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O local tem o potencial de converter-se em global, a única
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possibilidade de fazer design é sendo local. Andries Van Onck

À Vera, minha esposa, sem cuja colaboração e apoio não teria sido possível esta jornada

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Índice:

Apresentação - 3 Introdução - 4 Capítulo 1 –O local é o Nordeste - 5 Capítulo 2 –O setor do móvel e o Design - 10 Capítulo 3 – Estudo do fator local; procurando identidade -14 Capítulo 4 – O móvel popular - 17 Capítulo 5 – Fator local a favor - 24 Segunda parte - Da teoria a prática - 27 Capítulo 6 – A Jangada -28 Capítulo 7 – Da Jangada ao produto -33 Capítulo 8 –À partir do móvel popular espaguete-45 Capítulo 9 – À partir do folclore - 47 Capítulo 10 –Cenários - 50 Capítulo 11 –Outros casos - 57 Conclusão - 63 Bibliografia - 66

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Apresentação:
Este trabalho partiu de uma pesquisa das particulares condições climáticas, econômicas, sócio-culturais, matérias primas e sistemas produtivos da zona central do Nordeste do Brasil, Ceará e Pernambuco, e de uma análise e aplicação de conceitos implícitos em artefatos como a rede, o móvel popular e a jangada. Com base nesta pesquisa, foram projetados vários móveis que aproveitam a seu favor este “fator local”, demonstrando assim, que à partir do “local”, é possível estabelecer um diferencial perceptível a escala global. O presente texto relata e analisa dito processo teórico - prático. O resultado foi inicialmente apresentado como tese de pósgraduação em Design de Móveis Mercosul, mestrado realizado no “Centro de Diseño Industrial” de Montevidéu em 2000 e 2001. Com o entusiasta apoio do Sindmóveis-PE e algumas empresas pernambucanas de diferentes portes, a teoria aqui apresentada foi aperfeiçoada e posta em prática. A aceitação dos produtos derivados desta experiência, em particular de algumas peças da coleção Jangada - menção honrosa nos concursos Movelsul 2002 e MCB 2001 - culminou com o lançamento destes móveis por parte de uma empresa pernambucana na Movelsul 2002. Uma consequente teoria derivada deste trabalho, tem sido expressa em forma de palestras e oficinas práticas, criação de outros produtos inéditos em várias empresas moveleiras de Pernambuco, e finalmente, na presente monografia, que pretendo compartilhar, colaborando assim no discurso da identidade no Design.

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Introdução:

Apesar de que nos encontramos em um mundo cada vez mais uniformizado em virtude da velocidade das comunicações e das políticas globalizadas, cada região do planeta mantém, inclusive dentro de um mesmo país, climáticas, localização características intrínsecas, devido fatores sócio-culturais, aos costumes e cultura de seus habitantes, suas condições geográfica, condições econômicas, etc. A arte popular, a arquitetura, os móveis e os artefatos são muitas vezes exemplos magistrais de adequação a estas características locais. O designer tem neste tipo de soluções, fontes de sabedoria das quais pode extrair formidáveis lições tornando assim possível desenvolver novos produtos com forte identidade e linguagem próprios, adaptados às novas necessidades e mercados. Tomando como ponto de partida tais elementos, distanciados dos modelos tradicionais ou impostos por outras latitudes, é possível de forma desencadeante, lograr um diferencial, sob o qual, futuramente, poder-se-ia falar de móveis ou produtos genuinamente próprios.

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Capítulo 1 O local é o Nordeste
Com área superior a 1,5 milhão km² (18% do território nacional) o Nordeste abriga 46,5 milhões de habitantes, quase 30% da população brasileira. A região Nordeste inclui os estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. As principais metrópoles regionais em ordem de importância econômica são as cidades de Salvador, Recife e Fortaleza. O Nordeste também é a região brasileira mais próxima dos mercados europeu e norte-americano, o que lhe confere vantagens consideráveis no comercio internacional.

Nas últimas quatro décadas, o Nordeste passou de fabricante de bens tradicionais para produtor de aços especiais, produtos eletrônicos e petroquímicos, barcos, chips, software, calçados, frutas e flores para consumo interno e exportação. A economia da região também se baseia na agroindústria do açúcar e cacau, e nas plantações de arroz nos vales úmidos do Maranhão.

A região está investindo pesadamente na modernização da sua infraestrutura e é hoje um ambiente favorável à implementação de diversos tipos de empreendimentos.

O

setor

do

turismo

tem

demonstrado

grande

potencial,

crescendo consideravelmente nos últimos anos. O Nordeste é a região que mais cresce no Brasil e sua economia já ultrapassa

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os R$134 bilhões superando inclusive vários países de América Latina.

Os estados do Ceará e Pernambuco na região central nordestina disputam a liderança na produção de móveis.

O Ceará abrange uma superfície de 148.016Km2, equivalente ao 9,6% dos nove estados da região Nordeste e ao 2% do território brasileiro. Seu litoral estende-se por 573 Km de belas paisagens de inesgotável potencial turístico, uma característica de toda essa região brasileira. Em seus 184 municípios estão distribuídos 6,8 milhões de habitantes. Situado numa região semi-árida, de clima tórrido, e, sendo um dos mais pobres estados do país, apresenta no entanto, desde uma década atrás, um crescimento maior devido a um projeto administrativo moderno e bem fundamentado, que prioriza a instalação de indústrias com benefícios fiscais em seus 22 distritos e parques industriais já implantados, ou em processo de implantação, dotados pelo governo de toda a infraestrutura necessária. Em algumas regiões melhores tratadas pela natureza são produzidas frutas tropicais, carnaúba, algodão, pecuária de bovinos, ovinos e caprinos. Existe certa industrialização para produção de algodão (unidades têxteis), calcário, e pinturas. Ao oeste, a irrigação favorece o cultivo do caju, mandioca, algodão, feijão, milho, hortaliças, café, e cana de açúcar. Possui indústrias de couro, peles, madeira, têxteis, cimento e plástico.

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Pernambuco, estado fronteiriço com o Ceará, está localizado numa posição geográfica central e altamente estratégica, com cerca de 30 milhões de consumidores a nível regional, sendo sua capital, Recife, um centro dinâmico de distribuição de produtos e serviços da região, eqüidistante de Fortaleza e Salvador. O estado de Pernambuco, responsável por 20% do PIB do Nordeste, conta com a melhor infra-estrutura de transportes da região e uma base produtiva bem diversificada.

O desenvolvimento do Ceará na última década logrou que sua capital, Fortaleza, chegasse a ser a quinta cidade do Brasil em população e uma das mais solicitadas para o turismo. Fortaleza estende-se por 336 Km² de área, a 2 graus do equador, ao nível do mar. Conta com uma população aproximada de 2,2 milhões de habitantes. Os principais

atrativos turísticos da cidade são suas praias contíguas, algumas de areia de diferentes cores, imensas dunas e nascimentos de mananciais de água doce, onde em suas margens, encontram-se pitorescas e multicoloridas povoações de pescadores. Em realidade, a grande Recife, zona metropolitana totalmente emendada, que agrupa as cidades de Paulista, Olinda, Recife e Jaboatão, supera a Fortaleza em população. Cidade tradicional com muitas universidades e um melhor nível cultural, Recife, pela sua localização estratégica é o centro de distribuição regional das maiores empresas do Brasil e base de prestação de serviços, abrigando um dos maiores pólos médicos do Brasil, quatro universidades de gabarito, várias faculdades independentes e centros de pesquisas que possuem um
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quantitativo de pesquisadores e professores com títulos de mestre e doutor que é mais do dobro do que se encontra em qualquer outro estado do Nordeste . Conta com excelente aeroporto, (atualmente em fase de ampliação) detentor da maior pista regional, além de um novo e moderníssimo porto (SUAPE) a 45 Kms da capital. 1-3 PALETA e CULTURA: A maior parte da região Nordeste encontra-se situada em área equatorial, motivo pelo qual sua luminosidade é bastante forte, o que torna as cores muito brilhantes. Esta luz tão forte desbota rapidamente o colorido predominando assim dos móveis e construções à intempérie,

as cores pastéis. A forte brisa marinha ao levantar a areia, causa permanente fricção contra os objetos que estão na praia, produzindo facilmente. Tratando-se de estados predominantemente secos, não observamos, como em outras regiões tropicais abundante variedade de vegetação. As praias, com suas enormes dunas e o contraste com o azul do mar e a vegetação rala, determina uma gama de cores bem característica, composta primordialmente por vários tons de azul, creme, areia, marrons e verdes. As frutas típicas, coco e o caju, este último, de cor amarelo ou vermelho com a castanha na parte superior; a abundante fauna nativa, pássaros, borboletas e insetos; a variedade de seus tecidos artesanais, especialmente em linho e algodão; os trabalhos trançados em diferentes materiais como palha de carnaúba, cipó, e um rico universo artesanal grande diversidade, destacam o Nordeste. de interessantes texturas, que podemos apreciar

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A grande riqueza desta região é sem duvida nenhuma sua cultura popular, presente na música, festas e folclore, literatura de cordel, artesanato e artefatos, arquitetura e outras manifestações.

