSÉ - Além disto há outros muitos diver-
JOSÉ - Representa-se todas as noites. Pois timentos. Na Rua do Ouvidor há um cos-
uma mágica... Oh, isto é cousa grande! morama, na Rua de São Francisco de Paula
outro, e no Largo uma casa aonde se vêem
ANINHA - O que é mágica? muitos bichos cheios, muitas conchas, ca-
JOSÉ - Mágica é uma peça de muito ma- britos com duas cabeças, porcos com cinco
quinismo. pernas, etc.

ANINHA - Maquinismo? ANINHA ? Quando é que você pretende


casar-se comigo?
JOSÉ - Sim, maquinismo. Eu te explico.
Uma árvore se vira em uma barraca; paus JOSÉ - O vigário está pronto para qualquer
viram-se em cobras, e um homem vira-se hora.
em macaco. ANINHA - Então, amanhã de manhã.
ANINHA - Em macaco! Coitado do ho- JOSÉ - Pois sim. (Cantam dentro.)
mem!
ANINHA - Aí vem meu pai! Vai-te embora
JOSÉ - Mas não é de verdade. antes que ele te veja.
ANINHA - Ah, como deve ser bonito! E JOSÉ - Adeus, até amanhã de manhã.
tem rabo?
ANINHA - Olhe lá, não falte! (Sai JOSÉ.)
JOSÉ - Tem rabo, tem.

ANINHA - Oh, homem!

JOSÉ - Pois o curro dos cavalinhos! Isto é

16 SAMIZDAT junho de 2009


16
CENA III MANUEL JOÃO - Adeus, senhora MARIA
ROSA.
ANINHA, só - Como é bonita a Corte! Lá
MARIA ROSA - Adeus, meu amigo. Estás
é que a gente se pode divertir, e não aqui,
muito cansado?
aonde não se ouve senão os sapos e as en-
tanhas cantarem. Teatros, mágicos, cavalos MANUEL JOÃO - Muito. Dá-me cá isso?
que dançam, cabeças com dous cabritos,
MARIA ROSA - Pensando que você viria
macaco major... Quanta cousa! Quero ir
muito cansado, fiz a tigela cheia.
para a Corte!
MANUEL JOÃO - Obrigado. (Bebendo:)
Hoje trabalhei como gente... Limpei o
CENA IV mandiocal, que estava muito sujo... Fiz uma
derrubada do lado de FRANCISCO ANTÔ-
Entra MANUEL JOÃO com uma enxada NIO... Limpei a vala de Maria do Rosário,
no ombro, vestido de calças de ganga azul, que estava muito suja e encharcada, e logo
com uma das pernas arregaçada, japona de pretendo colher café. ANINHA?
baeta azul e descalço. Acompanha-o um
ANINHA - Meu pai?
negro com um cesto na cabeça e uma en-
xada no ombro, vestido de camisa e calça MANUEL JOÃO - Quando acabares de
de algodão. jantar, pega em um samborá e vai colher o
café que está à roda da casa.
ANINHA - Abença, meu pai.
ANINHA - Sim senhor.
MANUEL JOÃO - Adeus, rapariga. Aonde
está tua mãe? MANUEL JOÃO - Senhora, a janta está
pronta?
ANINHA - Está lá dentro preparando a
jacuba. MARIA ROSA - Há muito tempo.

MANUEL JOÃO - Vai dizer que traga, pois MANUEL JOÃO - Pois traga.
estou com muito calor. (ANINHA sai. M.
MARIA ROSA - ANINHA, vai buscar a
JOÃO, para o negro:) Olá, Agostinho, leva
janta de teu pai. (ANINHA sai.)
estas enxadas lá para dentro e vai botar
este café no sol. (O preto sai. MANUEL MANUEL JOÃO - Senhora, sabe que mais?
JOÃO senta-se.) Estou que não posso comi- É preciso casarmos esta rapariga.
go; tenho trabalhado como um burro!
MARIA ROSA - Eu já tenho pensado nisto;
mas nós somos pobres, e quem é pobre
não casa.
CENA V
MANUEL JOÃO - Sim senhora, mas uma
pessoa já me deu a entender que logo que
Entra MARIA ROSA com uma tigela na
puder abocar três ou quatro meias-caras
mão, e ANINHA a acompanha.
destes que se dão, me havia de falar nisso...

www.revistasamizdat.com 17
Com mais vagar trataremos deste negócio. MANUEL JOÃO - O senhor por aqui a
(Entra ANINHA com dous pratos e os dei- estas horas é novidade.
xa em cima da mesa.)
ESCRIVÃO - Venho da parte do senhor
ANINHA - Minha mãe, a carne-seca aca- juiz de paz intimá-lo para levar um recruta
bou-se. à cidade.

MANUEL JOÃO - Já?! MANUEL JOÃO - Ó homem, não há mais


ninguém que sirva para isto?
MARIA ROSA - A última vez veio só meia
arroba. ESCRIVÃO - Todos se recusam do mes-
mo modo, e o serviço no entanto há-de se
MANUEL JOÃO - Carne boa não faz conta,
fazer.
voa. Assentem-se e jantem. (Assentam-se
todos e comem com as mãos. O jantar MANUEL JOÃO - Sim, os pobres é que o
consta de carne-seca, feijão e laranjas.) Não pagam.
há carne-seca para o negro?
ESCRIVÃO - Meu amigo, isto é falta de
ANINHA - Não senhor. patriotismo. Vós bem sabeis que é preciso
mandar gente para o Rio Grande; quando
MANUEL JOÃO - Pois coma laranja com
não, perdemos esta província.
farinha, que não é melhor do que eu. Esta
carne está dura como um couro. Irra! Um MANUEL JOÃO - E que me importa eu
dia destes eu... Diabo de carne!... hei-de com isso? Quem as armou que as desarme.
fazer uma plantação... Lá se vão os dentes!...
ESCRIVÃO - Mas, meu amigo, os rebeldes
Deviam ter botado esta carne de molho no
têm feito por lá horrores!
corgo... que diabo de laranjas tão azedas!
(Batem à porta.) Quem é? (Logo que MA- MANUEL JOÃO - E que quer o senhor que
NUEL JOÃO ouve bater na porta, esconde se lhe faça? Ora é boa!
os pratos na gaveta e lambe os dedos.)
ESCRIVÃO - Não diga isto, Senhor MA-
ESCRIVÃO, dentro - Dá licença, Senhor NUEL JOÃO, a rebelião...
MANUEL JOÃO?
MANUEL JOÃO, gritando - E que me im-
MANUEL JOÃO - Entre quem é. porta eu com isso?... E o senhor a dar-lhe...

ESCRIVÃO, entrando - Deus esteja nesta ESCRIVÃO, zangado - O senhor juiz man-
casa. da dizer-lhe que se não for, irá preso.

MARIA ROSA e MANUEL JOÃO - Amém. MANUEL JOÃO - Pois diga com todos os
diabos ao senhor juiz que lá irei.
ESCRIVÃO - Um criado da Senhora Dona
e da Senhora Doninha. ESCRIVÃO, à parte - Em boa hora o digas.
Apre! custou-me achar um guarda... Às
MARIA ROSA e ANINHA - Uma sua cria-
vossas ordens.
da. (Cumprimentam.)
MANUEL JOÃO - Um seu criado.

18 SAMIZDAT junho de 2009


18
ESCRIVÃO - Sentido nos seus cães. CENA VII

MANUEL JOÃO - Não mordem.


Entra MANUEL JOÃO
ESCRIVÃO - Senhora Dona, passe muito com a mesma calça e
bem. (Sai o ESCRIVÃO.) jaqueta de chita, tamancos,
barretina da Guarda Nacio-
MANUEL JOÃO - Mulher, arranja esta saia,
nal, cinturão com baioneta
enquanto me vou fardar. (Sai M. João.)
e um grande pau na mão.

MANUEL JOÃO, entran-


CENA VI do - Estou fardado. Adeus,
senhora, até amanhã. (Dá
um abraço.)

MARIA ROSA - Pobre homem! Ir à cidade ANINHA - Abença, meu


somente para levar um preso! Perder assim pai.
um dia de trabalho...
MANUEL JOÃO - Adeus,
ANINHA - Minha mãe, pra que é que menina.
mandam a gente presa para a cidade?
ANINHA - Como meu
MARIA ROSA - Pra irem à guerra. pai vai à cidade, não se es-
queça dos sapatos franceses
ANINHA - Coitados! que me prometeu.
MARIA ROSA - Não se dá maior injustiça! MANUEL JOÃO - Pois
Manoel João está todos os dias vestindo sim.
a farda. Ora pra levar presos, ora pra dar
nos quilombos... É um nunca acabar. MARIA ROSA - De ca-
minho compre carne.
ANINHA - Mas meu pai pra que vai?
MANUEL JOÃO - Sim.
MARIA ROSA - Porque o juiz de paz o Adeus, minha gente, adeus.
obriga.
MARIA ROSA e ANI-
ANINHA - Ora, ele podia ficar em casa; e NHA - Adeus! (Acompa-
se o juiz de paz cá viesse buscá-lo, não ti- nham-no até à porta.)
nha mais que iscar a Jibóia e a Boca-Negra.
MANUEL JOÃO, à porta
MARIA ROSA - És uma tolinha! E a cadeia - Não se esqueça de me-
ao depois? xer a farinha e de dar que
ANINHA - Ah, eu não sabia. comer às galinhas.

MARIA ROSA - Não.


Adeus! (Sai MANUEL
JOÃO.)

19
CENA VIII cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer
presentes; ora, mandando assim as ditas re-
MARIA ROSA - Menina, ajuda-me a formas, V.S.ª fará o favor de aceitar as ditas
levar estes pratos para dentro. São horas bananas, que diz minha Teresa Ova serem
de tu ires colher o café e de eu ir mexer a muito boas. No mais, receba as ordens de
farinha... Vamos. quem é seu venerador e tem a honra de
ser - MANUEL ANDRÉ de Sapiruruca.” -
ANINHA - Vamos, minha mãe. (Andan-
Bom, tenho bananas para a sobremesa. Ó
do:) Tomara que meu pai não se esqueça
pai, leva estas bananas para dentro e en-
dos meus sapatos... (Saem.)
trega à senhora. Toma lá um vintém para
teu tabaco. (Sai o negro.) O certo é que é
bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De
CENA IX vez em quando temos nossos presentes de
galinhas, bananas, ovos, etc., etc. (Batem à
porta.) Quem é?
Sala em casa do juiz de paz. Mesa no
meio com papéis; cadeiras. Entra o juiz de ESCRIVÃO, dentro - Sou eu.
paz vestido de calça branca, rodaque de
riscado, chinelas verdes e sem gravata. JUIZ - Ah, é o escrivão. Pode entrar.

JUIZ - Vamo-nos preparando para dar


audiência. (Arranja os papéis.) O escri- CENA X
vão já tarda; sem dúvida está na venda do
Manuel do Coqueiro... O último recruta
ESCRIVÃO - Já intimei MANUEL JOÃO
que se fez já vai-me fazendo peso. Nada,
para levar o preso à cidade.
não gosto de presos em casa. Podem fugir,
e depois dizem que o juiz recebeu algum JUIZ - Bom. Agora vamos nós preparar
presente. (Batem à porta.) Quem é? Pode a audiência. (Assentam-se ambos à mesa e
entrar. (Entra um preto com um cacho de o juiz toca a campainha.) Os senhores que
bananas e uma carta, que entrega ao juiz. estão lá fora no terreiro podem entrar. (En-
JUIZ, lendo a carta:) “Il.mo Sr. - Muito me tram todos os lavradores vestidos como ro-
alegro de dizer a V. S.ª que a minha ao fa- ceiros; uns de jaqueta de chita, chapéu de
zer desta é boa, e que a mesma desejo para palha, calças brancas de ganga, de taman-
V.S.ª pelos circunlóquios com que lhe vene- cos, descalços; outros calçam os sapatos
ro”. (Deixando de ler:) Circunlóquios... Que e meias quando entram, etc. TOMÁS traz
nome em breve! O que quererá ele dizer? um leitão debaixo do braço.) Está aberta a
Continuemos. (Lendo:) “Tomo a liberdade audiência. Os seus requerimentos?
de mandar a V.S.ª um cacho de bananas-
maçãs para V.S.ª comer com a sua boca
e dar também a comer à Sr.ª Juíza e aos fonte: http://www.portalsaofrancisco.
Srs. JUIZinhos. V.S.ª há-de reparar na in- com.br/alfa/martins-pena/o-juiz-de-paz-da-
significância do presente; porém, Il.mo Sr., roca.php
as reformas da Constituição permitem a

20 SAMIZDAT junho de 2009


20
Luís Carlos Martins Pena (Rio Brasil em Londres, Inglaterra,
de Janeiro, 5 de novembro de em 1847. Durante todo este perí-
1815 – Lisboa, 7 de dezembro odo, contribuiu para a literatura
de 1848) foi dramaturgo, diplo- brasileira com cerca de trinta
mata e introdutor da comédia de peças, das quais aproximada-
costumes no Brasil, tendo sido mente vinte sendo comédias, o
considerado o Molière brasilei- que o tornou fundador do gênero
ro. da comédia de costumes no
Sua obra caracterizou pioneira- Brasil, e as restantes constituin-
mente, com ironia e humor, as do farsas e dramas. Também, de
graças e desventuras da socie- agosto de 1846 a outubro 1847,
dade brasileira e de suas insti- fez críticas teatrais como folhe-
tuições. É Patrono da Academia tinista do Jornal do Commercio.
Brasileira. Em Londres, contraiu tuberculo- (1871). Sua produção foi reunida
se; e, em trânsito para o Brasil, em Comédias (1898), edita-
Filho de João Martins Pena e
veio a falecer em Lisboa, Portu- do pela Editora Garnier, e em
Francisca de Paula Julieta Pena,
gal, com 33 anos de idade, em 7 Teatro de Martins Pena (1965),
pessoas de poucas posses. Com
de dezembro de 1848. 2 volumes, editado pelo Instituto
um ano de idade, tornou-se órfão
de pai; aos dez anos, de mãe. Em sua obra, de período imedia- Nacional do Livro. Folhetins – A
Seu padrasto, Antônio Maria da tamente anterior ao Romantismo semana lírica (1965), editado
Silva Torres, deixou-o a cargo de (no Brasil), debruçou-se sobre pelo então Ministério da Edu-
tutores e, por destinação destes, a vida do Rio de Janeiro da cação e Cultura e pelo Instituto
ingressou na vida comercial, primeira metade do século XIX e Nacional do Livro, abrange a
concluindo o curso de Comércio explorou, sobretudo, o povo co- colaboração do autor no Jornal
aos vinte anos, em 1835. Depois, mum da roça e das cidades. Com do Commercio (1846-1847).
passou a freqüentar a Academia a ajuda de sua singular veia Martins Pena deu ao teatro bra-
Imperial das Belas Artes, onde cômica, encontrou um ambiente sileiro cunho nacional, influen-
estudou arquitetura, estatuária, receptivo que favoreceu a sua ciando, em especial, Artur Aze-
desenho e música; simultanea- popularidade. Construiu uma vedo. Sobre sua obra, escreveu o
mente, estudava línguas, histó- galeria de tipos que constitui crítico e ensaísta Sílvio Romero
ria, literatura e teatro. Em 4 de um retrato realista do Brasil da (1851-1914): “...se se perdessem
outubro de 1838, foi representa- época e compreende funcioná- todas as leis, escritos, memórias
da, pela primeira vez, uma peça rios públicos, meirinhos, juízes, da história brasileira dos pri-
sua, “O juiz de paz na roça”, no malandros, matutos, estrangei- meiros 50 anos desse século XIX,
Teatro São Pedro, pela célebre ros, falsos cultos e profissionais que está a findar, e nos ficassem
companhia teatral de João Cae- da intriga social. Suas histórias somente as comédias de Martins
tano (1808-1863), o mais famoso giram em torno de casos de Pena, era possível reconstruir
ator e encenador da época. No família, casamentos, heranças, por elas a fisionomia moral de
mesmo ano, entrou para o Minis- dotes, dívidas e festas da roça e toda esta época”.
tério dos Negócios Estrangeiros, das cidades.
Uma das pricipais salas do
onde exerceu cargos diversos, Após sua morte, ainda vieram a Teatro Nacional Cláudio Santo-
tais como amanuense da Secre- público algumas de suas peças, ro, em Brasília, leva seu nome.
taria dos Negócios Estrangeiros, como “O noviço” (1853) e “Os fonte: http://pt.wikipedia.org/
em 1843, e adido à Legação do dois ou O inglês maquinista” wiki/Martins_Pena

