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IGREJA LUTERANA

(ISSN 0103-779X)

CONSELHO EDITORIAL:

Acir Raymann, editor Elmer N. Flor Gerhard Grasel Vilson Scholz

DIRETOR GERAL: Hans Horsch

ASSISTÊNCIA ADMINISTRATIVA: Cláudio Kaminski

EXPEDIÇÃO: Zely S. Steyer

PROFESSORES: Acir Raymann, Christiano J. Steyer, Elmer N. Flor Gerhard Grasel, Hans Horsch, Paulo M. Nerbas, Vilson Scholz, Walter O. Steyer e Norberto E. Heine(CAAPP)

IGREJA LUTERANA:(ISSN 0103-779X) é uma revista semestral de teologia publicada em Junho e Novembro pela Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul.

IGREJA LUTERANA está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Americana. Os originais dos artigos, publicados ou não, não serão devolvidos.

Aceita-se permuta com revistas congéneres.

Toda correspondência deve ser enviada ao seguinte endereço:

Revista IGREJA LUTERANA Seminário Concórdia Caixa Postal, 202 93001-970 - São Leopoldo, RS

VOLUME 53

EDITORIAIS

IGREJA LUTERANA

JUNH01994

ÍNDICE

Número 1

Nota do editor

2

ARTIGOS

A

Leitura do Tempo: Desafios para a Igreja Brasileira num Contexto

Secularizado

Gerhard

3

Elementos de Comunicação no Aconselhamento Pastoral

Dieter J. Jagnow

34

O

Domínio da Língua e a Aptidão para Ensinar

Arnaldo Schúler

46

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

62

DEVOÇÕES

133

LIVROS

141

EDITORIAIS

Nota do editor:

Ninguém vive sem parâmetros. Uma sociedade sem parâmetros des- governa-se ética, social e politicamente. A família precisa de parâmetros. A Igreja não subsiste sem parâmetros. O Santo Ministério, por definição e princípio, depende de parâmetros revelados na Escritura Sagrada. Espe- Ihar-se neles é ter o sucesso que a Escritura promete. E apriorístico que tais parâmetros são indeléveis porque objetivos, e sinalizados pela norma normans. Os artigos deste número de Igreja Luterana não se propõem a ser entendidos como parâmetros. São antes reflexões sérias - nem por isso menos fraternais - que visam a uma consciência e sedimentação de um ministério cada vez mais excelente e mais próximo dos parâmetros bíbli- cos. Em seu artigo sobre "A leitura do tempo: desafios para a Igreja brasileira num contexto secularizado", o Prof. Gerhard Grasel chama a atenção para a precisão que tem a Igreja de conscientizar-se "da importân- cia de não somente ler as Escrituras como também ser sensível às necessidades e dores de seu tempo". Rev. Dieter Jagnow compartilha sua pesquisa e experiência na área da poimênica ao falar sobre "Elementos da comunicação no Aconselhamento Pastoral". Fundamenta sua exposição nos pressupostos de que princípios de comunicação estão presentes no aconselhamento pastoral; o pastor é um comunicador; os resultados do processo dialógico são sentidos na dinâmica do aconselhamento. Por fim, em "O Domínio da Língua e Aptidão para Ensinar", o Dr. Arnaldo Schúler aborda o que seja talvez o cerne de manifestos, a maioria silenciosos, na igreja: carência de linguagem clara e condigna no púlpito. Sua análise questiona a honestidade profissional do pastor cujo "sermão sofrido pelo

é um dos fatores principais da

avitaminose espiritual do cristianismo tépido e engatinhante de muitos frequentadores de cultos". São três artigos estimulantes e provocativos com ênfases diferen- ciadas mas o comum objetivo de enaltecer parâmetros e sugerir alternati- vas para a Igreja e seu ministério numa sociedade cultural, ética e religiosamente plural.

auditório em vez de o ser pelo pregador

Uma abençoada leitura e até o Advento, se Deus quiser. - AR

Correção: em nossa última edição (Nov. 1993, p. 153) publicamos que o Dr. Otto A. GoerI foi diretor do Seminário Concórdia de 1950-1961. Ocorre que a lei brasileira de 1940 proibia a estrangeiros a função de diretor de escolas de qualquer nível. Visto que o Dr. GoerI nasceu no Brasil, ele foi chamado em 1940 para ser diretor do Seminário, exercendo a função em 1940-1953,1956-1961 e 1963-1965, totalizando 22 anos. Além disso Dr. GoerI lecionou no Seminário por 38 anos, de 1940-1978.

ARTIGOS

A LEITURA DO TEMPO:

Desafios para a Igreja Brasileira num Contexto Secularizado

Gerhard Grasel

INTRODUÇÃO

Sofri com essa tarefa, e ainda continuo sofrendo, pois tenho muito a repartir com vocês em um espaço de tempo tão limitado e curto. Tenho consciência em parte dos riscos que existem nessa apresentação, pois abordo temas polémicos, complexos que necessitariam de uma fundamen- tação mais sólida.*

O tema é provocante e desafiador. Ele mexe com muita coisa sobre nossa maneira de ser. Os vírus e gérmens que forem espalhados hoje durante esse momento de reflexão visam fortalecer nosso sistema imu- nológico. A Igreja Cristã esteve mais viva quando experimentou o confronto de ideias, quando teve que lutar pela verdade para não perder identidade e a própria verdade.

Rev. Prof. Gerhard Grasel, STM, é professor de Teologia Prática na Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia desde 1991 e também Deão de Alunos. Este estudo é uma expansão de assunto abordado na aula inaugural proferida no Seminário no dia I o de março de 1994.

* As principais fontes utilizadas para esta reflexão foram: BERGER, Peter (várias obras), STOTT, John R. W. Between two worlds: the art of preaching in the twenthieth century; SCHÚLER, Oswaldo. A leitura do tempo. In: Lar Cristão. Porto Alegre, Concórdia, 1974, p. 104-108; GRASEL, Gerhard. "Secularization and challenges which confronts contemporary Brazilian Lutheranism". St. Louis, Con- córdia Seminary, 1983. (Dissertação de mestrado não publicada).

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Essa temática da leitura do tempo e o confronto do povo de Deus com os novos ventos de ideias que sopram sempre de novo continuará sendo assunto de tensão até o dia da volta do Senhor.

O texto que tenho diante de mim é uma coleta de dados, de fatos e informações. Sinto que faltou tempo para ruminar, mastigar mais vezes esses conteúdos para chegar a conclusões mais definidas e claras.

Presto nesse momento minha homenagem ao falecido Prof. Oswaldo Schuler que foi um dos meus estimuladores nessa caminhada de diagnos- ticar a enfermidade social para melhor poder receitar o remédio do Evan- gelho.

Em 1973 o saudoso mestre proferiu a aula inaugural do Seminário Concórdia de Porto Alegre, dando, então, um passo decisivo para que a IELB se conscientizasse da importância de não somente ler as Escrituras mas também ser sensível às necessidades e dores de seu tempo e assim fazer também a leitura de seu tempo.

Em 1994, por ocasião do 90° Aniversário da IELB, quando vivemos num momento decisivo em nossa história, estamos ensaiando um jeito novo de ser igreja. Estamos crescendo na compreensão de nosso papel e nossas responsabilidades, e estamos experimentando as dores do amadurecimento, da responsabilidade.

Crescer, amadurecer, assumir responsabilidades dói, gera conflitos e crises, mas esse é o saudável caminho da vida. Assim como o filho sofre com seu amadurecimento mas sabe que os pais o amam, nós também sabemos que não estamos sós. Ele estará conosco ate o fim.

1. A LEITURA DO TEMPO

"As ciências sociais obrigam o teólogo a dar tratamento teológico aos problemas e desafios contemporâneos, contextualizando a sabedoria reve- lada, atualizando a temática de nossos sermões e criando o hábito do diagnóstico espiritual em nossa atividade de "Seelsorger", cura de almas".

As ciências sociais auxiliam a manter viva e límpida a nossa visão cristã no mundo, ajudando a afastar o perigo de uma falsa identificação com determinado momento histórico. Ajuda também a escapar do risco e tentação de ser cegado por utopias terrestres, que se apresentam como promessas sedutoras ou de sermos vítimas de falsas idealizações! É fundamental limparmos e polirmos as lentes das quais olhamos o nosso século e civilização.

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O estudante cristão, especialmente o futuro pastor e pregador, precisa

conhecer os fatos sociais para fazer a leitura do seu tempo. O pastor de almas deve ter uma mentalidade agudamente contemporânea. Ele não tem o direito de alhear-se, confinando-se num campo restrito de interesses. Os paroquianos têm o direito de esperar de seu líder espiritual uma palavra segura de orientação e consolo nas situações mais diferentes.

Anos de estudo de teologia devem ser vividos num trabalho intelectual sério e constante para podermos encarar o mundo novo que bate às portas. Não podemos desconhecer os principais pressupostos e princípios para interpretar o contexto social. Precisamos desenvolver o hábito de refletir sobre o mundo e a sociedade dentro de uma ótica cristã.

A liderança espiritual nos impõe o dever da observação persistente das

mudanças que ocorrem ao nosso redor e em que medida estas mudanças podem eventualmente obstruirá boa veiculação da mensagem evangélica. Exemplo: o fenómeno da urbanização e industrialização. Precisamos aprender a também fazer a exegese dos fenómenos humanos e sociais. Não podemos ignorar o fato social das novas relações sociais, da mis- cigenação, das trocas culturais.

Está a Igreja atenta para o processo de erosão dos valores éticos, morais e sociais? Está ela acompanhando seus fiéis e em especial à sua juventude, nos meandos e labirintos do mundo urbano? Estamos apare- lhando nossos leigos para serem mensageiros da fé no meio urbano ou estamos permitindo que sejam vítimas indefesas do fenómeno?

Essas e outras tantas interrogações nos fazem pensar nesse fim de milénio. Como vamos proclamar o texto autêntico de Deus de modo relevante ao contexto secular de nossos dias?