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Capítulo 2 O Setor Do Móvel e o Design
Concentrando 30% da população brasileira, o Nordeste representa quase 20% do potencial de consumo nacional de móveis e artigos do lar. Apenas 20% de todo o mobiliário consumido no Nordeste é aí fabricado; o restante procede principalmente dos pólos moveleiros do sudeste e sul do Brasil, onde está concentrada a produção.

A maior parte da população vive em zonas urbanas (60.6%). O consumidor nordestino procura principalmente preço, porém pela acirrada concorrência dos últimos anos, também apreendeu a exigir qualidade. Outra característica marcante do Nordeste está associada ao fator poder aquisitivo. O contraste entre ricos e pobres é bem maior que em outras regiões do Brasil, sendo o Nordeste o campeão em concentração de renda, o que tal vez explique o fato do varejo de móveis ter duas concentrações distintas: as das lojas de alta classe e a do varejo popular. O padrão médio concentra uma estreita faixa do mercado e encontra-se associado ao fato das grandes redes não proliferarem na região. O varejo de móveis é dominado pelas redes regionais. Diferentemente do sul, onde se praticam prazos mais curtos para obter preços melhores, no Nordeste os prazos médios do varejo são de 120 dias, em função das características já mencionadas.

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O setor de produção do móvel, com contadas exceções ainda é bastante precário no Nordeste. O Ceará, seguido por Pernambuco, é o principal produtor da região, embora com uma parcela pouco significativa do mercado. Pernambuco até os anos 80s era o principal produtor da zona, quando atendia majoritariamente seu mercado interno e regional; à partir desta década até agora, devido a forte concorrência de empresas mais competitivas dos estados do sul do Brasil, e de políticas fiscais errôneas(até hoje o ICMS é 5 pontos maior que o dos estados do sul para os móveis locais), o estado viu sua competitividade seriamente afetada, o que ocasionou o fechamento da maior parte das fábricas tradicionais de móveis. Os principais pólos moveleiros nordestinos, localizam-se no interior do estado de Ceará, nas cidades de Marco e Bela Cruz, onde são elaborados móveis de madeira, e em Iguatú, onde se fabricam principalmente móveis tubulares. Em Pernambuco além da região metropolitana de Recife, destacam-se as cidades de Gravatá, Lajedo e Afogados . As matérias-primas, quase todas elas, são originárias de outros estados; a madeira, da região amazônica, que fica relativamente perto, e também do Paraguai e sul do país. Já se começam a fabricar móveis em eucalipto cultivado, produzido no sul da Bahia. À exceção do algodão, utilizado para tecidos e redes e manufaturado por importantes empresas que exportam a maior parte da produção, o Nordeste não conta com matérias primas próprias a escala industrial, embora qualquer insumo ingresse facilmente via marítima ou terrestre. Isso implica um alto sobre-custo, já que a maioria das peças, especialmente de matérias primas semi-processadas vem do sul.
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Um fator pouco estudado ou mesmo ignorado com respeito ao mobiliário é a sua inter-relação com os fatores climáticos; as altas temperaturas, umidade relativa, insetos, pragas e alta maresia, são fatores que afetam dramaticamente a durabilidade e praticidade do móvel. 2-1 DESIGN NO NORDESTE :

O Nordeste conta com poucas faculdades profissionais de Design, localizando-se estas em Campina Grande (cidade da Paraíba), Recife, São Luís e Salvador; no entanto é muito pobre a participação dos profissionais de Design Industrial dentro do setor produtivo. Observa-se ainda não existir uma vinculação direta das universidades com a indústria. O utilizado. A quase Design, a nível empresarial, é bastante precário, e, com raras exceções, totalidade dos móveis produzidos nestes estados corresponde a cópias.

No Ceará, a participação dos designers, é inexistente, assim também como o real interesse do empresariado local em implementá-lo. Os empresários cearenses normalmente copiam os lançamentos efetuados nas feiras do sul e do exterior com minguadas mudanças ou trabalham com modelos determinados pelos clientes. Pernambuco possui a faculdade de design mais antiga da região, e em Recife, encontram-se operando reconhecidas empresas de design (especialmente nas áreas visual e de embalagem) e uma tradicional Associação de Designers. O Sindicato de Móveis do estado pernambucano, organiza anualmente um concurso de Design do Móvel na procura de novos talentos dentro da feira regional denominada “Utimóveis”.
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Levando em conta todos estes aspectos, pode-se afirmar, que Pernambuco, a nível de Nordeste, é o estado mais viável em termos de implementação de programas e ações efetivas de Design.

NOTA: Esta análise não inclui o estado da Bahia pois a pesquisa foi feita na região central do Nordeste.

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Capítulo 3 Estudo do Fator Local: procurando identidade
A soma das características e dificuldades do setor de móveis e design, sempre inspirado na concorrência ou no mercado alto, e pendente das “tendências” de Milão, não tem dado um resultado apreciável em termos de desenvolvimento, muito pelo contrário, a participação vem decrescendo em termos comparativos com outras regiões, com melhores vantagens competitivas. É necessário procurar uma linguajem própria; a solução está em procurar os próprios caminhos. A discussão sobre identidade pode parecer ultrapassada em um mundo globalizado, onde as necessidades e desejos de consumo da população parecem estar-se uniformizando, mas na verdade, e devido a isso mesmo, é que esta discussão toma de novo radical importância, já que tal uniformidade, em volume, é causadora da guerra de preços em meio a acirrada concorrência, esquecendo-se aí as características regionais e culturais do consumidor, e principalmente, a sua necessidade de identificação com o objeto comprado, como de fato acontece no setor de moda (vestuário).

A identidade do produto nasce, em primeira instância, do fator adaptação, pois as matérias-primas, processos e mercado específico de cada fábrica vão moldando as características dos seus móveis. A identidade começa a aparecer quando estes fatores locais se fazem conscientes e se tornam pontos fortes.

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Só que neste ponto não basta ser competitivo, é necessário também ser criativo para fazer evidentes estas fortalezas, dando personalidade, alma e caráter ao produto para que este chame a atenção do consumidor. Se quisermos que esta identidade se transforme em vendas e liderança, precisamos tornar consciente, de maneira quase científica, os fatores locais. Estes, inúmeras vezes encontram-se na volta da esquina, nos produtos anônimos da cultura popular, naqueles que continuam

Só o tradicional carro de boi consegue entrar no pedregoso sertão nordestino.

vigorando através dos séculos. Por que objetos como a jangada nordestina, o chapéu de vaqueiro, o gibão e o carro de boi, elementos típicos do Nordeste, região pobre em recursos, porém rica em cultura popular, ainda vem sendo fabricados e utilizados como antigamente? A resposta está nos seus sistemas de produção com matériasprimas locais, na sua adaptação ao meio e clima, no aproveitamento das habilidades da mão-de-obra local e mais que tudo, na perfeita funcionalidade aperfeiçoada ao longo de gerações.

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Muitos novos produtos.

destes

produtos

contém

implícitas

aulas

magistrais de bom design que estão disponíveis para aplicar em

À continuação uma análise de alguns destes elementos demonstrando com exemplos práticos, como estes fatores locais podem ser aplicados em novos produtos adaptados às condições locais do Nordeste.

Fotos feitas na feira de Lajedo no agreste pernambucano. O sertão nordestino tem muitas empresas artesanais que fabricam artefatos desenvolvidos para a atender as necessidades específicas do habitante destas regiões. Necessidades estas, não compreendidas pela indústria tradicional.

