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Obras Obrigatórias do Vestibular UFSC 2014

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Profª Sônia Targa

1- Amar, verbo intransitivo - Mário de Andrade 2- Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes 3- Gabriela, cravo e canela- Jorge Amado 4- A Hora da Estrela- Clarice Lispector 5- Últimos Sonetos de Cruz e Souza 6- O Detetive de Florianópolis- de Jair Francisco Hamms 1- Amar, verbo intransitivo - Mário de Andrade (Editora Agir) Análise da Obra Publicado em 1927, Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade, chama a atenção por inúmeros aspectos. O primeiro é a sua linguagem, provavelmente considerada “errada” na época, pois se afasta do português castiço ao imitar (às vezes de forma eficiente, às vezes não) o padrão coloquial brasileiro. É como se o texto escrito imitasse a maneira de falar do nosso povo. É um livro para se fazer de conta que se está ouvindo e, não, lendo. Há numerosas características em Amar, Verbo Intransitivo que o enquadram como modernista. Um romance modernista da primeira frase (1922 – 1930), impregnado de um espírito de destruição até ao exagero. O espírito da “Semana de Arte Moderna”: destruir para construir tudo de novo. A mola real de toda a obra do autor é a pesquisa, a busca. O romance apresenta no próprio título uma contradição gritante, afinal, o verbo "amar" é transitivo direto e não intransitivo. Se isto já não bastasse, ainda recebe uma curiosa classificação: é apresentado na capa como Idílio. A perplexidade é inevitável, uma vez que idílio implica numa forma singela de amor em que não pairam dúvidas quanto à reciprocidade entre dois sujeitos. Outro aspecto interessante é o constante emprego das digressões, boa parte delas metalinguísticas, outra parte sociológicas, que fazem lembrar o estilo machadiano. Mais uma vez, a obra apresenta elementos formais que a colocam à frente de seu tempo, caracterizando-a, portanto, como moderna. Dentro do aspecto sociológico, há que se entender uma posição meio ambígua de Mário de Andrade, como se ele mostrasse uma “paixão crítica” por seu povo, principalmente o paulistano. Note-se que critica valores brasileiros, ao mesmo tempo que diz que é a nossa forma de comportamento, deixando subentendido um certo ar de “não tem jeito”, “somos assim mesmo”. Além disso, ao mesmo tempo em que elogia o estrangeiro, principalmente a força dos alemães, desmerece-os ao mostrá-los como extremamente metódicos, ineptos para o calor latino. Sem mencionar que reconhece que o imigrante está sendo como que simpaticamente absorvido por nossa cultura. Mas o que mais chama a atenção é a utilização da teoria freudiana (grande paixão do autor) como embasamento da trama. O inusitado da profissão de Fräulein pode parecer inverossímil numa visão separada da totalidade socioeconômica e histórica (como também seu sonho de retornar à Alemanha, “depois de feito a América, e o casamento, o vago amado distante à espera de proteção, espécie de redenção wagneriana pelo amor.” Professora de amor, profissão que uma “fraqueza” lhe permitiu exercer, no entanto “é uma profissão”, insistiria Fräulein. Na Europa, o período denominado entre-guerras caracterizou-se por uma profunda crise econômica, social e moral que atingiu os países capitalistas na década de 20. Na Alemanha, particularmente, a situação era pior: havia um clima propício, como nos demais países que perderam a guerra, ao nascimento de um violento nacionalismo. No caso, sabemos, estava aberta a brecha para a ascensão do nazismo. No Brasil, apesar da guerra, o clima era bem outro: havia um relativo otimismo em relação ao futuro. Superávamos o atraso de um país agrário num estado mesmo de euforia pelo dinheiro proveniente da plantação e comércio do café e vislumbrava-se a possibilidade de unir esta riqueza à nova riqueza industrial. Fräulein, diante de realidades tão opostas, se adapta. Aliás, seu poder de adaptação é insistentemente enfatizado pelo narrador:

tornaram a vida insuportável na Alemanha. Mesmo antes de 14 a existência arrastava difícil lá, Fräulein se adaptou. Veio pro Brasil, Rio de Janeiro. Depois Curitiba onde não teve o que fazer. Rio de Janeiro. São Paulo. Agora tinha que viver com os Souza Costas. Se adaptou. A descoberta de Dona Laura sobre o acordo estabelecido entre Fräulein e o Senhor Souza Costa, referente à iniciação amorosa/sexual de Carlos, provocou explicações desconcertantes, exibindo a hipocrisia social vigente na metrópole paulista: Laura, Fräulein tem o meu consentimento. Você sabe: hoje esses mocinhos... é tão perigoso! Podem cair nas mãos de alguma exploradora! A cidade... é uma invasão de aventureiras agora! Como nunca teve!. Como nunca teve, Laura... Depois isso de principiar... é tão perigoso! Você compreende: uma pessoa especial evita muitas coisas. E viciadas! Não é só bebida não! Hoje não tem mulher-da-vida que não seja eterônoma, usam morfina... E os moços imitam! Depois as doenças!… Você vive em sua casa, não sabe… é um horror! Em pouco tempo Carlos estava sifilítico e outras coisas horríveis, um perdido! Há de se convir que havia um vasto mercado para a professora de amor, que se fez assim, inclusive, por captar as necessidades e capacidade desse mercado. Ora, antes de vir para a emergente São Paulo, ela esteve no Rio de Janeiro e em Curitiba, “onde não teve o que fazer”. Foco narrativo A narrativa é feita na terceira pessoa, por um narrador que não faz parte do romance. É o narrador tradicional, um narrador onisciente e onipresente. Mas há ainda um outro ponto-de-vista: o autor se coloca dentro do livro para fazer suas numerosas observações marginais. Para comentar, criticar, expor ideias, concordar ou discordar... É uma velha mania do romance tradicional. E os comentários são feitos na primeira pessoa. Observe: Isto não sei se é bem se é mal, mas a culpa é toda de Elza. Isto sei e afirmo... Volto a afirmar que o meu livro tem 50 leitores. Comigo 51. Linguagem e Estrutura A narrativa corre sem divisões de capítulos. Mário de Andrade usa as formas conhecidas de discurso. É mais frequente o discurso direto, nos diálogos, mas em algumas vezes, usa também o discurso indireto e o discurso indireto livre. A narrativa segue, de modo geral, uma linha linear: princípio, meio e fim. Começa com a chegada de Fräulein, se estende em episódios e incidentes, acaba com a saída de Fräulein. Quando termina o idílio, o autor escreve “Fim” e, depois, ainda narra um pequeno episódio: um encontro de longe entre Carlos e Fräulein, num corso de carnaval. Freqüentemente a narrativa fica retardada pelos comentários marginais do autor: algumas vezes exposição de tese. Apesar de certos alongamentos em seus comentários marginais, o autor escreve com rapidez, dinamicamente, em frases e palavras com jeito cinematográfico. Mário de Andrade usa uma linguagem sincopada, cheia de elipses que obrigam o leitor a ligar e completar os pensamentos. Em vez de dizer e de explicar tudo, apenas sugere em frases curtas, mínimas. A pontuação da frase é muito liberal. Conscientemente liberal. O ritmo de leitura depende muito da capacidade de cada leitor. Abandona a pontuação quando as frases se amontoam, acavalando-se umas sobre as outras, polifônicas, simultâneas, fugindo das regrinhas escolares de pontos e vírgulas. É preciso lembrar que Mário de Andrade é sempre um experimentador em busca de soluções novas para a linguagem. Para alcançar ou tentar suas inovações ele trabalhou suadamente: fazia e refazia suas redações em versões diferentes. Assim em Amar, Verbo Intransitivo e mais ainda em Macunaíma. Sobre Fräulein: Agora primeiro vou deixar o livro descansar uma semana ou mais sem pegar nele, depois principiarei a corrigir e a escrever o livro na forma definitiva. Definitiva? Não posso garantir nada, não. Fräulein teve quatro redações diferentes! (Carta a Manuel Bandeira, pág. 184).

Personagens As personagens do livro são, em geral, fabricadas, artificiais, sem muita vida ou substância humana. Os personagens de Amar, Verbo Intransitivo são bem parecidos, e socialmente domesticados. Para ver, praticamente, todos os personagens em ação, com certa espontaneidade, o melhor momento é a volta de trem, depois daquela viagem ao Rio de Janeiro. Um dos momentos narrativos mais interessantes em todo o romance. Mas a ação principal está em Fräulein: seu domínio sexual, com imperturbável serenidade bem alemã, contrasta com a espontaneidade sexual, com a impetuosidade bem brasileira do excelente aluno (em sexo), Carlos. O narrador gosta de ver os seus personagens. É um espectador pirandeliano que acompanha suas criaturas. Que mentira, meu Deus!! Dizerem Fräulein, personagem inventado por mim e por mim construído! Não constrói coisa nenhuma. Um dia Elza me apareceu, era uma quarta-feira, sem que eu a procurasse.... E continua a sua pequena teoria o personagem. São os personagens que escolhem os seus autores e não estes que constroem as suas heroínas. Virgulam-nas apenas, pra que os homens possam ter delas conhecimento suficiente.... Felisberto Sousa Costa - pai de Carlos. É, possivelmente um doutor em qualquer coisa, mania muito comum e que Eça de Queiróz criticou numa saborosa carta a Eduardo Prado: todo mundo é doutor, todo mundo tem a mania do diploma e do anel do dedo. É o centro, não afetivo, mas administrativo da casa em que mantém, mais ou menos, o regime patriarcalista. D. Laura - mãe de Carlos, esposa de Felisberto. Como devia, sempre obedece ao marido. É uma senhora bem composta, acomodada, burguesa. Uma senhora da sociedade e que mantém todas as aparências de seriedade religiosa e familiar. Concorda com os argumentos tão convincentes... do marido, na educação do único filho-homem. Carlos Alberto - filho de Felisberto e D. Laura, com idade entre 15 e 16 anos. Uma espécie de “enfant gaté” (um queridinho da família, porque único) e que, certamente, deverá ser o principal herdeiro do nome, da fortuna e das realizações paternas. Como era costume, possivelmente, deveria ser a projeção do pai, a sua continuação. Centraliza a narrativa, é personagem do pequeno drama amoroso do livro, ao lado da governanta alemã, Elza. Elza - Fräulein (= senhorita), governanta alemã. Tão importante que ela dava nome ao romance. Como é Fräulein? Ela é a mais humana e real, mais de carne e osso. Talvez arrancada da vida. Ela, sem muito interesse, cuida também da educação ou instrução das meninas: principalmente para ensinar alemão e piano. São três meninas que, apenas, completam a família burguesa. São três meninas que brincam de casinha. Maria Luísa - irmã de Carlos, tem 12 anos. Ela vai ser o centro de uma narrativa dentro do romance: a sua doença e a viagem ao Rio de Janeiro, para um clima mais saudável em oposição ao frio paulistano. Laurita - irmã de Carlos, tem 7 anos. Aldina - irmã caçula de Carlos. Tem 5 anos. Enredo Souza Costa, homem burguês, bem posto na vida, contrata uma governanta alemã, de 35 anos, para a educação do filho, principalmente para a sua educação sexual. Não me agradaria ser tomada por aventureira, sou séria, e tenho 35 anos, senhor. Certamente não irei se sua esposa não souber o que vou fazer lá. Elza é o nome da moça. Mas vai ficar conhecida e será chamada sempre pela palavra alemã Fräulein. Chegou à mansão de Souza Costa, numa terça-feira. (Ganharia algum dinheiro... Voltaria para a Alemanha... Se casaria com um moço “comprido, magro”, muito alvo, quase transparente”...). A família era formada pelo pai, por D. Laura, o rapazinho Carlos e as meninas: Maria Luísa, com 12 anos; Laurita com 7 e Aldinha com 5. Havia também na casa um criado japonês: Tanaka. A criançada toda começou logo aprendendo alemão e chamando a governanta de Fräulein. Carlos não está muito para o estudo. Fräulein logo se ajeitou na

família, uma família “imóvel mas feliz”. Mas o papel principal da governanta é ensinar o “amor”. Notas 1. O problema central do romance é a educação sexual de um rapaz de família burguesa, em São Paulo. As meninas ficam relegadas a um segundo plano. Carlos é mais importante. Não pode ficar sujeito à ganância e às doenças das mulheres da vida. Como resolver o problema? Contrata-se Fräulein, professora de sexo. É mais uma estrangeira que entra para a casa brasileira, onde o copeiro é italiano fascista, a arrumadeira é belga ou s uíça, o encerador é polaco ou russo. Na casa de Souza Costa o empregado é japonês e a governanta é alemã. Só as cozinheiras que ainda são mulatas ou cafusas. 2. Há uma referência ao racismo alemão: quedê raça mais forte? Nenhuma... O nobre destino do homem é se conservar sadio e procurar esposa prodigiosamente sadia. De raça superior, como ela, Fräulein. Os negros são de raça inferior. Os índios também. Os portugueses também. São as idéias de Fräulein, principalmente depois que leu um trabalho de Reimer, onde se afirmava a inferioridade da raça latina. 3. A família burguesa é patriarcalista: o centro de tudo é o homem, o pai e o filho, Carlos. Todos têm que obedecer ao pater-familias. A começar de D. Laura que se submete, se adapta, aceita as ideias do marido, se conforma com a presença da Fräulein como professora de sexo do filho. E a família vai continuar patriarcalista porque já estão centralizando todas as atenções no filho varão. 4. Nessa família existe também uma religião, certamente velha tradição dos ancestrais. Uma religião de domingo e de tempos de doença. Para que a filha, Maria Luísa, sare, Sousa Costa aceita fazer todos os sacrifícios. Deixará até algumas aventuras fora de casa. Ora deixemos de imoralidades! Sousa Costa nunca teve aventuras, nunca mais terá aventuras, todos os sacrifícios, porém que minha filha sare!... Sousa Costa pensa em Deus. 5. Carlos é bem o retrato ou exemplo da nossa sexualidade latina ou brasileira. Com todas as suas minúcias e permissões. Fräulein não compreende bem o amor latino. Para manter a sexualidade de Carlos e a pureza de sua saúde é que Fräulein foi contratada. Carlos precisava de mulher dentro de casa. 6. Tudo passa e muda. A família burguesa, bem composta, bem construída, mantém sua estabilidade. Um família imóvel, mas feliz. Resumo A história, classificada como idílio pelo próprio autor, é sobre a iniciação sexual do protagonista, Carlos Alberto. Seu pai, Sousa Costa, preocupado em prepará-lo para a vida, contrata uma profissional para isso, Fräulein Elza (o grande medo de Sousa Costa é que, se seu filho tivesse sua iniciação num prostíbulo, poderia ser explorado pelas prostitutas ou até se tornar toxicômano por influência delas). Oficialmente, ela entra no lar burguês de Higienópolis para ser governanta e ensinar alemão aos quatro filhos do casal Sousa Costa, D. Laura. Muitos aspectos são dignos de nota aqui. Em primeiro lugar, o tema é completamente inédito em nossa literatura e deve ter sido motivo de certo escândalo em sua época. Além disso, a iniciação sexual tranquila e segura é vista como garantia para uma vida madura e até para o estabelecimento de um lar sagrado. Em suma, sexo é a base de tudo. Freud, portanto, mostra-se marcante. Pode-se afirmar que a intenção do chefe da família é fadada ao fracasso, pois Carlos não era virgem. Bem antes de iniciada a história, ele havia tido sua experiência sexual no Ipiranga, em meio à farra de seus amigos, com uma prostituta. Mas fora um ato mecânico, seco, pressionado pelos amigos. Não tinha sido, pois, uma iniciação completa. Interessante é que Fräulein (em alemão essa palavra significa “senhorita”, mas também tem o valor e todo o peso do termo “professora”) realiza seu serviço com dignidade, não enxergando relação com prostituição. Assume estar realizando uma missão. É um elemento que destoa do olhar de Sousa Costa e até do próprio narrador. Além disso, esse disfarce, meio que hipócrita, de Fräulein ser na aparência governanta e na verdade iniciadora do amor, revela toda a complexidade em que a sexualidade humana está mergulhada (as teorias freudianas). Há aqui todo um jogo de querer e esconder, negar e afirmar, que vai perpassar a relação que Elza estabelecerá naquela casa.

que também usa produto para alisar o cabelo. Fräulein tem plena consciência desse objetivo. além de evitar o escândalo de ser claro em aspecto tão delicado (várias vezes diz que não quer produzir obra naturalista). Laura qual era a função da professora. que planeja. Fräulein decepciona-se com a maneira como os “latinos” tratam aquele assunto e os pais de Carlos não sabem exatamente o que fazer. Ficaram notórias as suas críticas à burguesia paulistana e à sua mania de tentar ser o que não é ou esconder o que no fundo é. A família Sousa Costa cria uma enorme dependência em relação à alemã. Comporta-se como o novo rico que acha que o dinheiro pode tomar posse de tudo. Quer ensinar o amor em sua forma tranqüila. Os livros da biblioteca são comprados por questão de status. de desejos e de medos. o que indica o amadurecimento de Carlos. pressionada pelas trapalhadas da família Sousa Costa (Sousa Costa havia descumprido o combinado quando contratara Fräulein: deixar claro para D. agora apreende vocabulário de forma acelerada. sem querer. sem descontroles. Querem esconder que são tão mestiços quanto o resto do país. até da iniciação sexual. alheia ao que estava acontecendo. O problema é que o garoto é aluado. Assemelha-se à esposa. Essa noção de prazer e pecado. o que assusta Carlos. Por mais que Elza se apresente sedutora nos momentos em que os dois ficam sozinhos na biblioteca (outra crítica é dirigida à burguesia paulistana. comprometendo o segundo. de que a deseja. no entender de Mário de Andrade. Sua atitude de contratar uma profissional do amor para realizar os serviços debaixo do seu próprio teto revela determinados valores da burguesia da época. Tanto é que pouco após esse episódio. Inconformada com a quebra do prometido. Até que. há a menção a anjos lavando com esponja santa o pecado que acabara de ser cometido. O resultado é que tudo se complica. Mas em pouco tempo a iniciação sexual torna-se efetiva. É necessário um malabarismo mental para entendê-lo. vem fortalecer o primeiro. É algo que não se quer revelar claro de primeira. São ricos que ainda não têm. É um coitado que anda sufocado em Elza. machucando-as. ingenuamente preocupada com a possibilidade de o menino fazer besteira. estrutura para merecer seu presente status. a atração mostra-se mergulhada num jogo de avanços e recuos. sem paixões. acelerando até o conhecimento da língua. uma das irmãs de Carlos fica doente. Os toques de Fräulein tornam-se cada vez mais constantes. é outro elemento muito analisado por Freud). Revelando muito bem as características da sexualidade humana (Freud). na qual tem como intenção deixar todo o acerto claro. de o instinto desejar algo. . Tudo em sua mão funciona perfeitamente. dificultando em muito sua percepção. Nesse aspecto sua iniciação será importante. È uma situação preocupante. estudando alemão. tangencial. Toma consciência. Começa com o interesse que o garoto tem repentinamente por tudo o que se refere à Alemanha. o que a deixa em alguns momentos irritada. pois Fräulein acaba se envolvendo. O primeiro é dedicado ao sonho. Esse é quem domina sua personalidade. Se antes tinha um desempenho sofrível. A tensão torna-se máxima quando o menino masturba-se inspirado na professora (é um episódio descrito de forma extremamente indireta. A mãe. O segundo é o prático. Aliás. que é metódico. Talvez a intenção do narrador é. E ela começa a se sentir a mãe de todos. se querem ou se não querem a governanta). sua energia. Observa-se a genialidade do narrador ao descrever Sousa Costa usando brilhantina até no bigode. um papel que ela assumirá no final da narrativa. sua afetividade. mas o que mais importa é entender que o protagonista fere porque não sabe controlar sua força. O contato corporal é mais intenso. Medo e desejo. o que chega a reforçar a tese da professora. no entanto. Nesse aspecto o autor mostra-se bastante cruel. pois servirá para domar seus impulsos. Para complicar sua situação. o garoto não percebe as intenções dela.Deve-se notar o comportamento de Sousa Costa. à fantasia. Elza força uma reunião entre ela e os pais. ainda que sensualmente. Constantemente ao brincar com suas três irmãs mais novas acabava. Inicia. portanto. É um desajeitado. o que acontece é que isso acirra o conflito entre os dois alemães que o narrador afirma que a governanta carrega dentro dela. com a convivência brota o interesse do menino pela mestra. O fato é que Carlos realmente precisava ser educado. Carlos. Há aqui toda uma conotação freudiana. Na verdade. muitos nem sequer sendo abertos. estranhara o apego do filho à mestra e vai conversar com a alemã. Carlos. mostrar como a questão está problemática na cabeça de Carlos. No entanto. Os dois acabam assumindo uma cumplicidade gostosa. torna-se mais apelativa. A governanta passa a cuidar dela. O garoto passa a freqüentar de noite a cama de Elza. mas a educação e a formação religiosa marcarem isso como condenável. chegando alguns até a estarem com as páginas coladas). Delicadamente Fräulein vence.

