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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro de Ciências Sociais Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

Luisa Santos Guedes Pereira

Da espera à ousadia: o papel das ideias no pleito pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU nos governos Cardoso e Lula

Rio de Janeiro 2011

Luisa Santos Guedes Pereira

Da espera à ousadia: o papel das ideias no pleito pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU nos governos Cardoso e Lula

Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Política Internacional.

Orientadora:

Prof.ª Dra. Miriam Gomes Saraiva

Rio de Janeiro 2011

CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CCSA

F377h Guedes, Luisa Santos Da espera “a ousadia: o papel das idéias no pleito pelo assento permanente no conselho de segurança da ONU nos governos Cardoso e Lula / Luisa Santos Guedes – 2011. 190 f. Orientadora: Miriam Gomes Saraiva Dissertação (Mestrado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Bibliografia 1. Brasil – Relações exteriores – Teses. 2. Brasil – Política e governo - Teses. I. Saraiva, Miriam Gomes. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.

CDU 327(81)

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta Dissertação. Desde que citado a fonte. _______________________________ Assinatura ________________________________ Assinatura

Luisa Santos Guedes Pereira Da espera à ousadia: o papel das ideias no pleito pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU nos governos Cardoso e Lula Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre. Dr. ao Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais. Miriam Gomes Saraiva (Orientadora) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas .ª Dra. Aprovada em 1 de novembro de 2011. Antonio Carlos de Faria Pinto Peixoto Instituto de Filosofia e Ciências Humanas . Gelson Fonseca Júnior Ministério das Relações Exteriores Prof.UERJ Prof.UERJ Dr. Banca Examinadora: Prof.ª Dra. da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Leticia de Abreu Pinheiro Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro .PUC-RJ Rio de Janeiro 2011 . Área de concentração: Política Internacional.

DEDICATÓRIA Aos meus pais. que me ensinaram o valor de aprender .

                 Aos meus pais. Glivânia de Oliveira. Daniella Menezes.                  À equipe do arquivo do Ministério das Relações Exteriores em Brasília. pelo apoio que permitiu o investimento nesta pesquisa. pela amizade e a permanente disposição para conversar.  ao  professor  Antonio  Carlos  Peixoto. Gelson Fonseca Jr. especialmente a Daniel Nogueira Leitão.                  À CAPES. especialmente à professora Miriam Gomes  Saraiva. pelo carinho e pelos incentivos na reta final. por toda a ajuda.AGRADECIMENTOS                  Aos professores. .                  Aos diplomatas Breno Costa.                  Ao Pedro Emygdio. pela compreensão. pela recepção em Nova York e a colaboração na indicação de fontes. Júlio Bitelli. João Costa Vargas e Luiz Felipe Lampreia pelas entrevistas concedidas.  pelo  apoio  desde  a  especialização.                  À missão diplomática do Brasil nas Nações Unidas. e à amiga Carolina Oliveira. Carlos Sérgio Duarte. pelo eterno estímulo e pelo esforço para garantir as condições que permitiram a conclusão deste projeto. funcionários e alunos do PPGRI..

RESUMO

GUEDES, Luisa Santos Guedes. Da espera à ousadia: o papel das ideias no pleito pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU nos governos Cardoso e Lula. 2011. 190 f. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011. Esta dissertação tem como objetivo mostrar a evolução do pleito brasileiro por um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas ao longo dos governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2010). Em ambos os períodos, os argumentos apresentados pela diplomacia brasileira se baseiam parcialmente em princípios que, tradicionalmente, marcam e norteiam a política externa brasileira. Este pleito foi retomado pela diplomacia brasileira no início da década de 1990. Mas as gestões realizadas em função da busca pelo assento permanente não se dão da mesma maneira nos governos dos dois presidentes nos quais esta dissertação se concentra. As mudanças que são observadas ao longo destes 16 anos estão associadas a alterações nas linhas gerais da política externa brasileira. Essas alterações permitem que se observe a uma atuação mais cautelosa no governo Cardoso e ações mais ousadas no governo Lula. Palavras-chave: Política externa brasileira. Governo Lula. Governo Cardoso. Conselho de Segurança. ONU.

ABSTRACT

This paper aims to show the evolution of the Brazilian claim for a permanent seat on the Security Council of the United Nations over the governments of president Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) and president Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). In both periods, the arguments presented by Brazilian diplomacy are partly based on principles that traditionally mark and guide the Brazilian foreign policy. This claim was taken over by Brazilian diplomacy in the early 1990s. But the steps taken according to the search for a permanent seat on the Security Council of the United Nations were not the same in the governments of the two president this paper focuses. The changes that are observed during these 16 years are associated with variations in the general lines of Brazilian foreign policy. These variations allow us to verify a more cautious performance during Cardoso period and audacious actions in the Lula government. Keywords: Brazilian Foreign Policy. Lula government. Cardoso government. Security Council. United Nations.

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABACC AG / AGNU AIEA Alca Alcsa BNDES Bric Cepal CS / CSNU EUA FMI Focem G-20 G-77 G-8 Ibas IIRSA JK LDC Mercosul Minustah MRE MTCR Nafta OEWG OIGs OMC

Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas Agência Internacional de Energia Nuclear Área de Livre Comércio das Américas Área de Livre Comércio Sul-Americana Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social Brasil, Rússia, Índia e China Comissão Econômica para a América Latina e Caribe Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas Estados Unidos Fundo Monetário Internacional Fundo para a Convergência Estrutural e Fortalecimento Institucional do Mercosul Grupo formado na conferência da OMC em Cancún, em 2003 Grupo dos 77, formado na ONU, em 1964, por países em desenvolvimento Grupo das oito maiores economias do mundo Fórum de diálogo Índia, Brasil e África do Sul Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana Juscelino Kubitschek Países de menor desenvolvimento relativo Mercado Comum do Sul Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti Ministério das Relações Exteriores do Brasil Missile Technology Control Regime (Regime de Controle de Tecnologia Missilística) North American Free Trade Agreement (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) Grupo de Trabalho Aberto sobre a Questão da Representação Equitativa e Expansão do Conselho de Segurança Organizações intergovernamentais Organização Mundial do Comércio

ONU Onuca Otan Saarc Sacu SADC Tiar TNP UE UfC Unamir Unasul Unavem I Unctad Unef I Ungomap Uniimog Unita Unitaf Unmih Unomur Unosom I e II Unprofor Untag URSS Organização das Nações Unidas United Nations Observer Group in Central America (Grupo das Nações Unidas de Observação na América Central) Organização do Tratado do Atlântico Norte Associação Sul-Asiática para a Cooperação Regional Southern Africa Customs Union (União Aduaneira da África Austral) Southern Africa Development Community (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) Tratado Interamericano de Assistência Recíproca Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares União Europeia Uniting for Consensus (Unidos pelo Consenso) United Nations Assistance Mission for Rwanda (Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda) União das Nações Sul-americanas United Nations Angola Verification Mission I (Missão de Verificação das Nações Unidas Angola I) United Nations Conference on Trade and Development United Nations Emergency Force (Força de Emergência das Nações Unidas) United Nations Good Offices Mission in Afghanistan and Pakistan (Missão das Nações Unidas para o Afeganistão e o Paquistão) United Nations Iran-Iraq Military Observer Group (Grupo de Observação Militar das Nações Unidas Irã-Iraque) União Nacional para a Independência Total de Angola Unified Task Force (Força Unificada de Ação) United Nations Mission in Haiti (Missão das Nações Unidas no Haiti) United Nations Observer Mission Uganda-Rwanda (Missão de Observação das Nações Unidas Uganda-Ruanda) United Nations Operation in Somalia (Operação das Nações Unidas na Somália) United Nations Protection Force (Força de Proteção das Nações Unidas) United Nations Transition Assistance Group (Grupo das Nações Unidas de Assistência à Transição) União das Repúblicas Socialistas Soviéticas .

SUMÁRIO   1 1.2.3 3.1 3.1 1.1.1.3.1.1 3.3 2 2.1.2 3.2 3.3.1 3.1. cautela do lado de fora Wait and see Conclusão O GOVERNO LULA Por uma nova geografia mundial A retomada do Sul sem perder o Norte Brasil.2 1.1.2 1.1 2.1 2.2 3.1 1.2 2.1 2.2.1 1.2 3.2.2.2.3 2.2 1.2 2.3.2 2. valores e percepções nas raízes da retomada O acumulado histórico da diplomacia brasileira Relações com a ONU e sua importância para o Itamaraty Fatores de ordem externa e interna na retomada do pleito Fatores de ordem externa e seu impacto sobre a ONU A resposta do Brasil às mudanças e a retomada do pleito Conclusão O GOVERNO CARDOSO Da nova ordem internacional à globalização assimétrica Oportunidades da globalização Crise e percepção de assimetrias A orientação nacional rumo ao mainstream internacional O Brasil no mainstream O mainstream no Brasil À espera de mudanças na ONU Cobranças dentro da ONU.1 2.4 3 3.3.4 4   INTRODUÇÃO A RETOMADA DO PLEITO Princípios.2 2.2.1 3. um país grande O Brasil abraça o mundo Do bom comportamento à barganha Das parcerias estratégicas às coalizões Ousadia a serviço de mudanças na ONU A hora da política Ação coletiva Conclusão CONCLUSÃO REFERÊNCIAS 10 15 15 17 24 34 34 46 55 57 59 63 69 76 77 90 97 99 105 113 115 116 117 125 132 133 146 156 157 162 171 172 174 .

será necessário apresentar um retrospecto sobre as tradições da política externa do Brasil. por um lado. Ao longo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o que motiva o novo esforço brasileiro para concretizar esta antiga pre tensão? E como explicar as mudanças pelas quais passou esta campa nha. é preciso investigar o que motiva. por outro. Um assunto no qual os dois últimos governos investiram capital diplomático e também algum dinheiro deve ser compreendido de forma mais ampla. O objetivo principal é tentar mostrar por que este se tornou um assunto mais relevante para a diplomacia brasileira nos anos 1990 e como vem sendo abordado desde então. Porém. a manutenção do pleito e. Diante de mudanças em relação à política externa.10 INTRODUÇÃO O pleito pelo assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CSNU) é há alguns anos um dos assuntos relacionados à política externa brasileira que mais atrai a atenção da mídia e da opinião pública no país. mas na ausência de uma ruptura entre os dois governos que serão analisados. mais especificamente. . Qual é o interesse brasileiro em fazer parte deste organismo de forma permanente? Considerando estas questões. devido às hipóteses que serão investigadas. têm tradicionalmente um papel importante na política externa brasileira. a presente di ssertação vai se concentrar no período entre 1995 e 2010. e não apenas com base no discurso oficial de que é preciso atualizar a composição do CSNU. A importância da visão de mundo dominante no Executivo e. na diplomacia para o desenvolvimento da campanha pelo assento permanente é a principal hipótese a ser analisada aqui. Mas antes de tentar provar a relevância deste tipo de perspectiva para a definição das diretrizes relacionadas ao pleito. muito se falou no Brasil sobre uma suposta “fixação” neste objetivo por parte do presidente e de seu chanceler. Celso Amorim. as variações que são observadas ao longo destes 16 anos. de forma geral. “oficializada” por Amorim em 1994 e minimizada durante o governo Cardoso? É especialmente a essas duas perguntas que as três seções desta dissertação buscarão responder. optou-se por um esforço para mostrar como as ideias.

Por outro lado. exemplos apresentados por Keohane e Goldstein. como “a escravidão é ruim” e “ o homem tem direito à liberdade de expressão”. o Capitulo 1 abordará quatro pontos principais: princípios que historicamente influenciam a política externa brasileira. Mas. mas também por servirem de base para a análise sobre a visão de mundo expressa pela diplomacia e pelos dois presidentes em foco nesta pesquisa. Algumas possibilidades serão apresentadas. fatores de ordem externa que tiveram impacto sobre as Nações Unidas e sobre as discussões acerca da ampliação do Conselho de Segurança. serão destinadas as duas primeiras partes da primeira das três seções em que esta dissertação está dividida. é importante frisar que.11 Para isso. segundo o modelo de análise escolhido. cuja autoridade deriva de consenso compartilhado por elites. e sendo incorporadas a instituições. o importante aqui é determinar quais ideias estão por trás destas estratégias. não se nota grande alteração entre Cardoso e Lula. ao menos desde os primeiros anos da República. Ao todo. funcionando como um ponto focal quando não existe um equilíbrio entre atores que interagem. Segundo o modelo de análise elaborado pelos dois autores. crenças causais e crenças principistas. em última análise. a importância atribuída à Organização das Nações Unidas (ONU) pelo Itamaraty. . já que a política externa brasileira não deve ser vista como resultado de avaliações descoladas da realidade. que foram diferentes. seria possível indicar diferenças nas estratégias seguidas. já que a ideia principal era a mesma: o CSNU precisa ser ampliado e o Brasil deve ter um assento permanente. por fim. Considera-se que a conjuntura internacional está relacionada a este tipo de perspectiva. ideias influenciam a política externa atuando como visões de mundo. e. não se pretende buscar com esta pesquisa uma resposta para as origens das visões de mundo. Crenças principistas são ideias normativas. Em relação às crenças causais. Por isso. No caso das primeiras. Os dois últimos temas são importantes não apenas por constituírem o pano de fundo em que se deu a “oficialização” da campanha brasileira em 1994. oferecem um guia sobre como atingir determinado objetivo. garanti ndo a ela certo grau de continuidade. Elas podem produzir três tipos de resultados: tornando-se mapas da estrada. Já as crenças causais. a resposta do Brasil às mudanças observadas no cenário internacional e a retomada do pleito pelo assento permanente. mas apenas com o objetivo de seguir a proposta apresentada por Judith Goldstein e Robert Keohane (1993).

embora o Capítulo 1 trate de crenças institucionalizadas. Quando atuam como pontos focais. portanto. o que muda de maneira mais significativa e que. as ideias agem como mapas da estrada. É justamente disso que trata esta dissertação. tal opção também não se encaixa na presente dissertação. Esta estuda como as preferências são formadas. investigar os resultados do fato de que ela exclui outras interpretações da realidade. Para os dois autores.12 optou-se pela análise da visão de mundo. Outro ponto importante diz respeito à diferença entre o modelo de Goldstein e Keohane e a perspectiva construtivista. é importante fazer algumas ressalvas. entre os três tipos de crença. no caso estudado. A primeira delas é que o objetivo deste modelo não é avaliar quais ideias estão disponíveis. como será demonstrado. Mas as estratégias. pois. uma vez que uma delas foi escolhida. sim. das mudanças entre um e outro governo e da relação de tais alterações com as respectivas diretrizes de política externa. Tal perspectiva seria a ideal caso a análise aqui se voltasse para os resultados de uma ação conjunta na campanha pelo assento permanente ou para as interações que esta promove. não é essa a explicação para a pergunta que se procura responder. as ideias se tornam importantes quando os atores acreditam nas relações causais e nos princípios normativos que elas refletem. Como mapas da estrada. A meta de Cardoso e Lula era basicamente a mesma quanto ao CSNU: conquistar um assento permanente. e não como elas influenciam políticas. De acordo com Goldstein e Keohane. Quanto à ação das ideias por meio da institucionalização. pode explicar as transformações observadas quanto a este tema. ajudando ou atrapalhando esforços conjuntos para chegar a resultados eficientes. variaram. será seguida a perspectiva de que. Na proposta de Goldstein e Keohane. Antes de detalhar o conteúdo dos capítulos 2 e 3. nesse processo. principalmente. Este parece ser. a . Embora este tema seja abordado. as ideias influenciam os resultados ao ajudarem atores a determinarem suas preferências ou entenderem as possíveis relações entre suas metas e as estratégias políticas alternativas. podem funcionar como uma “cola de coalizão” para facilitar a coesão de um grupo. o que fugiria ao escopo desta investigação. minimamente bons para todos. que se baseiam nesta proposta de análise. elas afetam interações estratégicas entre atores. não é este o foco da pesquisa. e. Em relação à forma como a visão de mundo afeta a política externa. que trata.

É importante ressaltar que. já que a busca por maior projeção poderia ser conduzida de outras formas – por exemplo. promoveram mudanças na conjuntura internacional que levaram a ajustes na política externa de Cardoso. ao menos – para a elaboração das novas diretrizes para a atuação diplomática brasileira. não era diferente o suficiente da que se observou ao longo do governo Cardoso. após mostrar que a importância atribuída à ONU é quase permanente na política externa do Brasil e considerando. Esta pesquisa tentará mostrar que o ponto de partida para tais iniciativas é justamente uma nova visão de mundo. Mas esta pesquisa sustenta que tais mudanças não podem ser usadas como motivação – não a única. 3) há uma mudança significativa na visão de mundo predominante nos dois governos em que a pesquisa se concentra. a visão de mundo tem importância fundamental para as escolhas a serem analisadas.13 questão a ser analisada segundo sua proposta é: as políticas em questão seriam diferentes na ausência das ideias analisadas? Partindo desta proposta. 2) princípios tradicionais na política externa brasileira não devem ser usados como principal explicação para variações observadas na campanha pelo assento permanente. uma significativa aproximação dos países do Sul. Os capítulos 2 e 3 cumprirão esta tarefa. por sua vez. com variações de intensidade e conteúdo. como propõe João Costa Vargas (2011). Ou seja. Há. no período Lula. que a campanha pelo assento permanente não é necessária e nem natural. 4) parte das transformações observadas na política externa do governo Cardoso foi herdada de um processo de revisão iniciado no fim da Presidência de Fernando Collor e mantido por Itamar Franco. os atentados de 11 de setembro de 2001. Assim. por meio de uma tentativa de ampliar o poder militar do país. as hipóteses a serem comprovadas são: 1) o peso dado à campanha mudou no governo Lula em função de alterações na política externa. que leva ao desejo de transformar a ordem internacional. 5) a postura ativa da diplomacia no governo Lula está diretamente relacionada a inovações impostas à política externa. em alguma medida. entre elas a realização de gestões fora do âmbito da ONU. Os dois estão divididos em . é importante analisar os governos Cardoso e Lula separadamente para compreender o que muda em relação ao pleito pela cadeira no CSNU. 6) por fim. as quais têm consequências diretas para campanha pelo assento permanente no CSNU. com a formação de coalizões variadas. contra os EUA. considera-se aqui que não é uma mudança da ordem internacional que justifica as transformações na política externa brasileira. com objetivo de ampliar sua influência internacional. Esta.

livros e artigos elaborados por diplomatas têm caráter mais marcadamente político (VEDOVELI. A perspectiva seguida nesta pesquisa é de que a preocupação em ter um discurso diferente dos anteriores é um dos elementos que compõem a política externa. a terceira parte (2.1) e suas subdivisões buscarão expor a visão de mundo exposta pela diplomacia e o presidente em ambos os períodos. contrapostos ao que se observa na prática. Isso não lhes tira o valor como indicadores da visão de mundo.3) e suas subdivisões serão responsáveis por mostrar como o pleito pelo assento permanente no CSNU se desenvolveu nestes dois períodos.14 três partes cada um.1 e 3. ou seja. desta forma. bem como das entrevistas com diplomatas conduzidas para esta dissertação. mas o fez com a consciência de que tais produções não devem ser consideradas como acadêmicas. e mbora se note uma “academicização” do meio diplomático. é importante afirma que não se despreza aqui que. À segunda seção (2. 2010). por vezes são mais espontâneos. entrevistas de meios de comunicação com diplomatas (nas quais eles não se pronunciam nas mesmas condições em que escrevem suas obras. expondo ideias diferentes) e com documentos que oferecem mais subsídios sobre as linhas gerais da política externa e revelam informações novas ao tratarem especificamente da campanha pelo assento permanente no CSNU.2 e 3. Aqui será realizada uma análise crítica de tais obras. É importante ressaltar que a presente dissertação se baseou largamente em obras de diplomatas. Esta análise será combinada com produções acadêmicas. Por fim. Por fim. A primeira parte (2. é importante afirmar que os discursos mencionados aqui serão. .2) e suas subdivisões caberá apresentar as linhas gerais da política externa de cada um dos governos e suas realizações. com objetivo de expor o pensamento diplomático acerca dos temas investigados. Mesmo considerando que isso não reduz sua importância para a pesquisa.3 e 3.

2. esta análise será aplicada à discussão sobre a importância atribuída pela diplomacia brasileira às Nações Unidas. 1. segundo amplo consenso.1. valores e percepções nas raízes da retomada Para discutir o pleito brasileiro por um assento permanente no CSNU sob a perspectiva de seu enquadramento na política externa brasileira. As transformações na conjuntura internacional no início da década de 1990 e seu impacto sobre a ONU caberão ao item 1. Para tanto. ainda com o objetivo de estabelecer as bases para as análises que serão feitas nos dois capítulos seguintes.1.1) apresentará um panorama geral das tradições da política externa brasileira e quais vão se destacar ao longo desta pesquisa. a partir do pensamento diplomático e de produções acadêmicas. como se verá. há tempos influenciam a política externa brasileira. é impossível não analisar sua relação com algumas das constantes que marcam a formulação de estratégias e a atuação internacional do país.2. serão discutidos os fatores de ordem externa e interna que tiveram influência sobre o relançamento do pleito brasileiro pelo assento permanente. Mesmo que em alguns momentos.2.2. optou-se por trabalhar com o conceito de “acumulado . no item 1. o Itamaraty ou o Executivo tenham se afastado em algum grau dos princípios inspiradores da atuação diplomática do país.1 Princípios. Considerando que alguns têm peso maior que outros sobre a relação do Brasil com a Organização das Nações Unidas (ONU) e com o Conselho de Segurança (CSNU).15 1 A RETOMADA DO PLEITO A opção da presente dissertação por analisar o pensamento diplomático por trás da campanha pelo assento permanente no CSNU tornou quase imprescindível começar a pesquisa pelo estudo das tradições que. o que será feito. a primeira parte deste capítulo (1. Em seguida.1. Na segunda parte deste capítulo. Já a resposta brasileira e o processo de retomada da campanha serão apresentados em 1. parece ter sido em torno deles que se formularam continuidades e mudanças.

2) juridicismo. Em suas observações. considerou-se útil avaliar a relação de apenas alguns destes padrões com a campanha pelo assento permanente. isso possivelmente poderia ser demonstrado. Seguindo a definição elaborada por Cervo. Como o presente trabalho tentará demonstrar ao fim deste capítulo. Neste conjunto. por serem “inerentes” à conduta diplomática brasileira. e a solução pacífica de controvérsias. Para efeito de análise. Mais do que em outros países. 6) realismo e pragmatismo. a ação diplomática do Brasil é marcada por algumas tradições (VAN KLAVEREN. o autor inclui: 1) autodeterminação. p. . p. 1986. 4) ação externa cooperativa e não confrontacionista. desenvolvido por Cervo (2008a. 3) multilateralismo normativo. a exemplo de vizinhos latino-americanos. e 9) independência de inserção internacional.16 histórico da diplomacia brasileira”. em uma análise mais extensa. considerou-se que os princípios mais marcantes são a autodeterminação. a não intervenção. Cervo não propõe que todos os nove padrões por ele enumerados tenham tido o mesmo peso sobre a política externa brasileira desde o Império ate 1 Os grifos em todos os capítulos são da autora. Mas. reunidas – para facilitar – no termo pacifismo . e de que tal atuação se mostra coerente com o acumulado histórico. 26) e sintetizado como resultado do processo de agregação de princípios e valores à diplomacia “de modo a tornar tais elementos inerentes à sua conduta”. e solução pacífica de controvérsias. 7) cordialidade oficial no trato com os vizinhos.12). Para tanto. partiu-se da constatação de que a ação do Brasil em relação à ONU faz parte de sua atuação multilateral. não intervenção. e a inde pendência de inserção1. diante das limitações intrínsecas a este tipo de trabalho e da necessidade de concentrar a análise no foco principal – o período entre os governos Cardoso e Lula –. A simples aceitação destes conceitos como válidos para a análise elaborada aqui sugere que se concorda com a ideia de que. podemos selecionar estes padrões dentre o acumulado histórico da diplomacia. todos estarão presentes de alguma forma no tema abordado por este trabalho. De fato. algumas delas estão intimamente ligadas à motivação para a busca por um espaço privilegiado na ONU e também aos argumentos apresentados no que se pode chamar de uma campanha com tal objetivo. o desenvolvime nto como vetor. 8) desenvolvimento como vetor. 5) parcerias estratégicas.

1. sob a ótica do multilateralismo. Em seguida.1. e em que a própria posição do governo americano em relação ao continente era vista como uma proteção contra o imperialismo europeu. mas sua influência sobre ações e. Ricúpero (2000) destaca a importância da visão de mundo e da “ideia de Brasil” do Barão para a atuação diplomática no período (1902 a 1912). 1995. nem sempre a diplomacia brasileira se orientou por este princípio. não intervenção e solução pacífica de controvérsias – expressas resumidamente como pacifismo 2 – remetem à fundação de bases conceituais da política externa brasileira pouco depois do início do período republicano. sobre discursos é inegável. Do ponto de vista prático. 9). Segundo o autor. p. “recusa a sonhos hegemônicos” e “afirmação da não -ingerência”. posteriormente. em que a manutenção de relações próximas com um país republicano se fazia importante.1 – para. Em uma análise sobre “valores e convicções” que influenciaram a formação da diplomacia e da políti ca externa do Brasil durante a gestão de Rio Branco à frente do Ministério das Relações Exteriores. desde então o discurso diplomático brasileiro se baseia no tripé “confiança no direito”.17 os diferentes períodos da República.2 será discutida a importância concedida pela diplomacia brasileira à ONU e ao CSNU. o qual estava de acordo com a consolidação das fronteiras brasileiras promovida com sua intensa participação. relacioná-los com o tema em questão nesta pesquisa. portanto.1 O acumulado histórico da diplomacia brasileira As ideias de autodeterminação. num contexto em que se percebia a perda de influência do império britânico. como faz Cervo. é importante destacar que a principal característica deste período foi a valorização de uma aliança com os EUA.1. Além destas questões conjunturais. talvez mais ainda. avaliar brevemente como cada um dos três princípios selecionados acima se tornou inerente à diplomacia do Brasil – o que será feito no item 1. A posição adotada pelo Barão diante da conjuntura de sua época terminou influenciando a opção por uma aliança automática com os 2 É importante ressaltar. Cabe. . Rio Branco recorre à defesa da existência de uma percebida “amizade” e “harmonia” tradicionais nas relações entre os dois países para justificar a aproximação. vista em atitudes como a elevação da representação brasileira em solo americano à embaixada (SILVA. na seção 1.1.

explorando as divergências entre os governos americano e alemão para barganhar vantagens comerciais e estratégicas. que o americanismo presente desde este momento não se opõe ao multilateralismo.1. só aparece depois que este tema ganha peso na política interna. 218). Uma das vias para tal ampliação foi justamente a diplomacia multilateral. 1998. a qual o Brasil começa a explorar na II Conferência de Paz de Haia. Além disso. o que. Valorizando a dimensão simbólica do poder. . Foram feitos então os primeiros esforços sistematizados para superar a condição de país agrário exportador e promover o crescimento industrial com vistas ao mercado interno (SILVA. com conjunturas diferentes. dando início a uma linha de continuidade que se estenderá para a Liga das Nações e a ONU como se verá nos próximos itens do presente capítulo (SARDENBERG. 3 Cabe citar que o contexto internacional contribui para sua deposição após 15 anos na Presidência. a ONU foi fundada3. p. num momento em que eram escassos os recursos nacionais de poder efetivo. Antes disso. também considerados importantes num cenário visto por ele como essencialmente anárquico. marcou a atuação internacional do Brasil. Rio Branco via necessidade de ampliar o “prestígio internacional” do Brasil. 92. p. e o governo brasileiro acreditava ter ganhado maior importância no cenário internacional por ter participado do conflito armado. Em consonância com seu esforço pela industrialização. como se verá. portanto. que marcou o fim da Primeira República e o início de uma nova etapa na política e na economia brasileiras. é importante lembrar também que vem desse mesmo período a importância atribuída pela diplomacia brasileira ao multilateralismo – tanto do ponto de vista prático quanto do conceitual. vale fazer uma breve análise do primeiro governo de Getúlio Vargas (1930 a 1945). Fica claro. depois de Vargas manter – até o início da participação americana na guerra – a chamada política pendular ou de “equidistância pragmática”. embora – como será discutido no item 1. a Segunda Guerra chegou ao fim. meses antes do fim de seu período ditatorial na Presidência. 215). o presidente tentou fazer da política externa um instrumento de apoio ao desenvolvimento econômico. Contribuía para esta crença a percepção no Brasil de que o país havia construído uma aliança especial com os EUA. Neste sentido. outra marca da inserção internacional brasileira. em 1907. O foco nas questões relacionadas ao desenvolvimento.2 – tenha relação com variações na atuação multilateral do Brasil.18 EUA em períodos posteriores.

o que a coloca em linha com a busca por “autonomia na dependência” sugerida por Moura (1980). p.19 O Brasil viveu com Vargas um momento de busca de “autonomia na dependência”. mas sugere dominá. de expressar o quanto meu país é grato a esta augusta Assembléia pelo sincero voto de confiança que lhe foi dado quando de sua eleição para o Conselho de Segurança das Nações Unidas. seguindo o receituário da Conferência de Bretton Woods (1944). comandando seu destino. Ainda assim. As duas ideias básicas em que o governo se apoiava eram as de que as relações externas deveriam estar orientadas para o desenvolvimento econômico e o alinhamento político e militar ao Ocidente deveria ser mantido. os princípios relacionados ao “pacifismo” continuaram presentes na ativa atuação – ou ao menos nos discursos – da diplomacia do Brasil nos foros multilaterais que eram então criados 5. e também enfatiza este traço do acumulado histórico da diplomacia do Brasil: “"Em nome do povo brasileiro e de seu Governo. a exemplo 4 Em sua definição deste termo. uma retomada dos esforços para obter benefícios nas relações com os EUA. A “aliança automática” com os EUA – na linha. pressupõe visão própria de mundo e autonomia do processo decisório. 6 Entre as questões controversas que podem ser associadas ao tema estão a recusa ao TNP em 1968 e a aceitação da liderança da Minustah. pela ruptura das relações com a URSS em 1947 – e a liberalização econômica promovida inicialmente. gostaria. Este posicionamento marcou. e. que serão retomados adiante. 33). Deste modo desejastes registrar vossa simpatia por nossas tradições pacíficas e por nossa contribuição nos sacrifícios incorridos na luta pela liberdade e dign idade humana" (DANTAS apud CORRÊA. O segundo governo Vargas (1951 a 1954) retomou o desenvolvimento como vetor. em primeiro lugar. em 2004. por exemplo. tiraram o foco da busca por autonomia e desenvolvimento. do que Ricúpero considera um entendimento errado do legado de Rio Branco. O período de Eurico Gaspar Dutra (1946 a 1951) pode ser considerado um hiato em relação a esses dois traços da ação externa brasileira. mas praticamente inalterados no que diz respeito à sua utilização nos discursos sobre os valores do país. envolvam questões mais amplas. realizada em 1946 em Londres. talvez. e marcada. Cervo (2008) propõe que a independência é vista como vocação do país. .los em proveito próprio. Assim esses princípios permaneceram até os dias atuais. 2007. na expressão de Gerson Moura (1980). o embaixador brasileiro Souza Dantas deixa transparecer logo nas primeiras palavras de seu discurso a confiança do país em ter alcançado um papel de maior destaque. embora estes casos. uma tentativa de cunho nacionalista de consolidar bases de autonomia para o país. e não significa a eliminação dos constrangimentos externos. 5 Na parte de caráter inaugural da Primeira Assembleia Geral da ONU. por outro. Aí se encontram também sinais de outro elemento do acumulado histórico – a independência de inserção internacional 4 – que vai se intensificar em governos posteriores. mas não promoveu um grande movimento em relação à independência de inserção no plano internacional. por um lado. inclusive por ter sido eleito membro não permanente do CS. com pequenas variações quanto à sua influência sobre decisões práticas6.

marcada por “avanços e recuos” ao ter consciência de novas condições vigentes no mundo e no Brasil. por sua vez. expressos em seu Plano de Metas. p. em 1960. garantindo aos americanos a hegemonia na região em detrimento dos soviéticos e neutralizando as possibilidades de o Brasil explorar a luta entre as potências por meio de um alinhamento negociado – o que sequer foi buscado por Vargas nesse momento e deixou de ser uma premissa orientadora da política externa brasileira como havia sido antes da Segunda Guerra. a OPA foi apresentada como exemplo do objetivo de tornar o Brasil mais atuante e relevante no cenário internacional. Considerada a principal iniciativa diplomática do governo do presidente. . “O esgotamento desta fórmula. 1996 . e em algumas características da Operação Pan-Americana (OPA) proposta por JK. 229) Para Moura (1991). p. mas sendo incapaz de explorá-las totalmente (p. constitui um antecedente decisivo para a adoção de uma política externa autônoma e pragmática” (HIRST. Mas a ordem da divisão bipolar da Guerra Fria já se havia instalado. O plano refletia a percepção da dificuldade de conciliar autonomia 7 Além dos condicionamentos externos já citados. Já no governo de Juscelino Kubitschek (1956 a 91961) o autor enxerga a “gestação de formulações de independência em meio à reafirmação de posições de alinhamento”. o que resume como o “novo” e o “velho” na política exterior do período. voltado para o setor de bens de consumo duráveis destinados às classes de média e elevada renda. ao Brasil.o que marcava uma busca pela aproximação em relação à região – por meio da obtenção de recursos (especialmente públicos) dos EUA. que deveriam se comprometer com um programa multilateral. Já o “novo” aparece na ampliação dos esforços destinados ao desenvolvimento e à industrialização8. 30) acrescenta que relações econômicas com EUA ainda eram essenciais para o projeto desenvolvimentista brasileiro. a aliança automática com os EUA foi parcialmente renegada por Vargas em seu segundo governo por meio de um “pragmatismo impossível” 7. p. tendo como meta principal o combate ao subdesenvolvimento na América Latina . 27) destaca que é um projeto alterado. Pinheiro (2004.20 da assinatura do acordo militar de 1952. 8 Vizentini (1994. Entre as marcas relacionadas ao “velho” pod em ser incluídas duas expressões do prevalecimento do americanismo: as reticências quanto ao reatamento de relações com a URSS e a recusa do chanceler Horácio Lafer a um convite para ir à Cuba às vésperas da visita do então presidente dos EUA. Dwight Eisenhower. 23).

e motivador de mudanças na política externa (1994. 28 e 29). em referência às descolonizações (VIZENTINI. promovendo um alargamento de horizontes (SILVA. Este novo paradigma. além da falta de consenso com a superpotência na área econômica (mesmo que nas áreas política e militar a harmonia se mantivesse). autodeterminação. 25). p. o alinhamento e o desenvolvimento econômico passam a ser abordados sob o prisma do multilateralismo 9. vista na ativa abordagem 9 de temas como descolonização.232). que se agravariam nos governos seguintes. com a consolidação de um novo perfil sócio-político da sociedade brasileira. A PEI promoveu uma agenda menos influenciada pelas questões ideológicas relacionadas à Guerra Fria. p. manutenção da paz por meio da coexistência pacífica e do desarmamento geral. JK inova ao “articular em um discurso coerente autonomia. o que revelava uma preocupação com a conservação do apoio americano. Um dos resultados foi a multilateralização da ação externa. o Brasil evitou dar à luta contra o subdesenvolvimento um conteúdo “terceiro-mundista”. . o que marca um avanço na busca por mais independência na inserção internacional. Vale ressaltar também que. não tanto nas econômicas. p. visando escapar às determinações do FMI. desarmamento e A importância dada ao multilateralismo já era há tempos uma marca da diplomacia brasileira. com o país dividido entre os que defendiam o questionamento à ordem internacional vigente – vista como desfavorável à promoção do desenvolvimento – e aqueles que privilegiavam os esforços em busca de estabilidade. na industrialização e na afirmação de uma burguesia industrial e de setores médios urbanos.21 e alinhamento aos EUA. e não mais do bilateralismo. 231 . como se citou no início do trabalho. com a OPA. Como bem conclui Moura. a defesa da não intervenção. Ainda assim. rompendo com o americanismo que vinha mantendo os EUA como principal eixo desde Rio Branco. e com vistas a realizar uma articulação entre novas demandas políticas e econômicas internas e a atuação do país no plano internacional 11. implantado nos governos Jânio Quadros (janeiro a agosto de 1961) e João Goulart (1961 a 1964). mas é possível dizer que se fazia mais presente nas questões políticas. a política externa de JK tentava conciliar as próprias contradições brasileiras. Em resumo. influenciada pela situação cubana. e a emancipação de territórios não autônomos. baseado na urbanização. No primeiro grupo estavam os então futuros chanceleres San Tiago Dantas e Araújo Castro. 1994. 10 Os cinco princípios que marcam a proposta são a ampliação do mercado externo para os produtos brasileiros por meio de redução tarifária e ampliação de relações inclusive com países socialistas. desenvolvimento e multilateralismo”. com apoio americano. inaugurou uma perspectiva universalista na política externa brasileira. 1992. principais formuladores da Política Externa Independente (PEI)10. 11 Vizentini destaca a importância de fatores internos desde o inicio da década de 1950. a formulação autônoma dos planos de desenvolvimento econômico. construída de forma mais autônoma.

p. 30 e 34). com uma proposta de neutralidade em relação à Guerra Fria. influenciada por uma visão rígida da bipolaridade da Guerra Fria e incorporada à ação diplomática. já que a preferência era dada à OEA e a agências da ONU (SILVA. p. e pelo surgimento do Movimento dos Não Alinhados. 1995. em 1961. o Brasil reata relações diplomáticas com a URSS. Um dos formuladores na Escola Superior de Guerra (ESG) da Doutrina de Segurança Nacional. A política externa era também influenciada por uma percepção expressa por Jânio de que o Brasil poderia atuar como mediador entre o Primeiro e o Terceiro Mundos. implicitamente. “uma concepção de Brasil Potência” (VIZENTINI. pela explicitação do descaso dos EUA com a América Latina – o que sofre pequena alteração depois da Revolução Cubana de 1959 –. . com a recuperação econômica da Europa e do Japão. É o que Silva (1998) chama de o “destino manifesto” brasileiro de se transformar em um ator relevante da po lítica internacional. Esta concepção será retomada por governos militares após um período de transformações. cabe lembrar que o golpe militar que derrubou o presidente Goulart em 1964 é fruto. Embora os governos dos generais Médici (1969 a 1974) e Geisel (1974 a 1980) resgatem esse aspecto das tradições brasileiras presente na PEI. imediatamente após o golpe. das próprias mudanças na orientação da política externa. houve um período de retrocesso ao americanismo com Castelo Branco (1964 a 1967). 1994. 110). a PEI não apenas visava impulsionar o desenvolvimento industrial. em parte. Assim. mas pode ser associada à identificação do Brasil como país destinado a ser grande. marcada pela busca de autonomia em relação aos EUA 12. A elas somaram-se uma conjuntura conturbada no plano externo (com a Revolução Cubana levando o governo americano a se preocupar com uma possível expansão do comunismo na América Latina) e também no interno (onde a radicalização político-social refletia a “crise do populismo”). e também nos foros escolhidos para tal.22 desenvolvimento. mas continha também. Se até então a “diplomacia brasileira havia sido basicamente o reflexo da posição que o país ocupava no cenário mundial”. Castelo participava ativamente da política 12 Dois meses após o início do governo Goulart. A PEI pode ser considerada ainda um reflexo da adaptação do Brasil às relativamente recentes mudanças no sistema internacional. uma crença há muito enraizada nas elites políticas brasileiras.

Mas contradições do próprio modelo brasileiro de desenvolvimento – que privilegiava a economia. p. no entanto. O Brasil voltou a investir em uma aliança especial com os EUA. foram surgindo contenciosos econômicos com os EUA. Já no período de Médici (1969 a 1974). o pragmatismo começou a substituir uma postura mais politizada. ou “um passo fora da cadência”. 43). fazendo com que teses mais nacionalistas fossem reincorporadas ao modelo de desenvolvimento (PINHEIRO. segundo Cervo. Além disso. conseguiu ir recuperando certa margem de manobra. indo contra o “pacifismo” característico de sua diplomacia. 13 Para Castelo. No governo Costa e Silva (1967 a 1969) teve início uma correção de rumos em relação a seu antecessor. fizera m o termo “Brasil potência” estar desgastado quando Geisel chegou ao poder. p.23 externa. que passou a refletir a preocupação com a “ameaça comunista” 13. mas sem referências a reformas sociais. rompeu relações com Cuba e participou da intervenção americana na República Dominicana em 1964. “a relação entre desenvolvimento e segurança levava a que. a segurança fosse determinada pelo alto grau de desenvolvimento econômico. “granjeando autonomia ao país. devido à simpatia que o regime nutria por semelhanças entre diplomatas e militares. 2004. 2008. Com alguns governos de esquerda ocupando o poder em vizinhos latino-americanos. Destacava-se o impacto da distensão entre EUA e URSS como fator revelador do antagonismo entre Norte e Sul. à crença de que o desenvolvimento econômico não poderia ser alcançado sem um mínimo de segurança” (PINHEIRO. em parte. mais um hiato. associado ao crescimento econômico acelerado e à mudança da inserção do país na economia mundial. p. e. isso se deve à necessidade que o regime sentia de se diferenciar do passado recente. 2004. Em muito. no qual uma geração de diplomatas ingressara durante auge do nacional-desenvolvimentismo” (VIZENTINI. opondo ricos e pobres e levando à busca pela reaproximação do Terceiro Mundo. Assim. O período pode ser considerado. que afetou diretamente o país. O discurso de “Brasil potência” ganhou força. Segundo Vizentini (2008). aos poucos. 37). . o Brasil era visto pelos EUA como aliado necessário para estabilizar a região. mas negligenciava as esferas política e social – e a crise do petróleo de 1973. por um lado. com uma parcial associação à PEI. ambos com uma estrutura hierárquica rígida e um alto nível de especialização. a política externa do regime resgatou semelhanças com a PEI. por outro. pr incipalmente por haver sido formulada no ministério competente. 40). o Itamaraty. porém.

o por que da importância atribuída à ONU. Do ponto de vista internacional. O investimento no desenvolvimento e na inserção internacional mais ativa e independente foi abalado. o multilateralismo vivia então uma crise – que será abordada mais adiante –. portanto. p. porém. do vetor desenvolvimentista e da busca por independência como traços da ação diplomática brasileira. em es pecial. com a participação . a política interna. O país se aproximou de nações árabes. mas o Brasil manteve sua orientação multilateral tradicional e também universalista. ele manteve certos aspectos desse discurso. impulsionada. entre outros fatores. aumentando inclusive sua aproximação em relação aos países do Sul. Antes de abordar o período pós-redemocratização. É possível concluir. por meio de um projeto de “Brasil potência emergente”.24 Ainda assim. Figueiredo (1979 a 1985) manteve as linhas gerais da política externa de seu antecessor. devido a mudanças significativas na conjuntura externa – com medidas econômicas tomadas pelo governo Ronald Reagan nos EUA e o breve recrudescimento das tensões bipolares da Guerra Fria – e na conjuntura interna – com a crise da dívida externa brasileira entre 1982 e 1983. Último d os presidentes do regime militar. é importante avaliar a relação da diplomacia brasileira com os órgãos multilaterais e. quando a retomada do pleito brasileiro pelo assento permanente no CSNU começou a ser gestada de forma mais clara. assinou um acordo nuclear com a Alemanha e rompeu o acordo militar com os EUA em 1977. concomitante a uma política externa pragmática ainda mais universalista. que o período de Geisel foi um momento chave para a consolidação. inscrita no universalismo da política que ficou conhecida como “Pragmatismo Responsável”. a ativa participação brasileira em foros multilaterais se dá desde a Segunda Conferência de Haia. pelo fim do “milagre econômico” – se notou uma convergência entre a política externa. restabeleceu relações com a República Popular da China em 1974. no seu governo – no qual os militares começam a promover a abertura política. 36). e a estratégia de desenvolvimento (SARAIVA. 1998. o que será feito a seguir. promoveu a cooperação com latinoamericanos sem se valer de um discurso de grande potência. em 1907. simultânea.2 Relações com a ONU e sua importância para o Itamaraty Conforme mencionado no início deste capítulo.1. Além disso. 1.

a presença brasileira nas conferências de paz posteriores14. A presente seção se concentra nas duas primeiras fases. finalmente. Mas.26 e 28). como esperado. 94). . Em relação ao primeiro momento. A participação no conflito garantiu. 2004. 2008a. a presença do país na Conferência de São Francisco. não teve o resultado desejado pelas elites políticas brasileiras. em 1946. fazendo a presença privilegiada no órgão mais importante das Nações Unidas se tornar apenas um meio de duplicar os votos dos EUA. a perspectiva de atuar no sistema sem modificá-lo. p. com o Brasil exercendo. Esta etapa do trabalho vai se deter às relações do Brasil com as Nações Unidas. Embora o multilateralismo seja uma das constantes da política externa brasileira desde o século XX. o multilateralismo é uma das linhas prioritárias de ação da diplomacia brasileira. sem a presença brasileira. Há décadas. p. o esforço para reformar a ordem internacional entre os anos 1960 e 1980. É importante avaliar mais a fundo. que serão associadas aos argumentos apresentados no início deste capítulo. a própria ONU será analisada mais a fundo. portanto. à conotação ideológica que o americanismo assumiu no governo Dutra. nos anos 2000. seja na área econômica. embora o Brasil tenha participado da Conferência de São Francisco da comissão de cinco representantes responsáveis por coordenar a posição de países latino-americanos sobre o anteprojeto da Organização. na década de 1990. em parte. ser eleito membro não permanente do CSNU – com o apoio americano –. No próximo item. seja na esfera política – onde concentra na ONU. que fundou a ONU em 1945.25 relevante de Ruy Barbosa. em 1946. e. embora o Brasil tenha conseguido. foi nas conferências realizadas entre 1943 e 1945 que as Nações Unidas foram desenhadas. o objetivo de equilibrar estruturas hegemônicas e países emergentes. por que o Brasil destina parte importante de seus esforços no cenário internacional para esta Organização. Isso se deveu. supostamente. 14 Vale lembrar que. ele não foi exercido de maneira uniforme neste período e nem teve sempre o mesmo peso na atuação brasileira. e nas Conferências de Paz de Paris. Cervo propõe uma abordagem dividindo a ação multilateral do país em quatro fases: a contribuição brasileira à construção do sistema internacional do período pós-Segunda Guerra. seu papel de aliado especial (PINHEIRO. Para efeito de análise de seus resultados em função dos objetivos. sendo exercido em menor escala no âmbito regional (CERVO. já foi dito que em meados da década de 1940 o governo brasileiro acreditava ter alcançado papel de destaque no cenário internacional após a Segunda Guerra.

e a ONU se tornou “o espaço por excelência desta política. mas o ordenamento proporcionado por estas instituições e. que teria sido responsável por 90% da versão definitiva da Carta da ONU. é importante considerar que em meados dos anos 1950 a bipolaridade começou a entrar em outra fase. por outro lado. A efetivação dessa proposta. O governo brasileiro se aproximou dos países subdesenvolvidos numa estratégia para aumentar sua projeção. a crise do canal de Suez. quando os blocos ocidental e soviético apresentaram fissuras16. p. Embora não sejam o foco deste trabalho. o que iria se concretizar – em tese – com o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Nos debates nas Nações Unidas. 97) destaca. Em relação às Nações Unidas. Estes obstáculos serão abordados mais detalhadamente na próxima seção deste capítulo. consideradas importantes. Cervo (2008a. 30). 1996. são mostras disso. 21). 2004. le variam à organização da Conferência de Chapultepec. as “frustrações da América Latina. É nessa conjuntura que dezenas de países começaram a declarar independência em relação às potenciais coloniais europeias. (. foi realizada a Conferência de Bandung. Esse traço pode ser considerado uma das tradições da atuação multilateral do Brasil. pela ONU foi visto com variados graus de otimismo. em 1947 (p. p. mostrando ver as limitações que o alinhamento incondicional aos EUA impunha (PINHEIRO. uma questão prática que já se fazia presente nas preocupações de então: o combate aos efeitos negativos da anarquia internacional por meio da adesão às instituições internacionais. pelo outro. de um lado.. onde se forjaram novos compromissos de segurança regional.26 No governo Dutra. e 15 Patriota (1998) também destaca a decepção em relação às questões de segurança. não tardou a se concretizar a frustração brasileira quanto à sua capacidade de promover o principal interesse do país: seu desenvolvimento 15. a ONU continuou sendo vista como espaço político de grande relevância. em especial. esbarrava quase sempre nos fortes condicioname ntos impostos pela Guerra Fria” (HIRST. No segundo governo Vargas. entretanto. o Brasil se voltou para outras regiões. vale mencionar a posição do diplomata: em relação à Conferência de Dumbarton Oaks. e o envio de tropas à Hungria. em particular. Por ora. p. mas não por reforçar a ordem liberal.. 219).o combate ao comunismo e a adesão ao liberalismo -. o multilateralismo brasileiro foi também um endosso a posições ideológicas americanas . em parte devido ao contexto interno de superação da situação de exceção que caracterizou o período ditatorial de Vargas. 16 Em 1956. .) na expectativa de aperfeiçoamento subseqüente de um esquema hemisférico mais formal”. em 1955.

No governo Castelo Branco. Já no governo seguinte. Os primeiros diziam que o não alinhamento era imoral. Ele destaca ainda a importância dos ex-chanceleres San Tiago Dantas (setembro de 1961 a 1962) e Araújo Castro (1963 a 1964) para superar tais obstáculos. de 1961. O Brasil. diante das já citadas mudanças na política externa com Costa e Silva no poder. a diplomacia brasileira “voltava a alinhar -se com o Primeiro Mundo. porém. que multiplicaram o número de membros da Assembleia Geral da ONU. a tônica do discurso na II Unctad (1968) foi a definição do Brasil como integrante do 17 Formalizado na Conferência de Belgrado. especialmente no contexto da preparação para a I Unctad (em 1964). Apesar de mais este indício da ambiguidade do governo brasileiro neste período. 1991. 39) afirma que isso levou. p. e o Itamaraty. ele destaca sua política de promover o desenvolvimento de “cinquenta anos em cinco” e o “renascimento da diplomacia” com a OPA. na ONU. mas o governo do presidente ainda apresentava traços de americanismo. além da prevalência da temática da reconstrução da Europa e do Japão após a Segunda Guerra. Sardenberg destaca os riscos de perseguição de fundo ideológico aos países que abordassem o te ma do desenvolvimento. p. começando a acabar com a maioria próamericana. 43 e 45). a que houvesse divergências entre a delegação brasileira na ONU. É importante ressaltar. defendendo o neutralismo em oposição ao mundo dividido em esferas de influência. então governado por JK. mas atuante desde a 1957 (MOURA. inclusive. que a I Unctad foi realizada . em parte devido ao impulso dado durante a presidência de JK 18. Os últimos classificavam os não alinhados como “cães de guarda do imperiali smo” (MOURA. criando uma alternativa política. .27 o Movimento dos Não Alinhados 17 ganhou força. chefiada por Osvaldo Aranha. 237) pondera que havia obstáculos à abordagem do desenvolvimento nas Nações Unidas e afirma que o Brasil assumiu a liderança desse processo. 1991. participou da Força de Paz de Suez. p.atendendo a pedido dos multiplicados países-membros do Terceiro Mundo . Somado às descolonizações. A OPA proposta por JK se insere nesse contexto de ampliação de horizontes e aproximação de outros países subdesenvolvidos. Sardenberg (1996. 27). p. Um dos pontos de discordância foi o reatamento com a URSS. Em relação ao impulso no governo JK. que era condenada por americanos e soviéticos. p.durante o golpe militar no Brasil. o Itamaraty substituiu parte de seus delegados na conferência e adotou postura discreta. defendido em 1957 por Aranha. no qual o país esperava ingressar sozinho”. levando o país a buscar soluções multilaterais. Moura (1991. Para Vizentini (2008. considerada a primeira operação de paz da ONU. o impacto desse movimento logo se fez sentir na Organização. 18 Entre as dificuldades. 27).