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Capítulo 4 O móvel popular
O móvel popular, de origem incerto e autores anônimos, fabricado localmente por micro-empresas e artesãos, é perfeitamente adaptado às necessidades e ao meio que o

produz. Por isso torna-se uma excelente fonte de inspiração. Ao chegar anos atrás a Fortaleza, no Ceará, me chamou poderosamente a atenção uma cadeira, tosca e simples, porém muito confortável, e em escritórios e entre a cadeira que abundava na cidade, especialmente locais de atenção ao público. A cadeira Cesca de Marcel Breuer e uma tradicional Cadeiras de palhinha à venda no centro de Fortaleza.

conhecida localmente como Palhinha, parece ser um híbrido cadeira de quatro pés. Consiste em duas molduras de madeira para encosto e assento com palhinha, e uma estrutura de quatro pés em ferro. O produto equivale no design cachorrinhos vira-latas que, com pais ainda sendo muito feios, tornam-se personalidade. Tal cadeirinha, ao meu modo de ver, é um representativos elementos de adaptação às dos mais condições Cadeiras espaguete à venda no interior de Pernambuco. aos de diferentes raças, e atrativos pela sua

cearenses. Ela representa um dos fatores claves do design: a adaptação do produto ao meio, aos materiais e ao sistema de produção local. Jamais figurará nos livros de design e do ponto de vista formal parece imperfeita. No entanto seu preço e comodidade a fazem muito competitiva. Como as cidades da região Nordeste pelo clima seco e acolchoados, à temperatura ambiente, caracterizam-se sempre são
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temperatura tropical, as cadeiras e sofás nem

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confortáveis, já que a espuma e os tecidos estimulam o suor, dificultando a limpeza e gerando mau odor. A simplérrima e ventilada cadeira "palhinha" é

eminentemente urbana, repartições e origem

utilizada sobretudo em escritórios, ao público, apesar de sua

zonas de atenção

ser residencial (cadeira de sala de jantar), como

veremos mais adiante. Este mesmo conceito de ventilação o encontramos em outro tipo de cadeiras: as chamadas espaguete, e na tradicional rede. 4-1-1 A “PALHINHA” - ANÁLISE HISTÓRICA

A palhinha, vime ou cana da Índia é um material muito antigo; podemos referenciá-lo como aquele usado nas linhas de cadeiras de Tonet para assento e encosto. No entanto, a mais antiga, chegando ao Brasil com os palhinha é muito

portugueses, e tornando-se um material muito tradicional no móvel nacional. Foi retomada com muita força nos anos 50s e 60s, combinada com madeira, por personagens como o artista e designer Joaquim Tenreiro, e os famosos arquitetos Niemayer e Sérgio Rodrigues. A cadeira confeccionada com palhinha, e de maior categoria para mercados mais altos, teve seu auge até a década de 60, à partir da qual decaiu especialmente nos móveis de estratos altos, provavelmente por caprichos da moda e popularização de móveis de plástico e sofás com espuma. Cadeira de Palhinha Jockey por Sérgio Rodrigues, produzida nos anos 50´s.

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4-1-2. A CADEIRA PALHINHA A mais famosa de todas as cadeiras em palhinha : a Tonet.

A cadeira de palhinha, abundante no Nordeste do Brasil, especialmente em Fortaleza, tem sua muito similar ao atual desenhado então 1954 da fábrica Unilabor cujos móveis origem num modelo para uso residencial. eram projetados por

Esta cadeira podemos vê-la na foto tomada de um catálogo de Geraldo de Barros. Foi produzida originariamente com destino ao lar, mas seu uso se estendeu a escritórios e repartições, onde amplo. foi definitivamente bem mais

Na foto central, à direita, a cadeira de palhinha na versão original para área de refeições, do catálogo da Unilabor. Embaixo, a versão cearense cinqüenta anos depois.

Até o dia de hoje é vendida e produzida quantidades.

em grandes

Os materiais destas cadeiras, são o vime trançado(agora também em versão com perfil plástico), madeira e tubos
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quadrados, que podem ser adquiridos facilmente em qualquer localidade. Isto, somado ao seu baixo preço, comodidade e praticidade, a fazem um autêntico best-seller do móvel. Embora siga sendo produzida e distribuída desde o sul do Brasil, especificamente para o Nordeste, inumeráveis empresas locais também as estão produzindo em diferentes

versões: corrente e giratória em vários tamanhos. Assim foi como uma cadeira projetada em São Paulo para sala de jantar nos anos 50´s foi o modelo de inspiração para a cadeira mais popular vendida em Fortaleza até os dias de hoje.

4-1-3 CADEIRAS ESPAGUETE

Os

móveis

em

mangueirinha ou

tubo de plástico

(espaguete) são elaborados sobre estruturas de vergalhão,

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comumente com design popular. Inumeráveis modelos de cadeiras, poltronas e cadeiras de balanço espalham-se ao longo de toda América Latina, a maior parte delas elaboradas em pequenas oficinas artesanais. A cadeira italiana espaguete, um dos clássicos do design, com sua estrutura em tubo de ferro cromado, com assento e espaldar em plástico tubular, está provavelmente inspirada neste tipo de cadeiras que tanto abundam nas regiões quentes latino-americanas. Diferentemente da eminentemente rural e "palhinha", a cadeira espaguete é e até

popular. Característica de povoados e terraços

cidades pequenas, onde são colocadas nos

calçadas das casas, é comumente utilizada para descanso ou lazer, já que seu material flexível amolda-se perfeitamente ao corpo. Cadeiras espaguete são encontradas em diferentes versões, sendo mais populares as poltronas e as de balanço. 4-1-4 A REDE

A rede é antiqüíssima. De origem americana, já era utilizada pelos indígenas um muito antes da chegada dos mobiliário, tão as batatas à europeus; foi culinária. Consistente num pendurado em suas duas repousar e retângulo de tecido de algodão, extremidades, é utilizada para elaborar Primeira ilustração da rede, tomada do livro: “História general de las Indias” de Fernando Gonzáles Oviedo 1514 aporte americano ao os tomates e

importante, como o foram

dormir. Até bem entrado o século XX com a

introdução da espuma de poliuretano que permitiu

colchões confortáveis, foi a cama da maioria dos habitantes das zonas tropicais americanas e de fato se mantém cumprindo
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este labor sobretudo nos lares humildes das equatoriais.

zonas tórridas

Todas estas cadeiras anteriormente mencionadas, com exceção muitos da rede, compartilham espaço e mercado com que, apesar de baratas, em cadeiras de plástico injetado,

casos não são adequadas a seu uso, atestando uma

feia velhice e partindo-se com facilidade, ademais de serem poluentes ao final de sua vida útil.

4-2-

PARÂMETROS

DO

PROJETO,

ditados

pelo

móvel popular:

O estudo do fator local determinar

no móvel popular permite

os principais parâmetros necessários para novos

produtos adaptados às condições locais. Sua transposição na concepção destes novos produtos, é o resultado da análise feita anteriormente.

À seguir, a relação destes parâmetros: - Adequação ao clima cálido tropical. -Elaboração em materiais de fácil consecução, matérias primas abundantes. (não obrigatoriamente próprias do lugar) -Tecnologia simples para sua fabricação. -Durabilidade -Facilidade de limpeza

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-Facilidade de reparação -Uso versátil -Baixo peso. -Aproveitamento da habilidade do nordestino em tecer e trançar materiais. 4-2: MERCADO. O mercado natural para um projeto de fator local no Nordeste, é inicialmente toda a região tropical do país, pois apresenta em términos gerais as mesmas características básicas: clima, tipo de consumidores, etc. Juntando todos estes estados, eles não chegam a produzir o 6% da totalidade dos móveis brasileiros. Como já foi mencionado, a agressividade, a vocação produtiva, e as economias de escala das grandes empresas dos estados do sul, fazem que os móveis desta região dominem o mercado. Por isso mesmo, parece ser adequado pensar que as empresas nordestinas, em lugar de concorrerem com os mesmos móveis, devem adaptar-se e apropriar-se das condições locais para aproveitá-las a seu favor, com projetos que levem em conta o fator local, impresso nos móveis através da cultura popular ou do entorno. Um mercado possível é o exterior, já que um móvel que aporte um diferencial em seu design, determinado por fatores locais e específicos da região, não deixa de apresentar forte conteúdo étnico, que conquista clientes em outros países. Os móveis deverão aproveitar o fator local a favor.

