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© Federação das Indústrias do Estado do Paraná - FIEP 2007

CENÁRIOS ENERGÉTICOS 2020

EQUIPE TÉCNICA
Marília de Souza
Organizador Técnico

Gina Gulineli Paladino


Ariane Hinça Schneider
Clarisse Bruning Schmitt Roepcke
Fabiana Cristina de Campos Skrobot
Ronivaldo Steingraber

Hartmut Dück (Tradução)

Depósito legal junto à Biblioteca Nacional, conforme Lei nº 10.994 de 14 de


dezembro de 2004.

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)


Index Consultoria em Informação e Serviços S/C Ltda. - Curitiba-PR

SENAI. Departamento Regional do Paraná.


Cenários Energéticos Globais 2020. – 2. ed., rev. ampl. / SENAI. Departamento
Regional do Paraná, Instituto Euvaldo Lodi. Núcleo Regional do Paraná. –
Curitiba : SENAI/IEL/PR, 2007.
170 p. ; 19x26cm.

1. Energia. 2. Brasil – Indústrias.

I. SENAI. Departamento Regional do Paraná. II. Instituto Euvaldo Lodi.


Núcleo Regional do Paraná. III. Título.

CDU 620.9

IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

As idéias e os conceitos veiculados nesta publicação são de inteira


responsabilidade do conferencista.
Cenários Energéticos Globais 2020

APRESENTAÇÃO

A questão energética é cada


vez mais vital para todos os países
do mundo. Prova concreta disso
são os atuais conflitos geopolíticos
ligados aos combustíveis fósseis, que
impactam em todos nós, podendo até
degenerar em uma crise planetária.
O Brasil tem uma matriz
energética diversificada e goza de
uma relativa auto-suficiência nessa
área. Temos sido expectadores das disputas por petróleo travadas no
mundo. Vale lembrar que, quando o assunto é energia renovável, somos
líderes no desenvolvimento de pesquisa e produção de biodiesel, bem
como de outras alternativas. Os especialistas concordam que o Brasil é um
player importante no mundo. Deixamos de ser expectadores e passamos
a ser um protagonista relevante.
Em 2005 realizamos no Paraná um estudo prospectivo para
identificar os setores portadores de futuro onde as energias renováveis
apareceram como estratégicas, tanto como nicho de mercado quanto como
impulsionadoras do desenvolvimento dos demais setores industriais.
Por isso, em agosto de 2006, promovemos a palestra “Global
Energy – Cenários Energéticos do Millennium Project para o ano 2020”
com o objetivo de fomentar as reflexões sobre o futuro da energia no


Cenários Energéticos Globais 2020

planeta. O evento reuniu empresários, especialistas, representantes do


governo e estudantes.
O palestrante venezuelano José Luis Cordeiro, Mestre pelo
Massachusetts Institute of Technology – MIT, professor, escritor e
pesquisador, é um dos autores do Estudo de Futuro 2020 Global Energy
Scenarios, do Projeto Millennium, da Universidade das Nações Unidas.
Foram apresentados, em grandes linhas, os quatro cenários sobre
energia elaborados para 2020. O primeiro, Business as usual, é um cenário
tendencial, normativo, de grande moderação. O segundo, Environmental
Backlash, é um cenário de crescimento que traz à tona o meio ambiente,
o impacto energético e as reações da humanidade diante de acidentes
ambientais e mudanças climáticas. O terceiro, High-tech Economy, é um
cenário tecnológico de grande vigor. Economia em ascensão, convergência
tecnológica, inteligência artificial, grandes debates éticos. Finalmente,
no quarto cenário, Political Turmoil, as questões políticas e inter-relações
geo-econômicas desenham quadros internacionais tensos.
Em um esforço conjunto, publicamos ainda em 2006 o livro Cenários
Energéticos 2020, contendo a íntegra da palestra proferida por José
Cordeiro. Nosso objetivo era disseminar os conteúdos abordados no
encontro, ampliando a possibilidade de contato com esta visão de futuro
sobre questões energéticas. A receptividade foi excelente.
Decidimos então reeditar a publicação, mas, desta vez, com a
tradução integral dos cenários construídos para o 2020 Global Energy
Scenarios, do Projeto Millennium, da Universidade das Nações Unidas.
O Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP, nodo brasileiro do
Projeto Millenium, ajudou-nos a conseguir a autorização para tradução
e publicação em língua portuguesa, sendo também responsável pela
aprovação do texto traduzido para a publicação. Ficam aqui nossos
agradecimentos a Rosa Alegria, por sua contribuição inestimável.


Cenários Energéticos Globais 2020

Esta nova edição chega então contendo a palestra do José Cordeiro


e os cenários completos para leitura e reflexão. Os cenários para 2020
indicam que o etanol é uma tendência duradoura e o Brasil é reconhecido
como líder mundial em sua produção. Ressaltamos que o Pró-álcool foi
lançado em 1975, em meio a uma crise do preço do petróleo. Por isso,
segundo José Cordeiro, “é só seguir liderando”.
Não podemos ficar na zona de conforto, mesmo porque esta é
uma janela de oportunidade aberta para inúmeros países que também
estão construindo suas estratégias de ocupação deste espaço global.
As perspectivas precisam ser consideradas e identificados mecanismos
mais apropriados de indução do desenvolvimento.
Esta publicação patrocinada pelo Sistema FIEP nos proporciona uma
reflexão e gera subsídios para a indústria paranaense enfrentar os desafios
do futuro. Todos os esforços empreendidos rumo ao desenvolvimento
sustentável são insuficientes se o diálogo entre todos os atores não
for efetivo. Por isso, esperamos que esta publicação contribua para
demonstrar a importância de se pensar o futuro e definir estratégias hoje
que ajudem a concretizar o porvir que pensamos desejável.
O nosso grande desafio é realizar as escolhas certas que preservem
as gerações futuras e promovam a prosperidade e a eqüidade social.

Rodrigo da Rocha Loures


Presidente do Sistema FIEP


Cenários Energéticos Globais 2020

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO 5
Rodrigo Rocha Loures

Futuros da Energia 2020 11

THE Millennium Project 11

Démarche metodológica 13

Business as Usual 15

Environmental Backlash 17

High-tech Economy 20

Political Turmoil 31

comentários do debate em torno do futuro da energia 35

O CONFERENCISTA 47

cenários energéticos globais 2020

1. INTRODUÇÃO 51

2. quatro cenários energéticos 55

Cenário 1: Business as Usual 55

Cenário 2. Environmental Backlash 81

Cenário 3: High-tech Economy 117

Cenário 4. Political Turmoil 150


Cenários Energéticos Globais 2020

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Cenários Energéticos Globais 2020

Futuros da Energia 2020

José Luis Cordeiro

THE Millennium Project

O Milennium Project é uma


combinação de organizações das
Nações Unidas, de governos, ONGs,
corporações e universidades e está
sob a responsabilidade do American
Council for the United Nations
University. O Millennium Project tem conexões em todo o mundo e nós
o classificamos como uma trans-instituição.
A cada ano publicamos um estudo sobre o futuro, sempre
enfocando um tema especial. No ano de 2004, a reflexão foi sobre ciência
e tecnologia, Science and Technology. No ano de 2005, o tema foi a ética
do futuro, Future Ethical Issues. Como a ética vai mudar com a clonagem,
com a inteligência artificial. Como a ética em si mesma vai mudar. Em
2006, estudamos o tema da energia, 2020 Global Energy Scenarios.

 Sobre o futuro da humanidade no ano 3000, acessar no site < http://www.acunu.org >
Global Scenarios e os artigos Science and Technology, Anti-Terrorism, Scenario for 2050 e
Long-Range Scenarios for 3000.
 O conteúdo desta palestra pode ser encontrado na Internet e também no livro State of the Future
2006, publicado em Toronto, Canadá. O estudo completo, de 400 páginas, está em CDRom.

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Cenários Energéticos Globais 2020

Há dez anos, quando o Millennium Project começou, nós


identificamos 15 desafios globais. Alguns deles são: desenvolvimento
sustentável, água, população etc. O desafio número três é energia.
Para colocar isso em perspectiva, recorremos a um expert petroleiro
muito famoso, o Xeque saudita Zaki Yamani, que foi Ministro do Petróleo
da Arábia Saudita e Presidente da OPEP. Ele disse: “A Idade da Pedra acabou
e não por falta de pedras, e a Idade do Petróleo vai terminar em breve e
não por falta de petróleo”. Este é um pensamento muito interessante de
um árabe preocupado com a perspectiva de a Idade do Petróleo terminar
em 20 anos. A pergunta que está embutida nesta reflexão é: o que fará a
Arábia Saudita e o que fará o mundo quando houver outras energias?
As implicações dessa questão vão muito além do que se pode
imaginar inicialmente. Primeiro, porque o mundo não pode continuar
dependente do petróleo, e isto não pelo risco de escassez do produto,
mas pela fragilidade que impõe às economias. Segundo, porque é
preciso descarbonizar as energias em uso, pois o planeta não consegue
processar as emissões de carbono atuais. E, terceiro, porque teremos
um agravamento importante dos problemas geopolíticos que já
estamos enfrentando.
Por isso, nós, no Millenium Project, trabalhamos com assuntos
como células a combustível, economia do hidrogênio, seqüestro de
carbono, energia solar, transmissão sem fio, remessa por microondas,
conceito beyond petroleum, morte da OPEP – Organização dos Países
Produtores de Petróleo, Protocolo de Kyoto, mudança tecnológica e
supervisão energética.
No estudo Global Energy Scenarios, realizado em 2005, desenhamos
quatro cenários possíveis sobre o futuro energético do mundo para o ano

 Entre os usuários de cenários, os trabalhos feitos pela multinacional Shell são muito conhecidos.
A cada cinco anos a Shell faz estudos de longo prazo, desenhando cenários futuros, de forma
que popularizou o conceito de cenários durante os anos 1970. Eles começaram a projetar

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Cenários Energéticos Globais 2020

2020. O primeiro, Business as usual, é um cenário tendencial, normativo.


O segundo, Environmental Backlash, é um cenário que aborda os problemas
ambientais. O terceiro, High-tech Economy, é um cenário tecnológico.
E o quarto, Political Turmoil, é um cenário político.

Démarche metodológica

O estudo durou um ano inteiro, contou com a colaboração de


experts de todo o mundo e foi estruturado em três fases.
Na primeira fase, fizemos um levantamento bibliográfico,
identificando os cenários energéticos significantes. Buscamos, por país,
todos os cenários existentes relacionados à energia e procedemos à
identificação dos pesquisadores da área. Entrevistamos personalidades do
mundo da energia. Falamos, entre outros, com representantes da Petrobras
e do governo brasileiro, para saber suas expectativas sobre o futuro da
energia no Brasil e no mundo. Finalmente, selecionamos os quatro grandes
eixos para os cenários – Ambiental, Econômico, Geopolítico e Tecnológico.
A composição dos cenários foi feita por meio de uma combinação dos
dados mais interessantes e plausíveis dentro de cada tema, para que
pudessem gerar as melhores discussões dentro do processo de mudança
da política energética mundial.
A segunda fase contemplou a realização de duas rodadas de
Delphi para coletar os julgamentos (opiniões) de experts em energia
e áreas correlatas. Na primeira rodada foram passadas palavras-chave
dentro dos cenários globais e coletadas informações dos trabalhos
desenvolvidos pelos pesquisadores nessas determinadas áreas. Os 131
respondentes são reconhecidos experts em energia da Europa, América

cenários no ano de 1972. Agora trabalham com dois cenários para o ano de 2050, Dynamics
as Usual, e o cenário The Spirit of the Coming Age, que combina mudanças ambientais e
mudanças tecnológicas.
 Metodologia para tratamento de opiniões de especialistas sobre prováveis eventos futuros.

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Cenários Energéticos Globais 2020

Latina, América do Norte, Ásia, África, Pacífico, Oriente Médio, divididos em


organizações internacionais, governos, organizações não-governamentais,
academia e setor privado. Tivemos muitas respostas do setor privado,
o que é importante. Representantes da Shell, da British Petroleum e da
Exxon participaram ativamente. Na segunda rodada foram coletados os
comentários (dos mesmos pesquisadores) dos cenários já construídos
a partir dos resultados da primeira rodada Delphi. Foram três mil
comentários ao todo.
Na terceira fase, os resultados das duas rodadas Delphi foram
utilizados para a construção final dos cenários. Usamos um software que
se chama IFs (Internacional Future Model), para simulação e prospecção
em geral. E, finalmente, escrevemos os cenários finais e o relatório.
A bibliografia anotada tem 85 páginas e nós consideramos estudos
tradicionais de organizações como The World Energy Council, International
Energy Agency, Energy Information Administration, US Department of
Energy, entre outros. Consideramos todos os cenários mundiais, China,
Rússia, Brasil. Analisamos o que pensam os outros países sobre o futuro
energético da humanidade, não somente para o ano 2020, também
estudamos o ano 2030, o ano 2050. Estudamos todos os cenários de
longo prazo já esboçados. O resultado desse trabalho são os quatro
cenários seguintes:
Business as Usual é o cenário central. Tudo é moderado: crescimento
moderado, ambiente moderado, economia moderada, geopolítica
moderada. Tudo é tendencial. No Environmental Backlash encontramos
um cenário ambientalista, com mudanças tecnológicas, altos impactos
ambientais, crescimento econômico e mudança geopolítica moderados.
No cenário High-tech Economy, aparecem grandes e decisivas mudanças
tecnológicas. Finalmente, no cenário político, Political Turmoil, fortes
tensões geopolíticas conferem um tom preocupante.

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Cenários Energéticos Globais 2020

Vou apresentar rapidamente agora os quatro cenários me


concentrando especialmente no cenário tecnológico, que eu penso ser
o mais importante para Paraná e para o Brasil.

Business as Usual

A idéia de um cenário não é dizer o que vai acontecer, mas abrir


a mente a alternativas possíveis. Este é o primeiro cenário tendencial do
que poderá ocorrer no futuro e, por isso, o chamamos de Business as
Usual ou The Skeptic.
Neste cenário cético, a economia move-se sem vigor, a inflação
aumenta um pouco, o progresso tecnológico é modesto. Nas perguntas
que fizemos para os cenários, questionávamos sobre a probabilidade
de que as coisas fossem melhores ou piores. 37% responderam que as
coisas estão melhores hoje do que estarão em 2020. Somente 40% deles
disseram que as coisas estarão melhores no ano de 2040. Isto é para ver
como as pessoas se posicionam no ano de 2020, olhando para trás e
para adiante.
Neste cenário, a demanda de energia vai seguir crescendo. Somente
em alguns países como Estados Unidos e Japão e na União Européia, ela
permanecerá estável. Se olharmos a demanda energética desses países,
veremos que ela permanece relativamente estável, enquanto a China passa
de um índice de um a quatro, ou seja, um aumento incrível. Os chineses
estão passando de bicicletas a carros e eles são 1 bilhão e trezentos milhões
de pessoas! O mesmo vai ocorrer em 10 ou 15 anos na Índia. Estamos
falando de países muito populosos. Esse é o cenário tendencial, o Business
as Usual. O que se espera que possa ocorrer normalmente.
Os preços, em média, vão seguir aumentando, a inflação também.
Nos Estados Unidos, o Consumer Price Index estima que a inflação vai
atingir cerca de 10% na próxima década. Estes são estudos de economistas

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Cenários Energéticos Globais 2020

dos Estados Unidos, que pensam que em cinco anos a inflação voltará a
subir um pouco naquele país e, portanto, em grande parte do mundo.
É interessante observar que a eficiência energética mundial vem
melhorando há dois anos. Os British Termal Units por mil dólares dos
Estados Unidos indicam que a eficiência esteve aumentando. Mas
neste momento, com o crescimento da produção da China e da Índia,
que são relativamente ineficientes, deverá subir um pouco o nível de
consumo energético mundial. A China também, queiramos ou não, está
desenvolvendo novos carros e vai converter-se em um grande produtor
e importador de carros de todos os tipos, desde carros pequenos até
carros de corrida.
Se há algo em que todos os experts em energia estão de acordo é
sobre o etanol. Nos próximos 10 ou 20 anos o etanol será uma fonte de
combustível muito importante. E hoje o Brasil é o líder mundial, não há
ninguém que tenha mais etanol que o Brasil.
Há muitas maneiras de fazer etanol. Pode-se retirá-lo do lixo, da
celulose, do milho, da cana-de-açúcar, do óleo de palma, de diferentes
tipos de grãos, biomassa. Além disso, existem políticas públicas agrícolas
que permitem aumentar a importância do etanol. Outro fator fundamental
é a pesquisa genética para gerar novos tipos de plantas que produzam
mais etanol, mais eficiente e mais barato. As pesquisas genéticas
são fundamentais.
Por essa razão, estão mudando os projetos de motores do Brasil e
do mundo, e o Brasil é o líder sem discussão. Os africanos, os chineses e
até os russos estão de acordo de que o Brasil é atualmente o líder mundial
em produção de etanol. Tudo isso é importante para vocês e para o Estado
do Paraná, é só seguir liderando. Os flex-fuel cars, automóveis movidos
a álcool e gasolina, foram produzidos massivamente no Brasil. A União
Européia também está estudando diferentes maneiras de fazer isto. O fato
é que o etanol veio para ficar. Está aqui para continuar em longo prazo,
e o Brasil é o líder mundial hoje.

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Cenários Energéticos Globais 2020

Environmental Backlash

Vamos ao cenário número dois, que aborda a questão ambiental.


Vou iniciar este tema fazendo referência a um conjunto de projeções
elaboradas, em 1997, pela Companhia Shell, chamado de “Cenário de
Crescimento Sustentável até o ano de 2060”. Gostaria de reforçar que a
Shell é muito importante porque foi uma companhia que introduziu os
cenários em nível corporativo já no começo dos anos 1970.
Partindo do cenário da Shell, se nos situarmos agora no começo
do ano 2000, temos basicamente combustíveis fósseis – carvão, petróleo
e gás – que ainda permanecem estáveis. O que cresce são algumas das
fontes de energia que vão se agregando às primeiras. O interessante,
no entanto, é que este cenário não é sustentável. Chamam este cenário
de sustentável, mas ele não é. E por que não? Porque do ano 2000
até agora nós já tivemos problemas importantes com os combustíveis
fósseis. Imaginem o que vai acontecer nos próximos anos, considerando:
os conflitos, existentes ou não, em torno do petróleo; todas as reservas
que ainda existem de combustíveis fósseis; e o conflito de interesses que
haverá com o uso massivo de energias renováveis? Por esta e por outras,
esse cenário sustentável da Shell não é sustentável.
O meio ambiente, obviamente, está recebendo todo o impacto
energético produzido pela humanidade hoje em dia. E à parte do problema
ambiental externo, está o problema de como se gera esta eletricidade
e esta energia. O Paquistão e a Índia têm cinco reatores nucleares que
desembocam no Oceano Índico. Um reator em Karachi, dois perto de
Bombaim, outro em Kerala e outro em Madras. A Índia ainda tem critérios
de segurança insuficientes. Eles já tiveram o equivalente de Chernobil,
que foi o acidente de Bophal, produzido por uma empresa dos Estados

 Tragédia de Bophal, Índia, em dezembro de 1984, na fábrica de pesticidas da Union Carbide,


resultante de atenção deficiente a treinamento e manutenção e a terem as chefias ignorado
as auditorias internas. < http://www.airpower.maxwell.af.mil/apjinternational/apj-p/2004/
4tri04/deal.html >.

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Cenários Energéticos Globais 2020

Unidos, a Union Carbide, que tinha sérios procedimentos de segurança


implantados, e ainda assim tiveram um acidente. Imaginem o que vai
acontecer agora com os reatores na Índia. Um desses reatores – inclusive
isto foi proposto por um dos experts indianos consultados – vai explodir
nos próximos dias/anos. O que vai acontecer quando um dos reatores
da Índia ou do Paquistão explodir no Oceano Índico? Isto vai gerar uma
onda, um backlash, uma reação terrível em nível mundial. Então, esta é
uma questão fundamental que depende de fatores externos. E este é o
pano de fundo do cenário Environmental Backlash.
Existem diferentes visões do mundo, visões muito pessimistas e
muito otimistas. Proponho começarmos por uma visão muito pessimista,
que é a de Jeremy Rifkin. Ele fala que, como não temos energia suficiente,
a única maneira de sobreviver é mudando para a economia do hidrogênio.
Suas idéias estão publicadas em um livro interessante, chamado The
Hydrogen Economy. Outra visão, totalmente contrária, está no livro do
dinamarquês Bjorn Lomborg, The Skeptical Environmentalist, no qual ele
defende que tudo tem melhorado e que a humanidade tem progredido
ao longo do tempo. São duas percepções muito contraditórias em se
tratando de mudança climática.
Outro dado sobre mudança climática: Não sei se vocês sabem
a idade do petróleo. Eu sei porque trabalhei muitos anos na indústria
petrolífera. O petróleo normal, quantos anos tem? O petróleo que a
Petrobras produz nas bacias brasileiras, quantos anos tem? Quando
se criou? Vocês devem ter escutado que o petróleo vem do tempo
dos dinossauros. Ele geralmente tem entre 100 e 300 milhões de anos.
O Período Jurássico é muito interessante, pois, naquela época a temperatura
da Terra era 10 graus superior à atual. Aqueles que pensam que agora há
muito calor, que é muito quente, saibam que era muito mais quente no
passado remoto. Por isso, quando fazemos estudos climáticos de longo

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Cenários Energéticos Globais 2020

prazo, temos que ter presente as mudanças na Terra. Uma mudança que
se espera nos próximos séculos é que comece uma nova Idade do Gelo.
A cada cento e poucos mil anos começa uma Idade do Gelo e estamos
às portas de uma delas.
O que eu quero dizer é que sobre mudança climática sabemos
muito pouco. Não sabemos quando começará a próxima glaciação, não
sabemos por que na época dos dinossauros a temperatura era 10 graus
superior à atual... Então, é preciso olhar a mudança climática com muita
humildade, porque não sabemos, dentro do prisma da ciência, realmente
o que a produz. Se voltarmos aos anos 1800, a temperatura era estável e,
em seguida, quando começa a aparecer o petróleo, a temperatura sobe.
Isso é correto. O ilógico é que os anos 1930, 1940 e 1950, quando há
mais carros, a temperatura baixou. E, em parte dos anos 1970 e 1980, a
temperatura voltou a subir. Então não está totalmente clara a relação entre
os combustíveis fósseis e a temperatura. Não há uma correlação direta.
Se olharmos mais atrás, como nos referimos, a cada cem mil anos há uma
glaciação grande e estamos em um destes momentos. A temperatura está
subindo agora e estamos historicamente no momento de uma glaciação.
Eu não quero dizer que ela vai ocorrer, o que quero dizer é que não
sabemos quando vai começar a próxima. O que é pior, no ano de 2006
ninguém sabe, cientificamente, o que gera a glaciação. E por isso, talvez,
esteja havendo um aumento da temperatura da Terra. Logo, não estamos
muito longe de passar da temperatura atual para estar no nível do período
jurássico. Talvez estejamos começando uma glaciação em breve. O ponto
aqui, para nos situarmos ambientalmente, é que sabemos pouco sobre
essas questões, há necessidade de mais pesquisas para compreender a
mudança climática, pois não a compreendemos ainda.
Outra coisa que não compreendemos são as manchas solares. Por
exemplo, o ano de 1997 comparado ao ano de 1999. Em 1997 houve

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Cenários Energéticos Globais 2020

pouca atividade solar e em 1999 houve muita. Por isso a temperatura da


Terra em 1999 foi muito maior que em 1997. E agora está ocorrendo o
mesmo: em 2006 há mais atividade solar que em 1999, e não sabemos
o que causa as manchas solares. Não só não sabemos como tampouco
podemos controlá-las. Então, o problema ambiental de longo prazo precisa
ser investigado profundamente.
O que está ocorrendo, que é importante e sem nenhuma dúvida
preocupante, é que as emissões de carbono estão aumentando e isto
não é bom porque muda a atmosfera. Entre os anos 1950 e os anos
2000, passamos de 2 milhões de toneladas de carbono para 7 milhões
de toneladas por ano. Nesse ritmo, chegaremos a mais de 14 milhões
de toneladas por ano e isto a nossa atmosfera não pode processar.
A atmosfera terrestre pode reciclar biologicamente, de forma natural,
somente 4 milhões de toneladas de carbono por ano. Já estamos em
um ponto crítico, atualmente já são mais de 4 milhões de toneladas
carbono por ano, emitidas pelos combustíveis fósseis, que a atmosfera
não consegue processar, e isto é uma realidade. Não sabemos se podemos
controlar a atmosfera ou se podemos entender os processos de mudança
climatológica no longo prazo.
Encerro aqui meus comentários sobre o cenário ambiental.
Informo que este é um cenário muito longo e detalhado. Convido todos
a ler o documento completo do cenário. Vamos passar ao cenário mais
interessante para mim e para o Brasil, que é o cenário tecnológico.

High-tech Economy

O que vai ocorrer tecnologicamente nos próximos anos? Vou


começar com esta pergunta tirada do famoso relatório do Clube de Roma
do ano de 1972, denominado The Limits to Growth, que pode ser acessado
pela Internet, e tem um update de 30 anos. Quando começaram, entre

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Cenários Energéticos Globais 2020

1968 e 1972, os estudiosos fizeram todas as simulações e disseram que


ocorreria uma queda dos recursos, um pico e uma queda da população,
aumento da poluição e diminuição dos alimentos. Tudo isto ocorreria no
começo do século XXI. O interessante é que nada disso ocorreu. O Clube
de Roma disse que no ano de 2001 acabaria o petróleo e nunca tivemos
tanto petróleo quanto hoje. Quem escreveu isso foram cientistas do MIT,
meus professores. Jay Forrester escreveu o relatório, fez o software que
se chama System Dynamics e é, portanto, o pai do System Dynamics.
A razão para esse erro de previsão é que eles esqueceram de incorporar
a mudança tecnológica. Essa é a chave de tudo. A mudança tecnológica
altera os dados e eles não a incorporaram.
O interessante é que agora a tecnologia está alargando os limites do
crescimento. Como a tecnologia vai mudar esses limites? Vejamos quais
são os energy drivers deste século:
• mudanças tecnológicas;
• novas descobertas;
• substituição de recursos para criar uma matriz energética melhor;
• mais gás;
• energia renovável e
• novas forças energéticas.

Digo para vocês que vai acontecer muita coisa, pois a tecnologia
está ampliando e muito os limites do crescimento. Vamos fazer então
uma descrição de como será a economia no ano 2020. O que vai ocorrer
de mais contundente nos próximos 15 anos?

• A economia mundial vai chegar a 80 trilhões de dólares. O planeta


tem hoje uma economia em torno de 200 milhões de dólares.

• A Internet 4.0 (muito além da Internet 2.0 e da Internet 3.0) vai


conectar metade da humanidade e vamos ter uma população
de 7,5 bilhões de habitantes no ano 2020.

21
Cenários Energéticos Globais 2020

• A convergência tecnológica se acelera e haverá quatro grandes


tecnologias no futuro: micro ou nanotecnologia, biotecnologia,
infotecnologia e cognotecnologia.

Essas três grandes tendências estão profundamente inter-relacionadas


e uma potencializa a outra.
As quatro tecnologias do futuro, NBIC, nano-bio-info-cognotecnologias,
foram identificadas pela National Science Foundation, que é uma instituição
semelhante ao Ministério de Ciência e Tecnologia de vocês. A nano estuda
os átomos, a bio estuda as células, a info estuda os bits e a cogno estuda
os neurônios. Estas quatro tecnologias estarão se convertendo, nos
próximos 20 anos, nas principais tecnologias e, segundo os cientistas,
espera-se que elas mudem não somente a humanidade, mas também os
seres humanos. Vão mudar cada um de nós. Esta mudança não será no
sentido esotérico, mas no sentido prático de cada ser humano.
Sobre isto há um livro que se chama The Singularity is Near. É de um
cientista, Ray Kurzweil, do Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Recomendo-o para leitura. É um dos melhores livros existentes atualmente
sobre o que vai ocorrer no futuro, nos próximos 20 anos. Segundo Ray
Kurzweil, a inteligência artificial vai alcançar a inteligência humana
entre o ano 2029 e o ano 2035. Se outra pessoa dissesse isso, passaria
despercebido, mas Ray Kurzweil faz esses prognósticos há 20 anos. Ele
prognosticou quando o primeiro computador ganharia de um homem
jogando xadrez. Ele predisse isso dez anos antes de ocorrer, porque essas
tendências são passíveis de previsão. Sabemos o volume de programação
requerida para jogar xadrez e podemos calcular quando um computador
tem esse nível de performance, esse nível de atividade.
As quatro tecnologias NBIC estarão se convertendo, nos próximos
20 anos, em tecnologias motrizes, e eu fico feliz de ver que o Brasil está
investindo em várias dessas tecnologias do futuro. Então vamos continuar
falando da convergência tecnológica.

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Cenários Energéticos Globais 2020

Já ouviram falar da Lei de Moore? O que nos diz a Lei de Moore? Para
explicar, vou fazer antes um exercício de memória com vocês. Lembram-se
dos primeiros copydisk de 30 anos atrás? Vocês se lembram de quanta
memória tinha um floppy disk? Tinha 1024 bites. Quanto é 1.024 bites?
É um kilobite. Isto é um museu, 1.024 bites, um kilobite há 30 anos.
Mas essa foi a grande memória, o primeiro floppy disc do mundo, era
muito grande e era muito floppy. Em seguida vieram os disquetes de 5 e
¼, menores e menos floppy. E quanto de memória tinha isso? A última
geração chegou a 512 kilobites. Então passamos de 1K a 500K.
Em seguida, vieram outros, ainda menores, mais fortes, menos
floppy e com mais memória. E quanta memória tinham estes? 1.4 Mega.
E hoje temos os pen drives. Quem não tem um pen drive hoje em dia?
Qual é a memória? Um Giga. Passamos desde o primeiro floppy disk de
8 polegadas, que era de 1K, a este pequenino pen drive, forte, resistente
e que nunca falha. Tínhamos que levar sempre cinco disquetes porque
todos falhavam. O primeiro dispositivo de memória tinha 1 Kilobite e este
último tem 1 Gigabite. Quanto existe entre um K e um G? Temos um milhão
de vezes. Um milhão de vezes! Isto é mudança acelerada, diminuição de
preço e aumento da capacidade.
A Lei de Moore explica que a cada 18 meses a capacidade
de processamento dos computadores dobra, enquanto os custos
permanecem constantes. Segundo o próprio Moore, que foi o fundador
da Intel, o princípio deve vigorar ainda por mais vinte anos. Em vinte anos
teremos flash memories ou pen drives que deverão ter tantos transistores
quanto você tem neurônios em seu cérebro. O que está por vir em
vinte anos, segundo a Lei de Moore, é fascinante, porque vão ocorrer
desenvolvimentos com a computação quântica. Conhecem a computação
quântica? A computação digital é zero e um, zero ou um. A computação
quântica trabalha com múltiplas possibilidades. Além disso, há os circuitos
tridimensionais. Hoje, todos os circuitos dos computadores têm duas

23
Cenários Energéticos Globais 2020

dimensões. Imaginem quando ganharem uma terceira dimensão? Quando


forem elevados ao cubo? Inimaginável a potência que está por chegar.
E por último, têm as partículas subatômicas. Hoje em dia trabalhamos
com elétrons, mas os elétrons têm muitos elementos, como os quarks,
que ainda serão trabalhados.
Os estudos sobre o cérebro têm evoluído muito. Nos Estados
Unidos foi realizado um experimento de implante cerebral de um chip de
computador. Um jovem tetraplégico teve um chip conectado a seu cérebro.
Um chip muito pequeno, com 100 bits. E por meio desses bits ele controla
uma tela, a televisão e escreve cartas eletrônicas com seu pensamento.
O chip recebe os impulsos dos neurônios e os processa. Ele, por exemplo,
diz: ”escreva um e-mail a minha mãe” e o computador escreve o e-mail.
Pensa “abre a porta” e a porta se abre. E já estão fazendo experiências com
braços artificiais comandados pelo cérebro. Ele pensa que quer fechar ou
abrir o braço artificial e o braço artificial fecha e abre. É realmente incrível
e é somente o primeiro exemplo de um implante cerebral. E vão haver
muitos e muitos mais. Isto se fez há pouco menos de um ano e realmente
é fascinante para mostrar o que virá no futuro, porque pela primeira vez
na história estamos começando a estudar o cérebro humano.
Outra coisa que vai ocorrer é a inteligência artificial chegando aos
níveis da inteligência humana. Espera-se uma singularidade tecnológica
a qualquer momento. Chama-se singularidade tecnológica o momento
em que a inteligência artificial supera a inteligência humana. Quando a
inteligência artificial superar nossa inteligência, vai continuar se superando.
A evolução biológica é lenta e errática, e é superada pela evolução
tecnológica, que é rápida e desenhada. Este é um ponto fundamental
porque nós continuamos evoluindo biologicamente, mas isso leva
milhões de anos e hoje se pode fazer evolução tecnológica muito mais
rapidamente. Hoje sabemos como funciona o genoma e podemos fazer
mudanças nele de forma rápida e objetiva.

24
Cenários Energéticos Globais 2020

Os clones vão começar a aparecer muito em breve. Os primeiros


cyborgs e clones se converterão em normais, serão adaptados às
sociedades e seus números aumentarão mais rápido que todos os humanos
normais. De fato, eu digo que já existem 40 milhões de clones. Vocês
têm visto algum clone por aí? Não? Vocês nunca viram irmãos gêmeos?
Os irmãos gêmeos são clones biológicos, têm 100% genomas iguais. Vocês
crêem que, porque são clones biológicos, dois irmãos gêmeos podem
querer eliminar um ao outro? Ninguém diz a seu irmão gêmeo: “Como
você é meu clone, vou matá-lo”. Não funciona assim. Existem questões
filosóficas importantes permeando tudo isso. O que vai ocorrer com a
clonagem? Porque já existem clones, há quarenta milhões de irmãos
gêmeos ou clones, e eles não são iguais. Experimente dizer a um irmão
gêmeo que ele é um clone para ver o que ele lhe responde. Então, haverá
em breve, clones e cyborgs que alcançarão o número da população natural
humana e os humanos nunca mais serão os mesmos. De fato, os primeiros
trans-humanos aparecerão no ano de 2020.
Agora, quanto petróleo há no mundo? Demasiado. Muito petróleo.
Segundo a International Energy Agency, em Paris, o planeta Terra tem
cerca de 6 trilhões de barris de petróleo. No Orinoco, Venezuela, há
muitíssimo petróleo, mais que na Arábia Saudita. Além disso, estão se
fazendo perfurações mais e mais profundas. Um dos líderes mundiais em
exploração profunda é a British Petroleum. Há dois anos ela está fazendo
poços de mais de mil metros e a Petrobras está fazendo seus primeiros
poços com dois mil metros em água profunda e com três mil metros
em água ultra profunda. Isto era algo impensável na década de 1980. Há
20 anos não existiam poços horizontais. Hoje temos poços horizontais,
offshoring deepwater drilling, reservoir management (digital simulation),
offshore artic and remote offtake e temos sísmica tridimensional e sísmica
quadridimensional, todos estes são desenvolvimentos dos últimos 20 anos.