Na tentativa de anunciar o texto de Deus, a Igreja tem que entender o contexto. Fiel a Deus e preocupada com os seres humanos são suas metas.

Vivemos na era da explosão do conhecimento. O ser humano dispõe de informações que nunca teve na sua história. Há também uma explosão de comunicação! A comunicação eletrônica transformou o quadro ou processo de influência. Hoje milhões de pessoas são influenciadas simul- taneamente. As pessoas estão mais expostas a pessoas, e isso tem seus efeitos sobre o viver das pessoas e interessa àqueles que querem com- preender a criatura necessitada da Palavra de Deus.

Charles Péguy escreveu em 1913 que "o mundo tinha visto maiores mudanças nestes últimos trinta anos do que nos 2000 anos que prece- deram essa época". E isso foi em 1913. E hoje?

Como Igreja Evangélica Luterana do Brasil que celebra 90 anos de existência como organização eclesiástica, não podemos ficar insensíveis

e desatentos as características e necessidades próprias de nosso povo

brasileiro. Nosso Brasil é uma união de muitos brasis, onde o secular e o mágico se confunde nas cidades e até no campo, onde os cultos afro- brasileiros, o espiritismo, o ocultismo, o pentecostalismo e outros novos cultos estão crescendo de modo visível e surpreendente, talvez no vazio, no vácuo deixado pelo tecnismo, materialismo, formalismo religioso ou pela secularização em si.

Na revista VEJA de 10/11/93, sob o título Rosário de Deboches, é feita uma análise do livro do escritor americano Gore Vidal, cujo título é ao vivo do calvário. É a sátira mais blasfema da história da literatura. VEJA apresenta trechos desse festival de deboches. Mas o que mais me tocou

e feriu na leitura dessas páginas foi a entrevista que o autor dá à revista por telefone, onde diz o seguinte sob o título cristianismo:

Na verdade, eu, ao contrário de Salman Rushdie, fui bater num cachorro morto, o cristianismo, enquanto o dele ainda estava muito vivo. Os eclesiásticos irlandeses me atacaram, e também fui acusado de vilipêndio em Bolonha. Ouvi essas reclamações, mas não fui condenado à morte como o escritor de Versos Satânicos. A diferença entre cristãos e muçulmanos é que os adeptos do islamismo acredi- tam em sua religião. Os cristãos, não.

O comentário agressivo desse escritor machucou-me profundamente como cristão. É verdade que o adjetivo "cristão" em muitíssimos casos não

é nada mais do que um disfarce para as "patas do lobo". Há muito abuso

feito em nome do cristianismo. Não poucos afirmam a religião cristã para tirar proveito de seus produtos e derivados", de seus resultados que lhes convém e interessam. Não defendemos a religião ópio do povo, ou "vodka espiritual". Aliás, muitos fenómenos do secularismo podem ter surgido porque muita gente tem percebido que as últimas intenções de "alguns defensores da religião cristã" ou suas instituições não são tão cristãs como parecem. E não há dúvida de que essa religião ideologizada pode ser e ainda é usada como fator de alienação das pessoas.

Mas a crítica nos faz pensar sobre nossos tempos. Que tempos são esses? Qual nosso testemunho, nossa mensagem nesse imenso Brasil? Que desafios estamos enfrentando nesse fim de milénio? Estamos

preparados para essa luta que não é contra tanques e fuzis, mas contra as forcas espirituais do mal – Ef 6.12? Vamos dar uma olhada no campo de batalha.

1.1. A modernidade como a universalização da heresia

Conforme Peter Berger, o impacto da modernidade sobre a religião é comunente visto como o processo de secularização. Nesse processo é muito enfatizado o espírito de autonomia, o estudo científico da natureza, de independência e de liberdade.

Para um pensador de outra visão, o homem moderno somente existe "de fide", isto é, somente na mente de teólogos modernos fortemente influenciados pela sociologia. O ser humano é sempre e será o mesmo em todos os aspectos. Será verdade?

Bem, já deu para ver nesse início de conversa, que o tema abre um debate interessante. As palavras têm diferentes sentidos para pessoas diferentes. Homem moderno, moderno, secular, secularização e muitos outros termos têm sentidos diferentes para pessoas diferentes. Mas nós queremos debater os fatos mais concretos e toda fenomenologia possível, e não tanto discutir termos nesse curto espaço de tempo.

Mas o que é que diferencia (se há diferença) tanto o homem tradicional do homem moderno e contemporâneo? Peter Berger diz que o homem de nossos dias tem tantas mais escolhas. Nunca o homem pôde escolher tanto.

O homem da sociedade pré-modema jamais poderia sonhar com as escolhas que o homem moderno tem que encarar: escolha de ocupação, lugar de residência, companheira(o) para casamento, números de filhos, estilo de lazer, escolhas na aquisição de bens materiais. Estas são esco- lhas importantes do arranjo externo da vida. Mas há outras escolhas que tocam o mundo interior dos indivíduos. Escolhas que são chamadas "estilos de vida", escolhas morais e ideológicas e, por fim, escolhas religiosas.

1.2. Situação moderna

Modernidade é uma quase inconcebível expansão da área da vida humana aberta para escolhas. O fator essencial nesse processo de moder- nização é o fator tecnológico.

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Há na verdade aspectos ou fenómenos no mundo contemporâneo que não são tão novos como parece, tendo paralelos em períodos anteriores da história. É necessário conhecer precedentes históricos e reconhecer que nem tudo é tão novo ou inédito em todos os aspectos, mas não

podemos nos equivocar ou iludir com a visão de que nada é novo na história

e que não há mudanças a serem percebidas.

A modernidade que nós conhecemos foi causada por fenómenos

tipicamente europeus, como a economia de mercado capitalista, o estado burocrático, a metrópoles pluralista, as configurações ideológicas com- plexas produzidas pela Renascença e Reforma. No entanto, a mais impor- tante força transformadora desde o início da modernidade é hoje a tecnologia. Exemplos de impacto: telefone - estilo de tratamento, impes- soalidade, civilidade superficial.

1.3. Do destino à escolha

O homem pré-moderno vivia em grande parte sob a sombra do destino.

A tradição pesava sobre todos os aspectos de sua vida. Até seu modo de

vestir era muito mais determinado pela tradição. Grande parte de sua atividade era governada por prescrições claramente definidas e delimi- tadas. Não havia tanta ambivalência na sociedade tradicional.

No passado evitava-se a gravidez evitando o sexo, apesar de haver técnicas rudimentares de prevenção. No entanto, não havia o controle propriamente dito. A moderna contracepção, pela primeira vez.fez a gravidez ou não gravidez uma questão de escolha e uma decisão razoa- velmente confiável para milhões de indivíduos. O que antes era destino agora tornou-se uma escolha.

Do ponto de vista sociológico, as sociedades pré-modemas são mar- cadas pelo fato que suas instituições têm um elevado grau de certeza socialmente aceita. Havia prescrições impostas e raramente questionadas por uma maioria. Cada um sabia o que podia ser e fazer. Sua identidade lhe era prescrita. Conhecia seus limites.

Em contraste com isso assistimos no mundo ocidental moderno a expansão de uma fila de alternativas aceitas comparadas aos padrões tradicionais: tolerância de casamento com membros de outros grupos, papéis no casamento, tolerância de relações sexuais antes e fora do casamento, além de alternativa sexual defendida com veemência pelo movimento gay. O homem contemporâneo experimenta sua sexualidade

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como uma arena de escolhas individuais. Mulheres, jovens, crianças, minorias raciais experimentam o fim do controle a que ante muitos estavam submentidos.

O recente desenvolvimento da cirurgia que muda o sexo sugere a

possibilidade de escolha até mais radical: uma mulher pode agora escolher

não somente um papel masculino (profissão) mas um corpo masculino.

Repetindo, o que antes era destino agora se torna uma série de escolhas.

O destino é transformado em decisão. E essa multiplicidade de escolhas

é experimentada por todo tipo de pessoas devido aos meios massivos de comunicação. O homem estabeleceu seu próprio limite. É ele a medida de

todas as coisas?

1.4. Uma pluralidade de visões de mundo

A pluralização que caracteriza a modernidade afeta a consciência do

homem moderno que está sendo confrontado e desafiado pelas múltiplas opções de possíveis modos de pensar sobre o mundo. Ele tem que escolher sua visão do mundo, como se escolhe produtos de consumo no mercado. Cada vez mais cabe a cada indivíduo decidir, escolher, optar por seu estilo de vida sexual, seus valores, seus referenciais éticos e final- mente, por sua preferência religiosa.

Enquanto os homens pré-modemos podiam agir com uma certa espon- taneidade irrefletida, o homem moderno é obrigado a refletir e pensar sobre suas escolhas. Isso trouxe consigo uma forte acentuação do lado subjetivo da existência humana.

Nós seres humanos precisamos ter algumas respostas para nós e nosso filhos. Numa sociedade com estruturas de plausibilidade estáveis e coerentes, as respostas às novas gerações podem ser dadas com certo

tom de segurança. Isto é, a realidade socialmente definida tem um alto grau de objetividade. "O mundo é assim, as coisas são assim, e não assado, e não pode ser diferente e não continue a fazer perguntas bobas!" Esse era

o clima, o contexto. Pois esse tipo de objetividade está sendo eliminada pela erosão provocada pelas forças da modernização.

No entanto, o indivíduo precisa de respostas para uma vida mais ou menos ordenada e com sentido, mas se a sociedade não lhe dá respostas objetivas, ele é forçado a voltar-se para dentro, em direção a sua própria subjetividade, para de lá conseguir qualquer certeza que possa manusear para sua existência. Esse voltar-se para dentro de si é a subjetivação que está hoje presente na moderna literatura, arte, e na astronómica prolife- ração das modernas psicologias e psicoterapias.