237) aponta aí uma “década de encolhimento diplomático”. Ronaldo Sardenberg e Celso Amorim. Esta discussão. é importante avaliar. A posição do Brasil coincidiu com seu afastamento do CSNU. de que representava um “congelamento do poder mundial”. A atuação brasileira no CSNU será abordada nos próximos itens deste capítulo. ele considerava “um claro sintoma de recuperação diplomática o fato de que na última década o Brasil tenha por três vezes tido assento no Conselho [de Segurança]”. o Brasil rejeitou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP)19. seja possível analisar com maior embasamento por que o pleito pelo assento permanente no CSNU é retomado nos anos 90 e. Desarmamento e Desenvolvimento. 19 A abertura para assinaturas só ocorreria em 1970. No mesmo ano.. por revelarem uma visão atemporal da diplomacia brasileira sobre a organização. em um movimento aprofundado por Figueiredo. É importante ressaltar que eles ocuparam este posto em um momento diferente destes últimos apresentados aqui. p. apresentado por Araújo Castro 20 (então embaixador brasileiro na ONU). porém injusta (HERZ e WROBEL. 2002.28 Terceiro Mundo e a “defesa de uma aliança com vistas a alterar as regras injustas do sistema internacional”. sob o argumento. após o fim do regime militar. A visão da diplomacia brasileira era de que as grandes potências estavam superando suas diferenças em relação à questão nuclear sem levar em conta o papel da ONU. 281). quando se encerra a segunda fase descrita por Cervo como a perspectiva de reformar a ordem internacional. sempre fosse conferida importância à ONU. provocado por problemas políticos internos e só superado no governo Geisel. no entanto. Antes. acredita-se. mais adiante. e criando uma ordem mais estável. diante desse panorama das décadas anteriores. No fim da década de 1990. serão analisadas observações de diplomatas brasileiros e de três dos últimos representantes do país nas Nações Unidas: Gelson Fonseca Jr. Sardenberg (p. mesmo com as variações apresentadas nesse breve histórico. no qual defendia a importância dos três “D”: Descolonização. As observações dos três são válidas. Para isso. . Araújo Castro abordou a questão em um discurso que se tornou um marco. será útil para que. O país só voltaria a ser membro não permanente do órgão 20 anos depois. 20 Vale mencionar que em 1963. os argumentos apresentados pela diplomacia do Brasil para que. quando chanceler. com o Brasil mantendo sua rejeição.

e. provendo um foro para 21 Todas estas considerações se encontram no seu já citado artigo “O Brasil e as Nações Unidas”. ele afirma que. Sardenberg também apresenta “três percepções centrais” mais gerais sobre as Nações Unidas: 1) a política prat icada no âmbito da organização é parte da política internacional. quais são as diferenças que marcam a campanha nos governos Cardoso e Lula e como é possível entendê-las. Durante a Guerra Fria. não. o embaixador avalia que a dimensão da cooperação avança e os temas de conflito. as Nações Unidas são a única instancia política de caráter universal para dirimir controvérsias e são uma solução razoavelmente equilibrada para o problema da construção da ordem.29 finalmente. Apesar de reconhecer que a ONU ainda está deixando de ser um “clube restrito”. que faz da Organização um instrumento para o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações. Já fica clara. mesmo diante de críticas sobre sua inoperância. portanto. relacionada a questões militares. 3) a Carta das Nações Unidas é eloqüente e inspiradora em relação a propósitos e princípios. mas também um foro para construção da ordem. mas é também prescritiva e realista sobre as “regras de operação do poder internacional”. Ela não é mecânica. De forma esclarecedora. de 1996. a primeira iniciada em 1993 e a segunda em 2003. Cabe destacar também a observação que ele faz sobre a relação da ONU com a realidade política internacional. a complexidade da Organização e da compreensão da diplomacia brasileira acerca de sua importância. . a ONU pode e deve ter atuação decisiva para obter soluções políticas coletivamente aceitáveis. e a da cooperação. As análises de Sardenberg21 se baseiam em suas duas passagens pelo posto. de inspiração sócio-econômica. sua presença em situações de conflito se realiza na aplicação deste mecanismo por meio de medidas coercitivas impostas pelo CSNU. a ONU não é voltada só para a segurança coletiva. o embaixador considera que a ONU é uma instancia para interferências em situações críticas de conflito. Embora Sardenberg ressalte que. 2) em casos de crise. Isso se faz importante diante da percepção de Sardenberg de que o Brasil nunca se conformou em ver a Organização como “simples reflexo das realidades de poder mundial” e buscou sempre atualizar seu potencial transformador. pode ter sua agenda dividida em três dimensões: a do conflito entre as nações. a da equidade entre elas. com o órgão bloqueado pelas potências com poder de veto. e existe uma tensão entre a ONU como produto da ordem internacional e veículo de transformação da ordem. a partir daí. constitucionalmente.

quando é árbitro de situações que se arroga. Amorim também demonstra a importância atribuída ao CSNU. Em artigo apresentado em 1998. por permitir a produção de soluções negociadas. “do que em grande parte decorre o interesse nacional brasileiro nas Nações Unidas” (p. É importante destacar ainda a importância que Sardenberg atribui ao CSNU.30 tanto. a atuação brasileira na ONU é caracterizada por uma preocupação central com a administração diplomaticamente responsável dos instrumentos coercitivos contemplados pela Carta da ONU. mas o embaixador destaca ainda que o Conselho passou a ampliar suas atribuições (processo que será analisado adiante). quando ocupava o posto de representante do Brasil nas Nações Unidas. p. a valorização da diplomacia no CSNU corresponde à vocação natural do Brasil. Comprovando a permanência do desenvolvimento como vetor da política externa brasileira. sem que haja possibilidade de revisão. Em suas palavras. 6). 1998. garantido pela Carta. (AMORIM. Só isso já é suficiente para compreender a relevância atribuída por ele. e quase judicial. se daria em benefício de instâncias de concertação nas quais teríamos escassa influência e em detrimento das conquistas dos últimos cinqüenta anos no plano da consolidação do direito internacional no âmbito multilateral da Organização das Nações Unidas. além de comportar riscos óbvios para a estabilidade internacional. ele defende que a Carta da ONU assegura ao país oportunidades preciosas de expressão e atuação internacionais. Amorim considera que a vantagem comparativa da ONU como foro privilegiado para concertação se situa no campo do entendimento e da negociação. Sardenberg inclui o funcionamento do CSNU entre os temas dominantes na atuação brasileira na Organização. Segundo ele. diplomático. para fazer cumprir princípios e propósitos da Carta das Nações Unidas. que tem a capacidade de decidir sobre o uso da força por parte da organização. cominatório. Um enfraquecimento do CSNU. devido à possibilidade de impor a paz sem concordância das partes. por meio da “diplomacia preventiva”. ao lado da reforma da Carta e das questões sobre desenvolvimento. Amorim associa a preferência pelo diálogo e pela negociação à intensificação da cooperação internacional para o desenvolvimento. Por fim. De forma geral. em um movimento no qual há tentativa de “maximizar as Nações Unidas como instância legitimadora para sustentação de poder” (p. Em sua visão o órgão tem caráter executivo. afirmando que a proteção de sua credibilidade “pode ser vista como um verdadeiro objetivo nacional”. 228). Apesar do destaque dado ao CSNU. 234). .

Em primeiro lugar. voltando à dimensão política das organizações como as Nações Unidas. A partir da constatação de que a oferta de serviços23 da ONU é ampla e consolidada. ao mes mo tempo. da sala onde se encontra ou do tema em debate” (p. porém. para caricaturar. Novamente.31 Em observações que buscam embasamento acadêmico. de 2008. o realismo se faz presente em algumas das observações daí decorrentes. A dificuldade. 14). “dependendo. os interesses dos Estados. exibidas às vezes pelo mesmo delegado. destaca o papel dos interesses nacionais e do jogo político na ONU22. Fonseca Jr. ele entende que o serviço prestado por tais instituições é coletivo e deve beneficiar a todos. portanto. faz uma distinção que pode ser útil à compreensão da valorização da Organização por parte da diplomacia brasileira: 22 Todas as observações do autor a seguir se baseiam no livro “O interesse e a regra”. . baseada na ideia de que a existência da ONU e da possibilidade de cooperação altera. é que são os próprios Estados que demandam e. Ele propõe uma abordagem influenciada pelo institucionalismo. vale ressaltar uma afirmação que pode parecer óbvia: as instituições multilaterais são criações dos Estados e devem atender a seus interesses. Enquanto esta pode parecer uma posição idealista. com expressões de realismo e idealismo. Fonseca Jr. em certa medida. de corte mais idealista. são temperadas com ponderações realistas: além de afirmar que os interesses multilateralizáveis de uma potência se aproximam da obtenção de legitimidade para políticas específicas – enquanto para os países pobres a ONU seria instrumento de transformação da ordem internacional e de obtenção de poder –. Considera que a ONU é celeiro de “racionalizações contraditórias”. Por outro lado. o limite da demanda depende da legitimidade do argumento e ela varia em função da percepção que se tenha sobre a ONU. 23 Fonseca Jr. e a oferta deve ser coletiva. avalia. 26 a 35) distingue quatro faixas de serviço: 1) responsabilidade de manter a paz e a segurança. de cunho humanitário. objetivo que leva à criação de regras. 3) atividades operacionais. p. Estas últimas considerações. 4) fornecer informações e avaliações. Fonseca Jr. Para ele. que existem nos casos de “interesses multilateralizáveis”. 2) oferecer parâmetros de legitimidade e foro para aprovação de reivindicações. Além disso. que essas duas dimensões – cooperação e interesse – não são incompatíveis. o embaixador afirma que o desafio central da Organização está em sua capacidade de se adaptar às diferentes realidades e fortalecer seu papel de “gerente” dos diversos aspectos da ordem. Esses constrangimentos devem ser compensados por vantagens. com base no conceito de segurança coletiva. também destaca que a negociação permanente estabelece os limites da cooperação. ofertam serviços. considerando. a demanda nasce individual. (2008.

por dois anos. Essa distinção entre o parlamento nacional e internacional também é útil para compreender o valor atribuído pela diplomacia brasileira à Assembleia Geral. enquanto no Conselho geralmente se confundem com disposições estratégicas. é essencial que a ONU continue a trabalhar como receptora e organizadora das demandas dos menos privilegiados e divulgadora de boas práticas. procuram modelar a organização como forma de estabilidade. enquanto em um parlamento nacional há uma mobilidade natural dos parlamentares.. 65). nas Nações Unidas a única via rápida de ascensão é a eleição de um país como membro não permanente do CSNU. Por outro lado.32 Os países em desenvolvimento (PEDs) sempre viram a ONU como um instrumento de transformação e. p. Já os que privilegiam a estabilidade (no que às vezes coincidem com os PEDs) a querem seletivamente. especialmente no CSNU. diante da baixa probabilidade de que nas Nações Unidas se negociem novas ordens econômicas – devido à proeminência da OMC –. 2008.. Fonseca Jr. 46). na Assembleia eles se exprimem em valores. mais obediente a interesses estratégicos do que a uma perspectiva universal do que interessa à comunidade internacional. enfim. esvai-se o capital. e o resultado é que a oferta produzida pela ONU é modesta na área.. nasce do soft power. partindo da constatação de que os Estados atuam com base em interesses. (FONSECA JR. Nestas considerações ficam claras algumas das motivações por trás do pleito brasileiro por um assento permanente no CSNU. tendem a concentrar-se nas demandas de legitimidade e a trabalhar com uma noção de eficiência que significa ampliar serviços. reformas institucionais na Organização.. ainda que temporária. pois revelariam a disposição da comunidade internacional a articular políticas comuns. É. um capital que não se transfere. p. o CSNU é o único teatro da ONU. O eleito passa a ser ‘cortejado’ pelos membros permanentes em votações difíceis e alcança visibilidade. fazendo com que a revelação das mesmas seja um passo para superá-las. Os países desenvolvidos (PDs). Ele considera que. o embaixador pondera que diferenças que nascem fora da Organização se expressam nela de forma organizada. Fonseca Jr. Ele propõe que no jogo político em um parlamento multilateral como a ONU a influência. (FONSECA JR. em sua maioria. constata que. além de identificar eficiência com emagrecimentos burocráticos. 2008.) De um lado. . já que o Conselho é o único cenário teatral da Organização24. portanto. na mesma obra: com sua sala própria e seus poucos membros. (. assim como num parlamento de Estados. órgão onde os que decidem (os cinco permanentes e os dez não permanentes) são observados pelo restante dos Estados. Numa visão otimista. são fundamentais. afirma que. Na visão do embaixador. da capacidade de mobilizar pelas ideias. Finda a participação no Conselho. ganha importância política. 24 Esta parece ser uma referência a uma ideia de Marcos Azambuja apresentada por Fonseca Jr. quem demanda transformação dirige-se essencialmente aos que resistem a mudanças. contudo..

vale mencionar a oposição que ele estabelece entre a utopia e o conjunto de interesses específicos que estão por trás da criação de organizações como a ONU. Prevaleceu ao longo do tempo uma visão positiva do multilateralismo. 87). A reação a este paradigma incluiu a adoção da visão da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal). p.33 Por fim. em parte. O presente 25 Como argumentos. embora a valorização do multilateralismo seja uma constante na política externa brasileira em décadas recentes. propõe que. o pensamento e a prática da diplomacia do Brasil não foram lineares quanto ao alcance da ação multilateral. com a avaliação de que as Nações Unidas nasceram do pragmatismo e do realismo. instaurando uma divisão ideológica sem vantagens para o desenvolvimento. a promoverem a institucionalização do multilateralismo com a criação da ONU: para a URSS. organizando uma comunidade baseada na lei. Ele destaca os objetivos políticos que levaram as potências. Essas duas conjunturas podem ser associadas às fases descritas por Cervo como período de esforço para reformar a ordem internacional (de 1960 a 1980) e de estabelecer reciprocidade entre estruturas hegemônicas e países emergentes (desde 2003). . sem impedimento para a expansão do socialismo. Isso aconteceria a partir de trabalho consciente e calculado. “a partir desse momento. a bipolaridade submeteu o multilateralismo desde o fim dos anos 1940. sobretudo os EUA. mas essa avaliação foi afetada pela percepção de que dois desvios comprometeram sua utilidade para o país. com a paz sendo fundada. para os europeus. seguindo uma política de contenção pela integração. Ele conclui que. O embaixador concorda. Em um esforço para ir além de uma possível tentativa de explicar a Organização pela necessidade de estabilidade da comunidade internacional. (2008. marcada pela globalização assimétrica. No segundo momento há a percepção de que a distribuição de benefícios com o fim da bipolaridade é desigual. e não do idealismo utópico 25. mas o país não seguiria o modelo de alianças europeu e pretendia dar à URSS um lugar privilegiado. significava a ratificação de uma nova situação de poder. centro-periferia. de um lado. mais precisamente. ou. baseada não no eixo LesteOeste. mas sim no eixo Norte-Sul. porém. Fonseca Jr. O diálogo seria condição fundamental para bloquear a irracionalidade da busca por poder. O autor parte do princípio de que. 87) sustenta que era inevitável que os EUA passassem a exercer influência global após a Segunda Guerra. era o reconhecimento de sua situação de império. o pensamento utópico sustenta que as relações dos Estados devem seguir o modelo parlamentar. a história do multilateralismo é. é possível retomar considerações de Cervo (2008a) sobre a inserção multilateral brasileira. a maneira como evolui a aceitação dos constrangimentos pelas potências que os criaram” (p. Primeiro. Fonseca Jr. A partir dessa última observação.

Seu objetivo seria superar o equilíbrio de poder. influenciada pelo declínio econômico dos EUA e pela ascensão do Japão. no entanto. 1. posteriormente. previa-se a prevalência do multipolarismo. 1998. que é outro dos três esquemas. que entre uma e outra fase há momentos que se aproximam destas duas caracterizações. o que se vê é a superioridade dos EUA nas organizações multilaterais. sem que elas sejam a tônica da política externa por muito tempo ou de forma dominante. Não se discute. que vigorou em parte da Guerra Fria.1 e 1. quanto por parte de elites políticas. ou “equilíbrio pelo terror”. as transformações a que se assistiu permaneceram pouco claras e foram objeto de intensos debates. E mesmo com uma recuperação da importância do multilateralismo para as relações interestatais.1 Fatores de ordem externa e seu impacto sobre a ONU Entre três formas de ordenamento internacional que prevaleceram nos últimos dois séculos. porém. sustentando -se sobre o . revertidas ao longo dos 1990. no entanto. 1). É essa posição que será apresentada na próxima seção deste capítulo.2. sua influência sobre a política externa brasileira é o que será abordado nos itens 1. 1. A retomada do pleito por um assento permanente no CSNU é um desses momentos. p.2. Completando o grupo está a ameaça nuclear de destruição recíproca. a começar pela ONU. a proposta embutida na criação da ONU se aproxima mais de uma concertação multilateral (AMORIM.2 do presente capítulo. O impacto dessas transformações sobre a Organização e. Já no fim dos anos 1980.2 Fatores de orde m externa e interna na retomada do pleito O fim do século XX é caracterizado por mudanças significativas no cenário internacional. Por alguns anos. As perdas americanas foram. no entanto. que ficou (ou está) em discussão por um longo período.34 trabalho sustenta. tanto do ponto de vista acadêmico. em 1989.2. que o fim da Guerra Fria – prenunciado pela queda do Muro de Berlim. e selado pela dissolução da URSS em 1991 – levou à substituição da bipolaridade por uma nova ordem.

deixando o Conselho e o secretário-geral com a tarefa de reunir forças a cada crise abordada. Tal plano voltou a ser considerado uma realização possível diante da convergência que pareceu se impor após o fim da Guerra Fria. Antes de discutir as análises otimistas acerca da conjuntura internacional e seu impacto sobre a ONU no início dos anos 1990. e a resposta dada com a criação do Pacto de Varsóvia. no qual um diretório de potências deteria o controle sobre as decisõe s de segurança coletiva” (PATRIOTA. cujo funcionamento foi acertado na conferência de Ialta. p. meses depois de Ialta. porém. o estabelecimento do bloco soviético no leste europeu pôs fim. em 1955 26. Nenhum Estado concluiu um acordo deste tipo.com a ONU. à expectativa de cooperação em que a ordem do período pós-Segunda Guerra deveria se basear. O dispositivo prevê que todos os Estados membros concluam acordos com uma Comissão de Estado Maior para dotar a Organização de forças militares. bloqueasse a atuação do órgão que – como será demonstrado – é o mais importante da Organização. A divisão bipolar ficaria ainda mais clara após a formação da Otan. primeira ação coercitiva 26 O desacordo entre URSS e EUA na ONU ficou nítido na incapacidade das potências de cumprir com o que está estabelecido no Artigo 43 da Carta das Nações Unidas. em 1949. Já na Guerra da Coreia. é importante destacar alguns pontos que marcaram a trajetória da Organização e o impacto de fatores de ordem externa sobre ela até este momento de “euforia”. Este diretório tomou forma no CSNU.35 poderio bélico de EUA e URSS. em fevereiro de 1945. passando pela breve experiência da Liga das Nações. suspendendo o sonho de manter a ordem por meio da cooperação entre as potências. Os desentendimentos já marcavam a ONU antes que a influência da bipolaridade impedisse a construção do consenso que condicionava a atuação do CSNU e. até tomar feições universais – para alguns. 17). portanto. o pleno funcionamento do sistema de segurança previsto na Carta das Nações Unidas. No início das discussões sobre a ordem internacional no pós-Segunda Guerra. mais realistas . rapidamente. não havia acordo entre os vitoriosos acerca das Nações Unidas. Antes da Segunda Guerra. Para Weiss. 1998. . Sob a liderança do presidente americano Franklin Roosevelt. a concertação multilateral foi proposta em diferentes momentos. Forsythe e Coate (2001). o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o líder soviético Josef Stalin – que concordava com o regionalismo proposto pelo Reino Unido e discordava tanto da presença da China como da França entre os membros permanentes do CSNU – foram convergindo em direção a um “organismo aberto à participação geral. As tensões entre os governos americano e soviético impediram.

28 O Conselho e a Corte Internacional de Justiça são os únicos órgãos cujas decisões têm caráter obrigatório. o impasse gerado pela bipolaridade seria determinante para as ações da ONU27. segundo o qual ela fica impedida de elaborar qualquer recomendação – suas decisões não têm caráter obrigatório – quando o CSNU estiver exercendo suas funções sobre um caso específico. pouco depois do início da guerra. Tratava-se de um protesto contra a ocupação por Taiwan do assento que seria da República Popular da China. A medida deu ao órgão o poder de considerar questões paralisadas no Conselho por um veto e de autorizar o uso da força. a maior parte dos seus integrantes não a considerasse sequer como um espaço onde as grandes potências viriam a negociar soluções para suas desavenças. O documento é marcado pela importância atribuída ao CSNU em comparação com os demais órgãos da Organização 28. segundo Luard (1993). o que levou as Nações Unidas a serem tidas como um instrumento da Guerra Fria. ou “ameaças à paz”. o documento regulamenta com grau de especificidade sem precedentes as condições para autorização de ações coercitivas para a preservação da paz. os soviéticos bloquearam – por meio do veto – qualquer resolução sobre o conflito. flexibilizando algumas disposições da Carta das Nações Unidas.36 conduzida em nome das Nações Unidas. a promover a aprovação na Assembleia Geral da Resolução 377. Mas os juízes da Corte são indicados pelo CSNU e é a este órgão que os Estados devem recorrer caso uma decisão do primeiro seja desrespeitada. termo consensual – não são descritas com precisão no documento de fundação da Organização. O diplomata salienta. A partir daí. a conjuntura da bipolaridade fez com que nos primeiros dez anos da Organização. O bloqueio soviético em relação às medidas relacionadas à guerra levou o então chanceler americano. . no entanto. Apesar de tal configuração. “rupt ura da paz”. em 1950. pelo artigo 12. que ficou conhecida como “Unidos para a Paz”. A Organização era instrumentalizada como um meio para que a maioria 27 Quando foi autorizada a intervenção em defesa da Coreia do Sul. ao menos nas questões de segurança. em agosto de 1950. a diplomacia soviética boicotava o CSNU. É possível dizer que a falta de clareza da Carta contribui ainda para que os julgamentos do CSNU sejam de cunho eminentemente político. como defendeu a URSS durante as negociações para criação da ONU. como preferiam os britânicos. Dean Acheson. Apesar de ter levado a um armistício em 1953. o que torna o julgamento do CSNU menos jurídico que político. Em relação à Assembléia Geral. que as três expressões que definem as situações em que tais ações podem ser autorizadas – “agressão”. Na avaliação de Patriota. a operação liderada pelo governo americano enfrentou entraves a partir da volta da URSS ao Conselho. a “superioridade” do Conse lho era garantida.

Isso porque é quase consensual a constatação de que. total alcançado em 1965 (DUARTE. a Unef I – que contou com participação do Brasil – é relevante na história da Organização por ter resultado de uma superação ao veto de dois membros permanentes do CSNU: França e Reino Unido. ao menos em suas posições na Organização. e pela criação da Força de Emergência das Nações Unidas para lidar com a crise do Canal de Suez (Unef I). a Organização passou. “O que a maioria dominante ac abou esquecendo é que não permaneceria eternamente como maioria”. de 51 membros para 117. Com os soviéticos frequentemente apoiando as posições dos países em desenvolvimento. Devido em grande parte à consolidação de novos Estados. Se nos seus primeiros anos as Nações Unidas eram apontadas pela URSS como domínio dos EUA. os países em desenvolvimento conseguiram abrir espaço na ONU para seus pleitos. a AGNU já havia mostrado relevância ao ter sido responsável. diz o autor. ou seja. Antes disso. os países do Movimento dos Não Alinhados não sustentaram sua proposta de distanciamento dos blocos socialista e capitalista que polarizavam o mundo na Guerra Fria. Aprovada em 1956 com base na resolução “Unidos para a Paz”. KINGSBURY. 1995). Mas. para Howard (1995). o caso mostra que a Organização só poderia agir contra uma agressão com a concordância das duas superpotências que protagonizavam a Guerra Fria. . a emergência do Terceiro Mundo terminou invertendo a situação. em certa medida. em 1947. e se fecha com a escalada da guerra do Vietnã. que se abre com a construção do Muro de Berlim e a crise dos mísseis em Cuba. em duas décadas. 2009) 29. Em análise sobre a conferência. tentasse mostrar que o mundo estava ao seu lado. mas já tinha seu lugar assegurado na Organização e é considerada um dos 51 Estados fundadores da ONU. e também em função dos esforços para reduzir seus impactos negativos. a lém de ser considerada a primeira operação de paz da ONU. Apesar dessa rigidez da bipolaridade. A situação começa a mudar com a ampliação do número de membros da ONU e o já citado Movimento dos Não Alinhados. como se vê na criação da Unctad. só havia de fato duas potências que “contavam”.37 Ocidental. começou a se fortalecer nos EUA a percepção de que a ONU se voltava contra o Ocidente (ROBERTS. Ricúpero (2002) diz que ela encarna em sua primeira fase o espírito da tumultuada década de 1960 – apontada por ele como o apogeu da Guerra Fria –. O 29 A Polônia não participou da assinatura da Carta das Nações Unidas na conferência de São Francisco. em junho de 1945. pela criação do Estado de Israel. conquistando vitórias em votações.

15 . p. à qual se opuseram França e URSS (EUA e Reino Unido se abstiveram na votação e. Pensou-se mesmo que a correlação de forças se havia modificado em favor dos subdesenvolvidos na década de 70. “Era algo a ser conquistado. do Egito. 69). cujas causas seriam diversas: a guerra travada por tropas americanas no Vietnã. se necessário por meio de luta. as potências passavam por cima da Organização (WEISS. da emergência da OPEP. Sukarno. em 1979. A ONU. Trata-se do período de coexistência pacífica entre as duas superpotências30. tinha criado a ilusão de um Terceiro Mundo. dos socialistas de obediência soviética ou chinesa. p. em 1972. 1995. As últimas duas décadas da Guerra Fria configuraram o período em que a ONU ficou mais marginalizada pelas potências. que passou a ser buscada pelos países em desenvolvimento não mais por meio da manutenção da ordem. à eleição de Mikhail Gorbachev. já com as suas áreas de influência estabelecidas. na maior parte dos anos 1970 e mais ainda nos 1980. mas pela justiça. e neste mesmo ano começam as negociações em Helsinque a respeito da Conferência sobre a Segurança e Cooperação na Europa” (BERTRAND. possível mediador entre o Primeiro. Uma mostra de que os países considerados menos poderosos obtiveram algumas conquistas em seus embates contra as potências foi a ampliação do CSNU em 1965. da derrota americana no Vietnã. 2001). Para Ricúpero. A ação de fortes personalidades. COATE. outros autores destacam que na chamada “Segunda Guerra Fria”. e o primeiro dos choques do petróleo. seguida pela renúncia de Nixon [então presidente dos EUA] após o Watergate [escândalo envolvendo escutas telefônicas]. (RICÚPERO. as tensões entre UURSS e EUA voltam a se agravar. entre os membros permanentes. por obra dos dois sucessivos choques do petróleo. Nasser. dos países capitalistas ocidentais. mais do que preservado” (HOWARD. 1995. deu voz a pleitos do Sul. FORSYTHE. como Nehru. que iria da invasão do Afeganistão. via-se neste momento uma concepção utópica de que havia possibilidade de negociar a redistribuição da riqueza e do poder das nações por meio da ação diplomática. p. o que fez com que os protagonistas do conflito bipolar. O domínio da Assembleia Geral pelos países em desenvolvimento transformou as Nações Unidas em palco para o confronto Norte-Sul.38 diplomata aponta em seguida o advento do que chama de o “terremoto dos anos 1970” . o fim do respeito nos EUA à paridade cambial instituída pelo sistema de Bretton Woods. em 1985. no entanto. apenas a China votou a favor). . Eles refletiam uma nova concepção sobre a paz internacional.16). e o Segundo. 56). a guerra entre israelenses e palestinos em 1973. Apesar disso. da Índia. Nessas circunstâncias. 2002. Tito da Iugoslávia. Embora alguns autores apontem o aumento do número de membros não-permanentes (de seis para 10) como apenas uma tentativa de fazer o Conselho 30 “É a partir de 1969 que começam as negociações diretas para culminar no primeiro acordo de controle dos armamentos. da Indonésia. não precisassem da ONU para seus contatos.

46). é importante observar que a alteração deu a eles mais poder frente aos permanentes 31. Desde o início dos anos 1970. fortaleceu o princípio da negociação. progressos sociais e o surgimento de novas identidades nacionais. p. p. de outro lado. é a reviravolta da conjuntura econômica. considera que o momento de glória das Nações Unidas se estendeu por 20 anos. avalia Amin. havia uma nítida divisão entre os países do Sul: os que produzem petróleo e ganham com o aumento dos preços e. mas antes disso o Terceiro Mundo já dava sinais de desagregação. impediu as intervenções brutais que haviam sido prática corrente no período dos impérios coloniais. no compasso das mudanças que p useram fim à Guerra Fria. mais legítimo –. Para alguns autores. 195) afirma que. . Essa situação mudou logo após o fim do conflito bipolar. Fonseca Jr. todos os permanentes e um não permanente podem se abster que. Entre elas está a ascensão ao poder de Mikhail Gorbachev na URSS. e as operações de paz da ONU. uma resolução poderá ser. com as mais altas taxas de crescimento da economia da modernidade. 2001). a partir daquela década. Além disso. A ONU facilitou estas mudanças. que atingiria o auge com o governo Ronald Reagan nos EUA. em tese. aprovada. por exemplo. Terminou ajudando a fortalecer o multilateralismo. ele foi levado a promover a integração da URSS à economia mundial e reduzir as tensões Leste-Oeste. que o período de decadência das Nações Unidas começa em fins dos anos 1960. Outros analistas afirmam. que pôs fim ao apogeu da Organização. o que chama “período de Bandung” foi marcado por um balanço positivo. durante a Guerra Fria. Com isso. e. (1998. com a revalorização do multilateralismo – como será visto adiante –. com a crise financeira da Organização e o distanciamento cada vez maior das grandes potências. Mas o processo que pode ser entendido como uma revalorização da ONU começou ainda neste período. debilitados pelo governo 31 Desde então. COATE. gerador de uma significativa fonte alternativa de legitimidade”. no plano econômico. FORSYTHE. no entanto. de forma geral. mesmo assim. No esforço para realizar reformas internas. a unidade entre as nações em desenvolvimento era mantida pela oposição ao Primeiro Mundo. as discordâncias durante as votações formais diminuíram diante do esforço que passou a ser feito para buscar o consenso em consultas prévias (WEISS. “os interesses de poder podiam ser tão evidentemente unilaterais que se abre espaço para construção de um processo de contra-hegemonia. Para ele. os importadores. Amin (2005.39 parecer mais democrático – e. Entre outros fatores. portanto. de 1981 a 1989. de 1955 até 1975.

54). 34 Para Weiss. aquele ano e o anterior marcaram a retomada destas iniciativas. elogios ao trabalho dos soldados das operações de paz. quando pregou a aplicação do “novo pensamento” doméstico soviético à abordagem dos conflitos internacionais. e no Afeganistão 33. e apoio a rebeldes na Nicarágua. no jornal oficial Pravda. Apenas nestes dois anos. Ao mesmo tempo. defendendo que as Nações Unidas tivessem papel mais central na política internacional. resultava da necessidade do país de se retirar dos conflitos em que estava envolvido e se concentrar em sua recuperação econômica. Guatemala. El Salvador. quitou uma dívida de US$ 200 milhões com a ONU. um artigo que se tornaria um marco. de fato. A mudança. a Organização criou cinco destas missões: Ungomap (de 1988 a 1990) para monitorar a retirada soviética do Afeganistão. as superpotências ensaiam atuação conjunta para a 32 Após uma década sem operações de paz. p. quando o governo americano se recusara a pagar seus compromissos com as Nações Unidas. Honduras e Nicarágua o cumprimento de compromissos para cessar a ajuda a movimentos insurretos na América Central. Forsythe e Coate (2001. segundo Weiss.40 Reagan – considerado até então o mais unilateral da história moderna dos EUA – e por sua desconfiança em relação à Organização. no plano regional. os EUA davam demonstrações de unilateralismo com intervenções em Granada e na Líbia. sobre a relação dos EUA com a ONU. A revisão da posição soviética ficou clara em 1987. A reação americana foi inicialmente cautelosa (WEISS. quando Gorbachev escreveu. 2). E foi justamente uma operação de paz da ONU que ajudou a realizar a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão. em 1989. Reagan mudou publicamente de posição em relação à Organização. inclusive. Untag (de 1989 a 1990) para monitorar a realização de eleições na Namíbia e a retirada da África do Sul. COATE 2001. a data “serve como ponto de inflexão para discutir as atividades de segurança da ONU durante e após a Guerra Fria”. Forsythe e Coate. a URSS. Uniimog (de 1988 a 1991) para monitorar o armistício entre Irã e Iraque. encerrando uma guerra custosa para a URSS 32. . que ganharam o prêmio Nobel da Paz naquele mesmo ano 34. Onuca (de 1989 a 1992) para monitorar em Costa Rica. Fonseca Jr. Mas. resume o momento: Da ascensão de Gorbachev à queda do muro de Berlim. p. 33 Vale ressaltar que as cinco situações tem características particulares bastante distintas. em Angola. A relação com a Organização foi oficialmente redefinida por Gorbachev em seu discurso na Assembléia Geral em 1988. como um pilar da segurança global. ainda em 1988. especialmente na África. Motivações à parte. Ele fez. a mudança geral de atitude soviética terminou tendo influência. A falta de cooperação de Washington atingira seu auge entre 1985 e 1987. começa a se acreditar que haveria uma reversão da corrida armamentista e. aceleram-se os esforços pelo desarmamento. No mesmo ano. FORSYTHE. Unavem I (de 1988 a 1991) para monitorar a retirada cubana de Angola.

como a promoção da autodeterminação e dos direitos humanos ou o combate à pobreza. por um ato cristalino de agressão condenado pela virtual totalidade dos membros da ONU. a URSS recebeu benefícios de Washington para não usar o veto (WEISS . e mais a outras áreas e ações. KINGSBURY. COATE. Por insistência dos EUA. atraindo interesse sobretudo dos países em desenvolvimento (ROBERTS . levando uma coalizão de 28 Estados a dar início. 2001. Desde o início. à primeira operação de imposição da paz (sem consenso das partes) no período pós Guerra Fria (WEISS.41 pacificação de conflitos. p. com Moscou tentando desacelerar o processo. a data de 15 de janeiro foi estabelecida como prazo depois do qual a ONU usaria a força em caso de descumprimento das determinações por parte do Iraque. pela timidez da China. Não obstante. mesmo nesse período de grande atividade. e a ONU foi questionada por diversos aspectos da guerra. 35 Algumas análises indicam que o Conselho aceitou a intervenção militar sem avaliar se as sanções econômicas haviam sido insuficientes. entre eles a proporcionalidade das ações – a coalizão sofreu cerca de 200 baixas. menos relacionada à busca por paz entre as potências. o Kuwait. dois dias depois. 1995). como diz Kissinger. ela influenciaria a ação subseqüente do Conselho de Segurança (. ao menos temporariamente. enquanto entre 50 e 150 mil iraquianos foram mortos 35. 1998.. Na visão de alguns autores. Patriota resume: Tornada possível pela desestruturação da URSS.. 74). As discussões no CSNU foram ditadas pelos contatos entre EUA e URSS. A China também não era a favor. O governo soviético investira bilhões de rublos no Iraque e insistia na possibilidade de um ente ndimento político. 206). trazendo o debate sobre segurança coletiva para o topo da agenda internacional. A ONU era. 2001). portanto. bastaram quatro dias para que o CSNU agisse e estabelecesse sanções econômicas contra o país de Saddam Hussein. FORSYTHE. mas. em certa medida. (PATRIOTA. pela desorientação do não alinhamento. nova resolução autorizou os Estados membro a usarem “todos os meios necessários” para retirarem as tro pas iraquianas de dentro do território kuwaitiano. 45). pela Guerra do Golfo. Inicia-se o processo de revalorização das Nações Unidas. A ocasião se tornou imediatamente um marco por ser a primeira vez em que os cinco membros permanentes do CSNU autorizavam uma ação militar para reverter um ato de agressão. FORSYTHE. O governo iraquiano não acatou a ordem. assim como. a ofensiva foi cercada por divergências. (1998. p. Em novembro de 1990. mais um caso à parte que um divisor de águas. a Guerra do Golfo foi. embora os impactos do envolvimento da Organização neste conflito sejam discutíveis. Esta conjuntura foi alterada. a Organização continuou sendo apenas um dos foros para abordagem de questões de segurança. COATE. no entanto. em agosto de 1990. .) e despertaria um interesse inusitado pelo trabalho do órgão. p. Quando o Iraque invadiu.

que é integrado à articulação coletiva no CSNU36. 2001). Prevaleceu nesse período uma “análise otimista e mesmo eufórica das transformações internacionais. p. 2009. especialmente economia de mercado. 2002). Essas transformações permitiram a intensificação do processo de globalização baseado em valores ocidentais comuns. FORSYTHE . COATE. das 42 resoluções aprovadas. O ano de 1991 – com os americanos vitoriosos na Guerra do Golfo em fevereiro e a dissolução da URSS confirmada em dezembro – pode ser considerado um marco para o surgimento da prática de uma nova forma de realismo no Conselho.42 Do ponto de vista do processo decisório do CSNU. 62. em 1991. Desde então. a proporção de resoluções por consenso vem aumentando: em 1990. Ao mesmo tempo. com os “Não Alinhados” sendo aparentemente forçados a se render à globalização e optar entre aceitar ou rejeitar a integração a um sistema único de relações comerciais e financeiras em que os EUA eram os mais poderosos. as decisões consensuais corresponderam a 85. O resultado no plano econômico foi a subversão da identidade do antigo Terceiro Mundo.4% foram decisões consensuais. os EUA conseguiram transformar o consenso em método. vista até então co mo uma demanda dos países em desenvolvimento. Em relação ao posicionamento político dos Estados. além de deixar os EUA em posição de liderança rara. 84 e 85) . ao passarem a exercer liderança quase absoluta. o fim da Guerra Fria também tornou mais difícil para os países em desenvolvimento se opor aos países industrializados na ONU simplesmente por estarem de “lados opostos” (WEISS. 158). descrito por Castro (2009. passava a ser interpretada como uma 36 Realismo multilateralista “representa a sistemática assimétrica de governança hegemônica cen trada no mecanismo decisório consensual do CSNU” (CASTRO.5%. Nota-se também no início da década uma crescente convergência em direção a posições liberais sobre o comércio internacional (RICÚPERO. Não seria mais a forma tradicional. democracia e di reitos humanos. p. e sim o realismo multilateralista. que apontariam para o surgimento de uma ‘comunidade internacional’ racionalmente orientada”: a “nova ordem internacional”. do total de 24 resoluções aprovadas. em que nenhum impedimento político é suficiente para evitar que um Estado aja apenas em nome de seus interesses e da preservação de seu poder. na esperança de serem socorridos por uma das duas superpotências. enquanto alguns governos tomavam iniciativas inflacionárias na Guerra Fria. a partir dos anos 1990 o debate sobre a necessidade de estabilidade começa a dar lugar à discussão sobre como alcançá-la.

Em conjunto. tornada possível pela vitória norte-americana contra a União Soviética e contra a agressão iraquiana” (p. 37 Para Patriota. sobre sua formulação. previa a criação de uma força de reação rápida e de um fundo mundial. e abria caminho para a liberação de operações de manutenção da paz sem consentimento local. não houve propostas de soluções políticas por meio da criação de novas instituições internacionais. um Tratado de Versalhes. o presidente francês François Mitterand estava em fim de carreira. A Rússia acolheu as propostas. as medidas da Agenda para a Paz. o presidente russo Boris Yeltsin estava ansioso por ser aceito como parceiro do Ocidente. O tema do documento. porque não foi possível identificar com clareza os defeitos da ordem anterior. que propôs em resposta uma Agenda para o Desenvolvimento. provocariam altos custos financeiros. distribuído em junho de 1992. ao contrário dos períodos posteriores à primeira e à segunda guerras mundiais. aumentariam o poder de decisão da ONU frente aos Estados membros em relação às questões militares e dariam prioridade às questões de segurança. exvice-chanceler de Gorbachev. se atendidas. PATRIOTA. As divergências entre os dois lados ficariam mais claras após a publicação do relatório intitulado “Agenda para a Paz”. e o primeiro-ministro chinês Li Peng ainda estava acossado pela condenação internacional após o chamado massacre da Praça da Paz Celestial. em 1989. encomendado na reunião ao então novo secretário-geral. faltou uma liderança e o encontro virou palco de manifestações de expectativas desencontradas entre os países do Norte e do Sul 37. a falta de apresentação de receitas institucionais aconteceu. 38 O documento ressuscitou a proposta de fornecimento de tropas mencionada no Artigo 43 da Carta. Segundo Patriota (1998). De acordo com ele. Reino Unido.43 “construção de todos” (SILVA. 2009. estabelecia a cobrança de juros sobre pagamentos atrasados. em grande medida pela influência de Vladimir Petrovsky. . Para além dos membros permanentes do CSNU. Boutros Boutros-Ghali. França e EUA fizeram algumas ressalvas. 1998). favorecendo as potências – segundo algumas avaliações – e negligenciando a promoção do desenvolvimento (CASTRO. era a diplomacia preventiva e a capacidade da ONU de realizar operações de estabelecimento e de manutenção da paz 38. em parte. ou uma Conferência de São Francisco. grande parte do mundo em desenvolvimento também foi contra. A China desaprovou. a Reunião de Cúpula do CSNU em janeiro de 1992 é apontada pelo diplomata como “o grande encontro multilateral celebratório de uma nova era. 1998). misturava a solução pacífica de controvérsias (associada ao capítulo VI da Carta) às respostas coercitivas (previstas no Capítulo VII). Mas. o primeiro-ministro britânico John Major havia acabado de assumir o cargo. entretanto. A ONU estava fortalecida e. 48). embora a Guerra Fria não tenha sido encerrada com nada semelhante a um Congresso de Viena. inclusive o Brasil.

Mais operações foram realizadas entre 1987 e 1993 do que nos 40 anos anteriores (URQUHART. que ocupava a presidência do CSNU. COATE. No caso da Somália. 1995). quando foi aprovada a resolução que pôs fim à Guerra do Golfo. ao expor as 39 Para além do resultados das operações nestes países. tentou influir para que o processo de reconciliação no país tivesse enfoque mais político e menos militar. que não são os alvos originais dos mecanismos de segurança desenvolvidos na Organização . com cerca de 4 mil capacetes azuis. E dessas divisões surgiram muitas das crises que a ONU tentou ajudar a superar e cujos fracassos terminaram destruindo as já citadas ilusões em relação à Organização (ROBERTS e KINGSBURY. mesmo que não mais em Leste contra Oeste. mostrando que de fato havia algum consenso.44 Embora o período de maio de 1990 a maio de 1993 tenha sido o maior sem utilização do veto no CSNU. Entre os problemas mais recorrentes após a Guerra Fria estão conflitos étnicos e religiosos que haviam permanecido abafados pela rivalidade bipolar. o mundo continuava dividido. quando foi autorizada a criação da Unosom II. o Brasil. A primeira missão enviada para Somália chegou ao país em 1992. Quatro situações que se tornaram emblemáticas no início dos anos 1990 foram os conflitos na Bósnia. exercida por Ronaldo Sardenberg. o período de euforia em relação à ONU vai de março de 1991. É o caso das disputas detonadas pela desintegração da ex-Iugoslávia. um ano depois do fim do governo do ditador Siade Barre. restabelecimento da ordem e fortalecimento das instituições. quando foram novamente impostas sanções ao Haiti – após tentativas frustradas de enviar tropas sob a bandeira das Nações Unidas – e na Somália ocorre um dos episódios mais marcantes da operação de paz no país: o corpo de um soldado americano morto foi arrastado pelas ruas de Mogadíscio diante de câmeras de TV. As operações da primeira fase foram encerradas em abril de 1993. encerrada em 1995 sem ter cumprido o objetivo de dar apoio humanitário e consolidar o processo de reconstrução da paz. a própria realização de operações de paz se torna um foco de divergências. 2001). 1995). De acordo com Malone (2004). A Unosom I foi seguida pela Unitaf. Considerada uma oportunidade para confirmar as supostas novas possibilidades de intervenção da ONU no mundo pós Guerra Fria – apresentadas na “Agenda para a Paz” –. na Somália. FORSYTHE. a outubro de 1993. E dos 82 conflitos armados que explodiram na primeira metade da década após a queda do muro de Berlim. com mais de 30 mil soldados. 79 eram guerras internas (WEISS. a operação na Somália. crescem a demanda por elas e seu escopo. Desde o fim da Guerra Fria. em dezembro de 1992. em Ruanda e no Haiti 39. a maioria dos EUA. Isso levou a ONU a ser pressionada a agir nestes casos.

Mas o contingente de capacetes azuis foi reduzido em poucos dias e só voltou a ser reforçado depois de ocorrido o massacre. Depois de passar de uma missão de observação (Unomur) para outra de assistência (Unamir) em 1993. a Unprofor foi enviada para a Bósnia com 15 mil homens. a tentativa inicial de enviar uma missão para o país (UNMIH). os receios das potências em relação a novos possíveis fracassos levaram a uma enorme demora para agir. Em Ruanda. A operação terminou com o novo governo do país insistindo pela retirada das tropas – “embaraçosa para o CSNU” –. passou a ser vista como um sinal de alerta para a reflexão sobre as atividades da Organização. impedindo a ONU de evitar a morte de até 800 mil cidadãos da minoria Tutsi pela maioria Hutu. o que aconteceu em 1996 (PATRIOTA. Em primeiro lugar. Os EUA se envolveram de forma mais intensa depois que o efeito das sanções econômicas impostas ao país provocou o êxodo maciço de refugiados para a Flórida. em 6 de abril de 1994. o que elevou o número de soldados para 50 mil. 1998). 1998. Mesmo com a ajuda da Otan. não estava preparada para lidar com um conflito que envolvia questões militares. foi marcada por uma sucessão de falhas . A missão. com a volta do presidente Aristide. as Nações Unidas já estavam presentes no país há cerca de oito meses quando o genocídio começou. os soldados das Nações Unidas não conseguiram impedir o esforço sérvio por uma “limpeza étnica” que exterminasse os muçulmanos bósnios. No mesmo ano de 1992. a Unprofor foi encerrada após os acordos de Dayton. políticas. levando a questionamentos sobre seus métodos. étnicas e religiosas. mas foi sem dúvida outra crise interna em que a ONU se envolveu. A iniciativa foi considerada um sucesso pelo departamento de operações de paz da ONU. no entanto. . após a derrubada do presidente Jean Bertrand Aristide. Uma força multinacional (MNF) liderada por americanos chegou ao Haiti em setembro de 1994 e conseguiu estabilizar minimamente a situação no país para permitir a repatriação de cerca de 37 mil cidadãos e a suspensão das sanções. Em 1995. que evidenciaram a liderança dos EUA na resolução de conflitos. mas a prorrogação de sucessivas operações indica que este é mais um caso em que a capacidade da Organização de solucionar crises internas é posta em questão (PATRIOTA. O caso do Haiti não chegou a ser uma guerra civil.45 forças da Organização à violência. 119). p.

Apesar das críticas às ações do Conselho. à carência de legitimidade e à falta de consenso entre as potências – e restrição de alianças. as possi bilidades de aliança se ampliam”.2.2 A resposta do Brasil às mudanças e a retomada do pleito Antes de tratar da conjuntura interna brasileira do fim dos anos 1980 e início dos anos 1990. para Fonseca Jr.46 Foi neste contexto de transformações. em função da rigidez do ordenamento internacional. e a menção ao Brasil entre os possíveis membros permanentes da ONU no momento de sua criação. é importante explicar por que a explicitação da candidatura do país pelo chanceler Celso Amorim em 1994 é tratada aqui como uma retomada do pleito pelo assento permanente. havia para os países em desenvolvimento liberdade de proposição – devido. A partir deste raciocínio. Mais do que as semelhanças. mais do que isso. nos anos 1940. o diplomata conclui que durante os anos de rivalidade bipolar exacerbada. questionamentos e incerteza sobre o futuro que a discussão sobre a reforma da ONU e do CSNU passou a ser discutida institucionalmente. Mas “para países como o Brasil. A próxima seção discutirá como tais fatores ligados à ordem internacional e a situação da ONU se associam a fatores de ordem interna na consolidação de uma conjuntura considerada pertinente ao lançamento da candidatura brasileira a um assento permanente no CSNU. As possibilidades de proposição seriam menores em função da aproximação entre o poder e a ordem. p. 1. a situação se inverte. interpretá-las com assentimento amplo (e. assim. Depois. . que podem jogar em muitos tabuleiros. Trata-se de uma referência a duas situações que podem ser mais bem descritas como de expectativa. frequentemente com apoio unânime. (1998. e não de campanha: a possibilidade de ocupar um assento permanente no Conselho da Liga das Nações nos anos 1920. que têm interesses diversificados no plano internacional. “as potências recapturam as condições de ‘fazer as leis’ e. 211 a 214). em parte. conquistando a legitimidade) ”. cabe aqui ressaltar as diferenças entre estes momentos e a conjuntura interna brasileira do fim do século XX. à medida em que ele recupera a possibilidade de ditar resoluções.

o Brasil vê sua pretensão encerrada (ARRAES. Em 1922. 4). a diplomacia brasileira renunciou ao seu assento temporário e. pode ser entendida como uma tentativa de romper com arraigadas características da diplomacia europeia “fundamentada no equilíbrio entre os principais centros de poder e na separação entre moral individual e coletiva” (PATRIOTA. p. Velloso disse-me hoje que o governo obviamente prefere e considera que tem o direito a um assento permanente no Conselho de Segurança. As potências ainda tinham papel privilegiado. Amorim (2003. Ainda assim. No período de negociações que precedeu a criação da ONU. os outros escolhidos na primeira votação foram Bélgica. atesta a falta de otimismo do então chanceler brasileiro Pedro Leão Velloso. a diplomacia do Brasil buscou estar presente no Conselho e. 41 Inicialmente. e quatro membros não permanentes. o que comprometia a capacidade executiva deste diretório. Junto com o Brasil. a presença do Brasil no diretório reservado às potências voltou a estar em pauta. lutamos por isso em São Fr ancisco. Mas o papel desempenhado pelo órgão não era o mesmo que o CSNU viria a ter. porque as cartas já estavam marcadas”. o Conselho era composto de quatro membros permanentes (Reino Unido. Itália. o país passou a cogitar o projeto de lutar por um assento permanente. após a decisão de incluir a Alemanha entre os membros permanentes do Conselho. cuja participação foi impedida pela falta de ratificação do Tratado de Versalhes no Senado americano. ocupou um assento não permanente. mas em 1926. Fazendo referência à Conferência que deu origem às Nações Unidas. 1998). 25) afirma que “em momento algum. sem apoio britânico. em 1944. a concepção original seria do britânico Edward Grey (PATRIOTA. França. em 1919. 9 e 10). . dias depois. anunciou sua retirada da Liga. o Brasil 40 De acordo com Henry Kissinger. mas. por sete anos consecutivos. As gestões da Alemanha por seu ingresso na Liga também estimularam as articulações brasileiras. estimulado pela ideia de ser representante das Américas diante da ausência dos EUA. que eram eleitos pela Assembleia por um período de três anos. compondo o Conselho da Liga com assentos permanentes 41. p. Declaração do encarregado de Negócios dos EUA no Brasil. Negociadores do país viam na presença brasileira no CSNU a possibilidade de ter mais um aliado americano. dessa vez motivada pelos EUA. que se isso não for possível. Grécia e Espanha. 1998. Japão). francês e latino-americano. já que as decisões da Liga tinham que ser tomadas por consenso. 2005. Mas a diplomacia brasileira não chegou a elaborar uma estratégia com este objetivo. Meses mais tarde. p. supostamente inspirada nas ideias do expresidente americano Woodrow Wilson 40.47 A criação da Liga das Nações.