à raça negra sendo Orfeu o máximo do morro. a narrativa flagra Fräulein ensinando um outro garoto da burguesia de Higienópolis. Eurídice. Orfeu. Elza localiza Carlos. apenas após isso dá-se a conclusão da história. intransitivamente. essa transposição do mito grego para o morro. decide acelerar o término de sua tarefa. Quer que tudo termine de forma dramática. 1954. (MORAES. Vinícius. o culto pela beleza. suas crenças. o pai dá uma bronca no filho. e como o próprio Vinícius relata. recebidos seus oito contos. pois Dionísio era a favor de qualquer coisa pela vida. é comprometido pela tragédia da morte de sua amada. mostrou-se frio –. Fräulein tem um misto de emoções. a amar não importa qual seja o objeto. que atravessando gerações reveste-se das características vigentes naquele período histórico: a peça Orfeu da Conceição data de 1956. clubes e festejos negros no Rio. no qual prevalece a ambiguidade do ser. Em meio à folia de rua. p. Dentro da armação. O livro tem uma estrutura incomum: não há capítulos em si. Orfeu é situado como um ser com poderes sobrenaturais que envolve a todos com sua música. talvez por ter em sua mente Carlos. transitivamente. Após isso. ou seja. Não sente prazer nesse serviço agora. emprestando-lhe as nominações e a situação trágica. Os amantes são surpreendidos no quarto da governanta. sente-se realizada ao lembrar de todos os que iniciou. cujos poderes transcendiam à capacidade física do homem. tomando-se como exemplo o próprio Orfeu. entretanto. Vinicius de Moraes retoma esse mito. 2. p. Acerta com Sousa Costa um flagrante. Em sua trajetória. e como a linguagem do povo é extremamente mutável. ensinando-o a tomar cuidado. uma vez que é mostrado como compositor de sambas e que . o mito sendo projetado para o morro do Rio de Janeiro no tempo presente como um Orfeu negro. Parecia estar mais ocupado em curtir a garota que lhe faz companhia. É sua profissão. parte.Orfeu da Conceição. O trauma amadurece. depois do tanto que ocorreu. 47-48). apenas espaços em branco que separam passagens. os que ensinou o amar. transporta-a para um morro carioca. onde desfilam personagens arquetípicos. p. no caso. com seus encantos cariocas. Segundo Vinícius. Na peça. Tratando-se de uma peça onde a gíria popular representa um papel muito importante. Vinicius resgata o mito. Luís. casamento forçado e outros problemas. É como se quisesse ensinar que o mais importante é aprender a amar intransitivamente para depois poder amar alguém. o alvo. região histórica da Europa e hoje parte da Grécia. mesmo que para ser vivida passe por situações esbórnicas. desce ao inferno para resgatar a amada. abrindo-lhe o caminho para o amor. principalmente. No texto fonte. a palavra FIM aparece após o Idílio. surgiu de uma incursão por favelas. pois acredita que a lição sentida no corpo é mais efetiva. picada por uma cobra ao tentar escapar do pastor que pretendia violentá-la. as variações a que a língua está sujeita. mas o está seduzindo. O rapaz a vê e a cumprimenta formalmente. 47) Segundo o autor. por exemplo (MORAES. todas aquelas festividades tinham de alguma forma algo a ver com a Grécia. pois sempre havia o risco de gravidez. Considera-se. enfrentado criaturas mitológicas e apaziguando-as com sua música. na modernidade retrata o caráter humano. representante da realidade daquela comunidade.de Vinicius de Moraes ORFEU: A REEDIÇÃO DO MITO ATRAVÉS DA PARÓDIA. 1995. nesta análise. especialmente. em caso de representação deve ser ela adaptada às suas novas condições. 54) A lenda de Orfeu ocorre na Trácia. Atira-lhe uma serpentina para chamar a sua atenção. macumbas. na qual se sentiu “impregnado do espírito da raça negra” (MORAES. Ao mesmo tempo em que seu lado sonhador sente-se frustrado – o rapaz. Faz parte de seu crescimento. como o carnaval. 1995. como Apolo e não menos marcado pelo sentimento dionísico. veicula características adequadas à realidade espaço-temporal em que a peça é escrita e orienta para que as possíveis montagens sigam. no entanto. DA APROPRIAÇÃO E DA INVERSÃO . mergulhando Carlos num luto monstruoso. É Carnaval. Assim. inconformado. Precisa ser prática para juntar dinheiro e voltar para a Alemanha. Fräulein.Preocupada em não perder controle da situação. como se o negro fosse um negro despojado de cultura e. Se na antiguidade clássica o mito surgiu como representação idealizada de deuses.

É um amor que já existia sem eles saberem e. 58) Na peça de Vinícius. um objeto que é portanto. Cérbero e o Rei das Sombras enquanto que no texto de Vinícius ocorre a modificação do ambiente. à luxúria. mas o que importa é o viver. . como esquecida. 1954. Mas dizer que ele representa seu objeto implica que ele afete uma mente de tal modo que./ Uma mulher que é como a própria lua:/ Tão linda que só espalha sofrimento/ Tão cheia de pudor que vive nua. toca violão. conforme será analisado adiante.. Essa mesma passagem é retomada no filme de Cacá Diegues. a descida ao inferno para resgatar a amada assume contornos atuais na peça de Vinícius. p. julga a festividade para ser vivida com a maior intensidade: “Triste de quem não quer brincar. Ainda no texto original. citado por Lúcia Santaella em O que é semiótica. A questão do amor incondicional e platônico entre Orfeu e Eurídice é também um caso intersemiótico. e essa relação produz o que Pierce convencionou como “interpretante”. assim como é mostrada através da música. que no filme. o encontro entre Orfeu e Eurídice ocorre no plano dos fundamentos da Semiótica de Pierce. o próprio carnaval.” (MORAES. p. p.. manifesta-se pelo primeiro olhar que Eurídice lança a Orfeu quando chega ao morro ou ainda no momento em que Orfeu canta à Eurídice seu amor. Orfeu resgata Eurídice. ou seja a tradução do signo. (SANTAELLA. cujo cenário sugere. Todas as mulheres são Eurídice. então por que não viver o pouco que resta.. que conta com longa tradição de difusão” (FILKER. 70). pois esse pode tanto determinar a alegria que a festividade causa no povo da favela que guarda seu dinheiro o ano todo para viverem um único momento de suas vidas que é mágico. p.em lugar da lira. de onde vieram alguns dos principais sambistas brasileiros como Noel Rosa e Cartola. ao mesmo tempo. Para o autor. luar e sentimento/ E que a vida não quer. exprimindo a desigualdade social do povo do morro “os aqui de cima” e os demais “lá de baixo”. no qual o inferno é representado por um clube. porém assume contornos diferentes. Orfeu desce às profundezas da terra e enfrenta Erinias. exercendo uma espécie de Dionísio. 83) ao lado de Prosérpina../ E se ao luar que atua desvairado/ Vem se unir uma música qualquer/ Aí então é preciso ter cuidado/ Porque deve andar perto uma mulher. principalmente/ Quando uma luz surge de repente/ E se deixa no céu. 237-38). A paródia caracteriza a inversão de valores que é o carnaval. por exemplo. associados à alegria e. o signo. a causa ou determinante do signo. senão do morro? Nessa aproximação do mito de Orfeu à década de 50. o Rei das Sombras por Plutão que providencialmente encontra-se sentado “num trono diabólico” (MORAES./ Deve andar perto uma mulher que é feita/ De música. Vinícius de Moraes incorre no que Raul Filker em Mito e Paródia: entre a narrativa e o argumentodenomina de modalidade temática direta por escolha deliberada. num certo sentido. Para o autor fica estabelecida a relação entre signo. no caso da paródia. nesse caso. Cérbero é aqui representado por um leão de-chácara. que fica a labutar ou a pensar o dia inteiro! Triste de quem leva a vida a sério. 2005. 1954. Já no texto de Vinicius. 2000. o próprio inferno. representado na peça de Vinícius com a valsa de Eurídice: São demais os perigos desta vida/ Para quem tem paixão. enquanto passam fome o ano todo. Ou seja. objeto e interpretante. Eurídice é você. Essa situação dionísiaca pode ser conferida no trecho da peça em que Plutão. 84). havendo um deslocamento maior no que diz respeito ao povo da favela e suas mazelas. de tão perfeita. No mito original. como é colocado no filme. p. no caso o hap. o morrer está logo ao lado. acaba num cemitério.). p. Já o diretor Cacá Diegues teve uma visão da peça um tanto mais “realista”. modificação ou acréscimo. o objeto. dos gestos sociais que se aplicam aos moradores das favelas.) determine naquela mente algo que é imediatamente devido ao objeto (. é você! Tudo é Eurídice. 1954. (. o que pode ser constatado na fala de Orfeu ao se dirigir às mulheres: “Vem. mesmo se o signo representar seu objeto falsamente. Ora. Eurídice. cujo nome “Os maiorais do inferno” estabelece diálogo com o anunciado no texto fonte. uma vez que figuram na mente de Orfeu a própria amada. quando a peça foi escrita. e segundo ele: Um signo intenta representar. mas acaba perdendo-a novamente por não cumprir o acordo feito com o Rei das Sombras. trazendo o luxo e o lixo. em parte pelo menos. 92). está justamente aí. pois na peça percebe-se uma relação mais restrita ao amor dos personagens principais. pois é através dessa que observamos todo o amor de Orfeu por Eurídice. trabalhando de coveiro!” (MORAES. a escolha de um tema já conhecido objetiva “desenvolver através de interpretação. 1954. um diálogo com o tema em questão onde a nova voz se privilegia do espaço já ocupado pela antiga. pois transcende ao mortal. (MORAES. é você. o presidente dos maiorais. A paródia. tem-se nas “mulheres” que se apresentam a Orfeu como sendo Eurídice. Observa-se. Eu te encontrei. sem saber que este não demora a chegar. pela presença do fogo e a dança isolada dos frequentadores do clube. 56) A musicalidade que compõe tanto a peça quanto o filme é definida por Bertold Brecht em Estudos sobre o teatro como sendo “um gesto que determina a linguagem” (2005. p.

um Deus. dos passistas. Verifica-se. o filme Orfeu nada mais é do que uma paródia da peça de Vinícius com suas situações cômicas.. dá um beijinho. A situação da saúde pública também é apresentada como paródia na peça quando Vinícius coloca a figura do médico com descaso em meio a loucura de Clio. pois é durante a festividade que o povo do morro desce para a cidade. afinal que pobre não tem um pinguim de geladeira? Conforme enunciado anteriormente. estabelecendo um trocadilho com seu nome para mostrar toda a sua doçura. A intertextualidade está presente no filme como uma paródia da peça. logo atrás dela há uma televisão em que Grande Otelo. Os policiais no filme se auto-ironizam. como uma premonição.. pois os olhares estão voltados para a festa. Vem cá. em meio à luxúria... então. uma troca de letras no nome de Eurídice para Eurídoce desenhado no muro da favela. sabendo que no morro não podem fazer nada. No caso da paródia verbal. tem-se Orfeu chamando por Eurídice depois de encontrar com a Dama Negra. Affonso Romano de Sant’Anna e Shipley discriminam a paródia em três tipos: verbal. Ela. A colocação do tema do estupro. Quando Cacá Diegues coloca no filme a “Tia Carmem”. por meio da paródia.. amarga e recalcada. essa cena. a não ser mostrar serviço... p. 1954. da bala perdida no morro. 89-90). Nesse caso. “Vocês são fortes/ Subam e tragam a mulher que eu espero embaixo/ E depressa que eu tenho um caso urgente/ Me esperando . representa a morte. a presença da Dama Negra. 1954. da compra do tênis desejado a qualquer preço.. p. Deixa ele. /PLUTÃO – Pra fora! Aqui não tem Eurídice Nenhuma./ . formal e temática. zombando do seu estado de loucura com Eurídice nos braços e repetindo as falas da peça “Quem foi que disse que eu não sou Eurídice!”. os “governantes” estão voltados para a festividade. 100).. é coisa ruim/ É morte!” (MORAES. conforme o fragmento da peça: ORFEU – Eu quero Eurídice!/ . Orfeu buscaria Eurídice em meio ao ritmo desencadeado das escolas de samba. Pode-se defini-las exemplificando-as com passagens tanto da peça quanto do filme. EURÍDICE Quer a sua morena tanto assim? ORFEU – Não é nem mais querer . recebe um tratamento irônico por parte do diretor que ridiculariza a ignorância e a falta de cultura das personagens que consideram que Acre e Amazonas são a mesma coisa por mais que Eurídice tentasse estabelecer a diferença. Parece ridicularizar a figura do Orfeu. o tema escolhido por Vinícius reforçado por Cacá Diegues é justamente o carnaval. Além disso..” (MORAES. dos mascarados em travesti. / PLUTÃO – Ninguém sai daqui sem ordem do rei! Aqui é o rei quem manda! Toca a música! Onde está a música? Cadê o bumbo o tamborim a cuíca o pandeiro o agogô? Toca o apito! Começa o samba! Não acabou o Carnaval ainda não! (MORAES. A paródia do tipo temática vai fazer uma caricatura da forma e do espírito do autor. situação essa vivida pelo personagem Maicol. bem. que os conduz para o fim trágico. no segundo ato. também. pois todas as feridas do morro estão ali configuradas. algo em que acreditar para ser feliz. No momento em que Eurídice está provando sua fantasia. encontram-se alterações de uma ou outra palavra do texto. no clube dos Maiorais. enfatizando sempre os seus finais de fala com “meu bem” ao tratar com sua sobrinha Eurídice. No que se refere à paródia formal. No filme. pegá-los como no caso da caça ao traficante Lucinho. pilantra? Aqui mando eu! Pra fora. Ao chegar lá. da loucura de Orfeu pela perda de Euridíce. como se chamando para morte e é a própria Eurídice que o chama ao telefone quando pensa que Orfeu não está mais na linha. como sendo a figura da morte. Dona Conceição resume a felicidade no filme de uma maneira bem simples “felicidade meu filho é uma geladeira cheia de feijão e cerveja com o remédio da gripe ao lado do pinguim”. pinguim esse que simboliza o pobre. o que provoca a ira de Mira em meio ao resultado da escola de samba vencedora na quarta feira de cinzas. quer ironizar. Na peça. Tas querendo é me acabar com o baile.. que também antecede a morte de Orfeu. ou seja. 7779). aparece vestido de grego sendo negro e dançando. traz as mulheres saídas do carnaval bêbadas. . A ambulância está embaixo/ Que caras mais folgados . já disse! PROSÉRPINA – O cara ta é cheio.época de maior prostituição. seu estado de conformação pela vida que leva.. ele tem medo de Eurídice nunca mais voltar e essa então resolve cair em sua cama : “Eurídice? Que sonho tive eu/ Minha Eurídice! . minha gente!/ Trouxe a maca. figura arquetípica do jovem que quer estar na moda. de Michel Jackson. fazem alarde para que os traficantes fujam e tentam. Tia Carmem ironiza ao fazer críticas sociais e ao tratar de sua própria vida. uma alteração dos chamados. dos negros libertando-se de sua pobreza no luxo das fantasias compradas às custas de economias de um ano.. satirizando o mito. senão é capaz de sair estrago. recém chegada do Acre. tem-se na peça de Vinícius. O inferno do Orfeu negro seria o carnaval carioca. mãe de Orfeu: “O HOMEM – Ta pronto. alcoolismo. No filme temos a colocação da sombra de uma asa delta projetada sobre Eurídice. o inferno. o filme parodia o mito do Orfeu grego como um negro.. / AS MULHERES (dançando) – Quem foi que disse que eu não sou Eurídice? Quem foi que disse que eu não sou Eurídice?/ . Adivinha/ O que disse o doutor? . tráfico de drogas.. O cotidiano revela o sofrimento diário das pessoas as quais não conseguem ter uma ideologia. às batucadas do samba de carnaval.. afilhado de um dos policiais. 1954. Existe. um ser pomposo. em vão. pág. O autor usa os efeitos técnicos do carnaval para zombar.

eu quero matar de tanto dar porrada” o que não se aplica a ele. p. Isso pode ser verificado na fala da moça do bando de Lucinho. A versão fílmica de Orfeu. Orfeu daConceição (1953) e a apropriação se faz em relação a mesma peça e também sobre o mito de Orfeu – mitologia grega. Joseph T. Segundo Sant’Anna (2002. Paráfrase & Cia. A versão cinematográfica de Orfeu. [.de – Paródia. essa articulação nada mais é do que mais uma demonstração de apropriação. sua voz ficarão para sempre na memória daqueles que receberam o conforto por meio delas. assim como suas alegrias e tristezas não são os únicos elementos a serem vistos dentro da obra. um retrato da época passada e da atual em que brancos. o que é algo normal para o povo do morro. Orfeu da Conceição. como diz o ditado popular “faça o que eu falo mas não faça o que eu faço”. enfim . O texto lembra um mito. droga essa que é bem retratada pela personagem do bando de Lucinho: “Viver faz mal a saúde”.. pois tudo é tratado na base de armas. ou seja.. o que o morro representa tendo como tema base o carnaval. pois certamente escreveria páginas e páginas. por exemplo.45).. SANTELLA. Dicionário de literatura. A paixão de Orfeu e Eurídice. Carlos Augusto Calil. o que deveria ser “Viver faz bem a saúde”. alguns significados apresentam-se em seu paroxismo. levando em consideração o fator cômico. A paródia. Ambos. Tudo isso é um grande paradoxo pois. A paródia incide sobre a peça teatral de Vinícius de Moraes. Conforme argumenta Afonso Romano de Sant’Anna (2003. 2000. artifícios esses que colocados em cena representam uma bricolagem e um estorno de seus verdadeiros sentidos. Teatro em verso. que precisa ser descoberto. Raul. pois tanto Vinícius quanto Cacá quiseram. um desabafo. ela é também um tesouro cultural e de condições humanas. a quem. SHIPLEY. dentro da narrativa da versão teatral e da versão cinematográfica.. incitando a inveja e o ciúme. __________________. 2003. Além dos conjuntos citados. Desde a queima de fogos que pode virar um tiroteio. a riqueza da cultura negra ou a falta dela. quando Orfeu o intima sem usar uma arma sequer. Mito e paródia: entre a narrativa e o argumento. Orfeu. 1978. . assim como tentar fazer algo sem elas. Os Orfeus vêm e vão. 2003. “uma peça em homenagem ao negro brasileiro. a história de Orfeu sofre um processo de apropriação e inversão que são variantes da paródia e apresenta uma conotação crítica dentro de um contexto e a realidade em que vivem os habitantes da favela nos morros da cidade do Rio de Janeiro.No que diz respeito à parte social do filme. exprime-se em um conjunto de diferenças e inversão. pois traçando-se um paralelo entre as duas peças vê-se dados na segunda versão como uma imagem invertida da primeira. fruto de anos de trabalho é. de resto. o resultado de um regime de exclusão que gera miséria e injustiça. uma crítica. das Letras. faz bricolagem do texto alheio.] eles re-apresentam os objetos em sua estranhidade. é impossível. DIEGUES. Estudos sobre o teatro. O que é semiótica. do começo ao fim. sendo a favela uma vergonha social para o país. Affonso R. ela o indaga: “Quantas R. 1954. o fenômeno de apropriação também verifica-se em cenas onde objetos estão presentes fora de seu contexto [. como foi passado no filme.] na apropriação o autor não “escreve”. no dizer do poeta. a devo” O autor não explica o porquê dessa homenagem. A cena. como diz Cacá Diegues. agrupa. verifica-se também um processo de inversão. REFERÊNCIAS BRECTH. por exemplo. colocando os significados de cabeça para baixo”. Cacá. ou seja.] ele não escreve. mas na realidade é uma paródia. isso dentro de um contexto tão susceptível ao uso da droga. “[..15 você tem?”. São Paulo: Unesp. São Paulo: Brasiliense.. FILKER. MORAES. p. tem-se a presença constante de armas. com suas contradições. não mostrar apenas a relação de amor entre eles ou o ódio que esse amor projetou para os demais. Org. com a paródia. de Cacá Diegues (1999) apresenta o conjunto das diferenças de paródia e apropriação. 1999. Parece ser isso o que Vinícius quis mostrar: a vergonha. São Paulo: Cia. mas sua música. 46). Orfeu da Conceição. trans-creve. SANT’ANNA. Ed. Vinicius de. pardos e negros são discriminados. também se revela contraditória nas ações e no discurso das personagens e pode ser verificado na fala de PC quando diz: “se eu tiver um filho drogado. Nessa versão. Ática. seus encontros e desencontros. dando uma conotação de uma verdadeira “visão do inferno” que foi descrita de outra forma na peça teatral e também na personagem mitológica. a miséria e a injustiça social do país. além de ser usada como crítica social. Bertold. em que a personagem-protagonista desce uma encosta para resgatar sua amada Eurídice mostra um cenário construído com vários artifícios de outras realidades. enfatizam o lado social do morro com suas mazelas. A apropriação ocorre quando a personagem central recebe o mesmo nome do personagem mitológico e o transporta para nova época e realidade. apenas articula. Lúcia. São Paulo: Nova Fronteira. por se apresentar como uma paródia da peça teatral. fazendo-o transitar por novas experiências – provoca o deslocamento de tempo e lugar para nova narrativa.

