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ENTREVISTA

Estudos sobre
cultura: uma
alternativa latino-
americana aos
cultural studies NASCIDO NA ARGENTINA em 1939 mas radica-
do no México desde 1976, onde dirige o
RESUMO programa de Estudos sobre Cultura Urba-
Nesta entrevista, destacando o que se vem fazendo na na do Departamento de Antropologia da
América Latina, Canclini aponta a inclusão dos processos Universidade Autônoma Metropolitana
socioeconômicos no campo que prefere chamar de “estudos (Iztapalapa), o filósofo e antropólogo Nés-
sobre cultura”, como necessária remodelação aos cultural tor García-Canclini é doutor pela Universi-
studies, mantendo seu protocolo básico mas evitando uma dade de Paris X e já foi professor-pesquisa-
“hiper-textualização com pouca análise de contexto” que ele dor nas Universidades de Stanford, Austin,
reconhece sobretudo na vertente norte-americana dos estu- Barcelona, Buenos Aires e São Paulo. Ao
dos culturais. longo dos anos, festas populares, artesana-
to, arte, globalização, consumo e políticas
ABSTRACT culturais despontam como algumas das li-
In this interview, Canclini points out the inclusion of the nhas de pesquisa recorrentes na obra de
socioeconomic processes in the field that he prefers to call Canclini, dentre as quais destacam-se: Las
“studies on culture”, as a necessary alternative to the cultu- culturas populares en el capitalismo (prêmio
ral studies, avoiding a “hiper-textualization with little Casa das Américas de 1981, Havana/Cuba,
context” analysis which he recognizes in line with the North publicado em 1982); Culturas híbridas: Estra-
American field of the cultural studies. tegias para entrar y salir de la modernidad (prê-
mio íbero-americano Book Award da Lan-
PALAVRAS-CHAVE (KEY WORDS ) tin American Studies Association, publica-
- Estudos sobre cultura (studies on culture) do em 1990); Consumidores y ciudadanos.
- Globalização (globalization) Conflictos multiculturales de la globalización
- Interculturalidade (interculturality) (1995); Cultura y comunicación: entre lo global
y lo local (1997); La globalización imaginada
(1999); Latinoamericanos buscando lugar en este
siglo (2002) e Diferentes, desiguales y desconec-
tados: mapas da interculturalidad (2004). Gar-
cía-Canclini foi um dos expoentes do VIII
Seminário Internacional da Comunicação: Medi-
ações tecnológicas e a reinvenção do sujeito, rea-
lizado na PUC-RS, de 3 a 4 de novembro de
2005, quando também ministrou o seminá-
rio Interculturalidade e Globalização.

RF - Desde As culturas populares no capitalismo


o senhor vem desenvolvendo uma idéia de
discurso científico no sentido da impossibili-
Entrevista com dade de construir ou alcançar uma verdade
Néstor García-Canclini1 generalizada e definitiva. Isto, de alguma

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forma, vai se associar a uma postura em tor- partido a respeito da pluralidade de narra-
no do relativismo que, sabemos, atrai muitas tivas ou da pluralidade de culturas. O rela-
críticas. Como o senhor se coloca hoje em re- tivismo antropológico se desenvolveu ao
lação a esse posicionamento epistemológico? longo do século XX, especialmente depois
da II Guerra Mundial e como conseqüência
C – Eu concordo com a primeira parte da do descobrimento das muitas formas de or-
tua afirmação: não creio que haja verdades ganizar a cultura, de pensar e perguntar-se
definitivas. Parece-me que - para estabele- sobre o social. E se pensava naquele mo-
cer uma data, a partir de 1934, quando Karl mento que era possível resolver a questão
Popper publica Lógica da pesquisa científica - da diversidade cultural e da heterogenei-
não se pode falar que a ciência (nem sequer dade de modelos de conhecimento com a
a ciência física de que ele trata também) simples aceitação de que “cada uma teria
pretenda estabelecer verdades definitivas, razão em si mesma”. Isto nunca foi muito
mas que desenvolve construções conceitu- correto, mas é menos consistente ainda em
ais que se aproximam ao máximo do que época de transnacionalização de culturas,
supõe ser o real. Nunca se pode afirmar quando as sociedades interatuam intensa-
que essas construções conceituais sejam mente e necessitamos arbitrar entre as in-
verdadeiras, disse Popper. Pode-se dizer compatibilidades ou incomensurabilidades
que não foram refutadas em seu tempo ou dos paradigmas críticos e a aspiração a al-
que são as aproximações mais consistentes, gum tipo de governabilidade mundial.
