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Igreja em África: Sonhos para o séc.

XXI

A história do cristianismo africano durante os primeiros séculos é uma fonte de


grandes alegrias, mas também de profundas angústias e amargas lições. O
cristianismo floresceu na África do Norte, tendo como centros Alexandria e
Cartago. A África produziu excelentes teólogos, intelectuais, santos e mártires,
tanto homens como mulheres. O cristianismo difundiu-se na Etiópia e na Núbia, no
coração do continente. A África produziu pelo menos três papas durante este
período e introduziu na Igreja a vida monástica, que depressa se estendeu a leste e a
ocidente. De facto, durante os primeiros séculos, a África contribuiu grandemente
para o crescimento da doutrina e da moral cristãs.

Este primitivo cristianismo africano, todavia, não conseguiu resistir à ameaça


islâmica. Aliás, foi totalmente varrido da zona norte do continente, excepto do
Egipto, onde sobreviveu em alguns lugares. Até na Núbia, depois de um período
florescente entre os séculos VIII e XIII, que culminou com a criação do reino
cristão da Núbia, a fé desapareceu como resultado da invasão turca. A Igreja
sobreviveu só na Etiópia, mas sem dinâmica missionária. As várias tentativas, ao
longo dos séculos, para fazer reviver a cristandade primitiva no Norte de África
fracassaram. A lição é clara: o que aconteceu uma vez pode acontecer de novo. A
história, não obstante tudo, repete-se.

A segunda vaga de evangelização da África – a partir do século XV e tendo como


objectivo levar a fé cristã aos territórios sub-sarianos – foi um fracasso maior que o
anterior. Tendo chegado a Angola, a Moçambique, a Madagáscar, ao Reino do
Congo, às principais ilhas da costa ocidental e oriental do continente, ela
desapareceu, sem deixar marcas, no princípio do século XVIII. Apesar de
numerosos africanos terem aceite a nova fé e muitos se terem tornado eles mesmos
evangelizadores. De entre eles ficou famoso o príncipe Henrique, filho de Afonso,
rei cristão do Congo, que foi consagrado bispo em Roma em 1521, tornando-se,
assim, o primeiro bispo africano a sul do Sara.

As causas deste segundo desaparecimento do cristianismo foram bem analisadas


pelos historiadores. As principais são duas. A primeira é que o cristianismo não
podia coexistir com o abominável comércio de escravos. A segunda deve-se ao
facto que o sistema do Padroado – pelo qual ao rei de Portugal era confiado pelo
Papa a fundação e dotação de sedes episcopais, capelanias e conventos, e o direito
de nomear párocos e cobrar as contribuições eclesiásticas – era caracterizado por
uma rejeição obstinada dos missionários de outros países, que eram vistos como
uma potencial ameaça para o império português. Daí que, cedo, a falta de pessoal
missionário não permitiu continuar com o trabalho começado.

A lição que fica é importante: se, depois de 300 anos de evangelização, o


cristianismo levado e tutelado pelo padroado português desapareceu, então nunca
devemos tomar as coisas por adquiridas. O optimismo ingénuo não deve ter lugar
no trabalho de evangelização.

O terceiro encontro de África com o Evangelho começou no século XIX e


estendeu-se aos nossos dias. Alguém o definiu como «a época de conversão mais
próspera em toda a história da Igreja». Muitos cristãos africanos, institutos
missionários estrangeiros e a Igreja Católica como um todo estão muito satisfeitos
com o que se conseguiu com esta nova tentativa de evangelização. Hoje, o
continente conta com mais de 500 dioceses, muitas delas com bispos africanos.
Padres, religiosos e religiosas africanos são aos milhares. Catequistas a tempo
inteiro são mais de dez mil. Os baptizados são cerca de 110 milhões. Escolas,
clínicas, projectos de desenvolvimento são numerosos. A teologia africana – nas
suas várias correntes – avançou muito. O Vaticano II trouxe nova vida à Igreja
africana; o Sínodo Africano de 1994 sugeriu novas iniciativas e direcções.

Ao mesmo tempo que temos o direito de estar contentes com tudo o que se
conseguiu, cometeríamos um erro fatal se não reconhecêssemos os grandes
problemas, preocupações e desafios que se põem ao cristianismo africano.

Mensagem da vida

Na nossa avaliação do actual cristianismo africano, a ênfase deve ser posta na


própria «mensagem da vida», nos evangelizadores, nos agentes pastorais e nos seus
métodos e meios de evangelização. A natureza e profundidade da conversão e o
impacte do cristianismo no mundo africano deve ser avaliado examinando a
qualidade de vida dos africanos, a sua identidade e história, as suas culturas e
religiões tradicionais, a sua moralidade e filosofia, a sua visão do mundo, as suas
lutas de libertação e o seu contributo para o enriquecimento do cristianismo e da
Igreja universal.

De entre as perguntas que devemos colocar ao fazermos esta avaliação e


encontrarmos uma visão para o futuro, as seguintes merecem particular atenção:
qual é a novidade particular que o cristianismo introduziu e desenvolveu em África
durante os últimos dois mil anos e especialmente durante o século XX? Terá a vida
dos cristãos africanos melhorado em relação à dos seus antepassados pré-cristãos?
Terão conseguido tornar sua a mensagem do Evangelho e a Igreja, ou são as duas
realidades ainda consideradas como «estrangeiras»? A maioria dos cristãos
africanos aprecia a sua nova identidade ou considera-a como um peso insuportável?
Terão os cristãos tido a liberdade suficiente para enriquecer a Igreja universal e a
mensagem cristã, ou foram vistos sobretudo como meros receptores de um pacote
comercial?

Neste contexto, é importante definir «missão». Por missão eu entendo o povo


africano, os católicos africanos, possuidores da mensagem cristã. Quem são? Em
que categorias podemos classificá-los? Quais são os seus actuais problemas e
tensões? Quais são as formas da sua sistemática escravidão e exploração? Que
ameaças e injustiças institucionalizadas ainda experimentam? Obviamente, nunca
se deve generalizar. Os líderes eclesiais têm as suas alegrias e angústias. As famílias
católicas, os sectores sociais vulneráveis, todo o Povo de Deus tem também as suas
alegrias e angústias. Todo o Povo de Deus tem os seus medos e esperanças. Entre os
baptizados há muitos com uma fé e convicção superficial. Muitos deles falharam
em integrar o cristianismo com as exigências da sua religião e moralidade
tradicionais e, por isso, conduzem uma existência «dualística». Outros, pelo
contrário, fazem o seu melhor para serem simultânea e verdadeiramente africanos e
cristãos. Qualquer visão do cristianismo em África deve tomar seriamente em
consideração estas duas categorias de cristãos.

Tarefa inacabada

A primeira evangelização em África está longe de ter acabado. Na proclamação


massiva da Boa Nova aos povos africanos durante este século, várias sociedades e
inteiras áreas foram deixadas de lado, por uma razão ou por outra. No caso do
Uganda, os Ik, povo das montanhas, no Karamoja, e os Bambuti da Província
Ocidental foram negligenciados por causa das duras condições em que vivem. Em
cada país africano há povos que foram ignorados pelos evangelizadores.

Ao mesmo tempo, muitas sociedades africanas resistiram à Boa Nova,


principalmente porque era apresentada duma maneira irrelevante, senão mesmo
perigosa para a maneira de viver do povo. Estas sociedades são sobretudo de
cultura nómada e pastoril por natureza. Tais grupos étnicos incluem os Karimojong,
os Turkana, os Masai e outros na África oriental. Gostam dos aspectos materiais da
Igreja, mas a sua mensagem não os atrai. O modo como o cristianismo lhes foi – e
ainda é – apresentado parece-lhes apropriado para povos sedentários e agrícolas, ou
povos com uma «fraca» cultura tradicional. Por último, outras sociedades africanas
ouviram a mensagem cristã, mas mantiveram-na o mais superficialmente possível,
de modo que não penetra nas suas vidas reais, culturas e visões do mundo. Quando
muito, são meros simpatizantes da Igreja.

Todos estes grupos humanos nos desafiam, como agentes da mensagem evangélica
e, sobretudo, desafiam os nossos métodos pastorais. Esta tarefa incompleta da
evangelização pede-nos uma nova visão, uma nova preparação de agentes pastorais
e uma nova proclamação da mensagem da vida. Para fazê-lo de uma maneira
aceitável, a Igreja africana precisa de maior liberdade do que tem tido até agora
para pensar, planear e implementar a evangelização.

Mesmo onde o Evangelho chegou, a evangelização foi parcial. Em muitos lugares,


ela concentrou-se meramente na libertação espiritual; noutros, dirigiu-se ao
desenvolvimento humano e espiritual, mas deixou de fora a libertação mental; em
muitos casos, esquivou-se completamente à libertação económica e política.
Demasiadas vezes, a evangelização foi tímida a confrontar as muitas injustiças
sociais, que ainda oprimem os sectores vulneráveis da sociedade. Houve acordos
indignos e conspiração de silêncio. Em muitas ocasiões, a maneira como a
mensagem cristã foi apresentada não deu a impressão clara de que era contra todos
os tipos de servidão que ofendem a dignidade e os direitos humanos. Estes
falhanços parciais reclamam uma mudança, uma nova ênfase, uma nova coragem. A
visão que queremos ter para o século XXI deve ter em conta estes desafios.

Inculturação

Na exortação pós-sinodal “A Igreja em África”, João Paulo II insiste na ideia que a


inculturação é a chave para o cristianismo africano: «O Sínodo considera a
inculturação uma prioridade e uma urgência na vida das Igrejas particulares, para a
real radicação do Evangelho em África, uma exigência da evangelização, uma
caminhada rumo a uma plena evangelização, um dos maiores desafios para a Igreja
no continente ao avizinhar-se o terceiro milénio.» (A Igreja em África, 59)

Todavia, uma vez mais, a mensagem do Papa encontrou em muitos líderes eclesiais
africanos ouvidos moucos. Muitos bispos e padres falam de inculturação, mas
negam-na na prática. Ora, sem genuína, profunda e sapiente inculturação, os
cristãos africanos nunca se apropriarão da fé. Se o cristianismo não se africanizar, o
seu futuro, no longo andar, não pode ser totalmente garantido. A inculturação que
«salvará» o cristianismo africano não pode ser superficial, a mera tradução da fé
para a cultura, mas aquela que também começa na cultura e no contexto real e
chega à fé, parte da injustiça para a libertação.

Requer-se coragem, liberdade de pensamento e participação activa de todos os


cristãos africanos. Não haverá desculpa para a ignorância das realidades e
exigências africanas. Devemos aceitar totalmente ou a responsabilidade pelo
reforço do cristianismo através da inculturação ou pelo seu enfraquecimento pelo
facto de não se atenderem os desafios que os cristãos enfrentam.

Libertação integral

A África, não obstante ser rica em humanidade, culturas e recursos naturais, tornou-
se no século XX o continente mais pobre de todos. Frequentemente é referido como
«o continente doente e sem futuro». Está a ser estrangulado por uma insuportável
dívida externa, cuja amortização está a enriquecer diariamente as opulentas
sociedades ocidentais. Está a ser dizimado pela epidemia da sida e por outras
doenças, que já foram erradicadas em outras partes do mundo. É em África que o
analfabetismo, a pobreza, a ignorância, a doença e a exploração podem ser
testemunhadas no seu pior. A moralidade cristã e humana nunca poderão tolerar que
menos de metade da população do mundo seja livre e viva abundantemente,
enquanto a maior parte é escravizada pela pobreza, e não consegue satisfazer as
necessidades básicas da vida.

A libertação económica da África é o maior desafio para o cristianismo africano no


século XXI. Os países ricos, de acordo com as exigências do jubileu bíblico,
deviam cancelar a sua dívida externa. A solidariedade humana devia unir-se para
eliminar a pobreza em África. A pregação cristã devia apontar claramente como
prioridade o desenvolvimento ecodesfavorecidos deve tornar-se o âmago do
cristianismo africano. A justiça social deve tornar-se a sua pedra-de-toque no novo
século. Os cristãos africanos devem unir-se com todas as pessoas de boa vontade
para conseguir a libertação política da África. É tempo de levantar-se e dizer não às
guerras em África, não ao comércio de armamento, não ao genocídio, não às
condições que causam milhões de refugiados, não à ditadura, não ao abuso de poder
e não à exploração do Povo de Deus. O que a África precisa e requer é paz para
todos, justiça para todos, democracia para todos e desenvolvimento para todos. A
Igreja em África tem um mandato claro para ser um verdadeiro agente de libertação
e para dizer, juntamente com todo o Povo de Deus, não a tudo o que torna o
continente escravo, pobre e repudiado.

Esta visão deve tornar-se parte integral da experiência cristã em África. Ela tem que
imbuir as mentes e os corações de todos os agentes pastorais e dos líderes eclesiais.
Sem esta tomada de posição, o cristianismo e a Igreja perderão a sua credibilidade
no continente.

O manifesto de Jesus Cristo, tal como é apresentado em Lucas 4,18-19, deve tornar-
se a bandeira do cristianismo africano no século XXI: «O Espírito do Senhor está
sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me a
proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar
em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.»

Uma Igreja adulta

Um sonho pode, obviamente, ser pura fantasia; uma visão o mero resultado de uma
alucinação. Há, todavia, condições para que um sonho seja realístico e para que
uma visão seja verdadeiramente inspiradora. Relativamente à Igreja africana do
terceiro milénio, as condições são três: que possa auto-sustentar-se, ser auto-
suficiente a nível ministerial e seja missionária.

Já em meados do século XIX, Henry Venn, da Sociedade da Igreja Missionária, se


referiu a estas três condições indispensáveis para que uma Igreja local o fosse
realmente. Infelizmente, uma fraca teologia da Igreja e da missão contribui para
deixar a Igreja africana ao nível de «missão», em vez de levá-la ao pleno estatuto de
Igreja local, que é: uma Igreja capaz de agir e tomar decisões por si; capaz de servir
o seu próprio povo através de ministros surgidos no seu seio; capaz de recolher
entre os seus fiéis dinheiro suficiente para continuar o seu trabalho; e preparada
para se abrir ao resto do mundo com verdadeiro espírito missionário.

Não seria preciso afirmar que a aceitação destes desafios nunca deve pôr em causa
a universalidade da fé cristã, nem dos evangelizadores. Mas também é verdade que
só sendo uma Igreja autenticamente local e continental a Igreja Católica africana
será capaz de cumprir o mandato de se evangelizar a si e aos outros continentes.

John Mary Walligo, Teólogo ugandês

Além-Mar