Você está na página 1de 15

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

OS VEREADORES E A PREOCUPAÇÃO COM ADMINISTRAÇÃO DA EDUCAÇÃO PÚBLICA (1892/1906) 1

COSTA, Kamila Reginaldo - UFJF 2 MATTOS, Ana Carolina Guedes - UFJF 3

O trabalho faz parte de um projeto de pesquisa - A Câmara Municipal e a Educação Republicana em Juiz de Fora – MG - que tem como objeto de estudo a educação no

início do período republicano, tendo em vista a atuação da Câmara Municipal de Juiz de Fora face à nova constituição mineira e a instrução pública no interior do município.

O objetivo deste texto é o de perceber qual era a importância dada à instrução pública pelos

vereadores que atuavam na Câmara Municipal, nos primórdios da republica. A pesquisa valeu- se de referenciais bibliográficos e fontes históricas referentes ao tema. Foram realizadas

incursões nos diversos acervos da cidade: Arquivo Histórico da Universidade Federal de Juiz de Fora (AHUFJF); Biblioteca Murilo Mendes – Setor de Memórias; Divisão de Arquivo Histórico (DAH); Instituto Histórico Geográfico. As análises apoiaram-se nos jornais “Correio de Minas”, “Juiz de Fora”, “O Pharol” e o Diário da tarde”, Minas livre“, Livros de Resoluções e Livros de Atas da Câmara Municipal. Também procedeu-se ás análises documentais, sobretudo em atas da Câmara Municipal de Juiz

de Fora, abrangendo um recorte temporal que se estende de 1889 a 1906.

A percepção sobre o trabalho dos vereadores aponta para a pouca preocupação com a educação da cidade e um maior interesse para com os bens patrimoniais da cidade e a defesa dos interesses pessoais e dos seus grupos sociais, sem se deixar levar em conta de que as suas relações sociais consistiam também em relações inter familiares.

Palavras-chave: República, Câmara, política e educação.

1 Este projeto é vinculado a um programa de pesquisa, intitulado “A câmara Municipal e a Educação Republicana em Juiz de Fora - MG (1892/1906)”, coordenado pela Profª.drª. Dalva Carolina (Lola) de Menezes Yazbeck realizado no âmbito do Núcleo de Estudos Sociais do Conhecimento e da Educação - NESCE/ UFJF. Em síntese, busca-se com esse programa investigar a atuação da Câmara Municipal de Juiz de Fora na constituição e expansão da instrução pública no interior do município.

2 Estudante do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Juiz de Fora e bolsista do programa BIC.

3 Estudante do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Juiz de Fora e bolsista do programa PROVOQUE.

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

Contextualização na República

A transição do Império para República protagonizada por disputas e conflitos antagônicos, impulsionada por um fervor ideológico instaurado progressivamente, constituiu um marco cronológico na história do Brasil. A implementação de várias leis abolicionistas, inviabilizam o tráfico negreiro culminando à homologação da Lei Áurea, 13 de maio de 1888, que coloca em cheque o sistema escravocrata monárquico. Assim como, os ideais liberalistas de modernização e civilização influenciados pela Revolução Industrial na Europa, pela queda do imperialismo, pelo esgotamento do sistema monárquico e pela formação de movimentos republicanos no Brasil, configuram alguns dos fatores para a consolidação do sistema republicano no país. Embora, a proclamação republicana tenha sido feita pelos militares, liderados pelo Marechal Deodoro da Fonseca, mantiveram-se no poder as mesmas oligarquias vigentes no período imperial. Os grandes latifúndios permaneceram sobre a hegemonia política dos coronéis, assim como o Estado por carecer do auxílio das forças representadas pelos oligárquicos em suas respectivas regiões de domínio. O bom desempenho da lavoura de café fortalecia o poder dos cafeicultores no período, promovendo intensa relação entre oligarcas e governo. O desenvolvimento da produção foi tão expressivo que seus lucros serviram para alavancar o surto industrial observado nos estados brasileiros, sobretudo em Minas Gerais. Estruturado por interesses divergentes entre concepções liberalistas e positivistas para a organização do Estado, o modelo republicano se configurou respectivamente sob as figuras do PRP (Partido Republicano Paulista) e PRM (Partido Republicano Mineiro) de um lado, os republicanos Gaúchos, do outro. Os primeiros defendiam uma República Federativa, garantindo assim a descentralização e maior autonomia das províncias. Os segundos, sob forte influência militar almejavam uma maior expressividade do exército, não demonstravam o interesse de uma classe social, como era o caso dos defensores da república liberal, mas concebiam sua inserção na sociedade como soldados–cidadãos. Com a missão de dar novos rumos ao país para eles a República deveria ter ordem e progresso, além de ser dotada de poder Executivo forte ou passar por uma fase de ditadura. Receosos do prolongamento de uma semiditadura, os liberalistas, precipitaram com o intuito de garantir a convocação de uma Assembléia Constituinte (FAUSTO, 1986).