EUA. 11 contra e quatro abstenções. Antes disso. o peso da Assembleia Geral se sobressaiu sobre a posição inicial dos membros permanentes do CSNU. entre os permanentes só a China votou a favor. Quando a ampliação foi consumada. O impasse. A partir do que foi exposto. Defende-se aqui. O que garantiu sua entrada em vigor em 1965 foi o fato de que França.48 deveria receber um dos primeiros assentos não permanentes. no diretório reservado às potências em organizações internacionais. 59 a 65). a URSS exigiu que a questão da representação chinesa no órgão fosse discutida antes disso. 2011. três anos depois de uma proposta de reforma ter sido levado à votação pela primeira vez42. especialmente por europeus e latino-americanos. Vários destes últimos haviam sugerido a i nclusão na agenda da ONU do tema “Questão da representação equitativa no Conselho de Segurança e no Conselho Econômico e Social”. conforme já citado. houve iniciativas de outros Estados pela reforma do CSNU e o órgão passou por mudanças. . Em 1963. Reino Unido e URSS perceberam o custo político de bloquear tal mudança e terminaram ratificando a emenda que criava mais quatro assentos rotativos no Conselho. Houve inclusive três alterações de composição: a já citada ampliação do número de membros não permanentes. que seriam prejudicados (VARGAS. A proposta de aumentar o número de assentos não permanentes no CSNU foi levada à votação na Assembleia e. a medida foi aprovada em dezembro daquele ano. asiáticos e africanos. Ainda assim. no entanto. 57). porém. de forma permanente. que já havia levado os 42 Iniciativa de países africanos e asiáticos. a troca da China nacionalista pela comunista. No primeiro caso. p. a ampliação do órgão foi sugerida a partir de um acordo entre países latino-americanos. Uma emenda à Carta exigia. que o caráter de campanha só deve ser atribuído aos esforços realizados pela diplomacia do Brasil a partir dos anos 1990. Na ocasião. a alteração da composição do órgão estava formalmente em discussão (mesmo que de forma inconstante) havia dez anos. a aprovação de não apenas dois terços da Assembleia Geral. 2011. 2011). é possível afirmar que não é novo o desejo brasileiro de estar presente. p. a proposta previa a redistribuição geográfica de assentos já existentes e foi rejeitada. Acredito que o Brasil se satisfaria com este último. com 97 votos a favor. mas também de todos os membros permanentes do CSNU. e a substituição da URSS pela Rússia (VARGAS. (DONNELLY apud VARGAS. já que em 1955 – com as descolonizações promovendo um grande aumento do total de membros da ONU – alguns países latino-americanos propuseram que a Assembleia Geral discutisse a expansão dos membros não permanentes do CSNU.

os Não Alinhados. liderados pela Índia. é possível concluir que a reivindicação de um assento permanente ficava ainda mais distante 43. fonte de desconforto para a diplomacia brasileira até o governo Geisel. p. tinha como real objetivo legitimar a representação russa. 2011. pressões externas – relacionadas à oposição do país ao TNP e a denúncias de violações de direitos humanos por parte do regime militar – levaram o país a adotar uma postura internacional mais defensiva (VARGAS. no Brasil. um processo de reforma que impulsionou. Vargas sustenta inclusive que a já mencionada cúpula de chefes de Estado de 1992. 43 Entre as questões que levaram o Brasil a não apresentar candidaturas ao CSNU por 20 anos. propuseram a reavaliação da composição do Conselho. mas não houve “condições para que a discussão prosperasse” e o “tema só recobrou momentum após as profundas transformações que se operaram no cenário internacional ao final dos anos 80 e início dos 90” (VIOTTI. portanto. Aspectos de ordem interna ajudam a entender por que o Brasil só assume papel de maior destaque nessas iniciativas nos anos 1990. só foi solucionado em 1971. Os EUA chegaram a apresentar uma proposta alternativa. o país ficou fora do organismo). Na ocasião. Depois da ampliação do número de membros não permanentes em 1965.49 soviéticos a boicotarem o Conselho em 1950. (VARGAS. O ex- .. porém. convocada pelo Reino Unido quando presidia o Conselho. por sua vez. Se tal opção de política externa e questões de política interna terminaram desestimulando a representação brasileira a buscar um assento no CSNU (entre 1968 e 1988. Outras 36 ficaram contra e 17 se abstiveram. que tiveram peso importante sobre as discussões acerca de sua composição: Não se pode perder de vista. 86). O autor também destaca as mudanças na atuação do órgão. mas a maneira como foi realizada e as motivações para tanto trazem revelações importantes para analisar a conjuntura da ONU nos anos 1990. p. as tentativas de se reformar a composição do Conselho. 55). 2009).) é. mas o projeto que passava o assento permanente para a República Popular da China foi aprovado por 76 delegações. que a transformação do papel do Conselho de Segurança na organização do sistema internacional (. defendendo que as duas Chinas tivessem representantes. 2011. descritas nas seções anteriores. por si. A mais recente das três alterações de composição do CSNU não enfrentou oposição significativa. Vargas destaca ainda a questão das descolonizações portuguesas.. A rápida substituição da URSS pela Rússia mostra que havia interesse dos membros permanentes de evitar que o fato abrisse espaço para discussões mais amplas sobre a composição do órgão.

2008. da qual as potências estavam cada vez mais distantes. “O relacionamento com países estratégicos provinha da necessidade de desenvolver projetos de cooperação em áreas específicas e como forma de demonstrar autonomia em relação ao governo dos Estados Unidos” (VIZENTINI. no seu período de governo. reflexo das relações instáveis com o governo americano 45. o país também aprofundou relações com nações de outras regiões. A expansão dos interesses pode ser considerada. Na ocasião. o governo Sarney foi marcado por alterações que tiveram peso relevante para a retomada do pleito brasileiro por um assento permanente no CSNU e levaram o então presidente a abordar a questão da reforma do órgão em seu discurso na Assembleia Geral em 1989. 2011. que foi promovida por Sarney e se tornou uma das marcas de sua gestão 44. e a VII Unctad. assim como se preocupava com a posição do país acerca da questão palestina. Além de ter se aproximado da América do Sul de forma geral. . 434 e 435). na questão da atuação do país na ONU é possível destacar sua relevância no sentido de reduzir as pressões externas que fragilizavam a posição internacional brasileira. em 1986. como a reunião do G-77 em setembro de 1986. 70). porém. na qual o então chanceler Abreu Sodré acusou potências de repassarem ao Terceiro Mundo os custos de seus reajustes econômicos. Apesar de alguns analistas afirmarem que a redemocratização não teve peso decisivo sobre a formulação da política externa. conforme abordado neste capítulo. que poderia “criar-nos dificuldades” (VARGAS. 87). 45 A política de informática e a lei brasileira de patentes farmacêuticas estiveram no centro das desavenças. Postura autonomista também pode ser observada em ações brasileiras na ONU. Ver Bueno (2008b. em julho de 1987. p.50 Os custos políticos de uma participação mais destacada no CSNU somara m-se então à própria situação da ONU. Embora não seja considerado um divisor de águas para a política externa brasileira. Há autores que também atribuem relevância ao fim dos regimes militares em relação à aproximação entre Brasil e Argentina. quando o ministro denunciou desequilíbrios internacionais que chanceler Saraiva Guerreiro temia que a questão fosse levada ao Conselho. em parte. sua proposta foi de criar uma terceira categoria de membros: permanentes sem veto. Já no fim dos anos 1980. não era apenas a Organização que vivia mudanças e passava a ser mais valorizada. p. que provocaram inclusive ameaças de sanções americanas. p. 44 Também é possível estabelecer ligação entre o fim do regime militar e o reatamento de relações diplomáticas com Cuba.

2008b. créditos e tecnologia. 2005. com vistas a aumentar a credibilidade internacional do país para renegociar a dívida externa (PINHEIRO. A crise refletida na moratória decretada em fevereiro de 1987 47 teve impacto sobre o Itamaraty. que abriria caminho para a ratificação do acordo. De fato. que suspendia pagamentos de juros a bancos privados relativos à dívida de médio e longo prazo. 6). O governo de Fernando Collor começou justamente sob grande expectativa com relação à política econômica externa. Bresser em 1987. que foi relativamente afastado da condução das negociações da dívida externa. controle de tecnologias sensíveis. o desempenho brasileiro no período não demonstrou a mesma força. Neste segundo setor. No plano econômico. e Verão em 1989. a proposta de revisão do Tratado de Tlatelolco. foi suspensa em 1988. e uma legislação específica de controle de exportação de armas e tecnologia sensível. levando a uma maior busca por investimento externo direto.51 fizeram da década de 1980 o primeiro período de retrocesso do desenvolvimento no Hemisfério Sul desde o pós-guerra (CERVO. Na mesma área. p. porém. As políticas do governo Sarney para o setor foram marcadas pela instabilidade. a política externa de Collor se centrou na busca pela “inserção competitiva” do Brasil na economia mundial. Collor anunciou ainda em 1990 na abertura da Assembleia Geral da ONU o fim do projeto de realizar eventuais explosões nucleares (ARRAES. Com o fracasso do modelo de industrialização pela substituição de importações. 6 e 7) destacam ainda a assinatura do acordo de criação da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC) e do Acordo Nuclear Quadripartite de Salvaguardas com a Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA). p. expressas nos sucessivos e malfadados planos de estabilização 46. O presidente inaugurou a proposta de intensificar a adesão a regimes internacionais de comércio. baseada na proposta de “modernização pela internacionalização”. e proteção aos direitos humanos e ao meio ambiente. 431). junto com a área de tecnologias sensíveis. a industrialização diversificada começou ser substituída por especialização no setor agrícola e extrativo. 47 A medida. . 46 Cruzado em 1986. p. esta foi a área onde seu curto governo prometia implantar mais mudanças. Já na área econômica. Hirst e Pinheiro (1995. promovendo melhores condições de acesso a mercados.

a desdramatização de relações com os EUA. Neste ponto. presente nos discursos de autoridades do governo Collor. Hirst e Pinheiro listam entre as decisões paradigmáticas a reafirmação de compromissos em relação à não proliferação. Paraguai e Uruguai. No início. Rússia e África do Sul). p. e a aproximação de parceiros potenciais (China. e não aprofundar a divisão Norte-Sul que se observava em instâncias internacionais. por exemplo. A descaracterização do Brasil como país do Terceiro Mundo esteve. Foram mantidas políticas anteriores. tanto no plano externo quanto no interno. o aprofundamento da integração regional. e não de aspirante a membro do Primeiro Mundo. Cabe ressaltar que a própria reforma econômica propagandeada pelo presidente não se completou: entre abertura comercial. Herdando uma imagem internacional do Brasil manchada pela crise do processo de impeachment que levou à renúncia de Collor em dezembro de 1992. privatização de estatais e renegociação da dívida externa. em seu discurso de posse. por exemplo. p. 1 e 3) ressaltam que se tratava mais de retórica do que de uma opção real da diplomacia. que o Brasil estava destinado a entrar. sendo exemplo do estilo “espetacular” do presidente e parte de sua tentativa de estabelecer uma clivagem em relação a antecessores48. com desequilíbrio econômico e choques entre o Executivo e o Legislativo. Índia. 49 50 . que colaborou para a criação do Mercosul 49 . que o Brasil continuou integrando o G-77 e não mudou em relação aos Não Alinhados. Mas autores como Amorim (2003. A partir da assinatura. PINHEIRO. especialmente nas áreas comercial e de segurança 50. só se manteve em andamento a nova determinação sobre comércio exterior.cujo primeiro passo havia sido dado com a aproximação Brasil-Argentina no governo Sarney (HIRST . 7). 56). pouca atenção foi dada à agenda internacional. A estratégia na Rodada Uruguai do Gatt foi mantida e o Tratado de Tlateloco foi ratificado em 1994. do Tratado de Assunção. o governo Itamar Franco começou em contexto desfavorável. que buscou ressaltar oportunidades criadas com o fim da Guerra Fria. no qual Collor disse. de fato. em 1991. No âmbito da política internacional. com Argentina. a conclusão das autoras é de especial relevância para o presente trabalho: 48 Amorim ressalta. mas nota-se a adoção de um posicionamento mais marcado pela condição de país em desenvolvimento.52 2004. 1995. liberalização de investimentos. p. Tal modelo também era visto como um passaporte para o Primeiro Mundo.

53 Foi nos foros multilaterais. portanto. assegurando assim sua adequação à nova realidade internacional. porém. (. 57). p. a América Latina perde um pouco e África reduz sua porcentagem à metade (ALMEIDA. desta forma. Ao menos em parte é possível concordar que. fazendo com que dois candidatos se destacassem naturalmente nas 51 Entre 1980 e 1994. e sim a importância de temas como meio ambiente. quando a agenda internacional era dominada pelas demandas dos países em desenvolvimento por uma nova ordem econômica internacional 51. a estagnação e a deterioração social na maior parte da América Latina e a regressão econômica de muitos países na África. 2001. A partir de então. liberalização econômica.. assim. não favorecia os planos nacionais. p.. Tratava-se de um cenário de “grandes unanimidades”. principalmente. Pinheiro (2004) destaca que ainda no fim do governo Collor a diplomacia brasileira já havia promovido uma retomada parcial do universalismo. p. O projeto de expansão do Conselho de Segurança passou a ser percebido como crucial para ampliar a legitimidade e. e se assistia a uma reversão. de imprimir visibilidade ao país frente à comunidade internacional. outorgar maior eficácia a este órgão. .) Como parte desta ofensiva diplomática. (ALMEIDA. cuja centralidade não era o desenvolvimento (tradicionalmente caro à diplomacia brasileira). 2001. 2005. o governo brasileiro passou a dedicar especial atenção ao debate nas Nações Unidas sobre a ampliação e democratização de seus órgãos. o sudeste da Ásia mais do que dobra sua porcentagem de exportações mundiais. 1). ou mesmo para a simples coordenação de posições”. particularmente nas Nações Unidas. onde melhor percebeu-se uma atuação internacional do Brasil no sentido de reverter o quadro de passividade e. que correspondia a um esforço pelo resgate de princípios que no passado haviam fortalecido a posição do país no cenário internacional. “o discurso terceiromundista ou não alinhado torna-se. levando a um ufanismo sintetizado na expressão do “fim da história” (ARRAES. preparando-se para defender uma antiga pretensão no foro das Nações Unidas. A conjuntura elevava. A conjuntura internacional. 124). este esforço esteve conjugado ao objetivo de assegurar voz e voto no processo de reforma institucional da ordem internacional. Foi neste quadro que o governo brasileiro iniciou campanha como candidato da América Latina a um lugar permanente no Conselho. (1995. naquele momento. 119). direitos humanos. e democracia (PINHEIRO. observava-se a rápida ascensão de “tigres asiáticos”. pouco relevante para a organização de uma ação conjunta. Nota-se praticamente um consenso entre diversos autores em relação ao que se costuma descrever como a fragmentação do Sul: à época. das tendências políticas das duas décadas anteriores. 2004. p. Do ponto de vista econômico. 11 e 12). o peso da economia no posicionamento dos países no sistema internacional. o fim da bipolaridade e a superação de dois modelos de industrialização de países em desenvolvimento (o socialismo de Estado e o nacional-desenvolvimentismo) abriram espaço nesse início da década de 1990 para a prevalência do modelo apresentado como democrático-liberal. p. ao menos parcial.

Amorim já mencionou a necessidade de reforma do CSNU durante seu discurso na Assembleia Geral. Assim como no ano seguinte. Amorim. E um risco muito grande era que se nós não fizéssemos nada. p. Naquele ano. (VARGAS.. 2004). a Assembl eia Geral havia convidado os países membros a apresentarem propostas de reforma do CSNU. respondeu: Era a minha avaliação – baseada nas informações que eu recebia de Nova Iorque. os argumentos apresentados pelo chanceler se baseavam nas ideias de legitimidade. sem mais nada. Como aliás. 2011. Era isso que a Alemanha e o Japão estavam querendo. que seria a incorporação da Alemanha e do Japão. 2011. o tipo de novos membros a serem aceitos. no ano seguinte.. digamos. 66). era o que os Estados Unidos defendiam. estava justamente o temor de que uma reforma rápida beneficiasse somente estes dois países. mas elevá-lo ao nível de. mas sobretudo também dos contatos com os ministros – de que o tema estava colocado. Mais de cem foram entregues (HERZ . era o que muitos dos aliados da Alemanha e do Japão no mundo desenvolvido defendiam. do “Grupo de Trabalho Aberto sobre a Questão da Representação Equitativa e Expansão do Conselho de Segurança” (OEWG). 2003. em 1992.. o que eles chamavam de Quick Fix. que nunca esteve abandonado. A proposta foi aprovada por consenso e levou à criação. (. que aliás. representatividade e eficácia. Questionado sobre por que a diplomacia brasileira julgou que aquele era o momento para lançar a candidatura do país. 67).54 discussões sobre a ampliação do CSNU: Japão e Alemanha – respectivamente. 21).) Foi importante retomar esse tema. e era importante. quando mencionou diretamente a candidatura brasileira. em tempos recentes. mas de praticamente todos os meus encontros bilaterais com ministros de outros países. Fez parte não só do meu discurso na ONU. A Índia e outros 35 países haviam apresentado. É importante destacar que a formalização das discussões sobre a reforma na própria ONU favoreceu a iniciativa brasileira. (AMORIM. projeto de resolução na Assembleia Geral pedindo a inclusão na agenda do tema “Questão da representação equitativa e expansão da composição do Conselho de Segurança” e solicitando um relatório ao secretário-geral com sugestões de Estados-membros sobre a reforma do órgão.. p. haveria uma reforma rápida do Conselho. Então foi possível retomar uma idéia. p. e quais países ou que regiões deveriam ter seus pleitos por maior representatividade atendidos na reforma. Ainda em 1992. HOFFMANN. foi pela primeira vez apresentada aqui pelo presidente Sarney. Por trás do lançamento da campanha brasileira pelo assento permanente em 1994. mas não havia consenso sobre o número de assentos a serem criados. que era à época o chanceler brasileiro. colocar o pé na porta. O relatório apresentado pelo secretário-geral em 1993 mostrou que a maioria dos integrantes das Nações Unidas se declarava a favor de uma eventual ampliação do Conselho. segundo e terceiro maiores contribuintes para o orçamento regular da ONU em 1992 (VARGAS. . continua até hoje.

não chegaram a romper com os princípios analisados aqui mais detidamente: pacifismo. Considerando que cooperação e interesse não são incompatíveis. É nesse cenário que deve ser avaliada a campanha desenvolvida nos governos Cardoso e Lula. Sardenberg afirma a importância da Organização com base em sua relação com a política internacional. As avaliações dos três ex-embaixadores brasileiros nas Nações Unidas citados neste capítulo levam a esta conclusão.3 Conclusão O presente capítulo procurou demonstrar que. apesar de ser largamente influenciada por princípios. É importante ter em mente sua avaliação de que o Brasil nunca se conformou em ter a Organização como simples reflexo das realidades de poder mundial. a política externa brasileira seguiu linhas de atuação razoavelmente diferentes com relação às Nações Unidas. Amorim chegou a afirmar que a proteção da credibilidade do CSNU é um objetivo nacional. Tal perspectiva também será útil para compreender a posição em relação às Nações Unidas e ao Conselho de Segurança no governo Lula. As alterações foram resultado das orientações mais gerais para a atuação diplomática. Indicou-se também que ideias arraigadas no pensamento diplomático compõem o quadro que permite apontar para a relação com a ONU como uma prioridade quase que constante na política externa brasileira.55 apontadas como deficiências a serem superadas pelo Conselho. Em constatação que se tornará mais importante no fim desta dissertação. no entanto. Ainda mais enfático. ele defende que a ONU é um foro privilegiado por permitir entendimento e negociação. 1. quando Amorim voltou ao cargo de chanceler. desenvolvimento como vetor e independência de ação externa. tema dos próximos dois capítulos. determinadas por diferentes governos que. entre os quais há os que se notam mais relevantes para a relação do Brasil com a ONU. mas é igualmente um veículo de transformação da ordem. ele também destaca que a ONU é produto da ordem internacional. seu papel em casos de crise e a possibilidade que abre para estabelecer regras de operação do poder. .

em relação à campa nha pelo assento permanente no CSNU.56 Por fim. os próximos dois capítulos vão mostrar por que é possível dizer que. fatores de ordem externa que influenciam a conjuntura na própria ONU. Para além da posição brasileira em relação à ONU. passa a ter a Assembleia Geral dominada pelos países em desenvolvimento. o governo Sarney impôs mudanças importantes à política externa. vira palco do confronto Norte e Sul e sofre afastamento das grandes potências antes de passar por um período de revalorização. Levando em conta todos os componentes desta equação. que não foi espaço privilegiado de negociações durante a Guerra Fria. Collor tentou inovar. além de circunstâncias de ordem interna. o embaixador argumenta que a reforma das Nações Unidas é importante para mostrar uma disposição internacional a articular políticas comuns. . este capítulo demonstrou também que a conjuntura internacional do início dos anos 1990 teve influência direta sobre mudanças vividas pela Organização e sobre a política externa brasileira. Fonseca Jr. A ONU. considerando que a Organização já ajuda a superar diferenças simplesmente ao revelá-las. especialmente na ONU. Diante desta diferença. Já o governo Itamar se destacou por sua ativa atuação em foros multilaterais. No Brasil. que a postura do Brasil em relação às Nações Unidas é. aponta para outro elemento que ganhará importância ao fim da presente pesquisa: a diferença de objetivos dos países desenvolvidos e daqueles em desenvolvimento em sua relação com a ONU. há novas mudanças de postura entre o governo Cardoso e Lula e o item que tem maior peso é a visão de mundo que se observa por trás de certas diretrizes da política externa de cada período. Conclui-se. os demais trabalham pela transformação da ordem e para garantir uma oferta de serviços oferecidos pela Organização. que envolve princípios tradicionais da política externa brasileira. alterada também em função de constrangimentos internos. inclusive promovendo retorno ao Conselho de Segurança. Enquanto os primeiros buscam legitimidade para suas ações e estabilidade para a ordem internacional. resultado de uma equação complexa. como membro não permanente. Depois. a partir de todos esses fatores. impulsionado pela Guerra do Golfo. buscando espaço no Primeiro Mundo. diretrizes gerais estabelecidas por cada gove rno. Esse contexto de transformação coincidiu com a institucionalização da discussão sobre a reforma do CSNU. sem dúvida. mas enfrentou dificuldades nos planos externo e interno que levaram ao fracasso de sua proposta.

Os outros tipos de crença são as principistas e causais. Conforme apresentado na Introdução. que consiste de comprovação da hipótese nula. e da importância dada ao pleito pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Esses princípios estão presentes tanto no governo Cardoso quanto no governo 52 53 Todos os grifos nos artigos e declarações citados neste capítulo são da autora. será seguida a metodologia sugerida por Goldstein e Keohane. O que os autores definem como “visão de mundo” são concepções de possibilidades que afetam modos de pensar e discursar. que podem influenciar a política externa de três formas. As outras formas como podem influenciar a política e xterna são como “pontos focais” e pela “institucionalização”. . como também já foi explicado no início deste trabalho. respectivamente. uma das situações em que as ideias são importantes se configura quando os atores acreditam nos princípios normativos que tais crenças refletem. Aqui. Para tanto. foram escolhidas as ideias definidas como “visão de mundo” e a sua atuação como “mapas do caminho” 53. da visão sobre a ordem e a conjuntura internacional expressa pela diplomacia brasileira nos governos Cardoso e Lula. a política externa brasileira é influenciada por princípios permanentes que afetam diretamente a visão de mundo expressa pela diplomacia e também servem de base para parte das credenciais apresentadas no pleito pelo assento permanente. A primeira etapa deve provar que são falsas as hipóteses de que i) os fatos apresentado aqui podem ser entendidos apenas com base em “interesses egoístas no contexto de realidades de poder” e ii) que as variações de interesses não são explicadas por variações nas características das ideias. A Introdução do trabalho explica por que elas não são utilizadas. Quando são utilizadas como “mapas da estrada”. inferência descritiva e inferência causal. Como já se demonstrou no Capítulo 1. o modelo de análise parte da definição de ideias como crenças de três tipos.57 2 O GOVERNO CARDOSO A partir deste capítulo. trata-se. o primeiro passo da investigação deve ser a definição das ideias analisadas e os resultados políticos que serão explicados. ganha peso maior a proposta de investigação sugerida por Goldstein e Keohane (1993) para analisar o impacto das ideias sobre a política externa 52. o que vai se demonstrar nos próximos dois capítulos. Seguindo a proposta de Goldstein e Keohane. inferência comprovativa. Entre elas.

e o caminho que liga estes dois objetos de análise. 12) que não vê na “campanha permanente” pelo assento no CSNU “uma busca obstinada de prestígio”. como se trata de uma análise sobre a relevância atribuída a um objetivo comum. não é possível explicá-la simplesmente por mudanças de interesses egoístas. Mas algumas possíveis explicações (a exemplo da prevalência de uma ou outra corrente no Itamaraty) são apontadas como inferências descritivas para mostrar que os comportamentos analisados são parte de um padrão. em última análise. Ainda conforme as orientações abordadas na Introdução. os mesmos interesses – especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento e à manutenção da independência de ação externa (mesmo que com ênfases diferentes). é preciso apresentar inferências descritivas para distinguir comportamentos aleatórios dos sistemáticos e mostrar como os comportamentos refletem crenças. Por fim.58 Lula. p. e sim “uma tentativa de lograr um papel institucional mais forte e formal no gerenciamento da ordem internacional”. destas últimas três etapas: a primeira (2. Em seguida.3) dará conta dos movimentos feitos neste período na busca pelo assento permanente no CSNU. devem ser abordadas as inferências causais. agregando probabilidades. Além disso. que darão conta. a segunda etapa consiste em fazer inferências e duvidar delas. o interesse é o mesmo 54. mostrando a variação combinada de ideias e resultados. .2) apresentará as principais linhas da política externa elaborada então e seus resultados. que privilegia a análise da hipótese de que o peso dado à campanha mudou no governo Lula em função da alteração das ideias predominantes. Cabe apenas reafirmar que o objetivo principal não é explicar por que a visão de mundo adotada foi esta ou por que a política externa se desenhou desta maneira – o que fugiria do escopo da presente pesquisa. a segunda (2. 54 Concorda-se aqui com a afirmação de Costa Vargas (2011. já que. respectivamente. de forma geral. garantindo traços de continuidade entre os dois e mantendo.1) vai analisar a visão de mundo predominante na diplomacia brasileira no governo Cardoso. e a terceira (2. Entende-se que os contextos em que transcorreram os governos Cardoso e Lula não foram diferentes o suficiente para isso. Fatores que influenciaram a perspectiva e as diretrizes da política externa também são úteis para mostrar que as mudanças aqui analisadas não devem ser entendidas como variações inevitáveis diante de certas transformações externas e internas. O presente capítulo se divide em três partes.

quando se fala na consolidação de um novo modelo. o próprio Cardoso. e os alinhamentos internacionais mais instáveis que antes –. Concorda-se. inicialmente. para efeito do resultado final desta pesquisa. e tendo voltado ao cargo. que foi chanceler em 1992 e depois ocupou novamente o cargo de 2001 a 2002. as transformações tecnológicas e sociais cada vez mais rápidas. em geral. o peso das ideias foi grande na passagem do século XX para o XXI. é importante fazer um resgate de mudanças no Brasil e na conjuntura internacional no fi m do século XX para mostrar que. tendo sido chanceler de 1993 a 1995. de 2003 a . que há uma “crise de paradigmas”. Ainda assim. até mesmo ao governo Itamar. que substituiu Cardoso. mas . a primeira observação que se faz relevante é sobre a falta de consenso entre as análises da política externa brasileira do início da década de 1990. a ênfase agora será outra: de que maneira as alterações observadas nos governos Collor e Itamar se fizeram presentes ou foram deixadas de lado no governo Cardoso? Tal exercício tem como objetivo mostrar que. permanecendo vinculados ao modelo de desenvolvimento (este sim bastante alterado). mas é válido retomar alguns pontos dos dois primeiros governos brasileiros da década de 1990 e analisar as continuidades e mudanças que se observam no período Cardoso. e Celso Amorim. Embora o tema já tenha sido abordado no capítulo anterior. em menor número.1 Da nova orde m internacional à globalização assimétrica Voltando à primeira etapa sugerida por Goldstein e Keohane. enquanto outros a atribuem ao governo Cardoso e. Para responder à pergunta.59 2. que. em um contexto de incertezas – com a divisão de poder no mundo em intenso debate. embora haja variações. há autores que a situam já na segunda metade do governo Collor. não cabe aprofundar esta discussão. elas não impedem a manutenção de características permanentes da política externa brasileira descritas no capítulo 1. Diante da proposta do presente trabalho. de forma geral. os parâmetros da diplomacia brasileira mudaram pouco. é importante ter presente que houve três ministros das Relações Exteriores entre 1992 e 1994 e que eles tiveram papel fundamental na formulação e implementação da política externa brasileira nos governos Cardoso e Lula: Celso Lafer. que foi chanceler de 1992 a 1993 e depois desenvolveu uma atuante diplomacia presidencial. Vale destacar.

é possível afirmar que há na gestão do ministro um afastamento em relação aos EUA. concentrando-se na construção de “uma moldura conceitual apropriada para levar adiante a ação estratégica do Brasil” (MRE. 33) também sustentam que Lafer buscou refinamento teórico para o novo modelo. Ainda que seja mais visível no plano do discurso. de 1995 a 1999. país do qual Collor havia demonstrado interesse em se aproximar desde antes de sua posse. p. com Lafer. Lafer propunha duas diretrizes. É o que alguns autores consideram uma segunda etapa da política externa do governo Collor. Para isso.60 2010. a ênfase do discurso diplomático recaiu sobre a necessidade de adaptar-se às novas condições externas e incorporar os novos temas da agenda internacional. e chefe da missão brasileira na OMC. 347. Mas era preciso também conjugar tais transformações ao retorno a conceitos considerados tradicionais na política externa brasileira. às tecnologias sensíveis e à liberalização econômica. “iniciou-se o processo de reintrodução dos conceitos e diretrizes fundamentais do paradigma tradicional vigente até o final da década de 80”. foi marcado pela tentativa de se aproximar dos EUA e pela busca da inserção do Brasil no Primeiro Mundo. 2000. mas de uma nova formulação conceitual do quadro de referência da política externa. apud MELLO. É portanto no plano do discurso diplomático que essa reformulação se manifestou inicialmente. p. A hipótese que o início deste capítulo procura comprovar é de que parte das transformações observadas nos governos Cardoso e Itamar já estava presente nas ideias defendidas por Lafer em seu primeiro período à frente do Itamaraty. nesse momento. Vigevani. . quando viajou para Washington ainda como presidente eleito. não resultou propriamente de novas políticas. como independência. Era necessário adequar o discurso às mudanças já adotadas no Brasil e que seriam mantidas pelos governos seguintes. (p. A inovação. Oliveira e Cintra (2003. que definiu como adaptação criativa e a visão de futuro. 9). que seria consolidado na política externa de Itamar. na segunda fase. Mello ressalta.8). O tempo que corresponderia à primeira fase. Para Mello (2000). p. depois de ter atuado como representante do Brasil na ONU. entre elas as posições relativas à proteção do meio ambiente. no entanto. de 1999 a 2001. universalismo e autonomia. Durante esta primeira atuação de Lafer como chanceler. que efetivamente traçou as diretrizes que seriam implementadas nos anos seguintes. 1993. aos direitos humanos. conforme já exposto. que ainda não houve naquele momento o retorno integral ao universalismo.

atuar na dimensão do longo prazo. 85). mas desenvolveu “um hábil processo de cooptação de quadros do Itamaraty para um novo projeto de inserção internacional”. A prioridade era a consolidação do Mercosul. no sentido do redirecionamento dessa ordem. Cardoso definiu suas formulações como “opção universalista”. que não seria. assim. e foi intensificada a busca pela diversificação das relações externas do Brasil. Cabe destacar que. além da Agenda 21 – que. e a afirmação do Mercosul como opção prioritária. portanto. Amorim propôs uma política sem rótulos. reinseriu o direito ao desenvolvimento na pauta internacional relacionada ao meio ambiente –. que se concentram muito na relação com os EUA). de outros países cujo peso geral no cenário internacional era considerado parecido. a da confrontação. com o ministro recorrendo frequentemente aos termos “cautela” e “articulação cuidadosa de opções” (MELLO. ao mesmo tempo. promovendo a integração ao sistema internacional com base no processo de reestruturação interna pelo qual o Brasil passava depois da saída de Collor. além de reintroduzida com força a questão do desenvolvimento. A adaptação criativa entraria em cena para conjugar a necessidade de se adequar a uma nova ordem. Cabe ressaltar que. foi mantida a orientação para a adesão a regimes internacionais. mas não excludente. sem deixar de tentar alterá-la. negociada na Eco-92. Assumindo o Itamaraty depois que Cardoso foi levado a comandar o ministério da Fazenda. Já na gestão de Amorim. porém. o governo Itamar manteve essa linha e aprofundou o processo de reformulação. segundo Vizentini (2008. para Mello. voltada para o . mas. estes últimos aspectos parecem sofrer discretas alterações. 13). p. como México e Canadá. p. observada em outros momentos na política externa brasileira. mas o eixo da política externa passou dos EUA à América do Sul.61 A visão de futuro fundamentava-se na ideia de que a ordem internacional não atende aos interesses do Brasil. A autora aponta ainda três ideias-chave nesse novo quadro de referência da política externa: autodeterminação do Brasil como global trader (diferenciando-se. Ressurge então uma perspectiva reformista. a concepção do Mercosul como plataforma de inserção competitiva no plano mundial. a defesa da reforma do CSNU é um exemplo dessa visão de futuro. 2000. Com Cardoso à frente do Itamaraty. mas as mudanças deveriam ocorrer de forma gradual. Assim. e a diplomacia deve. o novo chanceler não se limitou a colocar em prática as diretrizes indicadas por Itamar.

mas sim de duas correntes com diferentes visões sobre a inserção internacional do país e sobre temas da cooperação sul-sul” (p. antes de tratar dos fatores de ordem interna e da implementação da política externa. é possível concluir que os três princípios fundamentais descritos no Capítulo 1 continuam presentes na política externa brasileira na década de 1990. México e Canadá que entrou em vigor em janeiro de 1994. tratado de livre comércio entre EUA. como antes. 55 Uma de suas marcas foi a proposta da Alcsa. serão abordados a própria visão de mundo expressa pela diplomacia no governo Cardoso e os fatores de ordem externa que a influenciaram. Saraiva (2007) destaca que essa força do Itamaraty – corporação com “burocracia que historicamente concentra o proc esso de formulação da política externa” – impôs dificuldades à renovação e à adaptação à nova realidade nacional e internacional. Além disso. como a própria promoção do desenvolvimento. O objetivo de buscar um maior protagonismo para o Brasil no cenário internacional se expressou no conceito de global player. especialmente útil para análise a que esta dissertação se propõe. sendo. apresentada como um contraponto ao Nafta. . que é um dos pilares da definição usualmente atribuída à política externa do perío do: “autonomia pela participação”. embora. Assim. já que não houve qualquer reviravolta em relação a eles. 45). É importante ter presente esta observação para que se possa comprovar a hipótese de que estes princípios não devem ser usados como explicação principal para as variações observadas em relação à campanha pelo assento permanente no CSNU. Os primeiros pontos a discutir são a perspectiva sobre a globalização e a adesão a regimes internacionais. tenham variado de importância. quanto na passagem deste último para o governo Lula. portanto.62 desenvolvimento e a democracia. o retorno de um diplomata de carreira ao cargo favoreceu o aprofundamento de referências historicamente consolidadas na corporação. Agora. “a crise de paradigma não abriu espaço para a consolidação de um consenso substitutivo. Essa divisão se faz sentir tanto entre o governo Itamar e o governo Cardoso. A partir do que foi exposto até aqui neste capítulo. destacada pelo chanceler ao defender que a adesão a regimes não é uma renúncia à autonomia 55. o universalismo e a independência de ação externa.

que “ ainda persistem desequilíbrios flagrantes entre os níveis de desenvolvimento dos países” e que “continuam a existir barreiras ao comércio inter nacional” –. sem a camisa-deforça das categorias de interpretação que nos serviram para avaliar e descrever o mundo em outros momentos de sua evolução. mas sem principismos vazios . Apoiados em princípios que nos norteiam.1. Sendo assim. é preciso atualizar o nosso discurso crítico sobre a realidade internacional. que em meados dos anos 1990 ainda estava muito distante de ser avaliada de forma consensual. 284).1 Oportunidades da globalização É possível afirmar que um dos estímulos para a adesão a regimes é o desejo de participação no desenho da ordem internacional. para que ele não se desgaste e se esgote em confrontacionismos estéreis ou em utopias desarticuladas. essa descrição remete ainda a outro ponto que deve ser . (LAMPREIA.. Nela aparecem também dois temas relevantes: a importância da globalização e a suposta superação da divisão entre e Norte e Sul. conforme descrição de Lafer e Fonseca Jr.) O mundo pode ser dividido entre as regiões ou países que participam do processo de globalização e usufruem seus frutos e aqueles que não participam. p. (. afetou diversos países em desenvolvimento. na verdade. (CARDOSO. (. Isso fica expresso na declaração do presidente pouco mais de um ano depois de assumir o poder.. Parte dos pontos mencionados acima aparece numa breve descrição de sua visão de mundo feita pelo chanceler brasileiro ainda no primeiro ano de governo Cardoso. Outro fator que contribuiu para o esforço pela adequação às normas internacionais foi a perda de poder relativo e de importância estratégica do Brasil e da América Latina após o fim da Guerra Fria. era importante ser ativo na construção de uma nova ordem. Este fenômeno. 27). é importante destacar também a percepção de que as divergências em termos de princípios deveriam ser dadas como encerradas. p. Embora apresente algumas ressalvas – afirmando. que continuavam sendo ressaltados em declarações com a visão de mundo da diplomacia brasileira. As divisões Leste-Oeste e Norte-Sul eram conceitos que minha geração empregou para lidar respectivamente com a realidade política da Guerra Fria e com o desafio econômico do subdesenvolvimento. sem o saudosismo de fórmulas que davam conta de realidades e de políticas do passado. (1995). que já não podiam mais contar com o poder de barganha que nascia da confrontação entre as duas superpotências e dos esforços de uma e de outra para definir suas áreas de influência.) a globalização está dando origem a uma nova divisão internacional. durante visita à Índia. num cenário de polaridades indefinidas. por exemplo.. 1996a.. 1995a.63 2. Os Pontos Cardeais já não explicam de forma satisfatória o mundo. Ainda com relação aos ecos do fim da Guerra Fria.

p. no qual o capital seguirá a direção daquelas economias dinâmicas que houverem feito os ajustes necessários para a criação de um clima propício ao investimento estrangeiro. . nã o deve se afastar do “grau zero” das relações internacionais. (. pode ser usado para compreender precisamente esse fenômeno complexo: a crescente homogeneização das relações internacionais . em que a democracia e a liberdade de mercado são forças dominantes. cujo uso hoje muitas vezes se reduz ao aspecto produtivo e financeiro do sistema internacional. p. sabemos que devemos também contar com um cenário internacional favorável. 1995a. (LAMPREIA. de que o bem-estar da população está diretamente ligado à inserção bem-sucedida do país na economia” –. e é um mundo de núcleos regionais de integração. Nessas declarações. em conferência na Escola de Guerra Naval.) Há convergência de opinião entre os analistas no que se refere à previsão de um período de continuada expansão da economia mundial . (LAMPREIA. 289). já aparecem também outros dois traços a serem explorados: o peso dado à democracia e ao livre mercado. A padronização que a diplomacia via no comportamento de Estados bem-sucedidos e integrados aos fluxos financeiros e comerciais de um mundo globalizado não permitia desvios. mas também deixa à mostra a visão de que o país precisa apresentar um “bom comportamento” para aproveitar as oportunidades que se apresentariam então. Embora Lampreia atribua suas declarações a uma visão dos brasileiros – afirmando que “há uma grande percepção. Essa mesma declaração reforça a perspectiva otimista sobre o futuro do cenário internacional. o Brasil também busca uma participação mais ativa na economia mundial. está fazendo exatamente isto.64 destacado: a visão essencialmente positiva – ao menos nos discursos – sobre as perspectivas de construção de uma ordem que seria mais favorável aos interesses do Brasil. estabilidade e liberdade econômica como resultado desta política que. na sociedade brasileira de hoje. no mesmo discurso. Na medida em que o processo de reforma evolui. em que a abertura das economias cumpre um papel decisivo na obtenção de investimentos produtivos. 1995b. no acesso a tecnologias e a mercados. como ele diz. nós vemos o mundo atual como um cenário marcado a um tempo por grandes oportunidades e alguns riscos . Ora. 36). Para consolidar nosso processo de reformas.. desta vez com foco apenas na economia. a estabilização depende de uma interação dinâmica entre esses dois movimentos. na melhoria da competitividade. é um mundo globalizado . Lampreia aponta em março de 1996 a conexão entre democracia. e a prevalência da economia como tema que deveria ser a principal preocupação na ação externa e solução para os problemas do país. como já mencione i. ele deixa claro. Na verdade. É um mundo mais homogêneo.. O conceito de globalização. no entanto. que a diplomacia atribui o sucesso das reformas econômicas propostas pelo presidente – carro-chefe de sua campanha – à integração ao mundo globalizado (que não é. Nessa linha. definida). O Brasil.

acesso a mercados e a tecnologias. Não se deve esquecer que a conjuntura interna – que será abordada mais a fundo na próxima seção – favorecia essa postura. nas questões . É importante ressaltar que não se tenta aqui negar que exista uma tendência a mudanças no perfil econômico de um Estado com a implantação da democracia. (LAMPREIA. de zelar pela “cautela” e pela “articulação cuidadosa de opções”. A prioridade inicial da diplomacia no governo Cardoso foi justamente o claro esforço para transformar a imagem da economia brasileira com base na ideia de que o país foi capaz de consolidar a democracia – inabalada mesmo depois da crise que levou ao impeachment de Collor – e estava caminhando para a conclusão de reformas econômicas na esteira do exitoso plano Real – que havia garantido a eleição de Cardoso. 1996a. Sem o fator relativizador da Guerra Fria e com a competição internacional agora efetivamente centrada nos aspectos econômicos e científicotecnológicos. também não é difícil identificar possíveis motivações para essa opção. A proposta desta dissertação não é discutir essa relação. procurando provar que estava fazendo seu “dever de casa”. Eles se transformaram em uma espécie de “grau zero” das relações internacionais. embora se declarasse representante de uma política externa ativa e não reativa. p. A menção a essa percepção expressa na declaração do ministro tem como objetivo mostrar que. embora o objetivo principal dessa pesquisa não seja definir as origens da visão de mundo da diplomacia. O que não parece ser um resultado necessário desses esforços é a apresentação de uma visão essencialmente positiva da conjuntura mundial (focada nas oportunidades que se abriam então para países em desenvolvimento que se adaptassem a um suposto padrão econômico global).65 Democracia. competitividade e empregos . 138). a diplomacia brasileira apresentava nesta época sinais de um comportamento tímido e receoso. os países são classificados e interagem com base nesses padrões. de forma quase exclusiva. ex-ministro da Fazenda. que havia provocado uma moratória menos de dez anos antes – no governo Sarney –. e retomando as mencionadas preocupações de Cardoso. em que os desvios tem um custo político e econômico cada vez maior e a credibilidade é tanto maior quanto menor for o afastamento dos países desse “grau zero”. nem tampouco a percepção de que para ser bem-sucedido nesse novo cenário era preciso fundar sua projeção internacional. ainda era um passivo para o governo e afetava diretamente a posição do Brasil no cenário internacional. liberdade econômica e participação nos sistemas universais de regulação das relações entre Estados passaram a ser padrões. quando foi chanceler. Em relação aos fatores de ordem externa. A negociação da dívida externa. E isto porque democracia se traduz em estabilidade e liberdade econômica e participação se traduzem em investimentos.

o presidente disse. que – como a própria diplomacia reconhecia e. nem negar que o sucesso econômico ganhou peso e se transformou com a vitória do capitalismo. é difícil atribuir tanto peso aos indicadores sociais.) É do sucesso econômico e social — e não mais da proteção do guarda-chuva estratégico de uma superpotência ou da doutrina da “segurança nacional”— que dependem os elementos fundamentais para a preservação de um Estado (. Esse raciocínio aparece em declaração anterior do ministro. depois. p. Isso não transforma as relações internacionais em um jogo de soma zero.. por exemplo. 1996a . 188) . base da competitividade e do desempenho das economias. (. que para “outros países em desenvolvimento mais complexos. por exemplo. passou a dar mais ênfase56 – já revelava efeitos perversos para os países em desenvolvimento.) O germe da transformação encontrava-se também no crescimento da importância da competitividade econômica e tecnológica em relação ao poderio militar e estratégico. que tende a ser percebido imediatamente como uma ameaça aos países em desenvolvimento e portanto como algo que nós deveríamos e poderíamos combater. uma vez que não é preciso que o progresso de uns se dê necessariamente em detrimento dos demais. que depende a projeção internacional dos países. (LAMPREIA. Novamente. Mas aumenta os riscos de exclusão daqueles que não são capazes de integrar-se.) É conveniente desmistificar um pouco o conceito de globalização. 1996a. p. em vários níveis. 1996a. p. a integração na economia global está sendo feita à custa de maior esforço de ajuste interno” (CARDOSO... Mas a formulação de Lampreia é marcada por um certo sentimento de “impotência” diante da globalização. 27). Outra observação interessante sobre este aspecto é formulada pelo presidente em discurso em comemoração do dia do diplomata. no mesmo ano: “É sabido que o processo de globalização. os indicadores sociais. e hoje dominantes no cenário internacional. e não de políticas de prestígio. Com a perspectiva de quem observa o cenário internacional na segunda década do século XXI. (. 138 a 140). É desse sucesso. a nova ascensão da 56 Em discurso em Nova Déli. na qual ele demonstra acreditar numa mudança mais profunda do sistema internacional: “nas relações internacionais de hoje.. entre os quais o Brasil e a Índia..66 econômicas. não se quer negar aqui que o poderio militar e estratégico perdeu importância após o fim da Guerra Fria... embora ela pudesse ser aplicada ao caso brasileiro. da multipolarização econômica e tecnológica. Seu discurso é também carregado de um aparente exagero nesta análise sobre a prevalência do econômico sobre o militar de forma geral – o que ficou comprovado depois pela reação dos EUA e de outras potências aos atentados de 11 de setembro de 2001.. 1995 c.). traz também um elemento de exacerbação da competitividade.” (CARDOSO. além das transformações por eles desencadeadas –. (. No mesmo discurso na Escola de Guerra Naval é essa a ideia que Lampreia deixa transparecer em outros trechos da conferência: Na verdade. estão substituindo as ogivas nucleares e as grandes forças convencionais e estão definindo uma nova geometria de poder” (LAMPREIA. que sozinhos não explicariam. p. o germe da transformação do antigo Sistema já se encontrava nos traços cada vez mais fortes. que vem gerando riquezas como jamais se viu em época anterior do desenvolvimento humano. 220).

o presidente afirmou. Índia e Paquistão poderiam inspirar-se nesse exemplo de racionalidade que Brasil e Argentina deram ao mundo nessas últimas décadas” (1998a. Em reunião do Mercosul em 1995. No caso dos testes indianos. As relações Brasil-Argentina também estão no cerne da questão da integração. um após o outro. por exemplo. Em artigo publicado por ocasião dos ensaios indianos e paquistaneses. além de estar por trás da já mencionada adesão brasileira a regimes de controle de tecnologias sensíveis. Além de ser percebida como uma das grandes tendências mundiais de então. uma outra questão vem à tona: a aproximação de Brasil e Argentina. Os avanços feitos desde o fim dos anos 1980 pelos dois países em sua relação com a questão nuclear foi usado como exemplo para os vizinhos Índia e Paquistão quando a diplomacia brasileira criticou os países por terem realizado os testes. enquanto esta se concentra em sua visão de mundo. entre outros fenômenos que alteraram parcialmente a geometria de poder mundial. cabe ressaltar alguns pontos sobre as ações da diplomacia brasileira. França. Índia e Paquistão realizassem testes nucleares entre 1995 e 1998. que “ não há alternativa senão a integração. Lampreia afirma que “a confiança é o antecedente indispensável para o entendimento. a qual (na avaliação do governo) o país não deveria “desrespeitar” se quisesse melhorar sua imagem e sua presença no mundo.67 China e suas consequências. a integração – especialmente na América do Sul – era defendida como forma de se proteger dos efeitos negativos que a globalização podia provocar. Uma avaliação da questão nuclear se justifica aqui justamente por também estar relacionada à concepção que se tinha do sistema internacional: é ela que leva o Brasil a condenar a retomada dos ensaios nucleares no discurso de Lampreia na Assembleia Geral da ONU de 1995 – a iniciativa da França nesse sentido havia ocorrido apenas semanas antes – e os testes realizados pela Índia pouco depois da visita do presidente ao país. em 1998. Em relação a esse tema. p. outro tema importante para analisar a visão de mundo da diplomacia brasileira. Também é difícil extrair desse cenário traçado por Lampreia as motivações para que China. Responderemos melhor aos desafios se tivermos organizado o espaço mais próximo: o cone . embora a atuação internacional do Brasil no governo Cardoso seja o foco da próxima seção desta dissertação. que culminaria na assinatura do TNP em 1998. 117).

a perspectiva é diferente. A integração era. É uma clara defesa da opção brasileira. uma vez estabelecidas.) No novo ambiente internacional. mas não deixa de expressar a visão do governo. a perspectiva institucionalista passou a ser vista como favorável aos interesses brasileiros. porque promovia o respeito às regras do jogo internacional. depois. Oliveira e Cintra (2003) sobre essa dicotomia. o mote era a necessidade de união contra os riscos impostos pela conjuntura internacional. deveriam ser respeitadas por todos. p. é possível afirmar que a globalização e os regimes que impunham regras ao mundo globalizado foram vistos com bons olhos pela diplomacia brasileira. inclusive pelos mais poderosos. o que se observava na formação de diversos blocos mundo afora.68 sul” (CARDOSO. para os vizinhos do cone sul ou outros países em desenvolvimento. na prática. uma tendência cada vez mais consolidada. 140) completava essa perspectiva otimista afirmando que “riscos reais próprios da atual estrutura internacional convertem-se em desafios e oportunidades quando um país procura estar na vanguarda da internalização das transformações em curso no mundo”. ao mesmo tempo. 1996b. a busca de normas e regimes internacionais visando a fortalecer um ambiente o mais possível institucionalizado foi uma constante. 53). 1995a. (. a diplomacia costumava então exaltar as oportunidades abertas pela globalização e a adequação do Brasil às tendências da nova ordem. vale retomar um tema abordado no capítulo 1: é o que Cervo (2008a) chama de evolução do multilateralismo brasileiro. esse processo.. A próxima seção mostrará como. o presidente afirmava que “ já se conhece o suficiente sobre a globalização” para saber “como atuar para amenizar alguns dos seus efeitos mais nocivos e. uma relação de poder mais favorável é vista como útil para impulsionar uma inserção universal do tipo global player. Ainda no seu segundo ano do governo. Lampreia (1996a. para potencializar as vantagens que estão surgindo para. de fato. Nesse caso. Aqui.. com os países do Mercosul será analisada posteriormente: De fato. no caso do Brasil. p. as quais. na prática. darmos um grande salto em direção à pros peridade” (CARDOSO. da América do Sul. No contexto do Mercado do Cone Sul (Mercosul) e. o importante é destacar que existe um duplo discurso em relação ao tema: falando a parceiros desenvolvidos. nos próximos anos. Ao longo do primeiro mandato de Cardoso. Ele parte da premissa de que nos anos 1970 a política externa brasileira passou a reforçar suas ações bilaterais por ter entendido que o . 32). porém. (p. lembrando que a relação brasileira. tem facetas que permitem observá-lo por diferentes ângulos. nos anos FH [Cardoso]. É interessante mencionar a observação de Vigevani. p. dominado por uma grande potência e no qual o poder do Estado brasileiro debilitou-se em termos relativos. 83). Aqui.

O presidente também afirmava que seu governo via “a globalização antes pela ótica das oportunidades que oferece do que pelos riscos que também acarreta” e. “embora este continue a ser decisivo”. a conjuntura internacional não sofre grandes transformações do ponto de vista político e diplomático. a disciplinar a conduta externa dos governos e de outros agentes das relações internacionais. p. período entre a chegada de Cardoso à Presidência e sua reeleição. mas.1. De fato. mas vê nascer uma crise econômico-financeira que. É nesse contexto que se desenvolve o segundo mandato do . um Renascimento como o do século XVI. porém. no qual a hierarquia internacional não se desenhava apenas com base no poder militar. Numa crítica ao governo Cardoso que parece ignorar os esforços feitos no período para o fortalecimento real do país no campo econômico e a maior regulação desta área no âmbito internacional. mostrava -se confiante: “Já começamos a colher os frutos de um maior grau de integração nos fluxos econômicos e financeiros internacionais”. embora não tenha sido observado permanentemente na atuação externa do Brasil. Como se o mundo estivesse adentrando uma nova era. 102). que poucos resultados apresentou. fazendo valer os interesses nacionais. 175 e 176) apostava declaradamente em um novo ordenamento. 2. pode ser considerado uma característica geral da ação diplomática na segunda metade dos anos 1990: A diplomacia brasileira abandona então o propósito de reformar o ordenamento global e revela outra atitude: atuar em seu seio. sobretudo.2 Crise e percepção de assimetrias De 1995 a 1998.69 multilateralismo havia conduzido a frustrações. em que se tornam evidentes os distintos graus de capacidade de influenciá-las”. Cervo (2008a) aponta para um traço que. “no momento de definição das regras que compõem o quadro institucional da globalização. o autor avalia que a “lição foi esquecida” e a assiste-se ao retorno da ideia formulada no pós-Segunda Guerra de que o multilateralismo produz harmonia e conciliação de interesses. se espalha de um lado ao outro do globo. ainda em segundo ano de mandato. Essa convicção injeta na política multilateral uma dose de idealismo. Nos anos 1990. Cardoso (1996c. transparentes e benéficas para todos. Essa mudança de atitude advinha da convicção de que o mundo da interdependência global faria brotar de seu âmago um ordenamento feito de regras justas. a exemplo da iniciativa pela Nova Ordem Econômica Internacional. de 1997 a 1999. ( p.