como é popularmente conhecido. descer aos infernos para buscar Eurídice. desencadeou em torno de si a desarmonia. Antonio Carlos Jobim partiu realmente da Grécia para o morro carioca num desenvolvimento extremamente homogêneo de temas e situações melódico-dramáticas. nas noites do finado Clube da Chave. quando a cena abre. Confesso que a excelência do trabalho que me foi sendo pouco a pouco apresentado pelo compositor. escolhido de comum acordo pela Odeon e por nós para cantar neste LP os sambas de Orfeu da Conceição. depois de reler o mito numa velha mitologia grega. o desespêro de que seria êle a primeira vítima. uma noite. uma música que unisse a Grécia clássica ao morro carioca. o poeta João Cabral de Melo Neto.o que lhe assegura de saída a excelência de qualidade que o mito requer. no ambiente emocional da peça. fazendo. onde me encontro em pôsto. sob todos os pontos de vista. de parceria nossa. mesmo servindo ao texto. ao perdê-la em definitivo e com ela o gosto de criar e de viver. Usando com grande habilidade elementos dos modos e cadências plagais que criam uma ambiência grega perceptível a qualquer pessoa. cuja lira tinha o poder de tocar o coração dos bichos e criar nos sêres a doçura e o apaziguamento. o violão de Luiz Bonfá. como é sabido de todos. Numa conversa com meus amigos Lucio Rangel e Haroldo Barbosa foi-me ponderado o nome do jovem maestro e compositor Antonio Carlos Jobim. sob a regência do maestro Antonio Carlos Johim. composta em Strasburgo. Os sambas criados especialmente para a peça. do ponto de vista da peça. Notável. confundido com o próprio impulso que o move para a criação? Foi por volta de 1942 que eu. a meu vêr. tivesse uma qualidade órfica. e que combinam. Achei a idéia excelente e puz-me imediatamente em contacto com Tom. 1956 Poucas histórias terão excitado mais o espírito criador dos artistas que o mito grego de Orfeu. resultando daí não apenas uma parceria. Ao conhecedor de música não escapará na estrutura melódico-harmônica dos mesmos o aproveitamento dessas mesmas cadências plagais de que falei. Original da Peça Musical "Orfeu da Conceição". MONÓLOGO DE ORFEU ( Original da Peça "Orfeu da Conceição") Baseado na Mitologia Grega no Drama de "Orfeu e Eurídice".que artista não o traz dentro de si.essa lenda poderia perfeitamente passar-se num ambiente como o de uma favela carioca. mandei a peça para o concurso de teatro do IV Centenário de São Paulo. na orquestra. extremamente bem a partitura. interpretou.Orfeu da Conceição Texto da contracapa Vinicius de Moraes. um dos problemas mais sérios que me coube resolver foi a escolha do músico. sublimados. mas uma amizade que hoje sinto de grande importancia para nós ambos. num mundo de beleza e harmonia. apoiada sobre a melodia e em justa composição com os ricos elementos harmônicos que Antonio Carlos Jobim sobe tão bem criar em todos os seus arranjos. de um compositor que pudesse criar para o Orfeu Negro uma música que tivesse a elevação do mito. parece-me. Com a idéia de se criar uma ouverture para grande orquestra. ao abrir do pano. é responsável pela execução. Roberto Paiva. Em 1953. dá em todos os números justamente a interpretação que eles pediam: uma interpretacão sóbria e direta. Esses sambas são. entreguei a Antonio Carlos Jobim a minha valsa “Eurídice". Vinicius de Moraes/Tom Jobim . havendo o juri por bem honra-la com uma premiação. e que desde então passou a representar para mim o tema romântico de Eurídice no espaço musical da imaginação de Orfeu. com quem eu de raro em raro privara em 1953. que apresentasse os temas principais das personagens de maneira a colocar o espectador. o divino músico da Trácia. Êsse sentimento da integração total do homem com a sua arte. Quando em Maio de 1956.uma música "poética" que. no final. A lenda do artista que conseguiu. os seus elementos naturais de modo a atingir a elevação do mito. A grande orquestra da Odeon. em nada desmereceu essa confiança. sua bem-amada morta e que. graças ao fascínio de sua música. do violão de Orfeu da Conceição . o samba romper sobre o morro onde se deve processar a tragédia de Orfeu. é claro. . A sua voz de timbre tão agradável. senti subitamente nele a estrutura de uma tragédia negra carioca. uma música que reunisse o erudito e o popular . composta de 35 elementos. através de um milagroso conjunto de circunstâncias. O nosso caro e grande Bonfá. instado por meu amigo. . as criações populares do sambista Orfeu da Conceição e funcionam de maneira dramática predeterminada comentando a ação e acrescentando-lhe os elementos sem os quais a tragédia não funcionaria: os elementos da música harmonizadora e destruidora que constituiu o privilégio do divino tocador de lira da antiga Trácia. um amigo propoz-me financiar a peça exatamente 24 horas antes de eu tomar meu avião para Paris. excedeu tôdas as minhas espectativas. maravilhosamente bem com o ritmo negro brasileiro. constituiram sem dúvida a parte mais agradável do nosso trabalho.

em mim.. a hora derrama O seu óleo de amor. Ah. Ah.nada disso tem importância Quando tu chegas com essa charla antiga. Esse corpo! E me dizes essas coisas Que me dão essa força. o peito extravasado... Coisa incompreensível! A existência Sem ti é como olhar para um relógio . deixa que rompa... Meu Silêncio. se longe. Orfeu. Minha Música! Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada. tudo isso Que é bem capaz de confundir o espírito De um homem.Minha Eurídice. Orfeu menos Eurídice.Mulher mais Adorada! Agora que não estás.. O mel correndo.que é que eu sei! Essa agonia De viver fraco. essa incapacidade De me sentir mais eu.. Esse orgulho de rei. E sabes de uma coisa? Cada vez Que o sofrimento vem. Amada.. Ah. ou estar mais perto. essa harmonia... Esse contentamento. sou pedra rolada... Meu Verso. O meu peito em soluços! Te enrustiste Em minha vida. Sou coisa sem razão... essa saudade De estar perto. essa coragem. jogado.. Se perto. e cada hora que passa É mais por que te amar.

o inepto governante. terceiro capítulo. tem com ela a primeira noite de amor/luxúria. Vai centrando-se a história nesta parte em dois personagens: Mundinho Falcão e Nacib. Mas Mundinho ganha terreno com a chegada do engenheiro. que se vê em meio a uma grande tragédia pessoal: a cozinheira de seu partiu para ir morar com o filho e ele precisa entregar um jantar para 30 pessoas em comemoração a inauguração de uma linha automotiva regular para a cidade de Itabuna. amante de um outro coronel. cravo e canela.. declara-se a guerra pelo poder em Ilhéus entre Mundinho Falcão (oposição) e os Bastos (governo). e três problemas existem: o caso Malvina-Josué-Glória-Rômulo. Nacib volta para casa e.. Despetala as mulheres . as complicações políticas e o ciúmes de Nacib. segue com as preparações do jantar e a contratação de Gabriela por Nacib.. Rômulo foge após um escândalo feito pelo machista (tão machista quanto o resto da sociedade ilheense) pai de Malvina. Josué se desaponta e se interessa por Glória. como o vento à flor. Mas está sendo . na prática.Só com o ponteiro dos minutos. O dia começa com o amanhecer de dois corpos na praia. Quando o jantar acaba (em paz). mas passa toda a parte procurando por uma nova cozinheira.. Esta começa a namorar Rômulo. Mais querida! Qual mãe. A segunda parte desta primeira parte é A solidão de Glória e passa-se apenas em um dia. uma retirante que planeja estabelecer-se em Ilhéus como cozinheira ou doméstica. qual pai.que ele. No jantar acirram-se as diferenças políticas e.Gabriela. Tu és a hora. minha amiga.. quando ia deixar um presente para Gabriela silenciosa mas não inocentemente. Malvina faz planos de se libertar e Josué começa um caso em segredo com Glória. pela lua cheia. A primeira parte é Um Brasileiro das Arábias e sua primeira divisão é O langor de Ofenísia... és o que dá sentido E direção ao tempo. A história começa em 1925. Vamos pela ordem. Nacib é um sírio ("turco é a mãe!") dono do bar Vesúvio. Gabriela Cravo e Canela é dividido em duas partes. Amada! Milhões Amada! Ah. Na política.Jorge Amado Gabriela Cravo e Canela Modernismo de segunda fase. que são em si divididas em outras duas. frutos de um crime passional (todo mundo dá razão ao marido traído/assassino). Ele encomenda com um par de gêmeas careiras. Mundinho é um jovem carioca que emigrou para Ilhéus e lá enriqueceu como exportador e planeja acelerar o desenvolvimento da cidade. Josué era admirador de Malvina. Orfeu. e aqui me deixo rente. pássaro contente. passa-se cerca de três meses após o fim do outro capítulo. E perde quando esse foge covarde.. filha de um coronel com espírito livre. Ficasse assim rendido aos teus encantos! Mulata. E ganha com a promessa da chegada de dragas a Ilhéus. acirra-se a disputa por votos ao ponto do coronel Bastos mandar queimar toda uma tiragem do jornal de Mundinho. que estarei contigo! 3. No final desta pequena parte aparece Gabriela. qual nada! A beleza da vida és tu. melhorar os portos e derrubar Bastos. dentes brancos. Vai tua vida. A segunda parte chama-se propriamente Gabriela Cravo e Canela e sua primeira parte. Vai teu caminho que eu vou te seguindo No pensamento. Nacib enquanto isso desenvolveu um caso com Gabriela. o capítulo terceiro. chama-se O segredo de Malvina. E cuja fala. apesar dos pedidos do amante que planeja ganhar dinheiro plantando cacau.. pele escura. Quando voltares. um engenheiro chamado por Mundinho Falcão para estudar o caso da barra (que impedia que navios grandes atracassem no porto de Ilhéus). cujo violão é a vida da cidade. Para os braços sem fim do teu amigo! Vai tua vida.Criatura! Quem Poderia pensar que Orfeu: Orfeu. na cidade de Ilhéus.

seus aliados reconhecem que estavam errados (a lealdade era com o homem. para desespero de Nacib. Gabriela revela-se então uma cozinheira de mão cheia e. Na parte da política. Entretanto. Porém. a posse do poder pode começar a mudar um pouco. porém acaba de perder sua cozinheira. é ainda dominada pelos coronéis e seus jagunços. é condenado à prisão. O amor de Gabriela e seu Nacib se desenrola em um cenário marcado pelas transformações na política. não encontra ninguém para substituí-la. o quase assassino foge com a ajuda de Gabriela. Não demorou muito a Nacib se apaixonar perdidamente por Gabriela. traição é imperdoável!). que são em si divididas em mais outras duas. com a chegada do carismático Mundo Falcão e de suas ideias revolucionárias. convidado a se retirar da cidade por admiradores de Gabriela. o que o exaspera. O cenário de conflitos entre a revolução e o tradicionalismo toda conta de Ilhéus. As obras na barra se completam com sucesso e Nacib e Mundinho abrem um restaurante juntos. rendeu ao autor cinco importantes prêmios e uma excepcional aceitação pelo público. Semanas depois.Jorge Amado O livro “Gabriela Cravo e Canela” de Jorge Amado é um dos livros mais legais da obra do escritor baiano. Era isto o que Nacib viu no meio de sua sala. querendo sempre agradar os outros. quando li a orelha com esta informação. o casamento é anulado sem complicações (os papéis de Gabriela eram falsos) e Gabriela sai de casa. Porém. o coronel. Nesta resolvem-se todos os casos.. tendo sido traduzido em vinte línguas. tão ardente como era no começo e deixara e ser após o casamento. seu padrinho de casamento. O primeiro é um jovem carioca desaforado que emigrou para Ilhéus e lá enriqueceu como exportador e planeja acelerar o desenvolvimento da cidade. em pouquíssimo tempo. passei a idolatrar todo o carisma e dedicação do personagem e adquiri um ódio cego contra todos os coronéis (que. Nacib e ela reiniciam seu caso. mas gosto das coisas como elas são. sem sucesso. Tonico é humilhado e sai da cidade. já que Nacib é muçulmano nãopraticante). deixando a leitura cada vez mais saborosa. traiam suas esposas na cara dura! Para mim. que tinha acabado de tomar banho. cidade baiana onde acontece a história. assassino dos dois amante da primeira parte. mas nunca sabe o que quer da vida GABRIELA CRAVO E CANELA . um grupo de migrantes do sertão se aproxima de Ilhéus para encontrar uma vida melhor e entre eles está uma jovem chamada Gabriela (sabe Deus o resto do nome). Escrito no ano de 1958. um dia. ele morre placidamente em seu sono. mais típica da região (como é a fala de todos). A primeira parte do livro é chamada de“Um Brasileiro das Arábias” que centra nas histórias de dois personagens: Mundinho Falcão e Nacib. Cheio de uma crítica à sociedade ilheense. Por mais que procure. porém. perfume de cravo. esse romance regionalista. que se vê em meio a uma grande tragédia pessoal: a . esta última se revela um pouco insegura. Lembro até agora das palavras: “cheiro de cravo. a movimentação no bar de Nacib cresce espetacularmente. A quarta e última parte chama-se O luar de Gabriela. cor de canela”. na cidade de Ilhéus. Ilhéus. é curiosamente dividido em duas partes. A história começa em 1925. além de submeterem toda a população. não suas idéias) e a guerra política acaba com Mundinho e seus candidatos vencedores. melhorar os portos e derrubar Bastos. sem muita opinião própria. Pela ordem: Josué e Glória oficializam a relação e Glória é expulsa de sua casa por seu coronel. Do outro lado da cidade. só fica atrás mesmo de “Capitães da Areia”. Aos poucos ele percebe que é amor e acaba propondo casamento a Gabriela após a última investida do juiz (alarme falso. o inepto governante (*um tipo Jaques Wagner/ACM mais perverso). seu ex-aliado. Num epílogo. Nacib fica amargurado e vai se recuperando. Gabriela não se adapta de jeito nenhum à vida de "senhora Saad". quando chegam as dragas no porto de Ilhéus. Torna-se mais cantada. a própria linguagem do autor muda quando foca-se a atenção em Gabriela. após o coronel Ramiro Bastos perder o apoio de Itabuna (e mandar matar.” Não que eu seja tradicionalista. tendo também grande êxito no estrangeiro...atacado pelo ciúmes (todos querem Gabriela. além disso. Já Nacib é um sírio ("turco é a mãe!") dono do bar Vesúvio. O capítulo acaba durante a festa de casamento de Nacib e Gabriela (no civil. encontra Gabriela dormindo em uma poltrona. Quanto a Nacib e Gabriela. Ele tem bar muito movimentado na cidade. quando Nacib voltava para casa.. quando a história começa e é mostrada uma Ilhéus atrasada. já que até roças do poderoso cacau de Ilhéus já haviam sido oferecidas a Gabriela. Quando chegam à cidade. que o conhecia). O cozinheiro chamado pelos dois é. ele já havia desistido). Abaixo desta briga toda. Gabriela então é encontrada por Nacib ao acaso. Obviamente. está um árabe naturalizado brasileiro chamado Nacib. cor de canela). Mas ninguém ri de Nacib. já criei uma inimizade precoce contra Mundo: “mas o que esse enxerido está se metendo nas tradições. Nacib acaba anulando o casamento ao pegá-la na cama com Tonico Bastos. que a leva para sua casa como cozinheira. enquanto o povo se divide para eleger seu próximo governante. pelo contrário. que acaba sendo recontratada por Nacib. Mas foi a tempo. necessitada e sem investimento e Mundo Falcão aparece com planos para transformá-la em uma grande cidade.

E foi através dessa novela e do filme de 1983. Ele escreve para se compreender. strutura da obra uma obra composta de três histórias que se entrelaçam e que são marcadas. E também é peculiaridade a autora a construção de frases inconclusas e outros desvios da sintaxe convencional. por duas características undamentais da produção da autora: originalidade de estilo e profundidade psicológica no enfoque de temas aparentemente omuns. A personagem é criada de orma onisciente (tudo sabe) e onipresente (tudo pode). embora faça contínuas interrogações sobre ela e embora pareça apenas acompanhando a trajetória dela. a protagonista. uma alagoana órfã. ela. No entanto. que realmente surpreendem o leitor. M. pelos olhos do narrador e através de seu domínio da palavra que a existência e a essência são expostas como interrogações. o livro a apresenta fartamente. Interessante notar que. onde o ser humano não é respeitado. de Clarice Lispector Análise da obra hora da estrela é também uma despedida de Clarice Lispector. virgem solitária. Macabéa. linguagem narrativa de Clarice é. Quanto à sua relação com Macabéa. criada por uma tia tirana. m A hora da estrela Clarice escreve sabendo que a morte está próxima e põe um pouco de si nas personagens Rodrigo e Macabéa. .A Hora da Estrela. É Clarice contando uma história e. Sônia disse que estaria rodando um longa em Los Angeles e que não poderia participar das gravações. Ele. antes de iniciar a narrativa e logo após a 'Dedicatória do autor'. É um marginalizado conforme lemos: "Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens". A morte foi a hora de . aparecem os treze títulos ue teriam sido cogitados para o livro. uma solitária que gosta de ouvir a Rádio Relógio e que passou a infância no Nordeste. principalmente. O recurso usado por Clarice Lispector é o narrador-personagem. às vezes. que a protagonista Sônia Braga ficou mundialmente conhecida. é uma invenção do narrador com a qual se identifica e com ela morre. estou escrevendo na hora mesma m que sou lido. pois conforme nos faz conhecer a protagonista. despedida de Clarice é uma obra instigante e inovadora. oco narrativo Quanto à linguagem. também nos az conhecê-lo. algumas pessoas acreditam que a participação de Sônia poderia ofuscar a “nova-velha Gabriela” e fomentar ainda mais as comparações entre as duas. mas desacreditado nessa econstrução de uma realidade mutilada. ele declara amá-la e ompreendê-la. além da criação de alguns eologismos. al presença masculina retrata um universo de fragmentos. sem aber exatamente o que lhe vai acontecer e torcendo para que não lhe aconteça o pior. em todos os momentos em que o narrador discute a palavra e o fazer arrativo. porém. Há. a Rede Globo produziu uma novela que entrou para a história da teledramaturgia nacional baseada nessa obra de Jorge. onde trabalha como datilógrafa. apresentando muitas metáforas e outras figuras de estilo. E aí surge a Gabriela. Como diz o personagem Rodrigo. ao mesmo tempo. alguns paradoxos e comparações insólitas. a obra conta os momentos de criação do escritor Rodrigo S. que a leva para o Rio de Janeiro. (a própria Clarice) narrando a história de Macabéa. por exemplo. como Clarice. recentemente ela descartou qualquer possibilidade de fazer um personagem ou uma participação especial no remake que trás a Juliana Paes no papel principal.cozinheira foi embora para ir morar com o filho e ele precisa entregar um jantar para 30 pessoas em comemoração a uma inauguração de uma linha automotiva para Itabuna. Lançada pouco antes de sua morte em 1977. Faz da vida dela um aprendizado da morte. um escritor à espera da morte. intensamente lírica. Em 1975. revelando ao leitor seu processo de criação e sua ngústia diante da vida e da morte.

