Você está na página 1de 10

Os povos indígenas do Xingu e a hidrelétrica Belo Monte

“É teu povo, Senhor, que eles massacram,
é tua herança que eles humilham!”
(Sl 93 (94),5)
 
Uma história que não é de hoje
 
O   Xingu   é  um  rio  peculiar  e único.  Não  dá  para  compará­lo  com  qualquer outro rio  da 
Amazônia. Só ele faz aliança com o majestoso Amazonas através de um largo delta. Na foz, 
suas lindas águas verdes­esmeralda se mesclam com as águas barrentas do rio­mar no qual se 
perde finalmente acima do Forte de Santo Antônio de Gurupá. Percorreu 2045 km desde Mato 
Grosso onde nasce a 600 metros acima do nível do mar na junção da Serra do Roncador com a 
Serra Formosa.
 
O Xingu é misterioso. Seu nome até hoje não tem explicação etimológica. Alguns estudiosos 
querem traduzi­lo como “casa dos deuses” ou melhor “Casa de Deus”, mas não se tem certeza 
qual seria a verdadeira raiz subjacente a este nome. Suas águas ora são calmas e pacíficas 
formando   extensos   lagos,   ora   furiosas   e   indômitas   quando   se   estreitam   em   perigosas 
cachoeiras que já ceifaram muitas vidas de viajantes desavisados ou afoitos que teimaram em 
enfrentá­las. Pode ser que não seja a Casa de Deus, mas que é um rio sagrado para os povos 
que habitam nas suas margens há milhares de anos, quem teria a ousadia de negar!
 
O Xingu narra a história do paraíso de antanho e repete as palavras divinas “E Deus viu tudo 
o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1,31). Mas conta também a história da rebelião contra 
Deus, da prepotência e arrogância dos homens que queriam ser como deuses (cfr. Gn 3,5). 
Relata ainda a violência assassina que ceifou a vida do irmão e brada pelos séculos afora a 
palavra de Deus: “Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar por mim!” (Gn 
4,10). Na realidade, as águas do Xingu deveriam ter a cor do sangue por causa das inúmeras 
chacinas que se perpetraram ao longo dos séculos passados. A fúria anti­indígena assassinou 
com   armas   de   fogo   a   índios   munidos   apenas   de   arco   e   flecha   e   bordunas.   Os   invasores 
misturaram nas praças das aldeias com o barro vermelho também o sangue de indefesas mães 
e mulheres grávidas, jovens e crianças recém­nascidas. Milhares tombaram! E o mundo que se 
autodenomina de “civilizado” fechou os olhos, mostrou indiferença diante do sangue indígena 
bradando por justiça, gritando pelo direito de viver, reclamando a pátria que Deus criou para 
estes povos, defendendo o chão de seus mitos e ritos, chorando a terra onde sepultaram os 
antepassados. Até hoje o índio é chamado com desprezo de “silvícola”, um termo que insinua 
tratar­se apenas de algum bípede a mais, sem inteligência e livre arbítrio. Grande parte da 
sociedade   envolvente   vê   ainda   os   povos   indígenas   como   uma   horda   de   malfeitores,   de 
agressores hostis, selvagens, traiçoeiros, bárbaros, cruéis, não­confiáveis.
 

1
A história  dos índios é uma história de rios de sangue derramado. Assim, tudo que hoje 
acontece de desfavorável, de adverso faz emergir do inconsciente coletivo destes povos todo o 
sofrimento do passado, toda hostilidade de que foram vítimas desde que os europeus fincaram 
o pé neste continente e os bandeirantes avançaram em todas as direções abrindo caminho a 
ferro e fogo.
 
Não   faz   tanto   tempo   que   o   próprio órgão governamental   encarregado   de   proteger   os 
povos indígenas, o Serviço de Proteção ao Índio – SPI, participou de massacres. Foi extinto 
por causa da repercussão no exterior das escandalosas carnificinas e substituído pela FUNAI. 
Em 1967 veio à tona o assim chamado “Massacre do Paralelo 11” que aconteceu em 1965. Um 
seringalista do Mato Grosso deu ordem para exterminar uma aldeia. Primeiro sobrevoaram o 
povoado e jogaram bombas, depois entraram na aldeia e mataram a todos. Eu mesmo vi uma 
fotografia que mostra uma mulher indígena presa pelos pés, de cabeça para baixo, ladeado por 
dois homens brancos com facões. Esquartejaram a mulher. A mera lembrança da foto me 
causa arrepios. Isso não aconteceu no tempo dos bandeirantes, mas há apenas pouco mais de 
quarenta anos.

