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LIVROS

HISTÓRIAS AMERÍNDIAS História dos índios no Brasil. Manuela Carneiro da Cunha, org. São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria Municipal de Cultura/Fapesp, 1992, 611 pp. (mapas, ilustrações, índices). Eduardo Viveiros de Castro
Anthropology must choose between being history and being nothing. (S. Maitland, 1911) L'histoire mène à tout, mais à condition d'en sortir. (C. Lévi-Strauss, 1962)

Nestes termos um pouco drásticos, este "tudo ou nada" tão frequente na reflexão sobre as relações entre história e antropologia, não há dúvida que nos encontramos em uma fase "tudo". A antropologia está tomada por uma profunda cliofilia, para não dizer cliomania; a palavra "história" pulula substantiva, adjetiva e adverbialmente nos textos antropológicos recentes, servindo para qualquer coisa: des-de invectivar e/ou desconstruir a antropologia "préhistórica" e seus ingênuos ou maliciosos praticantes, até determinar e qualificar o objeto, o sujeito, o tema, as condições, as limitações e as aspirações do novo e sofisticado conhecimento que se pretende. Enfim, a história está em toda parte, em companhia, aliás, de outras figuras da moda: a prática, a estraté-gia, o poder, a retórica, a heteroglossia, a reflexivi-dade, a crise da autoridade etnográfica, o "fim das grandes narrativas"...
22 NOVOS ESTUDOS N.° 36

Crer-se-ia que este é um fenômeno novo, como se os antropólogos, despertos de seu sono funcionalista ou estruturalista, tivessem só agora descoberto o caminho das pedras apontado por Maitland (um historiador), ao perceberem que o sonho de constituir uma ciência natural da sociedade ou do espírito humano dava em nada. A história levaria, afinal, a tudo — e não haveria como ou por que sair dela. Ora, a história tem sido uma preocupação e um valor constantes da antropologia. Muitos e eminentes foram os antropólogos que se viram obrigados a deitar pelo menos uma falação intitulada "História e Etnologia", "Antropologia e História" ou algo no gênero (pois se trata efetivamente de um gênero): Boas, Rivers, Kroeber, Evans-Pritchard, Lévi-Strauss, Sahlins... Vários destes, e seus epígonos, socorreram-se da grande partilha de Dilthey (que hoje volta a sevir de mito epistemológico maior para algumas correntes antropológicas) e se puseram ao lado do espiritual e do histórico. Mesmo Lévi-Strauss, visto como inimigo público número um da história, dedicou-se em várias ocasiões à tarefa de definir as relações teóricas e empíricas entre as duas disciplinas e os respectivos objetos. Ele é, na verdade, o antropólogo talvez mais obcecado com a história; mas sua recusa em fazer da historicidade "o último refúgio de um humanismo transcendental" — bem como um certo pendor para as fórmulas lapidares — custou-lhe alguns dissabores críticos. Mas há sem dúvida algo de novo, na fase cliófila atual. Não se trata apenas de um retorno do pêndu-lo, e da volta a uma metafísica da história; disto, ao menos, o estruturalismo teria nos livrado. É verdade que por vezes parece que não: ao se constatar o caráter quase obrigatório de um insulto ritual a Lévi-

Karl von den Steinen: um século de antropologia no Xingu. O volume organizado por Manuela Carneiro da Cunha é um exemplo de tal dinamismo. acaba de sair mais uma compilação de ensaios etnológicos e históricos (Coelho. entrar em transe por causa disso. está no prelo (n° 125-128). V. e já não tão recente.LIVROS Strauss toda vez que se vai falar hoje da história de povos não ocidentais (ver por exemplo a coletânea organizada por Jonathan Hill. a História dos índios no Brasil merece um lugar de destaque. um projeto gráfico soberbo. tivemos três coletâneas publicadas no Brasil (Lux Vidal. Se o contraste entre os povos "infantis" dispondo apenas da "etnografia" e os povos maduros dignos da história (para evocarmos uma famosa passagem de Varnhagen) torna-se hoje sem nenhum sentido. São Paulo: Núcleo de História Indígena/Usp). fica-se com a impressão de que a antropologia. mais que de qualquer outra coisa. temas e problemas da antropologia.. M. depois de citar aprovativamente o aforismo de Maitland. et alii. é porque antropologia e história descobrem que têm o mesmo objeto. história. etnicidade. orgs. ela exprime mais profundamente. como diria Paul Veyne. nº 30-32. em uma paisagem editorial de grande indigência estética —. de desdramatizar a questão: se o humano. idem. 1987-89). assim como uma coletânea sobre a memória indígena (Monod. P. R.. A. 1991) bem como uma excelente coletânea de ensaios que complementam os reunidos na atual (Revista de Antropologia. a "vida privada" —. sobre a história dos povos ameríndios que vivem ou viveram no Brasil e regiões adjacentes. É tal desdramatização que se pode constatar na coletânea organizada por Manuela Carneiro da Cunha. Ela me parece residir antes no fato de que a atual historicização da antropologia deve-se em larga medida a uma prévia. Trata-se. só se revela na história. N. São Paulo: Nobel/Edusp. da história indígena e da arqueologia sul-americanas.. "o encontro" das sociedades européias e americanas. org. São Paulo: Brasiliense/CPISP. Paris: Université de Paris X — Nanterre). e outro. Ásia e Oceania). É porque esta soube se renovar pela assimilação dos métodos. mateJULHO DE 1993 23 . org. 1993) e outra se prepara (Viveiros de Castro. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura). bororo ou francês. que vai aos poucos retirando o americanismo de seu lugar marginal relativamente à mainline antropológica (tributária de uma etnografia centrada na África. antropologização da história. A novidade certamente não passa por aí. Evans-Pritchard. que a partir de meados dos anos 70 começaram a repensar seus métodos e objetivos. mas sem nenhum traço de mau gosto: uma impressão impecável. ou recordem-se os trabalhos mais ambiciosos de J. as "classes subalternas". associada a alunos e colegas no Brasil e no exterior. E. o enorme ímpeto recente da etnologia. 1988. Dentro desta produção abundante. não é preciso. luxuosa mesmo. O ano passado foi muito rico editorialmente para a etnologia sul-americana: com esta. Parte desta efervescência (e da prevalência do recorte histórico no que se publicou em etnologia ameríndia) se deve a razões mercadológicas — notadamente o V Centenário da invasão da América. Fabian. um número especial (n° 122-124) da revista L'Homme foi dedicado à história indígena da América espanhola. Rethinking history and myth. São Paulo: Edusp/Fapesp. As muralhas dos sertões: os povos indígenas no rio Branco e a colonização. Os direitos do índio. vê-se compelida a provar a qualquer custo que eles "têm história". agora rebatizada. numa mistura de cinismo e irenismo. Grupioni. Rosaldo). L. que o diálogo entre as duas disciplinas tornou-se incontornável. Rio de Janeiro: Paz e Terra/Anpocs. entretanto. Amazônia: etnologia e história indígena. sobre a etnologia da Amazônia. Grafismo indígena. Farage. Índios no Brasil.. Carneiro da Cunha. no exterior. Antropologia do Brasil: mito. e que já nos deu livros importantes (Carneiro da Cunha. org. 1986. Mémoire de la tradition. 1987. invertia-o: "history must choose between being social anthropology or being nothing". por se tratar de obra admiravelmente bem apresentada. estendendo seu olhar para dimensões das sociedades ocidentais antes consideradas como imóveis ou insignificantes — a "cultura popular". orgs. ensaios e documentos. no Brasil. às vezes (como na teoria do Sistema Mundial) acaba-se concluindo que eles a têm às próprias custas. tendo afinal introjetado o decreto hegeliano que recusava o Espírito aos povos "sem história". e poucos são os antropólogos contemporâneos que souberam tirar algo de realmente estimulante desta revalorização da história (Sahlins é o exemplo mais notável). University of Illinois Press. São Paulo: Brasiliense/Edusp. Em primeiro lugar — vale sublinhá-lo. Ele deriva de um trabalho de pesquisa que esta antropóloga vem realizando há vários anos. o que não era bem o que se queria provar. & M. org.