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

Inspirada no modelo norte americano, a 1ª Constituição Republicana, promulgada em 1891, consagra a Republica Federal Liberal, garantindo uma maior autonomia das províncias. Essas poderiam contrair empréstimos no exterior e organizar forças militares próprias. Institui-se o sistema presidencialista de governo, sob o poder executivo, além da criação dos poderes legislativo e judiciário. Fixa-se o sistema de voto direto suprimindo-se o poder econômico, considerando eleitores todos os cidadãos brasileiros maiores de 21 anos, excluindo analfabetos, mendigos, praças militares e mulheres, uma vez que essas não são mencionadas na Carta Magma. Tal constituição reflete a não participação popular na implantação do novo modelo político instaurado no país. Passada a fase das lutas em prol de um novo Estado ameniza-se os ânimos instaurando-se um início de debates e planos inovadores que podem ser refletidos nos movimentos sociais da década de 20.

) (

desalentadores de poucos homens públicos que ainda conservavam a esperança inicial

Os quinze primeiros anos deste século são marcados por comportamentos

na difusão ampla de novos costumes e modos de pensar (

) (NAGLE, 1974.).

Nesse cenário, configuraram-se as bases de uma sociedade de classes, caracterizada por uma nova fase do capitalismo marcada pela transição de um sistema agrário-comercial para um urbano-industrial. Tais mudanças delimitaram esferas de indagações que promoveram transformações no quadro político, econômico, social e cultural (analisado neste artigo, como fator imbricado ao campo educacional), impulsionados por correntes de pensamentos dos movimentos políticos sociais no país. A introdução dos imigrantes como mão-de-obra primeiramente nas fazendas, substituindo a escrava e posteriormente nas fábricas, são relevantes para a urbanização do país. Considerando que esses trouxeram técnicas e idéias favoráveis ao desenvolvimento tecnológico, social e cultural da nação. Com a difusão da ideologia progressista e a formação dos sistemas nacionais de ensino advindo dos EUA e de vários países da Europa, colocou-se no Brasil uma preocupação com a organização de uma educação popular. Diante da situação educacional e da demanda social vigente: alto índice de analfabetismo; necessidade de formação de mão-de-obra qualificada para o processo de modernização industrial; nova demanda populacional (ex-

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

escravos). Constituíram uma multiplicidade de debates sobre projetos e reformas do ensino, pondo em discussão a necessidade da Instrução Primária. Nos primeiros anos que procederam à República não foi possível detectar mudanças profundas no ensino brasileiro, podendo ser notado a persistência dos padrões escolares estabelecidos no regime imperial. A descentralização e a limitação da atuação do poder central, promovida pelo Ato Adicional de 1834 são, na concepção de Wenceslau Neto (2005), agravadas pela falta de recursos e vontade política. Rui Barbosa ao analisar a reforma de ensino, em 1882, aponta a “deseducação popular” como sendo um problema de ordem nacional. Para Nagle (1974), a República recebeu herança de seu fator ideológico e pouco se fez pela instrução popular, mudando quase nada a estrutura educacional em relação ao tão criticado ensino imperial. Embora, houvesse no discurso político republicano a preocupação com o desenvolvimento da instrução popular, considerada fundamental e necessária para formação do povo e o exercício pleno da cidadania. Por dentre outros fatores, não enfrentamento do problema central colocado desde Ato Adicional de 1834, que ao descentralizar o controle sobre a educação elementar, abriu mão

da possibilidade de formação de alguma organização nacional de ensino, conforme cita Neto.