25
Cenários Energéticos Globais 2020

Existe muito petróleo no planeta. O Brasil, que pensava que não tinha
petróleo, agora extrai mais a cada ano e está exportando.
Entretanto, estão ocorrendo mudanças energéticas. É o fenômeno
das ondas de energia. Nos séculos XVII, XVIII e XIX toda a energia do
mundo vinha da combustão da madeira. A primeira onda energética foi
a da madeira, em seguida apareceu a onda do carvão, depois veio a onda
do petróleo. Agora estamos vivendo a onda do gás. Mas depois desta
virão outras como: a energia solar, o hidrogênio e todas as outras energias
renováveis. É interessante notar que cada onda energética é mais curta que
a anterior, tem menos carbono e mais hidrogênio. Se vocês observarem, a
lenha tem muito carbono. A hulha e o carvão mineral têm muito carbono.
O petróleo tem menos, o gás tem menos… Então há cada vez menos
carbono e mais hidrogênio. Existe uma tendência de descarbonização da
energia, ou uma hidrogenação da energia, até que cheguemos totalmente
ao hidrogênio. O hidrogênio é o elemento mais abundante do universo,
creio que todos vocês sabem que 99% da matéria do universo é hidrogênio.
O sol é hidrogênio, sua energia funciona em forma de hélio e gera energia
solar. Então, cada vez mais estamos hidrogenando a energia.
A rapidez disso depende de uma questão econômica. Quanto mais
alto o preço do petróleo, mais alternativas de fontes energéticas serão
desenvolvidas. Se os custos do petróleo e da energia forem baratos,
haverá menos fontes. Isto se chama, em termos econômicos, Energy
Return for Energy Investment – ERFEI. Estamos diante da matemática
energética. ERFEI é quanto vale produzir uma energia baseado no custo
dela. Há fontes energéticas muito caras e há outras mais baratas, e isto
pode ser medido. Por exemplo, o milho nos Estados Unidos é muito
caro. Produzir etanol de milho é muito mais caro que produzir etanol de
cana-de-açúcar. Então, o Energy Return for Energy Investment do milho
nos Estados Unidos é muito baixo. Além disso, existem políticas públicas
que ajudam a mudar isso, como os impostos sobre a gasolina e o carvão,

26
Cenários Energéticos Globais 2020

os impostos fixos sobre diferentes fontes energéticas. Uma represa tem


custos fixos grandes, não é verdade? Por exemplo, a represa de Itaipu
tem custos fixos enormes e uma planta térmica tem custos fixos muito
mais baixos. Açúcar versus petróleo. Desde o ano passado, pela primeira
vez na humanidade e devido ao Brasil e ao etanol brasileiro, o preço
do açúcar foi atrelado ao preço do petróleo. É a primeira vez que isso
ocorre na história. E vai continuar atrelado, porque representa uma fonte
alternativa de energia. Observem quanto vale o açúcar e como ele está
hoje em dia vinculado ao preço do petróleo em todos os mecanismos de
mercado, oferta, demanda, considerações de custo, substituto energético
e incentivo de políticas públicas.
Vamos ao conceito de Beyond Petroleum. Na América do Norte
e na Europa todos os postos da British Petroleum são solares. Eles têm
painéis solares que captam energia para a bomba de gasolina, para o
caixa eletrônico, para o freezer. A eletricidade da rede elétrica de cada
posto é extraída da energia solar. Se alguém pega um refrigerante na
geladeira, está utilizando energia solar. No Beyond Petroleum, as estações
de distribuição não são elétricas, são solares.
Há um conceito também fascinante, de um arquiteto norte-americano
chamado Buckminster Fuller – um dos principais futuristas dos Estados
Unidos – que é o conceito de Global Energy Network. Sua proposta era
conectar todo o planeta Terra com uma rede elétrica, de maneira que não
fosse necessário transportar petróleo ou gás. O mundo estaria conectado
eletricamente, de modo que tudo seria feito por transmissão de energia
elétrica, que é mais eficiente e mais barata, quando trabalhada corretamente.
Nos próximos anos espera-se que haja uma rede planetária de energia
elétrica. A primeira geração por meio de linhas físicas e a segunda geração
sem fio, como os telefones celulares. Teremos com certeza transmissão
energética sem fio como os telefones celulares móveis.

 Informações sobre Global Energy Network Institute no site < http://www.geni.org >.

27
Cenários Energéticos Globais 2020

Vamos agora falar sobre a mais fascinante de todas as energias, da


qual o Brasil é líder, que é a bioenergia e que eu chamo de energia eterna,
porque é a energia da vida. Existe um cientista muito famoso, chamado
Craig Venter, do setor privado, que decifrou o genoma humano. Craig
Venter esteve no Brasil em 2005, convidado pela Petrobras. Quando foi
apresentado ao presidente da empresa, ele disse: “Petrobras! Se vocês
não migrarem para a bioenergia, vocês não têm futuro”. O presidente
da Petrobras reagiu de forma muito inteligente, respondeu que o Brasil
é uma potência da bioenergia. Agora, indo ao ponto crucial, o que disse
Craig Venter é fascinante. Ele diz que ter energia química é muito fácil,
qualquer planta faz, todas as plantas o fazem e chama-se fotossíntese.
E o que é a fotossíntese? Dióxido de carbono, mais duas moléculas
de água, mais um pouquinho de sol, uma molécula de oxigênio e
uma molécula de água. Todas as plantas fazem isso há bilhões de anos.
As plantas produzem energia.
Este cientista está trabalhando com algo ainda mais fascinante, que
são bactérias. As bactérias são anteriores às plantas, e ele está trabalhando
com uma bactéria que se chama Petroleum artificiali, que vai gerar gasolina.
Ele espera alcançar isso em dez anos. Craig Venter informou ao presidente
da Petrobras que está desenvolvendo uma bactéria que toma água,
come dióxido de carbono – o que é ótimo pois dióxido de carbono gera
aquecimento global e excreta gasolina. O que crêem vocês que é a gasolina?
A gasolina é um hidrocarboneto muito simples, ou seja, não há nada de
complicado. Ele está pesquisando bactérias de frutas que comem dióxido
de carbono, tomam água e excretam gasolina.
Repito o que disse o Xeque Zaki Yamani, ex-Ministro do Petróleo
da Arábia-Saudita: “A Idade da Pedra acabou e não por falta de pedras,
a Idade do Petróleo vai acabar em breve e não por falta de petróleo”.
Quanta energia existe, segundo diferentes combustíveis? Quanta energia
tem 1kg de água a 100 metros de altura? Tem 0,001MJ. Se vocês têm

 Mega Joule; múltiplo 106.

28
Cenários Energéticos Globais 2020

1kg de bagaço, quanta energia tem? O bagaço tem 10MJ/kg. Se vocês


têm lenha, serão 15MJ/Kg. A média, para a gasolina, para o etanol, o
biodiesel, está por volta de 30, 40, 50, 60MJ/kg.
Existem outros combustíveis que têm mais energia, por exemplo, o
hidrogênio, que tem 120MJ/kg. O problema é que o hidrogênio é gasoso e
é melhor transportá-lo na forma líquida. Mas há também a energia nuclear
de fissão e de fusão, que é sumamente eficiente. Em seguida, temos o
hélio e a conversão de energia/massa, segundo a fórmula de Einstein.
Se vocês sabem a fonte e a equação de Albert Einstein (E=mc2, energia
é igual massa multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado), então
tem a quantidade de energia em Mega Joule por quilograma de matéria.
E ainda mais importante e mais incrível é a antimatéria. Segundo os
físicos, existe antimatéria e vocês podem também transformar antimatéria
em energia.
Vejamos, muito rapidamente, alguns tipos de energia.
Energia solar terrestre: se nós tivéssemos sete usinas com painéis
solares nos desertos, no Arizona, no Peru, no Chile, no Saara, na Arábia,
no deserto de Gobi e na Austrália, essas áreas gerariam toda a energia
que é consumida na Terra. O problema é que as pessoas não gostam de
ter painéis solares, por isso a idéia é colocá-los nos desertos.
Solar espacial: Pode-se ter painéis rodeando a Terra ou a Lua.
Estima-se que a Lua pode gerar 20TW de eletricidade para a Terra.
Observem a importância: segundo projeções da Nasa, podemos utilizar a
Lua para gerar eletricidade, e estamos falando de 20TW. O consumo de
toda a civilização humana hoje é de 13.5TW, e a Lua pode nos fornecer
20TW. A Nasa e o governo do Japão estão trabalhando há dez anos em
energia solar espacial. Seus planos iniciais para o ano 2020 estão parados
porque há muito dinheiro em petróleo e em outras fontes, mas o objetivo
real era de, no ano 2020, ter demonstrações tecnológicas de transmissão

 terawatt; múltiplo 1012.

29
Cenários Energéticos Globais 2020

sem fio, por microondas, de energia solar espacial para a Terra. Seriam
painéis de energia solar orbitando a Terra, recebendo energia solar e
mandando microondas para a Terra. Não tem nada de ficção científica e
nada impossível, trata-se apenas de um problema técnico.
Quando se fala em energia, é interessante observar quanta potência
requer o consumo de diferentes dispositivos. Por exemplo, um cérebro
humano consome, em média, 34W de potência. Quantos Watt consome
uma lâmpada normal? Há lâmpadas que consomem mais, porque são
maiores, mas uma lâmpada normal consome cerca de 60W, 75W. Então,
vejam que um cérebro não consome tanta energia. O corpo humano
inteiro, normal, consome 100 W. Agora, quanto é, por exemplo, a geração
da maior represa do mundo? Era Itaipu, 12GW, e agora vai a ser Três
Gargantas, da China, 18GW. Observem que a produção fotossintética
das plantas está entre 3,6 e 7,2TW. A civilização humana, todos juntos,
consumimos 13,5TW.
Agora, quanta energia solar recebe a Terra? A Terra recebe
continuamente 174PW,10 ou seja, 174 x 1015 Watt continuamente, v
ersus o consumo planetário, que é de 13,5TW, ou seja, 13, 5 x 1012 Watt.
Isso significa que nossa civilização consome menos de 1% do 1% do que
recebemos em energia solar. Pergunto então: crêem que falta energia na
Terra? Repito, consumimos menos de 1% do 1% da energia solar. Na Terra
o que sobra é energia, o que não sabemos é utilizá-la, transformá-la,
armazená-la e transportá-la. Mas isso é um problema técnico que
vamos resolver.
Existe uma classificação muito importante, desenhada há 30 anos
por um cientista e astrônomo soviético chamado Nikolai Kardashev
em parceria com um físico norte-americano chamado Freeman Dyson.
Usando as leis da termodinâmica, eles classificaram possíveis civilizações

 gigawatt; múltiplo 109.


10 petawatt; múltiplo 1015.

30
Cenários Energéticos Globais 2020

extraterrestres conforme a maneira como elas produziriam, consumiriam


e reciclariam a energia. Concluíram que haveria cinco tipos de civilizações.
De acordo com eles, o primeiro tipo de civilização é o Tipo Zero, no qual
nosso planeta se encontra. A civilização do Tipo Um consome a energia
de um planeta, 174PW. Por exemplo, para que fossemos uma civilização
Tipo Um, necessitaríamos consumir 174 x 1015 watt. Somos menos de 1%
do 1% de uma civilização Tipo Um, ou seja, não somos nada.
A Civilização Tipo Dois seria uma civilização que consome a energia
de um sistema solar. No nosso caso, para o sistema solar terrestre calcula-
se entre 386YW,11 ou seja 386 x 1024 watt. Em seguida, uma civilização
Tipo Três, consumiria a energia de uma galáxia, no nosso caso, da Via
Láctea. Uma civilização Tipo Quatro é aquela que consumiria a energia
de um cluster de galáxias.
Para terminar a exposição sobre esta classificação da energia do
universo, somos apenas o 1% do 1% de uma civilização Tipo Um. Estamos
começando. Isso serve para abrir os olhos sobre toda a energia que existe
no universo. E isto não é ficção científica, é ciência real. Já estamos falando
do estado do futuro.

Political Turmoil

O quarto cenário é de caos político. É o mais complicado e não vou


adentrar em muitos detalhes. O fato é que o 11 de setembro de 2001
é um marco importante, virou uma página da história da humanidade.
O mundo político mudou em 11 de setembro de 2001 porque o terrorismo
se globalizou. Os países e organizações internacionais estão desarmados
para este novo tipo de guerra que pode ser caracterizada por poucos
investimentos, quase nenhum deslocamento, uso de redes de contatos
nos países alvo e grandes impactos nos ataques.

11 yottawatt; múltiplo 1024.

31
Cenários Energéticos Globais 2020

O trágico é que hoje se destrói cada vez mais com menos.


Estima-se que destruir o Word Trade Center em Nova York custou somente
100 mil dólares. E sabem quanto destruíram? Cem bilhões de dólares, ou
seja, houve um múltiplo de um bilhão de vezes. Isto é realmente terrível
e muito preocupante. E não foi com armas nucleares. Agora, com a
biotecnologia e a nanotecnologia que podem ser mais letais, o atentado
do Word Trade Center vai parecer brincadeira de crianças, comparado ao
que está por vir.
Se os conflitos se agravarem no Oriente Médio e se alastrarem para
outras regiões do globo, existe um sério risco de esfacelamento de vários
Estados-Nação. Uma verdadeira desintegração nacional. A questão do
petróleo e da energia é fascinante porque a energia é o commodity número
um do mundo. Não há um commodity, um produto que se comercialize
no mesmo nível da energia, principalmente o petróleo. A atuação dos
terroristas e as guerras constantes vão impactar negativamente no
suprimento de petróleo elevando o preço acima de US$150 por barril.
Indubitavelmente, isto vai forçar investimentos em novas fontes geradoras
de energia e diversificação das matrizes energéticas, pressionando para o
fim mais rápido da Era do Petróleo.
Neste cenário de turbulências e incertezas, os países e as organizações
internacionais vão cometer inúmeros fracassos por tomar decisões
desacertadas. Seu poder será questionado e rebeliões vão estourar de
todos os lados devido à insatisfação das populações. O aumento da
expectiva de vida, e conseqüente envelhecimento da população, vai forçar
revisões de benefícios nas áreas da saúde e aposentadorias. Isto gerará
muito descontentamento e protestos que se elevarão cada vez mais
altos em função desses reajustes financeiros.
China e Índia aparecem como os novos players de peso. Os Estados
Unidos, em 2020, estarão com a sua economia abalada. Os altos custos
das guerras, a sucessão delas e a incapacidade de reduzir os conflitos

32
Cenários Energéticos Globais 2020

descreditarão o país em seu papel de liderança. A União Européia não


conseguirá desempenhar o papel até então garantido pelos Estados
Unidos, deixando um buraco importante a ser preenchido.
Mudanças climáticas e acidentes ambientais ocasionarão seca, fome
e doenças. O nível de desigualdade aumenta. Estão previstas grandes
migrações que vão colocar as sociedades em xeque. Os refugiados serão
de toda natureza – políticos, econômicos, ambientais –, criando novos
conflitos étnicos e raciais.
Nesse contexto, o crime organizado transnacional encontra o terreno
fértil para proliferação. Eles estarão infiltrados em toda parte e com muitos
recursos. Ou seja, é o caos.
Eu expus rapidamente a parte política, porque é sempre a mais
complicada, tensa e menos positiva. O objetivo aqui é instigar o interesse
pelo cenários que estão disponíveis no State of Future 2006.
Quanto à validade dos cenários, o futuro não está escrito em lugar
nenhum, não é verdade? Fazer previsões sempre é bom, e tanto melhor
sejam as previsões, melhor é o fato de fazê-las. Além disso, elas nos
permitem visualizar diferentes eventos possíveis.
Com as Nações Unidas, no Projeto Millennium, no estudo 2020
Global Energy Scenarios, elaboramos quatro cenários. Um muito bom,
que é o cenário tecnológico; dois problemáticos, o cenário geopolítico e
o cenário ambiental; e um normal, que é o cenário tendencial. Então, a
idéia é mostrar diferentes possibilidades que podem ocorrer para tratar
de entender como chegar às coisas boas e como evitar as más. Essa é
um pouco a idéia dos cenários. Eu não quero dizer que isto é melhor do
que o que fez o Clube de Roma ou o MIT há anos. O que queremos é
mostrar diferentes possibilidades e como tratar de fazer o que é bom e
evitar o indesejável.
Termino falando sobre um ideograma em chinês. Alguém aqui
sabe Chinês? Ninguém sabe Chinês? Pois é, deveríamos aprender. Digo

33
Cenários Energéticos Globais 2020

deveríamos porque eu também não falo Chinês. E, considerando que


um de cada cinco habitantes do mundo é chinês, e que a economia da
China será a maior economia do futuro, acho que precisamos investir no
aprendizado do idioma.
Na língua escrita chinesa, a palavra crise é composta por dois
ideogramas. O primeiro ideograma significa problema. O segundo significa
oportunidade. Então, para os chineses, em cada crise há um problema,
mas há também uma oportunidade. O futuro não está escrito, mas
provavelmente nos reserva muitas crises. Elas poderão ser vistas como
problemas ou tratadas como oportunidades.

34
Cenários Energéticos Globais 2020

comentários do debate em torno do futuro da energia

Energia: Principal commodity

Eu estou convencido de que quando a transmissão elétrica sem fio


for barata, ela será muito melhor que a eletricidade gerada por petróleo
ou gás. É o mesmo princípio que temos nos telefones hoje. Isso antes
era impensável, na verdade era inimaginável. Há 30 anos ninguém podia
imaginar os telefones celulares. Há 30 anos não existiam computadores.
O primeiro computador PC da IBM é de 1981, há 25 anos. O primeiro
telefone celular Motorola é de 1986, há 20 anos. A Internet não existia
há 10 anos. O famoso site Google tem nove anos, o Yahoo tem oito anos.
Existe hoje uma boa quantidade de coisas que eram impensáveis antes.
Como disse Buckminster Fuller, vamos ter transmissão elétrica sem fio,
provavelmente em 10 ou 15 anos e ela será mais barata, melhor e não
teremos que poluir o meio ambiente levando cargueiros com gasolina
ou gás.

Meio ambiente versus avanço tecnológico

Os problemas ambientais são reais. O fato que o dióxido de carbono


está aumentando agora é real. O que não compreendemos bem é a relação
direta com a temperatura, porque há muitos outros fatores também. Em
paralelo existem muitos grupos de ambientalistas que são extremistas,
que pensam que temos que regressar ao passado, à época das cavernas.
Eu creio que não. Temos que seguir avançando porque a tecnologia
vai nos dar as ferramentas para corrigir muitos problemas, inclusive o
aquecimento global.
Minha visão pessoal no Projeto Milennium é um pouco mais
institucional, mas penso que em 20 anos nós, seres humanos, vamos
poder controlar a temperatura, o clima, o meio ambiente. As tendências

35
Cenários Energéticos Globais 2020

tecnológicas mostram um tipo de aceleração incrível, que está ocorrendo


em todos os âmbitos, no da informação, no da nanotecnologia.
A nanotecnologia não existia há 10 anos e hoje há negócios com ela.
O cientista Craig Venter disse que na biotecnologia as mudanças são
ainda mais fascinantes. Ele conta que quando começou a trabalhar no
genoma humano, levou 10 anos para decifrá-lo, de 1990 ao ano 2000,
e isto custou 10 bilhões de dólares. Ele diz que hoje essa pesquisa leva
um ano e custa 100 milhões de dólares, mas dentro de 10 anos ele irá
fazê-la em um dia e custará 100 dólares. Há uma mudança acelerada
em todas as tecnologias e isso inclui também a área ambiental. Há 30
anos não tínhamos o conhecimento para predizer quando ia aparecer
um furacão, um terremoto, e hoje cada vez sabemos mais e mais. Leva
tempo, mas isso acontecerá. Então, eu creio que é necessário olhar com
o devido distanciamento os grupos de ambientalistas que querem deter
o desenvolvimento tecnológico, pois é o desenvolvimento tecnológico
que nos abre as portas do futuro.

Política e novas tecnologias

Muitas tecnologias existem há bastante tempo, mas não eram, até


então, economicamente viáveis. Hoje em dia, com o aumento do preço
do petróleo, muitas tecnologias se tornaram viáveis, começando com o
bioetanol. O etanol não era rentável quando o preço do petróleo era de
2 dólares por barril e hoje é rentável porque o petróleo está a 50, 60, 70
dólares. Então, novamente, é um problema de custos, é um problema
econômico, Energy Return for Energy Investment. Tudo depende da
rentabilidade da energia que se consegue com base nos investimentos
que são feitos.
A parte política é muito preocupante. Eu estive várias vezes no
Oriente Médio e sempre me pergunto o que vai acontecer nos países
árabes se o petróleo não for mais comprado em 20 anos. Primeiro, porque

36
Cenários Energéticos Globais 2020

eles têm petróleo para cinco séculos, mais ou menos, e, segundo, porque
podemos observar que os países com muito petróleo vivem em torno do
petróleo. São países ricos enquanto o petróleo é caro. O que vai ocorrer
com esses países quando o petróleo não valer nada? Os problemas
políticos poderão tomar proporções extremamente alarmantes, e o pior
deles é o terrorismo. Vejam o atentado de 11 de setembro. Realmente,
as implicações políticas relacionadas ao fundamentalismo islâmico são
preocupantes. Eu vivi três anos em países árabes e, para nós ocidentais,
é doloroso ver a condição das mulheres e dos homens nesses países.
A questão política é realmente inquietante. Estamos vendo o que
está ocorrendo em Israel e no Líbano, a zona mais conflitante da Terra, e
isso provavelmente aumentará quando o petróleo perder peso econômico.
A questão política impacta na questão energética e vice-versa. Como já
vimos, a energia é o principal commodity do mundo e, dentro da energia,
o petróleo. E o petróleo está, principalmente, em países politicamente
complicados. Tragicamente, são os países mais turbulentos do mundo os
que realmente têm petróleo: Irã, Iraque, Arábia Saudita, Rússia... Logo,
as implicações entre política e energia são preocupantes.
O objetivo de um cenário não é dizer: “isto é o que vai acontecer”, mas
simplesmente visualizar algumas considerações importantes que podem
ou não ocorrer. Esta é um pouco a idéia de falar destes cenários.

Novas fontes de energia

Grande parte do consumo petroleiro é para a indústria petroquímica


e atualmente diz-se que o mais difícil é mudar o consumo petroquímico
do petróleo. É possível, talvez, fazer a mudança dos combustíveis para os
automóveis, com etanol ou outros, mas para a produção petroquímica
é difícil. De novo, eu creio que é uma simples questão de tempo, porque
os pesquisadores já estão trabalhando em bactérias para gerar plásticos.
Nós às vezes pensamos que a composição dos combustíveis fósseis ou dos

37
Cenários Energéticos Globais 2020

polímeros é complicada. Mas isso não é verdade. Quimicamente falando,


nada mais simples que um plástico ou a gasolina. Se observarmos suas
fórmulas químicas, podemos ver que seus elementos são produzidos por
bactérias e plantas. Não há nada irreproduzível. Não há nada que uma
bactéria não possa produzir biologicamente. Se você quer produzir um
plástico que tenha nitrogênio e (ou) fosfato, ele pode ser produzido.
Outra coisa que disse Craig Venter foi: “Eu passei dez anos para ler o
genoma. Agora estou levando dez anos para escrever novos genomas.”
Ele disse que o genoma é algo muito fácil, é como um jogo de montar
do tipo Lego. Você só tem que entender a dinâmica de encaixe das peças.
Quando já sabe como funciona, você começa a colocar as peças em seus
devidos lugares, e não há nada complicado em um jogo Lego. Da mesma
forma, não há nada complicado em uma bactéria, em uma planta. Não
há nada complicado em você ou em mim. Isto realmente é para meditar,
é filosófico.
Hipoteticamente, se nos colocam, a você e eu, em um liquidificador
e viramos suco, sabe de que nós somos feitos? Temos átomos de
hidrogênio, oxigênio, carbono, sulfato, sódio etc. Em termos de elementos
químicos, um ser humano fisicamente decomposto não vale sequer 100
dólares. E mais, eu creio que todos sabem que somos formados de 70,
75% de água, hidrogênio e oxigênio – os elementos mais complicados
que temos.
O que quero transmitir, é que nós, biologicamente e quimicamente,
somos seres simples e hoje podemos programar e construir formas
de vida artificiais, até melhores que nós. Nisso estão trabalhando os
cientistas. Craig Venter disse ao presidente da Petrobras: “Agora eu estou
trabalhando dez anos para escrever genomas e escrever genomas bons,
que serão petroquímicos, plásticos ou gasolina.” Na realidade, não há
nada complicado em sua química ou na minha, ou na de um plástico ou
na da gasolina. Pela primeira vez na história da humanidade sabemos

38
Cenários Energéticos Globais 2020

como funciona a bioquímica, e é fácil, não é complicado. Repito: o que é


plástico? Alguns elementos distintos, não há mais nada, e isso pode ser
feito por uma bactéria específica.

Crescimento populacional

É fascinante que, pela primeira vez na história humana, estejamos


vendo a população se estabilizar. Isso nunca aconteceu antes. Existem
países em crise demográfica. Pela primeira vez a população do Japão, da
Rússia, da Alemanha está caindo, isto nunca foi imaginado. O que quero
dizer é que se estima que a população planetária se estabilize nos próximos
40 ou 50 anos em torno dos 8, talvez 9 bilhões de habitantes, e a partir
daí provavelmente comece a cair. Não há um problema demográfico como
se pensou até há pouco tempo. Esse é um paradigma velho, o de que
havia muita gente. Atualmente vemos que há uma redução na população
mundial e que isso se acentuará no futuro, porque cada vez mais as
pessoas têm menos filhos. Hoje temos um ou dois filhos, aos 40 anos de
idade. Antes tinham 10 filhos aos 20 anos. É importante pensar nisto,
no ponto de equilíbrio da população. A população está se estabilizando
no planeta Terra.
Diante dessa nova constatação, o primeiro impulso de todos os
países, inclusive do Brasil, é pensar que lhes faltará gente, que haverá
pouca gente. Mas, definitivamente, esta não é a questão fundamental.
Basta comparar o Brasil, que é um país grande e rico em recursos naturais,
ao Japão, que é um país minúsculo e pobre em recursos naturais. Kenichi
Ohmae, ex-diretor de consultoria da McKinsey no Japão, diz que “O Brasil é
um país rico com gente pobre e o Japão é um país pobre com gente rica”.
O Brasil é, atualmente, o 5º país mais populoso enquanto o Japão está em
10º lugar. Olhem a diferença no nível de desenvolvimento dos dois países.

39
Cenários Energéticos Globais 2020

O problema não é o tamanho da população, mas se a população está


educada ou não. Essa é a prioridade. O que importa não é se há muita ou
pouca gente, mas o quanto essa gente está educada, está preparada.

Responsabilidade ambiental e subdesenvolvimento

Sobre compromisso ambiental, firmar tratados, minha opinião é que


isto está muito relacionado com outro ponto que é o de culpar alguns
países de fazerem coisas “más”. Eu não creio que Brasil, Venezuela e
Argentina vão se desenvolver culpando os Estados Unidos, a Europa ou o
Japão. Se nós não somos desenvolvidos, não é culpa dos Estados Unidos,
do Japão, da Europa: é culpa nossa. Se não mudarmos a mentalidade, no
século XXII vamos continuar sendo subdesenvolvidos e vamos culpar os
africanos, e no século XXIII vamos continuar subdesenvolvidos e jogaremos
a culpa nos marcianos. O Brasil não é um país subdesenvolvido por causa
dos Estados Unidos, nem de Portugal. O mesmo acontece na Venezuela,
meu país de origem. Não podemos jogar nossa culpa nos demais, temos
que mudar essa mentalidade.
Além disso, é preciso fazer estudos comparativos. Por que o Japão
era pobre no século XIX? Por que os japoneses vieram ao Brasil? Vieram
porque, na época, o Japão era um país muito pobre e Brasil era um país
promissor. Então, é necessário fazer esses estudos e não jogar a culpa nos
demais. A culpa é nossa por havermos procedido muito mal. Independente
do que façam ou não os Estados Unidos, nossos países, Brasil, Venezuela
e Argentina têm que fazer mudanças, e elas têm que ser para o bem.

Consumo e produção de energia

O Clube de Roma falou muito do que se chama Fator 4, que


significa duplicar o output reduzindo à metade o input. Isso permite ter
uma eficiência quatro vezes maior. Existem muitas tecnologias que nos

40
Cenários Energéticos Globais 2020

permitiriam reduzir quatro vezes o consumo energético de maneira simples


e possível. Vou dar um exemplo real que nem sempre é considerado: os
carros. Nos Estados Unidos, um carro consome em média um galão de
combustível a cada 20 milhas. No Japão, o carro mais barato, o pior carro
rende 50 milhas por galão. Isso quer dizer que o pior carro japonês é uma
vez e meia mais eficiente do que um bom carro dos Estados Unidos, e
isto acontece em um mundo globalizado. Com a mesma tecnologia, o
mesmo conhecimento, a mesma Internet, os japoneses são muitíssimo
mais eficientes em seus carros hoje.
Existem diferenças ainda entre os países na maneira como funcionam
seu consumo e sua demanda, e é preciso considerar isso. O ideal é que
a China e a Índia sigam as melhores práticas, mas não o fizeram ainda.
No caso do carvão, a China é terrivelmente ineficiente, é o pior país em
produção de dióxido de carbono. Então, no que tange à responsabilidade
ambiental, não se deve culpar somente os Estados Unidos, a Rússia ou
o Japão. Os chineses têm grandes responsabilidades, pois são muito
ineficientes e não estão melhorando seus sistemas de produção de
energia a base de carvão. No mundo de hoje, com toda a tecnologia e a
Internet, espera-se que os chineses e os indianos melhorem suas técnicas
de produção e de consumo.

Poder de destruição

Sou ainda muito otimista com o futuro e creio que seguiremos quase
até a uma utopia das possibilidades humanas, isto é, se sobrevivermos.
Não vou ficar frisando “o lado obscuro da força”, mas ele está aí. Temos
as bombas nucleares, armas bioquímicas, biológicas e nanotecnológicas
que podem destruir toda a vida. Tenho um amigo que trabalha com este
tema nas Nações Unidas, e ele tem dois cenários para o que pode vir por
aí. O cenário positivo é a destruição total da vida humana nos próximos

41
Cenários Energéticos Globais 2020

20 anos. O cenário negativo é a destruição de todas as formas de vida no


planeta Terra. Isto, porque temos muito poder tecnológico e contextos
geopolíticos conturbados.

As hidrelétricas

O Brasil é um caso muito interessante pelo desenho de sua matriz


de consumo energético. A Venezuela se parece bastante, pois 90% do seu
consumo elétrico é hidrelétrico. Nós temos a represa de Guri, que é de 10
GW, só um pouquinho menor que Itaipu. Há outros países hidrelétricos
bem importantes, como os países nórdicos e escandinavos – Finlândia,
Noruega, Suécia – que têm uma participação enorme no setor de
hidroeletricidade. Alguém mencionou aqui que somente em ditaduras se
podem construir estas grandes represas, como a represa chinesa. O que
nós visualizamos, depois de haver entrevistado centenas de experts ao
redor do mundo, é que nos próximos 20 anos continuará a diversificação
das fontes de energia utilizando-se carvão, petróleo, gás. Virão novas
fontes renováveis, mas não haverá uma mudança dramática.
Daqui a 30 ou 40 anos, a energia solar e o hidrogênio irão aparecer
realmente como fontes importantes. É necessário ter a visão do período de
tempo que estamos falando, porque em 20 anos o cenário tendencial médio
é que não haverá mudança na matriz energética da maioria dos países.
Simplesmente crescerão, de forma um pouco diferente, fontes alternativas
para compensar a redução eventual dos combustíveis fósseis. Então, nos
próximos 20 anos, não deve haver mudanças. Em 40 anos, segundo os
experts, a energia solar e a energia do hidrogênio irão se consolidar.
Outro ponto importante é que se pode aumentar a eficiência
no gasto elétrico, porque somos muito ineficientes na maneira como
utilizamos a eletricidade. Hoje em dia, já existem edifícios inteligentes,
que consomem muito menos eletricidade e que têm painéis solares para

42
Cenários Energéticos Globais 2020

captar energia solar. Há muitíssimo que melhorar ainda. Não são mudanças
revolucionárias, são mudanças de apenas 5%, mas gradualmente, o
somatório desses 5% resultará em porcentagem considerável. Nos
próximos 20 anos vão ocorrer essas mudanças relativamente pequenas
que influenciarão positivamente na continuidade da geração de
hidroeletricidade. Talvez não em conformidade com o potencial hidrelétrico
existente, sobretudo em países como Brasil e Venezuela, que têm um
grande potencial, mas ela continuará fazendo parte da matriz.

Influências culturais

As diferentes culturas são pontos fundamentais nesses estudos.


Estivemos trabalhando com um japonês, um árabe, um norte-americano,
uma húngara e eu, venezuelano. Havia uma relativa boa representação
planetária, mais ou menos eqüitativa. Mas é claro, existem as especificidades
culturais. Também é preciso considerar que neste encontro estou trazendo
o conteúdo do estudo, mas com a minha abordagem. Se tivéssemos outro
participante do estudo falando aqui, ele seguramente teria falado de outra
forma sobre os mesmos temas. Então, é importante fazer essas considerações
culturais. É importante ter tolerância, sem nenhuma dúvida.

Novas tendências

Há 30 anos pensava-se que a terceira onda seria a energia nuclear e


realmente não foi. Nos últimos 30 anos, viu-se que o que mais cresceu foi
o setor do gás. Entretanto, o gás natural ainda tem carbono e, portanto,
é um problema porque produz dióxido de carbono. Neste sentido, existe
uma grande expectativa em relação ao hidrogênio. A combustão do
hidrogênio é a combustão mais limpa porque gera somente água. O gás
polui, ele produz dióxido de carbono. De qualquer maneira, a tendência
para os próximos anos é seguir descarbonizando ou hidrogenando as
fontes energéticas.

43
Cenários Energéticos Globais 2020

O que vai ocorrer nos próximos 20 ou 30 anos é realmente


inimaginável. Não podemos visualizar a mudança tecnológica que virá.
Se vocês lerem o livro que lhes recomendei, The Singularity is Near,
When Humans Transcend Biology, e se seu autor Ray Kurzweil estiver
correto – e todas as tendências indicam que sim – em 20, 25 anos
teremos computadores com mais transistores do que nosso cérebro tem
neurônios, e estes computadores começarão a interconectar-se. O que
virá é indescritível, impensável, inimaginável. É algo assim como quando
nós passamos de símios a seres humanos. Há três, quatro milhões de
anos, éramos monos. Biologicamente, entre um chimpanzé e um humano
há somente 1% de diferença em genoma. O genoma de um macaco ou
de um chimpanzé é 99% igual ao seu ou meu genoma, e esse pequeno
salto de 1% mudou radicalmente nosso presente e nosso futuro. O que
vai ocorrer nos próximos 20 ou 30 anos, quando se desenvolverem as
primeiras formas de inteligência artificial? É absolutamente impensável.
É como sugerir a um macaco que se coloque em nosso lugar. Um mono
não visualiza a civilização humana. Um humano atual não pode imaginar
o que vai ocorrer com o surgimento da inteligência artificial. Por isso eu
não quero fazer tampouco algum prognóstico para 30 e muito menos 40
anos, porque eu sou um dos que crêem que realmente virá a inteligência
artificial neste período de tempo. E não porque o diga Bill Gates ou porque
o diga um cientista do MIT, mas porque eu vejo as mudanças tecnológicas
e vislumbro a grande mudança tecnológica da humanidade.
A humanidade vai vivenciar um fenômeno evolutivo ao que ocorreu
com os símios em relação a nós. Haverá aqueles que permanecerão pobres
como estão e que não buscarão evoluir ou que jogarão a culpa nos demais
– o que não evoluir jogará a culpa no outro, que lhe dirá: “Eu não posso
evoluir em seu lugar”. Isso também vai acontecer com seres humanos que
não evoluirão. Haverá outros que vão incorporar a inteligência artificial
à sua civilização e poderá haver aí uma separação da humanidade. Isto é

44
Cenários Energéticos Globais 2020

o que se chama de transhumanos e de pós-humanos. Isso é algo muito


sério e muito preocupante se não funcionar. Veremos humanos que não
vão querer evoluir, que não vão querer mudar. O porquê eu não sei, há
humanos que gostam de estar assim, e até prefeririam voltar ao tempo
das cavernas. Mas isso é muito filosófico. Vamos nos preocupar com as
coisas que podemos resolver nos próximos cinco, dez, vinte anos e, em
seguida, em 20 anos nos reuniremos novamente para falar disto.

O ser humano e as novas tecnologias

O ser humano evolui lentamente, muito lentamente, em sua maneira


de ver a vida, inclusive a ética. A ética muda também, mas bem lentamente.
Por exemplo, há cinco mil anos era ético, era moral o canibalismo. Hoje
em dia isso não é ético e não é moral, mas antes era. Quase todas as
civilizações praticaram o canibalismo há milhares de anos. A escravidão há
2000 anos era ética e moral, inclusive no país que inventou a democracia,
a Grécia. Um em cada cinco idosos era escravo e tanto para o escravo
como para o dono do escravo na Grécia era ético, era normal ser ou ter
escravos. Hoje a escravidão está fora de nossos princípios, mas existiu.
Outro exemplo: há 30 anos era antiético pensar na fertilização in vitro,
gerar um ser humano fora do útero materno. Hoje há milhões de crianças
que nasceram graças à fertilização in vitro.
Então a ética também muda, mas muito lentamente. Nós seguimos
evoluindo e somos, apesar de não parecer, cada vez mais compreensivos,
mais tolerantes, menos canibais, menos escravagistas. Mas leva tempo e a
tecnologia muda aceleradamente. A mudança tecnológica é exponencial.
Estamos chegando então a um ponto de tensão importante em relação
ao desenvolvimento tecnológico. Clonagem: o que vai ocorrer? Haverá
pessoas que vão querer clonar-se em cinco ou dez anos. Como reagirá a

45
Cenários Energéticos Globais 2020

sociedade diante disso? Haverá muita gente que vai querer comer peito
de frango e será possível fazer peito de frango sem o frango. Para que
criar um frango se você não quer comer o frango inteiro? Além disso, é
muito melhor ambiental e financeiramente. Você não tem que fazer os
ossos nem as asas, você faz só peito de frango e pronto. Ou o bife de
Kobe, no Japão, sem a vaca. Dá para fazer puro bife de Kobe sem a vaca.
Tudo isto vai ser possível em cinco ou dez anos, ou um pouco mais tarde,
segundo o desenvolvimento atual.
Como irão reagir – e aí o tema das diferentes culturas – as diferentes
sociedades? Por exemplo, sobre a clonagem, metade do mundo,
aproximadamente, crê na reencarnação. Os budistas, os hinduístas e
outras religiões orientais crêem na reencarnação e para eles clonar-se é
algo normal. Se você vai reencarnar, melhor reencarnar-se em você mesmo.
Como dizemos em espanhol: “Mais vale mau conhecido que bom por
conhecer”. Então, o que vai acontecer quando a religião cristã e a religião
muçulmana reagirem porque não admitem a reencarnação?
Se não formos mais tolerantes diante destas grandes mudanças
que se aceleram, aparecerão muitos problemas. E, em verdade, isto é
muito sério porque, se olharmos em uma dimensão galáctica, em uma
dimensão universal, observaremos fatos interessantes. Existem experts que
se perguntam por que não há vida em outros planetas que conhecemos.
A pergunta é terrível. Mas a resposta é mais terrível ainda. Os experts
respondem que, quando as civilizações chegam ao grau de conhecimento
que temos, elas se autodestroem. Estamos então no umbral de criar um
paraíso ou de destruir-nos. Como lhes disse, no cenário positivo, destruir
a vida humana inteira e no negativo, destruir todas as formas de vida,
até as bactérias. Então tudo é muito bonito, mas também aterrorizante
se não fizermos as escolhas certas.

