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ISSN 1679-6306

XVI SEMANA DE GEOGRAFIA

O mundo em movimento: cidade, ambiente,


migração

Número 5 2008

ANAIS

Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO


Guarapuava / Irati - Paraná - Brasil
www.unicentro.br
ANAIS

XVI SEMANA DE GEOGRAFIA


O mundo em movimento: cidade, ambiente, migração
Publicação do Departamento de Geografia
Setor de Ciências Agrárias e Ambientais
Universidade Estadual do Centro-Oeste

Centro Politécnico
Rua Simeão Camargo Varela de Sá, 03
Cx. Postal 3010 Cep 85040-080 Guarapuava/PR
Fone: (0xx42) 3629-8100
www.semanageo.pop.com.br

FICHA CATALOGRÁFICA
Catalogação na Publicação
Fabiano de Queiroz Jucá – CRB 9/1249
Biblioteca Central da UNICENTRO, Campus Guarapuava
Semana de Geografia (16 : 2008 : Guarapuava)
S471a Anais – XVI Semana de Geografia: O mundo em movimento: cidade, ambiente,
migração/ Departamento de Geografia da Universidade Estadual do Centro-Oeste. -
Guarapuava: UNICENTRO, 2008.
280 p.

Irregular

ISSN 1679-6306

Contém programação e resumos de artigos

1. Geografia – seminários. I. Título

CDD 20ª ed. 910.01


Notas: O conteúdo dos trabalhos completos e resumos destes Anais são de responsabilidade de
seus autores. Os trabalhos foram editados conforme recebidos de seus autores.
ANAIS

XVI SEMANA DE GEOGRAFIA


O mundo em movimento: cidade, ambiente, migração

Realização:
Departamento de Geografia
UNICENTRO

Coordenação Geral:
Profª. Drª. Sandra Lúcia Videira
Prof. Dr. Sergio Fajardo

Comissão Organizadora:
Sandra Lúcia Videira
Sergio Fajardo
Márcia Cristina da Cunha
Pierre Alves Costa
Marquiana Freitas Vilas Boas Gomes
Patrícia dos Santos

Comissão Científica:
Edivaldo Lopes Thomaz
Leandro Redin Vestena
Luiz Gilberto Bertotti
Márcia da Silva
Márcia Cristina da Cunha
Marquiana Freitas Vilas Boas Gomes
Maurício Camargo Filho
Paulo Nobukuni
Pierre Alves Costa
Sandra Cristina Ferreira
Sandra Lúcia Videira
Sergio Fajardo

Monitores: Adriano Araújo do Amaral; César A. de Abreu Vaz; Dalvani Fernan-


des; Gerson Lange; Eliton Angrewski; João Carlos Batista Morimitsu; João Eduar-
do Hones; Leandro de Almeida Lima; Robison Tiago Coradeli; Rodrigo Penteado;
Cléberson Gonçalves.
ANAIS

XVI SEMANA DE GEOGRAFIA


O mundo em movimento: cidade, ambiente, migração

Reitor
Vitor Hugo Zanette

Vice-Reitor
Aldo Nelson Bona

Diretor do Campus de Guarapuava


Osmar Ambrosio de Souza

Diretor do Campus de Irati


Mário Umberto Menon

Diretor do Centro de Ciências Agrárias e Ambientais


Maurício Osvaldo Moura

Departamento de Geografia
Chefe: Edivaldo Lopes Thomaz
Vice-Chefe: Márcia da Silva

Edição
Editora UNICENTRO
Beatriz Anselmo Olinto

Diagramação
Eduardo Oliveira

Revisão
Rosana Gonçalves

Impressão
Gráfica da UNICENTRO
Lourival Gonschorowski

Arte Gráfica
Capa: Lucas Gomes Thimóteo
Desenho: Edson Alves e Elizeu Grzeszezyen
Arte do logotipo: Kleyton Kleber Knüppel, Ricardo Zolinger Zanin.
Apresentação

O Departamento de Geografia da UNICENTRO alcançou, nos últimos


anos, uma posição de destaque na instituição em virtude da elevação vertiginosa
em termos de qualificação e produtividade do seu corpo docente. A organização
das Semanas de Geografia acompanha esse momento de expansão.
A temática apresentada pela XVI Semana de Geografia: “O mundo em
movimento: cidade, ambiente, migração”, abrange algumas das discussões
mais relevantes nos dias atuais para o pensamento geográfico. Elemento chave
da materialização da territorialidade, o espaço urbano se vê entrelaçado ao
rural e ao meio físico criando um só ambiente. A dinâmica das ações humanas
no território reflete na mobilidade da população sobre planeta. Elementos de
ordem econômica, política, social e cultural alavancam processos que resultam
na redefinição espacial global e local. Colocar esses temas em debate junto
aos acadêmicos, com apresentação e compartilhamento de novas tendências,
estudos e pesquisas, e ainda com o intercâmbio de experiências, possibilita
a assimilação do papel ativo que têm a cumprir: conhecer, reconhecer e agir
sobre o planeta em que vivem, construindo uma visão de mundo.
As atividades realizadas no evento, que incluem palestras, debates,
filme, peça de teatro, espaços de diálogo e minicursos, englobam a diversidade
temática da Geografia e representam espaços para pesquisadores (docentes e
acadêmicos) divulgarem seus trabalhos e compartilharem experiências. Por
outro lado, ainda significa uma porta que o curso abre para a comunidade e
aos profissionais de Geografia e áreas afins de outras instituições.

Guarapuava, 09 a 13 de junho de 2008


A Comissão Organizadora
XVI Semana de Geografia - UNICENTRO
Sumário

Artigos
Entre tradição e modernidade: a casa de madeira do Faxinal Anta
Gorda – Prudentópolis-PR ...........................................................................15
HAURESKO, Cecília
Orientações teóricas sobre o tema “Centro das cidades” ........................27
FERREIRA, Sandra Cristina
Roteiro básico e prático para elaboração de projeto de pesquisa..........37
TURRA NETO, Nécio
A divisão regional oficial: equívocos e confusões das regionalizações
no estado do Paraná .......................................................................................53
FAJARDO, Sérgio
Boa Ventura de São Roque no contexto da microrregião de
Pitanga-PR........................................................................................................67
BINDA, Andrey Luis
SCHMIDT, Lisandro Pezzi
Estudo geo-histórico de Mamborê-PR .......................................................79
CUNHA, Márcia Cristina da
Caracterização da pluviosidade na bacia hidrográfica do
Ernesto - Pitanga-PR ...................................................................................... 89
LANGE FILHO, Gerson
VESTENA, Leandro Redin
Grupos juvenis na cidade e na escola: saberes e práticas para
pensar o ensino de geografia.......................................................................101
OCTAVIANO, Elisangela Maria
TURRA NETO, Nécio
A geohistória do desenvolvimento no Brasil .......................................... 109
COSTA, Pierre Alves
O capital estrangeiro no Brasil: algumas considerações ...................... 123
VIDEIRA, Sandra Lúcia
A teoria do caos e a geografia: fundamentos e perspectivas ............... 137
VESTENA, Leandro Redin
Interpretação geográfica de um evento pluviométrico
excepcional ocorrido em abril de 1998, Guarapuava-PR..................... 151
AMARAL, Adriano Araújo do
THOMAZ, Edivaldo Lopez
Análise teórica das migrações: enfoques tradicionais e novos
enfoques de aporte social ........................................................................... 165
BRUMES, Karla Rosário
SILVA, Márcia da
O estudo da reestruturação urbana do bairro Vila Carli a
partir da pedagogia de projetos: uma contribuição ao ensino
de geografia ................................................................................................... 175
SANTOS, Patrícia dos
Comparação de taxas de infiltração mensuradas com infiltrômetros
de anel único e anel duplo .......................................................................... 187
PEREIRA, Adalberto Alves
THOMAZ, Edivaldo Lopes
Sociedade de risco e poluição hídrica ...................................................... 197
SANTOS, Ariodari Francisco dos
BERTOTTI, Luiz Gilberto
O desenvolvimento urbano-industrial de Duque de Caxias-RJ
nas décadas de 1940 a de 1980 ....................................................................207
BUENO, Karoline
COSTA, Pierre Alves
Políticas territoriais no Brasil: criação e extinção do Território
Federal do Iguaçu .........................................................................................217
CORADELI, Robison Tiago
FERREIRA, Sandra Cristina
A globalização no contexto local e global: modernidade
e complexidade ..............................................................................................229
BERTOTTI, Luiz Gilberto
SANTOS, Ariodari Francisco dos
O estudo geográfico das festas como manifestações culturais ............243
SIDOR, Simone de Fátima
Resumos

Museu de Ciências Naturais de Guarapuava: um espaço de


informação, cultura e lazer ........................................................................ 259
VERONEZZI, Fernando
Monitoramento hidrogeomorfológico do Faxinal Anta Gorda -
Prudentópolis-PR ........................................................................................ 260
KOLISKI, Carlos Alberto
THOMAZ, Edivaldo Lopes (Orientador)
Metodologia da observação participante ................................................ 261
KUHN, Claudete
OCTAVIANO, Elisangela Maria
TURRA NETO, Nécio (Orientador)
Considerações entre bioturbação e gênese de erosão em túneis em
média e baixa encosta, Guarapuava-PR ...................................................262
BAZZOTTI, Diego Maikon
SILVA, Wellington Barbosa da
PIETROBELLI, Gisele (Orientadora)
Meio ambiente e recursos hídricos ............................................................263
FRANDOLOZO, Marcos Augusto
Geografia, história, medicina: a multidisciplinaridade nos
escritos de Eurico Branco Ribeiro .............................................................264
NASCIMENTO, Diego da Luz e
GONÇALVES, Camila Mota
TECCHIO, Caroline
GANDRA, Edgar Ávila (Orientador)
O poder local a partir do estudo de grupos político-econômicos
em Guarapuava-PR .......................................................................................265
ANGREWSKI, Eliton
SILVA, Márcia da (Orientadora)
A inserção da pequena produção agropecuária no espaço
regional: a mesorregião centro-sul paranaene ........................................266
OLIVEIRA, Leisiane de
FAJARDO, Sergio (Orientador)
A problemática da água como representação social ..............................267
FAGUNDES, Beatriz
Políticas públicas e planejamento: condições básicas para
o desenvolvimento sócioespacial em novos municípios:
o caso de Goioxim-PR ..................................................................................269
ZORZANELLO, Liamar Bonatti
FERREIRA, Sandra Cristina (Orientadora)
O novo modelo agricola nos municipios de São Carlos do
Ivai e São Jorge do Ivai e seus impactos ambientais ...............................270
BONIFÁCIO, Cássia Maria
SERRA, Elpídio (Orientador)
Áreas verdes e políticas públicas em Guarapuava-PR ...........................271
VAZ, Cesar Antonio De Abreu
GOMES, Marquiana de Freitas V. B. (Orientadora)
Concentração bancária no Brasil: um reflexo da privatização
dos bancos públicos ......................................................................................272
LUZ, Ivoir da
VIDEIRA, Sandra Lúcia (Orientadora)
Depressões no terreno associadas à estruturas de abatimento
em encosta afetada por erosão em túneis em Guarapuava-PR ............273
HOLOCHESKI, Cleverson
PEREIRA, Simão Gonçalves
SILVA, Wellington Barbosa da
PIETROBELLI, Gisele (Orientadora)
O capital e o Estado enquanto categorias clássicas na análise
da produção do espaço urbano ..................................................................275
FERREIRA, Sandra Cristina
Territorialização no campo: o caso do assentamento 08 de abril–PR......276
DENEZ, Cleiton Costa
OLIVEIRA, Éderson Dias de
BERNARDINO, Virgílio Manuel Pereira (Orientador)
Identificação da flora e fauna do litoral paranaense: o caso da
Ilha do Mel-PR...............................................................................................277
PUSSINI, Nilmar
FREDER, Amarildo
FERREIRA, Juliano
FERREIRA, Sandra Cristina (Orientadora)
Identificação dos minerais coletados na escarpa da esperança -
Guarapuava-PR .............................................................................................278
SILVA, Felipe Alexandre da
ZANCANARO, Grasiela
PASSOS, Jaquelime Rodrigues dos
BUENO, Karoline
LEAL, Tatiane
Artigos
Entre tradição e modernidade: a casa de madeira do
Faxinal Anta Gorda – Prudentópolis-PR

1
HAURESKO, Cecília

Resumo: Trata-se neste trabalho da casa de madeira, contudo, não apenas


da casa, como abrigo, mas o significado sociocultural que a ela é atribuído.
Através da entrevista com os moradores do faxinal Anta Gorda – no
município de Prudentópolis no Paraná, pretendemos mostrar como a “casa
de madeira” pode ser uma categoria de análise que permite compreender as
concepções de mundo dos seus moradores.
Palavras-chave: tradição; modernidade; casa de madeira.

Introdução
Existem muitas discussões sobre o período que nós vivemos. Estaríamos
na modernidade? Na pós-modernidade? Ou seríamos uma sociedade pós-
tradicional? Teríamos uma sucessão desses períodos, mediante a anulação do
precedente com o advento do próximo? Ou quem sabe poderíamos pensar na
permanência de alguns aspectos de cada período e a anulação daqueles que
não se ajustaram às ordens sociais vigentes? Neste trabalho vamos discutir
Tradição e Modernidade, tendo como referências autores que mostram de
que forma a modernidade reincorpora a tradição, reinventa-a. A tradição, da
mesma forma, não é impermeável à mudança. As tradições evoluem com o
passar do tempo, mas também podem ser modificadas repentinamente.
O objetivo do trabalho é, a partir da discussão sobre a interação e/
ou oposição entre tradição e modernidade, analisar a “casa de madeira”,
2
no espaço rural, tendo como norte o faxinal Anta-Gorda localizado em
1
Professora do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR. Doutoranda em
Geografias pela UNESP, Rio Claro.
2
O faxinal se caracteriza por uma forma de organização sócio-espacial bastante peculiar no Estado
do Paraná. Neste a ocupação do território social foi determinada pelo uso da terra em comum,
apesar da terra ser de propriedade - particular/privada – de seus moradores. Internamente, o
que caracteriza o faxinal são: o sistema de criações soltas e a presença das cercas separando áreas
de lavouras de áreas de criação. Sua formação data do final do século XIX, e atualmente essas
comunidades são responsáveis por contribuírem com a manutenção da paisagem florestal nativa
do Bioma Floresta com Araucária, e especialmente, com um modo de vida tradicional de suas
populações representado por sociabilidade particular, derivadas do uso comum da terra e das
relações de parentesco (Anais do 1º Encontro dos Povos dos Faxinais, 2005).
Prudentópolis, município da região Centro-Sul do Estado do Paraná. Neste
faxinal aproximadamente 90% dos moradores vivem em casas de madeira.
Entendemos que as casas rurais, sejam de madeira ou alvenaria,
atendem às necessidades fundamentais do homem como abrigo, vida
familiar e trabalho, orientadas segundo as exigências da produção agrícola,
porém, com este trabalho aspiramos ir além do caráter funcional da casa
rural. Pretendemos mostrar como a “casa de madeira” pode ser uma
categoria de análise que permite compreender as concepções de mundo
dos seus moradores.

Tradição e modernidade: oposição ou interação?


Segundo Giddens (2000), foi o Iluminismo do século XVIII na
Europa que depreciou a tradição, e por isso encontramos infindáveis
discussões sobre a modernização e sobre o que significa ser moderno, mas
poucas são as discussões que tratam da tradição. Pouco ou quase nada se
falou ou se pensou sobre o papel da tradição na sociedade. Para muitos a
tradição representa tão somente o lado sombrio da modernidade, que pode
ser facilmente descartada.
Giddens (2000) argumenta que as raízes lingüísticas da palavra
“tradição” são antigas. A palavra inglesa “tradition” tem origem no termo
latino tradere, que significa transmitir, ou confiar algo à guarda de alguém.
Um exemplo bastante esclarecedor sobre Tradere é citado por Giddens.
Esta palavra foi originalmente usada no contexto do direito romano, em
que se referia às leis da herança. Considerava-se que uma propriedade que
passava de uma geração para outra era dada em confiança – o herdeiro
tinha obrigação de protegê-la e promovê-la.
Ao falar de tradição no direito romano, a impressão que temos é que
a noção de tradição da época é a mesma que reina entre nós hoje. Giddens
lembra que o termo “tradição” como é usado hoje é, na verdade, um produto
dos últimos dois séculos na Europa. A noção geral de tradição não existia nos
tempos medievais, dado que não era necessária, pois estava em toda parte.
Assim, a idéia de tradição, salienta Giddens (2000), “é ela própria uma criação da
modernidade”. Mas, o que efetivamente é Tradição, quais são as suas marcas?
Por tradição, entende-se tudo aquilo que mantém as ordens sociais em
sociedades pré-modernas. “Na tradição a noção de tempo é fundamental,
considerando que a tradição é uma orientação para o passado, de tal forma
que o passado tem uma pesada influência ou, mais precisamente, é constituído
para ter uma pesada influência sobre o presente” (GIDDENS, 2001, p. 31).

16
O futuro também está incluso, posto que a repetição é a forma que
a tradição encontra para organizá-lo sem considerá-lo como um território
separado. Há, então, inscrita à tradição uma noção de persistência e
de memória coletiva com uma força de agregação tanto moral quanto
emocional. Com isso, o passado não pode ser considerado em sentido de
preservação, mas em constante reconstrução, parcialmente individual, mas
fundamentalmente social ou coletiva. Por isso, podemos dizer que a tradição
é um meio organizador da memória coletiva (GIDDENS, 2001, p. 32).
Em sua definição, Giddens (1991) enfatiza na tradição seu caráter
ritual que, ao ser interpretado, estabelece uma verdade formular, a que
apenas alguns têm acesso, aqueles que passam a serem seus guardiões,
conforme sua competência. Por fim, há ainda o conteúdo normativo ou
moral da tradição, que indica o que se é e o que se deve ser, mas também
oferece uma segurança ontológica aos que aderem a ela. O autor admite:
a questão do que é uma sociedade tradicional permanece sem solução.
Giddens (2001, p. 35), afirma que sociedade tradicional é aquela em que a
tradição exerce um papel dominante.

Nas sociedades tradicionais, o passado é venerado e os símbolos


são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência
de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o
espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular
na continuidade do passado, presente e futuro, os quais por sua
vez são estruturados por práticas sociais recorrentes (GIDDENS,
1991, p.37-8 apud HALL, 2002, p. 14-15)

Nas condições da modernidade, o ritual é reinventado e reformulado.


A modernidade reincorpora a tradição, reinventa-a, e, neste sentido,
também expressa continuidade. Grande parte dos valores relacionados à
tradição permanece e se reproduz no âmbito da comunidade local. Porém,
a modernidade teve que “inventar” tradições e romper com a “tradição
genuína”, isto é, com aqueles valores radicalmente vinculados ao passado
pré-moderno. A modernidade, neste sentido, expressa descontinuidade,
a ruptura entre o que se apresenta como o “novo” e o que persiste como
herança do “velho”. A modernidade expressa a ruptura com a idéia de
comunidade (uma e corporificada no dirigente) e passagem à idéia de
sociedade, onde nada mais é harmônico, os interesses são conflitantes, as
classes são antagônicas e os grupos diversificados.
Para Giddens (1991, p.11), a modernidade rompe com o referencial
protetor da pequena comunidade e da tradição, substituindo-as por

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organizações muito maiores e impessoais. “O indivíduo se sente privado e
só num mundo em que lhe falta o apoio psicológico e o sentido de segurança
oferecido em ambientes mais tradicionais”. (GIDDENS, 2002, p. 38)
Hobsbawm (1997) afirma que as tradições muitas vezes parecem
ou são consideradas antigas, mas que na verdade são bastante recentes,
quando não são inventadas. “O termo “tradição inventada” é utilizado num
sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as “tradições” realmente
inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as
que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado
e determinado de tempo – às vezes coisa de poucos anos apenas – e se
estabeleceram com enorme rapidez” (HOBSBAWM,1997,p.09).
Giddens (2000) sustenta que, nenhuma sociedade tradicional era
inteiramente tradicional, e tradições e costumes foram inventados por uma
diversidade de razões. Não deveríamos supor que a construção consciente da
tradição é encontrada apenas no período moderno. Além disso, as tradições
sempre incorporam poder, quer tenham sido construídas de maneira deliberada
ou não. Reis, imperadores, sacerdotes e outros vêm há muito tempo inventando
tradições que legitimem seu mando. Uma tradição completamente pura é algo
que não existe. O que define uma “tradição inventada”

é um conjunto de práticas , normalmente reguladas por regras tácita


ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica,
visam inculcar certos valores e normas de comportamento através
da repetição, o que implica automaticamente; uma continuidade
em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se
estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado
(HOBSBAWM, 1997, p.09).

Giddens (1991) argumenta que, na modernidade, algumas


instituições são radicalmente novas, como por exemplo o Estado Nação,
a mercantilização de produtos e o trabalho assalariado, ou elas têm uma
enganosa continuidade com as formas anteriores (por exemplo, a cidade),
mas são organizadas em torno de princípios bastante diferentes.
Neste sentido, buscaremos a seguir discutir as casas de madeira como
estruturas tradicionais do Sul do Paraná e, posteriormente, falaremos sobre
as alterações que estas sofreram.

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As casas de madeira no Sul do Paraná
A casa tradicional do sul do Paraná, a “casa de madeira” é parte
da herança de imigrantes europeus, em sua maioria eslavos que para cá
vieram, e têm sua existência intimamente relacionada a um elemento: a
araucária. Segundo Cataldo (1959, p.115), “a abundância dos pinheirais na
região sul, madeira facilmente trabalhada, é a causa principal da difusão
desse tipo de habitação, que é um aspecto tradicional do sul do Paraná.
A casa que estamos analisando tem um estilo que marca a paisagem
do sul do Paraná, sendo considerado tradicional, embora seja uma
construção bastante recente, de fins do século XIX ao século XX. Neste
caso, as casas de madeira passam a serem chamadas como tradicionais, a
partir do momento em que as casas de alvenaria começam a aparecer no
meio rural. É o “novo” tido como “moderno” e o “velho”, o precedente, é
tido como “antigo, tradicional”. A casa da madeira passa por uma espécie
de desprestigiamento enquanto que a casa de alvenaria passa a significar
progresso, poder, prestígio social.
A madeira sempre foi uma matéria – prima bastante utilizada na
construção de habitações. No Brasil, as habitações indígenas são os primeiros
exemplos do emprego desse material na construção de suas casas.
Segundo Wachowicz (1989), os caboclos (que também habitavam
a região centro-sul) viviam em ranchinhos de pequenos troncos cobertos
com folhas de bambu. Se possuíam alguma madeira industrializada em sua
construção eram lascas de pinheiro. Muitos cobriam as casas com tabuinhas
lascadas também do pinheiro. Nas décadas de 1920 e 30, quase todas as
casas eram de chão, não havia assoalhos de madeira.
Com base em Garcia; Guernieri; Pereira et al., (1987), no período
colonial, algumas casas eram construídas em alvenaria de pedra, possuindo
divisórias internas em pau-a-pique - processo construtivo no qual se associam
a madeira, como elemento estrutural, e o barro amassado, como vedação. Nas
casas mais simples essa técnica construtiva era empregada em toda a edificação.
Entretanto, as estruturas complementares - telhados, requadro e fechamento
de vãos, assoalhos e varandas - eram geralmente executados em madeira.
A evolução das técnicas construtivas no Brasil ocorreu em função das
características do material predominante em cada região geográfica, sendo
que no Paraná, e mais precisamente no Sul do Paraná, predominou durante
longos anos a construção de casas de madeira do Pinheiro (Araucária
angustifólia). Estas construções apresentam uma variedade de formas,
adornos e cores características, particularmente, após a vinda de colonos
imigrantes europeus para este Estado.

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A diversidade cultural dessa nova população trouxe modificações
nas soluções arquitetônicas, evidenciadas pelo uso de diferentes técnicas e
materiais de construção. Garcia; Guernieri; Pereira et al., (1987) afirmam
que os imigrantes alemães construíram suas casas com enxaiméis -
estrutura de madeira com peças diagonais de travamento, cujos intervalos
são preenchidos por tijolos. Os poloneses e italianos, de origem camponesa,
estabeleceram-se em colônias próximas às cidades. As casas dos imigrantes
italianos eram construídas em alvenaria de tijolos. Os poloneses empregavam
troncos de árvores sobrepostos horizontalmente, com encaixes nos cantos
das paredes. Os imigrantes ucranianos construíram suas primeiras casas
em madeira encaixada.
Ao final do século XIX, a intensificação e mecanização da exploração
madeireira e a instalação de serrarias, onde a matéria-prima era abundante,
permitiram a padronização de elementos construtivos e o aumento e difusão
das construções em madeira. Gradativamente, a simplicidade inicial foi
modificada pelo acréscimo de novos espaços aliada à criatividade de cada
construtor ou cada morador. Acrescida de espaços e ornamentos peculiares
às famílias que as constroem, as casas de madeira passaram a ser expressão
arquitetônica de uma tradição cultural do sul do Paraná.
Martins (1989) lembra que a tradicional casa de madeira, foi precedida
pela casa de taipa e sapé, levantada perto dos rios, mal coberta, mal fechada,
insalubre e úmida, tão primitiva quanto a do seu contemporâneo brasileiro,
referindo-se certamente ao caboclo. Importante chamar atenção para este
fato. As casas de hoje têm pouca semelhança com as primeiras casas dos
europeus e talvez menos ainda com as casas que os imigrantes europeus
deixaram em seus países. A narrativa a seguir poderia talvez confirmar
o que estamos dizendo: Martins (1989) narra o episódio da visita de D.
Pedro II a Curitiba, em 1880. - D. Pedro diante de uma casa de três andares
perguntou: De quem é esta casa? Ao que lhe responderam: De um alemão.
Depois indicou uma casa de dois andares e ainda mais uma vez o dono era
um alemão. E sua majestade, sem esconder um secreto contentamento de
Habsburgo “Então são só os alemães, que constroem casas tão bonitas?
Segundo Martins (1989), não, não eram só os alemães, e nem
sempre seriam casas bonitas, mas todas elas atestavam e atestam a presença
desse vasto e profundo fenômeno de aculturação. Defende o autor que
se trata de um fenômeno no mais legítimo sentido da palavra, porque as
influências locais são igualmente impositivas, de tal forma que Emilio
Willems, acreditava que essas casas, transportadas para uma paisagem
alemã,espantariam pelo seu exotismo. Não há no Paraná uma “casa alemã”,

20
ou uma “casa polonesa” ou uma “casa italiana”, ou uma “casa suíça”, mas uma
casa paranaense que é uma mistura indeterminada e em graus variáveis de
elementos típicos dessas culturas. Neste sentido, Giddens (2000) lembra:
uma tradição completamente pura não existe.
Martins (1989), porém, assinala que, no Paraná, Pierre Denis já
registrara que salvo algumas colônias polacas em que uma antiga arquitetura
de madeira, importada da Europa, preside ainda a construção da igreja,
todas essas aldeias do interior são do mesmo modelo, situadas na vertente
de uma colina, com as suas casas baixas, pintadas com uma aguada, a
branco, rosa ou verde. Todavia, é inegável a influência de estilos ou de gostos
europeus na arquitetura paranaense. Há pouco tempo, era possível traçar,
segundo Martins, um limite, o mesmo que separa o primeiro planalto do
litoral: a serra do mar.
Outro ponto importante a salientar é que devido à grande oferta
de madeira no sul Paraná, toda “paisagem construída” (casas, estábulos,
vendas, igrejas) pelos então paranaenses era de madeira, dado que os
preços da mesma eram ínfimos. Por isso, o bom tom da burguesia da cidade
rezava que a madeira devia ser evitada. Os argumentos sobre as virtudes
climáticas, psicológicas ou culturais da madeira não existiam. Usava-
se porque era barato. E por muito tempo, entrando pelos anos 1970, em
Curitiba, construção de madeira significaria falta de dinheiro e posição
social inferior. Para os legisladores, uma urbe civilizada era uma urbe
moldada com alvenaria. Segundo Ira (2001), em relação às residências de
madeira, estava previsto no Código de Posturas de 1919, no parágrafo 7º
do Artigo 61º, seguinte: “Sejam as abas dos telhados, exceto as do fundo,
guarnecidas de lambrequins. O decorativismo era evidente, sem calhas à
disposição, os lambrequins se justificavam, como pingadeiras, nas arestas
por onde as águas das chuvas fluíam, impedindo que a água escorresse
pelos beirais. Mas as posturas municipais passaram a exigir os lambrequins
em todas as abas visíveis a partir da rua. Os lambrequins resultaram em
uma das lendas curitibanas. O autor diz que de desconhecimento em
desconhecimento, acreditou-se que os lambrequins eram uma prova clara e
claríssima da influência germânica ou italiana, pois os construtores alemães
eram os mais ativos da cidade no final do século XIX. Mas como alemães
e italianos habitavam em outras partes do Brasil, onde os lambrequins
não eram tão triviais, a solução foi inventar genealogias que acabaram
ligando os lambrequins aos poloneses. Ora, se a maioria dos poloneses que
imigraram para o Brasil se estabeleceu na região de Curitiba, e como só em
Curitiba todas as casas de madeira foram decoradas com lambrequins, o
lambrequim só podia estar relacionado aos poloneses ou, pelo menos, esta

21
seria a “origem mais provável”, sem que outras hipóteses fossem formuladas.
E, assim, o modismo que se transformou numa imposição legal inexistente
em outras cidades brasileiras seria divulgado como uma particularidade
cultural da arquitetura de Curitiba, influenciada por um grupo étnico.
No meio rural, como não havia e não há exigências do Código Municipal
de Posturas, os moradores tinham livre arbítrio para construir a sua casa.
De acordo com Martins (1989, p. 277):

Cada colono, fora da área urbana, pode dar vazão aos seus
gostos, às suas capacidades particulares. A casa rural [...] é assim
produto do seu proprietário espontaneidade essa que sofreu a
influência de tradições ancestrais trazidas do país de origem, mas
que vieram a desenvolver-se num quadro inteiramente novo.

Concordamos com Martins (1989), quando ele diz que é o próprio


colono (se referindo ao colono europeu quando chega ao Paraná) que
edifica a sua casa, utilizando-se de material encontrado no lote, como:
varas, madeiras, barro, sapé, etc. O estrangeiro, mais por uma questão
sentimental, procura criar a sua casa, e na paisagem que a circunda, um
ambiente que lhe relembre a terra natal. Só assim é que se justificam as
formas arquitetônicas, injustificáveis no clima paranaense como são
exemplo, as inclinações tradicionais dos grandes telhados europeus.
Quando falamos em casas de madeira de estilo europeu, certamente,
a primeira imagem que nos vem à cabeça é de uma casa colorida com cores
quentes, e enfeitada com lambrequins, um telhado longo de duas águas.
Entretanto, há uma variedade enorme de casas de madeira relacionada com
o grau de prosperidade do proprietário e de acordo com as relações que a
família estabelece com a sociedade em geral.

As casas de madeira no Faxinal Anta Gorda–


Prudentópolis-PR
A pesquisa realizada demonstrou que as casas não são vistas apenas
como um lugar para morar, mas também uma forma de diferenciação
social entre os moradores. Para os moradores as casas, são objetos materiais
de status social, progresso e prestígio. Esse prestígio desaparece se a casa
for de madeira. As modificações feitas nas casas, como a incorporação de
churrasqueiras, banheiros (símbolos da modernidade para eles) são fatores
que distinguem os moradores uns dos outros. Com algumas exceções, os

22
atuais moradores do faxinal iniciaram sua moradia na área em condições
semelhantes, ou seja, vivendo em modestas casas de madeira. Este fato dava
àquelas pessoas, naquele momento, um status social homogêneo.
Com o passar do tempo, entretanto, alguns fizeram melhorias em
suas casas, aumentaram o tamanho da casa, pintaram com melhores tintas,
etc. Outros simplesmente substituíram-nas por casas de alvenaria, “mais
modernas”, segundo eles, e “ é uma casa para sempre”. “As casas de madeira
apodrecem”. A vontade dos moradores com menor poder aquisitivo é ir
“devagarinho”, substituindo partes da casa de madeira por alvenaria. É
nesse processo de troca do material de construção da casa que as famílias
mostram aos demais moradores sua transformação e ascensão social.
A casa de madeira foi, no final do século XIX e XX, um marco da
homogeneidade da comunidade faxinalense. Todos os moradores tinham
uma casa, que, segundo os moradores mais idosos, eram bastante simples.
Esse fato os aproximava mais, porque todos moravam nas mesmas condições
e todos eram pobres. Hoje, disse-me uma moradora “todo mundo quer
desmanchar a casa de madeira, porque é feia, antiga”. Observamos que é
constante a preocupação dos faxinalenses em melhorar as condições da
casa, em especial, quando a família tem filhos trabalhando na cidade. Este
fato força as famílias a se adequarem aos padrões citadinos. O banheiro no
interior da casa é reflexo e resultado da vivência dos filhos nas cidades.
A diferença entre os moradores “bem de vida” e os “pobres”, pode
ser facilmente identificada, segundo a moradora. “A casa do rico é de muro,
bem pintada, janela de vidro”
O progresso aparece quando troca-se a madeira pelo tijolo, isto é
trocar a madeira que é um material (orgânico) de baixa durabilidade, para
um material (artificial) de longa vida.
Numa descrição bastante simplificada, a fachada da casa é o lado
principal e é onde está a entrada mais importante. A entrada do fundo ou
das laterais, sempre menos conservada, é de uso exclusivo dos moradores
ou pessoas próximas, parentes, amigos, vizinhos íntimos. Essas casas têm
outro detalhe muito interessante, a fachada sempre tem duas ou mais
janelas, além da porta que geralmente dá entrada para a sala de visita. A
fachada geralmente é a parte da casa que recebe melhores cuidados, pois
fica exposta, à “todos aqueles que chegam e que passam por aqui e por
isso a gente cuida”, disse-me uma entrevistada. A porta frontal tem, para
o morador rural, importantes funções: receber pessoas ilustres, religiosos
como o padre, freiras; servir para a saída da filha noiva, no dia de seu

23
3
casamento; facilitar em dia de velório a retirada do familiar falecido; para
receber a comunidade no natal com cânticos natalinos; no ano novo, para
acolher crianças que jogam sementes (trigo) desejando fartura para o ano
vindouro. Essas são algumas das funções enumeradas pelos entrevistados.
Algumas casas têm a cozinha dissociada do restante da casa,
inclusive, o que se notou durante a pesquisa de campo, é que cozinha não é
casa. Quando os moradores convidam para a casa, convidam para a sala de
visita, parte da habitação onde ficam a sala (de visita) e os quartos. Na parte
dissociada, como um apêndice da habitação, fica a cozinha.
O fato de morar numa casa de alvenaria proporciona um sentimento
de satisfação, demonstrado por uma moradora que construiu recentemente
a tão sonhada casa, no sistema casa pré-fabricada. Porém, nem todos os
moradores estão transformando suas casas. Encontramos moradores que
moram em casas de madeira construídas ainda pelos seus pais há mais de
50 anos e têm com elas uma nítida relação de afetividade e respeito, pois
segundo eles “aqui está o suor dos nossos familiares que já morreram”
Ao explicar a conquista material das casas de alvenaria, os moradores
apontam as fontes que contribuíram para tal: citam PRONAF (Programa
Nacional de Apoio à Agricultura Familiar), a cultura do fumo e a ajuda dos
filhos que trabalham na cidade.

Considerações finais
A descrição acima nos mostra que a casa é um dos objetos materiais
que situam o morador no ranking social de sua comunidade. É por meio da
casa que as pessoas manifestam suas conquistas pessoais e sociais.
O aspecto físico da casa é particularmente revelador de distinções
de seus moradores. A transformação da casa de madeira para alvenaria,
de pequena para maior, implica a transformação social dos faxinalenses.
Verifica-se que a casa não é apenas lócus de relações de parentesco, mas
também a expressão material de diferenciações sociais entre os moradores,
tais como progresso, prestígio social.
Observamos que a casa tem historicamente permitido uma
variedade de imagens e significados, seja ela um abrigo, espaço simbólico de
pertencimento social, de intimidade e segurança, além do prestígio social.

3
Em muitas localidades rurais, ainda realizam-se os velórios na sala da casa onde a pessoa falecida
residia. Vale registrar que nos velórios são servidos: café da manhã, almoço, para todos aqueles
que vêm despedir-se do falecido. Em respeito ao trabalho e a vida do ente falecido a família serve o
melhor alimento, não se importando com as despesas que ficarão.

24
A casa é um objeto sinalizador da renda familiar, ocupação e
escolarização. A pesquisa permitiu observar como o espaço residencial está
associada às relações sociais estabelecidas pela família.
Em se tratando de uma categoria analítica, a casa nos oferece pontos
de referência importantes, pois é manifestação material de concepções de
mundo tanto nas sociedades tradicionais como nas sociedades modernas.

Referências
BALHANA, A. P. Roteiro para estudo da Casa Rural no Sul do Brasil. In:
Boletim Paranaense de Geografia. nº 6 e 7. Maio de 1962.

CATALDO, D. M. Casas de madeira do Paraná. In: Revista Brasileira de


Geografia. Janeiro- Março de 1959.

DUDEQUE, Ira. Espirais de madeira: uma história da arquitetura de


Curitiba. São Paulo: Studio Nobel - FAPESP, 2001.

GARCIA, F. S.; GUERNIERI, M. S.; PEREIRA, G. de F.;WEIHRMANN, S.


Arquitetura em madeira : uma tradição paranaense In: Scientia et Labor,
Curitiba, 1987.

MARTINS, W. Um Brasil diferente: ensaio sobre fenômenos de aculturação


no Paraná. São Paulo: Martins fontes

WACHOWICZ. R. C. Paraná, Sudoeste: ocupação e colonização. Curitiba:


Lítero-Técnica, 1985.

25
Orientações teóricas sobre o tema “Centro das
cidades”

1
FERREIRA, Sandra Cristina

Resumo: O artigo, apresenta uma discussão teórica sobre o tema “centro


das cidades”. As cidades, com suas diferentes constituições históricas,
apresentam, em comum, um espaço tido como tradicional ou principal,
apontado por alguns autores como o coração das urbes por ser, geralmente, o
local de origem do núcleo urbano e englobar valores históricos, econômico-
social, político e cultural. A fim de contemplar os objetivos do artigo,
que consistem em apresentar orientações teóricas e metodológicas para
pesquisas sobre a área central das cidades, elegemos e apresentamos algumas
abordagens teóricas importantes para a compreensão desse relevante
tema no âmbito da Geografia Urbana. Discutimos a temática a partir das
reflexões embasadas por tais referências. Para tanto, recorremos a estudos
elaborados por autores clássicos e contemporâneos, que se envolveram
com a temática, tendo por análise cidades norte-americanas e européias,
mas, principalmente, brasileiras. Para a análise do centro de uma cidade é
fundamental entender a dinâmica da estruturação urbana, os processos que
refletem as mutações pelas quais a urbe passa e sua diferenciação conforme
o potencial de expansão do espaço urbano. O centro urbano representa
enquanto ponto de unificação das partes, na medida que se estendem as vias
de comunicação da cidade até esse recorte espacial urbano, como algo que
interliga-a, por sua influência histórica, funcional, econômica e social. Isso
é, acontece na medida em que essa área constitui-se, “no foco principal não
apenas da cidade, mas também de sua hinterlândia. Nela concentram-se as
principais atividades comerciais, de serviços, da gestão pública e privada,
e os terminais de transporte inter-regionais e intra-urbanos.” (CORRÊA
1989, p.38). Considerando a importância que tal recorte temático e espacial
representa para a Geografia Urbana, objetivamos construir uma base
teórica com encaminhamento metodológico para o entendimento do papel
do centro na produção sócioespacial da cidade.
Palavras-chave: centro; cidade; sociedade.

1
Docente do Departamento de Geografia da UNICENTRO-PR. Doutoranda pelo Programa de Pós
Graduação em Geografia – UNESP de Presidente Prudente-SP. e-mail: sheidecke@hotmail.com.
Introdução
As cidades, com suas diferentes constituições históricas, apresentam,
em comum, um espaço tido como tradicional ou principal, apontado por
alguns autores como o coração das urbes por ser, geralmente, o local de
origem do núcleo urbano e englobar valores históricos, econômico-social,
político e cultural.
A fim de contemplar os objetivos do artigo, que consistem em
apresentar orientações teóricas e metodológicas para pesquisas sobre a área
central das cidades, elegemos e apresentaremos algumas abordagens teóricas
importantes para a compreensão desse relevante tema no âmbito da Geografia
Urbana. Discutimos a temática a partir das reflexões embasadas por tais
referências. Para tanto, recorremos a estudos elaborados por autores clássicos
e contemporâneos, que se envolveram com a temática, tendo por análise
cidades norte-americanas e européias, mas, principalmente, brasileiras.

Metodologia
Para a análise do centro de uma cidade é fundamental entender a
dinâmica da estruturação urbana, os processos que refletem as mutações
pelas quais a urbe passa e sua diferenciação, conforme o potencial de
expansão do espaço urbano considerando que:

[...] as relações espaciais integram, ainda que diferentemente, as


diversas partes da cidade, unindo-as em um conjunto articulado
cujo o núcleo de articulação tem sido tradicionalmente o centro
da cidade [...] CORRÊA (1989,p.08)

Outro encaminhamento metodológico, parte do entendimento da


importância que o centro urbano representa enquanto ponto de unificação
das partes, na medida que se estendem as vias de comunicação da cidade até
esse recorte espacial urbano, como algo que interliga-a, por sua influência
histórica, funcional, econômica e social. Isso é, acontece na medida em que
essa área constitui-se,

[...] No foco principal não apenas da cidade mas também de sua


hinterlândia. Nela concentram-se as principais atividades comerciais,
de serviços, da gestão pública e privada, e os terminais de transporte
inter-regionais e intra-urbanos. Ela se destaca na paisagem da cidade
pela sua verticalização. (CORRÊA 1989, p.38)

28
Considerando a importância que tal recorte temático e espacial
representa para a Geografia Urbana, seguiremos visando construir uma
base teórica com encaminhamento metodológico para o entendimento do
papel do centro na produção sócioespacial da cidade.

Caminhos que levam ao centro: convergência e


concentração
Ao descrever o centro da cidade, destaca-se a relevância que tal área
representa para a população desta, como um ponto de contato tradicional, o
papel integrador e o poder de atração que exerce à maioria das pessoas pela
concentração de transportes coletivos, de atividades comerciais, serviços e
lazer, além do aspecto residencial que, em muitas cidades, principalmente
médias e grandes, tem diminuído enquanto que, em cidades pequenas, é
mais comum residir na área em pauta.
Caberia aqui a questão da deteriorização da área central, suas causas
e conseqüências, revitalização desta, entre outros eixos de pesquisa na
mesma temática, sendo que nesse trabalho, nos ateremos ao centro no
sentido amplo.
Contudo, ao fazer uma comparação entre centro de cidades pequenas
com os de grandes metrópoles, deparamo-nos com a seguinte afirmação:

[...] os centros das cidades podem apresentar diferenças,


notadamente se compararmos centros de cidades pequenas com o
das grandes metrópoles, mas muitas são as características comuns
que tornam identificáveis essas áreas (JOHNSON, 1974, p.25).

Uma das características apontadas por este autor, refere-se aos papéis
desempenhados, seja pela concentração de serviços, poder econômico de
gestão e conforme a complexidade de elementos que engloba, influenciando
no valor do solo conforme seu uso. Nesse sentido, as características comuns
do centro são, “[...] a acessibilidade, a elevada densidade de utilização do
solo, a escassa população residente, paralelamente à crescente concentração
de atividades comerciais [...]” (JOHNSON, 1974, p.107).
Diante das características descritas anteriormente, as atividades
comerciais são responsáveis pela elevação do fluxo de pessoas e automóveis,
assim como a densa verticalização residencial e comercial que tende a
concentrar oportunidades de empregos. Embora o processo de verticalização
brasileira seja tipicamente residencial, no que diz respeito ao comércio, é

29
concentrada em avenidas ou bairros das grandes metrópoles do país, sendo
que no caso das grandes e médias cidades, este fato prevalece nitidamente
na forma de residências (MENDES,1992).
Após a Segunda Guerra Mundial, modificações nos papéis urbanos
são notados, principalmente, na utilização dos meios de transporte. O
automóvel passou a ser utilizado também para realizar compras. Sobretudo
nas cidades norte-americanas, ocorreu a mudança da classe média e alta
para os subúrbios, assim como a proliferação de SC (Shopping Centers),
que passaram a fazer parte dos hábitos familiares dessa época, alteraram as
relações com a área central e no,

[...] CBD (Central Busines District), por seu turno, concentraram-


se empregos, sobretudo no setor terciário, além do abrigo, do
ponto de vista residencial, dos antigos moradores – que não
puderam se locomover para áreas mais valorizadas – e dos pobres
– incluindo as minorias étnicas ( negros latinos, certos grupos de
orientais Etc.) -, num cenário deteriorado e marcado por altas
taxas de criminalidade. (JACKSON, 1985, p.24)

Analisado sob esse aspecto, com o processo de expansão territorial


da cidade, o centro tende a transformar-se em uma área marginalizada,
com problemas sócioespaciais, chamando a atenção para a necessidade
de revitalizá-lo. FRÚGOLI (2000), ao estudar a centralidade paulistana,
percorreu caminhos pretéritos, conduzindo a uma reflexão sobre a
deteriorização do centro principal e coloca que,

[...] A questão da revitalização urbana das áreas centrais está


conectada, por sua vez, ao surgimento dos subcentros, ou sob
outro prisma, à configuração de um contexto multipolar, dentro
do qual o centro tradicional passa a competir com os demais,
principalmente do ponto de vista econômico. O processo de
expansão metropolitana, portanto torna a questão da centralidade
ainda mais complexa. Em alguns casos os subcentros guardam
certas relações de complementaridade com o núcleo central, mas
passam muitas vezes a competir economicamente de forma mais
acirrada com o centro tradicional (FRÚGOLI, 2000, p.25).

Essa competição mencionada pelo autor propicia uma conseqüente


necessidade de renovar alguns aspectos no centro tradicional, uma vez
que muitas empresas de prestações de serviços e comércios permanecem
nessa área, assim como alguns setores com habitações. Certamente, tal

30
constituição varia conforme o processo histórico ao qual cada cidade foi
construída e sua realidade sócioeconômica, sendo que algumas apresentam
dispersão, ou seja, formação de muitos subcentros diminuindo, mas não
eliminam o valor do centro tradicional, enquanto que em outras se evidencia
a decadência das atividades centrais.
As diferenças consistem nas relações estabelecidas entre o homem
enquanto ser social e político e o espaço sobre o qual ele atua. Essa relação
intensifica-se perante a presença de alguns fatores como: o desenvolvimento
tecnológico, a alta produção e consumo de mercadorias, as divergências entre
classes sociais, a competição acirrada pelo poder. O fator locacional ganha
sentido, acirrando a disputa pelo controle sobre espaços privilegiados.
Alguns autores colocam o espaço urbano como palco de
transformações, mas, pode-se considerá-lo também, como ator, parte
da dinâmica regida pela aplicação de recursos, seja proveniente de
investimentos privados ou públicos. Neste sentido “[...] o centro se tornou
uma área de comércio especializado para a cidade e uma área de serviços
para região [...]” (VANCE apud VAZ 1991, p.12).
De um lado, as características da área central que marcam as grandes
cidades de países desenvolvidos, como Estados Unidos e Canadá são: “[...]
a marginalização dos pobres e a reestruturação das atividades centrais”
(LÉVY, 1985, p.12).
Por outro lado, o centro de países subdesenvolvidos, apresenta
características marcantes como a de,

[...] construir o módulo principal da rede de vias urbanas


(quanto a este ponto) pode haver vários centros dentro de uma
mesma cidade, e de apresentar uma forte concentração de todos
os níveis principalmente comerciais (SANTOS, 1981, p.193).

Estudos da área central em cidades brasileiras evidenciam várias


facetas, ou seja, ela não se caracteriza em apenas um centro de negócios
(CBD), ou centro cultural Down-Town. Geralmente comporta, além de
residências, o aspecto cultural, comercial, financeiro, serviços, religioso,
englobando uma série de papéis os quais convivem simultaneamente,
inclusive com o lado marginal. Esse caráter complexo revela que:

[...] o modelo brasileiro de urbanização assim desenvolvido, é um


excesso de verticalização no centro e um excesso de dispersão na
periferia, processo esse caracterizado por um aumento excessivo
dos custos de operações [...] e que as atividades especializadas
tendem a localizar-se no centro (CORDEIRO, 1980, p.35).

31
Os estudos referentes ao centro devem preocupar-se também com
a articulação entre as partes que compõem a cidade, com a maneira que o
todo socioespacial influencia a dinâmica da área central.

[...] a complexidade da ação dos agentes sociais inclui práticas


que faz via incorporação de novas áreas ao espaço urbano,
densificação do uso do solo, deteriorização de certas áreas,
renovação urbana, relocação diferenciada da infra-estrutura e
mudança, concetiva ou não, do conteúdo social econômico de
determinadas áreas da cidade (CORRÊA, 1989, p.11).

As diversas transformações na estrutura espacial urbana surgem


como resultado da articulação no espaço de agentes modeladores. Segundo
dinâmicas próprias, o centro atrai investimentos com intensa alteração na
forma e no conteúdo das atividades. Em áreas deterioradas, os projetos
de renovação e consecutiva valorização envolvem, na maioria das vezes,
redefinições destinadas ao comércio e/ou prestação de serviços. Conforme
a intensidade das transformações e a dinâmica populacional, tal área é
expandida, ultrapassando aos limites tradicionais da primeira delimitação
que geralmente acontece,

[...] através da absorção de área/setores limítrofes ao centro, através


do afastamento de sua população residencial e a transformação
de seu uso do solo em comercial e serviços, via demolição de
construções residenciais e construções de novas edificações
adequadas aos comércios e/ou serviços (SPOSITO, 1991, p.09).

Essa substituição de antigas formas por novas, com a mesma ou diferente


função, representa a preocupação com a imagem e a funcionalidade que se
estabelece através da arquitetura moderna e funcional, eliminando o aspecto
deteriorado e marginalizado que alguns pontos apresentam. Em grandes
cidades do Brasil, o esvaziamento do centro tradicional ocorre uma vez que,

[...] em função de suas dimensões e da alta densidade durante


o dia e da baixa densidade durante a noite o centro das cidades
grandes constitui-se inadequado para o uso residencial
expulsando-o muitas vezes bem antes que a própria área central
tenha a capacidade de absorver estes setores para o uso do solo
comercial ou de serviços [...] (SPOSITO, 1991, p.09).

32
Entretanto, observa-se que, diferentemente das grandes cidades
européias e norte americanas, residências no centro em cidades brasileiras
ainda são comum, sendo que tais áreas ainda concentram moradores por
diferentes razões e imóveis em diferentes valores e tipos. No centro, podem-
se encontrar imóveis em áreas valorizadas e outras degradadas com alta
periculosidade, principalmente no período noturno.
Antigos imóveis são freqüentemente objeto de renovação de seu uso, do
residencial a escritórios, consultórios, clínicas entre outros. Áreas deterioradas
também são destruídas, sendo em alguns casos o espaço utilizado como
estacionamentos, enquanto se aguarda o momento ideal para investir em
construção. O estacionamento no centro constitui-se um dos desafios para os
administradores públicos, devido à alta concentração de veículos.
Mesmo que muitos centros brasileiros verticalizados ainda tenham
as funções residencial, de comércio e serviços, em coexistência, há a
predominância das atividades econômicas, destacando-se que são devido a
elas que tal área atrai a população de modo geral. A área central apresenta-
se como o local de convergência de vias de acesso e maior concentração
de equipamentos urbanos para a prestação de serviços. Essa dinâmica de
distribuição espacial das atividades revela que,

[...] as cidades inseridas em um sistema capitalista de produção


moderna, possuem uma dinâmica especifica que responde as
exigências de produção, do próprio sistema. Essa dinâmica refere-
se a uma série de processos de mudanças de caráter estrutural e
funcional, que determina que o solo urbano seja constantemente
ampliado ou reaproveitado (GOUVÊA, 1982, p.42).

Muitas vezes, esse reaproveitamento ou ampliação consiste na


introdução de novos equipamentos ao espaço urbano central, assim
como novas maneiras de comercializar. Estratégias de localização e
marketing transformam áreas esquecidas em locais privilegiados. Uma
dessas estratégias de recuperação e valorização de espaços tem sido bem
representada pela edificação de galerias comerciais e SC.
Os processos de transformação e expansão do centro ocorrem não
somente por interesses privados ou públicos, mas também, expressa que a cidade
apresenta condições econômicas para que a expansão e inovação aconteçam.
Desta forma, “[...] o desenvolvimento do centro principal por uma área em
decomposição, cria condições para que a especulação imobiliária ofereça aos
serviços centrais da cidade nova área de expansão” (SINGER, 1979, p.49).

33
Argumentando sobre a expansão e renovação de áreas no centro, deve-se
salientar, que o comércio não se resume a esse espaço. A ampliação do número
e extensão de avenidas e ruas, associado ao desenvolvimento dos transportes,
favorece a descentralização residencial acompanhada pela comercial, de
serviços e lazer, que se estabelecem em áreas afastadas do centro.
São alterações que intensificam as articulações entre os espaços
intraurbanos ativando o fluxo de pessoas, mercadorias, veículos e
informações, dando vida à cidade e:

[...] ao negar a concepção de centro único e monopolizador, recria


a centralidade, multiplicando-a através da produção de novas
estruturas que permitem novas formas de monopólio, porque
(re) especializam e (re) espacializam as atividades comerciais e
de serviços reproduzindo em outras áreas da cidade as condições
centrais (SPOSITO, 1991, p.11).

Com o crescimento da cidade, novos espaços são incorporados e


ocupados, sejam residenciais, comerciais ou destinados à indústria. No entanto,
antigas áreas passam por renovação, tornando-se tão atrativas quanto as novas,
tendo em seu favor, muitas vezes, a localização, acesso e a familiarização dos
transeuntes com o local. Assim, a população pode usufruir de:

[...] novas localizações dos equipamentos comerciais e de serviços


concentrados e de grande porte que determinam mudanças
de impacto no papel e na estrutura do centro principal ou
tradicional, o que provoca uma redefinição de centro, de periferia
e da relação centro-periferia (SPOSITO, 1998, p.28).

Essa relação, que favorece a mobilidade constante das pessoas, é


fortalecida pela disposição das vias de tráfego interno, ao transporte coletivo
e à utilização do automóvel. O processo renovador do centro pode propiciar
o surgimento de áreas selecionadas que se destinam a um ou outro tipo de
atividade, constituindo setores especializados e,

[...] este processo primeiramente tende a setorizar as próprias


atividades do centro e, num segundo momento pode especializá-
lo definindo padrões com predominância de algumas atividades
segregando as outras (VAZ, 1991, p.38).

34
Considerações finais
Um dos principais pontos favoráveis ao movimento de pessoas no
centro, deve-se à localização de terminais de transportes urbanos. Tal infra-
estrutura propicia a circulação de pessoas de diferentes classes sociais e poder
aquisitivo. Usufruem dos serviços, lazer e principalmente do comércio em geral,
constituindo o que CASTELLS (1975, p.7) denomina como variedade social na
área central, além, claro, da quantidade de pessoas que trabalham nessa área.
O caminhar pelo centro constitui-se em uma forma de lazer em
função da diversidade de mercadorias oferecidas e apreciadas, mesmo
que apenas visualmente. As lojas distribuídas, tornam-se atração, e “[...]
substituem o lazer ou viram lazer” (CARLOS 1993, p.80).
O centro acompanha a evolução urbana e está intimamente ligado à
dinâmica política, econômica e social da cidade,

[...] é elemento transformador das relações sociais no que toca ao


espaço urbano, enquanto produtor de uma nova estrutura urbana
e não somente como simples lugar de encontro no mero elemento
funcional [...] e de não considerar o centro como meio de integração,
mas como meio de criação cultural (CASTELLS, 1975, p.192).

Ao realizar levantamentos bibliográficos sobre o centro da cidade,


verifica-se que existem semelhanças e diferenças quanto à natureza da
constituição e desenvolvimento da área. Tal fato deve-se às distintas ações
político-econômicas e sócioespaciais que acontecem desigualmente no
espaço e no tempo. No entanto, esse processo de formação e transformação,

[...] é diferentemente apreendido pelos vários segmentos sociais,


pois refletem sua participação, compulsória ou não, num
processo de trabalho que é desigual em sua formulação e em seus
resultados, dando ao centro várias delimitações e dimensões. O
centro é a tomada de monumentalidade que transcende a sua
base física (WHITACKER, 1998, p. 56).

O centro urbano apresenta a capacidade de englobar, articular,


absorver e expulsar de seu espaço e de sua história muito mais do que formas
e conteúdos. Ao mesmo tempo consegue preencher-se com a diversidade
de transformações induzidas, planejadas ou espontâneas. Essa dinâmica é
fruto dos movimentos socioespaciais e da forte atração que eles exercem
sobre as pessoas, acentuando sua importância no contexto urbano.

35
Referências
CARLOS, A. F. A. A cidade. São Paulo: Contexto, 1993.
CASTELLS, M. O centro urbano. In: Problemas de investigação em
sociologia urbana.São Paulo: Martins Fontes, 1975.
CORRÊA, R. L. O Espaço Urbano. São Paulo: Ática S/A, 1989.
CORDEIRO, H. K. O centro da metrópole paulistana. São Paulo: USPI-
IG,1980.
FRÚGOLI, J. H. Centralidade em São Paulo: trajetórias, conflitos e
negociações na metrópole. São Paulo: Cortez: Editora da UNESP, 2000.
GOUVEA, S. R. Espaços reconstruídos: Mudanças de usos, Mudanças de
classes. Revista Geografia e Ensino. Belo Horizonte: 1 (2), Set. 1992.
JOHNSON, J. H. El centro de la ciudad. In: Geografia urbana. Barcelona:
OIKOS - TAU, 1974.
LÉVY, J. Centro da cidade: todas as direções.São Paulo: Terra Nova,1985.
MENDES, C. M. O Edifício no Jardim: Um plano destruído. A verticalização
de Maringá. Tese (Doutorado em Geografia) – USP, São Paulo, 1992.
SANTOS, M. Manual de geografia urbana. São Paulo: HUCITEC, 1981.
SINGER, P. O estudo do solo urbano na Economia Capitalista. In:
MARICATO, E.(org). Apropriação capitalista da casa (e da cidade) no
Brasil industrial. São Paulo: Alfa Omega, 1979.
SPOSITO, M. E. B. O centro e as formas de expressão da centralidade
urbana. IN: Revista Geografia, UNESP, nº10, São Paulo:1991.
______. A gestão do território e as diferentes escalas da centralidade urbana.
IN: Território 4, Rio de Janeiro, Laget/UFRJ/jan/jun.1998.
WHITACKER, A. M. A produção do espaço urbano em Presidente Prudente:
uma discussão sobre a centralidade urbana. Presidente Prudente. 1997.
Dissertação (Mestrado em Geografia) – UNESP, Presidente Prudente,1997.
VAZ, Nelson P. O centro histórico de Florianópolis: espaço público do
ritual. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1991.

36
Roteiro básico e prático para elaboração de projeto
de pesquisa

1
TURRA NETO, Nécio

Resumo: A atividade de pesquisa é um empreendimento difícil, exige


método, rigor, objetivos bem delimitados, muita imaginação e, até, um
pouco de sorte. Pesquisa é uma atividade que, voltada a responder questões
que brotam de inquietação diante da realidade, conduz a elaboração de um
conhecimento novo, que auxilia na sua compreensão. Trata-se de um trabalho
meticuloso, que exige um planejamento anterior, antes de ser executado. A
este planejamento da pesquisa denominamos Projeto de Pesquisa. Este
planejamento nada mais é do que definir o que se vai pesquisar, que questões
se quer responder, com que finalidade, por que, com quais instrumentos
metodológicos. Sua função é traçar o campo de atuação e o caminho a ser
percorrido. Para tratar desta fase tão importante da pesquisa – a elaboração
do seu planejamento que se materializa num projeto de pesquisa –, seguimos
suas várias etapas constituintes, a fim tornar mais didáticos, aos iniciantes,
os vários passos deste difícil trabalho intelectual. Portanto, o texto procura
explicar de forma detalhada cada item de uma possível estrutura de projeto de
pesquisa: título, introdução, problemática da pesquisa, objetivos, justificativa,
plano provisório de assunto, metodologia, cronograma e referências. Além
disso, apresenta, em apêndice, um roteiro básico de leitura de texto científico,
de forma a tornar esse procedimento sistemático e meticuloso; pois lemos
para conhecer o pensamento do/a autor/a e não apenas para buscar nele
aquilo que nos interessa. A partir desse roteiro apresento, portanto, a idéia do
que seria uma “boa leitura” e de como ela deveria ser feita. Ambos os textos
visam, assim, contribuir com as/os estudantes de graduação de Geografia no
processo de construção de projetos de pesquisa e nas leituras, tanto para o
projeto, quanto para a pesquisa em si. Tais procedimentos são indispensáveis
para a formação universitária, sobretudo quando estamos falando de um
campo científico, no qual força motriz deve ser a produção do conhecimento,
seja entre os/as profissionais geógrafos/as que vão atuar no campo do ensino,
seja entre aqueles/as que atuarão no campo das políticas públicas.
Palavras-chave: projeto; problema de pesquisa; leitura.
1
Professor do Departamento de Geografia da UNICENTRO – Campus de Guarapuava; doutorando
em Geografia pela UNESP- Presidente Prudente.
Introdução
A atividade de pesquisa é um empreendimento difícil, exige método,
rigor, objetivos bem delimitados, muita imaginação e, até, um pouco de sorte.
Como define Pádua (1997), pesquisa é uma atividade que, voltada a
responder questões que brotam de inquietação diante da realidade, conduz
a elaboração de um conhecimento novo, que auxilia na sua compreensão.
Trata-se de um trabalho meticuloso, que exige um planejamento
anterior, antes de ser executada. A este planejamento da pesquisa
denominamos Projeto de Pesquisa (RUDIO, 1996). Este planejamento nada
mais é do que definir o que se vai pesquisar, que questões se quer responder,
com que finalidade, por que, com quais instrumentos metodológicos. Sua
função é traçar o campo de atuação e o caminho a ser percorrido.
Sem este caminho definido, sem o projeto de pesquisa, o pesquisador
e pesquisadora lançam-se numa improvisação, fazem um trabalho confuso
e percorrem um caminho como que pisando em ovos, dada a insegurança
com que realizariam seu percurso (RUDIO, 1996).
Para Lakatos e Marconi (1989, p. 99), todo projeto de pesquisa
deve responder às “[...] clássicas questões: o que? Por quê? Para que e para
quem? Como, com que, quanto? [...]”, às quais acrescentamos outras: onde?
Quando? (CORRÊA, s.d.).
A problemática do projeto responderia às questões, o que? Onde? E
quando? Além de nos dizer das questões que serão colocadas à realidade
assim delimitada. A questão o que? Refere-se ao tema da pesquisa (o recorte
temático), e as outras duas (onde? Quando?) aos seus recortes espacial e
temporal (CORRÊA, s.d.).
Contudo, para se chegar à construção de um problema de pesquisa,
exige-se muito estudo prévio: leituras e levantamentos preliminares em
campo. Assim, temos que para construir um projeto de pesquisa é preciso
também uma pesquisa.
Para tratar desta fase tão importante da pesquisa – a elaboração do seu
planejamento que se materializa num projeto de pesquisa –, vamos seguir
suas várias etapas constituintes, a fim tornar mais didáticos, aos iniciantes,
os vários passos deste difícil trabalho intelectual. E, como um projeto se
faz a partir de leituras (além de pesquisas de campo), julgamos pertinente
apresentar também um pequeno roteiro de como (pensamos que) deve ser
realizada uma leitura nos moldes do rigor acadêmico. Esse roteiro, como
não faz parte do roteiro propriamente dito do projeto de pesquisa, aparece
aqui nesse texto como um apêndice, que poderá ou não ser consultado.

38
Estrutura comentada do projeto
Não há consensos, entre os estudiosos que elaboraram manuais
de pesquisa, sobre um modelo único de projeto. Há várias propostas de
formato, de estrutura, ainda que todas estejam voltadas a responder as
mesmas questões já apresentadas acima.
Além disso, quando for o caso de submeter o projeto a uma instituição
para receber avaliação, deve-se atentar para o fato de que, via de regra, toda
instituição tem seu modelo próprio de projeto de pesquisa, indicando,
inclusive, o número máximo de páginas.
O que apresentaremos a seguir é, então, apenas uma proposta possível
de modelo e é como tal que deve ser encarada.
Antes de chegar a construir a estrutura do projeto, contudo, alguns
procedimentos são fundamentais e anteriores: delimitação do tema,
construção do problema, estabelecimento dos objetivos, leitura bibliográfica,
estabelecimento dos materiais e métodos da coleta de dados, consideração do
tempo disponível para a pesquisa. A redação final do projeto deve conter todas
estas operações, e cada uma delas se refere a uma ou mais partes do projeto.
Somente depois de se construir mentalmente e por meio de anotações o
projeto é que se pode, enfim, partir para sua redação. Após redigido, o projeto
deve ser lido e relido, para que nesse processo ocorra a lapidação do texto.