Panorama Mineiro no Período Republicano

A projeção nacional política de Minas Gerais resultou da associação entre a potencialidade de sua economia aliada a sua grande representação política no parlamento e a relativa união interna do estado no qual detinha boa parte das cadeiras do poder legislativo federal.

Tais medidas, de acordo com Viscardi (1999), ao mesmo tempo em que serviram para galgar a posição mineira, atuaram como inibidora de uma ação política mais incisiva por

parte do estado. Tal processo decorreu da inexistência de uma aliança forte entre elites mineiras

e paulistas, da falta imediata da vinculação entre cafeicultores e a ação política e da

corroboração da projeção mineira na Federação para a reunião das elites em torno de um partido

monoliticamente estruturado (como era o PRM).

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

Segundo Viscardi, a província de Minas Gerais era composta por sub-regiões demarcadas por características peculiares. A Zona da Mata e o Sul de Minas destacaram-se pela produção de café e pela ocupação tardia, se comparadas a outras regiões do estado. O centro de Minas configurou-se como zona metalúrgica proveniente da expansão aurífera em declínio a partir de meados do séc.XIX, e o triângulo mineiro possuía uma identidade marcada por ser pouco povoada e por ter uma produção agropastoril voltada para o mercado interno. Deste modo, ao considerarmos o panorama político nacional, inferimos que a política interna mineira caracterizou-se por seu caráter autoritário e coercivo. Reproduzindo, portanto, o cenário de diversas disputas dicotômicas, em prol do controle político e ideológico do regime republicano. Viscardi (1999) descreve o período republicano mineiro como cenário de conflitos e reformulações ideológico-partidárias, em três fases distintas. A primeira intitulada “regionalismo e disputas inter-oligárquicas” denota interesses e lutas entre oligarquias e regiões perpetuando para que o estado se mantivesse a margem da política nacional. A segunda, “A Hegemonia Sul-mineira” configurou-se numa fase na qual o estado expressou o domínio dos políticos sul mineiro, proveniente da expansão cafeeira. Finalmente, a terceira fase “Associação da Mata e crise da Republica” retratou como a ascensão de Arthur Bernardes, representante da Zona da Mata, apontou para uma renovação intelectual e profissional da elite. Essa favoreceu a industrialização e a autonomia mineira, além de ser incisiva no processo de enfraquecimento do poder dos coronéis no interior do próprio partido (abrindo espaço para novos componentes e seus aliados). Conforme menciona YAZBECK (2008), a consolidação de tais modelos partidários influenciou de maneira correlata nas condutas e políticas educacionais das cidades mineiras. Cabendo a instrução pública administrar várias escolas isoladas no interior e exterior do município. A lei Afonso Pena de 1892 ao referir-se à instrução pública no estado, remeteu a idéia de descentralização anunciada pela constituição brasileira de 1988, ao criar órgãos técnicos para métodos e processos educacionais e remanejar inspetores para o ensino no interior do estado. Colocou-se ainda, em evidência a responsabilidade do município com a instrução primária enfatizando o caráter público e privado do ensino que deveria ser exercido livremente. A Carta Magna brasileira, assim como a lei mineira de 1892, cria conselhos distritais e municipais estabelecendo um currículo diferenciado das escolas mineiras de acordo com a localização.