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Capítulo 5 Fator Local A Favor
O móvel popular local além de estar perfeitamente adaptado às necessidades locais, é produzido com técnicas e matérias primas abundantes, os materiais de uma cadeira de palhinha ou de espaguete podem ser adquiridos em qualquer depósito de construção. Por isto um projeto de móvel à partir do fator local não deve estar superditado a grandes investimentos para sua produção. Vejamos como, por exemplo, alguns dos fatores que agora são problemas que atentam contra a qualidade e preço do móvel produzido no Ceará, Pernambuco ou Paraíba, podem jogar a favor. 1) Problema: Falta de fornos para secagem da madeira Solução do projeto local: Uso de madeira cultivada de Eucalipto produzida na Bahia (estado do Nordeste); esta madeira é entregue pré-cortada. 2) Problema: Falta de espuma de várias semiprocessada, completamente seca e

densidades, alto custo do poliéster espumado pela falta de produção local e seu alto volume em transporte. Estes fatores somados ao calor fazem que sofás e poltronas locais tenham baixo nível de conforto. Solução: Produzir poltronas sem espuma já que esta não é adequada ao calor, tomando o exemplo da rede, e das cadeiras de vime e espaguete.

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3) Problema : Concorrência desigual com empresas externas que por seu tamanho e mercado nacional ou global, detém altas economias de escala de produção. Solução: Em lugar de competir contra estas empresas oferecendo seus mesmos produtos, estudar o fator local para criar produtos que atendam os problemas locais. Futura em territórios (nacionais e internacionais) que expansão

atestem similares problemas para os quais nossa solução seja adequada. Atender setores com melhor capacidade aquisitiva que paguem a diferença que oferece o produto adequado ao fator local. 4) Problema: Matérias-primas importadas do sul a altos custos pelos fretes. Solução: Aproveitar as matérias-primas locais ou aquelas abundantes por seu alto consumo noutros setores. 5) Problema: Móveis em aglomerado que se incham devido o alto grau de umidade, mau odor dos sofás, ataques de cupins aos de madeira leve, alta salinidade do ar que oxida os metais. Solução: Seleção de matérias-primas adequadas a estes fatores locais. 6) Problema: Mão de obra que desconhece as técnicas de produção de móveis convencionais treinada em outras atividades como a manufatura de redes, bordados e confecções. Solução: Realizar projetos que aproveitem as e está a pesca,

habilidades citadas.
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7) Problema: Pouco hábito de compra de móveis já que se privilegia o exterior ao interior das casas. Solução: Projetar móveis adequados a atividades

externas ou portáteis. O anteriormente exposto trata apenas de alguns

exemplos de análise do produto e de seu mercado, com base no fator local. Tal análise, e sua posterior aplicação, torna-se um dos principais fatores para o êxito de uma empresa e de um produto. Ainda que não solucione todos os problemas, nos abre um caminho para a diferenciação, que é, mantém e faz crescer uma empresa. Podemos dizer que os produtos dados como exemplos, e que acompanham este informe, levam em conta estes e outros parâmetros de mercado, estando enfocados inicialmente à classe média e média alta dos centros urbanos do Nordeste e regiões com condições climáticas similares. O estudo do fator local nos proporciona os parâmetros em direção a um conceito diferente, que pode redundar em projetos com design inovador. em síntese, o que

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Segunda Parte Da Teoria à Pratica
Vários são os possíveis caminhos, para a geração de produtos com base no fator local. Veremos detalhadamente três exemplos: 1-À partir dos artefatos: coleção jangada 2-À partir do móvel popular: cadeira espaguete 3-À partir do folclore(Lampião): linha Cangaço

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Capítulo 6 A Jangada
Elemento típico e representativo do Nordeste, desde Alagoas até o Ceará, trata-se de uma pequena embarcação de pesca de origem remota. A jangada de madeira, com casco quase plano adequado às fortes ondas do mar, era até vinte anos atrás, feita em toras maciças, geralmente de piúba, madeira importada do Pará; atualmente são elaboradas com tábuas (bordos, meios e minburá) deixando uma câmara de ar no seu interior. apresentam aí insubmergíveis. mudar As mais pequenas, de um tempo para cá, pranchas em isopor, o que as torna Sua vela é triangular (latina) e o mastro é que permite

assegurado a um cavalete (banco do mastro)

a posição. Várias cavidades na base deste cavalete

(carlinga) sustentam este mastro na posição desejada. Na parte superior do banco do mastro existe um buraco (enora), no qual passa o mastro, onde se articula o suporte horizontal da vela. Dois suportes cônicos de madeira em sua parte posterior (espetes) permitem amarrar a vela a bordo ou estibordo. Entre estes suportes e o mastro localiza-se um banquinho para o pescador (banco do mestre) e um espaço para uma cesta grande onde é colocada a pesca (samburá). Nas jangadas maiores que podem permanecer vários dias em alto mar, a cesta é substituída por uma caixa de maior tamanho. No interior do casco bem estreito, podem dormir os tripulantes. À modo de quilha, para manter o equilíbrio em alto mar, utilizase uma enorme tábua (bolina) que se enfia numa abertura bem no meio da jangada (casa da bolina).

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A âncora das jangadas, de forma piramidal, também elaborada em madeira, contém no seu interior um espaço no qual se coloca uma pedra ou pesos metálicos. É interessante fazer uma análise etimológica dos nomes das peças das jangadas; algumas delas tem origem ibérica (escota, carlinga, espete, bolina), outras, indígena (aracaçanga, tauaçu, atapú, samburá) e até mesmo africana (quimangá), o que demonstra como a jangada é fruto da mistura das três culturas. A jangada é feita totalmente à mão, por mestres especialistas que aprendem o ofício de geração em geração. As ferramentas básicas na fabricação são machado e serrote, e a única ferramenta elétrica utilizada é a furadeira, que facilita a colocação de tarugos de madeira, já que a jangada não leva pregos na sua construção. As proporções e relações geométricas entre as diferentes peças são a clave da perfeita navegabilidade e também da beleza da embarcação. Estas proporções são respeitadas em todos os tamanhos de jangadas que vão deste 3 até 10 metros de cumprimento. (Ver gráfico). O mestre jangadeiro, além de ser ótimo marceneiro, é especialista em trabalhar com fios de nylon e cordas que utiliza para de segurar novos firmemente a os diferentes teve componentes um da jangada. Na segunda metade do século XX devido a adaptação materiais, jangada determinante melhorou a aperfeiçoamento técnico e funcional. O isopor conseqüentemente mais rápida; novas Âncora de uma jangada

segurança e flutuabilidade, fazendo a embarcação mais leve e cordas de fibras em o plástico, substituíram as anteriores de sisal que perdiam suas características com a umidade. Tubos de PVC envolveram

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mastro nas partes que levam atrito substituindo peças de flange que se enferrujavam e ofereciam perigo de corte ao marujo. A Jangada continua evoluindo aos poucos, sua

permanência, por séculos de aperfeiçoamento, a torna uma das magistrais peças de Design autóctone brasileiro.

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Uma análise geométrica da jangada surpreende pela perfeição das proporções, dadas sem dúvida, por fatores práticos derivados da efetividade na navegação. A jangada insere- se num retângulo perfeito dado pela soma de dois quadrados; a quarta parte desse quadrado (a) é um módulo básico que se encontra repetidamente. A proporção áurea dos antigos gregos, esta presente neste artefato.

3A

3A

8A

4A 2A A A 4A

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AS PARTES DA JANGADA

Ilustrações tomadas do livro: El Diseño en la Periferia. De Gui Bonsiepe. Este designer alemão que já trabalho muito em América Latina, foi o primeiro a analisar a Jangada: “Neste desenho vernáculo se condensam largas experiências que levam a soluções exemplares”.

articulação da vela

banco do mastro

ancora

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Capítulo 7 Da Jangada ao Produto.
7-1 À primeira vista não parece existir muita relação entre um barco e uma cadeira. No entanto, esta pode fazer-se evidente se pensarmos nos dois elementos a nível de estruturas, uma para velejar, a outra para suportar o usuário sentado. Este fator de equivalência levou à constatação de vários elementos interessantes que foram analisados e retomados no presente projeto, tais como: -Encaixes cônicos por pressão das diferentes partes, sem uso de pregos, já que eles se oxidam e se afrouxam em alto mar. No caso de uma cadeira, os pregos também se desajustam com o uso. A terminação cônica funciona melhor quanto maior seja a pressão. O ponto fraco desta união dá-se na parte externa do cone, onde, na jangada, é solucionado pelas cordas que são tencionadas para baixo do banco e do cavalete. Este elemento de tensão deverá também se fazer presente na cadeira que tenha este tipo de união. Os pés ou suportes do cavalete e do banco estão

sujeitos ao piso da jangada devido a que a estrutura destes elementos é trapezoidal e fechada. Uma estrutura trapezoidal similar em uma cadeira ou poltrona seria interessante. foto 5) - A vela na jangada pode ser solta com facilidade; uma capa de cadeira, desmontável e lavável, seria muito prática. A opção de desmonte seria viável para a totalidade da cadeira pois isto facilita sua venda e transporte.
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(ver

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- O mastro da jangada tem mobilidade em vários ângulos, sendo suportado através de vários furos que se localizam no chão dentro do “banco do mastro”. Em uma cadeira com estrutura trapezoidal similar, se poderia lograr a possibilidade de optar por vários pontos de inclinação de encosto e assento em forma simultânea. (foto) Os elementos anteriormente especificados e detalhados, de por si, geram produtos com uma estética própria, a qual está totalmente baseada na funcionalidade. Totalmente desarmáveis, as cadeiras Jangada possuem sua estrutura elaborada em madeira de eucalipto cultivado e encosto em tecido de rede ou lona. Produtos da linha apresentarão alternativas de assento em palhinha ou madeira. Planejada para diferentes espaços habitáveis, trata-se de uma linha bastante adequada não apenas para zonas litorâneas como também zonas cálidas em geral. 7-1-2 Parâmetros de Design tomados da jangada - Seleção de madeira e tecido como materiais do produto. - Estrutura trapezoidal. - Estrutura vertical de seção circular com arremate cônico. - Sujeição vertical para não deixar sair os arremates cônicos. - Possibilidade de articulação do encosto similar à da vela da jangada.