debruçando-se sobre materiais de . historiadores). os sobrevôos históricos de John Hemming são úteis mas superficiais).LIVROS riais iconográficos ricos e bem escolhidos. se deve e se pode saber muitíssimo mais sobre a história das populações ameríndias do que registram nossos livros de história do Brasil. o rio Negro. o Nordeste brasileiro). a arqueologia e a história indígena do continente. os Xavante. mas o que se vê hoje é de outra ordem.e pós-colombiana das chamadas "terras baixas" da América do Sul. variedade e permanência de uma quantidade de situações etnográficas e históricas específicas.. outros examinam sistemas regionais e conjuntos linguístico-culturais. como nos ensaios sobre as línguas ameríndias ou as legislações indigenistas) deve ser considerada em seu aporte à história geral do país: se nossa história não é apenas a crônica da classe dominante. Goiás. o Alto Xingu. reata-se de um lado um diálogo há muito rompido entre a etnografia de povos contemporâneos e disciplinas como a arqueologia e a lingüística histórica. arqueológicas (a Alta Amazônia peruana e equatoriana. mas precisamente na variedade e na especificidade das contribuições que reúne... Em segundo lugar.e/ou pós-colombiana dos índios brasileiros (a síntese pré-histórica panamericana de Betty Meggers está obsoleta. outros sumarizam períodos da história pós-colombiana do ponto de vista das relações jurídico-administrativas entre a etnia invasora e os povos indígenas (três excelentes ensaios sobre a política e a legislação indigenistas na colônia. Florestan Fernandes ou Darcy Ribeiro. e sobretudo assistir à demonstração serena (desdramatizada. não está tanto do lado desta síntese futura. e particularmente do Brasil. não pode ser também apenas aquela da etnia dominante. o Madeira-Tapajós. com ênfases mais ou menos etnológicas. recorte e estilo. um inventário da legislação indigenista de 1500 a 1800. Acrescente-se a isto uma copiosa bibliografia. É verdade que a etnologia praticada no Brasil sempre se distinguiu por uma sensibilidade especial a esta dimensão — recordem-se os trabalhos pioneiros de Curt Nimuendaju. que nos dão uma visão ampla e atualizada da dinâmica indígena pré. experimentadas por setores diferenciados da população do país. e sobretudo. Penso que esta amostra de múltiplas histórias locais (pontuada por algumas análises globais. os Botocudo. Não se busque aqui nenhuma unidade metodológica ou teórica: trata-se de 25 ensaios. pela qualidade dos materiais reunidos. vindo sob vários aspectos substituir o que se podia achar no venerável Handbook of South American Indians (1943-48). escritos por profissionais de diversa origem e formação (geneticistas. o Chaco. Eu diria mesmo que esta coletânea deve ser lida antes de mais nada pelos historiadores do Brasil: é a eles que ela poderá dar uma idéia da complexidade. ou a quantidade de bons estudos do "contato interétnico" que reconstruíam os determinantes históricos das situações estudadas. os etnólogos deixaram de se contentar com referências superficiais a fontes secundárias ou terciárias. a maioria traça panoramas históricos densos de povos singu-lares (os grupos de língua pano. esta coletânea é uma contribuição valiosa nesta direção.° 36 O grande valor da História dos índios no Brasil. os Tupinambá. que nos permitem apreciar os avanços realizados no conhecimento das realidades ameríndias. versando sobre temas variados em seu escopo. alguns tratam de sociedades extintas antes ou logo após a chegada dos europeus (o "cacicado" de Marajó. alguns deles de dimensões quase monográficas. os Kampa. Outra coisa que esta coletânea permite constatar é a mudança experimentada pela comunidade antropológica americanista quanto ao interesse pela história dos povos que estuda. quando empreendem a contextualização histórica de seu objeto. arqueólogos. até agora o único guia geral para a etnologia. como disse — isto é. antropólogos. os povos de língua pano. Se ainda não temos uma verdadeira "nova síntese" da história pré. Assim. uma análise da museologia e um índice das coleções etnográficas existentes. reinado e república). lingüistas. Alguns oferecem-nos um balanço do "estado da arte" disciplinar ou regional (artigos sobre a biologia do homem americano. avaliar as questões atualmente colocadas por especialidades como a biologia humana. sem nenhum longo mea culpa sobre o tradicional pecado antropológico de sincronismo explícito.. a classificação das línguas sul-americanas). os Guarani. os Mura. ou qualquer anúncio grandiloqüente da historicidade ameríndia) de que se sabe. e pode-se prever que a História dos índios no Brasil será doravante uma obra de referência essencial. o rio Branco. históricas. de outro lado. 24 NOVOS ESTUDOS N. os Kayapó). a lingüística e a arqueologia. e à competência de que se armou para torná-lo operativo. os povos da várzea do Amazonas). entretanto..