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

A República em Juiz de fora

A cidade que surgiu da Fazenda do Juiz de Fora, situada no povoado do Santo Antônio do Paraibuna, criado em 1835, com a criação do Caminho Novo, transformou-se em a no principal núcleo urbano da região através da cafeicultura. Nela, a produção das fazendas se concentrava para ser transportada e comercializada na Corte. Na década de 1850, iniciou-se a construção da Estrada União Indústria, por iniciativa de Mariano Procópio Ferreira Lage, com objetivo de encurtar a viagem entre a corte e a província de minas. Neste período, o governo imperial passou a incentivar a vinda de imigrantes para o Brasil, havendo em Juiz de Fora, assim como em várias cidades brasileiras, a introdução de colonos alemães. Os alemães foram aos poucos se integrando as atividades rurais e urbanas, dando origem a vários empreendimentos na cidade. Com apoio da população local criaram curtumes, fundições e malharias contribuindo dessa forma, para o crescimento industrial de Juiz de Fora. Em 1853, a Vila de Santo Antônio do Paraibuna é elevada à categoria de cidade, ganhando em 1855, o nome de cidade do Juiz de Fora (OLIVEIRA, citado por Ribeiro.1994). O engenheiro Henrique Guilherme Halfeld, contratado para a construção da estrada Paraibuna, teve um grande papel no desenvolvimento da cidade. Construiu a primeira via pública de Juiz de Fora e a partir da qual, a cidade prosperou. A cidade, aos poucos, foi crescendo e assumindo maiores funções. Tornou-se o maior pólo econômico e cultural da Zona da Mata Mineira. Conforme explicita Ribeiro (1994 p.44), na década de 1870:

a cidade ganha um telégrafo, imprensa, fórum e um banco – Banco Territorial

Mercantil de Minas. Passa a reunir os interesses mais diversos, tanto de comerciantes

como da aristocracia cafeeira. Foram construídas as estradas de ferro D. Pedro II e Leopoldina, facilitando ainda mais o transporte da produção cafeeira para o Rio de Janeiro, acelerando desta forma, o progresso da cidade.

) (

A administração municipal, feita pela Câmara dos Vereadores, e de seu presidente, era composta por fazendeiros de café e alguns profissionais liberais ligados a propriedades de terras e escravos (RIBEIRO, 1994). Tal construção era reflexa da sociedade

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

oligárquica da época, onde um grupo muito pequeno ocupava a maioria dos cargos na câmara. A maioria da população tal qual no império abstinha-se de qualquer participação política.

No decorrer da década de 1880 cresce o investimento nos diversos setores da cidade, dando início a um período de desenvolvimento industrial e urbano.

incrementaram-se mais os serviços, através da instalação de bondes, telefones e

fundação, em 1889, do Banco de crédito Real, por iniciativa, principalmente, de

Houve implementação da iluminação pública, inicialmente a gás, e

depois, também em 1889, elétrica. Em Juiz de Fora foi construída a primeira Usina Hidrelétrica da América Latina, empreendimento realizado por Bernardo Mascarenhas, importante industrial da cidade.Logo, a energia elétrica, as facilidades de transporte, a disponibilidade de mão-de-obra, acrescida principalmente de centenas de italianos que chegaram à cidade, atraíram maiores investimentos. O setor que mais se desenvolveu foi p da indústria têxtil, em primeiro lugar; e, em segundo, o da produção de alimentos (OLIVEIRA, 1994 p.45).

fazendeiros (

) (

).

Tal desenvolvimento deu à cidade a denominação de “Manchester Mineira”, resultado de uma comparação com a famosa cidade industrial da Inglaterra.

No período próximo a proclamação da República, a cidade crescia impulsionada pelo seu desenvolvimento urbano industrial, além de viver um clima de insatisfação com o regime vigente. Nesse sentido, cria-se segundo Ribeiro (1994 p.40) um partido republicano que levantava a bandeira do liberalismo contra as intervenções e controle da monarquia.