46
Cenários Energéticos Globais 2020

O CONFERENCISTA

José Luis Cordeiro nasceu em Caracas, Venezuela, em 1962. É professor,


pesquisador e escritor. Fez seus estudos no Instituto Tecnológico de Massachusetts
(MIT) em Cambridge, EUA, onde completou a licenciatura (BSc) e o mestrado (MSc)
em Engenharia Mecânica, com especialização em Economia e Línguas. Estudou
Economia Internacional e Política Comparada na Universidade de Georgetown
em Washington, EUA, e obteve o título de Mestre em Administração de
Empresas (MBA) no Instituto Europeu de Administração (INSEAD), na França,
concentrando-se na área de finanças e globalização. Lecionou no MIT, no Instituto
de Estudos Superiores de Administração (IESA) e na Universidade Central da
Venezuela (UCV). É fundador e presidente da Sociedade Mundial do Futuro
Venezuela (SMFV), co-fundador da Associação Transhumanista Venezuelana (ATV),
diretor do Millennium Project (Núcleo Venezuelano), do Conselho Americano da
Universidade das Nações Unidas (UNU), da Associação Transhumanista Mundial e
do Extropy Institute, assessor do Center for Responsible Nanotechnology, membro
da World Future Society (WFS), da World Futures Studies Federation (WFSF) e
do Comitê Acadêmico do Centro de Divulgação do Conhecimento Econômico
(CEDICE). Foi diretor da Associação Venezuelana de Exportadores (AVEX) e do
Clube de Roma (Capítulo Venezuelano), participou das negociações iniciais da
Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e é assessor de várias companhias
e instituições internacionais. Está incluído na edição Marquis de “Who´s Who
in the World”.
Publicou os seguintes livros: “El Desafio Latinoamericano”, editado pela McGraw-
Hill; “El Gran Tabú Venezolano”; “La Segunda Muerte de Bolívar”; “Benesuela vs.
Venezuela”; tem participação nos livros “6 Propuestas para Rehacer a Venezuela”,
“100 años de Historia: Sembrando el Petróleo” e “Venezuela Repeticiones y
Rupturas”. Publicou ainda, “La Segunda Muerte de Sucre”, dedicado à economia
equatoriana, e “¿Pesos o dólares?”, sobre como dolarizar o México. Atualmente
trabalha como consultor independente.

47
Cenários Energéticos Globais 2020

1. INTRODUÇÃO

O estudo dos Cenários Energéticos 2020 resultou em quatro cenários.


Estes cenários fornecem uma detalhada relação de causa e efeito sobre
desenvolvimentos potenciais que podem influenciar a situação energética
global atual até 2020. O estudo foi realizado sob a iniciativa e com o apoio
financeiro da Kuwait Petroleum Corporation e Dar Almashora Consulting.

O estudo foi estruturado em três fases:

• Fase 1: Identificação de cenários energéticos significativos e


relatórios de pesquisa relacionados e seleção de quatro eixos para
os cenários: ambiental, econômico, geopolítico e tecnológico.
Cada um pode ser alto, baixo e moderado. A equipe técnica
selecionou a combinação de condições de eixos que poderiam
produzir os cenários mais interessantes e plausíveis para discussão
posterior no processo da política energética.

Os quatro cenários são:

1. Business as Usual
Crescimento moderado em rupturas tecnológicas
Impactos moderados de movimentos ambientalistas
Crescimento econômico moderado
Mudanças moderadas na geopolítica

51
Cenários Energéticos Globais 2020

2. Environmental Backlash
Crescimento moderado em rupturas tecnológicas
Impactos elevados de movimentos ambientalistas
Crescimento econômico moderado
Mudanças moderadas na geopolítica

3. High-tech Economy
Crescimento elevado em rupturas tecnológicas
Baixos impactos de movimentos ambientalistas
Crescimento econômico elevado
Poucas mudanças na geopolítica

4. Political Turmoil
Crescimento moderado em rupturas tecnológicas
Baixos impactos de movimentos ambientalistas
Crescimento econômico moderado/baixo
Importantes mudanças na geopolítica

• Fase 2: Delphi de duas rodadas para coletar julgamentos de


experts nos setores energéticos e afins.

√ A primeira rodada classificou elementos-chave obtidos dos


cenários globais e pesquisa relacionada estudada, identificada
na primeira fase.

√ A segunda rodada coletou comentários sobre esboços de


cenários construídos a partir dos resultados da primeira
rodada do Delphi.

• Fase 3: Os resultados de ambas as rodadas foram usados para


construir os cenários finais.
Os quatro cenários considerados são:

1. Business as Usual. Este cenário presume que a dinâmica


global de mudança continua sem grandes surpresas ou muitas

52
Cenários Energéticos Globais 2020

mudanças nas fontes de energia e padrões de consumo,


diferentes daqueles que podem ser esperados como resultado
da dinâmica de mudança e tendências já presentes.

2. Environmental Backlash. Este cenário prevê que o movimento


ambientalista internacional se tornará muito mais organizado;
alguns fazendo lobby para ações legais e novas regulamentações
e processos em tribunais, enquanto outros se tornam violentos
e atacam indústrias de combustíveis fósseis.

3. High-tech Economy. Este cenário presume que as inovações


tecnológicas serão mais aceleradas do que as expectativas atuais,
com impactos sobre o mix de suprimento de energia e padrões
de consumo, a uma magnitude similar à da Internet iniciada nos
anos 90.

4. Political Turmoil. Este cenário prevê o crescimento de conflitos,


guerras e o colapso de vários países em estados falidos, levando a
crescentes migrações e instabilidades políticas em todo o mundo.

53
Cenários Energéticos Globais 2020

54
Cenários Energéticos Globais 2020

2. quatro cenários energéticos

Cenário 1: Business as Usual

Crescimento moderado em rupturas tecnológicas


Impactos moderados de movimentos ambientalistas
Crescimento econômico moderado
Mudanças moderadas na geopolítica

Um Caldeirão de Contradições

O mundo de 2020 é um caldeirão de contradições. É uma época boa


para alguns e ruim para outros, tanto promissora como decepcionante,
cheia de oportunidades aparentes e promessas quebradas, um mundo
tanto de esperança como de desespero. Houve apenas algumas rupturas
tecnológicas na área energética e em outras áreas afins. Impactos
ambientais, mesmo que não benignos, pelo menos ainda não foram
catastróficos. O crescimento econômico tem sido cíclico; a geopolítica e o
terrorismo alternam períodos de brutalidade e quietude. Resumindo, com
algumas exceções, a maioria das tendências passadas permanece em nosso
tempo. Os deslocamentos que ocorreram parecem ter uma qualidade
aleatória e são aplaudidos ou desprezados vastamente na base da política,
etnicidade ou nacionalidade. Entretanto, uma tendência – crescimento
contínuo de demanda por energia – alcançou um crescente, e a maioria
das pessoas no mundo agora sente suas conseqüências.

55
Cenários Energéticos Globais 2020

Muitos historiadores têm escrito sobre decisões ruins tomadas por


governos – desde o cavalo de Tróia até a guerra no Vietnã. Em 1984, a
historiadora Barbara Tuchman escreveu The March of Folly, um livro que
descreve enormes erros governamentais. Esses erros muitas vezes não
foram sutis, e qualquer um, mesmo que parcialmente informado, deveria
saber de antemão que poderiam ocorrer catástrofes. Havia bons dados à
disposição. Soluções alternativas foram propostas. Mas, apesar dos altos
riscos, o futuro para aqueles tomadores de decisão foi ruim. Por quê?
Governos algumas vezes mentem (como, por exemplo, nos incidentes do
Golfo de Tonkin e U-2), ou, para sermos generosos, estão mal-informados.
Muitas vezes é mais fácil para oficiais seguirem com o fluxo do que aceitar
riscos (embora algumas das decisões ruins fossem efetivamente de risco).
Otimismo político, crença cega em resultados benéficos (mas de baixa
probabilidade de acontecimento), ao invés de catástrofes mais racionais
de lata probabilidade, decisões nebulosas. Julgamento ruim, má sorte,
mantendo interesses próprios acima dos interesses sociais, amoralidade,
timidez e xenofobia: tudo prevalecendo sobre a racionalidade. Estas forças
miríades formaram a civilização nos últimos 50.000 anos e continuam a
moldar o nosso tempo também. É, de fato, o cenário Business as Usual.

A Vida Continua

O melhor exemplo da insensatez de hoje é a nossa situação


energética. As decisões ruins que nos colocaram neste ponto certamente
qualificam-se como um disparate global colossal, tão importante como
em qualquer história. Os dados sobre reservas, preços e alternativas
energéticas têm sido amplamente conhecidos por décadas, soluções
alternativas aparentes estavam disponíveis, o resultado de fazer pouco ou
nada foi relativamente fácil de prever, e mesmo assim havia forças atuando,
que conduziram ao erro em agir decisivamente. O crescimento econômico
foi frustrado, a pobreza existe em abundância, os criminosos ditam as

56
Cenários Energéticos Globais 2020

regras, e decisões morais de política estrangeira foram comprometidas


pelo interesse em satisfazer a necessidade do mundo por petróleo e outras
fontes de energia.
Será que os países do mundo deveriam ter previsto que os países
consumidores de petróleo seriam mantidos reféns dos fornecedores?
Pode apostar. Havia muitos sinais: os discursos anti-EUA de Hugo Chavez
na Venezuela, governos bombásticos no Irã, instabilidade política na
Nigéria, as demandas energéticas maciças e crescentes da China e Índia,
e as alianças entre China e fornecedores tais como Arábia Saudita e,
em especial, países africanos como Líbia, Sudão e Angola. Na primeira
década do novo século, líderes iranianos disseram, direta e forçosamente,
que usariam o suprimento de petróleo como arma, para evitar sanções
destinadas a forçá-los a colocar seus planos de lado no desenvolvimento de
armas nucleares. Assim, se o preço da gasolina nos Estados Unidos poderia
ser de US$1 por litro, sem efeito discernível sobre o desenvolvimento
econômico ou comportamento do consumidor, por que não US$1,5 ou
US$2? De acordo com a US Energy Information Agency, atualmente – em
2020 – países industriais importam três quartos do petróleo utilizado da
região do Golfo do Oriente Médio.
As pessoas começaram a indagar: “Quem está ficando com todo
aquele dinheiro?”. Parecia haver apenas uma fraca conexão entre o preço
do petróleo e o preço da gasolina nos postos. As políticas de impostos
dos membros da União Européia estavam levando a maior parte da renda
econômica geral do petróleo na Europa, superando a parte que vai para
os membros da OPEC. Assim, havia um clamor para a diminuição dos
impostos e cogitou-se que os impostos de petróleo pagos a governos da
União Européia (UE) deveriam, em vez disso, ser destinados para membros
mais pobres da OPEC.
Houve alguns momentos inspiradores. Em 2006, o presidente George
W. Bush anunciou um plano energético que deveria ter baixado em muito
a dependência dos EUA do petróleo importado até 2025, ou seja, daqui

57
Cenários Energéticos Globais 2020

a cinco anos. Era previsível que os membros da OPEC reagiriam de forma


negativa, visto que a sua fonte de renda e o poder político estavam sendo
desafiados. Mas a preocupação foi desnecessária, pois isso não ocorreu.
Por quê? Porque o compromisso dos países industriais com o petróleo foi
forte demais. Porque ninguém estava convencido, realmente convencido,
de que o mundo havia chegado ao “pico petrolífero” – aquele ponto no
tempo em que as reservas de petróleo crescem mais lentamente do que
a produção – e porque os países produtores de petróleo e companhias
petrolíferas fizeram o seu melhor para convencer o mundo de que havia
petróleo mais econômico a ser encontrado. De fato, muitas pessoas ainda
não estão convencidas disto.
Uma pesquisa de opinião pública realizada outro dia perguntou às
pessoas o que elas pensavam sobre a nossa presente situação e perspectiva.
Os pesquisadores constataram que cerca de 37% dos pesquisados pensam
que estão melhor hoje do que em 2005, e quase 40% imaginam que, em
2040, daqui a 20 anos, as coisas serão muito melhores do que hoje.
Um outro plano maciço foi proposto em conjunto, em 2009, por
outro presidente americano e pelos primeiros-ministros britânico, alemão
e japonês. Eles anunciaram um programa nos moldes do programa
espacial Apollo, mas tendo energia renovável como foco (ver box a seguir).
Era um plano mundial, não apenas um plano dos Estados Unidos. Eles
denominaram o programa de “O Novo Fogo”. Desta vez ele acendeu uma
faísca; ele excitou nações, laboratórios científicos, indústrias – até mesmo
o setor petroleiro –, porque muitas pessoas constataram que o tempo do
pico petrolífero estava provavelmente próximo e, o que é mais importante,
que o plano era sério. É claro que havia ceticismo. Alguns outros fatores
ajudaram a convencer as pessoas: altos preços de energia estavam ficando
ainda mais elevados, havia inflação em todo o lugar, e as reservas estavam
diminuindo. Evidentemente, o tempo para agir – apesar de custeios
limitados, dos interesses próprios de certas indústrias e da disputa por
orientações adequadas dentro do programa – havia passado.

58
Cenários Energéticos Globais 2020

O Novo Fogo

Uma Proposta Conjunta


dos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Japão

Governos tomam decisões difíceis. A maioria das grandes decisões é


difícil porque elas têm resultados incertos, porque, uma vez tomadas,
elas não podem ser desfeitas. A incerteza e o risco de prejudicar a vida
das pessoas causam insônia nos tomadores de decisão, ao pensarem
sobre o caminho correto. Para algumas poucas decisões disponíveis,
contudo, os riscos parecem ser bem básicos e os benefícios potenciais
ultrapassam em muito o potencial negativo. Por causa dessas decisões,
nós nos perguntamos: “Por que não?”
Avançar audaciosamente na pesquisa energética é uma dessas
decisões. Alcançamos o pico na produção de petróleo em todo o
mundo. As tentativas para atender aos desafios desse evento têm sido
tímidas demais.
Propomos uma meta global de dez anos de desenvolvimento
de fontes e sistemas energéticos, que reduzirão a taxa mundial de
consumo de petróleo pela metade, sem aumentar a poluição, uma
meta facilmente mensurável. O programa é vasto e envolve muitas
indústrias e nações. Durante um período de dez anos serão planejadas
novas fontes energéticas e infra-estruturas. O programa criará empregos
não-exportáveis nos Estados Unidos e em todos os países que tomam
parte no programa, e estimulará a nossa economia e as economias das
nações cooperativas. Ele melhorará o desenvolvimento econômico de
países pobres que contribuem para as suas metas. A tecnologia em
geral será melhorada – não apenas a tecnologia de produção e uso de
energia, mas também em muitas outras áreas, derivando invenções que
atingem a saúde e a educação. O programa pode vir a ajudar a reduzir
a ameaça de terrorismo, à medida que nos distanciamos da percepção
de que a sede por petróleo motiva as políticas no Oriente Médio.

59
Cenários Energéticos Globais 2020

Algumas pessoas argumentaram que uma política energética


diversificada é a nossa melhor estratégia antiterrorismo.
Calculado em dólares do ano 2020, o programa Apollo dos
anos 60 custaria US$100 bilhões durante dez anos. Digamos que
este novo programa energético também custe US$100 bilhões. De
onde virá o dinheiro? Da economia nos gastos militares, do estímulo
econômico que o próprio programa criará, de fundos adequados
vindos do esforço de contribuição de outras nações, e de gastos
reduzidos de petróleo importado.
Indústrias em todo o mundo se beneficiarão com o programa. P&D
agilizados testarão novos conceitos de energia e projetarão – numa
base inicialmente experimental e em seguida em larga escala – a infra-
estrutura para fornecer as novas formas de energia aos consumidores.
As respostas podem não estar numa epifania ou descoberta científica
única, mas numa rede de políticas e práticas reforçadoras que formam
sistemas robustos, capazes de reduzir incertezas operacionais e tornar
riscos toleráveis. A engenharia e a educação científica serão revigoradas;
novas carreiras serão criadas.
E a população? Ela está pronta. Já existem incentivos para encorajar o
uso de trânsito de massa. Estes incentivos serão fortalecidos. O programa
resultará em melhorias no meio ambiente – ar e água mais limpos.
A fila para carros híbridos está aumentando. Muitos consumidores
olham o preço da gasolina e se perguntam até quando isto vai continuar,
antes que as pessoas em todos os lugares estejam pagando US$2 por
litro ou mais nos postos de gasolina. A população entende que, para
controlar o seu futuro econômico, precisa agir, com vistas em limitar
a dependência do seu país das decisões dos fornecedores.
E os países produtores de petróleo do Oriente Médio? Como reagirão
a um plano projetado para diminuir as suas vendas? A decisão racional
para eles seria aumentar a produção e baixar os preços do petróleo,
de modo que fraquejaríamos e voltaríamos ao velho vício do petróleo
que aprendemos a amar. É claro que devemos encher nossas reservas

60
Cenários Energéticos Globais 2020

quando o preço cair, mas devemos continuar comprometidos com


o programa. Uma vez que a nossa resolução é aparente, a melhor
estratégia dos produtores de petróleo, se eles pensarem claramente,
será juntar-se ao programa e ajudar a buscar soluções para o futuro.
Antigos fabricantes de chicotes fecharam seu negócio quando as
charretes deram lugar ao automóvel. Se esses fabricantes de chicote
começassem a produzir carros, o mundo, pelo menos para eles, teria
sido bem diferente. O mesmo acontece com os países produtores de
petróleo. Quando a próxima onda de energia apontar no horizonte, eles
deveriam perceber que é melhor subir na onda do que ser afogado por
ela. Pelo menos em um cenário plausível, alguns dos países produtores
de petróleo com o pensamento no futuro poderiam ajudar a custear o
esforço global para encontrar a substituição para o petróleo.
Considere a China. Esta nação aproveitará a queda dos preços
do petróleo que os países produtores de petróleo usam para
atrair o Ocidente; isto seria uma oportunidade, que promoveria o
desenvolvimento econômico da China. Os chineses podem até mesmo
se enxergar como “os últimos consumidores“ emergentes, aproveitando
a nova abundância de petróleo à medida que os antigos consumidores
mudam para novas fontes. Mas tal oportunismo carrega as sementes
da sua própria derrota, visto que novos sistemas energéticos entram
on-line e substituem mecanismos de consumo obsoletos.
Desde o início do programa, os países em desenvolvimento terão
uma pesquisa importante a realizar, promovendo assim a sua capacidade
científica inerente, reduzindo a sua evasão intelectual e provendo novas
metas e incentivos para a educação. Com os frutos desse programa,
esses países podem acompanhar um desenvolvimento econômico
mais eficiente; podem saltar para uma economia não dependente de
combustíveis fósseis.
Essas ações beneficiarão o mundo e farão mal apenas àqueles
que tripudiam sobre a nossa dor: os terroristas e aqueles que têm
lucros inescrupulosos vindos da manipulação dos preços da energia.
Vamos pedir a todas as pessoas que apóiam este programa para

61
Cenários Energéticos Globais 2020

que pratiquem a conservação, e a todas as nações que cooperam


para que iniciem programas de incentivo que encorajarão o uso sábio
dos combustíveis.
Em setembro de 1962, o presidente Kennedy disse: “Escolhemos ir
à Lua. Escolhemos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas não
porque elas são fáceis, mas porque elas são duras, porque aquela
meta servirá para organizar e medir o melhor das nossas energias
e habilidades, porque aquele desafio é um que estamos dispostos
a aceitar, um que não estamos dispostos a postergar, e um que
pretendemos ganhar…”. Este é um grande modelo para a nossa época.
Escolhemos solucionar a crise energética à vista, não porque ela é fácil,
mas porque continuar como estamos negará ao mundo dos nossos
filhos o melhor que o futuro tem a oferecer, manterá o mundo num
caminho de destruição, um caminho que promete riquezas a alguns
e pobreza a muitos. Escolhemos solucionar a questão energética de
forma duradoura e não aceitar remendos de curto prazo. Escolhemos
criar o nosso futuro e não simplesmente deixá-lo acontecer.

O Novo Fogo está Esfriando

Não obstante, a excitação gerada pelo programa “Novo Fogo” não


resultou num esforço globalmente unido como havia sido esperado, mas, ao
invés disto, em projetos gradativos que são menores que a soma das suas
partes. Interesses especiais prevaleceram. Que oportunidade desperdiçada!
Houve tentativas vigorosas para instigar todos os países a assinar os
acordos pós-Kyoto, que reduziriam as emissões de gases do efeito estufa
aos níveis de 1990 (as tentativas falharam), padrões fortalecidos de energia
eficiente, planos de comércio de carbono, esquemas de taxação sobre o
uso de combustível (existentes em muitos países), educação para criar uma
conscientização energética (parece bom, mas colocar em prática é mais
difícil), reajuste de orçamentos para pesquisa científica básica relacionada
(mas principalmente pesquisas que foram programadas).

62
Cenários Energéticos Globais 2020

Um lobby estava pressionando por um programa avançado de


geração de reator nuclear de fissão, mas o armazenamento seguro de
materiais nucleares ainda impedia os engenheiros. Alguns projetos eram
imaginativos, tais como a agricultura com uso da água do mar ao longo das
linhas costeiras desertas do mundo – cultivando plantas osmotolerantes
nas praias de regiões como a Somália, para fabricar biocombustíveis
competitivos, prover bacias carboníferas adicionais e estabilizar a erosão
costeira. Energia solar espacial era vista em geral como desordem no céu
e excessivamente cara de qualquer forma; mesmo os especialistas no ano
2020 prevêem que isto ainda está duas ou três décadas no futuro. Células
solares terrestres têm melhorado quanto à eficiência, mas ainda não estão
suficientemente eficientes ou baratas para um uso abrangente.
Agora o mundo está há uma década no programa “Novo Fogo”, e
os países que poderiam ter desenvolvido alternativas para o petróleo não
o fizeram. Houve apenas rápidas remediações tipo band-aid e tímidos
projetos que contemplaram interesses especiais, não os programas
unificados e maciços que poderiam ter sido justificados. Os programas
de desenvolvimento tecnológico têm sido amplamente deixados para
a iniciativa privada, e o mercado crê que a instabilidade nos preços de
energia deve limitar os níveis de investimentos. Quando as pessoas hoje
se perguntam como o mundo chegou a este ponto, freqüentemente elas
apontam para muitos culpados: corrupção, ganância, extremismo ambiental
irresponsável, busca de lucros de curto prazo e politicagem, empresas
petrolíferas, excessos no estilo de vida, falta de imaginação, e uma falta
de compreensão de que os recursos são, afinal de contas, finitos.
Os países produtores de petróleo estavam satisfeitos com essa
situação; controlavam o fornecimento, e amplamente definiam os preços.
Esses países pensavam que tinham muito a perder se desenvolvimentos
tecnológicos produzissem alternativas viáveis para o petróleo.
Conseqüentemente, quando parecia que os altos preços do petróleo

63
Cenários Energéticos Globais 2020

poderiam justificar investimentos de larga escala em sistemas energéticos


alternativos, o preço do petróleo caiu, o fornecimento tendeu a aumentar,
e as justificativas econômicas de novos programas evaporaram. Longe
dos olhos da mídia, a OPEC ameaçou repetidas vezes definir o preço
do petróleo em euros, uma ação que poderia ter favorecido a Europa e
ter-se mostrado onerosa aos Estados Unidos. A ameaça foi suficiente para
causar tensão entre os países industrializados.
A Índia e a China decidiram estender os seus acordos cooperativos
de energia, fortalecendo o seu “Memorando por Aumento de Cooperação
na Área do Petróleo e Gás Natural” anterior, que delineou a cooperação
abrangente no comércio de hidrocarboneto e sua licitação, exploração e
produção conjuntas. Esta ação soou ameaçadora a outros países.
Havia outros sinais, bem acima do horizonte, de que os grandes
países consumidores de energia estavam sendo manipulados pelos
produtores e de que havia problemas à frente. Os países consumidores
ocidentais, em especial, poderiam ter enxergado o óbvio e antecipado o
resultado. Conseqüentemente, eles, e a um maior ou menor grau todos
os consumidores de petróleo, agora são reféns. Se você perguntar aos
presidentes de países exportadores de petróleo por que as coisas ficaram
do jeito que estão, muitas vezes eles dirão: “É sua própria culpa. Você tem
consumido além dos seus recursos. Nós não fazemos você consumir o
petróleo – nós vendemos o que você pede, e a falta de desenvolvimento
de novas alternativas ressalta a sua dependência em energia fóssil e sua
relutância em considerar o futuro em suas políticas”.
Por outro lado, os presidentes de companhias petrolíferas dizem:
“Estamos fazendo o melhor que podemos; nossas mãos estão atadas.
Os acionistas exigem um retorno, assim precisamos proceder como temos feito
no passado. Não houve nenhuma estratégia nacional que teria nos permitido
dedicar recursos suficientes para pesquisar alternativas energéticas”.

64
Cenários Energéticos Globais 2020

E alguns ainda afirmam: “Temos muitas décadas de suprimento ainda,


então vamos agir lenta e sabiamente”.

O Custo do “Vício”

O mais importante impulsionador de economias em todo o mundo


tem sido o preço do petróleo. Hoje, em 2020, o óleo cru custa acima de
US$ 160 o barril (US$ 90 por barril em moeda de 2005), mais alto em um
fator de três nos últimos 20 anos (figura 1). E o preço pode estar acima
de US$ 200 por barril até 2025.

Apesar do preço mais alto do petróleo, a demanda se mantém crescente.


A figura 2 mostra o histórico e uma projeção de crescimento da demanda de
energia em quatro países ou regiões nas últimas duas décadas.

65
Cenários Energéticos Globais 2020

A crescente demanda tem resultado em aumento de preço em um


apertado loop de feedback. O preço mais alto tem encorajado mudanças
na mistura de combustível e melhorado a conservação e eficiência da
energia. A figura 3 mostra a quantidade de energia necessária para
produzir US$1.000 em GDP global nos últimos 50 anos. Como podemos
ver, o mundo estava indo muito bem até aproximadamente 2005, quando
a eficiência estava em seu pico. As metas simples de conservação estavam
sendo colhidas – limites de velocidade de automóveis, incentivos para
carros menores e para isolamento residencial, impostos sobre veículos
utilitários esportivos, incentivos para substituir o consumo de energia
antiquado e ineficiente pela indústria, e melhorias no trânsito de massa.
A curva começou a subir novamente, e agora está no nível do ano 1990.
Por que isto? Foi necessário um período de tempo para as pessoas verem
que as melhorias haviam terminado. Os economistas afirmam que perto

66
Cenários Energéticos Globais 2020

de 2010 os preços mais elevados de energia levaram o mundo a utilizar


todas as mudanças mais fáceis de eficiência que estavam disponíveis – a
partir daí, melhorar a eficiência era excessivamente dispendioso.

Os ambientalistas tiveram direito à palavra – pelo menos até


certo ponto. Eles focaram na legislação e nos tratados internacionais,
enquanto a poluição continuou aumentando. Algumas poucas políticas
foram mudadas. O comércio de créditos de carbono tornou-se um jogo,
com diversos especialistas e sua modelagem computacional liderando o
caminho. A norma Corporate Average Fuel Economy foi reforçada em
quase todo o lugar. Outras mudanças políticas incluíram o subsídio de
fontes renováveis por meio de taxas sobre fontes fósseis, regulamentações
mais rígidas de eficiência, apoio ao “teletrabalho”, eliminação de tarifas
de importação para etanol e outros biocombustíveis, e a cobrança, aos
donos de automóveis, do acesso ao centro das cidades.

67
Cenários Energéticos Globais 2020

Além disso, acreditava-se que os mercados iriam encorajar o


desenvolvimento de combustíveis renováveis, mas os efeitos que agora
são bastante evidentes eram tão insignificantes quanto derramar um copo
de água no oceano. (E falando de oceanos, os seus níveis agora estão
subindo cada vez mais.)
Também foi surpresa para muitos economistas que inicialmente o
crescimento econômico tenha continuado, apesar dos altos preços do
petróleo. Em 2015, no entanto, veio uma época em que os preços mais
altos do petróleo começaram a influenciar o crescimento. Isso ocorreu
quando os preços do petróleo subiram acima de US$ 100 por barril e
quando a taxa de descoberta de novas reservas caía continuamente
abaixo das taxas de produção. Naquele ponto, a velha complacência
estava desgastada. As pessoas dirigiam menos, compravam menos,
preocupavam-se mais, e sentiam frio no inverno. Problemas de água
incomodaram muitos países no mundo. Empregos eram perdidos e os
governantes não conseguiam esconder o fato de que a maioria dos países
consumidores eram reféns dos combustíveis fósseis. Ademais, a inflação
subiu e até mesmo atingiu as alturas em algumas nações. Algumas novas
indústrias surgiram em resposta a essas novas pressões (ver box), mas o
efeito em cascata foi uma erosão gradual do otimismo.
Países que tinham matérias-primas de energia não-convencional, tais
como o Canadá, enxergaram a situação mudando a seu favor. As areias
de alcatrão de Alberta atraíram investimentos maciços, e uma importante
indústria de extração, processamento e exportação surgiu ali. Isso serviu
para expandir as reservas e conter o entusiasmo para o desenvolvimento
de fontes não-renováveis. Agora, areias de alcatrão suprem quase 3% da
energia mundial. Uma vez que o Canadá tinha um produto exportável,
era do seu interesse manter os preços elevados. De forma similar, o Brasil,
um grande exportador de etanol, também estabeleceu políticas de preço
que lhe deram o mais alto retorno. O que os EUA e a Europa viram como
uma fuga da tirania de preços da OPEC mostrou-se uma fantasia.

68
Cenários Energéticos Globais 2020

O mundo costumava pensar que a inflação havia sido dominada.


Pensou-se que, de alguma forma, o Conselho do Banco Central Americano
e outros bancos centrais europeus e asiáticos haviam encontrado uma
forma de controle da inflação, bem como um meio de promover um maior
crescimento econômico, a qualquer taxa que parecesse apropriada. No
ano de 2020, fica evidente que a inflação retornou fortemente. Nos EUA
e na UE, em 2015, a taxa chegou a 9% (ver figura 4 sobre o histórico
e uma breve previsão de uma medida de inflação); em outros países a
inflação de dois dígitos era normal, com alguns países chegando a níveis
próximos do pânico.

Amamos Nossos Carrinhos de Golfe

Uma nova forma de transporte emergiu. Alguns destes carros


parecem pequenos Rolls Royces, outros, pequenas Ferraris. Desde 2010,
em muitos países já existem indústrias que fabricam carrinhos de golfe
especializados; seus usuários, na maioria pessoas de idade, os adoram.
Muitas cidades criaram uma infra-estrutura especial para esses veículos,
de fato, ciclovias ampliadas, que permitem aos carrinhos irem dos
centros residenciais remotos até a cidade em segurança. Certamente
eles são lentos, 60 km/h no máximo, mas são muito eficientes, pois
a maioria é à bateria. Alguns desses carrinhos são acionados por
pequenos motores internos à combustão, que utilizam uma quantidade
muito pequena de combustível. O seu uso começou em comunidades
onde os idosos com boa situação financeira tendiam a se concentrar.
Eles proporcionaram um transporte confiável de curta distância.
Os veículos existem em abundância nos subúrbios de cidades
suficientemente ricas, em especial onde se construíram estradas e vias
especiais. Se contarmos o número de pessoas acima de 65 anos que
têm uma renda anual acima de US$ 100.000, como o nosso segmento
de mercado, vemos que existem 10 desses carrinhos por 100 pessoas,
uma fatia bastante significativa. Eles podem assumir várias formas:
réplicas de carros clássicos (montadoras vendem direitos de propriedade

69
Cenários Energéticos Globais 2020

intelectual para os modelos), modelos modernos e surpreendentes, e


piadas sobre rodas como a versão completa do Titanic com chaminés.
As pessoas os compram completos ou vão a pequenas oficinas que
customizam as plataformas de fábrica.
Três importantes catalisadores ajudaram no crescimento dessa
mini-indústria:
1 Cidades e comunidades disponibilizam estradas reservadas para
tais veículos. Estas não são estradas no sentido comum; elas
suportam baixos pesos e, assim, são muito mais baratas, e podem
ser compartilhadas com bicicletas, patins rollerblade e cavalos, e,
o mais importante, elas podem ser bonitas, arborizadas, parecidas
com parques.
2 Concessão de licenças especiais para o uso dessas novas estradas.
Antigamente, os filhos de pais idosos tinham que lhes dizer, em
algum momento, que estes não eram mais capazes de conduzir
carros convencionais com segurança – uma experiência traumática,
uma vez que isto era uma sentença para uma mudança no estilo
de vida, de mobilidade independente para a dependência. Também
para o Departamento de Trânsito não foi fácil dizer aos candidatos
idosos que eles não dispunham mais da acuidade necessária para
dirigir veículos convencionais. A solução: os novos carrinhos de
golfe proporcionaram uma alternativa. O avanço da idade não mais
significa imobilidade. As novas licenças têm restrições, é claro.
3 Encorajamento por organizações como a AARP e seguradoras para
que os idosos dirijam veículos que são mais seguros do que os
automóveis convencionais. Para as seguradoras, foi uma questão
de economia; para os grupos de idosos, isto abriu novos domínios
de experiência para os seus clientes.
Não apenas o mercado cresceu, mas subprodutos inesperados
surgiram. Para listar alguns: há corridas de carrinhos de golfe em
Daytona e Indianápolis, administradas por crianças, além de gincanas e
rallies, envolvendo competições de distância e duração. Os adolescentes
estão pleiteando uma nova classe de pré-licenciamento para o seu grupo
etário. Esta nova categoria de veículos não tomou o espaço do mercado
de carros convencionais; ela acrescentou uma nova dimensão.

70
Cenários Energéticos Globais 2020

Por quê? O número de baby boomers (geração pós-guerra) nascidos


em 1960 estava no auge. Em 2015 eles tinham 55 anos e, conseqüentemente,
a taxa de aposentadoria estava em seu auge e a demanda por serviços –
em especial planos de saúde – também chegou ao ápice. Em função do
número de pessoas necessitando de cuidados, mas também porque os
planos de saúde eram caros, os planos de aposentadoria corporativos
estavam quebrando e muitos planos necessitavam de socorro do governo.
É verdade que a taxa de crescimento populacional diminuiu em todo o
mundo, e em 2020 o mundo apresenta tímidos 7,5 bilhões de pessoas,
aproximadamente 25% a mais do que em 2000. Todavia, governos gastando
com armas, guerras, reconstruindo países nos quais eles guerrearam, e
a subseqüente manutenção da paz esgotaram as riquezas nacionais e os
déficits atingiram as alturas. A vigilância antiterrorismo também tem sido
muito cara. A Mãe Natureza, igualmente, não tem ajudado. Seja qual for o
motivo – alguns dizem que é a mudança climática –, terremotos, furacões
e pânico universal parecem freqüentes demais.

