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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA PARAÍBA COMARCA DE CAMPINA GRANDE 3ª VARA CÍVEL S S E

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA PARAÍBA

COMARCA DE CAMPINA GRANDE

3ª VARA CÍVEL

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Processo nº : 00112557-75.2012.815.0011

Natureza

: Obrigação de Fazer c/c Danos Morais c/c Pedido de Tutela Antecipada

Promovente

: KLEBER HERCULANO DE MORAES

Promovida

: GVT S.A

CONSUMIDOR POR EXTENSÃO. RESTRIÇÃO CADASTRAL INDEVIDA. DANO MORAL: Fornecimento de mercadorias / serviços a crédito sem solicitação do consumidor - Conduta mani- festamente temerária -– Utilização fraudulenta da identidade do suplicante - Inexistência de liame contratual – Inclusão em cadas- tro de restrição ao crédito – Abalo de crédito – Dano moral puro - Responsabilidade objetiva, informada pela teoria do risco - Even- to danoso e nexo de causalidade - Pressupostos da responsabilida- de objetiva perfeitamente delineados. PROCEDÊNCIA DOS PEDIDOS ..

Vistos etc.

KLEBER HERCULANO DE MORAES , já qualificado, por intermédio de advo- gado regularmente habilitado, ingressou em juízo com a presente ação contra GVT – GLOBAL VILLAGE TELECOM LTDA, pessoa jurídica de Direito Privado, objetivando declaração de inexistência de débito c/c obrigação de fazer e indenização de danos morais sofridos em razão de restrição cadastral indevida.

De acordo com a petição inicial, o(a) autor(a) jamais realizou qualquer transação com a instituição financeira ora suplicada; que não obstante, passou a ser alvo de cobranças abusivas, culminando com a realização de restrições cadastrais de seu nome junto ao SPC/SERASA, as se deram, inclusive, sem qualquer comunicação prévia.

Instruiu a petição inicial com os documentos de fls. 18/26. Regularmente citada, a ré deixou o prazo para contestação transcorrer in albis – fls.

29/30-v.

Decisão antecipatória da tutela de mérito – fls. 31/32.

Impugnação à contestação – fls. 36.

Não havendo outras provas a serem produzidas, vieram-me os autos conclusos para julgamento antecipado da lide, na forma do art. 330, inc. II, do CPC.

1. FUNDAMENTAÇÃO

Trata-se de ação ordinária objetivando declaração de inexistência de débito c/c obri- gação de fazer e indenização de danos morais sofridos em razão de restrição cadastral indevida.

De proêmio, registre-se que, embora não caracterizada uma efetiva relação de consu- mo entre as partes (CDC 2º), rege a espécie as normas do CDC, haja vista a condição de consumi- dor(a) por extensão, na forma prevista no art. 17 do mesmo Código.

E, em matéria de reparação de danos decorrentes da má prestação do serviço, a res- ponsabilidade civil do prestador, de índole contratual, é objetiva, informada pela teoria do risco profissional, estando disciplinada nos artigos arts. 6º, inc. VI, e 14 a 25, do Código de Defesa do Consumidor, configurando-se sempre que demonstrados o dano e o nexo de causalidade, indepen- dentemente da perquirição do elemento culpa no ato (ou omissão) do agente causador do dano.

De acordo com a doutrina de Nery Jr. e Rosa Nery 1 :

“A norma (CDC 6º VI) estabelece a responsabilidade objetiva como sendo o sis- tema geral da responsabilidade do CDC. Assim, toda indenização derivada de relação de consumo, sujeita-se ao regime da responsabilidade objetiva, salvo quando o Código expressamente disponha em contrário (v.g. CDC 14 § 4º)”.

De fato, de conformidade com o que dispõe o art. 14 do CDC, o fornecedor de servi- ços responde, independentemente de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, reputando defeituoso o serviço que não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar.

Na hipótese vertente, o autor instruiu sua petição inicial com documentos que de - monstram o fato constitutivo de seu direito, isto é, a inscrição de seu nome em cadastro restritivo de crédito (SPC), relativamente a três débitos de responsabilidade da instituição financeira ora demandada.

Neste contexto, incumbia à suplicada, portanto, demonstrar o fato extintivo, modifi- cativo ou impeditivo do direito da autora (CPC 333 II). A suplicada, todavia, não ofereceu respos- ta ao pedido, deixando de trazer para os autos qualquer elemento de prova capaz de demonstrar a existência de liame contratual entre as partes, incorrendo na ficta confessio.