Título
Como afirma Eco (2002, p. 82), “um bom título já é um projeto”.
Ele se constitui após a escolha do tema da pesquisa e é resultado de
uma delimitação deste, pois o tema é demasiado amplo, precisa ser mais
recortado. O tema envolve a questão “o que pesquisar?”. O título além desta
última, envolve já também as outras – “quando e onde?”.
Também Lakatos e Marconi (1989, p. 101), discutindo sobre a
apresentação da pesquisa, afirmam que “o título, acompanhado ou não por
um subtítulo, difere do tema. Enquanto este último sofre um processo de
delimitação e especificação, para torná-lo viável à realização da pesquisa, o
título sintetiza o conteúdo da mesma.” Por isso, o título é o último item a ser
definido. Porém, deve-se caminhar na construção do projeto com títulos
provisórios que vão sendo ultrapassados, readequados, lapidados, até se
chegar ao título definitivo.

39
Introdução
Todo trabalho, toda produção de texto, deve apresentar uma
introdução, ainda que ela não venha separada como um item específico
do trabalho. No caso de um projeto de pesquisa não poderia ser diferente.
Cabe saber, então, qual o seu papel num projeto.
A introdução visa apresentar a idéia da pesquisa ao leitor. Já nela o
pesquisador e a pesquisadora devem indicar o seu recorte de problemática –
o que, onde, quando – e apontar as motivações pessoais que os conduziram
a realizar este recorte na realidade. A introdução, portanto, apresenta o
objeto de estudo já delimitado e as razões desta delimitação.
Além disso, a introdução apresenta o projeto em si, como ele está
estruturado e o que o leitor e leitora podem esperar encontrar em cada
uma de suas partes. Por isso, ela é, em termos de redação, a última parte do
trabalho a ser escrita, ainda que apareça no início.

Problemática
Há um consenso entre as pessoas que escrevem manuais de pesquisa
de que a delimitação do problema é a parte mais importante e ao mesmo
tempo mais difícil na construção de um projeto de pesquisa.
Leal (2002, p. 230) assim conceitua problema de pesquisa:

Nem todos os problemas com que nos deparamos se prestam


necessariamente à pesquisa científica. Um problema de pesquisa
supõe a possibilidade de buscar informações a fim de esclarecê-
lo, compreendê-lo, resolvê-lo ou contribuir para sua solução.
Um problema de pesquisa, portanto, não é um problema que
possa ser resolvido pela intuição, pelo senso comum ou pela
simples especulação.

Sua construção se inicia logo após a definição do tema geral. Os


recortes espaciais e temporais já são processos envolvidos na construção
da problemática. São, por assim dizer, sua parte inicial. Na seqüência deve-
se proceder à elaboração de questões para a realidade. A problemática de
pesquisa define, em síntese, o objeto de pesquisa do projeto.
Qual o objeto de estudo; o que se quer saber dele; de onde surgiram
estas questões; qual a relevância delas para entender o objeto? São questões
que devem ser respondidas na problematização da pesquisa. Nesse sentido,
nela se define não só o objeto, mas também os objetivos.

40
Na linguagem de Eco (2002), é preciso definir qual será “o núcleo e
a periferia da tese”, o que requer que se conheça o material disponível. Por
isso, um passo importante e primeiro para a construção da problemática,
definido o tema e seus recortes, é a pesquisa bibliográfica.
Além da pesquisa bibliográfica, alguns/as autores/as vão argumentar
que faz parte desta etapa, também, uma investigação preliminar no campo,
na realidade, em busca de alguns dados que nos familiarizem com o
universo empírico da pesquisa. Esta fase da construção da problemática se
chama pesquisa exploratória (LEAL, 2002; PÁDUA, 1997; RUDIO, 1996).
Para Pádua (1997), o ponto de partida é uma situação problema
que o pesquisador e pesquisadora encontram na realidade. O processo
que conduz da situação problema ao problema de pesquisa passa pelo
levantamento de fatos e pela busca de explicações (teoria), ou seja, uma
pesquisa exploratória inicial.
Já Leal (2002) vai argumentar que um problema de pesquisa é
formulado a partir da mistura de conhecimentos e valores. O/a pesquisador/
a parte de uma percepção sua da realidade, sempre guiada pelos seus valores,
e lança-se em busca de informações sobre as questões que o/a inquietaram.
Como resultado, dispõe de um conjunto de conhecimentos, formado por
“fatos brutos” e “fatos construídos ou generalizações”, que são o que Pádua
(1997), acima, chamou de levantamento de fatos e busca de explicações. Os
primeiros – fatos brutos – são buscados num contato inicial com a realidade
que se quer estudar, com o campo, onde, por meio de conversas informais,
aplicação de algum questionário, levantamento de dados estatísticos,
construção de mapas, obtemos uma visão geral e inicial sobre o nosso recorte
espacial. Os “fatos construídos” são as explicações dadas por outros autores aos
processos e/ou fenômenos que estamos tentando estudar, o que nos remete à
biblioteca, ao levantamento bibliográfico, às leituras e aos fichamentos – uma
parte fundamental para identificarmos quais os conceitos mais trabalhados
para cercar o problema que estamos construindo, quais os autores mais
importantes, o que cada um diz e pensa. Este levantamento, só resumidamente
apresentado aqui para delinear o problema, deverá posteriormente ganhar
sistematização no item Referencial Teórico do projeto de pesquisa.
Enfim, na pesquisa exploratória investimos em duas direções: no
campo e na biblioteca. Ambos os caminhos nos produzirão informações e
conteúdos que serão articulados na construção da problemática.
Ainda sobre a pesquisa exploratória, Rudio (1996, p. 43) nos traz
uma importante contribuição para o entendimento da questão. Segundo
ele, os “estudos preliminares” têm o objetivo de equacionar o problema

41
“[...] fornecendo subsídios para a orientação da pesquisa ou identificando
obstáculos que evidenciam a inviabilidade do projeto”. E, mais adiante,
afirma que os esforços serão dirigidos em três direções importantes: a)
“conhecimento teórico”; b) “conhecimento prático”, obtido por meio de
observação e conversas informais; c) “adequação ao projeto dos elementos
selecionados”, ou seja, os elementos encontrados e selecionados nos plano
teórico e no plano prático devem ser avaliados e articulados para compor
o problema de pesquisa.
Em síntese, podemos dizer que os/as autores/as citados falam da
mesma situação, com terminologias diferenciadas. Todos/as reconhecem a
importância da pesquisa preliminar na construção do problema de pesquisa
– que não pode jamais ser confundido com a situação problema – e admitem
que ela se constitui de uma investida ao campo e outra à biblioteca.
Em termos de redação do item problemática no projeto de pesquisa,
este deve conter, de forma narrativa, o processo intelectual que conduziu o/a
autor/a do projeto à delimitação do tema e aos recortes que elaborou; uma
aproximação teórica do tema e uma aproximação empírica do recorte espacial
e temporal; além das principais questões que serão colocadas à realidade
definidas à luz da teoria e das informações preliminares do campo.

Objetivos
Os objetivos brotam da problemática. As questões colocadas à
realidade aparecem aqui na forma de intenções a serem perseguidas pelo
projeto. Não importa que aqui se repita o que já foi dito. O importante é
que se diga, em poucas palavras, qual o centro e a periferia da pesquisa. O
centro constitui o objetivo geral e a periferia, os objetivos específicos. Estes
últimos não podem estar dissociados do primeiro, mas devem ser mais
concretos, indicando pequenas respostas que devem conduzir à resposta
maior. Para Bastos e Keller (1996, p. 57), o objetivo geral deve conter “o que
pretende o pesquisador no desenvolvimento do assunto [...]” e os objetivos
específicos são uma “abertura do objetivo geral em outros menores, que
constituirão possíveis capítulos no decorrer da estruturação do trabalho”.
Por sua vez, Lakatos e Marconi (1989) assim definem objetivo geral
e objetivos específicos:

42
Objetivo geral

Está ligado a uma visão global e abrangente do tema. Relaciona-


se com o conteúdo intrínseco, quer dos fenômenos e eventos,
quer das idéias estudadas. Vincula-se diretamente à própria
significação da tese proposta no projeto (p. 102).

Objetivos específicos

Apresentam caráter mais concreto. Têm função intermediária e


instrumental, permitindo, de um lado, atingir o objetivo geral e,
de outro, aplicar este a situações particulares (p. 102).

Em termos de redação, recomenda-se que os objetivos, tanto geral


quanto específicos, venham escritos em tópicos e iniciados com o verbo no
infinitivo – reconhecer; identificar, mapear, explicar; compreender...

Justificativa
A justificativa é a parte do projeto em que o/a pesquisador/a explica
por que o trabalho de pesquisa merece ser feito. Qual a sua intenção?
Quais contribuições a pesquisa pode trazer tanto para o debate teórico a
respeito do tema, quanto para o conhecimento da realidade, ampliando o
conhecimento do local sob o aspecto que se pretende enfocar.

A justificativa difere da revisão bibliográfica e, por este motivo, não


apresenta citações de outros autores. Difere, também, da teoria de
base, que vai servir de elemento unificador entre o concreto da
pesquisa e o conhecimento teórico da ciência na qual se insere.
Portanto, quando se trata de analisar as razões de ordem teórica ou
se referir ao estágio de desenvolvimento da teoria, não se pretende
explicitar o referencial teórico que se irá adotar, mas apenas ressaltar
a importância da pesquisa no campo da teoria [bem como no campo
da prática] (LAKATOS e MARCONI, 1989, p. 103).

43
Referencial teórico
Neste item, o pesquisador e a pesquisadora apresentam o resultado da
sua pesquisa bibliográfica preliminar, indicando ao leitor um conhecimento
sobre algumas referências bibliográficas e sobre os principais conceitos que
irão trabalhar na pesquisa, já num esforço de precisar suas definições.
Ela é fundamental num projeto para evidenciar que o pesquisador e a
pesquisadora já têm o mínimo de familiaridade com os debates e conceitos
chaves que giram em torno da temática selecionada.
Nesta etapa, o levantamento bibliográfico inicial, necessário para
construir o problema de pesquisa, deve ser mais vagarosamente sistematizado.

Metodologias
As metodologias respondem a questão “como?” (CORRÊA, s.d.).
Como proceder na pesquisa para atingir os objetivos esperados e responder,
de forma satisfatória, as questões levantadas na problemática?
Aqui o/a pesquisador/a evidencia sua inspiração epistemológica,
pois se refere ao melhor caminho para atingir o conhecimento da realidade.
Ainda que esta inspiração o informe em todo o processo de construção do
projeto, visto que tem relação com seus valores, com sua visão de mundo,
orienta-o no recorte da realidade e na construção das questões, é na
metodologia que ela ganha maior visibilidade.
A esta preocupação mais geral e abstrata soma-se outra de ordem
mais prática, que se refere às técnicas de coleta de dados. Estas são múltiplas
e variam de acordo com a posição epistemológica.
Pádua (1997, p. 50), no item “coleta de dados”, afirma que:
Os principais recursos técnicos que poderemos utilizar são:
- pesquisa bibliográfica
- pesquisa experimental

- pesquisa documental
- entrevistas
- questionários e formulários
- observação sistemática
- estudos de caso
- relatórios (de pesquisa, de estágio etc.)

44
A autora ainda argumenta que estes recursos não se excluem,
podendo aparecer articulados numa mesma pesquisa. Para ela, “a coleta
e o registro dos dados pertinentes ao assunto tratado é a fase decisiva da
pesquisa científica, a ser realizada com o máximo de rigor e empenho do
pesquisador” (PÁDUA, 1997, p. 50), por isso deve ser bem planejada e este
planejamento já deve aparecer no projeto.

Plano provisório de assunto


O plano provisório de assunto é um item que raramente aparece
nos roteiros de projetos de pesquisa. É mais usual em projetos de teses e
dissertações, quando o/a autor/a tem muita clareza da dimensão que seu
trabalho poderá tomar. Ele vai aqui como uma possibilidade que pode ser
inserida ou não no projeto.
Segundo Eco (2002, p. 81), “[...] redigir logo o índice como hipótese
de trabalho serve para definir o âmbito da tese [...]”. E o plano provisório
de assunto nada mais é do que uma proposta de índice para o trabalho final
da pesquisa.
Quando se concluir a pesquisa, quantos capítulos ela poderá ter?
Quais seriam estes capítulos? O que seria tratado em cada um deles?
Para Eco (2002), o índice provisório indica a seqüência que o trabalho
pode tomar e o que deve ser feito para cumprir cada etapa estabelecida.
Facilita também na hora de buscar informações, tanto bibliográficas quanto
empíricas, que já podem aparecer indicadas a que parte do índice provisório
se referem. Ou seja, o livro fichado pode contribuir com a construção de que
capítulo do trabalho? Esta informação pode já constar na ficha. O mesmo
vale para entrevistas, questionários, documentos e outros instrumentos de
coleta de dados.

Cronograma
O cronograma de pesquisa lida com o fator tempo. Apesar dele
aparecer quase no final do projeto, o tempo de que se dispõe para realizar
a pesquisa deve ser levado em consideração tanto no delineamento da
problemática, quanto no estabelecimento dos objetivos.
Ninguém vai propor um problema de pesquisa muito amplo, nem
objetivos muito ousados se dispor de apenas seis meses para realizar a
pesquisa. Donde se conclui que a abrangência da pesquisa depende do tempo
que se tem para executá-la. Questão de planejamento, questão de projeto.

45
Eco (2002, p. 16) estabelece alguns requisitos para uma pesquisa
que tem apenas seis meses para ser executada. Entre eles, aquele que mais
nos interessa para os fins desse artigo é o que se refere à circunscrição do
tema. Para que a pesquisa seja exeqüível dentro do prazo disponível, o
tema deve ser muito claro e objetivamente circunscrito. O que indica que a
preocupação com o tempo já deve aparecer na própria seleção do tema da
pesquisa e no estabelecimento dos recortes (espacial e temporal), o que, por
si só, também exige uma pesquisa preliminar.
Entrando agora na questão do cronograma em si, podemos perguntar:
Qual sua função no projeto e como deve ser construído?
Toda pesquisa é dividida em partes, cujas principais são, segundo
Pádua (1997): planejamento – projeto; coleta de dados; análise dos dados;
redação final.
Ainda que elas possam andar paralelamente, sobretudo as três últimas
– visto que o projeto antecede a todas e deve ser realizado em separado –,
ninguém vai analisar dados sem os coletar, muito menos redigir o texto
final do trabalho sem ter coletado e analisado os dados, feito a pesquisa
bibliográfica, as leituras e os fichamentos... Todas essas atividades podem e
devem aparecer de forma seqüencial no cronograma, de modo a prever o
tempo necessário para realizar cada uma delas.
Para Pádua (1997), o cronograma deve ser constantemente revisitado
para que o/a pesquisador/a possa avaliar o processo de desenvolvimento da
pesquisa: se está caminhando conforme o previsto; se houve atrasos em
uma etapa mais do que o esperado; se é necessário refazer os objetivos,
reestruturar a proposta... E isso é tão mais importante quando se admite
que “a disciplina intelectual que o trabalho de pesquisa exige faz com que o
pesquisador se organize para escalonar, no tempo disponível, as etapas do
processo e as tarefas que cada etapa comporta” (PÁDUA, 1997, p. 46).
Em termos de sua construção no projeto, ele deve aparecer em forma
de quadro/tabela, em que no eixo horizontal superior apareçam os meses
do ano e no eixo vertical esquerdo as atividades que serão realizadas do
início ao final da pesquisa. Veja o exemplo:
Mês/Atividades agosto setembro outubro novembro dezembro
Levantamento bibliográfico; seleção,
XXXX XXXX XX
leitura e fichamento do material
Coleta de dados no campo XX XXXX XX

Análise dos dados XX XXXX

Redação final XX XXXX

46
Referências bibliográficas
Todas as referências bibliográficas utilizadas na construção do projeto,
e citadas nele, devem aparecer aqui referenciadas, em ordem alfabética pelo
sobrenome do autor; sejam elas artigos de revistas, matéria de jornal, livro
completo, artigo de livro, censos do IBGE, INCRA, IPARDES, ou mesmo
textos extraídos da internet.
Como exemplo, apresentamos na seqüência as referências
bibliográficas que utilizamos para a construção deste texto que você acaba
de ler. As referências que se seguem não estão aqui apenas para lhe fornecer
um exemplo de como elas são construídas, mas sim por uma obrigação
mesma de todo trabalho científico que lida com textos de outros autores.

Referências
BASTOS, C.; KELLER, V. Pesquisa científica. In: ______. Aprendendo a
aprender: introdução à metodologia científica. 8. ed. Petrópolis: Vozes,
1996. p. 54 – 65.
ECO, U. Plano de trabalho e fichamento. In: ______. Como se faz uma
tese. 17. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002. p. 81 – 112.
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A.. Projeto e relatório de pesquisa. In:
______. Metodologia do trabalho científico. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1987.
p. 99 – 135.
LEAL, E. J. M. Um desafio para o pesquisador. A formulação do problema
de pesquisa. Contraponto, Itajaí, ano 2, n. 5, p. 227-235, maio/ago. 2002.
PÁDUA, E. M. M. de. O processo de pesquisa. In: ______. Metodologia da
pesquisa: abordagem teórico-prática. Campinas: Papirus, 1997. p. 29 – 89.
(Coleção Práxis).
RUDIO, F. V. O projeto de pesquisa. In: ______. Introdução ao projeto de
pesquisa científica. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 43 – 54.

Apêndice – Roteiro de leitura


Para uma boa apreensão das referências bibliográficas lidas, é
necessário realizar uma leitura em profundidade, tentar acompanhar a linha

47
de raciocínio do/a autor/a, a sua seqüência de idéias. Tentar identificar seus
objetivos, seus principais conceitos e também suas principais referências
bibliográficas, ou seja, quais os autores/as sob os quais ele constrói seu
pensamento, quais os mais citados.
A partir de uma leitura assim, atenta, que busque estas informações
no texto, pode-se dizer que você realizou uma boa leitura do texto.
Esta leitura deve, imprescindivelmente, vir acompanhada de um
fichamento detalhado do texto, no qual se realize paráfrases honestas das idéias
do autor ou autora lidos e se realize citações dos trechos mais importantes,
que poderão, posteriormente, compor o texto final do trabalho de pesquisa.
Para tentar contribuir com uma boa leitura sugiro o seguinte roteiro:

Referência bibliográfica completa


Seguindo as normas da ABNT.
É o que abre o fichamento.

Apresentação do autor
Ajuda a entender de que lugar o autor fala, quem é ele, quais suas temáticas
preferenciais de pesquisa e qual o nível do trabalho: se relatório, se fala numa
mesa redonda, se parte da tese de doutorado, mestrado, especialização etc.

Objetivos do texto
Geralmente, na introdução do artigo ou do livro, o/a autor/a apresenta
os motivos, as intenções que persegue ao redigir o texto que ora você lê. É
importante conhecer esta intencionalidade, pois ela ajudar a entender o por
que de o texto ser construído, suas potencialidades e limites, – limites pois
todo objetivo seleciona, opera um recorte no que poderia ser abordado,
mas não o foi, dados os objetivos.

Tese(s) ou hipótese(s) central(is)


Identificar as idéias chave que o/a autor/a defende. As idéias que ele
apresenta para a discussão. Geralmente, é para fundamentar estas idéias, dar-
lhes consistência teórica e fundamentação empírica que ele/a organiza o texto.

48
Estrutura do texto
Qual a seqüência de idéia do texto. Geralmente, também apresentada
na introdução. Um texto é um conjunto coerente com começo, meio e fim,
organizado de acordo com objetivos definidos e para fundamentar uma
tese. Conhecidos os objetivos e as teses, não fica difícil acompanhar esta
seqüência, que é a linha de raciocínio do/a autor/a.

Conceitos mais importantes


Quais conceitos são desenvolvidos pelo/a autor/a para construir seu
argumento/raciocínio. Geralmente, os termos principais são seguidos de
definição. Identificá-los é útil também para que quando formos construir
nossos textos sabermos quais conceitos vamos articular e onde podemos
encontrá-los, ou seja, que autores ou autoras os discutem e os definem.

Principais referências teóricas utilizadas


Os autores e autoras mais citados, aqueles que foram fundamentais
para o/a autor do texto que estamos lidando construir seu argumento, seu
raciocínio, seus conceitos e suas teses.

Principais dados que fundamentam a análise


No caso de o texto apresentar resultados de pesquisa empírica, as
conclusões e teses serão baseadas nos dados apresentados. É importante
identificá-los, sobretudo quando o assunto tratado for semelhante àquele
que pensamos em desenvolver, pois nos permite ter informações sobre
outras realidades.

Possíveis contribuições para a pesquisa.


Aqui, com comentários pessoais, você deve identificar no texto se ele
pode contribuir ou não para sua pesquisa, e em que aspectos ele contribui;
em que partes do seu trabalho o texto estudado pode ser melhor empregado
como fundamentação teórica, como comparativo de dados, como fonte
para precisar conceitos que serão trabalhados na pesquisa.

49
Resumo do texto, com paráfrases e citações dos trechos
mais importantes
Feito isso, pode-se dizer que você se apropriou da totalidade do
texto lido, que você o conhece no seu conjunto e que quando for se valer
de algum trecho dele, por paráfrase ou por citação, você saberá de qual
contexto você estará tirando aquela idéia. Só assim você poderá produzir
também um texto seu, coerente, articulando outros textos, que você
conhece em profundidade, fugindo do risco de construir um “Samba do
Crioulo Doido”.
PONTE PRETA, Stanislaw. Samba do crioulo doido. In: AUGRAS,
Monique. O Brasil do samba-enredo. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio
Vargas, 1998. p. 219.

“Foi em Diamantina
onde nasceu JK
que a princesa Leopoldina
arresolveu se casá
Mas Chica da Silva
Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa
A se casar com Tiradentes.
La la la la
O bode que deu vou te contar (bis)
Joaquim José
Que também é da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro Segundo.
Das estradas de Minas
Seguiu para São Paulo e falou com Anchieta
O vigário dos índios aliou-se a d. Pedro
E acabou com a falseta

50
Da união deles ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão (bis)
Assim se conta a história
Que é dos dois a maior glória
Dona Leopondina virou trem
Dom Pedro é uma estação também
Ôoooooo
O trem tá atrasado ou já passou.”

(versão publicada por Edigar de Alencar, 1979)

51
A divisão regional oficial: equívocos e confusões das
regionalizações no estado do Paraná

1
FAJARDO, Sérgio

Resumo: O trabalho discute as divisões regionais oficiais efetuadas pelo


IBGE que são utilizadas como parâmetro dos estudos regionais e do
planejamento. O reconhecimento e a identificação dos recortes regionais
se fazem necessários como elementos norteadores das políticas públicas.
É fato que a diversidade de regionalizações, apesar de ser válida no
sentido de atender a objetivos e áreas específicas, provoca confusões na
identificação das regiões não apenas no indivíduo comum, como também
nos meios acadêmicos, sobretudo, fora do âmbito da Geografia. No caso
do Estado do Paraná esses equívocos são comuns.
Palavras-chave: divisão regional; regiões; estado do Paraná.

Introdução
As divisões regionais oficiais permitem uma orientação geral para
definição de recortes espaciais com as mais diversas finalidades. No âmbito
governamental estas têm servido como base referencial do território para
o planejamento e aplicação de políticas públicas, bem como para formação
de conjunto de informações e dados estatísticos sobre o país.
Admitindo-se que é necessário esse parâmetro de recortes regionais,
é primordial o conhecimento das divisões regionais oficiais. Caso contrário,
a confusão e os equívocos na definição das regiões tendem a surgir como
elemento complicador das ações e do planejamento.

As divisões regionais brasileiras


A noção de diferenciação de áreas constitui a base da compreensão
conceitual da região. No decorrer da história do pensamento geográfico
a tradição corográfica, ou seja, dos estudos de área, representou um dos
principais enfoques da Geografia (PATTISON, 1976). Com Ritter, Hettner,
La Blache, Hartshorne, e outros, a região foi, sob vários enfoques, tratada
1
Professor Adjunto do Departamento de Geografia – UNICENTRO. Doutor em Geografia pela
UNESP. e-mail: sergiofajardo@hotmail.com.
como objeto central dos estudos geográficos. Assim, a região recebeu vários
adjetivos e classificações: região natural, região histórica, região-paisagem,
região econômica (DOLFUS, 1982). A aplicação dos conceitos de região
nas divisões administrativas materializou os processos de regionalização e
as definições regionais. Os recortes regionais passam a compor as políticas
públicas voltadas ao planejamento da organização territorial.
O território brasileiro teve na sua ocupação inicial, ainda como colônia,
uma divisão em doze capitanias hereditárias. O Brasil já foi Principado em
1763, Vice-Reino em 1815, Reino com a Independência e passou a República
em 1889. Em 1891 as Províncias se convertem em Estados e o Município
Neutro (Rio de Janeiro) passa a constituir o Distrito Federal (IBGE, 1980). Um
tipo de regionalização que predominou, pelo menos enquanto nomenclatura,
do período colonial até a República Velha fora as Freguesias ou Paróquias que
existiam enquanto unidades administrativas do país (SILVA; LINHARES,
1995). Alterações consecutivas acontecem no século XX na medida em que
são desmembrados Estados, criados e extintos territórios (Tabela 1).
Os recortes que formam a divisão territorial brasileira são
diferenciados segundo dinâmicas distintas de atualização, atendendo
a diversas demandas e interesses distintos (LIMA, 2002). No entanto,
a única orientação geral (ainda que nem sempre seja ideal) que permite
padronização e parâmetros utilizados atualmente pela maioria dos órgãos
públicos é a regionalização oficial levada a cabo pelo IBGE.

Tabela 1 – Alterações na divisão territorial-administrativa brasileira


Ano Alteração na divisão territorial-administrativa
1903 Criação do Território Federal do Acre
1942 Criação do Território de Fernando de Noronha
Criação dos Territórios Federais do Amapá, Guaporé (Rondônia), Rio Branco
1943
(Roraima), Ponta Porã e Iguaçu.

1946 Extinção dos Territórios de Ponta Porã e Iguaçu.

Mudança de denominação de Território Federal do Guaporé para Território Federal de


1956
Rondônia
Mudança da Capital Federal para a recém inaugurada Brasília. Rio de Janeiro é dividido em
1960
duas unidades da Federação, com a criação do Estado da Guanabara.
Elevação do Território Federal do Acre à condição de Estado
1962
Território do Rio Branco passa a ser denominado Roraima
Fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro (transferência da capital estadual
1974
de Niterói para Rio de Janeiro)

Continua

54
1977 Estado do Mato Grosso é dividido em dois: Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

1981 Elevação do Território Federal de Rondônia à condição de estado

1986 É criado o Estado de Rondônia

Com a Constituição, Territórios são convertidos em Estados. Criação do Estado de


1988
Tocantins. Fernando de Noronha é incorporado a Pernambuco.

Fonte: IBGE (1980; 1989; 2008)

Desse modo, as primeiras divisões regionais oficiais no Brasil são


elaboradas logo após a criação do IBGE. Em 1938, há uma divisão inicial
do espaço brasileiro que, com a preocupação de integração econômica do
território priorizou o critério da localização (DUARTE, 1980).
2
Em 1941 , há uma divisão regional mais precisa. O Brasil é dividido
em grandes regiões. Basicamente, a divisão regional do território brasileiro
em macro-espaços constituiu-se num quadro único que continha espaços de
hierarquia menor numa sucessão escalonada. Como enfatiza Geiger (1970)
as grandes regiões correspondiam às extensões designadas atualmente
como Macrorregiões.
O país ficou dividido em cinco seções correspondentes as cinco
grandes regiões e, em 1945 são estabelecidas as unidades menores,
chamadas “zonas fisiográficas” (IBGE,1989). O geógrafo Fabio de Macedo
Soares Guimarães foi o responsável pela divisão, influenciado por Giuseppe
Ricchieri (italiano) e por Delgado de Carvalho (ANDRADE, 1987).
Para as Grandes Regiões utilizou-se de critérios físicos que
caracterizam as “regiões naturais”. Os critérios orientaram-se no sentido
de estabelecer uma identificação de “regiões elementares” levando em
conta aspectos geológicos, do relevo, do clima e da vegetação. Nesse caso,
aceitava-se que esses elementos, além de influenciarem às vezes, até mesmo
dominavam uns sobre os outros. Ressaltava-se que, conseqüentemente, o
fato de que na Amazônia há a predominância do fator botânico, da mesma
forma que nos Alpes predomina o fator relevo e o fator clima no Saara.
Especificamente, para a definição das chamadas “Zonas Fisiográficas”,
houve a influência da escola francesa, de nomes como Jean Brunhes e
Camille Valloux (IBGE, 1989), considerando assim os aspectos humanos
(históricos e econômicos). Entretanto, no caso das macrorregiões, o critério
principal usado como recorte dos espaços foi a diferenciação do quadro
2
Essa regionalização foi oficializada no início de 1942, por meio da Circular n° 1 da Presidência da
República de 31/01/1942, conforme Ministério do Planejamento (2006, p. 25).

55
natural. Isso é bastante nítido quando se observa atualmente a diferenciação
entre o Nordeste semi-árido, o Norte dominado pela floresta Amazônica ou
o sul de clima mais ameno. Os recortes, no entanto, respeitariam os limites
administrativos das unidades da federação.
Tendo como base as diferenças naturais, essa primeira divisão regional
reflete muito mais que uma tradição geográfica naturalista. Para Castro (1994),
havia entre os brasileiros uma incapacidade de se perceber, à época, diferenças
que não sejam paisagísticas, pois isso significaria abalar o mito consagrado da
unidade territorial. A necessidade de se prevalecer um sentimento de unidade
territorial era base para unidade política e para o nacionalismo.
O fator natural foi também empregado para dividir as regiões em sub-
regiões (espaços mesorregionais). No caso dos espaços microrregionais,
a criação das regiões denominadas “zonas fisiográficas” utilizou como
critérios, aspectos históricos e sócio econômicos. Essas zonas representavam
um nível hierárquico inferior.
3
De acordo com Geiger (1970), o maior problema ao conceber
unidades espaciais econômicas menores, determinadas por unidades
físicas maiores, estava no fato de que essa antiga divisão regional freou a
compreensão dos amplos mecanismos econômicos e sociais que integram
as diversas partes do território nacional num sistema nacional.
Em 1968, é apresentada pelo IBGE uma nova divisão regional do
Brasil. Foram criadas as então denominadas microrregiões homogêneas,
como agregados espaciais do território nacional. O Brasil contava com
22 Estados, 4 Territórios e o Distrito Federal, além de 361 microrregiões
homogêneas que retratavam a realidade sócio-econômica da época,
utilizando informações dos censos de 1960 e estatísticas da produção
agrícola e industrial de 1965 (IBGE, 1989). E, a partir do Censo de 1970,
as estatísticas censitárias começam a ser divulgadas pelas microrregiões
homogêneas, que substituíram as zonas fisiográficas.
Foram individualizadas áreas que se identificam por certa forma
de combinação dos elementos geográficos sempre dentro de
determinado nível de generalização. O País foi dividido em unidades
homogêneas que passaram a ser denominadas Microrregiões
3
Pedro Pinchas Geiger foi um dos geógrafos responsáveis no então IBG, Instituto Brasileiro de Geografia,
pela realização da divisão regional do Brasil no final dos anos 1960. Em seu texto original, apresentado
na I Conferência Nacional de Geografia e Cartografia, realizada no Rio de Janeiro em setembro de
1968, o autor faz argumentações que demonstram o problema da desatualização da então divisão
regional do Brasil. Ele propõe ainda que a divisão ideal para os macro-espaços brasileiros seria a partir
do reconhecimento dos três blocos geoeconômicos: Amazônia, Nordeste e Centro-Sul, o que na prática
nunca ocorreu oficialmente, ficando restrita às análises econômicas do território.

56
Homogêneas. A finalidade dessa divisão regional é servir de base
para a tabulação dos dados estatísticos, em substituição às antigas
Zonas Fisiográficas. Se bem que fatores de ordem econômica
não tivessem sido omitidos, a delimitação das zonas foi baseada
fundamentalmente em critérios de natureza fisiográfica e de posição
geográfica (AMERICANO et al., 1976, p. 172).
4
Somente em 1977 é criado o nível intermediário denominado
mesorregião. O agrupamento das microrregiões homogêneas resultou
nas mesorregiões homogêneas. Essa divisão só se altera em meados dos
anos 1980 com a divisão do Estado do Mato Grosso que representou uma
reorganização das meso e microrregiões homogêneas nesses Estados.
A revisão completa dessa divisão regional ocorre em 1989. O IBGE
justificava as mudanças apontando as inúmeras transformações verificadas
na organização sócio-econômica do país. A reorientação da estrutura
produtiva do território nacional deixava a divisão regional de 1968
desatualizada e anacrônica em relação às atuais formas de organização do
espaço, não correspondendo com a realidade brasileira (IBGE, 1989).
Os critérios para identificação das microrregiões, denominadas
“geográficas” a partir de então, incluíam os parâmetros: processo social
(determinante); quadro natural (condicionante); e rede de comunicação e de
lugares (articulação). Vale ressaltar que a idéia de uma região que considera
elementos do planejamento e aspectos da articulação são encontrados,
por exemplo, nas regiões polarizadas, que no Brasil tem como exemplo as
regiões metropolitanas criadas na década de 1970 (ANDRADE, 1976).
Resultado dessa atualização foi uma readequação de muitas das
meso e microrregiões às novas realidades. Por exemplo: um município foi
incorporado a uma determinada mesorregião em razão da similaridade e
homogeneidade pelo predomínio de certo tipo de produção agrícola, mas
com o desenvolvimento da estrutura produtiva essa identificação não fazia
mais nenhum sentido. Uma série de variáveis estatísticas relativas à produção
agropecuária e industrial, serviços, trabalho e população foram utilizadas
na definição das micro e mesorregiões geográficas (IBGE, 1989).
Além dessa regionalização oficial, há a identificação de espaços
regionais, historicamente construídos e definidos no território. Retomando
a idéia de Geiger (1970), Corrêa (1997) reconhece a existência de uma nova
organização regional do espaço brasileiro resultante de processos sociais e
econômicos, que divide o país em três grandes regiões: Centro-Sul, Nordeste
4
Outro fato relevante foi a institucionalização pelo IBGE das regiões metropolitanas em 1974, com
a divisão regional do Brasil em regiões funcionais urbanas (AMERICANO et al., 1976).

57
e Amazônia. No entanto essa divisão, na prática, é utilizada para fins de
planejamento, como por exemplo, quando define áreas de abrangência
de órgãos, instituições e superintendências de desenvolvimento (casos da
SUDAM e SUDENE). Além disso, essa divisão tem demonstrado ser uma
das mais analisadas caracterizações sócio-espaciais do país.

Aspectos da divisão regional do Paraná


No Estado do Paraná, o primeiro problema para sua definição regional
está no fato da disputa territorial com Santa Catarina. A área administrativa
do Estado correspondia a um espaço muito maior do que seu território atual
ocupando quase toda a parte oeste catarinense (Figura 1).
Na evolução das divisões administrativas do território paranaense,
em algumas décadas multiplicou-se o número de municípios. Nota-se que
a divisão municipal interfere diretamente na divisão regional já que a base
de uma região é a unidade municipal.
A fragmentação do Estado do Paraná pela instalação de novos municípios
levou a uma nova configuração regional. Alguns com extensas áreas abrangendo
5
espaços com enorme diversidade natural, cultural ou demográfica . Cessadas
as ligações entre espaços, costumes e tradições se vêem afetados no uso de
terminologias que promovam uma identidade regional.
Figura 1 - Divisão administrativa da Província do Paraná em 1853

Fonte: Padis (1981, p. 34)


5
Vale mencionar os casos de Castro e Guarapuava.

58
Figura 2 - Divisão administrativa do estado do Paraná em 1950

Fonte: Padis (1981, p. 98)

Quando a identificação de uma região por meio de um aspecto


paisagístico natural coincide com a divisão oficial, como no caso dos
Campos Gerais (a mesorregião Centro-Oriental Paranaense), o impacto é
menor. Entretanto quando o recorte se limita à designação da localização, a
confusão e os enganos florescem. Foi o que ocorreu com as porções Norte
(casos de Londrina, Maringá e Paranavaí) com o advento da terminologia
Noroeste na divisão em micro e mesorregiões geográficas a partir de 1989
(Figura 3). Outro caso foi o ocorrido na área central do Estado, cujas
divisões oficiais divergem da compreensão do senso comum.

59
Figura 3 - Mesorregiões geográficas do estado do Paraná

Fonte: Adaptado de Ipardes (2004, p. 7)

No Paraná, como em muitas áreas do Brasil, enganos decorrentes


da não utilização de uma divisão regional padronizada levam a situações
curiosas, quando não confusas. É comum serem veiculadas na mídia
identificações equivocadas dos recortes regionais. Por exemplo, quando
determinado fato ocorre na região de Maringá a identificação regional
daquele município é apresentada equivocadamente como “Noroeste”, sendo
que na realidade a mencionada região é a Mesorregião Geográfica Norte
Central Paranaense, que incorpora ainda Londrina e Apucarana. A própria
designação de Noroeste é mais recente e engloba desde a divisão regional
de 1989 as microrregiões de Paranavaí, Umuarama e Cianorte.
O mesmo acontece com os municípios de Guarapuava e Irati.
Tradicionalmente, Guarapuava foi conhecida por estar localizada no
Centro-Oeste do Paraná, mas essa identificação, apesar de fundo histórico
já que a área do município abrangeu por muito tempo boa parte da porção
central e oeste do Estado, por essa razão era o único município na faixa
6
centro-oeste , é totalmente informal. Mesmo na antiga regionalização que

6
Se antes de 1941, ou seja, da primeira divisão regional oficial do IBGE, Guarapuava por muito
tempo constituía um dos poucos municípios nas partes central e oeste do Paraná, quando da
regionalização essa realidade estava modificada. Conclui-se que oficialmente, pelas divisões

60
vigorou até 1968, a zona fisiográfica onde estava localizada Guarapuava já
separava esse município de qualquer vínculo com Oeste ou Centro-Oeste
e isso permaneceu entre 1968 e 1989 quando a microrregião homogênea
de Guarapuava, denominada “Campos de Guarapuava” substituiu a zona
fisiográfica. Na regionalização oficial, a única região que pode ser chamada
de “Centro-Oeste” seria a mesorregião Centro-Ocidental que tem como
município mais importante Campo Mourão. No caso de Irati a confusão
é mais atual. O município pertence à Mesorregião Geográfica Sudeste
Paranaense, e por vezes sua localização é confundida, pela proximidade,
como integrante do Centro-Sul (que abrange Guarapuava e Palmas).
Obviamente, empresas e instituições públicas e privadas possuem suas
próprias regionalizações. Entretanto, as mesmas não podem servir de parâmetro
geral. O que se propõe é o reconhecimento das corretas divisões oficiais para
evitar equívocos nas pesquisas de âmbito acadêmico. Quando a universidade
se apóia num engano, por desconhecimento ou falta de informações, tende a
propagar esse mesmo equívoco. As instituições públicas servem como referência
na sociedade e nada mais do que justo que estejam muito bem embasadas.

Considerações finais
A divisão regional constitui um importante mecanismo da administração
e do planejamento público. Considerando a diversidade de regionalizações
praticadas individualmente por iniciativa pública ou privada, faz-se necessário
reconhecer um parâmetro geral de divisão regional que oriente e identifique
os estudos e pesquisas, bem como para as políticas públicas. Cabe, portanto, à
regionalização oficial organizada e atualizada pelo IBGE esse papel.
O geógrafo tem como uma de suas atribuições legais a regionalização, e
desempenha isso nas instituições em que exerce suas atividades, como IBGE,
IPARDES, prefeituras, universidades, etc. Também um dos papéis da Geografia
no meio acadêmico é de orientar, segundo as contribuições especificamente
geográficas, para uma melhor compreensão espacial do território. Nesse
sentido a vocação regional da Geografia começa na identificação e delimitação
da própria região onde se insere. Como a divisão regional oficial tem um caráter
fixo por se constituir um quadro rígido, como lembram Silva e Linhares (1995),
o maior problema está na necessidade de atualização já que os critérios com os

regionais do IBGE, Guarapuava jamais pertenceu a uma região Centro-Oeste, a não ser enquanto
unidade municipal que abrangia mais da metade do território estadual muito antes da criação
do IBGE. Ou seja: esse município nunca pertenceu a alguma região Centro-Oeste, mas a posição
geográfica de sua área englobava o centro e o oeste do Paraná (Figura 1).

61
quais a Geografia trabalha são dinâmicos. O questionamento acadêmico dos
recortes regionais ou a proposição de reavaliação dos mesmos devem, então,
ser embasados no conhecimento das divisões regionais, seus critérios e usos.

Referências
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Revista Biblioteconomia, Brasília, v. 4, n. 1, jan./jun. 1976.
ANDRADE, Manuel Correia de. Espaço, polarização e desenvolvimento.
5ª ed. São Paulo: Atlas, 1987.
______. O planejamento regional e o problema agrário no Brasil. São
Paulo: Hucitec, 1976.
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ESTATÍSTICA. Boletim de serviço: 1763 (suplemento). Rio de Janeiro, jul.
1989.
______. Divisões regionais: mapas interativos – divisão territorial.
Disponível em: < http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/geografia/
default_div_int.shtm > . Acesso em: 19 abr.2008.
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______. Estatísticas do século XX. Disponível em: < http://www.ibge.
gov.br/home/presidencia/noticias/29092003estatisticasecxxhtml.shtm>.
Acesso em: 11 abr. 2008.
BRASIL. MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO. Estudo da dimensão
territorial do PPA: regiões de referência em escala nacional. Documento
preliminar para discussão. Brasília, out. 2006.
CASTRO, Iná Elias de. Visibilidade da região e do regionalismo. In:
LAVINAS, Lena; CARLEIAL, Liana Maria; NABUCO, Maria Regina.
Integração, região e regionalismo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.
CORRÊA, Roberto L. Trajetórias geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1997.
DOLFUS, Olivier. O espaço geográfico. 4. ed. São Paulo: Difel, 1982.

62
DUARTE, Aluizio Capdeville. Regionalização: considerações metodológicas.
Boletim de Geografia Teorética, Rio Claro v. 10, n. 20, p. 5-32, 1980.
FAJARDO, Sergio. Aspectos da ocupação, da formação da estrutura produtiva
e das transformações na paisagem regional no território paranaense.
Caminhos da Geografia, Uberlândia, v. 7, n. 2, Fev. 2007, p. 89 – 101.
GEIGER, Pedro Pinchas. Divisão regional e problema regional. Rio de
Janeiro: IBGE, 1970.
IPARDES – INSTITUTO PARANAENSE DE DESENVOLVIMENTO
ECONÔMICO E SOCIAL. Leituras regionais: mesorregiões geográficas
paranaense (sumário executivo). Curitiba: Ipardes, 2004.
LIMA, Maria Helena Palmer (org.). Divisão territorial brasileira. Rio de
Janeiro: IBGE, 2002.
OLIVEIRA, Lívia de. Percepção espacial e regionalização. Cadernos da
UNB. Publicação do Seminário sobre a organização regional no Brasil,
Brasília, 9-13, out. 1978.
PADIS, Pedro Calil. Formação de uma economia periférica:o caso do
Paraná. São Paulo: Hucitec, 1981.
PATTISON, William. As quatro tradições da geografia. Boletim Carioca
de Geografia, v. 1, Rio de Janeiro, 1976.
SILVA, Francisco Carlos Teixeira; LINHARES, Maria Yedda L. Região e história
agrária. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.8, n.15, 1995, p. 17-26.

63
Anexo
Cartograma: Brasil - Evolução das unidades político-adminstrativas - divisão
regional

64
65
Boa Ventura de São Roque no contexto da
microrregião de Pitanga-PR
1
BINDA, Andrey Luis
2
SCHMIDT, Lisandro Pezzi

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo caracterizar o município


de Boa Ventura de São Roque no contexto da microrregião de Pitanga. Para
isso, utilizou-se de dados secundários, principalmente os disponíveis pelo
Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES) que
culminaram na elaboração de gráficos e quadros de diferentes informações.
Além disso, foram realizados mapas temáticos, com auxílio do software
SPRING versão 4.3.3. Neste sentido, inicia-se o texto com a apresentação do
perfil geral da microrregião de Pitanga como um todo, sendo seguido pela
caracterização físico-econômica e social do município de Boa Ventura de
São Roque. Dessa forma, pretende-se chegar a um quadro geral do papel do
município de Boa Ventura de São Roque, na microrregião de Pitanga.
Palavras-chave: microrregião de Pitanga; Boa Ventura de São Roque;
desenvolvimento.

Introdução
A preocupação com o desenvolvimento local tem assumido grande
importância no debate acadêmico nos últimos anos e tem direcionado
o conhecimento e avanço nas propostas de intervenção por parte das
políticas públicas.
Constata-se que, a despeito do imenso progresso e avanço
tecnológico alcançados pela humanidade nos últimos cem anos, o modelo
de desenvolvimento adotado gerou também ampliação da desigualdade na
distribuição de bens e serviços e nas condições de vida da população, além
de profunda degradação ambiental (NAHAS, 2005).

1
Licenciado e Bacharel em Geografia pela Universidade Estadual do Centro Oeste-UNICENTRO
– Guarapuava-PR. Discente do Programa de Pós-Graduação em Geografia – Nível Mestrado – da
Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE – Fco. Beltrão-PR. Bolsista da DS da
CAPES, e-mail: andrey_geobass@hotmail.com.
2
Docente do Departamento de Geografia da UNICENTRO. Doutorando em Geografia pela
Universidade Federal de Santa Catarina, e-mail: lpezzi@bol.com.br.
O presente trabalho constitui resultados parciais de um levantamento
físico e social realizado no ano de 2007 nos municípios que compreendem a
microrregião de Pitanga. Nesse caso, a interpretação dos dados apresentados
tem como foco o município de Boa Ventura de São Roque, considerando o
conjunto de condições físicas e sociais e pelas demais características levadas
em efeito para análise.
O texto apresenta algumas características da microrregião de
Pitanga, seguido da caracterização física, econômica e social do município
de Boa Ventura de São Roque e, em seguida, o contexto desse município na
microrregião de Pitanga.

Materiais e métodos
A seleção dos indicadores foram orientados para a busca de uma
caracterização física e social dos municípios da microrregião de Pitanga.
Para a realização da pesquisa, buscou-se compilar diferentes dados de
natureza secundária, tais como: Índice de Desenvolvimento Humano, Grau
de Urbanização, Produção Agrícola, Atividades Econômicas, entre outros;
disponíveis pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e
Social (IPARDES) e também dados a respeito das características físicas do
município (bases cartográficas e mapas temáticos - IPARDES).
Para alcançar o objetivo, realizou-se os seguintes procedimentos:
- reunião de dados secundários e revisão bibliográfica
- trabalho em gabinete e laboratório: após a compilação e
classificação dos dados mais relevantes à pesquisa, elaborou-se
gráficos e quadros. Além disso, foram elaborados mapas temáticos
através da utilização do software SPRING.
- trabalho de Campo: a partir dos dados levantados nas duas
primeiras etapas, realizou-se um trabalho de campo no município
de Boa Ventura de São Roque, no sentido de realizar verificações in
loco e a aplicação de entrevistas com representantes das Secretarias
da Agricultura e Meio Ambiente da Prefeitura Municipal.

68
Resultados e discussões

A microrregião de Pitanga
A microrregião de Pitanga está localizada no extremo norte da
mesorregião Centro-Sul paranaense (Figura 1). É composta por seis municípios
(Pitanga, Palmital, Santa Maria do Oeste, Boa Ventura de São Roque, Laranjal
e Mato Rico) que juntos perfazem uma área territorial de aproximadamente
4904,634 km2. A configuração territorial da microrregião de Pitanga é
relativamente recente, visto que os municípios que a compreendem são em sua
maioria (com exceção de Pitanga e Palmital) de instalação recente (menos de
15 anos), desmembrando-se, sobretudo, na década de 90 (IPARDES, 2007).
Figura 1- Localização do município de Boa Ventura de São Roque-PR

A cobertura florestal natural da microrregião é composta


predominantemente pela Floresta Ombrófila Mista, embora haja a
ocorrência de segmentos da Floresta Estacional Semi-decidual. Cerca de
70% de suas terras situam-se entre 600 a 1000 m de altitude. No que tange
às classes de declividade da microrregião de Pitanga, fica evidente que a
maior parte da área (47,10%) situa-se entre 20 e 45%, ou seja, em áreas com
relevo fortemente ondulado (IPARDES, 2003a).
A população total da microrregião de Pitanga, segundo dados do
censo de 2000, é de aproximadamente 84.855 mil pessoas. No entanto,

69
conforme trabalho realizado pelo IPARDES (2000) onde foram realizadas
projeções referentes às populações até o ano de 2010, percebe-se nitidamente
o processo de esvaziamento populacional da microrregião.
Considerando a população por zona de residência, nota-se para a
microrregião de Pitanga um quadro predominantemente rural, exceção feita
ao município de Pitanga onde é possível perceber um grau de urbanização
de 51,14%. O município de Palmital pode ser considerado a caminho da
urbanização visto seu grau de urbanização de 42,28%. Os demais municípios
apresentam um grau de urbanização entre 14,50 a 23,28% (IPARDES, 2007).
No que se refere aos Índices de Desenvolvimento Humano dos
municípios (IDH-M) que compõem a microrregião de Pitanga, os valores
variam de 0,640 (Mato Rico) a 0,743 (Pitanga). Fato interessante ocorre
comparando os municípios da microrregião com a classificação paranaense
de IDH-M. Fica evidente que se trata de uma área com baixíssimos IDH-M,
visto que quatro de seus municípios estão entre os quinze mais baixos IDH-
M do Paraná (Palmital 387°, Santa Maria do Oeste 392°; Laranjal 394° e Mato
Rico 397°) e mesmo considerando-se os demais municípios (Boa Ventura de
São Roque 301° e Pitanga 186°), percebe-se que a microrregião encontra-se
entre as mais carentes do Estado (IPARDES, 2003b).
Quanto à economia da microrregião de Pitanga, pode-se afirmar,
pautado nas tabulações realizadas com os dados do IPARDES (2007), que o
setor primário é a base econômica da microrregião. Assim, a agricultura e a
pecuária despontam como as principais atividades realizadas na microrregião .

Caracterização do município de Boa Ventura de São Roque


O município de Boa Ventura de São Roque localiza-se a leste da
microrregião de Pitanga (Figura 1), fazendo divisas com o município de
Turvo (Sul), Pitanga (Norte), Santa Maria do Oeste (Oeste) e Cândido
de Abreu (Leste), este último pertencendo à mesorregião Norte Central
Paranaense. O acesso à cidade é feito por estrada pavimentada que faz
entroncamento com a PR 460. O município apresenta uma população
total de 6780 pessoas (IBGE, 2000), distribuída desigualmente entre a
área urbana 15,93% e rural 84,07%. Tal fato reflete a alta taxa de pessoas
ocupadas em atividades econômicas voltadas, sobretudo à agricultura e
à pecuária. O distrito de Boa Ventura de São Roque desmembrou-se de
Pitanga e foi elevado ao grau de município no início do ano de 1997.
Considerando os aspectos geológico-geomorfológico do Estado do
Paraná, o município de Boa Ventura de São Roque está localizado no terceiro

70
planalto paranaense, mais especificamente no bloco planáltico de Campo
Mourão (MAACK, 2002). Os principais rios que drenam a área territorial
do município de Boa Ventura de São Roque, são: Rio Marrequinha, Rio
Bonito, Rio Pedrinho, Rio do Corvo, Rio Carazinho, Rio do Tigre, Rio das
Antas, entre outros.
Observa-se que a maioria dos rios acima mencionados nascem no
extremo sul do município correndo no sentido sudoeste-nordeste em direção
à calha do Rio Ivaí, o principal rio da região, exceção feita a alguns rios, tais
como: Rio Araguaí, Arroio Corrente e Arroio Buriti, que nascem no reverso
dos divisores d’água do rio Ivaí e correm em direção ao Rio Piquiri.
A altitude do município de Boa Ventura de São Roque varia
aproximadamente entre 440 a 1140 m, ou seja, com uma amplitude altimétrica
de cerca de 700 m, porém cerca de 61,03% de suas terras situam-se entre
altitudes que vão de 860 a 1040 m. Cotas altimétricas abaixo dessas ocorrem
em 33,32% e superiores ocorrem em apenas 5,65%. A Figura 2 espacializa as
classes hipsométricas para o município de Boa Ventura de São Roque.

Figura 2 - Mapa de hipsometria de Boa Ventura de São Roque

Edição e elaboração: Andrey Luis Binda (2007)


Fonte: Cartas Topográficas {1:100.000} SG. 22 - V-B-V {2821}
SG. 22 - V-B-VI {2822}
SG. 22 - V-D-II {2837}

O relevo do município de Boa Ventura de São Roque pode variar de


plano a ondulado, embora, em algumas áreas principalmente próximas ao
Rio Ivaí, ocorram relevos fortemente ondulados a montanhoso. Dessa forma,
a topografia do município tem íntima relação com a intensa dissecação
dos vales, o que condiciona a ocorrência de duas regiões bem definidas no
município: uma dela corresponde à metade sul, caracterizada por declividades

71
médias de 0 a 20%, e a outra referente à metade norte com declividades
superiores a 20% exceto nos topos planos dos morros. A figura 3 mostra de
maneira geral a espacialização das principais classes de declividade.

Figura 3 - Mapa de declividades

Edição e elaboração: Andrey Luis Binda (2007)


Fonte: Cartas Topográficas {1:100.000} SG. 22 - V-B-V {2821}
SG. 22 - V-B-VI {2822}
SG. 22 - V-D-II {2837}

O clima do município é Subtropical Úmido Mesotérmico do tipo Cfb


da classificação de Köeppen, caracterizado por verões frescos e a ocorrência
de geadas severas nos meses mais frios, sem estação seca, com temperaturas
que variam de 22°C nos meses mais quentes e 18°C nos meses mais frios,
sendo a média em torno de 20°C e precipitação entre 1600 a 1900 mm
(MAACK, 2002; PEREIRA, 2003; IPARDES, 2004). No entanto, segundo o
IPARDES (2004), em locais de baixa altitude ao longo do vale do Rio Ivaí
podem ocorrer microclimas do tipo Subtropical Úmido Mesotérmico, ou
Cfa, com verões quentes, geadas infreqüentes, e chuvas com tendência de
ocorrer principalmente durante o verão.
A cobertura vegetal do município é formada pela Floresta Ombrófila
mista, mais conhecida como “Floresta de Araucárias” que se desenvolve nas
áreas mais altas do município, além desta é possível encontrar principalmente
próximo à calha do Rio Ivaí segmentos da Floresta Estacional Semidecidual
(IPARDES, 2004).
Segundo dados do Censo Demográfico realizado pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano de 2000, o município de

72
Boa Ventura de São Roque tem uma população total de 6780 pessoas, que
representa uma densidade demográfica de 10,91 habitantes por Km2. No
entanto, estas pessoas estão distribuídas desigualmente no município, pois
apenas 1080 pessoas têm suas residências na zona urbana, sendo que as
demais 5700 pessoas residem na zona rural. Este fato demonstra um grau
de urbanização municipal na faixa de 15,92%.
No que tange à distribuição da população por faixa etária, nota-se
um grande percentual de crianças e adolescentes com idades entre 0 a 19
anos, que correspondem a cerca de 46,49% da população total. Em relação
à população por sexo, há 3536 homens (52,15%) e 3244 mulheres (47,85%)
(IPARDES, 2007). O gráfico 1 mostra a população por faixa etária e sexo
para o município de Boa Ventura de São Roque.

Gráfico 1 - População segundo as faixas etárias e sexo (2000)

Fonte: IBGE (2000). Org. Binda (2007)


Em trabalho realizado pelo IPARDES (2000) sobre as projeções da
população por município, Boa Ventura de São Roque aparece como um
município que apresenta um déficit populacional no período de 2000-
2010 da ordem de 27,92%, ou seja, uma redução da população total para
mais de 4000 pessoas.
Devido à predominância da população na zona rural, as atividades
predominantes são ligadas ao campo, como a agricultura e pecuária.

73
Segundo dados do Censo Demográfico de 2000 (IPARDES, 2007), acerca
das atividades econômicas desenvolvidas pela população do município,
aproximadamente 69% das pessoas estão ligadas a atividades relacionadas
à agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e pesca, ao passo
que atividades urbanas, tais como comércio, restringem-se a 4%.
A agricultura do município de Boa Ventura de São Roque é baseada na
pequena propriedade e pautada principalmente no trabalho familiar. Segundo
Pereira (2003), a área média das propriedades é de aproximadamente 20 ha.
Dentre os principais produtos agrícolas elaborados nas pequenas propriedades
estão o milho, soja e feijão; dentre os principais produtos de origem animal
está o leite e a seda (Secretaria da Agricultura Municipal, 2007).
Em relação aos principais produtos agrícolas produzidos no
município de Boa Ventura de São Roque, conforme os dados do IBGE da
Produção Agrícola Municipal (2005), merecem destaque a soja com 44%
da produção total, o milho com 43% e a cevada com 4%, sendo que os
demais produtos juntos somam apenas 9%.
No que tange à pecuária, os principais rebanhos do município são
os de bovinos e suínos, com 28.881 e 19.368 cabeças respectivamente. A
produção de galináceos também merece destaque com um número de
aproximadamente 42.000 animais (IPARDES, 2007).
O município de Boa Ventura de São Roque apresenta um IDH-M
segundo dados do IPARDES (2003b) de 0,711 que o coloca na 301° colocação
na classificação paranaense e segundo na classificação da microrregião,
ficando somente atrás do município de Pitanga com um IDH-M de 0,743.
Porém, há de se evidenciar que mesmo se tratando de um município
pequeno, Boa Ventura de São Roque sofre com problemas semelhantes de
cidades médias e grandes.
Os dados do IPARDES (2003) sobre as taxas de pobreza por município
paranaense trazem informações significativas para Boa Ventura de São
Roque. Em tal estudo, o IPARDES considera como famílias pobres aquelas
cuja renda per capita é de até ½ salário mínimo. Estes dados evidenciam
para o município um número de 800 famílias pobres distribuídas em 1991
na zona urbana e 709 na zona rural, que corresponde a uma taxa de pobreza
que atinge cerca 47,33% da população.
Embora não se possa falar em favelização na sede urbana do
município, já é possível verificar a formação de área carente, como a Vila
Gloeden. Segundo informações obtidas com a Prefeitura Municipal de Boa
Ventura de São Roque (2007), as pessoas que ocupam esse bairro, provêm
da zona rural, que, na ilusão de uma vida mais próspera, venderam suas

74
pequenas propriedades e se estabeleceram na cidade, onde desenvolvem
serviços sem muita qualificação.

O município de Boa Ventura de São Roque no contexto da


microrregião de Pitanga
O município de Boa Ventura de São Roque, com uma área de 621,319
km2 corresponde a aproximadamente 12,67% da área total da microrregião
de Pitanga, o que o coloca na quarta colocação, somente à frente dos
municípios de Laranjal (11,38%) e Mato Rico (8,09) e atrás dos municípios
de Pitanga (33,96%), Santa Maria do Oeste (17,24%) e Palmital (16,66%).
O município mais populoso da microrregião é Pitanga, que sozinho
representa mais de 42% da população. Boa Ventura de São Roque corresponde
a 7,99% da população total da microrregião ficando somente à frente de Mato
Rico com 5,30%. O quadro 1 apresenta os dados por município.

Quadro 1 - População total por município e percentual em relação à


microrregião, 2007
Município População %
Boa Ventura de São Roque 6780 7,99
Laranjal 7121 8,39
Mato Rico 4496 5,30
Palmital 16958 19,99
Pitanga 35861 42,26
Santa Maria 13639 16,07
Total 84855 100
Fonte: IPARDES (Cadernos Municipais, 2007). Org. Binda (2007)

Esta diversidade de extensões territoriais e taxas de população confere


a cada município diferentes taxas de densidade demográfica. Pitanga e
Palmital apresentam as maiores taxas de densidade demográfica, com
valores de aproximadamente 20 hab/Km2. Boa Ventura de São Roque se
caracteriza como a mais baixa taxa de densidade demográfica, com pouco
mais de 10 hab/Km2. O gráfico 2 mostra um comparativo entre as taxas de
densidade demográfica por município.
Com relação à produção agrícola (Produção Agrícola Municipal
– 2005 – IBGE apud IPARDES, 2007), o município de Boa Ventura de
São Roque se destaca no cenário da microrregião, principalmente com as
culturas de milho, soja e cevada com uma contribuição respectivamente de
14,73%, 23,58% e 34,66% da produção total em toneladas da microrregião,

75
ficando somente atrás do município de Pitanga que desponta com mais de
50% nessas culturas.

Gráfico 2 - Densidade demográfica por município

Fonte: IPARDES (Cadernos Municipais, 2007). Org. Binda (2007)

A pecuária (Pesquisa Pecuária Municipal – 2005 – IBGE apud IPARDES,


2007) do município no quadro da microrregião tem nos efetivos de suínos e
ovinos o seu maior destaque. O efetivo de suínos corresponde a 15,41% do
total da microrregião ficando apenas atrás de Pitanga com 44,25%. O rebanho
de ovinos compreende mais de 19% do total, atrás dos municípios de Pitanga
e Palmital, com mais de 20%. Mas é com o efetivo de ovinos tosquiados que o
município de Boa Ventura de São Roque desponta como o maior rebanho da
microrregião, contribuindo com mais de 32% do total à frente de municípios
como Palmital (25,77%) e Pitanga (20,62%). No entanto, o município de Boa
Ventura de São Roque apresenta baixos valores no contingente de bovinos
(8,96%) e galináceos (7,43%), o que o coloca em último colocado e penúltimo
respectivamente, da produção da microrregião.

76
Considerações finais
O município de Boa Ventura de São Roque, embora seja de instalação
recente, tem bons resultados nos setores de economia e bem estar social.
Isto se reflete na importante participação do município na agricultura e
pecuária da microrregião.
No entanto, a microrregião de Pitanga carece de políticas em conjunto,
que promovam o desenvolvimento desta parcela do estado do Paraná, que conta
com os mais baixos IDH-M. Além de pensar no desenvolvimento municipal, é
de suma importância que os municípios que compõem a microrregião invistam
em políticas públicas para o desenvolvimento microrregião.
Isto é fundamental, principalmente no presente momento de
implementação dos Planos Diretores, e é nesse viés que espera-se que este
trabalho venha a contribuir, no sentido de evidenciar as potencialidades, mas
também de ressaltar as dificuldades encontradas, afim de que estas possam ser
melhor entendidas e que se busquem alternativas para o seu desenvolvimento.

Referências
BRASIL. Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.
Censo Demográfico 2000. Disponível em: <http://ibge.gov.br/home/
estatistica/populacao/censo2000/universo.php?tipo=31&paginaatual=1&
uf=41&letra=G>. Acesso em: 26 mar. 2007.
IPARDES, Instituto Paranaense de desenvolvimento Econômico e Social.
Paraná: projeções das populações municipais por sexo e idade 2000-2010.
Curitiba: IPARDES, 2000.
IPARDES, Instituto Paranaense de desenvolvimento Econômico e Social.
Indicadores e mapas temáticos para o planejamento urbano e regional.
Curitiba: IPARDES, 2003a.
IPARDES, Instituto Paranaense de desenvolvimento Econômico e Social.
Índice de desenvolvimento humano municipal – IDHM – 2000: anotações
sobre o desempenho do Paraná. Curitiba: IPARDES, 2003b.
IPARDES, Instituto Paranaense de desenvolvimento Econômico e Social.
Leituras Regionais: Mesorregião Centro-Sul Paranaense. Curitiba:
IPARDES/BRDE, 2004.

77
IPARDES, Instituto Paranaense de desenvolvimento Econômico e Social.
Cadernos Municipais (Municípios de Boa Ventura de São Roque, Pitanga,
Santa Maria do Oeste, Laranjal, Mato Rico, Palmital), 2007.
MAACK, R. Geografia física do estado do Paraná. 3. ed. Curitiba:
Imprensa Oficial, 2002.
NAHAS, Maria Inês Pedrosa. Indicadores intra-urbanos como instrumentos
de gestão da qualidade de vida urbana em grandes cidades: discussão
teórico-metodológica. Curitiba: Ipardes, 2005 (Texto para discussão).
PEREIRA, A.C. Desenvolvendo ecoturismo rural em Boa Ventura de São
Roque. Campo Mourão: MR Gráfica e Editora, 2003.