Haverá um novo Bretton Woods. p. Ela virá. por meio de “negociações da nova ordem mundial”. (LAMPREIA. Ela virá. É importante ressaltar. 66). 76). por exemplo. Além de ressaltar a baixa prioridade dada aos esforços pela reforma do CSNU – tema que será analisado na terceira parte do presente capítulo –. do que em um órgão de controle político-militar? Pois bem. p. conforme será analisado a seguir. marcado por uma mudança não desprezível na visão de mundo expressa pela diplomacia brasileira. Lampreia afirma que uma “questão que surge com clareza nas discussões internas promovidas pelo governo com os vários segmentos de nossa sociedade é a necessidade de existir garantia de reciprocidade nos esforços de abertura de mercados” (1997a. que essas transformações no discurso ocorrem de forma gradual. em fevereiro. o ministro seria ainda mais enfático: A reciprocidade em termos de acesso a mercados tornou-se prioridade máxima para o Brasil. e divisão Norte-Sul –. se nós formos capazes de solidariamente. É o que mostra. faz as críticas à ordem internacional se tornarem mais fortes e freqüentes. a questão da exigência de reciprocidade nas reformas econômicas já aparecia no posicionamento da diplomacia.70 presidente. p. (CARDOSO. desenvolvimento. no entanto. como brasileiros. Naquele ano. entendermos o momento e atuarmos. Essa transformação traz de volta ao discurso de representantes do país expressões pouco usadas nos anos anteriores – como autonomia. Três meses depois. em palestra no Conselho de Relações Exteriores de Nova York. 1997b. o Brasil sai dessa crise. 27). Quaisquer novas negociações sobre acesso a mercado (seja no nível multilateral ou hemisférico) deve ser precedida de francas discussões sobre o acesso de produtos brasileiros aos mercados de nossos parceiros comerciais. necessariamente participando da mesa de negociações da nova ordem mundial . A crise que começara na Ásia em 1997 logo provocaria mudanças no tom predominante no discurso brasileiro. e altera significativamente a perspectiva sobre a globalização. 1998a. Na abertura da II Reunião Hemisférica de ViceMinistros Responsáveis pelo Comércio. as declarações acima sugerem também que naquele momento ainda havia confiança na evolução da governança global no que diz respeito a questões econômico-financeiras. porque ela se impõe. . o seguinte trecho da declaração do presidente após a confirmação de sua vitória em 1998: Quantas vezes me perguntaram se o Brasil ia ou não para o Conselho de Segurança da ONU? Quantas vezes eu disse que estava mais interessado em ter vez e voz para o Brasil na área do comércio mundial. realça questões de política internacional ofuscadas antes pelos temas econômicos. da economia mundial .

que ainda não havia sido superada. (. Os títulos da dívida externa brasileira também perderam. o índice Bovespa despencou quase 15% e os juros ultrapassaram a marca de 40% ao ano (CORRÊA. Diante deste cenário. Dias antes da reeleição de Cardoso para a Presidência. A partir da moratória russa. 622). Indonésia.71 Já no segundo semestre de 1997 a chamada “crise asiática” começou a provocar uma forte turbulência nos mercados financeiros internacionais. Além disso. em setembro de 1998. Países que eram considerados exemplos de sucesso na adaptação a transformações econômico-financeiras mundiais.) os capitais internacionais afastaram-se dos países emergentes de uma forma geral. entre eles o Brasil. Os meses seguintes foram marcados por uma forte recessão global e pela escassez de crédito nos mercados internacionais. 2007. Luiz Felipe de Seixas Corrêa expõe a visão da diplomacia brasileira sobre a crise.) Partia-se da constatação de que os mercados financeiros internacionais estavam cientes dos avanços que o país vinha realizando e manteriam a confiança e disposição de financiar os déficits em transações correntes. como Coreia do Sul. 58 “O terror que vem da Rússia”. 59 Entre outros compromissos. . que previa ajuda de até US$ 41. a Rússia decretou moratória57. A América Latina não escapou das conseqüências. chegando também ao Japão. elevando a preocupação dos mercados com países emergentes. o país se viu forçado a recorrer em novembro a um acordo com o FMI.. Em avaliação sobre a situação econômica do país e m janeiro de 1999. O Brasil foi duramente golpeado pela instabilidade dos mercados financeiros. o governo prometeu reduzir à praticamente metade o déficit nas contas dos governos federal. A convulsão desencadeada por desequilíbrios monetários na Tailândia se estendeu rapidamente para outros emergentes da região. desde 1995. começaram a se desestabilizar. Em um contexto momentâneo de grave crise nos mercados financeiros (. O governo Fernando Henrique Cardoso havia-se decidido. A Bolsa de São Paulo caiu 10% apenas no dia do anúncio da moratória russa. posteriormente. Pouco depois. as grandes potências econômicas. o quadro externo alterou-se de modo dramático . o Brasil também se tornou alvo de um ataque especulativo contra sua moeda 58. contudo. Veja. O impacto sobre a economia brasileira seria ainda mais forte no ano seguinte. e afetando também. p.5 bilhões em troca do compromisso do país de melhorar as contas públicas59. No Brasil. estaduais e municipais e das empresas estatais. por um ritmo de gradualismo na implementação de reformas econômicas. quando assumiu o cargo de secretário-geral do Itamaraty.. 2 de setembro de 1998. sem fazer distinções em favor 57 O governo russo determinou que bancos e empresas deixassem de pagar seus compromissos externos por pelo menos 90 dias. Malásia e Hong Kong.. o sistema financeiro da Rússia entrou em colapso..

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daqueles que, como o Brasil, tinham (e têm), a mais absoluta estabilidade política, compromisso com as reformas econômicas e o saneamento fiscal, sistema bancário sólido, ausência de bolhas especulativas e empresas pouco endividadas. (CORRÊA, 1999, p. 92).

No mesmo artigo, o novo secretário-geral também diz que o “Brasil está no bom caminho para superar os momentos mais difíceis da crise econômica”, mas faz, por outro lado, uma avaliação menos positiva da ordem internacional. Ele sustenta, por exemplo, que “por trás da aparente simplicidade do modelo unipolar escondem-se elementos de ambigüidade, dispersão e disfuncionalidade que de mandam uma reflexão cuidadosa” (p. 93). Ao contrário de análises anteriores sobre a previsibilidade do impacto positivo da globalização, Corrêa defende que as novas realidades ainda não eram compreendidas em todas as suas implicações. Afirma também que o Brasil quer ampliar a discussão da ordem, mas “já não se trata de agenda conflitiva ou reivindicatória” (p. 96). Cita ainda a crise enfrentada no âmbito do Mercosul – que será analisada na próxima seção deste capítulo – para observar que “esgotou-se a etapa de ganhos fáceis com a integração, característicos da fase inicial da expansão de comércio em decorrência da desgravação tarifária automática” (p. 100). Diante deste cenário desfavorável, o discurso diplomático passou a estar menos concentrado nas reformas econômicas feitas pelo Brasil, tônica do início do governo Cardoso. Ao analisar em fevereiro de 1999 os fatores de continuidade e descontinuidade na política externa entre o primeiro e o segundo mandato do presidente – listados como as relações com parceiros de todo o mundo e, de outro lado, o quadro resultante do impacto da crise financeira, com a conseqüente desvalorização do Real –, Lampreia (1999a, p. 108) ressalta, por exemplo, que a atuação da diplomacia “não se limita ao comércio”. Outros termos aparecem no discurso e também marcam uma mudança no posicionamento da diplomacia, aparentemente em função de uma nova visão de mundo. A expressão autonomia começa a ser mais usada, possivelmente por conta da resistência brasileira à promoção de avanços no nível de institucionalização do Mercosul. Para Mello (2000, p. 18), no fim da década de 1990, o alargamento da integração regional se torna mais importante que o aprofundamento da integração subregional “nos marcos de uma estratégia na qual o regionalismo agora ampliado constitui o novo fundamento da ‘reserva de autonomia’ para uma maior projeção global”. O que expõe, porém, a maior diferença entre o discurso do primeiro governo Cardoso e o do segundo, em relação à visão de mundo, é a perspectiva sobre a globalização, que passa

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a ser constantemente taxada de “assimétrica”. Em almoço no Itamaraty por conta de sua posse, em janeiro de 1999, o próprio presidente já usa a expressão nas declarações abaixo, que também mostram a retomada de mais um tema pouco abordado no seu primeiro mandato: o desenvolvimento.
Infelizmente, algumas expectativas internacionais razoáveis reverteram-se nos últimos tempos . Fomos obrigados a adaptações e a sacrifícios. Temos que consolidar o nosso processo de desenvolvimento, apesar dessa sucessão de crises externas. O fato de nós, hoje, estarmos cada vez mais unidos nos leva a reflexões comuns sobre esses processos. Não é mais uma voz isolada aquela que mostra os riscos do que costumo chamar de globalização assimétrica. E não a chamo assim apenas porque essa assimetria agora tocou-nos mais de perto, mas porque existem certos processos que são perversos e que podem afetar as finanças internacionais, num jogo insensato de apostas, que pode transformar os mercados em cassinos. (CARDOSO, 1999a, p. 13 - 14).

Ainda na esteira das críticas à assimetria da globalização, aparece um novo conceito: a “globalização solidária”. Ao apresentá -lo – depois de afirmar que a “globalização, essencialmente seletiva e assimétrica, favorece principalmente os pa íses mais desenvolvidos” –, Cardoso (1999b, p. 86) usa como exemplo a iniciativa brasileira de cancelar a dívida de alguns Estados, afirmando que “para muitos outros países em desenvolvimento, contudo, e este seguramente é o caso do Brasil, o tempo das benesses já passou”. O então vicepresidente, Marco Maciel (2000, p. 42), também se valeu do mesmo termo para afirmar que “uma ordem mundial regida por uma razão abrangente de humanidade” poderia “encontrar expressão no conceito de ‘globalização solidária’”. O cenário internacional colocava então a questão da globalização necessariamente em pauta. Ainda no final de 1999, movimentos definidos como antiglobalização contribuíram para o fracasso do lançamento da chamada Rodada do Milênio na Conferência Geral da OMC em Seattle. Corrêa (2000, p. 107) cita o episódio para reforçar as críticas brasileiras, afirmando que “desde o que ocorreu (ou não ocorreu em Seattle), vai ganhando terreno a percepção de que as assimetrias da globalização, que operam em detrimento dos países em desenvolvimento, devem merecer mais atenção”. Estimulava também uma perspectiva mais pessimista o agravamento de crises internas no Kosovo, no Timor Leste e em Angola, onde a comunidade internacional não conseguia agir de forma eficaz, nem mesmo por meio das ações da ONU. Em seus esforços pela promoção de regras mais equilibradas que, na sua visão, combateriam os efeitos negativos das transformações do cenário internacional, o presidente

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também passa a mencionar em suas críticas o “aprofundamento de um sentimento de malestar com o processo da globalização” ( CARDOSO, 2002a, p. 210). Essas observações podem parecer contraditórias quando se considera que o próprio presidente sustentava que a globalização era um processo histórico contra o qual não cabia se insurgir. Mas Cardoso (1997a, p. 107) defendia já em anos anteriores que era importante apresentar críticas à globalização, “sem partir do antigo”. O governo, de fato, parecia fazer questão de ressaltar – implicitamente – que sua mudança de visão de mundo não representava uma volta ao passado. Assim, em algumas ocasiões, quando a questão da autonomia era mencionada, por exemplo, vinha junto a ressalva de que a busca pelo que pode ser entendido como uma ação externa independente e voltada para os interesses do país não deveria ser entendida como tentativa de isolamento ou expectativa de conquistar auto-suficiência60. Lampreia apresenta a sua definição de autonomia ao discursar na formatura de uma turma do Instituto Rio Branco:
Além de realismo, é preciso trabalhar com claro sentido de História. O que em um dado momento talvez se afigure como uma avenida luminosa pode transformar-se, pouco depois, em obscuro beco sem saída. Daí a necessidade de buscarmos invariavelmente, em nosso relacionamento externo, o maior grau possível de autonomia. Este sempre foi e continua a ser um parâmetro básico da diplomacia brasileira. Autonomia não se confunde com isolamento ou auto-suficiência, mas com a preservação de margens de escolha e manobra para que sejamos capazes de seguir os caminhos delineados pela vontade e pelos interesses da Nação a que servimos. (1999b, p. 58).

Ao retomar a questão da divisão Norte-Sul – tema que a diplomacia brasileira chegou a considerar como superado no início do governo Cardoso –, o vice-presidente também Marco Maciel mostrou uma preocupação em marcar diferença em relação a uma postura anterior do país, tida como “confrontacionista”. “Impõe -se retomar o diálogo Norte-Sul sem

confrontações estéreis, com espírito construtivo e disposição para abrir mão de posições maximalistas, que dificultam o consenso”, afirmou Maciel (2001, p. 197) em reunião do Grupo dos 15. Se já era observada uma tentativa de ampliação de relações regionais e a busca por novas parcerias e alianças com o mundo em desenvolvimento, os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA aprofundariam ainda mais esse movimento. Segundo Saraiva (2007, p. 55), a nova conjuntura internacional criada pelo impacto dos ataques forçou a diplomacia
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É possível afirmar que a busca por auto-suficiência marcou, de certa forma, a política externa associada às determinações do processo de desenvolvimento com industrialização por substituição de importações.

CINTRA . O resultado foi o fortalecimento da orientação multilateral e a decisão de se aproximar de países do Sul. Lafer já expressa uma visão de mundo mais pessimista em artigo no jornal “Estado de S.. o que exigiu do governo brasileiro mais capacidade de negociação e articulação internacional. p. Em artigo publicado cinco dias depois dos eventos de 11 de setembro. o 11 de setembro agravou o déficit de governança prevalecente no sistema internacional. A complexidade do mundo contemporâneo em todas as áreas. Nesse contexto. Mais de um ano depois. (. sob o título “O mundo mudou” .. além de habilidade para encontrar novos caminhos em momentos de ruptura ou inexistência de integração e cooperação. marcado por um tom de decepção. para realçar um dos termos recorrentes suscitados pelo presidente Fernando Henrique Cardoso desde o início do seu primeiro mandato. Mas. Haverá. em janeiro daquele ano. A primeira metade da década de 90 foi um momento de expectativas positivas decorrentes das possibilidades de convergência (. Diante deste agravamento. uma diminuição do espaço para nuanças. p. Bush ao poder. o tom de pessimismo faz esse investimento ser muito mais uma defesa do que uma aposta confiante em resultados positivos para o país. em setembro de 2002.. dando origem à ideia de Lafer de “‘arrumar a casa’ por meio de uma ‘diplomacia do concreto’” (VIGEVANI. portanto. nem o mais forte. agora. já havia provocado mudanças no cenário internacional.317). é tão grande que nenhum ator internacional. a posição brasileira é clara: a resposta aos desafios atuais é mais multilateralismo. Ainda havia. 2003. no plano mundial. e não menos. inclusive a de segurança internacional. como se vê no seguinte trecho: Para o Brasil. 57). encaminhar soluções.). A chegada de George W. OLIVEIRA. 299 a 302) Após os atentados... isolado e sem cooperação. o chanceler faz um balanço das conseqüências dos ataques. (LAFER. 2001. pode. Haverá uma expectativa cada vez mais expressiva de apoio e de alinhamentos.75 brasileira a repensar sua inserção internacional. a ideia de autonomia pela integração foi atenuada. que se comprova novamente um princípio arraigado na política externa. O conceito teve que ser adaptado à nova realidade. A partir da segunda metade da década de 90 prevalecem dificuldades e divergência. o que alterou as tendências internacionais nesse sentido e afetou diretamente a proposta da política externa brasileira de promover a “autonomia pela participação”. um investimento no multilateralismo. (LAFER. p. a ênfase americana no unilateralismo foi acentuada. no fim do governo Cardoso. com a principal potência mundial passando de um governo democrata a outro republicano. Paulo”.) É o momento da percepção das assimetrias e dos dilemas da governança .). 2002. 316 .. Nesta matéria o Brasil tem tido uma posição construtiva e crítica (. Outro traço que aparece na declaração acima é uma tentativa (observada . conseqüentemente.

. 54) afirma que Cardoso conduziu as relações internacionais do Brasil em quatro direções: 1) deu ênfase ao multilateralismo. Discussão sim. de que não estão aí para se fazer algo que possa ser significativo para o bemestar dos povos. marcou. que deu importância menor aos países considerados integrantes desta “área”. (. os sete anos em que Lampreia esteve à frente do Itamaraty. e que o país já tinha começado “a colher os frutos de um maior grau de integração nos fluxos econômicos e financeiros internacionais”.) Será esta a ordem internacional que desejamos? Será esta a ordem internacional que se quis em Bretton Woods? Estou certo que não. Quantos de nós. Cervo (2008a. pudessem ser ouvidos. para combater efeitos negativos da globalização. ao observar o que ocorria na Europa. nem sempre justa.. como a África e grandes partes da Ásia e da América do Sul.76 também em outras ocasiões) de afirmar que a posição de Cardoso sempre fora essa. mas não assistimos à transformação das Nações Unidos em um instrumento de discussão dos grandes temas internacionais com eficácia. 2002b. frequentemente tem-se a sensação de que esse grupo se junta para convalidar o que um só no poder decidiu.uma das hipóteses discutidas neste trabalho . numa demonstração de realismo e desconfiança.será abordado detalhadamente no próximo capítulo. que recentemente se transformou no G8. Pior. principalmente as mais pobres. . o que vimos foi a formação de um diretório mundial. Assistimos à queda do Muro do Berlim. diretório que não tem mais sequer condições de se reunir abertamente. A aplicação dessas orientações será analisada nas próximas duas seções. esperando a construção da governança global. Ao contrário.52). p. com a qual haveria maior convergência em temas políticos e econômicos 61. se não permeou toda a atuação da diplomacia no governo Cardoso. 2. sob a ótica de uma orientação mais geral que. quando na verdade. mas há. imaginávamos um mundo multipolar. para que o mundo se dê conta de que não pode seguir com a incerteza. porque há uma certa desconfiança. mas se baseia também nestas observações sobre o governo Cardoso. ele afirmava em 1996 que seu governo vi a “a globalização antes pela ótica das oportunidades que oferece do que pelos riscos que também acarreta”. como se mostrou anteriormente. O próprio pres idente chega a seus últimos meses de mandato com uma retórica mais afiada e menos entusiasmada. (CARDOSO. mas à qual não se segue uma resolução e uma vontade política efetiva para que as mudanças possam ocorrer. sem dúvida. um mundo no qual fosse possível que os interesses das regiões. 61 O crescimento da relevância das relações com o Sul (de maneira ampla) no governo Lula . 3) revelou contradições na relação com os EUA.2 A orientação nacional rumo ao mainstream internacional Em um resumo que se faz útil por introduzir algumas questões que serão abordadas a seguir. 2) avançou o processo de integração do Cone Sul. Mas falta neste momento liderança no mundo. 51 . criticando o unilateralismo que atrapalhava a governança global e sendo subserviente na área econômica. chamado G7. p. 4) e orientou-se para Europa.

Lessa (1998) propõe duas divisões úteis para a presente dissertação. num processo que dá origem às chamadas parcerias estratégicas. definida pelo chanceler como o fato de o país estar “sintonizado com a convergência internacional de posições em matéria de segurança. Lessa afirma que a necessidade de qualificar o universalismo com grandes doses de pragmatismo. havendo “afirmações de vínculos forjados nos apertos das margens de manobras”. além de uma avaliação de seus objetivos e resultados. embora ainda não totalmente compreendidas. Outra característica importante que dever ser considerada em todo o período é a forte influência da diplomacia presidencial de Cardoso. já davam sinais de que. p. O segundo momento é inaugurado pelo fim da Guerra Fria. quando as transformações da ordem internacional. situações de exacerbação da competição por recursos e influência” (p. A primeira mostrará quais eram as visões e propostas do governo Cardoso no que diz respeito às relações com os países e blocos considerados mais relevantes pela diplomacia.2. direitos humanos e combate ao crime organizado” (LAMPREIA. 4). 1998b. no plano político e econômico. . que iria do pós-Segunda Guerra Mundial ao início dos anos 1990. com a substituição da lógica político-militar e ideológica pela supremacia da lógica econômica. A primeira delas é a separação do universalismo em duas fases. É caracterizada como “uma verdadeira válvula de escape”. seria de caráter reativo. o Brasil seria confrontado com a desproporção entre a sua universalidade de interesses e a “modicidade de recursos e meios disponíveis para realizá -los” (p. 2. O objetivo era “a ampliação do poder de barganha com vistas a enfrentar.77 Trata-se da busca pela presença no mainstream internacional. A primeira. 8). A segunda vai se concentrar em questões internas que influenciaram a elaboração e a implementação da política externa. deixa de ser uma manifestação isolada de um modo de obtenção de recursos no meio internacional para passar à condição de principal característica da inserção internacional do país.1 O Brasil no mainstream Em uma análise sobre a construção do universalismo como vertente da política externa brasileira. Esta etapa será dividida em duas partes. preservação ambiental. Assim. 58).

Nota-se uma tentativa de reforçar os laços tradicionais de cooperação econômica e científico-tecnológica com o Japão e de dar início a uma intensificação gradual da cooperação com outros países da região. com realidades políticas diferentes e níveis de cooperação distintos. Na base do movimento de aproximação dos países sul-americanos está. São países com os quais o Brasil mantém afinidades diversas.78 Nasce daí o que o autor chama de “universalismo seletivo”. e) o eixo das potências regionais : “multicentrado” em China. a ideia de . b) o eixo norte-americano: abarca o projeto de integração econômica que inclui Canadá e México. d) o eixo do Pacífico: centrado sobre Tóquio. principal cliente. especialmente os da América do Sul. Cingapura e Tailândia. são priorizadas. a começar pelo regional. tais como Coréia do Sul. cabem algumas observações importantes para que se possa analisar a política externa de Cardoso como um todo. As relações Brasília-Washington se pautam pela construção de uma agenda positiva. É o eixo tradicional da orientação de construção de parcerias estratégicas. fornecedor e investidor individual do Brasil. Rússia. A separação que ele apresenta em seguida em relação aos eixos de atuação geográfica também se faz útil e será usada como linha de investigação do presente trabalho. declaradamente o mais importante para a diplomacia brasileira neste período. Sobre cada um destes eixos. Entende-se que a inserção nos fluxos econômicos internacionais só é viável por meio dos arranjos da integração regional. mas se concentra nas relações políticas e econômicas com os EUA. Índia e África do Sul. Para Lessa. sendo esta a sua área de interesse imediato. Taiwan. c) o eixo europeu: compreende as relações com a União Europeia e com os países da Europa Ocidental. A União Europeia se apresenta nos anos 1990 como elemento fundamental para uma nova definição do movimento brasileiro de diversificar seus vínculos internacionais com vistas a ampliar sua margem de manobra. que passa pelo contencioso comercial e por novas linhas de cooperação política. que incluem problemas semelhantes no cenário internacional e papel de potência regional. ao longo deste governo. estes eixos são: a) o eixo regional: as relações com os países vizinhos.

processo iniciado na passagem do presidente pela chancelaria. As opções de Menem. Vale lembrar ainda que o pleito brasileiro pelo assento permanente no CSNU também foi fonte de atrito na região devido à oposição da Argentina e também da Colômbia. da ideia que prevaleceu nos anos 1980. Difere. e a busca de capital internacional. e baseava-se na divisão centroperiferia e na noção de uma identidade latino-americana. Afasta-se também do modelo de integração proposto na Cepal nos anos 1950. e não uma “tentativa de tornar o país mais competitivo. 22). quando teve início o processo de aproximação da Argentina. mas é reflexo também da conjuntura sul-americana. necessariamente. 2001.. também contribuíram para as escolhas feitas no governo Cardoso. como se notou na crise provocada pela desvalorização do Real. como se pensou na Argentina”. sobretudo no que compete ao sistema de resolução de controvérsias. embora haja amplo reconhecimento das limitações do atual arranjo e da necessidade de aprimorá-lo. Do ponto de vista regional. O próprio Brasil não se mostrava disposto a arcar com custos da consolidação da institucionalidade do Mercosul 63 – tanto do ponto de vista político. 70) apresentam uma boa definição da visão contida nesta expressão: “zonas de livre -comércio e uniões aduaneiras são. que fez questão de manter alianças alternativas ao Mercosul. Tal estratégia se encaixa na opção universalista e no ímpeto modernizador do governo Cardoso. A nova concepção partia da formação de novos blocos.79 regionalismo aberto 62.) inflamado pelo tom característico de um ano eleitoral” que encerraria dez anos de governo Menem (p. p. Os autores destacam ainda que a forte reação do país vizinho contra o Brasil fez parte de um “movime nto de caráter nacionalista (. ainda pairam resistências. a exemplo da resistência à criação do tribunal judicial. outro aspecto relevante é a ênfase na América do Sul em substituição à América Latina. 62 Trein e Cavalcanti (2007. A medida brasileira é descrita por Saraiva e Almeida (1999) como uma correção inevitável de uma política cambial equivocada. quanto à introdução de componentes de supranacionalidade no bloco” (VAZ. . sob uma ótica que privilegiava o desenvolvimento. p.3 deste capítulo. no que pode ser chamado de esquemas sub-regionais. sobretudo da parte brasileira. com uma retomada de processos de integração já existentes. especialmente com os EUA. portanto. O modelo se caracteriza pela abertura comercial ao exterior. 51). 63 “Em relação à revisão da estrutura jurídico-institucional. quanto em relação à economia. e o objetivo de construir um mercado interno ampliado tinha grande importância. promotoras do livre-comércio e possibilitam aos países que delas participam uma maior inserção nos mercados mundiais”.. por meio da liberalização da economia. tema que será analisado com maior profundidade no item 2. que teve forte influência sobre o Brasil.

A crise que o bloco sul-americano enfrentou no biênio 1998-1999 é atribuída a dificuldades no âmbito econômico. que havia quintuplicado entre 1991 e 1997. A falta de mecanismos institucionais capazes de solucionar os problemas intra-bloco abriu espaços para que os problemas nacionais criassem obstáculos para sua evolução e tornassem claros os conflitos em seu interior. autoridades brasileiras passaram a questionar cada vez mais a ideia de uma região única denominada “América Latina”. em face da desvalorização do real. (SARAIVA. em parte devido à incompatibilidade dos regimes de câmbio. 95). em uma perspectiva de longo prazo. 9) já afirmava que a consolidação do bloco sul-americano – que só teria personalidade jurídica a partir de 1994 – não era importante apenas no “âmbito da integração realizável no curto prazo. o superávit argentino em relação ao Brasil se transformou em um déficit que só não aumentou devido à forte recessão argentina. 99) descreve como “in iciativa estratégica da política externa brasileira. o lançamento do Nafta também estava relacionado ao questionamento da identidade latinoamericana do Brasil: Após a constituição do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta. p. a qual impediu o crescimento das importações. que era fixo na Argentina e flexível no Brasil. Para agravar o problema. p. pois a intensificação das pressões externas em 1998-1999 reduzia o espaço de manobra para o país” . 2007. Os contenciosos se multiplicaram. em 2000 64. p.. Para Hirst e Lima (2009). 51). a dedicação à articulação da integração sulamericana tornou-se imprescindível para o Brasil. 2008. o crescimento cessou em 1998. A desvalorização do Real em meio à crise econômica internacional também teve forte impacto negativo sobre a economia argentina. foi. em Brasília.. como país latino-americano. e teve queda de cerca de 25% em 1999. As regras aduaneiras foram desrespeitadas diversas vezes. Ainda em 1993. afastou-se do processo de integração mantendo um baixo perfil até o início da administração de Fernando de La Rúa.) O governo argentino. mas também a plataforma a partir da qual reforçaremos a nossa articulação com outros centros da economia internacional”. o que se nota na organização da primeira cúpula de presidentes da região. mas também como sinalização de quais seriam as limitações e potencialidades brasileiras (VIZENTINI. 64 Vizentini (2008.80 em parte para acomodar a prioridade dada ao Mercosul. A presença regional e internacional do Brasil tem sido percebida como um processo intimamente associado à emergência da “América do Sul” como um grupo particular no interior da comunidade internacional. impôs barreiras alfandegárias para produtos brasileiros. gradualmente substituída pela idéia de país sul-americano. Após a explosão do comércio na zona. A construção da identidade do Brasil. (. por seu turno. . Diante da crise. Cardoso (p. 57). (p. na sigla em inglês). O governo brasileiro. portanto.

uma das associações mais relevantes diz respeito às negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). defendendo que o bloco participasse em conjunto das negociações. (LAMPREIA. p. 8 e 9). o que fica nítido quando diz que “temos de manter boas relações com os EUA e ter capacidade de organizar o espaço sul-americano.. de forma ambígua. O bloco também esteve no centro das importantes negociações de um acordo comercial com a UE. Perguntado sobre qual era o norte da política externa brasileira. 1995b. o Brasil tenha tentado evitar. a via da integração. quando o Itamaraty começou a realizar o risco de isolamento devido à questão. pelo menos até o segundo mandato de Cardoso. pragmática. era frequentemente valorizada em discursos de representantes brasileiros. Cardoso (1996c. No período aqui analisado. participativa e promocional. consolidando o Mercosul. embora.). bem situado regionalmente e internacionalmente. explorando o acréscimo de interesse exte rno que a iniciativa cria para nós e contribuindo. de outro dos cinco eixos do universalismo. Trata -se. que tornava a importância do mercado americano ainda maior . durante quase todo o governo Cardoso. p. sejam os de natureza econômica. explorar.81 Mas o Mercosul não teve papel relevante exclusivamente em função da promoção da integração regional. com um grande potencial de mercado. Como forma de se fortalecer ante a pressão por mais abertura com a criação de um mercado comum hemisférico. ser classificado como líder sulamericano. o que traz à tona outra questão relevante: a busca de parceiros estratégicos deve ser entendida conjuntamente com o reconhecimento do papel regional. portanto. Apesar da prevalência da integração regional nas preocupações da diplomacia. nos quais muitas vezes era sublinhada ainda a ausência de graves contenciosos políticos ou militares entre os países da região. É importante destacar que a ideia de ter um país integrado. seguindo uma tendência de então. para a integração hemisférica. que sem dúvida está associado ao primeiro. Lampreia deixa clara essa ideia: Nossa diplomacia tem portanto um papel claro nessa ponte entre nós e o mundo: ampliar as nossas parcerias (. em processo de estabilização e crescimento. o Brasil usou o Mercosul como escudo. Essa exclusão seria especialmente perigosa em um contexto de crise econômica. A estratégia brasileira foi protelar as negociações. objeto de divergências entre Brasil e EUA e principal tema das relações bilaterais no governo Cardoso (SOUTO MAIOR. com sentido de pragmatismo e objetividade. Não é uma diplomacia que se preste a rótulos: ela quer ser universalista. p. politicamente estável. sejam os de natureza política. A10) também levou em consideração a preponderância de Washington. e promover a imagem de um Brasil de economia mais aberta. como será visto posteriormente.. o Mercosul”. 290). 2001. ampliar a nossa participação nos mecanismos decisórios internacionais. em uma estratégia segura e gradualista.

82 (VIGEVANI.2008. portanto. as relações com a UE eram importantes para preservar o potencial de atuação universal do Brasil e do Mercosul. p. apenas na virada do século. mantendo-se as reticências. após 1998. As divergências entre Brasil e EUA não se concentraram. p. Essa oportunidade está condicionada à abertura efetiva dos mercados para nossas indústrias. a influência americana também pode ser considerada uma das motivações para que europeus promovessem a aceleração das negociações iniciadas em 1995 com vistas à formação de uma área de livre comércio entre Mercosul e UE. De forma geral. o embaixador José Bustani teve que deixar a Direção Geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas. Outro indício de que o Brasil priorizava a manutenção de boas relações com os EUA foi dado pelo afastamento. Temas como o tratamento dado a patentes farmacêuticas no caso de medicamentos genéricos foram discutidos na OMC. um novo afastamento foi realizado em função de pressões dos EUA: desta vez. onde o governo brasileiro conseguiu articular apoios em defesa de suas posições. Queremos restringir o uso unilateral de medidas de defesa comercial. há consenso em afirmar que a diplomacia brasileira via as relações com a UE como uma alternativa às relações com os EUA. é vista como uma possível tentativa de atenuar as crescentes divergências agravadas pela ascensão de George W. CINTRA . Há. entretanto. OLIVEIRA. 38) sustenta que. 1998. in VIZENTINI. Bush à Casa Branca (VIZENTINI. . de Samuel Pinheiro Guimarães – que fazia duras críticas à Alca – do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais. 2008. 45). p. especialmente para a agroindústria. A intervenção de FH na terceira cúpula das Américas. em meio às negociações para a formação da Alca. A Europa temia o possível desenvolvimento das discussões sobre a Alca e a política do governo Bush de investir em acordos bilaterais com governos latino-americanos. mas como oportunidade. A relação com a Europa foi diretamente influenciada pelas relações com os EUA e também pela integração regional sul-americana. do Itamaraty. (ALBUQUERQUE. 102). 255). mas sem oposição aberta. uma visão mais favorável às discussões relacionadas à Alca. no fim do governo Cardoso. equilibrando “forças no tabuleiro econômico e político regional com a atração de capitais europeus e com o fortalecimento dos instrumentos de cooperação política” entre o bloco da Europa e o da América do Sul. 11. formalizou essa mudança de maneira clara. A própria troca de Lampreia por Lafer. em abril de 2001. E para o governo 65 Um ano depois. nem tampouco se resumiram à Alca. Queremos abolir os subsídios. O Brasil encara a Alca não apenas como ameaça. Lessa (1998. em meio à polêmica desatada pelas inspeções de no Iraque após os atentados de 11 de setembro do ano anterior. p. No fim do governo Cardoso. p. e a ausência de sua realocação em qualquer cargo até o fim do governo Cardoso 65. 2003. em abril de 2001 em Quebec.

Anos depois (1999c). 14). responsável por cerca de 30 por cento do nosso comércio exterior e por algumas das mais importantes parcerias individuais do Brasil”. Ele ressaltava ainda que os membros da UE “são o principal mercado e fonte de investimentos diretos no Brasil”. 51). “um ‘eixo do bem’ euro-mercosulino teria um razoável peso político dentro da comunidade internacional. a Alca e a União Europeia”. já no fim do segundo mandato de Cardoso. 2003. Apesar de se notar aí também um conteúdo político. Em conferência sobre a política externa brasileira. Por fim. o chanceler destacava que “aspectos protocolares e simbólicos acabam tendo muita visibilidade” e “o que está efetivamente em jogo para o Brasil é o objetivo de consolidar parcerias externas que contribuam para o desenvolvimento do país”. 115 a 117). no entanto. as pecto que será retomado na próxima parte deste capítulo. mas não é uma superpotência política”. É importante considerar. apontado como “a tarefa mais importante da diplomacia”. percebe-se novamente o peso que o governo atribuía publicamente a essa rel ação: “A Europa é uma superpotência econômica. França e Itália. o chanceler diz que a cúpula América Latina-União Europeia realizada no Brasil tinha “grande valor político” pois nela reafirmavam-se “no mais alto nível os propósitos de aproximação entre as duas regiões”. 323). citando nominalmente Alemanha. p. o que seria uma forma “de assegurar para o Brasil maiores espaços de manobra nas negociações econômicas internacionais” (p.83 brasileiro. OLIVEIRA. em conjunto. Reino Unido. Nas declarações de Lafer (2002. p. fechando o ‘triângulo atlântico’ e servindo de interface construtiva entre o . era interessante manter negociações bloco a bloco. tendo em vista a política de integração (VIGEVANI. p. o mais importante parceiro econômico e comercial do Brasil. havia um esforço em afirmar que o mais importante no tema era a questão comercial. Para Gama e Valadão (2001. conclui a que o Brasil não desejava se “vincular de maneira preferencial a um único parceiro comercial” e que a prioridade central era a “manutenção do padrão de equilíbrio na repartição geográfica de nossos fluxos de comércio”. Ao mesmo tempo. p. Lampreia (1996. O chanceler afirma ainda que o Brasil queria concentrar sua “estratégia da negociação em três tabuleiros: a Organização Mundial o Comércio. 147) já destacava no segundo ano do governo Cardoso que a “Europa tem sido tradicionalmente. CINTRA . outra dimensão que se faz relevante: a busca por uma harmonização de posições nos foros internacionais.

). Cingapura e Tailândia entre os países dos quais o Brasil buscou se aproximar. que aqui serão abordadas no contexto das potências regionais. eles começaram a perceber o país e a América do Sul como parceiros interessantes. Já no segundo mandato. O interesse do presidente não ficou apenas no discurso e em seu primeiro mandato ele visitou a Malásia e o Japão – além de Índia e China. por muitos entendida como uma modalidade de protecionismo regional. ele sustenta que a crise. em um processo que também foi influenciado pelas tendências de aprofundamento do regionalismo na Europa e nas Américas. 2) afirma que até os anos 1970 a relação do Brasil com a Ásia se restringia ao Japão. Oliveira (2004. Essa retomada tem clara conotação econômica. a intensificação das relações brasileiras com a Ásia foi marcada por importantes diferenças em relação a períodos anteriores. Os dois primeiros estão entre os chamados Tigres Asiáticos (ao 66 H. inclusive através da Asean (além da China). “a retomada e ampliação do relacionamento com a Ásia adquirem novo vigor pela maior presença tanto da Coréia do Sul e dos países do Sudeste Asiático. com o qual as relações brasileiras perdem força anos 1980 para retomar nos 1990. . duas ressalvas. mas perdeu espaço para competidores que antes não tinham peso relevante 66. quando a região foi definida como uma das prioridades da diplomacia brasileira devido ao potencial para cooperação científico-tecnológica e seu mercado para exportação e importação. Cardoso também definiu a Ásia como uma das prioridades de sua política externa. com entraves para a inserção de atores externos”. Já em seu pronunciamento de posse. a concentração das relações no plano econômico fez com que a crise financeira tivesse impacto negativo sobre os esforços para promover uma aproximação com a Ásia. quanto da China (.84 hegemon norte-americano e o resto do planeta”. Em segundo lugar. 38) cita ainda Taiwan. Nesse fim da década de 1990. a partir dos anos 1990. foram ampliadas as relações com Coreia do Sul e países do sudeste asiático. Oliveira (2004) faz. p. Ele acrescenta que nesse último período. no entanto. H. Oliveira (2004) resume dizendo que a “manutenção da ênfase desenvolvimentista brasileira na política externa em conjunto com o dinamismo econômico asiático aumentou as perspectivas de busca de uma cooperação mais íntima” (p. Em primeiro lugar. também ajudou a aproximar os asiáticos do Brasil. Nesse contexto. Estes eram realizados desde o governo Itamar. O Japão se manteve como o mais importante parceiro no campo comercial e em investimentos. p. Em relação ao eixo do Pacífico. Lessa (1998.. Timor Leste e Indonésia.. ele se tornou o primeiro presidente brasileiro a visitar as capitais de Coreia do Sul. A construção de opções políticas convergentes parece ter sido reservada basicamente à OMC – como será visto adiante. 9). com a Alca. mas também é influenciada pela disputa comercial entre os países desenvolvidos e a proposta de criação de uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca). H. de certa forma.

o presidente disse. acompanhando transformações na realidade internacional. Já no fim do governo. colocou novos e significativos dilemas para seu papel e relacionamentos na Ásia. p. 67 Em um balanço sobre a política externa brasileira no início do segundo ano de governo Cardoso. tem sido problemático responder aos desafios das novas realidades. depois de classificar o Mercosul como “dimensão prioritária e irrevogável da nossa diplomacia”. É preciso citar que a diplomacia também reconhecia a necessidade ainda presente de fazer muito no que tange às relações do Brasil com a Ásia 67. p. p. enquanto outros. 27). (p. o presidente cita União Europeia. 107). Os mesmos Tigres Asiáticos estariam depois entre os mais afetados pela crise financeira desencadeada na região no fim da década de 1990. “A dinamização das relações com a região da Ásia-Pacífico. que desde os anos 1960 ocupava o posto de segunda maior economia do mundo. que a “globalização produziu uma janela de oportunidades para que mais países pudessem ingressar nas principais correntes da economia mundial” e afirmou que os “Tigres Asiáticos e mesmo o Japão são exemplos significativos”. em Nova Déli. 1996a. Japão. África e Oriente Médio. a análise de Lafer (2001) sinaliza mais uma alteração da posição diplomática ao fim do período Cardoso: Já para o Japão. “estes países souberam aproveitar as oportunidades dadas pela economia mundial através da adoção de um conjunto de políticas”. 143) afirma. por exemplo. por exemplo. Lampreia (1996a. Ainda assim. à exceção da China — e no mundo desenvolvido”. Em relação ao último país. tão bem sucedido nos anos 70 e 80. como o Brasil e Índia. Já o Japão. em menor proporção na Ásia.85 lado de Hong Kong e Coreia do Sul). . Para ele. EUA e União Europeia eram vistos como os três pólos de poder econômico mundial e continuavam sendo prioritários em meados dos anos 1990. vem encontrando dificuldades para dar conta de novos aspectos competitivos da globalização. Tem sido igualmente problemático pois o modelo sócio-econômico japonês. 1999c. o que se concretizou em 2010. a visão parece mudar. pois o fim da guerra fria. China e Japão como destinos com os quais o Brasil construiu laços mais sólidos (CARDOSO. caminhava então para perder a posição para a China. 8). integravam-se à economia global “ à custa de maior esforço de ajuste interno” (CARDOSO. que “geramos parcerias novas ou fortalecemos parcerias tradicionais tanto no mundo em desenvolvimento — América Latina. 1996 b. citados no início do governo Cardoso co mo beneficiários das mudanças na economia global. Rússia. Na sua segunda posse. p. Em janeiro de 1996. 287). com especial atenção aos novos parceiros emergentes na região” estava entre os objetivos da política externa brasileira (LAMPREIA. ao alterar os dados estratégico-militares.

A importância reservada aos quatro é destacada no início do governo Cardoso quando Lampreia (1996b. Parcialmente baseadas na crença de que tais países têm características semelhantes e interesse 68 Primeiro-ministro japonês de 2001 a 2006. Na mesma obra. o presidente também oferece visões sobre China. 69 Embora tal classificação não seja um consenso. por outro lado. p. mas uma breve reflexão sobre o tema será feita no capítulo 3. mantêm certa autonomia na formulação de sua política externa e tendem a investir na cooperação internacional como forma de se contrapor ao unilateralismo de potências globais. acrescidos agora da África do Sul democrática”. em relato especialmente interessante para o presente trabalho. Fiquei com a impressão de que o Japão estava ainda muito amarrado em sua política externa e que dificilmente se moveria. Para Saraiva (2007). 651). Recentemente. que serão abordadas a seguir. a Coreia do Sul. Índia e África do Sul. não caberia a este trabalho aprofundar esta discussão. cita a Malásia. a Rússia e a Índia” e o “revigoramento das relações com nossos parceiros econômicos tradicionais. p. Além de China e Índia. a China. mas também podem ser apresentadas como potências médias de grande porte – embora os dois primeiros países tenham peso maior no plano global. Em seu livro de memórias. especialmente no plano econômico. sendo inclusive membros permanentes do CSNU 69. fazendo uma referência ao fim do regime do apartheid. para fazer pressão comum em favor de nossa participação como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU . Numa visão que contradiz a disposição inicial de aproximação e a própria impressão transmitida pela pesquisa documental que será apresentada no último item deste capítulo. onde diz ter encontrado coincidência de propósitos e boa disposição de investir no Brasil. já sob a liderança de Junichiro Koizumi 68. (2006. e o Japão. destacando a ausência de democracia e o desejo mútuo de aprofundar o comércio.86 Vale mencionar algumas observações do presidente sobre a Ásia. foi possível realizar avanços naquela direção. por exemplo. Cardoso afirma: No Japão. Rússia. que foram classificadas por Lessa (1998) como potências regionais. Cardoso (2006) afirma que visitou no continente os países que pareciam fundamentais para o papel político do Brasil e para ligações comerciais. mas. as conversas com o primeiro-ministro Ryutaro Hashimoto indicavam certa dificuldade de movimentos. em 1994. estes países vivem situações comuns: enfrentam condicionamentos externos. 287) apresenta uma “listagem das principai s tarefas do Itamaraty” e cita o “relançamento das relações com os três países continentais. .

ambos engajados num processo de desenvolvimento econômico que está abrindo novas perspectivas de prosperidade para nossos povos. no caso brasileiro. foi um marco central nesse processo de aproximação. Minha visita à China.250) O campo político-diplomático continuou. 13). porém. deve sinalizar o início de uma nova fase de cooperação e entendimento entre nossos dois pa íses. 249 . as relações se concentravam no campo político-diplomático (H. tendo como ponto central as pretensões dos dois países em relação à OMC – que aprovou a entrada da China em 2001 – e à ONU. em seu primeiro ano de mandato: O Brasil compartilha com a China identidades que tornam possível encurtar as distâncias que a geografia.. Para H.87 no reordenamento internacional. sendo destacado. O relacionamento Brasil-China adquiriu uma nova faceta nos anos 1990: a aproximação comercial. No relacionamento Brasil-Índia. durante visita à China. Até mesmo quando os dois países convergiram contra a assinatura do TNP. Oliveira (2004).651) sustenta que foi o governo chinês que decidiu se aproximar do Brasil – ainda nos anos 1980. 2004. Lima (2005) lembra que os dois países participaram desde o início das instituições de regulação da ordem internacional no período pós-Segunda Guerra Mundial. o governo chinês se utiliza de seu assento no CSNU para se aproximar dos países em desenvolvimento e. a história e a cultura nos impõem. já que a diplomacia brasileira via no tratado um instrumento do . 13). 53). a primeira de um Presidente brasileiro desde 1988. enquanto o ativismo brasileiro ao longo dos anos 1960 e 1970 se concentrou nas questões econômico-comerciais (no eixo Norte-Sul). Cardoso (2006. Por outro lado. acenar com a possibilidade de apoiar o pleito do país por uma vaga permanente. historicamente também se nota diferenças no que se refere às relações políticas e às econômicas. Temos um imenso potencial para a cooperação em um grande número de áreas . liderando o Movimento Não Alinhado (um posicionamento diante do eixo Leste-Oeste). a partir da abertura brasileira e da maior inserção chinesa na economia mundial. a Índia investia em temas políticos. p. o Brasil apoiou o ingresso da China na OMC e. as iniciativas brasileiras no sentido de se aproximar dos quatro já se faziam presentes no governo Itamar (p. Em relação à China. (p. Somos países em desenvolvimento de dimensões continentais – os maiores de suas respectivas regiões-.. em 1993. Até então. OLIVEIRA. p. espera que os chineses obtenham vantagens para os países em desenvolvimento (p. A intenção de mudar aparece na seguinte declaração de Cardoso (1995b).) A visita ao Brasil do Presidente Jiang Zemim. (. quando o ex-presidente Sarney visitou o país – e não o contrário. é possível notar diferenças. agora. mas.

A4). o que aparece na seguinte declaração do presidente. Ambos passaram por transformações radicais. participaremos dependendo de em que nível isso venha a ser conveniente. Vale destacar que. 159) ressalta que. Vieira (2007. Cardoso (2006. p. 654) mostra pouco entusiasmo com as relações BrasilÍndia: “confesso que me é mais fácil ver a reciprocidade entre nossos interesses e os da China do que o mesmo com a Índia”. 37 e 38). já no governo Lula. O Brasil não quer. os dois países compartilhavam esforços no Gatt e pela “democratização” dos mecanismos decisórios em organismos internacionais. pouco antes de sua viagem à Índia: O Brasil não está postulando uma candidatura própria. Está postulando uma reforma do sistema das Nações Unidas e. Ainda assim. com um mundo em que não há mais predominância de blocos. 1996. 159 e 160) cita também a falta de cooperação em matéria de segurança. p. adotada em 1991. na viagem a Nova Déli. especialmente na ONU. Brasil e Índia sempre combinaram suas políticas e agora. é possível uma maior desenvoltura nessas relações. iniciado por Amorim ainda no governo Itamar. No primeiro caso. Essa convergência ganhou novos contornos nos anos 1990. . Nos fóruns internacionais. assim. entre elas as já citadas reticências do governo Cardoso em relação a esta campanha. desconfianças indianas. Nós achamos que outros países da América Latina também poderiam participar e estamos vendo com muita tranqüilidade esta matéria porque nós não temos nenhuma pretensão hegemônica. em 1996. desde a segunda metade do século XX. depois de um longo processo. de forma nenhuma. tornando o país mais atraente para iniciativas comerciais. a democratização foi acompanhada pela suspensão do embargo econômico internacional.88 “congelamento do poder mundial” – preocupando-se. Em seu livro. os testes nucleares realizados pelo país em 1998 e a forte oposição do Paquistão à candidatura da Índia. com o fim do apartheid e da URSS. No plano 70 Vieira (2007. sobretudo regional. estabelecer uma relação de competição. se for o caso. o presidente assina uma declaração conjunta que expressa a elegibilidade dos dois países para um Conselho de Segurança expandido. com questões econômicas e tecnológicas – e a indiana tendia a enfatizar aspectos relacionados à segurança (p. p. (CARDOSO apud MESQUITA. quando os contatos brasileiros com estes dois países também experimentaram crescimento. a formalização do apoio mútuo às candidaturas a um assento permanente só ocorreu em 2003. p. respectivamente. A reforma do CSNU também não parece ser tema central das relações do Brasil com a África do Sul e a Rússia nos anos 1990. Algumas explicações podem ser apontadas para esta demora 70. com a decadência do Movimento Não Alinhado e a inauguração de um novo paradigma de inserção globalista da Índia – a partir da “new economic policy”.

ampliado com o fim do embargo e a volta dos investimentos”. 287) inclui ainda nas tarefas do Itamaraty o “revigoramento das relações com nossos parceiros econômicos tradicionais. No primeiro ano do governo Cardoso. a lembrar que esteve com o então presidente sul-africano. o governo brasileiro reconheceria o governo do MPLA. a China. dois meses depois. Já com certo distanciamento. à ampliação do comércio” (p. enquanto. 149) classifica o país como “um dos pólos mais dinâmicos de desenvolvimento no Hemisfério Sul. pesaram também – até os anos 1970 – as divergências em relação a Angola. porém pontuado por restrições de cunho político”. 83) sustenta que já nesse período o governo sul-africano buscava ampliar as relações comerciais com o Brasil. a Rússia. acrescidos agora da África do Sul democrática”. 8) mencionou os “laços mais sólidos com União Européia. 290) diz que fazia parte do papel da diplomacia explorar “novas parcerias onde nossa presença ainda é incipiente”. resumindo-se mais especificamente. Em sua segunda posse. Ele (1996b. Ainda assim. Ao enumerar as formas pelas quais o “Brasil está consolidando uma inserção ativa e soberana no sistema internacional”. p. o presidente brasileiro não citou o país. 667). invadida em 1975 por sulafricanos que apoiavam a Unita. Na descrição de seus encontros com Boris Yeltsin. p. e que o “nível de entendimento político e econômico entre nós é elevado”. p. O chanceler (1996a. Cardoso (1999a. ele expõe em seu livro autobiográfico a disposição russa de se aproximar do Brasil. 647) se limitou. ainda como presidente eleito. Sobre as relações com o Brasil. p.89 político. Thabo Mbeki. além de ser o foco da atenção quase universal pelas suas potencialidades e pelo seu vigor econômico. p. . em 2002. Cardoso (2006. citando entre elas a África do Sul. e com Vladimir Putin. como vem ocorrendo há vários anos. o regime de segregação racial havia praticamente excluído a África do Sul das coalizões internacionais durante a Guerra Fria. em 1994. e o Japão. Já o interesse brasileiro é retomado nos anos 1990. sobretudo no plano comercial. que “as relações conosco não mereciam lugar exce pcional na agenda russa. em seu livro. porém. p. Penna Filho (2001. Lampreia (1995b. quando “ambos buscaram. O próprio presidente afirma. resgatar um relacionamento antigo. sem detrimento para nossos vínculos históricos com a África”. a princípio timidamente e ao avançar a década com um pouco mais de desenvoltura.

também é importante avaliar agora fatores de ordem interna que tiveram influência nesse processo de formulação e implementação da política externa. em 1994. as transformações no país apresentavam algumas semelhanças com o processo de modernização econômica brasileiro. que ainda era URSS (ZUBELZU. 107) afirma que a Rússia – grande “derrotada” da Guerra Fria – “continua detendo a segunda maior capacidade nuclear mundial” e está “em meio a grandes dificuldades econômicas e políticas. No início dos anos 2000. especialmente dos latino-americanos mais desenvolvidos. os quais. quando também foram abordados os fatores de ordem externa que contribuíram para a elaboração da visão de mundo expressa na política externa ao longo destes anos. Lafer (2001. a URSS tentava se aproximar da América Latina. Nas duas visitas ministeriais. com objetivo de mostrar como os comportamentos refletem as crenças descritas na seção 1. Collor e Cardoso foram como presidentes eleitos à Rússia. a partir de inferências descritivas. 2. A av aliação do novo chanceler está de acordo com os resultados dos esforços em busca de uma aproximação com o país. mas ao longo de toda a década não houve qualquer missão presidencial. Sarney ainda era o último presidente a ter feito uma visita oficial ao país. até aqui. México e Argentina. 2000. 61 a 64). por sua vez. o presente capítulo procurou mostrar.2. Esta seção vai discutir as realizações diplomáticas no mesmo período. p. Para isso. os chanceleres assinaram acordos.90 Desde os anos 1980. Retomando parte do que já foi demonstrado. visitou o Brasil em 1997. que também recebeu Amorim. junto com o produto das outras iniciativas abordadas. O chanceler russo Yevgeny Primakov.2 O mainstream no Brasil Seguindo a proposta de investigação de Goldstein e Keohane. é possível afirmar que a estratégia descrita por Lessa (1998) como “universalismo seletivo” engloba os quatro pontos principais . Já nos anos 1990. inclusive. serão analisados adiante. p. alguns dos comportamentos que podem ser considerados padrões da diplomacia de Cardoso. com o lançamento da Perestroika. qualificar a relação entre os países como “parceria estratégica”. Já no fim do governo Cardoso. buscando. como Brasil. à procura de uma nova identidade internacional”.

p. Assim. esses dois pontos garantiram a Cardoso imprimir sua marca na política externa de seu governo (mais próxima da segunda corrente diplomática). para entender as principais diferenças entre este governo e o governo Lula. Ao longo desta análise. indo além dos discursos. A presente dissertação defende que este tipo de incoerência pode ser 71 Nas palavras de Lampreia. traçar um panorama das posições diplomáticas de seu governo. de maneira geral. o presidente Fernando Henrique assumiu a condição de principal interlocutor externo do Brasil” (1995(b).91 da política externa de Cardoso segundo a visão de Cervo (2008a) (multilateralismo. Estes permitem. p. mesmo na ocorrência de incoerências entre o discurso e a prática. e orientação para a Europa). apesar da crescente politização do tema no país (HURRELL. é o que se pretende mostrar ao longo do presente trabalho para que se possa compreender o novo sentido dado mais recentemente à campanha pelo assento permanente no CSNU. demonstrar qual sentido a diplomacia de Cardoso concede a essas dimensões da política externa tendo em vista três aspectos: a importância da América do Sul e do Mercosul para seu projeto de projeção internacional. 29). contradições nas relações com os EUA. o que será abordado posteriormente. sobre a política externa – que é característico do Brasil. que seja desnecessária uma análise mais aprofundada das realizações de sua diplomacia. 267). 2005. é possível afirmar que as declarações ajudam a entender as opções de política externa por expressarem crenças dos agentes envolvidos em sua formulação e implementação. suas simultâneas reticências no plano global e. p. o lançamento de algumas diretrizes que serão aprofundadas por Lula. Estes traços descritos pelos dois autores não são suficientes. porém. 38 e 39) – e a conjuntura política nacional favorável desfrutada por Cardoso. integração do Cone Sul. há dois fatores de ordem interna que se deve ter em mente: o controle estatal do Executivo. 2009. É possível dizer que esta marca foi carimbada com sua intensa diplomacia presidencial71. Somados à divisão entre autonomistas e liberais dentro do MRE. no entanto. em última análise. . assim. “exercitando a diplomacia presidencial. Esta seção tentará. cujo governo enfrentou poucos problemas (menores que aqueles enfrentados pelo governo Lula) para obter apoio do legislativo às suas propostas de políticas públicas (LIMA. A importância aqui reservada às posições do presidente não significa. por outro lado. por meio da burocracia. o que. pois – seguindo a proposta de Goldstein e Keohane – considera-se aqui que as visões de mundo afetam as formas de discursar.