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Nesse movimento da objetividade do mundo exterior para sua própria subjetividade, o mundo exterior torna-se cada vez mais questionável e seu mundo interior mais complexo.

1.5. Um prometer muito nervoso

A transição de destino para escolha é experimentada numa maneira

ambivalente. De um lado é uma grande libertação, de outro lado é an- siedade, alienação e mesmo terror. Essas sensações poderiam nos lem- brar pensadores da modernidade como Kierkegaard ou Nietzsche, mas essa ambivalência da libertação e alienação é experimentada também por pessoas que nunca leram um livro.

Em muitas de nossas cidades isso é flagrante. A modernidade atrai pessoas como um ímã forte com suas promessas de nova liberdade, novas possibilidades de vida e auto-realização. Essas promessas, no entanto, raramente são alcançadas, mas ninguém pode negar que a modernidade

é de fato experimentada como libertação dos estreitos limites da tradição, da pobreza, das amarras do clã e tribo.

Por outro lado, um preço alto é pago por essa libertação. O indivíduo começa a experimentar-se como um ser solitário, gerando incertezas de valores e normas para a sua vida, e finalmente acaba incerto e inseguro sobre sua própria identidade. Está condenado à liberdade (êxodo rural, migrações para a cidade). Libertação e alienação são faces opostas da mesma moeda da modernidade.

O fator alienante da modernidade fez surgirem ideologias que querem

restaurar a ordem, o sentido das coisas e a solidariedade. Aí aprarecem ideologias reacionárias, que só olham para o passado (neo-nazismo), e as que só olham para o futuro (marxismo e utopias).

1.6. O imperativo herético

A condição típica do homem pré-modemo é de certeza religiosa, ao

passo que a do homem moderno é de dúvida religiosa. É lógico que havia

dúvida e incertezas no passado, mas a frequência da incerteza religiosa é

a característica de nossos tempos modernos.

A palavra heresia vem do grego hairein = escolher. Heresia original-

mente significou o fazer uma escolha diferente. O herético foi uma pessoa que questionou a autoridade existente, recusou-se a aceitar a tradição no todo, selecionou alguns conteúdos da tradição e com o escolhido e selecionado construiu sua própria opinião. É óbvio que sempre houve

heresias e desvios, rebeldias e inovações nas comunidades humanas, mas

a quantidade de "heresias" é coisa desses tempos modernos. Rupturas

aconteciam ocasionalmente no mundo pré-moderno, mas a situação mod- erna é um mundo de incerteza religiosa. Para o homem pré-moderno, heresia é uma possiblidade - normal- mente remota; para o homem moderno, heresia, toma-se uma necessi- dade. Sim, a modernidade cria uma nova situação na qual selecionar e escolher se torna um imperativo. Fé passa a ser uma questão de preferên- cia e gosto. Os consumidores têm que escolher, optar, decidir e se definir

por sua preferência religiosa. Esse fato contém em si toda a crise na qual

o pluralismo colocou a religião.

1.7. Algumas ponderações conclusivas

Não pode ser pretensão de teólogos cristãos apresentar um programa para a teologia que sirva de grande síntese que vai convencer todo mundo. Religião, como lembra Peter Berger, não é em sua essência uma atividade intelectual. Teólogos são capazes de esquecer isso de tempo em tempo.

Teólogos são tentados a apresentar seu próprio programa teológico como algo que vai salvar a fé ou a igreja nesse tempo novo. Tais pretensões são vãs, pois teólogos podem ajudar ou atrapalhar, mas não é deles que depende o futuro do cristianismo.

2. SECULARIZAÇÃO COMO PROCESSO HISTÓRICO DESAFIADOR PARA A IGREJA CRISTÃ

Como já dissemos, o impacto da modernidade sobre a religião é comunente visto em termos de processo de secularização.

Secularização é um problema com o qual se defronta cada cristão, desde que ele tem de viver sua fé num mundo secular. A secularização é

um fenómeno universal, apesar de estar mais diretamente relacionado com

o mundo ocidental, chamado cristão.

A palavra secularização pode ser um começo de uma grande dis- cussão. De fato a palavra é ambígua. O termo secularização precisa ser definido cuidadosamente. Sempre é bom prestar atenção na hora de definir os termos e usar as palavras, especialmente quando termos e palavras estão envolvidas com aspectos emocionais e ideológicos. O termo secu- larização e secularismo tem sido empregado como um conceito ideológico altamente carregado de conotações valorativas, positivas ou/e negativas.

Em círculos progressistas têm significado a libertação do homem moderno da tutela da religião, ao passo que em círculos tradicionais têm sido combatido como "descristianizaçao", paganização e equivalentes. Há os que sugerem que esses termos não deveriam ser usados por serem confusos e ambivalentes. Mas, nós optamos pela tentativa de definir secularizaçao como um processo histórico irreversível que está modifi- cando profundamente o comportamento dos seres humanos de nossos dias.

Mas, afinal, o que é secularizaçao? A definição mais simples é de que

é um processo histórico pelo qual o mundo é "desdivinizado". O sociólogo

Peter Berger entende a secularizaçao como o processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são abstraídos à dominação das instituições e

símbolos religiosos. Secularizaçao é um processo histórico através do qual

o mundo se toma consciente de sua consistência e autonomia; processo

de libertação através do qual o homem, a sociedade e a cultura são libertadas da tutelagem e controle do mito, da metafísica, das instituições que dependem do sagrado e do religioso. (Cristão secularizado - F. B. Kloppenberg- p. 143).

No entanto, quando o secularizar é um programa, quando secularidade

é a fonte de uma cosmo-visão, de uma ideologia, estamos diante do

secularismo, uma doutrina de salvação. Secularizaçao pode ser entendida como algo mais ou menos neutro em si, enquanto que secularismo é uma falsa ideologia. Secularismo é como um parasita ou um germe na secu- larizaçao em si neutra.

Pelo fato de que a cultura ocidental se desenvolveu a partir de raízes cristãs, o processo de secularizaçao tem tomado a forma concreta de uma descristianizaçao. Nesse conflito o processo de secularizaçao pode ser ilustrado a partir de três conhecidos contrastes: fé e conhecimento, igreja

e estado, esse mundo e o mundo porvir (aquém - além).

O Evangelho nos lembra que conhecimento e o estado são valores penúltimos e que a esfera terrena em si é transitória. O Evangelho evita desafiar a esfera terrena no seu próprio nível e não procura exercer poder soberano nessa esfera. Esse era o pensamento dos cristãos dos primeiros séculos.

Num segundo momento, no entanto, que vai da patrística até os tempos modernos, a esfera religiosa predominou ou exerceu poder sobre

o secular. Houve tempos em que a religião parecia ter absorvido o secular

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por completo. A filosofia, por exemplo, podia no máximo ser a "ancilla theologiae". A religião dominou, abafou, sufocou o secular, o terreno, negando-lhe o valor em si.

A doutrina luterana dos dois reinos deu uma legitimação teológica à autonomia do secular. "A Reforma protestante, diz Peter Berger, pode ser entendida precisamente como um ressurgimento poderoso daquelas forças secularizantes que foram "contidas" pelo catolicismo. Na compreen- são do Reformador, a Bíblia ensinava que a tarefa, o serviço de fé e amor

é realizado dentro da realidade profana e secular. A santidade de vida só tem sentido dentro do contexto do profano, do tenreno.

Para alguns a secularização é a marca do diabo, e para outros ela é uma bênção. Há sérias controvérsias sobre as forças da secularização. Mas, no meio desse debate surge uma pergunta: como e quando começou tudo isso? Qual a explicação para a origem e desenvolvimento desse processo?

2.1. Origem e desenvolvimento desse processo

Inúmeros fatores complexos e multifacetados podem ser levantados

em qualquer análise mais profunda da ruptura da síntese medieval de graça

- natureza, teologia-filosofia, igreja-estado. De diversas maneiras as ên-

fases seculares na Renascença e Iluminismo desembocaram e se encon- traram com a revolução industrial e o surgimento da ciência moderna para produzir o espírito secular que começou a invadir a atmosfera intelectual do século XIX.

Emil Brunner entende que essa ideia de um indivíduo que fica de pé sobre sua base própria, baseada na autonomia da própria razão, começou com a Renascença. Outros dizem que a ruptura do "corpus Christianum"

do século XVI com a consequente dilaceração da unidade dos cristãos, foi

o fator significante para o crescimento do indiferentismo religioso.

Há também os que vêem o processo económico moderno, ou seja, a dinâmica do capitalismo industrial, como o "portador" primário da seculari- zação.

Friedrich Gogarten entendeu a secularização como "uma consequên- cia necessária e legítima da fé cristã", fazendo no entanto uma clara distinção entre processo histórico e o secularismo. Gogarten afirma que através da fé o indivíduo compreende o mundo como criação, e que somente a fé torna possível um relacionamento livre com o mundo, sem um medo místico. Na fé o mundo é visto como coisa, despido de divindade

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e sujeito à intervenção do homem. Na fé a transcendência de Deus é

afirmada radicalmente. Deus não é mundo, terra. O desencantamento do

mundo começa no Antigo Testamento, que postula um Deus que está fora do cosmos. Deus é radicalmente transcendente, não identificável com nenhum fenómeno natural ou humano, lahweh era para Israel um Deus muito distante, muito diferente das divindades locais ou tribais.

lahweh era um Deus "móvel", radicalmente transcendente e diferente dos deuses formados das águas conforme as mitologias existentes antes

e

no tempo em que foi escrito o livro de Génesis. A Bíblia apresenta (Gn)

o

Criador que não é confundido com a criação, como o Deus transcendente

o homem num universo inteiramente "demitologizado", que está entre Deus e o mundo.

e

Estamos tentando indicar que o "desencantamento do mundo" tem raízes que antecedem bastante a Reforma e o Renascimento. Concor- damos com Berger quando diz que a Reforma é uma simples reemergencia de forças secularizantes que tinham sido contidas pelo catolicismo romano.