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Contos

http://www.flickr.com/photos/wlodi/252462355/sizes/o/
Carlos Alberto Barros

Um quase-palhaço
Não era o que eu espe- ta cultural –, percebi que tomavam as atenções de
rava. A cada visão, uma algo mágico aconteceria; todos, principalmente
nova realidade surgia. no mínimo, alguma situa- crianças. Fui me apro-
Cores, formas, gente, vida! ção inusitada. ximando, cada vez mais
E quão bom era isso! Cumprimentei os perto... Acomodei-me ao
Cheguei sem muitas rostos conhecidos – pare- lado do quase-picadeiro.
pretensões: um rapaz ciam todos muito satisfei- Admirando os sorrisos
curioso, sorrindo a todos, tos. Caminhei em várias sinceros de uma centena
tentando ser simpático e direções, sem saber ao de crianças, fui surpreen-
achando que viveria um certo aonde ir. Enquanto dido por uma frase bem
dia como qualquer outro. caminhava, uma gritaria sugestiva:
Engano, completo engano. chamou-me a atenção. – Ah! Então você está
Assim que entrei no local Na verdade, uma bela por aqui! – era um dos
– um misto de “muvuca”, apresentação se desenro- quase-palhaços “me re-
parque de diversões e fes- lava. Dois quase-palhaços conhecendo”. E ele tinha

22 SAMIZDAT junho de 2009


22
um baita chicote na mão! Chicote), o aro entregue chamas.
Eu iria discordar?! por ele. Como se pode E ia Coelho, quase
O fato é que fui in- notar, a arquitetura do um Chapolim Colorado,
timado a atuar como número se fazia estra- passando por dentro do
voluntário no próximo nha e arriscada. O que arco! Primeiro foram as
número do espetáculo. aconteceria ali, só Deus, orelhas, depois a cabeça
Bem... acabei indo... As Coelho e Chicote sabiam. suada e seu sorriso in-
gargalhadas da criançada O restante do povo ria, fantil – e o arco ficando
eram um convite irresis- como toda a criançada, para trás. A garotinha se
tível! ou chorava, como eu preocupava. Chicote or-
(mentira, não chorei não, questrava os movimentos
O número consistia mas fiquei com um boca-
em manobra extrema- delicados. E eu empur-
do de vergonha). rando: “Vai, Coelho!”
mente arriscada. Tentarei
explicar... Tudo pronto, Coelho Tudo se deu em longos
tomou distância, Chi- minutos – justificáveis
Um dos quase-palha- cote estalou seu chicote
ços, o vestido de coelho pela periculosidade do
no chão, rufaram-se os número! Ao final, despe-
(chamemos de Coelho tambores (na verdade
para facilitar), deveria jamos “carinhosamente” o
ouvia-se um rock clás- Coelho no chão cimenta-
passar, com toda habi- sico que multiplicava a
lidade possível, por um do. Quase como mágica,
drama de tudo)... e eu, lá. imediatamente depois de
arco (bambolê) suspenso Lá vinha Coelho, e eu, lá.
no ar por uma garotinha. ele ser despejado, o pú-
Em velocidade descomu- blico mostrou o orgulho
Mas... antes disso... deve- nal, comparável à mais
ria transpor uma barreira por seus quase-palhaços
habilidosa tartaruga, ele em longa e calorosa salva
humana formada por vinha. Vinha, e não che-
quatro “voluntários” – eis de palmas! Estranha-
gava nunca. “Meu Deus, mente, o bocadinho de
onde eu estava. O outro vem logo, Coelho!”, era o
quase-palhaço, o do chi- vergonha que eu sentia
que eu pensava. Enfim, transformou-se numa
cote (chamemos apenas chegou. Com destreza
de Chicote), organizava a prazerosa satisfação. Algo
olímpica, Chicote auxi- como experimentar um
bagunça (ou bagunçava a liou Coelho a subir na
organização?!). Ele me co- belo de um algodão doce!
cabeça dos voluntários. E quantas crianças ale-
locou, vejam só, de testa Na minha cabeça! Que
colada com outro rapaz – gres eu via, quanta felici-
situação! E o povo rin- dade!
simpático, até. Do nosso do! E eu rindo! “Vai logo,
lado, outra dupla igual Coelho!”, eu queria gritar, De fato, não era o que
a nós. No meio, não sei mas usava todas minhas eu esperava... Para quem
exatamente como, Chi- forças para mantê-lo no chegou sem pretensões,
cote apertou um menino ar, como o mais belo tornar-se um quase-
que, creio eu, servia mais pássaro em vôo livre. Os palhaço já estava de bom
para rir da situação que outros ajudavam. Tudo tamanho. Contudo, ficou
para qualquer outra coi- muito, muito arriscado! aquele “gostinho de quero
sa. Na ponta dessa “fila”, A garotinha ergueu mais mais”.
a garotinha suspendia o bambolê, que só não
alto, em sua “outra mão se fazia mais medonho
esquerda” (palavras de por não estar envolto em

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Joaquim Bispo

História do grego
Onanágoras
24 SAMIZDAT junho de 2009
24
Na antiga Grécia, por dias, chegou ao templo; – Toma para ti uma
volta do ano 400 a.C., purificou-se e fez as suas concubina!
vivia um pobre homem oferendas ao deus Apolo, – Mas, como posso eu,
de nome Onanágoras. na pessoa da Pitonisa. E se não tenho senão uma
Habitava sozinho num expôs o que o entristecia: colmeia, uma leira de
monte pedregoso batido – Ó brilhante Apolo, nabos e uma figueira?! –
pelo vento. Alimentava-se há muitos anos que vivo admirou-se Onanágoras.
de nabos, mel e figos, no só num monte pedregoso. A sacerdotisa olhou
tempo deles. Apesar da Tenho apenas por com- para o saco de nabos e
enorme pobreza e soli- panheira a minha mão para o pote de mel que o
dão, viveu relativamente direita, com a qual tenho pobre grego trouxera e,
feliz por muitos anos. mantido uma relação fiel embora não costumasse
Até que lhe sobreveio e gratificante. Com ela pormenorizar muito os
uma crise de meia-idade. tenho vivido feliz nestes seus oráculos, desta vez
Começou a andar cabis- últimos quarenta anos. condescendeu em especi-
baixo, sorumbático e sem Mas, ultimamente, tenho ficar:
vontade de ir aos figos. sentido apelos perturba-
– Toma como concubi-
Ao fim de algum tempo, dores. Apetece-me mudar,
na a tua mão esquerda!
resolveu fazer uma pe- conhecer mundo, variar.
regrinação a Delfos para O que é que hei-de fazer? Onanágoras agradeceu
consultar a divindade o conselho e voltou para
A Pitonisa aspirou as
sobre o seu problema. o seu monte pedregoso. E
exalações proféticas do
viveu feliz por mais vinte
Pôs um saco de nabos abismo hiante, entrou em
e cinco anos.
e um pote de mel numa transe frenético e, depois
cesta e pôs-se a cami- de revirar os olhos, sibi-
nho. Ao fim de alguns lou:

O lugar onde http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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Volmar Camargo Junior

A verdadeira história do

Velho do Saco
26 SAMIZDAT junho de 2009
26
Uma realidade em Pe- um espantalho que se me- marreta, usou uma serra de
reirópolis é que muito de xia quando os pardais se cano, bateu com um facão
seu território é ocupado achegavam na horta, ou sis- até deixar a ferramenta
por lavouras. Uma dessas temas de irrigação, ou ala- sem fio, e nada. O com-
fazia fundo com um campo vancas para abrir e fechar padre e vizinho, alarmado
de propriedade do Exérci- o galinheiro ou ainda um pela barulheira e por não
to. Anos mais tarde, a tal distribuidor de ração para ter visto o Setembrino por
fazenda foi desapropriada os pombos-correio que ele muitos dias, resolveu dar
e incorporada pelo municí- criava. As matérias-primas uma conferida, para ver se
pio, tornando-se um lote- de suas obras-primas eram estava tudo bem. Encontrou
amento urbano. Hoje é o coisas que ninguém mais o homem sesteando, esco-
Bairro Setembrino da Silva. quer. Por isso, quando não rado na parede do galpão,
Diferente de outros bairros estava inventando algo, ca- sentado em um mochinho –
que têm seus nomes por minhava pelas ruas da Vila um banquinho sem orelhas,
causa de eventos históricos da Pereira – que futuramen- coisa que era muito comum
ou em homenagem a polí- te viria a ser Pereirópolis nas casas de gente simples.
ticos locais, aquele bairro – carregando um saco de Dentro do recinto havia um
foi batizado por um acaso sucata às costas. Não, não é braseiro aceso. Curioso, o
curioso. Ou melhor, por coincidência: Seu Setembri- compadre entrou pé-por-pé
causa da curiosidade desse no deu origem à lendária para ver o que o Setem-
personagem. figura do Velho do Saco. brino estava inventando
Seu Setembrino da Silva Um dia, nas andanças daquela vez. Transtornado
era daquelas pessoas que já entre uma empreitada e pelo susto, apagou o bra-
são idosas quando os idosos outra pelo lugar onde atu- seiro com um balde d’água,
ainda eram jovens. Havia almente é o bairro que tem correu pra fora do galpão
quem o chamasse “Setem- seu nome, o velho Setembri- e levou – arrastou, melhor
brino Matusalém”. Outros, no entrou em um terreno dizendo – o seu Setembrino
ainda mais maldosos, fala- baldio para dar vazão aos pra longe de casa o mais
vam que se fossem somadas seus reflexos parassimpáti- rapidamente que pôde.
as idades do Seu Setembrino cos. Enquanto obrava, obser- Depois daquilo, nem
e da Dona Maricota, aquela vou o lugar com os olhos compadre, nem ninguém
do Sabão Milagroso, o re- atentos de sempre. E sua convencia o Setembrino de
sultado passava de trezentos busca não foi infrutífera: que o “ananás” que ele pôs
anos. Morava numa casinha o inventor encontrou um na boca do fogão à lenha
isolada em uma quadra de objeto cilíndrico formado era, na verdade, uma grana-
terra doada a ele por um por muitos gomos de metal da. Para a sua sorte, era só
compadre, que, aliás, era – como um ananás, só que o casco vazio, sem pólvora.
seu único vizinho. Conhe- menor – enferrujado, mas Mas, por via das dúvidas, o
cido pelas invencionices, o ainda inteiro. No lugar da Exército fez uma inspeção
velho Setembrino passava coroa do tal ananás, uma rigorosa no campo onde ele
dias enfurnado num galpão alça comprida e um pito a havia encontrado e nas
no fundo do pátio, de onde que unia a essa alça uma imediações. Nunca foi pu-
só saía para comer ou para argola. Terminou o “serviço” blicado nenhum relatório,
dormir; o segundo menos e levou o achado para casa. mas, dizem as línguas dos
que o primeiro. Passado De tudo quanto foi ma- curiosos que foram acha-
um tempo, o velho aparecia neira, o velho tentou des- das mais três, e que uma
com uma nova criação, que montar a coisa, e o “ananás” explodiu. Contudo, até hoje
eram coisas interessantes, não cedia um milímetro. ninguém confirmou oficial-
mas não menos absurdas: Deu nele com golpes de mente.

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Contos

O Dilema do Morto-Vivo
Henry Alfred Bugalho

— Sinto muito, senhor Jor- última — resmungou Jorge. resposta.

http://www.flickr.com/photos/76578669@N00/2569695118/sizes/o/
ge, mas não podemos liberar — Fala, meu véio... — Ma-
o seu auxílio-doença. Consta ria lavava roupa no tanque.
em nossos bancos de dados — Estranho, não? — Maria
que o senhor está morto — a — Não vou recebeu o coçava a cabeça.
funcionária do INSS fitava a dinheiro da licença-médica. No entanto, Jorge não res-
tela do computador. ‘Tão falando que estou mor- pondeu, absorto em pensa-
to. mentos. Passou o dia calado,
— Mas, minha filha, eu ‘tô
vivo! Bem aqui na tua frente! — Como assim, Jorge? não quis assistir à novela, foi
— Não sei, só disseram dormir cedo. Mas o sono não
— Não há nada que eu veio, Jorge rolava na cama,
possa fazer, seu Jorge. que eu havia morrido.
atormentado com a idéia de
Desorientado, Jorge deixou — Amanhã, você volta lá e que eles estivessem certos.
o posto do INSS e foi para confirma esta história.
— E se eu estiver morto,
casa. E foi o que Jorge fez. Na Maria? — perguntou ele.
manhã seguinte, retornou ao
INSS, porém, obteve a mesma — Deixa disto, Jorge, você
— Maria, você não sabe da ‘tá vivo! — retrucou Maria,

28 SAMIZDAT junho de 2009


28
dormitando. Algo macabro havia ocor-
rido para que Jorge estivesse
andando por aí, houvesse Um detetive...
— Você tem que ir a um se casado com Maria, tido
cartório, Jorge. Lá eles podem filhos, arranjado emprego. Uma loira gostosa...
dizer se você está morto ou Se ele estivesse morto, como
vivo. Se estiver morto, eles tudo indicava, qual explica- Um assassinato...
vão ter um atestado de óbito, ção haveria?
com seu nome e data de fale-
cimento — assegurou Luizão Coisa do diabo? Ou um
do boteco. milagre de Jesus?
E o pau comendo entre
Jorge seguiu o conselho. as máfias italiana e
Foi ao cartório e perguntou — Maria, tomei uma de-
ao notário se havia um docu- cisão... — Jorge estava tris-
chinesa.
­
mento atestando sua morte. te. — Não gosto nada desta
— Que disparate, senhor! situação. Um defunto não
Se você está vivo, como pode ficar perambulando
espera que eu encontre algo pelas ruas. Vocês vão ter que

O Covil
provando seu falecimento? me enterrar.