78
Estudo geo-histórico de Mamborê-PR

1
CUNHA, Márcia Cristina da

Resumo: Este trabalho faz parte de um projeto maior cujo tema é “Cidades
pequenas, mapeamento urbano, histórico e cultural”, e trata da microrregião de
Campo Mourão. Nele, foram estudadas as pequenas cidades com a finalidade
de mapear suas características físico-ambientais e sócio-culturais, além de sua
história. No caso específico desta pesquisa, observamos que se trata do município
de Mamborê, para o qual voltamos nossa atenção no processo investigativo. O
presente trabalho trata de um estudo a respeito de espacialidades urbanas e que,
neste caso, em particular, trata da cidade de Mamborê, a qual pertence à região
da COMCAM (Comunidade dos municípios da região de Campo Mourão).
Os passos da pesquisa estão direcionados primeiramente para o levantamento
da história e do planejamento urbano, para posteriormente se investigar a
cultura Mamboreense. Esta pesquisa se propõe estudar uma pequena cidade,
Mamborê, a que pertence à microrregião de Campo Mourão com o intuito de
obter informações destacando seus aspectos geo-históricos. Foram analisados
diversos fatores, desde a ocupação até os dias atuais, as mudanças ocorridas
e o crescimento urbano. O Município de Mamborê localiza-se na região
Centro Oeste do Estado do Paraná 750 metros acima do nível do mar. Situa-
se a 24º17’30” de latitude e a 52º31’36” de longitude. Com uma superfície de
798,6Km2, Mamborê corresponde a 0,4% da área do Estado. Sua população,
no ano de 2000, era de 15.287 habitantes, sendo 8.033 na área urbana e 7254
na área rural. Limita-se, ao norte com Campo Mourão e Farol, ao Sul com
Nova Cantu e Campina da Lagoa, ao leste com Luiziana e ao oeste com Boa
Esperança e Juranda. Mamborê está localizado na região Centro-Oeste do
Estado do Paraná. Sua história começou por volta de 1918 com a procura de
erva-mate. Surgiram então Companhias Exportadoras de erva-mate e com elas
os acampamentos de Lupaí, Memória, Bocaí, Central Santa Cruz, Porto Piquiri
e Natividades, compostos por paraguaios e argentinos. Foi a Companhia
paraguaia Alica que formou o acampamento chamado de Hamam-amburê.
Hamam, na língua tupi-guarani significa Local Distante e Amburrê: Reunião
de pessoas. Simplificado com o tempo, o nome então: Mamburê
Palavras-chave: cidade; projeto urbano; território.

1
Geógrafa. Professora e pesquisadora do Departamento de Geografia da UNICENTRO.
Introdução
O espaço urbano estudado é caracterizado por uma dinâmica que
pode ser modificada ou transformada com o passar do tempo. Mas apesar
das várias transformações que possam vir a ocorrer, uma pequena cidade,
no caso, Mamborê (vide mapa 1), terá sempre seu encanto, assim como
tantas outras cidades, sejam elas pequenas, médias ou grandes. Com essa
perspectiva, as cidades muitas vezes têm seu sentido de acordo com os
olhos que a observam; Marco Pólo, em Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino
descreve a Kublai, a cidade Ândria,
Segundo ele:

Ândria foi construída com tal arte que cada um de suas ruas
segue a órbita de um planeta e os edifícios e os lugares públicos
repetem a ordem das constelações e a localização do astro mais
luminoso: Antares, Alpheratz, Capela, Ceifeidas. O calendário da
cidade é regulado de modo que trabalhos e ofícios e cerimonias se
disponham num mapa que corresponde ao firmamento daquela
2
data: assim os dias da terra e as noites nos céus se espelham .

A cidade apresenta, portanto, características e sentidos diferentes


mudando suas formas com relação às diferentes observações e, ao mesmo
tempo, é capaz de preservar a clareza de seus traços nas formas que foram
previamente traçadas. Nesse sentido, propõe-se a estudar o planejamento
urbano, a ocupação, enfatizando a cultura dos habitantes Mamboreenses e
considerando seus aspectos geo-históricos.
As cidades trazem consigo uma bagagem que foi acumulada ao longo
do tempo; assim como o homem tem uma memória que foi arquivada dia
após dia; ambos têm uma história, um passado uma relação envolvendo
diferentes sentimentos. Por isso, é importante a realização de um estudo
mais aprofundado das pequenas cidades em individual, para que se obtenha
um conhecimento mais específico e objetivo dos municípios pertencentes
à Micro região de Campo Mourão (ver mapa 1). Cada elemento estudado
merece uma expressiva atenção, pois oferece informação sobre o município,
seu comércio, qual o tipo de atendimento à saúde, como são conduzidas
as propostas de educação, o traçado de suas ruas, como foram planejadas,
assim como, qual o nível de vida da população.

2
CALVINO, Ítalo. As cidades Invisíveis. Trad. Diogo Mainardi, São Paulo: Companhia das Letras,
1990, p.52.

80
O município de Mamborê foi caracterizado pela exploração da erva-
mate, isso o torna importante para a região, sendo este um dos principais
fatores que contribuíram para o início da exploração do município. Muitos
são os objetivos que levam à ocupação de um município fazendo com que
cresça o número de seus habitantes.
No caso de Mamborê, a exploração da erva-mate e da madeira
trouxe aos moradores a oportunidade da formação de um município que,
aos poucos, foi se desenvolvendo. Essa exploração foi importante para o
município, permitindo assim o início de sua formação.
Cada aspecto geo-histórico a ser estudado merece uma atenção minuciosa,
sendo estes os pontos primordiais da pesquisa, trazendo informações concretas
e objetivas com relação ao município. Vale lembrar que a sociedade tem uma
participação ativa no desenvolvimento de um município, portanto, é de suma
importância inter-relacionar sua atuação ao longo da história no município de
Mamborê, bem como o crescimento urbano. Dessa forma, alguns objetivos se
fizeram necessários para o desenvolvimento do trabalho, tais como: Investigar o
processo de ocupação e organização que se processou até o presente momento.
Procurar identificar o tipo de planejamento urbano, identificar a área urbana,
seus bairros, jardins, vilas, conjuntos, levantar informações com relação aos
aspectos geo-histórico, e averiguar os tipos de festejos que fazem parte da
cultura Mamboreense e sua relativa importância.
Figura 1 - Microrregião de Campo Mourão

Fonte: City Brazil (www.citybrazil.com.br/pr/mapapr.gif)

81
Metodologia
Nessa pesquisa, o método aplicado foi o método investigativo, com
leituras em obras como Carlo Ginzburg, mais especificamente sua obra “Mitos,
Emblemas, Sinais”, As cidades invisíveis de Ítalo Calvino, fazendo-se necessárias
ainda leituras em várias outras obras, como “A Imagem da Cidade” de Kevin
Lynch e outros. Foi realizado o levantamento fotográfico do município:
ruas, comércio, escolas, lugares, também referentes ao passado e entrevista
com os moradores mais antigos. Visita à prefeitura no setor da Secretaria de
Planejamento Urbano, Cultura e outros que se fizeram necessários. Foram
3 4
feitos levantamentos junto ao IBGE para verificar o IDH da população.
Cada passo da pesquisa foi previamente traçado, com leituras, para
obter um maior conhecimento sobre a cidade, depois visita à prefeitura
para obter a carta do município e planta da área urbana. Consulta à fonte
de Vilson Olipa que fala sobre a História de Mamborê mereceu uma
investigação mais minuciosa. Na seqüência, foram feitas as entrevistas com
os moradores mais antigos do município para investigar o tipo de ocupação.
O planejamento urbano do município foi pesquisado junto à prefeitura,
assim como as manifestações culturais, e também uma pesquisa de campo
nas localidades de maior tradição do município com relação as suas etnias,
com o objetivo de verificar sua importância para a população.

Discussões e resultados
A cidade pode ser verificada pela sua estrutura, número de habitantes,
cultura, enfim. Alguns só consideram cidade aquela que possui certo
número significativo de habitantes, mas mesmo quem mora em uma cidade
pequena, considera o lugar onde mora como sendo uma cidade. E assim se
torna muito relativo o conceito de cidade, sendo um simples aglomerado
de pessoas ou milhares de habitantes em um determinado lugar.
Muitas vezes as cidades são formadas sem planejamento prévio,
crescendo de forma desordenada e imprevista, dando novas formas à cidade
pré-existente que aos poucos se renova. Uma cidade pode ser caracterizada
pela sua história, vias, indústrias, turismo, forma, ou seja, ao se estruturar
vão adquirindo formas e características ao longo do tempo que podem ou
não desaparecer. Nesse sentido, a iniciativa de Vilson Olipa de publicar

3
IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
4
IDH: Índice de Desenvolvimento Humano.

82
o livro a História de Mamborê trouxe aos habitantes do município a
oportunidade de compreender melhor a História do lugar onde moram.
Através de sua fonte percebemos a trajetória percorrida pelo município
de Mamborê, desde a sua fundação até os dias atuais. As terras onde se localiza
o atual município de Mamborê já foram território espanhol. Na época em que
vigorava o tratado de Tordesilhas (Século XVII e XVIII), somente a parte Leste
do estado do Paraná pertencia aos portugueses, mas as primeiras intervenções
de exploradores na região só aconteceram por volta de 1918. Vale lembrar que
é um caminho bastante famoso no estado do Paraná e tem sua importância
também para o município de Mamborê, segundo Vilson Olipa:

O caminho de Peabiru tinha uma extensão de aproximadamente


3.000 mil quilômetros . Além desse marco principal, havia
ramificações do caminho e uma passaria pela região de Campo
Mourão. Há dúvidas quanto ao traçado exato dessa ramificação,
mas apresentamos uma seqüência de municípios, que existem
atualmente, pelos quais o caminho provavelmente tenha
passado: Engenheiro Beltrão, Peabiru, Campo Mourão, Luiziana,
Mamborê, Nova Cantu, Campina da Lagoa, e Ubiratã5.

O caminho de Peabiru foi de grande importância não só para


Mamborê, mas também para vários outros municípios. A partir de então,
com o passar do tempo, a exploração foi cedendo lugar à ocupação e dando
origem a pequenos municípios, cada um com seu traçado próprio de forma
ordenada ou não. No começo de sua ocupação, assim como tantas outras
cidades, Mamborê era visto como um pequeno vilarejo, sem infra-estrutura,
servindo como base de exploração para os moradores locais e exploradores
da região, e dessa forma cada cidade foi aos poucos se transformando,
direcionada por um traçado urbano ainda não determinado.
Para descrever uma cidade é necessário mais que observação,
é necessário mínimos detalhes e compreensão de seus traços, não basta
descrever uma cidade só por descrever, é preciso que se sinta parte desse
ambiente, que se esteja inserido nesse meio. Para Ítalo Calvino, as cidades
que Pólo descrevia á Kublai representam ambientes variados:

Recém chegado e ignorado totalmente as línguas do levante,


Marco Pólo só podia exprimir extraindo objetos de suas malas:
tambores, peixes salgados, colares de dentes de facoquerose

5
OLIPA, Vilson. História de Mamborê: [s.e], 1998:10.

83
indicado-os com gestos, saltos, gritos de maravilha ou de horror,
6
ou imitando o latido do chacal e o apoio do macho .

Existem cidades que encantam com sua pureza, arborizarão ou algo


mais que venha para contribuir com a cidade. Isso nos da à idéia de que
cada cidade tem suas próprias características, encantos e segredos.
“A clareza ou legibilidade de cada cidade varia muito de acordo com
7
sua estrutura, e é de grande valor e importância para sua identificação ”.
A forma que toma uma cidade é muito importante e pode variar
de município para município. Se este for planejado, provavelmente vai
tomar a forma que lhe foi antecipada, como por exemplo, Brasília, que tem
a forma de um avião ou pássaro dependendo da interpretação de cada um.
Mas quando a cidade não é planejada, como o município de Mamborê no
início de sua exploração, a forma nem sempre é a ordenada, pois muitas
vezes as cidades que são ocupadas tendem a se estruturar de acordo com
as necessidades que vão surgindo no decorrer da ocupação. E mesmo em
algumas cidades planejadas as formas podem ir se modificando com o
tempo em razão de um crescimento desordenado de seu território.
O crescimento da cidade altera substancialmente sua estrutura urbana,
à medida em que surgem novos bairros. A expansão da ocupação e o aumento
da população estimulam o aparecimento de áreas voltadas ao comércio
e à prestação de serviços. Este movimento pode ser considerado positivo,
porque facilita o acesso aos serviços públicos e ao comércio, e negativo
quando não planejada a ocupação de novos bairros, torna-se impulsionada
a aglomeração da população. Dessa forma, o crescimento da cidade se deu
de acordo com as necessidades impostas pelo mesmo. Atualmente com
14.509 habitantes, conforme estimativa do IBGE em 2006, e 11.074 eleitores,
o município conta com importantes comunidades rurais, como Guarani,
Pensamento, Canjarana, Gavião, entre outros. Com 980 metros de altitude, o
clima é sub-tropical úmido mesotérmico, com verões caracterizados por altas
temperaturas e baixa frequência de geadas durante o inverno. O Município
de Mamborê localiza-se na região Centro Oeste do Estado do Paraná, a 750

6
CALVINO, Ítalo. As cidades Invisíveis. Trad. Diogo Mainardi, São Paulo: companhia das Letras,
1990:41.
7
Kevin Lynch faz um estudo examinado a qualidade visual da cidade estadunidense por meio de
estudo da imagem mental que dela fizeram seus habitantes, concentra-se na clareza ou legibilidade
dada aparente da cidade. Dessa forma pretende indicar a facilidade com que as partes da cidade
podem ser reconhecidas de forma legível, onde seus bairros, vias ou marcas, sejam facilmente
reconhecíveis e organizados. LYNCHE, Kevin. A Imagem da Cidade. Trad. Jefferson Luis Camargo.
São Paulo: MARTINS Fontes, 1997:227.

84
metros acima do nível do mar. Situa-se a 24º17’30” de latitude e a 52º31’36” de
longitude. Com uma superfície de 798,6Km2, Mamborê corresponde a 0,4%
da área do Estado. Sua população, no ano de 2000, era de 15.287 habitantes,
sendo 8.033 na área urbana e 7254 na área rural.
A cultura que se apresenta em uma cidade é de suma importância
para seus habitantes; tradições, prato típico, vestuário entre outros aspectos,
contribuem para a formação de uma cidade. Sendo assim, segue a relação
dos principais eventos culturais do município de Mamborê.

Descrição de eventos e festividades populares:


- Exposição e Feira Agropecuária, (Expomam)
- Festa da Padroeira Nossa Senhora Imaculada Conceição.
- Festa das Comunidades, Ranchinho, Sununum, Água da Palmeira,
Araçá, Pensamento, Canjarana, Lageado, Clauri, Água grande,
Gavião e Guarani.
- Feira de Artesanato, Amaarte.
- Festa da Viola.
- Festa Junina.
- Concurso Quadrilha Mocrimam.
- Baile do Chope
- Festa da Igreja Alto da Glória.
- Festa da Igreja Ucraína.
- Cavalgada.
- Desfile Cívico.
- Recital de Música.
- Baile do Município.

Lazer e entretenimento
- Mamborê Clube de Campo

85
- CTG Galpão da amizade
- AABB
- ARCAM
- ARESMUM
- Comunidade Gavião

Atrações turísticas não exploradas

- Igreja subterrânea (Gavião);


- VI Cavalgada (ecoturismo);
- Artesanatos;
- Defumados
- Turismo de eventos;
- Rios;
- Pesque e Pague;

Eventos municipais

- XVI Feira Agropecuária e Industrial;


- Rodeio Crioulo, (CTG);
- Leilões de Pecuária;
- Junifesta (festas juninas);
- Festa da Padroeira;
- Festa Cívica;
- Festa Folclórica;

Agenda cultural

- Feira do Artesanato (duas vezes no ano);


- Festival da Viola (setembro);

86
- Festas Juninas;
- Festa Folclórica;

Considerações finais
Em 1962, Mamborê foi oficializado como cidade com Perímetro
Urbano. Somente nos anos 90 começam a surgir loteamentos como Jardim
das Américas, Alto da Colina, Santa Luzia, Novo Horizonte, além dos rios
que limitam o seu perímetro. Todavia, sua expansão deve se dar para o Oeste,
que oferece todas as condições topográficas e existência de infra-estrutura
básica, onde está localizado o cemitério municipal, por onde deverá passar a
futura perimetral, através da estrada ali existente, até a saída do Guarani.
Parcialmente, sua expansão deve se dar para o Leste, além de trechos
inadequados em topografia, presenciamos áreas com mata nativa ao
Sudeste, além da rede de alta tensão ali marcante. Ainda a Leste, conferimos
à existência do Clube, Estação da Copel e várias chácaras que devem
referenciar a sua expansão em áreas de lazer. Ao Norte, limita-se também
sua expansão, principalmente porque o novo perímetro deve ficar muito
próximo das áreas consolidadas.
Mamborê é um municio que tem possibilidades de crescer tanto
no aspecto de crescimento urbano quanto na qualidade de vida de seus
moradores. Isso depende de fatores como: infra-estrutura, economia,
educação, entre outros. Independente de sua possível melhora, o município
já tem sua relativa importância para a região da COMCAM, no aspecto
econômico, relacionado com a agropecuária, principal atividade do
município. Dessa forma, nota-se que apesar de uma exploração desordenada
e crescimento urbano não planejado, o município se desenvolveu atendendo
às necessidades de seus habitantes.

Referências
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis: Tradução, Diogo Mainardi, São
Paulo: Companhia das Letras, 1990).
CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: 1 artes de fazer. Tradução de
Ephraim Ferreira Alves, Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1994.
GINZBURG, C. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo,
companhia de Letras, 1989.

87
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Jefferson Luiz Camargo (trad). São
Paulo: Martins Fontes, 1997.
OLIPA, Vilson. História de Mamborê. (Mamborê, s.n), 1998.
IBGE – Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

88
Caracterização da pluviosidade na bacia
hidrográfica do Ernesto - Pitanga-PR
1
LANGE FILHO, Gerson
2
VESTENA, Leandro Redin

Resumo: O presente estudo teve por objetivo analisar a pluviosidade


na bacia hidrográfica do Ernesto, localizada no município de Pitanga-
PR. O recorte espacial foi determinado pela importância que a bacia
hidrográfica representa para a cidade de Pitanga, sendo o Rio Ernesto
manancial daquela cidade. Os dados de pluviosidade utilizados foram os
da estação pluviométrica, identificada pelo código número 02451013, da
ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), localizada a 24º45’26” de
latitude sul e 51º45’33” de longitude oeste, monitorada pela SUDERHSA
(Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e
Saneamento Ambiental), do período de 1966 a 2006. A metodologia
adotada pautou-se na tabulação da pluviosidade diária, na obtenção da
pluviosidade mensal, anual e sazonal, dos períodos de estiagem superior
a 15 dias, e na análise dos índices estatísticos: freqüência, desvio padrão,
coeficiente de variação. Os resultados obtidos foram que os anos de 1983
(2691,6 mm) e 1990 (2383,3 mm) foram os mais chuvosos, e os de 1988
(1214,9 mm) e 1977 (1229 mm) os mais secos. A pluviosidade mensal
fica em torno de 90 a 200 mm. A pluviosidade média anual na BHE é de
1.765 mm, sendo os meses de julho e agosto os mais secos, e os de janeiro
e outubro os mais chuvosos. Na BHE existem variações significativas na
distribuição pluviométrica mensal e anual, representadas pelo coeficiente
de variação, que variou entre 44,5 a 74,1%. As ocorrências de períodos de
estiagem igual ou superior a 15 dias se dão mais freqüentemente na estação
do inverno e outono, respectivamente. Apesar de o estudo ser preliminar,
o mesmo denota a importância de se conhecer a heterogeneidade da
precipitação, tanto quanto a quantidade total precipitada, visto que
esta subsidia ações que busquem prevenir e amenizar os impactos da
variabilidade, ou seja, dos períodos extremos. A escassez e/ou o excesso
de água ocasionam impactos ambientais indesejáveis, enquanto, aquela

1
Bolsista do Programa Educacional Tutorial - PET em Geografia da UNICENTRO. e-mail:
gersonlange86@hotmail.com.
2
Professor do DEGEO/UNICENTRO. e-mail: lvestena@unicentro.br.
ocasiona redução na quantidade hídrica, perda de produtividade agrícola,
essa provoca inundações, assoreamento, movimentos de massa e erosão.
Palavras-chave: estiagem; pluviosidade; Pitanga.

Introdução
As principais características da água são a circulação natural (ciclo
hidrológico ou ciclo da água), a variabilidade (heterogeneidade) espacial e
temporal, apontam Kobiyama et al., (2007).
A precipitação em excesso pode causar sérios problemas ambientais,
como inundações e movimentos de massas, enquanto sua escassez, queda
na produtividade agrícola, racionamentos no abastecimento hídrico,
entre outros.
De acordo com Ayoade (1991, p. 167), a distribuição sazonal da
precipitação é tão importante quanto o volume total, independentemente
da localização da área geográfica estar em clima seco ou úmido.
A precipitação é influenciada por diferentes fatores, dentre os quais
se destacam a temperatura do ar, umidade relativa do ar, radiação solar,
relevo, dinâmica atmosférica, entre outros.
O entendimento da heterogeneidade da precipitação torna-se
indispensável nas atividades de planejamento ambiental, pois, fornece
informações que subsidiam um uso mais correto e racional dos recursos
naturais, principalmente os hídricos, visto que esta influencia na
disponibilidade hídrica.
Segundo Tucci e Beltrame (2000), a precipitação pode ser entendida
como toda água proveniente do meio atmosférico que atinge a superfície
terrestre. Neblina, chuva, granizo, saraiva, orvalho, geada e neve são formas
diferentes de precipitações. O que diferencia essas formas de precipitações
é o estado em que à água se encontra. Para Calasans et al., (2002), a
precipitação, na forma de chuva, neve ou granizo, é o principal mecanismo
natural de restabelecimento dos recursos hídricos da superfície terrestre.
No entanto, para o presente trabalho, o enfoque será dado à precipitação
em forma de chuva, sendo sua importância essencial, pois ela reside na
recarga dos mananciais hídricos superficiais e subsuperficiais de onde
dependem as quantidades demandadas da água para consumo humano,
industrial, agrícola, doméstico e animal.
É convencional classificar a precipitação, de acordo com as condições
atmosféricas que as originam em três tipos diferentes. De acordo com Ayoade
(1991), as precipitações dividem-se em: Convectiva, Ciclônica e Orográfica.

90
A convectiva ou frontal pode ser entendida como causa do
movimento vertical de uma massa de ar ascendente, usualmente mais
intensa do que a precipitação orográfica ou ciclônica. A precipitação
ciclônica é oriunda de movimento vertical do ar em grande escala,
associada com sistemas de baixa pressão como as depressões. A
precipitação é contínua e afeta áreas muito extensas à medida que
a depressão se desloca. Freqüentemente, ela dura de 6 a 12 horas. A
precipitação orográfica é usualmente definida como sendo aquela que
é causada inteira ou principalmente pela elevação do ar úmido sobre
terreno elevado (montanhas) (AYOADE, 1991).
A chuva destaca-se por ser um importante agente modificador da
paisagem, sendo medida diariamente em pluviômetro ou pluviógrafo, o
total acumulado é registrado em milímetros (mm), assim, 1 mm de chuva
corresponde a 1 litro de água em uma superfície plana de 1 m2.
No Brasil, Santos et al., (2001) afirma que a maioria absoluta da
precipitação ocorre sobre a forma de chuva ou pluviosidade; diante disso,
o presente estudo tratara da chuva ocorrida na bacia do Rio Ernesto,
município de Pitanga-PR.
A escolha da bacia hidrográfica do Ernesto, como recorte espacial deste
estudo, deu-se por ser essa manancial da cidade de Pitanga, centro do Estado
do Paraná e por apresentar déficit hídrico em períodos de estiagem. Neste
contexto, o presente trabalho teve por objetivo avaliar a heterogeneidade
temporal da pluviosidade na bacia hidrográfica do Ernesto (BHE).

Materiais e métodos

Área de estudo
A BHE localiza-se na mesorregião centro-sul do Estado do Paraná,
entre as coordenadas geográficas 51º53’26” a 51º42’43” de longitude oeste e
24º49’38” a 24º45’00” de latitude sul, no município de Pitanga (Figura 1).

91
Figura 1 - Localização da BHE no município de Pitanga-PR

O Rio Ernesto configura-se como um dos afluentes do Rio Pitanga,


inserido na bacia hidrográfica do Paraná e na sub-bacia do Ivaí.
De acordo com Lange Filho e Vestena (2007), a BHE possui grandeza
de 2ª ordem, segundo a classificação de Strahler (1957). A área da BHE é
de 13,03km2 e o rio principal possui 10,65km de comprimento e índice
de compacidade (1,7), que apontam que a forma da bacia não favorece a
concentração do escoamento fluvial.

92
A BHE, de acordo com Maack (2002), está inserida na região central
do Estado, situada no 3º Planalto Paranaense, na transição do Planalto de
Guarapuava com o de Campo Mourão. O terceiro planalto representa o plano
de declive que forma a encosta da escarpa da Serra Geral do Paraná, sendo
denominada Serra da Boa Esperança, ou escarpa mesozóica. Esta escarpa
é constituída por estratos do arenito São Bento Inferior ou Botucatu, com
espessos derrames de lavas básicas muito compactas do trapp do Paraná,
que mais a oeste, atingem de 1100 a 1750 metros de espessura.
O clima na BHE é o Cfa-Subtropical Úmido Mesotérmico, de verões
frescos e geadas severas e muito freqüentes, com as seguintes médias
anuais: temperatura dos meses mais quentes inferior a 22ºC e dos meses
mais frios inferior a 18ºC; temperatura geral 17ºC; e umidade relativa do ar
80% (SPVS, 1996).

Procedimentos metodológicos adotados


O delineamento da BHE foi realizado a partir da carta topográfica
SG 22-V-B-V, MI2821, do ano de 1973, na escala de 1/100000, da Divisão
de Serviço Geográfico (DSG), como o auxilio do software Spring 4.3.2.
Os dados de pluviosidade adotados para representar a pluviosidade
na BHE foram da estação pluviométrica localizada a 24º45’26” de latitude sul
e 51º45’33” de longitude oeste, a 892m de altitude, identificada pelo Código
ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) com o número de 02451013,
monitorada pela SUDERHSA (Superintendência de Desenvolvimento de
Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental) do período de 41 anos (1966
a 2006). A escolha deu-se por esta estar inserida na área da bacia e pela
pequena área de drenagem da mesma (13,03 Km2).
Na tabulação, elaboração de gráficos e determinação dos índices
estatísticos, como: média anual, mensal, distribuição da pluviosidade sazonal,
desvio padrão, coeficiente de variação e períodos de estiagem superior a 15
dias, foi empregado o software Microsoft Office Excel versão 2003.

Resultados e discussão
A precipitação pluviométrica anual na BHE, entre os anos de 1966
e 2006, apresentou uma média de 1765 mm, sendo que o evento que
apresentou maior volume pluviométrico dia foi de 157,3 mm/24 h em 28
de setembro de 1998. Nesse mês a pluviosidade foi de 395 mm e o evento
representou aproximadamente 39,8 % do total mensal.

93
Comparando-se à média histórica do período estudado, com a
pluviosidade anual, os anos de 1983 (2691,6 mm) e 1990 (2383,3 mm)
foram os mais chuvosos e os anos de 1988 (1214,9 mm) e 1977 (1229 mm)
os mais secos (Figura 1).

Figura 2 - Pluviosidade anual comparada à média histórica

O ano mais chuvoso foi o de 1983 (2691,6 mm) e o menos chuvoso


o de 1988 (1214,9 mm). Estes, quando comparados, apresentam uma
amplitude de 1476 mm, o que representou duas vezes o volume médio
anual de chuva, no ano de 1983.
A elevada quantidade pluviométrica ocorrida no ano de 1983 pode
ser justificada pelo fenômeno de grande escala que ocorre no Oceano
Pacífico tropical chamado El Nino, que ocasiona aumento nos índices
pluviométricos no sul do Brasil (BERLATO e FONTANA, 2003).
A pluviosidade anual em 25% dos anos (10 anos) variou de 1700 a
1900 mm, enquanto, 22% da precipitação anual (9 anos) estão entre 1500
e 1700 mm. Apenas, em 4 anos (10%) ocorreram precipitações inferiores a
1300 mm; em 5 anos (12,5%), a precipitação ficou entre 1300 e 1500 mm;
em 7 anos (18%) a precipitação ficou entre 1900 e 2100 mm; também em 5
anos (12,5%) a precipitação foi superior a 2100 mm (Figura 2).

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Figura 3 - Pluviosidade anual por classe

A pluviosidade média mensal varia entre 130 a 200 mm, à exceção dos
meses de julho e agosto, que apresentam médias inferiores, ou seja, entre 105,2
e 97,8 mm, respectivamente. Os meses com maior média de pluviosidade
foram janeiro (198,1 mm), e outubro (193,9 mm) (Figura 3).

Figura 4 - Pluviosidade média mensal

Apesar dos valores médios de pluviosidade não mostrarem períodos


de estiagem e certa distribuição da pluviosidade ao longo do ano, é comum
ocorrerem grandes desvios dos valores médios, tanto para menos como
para mais. Destes, destacam-se os meses de outubro de 2005 (488 mm),
dezembro de 1981 (452,4 mm), e maio de 1992 (435,7 mm). Os meses em

95
que ocorreram desvios negativos foram abril de 1978, agosto de 1999 e
junho de 2002, que não apresentaram pluviosidade (Anexo I).
De maneira geral, quando se avalia a distribuição da pluviosidade
entre as estações do ano, não se percebe um regime sazonal na distribuição
da chuva, portanto, não há um período seco, mas sim uma ligeira diminuição
nos índices pluviométricos. A distribuição da pluviosidade média por estação
no período avaliado foi de 543 mm (31%) no verão, 497 (28%) na primavera,
390 mm (22%) no outono e 345 mm (19%) no inverno (Figura 4).

Figura 5 - Distribuição da pluviosidade sazonal

Os meses que apresentaram maiores desvios padrão foram os de


maio e setembro, enquanto, os de março e novembro, os menores. No que
se refere ao coeficiente de variação mensal, constatou-se que os meses maio
e julho foram os que apresentaram maiores variações, ou, contrário, os
meses de janeiro e outubro, que apresentaram os menores desvios (Figura
5). Contatou-se que o mês de janeiro é o que apresenta maior média
pluviométrica e menor coeficiente de variação.

96
Figura 6 - Coeficiente de variação mensal da pluviosidade

Na BHE, de modo geral, as chuvas de tipo convectiva predominam


no verão, enquanto no inverno predominam as ciclônicas ou frontais,
condicionadas pela ação da massa polar atlântica.
Para avaliar os períodos de estiagem, adotaram-se intervalos de
tempo de 15 dias ou mais sem chuva, por constatar em campo que a partir
deste intervalo de tempo ocorre considerável redução no índice de umidade
no solo e na descarga fluvial. Os períodos de estiagem foram tabulados
mensalmente, sendo computados ao mês que apresentou maior número de
dias sem chuva. Estes intervalos de tempo sem chuva foram mais freqüentes
nos meses de Julho e Agosto, meses que apresentam geralmente menores
índices pluviométricos mensais no decorrer do ano (Figura 6).

Figura 7 - Freqüência de períodos de estiagem superior a 15 dias

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Na figura 6, constata-se que a freqüência de períodos de estiagem
igual ou superior a 15 dias ocorre nas estações do outono e inverno, e com
menor freqüência na primavera e verão. Porém, observa-se também que
períodos de estiagem igual ou superior a 15 dias ocorreram em todos os
meses do ano, o que não descarta a necessidade de estudos mais detalhados
das épocas que estes períodos ocasionam maior impacto a população local
devido ao déficit hídrico.

Conclusões e considerações
A pluviosidade média anual na BHE é de 1765 mm, sendo os meses de
julho e agosto os mais secos, e os de janeiro e outubro os mais chuvosos.
Na BHE existem variações significativas na distribuição pluviométrica
mensal e anual, constatadas principalmente pelo coeficiente da variação
mensal, que apresentam valores entre 44,5 a 74,1%.
Os eventos extremos, como longos períodos de estiagem, afetam
à disponibilidade hídrica, que conseqüentemente impõem reduções
significativas na captação de água no manancial, enquanto grandes
quantidades chuva em pequenos intervalos de tempo, como os ocorridos
em 28 de setembro de 1998 (157,3 mm/24 h) favorecem a inundação, o
assoreamento, os movimentos de massa e a erosão. Neste sentido, o
entendimento da variabilidade pluviométrica subsidia ações que visem a
prevenir e amenizar os impactos desta nos períodos extremos.
No entanto, cabe ressaltar que o presente estudo é preliminar e que
futuros estudos devem avaliar os impactos da variabilidade pluviométrica
nas atividades agrícolas e no regime fluvial do Rio Ernesto.

Referências
AYOADE, J. O. Introdução à climatologia para os trópicos. 3. ed. Rio de
Janeiro: Editora Bertrand Brasil S.A., 1991.
BERLATO, M. A.; FONTANA, D. C. El Niño e La Niña: Impactos no clima,
na vegetação e na agricultura do Rio Grande do sul; aplicações de previsões
climáticas na agricultura. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003.
CALASANS, N. A R; LEVY, M. C. T dos; MOREAU, M. Inter-relações entre
Clima e Vazão. In: SCHIAVETT, A.; CAMARGO, A. F. M. (org). Conceitos
de bacias hidrográficas: teorias e aplicações. Ilhéus - BA: a autora, 2002.
p. 67-90.

98
KOBIYAMA, M.; MENDONÇA, M.; MORENO, D. A.; MARCELINO, I. P.
O.; MARCELINO, E. V; GONÇALVES, E. F; BRAZETTI, L. L. P.; GOERL,
R. F.; MOLLERI, G. S. F.; RUDORFF, F. M. Prevenção de desastres naturais:
Conceitos básicos. Curitiba: Organica Trading, 2006.
LANGE FILHO, G.; VESTENA, L. R. Aspectos morfométricos da bacia
hidrográfica do Ernesto, Pitanga/PR. In: WORKSHOP REGIONAL
DE GEOGRAFIA E MUDANÇAS AMBIENTAIS: DESAFIOS DA
SOCIEDADE DO PRESENTE E DO FUTURO, 1., 2007, Guarapuava.
Anais... Guarapuava: UNICENTRO, 2007. p. 211.
MAACK, R. Geografia física do estado do Paraná. 3. ed. Curitiba:
Imprensa Oficial, 2002.
S.P.V.S. Manual para Recuperação da Reserva Florestal Legal. Curitiba:
Tempo Integral, 1996.
SANTOS, I.; FILL, H. D.; SUGAI, M. R. V. B.; BUBA, H.; KISHI, R. T.;
MARONE, E.; LAUTERT, L. F. Hidrometria aplicada. Curitiba: Instituto
de Tecnologia para o Desenvolvimento, 2001.
STRAHLER, A. N. Quantitative analysis of watershed Geomorphology.
Am. Geophys. Union Trans. 38 (6): 913-920, 1957.
TUCCI, C. E. M.; BELTRAME, L. F. S. Precipitação. In: TUCCI, C. E. M.
Hidrologia ciência e aplicação. Porto Alegre: Editora da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (ABRH), 2000. p. 35-51.

ANEXO
Quadro 1 – Dados de pluviosidade
Ano Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Total
1966 145,7 257,6 92,7 20,7 65,4 130,5 39,0 131,5 62,5 315,0 18,0 133,0 1411,6
1967 130,0 156,5 125,0 26,5 14,0 191,5 120,0 80,0 80,0 127,0 121,0 144,0 1315,5
1968 175,0 40,0 47,5 137,0 49,0 63,0 25,0 92,0 63,0 307,0 81,0 208,0 1287,5
1969 230,0 59,0 70,0 165,0 170,5 192,5 63,0 31,5 222,0 250,0 180,5 93,0 1727,0
1970 120,0 182,5 136,5 93,0 146,5 259,0 13,0 46,0 133,0 143,0 36,0 521,0 1829,5
1971 211,0 110,5 76,0 150,0 189,0 200,0 140,0 13,0 207,8 155,4 55,8 229,0 1737,5
1972 147,5 296,4 118,5 109,4 35,0 80,6 239,3 174,1 234,6 233,8 147,0 88,8 1905,0

Continua

99
Ano Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Total
1973 372,6 120,9 112,0 65,8 103,6 204,0 137,2 218,8 118,3 183,6 82,1 91,0 1809,9
1974 193,7 175,3 119,6 57,1 137,3 175,2 17,5 228,1 32,5 197,2 67,9 121,3 1522,7
1975 172,8 62,0 119,4 37,0 89,1 92,6 59,2 137,9 165,5 175,8 153,0 222,4 1486,7
1976 189,5 67,5 119,9 101,8 212,9 145,5 56,0 157,2 146,1 91,4 182,1 152,4 1622,3
1977 79,0 66,7 123,6 81,4 20,2 73,7 90,0 62,9 117,6 114,3 243,4 156,2 1229,0
1978 88,4 48,6 205,5 0,0 108,6 56,4 311,0 90,9 177,5 63,3 91,8 160,9 1402,9
1979 97,0 291,4 39,1 94,2 261,5 14,0 87,2 163,7 312,7 223,9 132,4 189,3 1906,4
1980 240,2 117,6 127,4 113,6 193,4 104,2 151,2 156,2 319,9 95,5 98,1 390,3 2107,6
1981 98,9 268,4 66,4 168,8 59,7 99,7 9,2 31,4 74,6 316,9 151,9 452,4 1798,3
1982 105,7 69,1 98,3 58,5 114,3 389,8 288,2 94,4 32,4 285,4 341,9 277,0 2155,0
1983 206,7 184,5 259,3 293,0 426,7 327,2 180,2 1,3 320,0 241,5 156,4 94,8 2691,6
1984 223,5 114,9 190,4 230,7 111,8 61,3 43,5 180,3 179,1 96,0 281,9 263,4 1976,8
1985 87,9 94,1 148,3 322,3 128,3 43,3 68,6 27,7 64,4 97,7 47,6 113,1 1243,3
1986 171,6 200,4 96,1 202,7 266,4 20,8 11,0 246,4 104,0 85,2 69,0 220,8 1694,4
1987 202,7 257,6 74,3 217,5 409,9 122,1 71,0 53,1 56,2 132,9 190,6 151,0 1938,9
1988 195,0 133,4 55,7 160,4 255,9 125,6 16,0 2,1 16,5 113,7 29,0 111,6 1214,9
1989 371,8 250,8 177,2 78,8 134,3 91,9 258,9 148,6 229,2 178,9 181,2 102,8 2204,4
1990 421,0 48,8 163,6 180,7 141,3 180,3 199,6 199,6 344,6 225,2 141,3 137,3 2383,3
1991 121,0 78,3 106,2 79,6 68,1 206,6 34,9 115,9 120,1 182,0 130,4 306,8 1549,9
1992 122,2 185,6 214,7 156,4 435,7 93,0 144,1 121,1 185,3 152,8 126,3 89,0 2026,2
1993 204,4 169,0 146,1 84,9 270,6 111,9 193,7 12,3 333,6 155,7 160,2 216,0 2058,4
1994 158,9 164,3 77,4 75,9 202,4 222,4 148,4 6,1 52,8 162,0 158,6 167,0 1596,2
1995 377,3 97,6 135,1 116,0 44,4 122,6 98,8 24,1 275,4 265,5 95,5 132,1 1784,4
1996 265,8 126,5 209,8 38,3 39,0 70,2 39,9 113,5 116,1 240,5 135,4 198,3 1593,3
1997 321,3 287,7 30,0 38,5 78,0 260,7 97,3 102,6 244,0 289,1 170,0 245,0 2164,2
1998 162,5 273,2 211,1 309,1 96,8 88,8 52,9 182,3 395,0 268,6 21,7 121,3 2183,3
1999 189,8 188,0 166,8 149,1 135,4 198,2 61,9 0,0 147,7 76,9 53,8 184,1 1551,7
2000 157,1 141,1 144,4 24,7 82,1 157,9 107,0 133,2 177,7 179,9 150,6 196,9 1652,6
2001 249,6 328,1 67,4 137,9 156,3 132,6 128,9 123,9 220,2 190,8 158,6 146,8 2041,1
2002 370,8 117,7 34,1 21,4 385,4 0,0 91,7 107,1 153,4 208,0 202,5 198,9 1891,0
2003 240,7 207,0 79,7 120,1 61,7 95,4 120,3 33,3 91,9 205,0 139,2 166,1 1560,4
2004 98,1 170,2 87,1 89,8 360,6 124,9 167,3 13,4 74,6 341,6 193,6 52,1 1773,3
2005 196,5 17,9 42,9 144,1 175,0 143,1 83,0 48,1 312,9 488,0 89,3 136,7 1877,5
2006 211,6 74,0 51,4 68,3 8,7 30,6 64,7 93,7 249,0 92,9 149,3 390,6 1484,8
Média 198,2 153,7 116,3 117,6 157,2 134,2 105,6 97,5 169,8 193,9 132,1 189,6 1765,6
Máxima 421,0 328,1 259,3 322,3 435,7 389,8 311,0 246,4 395,0 488,0 341,9 521,0 2691,6
Mínima 79,0 17,9 30,0 0,0 8,7 0,0 9,2 0,0 16,5 63,3 18,0 52,1 1214,9
Des. Pad. 88,27 83,11 56,40 78,28 116,45 82,91 76,63 69,60 100,47 88,38 68,52 101,51 332,18
CV (%) 44,54 54,08 48,52 66,59 74,08 61,76 72,57 71,35 59,15 45,58 51,87 53,55 18,81

100
Grupos juvenis na cidade e na escola: saberes e
práticas para pensar o ensino de geografia1
2
OCTAVIANO, Elisangela Maria
3
TURRA NETO, Nécio

Resumo: O presente artigo faz uma abordagem sobre a vida na cidade de


jovens estudantes de oitava série do ensino fundamental de um colégio
público de Guarapuava-PR. De que forma vivem nos espaços da cidade
e como isso contribui para a formação desses/dessas jovens enquanto
cidadãos guarapuavanos. Partindo disso, tentamos estabelecer um diálogo
com os espaços de sociabilidade utilizados pelos/pelas jovens, onde são
construídos saberes informais e, pretendemos somar esses saberes aos
conhecimentos formais apreendidos na escola, através da intervenção da
pesquisadora na turma.
Palavras-chave: juventudes; espaços de sociabilidade; cidade.

Introdução
Partindo de nossos conhecimentos empíricos, observações e algumas
leituras sobre o assunto, traçamos uma linha de pesquisa comprometida
em relacionar a vida cotidiana dos/das jovens estudantes de oitava série
com o Ensino de Geografia. A Geografia busca continuamente conceituar a
relação sociedade/natureza e nós buscamos, em nossa pesquisa, traçar um
perfil da relação do/da jovem com seu meio urbano. Para isso questionamos:
Como se dá essa relação e como ela pode ser incorporada pelo Ensino da
Geografia? De que modo este estudo permite-nos perceber o processo de
construção de identidades e sua relação com o lugar em que esse/essa jovem
vive? E de que forma isso contribui na percepção de mundo do/da jovem e
das outras culturas?
São essas as perguntas que inicialmente norteiam nossa pesquisa
e que nos fazem pensar numa proposta de intervenção no Ensino
posteriormente.
1
A pesquisa está vinculada à iniciação cientifica bem como ao projeto de extensão universitária
Universidade Sem Fronteiras.
2
Aluna do curso de Geografia - UNICENTRO. e-mail: elisangela.octaviano@yahoo.com.br.
3
Professor do curso de Geografia - UNICENTRO (orientador). e-mail: turraneto@yahoo.com.br.
Alguns pressupostos informam nossa proposta de pesquisa:
- os jovens e as jovens têm necessidade de formarem grupos
de referência, pois a vivência de uma sociabilidade afetiva é
particularmente importante nessa fase de vida;
- essa vivência juvenil é formativa de certos saberes sociais;
- elas acontecem tanto na escola, nos momentos extra-classe,
quanto na cidade, em momentos de tempo-livre, sendo esses
espaços não somente continentes das práticas de sociabilidade, mas
também fatores importantes na qualidade dessas práticas, de modo
que a cidade é também educativa, no sentido em que permite a
construção de relações em que se desenvolvem aspectos formativos
das identidades pessoais e coletivas;
- a educação é, portanto, uma prática sócio-espacial muito mais
ampla que o espaço-tempo da escola, acontece em momentos e
lugares, os mais variados;
- a escola pouco incorpora esses saberes informais.
Nossa pesquisa vem discutir, teórica e empiricamente esses processos
formativos na cidade e na escola, a partir do acompanhamento de grupos
juvenis que se formam nos momentos de sociabilidade.
A partir do reconhecimento desses saberes produzidos na vivência
juvenil, estamos construindo uma proposta de conteúdos e contextos
específicos para o ensino de Geografia. Ou seja, o desafio a que nos
propomos é associar os “saberes da rua” aos “conhecimentos da escola”.
Nesta pesquisa, estamos trabalhando os espaços de sociabilidade
utilizados pelo público jovem, estudantes da oitava série de uma escola
pública, Liane Marta da Costa localizada num bairro de classe média em
Guarapuava – Paraná, sendo que nem todos os alunos da turma estudada
podem ser classificados como pertencentes à classe média, justamente por
a escola atender alunos de diversos bairros. Os espaços de sociabilidade
utilizados por esses/essas jovens ainda estão sendo delimitados e o são a
partir de um estudo em campo e avaliação dos espaços freqüentados por
esses/essas jovens .
Nosso principal objetivo com o desenvolvimento da pesquisa é
desvendar e problematizar as vivências e práticas espaciais/territoriais dos/
das jovens estudantes, nos momentos de sociabilidade, entendidos como
espaços e práticas em que se constroem saberes, para, a partir daí, pensar

102
uma proposta para o ensino de Geografia que seja resultado de uma escuta
e de um esforço de diálogo com esses saberes informais.

Metodologia
Os procedimentos metodológicos básicos se constituem
principalmente da observação participante com a inserção da pesquisadora
em campo, na escola e na cidade para observar o cotidiano dos/das jovens
pertencentes à turma estudada, aplicação de questionários para levantar o
perfil sócio-econômico e territorial dos alunos e alunas da escola-campo,
bem como identificar suas redes sociais dentro da escola e fora dela.
Ao descrever as observações, a pesquisadora se utiliza de algumas
das expressões pelos/pelas jovens utilizadas, como é falada mesmo, na
tentativa de não confundir o sentido de algumas dessas expressões.
Em campo, a pesquisadora tem observado as redes de sociabilidade
construídas dentro da escola e fora dela, sendo que pode ser observado
principalmente que a sociabilidade dos jovens se difere da sociabilidade
das jovens dessa turma, tendo em vista que na idade que estão, ainda se
dividem em grupos de meninas e meninos, são raras as exceções em que
meninas fazem parte dos grupos dos meninos e vice-versa.
Notou-se também que tanto os jovens quanto as jovens não vivem
muito o espaço do bairro em si e menos ainda o da cidade. A turma é
formada por sua grande maioria de alunos com quatorze anos, percebendo-
se que esta é uma fase de transição, na qual os jovens começam se apropriar
dos espaços da cidade.
Os jovens têm um pouco mais de liberdade que as jovens. Nota-
se também outra diferenciação: as adolescentes se restringem mais a um
determinado grupo e não conversam com os outros grupos de garotas,
sociabilizam-se, nos períodos que não estão na escola, mais com as amigas
que fazem na escola do que com outras do bairro e, geralmente têm poucas
amigas no bairro. Saem bem menos de casa que os jovens, pois os pais têm
um certo receio em deixar que elas fiquem nas ruas, pelo muito medo da
violência, da idéia de cidade violenta e impregnada de drogas que a mídia
divulga. Essas jovens então sem muitas opções, geralmente passam horas
“penduradas” ao telefone com a amiga do colégio, ou vão à casa uma da
outra para conversar assuntos variados, sendo que, geralmente, o assunto
principal são os meninos. Vêem muita TV, navegam pela internet e cuidam
dos irmãos menores, outro motivo para ficarem mais em casa.

103
Já os adolescentes se sociabilizam mais com os amigos do bairro
e menos com os da escola, além de saírem com mais freqüência de casa.
Vão ao campo de futebol que têm no próprio bairro ou improvisam um
na rua, usando os chinelos como se fossem as traves dos gols, vão à lan
house e passam horas jogando em rede, batendo papo em chats, no orkut,
enfim, utilizam-se do que a eles é disponibilizado, juntam-se na casa de um
dos amigos do bairro para jogar vídeo game, cuidam dos outros irmãos
menores, têm uma série de atividades.
O que pode-se notar desde o início das observações é que para esses/
essas jovens estar na escola é um imenso prazer, pois ainda é o único lugar
que podem freqüentar com segurança, ou seja, os pais não os proíbem de
ir até ela. Na escola a sociabilidade não tem limites e os momentos também
não. Cada segundo é precioso. Conversam o tempo todo e trocam diversas
informações, tais como: o time que está na liderança de determinado
campeonato, algum CD de jogo que foi lançado recentemente, o garoto
novo que entrou em determinada série, que causa polêmica tanto para
meninas quanto para meninos, que se sentem ameaçados por ele, enfim, os
temas discutidos não têm limites.
Por conta dessa falta de liberdade para se sociabilizar nos momentos
que não estão na escola, e por a escola ser para eles/elas o lugar ideal para
desenvolver a sociabilidade, a professora mal consegue dar aula. Precisa
fazer verdadeiros milagres para chamar a atenção da turma e conseguir que
prestem atenção no conteúdo por ela explicado.
Os/as jovens em questão também alegam que não existem espaços de
sociabilidade nos bairros onde moram. Os poucos espaços de sociabilidade
que existem na cidade se concentram na região central, tornando-se
inviável a ida até esses locais para utilizarem esses recursos de lazer. Mesmo
as distâncias não sendo grandes, há necessidade de se utilizar o transporte
coletivo, pago, que é mais uma dificuldade. Outro problema que dificulta o
acesso, é o fato de os espaços que, na teoria eram para ser públicos, geralmente
serem privados (seria interessante elucidar esta afirmação), tornando-se
mais difícil ainda o acesso desses/dessas jovens a esses lugares.
Para obter dados mais concretos e para poder dividir a turma em grupos
por bairro para posterior aplicação do plano de intervenção, está sendo ainda
aplicado questionários aos alunos em sala de aula. O questionário possibilita
perceber, também, o perfil sócio-econômico, quais os acessos que este/esta
jovem tem na cidade, os locais que conhecem, se trabalham, o que pensam
sobre a escola, se gostam ou não de Geografia e por quê, os materiais que o/a

104
professor/professora utiliza nas aulas de Geografia, se gostam da maneira que
o/a professor/professora de Geografia trabalha.
A partir de toda essa classificação, a pesquisadora estará intervindo
na turma, se utilizando dos dados coletados dos/pelos alunos para
experimentar um método diferente em ensinar Geografia, se embasando
na realidade vivida por esses/essas jovens para trabalhar conteúdos
direcionados e condizentes com a temática.

Discussões e resultados
As cidades oferecem diversas opções de sociabilidade e lazer,
onde seus habitantes cultivam estilos particulares de entretenimento,
mantêm vínculos de relacionamento, criam modos e padrões culturais
diferenciados. Essas opções são lugares como: boates, lanchonetes, a rua,
cinemas, livrarias, casa de jogos, a praça, restaurantes, cafés, barzinhos,
pista de skate, dentre outros.
Em Guarapuava pode ser observada essa dinâmica, porém, numa
proporção bem menor, por existir um número reduzido de espaços de
sociabilidade. Os espaços nesta cidade oferecidos são, na sua quase totalidade
privados, dificultando o acesso da população guarapuavana por se tratar de
uma população não possuidora de muitos recursos financeiros.
Procuramos discutir um pouco as relações que são construídas em
torno das juventudes, assim mesmo, no plural, que é a idéia que sustenta
nosso trabalho e que enfatiza a diversidade de modos de ser jovem existentes;
e da cidade, enfatizando as experiências vividas no meio urbano por esses
grupos sociais, ou não vividas. Partindo disso, traçamos uma proposta de
intervenção no Ensino com conteúdos direcionados para essa questão.
Como afirma Carrano (2000, p. 11), “As cidades se apresentam como
territórios privilegiados para a ação da juventude”, ou seja, é nas cidades
onde as juventudes encontram respaldo para agir à sua forma, adquirindo
suas próprias experiências, conhecimentos e aprendizados, as cidades são,
nesse enfoque, um fator educativo.
Ainda nesse sentido, Magnani (2000, p. ) afirma que as

[...] grandes cidades constituem espaços privilegiados para estas


experiências[...] dada a procedência de seus habitantes, a riqueza
de suas tradições culturais, a variedade de seus modos de vida
e, por conseguinte, a infinita possibilidade de trocas e contatos
que propicia.

105
Contrapondo o citado acima, faz-se necessário esclarecer que não
trabalhamos com uma grande cidade e sim com uma cidade média, onde
as opções de lazer são muito menores e os principais espaços de lazer
concentram-se na região central da cidade. Porém, a pouca distância entre
bairros e centro permite a concentração do lazer, ou seja, permite que
jovens que moram nas periferias estejam no centro freqüentemente.
No desenvolver de nossa pesquisa, percebeu-se que, por se tratar de
juventudes um pouco imaturas, estão na fase de ir tomando e conhecendo
os espaços da cidade, que estes/estas jovens não possuem uma relação com
a cidade, não viveram suas próprias experiências no meio urbano. Nota-
se, no entanto, também, com clareza, uma diversidade em ser jovem para
cada um/uma deles/delas. Existe uma heterogeneidade, cada qual tem seu
próprio estilo em se vestir, em falar; as gírias e expressões são diferentes.
Percebe-se que cada identidade é criada a partir de um modelo visto nos
meios de comunicação, TV, revistas, enfim, não assumem uma identidade
por viver em determinado meio.
São também nos espaços da cidade, da rua, do bairro, do condomínio,
que são traçadas a tramas do cotidiano: o dia-a dia, a troca de informações e
de experiências, os inevitáveis conflitos, entre outros. O espaço que estamos
estudando não difere disso, tem a mesma dinâmica. São tecidas redes de
aprendizados, trocas de experiências e pelo simples fato de estarem ali na
rua, no pátio da escola, pelos corredores, na biblioteca, no “campinho de
futebol”, na internet, os jovens desenvolvem sua sociabilidade.
Uma definição preliminar de sociabilidade pode ser aquela trazida
por dicionários populares: sociabilidade aparece então como algo que se
associa, pessoas que gostam de viver em sociedade, que se dá para a vida
social, maneira de quem vive a sociedade (FERREIRA, 2001, p. 642).
Ainda sobre sociabilidade, trabalhamos o conceito proposto por
Simmel (1983, p. 170):

[...] a sociabilidade não tem propósitos objetivos, nem conteúdo,


nem resultados exteriores, ela depende inteiramente das
personalidades entre as quais ocorre. Seu alvo não é nada além
do sucesso do momento sociável e, quando muito, da lembrança
dele. Em conseqüência disso, as condições e os resultados do
processo de sociabilidade são exclusivamente as pessoas que se
encontram numa reunião social. Seu caráter é determinado por
qualidades pessoais [...] tudo depende de suas personalidades,
não é permitido aos participantes realçá-las de maneira
demasiado evidente.

106
Vemos o tempo livre como um tempo específico para a sociabilidade
acontecer, pois a sociabilidade se poupa de atritos com a realidade por meio
de uma relação meramente formal com a realidade. O lazer para os/as jovens,
aparece como um espaço especialmente importante para o desenvolvimento de
relações de sociabilidade, das buscas e experiências através das quais procuram
estruturar suas novas referências e identidades individuais e coletivas.
Dayrell (2004, p. 9) discute a forma com que a sociabilidade reflete
na formação humana do/da jovem e a centralidade que ele/ela atribui às
relações estabelecidas com seus pares, ou seja, as relações estabelecidas
nos seus grupos culturais. Na nossa sociedade, o lazer foi capturado pelo
capital, pela criação de práticas e espaços de lazer que estão intensamente
associadas ao consumo o que interfere ligeiramente na formação da
identidade do nosso objeto de estudo: as juventudes.
Nós vemos que as juventudes têm necessidade em se sociabilizar,
criar vínculos com outras pessoas, do mesmo sexo, de outro sexo e,
principalmente, da mesma idade. Suas referências culturais e identitárias
geralmente baseiam-se nos irmãos mais velhos ou nos amigos.

Considerações finais
Nosso trabalho encontra-se em desenvolvimento, por isso não é
possível tirar muitas conclusões ainda, no entanto, ficou evidente qual o
maior interesse para os/as jovens pela escola: a sociabilidade, por este ainda
ser o principal lugar onde podem realizá-la.
Vale ressaltar que este trabalho é experimental. Trata-se de uma
extensão universitária e que é partindo de nossas observações e conclusões
dessas observações que traçaremos um plano de intervenção em sala de
aula que traz como proposta trabalhar a Geografia de uma forma um pouco
diferente. Procuraremos nos utilizar dos dados obtidos em campo para
proporcionar aulas direcionadas para o cotidiano dos alunos, sendo que
foi observado que a maioria deles não conhece muito bem o próprio bairro
onde mora, por não ter o contato com a rua.
A pesquisa encontra-se em pleno desenvolvimento e, por agora,
essa é nossa contribuição. Assim que a mesma for concluída poderá trazer
novas contribuições.

107
Referências
FERREIRA, A.B.H. Minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2001. p. 642.
CARRANO, P. C. R. Juventudes: as identidades são múltiplas. Movimento,
Niterói, n. 1, p. 11-27, maio 2000.
CITY BRAZIL. Região de Campo Mourão. Disponível em: < www.
citybrazil.com.br/pr/mapapr.gif >. Acesso em 09 abr. 2008.
DAYRELL, J. Juventude, grupos culturais e sociabilidade. Disponível em:
<http://www.fae.ufmg.br/objuventude/textos/aba2004.pdf >. Acessado em:
30 nov. 2007.
MAGNANI, J. G. C. Quando o campo é a cidade: Fazendo Antropologia na
metrópole. In: ______. (org.). TORRES, L.L. (org.). Na metrópole: textos
de Antropologia urbana. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
2000. p. 15-87.
SIMMEL,G. Sociabilidade: um exemplo de sociologia pura ou formal. In:
MORAIS FILHO, E. (org.). Sociologia. São Paulo: Ática, 1983. p. 165-181.

108
A geohistória do desenvolvimento no Brasil

1
COSTA, Pierre Alves

“O desenvolvimento desigual é no mínimo, a expressão geográfica


das contradições do capital.” (SMITH, 1988, p. 217)

Resumo: O presente estudo aborda o tema do desenvolvimento no Brasil,


que é uma importante temática para os cientistas sociais, economistas e
historiadores. Iniciamos este artigo abordando de forma não extensiva as
questões que permeiam o debate sobre o desenvolvimento econômico,
autonomia e recursos naturais, e sugerindo o uso da palavra desenvolvimento
sócio-espacial. Por último, apresentamos as considerações finais. Neste texto,
cuja proposta está muito longe de ser conclusiva, aponta-se a importância
e o desafio atual de analisar criticamente o tema do desenvolvimento (e
subdesenvolvimento), a fim de subsidiar com argumentação teórica na
formulação de um projeto nacional de desenvolvimento, com justiça social.
Palavras-chave: desenvolvimento sócio-espacial; crescimento econômico;
subdesenvolvimento.

Introdução
Pode parecer deslocado discutir o desenvolvimento econômico num
momento caracterizado pela predominância da prerrogativa da política
econômica, enquanto guardiã e pressuposto de qualquer outra política no
espaço nacional, e de uma certa globalização como caminho único para
todas as sociedades contemporâneas.
Partimos do suposto de que crescimento econômico é com certeza
diferente de desenvolvimento econômico; podemos até adotar a bem
conhecida formulação de que o crescimento econômico é condição necessária,
porém não suficiente para atingirmos o desenvolvimento. Um dos nossos
intuitos é destacar a permanência e o aprofundamento da nossa condição
de subdesenvolvimento, agora fortemente qualificado ou, quem sabe,

1
Professor Assistente e Pesquisador do Departamento de Geografia da UNICENTRO-PR. Doutorando
em História pela UFF. e-mail: alvespierre75@hotmail.com.
2
(des)qualificado como um subdesenvolvimento globalizado . Em seguida,
apontaremos algumas considerações sobre a questão dos mitos, em especial
o mito do desenvolvimento econômico, baseados em Furtado (1996).
Os mitos têm exercido uma inegável influência sobre a mente
dos Homens que se empenham em compreender a realidade social. O
primordial intuito do mito é orientar, num plano intuitivo, a construção
daquilo que Schumpeter chamou de visão do processo social, sem a qual o
trabalho analítico não teria sentido.

Assim, os mitos operam como faróis que iluminam o campo de


percepção do cientista social, permitindo-lhe ter uma visão clara
de certos problemas e nada ver de outros, ao mesmo tempo em
que lhe proporciona conforto intelectual, pois as discriminações
valorativas que realiza surgem no seu espírito como um reflexo
da realidade objetiva (FURTADO, 1996, p. 8).

A literatura sobre desenvolvimento econômico entre 1950-1975 nos


concebe um exemplo meridiano desse papel diretor dos mitos nas ciências
sociais: pelo menos 90% do que aí encontramos se funda na idéia de que
o modelo de desenvolvimento econômico que vem sendo praticado pelos
países que lideraram a Revolução Industrial pode ser universalizado. Mais
precisamente: pretende-se que os padrões de consumo da minoria da
humanidade, que atualmente vive nos países altamente industrializados,
sejam acessíveis às grandes massas de população em rápida expansão que
formam o chamado terceiro mundo. Essa idéia constitui uma continuação
do mito do progresso, elemento essencial na ideologia diretora da Revolução
Burguesa, dentro da qual se criou a atual sociedade industrial.

A condição de subdesenvolvimento como uma especificidade


brasileira engendrada pelo desenvolvimento capitalista e pela
constituição de uma dada periferia, caracterizada então como
uma má-formação estrutural, foi muito bem desenvolvida
por Celso Furtado, especialmente no âmbito da Comissão
Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). As
dificuldades da economia brasileira nos últimos vinte anos,
além de não conseguirem alterar significativamente essa posição

2
A qualificação globalizado a esta etapa do subdesenvolvimento brasileiro foi introduzida (e
desenvolvida) por Oliveira, Francisco de. A navegação venturosa: ensaios sobre Celso Furtado.
São Paulo: Boitempo Editorial, 2003: p. 114-115.

110
de subdesenvolvimento, agravaram-na, à medida que tivemos,
especialmente na era FHC, uma política de integração da
economia brasileira aos mercados mundiais de forma passiva. Nos
anos noventa, a abertura comercial, a privatização das empresas
estatais, a compra e/ou fusão de empresas nacionais por poderosos
grupos multinacionais organizados sob a forma de firma-rede
transformaram a estrutura produtiva brasileira e transferiram para
esses grupos multinacionais importantes decisões sobre o nosso
próprio padrão de crescimento, comprometendo ainda mais as
nossas possibilidades de desenvolvimento. Tais evidências nos
permitem propor que vivemos o subdesenvolvimento globalizado
(CARLEIAL, 2004, p. 9).

O Governo Lula (2003-2006), detentor de aproximadamente 53 milhões


de votos, resultante de uma luta de quase 25 anos que reuniu os movimentos
sociais e parte significativa da sociedade civil brasileira, optou por negar a
agenda para o qual foi eleito e aprofundar as chamadas reformas neoliberais
iniciadas no governo Sarney (1985-90), e continuadas (e aprofundadas) pelos
governos subseqüentes. Sua política macroeconômica assentada na reunião
de livre mobilidade de capitais, taxa de câmbio flutuante, superávit primário
crescente e taxa de juro real elevada se evidencia incapaz de conduzir o País
na direção do desenvolvimento econômico.

A idéia de desenvolvimento

Desenvolvimento econômico e autonomia


3
Celso Furtado, em O mito do desenvolvimento econômico , diz que o
estilo de vida criado pelo capitalismo industrial sempre será o privilégio de
uma minoria. O custo, em termos de depredação do meio ambiente, desse
estilo de vida é de tal maneira elevado que toda tentativa de generalizá-
lo resultaria no colapso de toda uma civilização, pondo em risco a
sobrevivência da espécie humana.

Temos assim a prova cabal de que o desenvolvimento econômico


– a idéia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar

3
Escrito no início dos anos 1970, tendo sido publicado pela primeira vez em 1974, pela editora Paz
e Terra.

111
das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente
irrealizável. Sabemos agora de forma irrefutável que as economias
da periferia nunca serão desenvolvidas, no sentido de similares
às economias que formam o atual centro do sistema capitalista.
Mas, como desconhecer que essa idéia tem sido de grande
utilidade para mobilizar os povos da periferia e levá-los a aceitar
enormes sacrifícios para legitimar a destruição de formas de
culturas arcaicas, para explicar e fazer compreender a necessidade
de destruir o meio físico, para justificar formas de dependência
que reforçam o caráter predatório do sistema produtivo? Cabe,
portanto um simples mito. Graças a ela, tem sido possível desviar
as atenções da tarefa básica de identificação das necessidades que
abrem ao homem o avanço da ciência, para concentrá-las em
objetivos abstratos, como são os investimentos, as exportações e
o crescimento. A importância principal do modelo de The limits
to growth é haver contribuído, ainda que não haja sido o seu
propósito, para destruir esse mito, seguramente um dos pilares
da doutrina que serve de cobertura à dominação dos povos dos
países periféricos dentro da nova estrutura do sistema capitalista
(FURTADO, 1996, p. 88-89).

Os próximos parágrafos serão baseados em Souza (1996).