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- Acabamento rústico desgastado (jato de areia). - Triângulo da vela como proposta formal. - Encosto e/ou assento em tecido desmontável.

7-1-3 Parâmetros de Design tomados da vela e da rede: - Uso de tecido de algodão. - Frescura do tecido. - Portabilidade. -Possibilidade de lavado. 7-1-4 Parâmetros de Design tomado do móvel popular -Assento de palhinha 7-1-4: Mercado: Classe média de zonas de clima quente. Possibilidades futuras de exportação, devido ao baixo peso e volume. 7-1-5: Produto: COLEÇÃO JANGADA Os resultados à continuação, correspondem à origem de uma coleção de cadeiras, mesas, estantes e poltronas inspiradas nesta embarcação. Inicialmente pensou-se ilustrar este trabalho unicamente com uma poltrona, no entanto, a riqueza conceptual da jangada foi gerando várias alternativas, que acumuladas, formaram uma coleção. Para efeito de
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Poltrona Enora, da coleção Jangada, desmontada.

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avaliação de resultados, foram elaborados inicialmente três protótipos em madeira “Lyptus” com algumas peças torneadas, predomínio de encaixes cônicos com amarre vertical através de

Poltrona Enora e cadeira Tauaçu, encima de uma Jangada. Visualiza-se com clareza a origem conceitual.

parafuso de aço inoxidável ou bronze. Os móveis desta coleção podem ser montados por pessoas inexperientes, já que dispensam de colas e prensados; todos os produtos são desmontáveis. A coleção jangada consta dos seguintes móveis: Poltrona Minburá Poltrona Enora (graduável) Cadeira Tauaçu Mesas de jantar Mesas de centro de sala.

Mercado: Classe média de zonas de clima quente. Possibilidades futuras de exportação, devido ao baixo peso e volume.
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Uso: residencial e institucional (hotéis, pousadas e restaurantes de climas quentes). Comprovação: premiadas. A totalidade das cadeiras foram

A poltrona Enora ganhou Menção Honrosa no XV

Prêmio Museu da Casa Brasileira 2001. A poltrona Minburá foi Menção Honrosa no concurso de design Movelsul 2002 e a cadeira Tauaçu, Menção Honrosa no concurso Expodema na Argentina. A coleção completa foi finalista no concurso Design Movelsul 2002. A coleção Jangada entrou em produção pela pernambucana Kakakis Móveis, a meados de 2002. empresa

Poltrona Minburá da coleção Jangada. A poltrona desmontada cabe em um pequeno saco, já desmonta-se em peças soltas. Menção Honrosa Salão Design Movelsul 2002 * patente requerida

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Mesa e cadeiras Tauaçu da Coleção Jangada. Menção Honrosa Expodema 2001Argentina * patente requerida

Mesa de sala Jangada. * patente requerida

Poltrona Enora: Os principais elementos da jangada são reinterpretados numa cadeira que conserva o espírito da embarcação. Menção Honrosa XV Prêmio Museu da Casa Brasileira. * patente requerida

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CADEIRA TAUAÇU(*):

a

d b

c

Na figura podemos ver um gráfico desta cadeira, inspirada na jangada nordestina: a- Encosto em tecido entre duas peças de madeira com inspiração no mastro e na vela. b- Peça de amarração entre pés e assento; os pés entram dentro desta peça que apresenta furos cônicos e um parafuso de tensão que fica preso ao assento; a inspiração vem do banco do mastro. c- Reforços horizontais; estas peças também tem encaixe cônico. d- Assento: A forma e o material inspiram-se no formato do casco da jangada. A cadeira é totalmente desmontável, o que facilta sua exportação e transporte. Elaborada em madeira Lyptus com encosto em tecido de algodão ou couro; acabamento com verniz PU. Medida montada : 90x48x45 Medida desmontada: 45x60 x7

*Patente requerida

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POLTRONA MINBURÁ(*)

a

b

d

c

Na figura, podemos ver um gráfico desta poltrona inspirada na jangada nordestina: a- Encosto em tecido entre duas peças de madeira com inspiração no mastro e na vela b- Estrutura lateral à partir da análise dos espetes do banco do leme da popa da jangada. c- Pé de apoio, à partir dos mesmos elementos. d- Reforços horizontais, com encaixe cônico, tais como nas peças da jangada. Esta poltrona conta com seu respectivo banquinho para os pés. É totalmente desmontável em peças soltas. A Coleção Jangada se complementa com mesas de centro, laterais e de jantar levando em conta os mesmos conceitos. A poltrona é totalmente desmontável, o que facilta seu transporte. Elaborada em madeira Lyptus, com encosto em tecido de algodão; acabamento com verniz PU. Medida montada : 90x60x70 Medida desmontada: 95x18x18

*Patente requerida

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Quadro de referencia Poltrona Minburá

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Quadro de referencia Poltrona Enora

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POLTRONA ENORA(*)

a d

b

c
Na figura, podemos ver um gráfico desta poltrona inspirada na jangada nordestina: a-Encosto em tecido entre duas peças de madeira, com inspiração no mastro e na vela. b- Peça lateral à partir da análise do banco do mastro, do qual utiliza-se o sistema de articulação; a poltrona oferece três posições de graduação para encosto e assento. c- Reforços horizontais, onde as peças, como as da jangada, apresentam encaixe cônico. d -Assento: moldura com recobrimento em palhinha, lembrando a cesta e a rede de pesca. A mão de obra cearense tem tradição de tecelagem. A cadeira é totalmente desmontável o que facilta seu transporte. Elaborada em madeira Lyptus com encosto em tecido de algodão ou couro; acabamento com verniz PU. Medida montada : 85x67x70 Medida desmontada: 70x60x18

*Patente requerida
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Partindo dos quadros ergonômicos de O´hara (Ergonomia na arquitetura e nos interiores) onde o autor analisa cerca de 200 inclinações de assentos e encostos ,( entre 90° e 110°)e concluindo que na prática, existem seis tipologias significativas, o designer Andries Van Onck criou o quadro superior. A aplicação na poltrona Enora, do princípio deste quadro, permite quatro posições diversas de encosto e assento.

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Fotos do catálogo da coleção Jangada: O ambiente e a presencia do mar evocam o origem das peças.
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Capítulo 8 À Partir Do Móvel Popular Espaguete.

Outra opção para criar novos produtos, é partindo do móvel popular, o que leva a uma pesquisa das soluções aplicadas de longa data, já que elas apresentam as soluções funcionais e técnicas adequadas à região; é o caso das cadeiras e poltronas com estrutura em vergalhão e espaguete plástico abundantes em toda a zona tropical do Brasil. Estas dão origem a um novo design mais urbano e adequado às novas necessidades, porém com o mesmo conforto. O produto de

origem determina os fatores funcionais e produtivos, porém implica busca de um conceito criativo externo. O móvel popular proporcionou os seguintes parâmetros: -Preço acessível. -Comodidade e ventilação (adequação ao clima). -Mistura de dois materiais abundantes e econômicos (perfil P.V.C. e metal). -Facilidade de reparação (espaguete ou palhinha). -Habilidade da mão de obra local em trançado

(espaguete ou palhinha). À diferença da Jangada, muito rica em conceitos

construtivos, as cadeiras populares oferecem ao designer exclusivamente parâmetros práticos úteis para a produção.
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Após uma análise do espaguete, do seu efeito ótico quando está trançado, aliado à transparência, procurei uma fonte conceitual nos insetos, pois estes precisamente por sua transparência atestam os mesmos efeitos óticos do material espaguete. Assim, originou-se uma cadeira com corpo e coluna vertebral, onde como asas, surgem assento e encosto. A transparência, o material plástico, e o metal, se identificam bem com os computadores e interface da Apple, de moda quando estava trabalhando nesta cadeira; isto de por si, já dá algumas pistas do mercado da mesma. Criada tomando os principais elementos dos móveis populares de espaguete e inspirada nos peixes e insetos, sua estrutura, composta de duas partes, é elaborada em tubo de alumínio, ferro ou aço inoxidável. Acabamento epóxico prata ou cromo com recobrimento em espaguete ou vime. Mercado: classe média Uso: copas, salas de jantar domésticos. Fonte de conceitos: A borbuleta e os insetos. Computadores Mac da Apple ( acima) Resultado Final: Cadeira Bugboleta. 1° lugar concurso de Design Utimóveis Recife 2001 * patente requerida e escritórios

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Capítulo 9 À Partir Do Folclore
Quando se trata de obter um conceito de partida para desenhar um produto, torna-se até válido inspirar-se em personagens do folclore ou lendas populares; isto pode parecer estranho ao leitor, porém vários dos carros que são os maiores sucessos de venda, partem conceitualmente das histórias de quadrinhos que o novo consumidor lia quando criança. Este é o caso do Renault Twingo e todos os “feiosos”, ou seja, aqueles novos carros pequenos de maior altura, mistura de carro de passeio com utilitário (Fiat Doblo, Renault Kangoo) que estão tendo o maior sucesso. Nestes veículos o conceito é tão óbvio que personagens de quadrinhos se misturam com o veículo real na publicidade televisiva. Se Mickey e Pateta podem ser fontes de conceitos para novos produtos, porque não o Saci Pererê ou Lampião? Neste caso os parâmetros práticos são os usuais para móveis de madeira, à partir da minha experiência como designer e do conhecimento das condições produtivas da fábrica que encomendou o projeto (Kakakis Móveis de Recife) 9-1 COLEÇÃO CANGAÇO Virgolino Ferreira, o Lampião, era o chefe de um grupo de bandidos que assolou estado, até hoje o Nordeste do Brasil a princípios do com respeito às necessidades século passado. O carisma fanfarrão e desrespeito por um omisso Twingo e Kangoo, Veículos da Renault inspirados nos quadrinhos.

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elementares da população, fizeram deste personagem uma lenda que segue incólume no imaginário popular, integrando-se ao patrimônio cultural desta região através da música, da moda, do artesanato e literatura de cordel entre outras manifestações. Lampião e sua banda de cangaceiros, vestiam com as roupas utilizadas pelos vaqueiros da região, em couro cru, para se protegerem da caatinga nordestina, um terreno monótono cheio de pequenas árvores sem folhas na época da seca e Lampião normalmente cheias de espinhos. O tradicional gibão, o chapéu nordestino, a cartucheira, a espingarda e os enfeites de prata, constituíram-se para o Designer, num ícone muito forte, do qual poude extrair vários conceitos para criar uma linha de móveis em sua homenagem (ver figuras). Infelizmente não foi possível aproveitar elementos tais como as costuras de couro ou a riquíssima decoração dos chapéus, pelo menos dentro das condições da fábrica que encomendou esta linha, mas também para não correr o risco de ser assaz óbvio e cair no “kitch”, em cujo caso, estabeleceria-se mais um desrespeito que uma homenagem. Deste modo, os elementos tomados do cangaço foram os mais representativos, onde simplificou-se a figura do vaqueiro: a forma do chapéu, as espingardas e a cartucheira. O uso de couro, metal, tecidos e a madeira, lembram também os apetrechos e a roupa destes personagens.

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O fato de inspirar-se no Lampião, para uma cadeira, não deixa de ser engraçado, de modo que o humor é um elemento importante no projeto. Estes móveis são elaborados na mesma região originária do personagem, aproveitando as técnicas e matérias primas abundantes na região, de forma industrializada.

A coleção Cangaço, inicialmente para sala de jantar, é elaborada em madeira cultivada da região Nordeste (Lyptus) com detalhes em metal e couro. Totalmente desmontável em peças separadas, já foi concebida para exportação.

Protótipos da linha Cangaço por Jorge Montana para Kakais Móveis (PE)
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Capítulo 10 Cenários
A diferença de um projeto de design realizado para uma empresa com um esquema já existente de vendas; seja rede própria, representante ou lojas - um projeto que nasce de uma procura conceitual nos fatores locais, precisa encontrar o seu setor do mercado especifico no qual vai apresentar-se e com a finalidade de criar a estratégia de comunicação para introduzi-lo no mercado. A estratégia do fator local determina em forma natural estes campos novos do mercado, já que basea-se na comparação do existente com respeito às condições do lugar, motivo pelo qual pode-se inferir que estes produtos teriam o maior sucesso no mercado original, neste caso o Nordeste, onde foram projetados. Infelizmente as coisas não são tão simples assim. Não podemos ainda determinar um público alvo específico que precise e compreenda estes produtos. Não sabemos ainda qual é o setor do mercado, o nicho, como se denomina em marketing aonde nosso produto vai se posicionar. Para compreender isto é de utilidade aplicar o método de “cenários”, esta técnica aplicada inicialmente na moda, começa a ser utilizada em outros setores do consumo como eletrodomésticos e automóveis. Seu objetivo é estabelecer

claramente as ligações do produto através de seus fatores semânticos com o grupo dos potenciais consumidores. Como a resposta à pergunta não se faz de forma automática, o sistema de cenários permite visualizar claramente estas relações.
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A novidade neste caso especifico é que dita relação foi feita depois de ter os produtos e não antes como manda a teoria. Esta é outra das características interessantes da aplicação do fator local; o cenário já está configurado na prática e implícito na estrutura dos projetos, o que não acontece com um projeto convencional; em outras palavras, o produto baseado no fator local, tem um forte caráter dado pela simbiose com os conceitos originais, isto se a base de pesquisa conceitual tão rica e variada, for transposta corretamente e com bom senso. Para efeito de montagem do cenário dos produtos: “Bugboleta”, “Coleção Jangada”, e móveis Lampião, veremos um quadro para cada produto onde relaciona-se em uma matriz, as “sensações” que estes produtos transmitem versus outros fatores que possam ser de interesse como contexto, tradição e consumo. Esta relação determina uma série de fatores psicológicos e sócio-culturais que nos ajudam a determinar em forma prática e bem elaborada o setor de mercado, características e uso do produto. Estas conclusões não só serão ótimas para determinar o mercado senão também para uma futura campanha publicitária que pretenda fazer desejável a compra do produto, para a ambientação de espaços de venda e design de catálogos.

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10-1 CADEIRA BUGBOLETA
SENSAÇÕES VISUAIS OUTROS SENTIDOS COMPONENTES PSICOLÓGICOS AMBIENTE USUÁRIO -USO

POPULAR TRADIÇÃO PASSEIO AO INTERIOR RECARREGADO COR FORTE IRIDISCÊNCIA PEIXES INSETOS BICHO -AGILIDADE CARDUME OU GRUPO TRANSPARENCIA MOVIMENTO VELOCIDADE MATERIAL ARTIFICIAL

CALOR BRISA LIMPEZA METAL FRIO PLÁSTICO QUENTE CONFORTÁVEL EFEITO ÓTICO LINHAS RESOLUÇÃO AMPLITUDE REMINISCÊNCIA

EXTERIOR ESPORTE TEMPO LIVRE LABORATÓRIO INDIVIDUALISMO VELOCIDADE AGILIDADE JOVEM AUDÁCIA DE ATUAL GRUPO – TRIBO E-BUSSINES AQUÁRIO -CAZULO TECNOLOGIA

COZINHA COPA ESCRITÓRIO HOME-OFFICE 25-35 DIRIGÊNCIA INDEPENDENTE MÉDIO-ALTO URBANO

A transposição das sensações na cadeira bugboleta indica um mercado jovem, para casa, estudo e copa, o quadro nos indica a necessidade de complementar o projeto com uma mesa de copa e uma cadeira giratória para o mercado de escritório e estudos.