mais persuasivas, mais plausíveis... até que Não digo de governo, mas de organização
venha outra teoria ou outro paradigma. Pa- que faça possível em escala global a convi-
rece-me que esta questão é reforçada por vência de muitas culturas, o que implica
quase toda a epistemologia contemporâ- tomar partido, não para estabelecer uma hi-
nea. A problematização feita por Thomas erarquia de verdades ou de aproximações
Kuhn - acerca da fragilidade dos paradig- mais ou menos legítimas, mas sim para
mas e a inexistência de paradigmas defini- controlar os processos de conhecimento e
tivos, através do histórico da sucessão de as formas de vida que vão ser destrutivas
paradigmas que alguns acreditam verda- ou autodestrutivas.
deiros e são refutados por outros - segue
na mesma direção. Em posições mais con- RF - O senhor sempre disse que o hibridis-
temporâneas, temos deixado de falar de mo era um posicionamento metodológico
paradigmas, porque a noção de paradigma nas intersecções, e seu último livro proble-
implica que haja um só modelo de conheci- matiza como colocar em relação três visões:
mento, de natureza universal. Falamos de da diferença, da antropologia; da desigualda-
narrativas. Não compactuo plenamente de, que vem da sociologia; e a conexão-des-
com a interpretação pós-moderna de narra- conexão, da comunicação. Em princípio, pa-
tiva. Parece-me importante reconhecer que rece que persiste o posicionamento do pes-
quase todos os conhecimentos, inclusive os quisador num espaço de intersecções. É isso?
das ciências físicas, astronômicas ou econô-
micas, são relatos sobre o real, sobre o C - Sim, intersecções em vários sentidos.
mundo. Isto permite conviver com o fato Por um lado, a noção de hibridação implica
de que coexistem muitas narrativas que considerar as intersecções entre culturas e
pretendem ser científicas. Mas não creio estabelecer como propósito do trabalho das
que a conclusão necessária desta pluralida- ciências sociais situar-se entre as culturas,
de de narrativas seja o relativismo, porque nos lugares de cruzamentos, fusões, confli-
o relativismo - sobretudo no sentido da an- tos e contradições. Neste último livro refi-
tropologia, a disciplina que mais o tem ela- ro-me, sobretudo, à intersecção de discipli-
borado - é uma concepção que não toma nas, como colocar em relação os enfoques

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antropológicos, que tendem a destacar a outros processos que não sejam implicá-
defesa de cada cultura, a capacidade de au- veis. Na introdução que escrevi no ano de
togestão, o direito à existência autônoma 2001, para a última edição de Culturas híbri-
de cada cultura, ou seja, a antropologia das2 , assumindo o debate dos anos 90, em
como a teoria da diferença; às teorias ma- espanhol e inglês e um pouco em portugu-
cro-sociológicas - penso especialmente em ês, sobre hibridação, tratei de precisar epis-
Pierre Bourdieu mas podemos falar de temologicamente algumas noções que não
muitos outros, do marxismo, de todas as haviam sido assinaladas na primeira edi-
outras concepções macro-sociológicas que ção do livro. Uma delas é que a noção de
têm se organizado como explicações e in- hibridação, para mim, é uma noção descri-
terpretações para a desigualdade social - e, tiva, caracteriza processos sociais em que
em terceiro lugar, às teorias da conexão co- se dão cruzamentos, intersecções, sem nos
municacional ou sistêmicas que acentuam permitir estabelecer o caráter dessas inter-
a organização social que se realiza através secções ou dessas hibridações. Parece-me
do acesso ou da exclusão, a desconexão. que os que temos trabalhado sobre hibrida-
São três modos de ver a organização social, ção, tanto em inglês como em espanhol,
a interação entre classes, países, culturas usamos o termo como uma noção descriti-
ou grupos sociais. Não creio que sejam ex- va. E quando alguém lhe quer imprimir
cludentes. Nesse sentido, a minha percep- uma maior especificidade, como no caso de
ção é entre disciplinas. Tratar de reconhe- Homi Bhaba, precisa agregar-lhe um suple-
cer, desde as fortalezas disciplinárias, que mento e falar de hibridação dominação ou hi-