2.2. Ambiguidade, riscos e oportunidades da secularização

Talvez pudéssemos resumir muito do que já foi dito sobre a seculari- zação como sendo um desafio para o cristão e uma tentativa para o não- cristão.

A comunidade cristã primitiva era tipicamente um grupo não sagrado. Na carta aos Hebreus é enfatizada a verdade de que todos os sacrifícios, todas as tentativas de reconciliação com Deus através dos sacrifícios, cultos e ritos são tentativas humanas vazias e sem valor em si, e que Cristo com seu sacrifício substituiu e completou todos esses sacrifícios para sempre.

Nos tempos da nova aliança do Novo Testamento, essa realidade ou essa verdade ainda é aprofundada. Agora todos os cristãos são sacerdotes do Rei (1 Pe 2.9), e a igreja, o povo de Deus tem a tarefa de agir na sociedade como fermento, que misturado com a massa trabalha dentro e transforma a massa por dentro.

Aliás, os primeiros cristãos tinham uma vida muito secular num certo sentido, ou muito desacralizada. Não tinham templos, altares. Os pagãos os chamavam até de ateístas, que foi uma das falsas acusações que os apologetas refutaram.

Mas a igreja começou a se comprometer com os imperadores, reis, estados, culturas, filosofias e teologias. E uma hierarquia absolutista e monolítica foi estruturada, cada vez mais longe e separada do povo. O estado começou a ser "cristão" de uma maneira sacral, e estava aí o início do processo de resacralizaçao. E como a igreja se meteu indevidamente em aspectos da vida humana que não lhe competia. Ex: ciência, economia, política, cultura. Ela detinha o monopólio de tudo com o uso da força e pressão. Que vergonha são as páginas da Inquisição. Quanto ódio enverni- zado de "fé".

De uma certa maneira pode se dizer que o cristianismo verdadeiro seculariza o mundo, pois ele afirma de modo único e radical a transcendên- cia de Deus, e põe os valores no seu devido lugar.

Não é tarefa da igreja controlar sob pressão a sociedade. Aliás, não há base teológica no Novo Testamento para afirmar que a igreja tem que ter o controle que teve no passado tanto no mundo ocidental como oriental. Nesse sentido, a libertação desse monopólio eclesiástico é bem vida. A igreja traz uma mensagem de convite e promessa de Deus e não uma ordem que escraviza e aterroriza consciências.

2.3. A secularização e o problema da plausibilidade

A moderna sociedade industrial produziu uma espécie de "território livre" com relação à religião. São setores localizados em que o controle, a fiscalização, a pressão dos valores éticos e morais ligados à religião não exercem mais influência ou pressão. Não é verdade que em muitas circunstâncias a religião pára no portão da fábrica? É verdade que a religião continua a ter um potencial de realidade na esfera da família e das relações sociais ligadas a ela!

Com a crescente individualização da sociedade moderna, também a religião passou a ser assunto de preferência do indivíduo ou núcleo familiar. Tal tipo de religião não desempenha mais a tarefa clássica de construir um mundo comum no âmbito do qual toda a vida social recebe um significado último que obriga a todos. Há em consequência disso tudo uma crescente dicotomia entre vida privada e situações em outros setores da vida secular:

Ex.: política, e negócios públicos desvinculados, divorciados dos valores da vida familiar ou religiosa particular. Claramente o poder da religião é assim restrito, em alguns casos, a não poder ir além do núcleo familiar. A base religiosa passa a ser fundamentalmente a família, e como a família moderna é uma instituição notoriamente frágil, isso significa que a religião também é uma construção muito frágil na vida de muitos.

A perda do caráter coletivo da religião está alimentando uma situação de pluralismo. Definitivamente assistimos o fim do monopólio das tradições religiosas e um pluralismo inédito na história dos seres humanos.

Durante a maior parte da história humana, os estabelecimentos re- ligiosos existiram como monopólios de legitimação última da vida individual e coletiva. As agências religiosas eram agências reguladoras do pen- samento e ação. Esse quadro foi modificado profundamente. Hoje a submissão à religião é voluntária, e como tal, não segura. A tradição tem que ser "vendida", diz Berger. A atividade religiosa vem a ser dominada pela lógica da economia de mercado. Os grupos religiosos têm que se organizar de forma a conquistar os consumidores. Há forte pressão para obter resultados dentro desse mercado competitivo, e isso gera uma racionalização das estruturas sócio religiosas, expressando-se primordial- mente no fenómeno da burocracia.

As instituições religiosas de repente estão envolvidas em atividades de relações públicas com a clientela consumidora, lobby com o governo, levantamento de fundos em agências privadas e governamentais, en- volvimentos multifacetados com a economia secular.

Como nunca na sua história as igrejas fizeram relatórios, avaliaram resultados e fizeram uso de métodos racionais para conseguir seus ob- jetivos.

Essas profundas e radicais transformações e mudanças ocorridas na igreja também chegaram a ser notadas nas escolas de formação de ministros e pastores. O perfil do ministro e do líder religioso e suas funções foram influenciados por essa nova realidade. Antes a erudição teológica era fundamental para o pastor. Hoje o tipo sociopsicológico que emerge na liderança das instituições religiosas burocratizadas, é naturalmente semel- hante à personalidade burocrática em outros contextos institucionais:

ativista, pragmático, alheio a qualquer reflexão administrativamente irrele- vante, hábil em relações interpessoais, dinâmico e conservador ao mesmo tempo. Parecido com o burocrata. Esse perfil do novo pastor descrito por Berger nos faz pensar sobre nossa formação e ênfase teológica. Temos que mudar quando necessário, mas precisamos de sabedoria para saber qual o caminho certo nesse novo mundo. Tenhamos cautela nesse proc- esso.

Enquanto as instituições religiosas ocuparam uma posição de mo- nopólio na sociedade, seus conteúdos podiam ser determinados de acordo com qualquer saber teológico que parecesse plausível e/ou convincente para a liderança religiosa. A situação pluralista, todavia, introduz uma forma

nova de influências mundanas, provavelmente mais poderosa para modi- ficar conteúdos religiosos do que as antigas formas, como os desejos de reis e poderosos: a dinâmica de preferência do consumidor.

Resumindo, foi introduzido no contexto religioso o controle do consu- midor sobre o produto. Está, portanto, introduzido um princípio de mutabili- dade, de mudança, inimigo visceral do tradicionalismo religioso. Está cada vez mais difícil manter verdades imutáveis. Os conteúdos religiosos tor- nam-se sujeitos à moda. A relevância da religião está cada vez mais na esfera privada. Quando a religião enfatiza aplicações às grandes instituições públicas ela perde seu impacto. Isso é importante para as funções moral e terapêutica da religião. Ex.: ênfase na família! Igreja Católica Romana: passado - campanha da fraternidade enfatizava, enfocava primordialmente as questões sociais como reforma agrária, justiça social, violência, miséria, pobreza e outros; 1994 - "E a família como vai?". Nota-se a ênfase nas necessidades psicológicas do indivíduo, da família. Busca-se a relevância. Há forte sensibilidade com as necessidades do indivíduo.

Ao se enfraquecer a plausibilidade, surge a dúvida. O que antes era considerado como realidade evidente em si mesma, será alcançado agora por um esforço deliberado, um ato de fé. Estamos, segundo alguns analistas, em plena era de ceticismo. As estruturas de plausibilidade perdem solidez e não servem mais para confirmar a realidade social. Agora sempre há “todos os outros" que não confirmam o que outros crêem ou aceitam. Torna-se cada vez mais difícil permanecer entre nous na so- ciedade contemporânea.

Tendo sido os conteúdos religiosos "desobjetivados", tornados sub- jetivos, a religião não se refere mais ao cosmos ou à história, mas à Existenz individual ou à psicologia. Qualquer certeza deve ser buscada na consciência subjetiva do indivíduo, porque o mundo exterior está dividido, partilhado, não formando mais uma plataforma segura nos momentos de questionamentos e indagações. As tradições religiosas perderam seu caráterde símbolos abrangentes para toda a sociedade.

Nesse contexto, as instituições religiosas lutam para sobreviver num meio que questiona e é indiferente às suas definições de realidade.

2.4. A secularização e o problema da legitimação

O problema fundamental das instituições religiosas é como sobreviver num meio que já não considera evidentes as suas definições da realidade. Diante disso existem duas opções básicas que se abrem, a saber a

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acomodação ou a resistência ao impacto maciço desse meio. É claro que as duas opções apresentam dificuldades práticas e teóricas. Tanto a nível prático quanto a nível teórico, a dificuldade de opção pela acomodação está em se saber "até que ponto deve-se ir"; a da opção pela resistência está em se saber "qual a força das defesas".

Se o drama da era moderna é o declínio da religião, pode-se descrever

o protestantismo como deu ensaio geral. Examinaremos a crise da teologia

no protestantismo para melhor compreendermos o contexto todo, já que a secularização e o pluralismo são atualmente fenómenos de âmbito mundial.

Em nível de teoria teológica, a ortodoxia protestante sofreu dois choques severos antes do século XIX.

Um foi o choque do pietismo. Esse "dissolvia" as estruturas dogmáticas deste em várias formas de emocionalismo. Era, portanto, desobjetivizante ou "subjetivizante" (coração aquecido de Wesley). Estava-se aí colocando os fundamentos da "psicologização" do cristianismo. Esse proceso rela- tiviza os conteúdos religiosos.

O outro choque foi o do racionalismo iluminista, tendo em Lessing uma

figura exemplar do movimento.

Mas,

a verdadeira crise da ortodoxia veio à tona no século XIX com

o

liberalismo teológico, que apesar de ter tido curta duração, afetou muito

o

pensamento teológico. F. Schleiermacher é um dos pais dessa tendência.

Há ênfase na experiência religiosa e no sentimento. Não há dúvida de que todas as formulações dogmáticas se relativizam a partir dessa base.

