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ARTIGO DE REVISÃO / REVIEW ARTICLE / DISCUSIÓN CRÍTICA

Dor e sofrimento na tessitura da vida


Pain and suffering in life’s own substance
Dolor y sufrimiento en la propia sustancia de la vida

Lucilda Selli*

RESUMO: O texto apresenta uma compreensão de dor e sofrimento proveniente de uma vivência pessoal confrontada com idéias de
autores que fazem alusão ao tema. Aborda a importância da apropriação pessoal da situação para o enfrentamento da vulnerabilidade
e construção da identidade pessoal. Aponta que a capacidade de atribuir um sentido para a vivência, ancorada pela relação interpessoal,
fortalece e ajuda a fazer frente ao problema. Mostra que a tecnociência dispõe praticamente de todas as condições necessárias para
combater a dor orgânico-fisiológica. No entanto, em relação ao sofrimento, é uma realidade mais complexa, e subjetiva que foge do
alcance da ciência, mas que pode estar ao alcance do acolhimento e cuidado humano.
PALAVRAS-CHAVE: Dor. Sofrimento. Cuidado humano.
ABSTRACT: The text presents an understanding of pain and suffering stemming from a personal experience compared to ideas of authors
who mention these subjects. It discusses the importance of the personal appropriation of the situation for confronting vulnerability
and construct personal identity. It points out that the capacity to give sense to an experience, anchored by interpersonal relation, for-
tifies and helps deal with the problem. It shows that technoscience have almost all conditions necessary to fight organic-physiological
pain. But suffering is really more complex and subjective reality that is outside science reach but is nevertheless at the reach of human
support and care.
KEYWORDS: Pain. Suffering. Human care.
RESUMEN: El texto presenta una comprensión del dolor y del sufrimiento que provienen de una experiencia personal comparada a las
ideas de autores que mencionan estos temas. Discute la importancia de la apropiación personal de la situación para enfrentar la vulne-
rabilidad y la construcción de la identidad personal. Precisa que la capacidad de dar sentido a una experiencia, anclada por la relación
interpersonal, fortifica y ayuda el afrontamiento del problema. Demuestra que la tecnociencia tiene casi todas las condiciones necesarias
para combatir el dolor orgánico-fisiológico. Pero el sufrimiento es en verdad una realidad más compleja y subjetiva fuera del alcance de
la ciencia, pero está sin embargo al alcance de la ayuda humana y del cuidado humano.
PALABRAS LLAVE: Dolor. Sufrimiento. Cuidado humano.

Introdução que caracterizo como vivida na ência dispõe praticamente de todas


profunda solidão com o meu Deus as condições necessárias para com-
Este escrito se deu a partir de e minha fé. Cresceu meu apreço bater a dor orgânico-fisiológica, o
uma vivência de dor e sofrimen- à espiritualidade; amadureceu a sofrimento é uma realidade mais
to, provocados por um acidente certeza de que com Deus é que complexa, que pode, mas não ne-
sofrido, quando apanhada repen- faremos verdadeiras proezas no cessariamente, envolver a presen-
tinamente por uma moto em um sentido espiritual. Nele é que não ça da dor física. Quando a dor me
percurso reservado ao pedestre. estamos sós e com ele vivemos a assolava, os analgésicos me alivia-
Os quatro meses de dependência, plenitude da solidão sem sentir o vam e até embalavam meu sono.
cuidados, expressões de afeto e ca- abandono. Entendi que dor e so- No entanto, o olhar profundo de
rinho que vinham de pessoas que frimento são realidades diferentes, minha mãe, acompanhado de ex-
fazem parte da minha vida, cons- mas constituem conceitos que, de pressões que afloram do coração
tituíram alicerce para fazer frente certa forma, se implicam e se inter- de mãe, gerava sofrimento mútuo,
à situação. Todas essas presenças, ceptam. Conforme o uso corrente que nenhum analgésico conseguia
cuidados e manifestações foram do termo, originam-se do latim do- conter. É um movimento recípro-
fundamentais. Mesmo assim digo lore e sufferere. No entanto, entendi co, no qual uma e outra são afeta-
que foi a situação da minha vida também que enquanto a tecnoci- das e buscam fôlego no recôndito

* Enfermeira obstetra. Doutora em Ciências da Saúde/Bioética pela Universidade de Brasília.