nos processos sociais a diferença se confun- bridação de resistência nos processos de colo-
de com a desigualdade (a desigualdade nização no oeste da Índia e os modos como
implica diferenças que às vezes não se re- as culturas locais, nacionais ou populares
solvem corrigindo a desigualdade) e que resistiram a esta hibridação imposta pela
finalmente, sobretudo na segunda metade colonização. A noção de hibridação me pa-
do século XX, a possibilidade de conectar- rece útil para reunir vários processos que
se ou de estar desconectado gera também foram estudados separados, porque o ter-
novas diferenças e desigualdades. Tudo mo sincretismo quase sempre se aplica a
isto está articulado em processos sociais, processos religiosos ou a mestiçagem, a
todavia sem que tenhamos instrumentos processos interétnicos, quando se fala tam-
suficientemente elaborados para pensá-los bém de “crioulização”. Essa diversidade
efetivamente. de processos de fusão ou de cruzamentos,
alguns de nós apostamos em reunir sob
RF – Mas, de alguma forma, este pensar uma noção mais abarcadora, de hibridação,
“entre as disciplinas” é algo que persiste que não só reúne essas formas históricas de
em seu trabalho metodológico, porque isto organização heterogêneas, como outras,
já estava em Culturas híbridas. A noção de modernas, como podem ser as articulações
hibridismo ainda tem validade conceitual ou mesclas do culto com o popular e o
hoje ou a interculturalidade seria a concep- massivo ou do moderno com o tradicional.
ção adotada atualmente para entender as O desenvolvimento que têm elaborado
relações entre as culturas? muitos autores nesta linha de criação pare-
ce-me que mostra a utilidade e a fecundi-
C - Eu preferiria falar não de hibridismo, dade dessa noção. Mas, contrariamente aos
mas de hibridação. Parece-me que hibridis- que às vezes têm me criticado, que falar de
mo, como todos os “ismos”, alude a uma hibridação implique uma conciliação entre
certa absolutização daquilo que se nomeia contrários, não creio que a noção de hibri-
e pode implicar um certo dogmatismo ou dação implique afirmações rotundas acerca
uma intenção de impor esta concepção a do caráter e conteúdo da hibridação. Tería-

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mos que analisar em que medida há fu- rie de processos específicos que requerem
sões, há tradições que permanecem, anta- outras noções, como a de apropriação e ela-
gonismos que coexistem com a atração do boração simbólica, para dar conta das ativi-
pré-estabelecido. Então a noção de hibrida- dades dos consumidores. Nunca o consu-
ção necessita associar-se a outras noções mo é um fenômeno passivo, mas a noção
das ciências sociais como as de negocia- de consumo está carregada de um certo
ções, contradições, etc. condicionamento e, às vezes, até determi-
nismo, que vem da produção e da circula-
RF – Em alguns textos, o senhor observa ção. Então os trabalhos de recepção e de
que sob o manto do consumo cultural exis- apropriação têm tratado de criar noções
tem muitos trabalhos de recepção, de uso e para caracterizar as atividades dos destinatá-
até mesmo de opinião pública, que não são rios, portanto, dos receptores, apropriadores
exatamente estudos de consumo cultural. e transformadores daquilo que recebem.
O que o senhor consideraria, hoje, o consu-
mo cultural e no que ele se diferenciaria, RF – No seu artigo “El consumo cultural:
por exemplo, da questão do uso ou recep- una propuesta teórica”3 , o senhor apresen-
ção dos meios? Existe um diferencial do ta seis modelos para se analisar o consumo
consumo cultural que o coloca de uma ma- e propõe uma espécie de desafio de como
neira diferente em relação a estes outros es- conectar essas seis noções. O senhor tem
tudos sobre os meios de comunicação? avançado nestas questões teóricas e meto-
dológicas para fazer essa conexão entre as
C - Tenho a impressão que esse tema foi abordagens que vem tanto da psicologia
analisado já há muitos anos e eu não estou quanto da antropologia, da economia e da
inteiramente a par dos estudos de consumo sociologia? Qual seria a situação hoje desta
e recepção, hoje. Mas o que me parece é abordagem sociocultural do consumo?