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10-2 COLEÇÃO JANGADA
SENSAÇÕES VISUAIS OUTROS SENTIDOS COMPONENTES PSICOLÓGICOS AMBIENTE USUÁRIO USO

NAVEGAÇÃO ÁGUA ESPAÇO ABERTO AMPLO MOVIMENTO PAZ LIBERDADE

CALOR VENTO MOLHADO MARESIA PROTEÇÃO FETO ABRAÇO CARINHO

FUNCIONAL TRANQULIDADE SIMPLICIDADE PRAIA INTERIOR CIDADE

DESCANSO PAUSA PERMANÊNCIA ESPAÇO ABERTO REMINISCÊNCIA

EXTERIOR DESCANSO TEMPO LIVRE INTROSPECÇÃO SEGURANÇA TRADIÇÃO PERMANÊNCIA IDENTIDADE CULTURA EDUCAÇÃO PROTEÇÃO REFÚGIO PAZ EVOCAÇÃO REUNIÃO ATEMPORAL INTROSPECÇÃO PRAZER

TERRAÇO EXTERIOR ESTUDO HOTEL POUSADA INTERIOR

GER 5–120

A Coleção Jangada é atemporal, talvez por ser baseada em um elemento eminentemente funcional e aperfeiçoado por séculos, seu mercado torna-se muito amplo com ênfase em espaços abertos em climas tropicais. Por ter uma linguajem mais neutra, evoca um coletivo cultural; as poltronas geram uma sensação de paz quase maternal que convida ao descanso. É uma linha de móveis atemporal, poderia ser projetada hoje, ou 40 anos atrás e teria a mesma permanência no gosto do consumidor.

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10-3 COLEÇÃO LAMPIÃO SENSAÇÕES VISUAIS OUTROS SENTIDOS EVOCAÇÕES COMPONENTES PSICOLÓGICOS AMBIENTE USUÁRIO USO

AVENTURA SECA DUREZA ESPAÇO ABERTO POEIRA MOVIMENTO VIOLÊNCIA RUSTICIDADE LIBERDADE POBREZA FORÇA UNIÃO DESERTO SOFOCO SIMPLICIDADE SERTÃO

CALOR VENTO PESADO TRADIÇÃO EXOTISMO ESPAÇO ABERTO REMINISCÊNCIA TRANSPOSIÇÃO HUMOR

EXTERIOR SEGURANÇA TRADIÇÃO PERMANÊNCIA IDENTIDADE ROMANTICISMO CULTURA EVOCAÇÃO REUNIÃO EVOCAÇÃO INTROSPECÇÃO COMPROMISSO

CASA SITIO HOTEL POUSADA INTERIOR

GER 35–120

À Coleção Lampião é “de difícil digestão”, pois mistura elementos como tradição e humor ou violência com romanticismo. O curioso é que a figura de Lampião e o cangaço, apresentam as mesmas contradições, estas se fazem explÍcitas nos móveis; não está claro ainda o sucesso comercial desta linha porÉm garante-se seu sucesso ao nível de imagem para a empresa produtora, pois o usuário e a mídia percebem inconscientemente esta contradição e o produto se destaca. O sucesso comercial poderá estar na sua apresentação no ponto de venda e conseqüente imagem. Para venda no exterior, ou em regiões onde não existem tais contradições, estes móveis entrariam com sucesso dentro de um mercado étnico que valoriza o cultural, que em últimas, contém forte identidade brasileira.

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Capitulo 11. Aprendizado
O presente trabalho deixa como fruto alguns produtos que mais que propriamente um resultado, são uma afirmação e manifestação da tese demonstrar o seguinte: -O fator local, que várias vezes é apercebido como um obstáculo, é na verdade a soma de várias oportunidades que podem ser analisadas e aplicadas. -O fator local, aplicado através dos móveis populares nos proporciona parâmetros claros com respeito a matérias primas, adaptação e funcionalidade. É com base a função do designer selecionar, estes elementos de avaliação, os conceitos que exposta, com a qual pretende-se

conduzem a um produto inovador. -O fator local partindo de lendas, folclore e personagens, traz intrínsecos os conceitos. É função do designer depurá -los e selecioná-los assim como as matérias primas e técnicas construtivas. -Alguns artefatos magistrais como a jangada, levam

intrínsicamente os conceitos que farão a diferença no produto; isso sobretudo quando ditos conceitos são de ordem prática, funcional e estrutural, e não apenas decorativos ou estéticos. -O trabalho de estudo do fator local baseado nos artefatos, permite diminuir o componente subjetivo do design, logrando-se produtos mais racionais, e portanto, de mais fácil aceitação.

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-Devido a isto, o estudo destes artefatos e o traslado de suas lições aos produtos, permitem dar aos mesmos, uma linguajem mais limpa que se constituirá em garantia de permanência no gosto do consumidor. -É possível com este processo de Design, definir com absoluta claridade o mercado destes novos produtos, fazendo explícitos os conceitos neles contidos, inclusive transferindo-os às características do consumidor. - Quando o conceito gerado a partir da cultura popular local é principalmente de tipo estético é preciso analisar também as limitações e características do entorno local e produtivo. -O estudo e aplicação do fator local e os conceitos daí originados, não apenas funciona como arma defensiva para conquistar seu mercado original, mas também pode resultar no elemento agressivo para a introdução bem sucedida de novos produtos a escala global. -O estudo e aplicação do fator local têm o potencial para ser a principal arma assim para os o progresso e das empresas, para conferindo-lhes competirem identidade. -Os resultados apartam-se das regras e parâmetros do que se considera “bom design” tendo como referencial o design europeu, caminho a meu entender altamente passível de saturação, que já se começa a perceber nesta mistura de moda e alta tecnologia descartável que apresenta-se em Milão todos os anos.
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elementos

produtos

globalmente com produtos que possuem própria

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-O estudo e aplicação do fator local potencializa a
identidade dos produtos desenvolvidos como um diferencial cultural atrativo perante o futuro usuário.

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Capitulo 11 Outros casos

O tema da identidade cultural do produto brasileiro não é novidade, de fato vários designers no Brasil estão aplicando com êxito os fatores locais como fonte de conceitos para novos produtos. A maior parte destes trabalhos nasce como uma adaptação e aproveitamento das condições existentes no local. Quem já recorreu sem pressa o centro de São Paulo, cheio das mais inusitadas lojas de materiais para usos diversos, Cadeira vermelha por Fernando e Humberto Campana para EDRA (Itália) Luminária Euca de Chico Lobo ( à direita) e gaveteiro de Maurício Azaredo(embaixo) compreende melhor o trabalho dos irmãos Campana e a sua escola, que procura surpreender com o uso não convencional de materiais inéditos no mobiliário. Este tipo de proposta não seria possível numa cidade diferente a Rio ou São Paulo. Ao respeito cito palavras dos designers: “São Paulo é nossa grande fonte de inspiração, o caos, a forma como as pessoas se organizam nas ruas, as lojas de materiais ou mesmo pequenos cantos da cidade. Procuramos fincar o olhar na cultura local” .

As amazônicas diversidade

madeiras na sua cromática

são a fonte da criação para o trabalho muito pessoal Maurício vários do designer e que Azeredo outros

pretendem valorizar a
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beleza das madeiras da Amazônia, trabalho complexo, pois o multi-cromatismo das madeiras torna as peças visualmente carregadas, e por isto de difícil aceitação ambiente, exceto como peças soltas. dentro de um Outros designers que

trabalham no Nordeste procuram seus conceitos na mistura de técnicas artesanais em produtos industriais, como é o caso da luminária Euco do designer maranhense Francisco Lobo. (foto) Elaborada em fibra de carnaúba e com estrutura em aço inox e chapa de latão perfurada originada no descarte da produção das moedas, onde a fibra é trançada ou amarrada manualmente. O mais destacado trabalho dos anos recentes, atualmente em produção pela empresa Schuster, mas gestado na Casabimovel, organizado sem dúvida à criada pelas Primeira evento pela linha imigrantes, designers gaúchas

Abimovel em 1999, é Móveis Imigrante por Tina e Lui. Produzidos pela Schuster (RS)

Ana Luisa Lo Pumo, Ma. Cristina Moura (mais conhecidas como Tini e Lui ) e Debora Eichenberg. Inspirada nos móveis coloniais dos imigrantes italianos e alemães do sul do país porém adaptadas às medidas dos espaços e às condições modernas. Trata-se de uma linha completa para sala de refeições e estar, onde as designers não só retomaram conceitos

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esquecidos como o guarda louça superior e inovações práticas como o reaproveitamento de espaços nos tampos das mesas, mas também conceitos de aproveitamento multiutilitário em móveis que os artesões europeus trouxeram consigo quando imigraram ao Brasil, há mais de um século.