Professora Titular da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS, RS. E-mail: lucilda@unisinos.br

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da alma para algo que não se expli- nas mãos a situação implica um tipo de discurso de realização de
ca, se vive. E os estudiosos, o que processo de subjetivação no qual a identidade, respaldados nas idéias
dizem sobre isto, que, para mim, pessoa passa a apropriar-se do seu de doença, sofrimento e cura. Em
se tornou carne da minha carne e problema, a reconhecer e a incor- suas narrativas, utilizam estas cate-
vida na minha vida? A associação porar a necessidade de um reorde- gorias para descrever sua existência
Internacional de estudo da dor en- namento na vida. A introdução da como marcada pelo sofrimento. A
tende dor como “uma experiência nova concepção no modo de viver, noção de sofrimento faz alusão a
emocional e sensorial desagradá- como resposta reativa à situação, uma trajetória. Por um lado à re-
vel associada com dano potencial supõe que a pessoa se situe no novo presentação de doença remete
ou total de tecidos, descrita em contexto de existência. O universo às razões para o sofrimento, por
termos de tais mudanças”. A fun- existencial do indivíduo constitui outro, a representação ou o dis-
dadora do moderno hospice, Cicely o espaço em que é visitado e revi- curso sobre a cura remete a uma
Saunder criou a expressão “dor to- sitado pelo sofrimento. Portanto, o experiência sincrônica, uma vez
tal” que incluí além da dor física, auto-enfrentamento implica a ne- que se apresenta como antítese ao
a dor mental, social e espiritual. cessidade de fazer frente à situação sofrimento e a doença. A categoria
Posso dizer que é bem assim. Estes e avançar do problema orgânico sofrimento é usada pelos interlo-
aspectos estão inter-relacionados e fisiológico para o plano humano cutores, em diferentes sentidos ca-
abrangem a totalidade do ser hu- existencial. racterizando-se como “significante
mano. No entanto na situação de A pessoa conseguirá defrontar- flutuante” no sentido de comportar
sofrimento a vulnerabilidade hu- se com o sofrimento e se engajar contradições de significados que se
mana torna-se mais aguda do que em um enfrentamento, se conse- movimentam entre os planos con-
a dor. Esta constatação possibilita guir entender a si mesmo como cretos e abstratos, conforme apon-
estabelecer diferenças entre dor alguém maior que o problema que ta Lévi-Strauss. No plano concreto
e sofrimento. Nem sempre quem ele possui, ou seja, se puder visua- sofrimento significa doença física.
está com dor, sofre. O sofrimento lizar, em sua vida, outras possibi- No plano abstrato, o sofrimento
é uma questão pessoal. Está liga- lidades e potencialidades que tem passa a ser entendido pelos signi-
do aos valores da pessoa e a situa- a desenvolver, apesar da situação ficados que ultrapassam os limites
ções circunstanciais que a afetam de sofrimento. A pessoa é mais do da experiência da doença física e
no seu ser total. Daniel Callaham que o sofrimento que habita nela e, oferece elementos determinantes
entende a categoria sofrimento portanto, precisa buscar e encon- para que a pessoa sofredora cons-
como possibilidade de traduzir a trar um sentido no seu sofrimento, trua sua identidade. O sofrimento,
experiência de impotência viven- para poder incorporá-lo em sua portanto evoca significados desde
ciada pela pessoa em situação de vida e mesmo ultrapassá-lo. força e fraqueza, medo e coragem,
dor não aliviada, de doença que despertando emoções positivas ou
leva a sentir a vida abalada em seu Sofrimento e construção negativas na pessoa em sofrimen-
sentido. Portanto o sofrimento é da identidade to. Estes atributos apontam o sofri-
mais global do que a dor, diria pela mento como epifania da extrema
minha vivência, que atinge o âma- O tempo de estar recolhida vulnerabilidade e heteronomia
go, a vida na sua plenitude. para cuidar da minha saúde me humana, pois que todo tipo de so-
levou a fazer outras leituras sobre frimento que ataca o ser humano
Sofrimento e o tema. Queria, na verdade, sa- constitui uma manifestação con-
apropriação de si ber o que pensavam aqueles que creta de sua inteira dependência e
escrevem sobre dor e sofrimento, vulnerabilidade.
Entendo que a apropriação da que traduzia o meu momento de
realidade pessoal e a reação da pes- vida. Então me foi alcançado um Sofrimento e
soa são fundamentais para captar material que versava sobre sofri- vulnerabilidade
a mensagem contida nas situações mento e representação cultural da
de dor e sofrimento, interpretá-la doença na construção da pessoa. É No sofrimento conforme Levi-
e assimilá-la como oportunidade um `estudo curioso` realizado por nas e também, para mim, no meu
ou desventura. Esta capacidade de Rodrigues e Cardoso (2001) com sofrimento e seus sentidos se pro-
percepção de si é fundamental para sujeitos freqüentadores de terrei- duz à ausência de todo o refúgio.
a pessoa fazer frente a realidade vi- ros afro-brasileiros. Os interlocu- Nele o ser humano se encontra
venciada, seja ela qual for. Tomar tores pesquisados indicaram um totalmente despido de si, de suas