LIVROS arquivo muito mais abundantes que se imaginava. um sentido "êmico" e um sentido "ético" —. aquelas concepções (explícitas ou implícitas) mais abstratas ou gerais sobre as propriedades da série temporal: tratamento do evento por dispositivos conceituais de explicação e classificação. isto é. Podem-se. não do fazer antropológico. isto é. isto é. fonte essencial para a construção de uma história indígena que se preocupa em transcender uma perspecti-va puramente externalista e que se abre para uma autêntica etno-história. Em primeiro lugar. relíquias e troféus. Pode-se dizer ainda "etno-história" do que seria melhor chamar de etnofilosofia da história. o conhecimento obtido pela pesquisa etnográfica de campo — que. os modos concretos de estar no tempo de cada forma sócio-cultural. "Etnohistória" é palavra que se aplica hoje de modo algo indiscriminado. É destes regimes diferenciais de historicidade que falava Lévi-Strauss ao propor a muito vituperada noção de "história fria" — empiricamente questioJULHO DE 1993 25 .). Trata-se de uma investigação que procura estabelecer os regimes de historicidade característicos de diferentes sociedades. etno-história é conceito que se costuma reservar a uma dimensão (principal mas não exclusivamente discursiva ou conceitual) das sociedades que estudamos. dos métodos que usa para ordenar e preencher a série temporal (narrativas tipologicamente diferenciadas sobre o passado. cujo cruzamento é um problema. ou então trata-se simplesmente de investigações etnológicas sensíveis à dimensão diacrônica das sociedades-objeto.. que até certo ponto engloba o objeto das anteriores e transcende a oposição um tanto escolástica entre história e etno-história. no caso dos povos indígenas brasileiros. contido nas acepções anteriores do termo. Entendamo-nos sobre esta última noção. preenchendo lacunas e avançando hipóteses capazes de dar substância sociológica a informações vagas e contraditórias. crônicas genealógicas. enfim. e em particular à história destas sociedades após o choque com o "Ocidente". dos eventos que retém e elabora. tendo mesmo sido incorporada por certas correntes de investigação da história do Brasil. agora aplicados.. estáse falando de etno-historiografia ("etno-historiologia" seria mais apropriado.. distinções entre "tempo mítico" e "tempo histórico". inspirando-se na distinção entre os níveis fonêmico e fonético da língua. Finalmente. uma etno-história no sentido próprio) e um sentido exclusivamente genitivo — ou. de sua estrutura morfológica. cronologias e calendários. Mas ou isto está.. historiografia e etno-historiografia. com grande sucesso. ou de história das classes subalternas. de história antropológica — isto é.. e que são tributários de seu modo de produção e reprodução. genealogias... Trocando em miúdos: "história indígena" possuiria um sentido possessivo (quando é uma "metadisciplina". a maior competência lingüística alcançada pela nova geração de etnólogos tem permitido a exploração mais sistemática de domínios como a tradição oral dos povos indígenas. de uma história atenta às questões e objetos tradicio-nais da antropologia. orientação para a origem ou o fim da história. ciclos e escatologias cósmicas. o modo pelo qual as estruturas sócio-cosmológicas nativas — historicamente determinadas — experimentam e respondem ao contato com a nossa história. daqueles que ignora ou oculta. ciclos onomásticos ou matrimoniais. no caso de povos ágrafos): do saber desta ou daquela sociedade a respei-to de sua inscrição na temporalidade. gêneses. reorganizações da base materi-al e do sistema político.. mitologias. a fenômenos e dimensões da sociedade brasileira tradicionalmente ignorados pela história política ou econômica. marcadores linguístico-retóricos evidenciais ou citacionais. a rigor.). onde é empregada como uma espécie de sinônimo de história social. somente a partir dos anos 70 atingiu um grau de sofisticação e profundidade comparável ao que se fazia em outras partes do mundo — tem sido aplicado mais sistematicamente sobre as fontes históricas. Pode-se também dar um conteúdo etno-histórico a certas instituições que codificam a reprodução social de uma perspectiva simultanea- mente sincrônica e diacrônica: sistemas de classes de idade. Em antropologia. não uma evidência. em seguida. ou. Haveria ainda uma acepção última para este termo de "etno-história". sua filosofia da história e de sua "cultura" em sentido mais amplo. diz-se etno-história como se diz etnogeografia ou etnoastronomia. de sua cosmologia. como diriam alguns antropólogos. finalmente. definir como etno-históricas aquelas investigações que procuram elucidar os modos pelos quais as sociedades indígenas administram ideológica e praticamente o contato com a sociedade ocidental (mitos de origem dos brancos. reelaboração das identidades étnicas. ou de história das mentalidades.

territoriais. e a classificação da família de línguas tupi-guarani pareceu-me problemática: não sei que critérios foram usados para se distinguirem os subgrupos "dialetais" chamados (de modo que se presta à confusão com as sociedades epônimas) de . No presente livro. que só têm em comum o fato de falarem línguas tupi-guarani (diferentes entre si) e viverem no interflúvio Xingu-Tocantins. os "Asurini" do Trocará são historicamente muito mais próximos dos Parakanã que dos "Asurini" do Koatinemo. Menéndez. de J. sincrônico ou diacrônico. dos efeitos (demográficos. M. Vários dos autores que contribuíram para o volume destacaram-se por estudos sobre etno-história.. o etnônimo "Asurini". R. Dantas et alii). de A. em seu balanço sobre os desenvolvimentos que os métodos da genética de populações. Renard-Casevitz. de origem estrangeira (juruna). baseadas em fontes documentais brancas. de Carvalho para o Chaco. Monteiro. como o feito por P. Nádia Farage. Carneiro da Cunha. como os de F. M. 34). Franchetto tematiza especificamente narrativas e concepções indígenas (kuikúro) do contato histórico com os brancos. é aplicado pela Funai a duas sociedades que nada têm a ver uma com a outra. ou ainda a organizadora do volume.H.-C. mas muito longe de ser teoricamente absurda. apenas o artigo de B. Ora. Fausto e T.. M. e portanto concluir que a heterogeneidade genética era particularmente significativa. apenas história. que há tempos escreveu comigo um trabalho sobre as propriedades "crônicas" do sistema guerreiro tupinambá e suas implicações para o regime de historicidade deste povo). Erikson para os Pano ou S. Para vários destes povos.. Santilli. Farage e P. Em outros casos.. Perrone-Moisés. outros. reporta uma investigação sobre as diferenças entre os sistemas genéticos de "quatro populações em três tribos Tupi: Asurini (duas localidades). Salzano. pode-se infelizmente inverter o juízo arrogante de Varnhagen: para eles não há mais etnografia. F.. Há alguns reparos menores a fazer — para manter as convenções do gênero. colonial ou nacional. B. externalista ou internalista. R. C. e os povos indígenas.] os Asurini dessas duas localidades (Trocará e Koatinemo) diferiam tanto entre si quanto com relação às populações das outras duas tribos [. os ensaios de R.. (Vê-se aqui a necessidade perene de trabalhos de elucidação crítica dos etnônimos presentes na documentação. Porro. A. por outro lado — e isto é tanto mais inevitável quanto os povos estudados foram exterminados ou assimilados. 