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A FILHA DO BARBA·AZUL

LOUIS COUPERUS (1863-1923 - Holanda)

(Mãe, a senhora lembra que o Barba-Azul era


aquele sultão muito rico que matava as suas esposas ?)

O seu nome era Fatma, e ela vivia numa das suas


mansões perto de Bagdá. Ela era a filha do Barba-Azul,
do primeiro casamento, e era uma mulher de beleza
maravilhosa; ao redor de seu rosto branco enluarado
ondulava o cabelo azul, caindo como um manto sobre
os seus ombros frágeis ...
Não é sabido, em geral, que o Barba-Azul tinha uma
filha. A maioria das pessoas acredita que ele foi
assassinado, sem filhos, pelos irmãos da última mulher,
que teriam herdado toda a sua fortuna. Se as pessoas
tivessem, como eu, perpassado os arquivos secretos da
história, teriam descoberto, sem grandes dificuldades,
que o Barba-Azul morreu, o crânio fendido em dois, nos
braços da filha, e deixando-lhe todos os seus bens.
A jovem órfã, a encantadora Fatma, amara muito ao
pai, assim como ele fora muito afeiçoado a ela, ainda
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que ela nunca tivesse conseguido aceitar a maneira pela


qual ele se livrava de suas muitas esposas
desobedientes. Achava que o método não era gentil,
não era nobre, e ainda psicologicamente monótono. Ela
compreendia perfeitamente que cada nova madrasta
não podia mais do que ceder à tentação da curiosidade.
Não perdoava a conduta do pai, e a encarava como um
ato indesculpável de sadismo.
A Fatma cacheada de azul permaneceu uma solitá-
ria jovem órfã, em meio à sua incalculável riqueza e a
todos os seus criados e escravos, que a circundavam
qual uma corte real. As famílias de destaque de Bagdá,
na corte do califa, falavam freqüentemente sobre a
menina de cabelo azul, rica, jovem, que, apesar de seus
incontáveis tesouros, ninguém a queria como noiva de
um filho ou sobrinho. Seus cachos muito lembravam
casos de horror. Permanecia então sozinha a bela
Fatma, nos seus terraços de ônix, que submergiam
dentre pomares de tamareiras e jardins de rosas, até
lagos de cristal ... E ela vagava sozinha entre as colunas
de ônix das arcadas, em retorno ao seu palácio de
verão, que, pavimentado de lajes de prata e ouro, era
também encimado por telhas de ouro e prata.
Até que ela não agüentou mais a solidão, e tomou-
se de um amor puro pelo capataz do seu jardineiro. Era
um rapaz muito bonito, vindo do interior, e a rusticidade
de seu trabalho lhe dava, aos olhos de Fatma, um tanto
cansada de excesso de refinamento, um charme
irresistível. Tanto que ela o esposou, sem se preocupar
com o que falariam dela na corte do califa, ou nos
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distintos círculos de Bagdá.


Fatma parecia muito feliz. Mostrava-se com o
marido com toda a magnificência e elegante esplendor
na cidade e no campo, nas gôndolas atapetadas nos
lagos, em liteiras acolchoadas nas ruas, com um séquito
de escravos nos bazares e até nas festividades da corte,
nas quais a sua riqueza e posição permitiam-lhe acesso.
Ela e seu amado Emin formavam um casal
magicamente belo; ele, forte e jovem, na glória da sua
nova riqueza - o tipo emergente ainda não existia
naqueles dias -, ela, irradiante de amor e do brilho de
jóias de inestimável valor, que cintilavam no seu
turbante de gaze e nas bordas do seu manto, enquanto
pérolas maravilhosamente grandes brilhavam nas suas
madeixas azuis. E as famílias distintas de Bagdá
começaram a sentir pena de não terem se esforçado
para ganhar a filha do Barba-Azul para um filho ou
sobrinho ...
De repente, contudo, espalhou-se a notícia de que
Emin havia morrido ... Logo no dia anterior, todos os
habitantes de Bagdá o haviam visto na mesquita, e
olhem, agora ouviam ... que ele tinha morrido! Um
arrepio atravessou a cidade, mas o grão-vizir e o lorde-
chefe de Justiça não viram razão para tomar pé da
questão, uma vez que o boato bastante plausível que
corria era que Emin teria, naquele dia muito quente,
comido melancia demais, e havia morrido depois de
violenta cólica.
Mas o povo de Bagdá espantou-se quando, três
meses após, soube que a jovem viúva de cabelo
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azulado estava novamente para casar, dessa vez com o


tenente de sua própria guarda de segurança. Dentre
tantos serviçais e atendentes, parecia que Fatma tinha
uma escolha muito mais ampla a considerar que os
filhos e sobrinhos das distintas famílias de Bagdá. O
casamento ocorreu com fantástico esplendor, e o novo
marido de Fatma encheu-se de glória, assim como
ocorrera com Emin, agora que se via tão repenti-
namente elevado de uma posição humilde para ser o
marido daquela mulher transcendentalmente linda e
rica.
O jovem tenente, porém - Fatma o havia feito
general da sua guarda -, morreu subitamente, como foi
divulgado, de uma queda de cavalo. Foi uma notícia
meio vaga, além do que ninguém vira o jovem tenente-
general da guarda de Fatma nem no seu cavalo, nem
caindo dele, nem ninguém o havia visto no dia da sua
morte, e uma violenta comoção espalhou-se pelas
famílias de Bagdá e na corte do califa, porque muito
bem era relembrado que Fatma tinha os cabelos azuis,
assim como seu pai um dia tivera a barba azul.
A pesarosa viúva Fatma, nos seus negros véus de
luto, resplandecente em diamantes negros, parecia uma
Rainha da Noite, especialmente quando seus cabelos
eram vislumbrados através dos véus de luto com uns
tons tão sugestivamente noturnos que poderia, sem
qualquer disfarce, aparecer na Flauta Mágica, de
Mozart.
Contudo, ela não cantou a pesada e difícil
coloratura, preferindo assumir um novo marido; desta
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vez, simplesmente um dos carregadores do seu


palanquim. Que o jovem Ali era um sujeito magnífico,
que sabia, como terceiro marido, mostrar-se no samaar
adamascado como um jovem sultão, não poderia ser
negado, porém, o que foi questionado pelas ilustres
famílias de Bagdá na corte do califa foi se, após três
meses de vida de casado, teria ele morrido de morte
natural. O quê! Um sujeito tão forte, de boa saúde
como o marido carregador de palanquim de Fatma,
morrer de malária - era o que se dizia - e ser enterrado
assim, tão reservadamente! Cabeças balançavam umas
às outras, olhos abertos de horror, bocas se retorciam
em suposições secretas, e o grão-vizir consultou-se com
o lorde-chefe de Justiça se não deveriam intervir no
caso de Fatma; caso em que um marido após o outro
morrera e desaparecera depois de três meses de
matrimônio.
Contudo, consultaram-se tão longamente que Fatma
casou-se uma quarta, uma quinta e sexta vez. A quarta
vez foi com um mercador persa, de Teerã, para quem
uma longa vida havia sido vislumbrada das linhas da
mão; a quinta vez, um dos seus gondoleiros; a sexta
vez, um humilde escravo que trabalhava na mina de
esmeraldas de Fatma. A cada vez, após três meses,
morria o desgraçado marido, e a pesarosa viúva
percorria Bagdá como a Rainha da Noite.
Então o cálice pareceu transbordar. O grão-vizir e o
lorde-chefe de Justiça rumaram para a casa-de-
prazeres de Fatma, mas parece que ela se retirara para
outra residência. Pois ela tinha muitas: a de terraços de
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ônix, a com o salão de baile de madrepérola, a com


torres douradas, para não falar daquela com o banheiro
de ágata, a com a fonte de mercúrio, e aquela com as
bibliotecas secretas, cheias de conhecimentos ocultos ...
De forma que o grão-vizir e o lorde-chefe de Justiça,
depois de se arrastarem de uma casa-de-prazer a
outra, sem melhor sorte, finalmente encontraram Fatma
em casa, na casa-de-prazer do conhecimento ...
Ela os recebeu ligeiramente aborrecida. Não estava
como a Rainha da Noite; a viúva de cabeleira azulada
de seis maridos, linda, mais parecia uma Ave do
Paraíso, nos seus brancos véus transparentes, mas, no
caso, uma ave ligeiramente aborrecida.
- O que desejam? - perguntou com altivez.
- Saber a causa da morte dos seus seis maridos.
- Vão começar suas investigações - perguntou
Fatma - pelo meu sexto marido?
- Ascenderemos ao seu primeiro! - ameaçaram os
dignitários.
- Por que não chegar ao meu último? - disse Fatma
- e eu tenho apenas isso a dizer aos senhores - que eu
não tenho muito a dizer. Meu sexto marido morreu ...
de febre terçã ...
Os dignitários já estavam para replicar zangada-
mente, mas nesse momento apareceu de repente o
próprio homem das minas de esmeraldas, o sexto
marido de Fatma. Parecia saudável, forte e cordial, e
carregava alguns papéis debaixo do braço.
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- O que é isto? - exclamaram os nobres cavalheiros.


Fatma encolheu os frágeis ombros.
- Significa apenas - condescendeu explicar - que o
querido menino não está morto. Ele é apenas um tanto
ignorante e, assim, para melhorar seus poderes de
linguagem, eu o trouxe a esta Biblioteca Secreta, onde
ele pode ler à vontade ...
- Mas - os olhos do grão-vizir repentinamente se
abriram - e os seus outros cinco maridos, então, ó
Fatma barba-azulada, digo, cabeleira-azulada?
- Estão vivos - admitiu ela - assim como o meu
marido-mineiro. Porém, eu enclausurei o meu marido-
gondoleiro na casa-de-prazer das fontes de mercúrio
para ensiná-lo a ser um tanto mais rápido na sua
ocupação de marido-gondoleiro, pois ele freqüentemen-
te era muito lerdo ao remar o barco matrimonial no
lago do amor; e mercúrio, administrado em pequenas
doses, faz o sangue fluir nas veias; o meu mercador
persa ainda prolonga a sua vida, que será muito longa,
na minha vila com o banheiro de ágata, porque às
vezes ele cheira desagradavelmente como os seus
camelos; o meu esposo palanquim, eu o tranquei na
minha torre dourada, porque o patife flertava com as
mulheres, e eu queria mantê-lo só para mim. Há ainda
o meu tenente-general; com ele, senhores, valso todas
as noites no meu salão de baile de madrepérola; ele
dança gloriosamente e não seria certo que tão íntimo
prazer fosse consumado na frente de todo mundo; de
forma que o meu querido aguarda quietamente no salão
de baile madrepérola, até que eu o destranque ... E,
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para falar a verdade, meu primeiro menino é o meu


mais querido; os senhores sabem, o jardineiro, e,
honestamente, ele também ainda está vivo, e mora
perto dos terraços de ônix, de modo que eu possa
facilmente alcançá-lo, sempre que sinto sua falta. Os
senhores parecem surpresos, cavalheiros, mas assim é.
Sabem, eu sou filha do Barba-Azul e puxei a ele, na
alma e nas tranças. Ele sentia desejo por muitas
esposas, eu sinto desejo por muitos maridos. Mas ele
matava as esposas, sob o pretexto de que o
desobedeciam. Eu nunca matei meus maridos. Eu
preferi trancá-los, para civilizá-los e ter poder sobre
eles. Se sou histérica, tenho também muito de feminis-
ta; e sou uma mulher sob todos os aspectos. Que mais
querem saber?
E a orgulhosa Fatma manteve-se altivamente ante
os dois dignitários do Califa.
Porém estes, inesperadamente, chamaram seus
servos e ordenaram:
- Prendam esta mulher ruim e levem-na ante o
Conselho dos Mais Elevados.
E assim aconteceu. Fatma, a filha do Barba-Azul, foi
arrastada por todas as ruas e por todas as praças de
Bagdá até o conselho do Califa, que a condenou a
colocar sua cabeça cacheada de azul na guilhotina.
É estranho - pensou Fatma, quando foi entregue às
mãos dos carrascos -, meu pai assassinou suas esposas
e foi muito censurado por isso. Eu mesma opus-me à
sua conduta ... Eu, sua filha, nunca assassinei meus
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maridos: cuidei deles amorosamente, alimentei-os,


civilizei-os, desenvolvi seus talentos, verdade seja dita
que de uma maneira meio segregada, em meio a
jardins de ônix, torres douradas, salões de baile de
madrepérola e tudo o mais, e essa concepção de
casamento, por mais que bem elaborada, também
enfrenta desaprovação.
É estranho - continuaram seus pensamentos - mas
eu acredito, eu tenho quase certeza, que não é possível
satisfazer a opinião pública em questões de amor e
casamento ... quando se tem cabelos azuis ou barba
azul ...
E um tanto entristecida por esta irrefutável consta-
tação filosófica, ela abaixou a cabeça cacheada de azul
para a guilhotina ...
Tentou resolver o problema no último segundo.
Mas falhou, pois suas últimas idéias fluíram, numa
corrente púrpura, pela fenda do seu pescoço.
E a cabeça de cabeleira azul da filha do Barba-Azul
ficou em sangue, no chão do salão de justiça.
Após o que, os seis maridos herdaram sua fortuna.

Tradução de Fani Baratz

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