A teologia nesse contexto histórico é feita em referência constante a

um grupo de intelectuais seculares, precisamente os "eruditos" que desprezam a religião. Seu relacionamento acaba sendo um imenso proces-

so de barganha com o pensamento secular.

O impacto da I Guerra Mundial, a Grande Depressão seguida dos

horrores da II Guerra Mundial chocou e mexeu com esse quadro de otimismo e euforia existente no final do século XIX e início do século XX.

A marca, porém, tinha sido deixada. O pensamento secular e a tolerância pluralista mudaram em parte a consciência dos homens de então.

A grande reação contra o liberalismo veio com a neo-ortodoxia. Barth

é a figura central desse movimento que reafirma a objetividade da tradição.

Rejeitam-se os esforços subjetivantes e de compromisso da teologia

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liberal. Afirma-se a exterioridade e não a subjetividade da mensagem cristã. Nos termos de Barth, a graça de Deus é uma iustitia aliena, que vem de fora para o homem e sem nenhuma "mediação" no próprio ser do homem.

A mensagem cristã é extra nos, soberanamente independente das

relatividades da histórias e do pensamento humano. A neo-ortodoxia pode permitir-se uma atitude de indiferença para com as mudanças propostas pelas cosmovisões seculares.

Após a II Guerra Mundial, com o começo da recuperação econômica, começa a declinar rapidamente o predomínio da neo-ortodoxia. Novas legitimações teológicas da secularidade aparecem. Começa um debate sobre a concepção de desmitologização desenvolvido por R. Bultmann. Na América se destaca com suas obras provocantes. Surge uma nova atitude com relação ao mundo secular. F. Gogarten rompe com Barth. A nova abordagem de Gogarten também é apoiada pelos escritos de Dietrich Bohnhoeffer.

Esses desenvolvimentos da teologia académica, apropriados à si- tuação do pós-guerra, estavam implorando por popularização. Isso acon- teceu com a publicação de Honest to God de John Robinson em 1963. Seguiram-se outras obras populares de Harvey Cox, Thomas Altizer e outros. Ficou muito conhecida a "teologia" que afirmava que Deus estava morto. É a restauração do processo global de secularização que havia sido interrompido acidentalmente pela influência exercida pela neo-ortodoxia.

O surgimento contemporâneo do chamado neo-liberalismo parte de

onde o primeiro liberalismo parara e o faz de forma mais radical. Subjetiviza a religião de forma radical. As realidades religiosas são cada vez mais traduzidas de um quadro de referência de factidades exteriores à con- scicência do indivíduo para um quadro de referência que as localiza na consciência individual. E evidente a ligação conceptual do neo-liberalismo

com o psicologismo e/ou existencialismo.

O psicologismo permite a interpretação da religião como um "sistema

de símbolos" que se refere na "realidade" a fenómenos psicológicos. O passo seguinte é a legitimação das atividades religiosas como um tipo de psicoterapia.

Não há dúvida de que a moderna consciência está muito secularizada. As afirmações religiosas tradicionais tomaram-se progressivamente "ir- relevantes" para um número cada vez maior de pessoas.

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O futuro da religião em qualquer lugar que seja , será modelado decisivamente pela secularização, pluralização e subjetivação.

3. REFLEXÕES SOBRE AS CONSEQUÊNCIAS DESSAS MUDANÇAS NO ÂMBITO DO MINISTÉRIO PASTORAL CRISTÃO LUTERANO

No seu livro Between Two Worlds - The Art of Preaching in the Twentieth Century, John R. W. Stott, um mundialmente conhecido pregador e pensador, diretor do Instituto de Londres para a Cristandade Contem- porânea, apresenta de modo inteligente os principais obstáculos à pre- gação contemporânea.

Apresentaremos a seguir um resumo, uma síntese desse capítulo:

3.1. O Espírito anti-autoridade

Não há dúvida que o século XX passou por uma revolução global, marcada especialmente pelas duas guerras mundiais. Não é possível negar que estamos vivendo numa nova ordem. Todas as autoridades aceitas - família, escola, universidade, Estado, Igreja, Bíblia, Papa, Deus - estão sendo questionadas. Tudo que tem cheiro ou gosto de "establish- ment", que lembre poder inatacável está sendo indagado e oposto. Per- guntas inconvenientes e irreverentes são feitas àqueles que antes se julgavam imunes ao criticismo.

Não seria correto reagir a toda rebelião corrente de modo negativo ou condená-la de modo simplista como sendo diabólica. Muito dessa con- testação e rebelião de nossos dias é uma atitude responsável, madura e cristã. Esses movimentos de oposição muitas vezes protestam contra todas as formas de desmunização. São os protestos contra a exploração do pobre e contra a nova escravidão social, contra a escravidão ao mercado consumidor e à máquina, contra a educação manipuladora que desrespeita o processo educacional que permite às crianças desenvolverem seu potencial pessoal próprio.

Quando a rebelião é expressa nesses termos, em vez de se opor a essa rebelião, o cristão até deveria engajar-se mais nesses protestos em favor da humanização da criatura feita a imagem de Deus. Podemos e até devemos às vezes ser mais protestantes no sentido da palavra.

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Mas é quando os advogados da mudança vao em outra direção que a questão fica complexa. Esses proclamaram que não existem mais quais- quer padrões objetivos para a verdade ou bondade. Negam a existência de qualquer referencial objetivo. Proclama que tudo é mutável, sujeito a variações.

Enquanto esse espírito prevalecer, tanto anarquistas como os que procuram verdadeira liberdade tendem a olhar o púlpito como um símbolo de autoridade, contra o qual estão se rebelando.

Igualdade de oportunidades educacionais tem aprimorado, ao menos no Ocidente, as faculdades de crítica das pessoas. Agora cada um tem sua opinião própria e suas convicções próprias. "Quem ele pensa que é?" - o povo pergunta silenciosamente, referindo-se ao pastor e pregador.

O público alvo de nossos sermões ficou bem mais crítico e informado.

O pregador não pode se dar ao luxo de ignorar esse fato.

É bem verdade também que não poucos pregadores tomaram-se

conhecidos pela sua falta de respeito para com as sensibilidades de seus ouvintes e anatemizavam todas as opiniões e hábitos que os ouvintes cultivavam. Não poucos pregadores compeliam sua audiência a um mo- mento silencioso massacrante, transformando esse momento numa ver- dadeira hora de tormenta. O culto a Deus foi por não poucos transformado em martírio.

O povo queria ouvir palavras de encorajamento, de conforto e de

esperança. Queria ir e voltar com alegria, mas não raras vezes o volume

do tédio desafiou sua paciência. Mas o que mais incomodava a alguns era o exercício impróprio da autoridade, e segundo um observador, especial- mente quando o pregador era jovem. Um observador referiu-se a esses jovens pregadores como aqueles que "são um pouco mais do que meni- nos", e que assumem uma atitude que arrogante diante das cabeças submissas da massa.

O espírito anti-autoridade alcançou o calor máximo e explodiu na

década de 60. Charlie Watts do grupo musical Rolling Stones expressou

essa atitude perfeitamente quando disse: "Eu sou contra toda forma de

pensamento organizado. Eu sou contra

Eu não vejo como você pode organizar 10 milhões de mentes para acreditar

numa coisa".

religião organizada com a igreja.

A década de 70 foi a década do não racional.

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3.2.

Uma resposta cristã

Nossa atitude diante desse quadro não pode ser o de abandonar a tarefa de proclamar o Evangelho e nem o oposto, de um grande dogma- tismo que quando nossas crenças e afirmações são desafiadas, nós simplesmente os repetimos em voz mais alta. (Quando o argumento é fraco, grite).

É possível em vez de tomar atitudes extremadas, manter fidelidade à

fé cristã e ao mesmo tempo reconhecer e respeitar o moderno espírito de

dúvida e negação.

3.3. A Revolução Cibernética

Cibernética é o estudo dos mecanismos de comunicação, tanto huma-

nos como eletrônicos, isto é, tanto nos cérebros como nos computadores.

A revolução cibernética refere-se a mudanças radicais na comunicação

como um resultado do desenvolvimento de equipamento eletrônico com- plexo.

O sumo-sacerdote da revolução cibernética foi o notável canadense

Professor Marshall McLuhan. São dele as expressões: aldeia global, o meio

é a mensagem, comunicação quente e fria.

McLuhan fez um fantástico resumo da história da comunicação. Lem- brou que o homem primitivo fazia uso harmonioso de seus cinco sentidos, simultaneamente. Conforme esse génio da comunicação, essa situação

ideal foi modificada por duas invenções. A primeira foi o alfabeto fonético

e a segunda foi a invenção dos tipos móveis no século XV por Johann

Gutenberg. A tipografia, segundo McLuhan, terminou com o tribalismo, quebrou a unidade coletiva da sociedade primitiva. Isolou o ser humano e o transformou num individualista e especialista. Agora ele pode sentar num canto sozinho, com suas costas para o mundo, lendo um livro. (Aplicação:

fazermos teologia de costas para a realidade que nos envolve e desafia). Esse homem perdeu a mágica do aprendizado multi-sensitivo.

Mas em 1844 uma terceira invenção (telégrafo - Samuel Morse) anunciou o início da "nova era", a saber, a era eletrônica. Se o alfabeto e

a imprensa alienaram os seres humanos um do outro, a tendência dos

meios elétricos é criar uma espécie de interdependência entre todas as instituições da sociedade. É um processo de "retribalização". A simultanei- dade da comunicação nos faz participantes presentes e acessíveis a qualquer pessoa do mundo.

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Palavra falada é meio frio, isto e, envolve todos os sentidos. Contato interpessoal é fundamental para comunicação: ouvir, ver, tocar, cheirar. Falar é um dom humano inconfundível, um meio versátil de comunicação.

Um capítulo do livro de Christopher Evans The Mighty Micro (1979), tem como título: A morte da Palavra Impresa. São de fato os computadores superiores aos livros?

