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COMO CONHECEMOS O PASSADO* David Lowenthal” Tradugdo: Licia Haddad’ Revisio técnica: Marina Maluf’* A poesia da histéria repousa no fato quase milagroso de que, por esta mesma terra, por este mesmo chéio familiar, jd caminharam outros homens e mulheres, tio reais quanto nds, com pensamentos préprios, levados pelas proprias paixdes, todos mortos agora, geragdes € geragdes completamente desaparecidas, da mesma forma que nds muito em breve desupareceremos como fantasmas ao raiar do dia. G. M. Trevelyan’, Autobtography of an historian Quando fatamos do passado, mentimos a cada respiragao. William Maxwell, So Long, See You Tomorrow" * “How we know the past”, in The past is a foreign country, T* reimpe. Cambridge, Cambrigde University Press, 1995. N.Ed. A tradug3o mantém as notas na forma original de publicagZo. As referéncias bibliograficas, a0 final da tradugdo, também conservam a forma original de publicagdo. +* Professor convidado de arquitetura paisagistiea em Harvard, de ciéncia politica no M.L-T., de psicologia ambiental na University of New York, de geografia nas universidades de California (Berkeley © Davis), Washington, Minnesota ¢ Ciark University. *** Professora de Tradugio Literdria da Associagao Alun **** Professora do Departamento de Histéria da PUC-SP. 1 1949, p. 13. 2 1980, p. 29. Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 63 A consciéncia do passado é, por intimeras razées, essencial ao nosso bem-estar. Este texto examina os caminhos pelos quais tomamos consciéncia do passado como uma pré-condigao para preencher tal necessidade, Como tomamos conhecimento do passado? Como adquirimos esse background im- prescindivel? A resposta é simples: lembramo-nos das coisas, Iemos ou ouvimos histérias e cr6nicas, e vivemos entre reliquias de épocas anteriores. O passado nos cerca e nos preenche; cada cenério, cada declaragao, cada ago conserva um contetido residual de tempos pretéritos. Toda consciéncia atual se funda em percepgdes € atitudes do passado; reconhecemos uma pessoa, uma drvore, um café da manha, uma tarefa, porque jd os vimos ou jé os experimentamos. E 0 acontecido também € parte integral de nossa propria existéncia: “Somos a qualquer momento a soma de todos os nossos momentos, © produto de todas as nossas experiéncias”, como coloca A. A. Mendilow.* Séculos de tradigéio subjazem a cada momento de percepgio € criagdo, permeando nao somente artefatos € cultura mas as proprias células de nossos corpos. Nao temos consciéneia da maioria desses residuos, atribuindo-os to somente ac momento presente; esforgo consciente é necessdrio para reconhecer que cles advém do passado. “Eu preciso ser moderno: vivo agora”, medita um personagem de Robertson Davies. “Mas assim como todos... vivo num emaranhado de épocas, ¢ algumas de minhas idéias pertencem ao agora, algumas a um passado remoto, € outras a tempos: que parecem mais relevantes a meus pais do que a mim.” O mélange de épocas ge ralmente passa despercebido, visto que é tido como a propria natureza do presente. As facetas do passado, que perduram em nossos gestos e palavras bem como em regras € artefatos, surgem para nds como “passado” somente quando as reconhecemos como tais. Reconhecer 0 passado como um Ambito temporal distinto do presente, afirmam alguns académicos, é uma caracteristica inerente ao pensamento ocidental.’” No entanto certa consciéncia do passado é comum a todos os seres humanos, com excegiio dos bebés, dos senis ¢ dos portadores de lesdes cerebrais. No minimo, lembramos 0 que 3. Time and the Novel, p. 223; vide também p. 230. 4 Bergson, Creative Evolution, p. 20; Shils, Tradition, pp. 34-8, 169-70. 3 Rebel Angels, p. 124. 6 Heller, Theory of History, p. 201 7 Kelley, Foundations of Modern Historical Scholarship, p. 3 64 Proj. Histéria, Sée Paulo, (17), nov. 1998 ssos organicos de repetimos crescer ¢ envelhecer, de desabrochar ¢ de definhar. Uma consciéncia do passado mais recordamos que houve um ontem ¢ perechemos os proc completa envolve familiaridade com processos concebidos ¢ finalizados, com recor- dagdes daquilo que foi dito e feito, com histérias sobre pessoas ¢ acontecimentos — coisas comuns da meméria ¢ da histéria. “O passado nunca esté morto”, na frase de Gilbert Highet; “cle existe ininterrup- tamente na memoria de pensadores ¢ de homens imaginativos”.* De fato, ele existe na meméria de todos nés. Constantemente tomamos conhecimento nao somente de nossas agGes ¢ pensamentos anteriores, como também daqueles de outrem, seja por testemunho: direto ou de terceiros. Até sinais de experiéncia excessivamente remota podem sc tornar conscientes. Herbert Butterfield revela como isto acontece: Todas as mentes contém um emaranhado de imagens ¢ historias... que constituem 0 que construfmos do Passado para nés mesmos,... que entra em agdio a um vislumbre de rufnas antigas ... ou a uma sugestio do romantico... Um sino de catedral ou a mengao a Agin- court, ou © proprio soletrar da palavra “nomear” (ycleped) podem bastar para acionar a mente a perambular por suas préprias galerias de quadros da histéria.” rico quanto ao da O pa meméria: seus cenarios ¢ experiéneias antecedem nossas proprias vidas, ado, para Butterfield, refere-se tanto ao Ambito hist © que ja lemos, ouyimos e reiteramos tornam-se também parte de nossas lembrangas Na verdade temos consciéncia do passado como um Ambito que coexiste com o presente ao mesmo tempo que se distingue dele. O que os unc & nossa percepgao sa autoconsciéncia — amplamente inconsciente da vida organica; 0 que os separa é no: © pensar sobre nossas memérias, sobre histéria, sobre a idade das coisas que nos rodeiam. A reflexio freqiicntemente distingue 6 aqui e agora — tarefas sendo feitas, idéias sendo formadas, passos sendo dados — de coisas, pensamentos © acontecimentos pa tanto como parte do presente quanto separado dele. “N6és realmente damos vida ao (0; 0 passado precisa ser sentido sados. Mas uniao ¢ separagao estéo em continua tensa passado, como tal, ao rememorar ¢ pensar historicamente”, escreveu R.G. Collingwood; > 40 “mas 0 fazemos desvencilhando-o do presente no qual ele de fato existe”, 8 Classical Tradition, p. 447. 9 Historical Novel, p. 1 10 “Some perplexities about time”, p. 150. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 65 As quest6es sobre 0 que 0 passado consciente contém, porque se pensa sobre cle, quanto ¢ de que forma é sentido como sendo um campo separado — variam de cultura para cultura, de pessoa para pessoa ¢ de dia para dia. Alguns ficam tao estimulados (ou oprimidos) por passados imaginados ou recordados que toda experiéncia presente & influenciada por suas lembrangas; para outros o passado tem pouco a dizer, 0 presente ¢ 0 futuro apropriam-se antecipadamente de sua atengio consciente. Mas © pas sado, seja ele parco ou copioso, morto ou vivo, um campo separado ou confundido com o presente, é percebide conscientemente pelos mesmos caminhos. Trés fontes de conhecimento do passado sio aqui estudadas: meméria, histéria © fragmentos. Memoria ¢ historia sio processos de introspecgao (insight) uma envolve componentes da outra, ¢ suas fronteiras sao ténues. Ainda assim, memoria ¢ histéria 0 normalmente, e justificadamente, diferenciadas: a memoria € inevitivel ¢ indubiuivel prima-facie: a histéria € contingente © empiricamente verificavel. Ao contrario de memoria ¢ historia, fragmentos nio 08, silo processos mas residuos de processos, Fragmen- tos feitos pelo homem sio chamados artefatos; os naturais carecem de um nome specifico. Ambos atestam o passado biotogicamente, por envelhecimento ¢ desgaste e, historicamente, por formas ¢ estruturas anacr6nicas. Cada caminho para o p ssado — meméria, histo ia, fragmentos — 6 um campo rei- vindicado por disciplinas especializadas, explicitamente pela psicologia, histéria © ar- gueologia. Mas conhecer 0 passado envolve perspectivas mais amplas do que aquelas abrangidas normalmente por essas discipling Por conseguinte, minha investigagao par- tird ¢ algumas vezes wanscendera esses campos de especializagao protissional. Anics de analisar como a memoria, a hist6ria ¢ os fragmemtos nos conduzem ao Ppassado, tentarci mostrar como cle ¢ geralmente vivenciado ¢ aceito. O fato de que o pas (© atribuidas duragées variiveis, que cle & precariamente ligado ao presente, que sua ido nao mais esta presente tolda de incerteza 0 seu conhecimento. Visto que lhe propria existéncia nao & comprovada, 0 passado com freqiiéncia parece desconcertan- temente ténue. Uma vez que essas diividas afetam quase tudo 0 que pensamos saber sobre 0 passado, cla merecem um exame mais minucioso. 66 Proj. Historia, Sado Paulo, (17), nov, 1998 Como o passado é sentido e aceito Tados acontecimentoy passados estdo mais longe de nossoy sentidos do que as estvelas das galdxias mais remotas, cuja iuz propria, ae menos, ainda alcanga os telescépios. George Kubler The Shape of Time" Em nossas lembrangas jd um passado ficticio ocupa 0 lugar de ourro, do qual nada sabemos com certeza ~ nem, ao menos, que é falso. Jorge Luis Borges, ‘Tlin, Ugbar, Orbis Tertius"? Memoria, hist6ria ¢ fragmentos revivem continuamente nossa consciéncia do pas- sado, Mas como podemos estar seguros de que refletem 0 que aconteceu? O pasado se foi: sua analogia com aquilo agora visto, relembrado ou lido jamais pode ser provada, Nenhuma atirmagaio sobre © passado pode ser confirmada pelo exame de fatos presu- midos. Uma vez que conhecer ocorre apenas no presente epistemolégico, como C. I. Lewis coloca, “nenhuma verificagaio teoricamente suticiente de qualquer fato passado & possivel”.!’ Nao podemos verificd-lo pela observacao ou pela experimentagio. Dife- fiz rentemente dos lugares geograficamente remotos que poderiamos visitar s semos, um esforgo. 0 passado esta além do nosso alcance. Fatos presentes conhecidos apenas indiretamente poderiam, a principio, ser verificados; fatos passados, por sua prépria natureza, ndo o podem Dar nome ou pensar em coisas do passado parece inferir sua existéncia, mas elas nao existem: temos apenas uma prova presente de circunstincias passadas. “O passado sivel”, conclui Collingwood; simplesmente como passado € totalmente incognos ‘somente 0 passado residualmente preservado no presente & cognoscivel”. Um passado que continuasse a existir seria um “limbo, em que acontecimentos ja completados ainda continuam”; implicaria “um mundo em que o peso de Galileu ainda esté em queda, em que a fumaga da Roma de Nero ainda impregna © ar, ¢ em que 6 homem inter-glacial ainda esta arduamente aprendendo a lascar a pedra”. 11 1962, p. 79 121961, pp. 42-3 13. Analysis of Knowledge and Valuation, p. 200. 14 Collingwood, “Limits of historical knowledge”, pp. 220-1 Proj. Histéria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 67 Da auséncia de passado resultam duas incertezas: de que algo semelhante ao pas- sado geralmente aceito tenha existido; e, se existiu, 0 que ocorreu jamais pode ser verdadeiramente conhecido. Tratarei dessas incertezas no devido tempo. Sera que os eventos que cremos terem ocorrido de fato ocorreram? Talvez um passado ficticio ocupe nossas Iembrangas, como especula Borges. Pelo que sabemos, talvez sejamos como os simulacros de Ron Hubbard, que estavam convencidos de terem vivido num mundo real e “pensavam que se lembravam de passados ¢ ancestrais longin- quos”."° Registros hist6ricos e lembrangas podem nos levar a supor que, afinal, existiu um passado. O planeta poderia ter sido criado cinco minutos atrés, Bertrand Russell conjecturava, com uma populagdio que se “lembrava” de um passado ilusério.'* Um escritor que queira reproduzir uma cena de Russell imagina um jornal encontrado nas mandibulas fossilizadas de um tiranossauro de setenta milhdes de anos, localizado nas ruinas de Creta, provando que “o universo foi de fato criado por volta das 9hOS dessa manhi e quem quer que 0 tenha feito cometeu um deslize ao deixar esse exemplar do The Times jogado por ai”."” Esses recém-criados mundos hipotéticos diferem da doutrina biblica recebida apenas por serem recentes ¢ breves. Tendo-lhe sido atribufda diversas datas, a Criagio foi fi- nalmente calculada pelo Arcebispo James Ussher, no ano de 4004 a.C, para satisfagao tisfaziam assim todos os acontecimentos geral. Os seis milénios atribufdos ao passado ne conhecidos; sem uma geo-cronologia moderna, os académicos do século XVII nao s tiram que havia uma lacuna de épocas anteriores a eles. Até mesmo os intérpretes dos textos sagrados do século XIX puderam encaixar 0 passado humano conhecido entio em scis milénios. Rochas e fésscis, provas de existéncia anterior, foram descartadas como espirias e impias; do mesmo modo, erosdes e conseqiiéncias aparentemente an- tidiluvianas faziam parte do ato Gnico da Criagdo. Mas a geologia e a paleontologia tornaram a visao ortodoxa cada vez mais dificil de sustentar; por toda parte havia sinais de um passado na terra bem mais antigo do que a Criagao biblica parecia permitir."* ‘Typewriter in the Sky, p. 60. 16 Analysis of Mind, p. 159. Vide Fain, Between Philosophy and History, pp. 114-26. t Karl Sabbagh, New Statesman Competition, 11 Aug. 1967, p. 183. 18 G.L. Davies, Earth in Decay, pp. 13-16; J. Butler, “Other dates”, pp. 23-4; Rupke, Great Chain of History, pp. 51-7 68 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 A obra Omphalos, de P.H. Gosse, que procurou explicar porque a terra recém-criada precisava conter sinais evidentes de preeexisténcia, é hoje em dia descartada e consi- derada risivel. Mas levantou questdes fundamentais que prefiguram o ceticismo de Russell. Gosse sabia da existéncia do passado histérico, pois homens que escreveram acerca de acontecimentos que eles mesmos presenciaram deixaram testemunho direto disso.” Mas a pré-histria nao deixou relatos similares; ninguém estava l4 para ver e registrar. E a prova desse passado a partir de fésseis, camadas geoldgicas ¢ tecidos vivos carecia da confiabilidade de testemunhas oculares. Ninguém ... declara que viu realmente 0 Pterodéctilo vivo voando por af, ou ouviu os ventos sibilando no alto da Lepidodondra. Vocé diré, “E a mesma coisa; vimos 0 esqueleto de um e€ 0 tronco esmagado da outra e, portanto, estamos tio seguros de sua exist@ncia passada como se na época Ié estivéssemos”. Nao, nfo é... exatamente a mesma coisa [pois] somente através de um processo de reflexao [se] pode inferir que realmente viveram.”” Houvesse tal inferéncia se expandido, “a seqiiéncia de causa e efeito... nos levaria inevitavelmente a eternidade de toda vida organica existente”. E isso seria um absurdo. Tudo, incluindo fésscis, “antigas” camadas de rocha, ¢ os legitimos progenitores de todas as coisas vivas devem, em algum momento especifico, ter sido criados.” Todas as coisas vivas revelavam uma preexisténcia — circulos nos troncos de arvores, umbigos no homem que no momento da Criagdo cram “falsos”. “O *osso de siba’ (cut- tle-bone) & um registro autografico, indubitavelmente genuino, da histéria do molusco siba. Sim, é certamente genuino; ¢ também autogrifico: mas ndo é verdadeiro. Aquele 22 Uma divindade que dou as criaturas recém-criadas uma falsa lerada perversa — “Deus escondeu os Siba foi entao criado. aparéncia de existéncia anterior deveria ser con fésseis nas rochas para que os gedlogos fossem induzidos ao engano” — era a memoravel ** — mas nao foi bem assim, Gosse contrapds: “Sera que os circulos concén- zombati tricos da madeira da primeira drvore criada foram formados simplesmente com 0 intuito 19 Omphalos (1857), p. 337. 20. tbid., p. 104. 21 Ibid., p. 338. 22. Ibid, p. 239. 23 Edmund Gosse, Father and Son (1907), p. 67. Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 69 de enganar?... Seré que o umbigo do Homem criado visava engané-lo no sentido de que tivera um progenitor?” Nao, eles foram assim feitos porque o Criador decidiu criar a terra “exatamente como ela teria surgido naquele momento de sua histéria, como se todas as eras precedentes de sua histéria tivessem sido reais”.™ Nao obstante a crenga de Gosse nos relatos de testemunhas oculares, um ceticismo semelhante parece colocar em perigo a realidade até mesmo do passado histérico. Se Deus houvesse escolhido criar 0 mundo nao em 4004 a.C., mas em 1857 d.C. (época de Gosse), mesmo assim pareceria exatamente como se fosse agora, repleto de “evidén- cias” de um passado: casas construfdas pela metade; castelos em rufnas; quadros apenas esbocados sobre cayaletes de artistas; guarda-roupas cheios de trajes pouco usados; navios cruzando os mares; pegadas de passaros no barro; esqueletos branqueando as areias do deserto; corpos humanos em vérios estégios de decomposi¢ao nos timulos. Esses vestigios, bem como milhdes de outros vestigios do passado, seriam encontrados, porque sio encontrados no mundo agora ... no para confundir 0 filésofo, mas porque sao insepariveis da condigao do mundo, no momento escolhido de sua irrup¢do em sua historia;... fazem dele o que 525 6 Resumindo, 0 passado hist6rico pode ser to ilusério quanto o pré-histérico. Du- vidar do passado historico, no entanto, (raz problemas adicionais. Um mundo criado durante tempos hist6ricos iria adulterar nfo apenas alguns mas todos os relatos da histéria passada, com terriveis implicagdes para a credibilidade humana. Desacreditar todos os relatos sobre 0 passado, duvidar da autenticidade ou da sanidade de todos aqueles que documentaram vastamente aquilo que nao havia ocorrido, poria em duivida nossa propria sanidade e veracidade. E a ampliagao feita por Russel sobre a hipétese de Gosse, de uma Criagio de apenas cinco minutos de existéncia, pressupée a falsidade nao s6 de toda evidéncia histérica ¢ fisica do passado, mas também de nossas proprias 24 Omphalos, pp. 347-8, 351. Meio século antes, Chateaubriand havia explicado a aparente antiguidade da recente Criagdo em termos estéticos: “Deus poderia haver criado, ¢ sem divida realmente criou, 0 mundo com todas'as marcas de antiguidade ¢ perfeigdo que apresenta agora. Se 0 mundo nao tivesse sido a0 mesmo tempo novo € antigo, © magnifico, o sério, 0 moral teriam sido banidos da face da hatureza; pois estas so caracteristicas essencialmente inerentes aos objetos antigos... Na auséncia desta antiguidade original, nao teria havido nem beleza nem magnificéncia na obra do Todo Poderoso”” (Genius of Christianity (1802), Liv IV, Cap. 5, pp. 135-7). Vide também Borges, “The Creation and P. H. Gosse”, pp. 22-5, 25. Omphatos, pp. 352-3 70 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 lembrangas; se 0 passado comegou cinco minutos atrds, todas as nossas recordagdes scriam uma fraude.”* Faria alguma diferenga caso n&io houvesse passado? Nao nos comportariamos exatamente como jé o fazemos? “O que importa... nio € 0 que o meu passado foi realmente, ou até mesmo se cu tive um”, argumenta H. H. Price; “o que importa sio apenas as lembrancas que agora tenho, sejam elas falsas ou verdadeiras”.”” Mas, de fato, nada seria 0 mesmo. Tradigao seria algo ridiculo. Poucos atentariam para as con- seqiiéncias das proprias agdes. Ninguém prenderia transgressores se ndo houvesse um passado no qual seus crimes pudessem ter ocorrido. Nao poderiamos ir buscar as causas dos efeitos, nem os motivos do comportamento. Nada poderia ser provado, pois “duvidar de nosso sentido de experiéncia passada fundada na realidade seria perder todos os critérios pelos quais a duvida em si ou o que & duvidoso poderia ser corroborado; e obliterar totalmente a diferenga entre o fato empfrico ea fantasia”, pondera C. I. Lewis. O ceticismo Ievado a esse extremo coloca toda realidade em xeque ¢ termina num solipcismo absoluto. Poucos sao tio diibios. No entanto, a auséncia empitica do passado deixa uma ponta de davida que a anilise filos6fica nao pode atenuar completamente. “Tivemos de acreditar nos acontecimentos no comprovados de anos nao comprovados”, escreve Ray Bradbury. “A realidade, mesmo a do passado imediato, é irrecuperdvel... Pois apesar da existéncia de ruinas, papiros c tabuinhas, temcemos que grande parte do que lemos tenha sido inventado.”” A razio de se tentar destruir 0 passado real ¢ substitui-lo por um falso passado & abordada em dois romances admonitérios que transmitem uma sensagao ulterior de impotente irrealidade. O personagem Grande Irmao, no livro 1984, de Orwell, controla © presente ao controlar 0 passado. Uma vez que “acontecimentos passados ... ndo tm existéncia objetiva, mas sobrevivem somente nos registros escritos ¢ nas lembrangas humanas”, conclui-se que “o passado cncontra-se na convergéncia dos registros escritos 26 Murphey, Our Knowledge of the Historical Past, pp. 9-10; Danto, Analytical Philosophy of History, pp. 66-84 27 Thinking and Experience, p. 84, Vide também Butler, “Other dates”, pp. 16-19. 28 Analysis of Knowledge and Valuation, p. 358. Vide Danto, Analytical Philosophy of History, pp. 68-70, 77-8; Murphey, Our Knowledge of the Historical Past, pp. 10-12; Earle, “Memory”, p. 10. 29 “Machine-tooled happyland ~ Disneyland”, p. 102. io Paulo, (17), nov. 1998 7 Proj. Historic e das lembrangas humanas”, e, portanto, “tudo 0 que o Partido resolva fazer dele... Recriado no formato necessdrio ao momento, ... essa nova versdo é o passado, e nenhum passado diferente pode ter existido”. Para assegurar a infalibilidade do Partido, “o pas- sado, a partir de ontem, foi de fato abolido... Nada existe 4 excegio de um interminavel presente”.” © inquiridor utiliza 0 argumento de Gosse para solapar a f6 de Winston num passado remoto: — A Tetra € t3o antiga quanto nés, nZio mais antiga, Como poderia ser mais antiga? Nao existe nada fora da consciéncia humana. — Mas as pedras esto repletas de ossos de animais extintos — mamutes, mastodontes chormes répteis que viveram aqui muito tempo antes que se soubesse da existéncia do homem. — Jé viu esses ossos alguma vez, Winston? Claro que no, Os bidlogos do século XIX inventaram-nos, Antes do homem, nada havia.*! © ceticismo engendrado por esforgos para duplicar um passado perdido é 0 tema de Time Out, de David Ely. Para assegurar-se de que ninguém saberé do acidente nuclear que varreu a Gra-Bretanha ha algumas décadas, uma forca-tarefa americano-soviética estd recriando “cada graveto e pedra, ... cada folha de grama, cada cerca e arbusto, cada mansao, paldcio, cabana e choupana. Absolutamente tudo”, juntamente com provas arquivadas e fragmentos de todo o passado da Inglaterra — até mesmo dos acontecimen- tos que teriam ocorrido, caso nao tivesse havido o holocausto.”” Obrigado a criar esse novo passado, historiador americano Gull se queixa de que as pessoas acabarao por descobrir: ~ O que pensario ao presenciar as brigadas de construgio erguendo 0 Palacio Blenheim...? ~ Pensario como verdadeiros ingleses, Gull, porque assim foram criados. Se os livros de historia e os professores Ihes dizem que Blenheim foi conclufdo em 1722, essa é a data que aceitardo, independentemente do que véem. — Lavagem cerebral. — Possivelmente, Mas & assim que os jovens sempre foram criados. Vocé ¢ eu também, Gull. Porque aceitamos 1722 para Blenheim? 30 Pp. 170, 126-7. 31 Ibid., p. 213. 32 Pp. 95, 90. 72 Proj. Histéria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 ~ Porque é verdade... ou foi verdade. ~ Porque fomos treinados para accité-la. A esmerada recriagio, finalmente, leva Gull a imaginar que “talvez tudo isso ja tenha ocorrido antes. Vamos supor que esta tenha sido a segunda vez... ou a décima? A Inglaterra que eles téo diligentemente copiavam agora também poderia haver sido um embuste”.™ Falsificagées histéricas sio sobejamente abundantes; ndo poderia ser que todo o passado fosse uma invencio? Apesar de todo nosso esforgo para recuperar e entender 0 passado, as diividas dos protagonistas de Orwell ¢ Ely ainda nos perseguem. “Conhecer 0 passado”, segundo Kubler, “é faganha tao extraordinéria quanto conhecer as estrelas”,** e mesmo bem documentado 0 passado permanece igualmente fugidio. A incerteza fundamental acerca do passado nos deixa cada vez mais ansiosos para confirmar que tudo se deu conforme relatado. Para nos assegurarmos de que ontem foi to importante quanto hoje, saturamo-nos de detalhes ¢ fragmentos do passado, ratifi- cando a meméria ¢ a historia de forma tangivel. Gostamos de imaginar que aqueles que entéio viveram desejavam que soubéssemos 0 quanto tudo foi real. Em 1978, 0 Colorado Heritage Center, ao exibir as cartas ¢ didtios de pioneiros do século XIX, fez a seguinte observagdo: “Eles ocuparam muito de seu tempo para registrar suas obser- vagSes € sentimentos, legando-nos registros de seus mais intimos pensamentos”, como se a preocupagao de que nds deverfamos conhecer seu passado os tivesse levado a fazer uma crénica de suas vidas. Ainda assim, estamos 0 tempo todo conscientes de que © passado nunca pode ser 120 conhecido quanto o presente. O passado é 0 pais estrangeiro de L. P. Hartley, onde tudo é feito de modo diferente. O que hoje conhecemos como “o passado” nao era o que alguém houvesse experimentado como “o presente”. Em alguns aspectos nés 0 conhecemos melhor do que aqueles que o viveram; sentimos “o passado de tal forma ¢ em tal grau que a prépria consciéncia do passado nao pode mostrar”, comenta T. S. Eliot.” Nés interpretamos 0 momento presente 4 medida que o vivemos, ao passo que 33. Ibid. p. 104. 34 Ibid, pp. 130-1 35. Shape of Tune, p. 19. 36 Piaget € Inhelder, Memory and Intelligence, pp. 398-9. 37. “Tradition and the individual talent”, p. 16. io Paulo, (17), nov. 1998 73 Proj. Historia, ficamos fora do passado e observamos sua operagio conclufda, incluindo suas con- seqiiéncias agora conhecidas sobre o que seria entio o futuro. Antigas drenagens de pantano se tornam uma fase em uma série de sucessivas recuperagdes; retrospectivas mostram a fase inicial de um pintor prefigurando seu trabalho posterior; impactos sub- seqiientes nos descendentes, nos herdeiros politicos, nos sucessores cientificos jogam nova luz em carreiras ha muito encerradas. As implicagdes de percepgdes tardias a respeito de como interpretamos 0 passado sero discutidas mais adiante. Nossa capacidade de entender o passado € deficiente em varios outros aspectos. Os residuos remanescentes de coisas ¢ pensamentos passados representam uma peque- nina fragéio da urdidura contemporanea de geragées anteriores. “Mesmo quando temos consciéncia de participar de um grande feito histérico... sentimos nitidamente que este acontecimento, do modo como serd inserido na historia, sera apenas uma parte daquilo que foi para nés no presente”, argumenta Eugene Minkowski. “Sabemos perfeitamente contecimento € ‘histérica’, apenas um aspecto que apenas uma parte referente ao daquilo que fazemos ¢ daquilo que vivemos.”™ ‘A meméria nao é menos residual do que a histéria, Por mais volumosas que sejam nossas recordagées, sabemos que sao meros lampejos do que j4 foi um todo vivo. Nao importa quao vividamente relembrado ou reproduzido, 0 passado se torna progressi- vamente envolto em sombras, privado de sensagées, apagado pelo esquecimento. “O reconhecimento nem sempre nos devolve o calor do passado”, escreve Simone de Beau- _ € tudo © que resta é um esqueleto”, Uma cena voir; “nés 0 vivemos no presente: recordada de um passado distante é “como uma borboleta imobilizada numa redoma de vidro; os personagens nao se movem mais em nenhuma diregdo. Seus relacionamen- tos estéio entorpecidos, paralisados”. O passado em decomposigao da autora “nao é uma paisagem tranqiila repousando atrés de mim, um campo pelo qual possa perambular livremente, e que me mostrara gradualmente todas suas montanhas ¢ vales secretos. A medida que eu avangava, também ele se desintegrava”. A erosao do tempo afeta triste- mente 0 que resta das lembrangas. “A maioria dos destrogos que ainda podem ser vistos sio pilidos, distorcidos, congelados; seu significado me escapa, 9 do. “O principal motivo de o A propria certeza do presente torna ténue o pa passado ser to fraco é a extraordindria forga do presente”, sugere Carne-Ross. 38. Lived Time, p. 167. 39 Old Age, pp. 407-8. 74 Proj. Hist6ria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 Tentar agora alcangar um verdadeiro “sentido do passado” € como olhar para fora de um quarto feericamente iluminado ao entardecer. Parece haver algo Ié fora no jardim, as formas incertas de drvores agitando-se na brisa, 0 esbogo de um caminho, talvez. o brilho da 4gua. Ou trata-se simplesmente de um quadro pintado na janela, como “As Fuirias” na pega de Eliot? Sera que ndo ha absolutamente nada 14 fora € que 0 quarto iluminado € a nica realidade?*” © passado também carece de consenso temporal. Dependendo do contetido e do contexto, 0 passado converte-se no presente a qualquer tempo, seja um instante ou uma eternidade atras. A época holocena ou “recente” encerra 0 passado geolégico por volta de dez mil anos atrés; 0 passado edafico e botanico se estende até poucos séculos atras; o assim chamado presente plausivel permite referirmo-nos a “este século” como se 1901 fosse “agora”. Algumas vezes 0 passado humano termina com nosso préprio nascimento; ocasionalmente coincide com 0 ano do calendario; freqiientemente invade 0 momento presente. Alguns passados permanecem a um intervalo constante atras de nés, Outros continuam recuando ou nos aleangando. O “Velho Oeste” sobrevive na memoria popular norte-americana como um perfodo que sempre termina cerca de quarenta anos atras; dentro de cinquenta anos, prediz um historiador, as pessoas afirmario que o finado idos de 1980." fvel embora intimamente conhecido, o Velho Oeste ainda estava vivo n Dubio devido 4 sua real auséncia, ina Ce: carater do passado depende de como ~ ¢ de quanto — é conscientemente apreendido. A mancira como tal apreensdo acontece, ¢ como molda nossa compreensao, é principal assunto deste texto. Memoria O pasado & 0 que vocé lembra, imagina que lembra, convence a si mesmo que lembra, ou finge lembrar Harold Pinter” Toda consciéncia do passado estd fundada na memoria. Através das lembrangas recuperamos consciéncia de acontecimentos anteriores, distinguimos ontem de hoje, confirmamos que ja vivemos um passado. 40 “Scenario for a new year: 3. the sense of the past”, p. 241. 41 L.B.Meyer, Music and Aris and Ideas, p. 169; Josephy, “Awesome space:... interpretations of the Old West” 42. Citado por Adler em “Pinter’s Night: a stroll down memory lane”, p. 462. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 75 A escala de significados comumente ligados 4 memoria, no entanto, transcende ¢ algumas vezes obscurece essas relagdes com 0 passado. Sistemas mnemOnicos atraem muita ateng&o e grande esforgo de meméria — recordando pessoas a serem vistas, coisas a serem feitas, caminhos a serem seguidos — enfocados no futuro."? Tais aspectos da memoria tocam apenas de forma tangencial 0 nosso conhecimento do passado. Mas enquanto 0 uso diério da meméria vai além do conhecimento do passado, grande parte das pesquisas psicolégicas negligencia tal conhecimento. A meméria de curto prazo do passado muito recente ¢ a lembranga do material recolhido monopolizaram a atengdo de psicélogos, pois esses topicos melhor se prestam a andlises laboratoriais quantitativas, que podem ser reproduzidas, nfo ajuizadas; “lembrangas” que duram menos de um minuto sao o principal enfoque dos textos contemporaneos sobre o assunto. Tao rec6ndi- tas so as preocupagées dos psicélogos que um deles, Ulric Neisser, afirma formalmente que “se X é um aspecto interessante ou socialmente significativo da meméria, entdo os psic6logos praticamente nunca estudaram X”. As pessoas quando inquiridas sobre 0 que as interessa a respeito da meméria, logo mencionam a incapacidade de recordar © inicio da infancia, as dificuldades para se lembrar de nomes e de compromis os, uma tia que poderia incansavelmente recitar poesias de cor, se a velha casa parece muito ou pouco mudada apés trinta anos de auséncia, discrepancias entre suas proprias lembrangas e as de outras pessoas, © prazer ou a dor da recordagio; sobre a maioria desses t6picos a pesquisa psicolégica nao tem virtualmente nada a dizer.“ Se o estudo cientifico da mem6ria natural ¢ cotidiana estd mais ativo do que ja foi, segundo afirma um resenhista de Neisser, ** os resultados ainda no foram difundidos a nao ser nas revistas especiali- zadas. Insight na utilizagio da meméria surge menos dos psicélogos do que dos ro- mancistas, historiadores ¢ psicanalistas; € em tais fontes que o livro Remembering in Natural Contexts, de Neisser, se fundamenta. A meméria comum, além de nao ser objeto de pesquisa académica, é também obstruida por uma mitologia enganadora. Um dos mitos que permanece afirma que a meméria consiste de inputs fisicos permanentemente armazenados no cérebro, que al- gum mecanismo pode trazer de volta A consciéncia presente; “eles podem remover quinze metros de seus intestinos”, como um senhor de idade comentou no hospital, 43° Meacham e Leiman, “Remembering (o perform future actions” 44 Neisser, “Memory: what are the important questions?” pp. 4-5. 45 Alan Baddeley, “Keeping things in mind”, New Scientist, 2 Sept. 1982, p. 636. 76 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 “mas nfo podem retirar 50 segundos de sua memoria”.“* Outro mito largamente aceito assevera que a natureza e a capacidade potencial da meméria so iguais para todos ¢ incapazes de modificagdes fundamentais. Grande nimero de provas demonstram, ao contrario, que tanto aptiddes herdadas quanto experiéncias no decorrer da vida afetam a capacidade da meméria.” Um terceiro mito sustenta que as pessoas nas sociedades de tradigo oral (“primi- tivas”), por nao guardarem nem transmitirem pensamentos por escrito, tém memérias melhor desenvolvidas e tém repertério maior de recordagdes minuciosas do que pessoas de sociedades com escrita — uma crenga contestada por grande ntimero de provas.** Uma quarta visio predominante diz que quanto mais pudermos recordar, em melhor situagéio estaremos. De fato, deduzir e agir eficazmente ndo requerem meméria enci- clopédica, mas sim meméria altamente seletiva, além de capacidade de esquecer aquilo que deixou de ter importincia. Meu interesse maior aqui nestas paginas esta na natureza e no valor do co- nhecimento da memoria e nao no processo da meméria em si. Primeiro revejo o carater pessoal ¢ coletivo da meméria; prossigo mostrando como a lembranga sustenta nosso sentido de identidade; em seguida exponho até onde a “verdade” das lembrangas pode ser confirmada. Varios tipos de recordagao, desejadas ¢ espontiineas, adquiridas ¢ inatas, revelam aspectos diversos de coisas passadas, associados para mostrar 0 passado como um todo. A necessidade de se utilizar e reutilizar 0 conhecimento da meméria, e de im como recordar, forga-nos a selecionar, destilar, distorcer e transformar esquecer as © passado, acomodando as lembrangas as necessidades do presente. A meméria impregna a vida. Dedicamos muito tempo do presente para entrar em contato, ou manter esse contato, com algum momento do passado. Sao poucas as horas enquanto despertos que sao livres de recordagées ou lembrangas; somente concentragao intensa numa ocupagao imediata pode impedir 0 passado de vir espontaneamente a 46 Marcus Nathaniel Simpson, citado por Cottle and Klineberg em Present of Things Future, p. 49. 