— É o que dizem por aí! Contrataram os serviços


Só quero confirmar. duma funerária e organiza-

O tabelião se conformou,
ram o velório. Jorge se deitou
no caixão e, quando chegava dos
procurou e encontrou a pro- algum dos seus amigos para
va que Jorge ansiava.
— Em que dia morri? —
ver o finado, ele lhes dava
uma piscadela.
Inocentes
indagou Jorge, curioso. O padre fez um sermão,
— 15 de setembro de mas os rapazes não queriam www.covildosinocentes.blogspot.com
1980. fechar o esquife.
— Quando eu tinha vinte — Vai pessoal, estou morto
anos — concluiu Jorge. há quase trinta anos, só falta
completar o serviço!
Levaram o caixão para o
Em 15 de setembro de
cemitério, Maria chorava, os
1980, Jorge voltava de via-
coveiros cobriram de terra o
gem com seu pai, sua mãe e
ataúde. Um dia muito triste
a irmã caçula. O pai, cami-
pra todos.
nhoneiro, os havia levado a
Aparecida do Norte, cumprir
uma promessa. Na contra- — Dona Maria, não pode-
mão, um motorista de ônibus mos liberar a pensão do seu
bêbado perdeu a direção e marido — disse a funcionária
atingiu o caminhão onde do INSS. Nossos bancos de
Jorge e sua família estavam. dados indicam que seu mari-
Todos morreram. do está vivo.
— Não, moça, ele ‘tá mor-
to. Morreu trinta anos atrás.
Jorge cuidava os túmulos
onde ele e seus parentes esta- — Há um Jorge de Lima
vam sepultados. Inequivoca- falecido aqui, mas é outra do
damente, estava escrito “Jorge pessoa. Sinto muito, mas não w
há nada que eu possa fazer. gr nl
de Lima”, data de nascimento
át
oa
e morte. Não havia dúvidas. is d

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Contos

José Espírito Santo

O alvo simbiótico

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O meu nome é Zork e sou lhedor e agradável de modo sistema de sensores. E tudo
batedor-explorador sénior, que certamente permitiria isto me bastou.
sou um guarda avançado iniciar o relatório com todo
de primeira categoria espe- o conforto. Os “pequenos” eram sem
cializado na observação de dúvida os seres mais afor-
espécies com potencial. A Observei-os e vi como tunados de todo o universo.
minha função é de extrema tratavam os “pequenos” com Mas não continuariam assim
utilidade pois a minha raça, amor e carinho, nunca os por muito tempo. Tudo
com o pragmatismo que a deixando sós e desprotegi- o que necessitávamos era
caracteriza, há muito que dos em momento algum. Vi colocar em prática o plano:
desistiu de suportar sozinha como falavam a toda a hora, substitui-los gradualmente
a subsistência e confortos e constantemente, frequente- por elementos da nossa es-
caprichos. mente, com eles. E quanto pécie no domínio dos servos
falavam… oh Deuses, que gigantes prestáveis e solícitos.
Aprendemos que é bem entusiasmo, quase parecia Tendo chegado a este ponto,
mais simples e eficaz iden- um vício! E forneciam-lhes a minha atenção, objectivos
tificar outros com o poten- com solicitude, sem reclamar, e prioridades mudaram e
cial simbiótico adequado e toda a energia necessária. E obtive dados mais detalha-
transformá-los gradualmente na presença da mais peque- dos. E foi então que surgiu
em nossos servos. De início, na sujidade, logo acorriam um contratempo inesperado
a vítima, tecnologicamente e limpavam com extremo e todas as dificuldades a ele
menos evoluída, não compre- cuidado. inerentes. Afinal não iria ser
ende o jogo latente que está assim tão fácil. Porque os
a decorrer. Depois... bem, Vi como são preocu- “pequenos” eram compostos
depois é já tarde demais. pados. A certa altura um por várias subespécies, todas
Como uma mosca espanta- “pequeno” caiu e o seu servo elas incompatíveis entre si.
da e aturdida e enredada na levou prontamente as mãos à
teia, quando percebe o que cabeça proferindo expressões Resignado, coligi os nomes
se passa, já nada pode fazer, para as quais não possuímos delas e coloquei-os no meu
não se liberta. Na verdade se ainda tradução: relatório:
chamarmos as coisas pelos – Ai meu Deus! E agora? – NOKIA
nomes próprios, não existi- disse ele.
rá aqui qualquer simbiose SIEMENS
ou relação simbiótica. Exis- Depois, curvou-se e tomou
te sim, parasitismo. E isso rapidamente o “paciente” MOTOROLA
mesmo, digo-o sem qualquer em mãos inspeccionando-o SONY-ERICSSON
pudor: somos parasitas! com cuidado, para verificar
se estaria de boa saúde ou SAMSUNG
http://www.flickr.com/photos/scelera/2215069210/sizes/l/

Naquela tarde preparava- necessitaria de algum trata-


me para desempenhar as mento. Noutra das observa- ...
tarefas para as quais me ções, constatei que além de
tinham treinado. Ia ser fácil Agora, a minha próxima
preocupados também sabem tarefa vai ser analisar em
pois o ponto de observação ser extremamente leais e
no piso de cima do edifício detalhe cada uma dessas ver-
obedientes. O “pequeno” tentes raciais a fim de explo-
ficava mesmo junto ao enor- estava aos gritos com sua
me balaústre e era muito rarmos com eficácia todas as
voz fina irritada. E o gigante suas vulnerabilidades.
bom. A visão, soberba, per- só dizia: «Sim senhor, queri-
feita, abrangia praticamente da; desculpa querida; eu sei
cento e oitenta graus. Além amor». Tudo isto é verídico,
disso era um recanto aco- eu próprio o vi com o meu

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Contos

http://www.flickr.com/photos/by_andy/3324793807/sizes/o/
Mariana Valle

Propaganda do produto revolucionário das

Organizações Tabajaras*
para Daniel Dantas e afins:
Cansado de ter sua pri- estar soltinhas da silva, fantásticas algemas de
são preventiva decretada até nas imagens exibidas pelúcia laranja! Ou peça
injustamente? Você não em telas de HD TV. pelo site: http://www.stf.
aguenta mais aparecer na Ligando agora, você tabajaras.com/
TV com aquelas algemas ainda ganha um incrível
horrorosas e ordinárias? par de algemas de pelú-
Seus problemas acaba- *A invenção do produ-
cia laranja, para vestir as to/propaganda é minha.
ram! Chegaram as Alge- delicadas mãozinhas de
mas Gilmar Mendicator! Só me apropriei do nome
sua irmã, esposa ou outro “Organizações Tabajaras”
Cravejada de strass, a laranja qualquer com um
pulseira Brilhantes é tão porque eu posso, afinal ex-
ar super fashion! moradora da Ladeira dos
luxuosa que nem vai pa-
recer que você está preso! Faça seu pedido agora! Tabajaras é pra sempre
Já a versão em acrílico Ligue para 1711 -7171, das organizações!
transparente fará com para comprar suas Alge-
que suas mãos pareçam mas Gilmar Mendicator.
E ganhe de brinde essas

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O lugar onde
a boa Literatura ficina
é fabricada
www.oficinaeditora.org

http://www.flickr.com/photos/27235917@N02/2788169879/sizes/l/
A Oficina Editora é uma utopia, um não-
lugar. Apenas no século XXI uma ­vintena
de autores, que jamais se ­encontraram
­fisicamente, poderia conceber um projeto
semelhante.
O livro, sempre tido em conta como uma
das principais fontes de cultura, ­tornou-se
apenas um bem de ­consumo, ­tornou-se um
elemento de exclusão ­cultural.
A proposta da Oficina Editora é ­resgatar o
valor natural e primeiro da ­Literatura: de bem
cultural. ­Disponibilizando ­gratuitamente
­e-books e com o ­custo ­mínimo para ­livros
impressos, nossos ­autores ­apresentam
a ­demonstração ­máxima de respeito à
­Literatura e aos ­leitores.

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Contos

http://www.flickr.com/photos/juglardelzipa/2355520177/sizes/o/
Léo Borges

Mistério outonal
Folhas bege-sêmen manjericão. branca. O olhar de Lisa,
caíam dos arvoredos da que misturava preguiça
praça, criando enormes e enfado, fitou o estra-
volumes e evidenciando Com os cotovelos na nho. Sem reconhecê-lo
a greve dos garis logo no sacada, tentando, vez por como alguém da cidade,
início da nova estação. A outra, acertar com cuspes procurou analisá-lo me-
névoa que surgia por de um besouro que andava lhor: achou-o horroroso.
trás da casa de arquite- por entre o monte de fo- Porém, ficou intrigada
tura obsoleta, cuja infil- lhas na calçada, a garota com o fato de ele, além
tração das paredes era era cúmplice da chegada de ser feio e gordo, estar
escondida por artesanatos do outono e seu friorento mais mal vestido que o
postos à venda, possuía ar romântico. Entretan- mendigo. Ao perceber
um doce mistério: po- to, não o contemplava que o rapaz piscava os
deria ser fruto do clima só: um mendigo, deitado olhos com certa insistên-
outonal, mas também num dos bancos da pra- cia em sua direção, Lisa
existia a possibilidade se ça, admirava a tal chega- acreditou que este ousava
ser a fumaça química de da de forma semelhante. paquerá-la. O que ela
combate aos mosquitos Além dele, um rapaz, não sabia era que aquilo
do carro da prefeitura. em outro banco, tam- não passava de um tique
A brisa gélida que acom- bém curtia ambos: tanto nervoso. A jovem, então,
panhava esta neblina o surgimento da frente fez cara de zanga, soltou
brincava sutilmente com fria quanto a bela loira os cabelos que estavam
os cabelos pintados da na janela. Esta, por sinal, enroscados nas alças da
bonita e ociosa moça da parecendo ainda mais janela e fechou-a.
janela, ora embaraçando- deslumbrante ao emer-
os em nós, ora incomo- Recostou-se no armá-
gir daquela fumaceira rio e ficou admirando-se
dando seus olhos cor de

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no reflexo do espelho. predatória na costa do de mini-bolinhas –, ador-
Lisa, loira da metade dos Chile. Enfim, pelo que nará bem meu escritório.
fios em diante e corpo – via na TV. Embora não Lembrarei com isso que
vá lá – muito cobiçado fosse uma mulher ante- este lugar, apesar de não
na cidade, julgava-se ex- nada, sabia que o mundo constar no Google, existe.
tremamente atraente para estava em crise e era por
os caipiras da região. isso, achava ela, que só O inebriante e sedu-
Vivia praticamente só lhe ofereciam empregos tor estilo matuto de Lisa
por conta das constantes de telemarketing. No passara impiedosamente
idas dos pais à fazenda, campo afetivo, sua mente a guarda do rapaz, evo-
por causa de sua avó ter fútil dizia que era mu- luindo para uma chave-
resolvido ir morar num lher para poucos homens. de-braço.
asilo depois que desco- No máximo três porque
briu que seu avô compra- – Ah, desculpe, mas
senão virava orgia. Tal-
ra um bordel e, motivo você tá todo errado, tá
vez um ator ou, deixando
principal, por ser uma ligado?... Não trabalho
sua imaginação circense
garota realmente muito com esses troços. Eu sou
aflorar, um adestrador de
chata. só a vizinha e proprie-
leões. Como se conside-
tária da casa da dona
rava uma tigresa, quem
Olhava por entre o Marlene, que é a artesã.
sabe um desses não lhe
decote de sua blusa de Por sinal as vendas de-
daria jeito?
botões parte de seus di- vem estar fracas porque
minutos seios. Acreditava Foi quando alguém o aluguel dela está atra-
ferrenhamente no poder bateu à porta, quebran- sado. Como seu ateliê é
de sedução deles, apesar do suas idéias idiotas. também a sua casa, ela
de serem absurdamente Mancando devido a uma atende até de noite, assim
pequenos, formosos como cãibra na panturrilha como eu... quero dizer...
duas uvas maduras. Colo- ocasionada pelas acro- enfim, ela deu uma saída
cando-se de lado, aprovei- bacias narcisistas, Lisa mas já volta. E, com rela-
tou para analisar a lateral foi atender achando que ção àquela obra, eu servi
de sua coxa esquerda. seria dona Marlene, a se- como modelo – destacou
Percebeu algumas celuli- nhora da casa geminada orgulhosa. – As bolinhas
tes e, então, virou-se para à sua que vendia cigarros, no rosto são as espinhas.
analisar a outra, tentando bananas, artesanatos e, Dona Marlene é insupor-
salvar o momento de ad- vez por outra, chamava-a tavelmente detalhista...
miração. Também havia para pedir dinheiro em-
marcas que denunciavam – Isso é o que me im-
prestado ou só para falar
certo acúmulo de gordu- pulsiona a empreender
mal da vizinhança. Para
ra. Contrariada, ficou em todo esse empenho em
seu espanto, entretanto,
quatro apoios, envergan- adquiri-la. Da praça já
era o mesmo rapaz que
do o corpo e esticando havia consolidado visual-
havia visto na praça.
as pernas. Viu que assim mente a sua eloqüência.
as famigeradas celulites – Pois não? – atendeu E se essa maravilha eu já
praticamente sumiam, surpresa. Em seus olhos armazenei na mente, por
mas, para sua decepção, via-se perplexidade e len- que não a sua estátua
eram as estrias que agora tes azuis. segurando a porta lá do
se tornavam visíveis. meu escritório?
– Estou olhando esses
Lisa queria ser modelo objetos de barro e quero Lisa ficou desconcer-
e acreditava que só não levar um para guardar tada com tantas palavras
era pelo alto índice de como lembrança desta difíceis e achou que Julia-
desemprego no país, por cidade. Aquele ali – falou no fosse um grande nerd.
causa do dólar, do con- o forasteiro, apontando Logo percebeu que de
flito no Iraque, da guerra para a maior peça do lo- fato era mesmo. Mas, viu
civil no Sudão e da pesca cal, um belo busto femi- também que o rapaz pro-
nino com o rosto repleto curava ser afável e essa

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postura fez com que a os pés. Adorava pés. Mas certo ponto inteligente,
garota mudasse seus pen- também adorava bunda. relativamente atraente e,
samentos. Então, de repul- Então procurou fazer o com doses cavalares de
sa passou a nutrir certo caminho inverso, subindo boa vontade, sincera.
interesse pelo camaradi- com o olhar. Subiu, su-
nha. Esquadrinhando o biu, subiu, mas não teve Melissa sentia-se cada
rosto do jovem, Lisa viu tempo de contemplar o vez mais envolvida com
que ele não era tão feio monte glúteo, pois Lisa já o estilo debochado da-
e seu jeito intelectual- estava de frente, voltando quele sujeito.
canalha ajudava a melho- com o copo de suco. – Sinceridade é algo
rar o lastimável conjunto.
Por um rasgo no short, incerto, pois se eu lhe
Juliano usava óculos de
a calcinha branca da gata disser que visto um sutiã
grau elevado, tinha a
pornograficamente esca- preto realçando meus de-
barba por fazer, não era
pava. Um som exagera- liciosos peitos, isso pode
alto, possuía mau hálito,
damente caipira de uma ser verdade para você,
estava fora de forma e
dupla sertaneja desconhe- caso não saiba, de fato,
ainda tinha o cacoete que
cida invadia a sala, vindo qual a sua cor – instigou
o fazia piscar os olhos
de um aparelho na estan- a moça, permitindo que
forçosamente a cada
te. Um pouco tonto pela um lascivo interesse aflo-
meio minuto. Apesar de
hipnose que a bela ima- rasse como não acontecia
tudo isso e também da
gem do corpo de Lisa lhe há pelo menos três horas.
roupa amassada que lhe
conferia uma aparência causara, e também pela – Primeiro, você está
de espantalho, o cara até irritante música, Juliano sem sutiã; segundo, se
que tinha seu charme. A apoiou-se em um qua- você usasse sutiã este se-
moça gostou muito do dro na parede onde Lisa ria provavelmente branco
jeito dele, mas procurou aparecia ao lado de um para combinar com a cor
não demonstrar e tentou homem montado sobre da sua calcinha, e, tercei-
ser natural. um jegue. Com o toque o ro, seus peitos são peque-
quadro caiu. Constrangi- nos demais para serem
– Quer um suco de do, o rapaz rapidamente considerados “deliciosos”
laranja enquanto a espe- o recolocou no lugar. – asseverou o jovem,
ra? Está muito gostoso. O
– É seu pai? – pergun- mostrando segurança nas
suco. Você também. Brin-
tou para tentar disfarçar, palavras.
cadeira! Entre e fique à
vontade. Qual seu nome, apontando para a ima- Com inequívoca fir-
gato? O meu é Melissa, gem no quadro rachado. meza, Juliano desmontou
mas pode me chamar de a arrogância de Melissa.
– Meu namorado –
Lisa. Ao final da última pala-
mentiu a jovem, pois se
tratava apenas do bem- vra, beijaram-se. Uma das
Juliano ficou com água
dotado caseiro da fazen- mãos do forasteiro logo
na boca ao ver Lisa an-
da dos pais. promoveu uma apropria-
dando para a cozinha. Es-
ção indébita da cintura
tava muito excitado. Não
Juliano coçou o quei- de Lisa, passando por
exatamente pelo fato de
xo, intrigado em querer cima da blusa de seda.
o destino estar lhe conce-
saber, afinal, quem era o Tentou escapulir para
dendo uma deliciosa nin-
namorado. dentro, mas sua falta de
feta de bandeja, mas sim
intimidade com os bo-
por saber que mataria – O que está por cima tões impediu um primei-
sua sede com um gostoso – esclareceu Lisa, vendo ro avanço. Melissa abriu
suco da fruta. Caminhou a dúvida nos olhos do mão de seu orgulho bobo
com o olhar pelas pernas visitante. e não só permitiu como
da jovem – contornando
– Que sorte a dele, ter implorou que Juliano a
as varizes, obviamente –
uma mulher assim: até explorasse por inteiro.
até onde estas formavam

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Um pouco assustado missa posição para uma mente. Lisa seguia na
com o frenesi da gata, ele boa sessão de sexo oral. mesma cadência, com
a derrubou com carinho inconfundíveis gritos, pa-
sobre o sofá. Na queda, Ao término do mo- lavras sem nexo e frases
Lisa bateu com a cabeça nólogo, uma profunda com erros graves de con-
na quina do móvel, mas sensação de prazer inva- cordância verbal. O rapaz
não pôde gemer porque diu o corpo de Juliano. curtia cada segundo,
Juliano ainda a beijava. Nem tanto pela chupada pois tinha noção de que
As coxas da garota, ape- quente e gostosa da garo- comer outra igual àque-
sar de não definidas e ta, mas mais pelo fato de la demoraria um bom
porcamente depiladas, esta atividade fazer inter- tempo, caso não apelasse
formavam delicioso con- romper aquele falatório novamente para o Miami
vite. Todavia, as mãos do ridículo e sem propósito. Night Girls. O orgasmo
rapaz, mesmo munidas Experiente, Lisa conse- para Lisa chegava sob a
do ingresso, quase foram guia fazer com que seu forma de choques pelo
barradas diante da brutal aparelho ortodôntico não corpo. Menos intensos, é
inexperiência no assunto. machucasse o rapaz. Ela claro, do que aqueles que
seguia na eficiente acro- ela sentia quando mexia
Lisa, por sua vez, ba- bacia com a língua em no chuveiro elétrico com
bava e mordiscava com atos que mostravam, com as mãos molhadas.
ardor o pescoço do absoluta certeza, que por
amante, utilizando toda a aquela boca muitos com- Olhando para o reló-
saliva que sobrara após o pradores de artesanato já gio, Juliano percebeu que
ataque ao besouro. Com haviam passado. já estava muito atrasado
descabida violência, a para a saída do ônibus
garota erguia a camisa de Ciente de que sua pirata com os outros
Juliano, passando a mor- festinha ficaria restrita a estudantes do seminário
der com intensa luxúria um boquete, caso Melissa “Como aumentar a po-
seu peito e também a não cessasse a exuberante pulação das áreas ru-
barriga, faminta como performance, Juliano pu- rais”. Viu, porém, que ter
um cágado procurando xou-a pelos cabelos loiros desvendado o mistério
por alface numa horta. com inegável virilidade. trazido pelo outono vale-
Gemidos de muita dor, e Não conseguiu trazê-la ria qualquer esporro que
às vezes de prazer, ecoa- na primeira tentativa, certamente ele ainda ia
vam pela sala. pois a excessiva quanti- receber do supervisor de
dade de tinta amarela nos turmas.
Escorregando de ma- fios fez sua mão escor-
neira profissional pelo regar. Essa mesma mão O pensamento de am-
corpo do rapaz, Lisa resolveu, então, terminar bos viajava leve e gostoso
agachou-se e pôs-se a de destruir o short já após o coito. Lisa, fitando
abrir sua calça. Enquanto rasgado da garota, porque os olhos de Juliano, re-
superava os obstáculos até então, pela delicadeza, fletia: “Que romântico!
têxteis, a loira discursou o rapaz não conseguira Mesmo depois do amor
sobre como o destino nada e ambos ainda con- ele ainda continua fler-
pregava peças: minutos tinuavam vestidos. tando comigo!... Ah, não,
atrás, quando observara porra... é só o cacoete...”.
Juliano na praça, achou-o Possuindo-a carinhosa- Enquanto que Juliano
tenebrosamente feio e mente, Juliano finalmente também se confrontava
sem qualidades. A partir provou o sabor de Lisa com um dilema filosófico
daí, um engano, uma con- e viu que esse era ainda altamente revelador: “É...
versa, um suco de laranja, melhor que o do suco. O acho que no cuzinho não
um conhecimento maior corpo da jovem, quente vai dar tempo...”.
e já foi o suficiente para como um forno siderúr-
ela se colocar ali, ajoelha- gico, fazia Juliano entrar
da diante dele numa sub- em outra estação – a do
verão, muito provavel-

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Contos

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Barbara Duffles

Como substituir amores


Logo no primeiro dia cama com Lolinha, Aquiles relacionamento que dá
em que chegou, Lolinha não queria saber de mais certo, da paixão voluptu-
conquistou o coração de nada. Chegou a fingir uma osa veio o amor incondi-
Aquiles. Loura, seios fartos, gripe para faltar ao traba- cional. Aquiles e Lolinha
boca convidativa, cintura lho e garantir alguns dias continuavam enroscados
fina. E não tinha somente de luxúria com sua loura. dia e noite, mas agora os
estes atributos de mulher Seu programa preferido encontros tinham pitadas
fútil. Aquiles via nela duas era tomar banho de ba- de romantismo rasgado.
das qualidades que mais nheira com ela: adorava Aquiles levava flores, pre-
admirava nas fêmeas: não como o corpo de Lolinha parava jantares a dois em
tagarelava e sabia ouvir o ficava escorregadio na seu pequeno apartamento.
companheiro. Como todo água, um convite para mo- Cada vez mais apaixonado,
relacionamento, o início mentos inigualáveis a dois. ele se declarava de forma
foi de muita paixão. Noi- emocionada, fitando os
tes e noites rolando na Também como todo olhos sempre abertos dela,

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desejando ainda mais a se irritou com mulheres
boca convidativa da moça. verborrágicas. Henry Alfred Bugalho
A
GUI
Como alguns relacio-
namentos que dão certo
e depois se perdem, o
Só que, como a maior
parte dos relacionamen-
tos, a rotina chegou, abriu
Nova York
amor foi corrompido por a porta e sentou no sofá. para Mãos-de-VAca
uma dose exagerada de Após tanto tempo isola-
ciúme. Tão grande era o dos do mundo, Aquiles e
sentimento de Aquiles por Lolinha não tinham mais O Guia do Viajante Inteligente
Lolinha, que ele se trans- o que conversar. Ou me-
formou num obsessivo de lhor, ele é que não tinha www.maosdevaca.com
marca maior. Com medo o que dizer, já que ela não
de perder sua mulher para emitia sons mesmo. Aque-
os amigos, Aquiles nunca le silêncio todo de repente
a apresentou a ninguém. virou um suplício. Aquiles
Os dois passavam a maior começou a desejar que ela
parte do tempo juntos e falasse. A boca outrora
sozinhos, sem interferên- convidativa de Lolinha se
cias externas. Os amigos transformou num bura-
cochichavam a respeito co negro desinteressan-
dele às escondidas. Nin- te. Num dia de angústia
guém acreditava que incontrolável, empurrou a
Aquiles tinha mesmo a tal mulher contra a quina da
mulher incrível da qual parede. E então foi o fim.
ele tanto se gabava. Afinal,
nenhum deles havia visto Num estouro que se ou-
Lolinha. Chegaram a fazer viu até nos andares de bai-
um bolão no escritório, xo, Lolinha desapareceu.
onde as más línguas apos- Esparramados no chão, pe-
tavam que “ela”, na verda- daços de plástico que um
de, era “ele”. dia formaram o corpo da
boneca inflável de Aquiles.
Aquiles não se impor- Desesperado, ele agarrou-
tava com o que diziam, se aos restos mortais de
pensava só em Lolinha, em sua amada, jurando nunca
ficar com ela, em aprovei- mais comprar outra.
tar seu silêncio em paz.
Sim, silêncio, pois, como já Uma semana depois,
foi dito, ela não tagarela- o correio entregou um
va e estava sempre atenta pacote no apartamento de
ao que dizia o namorado. Aquiles. Era Silvinha, uma
Mas a verdade é que Loli- morena de arrasar quar-
nha não falava. Nada, na- teirão.
dinha. Um júbilo para os
ouvidos de Aquiles, falador
profissional que sempre

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Contos

O Admirador
Parte 3: Suspeitos
Maristela Scheuer Deves

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Sim, decidiu ela. Mes- ao seu cumprimento. “Vai os colegas e ex-colegas de
mo com medo, iria ao ver achou mesmo que trabalho, os vizinhos do
enterro para ver quem eu estava morta”, pensou, prédio, mesmo os amigos
estava lá e como o autor desanimada. da época de faculda-
dessa brincadeira mór- de. Ninguém parecia se
Fez sinal a um táxi
bida iria se sair sem o encaixar no perfil. Ainda
que passava e deu o
seu corpo para sepultar. olhava para a página em
endereço de um hotel
Acabaria, de uma vez por branco da agenda quando
do outro lado da cidade.
todas, com o plano dele. sobressaltou-se com uma
Lá, trancou-se no quarto,
“Aliás, já está na hora de batida na porta. “Enco-
sentindo-se finalmente
descobrir quem ele é”, menda para a senhorita”,
segura. Abriu a agenda
murmurou para si mes- anunciou a voz que reco-
na intenção de listar
ma, relembrando, com nheceu como a do rapaz
possíveis suspeitos, mas, a
uma seqüência de cala- que carregara a sua mo-
princípio, não conseguia
frios, o desenrolar daque- chila até ao quarto.
imaginar ninguém que
la história.
lhe quisesse fazer mal. O já costumeiro arre-
Desistira de tentar pio voltou a percorrer-
A não ser... Não, ele
avisar os pais e os ami- lhe o corpo – afinal, não
não seria capaz disso!
gos que estava bem. O pedira nada, e ninguém
Ou, pelo menos, não teria
melhor a fazer, até à hora sabia que estava ali. A
criatividade para tanto. A
de ir ao cemitério, era sensação mostrou-se
idéia, porém, insistia em
sumir para que ele não correta quando abriu a
martelar-lhe a mente: o
a encontrasse. Só assim porta e recebeu a rosa
ex-namorado, com quem
estaria segura de que vermelha. “Só faltam seis
terminara após descobrir
não haveria, mesmo, um horas. Não falte ao nosso
uma traição e que não
cadáver para ser coloca- encontro”, dizia o cartão.
aceitara a separação na
do no caixão. Tentando
época. Lembrou-se como
controlar-se, correu ao
ele costumava ligar-lhe
http://www.flickr.com/photos/al-stan/3093809724/sizes/l/

quarto e pegou uma mo-


sempre, insistentemente,
chila. Olhou para o ce-
até que decidira trocar o (continua no mês que
lular; melhor não levá-lo,
número do telefone... vem...)
decidiu. Depois de tantos
dias trancada em casa, Mas, não, a solução lhe
sentiu-se estranha ao parecia fácil demais. Ti-
pegar o elevador. Notou nha de ser outra pessoa.
que o porteiro a olhou Mas quem? Começou a
espantado, sem responder repassar na mente todos

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Contos

Giselle Sato

A Peruca
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Roberto Carlos dos San- tudo parecia cinza desbo- indo, preciso organizar os
tos Pinto. Por razões óbvias tado. A morena exibiu o lançamentos.
mantinha apenas o primeiro maravilhoso gingado no
Durante todo o dia, Ro-
nome no crachá onde exi- uniforme rosa e o mundo de
berto deu um jeito de passar
bia com orgulho a função Robertão vibrou em cores.
perto da secão feminina só
de ‘’Gerente’’. Trabalhava em Jú trabalhava para a “Lingerie
para olhar Juliana. Não con-
uma loja de departamentos, Du Corpo”, arrumava a seção,
seguiu disfarçar o interesse
no maior Shopping da Zona ajudava as freguesas e exibia
e a loja inteira percebeu e
Norte carioca. Vinte e dois os dentes branquíssimos no
passou a comentar. Principal-
anos de serviço. Nenhuma sorriso simpático. O corpo
mente as funcionárias anti-
falta ou atraso. Promoções, perfeito para qualquer roupa
gas, furiosas com a novata:
prêmios e metas vencidas íntima. A mulata de olhos
no “Curriculum” invejável. cor de mel e boca carnuda - Ridículo, deve ter idade
Baixinho e atarracado adora- enfeitiçou o gerente: para ser filha dele.
va ser chamado de Robertão.
-Bom dia, bem-vinda à - Não precisa exagerar, só
Bigode bem aparado, unifor-
loja; sou Roberto, muito acho que ele não se enxerga.
me ligeiramente apertado e a
prazer.
hipótese não confirmada do - Está com inveja Maria?
uso contínuo de peruca. Estendeu a mão e apertou Ciúme?
os dedinhos da moça, delicia-
Havia bolsas de apostas e - Eu? Ciúme do Robertão?
do com o perfume, a pele, a
um “Bolão” para quem conse- Está doida Lú? Olha a cara
voz e o jeitinho suave de Jú:
guisse provar a existência da de bobo apaixonado.
falsa cabeleira. Infelizmente - Vou trabalhar aqui este
- Ele vivia de olho em
o desafio parecia impossí- mês, muito prazer senhor
você e agora só pensa em Jú.
vel. As demonstradoras de Roberto.
Homem é tudo igual! Safado!
produtos capilares viviam
- Mas que pena...
oferecendo tratamentos gra- Finalmente chegou sexta-
tuitos, mas nunca puderam -Como? Fiz alguma coisa feira... Após o fechamento da
http://www.flickr.com/photos/sergiorecabarren/2437705056/sizes/o/

tocar em um fio de cabelo errada para o senhor não loja, o tradicional chopinho.
do gerente. Apesar de soltei- gostar de mim? Pela primeira vez o gerente
ro nunca aceitava os convites apareceu no barzinho. Es-
-Imagine, pena que ficará
dos colegas para um chopi- banjou simpatia conversando
só um mês. Tão simpática
nho no final do expediente. animadamente com todos,
e agradável. Se precisar de
A rotina casa/trabalho/casa pagando rodadas e sendo
alguma coisa sou o gerente. E
era mantida sem exceções. sempre muito solícito com
pode me chamar de Roberto.
Era um solitário. Filho único Juliana. Ora pegava uma be-
Nada de senhor!
cuidava da mãe doente e um bida, oferecia um petisco, um
tanto senil. - Ah, que bobagem a mi- guardanapo, sempre atento e
nha. Muito obrigada. Já vou dedicado. Jú parecia delicia-
Até à chegada de Juliana

www.revistasamizdat.com 43
da com as atenções. Os cole- muita coisa antiga, móveis cida com a cena: o filho nu e
gas foram saindo aos poucos pesados e um cheiro de gato sem conseguir sair do lugar.
e só restaram os dois. Rober- insuportável. Juliana olhou Com uma mulher igualmen-
tão e Juliana. E a conversa foi com repulsa os seis gatos te pelada, segurando um chu-
ficando mais íntima: empoleirados pelas poltro- maço de pêlos molhados. Al-
nas, mesas e até em cima da guns segundos depois, Juliana
- Moro aqui perto e você?
geladeira. A morena disfar- corria pela casa procurando
- Com meus pais em Bel. çou a ‘’cara de nojo’’, Roberto as roupas. Roberto levou a
era só gentileza : mãe de volta para o quarto
- Bel?
e tentou convencê-la de que
- Quer tomar um banho,
-Belford Roxo. Lá na bai- tudo havia sido um pesade-
minha querida? Pego uma
xada... lo. A velha senhora estava
toalha limpa para você.
em pânico e precisou tomar
-Nossa! No mínimo umas
- Aceito. Com este calor calmantes. Escutou quando
três horas de ônibus, não tem
fico tão suada... Você adivi- Jú bateu o portão da entrada
medo de assalto? A esta hora
nhou meus pensamentos. com força. Ainda era madru-
sozinha é muito perigoso.
gada, ficou preocupado com
Quando Roberto voltou
-Não percebi o tempo a moça na rua deserta mas
com a toalha, Ju estava no
passar, são quase duas horas estava tão envergonhado que
chuveiro com a porta aberta
da manhã e não sei o que não conseguiu tomar qual-
e a cortina de plástico trans-
vou fazer... quer atitude.
parente revelando tudo:
- Pode ficar lá em casa, No dia seguinte a Loja in-
-Vem, vem que a água está
moro sozinho. Quer dizer, teira sussurrava o fato, Julia-
uma delícia. Robertão não
minha mãe é bem velhinha na foi transferida para outro
pensou duas vezes, arrancou
e não incomoda nada. Tem Shopping na mesma tarde.
as roupas e entrou no box do
quarto sobrando, seu namo- Saiu feliz, carregando na bol-
banheiro apertado. Agarrou
rado não precisa ficar com sa os 500 reais do prêmio do
o corpo desejado, tocou cada
ciúmes. ‘’Bolão’’ e a peruca enrolada
pedacinho com carinho. Ton-
em um saco plástico. Rober-
- Que namorado? Estou to de tesão, esqueceu comple-
tão assumiu a calvície pela
solteira, e vou aceitar seu tamente seu maior segredo.
primeira vez. Caminhou pe-
convite, estou super cansada, las seções exibindo a careca
Jú acariciou o rosto de
Robertão... brilhante. Ignorou os risinhos
Robertão, o pescoço e os ca-
A residência dele ficava na belos... saíram em suas mãos e olhares dos colegas. Ao

rua em frente ao shopping. provocando um grito horri- final do dia estava mais ani-

Dez minutos e estavam na pilante. Juliana segurando a mado com os elogios ao seu

casinha humilde mas bem peruca e gritando, despertou novo visual. Havia descoberto

conservada. Fez questão de a mãe de Roberto. A idosa o charme dos carecas.

mostrar todos os cômodos: entrou no banheiro estarre-

44 SAMIZDAT junho de 2009


44
Ele tinha diante de si
a mais difícil das missões:
cumprir a vontade de Deus ficina
www.oficinaeditora.org

Henry Alfred Bugalho


http://www.lostseed.com/extras/free-graphics/images/jesus-pictures/jesus-crucified.jpg

O Rei dos
Judeus
do www.revistasamizdat.com 45
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gr nl
át
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is d
Autor Convidado

Rodolfo Bispo

Decoração está tão associado a morte, escravatura e des-


truição quanto eu gostaria.
No outro dia, fui a uma loja de decoração e Eu acho que esta coisa do Estilo Colonial come-
fiquei muito espantado, porque havia lá mobília çou num navio negreiro. No escuro do porão,
de Estilo Colonial. Para mim, colonial significa um escravo segredava a outro:
colonialismo, exploração, escravatura, tortura,
homicídio, valas comuns. – Espero que o mundo nunca esqueça esta
injustiça terrível, que esta página horrenda da
– Eh, pá, isso é o ideal para a salinha da televi- História sirva de inspiração para… talvez
são! Eu quero decorar a minha casa assim! uma moda qualquer, talvez decoração!
Se o Estilo Colonial é uma boa ideia para deco- Deve ter sido isso. Mas por quê parar no Estilo
ração, eu quero que a Inquisição Espanhola seja Colonial? Por que não um passo de dança Esti-
um «fashion statement»: lo Acidente de Viação na A5?
– Ofélia, essa mini-saia é tão… não sei… – Eh, pá, espectacular! Muito «fashion», «man»!
tão… Inquisição Francesa!
Ou, por exemplo, o Estilo de Penteado Cancro
– Tá parva?! Esta saia é, claramente, Inquisição nos Intestinos! Hã? Boa?
Espanhola! Não vê que dá com os sapatos…
estes sapatos que se usam agora… Estilo
Genocídio no Ruanda? Ai, adoro Genocídio no (Texto de sketch de áudio)
Ruanda! Quem me dera poder decorar com
este estilo a minha sala! Ai, a sério, estou tão
farta daquele Estilo Colonial que lá tenho! Não

Yellow Submarine Aluga-se – T4+1 boas áreas

Cheguei ao computador e todos os botões estavam errados,

http://www.flickr.com/photos/boadiceafairy/1705580506/
trocados, equivocadamente posicionados. Ao lado do P esta-
va um botão azul de uma camisa que usei uma vez para uma
cerimónia de circuncisão a laser. No lugar da barra de espaços
estava um espaço para alugar. E em vez do ESC tinha a ESC 2+3
(Escola Secundária de Cashkaische (Cascais dito com aparelho
nos dentes)).
Quando vi que no ecrã havia dois limpa-vidros, percebi.
Saí do carro e jurei nunca mais conduzir bêbado.

Migalhas das torradas

O carcaças da minha vizinha! O caraças da


minha vizinha manda-me com as migalhas das
carcaças para a pontinha da janela; a beirada
da minha vidraça fica forrada com a porrada
de migalhas e restos das toalhas das carcaças
do caraças da loiraça da minha vizinha.

46 SAMIZDAT junho de 2009


46
Vai um em anexo

Anexei o senhor meu punho ao ficheiro facial fronteiro na zona nariguda da fronha feia de um
cavalheiro que ministra um cargo político.
Fiquei com os nós imundos de Honestidade, Confiança, Rigor e outras mentiras com que a besta
do senhor se maquilha antes de vir de se vender na Assembleia.
Ele que vá perguntar as horas a outro eleitor. A lata desta gente!

Ontem fui a uma exposição

Nas exposições de arte contemporânea, gosto muito de ver toda a gente descon-
textualizada. Pessoas normais a ver coisas muito estranhas. Espantadas:
– Mas o que é isto? Isto é arte? Esta não percebo. Mas é só isto?
Desta vez, aquilo de que gostei mais foi pintar vinte símbolos fálicos e depois
convidar os meus pais e os meus sogros para me virem dar os parabéns.

(Quatro posts do blog pessoal)

Comprei uma boneca insuflável; na primeira Mais depressa se apanha o mentiroso que
http://www.flickr.com/photos/smannion/2515235183/

volta tive um furo! o coxo. Sou pescador e para mim tanto me


faz, apanhar um ou outro! Tudo o que vem à
rede é Google!
Se o caso "Jesus na cruz" fosse agora, não
era publicitado! Não dava em Bíblia! Era só
uma notícia da Faixa de Gaza no jornal da Há males que vêm por bem... Sim, mas prova-
TVi! velmente passam por bem, contornam e seguem
para mal!

"Deus escreve direito por linhas tortas" não


faz sentido! É como um elogio ofensivo: Olhai os lírios do campo...espera, são
– A sua filha é tão bonita que podia ser silvas!
prostituta!
Levei o portátil ao barbeiro...
Vi na montra duma loja: "Últimas liquida- – Alguém sabe limpar teclados? Isto está
ções!" – Serão saldos ou execuções sumárias? cheio de cabelos!
Do mal, o menos, podia ter ido ao Peepshow!
Aquela velhota ainda tem as maminhas
firmes, ou aquilo é rigor mortis? (Posts no Twitter)

Rodolfo Bispo (1981) é pintor por paixão e formação, no entanto, tem encontrado na escrita a forma de ex-
pressão adequada a mensagens menos sintéticas. Alimenta um blog pessoal desde 2003: http://www.peludo-
eazul.blogspot.com/ Desde 2007, tem-se deixado seduzir pelo stand up, e a escrita de humor em geral, tendo
sido passados vários sketches seus no programa de rádio Cómicos de Garagem: http://ww1.rtp.pt/icmblogs/
rtp/comicos-de-garagem/ Integra, também, o grupo humorístico que produz o blog: http://aultimasopa.blogs.
sapo.pt/ Ultimamente, entusiasma-se com a brevidade, de possibilidades acutilantes, do Twitter: http://twitter.
com/RodBispo

www.revistasamizdat.com 47
Tradução

Henry Alfred Bugalho

François Rabelais
e o mundo às avessas

48 SAMIZDAT junho de 2009


48
Poucos autores foram guiu trazer para a Literatu- uma viagem em busca
tão geniais, renovadores e ra a linguagem e a vida da da “Botelha Sagrada”. Esta
mal compreendidos quanto praça pública e do mercado, viagem prossegue pelos
François Rabelais. Nasci- rompendo, em parte, com a quarto e quinto livros, nos
do numa quinta próxima natureza elitista da escritu- quais Pantagruel, Panurge e
a Chinon, em 1494, filho ra. O sucesso de “Gargântua Frei Jean, um ex-monge, se
dum advogado local, Rabe- e Pantagruel” seria o refle- deparam com uma série de
lais ingressou cedo na vida xo do povo retratado a si aventuras por mares desco-
monástica. No entanto, por mesmo, ao mesmo tempo nhecidos.
causa de suas ideias e obras, em que isto seria a fonte da
Nestes cinco livros, Ra-
ele bateu de frente com a controvérsia entre Rabelais
belais desenvolve toda uma
Igreja, com os teólogos e os e os eruditos de sua época.
concepção do mundo, unin-
eruditos da Sorbonne.
Os dois primeiros livros do aspectos sacros, eruditos,
Atuou como médico e, da obra, Pantagruel (publi- elevados ao baixo, munda-
mais do que isto, redigiu e cado em 1532) e Gargântua no, vulgar, grotesco.
publicou livros na área de (publicado em 1534), surgi-
François Rabelais morreu
Medicina, mas foi por causa ram sob o pseudônimo de
em Paris em 1553. Um dos
do conjunto dos livros de Alcofibras Nasier, um ana-
mais controversos autores
“Gargântua e Pantagruel” grama de François Rabelais,
da História se despediu da
que Rabelais se imortalizou e foram imediatamente con-
vida terrena com a célebre
e revolucionou a Literatura. denados pela Sorbonne e
e disputada frase: “Parto
pela Igreja Católica. Nestes
Segundo o mais impor- para ver o Grande Talvez...
dois volumes, são apresen-
tante trabalho sobre a obra Fechem as cortinas, a farsa
tados o nascimento e a cria-
de Rabelais, escrito por acabou”.
ção dos gigantes Gargântua,
Mikhail Bakhtin, a grande o pai, e Pantagruel, o filho,
novidade de “Gargântua e duma maneira bastante
Pantagruel” não residia nos cômica, escatológica e, às Fontes:
temas abordados — como vezes, herética. O persona-
o grotesco, a escatologia, a gem Gargântua já existia - BAKHTIN, Mikhail, Cul-
carnavalização do mundo anteriormente, numa obra tura Popular na Idade
ou o mundo às avessas —, anônima e bastante popu- Média e Renascimento.
mas sim na renovação feita lar, e Rabelais bebeu desta São Paulo: HUCITEC, 1987.
por ele da língua france- fonte para elaborar sua
sa, ao introduzir termos e série, sofisticando bastante - The concise dictionary
expressões derivados direta- a narrativa original e intro- of foreign quotations
mente do grego e do latim, duzindo novos elementos.
e ao utilizar uma ortografia http://books.google.com/
própria, que serviriam, em No terceiro livro da série, books?id=3KLz2QEdQaoC
parte, como inspiração para inicia-se a narração do - Wikipédia
mudanças posteriores do dilema de Panurge, um dos
idioma. Bakhtin defende companheiros de bebedeira http://en.wikipedia.org/wiki/
que o sucesso imediato da de Pantagruel, sobre se ele Fran%C3%A7ois_Rabelais
obra-prima de Rabelais se deveria se casar ou não.
deveu ao caráter popular Para obter uma resposta,
dele, já que Rabelais conse- eles decidem empreender

www.revistasamizdat.com 49
Tradução

François Rabelais
tradução: Henry Alfred Bugalho

Gargântua
50 SAMIZDAT junho de 2009
50
ou a muito horrível vida do grande Gargântua, pai de Pantagruel
Capítulo VI. Como — O quê? — disse saliências nojentas, e
Gargântua nasceu dum Grandgousier. pensaram que era o bebê.
jeito muito estranho Mas era o fiofó dela que
— Há, ela disse, você
havia lhe escapado, por
é um bom homem! Você
Enquanto eles agra- causa do amolecimento
entendeu bem.
davelmente debatiam do intestino — chamado
sobre beber, Gargamele — Meu membro? — ele de entranhas — porque
começou a se sentir mal disse — Pelo sangue das havia comido muitas
das partes baixas; então cabras! Se bem lhe apete- tripas, como havíamos
Grangousier se levantou ce, faça com que tragam declarado anteriormente.
da grama e a reconfortou uma faca.
Então, uma velha feia
honestamente, pensan-
— Há — ela disse — da companhia, que tinha
do que era o bebê a lhe
Deus me livre! Que Deus a reputação de ser uma
fazer mal, e lhe disse que
me perdoe! Não disse isto grande médica, vinda de
seria melhor que ela des-
com sinceridade, e não Brisepaille, perto de Saint
cansasse sob o salgueiro,
faça nada do que digo. Genou, sessenta anos
pois em breve ela estaria
Mas eu terei trabalho atrás, fez-lhe um cons-
bem e era conveniente
o bastante por hoje, se tipante tão horrível que
ter nova coragem para
Deus não me ajudar, por suas pregas se obstruíram
a chegada iminente do
causa de seu membro e e se fecharam tanto, que,
pimpolho, e que apesar
para agradá-lo. até com os dentes, seria
de a dor poder ser severa,
difícil abri-las, o que é
ela logo acabaria, e que a — Coragem, cora- algo horrível de se pen-
alegria que se sucederia gem! — ele disse — não sar: mesmo imitando o
amenizaria toda a dor, de se preocupe e deixe que diabo, que na missa de
modo que nem memória quatro bois façam o Saint Martin, transcreveu
dela restaria. trabalho. Vou tomar mais o bate-papo de duas gale-
uma bebida. Se lhe recair
— Coragem de ovelha! sas, esticando o pergami-
algum mal, você me terá
— ele disse — Dê a luz a nho com os dentes.
por perto: dê um assovio
este menino, e logo fare-
que estarei com você. Por este inconveniente,
mos outro.
soltaram-se os cotilédo-
Pouco tempo depois,
— Há! — ela disse — nes de seu útero, através
ela começou a suspirar,
com que facilidade vocês do qual a criança saltou
a se lamentar e a chorar.
homens falam! Bem, por pra cima e entrou na veia
Ilustração: Gustave Doré

Subitamente, de todos os
Deus, vou me esforçar, cava. Então, escalando o
cantos vieram as parteiras
porque você me pede. diafragma até os ombros
e, apalpando por debai-
Mas suplico a Deus que (onde a veia se divide em
xo, encontraram algumas
lhe seja cortado! duas), ela tomou o cami-

www.revistasamizdat.com 51
nho da esquerda e saiu mulheres dariam à luz, Capítulo VII. Como
pela orelha esquerda. doravante, pela orelha. Gargântua recebeu seu
nome e como ele bebia
Assim que nasceu, não
vinho
chorou como as outras
Não foi Baco engen-
crianças: “Miez, miez”,
drado desde a perna de O bom homem Gran-
mas gritou em voz alta,
Júpiter? gousier bebia e se regala-
“beber! beber! beber!”,
va com os outros, escutou
como se convidasse todo Não nasceu Roque-
o horrível grito que seu
o mundo a beber. E o taillade do calcanhar de
filho deu ao entrar na luz
barulho era tão alto que sua mãe?
do mundo, exigindo: “Be-
podia ser ouvido ao mes-
Crocmoush da pantufa ber! Beber! Beber!” Então
mo tempo nos países de
de sua babá? disse: “Que garganta!” Ao
Beausse e Bibaroys.
ouvirem isto, os assisten-
Não nasceu Minerva tes disseram que a crian-
do cérebro, através da ça deveria se chamar
Questiono-me se você orelha de Júpiter? Gargântua, porque esta
não acredita totalmente
Adônis da casca de havia sido a primeira pa-
neste estranho nascimen-
uma árvore de mirra? lavra dita pelo pai após o
to. Se não acredita, não
nascimento, em imitação
me importo; mas um ho- Castor e Pólux duma ao exemplo dos antigos
mem de bem, um homem casca de ovo que havia hebreus, com o qual ele
de bom senso, acredita sido posto e chocado por concordou, e agradou
em tudo que lhe contam Leda? bastante também à mãe.
e em tudo que lhe chega
E, para acalmar a criança,
por escrito. Isto é contra
eles lhe deram de beber
nossa lei, nossa fé, nossa Mas você se espanta- em abundância, e a car-
razão, contra as Santas ria e estupefaria mais se regaram até à fonte e a
Escrituras? De minha eu lhe expusesse aquele batizaram, como é o cos-
parte, não encontro nada capítulo de Plínio, aquele tume dos bons cristãos.
na Bíblia Sagrada que seja no qual ele fala de nasci-
contra isto. Mas, se esta mentos estranhos e con- E ordenaram que trou-
foi a vontade de Deus, trários à natureza; ainda xessem dezessete mil,
você diria que ele não que eu não seja tão men- novecentas e treze vacas
o fez? Ah, misericórdia, tiroso quanto ele foi. Leia de Pautille e Brehemond
não emburreça jamais o sétimo livro de sua para amamentá-la ordi-
seu espírito com estes História Natural, cap. III, nariamente, porque era
vãos pensamentos, pois e não me perturbe mais impossível encontrar
eu lhe digo que nada é a cabeça. amas suficientes no país,
impossível para Deus e, considerando a grande
se ele quisesse, todas as quantidade de leite ne-

52 SAMIZDAT junho de 2009


52
O lugar onde
cessária para alimentá-la; estar amuado, nervoso, a boa Literatura
apesar de alguns médicos chateado, ou feliz, se ele
escotistas terem afirmado tripudiasse, se reclamasse,
é fabricada
que sua mãe a amamen- se chorasse, traziam-lhe a
taria e que ela poderia bebida para restaurar-lhe
tirar de suas mamas o ânimo, e imediatamen-
mil, quatrocentos e dois te ele se acalmava e se
barris e nove canecas de alegrava.
leite por vez; o que não
Uma de suas gover-
é provável, e esta pro-
nantas me disse, jurando
posição foi considerada
pela figa, que ele se acos-
mamariamente escanda-
tumou tanto a isto, que
losa e ofensiva a ouvidos
o mero som de canecas
pios, e com um toque de
e jarros faziam-no entrar
heresia.
em transe, como se des-
Nestas circunstâncias, frutasse das alegrias do

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
ele foi cuidado até um paraíso. De modo que,
ano e dez meses; depois considerando sua com-
deste tempo, pelo con- pleição divina, para ale-
selho dos médicos, co- grá-lo, de manhã, faziam
meçaram a carregá-lo, e ressoar copos com uma
foi feita uma bela char- faca, ou garrafões com
rete de bois, inventada suas rolhas, ou as canecas
por Jean Denyau. Nela, com suas tampas, e aque-
levaram-no para passear les sons o deixavam feliz,
e ele se alegrava muito; e saltitante, e ele se debatia
o exibiam, pois ele tinha no berço, balançando a
uma bela face e dezoito cabeça, monocordiando
queixos. Quase nunca os dedos e baritonando
chorava, mas cagava a com o cu.
toda hora. Pois ele era
incrivelmente fleumáti-
co de bunda, tanto por Fonte:
causa de sua complei-
ção natural quanto pela http://www.ed4web.
disposição acidental que collegeem.qc.ca/prof/rtho-
lhe adveio por tomar os mas/pm/gargantua.pdf

ficina
vinhos setembrinos. Mas
ele não bebia sem moti-
vo; se acontecesse de ele

www.oficinaeditora.org

53
Crônica

Firewall para Mercedes


Joaquim Bispo

54 SAMIZDAT junho de 2009


54
Há quem se queixe de que sua trajectória e, em confor- dade nos modelos seguintes,
os Mercedes nunca fazem midade, accionam os piscas, para os interessados, ou seja,
piscas. Dizem que os condu- exaustivamente, a cada curva todos. Outras marcas segui-
tores de carros desta marca mais acentuada. Essa é a sua ram o exemplo da Mercedes
são de arrogância e sobran- postura cidadã. Simplesmen- e hoje é frequente ver carros
ceria extremas, e por isso te, o sistema do carro não de diversas marcas a não
compraram um carro que permite que os piscas sejam fazer piscas, tanto que se
pensam que os coloca acima vistos no exterior. É um pro- chegou a falar em «estatuto
das regras da estrada e das blema de estatuto assumido BMW» e «estatuto Audi». A
normas de cidadania, mesmo pela marca, há muitos anos. propagação do fenómeno
quando não passa de uma Cada Mercedes está equipa- vulgarizou demasiado o con-
lata velha de marca, como do com um detector que foi ceito de «estatuto», pelo que
se ela lhes conferisse um programado com os dados se desenvolveu um processa-
qualquer «estatuto Mercedes». biomédicos médios de um dor mais abrangente que foi
Dizem que têm desprezo condutor de Mercedes. A designado por «espírito Mer-
pelos peões que, para atra- antena do detector está alo- cedes». Este sistema computo-
vessar a rua, esperam em vão jada na estrela de três pontas rizado pode ser instalado por
que o carrão passe, e pelos inscrita num círculo, que qualquer condutor, mesmo
automobilistas que, no cru- constitui o símbolo da mar- que não possua melhor
zamento à frente, aguardam ca. Cada vez que o condutor máquina que um «carocha».
que o Mercedes passe, quan- dum Mercedes faz piscas, o Ou que, como no caso dum
do o condutor, afinal, vira detector analisa o sinal e, se condutor de táxi que, embo-
antes sem fazer piscas. Que a origem for um verdadeiro ra pilotando um Mercedes,
obrigam várias pessoas a condutor de Mercedes, blo- não tem, em geral, «estatuto
esperar, em vão, consciente e queia a transmissão do sinal. Mercedes». Socorre-se, então,
intencionalmente. Que fazer É uma espécie de «firewall» do «espírito Mercedes», às
piscas é que não, que está para prevenir que um qual- vezes, melhorado com vários
acima dos seus princípios. quer condutor desses carros «up grade», não sinalizando a
Dizem que ignoram acintosa- pífios que por aí se arrastam marcha, ultrapassando pela
mente os automobilistas que se faça passar por um ver- direita, queimando sinais ver-
atrás deles têm que fazer tra- dadeiro piloto de Mercedes. melhos, parando a um metro
vagens, guinadas apressadas Sim, piloto é uma designação do passeio, estacionando a
ou perdem tempo sem razão. muito mais adequada a quem ocupar três lugares.
Que antes uma falência que conduz uma dessas máquinas Sabendo destas infor-
fazer piscas. transcendentes. mações, não há razão para
Nada de mais errado – Dizem que tudo começou continuar a considerar
http://www.flickr.com/photos/michieldijcks/2692977009/sizes/o/

informaram-me. Os condu- com uma alteração que um incivilizados os pilotos dos


tores de Mercedes são, duma mecânico habilidoso introdu- Mercedes. E se alguma vez
maneira geral, pessoas com ziu num Mercedes, a pedido virem um carro desta marca
um alto sentido de cidadania. do dono. Era um cliente que a fazer piscas, tomem uma
Fazem sempre piscas, cada sentia o apelo do «estatuto coisa como certa: o carro foi
vez que mudam de direc- Mercedes» e temia que uma roubado. Não duvidem disso
ção, mesmo que não vejam distracção ao volante o le- só pelo facto de verem um
peões ou automóveis atrás vasse a mostrar consideração bronco ao volante. Também
ou à frente de si. Tomam pelo próximo. Rapidamente, há ladrões de automóveis
por princípio que, mesmo o exemplo foi seguido por que têm esse ar. Mas aconse-
que não o estejam a ver, centenas de outros condu- lho a que não vão logo cha-
pode haver um peão ou um tores de Mercedes, até que mar a Polícia. É que o carro
automobilista dependentes da a marca integrou essa novi- pode ter a «firewall» avariada.

www.revistasamizdat.com 55
O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada
http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

ficina
56 SAMIZDAT junho de 2009 www.samizdat-pt.blogspot.com 56
56
www.oficinaeditora.org
Crônica

http://www.flickr.com/photos/jamilsoni/64390285/sizes/o/
Caio Rudá de Oliveira

Use óculos
Não raro nos pegamos a afirmativa que me rendi ao imagem de cult, genuínos
observar, com aquele olhar fenômeno da estereotipagem passaportes para o sucesso
profundo, para incautos sujei- ao comprar meus novos ócu- artístico.
tos que andam distraidamen- los. A intenção foi substituir Quer ser ouvido? Use
te na calçada, ou que estão a armação antiga, leve, fina óculos. Suas palavras irão
na fila do banco - completos e mais arrojada, por uma soar como conselhos de um
inocentes. Eles não imaginam mais cheia, clássica, bem ao sábio. Quer ser referência?
que, a poucos metros de si, estilo escritor, cuja aparência Use óculos. Sua figura se
alguém pode estar a traçar me colocaria mais de acordo valoriza com eles em sua
minuciosamente seu perfil com o propósito da literatu- cara. Quer ser jornalista? Use
psicológico, lição básica do ra. óculos. Suas matérias estarão
manual “A arte de bisbilho- Certamente Drummond na capa de jornal. Quer ser
tar”. não seria reconhecido pelo escritor? Use óculos. Você irá
Nesse tipo de construção seu talento se não usasse entrar para a Academia Bra-
da imagem alheia, os ócu- óculos. Também João Ubaldo sileira de Letras. Quer ban-
los são um item crucial na Ribeiro e Manuel Bandeira. car o inteligente sem saber
determinação das caracterís- Benditos são esses óculos que patavina? Use óculos. É um
ticas, conferindo um certo ar servem de auxílio à visão, verdadeiro fato alquímico; do
de intelectualidade a quem verdadeiros olhos, e que cobre ao ouro, da ignorância
os usa. Tanto acredito nessa também colaboram com a à sabedoria.