inseridos em uma escrita descontínua e imprevisível. raramente percebe o que há à sua volta. mas. Esta identidade. no entanto. Se por um lado. externo. A vida de Macabéa . de gênero e de consciência de mundo. ersonagens Macabéa: Alagoana. um dia.M. Ocorre que o espaço físico. Queria ser muito rico.M. e um dia queria também ser deputado. Feia. O enredo de A hora da Estrela não segue uma ordem linear: há flashbacks iluminando o passado. A metanarrativa . onta a história de Macabéa. paralela à história de Macabéa. ansiedade e ao sofrimento. criaturas destemidas demais no nfrentamento do mundo. é um elemento de grande significação no romance. na rua. O narrador revela seu amor pela personagem principal e sofre com a sua desumanização.O narrador conta como tece a narrativa. piedade e até um pouco de raiva. se oculta e se exibe diante dos nossos olhos.Rodrigo S. Rodrigo e Macabéa se onfundem. com a própria endência em tornar-se insensível. orgulhoso e matara um homem antes de migrar da Paraíba. sete ao todo. lém da alinearidade. uma nordestina que ele viu. O narrador lança mão. há pelo menos três histórias encaixadas que se revezam diante dos nossos olhos de leitor: . o que. O róprio nome da protagonista constitui-se numa grande ironia (tragicomédia). Inclusive sobre a morte de . elos indícios que o narrador nos oferece. Ele tem domínio absoluto sobre o que escreve.Rodrigo S. spaço / Tempo O Rio de Janeiro é o espaço. Possivelmente o ome Macabéa seja uma alusão aos macabeus bíblicos. Ela ão sabe nada de nada. de relance. odrigo S. M. O "lado de dentro “das riaturas é o que interessa aos intimistas”. aspectualmente arece dar à narrativa uma característica alinear. A identificação da história do narrador com a da personagem . O foco narrativo escolhido é a primeira pessoa. M. Macabéa recebe o apelido de Maca e é a protagonista da história. faz-se pelo lado do avesso. Não se engane: ele foge para o passado a fim de buscar informações. socializando a possibilidade de ruptura. Olímpico: Olímpico se apresentava como Olímpico de Jesus Moreira Chaves.: Narrador-personagem da história. ele estabelece om ela um vínculo mais profundo. . das digressões. por outro lado. mora numa pensão em companhia de 3 moças que são balconistas nas Lojas Americanas (Maria a Penha. 19 anos e foi criada por uma tia beata que batia nela (sobre a cabeça. como um movimento em busca de uma nova estruturação da obra literária similar à insegurança. teimosos. há idas e vindas do passado ara o presente e vice-versa. de incoerência. . Um secreto desejo era ser toureiro. O tema é oferecido. também. Está presente por toda a narrativa sob a forma de comentários e esvendamentos do narrador que se mostra. a alusão.strela. que é o da comum condição humana. Ambicioso. completamente nconsciente. o tempo é época em que Marylin Monroe já havia morrido . que ultrapassa as questões de lasse. conta a história de Macabéa: Esta é a narrativa central da obra: o escritor Rodrigo S. mbora a história de Macabea seja profundamente dramática. conta a história dele mesmo: esta narrativa dáe sob a forma do encaixe. com força). A principal característica de Macabéa é a sua completa alienação.possivelmente a écada de 60 em seu fim ou a de 70 em seus começos . permitem ao leitor a reflexão sobre uma época e transição. por sua patética alienação. a narrativa é toda permeada de muito humor e ironia. Narrador e protagonista. gostava de ver angue. Maria da Graça e Maria José). pois Macabéa é o inverso deles. como recurso. ele vê a jovem omo alguém que merece amor.mas faz ainda um grande sucesso como mito que povoa a cabeça e os onhos de Macabéa. Trabalhava numa metalúrgica e não se lassificava como "operário": era um "metalúrgico". não importa muito nesta história.

Clarice Lispector . Macabéa vai. identificado com a escrita do romance que se acaba. eu sou”. o que a deixa alheia de si e da sociedade. ela nunca se deu conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável. Tem por ábito ouvir a Rádio Relógio. então. Glória. especializada em dizer as horas e divulgar anúncios. Outras personagens: As três Marias que moram com Macabéa no mesmo quarto. Glória rouba Olímpico de Macabéa. ou seja. Como Macabéa aceita o fato com enorme humildade. era nordestino também. ela o perde ara Glória. Come bombons. Raimundo Silveira. Para isso. o chefe se compadece e resolve não espedi-la imediatamente. Madame Carlota. Na verdade. o ser atropelada. nredo Macabéa (Maca) foi criada por uma tia beata. ua conhecida.Hans . Esta é a hora da estrela de cinema. por quem ela estava secretamente apaixonada.) “Nesta hora exata Macabéa sente um fundo enjoo de estômago e quase vomitou. vomitar algo luminoso. queria vomitar o que não é orpo. Contará que foi prostituta uando jovem. cheia de corpo. com certo sentimento de culpa por ter roubado o namorado da colega. ou seja. Por não ter nada que ajudasse Olímpico a progredir.Macabéa. prediz-lhe um futuro maravilhoso. A Hora da Estrela.” om ela morre também o narrador. atenta ao mundo. depois. Madame Carlota é uma enganadora vulgar. pensou ela. no final. hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci”. eu namorado. seu Raimundo. à cartomante. Estrela de mil pontas. era tão boa. diz que é fã de esus Cristo e impressiona Macabéa. que fica na Rua do Lavradio. empresta-lhe dinheiro e diz-lhe que a mulher. Há uma ituação paradoxal: ela só nasce. Macabéa sai da casa de Madame Carlota 'grávida de futuro'. é esperta. na hora de sua morte. Macabéa recebe de seu chefe. Macabéa trabalha como datilógrafa numa firma de representantes de roldanas. que. Então. LEIA QUE É IMPORTANTE. já que ela everia casar-se com um belo homem loiro e rico . egundo o narrador. o aviso de que será espedida por incompetência.que lhe daria muito luxo e amor. que possuía atrativos materiais que ele ambicionava. Por isso antes de morrer repete sem cessar:“Eu sou. onde passou a viver com mais quatro colegas na Rua o Acre. gnorava até mesmo porque se deslocara de Alagoas até o Rio de Janeiro. Olímpico de Jesus. Macabéa descobre a sua essência: “Hoje. que poderia até indicarhe o jeito de arranjar outro namorado. todas as formas de repressão cultural. encantada com a felicidade que a cartomante lhe garantira e que la já começava a sentir. or ter definido a sua existência é que Macabéa pronuncia uma frase que nenhum dos transeuntes entende: “Quanto ao uturo. talvez identificando com o apresentador a scassez de linguagem que a converte num ser totalmente inverossímil no mundo em que procura sobreviver. lhe faz confidências sobre seu assado de prostituta.. onde ela vai ser "tão grande como um cavalo morto". Madame Carlota: É a mulher de Olaria que porá as cartas do baralho para "ler a sorte"de Macabéa. o médico que a atende e diagnostica a ravidade da tuberculose e o chefe. é atropelada por um luxuoso Mercedes Benz marelo. só chega a ter consciência de si mesma. primeiro. Tem um quê de elvagem. após a morte dos pais quando tinha dois anos de idade. após constatar que a nordestina era muito infeliz. Tinha como lvo de admiração a atriz norte-americana Marilyn Monroe. Acumula em seu corpo ranzino a herança do sertão. sugere a Macabéa que vá a uma cartomante. o símbolo social inculcado pelas superproduções de Hollywood na écada de 1950. eu sou. logo ao descer a calçada para atravessar a rua. eu sou. que reluta em mandá-la embora.” (.. nascida e criada no Rio de Janeiro. que depois montou uma casa de mulheres e ganhou muito dinheiro com isso. Glória: Filha de um açougueiro.

Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. de uma coisa ela tem certeza e. a "coisa".) Pensar é um ato. este.e é claro que a história é verdadeira embora inventada .. não conhece a resposta a todas as perguntas.Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta. em contrapartida.também não faço a menor falta. a reflexão. Tanto Macabéa como a palavra são pedras brutas a serem trabalhadas.que cada um reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa do que ouro . tornando-se a nordestina. a narrativa há de ser simples. "carnudos substantivos". Assim. Assim.. ela afirma: "Tudo no mundo começou com um sim. (.. Dessa forma. trajes sujos. desencadeia-se. "adjetivos esplendorosos". ovários incapazes de reproduzir? Com ela o narrador identifica-se. a classe baixa nunca vem a mim. Se há veracidade nela . mas nunca escritora. A resistência de Macabéa pode ser representada. embora seja obrigado a usar as palavras que vos sustentam. é claro. repetidas vezes. ou seja. sua saída de dentro do narrador.vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles. que marcarão a personagem protagonista. não abre mão de suas características mais marcantes. Alguém que forçou seu nascimento.não apenas no desejo de simplicidade da linguagem despojada. sobre o processo de elaboração da escritura de sua obra: Escrevo neste instante com prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita.) Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei. ninguém a quer. lidando com uma personagem que insiste. O narrador está enjoado de literatura. A história . quando não existe. verbos "esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação". De onde. A palavra . não se pode esquecer de que quem escreve é Clarice Lispector. o "silêncio e a chuva caindo".. personagem e narrador dão seu grito de resistência em busca da vida. mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas. que. comparada a uma "cadela vadia".. . por outro lado.) Que mais? Sim. sem arte.Rodrigo S. Rodrigo S. por isso. num espaço que não os aceita. não tenho classe social. mas o homem. deve ser inventada (o narrador escritor como senhor da criação). Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome. o que faz de mim de algum modo um desonesto. Eu. o escritor torna-se um trabalhador braçal. aqui. Sentir é um fato. para poder falar de Macabéa. A classe alta me tem como um monstro esquisito. pondera o narrador.tecerá reflexões sobre a posição que o escritor ocupa na sociedade. cheia de sentidos secretos. principalmente. Aliás . o elemento acima do enredo.. adquire olheiras fundas e escuras. não faz falta a ninguém. em viver. A personagem narradora não é diferente dos outros homens. Comentando a obra Existe a necessidade constante de descobrir-se o princípio. Não usará "termos suculentos". hegamos. no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e coagular em cubos de geleia trêmula. É o grito do narrador que aparece no corpo de Macabéa: Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender. marginalizado que sou. Relato antigo. personagem protagonista de seu romance. (. ela diz "sim" a Macabéa. Clarice Lispector (aqui transfigurada no narrador Rodrigo S. deixa a barba por fazer. nos momentos em que sorri na rua para pessoas que sequer a veem. pois quem olharia para alguém com "corpo cariado". com seus dezenove anos. mesmo tendo "corpo cariado". a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la. franzino. Como contar a vida sem menti-la? Para isso. Tal fusão se dá em todos os níveis . faz-se pobre. mesmo sem saber tais respostas. (. seu papel diante dela e. por isso. pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. ela é virgem e inócua.existe a quem falte o delicado essencial. Como escreve o narrador? Verifico que escrevo de ouvido assim como aprendi inglês e francês de ouvido. todo um processo de metalinguagem. o desejo que os leitores têm da narrativa tradicional. teria de ser escritor. "numa cidade toda feita contra ela". M. continuarei a escrever. a resistência do narrador. O narrador homem . por exemplo. conforme se afirma na dedicatória.descubro eu agora . meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e chuva caindo. A linguagem deve ser despojada para ser precisa e para poder alcançar o corpo inteiro e vivo da realidade. porém.determino com falso livre arbítrio ." É preciso dizer sim para que algo comece.. M. É aqui que o narrador se funde com sua personagem: ambos são marginalizados. Um outro escritor sim. pois ele também nada fez de especial (qualquer um escreveria o que ele escreve). M. Ironizando. e até o que eu escrevo um outro escreveria. ela é uma entre tantas. na primeira parte do livro.. limitado que é. ao ponto mais importante desse trabalho de metalinguagem: a consciência do escritor como um marginalizado.). Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo. que entrecortará a narrativa até o seu desfecho. dorme pouco. na busca da palavra.

ao mesmo tempo. o que lhe dava maiores perspectivas de vida. que ela não admite a ideia de vomitar. mas porque ela sai de dentro de si. não lhe passa pela cabeça que é uma péssima profissional. Ao ver o homem. nunca discutindo a validade deles. de noite dormia de combinação. Ao mesmo tempo.. momento em que a vida se torna "um soco no estômago": Por enquanto Macabéa não passava de um vago . é atropelada por Hans. conta a si mesmo. Quando sai da casa da cartomante. gosta de cachorro-quente e Coca-Cola. Não tinha aquela coisa delicada que se chama encanto. de tanto encaixar-se num meio que tanto a repele. colega de trabalho de Macabéa. como um nascido girassol num túmulo. que dirigia um automóvel Mercedes-Benz.. torna-se personagem "torta". mais adiante. trabalhadoras das Lojas Americanas: ". Diz o narrador: "Penso no sexo de Macabéa (. A cartomante mostra-lhe a tragédia que é sua vida (coisa de que. pois era mais fácil aceitar aceitar-lhe a existência e admirá-lo a distância). a tia.. ela era café frio. ao bater na menina. semi-analfabeta.. que só sabe ser impossível. Alguém com aparência bruta. Nada nela era iridescente. Sofro por ela. O próprio emprego de datilógrafa é revelador: ela o era por acreditar que este lhe dava alguma dignidade. mesmo não entendendo o que isso significa.. Ela toda era um pouco encardida pois raramente se lavava. é sensual em seus pensamentos. apreciava os ruídos.. mas nunca entendidas). Essas sensações se intensificam quando vai à cartomante Carlota (por recomendação de Glória). quer ser deputado. desculpando-se com ele todo o tempo. no seu conceito tão particular de beleza: usava batom vermelho. pois é por meio dela que conheceremos a história da personagem. a possível felicidade. Dessa união. afinal.. Uma colega de quarto não sabia como avisar-lhe que seu cheiro era murrinhento.. há o sofrimento por não o possuir e por ter a certeza de que alguém assim é mesmo só para ser visto. pois teme as conclusões a que pode chegar (arrepende-se em Cristo por tudo. imune à vida. seus parcos conhecimentos são extraídos da Rádio Relógio (informações ouvidas. O narrador. queria ser atriz de cinema com Marylin Monroe. mas nunca procurava. por exemplo. dormia de combinação de brim. Macabéa já havia experimentado essas sensações contraditórias com outra pessoa. ou ainda quando ficou em casa . não havia tomado consciência). O prazer em Macabéa é algo que sempre se alia à dor. e ela era só ela". pois tinha medo de ofendê-la. Buscava a dignidade.. embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho de opala.. a amo. diziam que vinham do fígado. Em Alagoas chamavam-se ‘panos’. mas..) seu sexo era a única marca veemente de sua existência. Só eu. efetivamente. ou nos momentos de solidão. até o momento. pois eram vida.) Dormia de boca aberta por causa do nariz entupido. Olímpico representa o contraponto em relação a Macabéa. imanente que é a ele ("pois a datilógrafa não quer sair de meus ombros. não só pelas sucessivas identificações com a personagem. seu autor.será a mediadora entre o narrador e o leitor. Ela não se defende por seus próprios valores. Outro dado revelador é seu relacionamento com Olímpico. Seus valores em nada se relacionam aos dela: metalúrgico. ela não tem consciência de nada disso). literalmente. não se vingava porque lhe disseram que isso é "coisa infernal". ficou por isso mesmo.ao invés de ir trabalhar . Consequentemente. do estrangeiro. Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio caiada era melhor que o pardacento. Sua falta de percepção física acompanha a psicológica. chegando a dizer-lhe que não é muito gente. Datilógrafa. como se não tivesse direito a ela. apaixona-se pelo desconhecido. "o que lhe dava alguma dignidade"." De que "relação sexual" se pode falar no caso de Macabéa? Da relação com a própria vida. principalmente. por tanta aceitação. Começa com o fato de ela ser alvo fácil da sociedade consumista e da indústria cultural: gosta de colecionar anúncios. No espelho distraidamente examinou as manchas do rosto. dá-lhe a esperança de acreditar que as coisas poderiam ser diferentes.vivendo a sensação de liberdade. Mas não importava. E como não sabia. tão deglutido. a loira oxigenada. no momento em que esta lhe revela: a felicidade viria de fora. que está ligado ao prazer. afinal. que ela insiste em manter. Ninguém olhava para ela na rua.") . Só eu a vejo encantadora. como no caso da palavra "efemérides". ao contar Macabéa. engolido. o nascimento deles. vida que era morte.. O instinto de vida. que. (. os fatos e. E tudo isso é. Aceita tudo isso sem questionar. De dia usava saia e blusa. afastar-se de Macabéa e ficar com Glória. Assoava o nariz na barra da combinação. e entre o leitor e Macabéa. mas tenta adaptar-se aos valores do namorado. como quando viu o homem bonito no botequim." E ainda. fazendo-a acreditar que tal profissão indicava que "era alguém na vida" (aqui. com manchas bastante suspeitas de sangue pálido (. capaz de enojar suas quatro companheiras de quarto (na pensão onde morava). sentia prazer ao vê-la sofrer: ". vem sustentáa-la.. conhecer o incognoscível. apesar do prazer que tal visão lhe dá. o pai dela era açougueiro. isso seria um desperdício. ligando o prazer à morte: "Ela nada podia mas seu sexo exigia. nasce uma nordestina vinda de Alagoas para o Rio de Janeiro..) Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço.

sem limites. esteve sempre marcado pelo estigma da dor do emparedamento. o macio gato estraçalhando um rato sujo e qualquer. Poesias Completas. ao momento da epifania do narrador fundido à Macabéa: é a vida que grita por si mesma. Aquela relutância em ceder. .) Nesta hora exata. pois ela nascera para o abraço da morte. ao menos intuíra. Poeta capaz de realizar voos tão altos quanto os mestres franceses.então o súbito grito estertorado de uma gaivota. num momento doce. e sensual: "Então ..Qual é o peso da luz? E agora .. afinal. (. Mas . Sim. queria vomitar o que não é corpo.Nosso "Cisne Negro" foi muito influenciado pela poesia francesa . a vida come a vida.) O instante é aquele átimo de tempo em que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no chão e depois não toca mais e depois toca de novo. Eu vos pergunto: .Últimos Sonetos de Cruz e Souza comentário Cruz e Sousa não é apenas o inaugurador do Simbolismo Brasileiro. Também é preciso coragem para morrer. depois de vomitar.. descobrimos. (.e saibamos. Intuíra o instante quase dolorido e esfuziante do desmaio do amor.. O destino de uma mulher é ser mulher. Dimensiona através da musicalidade intensa . etc.mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. doloroso reflorescimento tão difícil que ela empregava nele o corpo e a outra coisa que vós chamais de alma..teve uma úmida felicidade suprema. Enfim. o que já pode ser percebido no livro em questão. etc. considerado até descendente de Baudelaire e de seu satanismo. Viveu miseravelmente tendo dois filhos mortos dos quatro que teve .há a visão transcendental em que Cruz e Sousa consegue traduzir e expressar a dor e a limitada condição na qual o ser humano se condiciona... o que o fez ansiar desesperadamente por libertação. Ou é como a pré-morte se parece com a intensa ânsia sensual? É que o rosto dela lembrava um esgar de desejo. Etc. grita. pela primeira vez. vomitar algo luminoso.marcante .a abolição da escravatura foi assinada pela princesa Isabel em 1888. (.numa época em que havia pouco respeito para com a cultura negra . silêncio para ouvir o grito da vida.) Tanto estava viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal.sentimento nos paralelepípedos sujos. Grotesca como sempre fora. muitas das sua própria. 5.. vermelha como a de Marylin Monroe.Metafisicamente projeta imagens fortes de um sentimentalismo baseado na crítica em como o mundo e as pessoas se portam ante situações como morte . No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada. uma forma de transmutar as dificuldades e asperezas da vida.) A morte dela é o momento em que Eros (Amor) se une a Tanatos (Morte). agora. O momento. (. no apogeu orgásmico da morte. enfim o âmago tocando no âmago: vitória! Sua boca. mas aquela vontade do grande abraço.Sua vida foi marcada pela incompreensão da grandeza do estilo desenvolvido por um negro . pois só agora entendia que mulher nasce mulher desde o primeiro vagido. O mestre da poesia simbolista morre aos 37 anos de tuberculose na cidade de Sítio em Minas Gerais .) Se iria morrer. Seu esforço de viver parecia uma coisa que se nunca experimentara.e vendo sua mulher enlouquecendo. que se efetivou com a publicação em 1893 de Missal e Broquéis.. entremeado com silêncio. sendo internada em hospitais psiquiátricos... não era morte pois não a quero para a moça: só um atropelamento que não significava sequer um desastre. . Meu Deus. à vida: E então .. Macabéa sente um fundo enjoo de estômago e quase vomitou. de repente a águia voraz erguendo para os altos ares a ovelha tenra.principalmente de Baudelaire .. É um dos quatro melhores simbolistas da literatura universal.. que tudo começa e acaba com um sim. Estrela de mil pontas.. Últimos Sonetos" . independente da opressão e da marginalização social. Em seu livro "Poesias Completas-Broquéis. só agora me lembrei que a gente morre. não obtendo o devido reconhecimento em vida .) E havia certa sensualidade no modo como se encolhera.e sinestesias. (. vasto espasmo.agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. agora.amor e as conveniências sociais. O que é que eu estou vendo agora é e que me assusta? Vejo que ela vomitou um pouco de sangue. na morte passava de virgem a mulher. Era uma maldita e não sabia. Sofreu perseguições racistas.Que essa fascinante e profunda poesia desse "esteta sofredor" seja um portal a um plano da grandiosa arte poética aonde possamos .ali deitada . Chegamos. da consciência a que se chega pelo ato de escrever: (. apreciar. Não. Sim. virgem que era . vida e morte. Faróis. Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada.