Naquela mesma década de 60 outra agressão bem planejada aconteceu no Xingu. A ação 
criminosa   nunca   foi   investigada.   Os   criminosos   não   foram   identificados   e   punidos   por 
homicídio   qualificado   cometido   em   série.   Alguns   políticos   queriam   a   todo   custo   tirar 
Altamira do ostracismo. A cidade precisava ser ligada através de uma estrada – mesmo que 
fosse apenas uma picada – com Santarém, o portal a dar acesso ao mundo. O empecilho para 
concretizar o intento foram os índios Arara que viviam na região que hoje coincide com os 
municípios   de   Medicilândia   e   Uruará.   Mas   para   não   frear   o   progresso   “esses   selvagens” 
tinham   que   ser   “eliminados”.   Se   a   expedição   avistasse   um   índio   Arara,   a   ordem   era   de 
executá­lo. Imediatamente! Não se sabe do número exato de índios Arara mortos naquele 
tempo. Só se sabe que foram muitos. Morreram até eletrocutados quando se aproximaram do 
barraco da “força expedicionária” circundado por uma cerca de arame conectada com um 
grupo gerador. Os índios queriam ver os “brancos”, seguraram no arame e levaram choques de 
220   volts.   A   história   deste   povo   que   vivia   sossegado   no   meio   da   mata   entre   Altamira   e 
Santarém   culminou   em   outra   tragédia   durante   a   construção   da   Transamazônica.   A   nova 
rodovia passava a três quilômetros da aldeia dos Arara no igarapé Penetecaua. Os índios foram 
até   perseguidos   por   cachorros.   A   forçada   convivência   com   o   mundo   dos   brancos   trouxe 
doenças   como  gripe,  tuberculose,  malária.  Outros   tantos morreram!  O  mundo  lá  fora,  no 
Brasil e no exterior, nada soube desta desgraça que desabou sobre um povo. Continuava a 
aplaudir “a conquista deste gigantesco mundo verde”, palavras que constaram da placa afixada 
no tronco de uma castanheira derrubada quando o presidente da República deu solenemente 
início aos trabalhos de construção da Transamazônica. A que preço! Nunca me esqueço do dia 
em corria a notícia de que, finalmente, os “terríveis índios arara” haviam sido dominados. 
Como prova de que o “contato” tinha sido um sucesso total, trouxeram uns representantes 
daquele povo que até então vivia livre na selva xinguara. Nus, tremendo de medo em cima de 
uma   carroça,  foram  expostos  à   curiosidade  popular   como  se  pertencessem  a  alguma   rara 
espécie zoológica. 
2
 
Vivemos   em   outros   tempos.   Pelo   menos   assim   pensamos.   Celebramos   sessenta   anos   de 
promulgação   da   Carta   Magna   dos   Direitos   Humanos.   Qualquer   discriminação   racial   é 
condenada. É proclamada a igualdade de povos e raças. No Brasil temos desde 1988 uma 
Constituição Federal em que os direitos indígenas são inscritos no Artigo 231. Foi abolida a 
tutela de um órgão estatal. Os indígenas, outrora equiparados aos menores de idade e aos 
deficientes mentais, alcançaram plena cidadania, não precisando mais ser tutelados. Tem todo 
o direito de ir e vir como qualquer brasileiro. Mesmo assim, enquanto já estamos festejando os 
vinte anos da Constituição “cidadã”, parte da imprensa ainda não se inteirou desta novidade 
constitucional e há jornais insistindo que ”a Polícia Federal deverá pedir explicações à FUNAI 
(...) já que o órgão é o tutor legal dos índios brasileiros” 1. 
 
O salto qualitativo da letra constitucional para o chão concreto da realidade em que os povos 
indígenas vivem ainda não aconteceu. Se uma demarcação de área indígena é concluída com a 
homologação pelo presidente, prevista em lei, um clamor ensurdecedor se levanta pelo Brasil 
afora, reclamando que ”há muita terra para pouco índio”. E o pior aconteceu ha algumas 
semanas em Altamira. Uma rádio local se desdobrou em berrar agressões verbais contra os 
índios, insultos racistas que fazem inveja ao tratamento destinado aos judeus pelo regime 
nazista. Pensávamos que tais excessos pertencessem a um passado longínquo e tivessem sido 
há   muito   tempo   extirpados   do   vocabulário   jornalístico.   Infelizmente   nos   enganamos!   A 
onda anti­indígena assume novamente proporções alarmantes!
 
De Kararaô a Belo Monte.
 
Muitos não recordam o tempo a ditadura militar e, já que a memória tem fama de ser curta, 
poucas   pessoas   se   lembram   dos   mandos   e   desmandos   dos   presidentes   plenipotenciários 
daquela época. Um deles foi o General Emílio Garrastazu Medici. Tornou­se célebre pelo 
Projeto de Integração Nacional e a construção da Rodovia Transamazônica, inaugurada em 
setembro   de   1972.   Foi   a   década   do   “Integrar   para   não   entregar”   e   de   outro   slogan   que 
desencadeou uma migração sem precedência no Brasil. “Terra sem homens para homens sem 
terra!” exclamava eufórico o general­presidente, o que não deixou de ser um tremendo insulto 
aos  povos indígenas que há milênios habitam a Amazônia. O presidente simplesmente os 
ignorou,  despojou­os   da  cidadania,   negou­lhes  a  existência,  considerou­os  definitivamente 
mortos. 

Milhares   de   famílias   rumaram   do   Nordeste,   Centro,   Sudeste   e   Sul   para   a   Amazônia.   No 
entanto,   o   Projeto   de   Integração   Nacional   previu   também   a   construção   de   barragens.   A 
rodovia cortou os grandes rios nas proximidades das principais quedas d’água. Já em 1975 a 
Eletronorte contratou a firma CNEC (Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores) para 
pesquisar e indicar o local exato de uma futura hidrelétrica. Em 1979 o CNEC terminou os 
estudos e declarou a viabilidade de construção de cinco barragens no Xingu e uma no rio Iriri, 

1
 Por exemplo „O Liberal”  em sua edição de 26 de maio de 2008
3
maior afluente do Xingu. Ao povo do Xingu negou­se qualquer informação mais detalhada. 
Só se sabia que o Governo pretendia tocar a construção o quanto antes possível.
 
Os povos indígenas reagiram pela primeira vez em 1989. Vieram uns 600 índios para Altamira 
e  hospedaram­se no centro  Betânia da Prelazia do Xingu. Vieram para protestar contra  a 
decisão   do   Governo   de   sacrificar   o   rio   Xingu.   O   encontro   que   os   índios   chamaram   de 
“Primeiro Encontro das Nações Indígenas do Xingu” realizou­se nos dias 20 a 25 de fevereiro 
de 1989 e alcançou uma enorme repercussão nacional e internacional. A foto que retratou a 
cena em que a índia kayapó Tuyra encostou a lâmina de seu facão no rosto do então presidente 
da Eletronorte e hoje presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz Lopes, percorreu o mundo 
inteiro e virou a logomarca da oposição indígena ao projeto de hidrelétrica. Tuyra tornou­se a 
mulher mais famosa do mundo kayapó, mãe carinhosa com seus filhos e ao mesmo tempo 
guerreira intransigente quando se trata da defesa de sua terra e seu rio. Pouco depois daquele 
memorável encontro, o Banco Mundial negou o suporte financeiro e o projeto foi arquivado. 
Nunca, porém, foi abandonado. Já na década de 90 foi desengavetado! Veio à tona com mais 
força!
 
No inicio do mês de junho de 2007, reuniram­se outra vez representantes de vários povos 
indígenas   do   Xingu   no   Centro   Betânia   da   Prelazia   do   Xingu   e   insistiram 
que colaborássemos com eles para promover um Encontro dos Povos Indígenas semelhante 
àquele que aconteceu em 1989. Os índios pretendiam chamar a atenção do Brasil e do mundo, 
condenando o projeto faraônico que ameaça imolar ao deus­progresso o rio Xingu que para 
eles é sagrado, símbolo da vida, dádiva de Deus.
 
No   dia   3   de  junho   de   2007,  os   participantes   do  encontro   foram   para   a   beira   do   rio,   em 
Altamira, para uma manifestação contra o projeto de hidrelétrica ressuscitado que recebeu o 
nome “Belo Monte” em substituição à denominação anterior “Kararaô” que equivale a um 
grito   de   guerra   do   povo   kayapó.   Mudou   apenas   o   nome!   O   atual   Governo   o   considera 
prioridade no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente Lula antes de ser 
eleito   manifestou­se   contra   Belo   Monte.   Do   mesmo   jeito   vários   membros   do   Congresso 
Nacional,   entre   eles   o   deputado   federal  Zé   Geraldo,   eleito   pelas   comunidades   do   Xingu, 
declararam­se visceralmente contrários,   quando   estavam   em   campanha   eleitoral.   Mas   que 
surpresa para todos nós: depois de eleitos mudaram de posição. O que antes condenaram com 
veemência, de repente, da noite para o dia, passaram a defender com unhas e dentes. O que 
estaria por trás dessa repentina metamorfose camaleônica?
 
Doravante, o povo do Xingu é informado de que se trata apenas de uma Unidade Hidrelétrica 
(UHE) e não mais de um Complexo Hidrelétrico. Não deixa de ser uma mentira deslavada que 
se   propaga sem nenhum pudor, um artifício empregado propositadamente para ludibriar  o 
povo. Todo mundo sabe que seria um incalculável desperdício investir bilhões de reais para 
uma usina que durante o verão tropical não tem condições de funcionar plenamente quando o 
volume de águas do Xingu diminui. É a estação em que extensas praias de areia branca e 
dourada emergem das águas cristalinas transformando a região numa paisagem deslumbrante. 
4
Mas os barrageiros não se deixam impressionar pela beleza exótica do Xingu. Já baixaram a 
sentença e fim de papo! O rio tem que ser sacrificado! É o preço a pagar! Outras barragens 
serão necessárias e estão programadas! Para adiantar o serviço, a Eletrobrás já dispõe de todo 
o “inventário” do Xingu com o respectivo mapa que prevê os barramentos e as áreas alagadas 
até acima da cidade de São Félix do Xingu. Parece tratar­se de estudos clandestinos, pois não 
são   acessíveis   ou   revelados   ao   público,   algo   que   deve   estar   levando   o   carimbo   “matéria 
altamente confidencial” ou “segredo de Estado”. Por que todo esse sigilo?

No mesmo dia 3 de junho de 2007 um cacique kayapó subiu a um caminhão estacionado na 
avenida que margeia o Xingu, pegou o microfone e indagou gritando: “O que será de nossas 
crianças?” e acrescentou: “Não permitimos que as sepulturas de nossos ancestrais vão para o 
fundo!” Enquanto empresários e comerciantes defendem Belo Monte na acalentada esperança 
de “chuvas de dinheiro” desabando sobre Altamira e não se preocupam em nenhum momento 
com as consequências perniciosas para a vida de milhares de pessoas, mormente a população 
das   baixadas   que   terá   suas   casas   e   propriedades   alagadas,   enquanto   os   membros   desse 
consórcio empresarial abertamente demonstram que não lhes causa nenhuma inquietação se 
áreas indígenas demarcadas e homologadas são  alagadas e o povo ribeirinho prejudicado, 
enquanto essa gente que em sua grande maioria veio de outros Estados não tem nenhuma dor 
de consciência diante de um programado desastre ecológico irreversível, um índio, até hoje 
considerado   um   supérfluo   resíduo   da   idade   da   pedra   lascada,   esse   índio   discriminado   e 
tratado com desdém ou desprezo, é quem dá uma lição a toda a sociedade. Esse consórcio 
”comercial, industrial e agropastoril“ só pensa em si. Não mantém laços nem com o passado, 
nem os estabelece com as futuras gerações, não se relaciona nem com quem vivia antes nem 
com   quem   vem   depois.   “Aprés   moi   le   deluge!”   É   uma   associação   de   gente   imediatista, 
interesseira e egoísta que aposta apenas em lucros fabulosos e declara guerra a quem tiver a 
petulância de opor­se a sua ambição e ganância que não respeita nada e ninguém. De repente, 
um   índio  chama  a atenção para  o direito das  futuras  gerações que também querem  viver 
e estabelece ainda uma ponte com os antepassados, de quem herdamos este mundo que Deus 
criou.   O   índio   teve   a   coragem   de   alertar   para   as   consequências   nefastas   de   um   projeto 
megalomaníaco. À beira do rio, indígenas e não­indígenas se deram as mãos para selar o 
pacto de lutar contra a destruição do rio e da vida: Xingu Vivo para Sempre!
 
Em  1989  os  índios se manifestaram, em 2007 insistiram de novo num grande encontro  e 
mostramo­nos sensíveis ao pedido de todos os povos indígenas da bacia do Xingu.
 
Por que representantes da Eletrobras ou Eletronorte nunca passaram por uma única aldeia para 
ouvir os índios a respeito de Belo Monte? Por que não pediram ajuda de quem realmente 
entende do  mundo kayapó para manter contatos com esses povos que são  os  primeiros  a 
habitar   esta   terra?   Por   que   essa   discriminação,   exclusão,   marginalização   dos   povos 
autóctones? Por que?
 
Nas audiências chamadas “públicas” não se fala a verdade nem existe real possibilidade para o 
povo manifestar as suas dúvidas, fazer indagações e apresentar críticas. Essas audiências são 
5
apenas parte de um ritual em que os enviados da Eletrobras ou do Governo recitam o rosário 
de  vantagens  e benefícios. Só vantagens!  Só benefícios! Parece terminantemente proibido 
criar   no   povo   a   sensação   de   que   possa   haver   alguma   sequela   negativa   ou   algum   dano 
irreparável. Se alguém se atrever em insistir e opor­se ao discurso oficial, a resposta repetida 
até criar náuseas é e será sempre: "É o preço a ser pago pelo progresso!" "É a exigência do 
desenvolvimento".   Instados   a   explicar   o   que   entendem   por   desenvolvimento   e   progresso, 
recusam­se a responder. Dizem que não não vieram para discutir questões “ideológicas”. Fato 
é   que   a   Eletronorte  sabe  o  que  convém   à  sociedade,  não  o  zé­povinho.   Causa  realmente 
espécie a repetição de slogans, chavões prefabricados não com a intenção de esclarecer, mas 
de cooptar. Veja­se o caso da índia xipaia que está sendo aplaudida pelo pessoal do Consórcio 
e filmada afirmando que está a favor de Belo Monte, porque "o índio está no escuro". Sei 
quem é essa senhora. Ela mora há décadas na cidade e há luz na casa dela desde que há 
energia   elétrica   em   Altamira.   “CIMI   não   dá   dinheiro!   Dom   Erwin   não   dá   dinheiro! 
Eletronorte dá dinheiro, paga conta! Por isso somos a favor de Belo Monte!” são frases que 
foram ouvidas na aldeia de determinado grupo que se distanciou dos outros povos indígenas 
do Xingu e não participou mais de nenhum evento. Que maneira mais esdrúxula de defender a 
"UHE   Belo   Monte",   cooptando   índios   menos   avisados   e   ainda   acenando   com   vantagens 
financeiras aos que prometem defender o projeto!
 
Obcecado   pela   idéia   de   acelerar   o   crescimento   da   economia,   o   próprio   presidente   Lula 
identificou   como   "entraves"   a   esta   medida   a   questão   dos   índios,   dos   quilombolas,   dos 
ambientalistas e até do Ministério Público. Considerou ainda "penduricalhos" os artigos da 
legislação  ambiental pois estes parâmetros legais estariam travando o desenvolvimento  do 
país.   Por   isso   a   ordem   é   de   desconsiderar   ou,   pelo   menos,   não   dar   tanta   importância   a 
impactos sociais e ambientais. Caso contrário o País estaria condenado à estagnação. Mas, já 
que são exigidos estudos preliminares no caso de uma hidrelétrica, o Governo encarrega os 
primeiros interessados no projeto, os grandes empreendedores, de providenciar os estudos de 
viabilidade ou de impacto ambiental  e social. Terão a seu dispor cientistas  de sua inteira 
confiança que na mais cega obediência aos ditames superiores corroborarão a tese que já é 
definida antes do estudo: o impacto ambiental e social será mínimo ou praticamente nulo. 
Alega­se: “O Brasil não pode esperar!” Ou alguém pensa que uma dessas empresas esteja 
interessada em apontar impactos ou danos sociais e ambientais? Isso equivaleria a cortar o 
galho em que estão sentadas.
 
A pergunta chave é: A quem mesmo interessa Belo Monte? Ao Brasil? Vai melhorar o padrão 
de vida dos paraenses, dos xinguaras, do povo de Altamira, Vitória do Xingu, Souzel, Anapu, 
da Transamazônica, do Baixo Xingu? A energia, a quem será destinada? Todos sabemos que 
serão mais uma vez beneficiadas as multinacionais que vivem às custas do Brasil com todas as 
mordomias fiscais e facilidades energéticas. O preço da energia para a família brasileira é 
escandaloso,   é   exorbitante,   mas   as   empresas   transnacionais   contam   com   a   benevolência 
magnânima dos sucessivos Governos. O Pará, a Amazônia é considerada mera “província” 
energética,   mineral,   madeireira,   última   fronteira   agrícola...   Nunca   saiu  dessa   categoria   de 
“província”! A metrópole, o centro nevrálgico das decisões e deliberações, sempre se encontra 
6
alhures! Pouco interessa à metrópole se os povos da “província” passam bem ou vão de mal a 
pior. Algumas migalhas sempre caem, mais por descuido do que por amor aos pobres. E os 
nossos políticos, em vez de questionar esse sistema iníquo, de criticar estruturas prejudiciais 
aos povos da Amazônia, de exigir direitos e ”royalties”, aplaudem de pé e não hesitam em 
apelar até para a terminologia teológica quando falam em “salvação”, “redenção” da região, 
do Pará e da Amazônia. Infelizmente nada entendem da máxima do grande Santo Tomás de 
Aquino: “Gratia supponit naturam” (a graça pressupõe a natureza). No contexto da Amazônia: 
Jamais haverá redenção se a criação for arrasada, destruída, aniquilada! Aí só vai sobrar a 
desgraça, o caos, o apocalipse!
 
Xingu Vivo para Sempre
 
No dia 19 de maio de 2008 tive o privilégio de fazer a abertura do encontro Xingu Vivo para 
Sempre   no   Ginásio   Poliesportivo   de   Altamira.   Mais   de   seiscentos   indígenas,   mulheres, 
homens e crianças, entraram solenemente no recinto, cantando e dançando, erguendo suas 
lanças, bordunas e facões. Quem não se emocionou quando os índios kayapó cantaram o Hino 
Nacional em sua língua materna! A platéia aplaudiu entusiasmada.
 
Apresentei todos os caciques das 24 etnias presentes e saudamos os outros participantes do 
evento chamando­os por município. O ar foi festivo, animado, algo excepcional, pois não é 
todo dia que se vê tantos indígenas, pintados segundo suas tradições, dançando de acordo com 
os seus ritos milenares e cantando num idioma ancestral enquanto se movimentam num ritmo 
tão   peculiar.   Volta   e   meia,   uma   ou   um   kayapó   levanta   para   fazer   sua   dança   individual 
erguendo um facão ou mostrando borduna e lança, os homens com seus barítonos volumosos 
e fortes, as mulheres com vozes elevadas, incisivas, às vezes até estridentes. A beleza exótica 
das   expressões   culturais   comove   e  impressiona.   A   juventude,   presente   nas   arquibancadas, 
vibra com as danças e aplaude com prolongadas salvas de palmas.

Na manhã do segundo dia continuou a apresentação. Faz parte do ritual indígena que cada 
cacique fala, mesmo que repita argumentos ou opiniões anteriormente já expressos por um 
parente. Aliás, todos se entendem como parentes. A procedência geográfica não conta, nem 
sequer   a   etnia   ou   o   tronco   linguístico   a   que   pertencem.   Todos   se   tratam   de   “õbikwa”, 
familiares!   Se um sofre ou é agredido, todos se sentem atacados. Quando se apresentam, 
falam   primeiro   em   sua   língua   materna   e   depois   traduzem,   eles   mesmos,   a   fala   para   o 
português. Uns tem mais facilidade de expressar­se em português, outros não conseguem fazê­
lo   de   modo   correto.   Percebe­se   a   sua   alegria,   mas   muitas   vezes também a angustia ou 
indignação   por   causa   de   alguma   decisão   do   Governo   contrária   a   eles   ou   do   avanço   de 
latifundiários, mineradoras, madeireiras, garimpeiros para as terras habitadas por eles desde 
tempos   imemoriais.   São   muito   sensíveis   a   qualquer   falta   de   consideração   da   parte   da 
sociedade envolvente. Não ocultam a sua decepção. ”Já estamos cansados de ouvir e não ser 
ouvidos. Já estamos cansados de escutar ameaças de construção de barragens na volta grande 
do Rio Xingu. Não estamos só defendendo o Rio Xingu, mas os rios da Amazônia: moradia 
dos povos indígenas” reclama um dos caciques.
7
 
Ao   término   da   apresentação foi composta   a   mesa   de   trabalho   para   os   debates.   Foram 
chamados o Professor Oswaldo Sevá Filho, da Universidade de Campinas (UNICAMP), o 
Engenheiro   Paulo   Fernando   Viana   Rezende,   da   Eletrobras,   Roquivan   Alves   da   Silva,   do 
Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), Jean Pierre Leroy, da Federação de Órgãos 
para Assistência Social e Educacional (FASE) e Glenn Switkes, diretor do Programa Latino­
americano do International Rivers Network (IRD).
 
Oswaldo Sevá é conhecido nosso e dos indígenas. Veio para mais uma vez alertar sobre as 
consequências   dos   projetos   hidrelétricos   no   Rio   Xingu.   Foi   ele   quem   organizou   o   livro 
Tenotã­ Mo, lançado em 11 de agosto de 2005, uma coletânea de artigos de especialistas de 
diversas áreas que pretendia provocar um amplo debate sobre as hidrelétricas na Amazônia. 
Fui convidado a escrever o prefácio para este livro. Para nossa total decepção, a Eletrobras 
nunca   respondeu   às   indagações   e   críticas   da   parte   do   mundo   científico.   Percebe­se 
nitidamente a arrogância de alguns órgãos do Governo. Nós apelamos para argumentos, eles 
para o “poder”, ostensiva e cinicamente manifestado.
 
Entrei   no   Ginásio   já   no   final   da   palestra   do   Professor   Oswaldo   Sevá.   Chegou   a   vez   do 
representante   da   Eletrobras,   o   engenheiro   Paulo   Rezende.   Tive   a   impressão   de   que   não 
encontrou   tempo   para   se   preparar.   Assim   optou   por   uma   sessão   “Power   Point”   como   a 
Eletrobras   costuma   fazer   quando   é   solicitada   por   prefeitos,   vereadores,   comerciantes   e 
empresários. Na tela apareceram números e estatítiscas, dificilmente identificáveis por causa 
da claridade do ambiente. A platéia começou a ficar inquieta e reagiu quando o engenheiro 
desqualificou   o   professor   Oswaldo   Sevá,   chamando­o   de   “desatualizado”.   As   vaias   se 
tornaram cada vez mais incisivas. Falei para a professora Mônica sentada ao meu lado: “Por 
que esse homem não pára, com todas essas vaias!” Pareciam antes estimular o engenheiro. 
Alteou a sua voz, elevando­a a um tom provocador.
 
O engenheiro cumpriu seu papel dentro do ritual previsto. Nada de admitir que o projeto possa 
trazer também consequencias adversas, irreversíveis. Aulas de pedagogia não devem constar 
da grade curricular de uma faculdade de engenharia. Assim o engenheiro não teve nenhum 
preparo para lidar com situações diferentes das que ele conhece no âmbito empresarial. Não 
conseguiu envolver a platéia, de modo especial os indígenas presentes. Perdeu as estribeiras e 
apelou  para a arrogância. Por que não fez uma exposição mais simples para todo mundo 
entender? Por que não dividiu sua palestra em duas partes? Poderia, se assim o quisesse, falar 
primeiro das vantagens e dos benefícios que Belo Monte pode trazer. Em seguida abordaria 
com sinceridade e simplicidade as desvantagens, os prejuízos que, sem dúvida, a hidrelétrica 
irá   causar.   Mas   nada   disso   aconteceu.   Faltava   franqueza   e   imparcialidade.   O   engenheiro 
transmitiu à platéia a sua convicção de que, haja oposição ou não, Belo Monte vai sair de 
qualquer jeito!
 
Quando   após  a  palestra  do engenheiro,   o representante  do  Movimento dos  Atingidos  por 
Barragens,   iniciou sua  fala dizendo  que os  índios irão defender o Xingu para  protegê­lo, 
8
ressoou   de   repente   pelo   ginásio   um   terrível   grito   de   guerra.   Os   índios   se   levantaram   e 
ergueram bordunas e facões e, em seguida, iniciaram uma dança movimentando­se em direção 
ao engenheiro. Vi os índios gesticular com facões e bordunas. Simbolizaram um ataque. Do 
lugar, onde eu estava, não pude observar que um dos fações resvalou no braço do engenheiro, 
ferindo­o.   Quando   consegui   ficar   mais   próximo,   percebi   o   corte   no   braço   direito   do 
engenheiro. Vi também como ele derramou toda uma garrafa de água mineral sobre o corte 
que sofreu. A intenção que teve, foi sem dúvida a de limpar a ferida, mas o resultado foi uma 
imensa   poça   d’água   misturada   com   sangue   que   causou   a   tétrica   impressão   de 
que alguém havia sido esquartejado ou guilhotinado naquele mesmo instante. Inúmeras vezes 
esta mesma cena foi repetida nas reportagens de televisão. Sangue espalhada por toda parte. O 
engenheiro foi encaminhado para o hospital. Levou seis pontos e recebeu alta. Padre Renato 
Trevisan que tem uma larga experiência com o povo kayapó, além de falar muito bem seu 
idioma, solicitou a um cacique que apaziguasse na língua kayapó os espíritos excitados. O 
cacique pegou prontamente o microfone e falou a seu povo.
 
Nós,   da   coordenação   e   responsáveis   pelo   evento,   ficamos   espantados,   muito   aflitos   e 
angustiados   ao   extremo.   Imaginávamos   logo   a   repercussão   do   acidente   nos   meios   de 
comunicação. Havia gente nossa chorando convulsivamente. Ninguém se conformara com o 
acontecido. Tudo estava correndo tão bem, sem sobressaltos. E agora?
 
Afirmo com toda a ênfase e convicção que o corte com o facão que o engenheiro sofreu foi 
acidental! Muito lamentável, sem dúvida, mas jamais foi tentativa de homicídio, pois se os 
índios quisessem matar o engenheiro não o teriam atingido apenas no braço. Aliás, o próprio 
engenheiro em entrevista gravada para o programa “O Fantástico” da TV­Globo admitiu que 
foi um acidente. Repudio e rejeito por uma questão de consciência a afirmação de que a 
agressão foi premeditada ou programada. São as forças anti­indígenas que mais uma vez vêm 
à tona e agora se deleitam no macabro prazer de sustentar essa tese absurda.
 
A   coordenação   do   evento   veio   imediatamente   a   público   e   falou   do   incidente   lastimável. 
Redigimos   uma   nota   em   que   lamentamos   profundamente   o   ocorrido.   Fui   procurado   por 
jornalistas e dei várias entrevistas a diversos canais de televisão. Mesmo assim, parte da mídia 
optou pela divulgação sensacionalista dos fatos o que engendrou todo tipo de comentário ao 
longo dos dias e semanas subsequentes. Condenaram sumariamente a Prelazia do Xingu e o 
seu bispo e as outras entidades coordenadoras do evento.

Pensávamos por alguns momentos até em encerrar o encontro, julgando que não houvesse 
mais clima para a continuação, mas, finalmente, decidimos de cancelar apenas a passeata 
pelas ruas da cidade de Altamira e substitui­la por uma manifestação à beira do rio Xingu.

No dia 23 de maio representantes dos povos indígenas e gente que vive ao longo do Xingu e 
seus afluentes, gente do campo e da cidade e representantes dos movimentos sociais se deram 
mais uma vez as mãos à beira do rio Xingu. Mais uma vez os índios discursaram e dançaram. 
As mulheres com as crianças entraram n’água para demonstrar como amam o rio e como 
9
dependem dele. Acabou o encontro Xingu Vivo para Sempre mas não acabou a luta em defesa 
desse rio maravilhoso e dos povos do Xingu. Foi lido o documento final em que os índios 
fazem  questão   de   manifestar­se   como   “cidadãos   e   cidadãs   brasileiras”.   “Vimos   a   público 
comunicar ... a nossa decisão de fazer valer o nosso direito e o de nossos filhos e netos a viver 
com dignidade, manter nossos lares e territórios, nossas culturas e formas de vida, honrando 
também nossos antepassados, que nos entregaram um ambiente equilibrado. Não admitiremos 
a construção de barragens no Xingu e seus afluentes, grandes ou pequenas, e continuaremos 
lutando   contra   o   enraizamento   de   um   modelo   de   desenvolvimento   socialmente   injusto   e 
ambientalmente degradante, hoje representado pelo avanço da grilagem de terras públicas, 
pela instalação de madeireiras ilegais, pelo garimpo clandestino que mata nossos rios, pela 
ampliação das monoculturas e da pecuária extensiva que desmatam nossas florestas”.

 “Queremos o Xingu vivo para sempre!”

10