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O que é o ciúme?

Se há ciúme, não há amor.

Osho,
Sempre que você fala de nossos defeitos e fraquezas,
geralmente menciona a raiva, o sexo, o ciúme. A raiva e
o sexo parecem bastante claros e diretos, mas há
alguma confusão sobre o que é exatamente o ciúme, e é
mais dificil chegar à raiz disso. Poderia nos falar sobre o
ciúme ?

Sim, falo mais sobre raiva e sexo, e menos sobre o ciúme, pois
este não é uma coisa primária. é secundário. O ciúme é uma
parte secundária do sexo. Sempre que você tem um desejo
sexual em sua mente, uma manifestação sexual em seu ser,
ou se sente sexualmente atraído por alguém, o ciúme entra
em cena porque você não está amando. Se você ama, o ciúme
não aparece.

Tente entender a coisa toda. Sempre que você está ligado


sexualmente, fica com medo, pois, na verdade, o sexo não é
um relacionamento, e, sim, uma exploração, uma utilização.

Se você está apegado a uma mulher ou a um homem


sexualmente, fica sempre com medo de que essa pessoa
possa ir embora com outra. Não há um relacionamento real.

É apenas uma exploração mútua. Vocês estão explorando um


ao outro, mas não amam, e vocês sabem disso, por isso têm
medo.

Esse medo torna-se ciúme, e você começa a não permitir


certas coisas. Começa a vigiar. Toma todas as medidas de
segurança para que o homem não possa olhar para outra
mulher. Só o olhar já é um sinal de perigo. O homem não deve
falar com outra mulher, pois falar... E você sente medo de que
ele possa ir embora.
Então, você fecha todos os caminhos, todas as possibilidades
de o homem ir com outra mulher, ou de a mulher ir com outro
homem. Você fecha todos os caminhos, todas as portas.
Mas aí surge um problema. Quando todas as portas são
fechadas, o homem torna- se morto, a mulher torna- se
morta, ambos tornam- se prisioneiros, escravos, e não se
pode amar algo morto. Você não pode amar alguém que não é
livre, pois o amor só é belo quando é dado livremente,
voluntariamente, quando não é tomado, pedido, forçado.

Primeiro você toma medidas de segurança. Então a pessoa


torna-se morta, como um objeto. Um amado ou amada podem
ser pessoas, mas a esposa ou o marido tornam-se objetos
para serem vigiados, possuídos, controlados. E quanto mais
você controla, mais está aniquilando, pois a liberdade é
perdida. E a outra pessoa pode ficar ali por outras razões, mas
não por amor, pois como você pode amar alguém que o
possui?
Você sente que essa pessoa é um inimigo. O sexo cria o
ciúme, que é secundário. Portanto, a questão não é como
eliminar o ciúme. Você não pode eliminá-lo, pois não pode
eliminar o sexo. A questão é como transformar o sexo em
amor. Então, o ciúme desaparece.

Se você ama uma pessoa, o próprio amor é garantia e


segurança suficiente. Se você ama uma pessoa, sabe que ela
não pode ir com mais ninguém. E se ela for, foi. Nada pode ser
feito. O que você pode fazer? Pode matar a pessoa... mas uma
pessoa morta não serve para muita coisa. Quando você ama
alguém, confia que ele não vai embora com ninguém. Se ele
vai, é porque não há mais amor, e nada pode ser feito. O amor
traz essa compreensão. Não há ciúme. Portanto, se há ciúme,
saiba que não há amor. Você está fazendo um jogo; está
escondendo o sexo atrás do amor. O amor é apenas uma
fachada; a realidade é o sexo.

Na Índia, como o amor não é permitido absolutamente, os


casamentos são arranjados e existe um tremendo ciúme. O
marido e a esposa nunca se amam, estão sempre com medo,
e sabem que tudo é um acordo, um arranjo. Eles foram
arranjados pelos pais, pelos astrólogos, eles foram arranjados
pela sociedade. A esposa e o marido nunca foram consultados.
Em muitos casos, eles nem se conhecem, nunca se viram.
Então existe medo. A esposa tem medo, o marido tem medo,
e ambos ficam se espionando. Qualquer possibilidade de amor
é perdida. Como o amor pode crescer no medo? O casal pode
viver junto, mas isso não é realmente viver junto. Os dois
apenas se toleram juntos, tentam levar a vida juntos, de
alguma forma.

É algo utilitário. E, a partir daí, pode-se dar um jeito nas


coisas, mas o êxtase não é possível. Você não pode celebrar e
festejar. O casamento torna-se um peso a ser carregado.
Assim, o marido está morto antes de morrer, e a mulher está
morta antes de morrer . São duas pessoas mortas, vingando-
se uma da outra, pois cada uma pensa que a outra a matou.

Vingança, ódio, ciúme - e tudo torna-se muito feio. No


Ocidente, um tipo diferente de fenômeno está acontecendo,
mas que, no fundo, é o mesmo que no Oriente, só que no
outro extremo. O casamento arranjado foi eliminado, e isso é
bom. Não é uma instituição que valha a pena conservar. Mas
ao eliminá-la, o amor não surgiu. Apenas o sexo tornou-se
livre. E quando o sexo é livre, você está sempre com mêdo,
pois é um arranjo temporário.

Você está com uma mulher hoje. Amanhã ela pode estar com
outra pessoa, e ontem estava com outra, ainda. Apenas esta
noite ela está com você. Como esse relacionamento pode ser
íntimo e profundo?

Pode ser apenas um encontro de superfícies. Não se pode


penetrar um no outro, pois isso requer amadurecimento,
requer tempo. Requer profundidade, intimidade, um viver
junto, um estar junto. Um longo tempo é necessário. Então as
profundezas de cada um se abrem, e podem dialogar...