A redução do conceito de desenvolvimento ao desenvolvimento
econômico, manifestado através do crescimento econômico (por ex.:
o crescimento do Produto Interno Bruto – PIB) e da modernização
tecnológica, já foi diversas vezes criticada. Tal surpersimplificação era típica
das chamadas teorias da modernização e do crescimento, que tiveram seu
apogeu nos anos 1960, e onde os efeitos sociais positivos do desenvolvimento
econômico eram vistos como “conseqüências naturais” dos processos
de crescimento e de modernização, sem se reconhecer a importância de
políticas de distribuição da riqueza e de combate à pobreza.
Crescimento e modernização, se não forem acompanhados
por distribuição da riqueza socialmente produzida e atendimento
de necessidades materiais e não-materiais elementares, não devem,
portanto, valer como indicadores de desenvolvimento em sentido
estrito. Ressaltamos assim, a importância da substituição do conceito
economicista de desenvolvimento das teorias da modernização por outro
mais abrangente, social. Portanto, preferimos usar na temática deste
artigo, a palavra desenvolvimento sócio-espacial.
Falar em “desenvolvimento”, atualmente, só tem sentido se afastar
a conotação teleológica, etnocêntrica e capitalística que essa palavra

112
tem carregado. É bastante difícil, reconheça-se, libertar a palavra
desenvolvimento de seu ranço historicista, de sua carga ideológica marcada
pela idéia de uma missão civilizadora do Ocidente capitalista e industrial.
Entretanto, trata-se de uma tarefa necessária.
Ressaltamos que:

Toda e qualquer coletividade humana tenha a oportunidade


de evitar ou de livrar-se do subdesenvolvimento, ou seja,
da exploração, da opressão e da subordinação por parte dos
interesses econômicos, poderes políticos e da pasteurização
cultural representados pelo modelo civilizatório capitalista.
Um conceito de desenvolvimento liberto do historicismo não
pode, é evidente furtar-se a perseguir metas específicas, o que
será, no entanto, concebido como um processo histórico de
luta e negociação, de competição entre concorrentes visões de
desenvolvimento no bojo de um processo aberto à continência
e onde o lugar da criatividade humana e da criação histórica é
bem maior do que os teóricos da modernização (e também os
marxistas) estão prontos a admitir (SOUZA, 1996, p. 10).

Os “economistas do desenvolvimento”, já nos 1970, percebem que


o crescimento não traz, automaticamente, justiça social. A metáfora do
“bolo” (“é preciso esperar o bolo crescer, para só então reparti-lo’) atribuída a
Delfim Neto tem a concepção hirschmaniana de desenvolvimento desigual.
A estratégia de “redistribuição com crescimento” – com implementação de
programas de redistribuição de renda conduzidos de cima para baixo como
argumenta Chenery et ali apud Souza (1995, p. 102) é falha. Conforme Stöhr
apud Souza (1995, p. 102), a satisfação das necessidades humanas inclui a
participação, a liberdade, o acesso à cultura; e todas as necessidades básicas.
Para Souza (1995, p.102-103), a idéia de desenvolvimento de Stöhr
é chamada de satisfação de necessidades básicas, em seu pensamento de
um desenvolvimento de baixo para cima. Não obstante, ela esbarra nos
limites ideológicos (liberalismo de “esquerda”), embaraço epistemológico e
economicismo pequeno. Deve-se conceber a questão não só econômica como
política, pois a questão do exercício do poder é determinante numa sociedade.
Foi a descoberta de pontos de apoio, nas condições econômicas
da sociedade capitalista, para a realização do socialismo, a
maior conquista da luta de classe proletária, no curso de seu
desenvolvimento. Com isso, transformou-se o socialismo, de
“ideal” sonhado pela humanidade há milhares de anos, em
necessidade histórica (LUXEMBURGO, 1999, p. 69).

113
Esta autora ressalta que a finalidade da socialdemocracia resulta tão
pouco da violência vitoriosa da minoria quanto da superioridade numérica
da maioria, e sim da necessidade econômica – e da compreensão dessa
necessidade – que leva à supressão do capitalismo pelas massas populares,
necessidade essa que se manifesta antes de tudo pela anarquia capitalista
(Luxemburgo 1999, p. 75).
Por outro lado, dentro da busca/formulação de uma abordagem
do desenvolvimento sócio-espacial, a autonomia aparece como um
fundamental princípio ético e político norteador de uma reconstrução
do conceito de desenvolvimento. As idéias colocadas a seguir terão como
principal referência o texto “Introdução: Socialismo e sociedade autônoma”
de Cornelius Castoriadis (1983), sendo que sua versão original é datada em
1952. Neste ensaio, o autor faz uma crítica ao regime socialista e propõe
uma sociedade autônoma, reportando-se diversas vezes à Grécia antiga e
sua sociedade democrática. Esta volta a sociedade democrática da Grécia
antiga se explica pelo fato dessa sociedade ser a que mais se aproxima da
concepção de sociedade autônoma de Castoriadis.
Podemos partir da idéia de que o indivíduo nasce ao mesmo tempo e
pelo mesmo movimento do qual emerge a pólis, como coletividade autônoma.
A Democracia (na Grécia Antiga) era, inicialmente igual a isonomia - a
igualdade de lei para todos. A lei é a instituição da sociedade. Por outro
lado, atualmente esta igualdade representa a máscara de uma desigualdade.
Acrescentando, temos a propriedade privada e a liberdade de empresa como
uma máscara institucional da dominação efetiva de uma pequena minoria.
Os direitos individuais são parciais, inacabados, numa sociedade dividida
entre dirigentes e executantes, dominantes e dominados.
A sociedade autônoma implica indivíduos autônomos - e
reciprocamente; sociedade livre, indivíduos livres. A liberdade deve
ser efetiva, social, concreta, com um espaço público de movimento e de
atividade assegurado ao indivíduo pela instituição da sociedade. Dentro
deste contexto, a questão primeira do “Estado” a ser pensada deve ser a
questão da política. Contudo, a desigualdade social é sempre, também,
desigualdade de poder, se transformando em desigualdade de participação
no poder instituído. Com isso, deve-se ter a igualdade de participação de
todos no poder (assegurado por instituições efetivas). Uma sociedade livre
possui o poder exercido pela coletividade.

114
A sociedade autônoma (autonomia individual) concorre com o Poder
coletivo (coletividade). O movimento operário moderno contribui, dizendo
que a participação dos Homens só pode ser igual se iguais forem as condições
sociais efetivas e não somente as jurídicas, que são feitas para todos; e desenvolve
a significação e a aspiração de democracia através da idéia de “República social”.
O único modo concebível de organização da produção e do trabalho é a gestão
coletiva por todos os participantes. Podemos adiantar neste ensaio que a gestão
coletiva é diferente de autogestão (auto-organização).
A liberdade numa sociedade autônoma exprime-se por duas leis
fundamentais: sem participação igualitária no estabelecimento da lei, não
haverá lei. Uma coletividade autônoma tem por divisa e por autodefinição:
nós somos aqueles cuja lei é dar a nós mesmos as nossas próprias leis (aspecto
ativo e positivo, estando ligado à questão da autonomia do indivíduo). Para
que o indivíduo possa pensar livremente, é exigido a criação, a instituição
de um espaço público de pensamento aberto à interrogação; o que exclui o
estabelecimento da lei - da instituição - como imutável.
A instauração de uma sociedade autônoma implica um processo de
mutação antropológica que não pode realizar-se única e centralmente no
processo de produção. A luta pela autonomia, a criação de novas formas de
vida individual e coletiva invadirão todas as esferas da vida social; e dentro
deste contexto, a idéia de “determinação” é um contra-senso.
Conforme Platão, a lei é apenas o último recurso imposto pelos
defeitos da natureza humana e em particular pela impossibilidade do
“Homem real”. Por outro lado, ele redige as leis da cidade, as quais seriam
justas. Conseqüentemente, temos a questão de eqüidade (realização
final de igualdade social efetiva). Na sociedade justa a questão da justiça
permanece aberta, ou seja, existindo a possibilidade socialmente efetiva de
interrogação sobre a lei e o fundamento da lei, desembocando assim num
movimento de auto-instituição explícita.
Em toda a história da filosofia política se desconhece a essência do
social-histórico e da instituição, a relação entre a sociedade instituinte e a
sociedade instituída, a relação entre a coletividade, a lei e a questão da lei.
Na formulação da sociedade autônoma, Castoriadis defende a abolição da
submissão da sociedade instituinte (as pessoas que fazem as leis) à sociedade
instituída (Estado/sociedade civil/constituição/instituições). Esta idéia é
defendida também por Souza (1994, p. 32).

115
O que falta na análise de Castoriadis sobre a sociedade autônoma
é espacializá-la de uma forma efetiva (geograficamente), com uma
territorialidade. Esta questão será muito bem tratada pelo geógrafo
brasileiro Marcelo J. L. de Souza (1994), no texto “O subdesenvolvimento
das teorias do desenvolvimento”, onde o autor procura contribuir
para uma reconstrução radical dos conceitos de “desenvolvimento” e
“subdesenvolvimento”, sugerindo o conceito de territorialidade autônoma
como princípio ético e político norteador de uma reconstrução do conceito
de desenvolvimento (como desenvolvimento sócio-espacial).
Podemos dizer resumidamente que o princípio da autonomia é
de fundamental importância na formulação de um “novo” conceito de
desenvolvimento (que leve em conta não apenas a economia, mas também
a política, a cultura, a sociedade e a ecologia). Este princípio, por isso,
realiza uma análise além das relações do modo de produção, e o que
talvez seja o mais significativo dele seja o fato de discutir a relação entre a
sociedade instituinte e a sociedade instituída, onde deve-se ter a abolição
da submissão da primeira à segunda.
Continuando, devemos ressaltar que a atualidade do debate
sobre desenvolvimento econômico está fortemente determinada pela
disseminação generalizada da interpretação de que a globalização neoliberal
promove o crescimento econômico e é capaz de abranger, assimilar e dar
conta também do desenvolvimento econômico. Isto é um forte engano. Os
próximos parágrafos serão baseados em Carleial (2004).
O desenvolvimento sócio-espacial pode ser visto como um processo de
expansão das possibilidades e alternativas de um país, porém compromissado
com o processo evolutivo das condições humanas de vida. No aspecto
especificamente econômico ainda pode ser compreendido como um processo
que leva ao crescimento da produtividade com redução das desigualdades
sociais e regionais. Portanto, o conceito se insere numa tradição de evolução
das ciências sociais e de modernização das sociedades.

O surgimento da discussão de desenvolvimento econômico se


faz num momento particular da história social recente, e é no
pós-segunda guerra mundial4 que esse conceito toma forma.
É importante ressaltar que se dá num momento no qual a teoria
econômica já tinha sido capaz de demonstrar, através da contribuição
Keynesiana, que o capitalismo e seu processo de acumulação exigiam
a esfera pública e o gasto público como pressupostos. Nesse sentido,

4
1939-45 (nota do autor).

116
o par – trabalho e mercado – propostos por Smith sob inspiração
de Locke, como definidor da modernidade, deixava em aberto a
necessária mediação entre o indivíduo e o coletivo que, ao longo
do desenvolvimento das forças produtivas, assumia concretamente
a forma de gasto público, como argumentam os economistas,
ou ainda, do ângulo das políticas sociais, de propriedade social”
(CARLEIAL, 2004, p. 11).

Localizar a origem dessa discussão não nega que nos princípios


da teoria econômica praticamente todos os economistas se perguntavam
sobre quais as possibilidades de crescimento, riqueza e desenvolvimento
para aquela fase da história da humanidade.
De maneira geral, a divisão do mundo em três, atribuindo-se ao
terceiro as características de pré-desenvolvimento, é uma das formas de tratar
a mesma questão e de estudar espaços diferenciados que estavam localizados,
na sua grande maioria, na África, América Latina e Ásia. Do mesmo modo a
oposição Norte-Sul, tecnologias de ponta e tecnologias básicas, desenvolvido-
não desenvolvido e posteriormente, ainda, uma associação entre países
subdesenvolvidos a países emergentes (ou mercados emergentes).
Em relação ao conceito de subdesenvolvimento, sua introdução é um
marco relevante para este debate. De acordo com François apud Carleial
(2004), foi o presidente Truman, em 1949, por ocasião de seu discurso de
posse, referindo-se ao engajamento dos EUA a favor da melhoria dos países
subdesenvolvidos, quem introduziu no cenário político mundial tal termo.
No campo teórico-acadêmico-prático, a relevância do
subdesenvolvimento é muito grande. Conforme Celso Furtado, o
subdesenvolvimento é uma especificidade de uma dada sociedade e é
5
uma produção do próprio desenvolvimento capitalista . Nesse contexto,
não se constitui numa etapa do processo de desenvolvimento; isto é, o
subdesenvolvimento não ascende à condição de desenvolvido necessariamente.
Desta forma, a situação de subdesenvolvimento pode continuar, pode
aprofundar-se e pode ainda ser irreversível se não forem adotadas as medidas
e políticas essenciais à sua reversão. Nesse contexto, mesmo que desejável, o
desenvolvimento não necessariamente será atingido por todas as nações.

5
A trajetória de Celso Furtado inicia-se com sua tese de doutoramento em Paris, prossegue ao longo
dos anos na Cepal e continuou presente nos trabalhos que foram desenvolvidos nesta perspectiva
(CARLEIAL, 2004).

117
O ponto de partida da contribuição é o questionamento
da teoria das vantagens comparativas ricardiana, a sua
negação e a proposição de que o país necessitava viver um
períoso de substituição de importações que internalizasse,
no país, a indústria, e alterasse a correlação de forças entre
desenvolvidos (que exportavam máquinas e equipamentos) em
troca dos produtos primários dos subdesenvolvidos. Logo, o
subdesenvolvimento brasileiro era engendrado pelo próprio
movimento de acumulação de capital no nível mundial,
condição que era reiterada permanentemente. As idéias de
6
Celso Furtado e seu desenvolvimento na Cepal serviram de
base para programas e projetos de desenvolvimento em vários
países do mundo subdesenvolvido (CARLEIAL, 2004, p. 13).

Também é necessário fazermos um breve comentário, a seguir, sobre


as relações entre recursos naturais, progresso técnico e desenvolvimento
sócio-espacial.

Desenvolvimento e recursos naturais


Os próximos parágrafos serão baseados em Fajnzylber (1992). Para
este autor (1992, p. 64) os recursos naturais

Oferecem potencialidades significativas em termos de geração de


divisas, aprendizagem empresarial, superávits disponíveis para
serem investidos em outras áreas, impulso à inovação tecnológica
em atividades conexas e, em alguns casos, dinamismo elevado e
sustentado. No futuro, os recursos naturais e a sustentabilidade
ambiental estarão estreitamente ligados.

A crise do petróleo no início dos anos 1970 evidenciou a necessidade


de tornar endógenas as disponibilidades e a eficiência no uso dos recursos
naturais. A experiência de vários países centrais que dispõem de generosas
fontes de recursos naturais evidencia que, nestes, a industrialização baseou-
se fortemente na transformação desses recursos. Esta experiência estimula
a formação de um novo conceito econômico que integre progresso técnico,
recursos naturais e o meio ambiente, e o mais importante, de desencadear uma
ampla gama de inovações tecnológicas fundamentais com essa finalidade.

6
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (nota do autor).

118
A década de 1980 marcou na América Latina o início da
conscientização sobre a necessidade de haver uma transição para uma nova
fase do processo de industrialização, que favoreça a articulação produtiva
e aumente a competitividade internacional, entendida como um desafio de
caráter sistêmico, que exige uma aproximação convergente da indústria,
recursos naturais, serviços e meio ambiente.
Na América Latina, a competitividade internacional está/estará
vinculada à sustentabilidade ambiental e o fator determinante para
compatibilizar ambas as finalidades (competitividade e sustentabilidade) é
a incorporação e difusão do progresso técnico.
A incidência da competitividade sobre o crescimento, que é
retroalimentado pelo apoio que este último concede à incorporação do
progresso técnico, foi amplamente abordada e exemplificada num estudo da
Cepal. Na ausência do progresso técnico, a competitividade e a sustentabilidade
são difíceis de ser compatibilizadas, já que é impossível conseguir aumento de
produção e redução dos danos ambientais ao mesmo tempo. Por outro lado,
a incorporação do progresso técnico permite compatibilizar os aumentos de
produção com a sustentabilidade ambiental.
A necessidade imperiosa de compatibilizar competitividade e
eqüidade explicaria a relevância e centralidade que o progresso técnico
adquire na proposta da Cepal, por conseguinte, a atenção especial prestada
aos fatores que influenciam a materialização da incorporação e da difusão do
progresso técnico. Devemos destacar o sistema educativo e de capacitação,
a base empresarial e a infra-estrutura tecnológica e de comunicação de que
dispõem os países.
Concluindo, como desafio, Leroy e Acselrad (2000, p. 207-208)
dizem que:

Frente à concentração de poder sobre os recursos naturais e o meio


ambiente, propomos um caminho que considere a diversidade,
permitindo que se afirmem diferentes formas culturais de
relação com a natureza, diferentes estratégias e propostas para
o futuro. Dessa forma, pensar o território torna-se importante
para construir uma geografia política alternativa.

Logo, é possível criar alternativas de desenvolvimento, onde se


incorporem os marginalizados do atual modelo de desenvolvimento
capitalista, reconhecendo que os impactos variam de acordo com o sujeito,

119
afetando de maneira diferenciada os diferentes grupos sociais na condição
dominante do desenvolvimento sócio-espacial.

(Não) Concluindo
É relevante lembramos as idéias do economista e grande pensador
Celso Furtado. Ele defendia o desenvolvimento como responsabilidade
central do Estado, o planejamento como método racional para imprimir
sentido e coerência ao trabalho dos milhões de atores anônimos da
economia, e a redução e a eliminação das disparidades regionais e sociais
como condição de garantia de oportunidades iguais para a auto-realização
de todos os brasileiros.
Em mensagem ao povo brasileiro, enviada para a inauguração da
7
Unctad em junho de 2004, na cidade de São Paulo, Furtado dizia o seguinte:

A dimensão política do processo de desenvolvimento é


incontornável. O avanço social dos países que lideram esse
processo não foi fruto de uma evolução automática e inercial,
8
mas de pressões políticas da população. São essas que definem
o perfil de uma sociedade, e não o valor mercantil da soma de
bens e serviços por ela consumidos ou acumulados.

O verdadeiro desenvolvimento – não o ‘crescimento econômico’


que resulta da mera modernização das elites – só pode existir ali
onde houver um projeto social subjacente. É só quando prevalecem
as forças que lutam pela efetiva melhoria das condições de vida da
população que o crescimento se transforma em desenvolvimento.

O Brasil vivenciou um expressivo crescimento econômico ao longo


do século passado (principalmente a partir dos anos 1930), mas que não se
transformou em desenvolvimento sócio-espacial. Neste sentido, desejamos
que, o debate sobre desenvolvimento (e subdesenvolvimento), presente neste
artigo, possa contribuir na formulação de políticas territoriais (públicas), com
os seguintes intuitos: diminuir as desigualdades regionais e sociais, implementar
uma universalização qualitativa do ensino básico, eliminar o analfabetismo,
realizar a efetivação da revolução agrária; realizar uma distribuição igualitária
da riqueza nacional por toda a sua população; entre outros.
7
Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.
8
Grifo do autor.

120
Referências
CARLEIAL, Liana M. da F. Subdesenvolvimento globalizado: a resultante das
escolhas da política econômica brasileira dos anos noventa. Revista Paranaense
de Desenvolvimento, Curitiba: IPARDES, nº. 106, 2004, jan/jul: 7-28.
CASTORIADIS, Cornelius. Introdução: Socialismo e sociedade autônoma.
In : ______. Socialismo ou barbárie. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 11-34.
FAJNZYLBER, Fernando. Progresso técnico, competitividade e mudança
institucional. In: VELLOSO, J. P. dos R. (coord.). A nova ordem
internacional e a terceira revolução industrial. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1992, p. 27-81.
FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1996.
LEROY, J. P. e ACSELRAD, H. Novas premissas para a construção de um
Brasil sustentável. In: RATNNER, Henrique. (org.). Brasil no limiar do
século XXI: alternativas para a construção de uma sociedade sustentável.
São Paulo: Edusp, 2000, p. 207-208.
LUXEMBURGO, Rosa. Desenvolvimento econômico e socialismo. In:
______. Reforma ou revolução. São Paulo: Expressão popular, 1999, p.
69-79.
OLIVEIRA, Francisco de. A navegação venturosa: ensaios sobre Celso
Furtado. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003, p. 114-115.
SMITH, Neil. O desenvolvimento desigual. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1998.
SOUZA, Marcelo J. L. de. O subdesenvolvimento das teorias do
desenvolvimento. Princípios, São Paulo,1994, n. 35, p. 27-33.
______. 1995. O território: sobre espaço e poder, autonomia e
desenvolvimento. In: Castro, I. E. de. et alli (org.). Geografia: conceitos e
temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 77-116.
______. Urbanização e desenvolvimento no Brasil atual. São Paulo:
Ática, 1996.

121
O capital estrangeiro no Brasil: algumas
considerações

1
VIDEIRA, Sandra Lúcia

Resumo: A questão da internacionalização da economia brasileira, embora


mais discutida recentemente (duas últimas décadas), remonta há muito
mais tempo, obviamente inserida dentro de outras determinações políticas,
econômicas e sociais, mas que, a grosso modo, apresentam os mesmos
interesses: ampliação da escala de acumulação. Assim, neste trabalho,
procuramos apresentar algumas discussões que permeiam o processo da
internacionalização da economia brasileira, com ênfase, principalmente a
partir da década de 1990, momento em que a onda neoliberal se dissemina
pelo Brasil e traz imbuída em si, processos de desnacionalização da
economia, de fusões e incorporações. Assim, buscamos apreender como o
capital estrangeiro veio inserindo-se em território brasileiro no contexto de
uma economia internacionalizada.
Palavras-chave: capital estrangeiro; desnacionalização; internacionalização
da economia.

Introdução
Estas reflexões apresentam algumas discussões que percorrem o
processo de internacionalização da economia brasileira, principalmente
a partir de 1990, quando presenciamos políticas de desnacionalização
da economia brasileira e a disseminação de fusões e aquisições nos mais
variados setores, inseridas na onda neoliberal.
A internacionalização da produção, segundo Gonçalves (2003, p.24),
“ocorre sempre que residentes de um país acessam bens e serviços com origem
em não-residentes. Isso significa a existência de fluxos internacionais de bens,
serviços e capital”. Assim, a internacionalização da produção se dará na forma:
de comércio (de bens e serviços), de relações contratuais (transferência de

1
Professora Doutora junto ao curso de Geografia da UNICENTRO – Guarapuava-PR. e-mail:
slvideira@yahoo.com.br.
know-how ou direito de propriedade), e de fluxos financeiros (empréstimos,
2
financiamento, investimento externo direto - IED ).
O autor acima referenciado afirma ainda que, nas economias
nacionais dos países desenvolvidos, quando não há absorção interna do
excedente produzido (bens ou capital), resta procurar um destino para seu
investimento, o mercado internacional.
3
Chesnais (1996) afirma que entre os grupos mais internacionalizados
estão os do setor automobilístico e eletrônico, figurando ao lado dos grandes
bancos e instituições financeiras.

Capital estrangeiro: cenários e expansão


Gonçalves (1999) nos ajuda na reconstituição histórica da participação
do capital internacional ao apontar as intensas relações do Brasil com o
mesmo, neste sentido ele trabalha com quatro recortes temporais. O primeiro
que se inicia no período colonial e vai até a 2ª Guerra Mundial; o segundo
estende-se de 1945 a 1964 enfocando a industrialização e os investimentos
externos. Em seguida destaca o período de 1964 a 1980, momento de
crescimento econômico e abertura produtiva. E, por fim, um quarto período
que compreende de 1981 a 1993, fase de estagnação econômica e recuo
estratégico da economia. Acrescentaríamos ainda um quinto período, que
inicia-se após 1993, tendo como marco a abertura da economia brasileira.
O primeiro apreende a atuação do capital estrangeiro do período
colonial até a Segunda Guerra Mundial. Nesse período uma economia agro-
exportadora, controlada por empresas estrangeiras, mantinha no comércio
internacional sua sobrevivência. Do final do século XVI até o século XVIII,
o período açucareiro brasileiro era concomitante ao período de expansão
comercial e financeira do capital holandês, logo cabia à Companhia Holandesa
das Índias Ocidentais a supremacia no montante do capital estrangeiro
presente no país. Mas, este perde lugar para o capital britânico, que em seu
auge, do século XIX até o início do século XX, passa a financiar grande parte
da infra- estrutura brasileira, como as estradas de ferro, portos e serviços
2
Segundo Gonçalves (2003, p. 24) “IED é todo fluxo de capital com o intuito de controlar a empresa
receptora do investimento. O principal agente de realização do IED é a empresa transnacional
– empresa de grande porte que controla ativos em pelo menos dois países”. Geralmente essas
empresas possuem suas matrizes em países desenvolvidos, e através do IED, controlam subsidiárias
e filiais em outros países.
3
Morin (apud Chesnais, 1996, p.75) define grupo como “o conjunto formado por uma matriz
(geralmente chamada holding do grupo) e as filiais controladas por ela”. A matriz lida com as
decisões financeiras e, as firmas sob seu controle exploram alguma atividade.

124
de utilidade pública (companhias de gás, redes telefônicas, linhas de bonde,
iluminação pública, produção e distribuição de energia elétrica) enfim,
equipamentos que davam suporte à produção/comercialização primária que
era voltada para o exterior, a exemplo do café e da borracha.
Singer (2001, p.80) contribui ao discutir sobre a evolução da
economia brasileira e sua vinculação internacional afirmando que o atraso
econômico, entendido aqui enquanto a não industrialização, forçou o país
a se voltar para fora:

Era do exterior que vinham os bens de consumo que


fundamentavam um padrão de vida “civilizado”, marca que
distinguia as classes cultas e “naturalmente” dominantes do
povaréu primitivo e miserável. [...] E de fora vinham também os
capitais que permitiam iniciar a construção de infra-estrutura de
serviços urbanos, de energia, transportes e comunicações.

Gonçalves (1999) destaca que, a partir de 1850, empresas estrangeiras


já dispunham de monopólios em certos segmentos da economia brasileira,
como das ferrovias, companhias de gás e transporte urbano. Castro (apud
GONÇALVES, 1999, p.53) cita “o caso da Western Telegraph Company,
criada em 1889, detentora do monopólio das comunicações por meio de
cabos submarinos do Brasil com o mundo”. A partir de 1870, quando o país
começa a vivenciar os primeiros surtos de industrialização, a presença do
capital estrangeiro não é significativa, restringindo-se a financiamentos de
algumas plantas industriais. Porém, após 1920, esse tipo de capital passa a
desempenhar importante papel, tanto na expansão como na diversificação
industrial do país.
Conforme dados de Gonçalves (1999, p.53-54), no início do século
XX o Brasil era um dos países com maior grau de internacionalização
mundial, tanto por sua atividade exportadora como também pela presença
do capital estrangeiro no país. Em 1913 liderava o 7º lugar quanto ao
recebimento de investimentos britânicos, respondendo por 3,9% do estoque
de investimento deles, investimentos estes que aumentaram em 23% entre
1913 e 1927, porém, nada comparado aos investimentos estadunidenses
que aumentaram 852% no mesmo período, tendo em vista a expansão
capitalista deste país no início do século, mas ainda, em 1930 a Grã Bretanha
participava de 53% do estoque de investimentos estrangeiros no Brasil,

125
contra 21% dos Estados Unidos, esse quadro só viria a mudar a partir de
1940, quando se consolida a hegemonia do capital estadunidense.
O período da industrialização brasileira, que foi calcada na substituição
das importações, acabou por estimular o fluxo de IED para o país, embora,
em meados de 1930, tenha havido uma certa restrição do capital estrangeiro
no Brasil em alguns setores, como mineração, petróleo e energia elétrica, por
razões de segurança nacional. Entre as duas guerras, a presença de capital
externo no país era significativa. Os britânicos controlavam algumas das
principais empresas de: fumo, papel, fósforo, moinhos, indústrias têxteis e
calçadistas. Os norte-americanos, indústrias de alimentos, equipamentos
ferroviários, lâmpadas, transformadores, aparelhos domésticos,
fonográficos, sacos de papel e cimento. As empresas Ford, General Motors e
Chrysler, aqui desde a década de 1920/30 desenvolviam também atividades
manufatureiras de metalurgia, couro e vidro. O capital suíço estava presente
no setor de curtumes e processamento de alimentos. Os franceses no setor
químico. Os canadenses no setor de cimento. Argentinos em moinhos de
trigo, processamento de algodão, cimento e outros setores. As empresas
líderes no setor químico e farmacêutico eram britânicas, estadunidenses,
francesas e alemãs (GONÇALVES, 1999).
Em 1930, o Brasil já alojava grandes empresas multinacionais, que
dentro da política de substituição das importações também eram bem
recebidas pelo governo brasileiro, encontrando aqui ambiente liberal
e propício para sua instalação, o que estimulou a indústria doméstica.
O crescimento do setor industrial revelou-se significativo, resultando
numa diminuição de bens importados; no entanto, logo percebemos que
atrativos fiscais, embora mais presentes nos fins da década de 1990 no que
convencionou-se denominar Guerra Fiscal, estiveram presentes também em
outras épocas, como os recebidos pela indústria de cimento estadunidense
em 1933, como chama atenção Gonçalves (1999).
“Antes de 1930 o capital estrangeiro recebeu o mesmo tratamento que
o capital nacional, e mesmo em alguns casos, chegou a receber privilégios
especiais”, como taxas mais reduzidas ou isenções. “Nas constituições de
1934 e 1937, em virtude de fatores militares e estratégicos, houve restrições
com relação à presença do capital estrangeiro na mineração, petróleo,
energia elétrica, bancos, seguros, transporte marítimo e aéreo”. No final da
segunda Guerra Mundial, algumas restrições foram eliminadas, permitindo
que entre 1946/62 o capital estrangeiro tivesse um ambiente liberal para
atuação. A partir de 1964, com o golpe de Estado, o governo comprometeu-
se com uma economia mais aberta (GONÇALVES, 1999, p.56-57).

126
Mais precisamente, foi em 1953 que o capital estrangeiro volta
a poder circular sem restrições tanto quanto à remessa de lucro como à
4
repatriação . Em janeiro de 1955, o governo a partir da Instrução nº 113 da
SUMOC (Superintendência da Moeda e do Crédito) deu incentivo especial
5
aos investidores estrangeiros , sendo que estes incentivos permanecem até
1961, conforme Gonçalves (1999).
Ainda, o autor em questão esclarece que em setembro de 1962, o
governo instituiu a Lei nº 4.131 que tratava da presença do capital estrangeiro
no Brasil e das remessas dos lucros para o exterior. Uma das principais
características dessa lei foi não considerar como capital estrangeiro os lucros
reinvestidos no país e limitar a 10% a remessa dos mesmos. No entanto, essa lei
foi regulamentada somente em janeiro de 1964, poucos meses antes do Golpe
de Estado, não sendo assim aplicada nos termos em que foi concebida. Em
agosto de 1964, o novo governo aprova a Lei nº 4.390, que alterava artigos da
Lei anterior (a 4.131). Ambos os instrumentos legais foram regulamentados
6
pelo Ato Executivo nº 55.762 de fevereiro de 1965 e vigoram até hoje, com
alterações mais significativas apenas nos anos 1990, com a Lei nº 8.383 de
dezembro de 1991 e reforma constitucional de 1991. O principio básico dessa
legislação é que o investidor estrangeiro volta a receber tratamento idêntico
àquele dado ao capital nacional, como era antes, até a década de 1930.
O cenário que se apresenta nos anos 1970 é de uma economia com
alto grau de internacionalização, fruto dos antecedentes legislativos que
assim o permitiram. Gonçalves (1999) apresenta uma tabela com o grau de
desnacionalização da indústria de transformação em vários países, no final
dos anos 1970, na qual o Brasil ocupa o 6º lugar no ranking, com 32% de suas
indústrias nas mãos do capital estrangeiro, enquanto os EUA apresentam
11,5% e o Japão 4,2%. Embora pareça existir uma atuação generalizada

4
Entre 1947 e 1952, visando proteger o mercado interno, houve restrições quanto à remessa de
lucros, ficando a 8% do capital registrado (GONÇALVES, 1999).
5
Para maiores detalhes ver Gonçalves (1999, p. 59-60).
6
Outras regulamentações foram sendo implantadas após este período, mas sem grande notoriedade. No
entanto, vale destacar a CC5 (Carta Circular n.5 do Bacen de 27/02/1969) que permitia o depósito em
uma conta específica no país, em qualquer banco, para que qualquer pessoa física ou jurídica pudesse
movimentar e remeter livremente para o exterior, facilitando a livre movimentação de capitais entre a
empresa estrangeira que estivesse aqui, com o exterior. A partir de 1996 (Circular 2.677 de 10/04/96)
foram estabelecidos novos parâmetros para a CC5, agora as instituições financeiras eram obrigadas
a registrar no Banco Central essas operações com valores acima de US$ 10 mil. Em 2002 o governo
reforça as normas quanto a remessa de dinheiro para o exterior, assim para estrangeiros movimentar
dinheiro pelo CC5 são obrigados a se inscreverem no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF. A Circular
3.187 de 16/04/2003, também cumpre esse papel ao exigir identificação do remetente e destinatário da
remessa, além do motivo da mesma.

127
dessas empresas no Brasil, vale lembrar que esta se concentrou em setores
que demandavam mais tecnologia, como as de material elétrico, transporte,
química e produtos farmacêuticos. Outro aspecto dessa discussão é que
as empresas aqui instaladas não possuíam o mesmo patamar tecnológico
que suas matrizes, aqui as subsidiárias lidavam com atraso tecnológico e
7
também organizacional .
No início dos anos 1980, diante um cenário de recessão econômica
houve uma desaceleração do crescimento do capital externo no país. As
empresas de capital estrangeiro, tentando se equilibrar com a estagnação
econômica que se iniciava, criam novas estratégias de atuação, como expansão
das exportações, racionalização dos custos, demissão de trabalhadores,
exercício do poder de mercado, além da diversificação dos investimentos
em outros setores produtivos, mas também no setor financeiro, como
forma de ampliar seu capital no mercado especulativo, prática que passa a
8
ser utilizada também por empresas de capital nacional .
Uma reestruturação mais significativa nas empresas estrangeiras passa
a acontecer a partir da década de 1990; a insistente crise iniciada na década
anterior, paralelamente à abertura da economia nacional contribui para o
processo de reestruturação industrial que envolve toda uma remodelação
dos parques industriais e também das formas organizacionais, a eliminação
de linhas de produção é agora substituída por produtos já importados; os
9
processos de fusões e aquisições são cada vez mais presentes .
Os anos 1990 têm como marco a abolição às restrições do capital
estrangeiro no Brasil. As alterações na legislação, ocorridas entre 1991-93,
estiveram orientadas ao favorecimento da saída do capital estrangeiro no
Brasil, no que tange à remessa de lucros e pagamento de tecnologias. O fim
da Lei da Informática em 1994, que impedia a entrada do capital estrangeiro
nesse setor também foi marco importante para o processo de abertura.
Em 1995, a revisão constitucional permitiu que vários setores econômicos
(a exemplo do petróleo, indústria extrativa, navegação de cabotagem,
telecomunicação e serviços) tivessem as barreiras ao capital estrangeiro,
eliminadas ou flexibilizadas. O setor financeiro viveu isso e pode deixar de
10
lado o esquema de reciprocidade até então praticado. Grupos estrangeiros
agora poderiam adquirir participação majoritária ou integral nos bancos,
7
Rattner (1980) apresenta com propriedade as implicações da transferência de tecnologia.
8
Gomes (2005) discute a formação desses conglomerados financeiros no Brasil.
9
Uma discussão mais profunda sobre a reestruturação produtiva da década de 1990 pode ser
encontrada em Araújo (s/d) e Egler (1991).
10
Esse esquema pregava que uma instituição financeira estrangeira teria autorização para funcionamento
no país desde que uma instituição brasileira também o tivesse no país de origem da requerente.

128
e o filão foram os bancos estaduais que começaram a passar por processos
de privatizações, mas também outros setores, como as telecomunicações.
Gonçalves (1999, p.107) reforça que de 1991 a abril de 1998 os investidores
estrangeiros tiveram uma participação de 27,8% nas privatizações, e no que
se refere ao país de origem dos investimentos, os EUA deteve 13,8% das
participações, seguido pela Espanha, 4,5% e Chile com 2,3%.
No contexto das políticas neoliberais, esses processos aquisitivos por
11
meio das privatizações estiveram presentes no fim do século XX com
bastante intensidade, contribuindo, também, para a elevação do estoque do
capital estrangeiro no Brasil, que segundo Gonçalves (1999, p.74 e 125-126)
passou de 45 bilhões em 1994 para 72 bilhões de dólares em 1997. Em 2000
esse total já ultrapassava 103 bilhões de dólares. Em 1995, os EUA eram o
maior investidor no Brasil com 26,03% do estoque, enquanto a Alemanha
possuía 13,98%, a Suíça 6,75%, o Japão 6,38% e a França 4,87%.
O Censo de Capitais Estrangeiros de 2000 mostra um cenário
diferente, apesar de os EUA ainda permanecerem na hegemonia, ele
apresenta uma queda do seu estoque no Brasil, em contrapartida, outros
países ganham evidência, como Espanha, Portugal, Países Baixos e França,
que aumentam consideravelmente seus investimentos no Brasil. Juntos,
estes países representavam 9,43% do total de capital estrangeiro no país,
conforme o Censo de 1995. No seguinte, de 2000, passam a representar
33,72% do total, um aumento de mais de 24 pontos porcentuais. A Tabela 1
mostra os países e suas participações no estoque de capital estrangeiro nos
censo de 1995 e 2000.

Tabela 1 - Participação do capital estrangeiro no Brasil – (em US$ milhões)


1995 2000
PAÍS
PARTICIPAÇÃO PARTICIPAÇÃO
VALOR VALOR
(EM %) (EM %)
EUA 10.852,20 26,03 24.500,11 23,78
ALEMANHA 5.828,00 13,98 5.110,24 4,96
SUIÇA 2.815,50 6,75 2.252,05 2,20
JAPÃO 2.658,50 6,38 2.468,16 2,40
Continua

11
Na década de 1980 os primeiros sinais das políticas neoliberais eram sentidos na Inglaterra por meio
das ações de Margaret Thatcher. Segundo Ribeiro (1998, p.101) as formas de privatizações lá foram
“variadas e tiveram um custo social e econômico elevado, além de privar o Estado de um patrimônio
construído à custa da população. O beneficiário foi o capital financeiro que passou a controlar o
vasto setor de empreendimentos anteriormente estatal”. Tais processos foram fundamentais para a
mundialização e a intensificação da concentração do capital. Para um aprofundamento da política
e ideologia neoliberal ver Boito Jr. (1999).

129
FRANÇA 2.031,50 4,87 6.930,85 6,73
REINO UNIDO 1.862,61 4,47 1.487,95 1,44
1995 2000
PAÍS PARTICIPAÇÃO PARTICIPAÇÃO
VALOR VALOR
(EM %) (EM %)
CANADÁ 1.819,00 4,36 2.028,30 1,97
ITÁLIA 1.258,60 3,02 2.507,17 2,43
ILHAS VIRGENS (BRITANICAS) 901,22 2,16 3.196,58 3,10
ILHAS CAYMAN 891,70 2,14 6.224,81 6,04
URUGUAI 874,10 2,10 2.106,62 2,04
BERMUDAS 853,10 2,05 1.940,05 1,88
PANAMÁ 677,40 1,62 1.580,41 1,53
SUÉCIA 567,20 1,36 1.578,47 1,53
BÉLGICA 558,20 1,34 656,65 0,64
ILHAS BAHAMAS 509,70 1,22 944,02 0,92
LUXEMBURGO 408,00 0,98 1.034,11 1,00
ARGENTINA 393,60 0,94 757,79 0,73
ESPANHA 251,00 0,60 12.253,09 11,90
PORTUGAL 106,60 0,25 4.512,10 4,38
DINAMARCA 84,91 0,20 478,10 0,46
BARBADOS 37,53 0,10 656,32 0,64
DEMAIS 3.909,65 9,38 6.296,20 6,12
TOTAL 41.695,62 100,00 10.3014,51 100,00
Fonte: Censo de capitais estrangeiros (1995 e 2000). Disponível em www.bacen.
gov.br

A abertura, liberação e desregulamentação econômica em vários países


latinos têm permitido uma ampliação dos investimentos estrangeiros na
12
América Latina , o aumento exorbitante dos valores investidos revela isso. Em
1990, a América Latina havia recebido 9,2 bilhões de dólares, passando para
86 bilhões em 1999, conforme dados da Cepal (apud Linha Bancários, 2001).
Estes investimentos apresentam algumas novas características no que tange à
importância relativa dos EUA ter diminuído, aumentando a participação de
países europeus como Espanha, Inglaterra, Holanda e França. Vale ressaltar,

12
Fazio (1998) ao analisar a experiência chilena deixa evidente uma série de perdas pelas quais o seu
país passou a partir da década de 1980, quando a adoção da política neoliberal atrelada a abertura
da economia para o capital estrangeiro se fez sentir na perda da capacidade decisória do país, tendo
em vista o poder dos grandes grupos econômicos estrangeiros presentes. No entanto, quanto ao
aspecto das privatizações, diferentemente do Brasil, o Chile não privatizou empresas estratégicas
do país, como a Colbún (hidrelétrica), Codelco (produção cobre) e, ainda, manteve participações
acionárias em outras empresas consideradas de segurança nacional e estratégicas para o país. Para
uma análise destes mesmos aspectos na Argentina, Lozano (1998) é uma boa referência; uma
contribuição para o entendimento deste processo no México, está em Sosa (1998).

130
também, que os investimentos na área industrial têm cedido lugar aos serviços,
principalmente telecomunicações, comércio varejista, energia e área financeira.
Neste panorama, as empresas espanholas têm se apresentado como os principais
investidores. A Tabela 2 ilustra as grandes empresas espanholas na América
Latina, parte delas, figuradas entre os 100 maiores grupos por venda no Brasil,
conforme a Revista Exame Maiores e Melhores de 2004.

Tabela 2 - Principais empresas espanholas na América Latina – 2001


EMPRESA RAMO
Repsol Petróleo
Telefônica de Espanha Telecomunicações
BSCH1 Financeiro
BBVA2 Financeiro
Endesa3 Energia Elétrica
Iberdrola Energia Elétrica
Fonte: CEPAL (apud Linha Bancários (2001)

Dos investimentos espanhóis diretos para os países na América


Latina, o Brasil apresentou aumento exorbitante, passando de 8 para 52%
no período de 1997 a 1998, os investimentos feitos no setor financeiro são
representativos destes índices. Esse intenso direcionamento do capital
espanhol em direção a América Latina torna pertinente a reflexão de Fazio
(1998, p.115-116):

Cinco siglos después de que los conquistadores españoles pusieron


un pie en América por primera vez, una nueva armada española
desembarca en el Nuevo Mundo. Esta vez son los hombres de
negocios y no los soldados los que lideran la reconquista, y que
ven a América Latina como un nuevo El Dorado.

Esse aumento de IED a partir de 1995 é relevante na história


econômica do país. No Brasil, o inusitado está atrelado, além do montante,
ao fato do enfraquecimento dos blocos de capitais nacionais em oposição à
crescente importância dos grupos estrangeiros; isso não quer dizer que os
13
grupos nacionais perderam seus postos de mando , mas sim que o número

13
Até mesmo porque, como mostra Corrêa (2004, p.125) alguns grandes negócios internacionais
envolveram empresas brasileiras na aquisição de empresas localizadas em outros países, como a
compra da empresa argentina Perez Companc pela Petrobrás, do setor petroquímico, a participação
da Ambev em 36,09% da empresa Quilmes do setor de bebidas, argentino; a compra de participação
nas empresas canadenses Birmingham Southeast e Co-Steel pela Gerdau, no setor de metalurgia e
siderurgia, entre outros exemplos.

131
destes grupos diminuíram dada a crescente concentração de capital e
também a associação destes grupos ao capital estrangeiro, fato tão comum
em meados da década de 1990 quando das muitas privatizações.
Isto pode ser confirmado quando observamos o processo
generalizado de desnacionalização que ocorreu no país em vários setores
da economia. Gonçalves (1999, p.142) elenca algumas empresas de grande
porte, de capitais privados nacionais e destaques nos seus setores de atuação
que viveram tal processo, como a Metal Leve, Lacta, Refrigeração Paraná,
Supermercado Bompreço, Cofap, Agroceres, Grupo Renner e os bancos
Nacional-Excel, Garantia, Bamerindus, Real entre outras que passaram
pelo processo de desnacionalização.
De certo estaríamos perguntando agora, mas por que o Brasil? O
autor em questão nos auxilia na explicação. Além das políticas e estratégias
de intensificação das privatizações, na época adotadas pelo governo de
14
Fernando Henrique Cardoso, o Brasil é a 11ª economia do mundo , possui
um grande porte continental e também um mercado consumidor com
potencial para crescer, sendo que a única restrição para tal crescimento é a
15
questão da concentração de riqueza e renda nas mãos de poucos . Freitas
(apud KHALIL, 2004) afirma que a relação entre o número de contas
bancárias e o tamanho da população ainda é baixo no país; na Espanha
existe uma agência para cada grupo de 1.100 pessoas; no Brasil, está
proporção é de uma para 4.500. Nesse sentido, Costa (s/d) apresenta ainda
uma outra consideração:

Em 2000, a PEA [...] urbana era composta de 63.418.686


pessoas, essa seria a clientela bancária em potencial. No mesmo
ano, existiam 50,897 milhões de contas correntes de pessoas
físicas na rede bancária brasileira. Como 95% das pessoas
físicas concentram suas operações num único banco, podemos
estimar que cerca de pouco mais de 48 milhões de brasileiros já

14
Conforme SPITZ (2006-A e B) o Brasil que já foi a oitava economia do mundo na década passada,
subiu da posição de 15ª para a 11ª em relação a 2005, ficando à frente de todos os países da América
Latina e, também à frente da Índia, Austrália, Rússia e Holanda. No entanto, considerando o PIB
per capita, ocupa o 72º lugar, atrás da Costa Rica, Panamá e Argentina. A pesquisa considerou um
universo de 155 países.
15
A mídia ventila as estatísticas que mostram a situação vergonhosa da distribuição de renda
brasileira, grosso modo a publicação do IPEA – Radar Social 2005, publicada com a finalidade de
expor a situação sócia econômica brasileira confirma o lugar do Brasil nas mesmas. De 130 países
o Brasil ocupa o 129º no ranking, com a segunda pior distribuição de renda, atrás apenas de Serra
Leoa, um cenário brasileiro em que 50% dos mais pobres ficam com 13,3% da renda nacional,
enquanto 1% dos mais ricos fica com 13% dessa renda.

132
têm acesso bancário. Restariam cerca de 15 milhões de clientes
potenciais a serem conquistados.

Para Bielschowsky e Stumpo (1996, p.174), as empresas multinacionais


vislumbram no Brasil um potencial “mercado futuro cujo crescimento em
termos absolutos dificilmente pode ser ultrapassado por outra economia
em desenvolvimento, à exceção da China, Índia e Rússia”. Segundo
pesquisa dos autores, em 1990, a participação de capitais estrangeiros nas
vendas internas e nas exportações industriais alcançavam respectivamente
33 e 34% no Brasil, participação que não é superada por nenhuma outra
economia latino-americana e nem entre os países em desenvolvimento,
possivelmente só por Cingapura.
Esse grande afluxo de capital estrangeiro nesse período (meados da
década de 1990) coincide com as estimativas do FMI que apontam a existência
de cerca de US$ 30 trilhões girando no sistema financeiro internacional em
busca de oportunidades de realização de novos lucros, mas principalmente
coincide com as alterações no aparato regulatório, que passam a dar aval à
atuação estrangeira no setor de serviços, uma vez que as restrições ao IED
no setor primário e secundário eram poucas. Nesse sentido, justifica-se a
concentração de quase 95% do IED, em 1995, nos “segmentos: eletricidade e
gás, intermediação financeira, telecomunicação, seguro, previdência privada,
informática, comércio de combustíveis, transporte terrestre e comércio
varejista e atacadista” (GONÇALVES, 1999, p.106).
Por outro lado, se olharmos com mais afinco em algumas questões
que ocorreram durante os processos de privatizações que transcorreram
em meados da década de 1990, salta aos olhos a fragilidade dos aparatos
institucionais e/ou regulatórios do país, que muitas vezes pareceram
atender a alguns interesses oportunistas de grupos econômicos. O exemplo
da privatização do sistema Telebrás é ilustrativo nesse sentido. Os grupos
Jereissati e Andrade Gutierrez, que ganharam o leilão de uma das estatais
de telefonia, não tinham o dinheiro para pagar a compra efetuada. Logo, o
governo brasileiro, por meio do BNDES entrou com parte substantiva dos
recursos e tornou-se sócio do consórcio que comprou a estatal.
O autor em questão (p.102-103) destaca que as privatizações no setor
industrial tiveram seu ápice entre 1992-94 e não apresentaram grandes
repercussões no que se refere ao fluxo de IED; no entanto, a partir de 1994
há um intenso movimento de fusões e aquisições envolvendo empresas
estrangeiras. Entre 1995-97, as empresas estrangeiras envolveram-se em 154
fusões e aquisições, enquanto as empresas nacionais apenas em 103. Esse

133
número de participação estrangeira equivale a 60% dos processos efetuados
no período referenciado, acima dos 42% do período de 1992/94. Se nos
ativermos aos processos em geral de fusões e aquisições que ocorreram para
o período de 1995/97, teremos um total de 423 operações, tendo as empresas
16
estrangeiras participando de 251 delas, ou seja, um total de 70% .

Considerações finais
Do exposto, fica evidente que dentro dessa dinâmica de
internacionalização da economia, o papel do Brasil tem se dado muito mais
de forma receptiva que expansiva; ou seja, o país recebeu mais empresas
estrangeiras do que colocou as suas lá fora, confirmando que a globalização
não é homogênea, mas seletiva, seja quanto aos lugares, seja quanto às
empresas. O setor bancário é exemplar nesse caso, embora presenciamos
poucos, mas grandes bancos nacionais nessa empreitada.

Referências
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competitiva. s/l, s/d (texto mimeo).
BIELSCHOWSKY, Ricardo e STUMPO, Giovanni. A internacionalização
da indústria brasileira: números e reflexões depois de alguns anos de
abertura. In: BAUMANN, Renato (org.) O Brasil e a economia global.
Rio de Janeiro: Campus/Sobeet, 1996.
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Paulo: Xamã, 1999.
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CORRÊA, Domingos S. Fusões e aquisições de empresas no Brasil:
concentração de capital e desnacionalização da economia. Ciência
Geográfica. Bauru. n.X, v.X (2), maio/agosto, 2004, p. 121-126.

16
Em Gonçalves (1999, p.142-152) existe farto e rico material sobre os processos de privatizações e a
participação do capital estrangeiro nestes processos.

134
COSTA, Fernando N. da. Bancarização. s/d. Disponível em <http://www.
eco.unicamp.br/artigos/artigo270.htm >. Acesso em: 06 jun. 2006.
EGLER, Claudio A. G. As escalas da economia, uma introdução à dimensão
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mundial – mestres explicam a globalização. Rio de Janeiro: Record, 2003.
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135
SPITZ, Clarice. Veja o ranking das maiores economias do mundo. Folha
Online. 30/03/2006-A. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/
folha/dinheiro/ult91u106421.shtml.> Acesso em: 13 jun. 2006.
______. PIB soma R$ 1,937 trilhão e Brasil torna-se 11ª maior economia do
mundo. Folha Online. 30/03/2006-B. Disponível em: <http://www1.folha.
uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u106420.shtml>. Acesso em: 13 jun. 2006.

136
A teoria do caos e a geografia: fundamentos e
perspectivas

1
VESTENA, Leandro Redin

Resumo: O presente trabalho tem por objetivo apresentar os conceitos


fundamentais da Teoria do Caos e destacar sua importância para a
Geografia. Ele aborda os principais aspectos que envolvem a geometria
fractal na caracterização dos sistemas ambientais complexos.
Palavras-chave: caos; natureza; fractal; geografia.

Introdução

Onde começa o caos, a ciência clássica pára.


Desde que o mundo teve físicos que investigavam as leis da
natureza, sofreu também de um desconhecimento especial sobre a
desordem na atmosfera, sobre o mar turbulento, as variações das
populações animais, as oscilações do coração e do cérebro.
O lado irregular da natureza, o lado descontínuo e incerto, têm sido
enigmas para a ciência, ou pior: monstruosidades (GLEICK, 1990, p. 3).

A ciência, de modo geral, é marcada por dois grandes paradigmas, o


analítico e o holístico. No paradigma analítico, a ciência tem por objetivo
explicar, generalizar e determinar as causas, de modo que as hipóteses
sejam formuladas e verificadas através de comparações e experimentos, a
partir do estudo das partes do sistema. No holístico ou sistêmico, a ciência
passa a ser entendida a partir do todo, o sistema é concebido como um todo
integrado, ou seja, o todo é maior que o somatório de suas partes.
Os sistemas podem ser simples (lineares), onde as relações de causa
e efeito entre as variáveis podem ser previstas com precisão; ou complexos
(não lineares), onde as relações apresentam comportamento dinâmico e
caótico. Os sistemas complexos passam a ser objeto de estudo da Teoria do
Caos. Esta compreende o estudo de comportamentos instáveis e aperiódicos
em sistemas dinâmicos determinísticos não-lineares (GLEISER, 2002).

1
Professor do DEGEO/UNICENTRO.
A Teoria do Caos pode ser entendida a partir de pelo menos três
conceitos básicos: a Teoria de Poincaré ou Efeito Borboleta; a Teoria de
Lorenz; e a de repetições de um mesmo tipo de estrutura, as bifurcações ou
ramificações (GLEICK, 1990).
A Teoria de Poincaré aponta que o bater das asas de uma borboleta,
hoje numa região qualquer da Ásia, causa uma movimentação de ar que, vai
crescendo de forma gradual, atravessando continentes e oceanos, podendo
tomar forma de uma tempestade numa região específica da América.
A Teoria de Lorenz demonstra que pequenos erros mostram-se
catastróficos. Lorenz, no início da década de 1960, ao tentar fazer a previsão
meteorológica, vislumbrou a ordem do caos, da mesma forma que Poincaré
e muitos outros depois dele, perceberam que uma pequena mudança nas
condições do clima hoje pode produzir uma grande catástrofe mais à frente.
Usando um computador para simular o comportamento da atmosfera e dos
oceanos, Lorenz, com base em certas informações fornecidas à máquina na
forma de números, previa o tempo para os dias e meses seguintes na forma
de gráficos. Porém, num certo dia, ele quis que o computador repetisse uma
determinada seqüência de gráficos, digitou os mesmos números iniciais,
mas a máquina respondeu com gráficos diferentes (Figura 1). O motivo da
discrepância estava nos números que ele havia digitado. Na primeira vez, o
computador trabalhou com números com seis casas decimais. Na segunda,
ele digitou números mais curtos, supondo que a diferença era desprezível. Ao
comparar os dois gráficos, percebeu que eles divergiam progressivamente a
partir de certo ponto. Isto é, pequenas diferenças se multiplicam, formando
um efeito cascata. Pequenos erros se acumulam com o tempo.
Figura 1 - Como dois padrões de tempo divergem: das saídas impressas de
Lorenz, de 1961

Fonte: (GLEICK, 1990)


Apesar da descoberta de Lorenz ter ocorrido por acaso, ele percebeu nela
uma bela estrutura de aleatoriedade. Para encontrar meios ainda mais simples

138
de produzir esse comportamento complexo, abandonou a meteorologia, e os
encontrou nas chamadas equações não-lineares, as mesmas ensinadas nas
aulas de geometria descritiva do antigo curso colegial. Os gráficos produzidos
a partir dessas equações parecem, à primeira vista, a desordem pura, já que
nenhum ponto se repete. Porém, se observar atentamente, pode-se perceber
que eles encerram certo tipo de ordem.
A matemática clássica ou euclidiana consiste na descrição de objetos
físicos que utilizam linhas, círculos, elipses, etc. Este tipo de geometria
é apropriado para descrever sistemas simples, porém, imprópria para
descrever padrões encontrados na natureza, que são significativamente
mais complexos, ou seja, não lineares.
Mandelbrot (1983), a partir disso desenvolve a geometria fractal para
descrever estas entidades naturais, ou seja, capaz de descrever os padrões
irregulares, o caos e o aleatório, encontrados na natureza (XU et al., 1993).
Christofoletti (1997), associando a Teoria Fractal à Teoria do Caos,
colocou que esta relata a história das coisas que acontecem nos sistemas
dinâmicos à medida que evoluem ao longo do tempo, enquanto a geometria
fractal registra as imagens de seu movimento no espaço, ou seja, descreve a
trajetória deixada pela passagem dessa atividade dinâmica.
De acordo com Capra (1996), a geometria fractal, incorpora as
relações e os padrões. “É mais qualitativa do que quantitativa e, desse modo,
incorpora a mudança de ênfase característica do pensamento sistêmico”
Ou seja, enquanto a matemática convencional (euclidiana) trabalha com
quantidades e com fórmulas, a Teoria dos Sistemas Dinâmicos lida com
qualidades e com padrões.
Sendo assim, a Geometria Fractal apresenta grande importância à ciência
geográfica à medida que contribui para o entendimento dos padrões espaciais
apresentados pela natureza. A Geometria Fractal, de acordo com Chistofoletti
(2004), foi um dos mais importantes acontecimentos científicos do século XX.
No Brasil, e principalmente na Geografia, restritos são os trabalhos
que se fundamentam na Teoria do Caos para o entendimento da Natureza.
Neste sentido o presente trabalho visa apresentar, de forma resumida e
clara, os principais conceitos associados à Teoria do Caos e sua importância
para a Geografia.

A fractalidade na Natureza
Na natureza, os padrões fractais são facilmente observados, destaca
Briggs (1992), por descrevem a rugosidade do mundo, sua energia, suas

139
mudanças e transformações dinâmicas. O espalhamento das folhas
de outono nos quintais e jardins; a fratura deixada pela vibração de um
terremoto; a linha costeira sinuosa esculpida pela turbulência dos oceanos e
erosão; os fragmentos irregulares do gelo à medida que as águas congelam;
o espaçamento das estrelas no céu noturno; as nuvens e os penachos
da poluição de uma usina energética espalhando-se na atmosfera, as
ramificações de uma árvore, que marcam o processo de seu crescimento;
a rede de drenagem desenvolvida numa determinada área; entre outros;
todos eles são padrões fractais, sinais da atividade dinâmica trabalhando.
Para explicitar melhor um caso de fractalidade, pergunta-se: Qual o
comprimento do litoral paranaense? A linha da costa é em geral calculada
a partir de imagens de satélite. Mas se as fotografias fossem tiradas de um
avião, as irregularidades seriam mais visíveis e obter-se-ia um outro valor.
Se, em vez de fotografia, fossem medidas diretamente todas as saliências e
reentrâncias, obter-se-ia um valor muito maior. Se, em seguida, fosse usada
uma régua de um decímetro e repetindo a tarefa, obter-se-ia maior precisão
nas medidas dos contornos rochosos, começando a levar em conta a
irregularidade das pedras, e o comprimento final obtido seria ainda maior.
Poder-se-ia repetir esta tarefa indefinidamente, mas sempre reduzindo
a escala de medição da costa, que o seu comprimento iria aumentar, visto
que o comprimento da costa de um país tende para o infinito, embora a
área que a limita seja finita.
O comprimento do litoral depende de como ele é medido. Isto acontece
porque o litoral, ao contrário do que você lê em muitos livros de geografia, não
é uma linha. Perguntar sobre seu comprimento não tem sentido.
A linha de costa é um exemplo de fractal que ocorre na natureza,
exemplo este já destacado no início do tópico. A dimensão de uma
curva fractal é o número que caracteriza a maneira na qual a medida do
comprimento entre dois pontos aumenta à medida que a escala diminui.
Como é possível existir uma “linha” que une dois pontos, mas que não
tem comprimento bem definido? Para ver isso, comece com uma linha simples,
um segmento de reta como o da figura 2A. Essa linha tem um comprimento
bem definido, por exemplo, três quilômetros. Agora, divida o segmento em três
partes iguais e substitua a parte do meio por dois pedaços de igual tamanho,
formando uma entrada ou cavidade (siga na Figura 2A), que você pode pensar
como representando uma baía ou enseada no litoral. Qual é o comprimento
dessa nova linha? É fácil ver que é simplesmente quatro quilômetros, pois cada
pedaço vale um quilômetro. Em cada segmento, proceda do mesmo modo:
divida cada segmento em três partes iguais e substitua a do meio por dois

140
segmentos de mesmo tamanho, de modo que cada segmento original agora
tem quatro pedaços iguais. Qual é o novo comprimento?
A linha total tem 16 pedacinhos, e cada um possui 1/3 km (lembre-
se que cada pedaço de 1 km foi dividido por três). Logo, o comprimento
deve ser 16 vezes 1/3, ou seja, 16/3 = 5,333... km. De novo, o comprimento
aumentou, já que antes era 4 km. Mas esse comprimento ainda é bem
definido, nenhuma surpresa até agora. O que temos por enquanto é uma
linha poligonal composta por certo número de segmentos de reta, cada
segmento com um comprimento bem definido.
Figura 2 - Curva de Koch

Fonte: (SERRA e KARAS,1997)


Para se obter um objeto fractal é só continuar repetindo isso, sem
parar. Cada repetição do mesmo procedimento é chamada de “iteração”. O
comprimento total vai aumentando sempre. É fácil ver por quê. Cada vez
que você repete a formação da cavidade, o comprimento é multiplicado por
4/3 (ou seja, você fica com quatro novos pedaços, cada um com um terço do
comprimento original). Mas 4/3 = 1,333... é um número maior que 1. Se você
multiplica qualquer quantidade por um número maior que 1, e multiplica de
novo, e de novo, sem parar, o resultado vai aumentando e tende ao infinito.
A complexidade infinita dos objetos fractais advém do fato de o processo
gerador dos fractais ser recursivo, tendo um número infinito de iterações.
A natureza é mais criativa e sutil, o que alguns geógrafos descobriram
mais tarde é que o litoral dos continentes e ilhas é mais parecido com a curva
de Koch do que com uma linha suave ou poligonal. Assim, uma cavidade
pode representar uma entrada do mar na terra (dependendo do tamanho

141
da cavidade, chamamos de golfo, baía ou enseada) que por sua vez tem
suas pequenas baías, que têm suas pequenas enseadas e assim por diante.
Porém, parecido, mas não idêntico, porque o litoral é irregular enquanto
que a curva de Koch é um fractal regular. Mas isso é fácil de resolver,
pois é possível fazer curvas de Koch irregulares, por exemplo, escolhendo
aleatoriamente qual dos três pedaços deve ser substituído pela cavidade
formada por dois segmentos (Figura 2B).
A diferença mais importante entre o litoral real e uma linha imaginária
como a curva de Koch é que chega um momento em que os detalhes são
tão pequenos (por exemplo, o espaço entre duas rochas à beira-mar) que
não tem mais sentido perguntar onde começa a terra e onde termina o
mar. E isso sem falar em outras complicações, como as ondas e as marés,
que fazem com que a linha de separação entre terra e água seja ainda mais
mal definida, ou seja, o litoral real é ainda mais complicado que um fractal:
seria melhor descrevê-lo como um fractal que muda com o tempo.
Se a curva de Koch (e, de certa forma, o litoral) não tem comprimento,
se ela não é um objeto unidimensional (uma linha), o que ela é afinal?
Intuitivamente ela parece ocupar “mais espaço” do que uma linha, mas
certamente não é um objeto bidimensional que tem uma área medida em
metros quadrados. A curva de Koch é mais que uma linha, porém menos
que uma superfície. De alguma forma, ela parece ter uma dimensão entre
um e dois, ou seja, uma dimensão fracionária.
Assim, conclui-se que os objetos fractais não possuem comprimento,
área ou volume, mas uma outra medida, que se passou a chamar de dimensão
fractal. E ela pode ser calculada da seguinte forma:

Ou seja,

Logo,

142
Isto é,

sendo: R a razão na qual dividimos cada segmento da figura (coeficiente de


redução); N o número de partes resultantes da transformação de um segmento
da figura anterior, em cada iteração; e d a dimensão fractal. Destaca-se apenas
que o processo acima descrito é válido para figuras com auto-semelhança exata.
Existem diversos métodos para se determinar à dimensão fractal (ver
Gao e Xia, 1996). Um método geral para se determinar a dimensão fractal
espacial, não sujeito ao requisito da existência de auto-similaridade, e aplicável
a qualquer espécie de figura é o de contagem de caixas (Box Counting), que,
no caso de uma figura plana, reduz-se a uma contagem de quadrículos (Serra
e Karas, 1997). Cobre-se a figura com uma malha de quadrículos de lado
e contam-se quantos quadrículos contêm pelo menos um ponto da figura.
Seja esse número. Se a malha de quadrículos for muito larga a cobertura
será pouco precisa, pois alguns quadrículos conterão apenas uma porção
diminuta da figura, ficando vazio o resto de sua área. A precisão aumentará
se a malha é reduzida, diminuindo o lado , fazendo-o tender pra zero. A
dimensão fractal no limite é dada pela equação:

A dimensão fractal
Uma das ferramentas proposta para a análise dos sistemas complexos
é a dimensão fractal. Ela é definida como sendo a medida do grau de
irregularidades em diferentes escalas; e é relacionada com o aumento da
medida de um objeto enquanto a escala do instrumento de medida diminui.
Serra e Karas (1997) descreveram os fractais como geralmente figuras
de grande complexidade, com detalhes que se multiplicam em suas partes
mais ínfimas, propriedades e características peculiares que os diferenciam
das figuras geométricas habituais.