Saraiva e Almeida (1999) destacam também a falta de avanços em outras áreas onde havia expectativas. seja enquanto plataforma negociadora com a qual seus membros procuram reduzir as assimetrias que marcam suas . houve avanços com a expansão das trocas entre os membros do bloco. Mesmo entre autores que vêem avanços significativos no setor comercial parece consensual a avaliação de que na virada para o século XXI o processo de integração não alcançou o estágio previsto no Tratado de Assunção. Eles destacam inclusive que. A soma dessas dificuldades levou Vaz (2001 ) a resumir a situação do processo de integração sul-americano no fim do governo Cardoso como um quadro ambíguo: De um lado. que é nos campos de segurança internacional e política externa que a integração encontrava maiores dificuldades. Os autores afirmam. Considerando que o Mercosul era o principal projeto. manifestaram-se divergências em relação à composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas. 44 e 45). p. vale analisar os resultados das gestões diplomáticas deste período em relação à região. junto com a opção argentina pela aliança nesta área com os EUA” (p. 28). as pretensões brasileiras não se concretizaram. no “espectro mais estratégico. 2001. onde a cooperação seguiu ritmo mais lento que na área econômica. As explicações para tanto vão desde a concentração de esforços dos países membros na estabilização de suas economias até a opção dos governos por resguardar sua autonomia nesta área. porém. mas estes resultados têm que ser matizados pela ocorrência de desvio de comércio – apontada por alguns analistas como maior que a própria ampliação promovida pelo Mercosul – e pela importância da estabilização econômica e das reformas conduzidas no início dos anos 1990. a coordenação de políticas na área não avançou. que por si só tiveram impacto sobre a atração de capitais estrangeiros e a promoção do crescimento econômico. Em relação à integração econômica. é importante avaliar seu desenvolvimento no âmbito político e econômico. Antes de abordar este ponto. especialmente de Brasil e Argentina. como a aproximação nos campos científico e de energia. como a promoção da competitividade internacional da produção regional (VAZ. a dimensão estratégica do Mercosul termina associada quase que exclusivamente às suas vinculações e possibilidades externas . É importante destacar também que no fim do governo Cardoso alguns objetivos do bloco não haviam sido cumpridos. No plano comercial.92 observado no posicionamento da diplomacia durante o governo Cardoso a respeito de seu papel de liderança na América do Sul. Parece ser consensual que. em ambas as esferas.

Sua aproximação da tradição hobbesiana ou da grotiana pode ser medida. Assim. Isso porque o já mencionado desejo de autonomia constante na política externa. a autora não nega que o “Brasil adira a normas internacionais de regulação guiado por princípios de justiça”. Considerando que a direção da atuação internacional pode ser identificada pelo grau de institucionalização que o país defende. os interesses são vistos como constitutivos da ordem.93 relações. Essas duas vertentes se combinam no institucionalismo neoliberal. marcada por um realismo que pode ser hobbesiano ou grotiano. 48). Partindo dessas premissas. as quais são reveladoras de traços relevantes da política externa de Cardoso. Pinheiro conclui que na política externa brasileira. como meio de garantir sua liderança dentro da região e . no âmbito regional. Aqui vale citar o ensaio elaborado por Pinheiro (2000) acerca do tema. mas se somam. individualmente. pelo grau de institucionalização da prática diplomática. ela faz então uma análise das relações brasileiras com a América do Sul no governo Cardoso. este ponto merece atenção no presente trabalho porque. a autora afirma que política externa brasileira é. em que Estados privilegiam a busca por justiça e se considera que o sistema internacional é regido por regras. o Mercosul termina afastando-se do sentido de construção de um projeto comum de desenvolvimento e de transformação produtiva que presidiu seu surgimento e os primeiros anos de sua trajetória. estando uma a serviço da outra. Para além de uma discussão sobre seus resultados concretos. mas sugere também que “o país se pauta por interesses no sentido de uma maior participação na ordem”. o hobbesianismo e o grotianismo não são estratégias distintas. segundo propõe Pinheiro. conforme já mencionado. “É dessa forma que podemo s entender a relação do Brasil com os demais países da América do Sul. Em síntese. ( p. se utiliza dessa visão grotiana para satisfazer sua busca por poder. Saraiva e Almeida apontam uma preocupação brasileira em explorar o Mercosul como mecanismo de ampliação de sua inserção internacional – ou seja. Em consonância com o autor. e com os principais pólos dinâmicos da economia mundial. se utilizar de suas “possibilidades externas” –. com seus principais parceiros econômicos. mas concluem que isto não vem se traduzindo em uma liderança propositiva. como tendo por base uma visão hobbesiana antes que grotiana. seja como eixo de articulação. simultaneamente. de forma geral. embora seja como uma traição à receita grotiana de cooperação pela justiça. a agenda interna terminou centrando-se nos temas comerciais – notadamente os inúmeros conflitos bilaterais que terminaram ditando percepções negativas sobre o bloco – com esparsos avanços em áreas específicas. expõe contradições entre o discurso e a prática. O poder das instituições é maior no segundo caso. No segundo caso.

destacam-se dois pontos: predomina no governo Cardoso a visão de que.). Ela acrescenta. arcar com os custos da estabilidade. nesse sentido mais preocupado com ganhos relativos. 324).. não deve ser assumido como um objetivo da política externa. mas expressa a crença de que este protagonismo é percebido de forma negativa e. Nessa perspectiva de Pinheiro. “usando o chapéu do institucionalismo neoliberal”. portanto. p. p. ele lembra que foi incitado pelo então presidente americano “a que o Brasil tivesse uma participação mais audaciosa na cena internacional”.94 aumentar seu poder de barganha extra-regional” (PINHEIRO. posto que ele evita. É o que a autora chama de institucionalismo pragmático. a preocupação com ganhos relativos de poder poderia inviabilizar qualquer possibilidade de obter vitórias – o que tem impacto sobre a campanha pelo assento permanente no CSNU (que seria um ganho relativo) – e ii) a participação nos fóruns globais associada a outros Estados sul-americanos aumentaria a possibilidade de ganhos absolutos. age conforme esta capacidade. (2000. 2000. Em sua autobiografia.. 2000 p. embora se lute pela garantia dos benefícios. p. Cardoso (2006. há maior presença da vertente hobbesiana pela via da baixa institucionalidade e da pouca durabilidade das instituições. i) como no plano global a assimetria de poder é desfavorável ao Brasil. no qual a diplomacia brasileira deixa transparecer suas reticências quanto à possibilidade de assumir maiores responsabilidades. nota-se que há resistência em se assumir o papel de hegemon no que ele implica custos. Isso não implica dizer que o Brasil vem adotando uma postura de carona – Estados que se beneficiam da cooperação sem contribuir com seus custos – . estar disposto a absorver os custos da cooperação em favor desse bem público e disposto a gerir os problemas de ação coletiva (. ao mesmo tempo que. este deve. 325 e 326). outro ponto que merece menção: Enfim. mas também não se pode atribuir a ele o perfil clássico do hegemon que. por fim. . em benefício próprio. 232). a diplomacia brasileira parece se pautar pela lógica da busca de ganhos absolutos no âmbito global – e para isto a cooperação intra-regional e internacional é enfatizada” (PINHEIRO. a política externa se move em direção ao pólo hobbesiano por optar pelo baixo grau de institucionalidade nas relações sul-americanas. à moda de um hegemon em uma visão benevolente da hegemonia. Ao relatar uma conversa com Bill Clinton. ou seja. Pinheiro afirma também que. A mesma estratégia também ajuda a compreender uma certa timidez no plano global. tendo a capacidade de estabelecer as regras e de implementá-las. no plano regional. As iniciativas de cooperação são bem-vindas mesmo se capitaneadas por um líder. no entanto. essa estratégia explica o discurso sobre a (ausência de) liderança regional brasileira. 628) nem tenta esconder esta última faceta. Ao fazê-lo. Somada à relutância do Brasil a assumir o papel de hegemon. os custos do aprofundamento da institucionalidade das regras. “Assim. a exemplo da resistência à criação do Tribunal Judicial do Mercosul. o qual é incoerente com a prática.

2008b. Colômbia e México à candidatura brasileira no CSNU. promovendo a superação de contenciosos. aventurar-se por esses mares bravios”. as relações chegaram a ficar condicionadas a futuros avanços da Rodada de Doha na OMC – que terminou sendo travada anos depois – e não foi dado qualquer passo concreto (TREIN e CAVALCANTI.95 Completa dizendo que manteve sua posição: “é cedo para um país com tantos problemas internos de pobreza e desenvolvimento insuficiente. 478). brandindo o vaticínio de que as restrições do Brasil à Alca teriam como única conseqüência isolar o país no continente” (p. porém. CINTRA . OLIVEIRA. o que sem dúvida facilitava a relação. p. Entre elas estão a própria reforma econômica. em 2002. Mesmo tendo sido capaz de protelar uma conclusão. entre eles a própria oposição de Argentina. talvez mais importante. Na relação com os EUA. . “o pragmatismo e a busca de uma atitude cooperativa permitiram um razoável equilíbrio. Algumas iniciativas brasileiras também favoreceram. os EUA. partiram para a “contra -ofensiva. especialmente durante o governo Clinton. Souto Maior (2001) também afirma que a estratégia brasileira de tentar usar a América do Sul (mais especificamente o Mercosul) como escudo para as negociações da Alca não foi totalmente eficaz. com abertura e estabilização. não houve avanços significativos. como o Brasil. é possível afirmar que. Cardoso conseguiu manter boas relações com os americanos se valendo de sua amizade com o presidente. mesmo quando os ganhos não chegavam aos níveis desejados” (VIGEVANI. Com a UE. 64). evitando-se perdas de maior importância. 2003. No último encontro durante o governo Cardoso. Mesmo no governo W. e as adesões ao Missile Technology Control Regime (MTCR) e ao TNP. de forma geral. na América Latina de forma geral a busca do Brasil por um papel mais relevante terminou enfraquecida pelos constrangimentos na região. Do ponto de vista prático. p. apesar do acordo-quadro assinado com o Mercosul em 1995 e das cúpulas América Latina– União Europeia realizadas para discutir as relações intra-regionais. Também é importante destacar que. 76). “percebendo Brasília em desvantagem”. os demais países sul -americanos não se mostravam tão sensíveis aos riscos do projeto e. Bush foi possível administrar as relações entre os dois países em um clima de “cordialidade desconfiada” (CERVO. 58 e 45). 2007. p.

como Carrefour. apesar de iniciativas em prol de uma aproximação. A experiência. 89). H. depois de um período de deterioração das relações (entre o f im da Segunda Guerra e meados dos anos 1960) e da subsequente redução dos contenciosos. não teve sequência no governo Lula (SARAIVA. o balanço das relações do país com o Brasil. Em relação à África do Sul. Em resumo. Ainda no hall das relações bilaterais. p. Lessa (2000. porém. 480 a 482). que ainda era acompanhada de um mal-estar. No tocante à Ásia. Na década de 1990. mas comparado à aproximação em relação a outros países desta mesma “categoria” ainda estava “se desenvolvendo em menor velocidade (PECEQUILO. a custo mais baixo que os de fabricação americana.96 Em relação às negociações bloco a bloco. 24) destaca “a retomada espetacular dos investimentos franceses no Brasil” a partir de 1996. o relacionamento vem crescendo no eixo comercial e político. que durante este período se opôs à política agrícola que beneficia a França. Por fim. Renault e Peugeot. 2007. Portugal e Espanha – tendo os dois últimos conquistado um novo patamar nas relações com o país (SOARES. 2008b. p. mas o comércio não acompanhou. vale mencionar a Alemanha. é positivo. até os anos 1990. Com a Rússia. embora ao longo dos anos 1990 o Brasil tenha se mostrado mais reativo diante de iniciativas indianas (VIEIRA. mas de importância secundária devido aos tradicionais laços com a Europa e as Américas”. Por outro lado. 72 Vale mencionar ainda a exitosa aliança do Brasil com África do Sul e Índia na área de patentes farmacêuticas. p. no plano bilateral. a região é “importante na busca de diversificação de mercados e de parcerias políticas. 15) sustenta que. Os dois primeiros puderam passar a comprar medicamentos anti-HIV de produção indiana. p. Oliveira (2004. 2001. mas nem por isso se aproximou mais do Brasil. As relações com a Índia evoluíram. a Alemanha continua sendo um dos principais parceiros brasileiros. as potências médias de grande porte merecem ser analisadas caso a caso. o país perdeu para a Argentina a posição de segundo parceiro comercial mais importante do Brasil e não participou do processo de privatização brasileiro. tendo no protecionismo agrícola francês seu principal entrave (CERVO. Ainda assim. 88). p. p. a França é a principal beneficiária da questão que se configura como o maior obstáculo a uma aproximação maior: os subsídios agrícolas. no fim do governo Cardoso ainda havia dúvidas sobre o acordo entre Mercosul e Southern African Development Community (SADC) e o Itamaraty se dedicava a ampliar os contatos bilaterais (PENNA FILHO. 55). 2000. os investimentos da França trouxeram novos grupos. 2007. . p. 95)72. ao contrário de EUA.

Esta determina que qualquer reforma do CSNU precisaria ser aprovada por dois terços na Assembleia Geral. . Ásia. 2. 2007. “seu mercado passou a ocupar a terceira posição como destino das importações brasileiras. no início dos anos 2000. mas novos passos no sentido de construção da ‘parceria estratégica’ não foram dados” (SARAIVA. América Latina e Leste europeu). mas. Em análise publicada no início dos anos 2000. marcado pelo ‘sucesso’ da intervenção no Golfo Pérsico. Este vai mostrar que. Embora não tenha sido votada. como será demonstrado. a invasão do Iraque sem autorização do CSNU – que fez deste episódio um marco para as gestões relacionadas à expansão do Conselho. p. o governo Lula impõe mudanças cruciais apenas em relação ao primeiro e ao último. que seriam ocupados por dois países desenvolvidos e três em desenvolvimento (de África. primeiro projeto concreto de expansão do CSNU73. e quatro não permanentes (que seriam de África. da resolução A/RES/53/30. europeu. é possível afirmar que apenas um momento marcou de forma profunda as negociações sobre a reforma do Conselho de Segurança. Agora. A avaliação das relações com estes cinco eixos listados por Lessa – regional. a última seção do presente capítulo vai analisar o desenvolvimento deste pleito no governo Cardoso. foi a repercussão interna na ONU da reação americana aos ataques – mais especificamente. vale ressaltar que. Quanto à China. mobilizou os Estados-membros mais resistentes à reforma. quando comparado ao governo Cardoso.97 2008. Tais transformações. da chamada proposta Razali. Ásia e América Latina). observa-se uma articulação entre a idéia de uma ‘nova ordem 73 É importante destacar que os atentados de 11 de setembro de 2001 também terminaram tendo impacto sobre as negociações da reforma. levando à aprovação. A proposta não chegou a ser votada. Herz e Hoffmann (2004) apresenta m um cenário que era válido no fim do governo Cardoso: Durante o período imediatamente posterior ao fim da Guerra Fria. norteamericano. e importante fazer algumas observações sobre o contexto que levou o malaio Tan Sri Razali Ismail a apresentar tal projeto quando ocupava o cargo de presidente da Assembleia Geral e do OEWG 74. em 1997.3 À espera de mudanças na ONU Nos oito anos de governo Cardoso. Tratase da apresentação. Além disso. 55). e não apenas por maioria simples. mas esse impacto se fez sentir de forma decisiva apenas quando no Brasil a Presidência já era ocupada por Lula. para analisar mais detidamente o posicionamento do Brasil em relação à reforma nesse período. em 1998. 146). conforme será demonstrado no capítulo 3. 74 A proposta previa a criação de mais cinco assentos permanentes. p. são significativas e terminam tendo impacto sobre a campanha pelo assento permanente no CSNU. Pacífico e potências regionais – e mencionados aqui é importante porque será retomada no próximo capítulo.

Hoje. que era então embaixador do Brasil na ONU. As propostas de reforma caracterizam-se pela multiplicidade de questões abordadas. O que essa seção do presente capítulo vai mostrar. diante da pequena probabilidade de aprovação do projeto pelos dois terços necessários na AGNU.EUA. que abordará as gestões feitas em prol da ampliação do Conselho. porém. 2009). Isso será discutido na seção 2. 113). o ceticismo e a rotinização do fluxo de propostas e negociações marcam esse debate. mas não impediu que as discussões da reforma atingissem um “momento até ótimo”. dentre as quais destaca-se a preocupação em democratizar a organização. as propostas surgidas nesse momento mostram um elevado grau de otimismo em relação ao papel da organização e às possibilidades de reforma da mesma. p. sem aprovação do órgão 75 (p. Sobre o Conselho.são também membros da Otan. (p.1 apresentará uma análise sobre os discursos da diplomacia brasileira relacionados a este assunto. que pode ser considerada um “rompimento” entre os membros permanentes do CSNU. com a apresentação da proposta Razali. Tal mudança.3. Pesou neste resultado a posição dos EUA. mas. mas é importante considerar que a ampliação do CSNU ainda hoje é discutida formalmente nas Nações Unidas dentro desse contexto. Há divergências também sobre a adequação do contexto à reforma do CSNU e a importância de investir em tal objetivo. A proposta também enfrentou oposição do grupo chamado “ Cofee Club” 76. 28). ficou clara na decisão da Otan de intervir no conflito no Kosovo. Esse processo que l evou ao fim a “euforia” do pós Guerra Fria já estava em curso antes mesmo de 1999. que explicitaram sua oposição a uma expansão que elevasse a composição do Conselho a mais de 20 membros (DUARTE. três Estados . 127). parece ter visões diferentes daquel as que são sustentadas por Lampreia e por Cardoso sobre a proposta Razali. previa que seus integrantes seriam prejudicados caso tal proposta se concretizasse (VIOTTI. liderado por Egito. é que Amorim.98 internacional’ e o novo papel da ONU. Referência ao local onde se reuniam (VIOTTI.3. França e Reino Unido . 2009). não chegou a ser levado à votação. especificamente. O texto foi apresentado para discussão. 75 Vale lembrar que entre os P5. Assim. Herz e Hoffmann também apontam mudanças importantes entre o início dos anos 1990 e o fim da década: neste momento. Itália e Paquistão – e mais tarde também pela Argenti na –. Antes. 2009) 76 .2. o item 2. não se observava mais o consenso observado quando os P5 convergiram na autorização relativa à Guerra do Golfo. México. nas palavras de Amorim (2003. conforme discutido no capítulo 1. em 1999. As autoras se referem aí à reforma da ONU em sentido mais amplo. o qual.

as mesmas críticas feitas por seu antecessor. estando sintonizado “com as duas principais forças que movem o 77 Todos os discursos mencionados nesta seção do trabalho se encontram no livro O Brasil nas Nações Unidas: 1946 – 2006 (CORRÊA.99 2. e mais especificamente do CSNU. 1996. Fora da Organização. O padrão que se observa é a apresentação na ONU de discursos mais enfáticos em defesa da ampliação do número de membros permanentes. Em 1995. estabilidade política. No ano seguinte. . de forma geral. o tom e o conteúdo das declarações oficiais da diplomacia brasileira e até mesmo do presidente sobre a reforma do CSNU variam bastante de acordo com o contexto e a “plateia”.1 Cobranças dentro da ONU. Defendeu que o conceito de poder havia mudado já que a soberania de um país dependia “cada vez mais de bons indicadores sociais. cautela do lado de fora Ao longo do governo Cardoso. o então chanceler manteve. Ele sustentou também que o Brasil se orgulhava de sua “nova projeção” internacional – baseada em democracia. o que se nota é a cautela que. repetindo a referência às idéias de legitimidade. Na defesa da reforma da ONU. O primeiro exercício que leva a tais conclusões é uma análise dos discursos de representantes brasileiros nos debates da Assembleia Geral 77. Lampreia afirmou que no momento da criação da Organização “o mundo entrava em uma nova fase de política de poder que já não mais se aplica”. por outro lado. competitividad e econômica e progresso científico e tecnológico.3. Lampreia voltou a repetir Amorim ao destacar a existência de um “virtual consenso sobre a reforma do CSNU”. estabilidade e abertura econômica -. e não de poderio militar”. representatividade e eficácia – mencionadas por Amorim em seu discurso na Assembleia em 1993 – como o tripé de deficiências a serem superadas pelo órgão. Para reivindicar a reforma do CSNU. marcou grande parte dos posicionamentos do país em matéria de política externa nesses oito anos. as principais inovações no discurso do representante brasileiro em relação a seu antecessor parecem ter sido a valorização da abertura econômica promovida pelo país. 2007). Foi no âmbito das Nações Unidas que também se concentraram as poucas ações da diplomacia em prol do pleito brasileiro nesse período.

sobretudo. maneira como Lampreia definia a atuação internacional do Brasil no governo Cardoso. Mas. Annan produziu “‘Nós. Outros destaques de seu discurso foram os elogios ao projeto Razali – “nos permitiu resgatar o ideal de uma reforma do Conselho voltada a fortalecer a Organização como um todo” – e ao relatório “Nações Unidas: um programa para reforma”. em 2000. elaborado por Kofi Annan 79. . coragem e. Entre elas. 1999). Em 1998. a vontade política de fazer avançar a discussão de questões (. ele citou a reforma do CSNU. Com o país ainda a salvo da chamada “crise asiática” . considerando que a solução para os problemas ainda estava longe. Em 1997. os povos’: o papel das Nações Unidas n o século XXI”. o então ministro seria mais explícito no pleito por um assento permanente no órgão: “O Brasil.100 mundo de hoje: a liberdade política e econômica e a cooperação por meio da integração e do comércio”78. Lampreia enfatizou que era “preciso ter perseverança. Lampreia aproveitou para se opor à criação de uma terceira categoria de membros do CSNU. permanentes sem direito a veto ou com direito apenas a “meio -veto” eram possibilidades que tinham à época apoio significativo (HERZ.. por intermédio do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Membros semi-permanentes. já se manifestou pronto a aceitar as responsabilidades decorrentes da condição de membro permanente do Conselho de Segurança”. em 2002. que fora eleito secretário-geral da ONU no início de 1997 e era partidário das discussões sobre a reforma da Organização. E. ano em que o país iniciaria mais um biênio como membro não permanente do CSNU. o representante brasileiro demonstrou preocupação ao afirmar que a reforma da ONU deveria fazer da Organização “a alternativa viável e lógica ao unilateralismo ou a políticas de poder”.. 79 Além do relatório de 1997. “o discurso brasileiro ainda poderia concentrar -se prioritariamente nos temas políticos e de segurança”. o discurso de Lampreia na Assembleia foi influenciado “pela instabilidade reinante 78 Trata-se do citado “comportamento de mainstream”.cujas conseqüências mais graves sobre a economia brasileira viriam no ano seguinte –. apesar da avaliação favorável da conjuntura. o ministro afirmou também que “o Brasil está determinado a desempenhar a função de membro permanente em representação da América Latina e do Caribe”. Sustentando que a “integração econômica é cada vez mais a grande promotora e garante da paz”.) que dizem respeito à própria relevância da Organização nas relações internacionais nesta mudança de século”. e “Reforçar as Nações Unidas: uma agenda com vista a uma maior mudança”.

2007. Além disso. p. países em desenvolvimento. Tal ideia é associada à reforma da ONU: “reforçar as Nações Unidas é parte essencial da construção de um mundo mais solidário". Diante deste cenário. p. mas nos recursos que viabilizam o exercício do poder.101 nos mercados financeiros internacionais e pela volatilidade dos movimentos de capital que àquela altura penalizavam com particular intensidade o Brasil”. . ele acrescentou aos já tradicionais argumentos a assinatura do TNP. as palavras “Conselho de Segurança” deixaram de ser mencionadas pelo representante brasileiro. a opção racional no longo prazo não será a de uma aposta na ordem e na normatividade. assim como pelas insuficiências demonstradas pela ONU em lidar com aquelas situações” (CORRÊA. embora a necessidade de fortalecer as Nações Unidas tenha sido mencionada. Lampreia classificou a globalização como excludente. Foi a primeira vez desde 1993 que esta discussão ficou fora do discurso do país na Assembleia. Uma ordem verdadeiramente nova deve ter. 2007). apontando para a necessidade de solidariedade internacional. 650). o ministro não falou diretamente sobre a reforma do CSNU. ao voltar a enumerar o que considerava credenciais do Brasil para ter um papel mais ativo na Organização. no Timor Leste e em Angola. As palavras do presidente. 2007. como reflexo da crise asiática (CORRÊA. Em 1999. Lampreia afirmou que o “Conselho de Segurança não pode continuar a ser desrespeitado em suas resoluções como vem ocorrendo”. O chanceler foi enfático ao afirmar que “essa é uma mensagem que nós. citadas pelo ministro. a aceitação de instituições multilaterais – a começar pelo Conselho de Segurança – como fonte da legalidade e da legitimidade dos atos que garantem a paz e a solução pacífica de controvérsias. Já no ano 2000. mostram preocupação com a situação do órgão diante dos acontecimentos então recentes: Se o unilateralismo e o uso da força forem percebidos como princípios orientadores das relações internacionais. (CARDOSO apud CORRÊA. O discurso do chanceler naquele ano também foi marcado pelo “agravamento da s crises no Kosovo. A fala de Lampreia foi marcada por duras críticas ao “descompasso entre a retórica do livre comércio e a manutenção de políticas protecionistas dos mais diversos tipos por parte dos países desenvolvidos”. devemos apresentar com toda força e clareza”. Ele só fez referência ao Conselho quando mencionou o discurso de Cardoso ao assumir naquele ano seu segundo mandato. 636). como aspecto primordial.

Já no fim de seu discurso. A possibilidade de os EUA invadirem o Iraque já era então discutida. mais uma vez.. (. o representante brasileiro no debate geral da Assembleia. o representante brasileiro foi o chanceler Celso Lafer. Ele destacou a necessidade de uma “ordem internacional justa”. os trechos selecionados mostram também. O contexto era especial por conta dos recentes atentados de 11 de setembro. 2002. Cardoso foi. o mundo precisa de uma ONU forte e ágil”.) Já não faz sentido circunscrever a um grupo tão restrito de países a discussão dos temas que têm a ver com a globalização e que incidem forçosamente na vida política e econômica dos países emergentes. Desde seu início. é útil alinhar os seguintes pontos básicos: 1) antes de discutir quais países ocupariam 80 Uma possível explicação é a importante participação da delegação brasileira nas Nações Unidas na elaboração dos discursos feitos no âmbito da Organização. mas afirmou que “o terrorismo não pode silenciar a agenda da cooperação e das outras questões de interesse global”. O presidente mostrou solidariedade aos EUA. nota-se nos discursos do lado de fora da ONU uma timidez e um temor maiores quando a ampliação do Conselho é abordada80. A reforma do CSNU voltou à pauta. Em artigo publicado em 1995. pela única vez em seus oito anos de mandato. que havia assumido o posto no ano anterior. a mudança de percepções sobre a conjuntura internacional que acompanha o governo Cardoso. Como todos aqueles que pregam a democratização das relações internacionais.. o Brasil reclama a ampliação do Conselho de Segurança e considera ato de bom senso a inclusão. o que pode ter atenuado a timidez vista fora da ONU. (CARDOSO apud CORRÊA. argumentando que “para responder a problemas cada vez mais complexos. na categoria de membros permanentes. Lampreia já se mostrava preocupado em esclarecer alguns pontos sobre o assunto e apresentava uma extensa explicação: Para que possamos compreender claramente o alcance da posição brasileira em relação a esse tema. 2007). Lafer afirmou que o Conselho precisava ser reformado “de mo do a aumentar sua legitimidade e criar bases mais sólidas para a cooperação internacional na construção de uma ordem internacional justa e estável”. daqueles países em desenvolvimento com credenciais para exercer as responsabilidades que a eles impõe o mundo hoje. . e as demandas do Brasil for am apresentadas de forma explícita. No ano seguinte. porém. Além de defesas entusiasmadas da reforma do CSNU – em nenhum destes oito anos há na Assembleia Geral qualq uer menção à ideia de que o Brasil “não está em campanha” pelo assento permanente –.102 Em 2001. e o ministro brasileiro argumentou que cabia ao CSNU “decidir as medidas necessárias para assegurar o pleno cumprimento das resoluções pertinentes”.

que esse tema seja percebido como o objetivo máximo da diplomacia brasileira. .) 7) o Brasil não deseja gerar ou alimentar polêmica ou competição com seus parceiros a respeito da reforma do CSNU . nem subordina ou condiciona qualquer dos seus objetivos e áreas de ação da política de externa à obtenção de uma vaga permanente no CSNU ou o apoio a essa aspiração. citando em seguida a OMC.) não se deve desejar uma reforma a qualquer custo . como a Argentina”. que "o assunto Conselho de Segurança está mais parado do que o trânsito na 1ª Avenida”. 286). 10) preocupa-nos. já o chanceler afirmou.. que “são prioridades básicas. o Mercosul e as “relações com parceiros de primeira magnitude. 1995 d. nem achamos que o CSNU seja um órgão ao qual um país postule o seu ingresso (.. que se traduzem em dados macroeconômicos e em projeção internacional do país”. (. o chanceler já abordava o tema. 3) (. Lampreia (1997c.) 5) o Brasil não tem obsessão com o assunto . que ganharia destaque no mês seguinte. Lampreia (1997d) também destacou no mesmo texto os custos financeiros que uma possível elevação à categoria de membro permanente poderia representar. contudo. 4) o Brasil não favorece a criação de novas categorias de membros. 23) disse que “não queremos. No mesmo mês. Declarações de Cardoso e Lampreia em 1996 dão o tom da avaliação brasileira sobre a questão: em viagem à Índia.. o presidente afirmou que “países fortes como o Brasil e a Índia querem ter uma participação mais ativa”. (LAMPREIA. p. o aperfeiçoamento do setor de operações de paz cuja importância tem crescido em forma sustentada. o ministro escreveu em artigo que “não subordinamos nossa política externa a esse objetivo nem deixaremos que ele afete adversamente as priori dades de nossa ação internacional”. 8) a reforma do CSNU não pode obscurecer a necessidade de uma reforma em todo o sistema das Nações Unidas... acrescentando que “a inclusão do Brasil não é prioridade para nós" (apud ARRAES. 2) (. que possa comprometer a ação do CSNU. na aula inaugural no Instituto Rio Branco. nossos interesses nas relações bilaterais com alguns países são de tal ordem que seria inadmissível permitir que o tema da reforma lance qualquer sombra sobre essas relações. na época do debate na Assembleia Geral. particularmente.. é preciso que as Nações Unidas definam conceitualmente o formato que se deseja dar a um CSNU ampliado.. p..) 9) o Brasil.. para torná-lo mais eficiente. em particular a Argentina”. como o décimo contribuinte das Nações Unidas. não está alheio a esse processo (.). Apesar da novidade representada pela proposta Razali. 9).. 2005.) embora não seja iminente nenhuma decisão a respeito. nem fórmulas que estão claramente voltadas a satisfazer aspirações ou inquietações de países individuais (.. p. o ano de 1997 seria marcado pelas divergências com a Argentina. 6) não estamos conduzindo uma campanha .. Em agosto. nem que afete adversamente as relações do Brasil com seus parceiros na região. mas ressaltou que “isso não quer dizer que es sa participação tenha que ocorrer no Conselho de Segurança". Após afirmar que o governo acompanhava a evolução das discussões na ONU. as tendências vão se desenhando e é importante que participemos intensamente do processo.103 eventuais novos assentos permanentes .

Um ano depois. Diante da nova divergência. o apoio ao assento para o continente. a França se posicionou a favor do Brasil. mas a disposição mais ativa em operações de paz e o imperativo de termos preparo e disponibilidade militar para fazê-lo de forma ágil. ediçã o de 24 de agosto de 1997. Desde 1996. amplificou. Dois meses depois. já que. p. “ na Cúpula do Milênio. sendo referenciado o protecionismo dos países ricos. citando entre elas uma possível renúncia ao pleito pela vaga 83. edição de 27 de agosto de 1997. p. 76) cita o CSNU após sua segunda eleição para a Presidência indica que. Sebastião do Rego Barros. além do financeiro . Lampreia (apud ARRAES. Paulo”. Paulo. Por outro lado. é necessário um debate amplo sobre as responsabilidades que nos incumbiriam como membro permanente. “FHC e Menem selam trégua na disputa de vaga na ONU”. mencionou apoio a uma vaga para a América Latina no CSNU. Na mesma linha. Dois anos depois. disse que o tema ocupava “baixíssima prioridade na agenda externa brasileira”. de fato. Bill Clinton.essa condição implica não a obrigatoriedade. o então presidente argentino. 82 83 . “FHC admite desistir de cadeira na ONU ”. o discurso parecia ter arrefecido. do que em um órgão de controle político-militar?”.que poderia chegar a US$ 80 milhões anuais . edição de 23 de maio de 1998. Por isso. o então presidente americano. afirmando que “queremos a participação plena para o país ou os países que vierem a representar a nossa região”82. Carlos Menem. Ainda em 2000. 96 e 97). 14) 81 Entrevista ao jornal “O Estado de S.104 Uma participação mais intensa do Brasil nas Nações Unidas teria também conseqüências práticas e financeiras. jornal Folha de S. até mesmo em outras instâncias da ONU. jornal Folha de S. a Argentina já se posicionava contra a pretensão brasileira. além da Assembleia Geral. declarou. antes disso. o assunto não era uma prioridade para seu governo: “Quantas vezes eu disse que estava mais interessado em ter vez e voz para o Brasil na área do comércio mundial. em setembro. a já mencionada declaração em que Cardoso (1998a. haveria discrição em relação ao tema. as desavenças entre os dois países ao dizer que “a intenção do Brasil de se candidatar a membro permanente do Conselho de Segurança da ONU pode quebrar o equilíbrio na região”81. Yevgeny Primakov. Como lembra Arraes. No mesmo mês. Cardoso até sugeriu a possibilidade de a América Latina pleitear mais de um assento permanente no CSNU. 2005. (p. em novembro. Paulo. Ainda em 1998. citada pela revista Veja. o presidente chegou a dizer que o Brasil estava disposto a fazer concessões para não prejudicar suas boas relações com a Argentina. não para o Brasil. O então embaixador brasileiro na Argentina. da economia mundial. sem tratar do tradicional tópico reformador”. o ministro das Relações Exteriores da Rússia.

o presidente se reuniu com seu equivalente americano. Para Lampreia (2011). o presidente (apud ARRAES. Um mês depois. a posição dos EUA e dos outros membros permanentes era pré-condição para que se fizessem esforços mais relevantes em prol do pleito brasileiro por uma cadeira fixa no CSNU. como no CS” (apud ARRAES. Até então. Fora da Organização.2 ‘Wait and see’ Além da cautela que foi uma das marcas da atuação do Brasil no turbulento plano internacional durante os anos de Cardoso na Presidência. expressa também pelo chanceler. 14). às vésperas da abertura da Assembleia Geral. na França.105 também minimizou os esforços pela reforma ao comentar declarações do presidente: “O processo de discussão (do Conselho) ainda não chegou à fase decisória. Duas percepções ajudam a entender ambas as estratégias. 2005. e defendeu o fortalecimento das Nações Unidas e a entrada brasileira no Conselho de Segurança. 2. As gestões que foram feitas com este objetivo durante os oito anos de governo Cardoso serão abordadas a seguir. “Disse a ele a importância. A segunda percepção. pelo que seria prematuro interpretar o discurso como uma reivindicação”. George W. é de que a reforma “era absolutamente inviável na década de 90”. Bush. Em outubro. p. para nós brasileiros de que houvesse uma participação maior nossa. mas não revelou qual a posição do governante dos EUA. o ministro diz que havia uma expectativa no Brasil – compartilhada por diversos países – de que . p.3. afirmando que deveria “ser ampliado e reformado” e acrescentando que era “chegado o momento de atualizar essas instituições às circunstâncias do século XXI". inclusive nos organismos formais. Esta última. A primeira é a avaliação de que os contatos decisivos eram aqueles com os membros permanentes. outras duas características completam uma descrição geral de como foram as gestões de seu governo em relação ao pleito pelo assento permanente: a ação praticamente solitária e o comportamento essencialmente reativo. porém. Na visão do Itamaraty à época. não tem nem conversa”. 14) citou o Conselho diretamente. o tema também voltou a ser retomado por Cardoso com mais ênfase apenas em 2001. 2005. só foi elaborada após o debate da Assembleia Geral de 1995. “se os cinco não estiverem de acordo.

. . o assunto chegou a ser pauta de gestões fora da ONU. que diz que é ótimo (. por exemplo. A comunicação enviada do MRE para a missão na ONU em junho daquele ano relata “gestões realizadas na chancelaria portuguesa” em relação ao projeto de declaração relativo ao aniversário da Organização. algo que não foi visto nas pesquisas relacionadas aos sete anos seguintes. Vale lembrar que o OEWG estava em atividade desde 1993. O texto afirma que o chefe do setor político da embaixada brasileira entregou ao ministério português documento “sobre a importância que o Brasil atribui à referência à reforma do Conselho de Segurança na declaração do cinquentenário da ONU” (MRE. na época. “estavam dispostos a aceitar a proposta do presidente [da Assembleia]. Telegrama enviado da delegação do Brasil na ONU para o MRE em setembro de 1995 relata. Não estava na pauta dos grandes. 1995. sem qualificar de que forma esta deveria dar-se” (MRE. a não ser “lip service” da França. A opção aprovada pelo presidente da Assembleia foi “the Security Council must be made more effective and more representative through an expansion of its membership…”. a Rússia 84 A sugestão brasileira para a frase em questão era “the Security Council must be made more representative and more effective through an expansion of its membership…”. Outro documento mostra que. nº 0145). o documento mostra que o representante brasileiro na negociação se esforçou para conseguir uma mudança pequena. Por fim. Grã -Bretanha também. os Estados Unidos também. Lampreia (2011) afirma que durante o primeiro ano do governo Cardoso investiu “muito esforço diplomático nessa tentativa”. os esforços para que um projeto de declaração relativo ao 50º aniversário da ONU fizesse referência à necessidade de dar maior legitimidade e representatividade ao CSNU. Mas a China definitivamente não queria. 1995.).. Trecho do documento diz que determinada frase “não pareceu atender plenamente ao interesse do Brasil por pretender vincular o aumento da eficiência do Conselho de Segurança à sua expansão. segundo o telegrama. acomodadas as pretensões daqueles dois países estaria resolvida a questão da reforma e o conselho seria automaticamente mais eficiente”. mas considerada importante 84. Segundo Lampreia (2011). nº 01022). pois a frase dava a entender que.106 as comemorações dos 50 anos da ONU pudessem abrir espaço para o movimento de concretizar a ampliação do CSNU. O texto mostra também divergências com Alemanha e Japão que. o resultado das investidas brasileiras fez o MRE considerar que não deveria mantê-las: Eu saí depois do aniversário com a conclusão de que não havia condições.

houve uma nova atitude. Na visão de Fonseca Jr. o Brasil ocupava uma cadeira rotativa do CSNU. e terminou presidindo os três grupos. que não impediu que Amorim aproveitasse a conjuntura para investir no tema. . e uma série de outras coisas que não tinham nada a ver com o Conselho”. A eleição de Kofi Annan – partidário da reforma – como secretário-geral e a já mencionada apresentação da proposta Razali deram impulso ao tema. mas botou uma surdina. O ministro garante que não foram as divergências entre os dois que levaram Amorim a ser substituído na ONU em 1998 por Gelson Fonseca Jr. Isso porque.. dois anos depois da celebração dos 50 anos da ONU. 85 Na ocasião. em sua visão. no fim da década de 1990. no governo Lula. Lampreia responde que foi grande. Então não adianta você ficar dando murro em ponta de faca. é o presidente” se envolverem. as diferenças entre Amorim e Lampreia. Ele menciona o “Mercosul. 2011). iam além da questão do CSNU. desenvolver uma relação com a Europa. passando. postura que o chanceler brasileiro atribui a uma questão de prestígio. O chanceler diz. O país “não podia reconhecer naquele momento” que era inferior ao vizinho (LAMPREIA. Apesar das reticências. a diplomacia brasileira voltaria a fazer gestões pela ampliação do CSNU. por exemplo. Os argentinos disseram que àquela época não era “tolerável politicamente para a Argentina dizer que vai favorecer a entrada sozinha do Brasil”. Depois. Perguntado sobre o peso da oposição argentina. é o governo.107 também não queria. consertar a relação com os Estados Unidos. Amorim sugeriu a criação de painéis para discutir a situação iraquiana. Mas. levando Amorim a considerar a ocasião como um “momento ótimo” para a reforma. com a China. por outro lado. (2011a). nunca abandonando. pela resposta brasileira à crise envolvendo o Iraque quando o país impediu a entrada de inspetores de armas das Nações Unidas em 1998 85. Ele conta que em uma reunião em Itaipava. ao contrário do então embaixador na ONU. envolvendo os ministros das Relações Exteriores e os chefes do Estado Maior das Forças Armadas dos dois países. Lampreia (2011) faz avaliação diferente e afirma que tais declarações devem ser postas “na conta da obsessão do Celso”. “uma coisa é o embaixador junto à ONU que está sendo pago para fazer isso. o chanceler também cita a existência de outras prioridades como um dos motivos que levaram a diplomacia brasileira a reduzir sua atuação em prol da reforma. houve uma conversa definitiva. Então a gente botou uma surdina. Além de considerar a ampliação do CSNU inviável. outra coisa é o ministro.

Além da já mencionada diferença de posição entre Brasil. (p. Alemanha e Japão no início dos anos 1990 – quando se chegou a considerar uma ampliação do CSNU que contemplasse só os dois últimos Estados –. para onde estava designado. Tal comportamento de “esperar para ver” parece ter sido a tônica de praticamente todo o governo Cardoso em relação à reforma do Conselho. Um mês depois da reunião com Althenburg. por isso. A avaliação feita então por Fonseca Jr. quer dizer. fosse de uma vez para Genebra. Lampreia reconhece que a questão iraquiana foi objeto de divergências entre ele e o então embaixador quando. Índia e Alemanha. consultem e funcionem como interesse c omum”. A discrepância fica clara no período que antecedeu a Cúpula do Milênio. O Celso era muito mais ativista. tinha uma coisa complicada. O chanceler via na iniciativa uma tentativa de irritar os EUA. Aí. nota-se também que a postura da diplomacia brasileira na ONU no fim da década era praticamente oposta ao comportamento das missões alemã e japonesa. Tanto que ele queria que o Celso saísse. Ainda em janeiro. em 1989 (MRE.). nº 00098). ele abria muito mais o leque de atuação. perguntou em reunião com Fonseca Jr. segundo ele. sustenta.. estes países já mantinham contatos sistemáticos com o Brasil para discutir a questão desde sua primeira passagem pelo posto de embaixador na ONU. e que eu assumisse a função. porque o Lampreia talvez tivesse uma visão de Nações Unidas diferente da visão do Celso. promovida pelas Nações Unidas em 2000. nº 01508). o que o Brasil achava da possibilidade de votar uma “ soft resolution” pela qual a Assembleia decidiria que uma possível expansão do CSNU deveria incluir as duas categorias.. o ministro também diz que orientou a missão na ONU a não formalizar a coordenação com Japão. A união formal dos quatro países – que viriam a criar o G4 em 2004 – é vista por Lampreia (2011) como “irrelevante”: “Formalizar para que? O importante é que interajam. que talvez o Lampreia não considerasse tão importante. A resposta foi que o Itamaraty considerava “pouco provável que o tema pudesse ser objeto de uma decisão nos próximos meses” e que a atitude brasileira “nesse momento seria de ‘wait and see’” (MRE. porque achava que o Celso se expunha demais (. Segundo Sardenberg. A Alemanha mostrava interesse e m criar um novo momentum para as discussões sobre o CSNU.14). é ilustrativa: .108 [Lampreia] discordava um pouco do Celso. 2007. a Alemanha voltou a propor ao Brasil um projeto de resolução sobre a ampliação nas duas categorias. o então diretor de Nações Unidas da chancelaria alemã. 2000. teve essa atuação tão forte em relação ao Iraque. Amorim fez gestões para ser escolhido o representante do secretário-geral para o Iraque. Gunther Althenburg. No caso do CSNU.

o Japão promovia “a ideia de que ampliação nas duas categorias pode fortalecer se mediante manifestações dos países (AGNU. 70 países apoiaram expressamente a ampliação do número de membros permanentes e não-permanentes. 2000. estar associada à busca de uma solução para os problemas financeiros da Organização”. nº 00274).30 países sustentaram a necessidade de restringir a utilização do direito de veto. em setembro. por exemplo. (MRE. nesse contexto. o embaixador alemão no Brasil chegou a entregar ao Itamaraty. RFA [Alemanha] e Índia (este último país com um número significativamente menor de menções). o Japão. pelo menos enquanto não se firme um consenso aceitável para os EUA quanto ao número máximo de membros que teria o Conselho reformado. em junho. nº 02011). sem passar necessariamente pelo teste de uma votação” (MRE. nº 01831). embora considerasse que não se conseguiria “ir além disso” naquele ano (MRE. Cúpula) e de suas autoridades políticas. Sobre os alemães. Mais perto da Cúpula. Paquistão. 4 países (Argentina. desde 1999. um documento sobre o interesse de seu governo em que os participantes do evento mencionassem a questão da reforma do Conselho (MRE. além de reiterar os elementos de nossa posição.. 86 O mesmo documento completa: “Essa crise. (MRE. relatou que Althenburg “mostrouse bastante animado com as inúmeras manifestações realizadas pelos mandatários durante a Cúpula do Milênio sobre o assunto” e “indicou que as posições expressas poderiam contribuir para criar um consenso de princípio em torno da necessidade de implementar uma ampliação do CSNU caso venha a irromper uma crise institucional nas Nações Unidas” 86 (MRE. 2000. O Japão adotou estratégia semelhante durante a reunião. nº 00737). usando o evento “para angariar apoios para a reforma do Conselho”. 2000. 2000. poderia assumir várias formas. RPDC [Coreia do Norte] e Espanha) defenderam ampliação apenas na categoria de membros não-permanentes. nº 02174). tenho acrescentado a observação de não existir no curto prazo uma base de acordo no essencial para a reforma. No total. nº 00670). podendo.109 Parecem mínimas (senão inexistentes) as possibilidades de acordo no que se refere à questão da expansão/categorias. 2000. apta a surgir a qualquer momento. e 17 países manifestaram apoio explícito à postulação de países específicos mencionando. a missão japonesa calculou em 2000 as referências que foram feitas ao tema nas intervenções dos Chefes de Delegação durante a Cúpula do Milênio e no debate geral da Assembleia Geral. Fonseca Jr. Segundo telegrama assinado por Fonseca Jr. A avaliação da Cúpula voltaria a mostrar diferenças no posicionamento de Japão. 2000. 20 disseram apoiar a designação de países desenvolvidos e em desenvolvimento como novos membros permanentes. Alemanha e Brasil. . Nesse sentido. Nas minhas conversas com outros Representantes Permanentes.155 países referiram-se à necessidade de reforma do CS. Os diplomatas japoneses alcançaram bons resultados para sua estratégia de angariar apoios à reforma.

2000. Fonseca Jr. já havia relatado conversa com representante da Arábia Saudita em que “ao lembrar a posição brasileira sobre a reforma. o que acabou não acontecendo. No fim de 2000. o embaixador do Brasil come nta que o “elemento fundamental para tanto seria uma mudança de atitude dos EUA. ele diz: Nada disso obscurece no entanto o fato de que o texto negociado da Declaração do Milênio tenha apenas tocado de forma minimalista o tema da reforma ("os mandatários decidiram redobrar esforços para alcançar uma reforma abrangente do Conselho de Segurança"). e vocês dão um sinal. estando sujeita a “dois fatores de alta imponderabilidade: a) a atitude dos EUA. viria ao Brasil tratar de dois temas: a maior participação do Brasil nas missões de paz e a alteração do Conselho: para ele. e que inexiste a rigor qualquer eleme nto novo que pudesse contribuir para desbloquear o tratamento do assunto. algo pouco provável em ano eleitoral” (MRE. Do Brasil. houve ao menos uma discussão de alto nível com o governo americano sobre o tema. Fonseca Jr. dizendo que “de uma certa maneira. porque a gente tinha que pagar. ainda que a Cúpula tenha representado um momento favorável sobre o qual seria necessário capitalizar. poderia reforçar seu pleito no CS. Naquele ano de 2000. O mesmo documento já mostrava a descrença do embaixador brasileiro – que era compartilhada de forma praticamente unânime pelos equivalentes de outros países – em relação ao Grupo de Trabalho sobre a reforma. apesar da impaciência da Alemanha e do Japão”. (2011b) apresentou uma versão um pouco diferente para a visita de Holbrooke. Em agosto. a resposta seria a falta de recursos financeiros e a visão de que a reforma do Conselho estar ia realmente fora das preocupações principais das grandes potências. foi acontecer mais tarde. Depois de afirmar que “nada resultará de prático nas discussões do GT”. Na mesma ocasião. A conversa mostra que o Brasil não estava disposto a gastar mais com a ONU para favorecer seu pleito pela cadeira permanente no CSNU.) Assim. a previsão é a de que o debate no dia 16 de novembro não apresente na substância uma alteração do quadro que resultou por exemplo da discussão levada em plenário no ano passado. (MRE. nº 02174). p. a gente insinuou essa história: a gente aceita pagar mais. o embaixador dos EUA junto à ONU. meses antes da cúpula.. (ARRAES. (MRE. por outras razões”. e b) a atitude do Presidente da Assembleia”. nº 02174) avalia que “a reforma do CS tem que necessariamente ser tomada no âmbito da Assembleia. 2000. 14). 2005.110 Em julho. seria aprovado um acordo sobre a nova escala de contribuições de Estados-membros para a ONU. 2000. se o Brasil participasse mais. disse-lhe que considerava irrealista a perspectiva de algum movimento significativo a curto prazo. Fonseca Jr.. Richard Holbrooke. (. assunto classificado pelo Itamaraty como o “único item da agenda da ONU que ganhou o status de . nº 01325). Para selar as divergências com Alemanha e Japão.