De qualquer forma deveríamos dar as boas vindas aos chips que transcendem ao poder da mente humana, assim como a máquina transcen- deu o poder do músculo humano. Mas preocupante é o problema de uma possível desumanização, a comunhão da igreja local será extremamente importante. Daí encontrar-se com uma pessoa, falar e ouvir um ao outro como pessoa em vez de olhar para uma tela será de suma importância.

3.4. A Influência da Televisão

A rivalidade entre a caixa de TV e o púlpito para ser inegável. Na

Inglaterra a TV está ligada em média de 30 a 35 horas por semana. Um adulto vê entre 16 a 18 horas por semana, o que significa que ele fica 8 anos de sua vida diante da tela de TV. A média de horas diante da TV para adultos nos USA é de 23,3 horas. As crianças são as mais influenciadas e marcadas, e as mais vulneráveis. São as mais dependentes de TV. A média das crianças é a maior. Nos Usa as crianças da pré-escola constituem a maior audiência da TV. Sua média semanal é de 30,4 horas. Aos 17 anos, a média das crianças americanas têm assistido 15.000 horas de TV, o equivalente a quase dois anos de vida.

É extremamente difícil fazer uma estimativa equilibrada dos efeitos

sociais da televisão. Há benefícios e malefícios.

Pregadores estão diante de uma geração condicionada pela TV. Não podemos mais assumir que as pessoas ou querem ouvir sermões ou que estejam de fato em condições de escutar, ouvir. Não é fácil conseguir atenção numa época em que as pessoas estão acostumadas a usar o controle remoto para desligar. Tudo que é desinteressante, lento ou monótono não pode competir na era da imagem. A televisão desafia o pregador a fazer a apresentação da verdade atraente, através da variedade, cor, ilustração, humor e movimento fluente e rápido.

O pastor é alguém envolvido no processo de ensino-aprendizado. Ao

estudarmos o básico dos modelos de comunicação vamos acabar tendo quatro ingredientes fundamentais: Fonte - quem; Mensagem - que; Código/Canal - como; Receptor - a quem. Embora a pregação se encaixe

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perfeitamente nesses esquemas de comunicação secular, ela tem algo que lhe é próprio, que é sui generis. Nenhuma forma de comunicação é igual ou semelhante.

A fonte é o pastor, que se considera chamado por Deus para pregar,

e cujo chamado foi reconhecido pela Igreja, que a autoriza por um solene

comissionamento para exercer seu ministério, e ora para que Deus con- firme seu chamado dando-lhe o poder do Espírito Santo. Portanto, isso não

é uma fonte comum de comunicação. Ao menos no ideal esse pregador

está no púlpito, divinamente chamado, comissionado e autorizado, como

um servo de Deus, um embaixador de Cristo, uma testemunha de Cristo cheia do Espírito.

Os receptores são uma congregação cristã que se reuniu livremente no Dia do Senhor para prestar seu louvor e ouvir Sua mais santa Palavra. Há, portanto, uma profunda empatia entre pregador e congregação. O pastor é chamado para alimentar, cuidar do rebanho.

A mensagem é a Palavra do próprio Deus. As pessoas estão reunidas

não para ouvir um ser humano, mas para se encontrar com Deus. Eles querem, como queria Maria de Betânia, sentar aos pés de Jesus e ouvir

seu ensinamento. Eles estão espiritualmente com fome. O pão que querem

é a Palavra de Deus.

É esse contexto total que faz a pregação ser única. Aqui está o povo

de Deus reunido na presença de Deus para ouvir a Palavra de Deus de um ministro de Deus. Mesmo nesses tempos saturados de informações com os meios mais sofisticados de comunicação, a pregação tem característi- cas únicas e próprias, fazendo dela uma comunicação sui generis. Nada se compara à pregação. Ela tem uma combinação de todos os elementos dos demais meios de comunicação. O que é especial e único não é um ideal ou uma atmosfera, mas uma realidade. O Deus vivo está presente,

conforme sua promessa de aliança conosco, no meio de seu povo que o adora, e tem prometido se fazer conhecer a eles através de Palavra e Sacramento. Nada pode substituir isso.

3.5. A perda de confiança no Evangelho por parte da Igreja

Não é possível pregar sem mensagem, sem Evangelho. A perda de confiança no Evangelho é o maior de todos os obstáculos à pregação. A palavra pregar pressupõe Kerygma, euangelion. Sem uma clara e confiável mensagem à pregação é impossível. Pois é precisamente isso que está está faltando na Igreja de nossos dias. O púlpito do presente está em crise profunda. Falta clareza, relevância e definição na mensagem.

No momento em que chegamos ao fim do século XX estamos con- scientes de que a erosão da fé no Ocidente está em marcha. O relativismo tem sido aplicado à doutrina e ética, e absolutos desapareceram. Darwin convenceu a muitos de que a religião é uma fase evolucionária, isto é, que passa; Marx, que é um fenómeno sociológico, e Freud, que é uma neurose.

A autoridade bíblica foi para muitos minada pelo criticismo bíblico. O estudo

comparativo da religião tendeu a subestimar o cristianismo como uma das muitas religiões entre muitas, e tem encorajado o crescimento do sincre- tismo. O existencialismo quebra nossas raízes históricas, insistindo que nada importa, mas o encontro e a decisão do momento. Ainda existem as negações da teologia secular ou radical, negando essenciais da fé. Alguns pregadores chegam ao ponto de no meio desse caos repartir suas dúvidas com suas congregações.

Outros afirmam que a presença cristã no mundo não precisa ser somente uma presença de serviço mas de silêncio. Ou, se tem um papel ativo, entendem isso de modo a dar mais importância ao diálogo do que a proclamação. Transformam o meio em fim.

Toda igreja parece estar numa situação de crise de identidade, na qual está insegura sobre si mesma e confusa sobre sua mensagem e missão. Michael Green, num dos seus livros escreve: "Durante os últimos 45 anos nós temos assistido uma crescente relutância para aceitar o cristianismo tradicional cheio de sangue, completo com uma Bíblia inspirada e um Cristo encarnado, e uma crescente tendência para acomodar o cristianismo ao espírito da época".

Não há nenhuma chance de uma recuperação da pregação sem uma anterior recuperação da convicção. Necessitamos ganhar de novo nossa confiança na verdade, na relevância e poder do Evangelho, e começar a

ficar entusiasmados sobre ele novamente. Afinal, o Evangelho é ou não é

a boa nova de Deus? Gore Vidal tem razão ao dizer que os cristãos estão

mortos?

3.6. a recuperação da moral cristã

Paulo escreve em sua carta aos romanos que "é devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes; por isso, quanto está em mim, estou pronto par anunciar o evangelho também a vós outros, em Roma. Pois não me envergonho do evangelho, porque é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego" (Rm 1.14-16). No momento a atitude da igreja no mundo para com

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o evangelismo pode ser resumida em termos exatamente contrários:

nenhum entusiasmo, pouco sentido sentido de dever. Como isso poderia

ser transformado num "sou devedor, estou pronto, não me envergonho?"

Uma das coisas que deveriam acontecer é que o povo de Deus tivesse um bom conhecimento de que crêem.

Em segundo lugar, precisamos reconhecer que perguntas reais e importantes estão sendo feitas por teólogos em nossos dias, que não podem ser ignoradas.

Em terceiro lugar, precisamos encorajar os estudiosos cristãos a ir para as fronteiras e se envolver no debate, e ao mesmo tempo manter sua participação ativa na comunidade de fé. Isso não é fácil, mas a solidão de alguns eruditos cristãos também não é boa solução. Isolamento é uma condição não saudável e perigosa.

Em quarto lugar precisamos orar mais e de modo persistente por graça do Espírito de verdade. Estudo, preparo e comunhão são importantes para o crescimento na compreensão e certeza, mas ultimamente somente Deus pode nos convencer sobre Deus.

Uma maioria de líderes cristãos deveriam parar sua dança ao redor dos bezerros de ouro da modernidade, e em vez de perguntar tanto sobre

o que o homem moderno tem a dizer a Igreja, deveriam começar a

perguntar o que a Igreja tem a dizer ao homem moderno. Há uma fome por

respostas religiosas em meio às diferentes camadas da sociedade hu-

mana. O processo de secularização por ser dirigido numa direção tal que

o vacuum deixado pela decepção do materialismo e tecnicismo seja

preenchido pelo Evangelho. A Igreja precisa assumir uma atitude de autoridade e reassumir sua proclamação de uma mensagem imutável.

Falamos de três obstáculos e desafios para o pregador de nossos dias.

O espírito anti-autoridade faz com que as pessoas não queiram ouvir, a

dependência da televisão que os torna incapazes e indolentes, e a atmos-

fera contemporânea de dúvida que paralisa tanto o pregador como o ouvinte.

Qual a nossa reação como escola de teologia?

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4. O CHAMADO AO ESTUDO

Se queremos construir pontes para dentro do mundo real, e procurar relacionar a Palavra de Deus com os principais temas da vida e as principais questões da vida, então temos de levar a sério tanto o texto bíblico (estudo) e o cenário contemporâneo. Retirar-se do mundo para dentro da Bíblia é escapismo ou fugir da Bíblia para dentro do mundo é conformismo, e isso será fatal para nosso falar, nosso proclamar, nossa pregação como tal. Qualquer um desses equívocos impossibilita a cons- trução de pontes, e a não-comunicação é inevitável. Ao contrário, nós temos a responsabilidade de explorar os territórios nos dois lados, para podermos discernir as conexões entre os dois lados e estar e condições de falar a Palavra divina para a situação humana com um certo grau de sensibilidade e precisão.

Tal exploração significa estudo, e o melhor aluno, o melhor professor

e o melhor pastor será aquele que permanece aluno durante toda a sua

vida. Sempre temos muito a aprender. Nunca estamos prontos. E quem pára de aprender, em breve haverá de parar de ensinar e pregar bem. Quem não mais planta no estudo não mais colherá no púlpito. A crise de

púlpito de nossa igreja seria falta de estudo, preparo na leitura do texto e

contexto?