que eles têm avançado, sobretudo nos pro-
cedimentos empíricos dos processos e não C - Não tenho trabalhado muito além do
tanto na teorização e na reconceitualização. que já foi publicado, e o que está publica-
Se for assim, eu diria que o consumo conti- do já tem muitos anos. Tenho trabalhado
nua sendo um conceito duro das ciências sobre outras noções ou outros processos
sociais, que por sua vez vem da economia, culturais, não avancei muito neste campo,
da análise do ciclo de produção, reprodu- tenho pequenos estudos, como por exem-
ção e circulação e consumo. E que, portan- plo, a recepção da arte no México e os pú-
to, é o momento terminal do ciclo sócio- blicos que se relacionam com o patrimônio
econômico. Eu não diria só econômico, mas histórico manifestado nos murais. (...) No
basicamente é uma noção da economia e da geral há uma grande dificuldade para cap-
sociologia. De certa maneira, desenvolve- tar os discursos pós-revolucionários do
ram-se de maneira separada e independen- muralismo e os receptores, principalmente
te dos estudos de recepção: de um lado a os mexicanos, vêem os murais a partir de
teoria literária; de outro os estudos comu- duas formações: uma é a da escola e a ou-
nicacionais. E alguns poucos autores os ar- tra a dos meios de comunicação. A escola
ticulam, por exemplo, Eliseo Veron há 30 dá informações sobre os períodos históri-
anos dizia ser mais pertinente aplicar a no- cos e às vezes sobre as próprias obras dos
ção de recepção aos processos comunicaci- muralistas. Isto permite a alguns reconhe-
onais, para captar a complexidade e a di- cer figuras, porém muito poucas. E por ou-
versidade na etapa final do modo como os tro lado, aparece o acesso através dos mei-
consumidores se relacionam com os bens os. Um exemplo é peculiar: uma guia de
culturais e comunicacionais. E estudar a re- museu perguntava para um grupo de ado-
cepção revelou-se algo que abarca uma sé- lescentes se sabiam quem era Diego Rivera

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e a resposta do estudante foi que Diego era vos. Um reality show que não culmine se-
noivo de Frida Khalo. Ele havia visto o fil- quer numa confissão simples ou num es-
me “Frida”, onde a personagem mais im- cândalo na família que se apresenta na tele-
portante era Frida. Na história da arte me- visão é um fracasso. O que se busca em
xicana (...) a obra de Diego tem maior im- cena é a ação. Creio que se está sofisticando
portância do que a de Frida. Mas, inverteu- muito mais a oferta televisiva do que a ci-
se, o personagem histórico de Frida foi se nematográfica dos EUA. Existem muito
construindo por uma operação mediática e poucos filmes estadunidenses que traba-
é a partir desta cultura mediática que agora lham sobre a subjetividade, existem mais
são lidos os murais. Então, encontrar estes nos cinemas europeu, asiático ou latino-
desacordos me parece mais interessante do americano. Mas na televisão, sim. E se
que pensar o modelo. Não quero dizer que o pode suspeitar que isto tenha a ver com a
modelo não seja pertinente para se pensar te- relação da televisão com o lar, com a famí-
oricamente a questão, porém o que tem me lia, com a casa, com as rotinas domésticas.
preocupado mais é perseguir estes processos RF – Na sua palestra no VIII Seminário In-
interculturais, estes desencontros e desencai- ternacional da Comunicação, o senhor citou
xes entre a oferta cultural que oferecem um Bourdieu sobre o longo tempo despendido
tipo de leitura sobre a história da sociedade e na formação do habitus. E falou que se as
os lugares dos quais os mexicanos ou estran- interpelações são feitas para os grupos, as
geiros se relacionam com esses bens. respostas são sempre individuais. Então,
com essas ressalvas, o que o senhor classifi-
RF - Em Consumidores e cidadãos, o senhor caria como contribuição da televisão na
falava de uma “norte-americanização do construção dos processos de mudança des-
planeta”, que mais do que a hegemonia ta época já chamada (por Gilles Lipo-
dos capitais e das corporações norte-ameri- vetsky) de hipermoderna?