A Proclamação da República em 15 de novembro de 1889 foi recebida com muito entusiasmo. De acordo com Ribeiro (1994 p. 41), aconteceram muitas comemorações nos vários dias que se seguiram, com banda de música e discursos políticos dos republicanos mais destacados como; Bernardo Mascarenhas; Constantino Paleta; Fernando Lobo e João Nogueira Penido.

Passado a euforia da proclamação, a cidade enfrentou algumas transformações:

A câmara de vereadores foi, provisoriamente, fechada e substituída por um Conselho de Intendência. O município ganhou uma nova organização, permitindo uma participação maior dos representantes da população. Foi concedida uma maior liberdade nas decisões administrativas, realizando-se reformas urbanas como

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

calçamento de ruas, saneamento e recenseamento da população etc. (RIBEIRO, 1994

p.41).

Ribeiro afirma que tais mudanças não foram recebidas de forma passiva. Uma série de conflitos políticos concomitaram em decorrência das eleições para a Assembléia Constituinte e Federal.

Relação entre Câmara e as famílias de prestígio

No período republicano em Juiz de Fora havia uma forte simbiose entre as oligarquias e a Câmara Municipal. Os homens considerados aptos a ocuparem os cargos de vereadores, deveriam constituir figuras importantes na cidade a fim de defender os interesses da região. Deste modo, assuntos pertinentes à Câmara punham-se a cargo dos barões de café, comendadores, grandes fazendeiros e profissionais liberais. A formação patriarcal da época caracterizava-se por famílias extensas e com a inclusão de parentes tanto do lado materno quanto paterno. Os mecanismos realizados para essa grande negociação familiar expressavam-se na forma de alianças matrimoniais, realizados dentro das próprias famílias ou com famílias que pudessem ocorrer uma boa aliança política. Segundo Lewin apud Genovez (1996):

“A noção de clã patriarcal não pode ser um sinônimo da organização familiar da elite no Brasil. A noção mais apropriada seria a da família extensa, uma vez que essa incluía uma ascendência e uma descendência bilateral, tanto materna quanto paterna. Os parentes colaterais eram incluídos no grupo através de rituais, de casamento ou compadrio.”

O tamanho das famílias influenciava de maneira considerável na disposição da câmara, uma vez que, quando no poder, permaneciam por várias gerações. Segundo Yazbeck (2008), as discussões no interior da Câmara municipal demonstravam “a prática de apadrinhamento político pelos vereadores”. Ao relatar o episódio em que alguns vereadores apresentaram propostas de nomeação de professores para o município, a mesma autora relata

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

que tal prática demonstra “a desobediência em relação à lei estadual da instrução pública”, ao nomear professores não titulados. O prestígio de tais famílias foi impulsionado por doações de sesmarias no início da construção da cidade de Juiz de Fora. Os exemplos mais representativos que compunham essa relação prestígio eram as famílias Tostes, Vidal e Amado 4 . Neste cenário percebe-se que em Juiz de Fora se estabeleceu um caráter privado na educação sob forte influencia de tais famílias. Conforme Oliveira (1996, p. 184) além do ensino particular, consagrou-se o perfil religioso, literário e retórico do ensino secundário. A instrução primária era representada por várias escolas isoladas e pelo ensino da música, pintura e outras artes.

Conforme o mesmo autor grandes artistas de fama internacional se apresentaram na

cidade:

A instrução primária era representada por várias escolas isoladas (

o vereador Oscar Vidal

apresentou à Câmara Municipal em 9 de fevereiro de 1907 a seguinte indicação, de

cujo andamento não há notícia: “ Indico que o presidente da Câmara e agente executivo municipal se dirija ao Govêrno do Estado, no sentido de promover a educação artística

do distinto do art. 108 § 1º do Regulamento da Instrução Primária do Estado”.

e o ensino da

Música, Pintura e outras artes não era desprezado, (

)

)

A Câmara municipal e a instrução pública

Empenhada em desenvolver os projetos de modernização estimulados pelos ideais liberais europeus, a Câmara Municipal de Juiz de Fora, desde sua constituição em 1892, se estabelece em um cenário onde os trabalhos desenvolvidos em seu interior representam discussões voltadas para a gestão de funcionários e melhorias físicas da cidade.