71
Cenários Energéticos Globais 2020

A Cascata de Conseqüências

O preço da energia foi, contudo, o motivo principal para o


crescimento da inflação e verificou-se que os países produtores de petróleo
tinham mais controle sobre esse preço do que as agências reguladoras.
Déficits comerciais cresceram em nações importadoras de energia. Visto
que o preço do petróleo importado era tão alto, muitos importadores
tiveram de aumentar o seu suprimento monetário para ajudar a reduzir
os seus déficits comerciais. Muitos países reclamaram seus empréstimos
internacionais. Ação: imprimir mais dinheiro. Resultado: inflação. Muitos
economistas pensam que é sorte que a inflação tenha permanecido baixa
como ficou. O único motivo de a inflação começar a diminuir em muitos
países depois de 2015 foi a recessão, na maioria dos lugares, e uma
depressão em alguns. Quando isso aconteceu, alguns viram o fantasma
da “grande depressão” pairando no ar. Mas o período durou apenas cinco
anos e agora a recuperação está se tornando aparente, embora seja um
mundo diferente e difícil.
A crise econômica foi um problema especial para os países do
Oriente Médio, que tinham uma elite rica e uma multidão sempre crescente
de jovens desempregados e de baixa educação. Da mesma forma que
aconteceu na França em 2006, demonstrações de jovens cheios de raiva,
sem esperanças de um futuro melhor, exigiram ações de seus governos;
pessoas em todos os cantos queixaram-se da sua pobreza. Quando
a inflação global disseminou-se nesses países, as pressões políticas
tornaram-se intensas e resultaram em desafios aos regimes elitistas no
Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes, e em toda parte. Nos lugares
onde esses desafios tiveram êxito, nos países do Oriente Médio, o controle
político e do suprimento de petróleo geraram governos fundamentalistas.
Como conseqüência, essas mudanças conduziram a guerras de ofertas
e confrontos entre o Ocidente e China e Índia por suprimentos de

72
Cenários Energéticos Globais 2020

petróleo. Algumas pessoas suspeitam que os regimes fundamentalistas


projetaram suas políticas petrolíferas para incitar a China e a Índia contra
o Ocidente.

Carros Chineses para o Mundo

A demanda chinesa por petróleo agora, em 2020, excede a dos EUA


e da UE; na realidade, ela representa 30% do crescimento na demanda de
petróleo desde 2000. A China, em 2010, era o maior consumidor mundial
de muitas commodities: alumínio, cobre, aço e carvão. O que alimentou
esse enorme aumento na demanda por petróleo? Com certeza o elevado
crescimento econômico foi o responsável, mas mais importante que isso
foi a mudança do principal meio de transporte privado chinês da bicicleta
para o automóvel. Em 2000, o país tinha apenas 10 veículos motorizados
por 1.000 pessoas, comparados a 765 nos EUA. Em 2020, aquele número
era de 200 veículos motorizados por 1.000 pessoas na China, e a maioria
dos analistas industriais prevê mais crescimento por vir.
Tanto o mercado nacional quanto o mercado de exportação eram
importantes para a China, e isso provocou a mudança da face do mundo
e da situação energética mundial. As políticas econômicas da China
favoreceram o desenvolvimento da indústria automobilística. Em 2000, as
montadoras chinesas produziram mais de 2 milhões de veículos; o volume
de vendas subiu mais de 14%; a produção de automóveis foi o caminho
para o futuro. Feng Fei, vice-ministro do Conselho Estatal da China do
Centro P&D, disse em 2004: “A indústria automobilística alcançou um
estágio para a produção em larga escala na China”. Ele prognosticou
que a China seria capaz de exportar carros tipo Sedan em larga escala, e
eles o fizeram.

73
Cenários Energéticos Globais 2020

Liteiras? Aí está a dica.

Quando a China ingressou na Organização Mundial do Comércio


(OMC), as montadoras em todo o mundo viram este país como um
grande mercado potencial para os seus produtos, e a exportação de
carros para a China tornou-se um importante alvo de marketing em
Detroit, Stuttgart e Tóquio. Foi fácil multiplicar a população projetada
da China pelo número de carros por pessoa nos EUA, Alemanha
ou Japão para obter surpreendentes números sobre o potencial do
mercado automobilístico chinês. Além disso, com a China na OMC, as
tarifas de importação seriam limitadas.
Entretanto, havia impedimentos para esse sonho de Cadillacs em
Beijing e BMWs em Xangai. A China não iria entregar o mercado a
empresas estrangeiras, em especial em vista do consumo de petróleo,
superpopulação e poluição implicados. Desta forma, um plano de
desenvolvimento foi iniciado em Beijing para nutrir a jovem indústria
automobilística nacional, para encorajar o projeto de um carro
compatível com as necessidades chinesas, e para encontrar maneiras,
no ínterim, para usar veículos importados para preencher a lacuna
entre produção e demanda nacional.
As montadoras estrangeiras viram a oportunidade na demanda
como um sinal de esperança e construíram excesso de capacidade
baseada nesta expectativa. Decisão ruim.
O carro chinês evoluiu a partir de um sedan de três rodas que se
tornou popular nos centros urbanos chineses no início do século.
O novo sedan projetado para o uso nacional era muito leve, tinha motor
pequeno capaz de funcionar com etanol puro ou gasolina, e estava
disponível nas versões três ou quatro rodas, e – o melhor de tudo –
apresentava uma carroceria de plástico polido, sendo a maior parte
reciclável. Um incentivo era que, se o carro falhasse, ele poderia ser
trocado por um novo. Inicialmente o preço era subsidiado pelo governo;
mas quando foi alcançado um volume suficiente de venda, os carros
eram lucrativos, mesmo custando metade do preço dos importados.
A concorrência internacional murchou.

74
Cenários Energéticos Globais 2020

A partir daí, as exportações se desenvolveram. Houve um pouco


de customização para mercados estrangeiros, principalmente com
acréscimo de sistemas eletrônicos. Imagine um carro com aparência
formidável, que levava quatro pessoas, atingia 40 km/l a uma velocidade
de pico de 120 km/h, com uma autonomia de 640 km a um preço
abaixo de US$ 10.000. Na versão elétrica, os quilômetros por litro (km/l)
eram infinitos. As montadoras mundiais continuaram a construir seus
produtos, mas em menor quantidade do que esperavam, com o foco
em nichos e imagem, e se tornaram fornecedores de peças e add-on
de pós-mercado para os carros chineses. Muitos fracassaram e muitos
se uniram.

Agora, em 2020, o design do sedan chinês evoluiu para um veículo


totalmente elétrico. Este ano, a China produziu mais de meio milhão de
unidades enquanto, todos os demais países juntos produziram outro meio
milhão. Os carros elétricos fizeram muito sentido na China; a tecnologia
era bem conhecida e era vista como uma maneira de o carvão do país ser
usado para proporcionar mobilidade e minimizar a poluição em centros
urbanos. A maioria das grandes cidades baniu a entrada de veículos que
utilizavam gasolina ou diesel. Assim, a mudança para propulsão elétrica
foi bem-vinda em todo o mundo. Muitos países ofereceram créditos
em impostos para os compradores de veículos elétricos. O mercado de
exportação estava à espera dos carros elétricos chineses. Conseqüência:
apesar das suas tentativas para sobreviver introduzindo novos motores
(por exemplo, motores Stirling), montadoras da velha geração fracassaram,
e companhias petrolíferas se consolidaram.

O Fornecimento Energético Mundial

As conseqüências do desenvolvimento sobre o fornecimento


energético mundial estão resumidas na tabela 1. Como se poderia
esperar, a demanda por petróleo e carvão convencional aumentou

75
Cenários Energéticos Globais 2020

consideravelmente desde 2006, e a demanda por gás natural cresceu


quase 50%. Apesar do interesse científico na energia nuclear de fusão,
considerada importante pelos chineses, o processo ainda é visto como
muito distante.

Tabela 1 - Evolução da Energia Mundial (Cenário Business as Usual)

2005 2020 GANHO


PERCENTAGEM
CONSUMO CONSUMO CONSUMO OU PERDA
DE MUDANÇA
(milhões de TOE) (milhões de TOE) (milhões de TOE)

TOTAL (soma dos


11,409 15,544 4,135 36,2
componentes abaixo)

Petróleo 3678 4,300 622 16,9

Gás natural 2420 3,600 1,180 48,8

Carvão (convencional) 2778 3193 415 14,9

Biomassa e resíduos
793 1400 607 76,5
tradicionais

Fissão nuclear 624 790 166 26,6

Água 634 750 116 18,3

Outras biomassas
Metanol 370 388 18 4,9
Etanol
Óleo não-convencional de
88 350 262 297,7
areias de alcatrão e xisto
Processos totais de carvão
da liquefação, oxigenação, – 500 – –
gaseificação
Solar (fotovoltaica, torres de
energia solar, solar termal e 11 100 89 809,1
solar espacial)

Eólica 8.5 100 92 1076,5

Fusão nuclear 0 0 0 –

Gás metano 0 22 22 –

Geotérmico 4.8 50 45 941,7

Marés .1 1 1 900,0

Fonte: O Projeto Millenium, baseado na pesquisa energética de 2006

76
Cenários Energéticos Globais 2020

A utilização energética pela população cresceu mais de 36% desde


2005. O fornecimento de óleo convencional cresceu a uma taxa muito
mais lenta (17%), perdendo assim a sua parcela de mercado. Entretanto,
observe que o óleo de areias de alcatrão cresceu rapidamente e agora
fornece 2% do total mundial.
O carvão convencional também cresceu mais lentamente do que o
total (15%) e, desse modo, perdeu parcela, embora os novos processos de
carvão tais como a liquefação e gaseificação tenham crescido rapidamente
e agora somem aproximadamente 3% do total. O gás natural não apenas
cresceu enormemente, mas agora vem contribuindo com uma quantidade
de energia proporcional à do carvão e do óleo. A fissão nuclear e a
hidráulica continuam a suprir quantidades significativas, cerca de 5% do
total energético. Todas as demais chamadas fontes renováveis promissoras
ainda estão em estágio de estudo. Uma tecnologia promissora é a energia
solar terrestre. Embora projetos solares espaciais tenham fracassado, a
energia solar terrestre vem crescendo. As dúvidas sobre energia solar
espacial resultaram dos elevados custos antecipados, da incerteza a respeito
da tecnologia e do balanço energético não comprovado do esquema.
(há uma certa suspeita de que interesses pró-óleo engajaram-se em lobby
anti-energia espacial). Contudo, a energia solar terrestre (fotovoltaica,
solar termal e torres de energia solar) está atingindo no presente 1% do
fornecimento energético mundial.
O etanol é um combustível e aditivo de combustível especialmente
importante. Ele vem de muitas fontes: resíduos, celulose, milho, cana-de-
açúcar, óleo de palmeira, sorgo doce, capim-navalha etc. Assim, políticas
agrícolas em todo o mundo foram ajustadas a fim de encorajar este
suprimento renovável. A pesquisa genética em novas variedades de maior
produção de álcool foi incentivada. Projetos energéticos foram alterados
para aceitar misturas de combustíveis nas quais o etanol (e outros alcoóis)
representava uma porcentagem cada vez maior. O Brasil, que era um

77
Cenários Energéticos Globais 2020

produtor extraordinário de etanol à base de cana-de-açúcar, tornou-se


um importante exportador do combustível, e até 2010 a metade das suas
exportações destinava-se ao Japão. O grupo de países exportadores de
etanol crescia e, para mencionar alguns, Argentina, Austrália, países da
América Central e do Sul (como El Salvador), Malásia, México, África do
Sul e Polônia. Em 2004, a Índia criou programas para estimular a produção
de etanol.
A UE, com sua vasta produção agrícola de açúcar e grãos,
converteu uma importante parcela do seu superávit em combustíveis (a
Alemanha e a França lideravam a produção de biocombustíveis). E para
impulsionar a possibilidade de uma indústria européia de biocombustíveis,
a UE introduziu tarifas protecionistas sobre etanol importado. Os EUA e
outros países criaram um “protecionismo” e reservas de etanol. Atitudes
antimodificação genética na Europa estavam profundamente enraizadas,
e a produção de culturas necessárias para esta indústria que surgia era
mais baixa do que poderia ter sido. Os países europeus que se opunham
à modificação genética incluíram a Áustria, França, Portugal, Grécia,
Dinamarca e Luxemburgo. Com a ênfase no etanol, o fornecimento
mundial de alimentos tornou-se desequilibrado e a fome aumentou.
Houve experiências que tentaram usar terras marginais e água salobra
para a produção de culturas de álcool, mas estas acrescentaram pouco à
área cultivada. Parecia que o mundo não podia ter, concomitantemente,
alimento adequado e produção expandida de recursos agrícolas para fins
não alimentares.

Terrorismo oportunista

A interseção do desenvolvimento com terrorismo global merece


uma atenção especial. O terrorismo ainda é uma preocupação importante.
Já houve pequenos ataques durante as duas décadas passadas, e muitos

78
Cenários Energéticos Globais 2020

acreditam que eles aumentem nos próximos vinte anos, e que possam
interromper os suprimentos em 5-10% por pelo menos um mês. Alguns
analistas pensam que a missão antipetróleo dos terroristas é fazer com
que governos democráticos e economias seculares fracassem, de modo
que governos fundamentalistas possam assumir a influência desses países
sobre algumas nações produtoras de petróleo. Também pode haver outros
motivos, tais como alienar os moderados em relação a seus governos
ineficazes, manter concentrações de riquezas em países ricos em petróleo,
e diminuir o desenvolvimento de tecnologias avançadas, vistas por eles
como não-religiosas. Algumas pessoas têm até sugerido que, por meio
do terrorismo, os próprios terroristas possam enriquecer apossando-se
dos recursos petrolíferos.
Alguns analistas pensam que os terroristas querem ver um aumento
no preço do petróleo (ataques aos suprimentos resultam em aumentos
de preço) para enriquecer países árabes. Eles querem reduzir a presença
ocidental em “seus” países, bem como minar governos democráticos,
pressionando-os a adotar rígidas provisões de segurança, que movam
esses países a estados de alerta e proíbam o que os terroristas consideram
ser liberdades imorais. Alguns vêem o terrorismo transformando-se em
extorsão de proteção, funcionalmente não distinguível do crime organizado.
Evidentemente, eles querem a retirada das tropas e corporações ocidentais
dos países muçulmanos, para “purificar” o reinado islâmico.
A matança de pessoas nos últimos vinte anos foi uma estratégia
projetada para ilustrar a fraqueza e fragilidade dos países não-fundamentalistas.
Com a necessidade óbvia de petróleo, era aparente que havia outras
maneiras de provocar o fracasso e de ilustrar, e talvez intensificar, a
fraqueza e fragilidade inerentes dos países que eles consideravam
decadentes. De início a abordagem foi atacar os campos petrolíferos e
suas instituições e infra-estrutura. Em resposta a esta ameaça a presença

79
Cenários Energéticos Globais 2020

militar nos campos petrolíferos foi aumentada. Portos e dutos eram


vulneráveis; assim novos portos e dutos foram construídos, oferecendo
caminhos paralelos aos mercados. No geral, contudo, a segurança era
pontual e somente parcialmente bem-sucedida.
Os terroristas planejaram um ataque. Em grande sigilo, em
alguns locais, bioquímicos leais à sua causa eram orientados a produzir
microorganismos auto-reprodutores, projetados para contaminar o petróleo
com patógenos humanos contagiosos. Eles chamaram esse atentado de
“infestação do petróleo”.
Esse não era o único programa petrolífero/biotecnológico em
andamento. Muitos projetos de biometano estavam sendo continuados
para encontrar formas mais econômicas de converter culturas agrícolas, e
celulose em geral, em combustível. Alguns laboratórios credenciados têm
tentado desenvolver cepas de microorganismos que, em uma aplicação,
poderiam ser injetados em poços esgotados para digerir resíduos de óleo
pesado e produzir óleo cru menos viscoso, que poderia ser mais facilmente
bombeado à superfície. Em outra aplicação, microorganismos anaeróbicos
foram projetados para converter o óleo residual em metano.
Os microorganismos ilícitos eram muito similares aos legítimos,
tendo sido injetados em alguns poços no Oriente Médio. Quando
epidemias pontuais se desenvolveram entre os trabalhadores dos campos
de petróleo, houve celebrações entre os subordinados dos terroristas
radicais. Eles anunciaram seu sucesso e, ao fazer isto, criaram uma onda de
medo sobre a extração, processamento e uso do petróleo. Isso foi melhor
e mais eficiente do que explodir uma bomba sob um duto. A um custo
considerável, as empresas petrolíferas tiveram de isolar biologicamente os
seus trabalhadores e comprovar a várias agências de proteção ambiental
em todo o mundo que o refino do petróleo também o pasteurizava.

80
Cenários Energéticos Globais 2020

Finalmente

Assim sendo, sim, é fácil ser cético. Nós ouvimos tudo isso antes.
O que as pessoas mais sentem falta dos velhos tempos são as vacinações
em lugares distantes, a liberdade para dirigir o que e para onde quisessem,
um governo no qual pudessem acreditar, que contasse a verdade – se, de
fato, alguém ainda sabe o que é a verdade – e estabilidade. Hoje em dia
há um pensamento excessivamente pessimista em torno da energia. As
reservas cresceram no passado, quando a previsão era o esgotamento, e
agora muitas pessoas, na indústria, dizem que isso acontecerá de novo.
Quanto ao desenvolvimento de novos sistemas energéticos, com esforço e
firmeza as potências do mundo podem solucionar o problema; elas podem
fazer qualquer coisa que desejarem. Mas a Copa do Mundo está passando
na televisão, agora, então vamos nos preocupar com isso amanhã.

Cenário 2. Environmental Backlash

Crescimento moderado em rupturas tecnológicas


Impactos elevados de movimentos ambientalistas
Crescimento econômico moderado
Mudanças moderadas na geopolítica

O catastrófico acidente nuclear em 2008, que poluiu o Oceano


Índico com lixo radioativo, valorizou o movimento ambientalista que
se formava como uma nova força dinâmica em todo o mundo. Políticos
pró-meio ambiente foram eleitos, e o G8 elaborou um acordo para criar
e implementar o Global-Local Energy-Environmental Marshall Plan (Plano
GLEEM) com um mandato tipo Apollo para melhorar a situação energética
e reduzir a mudança climática.

81
Cenários Energéticos Globais 2020

Figura 5 - Mapas de Reatores de Energia Nuclear - Índia

Fonte: INSC, http://www.insc.anl.gov/pwrmaps/map/india.php

O contra-ataque ambiental vem reunindo forças há anos, tanto da


natureza como dos ambientalistas. Dos anos 70 para frente, as previsões
de mudança climática e seus impactos demonstraram compreender o
que realmente aconteceu. Nos últimos dez anos, importantes áreas de
tundra têm derretido, liberando enormes quantidades de metano, um
gás 22 vezes mais nocivo ao meio ambiente do que o CO2. O contra-
ataque da natureza foi sentido mais diretamente mediante as secas,
inundações, furacões, tornados, novas doenças, incêndios, tempestades
de areia, queda no rendimento das colheitas, e a agitação social entre
milhões de refugiados ambientais de rios e lagos que desapareceram.
Durante os últimos dez anos a África Oriental experimentou fome maciça,
matando 20 milhões de pessoas. Muitas indústrias de pesca em todo o
mundo desapareceram. Os níveis da água vêm caindo sistematicamente

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Cenários Energéticos Globais 2020

na Índia e na China nesse período, deixando poços secos por centenas


de quilômetros em muitas localidades, forçando milhões de pessoas
a fugirem para cidades já congestionadas, onde as tensões explodem
em tumultos.
A crescente demanda por carne acelerou a industrialização da
produção, com concentrações maciças de animais e seus dejetos,
resultando na pandemia da Gripe Suína de 2010, que matou mais de
25 milhões de pessoas. Menos dramático, mas também bastante
devastador, é o lento processo de desertificação na Ásia, África, América
do Norte e do Sul, e no Oriente Médio. Centenas de espécies de vida
marinha foram exterminadas devido à elevada acidificação dos oceanos
em função da deposição de CO2. A mudança climática aumentou as
secas e incêndios em algumas áreas, e inundações em outras. Ela alterou
migrações de insetos que carregavam vírus mutantes, causando novas
epidemias; deslocou a produção de safras para latitudes mais ao norte e
ao sul, fazendo com que partes da Sibéria e Canadá se tornassem áreas
de plantio viáveis; e fez desaparecer geleiras no alto de montanhas,
gerando problemas para importantes regiões de vales de montanhas em
todo o mundo.
A catástrofe nuclear causou colapsos maciços na pesca, primeiramente
no Oceano Índico, como resultado do acidente, levando à falta de alimentos
na maior parte do sul da Ásia. Em seguida surgiram problemas em outras
áreas, visto que as pressões para a pesca foram redirecionadas. Da mesma
forma que no acidente nuclear de Chernobyl, a mortandade humana
não será totalmente conhecida por anos, mas poderá resultar em um
número bastante superior a Chernobyl. Muitas pessoas fugiram da área
e se estabeleceram em outras localidades, com pouco acompanhamento
médico sistemático. Também houve contaminações pelo ar, que causaram
perdas de safra e fome na região. A radiação causou uma perda
representativa de plâncton no Oceano Índico, reduzindo a capacidade

83
Cenários Energéticos Globais 2020

natural de absorção de CO2, o que contribuiu para aumentos recordes


anuais nas concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa (GHG).
O aumento de chuva ácida nas áreas industriais reduziu ainda mais a
capacidade de áreas verdes em absorver o CO2 e aumentou a erosão
do solo.
O contra-ataque da natureza que mais preocupa os cientistas é o
começo da submergência da Corrente do Golfo no Atlântico Norte através
do escoamento de água doce da calota de gelo da Groenlândia. Isto
reduzirá a capacidade das correntes quentes do oceano em fluir ao longo
das costas da Europa, provendo o mesmo clima do Canadá no início do
século. Se a Europa esfriar, sua capacidade de se auto-sustentar também
será reduzida, aumentando os custos de alimentos em todo o mundo.
O contra-ataque dos ambientalistas desestruturou as potências
industriais. Houve processos estratégicos, confrontações públicas de
alto escalão, tratados ambientais que usavam biosensores e dados de
satélite para uma melhor detecção de crimes ambientais, regulamentações
nacionais mais rígidas (principalmente na Europa), inflamados blogs
na Internet e ataques violentos a escritórios-chave de indústrias de
combustíveis fósseis. Apesar de o movimento ambientalista e a atenção
pública perceberem, após o desastre de 2008, que a viabilidade ambiental
para o suporte da vida não estava mais assegurada, a dependência do
mundo de combustíveis fósseis continuava.
Os crescentes prejuízos causados por furacões como aqueles que
atingiram Nova Orleans em 2005 e Houston em 2007 e o esgotamento
de fontes de água na Índia e na China aumentaram a indignação dos
ambientalistas em face da incapacidade da humanidade diante do
problema da mudança climática. Antes da catástrofe nuclear no Oceano
Índico, líderes políticos e corporativos deram palestras emotivas, cheias
de retóricas sobre desenvolvimento sustentável. O que esses líderes
esqueceram é que se deveria agir com urgência. Eles se congratularam
pelos acordos que eram triviais comparados à gravidade da situação e à

84
Cenários Energéticos Globais 2020

tarefa a ser realizada. Isto foi o estopim do movimento ambientalista, que


precisava apenas de uma faísca para se espalhar em todo o mundo.
É irônico que a faísca tenha sido um acidente nuclear, em vez de
emergentes mudanças climáticas, que conduziram a uma posição mais
acirrada dos ambientalistas contra as indústrias de combustíveis fósseis.
Visto que o crescimento na energia nuclear foi essencialmente parado
pelo movimento ambientalista na metade dos anos 70, e a catástrofe de
2008 acabou com todos os planos futuros de construir novas usinas, a
indústria de combustíveis fósseis tornou-se o próximo alvo lógico. A missão
do movimento ambientalista era trocar as fontes energéticas mundiais
por combustíveis não-nucleares e não-fósseis. Grupos organizados
partiram para a destruição de qualquer obstáculo que bloqueasse a troca
das fontes energéticas. Embora o desastre nuclear tenha tornado mais
forte o movimento ambientalista, foi a evidência contínua de mudança
climática que o sustentou. Hoje em dia a Corrente do Golfo desviou
suficientemente, de modo que ela traz menos calor para o norte, tornando
a Europa mais fria. Foi difícil acreditar – a mudança climática tornou a
Europa lentamente mais quente, e então a tornou mais fria, causando
a falência de fazendeiros, aumentando os custos com aquecimento e
levando à depressão não apenas algumas economias, mas também muitos
europeus, que agora esperam ter eventualmente um clima mais similar
ao do Canadá.
Ambientalistas endossaram a desobediência civil não-violenta desde
os protestos no início do século 20 na barragem Hoover nos Estados Unidos.
Antes mesmo da catástrofe no Oceano Índico, um número crescente de
pessoas começou a falar sobre sabotagens em indústria de combustíveis
fósseis, porque as pessoas não estavam levando o aquecimento global
suficientemente a sério. Mesmo durante os anos 90 houve ataques a
instalações de companhias petrolíferas e o seqüestro de colaboradores,


http://www.soc.soton.ac.uk/index.php?pagetype=display_news&idx=303

85
Cenários Energéticos Globais 2020

o que foi amplamente mantido fora dos noticiários, por receio de que os
ataques fossem imitados. Estes, e ataques subseqüentes a companhias
petrolíferas, montadoras e grandes revendas de carros eram incapazes
de causar muito impacto sobre o consumo de combustíveis fósseis.
Os alvos potenciais eram numerosos e diversos. Será que os sabotadores
deveriam atingir perfuradoras, refinarias, dutos, navios-tanque, tanques
de abastecimento, caminhoneiros, postos de gasolina, montadoras,
consumidores, sedes corporativas... ou o quê?
Os relatórios diários de novos impactos de material radioativo
vazando para o Oceano Índico enfureceram muitas pessoas, e a
coordenação de ataques e a definição de prioridades para alvos tornaram-
se irrelevantes. A poluição radioativa do acidente espalhou-se ao longo
do continente povoado da Índia e áreas vizinhas, causando disputas
políticas entre os estados. Grupos ativistas se organizaram nos EUA,
Europa, Ásia e América Latina. Eles escolheram o alvo mais convincente,
que seria notícia internacional, e usaram câmeras em telefones celulares
para obter imagens dramáticas que seriam veiculadas em blogs da Internet
que alimentaram a mídia.
O novo movimento ambientalista assumiu muitas formas. Green
Smart emergiu como uma rede avulsa de arquitetos e engenheiros, que se
tornou uma força em planejamento urbano e de comunidades alternativas
ao redor do mundo, e invadiu a agricultura rural. Radicais do Save Gaia
atingiram dutos de petróleo no Oriente Médio e nos EUA com ataques
que interromperam o fornecimento em 5% por um mês, e realizaram uma
série de ciberataques a sistemas financeiros de companhias petrolíferas
e de automóveis. Estavam envolvidos radicais moderados e estudantes
universitários, que marcharam até as Nações Unidas, o Banco Mundial,
parlamentos, salas de imprensa e sedes corporativas de companhias de
energia em todo o mundo.
Os ativistas do Save Gaia protestavam contra o modo como o mundo
estava sendo conduzido, o modo como os ricos gastavam seu dinheiro,

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Cenários Energéticos Globais 2020

e contra os valores superficiais divulgados pela mídia em todo o mundo,


que mantinham as pessoas perseguindo um consumo irrelevante enquanto
os sistemas de suporte de vida da natureza estavam sendo destruídos.
Esses radicais queriam diminuir o consumo mundial, considerado motivo
da destruição ambiental, almejando e causando danos econômicos a
negócios relacionados a combustíveis fósseis. Eles difundiram rumores
através da Internet para afetar os preços das ações e conseguiram que
colaboradores conscientes renunciassem a seus cargos. Save Gaia tinha
muitos simpatizantes políticos e econômicos – aqueles que se opunham
à globalização, ao livre comércio, aos cartéis, ao imperialismo e ao
status quo em geral –, que viram oportunidades para si no movimento.
O contra-ataque assumiu várias formas. Na Nigéria, o saque ambiental
e econômico de muitas áreas por oficiais do governo e companhias
petrolíferas criou grupos militantes que cresceram em força a cada ano,
seqüestrando centenas de colaboradores de companhias petrolíferas,
roubando e atacando dutos. Os riscos às companhias petrolíferas pareciam
não ter fim. Eles decidiram, então, responder aos ataques, contratando
militantes, ambientalistas e profissionais de desenvolvimento econômico
para criar programas ao redor das áreas produtoras de petróleo. Era muito
mais econômico adiantar-se ao problema, trabalhando com os militantes,
do que esperar que o governo providenciasse um ambiente de trabalho
seguro e confiável.
Na América do Norte, os Amigos da Terra e o Greenpeace conquistaram
uma vitória importante sem precedentes no processo contra a ExxonMobil
sobre mudança climática. Como os julgamentos anteriores contra a
indústria de tabaco, o veredicto da ExxonMobil chocou o mundo dos
negócios. Este foi o evento que fez a indústria de combustíveis saber que
as regras do jogo haviam mudado para sempre.
A ExxonMobil foi condenada por ter causado até 4% das perdas
econômicas devido ao aquecimento global e teve de pagar este montante

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Cenários Energéticos Globais 2020

ao FundoGlobal de P&D, estabelecido pelo Plano GLEEM do G8 para


sistemas energéticos alternativos. Isto quase levou a empresa à falência,
mas líderes corporativos negociaram os termos de pagamento ao
integrarem ambientalistas em seu planejamento de diversificação. Assim,
a empresa pôde sobreviver. Executivos de negócio em outras importantes
companhias petrolíferas e de automóveis lutaram para criar programas
de impacto visando reduzir drasticamente as suas emissões de gases de
efeito estufa e adaptar-se ao plano. Isto pavimentou o caminho para o
acordo internacional pós Kyoto, para reduzir as emissões de gases de
efeito estufa aos níveis de 1970.
Ambientalistas foram trazidos para trabalhar com engenheiros das
empresas, com o objetivo de ajudar a tornar seus negócios mais ‘verdes’.
Alguns diversificaram utilizando fontes de energia alternativa. Outros
ingressaram no “agronegócio verde”, tal como a agricultura usando água
do mar, fotossíntese sintética para produzir combustíveis de álcool, e
programas maciços de crescimento da floresta tropical para créditos de
carbono. Outros melhoraram a eficiência energética, convertendo prédios
para uma melhor utilização da luz solar, para aquecimento e para produção
de eletricidade local, a partir de sistemas fotovoltaicos nanoplásticos.
Os ambientalistas envolveram-se extensamente em treinamento e
educação para mostrar como ser mais eficientes energeticamente e mudar
atitudes culturais. Também trabalharam com políticos, para padronizar e
internacionalizar impostos sobre carbono, impostos rodoviários, rotulação
de produtos, e outros incentivos e impostos para permitir que o mercado
se ajuste às novas condições.
Alguns executivos da área energética e ambientalistas não
conseguiram trabalhar juntos, o que tornou seus esforços um completo
desperdício de tempo. Alguns outros, que falavam meramente “da
boca para fora” sobre interesses ambientais, foram surpreendidos pela
empolgação de reeducar seus mercados sobre alternativas limpas de

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Cenários Energéticos Globais 2020

negócios, mais eficientes e lucrativas. A educação pública para a mudança


cultural é excitante. A explosão de inovações corporativas encorajou
governos a criarem impostos ambientais e sistemas de comércio de
emissões, a fim de assegurar condições justas para negócios. Os governos
começaram a acelerar o processo de levar inovações ao mercado e
organizar as permissões dentro de um âmbito abrangente. Por exemplo,
muitos campos de petróleo e de gás velhos e abandonados em áreas de
fortes ventos foram convertidos em instalações de energia eólica, como
resultado de incentivos do governo.
Arquitetos cada vez mais integravam os conceitos de ecologia e
arquitetura, criando uma faixa de “arcologias” em novos projetos de
construção, que reduziram os custos de aquecimento e refrigeração.
A ecologia de sistemas urbanos tornou-se uma matéria popular em
universidades, à medida que histórias de sucesso de indústrias adaptadas,
cujos resíduos foram um input para o requisito de produção de outros,
se tornaram conhecidas.

Environmental Backlash Muda o Business as Usual

O contra-ataque ambiental contribuiu para tornar valores como


poder intelectual, determinação, altruísmo e honestidade mais usuais,
no setor energético, do que os valores anteriores de lealdade corporativa
e pensamento de curto prazo. Negócios luxuosos trabalhavam com o
Green Smart e outros grupos ambientalistas, para produzir produtos de
qualidade superior que eram eficientes energeticamente, ambientalmente
corretos e significativos em termos educacionais. Até mesmo agências
de propaganda, produtores de filmes e coreógrafos de vídeos de rock
começaram a usar mais imagens e conceitos que reforçavam a importância
da consciência ambiental.

 Para exemplos atuais de arqueologia, ver http://www.arcosanti.org/

89
Cenários Energéticos Globais 2020

Novas regras ordenando flexibilidade de combustíveis mais intensas


em carros no Brasil também resultaram em uma indústria ampla e nova
de biocombustíveis, que utilizavam partes da cana-de-açúcar e de outras
plantas, anteriormente não aproveitadas, para produzir líquidos Fischer-
Tropsch. Isto permitiu ao Brasil exportar a maior parte do seu etanol até
2015 e tornar-se “a nova Arábia Saudita” da Era Verde.
Todavia, os crescentes preços do petróleo, o acidente nuclear e uma
série de contra-ataques ambientais geraram recessões e depressões em
todo o mundo. Países que decidiram cortar a dependência do petróleo
evitaram muitos desses problemas econômicos. A Suécia passou de 77%
de dependência energética em petróleo, em 1970, para 32% em 2005 e
zero em 2020. A Islândia espera, até 2050, equipar todos os seus carros
e barcos com hidrogênio obtido da eletricidade retirada principalmente
dos seus recursos geotérmicos. Em 2011 o Brasil tinha equipado 80%
da sua frota de transporte com etanol, derivado principalmente da
cana-de-açúcar, e agora está quase livre da necessidade de petróleo para
o transporte. Além disso, a cana-de-açúcar é a melhor planta cultivada
para a captura de CO2.
Um grupo de cientistas indicado pelo Secretário Geral das Nações
Unidas criou as definições de termos, normas e medidas que se fizeram
necessários para diretrizes políticas e econômicas eficientes. Essas
medidas comuns ajudaram a estabelecer e implementar incentivos fiscais
ambientais, rotulação de produtos (tais como energia por unidade)
e sanções internacionais a infratores de uma série de tratados das
Nações Unidas, relacionados ao desenvolvimento sustentável. Sensores
bioquímicos melhorados e seu predomínio, devidos, em parte, aos
esforços contraterrorismo, reforçaram o uso dessas definições e medidas
determinadas cientificamente. Os contraventores eram mais facilmente

 http://www.sweden.gov.se/sb/d/3212/a/51058;jsessionid=aRO1qHEpCvAg

90
Cenários Energéticos Globais 2020

detectados e expostos à imprensa, o que colaborou para gerar o desejo


político por punições. Com essas mudanças na política e na tecnologia, e
com um mercado global cada vez mais informado, as empresas competiam
para mostrar que eram “ambientalmente corretas”.
O rótulo Green Smart tornou-se o endosso de produto mais procurado
devido às suas rígidas normas ambientais e plano de relações públicas,
e lista desde as melhores até as piores empresas, e países, no quesito
ambiental. As empresas tinham pouca escolha exceto serem classificadas
segundo essas normas. Empresas com alta eficiência energética, com
excelentes auditorias de impacto ambiental, receberam algumas vantagens
fiscais e atraíram mais investimentos e acesso ao mercado internacional
do que aquelas que não receberam notas favoráveis. Elas também eram
quase imunes contra processos de saúde, segurança e meio ambiente, o
que atraiu ainda mais investidores para comprar suas ações.
Algumas empresas que aplicavam práticas de produção
ambientalmente seguras criaram suas próprias etiquetas “verdes” para
obter vantagem competitiva. Produtores e consumidores “verdes”
uniram-se em movimentos que mudaram as políticas governamentais
de subsídio de resíduos. Os serviços públicos começaram a cobrar pelos
custos reais da água, energia nuclear etc. Clubes de compra e uniões
de consumidores encorajaram as pessoas a comprar de empresas que
empregavam processos industriais ambientalmente corretos. A fusão de
grande número de atividades educacionais do movimento ambientalista
e grupos de direitos humanos, em colaboração com muitas corporações
multinacionais líderes e discursos globais inter-religiosos, ajudaram a
estabelecer ar e água limpos e solo saudável na agenda política como um
direito humano básico, em vez de apenas um fator na análise econômica
de custo/benefício. A administração ambiental vem crescendo como uma

 Alguns sistemas de classificação menos conhecidos já estão funcionando: http://www.csrwire.


com/article.cgi/5008.html

91
Cenários Energéticos Globais 2020

responsabilidade moral na pregação de religiões, tornando-se quase


impensável propor um projeto ambientalmente perigoso.