26 NOVOS ESTUDOS N.° 36 Paraíso. de N. no retraçar a história biológica dos povos ameríndios. lingüística. M. Karasch.LIVROS nável em vários casos. ele estabelece as bases para qualquer estudo etnológico ou histórico. aliás. topônimos e sucessos históricos sedimentados na literatura: vejam-se as úteis paisagens esboçadas por P.]" (p.C. Wright. das regiões e povos aqui tratados. em suma. da antropologia física e da paleoepidemiologia estão permitindo.M. em qualquer das acepções acima.-M. Wright. Wright. o título pode se prestar a equívoco. os balanços da legislação e política indigenistas (B. Erikson na História dos índios.. Trata-se. político-administrativa) quanto daquele de diversas situações específicas. A confusão de nomes fez o pesquisador achar que eles deveriam ser o mesmo grupo. ou trabalharam na interface entre história e etno-história (citem-se por exemplo M. o que temos são boas descrições "de fora". os autores optaram por oferecer uma espécie de introdução etnográfica e histórico-arqueológica geral. econômicos) do "contato" sobre diferentes grupos ameríndios (A. Finalmente. A História dos índios no Brasil não é nem pretendeu ser uma "etno-história dos índios no Brasil". esboçam panoramas e periodizações complexas de grandes áreas da Amazônia. Turner trazem entretanto elementos valiosos para se pensarem as condições estruturais e ideológicas muito diferenciadas das respostas indígenas à invasão ocidental. por exemplo. ou antes. de Souza Lima) permitem complexificar consideravelmente a história das relações político-administrativas entre o Estado. capaz de organizar uma massa confusa de etnônimos. políticos. de uma coletânea de história indígena do Brasil e adjacências.) No excelente artigo de Greg Urban sobre a história lingüística do continente. A organização e avaliação das fontes disponíveis para cada caso é outra tarefa indispensável. na verdade. vista tanto do ponto de vista geral (ensaios de síntese arqueológica. Em muitos casos. desmontando de passagem vários mitos historiográficos e hagiográficos. Amoroso. ou não foram ainda objeto de uma investigação centrada especificamente na etno-história —. Com isto. de que se desincumbem com rigor os trabalhos. Taylor. Urubu-Kaapor e Parakanã [. onde se podem divisar os modos sucessivos de ajustamento dos povos nativos aos desafios que lhes foram sendo lançados pelas sociedades nacionais envolventes..

merecendo por isto uma discussão mais extensa. assiste-se a um recuo das datações arqueológicas para a chegada do Homo sapiens no continente americano. Creio que se pode divisar um amplo movimento de revisão das idéias aceitas sobre a América précolombiana.5 milhões. significa que o impacto demográfico da chegada dos europeus foi muitíssimo mais forte que o tradicionalmente aceito: fala-se mesmo hoje em algo como 90% de depopulação. Em primeiro lugar. como fruto de uma mecânica histórica inteiramente explicável pelas características da sociedade nacional (a lógica do capitalismo. objeto de uma indagação culturalista e de uma "etno-história". Ela é a mais abrangente e polêmica. "Tenetehara" e "Tupi-Guarani". dentro de um conjunto de estudos de tão alta qualidade. mas há uma considerável população indígena no norte de Minas que se identifica por este etnônimo. Este fenômeno de recuo das datações paleoantropológicas é mundial. o que não corresponde à realidade — é possível que a língua original do grupo não seja mais falada. ao tomar uma formação sociocultural como sistema fechado e equilibrado de princípios extratemporais.R. para as terras baixas da América do Sul. vivendo concentrada em uma reserva. A famosa escola de demografia histórica de Berkeley é a responsável por estes cálculos mais recentes. Ele é a condição fundamental para que superemos definitivamente esta falsa contrariedade entre sociedades "aculturadas". e conseqüentemente sobre o impacto da invasão européia.LIVROS "Tapirapé". No presente volume. que expõe a questão a partir dos achados arqueológicos no sertão do Piauí.] vem substituir o limite tradicional de 12 mil anos para os sinais de presença humana no atual território brasileiro. como extintos (p. que vem tomando conta do americanismo desde alguns anos atrás. e uma perspectiva sociologista que vê a mudança social como resultado exclusivo de determinações externas à sociedade ameríndia. uma data de 50 mil anos BP [antes do presente — N. indicando as linhas atuais de investigação da préhistória biológica.. trata-se indubitavelmente dos Xakriabá históricos. que diz melhor do que se poderia resumir aqui a que vem este livro. Além da sóbria introdução de Manuela Carneiro da Cunha. e sobretudo da América do Sul. O ensaio de Turner testemunha uma mudança importante no fazer etnológico contemporâneo: o surgimento de uma perspectiva mais integrada sobre as sociedades indígenas. objetos de uma sociologia do contato e de uma história documental. Urban dá ainda os Xakriabá. Ao lado desta maior antigüidade do homem americano. sociologia do contato ou análise de mônadas ideológicas. versus sociedades "puras". foi-se de 1 milhão para 8. naturalmente. Turner dá um exemplo da riqueza de perspectivas que o conhecimento etnográfico detalhado — e teoricamente sofisticado — pode gerar sobre a história de uma sociedade ameríndia. lingüística e cultural americanas. Assiste-se também a um aumento considerável (e também ainda sujeito a controvérsia) das estimativas da população americana em 1492. mas particularmente evidente no caso das Américas. história ou etnografia. grupo Jê Central. obriga-se a tomar a mudança social como algo degenerativo ou teoricamente inexplicável. Isto. mas caminhando para a aceitação geral. Ainda bastante controvertida. que indicariam ser a América mais populosa que a Europa (do Atlântico aos Urais) à época da invasão. E há um destaque a fazer.). sugerindo assim pelo menos uma leva de migrantes transpacíficos.. deve-se consultar o artigo de Niède Guidon. 90). Assiste-se hoje a um esforço para diminuir a distância entre os especialistas em sociedades fortemente articuladas aos sistemas nacionais (que praticam uma sociologia histórica essencialmente externalista) e aqueles voltados para sociedades "tradicionais" (que preferem as abordagens internalistas e sincrônicas de recorte culturalista). Passou-se de algo na casa dos 9 milhões para algo entre 60 e 100 milhões (total das Américas). que procura dissolver certas antinomias tradicionais: ecologia ou cultura. O exame da articulação complexa entre a estrutura social kayapó e as condições históricas criadas pelo "contato" transcende com sucesso o dilema entre uma perspectiva puramente culturalista ou "cosmologista" que. entre o efetivo de 1492 e o nadir demográfico (localizado por volta JULHO DE 1993 27 . Trata-se do ensaio de Terence Turner sobre a história dos Kayapó. começam a surgir evidências de que a Beríngia não teria sido a única via de acesso ao continente. a primeira seção do volume ("Fontes da história indígena") é a de apelo mais geral. as frentes de expansão.