2000. sobre reunião convocada pela missão do Japão. que teria algum tipo resultado”. por exemplo. talvez mais ainda. A partir do que foi exposto no presente capítulo. a visão de mundo e. seria a rigor necessário negociar um pacote comum entre os que desejam a reforma e que pudesse contar com o comprometimento dos EUA”. 2001. em novembro de 2000. Ele avalia que “no governo Lula se considerou que essa campanha era viável. desejavam a reforma era que “antes de medir forças com os que fazem obstrução sistemática à reforma. japoneses e alemães tinham mais urgência e achavam que isso precisava se transformar em um determinado tipo de movimento. “muda a tática porque mud a também a perspectiva em relação ao que o cenário estava oferecendo”. Japão. como o Brasil. nº 02378). especialmente no início do governo Cardoso e com exceção das questões comerciais. Índia e Alemanha”. Na mesma época. O próximo capítulo vai procurar demonstrar que essa mudança de perspectiva em relação ao que o cenário oferecia não se dá apenas em função de dados objetivos da conjuntura internacional e da ONU. Assim. O telegrama indica que a avaliação geral dos países que. relato de Fonseca Jr. Há indicações de que tal postura influenciou . Mas a gente não tinha essa urgência”. Sustenta-se aqui que. a visão do papel do Brasil no mundo estimularam o país a promover movimentos mais tímidos no plano global. mas não tanto para a importância que é dada ao tema por cada governo. “em determinados momentos. (2011) defendeu que a estratégia sobre a reforma depende “de como você vê a possibilidade daquele objetivo ser realizado” e que “sempre houve variações entre Brasil. Fonseca Jr. nº 00051). principalmente na OMC. além do contexto interno e externo. Para ele. é possível sugerir que a conjuntura tem peso decisivo para o sucesso dos esforços pela reforma. Em entrevista. deixa claro o pessimismo em relação à reforma.111 ‘tema relevante’ para a diplomacia americana nessa fase de transição para o novo milênio” (MRE. o então embaixador brasileiro diz que ninguém esperava “que a reforma e amp liação do Conselho resulte do ativismo e de fórmulas mágicas intentadas pelo Presidente [da AGNU]” – citando o “fracasso da proposta Razali” como demonstração disso – e sugere que o Itamaraty deveria continuar pensando “se fórmulas alternativas de participação mais longa no Conselho (mandatos não permanentes de maior duração/ assento ‘permanente’ latino -americano) seriam em algum ponto das negociações aceitáveis para o Brasil” (MRE. Na mesma comunicação.

a credibilidade deriva da capacidade de cooperar para a criação de normas e instituições multilaterais (p. decorrentes da adesão ao mainstream internacional. Mas há uma clara oposição em relação às estratégias de inserção que devem ser adotadas. superariam os custos derivados da ‘autonomia pela distância’ se o país es tivesse internamente preparado para colher os frutos da mudança”. 47. p. 57 e 58). mas a “redução do Estado” não permitiu (VIGEVANI. Por fim. que indicou a manutenção de um consenso no que se refere à aspiração por maior influência internacional para o Brasil. seus resultados e a questão do CSNU. Tal perspectiva está de acordo com a análise de que “ a percepção de que a busca de objetivos no plano internacional implica custos. é chamada de autonomista. é adequada também a avaliação de que “os ganhos da ‘autonomia pela integração’. OLIVEIRA e CINTRA. é interessante citar pesquisa que aponta uma divisão nas elites políticas em relação às estratégias concretas de inserção internacional (SOUZA. O primeiro seria o da busca por credibilidade. realizada em 2002. especialmente devido à oposição dos EUA. Ainda no esforço de traçar um paralelo entre as linhas gerais da política externa deste período. Defende uma política desenvolvimentista ativa e a colaboração com países que tenham interesses semelhantes e se disponham a resistir às pressões das potências dominantes. 2003. Nesse cenário. Membros do que foi classificado como a “comunidade de política externa” do governo Cardoso foram consultados na pesquisa. 22). portanto ônus. Tal objetivo era considerado inatingível. 2002). não avançou significativamente na sociedade brasileira e no Estado” durante o governo Cardoso. Dois modelos foram então identificados.112 diretamente a campanha pelo assento permanente no CSNU. e não era prioritário. Ela procura conciliar maior projeção internacional e flexibilidade na política externa. A base de tal estratégia é a crença de que o Brasil não tem “excedentes de poder” e precisa promover o fortalecimento dos mecanismos multilaterais para conter condutas unilaterais. além da elaboração de um projeto nacional para . O Conselho não era um fórum para discussões de regimes econômicos – das quais o governo julgava mais importante participar – e o pleito era visto como uma possível fonte de problemas para a integração regional. A outra estratégia. oposta. tendo a globalização como principal parâmetro para a ação externa e aumentando a importância de realizar reformas internas.

no fim do segundo mandato de Cardoso o cenário foi diferente. a perspectiva dominante em relação ao cenário internacional não foi sequer a mesma ao longo do governo Cardoso. por exemplo. Conclui -se que a importância atribuída pelo governo Cardoso a conquistar credibilidade – o que se nota. a política externa do governo Cardoso se aproximou da estratégia de credibilidade. Ponderando que no plano da diplomacia multilateral as orientações dos dois não foram muito diferentes. A variação é nítida quando se considera. Lima (2005) sustenta que. 2. Tal análise procurou criar as bases para se mostrar que os esforços feitos em prol do pleito pelo assento permanente no CSNU são influenciados por estas opções mais gerais. enquanto a do governo Lula esteve mais de acordo com a autonomista. Esse modelo também critica a perspectiva de insuficiência de poder e “postura defensiva” dela decorrente. Como se demonstrou. Isso é o que será demonstrado no próximo capítulo. os países desenvolvidos atraíam mais menções em discursos e mais investimentos na prática (incluindo viagens presidenciais). A revisão que começou com Collor passou por ajustes em Itamar e Cardoso. a autora conclui que “a principal diferença entre os do is governos é de perspectiva. 33). o presente capítulo mostrou que foi importante o papel das ideias na reformulação por qual passou a política externa brasileira no início da década de 1990. da visão da ordem internacional de cada um deles” (p. a avaliação sobre a globalização. Se no começo do governo. estão inscritos nas diretrizes da política externa brasileira. na adesão a regimes internacionais que são vistos como modelos – estava acima do empenho em alterar a ordem internacional para tornar mais curto o caminho em direção à conquista da credibilidade. por exemplo. o que abre espaço para novas visões de mundo. Tal posição motiva posturas como a de “ wait and see” em relação à reforma do . mas desde então é possível dizer que o consenso interno no Itamaraty é mais frágil.113 superação de desequilíbrios sociais domésticos. O impacto desta mudança é visto nas prioridades estabelecidas em termos de relações bilaterais. na prática. principal objeto de análise desta etapa da pesquisa.4 Conclusão Seguindo o modelo de análise proposto por Goldstein e Keohane. Ou seja.

e não tanto como reconhecimento às necessidades de mudança da ordem internacional. já que se buscava um assento permanente como reconhecimento às credenciais brasileiras. .114 CSNU e a preferência por uma ação individual.

Para demonstrar tal relação. esta pesquisa já apresentou algumas poucas observações sobre como a atuação diplomática brasileira em relação à campanha pelo assento permanente no CSNU se modificou com o início do governo Lula.3. O presente capítulo tem como objetivo demonstrar de que forma esta alteração se encaixa em um panorama mais amplo de mudanças em algumas diretrizes da política externa. repetindo novamente o padrão do capítulo anterior. e seus resultados.1. a primeira etapa repetirá o que foi feito no início do capítulo 2. este tema será tratado em separado. é preciso avaliar quais mudanças entre o período do presidente e do seu sucessor justificariam as alterações observadas em relação à questão do CSNU. o item 3. Isso fez com que se optasse por uma divisão não cronológica na primeira das três partes do presente capítulo. A segunda seção será igualmente dedicada à política externa. igualmente relevante: a da visão sobre o papel do Brasil no mundo. este capítulo seguirá a proposta adotada no capítulo anterior.2. em seus oito anos na Presidência não se observaram transformações significativas no discurso diplomático. serão . Sendo assim. na subdivisão 3. Assim como foi feito no capítulo 2.1. o que levou a outra transformação. apresentando aqui a visão de mundo do presidente e da corrente dominante no Itamaraty durante o governo Lula.1.2. Como neste momento a visão sobre o Brasil ganha especial importância.115 3 O GOVERNO LULA Até aqui. baseada no modelo analítico sugerido por Goldstein e Keohane para avaliar o papel das ideias na política externa. Como já mencionado no capítulo anterior. a hipótese principal é de que houve uma mudança fundamental na visão de mundo predominante no Itamaraty.2. Partindo do princípio de que tanto Lampreia quanto Amorim concordam que o pleito pelo assento permanente não foi abandonado durante o governo Cardoso. que garantiu importância maior ao pleito e mais ações em prol de sua concretização. Diferentemente do governo anterior.1 apresentará a visão de mundo que pode ser extraída dos discursos da diplomacia e do presidente. Por fim.1. a última parte será dedicada à reforma do CSNU: em 3. tema do item 3. ela se divide entre os objetivos apresentados pelo Itamaraty. Essa nova perspectiva tem implicações decisivas para a campanha pela ampliação do CSNU. Antes.2. tópico que será discutido em 3.

2. Em primeiro lugar. consequentemente. A mesma pesquisa mostrou também uma divisão sobre o melhor meio para se atingir tal meta. conforme mencionado. Em segundo lugar. e em 3. a ava liação da ordem econômica é mais matizada.1 Por uma ‘nova geografia mundial’ Conforme mencionado no fim do capítulo 2. o governo Fernando Henrique Cardoso enfatizava uma determinada perspectiva da ordem mundial. (. esteve mais em linha com a busca por credibilidade. Além disso. Isto é. serão debatidas as gestões conduzidas pela diplomacia em prol da conquista de um assento permanente para o Brasil no Conselho. Observações apresentadas por Lima (2005) a partir de tal pesquisa são um bom ponto de partida para uma análise sobre a visão de mundo e a visão do Brasil que prevaleceram durante o governo Lula. a autora defende a ideia – também já citada – de que a principal mudança entre um período e outro diz respeito à perspectiva sobre a ordem internacional.) O entendimento da ordem internacional que transparece nos pronunciamentos e iniciativas do governo Lula é distinto. em função da criação do euro [em circulação desde 2002] que enfraqueceu o poder do dólar e.. fortaleceu a União Europeia. um dos eixos do modelo autonomista pretérito. Ainda que reconhecendo o predomínio militar dos EUA. Ela conclui que: Ao buscar consolidar relações com a corrente principal da economia global – Estados Unidos. Do outro estavam os chamados “autonomistas”. repudiando assim as orientações terceiro-mundistas. pesquisa realizada no último ano do governo Cardoso entre o que se chamou de comunidade de política externa da época indicou que havia consenso no que se refere à aspiração por maior influência internacional para o Brasil (SOUZA. é útil a observação de que “uma preocupação entre os defensores da estratégia autonomista é que o Brasil não dispõe de dissuasão militar.116 analisados os discursos feitos à época. Em um mundo menos . De um lado estavam os que apostavam na busca por credibilidade como melhor caminho. econômica e tecnológica. com base na sua superioridade militar. Europa e Japão – .3. uma ordem em que a globalização é a tendência dominante. 3. 2002). enquanto o governo Cardoso. predomina a posição autonomista. representação esta próxima ao que alguns denominam o sistema geoeconômico de Clinton. q ue priorizavam aliar uma política desenvolvimentista ativa à colaboração com países que tenham interesses semelhantes ao do governo brasileiro e à elaboração de um projeto nacional para superar desequilíbrios sociais. nem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU que possam respaldar negociações comerciais com parceiros mais poderosos”.. neste período. com o predomínio indiscutível dos Estados Unidos.

a globalização é vista como assimétrica e prejudicial a muitos interesses nacionais. Conforme já demonstrado. asiática. 3. não se pode falar em mera continuidade. o então futuro governante afirmou que estimularia uma . Notam-se apenas nuances. quando aparece acompanhado mais frequentemente pela classificação “assimétrica”. A diferença entre tais perspectivas se reflete em uma expressão muito repetida ao longo do governo Lula: a “nova geografia mundial” que o presidente e o Itamaraty defendiam. Nas duas subdivisões a seguir. 35 e 36).117 homogêneo e mais competitivo .1. haveria espaço para um movimento contra-hegemônico cujos eixos estariam na Europa ampliada. Para tentar estabelecer um paralelo entre os dois governos e também pela relevância do termo nos discursos diplomáticos dos dois períodos. a visão de mundo e a visão de Brasil expressas por Lula e pela diplomacia brasileira serão discutidas mais a fundo. onde as potências como China e Índia podem vir a representar um contraponto aos EUA na região.1 A retomada do Sul sem perder o Norte Como mencionado. optou-se neste capítulo por uma divisão temática. afetada por uma sucessão de crises econômicas (mexicana. Diante desse quadro. o termo passa de uma conotação essencialmente positiva a um entendimento mais negativo na segunda metade do governo Cardoso. com base em uma economia internacional “mais justa e solidária”. com a inclusão da Rússia e na Ásia. (p. No seu discurso como presidente eleito. o primeiro assunto a ser analisado agora será a compreensão sobre a globalização. a visão de mundo apresentada pela diplomacia brasileira no período Lula não muda significativamente entre o primeiro e o segundo mandatos do presidente. que ganham destaque nos últimos anos de governo do presidente. mas o discurso que justifica tal percepção é significativamente alterado e as críticas são feitas com ênfase maior. A mudança ocorreu sob influência de alterações na conjuntura internacional. a exemplo da defesa da importância do combate à fome – que perde um pouco a força ao longo dos anos – e de questões como as mudanças climáticas. A expressão aparece logo nas primeiras palavras de Lula. ainda em 2002. Já no governo Lula. russa e argentina). Assim como no fim do período da gestão anterior.

O presidente também associava a visão sobre a globalização a características atribuídas à política externa de seu governo. Aí aparece a importância atribuída por seu governo ao combate à desigualdade social. (2004a. mas pode ser um “instrumento” para tanto “ desde que seus benefícios possam ser repartidos entre todos” (2004b. percepção que será mais discutida adiante. 96). ao admitir a necessidade de abertura para o mercado. mas também uma “inserção digna. no sentido de que tudo o que é proposto é favorável”. senão abandonado. portanto. mas era utilizada para contrastar com a independência. p. Na mesma ocasião na qual Amorim fez as declarações citadas acima. e não Silva. p. da mesma maneira que muitas vezes a globalização é hoje usada não como um fato – e é algo que de fato existe – . p. pelo menos diluído nas brumas da globalização”. semelhante à que ele acredita ter sido feita com o conceito de interdependência nos anos 1960: [A interdependência] era um fato. a realidade produzida pela globalização demandava uma nova postura do país. em uma reunião da Unctad em São Paulo. de identidade nacional. 99).118 “globalização solidária e humanista. 87 Optou-se por utilizer Lula nas referências relativas ao presidente. de busca de um projeto próprio. Lula disse que vivíamos “sob o signo de uma gl obalização instável e incerta” e que “o quadro internacional nos desafia e nos obriga a mudar o modelo que produziu vulnerabilidade externa. Lula voltou a citar o assunto ao afirmar que “globalização não é sinônimo de desenvolvimento” e nem “um substituto para o desenvolvimento”. Para ele. expressa na oposição entre ricos e pobres. . um projeto que durante muito tempo pareceu. A declaração mostra uma visão crítica sobre a divisão Norte-Sul. ele ainda apontou uma instrumentalização da expressão. 246) como “altiva e ativa” – em relação ao anterior. Na mesma ocasião. Meses depois. 96) afirmou também que o governo Lula inovou ao não buscar apenas uma inserção competitiva. na qual os povos dos países pobres possam reverter e ssa estrutura internacional injusta e excludente” (2002. Amorim (2004a. 143) 87. coerente com o projeto de nação. p. altiva. mas para contrastar contra qualquer veleidade de autonomia. p. 159). p. como presidentes fizeram antes. incerteza e estagnação” (2004a. Em seu primeiro mês no cargo. Em uma aparente crítica a uma compreensão anterior da questão. A globalização também parece ter sido usada pela diplomacia na tentativa de marcar diferenças entre a política externa do novo governo – definida por Amorim (2003b. o chanceler ponderou que “não podemos ter uma atitude passiva diante da globalização.

(p. 35). 2008a. que já traz em si tantas vertentes de assimetria. O ministro ainda ponderou: “ Não que as pessoas devam ser contra a globalização. Outra associação que também nos remete a mais uma diretriz da política externa do governo Lula é a seguinte observação sobre a ação política. a tradicional defesa brasileira do multilateralismo e a reforma do Conselho de Segurança: . p. Amorim (2005a. que era “preciso tomar as rédeas da globalização” e “torná -la uma força positiva para todos os povos do mundo”. não pode transferir prejuízos para as economias em desenvolvimento” (LULA. Globalização justa significa regimes multilaterais mais eficazes. Lula fez então uma associação com a ONU. Embora o presidente tenha classificado o caso inicialmente como uma “marola”. feita pelo presidente em seminário sobre o Brasil. de um único país e de uma única fonte de poder”. 93). o chanceler considerava necessário “evitar a excessiva subordinação ou a excessiva dependência de um ú nico mercado. Por fim. Vale mencionar também o maior peso atribuído a essa retórica no fim do governo Lula. p. considerando -se o objetivo principal do presente trabalho. 84). ele destacou que a conjuntura de então era diferente daquela de um passado em que havia um “encanto com a globalização”. por meio de uma ação política que preserve a soberania nacional. transparentes e democráticos. em Paris: “Hoje. no fim daquele ano. que todos percebem. o presidente (2004c) defendeu em Nova York. 169) defendia que “ a independência terá que ser necessariamente uma posição nas relações internacionais que permita trabalhar com vários atores simultaneamente”. na Câmara dos Deputados. p.119 Na mesma linha. o que importa é buscar espaço neste mundo globalizad o. No mesmo discurso. garanta a soberania popular e contribua para o aprofundamento da solidariedade internacional” (2005a. Citando esse mesmo “mundo globalizado”. a qual ajuda a entender a relação da visão de mundo de seu governo com a questão do CSNU: O fortalecimento do sistema multilateral das Nações Unidas é fundamental para desenvolvermos estratégias integradas e consistentes que respondam aos múltiplos desafios. Para isso. quando ocorria a única grande crise econômica internacional do seu período na Presidência. mas há nuances. há matizes que hoje em dia se percebe. independente do posicionamento no espectro ideológico”. é interessante o seguinte trecho de um artigo no qual Lula faz uma associação direta entre a conjuntura criada pela globalização. a preocupação que se espalhou pelo mundo o fez afirmar em reunião da Unct ad que “a globalização.

Ainda quanto ao multilateralismo. 448). Em outra entrevista. o governo Lula o via (ou pelo menos o apontava) como uma necessidade que se impunha a todos os países. p. não há nem haverá. Em relação ao multilateralismo. diferentemente do governo anterior – que. a expressão perde espaço para a “democratização” das relações internacionais. precisa do Brasil para discutir clima. p. nem um mundo dividido em dois campos. para que se possam construir acordos que reflitam os legítimos interesses de todas as nações. (AMORIM. Por mais que a China seja importante. iniciativas e ação inovadoras”. com certeza. a ampliação do Conselho de Segurança da ONU e a reforma do FMI para que ele possa prover ajuda financeira efetiva aos países que dela necessitem. No período Cardoso. quando questionado sobre a emergência de uma nova bipolaridade com China e EUA. Por mais que os EUA sejam importantes. Já no fim do período Lula. 2010a. a globalização aumentou as responsabilidades econômicas e sociais dos governos. Devemos renovar nosso compromisso com um multilateralismo forte e devemos fazer com que seja também mais democrático. embora sua defesa se inserisse entre “princípios e linhas de ação que já fazem parte da índole brasileira”. 2008b. à democracia como fonte de nova projeção internacional para o Brasil e padrão do qual os países não deviam se desviar. p. p. o chanceler já havia afirmado que vinha achando “que o unilateralismo norte -americano está mais na retórica do que na prática” (2003b. segundo Pecequilo. “na prática. com cada um dominando o seu campo a seu modo. Amorim (2003c. entre outros pontos. como se demonstrou no capítulo anterior. 473) respondeu que os acordos bilaterais que poderiam ser feitos pelo governo americano devido à falta de conclusão das negociações sobre a área de livre comércio não substituíram acordos multilaterais. Perguntado. o chanceler fez observações que seguem raciocínio semelhante: Não acho que nós saímos de uma bipolaridade para cair em outra porque o mundo hoje é muito mais complexo. Isso significa. 401) sustentava que. ao comentar atitudes dos EUA de desrespeito às regras da OMC. aliás. a diplomacia dava ênfase. Democracia é. (LULA. Isso. inclusive à maior potência mundial. com frequência cobrada de outros Estados por parte do governo brasileiro. “a determinação de traduzir em ação concreta a visão de uma ordem internacional mais justa e democrática” era uma característica do governo Lula que representava. porque não há mais como haver políticas impositivas. precisam do Brasil para discutir comércio e finanças. p. . outro termo que parece ocupar posição diferente na política externa dos dois últimos governos. por exemplo. sobre o risco de isolar o Brasil ao sustentar o impasse sobre a Alca. 290).120 Ao contrário do que tantos acreditam. Já no governo Lula. 247). Amorim (2005b. Do Brasil e de vários outros. promoveu o que pode ser chamado de a “década bilateral” (2008) –. Eles têm de ouvir os outros.

é tão importante para o futuro da humanidade quanto a consolidação do desenvolvimento e da democracia no interior de cada Estado” (2003a. sem hegemonias de qualquer espécie. que fazia oposição a Cardoso. ao ser perguntado se concordava com a ideia. p. 2006a. Em reunião do Fórum de diálogo Índia. imediatamente antes de mencionar a importância da democratização. 404). Lula afirmou que a “democratização das relações internacionais. nos campos econômico e político” (AMORIM. p. Na sua posse no Itamaraty. Brasil e África do Sul (Ibas). Já Amorim anunciou que o Brasil teria “uma política externa voltada para o desenvolvimento e para a paz. Em uma entrevista que ilustra bem a visão que o Itamaraty tinha do assunto. Amorim (2005c. um Mercosul mais integrado. por exemplo.121 Embora exaltassem a democracia consolidada no Brasil88. 21). 2005b. 19). promover o respeito da igualdade entre os povos e a democratização efetiva do sistema internacional” (2003d. tanto o presidente quanto seu chanceler fizeram referências à necessidade de democratização. p. . Lula (2003a. associando uma meta à outra. a associação interregional com a UE era “considerada estratégica pelos dois lados. nas cerimônias em que assumiram seus cargos. o ministro respondeu: “Vamos colocar de uma 88 Ainda como presidente eleito. na reforma do Conselho de Segurança da ONU” (AMORIM. em 30 de outubro de 2002). afirma FHC” . em particular. que buscam relações internacionais baseadas na multipolaridade. A defesa da democratização também aparece associada à valorização dos esforços pela construção de um mundo multipolar. p. p. disse que seu adversário estava realizando a transição mais democrática da história da América Latina. com vistas a fortalecer os elementos de multipolaridade no sistema internacional”. Lula (“‘Agora é presidente Lula’. 18) destacou que era preciso explorar os “incipientes elementos de multipolaridade na vida internacional contemporânea”. Esta meta também era associada à campanha pelo assento permanente. Amorim também usou a expressão ao afirmar que “o diálogo com a União Europeia e os países que a constituem é importante. Em seu discurso de posse. também. p. o chanceler sustentou que os três países “têm interesses comuns n a democratização das relações internacionais e. 418) foi questionado se a busca por “uma geografia comercial mais equilibrada. publicado no jornal Folha de São Paulo. 112). que buscará reduzir o hiato entre nações ricas e pobres. Para o chanceler. e as Nações Unidas reformadas” – citada pelo ministro como objetivo de Lula – significava uma resistência a um mundo unipolar dominado pelos EUA. Depois de dizer que a observação contida na pergunta era dedução da repórter.

mas sem hostilizar os Estados Unidos e a União Europeia”. Atualmente. ou países com peso e tamanho equivalentes ao de um bloco. no entanto. p. ou mesmo a uma eventual nova bipolaridade [referência a EUA e China].122 maneira positiva: faz parte da construção de um mundo multipolar”. uma ponte clara entre as duas análises. cuja derrubada certamente será mais lenta e complexa. Trata-se de muro talvez até mais espesso. Mais perto do fim do governo. ele citou uma declaração na qual Lula afirmava que “vivemos a era do fim dos dogmas”. 220) também cita a multipolaridade. como os EUA e a China”. mas para a ambiciosa política externa brasileira de então o investimento simultâneo nas duas não era inconciliável. as diferenças entre estas dimensões existem. p. (2008a. 96). que repercutiu com extraordinária intensidade na maneira como os Estados percebiam seu próprio lugar no ordenamento mundial. tomados individualmente – até mesmo dos maiores. o chanceler defendia que . a verdadeira contradição no mundo de hoje é a que opõe tendências à hegemonia unicêntrica. 146). e emenda dizendo que o “grande diferencial é que deixamos de lado a velha dicotomia que habitava a cabeça das pessoas: melhoramos nossas articulações com a África. Perguntado sobre qual seria uma marca da política internacional de Lula. entre o comercial ou o político” (p. O Brasil precisa estar preparado para ser um ator neste processo. A queda do muro de Berlim simbolizou o fim do conflito Leste-Oeste. não se trata de escolher entre o Norte e o Sul. Diferentemente do que propunha a política externa do governo anterior – a qual priorizava a relação com EUA. o chanceler reconheceria que este objetivo não seria alcançado a curto prazo. Não oferecerá o mesmo espetáculo de mídia. Amorim (2004b. concluindo que “em uma estrutura com essas características. outra mudança está em curso: a queda do muro Norte-Sul. mas nem por isso seus efeitos serão menos duradouros. 505) diz que a evolução do cenário internacional parecia “conduzir a um mundo formado por grandes blocos. porém invisível. O discurso de Antonio Patriota (2009) ao assumir o cargo de secretário-geral do Itamaraty estabelece. o poder de influência de países em desenvolvimento. às tendências que prenunciam a emergência de uma saudável estrutura multipolar. Ou seja. p. Europa e Japão –. Sua avaliação na ocasião também é reveladora da visão de mundo da diplomacia no governo Lula: Finda a oposição entre o Ocidente e o Oriente. Ainda em relação à oposição de Norte e Sul. China. Na ocasião. fazendo uma avaliação que guarda semelhanças com o discurso diplomático brasileiro durante o governo Cardoso. Patriota acrescentou então que “na era do fim dos dogmas. Índia. tal “diferencial” mencionado pelo ministro pode parecer incompatível com o “muro Norte -Sul” para o qual ele mesmo aponta. “entre outros pontos”. como a União Europeia. a partir desta perspectiva. À primeira vista. Amorim (2008b. como o Brasil – permanece limitado”.

em cada assunto. Embora estejam longe geograficamente são problemas que nos afetam economicamente. 519) afirma. Essa ideia de que “tudo nos afeta” vai claramente além das questõe s econômicas nas quais se concentrou o governo Cardoso. devia cuidar para o G7 ou para o G8”. 2007a. O chanceler de Lula concorda que a “independência de um país hoje não pode ser medida por isolamento”. O próximo item desta seção mostrará como esta perspectiva levou o Brasil a ser mais atuante em relação ao Iraque do que antes. Também é possível comparar a visão de Amorim sobre isolamento com aquela que aparecia no discurso diplomático da política de “autonomia pela participação” do período Cardoso. emocionalmente e politicamente”. 2003c. 635). por exemplo. o Brasil poderia participar da elaboração das regras internacionais de uma forma geral. legitimidade e eficácia”. p. no entanto. ele completa o raciocínio afirmando em seguida que “o Conselho de Segurança da ONU precisa ser urgentemente expandido com vistas a ampliar sua representatividade. relacionar-se com muitos parceiros” que define uma postura inde pendente (AMORIM. elas se alimentam mutuamente. mas “as duas coisas não são contraditórias. e utilizá-la de forma consistente. .123 “temos que aprender a viver num mundo de geometrias variáveis. o chanceler concluiu sua argumentação afirmando que “no mundo. o chanceler – que lembrava com alguma frequência os esforços de Cardoso para ser incluído no G8 – marca mais uma diferença em relação ao governo anterior. não há lugar para você se esconder. p. Amorim não menosprezava. p. 259). mas sem preconceitos” (AMORIM. Na ocasião. entre outros motivos. “porque está evidente que tudo isso nos afeta”. O chanceler também ponderava que “as pessoas diziam” que o “Brasil não devia liga r para o Conselho de Segurança. p. hoje. na visão do governo Lula. coerente com os princípios gerais. e mostra que. descobrindo. 247). mas marca uma diferença ao acrescentar que “é a diversidade. que “mecanismos informais como o G-7/8 não eludem a necessidade de fortalecer o sistema multilateral e ampliar os canais de participação dos países em desenvolvimento nas instâncias decisórias formais”. ele diz que o organismo tem que ser mais representativo. 2003f. p. 254) em uma defesa da reforma do CSNU: fazendo referência à crise vivida pelo Conselho após a invasão do Iraque. Amorim (2007b. E estando num é mais fácil estar no outro” (AMORIM. No texto. Completa essa perspectiva a ideia apresentada por Amorim (2003e. com o qual o presidente Lula se reuniu quatro vezes em seu governo. a nossa melhor aliança. Desta forma. o grupo das maiores economias mundiais.

resultante. A intensificação do comércio Sul-Sul ilustra as possibilidades que se abrem. ( p. esta dissertação defende que não se deve atribuir essa perspectiva apenas ao desejo brasileiro de ter um assento permanente. vale dizer que Amorim (2003c) usou a visão de mundo da diplomacia como argumento em defesa do pleito pelo assento permanente no CSNU. Lula (2004d) resume: Está surgindo uma nova geografia econômica. essas nações têm respondido de forma dinâmica às oportunidades abertas pela aceleração dos fluxos de comércio e investimento decorrentes da globalização. A gente não pode ficar com medo de acontecer a ou b.162). Isso porque a necessidade de mudanças no sistema internacional também é defendida pelo governo Lula em outras esferas. do aumento das trocas comerciais entre os países em desenvolvimento. porém. A mudança pode ser definida como uma tentativa de investir mais no Sul. em particular do comércio mundial. ele afirmou: “o Brasil é um país maduro para isso. Assim como o Brasil. no entanto. Por fim. Por fim. O Norte desenvolvido continuará sendo parceiro valorizado e indispensável. Em segundo lugar. 475). Uma das formas pelas quais o presidente expressava essa visão era a referência à criação de uma “nova geografia econômica mundial”. criar novas oportunidades e encorajar parcerias que explorem as complementaridades entre as economias do Sul. de examinar maneiras consistentes com as regras do sistema de oferecer concessões mais favoráveis aos países de menor desenvolvimento relativo. essa ideia de que a reforma é uma necessidade do sistema funciona também como uma justificativa no plano interno. Ainda assim. isso não nos desobriga.) Em primeiro lugar. para que todos possam beneficiar-se é preciso que os ganhos sejam eqüitativos. o Brasil passou a ter um comportamento diferente do que vinha mantendo. Por um lado. A visão do governo sobre o próprio país nessa nova geografia também tem peso importante sobre a campanha e será abordada em maior profundidade a seguir. entre outros fatores. Essa nova geografia não se propõe substituir o intercâmbio Norte-Sul. Por outro lado. Questionado sobre a validade do pleito. considerados necessários para a manutenção da ordem. Temos plena consciência de sua importância como destino para nossas exportações e como fonte de investimentos e tecnologia de ponta. nós temo s a nossa visão do mundo” (p. Não. tal ideia reforça no plano externo argumentos apresentados pela diplomacia brasileira na campanha pelo assento permanente – especialmente a noção de que a falta de representatividade do Conselho compromete seu funcionamento e sua legitimidade. em busca de apoio doméstico para o pleito brasileiro e os esforços em prol deste objetivo. . só alcançaremos nossos objetivos se tivermos a vontade política de ser ambiciosos .124 Diretamente relacionada a esta perspectiva está a ideia de que a reforma do CSNU era uma necessidade do sistema internacional. (. Diante da perspectiv a de que existia esta nova configuração.. Queremos.. sem perder as boas relações com o Norte.

A avaliação era de que um mundo menos homogêneo abria espaço para a ambição do país de ter mais influência.1. simplesmente. movimento que. Para ele. adquirir confiança em nós mesmos” (p. Havia também uma tentativa de associar a atuação externa à . o ministro avaliou que “o povo brasileiro deu uma grande demonstração de auto-estima ao manifestar sua crença na capacidade de mudar criativamente a realidade”. Ainda em relação ao futuro promissor. consciente da própria importância no cenário internacional”. votando em Lula. objetivo que só poderia ser realizado a partir do processo que foi mencionado como a “recuperação da auto -estima” brasileira. portanto. Ele também disse acreditar “num futuro grandioso para o Brasil” e. ele disse que o faria “sem constrangimento de nos apresentarmos como país em desenvolvimento e de reivindicarmos tratamento justo”. 255) afirmou que. Amorim (2003d. digna. Já aparecia aí o que Hurrell (2009) aponta como uma dualidade entre poder ser visto – e gostar de se ver – como futura grande potência e. ao defender um “projeto de desenvolvimento que seja nacional e universalista”. com mais auto-estima. Amorim (2003f. por outro lado.2 Brasil. e prometeu não fugir “de um protagonismo engajado”. sem dúvida. p. o governo mostrou sua insatisfação com a imagem que o Brasil tinha de si. Uma das bases de sua política externa foi. compreendendo suas opções de política externa pelo prisma Norte-Sul. 21 e 22) assumiu o cargo de chanceler e acrescentou mais uma orientação relevante para essa diretriz: ao afirmar que o Brasil participaria de diversas negociações comerciais. sustentou que “isso significa. “passamos a ter uma postura que está mais de acordo com as nossas dimensões. 41). Lula (2003a) afirmou que era chegada “a hora de transformar o Brasil naquela nação com a qual a gente sempre sonhou: uma nação soberana. No mesmo dia.125 3. Em seu discurso de posse. Na mesma linha. com as nossas aspirações”. está associado à visão de mundo analisada anteriormente. um país grande Desde o primeiro ano de Lula na Presidência. de forma implícita – posturas adotadas anteriormente em função desta perspectiva. essa dualidade é “demonstrativa da tensão entre o desejo de uma influência internacional e a continuada sensação de vulnerabilidade” (p. p. identificar-se como país em desenvolvimento. 13 a 17). e criticou – em geral. a revisão desta imagem.

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interna. Essa tendência é observada, por exemplo, quando Amorim diz que “o governo estará voltado, antes de tudo, para devolver a auto-estima ao povo brasileiro” e “a política externa tem sido uma parte, uma parte não pequena, não desprezível dessa recuperação da autoestima” (2004a, p. 96). Outra declaração do chanceler que ajuda a completar esta perspectiva é a seguinte:
Quando o Presidente Lula foi eleito pela primeira vez, muito precisava ser feito, na frente diplomática, para resgatar a auto-estima do brasileiro e dar ao país uma presença internacional condizente com a dimensão real de suas potencialidades . Materializar esta determinação exigia recuperar a capacidade de iniciativa e reforçar nossa inf luência na produção das regras de governança global. Em suma, não apenas reagir a fatos ou propostas desenhadas nos grandes centros de poder – como a da Alca, por exemplo – mas contribuir para a própria constituição da agenda internacional. (AMORIM, 2008a, p. 97).

O próprio Amorim tentava revestir essa exaltação do Brasil como país “grande” de uma conotação neutra, sem fazer desta classificação um adjetivo. Ao analisar, por exemplo, que “a afirmação dos valores e interesses brasilei ros no mundo é – e sempre será – global em seu alcance”, ele ponderou que “sem entrar no mérito de saber se isso é uma vantagem ou uma desvantagem, o Brasil não é um país pequeno. Não tem e não pode ter uma política externa de país pequeno” (AMORIM, 2007c, p. 147). Ao mesmo tempo, o tamanho do país foi usado como argumento para que o Brasil participe da formulação de diferentes agendas e seja ouvido em diversos temas. Em declarações de Lula (2008c) sobre este ponto, nota-se novamente a exploração da dualidade entre as ideias de futura potência e país em desenvolvimento para defender a reforma da ONU:
Os países em desenvolvimento precisam colocar os seus problemas no centro do debate, devem participar da elaboração da agenda internacional. O Brasil está disposto a atuar sem arrogância, sem megalomania, sem pretensões hegemônicas, mas com o sentimento de que somos um grande país e que temos o que dizer ao mundo . Por essa razão, estamos presentes na estabilização do Haiti. Por essa razão, aspiramos a reformar a ONU e seus mecanismos de segurança coletiva. (p. 104).

Partindo da avaliação de que o “Brasil é por demais importante e muitas vezes não fomos mais porque não nos demos importância”, o presidente também defendeu linhas gerais de sua política externa que estavam ancoradas nesta visão de país: “O governo tem a decisão política de fazer com que o país use todo seu potencial de ousadia, todo seu potencial de política externa, para inserir o Brasil no mundo como um país grande, um país que gosta de respeitar e (...) que quer ser respeitado” (LULA, 2003b, p. 116). Havia nitidamente nas declarações de então um esforço para marcar uma diferença em relação ao governo anterior.

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Em seu discurso como presidente eleito, Lula (2002, p. 141 a 143) já havia previsto que “um novo Brasil” estava nascendo. Na ocasião, – como era esperado – ele também fez críticas ao governo que iria suceder, prometendo enfrentar a “atual vulnerabilidade externa da economia brasileira – fator crucial na turbulência financeira dos últimos meses”. Além disso, usou a expressão que seria uma das marcas de seu início de mandato e que ilustra bem esse desejo de indicar mudança: “a esperança venceu o medo e o eleitorado decidiu por um novo caminho para o país”. Meses depois, Lula (2003a, p. 13 a 17) começaria seu discurso de posse afirmando que “mudança é palavra chave”, repetindo que “a esperança venceu o medo”, e prometendo em seguida que a “política externa refletirá, também anseios de mudança que se expressar am nas ruas”. Entre as mudanças que, de fato, podem ser observadas na condução da política externa está a postura de ousadia. Em termos de discurso, que é o foco da presente seção desta pesquisa, esta expressão aparece diversas vezes. Falando a investidores estrangeiros em Nova York, por exemplo, Lula (2004e, p. 186) afirmou que “estabelecemos uma estratégia de política externa onde prevalece a ousadia do Brasil em ser um ator privilegiado e não um coadjuvante à espera das sobras das negociações praticadas pelos chamados países desenvolvidos”. Outra expressão que também denota a ousadia que o governo queria imprimir à sua política externa é o fim da necessidade de “pedir licença”. No início de seu governo, Lula (2003c, p. 98) avaliou que o “Brasil precisa aprender definitivamente que somos um país grande, que temos vocação para crescer e que não precisamos pedir licença”. Amorim (2006b, p. 132) também fez uso do termo ao defender o que chamou de “prudência corajosa”. Depois de afirmar que sua definição da política externa como altiva e ativa não encerrava qualquer megalomania “porque a verdadeira prudência é uma prudência corajosa”, ele completou: “a prudência não é sinônimo de covardia; a prudência não é sinônimo de sentir a necessidade de pedir licença a potências maiores para cada ação que temos de tomar; a prudência é, sim, avaliar cada situação, olhar para todos os fatores, não tomar atitudes precipitadas, negociar”. Já perto do fim do governo Lula, questionado sobre se havia um pedido de licença no passado, o chanceler disse “pedido, não: as pessoas procuram ler os sinais”. Perguntado então se um dos sinais era tirar os sapatos na alfândega americana – episódio vivido por Celso Lafer durante o governo Cardoso –, Amorim (2009a, p. 300) apenas respondeu: “ Não vou comentar

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meu antecessor. Tenho intelectualmente respeito por ele, embora discordemos sobre muitas coisas”. Além desta postura mais ousada, outra diferença destacada pela diplomacia foi a maior ênfase dada à política externa no governo Lula. Questionado sobre quais seriam as novidades na área a partir de 2003, Amorim (2003g, p. 261) respondeu certa vez que a diferença se via na intensidade com que as prioridades eram buscadas, destacando que, em cinco meses de governo, sete governantes sul americanos tinham vindo ao Brasil, algo inédito ate então. Em outra ocasião, confrontado com a constatação de que muitas das prioridades de então haviam sido também prioridades de Cardoso, o chanceler de Lula ponderou que havia “diferenças de ênfase, o que não é pouca coisa”, acrescentando que “quando se diz que não há diferença é preciso lembrar que a determinação faz diferença” (AMORIM, 2003h, p. 459). Já em balanço sobre os primeiros dois anos de mandato do presidente, Amorim (2005b, p. 401) também defendeu que “a determinação de traduzir em ação concreta a visão de uma ordem internacional mais justa e democrática é uma característica do governo Lula, que traz, na prática, iniciativas e ação inovadoras”. Ainda em relação a esse ponto, o chanceler reconhecia que o que ele considerava uma maior presença do Brasil no mundo era resultado de uma série de fatores, como o processo de consolidação da democracia, a “transição civilizada de poder”, e a estabilidade econômica, o que não deve ser creditado apenas ao governo Lula. Mas Amorim argumentava que os esforços para garantir “uma presença mais efetiva no cenário internacional” eram maiores que no passado (2005c, p. 418). O chanceler sempre admitiu que havia resistências a essa nova visão sobre o papel e as potencialidades do Brasil no mundo. Ele comentou, por exemplo, que muitas vezes ouvia “de pessoas, inclusive ilustradas, até de colegas, que o Brasil não deveria se envolver em certas situações, não deveríamos dar opinião sobre certas situações” (AMORIM, 2004a, p. 97). Mas reafirmava que o governo Lula “nunca temeu dar a sua opinião sobre situações”. Já no fim do governo, ele analisou que há, “entre os vários governos, diferenças de visão sobre a capacidade do Brasil de influir em questões internacionais” e que “muita gente ainda subestima a capacidade do país de contribuir positivamente para a agenda internacional” (AMORIM, 2010b, p. 437).

110) já afirmava que o presidente havia conseguido “imprimir dinamismo sem precedentes à polí tica externa brasileira”. Lula (2005a. ou dos chamados países baleia – China.129 Tal percepção não impediu que o governo Lula mantivesse uma postura ambiciosa em diversas áreas no plano internacional. perguntado em 2003 se seguiria o modelo dos tigres asiáticos. 35) argumentou. 7 de fevereiro de 2003. automaticamente. baseado na exportação. exposto pelo presidente em conferência sobre o Brasil em Paris. de fato. ele também afirmou que seria um equívoco considerar que o Brasil terá. baseado em uma percepção mais positiva do papel que o país devia assumir no mundo. Índia e Rússia –. as relações comerciais desenvolvidas pelo Brasil ao longo dos dois mandatos de Lula. p. No setor comercial. a diplomacia brasileira não comete este erro. o governo também procurou destacar sua postura ambiciosa. o ministro já constatava em fevereiro de 2003 que havia um anseio por liderança no mundo e que Lula correspondia “a uma imagem de algo que está faltando” 89. A partir desta perspectiva. O chanceler também sempre defendeu que a própria imagem de Lula tinha importância decisiva para este novo projeto. . que tinham enorme mercado interno a ser explorado. papel de relevo na esfera internacional por ter território vasto. Conforme será visto mais detalhadamente no próximo item deste capítulo. ou seja. Para o presidente. Gazeta Mercantil. Em seguida. refletiram bem a ambição brasileira. Amorim respondeu que o Brasil tinha que ser a mistura de tigre com baleia. não sendo “nem tímida nem temerária”. Partindo da observação de que o “Brasil sempre tomou cuidado de evitar a questão da liderança”. mas também está longe do outro extremo. Nosso desafio é o de tentar entender e de afirmar como o Brasil pode colaborar para a construção de uma nova relação de forças internacionais”. Do ponto de vista político. por timidez ou por temor aos mais poderosos. por exemplo. mas não esgotam a capacidade de ação e de influência de que pode dispor um país. O objetivo de construir “nova relação de forças internacionais”. Amorim (2003i. que a riqueza e a força militar são expressões de poder. Poucos meses depois da posse de Lula. investir nas duas frentes. Em sua apresentação. p. 89 “Amorim estreia na CUT o debate doméstico”. ele concluiu que “não fugimos a nossas responsabilidades. inicialmente. ilustra o grau de ambição da política externa de seu governo. recursos naturais e população numerosa.

Já no segundo mandato do presidente. Perguntado. tal tipo de inserção se chocaria com a “atitude solidária que. o chanceler destacou também que desde 2003 o Brasil havia sido chamado a participar de três reuniões do G-8 e fora chamado também para “foros onde antes não participava”. em que foi o único país da América Latina a participar (AMORIM. É inconcebível um Brasil próspero em meio a uma América do Sul miserável ou permanentemente sujeita a crises de governabilidade” (AMORIM. o Brasil era apresentado como ator cada vez mais respeitado na área internacional e país ouvido e chamado a opinar diretamente. 2008a. p. Mas vale lembrar que desde a virada para o século XXI a supremacia brasileira em relação a seus vizinhos já era praticamente inquestionável. Tal atitude incluía demonstrar que seu mercado estava aberto. O governo também foi muito ativo nos esforços para apresentar progressos a partir de sua política externa. é possível afirmar que o contexto regional favoreceu tal opção. Com a Argentina saindo de sucessivas crises desde o fim dos anos 1990 e o Brasil tendo sua estabilidade econômica e política cada vez mais consolidada. por exemplo. com pouco mais de um ano de gestão. Neste sentido. Amorim (2003f. deve fazer parte do relacionamento entre as nações. “seja com financiamento. como assessorias. 97). p. 70). dentro de regras justas. Já às vésperas da eleição que deu a Lula seu segundo mandato. a visão de Brasil exposta pela diplomacia também se prestava a amenizar os problemas decorrentes da liderança pretendida pelo país. nas palavras de Amorim (2004c. Ao receber o prêmio “Estadista Global” no Fórum de . e não apenas em questões hemisféricas. 2006c. p.130 Além de ser a base desta postura ousada e assertiva. O próprio presidente costumava exaltar os êxitos da política externa em relação ao peso do Brasil no cenário internacional. o chanceler voltou a defender tal comportamento ao afirmar que “uma inserção individualista não condiz com a extensão dos desafios do mundo atual”. seja com coisas menores”. 78). e para isso o país tinha que ajudar os vizinhos. Ainda no início do governo Lula esta mudança de perspectiva já se apresentou de forma explícita. que permitam reciprocidade. Para ele. como a Conferência sobre a Reconstrução do Iraque. p. Assim. lançou-se mão das ideias de política externa solidária e de liderança positiva no âmbito da América do Sul. 260) disse que tínhamos “de entender que o Brasil é a maior economia da América do Sul” e tinha que ter uma “liderança positiva”. acreditamos. onde o país passou a se assumir claramente como o mais forte. sobre possíveis mudanças na política regional em relação à economia.

132) disse em Cuba que “essa nova dinâmica da nossa política internacional é que tem dado ao Brasil um destaque que tem deixado muita gente assustada. Repetindo a prática recorrente em seu governo de exaltar seus resultados no plano internacional. o que permitirá abordar também as críticas que lhe foram feitas. Por outro lado.e dizer que o Brasil.e. de uma forma ou de outra (BRICs. desde o início. . é muito diferente daquele. 62). ainda em Davos. fez a sua parte. Lula apresentou uma extensa lista de conquistas: Sete anos depois. Amorim (2008a) ainda se defendia contra tais acusações: A política externa brasileira não tem preconceitos e. Já em 2008. G8+5.). Na mesma ocasião. Diferente do que disse o presidente. ( p. etc. não está condicionada por fronteiras ideológicas. quando estive pela primeira vez em Davos”. ao contrário do que dizem alguns críticos. Pagamos toda nossa dívida externa e hoje. em lugar de sermos devedores. IBAS. Ainda em seu primeiro ano de mandato. Lula (2010a. mais que isso. Neste período. as agressões ao meio ambiente. G-4. para o Brasil. É raro. Fez o que prometeu.131 Davos. somos credores do FMI. Uma das mais recorrentes diz respeito à suposta ideologização da atuação internacional do Brasil. hoje. não foi apenas no início de seu governo que a política externa brasileira foi alvo de críticas. porém inapropri ado. O modismo é coisa fugaz. de sete anos atrás. Ele observou então que “se trata de um termo simpático. fizeram muita crítica”. mesmo com todas as dificuldades. O Brasil pode colaborar para uma ordem mundial menos estática e hierarquizada. ( p 101). E o Brasil quer e será ator permanente no cenário do novo mundo”. eu posso olhar nos olhos de cada um de vocês . que surja um grupo de países no qual o Brasil não esteja presente. Diminuímos. em relação a qualquer tema de interesse global. Num primeiro momento. 61) comentou que via em várias publicações que o Brasil estava na moda. consideravelmente. Lula (2003d. Nossas reservas internacionais pularam de 38 bilhões para cerca de 240 bilhões de dólares. p. 31 milhões de brasileiros entraram na classe média e 20 milhões saíram do estágio de pobreza absoluta. nos olhos do meu povo . p. Na próxima parte deste capítulo serão analisadas as linhas gerais da política externa brasileira. passageira. Temos fronteiras com 10 países e não nos envolvemos em um só conflito com nossos vizinhos. G-20. o governo também reconheceu que havia críticas à sua política externa. o presidente destacou que o “olhar do mundo hoje.

América do Sul e Oriente Médio. Amorim também afirmou na mesma entrevista que “atitudes como as que nos levaram ao G-20. Para o ministro.132 3. Ou seja. Para isso. indiscutivelmente. ancorava-se tanto em uma imagem de Brasil grande e plural. ocorreram justamente onde o Brasil procurou projetar no plano externo essa característica plural da sua própria cultura e da sua própria população”. ao mesmo tempo. Ela foi citada por Amorim (2005d. porque aquilo implicou riscos. “este é um elemento que certamente não tinha na política de Cardoso”. Na ocasião. O Brasil também abraçava o mundo ao atuar de forma ambiciosa. pode ser entendida como um resumo da ambição de se tornar um ator de peso na cena internacional. o chanceler disse que a importância dada ao combate à fome era algo “totalmente novo”. Questionado se o Brasil não estaria apostando em muitas frentes simultaneamente. Ele ainda acrescentou que “para nós é bom que seja assim. a diplomacia utilizava -se de argumentos como o que foi apresentado acima por Amorim. o chanceler respondeu que “os momentos de maior brilho da política externa brasileira no passado. não creio que houvesse. mais favorável ao país. que tinha repercussão em variados campos. quanto no desejo de desenhar um mundo multipolar. 428) em resposta a uma pergunta sobre as diferenças entre as diretrizes gerais do governo Cardoso e as do governo seguinte. O exemplo mencionado aqui é útil para a reflexão que será feita nesta parte do trabalho. e contou então que ouviu esta expressão na ONU e que pretendia mencioná-la em um livro de memórias porque foi dita como uma avaliação da política externa brasileira “de maneira carinhosa”. acerca dos objetivos mais específicos da política externa do governo Lula – foco do .2 ‘O Brasil abraça o mundo’ A expressão usada aqui como título ilustra a visão com que o Itamaraty queria marcar a política externa de Lula e. um mundo multipolar é um mundo que favorece países como o nosso”. além da já analisada visão sobre o país e suas potencialidades. Essa segunda resposta reflete a perspectiva que permite entender a ideia d e “o Brasil abraça o mundo” não apenas como uma intenção de tornar a “ordem mundial mais justa” – posição diversas vezes defendida pelo governo Lula e explorada como um paralelo à sua política nacional de erradicação da fome e da miséria. Acho que a intensidade e a determinação com que são levadas adiante certas decisões são realmente coisas novas”. investindo na diversificação de suas relações internacionais. como África. p.

no entanto. inaugurado em meio a um contexto econômico adverso90.1 – e dos resultados das gestões feitas nesse período – tema de 3.2. portanto. Já Lula (2003e. 3.. p.2. as transformações na relação do Brasil com as grandes potências e a retomada da barganha diplomática.133 item 3. implantado em 1994. o governo Lula teve início após uma turbulência econômica interna. Três meses após o início de seu governo. a invasão americana sem respaldo da ONU levou Amorim (2004c. . embora já tivesse colaborado para a eleição de Cardoso. Aqui serão abordados.2 –. ainda não estava consolidado. do ponto de vista nacional. o investimento na cooperação Sul-Sul. que a conjuntura internacional era estável. Os EUA estavam sob forte impacto dos atentados de 11 de setembro de 2001 e ainda se discutia no início de 2003 uma possível autorização da ONU para uma intervenção no Iraque. p. em um pronunciamento à nação. 74) a afirmar que a “Guerra do Iraque criou uma si tuação (. o P lano Real. p. A posição assumida pelo Brasil em relação a este tema já dava mostras de como seria a atuação internacional do país sob o comando de Amorim e Lula. Amorim (2003j. 90 Do ponto de vista internacional. causada e m grande medida por incertezas do período eleitoral. bem como de fatores de ordem interna e externa que tiveram influência sobre tais objetivos e resultados. Essa disposição se refletiu nos esforços feitos pelo Brasil contra a ação militar dos EUA. França e Alemanha. 65) falou diretamente com os chefes de governo francês e alemão e ainda mandou cartas ao secretário-geral da ONU e ao Papa.1 Do bom comportamento à barganha Ao contrário do governo Cardoso. mas depois desfrutou de um contexto mais favorável ao país. Não se pode dizer. 55) disse que conversou diretamente com seu equivalente americano e que houve contatos com países como Rússia.2. a crise do México ainda tinha efeitos e. Em primeiro lugar. O chanceler afirmou na ocasiã o que “não devemos superestimar a capacidade de atuação do Brasil e nem subestimá-la”. lamentou o início da guerra.) que demonstra claramente a disposição do presidente [Lula] de lutar não só por uma nova geografia comercial do mundo.. mas também por uma nova ordem política”. Ao argumentar sobre a necessidade de se encontrar uma solução política.