Os Ricos Intervêm

Os sucessos de George Soros no desenvolvimento das economias de


transição, de Ted Turner nas Nações Unidas e de Bill Gates em programas
internacionais de saúde, estabeleceram precedentes para que muitas
pessoas ricas apóiem o Plano GLEEM. Por exemplo, CEOs de algumas das
maiores empresas no mundo concederam-se mutuamente prêmios para
quem implementasse grandes mudanças em suas próprias corporações
para apoiar o Plano. Vastas campanhas de Relações Públicas promoveram
os prêmios e suas conquistas. Na China, vários novos bilionários construíram
parques eco-industriais com vistas em exibir sistemas de produção verde
e habitats, que se tornaram uma nova alternativa para a Disneylândia.
Instituições beneficentes locais mobilizaram-se para apoiar empresas de
pequeno e médio porte a se tornarem mais “verdes”. Empresas de grande
porte obtiveram incentivos fiscais para ajudar empresas menores. Outras,
que contribuíram com o Fundo de P&D solicitado no Plano, receberam
créditos fiscais dos seus governos. Algumas até pintaram os seus aviões
particulares de verde, como declaração de que suas corporações apoiavam
o Plano GLEEM.
Vários cientistas ricos apoiaram o grupo ‘Cientistas para Renovação
Global’ com o objetivo de promover as melhores conclusões científicas
sobre como implementar o Plano, concedendo seu próprio Prêmio Mundial
de Ciência Energética, e opuseram-se a grupos ativistas que fizeram lobby
por ações com pouca evidência científica. Filantropos, celebridades e
estrelas da mídia na Europa iniciaram um movimento para ajudar países
mais pobres a saltar a maior quantidade possível de estágios industriais na
transição da agricultura de subsistência para a economia do conhecimento,
enquanto apoiavam a tecnologia de energia sustentável. Importantes áreas

92
Cenários Energéticos Globais 2020

da bacia do Congo foram compradas por um clube das 100 pessoas mais
ricas na China, com o objetivo de evitar o que aconteceu com a Amazônia.
Os três empreendedores mais ricos da Índia alavancaram financeiramente
os principais projetos de água na Ásia. Algumas das pessoas mais ricas
no Oriente Médio causaram reviravoltas em várias importantes áreas de
desertificação do mundo.
Investidores menores também puderam participar financeiramente
no contra-ataque ambiental, investindo em fundos internacionais tais
como o Green Brick (composto das 10 principais empresas Green Smart
no Brasil, Rússia, Índia, China e Coréia) e o GreenMap (formado pelas
empresas mais promissoras, independente de localização, que estão
produzindo as tecnologias dentro do roteiro do GLEEM).

O GLEEM Aos Olhos de Mundo

O Plano GLEEM possuía 13 elementos:

• Criação da Organização Mundial de Energia como uma


transinstituição singular de governos auto-selecionados,
corporações (tanto de fins lucrativos como não-lucrativos),
academias nacionais de ciência e organizações internacionais
(tais como a Agência Internacional de Energia Atômica, que
se tornou a INSOLSAT, e o Consórcio Internacional de Satélite
Solar, baseado no modelo INTELSAT).

• Reuniões periódicas de um conselho para rever o Plano e


complementar planos de longo prazo conforme a necessidade,
visando reduzir outros problemas de energia e de meio ambiente.

• Um Fundo de P&D Energético de longo prazo, administrado pelo


WEO, com vistas em proporcionar um foco global para empresas,
governos, universidades e esforços isolados para investir em
projetos de desenvolvimento sustentável e de energia. Esses

93
Cenários Energéticos Globais 2020

deveriam ser cientificamente seguros, não estar sendo adotados,


e distantes demais para atrair capital de risco. Além disso, seriam
incapazes de receber fundos de governos isolados se estivessem
agindo sozinhos. Os produtos e processos resultantes teriam custos
e taxas de licença menores, aplicando-se os princípios de como os
custos dos medicamentos contra a AIDS foram baixados.

• Criação de um Prêmio Mundial de Energia para tecnologias


comprovadas, prontas para investimento maciço e com possibilidades
de difusão internacional imediata.

• Um fundo fiduciário, administrado pelo IAEA, para financiar a


desmontagem de usinas perigosas (tipo Chernobyl) e a gestão
de lixo nuclear.

• Criação de uma Meta Internet para tornar o conhecimento


do cenário energético-ambiental do mundo mais facilmente
disponível, dispondo dos níveis de implementação e roteiros
para o acesso transparente ao status atual e prospectos futuros.
Disponibilizar informação quase em tempo real dos muitos
centros que analisam riscos, benefícios e tempo para o impacto
de vários projetos energéticos e ambientais. Essa informação deve
ser em linguagem acessível ao usuário padrão, compreensível
para leigos, inclusive políticos.

• Harmonização de tratados ambientais que conduzem a um


conjunto comum de políticas governamentais (incluindo
agências locais de gestão de energia), normas tecnológicas e
gerenciais, medições de impactos e incentivos. Esses incentivos
incluem acordos internacionais sobre taxação de combustíveis
para o transporte aéreo e marítimo internacional, além de um
Rótulo Verde Global autorizado por um padrão de classificação
energética. Tudo isso, com o intuito de economizar energia e
produzi-la de modo mais seguro.

94
Cenários Energéticos Globais 2020

• Designação da OMC para reforçar normas ambientais e de


energia no comércio, conforme estabelecido pelo “Grupo de
Cientistas Eminentes” das Nações Unidas.

• Uma Corte Internacional de Arbitragem e Conciliação Ambiental,


criada como complemento à OMC e à Corte Criminal Internacional,
para fortalecer a execução dos acordos internacionais e prover
um mecanismo de resolução de litígios comuns, fazendo uso de
bio-nanosensores e redes de satélite.

• Um programa mundial de educação pela UNESCO em cooperação


com o WEO, UNEP e a Universidade das Nações Unidas, visando
apoiar a produção de eventos da Internet, jogos de computador,
vídeos musicais e adicionais a currículos escolares, ajudando a
assegurar que a próxima geração continue a transição para um
mundo mais sustentável.

• Uma Parceria Global de Desenvolvimento, para promover uma


série de parcerias entre pessoas de alta e baixa renda, corporações
e grupos da sociedade civil, com o intuito de melhorar aplicações
energéticas e desenvolvimento econômico.

• Criação de uma agência especial para auxiliar na expansão das


Forças de Paz dos EUA, o British Voluntary Service Overseas,
Voluntários das Nações Unidas e várias formas de televoluntários,
visando a apoiar iniciativas locais de energia-meio ambiente
em países em desenvolvimento. Transferência de tecnologia e
treinamento, para aliviar o fardo de conformidade de tais países
com as novas regulamentações em coordenação com o WEO.

• Lançamento de um Protocolo Pós-Kyoto, que era econômica e


ambientalmente benéfico tanto para países ricos como pobres.

95
Cenários Energéticos Globais 2020

Muitos fóruns de ciência e tecnologia surgiram para uma troca das


melhores práticas de energia-meio ambiente, que ajudaram a manter a
atenção da mídia sobre o progresso e regresso desses elementos do Plano.
Esses fóruns alimentaram a avaliação constante do Plano, disponível a
todos no website da Meta Internet.
A P&D do Plano GLEEM contribuiu ainda para a criação de novas
tecnologias de desenvolvimento de combustíveis não-fósseis e não-
nucleares, ou melhorou de modo significativo a eficiência do seu uso.
As categorias chave de financiamento eram energia para transporte em
países em desenvolvimento; acesso universal à eletricidade; captura,
separação, armazenamento e reutilização de carbono; e a lacuna entre
P&D e comercialização. Novos projetos incluíram fontes portáteis, sistemas
de armazenamento de energia, descomissionamento de usinas nucleares
e gestão de lixo nuclear. O WEO também colaborou para implementar
políticas – tais como a eliminação de subsídios de energia e incentivos
fiscais – que perpetuaram o status quo e abafaram o desenvolvimento de
fontes alternativas.

Governo Ajuda o Plano

As medidas e normas científicas de energia definidas pelo “Grupo


de Cientistas Eminentes” das Nações Unidas foram usadas para definir
políticas de regulamentação de preços da energia, a fim de refletir sobre
os impactos externos e ambientais da sua produção e uso. Governos,
em parceria com cientistas ambientais e setor privado, criaram tributos
para carbono (US$ 50 por tonelada) e taxas para as atividades que mais
prejudicam o meio ambiente. Todas as etapas do processo de produção
foram incluídas (extração, produção, distribuição e consumo). Uma
parcela das receitas subsidiava a P&D de tecnologias ambientalmente
mais seguras e forneceu incentivos para o uso de tais tecnologias, bens

 Todas as referências em dólares americanos estão em valores de 2006, não calculadas para
valores de 2020.

96
Cenários Energéticos Globais 2020

e equipamentos. Os governos atribuíram uma parte da receita para ser


administrada internacionalmente pelo Fundo de P&D de Energia de longo
prazo do WEO.
À medida que o custo adicional de captura e armazenamento de
carbono caía abaixo das taxas de comercialização de carbono, o uso do
seqüestro de CO2 se acelerava em todo o mundo. Quase todos os países
possuem normas de consumo para veículos (novos e antigos), e alguns
tiveram de racionar o uso de energia e água. Muitas partes da China e da
Índia ainda o fazem hoje em dia, o que constitui o fator limitador chave
para as suas taxas de crescimento econômico. Esses governos apoiavam
novas tecnologias solares Stirling, que agora são usadas para converter
fluxos de CO2 em combustíveis líquidos úteis, baseado em moléculas
complexas, que combinam compostos à base de nitrogênio com pequenas
quantidades de carbono, para a estabilidade e segurança.
A comercialização de carbono vem sendo praticada pela maioria
dos principais 50 países emissores desde 2010; fundos desta atividade
são usados tanto para projetos locais de energia-meio ambiente como
para o fundo global de P&D.
Com a ajuda da UNEP, do Banco Mundial e das comissões econômicas
regionais das Nações Unidas, a maioria dos governos de hoje possui
um sistema de contas nacionais, que inclui os impactos econômicos
da depredação dos recursos naturais. O Índice de Desenvolvimento
Sustentável é usado atualmente para ajudar países a estabelecerem
prioridades nacionais. A maioria das corporações de qualquer tamanho
tem usado o Sistema de Gestão Ambiental ISO 14001, para criar o seu
próprio SGA, a fim de melhorar continuamente o seu perfil ambiental.
Essas mudanças na política, mais as contínuas rupturas tecnológicas
e algumas mudanças culturais, começaram a ter algum impacto sobre
o eixo energia-meio ambiente. Por exemplo, a eficiência energética da
economia mundial continuou a melhorar. (figura 6).

 Esta curva foi derivada usando-se o CurveExpert. A forma é “taxa de crescimento saturado”.

97
Cenários Energéticos Globais 2020

O que Aconteceu a Seguir?


…Se Não se Ajusta, Reajuste

Incentivos do governo contribuíram para estimular reajustes nas


tecnologias verdes, como telhas e paredes fotovoltaicas para edifícios,
uso melhorado da luz natural para aquecimento, assim como economia
de eletricidade, janelas mais eficientes e iluminação LCD (iluminação em
estado sólido, que coloca o fóton certo, no lugar certo, no momento
certo na cor certa e com a intensidade desejada), que é 10 vezes mais
eficiente do que a iluminação convencional. Até mesmo a proteção
sobre estacionamentos, na Índia e na China, está sendo substituída por
placas fotovoltaicas, para proporcionar uma renda extra a donos de
estacionamentos. Carros e caminhões foram convertidos para diferentes
combustíveis. Painéis solares estão sendo colocados em telhados, desde
o Egito até o Equador.
Entretanto, algumas das maiores conversões que estão começando
a alterar a situação energética são as adições de mecanismos de captura
e armazenamento de CO2 em usinas de combustíveis fósseis e sistemas
de aquecimento doméstico, e melhorias no controle de temperatura em

98
Cenários Energéticos Globais 2020

edifícios. Isolamento melhorado de edifícios existentes, tintas e revestimentos


térmicos, sistemas de ar condicionado e conversões para recuperar e usar
calor “residual” estão reduzindo o consumo de energia.
Normas melhoradas para novos edifícios (isolamento, orientação
espacial, relação de janelas, sistemas eficientes de aquecimento/
refrigeração e produção localizada de energia) também devem melhorar
as condições. O uso de sistemas de armazenamento de energia de baixo
custo e altamente eficientes, que complementam telhados solares e outros
desenvolvimentos, estão permitindo que pessoas se tornem independentes
da rede elétrica.
O desenvolvimento e a reciclagem de materiais não-fósseis
ambientalmente corretos para o reparo de estradas e rodovias estão
começando a reduzir a necessidade de asfalto. Fotovoltaicos de primeira
geração estão sendo substituídos por nanomateriais avançados, que
absorvem a energia solar de maneira mais eficiente. Onde for viável,
nanotubos estão substituindo cabos de transmissão na maior parte do
mundo, para conduzir eletricidade de modo mais eficiente. Isto teve o
mesmo efeito que produzir uma nova fonte de energia, sem gases de
efeito estufa ou lixo nuclear.
Muitos carros construídos desde 2015 removem o CO2 dos gases de
exaustão por meio da absorção química com solventes. As empresas que
reequipam carros construídos antes de 2015 com este novo equipamento
de captura de carbono estão crescendo em todo o mundo – e rápido!
O armazenamento de energia foi melhorado com a substituição de
baterias antigas por aquelas que usam uma série de nanotubos. Estas novas
nanobaterias, juntamente com os chips de computador tridimensionais
com nanotubos, diminuíram o consumo de eletricidade dos computadores
nas redes elétricas, que apenas 15 anos atrás representavam quase 20%
do uso elétrico nas áreas industrializadas do mundo.

 Minuta por Dennis Bushnell, Cientista-Chefe, NASA Langley Research Center d.m.bushnell@
larc.nasa.gov

99
Cenários Energéticos Globais 2020

A loucura do reajuste para obter incentivos fiscais poderia ter sido


mais eficiente se mais pessoas tivessem realizado pré e pós-análises sobre
efeitos de custos financeiros e ecológicos do ciclo de vida antes da instalação.
Todavia, a infra-estrutura global está se tornando mais eficiente.

Transporte

Foi desenvolvida vida sintética geneticamente manipulada, que


pode criar hidrogênio e biocombustíveis como o etanol e o metanol.
Isto marcou a transição histórica da leitura do código genético para a sua
escrita. Códigos genéticos eram especificamente escritos a partir de bancos
de dados de informação genética que produziam formas de vida, e que
agora criam hidrogênio e etanol na presença da luz solar. Esse processo
é similar à fotossíntesse. Fábricas de biohidrogênio estão começando a
produzir volumes suficientemente grandes para se tornarem uma fonte
confiável de combustível para o transporte. Embora a expansão vertical
tenha sido difícil, um dia essa tecnologia pode ser uma importante fonte
de hidrogênio.
Em resposta ao Plano GLEEM do G8, as principais companhias
petrolíferas e líderes da indústria automotiva encontraram-se com os
líderes e cientistas ambientais para elaborarem um plano para reduzir
as emissões de carbono (ver figura 7). Isto inclui biohidrogênio, carros
elétricos, biocombustíveis e outras formas de melhorar a eficiência
energética. Mesmo vários anos antes do Plano, a BP propôs à indústria
de petróleo medidas para tentar estabilizar o dióxido de carbono na
atmosfera (em 2003, o setor de transportes respondia por cerca de 27%10
das emissões de gases de efeito estufa dos EUA). Algumas pessoas na
indústria de petróleo tentaram encontrar maneiras de as indústrias de
combustíveis fósseis e consumidores reduzirem a quantidade de emissões

 http://www.syntheticgenomics.com/
 http://www.bp.com/sectiongenericarticle.do?categoryId=9008205&contentId=7015200
10 http://www.epa.gov/otaq/climate/420r06003summary.htm

100
Cenários Energéticos Globais 2020

anuais de carbono de todas as fontes para 7 bilhões de toneladas até


2020, enquanto o crescimento econômico continuava. Embora agora
9 bilhões de toneladas de carbono sejam emitidas, isto é muito melhor
do que a previsão inicial de que seriam 12 bilhões de toneladas.11

11 São 7 bilhões de toneladas em 2004, o que pode ser traduzido para cerca de 25 bilhões de
toneladas de CO2. http://www.bp.com/genericarticle.do?categoryId=98&contentId=7000452.
(ver a seção sobre Mudança Climática).

101
Cenários Energéticos Globais 2020

Outros não levaram isso a sério, visto que significaria construir 4.900
usinas nucleares em todo o mundo para substituir um número suficiente
de usinas de energia da queima de combustíveis fósseis ou aumentar o
uso de energia solar mediante uma quantidade expressiva. Mesmo assim,
três anos mais tarde, quando ocorreu o acidente na Índia – e isto denegriu
a imagem da solução nuclear –, as indústrias petrolíferas perceberam que
mudanças fundamentais eram necessárias.
Nessa busca pela mudança fundamental, algumas empresas de
transportes e de energia seguiram a liderança do Brasil e conduziram a
luta para que governos aprovassem regulamentações exigindo veículos
flex, que pudessem usar gasolina, etanol, metanol ou misturas desses
combustíveis. Já no ano de 2005, mais de 30% da demanda brasileira de
gasolina foi atendida pelo etanol, enquanto o etanol atendeu a apenas 2%
da demanda nos Estados Unidos. Este padrão iniciado pela concorrência de
combustíveis proveu os incentivos necessários para tornar os combustíveis
menos dispendiosos e mais amplamente disponíveis.
Quando se percebeu que menos de 6% das terras dos EUA
poderiam produzir biomassa suficiente para suprir a energia equivalente
às necessidades de petróleo e gás natural, isto se tornou uma questão
de segurança nacional no Congresso dos EUA, o qual aprovou a lei da
energia de biomassa. Deve-se reconhecer que não havia água o suficiente
para produzir a biomassa que abastecesse todos os carros, mas uma lei
impulsionou a P&D que ajudou o mundo a realizar mudanças, de forma
que, hoje, 19% de todos os carros novos utilizam biocombustíveis.
A produção de biocombustível dependia da energia fóssil para
converter açúcares biológicos em combustíveis para transporte. Mesmo
com o uso da energia fóssil para produzir os biocombustíveis, suas
emissões de gases de efeito estufa eram 20-50% mais baixas do que
aquelas de combustíveis de petróleo. Combustíveis fósseis agora são
substituídos por nanopainéis solares fotovoltaicos, dispostos em camadas

102
Cenários Energéticos Globais 2020

para a captação de fótons de comprimentos de onda mais eficientes.


Além disso, o uso de técnicas de produção de etanol a partir de celulose
permite que biocombustíveis sejam considerados “livres de gases de efeito
estufa”, porque a quantidade de CO2 que as plantas retiram da atmosfera
quando crescem é aproximadamente igual àquela que devolvem quando
queimadas para produção de combustível.
A produção de biodiesel teve um impulso precoce quando a UE
exigiu que 5,7% do seu combustível diesel fosse biodiesel até 2010. Agora
a produção de biocombustível substituiu 10% da utilização de petróleo.12
Isto deve aumentar, se continuar a utilização de terras costeiras da Terra,
pelo uso da água do mar na agricultura. Biocombustíveis tornaram-se uma
nova forma de riqueza para áreas rurais anteriormente empobrecidas do
mundo. Por exemplo, biocombustíveis da cana-de-açúcar ajudaram na
recuperação da economia do Haiti, e a agricultura usando água do mar
colaborou para reduzir a pobreza ao longo da costa do oeste da África
e da Somália.
Embora isso previna contra outros danos, não soluciona o problema
da mudança climática. Tiveram de ser encontrados meios adicionais para
seqüestrar os gases que causam aquecimento global. Os engenheiros da
Green Smart vêm testando aplicações em nanotecnologia para sistemas
de exaustão na redução de emissões de CO2. O uso da nanotecnologia
na superfície de edifícios para retirar o carbono do ar é uma fonte para
futuras aplicações de produção molecular. Plantações maciças de árvores
têm contribuído, mas elas somente reduziram a taxa de crescimento
do carbono na atmosfera, sem revertê-la. Entretanto, os usos de
compostos avançados, cerâmicas, nanotubos, plásticos e aço leve mais
do que duplicaram a eficiência de carros e caminhões, o que reduziu
proporcionalmente as emissões.13

12 http://europe.eu.int/comm/energy/res/sectors/bioenergy_en.htm
13 http://www.oilendgame.com/ExecutiveSummary.html

103
Cenários Energéticos Globais 2020

A economia de hidrogênio ainda é apenas uma promessa – mas


uma possibilidade futura atrativa. Existem muitos métodos de produção
e aplicações alternativos para o hidrogênio, e mais de 7% de todos os
carros novos são movidos a hidrogênio hoje em dia; no entanto, ele ainda
não se tornou o combustível dominante. Muitos não comprariam carros
a hidrogênio antes que quantidades suficientes de postos de gasolina
possuíssem hidrogênio, e poucos produtores de hidrogênio e montadoras
assumiriam o risco de investir em sistemas de distribuição e novos projetos
de carros que não tivessem mercado consolidado.
O fundo global de P&D no Plano GLEEM pode ter financiado de
forma mais substancial o desenvolvimento do hidrogênio, ao reduzir
os riscos de investimento, mas um novo problema foi descoberto. Para
atingir uma redução de 50% em petróleo usado para o transporte (nos
Estados Unidos, por exemplo, em 20 anos através do uso de carros com
células a combustível de hidrogênio), metade dos carros novos vendidos
dentro de cinco anos teria de funcionar a hidrogênio. Visto que isso
parecia improvável, o entusiasmo pelo hidrogênio começou a desaparecer,
para não falar que a produção de hidrogênio poderia estar vinculada
ao processo de eletrólise da água, usando a eletricidade gerada por
muitas novas usinas de energia nuclear, contra o que os ambientalistas
protestariam. No entanto, algumas frotas de caminhão usaram um sistema
combinado de hidrogênio com amônia.
Está sendo desenvolvido o uso de hidretos metálicos, que armazenam
o hidrogênio a densidades que se aproximam do hidrogênio líquido.
Apenas um pequeno aumento na temperatura libera o hidrogênio.
O bloco de hidretos metálicos gasto poderia ser substituído, nos
postos, por uma carga nova, igual a uma bateria. Contudo, o processo
é muito recente e ainda não está claro se terá êxito. Em 2010, uma
liga de magnésio com uma nanoestrutura modificada foi apresentada para
armazenar hidrogênio suficiente para permitir que um veículo percorra

104
Cenários Energéticos Globais 2020

500 km, mas a comercialização tem sido lenta por causa dos custos de
produção excessivamente altos e dos problemas técnicos – tais como a
necessidade de operação a 350-400°C –, que ainda não foram resolvidos
economicamente. Os fornecedores de hidrogênio não têm sido capazes
de suportar a complexa infra-estrutura de distribuição de hidrogênio,
necessária para atrair as montadoras e motoristas para a troca. Hidretos
químicos e materiais de nanoestrutura de carbono operando a temperaturas
mais baixas que os hidretos metálicos estão se tornando competitivos
em ensaios de P&D.
Carros elétricos são mais aceitáveis, agora que as baterias de
nanomaterial melhoraram a relação peso-armazenamento. Eles respondem
por 15,4% de todos os carros vendidos em 2020. Como resultado, a
estratégia de longo prazo da China em ser o líder mundial em carros
elétricos teve sucesso, e o país vende agora mais de um milhão de carros
por ano. A China responde por mais de 50% de todos os carros elétricos
novos vendidos no mundo. Deve-se reconhecer que a maioria deles é
vendida no país, mas o seu êxito foi em decorrência de um longo trabalho
de mudança da opinião mundial sobre as práticas anteriores de poluição
do ar e da água daquela nação.
Os híbridos ainda são os mais populares, respondendo por 31,7%
de todos os carros novos vendidos em 2020. Os seus proprietários agora
podem conectá-los à noite para obter a energia não utilizada nas redes
elétricas para recarregar seus carros. Conseqüentemente, carros elétricos
híbridos tipo plug-in com combustíveis flex conquistaram a imagem
Green Smart como os carros elétricos chineses. Carros puramente elétricos
foram isentos de impostos rodoviários, pedágios urbanos e outros tributos
estatais similares. Algumas cidades – Paris, São Paulo, Tóquio, e Cidade
do México – vêm oferecendo estacionamento gratuito para carros
elétricos durante vários anos, enquanto a maioria das cidades tem áreas

105
Cenários Energéticos Globais 2020

significativas que estão fechadas ao tráfego de veículos privados. Nos


lugares em que isto está sendo realizado, a imagem de congestionamentos
urbanos está começando a desaparecer.
O uso de gás natural em carros não tem crescido de modo
significativo porque tais veículos, embora diminuam a produção de CO2,
isto não se dá de forma significativa, quando comparado aos carros
movidos a gasolina. E, tal como o petróleo, o gás natural também acabaria
algum dia.
Novos usos de nanotubos, cerâmicas e plásticos reduziram o peso
dos carros e caminhões, o que, por sua vez, baixou a quantidade de
emissões de carbono por quilômetro percorrido. Espera-se que carros com
células a combustível com metanol no tanque, carros elétricos e motores
Stirling avançados reduzam ainda mais as emissões.
Veículos a gasolina ainda respondem por 26,5% de todos aqueles
vendidos no mundo em 2020. Embora se esperasse que a força da OPEC se
tornasse quase hegemônica à medida que países não-OPEC tiveram o seu
pico de produção de petróleo em 2010, o Canadá tornou-se uma fonte de
influência em energia. Quando os Estados Unidos finalmente perceberam
que as areias betuminosas canadenses poderiam efetivamente substituir
o petróleo do Oriente Médio, surgiram muitos investimentos no oeste do
Canadá, como na corrida do ouro na Califórnia. Não havia nenhum risco
político e nenhum custo de exploração, visto que Alberta estava coberta
da sujeira preta. Preocupados com os ataques do Save Gaia, as indústrias
do óleo de alcatrão tiveram uma série de reuniões de alto escalão com
ambientalistas moderados, para fazer planos de extração e produção
menos prejudiciais. Quando os riscos políticos cessaram na Venezuela, ela
também recebeu importantes investimentos para a produção de areias
de alcatrão e óleo pesado em torno da bacia do Orinoco, estimada a ter
1,3 trilhão de barris de óleo, e tornou-se uma referência importante em
energia mundial. Apesar dessas novas fontes, a gasolina e os substitutos
eram todos vistos como tendo vida útil finita.

106
Cenários Energéticos Globais 2020

Eletricidade

A necessidade de novas fontes de energia elétrica aumentou em


função da crescente população e riqueza, da maior quantidade de carros
elétricos, de novas usinas de dessalinização e do fechamento de usinas
nucleares (mais de 300 usinas nucleares foram descomissionadas até
2020). Mesmo com a melhoria de 20,7% na eficiência total de energia
durantes os últimos 15 anos, a demanda não pôde ser plenamente atendida.
A eletricidade é racionada na China, Índia, e de forma intermitente em
muitos outros países. Hoje em dia há 1,2 bilhão de pessoas sem acesso
à eletricidade.
O carvão e o gás natural ainda geram a maior parte da nossa
eletricidade em 2020, mas as alternativas em energia solar, eólica
e biomassa estão se tornando viáveis. O movimento ambientalista
influenciou a demanda de combustíveis fósseis, mas não suficientemente
para desacelerar a mudança climática. O maior crescimento em kWh de
eletricidade solar entre 2010 e 2020 foi em função de novas tecnologias,
políticas do governo, educação pública e os crescentes preços dos
combustíveis fósseis. Concentradores solares, produção em massa de filmes
plásticos fotovoltaicos finos, com melhor utilização da nanotecnologia e
tintas solares, baixaram os custos e aumentaram a eficiência. O plano
GLEEM e o WEO promoveram essas tecnologias ao redor do globo.
Com esses avanços na tecnologia de energia solar, governos
começaram a tornar a instalação de painéis solares obrigatórios em
todos os edifícios governamentais novos e em alguns edifícios comerciais.
Eles também subsidiaram algumas empresas produtoras de novas
tecnologias e concederam incentivos fiscais a compradores. Pesquisadores
creditam à Califórnia Solar Initiative, ocorrida em 2006, o sucesso da
utilização de painéis solares, que investiu US$ 2,3 bilhões para acelerar a
produção de painéis solares.
Fazendeiros ao redor do mundo tiveram uma renda extra com a
energia eólica, que tinha pouco efeito negativo sobre o resultado agrícola.

107
Cenários Energéticos Globais 2020

Quase metade da eletricidade da Dinamarca vem do vento. Ventos que


sopram da praia fornecem uma parcela crescente da eletricidade do
restante da Europa. Até mesmo os Estados Unidos recebem grande parte
da sua eletricidade dos ventos da Dakota do Norte, Kansas e Texas. Cinco
anos atrás começou a construção de grandes fazendas eólicas no oceano;
espera-se que estas fazendas respondam por pelo menos 5% da produção
elétrica mundial até 2030. Uma parte dela será transmitida sem fio via
satélite às redes elétricas ao redor do mundo, e uma parte produzirá
hidrogênio a ser transportado por mar.
O relatório conjunto do projeto UE-China NZEC (Near Zero Emissions
Coal) e o projeto FutureGen dos EUA, divulgado no início de 2019,
demonstraram a viabilidade de engenharia da gaseificação de carvão
com a captura e armazenamento de carbono, enquanto é produzido
hidrogênio. Sua viabilidade comercial ainda será determinada. Contudo,
mesmo quando for determinada, levará outros 20 anos – até 2040, no
mínimo – para construir usinas e reequipar as já existentes, de forma que
tenham efeito sobre a mudança climática.
O que também entra em questão é a crescente dependência
mundial de gás natural. Embora o seu suprimento durasse mais que o do
petróleo, ele também acabaria um dia e o seu uso também emite gases
de efeito estufa. Assim, questionou-se por que não usar o pico petrolífero
e questões de mudança climática para tentar corrigir os problemas de
energia com soluções verdadeiramente sustentáveis. Como resultado, o
desenvolvimento adicional de suprimentos de gás natural parece limitado,
e investimentos adicionais diminuíram recentemente.

Inovações Adicionais

À medida que a computação e comunicações onipresentes evoluíram,


a necessidade de energia local e portátil cresceu significativamente.
Minicélulas de combustível movidas a metanol alimentam agora a maioria

108
Cenários Energéticos Globais 2020

dos aparelhos eletrônicos e fotônicos portáteis. Também existem elegantes


acessórios nanosolares adicionados a roupas e bolsas.
Numa escala maior, e à medida que a Estação Espacial Internacional
(ISS) aproximava-se do término, o consórcio de países que construiu a ISS
mais a China, Brasil, Índia e Coréia começaram a usar sua influência para a
utilização da energia solar espacial.14 Quando o movimento ambientalista
finalmente percebeu que a energia solar espacial tinha uma maior chance
de sucesso do que qualquer outra abordagem de energia não-fóssil e não-
nuclear para suprir indefinidamente as necessidades do mundo, a custos
comparáveis ou menores que os preços de eletricidade de hoje, muitos
começaram a apoiar a criação da INSOLSAT. Isto provocou o financiamento
internacional maciço para energia solar espacial. O primeiro satélite solar
elétrico em órbita e antena receptora na Terra, comercialmente viáveis,
alimentando eletricidade às redes terrestres, estão previstos para 2030.
O retorno da aplicação deve ser enorme, e indústrias privadas querem
participar com investimentos. Chegou-se a um acordo. Atualmente os
governos respondem por 50% dos investimentos na INSOLSAT, enquanto
as indústrias petrolíferas possuem 25%, indústrias automobilísticas 15%,
estações elétricas 5%, e investidores privados pelo menos 5%.
No início, o conceito de energia elétrica solar espacial não tinha
aliados naturais. Inicialmente o movimento ambientalista se opôs
a ele, como sendo algo assustador, com tecnologia centralizada e
ambientalmente perigoso. Alguns governos e as indústrias nucleares
viram-no como concorrente a longo prazo por prover eletricidade de
carga básica sem emissões de CO2 e tentaram convencer ambientalistas
a se opor a ele. A energia solar de superfície e outras alternativas de
energia renovável viram-no como um concorrente por fundos de P&D e o
associaram com a fantasia high-tech de Guerra nas Estrelas. A NASA o viu

14 Programa de pesquisa Energia Solar Espacial, ver http://space-power.grc.nasa.gov/ppo/


publications/sctm/ para plano de fundo, ver http://www.spaceref.com/directory/future_
technology/solar_power_satellites/

109
Cenários Energéticos Globais 2020

como uma ameaça a suas prioridades da Estação Espacial Internacional,


argumentando que eles somente conseguiriam financiar um projeto
importante por vez. Assim, quando a ISS estava finalizada, em 2011, a
NASA começou a apoiar abertamente a energia elétrica solar espacial.
O apoio surpreendente à idéia da transmissão de energia sem fio via
satélite veio dos países africanos do Sahel. Eles haviam investido pouco
em usinas de energia e fizeram lobby junto a membros da Organização
Mundial de Energia (WEO) para investirem na transmissão de energia sem
fio dos seus fotovoltaicos solares do deserto para sistemas de retransmissão
via satélite. A montagem telerobótica na órbita terrestre começou; o teste
inicial de um satélite solar em órbita está programado para o próximo ano.
O objetivo do projeto é obter 90% de eficiência na transmissão de energia
sem fio da órbita para a Terra. O Japão anunciou que, se o consórcio
quebrar, ele está preparado para continuar a construção de satélites de
energia solar orbitais por conta própria para operações comerciais até
2040, tornando-o potencialmente um importante fornecedor de redes
elétricas em todo o mundo.
Hoje em dia o carvão ainda é a fonte principal para a geração de
energia elétrica, e ações têm sido desenvolvidas para reduzir a poluição
e emissões resultantes. No entanto, o mundo agora está caminhando na
direção de fontes de geração de energia renovável não-fóssil, completando
as redes elétricas mais eficientes em todo o mundo, e obtendo eletricidade
acessível para um bilhão de pessoas que ainda não têm acesso a ela.
Também há uma rede descentralizada em expansão, que fornece energia
local para um número crescente de pessoas.

Trabalhe com Inteligência – em Casa – de Mumbai até a


Cidade do México

Teletrabalho, trabalho em casa e horário flexível finalmente se


tornaram aceitáveis para muitos profissionais da área de informação e
conhecimento em todo o mundo, economizando energia, aumentando

110
Cenários Energéticos Globais 2020

a produtividade e permitindo às famílias criarem seus filhos com mais


facilidade. Embora alguns esperassem problemas de desintegração social,
as crianças recebiam mais atenção dos seus pais, e, vizinhos, anteriormente
isolados, tinham mais tempo juntos.
Os sucessos iniciais de comunidades sustentáveis na China e a Iniciativa
Social da Informação na Finlândia para o desenvolvimento internacional
(que colocou pequenos transceptores de computador nas mãos de milhões
de pessoas pobres em todo o mundo até 2012) ajudaram a desencadear
os programas de desenvolvimento econômico ‘trabalho com inteligência’
do World-Bank-Linux-MIT-Google em muitas regiões em desenvolvimento,
assim como em megacidades mais ricas. Isso contribuiu para reduzir a
crescente demanda por sistemas de transporte urbano público e privado,
que, embora ainda estejam congestionados, isto se dá em menor quantidade,
em parte devido ao preço do petróleo, que se mantém em torno de
US$ 123 por barril em 2020.
O movimento “de volta ao futuro” foi criado em parte devido ao
congestionamento urbano intolerável. Engenheiros do Green Smart e ONGs
de energia-meio ambiente trabalharam com técnicos de desenvolvimento
de terras privadas e públicas para criar comunidades de alta tecnologia
ambientalmente sustentáveis em diferentes assentamentos ao redor do
mundo. Estas comunidades foram projetadas para o transporte a pé, em
bicicletas e veículos elétricos, reduzido consumismo material, elevado
consumismo de conhecimento, e incluíram áreas verdes em todo o
ambiente construído. Muitas vezes essas comunidades foram construídas
para menos de 2.000 pessoas.