canas poderia ser associada a certos traços
estéticos, dentre eles o predomínio da ação C - Não sei se sou suficientemente conhece-
espetacular sobre formas mais reflexivas e dor do que está acontecendo na televisão
íntimas de narração. O que dizer, então, so- internacional e seu modo de afetar distin-
bre os programas chamados de reality sho- tos públicos. A minha impressão é que o
ws, onde a intimidade de algumas pessoas impacto da televisão, que descobrimos
oriundas do segmento da recepção dos me- com os estudos comunicacionais desde os
dia se oferece à produção do espetáculo? anos 60 e 70 e que se elaborou com um
pouco mais de sofisticação nas últimas dé-
C - Há efetivamente uma reorganização dos cadas do século XX, está se modificando
gêneros e estilos televisivos e mediáticos por um caráter “intermedial”, isto é, entre
em geral, desde aquela época. Alguns des- os muitos meios da comunicação atual. Isto
tes novos programas televisivos fazem se nota tanto na estrutura da indústria
emergir uma subjetividade e uma certa in- como nos modos de apropriação e recep-
timidade familiar ou pessoal, mas sob o re- ção dos usuários. Na estrutura das indús-
gistro de espetáculo, não como instância re- trias, sabemos que há crescentes processos
flexiva, como oportunidade para elabora- de fusão entre os proprietários de emisso-
ção, como fazem outros programas televisi- ras, entre produtoras de cinema e televisão,
vos, por exemplo, os consultores sentimen- que produzem para os dois meios simulta-
tais ou outras formas, como os consultores neamente e, nos últimos anos, também a
sexuais das televisões de muitos países. American On Line e todas as produtoras de
Mas os programas que tem mais êxito, comunicação eletrônica da Internet. Cada
como os reality shows, são os que espetacu- vez, as instituições criam relações mais
larizam os dramas subjetivos e intersubjeti- complexas, mais articuladas e poderosas. E

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do lado dos receptores, percebe-se que so- cultura e da economia da cultura. Como
bretudo as gerações jovens se relacionam pensar isto hoje? Qual o seu percurso nesta
com produtos complementares, que che- questão que de alguma maneira também
gam por diversos meios. Eles vêem teleno- remete àquela discussão bastante antiga do
velas para jovens, buscam informações so- contexto anglo-americano, dos estudos cul-
bre os atores na Internet (sobre sua vida ex- turais versus a economia política?
tratelevisiva) e compram produtos que são
oferecidos na televisão mas que adquirem C - Há várias vias por que cheguei, mas
via Internet. Tudo está internamente inter- não quero colocar a resposta em termos
relacionado e supõe um nível de consumo pessoais. Parece-me um processo que eu
médio e alto, ter televisão e computador compartilho. E parece-me que esta remode-
em casa e poder comprar esses produtos. lação dos estudos culturais ou comunicaci-
Todavia, na América Latina nem a metade onais tem a ver com mudanças que já exis-
da população tem ou acessa computador tiam há 20 anos, mas que agora são muito
(ainda que em um lugar público), e não mais visíveis. Por um lado, eu assinalaria a
passa de 20% o acesso à Internet. Embora “rua sem saída” a que chegamos nos estu-
para os mais jovens o índice seja maior, dos culturais, sobretudo na sua versão nor-
para a maioria da população a televisão se- te-americana. Em parte, pelo fato de que a
gue sendo o recurso mais predominante e maioria dos autores dos cultural studies nor-
se combina pouco com outros lugares de te-americanos provinha da literatura e das
acesso a oferta cultural. Mas me parece que humanidades e tenderam a construir con-
vamos numa crescente combinação dos cepções críticas humanistas (no sentido das
meios. Cada vez menos, podemos ler o que humanidades) sobre os processos culturais.
oferece a televisão como um produto isola- Eles fizeram críticas muito valiosas, elegen-
do, precisamos vê-la como um processo co- do os processos culturais através de gêne-
mercial, mediático e de recepção que arti- ro, etnia, ou propondo, os mais radicais,
cula várias possibilidades, vários cenários. uma crítica ao capitalismo. Então, o que
Embora eu não conheça estudos sobre isto, muitos de nós percebemos é que chegamos
por observação de meus filhos e de seus a uma hiper-textualização com pouca ênfa-
amigos percebo que há uma mudança gera- se na análise de contexto, dos processos so-
cional muito grande. Minha filha mais ve- cioeconômicos que assinalavam de um
lha (29 anos), quando tinha 15 anos ia para modo ou de outro a indústria da cultura.