Por conseguinte, as restrições cadastrais retratada(s) no Extrato de fls. 23/26 se afigu- ra(m) flagrantemente abusiva(s), por manifesta ausência de causa debendi, sendo, destarte, leva- das a efeito em total descompasso com o que estatui o art. 42 do CDC.

Não há se falar, evidentemente, em culpa exclusiva do consumidor, tampouco de ter- ceiro. É que, a despeito da dinamicidade das transações comerciais, incumbe ao fornecedor adotar cautelas mínimas em suas transações financeiras, realizando uma criteriosa identificação da pes- soa que se apresenta para realizar o contrato de administração e uso de cartão de crédito, não apro- veitando a excludente à empresa que, preocupada apenas com o aumento do número de usuários, realiza prestação de serviços sem qualquer solicitação do consumidor, passando, ademais, a emitir faturas de compras/serviços jamais realizados pela pessoa em nome de quem o cartão é emitido.

1 NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Novo Código Civil e Legislação Extra- vagante Anotados, 1ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002, p. 725.

Processo nº

: 00112557- 75.2012.815.0011 SENTENÇA – fl.

Ressalte-se, ainda, que a restrição cadastral retratada no Histórico de fl. 37, de ori- gem do Jornal da Paraíba, é posterior as que são objeto da presente demanda e, portanto, não atrai a incidência da Súmula 385 do STJ.

Em consequência, olvidando as cautelas que o caso exigia, o(a) promovido(a) inves- tiu contra o patrimônio imaterial do(a) suplicante, maculando a sua honra, o seu bom nome e o conceito social, causando-lhe abalo de crédito com repercussão negativa em seu bem-estar psicos- social, devendo, assim, arcar com os prejuízos de ordem moral suportados pelo(a) autor(a), além da declaração de inexistência do débito.

Neste compasso ressalte-se que, tratando-se de dano moral puro, não há de se obrigar o ofendido a provar sua extensão, posto porque a dor, o sofrimento, a angústia, desenvolvendo-se no âmago do(a) ofendido, são manifestações incomensuráveis. Destarte, demonstrados o ato ilíci- to e o nexo de causalidade, a repercussão negativa na esfera íntima da vítima se presume in re ipsa.

Como é cediço, na ausência de critérios objetivos pré-estabelecidos, o montante da reparação pelo dano moral submete-se ao prudente arbítrio do juiz, devendo ser fixado em valor que atenda, a um só tempo, a sua dupla finalidade: repressiva para o agente, desestimulando a prá- tica de novos ilícitos, e compensatória para o ofendido, recompondo o patrimônio moral, conside - rando-se a extensão do dano, o grau de culpa, o proceder do agente e do ofendido, a situação eco- nômica das partes e demais circunstâncias atinentes à espécie, caso em que a quantia de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) parece atender aos critérios de adequação, suficiência e proporcionali- dade.

2. DISPOSITIVO

Ante o exposto, JULGO PROCEDENTES OS PEDIDOS PARA

  • a) Declarar a inexistência do débito retratado no Extrato de fls. 23/24, para todos

os efeitos legais e jurídicos;

  • b) Ratificação a decisão antecipatória da tutela de mérito, tornando definitiva a

obrigação de fazer nela consubstanciada;

  • c) condenar o(a) suplicado(a) a pagar ao autor, a título de indenização por danos

morais, a quantia de R$ 5.000,00 (cínico mil reais), devidamente corrigida pelo INPC, a contar desta data, e acrescida de juros moratórios de 1% a.m., estes a partir do evento danoso:

23/05/2012 2 (STJ 54 e CCB 398);

Condeno o suplicado, ainda, a pagar honorários ao advogado do autor, que arbitro em 15% (quinze por cento) do valor da condenação, devidamente corrigido.

Custas na forma da lei, pelo réu.

P. R. Intimem-se. Campina Grande, 17 de junho de 2013.

MANUEL MARIA ANTUNES DE MELO

JUIZ DE DIREITO TITULAR

2 Data em que a autora tomou conhecimento do ato ilícito – fl. 24.

Processo nº

: 00112557- 75.2012.815.0011 SENTENÇA – fl.