passou-se a considerar a disponibilidade de proteína animal como o fator limitante (M. além de desmentirem o mito da uniformidade ecológica da região. que recebem os sedimentos andinos e se prestam a culturas de sementes (milho. o interflúvio ou "terra firme" não é homogêneo. Mas foi das fileiras da tradição neo-evolucionista — et pour cause — que veio a crítica de maior impacto à idéia da Amazônia como região hostil à civilização. do Brasil Central. Deve-se ler com atenção o que esta pesquisadora escreveu na História dos índios no Brasil. Beckerman. em sua distribuição e composição específicas. povos supostamente "primitivos" ou "involuídos". mais imediatamente. Trata-se da teoria que a arqueóloga Anna Roosevelt vem propagando sobre as sociedades da várzea amazônica. além das civilizações das terras altas: as formações sociais complexas das áreas sub-andina e caribenha da América do Sul (os "cadeados" chibcha e aruaque da região "circuncaraíba"). outrossim. P. e os "marginais". falou-se na pequena capacidade de suporte agrícola dos solos amazônicos (Betty Meggers). e em particular sobre a "fase marajoara" — uma formação social que existiu na ilha de Marajó entre 400 e 1300 AD. porções consideráveis do solo amazônico são antropogênicas (estes solos antropogênicos costumam ser escolhidos pelas populações indígenas atuais. os caçadores-horticultores da costa atlântica e da floresta tropical. D. Harris. e as teorias limitativas conhecem hoje um certo declínio. Esta teoria recebeu uma quantidade de desmentidos etnográficos (S.° 36 gos distinguem uma muito maior variedade de configurações. e portanto sobre a paisagem sóciopolítica da América pré-colombiana. a maioria das plantas úteis da região proliferou diferencialmente em função das técnicas indígenas de aproveitamento do território. Como recorda M. Descola. Isto que chamamos "natureza" seria portanto parte e resultado de uma longa história cultural. enciclopédia guiada pelas classificações geográfico-culturais da escola difusionista norte-americana e. mantinha-se o contraste maior entre as civilizações do planalto andino (e da costa árida do Peru e do Equador) e as sociedades das terras baixas orientais. nômades e não agrícolas. E. sabia-se já há bastante tempo que há uma grande diferença ecológica entre as regiões aluviais da calha de certos rios (especialmente o Amazonas). Assim. de solos mais pobres e mais apropriados aos tubérculos (mandioca). Ross. leguminosas). A reavaliação do choque demográfico associase também diretamente a uma reconsideração do impacto organizacional da conquista sobre os povos indígenas. entre outros). Sobretudo. Os Andes apareciam como o grande foco de difusão dos eventuais traços "avançados" encontrados fora do planalto. pelas teorias materialistas e neo-evolucionistas de Julian Steward. hoje se tende a sustentar (isto também ainda está em discussão) que boa parte da cobertura vegetal amazônica. indicando uma ocupação intensa e muito antiga. A imagem tradicional da América indígena opõe radicalmente dois tipos sócio-políticos: as "grande civilizações" dos Andes e da Mesoamérica e as tribos ou bandos igualitários de agricultores itinerantes ou caçadores-coletores do resto do continente. Gross). Lizot. Na verdade. suas idéias prometem causar ainda mais . abalam a imagem da "mata virgem". em seguida. e portanto da densidade populacional da América. e que diversas zonas ribeirinhas fora da várzea amazônica são capazes de sustentar uma população numerosa. seu organizador. e das terras baixas como região imprópria para o desenvolvimento de sociedades complexas. Esta visão do "desenvolvimento cultural" do continente foi consolidada no Handbook 0f South American Indians.LIVROS de 1650). é crucial para o caso da região amazônica. O materialismo cultural norte-americano propôs uma série de teorias limitativas para explicar o que entendia como baixo desenvolvimento sóciopolítico das terras baixas: primeiro. e as regiões de interflúvio. não "descoberta". J. sabe-se mais recentemente que tal distinção não é tão nítida. quando esta hipótese foi abalada (por um célebre artigo de Robert Carneiro). é o fruto de milênios de intervenção humana. A reavaliação do impacto demográfico. estes cálculos desmentem a imagem de um continente quase vazio à espera do excedente populacional europeu: a América foi invadida e despovoada. A arqueologia amazônica dos anos 50 e 60 tendeu a reforçar esta visão dos Andes como pólo de alta cultura. distinguiam-se. e os solos da Amazônia são razoavelmente variados. Carneiro da Cunha em sua introdução. já há bastante tempo os antropólogos e arqueólo28 NOVOS ESTUDOS N. Entretanto. do Chaco e da Patagônia. O aumento das estimativas de população convergem com várias investigações pedológicas e botânicas na Amazônia. por sua fertilidade — a ocupação humana produzindo assim a ocupação humana). que. Para ficarmos apenas na América do Sul.