143
Um fractal possui três características muito particulares: a sua auto-
semelhança; a sua dimensão; a sua complexidade infinita.
A auto-semelhança de um fractal baseia-se no fato de o conjunto
ser constituído por pequenas cópias de si mesmo. Assim, pode dizer-se
que todas as escalas são indicadas para representar um fractal: a sua forma
é independente da escala considerada. No entanto verificamos que esta
afirmação tem limites quando abandonamos os modelos matemáticos e
consideramos objetos naturais.
Distinguem-se, assim, dois tipos de auto-semelhança: a exata e a
aproximada (ou estatística). A auto-semelhança exata é uma abstração, só
existe no seio da matemática.
Nota-se, na figura 3, que o relevo do litoral contém estruturas
encaixadas em outras, ou seja, o relevo do litoral não muda sua aparência
quando observado em diferentes escalas. A propriedade de auto-semelhança
possui extrema importância na mensuração dos padrões espaciais. Neste
nível de compreensão, a estrutura espacial de um fenômeno geográfico
em uma dada escala, pode ser extrapolada para outra, isto é, os arranjos
espaciais mensurados em uma dada escala, podem apresentar estruturas
auto-similares ou equivalentes em outras escalas, destaca Milne (1990).
Figura 3 - Relevo de Costa: exemplo de auto-similaridade

Fonte: (PEITGEN et al., 1992)

Os objetos naturais não possuem (como já foi dito) auto-similaridade


perfeita. Formalmente, uma figura possui auto-semelhança exata se, para
qualquer dos seus pontos, existe uma vizinhança que contém uma parte da
figura semelhante à sua totalidade.

144
Relativamente à auto-semelhança aproximada, embora não seja
também real, pois estamos limitados à escala visível, encontra aproximações
surpreendentes em formas da natureza.
Serra e Karas (1997) citaram como um gênero da propriedade de
auto-similaridade dos objetos fractais a propriedade de auto-afinidade
encontrada em muitos objetos da natureza.
Contudo, os fractais são igualmente formados por mini-cópias, mas
estas não mantêm fixas as proporções originais, ou seja, eles são invariantes
sob transformações anisotrópicas. Isso ocorre quando uma porção menor
do todo parece ter sofrido diferentes reduções de escala nas direções
longitudinais e transversais. Esse escalonamento desigual resultará em
distorções na réplica menor.
Nikora (1994), considerando a estrutura física da bacia de drenagem,
procurou mostrar o multiescalonamento de sua estrutura (Figura 4),
discutindo as propriedades de auto-similaridade e auto-afinidade dos
objetos fractais. Nesse estudo, utilizou redes de drenagem obtidas em
mapas topográficos e com base nas leis de Horton demonstrou as vantagens
destas propriedades. Para o mesmo autor, uma bacia de drenagem inclui em
suas transformações bacias menores ao longo de seus afluentes, ou seja, ao
dividir uma bacia infinitamente, no “limite”, obtém-se um conjunto fractal
de pontos sobre a superfície. Na natureza, esse procedimento termina com
as bacias de drenagem de primeira ordem, cujos tamanhos determinam a
fractalidade da escala interna.

Figura 4 - Estrutura de multiescalonamento fractal das bacias de drenagem. Os


limites são mostrados para bacias de drenagem de ordem n, (n -1) e (n -2)

Fonte: (NIKORA, 1994)

Neste contexto, a dimensão fractal da rede de drenagem, por exemplo,


segundo Vestena e Kobiyama (2008), é importante para os hidrólogos por

145
caracterizar as propriedades da escala e indicar a associação existente entre
medida e escala, visto que as medidas geomorfológicas, comprimento
dos cursos fluviais, densidade de drenagem e declividade são tipicamente
mensuradas de mapas e usadas na modelagem hidrológica.
Lam et al., (1992), ao observarem as questões relativas à escala,
resolução e análise fractal, colocam que a escala e a resolução têm sido
chave de muitas questões de mapeamento científico. Para os pesquisadores,
os vários dilemas metodológicos de mapeamento envolvem a questão
da escala e resolução. Diferentes processos espaciais operam em escalas
diferentes, assim a interpretação fundamentada nos dados de uma escala
não pode ser necessariamente aplicada para outra escala, dessa forma, um
padrão espacial pode parecer bem definido de acordo com uma escala; mas
com pouca definição em outra.
Gao e Xia (1996) consideraram um fractal como estrutura física que
tem forma irregular ou fragmentada em todas as escalas de medida, sendo
uma de suas características o escalonamento ou invariância geométrica sob
certas transformações. A independência escalar dos fractais é decorrente de
suas propriedades: auto-similaridade e auto-afinidade. A auto-similaridade é
um atributo do fractal exato, onde cada cópia do objeto é escalonada do todo
pela mesma razão, em toda coordenada cartesiana. A propriedade de auto-
afinidade é um atributo daqueles objetos que mesmo sofrendo transformações
longitudinais ou transversais conservam afinidade com a figura original.
Por sua vez, Christofoletti (1997) citou como atributos dos
fractais, o escalante e a aleatoriedade. Para o pesquisador, o escalante se
encontra relacionado com o grau de detalhamento em diferentes escalas
de observação do objeto e a aleatoriedade com as dinâmicas caóticas dos
sistemas, assinalando a imprevisibilidade da forma específica a ser gerada.
Um fractal é um conjunto espacial que manifesta uma relação
escalar, entre o número de seus elementos constituintes e a sua classe de
mensuração (tamanho, densidade e intensidade). Essa definição inclui
fenômenos dinâmicos que podem ser espacialmente representados e,
portanto, fractalmente mensurados. O fractal, usado como adjetivo,
significa a qualidade do objeto de manifestar essa regularidade escalar.
Assim, a propriedade de escalonamento se tornou característica inerente
da fractalidade e a espacialidade, característica do fenômeno analisado.
Logo, uma das formas talvez mais simples de definir um fractal diz
respeito à condição de invariância geométrica do objeto quando observado
em escalas diferentes.

146
De acordo com Christofoletti (1997), a alteração na escala de
observação dos fractais determina uma quantidade de elementos similares
que ocorrem também de forma diferente. A seqüência de alterações
estabelece a noção de escalonamento que pode ser analisado como sendo a
relação entre o tamanho e a quantidade de ocorrências nos diversos níveis
de observação. Sendo assim, a dimensão fractal é o valor do expoente do
escalonamento, relacionando o número de ocorrências desses elementos
com a categoria de seus diversos tamanhos.
A dimensão da curva fractal, por exemplo, é um número que caracteriza
a maneira na qual a medida do comprimento, entre dois pontos, aumenta
à medida em que a escala de observação diminui. Nesse caso, a dimensão
fractal quantifica a complexidade ou irregularidade de um objeto fractal, mas
não sua forma. Portanto, um objeto com menor dimensão fractal é menos
complexo do que um objeto com uma maior dimensão fractal.
Para Christofoletti e Christofoletti (1994), a significância dos
fractais residiu em possibilitar concepções mais amplas a propósito da
dimensionalidade de um objeto. Os pesquisadores enquadraram os valores
do escalonamento da dimensão fractal de modo genérico em:
- Valores entre 0 e 0,99: neste intervalo encontram-se as estruturas
com base em pontos como, por exemplo, o fractal de uma série
temporal de dados sobre a precipitação em determinado lugar;
- Valores fractais entre 1,0 e 1,99: neste intervalo incluem-se as
estruturas espaciais de lineamentos, no caso curvas irregulares, como
as tortuosidades e as sinuosidades das linhas costeiras e os meandros
dos cursos fluviais.
- Valores entre 2,0 e 2,99: inserem-se as estruturas espaciais de
representação bidimensional que uma superfície irregular possui.
Incluem-se aqui a análise do formato de bacias hidrográficas e a
modelagem digital do terreno;
- Valores de 3,0 e 3,99: correspondem às estruturas espaciais
de representação volumétrica de uma categoria de ocorrência no
interior de outro conjunto volumétrico. Por exemplo, servindo
como aplicação para o cálculo de reservas em jazidas minerais em
determinada unidade espacial ou para determinar o volume total
de nuvens em uma unidade volumétrica (local ou regional) da
atmosfera.

147
Na tabela 1, mostra-se uma relação de várias estruturas observadas
na natureza com suas correspondentes dimensões fractais, medidas com
aproximações variáveis, dentro do domínio de escalas em que a propriedade
de similaridade está presente.

Tabela 1 - Dimensões fractais aproximadas de vários processos naturais

DIMENSÃO
ÁREA SISTEMA
FRACTAL
Olho humano ~1,7
Pulmão ~2,2
Cérebro dos mamíferos ~2,6
Ramificação de plantas 2,2 < d < 2,8
BIOLOGIA Proteínas 1,6 < d <-2,4
~1,4 (borda)
Colônias de fungos e bactérias
~1,9 (massa)
Linhas costeiras 1,2 < d < 1,4
Meandros de rios 1 < d < 1,2
Contornos topográficos de montanhas 1,1 < d < 1,3
GEOCIÊNClAS
Objetos fragmentados (granito, carvão,
2,1 < d < 2,6
basalto, quartzo etc.)
COSMOLOGIA Distribuição de galáxias no Universo ~1,2
Aglomerados de metal em catodo ~1,35
Nuvens (projeção do perímetro) ~2,43
ESTRUTURA DA
MATÉRIA Dedos viscosos (produzidos pela injeção de
~1,7
um líquido em outro viscoso)
Fonte: (MOREIRA, 1999)

No mundo euclidiano, o observador move-se em saltos descontínuos da


linha (unidimensional), para o quadrado (bi-dimensional) e para o cubo (tri-
dimensional). Já, no mundo fractal, o observador move-se em saltos contínuos
e as dimensões dos objetos são valores entre as dimensões euclidianas.
Por outro lado, observam que os fractais (formas irregulares) são
ferramentas potencialmente úteis para pesquisar as questões de escala e
resolução, com base no conceito da característica de auto-similaridade
dos fractais, na qual uma parte do objeto reproduz exatamente a forma
de todo. Isso proporciona a simulação de curvas e superfícies de variada
dimensionalidade, assim sendo, essa ferramenta tornou-se importante
para análise de espaço. Na área geotécnica, os fractais têm sido usados para
melhorar a coerência de generalização cartográfica.
A dimensão fractal encontra-se sempre associada com um
determinado nível de resolução analítica. A complexidade pode variar

148
com o detalhamento da observação e dos procedimentos usados na sua
determinação, por exemplo, o estudo da organização estrutural das redes
hidrográficas, considerando as diversas escalas de representação cartográfica
e a utilização de fotografias aéreas ou imagens orbitais.

Apontamentos e considerações
A abordagem fractal surge como um importante recurso
metodológico para o estudo de comportamentos instáveis e aperiódicos em
sistemas dinâmicos determinísticos não-lineares, ou seja, caóticos.
A dimensão fractal relaciona-se com o grau de irregularidade ou
tortuosidade de um fractal e representa o seu grau de ocupação no espaço.
À Geografia, como a ciência que se preocupa com a compreensão do
espaço, mais especificadamente, do onde (dimensão espacial) e do por que
deste onde, a abordagem fractal passa a ter grande importância à medida em
que pode fornecer subsídios à análise espacial integrada e ao entendimento
da organização que os arranjos sociais, culturais e econômicos ganham
sentido no espaço geográfico.
Por fim, espero que os conceitos aqui expostos da teoria do caos
sirvam de inspiração aos estudantes de Geografia e pesquisadores a
utilizarem a abordagem fractal nos estudos geográficos.

Referências
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CAPRA, F. A Teia da Vida. São Paulo: Cultrix, 1996.
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chuvosas em localidades do estado de São Paulo. São Paulo, 1997. 263 f.
Tese de Doutorado - UNESP, Rio Claro.
CHRISTOFOLETTI, A. L. H. Sistemas dinâmicos: as abordagens da teoria
do caos e da geometria fractal em geografia. In: VITTE, A. C.; GUERRA,
A. J. T. (Ed.). Reflexões sobre a geografia física no Brasil. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil. 2004. p. 89-110.
CHRISTOFOLETTI, A. L. H.; CHRISTOFOLETTI, A. O uso das fractais
na análise geográfica. Geografia, Rio Claro, v. 19, n. 2, p. 79-112, 1994.

149
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geography, Senenoaks, v.20, n.2, p. 178-191, 1996.
GLEICK, J. Caos: a criação de uma nova ciência. Rio de Janeiro: Campus,
1990. 310p.
GLEISER, I. Caos e complexidade: a evolução do pensamento econômico.
Rio de Janeiro: Campus, 2002. 281p.
LAM, N.; SIU, N.; QUATTROCHI, D. A. On the issues of scale, resolution,
and fractal analysis in the mapping sciences. Professional Geographer. v.
44, n. 1, p. 88-98, feb. 1992.
MANDELBROT, B. B. The fractal geometry of nature. San Francisco:
W.H. Freeman and Co., 1983. 468p.
MILNE, B. T. Measuring the fractal geometry of landscapes. Applied
Mathematics and Computation, New York, v. 27, p. 67–79, 1988.
NlKORA, V. I. On self-similarity of drainage basins. Water Resources
Research. v. 30, n. 1, p. 133-137, 1994.
MOREIRA, I. C. Fractais. In: NUSSENZVEIG, H. M. (Org.) Complexidade
e caos. Rio de Janeiro: UFRJ/COPEA, 1999, p. 51-82.
PEITGEN, H. O. P.; JÜRGENS, H.; SAUPE, D. Fractals of the classroom. Part
one: introduction to fractals and chaos. New York: Sprinter-Verlag, 1992.
SERRA, C. P.; KARAS, W. E. Fractais gerados por sistemas dinâmicos
complexos. Champagnat. Curitiba, 1997. 190p.
VESTENA, L. R., KOBIYAMA, M. A Dimensão Fractal da Rede de Drenagem
da Bacia Hidrográfica do Caeté, Alfredo Wagner/SC. In: XIX SEMINÁRIO
DE PESQUISA XIV SEMANA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CENTRO-OESTE. Anais... Guarapuava:
UNICENTRO, 2008 (no prelo).

150
Interpretação geográfica de um evento
pluviométrico excepcional ocorrido em abril de
1998, Guarapuava-PR
1
AMARAL, Adriano Araújo do
2
THOMAZ, Edivaldo Lopez

Resumo: Este trabalho tem como objetivo analisar o episódio de chuvas


intensas que ocorreu na cidade de Guarapuava-PR nos dias 23, 24 e 25
de abril de 1998 e que causou alagamentos na cidade. Baseando-se no
canal de percepção dos impactos hidrometeóricos da proposta teórico
– metodológica de Clima Urbano de Monteiro (1976) e no paradigma
da análise rítmica (MONTEIRO, 1971), este estudo busca caracterizar a
movimentação atmosférica que atuou sobre a região da área de estudo.
Para tal, utilizamos imagens do satélite GOES-8 (Visível), do Centro de
Pesquisas Tecnológicas (CPTEC/INPE), e as cruzamos com os dados do
IAPAR (Instituto Agronômico do Paraná) e com os relatórios climáticos da
fonte CLIMANÁLISE/INPE (2006).
Palavras–chave: alagamentos; climatologia geográfica; Guarapuava-PR.

Introdução
Gregory (1992), citando Chandler (1976), salienta a relevância que
as condições climáticas de uma cidade têm no planejamento da mesma.
Ainda nos lembra que Chandler, Cooke e Douglas (1976) já consideram
que a mudança de uso do solo de seu ambiente natural para um urbanizado,
produz mudanças particularmente nas feições geológicas, geomorfológicas,
hidrológicas e nos limites da atmosfera.
São vários os estudos que têm sido feitos em relação aos impactos
nos ambientes urbanos, dentre eles a análise da vulnerabilidade das áreas
urbanas em face aos desastres naturais (furacões, ciclones, terremotos,
alagamentos, secas, e etc.), considerando a magnitude e freqüência desses

1
Graduando do 4° ano de Geografia – licenciatura – da Universidade Estadual do Centro-Oeste
(UNICENTRO) e bolsista do PET (Programa de Educação Tutorial) Geografia.
2
Professor doutor do DEGEO – Departamento de Geografia – da Universidade Estadual do Centro-
Oeste (UNICENTRO).
fenômenos, tanto do fenômeno em si quanto pela sua repercussão nas
organizações sócio-econômicas.
A concepção de clima aqui adotada é a de Monteiro (1971), onde
este aparece como sendo o ambiente atmosférico constituído pela série
e sucessão habitual dos estados da atmosfera acima de um lugar. Esta
concepção nos recomenda que somente a análise rítmica ao nível de tempo,
desvelando a origem dos fenômenos na perspectiva regional, é capaz de
contribuir no estudo de diferentes problemas geográficos da região; o
autor ainda propõe a análise das variações diárias dos elementos climáticos
associados à circulação regional da atmosfera, de modo a buscar a gênese do
fenômeno climático encadeado, no nosso caso, na análise episódica. Então,
ao trabalhar com o paradigma da análise rítmica, procuramos visualizar as
seqüências rítmicas dos tipos de tempo, pois:

A visualização desses encadeamentos atmosféricos depende,


basicamente, das respostas locais colhidas nas variações
diárias e horárias dos elementos do clima (medições de
superfície: estações e postos meteorológicos), nas cartas
sinóticas do tempo [...] e nas imagens fornecidas por satélites
meteorológicos (ZAVATTINI, 2002, p. 102). (Grifo nosso).

Ainda, neste caso, Monteiro (1971, p. 13) nos recomenda que:

Na análise rítmica as expressões quantitativas dos elementos


climáticos estão indissoluvelmente ligados à gênese ou qualidade
dos mesmos e os parâmetros resultantes desta análise devem ser
considerados levando em conta a posição no espaço geográfico
em que se define (grifo nosso).

Desta maneira, o estado do Paraná caracteriza-se pela sua


localização, em ser uma área de transição climática, com atuação de
sistemas intertropicais a Norte e Oeste, enquanto ao Sul, os extratropicais
(MONTEIRO 1963 citado por THOMAZ, 2005). Guarapuava se localiza a
25º 21`de latitude Sul e 51° 30` de longitude Oeste e a altitude média é de
3
1120m do nível do mar . O município está localizado no Terceiro Planalto
Paranaense, região com relevo moderadamente sinuoso, com capões e

3
Estes pontos se referem à Estação Agrometeorológica de Guarapuava-PR monitorada pelo IAPAR
(Instituto Agronômico do Paraná) e integra o SIMEPAR (Sistema Meteorológico Paranaense)
sendo identificada pelo código 02551010.

152
matas de galeria, além de campos limpos (VESTENA e THOMAZ, 2003
citando MAACK, 2002). De acordo com estes mesmos autores (p. 72), o
clima de Guarapuava pode ser caracterizado por ser:

[...] subtropical mesotérmico-úmido, sem estação seca, com


verões frescos e inverno moderado. A pluviosidade mostra-
se bem distribuída ao longo do ano, com precipitações médias
mensais acima de 100 mm; a média fica em torno de 1961 mm,
apresentando variações extremas consideráveis [...]

Quanto às massas de ar que agem sobre a região, de forma resumida,


podemos destacar a presença da MPa (massa polar atlântica), que atua
principalmente durante o inverno; a MTa (massa tropical atlântica), que
age principalmente sobre o inverno e primavera; a MTc (massa tropical
continental), que atua preferencialmente no verão e da MEc (massa
equatorial continental), que repercute mais durante o verão e outono
(MONTEIRO, 1963 apud VESTENA e THOMAZ, 2003), consideração
esta que pode ser válida para grande parte da região Sul do país.
Assim, a abordagem busca o encadeamento da dinâmica atmosférica
através da percepção espaço-temporal do fenômeno regional, que reflete no
clima da cidade para a compreensão do impacto dos alagamentos ocorridos
na cidade em abril de 1998.
Sendo assim, é importante a análise dos eventos/episódios naturais
extremos, através de sua magnitude e freqüência, uma vez que estes eventos/
episódios excepcionais, ou seja, fora do habitual, podem causar alagamentos
no espaço urbano de Guarapuava, pois o manejo inadequado da bacia do
rio Cascavel, o crescimento populacional e a conseqüente urbanização,
além da má utilização dos recursos disponibilizados pela bacia, fizeram
com que a mesma se tornasse receptora de resíduos e dejetos das mais
variadas instâncias. O perímetro urbano da bacia do rio Cascavelzinho
é hoje composto por moradias, comércio, além de ruas asfaltadas bem
próximas ao leito do rio, o que faz com que haja alagamentos de forma
localizada. Portanto, este trabalho tem como objetivo analisar o episódio
de chuvas intensas que ocorreu na cidade de Guarapuava-PR nos dias 23,
24 e 25 de abril de 1998 e que causou alagamentos na cidade. Baseando-se
no canal de percepção dos impactos hidrometeóricos da proposta teórica
– metodológica de Clima Urbano de Monteiro (1976) e no paradigma
da análise rítmica (MONTEIRO, 1971) este estudo busca caracterizar a
movimentação atmosférica que atuou sobre a região da área de estudo

153
Materiais e métodos
Além do ritmo climático, este trabalho baseou-se na proposta de clima
urbano de Monteiro, mais acerca do terceiro canal de percepção humana da
Teoria Clima Urbano (MONTEIRO, 1976) – impactos meteóricos - através
do elemento chuva, de onde articulamos a escala local com a regional.
De início realizou-se uma revisão bibliográfica dos aspectos
climáticos de Guarapuava e região. Após, nos voltamos para a investigação
e análise dos dados climáticos e meteorológicos coletados da estação
agrometeorologica de superfície do IAPAR (Instituto Agronômico do
Paraná) de código 02551010 localizada a 25° 21`de latitude Sul e 51° 30`de
longitude Oeste, na cidade de Guarapuava-PR.
Utilizou-se também de imagens de satélites meteorológicos
METEOSAT-GOES 8 - Geostationary Operational Environmental Satellit
– da América do sul, através do Centro de Pesquisas Tecnológicas (CPTEC/
INPE, 2006), as quais foram ajustadas para a hora oficial de Brasília (-3
GMT) e de cartas sinóticas de superfície ofertadas também pelo INPE.
A abordagem do clima (através do episódio) foi desenvolvida
de acordo com a concepção sistêmica de caixa-preta, sendo a chuva o
output do sistema climático e os alagamentos a resposta em função de
como se organiza a sociedade local modificando a morfologia do sítio
urbano. Enfim, este estudo busca se inserir em uma linha de abordagem
estabelecida para os estudos de climatologia, onde se deixam de lado os
pressupostos do equilíbrio (estados médios da atmosfera elaborados por
técnicas estatísticas) e passam a ser focalizadas as estruturas singulares da
atmosfera, que são resultado de certa desordem no sistema que resulta em
bifurcações a nível regional.

Resultados e discussões
O clima da região no mês de abril – outono - é marcada por
flutuações da MPa e da frente a ela associada, acontecendo assim recuos
devido à ação de massas intertropicais e também desenvolvimento de
intensas ciclogêneses, através da perplexidade das frentes (MONTEIRO,
1963). Como podemos ver no Gráfico 1, tal mês não se apresenta como um
dos meses mais chuvosos na série analisada.

154
Gráfico 1 -Médias mensais de pluviosidade para Guarapuava (1976-2006)

Fonte: IAPAR (2007). Dados trabalhados por Amaral e Thomaz (2007)

Para que se possa visualizar melhor a magnitude e desvio da pluviosidade


no mês de abril para Guarapuava, vejamos a tabela que se segue:

Tabela 1 - Precipitação total e chuvas máximas em 24 horas no mês de abril


para Guarapuava-PR no período de 1976-2006
Ano Chuva Máx. Pluv. Total (mm) Ano Chuva Máx. Pluv. Total (mm)
1976 49,8 108,8 1993 39,8 125,5
1977 28,8 89,1 1994 35,4 91,4
1978 0,2 0,6 1995 32,5 79,7
1979 37,6 103,1 1996 23 53,9
1980 41,4 79,3 1997 21 56,5
1981 75,2 213,1 1998 119,8 518
1982 13,2 27,8 1999 71 175,6
1983 84,4 319,8 2000 39,6 105,6
1984 34,4 150,5 2001 30 124,9
1985 74 220,1 2002 61,2 132,2
1986 52 184,2 2003 39,8 95,6
1987 41,2 139,8 2004 47,8 173
1988 51,8 210,8 2005 48,2 135,7
1989 92,4 211,9 2006 29,3 70,7
1990 77,7 230,7 Máx 119,8 518
1991 74,4 193,1 Mín. 0,2 0,6
1992 39,6 140,4 Média 51,0 154,3
Fonte: IAPAR (2006). Dados trabalhados por Amaral e Thomaz (2007)

Como podemos observar, na série analisada (1976-2006), o mês de


abril não se apresenta como um mês relativamente chuvoso no quadro anual,

155
isto devido às condições atmosféricas reinantes na época, mas nota-se que há
desvios significativos nos índices de precipitação, como nos anos de 1983 e de
1998 com 319,8 e 518 mm precipitados respectivamente. Também são dignos
de observação as chuvas máximas destes dois anos para o mês de abril, sendo
84,4mm para o ano de 1983 e 119,8 para o ano de 1998.
No que se refere aos eventos acima de 50 mm, o mês apresenta-
se como intermediário na série analisada – 1976/2006 – apresentando
dezesseis eventos significativos para a discriminação, como podemos
observar no gráfico 2.

Gráfico 2 - Distribuição mensal de precipitação acima de 50 mm (1976 - 2006)

Fonte: IAPAR (2007). Dados trabalhados por Amaral e Thomaz (2007)

Podemos notar, através da tabela 1, que o mês de abril de 1998


apresentou um grande desvio de chuva em relação aos outros anos da
série analisada, ficando 70,6mm acima da média no que se refere às chuvas
máximas e com desvio positivo de 368,4mm em relação à média mensal
de precipitação. Além disso, apresentou grande desvio em relação às
precipitações máximas em 24 horas (> de 50 mm) em relação aos outros
meses do ano, conforme gráfico a seguir.

156
Gráfico 3 - Chuva máxima mensal em 24 horas ocorrida no ano de 1998

Fonte: IAPAR (2006). Dados trabalhados por Amaral e Thomaz (2007)

De acordo com o CPTEC/INPE (2006), no mês de abril de 1998 a


região sul do Brasil apresentou anomalias positivas de precipitação, com
aumento relativo de 150 mm no índice em relação a abril de 1997. Sobre a
região leste do estado do Paraná e Santa Catarina os valores foram superiores
a 200 mm precipitados. O índice superior de chuva acumulada foi de 400
mm registrados sobre o oeste do estado do Paraná e Rio Grande do Sul.
Para Guarapuava, de modo geral, o mês de abril de 1998 apresentou
518 mm precipitados, o evento corresponde a 51,7 % da chuva de todo o
mês e a 9,3 % do ano hidrológico, sendo que as precipitações do mês são
correspondentes a 21 % do ano hidrológico de 1998.
O excedente hídrico ocorrido na região no referido mês não pode
ser analisado sem a consideração do fenômeno El Nino. Este, por sua vez,
representa um aquecimento das águas da costa da América do Sul, que
provoca excedentes hídricos no Sul do Brasil (CUNHA, 2004).
Para o Climanálise/Inpe (2006), o fenômeno El Niño estava perdendo
intensidade no mês de abril. Foram observadas TSMs (temperatura da
superfície do mar) próximas à média no Pacífico Equatorial Central e a
convecção diminuiu no Pacífico Central, mas os ventos continuaram com
intensas anomalias de oeste no setor oriental.
Mas, mesmo assim, o ano de 1998 ficou marcado como o segundo ano
mais chuvoso (2456,6 mm) numa série de 30 anos (1976-2006) analisados

157
anteriormente, ficando atrás apenas do ano de 1983 (3168,4 mm) que
também foi afetado pelo fenômeno.
O relatório CLIMANÁLISE/INPE (2006) relata que esta anomalia
na precipitação (Gráfico 2) esteve associada a sistemas frontais que atuaram
no país neste mês. Tanto na região Sul como no Mato Grosso do Sul estes
4
sistemas foram intensificados pela presença de cavados em todos os
níveis, e vórtices ciclônicos em altos níveis. Para exemplificar o excedente,
analisemos o gráfico que se segue.

Tabela 2 - Dinâmica atmosférica no mês de abril de 1998 associado à


movimentação atmosférica
Dia Sistema atmosférico Pluviosidade (mm)
1 FPA 97
2 MPA 0
3 MPA 0
4 MPA 0
5 ÁREA. INS 0
6 MPA. ENFRAQUECIDA 0,1
7 FPA 40,1
8 FPA 0
9 MPA. ENFRAQUECIDA 3,4
10 MTA 0
11 MTA 1,8
12 MTA 0,4
13 MTA 0
14 MTA 0
15 ÁREA. INS 5,2
16 ÁREA. INS 13,8
17 FPA 25
18 MPA 1,4
19 MPA 0
20 MPA 0,1
21 MPA. ENFRAQUECIDA 0
22 MTA 0
23 FPA 101,4

Continua

4
São áreas caracterizadas por representarem baixa pressão atmosférica que facilitam a movimentação
de sistemas.

158
Dia Sistema atmosférico Pluviosidade (mm)
24 FPA ESTACIONÁRIA 119,8
25 FPA ESTACIONÁRIA 8
26 MPA 1
27 ÁREA. INS 23
28 FPA 60,1
29 FPA ESTACIONÁRIA 16,4
30 FPA 0
31 - 0

Fonte: IAPAR (2006); INPE (2006)


Dados trabalhados por Amaral e Thomaz (2007)

Como podemos ver, o índice do dia 01, 07, 08, 17 e 28 é resultado da


frente Polar Atlântica – FPA, que ao interagir com áreas de baixa pressão
causaram chuvas fortes nos respectivos dias.
Nos dias 11, 12 e 13 predominou no RS um sistema de baixa pressão
e ao se deslocar para o sudeste interagiu com uma frente provinda do
oceano. O ramo mais frio do sistema deslocou-se para o oceano no dia 17,
de onde passaram a predominar as áreas de baixas pressões devido ao calor,
o que causou fortes chuvas em toda a região Sul. No mesmo dia 17 houve a
entrada de um Vórtice Ciclônico em todos os níveis advindo da Argentina,
que causou chuvas fracas no PR devido a sua rápida passagem pela região
(CLIMANÁLISE/INPE, 2006).
Finalmente chega-se ao tratamento do episódio, para isto
começamos com a identificação de sistemas nas cartas sinóticas e análise
das imagens meteorológicas do GOES 8. referentes ao dia 22 de abril, de
onde se pode notar a presença de áreas de instabilidade que se encontram
sobre o Paraguai, numa área caracterizada pela baixa pressão atmosférica
- Depressão do Chaco - que facilita a movimentação das massas de ar, e
que funciona como um dos reguladores para a formação e movimentação
de sistemas continentais na América do Sul, além de facilitar a entrada de
sistemas provindos do norte do país e ajudar a provocar bifurcações nas
frentes frias. Além disso, percebe-se que há um sistema frontal que está
sobre o meio norte do Rio Grande do Sul. No entanto, é somente no dia 22
que as áreas de instabilidade atingem Guarapuava e região. No entanto não
5
houve registros de precipitação até o dado momento
5
A coletas realizadas pelo IAPAR são realizadas as 09:00h, 15:00h e 21:00h respectivamente, sendo
os dados de precipitação coletados as 09:00h.

159
Chega-se ao dia 23 com o Paraná todo incorporado pelas áreas
instáveis que irão interagir com o quarto sistema frontal – FPA - do mês.
O CLIMANÁLISE/INPE (2006) descreve que o sistema que agiu no dia 23
(101,4mm):

[...] estava associado a um centro de baixa pressão em superfície.


Esse sistema, deslocou-se pelo interior até o Paraná[...] Durante a sua
trajetória, causou chuvas intensas no Rio Grande do Sul e Paraná.
No restante das Regiões houve nebulosidade e chuvas fracas.

No dia 24 notamos a incorporação da frente fria - FPA estacionária,


dia em que também se registra chuvas de forte intensidade. A frente
fria começa sua dissipação a partir do Rio Grande do Sul, no entanto a
região guarapuavana ainda está envolvida pela frente, e é exatamente esse
resultante fenomênico que vai apresentar o maior valor de pluviosidade em
espaço de tempo. Neste dia, a precipitação foi de 119,8 mm.
Nota-se a repercussão da chuva excepcional no relato do jornal O
Estado de São Paulo (25 de abril de 1998), citado por Vestena e Thomaz
(2003, p. 72):

Cerca de 500 pessoas ficaram desabrigadas com a chuva e


os ventos que atingiram o Paraná ontem, informou a Defesa
Civil em Curitiba. O município mais afetado foi Guarapuava,
no centro do estado. Aproximadamente 300 pessoas tiveram
as casas destelhadas ou inundadas pelas águas do rio cascavel.
“Tivemos, em menos de 24 horas, as chuvas de quatro ou cinco
meses”, disse o prefeito Vitor Hugo Burko.

Finalmente, chegamos ao dia em que temos registros de alagamentos


na cidade de Guarapuava, como podemos ver nas fotos a seguir.

160
Foto 1 - Alagamento no bairro cascavel

Fonte: Prefeitura Municipal de Guarapuava 2005

Foto 2 - Alagamento no bairro Jardim das Américas

Fonte: Prefeitura Municipal de Guarapuava 2005

161
Neste dia - 25 - a frente – FPA - volta a se estacionar sobre a região, mas
não apresenta precipitação intensa, sendo que a precipitação chegou apenas
8 mm neste dia, e no fim da tarde a frente já demonstra enfraquecimento
do sistema.
Todavia, acredita-se que os alagamentos visualizados nas fotos acima
sejam decorridos dos índices do dia 24. Para isto, os dias 22, com a entrada
do sistema, e o dia 23 com o início dos índices da precipitação foram de
suma importância para o impacto. A combinação desses dias de acúmulo
de precipitação com o processo de urbanização e, conseqüentemente,
a ocupação de várzeas e encostas, através das modificações impostas,
principalmente pelo número cada vez maior de população ocupando áreas
ribeirinhas vieram a contribuir para outros alagamentos no perímetro
urbano de Guarapuava.
Os últimos valores de precipitação (dias 27, 28 e 29) para Guarapuava
estavam associados a um vórtice ciclônico em todos os níveis localizado no sul
do Uruguai. Este, por sua vez, associou-se a um sistema frontal, intensificando-
se e originando uma frontogênese e ciclogênese no extremo sul do Rio Grande
do Sul. Este sistema teve deslocamento pelo interior até MG e MT e pelo litoral
até o RJ, onde enfraqueceu (CLIMANÁLISE/INPE, 2006).

Considerações finais
Neste trabalho, ressaltamos o episódio pluviométrico de caráter
excepcional que causou impactos na organização do espaço na cidade de
Guarapuava. Ressalte-se a importância deste tipo de estudo, principalmente
no que se refere aos associados à climatologia geográfica pois, não se trata
de um retorno a uma perspectiva do excepcionalismo – particularidades
– em Geografia, na perspectiva de se analisar os fenômenos isoladamente,
partindo de uma análise das partes, mas sim, como o próprio trabalho
aponta, de uma discussão associada com o, neste caso, fenômeno atmosférico
regional e que é reflexo de interações com escalas superiores. Assim,
a possibilidade de interpretações se torna cada vez maior e a qualidade
das interpretações é cada vez melhor. É através de ensaios como este que
podemos começar a construir conjecturas sobra a dinâmica da natureza/
sociedade no urbano e, através delas, visualizar como se dão os impactos e
talvez num futuro propor alternativas para a solução e/ou minimização dos
problemas ambientais.

162
Referências
CEPTEC/INPE - Centro de Pesquisas Tecnológicas/Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais, 2006.
APAR – Instituto Agronômico do Paraná. Curitiba, 2006.
GREGORY, K. J. A natureza da Geografia Física. (trad. Eduardo de A.
Navarro) Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992, 367p.
MONTEIRO, C. A. F. O clima da região Sul. Geografia regional do Brasil.
Tomo I. cap. III. Biblioteca Brasileira, IBGE, 1963.
MONTEIRO, C. A. F. Análise rítmica em climatologia: problemas
da atualidade climática e achegas para um programa de trabalho. São
Paulo. Instituto de Geografia. Universidade de São Paulo, 1971, 21p.
(Climatologia 1).
MONTEIRO, C. A. F. Teoria e clima urbano. São Paulo: IGEO/USP, 1976.
(Climatologia) n. 1.
MONTEIRO, C. A. F. Clima e excepcionalismo: conjecturas sobre o
desempenho da atmosfera como fenômeno geográfico. Florianópolis,
Editora da UFSC, 1991.
PREFEITURA MUNICIPAL DE GUARAPUAVA-PR, 2005
SIMEPAR - Sistema Meteorológico Paranaense, Curitiba, 2006.
VESTENA, L, R; THOMAZ, E, L. Aspectos climáticos de Guarapuava-
PR. Guarapuava: UNICENTRO, 2003, 106 p.
ZAVATTINI, J. A. O paradigma da analise rítmica e a climatologia geográfica
brasileira. GEOGRAFIA, Rio Claro, v. 26, n. 3, p. 25 – 43, Dez. 2000.
ZAVATTINI, J. A. O tempo e o espaço nos estudos do ritmo do clima no
Brasil. GEOGRAFIA, Rio Claro, v. 27, n. 3, p. 101 – 131, Dez, 2002.

163
Análise teórica das migrações: enfoques
tradicionais e novos enfoques de aporte social
1
BRUMES, Karla Rosário
2
SILVA, Márcia da

Resumo: A Geografia, enquanto ciência social, investiga os fenômenos


migratórios a partir de uma série de determinações que vêm se modificando
e se combinando com o passar do tempo. Assim, os desafios encontrados
tanto por estudiosos como pelo setor público através de suas políticas
públicas na definição não só do conceito, mas também dos processos que a
questão migratória envolve, têm gerado alguns impasses quanto à formulação
da teoria das migrações. As divergências encontradas entre aqueles que
buscam definir migração são justificadas, uma vez que os processos sociais
que possuem relação com este conceito aparecem também de forma
heterogênea. A variabilidade de movimentos migratórios observados nos
dias atuais não se constitui em uma novidade, uma vez que há anos várias
têm sido as tentativas de traçar certas regularidades que fundamentariam
formulações teóricas a respeito dos movimentos migratórios. No período
técnico-científico, os recursos técnicos, a informatização e a informação,
colocados à disposição da humanidade, conferem uma nova dimensão à
análise e à interpretação do espaço da sociedade e dos fluxos migratórios. A
análise do fenômeno das migrações bem como do papel dos sujeitos devem
suplantar a idéia histórica em que essas eram necessárias e produtivas; um
contexto onde os entraves de entradas eram muito maiores e a seletividade
se exacerbava. As migrações, no Brasil, não devem ser pensadas num
sentido de redimensioná-las conceitualmente para melhor compreendê-
las e sim de compreender quais são as requisitos mais satisfatórios para as
pessoas se moverem no território, garantindo o pleno direito de locomoção
e de que a alternativa de mobilidade possa ser um caminho na direção
de melhoria das condições sociais. Por fim, a análise das migrações deve
abordar mais do que o estudo das questões dos desequilíbrios regionais de
oferta de emprego. Deve analisar os menores custos de habitação, a oferta

1
Professora junto ao Curso de Geografia - Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO
– Campus de Irati-PR. e-mail: kbrumes@hotmail.com.
2
Professora junto ao Curso de Geografia - Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO
– Campus de Guarapuava-PR. e-mail: smarcias@superig.com.br.
de serviços públicos e privados, uma maior proximidade da família e, não
menos importante, a decisão pessoal do sujeito neste contexto.
Palavras-chave: migração; enfoque tradicional; novos aportes sociais de
análise.

Introdução
Entender as mudanças provocadas pela inserção de populações em
determinados lugares, demonstrando a alteração da dinâmica dos mesmos
e as formas como essas transformações ocorrem deve ser um dos objetos de
estudo da Geografia. Isso se explica pela necessidade de se observar o que
foi modificado tanto no local de chegada como no de origem, por exemplo,
assegurando a esta área do conhecimento um campo de investigação amplo
que lhe permita entender as migrações para além de dados quantitativos ou
estatísticos.
O pluralismo causal acompanha a explicação dos processos
migratórios, fato consensual mesmo que o peso de cada premissa causal
inferida dependa de preferências teóricas e das inflexões circunstanciais dos
fenômenos a explicar. De qualquer forma, os fenômenos migratórios são
fatos sociais totais, que se relacionam com os socioeconômicos, culturais,
político-institucionais e outros. A Geografia, enquanto ciência social,
investiga os fenômenos migratórios a partir de uma série de determinações
que vêm se modificando e se combinando com o passar do tempo.
Evidentemente, é muito difícil enumerar todas as séries de estímulos
susceptíveis que originam as migrações, porém, algumas são mais visíveis
3
como as econômicas, as políticas e as religiosas. Estudá-las é importante
porque indica fatores que definem a inserção de milhares de pessoas em
determinadas localidades, que chegam a alterar a dinâmica tanto da área
receptora como a da área de origem. De acordo com Damiani (1999, p. 62),

os estudos geográficos sobre migrações envolvem uma perspectiva


histórica ampla e acompanham o fenômeno desde a Antiguidade
até os nossos dias. O fenômeno do povoamento não poderia ser
compreendido sem as migrações. Considera-se desde migrações
intercontinentais, detendo-se especialmente, pelo seu volume, na

3
Gaudemar (1976, p. 9), afirma que “os maiores movimentos de populações registrados recentemente ou
ainda os mais importantes fenômenos de transformação profissional brutal, ocorrem devido menos ao
econômico que ao político e a seus desdobramentos militares: os conflitos entre estados, as guerras.”

166
emigração européia, do final do século XIX às primeiras décadas
do século XX, até as migrações a curta e média distâncias, mais
freqüentes. Max Sorre fala da europeização do ecúmeno desde o
século XVI.

Diante destas afirmações o objetivo principal deste artigo é abordar uma


breve discussão teórica a respeito das migrações e a estruturação do espaço
geográfico diante dos enfoques tradicionais e dos novos aportes sociais.

Metodologia
Ao mesmo tempo em que este estudo é desafiante diante do conjunto
de temas que se pode abordar, torna-se também prazeroso por permitir a
busca de novos elementos acerca da análise das migrações com base no
princípio de que se pode contribuir com a idéia de que novos conceitos
são construídos, criados e recriados ao longo de um processo. Assim, para
a elaboração deste trabalho, a revisão bibliográfica sobre migração e sua
estruturação no espaço geográfico foi o fundamento principal por permitir
que aos enfoques tradicionais de análise pudessem ser aliados os novos
enfoques de aporte social e utilizados conjuntamente na compreensão deste
fenômeno no meio urbano.

Discussões e resultados
O estudo em questão fundamentou-se nas análises de textos que
relacionam migração urbana como um fenômeno resultante apenas de
influência macro estrutural, em contraposição àqueles que identificam nas
relações sociais, como as estabelecidas pelas redes, como um novo aporte
que coloca outras significâncias na discussão migracional.
Os resultados apontam para a idéia de que as abordagens das
migrações das décadas de 1960 a 1980, no Brasil, faziam referência aos
movimentos intraurbanos, baseados, por exemplo, na dicotomia cidade x
campo. Estes, porém, já não trazem operacionalidade para compreender o
que acontece na sociedade brasileira hoje.
Se, há alguns anos, acreditava-se que para um desenvolvimento
capitalista otimizado a migração tinha papel decisivo, e se o resultado era o de
que o indivíduo seria envolvido positivamente nesta racionalidade, estes fatores
resultaram em um paradigma da migração necessário ao desenvolvimento

167
capitalista, ou seja, o apontamento aqui é único e exclusivo de uma migração
sem qualquer intervenção do sujeito envolvido, já que as condicionantes
estruturais ocupavam o nível mais elevado no poder de decisão.
Todavia, uma análise da migração que sai do nível de determinação macro
e passa ao nível micro, a motivação, seja qual for, se apresenta mais racional,
pois envolve decisões pessoais. Isto não quer dizer que devam ser esquecidas as
contribuições e as discussões existentes entre os anos 1970 e 1980, posto terem
sido elaboradas justamente no momento em que a idéia de desenvolvimento se
atrelava única e exclusivamente ao crescimento econômico.
Entretanto, as dinâmicas encontradas numa sociedade pautada pelas
ações capitalistas, especialmente nas duas últimas décadas, se configuram
em materialidades tão esparsas e diversas que os dispositivos instrumentais
e teóricos acerca das migrações internas elaborados antes dos anos de 1980
não são mais tão eficazes na compreensão da questão migratória nos dias
atuais. Assim, os estudos para o entendimento do que são as migrações,
neste contexto, caminham em direção de se pensar o fenômeno no interior
de um processo vigente do desenvolvimento da economia capitalista
que anteriormente tinha nas migrações um poderoso mecanismo de
transferência de excedentes.
As análises apontam que, após os anos de 1980, um conjunto de
alterações econômicas e sociais fez com que as características do processo
migratório também passassem por transformações, assim como a própria
natureza do migrante. São deixados de lado os estudos que relacionam o
processo de mobilidade social ao processo de mobilidade espacial, o que
resulta em mudança de paradigma, ou seja, os estudos deixam de ser
pautados nas melhorias sociais.
O capitalismo fundamentado nas transferências de excedentes mostra-
se, mesmo no caso do Brasil com suas condições de transição demográficas,
capaz de gerar permanentemente seus excedentes. Observa-se que mesmo
com a taxa de fecundidade baixa em áreas urbanas, por exemplo, os excedentes
demográficos não diminuíram, e isto faz com que a “racionalidade” embutida
na decisão de migrar tenda a não mais considerar a migração com caráter
permanente e sim como uma atividade de risco, uma vez que a mobilidade
social da população passa a ser uma atividade arriscada.
O indivíduo que até o início dos anos de 1980 se estabelecia
permanentemente pensando em gradativamente ir subindo socialmente é
cada vez mais raro, pois ele agora esbarra em toda uma gama de dificuldades
impostas por uma economia capitalista. Assim, a sua decisão vem sendo
substituída por um processo racional transitório. Este, no entanto, não

168
foi um impedimento para que as pessoas deixassem de migrar, uma vez
que elas conseguem uma forma de se adequar à estrutura atual na qual a
migração passa a ter um papel distinto.
Autores como Brito (1988) e Soares (2003), ainda a partir dos
anos 1980, apresentam perspectivas a respeito desta relação, ou seja,
demonstram que começa a haver uma diminuição da mobilidade, uma vez
que o processo de migração, bem como o da mobilidade social acabam por
ser influenciados diretamente pela estrutura econômica brasileira dos anos
4
1980 , década considerada como de grande imobilidade social.
A análise da relação entre migração e mobilidade social visa apresentar
outros elementos para a discussão bastante importantes para caracterizar
algumas manifestações do fenômeno migratório interno brasileiro, em
especial entre as décadas de 1990 e 2000. A partir daí a relação da migração
com a mobilidade social é discussão recorrente em muitos estudos e teorias
(como as das redes sociais) nas quais se chega ao determinante de que os
migrantes são socialmente mais móveis que os naturais das cidades.
Muitas são as análises que apontam que tanto o fenômeno das
migrações, no Brasil, como os papéis desempenhados pelos sujeitos devem
suplantar a idéia histórica das migrações como necessárias e produtivas,
uma vez que o contexto dos entraves de entradas é muito maior e as
seletividades se exacerbam, ou seja, as migrações não devem ser pensadas
somente num âmbito que apenas as redimensione conceitualmente para
que sejam melhor compreendidas. As investigações devem possibilitar que
as migrações possam ser entendidas no sentido de esclarecer quais são as
condições mais satisfatórias para as pessoas se moverem no território.
Com relação à participação dos sujeitos migrantes em meio a uma
série de novas análises, Charlot (2000) lembra ainda que a essência originária
do indivíduo humano não está dentro dele mesmo, mas sim fora, em uma
posição excêntrica, no mundo das relações sociais. Nessa perspectiva,
assim como o ser humano não é um dado, mas uma construção, o migrante
não migra apenas por uma imposição, ou seja, este ato está carregado de
intencionalidades recorrentes ao próprio sujeito. Defende-se, assim, a idéia

4
A década de 1980 foi considerada para muitos estudiosos como a "década perdida". A crise econômica
de 1981 a 1983 mudou completamente o quadro até então favorável à mobilidade estrutural e, por
extensão, às perspectivas de mobilidade social ascendente no país. A queda na taxas de crescimento
do Produto Interno Bruto - 7% a.a, entre 1975 e 1980 caiu para 1% no qüinqüênio seguinte – , com
a conseqüente diminuição no ritmo de criação de postos de trabalho no setor formal, aumento da
rotatividade da mão-de-obra, contratação das vagas na indústria de transformação e na construção
civil nas regiões metropolitanas acabaram limitando as oportunidades de ingresso no mercado de
trabalho e as possibilidades de progressão funcional (JANNUZZI, 2000).

169
de um migrante que é social e cultural, especialmente dentro das várias
redes estabelecidas.
Surge um embate na questão da migração no sentido de compreender
como o migrante pode, dentro de uma estrutura que os deixa imunes a
determinados processos condicionantes e a determinadas situações que
5
ocorrem mediante as forças que agem além das pessoais . Duas noções de
direito vão convergir neste sentido, a saber, o entendimento da evolução
dos estudos de população e dos estudos da própria noção de direito.
Mesmo o migrante estando subjugado ao capital e por mais
internalizado que esteja a este fato-processo, ainda sim, ele tem certo
domínio da decisão do ato de migrar. Neste sentido:

uma questão teórico-metodológica merece ainda ser tratada na


discussão do fenômeno migratório: é a relacionada à definição
do migrante enquanto categoria de análise. De acordo com o
Censo Demográfico Brasileiro são considerados migrantes todos
os indivíduos que apresentarem pelo menos uma mudança de
local de residência, seja de um município para o outro (migrante
intermunicipal), seja entre diferentes categorias de domicílio
dentro dos limites do mesmo município (migrante intramunicipal).
Entretanto, além dessa definição administrativa, outra poderia
ser considerada a partir da discussão neomarxista: migrantes são
todos aqueles indivíduos que seguem os movimentos do capital
sob a condição de força de trabalho assalariada, ou potencialmente
assalariada, Becker (1997, p. 2).

Por fim, Antico (2005) entende que a análise da migração deve


abarcar mais do que a idéia de um fenômeno importante para a solução das
questões dos desequilíbrios regionais de oferta de emprego. Ela deve ser
observada a partir de questões como as que envolvem menores custos de
habitação, melhor oferta de serviços públicos e privados, mais proximidade
da família, melhor qualidade de vida, dentre outros, que são elementos
determinados pelo sujeito da ação, a saber, o migrante.

5
Não obstante não ser objetivo do trabalho, esta argumentação apresentada faz referência aos
deslocamentos compulsórios, ou seja, a migrações forçadas por determinação de uma estrutura
maior, como o bem comum. A idéia aqui expressada faz referencia a, por exemplo, refugiados do
desenvolvimento como os deslocados para construção de barragens, neste sentido, grupos como o MAB
(Movimento dos Atingidos por Barragens), buscam seus direitos mediantes a uma série de estratégias.

170
Considerações finais
Apesar dos vários enfoques atribuídos ao fenômeno das migrações,
ao longo do tempo, o destaque é para a predominância da dinâmica macro-
estrutural. Dela ocorrem situações como a teoria dos fatores de atração
e de repulsão que seriam os responsáveis por um melhor “bem estar”
do migrante e seu grupo envolvido. Mas entender esta situação limite é
imaginar que o migrante, neste processo, não tem seu papel aludido. É
pensar em um sujeito que apenas é no espaço um ser entregue a algumas
estruturas condicionantes.
A busca por uma maior compreensão da migração e sua inserção
no território deve também ser entendida a partir dos novos papéis
desempenhados pelos migrantes, ou seja, condicionados a outras variáveis
da vida em sociedade, sendo a migração uma escolha fundamentada em
suas crenças, valores, cultura, relacionamentos, representações, que fazem
6
daquele condicionante estrutural um dos elementos significativos .
Uma análise que leve em consideração as possibilidades da incorporação
das redes sociais exige que novas buscas se materializem, uma vez que não é
nada fácil relacionar a dimensão do econômico diante da busca de inserção de
um ideal mais coletivo marcante nos últimos tempos, o que configura ao ato
de migrar complexidade interessante. Diante desta possibilidade de análise,
torna-se invariavelmente complicado superar os anos de pesquisas e estudos
que delegaram a macroestrutura status de uno no processo migratório, uma
vez ser cada dia mais latente o fato de que o processo de decisão de migrar
tem relação com todas as situações que circundam o sujeito. Assim, pode-
se entender o papel desempenhado pelas redes e, mais ainda, as relações
existentes entre elas e que garantem, cada vez mais, um grau de variabilidade
nunca antes apresentado nos estudos migratórios.
Fica claro que as indeterminações presentes nas análises mais recentes,
diante das determinações econômicas passadas, são apenas pontos a serem
incorporados ao variado processo social vigente, uma vez ser necessário o
entendimento de como se dá a análise de sujeito social por meio de uma
extensa e variada pesquisa.
Contudo, não é difícil encontrar na literatura indícios que demonstrem
que alguns estímulos são colocados em prática com a finalidade de que o
processo migratório trouxesse resultados positivos aos territórios de inserção.

6
A idéia de associar migração com variáveis estritamente econômicas origina-se do processo
de industrialização periférica, conforme já explicitado, por exemplo, por Lewis (1954 apud
FERREIRA, 1971).

171
Estas ações são bastante difundidas pelos meios de comunicação, que
alardeiam determinadas situações positivas a respeito de alguns locais que
oferecem empregos (pólos de desenvolvimento), paraísos fiscais e outros.
Algumas reflexões merecem ser deixadas. Em primeiro lugar, não
está se negando a grande influência macro estrutural presente no sistema
capitalista vigente, ou seja, há ainda uma demanda por migrantes em
determinadas localidades devido: a repulsa dos “locais” em ocupar os setores
de baixa produtividade, pois estes (em virtude de uma maior qualificação
e até a uma espécie de prestigio ou regalia natural) ficariam vinculados aos
setores mais “modernos”; a atitudes de governos e/ou empreendedores em
recrutar os desprestigiados, para o cumprimento das tarefas consideradas
de baixo calão, a saber, os migrantes.
O segundo ponto deriva do primeiro. O sujeito diante destas
ingerências vai buscar, de qualquer forma, também fazer parte do processo
de determinações já que agora o faz de modo consciente, ou seja, ele também
é um dos agentes que têm papel definido no processo migratório.
Complexa é, então, a busca por compreender as relações, as
significâncias, as modalidades e teorias que levem a uma melhor definição do
como se abordar os fenômenos migratórios considerando as determinações
macro estruturais e os sujeitos do processo que, agora, atuam no sentido de
não mais serem meros expectadores, mas que também se inserem por meio
das articulações, especialmente por meio das redes.
Em função destas questões, estudos recentes sobre os movimentos
migratórios vêm considerando um conjunto complexo e dinâmico de
elementos econômicos, sociais e estruturais, expressos nas redes em
migração (FUSCO, 2000; FAZITO, 2002; SOARES, 2002).

Referências
ANTICO, Cláudia. Deslocamentos pendulares na Região Metropolitana
de São Paulo. In: São Paulo em Perspectiva. Movimentos migratórios nas
metrópoles. Fundação SEADE. v. 19, n. 4, Out-Dez 2005, p. 110-120.
BECKER, Olga Maria S. Mobilidade espacial da população: conceito. In:
CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo da C.; CORRÊA, Roberto L. (orgs.).
Explorações geográficas: percurso no fim do século. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1997. p. 45-75; 319-367.
CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto
Alegre: Artes Médicas, 2000. p. 33-51.

172
DAMIANI, Amélia, et al. O espaço no fim do século: a nova raridade. São
Paulo: Contexto, 1999. 220 p.
FAZITO, Dimitri. A análise de redes sociais (ARS) e a migração: mito e
realidade. In: ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS,
13, 2002: Ouro Preto, MG. Anais... Belo Horizonte: ABEP, 2002. (Disponível
em CD-ROM)
FERREIRA, A. H. B. Migrações internas e subdesenvolvimento: uma
discussão. Revista de Economia Política, São Paulo, p. 98-124, jan./abr.
1986.
FUSCO, Wilson. Redes sociais na migração internacional: o caso de
Governador Valadares. In: ENCONTRO NACIONAL SOBRE MIGRAÇÃO,
2, 2000. Anais... Belo Horizonte: ABEP, 2000. p. 317-342.
GAUDEMAR, Jean Paul. Mobilidade do trabalho e acumulação do
capital. Lisboa: Editorial, 1976. 405 p.
GIANNETTI, Eduardo. O valor do amanhã. São Paulo: Companhia das
Letras, 2006. 336 p.
JANNUZZI, Paulo de M. Migração e mobilidade social: migrantes no
mercado de trabalho paulista. Campinas: Autores Associados, 2000. 240 p.
SOARES, Weber. Da metáfora a substância: redes sociais, redes migratórias
e migração nacional e internacional em Valadares e Ipatinga. 2002. Tese
(Doutorado). CEDEPLAR/Universidade Federal de Minas Gerais, Belo
Horizonte. 2002.

173
O estudo da reestruturação urbana do bairro
Vila Carli a partir da pedagogia de projetos: uma
contribuição ao ensino de geografia

1
SANTOS, Patrícia dos

Resumo: Na educação sempre buscamos novas práticas e propostas


para o ensino de geografia, para que esta ciência deixe de ser vista como
desmotivada e chata. A pedagogia de projetos é uma das propostas que
apresentamos no desenvolvimento desta pesquisa sobre a reestruturação
do Bairro Vila Carli, observando como é o processo de ensino dentro
desta proposta de pedagogia, apresentando o que deu certo e o que deu
errado e pode ser melhorado. Este trabalho foi desenvolvido durante o
estágio no ensino Médio com os alunos da 2ª serie do Colégio Estadual
Padre Chagas em Guarapuava-PR. Para trabalhar com a temática da
reestruturação urbana, desenvolveu-se um problema a partir da questão:
Quais foram as transformações sofridas pelo Bairro Vila Carli, com
a implantação do Campus do Cedeteg? A partir daí, foram realizadas
leituras, bem como pesquisa em campo, com a aplicação de questionários,
seguida da análise de dados e síntese destas informações, instigando os
alunos a observarem situações que antes pareciam corriqueiras ao dia-a-
dia de cada um. O principal objetivo foi trabalhar os conteúdos escolares
sem compartimentação dos conhecimentos, fazendo com que os alunos
se apresentassem no papel de pesquisador. Essa proposta se impõe como o
caminho pelo qual a proposta de intervenção no estágio deve ser pensada
e executada. A pedagogia de projetos tem na pesquisa em sala de aula, com
alunos e alunas, o principal eixo organizador da aprendizagem. Como
resultado concreto do trabalho foi organizado um painel construído
juntamente com os alunos, bem como apresentação oral à escola. Tal
atividade mostrou a importância da pedagogia de projetos no ensino, ora
porque com esta proposta pode-se tratar de assuntos apresentados pelos
próprios alunos de acordo com o espaço vivido por eles, como foi neste
caso, diferente do sistema tradicional em que a informação é levada pelo
professor. Nesta proposta o aluno é sujeito ativo. O interesse posterior

1
Graduada em Geografia Licenciatura – Voluntária do Programa de Educação Tutorial – PET.
UNICENTRO – Guarapuava-PR. e-mail: pati.patita@bol.com.br.
com aplicação da pedagogia de projetos é de que esta forma de ensino
também se dissemine por outras áreas.
Palavras-chaves: pedagogia de projetos; ensino de Geografia; reestruturação
urbana.

Introdução
O presente trabalho busca apresentar atividades realizadas no
Estágio Supervisionado no Ensino Médio II, com alunos da 2ª série do
Colégio Estadual Padre Chagas, em Guarapuava-PR. A temática que se
desenvolveu foi sobre a reestruturação urbana, através da pedagogia de
projetos, conforme orientações ocorridas na própria disciplina de Estágio
Supervisionado II. Para o desenvolvimento da nossa proposta, procurou-
se abordar a dinâmica de transformação do espaço geográfico do Bairro
Vila Carli, a partir da instalação do Cedeteg (Centro de Desenvolvimento
Tecnológico de Guarapuava). Analisou-se, com esse intuito, diversos
setores e agentes, como: comércio, serviços, mercado imobiliário; bem
como as questões ambientais envolvidas no processo. Abordar tal temática
justifica-se pela proximidade do Colégio Pe. Chagas em relação à área do
bairro mais atingida pelos processos de reestruturação urbana. O principal
objetivo foi trabalhar os conteúdos escolares sem compartimentação
dos conhecimentos, uma nova prática de ensino, onde os alunos se
apresentassem também no papel de pesquisadores.
A pedagogia de projetos foi uma das propostas incorporadas pelo
curso de Geografia da UNICENTRO, vinculada às disciplinas de Estágio
Supervisionado II, tanto no ensino fundamental, quanto no ensino médio,
dentro das atuais preocupações com novas práticas metodológicas para o
ensino de Geografia. Por isso, essa proposta impõe-se como o caminho
pelo qual a forma de intervenção no estágio deve ser pensada e executada.
A pedagogia de projetos tem na pesquisa em sala de aula, com alunos e
alunas, o principal eixo organizador da aprendizagem.

Desenvolvimento da proposta
Optou-se por construir com os alunos e alunas, um processo de
pesquisa sobre o processo de urbanização de forma geral, bem como sobre
as transformações que aconteceram na realidade próxima, induzindo-os

176
a mobilizarem-se, recorrerem a metodologias de pesquisa, debaterem e
construírem conhecimentos sobre seu bairro.
A fase inicial para o desenvolvimento partiu da seguinte questão-
problema, induzida aos alunos: Quais foram as transformações sofridas
pelo Bairro Vila Carli, com a implantação do Campus do Cedeteg?
A partir desta questão, buscou-se entender o processo de urbanização
guarapuavana e, de maneira geral, do Brasil, conhecendo assim a própria
história do município de Guarapuava, até chegar ao objeto especifico, que
é o Bairro Vila Carli e ao equipamento implantado que é o Cedeteg. Assim,
foi possível fazer algumas ligações e interações entre outros assuntos, sem
serem separados por conteúdos.
Durante o desenvolvimento, buscou-se identificar os principais
agentes envolvidos nesta reestruturação urbana, quais sejam: o setor
imobiliário, os moradores antigos, os comerciantes que apostam na
dinâmica da área e também os novos moradores, estudantes universitários,
residindo no esquema de repúblicas, que passaram a ser presença constante
no bairro a partir do CEDETEG.
Delimitou-se a área a ser estudada em 26 quadras, tomando
como referência o trabalho de Eing (2003), que já estudou o processo de
reestruturação em pauta. Nesse trabalho, o autor define a área ao entorno do
portão de entrada do CEDETEG, em direção à rodoviária e aos principais
eixos de acesso ao campus, como a localidade onde se apresenta, de forma
mais visível, este processo de transformação que ocorreu e ainda está
acontecendo no Bairro Vila Carli.
Buscou-se, através de referencial teórico, iniciar o processo de
conhecimento da temática a ser abordada, pautando-se principalmente em
trabalhos anteriores sobre a área.
Em seguida, para a verificação das abordagens dos autores, foi
importante percorrer-se a área definida por Eing. Para tanto, estruturou-se
um trabalho de reconhecimento e aplicação de questionários, bem como
mapeamento do uso do solo de 2007 (Eing apresenta esse mapeamento
para os anos de 1985, 1995 e 2003).
A paisagem urbana por si só pode apresentar as diversas
transformações que vêm ocorrendo, mas para comprovação destas análises,
foi importante a coleta de dados. Coube aqui, a aplicação dos questionários
com os moradores e com comerciantes e prestadores de serviços, bem como
a observação dos problemas ambientais. Para a aplicação dos questionários,
a turma foi dividida em grupos. Com os questionários já respondidos, a
tabulação foi organizada posteriormente.

177
Para contribuição da pesquisa, foi realizada uma conversa informal
com um funcionário do serviço de urbanismo da cidade, no caso, a SURG
(Serviço de urbanização de Guarapuava), para se fazer uma comparação
com as respostas dos questionários aplicados.
Com todas estas informações, agrupadas de maneira a entender o
panorama do Bairro em seus diversos aspectos, foi sugerida a construção
de um painel, apresentando tais resultados.
Como o interessante seria que a proposta de projetos também
fosse disseminada entre outras áreas, foi realizada uma apresentação deste
trabalho, em forma de painel, exposição de fotos e apresentação oral, para
outras turmas da escola, tanto para dar crédito para os alunos e alunas que o
desenvolveram, como também uma forma de outros professores conhecerem
a proposta, sendo essa uma iniciativa dos próprios educandos e educandas.

Discussões e resultados

O que são e como se trabalha em forma de projetos?