47. Neisser, “Memorists”; Gruneberg, Morris, ¢ Sykes, Practical Aspects of Memory, “Individual differences”, pp. 337-65; Belmont, “Individual differences in memory”. 48 Neisser, “Literacy and memory”; Vansina, Ora! Tradition, p. 40, A narrativa oral raramente envolve a meméria, palavra por palavra, como demonstrado por Milman Parry ¢ Walter B. Lord (Scholes and Kellogg, Nature of Narrative, pp. 21-3); somente a antiga Israel reverenciou a ipsissima verba (Ger- hardsson, Memory and Manuscript: Oral Tradition and Written Transmission in Rabbinic Judaism and Early Christianity, pp. 130-1), Veja abaixo, p. 200. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 77 mente. Mas as lembrancas que permeiam o presente esto agrupadas numa hierarquia de habito, recordagio e memento. O habito abrange todos resfduos mentais de atos e pensamentos passados, sejam ou no conscientemente relembrados. A recordagio, mais limitada que a memdéria comum, mas ainda assim impregnante, envolve consciéncia de ocorréncias passadas ou condigdes de existéncia. Mementos sao recordagées preciosas propositadamente recu- peradas da grande massa de coisas recordadas. Essa hierarquia assemelha-se as reliquias: tudo que é familiar tem alguma ligagZo com o passado € pode ser usado para evocar recordagdes; de uma grande quantidade de recursos mneménicos em potencial guar- damos alguns abrangente. A semelhanga de acervo de antiguidades, nosso repertério de lembrangas souvenirs para nos lembrar de nosso passado proprio ¢ de um mais preciosas esté em fluxo continuo, novas lembrangas sendo adicionadas constantemente, as velhas sendo descartadas, umas emergindo A superficie da consciéncia presente, outras submergindo sob a atengéo consciente.” Lembrangas, em todos esses aspectos, tendem a se acumular com a idade. Embora algumas estejam sempre se perdendo e outras se alterando, 0 estoque total de coisas recordaveis ¢ recordadas aumenta a medida que a vida transcorre e as experiéncias se multiplicam. Pessoal e coletivo O passado relembrado € tanto individual quanto coletivo. Mas como forma de cons- ciéncia, a meméria é total e intensamente pessoal; é sempre sentida como “algum acon- tecimento espectfico [que] ocorreu comigo”.®" Recordamos apenas nossas préprias ex- perigncias em primeira mio, 0 passado que relembramos ¢ intrinsecamente 0 nosso proprio passado, “Nao hé nada to unicamente pessoal para um homem quanto suas lembrangas”, observa B. S. Benjamin, “e ao proteger a privacidade delas, temos quase a impressio de estar protegendo 0 proprio alicerce de nossa personalidade.” Mas a meméria, por sua propria natureza, é inviolavel; é na privacidade que ocorre a maior parte do ato de relembrar ¢ “no precisamos aprender como manter privadas as nossas 49 Fred Davis, Yearning for Yesterday, p. 48; Piaget and Inhelder, Memory and Intelligence, pp. 387-8. 50. Earle, “Memory”, p. 13. 78 Proj. Historia, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 recordagées”; elas assim permanecem a nao ser que decidamos torné-las pblicas. Mesmo assim nunca podem ser totalmente partilhadas; para outros, conhecer a minha mem6ria nao € absolutamente 0 mesmo que possui-la. “Embora falemos em compar- tilhar nossas lembrangas, no podemos compartilhar uma lembranga assim como n&o podemos compartilhar uma dor." O contetido do que lembramos torna-o, da mesma forma, singularmente pessoal: inclui detalhes pormenorizados ¢ fntimos de acontecimentos, relacionamentos e senti- mentos do passado. A lingua secreta que inventei, 0 medo que sinto pelo vizinho que nao gosta de meu cachorro, o desconforto de uma picada de abetha, o trauma de um brago quebrado so lembrangas de meus doze anos que ninguém mais pode ter. A privacidade fundamental das lembrangas da infancia de Austin Wright — um determinado astro do beisebol, um cantor de 6pera, um barco a vapor, um ice cream soda — 6 0 leitmotiv de seu livro Morley Mythology, no qual um visitante sinistro relembra Morley de coisas que Morley sabe que apenas cle poderia se lembrar. A meméria também transforma acontecimentos publicos em experiéncias pessoais idiossincraticas. Como parte essencial dos fatos sobre 0 New Deal, por exemplo, lem- bro-me da parcialidade de meus pais em relagio a Roosevelt, da animosidade de meus avés contra os sindicatos; a histéria politica tornou-se um anexo da histéria da familia. Coisas que nos estimulam a lembranga freqiientemente resultam em recordagées pes- soais mais frivolas. “A visio de um velho livro didético”, observa Frances Fitzgerald, “tem menor probabilidade de evocar a seqiigncia de presidentes ou a importincia da lei Smoot-Hawley Tariff Act, do que 0 cendtio de uma sala de aulas da oitava série”. Lembrangas pessoais também se assemelham & propriedade particular. “Reconhe- cemos imediatamente na meméria que nossas experiéncias passadas nos pertencem”, comenta um filésofo. “Uma vez que tenha colocado minha filha para dormir esta ex- periéncia permanece minha.” Realmente, alguns dio © mesmo valor ao seu passado pessoal que dariam a uma valiosa antiguidade. Congratulam a si mesmos por terem 51 Benjamin, “Remembering”, p. 171 52 As nostilgicas meditagdes trazidas por Fred Davis, no entanto, revelaram passados “secretos” que eram mais semethantes do que singulares (Yearning for Yesterday, p. 43). 53. America Revised, p. 17 54 R. G. Burton, “Human awareness of time”, p. 307. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 79 tido a experiéncia que recordam, dio muito valor as lembrangas que estimulam seu amor préprio.** Uma vez que sao inerentemente pessoais, muitas lembrangas se ext cada morte. “O amor de Helen morreu com a morte de algum homem’”, escreve Borges em cujo romance Tlén, Ugbar, Orbis Tertius, a permanéncia tangivel depende da meméria: “todas as coisas tendem a se apagar e perdem os detalhes quando sao esqueci- guem com das. Um exemplo classico é 0 vao da entrada de prédio que sobreviveu enquanto freqiientada por um mendigo e desapareceu com sua morte”.‘* Entre os suailes, os mortos que permanecem vivos na memGria dos outros so chamados de “mortos-vivos”; 86 estarfio completamente mortos quando o tltimo que os conheceu morrer.”” Incapaz de transmitir 0 seu repertério de lembrangas herdadas, a tinica ancia sobrevivente de uma antiga linhagem carrega o pesado fardo de ser the Last Leaf. “Geragées permane- cem vivas apenas na meméria vacilante de alguém cuja propria vida esté chegando ao fim”, de acordo com a descrigéo de um geriatra. “Sua mente é 0 caminho derradeiro comum, 0 Ultimo reservartério de tudo que se passou anteriormente em uma ramificagio da existéncia humana.” The Last Leaf “é tudo que 0 passado ainda tem para se apoiar ~ e ela sabe disso”.* Nem todos lamentam essa perda, para dizer a verdade. Com tanto sentimento preso ao passado, Anna Freud, j4 em idade avangada, nao conseguia com- partilhar suas recordagées “com o piblice leitor, ... portanto, me dou ao luxo de levar tudo comigo”.” A natureza intrinsecamente pessoal da meméria nao apenas a condena a final ex- tingdo mas torna defeituosa sua comunicagio do passado. Dtividas nos assaltam quando a lembranga & apenas pessoal. “Por néio ser compartilhada, a lembranga parece ficticia”, foi o que sentiu Wallace Stegner quando retornou & casa de sua infancia nas pradarias e “no encontrei nenhum colega de escola, nem uma tinica pessoa que tivesse compar- 55. Schachtel, Metamorphosis, p. 311 56 “The witness”; idem, “Tlon, Uqbar, Orbis Tertius”, p. 39, 57. Uchendu, “Ancestorcide! are African ancestors dead?", p. 287. “Enquanto 0 morto & relembrado pelo nome, ele nao esté ralmente “morto”; esté vivo... na meméria daqueles que 0 conheceram, assim. como no mundo dos espiritos”, ¢ isto pode continuar por quatro ow cinco geragées (Mbiti. African Religion &Philosophy, p. 25). 58 Kastenbaum, “Memories of tomorrow”, p. 204, 59 1977; citado por Muriel Gardiner em “Freud’s brave daughter”, Observer, 10 Oct. 1982, p. 31 80 Proj. Histéria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 tilhado minhas experiéncias” da infancia. “Usei essas lembrangas por anos como se tivessem realmente acontecido; transformei-as em hist6rias e romances. Agora parecem ilus6rias e sem corroborago... Que poucas provas tenho de que cu préprio de fato vivi aquilo que recordo... tenho grandes suspeitas de estar me lembrando nao do que acon- teceu mas de algo que escrevi.”” As origens assim como a credibilidade das recordagées permanecem cobertas de dividas. Raramente podemos distinguir entre lembrangas primérias e secundarias, lem- brando as coisas a partir de lembrangas das lembrangas delas, “recordagdes nuas apés. a meditagao”*", escreveu Wordsworth. Recordando os dias da infancia em St. Ives, Vir- ginia Woolf parecia “estar observando as coisas acontecerem como se eu estivesse 14... Minha memoria fornece aquilo que eu havia esquecido, de modo que tudo parecia estar acontecendo independentemente, embora seja eu que as faga acontecer”.” Essas diividas envolvem outras pessoas; muitos acontecimentos que pensamos recordar a partir de nossa propria experiéncia, na realidade nos foram contados e entéo tornaram-se parte indistinta de nossa meméria. “Muito freqiientemente... quando me recordo de um acon- tecimento do meu passado, ‘vejo-me’, 0 que cu obviamente nao fazia no passado”, conta Paul Brockelman; por exemplo, “eu ‘me vejo’ saindo da cama” — cena prova- velmente narrada por sua mac." As recordag6es de outras pessoas sobre acontecimentos passados se encobrem e com freqiiéncia se mascaram, como se fossem nossas. Na verdade, precisamos das lembrangas de outras pessoas tanto para confirmar as nossas préprias quanto para Ihes dar continuidade. Ao contrario dos sonhos que sao absolutamente particulares, as lembrangas sao continuamente complementadas pelas dos outros. Partilhar e validar lembrangas torna-as mais nitidas e estimulam sua emergéncia; acontecimentos que somente nds conhecemos sio evocados com menos seguranga & mais dificuldade, No processo de entrelagar nossas proprias recordagées dispersas em uma narrativa, revemos os componentes pessoais pata adequar 0 passado coletivamente relembrado e, gradualmente, deixamos de diferencié-los.“ 60. Stegner, Wolf Willow, pp. 14-17. 61 Anscombe, “Experience and causation”, pp. 27-8; Fraisse, Psychology of Time, p. 162; Wordsworth, The Prelude, Liv Ml, linhas 614-16, p. 107. Vide também Mendilow, Time and the Novel, p. 219. 62 Moments of Being, p. 67. 63 “Of memory and things past”, p. 319. Vide também Martin ¢ Deutscher, “Remembering”. 64 Halbwachs, Collective Memory, pp. 23-5, 47-61, 75-8. Proj. Historia, SGo Paulo, (17), nov, 1998 8 O desenvolvimento tardio da memoria na infancia, e nossa ligagdo continua com parentes mais velhos e um mundo anterior, da mesma forma torna essa sobreposigao coletiva inevitavel. “Ninguém jamais é 0 primeiro, ou pode ser o primeiro, a saber quem 6”; sem as mintcias das lembrangas dos pais ¢ avés terfamos que inventar a maior parte de nés mesmos.®* Irmaos mais velhos também fornecem lembrangas que parcialmente excluem as nossas, comenta Anne Tyler: “Assim como a maioria das criangas menores, cle tinha dificuldades para relembrar seu proprio passado. Jé que os mais velhos o faziam tao bem por ele, por que ele iria se incomodar? Construiram-lhe uma meméria 66 de segunda mio que inclufa até mesmo os anos anteriores & sua existéncia”.” E possivel que talvez ele se incomodasse devido & necessidade de um passado que Ihe pertencesse exclusivamente, sugere Cottle; para dar forma aquela época é necessdrio que ele saia de casa ou espere até a morte dos pais e a partida dos irmaos.” Mas de qualquer modo, © que relembramos da infancia est imerso em um mar de hist6ria familiar e geral e, assim, carrega a sua marca. “Correndo paralelo as quest6es puiblicas”, nas palavras de Lively, “seus préprios atos [estdo] entrelagados com a estrutura mais tosca e indestrutivel da historia”. Damos muito valor a essas conexdes com o passado mais abrangente. Satisfeitos de que nossas lembrangas nos pertencem, buscamos também ligar nosso passado pessoal A meméria coletiva e a histéria pablica. As pessoas recordam vividamente seus préprios pensamentos e€ agdes em momentos de crise ptiblica porque se agarram A oportunidade ‘0. Grande numero daqueles com idade sufi- de conectar-se com um cosmos significat ciente para relembrar os assassinatos de Lincoln ¢ Kennedy, também se recordava vivi- damente, muitos anos mais tarde, de sua propria situagdo naquele momento: onde estavam, quem lhes contou, 0 que estavam fazendo, como reagiram, o que fizeram em seguida.” Mas essas recordages sdo freqiientemente tdo erréneas quanto vividas. Re- a Jervis Anderson, “Sources”, p. 112. Erasmus (Copia, sec. 172, pp. 539-40) distingue as lembrangas da propria vida (nostra aetate) das lembrangas de coisas vistas € ouvidas de geragdes mais velhas (nostra memoria) & lembrangas transmitidas de bisavés ¢ ancestrais remotos (patrum memoria). 66 Clock Winder, p. 293. 67 Time's Children, p. 63 68 Lively, According to Mark, p. 27 69 Colegrove, “Day they heard about Lincoln”; Roger Brown ¢ Kulik, “Flashbulb memories"; Linton, “Memory for real-world events”, pp. 386-7. 82 Proj. Historia, Séo Paulo, (17), nov. 1998 almente, as gritantes imprecisSes enfatizam a questdo: as pessoas est4o tao ansiosas para fazer parte da “hist6ria” que falsamente “recordam” suas reagdes, ou até mesmo sua presenga em acontecimentos importantes.” Memoria e identidade Relembrar o passado € crucial para nosso sentido de identidade: saber 0 que fomos confirma 0 que somos. Nossa continuidade depende inteiramente da meméria; recordar experiéncias passadas nos liga a nossos selves anteriores, por mais diferente que te- nhamos nos tornado. “Como apenas a memoria permite conhecer a... seqiiéncia de percepgdes”, argumenta Hume, “deve ser considerada... como a fonte de identidade pessoal. Nao tivéssemos meméria, nunca terfamos tido nenhuma nogao... dessa cadeia de causas e efeitos que constituem nosso self ou pessoa.””' Os gregos identificavam o passado esquecido com a morte; exceto por alguns poucos privilegiados, os mortos nao possuiam lembrangas.” Os amnésicos sofrem perda similar. “Nao senti nada”, disse 0 homem que perdeu a meméria por varios anos; “quando nao se tem meméria, nao se tem sentimentos”. significado. Conforme Gabriel Garcia Marquez intui a dificil situagao de um amnésico, “a recordagao da infancia comega a se apagar de sua meméria, depois 0 nome e a nogdo das coisas, ¢ finalmente a identidade das pessoas, e até mesmo a consciéncia A perda de meméria destréi a personalidade ¢ priva a vida de de seu préprio ser, ... até que mergulha numa espécie de imbecilidade que nao tem passado”.”* Sintetizamos a identidade nao apenas ao evocar uma seqiiéncia de reminiscéncias, mas sim ao sermos envolvidos, como 0 Orlando, de Virginia Woolf, em uma teia de 70 Buckhout, “Eyewitness testimony”, p. 119: Neisser. “Snapshots or benchmarks?” O vigésimo aniversario do assassinato de Kennedy foi marcado por artigos apresentando recordagdes de onde as pessoas tinham estado € 0 que faziam quando ouviram a noticia, TI Treatise of Human Nature, Liv I, sec. 6, 1:542. Vide Biro, “Hume on self-identity and memory”, p. 29. 72 Eliade, Myth and Reality, p. 121; S.C. Humphries, “Death and time”, pp. 274-5. 73. Theo Goossens, citado por Marjorie Wallace em “The drug that gave his memory back”, Sunday Times, 24 Abril 1983, p. 13. O clissico amnésico € Man with a Shattered World, de Luria, especialmente pp. 87-108; para uma comparagio recente, vide Oliver Sacks, “The lost mariner”, N.Y. Review of Books, 16 fev. 1984, pp. 14-19. 74 One Hundred Years of Solitude, p. 46. Proj. Historia, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 83 retrospecgdo unificadora.”> Os grupos também mobilizam lembrangas coletivas para sustentar identidades associativas duradouras, da mesma forma que os instrumentos le- gais conferem As companhias ¢ as propriedades privadas imortalidade em potencial.” Nenhuma sintese pessoal pode ser completa: nao nos lembramos de ter nascido, esquecemos muito e nos tornamos alienados da maior parte do nosso passado. E alguns “vivem vidas mais momentaneas, separadas e fragmentadas do que outros”, deixando para tras grande parte “de detalhes concretos de suas vidas”, no se relacionando sig- nificativamente com experiéncias € sentimentos passados. Em contraste, ressalta um filésofo, “aqueles que trazem mais de secu passado para 0 presente” confirmam sua propria identidade e enriquecem o presente com os residuos amplificados do passado.”” Conforme coloca Mr. Sammler, “Todos precisam de suas lembrangas. Elas evitam a miséria da insignificancia”.”* A percepgao de que a meméria forma a identidade é relativamente recente. Na yerdade, a meméria ajudou a afastar 0 horror do esquecimento, tanto para os antigos gregos como para os europeus da época renascentista e medieval, mas as memérias assim preservadas eram geralmente péstumas.” Vidas eram concebidas n@o como con- tinuidades diacrénicas, mas como exemplos de princ{pios universais, constantes. A iden- tidade individual era fixa, consistente e totalmente investida no presente. Ja bem adi- antado 0 século XVIII, até mesmo os pensadores consideravam a vida como “uma sucessio descontinua de satisfagdes sensoriais” intercaladas com reflexdes abstratas, segundo Starobinski, com “acontecimentos imprevistos ¢ excessos momentaneos” apre- sentando episédios sucessivos nao relacionados. “Tais vidas nao tinham objetivo dis- tante, nenhuma finalidade além dos limites do momento iminente.”*’ As identidades reveladas nas autobiografias e romances do século XVIII permanecem as mesmas através dos tempos; os acontecimentos nao afetam uma consciéncia maledvel, mas sim- 75. Shore, “Virginia Woolf, Proust, and Orlando”, p. 242. 76 Halbwachs, Collective Memory, p. 143. 77 Ehman, “Temporal self-identity”, p. 339. 78 Bellow, Mr. Sammler's Planet, p. 190. 79 Vernant, “Death with two faces”; Quinones, Renaissance Discovery of Time, pp. 84-5, 232-3; S.C. Hum- phries, “Death and time”, p. 270. 80 ki, Invention of Liberty 1700-1789, p. 207. Vide também Poulet, Studies in Human Time, pp. 84 Proj. Histéria, SGo Paulo, (17), nov. 1998 plesmente figuram como momentos fortuitos em modos de vida livres de conexdes introspectivas com estdgios anteriores na vida." Mesmo depois que os homens comegaram a fazer tais conexdes entre vida ¢ histéria, eles continuaram inseguros quanto a sua validade. “Os mesmos artefatos estado diante de nds — as coisas inanimadas que contemplamos na infancia instével e na juventude impetuosa, na idade adulta ansiosa e astuta — séo permanentes e sempre os mesmos”, como disse Jonathan Oldbuck de Walter Scott; “mas quando os consideramos com a frieza © serenidade da idade avangada, seré que podemos, modificados em nosso tem- Pperamento, em nossas atividades, em nossos sentimentos - modificados em nossa aparéncia, em nossos corpos e em nossa forga - considerarmo-nos os mesmos? ou seré que olhando em retrospecto nao considerariamos 0 nosso antigo self como um ser separado e distinto daquilo que agora somos?” A percep¢ao da meméria como chave para o autodesenvolvimento, assegurando € ampliando a identidade através da vida, foi uma revelagao do final do século XVIII, cuja tinica precursora havia sido a narragdo biblica. A identidade sancionada pela memGria passou entdo a incorporar a mudanga. “Somos nés mesmos, sempre nés mes- mos, € nem por um minuto os mesmos”, nas palavras de Diderot.“ E a identidade durante toda a vida assegurou a realidade do passado: j4 que o self subsistiu apesar da mudanga, 0 passado também deve ter sido real. Seguidores de Rousseau e Wordsworth comegaram a perceber seus selves da in- fancia constituindo sua identidade adulta, e, conseqiientemente, a encarar a vida como uma narrativa interligada; poucas décadas depois, a relagdo do sentido do passado com a meméria pessoal tornou-se parte do preparo mental e das expectativas, ao menos das pessoas instruidas." Repetidas impressdes reforcaram o presente com experiéncias relembradas. A percepcio da meméria estimulou graus de consciéncia de si mesmo 81 Spacks, Imagining a Self: Autobiography and Novel in Eighteenth-Century England, pp. 8-11, 284-5. Vide também More, “Criticism”, pp. 241-2; Ellis, “Development of T. S. Eliot’s historical sense”, pp. 293-5. 82. The Antiquary (1816), p. 91 83. Scholes e Kellogg, Nature of Narrative, pp. 123-68; Walter Kaufmann, Time is an Artist, pp. 36-40. 84 Refutation suivie de Vouvrage d’'Helvétius intitulé L'Homme (1773-4), 2:373. 85. Salvesen, Landscape of Memory: A Study of Wordsworth's Poetry, pp. 42-4; Weintraub, “Autobiography and historical consciousness”, pp. 835, 843-4; idem, Value of the Individual, Proj, Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 85 anteriormente desconhecidos, freqiicntemente narcisistas e autobiograficos, geralmente inundados de sensibilidade do Romantismo. “Hoje, quando nossa literatura ¢ toda a conduta de vida so impensdveis sem 0 sentido do tempo e do passado”, escreve Chris- topher Salvesen, “quando praticamente nenhuma emogio pode ser sentida sem alguma referéncia a uma experiéncia anterior ou A infancia”, é dificil perceber que esse sentido de continuidade pessoal era raro antes do século XIX." No final do século, a preocu- pagdo consciente de si mesmo com o passado tornou-se uma caracteristica fundamental da psicandlise: nas palavras de Morse Peckham, da mesma forma que Wordsworth em The Prelude havia historicizado a personalidade, assim também Freud pretendeu fazer de cada um de seus pacientes um Wordsworth.” Mas desde entio nos tornamos bem menos confiantes ao relembrar 0 passado. Os sinais que agora recordamos muitas vezes parecem confusos, até contraditorios em si mesmo; as lembrangas que nos definem tendem a ser tacitas em vez de explicitas, somiticas em vez de conscientes, involuntdrias em vez de deliberadas. Habitos modernos de auto-andlise tornam dtibia a integridade de nosso préprio passado relembrado. E a freqiiéncia com que atualizamos e reinterpretamos nossa meméria enfraquece a identi- dade temporal coerente. “O que costumava ser tabu torna-se de rigueur, 0 que costumava ser Obvio torna-se risivel” quase da noite para o dia, conclui Peter Berger. “Passamos a vida remodelando nosso calendario de dias santos, erguendo e demolindo novamente ‘os marcos que assinalam nosso progresso através dos tempos, rumo a realizagGes con- tinuamente redefinidas.”"** Essas memorias constantemente reajustadas raramente sao integradas em qualquer autodefinig&o consistente. “Na verdade, tropegamos como bébados sobre a tela estendida da nossa auto-concep¢ao, jogando um pouco de tinta aqui, apagando alguns tragos ali, sem de fato nunca nos determos para obter um panorama da semelhanga que produzi- 86 Landscape of Memory, p. 172. A pressuposigao de Levine de que “todos os individuos normais em todas as sociedades se véem como entidades continuas ... desde suas primeiras lembrangas até o presente, imaginam-se num contexto cronolégico” e se concentram em “objetivos de longo prazo que repre- sentam uma performance cumulativa rumo a uma carreira culturalmente definida” (“Adulthood and aging in cross-cultural perspective”, p. 2) € refutada por todas as evidéncias histéricas. 87 “Afterword: reflections on historical modes in the nineteenth century”, p. 279. “Psychology became history; personality became history; the manifestation of the self became history” (Peckham, Triumph of Romanticism, p. 46). 88. Berger, Invitation to Sociology, pp. 72-3. 86 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 mos.” O ritmo e a finalidade da mudanga impedem uma visdo consistente de si mesmo fundamentada na meméri . No entanto, poucos tém condigdes de perceber essa defi- ciéncia; € muito doloroso admitir as discrepancias existentes entre as préprias visdes do presente e do passado. “Ninguém :¢ sente bem ao saber que nao pode recordar um passado continuo, se assim o desejar”, segundo as palavras de Jan Vansina, pois “a crenga a respeito da continuidade ou descontinuidade das opiniées [sobre si mesmo] no passado é a parte central de toda personalidade”. ® Condigéo de confirmagéo A natureza subjetiva da meméria torna-a um guia a um s6 tempo seguro e dibio para o passado, Sabemos quando temos uma lembranga, e seja ela verdadeira ou falsa, essa meméria relaciona-se de alguma forma ao passado. Até um equivoco de meméria envolve a recordacao, ainda que distorcida, de alguma coisa; nenhuma meméria € to- talmente enganosa. Na verdade, uma falsa recordagdio na qual se cré firmemente torna-se um fato por si sé.”! As lembrangas inspiram confianga porque acreditamos que elas foram registradas na época; elas tém status de testemunha ocular. E as lembrangas em geral so dignas de crédito prima-facie porque sio consistentes. Lembrangas especificas freqiientemente revelam-se enganosas ou até mesmo inventadas, porém permanecemos confiantes a res- peito de quase todas elas porque sdo coerentes; entrelagam-se bem demais para serem descartadas como ilusées. E nZo podemos contestar todas as nossas lembrangas, con- forme ja foi acima observado, ou a experiéncia presente nado faria nenhum sentido. No entanto, no ha confianga que ateste a veracidade de nenhuma lembranga especifica, Lembrar-se de algo é, na melhor das hipéteses, considerd-lo provavel; embora suas conseqiiéncias presentes ou futuras possam confirmar algumas lembrangas, elas 89. Ibid., p. 75. 90 “Memory and oral tradition”, pp. 266, 269. Foi no final do século dezenove que 0 sentido de coeréncia deu lugar ao de descontinuidade, acredita Jackson Lears (No Place of Grace, pp. 36-8; Foucault situa tal mudanga um século antes (Order of Things, pp. 367-70). 91 Burton, “Human awareness of time”, p. 308; Roy Schafer, A New Language for Psychoanalysis, pp. 29-50; idem, Psychoanalytic Life History. Proj. Historia, Sado Paulo, (17), nov. 1998 87 somente podem ser confirmadas quando comparadas com outras recordagées do passado, nunca com o passado em si.” O carater pessoal das lembrangas aumenta a dificuldade de confirmé-las. Ninguém mais pode comprovar inteiramente nossa experiéncia tnica do passado. Lembrangas que se demonstraram incorretas ou inexatas no so, por conseguinte, dispensadas; uma recordagdo falsa pode ser to duradoura e poderosa quanto uma verdadeira, especial- mente se ela sustenta uma auto-imagem. ‘Fiz isso”, diz minha memoria. “‘Eu nao poderia ter feito isso’, diz meu orgulho e permanece inexordvel”, escreveu Nietzche: “Com o tempo a memoria capitula”.”* A meméria ndo apenas capitula; ela também muda, freqiientemente de modo im- perceptivel. A fragilidade da recordagao é uma experiéncia comum. Atormentados com iam que até mesmo os as mudangas incorretas da Tord, os legisladores judeus insi copistas, lendarios por seus feitos mneménicos, ndo deveriam transcrever nem uma inica letra sem o texto diante dos olhos.** Tal precaugdo € excepcional: no geral, de- positamos injustificada confianga em nossas proprias lembrangas, raramente ques- tionando sua confiabilidade. No entanto, percebemos que os outros geralmente recordam menos do que pensam, imaginam parte do que acreditam recordar, e dio nova forma s imagens de si mesmo do presente.”® ao passado para adequa-lo A receptividade do testemunho de John Dean sobre o caso Watergate, no Senado americano, exemplifica a crenga na suposta infalibilidade de uma meméria detalhada. Dean péde expor os subterfiigios do presidente Nixon porque as minticias de suas lem- brangas de conversas com Nixon, Ehrlichman e Haldeman convenceram os senadores de sua exatiddo. A meméria de John Dean confirmou de fato aquilo que surgiu como sendo a verdade corrente sobre Watergate. Mas a comparagao com as fitas das conversas reais na Casa Branca revela disparidades gritantes entre o que Dean disse e ouviu e 0 que ele pensou e alegou ter dito e ouvido. Embora Dean transmitisse 0 cerne das con- versas, foi apenas onde ele ensaiara muitas vezes sua fala que péde reproduzir algo que 92 Lewis, Analysis of Knowledge and Valuation, pp. 334-8, 353-62. 9: Beyond Good and Evil, p. 86; citado elogiosamente por Freud numa anotagao incluida em 1910 a Psychopathology of Everyday Life, p. 1470. 94 Gethardsson, Memory and Manuscript, pp. 29, 46; Stratton, “Mnemonic feat of the “Shass Pollak” 9 Spacks, Imagining a Self, p. 19 para confianga na meméria no séc. 18; Berger, Introduction to Sociology, P. 71, para nossa propria época. 88 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 se aproximasse do relato textual; no restante, quase nenhum detalhe correspondia aos fatos.”* Tipos de memoria As lembrangas so tio multiformes quanto sugere a relagdo suscitada por Brockelman: Lembro-me onde ~ quando crianga — costumava me balangar, e me lembro da sen: do ar fustigando o meu rosto. Eu me lembro de quem venceu Napoleio em Waterloo, & me lembro que 8 x 9 & igual a 72. Nao me esqueci de como manejar o taco de beisebol; € me lembro — no, sinto novamente em minhas pernas e pulsos trémulos e em meu estémago, a ndusea ~ 0 terror que senti quando o capitio fez de mim um “voluntério” na primeira missio de busca ¢ ataque no Vale de Ashau. Eu me lembro da festa do meu casamento ~ da miisica, dos amigos, da comida, do vinho; mas (6 Deus!) nao consigo me lembrar do rosto de meu melhor amigo que morreu hé um ano... Existem memérias de todos os tipos, e elas me impregnam e me definem.”” Nem todas essas espécies de recordagio fornecem perspectivas sobre 0 passado — covamos Os dentes, manejamos um taco de beisebol sem re- cordar como ou quando aprendemos a fazer tais coisas. O aprendizado semantico memo- andamos, escrevemos, e: tizado — a tabuada, os versos de um poema, a estrutura dos aminodcidos, as capitais dos paises, o nosso repertério acumulado de palavras, fatos ¢ significados — ndo esclarece o passado no qual ele foi obtido. A capacidade de recitar um poema nado me permite dizer quando, onde ou como o aprendi, nem recordar as outras vezes em que o recitei; reconhego um amigo na rua mas nao tenho consciéncia de encontros anteriores que possibilitam esse reconhecimento.” E certo que alguns fatos memorizados sao histéricos em si mesmos — os soberanos da Inglaterra, os presidentes dos Estados Unidos, qualquer seqiiéncia cronolégica. Memorizar ajuda-nos a saber sobre 0 passado situando tais acontecimentos no tempo mas, a nao ser que estejam relacionadas a outros aspectos da histéria, as datas que cobrem a €poca da presidéncia de Washington nao transmitem nenhum sentido do passado. 96 Neisser, “John Dean's memory”. 97 Of memory and things past”, p. 309. 98 Russell, Analysis of Mind, pp. 166-7; Waters, “The past and the historical past”, p. 254. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 89 Para se estar em contato com o passado requer-se uma rememoragéio que € nor- malmente consciente, freqiientemente consciente de si mesma. Ao contrério da meméria semantica e da meméria motora-sensorial, a assim chamada meméria episddica re- laciona-se a acontecimentos especificos em nossa vida.” Recordamos 0 passado como um amontoado de ocasides distintas, reconhecidamente diferentes e, no entanto, nao completamente diferentes do presente: diferente o bastante para saber que se trata de uma outra época, semelhante o bastante para nos tornar cientes de nossa continuidade com ele. A intensidade da recordagaio episédica varia segundo seu propésito. Menos evoca- tiva é a memoria instrumental cotidiana — lembrar o nome de um amigo, onde jantamos no feriado ou quando pagamos o aluguel. Tal recordagao ressuscita fatos, nZio senti- mentos: “Em que ano estive internado no Hospital Lariboisigre? Deixe-me ver, foi dois anos apés a morte de minha irma; foi em 1911" — reag6es a internagdo no hospital ou A morte da ima nao se impdem.'” A memoria instrumental se abstrai dos acontecimen- tos anteriores sem evocar as sensagdes que os acompanharam. O passado relembrado instrumentalmente € uma paisagem convencional e estéril. Na planicie uniforme do tempo, desolados cumes cronolégicos, tinicos sobreviventes de ambientes outrora ricos, ocupam nossa atengio. Cenarios e acontecimentos nao sao recordados, somente a ordem € local onde aconteceram. Tal “meméria reflete a vida como uma estrada com ocasionais placas de sinalizagdo ¢ marcos de quilometragem”, escteve 0 psicanalista Ernest Schachtel, “e nao como a paisagem através da qual essa estrada nos conduziu”. Identificamos os eventos marcantes para onde apontam as placas ; “nfo a abundancia concreta de sinalizagdo, mas pouco recordamos dos eventos em de vida [mas] apenas 0 fato de que tal evento aconteceu”.'” Convengées sociais adultas fazem predominar a meméria instrumental. Criangas véem © ouvem o que ocorre; adultos véem ¢ ouvem o que deles se espera ¢ lembram 99 Tulving, Elements of Episodic Memory, pp. 17-120; vide também “acontecimento” € meméria “factual” em Perry, “Personal identity, memory, and the problem of circularity”, p. 144. Recordagao repetida pode transformar a meméria episédica em seméntica, como as recordagdes ensaiadas de John Dean tormando-se estiveis, imutaveis ¢ divorciadas do sentido de self. Vide Flavell, Cognitive Development, pp. 184-9. 100 E. Pichon, “Essai d’étude convergente des problémes du temps’ (1931), citado por Minkowski em. Lived Time, p. 152. 101 Schachtel, Metamorphosis, p. 287. 90 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 principalmente o que eles pensam que devem lembrar. O fato de lembrarmos pouco dos primeiros anos de nossa vida deriva menos da represso do que da perda de recor- dagGes sensfveis, experiéncias estas que os adultos nem ao menos conseguem imaginar experimentar. Os esquemas da meméria adulta ndo tém espago para odores, sabores ¢ outras sensagées vividas, ou para o pensamento pré-légico e magico da primeira infan- cia; se a experiéncia profundamente sentida for socialmente inadequada, ela nao se registra ou é esquecida.'’ A recordagao instrumental é um conjunto significativo de sinais e marcos que lembram um mapa rodovidrio, um guia de viagem, um calendario. Muitas lembrangas sofrem desgaste similar: os individuos submetidos as famosas ex- periéncias de Bartlett reduziram as histérias complexas que deviam recordar a pequenas hist6rias bastante convencionais de modo a tornd-las “aceitdveis, compreensiveis, ade- quadas ¢ dirctas”.!" Ao contrario da recordagao instrumental, 0 devaneio inclui e até mesmo realga sentimentos relembrados. Os devaneios revelam imagens explicitas, mas evidentemente incompletas do passado, aspectos especificos de cenas passadas que nos tornam cons- cientes de que poderia haver mais para recordar. Para recuperar uma impressao perdida, para ver e sentir novamente 0 que experimentamos antes, nos é exigido com freqiiéncia um esforgo deliberado no inicio, apés 0 qual estados de devaneio se auto-engendram. A meméria afetiva de maior intensidade revela um passado tao rico e vivido que nés quase 0 revivemos — como 0 critico que quando fechava seus olhos no se “lem- brav: em Veneza, Brockelman diz que consegue “ver os prédios, eu ougo a conversa, sinto a textura da cadeira na qual me sento;... sinto o cheiro da brisa que vem da bafa, ougo do filme Kagemusha, mas sim “o via novamente”."™ Ao recordar sua estadia a nuvem de pombos a meus pés; sinto a frustragdo que senti, e meu corago se confrange enquanto ‘aguardo de novo’ a chegada do meu amor... posso permanecer aqui sentado em meio a recordagdes ¢ quase me perco, quase passando suavemente para 0 interior do passado”." 102 Ibid., pp. 279-322; Piaget and Inhelder, Memory and Intelligence, pp. 378-401; Albert J. Solnit, palestra no University College London, 6 margo, 1984. 103 Bartlett, Remembering (1932), p. 89. Os criticos sugerem que os sujetos de Bartlett fizeram mudangas Uo extensas porque foram pressionados a reproduzir lembrangas coerentes e acabadas (Gauld e Stephenson, “Some experiments relating to Bartlett's theory of remembering”). 104 Robert Hatch, “Films”, The Nation, 15 nov. 1980, p. 522. 105 “Of memory and things past”, p. 321 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 91 Nao € a introspecgdo que revela essas recordagdes intensificadas, mas a casual reativagdo de sensagGes esquecidas, quase sempre um toque, um odor, um sabor ou um nostélgica dos Alpes, o que estimulou a meméria de Cow- som. Assim como a melo per foi o sino da aldeia: Cristalino sonoro, enquanto avanga 0 vendaval! Com forga suave cle abre todas as alcovas Onde a meméria dormia, Seja onde for que cu tenha ouvido Uma melodia afim, a cena retoma vividamente & meméria, E com ela todos seus prazeres ¢ pesares.' Um irresistivel “reconhecimento antigo e dificil de suportar” do passado chegou a Stegner “em parte por meio das criangas, da passarela e da suave curva do rio, mas muito mais através do odor. Pois aqui, pungente e penctrante, encontra-se o cheiro que sempre representou minha infancia”, composto pela Agua do rio, lama, tabuas tmidas dos bancos, o trampolim com ponteira de estopa, que por um momento transformaram a meméria em realidade.'” Tal recordagao parece visceral; na frase de Proust, “nossos bragos e pernas esto cheios de lembrangas entorpecidas”.'* Essas recordagées intensas so singularmente involuntérias, e quanto mais vivida a sensagdo menos acessivel ela é & recuperagdo deliberada. Mas embora surjam invo- luntariamente, tais aparicdes surgem apenas se realmente as desejarmos. Uma recordagao (Zo intensa € freqiientemente angustiante; até mesmo uma lembranga agraddvel pode evocar dolorosamente um conflito antigo. Como na terapia analitica, tais acontecimentos relembrados perdem sua influéncia coercitiva e se apagam no passado indefinido somente quando esse conflito foi resolvido.' Certas recordagées intensas parecem trazer 0 passado nao apenas de volta a vida, mas A existéncia simulténea com o presente, fazendo-o parecer “mais préximo do que © presente, 0 qual tanto assombra quanto hipnotiza”.'” De Quincey descreve uma se- 106 The Task (1785), Liv V1, linhas 10-14, p. 220. 107 Wolf Willow, p. 18. 108 Remembrance of Things Past, 3:716. 109 “Revivido de fato em toda sua intensidade”, o passado “parece ser, mesmo no caso de uma recordagio agradével, dor agonizante” (Pichon, “Essai ... des problémes du temps”, citado por Minkowski em Lived Time, p. 152; vide também pp. 159-61). Vide Poulet, Studies in Human Time, p. 298. 110 Shattuck, Proust's Binoculars: A Study of Memory, Time, and Recognition in “A la recherche du temps perdu”, pp. 48-9; vide Shore, “Virginia Woolf, Proust, ¢ Orlando”, pp. 237-41 92 Proj. Histéria, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 nhora idosa cuja paramnésia combinava recordagio completa com confluéncia temporal: “Em um momento, num piscar de olhos, cada ato, cada aspecto de sua vida passada revivia, ordenando-se nao como uma sucesso mas como partes de uma coexisténcia”.'"! Como “déja vu” — a sensagéio de que j4 vimos antes 0 que sabemos estar vendo agora pela primeira vez — a paramnésia funde um passado e um presente ainda distinguiveis. Poulet rastreia essa experiéncia obsessiva, freqiientemente induzida pelo épio, de Rous- seau a Coleridge, Byron, Blake e Swedenborg, até De Quincey, Baudel: “As vezes tenho a impressio de haver vivido 70 ou 100 anos em uma noite”, relatou De Quincey, que amplificou o tempo de experiéncia para obter uma ilusio de eternidade, ampliando a curta duragiio da vida com 0 maior ntimero possivel de lembrangas.""? O livro Em busca do tempo perdido, de Proust, foi “uma busca infinita para trazer o passado de volta ao presente, 0 passado nao como passado, néo como uma série de Pontos no tempo, mas como um todo simultanco inteiramente recuperado”.""4 Mas o estado paramnésico impossibilita os viciados de fazerem a distingdo entre passado c presente — talvez até mesmo entre vida e morte. Caminhando por uma cidade em 1928, Borges fazia conjecturas sobre sua infincia, e repentinamente “o simples pensamento de que estou vivendo em mil oitocentos e... deixou de ser um conjunto de palavras semelhantes e mergulhou em uma realidade. Eu me senti morto, como um observador abstrato do mundo”, incapaz de separar “um momento pertencente a seu passado apa- rente de outro pertencente a seu presente aparente”.'' Cada tipo de recordagdo subtende sua prépria perspectiva sobre 0 passado. A meméria instrumental nao possui envolvimento; seu passado esquematizado aponta sim- plesmente para o mais importante presente. O devaneio recorda sentimentos especificos © nos incentiva a comparar modos de ser passados com modos de ser presentes. A Tememoragao total nos joga a contragosto no passado; o presente é oprimido por acon- tecimentos anteriores tio importantes ou traumaticos que eles so revividos como se IIL Suspira de Profundis (1845), p. 245. 112 Timelessness and Romanticism’ réplica de uma sensago passada Things Past, 3:907). 113 Confessions of an English Opium-Eater (1822), p. 115. i era uma mera sensagiio andloga nem mesmo um mero eco ou era aquela propria sensagio passada” (Proust, Remembrance of 114 Poulet, “Timelessness and Romanticism”, p. 22. 115 “A new refutation of time”, p. 55. Compare esse desespero com 0 protagonista de James em Sense of the Past. Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 93 praticamente estivessem ainda ocorrendo. As recordagées de guerra de Minkowski exemplificam essas distingGes: “Atitudes completamente diferentes relativas ao passado esto em agiio quando narramos 0 que fizemos durante a guerra, quando tentamos reviver © que sentimos durante aquele suplicio, e, finalmente, quando o sentimos ainda presente cm cada fibra de nosso ser, quando o sentimos nessas condig6es cle se transforma em uma parte de nosso presente até mesmo mais do que o presente de ‘fato”.\° Normalmente, no entanto, a meméria justapde esses tipos de recordagao, con- tinuamente enfatizando ora um ora outro. Todo 0 continuum desde a lembranga funcional passando pelo devaneio até a imerso virtual em um tempo passado molda conjun- tamente nossa percep¢do do passado relembrado. Originando-se desses desiguais niveis de apreensio, esse passado pode parecer confusamente multiforme. Ainda assim a meméria, apesar de multiforme, parece ser uma distinta categoria da experiéncia, Re- cordar a sensagiio da areia entre os dedos dos pés na praia é bastante diferente de recordar onde deixamos as chaves de casa, nao obstante estarmos conscientes de que ambas envolvem a percepgdo do passado. Esses niveis de meméria nao estao segregados; nés os sentimos como um conjunto. A recordagdo instrumental mescla-se com a recor- dagio espontanea; sonhamos de olhos abertos sobre aquelas férias de verdo ao mesmo tempo que tentamos lembrar onde colocamos aquelas chaves. Modos diferentes de lem- brar permitem perspectivas dessemelhantes dentro do passado, mas 0 processo de re- cordar funde todas elas. E, na verdade, eles t&m mesmo algo em comum. Toda meméria transmuta experién- cia, destila 0 passado em vez de simplesmente refleti-lo. De tudo 0 que é exibido no meio ambiente, recordamos apenas uma pequena fragao daquilo que nos é impingido. Assim a meméria filtra novamente 0 que a percepgao jé havia filtrado, deixando-nos somente fragmentos dos fragmentos do que inicialmente estava exposto. Esquecer Para que a memiria faga sentido devemos esquecer quase tudo 0 que vimos, para evitar que nos tornemos semelhantes a “Funes, 0 Memorioso”: 116 Lived Time, p. 153. 94 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Ele se lembrava das formas das nuvens austrais do amanhecer do 30 de abril de 1882 e podia comparé-las em sua recordago aos veios marméreos da encadernagao em couro de um livro que vira somente uma ver ¢ as esteiras de borrifo d’dgua que um remo sulcou no rio Negro na véspera da batalha do Quebracho... Funes recordava ndo apenas cada folha de cada arvore de cada bosque, como também cada uma das vezes que a tinha percebido ou imaginado... “Minha meméria, senhor, € como despejadouro de lixo”. O peso dessas recordagées desarticuladas e aleatérias mostra-se ao final intoleravel. “Pensar € esquecer uma diferenga, generalizar, abstrair, No mundo transbordante de Funes nao havia nada a nao ser detalhes.”""” As lembrangas precisam ser continuamente descartadas e combinadas; somente 0 esquecimento nos possibilita classificar e estabelecer ordem no caos. “Uma importante condigéo para o lembrar", como coloca Whitrow, “é nossa capacidade de esquecer. Como Henry James, devemos deliberadamente circunscrever nossas recordagbes: “A caixa de retalhos da memoria estava dependurada em um gancho no meu armario, embora eu aprendesse com o tempo a controlar 0 hdbito de abri-la”.'"” A meméria a qual se recorre com demasiada freqiiéncia nao mais vivifica 0 presente mas sim o volt inunda. De fato, lembrar mais do que uma pequena fragiio do nosso passado consumiria um tempo absurdamente enorme. Assim como Tristam Shandy, que levou um ano para ida inteira para registrar recontar apenas o primeiro dia de sua vida, “levarfamos uma uma vida inteira’, observa Charles Rycroft, “c qualquer um que tentasse escrever um telato detalhado de sua vida seria apanhado num retrocesso infinito, sendo obrigado a despender tempo e palavras na descrig&io da elaboragéio de sua autobiografia”.!2” As cenas e acontecimentos mais vividamente lembrados sao freqiientemente aqueles que permaneceram esquecidos por algum tempo. “Se uma imagem ou sensagio advinda do passado deve ser verdadeiramente reconhecida, ... precisa ser novamente evocada... apds um perfodo de auséncia”, diz Roger Shattuck ao interpretar Proust. “A imagem 117 Borges, pp. 40, 42-3. Para um exemplo real de tal memoria eidética, vide Oliver Sacks, “The twins”, N.Y Review of Books, 28 fev. 1985, p. 16. 118 Withrow, Natural Philasophy of Time, p. 85, elaborado sobre Diseases of Memory de Théodule Armand Ribot (1885). Vide também Aristides, “Disremembrance of things present”, p. 164. [19 James, A Small Boy and Others, p. 41 120 Sterne, Tristan Shandy, Liv IV, Cap. 13, 2:49; Rycroft, “Analysis and the autobiographer”. Vansina calcula que um individuo de 40 anos precisaria de seis meses para recordar tudo que fosse potencialmente possivel (“Memory and oral tradition”, p, 265). Sobre © paradoxo de Shandy, vide Mendilow, Time and the Novel, p. 184 Proj. Hist6ria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 9S ou experiéncia original devem ter sido esquecidas, completamente esquecidas... A ver- dadeira meméria ou reconhecimento cresce tomando forma a partir de seu oposto: ou- bli?” Segundo as proprias palavras de Proust: A medida que 0 habito tudo enfraquece, aquilo que melhor nos faz lembrar de uma pessoa € exatamente © que havfamos esquecido. E gragas to-somente a esse esquecimento que conseguimos de tempos em tempos recuperar a pessoa que fomos, colocar-nos em relago as coisas assim como aquela pessoa se colocava ... Devido & aco do esquecimento, a meméria que retorna... nos faz respirar um novo ar, um ar que € novo precisamente porque © havfamos respirado no passado, ... uma vez que os verdadeiros paraisos sao os paraisos que perdemos.' De fato, 0 longo texto retorcido de Em busca do tempo perdido faz com que 0 leitor esqueca 0 que leu no inicio, para recordé-lo no final, chocado pelo reco- nhecimento.'* Esquecer muito nao é apenas desejavel; é inevitavel. Acontecimentos repetitivos fundem-se na rememoragio: como cada vez que vou comprar pio é praticamente igual & vez anterior, somente a primeira ¢ a dltima experiéncia tendem a ser relembradas.'* ‘Ao contrario da crenga geral, esquecemos a maioria das nossas experiéncias; a maior parte do que nos acontece é logo irremediavelmente perdida. “Tenho a expectativa de que as lembrangas sejam duradouras pois, assim como os demais, posso recuperar um grande ntimero de lembrangas muito antigas, algumas das quais de vinte ou trinta anos atrds”, mas Marigold Linton percebeu que sua expectativa era iluséria: nao temos cons- ciéncia das muitas coisas que esquecemos, exatamente porque as esquecemos. Linton, ao examinar periodicamente seu didrio, no qual ela anotara os principais acontecimentos do seu cotidiano durante 0 ano de 1972, descobriu que a meméria modificara flagran- temente acontecimentos registrados dois anos antes; apés trés ou quatro anos muitas das informagées registradas ndo conseguiram fazer emergir qualquer recordagao. Deta- Ihes originalmente significativos de sua vida tornaram-se fragmentos sem sentido, frases inteiras completamente ininteligiveis; e sua capacidade de recordar fatos diminufa com 121 Proust's Binoculars, p. 63. Vide Joseph Frank, “Spatial form in modern literature”, pp. 238-9. 122 Remembrance of Things Past, 1:692, 3:903. 123 Shattuck, Proust's Binoculars, pp. 100, 10S. 124 Vansina, “Memory and oral tradition”, p. 264. 96 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 © passar do tempo, até que, seis anos depois, um tergo dos acontecimentos registrados havia desaparecido por completo da meméria.'%* Essas perdas transformam 0 passado recordado em “ilhas em uma paisagem confusa e feita de camadas, como as saliéncias esparsas que surgem aps uma nevasca, 0 poste telegrafico, a protuberancia do maquinario agricola ¢ as cercas encobertas pela neve”, nas palavras de Lively.'”* “Revivemos nossos passados nao em sua seqiiéncia continua, dia apds dia”, escreveu Proust, “mas sim através de uma meméria concentrada no frescor ou calor do sol de alguma manhi ou tarde”; entre essas cenas isoladas existem “vastas Areas de esquecimento”.'”” Esquecimento é 0 destino de muitos acontecimentos de enorme importncia na época em que aconteceram. Comparando experiéncias de guerra com lembrangas que delas ficaram trinta e cinco anos mais tarde, Tom Harrisson desco- briu que a maioria das pessoas havia esquecido coisas que nao poderiam imaginar que esqueceriam. Por exemplo, o escritor Richard Fitter nao conseguia se lembrar de sua passagem por Coventry e “mal péde acreditar em seus olhos quando confrontado com suas anotagées feitas a mao a respeito de uma longa visita ao lugar, incluindo impor- tantes conversas com altas autoridades”.'* Revisar As lembrangas também se alteram quando revistas. Ao contrario do estereétipo do passado relembrado como imutavelmente fixo. recordagdes so maledveis e flexiveis: aquilo que parece haver acontecido passa por continua mudanga. Quando recordamos, ampliamos determinados acontecimentos ¢ ento os reinterpretamos a luz da experiéncia subseqiiente e da necessidade presente. A inteligibilidade é uma dessas necessidades: coisas inicialmente ambfguas ou in- consistentes tomam-se coerentes, claras, diretas, “A meméria é a grande organizadora da consciéncia”, escreve Susanne Langer. “A experiéncia real 6 um emaranhado de visdes, sons, sentimentos, esforcos ffsicos, expectativas”, percepgdes que a meméria 125 Linton, “Transformations of memory in everyday life”, p. 86, Vide idem, “Real-world memory after six years”. 126 Lively, Going Back, p. 11 127 Remembrance of Things Past, 2:412-13. 128 Harrisson, Living through the Blitz, p. 327. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 97 simplifica e compée. Acima de tudo, a meméria transforma o passado vivido naquilo que posteriormente pensamos que ele deveria ter sido, climinando cenas indesejaveis € we privilegiando as desejavei: Recordagées subseqiientes redesenharam as experiéncias de guerra para adequé-las aos canones de comportamento e sentimento apropriados. Quando tocava piano num dia de setembro de 1939, uma jovem de Stepney no pdde ouvir nem a declaragao de Neville Chamberlain nem o alerta da primeira sirene; sua mae comegou entao a gritar com ela, seu pai a dar ordens peremptérias ¢ intiteis conselhos. A meméria alterou tudo isso: “Estévamos reunidos em nossa pequena sala de estar... todos juntos, ainda que uma vez na vida", ela recordou, ouvindo 0 rddio e “completamente abalados” pelas sirenes que ela, de fato, jamais ouvira. Durante anos contou essa hist6ria, que nao aparece em nenhum lugar de seu sincero documento original, como um relato verdadeiro dos seus primeiros dias da guerra. Harrisson acrescenta que “aqueles que nao mantém algum registro normalmente distorcem ainda mais os fatos”.!*” Pessoas préximas a Orwell também tinham lembrangas errdneas a seu respeito pois “testemunharam” incidentes que cle na verdade inventara ou “recordaram’ terem opiniées sobre ele que somente poderiam ter sido formadas apés leitura subscqiiente. Por exemplo, a irma de Orwell detestava 0 pouco que conhecia de suas obras enquanto © escritor estava vivo; sua familiaridade e admiragio pela obra do irmao vieram somente com a fama péstuma; uma entrevista por ela concedida 4 BBC logo apés a morte de Orwell revela como “essa mudanga chocante de opiniao também contaminou suas lem- brangas sobre © passado”, agora entremeadas com aprovagdo retroativa a obra de seu irmao. “O passado é filtrado por tudo que é aprendido subseqiientemente”, conclui Bernard Crick: Os chetes de tribo Cherokee leram livros de antropologia antes de serem entrevistados pelos antropélogos, ¢ notiveis literatos releram seus primeiros ensaios sobre Orwell pouco antes de serem entrevistados ¢ entdo os narraram novamente com elogidvel exatidao... Lembrangas dos dias de obscuridade de um homem famoso podem tornar-se terrivelmente confusas pela leitura ¢ lembranga de escritos posteriores sobre ele... E simplesmente muito dificil se chegar a genuinas lembrangas ou re-lembrangas.'*! 129 Feeling and Form, p. 263. “O pasado se ergue diante de nés ... ao haver atingido unidade suficiente para ser recordado como tal” (Casey, “Imagining and remembering”, p. 203). 130 Living through the Blitz, pp. 325-6. 131 “Orwell and biography” 98 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Essas adverténcias se aplicam da mesma forma ao nosso proprio passado. Assim como “o marido que confessa reinterpreta os casos de amor do seu passado colocando-os em uma linha ascendente que culmina em seu casamento”, observa Berger, “con- tinuamos reinterpretando nossa biografia da mesma forma que os stalinistas continuaram a reescrever a Grande Enciclopédia Soviética”.' Tais revis6es podem parecer repreen- ias; assim como outros historiadores, nds siveis, mas sao naturais e mesmo neces: reescrevemos incessantemente nossa histéria pessoal porque, por ocasiio dos acon- tecimentos, raramente podemos predizer qual seré ou que dimensio terd seu significado no futuro." A conversio pode transformar dramaticamente todo nosso passado re- memorado: as Confissdes de Santo Agostinho e Apologia pro vita sua de Newman revelam vidas anteriores novamente reinterpretadas e periodizadas; nossa propria familia emerge do caldeirdo conceitual da revelagdo psicanalitica “como figuras metamor- foseadas do panteZo freudiano”; tudo do passado somente agora faz sentido.'** Uma autobiografia, portanto, é “um registro que fazemos daquilo que todos os nossos selves anteriores escolheram para recordar dos selves que os precederam”, 0 resultado de uma dialética “entre o ‘cu’ presente ¢ 0 ‘cu’ passado, ao final da qual ambos mudaram”; o psicanalista vé a si mesmo “como um autobidgrafo auxiliar* que pode “assinalar pre- conceitos relativos, tipicamente, 4 autodifamagao ou autojustificagio, e diferenciar entre a verdadeira voz [do analisando] ¢ as suas imitagdes aprendidas, tipicamente, de outras vozes ancestrais”.'** Contudo, a revisio com freqiiéncia 6 tio distraida quanto nao intencional. A meméria to alardeada de John Dean transformou inconscientemente 0 que de fato sentido e desejado que acontecesse; suas lembrangas 136 acontecera no que ele proprio ha assim como a de todos foram construfdas, encenadas e centradas em si mesmo. Ao contrério do panorama esquematizado da meméria funcional, acontecimentos recordados com paixao sio com freqiiéncia mais enfaticos do que quando originalmente experimentados. Da mesma forma que esquecemos ou apagamos cenas que a principio 132 Invitation to Sociology, pp. 75, 71 133 Linton, “Transformations of memory”, p. 88. pp. 76-7. Vide Hankiss, “Ontologies of the self: on the mythological tory”; Gagnon, “On the analysis of life accounts” 134 Berger, Invitation 10 Sociolog: re-arranging of one’s life- 135 Rycroft, “Analysis and the autobiographer”, p. 541 136 Neisser, “John Dean’s memory”, p. 157. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 99 nao nos impressionaram, exageramos aquelas que nos impressionaram. Um lugar pode ser erroneamente lembrado como uniformemente coberto de gelo e varrido pelo vento, caso uma tempestade de neve fosse a nossa mais memoravel experiéncia naquele local; a recordago de uma rara nevada na Cidade do Cabo, em 1926, cujas fotografias sao exibidas nas salas das casas dos habitantes, dio uma impressio completamente falsa do clima habitual dessa cidade. Disfargamos a diversidade e aniquilamos incontaveis imagens antigas em algumas lembrangas dominantes, acentuando qualquer caracterfstica singular e exagerando seu esplendor ou fragilidade.'”” Tais énfases corroboravam a arte classica da memorizagao. “Quando vemos, no cotidiano, coisas que sao insignificantes, comuns e banais, geralmente nao conseguimos lembrar delas porque a mente ndo estd sendo instigada por nada novo ou maravilhoso”, segundo um antigo texto. “Mas se vemos ou ouvimos algo excepcionalmente vil, desonroso, singular, formidavel, inacreditavel ou ridiculo, disso nos lembraremos durante muito tempo”.'* O treinamento da meméria concentrou-se entdo em imagens vividas, poderosas, até mesmo grotescas. Lugares lembrados tendem a convergir, a menos que sejam especialmente distintos: um conjunto de cenas sucessivas pode se consubstanciar em uma ou duas, recordadas com as caracteristicas genéricas de todas. A memoria do visitante sincretiza as univer- sidades de Oxbridge, transpde Exmoor para Dartmoor, julga que as South Downs ¢ as North Downs sdo uma s6. A memoria também reorganiza os acontecimentos no tempo, misturando a seqiiéncia em que as cidades foram visitadas, apresentando os episddios na ordem em que deveriam ter ocorrido. Quando a preciso do calendario nao € essen- cial, as datas lembradas sao muitas vezes vagas ou caleidoscépicas; “hd muito” ou “outro dia” é 0 suficiente. O passado recordado nao é uma cadeia temporal consecutiva, mas um conjunto de momentos descontinuos igados da corrente do tempo. “Podemos recordar vividamente determinados acontecimentos de nosso passado sem podermos daté-los”, sugere Siegfried Kracauer, ¢ quanto mais prontamente os recordarmos mais propensos estaremos a “julgar incorretamente sua distancia temporal do presente ou destruir sua ordem cronolégica”."” Quase todas as pessoas 137 lan Hunter, Memory, p. 279. 138 Ad Herennium (c.86-82 B.C.), ‘ado por Yates em Art of Memory, p. 25; também pp. 17-41. 139 “Time and history”, p. 69. Vide Fraisse, Psychology of Time, p. 161 100 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 marcam 0s acontecimentos em si, ¢ nao a data em que ocorreram. Nao dizem “isso acon- teceu em 1930” ou “aquilo aconteceu em 1925” ou coisas semelhante. Dizem “isso aconteceu no ano em que o velho moinho foi destruido pelo fogo” ou “aquilo aconteceu depois que 0 raio atingiu o grande carvalho e matou 0 fazendeiro James” ou “aquele foi © ano da epidemia de pélio”. Assim, naturalmente, € claro, os fatos de que se lembram ndo seguem nenhuma seqiiéncia definida... H4 apenas fragmentos surgindo aqui e ali.'*” A recuperagiio da meméria é raramente seqiiencial; localizamos os acontecimentos recordados por associacao e nao por um trabalho metédico, avangando ou recuando no tempo, ¢ tratamos o passado como “um museu arqueolégico de fragmentos ... casual- mente justapostos”.'"” Seja ordenado ou casual, o passado relembrado diverge substancialmente da ex- periéncia original. Nao podemos mais aceitar 0 ponto de vista de Bergson, de que a fungéio da memoria é conservar todo 0 passado, ou a visdo de Penfield, de que cada acontecimento apreendido pode ser reconstituido com preciséo. Ao contrario, a pas- sagem do tempo provoca mudanga qualitativa da meméria bem como sua perda. Novas experiéncias alteram continuamente os esquemas mentais que moldam 0 que foi pre- viamente lembrado. “Ao longo da nossa vida, reorganizamos nossas lembrangas ¢ idéias do passado”, escrevem Piaget e Inhelder, “conservando mais ou menos o mesmo ma- terial, mas adicionando outros elementos” que mudam seu sentido e importancia."” Como Freud percebeu, “nossas lembrangas da infancia nos mostram nossos primeiros anos nao como eles foram mas como cles nos pareceram ter sido em épocas posteriores, quando as lembrangas foram estimuladas’"**, De fato, cada ato de lembrar altera no- vamente as lembrangas. Da mesma forma, contar as lembrangas também as altera, pois “o proprio ato de falar sobre 0 passado tende a cristalizé-lo numa linguagem especifica mas um tanto arbitréria”, comenta Donald Spence; uma vez narrada como historia, a lembranga original nunca mais pode ser vivida como um vago devaneio Wordswor- thiano.'* Para comunicar uma narrativa coerente precisamos nao apenas reformular o passado antigo como ainda criar um novo. “Longe de ser uma méquina do tempo por meio da qual é possivel voltar ao passado para averiguar 0 que se passou”, segundo a 140 Christie, By the Pricking of My Thumbs, p. 174. 141 Donato, “Ruins of memory: archeological fragments and textual artifacts", p. 595. 142 Memory and Intelligence, p. 381 143 “Screen memories” (1899), 3:322. Vide Kris, “Recovery of childhood memories”, p. 56. 144 Narrative Truth and Historical Truth, pp. 92, 173, 175. Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 101 frase de Roy Schafer, o analista (ou qualquer pesquisador) coloca sua propria marca em nosso passado ao extrair e freqiientemente recontar com suas proprias palavras, uma narrativa moldada pela sua interacio conosco." Outras mudangas so inerentes ao amadurecimento, ao envelhecimento e as distan- cias entre as geragdes. Na nossa infancia, nossos pais parecem completamente diferentes de nossos avés; 4 medida que crescemos e nossos pais envelhecem, cles se tornam cada vez. mais parecidos com nossos avés. Apés a morte da avé de Proust, sua mae pareceu assimilar grande parte das suas caracterfsticas, parte em fungao de sua idade avangada, e parte como reposit6rio de lembrangas antes associadas & av6; “os mortos anexam os ¢ sucessores”.!“* Imagens lembradas de épocas ante- vivos que se tornam suas répli riores, elas mesmas anteriormente alteradas, tornam mais antigo o passado recente. O equilibrio entre nossas préprias lembrangas e as dos outros também muda com aidade. Um mundo dominado por velhos dotados de lembrangas mais extensas e antigas do que as nossas dé lugar, a0 envelhecermos, a um mundo de jovens que compartilham somente nossas experiéncias mais recentes. As lembrangas da infancia dos jovens sio continuamente ampliadas pelas recordagées aparentemente oniscientes dos mais velhos, uma vez que os idosos, agora as tinicas testemunhas oculares daqueles primeiros anos, deles desfrutam incontestaveis lembrangas. Mas suas interpretagdes dos acontecimentos recentes diferem das dos jovens que com eles compartilham esse mesmo passado re- cente.'“? Conexdes que vio se ampliando com varios segmentos de tempo, agora sob custédia exclusiva, agora contestadas por aqueles que detém lembran¢as mais antigas ‘ou mais recentes, alteram assim tanto 0 contetido quanto a veracidade do passado. Uma vez que os atuais processos mentais reorganizam continuamente a memoria, como se pode demonstrar que a apreensao do passado difere da apreensio do presente? A resposta de Piaget é que a experiéncia ¢ a meméria despertam diferentes expectativas temporais. A ago impregna constantemente a percepgio do presente, alterando coisas pela vontade ou por acaso. O passado, porém, jé foi sancionado e, por mais distorcida ou alterada a recordagdo, as coisas permanecem 0 que foram e jamais podem ser revogadas.'** Uma sensagio de plenitude que advém da percepcio tardia é inevitavel, tanto na memoria quanto na histéria. Como Walter Benjamin colocou, um homem que 145 “Narration in the psychoanalytic dialogue”, p. 33. 146 “Remembrance of Things Past, 2:796-7. Vide Halbwachs, Collective Memory, p. 67. 147 Kastenbaum, “Time, death and ritual in old age”, pp. 24-5; Halbwachs, Collective Memory, pp. 68-9. 148 Memory and Intelligence, pp. 399-404. 102 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 morre aos trinta e cinco anos é lembrado “em qualquer fase de sua vida [como] um homem que morre aos trinta e cinco anos”; nés nfo conseguimos desvencilhar das recordagées que temos de seus primeiros anos nosso conhecimento de sua morte sub- seqilente. O conhecimento prévio explica por que a meméria freqiientemente decepciona. “As io datadas”, acredita S$. de Beauvoir. “Nossa imagens do passado que nés recuperamos vida nos escapa — ela foi frescor, novidade e desabrochar. E agora aquele frescor se perdeu.”"* A recuperagdo da meméria nao alcanga a experiéncia inicial. Ao revisitar a Abadia Tintern apés cinco anos, Wordsworth lamentou sua impossibilidade de recapturar a intimidade de sua primeira visita: “Um apetite; um sentimento e um amor, / Que nao necessitavam de um encanto mais remoto, / Supridos pelo pensamento”.'*' Porém, foram as reflexdes avivadas pela segunda visita que deram origem ao poema. A memoria deprecia as experiéncias originais apenas quando esperamos que elas sejam duplicadas; suas transformagées podem realgé-las.'* E relacionando o passado ao presente que as lombrangas se tornam importantes para Proust, e para todos nés. “A imagem lembrada € combinada com um momento no presente possibilitando um exame do mesmo objeto”, explica Shattuck. “Assim como nossos olhos, nossas lembrangas devem ver em dobro; essas duas imagens ent’o convergem em nossa mente em uma tinica realidade intensi- ficada."" A fungao fundamental da memoria, por conseguinte, nao é preservar 0 passado mas sim adapté-lo a fim de enriquecer e manipular o presente.' Longe de simplesmente prender-se a experiéncias anteriores, a meméria nos ajuda a entendé-las. Lembrangas nao sao reflexdes prontas do passado, mas reconstrugGes ecléticas, seletivas, baseadas em agdes e percepgdes posteriores e em cédigos que sao constantemente alterados, através dos quais delineamos, simbolizamos e classificamos 0 mundo 4 nossa volta. E 149 “The storyteller”, p. 100. 150 Old Age, p. 407. ISI “Lines composed a few miles above Tintern Abbey” (1798), linhas 80-2, 2:261 152 Donato, “Ruins of memory”, p. $80. 183 Proust's Binoculars, p. 47. 154 Hunter, Memory, pp. 202-3. “Nao somente a experiéncia presente permanece no passado, mas 0 presente formece 0 incentivo para a visualizagdo do passado” (Kris, “Recovery of childhood memories”, p. 55). Vide Spence, Narrative Truth and Historical Truth, p. 98 Proj. Hist6ria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 103 as recordages longinquas dos esquemas atuais de pensamento, tais como as vividas experiéncias sens6rias da primeira infancia, ou recordagdes de nenhuma conseqiiéncia atual, tais como ultrapassadas ligdes escolares, estio irremediavelmente perdidas. Apesar disso recordamos muito mais do que precisamos apenas para lidar com a vida presente. A meméria, que rouba “chama / Das fontes do passado, / Para glorificar © presente”, ' apenas para sobreviver no mundo atual mas para elaborar nossos momentos e dias com ‘SS permite-nos ndo apenas seguir mas claborar esforgos anteriores, nao uma justaposigado de tempos densamente entrelagados, que faz a mente mortal parecer imperectvel. Historia A fungi do historiador ndo € simplesmente preencher as lacunas da memdria, Ele constantemente contesta até mesmo aquelas lembrangas que sobreviveram intactas. Yosef Hayim Yerushalii Zakhor: Jewish History and Jewish Memory’ estudo da meméria nos ensina que todas as fontes histéricas estiio desde 0 principio banhadas de subjetividade. Jan Vansina, “Memory and Oral Tradition" A historia expande e elabora a mem6ria ao interpretar fragmentos e sintetizar relatos de testemunhas oculares do passado. No seu sentido m refere-se nfo apenas aos anais da civilizagio mas a era pré-hist6rica, que nao tem registros escritos. Sua auséncia nao nos impede de perceber que o perfodo anterior & escrita teve uma histéria, nem impede uma compreensio dessa histéria. Narrativas orais, filmes, obras de ficgfio, obras de arte — pinturas ¢ esculturas que representam ou refletem idéias sobre 0 passado — transmitem uma compreensio histérica tanto da pré-histéria quanto de épocas posteriores. Até mesmo em sociedades letradas, a maioria das infor- magées a respeito do passado, sendo todas, so transmitidas oralmente. amplo, a consciéncia hist6rica 155 Tennyson, “Ode to memory” (1830), linhas 12-13, p. 211. Vide J.D. Hunt, “Poetry of distance”, p. 94; Kissane, “Tennyson; passion of the past and the curse of time”. 156 1982, p. 94. 157 1980, p. 276. 104 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 A muda natureza também teve uma carreira hist6rica. “Pedras, drvores, animais tém um passado possivel de ser conhecido, mas nenhuma histéria”, pensava Vico, uma vez que nenhum propésito consciente deu vida aquele passado;'** nao obstante, a com- preensio histérica agrupa o passado de entidades no humanas. A zoologia, a botanica, a geologia e a astronomia historicas nao tém as fungGes motivadoras da hist6ria humana, mas o passado que descortinam é, entretanto, “histérico”, O alcance substantivo da apreensao hist6rica também transcende a histéria conven- cional, compreendendo uma perspectiva mais abrangente, uma série mais ampla de fontes ¢ uma nogZo mais inclusiva de “verdade”.'* Nosso sentido do passado hist6rico deriva menos dos livros de histéria do que do cotidiano que vivenciamos a partir da infancia. A historia nao se transmite de cima para baixo, Ela é transmitida de baixo para cim: A histéria est no quicar de uma bola, No estalido de uma corda de pular.'” Em torno dos acontecimentos que viveu, e mais além, Everyman de Carl Becker clabora “um padro visto de modo mais obscuro... de coisas supostamente ditas ¢ feitas em um passado que ele nfo conheceu... A partir dos mais diversos encadeamentos de informacio, recolhidos da maneira mais casual, das fontes mais dispares... ele, de al- guma forma, consegue moldar a histéria, quase sempre de forma nao deliberada”."" E a historia de Everyman é muito mais difusa do que a dos profissionais”. Apesar de toda especializagdo dos historiadores e arquedlogos, a historia permanece, segundo Rosemary Harris, “um tema algo indefinido, semi-ficcional, em parte fato, em parte mito € su- posi so" 162 158 Berlin, Vico and Herder, p. 29. 159 Pocock, “Origins of the study of the past”, p. 215. Jacques Le Goff vé “uma histéria total” que “abrangerd todos os estudos relacionados com homem e tempo” (Nouvelle Histoire, p. 11). 160 WR. Rodgers, citado por Vicky Payne em “Taking Ireland’s history off the streets", Observer Mag., 2 dez. 1979, pp. 75-7, 161 Becker, “Everyman his own historian”, pp. 14-15, 162 “How to enjoy the first lessons in developing a sense of the past”, The Times, 31 jan. 1973, p. 10. A conscigncia histérica amplia-se também por conjecturas a respeito de acontecimentos nio registrados € aqueles cujos registros foram perdidos ou destruidos; por especulagdes sobre um pasado que poderia ocorrer algum dia, ou um que jamais poderia ter acontecido, como um encontro entre Tamerlane ¢ Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 105 O entendimento do passado abrange todas as formas de exploracdo. Assim como 08 varios niveis de meméria se fundem para produzir 0 conhecimento miltiplo, tambem esses fragmentos hist6ricos heterogéneos — coisas anteriores 4 meméria, fora do 4mbito da nossa experiéncia pessoal ou dependentes de relatos de outrem — convergem da mesma forma nos esforgos de Everyman. As perspectivas sobre o entendimento histérico sao tio diversas quanto os seus componentes. Elas incluem aquilo que, as vezes, é depreciado como mitolégico. “Na histéria da histéria um mito € uma versao outrora valida mas agora descartada da histéria humana”, comenta Becker, “assim como as nossas versGes agora validas serao, no devido tempo, relegadas & categoria de mitos descartados”.'® Na percepgio do pi da fndia, “nao ha critérios de diferenciagdo entre mito ¢ historia... O que © ocidental ... 0 que ele considera ado. considera histéria no Ocidente, ele consideraria mito na indi: histéria em seu préprio mundo € vivido pelos indianos como mito”.' Profetas e sa- também sao historiadores. Ao defender cerdotes, contadores de histéria e menestr uma hist6ria “metaférica”, Nietzsche depreciou a explicagdo “factual” privilegiando a percepgdo mitica derivada da arte dramética ¢ da fabula.'® E a hist6ria escrita pode adquirir 0 caréter poético e universalizante do mito 4 medida que o tempo desgasta seu contetdo factual especffico, nio mais lemos Gibbon como a Histéria de Roma, mas sim como meditagao elogiiente sobre a ascensdo ¢ queda da humanidade, exemplificadas pela Roma de César.'* Nosso sentido de hist6ria ultrapassa 0 conhecimento para atingir o envolvimento empitico. Ao construir sua propria histéria, Everyman “trabalha com algo proveniente da liberdade de um artista criativo; a hist6ria que cle recria usando a imaginacio... seré Joana d’ Arc; ¢ por reflexdes contra-factuais (Keller, “Time out: the discontinuity of historical conscious- ness”, pp. 288-90). 163 Becker, “Everyman his own historian”, p. 16. 164 Panikkar, “Time and history in the tradition of India’, p. 76. Uma visto mais mordaz & que 0 “passado dourado da India nao deve ser possuido mediante investigacao; deve ser somente contemplado com éxtase. © passado é uma idéia religiosa, encobrindo o intelecto e percepgio dolorosa, entorpecendo © stress em épocas dificeis” (Naipaul, “India: paradise lost”, p. 15). 165 Use and Abuse of History, pp. 39-42. A tarefa do historiador ndo é meramente transformar o estranho em familiar, mas sim transformar o familiar em estranho, reconstituindo vidas passadas “em toda sua estranheza ¢ mistério... para lembrar aos homens da irredutivel variedade da vida humana” (Hayden White, “Foucault decoded”, p, 50). 166 Frye, Great Code, pp. 46-7. 106 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 inevitavelmente uma mescla cativante de fato ¢ fantasia”, dominada por informagoes “que parecem mais apropriadas a seus interesses ou mais promissoras no que tange a satisfagdo emocional”.'”’ A percepgdo dos especialistas surge da mesma forma, por meio de “uma percepcio repentina que gradualmente confere sentido a toda uma grande parte do passado”. E R.W. Southern considera “mais importante que a percep¢ao inicial seja aguda ¢ vivida do que verdadeira. A verdade surge mais facilmente do engano do que da confustio, Somente através de uma percepgiio aguda é que se pode dar infcio a uma 168 busca vigorosi A histéria é, portanto, tanto mais quanto menos do que o objeto de estudo dos historiadores, porém as discrepancias nado so tio grandes quanto as existentes entre memoria ¢ psicologia. O campo de estudo dos psicdlogos é muito mais amplo do que a meméria, & qual poucos deles se dedicam inteiramente; a tarefa central dos histo- riadores € 0 estudo da historia, sendo seu campo disciplinar inteiramente definido (como na arqueologia) em termos de conhecimento do passado. Psicélogos, em geral, detém-se em aspectos da meméria que podem ser testados ou reproduzidos em laboratério; os historiadores estudam 0 passado esmiugando relatos sobre 0 que acontece no mundo real. A maioria dos psicdlogos lida com uma “meméria” distante da percepgio comum; a maioria dos historiadores lida com 0 passado tal como ele € normalmente apreendido. Todavia, as divergéncias entre a histéria como uma disciplina ¢ conhecimento histérico conforme aqui se aborda s%io numerosas e significativas. Historia e memoria A comparagio desses dois caminhos rumo ao passado desagrada alguns histo- riadores “porque sabem que a histéria é um trabalho que exige empenho, ao passo que a recordago parece ser passiva, nao dedutivel ¢ néo comprovavel”.'® A historia difere da memoria nao apenas no modo como o conhecimento do passado é adquirido e cor- roborado, mas também no modo como é transmitido, preservado ¢ alterado. 167 Becker, “Everyman his own historian”, p. 15. 168 Southern, “The historical experience”, p. 771 169 Mink, “Everyman his or her own annalist”, p. 234. Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov, 1998 107 Aceitamos a meméria como uma premissa do conhecimento; inferimos a histéria a partir de evidéncias que incluem as lembrangas de outrem. Ao contrério da meméria, a hist6ria nao é dada, mas sim contingente: 6 baseada cm fontes empiricas que podemos decidir rejeitar por outras versées do passado. A menos que eu confie implicitamente em minha meméria, nao posso reivindicar qualquer conhecimento do passado; mas na auséncia de provas corroboradas, os dados histéricos podem ser razoavelmente contes- tados. Contudo, as ambigiiidades ¢ justaposigGes confundem essa diferenciacdo. Como ja vimos, “a meméria” inclui relatos de segunda mao do passado — ou seja, historia; “a histéria” baseia-se em testemunhos oculares e outras recordagdes ~, ou seja, meméria. Tratamos as lembrangas de outras pessoas como histéria, empiricamente verificdveis, como fazemos algumas vezes com nossos préprios relatos autobiograficos.'”” Mesmo icialmente derivados da meméria do autobiégrafo, os acontecimentos externos — se quando ocorreram os fatos, quem conheceu quem, quais as conseqiiéncias resultantes — podem ser verificados ou falsificados por registros pdblicos; 0 autobiégrafo criterioso compara sua meméria com fontes histéricas. Mas ele pode confiar apenas em sua meméria para verificar seus antigos sentimentos acerca desses acontecimentos, poi somente ele priva de tal conhecimento. Ele s6 pode comparar aquelas lembrangas com seus préprios relatos anteriores.'” E extremamente dificil separar de nossas recordagdes os componentes da histéria e da meméria. Se ndo tenho consciéncia de que parte da minha lembranga é um pouco da historia de outrem, considero-a verdadeira prima-facie, exatamente como 0 resto de minhas lembrangas. E mesmo quando fontes externas podem ser diferenciadas das lem- brangas primérias, posso deixar de traté-las historicamente. Na vida cotidiana acredita- mos naquilo que nos relatam cnjuges, vizinhos e colegas, da mesma forma que acredi- tamos em nossas proprias lembrangas; unicamente quando provas conflitantes ou im- probabilidades inatas levantam sérias diividas é que submetemos as lembrangas 4 critica histérica. Histéria e memoria séo distingufveis menos como tipos de conhecimento do que como atitudes relativas a esse conhecimento. Nao apenas as lembrangas originais mas 170 Murphey, Our Knowledge of the Historical Past, pp. 10-12. 171 Collingwood, idea of History, pp. 295-6. Comparando registros retrospectivos com aqueles fornecidos 4 6poca, poder-se-ia deixar de considerar parcialmente um preconceito autobiogrifico (Kohli, “Biog- raphy: account, text, method", p. 71). 108 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov, 1998 toda a histéria que elas incluem sdo normalmente aceitas como dadas ¢ verdadeiras; nao apenas as fontes da hist6ria como também as da memoria sao, de tempos em tempos, examinadas quanto A sua exatido e comprovagio empirica. A natureza coletiva da historia aparta-a, no entanto, da meméria. Tendo em vista que 0 passado que recordo é parcialmente compartilhado com outros, boa parte dele € unicamente meu. Mas 0 conhecimento histérico €, por sua propria natureza, produzido e compartilhado coletivamente; a percepcio hist6rica implica atividades em grupo. “Um individuo isolado nao pode se lembrar de outro passado que nao seja o de suas recor- dagées pessoais”, escreve J. G. A. Pocock, ao passo que “a palavra ‘passado’, como os historiadores a usam, conota um estado de coisas de certa complexidade social que perdura por um tempo suficientemente longo para tornd-lo inteligivel”. Para lembrar e comunicar esse passado é preciso haver instituigdes complexas e duradouras. Por esta razio, a “hist6ria deve ser estudada como uma atividade social”."” Assim como a meméria corrobora a identidade pessoal, a histéria perpetua a auto- consciéncia coletiva, Para entender “o que sao ou o que podem vir a ser”, observa da mesma forma Gordon Leff, os grupos “definem a si mesmos através da hist61 como um individuo o faz. através da meméria”.”’ De fato, o empreendimento da historia € crucial A preservagio social. “Uma vez que todas as sociedades sao organizadas. para assegurar sua propria continuidade”, declaragées coletivas sobre o passado ajudam a conservar os acordos existentes, ¢ a difusio de todos os tipos de histéria, sejam cles fato ou fabula, alimenta o sentimento de pertencer a instituigdes coerentes, estaveis ¢ duradouras.'™ A preservagiio também distingue 0 conhecimento hist6rico. Considerando que a maioria das lembrangas perece com seus portadores, a hist6ria é potencialmente imortal. De fato, preservar 0 conhecimento do passado € uma das raisons d’étre fundamentais da hist6ria: tanto os relatos orais quanto os arquivos tém sido ha muito preservados contra os lapsos da memoria e 0 tempo devorador. A histéria também é menos aberta a modificagées do que a memoria: as lembrangas mudam continuamente para corres- ponder as necessidades presentes, mas 0 registro hist6rico resiste, até certo ponto, a 172 “Origins of the study of the past”, p. 211 173 History and Social Theory, p. 115. 174 Pocock, “Origins of the study of the past”, p. 211. Vide Shills, Tradition, pp. 162ff; Peel, “Making history”, pp. 112-13. Proj. Histéria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 109 distorgées. E evidente que a hist6ria é continuamente revisada para dar conta de acon- tecimentos subseqiientes ¢ para ser compreensivel as novas geragdes, mas os documentos escritos preservam virtualmente os dados como cles foram originalmente.'* A estabilidade da histria se deve em grande parte a sua divulgago impressa, mas boa parte do conhecimento do passado sobrevive a transmissio escrita ¢ até mesmo oral mais ou menos intacta. Apesar da prevaléncia das falsificagdes e dos erros, muitos manuscritos so considerados relatos razoavelmente veridicos. A histéria transmitida oralmente nao pode ser verificada por meio de registros anteriores, mas anacronismos residuais mostram que algum conhecimento perdura quase inalterado de narrador para 176 narrador.'”* E aqueles que narram e escutam ou |éem historias — sejam elas orais, escritas ou impressas — confiam na existéncia de registros estaveis e fiéis, enquanto sabemos que a meméria freqiientemente nos engana. O conhecimento histérico também difere da memoria ao contar-nos coisas sobre 0 passado, desconhecidas para quem vivia naquela época. Certamente, as recordagées transformadas pelo tempo igualmente inventam e descobrem novos fatos; assim como as historias, as lembrangas revéem no presente o passado com uma percepgao tardia. Mas considerando que a memoria raras vezes é revisada conscientemente, os histo- tiadores deliberadamente reinterpretam o passado através das lentes de acontecimentos e idéias subseqiientes. Tanto a historia quanto a memoria engendram novos conhecimen- tos, mas apenas a histéria esté determinada a assim proceder. A histéria € menos que o passado O conhecimento histérico é consensual por sua prépria natureza. Uma vez que € visto e ouvido praticamente da mesma forma por muitas pessoas, ele pode com freqiién- cia ser verificado ou falsificado, diferentemente das lembrangas. Incontaveis imposturas hist6ricas tém sido impostas a um mundo crédulo, mas com o tempo o peso das provas acaba por corrigir muitos enganos e expor os embustes. Seu carter ptiblico torna o 175 Kelley, Foundations of Modern Historical Scholarship, pp. 215-33; Eisenstein, Printing Press as an Agent of Historical Change, pp. 112-15; Goody e Watt, “Consequences of literacy”, pp. 57-67. 116 J.C. Miller, “Introduction: listening for the African past", pp. 37-49; Goody © Watt, “Consequences of literacy", pp. 28-31; Vansina, Oral Tradition, p. 46. 110 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 conhecimento histérico, até mesmo o de acontecimentos bastante remotos, mais con- fidveis do que muitas recordagées de testemunhas oculares do passado recente. Ainda assim, é impossivel recuperar ou recontar mais do que uma pequenina fragao do que ocorreu, ¢ nenhum relato histrico jamais corresponde precisamente ao ver- dadeiro passado. Trés fatores limitam 0 que pode ser conhecido: a imensidao do passado em si, a diferenca entre acontecimentos passados ¢ relatos sobre esses acontecimentos, € a inevitabilidade do preconceito — especialmente o preconceito presentista, Comentarei cada um no seu devido tempo. Primeiramente, nenhum relato hist6rico consegue recuperar a totalidade de qualquer acontecimento passado, porque seu conteddo € virtualmente infinito. A narrativa historica mais detalhada assimila apenas uma fragio minima até mesmo do passado relevante; o proprio fato de o passado ser passado impede sua total reconstrugdo. Grande parte das informagées sobre 0 passado jamais foi registrada, e a maior parte do que sobrou perdeu-se. O historiador precisa aceitar “a tertivel verdade” de Herbert Butter- field — “a impossibilidade da histéria”: © lavrador que Gray viu em drdua labuta, a turba de rebeldes de Monmouth — cada individuo um mundo em si mesmo, um mistério de personalidade... — estes nao deixaram meméria alguma e tudo 0 que deles sabemos é suficiente apenas para despertar nossa curiosidade ¢ imaginagio. Aquelas caracteristicas que nos trazem a lembranga de um velho amigo — 0 riso peculiar, 0 jeito de passar a mao pelos cabelos, o assobio na rua, o humor — nao podemos ter a esperanga de recapturé-las na historia [assim como] no podemos ter a esperanga de ler os coragdes de reis j4 quase esquecidos. A Meméria do mundo nao é um cristal brilhante ¢ reluzente, mas sim um amontoado de fragmentos soltos, uns poucos raios de luz que atravessam a escuridao.'” Em segundo lugar, nenhum relato consegue recuperar o passado como ele foi porque © passado nao foi um relato; foi um conjunto de acontecimentos € situagdes. Uma vez que © passado nao mais existe, nenhum relato pode ser comparado a ele, mas apenas a outros relatos do passado; julgamos a veracidade do relato comparando-o com outros registros, no com os acontecimentos em si. A narrativa hist6rica nado é um retrato do que aconteceu, mas uma histéria sobre 0 que aconteceu. O historiador nem mesmo seleciona da totalidade do que aconteceu (res gestae), mas de outros relatos sobre 0 que aconteceu (historia rerum gestarum); a este respeito, as assim chamadas fontes 177 Butterfield, Historical Novel, pp. 14-15. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov, 1998 iid primérias néo chegam mais perto da realidade do passado do que as crénicas secundarias. Nenhum processo de verificagiio pode nos dizer satisfatoriamente se co- nhecemos a verdade sobre o passado, pois aceitamos ou rejeitamos qualquer relato exclusivamente fundamentados na plausibilidade intrinseca e na sua conformidade com outros relatos conhecidos e confidveis. Resumindo, nao podemos refutar 0 ponto de vista cético de Munz “no sentido de que nao se pode dizer que algo aconteceu apenas porque alguém pensou que tivesse acontecido”, ou a assergio de Lévi-Strauss de que “o fato histérico nao tem realidade objetiva; ele existe apenas como ... reconstrugiio retrospectiva”.'* Isto no significa negar que o consenso histérico e a memoria coletiva estejam ancorados na realidade e fornegam um conhecimento real do passado. De fato, “é s6 nosso sentido de experiéncia temporal cumulativa que confere significado a julgamentos presentes; sem isso, nado poderia haver resposta a qualquer pergunta, nem perguntas a serem respondidas, porque ndo poderia haver fato como tal ¢ nem discurso inteligivel”, conclui C. I. Lewis. “Sem experiéncia genuinamente cognoscivel do passado [e] sua relevancia para o futuro, néo poderiamos ter um sentido de realidade empirica.”"” Mas assim como a recordagdo jamais corresponde rigorosamente aos acontecimentos origi- nais, nenhum relato histérico corresponde rigorosamente a eles; historia rerum gestarum nao é res gestae. Os historiadores tém relutado a encarar essa limitagdo epistemolégica, em parte devido a necessidade de uma postura firmemente criteriosa. Mesmo J. H. Hexter, nor- malmente critico da auto-imposigao cientifica de seus colegas historiadores, se refugia num didlogo imaginado que trivializa a questao: FILOSOFO (alto e sonoro): — Os homens realmente ndo podem conhecer 0 passado. HISTORIADOR (espantado): - O que vocé disse? FILOSOFO (irritado): - Eu disse: “Os homens nao podem realmente conhecer 0 passado”, e voce sabe perfeitamente bem que foi isso 0 que eu disse, presumindo “uma espécie de conhecimento sobre 0 passado” que torna a comunicago possivel e € “boa o suficiente”’ para os historiadores que deveriam “cuidar de seus 178 Munz, Shapes of Time, pp. 184-5, 204-13, citagdio na p. 209; Claude Lévi-Strauss (1965), citado no ibid., p. 186, Vide von Leyden, “Categories of historical understanding”, pp. 55-9 179 Analysis of Knowledge and Valuation, pp. 361-2. Vide McCullagh, Justifying Historical Descriptions, pp. 26-7. 12 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 prdprios assuntos” e nfo se preocupar com filosofia'*” — comentario que admite e entio descarta 0 problema. Em terceiro lugar, o conhecimento histérico, embora ptiblico e corroboravel, é tam- bém invariavelmente subjetivo, preconcebido tanto pelo seu narrador quanto por seu publico. Ao contrario da meméria ou dos fragmentos, a hist6ria geralmente depende dos olhos ¢ da voz de outrem: nés a enxergamos através de um intérprete que se coloca entre os acontecimentos passados e a nossa compreensio dos mesmos. Realmente, a historia escrita circunscreve a tirania do narrador ao permitir ao seu piiblico 0 acesso as fontes originais: uma vez que predecessores distantes podem se comunicar conosco através de suas préprias palavras nao nos encontramos em total dependéncia, assim como se encontram os povos nas sociedades orais, baseados na tradigdo transmitida por precursores imediatos. Segundo as palavras de W. Lloyd Warner, “nao apenas uma geragdo mas uma centena delas esto enviando agora suas pr6prias interpretagGes tardias do que ambos, elas ¢ nés, somos”.!*! Nao importa que seja um tnico e recente narrador ou narradores miultiplos e dispersos ao longo do tempo: nés, no entanto, ndo podemos fugir da estrutura que eles impdem ao passado. Tampouco podemos fugir de nossas préprias estruturas. A perspectiva e as predilegdes do narrador moldam sua escolha ¢ sua utilizagéo dos materiais histéricos; ¢ as nossas determinam igualmente a escolha c utilizagao que deles fazemos. O passado que conhecemos ou vivenciamos esté sempre dependente de nossas préprias opinides, perspectivas e, acima de tudo, de nosso préprio presente. Assim como somos produtos do passado, também o passado conhecido é um artefato nosso. Nenhum observador, por mais imerso no passado, pode despojar-se de seus préprios conhecimentos e su- posigdes, ou “recordar eventos passados sem relaciond-los de alguma maneira sutil ao que ele precisa ou deseja fazer”."? Nossas esperangas e temores, especializagdes e in- 180 History Primer, pp. 338-9. 181 The Living and the Dead, p. 217. 182 Becker, “Everyman his own historian”, p. 12. “Nao pode haver histria sem um ponto de vista, mesmo se é apenas que o historiador no deveria ter nenhum ponto de vista" (Leff, History and Social Theory, p. 91). Quentin Skinner mostra como a aplicagdo inconsciente de paradigmas inaplicdveis a0 passado inevitavelmente contamina os estudos histéricos (“Meaning and understanding in the history of ideas”, pp. 4-28). De fato, McCullagh sustenta que os historiadores justificam suas conclusdes menos por sua coeréncia com outras convicgdes aceitas do que por evidéncias presentes que podem ser obser- vadas; eles tém confianga muito maior no que percebem do que na verdade da histéria escrita (Jus- tifying Historical Descriptions, pp. 91-2) Proj, Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 H3 lo histérico assim como moldam nossas lem- tengdes moldam continuamente 0 pas: brangas. A fim de “explicar” 0 passado para eles préprios e para seu ptiblico, os his- toriadores ultrapassam as fontes para enquadrar as hipéteses a modclos atuais de pen- samento. Ao editar dados recolhidos da época histérica de sua escolha e sintetizar em conformidade com seu proprio comentérios, 0 historiador chega a uma compreen: tempo. Tais condicionantes tém implicagdes tanto criativas quanto limitantes; impli- cagGes que examinaremos em seguida; a discussdo no momento se concentra na inevi- tabilidade de tais condicionantes. Acima de tudo, a passagem do tempo que desgasta 0 passado limita nossa com- preensio deste, pois tudo que vemos ¢ filtrado por lentes mentais do presente. Diferentes pressuposigdes ¢ modalidades de discurso limitam tanto a compreensio do historiador quanto sua capacidade de comunicagiio com outros de outras épocas. “Somos modernos € nossas palayras ¢ pensamentos s6 podem ser modernos”, observou Maitland, “é tarde demais para sermos um inglés de outra época”; conseqiientemente no podemos ver 0 "8 “Ngo hd nenhuma receita que nos devolva os pen- passado com os olhos de enti samentos, valores ¢ emogdes de pessoas que viveram no passado”, adverte outro hi toriador. “Mesmo mergulhando na literatura da época, vestindo suas roupas ¢ dormindo em suas camas, nés nunca nos desvencilhamos das perspectivas e valores [do pre- sente].”"™ E as perspectivas do presente nos tornam mais propensos a desvirtuar 0 passado, pois a distincia multiplica seus anacronismos. A linguagem dos relatos histéricos também reestrutura imagens do passado. O his- toriador traduz suas impresses em palavras; para absorver essas impressdes, 0 leitor ou ouvinte reconverte as palavras em imagens — mas essas imagens diferem das do historiador. Qualquer distancia — no tempo, no espago, na cultura, no ponto de vista — alarga a distancia entre o narrador e seu publico. E toda linguagem impée suas préprias convengdes na percepgao de passado daqueles que a utilizam, convengées que transfor- mam seu entendimento ou o registro original.’ 183 Township and Borough (1898), p. 22. 184 Sherfy, “The craft of history”, p. 5. “Nao conseguimos obter um completo entendimento do passado porque o passado € algo fora da nossa experiéncia, algo que ¢ outro... Os homens que viveram entio eram diferentes de nés” (Vansina, Oral Tradition, pp. 185-6). Vide também Richard Ronsheim, “Is the past dead?”, Museum News, 53:36 (1974), 62. 185 Scholes ¢ Kellogg, Nature of Narrative, p. 83. 114 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Os dilemas sobre a recente revisio da Biblia destacam os enganos que podem resultar do anacronismo. Gragas as suas virtudes retéricas e ao tradicionalismo litirgico, a versio do rei James sobreviveu por quase quatro séculos. O tempo, porém, tornou arcaica e obsoleta grande parte da sua linguagem; poucos Ieitores modernos tém a capacidade historica para entendé-la, e mesmo eles consideram 0 texto anacr6nico por- que a erudigdo revelou muitos erros e enganos de tradugio ou omissio. O rei Salomao nos parece esplendoroso entre os pavOes, mas uma vez que se sabe que 1611 tradutores cos (que na realidade deveriam se enganaram, os pavées devem ser substitufdos por ma ser babuinos).'** A ininteligibilidade anacr6nica é o destino nao apenas de textos escritos como também de fiéis relatos orais, incompreensiveis até mesmo para seus narradores quando sua linguagem é obsoleta ou se refere a costumes j4 extintos.'*” Por tiltimo, a percepgao tardia paradoxalmente limita nossa capacidade de entender © passado ao nos proporcionar maior conhecimento do que as pessoas da época poderiam ter tido. “Sera que podemos ser realmente justos com os homens do passado”, perguntou A. F. Pollard, “conhecendo o que eles ndio podiam conhecer? Ser4 que pode- mos, de fato, compreender todos eles... com nossas mentes predispostas pelo co- nhecimento do resultado?”'** A questao levanta um ponto que transcende os limites do entendimento histérico, pois implica que a distorgo nao apenas reduz mas também amplia o passado histérico. Agora vou analisar 0 que foi acrescentado. A historia é mais que 0 passado A percepgiio tardia do passado assim como 0 anacronismo dio forma as interpre- tages histéricas. Explicar 0 passado no presente significa lidar nfo apenas com per- cepgoes, valores ¢ linguagens que mudam, mas também com acontecimentos ocorridos aps a época examinada. E inevitével ver a Segunda Guerra Mundial, em 1985, dife- rentemente do que se viu em 1950, ndo apenas devido ao aparecimento de grande quantidade de novas evidéncias, mas também devido a conseqiiéncias posteriores — a Guerra Fria, as Nagées Unidas, a recuperagiio das economias alema e japonesa. 186 Henry Mitchell, “Monkeying with the King James Bible”, IHT, 25 ag. 1982, p. 5. 187 Vansina, Oral Tradition, pp. 44-5. 188 “Historical criticism” (1920), p. 29. Vide também Blaas, Continuity and Anachronism, p. 281. Proj. Histéria, Sado Paulo, (17), nov. 1998 HS Ao traduzir 0 conhecimento em termos modernos e ao usar 0 conhecimento ante- riormente indisponivel, o historiador descobre tanto 0 que foi esquecido sobre o passado ou impropriamente reconstitufdo quanto 0 que nao se sabia até entdo.' Conceitos como “a Renascenga” ou “Antiguidade Classica” nao “existiam no inicio do processo e... s6 puderam ser totalmente reconhecidos e articulados no final dele”, observa R. S. Hum- phreys. “Povos e sociedades esto imersos em processos que s6 podem ser percebidos e descritos em retrospecto [e] documentos relativos a eles sao arrancados de seu contexto ... para ilustrar uma configuragio que talvez nfo tivesse m0 de objetivo e fungio origina importancia para nenhum de seus autores. Conhecer o futuro do passado forga o historiador a moldar a sua narrativa de modo a fazé-la entrar em acordo com o ocorrido. O ritmo, as contragdes e a duragdo de sua narrativa refletem seu conhecimento retrospectivo, pois ele “deve nao apenas saber algo sobre o resultado dos acontecimentos que estuda; ele deve usar 0 que sabe para contar sua histéria". Ao citar 0 campeonato de beisebol da National League, de 1951, quando os Giants safram do Ultimo lugar para chegar ao empate no dia da decisio, Hexter demonstra que “a nfo ser que 0 escritor saiba do resultado enquanto escreve sua histéria, ele nao saberé como adaptar as dimensdes de sua historia ao ritmo histérico real”.'"! O préprio processo de comunicagio exige alteragGes criativas para tornar 0 passado convincente e intcligivel. Assim como a meméria, a histéria combina, comprime, exagera; momentos raros do passado sobressaem, uniformidades ¢ detalhes desaparecem. “O tempo € reduzido, os detalhes selecionados e destacados, a ag&o concentrada, as relagées simplificadas, no com 0 intuito de alterar ou distorcer os personagens ¢ acon- 189 Interpretagdes modernas de acontecimentos do passado siio ambos mais compreensiveis aos modernos € psicologicamente “mais verdadeiros”: “carisma” explica melhor o surgimento de uma dinastia do que as reliquias que possuia, embora as pessoas da época acreditassem em reliquias ¢ teriam achado © carisma incompreensivel. Para entender 0 que aconteceu, devemos acrescentar pensamentos nossos que nio existiam entio (Munz, Shapes of the time, pp. 80, 93). 190 “The historan, his documents, and the elementary modes of historical thought”, p. 12. O historiador descobre nao apenas 0 que havia sido completamente esquecido mas também “aquilo que, até que ele descobrisse, ninguém jamais soube que houvesse acontecido” (Collingwood, Idea of History, p. 238). Vide Danto, Analytical Philosophy of History, pp. 115, 132; von Leyden, “Categories of historical understanding”, pp. 68-70. 191 “Rhetoric of history”, p. 378. Isto invalida a distingdo que Spencer faz em Narrative Truth and Historical Truth, A histéria no & menos sujeita a deformagdes do que qualquer outra narrativa. 116 Proj. Histéria, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 tecimentos mas, sim, de dar-Ihes vida e significado... em meio 4 multiplicidade inal- cangAvel do passado.”"” Os fatos contingentes e descontinuos do passado tornam-se inteligiveis apenas quando entrelagados em forma de histérias. Até os cronistas mais empiricos inventam estruturas narrativas para dar uma forma ao tempo. “Res gestae pode simplesmente ser uma coisa aps a outra”, argumenta Munz, “mas nao pode de modo algum parecer como tal”, pois entdo perderia todo significado."’ E uma vez que historias inteligiveis enfatizam articulagdes explicativas e menosprezam o papel da casualidade, a histéria como a conhecemos parece mais previsivel do que acreditamos que o passado fosse.'™ A nao ser que a histéria manifeste conviccio, interesse ¢ envolvimento, ela nao seré compreendida nem acompanhada. E por isso que a interpretagZo subjetiva, embora limite 0 conhecimento, também é essencial 4 sua comunicagao. De fato, quanto melhor uma narrativa exemplifique 0 ponto de vista do historiador, mais verossimil seré seu relato. A hist6ria é persuasiva porque é organizada e filtrada através de mentes indi- viduais, ¢ nao apesar desse fato; a interpretagao subjetiva dé-lhe vida e sentido. “ retérica € comumente considerada o glacé no bolo da histéria”, mas, na realidade, “esta misturada na massa. Nao afcta simplesmente a aparéncia externa da historia..., mas seu cardter interior, sua fungdo essencial — sua capacidade de transmitir 0 conhecimento do passado sem alterd-lo”. O conhecimento hist6rico depende da linguagem emotiva, pois se 0 historiador nao conseguir comunicar aquilo em que acredita, 0 conhecimento pro- duzido nao se tornaré publicamente disponfvel nem verificdvel por outros historiadores, mas permanecera incoerente, arbitrario e ininteligivel.'"* Hexter mostra como as notas de rodapé, as citagdes ¢ listas de nomes satisfazem tais necessidades retéricas. As citagdes se apresentam ao leitor como uma genuina fatia do passado, para que ele nao responda simplesmente “Sim”, mas exclame “Sim, de fato!” A omissao de atributos transforma uma lista de nomes em algo alusivo: O Renascimento Cristo, essa intensificagdo de sentimento e interesse religiosos..., em todo seu espago de tempo acolheu o Cardeal Ximenes e Girolamo Savonarola, Martinho 192 Arragon, “History changing image”, p. 230, 193 Shapes of Time, p. 239. 194 Mink, “Narrative form as a cognitive instrument”, p. 147. 195 Hexter, “Rhetoric of history”, pp. 390, 380-1 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 117 Lutero e Inacio de Loyola, as Igrejas Reformadas e os jesuitas, John of Leiden e Paulo TV, Thomas Crammer e Edmund Campion e Michael Servetus. Deliberadamente ndo nos contam quem eles so, mas percebemos de modo indireto, a fim de “procurar no reservat6rio de nosso conhecimento a época em que esses homens viveram para dar sentido a essa lista”. O que importa ndo sdo apenas os nomes mas a ordem em que se encontram, cujo significado poderia ter sido enfatizado ao enumerar caracteristicas identificadoras em vez de nomes: O cardeal da pré-Reforma que mudou a Igreja na Espanha, e 0 monge da pré-Re- forma que foi queimado na fogueira por seu empenho reformador em Florenga; a primeira grande figura da Reforma c a primeira grande figura da Contra-Reforma.. Ou a lista poderia ter inclufdo nomes e explicacées: O Cardeal Ximenes, o cardeal da pré-Reforma que mudou a Igreja na Espanha, ¢ Girolamo Savonarola, 0 monge da pré-Reforma que foi queimado na fogueira por seu empenho reformador em Florenga; Lutero, a primeira grande figura da Reforma e Loiola, o primero... Cada lista est4 correta e € apropriada. Mas em vez de alertar o Ieitor para que ele Ihes atribua significado, as listas mais evidentemente informativas teriam sinalizado: “Pare de procurar no reservatério do seu conhecimento. Eu j Ihe disse como quero que vocé pense a respeito desses homens”, represando assim sua imaginagao em vez de deixé-la fluir livremente. O historiador pode ter errado ao supor que os leitores soubessem 0 bastante para conferir significado aos nomes, apostando que a lista indi- cativa comunicaria melhor a informagao do que a mais completa. Mas o ponto central € que todos os historiadores tém que avaliar constantemente 0 quanto seu ptblico ja conhece, quando ser alusivo em vez de preciso, ou sacrificar os fatos em favor da forga evocativa."* Ao assim proceder “recria-se 0 passado no presente, que nos prové nao de lembrangas j4 conhecidas mas sim de alucinagSes evocadas com brilhante intensi- dade”.'"” 196 Ibid., pp. 386-9. 197 Frye, Great Code, p. 227 18 Proj. Histéria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 Cronologia e narrativa Estamos tao habituados a pensar no passado histérico em termos de narrativas, seqiiéncias, datas ¢ cronologia que supomos que sao atributos do préprio passado. Mas jade e propensao para ordenar os acon- nao so; nds mesmos os colocamos 14. A capa tecimentos numa seqiiéncia de datas é uma conquista cultural relativamente recente. Os fatos histéricos sio atemporais e descontinuos até serem entrelagados em historias. Nao vivenciamos um fluxo de tempo, apenas uma sucessfo de situagdes ¢ acontecimentos. Grande parte da apreensio histérica permanece temporariamente tio vaga quanto a memoria, desprovida de datas ou até de seqiiéncias.'* Na narrativa oral a especificidade temporal é rara: com pouca oportunidade para refletir ou para comparar, os narradores ¢ os ouvintes desconsideram ou alteram as distancias temporais. Sem datas ou registros permanentes aos quais nos reportar, nado podemos estimar a duragao ivas orais condensam, expandem dos eventos passados nem verificar sua ordem; narri € reorganizam segmentos do passado de acordo com a importancia que lhes € atribuida."” Mudangas percebidas tendem a agrupar-se dentro de perfodos descontinuos, separados por longos intervalos de entorpecimento, em que acontecimentos importantes sao relegados a uma época de origem mitica ou ao passado muito recente e, conseqiien- temente, recorddvel. Assim, fundadores de dinastias obtém crédito tanto por suas proprias proezas quanto pelas de seus sucessores, cujas préprias épocas sio omitidas sem comentarios, A regularidade repetitiva de grande parte do passado oralmente trans- mitido € coerente com a convicg4o de que “nada aconteceu” entre as épocas antigas e as atuais. Em contraste, muitos historiadores modernos tém abordado os periodos in- termedidrios cujas alteragdes por acréscimos jogam luz nos processos histéricos em desenvolvimento?” As caracteristicas temporais da comunicagio oral subsistiram por longo tempo na era da escrita, quando as crénicas ainda eram principalmente lidas em voz alta. Nos tempos medicvais, 0 ptiblico embaralhava César, Carlos Magno, Alexandre, Davi ¢ 198 Mink, “History and fiction as modes of comprehension”, pp. 545-6; Goody, Domestication of the Savage Mind, pp. 91-2; Kracauer, “Time and history”. 199 Henige, Chronology of Oral Tradition, pp. 2-9. 200 J.C, Miller, “Listening for the African past", pp. 16, 37. As sociedades de tradigdo oral, no entanto, percebem 0 passado de maneiras inteiramente diferentes; vide Maurice Bloch, “The past and the Present in the present”; Peel, “Making history” Proj, Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 119 outras figuras de épocas passadas como cartas de um baralho; foram necessérios dois séculos de imprensa para que os europeus se acostumassem ao processo mental de recuperaciio do passado por meio de uma seqiiéncia ordenada de capitulos na hist6ria." Mesmo em sociedades modernas cujo aprendizado € feito por meio de livros, 0 passado para a maioria é em grande parte caético e episédico, uma misceldnea de personagens € acontecimentos cronologicamente desconhecidos ou erroneamente ligados. Nesse mar ondulado e disforme destacam-se algumas ilhas de narrativa estratificada, nas quais nos amontoamos em busca de seguranga temporal. O tempo, certamente, é linear direcional. As histérias de todas as coisas comegam num passado mais ou menos remoto e continuam numa seqiiéncia inalteravel até que déixem de existir ou de ser lembradas. A ordem seqiiencial fornece potencialmente a tudo um lugar temporal, empresta contorno e forma 8 hist6ria, permite-nos inserir nossas proprias vidas no contexto de acontecimentos externos. Mas mesmo quando a escrita tornou a datagéio mais fécil, a segmentagdo em espagos iguais do passado limitou-se por muito tempo ao recolhimento de impostos, 4 realizagio de recenscamento ¢ a periédica selegio de homens piiblicos.”” Foi a necessidade de um calendario religioso rigorosamente estabelecido, especial- mente voltado para calcular a ocorréncia da Pascoa, que deu grande importancia a cronologia. Embora o calendario cristéo nao tenha sido totalmente aceito por mais de um milénio apés sua elaboragiio, no século VI, ele possibilitou aos cronistas dos tempos medievais e subseqiientes a superagio das deficiéncias da narrativa oral. Relatos com estruturag3o anual substituiram as crénicas baseadas apenas em acontecimentos; a estru- tura anual tornou-se mais importante do que os episddios nela contidos. Acontecimentos especificos — uma praga, uma coroa¢do, uma invengdo, um nascimento na familia real —eram colocados em anos especificos nesses anuarios, e, quando nenhum acontecimento parecia suficientemente importante, os anos listados cram simplesmente deixados em branco; 0 que importava era a prépria listagem. Ao representar a era cristé com inicio conhecido e um fim predeterminado, a cronologia possufa uma plenitude e continuidade proprias concedidas por Deus.” 201 Eisenstein, “Clio and Chronos: an essay on the making and breaking of history-book time”, p. 52; Peter Gay, Enlightenment, 1:344-5; Hay, Annalists and Historians, p. 91 202 Goody, Domestication of the Savage Mind, pp. 91-2. 203 Hay, Annalists and Historians, pp. 22-7, 38-42; Mink, “Everyman his or her own annalist”, pp. 233-4. 120 Proj. Historia, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 Essa cronologia dominou os textos histéricos até o século XVIII. A data dos acon- tecimentos, quem sucedia quem, a durag3o de cada época — foram questdes que deram origem a incontaveis calendarios baseados em dinastias e Olimpiadas, consulados e tribunatos, descendentes diretos de Rémulo e Remo, Adao ou Abraiio, Noé ou Enéas. Mas conflitos crescentes entre a hist6ria crista e cientffica fizeram com que a combi- nagdo temporal do mitico com 0 comprovavel, do césmico e sagrado com acontecimen- tos seculares, parecesse progressivamente intitil ¢ absurda.™ Uma mistica acerca do inicio e fim dos milénios, séculos e décadas ainda permeia © pensamento. A partir do pressdgio milenar que antecedeu 0 ano 1000, uma espécie de determinismo decimal veio conferir realidade a épocas nitidamente demarcadas por séculos, como o profundo mal-estar de fin de siécle entre 1800 e 1900.2”° Recentemente, até mesmo as décadas tornaram-se recortes temporais com atributos préprios. Conferi- mos estilos de vida singulares a cada década, como os “Alegres” anos noventa, os anos trinta da “Depressio”, os “Rebeldes” anos sessenta, que, ao final da década, dao lugar abruptamente a um outro conjunto especffico de caracterfsticas. Aquilo que comegou como uma maneira simplificada de se identificar - Atenas do século V, Inglaterra do século XVII — tornou-se uma estrutura retrospectivamente definidora. A exemplo de outras construgdes sintéticas, tais como “Idade Média” ou “Renascenga”, a estereotipia o século XIX ou os temporal fortalece e materializa 0 pensamento sobre o passado; anos 30 se tornam uma “coisa” equivalente a uma batalha ou um local de nascimento, ou a causa das causas.”"* Excessos A parte, freqiientemente esquecemos 0 quanto devemos aos cronologistas: 0 relégio, 0 calendario ¢ a pagina numerada nos habituaram de tal forma A seqiiéncia cronol6gica que, hoje em dia, a consideramos corriqueira. Mas somente a imprensa e a expansao da escrita asseguraram a aceitagdo ¢ fixagiio da ordem temporal. E foram Mas mesmo apés a Idade Média, titulos e escrituras eram datados através de anos do reino em vez de anno Domini porque a coroagio do Rei era uma data mais recente e publicamente lembrada (Clanchy, From Memory to Written Record, p. 240). 204 Eisenstein, “Clio and Chronos”, p. 43; J.W. Johnson, “Chronological writing”, pp. 137, 145. Sobre confusdes a respeito do tempo nas Eserituras, vide Hazard, European Mind, pp. 43-1. 205 Kermode, Sense of an Ending, pp. 96-8. Fischer, Historian’s Fallacies, p. 145, Um antigo exemplo de ordenamento por séculos foi a disposigio pés-revoluciondria de Alexandre Lenoir dos tesouros hist6ri- cos franceses no seu Musée des Monuments (Bann, Clothing of Clio, p. 83). Sobre o fin-de-siécle, vide capitulo 7, p. 379 abaixo. 206 Butterfield, Man on His Past, p. 136. Proj. Hist6ria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 12) necessirios séculos de ardua pesquisa em fontes primérias para fornecer as seqiiéncias prontas nas quais hoje nos baseamos.”” A cronologia ou “livro da histéria do tempo”, até recentemente, incentivava as pessoas instruidas a ver o passado como uma narrativa abrangente. Cada um de nds aprendeu a usé-la desde cedo para selecionar e arrumar praticamente toda parcela do passado com que nos deparamos, para encontrar nossos ancestrais ou para “nos encon- trarmos”, como observa um historiador.” Um seqiiéncia de monarcas facilmente iden- tificéveis torna a Inglaterra a proprietéria afortunada, no ponto de vista de Richard Cobb, “de uma medida de tempo nacional facilmente compreensfvel para qualquer cri- anga inglesa”2” Outra escritora se lembra que seu curso em Oxford, nos anos 50, “comegou no inicio da historia inglesa” e prosseguiu “cm uma perfeita linha reta des- titufda de lacunas”, propor meméria perfeita, linear, ininterrupta”.2"” Minha propria perspectiva de aluno enquadrou a civilizagao ocidental desde os egipcios € babildnicos até o século XX. Muitas épocas nesse continuum eram pouco conhecidas por mim, mas a seqiiéncia parecia tornd-las nando “uma imagem ordenada, cronoldgica.... uma prontamente recuperdveis. Graficos que ordenavam numa coluna cronolégica farads, reis © presidentes c, em outra, descobertas, invenges, poetas e pintores, embalaram a crenga de que toda histéria era passivel de ser conhecida, visto que podia ser datada. A cronologia como fundamento foi, com certeza, utilizada por vezes de modo rigido ou simplista. Determinados livros escolares sobre a hist6ria americana, por exemplo, avaliaram cada presidente em um trecho do texto correspondente ao ano de sua morte, a despeito da época de seu mandato ou dos eventos ocorridos entdo.”"! Mas a cronologia foi o principio basico que permitiu que a maioria dos estudantes visse a historia como um processo continuo, interligado. Essa crenga foi sintetizada no assim chamado curso de “Civilizagao Ocidental” que apresentou aos estudantes a soma total da histéria euro- americana — que, como sublinhou um historiador, “forneceu um panorama... inteira- mente fiel ao... esquema completo de eventos como os conhecemos na totalidade’ 207 Johnson, “Chronological writing”, p. 145; Grafton, “Joseph Scaliger and historical chronology”. 208 Eisenstein, “Clio and Chronos”, p. 59. 209 “Becoming a historian”, pp. 21-2. 210 Lively, “Children and the art of memory”, p. 200. 211 Fitzgerald, America Revised, p. 50. 212 Preserved Smith, “The unity of knowledge and the curriculum” (1913), citado por Allardyce em “Rise and fall of the Western Civilization course”, pp. 697-8 122 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Datas ¢ cronologia esto agora fora de moda. Especialmente desde a Segunda Guerra Mundial, a histéria humana parece seguir nao mais uma Gnica linha, mas sim as de intimeras culturas diferentes, sendo impossivel e também irrelevante englobd-las numa seqiiéncia comum. O rumo da Civilizagao Ocidental declinou juntamente com 0 etnocentrismo, que considerava a civilizagdo como canonicamente superior; os histo- riadores descobriram nao apenas o Terceiro Mundo mas também ‘minorias’ anterior- mente negligenciadas no Ocidente — mulheres, criangas, judeus, camponeses, negros.?” Novas énfases na histéria econ6mica, social ¢ intelectual comprometeram ainda mais a importancia da cronologia: nao cra possivel atribuir datas a culturas e ideologias, da mesma forma que aos reis e as suas conquistas. Cada vez mais acessfveis e pertinentes, esses recém-descobertos aspectos do passado “invadem a consciéncia moderna vindos de tantas diregdes”, conclui Eisenstein, “que sobrecarregam a capacidade da inteligéncia humana de ordend-los coerentemente”.*'* Uma resposta a esse dilema € descartar totalmente a histéria narrativa, como o razodvel diretor de Lively insiste com um professor de hist6ria — As criangas com menos de 15 anos ainda nio esto prontas para uma abordagem cro- nolégica da histéria. E, no entanto, cd estamos nés ensinando-Ihes histéria como narrativa, uma coisa apés a outra, — E exatamente assim, Uma coisa realmente acontece depois de outra. ~ Sim, mas esse é um conceito muito sofisticado.... ~ as criangas nao conseguem absorvé-lo. Em vez disso... dé-Ihes os bocados facilmente digeriveis, como temas ou projetos. Dé aulas sobre revoluges ou guerras civis, ou seja 14 0 que for.’'? A pratica de datar acontecimentos, hd pouco condigio sine qua non do conhe- cimento histérico, foi de tal modo abandonada que diz-se que a maioria dos estudantes franceses nZo sabe nem que Revolugio Francesa comegou em 1789, nem a que século 213 Allardyce, “Rise and fall of the Western Civilization course”, p. 719; Rossabi, “Comment” [sobre Al- lardyce}. © mercado de livros didaticos sobre historia mundial ainda é apenas 20 a 25% do que &, no entanto, o de “Civilizagdo Ocidental” (Karen J. Winkler, “Textbooks: the rise and decline of Western Civilization” American Historical Association Perspectives, 21:3 (1983), 11-13); um professor de histéria de uma faculdade ptiblica do Sul observa que “Civilizagio Ocidental continua a prosperar na roca” (Evelyn Edson, “Reflections on the history of Western Civilization”, ibid., 22:2 (1984), p. 16) 214 “Clio and Chronos”, p. 63. 215 Road to Lichfield, pp. 87. 188. Eu fundi a discussio da professora com 0 diretor da escola com 0 que ela recontou posteriormente, Proj. Histéria, Sado Paulo, (17), nov, 1998 123 aquele ano pertence.?'® Recentemente, em Guildford, na Inglaterra, apenas uma em cada trés pessoas entrevistadas tinha alguma nogo de um passado datado, e praticamente nenhuma tinha qualquer nogdo sobre épocas anteriores a de seus avés. “Meu avd foi colega de escola com” um antigo proprietario, observou um entrevistado acerca de uma construgio do século XVII, de modo que “esta construgao deve ser muito antiga, talvez de 1880”. Alguns associaram edificagdes ainda mais antigas a seus pais ¢ avés. “Nao estou surpreso de que este prédio tenha 400 ¢ ndo 100 anos”, replicou um dos ehtre- vistados quando informado de seu equivoco. “Velho é velho, nao importa a idade.””” A natureza linear da narrativa realmente restringe a compreensao histérica. O ou- vinte ou leitor tem que seguir uma Gnica trilha do comego ao fim. Mas a percepgdo do passado implica mais que 0 movimento linear; circunstancias sociais, culturais ¢ muitas outras sao sobrepostas A narrativa, juntamente com histérias de outros povos, de outras instituigdes, de outras idéias. Enquanto a narragio histérica é unidimensional, 0 passado 6 multiforme, muito mais complexo do que qualquer enredo seqiiencial.”* Mesmo assim relatos histéricos e outros relatos ultrapassaram em muito a estrutura direta, unilinear e datada, herdada dos cronologistas. A inteligibilidade histrica exige niio apenas acontecimentos passados ocorridos numa determinada época, mas sim uma histéria coerente, na qual muitos acontecimentos sao desprezados, outros sfio agrupados, ea seqiiéncia temporal, freqiientemente, esta subordinada a explicagao e interpretagio."” Da mesma forma que nosso pensamento recua e se adianta ao recapitular 0 passado lembrado, assim também as narrativas histéricas percorrem o mesmo caminho para elucidar relagdes causais. Tal “policronicidade”, termo cunhado por Dale Porter, cor- robora nossa intuigdo de que a estrutura seqiiencial em si no pode captar a complexa realidade historica.”” A hist6ria narrativa € muito empolgante, sugere James Henretta, 216 Thomas Kamm, “French debate teaching of history”, IHT, 11 abr. 1980, p. 6. “Eles me fizcram uma pergunta, jovens de 16 anos”, disse um professor francés de hist6ria - “A Guerra dos 100 Anos, foi aquela de 1914-182" (em “Teaching: it’s trendy to be trad”, de Brian Moynahan, Sunday Times, 10 fev. 1985, p. 15). 217 Reid Bishop, “Perception and Importance of Time in Architecture”, pp. 149, 190. 218 Frank Kermode, “Time and narrative”, palestras na Architectural Association, Londres, 8 ¢ 15 mar., 1982. 219 Munz, Shapes of Time, pp. 28-43. Vide também Strout, Veracious Image, pp. 9-10. 220 Emergence of the Past: A Theory of Historical Explanation, pp. 113-14. Vide também Goodman, “Twisted tales; or, story, study and symphony” 124 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 “porque seu modo de cogni¢gao aproxima a realidade do cotidiano; a maioria dos leitores encara © passado da mesma mancira que compreende sua propria existéncia — e... em termos de um conjunto de histérias de vida justapostas e entrelagadas”.”! Os historiadores, cansados da cliometria, de modelos deterministas, e de psico- hist6ria, redescobriram recentemente as virtudes da narrativa. Mas eles evitaram prin- cipalmente as generalizagées outrora populares sobre culturas ou nagdes como um todo, hoje condenadas como simplistas, para investigar instituigdes especificas e areas cir- cunscritas no tempo e no espago — 0 exemplo clissico é 0 estudo sobre um punhado de camponeses de Montaillou, nos Pirineus, ao longo de duas décadas no século XIV. Voltados para vidas e amores dos pobres e andnimos, armados com novos tipos de fontes e percepges derivadas da ficcdo, do simbolismo e da psicanilise, os historiadores da nova narrativa procuram esclarecer as realidades intimas das sociedades do passado. Mas 0 enfoque é algumas vezes tao restrito que os “casos de estudo” parecem excén- tricos e nao caracterfsticos; nio conseguindo relacionar as vidas e os acontecimentos que estudam com dreas mais amplas, eles fragmentam ainda mais 0 conhecimento do passado.”? Todavia, perde-se muito ao abrir mao de datas e narrativas; os acontecimentos so confundidos numa miscelanea de épocas e impérios, figuras e movimentos sociais sig- nificativos so deixados a deriva em relagdo a qualquer perfodo especffico.”? A assim chamada histéria tematica — por exemplo, estudos que misturam as diversas revolugdes como a puritana, a francesa, a americana, a russa, a cubana — traga paralelos que ilu- minam mas menosprezam 0 fato de que as pessoas em cada uma dessas épocas viveram vidas, agiram baseadas em motivos, e moldaram situagdes que eram bastante diferentes. ‘A compreensio do passado requer alguma consciéncia da localizag&io temporal de pes- soas coisas; uma estrutura cronolégica esclarece, coloca as coisas em contexto, de- marca a singularidade indispensdvel dos eventos passados. A maneira como se ensina hoje a histéria, tratando como “pérolas reluzentes os Romanos, ao homens da caverna, 221 “Social history as lived and written”, pp. 1318-19. 222 Stone, “Revival of narrative” (1979). Vide também Jerry White, “History Workshop 3: beyond autobi- ography”, € Capitulo 7, p. 367 abaixo. 223 “Nas mentes de analfabetos modemos ... que sabem ler ¢ escrever e até mesmo ensinam em escolas € em universidades, a histéria esté presente mas obscurecida, num estado de estranha confusio. Moliére se forna um contemporineo de Napoleio, Voltaire um contemporineo de Lenine.” (Milosz, “Nobel Lecture, 1980”, p. 12; vide Capitulo 6, abaixo, p. 349.) Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 125 as batalhas da Primeira Guerra Mundial, os monges medievais, e Stonehenge, todos suspensos em isolamento temporal ¢ nao causal, dificilmente confere mais brilho ao colar do tempo”. As pérolas da hist6ria tém scu valor ndo simplesmente por serem muitas e¢ reluzentes, mas por estarem organizadas numa seqiiéncia narrativa caus: nificado, bem como beleza, ao colar. narrativa empresta Histéria, ficgao e faccao" As pérolas mais translticidas da narrativa hist6rica sao, com freqiiéncia, encontradas na ficgdo que é, hd muito tempo, componente importante para a compreensao histérica. Um ntimero maior de individuos apreende mais o passado por intermédio de romances hist6ricos, de Walter Scott a Jean Plaidy, do que por intermédio de qualquer histéria formal.”* Alguns romances usam a histéria como pano de fundo para personagens inserindo imaginérios; outros transformam em ficgdo as vidas de personagens reai episddios inventados entre os acontecimentos verdadeiros; j4 outros distorcem, acres- centam e omitem. Assim como na ficgdo cientifica, alguns passados ficcionais sio paradigmas do presente, ¢ outros so exoticamente diferentes; ambos inventam 0 passado para deleite dos leitores. Contudo, romancistas histéricos declaram ter intengdes simi- lares 4 dos historiadores, buscando a verossimilhanga para ajudar os leitores a sentir ¢ conhecer 0 passado. Muitos historiadores consideram as analogias com a ficg’o até mais erréneas do que as comparagées com a memoria. Sua aversao é ainda maior porque, como ja vimos, no conseguem evitar a ret6rica “ficcional” em suas proprias narrativas. Assemelhando- se aos romancistas como contadores de histérias, os historiadores procuram distanciar-se como especialistas, enfatizando que a histéria é escrupulosa com os fatos do passado ¢ aberta ao escrutinio de outros pesquisadores, ao passo que a ficgdo nao se prende a nenhuma dessas restrigdes.”** 224 P. Fowler, “Archaeology, the public and the sense of the past”, p. 67. 225 “Scott ¢ Dumas sempre tervio uma classe de historia maior que quaisquer dois historiadores normais que ‘voc’ quiser citar” (Emest Baker, Guide to Historical Fiction (1968), p. viii). Vide “History as fiction” de Leah Leneman em History Today, 30:1 (1980), 52-5. 226 Hexter, “Rhetoric of history”, p. 381. + NIT. facgao: associagdo entre as palavras fato e ficgao. 126 Proj. Histéria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 Contudo, tanto a diferenciagdo quanto a aversio sao recentes. Em épocas anteriores, histéria e ficgo fregiientemente combinaram ou transmitiram percepgdes que se cor- roboravam mutuamente. Os rapsodos orais transmitem a hist6ria praticamente do mesmo modo que os cronistas, e com igual credibilidade.””” Para Arist6teles a ficgdo é superior A historia porque conta o que poderia ter acontecido e explica como poderia ter acon- tecido, enquanto esta demonstra mais prosaicamente 0 que aconteceu. Dando como exemplo a Iliada de Homero, Erasmo clogiou historiadores pagdos por haverem con- cebido didlogos ficticios “apropriados”, “pois todos acreditam que lhes é permitido colocar didlogos na boca de seus personagens” (Erasmo deixou aos historiadores cristéos menos espago para a invengdo).2* Estilo ¢ linguagem importavam mais do que a lidade aos fatos histéricos; durante 0 século XVIII, a histéria era lida menos pelo que le- contava sobre 0 passado do que pela forma como ele cra contado.”” A separagao entre a narrativa histérica ¢ ficcional foi um subproduto do final da Renascenga, voltada para a veracidade ¢ precisio das fontes histéricas. Anteriormente fundidos no épico classico ¢ medieval, os dois géneros foram cada vez mais separados em “historia” (acontecimentos reais abertos ao escrutinio de outras fontes) e “poesia” a fidelidade histérica). No final ou “romance” (que se absteve de qualquer preten: da Idade Média, a aristocracia da Franga registrou sua ideologia em prosa, a linguagem 24 Outros preferiram a ficgio, pois “o poeta pode dizer ou cantar preferida dos fatos. coisas, ndo como eles foram mas como deveriam ter sido”, como observa Sampson de Don Quixote, enquanto “o historiador deve escrever coisas, nio como deveriam ser, mas como tém sido, sem adicionar ou tirar uma particula da verdade”."' Forgados a permanecer fiéis a fatos conhecidos, os historiadores renunciaram a onisciéncia autoral que os trovadores épicos possufam. E & medida que a hist6ria retirou-se para os 4ridos cos, sendo os mais confins do rigor empirico, os romancistas assumiram os mais fantasiosos aspectos do passado que os historiadores abandonaram.”? “Tornar presente 227 Vansina, Oral Tradition, pp. 32-6. 228 Fornara, Nature of History in Ancient Greece and Rome, pp. 94-5, 135, 163-5; Erasmus, Copia, Liv I, 24:649. Vide Gilmore, Humanists and Jurists, pp. 95-6; Bolgar, “Greek legacy”, p. 460. 229 Cochrane, Historians and historiography in the Italian Renaissance, pp. 488-90. 230 Spiegel, “Forging the past; the language of historical truth in the Middle Ages", pp. 271, 277 231 Cervantes (1615), HI, Cap. 3, 2:21. 232 Scholes and Kellogg, Nature of Narrative, pp. 265-6; também p. 252. Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 127 © passado, aproximar o distante,... compreender a realidade dos seres humanos em carne € osso,... trazer nossos ancestrais perante nés com todas suas peculiaridades de linguagem, modos e trajes, mostrar suas casas, sentar As suas mesas, explorar seus guarda-roupas antiquados”, conforme Macaulay sublinhou, “essas partes do oficio que sdo proprias do historiador foram apropriadas pelo romancista histérico”.?* A medida que a fic¢o subordinada A hist6ria ganhou aclamagao geral no século XIX, a empatia imaginativa de Scott com o passado popularizou enormemente a propria historia; ele ensinava que “épocas muito antigas... eram, na verdade, povoadas por homens vivos,... com as faces coradas, tomados por paixdes”, como atestou Carlyle, “nao por protocolos, documentos oficiais, controvérsias e abstragdes”.”* O romance histérico nao s6 tornou a histéria vivida; foi também considerado um guia mais confidvel para o passado. “A partir dos livros de ficgo obtenho a expresso da vida de outras épocas — os velhos tempos revivem” afirmou Thackeray. “Ser4 que © historiador mais especializado pode fazer melhor?” A ficgdo tratava de coisas co- tidianas bem como de episédios significativos; a histéria se restringia praticamente a estes. “Eu prefiro a histéria familiar em lugar da heréica”, repetiu Henry Esmond.?* Nao causa espanto que o critico marxista Georg Lukacs elogiasse Scott. O despertar poético de pessoas comuns enredadas em grandes acontecimentos histéricos importava mais do que os acontecimentos em si; por meio dos humildes anais dos pobres, os leitores podiam experimentar novamente o que motivara os homens do passado a pensar, sentir e agir da maneira como o fizeram.”” Para trazer A tona a “natureza e a forga do carater de um povo”, a histéria académica deveria dar lugar a ficgiio histérica.”* Académicos tornaram-se romancistas para melhor transmitir 0 passado a scus lei- tores. Newman, Wiseman e Kingsley escreveram ficgao hist6rica para comunicar suas mensagens religiosas — a santidade da igreja medieval, a necessidade de reintegré-la 233 “Hallam” (1828), 1:115. Vide Sanders, Victorian Historical Novel, pp. 4-5. 234 Carlyle, “Sir Walter Scott” (1838), 3:214. Vide Honour, Romanticism, pp. 192-3; Peardon, Transition in English Historical Writing, p. 25. 235 English Humourists of the Eighteenth Century (1853), p. 78. 236 Henry Esmond (1852), Liv I, cap. 1, p. 46. 237 Lukécs, Historical Novel, especialmente p. 44. 238 Bentley's Miscellany (1859), citado por Sanders em Victorian Historical Novel, p. 15. 128 Proj. Historia, Séo Paulo, (17), nov. 1998 aos credos contempordneos — para 0 maior ptblico possivel, da forma mais convin- cente.’*” Pelos seus meios e nao pelos seus fins, os Tractarians de Oxford [N. T. Trac- tarianism; opinides e principios religiosos do movimento de Oxford, especialmente em sua fase inicial, redigidos em uma série de 90 documentos denominados Tracts for the Times, publicados na Inglaterra em 1833-41.] concordaram com Hegel, que exaltava os romances por tornarem 0 passado acessivel Aqueles com pouca instrugdo."" Aquilo que o romancista deliberadamente inventasse era considerado virtude; seu passado era mais vital do que o dos historiadores porque era parcialmente criado por ele mesmo. A demanda popular por vis6 s imaginativas do passado impregnou téo intensamente a ficgfo do século XIX, que muitos a identificaram totalmente com o passado; um romance contempordneo realista, disseram os irmaos Goncourt, era sim- plesmente um romance histérico sobre 0 presente.™! Contudo, a ficg%o histérica encontrou seu mais fiel defensor em um historiador do século XX. “O passado como ele existe para todos nés € histéria sintetizada pela imagi- nagiio, e fixada em um quadro por algo que cquivale a ficgao”, escreveu Butterfield. O romance histérico preencheu duas necessidades. Em primeiro lugar, possibilitou que os Icitores sentissem 0 passado, 0 que a histéria formal nao conseguia: ‘A vida que fervilha as ruas, que torna cada esquina de um gueto um local de curiosidade ¢ interesse, a vida que ¢ triste e alegre, cansativa e emocionante em qualquer cabana nas montanhas, € um quadro borrado e vago em uma histéria. Por essa razao, a hist6ria niio consegue se aproximar tanto dos corages ¢ paixdes humanas como pode um bom romance; sua propria fidelidade aos fatos coloca-a... mais distante do cerne das coisas... Para reviver uma época passada, a histéria nao deve simplesmente ser suprida pela ficgdo;... ela deve ser transformada em romance. Em scgundo lugar, a ficgao situa os Ieitores no passado como se fossem pessoas Sobrecarregado com a percepgao da época, que nao poderiam saber 0 que viria depoi retrospectiva, o historiador nfo permitiu que o passado contasse sua prépria historia 239 Sanders, Victorian Historical Novel, pp. 120-47, referindo-se a Hypatia de Kingsley (1852-3), a Fabiola de Wiseman (1854), ¢ Callista de Newman (1855). 240 Citado por Lukdes em Historical Novel, p. 58 241 Peckham, Triumph of Romanticism, p. 141 242 Historical Novel (1924), pp. 22, 18, 23 Proj. Hist6ria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 129 mas transportou-a “para relacionamentos com todos os acontecimentos subseqiientes”; or nao se perde no passado; ele se coloca de lado para compard-lo dessa maneira, “o kk com 0 presente”, e ao ver 4 distncia um mundo encerrado ele, forgosamente, é lembrado de que no se encontra no passado.** Nao é suficiente saber que Napoledo ganhou uma determinada batalha; se a histéria deve retornar a nés como algo humano, precisamos vé-lo na véspera da batalha ansiosamente espreitando para ver de que lado o dado caira... Aquela vit6ria aleangada em determinado dia nao deve ser tomada como cerla na noite anterior... Para os homens de 1807, 0 ano de 1808 era uma zona misteriosa ¢ inexplorada;... estudar © ano de 1807, lembrando 0 tempo todo 0 que ocorreu em 1808... é perder as aventuras, as grandes incertezas e 0 elemento de risco em suas vidas; © que nds agora sabemos, era suspense para os homens da época... A historia nem sempre nos di [esas] coisas pessoais irrecuperéveis; mas sabemos que elas existiram. Essas coisas “sdio os verdadeiros toques necessarios para transformar a histéria em uma hist6ria”. Ao contrério da historia, acreditava Butterfield, a narrativa ficcional con- seguia esquecer ou transcender a percepgiio retrospectiva.™* As distingSes entre histéria ¢ fico elaboradas por Butterfield legaram a cada uma um papel claramente definido: “Para 0 historiador o passado € 0 processo completo de desenvolvimento que conduz ao presente; para 0 romancista 0 passado é um mundo estranho para ser contado”.** Nao € mais 0 caso. Cada género invadiu o dominio antes exclusivo do outro; a histéria desenvolveu-se mais como fico, a ficcdo mais como hist6ria. Tanto a estrutura quanto o contetido da ficgo contempornea reorganizam substan- cialmente o passado. Foi-se 0 tempo linear da ficg’io do século XIX; flashbacks, rasgos 243 Ibid, pp. 22, 26. 244 Ibid., pp. 23-4. O objetivo de Plutarco havia sido impregnar a sua narrativa com as emogdes atordoantes e perturbadoras dos reais participantes (Fornara, Nature of History in Ancient Greece and Rome, p. 129); objetivo este exemplificado em Histoire de France, de Michelet (Bann, Clothing of Clio, pp. 49-50). 245 Ibid., p. 113, Historiadores “Ccientificos” de fins do século dezenove acusaram historiadores “literdrios” de fugir dos fatos pela fabula: inspirado inicialmente pelos romances de Scott para explorar o passado, von Ranke desistiu mais tarde do romance histérico porque a descrigdo de Scott sobre Charles the Bold e Luis X1 em Quentin Durward insultou seus padres de evidéncia histérica (Wedgwood, “Sense of the past” p. 27; idem, “Literature and the historians”, p. 71). Vide Flaubert and the Historical Novel, de Anne Green, p. 1 130 Proj. Histéria, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 de consciéncia, duplicidade dos narradores ¢ miltiplos finais agora decompéem a tem- poralidade.** Embora 0 romance A mulher do tenente francés esteja impregnado de histéria — ou quem sabe por essa mesma raziio —, John Fowles propde que o leitor invente seu proprio final.“” Os livros mais vendidos misturam as duas categorias; 0 Booker de 1982 foi para Schindler’s Ark de autoria de Thomas ; porém, na opiniao do presidente da comissio prémio de fic Keneally que o considera hist6ria veri do prémio, “a hist6ria € sempre uma espécie de ficgdio”. Muitos romancistas compar- tilham essa opinido. “Hoje nfo ha mais ficgdo ou nao-ficgdo, hé apenas narrativa”, segundo E. R. Doctorow, que denomina seu romance Ragtime “um falso documento”; diz-se que os romancistas transcendem “as distingdes irrelevantes que fazemos constan- temente entre fato ¢ ficgdo”.* Essa suposta convergéncia leva alguns romancistas a tentagio de exagerar a com- preensao ficcional do passado. “A ficgdo histérica é mais verdadeira que a prépria histéria", dizem compiladores do antigo género, argumentando que a histéria muitas vezes finge ser verdadcira mas é falsa, enquanto a ficgdo hist6rica afirma que apenas uma parte de seu contetido é “verdadeira e outra ficcional”, deixando ao leitor a decisao da escolha.” Alguns romancistas colocam os historiadores do lado de “fora” do passado enquanto apropriam-se indevidamente das verdades “interiores” nao documentdveis. “Um historiador pode lhe dizer exatamente 0 que aconteceu em Borodino, mas apenas Tolstoi, freqiientemente prescindindo dos fatos, pode Ihe dizer como era realmente ser um soldado em Borodino”, escreve William Styron, aliando-se a Butterfield; “a verdade transcende... 0 que 0 historiador pode Ihe dar”. Styron imaginativa do romancista... reduz a hist6ria a uma cr6nica estéril, enquanto eleva o romancista A categoria de um historiador superior que conta a histéria como ela realmente aconteceu.?” Outros ro- 246 Hayden White, “Burden of history”, p. 125; Strout, Veracious Imagination, p. 10. 247 Strout, Verucious Imagination, p. 18 248 Doctorow, citado por Foley em “From U.S.A. to Ragtime”, pp. 102, 99; Larzer Ziff, citado por Edwin McDowell cm “Fiction: often more real than fact”, N.Y. Times, 16 jul 1981, p. C21, Vide Walcott, “Muse of history”, p. 2 249 McGarry e White, World Historical Fiction Guide, p. xx. 250 Styron, € C.Vann Woodward, “The uses of history in fiction: a discussion” (1969), citado por Strout em Veracious Imgination, pp. 167, 164. Os historiadores ~ © os negros ~ criticaram a descrigao de Nat Tumer, por Styron, considerando-a uma ficgdo que enganava ao excluir fatos importantes (John Henrik Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 131 mancistas contempordneos apresentam 0 fato como ficgao porque consideram a ficgao “a realidade mais plena, que nao é limitante e arbitraria como a verdade histérica Como diz um narrador de Vidal, “nao existe histéria, apenas ficgdes de graus variados de plausibilidade. O que pensamos ser hist6ria nada mais é do que ficgdo”.’* Mas poucas dessas combinagGes transmitem de fato o espirito do passado. As sen- sibilidades modernas no mundo picaresco de John Barth, do século XVII, tornaram indistintas as frontciras entre os fatos ¢ as versdes ficcionais dos fatos, sugerindo que Barth “nao acredita em histéria mesmo quando sua narrativa finge evocé-la”.** Ao “modernizar” figuras historicas muito conhecidas, 0 confronto racial no romance Rag- time subverte tanto as realidades especificas dos anos 60 quanto as da era Eduardiana. A ficcdo critica a hist6ria ao mesmo tempo que a canibaliza; a histéria desmerece as reivindicages da ficgo ao mesmo tempo que adota percepgées e técnicas ficcionais Novos métodos ¢ aparelhos de gravagiio permitem que os historiadores contemporaneos facam o que os vitorianos consideravam que s6 a ficgdo podia fazer — relatar 0 cotidiano do passado. O ressurgimento da narrativa trouxe de volta o passado na forma de historias. E os historiadores esto cada vez mais cientes da necessidade da ret6rica ficcional defendida por Hexter?™ Alguns vao ainda mais longe, como o protagonista de David Ely ao reconhecer erros e omissdes como parte integrante da veracidade histérica. Por essa razdo, Alex Haley defendeu seu livro Raizes quando se demonstrou que grande parte dos dados recolhidos do século XVIII eram inventados ou alterados. Os fatos reais nunca poderiam ser conhecidos, replicou Haley, e de qualquer modo importavam menos do que seu passado simbélico ficcional, com o qual milhGes de negros americanos se identificaram. Ele reconheceu que Juffure por ele descrita era uma Juffure que nunca existiu, mas Clarke (ed.), William Styron’s Nat Turner; Ten Black Writers Respond (1968); John White, “Novelist as historian: William Styron and American Negro slavery”, Journal of American Studies, 4 (1971), 233- 45; James M. Meliard, “This unquiet dust: the problem of history in Styron’s The Confessions of Nat Turner”, Buckwell Review 36 (1983), 523-43, 251 Larzer Ziff (vide n. 248 acima). 252 1876, pp. 196-7, 194. 253 Tanner, City of Words: American Fiction 1950-1970, p. 245, referindo-se a Sot-Weed Factor, de Barth. 254 Mas a maioria dos hist ainda emprega a forma narrativa do romance de fins do séc. X1X, conduzindo a “obsolescéncia progressiva da “arte” da historiografia em si* (Hayden White, “Burden of the past”, p. 127). 132 Proj. Historia, So Paulo, (17), nov. 1998 justificou-a como uma figura composta de aldeias de Gambia da época. A Juffure de Haley foi de fato muito mais do que isso — amalgamou a Africa Ocidental com Avalon ¢ com o Eden, e idealizou uma América provinciana como um Clube Mediterranée, uma espécie de cidade-estado platnica.* De fato, apenas esses anacronismos permi- tiram aos negros americanos identificar sew passado com esse lugar remoto e im- provavel; caso Haley houvesse retratado Juffure como ela realmente era, sua imagem nao teria sido apenas desacreditada mas ignorada. Resumindo, a fidelidade factual foi jogada fora por um passado simbolicamente util, E esse passado triunfou, pois a fama turistica comegou a transformar Juffure, a partir de ento, em uma cépia idealizada do século XVIII, elaborada por Haley.” O romancista histérico realga igualmente a ilusiio as expensas da precisio. Uma vez. que precisa “dar a seus leitores uma iluso téo completa quanto possivel de haver vivido no passado”, segundo Hervey Allen, “cle é obrigado a alterar fatos, circunstan- cias, pessoas e até mesmo datas”, O romancista afeta decisivamente 0 passado ao modernizé-lo. “Confere-se a todas tuagdes um cspirito moderno”, nas palavras de Goethe, “pois apenas dessa maneira podemos entendé-las e, na verdade, suportar vé-las”.** Como explicou Scott, “é ne- cessdrio, qualquer que seja 0 interesse, que o assunto [seja] traduzido nos moldes, tanto quanto na linguagem da época em que vivemos”.” Os personagens anglo-saxées e normandos de Scott, ndo apenas falavam mais ou menos o inglés moderno, eles ex- pressavam relagdes histéricas de modo muito mais preciso do que homens ¢ mulheres daqucla época estariam aptos a fazer." Em resumo, 0 anacronismo ficcional é tanto desejavel quanto essencial. Butterfield, ao contrario, afirma que a hist6ria ficcional com- partilha com a histéria o énus da percepgao retrospectiva, nfo apenas para tornar o 255 Mark Ottaway, “Tangled roots", Sunday Times, 10 abr. 1977, pp. 17, 21; Israel Shenker, “Few U.S. historians upset by charges”, IHT, 11 abr. 1977, p. 5. 256 Para outros, Juffure ainda parece uma aldcia comum da Africa Ocidental (Brian Whitaker, “The shade of the mango”, Sunday Times, 2 out, 1983, p. 26; Robin Laurance, “Back to the roots in a peanut republic”, The Times, 10-16 set. 1983, p. 2) 257 Citado por Werrell em “History and fiction”, p. 6. 258 “Teilnahme Goethes aus Manzoni” (1827), 14:838. 259 “Dedicatory epistle to the Rev. Doctor Dryasdust, FA.S.”, Ivanhve (1820), p. 15. Vide Scott, Prefaces to the Waverley Novels, p. 34; David Brown, Walter Scott and the Historical Imagination, pp. 173-86. 260 Lukécs, Historical Novel, p. 69. Proj. Historia, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 133 passado inteligivel mas para dar conta de processos de mudanga nao evidentes no principio. Todos os relatos sobre 0 passado contam histérias sobre ele, e, conseqiientemente, sio parcialmente inventados; como j4 vimos, contar histérias também impGe suas exigéncias na histéria. Ao mesmo tempo, toda ficgdo é parcialmente “fiel” ao passado; uma hist6ria verdadeiramente ficticia nado pode ser imaginada, pois ninguém poderia entendé-la. A verdade na histéria nao € a tinica verdade sobre 0 passado; cada historia € verdadeira em infinitas maneiras, manciras estas que sio mais especificas na historia e mais gerais na ficgiio."" Portanto, os historiadores que afirmam fidelidade tnica ao passado e escritores de ficgo que reivindicam total isengao dessa fidelidade enganam a si préprios e a seus leitores. A diferenga entre histéria ¢ ficgdo reside mais no propdsito do que no contetido. Sejam quais forem os mecanismos retéricos de que 0 historiador dispée, os principios de seu oficio profbem-no sabidamente de inventar ou de excluir algo que afete suas conclusdes; ao se denominar um historiador ¢ a seu trabalho a historia, ele escolhe que ela seja julgada pela exatiddo, consisténcia interna e congruéncia com os registros re- manescentes. E cle nao se atreve a inventar um personagem, atribuir caracteris- ticas desconhecidas ou incidentais aos personagens verdadeiros, ou ignorar caracterfsti- cas incompativeis de modo a tornar sua narrativa mais inteligivel, porque nao poderia esconder tais invengdes daqueles que tém acesso aos registros puiblicos nem justificd-las quando descobertas.” Em contraste, o romancista histérico é forgado a inventar personagens € acon- tecimentos, ou pensamentos e agées imagindrias para pessoas reais do passado. Os limites que 0 historiador adota com satisfagdo sao intolerdveis para o escritor de ficgio, como descobriu John Updike ao reunir documentos sobre a vida do presidente Bucha- nan. Sufocado pelos fatos determindveis da historia, Updike nao podia saltar a linha diviséria entre ficgdo ¢ fato. “Detalhes pesquisados ndo eram tao eficazes quanto os detalhes lembrados, pois nao apresentavam o veiculo palpavel do quase-lembrado por onde navegar; minha imaginagdo estava congelada pela possibilidade teérica de desco- 261 Munz, Shapes of Time, pp. 214, 338 n. 10. Vide também Mink, “Everyman his or her own annalist”, pp. 238-9. 262 Hexter, History Primer, pp. 289-90. 134 Proj. Historia, Séo Paulo, (17), nov. 1998 brir tudo. Um homem real, Buchanan, havia feito isto e aquilo, exatamente assim, uma nica vez; e de nenhuma outra forma. Nao havia espago.”?* Negar que a histéria e a ficgao sejam rotas mutuamente exclusivas ou comple- tamente indiscerniveis rumo ao passado, no entanto, nao é tolerar uma solugao concilia- téria que, a0 mesmo tempo em que proclama as virtudes de ambas, no aceita as suas limitag6es. O que é denominado “ficgdo” imita grande parte da nova ficgao e certa parte da nova histéria ao embagar a distingdo entre elas, porém ostenta uma suposta onis- ciéncia que denigre as duas abordagens. Ao dar uma interpretagao ilus6ria a respeito da natureza estrangeira do passado, a ficgao lembra determinados romances vitorianos que tornaram o passado popularmente acessivel ao dar-Ihe vida com termos atuais. Hoje em dia ébvios, os anacronismos de tal ficgiio, na época, passaram despercebidos em sua maior parte, Poucos perceberam que, enquanto humanizavam a vida cotidiana no passado, esses romances também a tornavam atraente, mesmo quando “alegavam fazer o contrério”, escreve Jenkyns; “em- prestando um falso sentido de intimidade com Pompéia” ao adular as massas tais ro- mances tinham “um conhecimento especial negado aos professores ¢ académicos”; tor- navam as pessoas intimas do passado, mas ao mesmo tempo diluiam suas paixdes através “ Uma simples verossimilhanga fez com que o romance do final da do distanciamento. época vitoriana parecesse historicamente valido, mas ele perverteu o entendimento publico do passado ao negar, domar ou modificar sua profunda singularidade; nessa ficgdo, assim como nas histérias dos Whigs, 0 passado torna-se presente, 0 presente passado, 0 anacronismo torna-se aderego ¢ os residuos, terriveis demais para serem digeridos, foram escondidos ou evitados. Com respeito a todas essas re-criagées, Henry James discordou de que Tory Lover, de Sarah Orne Jewert, buscasse fazer 0 impossivel ~ representar “a velha consciéncia, a alma, o sentido, 0 horizonte, a visio de individuos em cujas mentes metade daquilo que compée... o mundo moderno, eram no existentes, ... [pessoas] cujo préprio modo de pensar era condicionado de forma profundamente diversa”** 263 Buchanan Dying: A Play, “Afterword”, p. 259. 264 Victorians and Ancient Greece, pp. 83-6. 265 Para Jewett, 5 Out. 1901, em James, Selected Letters, pp. 234-5: “Voc pode multiplicar 0s poucos fatos que podem ser obtidos de quadros e documentos, reliquias © material impresso tanto quanto queira — 0 real & quase impossivel de se conseguir” Proj. Historia, Stio Paulo, (17), nov. 1998 135 A relutincia em enfrentar essa impossibilidade torna as imagens obtidas na ficgio falsas ¢ de m4 qualidade. Embora “firmemente fundamentado em fatos”, segundo opiniao de um produtor, os documentarios de televisao, assim como os romances hist6ri- "6 _ ou seja, abandonar os fatos pela cos, precisam no final “golpear a personalidade’ ficg’o, renunciando aos fundamentos embora ainda aparente fidelidade aos mesmos. A adaptagio da histéria & televisdio exacerba tendéncias para acomodar as versdes do pas- sado como verdades absolutas. Até mesmo quando os produtores admitem que os docu- mentarios/filmes combinam fato e ficgdo, os espectadores os confundem com relatos fiéis da realidade e de fatos passados, presumindo que um empreendimento tao oneroso e visto por tantos deve ser verdadeiro. “Foi assim que aconteceu” anunciam os documentérios/filmes de ficgao, em vez de “aconteceu algo semelhante a isso”; 0 tom de certeza absoluta, envolta em anonimato autorizado, empresta a essas sagas 0 carter da verdade revelada.” Nas historias escritas, logo de inicio, a voz do autor nos alerta para sua perspectiva; nas sagas exibidas na televisio, a apresentagdo elimina a especificidade e responsabilidade autorais. A ficgdo “contém tantas verdades conhecidas, apresentadas com tamanha pericia, que o restante dela é engolido com... trangiiila credulidade”. E imagens visuais so mais convincentes que relatos escritos. “Antigamente, as pessoas acreditavam no que liam”, diz um critico. “Essa crenga ingénua na veracidade invaridvel de livros ¢ jornais” deu lugar a crenga “de que as cameras de televisio nfo mentem jamais... J4 que é possivel ver, deve ser verdade” Até mesmo os cineastas de antigamente partilhavam dessa convicgio. Os que fizeram The Birth of a Nation (1914), bem como “a maioria dos espectadores, consideravam-na uma hist6ria veridica; vocé assistird ao que de fato aconteceu”, anun- ciou o diretor D. W. Griffiths, “nao havera manifestagSes de opinides, vocé testemunhara © curso da hist6ria... O filme nao poderia conter nada além da verdade”.*” Relegada ao passado, jaz a época jovialmente cinica da Moviola, quando poucos sabiam e ninguém sc importava em saber onde terminavam os fatos e comegava a ficgao, como, por exemplo, Nicholas Bentley em filme de Cecil B. de Mille, que dizia: 266 Ralling, Vhat is television doing to history?"p. 43. 267 Ibid., p. 42. 268 Patrick Brogan, “America’s history being rewritlen on TV by confusing fact-fiction serials”, The Times, 11 out. 1977. Vide Fledelius, History and the Audio-Visual Media 1 269 Sorlim, Film in History: Restaging the Past, pp. viii-ix. 136 Proj. Hist6ria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Contra a sua vontade Foi persuadido a deixar Moi Fora das Guerras das Rosas. Em lugar da ignorancia e do filistinismo, encontramo-nos hoje tio embriagados com © passado que qualquer coisa serve, desde que seja “auténtica”. No livro Ratzes, de Haley, que pretende ser historia, “autenticidade” significa fidelidade aos sentimentos que encobrem os fatos em invengdes anacrénicas, uma busca por raizes de tal modo engagé — que abrange muito pouco do verdadeiro passado.2" Nos filmes que se pretendem ficcionais, a paixdo pela autenticidade distorce o enredo ao ornamenta-lo exageradamente com detalhes auténticos. Os espectadores podem perceber como fabulas evidentes os romances de época de A. Trollop ou C. Dickens, mas 0 que podem concluir de Brideshead Revisited, cujos produtores se deram ao trabalho de filmar os préprios aposentos de Waugh, om Oxford, de salpicar pintas em ovos de galinha para simular ovos de tordo, consumidos no café da manha do romance, e de acrescentar imitagdes de colunas de marmore e murais de Felix Kelly (evocando Vanbrugh ¢ Hawksmoor) ao Castelo Howard? Serd que tamanho esforgo foi despendido, conforme se declarou, para torné-lo “real para os atores?””"' A exibigdo de Oxford, do Castelo Howard e de Veneza na tela avilta o mundo de fantasia do romance, fazendo-o parecer um pedago do verdadeiro passado, com acontecimentos reais ¢ nao ulo XIX foram a Kenilworth “nao com o intuito de ver um ficticios. Os turistas do lugar onde fatos histdricos haviam de fato ocorrido em um passado longinquo, mas sim o de ver um lugar onde as proezas da fantasia eram ficticiamente recorrentes para todo © sempre”, escreve Christopher Mulvery;*” atualmente, um tipo de geografia como a da National Geographic serve para dar uma estrutura historicamente auténtica, trans- formando a ficgdo do passado em fato do presente. 270 Amagon, “History's changing image”, pp. 231-2; John J. O°Connor”, “Docu-ramas”- authenticity is still the key”, NY. Times, 10 ag. 1980, p. D29. 271 Derek Granger, citado por Geoffrey Wansell em “The battle of the megaseries”, The Times, pré estréia, 9-15 out. 1981. O proprietirio do Castelo Howard, George Howard (presidente da BBC quando a série Brideshead da {TV Granada foi apresentada), louvou os murais de Kelly pela “sua nostalgia comovente [e] apelo a Terra do Nunca’ (Felix Kelly; The Castle Howard murals, Partridge Gallery, London, 1982, e critica de Geraldine Norman, The Times, 27 out. 1982). Vide Steven Rattner, “A Visit to the real “Brideshead”, THT, 9 fev. 1982. 272 Anglo-American Landscapes, p. 18 Proj. Histéria, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 137 Passado e presente A meméria, como ja indiquei, é inata e imediatamente discernivel da experiéncia presente. A distingdo entre o passado histérico € o presente nao é inata mas adquirida, e com freqiiéncia incerta ou ausente. Onde 0 conhecimento do passado é transmitido oralmente, por exemplo, ou onde nao existem registros, 0 passado é percebido inteira- mente em fungao de relatos do presente. Quaisquer que tenham sido as mudangas ocor- ridas, as narrativas continuamente transformadas procuram mostrar que, desde o principio, a tradigdo sobreviveu inalterada; nenhuma linha separa 0 passado hist6rico do presente. Nessas sociedades “a verdade lembrada era flexivel ¢ atualizada, pois era impossivel comprovar que qualquer costume antigo fosse anterior & meméria do sbio mais idoso ainda 0 entre as praticas do passado ‘0; conseqtientemente niio havia conf e do presente”? Algumas sociedades de tradigdo oral consideram o presente mera manifestag’o de um passado que tudo abrangia; outras so tio voltadas para o presente que o passado jamais constitui tema de conversa; ambas negam disting6es rigidas entre passado e presente." O passado em culturas de tradig&o oral “nao € sentido como um terreno especifico, salpicado de ‘fatos’ ou fragmentos de informagdes verificdveis", con- clui Walter Ong. “Trata-se do Ambito dos ancestrais, uma fonte ressonante para reno- vaciio da existéncia presente, a qual tampouco constitui terreno especffico”.””* De acordo com Goody e Watt, “a condig&o do passado depende de uma sensibilidade histérica que dificilmente pode comegar a operar sem registros escritos permanentes”.”” Somente a preservaciio e disseminagio do conhecimento histérico por meio da escrita, e especial- mente por meio da imprensa, separa nitidamente o passado do presente. 273 Clanchy, From Memory to Written Record, p. 233. Vide Goody & 32-4; Henige, “Disease of writing”, pp. 255-6. att, “Consequences of literacy”, pp. 274 Maurice Bloch, “The past and the present in the present”, p. 288, 275 Oratlity and Literacy, p. 98. Mas assim como Bloch, Ong simplifica exageradamente; vide Peel, “Making history”, pp. 128-9. 276 “Consequences of literacy”, p. 34. Alguns fundamentalistas continuam a negar esse estado de passado. Adetindo “2 letra de seus auténticos documentos de fundag’io” e apoiando-se unicamente nas palavras de seus profetas ¢ sébios, Judeus Karaite e Mugulmanos ¢ Protestantes extremistas vivem “num pr sente religioso em vez. de num passado religioso”, Mas assim que “a tradigiio deixou de ser 9 com- pendium exclusivo dos interesses de seus adeptos”, seus apologistas procuram confirmagao histérica de sua autoridade, e externalizam 0 passado (Schwartzbach, “Antidocumentalist apologetics”, p. 374) 138 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Embora os registros permanentes revelem ¢ finalmente reforcem essa distingio, houve resisténcia tenaz ao seu reconhecimento por longo tempo. Na Idade Média, a historia era uma literatura crist@ unificada, destituida de objetivo ou interesse nas di ferengas entre presente e passado. “Os homens daquela época nao tinham passado”, conclui E. A. Freeman; “destituidos de consciéncia, reflexao e critica, eles escreveram sua prépria historia em scus trabalhos em vez, de decifrar a de seus antepassados por meio dos fragmentos que eles deixaram”.”” Como Raymond de I’ Aire de Tignac con- cluiu no inicio do século XIV, “Nao ha outra época além da nossa”.?"* Foi somente com Petrarco que a consciéncia da Antiguidade como uma é€poca distinta comegou a figurar na mente dos homens. Mas a fascinagao da Renascenga por fontes classicas foi atribuida a relevancia delas junto As preocupagdes do presente; 0 passado podia ser outro pais, mas nao poderia ser um pajs estrangciro. A relevancia exigiu que a historia ilustrasse padrées repetitivos de vicios e virtudes cternas. Como a maioria dos humanistas negou ou ignorou a percepgdo de Erasmo sobre a mudanga hist6rica; quanto mais nilida se tornou a imagem da Antiguidade, menos ela parecia lembrar 0 mundo moderno. A consciéncia histérica possibilitou a alguns filésofos do Huminismo a redescoberta do mundo classico, para entdo perceberem quao longinquo ele ficara, quao inatingfvel ficara 0 modclo de harmonia da Antiguidade; cram caracteristicas de um passado agora completamente irrecuperdvel2” Observar passado como um Ambito diferente nio foi nenhuma revolugio histérica, as vezes assim denominada, mas sim uma planta de crescimento lento alimentada pelo secularismo, pela crescente investigagiio de provas, ¢ consciéncia do anacronismo.”” Ja no século XIX, para muitos, a hist6ria parecia um todo inconsttil, praticamente indis- cernivel do presente, ¢ a natureza humana idéntica em todas as épocas.*' Os histo- 277 Preservation and Restoration of Ancient Monunents (1852), pp. 16-17 278 Le Roy Laduire, Montaillou, p. 282, Com excessio de um raro interesse na linhagem ou genealogia, os habitantes das aldeias nao tinham interesse nas décadas anteriores ¢ “viveram numa espécie de ‘ilha do tempo’, ainda mais isolados do passado do que do futuro” (pp. 281-2). 279 Gilmore, Humanists and jurists, pp. 14, 95-6, 10, 109; Starobinski, 1789: The Emblems of Reason, p. 272. 280 Preston, “Was there an historical revolution?” p. 362. 281 Lyons, Invention of Self, p. 5; W.H.Walsh, “Constancy of human nature”; Grossman, Medievalism and the Ideologies of the Enlightenment, p. 250. Gibbon sabia ser menos crédulo do que Livy, mas acredi- “haver ensinado Livy a ser tio cético quanto tava que “falavam a mesma lingua” e que ele poderia Proj. Histéria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 139 riadores Whig enfatizaram a familiaridade e continuidade de passados que eles con deravam exemplares. Para Freeman, as imemoriais reuniSes ao ar livre, nos cant6es suigos democraticos, associavam vividamente o passado ¢ 0 presente; Macaulay teste- munhou a aprovacio da Reform Act em sua prépria época “como se estivesse vendo Cesar ser apunhalado no Senado, ou Oliver Cromwell apanhando 0 cetro”; os classicos do final do periodo vitoriano pensavam que o mundo de Homero era idéntico ao deles ¢ atribuiram a Arist6teles e Plato seus proprios pensamentos.”*” Paradigmas evolutivos reforgaram essas perspectivas: as sementes do presente pareciam inerentes ao passado, onseqiiéncias do passado eram evidentes por toda parte. E 0 moderno culto as raizes, que contempla os ancestrais prenunciando descendentes, caracteristicas de familia ¢ éinicas perdurando ao longo do tempo, reflete predisposigdes genéticas similares.” Contudo, juntamente com essas predilegSes evolutivas, outras perspectivas enfa- tizaram a diversidade da experiéncia hist6rica. Herder e seus sucessores ensinavam que cada perfodo hist6rico, assim como cada cultura, tinham seu proprio caréter impar e incomparavel; a uniformidade era um mito, as diferengas entre 0 presente e qualquer passado eram incomensuraveis. No final do século XVIII, a imaginagaéo do romantismo deleitou-se no espirito singular dos tempos passados; muitas dessas épocas serviram de reftigios nostalgicos para o século XIX." Mas 0 carter estrangeiro do passado somente veio a ser amplamente reconhecido e aceito préximo a virada deste século, quando uma “muralha da China entre 0 passado e o presente” foi definitivamente levantada.** O passado estava realmente morto, observou Froude, um precursor dessa tomada de cons- ciéncia; o distanciamento, e nao a intimidade, tornou a Idade Média pungente: tum inglés instruido do século XVII” porque suas mentes eram essencialmente parecidas (Munz, Shapes of Time, pp. 188-9). 282 Freeman (1864), Growth of the English Constitution (1874), pp. 1-7; Macaulay para Thomas Flower Ellis, 30 mar. 1831, em seu livro Letters, 2:9; Frank Tumer, Greek Heritage in Victorian Britain, pp. 175-86, 418-27. Vide também Burrow, Liberal Descent, pp. 70, 169-70. 283 Dorothy Ross, “Historical consciousness in nineteenth-century America”, pp. 923-4; Buckley, Triumph of Time, pp. 15-16; Hijia, “Roots: family and ethnicity in the 1970s”, pp. 553-4 284 Berlin, Vico and Herder, p. 145; Honour, Romanticism, pp. 175-84, 197folhas; Girouard, Return of Camelot, Harbison, Deliberate Regression, pp. 139-40. 285 Para Raphael Samuel, esse muro é “um dos principais legados da revolugdo de von Rankean na histo- riografia” (“History Workshop I: truth is partisan”, p. 250). 140 Proj. Histéria, Sado Paulo, (17), nov. 1998 Na modificagao de nosso proprio carter, perdemos a chave que haveria de interpretar 0 cardter de nossos antepassados, ¢ os grandes homens, até mesmo personagens de nossa hist6ria inglesa que precederam a Reforma parecem-nos quase esqueletos fossilizados de © entre nés € nossos antepassados oriador jamais havera de transpor outra categoria de seres... Agora tudo se perdeu... ingleses hd um abismo de mistério que a ptosa do hi adequadamente, Eles no conseguem chegar a nés, € nossa imaginago s6 pode penetrd-los de modo frégil.** E dificil para os historiadores reconhecer 0 passado como um pajs estrangeiro. Distanciado e diferenciado, ele deixou de ser fonte de ligdes Gteis, transformando-se cm um amontoado de anacronismos singulares. Os historiadores se viram incapazes de explicar as relagdes causais entre passado e presente. “Viver em qualquer periodo do passado”, que V. H. Galbraith considerava experiéncia obrigatéria do historiador, “é sentir-se tio assoberbado com a percepgio da diferenga a ponto de confessar-se incapaz. de conceber como o presente se transformou no que é”.2*” Contra a irrelevancia de um passado to estrangeiro, surgiram também determinados beneficios. Com a perda de seu modelo exemplar, o passado deixou de exercer uma influéncia tao mutiladora sobre o presente. Causar a “morte do passado”, aliviando 288 assim o presente do seu fardo, tornou-se uma pritica declarada dos estudos histéricos. Maitland considerou que “a fungdo da pesquisa historica é a explicagdo, que assim alivia a pressdo que o passado obrigatoriamente exerce sobre o presente... Hoje estu- damos 0 anteontem, a fim de que o ontem nao venha paralisar 0 hoje, e 0 hoje nao ® E, para Croce, “escrever a histéria nos liberta da histéria, >» 2000 venha paralisar 0 amanha”. ... da escravidio dos acontecimentos e do passado’ Se o reconhecimento da caracterfstica estrangeira do passado reduziu sua tirania sobre o presente, também intensificou as virtudes da percepgdo retrospectiva. A historia retrata um passado mais definitivo e dogmatico do que o presente, pois a percepgao retrospectiva esclarece 0 ontem, j4 que nao pode esclarecer o hoje; as conseqiiéncias 286 Froude, History of England (1856), 1:3, 62. 287 “Historical research and the preservation of the past” (1938), p. 312. Vide Blas, Continuity and Anach- vonism, p. xiv. 288 Plumb, Death of the Past; vide Capitulo 7, pp. 364-5 abaixo. 289 “A survey of the century” (1901), 3:439 290 Croce, History as the Story of Liberty, p. 44. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 141 historicas séo no minimo parcialmente testadas ¢ compreendidas, enquanto que os re- sultados das agdes do presente ainda esto por surgi. Contrastando com a experiéncia contemporanea, “os exemplos que a histéria nos apresenta, tanto de homens quanto de acontecimentos, sao geralmente acabados: o exemplo inteiro esté diante de nds”, através escreveu Bolingbroke. “Vemos os [homens] em sua total extensio na historia, de um meio menos parcial do que o da experiéncia”. *" E 6bvio que a historia jamais est completamente encerrada; por mais agugada que seja nossa percepgao retrospectiva, novas conseqiiéncias de acontecimentos passados sempre continuarao a surgir. No entanto, qualquer grau de percepgiio retrospectiva torna © conhecimento do passado mais conclusivo do que o do presente, como Elizabeth Gaskell observou ironicamente: Ao olhar 0 século passado, é curioso verificar a limitada capacidade de nossos ancestrais de associar duas coisas, ¢ perceber a desarmonia ou harmonia daf resultantes. Serd que isso se deve ao fato de estarmos afastados dessa época, ¢ termos, conseqiien- temente, um campo de visio mais abrangente? Ser que nossos descendentes farao conjecturas a nosso respeito, do mesmo modo que fazemos sobre a inconsisténcia de nossos antepassados, ou se surpreenderdio com nossa cegueira’... Tais discrepancias traspassavam a vida dos homens de bem daquela época. Que étimo vivermos nos dias wm de hoje, quando todos sao légicos e consistentes. toda a compreensiio disponivel en- Em resumo, a explicagdo histérica ultrapa’ quanto os acontecimentos ainda esto se desenrolando. O passado que reconstruimos é “O que reconhecemos mais coerente do que foi o passado A época dos acontecimento: como 0 Império Romano tratava-se de uma série de experiéncias desconexas para as geragSes que o recuperaram”, afirma Gordon Leff. “Somos nds que thes damos coerén- cia”. A historia, mais ainda que a meméria, esclarece, ordena e elucida. Este é 0 ponto principal do enigma de Namier, segundo 0 qual os historiadores “imaginam o 291 Letters on the Study and Use of History (1752), 1:37. “A experiéncia € duplamente deficiente; nascemos. tarde demais para vermos o principio e morremos cedo demais para ver o final de muitas coisas. A Hist6ria compensa as duas det \s” (1:42). Vide também Lovejoy, “Herder and the Enlightenment philosophy of history” ¢ Heller, Theory of History, p. 17. Figuras fantasmagéricas nos poemas de ‘Thomas Hardy transcendem essa distingo, considerando “o presente como algo que jé aconteceu © que jé foi acompanhado de suas inevitaveis conseqiiéncias” (J. H. Miller, “History as repetition in Thomas Hardy's poems”, p. 231). 292 Sylvia's Lovers (1863), pp. 58-9. 293 History and Social Theory, p. 105. 142 Proj. Hist6ria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 passado e lembram o futuro”?”': explicam o que aconteceu tendo em mente os acon- tecimentos subseqiientes. As exigéncias da narrativa ampliam essas diferengas. Para tornar a historia in- teligivel, o historiador precisa revelar uma estrutura retrospectivamente inerente aos acontecimentos do passado, criando uma ilusdo de que as coisas aconteceram daquela forma porque tinham de acontecer. Como j4 vimos, ele nao apenas conhece o resultado do passado como também utiliza esse conhecimento para transformar seu relato em uma hist6ria, com um sentido de plenitude ¢ conclusio. O presente, porém, jamais é descrito dessa maneira. Dai provém o tom marcantemente definitive de muitas crénicas histéricas: seguindo uma linha de eficdcia comprovada, antigos didrios e periddicos revelam agora uma clareza ordenada em marcante contraste com o caos reinante na vida real dos autores, sem mencionar a imprecisio de nossa propria vida ainda em curso." Isso implica, no entanto, que a compreensao hist6rica funde © passado com presente assim como os diferencia; para nés € impossivel ndo confundir 0 que hoje ocorre com j4 ocorrido. Para compreender 0 que aconteceu, diferentemente do que as pessoas no passado pensavam que estava ocorrendo ou queriam que os outros pensassem, pre- cisamos introduzir nosso proprio pensamento.”" E da mesma forma que o pensamento do presente molda o passado conhecido, a percepgaio do passado inunda o presente. Segundo T. S. Elliot, o historiador de literatura deve escrever “nado apenas com sua propria geragHio em mente, mas sim com a percepgio de que toda a literatura curopéia 1.297 desde Homero... tem uma existéncia simultdnea ¢ compde uma ordem simultinea”. Para transpor o abismo mental existente entre o passado e o presente, para efetuar uma comunicagao convincente ¢ revestir de coeréncia interpretativa os relatos histéricos € preciso que eles sejam continuamente transformados. Nao ha verdade hist6rica abso- luta a espera de ser descoberta; por mais diligente e imparcial que o historiador seja, cle, assim como nossas lembrangas, nfo estaré apto a relatar 0 passado “como ele realmente foi”. Nem por isso a hist6ria fica invalidada; persiste a crenga de que o conhecimento histérico venha a langar a/guma luz sobre 0 passado, e que componentes 294 Conflicts: Studies in Contemporary History, p. 70. 295 Vendler, “All too real”, p. 32. 296 Munz, Shapes of Time, p. 110. 297 “Tradition and the individual talent”, p. 14. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 143 da verdade ainda nele permanegam. Mesmo que as percepgdes futuras mostrem enganos do presente e solapem suas conclusées, as provas agora disponiveis demonstram a quase certeza de que algumas coisas realmente ocorreram e outras nao. A cortina da divida nao isola os historiadores do passado; eles espiam através do tecido e mais além; em- basados no conhecimento eles se aproximam da verdade.?* A “verdade” absoluta é um critério recente ¢ incomum para avaliar relatos do pas- sado. Na maioria das sociedades de tradigdo oral, o status dos relatos hist6ricos depende lelidade a fatos conhecidos ou de mais da reputagdo de seus narradores do que da sua eficécia explanatéria. Para os Kuba, 0 verdadeiro passado é aquele que a maioria considera digno de crédito. J4 para os Trobriands é aquele que os ancestrais declaravam ser verdadeiro, até mesmo os acontecimentos que, como todos sabem, nao aconteceram. As sociedades de tradigao oral raramente indagam a viabilidade légica das narrativas que escutam ¢ podem, assim, aceitar facilmente testemunhos contraditétios sobre o passado, inclusive relatos conflitantes feitos pelo mesmo informante.”” Em nossa propria cultura, os relatos hist6ricos, tradicionalmente, tém servido a muitos propésitos além da “verdade” e, as vezes, esto em campos opostos ao dela - para assegurar a linhagem de soberano no poder, por exemplo, ou para promover 0 fervor patriético ou ainda para apoiar causas religiosas ou revoluciondrias. Os cronistas dos século XII e XII, explicitamente preocupados em guardar registros “a fim de que © tempo ou © esquecimento nao destrufssem a lembranga dos acontecimentos moder- nos”,*" ainda assim buscaram transmitir “uma versdo dos acontecimentos deliberada- mente criada e rigorosamente selecionada”, como observa M. T. Clanchy. A “verdade histérica” dos anais dos mosteiros residia “no fato de que deveria ter ocorrido... uma verdade providencial... Os documentos eram criados e cuidadosamente conservados para que a posteridade viesse a conhecer 0 passado, mas nao Ihes era permitido acumular por acréscimo natural com o passar do tempo nem a falar por si mesmos, pois a verdade era por demais importante para ser deixada ao acaso”.*" Somente a partir dos dois 298 Murphey, Our Knowledge of the Historical Past, pp. 15-16. “Existe ... um passado conhecivel ... Estou certo de que podemos fazer declaragées sobre 0 passado que possam ser tio verdadeiras quanto falsais” (Steinberg, “Real authentick history” or what philosophers of history can teach us”, pp. 471-2). 299 Vansina, Oral Tradition, pp. 102-3; d’ Azevedo, “Tribal history in Liberia", pp. 266-7. 300 Matthew Paris, Chronica majora (1250), citado por Clanchy em From Memory to Written Record, p. 118. 301 Clanchy, From Memory to Written Record, p. 118-20, 147. 144 Proj, Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 ultimos séculos é que descrever 0 passado como ele realmente foi tornou-se a incum- ibertas da tendenciosidade de seus anteces- béncia principal de alguns historiadores. sores, geragdes sucessivas erroneamente acreditavam-se isentas de predisposigdes. Mon- tesquieu julgava-se destituido de preconceitos; ao expor os preconceitos inconscientes de Montesquicu, Marat acreditava que ele préprio nao os tivesse."” Raros académicos reconheciam a falibilidade de sua propria época. “Nossos ancestrais,... nao tenho diivida, acreditavam-se tio livres da influéncia do preconceito e da crenga infundada quanto nés nos consideramos”, escreveu uma cronista perspicaz do final do século XVIII." Alertas 4 tendenciosidade alheia, os historiadores do século XIX também se consideravam racionais e imparciais. Aqueles que esto seguros de sua objetividade também tendem a minimizar as dificuldades que impedem a sua consecucao. Por conseguinte, persiste a percepgaio er- rOnea de que a histéria possa obter um relato do passado absolutamente fiel ¢ conclusivo. Muitos historiadores que implicitamente aceitam as limitagdes do conhecimento acima discutidas nao estao dispostos a admiti-las para si préprios, afirma Hexter, porque eles consentem ou se sentem oprimidos por um ponto de vista que confere valor cognitivo 5! Mas até mesmo os que reconhecem apenas A linguagem cientifica precisa ¢ univoca. explicitamente essas limitagGes, nao raro, evitam suas implicagdes, como ilustra uma recente discussdo. Por um lado, repete-se para os historiadores que os fatos do passado esto encerrados em estruturas que eles mesmos elaboraram, “que as explicagdes histéri cas 10 modelos construidos”, e que os trabalhos de histéria mais esclarecedores sao 302 Gossman, Medievalism and Ideologies of the Enlightenment, pp. 350-1. 303 Joseph Berington, History of the Lives of Abeillard and Eloisa (1793), |:li-liti. “Haverd de chegar 0 dia em que esta época também pode ser chamada de obscura; e, quem sabe, eles poderiam dizer, éramos nos crédulos?” (L:li), 304 Hexter, “Rhetoric of history”, p. 381. Outros eriticos siio mais severos. “Somente os historiadores dentre todos os cientistas ainda acreditam que a nica razdo pela qual a verdade os ilude é pelo fato de que eles demonstram demasiado preconceito, ou que suas fontes o fazem, ou que existem “fatos” que esto faltando” (Munz, Shapes of Time, p. 221). “Desde a metade do século XIX, a maioria dos historiadores teve predilegao por uma espécie de obstinada ingenuidade metodol6gica... Essa descon- fianca de sistema... levou a uma resisténcia através da profissao inteira... para quase todo tipo de ‘auto-andlise critica” (Hayden White, “Burden of history” (1966), pp. 111-13). Michael Kammen sugere que a revolugdo na consciéneia metodolégica desde 1970 torna obsoletas estas criticas (“Introduction: the historian’s vocation and the state of the discipline in the United States” (1980)), mas na Gra- Bretanha existem poucos sinais de qualquer revolugao do tipo. Vide Steinberg, “Real authentic history”, pp. 455, 463 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 145 aqueles influenciados pelas ficgdes mais imaginativas ¢ amplas. A indistingao entre os limites da historia e ficgo deveria tornar os historiadores mais humildes, advertindo-os do quéio fragmentéria e obliqua deve ser sua vistio de passado; também deveria alerté-los para novas possibilidades, Abandonando uma epistemologia positivista, eles poderiam.... revelar um Ambito mais amplo de verdades histéricas, Poderiam até mesmo reconhecer a forga da narrativa da verdade da ficcao literaria. © livro Cem anos de soliddo de Garcia Marquez, por exemplo, “destréi as su- rica”, argumenta Jack posigdes positivistas sobre a causalidade linear ¢ a verdade Lears, “mas conta também algumas verdades histéricas profundas sobre a ‘moderni- zagao’ de uma sociedade colonial”. Por outro lado, somente a crenga de que o passado verdadeiramente existe da aos historiadores seguranga para recolher e ordenar provas e “nos aproxima do conhecimento da verdade sobre esse passado, ‘como ele realmente foi’, mesmo se a verdade plena e completa sobre 0 passado permanega sempre fora de seu alcance”. Essa epistemologia pode ser antiquada, admite Gordon Wood, mas somente tal convicgdo “torna possivel convicgaio colocam em risco a hist6ria escrita. Os historiadores que abandonam ess: sua disciplina”.” A abordagem do conhecimento histérico, em seu contexto mais amplo que tentei fazer aqui, me deixa cm diivida acerca de preceitos que prendem os historiadores a padrdes de exatidao que eles siio obrigados a infringir, enquanto permanecem relutantes para explorar o que a histéria profissional tem em comum com Everyman de Becker. Michael Oakeshott faz distingio entre o historiador completamente desinteressado, preo- cupado com 0 passado unicamente em fungio do passado, ¢ as pessoas “no histo- riadoras”, “priticas”, que utilizam 0 passado para compreender, sustentar ou reformar a 0 presente. sa disting&o, porém, € irreal: 0 passado do homem pratico raramente € exclusivamente operacional; 0 historiador também esta inevitavelmente sente. Os modelos de Oakeshott so ambos “histéricos” no mesmo sentido. igado ao pre- A vocagio do historiador, declara Michael Kammen, é fornecer & sociedade uma memoria diferenciada.* De fato, para comunicar-se eficazmente, cle precisa diferenciar. 305 “Writing history: an exchange”, p. 58. 306 Ibid, p. 59. 307 “Activity of being an historian”; idem, On History, pp. 35-9, 43. 308 “Vanitas and the historian’s vocation”, pp. 19-20. 146 Proj. Historia, Sdo Paulo, (17), nov, 1998 Somente ao moldar seletivamente as fontes disponiveis 0 historiador consegue, seja cle académico profissional ou romancista, transmitir coerentemente 0 conhecimento do pas- sado. Muitos, de fato, fornecem a sociedade essa meméria diferenciada, mas pouco uso se faz dela: 0 abismo entre os cronistas sofisticados e © puiblico em geral parece aumen- lar constantemente. O passado jamais foi tao conhecido e é cada vez menos compar- tilhado. A sintese “progressiva” que marcou a escrita da hist6ria americana até vinte anos atras, por exemplo, deu lugar a amontoados de fragmentos dirigidos a ptiblicos diferentes a partir de etnias, faixas ctdrias c classes sociais.“” O crescimento do romance hist6rico ¢ de cultos nostalgicos contrastam fortemente com a queda de matriculas em historia académica e o declinio do conhecimento histdrico entre os estudantes univer- sitarios, 0s quais “ndo conseguem identificar Sécrates, confundem o Iluminismo com o nome de uma banda de rock e a mengdo de nomes como McCarthy, Kennedy ou Vietna nao evoca significado algum”.*"” Por que razJo a crudigio profissional nao péde dissipar a ignorncia em geral’? Alguns culpam os historiadores, que dao preferéncia a especializagées cada vez mais minuciosas, paraferndlias técnicas proibitivas, ¢ ignoram até mesmo os leitores instrufdos a fim de satisfazer scus pares na academia. “Podemos ignoré-la”, avisa um historiador, “mas a terrivel verdade é que tanto a fragmentagdo quanto a especializagao excessiva degradaram a capacidade mental de numerosos profissionais”.*!' No entanto, ha poucas evidén de que hoje os historiadores sejam mais limitados ou mais cientfficos; a maioria prefere a linguagem comum cm lugar do jargao, e seu trabalho é mais acessivel do que 0 da maioria de outros académicos. Eu atribuo a existéncia desse abismo 4 enorme expansdo do conhecimento histérico. A alfabetizagao em grande escala ¢ a fora preservadora da palavra impressa permitem que todo o conhecimento sobre o passado seja acumulado, ¢ a histéria formal ampliou-se a fim de acomodar o passado de culturas nao-européias e uma série de novos fendmenos. 309 Gutman, “Whatever happened to history?” p. 554 310 Burns, “Teaching history: a changing clientele and an affirmation of goals”, pp. 20-1. Vide John Lukacs, “Obsolete historians”. 411 Burns, “Teaching history”, p. 20. “Os historiadores esto cada vez mais especializados, especialistas em uma tiniea década ou um Gnico assunto, € mesmo assim ndo conseguem acompanhar a profusio de monografias. A maioria agora no tem nenhuma pretensdo de escrever para um piblico instruido. Escrevem uns para os outros, e com toda sua parafernilia cientifica... eles podem as vezes contar seus leitores pelos dedos da mio” (Gordon Wood, “Star-spangled history”, p, 4). Vide também Yardley, Narrowing world of the historian” Proj. Hist6ria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 147 milar mais do que uma fragio minima Conseqiientemente, ninguém esta apto a as dele." Hoje somos todos especialistas, desde 0 torcedor fanatico de futebol, que co- nhece todas as classificagdes passadas de cada time, até os especialistas na vida dos santos ou na historia da maidlica. Os historiadores profissionais, forgosamente, ignoram a maior parte das perspectivas do passado que é objeto de estudo de seus préprios colegas. A acumulagio de conhecimento histérico também ampliou a distancia entre o al- fabetizado e 0 analfabeto, entre o que é apreendido do passado ao ler ou ao ouvir contar. A maneira como as pessoas mais cultas assimilam a histéria as distancia progres vamente do resto do mundo. Essa disténcia também se aplica ao conhecimento que se tem do passado na idade adulta, diferente do conhecimento que se tinha do passado quando jovem. Na verdade, ela afasta os adultos do seu préprio passado na infiincia, pois o habito da leitura, bem como as convengées da maturidade, impedem que adultos de ambos os sexos compreendam as percepgdes que tiveram antes de sua alfabeti- 3 zagio. O conhecimento do passado, por conseguinte, parece inversamente proporcional ao que € conhecido in toto. Nas sociedades de tradigao oral as narrativas hist6ricas sdo parcas e, As vezes, guardadas em segredo, muito embora a maior parte do conhecimento do passado seja compartilhada. Nas sociedades letradas os textos histéricos impressos esto largamente disseminados, mas a maior parte do conhecimento do passado esté fragmentada em segmentos de acesso exclusivo a pequenos grupos de especialistas, € © passado consensualmente compartilhado estd restrito 8 midia que o veicula superfi- cialmente.* 312 “O mero volume do repertério literdrio significa que a proporgdo do todo que qualquer individuo conhece deve ser infinitesimal em comparagdo com o que se obtém em culturas de tradigZo oral. Sociedades letradas, apenas por nao terem um sistema climinat6rio, ... impedem o individuo de participar por completo da tradigao cultural total até qualquer coisa na medida do possivel na sociedade néo letrada” (Goody e Watt, “Consequences of literacy”, p. 57) 313 Eisenstein, Printing Press, pp. 432-3 314 Miller, “Listening for the African past”, p. 11 148 Proj. Histéria, Séo Paulo, (17), nov. 1998 Reliquias Grande parte das marcas deixadas pelo homem na face da terra no decorrer de dois mithdes de anos na qualidade de animal que acumula detritos, que se intromete, & que vez por outra é artista, tem um aspecto em comum: essas marcas séo coisas, € ndo feitos, idéias ou palavras, Glynn Isaac Whither archaeology?” As reliquias tangiveis sobrevivem na forma de caracterfsticas naturais ou de arte- fatos humanos. O conhecimento adquirido por meio da meméria e da histéria. Mas nenhum objeto ou vestigio fisico so guias auténomos para épocas remotas; eles ilu- minam 0 passado apenas quando ja sabemos que eles Ihe pertencem. A memoria e a histéria escolhem apenas determinadas coisas como reliquias; 0 restante que nos cir- cunda parece referir-se apenas ao presente, desvinculado do passado. Ea convivéncia cotidiana despoja de sua condigao de passado muitos artefatos anteriormente identifi- cados como reliquias."" O passado tangivel, nao obstante, é incomensuravelmente volumoso. Poucos arte- fatos sdo inteiramente recentes, e até mesmo eles exibem em geral antecedentes reco- nheciveis. As relagdes com os modelos sdio ubiquas, abrangendo nao apenas ruinas e reconstrugdes mas tudo que esteja marcado pelo tempo, uso ou finalidade memorial. Esses_vestigios formam um conjunto incomparayelmente maior do que per- tencente a época atual. Segundo Rose Macaulay, “existe sobre e sob a terra um niimero. muito maior de construgdes arruinadas do que intactas”.*!7 Qualquer observador de paisagens vivas, pelo menos na Inglaterra, constantemente se “defronta com mortos e moribundos — escavag6es pré-historicas, vilas romanas, ins- crigdes normandas, cidades extintas ou em rufnas, aldeias desertas, estradas de ferro abandonadas do século XIX". A arqueologia herda a terra; quase todos os lugares guardam escombros e embalam lembrangas de incontaveis acontecimentos passados. 315 1971, p. 123. 316 Tuan, "Significance of the artifact”, p. 469, 317 Pleasure of Ruins, p. xvii 318 Glyn Daniel, Idea of Prehistory, p. 140. Proj. Historia, Séo Paulo, (17), nov. 1998 149 As caracteristicas das reliquias que marcam a terra e influenciam a mente incluem nao apenas artefatos humanos mas também produtos da natureza. A imagem da terra como tesouro geol6gico ¢ arqueolégico inspirou Thomas Browne: Os tesouros do tempo jazem em urnas, medas ¢ monumentos, pouco abaixo das raizes de algumas plantas. O tempo esconde infinitas raridades, de todas as variedades, revelando antigas coisas no céu, novas descobertas na terra, € até mesmo a descoberta da terra, A veneranda América da Antiguidade repousou enterrada por milhares de anos; ¢ grande parte da terra ainda se encontra na urna até nossos dias.’” Grande parte do passado ainda esta por se tornar visivel. Mas 0 que € potencial- mente visivel é onipresente. Por serem ubjquas, as reliquias sofrem desgaste maior do que as lembrangas ou historias. Enquanto a histéria impressa e memérias gravadas em teipe podem ser dis seminadas de modo irrestrito tornando-se, assim, potencialmente imortais, as reliquias fisicas sofrem desgaste constante. Embora ainda haja muitos vestfgios a serem encon- trados, ressuscitados e decifrados, o passado tangivel €, em tiltima instancia, uma fonte finita e nao renovavel, exceto quando o tempo engendra novas reliquias. Estruturas anteriores inexoravelmente dio lugar as subseqiientes, pois duas coisas nao podem ocu- par 0 mesmo espacgo ao mesmo tempo. Se os artefatos fossem iguais 4s lembrangas, tudo que ja foi construido poderia ser descoberto novamente, comenta Freud; Roma, por exemplo, seria uma cidade “na qual nada outrora construido teria perecido, e todos os estagios de desenvolvimento anteriores teriam sobrevivido juntamente com os pos- teriores”, 2” A semelhanga de paisagens romanas de van Poelenburgh e Weenix, justa- pondo reliquias perdidas e encontradas com caracteristicas do presente.*! Lembrangas remotas € recentes sobrevivem amitide ao lado de impressées atuais da mesma cena, porém, no que tange aos artefatos, 0 novo deve substituir o velho; as coisas materiais emergem quando se descarta os revestimentos anteriores. Se assim nao fosse, 0 passado 319 Hydriotaphia, Urne Burial (1658), p. 135. 320 Freud, Civilization and Its Discontents (1930), p. 17. Vide seu Psychopathology of Everyday Life, p. 275n; Bernfeld, “French and archeology”, p. 120. O historiador Régine Robin utiliza temporalidade_ composta da histéria para possibilitar a “varias geragées de redescobrirem a si mesmas na imagem de Roma de Freud” (“Toward fiction as oblique discourse”, p. 242; vide também Robin, Cheval blanc de Lénine ou Vhistoire autre, pp. 138-50). 321 Eunice Williams, “Introduction”, Gods & Heroes, p. 24. Vide p. 287, abaixo. 150 Proj. Historia, Sdo Paulo, (17), nov, 1998 © 0 presente desapareceriam na inteligibilidade, como o palimpsesto da planicie ao redor de Roma que, segundo Hawthorne encontrava-se “de tal forma repleto de acontecimen- tos memordveis que um obliterava 0 outro, como se o Tempo houvesse feitos riscos sobre esse rabiscado ele tornasse a riscar infinitamente seus préprios registros”.*”” Os artefatos sao continuamente extintos, seja repentinamente destrufdos por terre- motos ou enchentes, guerras ou iconoclasmos, seja vagarosamente destrufdos pela erosio. Resta menos da semana passada do que do dia de ontem, e menos do ano passado do que do més que passou. “Vocé conscgue ver 0 ontem; a maior parte dele ainda subsiste”, reflete o inventor da ficg’o de Jack Finney. “E existe muito de 1965, 1962 e 1958. E também sobrou um bom pedago de 1900. E... ha fragmentos de épocas ainda mais remotas. ConstrugSes isoladas. As vezes, varias agrupadas... fragmentos remanescentes de uma clara manha de abril de 1871, de uma tarde cinzenta do inverno. de 1840, de uma alvorada chuvosa de 1783.’ Mas a maior parte do passado remoto desapareceu por completo ou tornou-se irreconhecfvel. “Se a Inglaterra existente em 1685 pudesse, por algum proceso magico, ressurgir diante de nossos olhos, nio haveriamos de distinguir uma paisagem dentre cem ou uma construgio dentre dez mil. O senhor de terras no reconheceria seus préprios campos. O habitante da cidade nao reconheceria sua propria rua. Tudo mudou, menos as caracteristicas marcantes da natureza, e algumas poucas obras sélidas ¢ duradouras da arte humana.’** Palavras essas tio mais verdadeiras hoje, decorridos mais de um século desde que T. B. Mcaulay as escreveu. As reliquias sucumbem ao desgaste de significado como também de importancia. Nosso préprio territério do passado perderd importancia para nossos descendentes a medida que nosso presente e futuro imincnte se tornem componentes do passado deles. “Todo 0 nosso passado encolhe ¢ obscurece”, de acordo com Becker: “na longa pers- pectiva dos séculos, mesmo os acontecimentos mais notdveis... devem inevitavelmente, para a posteridade, desvanecer aos poucos até se transformarem em pilidas réplicas do original, perdendo a cada geragio subseqiiente, A medida que cles retrocedem a um passado mais remoto, um pouco da importancia que ja Ihes fora atribufda, um pouco do encantamento que outrora os revestia”.*"* 322 Marble Faun, p. 101 323 Time and Again, p. 56. 324 TB. Macaulay, History of England (1848), 1-281 325 “Everyman his own historian”, pp. 22-3 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 IS] Percebendo o passado tangivel O quanto apreendemos do passado por meio de suas reliquias remanescentes varia segundo diversas circunstncias. Uma delas refere-se 2 manifesta antiguidade de coisas ao nosso redor. Determinados locais, cidades, casas, mobilidrios refletem nitidamente © passado — dreas inteiramente ocupadas por ruinas de cidades, escavagGes pré-hist6rica memoriais aos mortos, salas repletas de antiguidades, mementos, lembrangas, velhas fotos de familia, Outros locais, novos, recentes ou provisérios sugerem menos antigui- dade. Regides hé pouco habitadas, obviamente, nao exibem os monumentos e€ cons- trugdes antigas, os sét&os, batis e museus, que conferem as mais antigas um passado humano palpavel.*** O passado que se sente decorre em fungdo da ambientagao e do local em si. “Quase , adverte um guia habituado com z tudo depende do hordrio em que se visita 0 loca antiguidades existentes na Gra-Bretanha. “Uma tumba do periodo neolitico recoberta ja de um dia de verao, rodeada por um monticulo de terra observada ao sol do meio- por uma cerca de arme farpado do Departamento de Obras Pdblicas, latas ¢ lixo ¢ placas despidas de qualquer mistério, apresentaré aspecto completamente diverso ao 00 327 por-do-sol, quando os visitantes ja tiverem partido”.” As condigGes climaticas podem ampliar — ou dissipar - uma ilusao de hist6ria, No vale do rio Tamisa, as brumas do outono “podem encobrir completamente as colinas ao longe e as seculares florestas do vale, deixando a vista apenas a dura paisagem de selva industrial”, observa Paul Johnson. Em outras ocasides, porém, a chuva que castiga 0 aeroporto pode tornar “os jatos in- visiveis e inaudiveis, enquanto... 0 Castelo de Windsor emerge da névoa,... 0 sol bri- Ihando nas amuradas de pedra ¢ o estandarte real tremulando na fortaleza. Durante alguns momentos, ha uma transformagio na esséncia da paisagem... que volta a ser a mesma que se via quando Chaucer ainda escrevia”."* 326 Stegner, Wolf Willow, p. 29. 327 Newby and Petry, Wonders of Britain, p. XV. 28 Paul Johnson, “London diary”, New Satesman, 13 Set. 1968, p. 314. De fato, a cena descrita por Johnson & em grande parte o trabalho de Jeffry Wyatville no século XIX, ¢ “a pretensdo de autenticidade [de Windsor] dificilmente enganaria uma crianga de quatro anos” (Lancaster, “Future of the past: some thoughts on preservation”, p. 127). 152 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Assim como as lembrangas, reliquias outrora esquecidas ou abandonadas podem tornar-se mais preciosas do que aquelas em uso continuo; a descontinuidade em sua historia atrai a ateng’o para elas, particularmente se a escassez ou fragilidade as ameagarem de iminente extingao. Artefatos inicialmente revestidos de valor transitério e reduzido, que caem no limbo do refugo, com freqiiéncia siio mais tarde ressuscitados como reliquias de grande importincia.’” Nossa propensao ¢ capacidade de détectar 0 passado, relacionando 0 que hoje existe com tempos anteriores, também determina até que ponto percebemos as coisas como reliquias. Ha os que observam pedras muito antigas ignorando totalmente sua histéria; outros, porém, revestem aquilo que € novo e estéril com associagdes ao passado. Fechando os olhos para diferengas palpaveis, muitas sociedades tradicionais nio fazem di ha muito utilizados. Por conseguinte, a percepgao das formas das relfquias exige ndo Ao entre artefatos contemporaneos e aqucles construfdos em épocas ancestrais ou somente diferengas reais entre os materiais remanescentes e atuais, mas também a ca- pacidade © disposigdo para reconhecer essas diferengas. A rapida obsolescéncia e freqiientes substituigdes nos encorajam a identificar as coisas como “antigas”; deparamo- nos facilmente com anacronismos que nasceram, por assim dizer, no dia de ontem.*” Para perceber 0 passado nas coisas, também é preciso saber a época ou a freqiiéne com que as vimos ou a seus similares, anteriormente. Para reconhecer suas caracteristi- cas de reliquias precisamos evocar circunstincias distintas das do presente, porém nao muito dissimilares. Cenas presenciadas diariamente mudam de maneira tio impercep- tivel que 0 passado se funde com o presente; as que sao revistas apés prolongada auséncia podem parecer irremediavelmente alteradas, A distancia que as lembrangas podem retroceder também afeta a avaliagéo do que resta do passado — e o que deveria ser feito dele. Demoligdes e reconstrugdes feitas em Bloomsbury deixaram os vestigios da era georgiana com aspecto {do patético, que os que se lembram das pragas existentes hd uma gerag3o nfio véem razio em poupé-las da demoligao. Em comparagio, visitantes de pouca idade ou habitantes mais jovens ou recém-chegados que ndo podem recordar os velhos tempos, acolhem com entusiasmo 0s poucos tesouros remanescentes.**' Como tristes recordagdes de todo um passado, as 329 Michael Thompson, Rubbish Theory. 330 J.G. Mann, “Instances of antiquariium feeling in medieval and Renaissance art”, p. 255. 331 Ashley Barker, Greater London Council, Historic Buildings Division, entrevista em 4 maio de 1978. Proj, Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 IS3 relfquias do século XVIII tém pouco valor; para os recém-chegados, que no tém outra lembranca em mente, elas so espécimes preciosos da Antiguidade. As mudangas que nés sofremos — 0 crescimento desde a infancia, 0 declinio rumo a velhice ou simplesmente a soma das experiéncias adquiridas — podem impregnar cenas que ndo mudaram com uma aura do tempo. “A principio nao consegui reconhecé-la”, diz Marcel, de Proust, ao ver a imutavel Odette apés um intervalo de muitos anos, “nao porque ela houvesse mudado mas sim porque ela no mudara”.*® Velhos filmes revistos apés muito tempo parecem diferentes nao porque cles tenham mudado, mas sim porque nds mudamos. As lembrangas que nos trazem — 0 ressentimento de que clas talvez tenham se tornado esmaecidas ou embotadas ou decepcionantes — refletem principal- mente as transformagées que sofremos com o passar do tempo, bem como as mudangas sociais.** Todas as reliquias, por conseguinte, existem simultaneamente no passado e no pre- sente. O que nos leva a identificar as coisas como antiquadas ou antigas varia de acordo com o meio ambiente ¢ a hist6ria, com o individuo e a cultura, com a perspectiva e percepgao hist6ricas Trés processos distintos nos alertam de que as coisas provém do passado ou estao relacionadas com ele: o envelhecimento, a ornamentagdo e 0 anacronismo. O primeiro, a deterioragao e 0 desgaste atribuidos ao envelhecimento; 0 segundo, a ornamentagdo que celebram ou entéo chamam a atengdo para alguns aspectos do passado; 0 terceiro, a distancia historica, transforma as reliquias em emanagdes de uma era anterior. As coisas “antiquadas” — tirantes de carruagens, xicaras com protegdo para bigode, carros antigos, frontdes classicos — exibem ou ecoam formas ou estilos antiquados. Algumas ainda sao utilizdveis, outras obsoletas; algumas encontram-se em sucatas, outras em museus. O que todas t¢m em comum é que parecem vir de uma época anterior: so anacrénicas. A consciéncia de que as coisas sio anacrénicas propicia a percepgio hist6rica. Se os artefatos parecem antiquados, acreditamos que eles venham de um passado histérico. Eles podem ou nao conservar suas fungées originais - moinhos, as vezes, conservam; fornos para secagem de tabaco, nio — porém nenhum deles é construfdo 332 Remembrance of Things Past, 3:990. 333 David Robinson, “The film immutable against life's changes”, The Times, 7 dez. 1983, p. 11 154 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 atualmente, exceto como imitagdes do género tradicional. Telhados de sapé ainda so utilizados, e sua popularidade gerou cépias feitas de fibra de vidro & prova de fogo; no entanto, até mesmo o sapé simulado ¢ novo exibe uma aura de antiguidade porque ele parece antigo. Espécies de plantas e animais que remontam a épocas muito remotas ou que-se encontram no estégio final da escala evolutiva também parecem antiquadas. Exemplares remanescentes do celacanto, tuatara, ¢ das iticas si anacronismos que combinam melhor com ambien- tagdes do passado do que com as atuais. Vestigios de fsseis invocam histérias de espécies hoje extintas, envelhecendo também as camadas que 0s corporificam. E a prépria auséncia de fésseis empresta antiguidade As rochas pré-cambrianas: destitufdo de qualquer vestigio de vida subseqiiente, 0 Escudo Canadense transmite uma sensagio perturbadora dos primérdios. Os sons, assim como a matéria, podem parecer antiquados. Temas musicais, timbres ¢ estilos parecem “velhos” quando reconhecidos como antigos ou arcaicos, ¢ os ouvintes que conhecem a histéria da mdsica conseguem localizar cronologicamente uma obra mesmo se jamais a ouviram. Até mesmo uma determinada nota pode evocar 0 passado musical: alguns cognoscenti “nado podem ouvir um Si menor sem que 0 nosso subcons- ciente seja revolvido pelas lembrangas do Kyrie da missa de Bach, do primeiro movimento da Sinfonia Inacabada, e da Pathétique de Tchaikovsky”. O timbre da miisica pode indicar 0 passado histérico. Certos instrumentos produzem Sons que soam arcaicos nao importa de que época sejam. Concebemos a misica antiga com determinadas caracteristicas: fraca, aguda, trémula, nasalada; ela era também des- tituida de tonalidade bem temperada e apresentava sons actisticos especificos — a voz de castrato, por exemplo — rara em nossa propria época. Quando ouvimos esses sons hoje, sentimo-nos na presenga do passado. A pré-suposicao de antiguidade pode ser errdnea: poucas relfquias musicais igualam a autenticidade pura dos ossos de mamute da Ucrania, utilizados pelo homem de Cro- Magnon como instrumentos de percuss4o 20.000 anos atrds, que ainda hoje produzem 334 Abraham, Tradition of Western Music, pp. 34-5. A mdsica popular envethece rapidamente: “O disco era antiquado, ¢ tinha um som metélico apenas parcialmente devido & agulha... Poucos artificios sem sentido de sincopagio... faziain lembrar os vestidos antiquados das garotas que haviam dangado ao som dele. Era estranho pensar que ja houvesse soado modemo, Agora era como um toldo aberto no sol, quase branco, que anos atras tinha listas de vermelho e amarelo vibrantes” (Larkin, Girl in Winter, pp. 118-19) Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 15S sons “fortes, ressonantes e musicalmente expressivos”.*** Muitos instrumentos “antigos” sio, na verdade, cépias recentes; algumas misicas modernas foram compostas com 0 intuito de soarem acusticamente antigas ou, como a cantata de Stravinsky, Lyke-Wake, apresentam um som antiquado. Porém, 0 que nos interessa aqui é a suposig’o de an- tiguidade, e nao sua veracidade. Um estilo deliberadamente arcaico empresta profundi- dade histérica A mUisica, mesmo quando sabemos que a aparéncia de antiguidade foi planejada. Nés associamos arcafsmos com épocas anteriores; quando ouvimos tais sons, eles, por conseguinte, nos parecem antigos. E preciso pouca experiéncia historica para identificar a maioria das c anacr6nicas, O novato na histéria da arquitetura, incapaz de diferenciar 0 clissico do neo-classico, o estilo Rainha Anne do georgeano, o Tudor do falso Tudor, acredita com as como razio que todos esses estilos tém alguma ligagdo com 0 passado. Incontaveis pistas atestam a “antiguidade” de pegas de mobiliario, prataria, roupas ¢ pinturas. A propria preponderdncia das falsificagdes consubstancia a questi: as fraudes s6 so convincentes quando incorporam a insignia de antiguidade. O mesmo ocorre com emulagdes e imi- tages confessas, arquitetura de época, modismos nostalgicos: alguns se queixam de que eles desvalorizam a moeda verdadcira, mas a objegao admite a semelhanga e con- firma a ligagio com o passado. Defeitos e virtudes do conhecimento das reliquias O legado tangivel apresenta vantagens e desvantagens, como fonte de conhecimento. Uma de suas limitagdes é 0 dmbito restrito do passado que descortina. Conforme afirmou um personagem de Naipaul, “O passado esta aqui”. E ele mostrou o seu coragao. “Nao estd 14”. E ele apontou a estrada poeirenta.™ As reliquias nos oferecem apenas conjec- turas sobre comportamentos e convicgdes; para demonstrar reagdes e motivos do pas- sado, os artefatos precisam ser ampliados por relatos ¢ reminiscéncias. Essa é uma grave desvantagem, pois so os “pensamentos, sentimentos e ages... [que] so a substancia da historia, e nao paus, pedras ¢ bombazinas”.*” Ao contrario da historia ¢ da meméria, 335 Bibikov, “A Stone Age orchestra” (1975), citado na p. 30, Melodiya, o negécio de gramofones soviético, Jangou uma gravacao “hipnética” da misica tocada com esses ossos (Michael Binyon, “Paleolithic record of prehistoric rhythm”, The Times, 22 Nov. 1980, p. 5. 336 Bend in the River, p. 123. 337 Hale, “Museums and the teaching of history", p. 68. “Quando a matéria-prima nao contém tragos do 156 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 cuja propria existéncia prenuncia o passado, 0 passado tangivel nao tem vida prépria. As reliquias so mudas; clas requerem interpretagdo para exprimir sua fungio de reliquia. As reliquias também sao estaticas. Enquanto 0 passado lembrado e registrado pode transmitir o sentido de passagem pelo tempo, a maioria das reliquias tangiveis exibe apenas momentos suspensos no tempo. A notéria visibilidade das reliquias, especial- mente as antigas construgdes, acarreta a tendéncia de superestimar — e supervalorizar — a estabilidade do passado. A aura de antiguidade existente em locais bem preservados nao implica, na verdade, vitalidade hist6rica, mas sim a privagdo de cnergia inovadora posterior. “Embora as pessoas andassem nas calgadas, pairava no ar uma sensagdo de abandono como se esse fosse um lugar do qual, hd muito tempo, todos houvessem partido”, conforme Lively descreve a cidade de Cotswold em Burford. “Todas as cons- trugGes eram antigas, muitas delas bonitas: pareciam reunidas em triste abandono como cm ilustragées de livros do passado.”** Todas as reliquias pareciam mortas. Um sentido vivo, diacrénico do passado requer uma “tensdo dinamica entre 0 que se vé € 0 que se sabe que outrora existiu, ¢ ainda existe em alguma forma fragmentada ou simbélica”, sugere Gillian Tindall — um dinamismo raro em Areas muito preservadas. Ela contrasta a continuidade permanente da cidade do condado de Kent com a atmosfera perfeita e estatica de algumas famosas dreas londrinas: As assim chamadas areas “hist6ricas” ~ incluindo muitas 4reas tombadas — so pre- cisamente aquelas onde o tempo parou, ¢ até certo ponto morteram, preservadas em algum ponto do passado. Cidades que puderam manter esse aspecto homogéneo... so, por de- finigdo, dreas que ndo sofreram convulsdes sociais e deslocamentos fisicos ¢ que tornam interessante estudar sua hist6ria... Paradoxalmente, esses lugares onde o “interesse” local “pelo passado” & t20 importante entre sucessivas geragdes de habitantes ricos ¢ com di ponibilidade de tempo, na verdade revelam menos 0 passado como um todo... do que outros lugares mais comuns ¢ maltratados.*”” pensamento, as portas para o passado permanecem fechadas”; portanto, 0 quadro do passado feito pelos arquedlogos nao & apenas pobre mas também bizarro, como se “os povos beaker” ou “Cultura Hall- stadt” “fossem sociedades genuinas” (Munz, Shapes of the Past, pp. 179-80). Para uma visio contréria do poder explicativo das reliquias, mesmo por processos cognitivos, vide Renfrew, Towards an Ar- chaeology of Mind, pp. 16-23 338 House in Norham Gardens, p. 121. Ian Jack descreve as aldeias de Cotswold como “encantadoras conchas, litorninas habitadas por caranguejos ermitdes" (“The new gentry in a fine and private place Sunday Times, 8 Mar. 1982, pp. 16-25, mengio na p. 20). 339 The Fields Beneath, p. 116. Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 157 Lugares hoje conservados com todo zelo devem, indubitavelmente, ter desfrutado um prolongado periodo de equilibrio. Mas quando muito sobrevive de uma determinada época, pouco pode ter ocorrido desde entéo; caso contrério, a maioria dessas coisas antigas j4 teria sido substitufda, A Pompéia antiga sobreviveu com todos os detalhes somente porque no houve uma nova Pompéia. Em West Wycombe “vislumbramos vividamente como deveria ter sido a vida”, declara 0 proprietirio, precisamente porque ali “o tempo parece haver parado”.“” Mas o tempo nfo para, e se assim for percebido, constr6i-se uma interpretagdo errénea do passado. No entanto, a rota dos artefatos rumo ao passado também tem virtudes especiais. Uma delas ¢ a relativa auséncia de preconceito intencional. A partir do Renascimento, os eruditos, cientes das adulteragdes e falsificagdes de textos, voltaram-se para as reliquias como testemunhas mais confidveis do passado.™! Embora hoje seja evidente que os artefatos so modificados tio facilmente quanto as crénicas, a crenga em sua veracidade ainda perdura; uma reliquia tangivel parece ipso facto verdadeira. As reliquias também opéem-se a predilegdo tradicional dos historiadores pelo extraor- dinario, grandioso ou precioso. Vestigios palpaveis so considerados como mais carac- teristicos da vida cotidiana. Certamente, a propria deterioragao discrimina o trivial: os artefatos mais caros e imponentes resistem melhor ao desgaste, atraem protegdo e in- centivam a imitag’o. Mas a preservagdo intencional responde por parcela minima de tudo que restou. Ao ressuscitar 0 modo de vida de milhdes de pessoas que nao deixaram vestigios guardados, os artefatos compensam parcialmente 0 preconceito de fontes escri- s ¢, assim, tornam o conhecimento histérico mais popular, pluralista e pablico.™” Essa fungiio das reliquias, consoante com as virtudes despretensiosas do romance historico, foi enfatizada pela primeira vez, no século XIX. “Nao compreendemos os antigos”, escreveu Niebuhr, “a menos que formemos idéias precisas desses objetos de sua vida cotidiana, que temos em comum com eles, sob as formas com as quais os 340 Francis Dashwood, “West Wycomb brochure” (1977), p. 1 341 Cochrane, Historians and Historiography, pp. 432-6; Hay, Annulists and Historians, pp. 127-8; Momigliano, “Ancient history and the antiquarian”, pp. 11-16. 342 Schlereth, “Pioneers of material culture”; LN.Hume, “Material culture with the dist on it”, pp. 37-8; L/S. Levstik, “Living history ~ isn’t"; Lynch, What Time Is This Place? P. 31; Schlereth (ed.), Material Culture Studies in America, principalmente Kouwenhoven, “American studies: words or things” (1964), pp. 79-92; Wilcomb F, Washburn, “Manuscripts and manufacts” ( 1964), pp. 101-5; John T. Schle- becker, “Use of objects in historical research”, pp. 103-16, e Robert Ascher, “Tin*can archaeology”, pp. 325-37, 158 Proj, Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 olhos deles estivessem acostumados”.™? Como as tumbas de Tebas retratavam cenas familiares da vida cotidiana, George Perkins Marsh julgou-as “repletas do mais rico conhecimento que jamais vertcu da pena de Herddoto”, exatamente como sentiu que “uma hora na Pompéia soterrada vale mais que toda uma vida devotada as paginas de Livy”. Marsh insistiu que os artefatos cotidianos domésticos e industriais — ferramentas agricolas e mecdnicas, utensflios e mobflias — fossem preservados para revelar as carac- teristicas de vida comuns do passado — uma pratica que s6 agora tornou-se comum.™* Algumas preferéncias por artefatos podem se originar de preconceitos filistinos bem como populista. Assim sendo, Henry Ford, ridicularizado por afirmar que “a historia é mais ou menos tapeagéo”, resolveu “construir um museu que ird expor a historia da industria, e ele nao vai ser tapeagdo... Essa é a tinica histria que vale a pena observar.. soas usavam ¢ que mostram como elas viviam, pode-se ter uma idéia muito melhor do que se teria com um més de leitura”.¥ ‘Ao olhar os objetos que as pe A acessibilidade é outra vantagem de remanescentes tangiveis. As reliquias expostas ao escrutinio publico ¢ potencialmente visiveis a qualquer observador fornecem im- pressdes do passado que prescindem de intermedidrio. Observar a histéria no local € um processo menos ativo do que ler a seu respeito: os textos requerem um envolvimento deliberado, ao passo que as reliquias podem chegar até nds sem esforgo ou propésito conscientes. “Mais expostos do que 0 registro escrito”, afirma Lewis Mumford, “cons- trugdes, monumentos c vias ptiblicas... deixam marcas nas mentes até mesmo dos ig- norantes ou indiferentes.’”™® Hist6ria e meméria geralmente surgem na forma de hist6rias que a mente precisa filtrar deliberadamente; os fragmentos fisicos permanecem dire- tamente ao alcance de nossos sentidos. 343 Niebuhr, History of Rome (1811). Exxiii 344 American Historical School (1847), p. 11; Lowenthal, George Perkins Marsh, pp. 101-3. 345 Emest G, Liebold, Reminiscences, citado por Roger Butterfield em “Henry Ford, the Wayside Inn, and the problem of “History is bunk”, p. 57, e ligeiramente variado, em Hosmer, Preservation Comes of Age, p. 80; Alexander, Museums in Motion, p. 92. 346 Culture of Cities, p. 4. Caracteristicas lingiifsticas ¢ tragos cerimoniais, “realidades exatamente como a pedra lascada na Idade da Pedra”, siio da mesma forma apreendidas em primeira mio, comenta Marc Bloch (Historian's Craft, pp. 54-5). Mas a0 contririo dos objetos fisicos, esses residuos tm que ser traduzidos da representagZo simbélica para a fisica. Sobre a imediagao de fragmentos materiais, vide Daniel, Idea of Prehistory, pp. 160-3; Bronner, “Visible proofs": material culture study in America’ Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 159 Essa concretude existencial explica seu apelo evocativo. Uma vez que “o homem precisa olhar ¢ manusear exatamente os mesmos objetos usados em épocas longinquas”, um antiquario do século XVII ponderou que as moedas eram a prova verdadeira do passado. “Seria possivel visualizar... uma pira funerdtia, ardendo na canonizagdo dos imperadores romanos? Ou como eram feitos o chapéu e o lituus [vara magica] do Augure? Ou ainda construgées fiéis ¢ verdadeiras dos templos deles...? Recorra as velhas moedas, ¢... assim encontraré as provas do passado representadas espléndida ¢ vivamente.”*7 Os mesmos protestantes que rejeitaram supostas relfquias da Cruz e moedas de prata de Judas considerando-as fraudes idélatras, idolatraram fragmentos classicos; fascinado por um prego de lato encontrado das ruinas da Casa Dourada de Nero, em Corinto, John Evelyn sentiu a emogio do contato imediato com uma antiga civilizagao.“* “A observagio pessoal de monumentos remanescentes é uma porta direta para o passado humano”, pensava Vico, “pois eles esclarecem melhor quem foram os homens ou o que eles fizeram, as suas razdes e motivos, do que as hist6rias de histo- tiadores ou cronistas posteriores”.“” A visita de Gibbon a Roma, observando “cada local memordvel onde Rémulo esteve, Tulio falou, ou Cesar caiu”, deu-lhe inspiragdo decisiva: “Em 15 de outubro de 1764, enquanto eu me sentava meditando entre as ruinas do Capitélio, enquanto os monges descalgos entoavam as vésperas no Templo de Japiter, ... a idéia de escrever sobre o declinio ¢ queda da cidade surgiu pela primeira vez em minha mente”. As efigies dos reis franceses no Musée des Monuments deram vida a hist6ria nacional para o jovem Michelet; “a espada de um grande guerreiro, as insignias de um célebre soberano”, argumentava o historiador Prosper de Barante ao instar um governo subseqiiente a comprar a colegio do Musée de Cluny, eram “reliquias que 0 povo gosta de ver”, que impressionam mais do que “a letra morta” do livro de historia.**' 347 Peacham, Complete Gentleman (1622), Cap. 12, “Of Antiquities”, pp. 126-7 348 Diary, 13 ¢ 27 fev. 1645, pp. 185, 195. 349 New Science, parafraseado em Berlim, Vico and Herder, p. 57. Vide Luck, “Scriptor classicus”, p. 154, 350 Autobiography (1796), pp. 84-5. Essa foi de fato uma recordagdo muito modificada, No original, Gibbon no estava no Capitétio mas na Igreja dos monges franciscanos; de fato, em 1764 as ruinas do Capitélio ja haviam desaparecido ha tempos (Randolph Bufano, “Young Edward Gibbon”, carta, TLS, 10 set. 1982, p. 973). As diserepincias so instrutivas mas nao diminuem o significado do acon- tecimento. 351 Michelet, Ma jeunesse (1884), pp. 44-6; Barante, “L’ Acquisition du Musée du Sommerard’ (1843), 2:421 160 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Evocagdes romanticas de monumentos tangiveis, resumidas nas “Ozymandias” de Shelley, enfatizaram o valor das relfquias como testemunhos. Os estudos hist6ricos de- liotecas, acreditava J.R. Green, mas nas singu- veriam comegar nao em arquivos de lares ruas antigas de Bury St. Edmunds, para “revelar a histéria dos homens que af viveram e morreram”."* O paladar, 0 tato e a visio que gravam as reliquias na memoria também podem invocar vividamente o seu milieux, “Ao apanhar para si uma ponta de © nunca mais foi tocada”, Hawthorne imaginou flecha que fora jogada séculos at que a tivesse recebido “diretamente da mao do cagador pele-vermelha”, imaginando assim “a aldeia indigena fincada no meio da floresta”, e trazendo de volta “2 vida os guerreiros ¢ os chefes pintados, as indias em sua labuta doméstica, e as criangas di- vertindo-se em meio as tendas; enquanto o pequeno bebé indio embalado pelo vento balanga em um galho de érvore”.°* As reliquias emprestaram proximidade a histéria exotica assim como a doméstica; descobertas arqueolégicas na Terra Santa e na Grécia reviveram os mundos biblico e classico. MilhGes se empolgaram com os relatos do testemunho ocular de Amelia Ed- wards sobre os templos egipcios. Em cada madrugada em Abu Simbel “eu via aqueles horriveis irmaos passarem da morte a vida, da vida A pedra esculpida”, quase acreditando “que cedo ou tarde deveria raiar um dia quando o antigo feitigo se desfaria em pedagos, ja de Carnac “cada € os gigantes deveriam se levantar falar”. Na Grande Sala Hipo: sopro que percorre os corredores pintados... parece evocar os suspiros daqueles que morreram na caga, no remo, e debaixo das rodas da biga do conquistador”.>“ Hoje em dia as reliquias da antiguidade provocam reagGes menos extravagantes, mas o sentimento de proximidade perdura. O sahor histérico de Londres oprime Helene Hanff: que ele conhecera. Sentamos & mesa que a cabega de Shakespeare havia tocado, e foi uma sensagiio indescritivel”25* O ca- sei por uma porta pela qual Shakespeare havia passado, entrei num bar minha cabega contra a mesma parede lafrio do contato com lugares antigos traz de volta 4 vida suas barbaries ou virtudes 352 Stray Studies from England and aly (1876), p. 218; Burrow, “Sense of the past”, p. 122. 353 Hawthorne, “The old manse” (1846), 10:11. 354 A Thousand Miles up the Nile (1877), pp. 285, 152. Vide Hudson, Social History of Archaeology, pp. 73-83. 355 Duchess of Bloomsbury Street, p. 30. Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 161 peculiares, e o mero fato de rogar documentos originais vivifica os pensamentos e acon- tecimentos que cles descrevem.*** O historiador que vé pessoalmente a cena de seu trabalho intensifica em seu ptiblico © impacto da obra. George Bancroft trilhou 0 chiio em que Wolfe havia caminhado e 35 387 “marquei 0 melhor que pude o local onde Jacques Cartier deve ter desembarcado”. similhanga com A biografia de Lord Lugard escrita por Margery Perham adquire vero: a propria viagem da autora pela Nigéria; Bruce Catton conhecia os campos de batalha da Guerra Civil que descreve; Samuel Eliot Morison fez questo de navegar pela rota de Colombo.** A intimidade tangivel também realga o feito da ficgdo histérica. Virgilio procurou lugares visitados por Enéas, Scott fez. um reconhecimento dos lugares que seus romances descrevem. “Sera que nao estimulamos nossa sensagio da classica luta entre Holmes e Moriarty se tivermos visto as cataratas de Reichenbach, acima do Englischer Hof?" Mesmo cenas recriadas podem transmitir proximidade hist6rica: Poussin construiu cui- dadosamente modelos de cenas gregas ¢ romanas que inspiraram suas pinturas arcadia- nas a fim de poder ver 0 passado com seus préprios olhos e senti-lo com suas préprias mos. Para Robert Wood a sensagéo do lugar aumentava o sentido de passado; mer- gulhando nas paisagens gregas, ele sentin a proximidade bem como a distancia da literatura grega que af leu: “a Ilfada adquire novas belezas nos bancos de Scamauder” 356 Fairley, History Teaching through Museums, pp. 2-3; Galbraith, “Historical research and the preservation of the past”, p. 305; Drabble, A Writer's Britain, p. 17, “Nada parece ligar tanto o abismo do passar dos anos quanto desdobrar e ler cartas antigas; algumas vezes particulas diminutas de areia que hé tempos adcriram a algum trago de pena mais grosso onde a tinta havia estado molhada, sobressaem apés 300 anos para voar ¢ juntar-se A povira de ontem” (Wedgwood, “Sense of the past”, p. 25). E espantoso segurar um objeto que € real no presente, embora itreal porque de um passado diferente (K.CP. Smith e Apter, “Collecting antiques - a psychological interpretation”). A tecnologia moderna € as instituigdes que diminufram as transagdes pessoais podem haver aumentado nossa necessidade de tocar o passado (Hindle, “How much is a piece of the True Cross worth?” pp. 5, 10) 357 Para a irma dele, 8 ag. 1837, citado por David Levin em History as Romantic Art, p. 17 358 Morison, Admiral of the Ocean Sea, |:xvi-xviii. Sobre a mais “auténtica” € quase desastrosa viagem do Nina Il, vide Jay Anderson, Time Machines, pp. 115-16. 359 AP, Middleton e Adair, “Case of the men who weren't there”, p. 173. 360 Praz, On Neoclassicism, pp. 28-9. 361 Ruins of Palmyra (1753), p. 2: “O solo clissico nao s6 nos faz sempre apreciar 0 poeta ou 0 historiador ainda mais, como algumas vezes nos ajuda a entendé-los methor”. 162 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Um passado destitufdo de relfquias tangfveis parece ténue demais para ser plausivel. Ruskin queixava-se de que a Inglaterra tinha apenas “um passado do qual ndo hé vestigios;... 0s mortos estao definitivamente mortos. E dificil acreditar que eles tivessem vivido outrora ou que tivessem sido algo além do que agora sio — nomes nos livros escolares”. Ao contrario, “em Verona, pela janela de Can Grande olhamos para seu timulo”, e sentimos “que ele poderia haver sentado ao nosso lado na noite passada”.*° Para ter certeza de que houve um passado, precisamos ver ao menos alguns de seus vestigios. “Como pessoas muito idosas, outrora famosas, que todos julgavam mortas ha meio século mas que se descobriu vivas em algum lugar num quarto mobiliado, com meia diizia de gatos”, lugares recendendo a velhice provam “que 0 passado de fato ja existiu, no foi inventado por especialistas com base em arquivos”.*” Sua antiga cadeira, ‘a mesa e a taverna em Chester asseguraram Frederic Law Olmsted que “sua experiéncia do passado {ndo] era uma invengdo ¢ a qualquer minuto um sino iria tocar e maquinistas de cendrios de teatro” iriam desmantelar a velha cidade diante de seus olhos.** Os sobreviventes franceses acreditam que é essencial a preservacao das ruinas de Oradour para demonstrar 0 horrendo massacre nazista, do mesmo modo como as velhas casas que “permaneceram de pé e observaram os processos de mudanga,... vocé precisa pre- servar as conchas no interior das quais esse tipo de coisas acontece, no caso de vocé esquecer das coisas em si.’ Coexisténcia com o presente é outra qualidade vital do passado tangivel: algo antigo ou fabricado para parecer antigo pode nos trazer 0 passado, palpvel e forte. “Ver os imperadores, cénsules, generais, oradores, fildsofos, poetas e outros grandes homens. ‘em pé como se estivessem em pessoa diante de nés”, reagiu John Northal diante das estdtuas antigas de Roma em 1752, “dé ao homem um trajeto retrospectivo de quase 2000 anos, e mistura épocas passadas com o presente”. Para Amelia Edwards, 0 362 Modern Painters, IV, Pt 5, Cap. 1, see.5, pp. 4-5, 363 Zweig, “Paris and Brighton Beach”, p. 512 364 Olmsted, Walks and Talks of an American Farmer in England, pp. 88-90; citagio de Mulvey, Anglo- American Landscapes, p. 51 365 Lively, House in Norham Gardens, p. 12, Vide Andrew Spurrier, “Oradour: the town that came back to life after a massacre”, IHT, 4 jun 1980, p. 7; Diana Geddes, “Oradour: the agony that cries out for vengeance”, The Times, 4 jun 1983, p. 8. Compare a reagio horrorizada de um sobrevivente de Lidice ‘que retorna “para no encontrar nada ali, nem mesmo rufnas” (Cox, “Restoration of a sense of place”, p. 422), 366 Travels through Maly, p. 362 Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 163 passado estava igualmente presente em Philae. “Esquecemos no momento que tudo esté mudado. Se um som de antigos cAnticos soasse na quietude do ar — se uma procissao de sacerdotes vestidos com tinicas brancas... surgisse majestosamente entre palmeiras e domos — ndo irfamos estranhar.”*’ Empenhando-se numa campanha, hé um século, para salvar a Old South Meeting House de Boston, Wendell Phillips garantiu a seus ouvintes que os heréis revoluciondrios “Adams, Warren € Otis esto até hoje se curvando sobre nés, pedindo que o cenario de seus trabalhos imortais nao seja profanado ou obliterado da visio dos homens”.** A figura de Abraham Lincoln na Disneylandia, que se move e fala, nos ajuda a acreditar em nosso passado trazendo-o para © presente, “pois a hist6ria que foi, ela é”.*” Ao encontrar um volume de 1864 sobre Henry Clay na British Library, com as pdginas ainda por abrir, John Updike tornou-se intimo do passado: “Eu era o principe cujo beijo esse livro esteve esperando, adormecido, por mais de um século”.>” Pelo fato de que os artefatos sao ao mesmo tempo passado ¢ presente, seus papéis hist6rico e moderno interagem. Um odor de antiguidade permeia uma fileira de casas celebrizadas por arquitetos ¢ moradores de varias épocas, suas diversas idades adi- cionando personalidade a0 conjunto atual. Paisagens que misturam 0 velho ao novo reforgam os sentimentos de coexisténcia temporal: a quantidade de artefatos antigos nas colinas de Dorset, “Todos eles vistos de uma s6 vez, como se fosse a partir da pers- pectiva de eternidade”, deu a Thomas Hardy o sentido de histéria em uma proximidade sobreposta.’” As reliquias de ontem ampliam assim os horizontes de hoje. A permanéncia das construgdes transporta habitos e valores “além do grupo dos vivos”, segundo as palavras de Mumford, “marcando através das diferentes camadas do tempo a caracteristica de cada uma das geragdes”.” Fragmentos antigos transmitem seu passado guardado: es- fregando um boneco elizabetano feito de carretel de seda contra suas bochechas “para captar a esséncia da coisa antiga”, a heroina moderna de Alison Utley sentiu-o “liso 367 A Thousand Miles up the Nile, p. 207. 368 Discurso de 1876, citado por Homer em Presence of the Past, p. 104. 369 Bradbury, “Machine-tooled happyland”, p. 104. 370 Buchanan Dying, “Afterword”, p. 256 371 LHLMiller, “History as repetition in Hardy’s poetry”, pp. 227-8. 372 Culture of Cities, p. 4. 164 Proj. Historia, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 como marfim, como se geragées de pessoas 0 tivessem mantido junto as faces, ¢ de repente eu senti uma afinidade com elas, uma comunhao por meio do pequeno brinquedo entalhado”.*”> Para um ancido na historia de Bradbury, lembrangas no sétao acolhem ¢ dao vida ao passado. Era de fato uma grande maquina do Tempo, esse sto, ... se vocé tocasse em prismas aqui, maganetas de portas acol4, arrancasse borlas, fizesse soar os cristais, assoprasse a poeira, arrebentasse as fechaduras do bai e provocasse uma rajada de vento com a vox humana no velho fole da lareira até que ele fizesse voar fuligem de milhares de fogos antigos nos seus olhos ... Cada uma das gavetas da escrivaninha, puxadas para fora, deveria conter tios e primos ¢ avés, brazonados no pé.'* Pinturas ¢ imagens de coisas do passado, igualmente, ajudam a levar as pessoas dos tempos modernos de volta no tempo. Os trajes medievais de Monumental Effigies de C.A. Stothard foram meticulosamente detalhados a fim de “deter os passos velozes do Tempo” e permitir que os leitores “vivessem em outras épocas que nao a nossa”."” Reconstrugées histéricas, igualmente, persuadem os visitantes de que esto no passado ou que o passado estd vivo no presente. Os administradores das rufnas pré-histéricas indigenas do Servigo de Parques Nacionais dos Estados Unidos sao exortados “a trans- mitir ao visitante a idéia de que os antigos que ali viveram poderiam voltar nessa mesma noite e tudo iria recomegar... a moenda de milho, a gritaria das criangas ¢ os adultos fazendo amor e festejando” — embora essa tiltima afirmagao “néo deva ser encarada de modo tao literal”.°” As coisas, portanto, diferem dos pensamentos e palavras em sua natureza temporal. A historia escrita faz a demarcagdo entre passado e presente; 0 tempo de verbo clara- mente distingue o agora do entdo. Mas os artefatos so, simultaneamente, passado € presente; suas conotagdes histéricas coincidem com seus papéis modernos, misturando- ‘os e as vezes confundindo-os, conforme recente nota da National Trust: “VILA RO- MANA DE CHEDWORTH ... TERMINO PREVISTO - OUTONO DE 1978”. O pas- sado tangivel esté em fluxo contfnuo, modificando, envelhecendo, renovando e sempre interagindo com o presente. 373 Traveller in Time, pp. 49-50. 374 “Scent of sarsaparilla”, pp. 196-7. 375 “Prefatory essay”, Monumental Effigies of Great Britain (1832), p. ix 376 Tilden, Interpreting Our Heritage, p. 69. Proj. Historia, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 165 eis também Como simbolos duradouros da histéria e da memGria, as reliquias tan, simbolizam identidade nacional. Os lugares transmitem essa idéia muito melhor que os livros, como debateram em 1850 os protetores do quartel-general de Washington em Newburgh: Se quando lemos a biografia de nossos herdis revoluciondrios nosso amor pelo pats € estimulado, ... muito mais arderé a chama do patriotismo em nossos peitos quando pi- sarmos 0 chao onde foi derramado o sangue de nossos pais, ou quando nos movermos entre os cendrios onde foram concebidas ¢ consumadas suas nobres faganhas.*”” Tais lagos patriéticos tiveram importante papel na cruzada pela preservagao histrica. Para a maioria das pessoas, as reliquias tornam o passado mais importante mas nao mais conhecido. Os leigos vislumbram pouca informagao histérica em, di- gamos, uma mesa que estd na familia ha varias geragdes; “nao se conhece sua histéria da maneira que um historiador de arte conhece a linhagem de um quadro. Ela traz ... em vez disso ‘um sentido de passado’ ”.*”* Mas essa sensagio palpdvel nos convence de que © passado que relembramos ¢ narramos é uma parte viva do presente. Interligagdes Vivemos num mundo onde... a miisica que se deixa levar dos muros medievais para o jardim onde sentamos é uma velha gravagdo de Vivienne Segal cantando “Bewitched, Bothered and Bewildered”. John Cheever, “The Duchess”” Meméria, hist6ria ¢ fragmentos oferecem caminhos para 0 passado que se percorrem melhor quando combinados. Cada caminho exige os outros para que a jornada seja significativa ¢ confidvel. As reliquias dao inicio as recordagdes que a histéria confirma e expande recuando no tempo. A histéria em isolamento é estéril ¢ desprovida de vida; fragmentos significam apenas 0 que a histéria e meméria transmitem. De fato, muitos . Uma apreensdo sig- artefatos surgiram como testemunhas da hist6ria ou da meméri: 377 Richard Caldwell, A True History of the Acquisition of Washington’s Headquarters at Newburgh by the State of New York (1887), citado por Hosmer em Presence of the past, p. 36. 378 Carne-Ross, “Scenario for a new year”, p. 239. 379 1978, p. 347. 166 Proj. Historia, Sdo Paulo, (17), nov. 1998 nificativa do passado exige compromisso com prévia experiéncia, propria ¢ de outros, ao longo de todos os ués caminhos. Nem sempre est4 claro 0 caminho que seguimos num dado momento. Incertos de onde a mem6ria termina ¢ a histéria comega, freqiientemente atribuimos a uma o que vem da outra, misturando antigas memGrias com histérias posteriormente ouvidas e lidas, da mesma forma que a narrativa oral combina recordagGes recentes com histérias contadas imemoravelmente. A “meméria viva” dos moradores do condado de Kent in- clufa acontecimentos muito anteriores ao nascimento deles, como descobriu Tindall. Pessoas se “lembravam” de fazendas que deixaram de existir na plenitude da vida de seus avos: Contaram-me muitas vezes que ““Vacas pastavam em Gospel Oak quando eu era menina”, ou “Costumava ser tudo campo aqui em volta, querida; eu me recordo antes de tal ¢ tal rua ser construfda”. Alusio a um mapa da época mostra ... [que] cada rua no centro do condado de Kent estava 14 antes do nascimento da pessoa mais idosa ainda viva ... Nor- malmente reproduzida por crédulos diretores do jornal local,... essas “reminiscéncias” [re- fletem] 0 fato de que pessoas de todas as idades desejam acreditar... que esses campos ainda existem na seguranga da meméria.*” A nec dade de comprovagio, freqiientemente, leva-nos da meméria para a hist6ria; reliquias e reordenamento dao vida a hist6ria ao retraduzi-la para a meméria. Transmitidos de geragio em geragio, os quipus peruanos (bengalas entalhadas) ¢ as placas de bronze do Benin preservam lembrangas socialmente importantes;*' bater a cabega de um jovem inglés contra marcos de fronteira garantia que cle se lembraria de sua localizagdo: evocagdes anuais do Exodo transformam a fuga dos israelitas do Egito numa experiéncia pessoal para cada celebrante. Nas ceriménias judaicas da Pascoa e do Seder, “a linguagem e 0 gesto sio ambos adaptados para estimular nfo tanto um salto da meméria, mas a fusiio do passado com 0 presente”, escreve Yerushalmi. “Aqui a memoria nao é mais recordagio, que ainda conserva um sentido de distincia, mas reatualizagdo”, conforme pronunciado na triste cangao: Um fogo queima dentro de mim ao me recordar ~ quando Eu deixei 0 Egito Mas profiro lamentos ao me lembrar — quando Ew deixei Jerusalém. 380 The Fields Beneath, p. 129. 381 Vansina, Oral Tradition, pp. 36-8. Vide Baier, “Mixing memory and desire”, p. 200. 382 Zakhor: Jewish History and Jewish Memory, pp. 43-4. “Em toda e qualquer geragio permita a cada um Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 167 Algumas sociedades nao precisam de reconstituigao para reativar a hist6ria, 0 pro- cesso parece ser inerente, familiar. Injirias ¢ injustigas no aplacadas levam freqiiente- mente os homens a misturar tempos remotos € recentes, ¢ até com o presente. Muitos irlandeses continuam a vivenciar as invasdes dinamarquesas, as devastagdes de Laud, a Fome de 1847, quase como acontecimentos contemporaneos. A meméoria irlandesa tem sido comparada a pinturas histéricas em que Virgilio ¢ Dante conversam lado a lado.*** Mas 0 irlandés nao “vive no passado; antes, a histria da Irlanda ‘vive no presente’ Todos os traidores anteriores e todos os heréis anteriores permanecem vivos nela”, assim. como na “meméria sem fundo” de um personagem de O’Faolain, no qual “poder-se-ia ver, embora emaranhado sem qualquer esperanga de desemaranhamento”, a saga com- pleta da decadéncia da Irlanda,™ O significado duradouro de vinculos familiares freqiientemente funde geragdes pas- sadas, “Sim, 1852, esse foi o ano em que... lutei com o Rei Ta’ufa’ahau”, conta um tonganés; mas na realidade foi seu o avd de seu bisav6 que fez isso. Os ilhéus an- tilhanos tém me falado dos ancestrais do século XVII como se ainda estivessem vivos ou houvessem morrido apenas recentemente, “lembrando-se” deles com detalhes tio intimos como se fossem seus avés.*** Nos jantares festivos em Toulouse “pode-se ouvir fam{lias comparar solenemente o papel de seus ancestrais no comércio medieval de anil ou na insurreigo contra Richelieu”, relata John Ardagh. “Sua fam(lia lutou na Primeira ou na Segunda?” Escutei um rebento perguntar a outro. Ele nao estava se referindo as Guerras Mundiais deste século, mas as Cruzadas. Outra pessoa de Toulouse me disse: “Aqui estamos todos profundamente marcados pela Conquista Romana,... " ¢ em seguida acrescentou, “Também estamos marcados pela Ocupagdo Na- zista” — como se os dois acontecimentos fossem quase contemporaneos.**” considerar como se ele houvesse saido do Egito” € 0 dito central do Talmud para a Pascoa Haggadah (p. 45). Sobre a significdncia revelatéria da Pascoa ¢ do Seder, vide R.M. Brown, “Uses of the past Kem, Culture of Time and Space, p. 51 383 Lippman, Public Opinion, p. 144 384 Edwin Ardener, “Cosmological Irishman”, New Society, 14 Ag. 1975, p. 362; O’Faolain, Nest of Simple Folk, p. 39. Vide McHugh, “Famine in Irish oral tradition”, pp. 391, 395-6, 436; Rodgers, Ulstermen and Their Country, p. 14; Cahalan, Great Hatred, Little Room, pp. 37, 120. 385 Sablins, “Other times, other customs: the anthropology of history”, pp. 522-3, 386 Lowenthal, West Indian Societies, p. 106. 387 Tale of Five Cities, p. 290. Claud Cockburn registra conversa similar logo apés a Segunda Guerra Mundial 168 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 Para reativar a meméria vivida, como jé vimos, exige-se uma sensacio renovada no presente. Através do som de uma colher contra um copo, da sensagio de um guar- danapo adamascado, do caminhar pelo calgamento irregular de pedras no patio de Guer- mantes, Proust retomou intciramente o passado, com a inesquecfvel madeleine” que sua tia Leonie costumava lhe dar nas manhas de domingo. Assim que cu reconheci 0 gosto do pedago de madeleine mergulhado na infusio de flores de tilia... imediatamente aquela velha casa cinza da rua, onde ficava 0 quarto dela, er- gueu-se como um palco... ¢ todo o Combray e seus arredores, tomando forma ¢ solidez, voltou 8 vida... a partir da minha xfcara de cha. Reaver o passado através de visGes, sons e odores revividos foi tema de fundo da literatura do século XIX; ao renovar antigas sensagées, relembrava-se tanto as experién- cias originais quanto os sentimentos que as acompanhavam. O perfume de violetas trazia de volta para Tennyson “Os tempos que eu me lembro de ter sido / Jovial e livre de culpa”; 0 aroma de uma folha de gerdnio trazia de volta para David Copperfield 0 chapéu de palha, as fitas azuis e os cachos de Dora; a dgua fria sobre seu brago nu “Trazia de volta de seu espesso invélucro/... uma sensagao daquele tempo / E os copos que usdvamos, ¢ a rima em cascata” para o amante retrospectivo de Hardy.” Empilhando histéria sobre memoria redobrou o sentido de passado. Os personagens medievais dos primeiros poemas de William Morris sonham com experiéncias anteriores e se voltam para aquilo que € para eles 0 passado. As narrativas em Earthly Paradise sdo antigas até mesmo para seus narradores; Guinevere relaciona sua “Defesa” com com judeus de Sofia que falavam Ladino, um dos quais disse, “Nossa familia costumava morar na Espanha antes de se mudar para a Turquia, Perguntei-Ihe hé quanto tempo sua familia estava morando 1a. Ble disse que fazia aproximadamente 500 anos, mas falou desses acontecimentos como se eles tivessem acontecido alguns anos atrés”. (Crossing the line, p. 155). Vide Finley, “Myth, memory and history”, pp. 293-4. 388 Remembrance of Things Past; 1:51. Vide Shattuck, Proust’s Binoculars, pp. 70-4. Mink observa que “a meméria de Proust era um pouco madeleine e muita imaginagao” (“Everyman his or her own annalist”, p. 235). 389 Tennyson, “A dream of fair women” (1832), linhas 79-80, p. 445; Dickens, David Copperfield, cap. 26, p. 396; Hardy, “Under the waterfall” (1911-12), pp. 315-16. Vide Gent, To flinch from modern vamish”: the appeal of the past to the Victorian imagination”, p. 15; Quinn, “Personal past in the poetry of Thomas Hardy and Edward Thomas”, p. 20. * N.T: madeleine: nome francés dado a um bolinho em forma de concha. Proj. Histéria, Sdéo Paulo, (17), nov. 1998 169 recordagao; os sonhos dentro de sonhos em The Land East of the Sun and West of the Moon distanciam-se mais de passados menos remotos.”” A meméria de Guinevere “por antigo habito da mente / Foi escorregando de volta aos dias dourados... /movendo-se inconscientemente através do passado”, e as lembrangas histéricas trazem 0 passado de Tennyson de volta ao presente bem como o distancia deste.” Amigos e amantes re- tratados em pinturas pré-rafaelitas emprestam a seus temas antigos uma certa contem- poraneidade, enquanto deliberados modernismos de vestudrio e gesto enfatizam a quali- dade de passado de seus cenarios arcaizantes.”” Artefatos como metdforas na histéria e na memoria Meméria, hist6ria e reliquias serviram por muito tempo como metéforas reciprocas. O escritor, juntando quebra-cabeg: psicdlogos ¢ fildsofos habitualmente se referem as recordagdes como artefatos. “A do passado torna-se “o arqueslogo da memoria”; meméria & um repositério ou reservatério de registros, vestigios e engrams (trago de mem6ria) de acontecimentos do passado andlogos aos registros preservados nas camadas geolégicas”, segundo Hans Meyerhoff; “assim como a terra (registros geolégicos) ou as ferramentas ¢ instrumentos do homem (registros arqueolégicos)... a mente humana também € um “instrumento de registro”.””* A idéia de recuperar lembrangas como se fossem bagagens guardadas em um depésito precede em muito a cimara fotografica ¢ 0 fondgrafo. Platéo e Aristételes acreditavam que as imagens sensoriais marcavam a mente como o anel de sinete num bloco de cera; até o momento similes de placas de cera, trilhas de discos e fitas dominam descrigdes da meméria.”* Por certo, vestigios da meméria so apenas representagdes 390 Ellison, “The undying glory of dreams”; William Morris and the Northland of old”, pp. 148-50. 391 “Guinevere” (1859), linhas 376-7, pp. 1734-5. Vide J.D.Hunt, “Poetry of distance: Tennyson's “Idylls of the king”, p. 99. 392 Gent, “Appeal of the past to the Victorian imagination”, p. 30; Buckley, “Pre-Rafhaelite past and present”, p. 136 393 Time in Literature, p. 20. Vide Allen Tate, Memories and Essays, p. 12. 394 Marshall and Fryer, “Speak, memory! An introduction to some historic studies of remembering and forgetting”, pp. 304; Sorabji, Aristotle on Memory, p. 5; Heil, “Traces of things past”. Um tipico exemplo: “temor ¢ antecipagao primeiro amolecem as placas da meméria, de modo que as impresses que trazem sejam clara ¢ profundamente marcadas, e quando 0 tempo as esfria as impressées 30 fixadas como ranhuras de um registro gramofdnico” (Lytelton, From Peace to War, p. 152). 170 Proj. Histéria, Sao Paulo, (17), nov. 1998 de coisas recordadas, enquanto reliquias séo coisas, mas escritores que falam sobre meméria freqientemente omitem a diferenga. Entre as células nervosas do lobo tem- poral, de acordo com Penfield, “passa a linha do tempo, a linha que tem atravessado cada hora em vigilia da vida passada do individuo”, e quando “o elétrodo do neuro- cirurgido ativa alguma parte dessa linha, hé uma reagdo como se essa linha fosse um gravador de fio, ou uma tira de filme cinematografico, onde sao registradas todas essas coisas das quais 0 indivfduo outrora tinha consciéncia... Tira do filme do Tempo... parece continuar de novo no prdprio ritmo imutavel do tempo”.”* Analogias arqueolégicas obcecaram os estudiosos da hist6ria e da meméria, de Petrarco a Freud. Metéforas de exumagio ¢ ressurreigio penetraram 0 pensamento hu- manista. Recuperar a antiguidade significava exumar tanto artefatos encobertos quanto textos sepultados, e desenterrar fragmentos foi equiparado a restauragio do aprendizado classico. Ao interpretar a fundo textos e fotografias para compreender as formas residuais que escondem, decifrando © conhecimento hist6rico oculto sob superficies ou verbais, “o leitor advinha a camada enterrada”, na frase de Greene, “como um visitante de Roma adivinha as fundagées subterrdneas de um templo”.* visu: Quatro séculos mais tarde essas metéforas da Renascenga tornaram-se bdsicas ao insight psicanalitico. Assim como os arquedlogos e humanistas, os analistas procuraram reconstruir 0 passado a partir de artefatos soterrados — as lembrangas reprimidas de seus pacientes — “que de algum modo preservaram sua forma e até mesmo sua vida apesar de seu desaparecimento aparentemente completo”.”” Freud repetidamente invo- cou a semelhanga entre psicandlise e escavago pré-histérica. Comparando-se a um arquedlogo que fez as pedras mudas falarem ¢ revelarem seu passado esquecido, ele assegurou em 1896 ter “desenterrado” vestigios de lembrangas inconscientes de traumas sexuais infantis ¢, quando mais tarde passou a considerar que tais lembrangas refletiam fantasias em vez de sedugGes reais, ele ainda assim manteve a metdfora arqucolégica, 395 Penfiled, “Permanent record of the stream of consciousness”, p. 68. 396 Light in Troy, p. 99. Para os humanistas isso nao era mera analogia mas uma identidade real, indica Foucault, refletindo visdes da Renascenga que davam a textos escritos ¢ fragmentos fisicos 0 mesmo status. © mundo em si era um tecido de palavras € sinais, o discurso dos classicos um espelho fiel do que descreviam., Marcas visiveis ¢ palavras legtveis exigiam 0 mesmo tipo de interpretagdo; o que era visto € o que era lido transmitiam conhecimento da mesma ordem (Order of Things, pp. 33-4, 38-40, 56) 397 Emest Jones, Life and Work of Sigmund Freud, 3:318. Proj. Historia, Sao Paulo, (17), nov. 1998 I71