Agricultura usando água do mar

Os defensores dos combustíveis a partir de biomassa tiveram


dificuldade em provar que havia água o suficiente para proporcionar
uma substituição confiável em larga escala para o petróleo. Então eles

111
Cenários Energéticos Globais 2020

passaram a valorizar os desertos costeiros para fins agrícolas usando


água do mar. Após uma série de reuniões entre a Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o Instituto Internacional
de Pesquisa de Política Alimentar (IFPRI), a NASA e o USAID, realizou-
se a Cúpula Mundial sobre o Eixo Energia-Alimentação em Nova Deli,
Índia, para garantir acordos que dessem início à agricultura usando
água do mar em larga escala. Vastas linhas costeiras desertas, como na
Somália, foram selecionadas para se tornarem Jardins do Éden salgados,
mediante o cultivo, em praias, de plantas osmotolerantes para produção
de biocombustíveis, fertilizantes e alimentos. A agricultura com o uso
de água salgada em larga escala também aumentou os níveis de água e
absorção de CO2.
Os sucessos iniciais da agricultura usando água salgada no Golfo
Pérsico-Árabe, China e alguns dos desertos costeiros na Baixa Califórnia
começaram a dessalinizar a terra, construindo novos canais, que agora
trazem água do mar até os desertos. Das 10.000 plantas halófitas naturais,
mais de 100 foram usadas pelas fábricas de alimentos ou biocombustíveis.
Com modificações genéticas, várias espécies – como arroz, tomate, trigo e
milho – agora são cultivadas sob condições salinas. Isto se mostrou muito
importante, visto que a mudança climática reduziu as produções desses
cultivos na China e na Índia.
A luz solar em desertos também produziu eletricidade via nanopainéis
plásticos, altamente eficientes, para operar as usinas de biocombustíveis
e apoiar as comunidades emergentes do deserto costeiro.
Nos desertos como o Saara, tubos agrícolas localizados em
ambientes fechados, de 36 quilômetros de comprimento, manipulados
roboticamente, intercalados com nanopainéis, estão começando a produzir
alimento suficiente para a África, além de exportar para a Ásia. A energia
excedente desses nanopainéis será enviada por microondas a satélites de
retransmissão em órbita da Terra e às redes elétricas do solo.

112
Cenários Energéticos Globais 2020

Proteína Animal sem a Criação de Animais

Os preços da carne, ovos e leite começaram a subir por volta de 2012,


à medida que a quantidade de terra e pasto para animais, necessários para
atender à demanda mundial por proteína animal, tornou-se insuficiente.
Simultaneamente, a crescente demanda urbana por carne levou a grandes
concentrações de produção animal, e patógenos mutantes em seus resíduos
foram considerados causadores de uma série de novas doenças entre
animais e humanos.
Ameaças constantes de doenças globais estavam diminuindo a
confiança do consumidor e do setor pecuário. Era necessário encontrar
alternativas. Investimentos públicos e privados na Holanda iniciaram uma
nova revolução da carne. A quantidade de energia, terra, água, ração e
tempo para produzir carne de animais foi chamada de um dos maiores
desperdícios ambientais e energéticos da civilização. Graças à iniciativa
holandesa, células-tronco agora são retiradas do sangue do cordão
umbilical de vacas, cabras e porcos para fazer crescer tecido muscular sem
a necessidade de criar o animal inteiro. Isto reduziu substancialmente as
ameaças de doenças e o bioterrorismo, assim como os requisitos terra, água
e energia. Até mesmo alguns vegetarianos vêem isso como uma alternativa
moral para as indústrias de animais convencionais.

Consumidores Educados

A corrida para educar o mundo sobre como ser consumidores


Green Smart começou após a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento
Cognitivo em 2010. Naquele tempo, cerca de 1,5 bilhão de pessoas
estava conectado à Internet, enquanto hoje são 3,5 bilhões de usuários.
Em 2010, a maioria das instituições, até mesmo as que possuíam uma
pequena ligação com a educação, começou a debater as maneiras mais
justas e de baixo custo para tornar todos mais informados, eficazes,

113
Cenários Energéticos Globais 2020

inteligentes, e Green Smart. O software educacional estava começando a


ser embutido em cozinhas, meios de transporte em massa, jóias e qualquer
coisa que pudesse comportar um chip de computador e transceptor de
nanotecnologia. Agora, a interligação de muitos programas separados em
sistemas globais de educação criou um ciberespaço pelo qual a maioria das
pessoas pode receber educação de qualidade em seu próprio ritmo, estilo
de aprendizagem, tempo disponível e até mesmo idioma. Considerações
energéticas e ambientais na tomada de decisão são um foco novo de
educação, que por sua vez tem impacto significativo sobre o número de
aquisições que destroem a energia e o meio ambiente.
A Meta Internet está trabalhando tranqüilamente, fornecendo
dados energético-ambientais que estão interligados com uma base de
conhecimentos acadêmico-científicos. Ela aumentou a velocidade da
resolução de problemas em todas as áreas, provendo uma arquitetura
logicamente estruturada na qual o conhecimento existente e o recém-
adquirido são colocados e assimilados para exame, discussão e extensão
por cientistas e acadêmicos em todo o mundo, e para uma gama completa
de aplicativos educacionais e acesso público. Interesses acadêmicos e
empresariais colaboraram para a criação de um sofisticado grupo de
princípios e técnicas, com o intuito de visualizar o conhecimento e o uso
de inteligência artificial, possibilitando navegar rapidamente em torno
do conhecimento cumulativo do mundo. A velocidade de feedback da
consulta à resposta inteligente é tão rápida, hoje em dia, que a curiosidade
está se tornando um estado mental normal para a maioria dos adultos,
o que por sua vez informa ao consumidor, agora mais instruído, quais
produtos agridem o meio ambiente e consomem mais energia.
A promessa das economias de informação e conhecimento para
reduzir os requisitos energéticos para transporte começa a ser sentida
em todo o mundo. O preço das interfaces ICT tornou-se tão baixo, até
2020, que muitas pessoas, nas regiões mais pobres do mundo, agora

114
Cenários Energéticos Globais 2020

recebem conexões livres como parte dos benefícios empregatícios, direitos


de cidadania, políticas de seguro, programas de marketing e sistemas
de crédito. Isto acelerou a difusão de acesso à Meta Internet nos países
mais pobres. A UNICEF, a Organização Mundial de Saúde, a UNESCO e
algumas agências internacionais de desenvolvimento também ajudaram na
difusão em regiões mais pobres. O reconhecimento e síntese da voz, que
estão integrados em quase tudo, tornaram a transferência de tecnologia
muito mais bem-sucedida do que parecia originalmente possível pelos
televoluntários do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas,
que fizeram muito para ajudar as regiões mais pobres a entender e
usar os benefícios dessas novas tecnologias. Como resultado, muitos
vilarejos remotos nos países mais pobres têm acesso ao ciberespaço para
teleeducação, teletrabalho, telemedicina, telecomércio e tele-quase-tudo,
o que contribuiu para reduzir a energia consumida por unidade de GDP.
No passado tivemos declarações universais e ignorância local, mas
de modo crescente todos esses esforços somaram-se a uma população
mais instruída em todo o mundo.

Resultados até 2020 e Fundamentos Estabelecidos para


o Futuro

A sexta Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, ocorrida


em 2017, reexaminou o status do Plano GLEEM e a implementação da
Convenção de Encadeamento energia-meio ambiente, que harmonizou
as centenas de tratados relacionados ao meio ambiente. A Corte
Internacional de Arbitragem e Conciliação Ambiental e a OMC reforçaram
esses acordos.
Rupturas tecnológicas, alterações regulamentais e ampliada
conscientização pública das ligações energia-meio ambiente modificaram
a utilização energética. Por exemplo, carros híbridos agora vendem mais
que carros somente a gasolina, e carros movidos a biocombustíveis e
elétricos estão ganhando terreno (ver tabela 2.)

115
Cenários Energéticos Globais 2020

Tabela 2 - Tipos de Veículos Vendidos em 2020


Novos veículos vendidos em 2020 Porcentagem de vendas em 20201
Híbrido 31,7
Gasolina 26,5
Biocombustíveis 19,0
Eletricidade 15,4
Hidrogênio 9,5
Fonte: Projeto Millenium Global Energy Delphi Rodada 1
(1) Estes números somam 102,1% ao invés de 100% porque as estimativas individuais médias
foram calculadas a partir dos participantes da Rodada 1 do Global Energy Delphi. http://www.acunu.
org/millennium/energy-delphi.html Em vez de adaptá-los a 100%, os resultados são simplesmente
relatados com a variância de 2,1%.

A grande promessa da nanotecnologia em baixar custos unitários de


fabricação, exigindo um volume menor de materiais e utilização de energia
e, conseqüentemente, diminuindo o impacto ambiental e aumentando a
produtividade, apenas agora gera resultados significativos.15
Nesse meio tempo, mais de um terço das nossas necessidades de
transporte ainda é atendido pelo petróleo. Os produtores de petróleo
também continuam a suprir as necessidades das indústrias da aviação,
plástica e farmacêutica nos próximos anos.
Em decorrência da postura adotada no passado, a mudança climática
permanecerá durante alguns anos. Embora grandes lucros pudessem ser
obtidos tanto em termos de eficiência energética como de produção de
energia por meio de sistemas que não causassem efeito estufa, os seres
humanos continuam a emitir cerca de 9 bilhões de toneladas de carbono
por ano. É verdade que isto é menos do que a previsão em 2005, mas
ainda é demasiado, visto que a capacidade de absorção de carbono
pelos oceanos e florestas é de apenas 3 bilhões de toneladas por ano.
Se quisermos evitar o ponto de inflexão para um sério efeito estufa
descontrolado, temos que continuar a melhorar. Devemos ter esperança
de que as novas políticas, tecnologias e padrões culturais tornarão os

15 http://www.foresight.org/cms/press_center/128

116
Cenários Energéticos Globais 2020

impactos menos traumáticos do que poderiam ter sido. Como resultado,


aqueles que morreram em conseqüência da catástrofe nuclear no Oceano
Índico não terão morrido em vão.

Cenário 3: High-tech Economy

Crescimento elevado em rupturas tecnológicas


Baixos impactos de movimentos ambientalistas
Crescimento econômico elevado
Poucas mudanças na geopolítica

Em 2020, a população aumentou para 7,5 bilhões de pessoas, a


economia global está se aproximando de US$ 80 trilhões,16 e a Internet
sem fio 4.0 agora conecta quase a metade da humanidade. Sinergias
entre nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciência
cognitiva (comumente conhecida como tecnologias NBIC)17 melhoraram a
condição humana, aumentando a disponibilidade de energia, alimentos e
água, e conectando pessoas e informação em qualquer lugar, a qualquer
hora. Os efeitos positivos devem aumentar a inteligência coletiva e criar
valor e eficiência enquanto baixam os custos.
A aceleração do desenvolvimento tecnológico abriu a porta para
o crescimento econômico mundial contínuo e rápido, e tem de fato
permitido ao mundo alcançar a sustentabilidade em energia, com o uso
de diversas fontes. As tecnologias NBIC estão demonstrando ser a chave
para um futuro bastante brilhante, no qual as máquinas cada vez mais
trabalhem com maior eficiência, o custo das mercadorias continue a cair
e uma grande riqueza seja criada cada vez mais rapidamente para todos.
Todas as necessidades básicas, assim como luxos intelectuais e materiais,
podem ser acessíveis até mesmo às sociedades mais pobres, graças a um
sistema político que conseguiu manter a paz mundial.

16 Todos os dólares em valores de 2006.


17 Ver http://www.wtec.org/ConvergingTechnologies/.

117
Cenários Energéticos Globais 2020

A exploração espacial, a inteligência artificial e a robótica estão


próximas de um ponto que alguns especialistas se referem como uma
“singularidade tecnológica”.18 Enquanto isso, a Lei de Moore continua
a vigorar, e computadores constantemente ficam mais rápidos e mais
potentes. Computação quântica, circuitos 3D e partículas subatômicas
deram nova vida à Lei de Moore. Espera-se que, em breve, os maiores
computadores tenham mais transístores do que os seres humanos têm
neurônios em seus cérebros. Nesse momento, a inteligência artificial
pode ultrapassar a inteligência humana, conforme sugerido por alguns
cientistas. Isso poderia ser o início de um incrível desenvolvimento
científico, quando os seres humanos poderiam ser transformados em
formas de vida mais avançadas: trans-humanos e pós-humanos. De fato,
alguns ciborgues e clones já estão sendo aceitos e tornando-se normais
em algumas sociedades, e os seus números crescem mais rapidamente
do que aqueles dos chamados “naturais”. A evolução biológica, que é
lenta e errática, será ultrapassada pela evolução tecnológica, mais rápida
e direcionada. Os seres humanos nunca mais serão os mesmos, e tudo
graças ao novo sistema energético.

O Sistema Energético Apropriado

Tudo teve início no fim do século 20. Em 1992, um anúncio oficial


pelo Conselho Mundial de Energia (WEC), sediado em Londres, declarou
claramente que o planeta não ficaria sem recursos energéticos. Poucos
anos mais tarde, a Agência Internacional de Energia (IEA), sediada em Paris,
também confirmou que havia energia mais do que o suficiente, inclusive
petróleo e gás, para durar por muitas décadas, talvez até mesmo séculos,
graças à disponibilidade de novas tecnologias.
Tais notícias, vindas de duas instituições renomadas como o WEC
e a IEA, contradiziam abertamente as visões pessimistas dos relatórios

18 Ver http://www.singularity.com/.

118
Cenários Energéticos Globais 2020

anteriores do Clube de Roma, que havia prognosticado, em 1972, que o


mundo estaria sem recursos até o fim do século passado. Os principais
problemas dos modelos computacionais do Clube de Roma e seu relatório
Limits to Growth eram que eles não consideraram a mudança tecnológica,
passaram por cima de novas fontes de energia (desde recursos mais
profundos dentro da Terra até novas fontes de energia fora do planeta),
e não incluíram a substituição de recursos. Suficientemente previsível, a
mudança tecnológica e a descoberta e substituição de recursos têm sido os
impulsionadores principais da energia no século 21. Existem ainda outros
impulsionadores que possuem um papel importante, como a presença
virtual substituindo a presença real e o fim de fanáticos ambientalistas
irresponsáveis, que tiveram um efeito menor até agora.
Após as crises do início dos anos 70 até o fim dos anos 80, o preço
do petróleo caiu nos anos 90 e esteve abaixo de US$ 10 por barril em
1998. Durante o início dos anos 2000, contudo, um longo período de
subinvestimento na indústria petrolífera e a longa e acelerada subida
da economia chinesa empurraram os preços acima de US$ 70 por
barril em 2005. Naquele mesmo ano, o furacão Katrina atingiu o Golfo
do México e destruiu muitas plataformas offshore, além de diversas
instalações de petróleo na Louisiana e Texas. Os preços da gasolina
subiram instantaneamente acima de US$ 1 por litro nos EUA e perto de
€ 2 por litro em alguns países europeus. Durante um discurso, em 2006,
o presidente americano George W. Bush disse que o seu país era “viciado
em petróleo” e que os EUA deveriam reduzir em 75% a sua dependência
em petróleo proveniente do Oriente Médio até 2025.
A melhor maneira de eliminar o vício em petróleo estrangeiro era
acelerando as rupturas em tecnologias avançadas de energia. Desde
2001, os EUA gastaram perto de US$ 10 bilhões para desenvolver fontes
alternativas de energia mais limpas, econômicas e confiáveis. O plano
era acelerar a mudança na utilização de energia em lares e empresas, e

119
Cenários Energéticos Globais 2020

fontes de combustíveis para automóveis. Havia programas para melhorar


os carros, criar usinas de energia com menor queima de carvão, converter
carvão em gás e armazenar suas emissões de dióxido de carbono em poços.
Além disso, foi incentivada a melhor utilização do vento, células solares,
etanol e baterias para carros híbridos.19 Os novos subsídios para carvão,
energia eólica, solar, nuclear e etanol destinavam-se à diversificação das
fontes de energia, primeiro nos EUA e em seguida no restante do planeta.
Visto que o consumo dos EUA atingiu um quarto de toda a energia produzida
no início do século 20, esses programas, no final das contas, tiveram um
impacto profundo sobre o futuro energético mundial.
Essa não foi a primeira vez que um presidente americano havia
dito: “Sejamos sérios a respeito de energia”. Nos anos 70, em resposta
à primeira crise do petróleo, o presidente Jimmy Carter propôs que o
país lutasse uma “guerra moral” para superar o seu “vício em petróleo”.
Mas as condições eram diferentes. Primeiro, nos anos 70 havia menos
preocupações ambientais e, segundo, as tecnologias energéticas não
eram muito avançadas. Nos anos 2000, grupos ambientalistas haviam
ficado mais sofisticados e eram uma força importante, mas também havia
muito mais rupturas tecnológicas potenciais que ajudaram a combater os
problemas de energia. Os sonhos de Carter com a energia solar estavam
à frente do seu tempo, enquanto o seu apoio ao xisto betuminoso do
Colorado era inviável. O retorno de energia em relação à energia investida
era efetivamente muito baixo, o que significava que era necessário mais
energia para retirar óleo do xisto do que a que se produzia quando
este era queimado. Outras iniciativas foram realizadas em importantes
países europeus e no Japão durante os anos 70, e elas aumentaram
substancialmente a eficiência energética tanto em carros como em
edifícios, reduzindo o consumo de petróleo e conservando energia.
Em 2020, a primeira presidente mulher dos EUA sublinhou o
enorme progresso obtido em termos de independência da energia e de

19 Ver http://www.whitehouse.gov/news/releases/2006/01/20060131-6.html.

120
Cenários Energéticos Globais 2020

sua diversificação no país. Embora sequer as promessas da economia


de hidrogênio e da fusão nuclear tenham sido cumpridas até agora,
os EUA estão quase auto-suficientes em energia, graças aos avanços na
biotecnologia e na nanotecnologia. De fato, os biocombustíveis respondem
atualmente por mais de 20% dos combustíveis veiculares americanos.
Nanobaterias de vida longa, automaticamente recarregáveis, são a moda
em carros elétricos, flexfuel e híbridos. Além disso, bactérias artificiais
feitas sob medida capazes de utilizar a fotoeletrossíntese estão se tornando
surpreendentemente confiáveis e uma fonte de produção de eletricidade
em novas usinas de energia.
Avanços similares abriram o caminho em outros países importantes,
e a Europa priorizou um programa maciço de conversão energética em
suas antigas usinas. Um outro exemplo foi o Japão, que conduziu o mundo
às práticas de conservação energética. A China, uma potência econômica
em expansão, agora lidera as pesquisas de tecnologias automotivas e
captura e armazenamento de carbono (CCS) em usinas de energia à
base de carvão, além da gaseificação de carvão oxigenado livre de CO2,
uma fonte tanto de eletricidade como de metanol. Até mesmo países em
desenvolvimento tornaram-se menos dependentes de energia importada.
Suas indústrias agora utilizam menor quantidade de energia, e a utilizam
de maneira muito mais eficiente. Em média a intensidade mundial de
energia por unidade de GDP vem diminuindo continuamente, embora
o nosso consumo de energia ainda continue a crescer. Além disso são
esperadas importantes mudanças tecnológicas, tais como a extensão
de novos usos do “vetor” elétrico na vida diária. O progresso contínuo
da eficiência energética ocorreu em função do constante acúmulo de
melhorias incrementais em toda a economia. Ele também foi impulsionado
pelo constante aumento no preço real da energia, o que resultou em
alterações estruturais nas sociedades, como adensamento habitacional,
deslocamento reduzido e fabricação mais próxima ao ponto de venda.

121
Cenários Energéticos Globais 2020

As “Ondas” de Energia

Em função do crescimento acelerado de muitas nações em


desenvolvimento, liderado primeiramente pela China e mais tarde
pela Índia, o crescimento econômico global aumentou em média 4%
anualmente durante as primeiras duas décadas do século 21. De 2000
a 2020, a demanda e suprimento de energia cresceram cerca de 2%
anualmente. Isto significa um crescimento na economia mundial de
100% e um crescimento no consumo de energia de quase 50% durante
as últimas duas décadas, indicando uma expansão do setor de energia
sustentada na eficiência energética.
Graças à força e à cooperação consistentes, geradas pelos fluxos
contínuos de negócio e de investimento, e exceto guerras e catástrofes, a
economia mundial também tende a um maior crescimento nas próximas
décadas. Tal crescimento beneficiará em especial as pessoas mais pobres,
que continuam sem qualquer acesso à eletricidade. Este número caiu
de 2 bilhões, em 2000, para apenas 1 bilhão em 2020, e a eletricidade
pode efetivamente alcançar a todos no planeta até 2040. O crescimento
mundial de GDP de 4%, graças à ascensão contínua da China e da Índia,
está se espalhando em regiões miseráveis do mundo. Além disso, existe
um declínio continuado na intensidade da energia – isto é, a quantidade
de energia necessária para produzir um dólar (ou dinar, euro, libra, rublo,
rupia, iene ou yuan) de GDP. Em outras palavras, a eficiência energética
está aumentando e é necessário menos energia para produzir mais, em
especial agora em que tantas nações estão passando de sociedades
industriais para pós-industriais. Além do mais, países mais pobres vêm
crescendo proporcionalmente mais rápido do que países mais ricos, e a
sua estabilidade econômica está proporcionando o crescimento contínuo
em todo o mundo.
Combustíveis fósseis ainda representam mais de 80% dos
suprimentos totais de energia em 2020, mas as tendências para novas

122
Cenários Energéticos Globais 2020

fontes energéticas estão claras no futuro, graças a novos desenvolvimentos


tecnológicos. A produção de carvão permaneceu estável entre 2000
e 2020, o que significa que a contribuição energética de carvão vem
diminuindo nas últimas duas décadas, principalmente devido à legislação
ambiental nas nações OECD, mesmo com as novas usinas FutureGen de
emissão zero (baseadas no programa Seqüestro Integrado e Iniciativa
de Pesquisa do Hidrogênio). A gaseificação de carvão (sem produção ou
seqüestro de hidrogênio, IGCC) também teve um papel importante – em
especial com a subida dos preços do gás natural. A China ainda é o maior
produtor e consumidor de carvão e começou a exportá-lo na forma gasosa.
As previsões indicam um declínio futuro nas usinas de energia a carvão,
independente das imensas reservas existentes, que, de acordo com alguns
especialistas, poderiam ser suficientes por quase dois séculos.
O petróleo tem mantido um crescimento anual ligeiramente abaixo
de 2%, pouco abaixo do crescimento médio mundial da energia. De fato,
ainda há bastante petróleo a ser produzido: até 2000 atingiu-se a produção
do primeiro trilhão de barris, e o segundo trilhão será produzido antes de
2030. No entanto, ainda existem perto de 4 trilhões de barris adicionais
de petróleo na Terra, incluindo o petróleo convencional normal, petróleo
em águas profundas, petróleo em águas ultra-profundas, recuperação
melhorada de petróleo (EOR), petróleo ártico, óleo pesado e xisto
betuminoso (ver a figura 8.) De fato, as reservas ainda podem continuar a
crescer, dependendo dos futuros preços e desenvolvimentos tecnológicos.
Esses incluem melhores taxas de recuperação e técnicas de produção
para o 1,2 trilhão de barris de óleo equivalente nas areias de alcatrão
do Canadá e o 1,3 trilhão de barris de óleo equivalente no betume do
Orinoco venezuelano.
Muitos avanços na exploração de petróleo (3-D avançado e 4-D
sismológico com interpretação sofisticada), perfuração (poços horizontais
estendidos e complexos perfis de poços), offshoring (perfuração em águas

123
Cenários Energéticos Globais 2020

profundas e unidades de produção flutuantes), gestão de reservatórios


(simulação digital de reservatório e perfuração otimizada), novos
desenvolvimentos de campo (offshore ártico e offtake remoto), técnicas
de extração química para oil shales, beneficiamento no local de óleos
crus extra-pesados e liquefação bacteriana de hidrocarbonetos de alta
viscosidade estão continuamente aumentando a base de óleo convencional
e não-convencional economicamente recuperável. Contudo, o preço do
petróleo – ainda abaixo de US$ 100 por barril – é suficientemente alto para
motivar a busca por fontes alternativas de energia (ver box a seguir).
O livro mais vendido no mundo em 2019 foi Life After Oil, por Daniel
Yergin, autor de The Prize e fundador da Cambridge Energy Research
Associates (CERA). Em seu livro mais recente, Yergin escreveu a respeito
de todas as novas possibilidades de geração de energia em um mundo
onde o gás está ultrapassando o petróleo como o principal suprimento
de energia. Nesse mundo, novas fontes de energia também estarão em
breve ultrapassando o gás e eventualmente substituindo a maior parte
da produção de combustível fóssil no planeta. Contudo, haverá muitas
oportunidades de energia para todos em um mundo em constante
globalização, inclusive uma abundância de energia solar na África e no
Oriente Médio, bioenergia nos EUA e Índia, e satélites de energia solar
espacial nos EUA, China, Japão e Rússia, por exemplo.
Yergin argumentou ainda que o mundo realmente nunca ficará sem
petróleo, mas que este será substituído por outras fontes de energia, mais
limpas, econômicas e abundantes. Ele nos lembrou dos cinco períodos
anteriores, quando muitos “especialistas” pensaram que o petróleo estava
se esgotando: nos anos de 1880; depois da Primeira Guerra Mundial;
depois da Segunda Guerra Mundial; nos anos 70, com a primeira crise do
petróleo, e no início dos anos 2000, com a especulação da aproximação
de um pico de Hubbert global (tal como um pico de Hubbert anterior nos
EUA durante os anos 70). Entretanto, Yergin mostrou que a produção de

124
Cenários Energéticos Globais 2020

petróleo, e até mesmo reservas de petróleo, continuaram a crescer, mesmo


que mais lentamente, em todo o mundo – do Pólo Norte ao Pólo Sul.
Ele terminou citando o famoso ditado do Xeique da Arábia Saudita Ahmed
Zaki Yamani: “A Idade da Pedra não terminou por falta de pedras, e a
Idade do Petróleo terminará muito antes de o mundo ficar sem petróleo”.
De fato, no início dos anos 2000, a British Petroleum mudou seu nome
para Beyond Petroleum e começou a trabalhar nas áreas de energia solar
e biocombustíveis. Este foi um sinal evidente de como as companhias
petrolíferas se transformaram em companhias multienergéticas, deixando
para trás seus restritos campos de petróleo. Mesmo os países da OPEC
tiveram de reagir e começar a pensar seriamente, pela primeira vez, sobre
o livro Life After Oil.
Até 2020, a produção de gás alcançou a produção de petróleo.
O fornecimento de gás duplicou entre 2000 e 2020, e ultrapassou a
produção de carvão em 2016. Agora, de acordo com a maioria das
previsões, outras fontes de energia nos anos de 2030 também alcançarão
o gás e o petróleo, que estão em declínio relativo. Embora nunca tenha
ocorrido qualquer falta significativa de carvão, petróleo ou gás, exceto
devido a pequenos problemas de produção locais, algumas vezes causados
por crises políticas ou fatores climáticos, a era dos combustíveis fósseis
parece mesmo estar chegando ao seu apogeu e pode terminar nas
próximas décadas. De fato, outras fontes de energia, incluindo algumas
nem mesmo consideradas hoje, aparentemente serão o setor dominante
nos EUA até 2040 (ver a figura 8.) Estas “ondas” de energia logo atingirão
também a maior parte do mundo. Elas mostram uma clara tendência de
“descarbonização”, que vai dos combustíveis de hidrocarbonetos com
mais carbono, para aqueles com mais hidrogênio: da madeira para o
carvão, petróleo, gás e talvez, eventualmente, hidrogênio puro e energia
solar (ela mesma baseada em hidrogênio).

125
Cenários Energéticos Globais 2020

Viagem ao Centro da Terra

O Consórcio EUA-UE-Japão acabou de se envolver num empreendimento


maciço de pesquisa para encontrar tecnologias que possam ser
implementadas de modo rápido, seguro e com um mínimo de
investimento, que fornecerão energia a partir de outras fontes que
não o petróleo para os próximos 100 anos.
Uma geóloga sênior está conversando com os pesquisadores
de sua equipe no Lawrence Livermore National Laboratory. “Bem,
pessoal”, ela diz, “temos uma opção de pesquisa que se chama
‘perfuração profunda’. Isto inclui o processo geotérmico e qualquer
coisa mais exótica em que possamos pensar... Temos isto porque nossas
armas nucleares deram-nos alguma familiaridade com as pressões e
temperaturas intensas encontradas nas profundezas da Terra. Estamos
abertos a discussões”.
Um jovem astrofísico da equipe diz: “Eu me lembro que nos anos
70 Tom Gold propôs que o metano era produzido em um processo
inorgânico, nas profundezas da Terra, e que não era da deterioração
orgânica como a maioria dos livros dizem. Se for verdade, ele infiltra-se
até que é capturado em domos e pode ainda estar se formando agora,
dadas as condições certas. Os russos disseram que Gold recebeu a idéia

126
Cenários Energéticos Globais 2020

deles, mas a maioria da comunidade científica pensou que a idéia toda


era bobagem”.
Um outro cientista diz: “Mas eu me lembro que havia experimentos
no Carnegie Institute ou Indiana Center, sob Henry Scott, penso eu, nos
quais granito, água e óxido de ferro eram esmagados em uma fábrica
de diamantes, que basicamente duplicava as condições de temperatura
e pressão do manto terrestre profundo – cerca de 19 quilômetros – e
pronto, a água dissociava e os átomos de carbono da rocha ligavam-se
ao hidrogênio liberado para formar metano. O óxido de ferro era
um catalisador”.
“Assim”, diz a líder, “eu presumo que você esteja sugerindo que
perfuremos fundo, realmente fundo, para encontrar os depósitos
de metano e talvez os pontos de origem e talvez, apenas talvez,
descubramos que a produção de metano é um processo contínuo. OK.
É o suficiente por ora. Aqui estão as tarefas. Peguem suas favoritas”.
Equipe 1, Engenharia: Como podemos fazer com que brocas de
perfuração e tubos para poços profundos funcionem em profundidades
de 32 quilômetros, quando as rochas ao seu redor estão suficientemente
quentes e pressões estão suficientemente altas para dissociar a água
e o granito?
Equipe 2, Geofísica experimental: Podemos ampliar os experimentos
de Scott, de modo que possamos ter uma clara validação e corroboração
dos seus achados em mais do que quantidades em mililitros?
Equipe 3, Economia: Qual o custo da perfuração profunda? Ela se
paga? E mesmo se tivermos êxito, quão eficientes serão os aumentos
maciços na quantidade de metano de baixo custo para alterar a
situação energética? Precisamos de uma nova infra-estrutura ou ela
se adaptará?
Dez anos mais tarde: Experimentos em larga escala confirmaram
a possibilidade de geração contínua de metano nas profundezas
da Terra. A equipe de Engenharia audaciosamente adiantou-se com
brocas de perfuração feitas de nanomateriais, que eram mais duras
e mais resistentes ao calor do que diamantes; explosões a laser
de alta intensidade empurraram os poços profundos mais fundo.
Os revestimentos de poço basicamente se produziam sozinhos à medida
que os furos avançavam. A perfuração ocorria em 200 pontos que
foram identificados como locais mais favoráveis à perfuração pelos
Estados Unidos e seus aliados mais próximos. O projeto foi chamado
de “Viagem ao Centro da Terra”, segundo o famoso livro Journée au

127
Cenários Energéticos Globais 2020

Centre de la Terre, de Júlio Verne, de 1864, ou mais comumente “JuiCE”,


pelos milhares de cientistas e engenheiros, bem como na mídia.
A 32 quilômetros eles atingiram minério, ou melhor, gás: quantidades
maciças de gás, à alta pressão, contaminado apenas pelo oxigênio
liberado pela reação (o que tornou tudo um tanto perigoso).
A equipe de infra-estrutura estava pronta. Processos para converter
o metano em metanol eram conhecidos e o metanol poderia ser
usado como combustível líquido. Visto que a combustão do metano é
altamente exotérmica, ele poderia servir como um bom combustível de
aquecimento e como fonte para a geração de energia elétrica. Contudo,
o mais excitante é a possibilidade da decomposição catalítica do metano
em hidrogênio (o início da economia de hidrogênio?) e nanofibras de
carbono que podem ser extraídas para outras aplicações.
A equipe havia produzido a tecnologia, encontrado os recursos
e identificado os processos geofísicos, através dos quais o metano
estava sendo produzido de forma contínua. O preço do petróleo caiu
do seu pico de quase US$ 200 por barril para US$ 50. Os governos de
nações dependentes da receita de exportação de petróleo sofreram
um colapso e entraram num caos ou rapidamente se aliaram às novas
“nações da energia.”

128
Cenários Energéticos Globais 2020

Quando comparada aos combustíveis fósseis, a energia nuclear


aumentou de forma insignificante, e sua parcela na geração total de
eletricidade caiu quase à metade, embora as usinas de fissão de terceira
geração possam eventualmente retornar à atividade. Vários reatores
nucleares foram descomissionados na Europa. Muitas usinas tornaram-
se obsoletas e foram fechadas sem substituição, enquanto novas plantas
eram abertas em alguns poucos países, principalmente na Ásia: primeiro
na China, seguido da Índia, Japão e Coréia do Sul. A China construiu 25
reatores nucleares nas últimas duas décadas, aumentando sua capacidade
elétrica em 20 GW. De modo semelhante, a Rússia construiu 30 reatores
e elevou sua parcela de energia nuclear para 25% da produção total de
eletricidade, o que permitiu à Rússia continuar a exportar mais petróleo
e gás. Por outro lado, a maioria dos outros países não manteve pesquisas
em energia nuclear devido a problemas de segurança e ambientais.
Além disso, a fusão nuclear ainda não foi bem-sucedida. O reator
de fusão ITER tokamak, construído no sul da França por um consórcio
internacional (fundado pela China, Europa, Índia, Japão, Coréia do Sul,
Rússia e os EUA), realizou suas primeiras operações a plasma em 2018, com
um orçamento excedido em 80% e atraso de dois anos no cronograma.
Mas estima-se que serão necessárias ainda muito mais pesquisas em física
de plasma, e que usinas de energia de fusão geradoras de eletricidade
possam se tornar totalmente operacionais em uma ou duas décadas.
Isso será um passo importante, visto que a fusão nuclear é muito mais
eficiente do que as reações químicas que usam combustíveis fósseis, e é
substancialmente mais segura do que a fissão nuclear (fusão nuclear é um
processo que combina dois isótopos de hidrogênio, o deutério e o trítio).
Contudo, a técnica para sustentar uma interação de plasma ainda está no
estágio inicial de desenvolvimento, e pode precisar de muitas pesquisas
futuras. Ainda assim, pode perfeitamente ser ultrapassada e tornar-se
obsoleta pela “energia espacial”.