De início, pode-se apresentar os projetos de trabalho como uma
proposta de uma nova forma de olhar a organização da escola, em relação aos
conteúdos a serem trabalhados. A sugestão é não dividir os conhecimentos
por disciplinas estanques, mas sim tratá-los de forma articulada.
Segundo Hernández (1998), para se organizar um projeto, é necessário
como primeiro passo, a definição de um problema a ser apresentado aos
alunos. O autor apresenta as seguintes etapas de um projeto de trabalho:
- Tema ou problema sugerido.
- O processo da pesquisa com a busca de fonte de informação.
- Interpretação destes dados coletados.
- Dúvidas e relações com outros problemas.
- Elaboração do conhecimento (representação).
- Avaliação do aprendizado.
- Levantamento de novos problemas e temas para projetos futuros.
Segundo este mesmo autor, há confusão em distinguir o que é ou não
um projeto de trabalho. Afirma que não é projeto de trabalho, principalmente

178
quando o professor se faz protagonista das decisões, advertindo que o aluno
deva aprender sobre os conteúdos que ele acha necessário e importante. Neste
caso, o aluno é tratado com uma “esponja” que apenas absorve conteúdos e
saberes e não como agente participativo da situação.
A pedagogia de projetos baseia-se muito mais na construção do
conhecimento por alunos e professores em conjunto, do que na transmissão
simples pelo professor.
Como já se mencionou anteriormente, antes de tudo, segundo
Hernández (1998), é necessária uma problemática, ou seja, questões que,
através da pesquisa, possam ser solucionadas. Desta maneira, o objetivo
é encontrar as respostas para estas perguntas-problemas. Estas questões
podem ser levantadas pelos próprios alunos, de acordo com seus interesses,
juntamente com o professor.
Aqui cabem parênteses ao papel do professor dentro dos projetos de
trabalho. Nessa forma de organização da prática pedagógica, o professor é
focado como um mediador do processo da pesquisa, sua função é orientar
com sugestões, não é ele quem dita o que deve ser trabalhado. O professor
faz parte do processo, sendo também um pesquisador, por isso ele não terá
a função de transmissor do conhecimento, como é o que se tem visto na
maioria das escolas.
A fase posterior, a do desenvolvimento, é tentar encontrar respostas,
para que este problema, citado anteriormente, seja resolvido, ou seja, quais
referências de leitura adotar, que técnicas aplicar (entrevistas, pesquisas
de campo, podem ser algumas opções). Neste momento, o professor
deve procurar desenvolver as habilidades dos alunos, como: observação,
capacidade de síntese, redação e questionamentos, bem como, um das mais
importantes nesta prática, o trabalho em equipe.
No período das conclusões, são feitas as avaliações do processo,
objetivando verificar se respondem àquele problema apresentado. Percebe-
se algo, como se o método de pesquisa, isto é, as estratégias para se chegar às
respostas, foram as melhores e, principalmente, se o problema foi resolvido
e de que forma.
Um fato importante e que pode ocorrer é que, muitas vezes, chegando
a este ponto das conclusões, podem surgir novos problemas a partir daquele
primeiro. O interessante é que isto ocorra, já que dará continuidade a outros
projetos, ressaltando que, para Hernández (1998), os projetos de trabalho
não são uma mera metodologia, mas uma forma de organizar a escola, o
currículo e toda a prática pedagógica.

179
O resultado desta etapa pode ser apresentado em algum tipo de objeto.
No caso em pauta, a materialização deste trabalho foi em forma de painel.

A conexão da pedagogia de projetos e o caso da reestruturação


do bairro Vila Carlo: algumas considerações
Do ponto de vista das referências de leituras e discussões teóricas com
a sala, julgou-se pertinente partir do estudo do processo de urbanização
da cidade de Guarapuava. A importância dada a esta temática, parte do
pressuposto de que é preciso entender as transformações no âmbito
urbano de Guarapuava, devendo elas estar inseridas em um contexto de
transformações mais amplas, ligadas à urbanização brasileira, para se chegar
ao objeto especifico, que é o Bairro Vila Carli, pois, nesse espaço específico,
as tendências mais amplas ganham materialização e formas próprias.
O desenvolver da pedagogia deu-se a partir de discussões sobre o
trabalho de Eing, (2003), o qual se tornou o suporte para todo o desenvolver
da pesquisa. A atividade iniciou-se com questões aos alunos e não com um
conteúdo pronto e sem espaço para discussões. Esta foi uma sugestão para
que pudesse observar qual eram as idéias e opiniões dos alunos sobre o
assunto. Isto é interessante na pedagogia de projetos, pois faz dos alunos
sujeitos da ação realizada, como é proposto por Hernandez (1998). Como
surgiram diversos questionamentos por parte dos alunos no sentido de
entender porque o processo de reestruturação urbana está ocorrendo no
bairro Vila Carli, apresentou-se a proposta de um trabalho de campo, para
materializar o que a teoria vinha demonstrando.
Eis aí a indagação: por que fazer o trabalho de campo e o que avaliar
nesta atividade? A resposta está quando Hernandez apresenta no roteiro
para a aplicação de projetos, o processo da pesquisa como a busca de fonte
de informação.
Para isso, induziu-se os alunos para que identificassem os agentes
participativos desta ação. Isto foi um ponto positivo, na prática de projetos,
pois, a professora apenas apresentou o espaço que eles já conheciam, mas agora
com outros olhos, isto é, uma prática que muitos dos professores não abordam,
já que trazem as informações prontas. O interessante é que os alunos percebam
o que está acontecendo em suas proximidades e que conseqüências têm isso.
Está aí o professor na função apenas de apresentar a situação, deixando que os
alunos tirem as suas conclusões para, aí sim, trabalhar tais interpretações.
Depois de realizada esta tarefa de reconhecimento do trabalho
a ser realizado, discutiu-se com os alunos, textos do trabalho de Eing

180
(2003), sobre a temática urbanização, voltada para a questão brasileira,
principalmente pautando-se em idéias e conceitos sobre a temática em
Milton Santos (geógrafo), observando como é a reorganização espacial a
partir deste processo, bem como os problemas decorrentes de tal situação.
Com esta leitura, a intenção era de que os próprios alunos apontassem
outras situações decorrentes do processo de urbanização já pensando esta
realidade para o recorte espacial do trabalho no bairro Vila Carli, sendo
que para isso, os educandos receberam um mapa com o recorte da área
a ser estudada. Até o presente momento, a proposta atraiu os alunos para
uma nova realidade que até então passava despercebida por entre eles.
Com base nestes materiais teóricos discutidos em sala, foram
construídos resumos que abordavam a história de construção da sociedade
guarapuavana, para uma compreensão significativa do foco da pesquisa a ser
desenvolvida. Com estes em mãos, foi realizada uma leitura, observando os
pontos de maior importância, surgindo assim, alguns agentes responsáveis
e presentes neste processo.
Como o texto trata do espaço vivido pelos alunos, que no caso é a
cidade e, a partir daí, um bairro, algumas perguntas foram sendo lançadas,
tais como: Quem conhece a história de Guarapuava? Quais foram as
atividades econômicas decorrentes no tempo até a atual configuração do
município? O que diferencia Guarapuava de outras cidades vizinhas e mais
desenvolvidas? Com base nas observações apresentadas por Silva (1995),
sobre a formação socioespacial do município de Guarapuava, foi possível
responder as perguntas citadas anteriormente, levando-os a caracterizar
espacialmente e economicamente o município guarapuavano, entendendo
porque este município se apresenta desta maneira hoje e não de outra. A
partir daí, os próprios alunos descobriram como os agentes interferem
de forma significativa na dinâmica do bairro e neles próprios, pois, estes
sempre estiveram ali nas proximidades da escola, mas não eram observados
da maneira como estão sendo estudados agora.
Os principais agentes ou condicionantes da reestruturação do espaço
urbano do bairro Vila Carli:
Grupo 1 : Moradores; Grupo 2: Estudantes; Grupo 3: Comércio e
Serviços; Grupo 4: principais problemas ambientais.
Para, o trabalho de campo, foi elaborado um roteiro, constando
toda a prática do trabalho, que consistiu na aplicação de questionários,
mapeamento do uso do solo e prováveis questionamentos a serem anotados.
Para a prática do campo, por uma questão operacional, cada grupo ficou
designado por sub-áreas do recorte espacial.

181
O importante nesta pedagogia de projetos, neste momento da
atividade, é que o aluno não é visto como “esponja”, que apenas absorve o
que o professor traz, mas sim sujeito pesquisador, onde cada grupo torna-
se responsável pelo seu próprio trabalho e pelo dos outros colegas. Desta
forma, não se fariam anotações erradas, efetuando-se o melhor possível.
Em relação aos dados coletados, realizou-se todo um processo de
análise e síntese destes. Assim, cada grupo observou e interpretou os dados
em conjunto, surgindo as primeiras idéias sobre o que se havia observado
nas leituras, contrapondo-os com os dados abstraídos do trabalho de
campo. Isso foi importante, pois é uma das maiores dificuldades neste
processo da pedagogia de projetos, pois além de o professor induzir o aluno
a pensar, deve, ele, elaborar o conhecimento, como apresenta Hernandez
(1998), sendo uma das situações menos realizadas nas práticas educacionais
convencionais do ensino básico. O ponto positivo foi que, ainda em passos
lentos, esta fase foi superada com alguns questionamentos levantados por
parte dos alunos, pois muitos pensavam no sentido de projeção para o
futuro, sobre o caso do bairro Vila Carli.
A realização da conversa com o representante da prefeitura no
setor da SURG foi uma sugestão apresentada pelos alunos, já que muitas
dúvidas ainda não tinham sido esclarecidas. Isto é um fator positivo, pois
os próprios educandos sentiram a necessidade de entender de forma mais
consistente, como o processo culminou desta forma no bairro, onde grande
parte delas reside.
Munidos desta bagagem de informações e situações interpretadas
a partir da conversa com o representante da SURG, coube aos alunos
formularem suas idéias a respeito para a etapa final do trabalho, com a
construção do painel, e o mapeamento e a disseminação do trabalho através
da apresentação oral à escola.
Desta maneira, o trabalho contribuiu com resultados significativos
para o entendimento de uma nova proposta de ensino, bem como
resultados ligados à temática, principalmente através do mapeamento de
2003, realizada por Eing (2003), bem como com a situação atual nesta
ação. Do mapa, extraíram-se informações que apenas confirmaram as
indagações que tinham sido expostas, como a grande concentração das
kitinets, bem como a carência de estabelecimentos adequados para atender
a uma demanda, não só de estudantes, mas também de outros moradores.
Como o trabalho, através da pedagogia, foi uma proposta nova que
surtiu efeitos significativos para a turma, surgiu a possibilidade de elaborar
uma apresentação para o colégio, mostrando a importância de se conhecer

182
as transformações no espaço, nas proximidades da referida unidade
educacional. Outros alunos sugeriram a construção de uma maquete
da configuração atual do bairro Vila Carli, mas devido ao pouco tempo
disponível, esta possibilidade ficou para posteriores trabalhados, que virão
a ser desenvolvidos na escola.
O que mais motivou os alunos para a proposta de trabalho foi a
construção do painel e a atividade de campo. Estas sugestões, apresentadas em
grande parte pelos alunos, é que tornam a prática de projeto um fator positivo e
que pode dar certo nas escolas, pois motiva a dar seqüência com outros projetos
de uma maneira fora da tradicional; torna pertinente aquilo que lida com o que
os alunos gostariam que fosse abordado durante os conteúdos anuais.
Como resultado da pesquisa, percebe-se que o Bairro Vila Carli
(observar recorte espacial), é um local que veio a sofrer adaptações para
atender a uma lógica do capitalismo, com a chegada do Cedeteg, ou
seja, teve uma reorganização em seu espaço, iniciando-se esta, com mais
intensidade, há cerca de 10 anos atrás, sendo que ainda se presencia suas
mudanças com os diversos agentes (EING, 2003).

Resultados específicos sobre os agentes abordados

Comércio e serviços
Não apresentam um crescimento tão expressivo nestes últimos quatro
anos, mas ainda assim, grande parte dos estabelecimentos pretende ampliar
seus negócios no mesmo local. São estabelecimentos ditos como de pequeno
porte e sem filiais. Sendo o público alvo os estudantes, justamente por isso,
estão localizados na proximidade do Cedeteg. O que se nota com isso, é que
ainda há uma deficiência em relação à quantidade destes estabelecimentos
voltados para moradores. Esta falta pode ser explicada pelo fato de os
moradores e também estudantes ainda buscarem o que precisam na área
central, já que o bairro fica próximo ao centro. Os principais itens oferecidos
aos estudantes são bares e lanchonetes, mas também estabelecimentos ligado
a fotocópias e encadernação, bem como lan houses.

Residências de moradores
Com a chegada do Cedeteg, houve uma valorização do solo urbano,
sendo em alguns casos, mais de 50%. Com isso, muitos moradores

183
venderam seus imóveis, mudando-se para outros lugares. Isto deve-se à
grande quantidade de estudantes que vieram ocupar esse espaço, sendo que
muitos desses inviabilizaram o sossego dos moradores, em especial, com o
que se denomina de “bagunça”. Ainda persistem os que já residem há mais
de dez anos no bairro e que dividem o espaço com esses estudantes. Em
contrapartida, encontraram-se moradores que pretendem sair desse lugar,
pois consideram que não é mais o mesmo bairro de antes.

Prédios de apartamentos
O mercado imobiliário cresceu e continua crescendo para atender
ao público estudantil que vem de fora. Com isso, o imóvel foi valorizado. É
visível a ocupação de terrenos baldios para a construção de kitinets, tal como
expresso no mapeamento do uso do solo de 2007. Este é o segmento mais
representativo na reestruturação urbana do bairro. Isto se pode observar
no mapa de uso do solo de 2007, comparando-o com a ocupação por estes
prédios no mapeamento realizado em 2003.

Problemas ambientais
Conforme observações de campo, foram visíveis situações que
comprometem a conservação do rio, em especial para sua sustentabilidade
ambiental. As ocupações irregulares que se encontram muito próximas às
margens do rio, estão expostas a alagamentos e a desmoronamentos. A falta
de uma mata ciliar, a poluição, causada pelo lixo jogado, o despejo de esgoto,
entre outras substâncias, bem como o lixo depositado em terrenos baldios,
sendo que muitos desses terrenos estão nas proximidades do rio, sendo
a situação agravada pelo declive, fazem com que esses resíduos cheguem
ao leito e são alguns dos problemas ambientais identificados hoje na área
de estudo. É preciso frisar que essas ocupações irregulares e os problemas
ambientais em torno do rio são mais antigos do que o CEDETEG e não
podem se considerados como resultado da reestruturação urbana do bairro.
Pelo contrário, talvez esses problemas sejam um dificultador ao próprio
processo de reestruturação, pois podem acarretar desvalorização da área.
De qualquer forma, percebe-se no bairro, uma concentração de
uma estrutura formada por moradias, bares, lanchonetes, serviços ligados
à Internet e fotocópias, voltados a atender aos mais novos e capitalizados
moradores do bairro, os estudantes universitários.

184
Trabalhar a questão urbanização através da pedagogia de projetos, foi
de grande valia, pois se pode entender tal temática por outro viés, que no caso
foi da realidade próxima dos alunos, com o caso do bairro Vila Carli. Quem
afirma que a temática urbanização tratada a partir dos métodos tradicionais
fosse surtir tantos resultados e considerações quanto os que ocorreram por
parte dos alunos, sem se tornar uma aula com poucos atrativos? Talvez esteja
aí um dos pontos mais importantes da aplicação deste novo olhar sobre os
conteúdos geográficos do ensino básico: o espaço vivido.

Considerações finais
Conhecer a ciência com a qual se trabalha é parte fundamental
para que se possa organizar, da melhor maneira possível, os conteúdos, os
métodos e a própria prática enquanto professora de Geografia. Só desta
forma, pode-se superar o antigo descaso que se tem encontrado nas escolas
nos últimos anos, quanto ao ensino de Geografia, marcado pela reprodução
do conhecimento, pela memorização e pelo vazio de significado.
É preciso mostrar aos alunos a importância da ciência geográfica,
tanto para o conhecimento quanto para a própria vida em sociedade. Isto
é mais bem tratado, tornando-se algo interessante, através da pedagogia de
projetos, visto que nela, alunos/as e professores/as, são atores cooperativos
na produção de um conhecimento novo.
Torna-se isto um ponto positivo, devido aos resultados satisfatórios
obtidos com a aplicação desta proposta com o ensino médio, já que
os objetivos foram alcançados, visto que, com o projeto, os educandos
puderam, então, construir para si mesmos, uma explicação coerente
e científica sobre o que estão vendo acontecer no seu bairro; bem como
também a considerável contribuição do ensino de Geografia para a vida
desses alunos e para a própria sociedade.
As metodologias utilizadas para tal atividade foram uma das ferramentas
mais importantes para o bom resultado: um embasamento teórico capaz de
desenvolver o senso de análise dos alunos para compreender o processo de
urbanização em Guarapuava; o trabalho de campo, para o reconhecimento
da área de estudo, desenvolvendo a categoria de análise da paisagem, muito
conhecida pelos alunos; a aplicação de questionários com moradores e
moradoras, para escutar a voz de pessoas mais experientes, bem como as
várias opiniões sobre o assunto; o mapeamento do uso do solo, que permite
quantificar, visualizar de forma sistemática, as transformações comentadas.

185
Em todo o percurso, percebeu-se que o papel, enquanto professora,
foi muito importante para estimular o interesse e a curiosidade dos alunos e
alunas. Segundo Hernandez (1998), acredita-se que o professor, na proposta
de trabalho, deva ser o mediador, e fazer parte da pesquisa e não apresentar
conteúdos prontos, para apenas repassar o que já sabe, pois a sua função é
formar também cidadãos, com um senso crítico desenvolvido e aplicado
para as diversas realidades apresentadas. Assim, também se aprendeu
sobre o bairro. Conheciam-se teoricamente os processos estudados, mas
a sua materialização em um bairro particular, foi um aprendizado que se
construiu junto com os alunos e alunas.
A proposta foi positiva, comprovando a possibilidade de sua
aplicação, não somente para retirar a idéia da disciplina de geografia como
algo desestimulador, mas a própria valorização da ciência na sociedade.
Com isso, espera-se também, ter chamado a atenção dos alunos e alunas
para a necessidade de conhecer e se envolver nas questões de produção do
seu espaço próximo, ou seja, entenderem essas transformações como parte
de projetos políticos que poderiam ser mais democraticamente discutidos.

Referências
EING, Alírio Marcelo. Reestruturação urbana no bairro Vila Carli a
partir da instalação do Centro de Desenvolvimento Tecnológico de
Guarapuava – CEDETEG. 2003, 54 fls. (Trabalho de Conclusão de Curso)
UNICENTRO: Guarapuava-PR
HERNÁNDEZ, Fernando; VENTURA, Montserrat. Os projetos de
trabalho: uma forma de organizar os conhecimentos escolares. In: _____
__. A organização do currículo por projetos de trabalho. 5. ed. Porto
Alegre: Artmed, 1998, p.61-91.
SILVA, Joseli Maria. Valorização fundiária e expansão urbana recente
de Guarapuava-PR, 1995, 200fls, (Dissertação de Mestrado). – UFSC,
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC.

186
Comparação de taxas de infiltração mensuradas
com infiltrômetros de anel único e anel duplo
1
PEREIRA, Adalberto Alves
2
THOMAZ, Edivaldo Lopes

Resumo: O presente trabalho buscou comparar as taxas de infiltração,


utilizando infiltrômetros de duplo anel e anel único. Os ensaios foram realizados
na fazenda experimental do campus universitário do Cedeteg/UNICENTRO,
Guarapuava, Pr, em uma área com plantio convencional e outra com plantio
direto. O tamanho dos infiltrômetros utilizados para os ensaios foram,
infiltrômetro de anel único com 300 mm de altura e 100 mm de largura, e
infiltrômetro de anel duplo tendo 300 mm de altura, com anel externo medindo
200 mm e anel interno medindo 100 mm de diâmetro. Foram realizados seis
ensaios com os infiltrômetros, sendo três na área com plantio direto e três na
área de plantio convencional, a duração dos ensaios variou entre 130 e 180
minutos cada, os infiltrômetros foram dispostos a uma distância média de 50
cm. Coletaram-se quatro amostras indeformadas do topo do solo para estimar-
se algumas propriedades do solo como umidade antecedente, densidade
aparente e porosidade total, para observar possíveis variações pedológicas que
pudessem influenciar os resultados. Os dados obtidos demostraram haver alta
variação entre a taxa de infiltração de acordo com a forma de manejo do solo.
Na área com plantio direto as taxas de infiltração mantiveram-se numa mesma
dinâmica, tendo o infiltrômetro de anel duplo taxas ligeiramente superiores
ao anel único; já na área com plantio convencional as variações mostraram-
se maiores entre os equipamentos, chegando apresentar diferença de 145,41%.
As propriedades físicas do solo (densidade aparente e porosidade total),
apresentaram características semelhantes entre as áreas, apenas a umidade
antecedente apresentou uma variação considerável na área de plantio direto
em relação a área com plantio convencional. Embora tenha havido alguma
diferença entre as taxas de infiltração dos infiltrômetros, estas foram pequenas,
ou seja, não se pode afirmar que ocorreu diferença entre as taxas de infiltração
mensuradas com dois tipos de infiltrômetro (anel simples e duplo).
Palavras-chave: infiltrômetro de anel simples; infiltrômetro de anel duplo;
infiltração; uso do solo.

1
Aluno - ICV-UNICENTRO, e-mail:adalbertoalvespereira@yahoo.com.br.
2
Orientador- Dep. De Geografia/UNICENTRO, e-mail: ethomaz@brturbo.com.br.
Introdução
Infiltração é um dos processos mais importantes dentro do ciclo
hidrológico. Ela é descrita como sendo a movimentação da água através
dos horizontes superficiais do solo (BERTONI e LOMBARDI NETO,
1993), e é através do processo de infiltração que outros vários processos
podem ter início, como o escoamento superficial e subsuperficial que, por
sua vez, podem dar início a processos erosivos como a formação de ravinas
e voçorocas, entre outros.
Após infiltrar, a água é armazenada em poros no interior do solo e
movimenta-se através da força da gravidade e da atração capilar. A força
gravitacional transporta a água verticalmente através do perfil do solo e
a atração capilar movimenta-a em todas as direções, principalmente para
cima (COELHO NETTO, 2007).
A infiltração da água no solo depende de vários fatores, entre eles:
características das chuvas, como intensidade e duração, em chuvas com
intensidade superior a capacidade de infiltração do solo, esta água excedente
irá gerar o escoamento superficial, e a infiltração será reduzida, já em chuvas
de fraca intensidade e longa duração, a taxa de infiltração tende a ser maior,
e o escoamento superficial só terá início após a saturação do solo.
Propriedades do solo como textura, umidade antecedente, porosidade
e densidade aparente, também são fatores que interferem nas taxas de
infiltração do solo. Solos de textura mais grosseira tendem a ter taxas de
infiltração maior que solos de textura fina como os argilosos. A umidade
antecedente controla o volume de água que pode ser armazenada no solo,
quanto maior a umidade antecedente menor a capacidade de infiltração.
Porosidade e densidade aparente são fatores inversamente proporcionais
entre si, em solos porosos e de baixa densidade as taxas de infiltração
tendem a ser superiores, a solos de baixa porosidade e alta densidade.
A topografia do terreno interfere na infiltração de modo que em
áreas declivosas há um favorecimento no escoamento superficial direto,
superfícies onduladas ou planas permitem uma maior infiltração, e geram
um escoamento superficial menos veloz (KARMANN, 2003).
A cobertura vegetal protege o solo contra o impacto das gotas
de chuva (splash) sobre o solo, e aumenta a capacidade de infiltração.
Segundo Coelho Netto (2007, p.120), [...] solos recobertos por florestas
geralmente apresentam os maiores valores de capacidade de infiltração,
especialmente pela formação da serrapilheira [...]. A redução da densidade
de cobertura vegetal é acompanhada pelo decréscimo da infiltração”,
principalmente devido à formação de crostas na superfície do solo causado

188
pelo splash. Duley (1939), citado por Brandão et. al (2006), verificou que
solos descobertos apresentam reduções da taxa de infiltração de até 85%
em relação àqueles protegidos por palha.
A forma de preparo e manejo do solo afeta a infiltração, pois modifica as
propriedades e condições da superfície do solo. Quando se faz o preparo do solo,
rompe-se a estrutura da camada superficial, ampliando a taxa de infiltração, em
contraposição, se este preparo for realizado de forma incorreta ou for removida
a cobertura vegetal, a capacidade de infiltração tende a diminuir.
Alves e Cabeda (1999) apud Brandão et. al (2006), utilizando chuvas
simuladas avaliaram a infiltração em um solo Podzólico vermelho-escuro
sob duas formas de preparo, plantio direto e convencional, e verificaram
que a taxa de infiltração foi quase duas vezes maior na área com plantio
direto do que na área de preparo convencional.
A atividade biogênica (fauna endopedônica e vegetais) pode aumentar
as taxas de infiltração devido à formação de caminhos preferenciais para água,
causado pelo crescimento de raízes e pelas escavações e túneis originados
pela atividade destes animais e vegetais (COELHO NETTO, 2007).
Devido à grande importância em se conhecer o processo de infiltração
da água no solo, vários equipamentos foram criados buscando-se estimar
as taxas de infiltração, entre estes equipamentos estão os infiltrômetros de
anel, que podem ser de anel único. Estes consistem em cilindros metálicos
com altura em torno de 300 mm e diâmetro variando de 100mm a 900mm
ou anel duplo em que o anel interno tem tamanho e altura iguais ao do
infiltrômetro de anel único e o anel externo tem diâmetro duas vezes maior
e altura igual ao anel interno.
Desta forma, o presente estudo busca comparar as taxas de infiltração
obtidas a partir de equipamentos do tipo infiltrômetro (anel único e duplo
anel), para observar suas possíveis diferenças. Além disso, procurou-se
verificar a influência do manejo do solo (sistema convencional e direto) nas
taxas de infiltração.

Materiais e métodos
Os ensaios foram realizados na fazenda experimental do campus
universitário Cedeteg-UNICENTRO, em áreas com duas diferentes formas de
preparo, uma com plantio direto, próximo ao lago superior do campus, e outra
com preparo convencional próximo à estação meteorológica da universidade.
Os solos destas áreas são classificados como Latossolo Bruno
(MENDES, 1984). Estes solos caracterizam-se por apresentarem “avançado

189
estágio de intemperização, cores vivas (brunadas, amareladas e avermelhadas),
boa agregação, estrutura comumente granular.” São solos profundos bastante
porosos e permeáveis, de textura que varia de média a muito argilosa.”
(GUERRA e BOTELHO, 2003)
Para os ensaios de infiltração utilizou-se infiltrômetro de anel único
com 300mm de altura e 100mm de diâmetro, e infiltrômetro de anel duplo
com 300mm de altura e anel interno com 100mm de diâmetro e anel
externo com 200mm de diâmetro. Os infiltrômetros foram cravados a uma
profundidade de 50mm no solo. A Taxa de infiltração foi estimada como
descrito por Guerra (1996), multiplicando-se a infiltração acumulada pela
área do infiltrômetro e dividindo-se pelo tempo acumulado no ensaio. Os
ensaios foram realizados com os dois infiltrômetros no mesmo dia, e horário.
A distância entre um local e outro foi de 50cm, para que não houvesse variação
das condições pedológicas que pudesse interferir nos resultados.
A diferença das taxas de infiltração entre os equipamentos, foi
multiplicada por 100 e dividida pela taxa de infiltração, do infiltrômetro
que registrou o menor resultado de infiltração durante o ensaio, para que
assim obtivéssemos a diferença em porcentagem.
Coletaram-se 4 amostras indeformadas com anel volumétrico de
95,5 cm3 próximo ao local dos ensaios de infiltração, para análise das
propriedades do solo (umidade antecedente do topo do solo, densidade
aparente e porosidade total). As amostras foram numeradas e pesadas, em
seguida, secas em estufa a 105°C por 24 horas.
A umidade antecedente do solo foi estimada em três níveis de
profundidade, sendo, topo do solo, 5 a 10 cm e 10 a 15 cm de profundidade. Para
avaliação da umidade antecedente de 5 a 10 cm e 10 a 15 cm de profundidade
foram utilizadas amostras deformadas de solo, que foram preparadas utilizando-
se o mesmo método das amostras indeformadas já citadas.
Após este preparo das amostras, estimou-se a umidade antecedente
do solo, aplicando a equação descrita por (EMBRAPA, 1997). Em seguida
multiplicou-se o resultado por 100 para que este fosse transformado em
porcentagem.
Equação 1

U = Pi - Pf onde: U: umidade inicial


Pi : peso inicial da amostra antes da secagem

Pf; peso final da amostra após secagem

190
Para se estimar a densidade aparente do solo, utilizou-se a equação 2,
descrita por (EMBRAPA, 1997).
Equação 2

Da = a / onde: Da: densidade aparente


a : peso da amostra seca
b: volume do anel volumétrico

A estimativa da porosidade total da amostra foi feita utilizando-se a


equação 3 citada por (EMBRAPA, 1997).
Equação 3

Pt = 100. (Dr - Da) / Dr Em que: Pt: porosidade total


Dr: densidade real
Da: densidade aparente

Para a estimativa da porosidade total do solo, utilizamos a densidade


real média das partículas de 2,65g/cm3, de acordo com KHIEL (1979),
por ser este valor uma boa estimativa quando não se tem a determinação
do parâmetro.

Resultados e discussão
Foram realizados seis ensaios com os infiltrômetros, sendo três na área
com plantio direto e três em área de preparo convencional. Os resultados
obtidos apresentaram uma grande diferença entre os infiltrômetros de
acordo com o tipo de uso da área.
Na área com plantio direto, as taxas de infiltração não apresentaram
grande variação, tendo o infiltrômetro de anel duplo apresentado taxas
ligeiramente mais altas que o anel único; sendo a diferença máxima
registrada de 2,7%, estes resultados diferem de alguns autores (Brandão et.
al 2006; Pinto, Holtz, Martins, 1973), os quais destacam que o infiltrômetro
de anel único superestima as taxas de infiltração devido à dispersão lateral
da água. A infiltração durante o ensaio na área com plantio direto também
se mostrou constante entre os infiltrômetros, não apresentando nenhuma
curva (alta ou baixa) brusca em um curto espaço de tempo.
As taxas de infiltração mensuradas na área de preparo convencional
mostraram diferenças que chegaram até 145,41% entre os infiltrômetros.

191
Tendo o infiltrômetro de anel duplo apresentado taxa de infiltração superior
ao infiltrômetro de anel único no primeiro ensaio, já em ensaios seguintes o
infiltrômetro de anel único demonstrou resultados superiores.

Tabela 1 - Taxa de infiltração de acordo com o tipo de infiltrômetro e manejo


do solo
Taxas de infiltração (mm/h)
Preparo do solo Plantio direto Plantio convencional
Ensaio 1 2 3 1 2 3
Anel único 29,12 121,9 40,7 62,8 41,27 55,7
Duplo anel 29,9 122,9 41,8 154,12 20,41 31,8
Tempo (h) 2,16 3 2,16 3 2,16 2,16
Diferença (%) 2,6 0,82 2,7 145,41 102,2 75,15

A velocidade de infiltração entre as áreas demonstram algumas


diferenças; na área com plantio direto a infiltração manteve uma mesma
dinâmica entre os infiltrômetro do início ao fim dos ensaios, sempre com o
infiltrômetro de anel duplo registrando taxas superiores ao anel único. Os
dados observados mostram que a área de plantio direto apresenta taxas de
infiltração mais estáveis entre os infiltrômetros, apesar de haver diferença
entre suas taxas, esta é mínima.
Figura 1 - Velocidade de infiltração em área de plantio direto

Na área com plantio convencional, a velocidade de infiltração mostrou


algumas variações bruscas, sendo uma queda da velocidade de infiltração do
anel duplo logo nos primeiros minutos de ensaio. Isto se deve, provavelmente,
pelo fato de os infiltrômetros, no momento em que são cravados no solo,

192
causarem fraturas e rachaduras no mesmo, criando assim caminhos
preferenciais à água, após a água preencher estas fraturas a velocidade de
infiltração se estabiliza, como podemos observar na figura 2.
Nota-se também que o infiltrômetro de anel único registrou uma
alta repentina na infiltração entre 30 e 35 minutos de ensaio, alta que se
manteve constante até os 70 minutos de ensaio, decrescendo em seguida, e
mantendo-se próximo à velocidade de infiltração do anel duplo.

Figura 2 - Velocidade de infiltração em área de plantio convencional

Analisando as propriedades físicas do solo (densidade aparente e


porosidade total), notamos que estas não apresentaram grande variação
entre as áreas de cultivo. Na área com plantio direto, a densidade aparente
média ficou em torno de 1,59 g/cm3, enquanto que, na área com plantio
convencional, a densidade aparente média foi de 1,54 g/cm3. A porosidade
total das amostras também se mostrou uniforme, ficando em torno de 39,6%
na área com plantio direto, e 41,4% na área de plantio convencional.

Tabela 2 - Propriedades físicas do solo


Plantio direto Plantio convencional
Preparo do solo
Média ± Média ± Desvio
1 2 3 1 2 3
Desvio Padrão Padrão

Média ± Média ±
Ensaios 1 2 3 1 2 3
D. Padrão D. Padrão

Densidade aparente
1,65 1,59 1,55 1,59 ± 0,05 1,54 1,55 1,55 1,54 ±0,005
(g/cm3)
Porosidade
37,5 40 41,3 39,6 ± 1,93 41,7 41,4 41,2 41,4 ± 0,25
total (%)

Continua

193
U Topo
m do 25 22 18 21,6 ± 3,51 18 23 24 21,6 ± 3,21
i solo
d
a 5 a 10
40 35 29 34,6 ± 5,50 35 38 38 37 ± 1,73
d cm
e
10 a
(%) 40 37 29 35,3 ± 5,68 38 41 40 39,6 ± 1,52
15 cm

A área de plantio direto registrou índices inferiores de umidade


antecedente em relação à área de plantio convencional, além de apresentar
uma maior variação entre os dados obtidos. Na área de plantio convencional a
umidade manteve-se constante entre os ensaios nas profundidades analisadas.
Como era de se esperar as menores taxas de umidade antecedente
foram estimadas no topo do solo, devido este estar mais exposto, ao sol e ao
vento e tender a perder mais rapidamente a água.
Estas diferenças nos dados da umidade antecedente podem ter sido
um dos fatores que levaram a área de plantio direto a apresentar maiores
taxas de infiltração. Pois à medida que a água infiltra, ela vai umedecendo
o perfil do solo verticalmente, até que este esteja saturado. Devido às taxas
de umidade antecedente serem mais baixas na área de plantio direto, esta
pode ter facilitado a infiltração, enquanto a área de plantio convencional
que com maior umidade, teve a infiltração reduzida.

Conclusão
Conclui-se, com a realização deste trabalho, que para ensaios de
infiltração ambos os infiltrômetros podem ser utilizados desde que sejam
levadas em conta as suas capacidades e limitações, pois, de acordo com
Bertoni e Lombardi Neto (1993), “a velocidade de infiltração varia de
acordo com o método utilizado e dos equipamentos; assim, só pode obter-
se uma estimativa aproximada da verdadeira infiltração”.
Parcialmente, avaliou-se de acordo com os dados obtidos, que a taxa
de infiltração tem uma maior variação de acordo com área que se estuda
e da forma de manejo que se realiza nesta, do que pelos equipamentos
utilizados. Portanto, não se pode concluir qual dos infiltrômetros é o mais
aconselhado para aplicação, devido à semelhança dos resultados. Por outro
lado, o número de repetições não foi suficiente para determinar diferença
entre as técnicas. Deste modo, mais mensurações devem ser realizadas para

194
que se consigam resultados mais concretos sobre a variação de infiltração
obtidas pelos dois infiltrômetros de anel simples e duplo.

Referências
BERTONI, José; LOMBARDI NETO, Francisco. Conservação do solo. 3.
ed. São Paulo: Ícone, 1993. 355p.
BRANDÃO, Viviane Dos Santos; CECÍLIO, Roberto Avelino; PRUSKI,
Fernando Falco; SILVA, Demetrius David da. Infiltração da água no solo.
3º ed. Viçosa: Ed. UFV, 2006. 120p.
COELHO NETTO, Ana Luiza; AVELAR, A . de S. Hidrologia de encosta
na interface com a geomorfologia. In: GUERRA, Antônio José Teixeira;
CUNHA, Sandra Baptista da. Geomorfologia: conceitos, técnicas e
aplicações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 103-138
COELHO NETTO, Ana Luiza. Hidrologia de encosta na interface com
a geomorfologia. In: GUERRA, Antônio José Teixeira; CUNHA, Sandra
Baptista da. Geomorfologia: uma atualização de bases e conceitos. 7. ed.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. p. 93-148
EMBRAPA. Centro nacional de pesquisa de solo. Manual de métodos de
análise de solo. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. 212p.
GUERRA, Antônio José Teixeira; BOTELHO, Rosângela Garrido M. Erosão
dos solos. In:GUERRA, Antônio José Teixeira; CUNHA, Sandra Baptista
da. Geomorfologia do Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
p. 181-228.
GUERRA, Antônio José Teixeira; Processos erosivos nas encostas.
In: GUERRA, Antônio José Teixeira; CUNHA, Sandra Baptista da.
Geomorfologia: uma atualização de bases e conceitos. 7. ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2007. p.149-210.
KARMANN, Ivo. Ciclo da água, água subterrânea e sua ação geológica.
In: TEIXEIRA, Wilson; TOLEDO, Maria Cristina Motta de; FAIRCHILD,
Thomas Rich; TAIOLI, Fábio. Decifrando a Terra. São Paulo: Oficina de
Texto, 2003. p. 113-138.
KIEHL, José Edmar. Manual de edafologia: Relações Solo-Planta. São
Paulo: Agronômica Ceres, 1979.

195
MARTINS, J.A. Infiltração. In: PINTO, N. L. De S.; HOLTZ, A.C.T.;
MARTINS, J.A. (org). Hidrologia de superfície. 2º ed. São Paulo: Edgard
Blücher, 1973. p. 44 – 55.
MENDES, Waldemar. Limitações do uso dos solos do estado do paraná
por susceptibilidade á erosão. Rio de Janeiro: Embrapa-SNLCS, 1984.

196
Sociedade de risco e poluição hídrica
1
SANTOS, Ariodari Francisco dos
2
BERTOTTI, Luiz Gilberto

Resumo: A diminuição da disponibilidade e qualidade da água nas diversas


regiões do planeta é conseqüência de uma atividade antrópica desenfreada,
onde as fontes de água para consumo humano também servem como veículo
para as descargas oriundas de suas atividades. O risco da contaminação das
águas superficiais e subterrâneas é evidente, muitas regiões já sofrem com
a indisponibilidade de água de qualidade. As diversas atividades associadas
a tecnologias derivam resíduos que direta ou indiretamente chegam aos
rios. O presente artigo apresenta uma reflexão sobre a sociedade de risco e
a contaminação dos recursos hídricos.
Palavras-chave: risco; poluição hídrica; ciência e tecnologia.

Risco, ciência e tecnologia


As ações decorrentes das atividades ligadas à ciência e tecnologia
estão provocando mudanças diárias em nossas atividades e no meio
físico em função das descobertas cientificas, onde novas tecnologias
gradativamente vão fazendo parte de nossas vidas. O mundo está em
mudanças e transformações e estas não estão confinadas em algum lugar
ou espaço, mas nas relações de produção, na tecnologia, nas relações
sociais, na economia, nas finanças e na comunicação. Não parece haver a
previsibilidade do mundo, como pensava Marx e Weber (GIDDENS et al.,
2000). Existe um certo descontrole no sistema mundial. Não se sabe bem
para onde caminham as ciências e as tecnologias.
Hoje todos nós vivemos numa sociedade de risco, onde cada vez mais
se vive numa fronteira tecnológica que ninguém compreende inteiramente
e que gera uma diversidade de futuros possíveis. Sua origem está ligada à
crescente influência da ciência e da tecnologia, embora não sejam totalmente
determinadas por elas, com a transformação do fim da natureza (raríssimos

1
Professor Adjunto do Departamento de Biologia/UNICENTRO. Pesquisador do Núcleo de
Pesquisas Ambientais. e-mail: bertotti@unicentro.br.
2
Professor Adjunto do Departamento de Geografia/UNICENTRO. Pesquisador do Núcleo de
Pesquisas Ambientais. e-mail: ariodari@unicentro.br.
os aspectos do mundo físico que não sofrem intervenção humana) e o fim
da tradição (onde a vida não é vivida como destino) (GIDDENS et al.,
2000). Natureza e tradição, com a modernidade, se dissipam.
Risco sempre representa conotação negativa, visto referir-se à
possibilidade de evitar um resultado indesejável, mas também pode ser
visto positivamente no sentido de tomar iniciativas ousadas diante de um
futuro problemático (GIDDENS, 1995).
O risco fabricado é o risco criado pelo progresso do desenvolvimento
humano, especialmente pelo progresso da ciência e da tecnologia, é aquele
que se refere a novos tipos de riscos para os quais a história tem a nos
oferecer pouquíssima experiência prévia, onde muitas vezes nem sabemos
realmente que riscos são estes e não conseguimos estimá-los com precisão
em termos probabilísticos. Este risco está aumentando em todas as direções
da vida humana, acompanhando a ciência e tecnologia (GIDDENS, 1995).
Segundo Beck (1995), o “risco ecológico”, resulta da potência diruptiva
– “revolucionária” – da tecnologia, como culminância de um processo de
dominação técnico-científica da racionalidade instrumental. A potência
destrutiva das técnicas avançadas da química, do nuclear e da engenharia genética
se caracterizaria por seu caráter espaço-temporal ilimitado/indeterminado.
Ele definiu a sociedade capitalista industrial como a “sociedade de risco” e o
processo de modernização como um “retorno à incerteza” (era da insegurança
e/ou da incerteza). O avanço da modernização mostra as ameaças produzidas
pela sociedade industrial. O conceito de “sociedade de risco” designa, portanto,
“[...]uma fase no desenvolvimento da sociedade moderna, em que os riscos
sociais, políticos, econômicos e individuais tendem a escapar das instituições
para o controle e a proteção da sociedade industrial”. Neste caso, as instituições
da sociedade industrial tornam-se os produtores e legitimadores das ameaças
que não conseguem controlar.
Nessa perspectiva, não há “risco zero” na utilização de descobertas
científicas em geral. O mundo moderno há muito vem sendo moldado pela
influência da ciência e das descobertas científicas. A cada dia novas inovações,
novas tecnologias vão influenciando nossas vidas (GIDDENS, 1995).
As incertezas exigem preocupação; devemos estar preparados contra
danos futuros não seguros, procurando diminuir a probabilidade do mesmo
(dano). A prevenção deve ser praticada tanto ante o perigo como ante o
risco, pode-se também ocorrer que tomamos precauções em relação a
perigos que não podem atribuir a decisões próprias (LUHMANN, 1991).
A “sociedade de risco” é a fonte para o “retorno à incerteza”, sentimento
generalizado na sociedade moderna. Beck situa a “crise ecológica” como

198
uma crise institucional profunda da própria sociedade industrial. Essa
incerteza está na base da crescente resistência, especialmente dos paises
europeus, em consumir produtos derivados de Organismos Geneticamente
Modificados (OGMs) e na exigência de maiores cuidados na disseminação
de tais produtos (ACSELRAD, 2000).
O risco, vale lembrar, incorpora duas dimensões: a primeira refere-se
à identidade entre o possível e o provável, aspectos que pressupõem alguma
forma de aprender a regularidade dos fenômenos. A segunda refere-se à
esfera dos valores: risco pressupõe colocar em jogo algo que é valorizado.
Inevitavelmente, pois, a incorporação da noção como um dos aspectos
fundantes da sensibilidade moderna foi fruto de transformações sociais
e tecnológicas. As transformações sociais, os contornos da sociedade de
risco são definidos a partir de duas reorientações. A primeira poderia ser
resumida como a progressiva laicização da sociedade e a segunda está
associada às transformações nas relações econômicas e sociais que foram
resumidamente contempladas no que veio a ser chamado de capitalismo
comercial. A perda de hegemonia da Igreja católica e a ascensão do
protestantismo nos países do Norte da Europa favoreceram uma forma
de racionalidade condizente com a formatação da revolução científica. Já
a abertura do comércio favoreceu o desenvolvimento de novas estruturas
políticas, incluindo aí a noção de soberania sobre territórios nacionais
que levou à emergência do estado/nação. A transformação tecnológica é
a emergência da teoria da probabilidade como o fator mais relevante para
a formatação do conceito moderno de risco. Esta é uma história curiosa.
Apesar das brilhantes realizações dos pensadores da Grécia Clássica e da
civilização arábica, nenhum desses povos chegou a formular o conceito
matemático de probabilidade. Aos gregos certamente faltava um sistema
de notação numérica que permitisse o cálculo probabilístico; e aos árabes,
após Maomé, muito provavelmente faltava uma filosofia capaz de pensar o
futuro como possível de controle (ACSELRAD et al., 2002).
O acúmulo de conhecimento científico, gerado por muitas pessoas
trabalhando livre e criativamente, deveria necessariamente conduzir à
emancipação humana e ao enriquecimento da vida diária. O pensamento
iluminista abraçou a idéia de progresso e buscou ativamente romper
tradição, procurando desmistificar e dessacralizar o conhecimento para
liberar os seres humanos. Esse pensamento era permeado por um otimismo
desenfreado na ciência e no conhecimento como meios fundamentais para
produzir liberdade, igualdade e progresso humano. O domínio científico da
natureza prometia liberdade da escassez, da necessidade e da arbitrariedade

199
das calamidades naturais. O desenvolvimento de formas racionais de
organização social e de modos racionais de pensamento prometia a
libertação das irracionalidades do mito, da religião, da superstição, da
libertação do livre arbítrio do poder, bem como do lado sombrio da nossa
própria natureza humana (HARVEY, 1992). Weber também criticou o
sonho iluminista de alcançar a felicidade pela ciência, afirmando que
isso não passou de um otimismo ingênuo. Diferente do que acreditavam
os pensadores do iluminismo, é ilusório acreditar que o conhecimento
científico atingiria o “ser verdadeiro”, a “verdadeira natureza”, a “verdadeira
felicidade”. Segundo ele, o processo de nacionalização da sociedade moderna
não significa um progresso humano ou um maior conhecimento das
condições gerais da vida. “A intelectualização e a racionalização crescente
não equivalem, portanto, a um conhecimento geral crescente acerca das
condições em que vivemos” (WEBER, 1979).
Weber não acreditava na historia da humanidade como um
“progresso” unilinear na direção da perfeição moral ou da racionalização
tecnológica cumulativa. Apontou, no entanto, para o processo crescente de
racionalização e o conseqüente desencantamento do mundo. Não mais os
elementos mágicos e as crenças, mas a ciência passa a explicar a realidade
e o mundo. [...] não há forças misteriosas incalculáveis, mas que podemos,
em principio, diminuir todas as coisas pelo cálculo. Isso significa que o
mundo foi desencantando. Já não precisamos recorrer aos meios mágicos
para dominar ou implorar os espíritos, como faziam os selvagens, para
quem esses poderes misteriosos existiam. Os meios técnicos e os cálculos
realizam o serviço. Esse processo de desencantamento não acontece apenas
em relação à religião e seus mitos. Há também um desencantamento
resultante da desvalorização do “conhecimento tradicional”, ou seja, formas
de produção e/ou relação com a natureza e o mundo que não se encaixam
na lógica científica ocidental. Os avanços tecnológicos recentes aprofundam
essa desvalorização, lançando mão inclusive de mecanismos jurídicos legais
(leis de proteção da propriedade intelectual) (ACSELRAD, et al., 2000).
A ciência e a tecnologia não apresentam as soluções para a crise
ambiental, mas constituem a instância de poder sobre a informação e sobre
a avaliação do risco, configurando uma “irresponsabilidade organizada” que
reproduz o poder dos técnicos. Não só a sua aplicação, mas a própria técnica
é denominação metódica, científica, calculada e calculante (sobre a natureza
e sobre o homem). Determinados fins e interesses da dominação não são
autorgados à técnica apenas “posteriormente” e a partir de fora – inserem-se
na própria construção do aparelho técnico .... (HABERMAS, 1994).

200
Modernização, ciência e tecnologia
Weber (1958) destacou os processos de intelectualização e racionalização
da sociedade moderna através do crescente progresso científico. A tendência
geral para a racionalização na sociedade moderna ocidental é resultado,
segundo ele, de uma combinação de diversos fatores com a expansão do
mercado capitalista e a institucionalização do progresso científico e técnico.
Habermas (1994), seguindo na trilha de Weber, define o surgimento
da modernização e modernidade, a partir do século XVIII, no seio desse
racionalismo capitalista ocidental. O “projeto da modernidade”, para ele, é
um “projeto inacabado”, representou um extraordinário esforço intelectual
dos pensadores iluministas para desenvolver a ciência objetiva e liberar os
seres humanos através do domínio da razão sobre a natureza.
Os saltos científicos e tecnológicos das ultimas décadas, especialmente
nas áreas de biotecnologia, informática, telecomunicações, robótica e uso de
novos materiais, têm sido caracterizados como parte de uma terceira “revolução
industrial”. Mais recentemente, tais mudanças no setor industrial passaram a
ser percebidas como partes de um novo processo, chamado globalização.
Segundo essa perspectiva, as mudanças nos campos industriais,
científico e tecnológico são parte das mudanças econômicas, políticas,
sociais e culturais do desenvolvimento mundial. As mudanças tecnológicas
são acompanhadas, por exemplo, pela superação das fronteiras nacionais,
permitindo a livre circulação de mercadorias.
As novas técnicas de comunicação, associadas ao progresso nos meios
de transporte de massa, estariam provocando o “encolhimento do planeta”.
A globalização trata efetivamente de um processo de transformação do
espaço e tempo. Trata-se, portanto, de uma “ação à distância”, ou seja, uma
aproximação entre o local e o global, intensificada devido, “nos últimos
anos, ao surgimento da comunicação global instantânea e ao transporte de
massa” (GIDDENS, 1995).

Modernização da agricultura
A industrialização da agricultura vem acontecendo, desde os anos
de 1960, através do que se convencionou chamar de Revolução Verde.
As mudanças da base tecnológica ocorreram através da introdução de
inovações químicas e biológicas na agricultura. A utilização maciça de
fertilizantes químicos e pesticidas permitiu ampliar a produção agrícola
em grande escala. Complexos industriais, construídos para a produção de
aramas químicas, passaram a produzir insumos para o setor agrícola.

201
A introdução recente de novas tecnologias, especialmente
de engenharia genética, na produção agropecuária representa um
aprofundamento do sistema implantado pela Revolução Verde. Não
há mudanças significativas na lógica de produção, nem no processo de
industrialização e artificialização da agricultura na natureza. A abordagem
continua sendo reducionista, com um processo produtivo baseado no uso
intensivo de produtos e fertilizantes químicos (CORDEIRO, 1999).
Ao longo do século passado, a ciência e a tecnologia invadiram
nossas vidas, o mundo animal e o meio físico num grau sem precedente,
tendo como experimentos objetos involuntários à humanidade e toda a vida
existente no planeta (GIDDENS, 1995). A poluição causada pela agricultura
pode ocorrer de forma pontual ou difusa. A poluição pontual refere-se, por
exemplo, à contaminação causada pela criação de animais em sistema de
confinamento, onde grande quantidade de dejetos é produzida e lançada
diretamente no ambiente aquático ou aplicada nas lavouras. Já a poluição
difusa é aquela causada principalmente pelo deflúvio superficial (erosão),
a lixiviação e o fluxo de micrósporos que, por sua vez, estão relacionados
com as propriedades físicas do solo como infiltração e a porosidade. Assim,
solos mais arenosos teriam o processo de lixiviação e fluxo de micrósporos
favorecidos. Já em situações onde os solos são manejados de forma
incorreta (preparo excessivo do solo, associado ao insuficiente aporte de
biomassa), poderá ocorrer a degradação de sua estrutura favorecendo,
então, ao deflúvio superficial. Por outro lado, em solos bem manejados que
têm uma estrutura formada por agregados estáveis e uma boa distribuição
de poros, o processo de erosão é reduzido. Nessas condições, porém, o
risco de contaminação das águas passa a ser principalmente pelo fluxo de
micrósporos (MERTEN e MINELLA, 2002).

Risco ambiental: a contaminação da água


A água é essencial à vida e todos os organismos vivos do planeta
terra dependem da água para sobrevivência. O planeta terra é o único do
sistema solar que tem água nos três estados (sólido, líquido e gasoso), e as
mudanças no estado físico da água no ciclo hidrológico são fundamentais
e influenciam os processos biogeoquímicos nos ecossistemas terrestres
e aquáticos. A água, portanto, é um recurso extremamente reduzido; o
suprimento de água doce e de boa qualidade é essencial ao desenvolvimento
econômico, para a qualidade de vida das populações humanas e para a
estabilidade do planeta.

202
A água nutre florestas, mantém a produção agrícola, a biodiversidade
nos sistemas terrestres e aquáticos. Portanto, os recursos hídricos superficiais
e os recursos hídricos subterrâneos são estratégicos para o homem e todas as
plantas e animais. Ela funciona como fator de desenvolvimento, pois é utilizada
para inúmeros usos diretamente relacionados com a economia. Os usos mais
comuns e freqüentes dos recursos hídricos são: água para uso doméstico,
hidroelétrica, industrial e especialmente na irrigação. Também é carreadora e
receptora de dejetos oriundos dos processos de urbanização. Os usos múltiplos da
água aceleram-se em todas as regiões, continentes e paises. Estes usos múltiplos
aumentam à medida em que as atividades econômicas se diversificaram e as
necessidades de água aumentam para atingir níveis de sustentação compatíveis
com as pressões da sociedade de consumo, a produção industrial e agrícola.
A urbanização acelerada aumenta enormemente as demandas para grandes
volumes de água, aumentando também os custos do tratamento, a necessidade
de energia para distribuição da água e pressões sobre os mananciais.
Os impactos quantitativos nos recursos hídricos são crescentes e
produzem grandes alterações nos estoques de águas superficiais e subterrâneas.
Há casos evidentes de uso excessivo de recursos hídricos superficiais que
resultaram na redução quantitativa acentuada e em desastres de grandes
proporções. Além dos impactos quantitativos, há muitos outros impactos
na qualidade da água, que comprometem os usos múltiplos e aumentam as
pressões econômicas regionais e locais sobre os recursos hídricos.
Os resultados de todos estes impactos são muito severos para as
populações humanas, afetando todos os aspectos da vida diária das pessoas,
a economia regional e nacional e a saúde humana. Estas conseqüências
podem ser resumidas:
Degradação da qualidade da água superficial e subterrânea; aumento
das doenças de veiculação hídrica e impactos à saúde humana; diminuição
da água disponível “per capita”; aumento do custo de produção de
alimentos; impedimento ao desenvolvimento industrial e agrícola, devido
ao comprometimento do uso múltiplo, aumento dos custos de tratamento
de água:
Devemos controlar constantemente a qualidade da água que se bebe,
qualquer fonte pode estar contaminada; não considerar que é seguro beber
água engarrafada, pois a maioria das fontes de abastecimento de água estão
contaminadas pelos mais diversos poluentes, uma vez que a maioria dos
produtos químicos sintéticos são recentes.
Existem mais de centenas de milhares de produtos químicos sintéticos
no mercado e outros tantos milhares são lançados anualmente e seus efeitos

203
são pouquíssimos conhecidos. A qualidade das águas superficiais é reflexo
não apenas dos processos naturais, como também das contradições da
sociedade e das formas de apropriação e exploração do espaço (SOUZA et
al., 1990). E fato comum a localização dos centros urbanos e industriais às
margens ou nas proximidades de rios, os quais adquirem a dupla função
de abastecimento de água e de local de deposição dos resíduos do uso da
água. O desmatamento as margens dos rios, a erosão, o assoreamento e a
poluição dos cursos da água resultam da utilização desordenada do solo,
que é um risco de constante preocupação em estudos ambientais, visto que
graves impactos sobre a qualidade da água, bem como sobre o ecossistema
envolvido nesse processo (SOUZA et al., 1990).
A inadequada utilização dos recursos hídricos resulta, geralmente,
em conseqüências danosas ao meio ambiente, seja pela degradação
ambiental, seja pelo comprometimento da qualidade da água para
consumo humano. Os efeitos da poluição dos rios por diferentes cargas
são as alterações estéticas dos rios, deposição de sedimentos, depleção de
oxigênio dissolvido, contaminação por patógenos, eutrofização e danos
ao ecossistema (BIZZONI, 2000). Junto com a contaminação das águas
de esgotos urbanos, há que se considerar a grande variedade de poluentes
característicos produzidos pela agropecuária, especialmente detritos
animais, esterco líquido, estrume, praguicidas e fertilizantes, enquanto os
industriais poluem com resíduos químicos e biológicos, metais pesados,
ácidos e sólidos em suspensão, hidrocarbonetos, dentre outros. O arraste
dos detritos desses poluentes atinge os rios pela ação da água pluvial pelas
chuvas (FELLEMBERG, 1980).

Considerações finais
Os riscos que ocorrem e que poderão ocorrer relacionados à
contaminação de recursos hídricos derivam preponderantemente das
atividades antrópicas e raramente de causas naturais.
Os impactos das atividades antrópicas estão relacionados
especialmente às rodovias, exploração agropecuária, expansão urbana e
industrial sem planejamento.
É necessária a interferência do poder público e do apoio da sociedade
para coibir e prevenir o risco da contaminação e exploração dos recursos
hídricos, necessário para sobrevivência.

204
Referências
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ambiente e democracia. In: IBASE/CUT/IPPUR. Movimento Sindical e
Defesa do Meio Ambiente. Série Sindicalismo e Meio Ambiente, Rio de
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Paraná. 191 p.
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São Paulo: Universidade de São Paulo, 1980.
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HARVEY, D. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da
mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1992.

205
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MERTEN, G. H.; MINELLA, J. F. Qualidade da água em bacias hidrográficas
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WEBER, M. A ciência como vocação. In: GERTH, H. H. e MILLS, W.
(Org). Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1979.

206
O desenvolvimento urbano-industrial de Duque de
Caxias-RJ nas décadas de 1940 a de 1980
1
BUENO, Karoline
2
COSTA, Pierre Alves

Resumo: A presente pesquisa tem como objetivo principal apresentar os


indicadores sócio-econômicos inseridos nos processos de urbanização
e industrialização da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, e numa
abordagem específica do município de Duque de Caxias (DC)-RJ, nos
decênios de 1940 ao de 1980. A pesquisa constou das seguintes etapas:
revisão bibliográfica, levantamento de fontes e dados, saídas a campo,
análise dos dados e redação.
Palavras-chave: Duque de Caxias; indicadores sócio-econômicos;
desenvolvimento urbano-industrial.

Introdução
A estrutura metropolitana do Rio de Janeiro tende, segundo M.
Abreu (1987, p. 15), a ser de núcleo hipertrofiado, concentrador da maioria
da renda e dos recursos urbanísticos disponíveis, rodeado por estratos
urbanos periféricos sempre mais necessitados de serviços e de infra-
estrutura à medida que se distanciam do núcleo, e sendo útil para moradia
e local de funcionamento de algumas outras atividades às grandes massas
de população de baixa renda.
Podemos dizer que é a partir de fins dos anos 1920 e nos anos 1930,
que Caxias passa realmente a ser atingida pela expansão urbana da cidade do
Rio de Janeiro. Os projetos implantados pelo Estado nas décadas de 1930 e
40 proporcionaram a sobrevivência de um campesinato nas áreas periféricas
3
do terceiro e quarto distritos , a ocupação urbana e a incorporação da
1
Acadêmica de Geografia da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO. Bolsista
PIBIC/UNICENTRO. e-mail: karoline.bueno@hotmail.com.
2
Professor e pesquisador do Departamento de Geografia da UNICENTRO. Doutorando em História
Social pela Universidade Federal Fluminense – UFF. e-mail: alvespierre75@unicentro.br.
3
A emancipação de Duque de Caxias (DC) ocorreu no último dia de 1943, em meio ao agitado
ambiente do Estado Novo (1937-45), a partir de Decreto Lei 1055, do então interventor estadual
Amaral Peixoto. Os distritos de Caxias, São João de Meriti, Xerém e Estrela se emanciparam do
município de Nova Iguaçu, passando a compor o município de Duque de Caxias. O novo município
cidade ao projeto de desenvolvimento industrial do Estado Novo (1937-
45). A cidade passou a ser conhecida como a cidade do motor, do trabalho
e do trabalhador. A crescente movimentação de pessoas que trabalhavam
na cidade carioca e residiam em Caxias produziu uma outra imagem da
cidade, a de dormitório (M. SOUZA, 2002).

O expressivo crescimento populacional, a acelerada e não


planejada urbanização e as precárias condições de vida
aumentaram o quadro de violência social na Baixada Fluminense.
A população não dispunha de serviços públicos essenciais
(quantitativamente e qualitativamente): coleta regular de lixo,
sistema de água encanada, rede de esgoto, escolas públicas e
hospitais, dispositivo de segurança pública, entre outros. 4

Exemplificando: Caxias detinha, até 1945, 534 veículos motorizados,


11 logradouros públicos iluminados com luz elétrica e somente um posto
telefônico para ligações interurbanas. Apenas 4% de suas residências
tinham, em 1960, água encanada, inexistindo também uma rede de esgotos
(I. BELOCH, 1986, p.28-29).
Em habitações modestas e geralmente improvisadas, a maioria
da população da Baixada morava em bairros populares e em favelas
– excetuando os residentes dos bairros destinados ao extrato médio da
população, como o 25 de Agosto, em Duque de Caxias. Essa violência
social, descrita acima, não repercutia devidamente na imprensa carioca,
que enfatizava os índices de criminalidade – abundantemente noticiados
nas páginas policiais dos jornais populares.

A região metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) e as


condições sócio-geográficas de Caxias

A RMRJ de 1960 a 70 sofreu um incremento populacional de


40% mais que sua população no início do decênio. Em 1960
esses municípios possuíam cerca de cinco milhões de habitantes

passou a ser formado por três distritos: DC, São João de Meriti e Imbariê. Em 1947, São João de
Meriti se emancipou de DC e em 1954, parte do distrito de Imbariê deu origem a outros dois
distritos: o de Campos Elíseos (3º) – onde se instalou a Refinaria Duque de Caxias, nos anos 1960;
e o de Xerém (4º) – onde se instalou a Fábrica Nacional de Motores nos anos 1940. (M. SOUZA,
2002 e M. SIMÕES, 2007).
4
COSTA, 2007, p. 113.

208
e em 70 contavam com sete milhões e 173 mil. Esse crescimento
populacional é um reflexo, em última análise, da estrutura rural
5
deficiente do estado do RJ.

A taxa média de crescimento populacional da Baixada Fluminense


(BF) é a mais alta do estado (período de 1970-1977). Nova Iguaçu detinha
mais de um milhão de habitantes, representando 45% do contingente
demográfico da área e 10% do estado.
Geograficamente, a Baixada Fluminense (BF) corresponderia à
região de planícies que se estendem entre o litoral e a Serra do Mar, indo
do município de Campos dos Goytacases, no Norte Fluminense, até o de
Itaguaí, próximo à cidade do Rio de Janeiro. Para este trabalho, adotaremos
o conceito de “Baixada Geopolítica”, a qual engloba os atuais municípios de
Belford Roxo, Duque de Caxias, Japeri, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu,
Queimados, São João de Meriti e o distrito de Inhomirim (Magé).
A principal atividade econômica geradora de emprego na BF é a
indústria de transformação, com destaque para os ramos metalúrgico e
químico, além de material de transporte em Caxias.
6
A pesquisa do IBAM , realizada na primeira metade da década
de 1970, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mostrou o Grande
Rio como uma área de grandes contrastes, em que existe um núcleo
metropolitano extremamente forte – a cidade do Rio de Janeiro – rodeado de
7
uma periferia fraca, ao contrário de São Paulo , onde todos os municípios
metropolitanos se beneficiam diretamente do progresso geral da região.
Aqui houve uma barreira institucional. O fato de a região estar em dois
8
estados distintos fez com que a metrópole se fortalecesse à custa da
periferia, pois, todos os recursos eram utilizados em seu próprio proveito.
Os problemas apontados pela pesquisa destacam a importância da
RMRJ no contexto do estado e o peso muito grande do núcleo – a cidade do
Rio de Janeiro – dentro da Região. O sistema atual é inadequado, pune os
municípios que exercem funções residenciais, como Itaguaí, Nova Iguaçu,
São João de Meriti e Mangaratiba, que, embora tenham elevado índice
populacional, possuem receitas fraquíssimas.

5
Revista Tendência, março de 1975.
6
Instituto Brasileiro de Administração Municipal, sediado na cidade do Rio de Janeiro.
7
O GLOBO, 25 de maio de 1975; p. 14-15.
8
O atual estado do Rio de Janeiro até 1974 dividia-se em dois: estado da Guanabara (o que hoje
corresponde á cidade do Rio de Janeiro) e estado do Rio de Janeiro (cuja capital era a cidade
de Niterói). A fusão dos dois estados ocorreu com a Lei Complementar nº 20de 01/07/1974 e
concretizada em 15/03/1975.