Mas o que acontece normalmente é apenas um conhecimento


superficial. No Ocidente, você pode encontrar uma mulher no
trem, fazer amor, e deixá-la em qualquer estação. Ela não se
importa, pode não vê-lo nunca mais, pode nem saber o seu
nome.

Se o sexo torna-se uma coisa tão trivial, apenas um assunto


do corpo, onde superfícies se encontram e se separam, sua
profundeza permanece intocada. E você está perdendo algo -
algo importante e muito misterioso - pois você toma
consciência de sua própria profundeza apenas quando alguém
a toca.

Somente através do outro você se torna consciente do seu ser


interior. Apenas num relacionamento profundo o amor de
alguém ressoa em você, e dá vida à sua profundeza. Somente
através do outro você descobre a si mesmo. Existem dois
meios de se descobrir: um é a meditação - sem ninguém, você
busca suas profundezas. O outro é o amor - com alguém, você
busca suas profundezas. A outra pessoa se torna a raiz, a
causa para você penetrar em si mesmo. O outro cria um
círculo. E os dois amantes ajudam um ao outro. Quanto mais
profundo o amor, mais os amantes se sentem profundos. Seus
seres interiores se revelam. Desse modo não há ciúmes. O
amor não pode ser ciumento. É impossível. O amor é sempre
confiante. E se algo acontece que vem quebrar sua confiança,
você tem de aceitar.

Nada pode ser feito a esse respeito, pois qualquer coisa que
você faça irá destruir o outro. E alguém que realmente ama o
outro, é incapaz de destruí-lo. A confiança não pode ser
forçada. O ciúme tenta frçá-la. O ciúme tenta obrigar você a
fazer todo o esforço para que a confiança seja mantida. Mas a
confiança não é algo para ser mantido. Ela existe ou não
existe. E eu digo que nada pode ser feito a esse respeito. Se
existe, você pode ir adiante; se não existe, é melhor separar-
se da outra pessoa. Não lute, pois estará perdendo o seu
tempo, a sua vida. Se você ama alguém, e há um encontro
profundo dos dois seres, isso é bom e belo. Mas se esse
encontro não está acontecendo, separem- se. E não crie
nenhum conflito ou luta por causa disso, pois nada será
conseguido através de luta, e seu tempo será perdido, e sua
capacidade de amar prejudicada. Você poderá repetir tudo de
novo com outra pessoa. Se não há confiança, separem-se. E
quanto mais cedo, melhor. Para que você não se destrua, não
se prejudique. E sua capacidade de amar permaneça viva e
fresca, e você possa amar outra pessoa.

Se esse não é o momento, se esse homem ou essa mulher não


serve para você, separem-se, mas não se destruam
mutuamente. A vida é muito curta e as possibilidades são
muito precárias. Podem ser destruídas. E, uma vez
danificadas, não há como repará-las. No que diz respeito ao
amor, tanto ainda tem de ser feito por todos e tão pouco
tempo resta para fazê-lo. Não desperdice sua energia com
lutas, ciúmes, conflitos. Separe-se, e faça isso de uma forma
amigável.

Procure em outro lugar, procure uma pessoa que irá amar


você. Não fique preso à pessoa errada, que não lhe serve. Não
fique com raiva. Isso não adianta nada. E não tente forçar
uma confiança. Ninguém pode forçá-la; isso nunca acontece.
Você perderá tempo e energia e talvez acorde quando nada
mais puder ser feito. Separe-se. Ou confie, ou vá embora. O
amor sempre confia. E se ele acha que a confiança não é mais
possível, ele simplesmente vai embora de uma forma
amigável. Não há conflito nem luta. O sexo cria o ciúme.
Encontre, descubra o amor. Não faça do sexo a coisa básica.
Ele não é a coisa básica. A Índia perdeu muito com os
casamentos arranjados.

O Ocidente está perdendo com o amor livre. A Índia perdeu o


amor, porque os pais eram muito calculistas e interesseiros.
Não permitiam que seus filhos se apaixonassem. Isso é
perigoso; ninguém sabe aonde pode levar.... Eles eram muito
astutos e, por causa da astúcia, a India perdeu toda a
possibilidade de amor. No Ocidente, eles são muito rebeldes,
muito jovens; não são astutos e, sim, infantis. Fizeram do
sexo algo gratuito, disponível em qualquer lugar: Não há
necessidade de ir fundo para descobrir o amor; goze o sexo e
fique por aí mesmo. Por causa do sexo, o Ocidente está
perdendo. Por causa do casamento interesseiro, o Oriente
perdeu. Mas, se você está alerta, não precisa ser oriental, nem
ocidental. O amor não é oriental, nem ocidental. Tente
descobrir o amor dentro de você.

O amor é um estado de ser. Seja amoroso. Torne-se amoroso.


E se você amar, mais cedo ou mais tarde aparecerá uma
pessoa para você, pois um coração amoroso acaba
encontrando outro coração amoroso. Isso sempre acontece.
Você encontrará a pessoa certa. Mas se você for ciumento, não
encontrará; se você só quer sexo, não encontrará; se quer
apenas segurança, não encontrará.

O tornar-se amoroso é um caminho perigoso... e só os que


têm preparo e coragem podem trilhá-lo. E eu digo o mesmo
para o caminho da meditação - ele é só para os corajosos. E
há apenas dois caminhos para se chegar ao Divino: meditação
e amor. Descubra qual é o seu caminho, qual pode ser o seu
destino.

Osho, Roots and Wings


Raízes e Asas

Tradução: Sw. Anand Goloka

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