Há um frescor e vitalidade em cada sermão que brota do estudo sério. Sem estudo nossos olhos ficam embassiados, nosso fôlego enfraquecido. "A vida do pregador precisa ser uma vida de grande acumulação", disse um bispo. Precisamos aprender a estudar por causa da verdade.

Billy Graham disse que se tivesse que começar seu ministério desde

o princípio, ele estudaria três mais do que estudou. Assumiria menos

compromissos. "Eu preguei demais", disse ele, "e estudei de menos".

É relevante o que disseram os apóstolos em Atos 6.4: "nós nos

consagraremos à oração e ao ministério da Palavra". Os apóstolos tinham consciência da importância do estudo da Palavra.

Alguém disse: "Se eu tivesse somente três anos para servir ao Senhor, eu gastaria dois deles no estudo e preparo".

O estudo das Escrituras é uma das maiores responsabilidades que

temos, pois o pastor cristão é basicamente chamado para o ministério da

Palavra.

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Frequentemente nossa pregação soa remota, distante da realidade social em que vivemos, não tocada pelas suas agonias, imaculada em seus ideais irrelevantes. A via vox evangelii precisa ser falada de coração a coração e de vida para vida. A estrada da pregação do quarto de estudo ao púlpito passa pela rua barulhenta, pelas casas e hospitais, fazendas e fábricas, ônibus, metros, cinemas, salas de teatro, bancas de jornais.

Um pregador é em primeiro lugar um ser humano, "em casa" entre seres humanos, e depois um estudioso erudito, "em casa" numa biblioteca. Quem sabe no púlpito precisa conhecer o mundo da vida real no presente

e o mundo do passado acontece nos livros.

O estudo do mundo moderno começa com pessoas. E a mais rápida

maneira de conseguir compreender um pouco mais o cenário humano é fechar nossa boca (coisa não muito fácil para pregadores compulsivos) e abrir nossos olhos e ouvidos.

Como pastores precisamos fazer perguntas às pessoas e deixá-las falar. Precisamos saber mais sobre a Bíblia do que eles, mas eles provavelmente sabem mais sobre o mundo real do que nós sabemos. Assim, deveríamos encorajá-los a falar sobre seu lar e vida familiar, seu trabalho, seus medos, suas habilidades e seus hobbies. Nós também precisamos penetrar além do que fazem e chegar no que pensam.

É importante para nós ouvirmos os representantes das diferentes

gerações e ouvir as diferentes culturas, especialmente das gerações mais novas. Um ouvir humilde é indispensável para a pregação relevante. Isso também faz com que a pregação seja um empreendimento cooperativo, em que nosso conhecimento da Bíblia e o conhecimento que os outros tem do mundo combina para construir pontes.

É indispensável, além do ouvir cuidadoso, que nós leiamos um jornal

diário, ou semanal, tenhamos algum contato com a TV, leiamos recensões dos principais livros seculares, para conhecer o conteúdo dos livros que formam a opinião da maioria, que mais influenciam o pensamento, vejamos

alguns filmes (Ex.: Mudança de Hábito I e II), peças de teatro, pois nada espelha mais a sociedade contemporânea com fidelidade do que o palco,

a tela e os livros.

É verdade que o desejo por popularidade é nocivo, e muitos de nós do

século XX são fariseus que amam "o louvor dos homens mais do que o louvor de Deus" (Jo 10.43).

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Há muitos espíritos desse século que são maus, e como disse um pastor inglês, "se você casa com o espírito de sua própria geração, você será uma viúva na próxima". É um alerta para a não identificação cega com certo momento histórico. No entanto isso não quer dizer que não podemos estudar as tendências contemporâneas. Não podemos cooperar com o espírito da época, muito menos casar com ela, mas antes precisamos ter uma compreensão dessa época com uma visão para confrontá-la com a relevante Palavra de Deus.

Grupos de leitura e informações

Que tipo de estudo poderá nos ajudar na compreensão de nosso mundo moderno? Stott sugere a criação de grupos de leitura e de troca de informações sobre temas. É a ideia de uma dúzia de bacharéis e pessoal profissional, médicos, advogados, professores, arquitetos, etc, e se reunir mensalmente para um encontro de uma noite, repartindo nossas reações a livros previamente indicados. Essas discussões depois nos levaram a ver

a resposta cristã para isso. Ex - Jacques Ellul - Violência e o Sentido

da Cidade. Estudo de ideologias rivais ao cristianismo, o Alcorão, tentando

entender o apelo contemporâneo ao misticismo oriental, e outros ismos. Também outros autores, nas mais diferentes áreas do conhecimento das ciências humanas, (lista de livros que são best-sellers) podem ser lidos. Também é oportuno o diálogo sobre filmes famosos e seus temas relevan- tes no viver de nossos dias. Ex.: Guerra nas Estrelas, Contatos de Terceiro Grau. De quem é a vida afinal (eutanásia), Kraemer v. Kraemer, Mudança de Hábito.

A experiência dos grupos de leitura e discussões, poderá aumentar

nossa compreensão do mundo moderno, mas mais do que isso, estimulará nossa compaixão pelos seres humanos em seu estado de perdição e desespero, e confirmará nossa fé e clarificará nosso sentido de missão cristã. John Stott fez essa experiência e deu resultado em seu ministério.

Outro tipo de grupo com o qual o pastor pode se reunir é o grupo de informações, para ter dados e subsídios sobre alguns temas sobre os quais não dispõe de muita informação. Ex.: trabalho e desemprego, relações industriais, a nova ordem económica mundial.

E muito bom estabelecer contatos com pessoas especializadas sobre

determinado assunto, e se possível ouvir opiniões diferentes e contrárias sobre o mesmo tema. Ex: conselhos, informações sobre trabalho e de- semprego: contatos com pessoas de fábricas, sindicatos, patrões, pessoas

desempregadas. Contatos diretos permitem ver o desemprego não como

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um problema estatístico, mas como um problema pessoal, humano. Con- tato vivo, direto com desempregados ajuda a ter empatia com o que sente

a dor, o choque, a rejeição, a ferida, a humilhação e o senso de impotência, que são causados pelo desemprego. Pode haver cooperação entre leigos

e clero na elaboração de mensagens e sermões.

Não é correta a visão de que os leigos levantam questões e nós pastores respondemos. Nós também temos que fazer nossas perguntas para eles responderem. Mas é que quando pastores e leigos perguntam um para o outro, nós da perspectiva bíblica e eles da perspectiva contemporânea, podemos juntos discernir que respostas devem ser dadas se a Palavra é para ser contextualizada no mundo.

Nada é melhor para restaurar a saúde e vitalidade para a Igreja ou para conduzir seus membros para a maturidade em Cristo do que a recu- peração, ou restabelecimento da pregação autêntica, bíblica e contem- porânea, fiel a Deus e fiel ao compromisso com o ser humano.

A tarefa da pregação hoje é extremamente exigente, requer muito

cuidado e atenção, na medida em que procuramos construir entre a Palavra

e o mundo, entre a revelação divina e a experiência humana, e relacionar um ao outro com integridade e relevância.

CONCLUSÃO

A melhor maneira para expressarmos a tensão que abordamos nesse

estudo está no conhecido exemplo do pêndulo. As palavras de Jesus "Vinde a mim!" seguidas de Seu "Ide por todo o mundo" são um pêndulo

em movimento.

A afirmativa de Congar de que "a pregação de um Deus sem o mundo

teve como resultado um mundo sem Deus" nos deve fazer refletir.

Albert Einstein humildemente confessou uma vez que a ciência não sabe, e nunca poderá saber, o que é de fato a matéria. Segundo esse grande cientista, a ciência somente poderia se preocupar com o como a matéria se composta.

É claro que a ciência não responde todas as questões da vida. L.

Wittgestein afirma que "mesmo quando tivermos possivelmente respon- dido todas as possíveis questões científicas, nós vamos perceber que nossos problemas vitais ainda não foram tocados".

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IGREJA LUTERANA - NÚMERO 1-1994

por outro lado, a Igreja precisa fornecer ao mundo cientistas que vêem

a realidade da vida humana ou os fenômenos do mundo com os olhos da fé precisamos de cientistas e eruditos que operam com pressuposições

cristãs e testemunham ao mundo que ser cristão não significa um negar-se

a usar a razão e a ciência. Relembramos que foi a ótica do cristianismo que possibilitou o surgimento da ciência como a temos hoje em nosso mundo ocidental.

Além de todo conhecimento científico, há muita coisa da vida humana que vai além de seu controle e conhecimento. A vida humana está envolta em mistério, e sem o mistério maior ele não entra paz.

A mensagem da Bíblia não é um mito, um produto humano para tentar dar respostas, um objetivo e sentido a vida do ser humano, mas é a revelação do grande mistério - Cristo, que entrou no século, no mundo para salvá-lo. Cristo é a secularização de Deus. Deus está entre os homens nas ruas, nas festas. A encarnação de Deus é a verdadeira secularização. Cristo revela os mistérios de Deus aos seres humanos. E todas as criaturas de todas as raças são convidadas a participar nesse amor misterioso. Cristo para todos é nosso lema.

Certamente todos nós sentimos que a atmosfera cultural de nosso tempo está se tornando secular ou neutra, e isso criou um desafio novo e saudável para a igreja cristã. Sobreviver espiritualmente nessas "novas águas" não é tão fácil. É necessário saber pessoalmente como "nadar". A fé precisa ter raízes profundas e ser pessoal nesse contexto.

Helmuth Thielicke comenta que a igreja, por ter sua tarefa no (mundo) saeculum, o saeculum também tem algo a dizer aos mensageiros de Deus. Pode ser o que eles tem a dizer é um protesto, mas quem ouve esse protesto corretamente aprende a compreender-se a si mesmo e seu modo de ser melhor, e com isso é capacitado a ser testemunha com novo poder.