o seu quarto assistir à televisão, meu filho Parece-me que isto ocorreu menos na Amé-
de 15 anos vai para o quarto ocupar-se com rica Latina, porque tratamos de incluir os
o computador. Em parte, a televisão tem processos socioeconômicos. Nem sempre
um papel ambíguo, ora se apresenta como da melhor maneira, porque não tínhamos
complementar aos outros meios, ora como quase nenhum economista da cultura e nos
um concorrente. Também é o caso da Inter- faltavam os instrumentos técnicos apropri-
net, onde é possível baixar músicas. ados para fazer uma análise rigorosa das
bases socioeconômica da cultura, mas me
RF - As questões que levantamos até aqui parece que nos dávamos conta disso. Na
remetem a leituras de García-Canclini dos atualidade, nos Estados Unidos e na Ingla-
anos 80 e 90, talvez deixando de lado o que terra e também em outros países há um co-
começa aparecer em Consumidores e cidadãos, nhecimento muito mais cuidadoso destes
continua em A globalização imaginada, e que processos básicos e estruturais na produ-
também teve ênfase no Seminário, em rela- ção da cultura. Por exemplo, obras como a
ção à utilização dos dados duros e sobretu- de George Yúdice e Toby Miller me pare-
do, dessa preocupação bastante atual na cem exemplares sobre o conhecimento, não
sua reflexão, da integração dos estudos da somente do papel socioeconômico da cul-

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tura, senão de como a explicação de ques- em cultura e poder. Nesse sentido, foi sur-
tões de estilo, de recepção, de eleição de preendente uma entrevista que o senhor deu
gêneros estão articuladas, mas precisam ser para a revista Cultural Studies, no finalzinho
entendidas como parte dos processos soci- dos anos 90, quando pela primeira vez um
oeconômicos. Outra via para explicar esta latino-americano dizia ser possível pensar
remodelação dos estudos culturais comu- em estudos culturais na América Latina.
nicacionais é o fato de que já contamos com
uma certa quantidade de estudos de econo- C - Tudo depende como definimos estudos
mia da cultura, que têm sofisticado muito a culturais. Eu prefiro falar de estudos sobre
informação. Estou pensando nos trabalhos cultura, principalmente para nos distin-
de Luiz Monet, na Espanha, ou de Ernesto guirmos dos cultural studies, que tampouco
Piedras, no México, que são economistas são os mesmos em todas as áreas anglo-
com boa formação em sua disciplina e às saxônicas. Na Grã Bretanha têm um certo
vezes se dedicam a fazer investigação nos desenvolvimento, nos Estados Unidos, ou-
campos culturais e comunicacionais. Há tro, e no mundo asiático é diferente. Mas,
uma terceira linha, que me parece menos em parte eu compartilho, na América Lati-
desenvolvida enquanto economia da cultu- na, com preocupações e estilos básicos dos
ra, mas igualmente importante e que ofere- cultural studies. A vocação transdiscipliná-
ce elaborações complexas de aspectos mais ria, a reflexão e investigação sobre cultura
estéticos, por exemplo, a análise da indús- em relação a estrutura e poder, a divisão
tria editorial. Tem sido evidente, nos últi- de classes e grupos de consumo na socie-
mos 10 a 15 anos, a passagem das indústri- dade e o interesse de estudar sociológica
as editoriais encabeçadas por especialistas ou socioantropologicamente os produtos
que liam os livros antes de publicá-los, culturais, não analisar isoladamente as
para essa espécie de corporações transnaci- obras de arte ou as obras literárias, mas vê-
onais que produzem livros com a exigência las na trama complexa de relações de pro-
de rendimentos, que reelaboram catálogos, dução cultural. Tudo isto tem sido caracte-
decidem o que vão publicar ou não, dei- rístico dos cultural studies e também dos es-
xam de publicar livros que têm certo êxito, tudos culturais ou estudos de cultura na
porque não têm um público massivo. Pro- América Latina. Se bem aí existem uns 10 a
duzem livros de ficção, romances, como se 15, 20 autores que eu poderia identificar na
estivessem produzindo carros ou produtos América Latina com uma produção vincu-
derivados do petróleo. Inclusive nos Estados lável aos estudos culturais, eu não encon-
Unidos muitos dos donos das editoras pro- tro nenhum dos mais importantes ou que
vém da produção petroleira e da Disneylân- tenham obras e trabalhos mais consistentes
dia, a grande corporação de espetáculos. que sejam simplesmente afiliáveis aos es-
tudos culturais, que cumpram com um re-
RF - Já que entramos na pauta dos estudos quisito de um paradigma internacional, o
culturais, há um texto seu sobre “O mal- que por outro lado não existe, é uma con-
estar nos estudos culturais”4 , que faz men- venção. Uns interpretam de uma maneira e
ção ao seu entendimento acerca do desen- outros de outra. Assim, é possível encon-
volvimento dos estudos culturais, sobretu- trar autores como Beatriz Sarlo, que cita
do nos Estados Unidos. É possível falar de muito Raymond Williams e outros autores
estudos culturais na América Latina? Sabe- dos estudos culturais, sobretudo os britâni-
se que Daniel Matto, da Venezuela, embora cos, através dos quais aprendeu a analisar
participe de uma maneira bastante intensa os textos ou a relação texto e contexto soci-
na Associação Internacional dos Estudos al. Porém, Beatriz Sarlo também reivindica,
Culturais, fala que na América Latina o im- no mesmo nível que Raymond Williams,
portante seria demarcar uma área estudos um Roland Barthes, por exemplo. E outros,

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como Jesus Martín-Barbero, que também relação à questão da utopia é que podemos
usam recursos dos estudos culturais britâ- dizer um pouco paradoxalmente que Bour-
nicos e norte-americanos, mas de forma dieu sim teria uma utopia, como um sub-
mais diversificada, combinando-os com texto de suas investigações e reflexões, que
análises empíricas e com outras metodolo- era uma sociedade moderna pré-mediática.
gias e estratégias de investigação na Améri- Mesmo tendo um projeto cultural muito
ca Latina. Nesse sentido, eu me sinto muito ambicioso e exaustivo sobre a sociedade
próximo de um autor como Martín Barbe- francesa, se negou a falar destes protago-
ro. Outra característica que parece nos dife- nistas-chave que são as indústrias culturais
renciar de outros (que podemos citar como e a televisão; incluiu-os muito tardiamente
parte de um grupo) é o fato de mantermos e mal, com críticas ao papel da televisão na
uma forte preocupação teórica, problemati- sociedade contemporânea, que se dirigiam
zando os modos como articulamos os re- sobretudo à incapacidade de a televisão
cursos de diferentes disciplinas. E há auto- desenvolver receptores pensantes. O corpo
res que se negam a serem incluídos nos es- desta segunda crítica é válido, mas não se
tudos culturais, como Renato Ortiz, ainda pode fazer tal crítica sem abarcar tudo o que
que não me pareça arbitrário que sua obra a televisão e outros meios audiovisuais têm
tenha sido arrolada dentro dos estudos cul- de espetáculo, de comunicação efetiva, de
turais nesse sentido amplo. compromisso, de envolvimento do receptor
numa experiência que não é predominante-
RF - Na introdução do livro Sociologia e cul- mente reflexiva. Não negamos que a televi-
tura, de Pierre Bourdieu, o senhor faz uma são tenha valor para desenvolver uma cida-
crítica a ele, por não pensar na transforma- dania crítica e pensamento reflexivo, mas
ção, porque o trabalho dele não incluiria a isto pode ser alcançado também incluindo
utopia para se pensar uma outra socieda- os recursos audiovisuais de sedução, de
de. A sua obra, ao contrário, sempre apre- compromisso afetivo. Então é nesse sentido
senta possibilidades políticas e culturais, que se poderia ler como uma utopia subja-
estratégias para escapar dos movimentos cente na obra de Bourdieu. Nos últimos
de dominação. Qual é a utopia desta nova anos se voltou a falar um pouco de utopia,
sociedade e quais são os elementos pelos em distintas vertentes. Uma é a pós-moder-
quais o senhor a constrói? na, que em geral encontra poucas evidênci-
as empíricas que fundamentem estas pro-
C - Há duas questões aí. Uma é a crítica a postas utópicas. Em boa medida, refiro-me
Bourdieu que desenvolvi no meu último ao pensamento francês que tem feito (com
livro, Diferentes, desiguales y desconectados, outros pensamentos pós-modernos de ou-
onde retomei algumas partes daquela que tras nacionalidades) uma exaltação ao indi-
fizera 20 anos atrás para Sociologia e cultura. vidualismo, à sedução do consumo ou ao
Retomei-a, referindo-me também ao livro simulacro nas sociedades contemporâneas.
sobre a televisão de Bourdieu e ao modo Neste sentido, parece uma reflexão pouco
como ele se comportou publicamente ao consistente e que não ajuda muito a reco-
dar as conferências na televisão, negando- locar o drama das utopias. A outra ver-
se a usar os recursos lingüísticos comunica- tente, a de um certo pensamento político
cionais da televisão, proibindo movimen- na América Latina. São dois fenômenos
tos de câmera, usos de estatísticas e ilustra- distintos. O movimento de globalização é
ções que interrompessem sua discursivida- muito heterogêneo e parecia dominar até
de acadêmica. Parece-me que esta sintoma- agora posições reativas que entendem
tologia anti-mediática é expressiva e em pouco a lógica estabelecida pela globali-
parte explicativa do fracasso da obra tardia zação, buscam afirmações no local, no regi-
e final sobre a televisão. Parece-me que em onal e no alternativo e têm poucas propos-

14 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 30 • agosto 2006 • quadrimestral


tas culturais e comunicacionais. (...) O neo- que aparecem como importantes para o de-
liberalismo está exibindo o seu fracasso em senvolvimento da sociedade. Uma é a esta-
todo o mundo mas não há um modelo ela- bilidade macroeconômica e microeconômi-
borado que lhe faça oposição. Por outro ca, com indicadores duráveis a respeito do
lado, na América Latina tem aparecido mo- que se pode esperar, onde eu posso inves-
vimentos de protestos muito fortes e triun- tir, o que eu posso esperar para meus fi-
fos eleitorais de partidos ou caudilhos que lhos. Outra expectativa é a segurança na
têm uma trajetória de esquerda ou crítica vida urbana. Corrupção, narcotráfico, vio-
diante do neoliberalismo. Inclusive se fala- lência urbana. E este último processo ocor-
va em 2001, 2002, de um eixo de esquerda re tanto em países que não tiveram ditadu-
na América Latina: Chaves, Lula, Kichnner ras, quanto naqueles que as tiveram. Esses
e também o governo cubano. Apesar disto, são processos de decomposição social que
são muitos distintos em si e não são com- têm sido agravados nas sociedades. Nas
paráveis nem constroem um modelo alter- sociedades que passaram por ditaduras
nativo em relação ao neoliberalismo. O que esse processo de insegurança teve um res-
se encontra são alianças táticas entre alguns paldo; na medida em que as ditaduras con-
países para resolver alguns problemas estru- tribuíram para a insegurança, inclusive
turais. Não vejo um pensamento utópico ela- possibilitando privatizações e a passagem
borado e pensado com os requisitos que de- a informalidade de mais de 50% de traba-
veriam ter. Formular uma alternativa ao neo- lhadores: a desconstrução de um estado de
liberalismo deveria ser o primeiro objetivo bem estar. Assim, esses processos de inse-
praticável e em segundo lugar reformular o gurança devem ser vistos conectados a
modo como o pensamento de esquerda de- muitos fenômenos mais amplos. E não há
veria administrar as contradições sociais e a sinal de mudança, justamente por isto a se-
inserção competitiva da economia numa eco- gurança aparece em primeiro lugar nas pes-
nomia globalizada. quisas a respeito das preocupações públicas,
enquanto deveria ser a estabilidade socioeco-
RF - O senhor coloca que não há uma pro- nômica, durabilidade dos comportamentos,
posta consistente que se oponha ao neoli- segurança urbana. Não há muito lugar para
beralismo. Isto não produz um novo desen- as utopias. Entretanto, é com estas condições
cantamento do mundo? Isto, aliado ao fra- que deveremos construir as utopias .
casso de alguns governos de esquerda ou a
repetição de erros de governos neoliberais
em governos de esquerda? Notas

C - Está produzindo, mas não do mesmo 1 Entrevista concedida a Ana Carolina Escosteguy (professora do
modo em todos os países. Houve um mo- PPGCOM/PUCRS), Ana Luiza Coiro (doutoranda do
mento demasiadamente utópico na saída PPGCOM/PUCRS) e Renê Goellner (doutorando do PPGCOM
das ditaduras nos anos 80, quando se en- /UFRGS), na cidade de Porto Alegre, em 02/11/2005.
tendia que a redemocratização no continen-
te traria um bem estar socioeconômico. Isto 2 A tradução para o português foi publicada pela EDUSP, em 2003.
não ocorreu. Em certa medida, poderia ser
lógico imaginar uma relação de causa efei- 3 In Sunkel, Guillermo (comp.) Consumo cultural en América Latina. Santa
to, onde o bem estar socioeconômico seria Fé de Bogotá: Convênio Andrés Bello, 1999. pp. 26-49.
a resultante. Nesse sentido, há um desen-
canto compartilhado, mas com dinâmicas 4 “El malestar en los estudios culturales”. México, 1997,
diferentes em vários países. A minha avali- Revista Fractal ano 2, v. 2, nº 6, p. 45, jul/set. Disponível
ação agora é que há outras expectativas so- em: http://www.fractal.com.mx/F6cancli.html. Acesso
ciais que a esquerda tem subvalorizado e em: 15 de maio de 2006.

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