já que se tornou o vate do gênero humano e de seu sofrimento. em que tematizou a dor de ser negro. alentos Fulvas vitórias.. Todo esse eflúvio que por ondas passa Do Éter nas róseas e áureas correntezas... delicadezas. constelarmente puras.... trêmulas. Mesmo que teime em entendê-lo. cantando. religião. pelos versos cantem. que tenta enxergar um poeta negro rejeitando a sua cor. é uma explicação menos simplista do que uma outra. Fecundai o Mistério destes versos Com a chama ideal de todos os mistérios. Desejos. Do Sonho as mais azuis diafaneidades Que fuljam. Harmonias da Cor e do Perfume... Fundas vermelhidões de velhas chagas Em sangue. Nos turbilhões quiméricos do Sonho. Formas claras De luares. de difícil compreensão. radiantes .. pátria são questões insignificantes agora. não irá conseguir muito. mórbidos. Sua grandiosidade já se vê presente no primeiro poema. Inefáveis. doentios. transcrito abaixo. Essa é a fase inaugurada com Broquéis. escorrendo em rios.Esse desejo torna inteligível sua obsessão por imagens brancas.. Dormências de volúpicos venenos Sutis e suaves.... por meio de poemas sob a influência do Castro Alves abolicionista.. Horas do Ocaso. que há nele. o leitor deve deixar de lado qualquer tentativa de entendê-lo e apenas liberar o inconsciente – exatamente o grande postulado dos simbolistas.. soluçantes.. mádidas frescuras E dolências de lírios e de rosas .. aéreos.. triunfamentos acres. ou seja. como é chamado. por isso se liberta da fronteira da pele e sente uma dor mais ampla: a de ser Homem. Tudo! vivo e nervoso e quente e forte. De Virgens e de Santas vaporosas. Que brilhe a correção dos alabastros Sonoramente. Acreditar nesta tese é esquecer a primeira das três fases de sua obra. busca sempre as alturas. Passe. que na Estrofe se levantem E as emoções. Para fluir esse grandioso poema. Cristais diluídos de clarões alacres. Raça. graça De carnes de mulher. Indefiníveis músicas supremas. mais antiga.. salmos e cânticos serenos. ânsias. Mas o Cisne Negro. extremas. brancas. de neblinas! Ó Formas vagas. Que o pólen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflame a rima clara e ardente. Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume. todas as castidades Da alma do Verso. no mínimo. fluidas. Infinitos espíritos dispersos.. vibrações. tantálicos. Os mais estranhos estremecimentos. Brilhos errantes. luminosamente. tal a profusão de imagens herméticas.. cristalinas.. Forças originais.. abertas.. ANTÍFONA Ó Formas alvas. de neves. essência.. edênicos. ante o perfil medonho E o tropel cabalístico da Morte. Surdinas de órgãos flébeis.... Incensos dos turíbulos das aras Formas do Amor. Visões. . Flores negras do tédio e flores vagas De amores vãos.

de /c/. e ao qual respondem alternadamente duas metades do coro) e por vários vocábulos como “santa”. o espasmo gélido. carnes acerbas e maravilhosas. “claras”. Mais marcante do que esse soneto.. através dos profundos pesadelos que me apunhalam de mortais horrores. antes e depois de um salmo. uma invocação. Da tua carne báquica rebenta A vermelha explosão de um sangue vivo.. O título desse soneto. “alvas”. na primeira estrofe. Nesse lábio mordente e convulsivo. O mais incrível é que essa religiosidade acaba-se misturando a imagens eróticas como “volúpicos venenos”. informando que. portanto. sangrenta. ainda que vaga. Passai. tudo formando um conjunto de elementos a sugerir o orgasmo explodindo pela pele da amada. um manifesto simbolista ou até mesmo uma profissão de fé da escola. dilaceradas pelos zelos. descobriremos uma mistura entre amor e dor. virgens e tépidas do Oriente do Sonho e das Estrelas fabulosas. /t/. /l/. já que se assume aqui o típico tom impreciso. “aras”.. “virgem”.. tornando-a maligna. vago dos simbolistas. tanto na aliteração do /s/ quanto no predomínio de inúmeras palavras cujas sílabas tônicas tenham vogais extensas (“formas”. tinhorão lascivo. trágico e triste. pois. Mas o que vale notar é a musicalidade expressiva. desfeitas em tormentos. . sofrimento. ”carnes de mulher”. em lágrimas. tentadoras do sol intensamente. deve-se explicar que Lésbia é mulher que se entrega aos prazeres carnais.. portanto. Rir.. A morte. também visto no poema abaixo. no clímax sexual. Note. tropical. todos alongam vogais). dolente. hindu... budista. em lamentos em ais. LÉSBIA Cróton selvagem. somada às imagens ligadas ao vermelho (a associação de cores e vogais a ideias era o que os simbolistas chamavam de Lei das Correspondências). Passai. reforçando o clima do poema anunciado pelo título (antífona é um curto versículo recitado ou cantado pelo celebrante. ó volúpias letais e dolorosas. Dos teus seios acídulos. em luto. No entanto. é o exemplo a seguir. /b/. lenta. “incensos”. “réquiem”.O máximo que se obterá será entender “Antífona” como uma invocação a formas para que fecundem o mistério dos versos do poeta. Note que ele faz. no campo amoroso. Há a recriação de um canto religioso (católico. passai. Os ópios de um luar tuberculoso. carnívora. “luares”). Estaria o poeta expressando seus impulsos sádicos? Ou estaria relatando a perda da virgindade? Difícil descobrir. em convulsões. essências de heliotropos e de rosas de essência morna. vê na parceira o Amor e a Morte (Eros e Tanatos). a carnes que amou “sangrentamente”. Esse soneto é um belo e típico exemplo do erotismo maldito de Cruz e Sousa. para depois chamá-la de serpente demoníaca e ainda dizer que seus seios exalam “capros aromas”. a aliteração. na primeira estrofe. Carnes. tanto faz. Lésbia nervosa. Cruel e demoníaca serpente Das flamejantes atrações do gozo.. DILACERAÇÕES Ó carnes que eu amei sangrentamente. ri risadas de expressão violenta O Amor. em prantos. É. já anuncia o erotismo maldito que se verá. /p/... Antes de tudo. Fluem capros aromas e os tetargos. amargos. Planta mortal. fascinante e doente. Se unirmos essa ideia ao título do poema e aos sinônimos em gradação da última estrofe.. É o lado maldito de Cruz e Sousa manifestando-se. e passa. “turíbulos”. o que é aludido também no verso 5. aflitivo. o eu-lírico não perde o fôlego e continua seu espetáculo escandaloso. em dores.

atingindo sua melhor fase. em que expressa a dor de ser alma.e sinestesias.amor e as conveniências sociais. Sofreu perseguições racistas. no caso demoníaca. Chegam-lhe-lhe perto um Augusto dos Anjos ou então um Antero de Quental.numa época em que havia pouco respeito para com a cultura negra . não obtendo o devido reconhecimento em vida .e vendo sua mulher enlouquecendo. transfigurada. Representativo é o poema abaixo: SORRISO INTERIOR O ser que é ser e que jamais vacila Nas guerras imortais entra sem susto. sendo internada em hospitais psiquiátricos.sem limites. Missal e Broquéis. No fundo. Enfim. Últimos Sonetos" ... a amada do eu-lírico é mais uma entidade. Viveu miseravelmente tendo dois filhos mortos dos quatro que teve . o que obrigou a um certo estranhamento quanto a Missal. sua alma está preparada para o grande voo. Missal e Broquéis só não passaram despercebidas. Está. No entanto..Sua vida foi marcada pela incompreensão da grandeza do estilo desenvolvido por um negro . Merece. poucos ou quase ninguém havia lido Charles Baudelaire. Faróis. por dentro. animal que na mitologia cristã representa o demônio. uma forma de transmutar as dificuldades e asperezas da vida. há um sorriso. Enquanto tudo em derredor oscila. do que uma mulher real.marcante .principalmente de Baudelaire . Fica sereno. Veja como nele parece haver a ideia não só de que o sofrimento é necessário para o engrandecimento do ser. mas também a de que o poeta suplantou tudo. Em seu livro "Poesias Completas-Broquéis. Cabe lembrar que a poesia brasileira praticamente desconhecia a prosa entre suas publicações. E para ironizar as próprias dores Canta por entre as águas do Dilúvio! Note o tom semelhante que se estabelece entre ele e Antero de Quental e Augusto dos Anjos: o eu-lírico ao mesmo tempo particular e universal.Que essa fascinante e profunda poesia desse "esteta sofredor" seja um portal a um plano da grandiosa arte poética aonde possamos . Assim. Os abismos carnais da triste argila Ele os vence sem ânsias e sem custo.Lembre-se de que “capros” é adjetivo que faz referência a bode.. de Cruz e Souza Análise da obra A publicação das obras Missal e Broquéis em 1893. assim. o seu fazer literário envereda-se para questões bem mais amplas. e pareceu chocar os leitores acostumados com a poesia parnasiana.Nosso "Cisne Negro" foi muito influenciado pela poesia francesa . por força de uma pequena parte da crítica e de um público ainda mais restrito. O sofrimento é apenas externo. Foi atacado por José Veríssimo e exaltado por Sílvio Romero. Esse esplendor. portanto.há a visão transcendental em que Cruz e Sousa consegue traduzir e expressar a dor e a limitada condição na qual o ser humano se condiciona. O mestre da poesia simbolista morre aos 37 anos de tuberculose na cidade de Sítio em Minas Gerais . esse poema é uma joia rara de nossa literatura. nitidamente . todo esse largo eflúvio. um procedimento muito comum em Cruz e Sousa. Dimensiona através da musicalidade intensa . Aliás.e saibamos. liberto. que parece ter sido transformada. o máximo respeito no quadro de nossos literatos. apreciar.. Mesmo Broquéis recebeu do público e da crítica opiniões divergentes. de carne e osso. muitas das sua própria. parece não haver mais dor. O mérito só veio com o tempo e com o reconhecimento da genialidade de seu autor. Sofrer é evoluir. encontrando ecos raros em nossa língua. O ser que é ser transforma tudo em flores. aliás um dos iniciadores do Simbolismo. da grande fé tranquila.a abolição da escravatura foi assinada pela princesa Isabel em 1888. expressando a dor humana de forma grandiosa e sinfônica. Cruz e Sousa produz poesia do mais alto nível. Ondas interiores de grandeza Dão-lhe esta glória em frente à Natureza. num sorriso justo.. Em suma.Metafisicamente projeta imagens fortes de um sentimentalismo baseado na crítica em como o mundo e as pessoas se portam ante situações como morte . Leva consigo este brasão augusto Do grande amor. marca o início do Simbolismo no Brasil. enquanto obras.

pelos majestosos cerimoniais da basílica celeste a que tu presides.. Ainda que não nos caiba julgar os motivos que levaram à adoção de Missal..Os Cânticos No templo branco.. se eternize através das forças firmes. Texto 1 .... não nos parece coerente essa decisão dos examinadores que.. e deixe lá fora....... múltiplas e repetidas........ que os mármores augustos e as cinzeluras douradas esmaltam e solenizam com resplandecência..... E interessante destacar que essa invocação do sol tem a força de uma oração ou pedido para realizar seus poemas sem a interferência daqueles que detêm o poder sobre o mundo dos homens e das artes. se compararmos com os textos do grande mestre francês...dominadora naquele momento.. “O mesmo ocorre no poema de abertura de Broquéis. Alguns textos comentados de Missal Os poemas de Missal são escritos em prosa. pagão. .. suavíssimas vozes cantam... Permite que um instante repouse na calma das Idéias. Antífona”...... rei astral. dentre a profusão suntuosa das luzes.. no rumor do mundo... despertam um psiquismo intenso. a Fecundidade! Luminoso sangue original que alimentas o pulmão da Terra... nos versos de Broquéis.. mais frutos da paixão do que da inspiração irmanada.. deus dos sidéreos Azuis.. não consegue atingir a sublimidade e a alquimia verbal de suas realizações posteriores.. A multiplicidade de imagens e de sonoridades gera uma explosão sensorial no leitor... cantantes. o tropel infernal dos homens ferozmente rugindo e bramando sob a cerrada metralha acesa das formidandas paixões sangrentas.. são raros os momentos de genialidade dessa obra. E as vozes sobem claras. de fundamental importância para a poética simbolista...... tende a afastá-los ainda mais desse grande poeta que é Cruz e Sousa... Os poemas de Cruz e Sousa abandonam o significado explícito e lógico para buscar a ilogicidade e a sugestão vaga.. O Simbolismo ainda é algo latente nessas realizações.. o Seio virgem da Natureza! Lá do alto zimbório catedralesco de onde refulges e triunfas..... Comentários: Esse longo poema em prosa representa uma espécie de ‘profissão de fé’ dentro da obra de Cruz e Sousa... Texto 2 . já que estabelece muitíssimo bem sua intenção simbolista............ suba e penetre os etéreos paços esplendorosos e lá para sempre vibre... Vale mais como registro do que realmente como referência do Simbolismo no Brasil. As imagens... concentre cultualmente o Espírito. o brilho e os rasgos da impetuosidade baudelairiana a Cruz e Sousa nesses poemas. regras.... num som álacre...... cantar as águas! Sol imortal.... aliás. ao contrário de atrair os jovens leitores. .... indiscutivelmente.... conduzindo-o a um estado de espanto geral e de choque diante do inusitado.. Ó radiante orientalista do firmamento! Supremo artista grego das formas indeléveis e prefulgentes da Luz! pelo exotismo asiático desses deslumbramentos. Coros edênicos inefavelmente desprendem-se de gargantas límpidas... Por ser ainda a primeira obra de Cruz e Sousa na linha simbolista.. como no recolhido silêncio de igrejas góticas. esmaltado no marfim ebúrneo das iluminuras do Pensamento.. que simbolizas a Vida. Essa força só poderá ser melhor admirada. que fazes cantar de luz os prados verdes.... não atingindo o grau de musicalidade.. luminosas como astros.... em finas pratas de som.... de clarim proclamador e guerreiro... Falta. que parecem dar ainda mais brancura e sonoridade à vastidão do templo sonoro..... O mesmo ocorre na epígrafe de Baudelaire utilizada em Broquéis.. Essas influências são ainda tênues. que esta Oração vá. ouve esta Oração que te consagro neste branco Missal da excelsa Religião da Arte..... cantante..Oração ao Sol Sol.. Essa fusão de abstrações cria o sensorialismo simbolista e faz brotar a novidade. plasticidade e sugestão desejadas. sem dúvida..... Mesmo que saibamos da influência da poesia em prosa de Charles Baudelaire sobre Cruz e Sousa. aparentemente inconciliáveis.

Comentários: Apesar de empregar o misticismo e algumas palavras do vocabulário simbolista. o amor é platonizado. imagens cósmicas e uma musicalidade etérea. até mesmo pelo rigor descritivo e pela economia de figuras. ciliciando. variando-se o esquema de rimas. Alda e Lembranças Apagadas. E. ricamente trabalhado) em rubim. quase impuras. . Nesses poemas há predominância do branco. Deusa Serena. dos perturbadores incensos. Sonata. das egrégias músicas sacras. Sua influência. Sentimentos Carnais e Serpente de Cabelos. mais viso. abstrata. Tuberculosa. emudecem diante dos Cânticos. que despertam. ganhando dimensão mais etérea e abstrata. as imagens de sensualidade perdem algumas vezes o caráter vago da poesia simbolista para aproximarem-se mais do Expressionismo. Flor do Mar. Em Cruz e Sousa. da opulência festiva dos paramentos dos altares e dos sacerdotes. Supremo Desejo e Tortura Eterna. Nesses poemas há a tematização do ato poético ou da condição do poeta.Cristos aristocráticos de marfim lavrado. mais luminoso e vermelho fulge ao clarão das velas. Retratos extravagantes Satã. musical. Velhas Tristezas. Os versos são decassílabos rimados. Metalinguagem Antífona. Monja. O seu sangue delicado. da grande exaltação de amor que se desprende das vozes em fios sutilíssimos de voluptuosa harmonia. entretanto. através da volúpia das sedas e damascos pesados que ornamentam o templo. Esboços de atmosfera vaga: Em Sonhos. cuja composição é nitidamente simbolista. Música Misteriosa. sendo 47 sonetos. é Baulelaire. A exceção fica por conta de “Tuberculosa”.a volúpia branca dos Cânticos. Os tons bruscos e rudes do erotismo sensual desvanecem-se. Sonho Branco. Tulipa Real. atingindo luminosidades e retomando os matizes variados do branco. traços de anormalidade ou extravagância são acentuados. Afra. sobem. Dir-se-ia que esse rubim de sangue palpita. todas as virgindades da Carne. Primeira Comunhão. Erotismo sensual Lésbia. Vesperal. Em certos momentos. Incensos e Luz Dolorosa. Ângelus. Esses poemas mostram imagens algumas vezes radicalmente fortes. Encarnação. Clamando. Com isso. Rebelado e Majestade Caída. o texto mostra nítida inspiração parnasiana. enquanto que as vozes se elevam. num veemente desejo. Os demais denotam influência parnasiana. Cristais. Nesses poemas. Braços. Dança do Ventre. devido mesmo a certas deformações e acumulações metafóricas. violentas rajadas de sons perpassam convulsamente nos violoncelos. das luzes adormentadoras. Regenerada. Torre de Ouro. busca-se valorizar as intenções da poesia simbolista: vaga. Dilacerações. Erotismo espiritual Canção da Formosura. Beleza Morta. principalmente por sua construção de imagens mais precisas e detalhadas. sente-se impressionativamente pairar em tudo a volúpia maior . Lua. Siderações. Carnal e Místico. sentimo-nos diante de um poema de construção clássica. Estrutura de Broquéis Broquéis apresenta 54 poemas. Post Mortem. numa intenção de nudez. maculadas quase. Judia. Múmia. Em todos eles. Fortes. aceso mais intensamente no colorido rubro pele luxúria dos Cânticos. sensorial. Sonhador. como fidalgos e desfalecidos príncipes medievos apaixonados. de natureza física. Foederis Arca. o erotismo é algo densamente carnal. Sinfonias do Ocaso. Lubricidade.