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seguranças exposto a uma radical de sentido remete a uma “causa” Sofrimento e relação
indigência e total dependência. O que faz transcender o sofrimento interpessoal
sofrimento constitui uma realida- como algo que se impregnou, sem
de que acompanha a vida do ser licença à vida de alguém. Frankl O sofrimento também compor-
humano em todo seu itinerário e critica a visão de ser humano que ta a relação com o outro. Neste pla-
se apresenta de diferentes formas e descarta sua capacidade de tomar no o sofrimento constrói espaços
modalidades. Ele irrompe na exis- uma posição ante condicionantes, de revelação, confidencialidade e
tência humana e altera totalmente quaisquer que sejam. Ele diz que possibilidade de abertura de si para
a vida da pessoa. A experiência da uma das principais características o outro e de construção de verda-
própria existência humana se dá via humanas está na capacidade de se deiras amizades. Desperta, por um
sofrimento. Diante do sofrimento o elevar acima das condições bioló- lado confiança e capacidade de en-
ser humano escala a busca do senti- gicas, psicológicas ou sociológicas trega absoluta, e por outro, sensibi-
do de existir e de sua vida. Por isso, e crescer para além delas. Entende lidade e capacidade de compaixão
diante de uma pessoa que sofre a que a busca de sentido na vida é a e doação incondicional. Na relação
atitude mais adequada é a de silên- principal força motivadora do ser interpessoal, o sofrimento pode
cio e solidariedade. O silêncio evoca humano. Em suas observações no ser a pedra angular no evoluir para
campo de concentração percebeu uma relação selada pelo verdadei-
comunhão e engajamento de um
que somente conseguiam manter- ro amor e bem-querer. O outro se
humano com um outro humano
se vivas, as pessoas que tinham um torna um ´outro eu` que comunga
que sofre. A solidariedade consti-
sentido na vida. Portanto, o sofri- o mais profundo do `meu eu´ apa-
tui uma atitude de estar com quem
mento é uma escola imprescindível nhado pelo sofrimento.
sofre e agir a favor de alguém que
está necessitado. Este engajamento de descoberta de significados e sen-
humano caracteriza reciprocidade tido. O sofrimento que me visitou Sofrimento e novas
por ocasião de um acidente grave
e remete a igualdade de todos os tecnologias
me fez entender que o sujeito que
humanos enquanto sofredores vul-
sofre é ao mesmo tempo Aprendiz As tecnologias predominam no
neráveis e necessitados.
e Mestre de si mesmo. itinerário que perfaz o caminho da
cura e/ou estabilização do quadro
Sofrimento e busca de sofrimento da pessoa. Elas, por
Sofrimento e ética
de sentido um lado, trazem benefícios e ex-
Outro aspecto evocado pelo pectativas cada vez mais promis-
O sofrimento constitui um sofrimento pertence ao campo da soras, por outro, constituem uma
espaço singular de busca de sen- ética. No sentido ético Roselló en- irrealidade tanto no sentido de
tido. É diante do sofrimento que tende que o sofrimento ensina as perspectivas e eficácia quanto de
o ser humano prova para si mes- pessoas. Quando o ser humano está possibilidades de acesso. Embora
mo sua capacidade de resistir, de acometido pelo sofrimento, a ten- apontem perspectivas positivas
fazer frente às situações mais du- dência normal é a de refletir sobre o para as pessoas, elas não penetram
ras e adversas da vida, de atribuir sofrimento que o assola e também o âmago das questões humanas
um sentido a realidade que vive e sobre a própria vida e a forma de existenciais mobilizadas, sobre-
que o cerca, de avaliar o valor do conduzi-la. A pessoa repensa valo- tudo, em situações de vulnera-
próprio sofrimento no concreto res, atitudes e admite a própria fini- bilidade. A integração da cultura
da vida. O sentido torna-se possi- tude e fragilidade humana. Cria es- científica, com seu conhecimento
bilidade de significar a situação de paço para o redimensionamento da objetivo, e da cultura humanista,
sofrimento e transformá-lo em es- própria vida e abraça com grandeza voltada para o sentido da existên-
paço privilegiado de aprendizado de alma a humildade que consiste cia, como complementares e inse-
na construção de si mesmo e dos na aceitação da própria fragilidade. paráveis, constitui ferramenta no
próprios ideais de vida. Para ter Sofrer para Frankl (1991) significa enfrentamento da visão mecani-
sentido, conforme Victor Frankl, crescer e para Roselló (1998) signi- cista e biologicista da vida e favore-
o sofrimento não pode ser um fim fica amadurecer, para mim, sofrer ce a introdução de uma visão ho-
em si mesmo. O sofrimento tem significa possibilidade de vir a lística de ser humano, necessária
sentido quando se tem um moti- ser. Esse processo possibilita con- para orientar a vida marcada pela
vo para tal, ou quando se atribui quista de liberdade interior apesar fragilidade e pela possibilidade de
um motivo. Quando incorporado da dependência exterior. irromper plenamente.

