Você está na página 1de 9

DESEMPENHO DE UMA ESTAÇÃO DE TRATAMENTO DE ESGOTO

PELO PROCESSO DE LODOS ATIVADOS OPERANDO POR BATELADA

Paulo Sergio Scalize (*)


Graduado em Ciências Biológicas Modalidade Médica pela Faculdade Barão de Mauá – Rib.
Preto. Doutorando em Hidráulica e Saneamento pela Escola de Engenharia de São Carlos da
Universidade de São Paulo. Coordenador do Tratamento de Esgotos do Departamento Autônomo
de Água e Esgotos de Araraquara.

Wagner Sita
Coordenador do Tratamento de Água do Departamento Autônomo de Água e Esgotos de
Araraquara.

Wellington Cyro de Almeida Leite


Superintendente do Departamento Autônomo de Água e Esgotos de Araraquara (DAAE-
Araraquara/SP).

(*)
Endereço : Rua Domingos Barbieri, 100 – Araraquara – SP – CEP 14802-510 – Brasil – Tel
(16) 224-1555 – Fax: (16) 224-4571 – e-mail info@daaeararaquara.com.br
RESUMO

O presente trabalho relata os resultados obtidos na operação da estação de tratamento de esgoto


situada no distrito de Bueno de Andrada (ETE-BUENO) no município de Araraquara – SP, que
emprega o processo de lodos ativados, operando em batelada, seguido de um sistema de filtração
e de desinfecção. Tal estação possui capacidade para tratar 120m3/dia de esgoto doméstico, sendo
atualmente tratados aproximadamente 25m3/dia. As análises realizadas diariamente comprovaram
uma remoção de DQO e de DBO acima de 98%. O sistema de desinfecção é realizado com
hipoclorito de sódio, eliminando completamente os coliformes totais e a Escherichia coli que é
indicativo de contaminação fecal. O efluente da ETE-Bueno atende a quase todos os limites para
lançamento em rio classe 2 segundo a Resolução CONAMA no 20 de junho de 1986, divergindo
apenas no valor de Nitrato.

Palavras-Chave: Estação de tratamento de esgotos, lodos ativado, coliformes, batelada,


desinfecção

INTRODUÇÃO

O esgoto bruto ou despejo líquido é ocasionado pelos despejos domésticos e industriais, que
quando lançados num manancial contribuem para sua degradação, afetando sua qualidade. Para
preservação dos recursos hídricos e evitar a contaminação da fração de água disponível, é de
fundamental importância a construção de estações de tratamento de esgoto (ETE).

Atualmente, o Departamento de Água e Esgotos de Araraquara (DAAE) possui 2 estações de


tratamento de esgoto: A ETE-Bueno, com capacidade para tratar 120m3/dia de esgoto doméstico,
sendo que atualmente trata 25m3/dia e a ETE-Araraquara com capacidade para tratar 400L/s,
tratando atualmente 40000m3/dia.

A ETE-Bueno, inaugurada em agosto de 1997, situada no distrito de Bueno de Andrada,


município de Araraquara – SP, emprega o processo de lodos ativados, operando em batelada,
seguido de um sistema de filtração e de desinfecção por hipoclorito de sódio.
Segundo VON SPERLING (1997), o processo de lodos ativados pode ser dividido quanto à idade
do lodo( em lodos ativados convencional e aeração prolongada); e quanto ao fluxo (em contínuo
e intermitente - batelada), sendo a ETE-Bueno de fluxo intermitente. Relata ainda que o Conselho
das Comunidades Européias tem como diretrizes para descarga em corpos receptores d’água
sensíveis, isto é, sujeitos a eutrofização, uma remoção mínima de 70-80% e concentração inferior
a 10mg/L de Nitrogênio Total para população acima de 100.000 habitantes.

METCALF & EDDY (1977), relatam que para processo de lodos ativados a remoção de fósforo
está entre 10 e 25%.

PADRÕES PARA LANÇAMENTO DE EFLUENTES

No Brasil, a RESOLUÇÃO CONAMA no 20 de 18 de junho de 1986 e o Decreto Estadual no


8.468, de 8 de setembro de 1976 – São Paulo, estabelecem limites para lançamentos de efluentes
de Estações de Tratamento de Esgotos em corpos receptores. Os valores para os parâmetros,
pesquisados na ETE-Bueno, estão constantes na Tabela 1. Sendo que, os efluentes além de
atenderem a estes limites, não venham a fazer com que os limites estabelecidos para as
respectivas classes dos corpos receptores sejam ultrapassados. Na tabela 2 estão contidos os
padrões para qualidade do corpo receptor segundo RESOLUÇÃO CONAMA 20.

Tabela 1 – Padrões para lançamento dos efluentes em corpos receptores.

Padrão para Efluente


PARÂMETROS
Resolução CONAMA 20 Decreto Estadual 8.468

DBO (mg/L) - < 60,0 (*)

pH 5,0 – 9,0 5,0 – 9,0

Materiais sedimentáveis (mL/L) < 1,0 < 1,0

Óleos e Graxas (mg/L) 70 100

Temperatura (oC) < 40 < 40


(*)
Este valor poderá ser ultrapassado no caso de efluentes de sistemas de tratamento de águas
residuárias que reduza a carga poluidora em termos de DBO 5 dias, 20o C do despejo em no
mínimo 80%.
Tabela 2 – Padrões de qualidade para corpos receptores segundo Resolução CONAMA no
20 de 18 de junho de 1986.
Padrão para corpo receptor
PARÂMETROS
Classe 1 Classe 2 Classe 3 Classe 4
DBO (mg/L) < 3,0 < 5,0 < 10,0 -
pH 6,0-9,0 6,0-9,0 6,0-9,0 -
SDT (mg/L) 500 500 500 -
OD (mg/L) > 6,0 > 5,0 > 4,0 > 2,0
Turbidez (UNT) < 40,0 < 100,0 < 100,0 -
Cor (mg Pt/L) - < 75,0 < 75,0 -
Cloretos (mg Cl/L 250 250 250 -
Cloro residual (mg Cl/L) 0,01 0,01 - -
Amônia livre (NH3) (mg N/L) 0,02 0,02 - -
Amônia total (mg N/L) - - 1,0 -
Nitrato (mg N/L) 10 10 10 -
Nitrito (mg N/L) 1,0 1,0 1,0 -
Fosfato total (mg P/L) 0,025 0,025 0,025 -
Coliformes totais (NMP/100mL) 1000 5000 20000 -
Escherichia coli (NMP/100mL) 200 1000 4000 -

CICLO OPERACIONAL

O esgoto bruto chega à ETE e nesta fase é


realizada um tratamento preliminar, que
consiste na remoção de materiais grosseiros
(pedras, gravetos, garrafas, plásticos, etc...)
através de uma grade manual e, da remoção
de sólidos, tais como areia, com auxílio de
um equipamento mecanizado denominado
Rotamat (ver figura 1). Estes materiais são
transferidos para um recipiente, que é
enviado para um aterro sanitário, e a parte
líquida é bombeada para o tanque de
armazenamento e homogeneização (TAR -
tanque de armazenamento de resíduo), que
se mantém sob constante agitação e aeração, Figura 1 – Equipamento Mecanizado,
evitando o desprendimento de mau cheiro denomindado Rotamat, destinado à remoção
(ver figura 2). de sólidos, tais como areia.
Figura 2 - Tanque de armazenamento e homogeneização (TAR - tanque de armazenamento de
resíduo), mantido sob constante agitação e aeração, evitando o desprendimento de mau cheiro.

Após retirada dos sólidos, o resíduo é excesso de lodo formado no SBR descartado
recalcado para os reatores aeróbios, para um tanque de estabilização e
chamados de SBR (sequência de reatores em adensamento de lodo, que após conclusão
batelada, ver figura 3). Tem início o desta etapa é recalcado para os leitos de
tratamento secundário, onde o resíduo entra secagem, perdendo água por infiltração e
em contato com o lodo biológico composto evaporação.
principalmente por bactérias heterotróficas,
quimioautótrofas, protozoários e
micrometazoários, que serão responsáveis
pelo tratamento. Estes microorganismos irão
degradar a maior parte da matéria orgânica
contida no resíduo, reduzindo
consideravelmente sua carga orgânica
inicial. Por se tratar de material bacteriano, o
Figura 3 - Reatores aeróbios, denomindados
seu crescimento é muito acentuado, devido a
(sequência de reatores em batelada).
alta taxa de reprodução das bactérias
principalmente sob temperaturas elevadas. O
O tratamento secundário possui um ciclo de trabalho composto pelo enchimento, aeração,
sedimentação e descarte, definido pela qualidade desejada para o efluente, vazão média da
estação, características físico-químicas do afluente, características biológicas do lodo, dentre
outras. No final deste ciclo, ou seja, após sedimentação, é feito o descarte do sobrenadante, sendo
recalcado até o filtro de areia (ver figura 4) com granulometria adequada para retirada dos sólidos
que ainda persistam. Após a filtração, o efluente segue por gravidade para a câmara de
desinfecção (ver figura 5), onde recebe hipoclorito de sódio assegurando a qualidade final do
efluente que será lançado no corpo receptor.

Figura 4 – Filtro de areia com


granulometria adequada para
retirada de sólidos que persistam
após sedimentação no SBR.

Figura 5 – Câmara de desinfecção onde é


adicionado hipoclorito de sódio assegurando a
qualidade final do efluente.
Na figura 6 pode ser observado o fluxograma da ETE-Bueno, esquematizando todas as fases do
tratamento.

Figura 6 – Fluxograma da Estação de Tratamento de Esgotos do distrito de Bueno de


Andrada no município de Araraquara.

RESULTADOS

Na Tabela 3 estão contidos resultados médios das análises realizadas no afluente e efluente da
ETE-Bueno no ano de 2002, bem os valores de remoção de demanda química de Oxigênio
(DQO), demanda Bioquímica de oxigênio (DBO), nitrogênio total e fosfato total. Foi realizada
pesquisa bacteriológica em amostra antes da desinfecção, sendo encontrados 6,57x103
NMP/100mL de coliformes totais e 1,00x102 NMP/100mL de Escherichia coli.
Tabela 3 – Resultados médios das análises físico-química e bacteriológica realizada na ETE-
Bueno no ano de 2002.

PARÂMETROS AFLUENTE EFLUENTE


DQO (mg/L) 895,3 14,9
DBO (mg/L) 401,8 5,9
Remoção carbono DQO (%) - 98,3
Remoção carbono DBO (%) - 98,5
pH 7,1 7,0
Condutividade (us/cm) 674,5 579,7
Sólidos totais (mg/L) 799,6 419,8
Sólidos totais fixos (mg/L) 388,2 326,1
Sólidos totais voláteis (mg/L) 411,4 93,7
Sólidos suspensos totais (mg/L) 373,5 7,6
Sólidos suspensos totais fixos (mg/L) 91,8 1,5
Sólidos suspensos totais voláteis (mg/L) 281,8 6,1
Sólidos dissolvidos totais (mg/L) 426,1 412,2
Sólidos dissolvidos totais fixos (mg/L) 295,5 324,6
Sólidos dissolvidos totais voláteis (mg/L) 129,6 87,6
Sólidos sedimentáveis em cone Imhoff - 60' (mL/L) 2,2 0,0
Substâncias solúveis em hexano (mg/L) 92,7 7,2
Oxigênio dissolvido (mg/L) - 6,6 (*)
Turbidez (NTU) - 4,7
Cor (Hazen) - 12,3
Cloro (mg/L) - 0,5
-
Cloretos (mg/L de Cl ) 51,6 90,1
Amônio (mg/L de N) 38,69 0,40
Nitrato (mg/L de N) 0,78 8,20
Nitrito (mg/L de N) 0,11 0,17
Nitrogênio total Kjeldahl (mg/L) 50,3 11,4
Fosfato total (mg/L) 10,0 4,8
Remoção Nitrogênio (%) - 77,3
Remoção fósforo (%) - 52,3
7
Coliformes totais (NMP/100mL) 2,6x10 19,9
6
Escherichia coli (NMP/100mL) 2,0x10 0,33
(*)
análise realizada em amostra coletada antes da desinfecção, pois o cloro residual livre interfere
no método empregado.
CONCLUSÃO

Com base nos resultados das análises físico-químico e bacteriológico pode-se concluir que o
tratamento, após desinfecção, apresenta uma eficiência na remoção de DQO e DBO acima de
98% e de praticamente 100% na remoção de coliformes totais e Escherichia coli. A remoção de
nitrogênio total fica próximo a 80%, estando dentro das diretrizes do Conselho das Comunidades
Européias.

Conclui-se também que a remoção de fósforo total está dentro dos valores citados por
METCALF & EDDY (1977) para lodos ativados. Portanto, o efluente da ETE-Bueno atende a
quase todos os limites para lançamento em rio classe 2 segundo a Resolução CONAMA no 20 de
junho de 1986, divergindo apenas no valor de Nitrato que deveria ser inferior a 10,0 mg/L.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Resolução no 20, de 18 de junho de


1986.
Decreto Estadual no 8.468, de 8 de setembro de 1976 – São Paulo.
Metcalf & Eddy (1977). Tratamiento y depuración de kas aguas residualis, Madrid,
Editorial labor, s.a.
Sperling M.V. (1997). Princípios do tratamento biológico de águas residuárias. Belo
Horizonte, Departamento de Engenharia Sanitária e ambiental; Universidade Federal de Minas
Gerais.