e toda a parafernália que se costuma associar a uma "civilização hidráulica" (os restos arqueológicos sugerem "grandes trabalhos" de sabor witffogeliano). entretanto. sobre o tamanho e a riqueza das sociedades que encontraram na várzea do grande rio (ver o ensaio de A. sistema tributário.. ou mesmo migração. isto é. (4) as sociedades da calha amazônica. Em síntese. 57. neste processo degenerativo. Em suma: a América não era um "novo mundo". aquelas descritas pela etnografia moderna. mas ela insistiu em que esta região ecológica não poderia sustentar um nível de complexidade social maior que o então atingido pelos Omágua ou Tapajós do século XVI. desenvolvendo (e modificando) teses propostas há bastante tempo pelo brilhante arqueólogo Donald Lathrap — o primeiro estudioso a propor a várzea como berço de sociedades complexas e foco original de dispersão cultural —. Ruptura radical entre arqueologia e etnografia. Estes arqueólogos. quase virgem e quase despovoado. Indo mais adiante. mas pode ter sido domesticado independentemente nesta última região. outras são interdependentes. Porro) —. Roosevelt se opõe à visão difundida por Betty Meggers e Clifford Evans sobre as socieda-des pré-colombianas da calha amazônica. elas desenham um panorama nítido: alta antigüidade do povoamento. graças ao cultivo intensivo do milho e à proteína animal obtida nos piscosos rios de várzea. Meggers e Lathrap. das terras altas andinas. e em particular aquela associada à "fase marajoara" — muito mais sofisticada que os povos históricos do tipo Tapajós ou Omágua —. (3) os Andes não foram um fator de difusão cultural para a Amazônia. anterior ao da formação das civilizações fluviais (pp. associadas todas. 57). e a aceitar a maior complexidade econômica e morfológica dos grupos da várzea. bem como aquele sobre a pobreza agrícola dos solos do interflúvio — não seria assim inerente à Amazônia. exibindo estratificação social. agricultura) surgiram primeiro ali. que lê o glorioso passado da Amazônia através da simplicidade regressiva da situação indígena atual. defrontados com a complexidade evi-dente das formações que deixaram os famosos complexos cerâmicos do baixo Amazonas (Santarém. era um mundo antigo. paralelo ao velho mundo de onde enxamearam os euroJULHO DE 1993 29 . alto grau de antropização do ambiente. sacerdotes. a autora sustenta a idéia de que as sociedades indígenas amazônicas atualmente existentes. ocupado por um punhado de selvagens mal-sedentarizados (sempre com as intrigantes exceções mesoamericanas e andinas). procuraram salvar a teoria de que a região não poderia sustentar e sobretudo gerar uma sociedade estratificada e politicamente complexa. (2) o milho não teria sido difundido a partir dos Andes e/ou da Mesoamérica em direção à Amazônia. Marajó etc. Note-se que Betty Meggers foi um dos primeiros estudiosos a popularizar a oposição entre a várzea e a terra firme. propõe essencialmente que: (1) a várzea amazônica foi capaz de sustentar populações muito numerosas e densas. culto de ancestrais. mas o contrário — embora as sociedades da calha amazônica só tenham atingido um nível de complexidade elevado bem depois das sociedades andinas. Algumas das idéias acima foram propostas segundo caminhos próprios.) — e com as abundantes descrições dos primeiros exploradores. Anna Roosevelt. atribuindo tais restos a uma influência. elas teriam involuído até um nível arcaico. A indigência tecnológica e sócio-política das sociedades indígenas atuais — a autora repete o juízo clássico de Steward.LIVROS barulho que o que já estão fazendo nos meios especializados. manufaturas especializadas. portanto: é preciso evitar o que ela chama de "projeção etnográfica". são "remanescentes geograficamente marginais dos povos que sobreviveram à dizimação ocorrida nas várzeas durante a conquista européia" (História dos índios no Brasil. Estes migrantes do planalto teriam decaído nas terras baixas: a extinção da sociedade (ou sociedades) que deixou a cerâmica marajoara seria fruto da pobreza do ambiente amazônico. certos traços culturais panamericanos decisivos (cerâmica.. grande complexidade sócio-política da Amazônia indígena. populoso e complexo. nada devendo aos Andes. mas resultado da conquista européia. sedentarismo. Ruptura radical entre os ricos cacicados dos comedores de milho e peixe da várzea e os pobres bandos atuais de comedores de caça e farinha de mandioca. 82). eram cacicados complexos ou mesmo pequenos estados. 70. p. (5) estas sociedades são autóctones. densidade populacional elevada.

1991). sobre revestir velhos mitos antropológicos com uma nova roupagem. —. bem mais grave que a tal da "projeção etnográfica" de que fala A. da razão ecológica: entre a história e a natureza. American Ethnologist. O passivo político da "descoberta" aumenta ainda mais. Está igualmente claro que vários povos atuais vivendo em nnnn . são pelo menos mais interessantes que a seriação de cacos de cerâmica ou o mero estabelecimento de datações. e os do Brasil Central?) seriam "remanescentes marginais" de grandes civilizações do passado (antigamente eram os Andes — quando não os fenícios ou egípcios. Roosevelt à história /n 30 NOVOS ESTUDOS N. descimentos missionários e predação de escravos. a conseqüente maior vitimização das populações indígenas pode caucionar uma visão degeneracionista perigosa dos grupos atuais. há ainda vários indícios documentais de que os sistemas sociais da região mostravam maior centralização e hierarquização que a maioria dos sistemas ameríndios contemporâneos. aliás. além de poder desembocar em uma posição absurda: a de que as sociedades ameríndias atuais. Parece que é sempre preciso explicar por que os ameríndios das terras baixas não "evoluíram": antes se acreditava que eles jamais o fizeram. B. que fugiram do furacão da conquista internando-se nas matas de terra firme ou buscando o alto curso dos afluentes do Amazonas. Apesar de seu radicalismo bempensan-te. Roosevelt. O impacto quantitativo e qualitativo da invasão e colonização. tenho certa desconfiança (que admito preconceituosa. Diga-se que suas pesquisas são valiosíssimas. tecnicamente sofisticadas. seu livro mais recente. e tenho muitas reservas quanto a vários aspectos da reconstrução das sociedades da várzea por A. Esta é uma típica "perversão arqueológica".LIVROS peus. por questionáveis que sejam. Moundbuilders of the Amazon. e que pelo menos alguns grupos atuais devem ser remanescentes destes povos. na antropologia americana de corte cultural-materialista.. O sentido ideológico global desta revisão da história ameríndia é claro. "Blood of the Leviathan: Western contact and warfare in Amazonia". em particular as várzeas do seu rio principal. e sobretudo quanto às conclusões que dali ela pretende tirar para a paisagem etnográfica contemporânea. como a guerra (ver por exemplo Ferguson. que. Fausto na p. abrigava à época da invasão européia populações numerosas. mas que decaíram por obra e desgraça da praga ocidental. Projeção. são descartáveis. sendo "não representativas" do passado da América. Há de fato uma tendência geral. via de regra irredutível a considerações práticoadaptativas e/ou "politicamente incorreto" segundo os cânones atuais. 388 da coletânea. Não é o caso de embarcar aqui numa análise detalhada da contribuição de A. Não há dúvida que a várzea foi despovoada por epidemias. portanto. embora a influência dos cacicados da costa caribenha não possa ser descartada. este tipo de explicação termina por ver os ameríndios como joguetes passivos da lógica inexorável do Estado e do Capital. pois pouco entendo do assunto) frente a recuos muito dramáticos nas datações da chegada do homem nas Américas. e que esta região mostra maior capacidade de suporte agrícola para a cultura de sementes. Roosevelt. a propósito. agora são a várzea e Marajó) pareceme inteiramente distorcida ou mesmo completamente falsa. Pessoalmente. desaparece a sociedade. nega aos povos indígenas contemporâneos a capacidade de agência histórica. e que suas especulações sócio-políticas. foi incomparavelmente maior que o já admitido pela má consciência ocidental. por conta do ambiente hostil. Não há dúvida que a Amazônia. mas que não se peja de empregar. como o seriam.° 36 cultural da América do Sul (vejam-se as críticas avançadas por C. que subscrevo integralmente). de maneira antropologicamente bastante ingênua. Já a idéia de que os índios da terra firme amazônica (mas também os da costa atlântica. a se imputar qualquer aspecto problemático das sociedades ameríndias — isto é.. do outro lado. Academic Press. quando se trata de preencher as inumeráveis lacunas que todo sítio arqueológico deixa ao arbítrio da fantasia dos cientistas (ver. 17 (2): 237-57) — aos efeitos avassaladores do "Ocidente". O que dizer de tudo isto? A validade científica de quase todos os pontos acima ainda é mais ou menos controvertida. inclino-me a aceitar as novas estimativas demográficas e as hipóteses sobre um ponderável componente antrópico nos ecossistemas das terras baixas. mas ambíguo: se a maior culpabilização do "Ocidente" é historicamente justa. que ela só denuncia quando a etnografia não ecoa sua reconstrução arqueológica. trazendo um sopro de ar fresco para a arqueologia amazônica. hoje se crê que evoluíram sim. A origem local das sociedades de várzea do pré-histórico tardio parece admissível.