4 Além destas, várias outras compuseram o cenário da Câmara Municipal de Juiz de Fora desde sua criação:

Barros, Castro/Correa, Duarte, Fernandes de Miranda/Miranda, Halfeld, Horta, Lage, Mendes Ribeiro, Monteiro da Silva, Nogueira Penido, Pacheco, Paula Lima, Ribeiro de Rezende/Ribeiro, Roussin, Teixeira de Carvalho/Carvalho, Cerqueira Leite/Nogueira da Gama e Velloso. Portanto, a família era importante no agraciamento de título de nobreza ou comenda, assim como a ocupação de cargos públicos do período da República em Juiz de Fora.

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

Nesse sentido, percebe-se que a instrução pública perdeu lugar para os projetos de infra-estrutura, construção e calçamento de ruas, cemitérios, matadouros e hospitais que

viabilizariam o processo de urbanização e industrialização da cidade. Sobre a instrução pública, segundo a resolução n.134 de 22 de março de 1893, “manda applicar leis e regulamentos do

Estado aos institutos municipaes (

A apatia da Câmara Municipal quanto aos assuntos relacionados à educação são observados a partir de informações contidas nos livros de Resoluções, Atas e em diversos Jornais da cidade na época. A Câmara de vereadores de Juiz de Fora não possuía uma percentagem da verba destinada à educação. As Atas de reuniões da Câmara (1988 p.4) demonstram apenas o remanejamento de verbas, mediante a solicitação prévia e isolada, para determinadas ações como reforma de escolas, concerto de carteiras e compra de livros e vencimento de professores. É possível perceber através das atas, a desvalorização da educação por parte da Câmara também no que condiz ao aos vencimentos recebidos pelos professores de escola pública. A ata do ano de 1899, p.333-43, prevê a quantia dispensada aos docentes: “art.26 § 1. O vencimento anual dos professores de 2:000$ no perímetro urbano. 1:800 para a Estação de Benfica, 1:600 para Colônia de Cima e Grama e 600 para aula nocturna”. Infere-se uma maior valorização das escolas centrais em detrimento das demais, através dos salários destes professores. O mesmo ocorre com a escola noturna. O salário dos professores desta, só recebe reajuste no ano de 1903 quando, de acordo com a Ata de 1903, p.89, “O Sr. Dr. Belizário Penna envia à mesa a emenda n. 13, elevando a mais 150$000 os vencimentos do professor da aula nocturna”.

Em meados do ano de 1981 são criadas quatro secretarias do Estado, dentre elas a Secretaria da Instrução Pública Bellas Artes, Correios e Telégrafos, ficando esta responsável pela educação. Nesse sentido, a introdução da escola no município foi reforçada através do positivismo e a relevância da instrução para a massa como forma de docilização dos corpos. Em 1889 foi proposto pela Câmara, segundo a Ata (1889, p. 333-43 art.26), que o ensino primário municipal fosse ministrado em escolas assim dispostas: “duas em Botabagua, sendo uma do sexo masculino e outra do sexo feminino; uma mixta na Tapera; uma mixta na Colônia de Cima; uma mixta no Arraial da Grama; uma mixta na Estação de Benfica, e, finalmente uma escola nocturna para meninos na cidade”.

)”,

mediante a inexistência de um regulamento municipal.