209
A RMRJ foi dividida, por essa pesquisa, em quatro áreas: núcleo,
periferia imediata, periferia intermediária (Jacarepaguá, Nilópolis, São João
de Meriti, Campo Grande, Nova Iguaçu, Caxias e São Gonçalo); e periferia
distante (todo o restante da RMRJ). Para o presente artigo, destacaremos a
situação da periferia intermediária, onde encontra-se Caxias.
A Periferia Intermediária tem altas taxas de crescimento populacional,
com centro de serviços adequados aos padrões de consumo da população
pobre, um crescimento industrial restrito apenas a algumas áreas, com
uma infra-estrutura inexistente ou precária. Congrega 80% da população
total dos antigos estados da Guanabara e Rio de Janeiro. Sua densidade
populacional é muito superior à do resto do estado: 1.095 hab./km2, contra
51,9 hab./km2. Tem 85% da população urbana e 22,3% da rural. Embora no
contexto metropolitano a população rural seja ínfima: apenas 3,4%.
A População Economicamente Ativa (PEA) representava 81% do
total do estado; 79,2% dos estabelecimentos industriais do estado e 77,7%
do valor gerado por eles; 75,7% do total de prédios, embora apenas 56%
deles tinham água encanada.
A cidade do Rio empregava 65% da PEA da RMRJ e Caxias e Nova
Iguaçu empregavam de 5 a 10% da PEA. A produção industrial do Rio
representava 72,8% do valor global da RMRJ e a de Caxias representava
12,5% do valor global da RMRJ.
A topografia de DC apresenta, em grande parte, planícies e pequenos
relevos, assumindo, entretanto, na sua região Norte, fisionomia montanhosa,
onde se sobressaem vários montes e destaca-se a Serra da Estrela. Dessa
região derivam-se várias nascentes d’água que se constituem tributárias
da Represa de Xerém – manancial que contribui substancialmente para o
abastecimento do Rio de Janeiro.
Está localizado em ponto estratégico e privilegiado, qual seja na
confluência das duas mais importantes e principais rodovias brasileiras:
Washington Luiz e Presidente Dutra (Rio-São Paulo). A rodovia Washington
Luiz que transpondo Brasília, conduz ao Pará, estado mais setentrional
do país, passando antes por inúmeras cidades importantes. Ainda em
ramificação, alcançam-se os estados da BA, SE, AL, PE, PB, RN e CE. A
rodovia Presidente Dutra é a artéria que, passa por São Paulo, o maior
parque industrial da América Latina.
Em 1950, era facilmente comprovável sua situação de cidade
dormitório, em relação ao expressivo mercado de trabalho do Rio de
Janeiro. Entre 1950 a 1965, com a instalação da Refinaria Duque de Caxias
(REDUC) e outras pequenas fábricas, ou seja, com o surto industrial que

210
sofreu, passou Caxias à nítida posição de subcentro metropolitano, com área
de influência que lhe extravasa os limites municipais e alcança até mesmo
certos bairros da Guanabara; o que gerou conseqüentemente um mercado
de trabalho cujo crescimento tende a aproximar-se do demográfico, mas que
ainda não acompanha a expansão da oferta de mão-de-obra, proporcionado
pelo célere crescimento populacional.
O crescimento populacional de Caxias foi ainda maior nos anos
1950, alcançando 161% – 241.026 habitantes em 1960, sendo o maior
índice da baixada. Diversos fatores contribuíram para este crescimento,
como: construção de rodovias, baixo preço dos lotes oferecidos, mínima ou
total ausência de exigências burocráticas, tarifas do transporte ferroviário
unificadas e subsidiadas pelo governo, eletrificação total das linhas.
Some-se a isso, a atração de trabalhadores para dar conta da construção e
funcionamento de mais duas empresas estatais que se instalaram em Caxias:
a REDUC, com a construção iniciada em 1958 e concluída em 1961; e a
primeira empresa petroquímica brasileira – FABOR (Fábrica de Borracha
Sintética), em 1962.
Mas a REDUC também acabou alterando outras condições do
município, pois sua instalação se constitui um marco no crescimento da
poluição das águas da Baía da Guanabara, causado pelo despejo de seus
efluentes líquidos. É, sem dúvida, a principal atividade poluidora da Baía.
Seus efluentes líquidos contêm grandes quantidades de óleos e graxas,
metais pesados (inclusive cádmio e mercúrio), fenóis e carga orgânica.
Os manguezais remanescentes, situados no litoral de Caxias, foram
9
particularmente impactados pela poluição da refinaria.
Em relação à infra-estrutura urbana, a situação era de abandono.
Conforme os dados da Agência de Estatística do Município de DC, em 1957
havia 10 mil crianças em idade escolar fora da escola. Das 20.152 crianças
de 5 a 14 anos, apenas 7.761 sabiam ler e escrever. Dos 92.459 habitantes,
aproximadamente 14.048 homens e 17.741 mulheres eram analfabetos.
A maioria das escolas públicas foi instalada em residências ou prédios
alugados, sem a menor infra-estrutura.
Na área da saúde, a situação era ainda pior. Existia apenas o Posto
Médico do Sandu e os consultórios médicos particulares. A alternativa
era buscar atendimento no Distrito Federal. A obtenção de água potável
continuava a ser um grande problema. Existiam apenas bicas e carros pipas.
Conforme Lemos (1980, p. 59), a água era insalubre, imprestável para beber,

9
AMADOR, 1992, p. 247.

211
obrigando que fosse apanhada em locais privilegiados e na maioria das vezes,
distante das residências. Outra alternativa era a compra nos carros pipas, o
que, representava uma fonte de renda para os funcionários da prefeitura.
Mesmo sendo o único município (da periferia intermediária) que tem adutora
própria, com 54,6% dos seus prédios ligados à rede de abastecimento d’água,
DC é sobrecarregado na questão de abastecimento de água e não atende à
demanda, sendo, por isso, comum o uso de poços nas residências.
No final da década de 1960, o parque industrial era constituído, na
sua maioria, por pequenas e médias empresas. As três grandes empresas
presentes nessa época são: REDUC, FABOR e a Fábrica Nacional de
Motores (FNM).
Em 1970, dentre os municípios da Baixada, Caxias era o que
apresentava maiores reservas em áreas livres, possibilitando várias
alternativas para localização da atividade industrial. Configura-se no
município com o mais rápido avanço industrial, não apenas na Baixada,
mas em todo o antigo estado do Rio de Janeiro.
O crescimento industrial de DC caracterizou-se por duas etapas
de implantação: a primeira, representada por fábricas tradicionais que se
instalaram ao longo do eixo da antiga Rio - Petrópolis e Estrada de Ferro
Leopoldina; a segunda após a abertura da BR-135 (Rio-Brasília) que,
deslocando o eixo de atração, permitiu a localização de novas fábricas,
influenciadas pela instalação do Complexo REDUC-FABOR.
Neste mesmo decênio (1970), DC possuía dois hospitais municipais e
já contava com faculdades (Administração, Ciências Contábeis, Pedagogia
e Letras, da Associação Fluminense de Educação; Faculdade de Educação
com o curso de Pedagogia anexa ao Instituto de Educação Roberto Silveira,
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da FEUDUC), 214 unidades de
ensino fundamental e 22 de ensino médio; biblioteca e teatros.
Na época, Duque de Caxias arrecadava para a União um bilhão, 304
milhões 643 mil cruzeiros (IBGE, 1973); para o estado Cr$ 34 milhões 460
mil; e para a prefeitura cerca de Cr$ 460 mil.
Possuía também uma estação rodoviária servida pela Rede Ferroviária
Federal. E contava com os Jornais: Folha da Cidade, O Recado, O Rio de
Janeiro, O Municipal e Baixada Fluminense.
Figurava entre os municípios brasileiros com maior índice de
arrecadação de impostos, graças à REDUC, à Fiat Diesel e a mais de 600
outras fábricas e 3.000 estabelecimentos comerciais.
Seus 575 mil habitantes (aproximadamente) sofriam permanentemente
com a falta de água, luz, rede de esgotos, coleta de lixo, limpeza, conservação

212
e policiamento. Continuava como cidade dormitório, fornecendo mão-de-
obra para o Rio de Janeiro.
Em 1970, quando o município contava com 431.397 habitantes, só
30.284 trabalhavam ali. Destes, 12,18% ocupavam-se a agricultura, 47,99%
na indústria e 40,73% no comércio e serviços. No mesmo ano, o município
possuía 109.513 edificações, sendo que apenas 40% eram ligadas à rede de
água, 24% à de esgotos e 70% à energia elétrica.
Nos quatro distritos existem bairros que são verdadeiras favelas e
onde a baixa condição de vida gera a alta criminalidade.
A falta de água, decorrente da seca na região dos mananciais é o
principal problema enfrentado atualmente pela população de DC. Os
moradores dizem ter aprendido a conviver com a precária condição de vida e
passaram a considerar normal a presença de lixo, poeira, lama e buracos nas
ruas, o esgoto mal-cheiroso escorrendo pelos valões, os assaltos, a ausência
de iluminação pública e a falta de ônibus, de telefones e de escolas.
No início dos anos 1980, perdeu aquela que foi sua principal característica
durante décadas: a criminalidade, o banditismo armado que nada deixava
a desejar aos melhores filmes de faroeste. Surge uma acelerada ocupação
10
industrial, que segundo muitos, é responsável pelo declínio da violência.
Estima-se que, diariamente, mais de 300 mil pessoas deslocam-se
para trabalhar em cidades próximas. Em 1983, DC já contava com 826
fábricas, principalmente de pequeno e médio porte, sendo que, no final de
1982, as fábricas empregavam 26 mil pessoas, apresentando um crescimento
do número de fábricas na região de 6% ao ano.

Conclusões
As transformações sócio-econômicas sofridas por Caxias, revelam
que a cidade perdeu a característica de tão somente “subúrbio dormitório”
do Rio de Janeiro, desenvolvendo uma economia própria e passando a
se constituir também numa cidade industrial. Nas décadas de 1970 e 80,
começou a se consolidar o Pólo Petroquímico de Duque de Caxias; e, no
início deste século, Caxias recebeu o Pólo Gás-Químico. Porém, apesar de
todo este crescimento econômico, verificado principalmente a partir dos
anos 1960, Caxias continua com graves problemas sociais, destacando-se a
precariedade no abastecimento de água e no tratamento do lixo e esgoto.

10
O GLOBO, 13 de março de 1983.

213
Fontes
DIÁRIO DE NOTÍCIAS (Arquivo CPDOC JB) - 30/8/1973; 31/8/1974;
24/8/1975.
JORNAL DO BRASIL. Rio de Janeiro (Arquivo CPDOC JB) - 22/1/1961,
14/9/1961, 6/7/1962, 4/8/1969, 26/5/1974, 9/2/1975, 9/3/1975, 11/3/75,
15/2/1976, 1/8/1976, 28/3/1977, 18/2/1978, 12/10/1978, 21/7/1979,
8/10/1981, 13/12/1981, 11/10/1982, 18/12/1981, 28/7/1982.
LUCA, Tânia Regina de. “História, historiografia e imprensa” (palestra).
In: SEMANA DE HISTÓRIA DA UNICENTRO: O OFÍCIO DO
HISTORIADOR, 15. Guarapuava. Abril de 2007, em DVD.
O GLOBO. Rio de Janeiro (Arquivo Jornal O Globo) - 27/8/72, 3/6/1974,
25/5/1975, 31/12/1978, 3/7/1979, 26/1/1980, 11/9/1980.
O HOMEM da capa preta (filme), 1986. Direção: Sergio Rezende.
REVISTA TENDÊNCIA (Arquivo CPDOC JB) - 1/3/1975.

Referências
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Janeiro: IPLANRIO/ZAHAR, 1987.
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ABREU, M. de A. Natureza e sociedade no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
Departamento Geral de Documentação i Informação Cultural, 1992, p.
201- 258.
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baixada fluminense. Rio de Janeiro: Record, 1986.
COSTA, Pierre. Tenório Cavalcanti: entre o mito e a realidade. In: WORKSHOP
REGIONAL DE GEOGRAFIA E MUDANÇAS AMBIENTAIS, 1., 2007.
Anais... Guarapuava: UNICENTRO, 2007, p. 113-120.
LEMOS, Santos. Os donos da cidade. Rio de Janeiro: Caxias Recortes,
1980.

214
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emancipações municipais na Baixada Fluminense. Mesquita: Entorno,
2007.
SOUZA, Marlúcia S. de. Escavando o passado da cidade: Duque de Caxias
e os projetos de poder político local (1900-1964). Orientadora: Virgínia
Fontes. Niterói: Programa de Pós-Graduação em História/UFF. 2002.
Dissertação (Mestrado em História).

215
Políticas territoriais no Brasil: criação e extinção do
Território Federal do Iguaçu
1
CORADELI, Robison Tiago
2
FERREIRA, Sandra Cristina

Resumo: O presente trabalho busca contribuir com a discussão sobre


o processo de criação do Território Federal do Iguaçu e as questões que
envolvem tal decisão, que são acima de tudo política. Assim, buscaremos
apresentar, num primeiro momento, as principais decisões políticas do
governo de Getúlio Vargas, desde o seu primeiro mandato em 1930 até
o fim da ditadura imposta por ele no ano de 1945. Ao assumir o poder,
Vargas faz muitas reformas na economia e na vida política do país,
contribuindo para que o Brasil pudesse em décadas seguintes concretizar
sua industrialização, além de incentivar a ocupação e nacionalização de
áreas de fronteira, com seu projeto “Marcha para Oeste”. Discutiremos
com um Território especifico, o do Iguaçu, criado com a fusão de parte do
território do Paraná e Santa Catarina e que logo após da saída de Vargas
do poder foi extinto. Buscaremos apresentar/discutir como encontrava-se
a região que compreendia o Território, como foi para a região a criação
e posterior extinção, os agentes que levaram a todo esse processo de
mudanças na organização do território nacional. Finalizando o trabalho,
enfatizaremos como a capital do território na época, a cidade de Laranjeiras
do Sul, encontra-se na atualidade e o que tal fato representou para a cidade.
Atualmente, Laranjeiras do Sul encontra-se na região do Estado do Paraná
com a maior incidência de famílias pobres; como também entre as cidades
que não apresentam alto crescimento no índice de desenvolvimento humano
municipal (IPARDES, 2000), bem diferentes de outras capitais federais da
região sul como Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. Considerando alguns
fatos, indagamos se o Território tivesse sido mantido a realidade poderia
apresentar diferenças quanto à organização do território paranaense,
principalmente, no Centro Sul do estado. Quanto à capital do Território,
tais fatos foram impactantes para a cidade tanto no âmbito administrativo,

1
Graduando em Geografia - Universidade Estadual do Centro-Sul do Paraná – UNICENTRO. e-
mail: robsontiago_geo@yahoo.com.br.
2
Professora do Departamento de Geografia - Universidade Estadual do Centro Sul do Paraná –
UNICENTRO. e-mail: sheidecke@hotmail.com.
quanto das aspirações da população, exigindo reorganização e tempo para
a retomada de novos rumos.
Palavras-chave: políticas territoriais; Território Federal do Iguaçu;
Laranjeiras do Sul.

Introdução
O presente trabalho busca contribuir com a discussão sobre o processo
de criação do Território Federal do Iguaçu e as questões que envolvem tal
decisão, que é acima de tudo política. Assim, buscaremos apresentar, num
primeiro momento, as principais decisões políticas do governo de Vargas,
desde o seu primeiro mandato em 1930 até o fim da ditadura imposta por
ele no ano de 1945.
Ao assumir o poder, Vargas faz muitas reformas na economia e na
vida política do país, contribuindo para que o Brasil pudesse em décadas
seguintes concretizar sua industrialização. Além de incentivar a ocupação e
nacionalização de áreas de fronteira, com seu projeto “Marcha para Oeste”,
onde discutiremos com um Território especifico, o do Iguaçu, criado com a
fusão de parte do território do Paraná e Santa Catarina e que logo após da
saída de Vargas do poder foi extinto.
Finalizando o trabalho, enfatizaremos como a capital do território na
época, a cidade de Laranjeiras do Sul que foi envolvida nesse processo, encontra-
se na atualidade e o que representou para a região a criação do Território.

Metodologia
Buscaremos construir o trabalho por meio de uma revisão
bibliográfica com o resgate histórico do momento político vivido pelo país,
e a criação do Território do Iguaçu (1944 -1946). Entendemos que a reflexão
teórica, permitirá compreender a contribuição de tais ações políticas no
contexto sócioespacial e na organização do território paranaense. Para
tanto, pretendemos analisar/discutir as particularidades pertinentes ao
tema e os principais agentes envolvidos no processo.

218
A política de Vargas: avaliando resultados
Para compreendermos o momento político da criação do Território
buscaremos analisar e discutir a presidência do Brasil na época e as suas
principais características de governança para que possamos situar o leitor
com o momento político da época.
Quando Getúlio Vargas assumiu o poder, em novembro de 1930
encontrou o Brasil numa situação econômica bastante preocupante,
sofrendo ainda com colapso da bolsa de Nova York em 1929, que afetou a
economia do mundo inteiro, e com a queda da bolsa do café, no mercado
internacional, que fez com que saísse do país muito capital.
Para tentar conter a crise, num primeiro momento, Vargas tentou
implementar uma política de caráter ortodoxo, buscando contrair o gasto
público, o crédito e a emissão de moeda. Entretanto, perante a gravidade da
crise, não foi possível sustentar apenas essas medidas, obrigando o governo
a adotar uma política voltada para a sustentação da atividade econômica.
(CORSI, 2004)
A mais importante foi a defesa do café, que introduziu um imposto
sobre cada saca exportada, ampliou o crédito interno e retirou do mercado,
entre 1930 e 1934, mais de 50 milhões de sacas, das quais cerca de 34 milhões
foram destruídas, impedindo assim um colapso cafeeiro, o que contribuiu
para manter o nível de atividade no comércio, na indústria, nas finanças e
nos serviços.
A sustentação da atividade econômica associada à desvalorização
da moeda e ao controle das operações cambiais, contribuiu para a criação
de condições favoráveis ao desenvolvimento industrial. “No entanto, a
política econômica adotada no período não visava intencionalmente
fomentar a industrialização, mas sim neutralizar os efeitos negativos da
crise internacional” (CORSI, 2004, p. 24).
A economia recuperou-se a partir do crescimento das atividades
vinculadas ao mercado interno, destacando-se o setor de bens de produção.
Esses desempenhos favoráveis no setor industrial marcam o início da
expansão industrial, determinando à dinâmica da acumulação de capital.
Outras medidas também contribuíram para a retomada da economia,
como: a criação de órgãos de regulação e fomento de setores específicos,
como por exemplo, o Instituto do Açúcar e do Álcool, o Conselho Federal
de Comércio Exterior, o Departamento de Produção Mineral, o chamado
reajustamento econômico, que perdoou 50% das dívidas dos proprietários
rurais contraídas até 30 de junho de 1933, a proibição de importações
de máquinas e equipamentos para os setores da indústria, a isenção de

219
tarifas sobre importações de equipamentos para alguns setores industriais
considerados importantes, a reforma educacional.
Destaca-se a introdução da legislação trabalhista e a criação do
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio em 1932. Medidas que visavam
regular a relação entre o capital e o trabalho no espaço urbano. Uma série de
direitos trabalhistas foram sendo introduzidas, entre elas o descanso semanal
remunerado, regulamentação do trabalho das gestantes e dos menores, férias
remuneradas, aposentadorias, salários mínimo, as quais foram sistematizadas
em 1943, na Consolidação das Leis do Trabalho, que vigoram até hoje.
Também foram introduzidos os sindicatos corporativos por categorias,
controlados pelo Estado, sendo esse seu principal problema, já que sendo
impostos de “cima” para “baixo” representavam uma ambigüidade

O processo sócio-histórico-político conduzido por Vargas


tinha um caráter dialético, cuja unidade era contraditória: tanto
representava conquista e reconhecimento dos direitos sociais do
trabalhador quanto representava desejo de controle e cooptação
do Estado sobre a classe operária. (NOGUEIRA, 2004, p. 32,33)

Foi criada a Carteira de Trabalho em 1932, obrigatória para a filiação


num partido e para a obtenção dos benefícios trabalhistas e sociais.
Essas medidas foram instituídas como uma dádiva do Estado,
construindo uma ideologia dos direitos trabalhistas na qual Vargas aparece
como “pai dos pobres”, base de sua política populista. No entanto, boa parte
dessas medidas, nesse período, não saiu do papel. Pode se dizer que a

[...] legislação trabalhista e a estrutura sindical corporativa controlada


pelo Estado foram um instrumento de controle do movimento
operário e de arrocho dos salários, o que potencializou a acumulação
de capital e contribuiu sobremaneira para o aprofundamento da
concentração da renda e das desigualdades sociais, [...] seria uma
das características mais marcantes do padrão de desenvolvimento
econômico introduzido por Vargas (CORSI, 2004, p. 25).

Resultado de uma aliança heterogênea, compreendendo setores


oligárquicos excluídos do poder, classe média urbana e burguesia industrial
nascente, a Revolução de Trinta liberará as forças necessárias à conclusão
do processo de produção do território brasileiro. Isso se deve a duas grandes
razões: em primeiro lugar, porque a centralização política administrativa
que ela dará origem corresponderá a um forte golpe na descentralização

220
de que gozavam os Estados federativos. Simbolicamente bem representada
pela queima das bandeiras dos Estados, tal centralização fará com que o
espaço dos Estados fosse transformado num espaço sobre o qual pairava
uma autoridade central, superior. Entre outras medidas, disso fará prova
Getúlio Vargas ao intervir em vários Estados para impor a orientação
centralizadora do novo regime (NASCIMENTO, 1985).
No ano de 1937, Vargas fecha o Congresso promulga uma nova
Constituição de 1937 baseada nas constituições de caráter fascista da Itália
e da Polônia, e inicia o período ditatorial conhecido por Estado Novo. Uma
das características desse regime são as conquistas políticas por vias golpistas.
Quando Vargas implantou o Estado Novo, o fez com a justificativa de frear
as fortes ameaças de golpes comunistas no país. Decretou moratória da
divida externa e instituiu o controle rígido do câmbio. Significando um
confronto direto com os credores externos. E ao nacionalizar as quedas
d’água, os recursos minerais da indústria de base, os bancos e as companhias
de seguro pareciam confirmar a radicalização.
Entre os órgãos criados pelo governo na época do Estado Novo está o
DIP – departamento de imprensa e propaganda – que acabou por controlar
os meios de comunicação e que procurou garantir uma “boa imagem” do
governo de Vargas. Além disso, o governo de Vargas agiu diretamente com
a classe trabalhadora, moldando-a de modo a garantir o propósito de seus
objetivos, ou seja, desenvolver a industrialização nacional baseando-se em
uma substituição de importações.
A criação dos territórios é uma forma de exemplificar a ação
nacionalista do governo Vargas. No âmbito interno, Vargas procurava
garantir a ocupação e a nacionalização das áreas de fronteira, para tentar
conter o isolamento e trazer uma enorme região para econômica nacional.
Assim, ele cria o projeto “Marcha para Oeste” que já vinha sido pensado
desde seu primeiro ano de governo em 1930 e que buscava a criação de
territórios federais em áreas de fronteira.
Entretanto, sem abandonar a idéia de desenvolvimento calcado
no mercado interno e na indústria, sendo que a implantação da grande
siderurgia era considerada fundamental.
Além do extraordinário reforço à industrialização dado pelo
Estado, são bem representativas dessa fase, em que se acaba a construção
do território, as medidas extinguindo as barreiras alfandegárias entre os
estados, estabelecendo um imposto de consumo sobre as mercadorias em
todo o país, e abolindo a capacidade que tinham os Estados Federados de
legislarem sobre comércio exterior. É dentro desse quadro de transformações

221
fundamentais para o território que, pouco a pouco, será implantada uma
enorme infra-estrutura de transporte (rodovias Rio - Bahia, Belém - Brasília,
etc.) e de comunicações, para permitir a circulação dos bens industriais
produzidos pelo “centro” (São Paulo notadamente) em direção à “periferia”
(os antigos espaços federados agora subordinados). É este o “modelo” de
território que prevalece no Brasil até hoje (NASCIMENTO, 1985).
É nesse contexto que acaba por ser criado o Território Federal do
Iguaçu, que teve como capital o município de Laranjeiras do Sul.

Território federal do Iguaçu: da criação à extinção


A criação de Territórios Federais ganhou destaque após o Brasil
comprar da Bolívia o Território do Acre em 1903, ficando assim, uma
indagação sobre quem deveria jurisdicionar o Território, se a União ou um
Estado da federação. O impasse foi resolvido via decreto n° 1.181 de 25
de fevereiro de 1904 autorizando o Presidente da República administrar
provisoriamente o Território.
Depois de resolvido o impasse político e jurídico, segundo Mayer
(1976 apud MUSSOI, 2004, p. 7).

território federal é uma área, um espaço territorial, não


compreendido na jurisdição de estados-membros, excedente
portanto do conjunto territorial compartilhado por essas
unidades federativas e imediata e exclusivamente submetido à
jurisdição da União.

A Constituição de 1934, em seu primeiro artigo, já explicitava o


Território como ente da União, acrescentava que “logo que tiver 300.000
habitantes e recursos suficientes para a manutenção dos serviços públicos,
o território poderá ser, por lei especial, erigido em Estado” (MUSSOI,
2004, p. 7). Essa constituição foi elabora em pleno período revolucionário
de Vargas e a questão da criação de novos territórios já estava sendo
amplamente discutida.
Embora essa Constituição fosse muito modificada na Constituição
de 1937, fôra redigida a portas fechadas por Vargas, que decretou o
fechamento do Congresso e promulgou uma nova Constituição, iniciando
o período ditatorial conhecido por Estado Novo, que se prolongaria até
1945, conforme supracitado.

222
Uma das propostas de Vargas, com o Estado Novo, era o fortalecimento
das áreas fronteiriças, e para isso ele criou o projeto “Marcha para o Oeste”
com a idéia de criação de Territórios Nacionais em áreas de fronteira, para
possibilitar sua colonização e ocupação.
O Território Federal do Iguaçu nasce nessa idéia, com a fusão da parte
Oeste e Sudoeste do Paraná e Oeste de Santa Catarina. Toda essa região
encontrava-se abandonada pelas autoridades locais, sendo freqüentes a
presença de estrangeiros, principalmente de paraguaios e argentinos.
Temendo uma possível ocupação desse território pelos argentinos,
Vargas criou o território Federal do Iguaçu. “Um ato de ocupação
definitiva da faixa de fronteira, para assim romper o isolamento e afastar
definitivamente o perigo estrangeiro para a soberania nacional, que rondava
a região” (LOPES, 2002, apud MUSSOI 2004, p. 34).
Quem explorava os recursos disponíveis eram os paraguaios e
argentinos, principalmente a erva-mate e a extração de madeira. Além
disso, “impressionara a situação de desnacionalização que constataram
na região: a língua corrente era o guarani e o espanhol, o dinheiro era o
peso argentino, a navegação do Rio Paraná era controlada pela Argentina
[...]” (WACHOWICZ, 1982. apud MUSSOI, 2004, p. 18), evidenciando
a desnacionalização encontrada na região de Laranjeiras do Sul nesse
período. Além desses problemas, a população enfrentava também omissão
do governo no atendimento às necessidades básicas, assim como precárias
vias de acesso, que dificultavam a vida dos moradores.
Vargas sabia de todos esses problemas, devido uma revolução
que acabou por acontecer nessa região, chamada “revolução tenentista”,
revelando à nação todos esses problemas de desnacionalização.
O Território Federal do Iguaçu teve dois Governadores, Major Garcez
do Nascimento e Frederico Trotta. O primeiro paranaense foi nomeado em
06 de janeiro de 1944, permanecendo no governo até o final de fevereiro
de 1946, o segundo, nomeado em seis de fevereiro de 1946, entrou em
exercício em cinco de março, permanecendo mesmo após a extinção do
território em 18 de setembro de 1946.
Entretanto, o decreto presidencial que criou o território, não definiu
sua capital. Medidas complementares foram tomadas através do decreto
lei nº. 5.839 na qual estabelecia que a capital do território fosse a cidade de
igual nome. Tal empasse perdurou por oito meses, quando em 31/05/1944
pelo Decreto-Lei nº. 6.650 foi feito uma retificação dos limites do território,
ampliando sua área e definindo sua capital, correspondente a Vila de
Xagu, ex-Laranjeiras, desmembrado do município de Guarapuava. Dessa

223
maneira Laranjeiras do Sul deixa da condição de vila para se tornar capital
do Território, com o nome de Iguaçu.
A escolha da vila Xagu, ex–Laranjeiras, não é ainda muito esclarecida,
sabe-se que esta decisão foi tomada pelo Major Garcez do Nascimento,
primeiro governador do território, que após percorrer todo Território
Federal do Iguaçu optou por Laranjeiras uma vez que a BR 277, que estava
em construção, provavelmente passaria na cidade (MUSSOI, 2004). Como
também por a cidade ficar mais próxima de Guarapuava e seus serviços.
Após ser considerada capital do Território, várias melhorias foram feitas
na cidade, dentre elas o plano Urbanístico, criação de um hospital, escola, plano
rodoviário e outras das quais, como cita Mussoi (2004, p. 101) “O Governo do
Território realizou também inúmeros serviços de utilidade pública, tanto na
Capital como nos demais municípios”, evidenciando as reformas realizadas
em toda região, que ficou durante muito tempo abandonada pelos seus
respectivos Estados, e as melhorias para suas populações.
A cidade e toda a região do Território passaram por um processo
rápido de crescimento econômico e social, com medidas que privilegiavam
o povo e uma conseqüente melhoria na economia da região. Embora, quem
mais lucrasse com o Território fosse Laranjeiras do Sul, pois muitas reformas
foram feitas na cidade, buscando apresentar a cara de uma capital Federal,
foram muitas as melhorias feita nos demais municípios que compreendiam
o Território.
No ano de 1945, em virtude de manifestações da sociedade para a
redemocratização do país, o regime de Vargas tinha se tornado insustentável.
Assim, o Alto Comando do Exército, apoiado por uma significativa parcela
da sociedade civil, depôs Getúlio Vargas em 20/10/1945, decretando o fim
do Estado Novo. Devido a essa instabilidade na política nacional tornou-se
fácil para que Paraná e Santa Catarina se mobilizassem para a reconquista
do território perdido.
Em dezembro desse mesmo ano, ocorreram eleições para presidente
da Republica e novos parlamentares. Eurico Gaspar Dutra saiu vencedor
e ele apoiava o fim do Território. Os Territórios Federais não votaram
em parlamentares, só para presidente, sendo um dos fatos da falta de
representatividade via Assembléia dos Territórios.
A Assembléia Nacional Constituinte foi o fórum no qual Paraná, Santa
Catarina e Mato Grosso, travaram uma verdadeira batalha para extinção do
Território do Iguaçu e de Ponta Porá, sendo a liderança do Paraná.
Após aprovada a Constituição Federal de 1946, o projeto de Emenda
Constitucional propondo a extinção do Território Federal do Iguaçu foi

224
apresentado pelo deputado paranaense Bento Munhoz da Rocha, no dia
10/06/1946 recebendo 119 assinaturas, com apoio unânime dos 10 deputados
paranaenses e dos dois senadores. Com relação à Santa Catarina, apenas dois
deputados assinaram esse projeto, evidenciando a liderança paranaense.
Para que a Emenda tivesse êxito havia a necessidade de mobilizar a
população do Território para o apoio à decisão. Entretanto, a população não era
favorável à extinção, pois temiam o retrocesso, o abandono das autoridades e o
retorno da vida difícil da qual levavam. Assim, foi criada uma comissão composta
por um professor, José Loureiro Fernandes, e um engenheiro, Antonio Batista
Ribas, pessoas influentes em Iguaçu para convencer a população. Eles pediam
a população para que mandassem cartas, telegramas, memórias enviadas ao
Presidente da República e a Assembléia pedindo a reincorporação.
Alguns telegramas pedindo a extinção do território têm uma origem
duvidosa, (MUSSOI, 2004), o que provocou revolta no povo do Território
e da imprensa local.
Outro aspecto que merece destaque:

é o fato de não ter havido manifestações das autoridades e


lideranças políticas municipais, apoiando ou contestando
às pretensões paranaense, dando a nítida impressão de que,
ou a questão territorial não era considerada relevante, ou
simplesmente não querendo tomar partido preferiam a
neutralidade, possivelmente em função dos acordos firmados
com os emissários do Interventor paranaense Brasil Pinheiro
Machado (MUSSOI, 2004, p. 155).

O ato de extinção do Território Federal do Iguaçu e de Ponta Porã


se deu via aprovação da Assembléia Nacional Constituinte no dia 8 de
setembro de 1946, bastando apenas à promulgação da Carta Magna, a qual
ocorreu no dia 18 do mesmo mês.
Após a extinção do Território, Laranjeiras do Sul, ainda com o nome
de Iguaçu, volta à condição de Vila de Guarapuava, entretanto prevendo
uma possível revolta dos moradores da cidade, Laranjeiras do Sul é
novamente erigida à condição de cidade, agora do Estado do Paraná, no
dia 30 de novembro de 1946, mas até hoje as marcas deste período histórico
ainda são notáveis.
Esse fato acabou deixando marcas na paisagem e na memória dos
habitantes da cidade e de toda região. Embora o pouco tempo da existência
do Território, foram muitas as melhorias para a população, que acreditava
num futuro promissor.

225
Considerações finais
Pode-se perceber, com o trabalho, o quanto decisões que extrapolam
a vontade local e os agentes locais, influenciam no processo de criação e
organização de um Território. Embora o caso de Laranjeiras do Sul represente
uma especificidade, na cidade, os agentes locais não tiveram participação
nas decisões que afetavam seu território. Entretanto, acreditamos que devido
ao momento político e como se encontrava a região, a criação do Território
Federal do Iguaçu foi de fundamental importância para a cidade.
Os mesmos mecanismos extra-locais que deram uma relativa
importância para a cidade no cenário nacional num determinado momento,
foram também os responsáveis pelo abandono da questão antes priorizada,
demonstrando a predominância de ações centralizadoras e autoritárias,
aplicadas pela equipe de Vargas que se servia das forças regionais, locais
para seus projetos e os desfazia à medida que mudavam os interesses e
alianças político-econômicas (COSTA, 2001). Evidencia-se também, a falta
de continuidade dos projetos quando ocorre a troca de governo.
Torna-se difícil tecer considerações sobre como a região estaria
se o Território não tivesse sido extinguido. No caso apresentado, além
dessa questão da criação e extinção do território, a cidade passou por um
processo de fragmentação territorial intenso com a emancipação direta
ou secundária de doze municípios que pertenceram a seu território nesse
primeiro momento, desestruturando-a política, social e economicamente
(CORADELI, 2006). Atualmente, Laranjeiras do Sul encontra-se na região
do Estado do Paraná com a maior incidência de famílias pobres; como
também entre as cidades que não apresentam alto crescimento no índice
de desenvolvimento humano municipal (IPARDES, 2000), bem diferente
de outras capitais federias da região sul como Curitiba, Florianópolis e
Porto Alegre.
Considerando esses fatos, acreditamos que se o Território tivesse
sido mantido, a realidade poderia apresentar diferenças e a organização
do território paranaense seria outra. Quanto à capital do Território, tais
fatos foram impactantes para a cidade tanto no âmbito administrativo,
quanto das aspirações da população, exigindo reorganização e tempo para
a retomada de novos rumos.

226
Referências
CORADELI, R.T. Formação de novos municípios: políticas de
desenvolvimento ou estagnação para pequenas cidades no centro sul do
Paraná. In: SEMANA DE GEOGRAFIA, 15., 2006. Anais... Guarapuava:
UNICENTRO, 2006, p.196.
CORSI, F. L. O longo caminho da industrialização. História Viva, São
Paulo, v. 4, p. 22-30, 2004.
COSTA. Wanderley Messias da. O Estado e as políticas territoriais no
Brasil. Ed. Contexto. São Paulo, 2001.
MUSSOI, Arno, Bento. Administração Pública do Território Federal do
Iguaçu. Curitiba, (Monografia de pós-graduação da Faculdade do Brasil)
Faculdade do Brasil, 2004.
NASCIMENTO, A . Produção Histórica do território Brasileiro e Teoria
Geral do Estado: notas críticas sobre uma discussão. In: REVISTA, n.º1,
Dezembro de 1985 - p. 76-90.
NOGUEIRA, A. J. F. M. . O trabalho sob a tutela do Estado. História Viva
- Grandes Temas - Edição Especial Temática - Ediouro, Brasil e Portugal,
v. 4, p. 30 - 37, 11 ago. 2004.

227
A globalização no contexto local e global:
modernidade e complexidade
1
BERTOTTI, Luiz Gilberto
2
SANTOS, Ariodari Francisco dos

Resumo: O presente trabalho pautou-se na proposta de apresentar de forma


sucinta, por meio de um “diálogo” a globalização no contexto local e global.
Dessa forma, Anthony Giddens e outros autores foram de importância
ímpar nesse processo, por ser nos últimos tempos esta temática, juntamente
com as questões ambientais, as que alcançaram destaque mundial devido
à crescente preocupação da sociedade com a conservação, apropriação
e o uso dos recursos naturais. Assim, inúmeros debates têm emergido
nos diversos setores da sociedade, procurando compreender a lógica do
sistema internacional e buscando alternativas para o uso racional dos
recursos naturais. É nesses sistemas de interações complexas que se observa
o avanço do modelo atual de desenvolvimento em busca desesperada de
matéria-prima proporcionando mudanças significativas na paisagem
natural. O objetivo principal é compreender como se configura essa relação
buscando suas especificidades em relação ao seu processo de estruturação e
as transformações, sublinhando a complexidade, ambiente e sociedade.
Palavras-chave: Globalização; capitalismo; modernidade; risco;
economia.

Introdução
O presente artigo é o resultado de uma abordagem sucinta referente
à globalização no contexto local e global, diante deste desafio procurou-se
reconstruir um “dialogo” com a participação de alguns autores de renome
internacional, dentre eles, Anthony Giddens.
Nas sociedades modernas as influências culturais e econômicas são
evidentes, em função de diversos fatores dentre os quais a penetração dos
meios de comunicação e a globalização do mercado. Contudo, a identidade

1
Professor Adjunto do Departamento de Geografia/UNICENTRO. Pesquisador do Núcleo de
Pesquisas Ambientais. e-mail: bertotti@unicentro.br.
2
Professor Adjunto do Departamento de Biologia/UNICENTRO. Pesquisador do Núcleo de
Pesquisas Ambientais. e-mail: ariodari@unicentro.br.
de cada uma delas é caracterizada pelo seu modo de vida nos lugares que
construíram e nos quais habitam.
E nesse sentido, observamos importantes transformações políticas,
sociais e econômicas que têm atingido de forma direta ou indireta toda a
sociedade, seja ela local ou mundial.
Essas transformações são capazes de dar origem aos “riscos de
grande conseqüência” que se originaram do impacto do desenvolvimento
técnico-industrial sem limites sobre o homem, como consumidor e
produtor, sobre a natureza e também sobre a sociedade e sua organização.
Nessa perspectiva, Giddens (1991) identifica a origem das crises nas quais
enfrentamos estes “riscos”, sendo uma delas o impacto do desenvolvimento
social contemporâneo sobre as geobiocenoses.
É nesses sistemas de interações complexas que se observa o avanço
do modelo atual de desenvolvimento em busca desesperada de matéria-
prima proporcionando mudanças significativas na paisagem natural.

O capitalismo contemporâneo
Saul (2003, p.1) menciona que o capitalismo contemporâneo é visto por
Giddens como um novo modelo de integração social, norteado por laços que
se estendem muito além das fronteiras clássicas das comunidades e das nações,
levando em si um novo significado de organização social e política que desafia
as atuais gerações a repensarem as gêneses da experiência democrática.
As análises da economia capitalista contemporânea devem ter suas
referências, em termos metodológicos, a partir do arcabouço teórico que
procura descrever o organismo reprodutivo deste sistema. Nessa configuração,
como é notório por meio da economia política formulada por Marx, um
conjunto determinado de leis de movimento e reprodução orienta e conduz
o funcionamento dessa economia por meio de uma regularidade particular.
Estando esta sintetizada no conceito de ciclo econômico, a qual, por sua vez,
está inserida a crise como sendo uma de suas formas básicas. Portanto, no
modelo capitalista, a produção, o excedente e a acumulação do capital, ao
tempo em que estão logicamente relacionados entre si, também se articulam
de acordo com ritmos, volumes e proporções desiguais no tempo e no espaço,
decorrendo dessa dimensão o surgimento da crise, denominada em geral de
superprodução (MARX, 1986).
No que se refere ao ciclo econômico, a dinâmica capitalista é
identificada, em sua formulação clássica, representando a composição de
um processo logicamente encadeado, decorrido em um certo período de

230
tempo. Os elos dessa cadeia de fenômenos econômicos são representados por
um período inicial de crescimento, cuja marca dominante é a acumulação
rápida do capital; no período seguinte, a superacumulação passa a ser o traço
dominante. O desenlace deste processo, ainda dentro desse período, acontece
com a abertura da crise em si mesma, qual seja, um período durante o qual
haverá desaceleração da acumulação e sub investimento (KATZ, 2000).

Globalização, um fenômeno recente


Diante das exposições acima, torna-se mais fácil a tarefa de avaliar uma
questão de suma importância que emergiu para o primeiro plano no capitalismo
contemporâneo, alvo de grandes debates e polêmicas discussões.
3
Trata-se da chamada globalização “a intensificação das relações
sociais de alcance mundial, que vinculam lugares distantes de tal forma que
acontecimentos locais são influenciados por eventos remotos, e vice-versa”,
(Giddens 1991, p. 69) assim, em grande parte das abordagens é considerada
como um fenômeno recente, o que justificaria delimitar os anos 1970 como
seu marco inicial.
Com a chegada da grande indústria e da subsunção real do trabalho
ao capital, cenário que se consolida a partir do início século XIX, o modelo
capitalista passa a contar com instrumentos que revelaria sua inexorável
tendência à expansão. Desde então, a partir da afirmação e predomínio
daquelas nações que compuseram o núcleo pioneiro do novo modo de
produção, o capital se apresenta como a força determinante constitutiva
dessa totalidade mediante um processo contínuo. Muito embora, como é
inerente à natureza de seu movimento cíclico, sua lógica interna trabalhasse
por meio de contrações, rupturas e relações mútuas construindo um universo
extremamente complexo, a tendência dominante foi a implementação de
estruturas homogêneas, de caráter econômico, político e cultural, sobre o
conjunto das nações (SAUL, 2003).
A economia global aberta é uma preciosa conquista, oferecendo
oportunidade, criatividade e riqueza (HUTTON; GIDDENS, 2001, p. 213-4).

3
“Tornou-se uma espécie de palavra da moda. Muitas vezes dita, mas raramente com o mesmo
significado. Trata-se na verdade, de um daqueles conceitos tão amplos, que é empregado por
diferentes pessoas para explicar fatos de natureza completamente diversa, sendo que, mesmo
quando qualificada como econômica, ainda assim, pode ser associada a uma grande variedade de
fenômenos” (CARDOSO, 1996).

231
A necessidade de um caminho
Existe uma certa correspondência na escala temporal entre a
veiculação do conceito de capitalismo global e o debate sobre a necessidade
de um terceiro caminho nas articulações políticas nacionais. Dos anos
oitenta em diante, tornou-se uma espécie de lugar-comum no pensamento
político a veiculação da idéia de que o processo de globalização havia criado
uma nova fronteira afetando não apenas a democracia representativa,
o conceito de soberania e a identidade nacional. Esse processo teria
estreitado consideravelmente a margem de manobra macroeconômica,
fazendo com que a diferença entre esquerda e direita se reduzisse à maneira
como se manipulam receitas e despesas para alcançar macro-resultados.
A questão de que tipo de resultados buscar fica posta de lado (Gonzalez e
Hoffmann, 1999), dando margem ao surgimento de diferente concepção
de região, o “regionalismo aberto”, que circula como característica central
do movimento da globalização e de abertura dos mercados nacionais e sua
reunião em blocos regionais.
A terceira via em sua vertente britânica, mais do que uma mera reflexão
sobre o impasse diante das condições emergentes na vida política, ou uma
reação contra a apatia e a incapacidade da esquerda para enfrentar a revisão da
“ortodoxia” da política democrática. A intenção não é apenas de apontar para
a solução dos problemas propostos pelo movimento da globalização, como
também para a fundamentação dessa solução através de sua sustentação num
corpo de conceitos, cujo sentido é mostrar que ela se encontra na própria
dinâmica daquele movimento. Muito embora as noções sociológicas e o
conhecimento da vida social não possam ser aplicados imediatamente em
planos de intervenção social por parte de órgãos governamentais ou de grupos
poderosos, “o impacto prático das teorias sociológicas estão constitutivamente
envolvidos no que a modernidade é” (GIDDENS, 1991, p. 24).
Na perspectiva do autor, a resolução dos dilemas da vida na
atualidade tem seu núcleo estratégico definido pelo processo de ajuda aos
cidadãos para abrir caminho através das “revoluções” do nosso tempo. Ou
seja, a globalização, a transformação na vida pessoal e o relacionamento
com a natureza. Esse processo implica um novo tipo de relacionamento
do indivíduo com a comunidade, através da redefinição de direitos e
obrigações (SAUL, 2003).

232
Transformação e risco
Essa transformação deve levar em conta a questão do risco, conceito
este que em qualquer campo de saber científico ou tecnológico em que
venha a ser utilizado, tem um único e preciso significado: probabilidade
de ocorrência de um evento de interesse, mantendo-se especialmente o
lado ativo do risco, isto é, a oportunidade e a inovação - o lado “não ativo”
representado por segurança e responsabilidade (GIDDENS, 1999, p. 73).
O enfrentamento do risco é inerente à atividade empresarial e à
força de trabalho. Os agentes devem assumir riscos com responsabilidade,
nas esferas dos mercados, governamentais, empresariais e do trabalho. O
Estado deixa de ser referência para conflitos derivados da desigualdade.
A questão da desigualdade se resolve pela eliminação das discrepâncias
criadas pela “meritocracia”. Ela deve ser conduzida através de reformas que
proporcionem oportunidades de formação pessoal e iniciativa individual.
O bem estar positivo deve voltar-se para a formação de capital humano por
meio do qual se encaminharia o desenvolvimento da capacidade cognitiva
e emocional, elementos decisivos da “inclusão” (GIDDENS 1999, p. 113
- 127). Deve se entender que o conflito entre capital e trabalho não existe
mais. O que hoje ocorre é uma disputa em torno e dentro de mercados, e o
decisivo é ser competente e superar os riscos, ou assumir a incompetência e
aceitar o destino que a nova economia reserva para os incompetentes.
O trabalhador deve ter o espírito do empresário, da competição e
da aceitação de desafios. Ambos são “empreendedores sociais”. A empresa
é o modelo tanto de competição quanto de criação de riqueza e nele deve
inspirar-se a sociedade tanto civil quanto política (Estado ou governo). Ela
passa a ser o nervo do “novo interesse público”. O risco é a característica da
modernidade tardia ou da sociedade pós-tradicional, termo que Giddens
(1991) prefere à noção de pós-modernidade, por entendê-la sem precisão.
A matriz do risco, que deriva da análise das questões ecológicas como um
dos dilemas que dominam o debate em torno das novas direções da social-
democracia, serve, assim, de núcleo em torno do qual se estabelecem os
elos de ligação entre a teoria social e o programa político. Os elementos
componentes da matriz do risco, inovação e oportunidade, segurança
e responsabilidade, são os campos representativos dos novos valores da
social-democracia renovada e os articuladores de toda a trama que define
os novos princípios sociais e políticos que devem caracterizar o novo Estado
e a nova sociedade civil.
Na matriz do risco, opera-se a articulação entre o dinamismo da
sociedade pós-tradicional e a subjetividade típica do novo individualismo,

233
essencialmente sensível às questões morais da nossa época. Trata-se de um
“individualismo institucionalizado” (expressão de Ulrich Beck assumida por
Giddens), no sentido de que não se refere mais à manifestação de interesses
pessoais como no antigo individualismo, sinal de decadência moral e uma
ameaça constante à solidariedade social, mas de um esforço perene pela
produção dessa solidariedade e de ampliação da democracia (GIDDENS,
1999, p. 46-47). Enquanto na velha social-democracia a questão da
responsabilidade ficava submersa na “provisão coletiva” garantida pelo Estado,
o novo individualismo implica o despertar do sentido de responsabilidade
que anima a busca do equilíbrio entre o indivíduo e a sociedade.
De outro lado, na matriz do risco, fica evidente que o elemento que
serve de ligação entre o lado ativo e o lado não-ativo do risco tem a mesma
origem da matriz, isto é, a questão ecológica, e tem correspondência
também com a estratégica noção de “conservadorismo filosófico”. O
conservadorismo filosófico implica a combinação entre modernização e
conservadorismo e se apresenta como a forma mais adequada para enfrentar
a nova combinação entre risco e responsabilidade. Essa combinação de
modernidade e conservadorismo é só aparentemente contraditória.
Para Giddens, ela é a forma pragmática de enfrentar as mudanças
decorrentes dos avanços da ciência e da tecnologia e das relações sociais
derivadas, que são os elementos fundantes da nova economia mista. Na
verdade, na perspectiva do autor, o social se traduz em práticas com extensão
espacial e duração temporal que são constituídas a partir de relações de
confiança, funcionando esta como base da segurança ontológica (Giddens
1991, p. 95) que liga as subjetividades às instituições ou às estruturas e aos
sistemas. É importante referir que a noção de segurança ontológica parece
ser um dos conceitos centrais de toda a teorização social do autor, marcando
presença desde seus primeiros trabalhos. A noção desempenha papel decisivo,
por exemplo, no desenvolvimento da idéia de dualidade de estrutura e,
conforme Giddens, na conseqüente superação da oposição freqüentemente
reiterada no debate teórico em sociologia entre ação e estrutura.
Defendendo-se de seus críticos, Giddens, em 2000, volta a reiterar
seus argumentos acrescentando, entretanto, alguns aspectos novos quanto
à sua fundamentação. Em primeiro lugar, reitera que o debate entre
esquerda e direita perdeu substância e grande parte da sua significação para
entendimento do que ocorre na sociedade contemporânea. Em segundo
lugar, aponta três áreas que emergem como decisivas na esfera do poder:
governo (ou Estado), economia e “comunidades” da sociedade civil. Em
terceiro, a ordem social, a democracia e a justiça social não admitem o

234
predomínio de uma esfera sobre outra. Segue-se a necessidade de elaboração
de um novo contrato social fundado no princípio antes mencionado da
“inexistência de direitos sem responsabilidade” a ser aplicado a todos, ricos
e pobres, empresas ou indivíduos. Em quarto, refere-se à esfera econômica
e, particularmente, à criação da nova economia mista, ancorada na “nova
economia da informação” ou “economia do conhecimento”. A seguir,
considera como objetivo a consolidação de uma “sociedade diversificada”
baseada em princípios igualitários. Porém, a terceira via não admite o
igualitarismo de renda e sim o igualitarismo de oportunidades. E, por
último, vem a necessidade de levar a sério a globalização. Ela não tem
apenas aspectos negativos. Tem os aspectos positivos e estes devem ser
maximizados pelo programa da terceira via (GIDDENS, 2000a, p. 50-4).
A caracterização do movimento que inspira a renovação política
contida na proposta da terceira via aparece reforçada nesse texto, indicando
com maior detalhe a articulação entre a globalização, as condições
econômicas emergentes, sua determinação sobre mudanças na vida
cotidiana e o surgimento de uma “cidadania reflexiva”. A globalização em
curso é diferente de movimentos análogos anteriores (GIDDENS 2000a, p.
65). De acordo com Giddens, o fenômeno da globalização, em sua natureza,
causas e conseqüências, não se reduz ao mercado global e deve ser entendido,
também em suas características sociais, políticas e culturais (GIDDENS
2000a, p. 68). Não parece haver dúvidas sobre o fato de que o processo
econômico em curso está no centro das transformações da sociedade
contemporânea. A intensidade do processo de globalização é influenciada
diretamente pela revolução na tecnologia da informação, induzindo à
globalização da “economia do conhecimento”, o que, combinando-se com
aspectos mais amplos do processo, gera mudanças na natureza da atividade
econômica (GIDDENS 2000a, p. 69).
Ao definir as prioridades que a nova política deve promover, Giddens
dá ênfase à questão educacional e do incentivo ao capital humano: “A
força chave no desenvolvimento do capital humano deve ser obviamente
a educação. É o principal investimento público para impulsionar tanto a
eficiência econômica quanto a coesão cívica” (GIDDENS, 2000a, p. 73).
Trata-se, na concepção de Giddens, de uma virtude do processo
de globalização que, induzindo uma pressão para baixo, estimularia o
desenvolvimento do espírito comunitário nas esferas locais (devolution).
Neste caso, o termo comunidade é empregado, esclarece Giddens, não no
sentido de recuperação de velhas formas de solidariedade, mas como uma
tendência de renovação social e material de grupos, em bairros, pequenas

235
cidades e outras áreas locais mais amplas. A elevação do nível de auto-
organização indica a condição reflexiva de uma sociedade, e isso revelaria
a inexistência de “fronteiras permanentes” entre governo (ou Estado) e
sociedade civil (GIDDENS, 1999, p. 89-90).
Dentre as ambigüidades e ambivalências de Giddens, a questão da
sociedade civil adquire uma dimensão extremamente significativa. No
ano de 1973, criticando a teoria do Estado capitalista em Marx, Giddens
expressa a sua discordância com a forma em que é sustentada, naquele
autor, a relação entre Estado e sociedade (GIDDENS, 1975, p. 342).
Em 1985, afirma que não se utiliza o conceito por ver nele, a partir das
análises de Marx, uma fonte de equívocos (GIDDENS 2001, p. 93). Em
1994, voltará a insistir na idéia, ao tratar de desenvolver a linha de força
de uma política radical (alternativa à social-democracia clássica). Diz ele,
argumentando a respeito da necessidade de restabelecer a solidariedade
danificada pelas condições vigentes no sistema de mercado sem controles,
processo que envolveria certo conservadorismo filosófico e preservaria
valores associados até então ao pensamento socialista: É importante não
interpretar isso no sentido da idéia de uma revitalização da sociedade civil,
que goza de tanto prestígio entre certos setores da esquerda. O conceito
de uma “sociedade civil” intermediária entre indivíduo e o Estado é [...]
suspeito quando se aplica às condições sociais atuais. Hoje devemos falar
mais propriamente de re-ordenamento das condições da vida individual e
coletiva, o que indubitavelmente produzirá novas formas de desintegração
social, porém também oferecerá novas bases para gerar solidariedades
(GIDDENS, 2000b, p. 81).
Existem formas de barganha diversas, dentre as quais, a que atua no
campo do gerenciamento dos riscos, a relacionada com os acordos em torno
de temas econômicos, como salários e contratos, e a barganha que funciona
no terreno do debate sobre questões ecológicas (GIDDENS 1996, p. 374). O
conceito de política regenerativa é uma forma de exercício de reflexividade
social que se opera no espaço que vincula o Estado à mobilização reflexiva da
sociedade em seu conjunto: “A política regenerativa é uma política que tenta
criar as condições de possibilidade para que indivíduos e grupos sejam capazes
de fazer coisas - ao invés de esperar que lhes façam as coisas - no contexto das
preocupações e objetivos sociais globais” (GIDDENS, 2000b, p. 85-86).
Resumindo as transformações que se operaram na vida econômica
nos últimos tempos, Giddens observa que, na velha economia, a
manufatura dominava o campo de articulações entre manufatura, finanças
e conhecimento.

236
A nova economia
Na nova economia, a economia global, o setor de finanças adquiriu
maior autonomia, submetendo os setores produtores. O conhecimento
tornou-se menos subserviente à manufatura, na medida em que se fez
questão-chave da produtividade. Os mercados financeiros cresceram de
forma diversa guiados pela crescente complexidade do conhecimento
que envolve seu funcionamento. Em tais condições, o controle do capital
manufatureiro e a regulação dos mercados financeiros permaneceriam
sendo as tarefas mais importantes dos governos de centro-esquerda. Mas,
na medida em que uma outra dimensão da economia tornou-se mais
importante, o governo necessita construir uma “base de conhecimento” que
liberte o potencial da economia fundada na informação (GIDDENS 2000a,
p. 72-73). Essa base é constituída fundamentalmente por trabalhadores
polivalentes, cujo saber “é a propriedade mais valiosa que as empresas
dispõem”, e a inovação e a busca de “nichos de mercado”, tendo em vista que
o ciclo dos produtos é muito mais rápido hoje do que nos tempos da velha
economia (GIDDENS, 2000a, p. 69-70). É no contexto de “devolution”,
isto é, no processo de indução da autonomia local pelo movimento de
globalização (Giddens, 2000a, p. 62-153) que conceitos como life politics e
life-style bargaining, compreendendo estilos de atuação política, vivenciados
nas comunidades, dão sentido mais adequado à concepção giddensiana
de sociedade civil como uma das três faces do poder na sociedade
contemporânea, ao lado do mercado e do governo (Estado) (GIDDENS
2000a, p. 51). É ainda dentro da perspectiva, desta “pressão para baixo”,
que a questão da inovação se revela em potência plena como parte central
da economia baseada no conhecimento, como produto de redes e projetos
realizados em processos de colaboração (GIDDENS 2000a, p. 79).
Neste contexto, o risco é a condição do jogo político e o sucesso
depende da capacidade emocional e reativa dos indivíduos e dos grupos.
A confiança é o suporte deste arranjo de riscos e oportunidades, cuja
regra é “não há direitos sem responsabilidades”, e o investimento social
privilegiado na política da terceira via deve ser orientado para a promoção
do capital humano em substituição do sustento econômico típico do bem
estar negativo, que estimulava a ignorância e a ociosidade.

Movimentos sociais e processo de globalização


Torna-se então inegável a inadequação - também para a análise dos
movimentos sociais - de se continuar a pensar no estado nacional como

237
claramente delimitado em suas fronteiras políticas, sociais e culturais,
definindo assim o limite das práticas que emergem em seu interior, ao
abrigo de “contaminações” de fora. O processo de globalização introduziu
forças de integração/deslocamento no âmago das práticas institucionais e
identitárias. Desta maneira, cada sociedade se transforma numa articulação
de contextos regionais, culturais, econômicos, políticos, discursivos, etc.
(APPADURAI, 1990; BURITY 1994 p. 45-48). Os álibis apresentados pela
teoria da modernização (liberal ou marxista) para justificar a seqüencialidade
e discrição dos “estágios” - a saber, a flagrante situação de pobreza e exclusão
social e a fragmentação da soberania nacional e das identidades coletivas -,
são articulados da imprevisibilidade dos pontos de conflito e das formas de
negociação ao surgimento de novas questões e eixos de agregação de forças,
e à intensa pressão colocada pelos novos agentes sociais sobre governos
locais ou nacionais. Em todos os casos, a possibilidade de que as questões,
repertórios de ação, alcance da intervenção dos atores se projete para além (e
aquém) das fronteiras do estado/nação realça o vínculo entre a experiência
recente dos movimentos sociais o processo de globalização (BURITY, 1994).
Globalização e desenvolvimento desigual são, portanto, duas faces
de um mesmo processo. Por um lado, como observa Giddens (1990
p.175), é um processo que “fragmenta ao coordenar”, introduzindo assim
“novas formas de interdependência, nas quais, uma vez mais, não existem
‘outros’. Estas criam novas formas de risco e perigo ao mesmo tempo em
que promovem amplas possibilidades de segurança global”.

A globalização no Brasil: existe um dualismo no espaço


brasileiro?
A modernização da economia e da sociedade brasileira foi e continua
sendo um processo bastante concentrado. Existe em primeiro lugar uma
concentração social, com alguns – minoria rica – se beneficiando bastante, isto
é, possuindo elevada renda e alto poder de consumo, ao passo que outros – a
imensa maioria – ainda vivem em precárias condições de vida. E há também
a concentração espacial ou territorial dessa modernização, com algumas áreas
bastante industrializadas e outras áreas ou regiões praticamente até hoje com
uma economia agrícola atrasada, com métodos rudimentares.
Por isso se diz comumente que no Brasil há uma Bélgica e uma
Índia: existem, no mesmo território nacional, poucas áreas ou setores
sociais comparáveis aos do Primeiro Mundo e amplas regiões e camadas
populacionais em condições semelhantes ao “quarto mundo”, aos países

238
mais pobres da África ou do sul da Ásia. Seriam o “Brasil moderno” e o
“Brasil arcaico” ou atrasado.
Alguns autores denominam esses contrastes de dualismo ou
dualidade. Eles argumentam que o “Brasil moderno” seria o motor do
progresso, sendo o “Brasil arcaico” um empecilho para o desenvolvimento.
Nesses termos, o grande problema para o Brasil seria resolver esse dualismo,
modernizando as áreas arcaicas ou atrasadas. Já outros autores criticam
essa visão, argumentando que essas são duas faces de uma mesma moeda,
ou seja, que um desses brasis não existiria sem o outro. Eles afirmam que
o atraso de certas áreas (ou a pobreza de certos setores sociais) seria uma
condição necessária para o tipo específico de crescimento econômico que o
Brasil adotou nas últimas décadas, o chamado “capitalismo selvagem”.

Considerações finais
Para Giddens, o processo de globalização é visto como um novo
modelo de integração social orientado por laços que se estendem muito
além das fronteiras tradicionais das comunidades e das nações, levando
em si um novo sentido de organização social e política que desafia as
atuais gerações a repensarem as raízes da experiência democrática. Esse é
o sentido do programa da terceira via e também o sentido da teoria social
de Giddens. Num plano mais geral, observa-se que a teoria e seu programa
político delineiam-se no interior da tendência que parece dominar a
cena na atualidade, a percepção de um novo ambiente sociológico, onde
a indução pelo mercado domina como centro ético político, a partir do
qual se processa uma ampla redefinição das relações sociais, políticas e
econômicas, tanto no plano local quanto no plano global.
Segundo Giddens, os perigos ambientais que ameaçam os
ecossistemas da Terra são hoje muito mais presentes e disseminados na
sociedade global. Esses exemplos ilustram o que ele denomina de “dialética
do local e do global” (p.27). Nessa dialética, tanto a cultura quanto a
economia e as dimensões sociais têm papel preponderante.

Referências
APPADURAI, Arjun. Disjuncture and difference in the global cultural economy,
In: FEATHERSTONE, Mike (ed.). Global Culture: Nationalism, Globalization
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239
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241
O estudo geográfico das festas como manifestações
culturais

1
SIDOR, Simone de Fátima

Resumo: Este artigo explora o processo de constituição e consolidação


atual da Geografia Cultural, dentro da história de evolução do pensamento
geográfico. Uma história marcada por rupturas e transformações que
nos colocam hoje diante de uma Geografia Cultural renovada, que
incorpora várias dimensões das manifestações da cultura no espaço,
como territorialidade e paisagem, para citar alguns exemplos. Dentro da
Geografia Cultural, procuramos apresentar o debate sobre festas populares,
que é nosso objeto de estudo (a Festa da Padroeira de Guarapuava, Nossa
Senhora de Belém). Apresentamos o significado da festa, o sentido social
e espacial dessa manifestação da cultura religiosa e popular. As festas são
possibilidades de entendermos as demais dimensões da sociedade local,
suas transformações ao longo do espaço-tempo e suas conexões com
outros lugares. As transformações por que passou a festa, são, assim, vistas
como em sintonia com mudanças no espaço urbano e na sociedade local
e podem ajudar à compreensão desses processos. Apresentamos também
a metodologia da observação participante, que muito nos embasou nos
trabalhos de campo que realizamos entre janeiro e fevereiro de 2008,
período de preparação, realização e avaliação da festa, na Igreja Matriz
da cidade. Nossas análises apresentam algumas dessas observações a
partir das quais construímos pontes com a teoria e interpretações sobre
o “lugar festivo” da festa da padroeira. Ainda no campo das metodologias
de pesquisa, salientamos a importância da produção de entrevistas com
os sujeitos com os quais construímos relações durante a observação.
As entrevistas são uma técnica de conversação dirigida a partir de um
roteiro, em que procuramos mais detalhes e esclarecimentos daquilo que
observamos. Essas entrevistas devem ser transcritas em detalhe, só assim
temos o documento oral, que será então, objeto de análise. Por fim, cabe
apresentar algumas observações e conclusões preliminares do estudo que
ainda está em andamento. Assim, podemos adiantar que a Festa de Nossa
Senhora de Belém tem características bastante únicas, vistas como formas
de expressão da religiosidade local e transmissoras de sentimentos dentro de
1
Aluna do curso de Geografia – Unicentro – Guarapuava-PR.
uma sociedade que procura conservar tradições. A festa sofreu influências
das transformações do lugar, pois precisou se adaptar ao longo do tempo,
renovando-se e mantendo-se; porém nunca deixou de simbolizar um rito
universal de expressão ideológica.
Palavras-chave: cultura popular; transformação espacial; festa popular.

Introdução
Este trabalho tem a intenção de discutir o referencial teórico que estou
empregando no estudo da Festa de Nossa Senhora do Belém, em Guarapuava,
meu objeto de estudo na iniciação científica voluntária e no TCC.
A Festa de Nossa Senhora de Belém está sendo abordada, na pesquisa,
numa perspectiva espaço-temporal, enfocando seu significado diante da
sociedade, destacando suas dimensões política, econômica e social, bem
como suas relações com o espaço e a territorialidade, por serem essas
dimensões bastante incorporadas dentro da geografia cultural preocupada
com as festas populares. A pesquisa em si objetiva observar: quais foram as
transformações por que passou a festa? Qual a função da festa hoje para a
sociedade guarapuavana? Como as transformações no espaço urbano e na
sociedade local foram absorvidas pela festa, que também se transformou?
Como o estudo de campo, apesar de finalizado, ainda está em fase
de sistematização, não tenho condições nesse momento, de apresentar os
dados e as discussões que eles ensejam. Apresento somente, nesse texto,
uma discussão sobre a história da Geografia Cultural; uma discussão
sobre o estudo geográfico das festas populares; as metodologias que me
embasaram na pesquisa de campo (observação participante e entrevistas);
e, por fim, alguns rápidos apontamentos sobre a festa de Nossa Senhora do
Belém, apenas para evidenciar que há muitas questões a serem abordadas
pela geografia no seu estudo e para argumentar que, pelo estudo dessa festa
em particular, podemos conhecer muito das transformações socioespaciais
pelas quais passou esse lugar que é Guarapuava, ao longo do tempo.