Se este é de fato o caso — e as estimativas glotocronológicas de Urban devem ser confrontadas às datações de Roosevelt —. Há. político. os estudos reunidos na História dos índios no Brasil dão testemunho de uma paisagem global para as terras baixas muito diferente da atual. como teriam os Tupinambá conseguido se impor no médio Amazonas? Os Tupinambá da rica várzea de Tupinambarana chegaram à região pouco depois de 1500. os arqueólogos da Amazônia põem-se a querer dar uma "Red Rome" marajoara para os ameríndios. Hetá. O destino da sociedade marajoara de Roosevelt não é menos misterioso: por que teria ela desaparecido por volta de 1300? Os Aruã (de língua aruaque) que se achavam em Marajó na época dos primeiros registros europeus (século XVII) teriam suplantado este poderoso mini-Estado? A sociedade aruã nem de longe exibia a complexidade sócio-política imputada por Roosevelt aos marajoaras de duzentos anos antes. atravessando boa parte da Amazônia meridional. econômico da invasão européia foi profundíssimo. o altiplano do escudo da Guiana (os Caribe). Aché —. Entendamo-nos mais uma vez. vários problemas empíricos para esta hipótese. assim como está claro.] des foyers de haute civilisation et des peuples barbares. ou. composto de gigantescos sistemas regionais que articulavam regiões tão disJULHO DE 1993 31 . O mundo ameríndio pré-colombiano era um tecido mais ou menos denso. por exemplo. Considerando-se que os Tupi da costa atlântica não possuíam nada de semelhante a um "cacicado" (ver Fausto. neste volume). Mas é falso supor que as regiões distantes da várzea fossem despovoadas antes da invasão. se se adota de modo generalizado a hipótese de civilizações poderosas da várzea mantendo à distância os grupos "marginais". entre o Tocantins e o São Francisco (os Macro-Jê). até vir submeter as populações (provavelmente caribe e aruaque) da várzea. que os Tupinambá só começaram a fazer a guerra por causa dos portugueses e franceses. saindo da costa atlântica nordeste. então vários dos registros arqueológicos da várzea remetem a populações de línguas extintas. como se houvesse um tropismo irresistível de qual-quer povo em relação a áreas mais férteis — em abstrato.LIVROS condições de nomadismo e dependentes da caça e coleta não são representantes de um estado prime-vo pré-agrícola. Lévi-Strauss comparou a América indígena a "un Moyen âge auquel aurait manqué sa Rome: masse confuse. etnicamente congeladas e cortadas de qualquer contato sistemático com suas congêneres. nestes tempos em que se retorna ao afro-egiptocentrismo e se fala em "Black Athena". et au sein duquel subsistèrent çà et là [.. O trabalho de reconstrução lingüísti-ca apresentado por Greg Urban neste volume. aliás. Por exem- plo. mas foram forçados a abandonar a horticultura e a vida sedentária devido a pressões territoriais externas (brancas ou indígenas) — Sirionó. e desprezando qualquer consideração dos regimes de produção e reprodução sócio-cultural destas populações —. eis que. Continuo preferindo a paisagem esboçada por Lévi-Strauss. composto de pequenas mônadas sócioculturais.. fica a questão.. em estado de fluxo constante. des tendances centralisatrices et des forces de morcellement" (Le cru et le cuit. que atividades como a guerra aumentaram de intensidade e/ou mudaram de sentido como efeito da invasão (o ensaio de Terence Turner neste volume analisa em profundidade a questão para os Kayapó). ellemême issue d'un vieux syncrétisme dont la texture fut sans doute très lâche. mas sem falhas. Urban sugere convincentemente que os focos de dispersão dos troncos lingüísticos das terras baixas são precisamente áreas periféricas: as cabeceiras ocidentais do Amazonas (os Aruaque). p. Não é preciso recorrer aos cacicados (seja lá o que isto signifique precisamente) da várzea para atestar isto. vai de encontro às teses (de Lathrap. O impacto demográfico. e que dificilmente o efetivo populacional dos migrantes seria maior que o dos povos estabelecidos na várzea (e que à época ainda não haviam sofrido o colapso demográfico) — Acuña diz claramente que não era —. não há por que supor que todos os proto-Tupi. Bem. o planalto oriental brasileiro. onde prevalece um perfil sociológico insular. De qualquer modo. ou que os povos que porven-tura habitavam a terra firme ao tempo do floresci-mento das sociedades da várzea fossem todos "mar-ginais" alijados do paraíso fluvial pelos ocupantes desta região. 16). que teriam sido invadidas e destruídas por "bárbaros" de tecno-logia inferior vindos precisamente da antivárzea. entre outros) de que alguns grandes grupos lingüísticos atuais — Aruaque e Tupi — teriam se originado no médio Amazonas. o alto interflúvio Madeira-Xingu (os Tupi).. Guajá. de início. proto-Aruaque e proto-Caribe saíram em massa das cabeceiras em direção à várzea.. Certos sucessos históricos também ficam um pouco misteriosos. finalmente..