Esta última característica aparece. mas prevê que “isso vai mudar porque. que contrastava com a distância defendida por Lampreia na crise envolvendo o Iraque no fim da década de 1990. e a formação do Ibas. p. sob comando do Brasil. a longo prazo. a barganha fora substituída por “contribuições produtivas” – tais quais a adesão ao TNP – que na visão do governo de então garantiriam uma espécie de “bilhete de entrada para o Norte” e a realização dos propósitos nacionais. . isto tem a ver com a guerra contra o terrorismo. 442) disse: “há gente que diz: ‘olha. Entre eles estão a importância atribuída à dimensão política das relações internacionais. de forma mais ampla do que antes. como será demonstrado aqui. Em resumo. o ativismo em temas nos quais o país não se arriscava tanto no passado recente. O chanceler de Lula usou a questão iraquiana como exemplo para defender a importância do CSNU. mencionada no capítulo anterior 91. Outros dois eventos ainda em 2003 expressam também essa mudança de tática no governo Lula: a criação do G-20.134 Mais de dois anos depois. Tem. p. A configuração destes dois grupos evidencia a opção da política externa brasileira de investir no multilateralismo por meio da ação coletiva.4 e 10). a troca da “tática do ‘bom comportamento’ pela ‘barganha’” diplomática. cabe expor os objetivos do governo com tais opções. 2003f. e o Conselho de Segurança é o centro disso”. Amorim voltaria ao tema para defender a posição do governo. quando Amorim (MRE. O caso é um exemplo de diversos traços que foram marcas da política externa do governo Lula. não vai agir sozinha porque o custo depois é muito caro”. p. sim! Quando um brasileiro é fuzilado numa rua de Londres. há no governo Lula. e o questionamento mais enfático da ordem internacional. com base na ideia de que “nada do que acontece no mundo nos pode ser indiferente. tem a ver com uma porção de coisas”. assassinado pela polícia na capital britânica por ter sido confundido com um terrorista. 91 Vale ressaltar que os dois momentos guardam grandes diferenças. a maior superpotência. por exemplo. durante reunião da OMC em Cancún. tem a ver com a invasão do Iraque. Amorim (2005e. por maior que seja. isto não tem nada a ver com a gente’. que analisará os resultados da política externa de Lula. Este ponto será discutido mais aprofundadamente na próxima seção. Aqui. Em uma referência à morte de Jean Charles de Menezes. 259) reconhece que o CSNU foi colocado de lado pela coalizão liderada pelos EUA que invadiu o Iraque. Na presidência de Cardoso. segundo Pecequilo (2008.

2009. p. O objetivo da participação foi. O grupo também se inscrevia na preocupação brasileira de reforçar as relações inter regionais. 2006a. Estas perspectivas conferem inquestionável pragmatismo ao Ibas. especialmente nos países desenvolvidos. reforçar o diálogo Sul-Sul. documento que . segundo Lula (2003f. realizado em Brasília. pouco depois da criação do fórum trilateral. p. Não à toa. A iniciativa era promissora em muitos aspectos práticos. mas não se baseava apenas no compartilhamento de princípios – como a importância do desenvolvimento. a África Austral e a Índia” (LULA. evitando repetir estratégias que marcaram a atuação de grupos como o G-77 e terminaram desgastadas devido a divisões políticas e crises internas. mas o fórum também se sustentava nos anseios políticos e descontentamentos de Brasil. Yashwant Sinha. 140). Índia e África do Sul. à cooperação técnica e à busca conjunta por soluções para problemas sociais comuns aos três países. O Ibas reuniu temas recorrentes em outras iniciativas de cooperação entre países do Sul. no primeiro encontro do grupo. foi assinada a “Agenda para Cooperação”. os ganhos comerciais que o Brasil poderia obter nas trocas com o Sul adquiriram importância estratégica maior para o governo (HIRST e LIMA. 2007. sendo apontado como um “cata lisador para a aproximação entre a América do Sul. segundo o presidente. Num contexto internacional de crescente protecionismo econômico. na ideia de que grandes países em desenvolvimento deveriam se unir para dar novo impulso à cooperação Sul-Sul. p. do combate à pobreza e do multilateralismo –. 125). Além do plano comercial.135 Para Amorim (2005f. que promoveu o encontro dos chanceleres dos três países na Índia. Também eram animadores os prognósticos relacionados ao desenvolvimento conjunto de tecnologia. o então chanceler indiano. no campo político o grupo poderia assegurar protagonismo maior para seus integrantes a partir da coordenação de interesses e posições em fóruns multilaterais. 50). o Ibas foi a base para outras iniciativas de cunho político – entre elas o próprio G-20 – que não teriam sido possíveis sem “um ambiente de confiança entre esses três países que são chave em suas regiões”. Durante a primeira comissão mista do Ibas. declarou que a "nova ordem mundial" era o tema mais importante a ser tratado (VIEIRA. p. p. 46). em 2004. Índia e Áf rica do Sul chegaram inclusive a participar da cúpula do Mercosul de junho de 2003. em 2003. A própria criação do Ibas se baseia. 120 a 122). no qual as negociações sobre redução de barreiras poderiam levar ao incremento do fluxo trilateral.

p. a mescla de objetivos políticos e econômicos é uma das características peculiares do Ibas. Amorim (2004d. há várias versões sobre as articulações que levaram à formação do G-20 (VIEIRA. 2009. Considerando qualquer uma delas. 403 e 404). e que pode ocorrer sem ser movida por razões ideológicas. 2007. e sim mudar “a geografia de negociação comercial do mundo”. Enquanto a ideia original de formar o Ibas é atribuída ao então presidente sul-africano Thabo Mbeki 92. O G-20 foi considerado pelo governo uma vitória política diante da perspectiva de que. O documento é. embora a criação do grupo tenha se baseado na questão específica das negociações de temas agrícolas na OMC – e. já que o governo não queria “trocar o Primeiro pelo Terceiro Mundo”. segurança internacional. em Evian. disse sobre o assunto. em interesses materiais –. o país teria que “esperar mais 15 ou 20 anos” para rela nçar o tema agricultura nas negociações da OMC. Para Vieira. p. inclusive de imagens que sejam fáceis de captar”. fazer gritaria. mas a favor dos nossos interesses”. p. sua formação “mostrou que a coordenação Sul -Sul não é um objetivo irrealista ou ultrapassado. em junho de 2003. é possível afirmar que. O mesmo traço pode ser observado no G-20. o nascimento do grupo também foi uma oportunidade para o país “renovar seu papel de ‘intermediário indispensável’ entre os ‘fracos’ e os ‘fortes’”. mas sim “alargar suas parcerias”. confrontação”. portanto. que é um exemplo da busca brasileira pela aproximação em 92 A consolidação da ideia se deu em reunião paralela à cúpula do G-8. Para Amorim (2005b. Questionado certa vez se tais declarações não eram “retórica inútil”. mas por uma visão pragmática. além de ser elevado à nova posição de demandante nas questões agrícolas – o que contrastava com uma atuação limitada e concentrada na redução de danos. E m relação ao Brasil.136 formalizou a preocupação em fazer convergir as posições dos integrantes em relação a temas como reforma da ONU (especialmente do CSNU). p. . caso se houvesse chegado a um acordo insatisfatório em Cancún. Isso não exclui o caráter político do grupo. mais uma mostra do caráter político atribuído ao fórum. “Não estamos contra nenhum país. desenvolvimento sustentável e desenvolvimento social. 51 a 53). 164). o chanceler respondeu mostrando mais uma vez a importância da dimensão política na perspectiva adotada então: “Política é feita de muitas coisas. o G-20 representa o “renascimento do espírito de uma coalizão do Terceiro Mundo” (HIRST e LIMA. 373) afirmava que não havia qualquer “estratégia terceiro mundista por parte do Brasil”. baseada em interesses concretos e legítimos”. postura que predominava desde os anos 1970. Também não queria “recriar a velha Unctad. na França. portanto.

o grupo foi inscrito na estratégia de fortalecer as relações com o Sul. Os contatos dos últimos dois países com Brasil e Índia ficariam mais intensos anos depois. em 2002.137 relação a países com interesses semelhantes. entre outros fatores. Índia e China juntas deverão ser mais poderosas que a soma das economias dos atuais países desenvolvidos – e formalizaram os contatos entre eles. Seria difícil. Sua política externa recente também se diferencia das dos outros Brics por se basear no reconhecimento de suas fraquezas. O Ibas também era visto assim pelo ministro: “não é mera coincidência que os três países [Brasil. e passou a reconhecer a primazia dos EUA. Índia e África do Sul] façam também parte do G-20. Aqui. O país se valia de sua importância estratégica – garantida. sem intenção de imprimir mudanças às relações internacionais. Assim. desde os atentados de 11 de setembro de 2001. A Rússia é a única exceção em termos de avanço em desenvolvimento. manteve sua estratégia “intransigente” de evitar negociações multilaterais com países desenvolvidos nas áreas nuclear e comercial. já que a economia do país ainda luta para se erguer após o caos do fim do período soviético. o país deixo u de defender explicitamente a importância da multipolaridade – embora continue acreditando na necessidade de combater o unilateralismo –. portanto. por exemplo. entre eles a classificação como economia de mercado por parte do governo americano. a Rússia obteve ganhos políticos e econômicos. mas ainda mantém posturas rígidas em temas como a . um emergente. Além disso. equiparar dois países que fazem parte do Conselho de Segurança da ONU aos outros dois. Rússia. os três países integram um grupo que. p. a partir da formulação de estudo do banco de investimentos Goldman Sachs. segundo Narlikar (2009). Segundo uma ótica que não é apenas a nossa. como suporte a posições defensivas e à postura de demandar concessões sem reciprocidade. Os quatro souberam explorar a análise do economista Jim O'Neill – para quem em 2050 as economias de Brasil. Nos últimos anos. vem flexibilizando algumas posições. é preciso entender as peculiaridades de cada um desses países. Já a Índia. 88 e 99). porém. aspirantes. deverá assumir papel internacional crescente nas próximas décadas”. juntamente com China e Rússia. O país não é. que deu origem ao acrônimo Bric. por sua localização e por seu arsenal nuclear – e de seu vasto mercado interno – sustentado pelo crescimento econômico e pelo fato de ter a segunda maior população mundial. Na política externa brasileira. segundo MacFarlane (2009.

e por ter postura menos ativa que Brasil e Índia na busca por mudanças na ordem mundial. A primeira reunião ministerial dos quatro. em Ecaterimburgo. China e Índia em muitas áreas” (p. Mesmo assim. realizada em maio de 2008. 120). p. Diferenças à parte. só perde para os EUA). para quem o “encontro diz mais sobre a multipolaridade do que quaisquer palavras”. Rússia. existe também uma “contradição entre uma China que busca manter sua autonomia e uma China dependente do sistema internacional”. Austrália e Canadá – por não estarem plenamente integrados a alianças com os EUA. p. opondo-se à criação da categoria de membros permanentes sem direito a veto (p. A China também se distingue por sua posição na economia mundial (desde 2009. ainda se vê em certo grau como país em desenvolvimento e integrou o G-20. p. o que faz com que seu relacionamento com países como o Brasil se baseie “na percepção mútua da importância que a estratégia de cooperação Sul-Sul apresenta” (H. segundo Hurrell (2009): a crença de elites políticas no Brasil. uma ideia une os quatro Brics. mas também como meio para formalizar contatos com os outros três países e agir de forma coletiva em prol de mudanças na ordem internacional. a diplomacia brasileira procurou explorá-lo. Além disso. na Rússia. na Rússia. 141). OLIVEIRA. Por fim.138 reforma do CSNU. mas “a percebida necessidade de conter o poder dos Estados Unidos compõe um elemento muito importante das políticas de Brasil. 2009. foi exaltada por Amorim (2008c. É importante ressaltar que em nenhum dos quatro casos nota-se uma postura meramente confrontacionista em relação à potência dominante. não apenas de forma a propagandear as potencialidades brasileiras. e têm defendido concepções de ordem internacional que às vezes desafiam aquelas das potências ocidentais. apesar de ter mantido postura “menos estridente” que aquela das delegações brasileira e indiana em Cancún (FOOT. 5). na Índia e na China de que o país tem direito a influência maior no cenário internacional. Eles também se distinguem de outros países que podem ser classificados como potências médias – como Coreia do Sul. 2010. Desde que o termo Bric foi cunhado. ele explorou a crise econômica desencadeada pela quebra de instituições que concediam . O chanceler também apontou o evento como uma tentativa dos integrantes de “se fortalecer politicamente como um bloco que ajude a equilibrar e democratizar a ordem internacional deste início de século”. por ser membro permanente do Conselho de Segurança (assim como a Rússia). 211). 11 a 13 e 36).

como um ensaio bem sucedido da potencialidade de coalizões Sul-Sul para a ampliação da participação unida dos países em desenvolvimento e dos PMDR nas grandes questões internacionais. por isso. “vale ressaltar que o contencioso das patentes serviu como modelo. Precisamos. Ainda em 2003. Já em seu segundo mandato.139 empréstimos hipotecários de alto risco nos EUA: “Os Brics têm contribuído para manter nos trilhos a economia mundial. “o principal eixo de nossa estratégia de inserção regional”. É caso exemplar da capacidade de países ‘não ricos’ de mitigar possíveis efeitos de uma crise que se origina principalmente no mundo desenvolvido”. 245) já falava na importância de ter um relacionamento “mais dinâmico” com Rússia. Para Oliveira. É o caso do foro de cooperação com a áfrica do Sul e a Índia. para cada grupo havia um ou alguns objetivos específicos – começa a ser observado de forma incipiente no fim do governo Cardoso. a diplomacia brasileira tentava relacionar o novo grupo a outras parcerias nas quais o governo Lula investiu. caso em que o Brasil se aliou à Índia e à África do Sul 93. o que foi classificado por ele como uma “prioridade paralela” – a principal era a América do Sul. A diplomacia brasileira também buscou apoio nos contenciosos do açúcar e do algodão. Sem arroubos nem bravatas. p. a diplomacia brasileira do governo Cardoso nem buscou consolidá-lo nem teve outras iniciativas similares”. tendo como pilar o Mercosul. p. (AMORIM. 107) compararia a importância dos Brics à prioridade dada ao Mercosul. Isso foi visto no contencioso das patentes farmacêuticas na OMC. . Oliveira (2005. p. O presidente também já havia citado os quatro países ao afirmar em seu discurso de posse que um de seus objetivos era aprofundar as “relações com grandes nações em desenvolvimento” (LULA. 18). Índia e China e também com a África do Sul. É sobretudo o caso do processo de integração em nossa região. estar preparados para o novo. Embora o Brasil tivesse em relação aos Brics uma atuação independente de seus vizinhos. 6). 212). escreveu Amorim. Devemos ter uma cooperação mais ativa entre os chamados Brics”. É importante ressaltar que. Amorim (2003b. assim como a aproximação de vizinhos da América do Sul. Entretanto. que ganhou impulso com a recente assinatura do tratado da Unasul. Lula 93 Para M. o que estimulava possíveis ressentimentos quanto à liderança assumida pelo país. chegou a hora de começar a reorganizar o mundo na direção que a esmagadora maioria da humanidade espera e precisa. p. o investimento em coalizões que seguem a lógica da geometria variável – ou seja. p. O presidente afirmou então que “a realidade internacional está sempre mudando. das cúpulas América do Sul-países árabes e África-América do Sul. 2008c. O fato de criarmos novas associações não diminui a importância de outras alianças que o Brasil tem construído no governo Lula. Lula (2007a. no contexto dessas coalizões de geometria variável. Os Brics têm um objetivo claro. 2003a.

68) adotam a mesma perspectiva e ainda acrescentam a essas iniciativas a Unasul. Também não impediu que o presidente fizesse oito viagens à África.com/brasil/noticias/lula-cria-35-novas-embaixadas-eabre-quatro-vezes-mais-vagas-para-diplomatas-20091101. de modo que fossem mais favoráveis aos países em desenvolvimento”. de escravos africanos. Nesse mesmo movimento se inserem. Índia. 18) em sua posse –. a revalorização da inserção regional – “inclusive ao se dispor a arcar com os custos do exercício de sua liderança. São Tomé e Príncipe. o multilateralismo passou a ser considerado “um movimento amplo de desconcentração e de novas regulamentações do poder no sistema internacional. Portal R7.r7. mais atenta aos problemas domésticos. no Senegal. ideia que muitas vezes parece ter sido rejeitada pela opinião pública. Como o grupo está especificamente voltado para a reforma do CSNU. 2 e 3). a relação com os países árabes não foi mencionada pelo presidente em suas primeiras declarações. p. ponto de partida de navios negreiros para os países colonizados nas Américas. p. 1 de novembro de 2009 – Disponível em: http://noticias. Tanzânia. O investimento na aproximação do continente africano tinha cunho sobretudo político e. Burkina Fasso. além de Ibas e G-20.html). como será visto ao final deste trabalho. Camarões. . Togo. Guiné.140 aprofundou a correção de rumo iniciada por seu antecessor e. em sua política externa. especificamente. Mauritânia. Cabe agora analisar separadamente seus objetivos 94. mesmo sendo genuína. a participação no G-4 em prol da ampliação do CSNU. Em relação à África. fortalecia a imagem de que o Brasil estava em posição que lhe permite ajudar. a aproximação de países árabes e africanos. Diferentemente da reafirmação “dos laços profundos que nos unem a todo o continente africano” e a “disposição de contribuir ativamente para que ele desenvolva todas as suas potencialidades” – objetivos citados por Lula (2003a. Japão e Alemanha. especialmente no que diz respeito à abertura de embaixadas – das 35 novas criadas entre 2003 e 2009. 15 ficam na África 95. criada em 2008 e chamada antes de Casa. 95 Benin. Mali. Zâmbia (Lula cria 35 novas embaixadas e abre quatro vezes mais vagas para diplomatas . Tal atitude. no Mercosul” –. e o incentivo aos parceiros para incorporarem a dinâmica regional em sua política externa. especialmente. muitos analistas apontam a reforma do CSNU como principal motivação para este movimento. Hirst e Lima (2009. a política externa brasileira reforçou a ideia da dívida histórica que o país tinha com o continente em função da exploração de recursos e. p. durante visita em 2005 à Ilha de Gorée. Botsuana. o que se nota na missão da ONU liderada pelo Brasil no Haiti (OLIVEIRA. a análise sobre ele será feita na seção 3. Mas também teve grande peso 94 Como já mencionado. Sudão. Guiné Equatorial. visitando 25 países. Congo. Isso não impediu o presidente de pedir perdão aos africanos pela escravidão. 2005. o G-4 foi criado em 2004 por Brasil.3 do presente capítulo. Etiópia.

Considerando o objetivo final da presente dissertação. 2005 pode ser considerado o ano mais importante na história recente do pleito brasileiro por um assento permanente no CSNU. Lula visitou Síria. o Brasil está preparado para fazer face a suas responsabilidades aumentadas. Antes do primeiro encontro.7 bilhões em 2002. que atingira US$ 5 bilhões em 1990. O ministro também mostrava ativismo na defesa da criação de um Estado palestino com vistas a pacificar a região. é válido destacar também a importância atribuída pelo chanceler à coordenação de posições entre as duas regiões no que diz respeito à reforma do CSNU. 85) anunciava que seus objetivos eram “intensificar o diálogo no mais alto nível político”. Concordamos também com a presença permanente do mundo árabe no Conselho. Se escolhido. unindo os povos dessas duas vastas áreas do mundo” e tendo como palavras -chave “diálogo e cooperação”. Amorim (2003l. privilegiara as negociações diretas com os países centrais. o Brasil se tornou o primeiro país da América Latina a ser observador na Liga Árabe. Nesse sentido. sem prejuízo de dois assentos para a África. como a reforma das instituições financeiras internacionais. Podemos fazer mais em áreas de interesse mútuo. Líbano. O chanceler também já comentava que a realização da cúpula de países da América do Sul e da Liga Árabe. p. 85 e 86) 96. 2005g. À época. de forma pragmática. Em 2003. estaremos contribuindo. mesmo reconhecendo a forte assimetria de poder do sistema internacional. Ainda em seu primeiro ano de governo. Emirados Árabes. Compartilhamos valores e objetivos na esfera multilateral. Egito e Líbia. O governo Cardoso. Quatro anos depois. o combate à fome e à pobreza. comerciais. a Palestina foi reconhecida pelo Brasil como Estado independente. 438) destacava que o comércio bilateral com o Oriente Médio. para fortalecer as relações Sul-Sul. (AMORIM. em Doha. sem a busca prévia 96 Como se verá mais adiante. ajudar a “ampliar os vínculos culturais. Amorim (2005g. que era tema de intensos debates e gestões brasileiras – na ONU e fora dela – à época da cúpula. bem como outros vínculos por meio de uma agenda positiva bi-regional. é fundamental que países em desenvolvimento sejam incluídos como membros permanentes em um Conselho de Segurança ampliado. houve a segunda cúpula.141 nos esforços da diplomacia brasileira para desenvolver o multilateralismo como “movimento de desconcentração do poder”. A primeira Cúpula América do Sul-Países Árabes veio a ocorrer apenas em 2005. prevista para o ano seguinte. Ao fomentar os laços entre nossas regiões mediante projetos concretos. p. . em Brasília. contribuiria "para dar seguimento à crescente cooperação econômico-comercial entre as duas regiões". p. a reforma das Nações Unidas e a eliminação das distorções no sistema multilateral de comércio. Já no fim da presidência de Lula. Nossas vozes serão melhor ouvidas se falarmos juntos . caíra para US$ 3.

e mediação em situações de crise. no conflito entre Peru e Equador. 2007. (VIGEVANI . que levou a assinatura de acordo. necessitando assim de “uma ação decidida” para sua revitalização.142 de alianças com o Sul para se ter sua voz mais ouvida (LAFER. p. a expectativa de que o impacto da presidência de Lula sobre a democracia brasileira teria efeito difusor e promoveria a estabilidade política na região. César Gaviria. Apontado como “sobretudo um projeto político”. Assim. no surgimento do projeto da Casa (futura Unasul). HIRST . 2001c. esse padrão de ausência de uma coordenação direta com países em desenvolvimento se observou. mas não chegou a ser uma estratégia política. a política para a América do Sul no governo seguinte foi guiada por outras três premissas: a ideia de que a presença mais proeminente do Brasil na região é compatível com o estreitamento de laços com a Argentina. p. em outubro de 1998. Embora no fim de seu segundo mandato o presidente tenha se aproximado politicamente dos países vizinhos – o que pode se observar na criação da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). p. 2009. na presença do então secretário-geral da OEA. 28). o Mercosul foi considerado enfraquecido por crises de seus membros e por “visões egoístas do significado da integração”. CEPALUNI. . e a perspectiva de que o sucesso da presença do país na região reforçaria automaticamente suas aspirações globais. em período anterior. o objetivo de contribuir para uma América do Sul “politicamente estável. Amorim (2003d. desenvolvimento de infraestrutura. socialmente justa e economicamente próspera” se justificava não apenas por uma 97 Vale mencionar também a mediação brasileira. de 2000. 41). p. o investimento na coordenação de posições é também um dos elementos que dá novas feições à perspectiva brasileira sobre a integração regional no governo Lula. em geral. Diante destas percepções. 2010. e no apoio dado à criação do Grupo de Amigos da Venezuela (já na transição para o governo Lula) 97 –. nas relações do Brasil com a América do Sul entre 1995 e 2002. Enquanto Cardoso tentava construir sua liderança regional de forma discreta. procurando um equilíbrio entre estabilidade democrática. em Brasília. Na mesma linha. Lula (2003a. sobretudo a partir da Conferência de Brasília de chefes de Estado e de governos da região. p. Para o chanceler. 18) declarou em seu discurso de posse que sua “grande prioridade” seria “a construção de uma América do Sul politicamente estável”. Prevalecia a convicção de que o ativismo não resolveria a questão da escassez de poder de barganha. 23) afirmou ao assumir o comando do MRE que a dimensão política e social do bloco seria reforçada. LIMA. A busca de constituição de um bloco regional avançou. 58). com apoio à sua maior participação em assuntos mundiais (SARAIVA.

p. “com o indispensável reconhecimento de que há situações de assimetria a serem levadas em conta” (AMORIM. p. como o Brasil está numa posição muito importante no cenário mundial. 31 e 32) sustentem que a postura defendida por Amorim no sentido de não levar em conta apenas interesses imediatistas faz parte da estratégia geral do governo Lula. mas também “em função do nosso próprio progresso e bem-estar”. é preciso que um país do tamanho do Brasil seja cada vez mais generoso com os seus parceiros. os autores argumentam que o Brasil aceitou bancar parte do custo da pacificação do país “para mostrar capacidade e . Lula (2003f. p. Um dos exemplos seria a decisão brasileira. os alicerces das ações de integração seriam.. mas também implica capacidade de intervenção em questões que não dizem respeito a interesses imediatos”. de assumir a liderança da missão da ONU no Haiti. (. p. 2003m. que pretendia ser reconhecida com ajuda desta iniciativa. que não é apenas a superação das diferenças que estimulava essa generosidade. em uma visão que levava em conta a compensação de “desequilíbrios nos diferentes graus de desenvolvimento dos países da região”. ( p. Do ponto de vista econômico. 98). Vigevani e Cepaluni (2005. no entanto. Amorim (2005b. em 2003. O presidente demonstra.143 postura de “solidariedade natural”. é preciso que tenhamos todo o cuidado para ter o máximo de humildade e de generosidade. “diversificação não significa apenas a busca de alternativas nas relações com outros Estados. muitas vezes. mal interpretada. acho que. segundo ministro. o livre-comércio e os projetos de infra-estrutura. Desde o início de seu primeiro mandato. 77). 402) classificou esta postura como a “capacidade de colocar os interesses do longo prazo acima de objetivos imediatistas”. 140) também afirmava que seu governo teria compromisso com a superação de assimetrias e com a integração produtiva e não apenas comercial. Estas assimetrias estão por trás da já mencionada ideia de que o Bra sil exerceria uma liderança com generosidade. Apesar disso.) E para que a gente ganhe essa respeitabilidade. A partir da teoria da ação coletiva de Olsen. Mas Lula (2004a) mostrou que havia também uma preocupação com a liderança brasileira e a resistência a ela: Chamei o Celso [Amorim] e disse a ele: companheiro Celso. considerada parte do êxito do Mercosul como projeto estratégico.. todas as vezes que tiver que estabelecer uma ação diplomática. levar em conta a necessidade de juntar parceiros para que a nossa política não seja uma política solitária e. classificada por eles como “autonomia pela diversificação”: nesse sentido. quando o governo deu provas da disposição para arcar com os custos de sua liderança. E que o Brasil tente.

a essa segunda postura –. “sobretudo dentro da nossa região do mundo”. Por outro lado. a boa avaliação que a ação brasileira recebeu de outros governos. 112). o que explicaria a mudança de postura que será descrita aqui? Para Vigevani e Cepaluni (2005). outros exercerão” (AMORIM. Mas o governo Lula buscou. Outras justificativas também foram apresentadas pelo ministro em audiência na Câmara: a “convicção de que uma participação ativa do Brasil nos daria maior autoridad e moral para influirmos nas resoluções da ONU”. em parte devido à substituição de Clinton por Bush. enquanto a relação com os EUA era percebida por Cardoso como essencial e cooperativa. talvez o argumento mais importante. a ideia de que o Brasil tem responsabilidade a cumprir. Na verdade. e. como se viu no capítulo anterior. Diante de tudo que já foi aqui apresentado. 2004e. de forma geral. nas palavras do presidente. o que ajudaria a garantir um compromisso de longo prazo com a reconstrução do país. mas não é considerada a única alternativa para atingir as metas diplomáticas e econômicas brasileiras: . ela é importante. É fundamental ter em mente que. Assim. é preciso considerar que o contexto internacional do início do governo Lula não se diferenciava daquele dos últimos anos de seu antecessor na Presidência. p. já que o Haiti tem a segunda maior população negra da América Latina.144 vontade de buscar benefícios coletivos que podem advir de um sistema internacional mais estável”. Este é um dos aspectos de sua política externa que permite observar melhor a opção pela “barganha” em substituição ao “bom comportamento”. chegou a enfrentar o governo americano. para seu sucessor. mas especialmente em função dos atentados de 11 de setembro. especialmente no que diz respeito à oposição quanto à conclusão das negociações da Alca e os contenciosos na OMC. desde 2001. cabe analisar agora a relação brasileira com os EUA e com outras potências durante a presidência de Lula. A declaração parece uma clara referência aos EUA. uma relação mais madura com a principal potência mundial. os EUA também seguiam uma política externa diferente da que prevalecera durante quase todo o governo Cardoso. Os ataques consolidaram a tendência unilateralista que predominava na cúpula da diplomacia americana desde o início daquele ano. à qual o Brasil se opôs. e “se não exercermos essa responsabilidade. a coerência da missão com a política de Lula para a África. que comandaram a missão instalada em 1993 no Haiti. o gov erno Cardoso – associado.

Um exemplo que permite constatar como as posições de Cardoso e Lula em relação aos EUA não variam apenas em função do unilateralismo exacerbado no governo Bush é a visão sobre a Alca. Outra demonstração de que o tema era percebido de forma diferente pelos dois governos foi a transformação das negociações sobre a Alca em um campo de batalha entre EUA e Mercosul logo nos primeiros dois anos de Lula na Presidênci a (HIRST . era considerada uma superpotência econômica. p. (p. O presidente anunciara que procuraria uma “parceria madura” com os EUA (LULA. Esse país continuou sendo o mais poderoso do mundo contemporâneo.. mas aceitava que o acordo poderia ter benefícios. mas não deixa de ser relevante notar que Lula só visitou o país em seu segundo ano de governo. sem paternalismos” com os países desenvolvidos. 43). e não como interlocutores com quem se relacionava de igual para igual –. inclusive economicamente para o Brasil. o chanceler também defendia que o diálogo com o governo americano era importante não apenas em questões econômicocomerciais (2003d. 2003a. chegou a chamar a proposta. Segundo Amorim (2003m. que era mencionado como um dos parceiros prioritários no governo Cardoso. Os resultados destas opções serão analisados a seguir. . antes de ser eleito. 84). p. a situação econômica japonesa também contribuiu. o governo Lula dava “especial importância ao estreitamento de laços políticos com a Europa numa visão de mundo que privilegia uma saudável multipolaridade”. expressão que remete àquilo que anos depois Amorim (2008a. o Japão. Diante das opções da política externa de Lula descritas até aqui. 2009. 98 Para isto. 34 e 35). perde importância 98. e a Europa – que antes era vista como contrapeso à preeminência econômica dos EUA e. p. mas buscou-se fortalecer essa relação na perspectiva do enfraquecimento do unilateralismo (. LIMA. a África e a países árabes. 2005. 18). CEPALUNI. conforme citado no capítulo 2.145 O critério que passou a reger as relações com os Estados Unidos a partir de 2003 foi o da não exclusividade. 23). por exemplo. p. p. 101) descreveria como “uma relação de igual para igual. depois de ter ido. de “projeto de anexação” da América Latina pelos EUA (VIGEVANI . mas não política – passou a ter sua relevância para o Brasil mais atribuída à contenção do unilateralismo americano. 64). em 2002.. Marcando outra diferença em relação ao governo anterior – quando os países desenvolvidos eram vistos como o grupo no qual o Brasil queria ser incluído. a diversos países sul-americanos. enquanto Lula. p.) e na perspectiva de consolidação do país [Brasil] como global trader. Cardoso postergou qualquer conclusão sobre o assunto.

“a nova conjuntura internacional após o 11 de setembro colocou a necessidade da diplomacia brasileira repensar sua inserção internacional reforçando a vertente multilateral e a aproximação com outros países do Sul”.146 3.2 Das parcerias estratégicas às coalizões Conforme já mencionado. estas. Sozinho. a presente pesquisa considera que a conjuntura internacional não foi suficientemente alterada – em termos de intensidade e de conteúdo das mudanças – entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000 para justificar por si só as diferentes opções de política externa feitas pelos governos Cardoso e Lula. Bush. especialmente pelos EUA. sem dúvida. as dificuldades observadas na Rodada Doha da OMC (iniciada em 2001) também foram um choque externo que contribuiu para as mudanças na política exterior brasileira. demonstraram a intensificação da tendência ao unilateralismo que já era observada em propostas do então recente governo George W. Assim. Elas se deram. provocando uma mudança de rumo que foi aprofundada por Lula. Mas. Embora o Brasil não tenha participado das guerras que se seguiram aos atentados. mas veio acompanhado ainda de um realinhamento de forças. . ressaltam os autores. 99 Vigevani e Cepaluni (2003. 8 e 9). segundo também já foi demonstrado. para Saraiva (2007. 55). p. p. Entre essas transformações do cenário mundial é praticamente consensual a avaliação de que o impacto do 11 de Setembro pesou sobre as escolhas brasileiras. esse movimento já seria suficiente para alterar o cenário internacional. algumas mudanças no plano externo já vinham levando a alterações nas linhas gerais seguidas pelo Itamaraty no fim da gestão de Cardoso. 48) notam que as posições francesa e alemã na crise do Iraque em 2003 foram vistas com simpatia e estimuladas pelo Brasil. Para Vigevani e Cepaluni (2007. em um quadro internacional já em mutação – considerando-se a expectativa de fortalecimento da cooperação que prevaleceu na década de 1990 – e em consonância com as diferentes trajetórias políticas dos dois governantes. além dos atentados.2. p. além de impactos econômicos que são sentidos até hoje. com a divisão da Europa em torno das guerras 99.

cada vez mais igualitário. mas o lado internacional tem um lado oportunista. enfraqueceram suas credenciais” diante da opinião pública. Paulo Roberto de Almeida (2010. Para uns. p. no sentido dos valores do Ocidente. que são esses: democracia. mas sim que passou a revestir-se de novas características. 100 Hirst (2009. Questionado sobre este ponto. o “governo Lula herda uma predisposição antiamericana. Há realmente uma diferença nítida. 149) pondera que as visões antiamer icanas não foram cultivadas pelo Itamaraty. sem dúvida nenhuma. mas ganharam força em setores governamentais e não governamentais. o Bashir Assad. p. já instalada em diferentes âmbitos da sociedade”. mas tem um lado oportunista. o Hugo Chávez. CEPALUNI. negociada a partir de 1998. tendo impulso com a Alca. mas também um país vinculado ao mundo ocidental.. direitos humanos. Estas marcaram o que a autora classifica como a “Década Bilateral”. Nesse contexto. p. Assim. 2 e 3). 1).. ao suposto desrespeito de princípios – como a importância reservada à democracia – e ao suposto antiamericanismo da cúpula diplomática.) E o governo Lula não chega a ser um governo que tem exatamente essas prioridades. O Fernando Henrique [Cardoso] jamais diria isso. com suas escolhas ideológicas: “essas preferências partidárias deixaram suas marcas na política externa do Brasil de maneira nunca vista antes de 2003”. Para outros os novos constrangimentos externos tornaram inviável a continuidade da estratégia de inserção internacional baseada nessa proposta (VIGEVANI . respeito à pessoa. tema que perdeu força no período Lula. . 2005. o “meu irmão e amigo” Kadafi. ele também defende que a política externa do presidente não seguiu os padrões tradicionais das práticas diplomáticas profissionais. que poderia ser observado na opção de se aproximar de países apontados pelos EUA como inimigos 100. (. a subsequente abertura de contenciosos do Brasil contra os EUA na OMC e as dificuldades de negociação da Alca como indícios de que as opções do governo Cardoso se esgotavam. OLIVEIRA. Não só o lado mensalão. a nova conjuntura não significou que a autonomia pela participação deixou de ter validade. 2007. diplomata de carreira. Vale tudo. Lampreia (2011) responde: o Fernando Henrique [Cardoso] tem uma concepção do Brasil. Um país democrático. Tem a prioridade igualitária. diz também que a “associação do Brasil com atores menos louváveis – como Irã e Cuba – assim como seu fraco histórico em questões de direitos humanos. o que leva à opção pela priorização das coalizões de geometria variável. 17. desde Evo Morales. mas sim o modelo do PT. M. Lula deu continuidade à substituição do bilateralismo – observado nas parcerias estratégicas citadas no capítulo 2 – pelo que Pecequilo define como uma versão atualizada do eixo global-multilateral. por exemplo.147 Pecequilo (2008) também cita os escassos resultados de Doha. Uma das maiores dificuldades impostas a essa transição são as críticas internas relacionadas. p. Além disso.

enquanto os EUA continuaram dando pouca atenção a temas cruciais para o Itamaraty. o Brasil se beneficiou do desgaste dos EUA com os países da região de forma geral. colaborou na transição entre os governos Lozada e Mesa e agiu na insurreição de 2005 que levou à convocação de eleições gerais. antes de assumir a Presidência. na Bolívia. entre eles o fato de o Brasil ter mantido distância da guerra ao terror declarada pelo presidente americano após o 11 de Setembro. A boa relação se consolidou na visita do americano ao Brasil em 2005 (VIGEVANI .148 Tais observações remetem. o governo Lula se beneficiou da falta de uma política americana para a América Latina desde 2001. Primeiro. outros atores e organizações intergovernamentais. o que abriu caminho para que o Brasil desenvolvesse um papel regional relativamente autônomo (HURRELL. e sobre o sistema internacional. a percepção da fraqueza foi substituída por uma reavaliação do papel do Brasil como potência média e nação emergente que precisa de uma diplomacia de alto perfil adequada a suas capacidades e necessidades. 2007.. 8). os EUA tendem a compartilhá-lo nas demais esferas devido à intensificação dos processos de interdependência e transnacionalização por eles mesmos capitaneados. o governo Lula vem sendo confrontado por inúmeros desafios. também há nestas posições uma incompreensão das tradições da política externa americana. CEPALUNI. já que em inúmeras oportunidades se comprovou que não existe incompatibilidade em negociar simultaneamente com os EUA. 24). Portanto. Houve uma preocupação inicial com o histórico de Lula e sua atuação sindical. ao que Pecequilo (2008) aponta como discussões que “escondem o perfil da história diplomática brasileira ”. reagiu à turbulência que encerrou o governo Gutierrez. p. o ordenamento do sistema passou a ser visto de um ponto de vista realista. 35). . a convite de Bush. corrigindo padrões prévios. no entanto.) Em segundo. para implementar sua política externa. A atuação brasileira na Minustah e em crises nos países vizinhos como Venezuela. Além de sua própria busca pelo poder de barganha. transitando da uni à multipolaridade. (. que em geral beneficia parceiros com forte poder de barganha – e não os que buscam alinhamentos – e percepções equivocadas sobre o Brasil e sua suposta fraqueza. no Equador. Além disso. (p. p. mas a má impressão foi desfeita na visita do brasileiro aos EUA. percebido como unipolar. Para ela. houve também aspectos negativos na relação entre os dois governos. 2009.. cujo objetivo era mediar a crise entre o governo Chávez e a oposição. o que aumentou sua importância para o governo americano como canal de comunicação. Ainda que detenham poder incontestável no campo militar. como desenvolvimento econômico e fortalecimento do 101 O Brasil liderou o “Grupo de Amigos da Venezuela”. Equador e Bolívia101 também foi bem vista pelo governo americano como forma de livrá-los de responsabilidades e reduzir as tensões regionais. Por outro lado.

Porém. Índia e China. 66). o presidente admitiu que sua proposta de mudar a geografia comercial levou muitos a imaginarem confrontos com americanos e europeus. cenário que. são o nosso grande parceiro comercial. o que levaria os EUA a aceitarem uma divisão de poder com potências mais fracas. a UE foi mais que isso para o governo Lula. Lula destacou então que. p. estabelecendo. p. e identidade cultural –. baseada em princípios – como democracia. “ região na qual a tática da superpotência favorece um equilíbrio de poder através do qual ambas contém-se mutuamente por meio de benefícios alternados que recebem dos EUA” (PECEQUILO. Em Davos. o comércio do Brasil com alguns países do Oriente Médio crescia 70%.149 multilateralismo (HIRST e LIMA. e “não tinha porque brigar com os Estados Unidos que. p. e com a UE crescia 30%. tendo como objetivo construir uma aliança para reformular a ordem. é preciso salientar também que existem limites às concessões que os americanos se dispõem a oferecer ao Brasil. que é um grande parceiro comercial ”. Vigevani e Cepaluni (2007. Citada acima como importante parceiro comercial. 9). 49) .“sem choques ou conflitos com os grandes países em desenvolvimento”. 48) destacam que o Brasil de Lula agiu para “fortalecer o papel político compensatório a ser desempenhado por países europeus em ações de longo prazo. o presidente afirmava que “Brasil mantém relações intensas e sumamente amistosas ” com EUA. Mas. UE e Japão (LULA. p. individualmente. o comércio com a América do Sul crescia 60%. mudou ao longo do governo Lula. O que nós tínhamos era que criar novas parcerias e novas realidades no mundo dos negócios ” (LULA. Ao fim d e seu segundo ano de governo. enfraquecedoras do unilateralismo dos Estados Unidos”. De forma mais geral. Mas a UE estava mais voltada para as relações interregionais. ao mesmo tempo. “não tinha porque brigar com a União Europeia. quando há um “ turning point ”: a UE continuou . para ele. com base nos regimes internacionais existentes. em relação ao Brasil. uma nova relação Sul-Sul . nas palavras de Lula. preocupação com a manutenção da paz. no final de 2004. Cardoso investiu mais em uma aproximação bilateral em relação aos países europeus. o que já era visto de certa forma com Cardoso. Tais pontos negativos não impediram o governo Lula de reafirmar com frequência sua disposição de manter “relações maduras” com os EUA. p. 2009. 2005b. 2004f. levam vantagem por estarem na Eurásia. em parte em função da divisão de poder mundial. 208). segundo Saraiva (2010). 2008. por exemplo. “desmontando uma doutrina que existia no Brasil de que só era para se exportar o excedente ”.

essa parceria” e que “um sistema multilateral de comércio fortalecido é parte fundamental da resposta à crise”. No mesmo discurso. Pecequilo (2008) sustenta. mas desta vez com a intenção de fazer do Brasil um global player. Para além da retórica em tais cobranças. Trata-se do G-20. “mais de 70% de nossas exportações são de bens manufaturados”. o governo brasileiro continuou cobrando mudanças na postura comercial dos europeus. havendo uma maior interação entre EUA. em 2007. Japão e UE”. assim como de seu papel emergente como potência regional. mas ressaltou que as exportações brasileiras eram predominantemente de produtos básicos. Apesar dessa aproximação. fora dos marcos do Mercosul. mencionando o “compromisso de fazer reformas estruturais no sistema financeiro internacional ”. p. visto que para os EUA. (SARAIVA. e garantir mais estabilidade para a região. A paralisia das negociações da Rodada Doha foi vista pelo governo brasileiro e por diversos analistas como uma vitória para o grupo. onde poderia conter os movimentos do presidente venezuelano. Por outro lado. Brasil. e. A nova tendência europeia a relações bilaterais com a região abriu possibilidades para este tipo de parceria. além disso. Lula (2010b. foi justamente a resistência de governos europeus – junto dos EUA – nas questões comerciais agrícolas que levou o Itamaraty a liderar a criação e a atuação de um dos grupos que garantiu à política externa de Lula o salto das parcerias estratégicas para as coalizões (sem abandonar as primeiras). no fim do seu segundo mandato. era de US$ 31 bilhões). o país passou a ser visto pelos europeus como um “líder natural” na América do Sul. Na 4ª Cúpula Brasil-UE.150 sendo vista como parceiro para mudar a ordem internacional dominada pelos EUA. Já as negociações para um acordo entre os dois blocos permaneceram sem conclusão. o que não seria “uma fatalidade”. A aproximação entre UE e Brasil durante a presidência de Lula foi uma iniciativa derivada do novo ativismo brasileiro na esfera internacional. o presidente afirmou que “um maior equilíbrio é crucial para podermos aprofundar. que a reunião de Cancún deixou claro que “ o processo negociador precisaria encontrar um novo ritmo. Hugo Chávez. também afirma que as tensões na . de forma sustentável. 2010). Entre os resultados concretos dessa mudança estão a participação do Brasil em reuniões com europeus para discutir temas da economia internacional e a assinatura do acordo de parceria estratégica entre o país e a UE. além disso. por exemplo. 80) exaltou o fato de o volume do comércio bilateral ter passado de US$ 82 bilhões em 2008 (em 2003. mas ela reconhece que essa espécie de G-4 trouxe poucos resultados.

Já para Oliveira (2005). a proposta elaborada pela União Africana sobre a reforma do CSNU. Pode-se dizer que houve um amadurecimento no âmbito das parcerias com EUA e UE. foi uma reação ao temor de que a África do Sul se tornasse uma ameaça hegemônica regional caso fosse eleita membro permanente do organismo. na OMC e em questões específicas como do Oriente Médio (nas negociações de Annapolis o Brasil foi convidado como interlocutor do processo de paz patrocinado pelos EUA). principalmente. Isso proporcionou a oportunidade da emergência de coalizões de novo tipo. Oliveira aponta ao menos uma externalidade negativa em outra coalizão formada no governo Lula: o Ibas. que levava à sua desqualificação nas negociações. 15). Para ele. na ONU. que diferia (e inviabilizava a aprovação) do projeto apresentado em 2005 pelo G-4. Como Amorim (2008) ressalta. Os potenciais dos eixos horizontal e vertical possuem significativo espaço de desenvolvimento. no Ibas. mas. usando como exemplo a vitória do Brasil e dos seus aliados nos contenciosos do algodão e do açúcar (contra EUA e UE. respectivamente) – que seriam um “efeito retardado” do impasse gerado na reunião da OMC em Cancún. com os EUA evidenciadas pelas ações brasileiras na América do Sul. por uma agenda pró-ativa. Em outra avaliação positiva. estabeleçam coalizões temáticas. O autor também destaca que o G-20 pode gerar externalidades positivas. 10). que lhes permitiu apresentar alternativas ao impasse. mas também por meio de adaptações. amparada pela sustentabilidade das parcerias ao Sul. com base em boa capacidade técnica. Saraiva (2007. amparados em parcerias estratégicas clássicas com os EUA e a Europa. ( p.151 OMC não afetam negativamente a agenda político-estratégica do Brasil com o que chama de eixo vertical. com a inclusão de países em desenvolvimento de África e América do Sul em seus . as quais tendem a permitir que países em desenvolvimento recuperem a clivagem Norte/Sul na política internacional. O governo sul-africano não faz parte do G-4. focando-se nos progressos possíveis e não nas divergências. (p. renovações e ampliações dos contatos ao Sul com emergentes e LDCs em todos os continentes e nas dinâmicas de alianças nas OIGs. compartilha com o governo brasileiro o esforço pela promoção da reforma do Conselho. a relevância do grupo deve ser atribuída principalmente ao fato de seus integrantes terem substituído uma agenda de veto reativa. p. mas. atuem como coalizão de bloco. apropriando-se instrumentalmente com grande capacidade técnica da agenda pró-livre-comércio dos países desenvolvidos para abrir seus mercados agrícolas. ao mesmo tempo. 56) afirma que o G-20 continuaria sendo um fórum importante para a diplomacia brasileira por condicionar o avanço das negociações na OMC à inclusão da questão agrícola e por ter permitido ao Brasil “ocupar um papel de global player nestas negociações”. mas conta com o apoio do Brasil e. tem existido um incremento do diálogo estratégico com a UE. de terceira geração. Por outro lado.

p. os únicos três convidados “logo de início” foram Brasil. Índia e África do Sul. Ainda em 2006. mas a manutenção destas inclinações pelo governo posterior na condução da política externa é que permitiu a construção de um histórico positivo para o relacionamento" (VIEIRA. Em 2004. com parcerias na área nuclear. 220) citou o já mencionado convite para participar da conferência de Annapolis sobre o Oriente Médio. Os progressos políticos também foram destacados. 2007. falta de resultados concretos. Amorim (2008b. 103 Vale notar que “Cardoso é considerado o presidente que iniciou a aproximação com a Índia. Dois anos depois. Oliveira também vê no Ibas uma série de debilidades: uma agenda ampla e ambiciosa. “isso tem um impacto em toda a política internacional ” e “essas mudanças são tão grandes que talvez se possa dizer que as únicas coisas que permaneceram iguais [ao governo Cardoso] foram os princípios”. O tema é um dos mais importantes do fórum trilateral (HIRST . 2009. É a primeira etapa de uma futura área de livre-comércio e está em vigor desde 01/06/2009. Além dos temas políticos e econômicos. LIMA. p. p. ele já previa que a médio prazo a aliança poderia se tornar relevante para o Brasil (p. p.152 quadros permanentes. e oportunidades reduzidas para aumentar os fluxos comerciais. com pouca complementaridade entre suas exportações e concorrência em setores importantes. Lula (2006b. Mais dois anos depois. 127) destacou que o comércio bilateral com a Índia havia passado de US$ 500 milhões em 2000. p. o Ibas recebeu prêmio da ONU para Parceria Sul-Sul. em 2005. sendo considerado um modelo. 7). 56).3 bilhões em 2005103. ainda na presidência de Cardoso. 132) . Outras avaliações já indicam motivos para reconhecer esta relevância. com exceção dos países diretamente envolvidos nas questões da região. Para o chanceler. Com a África do Sul. produção de medicamentos genéricos 102 Foi o primeiro acordo do tipo que o bloco sul-americano celebrou com um país de fora do continente. principalmente as do governo. Mas. 56) lembra que a aliança foi ensaiada no caso do contencioso das patentes farmacêuticas. mas afirma que houve de fato muitos avanços na relação do Brasil com Índia e África do Sul no governo Lula. foi assinado acordo de comércio preferencial entre Mercosul e a Sacu. Perguntado já no segundo mandato de Lula sobre o que havia mudado desde Cardoso. 11) aponta para a evolução da cooperação científica e tecnológica. lembrando que. p. o salto no mesmo período foi de US$ 530 milhões para US$ 1. Pecequilo (2008. Saraiva (2007.7 bilhão. a Índia assinou um acordo de preferências tarifárias com o Mercosul 102. para US$ 2.

