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AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS NA ESCOLA E A CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA MORAL. O RENASCIMENTO DE JOSELA

AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS NA ESCOLA E A CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA MORAL.

O RENASCIMENTO DE JOSELA

Silvia Adoue

Trabalho de conclusão

referente ao Módulo I “O

desenvolvimento cognitivo e

a proposta construtivista”

ministrado pela Profa. Dra.

Sônia Maria Losito.

Analy Cristina Negro Rocha - RA 20181-0

Maria José Canova - RA 20205-5

Abril/2007

Objetivo: refletir sobre os fundamentos da epistemologia piagetiana que

explicam o desenvolvimento infantil, relacionando-os com o estudo do artigo

“Prática docente de cada dia: O renascimento de Josela” - Sílvia Adoue.

Na tentativa de alcançar o objetivo proposto para este trabalho,

citaremos trechos do artigo estudado confrontando-os com a teoria piagetiana

que aborda o desenvolvimento cognitivo, o julgamento moral e a linguagem,

conseguindo perceber a relação entre as estruturas cognitivas e o

desenvolvimento social.

Sílvia Adoue - professora - assumiu atividades em uma escola pública

de Buenos Aires e se propôs a lidar com a dimensão afetiva da aprendizagem.

não

passará da operação concreta, aluno limítrofe”, assim caracterizado em suas

fichas, permitiu-se desenvolver um trabalho pedagógico que o preparasse

para a vida. Visto que ele era uma criança que não freqüentava o ambiente

escolar, sua família não valorizava o diálogo e, portanto, não participava

ativamente de um convívio social, a atitude da professora de ir à sua casa e,

posteriormente, levá-lo à escola, nos remeteu a pensar na afetividade que

deve ser estabelecida para a evolução de um estado de não diferenciação

entre o eu e o mundo para um processo diferenciado, no qual são comuns as

trocas entre o eu e as pessoas e o eu e as coisas.

Ao conhecer Josela, aluno que tinha o estigma do “não poderá

,

No primeiro dia escolar, Josela participou de um jogo de futebol em que

foi reconhecido pelos colegas devido a sua boa atuação como goleiro,

elevando sua auto-estima. Também participou de atividades diversas:

aprendeu a andar de bicicleta, fez caminhada e pescou. Essas vivências nos

reportam aos estudos de que o sorriso infantil, reforçado pelo sorriso do

parceiro, torna-se instrumento de troca ou contágio e, logo, de diferenciação

das pessoas e coisas.

Leonardo, colega de Josela, tinha habilidade para contar histórias que

prendiam a atenção de todos devido à vivência com sua família na lida com as

cabras. Essa situação nos permite dizer que a criança que recebe uma grande

quantidade de informações das pessoas que a cercam, integra-se à cultura na

qual vive e recebe, assim, a experiência acumulada de toda a sociedade.

Outro ponto relevante do artigo lido foi o momento em que a professora

chamou Josela ao quadro-negro para resolver uma multiplicação simples.

Mesmo contrariando todas as indicações, estando diante da resistência

apresentada pelos colegas de Josela e ciente de suas dificuldades, ela

manteve sua decisão, pois sentia-se segura para tal. O importante era que ele elaborasse uma forma de vencer alguns obstáculos, e não todos de uma única vez. Sendo assim, permitiu que ele recebesse a ajuda de seus colegas (sem que os mesmos percebessem isso), pois tinha mesmo que se apoiar nos outros e se preocupar em entender o linguajar que os colegas dominavam.

Esse mecanismo permitiu a passagem de uma etapa para outra, ou seja, de uma estrutura mais simples para uma estrutura mais complexa, permitindo que o organismo reagisse às alterações, às modificações do equilíbrio e conseguisse compensá-las voltando a uma situação de equilíbrio que já não seria igual à anterior, mas representaria um passo adiante porque teria dado lugar à formação de novos esquemas.

O passeio pela capital, proporcionado pela escola e com a participação da mãe de Josela, propiciou vivências físicas e culturais nos ambientes visitados, fatores que contribuíram para a aprendizagem. Os alunos foram formando seus próprios conhecimentos por diferentes meios: por sua participação em experiências diversas; por exploração sistemática do meio físico e social; ao escutarem atentamente um relato ou uma exposição feita por alguém sobre um determinado tema; ao observarem os demais e os objetos com certa curiosidade e ao aprenderem conteúdos propostos por sua professora.

Esses conhecimentos estão armazenados na mente, organizados em unidades chamadas de esquemas de conhecimento e que mantêm conexões entre si. A estrutura cognoscitiva poderia ser concebida como um conjunto de esquemas convenientemente relacionados.

Josela

apresentou

muitos

avanços

nos

cálculos

matemáticos:

inicialmente contando nos dedos e pronunciando em voz baixa os números e, depois, internalizando a noção de dezena.

Aproveitando uma outra viagem, a professora delegou funções aos alunos. Josela era o responsável pelo dinheiro e cumpriu corretamente sua função. Mostrou, mais uma vez, que era capaz de aprender no momento em que adiantou-se à conta do guarda, somando o total “de cabeça” e calculando o troco. A aprendizagem, nesse momento, tornou-se ainda mais significativa para ele.

Pelo o que acabamos de dizer, é fácil perceber que um dos objetivos fundamentais da educação escolar é a modificação dos esquemas de conhecimentos dos alunos.

Toda modificação obriga a reorganizar os esquemas prévios, mesmo que de modo parcial, fazendo com que sejam cada vez mais organizados e previsíveis, mais capazes de atribuir significados à realidade.

A mudança de esquemas pode ser caracterizada como um processo de equilíbrio inicial, desequilíbrio e reequilíbrio posterior.

Com sua intervenção, o professor deve provocar desequilíbrios no equilíbrio inicial dos esquemas de conhecimentos dos alunos e, naturalmente, desempenhará um papel muito importante no reequilíbrio posterior, como nos mostrou a professora de Josela.

Um desequilíbrio pode ser considerado ótimo para a mudança dos esquemas de conhecimento de um indivíduo se aquilo que constitui um conflito para suas idéias não está distante demais daquilo que conhece, de modo que não possa ser relacionado de forma alguma com elas e não tenha nenhum significado, ou perto demais para suas colocações iniciais e não representa nenhum desafio.

Se a relação humana é a base essencial para o desenvolvimento da inteligência, cabe à escola o papel de permitir que os alunos aprendam os conceitos de maneira significativa, contanto com professores que consideram os alunos como centro de suas intervenções.

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