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

Em 1900 foi criada a primeira escola pública da cidade localizada na Rua Direita esquina com a Rua Marechal Deodoro (Ata da Câmara 1900, p.40 v). Ensino Público que passa a ser proferido nessa época, é alvo de denuncias comumente apresentadas nos jornais. O Jornal Pharol (1981 p.1), por exemplo, denuncia a precariedade de uma escola devida falta de mobília para acomodar os alunos. Após a legislação aprovada pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais em 1892, fazendo com que os municípios mineiros recebessem do estado à incumbência de se responsabilizar pela instrução primária, promovendo abertura e manutenção de Escola, em uma atividade de retrocesso no que tange às políticas de instrução pública, a Câmara Municipal de Juiz de Fora encerra as atividades de várias escolas municipais. Yazbeck (2008, p. 6) aponta que:

O Conselho Distrital, que atuou entre os anos de1893 a 1897 em Juiz de Fora, quando foi encerrado por forças da nova legislação de instrução pública do estado, deixou em funcionamento sete escolas e uma aula noturna, localizadas no perímetro urbano central da cidade e mantidas pela Câmara Municipal. Esta distribuição se mantém no ano seguinte, confirmando a existência de duas escolas no Botanágua, uma na Rua São Mateus, uma na Rua Bernardo Mascarenhas, uma na Tapera, uma na Colônia de Cima, e uma escola noturna para meninos.

Entrando em discussão nas reuniões da Câmara o Sr. Dr. Belizário Penna envia à mesa uma emenda suprimindo diversas escolas e mantendo apenas as de Grama, Colônia de São Pedro e Benfica (Ata da Câmara Municipal 1902, p.133v). Tais medidas não foram recebidas de forma passiva. A comunidade apoiada pela imprensa local promoveu várias manifestações lamentando a supressão do ensino público na cidade. A Câmara em resposta a estes movimentos, declarou sob a figura do Sr. Coronel Antonio Bernardino 5 , “votar pela supressão das escolas da cidade, não por julgarem-nas inúteis, mas porque as condições da Câmara não permitem essa despesa, e apresenta uma sub-emenda mantendo além das escolas propostas na emenda do Sr.Belizário Penna, a aula noturna”.(1902, p.133v). Tal sub-emenda é considerada pelo Sr. Dr. Belizário Penna, passando esta a vigorar. A situação financeira do município era a razão frequentemente apontada como motivo para a suspensão de algumas escolas no município.

5 Membro da Comissão de Instrução e Estatística.

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

Em 1904, com exceção da escola noturna, fica suspenso o ensino público em todo o município. Mediante tal situação, A população através de um movimento ativo apoiada pela imprensa, encaminha à Commissão de Instrucção, um parecer redigido pelo professor Felicíssimo Mendes Ribeiro. Tal parecer é redirecionado à Câmara municipal da seguinte forma:

O Sr. Libanio Vaz, pela Commissão de Instrução, apresenta parecer na representação em que 295 moradores desta cidade pedem o restabelecimento da escola primaria de Botanagua, opinando a Commissão que os supplicantes aguardem opportunidade. – Ordem do dia” (1903, p.172 verso)

Em 1905 é reaberta as escolas localizadas em Botanagua, Caeté e Benfica inicialmente. Posteriormente em 1906, são reabertas as demais escolas. Deste modo, em 1907 os grupos escolares firmam entre o estado o município as ações políticas na organização e no desenvolvimento de um novo espaço escolar promovendo a modernização da sociedade através da racionalização do ensino público, mas sem criar um sistema municipal de educação.

Considerações Finais

O desenvolvimento de todo o trabalho foi realizado a título de especulação da realidade constituída na época da república em Juiz de Fora. Uma cidade com prosperidade no cenário nacional, optando por formas de governar coincidentes com a maneira como pensavam os vereadores e não para atender à população. Os projetos desenvolvimentistas da cidade representavam uma preocupação para os dirigentes políticos da época por se tratar de um local com circulação monetária. Desde seus primórdios contava com escolas privadas que atendiam as regiões periféricas, evidenciando a preocupação pela instrução das classes mais abastadas. As consequencias para a população eram pesadas e apontando para um quadro de descaso quanto a instrução pública. Neste cenário, Juiz de Fora deixa de investir em um novo

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

sistema municipal de educação, o que iria diferenciá-la das demais cidades brasileiras devido a seu investimento cultural. A apatia da Câmara Municipal quanto aos assuntos relacionados à educação torna-se evidente com a inexistência de verbas destinadas a instrução pública. Nesse sentido, a introdução da escola no município foi reforçada através do positivismo e a relevância da instrução para a massa como forma de submissão.