Apesar de contenciosos econômico-comerciais entre os dois. . A recente crise financeira internacional também contribuiu para que os dois países ampliassem sua parceri a com vistas a ganhar força em mecanismos internacionais. 7). o novo posicionamento das potências emergentes nos processos decisórios internacionais ajudou a reforçar a relação bilateral: a China tem o Brasil como um parceiro estratégico no processo de redefinição da ordem internacional e considera que ambos ainda são atores intermediários. os países emergentes do Sul apresentam a similaridade de contarem com um sistema de comércio que privilegia os interesses dos países do Norte e que. apesar de suas assimetrias e diferenças. Esta perspectiva corresponde plenamente à estratégia brasileira de negociação de seu espaço no Sistema Internacional e está baseada no princípio de que. de Parceria Estratégica ou de Potências Emergentes. Isso não significa que os dois países não tenham sido importantes um para o outro. a China ultrapassou em 2009 os EUA e a UE como principal destino das exportações brasileiras. Além disso. Saarc e SADC. é necessária uma ação conjunta para tentar ampliar as possibilidades do Sul. porém. O Plano de Ação Conjunta que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hu Jintao assinaram em abril de 2010 visa dar caráter institucional à relação entre Brasil e China. contando para isso com o G-20 e a coordenação entre os Brics. a relação brasileira com os chineses se inscreve tanto na busca por parcerias estratégicas. no investimento em potências emergentes e na formação de coalizões – movimentos conciliados na ambiciosa política externa do governo Lula. Oliveira (2010). Ele afirma que a perspectiva de parceria estratégica não se insere no campo das relações econômico-comerciais. (p. e programas sociais. 2). p. Pecequilo também vê a China nesta competição. Ela concorda. Índia e Rússia. que há com esses países uma disputa pelos mesmos mercados e por concessões do Norte. porém. seja sob o signo de Cooperação Sul-Sul. com objetivo de romper o monopólio dos países desenvolvidos. já que tanto o Brasil quanto a China não são membros do G-8. e nem que as relações entre eles não tenham apresentado avanços. Oliveira (2010. quanto na cooperação Sul-Sul. relacionado às estratégias de alianças no âmbito dos fóruns multilaterais. e o da cooperação científco-tecnológica. Daí então a atual ênfase brasileira na constituição de coalizões ou a importância da parceria com a República Popular da China. Também se buscaram acordos entre o Ibas e blocos como o Mercosul. com o estabelecimento de metas e a criação de mecanismos permanentes de consulta e coordenação entre os dois países. Para H. Sacu. a parceria estratégica entre Brasil e China concentra-se em dois campos de atuação: o político. conseqüentemente.153 e de combate à Aids. mas é importante considerar que o país participou do G-20 e da formalização do Bric com Brasil. Segundo resume H.

até Michelle Bachelet. O PT tinha afinidades com as coalizões progressistas que dominavam no Chile 104 e no Uruguai 105. Outro ponto de impasse regional foi a própria campanha brasileira pelo assento permanente no CSNU. que chegaram a US$ 8 bilhõe s”. SARAIVA. enquanto a Venezuela buscou o caminho da contestação mais aberta à agenda internacional (PECEQUILO. p. Por outro lado. 28) destaca que é difícil avaliar “quanto cada um desses países avançou como produtor das ideias que moldarão as concepções de ordem global no futuro”. em relação aos quatro membros do grupo. assim como as que o brasileiro cultivou com o presidente boliviano. a postura adotada no governo Lula de assumir maior responsabilidade 104 Desde Ricardo Lagos. iniciado em 2005. em função do investimento brasileiro na construção de uma liderança regional. no cargo desde 2006. chegaram a viver uma crise – parcialmente. A partir do governo Tabaré Vázquez. 59. presidente da Argentina entre 2003 e 2007. Nesse sentido. LIMA. Do ponto de vista geral. o que parece ter sido uma meta relevante na política externa do governo Lula. 7). multiplicamos por cinco o valor de nossas transações. 53). Um dos testes foi a fracassada tentativa de eleger o embaixador Seixas Corrêa para o cargo de secretário-geral da OMC. o Brasil também não parece ter conseguido chegar a um consenso com seus vizinhos sobre a construção de uma nova ordem. Os governos dos três países representavam uma esquerda pragmática. Além disso. 2009. 175) sinalizou que entre “2002 e 2008. 105 . O governo brasileiro desfrutou da convivência com governantes de sua região que mantinham afinidades políticas com Lula. 2007. mas também devido à demanda argentina pelo abandono do “regionalismo aberto” e o retorno a uma estratégia “desenvolvimentista”. p. 2008. Hurrell (2009. p. presidente entre 2006 e 2010. apesar de o Brasil ter expandido seu envolvimento político em crises locais e ter feito investimentos crescentes nos países vizinhos. a não ser em termos econômicos – em seu último ano de governo. presidente desde 2007. p. Em 2005. que governou entre 2000 e 2006. Lula (2010c. p. porém. vale dizer que a parceria com a Rússia não parece ter se aprofundado significativamente. Evo Morales. Mas isso não impediu que Lula e Chávez tenham mantido relações íntimas. embora apenas Argentina e Colômbia ainda mantenham resistência significativa. As relações com Néstor Kirchner. e com o equatoriano Rafael Correa. os problemas foram superados (HIRST . o governo Lula não recebeu apoio imediato como líder regional em assuntos internacionais.154 Para completar o panorama sobre a relação do Brasil com os Brics.

os países árabes e sobretudo com a própria América do Sul. e aceitando “prejuízos” como no caso da nacionalização do gás na Bolívia e do perdão à dívida do país. tendo entre seus objetivos estender o próprio alcance de sua liderança – foram feitos acordos de associação com a Comunidade Andina e com a Venezuela –. conquistara o direito de sediar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 e atingira a autossuficiência energética. também aceitou parte das cobranças dos vizinhos. Um claro exemplo disto são as dificuldades enfrentadas pelo Itamaraty para manter o G-20 unido diante das pressões dos países industrializados. A mesma avaliação apareceu quando. partic ularmente os Estados Unidos. não há a menor dúvida de que optamos pelo caminho certo. ele disse que o desenvolvimentos dessas relações sul-sul é uma das razões pelas quais o Brasil encontra-se menos vulnerável aos problemas na economia americana. 2008b. Quando ele fala agora sobre o Brasil e a crise americana. (p. a áfrica. (.. criando o Focem. por concessões não aceitas por alguns países desse grupo. por outro lado. p. se por um lado o governo Lula buscou ampliar o alcance do bloco. determinadas orientações da política externa têm sido criticadas por setores das elites e a opinião pública doméstica tem estado mais atenta aos prós e os contras da diplomacia ativista de Lula. 2007. o governo tentou destacar o caráter pragmático deste tipo de iniciativa regional e. 51) 106. da aproximação em relação ao Sul. 2009. Em entrevista recente.) As relações exteriores do Brasil se tornaram uma questão controversa na política doméstica e as divergências intraburocráticas sobre as prioridades de política externa também ficaram mais frequentes. o país deve assumir as consequências da ação coletiva. no lugar de nossas iniciativas como a relação especial com a China. o ministro foi perguntado sobre os resultados da política Sul-Sul: Pegue um economista como Albert Fishlow. os dez que haviam crescido mais em um ano eram países em desenvolvimento. 30. Em segundo. 71) destacou. Fishlow sempre defendeu a Alca. p. (AMORIM. numa tentativa de exercer o papel de paymaster (VIGEVANI . 69). por exemplo. seis anos depois. LIMA. Hirst e Lima (2009) demonstram que a cooperação Sul-Sul também pode ser um “empreendimento oneroso para o Brasil”: Em primeiro lugar. Amorim (2005g. p. No âmbito do Mercosul. 106 É importante lembrar que dados concretos do desempenho brasileiro favoreciam as cobranças externas: o próprio Brasil exaltava ao fim da primeira década dos anos 2000 que havia passado de devedor a credor do FMI. p. aumentando sua institucionalização com o Parlasul. SARAIVA. 60 a 69). No terceiro ano de Lula na Presidência.155 manutenção da estabilidade nos países vizinhos e ter um papel mais claro como potência regional gerou demandas sem precedentes sobre o Brasil (HIRST . p. de forma mais ampla. . Apesar do sucesso quase consensual de boa parte das principais iniciativas da política externa do governo Lula. que e ntre os trinta maiores mercados brasileiros. Desde o início. 218). CEPALUNI. 2007..

1. baseado em uma atuação diplomática com alcance verdadeiramente universal – não mais considerando a posição dos membros permanentes como precondição para qualquer iniciativa – e. essa mudança de estratégia garantiu coerência à alteração observada em relação à campanha pelo assento permanente no CSNU: um investimento político maior. a partir das gestões que foram realizadas entre 2003 e 2010. o que ajudou a levar o Brasil a um maior ativismo no plano internacional.3. e.2. é possível abordar a campanha pelo assento permanente no CSNU durante o governo Lula. finalmente. Pecequilo (2008) sustenta que houve no governo Lula uma troca da tática do bom comportamento pelo investimento na barganha diplomática. sem visar necessariamente resultados a curto prazo.3. Esta última seção do presente capítulo procura comprovar as afirmações acima por meio de uma análise das declarações feitas dentro e fora da ONU. 3.3 Ousadia a serviço de mudanças na ONU Conforme já citado. somada à nova perspectiva universalista adotada na política externa – com uma visão do multilateralismo como “ movimento de desconcentração” em busca de novas regras favoráveis aos países em desenvolvimento –.156 A partir desta reflexão. tema do item 3. . as quais serão apresentadas em 3. a partir da ação coletiva. especialmente. já que a ação coletiva é tema crucial para entender as inovações apresentadas por sua diplomacia nas gestões relacionadas a este pleito. É possível dizer que.

Lula foi. em relação à campanha pelo assento permanente. Como muitas frases do carismático presidente. Assim. com governantes ativos. o presidente aproveitou a projeção pessoal que havia conquistado com o lançamento de programas sociais globais. mencionando iniciativas ligadas ao Brasil: o G-20 e o Ibas.3. o representante brasileiro na abertura da Assembleia Geral. 107 Todos os discursos entre 2003 e 2006 na AGNU apresentados nesta seção estão no livro “O Brasil nas Nações Unidas: 1946 – 2006” (CORRÊA. Diferentemente de Cardoso. a vinculação da reforma do CSNU à necessidade de se “fazer política”. a declaração ganhou caráter de novidade. e chegou a propor “no âmbito da própria ONU. 2007). As circunstâncias em que foi dita e a relação com a grave situação da economia mundial garantiram seu impacto. era “chegada a hora da política” – uma clara defesa da importância do multilateralismo e da ação conjunta dos Estados. quando a tarefa coube a Amorim.157 3. No discurso de 2003. Lula também explor ou os ecos do 11 de Setembro que ainda se faziam presentes para afirmar que “a reforma da ONU tornou-se um imperativo.1 ‘A hora da política’107 Em 2008. desde o início do governo já era “hora da política”. diante do risco de retrocesso no ordenamento político internacional”. em termos de discurso. Esta mudança de postura fica clara em uma análise da participação do Brasil na abertura das sessões da Assembleia Geral da ONU entre 2003 e 2010. é possível afirmar que o pleito brasileiro foi inserido no pacote dos esforços por mudanças na ordem internacional que o Itamaraty e o presidente cobraram de outros países ao longo daqueles oito anos. já no seu primeiro ano de mandato. Lula afirmou em seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU que. com exceção de 2005 e 2010. um Comitê Mundial de Combate à Fome”. nesta questão. Desta forma. Ou seja. foi uma marca do discurso diplomático no período Lula. Mas é possível afirmar que. diante da maior crise financeira internacional em décadas. Ele destacou ainda a necessidade de promover a integração política do mundo em desenvolvimento. esta foi mais uma a ganhar destaque e estampar capas de jornais. Não se tratava mais de um reconhecimento das credenciais brasileiras para entrar no Primeiro Mundo. . o que repetiria nos outros anos.

É um exemplo de como a questão do Conselho de Segurança não era um pedido de mudança isolado. porém. foi ancorada em outro grupo de países: o recém-criado G-4. O necessário combate ao terrorismo não pode ser concebido apenas em termos militares. 2007). mas com estrito respeito ao Direito Internacional. o chanceler demonstrou insatisfação com o documento final aprovado nesta reunião. sequer mencionado nos discursos dos anos Cardoso. o discurso coube a Amorim. Lula já havia participado na antevéspera de encontro de alto nível sobre as Metas do Milênio e. afir mando que “não parece razoável imaginar que o Conselho poderá continuar ampliando sua agenda e suas funções sem que se resolva seu déficit democrático”. O ministro voltou a enunciar a plataforma brasileira. acompanhara reunião de cúpula do CSNU sobre a reforma. três dias antes. Quem defende novos paradigmas nas relações internacionais. 108 O embaixador João Clemente Baena Soares. Na Assembleia. fazendo referência pela primeira vez na Assembleia à ideia de “não indiferença”: “as Nações Unidas não foram criadas para disseminar a filosofia de que a ordem deve ser imposta pela força. destacando a convocação do Painel de Alto Nível.158 Em relação ao CSNU. Desgastado diante do escândalo do mensalão. Apesar da falta de consenso. Lula se mostrou otimista quanto à reforma. apud CORRÊA. o presidente fe z ainda uma associação entre o combate ao terrorismo e a liderança da operação de paz inaugurada meses antes no Haiti: Sabemos que as causas da insegurança são complexas. Defendendo as credenciais brasileiras. mas inovou em relação ao governo anterior ao retomar a defesa do fortalecimento da Assembleia Geral – feita por Amorim anos antes – e destacar a importância do ECOSOC. Lula manteve o argumento do anacronismo de sua composição – “não pode ser a mesma de quando a ONU foi criada há 60 anos” –. que debateria o tema (entre outros) e no qual o Brasil teria um representante 108. . não poderia se omitir diante de uma situação concreta. Precisamos desenvolver estratégias que combinem solidariedade e firmeza. observou-se pela primeira vez desde os discursos de Amorim no governo Itamar uma referência explícita aos países do Sul como grupo unido. Foi assim que atendemos o Brasil e outros países da América Latina à convocação da ONU para contribuir na estabilização do Haiti. A argumentação em prol da ampliação do CSNU. Em 2005. (LULA. 2004. Ele fez duras críticas. Esse recurso extremo deve ser reservado a situações em que todos os demais esforços tenham sido esgotados”. No ano seguinte.

Ainda assim. Lula também fez referência a outras crises que marcavam o período (“as crises financeira. O presidente não inovou em relação à reforma do CSNU. No fim de 2005. reticências do Japão e a mudança do governo na Alemanha prejudicaram o consenso sobre métodos que existia entre os membros do grupo (CORRÊA. a coalizão de países do G-4 estava abalada. Já em 2008. que foi novamente o representante brasileiro na Assembléia. para não falar das ameaças à paz em tantas regiões”) para reafirmar que “o sistema multilateral deve se adequar aos desafios do século XXI”. Lula (2008d) fez o que talvez sejam as mais duras críticas ao processo de reforma do CSNU ao longo de seus anos de governo: As Nações Unidas discutem há quinze anos a reforma do Conselho de Segurança. alimentar. destacando ainda que a maioria dos Estados membros também concordava com essa visão e reconhecia a urgência da matéria. em particular o Conselho de Segurança” e que era “hora de passar das intenções à ação”.. que enriquecem os ricos e empobrecem os mais pobres”. Lula. Sua representação distorcida é um obstáculo ao mundo multilateral que todos nós almejamos. . tema ausente dos discursos anteriores.) Considero.159 No ano seguinte. Ban Kimoon. A estrutura vigente. reafirmou que o “Brasil. Outra marca do discurso foram as críticas ao protecionismo na agricultura: “são inaceitáveis os exorbitantes subsídios agrícolas.. citando esforços brasileiros pelo combate ao desmatamento e reafirmando a soberania do país sobre a Amazônia. 2007). responde cada vez menos aos desafios do mundo contemporâneo. muito auspiciosa a decisão da Assembleia Geral de iniciar prontamente negociações relativas à reforma do Conselho de Segurança. O ano de 2007 marcou o início do mandato do atual secretário-geral da ONU. dizendo apenas que “todos concordamos ser necessária uma maior participação dos países em desenvolvimento nos grandes foros de decisão internacional. nesse sentido. sustenta que a ampliação do Conselho deve contemplar o ingresso de países em desenvolvimento no seu quadro permanente ”. completando novamente com a id eia da divisão Norte-Sul: “vai sendo descartado o velho alinhamento conformista dos países do Sul aos centros tradicionais ”. Realizada apenas uma semana depois da quebra do banco americano Lehman Brothers. (. juntamente com os países do G-4. a reunião da Assembleia foi marcada pelo assunto. 2006. congelada há seis décadas. ambiental e migratória. Lula (2007b) retomou a questão ambiental. energética. O presidente ainda acrescentou que “s implesmente pelo diálogo direto. que representou o agravamento da crise financeira internacional.

Amorim (2010c) voltou a discursar em nome do país. Ele sustentou que nas esferas econômica e ambiental “as nações mais ricas já compreenderam que não podem prescindir da cooperação dos países pobres e emergentes. sem subserviências e respeitosa de seus vizinhos e parceiros ”. com o G-20 tomando o lugar do G-8 como principal foro de deliberação sobre temas econômicos. mencionando o CSNU logo em seguida: “O Conselho de Segurança deve ser reformado. Em 2009. .160 sem intermediação das grandes potências. os países em desenvolvimento têm-se credenciado a cumprir um novo papel no desenho de um mundo multipolar”. passados 65 anos. Em seguida. Ele atribuiu a isso o empenho do país em “encontrar um instrumento que pudesse representar avanço para a solução do dossiê nuclear iraniano”109. em troca de combustível nuclear para ser usado em reator no país. firmado com Brasil e Turquia. Já em 2010. 109 Amorim citou a Declaração de Teerã sucedida pela aprovação de sanções contra o Irã no CSNU. O ministro completou o argumento. e concluiu que o governo brasileiro ainda tinha “esperança de que a lógica do diálogo e do entendimento” prevalecesse. que é contribuir para a paz. Lula defendeu a “refundação da ordem econômica internacional”. quando se trata de assuntos da guerra e da paz. ele fez um balanço do governo Lula e do que classificou como uma “diplomacia independente. foi baseado em proposta da própria ONU. A defesa da ampliação do CSNU voltou a ser amparada em questões econômicas. O documento previa que o Irã enviaria urânio pouco enriquecido ao exterior. o presidente retomou diversos pontos do discurso do ano anterior antes de repetir críticas semelhantes à economia global. com votos contrários de Brasil e Turquia. O acordo. Amorim disse ainda que o Brasil vinha procurando corresponder ao que se espera de um membro do CSNU. o mundo continue a ser regido pelas mesmas normas e valores dominantes quando da conferência de Bretton Woods ”. Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais. afirmando que “não é possível que. Foi esse o tema do qual Lula (2009) partiu para pedir a reforma do CSNU. ele emendou: “não é possível que as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança sejam regidos pelos mesmos parâmetros que se seguiram à Segunda Guerra Mundial ”. Mas. Amorim avaliou que a crise financeira de 2008 precipitou mudanças na governança econômica global. Depois de destacar a atuação do Brasil frente à crise. as potências tradicionais relutam em compartilhar o poder”. inclusive entre seus membros permanentes ”. mesmo não permanente. mas desta vez sob o ponto de vista dos avanços que já haviam sido feitos em relação a este segundo tema. de modo a incluir maior participação dos países em desenvolvimento.

2006d. por exemplo. 393) concordou. Numa clara divergência com a percepção de Lampreia acerca do período Cardoso. é uma mudança na apresentação da percepção da diplomacia brasileira sobre a ordem internacional quando comparada à perspectiva dominante no governo Cardoso. Nota-se na comparação de todos esses discursos que não há grandes mudanças. . Amorim (em 2010) reafirmou esta posição. Por fim. (em 2008) o presidente fez um dos mais duros discursos recentes de brasileiros na Assembleia. Isso se observa também em declarações fora da ONU. (em 2005) críticas à atuação do CSNU. p. o chanceler de Lula também afirmou que não havia “custo político” na campanha brasileira. O que se vê. no primeiro mandato de Lula houve: (em 2003) a associação da reforma da ONU às consequências do 11 de Setembro para a ordem internacional. sua genuinidade se mostra na coerência de tal visão de mundo com ações do governo Lula. durante um ano. (em 2007) apenas reafirmou-se o suposto consenso sobre as reformas na ONU. por outro lado. 153). você leva seis meses para aprender o que está se passando. já descritas ao longo deste capítulo. que não ter um membro permanente no Conselho enfraquecia a região de forma geral “porque informação é poder e se você está lá por dois anos. Se por um lado é possível dizer que essa mudança de percepção foi instrumentalizada para dar força aos argumentos apresentados em prol da candidatura brasileira. ressaltando que a reforma do CSNU era discutida havia 15 anos. destacando que os países em desenvolvimento precisavam de mais espaço nas questões de segurança. p. (em 2004) a exploração da formação do G-4 e da associação entre a Minustah e estratégias de combate ao terrorismo. inovações ou ao menos contradições em relação aos argumentos apresentados em defesa da ampliação do CSNU com a inclusão do Brasil como membro permanente. e (em 2006) a afirmação de que a grande maioria dos países concordava com a visão brasileira. O chanceler argumentou. No início do segundo mandato. Lula também usou a boa situação econômica do Brasil para (em 2009) fazer propostas assertivas – com a refundação da ordem econômica global – e vincular a elas a necessidade de reforma da ONU e do CSNU. usando o conceito de “não indiferença”. Perguntado se o reordenamento na área econômica e comercial e a ampliação do CSNU eram uma tendência comum. mais ou menos.161 Em resumo. novamente. O tema também apareceu relacionado à preocupação brasileira com a liderança regional. e depois já está na hora de sair ” (AMORIM. Amorim (2004f. Depois. você sabe o que está ocorrendo.

97) indica que há custos financeiros diretos. cuja contabilização é mais difícil. A partir da seção anterior. Na mesma ocasião. como passagens aéreas e diárias para enviados especiais encarregados de realizar gestões. além de custos políticos. mas os argumentos de Amorim foram além disso. posição que foi reforçada quando o Brasil manteve em 2004 em sua delegação no CSNU um integrante argentino. Essa responsabilidade. “ entendem que isso é uma coisa antiga”. Ele chegou a dizer que Alemanha. 560). Além da ausência de custo político. fica 110 Embora se exima de analisar a relação custo/benefício da campanha. como já se mencionou. É natural ” (2004g. e indiretos. o diplomata João Costa Vargas (2011. 2009. p. que não será alterado caso o país se torne membro permanente. 3. p. p. 70% dos US$ 30 milhões que o Brasil gasta anualmente com a ONU vão para o orçamento regular. Nas contas de Amorim. O chanceler concluiu então que “o ônus (de ser permanente) é o da responsabilidade da decisão” (MRE. mas a hipótese que se busca comprovar aqui é a de que a política externa ativa e altiva de Lula – baseada em uma nova percepção sobre o Brasil e uma nova visão de mundo – teve peso decisivo sobre as gestões realizadas em seu governo em prol da ampliação do Conselho de Segurança. 44). Além disso.162 argumentando que os argentinos. que se opunham de forma mais forte. assumindo mais responsabilidades (HIRST . 2003(b).2 Ação coletiva A campanha pelo assento permanente no CSNU pode ser incluída entre os exemplos de que o Brasil vem tentando expandir seu papel de voz independente na cena internacional. p. . tais quais o aumento de contribuições a organizações internacionais e gastos com cooperação bilateral com vistas a fortalecer as credenciais brasileiras. O próprio Lampreia (2011) pondera que no governo Lula a conjuntura regional mudou e a prevalência do Brasil passou a ser mais facilmente reconhecida. LIMA. o ministro também destacou que havia coordenação com os vizinhos. o governo Lula demonstrou disposição para assumir.3. É certo que essa tendência já se nota em alguma medida desde Cardoso. Japão e Índia quiseram se juntar ao Brasil no G-4 porque reforçariam suas posições: “ Essa ‘candidatura’ brasileira dá legitimidade à reforma. argumentou-se também que não havia custo financeiro – posição mais uma vez oposta à de Lampreia. 475)110. o governo brasileiro já contribuía duas vezes mais que a China com a organização e os membros permanentes do CSNU quase não contribuem com tropas para operações de paz.

178) defende que uma das principais motivações para a criação do fórum trilateral foi a reforma da ONU e. A formalização do grupo composto por Brasil. Essa avaliação e a estratégia geral adotada no governo Lula – com base em maior ousadia e coalizões de geometria variável – sugere que a opção pelo G-4 é resultado das mudanças decorrentes da nova corrente dominante no Itamaraty. 10). Ou seja. o que pode ser usado como moeda de troca nas negociações são votos – devido à qual “não adianta você ser . portanto. Conforme exposto no capítulo 2. 15) ainda argumenta que existe uma lógica interna nas negociações na ONU – onde. Índia. não ter tido crises. Agora. Japão e Alemanha também é significativa por representar um passo adiante nos esforços pelo assento permanente. mas o chanceler de Cardoso não via motivos para a formalização do grupo. em especial. do CSNU. segundo Pecequilo (2008. outro traço da política externa de Lula – a ambiciosa busca pela conciliação de boas relações com os países desenvolvidos e os países em desenvolvidos – ganhava mais um exemplo relacionado ao Conselho de Segurança. cabe. a questão também deixou de ser “um assunto a ferro e fogo” como parte da “rearrumação do poder internacional”. O próprio Lampreia (2011) sustenta que o momento era mais favorável para esforços no governo Lula. Assim. No ano seguinte. em geral. a formação do Ibas já deixara clara a importância que o pleito teria em sua gestão. No primeiro ano do presidente no cargo. um “ exemplo concreto da junção do eixo vertical e horizontal ”. usando como argumentos o fato de “Brasil estar crescendo. o Lula ter uma boa imagem pessoal. Antes. o Brasil ter uma boa imagem.163 claro que a campanha se relacionou diretamente com estas visões do país e do mundo – as quais aparecem constantemente quando são evocadas as credenciais brasileiras e os argumentos em defesa da reforma. p. mostrar quais ações empreendidas sob comando de Lula e Amorim justificam a avaliação de que houve um esforço maior em seu governo. p. (2011a. internacional”. a questão já se mostra presente na primeira das coalizões com o Sul que seriam formadas a partir de 2003. Por outro lado. é difícil avaliar o peso que a conjuntura teve sobre a criação do grupo. já haviam sido demonstradas as principais mudanças impostas por Lula em relação a Cardoso nas linhas gerais da atuação diplomática brasileira. os contatos entre os quatro países eram frequentes desde a década anterior. p. Lima (2007. Fonseca Jr. a criação do G-4 tornou-se. Para o chanceler de Cardoso.

112 O diplomata foi entrevistado por ser autor da tese do Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco “A Argentina. 2007. Amorim “era muito ativista”. também atribuem à conjuntura influência maior sobre o andamento das negociações veem no G4 uma novidade importante. Isso porque o G -4 representou a aliança entre dois países desenvolvidos. levando à fragmentação do organismo e à configuração do que se chamou de “crise do Conselho de Segurança e das Nações Unidas”. em setembro de 2003. Tais fatos “colocaram em causa a própria figura” de Kofi Annan “e o levaram a relançar a questão da reforma”. Em janeiro de 2004. por exemplo. assim como Lampreia. inclui a criação do grupo entre os fatos que geraram “um momentum que deu maior celeridade para a negociação”. o jogo permitia”. que tentavam entrar no CSNU “para equiparar sua 111 No relatório “Um mundo Mais Seguro: Nossa Responsabilidade Compartilhada” .164 muito ativista se a lógica não permite esse ativismo”. recomendou que países membros chegassem a uma decisão sobre a reforma do CSNU até o fim daquele mesmo ano e advertiu que falta de consenso não deveria ser usada para justificar inação. o modelo A propunha seis novos assentos permanentes sem direito a veto e três novos não permanentes. duas propostas de reforma do CSNU 111. . sem autorização do CSNU. 113 Intitulado “Por uma Liberdade Mais Ampla: Desenvolvimento. provocou uma divergência concentrada em EUA e França. mas. Já para João Costa Vargas (2011. Segurança e Direitos Humanos para Todos” e apresentado em março de 2005. Para ele. Japão e Alemanha. segundo relatório de gestão de Ronaldo Sardenberg (MRE. A invasão do Iraque em março de 2003. “recentemente. embora não a tenha levado a voto. Mas outros diplomatas que. p. Estes fatores colaboraram para revigorar as discussões sobre a reforma. Entre estes fatos Bitelli cita ainda o relatório de Kofi Annan 113 sobre o texto apresentado pelo Painel de Alto Nível e o aniversário de 60 anos da ONU. ano e m que o G-4 chegou a tabular sua proposta de reforma. nº 01508). o período que antecedeu a criação do G-4 foi marcado por acontecimentos que favoreceram as discussões sobre a reforma. Em termos práticos. em dezembro do ano seguinte. 74). o Brasil assumiu seu nono mandato como membro não permanente do Conselho. Assim. o secretário-geral da ONU convocou o já citado Painel de Alto Nível que viria a apresentar. o Brasil e a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas: Baliza da Parceria Estratégica ou Trincheira de uma Rivalidade Minguante?”. a simples criação do grupo promoveu uma “importante alteração na dinâmica política envolvendo a reforma”. o ministro Julio Bitelli (2011)112. Em setembro do mesmo ano. em 2005. O modelo B previa oito assentos em nova categoria de membros (com mandato de quatro anos renováveis) e mais um membro na categoria não permanente. foi anunciada a união do país com Índia. Defensor da ideia de que aquilo que o Itamaraty pode fazer em relação à reforma “ é observar o momento favorável e agir em função dessa circunstância”.

que reivindicavam o mesmo posto com base na necessidade de dar aos seus pares “voz ativa no ordenamento internacional”. o perfil brasileiro na Organização. que previa a criação de seis assentos permanentes e quatro não permanentes. 2007. o que. nº 01508). enquanto o G-4 propunha que os novos membros entrassem no Conselho sem a prerrogativa e o tema fosse discutido apenas 10 anos depois de uma eventual ampliação do CSNU. que passou a ser apoiado pela maioria dos Estados membros. Sardenberg é ainda mais enfático em sua avaliação sobre a criação do grupo: Essa decisão representou um momento muito importante na história da presença diplomática brasileira na ONU.) Ao maximalismo africano acrescentaram-se o 114 Os africanos exigiam o direito a veto para os novos permanentes. a diplomacia brasileira investiu seu capital político e também financeiro na África. . já que não se considera que há candidatos óbvios entre os africanos. por conseguinte. novamente. e m agosto do mesmo ano. (MRE. Na dinâmica das Nações Unidas.64. Nigéria. dentre outras razões. Nosso esforço.165 estatura política na ONU ao seu peso econômico”. Na prática. chegamos a nos reunir com praticamente todos os Representantes Permanentes junto às Nações Unidas. Nirupan Sen. a conjuntura – desta vez. cuja indefinição. acabou por impedir que se levasse a voto o projeto L. uma reunião entre representante do G -4 e da União Africana chegou a dar sinais de que haveria um acordo para que os africanos flexibilizassem outra questão que gerava impasse: o direito a veto 114.. Egito. Apesar das conhecidas dificuldades ao longo do processo de negociação. Em julho de 2005. resultou em amplo apoio ao projeto. Fortaleceu-se. no chamado “Consenso de Londres”. no entanto. em alguma medida. como mostra relatório de Sardenberg: Conferimos especial atenção aos países africanos . a regional – teve peso significativo. com o Presidente da AG e com o SG. (. Nesse período. e dois dos maiores países em desenvolvimento. em conjunto com as gestões realizadas a partir dos Postos dos países do G-4 no exterior e de missões de enviados especiais . levou ao fracasso de sua proposta. os RPs do G-4. Quênia e Senegal pleiteiem um assento permanente. que a África foi uma lacuna na criação do G-4.. o G-4 constituiu instrumento fundamental para aproveitar a oportunidade e consolidar o "modelo A" de reforma. Vargas (2011) indica. ou variante. a falta de consenso entre os próprios africanos terminou contribuindo para a decisão de não levar a voto a proposta do G-4. acordada em março. no chamado “Consenso de Ezulwini”. foi criado um mecanismo de consulta que terminou levando os africanos de volta à sua posição inicial. embora países como África do Sul. Embaixadores Gunter Pleuger. pois veio a confirmar a percepção dos Membros de que o Brasil é realmente um candidato natural a uma posição permanente do CS e tem condições políticas e técnicas para ocupá-la. Mas na cúpula de Adis Abeba. Aí. com número significativo de co-patrocínios (entre os quais o da França) e apoios (Reino Unido). Kenzo Oshima e eu mesmo.

e a indiferença da Rússia ao longo do processo. é possível dizer que o envio de missões especiais já configura uma nova estratégia. “mais ambiciosa”. a Líbia pudesse ser escolhida. p. você tem todo um conjunto de medidas que correspondem a uma estratégia muito mais ampla. já que abriga mais de 50 Estados dos atuais 193 membros das Nações Unidas. enfim. na falta da formação de um G-6 que esclarecesse quais seriam os dois africanos que o G-4 proporia como membros permanentes. Fonseca Jr. Mas os esforços pela reforma do CSNU. muito mais forte do que aquela que existia”. em geral. CEPALUNI. p. nº 01508). 31 . . os americanos não movem u m centímetro”. a Minustah também é apontada por alguns como resultado da busca pelo assento permanente (VIGEVANI . 2007. 2007. em geral – e a campanha pelo assento permanente. faz gestões bilaterais. a posição da África se tornou uma peça-chave no intrincado jogo para mudar a posição dos EUA. (2011a. nº 01508). “você vai além da ONU. Já na gestão de Amorim. com dois candidatos. Conforme já mencionado neste capítulo. 15) nota que no governo Cardoso “não se passava da ONU para defender a reforma do Conselho” . começando por uma nova geografia comercial. É importante notar que existe uma associação comum entre os já descritos esforços do Brasil para se aproximar dos países africanos – e também dos árabes. que se concentraram na África. 2007. Para o ministro Breno Costa (2011)115. representaram de fato uma inovação. O continente é indiscutivelmente importante para qualquer decisão sobre a ampliação do CSNU. Sem discutir se a abertura de novas representações diplomáticas no continente e em países menores está ou não condicionada ao pleito na ONU. Diferentemente de analistas e diplomatas que atribuem grande parte das iniciativas do governo Lula quase que exclusivamente ao pleito pelo assento permanente. Segundo Sardenberg. (MRE. segundo a qual as relações brasileiras com países africanos e árabes. neste período estão inseridas em uma proposta maior de reformar a ordem mundial. também “realizaram-se gestões nas capitais da maioria dos Estados Membros” das Nações Unidas (MRE. os americanos tinham medo: “a chavam que. conforme descrito por Sardenberg. concorda-se aqui com outra visão.166 obstrucionismo de EUA e China. 115 O diplomata foi entrevistado por ser a utor da tese do Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco “Os Estados Unidos e a Reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas: a Evolução da Posição Norte-Americana e Seus Efeitos Sobre a Candidatura Brasileira a Membro Permanente do CSNU”. mais do que isso. você abre embaixadas. Mas. Enquanto a África não escolhe seus nomes. ou seja.

por exemplo. o que constituiria “postergação de suas justas e legítimas expectativas”. O texto afirmava que a Argentina “ não pode respaldar nem explicitamente. 26). Pode até ser objeto de uma. HURRELL. mas não tem mais fundamento nenhum”. Em diversos telegramas entre 2003 e 2010. p. mandando mais militares “ do que qualquer país europeu ou membro permanente do Conselho de Segurança” (MRE. 2010. afirma o ministro. grupo que se opõe radicalmente às propostas do G-4 na ONU. A posição só “não varia em tentar impedir que o Brasil chegue ao Conselho”. Em 2010. retórica. O editorial também argumentava que um apoio argentino ao Brasil seria “concessão de privilégio hegemônico” sem antecedentes. Em comentários sobre os latino-americanos que se opunham à campanha brasileira – como argentinos e mexicanos –. Julio Bitelli (2011) diz que a posição argentina “variou de maneira importante ao longo dos anos”. nº 00450) . nº 02939) . Sua opinião. telegrama da missão brasileira nas Nações Unidas destaca que. Também se nota postura diferente em relação à Argentina. falou em cadeira para o Mercosul rotativa. de forma geral. o fato de o Brasil ter aceitado a liderança da missão também demonstra uma nova postura diante da ONU. também há menções à intensa atuação da Argentina no Uniting for Consensus . Em telegrama em 2003. Independentemente da existência de outras motivações. Servindo na embaixada em Buenos Aires. nem com silêncios sugestivos ou tácitos” o pleito brasileiro pelo assento permanente. não parece ser objeto de consenso dentro do Itamaraty. a começar pela Argentina. 2003. o Brasil passou de 19º a 12º maior contribuinte para as operações das Nações Unidas. Documentos brasileiros também indicam tal posição. 2009. entre outras alternativas. O governo já apoiou “Japão e Alemanha. a missão brasileira na ONU relata que um editorial do jornal argentino “La Nación” tecia duras críticas ao que apontava como apoio tácito do país à pretensão brasileira no CSNU.167 32. com o envio de mais tropas ao Haiti após o terremoto que devastou o país. porém. “retrocesso injustificável das posições argentinas no mundo” e “renúncia vazia de qualquer compensação ” ao “tradicional ‘status’ de alternância no Conselho de Segurança” (MRE. se comparada à do governo Cardoso. que nem se coloca mais o assunto. defendeu que não houvesse alteração nenhuma”. Lampreia (2011) diz atualmente que “hoje o Brasil passou tanto todos esses países. . digamos.

Sardenberg afirma que EUA e China. alterando sua estratégia para investir mais em consultas bilaterais com os EUA 116.64. b) a indecisão no G-4 sobre levar a voto o projeto. o que se nota. quando o Brasil. em particular. a diplomacia brasileira manteve suas gestões para tentar viabilizar a votação da ampliação do CSNU e chegou a reapresentar a proposta do G-4 em 2006. em vista de alegadas dificuldades políticas no plano doméstico. O ministro Costa (2011) também aponta para dificuldades com o embaixador americano John Bolton. “Começaram a ter problemas inclusive com a candidatura da Alemanha porque achavam que a Alemanha assumia posições contrárias aos interesses americanos. quando renunciou por saber que não teria apoio no Congresso dos EUA para ser confirmado no cargo. nº 01508). eles obviamente não o farão de livre e espontânea vontade”. devido. Índia. este “foi um período extremamente difícil para as negociações na ONU”. Em uma extensa análise. De acordo com o diplomata brasileiro. “via diplomacia bilateral. Alemanha e Japão pretendiam levar sua proposta a voto. devida principalmente à prolongada indefinição do Japão. já que o Japão passou a duvidar das possibilidades de aprovação do projeto. às resistências da Índia em relação à questão do veto e do Japão quanto ao número de assentos permanentes a serem criados. Em relação a um possível apoio americano à candidatura brasileira. tudo fizeram de público e em negociações a portas fechadas para tolher os passos do G-4” (MRE. uma “fase negra no processo de reforma porque eles não admitiam de forma alguma”. Em comentários sobre o período que antecedeu a sessão da Assembleia Geral de 2005. embora o governo americano não tenha sido parceiro tão importante quanto o argentino para os dois últimos presidentes brasileiros. A mesma observação vale. em especial nas capitais africanas.168 Assim. se nada forçá-los a isso. . sem dúvida. que representou o país na ONU entre agosto de 2005 e dezembro de 2006. Então apoiavam apenas o Japão”. já que a Argentina continuava sendo considerada parceira prioritária. Ainda assim. ele cita a) a demora na finalização do projeto L. a insistência brasileira em sua candidatura mesmo diante de tal oposição demonstra a atitude do Itamaraty de assumir mais riscos no governo Lula. apenas com Índia e Alemanha. Em relação aos EUA. 2007. d) o início dos preparativos para a Cúpula Mundial de setembro de 2005. e a mencionada atuação de EUA e China. É 116 Vale ressaltar que Sardenberg não atribui o fracasso da proposta do G-4 unicamente à posição de EUA e China. c) a manutenção da indefinição dos países africanos. em certa medida para os EUA. afirma Costa. ele diz que não há maiores obstáculos. mas pondera que os EUA “não sentem necessidade de expressar preferência pelo candidato A ou B e. é a mesma disposição do governo Lula para investir no pleito pelo assento permanente apesar da forte resistência.

apoiando uma reforma que inclua como membros permanentes o Japão e “outros países”. em meio à perda de força do tema na ONU. o Brasil envidou enormes esforços para buscar um mínimo de entendimento em seu seio. a Alemanha “recuou significativamente em seu apetite reformista ”. nº 02038). 2007. eles apresentaram relatório identificando possíveis modalidades. nº 01508). foi . Ainda naquele ano. da posição não negociadora do UFC e da intransigência norte-americana e chinesa. a circunstâncias um pouco mais favoráveis à reforma. a decisão 51/561 da AG autorizou negociações intergovernamentais sobre a reforma. que tiveram em fevereiro de 2009 sua primeira rodada. No fim de sua gestão. na avaliação de Costa. terminou percebendo que o apoio dos EUA não seria suficiente e teria voltado a valorizar a articulação no âmbito do G-4. que há muito tempo desfr utava do endosso americano.. em grande medida. em setembro. em 2007. e a Índia “oscilou entre o radicalismo de seu RP – sempre confiante numa unidade inexistente entre os países do Sul – e o pragmatismo ocasional de sua Chancelaria”. desde esse período.Embora difícil. Em abril. Segundo relato de Maria Luiza Viotti. Já o Japão. o presidente Bush mencionou o tema pela primeira vez em seu discurso na Assembleia. a decisão 62/557 determinou a realização de tais negociações. Um ano mais tarde. entretanto. Os problemas não envolveram apenas a delegação japonesa. o presidente da Assembleia Geral indicou cinco “facilitadores” para estimular os debates sobre a reforma do CSNU. um novo esforço político que possa recriar circunstâncias favoráveis à refo rma poderá concretizar-se com o ressurgimento do G-4 como associação coesa. preservando-o por ser o único instrumento diplomático de que durante longa fase dispusemos. conseguiu apoio declarado do presidente americano. Sardenberg relata que.) Nestes últimos meses. quando o G-4 ameaçava desfazer-se. os quatro países puderam voltar a “atuar conjuntamente” (MRE. notou-se rápido ressurgimento do interesse pelo tratamento do tema na Assembléia Geral. onde os EUA “precisam de um aliado confiável”. como fruto de pressões exercidas pelo G-4. que. mesmo em situações adversas. Sardenberg considerava que: Em Nova York. em função do complicado tabuleiro de poder da região. (. 2007. (MRE. Em março de 2007. de fato. diante da inércia africana. Depois.169 diferente do caso da Índia. Na avaliação do diplomata. que substituiu Sardenberg como embaixadora do Brasil na ONU. os esforços do Brasil para superar as desavenças no interior do grupo são mais um exemplo da nova postura assertiva brasileira. dotada de agilidade e capaz de novamente canalizar o desejo da maioria substancial das Nações Unidas. Barack Obama. A sucessão de acontecimentos relacionados à reforma nos anos seguintes levou. que deixou mais explícita sua perda de afinidade. em 2009. Antes disso.. “concentrou-se a Delegação na administração da ‘crise de identidade’ que passou a assolar o G-4”. No mesmo mês.

nº 03213). permitindo revitalizar tradições e encontrar um espaço diferenciado de atuação no reordenamento do pós-Guerra Fria.170 decidido que o Grupo de Trabalho Aberto sobre a reforma só seria convocado novamente "caso os Estados-membros assim decidam". em análise que incorpora a ação diplomática no governo Lula nos âmbitos da ONU e da OMC. p. A substituição da tática da credibilidade pela barganha permitiu este avanço. renovações e ampliações dos contatos ao Sul com emergentes e LDCs em todos os continentes e nas dinâmicas de alianças nas OIGs. 2009. o período analisado na presente dissertação termina sem conquistas concretas para a campanha brasileira pelo assento permanente. (p. Em segundo lugar. assim como a ampliação das ações brasileiras. nº 01508). 42). . que serviria de base para as discussões na Assembleia Geral no ano seguinte (MRE. quanto na estratégia de ação pela reforma do CSNU. cada uma com diversas reuniões. Para a embaixadora Regina Maria Ribeiro Dunlop. ocorre a “elevação da pretensão brasileira de ocupar um assento permanente no CS à condição de prioridade da Política Externa. não existe escolha entre o Primeiro e o Terceiro Mundo. mas sim a sua combinação. equivalia a dar um "funeral digno" ao OEWG. Em primeiro lugar. o Brasil não conseguiu mostrar que seu interesse nacional poderia ser também o objetivo regional coletivo. foram realizadas cinco rodadas de negociações. em particular na ONU e em seus intercâmbios estatais. determinou-se a inscrição da reforma do CSNU na agenda da sessão seguinte da Assembleia Geral (MRE. e em setembro circulou um “texto negociador”. nº 02608). Mas essas duas avaliações já apontam para mudanças. amparados em parcerias estratégicas clássicas com os EUA e a Europa. 69) destacam também que os eventos na Assembleia Geral em 2005 mostraram que a diplomacia “dentro dos países do Terceiro Mundo não é sempre motivada por uma solidariedade Sul-Sul”. 2007. 2009. Além disso. Pecequilo (2008) indica o impacto da nova busca pela conciliação das relações com o Norte e com o Sul: Os potenciais dos eixos horizontal e vertical possuem significativo espaço de desenvolvimento. o que fica claro tanto na formação de grupos como o Ibas e o G-20 e no uso que se fez do conceito de Brics. Assim. Por fim. por decisão de Lula e Amorim (MRE. Até o fim de 2010. os eixos Norte-Sul. Portanto. 15). conforme afirma Sardenberg. mas também por meio de adaptações. No curto prazo esta é uma avaliação correta. há no governo Lula uma nítida opção pela ação coletiva. p. Para Vigevani e Cepaluni (2007. ainda que os críticos lembrem que nem a OMC foi destravada ou o Brasil conseguiu seu assento permanente na ONU. Esta coadunação dos eixos tem se provado essencial para a recuperação do status como potência média emergente. Lima e Hirst (2009. mas no médio e longo esconde a dinamização de mecanismos de pressão sobre estas questões. Em um espectro mais amplo. horizontal ou vertical. com a criação do G-4 e os esforços para atuar em conjunto com a África.

No caso do segundo presidente. garantindo maior influência no cenário internacional.4 Conclusão Como se demonstrou ao longo do presente capítulo. A ação política passa a ser colocada a serviço da preservação da soberania. sobretudo. as mudanças entre a visão de mundo predominante no governo Cardoso e aquela que se sobressaiu no governo Lula têm relação direta com as prioridades e estratégias de ambos os governos. como sintetizou Patriota. Mas como ficou demonstrado na parte final do presente capítulo. num mundo em que tudo nos afeta. Conclui-se. nos termos de Amorim. mais uma das formas de mudar a ordem internacional. em termos de adversidade. que a campanha pela cadeira no CSNU foi. privilegiando-se a ação coletiva. Além disso. diferente nos dois governos. conforme declarações de Lula citadas no início do capítulo.171 3. Buscou-se evitar a excessiva subordinação. A conjuntura internacional foi. de fato. o que leva à ideia de que é necessária uma "nova geografia mundial". portanto. a globalização passa a ser mais criticada. Independência passou a ser resumida como a atitude de relacionar-se com muitos parceiros. considerando-se que havia chegado a "era do fim dos dogmas". mesmo em conjunturas que podem ser comparadas ao governo Cardoso. a postura do governo Lula em relação à campanha pelo assento permanente foi mais ousada e ativa. de estabelecer coalizões. no governo Lula. tal postura se encaixou na estratégia de combinar os eixos Norte (vertical) e Sul (horizontal) e. .

118) sobre o pleito brasileiro. não se . esta dissertação procurou analisar a fundo a atuação diplomática do Brasil nos dois governos que por mais tempo lidaram com este pleito. com isso. a “campanha permanente” pela cadeira no CSNU é menos uma iniciativa isolada e mais uma norma internalizada na diplomacia. 35): a principal diferença entre os governos Cardoso e Lula é de perspectiva. p. enquanto países como o Brasil viam se ampliar suas possibilidades de formar alianças. o objetivo de reformar a ordem – para. é possível afirmar que o mapa da estrada seguido no governo Cardoso tem como princípio normativo agir individualmente para levar o Brasil ao Primeiro Mundo. mais especificamente. garantir ao Brasil um papel mais relevante – leva à exploração da barganha diplomática e à revalorização da imagem do país. p. o governo Lula agiu de acordo com percepção diferente. Retomando a proposta teórica de Goldstein e Keohane. Já o princípio normativo contido no mapa da estrada seguido por Lula é a ação coletiva para reformar a ordem internacional e conquistar mais influência para o Brasil. de visão da ordem internacional. As duas opções levaram a uma relação diferente da diplomacia com a ambição de estar de forma permanente no CSNU e também se refletiram em estratégias diferentes para alcançar tal objetivo. ver o país ser reconhecido como merecedor de um assento permanente. A partir destas constatações. Como a presente pesquisa demonstrou. No segundo. Comprovou-se na comparação realizada com este objetivo a conclusão apresentada por Lima (2005. ampliando proposições e alianças – conforme comprovam a constante defesa de uma nova geografia mundial e a formação de coalizões de geometria variável.172 4 CONCLUSÃO Na tentativa de entender como a pretensão de conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU se encaixa na política externa brasileira. aderindo a regimes internacionais e mantendo a estabilidade econômica. a perspectiva apresentada por João Costa Vargas (2011. assim. relacionada à maneira como o país deve se portar diante dos processos de organização internacional. é possível contestar. houve a preocupação em manter o “bom comportamento”. parcialmente. tanto no plano interno quanto no externo. Para o diplomata. sustentava no fim dos anos 1990 que as possibilidades de apresentar proposições sobre a ordem diminuíam à época. No primeiro governo. Assim. enquanto Fonseca Jr. para conquistar credibilidade e.

Nesta perspectiva. não se viu uma mudança de atuação em relação ao pleito pela cadeira no Conselho de Segurança. Assim. Para Vigevani e Cepaluni (2007. embora a visão de mundo tenha se alterado ao longo do governo Cardoso. Pelo contrário. Como se demonstrou. 43). de forma geral. embora . de fato. por exemplo. as visões de mundo ganham relevância. e pode ter influência sobre os rumos das negociações. Ou seja.173 trata apenas de uma norma internalizada. hoje. não é isolada – vai se manter sobre as mesmas bases nos próximos governos. No Brasil. e sim ampliar a discussão sobre a campanha pelo assento permanente. por exemplo. apesar da força da burocracia diplomática e da continuidade que se observa em diversas prioridades buscadas nos últimos anos. não apenas por terem influência direta sobre a elaboração de diretrizes para a política externa brasileira. com a reforma da ONU para tornar o CSNU mais representativo e legítimo. Estes apontavam os riscos impostos pelo unilateralismo dos EUA. mas também por poderem servir (ou não) como argumentos para reforçarem o pleito brasileiro. as consequências dos atentados de 11 de setembro de 2001 terminaram dando sustentação à visão de mundo dos principais formuladores de política externa do governo Lula. a presente pesquisa procurou demonstrar que a atuação do Brasil varia em linha com opções diferentes de política externa. nada garante que essa iniciativa – que. mesmo sendo crescentemente influente a ideia de que o CSNU precisa ser reformado – como sustenta a diplomacia brasileira –. já que a diplomacia brasileira. Cabe aqui retomar a proposta de Goldstein e Keohane para lembrar que as ideias às vezes só se tornam politicamente eficazes em conjunto com outras mudanças e que novas ideias não levam imediatamente a mudanças nas políticas. O objetivo desta dissertação não é oferecer subsídios para tal previsão. quanto em termos da conjuntura internacional. não vem se mostrando disposta a se moldar apenas em reação à conjuntura internacional (ou à da ONU) e às possibilidades de concretização da reforma em curto prazo. Do ponto de vista externo. há no período estudado uma crescente busca por influência para moldar a ordem internacional – que contribui para a configuração da conjuntura mundial – e criar possibilidades de realizar a ampliação do CSNU. p. visto que os últimos governos promoveram alterações na maneira como o Itamaraty agiu para conquistar este objetivo. não é possível avaliar o quão próximos estamos da concretização da reforma. Essa conclusão é aplicável tanto do ponto de vista interno. o que poderia ser combatido.

caso essa pretensão seja mantida. Para além das diferentes visões de mundo.174 não seja possível avaliar o impacto desta influência e a ação de um Estado. em contatos bilaterais e em coalizões multilaterais. . atuando para isso fora da Organização. Diante destas constatações. o que serve como motivação para trabalhar pela ampliação do Conselho de Segurança e. conforme comprova a complexidade observada na história da ONU. o governo Lula procurou criar uma conjuntura mais favorável para as discussões na ONU. Mas o governo Lula acrescenta outro ingrediente: o desejo de reformar a ordem internacional. não seja suficiente para se chegar a um resultado. ao mesmo tempo. longamente debatidas no decorrer desta dissertação. dada à complexidade dos fatores envolvidos nas negociações pela reforma do CSNU. é possível afirmar também que. há no período estudado uma significativa alteração da percepção de em que medida os esforços brasileiros devem ser reativos à conjuntura interna na ONU ou proativos. A partir das explicações aqui apresentadas com relação às mudanças observadas na campanha. A discussão sobre reatividade ou proatividade ganha relevo pela dificuldade em avaliar a conjuntura. enquanto o governo Cardoso teve postura reativa. o que motiva a diplomacia brasileira a buscar o assento permanente no CSNU. de forma isolada ou coletiva. novas mudanças poderão ser observadas em função das preferências dos futuros governos. mostrando cautela e agindo de acordo com perspectiva pessimista em relação às possibilidades de atuação em prol da reforma. seria realizado com a inclusão de forma permanente do Brasil e de outros países em desenvolvimento no organismo. de forma geral. é possível concluir que a busca por maior influência no plano internacional é. Assim.

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