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Sofrimento e profissionais vida da pessoa em situação de so- implica a incorporação e a inclusão


da saúde frimento e sua influência no cons- de uma visão complexa de ser hu-
trução de sentido. Assim, a atuação mano. Esse modo de agir propicia o
O profissional da saúde tem um do profissional não se esgota com enfrentamento da disjunção opera-
papel fundamental junto a pes- a realização de técnicas e procedi- da entre natureza e homem que se
soa na construção do processo de mentos profissionais terapêuticos tornam estranhos um ao outro, isto
apropriação de sua realidade de so- objetivos. Ao contrário, possui um é, a redução do humano ao bioló-
frimento. Deve considerar a dimen- elemento subjetivo que remete para gico e do biológico ao físico, o que
são subjetiva e existencial indisso- a dimensão humana e de sentido da configura a superação da degrada-
ciavelmente presente e operante na existência. O exercício profissional ção da existência total.

REFERÊNCIAS

Dicionário interdisciplinar da Pastoral da Saúde. São Paulo: Paulus; 1999.


Frankl V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes; 1991.
Morin E. O Método. Porto Alegre: Sulina, 2002. v.5.
______. O Método. Porto Alegre: Sulina, 2005. v.6.
Rodrigues N, Cardoso AC. Idéia de sofrimento e representação cultural da doença na construção da pessoa. In: Duarte DFL, Leal FO,
organizadores. Doença, sofrimento, perturbação: perspectivas etnográficas. Rio de janeiro: Fio Cruz; 2001.
Rosseló TF. Antropologia Del Cuidar. España: Instituto Borja de Bioética. Fundación MAPFRE Medicina; 1998.

Recebido em 8 de fevereiro de 2007


Versão atualizada em 2 de março de 2007
Aprovado em 20 de março de 2007

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