Retoma a simplicidade do móvel antigo integrado às condições produtivas da indústria moveleira atual. Isto, sem perder de vista características artesanais como o trançado de couro no assento. A coleção “Imigrante” ganhou o XIV Prêmio Museu da Casa Brasileira 2000. As autoras gentilmente enviaram a seguinte descrição: “Sempre nos interessou o mobiliário original de época encontrado em uso ainda pelos descendentes . O resultado da busca e posterior análise tanto do móvel trazido além do mar, como o móvel aqui elaborado pelo colono, utilizando a memória e matrizes como modelo, tudo isso ensejou a transição e a releitura para o móvel contemporâneo. È claro que nessa transposição, ocorreram simplificações adaptar material o móvel ao visando uso a e de detalhes, novas adequados industrial, à propostas de funcionalidade e supressões de adornos para forma contemporaneadade. È lógico que as técnicas construtivas e utilizado, produção foram preocupações básicas. O espiríto da funcionalidade quisemos ressaltar. A queijeira, que em sua origem provém das queijeiras elaboradas pelos pomeranos radicados na região Sul do estado, e cuja função era a preservação de queijos recém elaborados em móvel ventilado, daí advindo o gradil de madeiras nas portas . Na versão moderna suprimimos frontão decorativo superior e
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Queijeira Imigrantes. ( acima) Móvel colonial gaúcho inspiração da linha. ( embaixo)

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mantivemos o gradil, a escala e a simplicidade da forma. Serve para guardar, como bar, guardar som, etc....”
“Nosso foco além de pesquisa das nossas raízes para inspiração dos móveis é também a apropriação de ícones ou temáticas de nossa história como pontos de partida. O método básico foi observação, pinçar o que achávamos relevante, no caso, o sentido funcional dos móveis (tanto que em alemão os móveis chamam-se guarda-louças, quarda-queijo etc., indicando explicitamente sua função”

A idéia de trabalhar à partir da jangada, teve neste trabalho minha principal referência; esta dupla de irmãs menos conhecidas que o seu par masculino no design brasileiro, porém com muito mais sucesso de vendas no mercado nacional tem grande respeito dentro do setor moveleiro. Em todos os casos citados anteriormente, fica claro uma origem, um conceito e uma identidade local. Quando o criador do produto não tem um conceito claro, como infelizmente acontece com alguma freqüência, o resultado não tem “alma”, suas formas ficam sem sentido, desconexas ou rebuscadas, confundindo ao consumidor, gerando rejeição: quando não se tem em conta o local, o produto será inviável e de péssima qualidade. Quando como designers, nos inspiramos nos produtos de outras praças, estamos desperdiçando o potencial dos fatores locais e tomando uma identidade emprestada, fazendo então, uma amálgama de má qualidade pela qual o produto vai se perder na selva do mercado. Tomando emprestada uma frase copiada do livro de visitas da exposição Brasil faz Design 2002, apresentada em Milão na semana da feira do Móvel: “estamos
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pretendendo vender gelo no pólo norte”, pode-se entender melhor o anteriormente explicitado. Neste sentido considero funesta a influência do “design de autor” do móvel de Milão, correspondente a uma realidade diversa de um mercado maduro e saturado, de alta tecnologia e com forte concorrência, onde o fator moda peza muito na compra mais por impulso que por necessidade. O que realmente temos que aprender dos italianos são as estratégias de marketing que conseguem que o mundo inteiro aplauda, sem parar para pensar, o festival do desperdíçio em que se converteu o chamado “móvel de design”, cujo destino à volta de dois anos será a cesta do lixo. Quando o produto parte do local, e por isto mesmo, possui caráter e adaptação às condições produtivas e necessidades específicas de nossos clientes, vai vender não só pela integração destas condições, mas também pela identificação “maternal” que o consumidor faz dos seus valores e tradição. Vai ter sucesso também no exterior pelo exotismo e novidade que o consumidor de fora encontra no novo produto. Aplicando o velho ditado, “vamos ter a faca e o queijo na mão”.

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Conclusão:
A pesar dos esforços do setor moveleiro representado no Abimovel e seu programa Promovel, o móvel brasileiro não consegue aumentar as exportações de forma significativa, muito pelo contrario, começa a perder inclusive parte de seu mercado interno. Uma crise de identidade toma conta do setor na hora de exportar, isto é normal em um setor novo e até pouco tempo sem concorrência externa.Por outra parte a força da cultura popular brasileira é tão forte que transcende as fronteiras. A imagem do Brasil no mundo é de alegria, exotismo e colorido. Os elementos para isto estão aqui, no nosso quintal, infelizmente temos a tendência a olhar fora dele procurando no sucesso dos outros a receita para o próprio sem perceber o que temos de bom e não estamos aproveitando. O presente trabalho consistiu numa reflexão sustentada pela prática dos produtos projetados e do que considero seja um caminho que leve as empresas a crescerem a traves do estudo das características que lhes confere estar localizadas num determinado lugar. Em qualquer empresa este estudo junto a sua própria individualidade, mercados que as particulares de condições apoiada de mercado e produção, são o antídoto contra uma agressiva globalização de apesar estar em empórios econômicos não tem como poder valorizar e aproveitar isto que definimos como o fator local.

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O fator local ademais, não só permite as empresas crescer em sua zona de influência mas é condição para que o produto seja exitoso em outros mercados já, que esta adaptação e aproveitamento dos fatores locais representada no produto, é fator de novidade no mercado externo e finalmente se transformam em um fator de identidade. A sabedoria popular em suas produções materiais, como já aconteceu com a biônica e a arte, podem ser fonte de inspiração de soluções nelas se encontram simplicidade. É em nos mesmos, em nossa cultura e entorno que devemos procurar nossas respostas não tento em propostas exógenas que chegam na velocidade da informação pero não sempre são as melhores soluções. A vida de um designer é a luta contra a tendência pessoal a procurar referências e conceitos em produtos já existentes, é por isto que não sempre surgem trabalhos realmente ineditos O presente trabalho, como já mencionado, deixa como fruto alguns produtos, que mais que um resultado são o manifesto palpável do aqui escrito. Para mim como designer, registrar e fazer o esforço de tornar consciente todo o processo foi fascinante e enriquecedor cheio de constantes descobertas, na luta pessoal para racionalizar um processo que finalmente, apesar de todos os esforços tem sempre um definitivo elemento subjetivo e pessoal, a pesar que como designer intente de forma consciente gerar um linguajem objetivo, medível e qualificável.
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inéditas e não só cosméticas, já que soluções magistrais com a maior

Jorge Montana

Neste ponto me aproximo da velha metodologia da escola alemã de ULM que marcou até pouco o ensino de design; tal vez a forma seja conseqüência da função depois de tudo, só que a função esta muito mais no campo da percepção e a psicologia do que achavam os velhos mestres. criador foi fonte de aprendizado e sabedoria. O tema das cadeiras como produto escolhido no trabalho prático foi o grande reto; não tem no design de móveis produto com maior complexidade na hora de avaliar uma novidade que uma cadeira, pois cada dia torna-se mais limitada possibilidade de lograr algo diferente. O fato de ter-lo conseguido é a prova final e a grande conclusão deste trabalho; a dificuldade de projetar cadeiras e poltronas, não está em conseguir variações formais, senão em encontrar um ponto de partida, neste caso, as soluções populares. Esta monografia relaciona a pratica profissional com a teoria do design; poucas publicações cumprem este objetivo. Poderá viabilizar-se como o ponto de partida para estudos mais rigorosos a serem executados por designers acompanhados de antropólogos e fotógrafos que pesquisem a cultura popular procurando extrair conceitos, Uma deste teor, seria de fundamental importância tanto para os designers como para a industria brasileira. Apoiar a criatividade no marco da interpretação dos artefatos e da cultura populares, as vezes com centenas de anos de lenta evolução, é beber das fontes da sabedoria. Jorge Montana Fortaleza, Junho de 2002 www.jorgemontana.com www.jangadacollection.com Fone- fax: 85- 4768029 jmontana@ultranet.com.br Para mim, submergir neste processo mas como interprete que como

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Jorge Montana

BIBLIOGRAFÍA
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Revista Arc Design São Paulo, Julho Agosto 1999
SITIOS WEB: www.brasil.gov.br www.ceara.gov.br www.pernambuco.gov.br www.lyptus.com.br www.abimovel.org.br www.fiesp.org.br www.geocities.com.br/msslkc www.brfcolors.com www2uol.com.br/animae/desenho anonimo www.chicolobo.com.br
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