www.revistasamizdat.com 57
Crônica

Prêmio Ig Nobel
Caio Rudá de Oliveira

58 SAMIZDAT junho de 2009


58
Eu tento entender a hu- lógica. Ciência é feita de Em 2007, na categoria
manidade; eu juro que tento. método e aplicação práti- Paz, o Air Force Wright
Porém tem certas coisas que ca; um pouco de seriedade Laboratory foi o vencedor,
fogem da compreensão de cai bem. No entanto, esses por sugerir a pesquisa de
qualquer ser humano. Para preceitos básicos para se uma ‘bomba-gay’ que faria
mim, o mundo perdeu a sua fazer ciência parece terem as tropas inimigas sentirem
capacidade de surpreender. sido esquecidos pelos novos uma atração sexual mútua.
Einsteins. Todo ano, inúme- No mesmo ano, na catego-
Na História, sempre ras experiências e pesqui- ria Linguística, Juan Manuel
houve o contraponto entre sas, no mínimo, inúteis são Toro, Josep B. Trobalon e
bobos e inteligentes. Os pri- realizadas. Alguns, além de Nuria Sebastian-Galles rece-
meiros servindo de matéria sem serventia são engraça- beram as honras por des-
para o estudo dos segundos, dos, chegam a ser patéticos cobrirem que ratos às vezes
que por sua vez oferecem e beiram o bizarro. E para não conseguem diferenciar
resultados e melhorias para completar, já que a espé- gravações de japonês e ho-
o bem comum. Uma espécie cie humana é por demais landês tocadas reversamente.
de mutualismo. Ultimamen- oportunista, até existe prê- Em 1995, cientistas japone-
te, no entanto, as coisas têm mio para contemplar esses ses e seu treino de pombos
se confundido. Tem surgin- gênios e seus experimentos para distinguirem pinturas
do toda sorte de pseudointe- interessantes. É o tal do Ig de Picasso das de Monet
lectuais e também cientistas Nobel Prize, ou Prêmio Ig também foram laureados,
aos quais adjetivar ‘estúpi- Nobel. em Psicologia. Três anos
dos’ é de um eufemismo mais tarde, foi concedido
ímpar. Portanto, fica difícil Desde 1991, são distri- prêmio em Estatística a Je-
definir os bobos e os inte- buídos prêmios em diversas rald Bain e Kerry Siminoski,
ligentes. Deve haver alguns categorias para as ‘pesquisas do Canadá, por seu estudo
poucos que se encaixam que fazem as pessoas rirem sobre o peso, tamanho do
fielmente nessas categorias, e depois pensarem’, como pênis e comprimento do
http://www.ucdmc.ucdavis.edu/welcome/features/20061011_ig_nobel_schwab/photos/Schwab37.jpg

mas hoje eu aposto numa sugere o lema do grupo que pé. Também entra na lista
maioria híbrida. E como se organiza as cerimônias. Ce- uma tese de Ph.D. sobre a
sabe, híbridos são animais rimônias essas que, pasmem, história das lojas de donuts
estéreis. são realizadas com a cola- canadenses, um spray para
boração da Universidade de detectar a infidelidade de
Logo, inférteis são tam- Harvard.
bém suas produções, ar- um marido, um dispositi-
tísticas ou científicas. Não Todo tipo de despro- vo ao qual se amarra uma
contribuem lá com muita pósito já foi catalogado e mulher prestes a dar à luz e
coisa. No máximo garantem premiado. Só não sei se o gira em alta velocidade para
o troféu eu-fiz-algo-em- critério é recompensar os auxiliar o parto, imãs que
minha-vida ao seu mentor. mais dementes ou os me- levitam um sapo e tam-
Assim, tudo bem que não nos, dentro do contexto dos bém um lutador de sumô, a
acrescentem nada, mas cientistas malucos. Esses descoberta de que o buraco
também ser uma experiên- professores Pardais, aliás, negro preenche todos os
cia tão inútil que não vale são laureados em uma festa requisitos para a localização
toda a demanda de esforços, pomposa, semelhante ao pa- do inferno. E é daí para pior.
dinheiro e tudo o mais é rodiado Prêmio Nobel. Vale Resta saber quem são os
o fim da picada. Os artis- citar alguns desses destem- mais débeis: os cientistas ou
tas ainda têm a licença de peros: quem os premeia.
transcender, ousar e não ter

www.revistasamizdat.com 59
Crônica

Caio Rudá de Oliveira

Uma vez idéia,


sempre idéia
Recentemente, todo bom Pelo menos até hoje. Sem ele, ficará algo mutilado,

http://www.flickr.com/photos/tadeupereira/2046004336/sizes/l/
brasileiro que se preze se como uma árvore sem suas
achou no direito de dar o seu Reformas no idioma, a folhas.
pitaco sobre o recente acordo priori, buscam uma melhora.
ortográfico. Se pela conjuntu- Prefiria crer que a unifica- Sei que não vou aderir a
ra ou por real interesse pela ção da língua portuguesa essa ideia, e vou ficar com
coisa, já é outra história. não fosse uma brincadeira minha antiga idéia. Se eu
de menino e se vários espe- ceder, daqui a pouco vão
O fato é que só os blogues cialistas, de diversos lugares, querer arrancar o acento de
devem amontoar uma quan- decidiram por agir de tal “Rudá” também. Então, peço
tidade de informação desse maneira é porque há motivos a todos adesão ao Manifesto
assunto suficiente para uns que o justifiquem. Mas agora Anti-castração de Idéia, pois
dois anos de leituras. Tem vejo o despropósito desse além do agudo, estão levando
gente que é contra ou a favor acordo. Vão acabar com o junto o assento da palavra.
mas não sabe por quê, tem acento da palavra idéia. Poxa,
gente que não sabe o que é afinal é a marca do meu Por último, vai haver
mas tem opinião formada e blogue que está em jogo. O punição por não escrever
tem gente que sabe mas não agudo para mim é tão parte dentro das novas regras ou,
tem. Esse último, meu caso. do vocábulo quanto o i ou d. no máximo, vou ser o burro
que acentuará idéia?

60 SAMIZDAT junho de 2009


60
Crônica
Oito horas de sono,
dois litros de água
e menos de duas mil calorias

Volmar Camargo Junior

http://www.flickr.com/photos/paulvaarkamp/1411929231/sizes/l/
Gato é o bicho mais deixando o organismo tra- horas possíveis de um dia.
inútil que existe. Eu queria balhar sozinho... acho isso É uma provável explicação
saber de onde é que esses perigoso demais (já p*idei para terem tanta disposi-
bichos tiram tanta disposi- dormindo tão alto que ção para não fazer nada, e
ção pra dormir. Três quin- acordei com o barulho). Se espaço livre no HD mental
tos do seu dia eles passam neguinho for prestar aten- para enfiar música de gosto
dormindo, um quinto se ção, oito horas é um terço duvidoso e sentimentos de
lambendo e o outro quinto do dia. Isso significa que, auto-piedade. Isso, é claro,
destruindo alguma coisa se eu for seguir à risca essa os que não turbinam sua
dentro de casa – ou arru- contagem de horas dormi- chatice com álcool y otras
mando confusão na rua. das, um terço da minha cositas más.
Os gatos são adolescentes a vida vai ser babando e Eu durmo pouco, como
vida inteira. p*idando inconscientemen- muito e só bebo água no
As normas (quem disse?) te. Fazendo as contas meio café. E, de vez em quando,
da vida saudavelmente cor- por cima, então, eu tenho misturada com outras coi-
reta dizem que os humanos dezenove “anos úteis”. Vai sas que na adolescência eu
normais e civilizados de- ver é por isso que a maior não curtia.
vem dormir de sete a oito parte dos adolescentes (i.e.:
os vivos) são tão imprestá- Ah, sim. Eu já fui adoles-
horas diárias. Eu não tenho cente. E fiz todas as im-
saco para dormir. Acho veis: nos anos teen (dos tre-
ze aos dezenove, segundo pertinências pertinentes à
que a gente perde muito, idade. Minha mãe não tem
muito, muito tempo inerte, a língua do viúvo da Lady
Di), dorme-se em média saudade dessa época.
só respirando, babando e
doze das vinte e quatro

www.revistasamizdat.com 61
Crônica

http://www.flickr.com/photos/revjim/2157610777/sizes/o/
Volmar Camargo Junior

A arma mais perigosa da Terra


Se acontecer, coinci- não conseguem parar de a boca, respirar pesada e
dentemente, de dez pesso- bocejar. Todos os jornais, fortemente, sentir zum-
as estarem em um mes- concorrentes do empre- bir leve e continuamente
mo recinto, e uma delas gador daquele décimo os ouvidos, lacrimejar os
bocejar, automaticamente, primeiro indivíduo, o olhos, haverá o despertar
outro pobre coitado, por jornalista, que estava lá de um duro complexo
adesão inconsciente, irá e viu os dez bocejando, de culpa, porque você é
fazer o mesmo até que vão atrás de mais infor- um portador do bocejo,
todos os membros daque- mações e, como mosca e todos os que o virem
le grupo estejam conta- em rolha de xarope, vão serão irremediavelmente
minados pelo bocejo. descobrir que o bocejo se contaminados.
espalha a uma velocidade
Se, além desses, hou- alarmante. Os governos Isso, é claro, até que a
ver décimo primeiro, e são orientados a man- notícia epidêmica esfrie,
este infeliz for jornalista, ter os bocejadores em como aconteceu à gripe
ferrou tudo. Em menos quarentena, e os amigos, aviária, à febre aftosa, à
de vinte minutos, está parentes, vizinhos e par- doença da vaca-louca, e
feita a primeira epidemia ceiros de canastra dos surja outra coisa com que
de bocejo. No vigésimo dez primeiros bocejado- os jornalistas se ocupem.
segundo minuto, haverá res sejam mantidos sob
pessoas que conhecem criteriosa vigilância. E, se
aqueles dez mandando você apresentar os sinto-
e-mail para as redações mas de abrir largamente
dos jornais, dizendo que

62 SAMIZDAT junho de 2009


62
Crônica

http://www.flickr.com/photos/twose/887903401/sizes/l/
Léo Borges

“Nós” está morrendo


É com grande pesar que “(...) do, mas sua concordância
constato mais um lento e Que resta do amor verbal inadvertidamente
agonizante padecer na lín- permanece, criando ora-
gua portuguesa. Desta vez a quem é como nós? ções ridículas:
é o pronome pessoal “nós” Envergonha-me pôr – A gente vamos.
que está na UTI, em coma
profundo. E sua morte não em verso: «somos sós; – Nós vai.
foi decretada por nenhum (...)” Não dá para negar que
acordo ortográfico, deu-se Arriscar esse bonito o “a gente” destruiu a plas-
misteriosamente através de pronome numa conversa ticidade pomposa das três
um silêncio tácito, onde informal hoje em dia é letrinhas. E não podemos
(vai saber) a preguiça foi algo não apenas esdrúxulo nem falar em economia
a mentora. Quase nin- como também petulante. de sílabas pois “nós” só
guém mais o utiliza, sendo possui uma. O “a gente”
gradativamente substituído – Nós vínhamos deva- vem sendo, sem trocadilho,
pelo famigerado “a gente”. gar. um agente exterminador
– Quem vai? (que sujeito metido...) pronominal: está asfixian-
– A gente vinha devagar. do o “nós”, mas já detonou
– A gente. o oblíqüo “nos” e, como
A sonoridade tônica e (ah, bom!) se não bastasse, arruinou
incisiva do “nós”, que em O problema é que as também o formoso “co-
tempos idos possuía es- pessoas ainda acham que nosco”. Nada de “ele nos
paço nas rodas, agora só o “nós” pode se recuperar encontrou”. Agora é “ele
é encontrada em algumas e que o “a gente” vai dei- encontrou a gente”. Ela
poucas rimas poéticas, fa- xar de ser esse assassino veio conosco? Negativo. Ela
zendo par com um avulso impiedoso. Enquanto isso veio com a gente.
“sós”, como no “Roman- não acontece, o pessoal “Nós” está tomando o
ce de nós”, de Luiz Filipe vai se confundindo com as mesmo destino do robusto
Castro: flexões. “Nós” está morren- e vistoso “vós”. Esta segun-

www.revistasamizdat.com 63
Eu só qu
da pessoa do plural mor-
reu, como se diz, Cristo
era menino. Só o ouvimos
agora nas liturgias, quan-
do Cristo era menino (ou
mesmo adulto). “Porquanto

chocol
vós todos sois filhos da
luz, e filhos do dia; nós
não somos da noite, nem
das trevas”. Tessalonicenses
5:5. Não sei se é por causa
dessa verve bíblica do “vós”
que quando ele é citado já
lembro do Charlton Hes-
ton, do Yul Brynner ou do
meu avô me chamando Maristela Scheuer Deves
para a missa dominical.
O “você” (corruptela do
reverente “vossa mercê”)
tomou, aos poucos – quan-
do está pluralizado – o lu-
gar do “vós”. E, sem maio-
res alardes, o internetês
tratou de simplificar tudo
isso em algumas consoan-
tes frugais: “vcs” (vocês) ou
“vc” (no singular). Como
no inglês, onde “you” (você)
é grafado com uma sim-
plicidade atroz: “u”.
Por falar em “você”, o Uma balança me deu, não faz muito tempo, uma
“tu” não se rendeu facil- notícia assustadora: estou com quase 56 quilos. Melhor
mente a este pronome.
Tanto ele quanto o “ti” dizendo, algumas vezes estou umas gramas acima disso,
possuem uma blindagem outras, ainda bem, um pouco abaixo. Sei que as gordi-
regionalista notável. Em nhas de plantão vão rir da minha idéia de que estou
determinados locais do “pesada” demais, mas para mim, que até meus 25 anos
Brasil o “você” quase não
tem vez: “Tu vais à festa de era magérrima, esses quilinhos em excesso preocupam.
Nando?”, “Abração pra ti!”. Minha média de peso, por muitos anos, não passou
Dos pronomes pessoais dos 47 quilos. Depois, nos últimos anos, subiu para 50,
do caso reto só mesmo o oscilou por um bom tempo na faixa até 52, subiu trai-
“eu”, o “ele” e o “eles”, de
uma forma geral, ainda se çoeiramente para 54 e agora... 56! Quem me conhece
mantêm vivos. Mas, mes- bem vai dizer que a balança demorou a acusar o que eu
mo assim, sofrem com a como: no almoço e na janta até que sou comedida, mas
sanha do resumo de infor- na hora dos lanches, sai de baixo... O vilão da história, é
mações. Muitos não falam
“eu não sei”, simplesmente claro, é o chocolate.
dizem: “sei não”. Não tar- Mas, meu Deus, eu adoro essa delícia derivada do
dará o tempo em que “eu” cacau, e fico numa dúvida cruel entre seguir engordando
também sucumbirá ante
a virose que já assolou os nesse ritmo (minha ex-cinturinha fina parece a cada dia
pronomes “nós” e “vós”. assustadoramente maior) ou abrir mão de um costume
Estes, pelo menos, em am- já consagrado: meus chocolates diários, geralmente no
bientes poéticos e religio- finalzinho da tarde. E mais alguns chocolates durante o
sos, ainda são venerados.
dia, e a pizza com cobertura de chocolate ao menos uma
vez por semana, e o chocolate em pó comido de colhe-
rada, e a musse de chocolate de sobremesa, e o bolo de