129
Cenários Energéticos Globais 2020

A “Internet” da Energia

Outra fonte importante de geração de eletricidade tem sido a energia


hídrica. Até 2020, no entanto, a maioria dos projetos importantes de
barragens já foi terminada, em especial após a inauguração da Barragem
Três Gargantas, no rio Yangtze, na China. A barragem chinesa foi completada
finalmente em 2010, quase duas décadas depois do início da sua construção
e com um custo total de US$ 75 bilhões, tornando-a o projeto individual
mais caro na história da humanidade. Seus 26 geradores possuem uma
capacidade combinada de 18 GW, o que equivale quase à energia nuclear
total da China. Embora a energia hídrica não possa continuar a crescer
em nível mundial por causa da falta de perspectiva de locais, ela ainda
representa cerca de 15% da geração total de eletricidade e um pouco menos
que 5% da produção total de energia em todo o mundo.
Além da energia hídrica, outras fontes renováveis cresceram
continuamente até 2020. A energia solar térmica possui muitas aplicações
industriais, agrícolas e domésticas. Algumas usinas de energia solar
térmica de carga básica tornaram-se úteis em certas áreas, como, por
exemplo, a incidência de luz solar sobre espelhos direcionados para uma
caldeira, que aquece um fluído em um trocador de calor, e, em seguida,
o vapor gira turbinas convencionais. Sistemas solares fotovoltaicos de
silicone também cresceram, mas ainda são quase duas vezes mais caros
que outras fontes convencionais e dependem demasiadamente das
condições climáticas, sendo extensivamente usados em locais isolados
ou remotos, onde existe muita luz solar. Entretanto, o desenvolvimento
contínuo de novas nanocélulas elétricas solares de plástico está próximo
do limite de rentabilidade.20 As energias geotérmica e das marés também
melhoraram muito, mas são igualmente restritas a locais que possuem

20 Ver http://news.nationalgeographic.com/news/2005/01/0114_050114_solarplastic.html e
http://www.nanosolar.com/.

130
Cenários Energéticos Globais 2020

as condições geológicas especiais necessárias. Até 2020, a energia solar


terá atingido 10% da capacidade total de eletricidade na Algéria, e, a
energia geotérmica, 15% em El Salvador. A energia geotérmica profunda,
algumas vezes chamada “energia da rocha quente”, está finalmente sendo
considerada em muitos países, a começar pela Austrália, aproximadamente
uma década atrás.21
Ainda existem enormes diferenças na geração de eletricidade de
região para região, de 90% de combustíveis fósseis no Oriente Médio,
principalmente petróleo e gás, até mais de 70% de renováveis na América
Latina, sobretudo energia hídrica e biomassa. Na França, perto de 80% da
eletricidade é produzida por meio de energia nuclear, exportada pelo país
também à Bélgica e Alemanha, países vizinhos. Por outro lado, países como
o Brasil, Uruguai, Paraguai, Noruega e Venezuela dependem da energia
hídrica para mais de 80% da sua eletricidade. O uso da energia hídrica
depende das condições locais e da geografia regional, e o mesmo pode-
se dizer sobre energia eólica, solar, geotérmica e das marés. Em alguns
lugares elas são muito importantes, mas em outros não são possíveis
de forma alguma – por exemplo, a energia hídrica fornece mais de 90%
da eletricidade na Noruega, mas perto de zero nos países do Saara; e a
energia eólica fornece a maior parte da eletricidade da Dinamarca, mas
nada em Cingapura. Assim sendo, cada fonte de energia é especificamente
importante em sua própria região, mas não em toda parte, e países
grandes como a China, Índia e os EUA contam com uma variedade de
fontes de energia, que normalmente estão ligadas por redes múltiplas.
A média mundial, apesar das enormes disparidades regionais, é
de mais de 20% de geração de eletricidade a partir de fontes renováveis:
eletricidade hídrica, eólica e solar, cada uma próxima de 5%, seguidas pelas
energias geotérmicas e das marés, cada uma com menos de 1%. O restante
agora é provido por novas fontes de biocombustíveis, tanto naturais

21 Ver http://hotrock.anu.edu.au/index.html.

131
Cenários Energéticos Globais 2020

como artificiais. As energias renováveis têm apresentado um crescimento


mais rápido, liderado por novas fontes como os biocombustíveis,
devendo crescer ainda mais no futuro. O consumo de biomassa cairá
com o desenvolvimento e a urbanização, mas será substituído por
outras energias renováveis, que suprirão as novas necessidades urbanas
de energia. Além disso, os biocombustíveis tiveram um crescimento
enorme, saindo de praticamente 0% do consumo total, em 2000, para
quase 5% em nível mundial em 2020. Felizmente, graças à expansão de
redes elétricas locais, nacionais, regionais e globais, existe um crescente
equilíbrio e compensação nas capacidades energéticas em todo o mundo.
A eletrificação continua agressivamente, e as regiões desprovidas de energia,
concentradas principalmente na África e sul da Ásia, estão encolhendo.
Em um mundo de alta tecnologia, a difusão de eletricidade de rede não
será a forma mais freqüente escolhida para comunidades isoladas, visto
que sistemas de energia off-grid e descentralizados estão começando a
surgir, especialmente em regiões com baixa densidade populacional.
Em 2018, Rahul Gandhi, o herdeiro da dinastia política Nehru-
Gandhi, tornou-se Primeiro-Ministro da Índia e propôs a criação da
Indo-European Electrical Network (IEEN). Isto foi parcialmente motivado
por seu sonho de ligar os seus dois mundos, o subcontinente do seu pai
Rajiv – Índia – e o local de nascimento da sua mãe, Sônia – Itália. Rahul
Gandhi assinou um acordo com Ângela Merkel, presidente da União
Européia, e a construção de partes que faltavam nessa rede começou
imediatamente. O ano de 2019 presenciou a conclusão da rota do sul,
que ligava a Índia à Europa através do Oriente Médio, que basicamente
seguiu os caminhos ancestrais da Estrada da Seda. Esta rota também
contava com a rede Gulf Cooperation Council Grid, concluída em 2012, e
com o Mediterranean Ring, concluído em 2015. A rota do norte, da Índia
à Europa através da Rússia, ainda está em construção em 2020, mas deve
ser aberta oficialmente no início de 2021.

132
Cenários Energéticos Globais 2020

O sucesso da IEEN tem sido tão grande, que agora outros países
querem rapidamente se interligar, desde a África até o Leste da Ásia,
incluindo a Austrália e a Nova Zelândia, e estas conexões estão planejadas
para 2022. A redundância completa e a capacidade de reserva da IEEN são
fundamentais ao seu funcionamento; cada parte da sua malha elétrica
descentralizada e automaticamente redistribuída tem cobertura de
segurança e múltiplas alternativas. Da mesma forma que a Internet fez para
as telecomunicações, a IEEN permitiu interconexões elétricas contínuas e
confiáveis entre povos e nações. De fato, as novas redes elétricas estão se
tornando algo como uma Internet da energia. As diferenças no período
de pico de carga do Leste para o Oeste e do Norte para o Sul têm ajudado
a aumentar a eficiência e redundância dessas redes elétricas globais. Isto
tem sido especialmente importante para reduzir as ameaças políticas e
aumentar o superávit elétrico.
As Américas estão ligadas desde 2015, quando a rede Pan-American
Electrical Grid (PAEG) foi concluída. De fato, a PAEG foi o fruto do Plano
Pueblo-Panamá (PPP), iniciado pelo presidente mexicano Vicente Fox
em 2006 e que ligava o México ao Panamá em 2010. Os elos elétricos
finais entre México e EUA também foram concluídos em 2011, e o Brasil
ligou-se a todos os seus vizinhos até 2015. Primeiro a PAEG, e agora a IEEN
expandida conquistarão o sonho de ligar toda a humanidade quando a
rede elétrica for finalmente conectada entre a Sibéria e o Alasca, em 2023.
Isto será um avanço importante para todo o planeta e trará eletricidade
confiável a todos os cantos de cada continente.
As idéias do pensador visionário Buckminster Fuller e sua Global
Energy Network (www.geni.org) logo estarão realizadas, o que trará mais
contatos e mais trocas entre todas as nações, enquanto reduz e quase
elimina o medo de conflitos em um mundo totalmente interligado e
interdependente. De fato, Buckminster Fuller falou em não jogar “jogos
de guerra”, mas sim “jogos mundiais” para trazer paz e prosperidade a

133
Cenários Energéticos Globais 2020

cada nação da Terra. E a eletrificação trouxe desenvolvimento às partes


mais pobres do mundo e a aceleração contínua de crescimento a um
mundo globalizado. Isso criou um ciclo virtuoso de aumento de energia
e desenvolvimento econômico. Além disso, novas tecnologias e melhores
materiais também melhoraram a eficiência das linhas de transmissão
e reduziram o custo de ligação de fontes de energia renovável à rede.
Novos sistemas de gestão de rede automatizados, que combinam novos
chips, sensores, atuadores e comunicadores, além de novos algoritmos,
possibilitam conectar o fornecimento e a demanda de eletricidade de
modo mais eficaz no tempo, o que é essencial para conseguir o uso pleno
de fontes de energias renováveis, dispositivos inteligentes e baterias
para carros.

De Combustíveis Fósseis à Bioenergia

Outra notícia importante na indústria energética tem sido o


crescimento impressionante de muitas formas de bioenergia, que
originalmente teve início com o bioálcool, nos anos 70, e com o biodiesel,
nos anos 90. O bioálcool, normalmente chamado apenas de etanol, devido
à sua configuração química, cresceu de quase nada em 1980 para 20 bilhões
de litros em 2000 e para quase 200 bilhões de litros em 2020 – isto é, perto
de 20% do mercado total de combustíveis para automóveis atualmente.
De forma similar, o biodiesel cresceu de cerca de zero, em 1990, para
1 bilhão de litros em 2000 e aproximadamente 30 bilhões de litros em
2020, o que é quase 2% do consumo total de diesel no mundo.
A indústria do bioálcool ou do etanol iniciou-se no Brasil após a crise
do petróleo nos anos 70. Essa indústria teve uma primeira fase de sucesso
durante os anos 80, com a introdução dos primeiros motores a etanol, mas
lentamente decaiu, nos anos 90, com a diminuição dos preços do petróleo.
Entretanto, ela teve um importante renascimento no início dos anos 2000,
com o surgimento dos primeiros carros com motores flex fuel. Os motores

134
Cenários Energéticos Globais 2020

flex podiam usar gasolina, etanol ou qualquer mistura dos dois. Além
disso, quando surgiram os primeiros carros flex, toda gasolina vendida
no Brasil continha 20-25% de álcool, e tinha um preço equivalente ao da
gasolina por quilômetro percorrido. O etanol e os carros flex permitiram
que o Brasil parasse de importar gasolina e iniciasse a exportação de
bioálcool em 2005. Até 2010, todos os carros novos vendidos no Brasil
tinham motores flex, e o etanol tornou-se um dos principais produtos
das exportações brasileiras, principalmente para o Japão e outros países
asiáticos. O Brasil produz etanol a partir de cana-de-açúcar, e aumentou
substancialmente a sua produção de 300 metros cúbicos por quilômetro,
em 1980, para 550 em 2000, e 900 em 2020, graças à biotecnologia, que
agora tornou o etanol 20% mais barato que o petróleo. O Brasil tem sido
tão bem-sucedido com o bioálcool que está produzindo motores de avião
movidos a etanol. Além disso, algumas empresas brasileiras começam a
substituir petroquímicos por bioalternativas. Esta sábia escolha de negócio
deixa o Brasil menos vulnerável à volatilidade dos preços do que os outros
países, que ainda contam exclusivamente com o petróleo e gás.
Os EUA iniciaram um programa similar nos anos 90, mas baseado
em milho, primeiro em Minnesota e depois em outros estados do Cinturão
do Milho do meio-oeste. Minnesota possuía 10% de etanol em toda a sua
gasolina e 20% era exigido por lei no início de 2013. Logo outros estados
seguiram seu exemplo. Na Europa, o combustível E85 (uma mistura de
85% de etanol e 15% de gasolina por volume, algumas vezes também
chamado de bioálcool BA85) estava obtendo bons resultados na Suécia,
e rapidamente espalhou-se em grande parte da Europa. Contudo, custos
mais elevados na Europa e a indisponibilidade de mais terra impediram
qualquer substituição mais rápida da gasolina. O desenvolvimento da
tecnologia de biodiesel começou na Europa, onde havia uma frota
importante de veículos diesel e ele podia ser produzido de uma variedade
de fontes – desde a soja, passando pela semente de colza até as algas.

135
Cenários Energéticos Globais 2020

A Índia iniciou um plano-piloto muito bem-sucedido em 2006 para


produzir 10 milhões de litros de biodiesel em 8.000 hectares de solo
improdutivo marginal com Jatropha curcas, uma cultura oleaginosa não
comestível resistente à seca. O experimento teve tanto sucesso, que a BP
e o Instituto Tata de Pesquisa Energética (TERI), sediado em Nova Deli,
iniciaram a produção comercial em 2016 depois de aumentar em 400%
a produção por hectare, graças à biotecnologia. O programa de biodiesel
começou visando ao desenvolvimento de um combustível alternativo
barato para os riquixás indianos de três rodas com motor diesel, e agora
começa a ser exportado. Entretanto, há um limite para tais exportações,
pois a Índia possui pouca terra marginal e ela precisa da sua terra arável
para a produção de alimentos. Biocombustíveis baseados em etanol
celulósico, feito de biomassa mais abundante e menos dispendiosa,
usando uma variedade de bactérias, leveduras e processos enzimáticos,
mostram, agora, ter bastante êxito em muitos países.
O transporte por terra, ar ou mar ainda consome cerca de 20%
da energia total fornecida em nível mundial e cerca de 60% do petróleo
produzido. É por isso que o avanço de biocombustíveis tem sido tão
importante, em especial com a venda de carros subindo em todo o
mundo. Por exemplo, na China o transporte pessoal geralmente era por
meio de bicicletas, em 1980, mas em 2000 existiam 10 milhões de carros
particulares e quase 80 milhões em 2020. Ainda há muito espaço para a
expansão, dado que isto representa apenas 6 carros por cada 100 pessoas
na China, contra 80 nos EUA (para um total de 260 milhões de carros
nos EUA). Contudo, a crescente utilização de carros na China tem sido
incrível, e logo outros países ascendentes na escada do desenvolvimento
econômico irão seguir seu exemplo.
Graças ao seu rápido crescimento, a China posicionou-se como o
produtor mais eficiente dos carros mais eficientes do planeta. Atualmente
produz mais de 10 milhões de carros por ano, quase tanto quanto a

136
Cenários Energéticos Globais 2020

Europa, Japão ou os EUA. Entretanto, os carros chineses são os de maior


eficiência energética, com estimativas de 53 km/l. A China copiou os carros
flex do Brasil e os combinou com os carros híbridos do Japão (veículos a
gasolina/elétricos) para criar carros flex híbridos que também se movem
a energia elétrica com nanobaterias.
Os EUA aprovaram as leis do Corporate Average Fuel Economy
(CAFE) em 1975 e lentamente elevaram os padrões para motores
normais atingirem 13 km/l até 2000, quando os primeiros carros híbridos
japoneses da Toyota alcançaram 26 km/l (e todos os carros da Toyota
vendidos depois de 2012 eram híbridos, atingindo 30 km/l ou mais).
Os carros brasileiros do início dos anos 2000 acrescentaram a possibilidade
de combinar diferentes combustíveis em misturas variáveis, visto que os
motores apresentavam mecanismos de comando internos para ajustar o
seu funcionamento às condições de mudança de combustível, enquanto
os primeiros carros elétricos comerciais europeus transformavam a energia
química armazenada no veículo em baterias. Em 2015, os chineses
criaram os primeiros motores elétricos sofisticados com nanobaterias para
carros híbridos com motores flex. Estes carros “híbridos flex elétricos”
tornaram-se agora uma importante exportação da China, e a GM
(Guangzhou Motors, o principal fabricante na província de Guangdong)
espera continuar o desenvolvimento de baterias melhores, graças às
contínuas rupturas na nanotecnologia, para atingir 60 km/l até 2022
(e alguns especialistas também planejam incorporar células a combustível
nestes carros, quando os seus custos tiverem caído suficientemente).
Os novos carros não apenas são mais baratos, mas também se movem
com qualquer combinação possível de biocombustíveis e eletricidade.
Isto reduz substancialmente as emissões de gases, pois os carros também
podem ser conectados em qualquer lugar ao longo da rede da energia, e
eles são pronta e economicamente reparáveis (por exemplo, a construção
é modular, de modo que itens como baterias podem ser totalmente

137
Cenários Energéticos Globais 2020

reciclados, assim como reutilizados em outros veículos). Os novos híbridos


flex elétricos chineses estão revolucionando o mundo no ano de 2020,
até mais do que o modelo T da Ford mudou os EUA em 1910.

As Células da Vida

As atuais revoluções em energia e transporte também incluem


a criação de biocombustíveis diretamente de células vivas – não de
combustíveis fósseis mortos há muito tempo ou de cana-de-açúcar
recém-colhida ou de óleo de palmeira, mas de células realmente vivas.
De fato, a vida baseia-se em usar energia. Toda criança hoje em dia sabe
que as plantas transformam o dióxido de carbono e água em carboidratos
e oxigênio. Na verdade, isto é simplesmente chamado de fotossíntese e
sua expressão química é:

CO2 + 2 H2O + luz → (CH2O) + O2 + H2O

Portanto, plantas usam luz e algumas moléculas químicas


simples para criar carboidratos, que na verdade nada mais são do que
hidrocarbonetos mais oxigênio. Além do mais, cerca de 114 quilocalorias
de energia livre são armazenadas na biomassa da planta para cada mol
de CO2 fixado durante a fotossíntese. A radiação solar que atinge a Terra
numa base anual equivale a 174.000 terawatts (que é várias milhares de
vezes o atual consumo global de energia), e apenas parte dessa luz é usada
para a captura de energia fotossintética. Aproximadamente dois terços da
produção fotossintética global líquida são terrestres, enquanto o restante
é produzido principalmente por fitoplâncton (microalgas) nos oceanos,
que cobre aproximadamente 70% da área superficial total da Terra. Visto
que a biomassa se origina da fotossíntese de plantas e algas, tanto as
plantas terrestres como microalgas aquáticas são alvos apropriados para
aumentar a produção de energia de biomassa.
As plantas o fazem, a maioria das algas também o faz, e até mesmo
algumas bactérias muito simples podem fixar o dióxido de carbono

138
Cenários Energéticos Globais 2020

e água para produzir carboidratos e oxigênio sob a influência da luz.


De fato, muitas células simples podem realizar a fotossíntese e processos
bioquímicos similares. Gerar hidrocarbonetos é um dos processos
biológicos mais simples, conforme explicado em um famoso relatório da
Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) no
fim do século passado.22 Hidrocarbonetos não são moléculas complexas
com uma série de elementos, como proteínas e enzimas; eles são apenas
moléculas com dois dos elementos mais comuns na Terra: o hidrogênio
e o carbono. Surpreendentemente, foram necessários muitos cientistas
e muitos anos para criar artificialmente os primeiros hidrocarbonetos
comerciais a partir de carboidratos vivos e não de combustíveis fósseis.
Craig Venter, um dos biólogos que seqüenciaram o genoma
humano em 2000, fundou posteriormente uma empresa cuja finalidade
era precisamente criar vida. De fato, Venter disse que ele passou 20
anos da sua vida tentando “ler” a vida, e que passaria outros 20 para
“escrever” a vida. A sua empresa, Synthetic Genomics, foi uma das
pioneiras dedicadas a usar microorganismos modificados para produzir
biologicamente combustíveis alternativos como o etanol e o hidrogênio.23
Na verdade, muitos outros empreendimentos como esses surgiram, e as
primeiras formas de vida, vírus e bactérias artificiais, foram criadas em
2003 e 2005. Em 2018, um dos associados da pesquisa de Venter, Mohan
Kapoor, da Índia, foi o primeiro que conseguiu criar bactérias artificiais
para produzir hidrocarbonetos de forma econômica. Desde 2015 ele vinha
trabalhando com Clostridium acetobutylicum e outras bactérias, até que
conseguiu fazer sob medida um novo organismo híbrido, que produziu
eficazmente hidrocarbonetos a partir do dióxido de carbono e água sob
iluminação controlada.

22 Ver http://www.fao.org/docrep/w7241e/w7241e00.htm . Este é um excelente relatório FAO


conduzido por alguns cientistas japoneses notórios sobre sistemas biológicos renováveis para
a produção de energia alternativa sustentável.
23 Ver http://www.syntheticgenomics.com/

139
Cenários Energéticos Globais 2020

Clostridium acetobutylicum é uma bactéria comercialmente


valiosa, algumas vezes chamada de Organismo de Weizmann, segundo
Chaim Weizmann, que em 1916 ajudou a descobrir como culturas de
C. acetobutylicum poderiam ser usadas para produzir acetona, butanol
e etanol a partir do amido, usando o processo ABE (Acetona, Butanol,
Etanol), para atender finalidades industriais tais como a produção de
pólvora e TNT. O processo ABE foi um padrão industrial até os anos 50,
quando os baixos custos do petróleo levaram a produção para métodos
mais eficientes, baseados no craqueamento de hidrocarbonetos e técnicas
de destilação de petróleo. C. acetobutylicum também produz ácido acético
(vinagre), ácido butírico (uma substância com odor de vômito), dióxido
de carbono e hidrogênio. Essas tecnologias têm se mostrado tão bem-
sucedidas, que agora estão sendo usadas para dar início a fábricas que
usam processos celulares para criar organismos eficientes, para digerir
óleo pesado e obter maior extração dos resíduos. Outros projetos de
energia que envolvem novos desenvolvimentos biotecnológicos incluem
a produção de etanol a partir de cascas usando microrganismos e arroz
geneticamente modificado, resistente ao sal, e extração de óleo de xisto e
areais de alcatrão com bactérias.
Mohan Kapoor chamou sua nova bactéria de Petroleum artificiali
e iniciou um teste de marketing em novembro de 2019. Espera-se que
sua bactéria, que “come” dióxido de carbono e “bebe” água sob a luz
24 horas por dia, para “excretar” hidrocarbonetos, verdadeiramente
revolucione o mundo. Ela não apenas produzirá hidrocarbonetos de
forma contínua, mas também irá capturar dióxido de carbono e gerar
oxigênio livre e energia. Se não houver maiores problemas, a produção do
novo combustível excretado pela P. artificiali se tornará financeiramente
viável em 2021 e resolverá o problema do seqüestro de carbono. Outros
cientistas trabalham atualmente em bactérias mais específicas para gerar
etanol, metanol e hidrogênio puro. Eventualmente isso nos permitirá

140
Cenários Energéticos Globais 2020

produzir artificialmente todos os tipos de biocombustíveis, de acordo com


necessidades específicas, tentando obter o melhor valor de combustível ou
densidade relativa de energia (isto é, a quantidade de energia potencial
no combustível, alimento ou outra substância – ver tabela 3).

Tabela 3 - Densidade Relativa de Energia de Diferentes Combustíveis

Teor energético
Tipo de combustível
(MJ/kg)
Água armazenada bombeada à altura de barragem de 100 m 0,001
Bagaço 10
Madeira 15
Açúcar 17
Metanol 22
Carvão (antracita, lignita etc.) 23–29
Etanol (bioálcool) 30
GLP (gás liquefeito de petróleo) 34
Butanol 36
Biodiesel 38
Óleo diesel 42
E10 (mistura de 90% de gasolina e 10% de álcool) 44
Gasolina 45
Diesel 48
Metano (combustível gasoso, dependente de compressão) 55
Hidrogênio (combustível gasoso, dependente de compressão) 120
Fissão nuclear (Urânio, U-235) 90.000
Fusão nucelar (Hidrogênio, H) 300.000
Energia de ligação do hélio (He) 675.000
Equivalência de massa-energia (equação de Einstein) 89.880.000
Antimatéria como combustível (estimada de acordo com E = mc2) 180.000.000
Fonte: O Projeto Millenium, baseado no IEA e no Departamento de Energia dos EUA

Alguns ecologistas fundamentalistas começaram a reclamar que


deveria ser feita uma análise completa do impacto ambiental em tais
microorganismos artificiais, visto que eles poderiam destruir o delicado
equilíbrio na Terra. Eles argumentam que os processos podem funcionar
em laboratório mas têm imensos impactos quando extrapolados para
obter quantidades de produção significativas. Preocupam-se com o

141
Cenários Energéticos Globais 2020

vazamento de moléculas e com a sua interferência em processos evolutivos


naturais. Há até mesmo objeções por parte de fundamentalistas religiosos
de todas as seitas. Contudo, o público está percebendo que isso nada
mais é do que uma nova ruptura científica, como a Revolução Verde,
que aumentou as produções agrícolas e evitou as mortes por inanição de
milhões de indianos nos anos 70.
Mais recentemente as novas bactérias podem ser comparadas às
asas de galinha chinesas produzidas biologicamente em 2014 a partir de
células-tronco de galinhas. Para a produção das asas não há necessidade de
reproduzir toda uma galinha com o intuito de consumir somente algumas
de suas partes. Outro exemplo é a carne japonesa de Kobe, produzida
geneticamente a partir de células de vacas de boa linhagem, em 2015,
sem ter de criar gado para ser abatido depois. As asas de galinha chinesas
“sem galinha” e a carne japonesa de Kobe “sem vaca” também são mais
de 10 vezes mais baratas para produzir e evitam completamente quaisquer
riscos de problemas animais, inclusive a gripe aviária ou a doença da vaca
louca, e eliminam totalmente a produção de metano e fluxos de resíduos
da produção de carne. Ambos os produtos foram produzidos maciçamente
e com êxito pela GM2 (Guangzhou Meats & Meals, o principal “criador
de carne” na província de Guangdong), para exportação mundial desde
2016. De fato, até mesmo o McDonald’s faz propaganda dos seus novos
hambúrgueres “sem vaca”, com conceitos éticos de produção, visto que
eles não abatem nenhum animal e os hambúrgueres são muito mais
baratos e nutritivos do que os não geneticamente produzidos. Contudo,
as pessoas, em alguns países africanos e europeus, ainda se opõem a
essas modificações genéticas nos alimentos.

O Espaço e o Futuro

Um outro sistema importante para a atual produção de energia


são as células a combustível que convertem biocombustíveis em energia
elétrica. As células a combustível foram industrializadas pela primeira vez

142
Cenários Energéticos Globais 2020

durante os anos 60, pela NASA, para gerar eletricidade para as missões
Apollo, e mais tarde foram usadas no ônibus espacial e na Estação Espacial
Internacional. Células a combustível são extremamente eficientes em
converter energia química em energia elétrica, visto que elas não são
restritas pela eficiência máxima do ciclo de Carnot, como são os motores
à combustão. Em uma célula a combustível, um combustível inflamável
reage com o oxigênio para transformar energia química em eletricidade,
com eficiência superior a 60%, o que demonstra uma melhora, se
comparado aos 40% obtidos no início do século.
Células a combustível estão sendo usadas em quase todos os lugares,
em residências, indústrias, carros e até mesmo foguetes. Elas também
podem usar vários tipos de combustíveis, desde hidrogênio puro até gás
de aterros sanitários, para produzir eletricidade. Se o hidrogênio puro
é “queimado” com oxigênio, então a única emissão é água. Se forem
usados hidrocarbonetos, então também é produzido dióxido de carbono;
e quanto maior a quantidade de carbono no hidrocarboneto utilizado,
mais dióxido de carbono será emitido. O principal problema com as células
a combustível é o seu alto custo, que, apesar de ter diminuído com as
rupturas de alta temperatura e de catálise, ainda é elevado em 2020.
Atualmente está-se usando nanotecnologia para tentar baixar os custos
de fabricação de células a combustível, da mesma forma como foi feito
com as nanobaterias depois de 2015.24
Além disso, o custo veicular com o uso de hidrogênio a partir de
células a combustível caiu de R$ 0,12 por quilômetro, em 2000, para
R$ 0,04 por quilômetro em 2020, mas isto ainda é 50% mais caro que os
motores à combustão interna flexfuel híbridos. Comparado com outros
combustíveis compostos de hidrocarbonetos, os custos ao usar células a
combustível e ICEs são similares, motivo pelo qual os híbridos elétricos

24 Ver http://www.foresight.org/challenges/energy.html.

143
Cenários Energéticos Globais 2020

flexfuel chineses não usam hidrogênio puro como combustível. Contudo, o


custo da célula a combustível ainda é elevado, e o processo de desativação
pode ser perigoso, já que seus componentes são altamente contaminantes.
Apesar de tudo isso, as células a combustível convertem energia com
mais de 60% de eficiência, contra 20% para ICEs. O etanol é um excelente
combustível, dado que combustíveis ricos em hidrogênio, como o metanol
ou etanol, apenas produzem calor e água, mais um pouco de dióxido de
carbono, dependendo do peso molecular do hidrocarboneto.
O hidrogênio é o elemento mais abundante na Terra. Ele é o
componente básico da água, sem mencionar que quase todos os
combustíveis já utilizados pela humanidade – madeira, óleo, carvão e
gás natural – são compostos por hidrocarbonetos. O hidrogênio puro,
no entanto, não ocorre naturalmente: o hidrogênio deve ser coletado,
usando-se processos elétricos ou químicos, que têm suas próprias
conseqüências ambientais ocultas; o hidrogênio é apenas um portador
de energia e deve ser produzido a partir de água ou hidrocarbonetos.
Obviamente, o uso de recursos renováveis para impulsionar os processos
elétricos e químicos poderia reduzir enormemente o impacto ambiental
da produção de hidrogênio; no momento, contudo, produzir hidrogênio
para ser utilizado como combustível custa várias vezes mais do que os
combustíveis convencionais.
Desde o início do século, a Islândia tem feito um importante esforço
para se tornar a primeira “economia de hidrogênio” do mundo, e os seus
avanços até 2020 são notáveis. Todavia, este é o caso especial de um país
com energia hidrelétrica e geotérmica superabundante e prontamente
disponível, que pode ser usada para produzir hidrogênio como portador
ou armazenador de energia para uso posterior. O hidrogênio produzido na
Islândia é destinado principalmente ao transporte, visto que para outras
atividades é mais conveniente gerar eletricidade direta, sem intermediários
(é como produzir a carne japonesa de Kobe sem o passo intermediário

144
Cenários Energéticos Globais 2020

da vaca). O hidrogênio como combustível para carros é usado pela célula


a combustível para transformar sua energia química em energia elétrica
e mecânica para colocar o carro em movimento. A Islândia, um país com
excesso de energia, escolheu eletrolisar a água e começou a exportar o
hidrogênio contido em tanques de alta pressão, e na forma de hidretos
metálicos, visto que o hidrogênio é liberado dos hidretos com apenas
um pouco de calor.
O hidrogênio ainda não se tornou a principal commodity de energia,
como sonhado por muitos no início dos anos 2000, porque ele ainda é
muito caro para ser produzido, perigoso para ser armazenado, difícil
de transportar e delicado para distribuir, e, além disso, sua densidade
volumétrica de energia é muito mais baixa do que a de outros combustíveis
líquidos como o etanol ou a gasolina (embora não na forma de hidretos
metálicos). A segurança seria um outro problema e uma preocupação
importante. Levaria muitos anos para conseguir as mudanças logísticas
e de infra-estrutura necessárias para passar de combustíveis líquidos
para hidrogênio. A melhor solução parece ser a “bateria de hidrogênio”,
um bloco de hidreto metálico que armazena hidrogênio a densidades
superiores à do hidrogênio líquido. Quando um carro movido a
hidrogênio precisa abastecer, os “postos de gasolina” da era do hidrogênio
simplesmente trocariam as baterias de hidrogênio, provavelmente de
modo automático.
Estão sendo realizadas pesquisas para aumentar a eficiência e
reduzir os custos da chamada economia de hidrogênio. Até mesmo o
uso de avançadas usinas de fissão nuclear ainda é considerado para
eletrolisar a água e produzir hidrogênio. Da mesma forma, a P&D sobre
dissociação solar da água à alta temperatura para produzir hidrogênio tem
progredido, mas ela ainda encontra dificuldades. O potencial teórico do
hidrogênio como um portador de energia limpa certamente é incrível, mas
não é economicamente competitivo, pois não está livremente disponível.

145
Cenários Energéticos Globais 2020

Depois de tudo o que é dito e feito, o hidrogênio é apenas um meio


intermediário de energia e uma fantasia má concebida, conforme alguns.
Ele é um portador de energia, não uma fonte de energia. A eletricidade
também é um portador – e em muitos casos, um portador melhor.
Uma eficiente economia mundial de energia certamente continuaria a
usar mais e mais eletricidade como um dos seus portadores, em especial
para o uso na indústria e grandes edifícios. Para carros, a economia
sustentável do futuro pode muito bem usar um misto de baterias elétricas,
baterias térmicas e metanol, em vez de hidrogênio, como portadores
primários de energia (pelo menos enquanto for mais caro produzir do
que usar o hidrogênio).
A nova corrida espacial também teve algumas conseqüências muito
importantes para o setor de energia. Os chineses aterrissaram na Lua em
2015, conforme prometido, e os russos seguiram um ano mais tarde,
depois de ressuscitar suas tecnologias de foguetes dos anos 50 e 60.
Uma missão tripulada combinada européia, japonesa e americana pousou
na Lua em 2017. Uma base lunar chamada Luna 1 foi iniciada em 2019,
e Nikolai Sevastyanov, Presidente Honorário da RKK Energia, recém-
anunciou os planos para o início da mineração da Lua para trazer hélio 3
(He 3) à Terra na espaçonave russa Kliper. Segundo Sevastyanov, existe
hélio suficiente na Lua para impulsionar todas as necessidades humanas
por pelo menos um século.25 De fato, a energia de ligação do hélio é
muito maior do que a fissão nuclear e até mesmo que a fusão nuclear do
hidrogênio. Entretanto, a corrida espacial abriu novas fontes, tais como
satélites de energia solar espacial.
Os japoneses vêm usando experimentalmente “aranhas” robóticas
para construir estruturas de larga escala no espaço por mais de 10 anos.
As minúsculas aranhas mecânicas movem-se através de grandes redes de
tecido no espaço, realizando pequenas tarefas ou alinhando-se para criar

25 Ver http://www.space.com/news/ap_060126_russia_moon.html.

146
Cenários Energéticos Globais 2020

uma antena ou alguma outra estrutura. O conceito é conhecido como


satélite Furoshiki, baseado na palavra japonesa usada para nomear o tecido
usado para enrolar pertences.26 Recentemente ele tem revolucionado
aplicações baseadas em satélites tais como telecomunicações, navegação
e observação terrestre, usando radar para prover antenas de baixo custo
no espaço, que podem ser lançadas em foguetes relativamente pequenos.
Mais importante, a espaçonave Furoshiki poderia ser uma forma viável
de criar grandes satélites de energia solar espacial para então transmitir
energia para a Terra. De fato, a quantidade de energia recebida do Sol na
atmosfera terrestre é suficiente para prover energia a 1.000 civilizações
como a nossa. Aquele tipo de energia é o que foi chamado uma civilização
Tipo I na escala de energia deixada pelo astrônomo russo Nikolai Kardashev,
em 1964 (ver a tabela 4.) O famoso físico e matemático anglo-americano
Freeman Dyson teve idéias similares sobre civilizações mais avançadas,
construindo esferas ao redor das suas luas, para capturar toda a energia
irradiada. Ele propôs até mesmo a busca por indícios de tais esferas já
construídas por outras civilizações.27
Uma civilização Tipo I é aquela capaz de coletar toda a energia
disponível em um único planeta (em nosso caso, a Terra possui uma energia
disponível de 174 × 1015 W). Uma civilização Tipo II é capaz de coletar
toda a energia disponível de uma única estrela (aproximadamente 386
× 1024 W para o nosso Sol), enquanto a civilização Tipo III seria capaz de
coletar toda a energia disponível de uma única galáxia (aproximadamente
5 × 1036 W para a Via Láctea, mas este número é extremamente variável,
visto que as galáxias variam enormemente em tamanho). Uma civilização
Tipo IV terá controle do uso de energia de um supercluster galáctico
(aproximadamente 1046 W), e uma civilização Tipo V controlará a energia
de todo o universo (aproximadamente 1056 W). Contudo, tal civilização

26 Ver http://www.esa.int/esaCP/SEMHVXVLWFE_index_0.html.
27 Ver http://www.nada.kth.se/~asa/dysonFAQ.html#WHAT.

147
Cenários Energéticos Globais 2020

aproxima-se ou ultrapassa os limites da especulação baseada no atual


entendimento científico e pode não ser possível. O “ponto Omega” de
Frank J. Tipler provavelmente ocuparia este nível.28 Finalmente, alguns
escritores de ficção científica falam a respeito de uma civilização Tipo VI,
que controlará a energia de universos múltiplos (um nível de potência
que é tecnicamente infinito), e de uma civilização Tipo VII, que teria
o status hipotético de uma divindade (capaz de criar universos ao seu
desejo, usando-os como fonte de energia). A tabela 4 mostra a potência
em Watts produzida por várias fontes de energia distintas, listadas em
ordem crescente de grandeza.

Tabela 4 - Escala de energia e tipos de civilização segundo Kardashev

continua
Notação
Exemplo Potência
científica
Potência do sinal de rádio da sonda espacial Galileu
10 zW 10 × 10-21 watt
de Júpiter
Sinal mínimo discernível em um terminal de antena
2.5 fW 2.5 × 10-15 watt
de FM
Consumo médio de uma célula humana 1 pW 1 × 10-12 watt
Consumo aproximado de um relógio de pulso de
1 µW 1 × 10-6 watt
quartzo
Laser em uma unidade de CD-ROM 5 mW 5 × 10-3 watt
Consumo aproximado de um cérebro humano 30 W 30 × 100 watt
Potência de uma lâmpada doméstica típica 60 W 60 × 100 watt
Potência média usada pelo corpo humano 100 W 100 × 100 watt
Aproximadamente 1.000 BTU/hora 290 W 2.9 × 100 watt
Potência recebida do Sol na órbita da Terra por m 2
1.4 kW 1.4 × 103 watt
Potência fotossintética emitida por km2 no oceano 3.3 – 6.6 kW 3.3 – 6.6 × 103 watt
Potência fotossintética emitida por km em terra
2
16 – 32 kW 16 – 32 × 103 watt
Faixa de potência emitida de automóveis típicos 40 – 200 kW 40 – 200 × 103 watt
Potência mecânica emitida de uma locomotiva diesel 3 mW 3 × 106 watt
Potência de pico emitida do porta-aviões da maior
190 MW 190 × 106 watt
classe
Potência recebida do Sol na órbita da Terra por km2 1.4 GW 1.4 × 109 watt

28 Ver http://www.aleph.se/Trans/Global/Omega/.

148
Cenários Energéticos Globais 2020

Tabela 4 - Escala de energia e tipos de civilização segundo Kardashev

conclusão
Notação
Exemplo Potência
científica
Geração de potência de pico do maior reator nuclear 3 GW 3 × 109 watt
Geração elétrica da barragem Três Gargantas na China 18 GW 18 × 109 watt
Consumo elétrico dos EUA em 2001 424 GW 424 × 109 watt
Consumo elétrico do mundo em 2001 1.7 TW 1.7 × 1012 watt
Consumo total dos EUA em 2001 3.3 TW 3.3 × 1012 watt
Produção global de energia fotossintética 3.6 – 7.2 TW 3.6 – 7.2 × 1012 watt
Consumo total do mundo em 2001 13.5 TW 13.5 × 1012 watt
Fluxo de calor total médio do interior da Terra 44 TW 44 × 1012 watt
Energia térmica liberada por um furacão 50 – 200 TW 50 – 200 × 1012 watt
Fluxo de calor estimado transportado pela Corrente
1.4 PW 1.4 × 1015 watt
do Golfo
Potência total recebida pela Terra do Sol (Tipo I) 174 PW 174 × 1015 watt
Luminosidade do Sol (Tipo II) 386 YW 386 × 1024 watt
Luminosidade aproximada da Via Láctea (Tipo III) 5 × 10 W
36
5 × 1036 watt
Luminosidade aproximada de uma erupção de
1 × 1045 W 1 × 1045 watt
Raios Gama
Uso de energia de um supercluster galáctico (Tipo IV) 1 × 1046 W 1 × 1046 watt
Controle de energia sobre todo o universo
1 × 1056 W 1 × 1056 watt
(civilização Tipo V)
Fonte: O Projeto Millenium, baseado no Wikipedia29

Segundo Kardashev, a nossa civilização ainda está no Tipo 0, mas


pode alcançar o Tipo I no século 22. No ano de 2020, sabemos que ainda
temos à disposição uma variedade de recursos para criar uma matriz
energética diversificada, não dependendo de uma única fonte de energia
e sim de um misto de alternativas, pelo menos durante este período crítico
de transição.
A Terra, o Sol, a galáxia e o universo têm recursos energéticos mais
que suficientes para fornecer energia à nossa civilização pelas próximas
décadas, séculos e milênios. Com a tecnologia certa, é basicamente
uma questão de custos e prioridades. É possível converter os recursos

29 Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Orders_of_magnitude_%28power%29.