surge com o emprego dos versos harmônicos. Análise de Broquéis Primeiramente. “de luares”. Esse esquema de construção predomina em Broquéis. “fluidas”. do que estará o poeta falando? De nada. Devemos notar que ele emprega rimas ricas. chegando. tinhorão lascivo. mas que mantêm uma cadência sonora. Noiva da Agonia. Planta mortal. brancas. quimera. “brancas”. No caso. devemos levar em conta que Cruz e Sousa foi chamado pelo crítico Tristão de Ataíde de “poeta solar”. carnívora. Visão da Morte e Aparição. adjetivo e substantivo. “de neves”. em certos momentos. muito utilizada no Simbolismo. que brota da influência clássica do Parnasianismo e que não foi abandonada por Cruz e Sousa quanto aos aspectos formais do poema. tinidas. Aproveitaremos os mesmos versos para falarmos da musicalidade. encontramos uma predominância do erotismo sobre o platonismo. A segunda nasce do emprego de uma figura de construção. de palavras isoladas que vibram sem conexão sintática”. noite. de neves... Ó Formas vagas. que povoa a poesia de Cruz e Sousa. Cada expressão ou palavra parece vibrar e ganhar sentido no termo seguinte. Cruz e Sousa deixou patente sua obsessão por essa cor. Formas claras” A terceira.o emprego das rimas (esquema ABBA). a sugestão absoluta do branco. ou seja. Em vários momentos a imagem de pureza da mulher não consegue evitar que o eu-lírico extrapole seus idealismos e exponha seus desejos carnais. A musicalidade desses versos nasce de três decorrências: A primeira é aparente . Já transparece aqui outro recurso predominante na poética desse simbolista. Formas claras De luares. à imprecisão completa. O amor e a morte são evidentes heranças românticas. sonho. Deixa ainda mais patente a busca do vago em: “formas vagas”. Os dois poemas mostram tendência parnasiana. o que em nada perturba o seu virtuosismo sonoro. Usando e abusando de substantivos e adjetivos que denotam a presença quase constante do branco em todos os seus matizes. emprega redundantemente expressões e palavras que sugerem clareza: “alvas”. cristalinas. entre o segundo e terceiro versos. Esse grupo de poemas traduz claramente o misticismo simbolista. Outros temas representam verdadeira obsessão em Cruz e Sousa e. no caso a vogal “a”. por consequência em Broquéis: amor. encontrou em Lésbia.. Regina Coeli. por causa da predominância do branco e de claridades em seus poemas. Entretanto. vasos utilizados nas celebrações para se queimar incenso e os próprios altares dessas liturgias. já que sua intenção é justamente criar o inusitado. “de neblinas”.. “Incensos”. Essa era a pretensão do Simbolismo enquanto estética: chegar ao vago absoluto. fantasia. e substantivo e adjetivo. já que o Simbolismo representa uma retomada do “mal do século”. música. lírio. mulher. Símbolo maior desse erotismo. que parecem se unir numa densa imagem ilógica. como podemos perceber no primeiro verso: “Ó Formas alvas. Para tanto. “cristalinas”. a assonância. abstrata. criando uma densa melodia. Os versos que compõem a estrofe não apresentam verbos. “claras”. são frases nominais. sua representação máxima: “Cróton selvagem. bem menos evidente que as demais. que consiste na repetição da vogal. que é o emprego de vocabulário das liturgias religiosas: “turíbulos” e “aras”. Os versos abaixo. sangrenta. que abrem o livro. Alegorias pessimistas A Dor e Acrobata da Dor. são um bom exemplo disso: "Ó Formas alvas. entre o primeiro e o quarto versos. que consistiriam num processo de justaposição cumulativa de imagens e “de sons simultâneos. . brancas.. de neblinas!. outra característica simbolista. Incensos dos turíbulos das aras. O segundo emprega “sintaxe meio clássica” e talvez seja a composição mais parnasiana de Broquéis.. morte." (Antífona) Afinal.Visões místicas Cristo de Bronze. crepúsculo. a tornar evidente para os leitores a sugestão de vazio.

. Mesmo o elemento mundano sofre profunda transformação. luminosamente.” (Monja) “E ondulam névoas. de joelhos. A alma do poeta parece repleta de uma mística que segue o ritual de suas imagens.” Toda essa inventividade linguística gerou um certo espanto no público da época e ainda vem arrancando exclamações dos leitores incrédulos diante dessa polifonia simbolista.. ou seja. Lactescências das raras lactescências.” (Música Misteriosa) Em diversos poemas. sendo algumas vezes representada pela feminilidade da lua. quase sempre aéreas. cetinosas rendas De virginais.Da tua carne báquica rebenta A vermelha explosão de um sangue vivo. brancas opulências. a mulher é vista como um ser carnal e corpóreo.” Nem sempre. tantas vezes repetido. Tomamos como exemplo uma estrofe de Antífona que é uma espécie de profissão de fé do Simbolismo: “Que o pólen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflame a rima clara e ardente.(Lua) Essa tendência para a personificação ou prosopopeia aparece também em vários outros poemas. Fria. parece continuar em outro.. Cantam Sonhos de místicos templários. Cânticos vagos. fúlgidas brancuras. refletindo os acordes de um hino religioso. Dentre os nevoeiros do luar tinindo. que se apresenta numa intensidade quase dominante na maior parte dos poemas. Outra característica de Broquéis é o emprego da sinédoque. pelos trêmulos velários... porém. é do espanto que nascem a genialidade e a criatividade e é de tudo isso que germina a poesia etérea e misteriosa de Cruz e Sousa. o discurso poético voltado ao seu próprio fazer. Vagam aladas e visões e lendas No flórido noivado das Alturas. Parece que abres para mim os braços. como num ladainha que vai ganhando intensidade e novas cores. . voláteis. estejamos certos de que é do novo que brota a modernidade. por exemplo: “Então. Que brilhe a correção dos alabastro Sonoramente. Brumais brancuras. diluentes Dos Astros.. de um poema... ganhando leveza e brilho. virginais alvuras.. “Pelos raios fluídicos.. aéreos Fluir parecem dos Azuis etéreos. De ermitões e de ascetas reverentes. Uma misteriosa música parece dominar os sentidos.” (Braços) Outro elemento importante em toda a obra é o misticismo. Mas. trêmula. Alvuras castas. são compassos de uma mesma música que vai conduzindo o leitor pelo universo mais íntimo do artista.. Esse processo reiterativo é enfim um recurso formal que possibilita o entendimento de Broquéis. Por isso os poemas assemelham-se tanto. infinitos. rezando.. já que o poeta utiliza partes do corpo humano para representá-lo inteiro: “Braços nervosos. encontramos a presença da metalinguagem. Mesmo o vocabulário. tantas vezes repetido denota que o acorde de um verso. ó Monja branca dos espaços. de prónubas alvuras.

. doentios. cantando.. pelos versos cantem. de neves. Tudo! vivo e nervoso e quente e forte. Fundas vermelhidões de velhas chagas Em sangue. ânsias. Do Sonho as mais azuis diafaneidades Que fuljam. ante o perfil medonho .. graça De carnes de mulher....Alguns textos comentados de Broquéis Antífona Ó Formas alvas. trêmulas. mádidas frescuras E dolências de lírios e de rosas .. delicadezas. Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume.. soluçantes.. Inefáveis. Indefiníveis músicas supremas. De Virgens e de Santas vaporosas.. cristalinas. Flores negras do tédio e flores vagas De amores vãos.. Desejos. Nos turbilhões quiméricos do Sonho.. Que o pólen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflame a rima clara e ardente.. edênicos. Harmonias da Cor e do Perfume. abertas.. alentos Fulvas vitórias. Surdinas de órgãos flébeis. Formas claras De luares.. escorrendo em rios. salmos e cânticos serenos. extremas. Que brilhe a correção dos alabastros Sonoramente. luminosamente.. constelarmante puras.. mórbidos. Dormências de volúpicos venenos Sutis e suaves. Visões. Forças originais. Horas do Ocaso. triunfamentos acres... Os mais estranhos estremecimentos. que na Estrofe se levantem E as emoções. Incensos dos turíbulos das aras Formas do Amor. essência. brancas. fluidas... aéreos. Infinitos espíritos dispersos. radiantes .. Passe. de neblinas! Ó Formas vagas. Todo esse eflúvio que por ondas passa Do Éter nas róseas e áureas correntezas. Cristais diluídos de clarões alacres. tantálicos. todas as castidades Da alma do Verso. vibrações... Brilhos errantes.. Fecundai o Mistério destes versos Com a chama ideal de todos os mistérios..

2. 2. evocá-lo sem descrevê-lo. enfatizando a intuição e a imaginação. assonâncias. principalmente as de conteúdo. litúrgicas. não verso a verso. esotérica. de verbos terminados em “izar”. emprego acentuado de palavras raras. ao mesmo tempo desejo sexual e sentimento místico. nebulosa. da qual foi um dos melhores intérpretes no mundo. Geralmente. esotéricas. Anuncia a dissolução das formas exteriores dos objetos. como aliterações. tais como o abrandamento métrico e rítmico. Especificamente.. de substantivos terminados em “essência”. enche seus poemas de visões. 3. Qual o significado de "Antífona" no poema de Cruz e Souza? E o que o poema em si quer dizer? Antífona é um versículo que se diz antes do texto completo de uma oração e depois é repetido durante a mesma. o amor. de muitas maiúsculas e reticências. ânsias indefinidas em relação a algo superior. onomatopeias. Na poesia de Cruz e Sousa significa exatamente isso: um poema que serve de introdução abreviada do que vai dizer por extenso em todos os outros poemas. de substantivos abstratos no plural. de músicas indefiníveis. atingindo até o nível do inconsciente. através da musicalidade. Temas mais comuns: a morte. de surdinas dos órgãos.E o tropel cabalístico da Morte. configurado por uma expressão muito vaga. Apesar de os simbolistas adotarem o soneto parnasiano. de neologismos. e de figuras de linguagem como a repetição. de 8 sílabas). misteriosa. a substituição das rimas ricas pelas rimas pobres e raras. de ânsias. o poema Antífona é o primeiro de "Broquéis". a metáfora e. 3. Características formais: 1. principalmente. abusaram de liberdades e de exotismos poéticos. impressão em cores. É só conferir com as características. de dormências de venenos voluptuosos. evocada por uma linguagem cheia de recursos fônicos. a sinestesia. mística. alargada em seu significado pela ligação praticada entre as vogais. ecos. Características de conteúdo: 1. também indefinido. de mistérios.. sugerir o objeto. as cores e os sentimentos. o poema tem sentido em seu conjunto. A musicalidade. o uso de versos bárbaros (= mais de 12 sílabas poéticas) ou inusuais (versos livres. diluindo-as na neblina dos sonhos. místicas. homofonias. . repetindo a ideia inicial. das sinestesias e dos símbolos. da poesia simbolista.Extremo subjetivismo. de muitos substantivos e adjetivos. .

. O caráter abstrato é obtido pelo emprego da visão (emprego de cores e luminosidades). Galgando azuis e siderais noivados De nuvens brancas a amplidão vestindo. que procura construir através do cruzamento de sensações (sinestesias) imagens sugestivas do céu.. audição (sons de instrumentos e cânticos) e olfato (aroma do incenso). já que há uma verdadeira exaltação à forma e à função da palavra. a musicalidade. Texto 2 . O título significa um versículo recitado antes de um salmo. verdadeiro texto-programa das intenções de Cruz e Sousa.. sugerido na primeira estrofe em todos os seus matizes. Comentários: O soneto em versos decassílabos representa bem o caráter vago da poesia de Cruz e Sousa. dolente. tais como o absolutamente vago.Siderações Para as Estrelas de cristais gelados As ânsias e os desejos vão subindo. carnes acerbas e maravilhosas... Ondas nevoentas de Visões levanta. o misticismo. como um todo. O "poeta solar" já deixa também evidente sua predileção exagerada pelo branco. o que por si só já traduz o misticismo do autor. Estão ainda presentes a sinestesia. ó volúpias letais e dolorosas. tropical. cítaras ferindo.. essências de heliotropos e de rosas de essência morna... Outro poema DILACERAÇÕES Ó carnes que eu amei sangrentamente.. Passai. Dos etéreos turíbulos de neve Claro incenso aromal. virgens e tépidas do Oriente do Sonho e das Estrelas fabulosas. a evasão e o pessimismo. As asas de ouro finamente abrindo. É interessante notarmos que o ritmo do poema é lento. Está também presente a metalinguagem.. das vestes nos troféus prateados. .. Num cortejo de cânticos alados Os arcanjos. acompanhando uma espécie de bailado em forma ascendente até soltar-se completamente no último verso.. Passam. A predominância de frases nominais sugere a presença dos versos harmônicos. Carnes.O poema em versos decassílabos dispostos em quadras (ou quartetos) é uma espécie de "profissão de fé" da poesia simbolista. as aliterações e as assonâncias. O poema. dilaceradas pelos zelos. já que o primeiro verbo só aparecerá no final da terceira estrofe. segue a proposta de Verlaine de apenas sugerir e nunca nomear os objetos. tentadoras do sol intensamente. E as ânsias e os desejos infinitos Vão com os arcanjos formulando ritos Da eternidade que nos Astros canta. límpido e leve. Nele encontramos os objetivos da poética decadentista.

. Cruz e Sousa produz poesia do mais alto nível. amargos. Aliás. O título desse soneto.. vago dos simbolistas. No entanto. no campo amoroso. passai. fascinante e doente. em luto. portanto.através dos profundos pesadelos que me apunhalam de mortais horrores. a carnes que amou “sangrentamente”. no clímax sexual. o eu-lírico não perde o fôlego e continua seu espetáculo escandaloso. aflitivo. Os ópios de um luar tuberculoso. um procedimento muito comum em Cruz e Sousa. “Sorriso Interior”. carnívora. Note. Cruel e demoníaca serpente Das flamejantes atrações do gozo. Merece. Passai. informando que. Antes de mais nada. LÉSBIA Cróton selvagem. em convulsões. em prantos. somada às imagens ligadas ao vermelho (a associação de cores e vogais a ideias era o que os simbolistas chamavam de Lei das Correspondências). a aliteração. já que se assume aqui o típico tom impreciso. pois. Estaria o poeta expressando seus impulsos sádicos? Ou estaria relatando a perda da virgindade? Difícil descobrir. lenta. de /c/. na primeira estrofe. trágico e triste. deve-se explicar que Lésbia é mulher que se entrega aos prazeres carnais. Dos teus seios acídulos. já anuncia o erotismo maldito que se verá. Chega-lhe perto um Augusto dos Anjos ou então um Antero de Quental. descobriremos uma mistura entre amor e dor. em lamentos em ais. na primeira estrofe. portanto. o espasmo gélido. Da tua carne báquica rebenta A vermelha explosão de um sangue vivo. para depois chamá-la de serpente demoníaca e ainda dizer que seus seios exalam “capros aromas”. ainda que vaga.. expressando a dor humana de forma grandiosa e sinfônica. Outro importante. sangrenta. o máximo respeito no quadro de nossos literatos. publicado em Últimos Sonetos (1897): O ser que é ser e que jamais vacila Nas guerras imortais entra sem susto. do que uma mulher real. tinhorão lascivo. /p/.. uma invocação. tudo formando um conjunto de elementos a sugerir o orgasmo explodindo pela pele da amada.. e passa. Enfim. de Cruz e Souza. no caso demoníaca.. a amada do eu-lírico é mais uma entidade. em lágrimas. Assim. .. animal que na mitologia cristã representa o demônio. /l/. é o exemplo a seguir. Planta mortal. Lembre-se de que “capros” é adjetivo que faz referência a bode. Lésbia nervosa. em dores. tornando-a maligna. Mais marcante do que esse soneto. Note que ele faz. Rir. /t/. sofrimento. Fluem capros aromas e os tetargos. Nesse lábio mordente e convulsivo. /b/. desfeitas em tormentos. vê na parceira o Amor e a Morte (Eros e Tanatos).. de carne e osso. ri risadas de expressão violenta O Amor. Esse soneto é um belo e típico exemplo do erotismo maldito de Cruz e Sousa... o que é aludido também no verso 5. esse poema é uma joia rara de nossa literatura.. encontrando ecos raros em nossa língua. A morte. Se unirmos essa idéia ao título do poema e aos sinônimos em gradação da última estrofe. Em suma.

. clown. num sorriso justo.. todo esse largo eflúvio.. que desengonçado. Na análise. tristíssimo palhaço. QUE É MUITO LEGAL. ri. Nervoso. Agita os guizos e convulsionado Salta. Fica sereno. sua temática... ambos de grande repercussão no meio literário brasileiro em virtude de sua beleza e das profundas simbologias utilizadas pelo poeta em sua composição. sanguinolenta. ANÁLISE: “ACROBATA DA DOR” .. serão identificadas as características simbolistas em cada um dos poemas. num riso absurdo. gavroche. Ondas interiores de grandeza Dão-lhe essa glória frente à Natureza. da nobre fé tranqüila. Como um palhaço. ANÁLISE DE POEMAS SIMBOLISTAS DE CRUZ E SOUSA Análise de dois poemas do poeta simbolista Cruz e Sousa... num riso de tormenta.. inflado De uma ironia e de uma dor violenta Da gargalhada atroz.. sendo respectivamente: "Acrobata da Dor" e "Cavador do Infinito". E embora caias sobre o chão. O ser que é ser transforma tudo em flores.! Coração.. entre outros aspectos relevantes à sua compreensão e referentes à interpretação pessoal da poética simbolista. Esse esplendor. Pedem-te bis e um bis não se despreza! Vamos! retesa os músculos. os recursos utilizados pelo poeta. sem ânsias e sem custo.. varado Pelo estertor dessa agonia lenta. Os abismos carnais da triste argila Ele os vence. fremente Afogado em teu sangue estuoso e quente Ri. POEMA 1: ACROBATA DA DOR (Cruz e Sousa) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 Gargalha. E para ironizar as próprias dores Canta por entre as águas do Dilúvio! AINDA VEJA. retesa Nessas macabras piruetas d`aço. Enquanto tudo em derredor oscila. as figuras de linguagem presentes.. ri. salta.Leva consigo esse brasão augusto Do grande amor.

sanguinolenta. (versos 5 e 6 ) e ainda: “. o “eu-lírico” explicita algumas atitudes artísticas do palhaço: “Da gargalhada atroz. “palhaço” (Vallandro. sanguinolenta. o que caracteriza um hipérbato.e convulsionado/ Salta. e “clown”. no sentido conotativo. um posicionamento de ânimo e alegria. Ao iniciar a leitura do poema. gavroche. tais antíteses enfatizam este contexto sugerido pelo “eu-lírico” e são empregados em todo o poema. Além disso. salta. que vem carregado de termos pessimistas e tristes: o palhaço está varado “pelo estertor dessa agonia lenta”. artista. “nervoso” (verso 3). o título imediatamente desperta a atenção do leitor: quem seria este “Acrobata da Dor”? Nota-se. inflado de uma ironia e de uma dor violenta” (versos 3 e 4) evocam a essa capacidade do artista de mascarar seus sentimentos de dor para transmitir a alegria. revelado ao fim da leitura. salta../ Agita os guizos. . Nota-se que estes versos são dispostos com inversão da ordem direta. que vai inserindo o leitor neste universo poético repleto de imagens e sensações. Ainda na 2ª estrofe. Assim.. assim como o palhaço. na intimidade do seu ser.” revela mais uma sugestão do “eu-lírico”: mostrar alegria..blogspot.jpg Em primeiro lugar. quanto o seu riso: “riso absurdo. Nesse quarteto. clown. O poema se inicia com dois verbos no imperativo: “Gargalha. ou seja.http://3.” A 2ª estrofe mostra-se uma continuidade da comparação feita no verso 2. uma apresentação instigante da temática. o predomínio da sugestão sobre a nominação.com/_EMfvtZWWWSE/R1Effyuo6sI/AAAAAAAAACc/ 2tq3lW8DjMc/s1600-R/clown-closeup-new.. desde já. que “agita os guizos” de suas gargalhadas. sendo sugerido metaforicamente em todo o poema.. clown”... proveniente do inglês.. enfatizando o aspecto artístico do mesmo. motivo pelo qual o “Acrobata da Dor” só é revelado diretamente ao final do soneto. 1961:169). pode-se dizer que o poema “Acrobata da Dor”. revelando assim que este mesmo artista que “salta”. salta..” (versos 6 e 7). que ao final do poema o leitor acabará percebendo que estes verbos não são direcionados a ele. pois. entretanto. Cabe mencionar aqui o significado da palavra “estertor”: respiração rouca típica dos moribundos. gavroche...” (verso 1). com os quais o “eu-lírico” provavelmente se direciona ao leitor. é destacado ainda mais pelos verbos “saltar” (verso 7) e “agitar” (verso 6).. Observa-se ainda que no verso 3 há elipse do termo riso: “num riso absurdo. em forma de soneto. observa-se que no verso 7 o “eu-lírico” de dirige ao “palhaço” através dos termos estrangeiros “gavroche”. é perfurado (varado) por um som rouco característico dos moribundos. ri. Transcrevendo-os na ordem direta. que indicam esta ação artística sugerida . É o ápice da sugestão da tristeza interior do palhaço: embora esteja agindo em seu espetáculo alegremente. leitor.elementos estes que se opõem diretamente ao verso 8. palavra francesa que significa “os garotos de Paris” (Ramos. os termos opostos à alegria que caracterizam tanto o palhaço: “desengonçado” (verso 2). sugerindo que este assuma. apresenta a característica preocupação formal de Cruz e Sousa que o aproxima inclusive dos parnasianos: a utilização de vocabulário requintado e erudito. bem ao gosto simbolista. perante a vida. Cabe mencionar. dominado pela dor. mas sim ao “Acrobata da Dor”.” e “e salta convulsionado. A comparação que segue no verso 2: “Como um palhaço. Esta dupla utilização de termos que remetem ao artista palhaço... a força das imagens na poética bem como a forma lapidar antecipam a nobreza destes versos sugestivos. tem-se: “Agita os guizos da gargalhada atroz.”. 1997: 57). este artista está interiormente dilacerado. (riso) inflado. O título é.bp. um artista capaz de manter essa alegre postura artística mesmo nos momentos conflituosos e tristes da vida.

Além disso. afogado.. varado (verso 7).. quanto o indizível. 1 2 3 . com omissão da conjunção “que” e do verbo “ser”..” (versos 12. o que embora não seja gramaticalmente correto.Termo 3: “tristíssimo palhaço. flexionado no superlativo “tristíssimo”. com sujeito implícito (você). 13 e 14). como se representassem uma atitude de reação à dor sentida pelo “eu-lírico”. coração). .. o verbo rir é utilizado ironicamente (pois estando triste. quente (verso 13) e. evocando novamente à dor deste artista. que mascara sua tristeza e irradia alegria nos palcos da vida – mesmo não sentindo de fato esta alegria em seu coração. desengonçado (verso 2). tristíssimo palhaço” (verso 14). nota-se que a locução adjetiva “d´aço” que acompanha as “piruetas” vem insistir na força deste artista para não deixar transparecer ao “público” a sua dor interior. já que é um tristíssimo palhaço: “Ri. ou seja. atroz. Pode-se perceber também. a utilização da vírgula antes do termo “coração”. estuoso. vírgula esta que marca o vocativo e vem seguida de ponto de exclamação (!). sintaticamente: Ri. Ou seja.. podendo-se ter: “que é um tristíssimo palhaço”. tristíssimo palhaço. macabras. aqui. fremente (verso 12).! Coração.” pode-se notar que o sujeito indeterminado do verbo “pedem-te” diz respeito à “plateia”. na 3ª estrofe: “Nessas macabras piruetas d`aço. as quais evocam tanto uma interrupção de pensamento. fúnebres. nervoso. nesta estrofe. lenta (verso 8). ocorrendo finalmente a revelação da simbologia da metáfora "Acrobata da Dor" – o coração: “Ri. No verso 9.” Em sequência. a insistência do “eu-lírico” para que o artista continue o espetáculo: “Vamos! retesa os músculos.Termo 1: “Ri!” = Verbo no imperativo. é possível afirmar que essa “plateia” corresponda à vida. E ainda juntamente a estas “piruetas d´aço” o poeta utiliza o adjetivo “macabras”.Termo 2: “Coração. Um outro aspecto formal interessante que pode ser mencionado diz respeito à semântica dos verbos e adjetivos utilizados pelo poeta: todos os adjetivos evocam a dor sentida pelo “eu-lírico”: tormenta (verso 1). Já a maioria dos verbos parecem utilizados no poema estar se opondo aos adjetivos. fremente/ Afogado em teu sangue estuoso e quente / (. Esta insistência é prolongada na última estrofe do poema: “E embora caias sobre o chão. inflado (verso 3). absurdo.” = Vocativo. “Pedem-te bis.. Tal recurso também é empregado no verso 11. analisando a estrutura sintática e modificando-a. Para melhor compreender a revelação contida neste último verso. É interessante.. o convencional é não sorrir) e o adjetivo triste. agita(verso 5). ri (verso 1). sugere uma enfatização dos termos. visto que o “eu-lírico” as considera impossíveis de serem concretizadas e expressas poeticamente: “Pelo estertor dessa agonia lenta. E assim o “espetáculo” continua. que exige do indivíduo as maiores acrobacias na sua luta diária. que é como um “palhaço” – um "acrobata da dor".! Coração.. . d´aço(verso 11). “ (verso 8). que não percebe o dilema pelo qual este artista está passando enquanto faz suas “piruetas d´aço”. conotando as atitudes artísticas do "acrobata da dor": gargalha. enfatiza a intensa dor deste coração. a 3ª estrofe continua fazendo referência às atitudes artísticas do palhaço. logo após o verbo “rir”. você. para o qual é direcionado o verbo “rir” (Ri você.. retesa (verso 10). o qual é empregado no superlativo fechando assim estas caracterizações relativas ao sentimento de dor. a imagem e a percepção a serem vistas e sentidas pelo leitor. violenta (verso 4). retesa” (verso 10). Fazendo uma leitura além do poema. pode-se fazer a análise dos termos.Vale ressaltar também as reticências empregadas ao fim desta estrofe. sanguinolenta (verso 5). mesmo porque “um bis não se despreza!” (verso 9). . que é um tristíssimo palhaço” Neste caso.” = Trata-se de uma oração subordinada adjetiva explicativa. finalmente.) Ri. convulsionado (verso 6).! Coração. é possível interpretar que o coração deve rir. mas conservando seu valor semântico.. o desfecho: tristíssimo (verso 14). salta (verso 7).

Levantamento vocabular do poema. comprovam a preocupação formal de Cruz e Sousa e a qualidade de sua poética.sentido figurado: soberbo orgulhoso. selecionados minuciosamente pelo poeta. 2002: 92) . enrijar-se (Luft. que a quantidade de vocábulos requintados e eruditos. agitado (Luft.. 2002: 390) .Passaremos agora às questões referentes ao poema.Repetição da consoante “g” “Afogado em teu sangue estuoso e quente” (verso 13) . entusiasmado (Luft. sanguinolenta” (verso 5) .Repetição da palavra “retesa” . inflado” (verso 3) . dentre as quais: . 2002: 197) .Intensa exploração da Musicalidade: O poeta utiliza-se de efeitos sonoros como a aliteração. vaidoso (Luft. atravessado (Luft. 1961: 169). os garotos de Paris (Ramos. sobre esta questão. O poema apresenta inúmeras características simbolistas.Sentidos: visão e tato “Da gargalhada (.sem piedade. “num” e “riso” ”Vamos! retesa os músculos retesa” (verso 10) . desumano. a assonância e a reiteração.Presença de sinestesia: O poeta harmoniza as sensações relacionadas a sentimentos utilizando-se para tanto a sinestesia. .Repetição palavras “ri”. num riso absurdo.Clown (verso 7) . ri. torne-se duro.Fremente (verso 12) – sentido figurado: estremecido de alegria. 2002: 303) . 2002: 577) . significa artista . Características simbolistas no poema.Convulsionado (verso 6) .em convulsão.Estuoso (verso 13) – tempestuoso.Varado (verso 7) – do verbo varar.Repetição da vogal “i” Exemplos de reiteração: ”Gargalha. ri.do inglês. (verso 1) “Nervoso. 1997: 57) .Inflado (verso 3) .do francês.respiração rouca típica dos moribundos (Luft. 2002: 303) . num riso absurdo. 2002: 339) .) sanguinolenta” (verso 5) . os quais compõem a musicalidade do poema. Pode-se ter como exemplos: “Afogado em teu sangue estuoso e quente” (verso 13) . Temos como exemplo de aliteração: “Da gargalhada atroz. 2..Retesa (verso 10) . inflado” (verso 3) “De uma ironia e uma dor violenta” (verso 4) . 2002: 308) Pode-se ressaltar. num riso de tormenta”.tornar-se teso.Macabras (verso 11) – fúnebres. que lembram a morte (Luft.Atroz (verso 5) . perfurado. arrebatado. palhaço (Vallandro. temos: ”Nervoso ri. vibrante. no sentido conotativo. 2002: 665) .Estertor (verso 8) . 1. este processo linguístico que mescla sensações (sentidos).Gavroche (verso 7) . cruel (Luft.Repetição da consoante “t” Exemplificando a assonância. com esclarecimentos de palavras duvidosas. agitado (Luft.

aos batimentos cardíacos. também possivelmente fazendo referência à função deste órgão. suas tristezas e alegrias. 4. o poeta vai dando “pistas” ao leitor. conviver com ela e aceitá-la da melhor maneira possível. através dos quais o poeta sugere que o próprio leitor tire suas conclusões. mas ao final conclui-se que estão evocando o coração. Além disto. empregada no título do poema “Acrobata da Dor”. . recurso este que acaba emprestando-lhe uma conotação absoluta e transcendente. como se observa na palavra Dor. tudo a fogo escrito Sente. “retesa os músculos” (verso 10). Dentre elas. onde o “eu-lírico” passa a sensação da cor vermelha evocando o sangue..” (verso 11) 3. Apesar de ser sugerida no título do poema e revelada somente em seu último verso. Depois destas “pistas”..Utilização de maiúsculas alegorizantes: Com a finalidade de absolutizar a palavra e ampliar a sua significação. são necessárias inúmeras “acrobacias”: é preciso superar as dificuldades. nos astros inefáveis. onde o pronome possessivo “teu” direciona “o sangue ao coração”. temos: “gargalhada sanguinolenta” (verso 5). Vai abafando as queixas implacáveis. um artista nos palcos da vida. fazendo-o seguir as “pistas” deixadas ao longo do poema para descobrir a verdadeira simbologia do termo. Esta metáfora "Acrobata da Dor" pode ser compreendida porque é através do coração que o ser humano sente sua dor. POEMA 2: CAVADOR DO INFINITO (Cruz e Sousa) 1 2 3 4 5 6 7 8 Com a lâmpada do Sonho desce aflito E sobe aos mundos mais imponderáveis. sem transparecer as angústias em sua vida cotidiana. “teu sangue estuoso e quente” (verso 13). Ânsias. O poema mostra que a dor faz parte da existência humana. . sendo.” (verso 8) “Nessas macabras piruetas d`aço. Da alma o profundo e soluçado grito. Assim. tal como se evidencia nos versos abaixo: “Pelo estertor dessa agonia lenta. que não é revelada de imediato e de forma direta ao leitor. Desejos. Cava nas fundas eras insondáveis O cavador do trágico Infinito. portanto. sugestões que se encaminham para o “coração” e o concretizam nesta metáfora de "Acrobata da Dor".Ideia de predomínio da sugestão sobre a nominação: O título "Acrobata da Dor" já apresenta inicialmente uma sugestão. Metáfora "acrobata da dor" no título do poema A metáfora “Acrobata da Dor” simboliza o coração. que pode ser compreendido como uma referência à agitação cardíaca. “convulsionado” (verso 6). ri”. Realidade que o poema exprime. tal como um palhaço – assim sugerido no poema – mantendo sempre o sorriso no rosto.. precisando constantemente fazer “acrobacias” para superar os problemas e as tristezas.. o termo “coração” é então revelado. sendo necessário. em redor. o poeta utiliza-se de letra maiúscula em substantivo comum. enfatizando a palavra DOR semanticamente e aumentando sua expressividade.Sentidos: audição e visão . pode-se perceber também a intenção sugestiva da utilização de reticências em versos no interior do poema. e finalmente. que aparentemente se dirigiam ao leitor.. acima de tudo. podendo-se constatar também que são direcionados a ele os verbos no imperativo do verso 1: “Gargalha. com determinação. os sofrimentos e as angústias mantendo a alegria e mascarando as tristezas para seguir em frente. é possível perceber que durante todo o poema. ser um “artista de palco”.

nos astros inefáveis”. de busca do transcendente. tal como Oliveira (2000:216) aponta sobre os preceitos dos poetas simbolistas. a qual propõe um processo cósmico de aproximação entre as realidades física (natureza/realidade concreta) e metafísica (cosmos. “tudo a fogo escrito” (verso 5). “cava nas fundas” (verso 7). e. Pode-se afirmar. para esta profunda busca. “eternas ânsias” (verso 14). Observa-se que nesse poema o “eu-lírico” ultrapassa o consciente e consegue descer “abissalmente em si mesmo. e “insondáveis” (verso 7). é possível fazer referência à chamada “teoria das correspondências”. as quais não são. motivação da vida. uma verdadeira lapidação às camadas mais profundas desse ser. “implacáveis” (verso 3). em redor. Ainda referente ao verso 6: “Sente. E. então o sonho pode conotar esta “lapidação às camadas mais profundas do ser”. o Simbolismo atinge à alma. suficientes para compreender a totalidade deste soneto do simbolista Cruz e Sousa. como diz o poeta Mário Quintana. o que comprova a afirmação de que enquanto o Romantismo chega ao coração. Alto levanta a lâmpada do Sonho. entretanto. o mesmo que indescritível.9 10 11 12 13 14 E quanto mais pelo Infinito cava Mais o Infinito se transforma em lava E o cavador se perde nas distâncias. nos astros inefáveis” (verso 6) tudo aquilo que procura: as suas ânsias e os seus desejos. isto é. o “eu-lírico” utiliza-se de um instrumento de grande valia. a princípio. “inefáveis” (verso 6). Pode-se comprovar tal afirmação observando. que não se pode avaliar. A profundidade buscada pelo “eu-lírico” pode ser constatada ainda em termos como: “profundo e soluçado grito” (verso 4). “Sonhar é acordar-se para dentro”. sonho = o que dá força ao ser. extravasando e transcendendo assim ao mundo real. percebendo nesta expressão a forte simbologia presente: lâmpada = aquilo que ilumina. constata-se que o “eu-lírico” em "Cavador do Infinito" também apresenta fortemente tal aspecto. que não se exprimem com palavras. E com seu vulto pálido e tristonho Cava os abismos das eternas ânsias! ANÁLISE DO POEMA CAVADOR DO INFINITO O poema "Cavador do Infinito" é de uma simbologia tão profunda que a tentativa de se fazer uma análise destes significativos versos requer ampla reflexão e. numa auto viagem que chega às raias do imprevisível”.de caráter impreciso. em redor. segundo Emmanuel Swedenborg apud Zulim (2006:6): . Assim. maravilhoso.na maioria delas adjetivos . uma vez que “Sente. acima de tudo. É uma forma de integração com o cosmo. com os astros. que tira da escuridão. que ilumina sua alma e reflete seus desejos: “a lâmpada do Sonho” (verso 1). por exemplo. inexprimíveis.. que o poema mostra uma busca do “eu-lírico” pela essência do ser. variadas leituras. a intensa utilização de palavras . como: “imponderáveis” (verso 2): ou seja.. Considerando ainda que o simbolista opõe-se aos limites do mundo físico e aprecia a integração com o cosmo. transcendência espiritual). de viagem “aos mundos mais imponderáveis”(verso 6).

difusas. uma forte característica simbolista. vale dizer. mas que aos poucos vão sendo decodificadas. Já a palavra Infinita. prosseguir cavando. podem-se observar as imagens vagas. o "Cavador do Infinito" reflete a experiência de quem aparentemente se encontra empenhado em um trabalho em vão. o simbolista parte em busca do se oculta atrás das aparências. cabe ao homem decifrar os símbolos da realidade terrena. e as distâncias onde este cavador se perde: “E o cavador se perde nas distâncias. não importa como a realidade é de fato.. embora saiba que não tem fim. o visível. tentando dessa maneira abafar as “queixas implacáveis da alma”. “extrair cavando”. o poeta utiliza uma antítese e através dos verbos “descer” e “subir”: . da essência. indagar a fundo e com trabalho”. este segundo sentido é mais coerente para o contexto em questão: o “Cavador do Infinito” se caracteriza pela intensidade do seu trabalho. o importante é lutar por eles. o que vem ampliar a significação destas palavras. cabe mencionar a simbologia da metáfora "Cavador do Infinito". Este significado vem complementar o exposto acima: o esforço de buscar a fundo os desejos mais interiores.. ao desprezar o concreto. revelando-o poeticamente. percebendo-se a profundidade das simbologias expressas pelo “eu-lírico”. “Sugerir. é possível constatar outras fortes características simbolistas. da essência das coisas. Dessa forma. transcendendo-as. como o uso de maiúsculas alegorizantes em substantivos comuns. Nesse contexto. de uma misteriosa relação entre o sujeito e o objeto.o símbolo. a alma e o mundo – uma relação que não pode ser descrita. para o simbolista. pode-se chegar à seguinte interpretação: por mais que nossos sonhos estejam longe. é possível afirmar que neste poema a sugestão prevalece em todos os sentidos: em uma primeira leitura. pela árdua tentativa de seguir em algo que. Por exemplo. ao sentido de “buscar. “Infinito” (versos 8 e 9).. ou ainda evocando a uma “extensão infinita”. ainda segundo Luft (2002: 390).. a perfeita unidade entre tudo o que existe. mas sim os efeitos que ela causa na sensibilidade do artista. Assim. distantes. um estímulo para seguir em frente. Assim. mas apenas sugerida pelo símbolo”. mesmo porque. Assim. como em: “Sonho” (verso 1). Em outras palavras. pois só o fato de estar tentando alcançá-los vem a ser um consolo à alma. ONLINE) “A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem”. não será em vão. e desta maneira é possível dizer que.. “a visão simbolista é de envolvimento entre o eu e as coisas. expressando o indizível do “eu-lírico”. Nesse sentido. cósmico. pode-se tentar chegar a uma “lógica” sobre tais questões (frisando aqui a “tentativa”. em sentido figurado. mas que também não se deixa dissuadir de seus esforços.” (verso 11) As figuras de linguagem também se fazem presentes no poema. remete a algo “sem fim ou limite. tal como afirma Mallarmé apud Zulim (2006: 5) – o poeta sugere e o leitor decodifica. incalculável”. é possível considerar o “ser” metaforizado no Cavador do Infinito como um visionário. para sugerir o ato de cavar. No plano formal. tentando compreender a metáfora utilizada pelo poeta. que procura decifrar o sentido simbólico do mundo. para que possa descobrir as “correspondências” entre as coisas. segundo Luft (2002: 156). conforme afirma Medina & outros (1994:185). o que significa cavar o infinito? Seria buscar o que não tem fim? Procurar o quê? Cavar para quê. o verbo cavar significa. a interpretação vai além do que se pode imaginar!) Assim. Há também o uso de reticências. imenso. até mesmo sem nexo. eis o sonho”. uma vez que neste estilo literário a ideia romântica de que a essência misteriosa das coisas pode ser evocada pela palavra é recuperada e intensificada através de uma forma de superação da linguagem . em todos os seus múltiplos aspectos e elementos. Tem-se. pois em um poema de tamanha profundidade como este. mas pode ainda remeter. um sentido simbólico em estreita correspondência com o mundo celeste. “Ânsias” e “Desejos” (verso 4). se o infinito é algo que não se atinge nunca? Pesquisando o significado isolado das palavras cavar e infinito. Aparentemente. denotativamente. Nas palavras de Camus (2006. pois. a natureza apresentaria. e deixando a cargo do leitor imaginar o dilema por ele vivido. (verso 3) e os gritos soluçados do interior do ser: seria a efetiva busca de si mesmo. Mas afinal.

encontram-se na ordem direta inversa.” (versos 3 e 4) Ou seja: “Vai abafando as queixas implacáveis. “profundo e soluçado grito da alma” = alma que grita. nota-se que a última expressão do poema. citado no verso 3 e omitido no verso 4): “Vai abafando as queixas implacáveis. Nos versos 7 e 8 pode-se notar também uma enfatização do poeta dada através do uso de pleonasmo = o cavador cava. para finalizar. “O cavador do trágico Infinito Cava nas fundas eras insondáveis” A personificação também é utilizada pelo poeta.“Com a lâmpada do Sonho desce aflito E sobe aos mundos mais imponderáveis” (versos 1 e 2) Em sequência. nos versos 3 e 4. 2006:4). do termo “vai abafando”.. e de outro o drama da existência presente em sua poética. um “grito contra a opressão do ambiente que o cercava” (Ronald de Carvalho apud Zulim. e uma zeugma (omissão – elipse – de um termo que já apareceu antes. em redor.” Tem-se: o cavador (. do termo regido de preposição ao termo regente): “Da alma o profundo e soluçado grito” (verso 4). “o Infinito se transforma em lava” = mutação de um ser inanimado. tudo a fogo escrito Sente. e ainda no verso 10. (Vai abafando) o profundo e soluçado grito da alma. Da alma o profundo e soluçado grito. como: no verso 4. o qual é entretanto iluminado pela “lâmpada do Sonho” (verso 12) . “Cava nas fundas eras insondáveis O cavador do trágico Infinito.. o verbo cavar conjugado no presente aponta que o seu trabalho prossegue: . Nesse sentido. Em outras palavras.. no caso. há ocorrência de uma anástrofe (anteposição.” (versos 7 e 8) Além dos aspectos formais. como se pode constatar nos versos: “E com seu vulto pálido e tristonho Cava os abismos das eternas ânsias!” (versos 13 e 14) Pode-se dizer ainda que este desejo do poeta de integrar-se espiritualmente ao cosmo. pode ser interpretado como um reflexo de sua própria biografia.) – predicado..” (versos 5 e 6) E.que a meta deste cavador não é atingida. Desejos.” Nota-se também uma inversão nos versos 7 e 8: “Cava nas fundas eras insondáveis “O cavador do trágico Infinito. exemplificado nos versos abaixo transcritos..sujeito. nos astros inefáveis.. logo. é possível verificar também que o poema "Cavador do Infinito" evoca de um lado a inclinação de Cruz e Sousa pela poesia meditativa e filosófica. em expressões nominais. “eternas ânsias” encerra a busca do cavador mostrando através de “seu vulto pálido e tristonho” (verso 13).) . que age como ser humano. cava (. originando-se do sentimento da opressão e da situação pessoal e racial por ele vividas. “Ânsias.

E assim ele transporta mais uma vez seu triste fardo . o “eu-lírico” utiliza-se da “lâmpada do Sonho” (verso 1). Segundo a mitologia. Esse personagem foi Sísifo.bloggers.jpg Para Brasileiro (2006: ONLINE).que. Sísifo é . e eternamente. a própria palavra “ânsia” possui dupla significação. por ter vivido inteligentemente. rolará da montanha. sendo ainda motivado por seus desejos (que não são especificamente instrumentos. mas o auxiliam de forma direta neste árduo trabalho). podese afirmar que no contexto utilizado pelo poeta eles remetem tal ação: “Com a lâmpada do Sonho desce aflito E sobe aos mundos mais imponderáveis” (versos 1 e 2) b) Instrumentos utilizados pelo “eu-lírico” para cavar Para cavar.. uma vez levada ao topo. o que seriam estas “eternas ânsias”? Na verdade. 2) Desejo ardente. Entretanto. se presta ainda hoje a divagações. montanha abaixo.. anseio. Portanto. . pode ser: 1) Aflição. cavando o Infinito por entre abismos eternos. “se o mito dissesse que a montanha era interminável ou então que o cume crescia cada vez mais. cujo fim trágico.. Mas o que relata o mito é que. Ou seja: o “eu-lírico” prossegue a sua busca infinita. angústia. conforme afirma Brasileiro (2006: ONLINE). se denomina "Cavador do Infinito". encerrando uma poderosa força simbólica. uma vez mais. considerando tais constatações. Segundo Luft (2002: 67). que também são infinitos.. a) Verbos que sugerem a ação de cavar Os verbos descer e subir sugerem no poema a ação de cavar. Drama existencial vivido pelo “eu-lírico”. o símbolo guardaria por certo alguma força. c) O MITO DE SÍSIFO http://www.it/formicuzze/itcommenti/sisifo6. estudos e espantos. a enorme pedra rolava montanha abaixo.“Cava os abismos das eternas ânsias!” (verso 14) Mas. Por isso.condenado a rolar uma pedra até o alto da montanha. representado pela ação de cavar o infinito. tornando vão todo o esforço de Sísifo”. pode-se finalmente analisar no poema: 1.depois de morto . a sublime imaginação poética dos gregos forjou um personagem. Embora sejam verbos semanticamente opostos.

) Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside.já que a pedra voltará montanha abaixo até o ponto de partida . Assim. em segundo lugar. A clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo a sua vitória. apesar da desilusão. um aspecto relevante neste mito é que os deuses “tinham pensado. pois. o rochedo ainda rola. se necessário”. cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite. refletido pelo iluminar da “lâmpada dos Sonhos” . esse universo sem dono não lhe parece estéril nem fútil. por conseguinte. impotente e revoltado. Sísifo. quem sabe. mesmo sabendo que seria inútil o gesto: a pedra haveria de rolar montanha abaixo. Só que os deuses com que a poesia até então dialogava. com efeito.) O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará.. se engaja novamente e continua carregando a pedra. precisamos persistir na tarefa.. um peso ou uma rejeição: “seu aspecto fixo e quase imutável faz dela um símbolo da firmeza e da imutabilidade. com alguma razão. Sobre a relação do mito de Sísifo e a poética de Cruz e Sousa.. transcendermos. não há destino superior. da confiabilidade da qual faz parte todo o sentido de "resistência".. proletário dos deuses. alusão e súplica. Se há um destino pessoal.) Se a descida se faz assim. Seus poemas são ao mesmo tempo esconjuro e prece. O mito de Sísifo se aplica à primeira estrofe do poema. Aguiar (2006: ONLINE) afirma que: Em Cruz e Sousa há esta paixão pela perene recriação. um obstáculo.. Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente. a convicção de que algum dia não conseguirão mais carregar sua “pedra”. para Sísifo. abafando assim as “queixas implacáveis” e os “gritos” de sua alma. Sendo um personagem sem escolha.. e esse destino não é menos absurdo. coisa que faz de seus Sísifos do verbo. pelo aspecto da eterna repetição.”. O seu destino pertence-lhe.. a sua tortura se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas... em sua interpretação sobre o mito de Sísifo. que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança. O seu rochedo é a sua coisa. desisitindo da luta – simplesmente por dois aspectos: em primeiro lugar. Sob tal ponto de vista. lutando contra a redução dos poderes criativos da linguagem à mera produção e reprodução de coisas entre outras coisas. pois: Onde estaria. o árduo trabalho em busca do que não tem fim. era preciso que ele rolasse a pedra até o topo. (. conhece toda a extensão da sua miserável condição: é nela que ele pensa durante a sua descida. (. forma por si só um mundo”. uma vez que “cada grão dessa pedra. inevitavelmente. pelo aspecto penoso de “rolar a pedra” e. o autor ressalta que “o mito de Sísifo é a verdade do homem”. mesmo como metáforas dos poderes da palavra. e. em certos dias. segundo o mito.. não querendo mais empurrá-la morro acima – ou seja. A autora enfatiza também que a pedra de Sísifo não simboliza somente algo que nos oferece resistência. pois só o que pode oferecer resistência é algo firme. numa vitrine sem fim de inutilidades.. pela eternidade. Sísifo é a metáfora do homem que está sempre em marcha. Firmino (2006: ONLINE). o universo da busca de seus desejos e suas ânsias. ainda.. Portanto. pois o personagem mitológico Sísifo carrega sua pedra montanha acima com a consciência de que não chegará ao fim de seu trabalho . na dor. .mas para ele este não consiste em um trabalho inútil e sem esperança.Nesse sentido. exaltação e litania. formam por si só um mundo: o mundo próprio do “Cavador do Infinito”. mostra que na vida as pessoas costumam demonstrar suas sensações de sobrecarga e. e da mesma maneira o ato de cavar deste "Cavador do Infinito". com todas as forças que lhe restassem. Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.o que faz suprimir as suas angústias para motivá-lo a realizar aquilo que realmente deseja. Sísifo é o modelo de um homem que. estavam cada vez mais distantes. assim como Sísifo. a sua persistência. Para Camus (2006: ONLINE). tal como é revelado pelo “eu-lírico” na 1ª estrofe do poema. no qual se pode confiar. (. mas acabaram por se enganar. no fundo todos nós temos uma pedra a empurrar e. pode também fazer-se na alegria. eliminando nossas impurezas interiores até.

.2.) “Outra qualidade da arte de Cruz e Souza é o poder evocativo de muitas de suas poesias. não sabemos por que interessante e curiosa magia. Minidicionário Luft. pelo infinito cenário do mundo exterior. uma nobreza de sentimentos. São Paulo: Ática. ed. suas características e profundas simbologias na arte de escrever. . 1994. Observe que na escavação do infinito. FIRMINO.. CONCLUSÃO* Ao fim do presente trabalho. espontâneos. diz cavar os abismos das eternas ânsias. LUFT. uma dignidade de caráter que nunca se desmentem. atirar o pensamento do leitor nos longes indefinidos. Disponível em: http://www. após analisar os poemas "Acrobata da Dor" e "Cavador do Infinito". justamente por fazer parte deste Infinito. fazendo-o perder-se nos mundos desconhecidos. MEDINA & outros.. ou pelas peripécias da vida. Disponível em: http://www. Disponível em: http://www. os desejos que tem consciência de que jamais conseguirá realizar. aparentemente desalinhadas. Flávio. ou pelas dores infinitas do seu coração. mas que vem reforçar a nossa tentativa em expressar tamanha consideração por Cruz e Souza – registramos aqui o posicionamento de Sílvio Romero perante a arte deste poeta: “Em primeiro lugar. pelos atritos da sociedade. c) De acordo com a terceira estrofe. Arte literária brasileira. sabe.htm. Ele não descreve. Acesso em: 11 nov 2006. Disponível em:http://br. nem narra. b) O “eu-lírico” provavelmente busca encontrar: Ao cavar o Infinito. Daí. uma delicadeza de afetos. sugestionando lhe a imaginativa. (versos 9 e 10).. De acordo com o texto.expressoes.. a) Sobre o "infinito cavado": Este Infinito cavado pelo “eu-lírico” pode ser interpretado como as suas mais íntimas ânsias: seus sonhos e desejos irrealizáveis..com.quanto mais pelo Infinito cava/ Mais o Infinito se transforma em lava. São Paulo: Moderna.br/antoniobrasileiro-sisifo. recantodasletras. sinceros. 2002.. uma vez que quanto mais se intensifica sua busca. como segunda qualidade apreciável. Sísifo. abafa queixas e gritos da alma. a completa sinceridade do poeta (. O mito de Sísifo: a pedra nossa de cada dia.com/prosapoesiaecia/CRUZsecretamalicia.com. ressaltam de todas as suas composições uma elevação de alma.com.) Inspirados pela natureza. sonhos e. mais distante o "Cavador do Infinito" vai ficando de seus objetivos. Em frases vagas. Levando em consideração os comentários já mencionados sobre o poeta.. OLIVEIRA. nunca se apagam. Solange. fica evidente o quanto este poeta foi de grande expressividade e extrema importância ao Movimento Simbolista Brasileiro. Antonio.tanto. In: Literatura Portuguesa.” (Sílvio Romero) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR. 2000. mesmo porque “. 20. de Cruz e Sousa.htm Acesso em: 10 nov 2006 BRASILEIRO.. o “eu-lírico” busca encontrar os sonhos. Clenir Bellezi.. enquanto cava. muito distantes de serem concretizados. O Simbolismo.. indeterminadas.br/artigos Acesso: 10 nov 2006. São Paulo: Ática. na ultima estrofe.geocities. Grandes mestres da poesia: Cruz e Sousa – A secreta magia. o “eu-lírico” não encontra o que procura. o “eu-lírico”. desejos. sempre melhores do que aquele em que vivemos.. Celso Pedro. o eu refere-se a ânsias.br/contos Acesso: 10 nov 2006. encerraremos esta pesquisa de um modo “não-convencional”. CAMUS. Albert. os seus versos são sempre símplices. como as confissões de uma alma límpida e digna” (. O Mito de Sísifo.

A semelhança com O Analista de Bagé surge desde a capa. a cidade não tem um só detetive particular”. Leny Fernandes. Data de 1983 a compilação de crônicas O Detetive de Florianópolis.. nunca menos engraçadas. às vezes. traz mais 21 crônicas onde o autor mostra como consegue narrar sensivelmente casos (reais ou inventados) do cotidiano. sedutor e em diversas ocasiões. nervoso. Data de 1983 a compilação de crônicas O Detetive de Florianópolis. Por que teria desistido? Seria pela falta de leitores? Seria por ver seus livros acabarem-se nos . Uma pena que não consigamos encontrá-lo nas livrarias. VALLANDRO. mas Tive não se deixa enrolar. É o tipo que acorda. por exemplo. D. endividado. Dicionário Francês-Português. F.. com dinheiro emprestado. 15. Em dez crônicas. não vão muito longe as semelhanças: o personagem de Hamms é astuto. Dessa forma. para depois ocupar as páginas do livro que todos conhecemos. endividado. ouve de um deles o conselho: “Que eu saiba. Lino. piadista de mau-gosto que procura tirar o brilho de nosso herói. não é interessante entregar o jogo. Da ironia ao escracho.A.. D. depois que Tive casa-se com a sua. um galanteador refinado. bem. sabe que precisa se mexer e não consegue sair da cama. catarinense. ouve de um deles o conselho: “Que eu saiba.. não escreveu por muito tempo. Hamms consegue fazer rir. é aí que faz sucesso e fortuna.Jair Francisco Hamms Há 25 anos. Não se trata somente de ler Hamms. Este livro. um galanteador refinado. o “desempregado. da Silva. dos dólares de Chapecó.T. e ainda nos deixa com gosto de quero mais. 1997. Dicionário SpeakUp: Inglês-Português. ZULIM. Tive muito simplesmente resolve casos que. Hoje.. Português-Inglês. É o tipo que acorda. ZULIM. Se precisávamos de um herói catarinense que agradasse a muitos gostos. do escritor catarinense Jair Francisco Hamms. o “desempregado. não precisam de muito esforço. se vê que O Detetive de Florianópolis. e ainda nos deixa com gosto de quero mais. Florianópolis não fica atrás. São Paulo: LEP S. Jandaia do Sul: FAFIJAN. Domingos Tertuliano Tive”. Jandaia do Sul: FAFIJAN. ed. 2006. começa a investigar crimes os mais bizarros. para depois ocupar as páginas do livro que todos conhecemos. com dinheiro emprestado. aporrinhado à beça. Em dez crônicas. Simbolismo: a arte da sugestão.. 2006 6-O Detetive de Florianópolis. Pelo título do livro. do surgimento ao casamento. olha pela janela. nervoso. Para importunar — porque sempre alguém vem encher o saco — temos ali o Pereira.RAMOS. ainda mais em caso de investigação. Dessa forma. um clássico da crônica catarinense. de Jair Francisco Hamms. depois que Tive casa-se com a sua. de se divertir com as aventuras de seu personagem. 1967. In: Simbolismo no Brasil: uma escola marginal. Tive – detetive particular. não vão muito longe as semelhanças: o personagem de Hamms é astuto.. Florianópolis não fica atrás. São Paulo: Globo. O Analista também surgiu primeiro em jornais. O Analista também surgiu primeiro em jornais. No entanto. olha pela janela. O mais instigante na obra de Hamms é que não podemos chamá-lo simplesmente como “o cara do detetive”. Às vezes quase consegue. até que sim. ele está ali. Trata-se de refletir um pouco o mercado (?) editorial de e em Santa Catarina. O Detetive de Florianópolis Se Bagé tem o seu analista e Curitiba tem o seu vampiro. Publicado cinco anos antes por Luis Fernando Veríssimo. ele está ali. Acompanhado pela piramidal secretária Ivete. Hamms consegue fazer rir. A semelhança com O Analista de Bagé surge desde a capa. Neste texto. acompanhamos. O Detetive de Florianópolis Se Bagé tem o seu analista e Curitiba tem o seu vampiro. como o caso da morte do lebréu russo. pelas primeiras dez crônicas. Conversando com seus botões. do lobisomem de Saco Grande. Ah. Publicado cinco anos antes por Luis Fernando Veríssimo. bem. o escritor Marcelo Labes comenta este livro. que eu saiba. No entanto. Cruz e Sousa: a dor de existir e a glória póstuma. Mas não pelo todo. não é interessante entregar o jogo. sedutor e em diversas ocasiões. isso não. do surgimento ao casamento. surgia nas páginas do jornal “O Estado” uma figura que se tornaria lendária entre leitores assíduos de literatura de suspense. Se precisávamos de um herói catarinense que agradasse a muitos gostos. ainda mais em caso de investigação. de Jair Francisco Hamms. Tive – detetive particular. rir muito. Mas o que escreveu é bom. a cidade não tem um só detetive particular”. sabe que precisa se mexer e não consegue sair da cama. J. Conversando com seus botões. Hamms. rir muito. Dessa forma. Da ironia ao escracho.T. Tive inicia uma carreira promissora e cheia de situações embaraçosas. acompanhamos. ia muito além de pregar o leitor em suas páginas. Domingos Tertuliano Tive”. Leny Fernandes. aporrinhado à beça.

mais moderado. vinte vezes mais feia que bonita. dia 18. confiando que o bom Deus nos dava enfim uma grande oportunidade. nem como a imaginou minha mulher. O detetive de Florianópolis. discutidos. queria ser ponta-esquerda do Avaí. Por exemplo: o Chico sonhava ser goleiro do Figueirense.T. nem gorda nem magra. vai exercer a profissão de um detetive bem ao espírito ilhéu. Flávio" . poxa" Jair Francisco Hamms.. um dos textos escolhidos. médico. poderíamos perguntar a D. muito esganado. queria ser o dono da Padaria Brasil só para que. sapateiro. de lirismo e de divertimento. os dois escritores fizeram uma seleção pessoal. de Jair. vestida de verde e com uma estrela na cabeça. naquele tempo. de Flávio José Cardozo e Jair Francisco Hamms.. sabedor de nossas pretensões. não é? − que estampava fotos de simpáticos e sorridentes aviadores ianques. a gente dizia assim: quando eu for grande. diz ele. Já o Joca. Desde que o Jair. a partir das 19h30.Ambos membros da Academia Catarinense de Letras. gordinha e nos seus vinte e dois anos. o Dagmar. ossuda e com pelo menos cinquenta. Minha mulher chegou a vê-la em sonho. Tive onde foi parar o escritor que.sebos antes mesmo de serem lidos. Chovia bombas na Europa. principalmente. e as do Jair. Jair pediu que eu viesse aqui. bombeiro. apenas esperei. Não era bem como eu a havia imaginado. Na narrativa. quero ser tal coisa. que era canhoto. E ali estava ela: Dona Leocádia. sargento da polícia. empada.Flávio atribui à crônica um papel de humor. o personagem principal.O Jair é um santo amigo. bombardeios na Itália. publicado pela editora Insular e Academia Catarinense de Letras. cocada. Eu. com um livro apenas. O Xandoca queria ser aviador. chofer de ônibus. no Diário Catarinense. no jornal O Estado e no Jornal de Santa Catarina. ao se ver desempregado. vestindo roupas de couro. Mas ficou lá. o livro Batuque bem temperado. advogado. me disse que tinha falado com uma tal de Leocádia e que ela estaria conosco amanhã às duas em ponto para trocar idéias sobre o assunto. barbeiro. dia e noite. ela chegou. Havia uma revista. As do Flávio. ficamos a desenhá-la mentalmente. bombardeios na Alemanha. Era época da guerra. Flávio. Variava muito: aviador. chamada Em Guarda − lembras. toucas de couro e com óculos reluzentes. curto. pois mesmo que estivéssemos diante da suprema feiúra do universo nós a faríamos entrar festivamente. Bombardeios na Inglaterra. Dois trechos do livro nos quais um autor fala do outro: Flávio José Cardozo. Se Tive ainda existisse. quarentas anos prováveis. enchesse o pandulho de doce. claro. que muitas vezes faz o papel de chamar mais leitores para a literatura". mas um dos pontos fundamentais que une a maioria dos textos é o humor. na crônica Um bombardeiro azul "Sabes. nas páginas amareladas de 25 anos atrás LEIA É IMPORTANTE! A Fundação Cultural Badesc lança na quarta-feira. fez história. sem maiores pretensões. com apenas hora e meia de atraso. professor. São crônicas publicadas em jornais. na crônica Entrevista com a mulher que o Jair mandou "Às três e trinta. "A crônica é um texto leve. irreverente e gozador. mas nada disso interessava. lembrados? Sem dúvida.O Dr. E o humor é o tom essencial da crônica.