64 SAMIZDAT junho de 2009


64
Crônica

uero
late

http://www.flickr.com/photos/ripizzo/2310929170/sizes/l/
chocolate, e... pequenas, viu, não sou tem, mas melhor?
Que atire a primeira nenhuma esganada!) que Alguém deveria inven-
pedra quem não fica com compro na lancheria ou tar algo saudável, não-
água na boca ao passar no mercadinho da esquina, engordante, e igualmente
pela seção de chocolates mas dali a pouco a vontade gostoso; aí talvez me con-
no supermercado e nem volta. vencesse a deixar de lado
come um brigadeiro es- E agora que está chegan- as milhares de calorias da
condido de vez em quan- do o inverno, ai, que von- dieta atual. Por enquanto,
do. Ah, eu ia esquecendo: tade de fazer um delicioso encolho a barriga e sigo
minha dieta também inclui fondue... de chocolate, é curtindo a minha vida
eventualmente os brigadei- claro. Sem falar na ma- de não-mais-magra-mas-
ros, e, frequentemente, uma quinha de café, com três ainda-não-gorda, comendo
caixinha da delícia que são opções (isso mesmo, TRÊS!) tudo o que posso e rezan-
os achocolatados - seja ele de chocolate quente, que do para que de alguma
Nescauzinho, Toddynho ou instalaram tentadoramente forma aquilo tudo não se
qualquer outro do gênero. no corredor da empre- acumule na minha cintura.
Hummmmmm!!!!!!!!!! sa onde trabalho. Como Bem que a minha mãe
Muitas vezes já me resistir? Não pensem que me aconselhava, quando eu
perguntaram se eu não eu não como outras coisas; reclamava que era magri-
enjoo, mas acho que nunca refrigerantes e muita pizza nha demais: “Melhor assim.
vou enjoar. Claro, às vezes também fazem parte do Se um dia você engor-
não consigo comer de uma meu cardápio. Mas, tem dar, vai sentir saudade de
vez os dois bombons ou coisa melhor – não mais quando te chamavam de
as quatro barrinhas (das saudável, isso eu sei que palito...”

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Crônica

O dia em que o
mundo não acabou
Henry Alfred Bugalho

66 SAMIZDAT junho de 2009


66
Você lembra o que estava concluíram que desenhar
fazendo no dia 11 de agosto um círculo no meio da sala
de 1999? e todos se amontoarem
Eu me lembro... dentro dele bastaria para
salvá-los do fim.
Durante o começo de
mês de agosto, e até um Imagino que tipos de
pouco antes, começaram pensamentos passaram
a ser divulgadas notícias pelas cabeças deles: será
de que o mundo acabaria que eles acreditavam que
quando do eclipse solar em o círculo de proteção os
11 de agosto. A fonte era salvaria, mas que, fora dele,
“fidedigna”: o pai de todas toda a raça humana se ex-
as calamidades futuras, tinguiria? Qual é o sentido
Nostradamus. de sobreviver uma dúzia
de pessoas enquanto todo
Eu e um amigo nos sen- o restante da civilização
tamos na pracinha do con- deixava de existir? Ou será cia (ou ela apenas teria sido
domínio onde morávamos, que pensavam que o gesto adiada)?
sob a sombra duma árvore deles serviria para salvar Ou quem sabe não tenha
e aguardamos. “Se o mundo toda a Humanidade? sido o ato altruísta deles
acabar, tudo bem”, pensá-
Um sobre o outro, eles que nos salvou do terrível
vamos, “se não acabar, tudo
vararam a madrugada, por fim?
bem também”. Passamos
o dia inteiro conversando vezes reclamando da po- O mundo acabará um
e esperando, esperando e sição incômoda, por vezes dia, isto é um fato; assim
conversando. tentados a se levantarem, como o nosso sistema solar,
abandonar o círculo de pro- a galáxia, o próprio Uni-
Nesta nossa espera, havia teção, e ir tomar água ou verso se extinguirá um dia.
um quê de resignação, de ir ao banheiro, mas sempre Alguns mais alarmistas pre-
estoicismo. De que adianta- com a proibição: vêem o fim para 2012, mas,
ria querermos lutar contra
— Não rompa o círculo! quando o mundo novamen-
os desígnios celestes, ou do
Você vai matar a todos nós! te não acabar, vão prorrogar
Universo, ou de Deus? Se
nosso tempo de existência
era para o mundo acabar, O que os fazia imedia-
por mais alguns anos.
que diferença dois seres tamente mudar de ideia e
http://www.flickr.com/photos/75468125@N00/3201054370/sizes/o/

insignificantes como nós permanecer lá, com cãibras,


faríamos para mudar isto? com torcicolo, segurando o Fico pensando no que eu
Mas havia pessoas que xixi, gemendo, à espera do faria se tivéssemos certe-
não aceitaram passivamente fim do mundo. za de quando seria o fim;
este fato. Entre elas, havia Mas o mundo não aca- acho que faria exatamente
um outro grupo de amigos bou. O sol nasceu e atra- a mesma coisa que já fiz
que, na virada da noite de vessou a cortina da sala, um dia: eu me sentaria sob
10 para 11 de agosto, reuni- fazendo com que aquele a sombra duma árvore e
ram-se para se salvar. amontoado de gente desper- aguardaria, com o mesmo
tasse. pensamento de antes - “Se
Não sei inspirados em
o mundo acabar, tudo bem;
qual ensinamento esotérico, Foi uma alegria! O mun-
se não acabar, tudo bem
em qual religião, em qual do estava salvo! Nostrada-
também”.
obra de misticismo, eles mus havia errado na profe-

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Poesia

A poesia é uma graça


Caio Rudá

Quadrilha
Ratinho amava Ana Prego que trazia os produtos pra Zé Bala
que foi chefe de Tonha que tinha caso com Neguinho que ameaçou Tininha
que não tinha antecedentes criminais.

Ratinho foi para a Colômbia, Ana Prego para o presídio,


Zé Bala morreu de tiroteio, Tonha ficou para cafetina,
Neguinho teve overdose e Tininha matou Dom-dom
que era recém-chegado no morro, ameaçando tomar sua boca.

Sabia-o Vivaldi
nem tudo são flores
é que o ano é primavera
verão, outono e inverno

68 SAMIZDAT junho de 2009


68
Rime
moi je suis
un épi de maïs
jaune et petit
êtes-vous ici?
exactement à Paris
il me dit
tu es jaune et petit
ah, je ris
je suis un épi de maïs
pour la attention, merci
et sans doute, tu m’as com-
pris

Haikai
miojo
yakisoba
http://www.flickr.com/photos/welshdan/444134816/sizes/o/

takafora

www.revistasamizdat.com 69
Poesia

Laboratório Poético:
dois pecados (um, pela metade),
e mais outras coisas sem sentido
Volmar Camargo Junior

Ira
Ai, moléstia maldita
que tira o gosto de tudo
e do resto todo o sentido
Ai, penúria ordinária
rasga-me de dentro a fora
expulsa minhas entranhas
Dor da minha imundície, raio que me parta
Porra, que merda de dor filha da puta!

Preguiça
precis..
escrev...
um poe...
intei...
Ah, cansei!

70 SAMIZDAT junho de 2009


70
Monólogo
“abre aspas
Tenho dito.
fecha aspas”

Vadiagem

http://www.flickr.com/photos/swamibu/2895535441/sizes/o/
É manhã.
É dia.
E daí?

Doce Nostalgia
Leite condensado, caramelizado
Com flocos crocantes
Coberto com o delicioso sabor do passado.

www.revistasamizdat.com 71
Poesia

Eu-Tu-Nada Dênis Moura

Unidos no tempo corpo e palavras... Tempo, corpo, palavra... (E(e)ra mágica?)


Nós um, “eu-tu”, num eu completo e só; Numa “tecnoEra” que sei de co,
Andrógino das Eras bimetálicas, Quando teu feminino desprezavam,
Bipartido por Zeus (o sublevava). Te venerei mui além das palavras
Fulminar de um relâmpago sem dó, Num platonizar que me arrastava
Que sublimou-nos nas etéreas mágicas. Para, em nós ou na garganta, um nó.

Cindidos no tempo corpo e palavras, Romântico, ingênuo ou bem pior,


Mas tão iguais, tal duas formas pálidas, Penso nas coisas que me apaixonava:
De novo reencontrados numa mó, Quando um imã uma vez é dividido,

http://www.flickr.com/photos/98909113@N00/460178035/sizes/o/
Sonhei que tu (eu?) a mim (tu) amava(s), Pra uni-lo em mesmas faces, nem mágica;
(Talvez só se busquem as antagônicas) Um pedaço tem que inverter seu lado,
Pela primeira vez me senti só. Para que ambos voltem a ser um só.

Outra vez sem tempo, corpo ou palavras, Em corpos separados (eu gostava...)
Depois de tudo reduzido a pó, Pela natureza (... muito...)(melhor?),
Nos vemos hirtos de tais formas trágicas, Entrego minhas (de ti?) palavras
(Unidimensional paixão de um Jó), Ao tempo (...realmente.) nas etéreas
Extremas, impensadas, desarmônicas, Mágicas. Bipartido eu só sinto:
De tudo que entre nós tu não falavas. Eu um, tu uma, eu incompleto e só!

Terra da Luz, 26 de agosto de 1997 – 14h.

72 SAMIZDAT junho de 2009


72
SOBRE OS AUTORES DA

SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa

Henry Alfred Bugalho


Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em
Estética. Especialista em Literatura e História. Autor
de quatro romances e de duas coletâneas de contos.
Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores
da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia
Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em
Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachor-
rinha.
henrybugalho@gmail.com
www.maosdevaca.com

Revisão

Joaquim Bispo
Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador,
licenciado recente em História da Arte, experimenta
agora o prazer da escrita, em Lisboa.

episcopum@hotmail.com

www.revistasamizdat.com 73
Assessoria de imprensa

Mariana Valle
Por um amor não correspondido, a carioca de
Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o
beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua
amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o
papel com erotismo. E também com seu choro. Em
reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade.
Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi
na TV Globo onde aprimorou as técnicas de reda-
ção e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias
histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro
e outras divulgadas nos links listados em seu blog
pessoal: www.marianavalle.com

Colaboração
Volmar Camargo Junior
Inconformado com a própria inaptidão para di-
zer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de
parte de suas horas diárias de sono, tentando domar
a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambu-
lar pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa,
fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por
um cenário natural de extrema beleza – Canela, na
Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descen-
dente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indí-
genas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio,
é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo,
torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor
dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

74
74 SAMIZDAT
SAMIZDATjunho
junhode
de2009
2009
74
http://www.photoshoptalent.com/images/contests/spider%20web/fullsize/sourceimage.jpg
Caio Rudá
Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda
Psicologia na Universidade Federal da Bahia e espera
um dia entender o ser humano. Enquanto isso não
acontece, vai escrevendo a vida, decodificando o enig-
ma da existência. Não tem livro publicado, prêmio,
reconhecimento e sequer duas décadas de vida. Mas
como consolo, um potencial asseverado pela mãe.

Maristela Deves
Gaúcha nascida na pequena cidade de Pirapó, co-
meçou a sonhar em ser escritora tão logo aprendeu a
ler. Escreve principalmente contos nos gêneros misté-
rio, suspense e terror, além de crônicas.

Barbara Duffles
Jornalista, escritora e roteirista, é autora do livro
“Não Abra” e do blog “Não Clique”. Apesar das nega-
tivas, esta carioca quer, sim, ser lida - como todo es-
critor. Tem dias de conto, de crônica e de pílulas sem
sentido. Suas paixões: cinema e livros com cheiro de
novo - se bem que adora se perder nos sebos da vida.

www.revistasamizdat.com 75
Carlos Barros
Paulistano, filho de nordestinos, desenhista desde
sempre, artista plástico formado, escritor. Começou
sua vida profissional como educador e, desde então,
já deixou seu rastro por ONG’s, Escolas e Centros
Culturais, através de trabalhos artísticos e pedagó-
gicos – experiências que têm forte influência sobre
seus escritos. Atualmente, organiza oficinas de ilus-
tração para crianças, estuda pós-graduação em Histó-
ria da Arte e escreve para publicações na internet.
carloseducador@hotmail.com
http://desnome.blogspot.com

Dênis Moura
Paulistano de pia, cearence de mar e poeta de
amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberes-
paço, mais com bits de imaginação que com telescó-
pios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja
ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e
a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na
outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social,
com a democracia participativa eletrônica, onde o
povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias
sua primeira obra, um Romance de Ficção Científi-
ca, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É
feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize,
o clique, o blogue e o leia!

Giselle Sato
Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Baila-
rina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine
apenas como uma contadora de histórias carioca.
Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de
bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se
a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes,
funcionando como um eficiente panorama da socie-
dade em que vivemos.

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José Espírito Santo
Informático com licenciatura e pós graduação na
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa,
trabalha há largos anos em formação e consultoria,
sendo especialista em Bases de Dados, Sistemas de
Gestão Transaccional e Middleware de “Messaging”.
A paixão pela escrita surgiu recentemente, tendo no
ano de 2007 produzido os livros “Esboços” (contos) e
“Onde termina esta praia” (poesia). Vive com a fa-
mília em Alverca, uma pequena cidade um pouco a
norte de Lisboa, Portugal.

Léo Borges
Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor
público e amante da literatura. Formado em Comu-
nicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas
Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas
“Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

O lugar onde http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

a boa Literatura
é fabricada

ficina
www.revistasamizdat.com 77
www.oficinaeditora.org
Também nesta edição, textos de

Barbara Duffles Joaquim Bispo

Caio Rudá José Espírito Santo

Carlos Alberto Barros Léo Borges

Dênis Moura Mariana Valle


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Giselle Natsu Sato Maristela Scheuer Deves

Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

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