Observação participante
Escolher uma metodologia para a pesquisa de campo é dos fatores
decisivos quanto ao seu sucesso. Entendo que, para isto, é necessário, além
de saber o que estudar, também saber quais meios serão utilizados para
a produção do material empírico a ser observado. Algumas importantes

244
sugestões foram dadas por Cicourel (1980, p. 118), no que se refere ao início
do trabalho de campo;

O pesquisador de campo deve formular o que busca realizar, testar


hipóteses, delimitar território; qualquer conhecimento da situação
deve ser conseguido. Incluir a literatura pertinente, entrando
em contato com as fontes que possam ter informações sobre o
problema a ser estudado, buscando informações sobre o meio no
qual a pesquisa de campo deverá efetuar-se; na medida em que o
problema a ser explorado permita, deve-se deixar claro os tipos de
informações que seriam necessários para cumprir seus objetivos.

Acredito que a Observação Participante tenha sido a melhor maneira


para me aproximar do grupo e poder conhecer, analisar e entender parte do
universo das pessoas que trabalham na organização de festa religiosa de Nossa
Senhora do Belém – sejam as pessoas que recebem seus salários no final do
mês, sejam as pessoas que trabalham somente guiadas pela fé, pela vontade de
ajudar em um evento que quase toda a comunidade de Guarapuava participa.
Para todas elas, o seu trabalho é devotado ao serviço da Mãe de Deus.
A observação participante permite um contato bastante íntimo com
as pessoas diretamente ligadas aos processos que buscamos investigar.
Contudo, coloca o risco da pesquisadora lidar com informações com as
quais está emocionalmente envolvida. A amizade pode ocorrer durante o
campo, porém não se pode deixar influenciar por ela, sob a possibilidade
de conduzir a pesquisa apenas de um único ponto de vista, sem contrapor
as informações recolhidas.
Cicourel (1980) nos apresenta quatro diferentes tipos de papéis,
formulados por Gold, que poderão ser assumidos durante o campo:
participante total, observador total, participante-como-observador e
observador-como-participante.
O participante total observa e interage de maneira natural, podendo
participar até certo nível da vida das pessoas do seu estudo.
O Observador-como-participante é utilizado em forma de entrevistas
formais, normalmente única, com um contato superficial entre o observador
e o observado.
O Observador total é feito de maneira que o informante não toma
conhecimento que está sendo observado, ele não tem contato direto com o
observado. Essa posição é eticamente rejeitada pela maioria dos estudiosos
e estudiosas.

245
A observação participante nos permite interagir no grupo estudado,
tendo contato direto com o objeto de estudo, porém, Cicourel (1980, p.
93) nos alerta para o perigo de “virar nativo”, tornar-se cego para muitas
questões cientificamente importantes. Outra recomendação importante
para este autor é quanto ao dia-a-dia da pesquisa.

O participante que estuda a mudança enquanto observador


precisa, portanto manter, uma perspectiva fora e independente
da mudança. Não envolver-se ajuda a evitar a alteração de
estruturas de memória e permite ao observador ver mudanças
cumulativas. (1980, p.95)

Ao entrar em contato com o grupo, é imprescindível que se tenha em


mente que terá contato com pessoas bem diferentes do universo que se está
acostumado a viver, pessoas de vários níveis sociais, de diferentes posições
políticas etc. A metodologia permite que se conviva com o grupo, que se o
conheça em toda a sua plenitude, fazendo parte dele, participando, quando
se pode participar, experimentando, quando se deve experimentar e dando
a sua opinião, se assim for pedido. Esta é a forma de se conhecer todos os
segredos, todos os símbolos e, principalmente, os motivos pelos quais os
sujeitos estão ali em interação, com o objetivo de construir a festa.
A pesquisa bibliográfica é uma das bases iniciais, porém nela não
encontramos nenhuma fórmula de como proceder durante o campo. Existem
apenas relatos de autores que já realizaram suas pesquisas e dão dicas de
como proceder em algumas situações. Porém, quando estudamos ciências
sociais devemos estar preparados para imprevistos e nos comportamos
bem diante de situações inusitadas.
A observação foi o principal método utilizado, porém, durante o
desenvolvimento da pesquisa, percebemos a necessidade de integrar outras
técnicas para a sua complementação, como a realização de entrevistas, método
este que nos fornece subsídios para completar as outras fases da pesquisa.
Segundo Meihy, citado por Turra Neto (2007, p. 41), a entrevista é
como se fosse um documento, compatível com a necessidade da busca de
esclarecimentos. Nela colocamos exatamente quais são as informações que
pretendemos buscar e, em torno dessa necessidade, criamos o roteiro. Mas
esta também não é a última etapa da pesquisa. Depois de realizadas todas as
entrevistas, devemos tomar cuidado para transcrevê-las, exatamente como
elas procederam, todos os risos, os momentos de silêncio, as descontrações
durante toda a entrevista.

246
Penso que cada grupo social a ser estudado difere de outros, pois
cada sociedade tem cultura e suas tradições próprias de cada lugar, ainda
que não devamos perder de vista que essas diferenças são produzidas
também na relação com outros grupos de outros lugares. Neste caso, seguir
à risca esses passos, pode correr o risco de perder informações ou deixar
de observar fatos que poderiam ajudar no andamento da pesquisa.
A pesquisa tem o objetivo de informar sobre algo que ainda não
conhecíamos sob aquele ponto de vista, ela tanto nos ajuda a entender
determinadas situações que já conhecíamos, como pode nos despertar a
atenção para acontecimentos que nos passaram despercebidos ou que não
tínhamos o conhecimento de sua existência e, então, poder estudá-los.

Transformações da Geografia Cultural


A Geografia passou a ser considerada uma ciência organizada
somente no século XIX, primeiramente na Alemanha e depois na França,
com contribuições significativas de Alfred Hettner e Paul Vidal de La Blache.
A partir daí, surgiram muitas definições da Geografia, tanto com relevância
para aspectos naturais como para grupos humanos. A Geografia passou,
então, a ser disciplina acadêmica a partir do século XIX, voltada ao estudo
da relação entre homem (sic) e natureza, mas ainda numa perspectiva
muito naturalista (CHRISTOFOLETTI, 1980).
Segundo Christofoletti (1980), com o passar do tempo e a ampliação
dos estudos, os aspectos naturais foram sendo estudados pela Geografia
Física e os grupos humanos pela Geografia Humana. Mais tarde, a
Geografia sofreu outras divisões para estudar campos como a Geografia
Urbana e a Geografia Regional. Manley (1966), citado por Christofoletti,
propõe uma “nova geografia”, com tendências renovadas após a Segunda
Guerra Mundial. Trata-se da Geografia conhecida como Teorética ou
Quantitativista, pela larga aplicação de modelos matemáticas para estudo de
padrões espaciais de distribuição de fenômenos. Os fundamentos, contudo,
continuaram positivistas.
Após um grande período de expansão, essa Geografia entrou em
crise. Há uma busca por maior criatividade, liberdade e novas propostas
para reflexão e, a partir de 1970, os geógrafos voltaram-se para novas
discussões. Esse movimento de renovação levou os geógrafos e geógrafas
para propósitos bastante diversificados e já não tinham a mesma unidade
da geografia Tradicional.

247
Os progressos da Geografia Cultural só passaram a ser sentidos após
1980, quando autores como Jackson buscaram uma aproximação, através
da Antropologia, entre a Geografia Cultural e a Geografia Social. Outros
autores buscaram várias aproximações e relações com as idéias já presentes
na escola de Berkeley dos anos de 1920, revitalizando e renovando a tradição
dos estudos das paisagens culturais (JACKSON e COSGROVE, 2000).
Nessa linha, o novo conceito de paisagem, conforme Jackson e
Cosgrove (2000, p 18), pode ser entendido da seguinte forma:

[...] um modo especial de compor, estruturar e dar significado


a um mundo externo, cuja história tem que ser entendida em
relação à apropriação material da terra. Assim, as qualidades
simbólicas da paisagem, que produzem e sustentam seu
significado social, tornam-se objeto de pesquisa, ampliando as
fontes disponíveis para a geografia cultural.

Desta forma, a paisagem pode ser estudada através de diversos


meios, entendendo a interação do homem (sic), do tempo e do espaço.
Também a discussão de paisagem pode ser desenvolvida na Geografia a
partir da interlocução com outros campos de estudos que, talvez, possam
estar desenvolvendo interpretações mais acuradas sobre a paisagem.

[...] interpretações da paisagem e do lugar são encontradas


fora da literatura geográfica, como, por exemplo, na leitura da
paisagem urbana em cerimoniais e em rituais cívicos em Veneza,
de Edward Muir (1981), que faz uma analogia com o teatro e não
com o texto; ou na interpretação de Montpellier do século XV III
pelo olhar do cronista burguês da época, em trabalho de Robert
Darnton (1984) (JACKSON e COSGROVE, 2000, p. 21).

Apesar de todos os esforços realizados para difundir a Geografia


Cultural, ela ainda nos parece ser um campo pouco conhecido, principalmente,
no Brasil. Existem alguns trabalhos publicados em congressos, porém ainda
em número inferior ao de outros ramos da Geografia. Turra Neto (2007)
entende que a partir de 2000, a Geografia Cultural passou a ganhar mais
espaço em Encontros Nacionais de Geografia, onde foram criados “espaços
de diálogos” voltados especificamente para ela. Houve, então, uma maior
difusão entre as universidades do país, abordando vários temas dentro das
manifestações culturais no espaço, como território, territorialidade, sentido
de lugar, percepção ambiental, memória, paisagem cultural etc.

248
No século XX, presenciou-se uma “virada cultural” que, para Hall
(1997), citado por Turra Neto (2007), foi uma verdadeira “revolução cultural”.
Para Turra Neto (2007), a cultura não é mais considerada apenas
uma variável dependente de outras forças sociais, mas ela passa a ser
considerada “condição constitutiva da vida social”. Entendendo que toda a
prática social tem também um sentido cultural, o próprio conceito do que
é cultural ampliou-se e os estudos se multiplicaram numa infinidade de
temáticas, desde os considerados espaços sagrados da religião, aos espaços
profanos da prostituição de rua, desde o estudo das populações ribeirinhas
aos grupos punk da cidade.
A Geografia Cultural mostra como podemos entender e definir a
cultura, analisando um determinado grupo, observando suas diferenças
e relações com outros grupos, como se dá o processo de inserção social.
Vermos a juventude produzindo seu jeito de ser jovem e sua identificação
ou não com o contexto cultural em que se produziu, contribui com o
entendimento de que há uma espacialidade inerente a essas práticas
culturais, que cabe à Geografia interpretar.
Para entendermos a cultura não podemos analisar somente as formas
espaciais, mas sim os sujeitos que dão vida a este espaço, que o produzem e
o reproduzem constantemente nas suas práticas cotidianas. Gomes (2001,
p 95) destaca a oportunidade de aprofundarmos esta discussão.

Neste sentido, a nova orientação da geografia cultural nos conduz


a um novo olhar sobre a dimensão espacial de certos fenômenos.
Isso corresponde a dizer que, hoje, a geografia dispõe de condições
para construir um novo conceito e um domínio epistemológico
inovador em torno destas idéias de espaço e cultura.

Podemos abordar uma pluralidade de estudos para entendemos as


manifestações culturais das sociedades modernas em relação àquelas do
passado, mas, para tanto, é necessário que tenhamos em mente que desde
sempre, o jogo de escalas está presente na constituição da sociedade. Assim,
temos que entender que as relações que o grupo social estabelece com o
espaço urbano, que tem como produto e condição para sua ação, estão em
diálogo com processos que acontecem em outros lugares, todos articulados
em um contexto de relações econômicas, políticas e culturais.

249
As festas como manifestações culturais
As festas populares se apresentam como um amplo campo de estudos
de diversas ciências, como a Sociologia, a Antropologia, História e, em bases
ainda iniciais, a Geografia, com alguns poucos autores que se dedicam a
essa temática. Na Geografia, os estudos têm se pautado pela consideração
dos aspectos ligados à temporalidade e espacialidade desses rituais, no
reconhecimento dos agentes formadores desses eventos, suas relações e as
vinculações da festa com processos de natureza econômica, política, cultural
mais amplos, da sociedade local em suas articulações com o mundo.
Para Amaral (1998), citado por Maia (1999):

[...] A festa é uma das vias privilegiadas no estabelecimento de


mediações de humanidade. Ela busca recuperar a imanência
entre criador e criaturas, natureza e cultura, tempo e eternidade,
de vida e morte, ser e não ser [...] A festa é ainda mediadora
entre os anseios individuais e coletivos, mito e história, fantasia e
realidade, passado e presente, presente e futuro, nós e os outros,
por isso mesmo revelando e exaltando as contradições impostas à
vida humana pela dicotomia natureza e cultura, mediando ainda
os encontros culturais absorvendo, digerindo e transformando
em pontes os opostos como inconciliáveis. (p.52).

Segundo Maia (1999), são vários os agentes relacionados à produção


da festa. Destacamos as características de cada um deles:
- Os participantes: são os principais elementos, se aglomeram
por ocasião da festa mantendo uma relação bastante próxima. Para
Maia (1999), eles são a festa.

- O poder Público: que é normalmente o responsável pela


produção do espaço físico, utilizando suas facilidades para a
divulgação da festa;

- Líderes: estes têm várias características, podem ser os


coordenadores, organizadores e os religiosos, no caso de festas
religiosas;

- A Mídia: tem uma participação bastante evidente, normalmente


depende dela o sucesso de público da festa, que mostra todos os

250
atrativos e chama a todos para participarem. Pode ser um jornal,
a TV, rádio, panfletagem, carros de som e outros meios. Tem a
característica de tornar a festa um espetáculo atraente aos olhos do
público;

- Os Patrocinadores: são as pessoas que contribuem com bens


para a festa, seja em forma de dinheiro, de doações de alimentos ou
de prendas para leilões. Podem também ter uma característica de
participante.
O espaço das festas populares possui uma composição bastante
complexa. Nele subsistem relações econômicas, político-ideológicas,
simbólicas e afetivas, extremamente ricas, apesar do caráter efêmero do
evento (MAIA, 1999).
Para Pimentel (1997, p. 132), “A festa, enquanto depositária da
”tradição do lugar”, é compreendida como um sistema único e sem
periodizações a que a memória social recorre para escandir o contato e o
vivido em várias temporalidades”.
A festa liberta as pessoas da vida cotidiana, dos afazeres domésticos;
há troca de valores, reafirmação de tradições e de fé, portanto, a festa tem a
função de repor costumes e tradições.
Como afirma Mary Del Priore (1994, p. 33), a festa tem sido
celebrada como um tempo de utopias. É neste tempo que podemos viver
como liberdade todas as fantasias. Para ela, “a festa se faz no interior de um
território lúdico onde se exprimem igualmente as frustrações, revanches e
reivindicações de vários grupos que compõem uma sociedade”.
É no tempo da festa que toda a rotina é substituída pela perspectiva,
a ansiedade para a chegada de um grande momento. Nesta fase festiva são
reafirmados muitos laços de solidariedade, muitas rivalidades são deixadas
para trás, outros podem ser reafirmadas, pois a durante a festa os atores estão
sujeito a exageros. Para Da Matta, citado por Maia (1999), são ”momentos
extraordinários marcados pela alegria e por valores que são considerados
altamente positivos”.
Segundo Ferreira (1996, p. 12):

A festa pode ser entendida como um conflito de hegemonia


do discurso festivo, realizado através de qualificações
e desqualificações, de lembranças e esquecimentos, de
enfrentamentos, enfim, que determinam e são determinados pelo
espaço festivo.[...] O espaço da festa será necessariamente, um

251
espaço eclético, polissêmico, aberto, articulador dos diferentes
atores que dela participam.

Para Del Priore, a festa pode ter um sentido social político, religioso ou
simbólico, e em muitos casos ela pode ter todos esses sentido juntos. A festa
pode ser vista como uma possibilitadora de aproximações, visto que os grupos
que dela participam facilmente se identificam dentro do espaço festivo.

A festa de Nossa Senhora de Belém


Enquanto buscava informação para a reconstrução histórica da Festa
de Nossa Senhora de Belém, percebi ser bastante frágil a documentação
existente. Por isso, a maior parte das informações citadas aqui são de
fontes orais, resultado da memória dos sujeitos que a elaboraram ao longo
do tempo. Imagino, portanto, neste sentido que não existe uma “verdade
histórica”, e não é aqui meu objetivo chegar até ela.
De acordo com a historiadora Julia de Santa Maria Pereira, em
entrevista ao jornal Diário de Guarapuava (02 a 03/02/2008), a chegada
da nossa padroeira teve início na carta régia de D. João VI, que havia
mandado uma expedição para Guarapuava por volta de 1810, autorizando
a criação de uma igreja com o nome de Nossa Senhora de Belém. A
construção da igreja se iniciou em 1843 e levou quaenta anos para ser
concluída. A administração foi do padre Antonio Braga de Araújo, que
contou com o apoio dos paroquianos na ajuda financeira. O primeiro
registro da festa que se sabe data de 1899, no jornal O Guayra, de 21 de
janeiro de 1899, jornal nº 28.
Segundo informações obtidas em campo, a festa, em seu início, não
tinha este mesmo formato que tem hoje. Ocorreram muitas transformações
na sociedade que obrigaram a festa a se adequar para continuar viva. Hoje,
a sociedade de Guarapuava participa em peso de todas as festividades,
que se iniciam no dia 24 de janeiro, com a primeira novena, até o final, no
dia 02 de fevereiro, com a missa e procissão. Para cada dia de novena, foi
escolhido um tema dentro do documento de Aparecida como está sendo
chamado a V Conferência Geral do Episcopado Americano e do Caribe,
que se realizou em Aparecida do Norte - SP, entre os dias 13 e 31 do mês de
maio de 2007. Cada leitura continha uma riqueza de reflexões para serem
levadas aos fiéis. O grande dia da festa é o mais esperado por todos, pois
todos os fiéis que participam da novena podem fazer seus agradecimentos
e pedidos durante a grande procissão.

252
Assim, podemos pensar no jogo de escalas que envolve essa festa em
particular, que articula as orientações da Igreja Católica Romana com a fé
local, em procissão, missa e fé.
A Festa de Nossa Senhora de Belém teve uma participação de
políticos, porém não deixou de ter seu sentido religioso reafirmado diante
de seus fiéis. Houve a participação de renomes do estado e da cidade, tanto
na missa solene com no almoço festivo. Contou também com o apoio da
prefeitura da cidade na divulgação e em assuntos econômicos. A prefeitura
se encarregou da organização do Show do Pe. Reginaldo Manzotti, realizado
na Praça da Fé (praça onde se realizam vários eventos ecumênicos), que
encerrou as festividades do dia da padroeira. Essa parceria é uma novidade
na história da festa, que com o Show do Padre acabou ganhando também
uma dimensão espetacular que antes não tinha. A questão que lançamos
diante desse fato é se a tendência da festa é para a espetacularização, como
forma mesmo de manter-se.
No presente momento, ainda estou analisando os depoimentos
recolhidos e as observações feitas no trabalho de campo. Ao todo foram
entrevistadas doze pessoas, entre padre, senhoras, jovens, que nos darão
uma diversidade de visões sobre o mesmo evento e sobre o seu envolvimento
ao longo do tempo com ele, bem como de sua transformação.
Por isso não posso ainda ter informações precisas, nem muitas
conclusões, pois seriam precipitadas, mas já se pode perceber que este ano
a festa passou novamente por algumas metamorfoses, que foram percebidas
apenas por algumas pessoas, outras, porém, só serão percebidas daqui há
alguns anos.

Últimas palavras
A Geografia Cultural traz para o debate novas temáticas para o campo
mais amplo da Geografia Humana. Incorporar a dimensão cultural à suas
análises pode contribuir para ampliar sua compreensão sobre a produção
do espaço para além das dimensões econômica e política. Ao se preocupar
com o estudo das festas populares de natureza religiosa, essa geografia
volta-se, inevitavelmente, para uma reflexão sobre a tradição e o tradicional
em suas conexões com o moderno, a modernização e a urbanidade.
Os estudos empíricos mostram que as tradições não são simplesmente
deslocadas pela modernidade, como dizem muitos teóricos da aculturação. São
elas que, na verdade incorporam elementos modernos como forma mesmo
de continuarem se reproduzindo. Por outro lado, a tradição e o tradicional

253
sempre se refazem em novos contextos e em diálogo com eles. Tal é o caso da
Festa Nossa Senhora de Belém. Seu estudo pode nos levar a pensar nas formas
próprias como esses amalgamas se deram e se dão em Guarapuava.
Compreendemos a festa como um ponto de encontro, onde novas
relações são constituídas e antigas reafirmadas. Essas ligações ultrapassam
a barreira do tempo e do espaço e se estendem em diferentes escalas como
conexões sociais. A festa não é tida como um passatempo do povo, mas sim
como um conjunto de valores partilhados e explicados através da fé.
A festa de Nossa Senhora de Belém poderia ser uma festa como todas as
outras, porém ela é especial porque engloba características muito únicas. Nela
podemos ver a expressão da diversidade cultural guarapuavana coexistindo
no mesmo espaço. Todos unidos no mesmo ritual festivo, com significados
culturais, sociais e políticos específicos. Ela pode ser observada entre dois pólos:
um que engloba a novena e a missa solene, com a benção das velas como seu
ponto crucial; e o outro como as festividades onde a sociedade reanima seus
laços entre conversas e divertimentos, na pura interação do festar.
Podemos observar que festa possa ter passado por um “empobrecimento”
se olharmos pelos aspectos estéticos e participativos, No seu início vinham
muitos festeiros das regiões rurais, tornando a festa quase um espetáculo.
Hoje, ao contrário, se vê que apenas a sociedade urbana participa, com exceção
de alguns fazendeiros. Por outro lado, podemos observar que ela ganhou um
formato mais familiar, pois, logo após os jantares, todos se retiram mostrando
realmente que o ponto alto da festa é a religiosidade.
Certamente meu trabalho não dará conta de lidar com toda essa
complexidade. O desafio que me coloquei foi de participar da festa e,
pela participação, perceber sua particularidade. Talvez caro leitor, você
também queira encarar esse desafio: participe ao menos uma vez e perceba
que esta não é uma festa comum e que ainda há muitos questionamentos
a serem desvendados.

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SENA, Ana Lígia. Festa de nossa padroeira Nossa Senhora de Belém. Diário
de Guarapuava. Guarapuava, 2 e 3 de fevereiro, 2008. Ano X. Edição 2282.
p. 11-14.
TURRA NETO, Nécio. Geografia cultural, juventudes e ensino de
geografia: articulações possíveis. Texto Digitado, 2007. p 1- 19.

255
Resumos
Museu de Ciências Naturais de Guarapuava: um
espaço de informação, cultura e lazer

1
VERONEZZI, Fernando

Museus são considerados bens culturais da humanidade, onde se pode


perceber a relação entre o antigo e o atual. Em um museu de ciência natural,
o visitante deve analisar seu papel diante do ambiente e posicionar-se como
ser integrante do mesmo. O Museu de Ciências Naturais de Guarapuava é
uma instituição pública, que foi criada através da parceria entre a Prefeitura
Municipal de Guarapuava e a Universidade Estadual do Centro-Oeste.
Situado em uma área de preservação ambiental, com cerca de 3.800
araucárias preservadas, já recebeu desde sua criação, em 1997, mais de
370 mil visitantes. Recebe semanalmente a visita de estudantes do ensino
fundamental, médio e superior, além dos visitantes espontâneos e turistas
estrangeiros. Através da visita monitorada, os estagiários compartilham o
conhecimento adquirido na Universidade e o repassam para os estudantes
e comunidade em geral. O museu apresenta o maior acervo de história
natural da região Centro-Sul do Paraná, contando com duas coleções
permanentes: a do professor João José Bigarella e a do autodidata Hipólito
Schneider. Essas coleções distribuem-se da seguinte forma no espaço físico
do museu: na sala da Geologia é apresentado aos visitantes amostras de
rochas e minerais de várias partes do Brasil e do mundo. Fósseis de peixes,
trilobita, Mesosaurus brasilienses, madeira petrificada e artefatos indígenas
são encontrados na sala da Paleontologia. Exemplares de sambaquis, corais,
conchas, algas calcáreas, crustáceos, cascos de tartarugas e ossos de baleia
são os representantes da sala marinha. Animais taxidermizados de vários
biomas brasileiros são expostos à visitação na sala do Diorama. Na sala
da Entomologia, encontra-se em exposição aproximadamente 220 gavetas
entomológicas com mais de 4.000 insetos. Um dos principais objetivos
do museu é permitir que o visitante se conscientize da importância que
os recursos naturais têm em seu dia-a-dia, como também o seu papel na
preservação do ambiente, para que as futuras gerações possam conhecer a
diversidade encontrada atualmente na natureza.
Palavras-chaves: museus; história natural; Guarapuava.

1
Graduando em Geografia da UNICENTRO – Guarapuava-PR.

259
Monitoramento hidrogeomorfológico do Faxinal
Anta Gorda - Prudentópolis-PR
1
KOLISKI, Carlos Alberto
2
THOMAZ, Edivaldo Lopes (Orientador)

A pesquisa, em desenvolvimento, visa caracterizar algumas variáveis


hidrogeomorfológicas (erosão de solos, atravessamento, infiltração de
água no solo) que influenciam no sistema de Faxinal, no município de
Prudentópolis - Pr. O sistema de faxinal é uma forma consuetudinária
entre a produção animal (criadouro comum) e extrativismo vegetal, que
se baseia na extração da erva-mate, na prática da agricultura tradicional,
chamada de sistema de roça, e na extração da madeira. Os rebanhos são
criados soltos (sem cercado entre os limites das propriedades). Nota-se
uma grande diversidade de pesquisas sobre o sistema de faxinal que, em sua
maioria enfocam os aspectos culturais e sócio-econômicos. Nos faxinais de
Prudentópolis, não existe e/ou não se tem conhecimento de pesquisas sobre
as questões hidrogeomorfológicas. Neste sentido, vê-se a necessidade de uma
investigação sobre essas variáveis hidrológicas e geomorfológicas dentro do
sistema de faxinal. A área que está sendo estudada, situa-se distante da sede
15 km ao norte do município, na localidade de Linha Paraná Anta Gorda.
O local de estudo é uma voçoroca, que se formou pelo constante pisoteio
de animais que buscam um leito de água na jusante dessa voçoroca. A
pesquisa está se desenvolvendo por meio de monitoramento de campo. Em
campo, já foram coletadas amostras para análises granulométricas do solo;
está sendo feita batimetria, através de uma rede de pinos (vergalhões de
ferro) que foram fixados nas bordas do caminho, que servirá de parâmetro
para quantificar os percentuais de solo erodido relacionado aos eventos
pluviométricos; monitoramento das raízes das árvores nas áreas próximas
aos corpos de água para quantificar o seu grau de exposição; coleta de dados
da quantidade de água precipitada na área, entre outros trabalhos. Através
desse monitoramento será possível avaliar a pluviosidade, a interceptação
da vegetação, a produção de serrapilheira, além da erosão causada pela
compactação do solo através do constante pisoteio dos animais. Assim, após
o término da pesquisa, poderá se entender algumas variáveis hidrológicas
e geomorfológicas dentro de um sistema de Faxinal, contribuindo para o
1
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Professor do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

260
avanço de uma lacuna pouco estudada, contribuindo significativamente
para a Geografia.
Palavras-chaves: faxinal; extrativismo; criadouro comum; monitoramento
hidrogeomorfológico.

Metodologia da observação participante


1
KUHN, Claudete
2
OCTAVIANO, Elisangela Maria
3
TURRA NETO, Nécio (Orientador)

Em pesquisa etnográfica, que se refere ao estudo de grupos sócio-culturais,


pautada na observação, interpretação e descrição densa, a metodologia de
observação participante é bastante empregada. Em Geografia Cultural,
preocupada com o estudo dos sujeitos sociais nas suas relações socioespaciais,
a observação participante pode se constituir na construção de uma abordagem
geográfica de grupos culturais. Esta metodologia pode ser definida como um
processo em que a observadora se insere no grupo social a ser observado e,
a partir dessa inserção, realiza investigações científicas. Durante o convívio
com o grupo, a pesquisadora vive esse contexto social, modificando e
sendo modificada na relação, ao mesmo tempo em que colhe dados. Toda
pesquisadora que se utiliza da observação participante possui como principal
instrumento um diário de campo. É nele que são feitas todas as anotações, os
dados brutos, as emoções, onde são descritos os lugares, pessoas e eventos. O
diário necessita ser privado, de forma que só a pesquisadora possa lê-lo e relê-
lo. Ele é a fonte que será objeto de análise para a redação final da pesquisa. A
transformação das observações em dados começa no decorrer das atividades
de campo, sendo um processo contínuo que influencia nas observações
posteriores. É importante que o relatório de observação seja redigido logo
após as atividades em campo. Outro fator importante é o domínio das
diferentes linguagens, palavras, gestos e expressões que o grupo observado se
utiliza, para que a pesquisadora registre com certeza os elementos levantados,
bem como interaja com ele. Por isso, parte da observação é utilizada na

1
Graduanda em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Graduanda em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
3
Professor do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

261
familiarização com o universo simbólico e lingüístico do grupo estudado.
Vale ressaltar, que a observação participante possui limitações práticas. É
necessário que as pesquisadoras tenham tempo disponível para o trabalho
com o grupo estudado, permitindo entender o meio social em que vivem.
Sendo utilizada em grande escala, torna-se ineficiente, comprometendo
seu desempenho. É a partir dessa metodologia que cada uma de nós está
construindo sua pesquisa empírica com grupos juvenis, em escolas de
Guarapuava. Também é importante frisar que a observação participante não
é a única metodologia empregada. Trabalhamos também com questionários,
entrevistas e grupos focais. Contudo, é ela que inicia nossas pesquisas e que
informa a construção das outras metodologias.
Palavras-chaves: observação participante; metodologia; geografia cultural.

Considerações entre bioturbação e gênese de erosão


em túneis em média e baixa encosta, Guarapuava-PR
1
BAZZOTTI, Diego Maikon
2
SILVA, Wellington Barbosa da
3
PIETROBELLI, Gisele (Orientadora)

O presente trabalho visa estabelecer a relação entre atividade biológica


(bioturbação) de animais escavadores (macro fauna) com o surgimento
de canais subsuperficiais (túneis ou pipes) em encosta coberta por mata
secundária em Guarapuava, estado do Paraná. Esse tipo de erosão ocorre
principalmente pela ação da água, pelos contrastes texturais que reduzem
a permeabilidade a certa profundidade do solo, pela presença de uma zona
do solo potencialmente dispersiva ou pela litologia de determinadas áreas
e por vezes pela ação de raízes ou da atividade de animais escavadores.
Com o objetivo de se entender o papel da vegetação, a presença de micro,
meso e macro fauna e o papel da água no sistema hidrológico da encosta,
foram feitas algumas considerações dos dutos através de fotografias.
Trata-se de fotografias digitais tiradas com Câmera Cânon A530. Essas

1
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
3
Professora do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

262
fotografias foram tiradas onde as estruturas de abatimento permitiam
acesso, já que suas aberturas possuem um pequeno diâmetro assim como
os túneis. Devido a estes fatos, não foi possível usar escalas padronizadas,
mas pequenos animais e insetos que se refugiam dentro dos dutos dão
indicativos do tamanho das feições. Sobre as estruturas de abatimento
que estão na parte mais alta da encosta, podemos notar que estão sempre
junto a raízes das árvores, onde o solo é notadamente menos denso e mais
úmido, podendo até mesmo exfiltrar água se perfurado. Essa diferenciação
de densidade pode acumular nas raízes das árvores vermes, formigas, grilos
e outros animais que servem de alimento para animais maiores, como por
exemplo, tatus. Esses animais, quando estão à procura de alimento, escavam
pequenos buracos descontínuos, podendo originar então os dutos. Os
animais escavadores ainda não puderam ser determinados, mas é sabido
que estão presentes tanto na parte externa do sistema de túneis, quanto
na parte interna, uma vez que foram encontrados sedimentos revolvidos
no pé das árvores e dentro dos túneis, todos contra o fluxo superficial de
água. A presença de animais escavadores de médio porte explica em parte a
falta de simetria entre as estruturas de abatimento com as marcas do fluxo
superficial, o pequeno diâmetro das estruturas e a existência de túneis em
solos rasos em média e baixa encosta.
Palavras-chaves: bioturbação; túneis; estrutura de abatimento.

Meio ambiente e recursos hídricos

1
FRANDOLOZO, Marcos Augusto

Esse trabalho surgiu pelo envolvimento com o projeto de extensão “Universidade


Sem Fronteira”, lançado pelo edital 02-2007 da SETI (Secretaria de Estado da
Ciência, tecnologia e Ensino Superior), que visa ao desenvolvimento social da
região Centro-Sul do estão do Paraná. Esse trabalho será executado na escola
Domingos Sávio, no Bairro Vila Carli, no município de Guarapuava-PR. Por
se tratar de um bairro com áreas sujeitas a alagamento (Bacia Hidrográfica do
rio Cascavel), enfocaremos a questão ambiental e a preservação dos recursos
hídricos, a partir de práticas envolvendo a comunidade escolar e do bairro. Sabe-
se que a água é um recurso importante no planeta, mas apenas uma pequena
1
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

263
porcentagem é água potável, e devido ao mau uso e o grande número de casos
de poluição, por meio da indústria e pela população em geral, essa água torna-
se cada vez mais escassa e poluída, tornando-se imprópria para o consumo
humano. A poluição hídrica, além de restringir a utilização, gera uma série de
doenças pelo contato e pelo consumo dessa água pela população residente em
áreas próximas a rios e córregos. No trabalho de sensibilização, iniciaremos
com a discussão do conceito de meio ambiente e como que o homem se insere
nesse contexto. Faremos, no decorrer do trabalho, uma atividade de campo
com o intuito de contextualizar a teoria com a prática, aproveitando o contato
com a população para realizar entrevistas. Coletaremos algumas amostras
de água, em diferentes partes do rio, para análise bacteriológica. Com tais
atividades, nosso objetivo, portanto, é verificar, pesquisar e propor alternativas
para os problemas referentes aos recursos hídricos, junto com a comunidade
escolar e comunidade geral, esclarecendo de forma adequada a dinâmica que
compõe o ciclo hidrológico, a relação homem-meio e como estabelecer uma
convivência equilibrada com o rio, a partir de práticas pensadas e orientadas
para a preservação e conservação dos recursos hídricos.
Palavras-chaves: meio ambiente; recursos hídricos; sociedade; alagamento;
poluição.

Geografia, história, medicina: a


multidisciplinaridade nos escritos de Eurico Branco
Ribeiro
1
NASCIMENTO, Diego da Luz e
2
GONÇALVES, Camila Mota
3
TECCHIO, Caroline
4
GANDRA, Edgar Ávila (Orientador)

Este trabalho versa sobre a produção da obra “Esboço da História do Oeste


do Paraná” de Eurico Branco Ribeiro. O texto foi escrito em 1940 para uma
revista do Conselho Nacional de Geografia, mais especificamente para o
Diretório Regional de Geografia do Estado do Paraná. O autor traz elementos
1
Graduando em História – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Graduando em História – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
3
Graduando em História – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
4
Professor do Departamento de História – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

264
da geografia e da história do Paraná, tratando especialmente das explorações
do território e do povoamento do oeste paranaense. Lembramos que o autor
era sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Paranaense e
sócio correspondente honorário do Conselho Nacional de Geografia, não
sendo um membro efetivo neste último caso. Para a realização deste trabalho,
primeiramente foi feito o mapeamento de todas as obras do autor que se
encontram disponíveis na Biblioteca Municipal Padre Ruiz de Montoya,
na cidade de Guarapuava-PR. Assim, percebemos os diversos estilos que
permeiam a obra do autor, sendo que estes variam desde escritas religiosas até
estudos científicos na área da medicina, abordando ainda temas pertinentes à
geografia e à história. Nos estudos religiosos, Ribeiro pesquisa intensamente
a vida de São Lucas, visto que este é considerado o protetor dos médicos,
profissão exercida pelo autor. Nos estudos científicos dedicasse a várias
questões, sendo recorrente em seus escritos, a questão das águas medicinais.
Já nos estudos de cunho geográfico e histórico, procuramos perceber nos
escritos do autor, partindo de nossas leituras teóricas, suas concepções de
geografia e de história, tendo claro que o pesquisador sempre se volta para
suas fontes com problemáticas estabelecidas a partir de seu tempo e de sua
realidade. Foi possível perceber em nossa pesquisa que Ribeiro foi um grande
intelectual e que seus estudos permitem uma análise interdisciplinar; no caso,
enfocaremos a interdisciplinaridade em relação à história e à geografia. Esses
campos do conhecimento permitiram uma melhor articulação na construção
do saber em relação a obra de Ribeiro.
Palavras-chaves: multidisciplinaridade; geografia; história.

O poder local a partir do estudo de grupos político-


econômicos em Guarapuava-PR
1
ANGREWSKI, Eliton
2
SILVA, Márcia da (Orientadora)

Considerando que a região de Guarapuava possui algumas especificidades


tradicionais nas relações políticas, apesar dos mistos de modernidade, é que a
temática de pesquisa, na área de Geografia Política, tem por finalidade, através

1
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Professora do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

265
dos diálogos dos outros campos do saber científico, analisar as configurações
do poder e seus reflexos no cotidiano dos municípios brasileiros, neste caso
no de Guarapuava. Assim, o objetivo é o de estudar as relações de poder
político por meio do aprofundamento da abordagem dos conflitos e das
alianças político-econômicas locais-regionais, tendo como recorte temporal as
eleições de 2004 e 2006 e como enfoque a eleição municipal de 2002, com a
identificação e a análise da participação de atores sociais que se expressam na
produção, reprodução e organização do território, como resultado do interesse
dos mesmos. A metodologia da pesquisa teve como fundamento coleta dados
junto à justiça eleitoral, entrevista com algumas ‘lideranças’ de grupos político-
econômicos e pesquisa em jornais locais. Como primeira etapa de estudos
foram realizadas leituras para a construção do referencial teórico. Os conceitos
de poder, poder local e poder político local puderam ser compreendidos em
sua vinculação com as relações políticas. No poder local é possível a observação
de um complexo relacionamento entre poder político e uma rede de poderes
difusos que posicionam-se diferentemente perante o poder político e, de acordo
com os atributos que lhes são próprios, podem disputar com ele a capacidade de
decisão. Landislau Dowbor (1994) afirma que somos condicionados a acreditar
que as formas de organização de nosso cotidiano pertencem naturalmente a
uma misteriosa esfera superior, o Estado. Para conquistarmos melhorias na
qualidade de vida, cidadania e democracias efetivas é necessário resgatar a força
da comunidade, o chamado “poder local”. Um mecanismo de ordenamento
político e econômico que já deu prova de eficiência, em particular nos países
desenvolvidos como os europeus.
Palavras-chaves: poder; Guarapuava; político; econômico; conceito.

A inserção da pequena produção agropecuária no


espaço regional: a mesorregião centro-sul paranaene
1
OLIVEIRA, Leisiane de
2
FAJARDO, Sergio (Orientador)

Analisando o contexto socioeconômico do pequeno produtor, observa-


se que os mesmos são caracterizados por uma utilização de mão-de-obra

1
Graduanda em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Professor do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

266
predominantemente familiar, dispondo tão ou mais de tecnologias quantos
os grandes produtores. Porém, a sua necessidade de produzir sem interferir
na decisão de como, quando e onde investir seu capital, diferencia-o do
produtor patronal. A principal dificuldade do pequeno produtor em
produzir está na carência em torno de questões como conhecimento, terra
e capital. Muitos deles não obtêm a renda estimada para sua sobrevivência
no campo, fazendo com que busquem alternativas para a complementação
de sua renda, e muitas vezes estas acabam por ultrapassar os limites de
sua propriedade. Tem-se observado também um menor índice de êxodo
rural, que parcelas destes são de mulheres que partem em busca condições
melhores de trabalho, o que explica uma tendência no índice de participação
das mulheres nas atividades relacionadas ao campo. A complementação da
renda agropecuária familiar pode ser notada em sistemas de pluriatividades,
nas quais se destacam a produção de aves e suínos, que acabam por inserir
o pequeno produtor nas cadeias agroindustriais, ressaltando a relação
do campo com o processo de industrialização e urbanização. Além da
pluriatividade outra atividade significativa pode ser identificada resolução
da complementação de renda, é o fenômeno denominado “colono-
operário”, no qual o trabalhador do campo acaba sendo mão-de-obra
barata, não qualificada e de fácil exploração por parte da empresas urbanas.
Fica evidenciado nas relações acima citadas, que cada vez mais se torna
complexa a inserção da produção agropecuária no espaço urbano, e que o
produtor vê-se acuado nas exigências desse mercado consumidor que se
tornou mais competitivo.
Palavras-chaves: pequeno produtor; agricultura familiar; complementação
de renda.

A problemática da água como representação social

1
FAGUNDES, Beatriz

Este texto tem como objetivo apresentar o trabalho desenvolvido no


Programa de Pós-Graduação em Geografia, da UFPR, entre 2006 a 2007.
Como temática central, procuramos entender a difusão e incorporação da

1
Professora de Geografia do Colégio Carneiro Martins – Guarapuava-PR.

267
problemática da água no saber cotidiano. Partimos da idéia de que a água,
além de pertencer ao ecossistema natural, também pertence a universos
culturais. Atualmente, tem se difundido uma imaginação sobre a água ligada
à escassez e poluição, ou seja, a água tornou-se um problema. Verificamos
que na sociedade moderna são basicamente três dimensões que participam
na formação do senso comum sobre a problemática da água: o conhecimento
científico, com seu raciocínio complexo e abstrato; a divulgação midiática,
que transforma este conhecimento em imagens e reportagens; e a vivência
cotidiana, com suas experiências e tradições (inclusive religiosas). Para
analisar esta construção do saber, nos apoiamos na Teoria das Representações
Sociais criada por Moscovici em 1961. Teoria incorporada pela Geografia
Cultural quando esta, a partir de 1960, começou a abordar temas envolvendo
a subjetividade e a representação do espaço em seus estudos. A pesquisa
contou com metodologias qualitativas como: observações, entrevistas,
mapas mentais, desenhos e textos, com crianças, adolescentes e adultos do
Bairro Alto da XV (Guarapuava-PR), além de entrevistas com professores/as
de escolas do bairro e análise de livros didáticos de geografia que abordam a
temática. A pesquisa mostrou que a escola é um importante ator formador
e difusor do pensamento científico sobre a problemática da água, porém os/
as alunos/as, e até mesmo os/as professores/as são fortemente influenciados
pela mídia, que informa também os livros didáticos. Verificamos que as
ações construídas e incorporadas ao cotidiano, informadas por essas
representações sociais, principalmente, relacionadas à economia doméstica
de água, estão muito influenciadas, não pela realidade do nosso “mundo
vivido” mas, por realidades de mundos geograficamente distantes, trazidas
ao nosso cotidiano pela mídia. A pesquisa também revelou que muitas
vezes as representações são ambíguas e contraditórias (água natural versus
água no sentido cultural, água em outros ambientes versus água encanada),
mostrando que a educação ambiental necessita, diante desta problemática,
inter-relacionar, de forma direta, os conhecimentos científicos e midiáticos
com a situação local e problematizar saberes e práticas tidas hoje como
naturais no cotidiano.
Palavras-chaves: água; representação social; problemática da água.

268
Políticas públicas e planejamento: condições básicas
para o desenvolvimento sócioespacial em novos
municípios: o caso de Goioxim-PR
1
ZORZANELLO, Liamar Bonatti
2
FERREIRA, Sandra Cristina (Orientadora)

O presente trabalho tem por objetivo entender as condições de sobrevivência


dos municípios desmembrados na década de 1990 no Estado paranaense, em
especial, o caso de Goioxim. Este foi emancipado sem prévio planejamento
por parte dos poderes públicos (Município, Estado e Nação), ficando assim,
à mercê de múltiplos problemas sócioespaciais. Goioxim é um município
do centro-oeste do Paraná, desmembrado da cidade de Cantagalo em 1995.
Atualmente, após treze anos de sua emancipação política, procura se firmar
perante o cenário estadual como um município em desenvolvimento, que
acredita na eficiência de sua base agrária, apesar das constantes crises
agrícolas que afetam o país, buscando seu reconhecimento e viabilizando
recursos para tal. Atualmente conta com uma população censitária total
de 7.993 habitantes, sendo que destes 5.159 habitantes vivem em situação
de pobreza (IPARDES 2000). Em 2005 a renda Per Capita girava em torno
de R$ 5.413,00/ano por habitante, e o índice de desenvolvimento humano
(IDH) liderava as piores colocações apresentado-se com o número de
0.680% (IBGE, 2000). Goioxim conta com um pequeno núcleo urbano, o
qual reflete sua base agrícola e ainda conserva hábitos típicos de cidades
com predominância de atividades ligadas ao campo. Neste, identifica-se
uma carência de serviços básicos que caracterizam a existência de uma
cidade, tais como: transporte coletivo, saneamento básico, iluminação
pública, praças públicas, serviços de telefonia móvel, entre outros. Deste
modo, visualiza-se a falta de planejamento que impera no município, como
em outros tantos da região, e fica a indagação sobre quais as vantagens em
se emancipar um determinado local, sendo que este não tem condições de
se auto-gerir e não consegue oferecer a sua população condições dignas
para sua sobrevivência. Para tanto, além do referencial teórico e pesquisas
empíricas, serão realizadas pesquisas de dados e informações junto a

1
Graduanda em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Professora do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

269
Prefeitura Municipal, IBGE, IPARDES e outras fontes que contribuam para
o desenvolver da pesquisa.
Palavras-chaves: políticas públicas; desmembramento de municípios;
planejamento; desenvolvimento.

O novo modelo agricola nos municipios de São Carlos


do Ivai e São Jorge do Ivai e seus impactos ambientais
1
BONIFÁCIO, Cássia Maria
2
SERRA, Elpídio (Orientador)

O objetivo do trabalho é resgatar os processos de ocupação humana,


repartição e uso econômico da terra agrícola na fase de ocupação pioneira,
assim como as conseqüências ambientais geradas pelo processo de
modernização da agricultura no vale do Rio Ivaí, nos municípios de São
Carlos do Ivaí e São Jorge do Ivaí, a partir dos anos 1970. Colonizados em
1960, no auge do avanço das lavouras cafeeiras no Noroeste do Paraná, os
municípios tiveram sua estrutura fundiária baseada nas pequenas e médias
propriedades, tendo os trabalhadores rurais morado em suas propriedades
agrícolas. Esgotada essa fase de ocupação pioneira com a crise do café no
início dos anos 1970, o modelo de colonização sofre alterações, surgindo
a grande propriedade agrícola; e no lugar das lavouras de café, as lavouras
mecanizadas de soja, milho, trigo e cana. As transformações levaram à
expulsão do homem do campo e ao conseqüente esvaziamento populacional
dos municípios, bem como geraram danos ambientais, com conseqüências
para o solo, os rios e o próprio clima. Os desmatamentos efetuados para
viabilizar o avanço das novas culturas quase eliminaram as últimas reservas
de matas nativas.O trabalho visa além de estudar a ocupação inicial e as
transformações recentes: avaliar os impactos ambientais produzidos pelo
novo modelo agrícola e propor alternativas de manejo do solo, que ajudem
a preservar o principal meio de produção e amenizar os impactos que vem
sofrendo desde que as novas técnicas foram introduzidas em função do
capitalismo no campo. Quanto a metodologia, primeiramente será feita a
revisão bibliográfica. No que se refere ao espaço estudado, os títulos estarão
1
Graduanda em Geografia junto a UEM.
2
Professor do Departamento de Geografia da UEM.

270
relacionados ao processo de ocupação, uso do solo e impactos ambientais
produzidos pelo excessivo uso do solo agrícola. O segundo passo consistirá
nos dados de campo. Nesta fase a primeira etapa evolverá coleta de dados
de fontes secundárias, caso dos recenseamentos do IBGE, dos cadastros
do INCRA. De posse dos dados bibliográficos e de campo, se partirá
para a terceira etapa do trabalho, esta compreendendo análise dos dados
coletados. O relatório final será base de discussões acadêmicas no âmbito
da geografia agrária.
Palavras-chaves: ocupação humana; impactos ambientais; noroeste do
Paraná.

Áreas verdes e políticas públicas em Guarapuava-PR


1
VAZ, Cesar Antonio De Abreu
2
GOMES, Marquiana de Freitas V. B. (Orientadora)

São consideradas áreas verdes os espaços que envolvem a vegetação


arbórea, sobretudo, as praças, jardins públicos e parques urbanos. Estes
espaços são de uso coletivo, mas nem sempre são públicos. As áreas verdes
possuem vários papéis na qualidade ambiental urbana, principalmente, por
envolver conforto térmico e espaço de lazer para a população. A questão
das áreas verdes urbanas tem sido objeto de pesquisas em várias áreas
do conhecimento, e, de modo geral, a temática envolve o urbanismo e
planejamento urbano. Guzzo et al., (1994, p.) define áreas verdes onde: “Há
o predomínio de vegetação arbórea, englobando as praças, os jardins
públicos e os parques urbanos. Os canteiros centrais de avenidas e os
trevos e rotatórias de vias públicas, que exercem apenas funções estéticas
e ecológicas, devem, também, conceituar-se como área verde. Entretanto,
as árvores que acompanham o leito das vias públicas, não devem ser
consideradas como tal, pois as calçadas são impermeabilizadas”. O autor
ainda afirma que as áreas verdes exercem diversas funções: - Importante
fator social: resgatando indivíduos da marginalidade e principalmente
não permitindo a entrada de novos membros, no sentido de que estão
proporcionando áreas de lazer à população. - Fator ambiental: Como
1
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Professora do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

271
regulador de temperatura, impedindo a formação de “ilhas de calor”,
promovendo melhorias no clima, na qualidade do ar, água, solo etc. - Fator
psicológico. O ambiente urbano tem suas especificidades; cuidar dele é
uma forma de manter as melhores condições de vida das pessoas, pois é
neste ambiente que as pessoas desenvolvem as suas atividades diariamente,
seja em casa, no trabalho ou em outros lugares da cidade. Assim, falar
de ambiente é falar de um ambiente construído, no qual, as áreas verdes
existentes são apropriadas pelo homem urbano de diversas maneiras e
com várias intenções. Estas áreas têm uma função na cidade, uma razão
de ser. Neste sentido é que, com esta pesquisa, espera-se aqui distinguir as
diferentes formas de como estes locais são apropriados e com isso entender
como devem ser aplicadas para cada uma delas, levando sempre em conta
que cada local tem sua especificidade, e assim sendo devem de ser tratadas
de modo diferente pelas gestões governamentais.
Palavras-chaves: áreas verdes; políticas públicas; Guarapuava.

Concentração bancária no Brasil: um reflexo da


privatização dos bancos públicos
1
LUZ, Ivoir da
2
VIDEIRA, Sandra Lúcia (Orientadora)

Este resumo tem por objetivo apresentar uma breve discussão


sobre aprivatização dos bancos públicos estaduais no Brasil.
Os primeiros bancos estatais começaram a ser privatizados durante o
governo de Fernando Henrique Cardoso-FHC. As políticas adotadas
durante esse governo tinham como objetivo reduzir a presença
do Estado no setor financeiro, através do processo de privatização
das empresas estaduais, principalmente dos bancos públicos.
As privatizações dos bancos públicos no Brasil ocorreram tanto por
influências externas como internas. Como influência externa podemos
destacar a política neoliberal, cujo propósito é reduzir a presença do
estado no mercado. Quanto às influências internas, que culminaram
na privatização, apontamos a desestruturação dos bancos devido à má
1
Pós-Graduando em nível de Especialização em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Professora do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

272
administração pública dessas instituições ao longo do seu desenvolvimento.
Além desses problemas, os bancos públicos enfrentavam pressões
internas dos próprios bancos nacionais que, na tentativa de não deixar
bancos estrangeiros crescerem no Brasil, influenciaram as privatizações.
A privatização dos bancos públicos ainda é questionável pelo fato de esses
bancos terem sido construídos com dinheiro público do contribuinte, uma
vez que o sistema privado desprezava certos segmentos. A importância
dos bancos públicos também foi fundamental no desenvolvimento do
território, pois enquanto as instituições privadas se concentravam nas
regiões mais rentáveis do ponto de vista do capital; as estaduais eram
implantadas em diferentes lugares desempenhando assim, importante papel
na integração das regiões através de uma extensa rede de agências, atuando
em diferentes áreas onde o sistema financeiro privado não tinha interesse.
Diante disso, a atual configuração do Sistema Financeiro Nacional, em que
pequeno grupo de bancos privados nacionais e internacionais controlam
grande parte do mercado financeiro, é resultado das inúmeras mudanças de
ordens políticas, econômicas e tecnológicas que se dão em escala mundial e
que corroboram para o acúmulo de capital dos grandes grupos econômicos.
Palavras-chaves: bancos públicos; fusões; privatizações.

Depressões no terreno associadas à estruturas


de abatimento em encosta afetada por erosão em
túneis em Guarapuava-PR
1
HOLOCHESKI, Cleverson
2
PEREIRA, Simão Gonçalves
3
SILVA, Wellington Barbosa da
4
PIETROBELLI, Gisele (Orientadora)

A presente pesquisa visa caracterizar em encosta afetada por erosão em


túneis, feições associadas a movimentos de massa que resultam em depressões
aproximadamente arredondadas que ocorrem junto às árvores locais. Elas
1
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
3
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
4
Professora do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

273
ocorrem dispersas na superfície da encosta. Trata-se de movimentos muito
lentos, gerados provavelmente pelo adensamento ou afundamento de camadas
de solo, resultantes da remoção de alguma fase sólida, líquida ou gasosa do
solo. A área de estudo localiza-se em encosta junto ao rio das Pombas,
município de Guarapuava (PR), morfologicamente é caracterizada por perfil
retilíneo-convexo e apresenta relevo dissecado a moderadamente dissecado.
Esse rebaixamento do solo é conhecido como subsidência, e é gerado pelo
carreamento de partículas de solo em subsuperfície e posterior desabamento
de parte do teto do túnel. A subsidência pode ocorrer em relevos cársticos
ou onde há prospecção de águas subterrâneas, devido à troca de porosidade
água – ar. O trabalho tem como objetivo a identificação e o cadastramento das
formas e feições relacionadas à subsidência do terreno em encosta afetada por
erosão em túneis, bem como reconhecimento dos processos que as originam as
feições. Na encosta estudada, essas estruturas aparecem relacionadas à erosão
em túneis. A metodologia utilizada consiste no levantamento dos componentes
dimensionais – largura, altura e profundidade – da feição erosiva. São efetuadas
observações diretas relativas ao funcionamento da subsidência com registros
sistemáticos dos mecanismos erosivos dominantes no processo de formação de
túneis da área, através de marcas de erosão superficial e feições associadas, bem
como das características gerais do ambiente, como tipo de cobertura vegetal
e marcas de animais escavadores. Os resultados preliminares indicam que a
subsidência do solo predomina sobre o abatimento do teto do túnel em área e
número. Essas formas erosivas resultam da dinamicidade do processo erosivo
e este, por sua vez, resulta da conjugação de mecanismos erosivos atuantes e
que predominam no sistema encosta. A montante do sistema de túneis nas
depressões converge o fluxo superficial concentrado, este assume maior volume
e velocidade da média para a baixa encosta passando a escoar em subsuperfície
ao encontrar estruturas de abatimento, levando para dentro do sistema de túneis
grande quantidade de água com matéria orgânica (serrapilheira) e fazendo com
que as feições erosivas em túneis evoluam com a ação mecânica da água.
Palavras-chaves: túneis; subsidência; estruturas de abatimento.

274
O capital e o Estado enquanto categorias clássicas
na análise da produção do espaço urbano
1
FERREIRA, Sandra Cristina

Dentre as principais categorias empregadas na análise e compreensão da


produção do espaço urbano, estão o Capital e o Estado. O capital, em sua
estratégia de reprodução, materializa-se no espaço, o Estado; enquanto
mecanismo de regulação, interfere por meio das mediações que realiza
implicando diretamente na produção e apropriação do espaço por meio de
sistemas de planejamento, legislação urbana, entre outros. Apresentamos
aqui, algumas considerações sobre a atuação desses agentes transformadores
do espaço urbano e o emprego destes enquanto categorias de análise em
pesquisas científicas em Geografia urbana. A dinâmica socioeconômica
contemporânea exige, em muitos casos, o emprego de outras categorias
e conceitos no desenvolvimento de pesquisas nessa área, assim como
novas categorias podem surgir. Entretanto, o atual período político-
econômico enfatiza o discurso de neutralidade e-ou ausência do Estado
e predominância do capital privado. Contudo, deve-se atentar para as
falácias que tal discurso representa, quando tomado como definitivo, pois
o Estado não exime-se em totalidade, mas também assume formas flexíveis
para atuação em conformidade com o capital privado. Apresentamos
algumas referências de pesquisadores que valorizaram-valorizam a
articulação Capital-Estado em pesquisas sobre o espaço urbano:”[...] as
formas contraditórias do desenvolvimento urbano refletem e acentuam
a política do Estado” LOJKINE(1979, p.15); “[...] o solo e suas melhorias
são freqüentemente valorizadas de acordo com seu melhor e mais alto
uso.” HARVEY(1977, p.195); as relações entre o Estado e o espaço “[...]
reproduz e multiplica as mesmas contradições das relações capitalistas
de produção.” GOTTDIENER(1993, p.1993); [...] a atuação do Estado
se faz fundamentalmente em última análise, visando criar condições de
realização e reprodução da sociedade capitalista.CORRÊA (1989, p.26);[...]
o ambiente construído é o produto racional do processo de acumulação
capitalista”. HARVEY (1992, p.72); [...] a produção do solo urbano no
modo de produção capitalista se apóia na especulação que por sua vez é
alimentada pelo Estado. ALENCASTRO(1986, p.17); [...] Acumulação

1
Professora do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

275
de capital, a produção de mais valia, é a força que impulsiona a sociedade
capitalista. GOTTDIENER(1993:93).
Palavras-chaves: espaço urbano; capital; Estado.

Territorialização no campo: o caso do assentamento


08 de abril–PR
1
DENEZ, Cleiton Costa
2
OLIVEIRA, Éderson Dias de
3
BERNARDINO, Virgílio Manuel Pereira (Orientador)

O Brasil possui uma grande concentração de terras, fruto de uma longa


história de benefícios em favor de uma classe dominante. Esta estrutura
se mantém até hoje, por conta dos grandes latifundiários que fazem uso
do poder político-econômico e possuem domínio sobre a atual estrutura
agrária do país, mesmo com toda uma pressão dos trabalhadores rurais e
de movimentos agrários por uma distribuição mais igualitária da terra. O
presente trabalho tem o propósito de analisar a organização do campo através
da apropriação do espaço e a construção do território juntamente com seus
variantes, como territorialização, desterritorialização e reterritorialização.
Estes processos resultam da luta entre classes e se alteram em função das
desigualdades sociais. Pretende-se tal abordagem através do Assentamento
Oito de Abril localizado no município de Jardim Alegre, região Centro Norte
do Paraná. Será analisada a estrutura agrária e a modernização do campo
para compreensão da organização do espaço territorializado e o processo de
colonização da região onde se moldou a configuração do espaço rural local
e sua organização. O Assentamento Oito de Abril é tomado como exemplo
de reconfiguração do espaço rural, criando um novo território onde se insere
novos elementos no espaço caracterizado historicamente pelo latifúndio.
Propomo-nos a contribuir para a reflexão buscando conhecer melhor a luta
pela terra e a necessidade da reforma agrária; não se pretendendo esgotar o
assunto e tampouco colocar nossas posições como únicas e verdadeiras.
Palavras-chaves: território; colonização; assentamento.
1
Graduando em Geografia pela FAFIJAN – Jandaia do Sul-PR.
2
Graduando em Geografia pela FAFIJAN – Jandaia do Sul-PR.
3
Professor da FAFIJAN – Jandaia do Sul-PR.

276
Identificação da flora e fauna do litoral paranaense:
o caso da Ilha do Mel-PR
1
PUSSINI, Nilmar
2
FREDER, Amarildo
3
FERREIRA, Juliano
4
FERREIRA, Sandra Cristina (Orientadora)

O resumo que aqui segue é resultado da sintetização do artigo com o


nome supracitado, produzido junto a disciplina de tópicos Especiais
II, ministrada pela prof. Sandra Cristina Ferreira para a turma do
3º ano de Geografia Licenciatura, na Ilha do Mel, no ano de 2007. Tal
trabalho consistiu em observações direcionadas para os aspectos e as
particularidades da fauna e da flora do litoral paranaense, em especial
da área visitada (Ilha do Mel). Além das análises empíricas realizadas
no trabalho de campo já mencionado, foi feito um vasto levantamento
bibliográfico sobre o tema proposto, bem como sobre as características
físicas gerais do Estado do Paraná. A ausência de bibliografia sobre
tal temática aliado às necessidades próprias de produções nortearam
a confecção deste trabalho, tendo em vista a riqueza e a importância
do conhecimento da flora e da fauna do litoral paranaense. O litoral
paranaense e, particularmente a Ilha do Mel, tem uma rica e exuberante
diversidade biológica, tanto no que toca a fauna como também a flora. Na
ilha existem cerca de 650 espécies de vegetais, divididas entre vegetação de
praia, vegetação de mangue e vegetação de restinga. Com relação à fauna,
pode-se encontrar na Ilha vinte espécies de répteis, 153 de pássaros, além
das 24 espécies de mamíferos, sete de peixes residentes em água doce e
dezenove ordens de insetos. Dentre todas estas espécies citadas, existem
várias com estágio avançado de degradação, e muito desses animais já
estão enquadrados na lista de animais em extinção, isto devido às ações
antrópicas que quase que sempre interferem de maneira negativa em
relação aos animais, bem como ao ecossistema da ilha como um todo.
As paisagens vegetais naturais da ilha também se encontram em situação
crítica. Em relação a sua preservação e conservação, a identificação das

1
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
3
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
4
Professora do Departamento de Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

277
mesmas se faz necessárias para que assim, com melhor conhecimento
sobre suas características possa se garantir a sobrevivência desse meio
natural tão importante, não só para nosso Estado, mas para o meio
ambiente em geral.
Palavras-chaves: fauna e flora do litoral paranaense; Ilha do Mel;
caracterização litorânea do Paraná.

Identificação dos minerais coletados na escarpa da


esperança - Guarapuava-PR
1
SILVA, Felipe Alexandre da
2
ZANCANARO, Grasiela
3
PASSOS, Jaquelime Rodrigues dos
4
BUENO, Karoline
5
LEAL, Tatiane

As rochas vulcânicas do Cretáceo Inferior que cobrem a seqüência sedimentar


da Bacia do Paraná apresentam espessura máxima de mais de 1000 m com
dezenas de derrames sobrepostos, cuja composição varia de basaltos, na
porção inferior, a riolitos no SE da Bacia. Nas rochas vulcânicas da Formação
Serra Geral, ocorrem minerais primários representados principalmente por
fenocristais e microfenocristais de plagioclásio (labradorita, andesina), augita
e olivina-Mg e minerais secundários que incluem minerais hidrotermais,
produtos do intemperismo e qualquer outro mineral encontrado nestas
rochas. É consenso de que as paragêneses de minerais secundários
encontrados nas províncias de basaltos são bastante diversificadas e registram
importantes alterações de um derrame para outro e também dentro de um
mesmo derrame a pequenas distâncias. O presente trabalho se concentrou
na identificação de minerais secundários em topo de derrame na Escarpa
da Esperança, município de Guarapuava (PR). A área de estudo localiza-
se a 1.1260 m de altitude, a uma latitude de 25º 36`27`` S e longitude 51º
12`34`` W. A metodologia se concentrou em levantamento bibliográfico,
1
Graduando em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
2
Graduanda em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
3
Graduanda em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
4
Graduanda em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.
5
Graduanda em Geografia – UNICENTRO – Guarapuava-PR.

278
reconhecimento das propriedades físicas dos minerais utilizando-se de testes
de ácido clorídrico, observação em lupa, risco com ponteira, cor do traço
em cerâmica, dureza utilizando vidro, imã para identificação da presença ou
não de magnetismo. Os minerais coletados na Escarpa da Esperança foram
encontrados em rochas provenientes do topo de derrame de trapp, algumas
foram encontradas em rochas sãs e outras em rochas com algum grau de
alteração (intemperismo) com aproximadamente 1% de capacidade de
absorção de água. Foram encontrados os seguintes minerais: calcita6, fluorita,
chabazita e saponita, pertencentes ao grande grupo dos Carbonatos; das
Zeólitas e dos Filosilicatos. Esses minerais ocorrem em zona muito fraturada
na rocha e em vesículas com dimensões de até 3 cm.
Palavras-chaves: minerais secundários; rochas vulcânicas; Escarpa da
Esperança.

279
(Footnotes)
1 BSCH (Banco Santander Central Hispano) corresponde ao
grupo controlador do Santander no Brasil.

2 No Brasil, o Grupo BBVA, que havia comprado o Excel-


Econômico, deixou de exercer atividades em 2003, ao vender suas
participação para o Bradesco.

3 Esta empresa tem participação do Grupo Santander.

280
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Diagramação Editora UNICENTRO
Editoração

Formato 160mm X 220mm


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Tipologia Minion Pro (8-15 p.)

Miolo Papel Sulfite 75 g.


Capa Couche 230 g.

Impressão
Gráfica UNICENTRO
Acabamento

Número de páginas 280


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