. incompreensão baseada em um conceito inadequado de sociedade. substantivista e "nacional-territorialista". ao modo de Steward. não basta por isto simplesmente inverter os sinais. O congelamento e o isolamento das etnias é um fenômeno sociológico e cognitivo pós-colombiano. qualquer distinção radical — ecológica. Em suma: se. a menos que se consiga provar que os Inca saíram do sertão da Bahia.. Mas.. Mas por isto mesmo. mas as evidências são ambíguas. para dizê-lo mais diretamente. Entretanto. os Jê foram vistos como Inca decaídos. simultaneamente setecentista e "soixante-huitarde". ou. grandes trabalhos. casta sacerdotal etc. a multiplicação de etnônimos nas crônicas e relatórios antigos é fruto de uma incompreensão total da dinâmica étnica e política do socius ameríndio. o Recôncavo baiano). ao modo de Pierre Clastres — que sempre raciocinou a partir da vulgata do Handbook. aguilhão capaz de gerar a centralização encontrada na mais restrita área de várzea do Amazonas (a hipótese de R. que Clastres fez do Handbook) — isto certamente Lathrap e Roosevelt. realeza divina. está cada vez mais difícil supor uma essência da natureza tropical como barreira ao desenvolvimento sócio-político (entendido sempre em termos eurocêntricos: grãos.. o vale do Paraí-ba. Remeto aqui o leitor ao minucioso estudo de Philippe Descola (La nature domestique: symbolis- . Tupiniquim e Caeté uma organização em províncias. os cronistas do litoral quinhentista — ao contrário daqueles que andaram pelo Amazonas — não registram nada nem vagamente semelhante a tal situação (ver. Mas aqui entramos no terreno da casuística: pois se alguns autores argumentam ao contrário que a costa apresentava sim limitações ecológicas — e tentam deduzir daí a necessidade dos (inexistentes) cacicados. seja por uma limitação intrínseca e positiva de tipo ontológico. incapaz de dar conta da natureza relativa e relacional das categorias étnicas. podem-se ver ainda hoje no rio Negro. o planalto paulistano.) para as sociedades da América tropical encontra outro obstáculo no caso dos Tupinambá da costa brasileira: tínhamos aqui populações muito numerosas. e apesar de várias tentativas baseadas no raciocínio analógico e no wishful thinking para dar aos Tamoio. mais uma vez. o artigo de Carlos Fausto). sacerdotes. Fragmentos destes vastos complexos de troca comercial e cultural. e sua complexidade sociológica (que não é do tipo caro aos evolucionistas. Carneiro para os Andes.. e se ao contrário é de fato preciso ver a invasão européia como um fator poderosíssimo de desagregação demográfica e sóciocultural. no Alto Xingu. étnica e sócio-política — entre cacicados da várzea e bandos ou tribos igualitárias da terra firme é injustificada. se afinal os Azteca vieram do deserto do Arizona. matrimonial e guerreira. políticas e sociais indígenas. manufaturas. postulando a natureza vestigial. Pode-se sempre argumentar. Se não é mais possível tomar a Amazônia como sítio exclusivo de caçadores-horticultores organizados em pequenos bandos igualitários e aguerridos (seja por uma limitação extrínseca e negativa de tipo ecológico. É claro. que Roosevelt adapta para os cacicados da várzea). é verdade. pois nada tem a ver com centralização. esta hipótese não é muito verossímil (bem. para o caso da costa brasileira. com régulos e potentados. tecnologia e coisas do gênero) demonstrou há bastante tempo a inanidade das classificações do Handbook.. a partir das tipologias evolucionistas de níveis sócio-políticos de complexidade. ocupando uma região extensa e fértil em recursos de todo tipo (os manguezais e enseadas litorâneas. ou uma essência da sociedade ameríndia que segregaria deliberadamente anticorpos contra o vírus do Estado (como queria a leitura libertária. na Amazô-nia sub-andina ou no escudo da Guiana. entre outros. e de sua experiência de campo com os caçadores Aché). e visto sempre como um movimento natural e portanto positivo). mantendo-se o mesmo determinismo ecológico pedestre e o mesmo evolucionismo (ou involucionismo) produtivista ingênuo. que não se encontrava aqui a indispensável limitação de áreas férteis. jamais andaram pela várzea.. 32 NOVOS ESTUDOS N. os Andes e o litoral de São Paulo. tampouco se pode cair no exagero oposto. chefes. O caso dos Guarani do Paraguai é por certo mais complicado (ver o artigo de John Monteiro). os Jê. entre a Amazônia e o Brasil Central.LIVROS tantes como a montaña peruana e a bacia do Orinoco.).° 36 A idéia de um tropismo de tipo "sumério" (agricultura intensiva. provaram —. escravos. Assim como a oposição entre várzea e interflúvio (ou entre a várzea dos rios de água branca e o habitat ribeirinho das regiões menos afortunadas) deve ser qualificada e modalizada. como observei. a sofisticação sociológica dos Jê já foi interpretada (por Lévi-Strauss inclusive) nos termos de uma regressão arcaizante. ao que se saiba. assim também deve-se evitar qual-quer contraste drástico. degenerativa e marginal dos grupos da terra firme.

nestes últimos.) em condições nutricionalmente luxuosas. Maison des Sciences de l'Homme. indígenas ou europeus: eles contam cerca de 80 mil pessoas.. ao mesmo tempo que se caracteriza por uma radical subexploração dos recursos.).. e de saber. malgré tous les atouts dont ils disposaient. 405). les Achuar riverains n'ont pas fait le choix du développement de leur base matérielle. os Achuar ocupam habitats tanto interfluviais como aluviais. O que nos deixa diante da questão de saber. quão diferentes realmente de grupos como os Jívaro ou os Tupinambá foram os Omágua. c'est donc peutêtre parce que le schème symbolique qui organise leur usage de la nature n'était pas suffisamment flexible pour pouvoir absorber la réorientation des rapports sociaux que ce choix aurait engendrée. on pourrait ici postuler que la transformation par une société de sa base matérielle est conditionnée par une mutation préalable des formes d'organisation sociale qui servent d'armature idéelle au mode matériel de produire" (op. Taylor na História dos índios. Descola põe em evidência um regime econômico que sustenta a população jívaro (territorialmente atomizada e politicamente acéfala — se posso usar esta expressão para caçadores de cabeça.. Acrescente-se que os Jívaro não são uma pequena etnia impotente.. cit.-C. nem qualquer diferença política ou cultural entre as duas regiões. Tapajós.. não se verifica nenhum predomínio do cultivo do milho ou de leguminosas sobre o da mandioca. fundada em razões sociais e culturais. que mutação extratecnológica teria ensejado o surgimento das sociedades centralizadas da várzea pré-histórica. Roosevelt. - JULHO DE 1993 33 . ao contrário da sequência irresistível suposta por A. e os misteriosos marajoaras. não em limitações ecológicas. tampouco se verifica nenhuma pressão dos moradores da terra firme sobre os moradores ribeirinhos. Ora. Cito a conclusão de Descola: "Si.] Au rebours du déterminisme technologique sommaire dont sont souvent imprégnées les théories évolutionnistes. [. Eduardo Viveiros de Castro é pesquisador do Museu Nacional da UFRJ. sobre os Jívaro Achuar do Equador. de outro. e são um dos povos de maior fama guerreira do continente (ver o ensaio de A..LIVROS me et praxis dans l'écologie des Achuar.. mantida longe do maná aluvial por povos mais poderosos. de um lado. 1986). p.