149
Cenários Energéticos Globais 2020

energéticos em suprimentos disponíveis, mas isto certamente necessitará


de investimentos maciços e muita imaginação, criatividade, ciência e
engenharia. Obviamente todos os recursos são finitos, mas alguns são
quase potencialmente inexauríveis, até mesmo com um crescimento
acelerado e rápida mudança tecnológica. A mineração de hidrato de
metano, hidrogênio e hélio, fusão nuclear, captura de energia solar,
conversão massa-energia e geração de combustível antimatéria são
todos eventualmente possíveis. Nossa civilização ainda está em um nível
inicial, e, excluindo qualquer eventualidade, crises geopolíticas, desastres
ambientais ou contatos extraterrestres, a tecnologia continuará avançando
os limites do crescimento.

Cenário 4. Political Turmoil

Crescimento moderado em rupturas tecnológicas


Baixos impactos de movimentos ambientalistas
Crescimento econômico moderado/baixo
Importantes mudanças na geopolítica

A incapacidade de Nações-estado e organizações internacionais em


tomar decisões sérias está tornando-os irrelevantes. Conflitos políticos
relacionados ao petróleo estão aumentando. Sindicatos transnacionais
do crime organizado – com quase três vezes mais dinheiro do que todos
os orçamentos militares de 2020 juntos – lutam pelo poder através de
governos, corporações e até mesmo ONGs. Os sistemas de todos os tipos –
desde registros médicos até transferências financeiras – tornaram-se tão
complexos, que as pessoas estão desnorteadas e até “especialistas” estão
perdidos. Impérios da mídia inconscientemente contrariaram muitos dos
sustentáculos da moral da sociedade com uma atitude “qualquer coisa
que o mercado desejar”. Os custos relativos à saúde e aposentadoria das
populações com maior expectativa de vida em todo o mundo forçaram

150
Cenários Energéticos Globais 2020

muitos governos a cortar benefícios para todas as idades, o que levou a


crescentes protestos e greves gerais. O individualismo egoísta parece estar
tomando o lugar de valores comuns, tornando a lei internacional sem
sentido. A mudança climática global continua. O terrorismo aumentou
porque um grande número considera os sistemas governantes injustos,
e a cooperação internacional está se desfazendo. Migrações das áreas
pobres para as ricas inflamam revoltas e expõem as lacunas de renda.
Existe um medo real de que o mundo esteja lentamente sendo assumido
por senhores da guerra high-tech, à medida que um número crescente
de refugiados econômicos e ambientais vaga pela Terra.
A mais dramática das migrações recentes é a migração por água
das populações africana, indiana e chinesa para a Europa e América do
Norte, que deflagrou uma série de conflitos étnicos e raciais sem fim à vista.
A UE e a OTAN criam estabilidade política na Europa apenas por breves
períodos, até que ocorra a próxima erupção. A economia americana foi
tão enfraquecida pelos custos das guerras no Iraque, Afeganistão e contra
o terrorismo em geral, que foi difícil para os EUA desempenhar um papel
na redução de conflitos em todo o mundo. A UE não foi capaz de chegar
a acordos sobre estratégias para substituir os papéis dos EUA. As forças
de paz das Nações Unidas estavam sobrecarregadas e subfinanciadas.
Os conflitos na Arábia Saudita, China, Iraque, Angola, no Cáucaso e na
Nigéria durante as últimas duas décadas tornaram o fornecimento de
petróleo irregular e mantiveram os preços do petróleo acima de US$ 150
por barril30 pelos últimos anos. Como resultado, o mundo parece estar
num estado permanente de estagflação.

Terror Versão 2.0

Antes do ataque mundial multiarmas em 11 de setembro de 2011,


os terroristas empregavam apenas um meio por vez. A combinação de

30 Todas as referências de dólares americanos estão em valores de 2006.

151
Cenários Energéticos Globais 2020

explosivos convencionais, ‘bombas sujas’ (armas radioativas) e armas


biológicas mudou o mundo para sempre. Este foi um ataque bem
planejado, totalmente coordenado e habilidosamente executado ao
mesmo tempo a sistemas de petróleo, aeroportos e cidades. O mundo
ainda está atordoado e desnorteado pelos eventos e conseqüências do
Terror2, como veio a ser conhecido. Três bombas sujas duplas foram
detonadas, respectivamente uma de cada na Europa, Ásia e América do
Norte. Vinte e seis das mais importantes plantas de exploração de petróleo
do mundo, 13 refinarias, 100 depósitos de suprimento e 3 grandes portos
foram atingidos por explosivos convencionais em apenas alguns minutos
em todo o mundo. Isto reduziu os suprimentos de petróleo em 20% por
quase um ano. No mesmo dia, 19 terroristas-mártires, que anteriormente
haviam ingerido pacotes individuais de doenças, infectaram passageiros
nos aeroportos mais movimentados da Europa, Ásia e América do Norte. O
preço da gasolina quintuplicou da noite para o dia, os preços spot nunca
estiveram tão voláteis, contratos de longo prazo para petróleo foram
anulados, e o comércio de créditos de carbono foi suspenso. Além disso,
as interrupções de eletricidade e gás se multiplicaram, muitos bancos
fecharam e havia falta de suprimentos que dependessem de transporte,
o que levou ao fechamento de fábricas e à falta de alimentos em todo o
mundo, que agora estava sob o domínio do medo e da suspeita.
Terror2 gerou instabilidade em muitas empresas aéreas, sistemas
médicos e na indústria do turismo mundial. Levou a economia global a
uma depressão, da qual nos recuperamos agora – mas apenas para uma
série de recessões e períodos de hiperinflação. As economias fecharam-se,
políticas tornaram-se mais nacionalistas e a religião menos ecumênica.
Demonstrações ad hoc contra governos incompetentes surgiram em
todo o mundo, que entraram na depressão com aumento de pobreza.
Num período de seis meses a inflação elevada causou o colapso de
alguns sistemas bancários, duplicou as taxas de desemprego e levou
negócios a migrarem de mercados emergentes para países avançados.

152
Cenários Energéticos Globais 2020

Muitos que estavam acostumados a padrões de vida relativamente altos


repentinamente viram-se obrigados a voltarem às condições sobre as
quais eles apenas haviam ouvido falar dos seus avós ou visto nos filmes
de países mais pobres.
Não havia dúvidas sobre a sofisticação do planejamento por detrás
desse conjunto de ataques multiarmas e multicontinental. A incapacidade
em distinguir entre modernização e ocidentalização manteve militantes
relutantes em buscar alternativas para acabar com as “forças da hegemonia
cultural”. Ainda há rumores de que uma aliança de militantes políticos
islâmicos, terroristas ambientais e vários grupos do crime organizado
estava por detrás do ocorrido. Com a manipulação da mídia por muitos
atores para muitas finalidades, as pessoas não sabiam em quem confiar,
e, de modo crescente, elas se retraíram para suas comunidades. Há um
sentimento inquietante entre algumas pessoas de que alguns governos
sabiam antecipadamente sobre um conjunto de ataques tão grande.
Grupos transnacionais do crime organizado e de terroristas não poderiam
ter crescido tanto para ter tal sofisticação e coordenação em 2011,
sem que vários governos importantes tenham tomado conhecimento
disso. Ou será que os grupos do crime organizado, representantes do
governo e sistemas de computador estão tão interligados, que isso foi
de fato possível?
De qualquer forma, o rompimento do oleoduto pan-europeu, que
fornecia petróleo à Europa a partir da região do Mar Cáspio e Rússia,
colocou a Europa em uma situação de suprimento bastante delicada
durante cerca de seis meses. Ao longo deste período foi instituído o
racionamento de gasolina. Havia freqüentes panes de eletricidade pela
Europa como resultado do fechamento do duto de gás natural, que ia
do Turcomenistão até a Europa passando pelo Azerbaijão, Geórgia e
Turquia. O duto de Baku-Tbilisi-Ceyhan31 foi projetado para tornar a Europa

31 Construído a um custo de US$ 3,6 bilhões e capaz de bombear 1 milhão de barris por dia; ver
http://www.rferl.org/featuresarticle/2005/05/206868a6-60ca-4f9a-81f0-dea2f7fbc501.html.

153
Cenários Energéticos Globais 2020

independente do fornecimento de petróleo da Rússia e da ameaça de


um monopólio de petróleo desse país, mas o corte deste duto tornou a
Europa mais uma vez dependente do petróleo russo. A Rússia teria ficado
contente em preencher essa lacuna, mas a sua produção de petróleo e
gás natural também foi rompida.
Os principais países da OPEC estavam tendo seus próprios
problemas. O porto exportador do Mar Vermelho de Yanbu, no oeste da
Arábia Saudita, foi fechado como resultado de uma bomba eficientemente
colocada, e no Iraque o terminal petrolífero de Basra sofreu um dano
imenso devido a um ataque marítimo de bombardeadores suicidas.32
No Canadá, bombas fecharam a produção de petróleo a partir de areias
de alcatrão de Alberta e as exportações de petróleo para os EUA a partir
do Canadá basicamente pararam. Plataformas petrolíferas no Golfo do
México também foram atingidas pelos ataques suicidas marítimos, e 15
delas foram fechadas. No Irã, no Mar do Norte e no Alasca a história foi
a mesma. Outros alvos foram o Túnel do Canal da Mancha, que liga o
Reino Unido e a França; instalações de exportação da Arábia Saudita em
Ras Tanura, Abqaiq e Jubail; e várias usinas nucleares, embora estas não
tenham sido danificadas em função do seu reforço pesado.
A situação era incrivelmente difícil por causa da necessidade
simultânea de equipes de reparos, equipamento de combate a incêndios,
substituição de seções de dutos, e – o mais importante – energia, que
agora estava limitada, para fazer reparos nas instalações danificadas.
Muitas indústrias fecharam por completo, países ficaram paralisados,
economias estremeceram, viagens praticamente pararam e a segurança
foi intensificada. Mas, é claro, as novas medidas de segurança protegeram
contra a última ameaça, não a próxima. O que realmente se necessitava

32 Tal ataque foi tentado em junho de 2004. Ver: http://www.globalexchange.org/countries/


mideast/iraq/2046.html.

154
Cenários Energéticos Globais 2020

fazer era a restauração de um mínimo de ordem social em curto prazo


e uma reflexão séria e em nível mundial das causas raiz. Os esforços
anteriores em fazê-lo não funcionaram.
Foi assinado um contrato social mundial, que criou o plano de
emergência internacional e transinstitucional para responder a colapsos
devidos a ataques futuros do tipo Terror2, que incluíam sensores,
computadores, satélites onipresentes e uma maciça campanha de
inteligência mundial para determinar intenções, em nível individual, para
possibilitar a tomada de precauções. ONGs, universidades e organizações
religiosas tentaram melhorar a civilidade, reforçando os votos familiares,
treinando professores em ensinar tolerância e produzindo campanhas
de mídia que destacavam os valores comuns que são a base da paz em
todas as culturas e religiões. Entretanto, as causas raiz ainda não foram
suficientemente abordadas de forma séria até hoje, para tornar o mundo
melhor do que era antes de Terror2.
O mundo parece ter estado entorpecido pelos últimos nove anos.
Mesmo antes de Terror2, os líderes mundiais sabiam que havia uma
crescente alienação política, lacunas de renda que aumentavam, um
número crescente de estados falidos, diminuição dos níveis de água,
propagação de novas doenças, racionamento de commodities e subida
excessiva dos preços da energia. No entanto, eles não conseguiram agir
para fazer diferença. Na energia, por exemplo, houve indicações precoces
sobre o iminente tumulto político: a flutuação do preço do petróleo desde
o início do século 21, a reduzida taxa de descobertas de novas reservas, os
apelos pela rejeição do vício mundial em petróleo, as guerras nos países
ricos em petróleo do Oriente Médio, a crescente preocupação de que o
mundo havia passado do “pico petrolífero” e os intensos aumentos na
demanda por energia na China e Índia, apenas para mencionar alguns
dos sinais que já apareciam muito antes de 2011.

155
Cenários Energéticos Globais 2020

Problemas de Petróleo Criaram Caldeirões Políticos

Áreas políticas perigosas relacionadas ao petróleo ocorreram no


Cáucaso, China, Japão, Ártico, Nigéria, Golfo Pérsico/Árabe, Rússia,
Venezuela e Antártida, onde a demanda finalmente destruiu qualquer
possibilidade de pacto sobre a preservação da herança natural. Aqui, uma
breve visão geral do que aconteceu em algumas destas áreas.

O Cáucaso

Após anos de tensões entre a Rússia e a República da Geórgia, a


situação finalmente atingiu o auge em 2009 (dois anos antes de Terror2)
em relação ao terrorismo doméstico e étnico. Isto foi apenas uma prévia do
tumulto que estava por vir. Uma guerra não declarada estourou, causando
a interrupção do fluxo de petróleo e gás no duto de Baku-Tbilisi-Ceyhan e
no duto do Sul do Cáucaso. Como resultado, a economia do Azerbaijão
ruiu sob a pressão e a inquietação civil estourou. A Armênia beneficiou-se
da guerra civil incitando um conflito sobre disputas territoriais étnicas
armênias em Nagorno-Karabakh no Azerbaijão. A Armênia integrou essa
disputa, assim como vastas porções do oeste do Azerbaijão, incluindo
seções que continham importantes trechos dos dois dutos. A economia
da Turquia sofreu em função de problemas com o fluxo de energia, e o
antigo partido moderado governante da Turquia, o Partido da Justiça e
Desenvolvimento Islâmico, começou a se posicionar mais ao pensamento
de direita para lidar com um eleitorado furioso e para evitar deserções
para partidos mais religiosos.

156
Cenários Energéticos Globais 2020

Isso, por sua vez, causou tensão entre o governo turco e o Partido
dos Trabalhadores Curdo, que declarou autonomia no sudeste. O governo
turco, auxiliado pelas facções xiitas do novo governo iraquiano, que
tinham receio do fortalecimento dos partidos curdos em seu país, enviou
tropas, terminando efetivamente uma trégua de cinco anos com o Partido
dos Trabalhadores.
A UE interrompeu o processo de adesão da Turquia, o que a
empurrou ainda mais para dentro da órbita do Oriente Médio. A força e
influência do Irã cresceram na região, e o seu apoio declarado aos xiitas no
Iraque efetivamente pôs fim à tênue coesão nacional iraquiana. As tensões
e guerras não declaradas aumentaram, enquanto alianças formavam-se
entre grupos terroristas do Irã e do Iraque e senhores da guerra em toda
a região, existentes hoje em dia.

NOROESTE DA CHINA

As maiores reservas petrolíferas na China encontram-se em Xinjiang,


no noroeste, onde um movimento separatista pan-islâmico ou pan-turco
vem crescendo por anos entre o povo de Uighur. Conflitos entre a
Organização de Libertação de Xinjiang/Organização de Libertação de

157
Cenários Energéticos Globais 2020

Uighur e a polícia aumentaram o apoio da diáspora de Uighur e difundiram


a solidariedade da população, incluindo a indução de novos recrutas que
foram treinados em táticas de guerrilha. O duto de Xinjiang-Xangai foi
um alvo chave para diversos ataques dos separatistas, o que tornou o
fornecimento de petróleo e gás às cidades costeiras da China não mais
confiável. Estas cidades eram importantes para o sucesso do Partido
Comunista Chinês,33 e o povo começou a perder a fé na capacidade do
governo em gerir as flutuações no preço da energia. Demonstrações
antigovernamentais tiveram início. Nada mudou. O governo culpou a
ULO (Uigurstan Liberation Organisation) pelas flutuações nos preços
da energia.

33 Ewing, Dan, “China’s New Energy Strategy and the Specter of Inflation,” localizado no
NixonCenter.org, http://www.nixoncenter.org/publications/2001articles/Dan%20Ewing/Chin
a%20Energy%20and%20Inflation.htm

158
Cenários Energéticos Globais 2020

Em demonstrações nas cidades mais ricas nas regiões costeiras, o


povo expressou fúria contra o Uighur muçulmano. Havia nuances radicais e
anti-islâmicas. Uma nova onda de protestos por parte do Uighur estourou
em Xinjiang, que por sua vez se confrontou com a violência da polícia.
A maioria da população na China apoiava a sanção severa ao Uighur e a
imposição da lei marcial em áreas de Xinjiang, onde as atividades da ULO
eram mais fortes. Isto incitou os habitantes de Uighur mais moderados,
que chamaram os rebeldes islâmicos das repúblicas da Ásia Central e
do Oriente Médio, para auxiliá-los em seu novo estado pan-islâmico de
Uighur. Isto levou ao atual estado de guerra civil no noroeste da China
e rapidamente reduziu a produção de petróleo, acelerando ainda mais
seus esforços por um acesso ampliado ao petróleo internacional além dos
8 milhões de barris de petróleo por dia que ela estava consumindo.
A China estava apta a cobrar os altos títulos da dívida dos EUA
para impedir a censura deste país sobre suas guerras civis e táticas. Como
resultado, as rebeliões foram suprimidas com mão pesada em um esforço
para não perder a coerência territorial. Quando os EUA reclamaram, a
China passou seu padrão monetário internacional do dólar para o euro
e começou a executar alguns títulos da dívida americana. O crescente
poder da China dentro do Conselho de Segurança das Nações Unidas
impediu qualquer discussão das ações internas chinesas. No entanto, os
grupos separatistas eram tão fortes que o petróleo do Oeste da China não
era mais seguro, forçando a China a aumentar o acesso ao oleoduto do
petróleo russo. Isto, contudo, estimulou os esforços chineses em pesquisas
de energia alternativa baseada em tecnologia de célula combustível a
energia solar, biocombustíveis das regiões agrícolas costeiras usando água
do mar e energia eólica, enquanto aumentava a sua importação de gás
natural líquido da Austrália.

159
Cenários Energéticos Globais 2020

CHINA E JAPÃO

As tensões entre China e Japão aumentaram durante as duas últimas


décadas por causa do controle de campos petrolíferos e de gás no Mar
do Leste da China. Elas irromperam quando o Japão acusou a China de
extrair petróleo da zona econômica exclusiva do Japão. A China e o Japão
começaram a extrair das mesmas reservas o mais rápido possível.

O Japão acelerou seus esforços quando a Rússia concordou em


prover o acesso de seu oleoduto à China.34 Isto impossibilitou politicamente
que o Japão fizesse qualquer acordo sobre os campos de gás no Mar do
Leste da China. Outras complicações foram tratados conflitantes. O Japão

34 http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/4831624.stm#pipelinebox

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Cenários Energéticos Globais 2020

reivindicou a área sob a Convenção das Nações Unidas com base na Lei
do Mar, que permite que países costeiros reivindiquem uma zona
econômica que se estende até 370 km das suas linhas costeiras. Tanto o
Japão como a China são partes deste acordo. A China reivindica a área
sob a Convenção de Genebra de 1958 na Plataforma Continental, que
permite que países costeiros estendam suas fronteiras até suas plataformas
continentais submarinas.35
Embora política e economicamente enfraquecido pelos custos de
guerras passadas e pela atual necessidade de energia, os EUA foram
capazes de enviar sua Sétima Frota em manobras navais para próximo
da área disputada, e então a China e o Japão concordaram em levar a
questão ao Tribunal Mundial em Den Haag. As tensões ainda permanecem
elevadas, enquanto as bombas de petróleo e de gás estão paradas,
aguardando uma decisão do tribunal. Além disso, o Japão aumentou sua
concorrência com a China pelo gás natural líquido da Austrália, enquanto
gera conflitos na China e acelera seus esforços para extrair hidratos de
metano no leito do oceano, para os quais ainda não existem tecnologias
ambientalmente seguras.

O Ártico

A mudança climática continua a derreter o gelo polar. Recursos


naturais imensos tornaram-se cada vez mais acessíveis no Ártico, onde se
estima que esteja um quarto do petróleo e gás não descoberto do mundo.
Noruega, Dinamarca (através da Groenlândia), Rússia, Canadá e Estados
Unidos estão competindo pelo acesso ao Ártico.36 A disputa gira em torno

35 Os campos Chunxiao/Shirakaba e Duanqiao/Kusunoki foram confirmados como estando ligados


no nível subterrâneo a um campo de gás, que se encontra dentro do que o Japão diz ser sua
EEZ (zona econômica exclusiva). Também se suspeita que o campo de gás Tianwaitian/Kashi
esteja diretamente ligado a depósitos no lado japonês.
36 http://www.russiaprofile.org/international/2006/1/11/3022.wbp, http://news.bbc.co.uk/2/hi/
business/4354036.stm, http://www.timesonline.co.uk/article/0,,13509-2034643,00.html

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Cenários Energéticos Globais 2020

dos diferentes métodos para determinar fronteiras marítimas. O método


da linha mediana, apoiado pelo Canadá e Dinamarca, dividiria o Mar Ártico
entre os países de acordo com seu comprimento da linha costeira mais
próxima. Isto daria à Dinamarca o próprio Pólo, mas o Canadá também
lucraria. O método de setor tomaria o Pólo Norte como o centro e traçaria
linhas para o sul ao longo das longitudes. Isto penalizaria o Canadá, mas
a Noruega e a Rússia lucrariam.

Os Estados Unidos e o Canadá discutem sobre os direitos na


Passagem do Noroeste, a Noruega e a Rússia discordam sobre o Mar de
Barents, o Canadá e a Dinamarca competem sobre uma pequena ilha
distante da Groenlândia, o parlamento russo recusa-se a ratificar um
acordo com os Estados Unidos sobre o Mar de Bering, e a Dinamarca
busca ultrapassar a todos reivindicando o Pólo Norte para si. Os Estados
Unidos ainda devem assinar a Convenção das Nações Unidas da Lei do Mar.

162
Cenários Energéticos Globais 2020

Se o Tribunal Mundial não solucionar essas questões ou levar muito tempo,


ou se uma ou mais partes não aceitar sua disposição regulamentar, então
o capital privado segurado pelos governos e apoiado por canhoneiras
investirá na esperança de obter petróleo e gás, enquanto se prepara
para pagar multas retroativas. Para prevenir que isso se torne uma área
perigosa para o confronto entre antigos aliados, acordos silenciosos para
salvar as aparências estão em elaboração, para pagar royalties àqueles
que cederem acesso.

Nigéria

A Nigéria pode e deve ser um jogador chave no desenvolvimento


da África e de novas fontes de petróleo, mas o tumulto político
continua a impedir que investimentos suficientes sejam aplicados nesse
objetivo. Certo ou errado, as companhias petrolíferas que operam ali
têm sido gravemente criticadas por causa das suas práticas de extração
ambientalmente incorretas e da sua incapacidade em condenar violações
dos direitos humanos. Há muito tempo que o vandalismo de dutos tem
sido um problema na Nigéria. Incêndios nos dutos, a dinamitação do
duto da Shell no Canal Opobo, os ataques feitos ao terminal de Forcados,
ataques ao duto Escravos, os seqüestros de trabalhadores do setor de
petróleo expatriados na região do Delta do Níger: todos estes comprovam
a profundidade do ressentimento sentido pelo povo Ijaw, que viveu no
rio Níger.37
Os líderes Ijaw têm estado associados à Força Popular e Voluntária
do Delta do Níger (NDPVF). Em décadas recentes, o ressentimento entre
os Ijaws vem crescendo, já que eles pouco têm visto dos ricos os retornos
oriundos dos recursos do petróleo em sua região.

37 Esses ataques ocorreram em 2005-2006 e estão relatados em http://www.eia.doe.gov/emeu/


cabs/Nigeria/Oil.html

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Cenários Energéticos Globais 2020

A coesão organizacional e a aquisição de armas da NDPVF cresceram


significativamente com fundos extraídos da venda difundida de petróleo
roubado e do apoio da diáspora Ijaw nos Estados Unidos e em outros
lugares. Com o tempo, a NDPVF tornou-se uma séria ameaça às forças
de segurança do governo. Ao contrário das suas táticas de guerrilha
hit-and-run originais, pela primeira vez homens da milícia ocuparam e
dominaram uma refinaria e territórios ricos em petróleo. Provavelmente
eles eram atores nos atentados de 11 de setembro de 2011 na Nigéria.
Quando as negociações diplomáticas falharam e a Nigéria rotulou a
NDPVF de organização terrorista, armas pesadas tornaram-se disponíveis
aos homens da milícia no território ocupado. A NDPVF tornou-se uma
séria ameaça às autoridades federais da Nigéria, com o grupo difundindo
um movimento secessionista que mantém a Nigéria em um estado de
instabilidade. Embora ela ainda tenha direito a um voto nas Nações
Unidas, a Nigéria realmente está desestabilizada religiosa e etnicamente,
com o crime organizado controlando as exportações de petróleo, que
continuam excessivamente baixas para que ela seja um jogador chave no
fornecimento de petróleo.

O Golfo Pérsico/Árabe

Como resultado desses conflitos e da queda de reservas em todo


o mundo, a importância da Região do Golfo aumentou. À medida que
os suprimentos de petróleo diminuíam em todo o mundo, pequenos
países do Golfo tornaram-se cada vez mais preocupados com os grandes
conflitos de poder. Existe um velho ditado africano que diz: “Quando dois
búfalos lutam, quem perde é o capim”. Os países do Golfo não queriam
ser dominados por outros países concorrentes, como a China, a Índia e
os Estados Unidos.
A Arábia Saudita vinha se modernizando e começava a instituir
eleições democráticas quando Terror2 atingiu o mundo em 2011.

164
Cenários Energéticos Globais 2020

Isto deu mais força aos extremistas dentro dos movimentos políticos
islamitas para alegarem que o seu tempo havia chegado. Campanhas
religiosas nas ruas, sermões políticos em mesquitas e artigos ofensivos nos
jornais condenavam a corrupção e defendiam a necessidade de mudança.
Os extremistas surpreenderam o mundo e ganharam a primeira eleição
nacional, escolhendo o seu Primeiro-Ministro para a Arábia Saudita.
Entretanto, a vitória tinha vida curta. Com aproximadamente 3.500
príncipes e incontáveis acordos informais com fornecedores de energia
em todo o mundo durante várias gerações, a família real era forte e
profundamente enraizada em todos os aspectos do governo e sociedade
saudita. Dívidas antigas foram cobradas de governos, corporações e
pessoas. A guerra civil estourou entre diferentes facções dentro do país,
tendo como resultado o desmembramento da Arábia Saudita em várias
partes, com uma trégua preocupante mantida até hoje.

165
Cenários Energéticos Globais 2020

O futuro da Arábia Saudita e da Região do Golfo parece depender,


mais do que nunca, das forças ocidentais para proteger rotas marítimas
e dutos, enquanto a região desenvolve formas de governo democráticas
sob uma estrutura islâmica, fazendo distinções entre modernização e
ocidentalização.

Outros Fatores que Tornam o Mundo Mais Instável

A luta diária de 30 milhões de órfãos da AIDS, sem amor ou


misericórdia, fez com que muitos na África se voltassem às redes do
crime; gangues errantes tornaram a estabilidade política impossível em
vários países. A falta de água na maior parte da Índia e China induziu as
migrações de pessoas em condições desordenadas, e migrações de pobres
para áreas mais ricas causaram discórdia civil em todo o mundo, o que
deu continuidade ao tumulto político.

Enquanto isso, Rússia, Europa e Novas Usinas Nucleares

A Rússia não tinha preocupações com o suprimento de combustível


que a levassem a usar usinas nucleares em vez de usinas de energia fóssil.
Como proprietária de um enorme arsenal nuclear, a Rússia não tinha a
necessidade de um setor nuclear comercial para disfarçar o trabalho
com armas. Contudo, o governo decidiu adotar a energia nuclear para
eletricidade doméstica e exportar seus combustíveis fósseis. Distante
das regulamentações e ONGs controversas do Ocidente, esta estratégia
lhe permite exportar os hidrocarbonetos que, de outra forma, usaria
internamente.38
A Rússia construiu dezenas de reatores nucleares por vários motivos.
Ao construir essas usinas, o país aprimorou uma tecnologia, pensando que
um dia esta pudesse ser exportável. Além disso, o excesso de produção

38 Ver: http://www.news24.com/News24/World/News/0,,2-10-1462_1873545,00.html

166
Cenários Energéticos Globais 2020

de eletricidade permitiria à Rússia suprir nações previamente localizadas


na União Soviética, trazendo-as para mais perto da órbita econômica da
Rússia. O plano russo, agora amplamente realizado, era construir cerca
de 40 reatores nucleares novos, para aumentar a parcela de energia
nuclear no balanço energético da nação para 25%. Apesar da previsão de
muitos peritos de que um meio de armazenamento seguro de lixo nuclear
seja possível até 2030, as crescentes oportunidades em seqüestrar lixo
radioativo durante o transporte ainda são uma preocupação. Foi durante
o transporte que tais lixos radioativos foram capturados para serem
utilizados na confecção de “bombas sujas” de 11 de setembro de 2011.
Entretanto, os projetos para as novas usinas nucleares russas foram um
avanço. Elas foram especificamente projetadas para serem seguras contra
ataques terroristas e, baseadas na experiência de Chernobyl, serem o mais
livres possível de falha humana ou mau funcionamento mecânico.
Uma das exportações mais importantes da Rússia foi, e ainda é, o gás
natural. Numa série de ações de peso entre 2005 e 2008, a propriedade
privada de recursos energéticos foi novamente substituída pela propriedade
estatal, claramente um passo para trás na direção dos velhos tempos.
Esta mudança ficou evidente quando o empreendimento de gás natural
Yukos foi terminado e Gazprom (a empresa estatal) assumiu o monopólio
de gás natural. O gás natural é fornecido da Rússia para a Europa em um
duto de US$ 5 bilhões e 1.200 km ao longo do leito marinho do Báltico.
Quase foi destruído nos ataques de 2011, mas agora está consertado.
Ele provê a Gazprom com uma rota direta aos mercados europeus e
contorna a Polônia e os estados do Báltico.39
A Europa ainda depende do gás russo exportado e, assim sendo, tem
interesse em tentar manter a Rússia politicamente estável, o que pode não
ser possível. Por isso, a UE procurou diversificar seu suprimento de energia
ao desenvolver a tecnologia da gaseificação de carvão, eólica, solar e outras

39 Ver: 5 de janeiro de 2006, edição impressa do The Economist.

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Cenários Energéticos Globais 2020

formas de recursos de energia renovável. Contudo, a importância do gás


russo conduziu a UE a compromissos políticos nas Nações Unidas e em
acordos comerciais, que em outras circunstâncias poderiam não ter sido
necessários. A Europa continua tentando formular uma política energética
comum, que ajudará a assegurar um suprimento contínuo e estável.
Suprimento instável de petróleo força os EUA e o Canadá a se
aproximarem ao grupo dos mais importantes exportadores de energia
com a extração de areias de alcatrão, betume e óleos pesados. Como
resultado, a sua relação com os Estados Unidos tornou-se muito mais
próxima, visto que ele agora é um fornecedor de uma commodity
estratégica de energia. O Canadá tem o privilégio de vender parte dos
seus recursos energéticos para manter boas relações com a China e a
Índia. Para se certificar de que suficientes recursos energéticos do Canadá
fluíssem para o sul ao invés de para o oeste, os EUA fomentaram muitos
esforços conjuntos com o Canadá, para desenvolver rupturas tecnológicas
que estendessem a quantidade de petróleo extraída de qualquer um
dos poços. Além disso, estimularam o desenvolvimento de técnicas
de conservação que melhoraram a eficiência, utilização mais limpa do
carvão e conversão de betume em óleo cru sintético com medidas para a
captura e armazenamento de dióxido de carbono. Com um movimento
ambientalista quase morto, agora até mesmo o desenvolvimento de óleo
de xisto é buscado.
O financiamento em P&D norte-americano triplicou e alguns
progressos foram alcançados, como, por exemplo, o desenvolvimento de
células solares, agricultura eficiente em água e energia, e novos organismos
que usam processos vivos para produzir culturas que podem ser
convertidas em combustíveis. Também existem alguns experimentos com
organismos “sintéticos”, que permitirão a extração de petróleo residual
de poços previamente considerados esgotados. O desenvolvimento de
geradores portáteis de larga escala pelo exército americano levou a uma

168
Cenários Energéticos Globais 2020

aceleração da difusão de pontos de geração. A tecnologia militar também


proporcionou novos tipos de baterias para uma série de dispositivos
movidos à bateria, inclusive o carro elétrico. Agora essas baterias se
tornaram uma importante exportação americana.
Outros investimentos focaram em processos de purificação de alta
eficiência da água, na esperança de que a região pudesse, em algum tempo
futuro, exportar água em negócios de troca por petróleo. O programa de
P&D também se concentrou no desenvolvimento de novos catalisadores,
para baixar os requisitos de energia da eletrólise, um passo na direção
da economia do hidrogênio. Alguns países árabes também têm investido
em tecnologias de água similares, tirando vantagem dos seus lucros com
petróleo e preocupando-se com o futuro dos seus próprios suprimentos
de água.
O Brasil e boa parte da América Latina tornaram-se os principais
exportadores de etanol, e pesquisadores na América do Norte estão
tentando projetar uma cultura e processo que melhorarão a produção
de álcool. Se este trabalho tiver êxito, esses países não apenas terão um
novo combustível ou aditivo, mas estes investidores esperam que eles
sejam capazes de exportar um pouco deste produto em concorrência com
o Brasil. A Índia seguiu a China ingressando nesta corrida biotecnológica
por novos recursos energéticos. Ambientalistas europeus proibiram o
uso de organismos geneticamente modificados que podem criar novos
suprimentos de energia, argumentando sobre as conseqüências caso
os organismos sintéticos escapem e evoluam na natureza. Todavia, a
estabilidade a longo prazo do suprimento de energia poderia muito bem
vir da fusão de sistemas naturais e artificiais.

****
Nos últimos 20 anos, os esforços para criar estruturas sérias de
governança internacional, que exigem compromisso e negociações tipo
“toma lá, dá cá”, falharam imensamente. Grupos étnicos e países estão

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Cenários Energéticos Globais 2020

buscando os seus próprios interesses. A economia global ainda não


retornou ao seu tamanho pré-2011. Muitos se retraíram, focando-se
mais nas questões locais e com crescente fé na religião para segurança.
Alguns crêem que a humanidade esteja em um tempo de reavivamento
religioso. É desastroso que a comunidade internacional tenha ignorado
por tanto tempo as queixas de muçulmanos radicais que vivem em regiões
de suprimento de petróleo.
Uma cortina de ferro eletrônica surgiu entre o “informado” e o
“não informado”. O declínio dos valores familiares e sociais, a corrupção
e o crime transnacional parecem ter se tornado os elementos regentes
no sistema. Muitas pessoas retiraram-se para o mundo do ciberespaço
pessoal e privado. Poucos parecem se importar com o meio ambiente ou
com seus vizinhos. Nós nos perguntamos se o mundo entrou em um novo
tipo de III Guerra Mundial.

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SATURNOS - ASSESSORIA EM COMUNICAÇÃO SOCIAL S/C LTDA.

COORDENAÇÃO EDITORIAL
Antônia Schwinden
CAPA
Glauce Midori Nakamura
Editoração Eletrônica
Ivonete Chula dos Santos

Este livro foi composto em Frutiger BT e impresso

em papel Couché 115g/m2. Capa em papel Cartão

Supremo 240g/m2. Tiragem: 1.000 exemplares.