.

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

Bibliografia

BIBLIOTECA MUNICIPAL MURILO MENDES- SETOR DE MEMÓRIAS. Jornal O Pharol, Juiz de Fora, jul/out. 1891.

Jornal Minas Livre, Juiz de Fora, out. 1891.

Jornal Correio de Minas, Juiz de Fora, dez. 1904.

Jornal Correio de Minas, Juiz de Fora, jun. 1905.

Jornal Correio de Minas, Juiz de Fora, ago. 1905.

Jornal Correio de Minas, Juiz de Fora, p.5, jan. 1906.

DIVISÃO DO ARQUIVO HOSTÓRICO DE JUIZ DE FORA. Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, v.222. p. 8-24, mai/set, 1895.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, v.222, p. 48-66, jan/mai, 1896.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, v.222, p. 102-116, abr/nov, 1897.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, v.222, p. 128-171, jan/set, 1898.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, v.222, p. 191-239, jan/out, 1899.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, v.222, jan/nov, 1900.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, p. 64- 96, jan/set, 1901.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, p. 115- 135, mar/set, 1902.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, p. 141-189, jan/set, 1903.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, p.197-213, jan/dez, 1904.

Ata da Câmara Municipal. Juiz de Fora, p. 217-238, jan/jul, 1905.

ESTEVES, Albino; LAGE, Oscar Vidal (org.). Álbum do Município de Juiz de Fora. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas, 1915.

FAUSTO, Boris. História da civilização brasileira: o Brasil republicano. 2. ed. São Paulo:

Difel, 1986.

FOULCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 1997.

V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS

GENOVEZ, Patrícia Falco. Câmara dos compadres: relações familiares na câmara municipal de

juiz de fora (1853-1889). Locus: revista de História, Juiz de Fora. v. 2., n.2., p.37-60, jul/dez.

1996.

GONÇALVES NETO, W. & CARVALHO, C. H. “O município pedagógico: proposta de uma nova categoria para a compreensão da história da educação brasileira no final do século XIX”. Anais, V Jornada do HISTEDBR – “História, Sociedade e Educação no Brasil”, Sorocaba, SP, UNISO, 9 a 12 de maio de 2005, 16 p. (CD-ROM).

Jornal Minas Livre, Juiz de Fora, out. 1891.

MOURÃO, Paulo Kruger Corrêa. O Ensino em Minas Gerais no Tempo da República. Belo Horizonte: Centro Regional de Pesquisas, 1962.

NAGLE, Jorge. Educação e sociedade na primeira república. EPU editora da Universidade de São Paulo,1974.

OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Juiz de Fora: vivendo a história. Juiz de Fora: Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora, 1994.

OLIVEIRA, Paulino. A História de Juiz de Fora. 2.ed. Juiz de Fora: Gráfica Comércio e Indústria, 1981.

PAIVA, Vanilda Pereira. Educação popular e educação de adultos. 3.ed. Edições Loyola: São Paulo, 1985.

VISCARDI, Cláudia. Maria Ribeiro. Minas de dentro para fora: a política interna mineira no contexto da Primeira República. Locus: Revista de História. Juiz de Fora, v. 5, n. 2, p. 89-99, jul/dez. 1999.

YAZBECK, Dalva Carolina (Lola) de Menezes. As origens da Universidade de Juiz de Fora. Juiz de Fora: Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora, 1999.

Um Projeto Modernizador: O Grupo Escolar numa cidade de Vocação industrial. In:

VIDAL, Diana Gonçalves (org.). Grupos Escolares: cultura escolar primária e escolarização da infância no Brasil (1893- 1971). Campinas (SP): Mercado das Leras, 2006.

Os primeiros tempos da educação republicana em Juiz de Fora, MG (1892/1906). In:

CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 7., 2008, Porto.

Anais

2008. p. 1-14.

Portugal: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto,