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Universidade de São Paulo Instituto de Psicologia

Programa de Pós Graduação do Departamento de Psicologia da Aprendizagem e Desenvolvimento Humano

Dissertação de Mestrado

A Contratransferência a partir de Freud

Orientadora: Profª Dra. Marlene Guirado Francisco Rodrigues Alves de Moura

São Paulo 1º Semestre de 2005

Nível: Mestrado

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

1

MÉTODO

6

A transferência segundo FREUD

17

A Contratransferência para Freud

25

PAULA HEIMANN

39

JACQUES LACAN

60

COMENTÁRIO DOS CASOS

84

Primeiro Caso – THOMAS OGDEN

86

Comentários sobre o primeiro caso

93

Comentários sobre o segundo caso – LUCIEN ISRAEL

135

CONSIDERAÇÕES FINAIS

159

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

177

AGRADECIMENTOS

Ao reler as primeiras linhas deste trabalho, percebi – com muita surpresa – uma grande transformação presente no texto.

No entanto, a mudança não foi apenas no conteúdo,

palavras e idéias presentes. O que mudou foram as mãos que

o escreveram, foi o olhar. Agradeço a cada um que possibilitou este percurso,

com ênfase nos professores desta Instituição. É fundamental também agradecer às pessoas da Banca Examinadora, por sua extrema gentileza em aceitar esta tarefa, e pela precisão

e adequação de suas contribuições e pontuações. Este é um trabalho escrito por várias mãos, transformado intensamente pelo tempero de cada um que me presenteou com suas opiniões.

Devo ainda agradecimentos especiais a três pessoas:

A Jorge de Figueiredo Forbes, psicanalista;

A Marina Fibe De Cicco, talento;

A Marlene Guirado, orientadora e guia, que bancou

cada desafio.

No Man is na Iland, intire of it selfe; every man is a Piece of the Continent, a part of the maine; Any mans death diminishes me, because I am involved in Mankinde; And therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.

John DONNE. XVII Meditation. In: “The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne” The Modern Library Edition, 1994. P. 441.

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

“Qualquer idéia nova, Mahound, exige duas perguntas. A

primeira é feita quando ela é fraca: QUE TIPO DE IDÉIA É ESSA? É

do tipo que concede, negocia, acomoda-se à sociedade, quer encontrar

um

nicho,

sobreviver;

ou

é

aquele

tipo

de

idéia

idiota,

rígida,

insistente, maldita, que prefere partir-se a curvar-se com a brisa? – O

tipo de idéia que quase com certeza, noventa e nove por cento das

vezes,

será

mundo.”

esmagada, mas que,

na centésima vez, transforma o

Salman Rushdie, Os Versos Satânicos

Este trabalho tenciona pesquisar, a partir da literatura, o desenvolvimento

do conceito da contratransferência desde sua formulação por Sigmund Freud e,

seguindo suas considerações, focalizar a diferença entre dois autores de diferentes

escolas de psicanálise frente à noção inaugural do conceito.

INTRODUÇÃO: UMA IDÉIA QUE TRANSFORMA 1

Inúmeros trabalhos recentes tratam da contratransferência e sua implicações.

Por que tamanho interesse em um conceito que, ao menos inicialmente, parecia

simples? Por que atribuir tanta nuance a algo que pode ser definido, com relativa

precisão, em uma frase?

Em 2000, iniciei no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo um

projeto de Iniciação Científica. Neste ano e no seguinte, pesquisei, sob a orientação de

Marlene Guirado, a diferença de representação do corpo na fala de dois grupos

1 O presente trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico – CNPq – Brasil.

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

profissionais distintos – médicos e fisiculturistas. Tal trabalho trouxe como resultado

mais perguntas que respostas. Apesar de concluir a pesquisa, a questão principal que

havia me conduzido se mantinha: em que medida a subjetividade do profissional pode

ser nociva ou benéfica para um tratamento? Como afetaria o tratamento de um cliente?

O afeto influi no tratamento de maneira a subverter a técnica? Médicos que lidam com o

corpo são conduzidos a esvaziá-lo de seu significado afetivo? Apurando o foco destas

questões, decidi voltá-las para o campo da psicanálise. O conceito que parecia o melhor

para reunir estas reflexões era o de contratransferência.

A partir da leitura do Seminário do ano de 2001/2002, ministrado por Jacques-

Alain Miller (MILLER, 2002), é possível perceber a contratransferência como um

conceito eminentemente histórico e ético. Histórico, pois o trabalho e as transformações

sofridas em sua leitura – essencialmente na Década de 1950 – transformaram a prática

da psicanálise, originando diferenças até hoje inconciliáveis. Ético, pois se trata de uma

reflexão que transforma a ação do psicanalista em sua sessão e, consequentemente, os

efeitos promovidos no analisando. Miller sublinha aspectos da relação entre os trabalhos

de Jacques Lacan e Paula Heimann, linha mestra de nossa pesquisa e análise.

Afinal,

o

que

é

contratransferência?

Para

uma

definição

sucinta,

a

contratransferência é o conjunto de afetos experimentados pelo analista durante a sessão

analítica em reação aos efeitos da transferência no analisando. Não se trataria de

quaisquer afetos – tal seria uma descrição um tanto leviana. A especificidade que marca

a contratransferência é uma gama de emoções relativas aos afetos provocados pelo

analisando, através de sua transferência. A questão essencial colocada é como o

profissional deveria lidar com estes afetos.

Freud se posiciona claramente a este respeito: o analista deve guardar para si

tais afetos e encaminhá-los à sua análise pessoal periódica. Contudo, autores posteriores

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

irão afirmar o caráter de compreensão inconsciente do analisando carregado pelas

emoções experimentadas pelo profissional durante a sessão. Poder-se-ia conferir aos

afetos e pensamentos do psicanalista uma legitimidade de interpretação do inconsciente

de seu paciente?

A

posição

contratransferencial

nos

conduz

a

um

afeto

que

deve

ser

essencialmente moral, dado regular aspectos da conduta entre analisando e analista. A

definição

de

moral

que

utilizamos

foi

estabelecida

por

Yves

De

La

Taille,

da

Universidade de São Paulo, e proferida em aula no dia 27 de agosto de 2003. Em sua

opinião, o termo moral seria aplicado a um conjunto de regras sociais estabelecidas

(exemplo: não mentir). O termo ética, complementar ao anterior, seria referente a um

projeto

de

vida,

contratransferência

voltado

ao

para

Freud

alcance

uma

da

felicidade.

restrição

ou

Desta

forma,

contenção

de

a

noção

da

afetos

seria

essencialmente moral, sem crítica alguma contida neste termo.

Desta forma, quando pensamos em contratransferência, pensamos em leituras

teóricas

que

preconizam

uma

determinada

conduta

em

relação

aos

sentimentos

experimentados pelo analista. Uma reflexão possível seria sobre o lugar ocupado pelo

profissional na cena que constrói. O analista é um personagem, e, assim, ocupa uma

posição na relação com o paciente. Ele seria alguém marcado por sua escuta, que está

na posição de analista, mas não o é. Daí a importância de frisar a relação moral

estabelecida – os moderadores de sua atuação são ditados por sua subjetividade e

formação; e para Freud parece ser essencial haver um compromisso bem definido. Ao

menos para este autor, uma interconexão se estabelece diretamente entre moral e

contratransferência.

Partindo

da

posição

freudiana,

podemos

situar

de

maneira

crítica

as

considerações sobre a prática clínica no que tange a relação contratransferencial na

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

situação

de análise.

A contratransferência

poderia

ser vista

como

chave

para

a

compreensão de idéias posteriores como intersubjetividade, empatia, e outras de

essencial importância, dado que é um índice que orienta a postura do analista em sua

atuação. Por que posições tão diferentes convivem sob o mesmo nome, por mais que

sejam muitas vezes contrárias entre si? Por que alguns autores decidiram transformar o

conceito em sua prática, e que relações a nova idéia mantém com a formulação

freudiana?

A postura teórica frente à contratransferência toca o analista essencialmente em

seu ato. Sendo de tamanha responsabilidade, deve ser cauteloso (na medida do possível)

por parte de seu agente. Sua ação pode ser marcada por um excesso, uma superposição

da experiência pessoal do profissional à busca do particular do seu analisando.

Tomando de empréstimo uma idéia de Renato Janine Ribeiro (RIBEIRO, 2000. P. 69),

um profissional deve atentar para que os condicionantes ou determinantes de uma ação

não excedam indevidamente seu resultado, tornando o projeto infecundo. Em outras

palavras,

quando

o

resultado

de

toda

uma

arquitetura

é

pouco

para

o

esforço

depreendido – “A montanha pariu um rato”. Os psicanalistas devem tomar cuidado com

o ‘excesso de teoria’. Caso contrário,

a interpretação analítica pode se tornar uma

sobreposição de sentido a um conteúdo a ser desconstruído, além de obstruir o

andamento do tratamento na tentativa de se aplicar modelos pré-estabelecidos a uma

narrativa pessoal.

Em alguns momentos de sua obra, Freud parece recomendar ao analista ouvir o

conteúdo do analisando da maneira mais ingênua o possível. Além de sublinhar a

necessidade de uma escuta livre de preconceitos, o autor alerta contra o caráter falso da

contratransferência, leia-se até antianalítico, dado a psicanálise ser uma ‘busca pela

verdade’. Se a contratransferência é resultado da transferência e esta, por sua vez, é um

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

engano

movido

pela

fantasia

inconsciente

da

paciente,

também

deriva

de

uma

motivação falsa. Um passo possível seria pensar na contratransferência como geradora

de um excesso de sentido, algo acrescentado que parte do analista, e não de seu

paciente. Se a psicanálise freudiana for uma busca pela verdade inconsciente, uma

talking cure – a cura pela palavra dita no espaço da associação livre – ao analista cabe

combater uma prolixia desnecessária, que atrasa e enevoa o progresso do tratamento.

Caso ocorra com o próprio profissional, a recomendação é recorrer à retomada de sua

análise pessoal.

Para discutirmos o percurso do conceito formulado por Freud, pretendemos

marcar a posição de alguns autores que seguiram as formulações psicanalíticas.

Iniciaremos a discussão com uma apresentação dos conceitos de transferência e

contratransferência para Sigmund Freud, que nos servirão como ponto de partida para

discussão. A seguir, será realizada uma leitura do conceito através da obra de autores da

Escola Inglesa de psicanálise. A primeira autora a ser trabalhada será Paula Heimann,

por seu caráter de ruptura com o conceito freudiano. Em seguida, a discussão será

conduzida à Escola Francesa de psicanálise, com o estudo da obra de Jacques Lacan,

seguindo o caminho da discussão anterior.

Dois casos clínicos publicados servirão para promover o diálogo entre as

posturas diferentes dos autores. A meta será avaliar a posição do analista em relação à

sua contratransferência, assim como as implicações e conseqüências desta. O último

capítulo será dedicado a considerações finais.

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

MÉTODO

“Refleti que é lícito ver no Quixote ‘final’ uma espécie de

palimpsesto, no qual devem transluzir-se os rastos – tênues, mas não

indecifráveis – da “prévia” escrita de nosso amigo. Infelizmente,

apenas um segundo Pierre Menard, invertendo o trabalho do anterior,

poderia exumar e ressuscitar essas Tróias

“Pensar, analisar, inventar” (escreveu-me também) “não são

atos anômalos, são a normal respiração da inteligência. Glorificar o

ocasional cumprimento dessa função, entesourar antigos e alheios

pensamentos,

recordar

com

incrédulo

estupor

o

que

o

doctor

universalis pensou, é confessar nossa languidez ou nossa barbárie.

Todo homem deve ser capaz de todas as idéias e suponho que no futuro

o será”.

Menard

(talvez

sem

querê-lo)

enriqueceu,

mediante

uma

técnica nova, a arte

fixa e rudimentar da leitura: a técnica do

anacronismo deliberado e das atribuições errôneas. Essa técnica de

aplicação infinita nos leva a percorrer a Odisséia como se fosse

posterior à Eneida e o livro Le Jardin du Centaure, de Madame Henri

Bachelier, como se fosse de Madame Henri Bachelier. Essa técnica

povoa de aventura os livros mais pacíficos”.

(BORGES, 1939 / 2001. P. 63)

Nosso método consiste em realizar um comentário – segundo a definição de

Michel Foucault em sua obra ‘A Ordem do Discurso’ (1970) – de textos de

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

Sigmund Freud, Paula Heimann e Jacques Lacan. A escolha dos textos será

realizada buscando abordar o pensamento dos autores sobre o conceito freudiano

da contratransferência, e, eventualmente, textos de outros autores poderão ser

incluídos em nossa pesquisa.

Desde a década de 1950, o tema da contratransferência vem surgindo com

crescente incidência nas discussões e produção teórica em psicanálise. Inicialmente

surge como um tema pouco abordado, e hoje aparece com variações sensíveis frente a

formulação freudiana original. Se, em sua base, tratava-se de um efeito a ser evitado

pelo psicanalista em sessão, hoje podemos encontrar uma série de autores defendendo

posições consistentes e bastante diversas, como o uso da empatia em sessão ou a

compreensão do inconsciente do paciente por meios que não se baseiam na fala.

Nossa intenção inicial seria mapear o momento de surgimento deste interesse,

tomando como base de pesquisa textos de Paula Heimann e Jacques Lacan. Estes foram

escolhidos por representar parte essencial do pensamento desta época, na qual surgem

os primeiros trabalhos sobre o tema. Embora outros autores o tenham trabalhado

anteriormente (Ferenczi, Racker e outros), nos parece plausível afirmar que estes

escritos – quase simultâneos – exerceram influência sobre a produção posterior. Nossa

pesquisa parte da obra freudiana por seu caráter de gênese e primeiro desenvolvimento

do conceito, e busca desenvolver uma base para refletir.

Iniciaremos a discussão com uma apresentação dos conceitos de transferência e

contratransferência para Sigmund Freud, que nos servirão como ponto de partida para

discussão. A seguir, será realizada uma leitura do conceito através da obra Paula

Heimann, por seu caráter de ruptura com o conceito freudiano. Em seguida, a discussão

será conduzida à Escola Francesa de psicanálise, com o estudo da obra de Jacques

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

Lacan. Dois casos clínicos publicados servirão para promover o diálogo entre as

posturas diferentes dos autores. A meta será mapear a posição do analista em relação à

sua contratransferência, e as implicações e conseqüências desta. O último capítulo será

dedicado às considerações finais.

Em “Pierre Menard, autor de Quixote”, Jorge Luís Borges (BORGES, 1939 /

2001) apresenta, sob a forma de ficção, um ponto bastante interessante. A partir de um

conto fantástico isomorfo a um texto técnico sobre a escrita, o autor põe em questão a

relação entre interpretação e texto. Pierre Menard, eminente escritor, é estudado - pelo

narrador - em sua intenção de reescrever a obra ‘Dom Quixote’, de Miguel de

Cervantes. Segundo o personagem relator do texto, a nova versão seria bastante superior

à antiga. Em certo ponto, este o demonstra pela comparação de dois trechos entre si. O

efeito cômico se dá no momento em que o leitor, surpreso, percebe ter lido exatamente

as mesmas palavras, interpretadas de modo diferente pelo narrador. A segunda versão,

escrita por Menard, teria para este uma riqueza textual em relação à original, e tal

discrepância geraria a discussão descrita no trecho citado. Nossa intenção, ao trazer este

extrato de texto, é marcar a dimensão do comentário como um espaço fecundo a novas

interpretação de um texto. O sentido do texto não é fechado, e o comentário seria um

método de exploração de textos clássicos sem – como no cômico de Borges –

transformá-lo a ponto de perder o conteúdo primeiro.

Para estabelecer o método de trabalho, recorremos ao conceito de comentário

defendido por Michel Foucault, em seu trabalho ‘A Ordem do Discurso’ (FOUCAULT,

1970 / 1998). O contexto em que surge o conceito do comentário é o momento em que

Foucault discorre sobre os procedimentos de controle e delimitação do discurso –

especificamente, dos exercidos do exterior deste. O autor aponta modalidades do

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

discurso que põe em jogo elementos como o poder e o desejo. Haveria outros

procedimentos compostos por discursos em si, consequentemente recebendo o nome de

mecanismos internos. Não se tratariam de controles exteriores, impostos, mas de

limitações e movimentos inerentes à sua formulação viva, em ato.

O primeiro destes mecanismos internos a ser mencionado por Foucault é o

comentário. Poder-se-ia resumir tal idéia afirmando que o comentário seria uma

repetição de um texto que serviria para marcar ou realçar algo no primeiro. Repetição

que não produz o mesmo efeito, mas conjura o anterior e busca apresenta-lo em relação

a outro contexto. Se este novo recorte for seu próprio conteúdo, será tomado de outra

perspectiva. No entanto, o comentário, apesar de seu caráter de repetição, guarda uma

ameaça. Na repetição, elementos do texto são omitidos, e neste movimento o texto se

transforma.

A rigor, existe sempre uma dimensão de jogo de poder, de tensão na esfera do

discurso. Ao invés de corporificar ou materializar estes elementos de poder – dizendo de

outra maneira, atribuindo estas forças inerentes ao discurso a uma instituição, pessoa ou

regime - Foucault traz para a natureza discursiva este movimento de autoregulação. O

autor

descreve

ainda

outros

procedimentos

de

controle,

como

os

princípios

de

classificação, ordenação e distribuição do discurso. Destas formas de controle do

discurso, consideramos o comentário como um método adequado para manter a tensão

necessária em nossa pesquisa para explorar o trabalho destes autores, ao mesmo tempo

tentando manter suas propostas originais.

Nesta aula inaugural do Collège de France, Foucault apresenta a categoria

discursiva do comentário marcando a existência de um desnível, uma não-igualdade

entre os discursos. Sempre a partir da idéia de um jogo de tensões, Foucault introduz a

idéia do comentário tratando de um desnível entre o ‘transitório’ e o ‘original’:

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

“Em suma, pode-se supor que há, muito regularmente nas

sociedades, uma espécie de desnivelamento entre os discursos: os

discursos que “se dizem” no correr dos dias e das trocas, e que passam

com o ato mesmo que os pronunciou; e os discursos que estão na

origem de certo número de atos novos de fala que os retomam, os

transformam ou falam deles, ou seja, os discursos que, indefinidamente,

para além de sua formulação, são ditos, permanecem ditos e estão ainda

por dizer.”. (FOUCAULT, 1970 / 1998 P. 22)

Há ao menos dois níveis distintos do discurso – um deles pontual, instantâneo

em sua repercussão, enquanto o outro nível retorna, é capaz de reaparecer inserido em

novos discursos. Parece-nos uma maneira de se descrever a criação, na medida em que

repercute e ressurge em discursos posteriores. Até aqui, a possibilidade de aproximação

ao nosso tema é clara: essencialmente tentar isolar, na obra freudiana, as características

atribuídas

pelo

autor

a

este

conceito

um

tanto

tangencial

em

seu

trabalho,

a

contratransferência. Contudo, este discurso não foi efêmero; ressurgiu em outros

estudos posteriores, especialmente na

década de

1950.

encaixaria

nesta

categoria

de

discurso,

em

busca

dos

Assim,

nosso método se

elementos

no

texto

que

transbordam do momento de sua criação atingem outros discursos. Contudo, nosso

raciocínio ainda se mostra uma simplificação; prossigamos na leitura de Foucault.

“É certo que esse deslocamento não é estável, nem constante,

nem absoluto. Não há, de um lado, a categoria dada uma vez por todas,

dos discursos fundamentais ou criadores; e, de outro, a massa daqueles

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

que repetem, glosam e comentam. Muitos textos maiores se confundem

e desaparecem, e, por vezes, comentários vêm tomar o primeiro lugar”.

(FOUCAULT, 1970 / 1998 P. 23)

Assim,

nos

parece

uma

definição

sumária

demais

estabelecer

categorias

estanque no discurso, dividindo-os entre criadores e efêmeros, assim como comentários

e texto original. O autor aponta o trânsito incessante entre as modalidades, e o

movimento é caracterizado por esse deslocamento entre ‘categorias’. Trata-se se uma

advertência importante para uma pesquisa que se vale do comentário de textos de

autores clássicos da psicanálise, mas que se mantém como um horizonte. A escolha do

comentário como método se sustenta para explorar os textos respeitando suas posições.

Há o risco de transformar todos os textos em lentes para fenômenos semelhantes nos

casos estudados. Desta forma, o comentário, como uma das modalidades do discurso

parece se prestar ao estudo por manter a tensão original sem ignorar o jogo de tensões

necessário para preservar as diferenças entre as perspectivas teóricas, suportando a

multiplicidade do sentido, ou o desnível entre comentário e texto estudado, para usar um

termo do autor.

“Mas embora seus pontos de aplicação possam mudar, a função

permanece; e o princípio de um deslocamento encontra-se sem cessar

reposto em jogo. O desaparecimento radical desse desnivelamento não

pode nunca ser senão um jogo, utopia ou angústia. Jogo, à moda de

Borges, de um comentário que não será outra coisa senão a reaparição,

palavra por palavra (mas desta vez solene e esperada), daquilo que ele

comenta; jogo, ainda, de uma crítica que falaria até o infinito de uma

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

obra que não existe. Sonho lírico de um discurso que renasce em cada

um dos seus pontos, absolutamente novo e inocente, e que reaparece

sem cessar, em todo seu frescor, a partir das coisas, dos sentimentos ou

dos pensamentos”. (FOUCAULT, 1970 / 1998 P. 23)

Foucault marca com precisão a natureza da repetição: não se trata de algo que

sirva para engessar o texto ou esgotá-lo. Trata-se da repetição como uma possibilidade

de produção de novos discursos, de atualizá-lo e colocá-lo frente a outras possibilidades

de leitura. Esta é a natureza do comentário – uma repetição que, ao mesmo tempo, é um

mecanismo de controle do discurso (não se pode esquecer este aspecto) e uma

possibilidade de novas construções. Possibilidade, aliás, ‘aberta de falar’, como o põe o

próprio autor.

Há, então, uma repetição específica ao que o autor chama de comentário:

“Por ora, gostaria de me limitar a indicar que, no que se chama

globalmente um comentário, o desnível entre texto primeiro e texto

segundo desempenha dois papéis que são solidários. Por um lado

permite construir (e indefinidamente) novos discursos: o fato de o texto

primeiro pairar acima, sua permanência, seu estatuto de discurso

sempre reatualizável, o sentido múltiplo ou oculto de que passa por ser

detentor, a reticência e a riqueza essenciais que lhe atribuímos, tudo

isso funda uma possibilidade aberta de falar”. (FOUCAULT, 1970 / 1998

P. 25)

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

O desnível entre o discurso comentado e o comentário em si é o ponto de

origem da possibilidade de pluralizar este discurso, um meio de construção destes. Seu

texto sempre segue o rumo da multiplicidade, da transformação do sentido a partir da

leitura, do contexto. O discurso não se fecha sobre uma verdade original, mas é

atravessado por novos discursos. E ainda assim, o comentário guarda sua dimensão de

uma modalidade de abordagem de um texto consciente das limitações mesmas do

discurso.

A escolha do comentário como método se apóia nestas possibilidades de

multiplicar o sentido sem perder a originalidade das posições dos autores. Partindo dos

textos de Freud, referência fundamental aos estudos em psicanálise, pretendemos

utilizar estas marcas em seu trabalho para buscar as aproximações, diferenças e

reformulações do conceito na produção teórica posterior a partir do comentário destes

textos. Este exercício deve manter a tensão original, sem aplainar as sutilezas de cada

leitura sobre a contratransferência, para permitir a diversidade desta idéia. Com este

leque de visões, nos será possível alternar perspectivas diferentes e procurar as

transformações que cada leitura produz na sessão analítica, estabelecendo as mudanças

na prática do profissional em seu tratamento. Para retornar a Foucault, o comentário

seria uma boa escolha por ser também limitado pelo sentido primeiro de cada texto

estudado.

Retornando a uma idéia anterior, embora o comentário promova marcas no

texto, encontra seu limite em seu conteúdo. Foucault lembra que apesar de servir como

uma abertura no sentido original, funciona pela articulação de elementos que ali já

estavam. Não se trata de uma função de acréscimo, mas de ênfase, recuperação.

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

“Mas, por outro lado, o comentário não tem outro papel, sejam

quais forem as técnicas empregadas, senão o de dizer enfim o que

estava articulado silenciosamente no texto primeiro”. (FOUCAULT, 1970

/ 1998 P. 25)

O comentário tem uma função semelhante à de recuperar, através da repetição,

elementos

do

texto

comentado.

Assim,

um

estudo

sobre

a

contratransferência

empregando este método não se propõe de modo algum apontar qual o meio correto ou

mais adequado de se conduzir uma sessão, e sim apontar as diferenças possíveis trazidas

por

cada

autor

na

interpretação

do

que

se

pode

chamar

de

fenômenos

contratransferenciais. No texto de Foucault são mencionadas articulações ‘silenciosas’ –

iremos tomá-lo como uma via para, a partir deste comentário que evita a interpretação,

atendo-se a situar e debater sobre os textos, buscar a intertextualidade entre os trabalhos,

levando em conta o contexto de sua produção. Assim, nossa leitura não será apenas um

destaque de pontos em comum, mas tentará buscar uma cadeia de elementos que

reapareçam e se articulem entre os três autores citados. As propostas de Freud para o

(não) uso da contratransferência ressurgem no texto de Lacan e Heimann – como

articular estes elementos em uma relação que não seja de simples discordância? Como

apontar as diferenças sem distorcer o conceito?

Aqui, cabe uma pergunta: afinal, se o comentário retoma certos aspectos e não

outros, ele não transforma a mensagem primeira? Se alguns elementos são apresentados,

certamente corre-se o risco de se trazer uma visão particular, inevitavelmente diferente

da original. Assim como no texto de Borges, a própria repetição do texto pode, em si,

ser lida como diferente da primeira. Haveria como escapar deste movimento? Para

Foucault, parece que não:

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

“O comentário conjura o acaso do discurso fazendo-lhe sua

parte: permite-lhe dizer algo além do texto mesmo, mas com a condição

de

que

o

texto mesmo

seja

dito

e

de

certo modo

realizado.

A

multiplicidade aberta, o acaso são transferidos, pelo princípio do

comentário, daquilo que arriscaria de ser dito, para o número, a forma,

a máscara, a circunstância da repetição. O novo não está no que é dito,

mas no acontecimento de sua volta”. (FOUCAULT, 1970 / 1998 P. 25 –

26)

Aparece um elemento novo no comentário, mesmo marcado pela repetição. Este

processo traz o novo, na volta do texto; permite sua visibilidade para buscar correlações

em torno da contratransferência. O conteúdo do texto é repetido e comentado, mas na

medida em que é retomado, permite uma nova leitura em relação a outros textos.

Nossa escolha na proposta de escolher a via do comentário se faz, também, no

sentido de buscar uma composição destes textos a menos interpretativa possível,

tomando como ‘interpretar’ o movimento de atribuir um significado fixo a um dado

elemento do discurso. Por certo é inevitável, mas fica o alerta contra o congelamento de

uma interpretação em relação a outras possíveis. A análise destes autores buscará gerar

estes três prismas de leitura sem necessidade da defesa de um em detrimento a outro.

Assim, ao final, com estas três leituras possíveis, diferentes fenômenos se fariam

visíveis

na

análise

contratransferência.

da

prática

do

psicanalista

segundo

sua

orientação

frente

à

No trabalho de James Phillips (PHILLIPS, 1991. P. 377), há uma menção ao

artigo de Sydney Pulver. Tal pesquisador publicou em 1987, na revista Psychoanalythic

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A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

Inquiry, um texto intitulado “How Theory Shapes Techique: Perspectives on a Clinical

Study”. Neste estudo, Pulver convida diversos psicanalistas a comentarem um caso

clínico relatado por Martin Silverman naquele ano. Phillips comenta que o mais

interessante para o leitor de Pulver é perceber a grande diversidade de opiniões relativas

tanto a aspectos teóricos quanto aos elementos percebidos na própria sessão. Segundo

Phillips, “a influência da bagagem teórica de alguém é tão forte que afeta a percepção

mesma do que acontece no consultório, encaminhando Sydney Pulver a concluir: ‘fatos

em si não existem. A idéia mesma do que constitui dados e desta forma são válidos para

se tomar nota é determinada pela inclinação teórica do analista’.” (PHILLIPS, 1991. P.

377 – tradução livre). O olhar molda o objeto.

Nossa proposta pode ser uma apropriação arriscada, uma vez que cada uma das

perspectivas estudadas será inevitavelmente atravessada por uma maneira particular de

compreensão do trabalho de autores imensamente complexos como Sigmund Freud,

Jacques Lacan e Paula Heimann. Contudo, parece trazer em si a possibilidade de

estabelecer

uma

intertextualidade

fecunda

à

compreensão

dos

fenômenos

contratransferenciais. Ao menos, é nossa intenção – ao ler estes textos clássicos, poder

entrever relações de parentesco e distanciamento entre as idéias sem correr o risco de

opinar em favor ou contra uma ou outra posição teórica e metodológica.

Assim, a perspectiva central de nosso trabalho é a de buscar elementos para

pensar o tema da contratransferência a partir do ponto de vista de autores que dele

trataram em suas obras. Partindo das definições de cada um e de suas elaborações,

verificar se é possível tomar os casos analisados no final e transformá-los como um jogo

de espelhos, mudando o ângulo de visão a cada leitura. Com a especificidade de cada

autor – Freud, Lacan, Heimann – é possível entrever um caso novo, com eventos

16

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

A TRANSFERÊNCIA SEGUNDO FREUD

Através das diversas correntes da psicanálise é comum encontrarmos termos

semelhantes para conceitos totalmente diversos. Cada linha atribui sua particularidade

aos termos anteriores, e os traduz das mais diversas maneiras. Um bom exemplo entre

muitos pode ser o conceito de transferência. A transferência reuniria os afetos que

emergem no analisando em relação a seu analista – afetos tomados de empréstimo de

outras figuras do inconsciente, transferidos de um a outro. Este analista condensaria –

como

no

sonho

afetos

desligados

de

suas

representações

conscientes,

e

tal

transmigração criaria o vínculo que possibilitaria ocorrer a análise.

É comum na teoria psicanalítica a noção da transferência como essencial à

análise, como caminho para o estabelecimento do vínculo e abertura para a associação

livre. O analista inaugura sua posição no imaginário de seu paciente através desta

associação particular. O analisando acredita ter no profissional um meio para resolver

suas angústias e desvendar aspectos de sua personalidade inacessíveis para si, e este

laço pode ser importante para o ingresso no tratamento.

Contudo, tal elo pode carregar um risco. Caso o afeto torne-se demasiado

erótico, ou a análise se fixe neste ponto transferencial, é necessária a interpretação da

mesma. Sendo a transferência uma negação da realidade – uma vez que imbui de afeto

uma pessoa em substituição ou sobreposição à outra – torna-se, simultaneamente, uma

resistência ao processo.

Podemos, enfim, pensar na transferência como um motor para o ingresso do

paciente em análise, caso seja devidamente manejada pelo analista. Ao mesmo tempo,

se torna um obstáculo, uma forma de resistência ao tratamento. Para Freud, a psicanálise

18

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

seria baseada no amor à verdade, uma representação encobridora como a transferência

traz, em si, uma ameaça a essa busca.

Na obra de Freud o tema da transferência é tratado na grande maioria de seus

textos, transformando-se ao longo do estudo. Para introduzir o tema, faremos alguns

recortes que permitam recortar o conceito em alguns de seus aspectos fundamentais do

contexto no qual o autor tratou da contratransferência. Um bom texto para apresentar

este recorte é “A Dinâmica da Transferência”, de 1912.

Se pudéssemos ensaiar um mapeamento sobre a ‘origem’ da transferência, o

ponto no qual ela surgiria, partiríamos de algo semelhante a uma repetição de padrões

anteriores de laços amorosos. O autor desenha algo neste sentido em seu texto:

“Deve-se compreender que cada indivíduo, através da ação

combinada de sua disposição inata e das influências sofridas durante os

primeiros anos, conseguiu um método específico próprio de conduzir-

se na vida erótica” (FREUD, 1912 / 1980).

Uma soma de “disposição inata” e “influências sofridas nos primeiros anos”

configuram

meios

específicos

para

cada

indivíduo

ingressar

na

vida

erótica.

Encontramos um Freud dividido entre influências genéticas ou inatas e externas, ou do

meio ambiente. O começo desta relação de amor seguiria um dado padrão, estabelecido

pela interação de diversos fatores. Parece surgir algo semelhante a uma tendência

anterior à relação, a priori. A partir daí, como se estabeleceria a repetição que

configuraria uma ‘transferência’, algo conduzido de um lugar de origem a outro,

posterior?

19

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

“Se a necessidade que alguém tem de amar não é inteiramente

satisfeita pela realidade, ele está fadado a aproximar-se de cada nova

pessoa que encontra com idéias libidinais antecipadas.” (FREUD, 1912 /

1980)

Assim, já se faz mais visível o que vai tomar a forma da transferência: a paixão

da analisanda, que transfere um amor originalmente voltado ao pai para o profissional

em uma transposição de figuras inconscientes. A partir de uma necessidade não

satisfeita (e, aqui, seria interessante perguntar ao autor se seria possível satisfazê-la um

dia!), uma pessoa se aproxima de outra com idéias libidinais antecipadas. Aliando esta

afirmação à anterior, está disposta a base para se pensar em um amor, emergindo de

representações do inconsciente.

Um esboço de transferência se faz perceber nesta disposição prévia a certo

funcionamento no amor. A pergunta seguinte ao autor é saber se este amor que surge é

favorável ou não à análise. Infelizmente, a resposta não é simples.

Em seu texto de

1912, intitulado “A Dinâmica da Transferência”, Freud menciona a maneira pela qual a

transferência carrega em si a ambigüidade entre motor da experiência analítica e

resistência. Para o autor, não só a transferência traria esta dualidade, como seria

encontrada com mais intensidade nos indivíduos neuróticos.

“Em

primeiro

lugar,

não

compreendemos

por

que

a

transferência é tão mais intensa nos indivíduos neuróticos em análise

que em outras pessoas desse tipo que não estão sendo analisadas. Em

segundo, permanece sendo um enigma a razão por que, na análise, a

20

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

transferência surge como a resistência mais poderosa ao tratamento,

enquanto que, fora dela, deve ser encarada como veículo de cura e

condição de sucesso”. (FREUD, 1912 / 1980)

É curioso perceber que o autor posiciona o neurótico em análise como mais

suscetível aos efeitos transferenciais. Assim, poderíamos formular a hipótese de que o

surgimento da transferência está vinculado ao ingresso em análise. Contudo, todas as

nossas afirmações ficam contidas em um espaço hipotético, dado que o autor marca

estas reflexões como uma hipótese a ser considerada, e não como um efeito. Apesar

disto, a sua próxima interrogação nos conduz à ambigüidade presente na transferência

que será tratada ao longo de diversos textos posteriores. A transferência seria ao mesmo

tempo uma mola mestra do tratamento; o amor sentido pelo médico leva uma analisanda

a falar de si, de suas sensações e fantasias com mais afinco. Ao mesmo tempo, esta

relação, caso intensificada em demasia, leva à interrupção do tratamento.

Neste fragmento encontra-se colocado o problema – o restante do texto será

dedicado a explorar esta tensão presente na transferência. Por um lado, se configura

como a “mais poderosa” resistência ao tratamento: entre uma série possível de variações

da resistência do analisando. Por outro lado, se despida de seu caráter resistente, a

transferência torna-se “veículo de cura e condição de sucesso”. Ainda não surge - ao

menos neste fragmento de texto - como algo essencial. Aparece, no entanto, como

instrumento do analista para conduzir o tratamento de maneira bem sucedida.

Em um segundo momento do mesmo texto, o autor retorna ao tema da

resistência, e sofistica a relação.

21

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

“Assim,

a

transferência,

no

tratamento

analítico,

invariavelmente nos aparece, desde o início, como a arma mais forte da

resistência, e podemos concluir que a intensidade e persistência da

transferência constituem efeito e expressão da resistência”. (FREUD,

1912 / 1980)

A transferência persiste durante o tratamento graças a seu caráter de resistência.

Em outros termos, apesar da interpretação do analista, haveria algo da transferência que

resiste

a

ser

trazido

à

consciência,

mantém

sua

representação

inconsciente,

manifestando-se como afeto. No mesmo texto, Freud afirma tal persistência como efeito

de uma catexia anterior que insiste em permanecer ligada a um objeto de amor (FREUD,

1912 / 1980). Desta forma, a relação nova com a analista se escora em representações

afetivas anteriores, resistentes à interpretação. Esta ambivalência não se dissolve em

toda obra freudiana – e, em todo caso, não necessita de solução. Trata-se enfim, de um

ponto de tensão essencial à dinâmica analítica, um meio de produzir o discurso em

sessão.

Podemos

extrair

destes

trechos

exemplos

na

obra

freudiana

em

que

a

transferência é descrita como aliada à resistência. Complementar a estas leituras, outros

autores posteriores enfocaram em seus trabalhos esta face da transferência. Para citar

um destes, lemos no texto de Joel Birman de forma clara o momento em que a obra

freudiana compõe essa visão paradoxal da transferência:

“A partir de agora [O caso Dora], a transferência vai ocupar

uma posição central na teoria do processo analítico, oferecendo outro

campo de representações para a escuta do analista. Realiza-se, então, a

22

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

formulação princeps dessa posição, que afirma o papel ambíguo da

transferência: de maior obstáculo ao processo analítico, pois é o que se

contrapõe à rememoração, ela pode se transformar no seu auxiliar mais

poderoso,

desde

que

pontualmente

(BIRMAN, 1991. P. 178)

Birman

traça

uma

hipótese,

em

seu

interpretada

pelo

trabalho

“Freud

analista.”

e

a

Interpretação

psicanalítica”, sobre a maneira pela qual a transferência, para Freud, se torna uma forma

de resistência:

“O campo representativo não se desvela totalmente, pois isso

acarretaria

sofrimento

mental.

A

rememoração

é

substituída

pela

revivência, isto é, uma cena transforma-se em um ato. O paciente

monta, no presente, a mesma cena fantasmática do passado. Estabelece-

se uma equação simbólica entre a cena fantasmática e a cena da relação

médico-paciente.

O

desvendamento

da

segunda

é

a

condição

da

possibilidade de se explicar a primeira, que pertence à história do

sujeito.” (BIRMAN, 1991. P. 174)

Peter

Gay,

em

sua

biografia

de

Sigmund

Freud,

transferência-resistência da seguinte forma:

demonstra

o

paradoxo

“Não escapou à atenção de Freud que a transferência está

carregada de contradições. O caso de Dora já demonstrara para ele que

o laço emocional que o paciente tenta impor ao analista, constituído por

23

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

pedaços e fragmentos em geral de antigos afetos apaixonados, é ao

mesmo tempo o obstáculo mais intratável à cura e seu agente mais

eficiente. (

)

Esses papéis conflitantes não são mistérios dialéticos.

Freud distinguia três tipos de transferências que surgem na situação

psicanalítica: a negativa, a erótica e a sensata. A transferência negativa,

uma carga de sentimentos agressivos e hostis posta sobre o psicanalista,

e a transferência erótica, que converte o analista num objeto de amor

apaixonado,

são

ambas

guardiãs

da

resistência.

Mas,

felizmente,

também existe um terceiro tipo, o mais racional e menos distorcido de

todos, que vê o terapeuta como um benévolo aliado na luta contra a

neurose.” (GAY, 1989. P. 281)

Há uma aparente concordância na importância capital do Caso Dora no trabalho

freudiano – parece ser este o momento em que a transferência assume seu caráter

central. Podemos ainda buscar um terceiro autor para esclarecer este ponto. Marlene

Guirado descreve o pensamento de Freud sobre a transferência da seguinte forma:

“Destaco aqueles [apontamentos sobre a transferência] que

me parecem os organizadores das idéias a respeito da transferência: (a)

fator de controvertida, mas decisiva, interferência na análise; (b) caso

se anuncie prematuramente pode obscurecer o processo, mas é também

ocasião para que se lute com segurança contra as resistências; (c) o

analista

deve

estar

atentamente

voltado

para

as

manifestações

transferenciais ou correr o risco de interrupção do processo; (d) o

analista precisa (e, portanto, pode) dominar a transferência do paciente

24

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

e fazê-lo no tempo certo, ou melhor, em tempo hábil; (e) mas ele pode

(e não deveria) descuidar-se de proc

25

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

A CONTRATRANSFERÊNCIA PARA FREUD

“Contratransferência – resposta emocional do analista ao

processo de transferência do paciente, que envolve especialmente a

projeção de sentimentos inconscientes do analista sobre o paciente.”

(Dicionário HOUAISS, 2001)

Embora não seja especializado no tema, a definição de contratransferência do

Dicionário Houaiss (Dicionário HOUAISS, 2001) a sintetiza de maneira precisa. Trata-se

efetivamente de um conceito de simples descrição, ao menos se tomarmos a perspectiva

freudiana. Grosso modo, se analisarmos o significante em si, a idéia pode realmente ser

definida da forma acima, ou até mesmo por seu significado etimológico original.

‘Contra’,

a

partir

da

raiz

latina,

sendo

“em

oposição

a,

na

via

contrária

de”.

Transferência – da raiz ‘-fer-‘ ou ‘ferere’, conduzir algo a‘. Tratar-se-ia exatamente da

resposta do analista a algo que o analisando dirige a si, essencialmente afetos com base

em representações inconscientes.

Uma moça chega até o consultório de seu analista e narra a história do

rompimento de seu noivado. Afirma tê-lo feito por estar apaixonada pelo profissional, e

pede que este a corresponda. Poderia seu analista – como no filme “Poderosa Afrodite”,

de Woody Allen – atribuir alguma veracidade àquele afeto, mesmo que para exteriorizar

alguma correspondência em si? Podemos complicar a questão: ao relatar o rompimento,

o analista se vê identificado com o papel do noivo abandonado, pois vivenciara tal

situação no mês anterior, em seu próprio relacionamento. Até que ponto seria capaz de

intervir e interpretar a analisanda sem colocar o sentido de suas próprias experiências

sobre

o

relato da

paciente?

Seria

legítima

26

alguma

atuação

de

sua

parte

que a

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

condenasse, mesmo que fosse pertinente à análise? Por outro lado, como lidar com o

afeto que eclode em tal situação – seria suprimi-lo a melhor alternativa, ou até mesmo

uma alternativa possível? Para Freud, a intervenção é clara. Ao analista caberia manter a

neutralidade

analítica, descartar qualquer

possibilidade

de

verdade

neste

amor

e

conduzir

os

aspectos

de

identificação

à

sua

análise

pessoal.

Daí

o

caráter

de

transferência, de empréstimo ilegítimo de um amor dirigido a outrem à figura do

analista.

Na obra de Sigmund Freud o conceito ‘contratransferência’ aparece apenas em

quatro momentos, apesar da necessidade de se trabalhar com os sentimentos do

‘médico’ durante a prática analítica surgir na maioria de seus textos referentes à

transferência. O termo em si surge, pela primeira vez, em 1910 (“As perspectivas

futuras da terapêutica psicanalítica” [Freud, 1910 / 1980]), na fala de abertura do

Congresso de Nuremberg da Associação Internacional Psicanalítica (IPA), o segundo

realizado por essa instituição. Reaparece apenas em 1915 (“Observações sobre o amor

transferencial” [Freud, 1915 / 1980]), em duas partes do texto, sem ser mencionado em

nenhum momento posterior de sua obra. Poderíamos questionar o motivo pelo qual

Freud abordou tão pouco o tema. Alguns autores (como Robert Young [YOUNG, 2003],

por exemplo) preenchem tal lacuna a partir de trabalhos posteriores de Freud que

poderiam se relacionar ao tema 2 .

No primeiro destes textos, “As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica”,

de 1910, podemos destacar o momento em que surge o termo na obra freudiana:

2 O próprio Young, em seu texto “Analytic Space: Countertransference” (YOUNG, 2003) propõe às referências freudianas sobre o tema um terceiro tempo, marcado pela ênfase de Freud em marcar o inconsciente do analista como alguma forma de receptor ao inconsciente do analisando. Esta posição é bastante comum na literatura, tendo sido iniciada por psicanalistas ingleses, como Paula Heimann e D. W. Winnicott. Retornaremos à polêmica em outras seções do texto – neste ponto, só seria importante marcar que tal visão cabe a uma certa atribuição de sentido à obra freudiana, uma vez que o mesmo jamais especificou que tal ‘recepção’ estaria de alguma forma ligada à contratransferência.

27

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

“As outras inovações na técnica relacionam-se com o próprio

médico. Tornamo-nos cientes da ‘contratransferência’, que, nele, surge

como resultado da influência do paciente sobre os seus sentimentos

inconscientes e estamos quase inclinados a insistir que ele reconhecerá

a contratransferência, em si mesmo, e a sobrepujará. Agora que um

considerável

número

de

pessoas

está

28

praticando

a

psicanálise

e,

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

prática freudiana: os afetos experimentados pelo analista são algo a ser trabalhado em

sua análise pessoal.

A autoanálise toma um peso determinante – caso o praticante não identifique

aspectos seus que interfiram no tratamento, podem obstruir o tratamento. É estabelecida

a importância da atenção em pontos cegos do profissional, aspectos e complexos

inconscientes não tratados. É freqüente no texto freudiano a ênfase na autoanálise do

profissional. Como autoanálise, poderíamos pensar na percepção que um profissional

tem de si e de seus afetos ao longo de sua prática. Embora os autores posteriores tenham

enfatizado o papel da supervisão clínica para esta situação, a idéia freudiana traz para o

momento da sessão a necessidade de atenção do profissional sobre seus afetos. Trata-se

de uma qualidade que melhora com o tempo de prática – Freud atenta para o aumento

de profundidade que tal característica recebe ao longo do tempo da prática analítica. Tal

desenvolvimento

é

fundamental à

idéia

de

neutralidade

analítica.

O

profissional

experiente busca uma escuta mais ‘pura’, isenta de preconceitos. Tal posição será

reformulada posteriormente por uma série de autores, como Paula Heimann e Thomas

Ogden, mas poderia ser deduzida desta passagem inicial sobre a contratransferência.

Marca-se uma diferença essencial entre Freud e as formulações posteriores

quanto

à

contratransferência.

Embora

não

haja

ainda

a

especificidade

quanto

à

interpretação, trata-se de uma posição de alerta frente aos afetos que surgem da relação

transferencial. Uma falha na identificação dos afetos contratransferenciais é motivo para

interrupção na análise – será que poderíamos sustentar que estes afetos em si poderiam

ser utilizados não só para compreensão, mas para a interpretação mesma do analisando?

Embora tenha sido uma menção breve à contratransferência, o conceito não

perde, por isso, sua precisão. Freud marca exatamente os pontos que configuram a

‘obstrução’ resultante da contratransferência. A ênfase recai sobre os complexos

29

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

internos e resistências do analista, ou seja, elementos inerentes à história e organização

pessoal do analista emergindo como efeito da influência do analisando. Trata-se da

imagem

do

analista

eminentemente

afetado

pela

subjetividade

de

seu

paciente,

vulnerável ao que lhe é atribuído de amor ou repulsa. O recurso é a autoanálise, a

possibilidade de um exame do profissional em identificar suas obstruções e a influência

de seus complexos na interpretação feita do relato do analisando. Por este aspecto

encontra-se toda a coerência na formulação original da contratransferência: se o analista

é permeado por afetos e se vale de certa medida de um exame de seus processos

internos para atuar, deve estar sempre atento para o componente inconsciente em jogo.

É uma abertura que gerará as formulações de Paula Heimann e outros autores

posteriores, mas permanece para Freud marcado pelo caráter de resistência inerente ao

próprio conceito de transferência. A fala é o primeiro plano, e se presta à descoberta da

verdade inconsciente. Os processos internos do analista devem ser ajustados ao máximo

para receber esta verdade, ao invés de interpretá-las a partir de seu desejo inconsciente

ou história pessoal.

Passemos ao próximo extrato, de “Observações sobre o amor transferencial”, de

1915:

“Para o médico, o fenômeno [o enamoramento do paciente pelo

médico] significa um esclarecimento valioso e uma advertência útil

contra qualquer tendência a uma contratransferência que pode estar

presente

em

sua

própria

mente.

Ele

deve

reconhecer

que

o

enamoramento da paciente é induzido pela situação analítica e não deve

ser atribuído aos encantos de sua própria pessoa; de maneira que não

tem nenhum motivo para orgulhar-se de tal ‘conquista’, como seria

30

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

chamada fora da análise. E é sempre bom lembrar-se disto. Para a

paciente,

contudo,

duas

alternativas:

abandonar

o

tratamento

psicanalítico ou aceitar enamorar-se de seu médico como um destino

inelutável.” (FREUD, 1915 / 1980)

Se anteriormente nos surgiu a possibilidade de ler a contratransferência como

uma resistência do analista movida por um desejo inconsciente próprio, percebemos sua

menção nesta formulação posterior de Freud. A contratransferência é descrita por Freud

como uma tendência perigosa e tentadora, algo o levando a tomar como verdadeiro o

amor substituto a si endereçado. A contratransferência poderia ser vista aqui como um

desejo de amor da parte do profissional. Este argumento encaixaria com a idéia da

transferência como desejo de amar do analisando, ao projetar no médico um amor por

outrem, usualmente não correspondido. Tal desejo de amor removeria o profissional de

seu lugar fundamental de neutralidade, como o próximo trecho nos mostrará. Tal

situação seria um erro analítico, uma vez que o analista deveria, por princípio, deixar-se

neutro e apto a receber as associações em sua multiplicidade, sem priorizar um elemento

em relação a outro (por exemplo, algo que confirme o amor desejado ou afaste um

empecilho a esta interpretação).

No

contexto

deste

momento

do

trabalho

de

Freud,

a

menção

da

contratransferência parece uma reiteração da opinião expressa no trecho apresentado

anteriormente.

O

autor

adverte

expressamente

contra

a

atribuição

de

qualquer

autenticidade aos afetos contratransferenciais. Novamente, a contratransferência aparece

com caráter de ameaça ao tratamento analítico. Se a transferência fosse como um ‘mal

necessário’, a sua contrapartida seria algo a ser controlado, uma ‘tendência’ nociva,

impedimento ao tratamento. Trata-se da contratransferência como ponto cego, ilusão

31

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

frente à possibilidade do amor do paciente. Ao analista, cabe o lugar da neutralidade

profissional, de renúncia a tomar uma representação transferencial equivocada como

verdadeira.

Há uma particularidade neste extrato que merece ser sublinhada. Freud marca,

como em outras ocasiões em sua obra, o caráter enganoso da transferência. O médico

não deve acreditar no amor que lhe é encaminhado. A menção à contratransferência

neste caso pode apontar a uma outra recomendação freudiana. O profissional deve

desconfiar também de seus próprios afetos em relação ao analisando, uma vez serem de

natureza similar aos transferenciais e decorrência destes. A contratransferência aparece

a todo momento vinculada ao engodo, a um erro do profissional em relação à postura a

ser assumida na condução do tratamento. Aqui, Freud nomeia exatamente o que pensa

ser a conseqüência da ‘falta’ contratransferencial: a interrupção possível da análise por

parte do paciente. Seu texto é claro em apontar a escolha necessária do paciente em

enamorar-se ou abandonar o processo.

A contratransferência carrega, então, esta face de estreitamento desde sua

primeira menção, e permanece como dificuldade até o final. De fato é um conceito que

não sofre transformações dentro da obra freudiana, e, por isso, podemos imaginar ser

este o motivo de sua ausência nos trabalhos posteriores. A definição é precisa e se

mantém idêntica e coerente ao longo de toda pesquisa. Retornando a Joel Birman, o

autor

descreve

na

obra

previamente

citada

o

nascimento

do

conceito

de

contratransferência na obra freudiana – assim como a delicadeza da posição analítica -

da seguinte maneira:

“Em 1910, o tema da contratransferência é formulado pela

primeira vez, indicando as ações que exerce sobre o inconsciente do

32

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

analista. Como esses efeitos fazem parte do campo transferencial, é

necessário que o analista os domine. (

)

A contrapartida é a demanda

de análise para o psicanalista. Para dominar suas próprias pulsões,

condição fundamental para receber a transferência dos analisandos e

manejá-la internamente, não lhe basta a razão, mas um domínio de

outra ordem sobre o seu funcionamento mental. (

)

O psicanalista tem

que fazer análise para conseguir realizar sua função analítica. (

)

Ninguém

detém

um

poder

onipotente

sobre

o

campo

do

inconsciente, que submete as figuras do analista e do analisando aos

seus mais delicados efeitos; por isso, para experimentar e dominar a

transferência é preciso ser capaz de manejar a contratransferência, coisa

que, em princípio, não está mais assegurada ao analista que aos

analisandos.” (BIRMAN, 1991. P. 189, 190 e 191)

Percebemos nesta leitura do texto freudiano a ênfase na autopercepção do

analista, ilustrada na idéia de domínio. Ao analista caberia uma consciência de si, que o

impede de seguir certos impulsos que devem ser contidos, no analisando e em si.

Poderíamos pensar na delicadeza da posição analítica: ao mesmo tempo em que goza de

um privilégio, de uma possibilidade de conduzir a sessão, a situação pode exercer

efeitos em seu inconsciente, que devem ser contidos. Trata-se de uma primeira

formulação possível da contratransferência, a visão freudiana por excelência. É a

contratransferência como resultado da transferência, que posiciona o analista em uma

posição essencialmente desigual junto ao analisando – para o primeiro não são

permitidas a associação livre ou a liberdade de agir como quiser.

33

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

Quando examinamos a terceira menção de Freud sobre a contratransferência,

percebemos que a ênfase recai novamente sobre a neutralidade analítica. Para o autor, a

contratransferência é um conceito essencialmente limitante, poderíamos até arriscar o

adjetivo superegóico. Na presença de uma reposta contratransferencial – pois se trata de

algo próprio à relação psicanalítica – o analista cala, mantendo sua posição neutra e

abstinente.

Aqui

se

encontra

amarrado

o

argumento

prévio

da

importância

da

autopercepção do analista. A neutralidade do analista não é natural, nem aparece como

algo fácil de ser sustentado. O trabalho analítico parece um balanço de sintonia fina, em

que a sensibilidade e atenção seriam moduladas a cada momento, no sentido de buscar o

equilíbrio entre a percepção dos processos internos e escuta do analisando. A escuta

parece dever ser neutra para captar as flutuações do discurso do analisando, inalteradas

pelas ênfases da escuta do profissional. Desta forma, o analista solicita o discurso mais

livre possível e deve ser capaz de lidar com ele de maneira honesta, acolhendo a

diferença e dificuldade de compreensão. Há, inclusive, no texto freudiano uma marca

que orienta o praticante da análise a responsabilizar-se por esta transferência evocada.

“Instigar a paciente a suprimir, renunciar ou sublimar seus

instintos, no momento em que ela admitiu sua transferência erótica,

seria, não uma maneira analítica de lidar com eles, mas uma maneira

insensata. Seria exatamente como se, após invocar um espírito dos

infernos, mediante astutos encantamentos, devêssemos mandá-lo de

volta para baixo, sem lhe haver feito uma única pergunta. Ter-se-ia

trazido o reprimido à consciência, apenas para reprimi-lo mais uma vez,

um

susto.

Não

devemos

iludir-nos

sobre

o

êxito

de

qualquer

procedimento desse tipo. Como sabemos, as paixões pouco são afetadas

34

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

por discursos sublimes. A paciente sentirá apenas humilhação e não

deixará de vingar-se por ela”. (FREUD, 1915 / 1980)

Neste ponto, a responsabilidade do profissional é sublinhada como elemento

essencial.

O

analista

é

chamado

a

responsabilizar-se

pelo

que

provoca

com

a

convocação dos afetos transferenciais. Caso não o faça, provoca efeitos negativos, uma

humilhação, no limite. Interessante marcar que, em momento algum, Freud deixa de

referir-se à transferência como algo distante de uma relação amorosa a ser manejada.

Transferência é amor – sobre isto, neste autor, não há duvida. E trata-se de um amor a

ser administrado, que apresenta riscos.

O autor dedica parte de seu texto a pensar nas possibilidades do analista aceitar

este amor como verdadeiro ou negociar com ele;

“Tampouco posso eu advogar um caminho intermediário, que a

certas

pessoas

se

recomendaria

como

especialmente

engenhoso.

Consistiria em declarar que se retribuem os amorosos sentimentos da

paciente, mas, ao mesmo tempo, em evitar qualquer complementação

física desta afeição, até que se possa orientar o relacionamento para

canais mais calmos e elevá-lo a um nível mais alto. Minha objeção a

este expediente é que o tratamento analítico se baseia na sinceridade, e

neste fato reside grande parte de seu efeito educativo e de seu valor

ético. É perigoso desviar-se deste fundamento. Todo aquele que se

tenha embebido na técnica analítica não mais será capaz de fazer uso

das

mentiras

e

fingimentos

que

um

médico

normalmente

acha

inevitáveis; e se, com a melhor das intenções, tentar fazê-lo, é muito

35

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

provável que se traia. Visto exigirmos estrita sinceridade de nossos

pacientes,

colocamos em

perigo

toda a

nossa

autoridade,

se

nos

deixarmos ser por eles apanhados num desvio da verdade. Além disso,

a experiência de se deixar levar um pouco por sentimentos ternos em

relação à paciente não é inteiramente sem perigo. Nosso controle sobre

nós mesmos não é tão completo que não possamos subitamente, um

dia, ir mais além do que havíamos pretendido. Em minha opinião,

portanto, não devemos abandonar a neutralidade para com a paciente,

que adquirimos por manter controlada a contratransferência.” (FREUD,

1915 / 1980)

Freud convida a refletir sobre o papel do analista frente os afetos dirigidos a si

pelo analisando. Como deve proceder frente ao amor atribuído a si? Uma escolha se

estabelece – aceitar o amor sem o corresponder ou ignorar tais emoções. O autor coloca

uma terceira opção a esta dialética, sugerindo que ao profissional não caberia entrar

neste conflito, pois a tensão inevitavelmente traria más conseqüências. Ignorar o amor

provoca

a

humilhação

e

sofrimento

do

paciente,

que

se

em

um

amor

não

correspondido e, desta forma, doloroso. Tal pólo levaria ao abandono do tratamento,

segundo argumentos anteriores de Freud. O outro pólo, fingir responder ao amor e

simultaneamente tentar amenizá-lo, seria considerado pouco moral. Visivelmente, o

analista mascarado se desfaz da sinceridade necessária para Freud à condição de

psicanalista. Importante perceber também a pontuação freudiana no sentido de mostrar a

fraqueza do profissional, sua inevitável humanidade. Fingir indiferença seria, de certa

maneira, uma mentira para si; o amor ‘sob controle’ pareceria ser um simulacro, uma

tática frágil e suscetível à consumação física (ou em fantasia) deste amor transferencial.

36

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

Desta maneira, a recomendação de Freud aos analistas – uma vez que se trata de

uma série de textos com este propósito – é a neutralidade. O analista não é imune aos

afetos dirigidos a si. Nem é um ator bom o suficiente para se afastar de seus próprios

sentimentos. É, enfim, humano e deve se lembrar como tal. O profissional deve procurar

estabelecer uma neutralidade a fim de minimizar os efeitos contratransferenciais, para

manter preservada sua capacidade de escuta e, assim,

limitar uma possível mistura

entre a fala do analisando e seu desejo pessoal de ser amado. É um analista sensível,

vulnerável ao sofrimento e paixões de seu paciente, direcionado por uma ética precisa,

voltada a tentar ao máximo proteger o analisando da falibilidade do profissional.

O trecho citado nos abre diversas questões. A primeira é que confirma a posição

do analista marcada por uma moral, tratada no texto como “ético”, especificamente para

definir uma dada conduta. A posição freudiana é inquestionável neste ponto: o analista

deve permanecer neutro – na medida em que é possível – aos afetos que o analisando

lhe dirige. Outra marcação possível é que a restrição promovida pela contratransferência

é essencial à manutenção da neutralidade analítica, tomada por Freud como essencial à

psicanálise. A neutralidade oposta a uma contratransferência mal elaborada: surge um

par que pode chamar a atenção. Podemos hipotetizar que a relação entre estes elementos

seria uma oposição, o que nos daria uma visão clara da contratransferência como

perturbação no analista, algo que seria adicionado indevidamente à neutralidade.

Retomaríamos aqui a visão da contratransferência como um excesso nocivo, não

desejado como resultado de uma ação.

Retornando à relação da contratransferência e a moral, surgem mais elementos

no texto que confirmam esta relação. A posição do autor é escorada em princípios

morais para defender a evidência da necessidade de uma neutralidade analítica. Freud

discorre sobre as diferentes formas de se lidar com os afetos transferências, e entre

37

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

ceder a estes afetos e abandonar o tratamento, defende a hipótese de um controle sobre o

amor emergente.

“Há, sem dúvida, um terceiro desfecho concebível [em relação

a dois anteriores em que a analisanda se apaixona pelo médico; no

primeiro se casam, no segundo, se separam e abandonam o tratamento]

que até mesmo parece compatível com a continuação do tratamento. É

que eles iniciam um relacionamento amoroso ilícito e que não se

destina a durar para sempre. Mas esse caminho é impossível por causa

da moralidade convencional e dos padrões profissionais”. (FREUD,

1915 / 1980 – grifo nosso)

O autor já inicia a reflexão sobre um relacionamento amoroso a partir da

impossibilidade, tomando como base para si a moralidade convencional e os padrões

profissionais.

Não

se

faz,

assim,

como

uma

opção

para

o

profissional

ceder

à

contratransferência. É ‘impossível’: o próprio termo marca a importância da baliza

moral na prática analítica, garantindo a neutralidade. Aliás, caso o profissional ousasse

este disparate, ainda assim, seria fadado ao fracasso. Ou seja, o analista freudiano não

conta com a possibilidade de ceder a este amor. Proibido pela moralidade e pela esfera

profissional, só lhe resta a conduta correta. Freud parece confirmar esta hipótese ao

reforçar a necessidade de renúncia. Afinal, o que significariam estes padrões de

moralidade?

“Ser-me-ia fácil enfatizar os padrões universalmente aceitos de

moralidade

e

insistir

que

o

analista

38

nunca

deve,

em

quaisquer

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

circunstâncias aceitar ou retribuir os ternos sentimentos que lhe são

oferecidos; que, ao invés disso, deve ponderar que chegou sua vez de

apresentar à mulher que o ama as exigências da moralidade social e a

necessidade de renúncia, conseguir fazê-las abandonar seus desejos e,

havendo dominado o lado animal de seu eu (self), prosseguir com o

trabalho da análise”. (FREUD, 1915 / 1980)

Aqui, aparece um elemento central – para renunciar a este amor, Freud postula

uma renúncia do analista ao seu lado animal, a fim de prosseguir com o trabalho de

análise. A moral freudiana implica em uma renúncia, assim como a neutralidade

analítica. Embora fosse interessante nos conduzirmos por este caminho da relação entre

contratransferência e moral, basta estabelecer esta marca no texto. Retornando à relação

entre a contratransferência e a neutralidade analítica – ponto de suma importância para o

autor – encontramos algo específico no texto em questão.

“Nosso controle sobre nós mesmos não é tão completo que não

possamos

subitamente,

um

dia,

ir

mais

além

do

que

havíamos

pretendido. Em minha opinião, portanto, não devemos abandonar a

neutralidade

para

com

a

paciente,

que

adquirimos

por

manter

controlada a contratransferência”. (FREUD, 1915 / 1980)

O nó que amarra a neutralidade analítica passa inevitavelmente pelo domínio da

contratransferência. A justificativa permanece vinculada à impossibilidade de controle

deste amor por parte do analista, recaindo em uma conduta moral. A neutralidade é

definida como a possibilidade de controle constante dos afetos contratransferenciais.

39

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

Para

Freud,

falar

em

contratransferência

esbarra

inevitavelmente

na

questão

da

moralidade. Não surge aqui com a ênfase no erro (Lacan) ou da compreensão

(Heimann); para Freud, a maré contratransferencial arrastaria o analista inexperiente à

sedução e, consequentemente, à imoralidade e rompimento dos padrões profissionais de

conduta. É uma regra a ser seguida – não amarás tua paciente (desde que, curiosamente,

não aceites casar com ela). É um olhar na afetividade freudiana – nos caminhos da

descoberta da psicanálise, seu autor principal se propõe a estabelecer, a frisar a sanção

do não-envolvimento amoroso entre médico e paciente. Em momento algum surge

sequer

a

possibilidade

de

um

enlace

entre

pessoas

do

mesmo

sexo,

ou

da

contratransferência como experiência de repulsa. Ao contrário, alude a uma cena clara e

específica, em que o profissional-médico recusa o amor da paciente, amor valioso, em

nome de um princípio de tratá-la.

O apelo à moralidade surge repetidamente no texto, sentenciando um final

prematuro de tratamento. Trata-se de um analista que paga por ceder à tentação do amor

com sua destituição da posição de analista. A neutralidade analítica, central para o

tratamento, é mantida pelo controle da contratransferência: repressão. Renúncia a um

caminho que, em suas palavras, seria impossível de sustentar em um tratamento.

Contratransferência, neutralidade e moral. Há uma coerência essencial nas

formulações freudianas sobre os afetos experimentados pelo analista. Partamos para o

estudo de outros autores a este respeito.

40

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

PAULA HEIMANN

Nascida em 1889, a polonesa Paula Heimann exerceu sua influência na história

do movimento psicanalítico. Ingressou na Sociedade Psicanalítica de Berlin em 1928,

quando foi encaminhada para realizar sua análise didática com Theodore Reik. Muda-se

para Londres em 1933, fugindo do regime nazista, onde passa a ter bastante contato com

Melanie Klein, que se torna sua analista. No ano de 1949 é apresentado no Congresso

Internacional

de

Psicanálise

de

Zurique

seu

trabalho

intitulado

“On

Countertransference”, publicado em 1950. Este foi lançado à revelia de Melanie Klein,

e provocou conseqüências drásticas para sua autora, afastando-a permanentemente de

sua analista (OLIVEIRA, 1994. P. 98).

O trabalho não é o primeiro a propor uma nova formulação sobre a posição

freudiana em relação à contratransferência. Sandor Ferenczi já propunha uma nova

concepção do manejo da contratransferência, à qual Freud recusou. Além dos trabalhos

de Ferenczi, o polonês Heinrich Racker escrevera um trabalho propondo o uso possível

dos afetos contratransferenciais alguns anos antes (RACKER, 1948 / 1982).

Embora Racker tenha apresentado seu trabalho dois anos antes da fala de Paula

Heimann no Congresso de Zurique, não há evidência de conflito entre os autores.

Inclusive as formulações foram praticamente simultâneas, por mais que um autor não

tivesse contato direto com o trabalho do outro. Podemos afirmá-lo com base no texto de

R. Horácio Etchegoyen, bastante próximo de Racker então. Segundo Etchegoyen,

Racker

via

com

interesse

as

publicações

de

Heimann.

Embora

as

considerasse

semelhantes às suas, reconhecia a autonomia das duas posições (ETCHEGOYEN, 1987. P.

146).

41

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

Para Heinrich Racker, a contratransferência poderia ser utilizada pelo analista

como instrumento de compreensão – de uma maneira bastante específica. O autor

descreve os processos de identificação ocorridos no ego do analista a ‘certas partes do

ego do paciente’, e acrescenta sua visão da forma pela qual tais afetos tornam-se

evidências para a compreensão do profissional.

“Como

primeira

questão

-

notadamente,

a

influência

da

contratransferência sobre a compreensão do analista - devemos lembrar

sobretudo quais processos dão base a esta compreensão. H. Deutsch

(1926) diferencia dois componentes: (a) a identificação do analista a

certas partes do ego do paciente (i.e. os impulsos e defesas) e (b) a

“atitude complementar” ou a identificação com as imagens do paciente

(de acordo com as fantasias da transferência). Logo, se o analista reage,

por exemplo, com ressentimento oral à avareza de uma paciente, isto

não o previne de identificar-se intelectualmente com os mecanismos de

defesa e imagens objetais desta, e é capaz de compreender que ela é

avarenta pois, para si, o analista é um ladrão (no caso, sua mãe voraz).

Isso previne o analista de fazê-lo emocionalmente, pois para seus

sentimentos, é a analisanda que tem tais significados. Desta forma, a

contratransferência é instrumental ao trazer à sua atenção um fato

psicológico sobre o paciente, pois sua experiência de frustração e seu

insinuante ódio o tornam alerta da avareza da paciente 3 . Não obstante,

sua reação interna é neurótica; ele não é prevenido da compreensão,

mas de reagir de maneira compreensiva (reacting understandingly). O

3 Neste ponto, o autor inclui uma nota posterior (1953), afirmando que “é principalmente com este

aspecto (

)

que Heimann lida em seu artigo ‘On Countertransference’”, de 1950.

42

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

segundo será possível a si quando tiver analisado e sobrepujado sua

situação e for capaz de identificar-se emocionalmente com o ego do

paciente.”(RACKER, 1948 /1982. P. 124)”.

Podemos

identificar,

na

formulação

de

Racker,

dois

tipos

distintos

de

contratransferência. A maneira pela qual o analista as formula – e conseqüentemente

como podem ser utilizadas - é descrita por Etchegoyen de maneira precisa:

“Preocupado pela sua fenomenologia e pelos seus dinamismos,

Racker classificou a contratransferência em vários tipos. Assim, em

primeiro lugar, distinguiu duas classes de contratransferência, segundo

a

forma

de

identificação.

Na

contratransferência

concordante,

o

analista identifica seu ego com o ego do analisado e o mesmo em

relação às outras partes da personalidade, id e superego. Em outros

casos, o ego do analista se identifica com os objetos internos do

analisado,

e

a

esse

tipo

de

fenômeno

Racker

chama

de

contratransferência complementar, seguindo a nomenclatura de Helen

Deutsch (1926) para as identificações.” (ETCHEGOYEN, 1987. P. 149).

Racker especifica dois modos de constituição da contratransferência no analista,

segundo a leitura de Etchegoyen. Ou seja, enquanto Heimann especifica um uso efetivo

para a contratransferência, Racker, por sua vez, busca identificar o meio pelo qual o

analista compreende algo sobre o inconsciente do analisando. Para este autor, o

mecanismo

essencial

seria

o

da

identificação inconsciente.

Isso

não

se

sem

conseqüências – para Racker, a contratransferência mantém o elemento de resistência,

43

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

como podemos inferir pela ênfase deste no estudo da contratransferência neurótica.

Embora formule de maneira inédita o uso do conceito para compreensão, conserva a

posição freudiana da advertência frente a este. Em um novo artigo, o autor retorna ao

tema e discute a partir da leitura do texto de Paula Heimann, concordando com suas

proposições.

“Em

outro

artigo

descrevi

o

uso

de

experiências

contratransferenciais para a compreensão de problemas psicológicos,

especialmente

problemas

transferenciais

do

pontos

principais

concordei

com

Heimann

analisando.

(1950),

e

Em

meus

enfatizei

as

seguintes

sugestões.

(1)

Reações

contratransferenciais

de

grande

intensidade,

mesmo

as

patológicas,

devem

também

servir

de

ferramentas. (2) A contratransferência é a expressão da identificação do

analista aos objetos internos do analisando, assim como o seu id e ego,

e pode ser utilizado como tal. (3) Reações contratransferenciais têm

características

específicas

(conteúdos

específicos,

ansiedades

e

mecanismos) dos quais podemos extrair conclusões sobre o caráter

específico dos acontecimentos psicológicos no paciente”. (RACKER,

1953 /1982. P. 129)

É possível perceber a concordância de ambos, e Racker enfatiza o risco e propõe

o uso destes afetos, momento em que se aproxima de Paula Heimann. Embora as duas

proposições tenham sido semelhantes e praticamente simultâneas, cabe à polonesa a

repercussão transformadora sobre o conceito na comunidade analítica. Seu texto de

1949 inicia o trabalho de inúmeros autores em relação à contratransferência. Toda

44

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

formulação posterior sobre a intersubjetividade e o uso da empatia analítica podem ser

interpretados a partir da influência de Heimann. Não por coincidência, esta teria feito

sua análise didática com Theodore Reik, analista e autor conhecido por seu trabalho

intitulado “Listening with the thrid ear”, hipotetizando o papel essencial da intuição do

analista durante a condução da análise. Reik inaugura a noção de que em uma sessão

analítica

haveria

um

"terceiro

ouvido",

interagindo

na

escuta

graças

à

atenção

equiflutuante

do

analista.

Por meio

desse

"terceiro

ouvido"

o

analista

receberia

mensagens em seu inconsciente enviadas pelo analisando.

"O analista ouve não apenas o que está nas palavras; ele ouve

também o que as palavras não dizem. Ouve com o ‘terceiro ouvido’,

ouvindo não só o que o paciente fala mas também suas próprias vozes

interiores,

aquilo

que

emerge

das

profundezas

de

seu

próprio

inconsciente. É mais importante [para o analista] reconhecer o que a

fala oculta e o que o silêncio revela." (REIK, 1948 P. 125-126)

O inconsciente funcionaria, para Reik, como um receptor de mensagens do

inconsciente do analisando – posição defendida posteriormente por Heimann em seu

texto. Avançando em seu texto, é possível encontrar uma descrição do que seria um

mecanismo pela qual se daria esta compreensão:

"O que é essencial no processo psicológico que ocorre no

analista é (

)

que ele pode vibrar inconscientemente no ritmo do

impulso da outra pessoa e ainda ser capaz de entender isso como algo

fora dele mesmo e de compreendê-lo psicologicamente, compartilhar a

45

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

experiência do outro e ainda assim permanecer afastado." (REIK, 1948

P. 468).

O

conceito central em jogo

é

o inconsciente

como

receptor.

Um ponto

interessante a ser percebido é a fina distinção feita por Reik em relação aos pensamentos

do profissional. Este atua a partir de uma distinção entre pensamentos seus, no sentido

de interpretar conteúdos advindos de uma comunicação entre inconscientes. Não se trata

– embora não especificado no trecho acima - de uma fala esporádica ou desorientada. O

processo descrito é de uma sintonia fina entre ambas as partes da sessão analítica,

‘permanecendo afastado’ e, ao mesmo tempo, próximo e compreensivo. Mesmo tendo

sido mencionado por Freud anteriormente, em 1912,

“[O analista] deve voltar seu próprio inconsciente, como um

órgão receptor, na direção do inconsciente transmissor do paciente.

Deve ajustar-se ao paciente como um receptor telefônico se ajusta ao

microfone transmissor.” (FREUD, 1912 / 1980)

abre-se na obra de Reik, uma via para a compreensão da posição do analista,

ampliando a escuta. Cabe notar a sutileza da definição freudiana – este não especifica

uma função receptiva do inconsciente. Trata-se de algo que tende à metáfora, uma vez

não ter sido tratado com mais detalhe em momento posterior algum. A abertura do

analista às associações do analisando é recorrente em sua obra, embora o inconsciente-

receptor não receba menção ulterior. A metáfora do telefone abre uma via para

pesquisa, a ser percorrida inicialmente por Reik e, um ano depois, reformulada por

Paula Heimann. Na própria obra freudiana, para aprofundarmos o tema, há esta idéia da

46

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

análise como uma abertura na compreensão do analista. Freud concebe o processo

analítico

como

algo

que

experimentados na sessão.

permite

o

praticante

distinguir

conteúdos

seus

aos

“Mas se o médico quiser estar em posição de utilizar seu

inconsciente

desse modo, como instrumento

da análise, deve ele

próprio preencher determinada condução psicológica em alto grau. Ele

não pode tolerar quaisquer resistências em si próprio que ocultem de

sua

consciência

o

que

foi

percebido

pelo

inconsciente;

de

outra

maneira, introduziria na análise nova espécie de seleção e deformação

que seria muito mais prejudicial que a resultante da concentração da

atenção consciente. Não basta para isto que ele próprio seja uma pessoa

aproximadamente normal. Deve-se insistir, antes, que tenha passado

por uma purificação psicanalítica e ficado ciente daqueles complexos

seus que poderiam interferir na compreensão do que o paciente lhe diz.

Não pode haver dúvida sobre o efeito desqualificante de tais defeitos

no médico; toda repressão não solucionada nele constitui o que foi

apropriadamente descrito por Stekel como um ‘ponto cego’ em sua

percepção analítica.” (FREUD, 1912 / 1980)

Desta forma, percebemos a base freudiana do inconsciente receptor. Embora não

tenha aprofundado esta idéia, abria-se uma via. Paula Heimann parte desta possibilidade

a

partir

da

noção

contratransferencial.

A

autora

se

vale

do

conceito

de

contratransferência para situar tal abertura inconsciente no analista, e teorizar um meio

com o qual o profissional compreenda os conteúdos não ditos do seu paciente.

47

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

Em seu artigo de 1949, Paula Heimann desenvolve a tese da contratransferência

como percepção do analista de elementos inconscientes do analisando, recuperando

neste conceito o papel da escuta inconsciente no profissional. Partindo da formulação

original de Freud sobre os afetos do analista, a autora aborda as possibilidades que

extrai da obra freudiana para chegar a um inconsciente receptor, semelhante ao descrito

na conhecida metáfora do telefone.

Paula Heimann inicialmente define a contratransferência:

“Para

os

objetivos

desse

artigo,

estou

usando

o

termo

‘contratransferência’ para cobrir todos os sentimentos que o analista

experimenta em relação a seu paciente”. (HEIMANN, 1949 /1989. P. 74)

Trata-se de uma leitura do texto freudiano, que define a contratransferência a

partir de uma posição hipotética. Embora Freud não tenha especificado a natureza dos

afetos contratransferenciais senão por uma orientação de conduta – ao analista caberia

enviar seus afetos em relação ao analisando à sua análise – poderíamos extrair de seu

texto uma noção semelhante à encontrada por Heimann. A autora interpreta a obra

freudiana, e define tais sentimentos como o resultado no analista dos afetos do

analisando, sem abordar inicialmente os aspectos referentes ao comportamento do

analista frente aos mesmos.

Embora defina o conceito a partir do que é experimentado pelo profissional,

Heimann questiona a leitura da contratransferência como uma transferência no analista.

Podemos perceber a proposta de Lacan discordante neste ponto. Se o psicanalista

francês aponta em seu texto de 1951 a contratransferência especificamente como a

48

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

transferência no analista (LACAN, 1951 / 1989), Heimann pede uma atenção adicional

ao prefixo ‘contra’:

"Pode-se argumentar que esse uso do termo não é correto, e que

contratransferência significa simplesmente a transferência por parte do

analista. No entanto, sugeriria que o prefixo 'contra' implica em fatores

adicionais.” (HEIMANN, 1949 /1989. P.74)

A diferença concebida por Heimann e presente neste prefixo diz respeito à

atuação do analista – o que efetivamente faz com os afetos contratransferenciais. Esta

especificidade do texto da autora abre o papel do profissional, no sentido de se valer de

elementos até então suprimidos durante a sessão.

Podemos, no entanto, apontar os pontos de aproximação entre os profissionais.

O primeiro elemento a ser destacado, é em relação à interpretação. Haveria algo em

comum nos textos de Freud e Heimann? Para ambos os autores, a interpretação

funcionaria como uma fala reflexiva, especular, em que os conteúdos ditos são

reencaminhados ao sujeito da enunciação. Em outros termos, a resposta buscada pelo

analisando encontra-se em sua fala, obscurecida por ênfases do cotidiano ou fórmulas

do senso comum. Freud o trabalha a partir de sua metáfora do espelho, em que propõe

ao profissional uma devolução de aspectos do analisando, ausente de contribuições de

sua vida pessoal.

“O médico deve ser opaco aos seus pacientes e, como um

espelho, não lhes mostrar nada, exceto o que lhe é mostrado.” (FREUD,

1912 / 1980)

49

A Contratransferência a Partir de Freud – Francisco Rodrigues Alves de Moura

Para Freud, a situação é clara. Ao analista não cabe senão mostrar o que lhe é

mostrado. Não há acréscimo por parte do profissional de elementos de sua experiência,

opiniões ou julgamentos adicionais. Suas emoções e opiniões permanecem confinadas

em seus pensamentos – a interpretação deve ser pontual e simples, respeitando as

barreiras colocadas pelo inconsciente. Poderíamos arriscar-nos a dizer que Freud

respeita a sanção do inconsciente; se há motivo para a repressão, não caberia ao analista

antecipar o tempo de compreensão necessário ao cliente. Caso surja no profissional a

urgência em comunicar aspectos de si durante a sessão, poderia se tornar uma ameaça

ao processo, um retardo. Nas palavras do próprio autor:

“Poder-se-ia esperar que seria inteiramente permissível e, na

verdade,

útil,

com

vistas

a

superar

as

resistências

do

paciente,

conceder-lhe o médico um vislumbre de seus próprios defeitos e

conflitos mentais e, fornecendo-lhe informações íntimas sobre sua

própria vida, capacitá-lo a pôr-se ele próprio, paciente, em pé de

igualdade. (

)

Mas esta técnica não consegue nada no sentido de

revelar o que é inconsciente ao paciente. Torna-o ainda mais incapaz de

superar suas resistências mais profundas e, em casos mais graves,

invariavelmente fracassa, por incentivar o paciente a ser insaciável: ele