Definitivamente terminou a ilusão de uma igreja cristã em casa nessa cultura "cristã contemporânea". A igreja cristã tem que reconhecer de que

é uma minoria que não está "em casa" na cultura humana e por outro lado

não tem outro lugar do que a cultura humana para desenvolver seu trabalho, sua missão, sua tarefa, e viver sua fé. Cristãos são cidadãos de dois mundos, e sua tarefa é justamente nesse mundo que os rejeita, é indiferente e hostil. É sua missão ser sal, luz e fermento em meio as vidas das criaturas humanas secularizados desses novo tempos.

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O cristão é a única pessoa que pode dedicar, com a motivação correia,

todo seu trabalho para o bem-estar dos outros, pois na fé ele recebeu muito.

O cristão pode dar porque ele recebeu. Ele pode ser o humanista por

excelência. Sua motivação não é egoísta mas divina, porque Deus habita nele. Sua vida tem um objetivo, alvo, sentido e esperança real. Essa fé somente se realiza, concretiza quando ela encontra expressão concreta no meio desta vida terrena. É tarefa dos cristãos nesse mundo: humanizar a ciência, a técnica, que deixada a si mesmas, levam à destruição.

A igreja cristã é também o veículo, o canal de Deus para questionar e

responder ao ser humano secular em seus dilemas expressos nos produtos

culturais, como arte e filosofia. Ela é a comunidade de testemunho que proclama o Kerygma de Deus e a comunidade do amor que brota do Deus que é amor.

O indivíduo cristão - seu amor, sua mensagem - esse é o fator crucial

no ataque da igreja sobre o mundo. E nessa missão a congregação desempenha papel muito importante.

Nada é mais relevante para a necessidade humana do que a verdade falada em amor. E para realizar essa missão a igreja precisa frequente- mente desobstruir o caminho tirando os obstáculos das incompreensíveis, falsa interpretação, preconceitos, caricaturizações, para depois poder pro- clamar a mensagem libertadora. Como nos primeiros tempos, os cristãos precisam "sempre estar preparados para responder a todo aquele que lhe pedir razão de sua esperança". (1 Pe 3.15)

Como cristãos individualmente e como um grupo em comunhão, nós temos que falar, confessar, testemunhar, viver e ensinar a verdade escri-

turística, e como tal às vezes rejeitar, discordar, refutar e condenar aqueles ensinamentos, doutrinas, ideologias e pressuposições que são contrárias à Palavra de Deus. Também temos que nos opor ao dogmatismo expresso por alguns humanistas seculares ou ateus. Precisamos estar firmes e seguros ao afirmarmos claramente nossas convicções, interpretações, pressuposições e "visões de mundo". Não podemos perder nossa identi- dade nessa nossa cultura pluralista, relativista e secular.

O profeta Micaías é modelo e referencial para nós hoje. Falemos o que

Deus nos falou em amor.

Cada época, porém, é em última análise, uma época de incredulidade.

É verdade que acontecem intensificações de dificuldades e novas formas

de descrenças, mas ultimamente cada geração está ofendida com o próprio Evangelho em si. Assim, onde a verdadeira igreja está presente, ali sempre

há escândalo simplesmente porque os homens estão com medo da ver-

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dade e suas exigências, e querem ser autónomos, criaturas que se bastam com suas próprias respostas às suas perguntas e "donos de seu nariz", responsáveis por si próprios.

É verdade que a igreja cristã também provoca escândalos por seus

fracassos e erros, sua hipocrisia, seu ritualismo vazio, mas o verdadeiro escândalo os homens encontram na cruz e sua mensagem de graça e amor de Deus. Esse escancadalo não pode e não deve ser removido, porque isso é de fato a essência do Evangelho, do Kerygma.

Em atos 16 nos é relatado que Paulo e Timóteo queriam ir para Betânia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu. O roteiro foi modificado para regiões mais desafiadoras, como Corinto, Grécia, Jerusalém, Roma, os núcleos de difusão da cultura.

A periferia e a marginalidade não convém a um cristianismo que deseja

ser luz, sal e fermento do seu povo, do seu tempo, de sua cultura, diria O. Schuler.

Como dizia meu querido professor O. Schuler, para bem "receitar é preciso saber bem diagnosticar. Isso é válido para a medicina do corpo e para a medicina da alma".

Estudos sociais auxiliam a fazer um diagnóstico das enfermidades espirituais do século que vivemos, habilitando-os a receitar adequada- mente a fé, a esperança e o amor.

A igreja cristã do século XX, quase do século XXI, é livre para se

movimentar para dentro de um território desconhecido - essa era seculari-

zada, sabendo sempre que ela é guiada por Deus e que nos Seus planos ela existirá até o fim do saeculum.

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Elementos de comunicação no aconselhamento pastoral

Dieter J. Jagnow

Este estudo 1 pretende explorar o processo de aconselhamento pas- toral como um processo de comunicação interpessoal baseado em três pressuposições. Primeiro, que princípios de comunicação estão neces- sariamente presentes no aconselhamento pastoral e determinam sua

natureza como um processo comunicativo. 2

tendido que o aconselhamento pastoral lucra quando se submete a princípios que governam uma comunicação interpessoal eficaz. Não que a comunicação seja o objetivo final em aconselhamento, mas sim um meio para se alcançar outros objetivos, basicamente a eficácia do pastor no processo de aconselhamento.

A segunda pressuposição é que o conselheiro pastoral é um comuni-

cador. Também nesta área do ministério ele é mensageiro e canal de Deus.

O pastor não pode ser mensageiro de Deus sem ser um comunicador. Ser um comunicador não é uma atividade ministerial no sentido de que foi determinada por Deus. Contudo, o ministério possui uma faceta comuni- cativa que é intrínseca à natureza do processo. Como o pastor não pode NÃO comunicar, seu ministério é necessariamente caracterizado e reali- zado através de contínuos atos de comunicação.

A terceira pressuposição é que a comunicação do pastor pode ser

eficaz ou ineficaz, e que os resultados positivos ou negativos são neces-

sariamente sentidos no processo de aconselhamento. Existe uma re- lação direta entre comunicação eficaz e aconselhamento eficaz.

Como resultado, é aqui en-

O Rev. Dieter J. Jagnow atualmente atua como pastor na Paróquia Evangélica Luterana de Giruá, RS, filiada à IELB. Este artigo é uma síntese da dissertação de Mestrado (Master of Sacred Theology - STM), área Teologia Prática, defendida pelo Rev. Dieter perante a Faculdade de Teologia do Concórdia Seminary, Saint Louis, USA, em outubro de 1992.

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Em suma, este artigo pretende mostrar que o aconselhamento pastoral

é um processo de comunicação, que este processo pode ser mais ou

menos eficaz devido a certas barreiras, e que existem maneiras do pastor ampliar sua capacidade comunicativa e, consequentemente, sua eficácia no aconselhamento.

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O Aconselhamento Pastoral como um Relacionamento Comunicativo

Um sentido básico de "comunicação" é “tornar alguma coisa comum" com alguém. Este sentido, de um lado, tem um aspecto de "passar adiante uma informação"; de outro lado, possui aspectos naturalmente conectados:

interação, diálogo, relacionamento, intercâmbio. Estes aspectos revelam que comunicação não é um evento do tipo causa e efeito, de uma só direção, ou uma entidade estática fixada no tempo e no espaço. 4 Ao contrário, é um processo espiral. Comunicação, no sentido mais puro do termo, não pode existir sem este intercâmbio. H. J. C. Pieterse afirma que "sem fazer parte da vida e do mundo dos participantes do processo não pode existir comunicação". 5

Quando o pastor e o aconselhando iniciam um processo de aconse- lhamento, eles entram em comunicação e começam a trocar mensagens

e significados. Este processo de troca determina o surgimento de um

relacionamento. Desta forma, o processo de comunicação entre ambos é um vínculo para a criação de um relacionamento. Como afiirna Ferder, comunicação é quem basicamente sustenta relacionamentos. 6

O aconselhamento pastoral é fundamentalmente uma interação inter-

Este re-

pessoal, um relacionar-se entre o pastor e o aconselhando.

lacionamento é a força emocional e espiritual que entra em operação por causa do comportamento comunicativo de ambos. Durante todo o processo de aconselhamento existe um intercâmbio de sentimentos, emoções e ideias, o que se traduz numa significativa comunicação verbal e não-verbal.

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Uma comunicação não-relacional no aconselhamento pastoral seria

não apenas impessoal mas também contra a natureza da comunhão cristã.

A bem da verdade, sem um relacionamento que oferece uma gama de

elementos construtivos pode existir pouco ou nenhum sucesso no acon- selhamento. Por isso, em qualquer tipo de comunicação interativa o processo está intimamente atado ao relacionamento entre o pastor e o aconselhando. 8

Cada relacionamento em aconselhamento pastoral é criado para al- gum propósito funcional. Uma função é satisfazer necessidades interpes- soais de amor, senso de pertencer, segurança, e auto-estima. Uma outra função é a criação de um ambiente para "auto-aprendizado". Por exemplo, em seu relacionamento com o pastor o aconselhando pode aprender a

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reconhecer e lidar com seus impulsos e sentimentos, aprender novos

valores e atitudes, e obter um melhor autoconhecimento. Relacionando-se com o pastor, o aconselhando tem a oportunidade de desenvolver novos padrões de resposta para situações anteriormente traumáticas. Inclusive

o relacionamento pode se tornar um padrão ou guia no estabelecimento

de relacionamentos sadios fora do processo terapêutico. Richard P. Vaughan concorda com esta função quando diz que o aconselhando pode "lucrar com esta experiência e formar relacionamentos similares com pessoas que ele encontra no curso normal de sua vida". 9

O relacionamento entre o pastor e o aconselhando também pode ser visto como tendo a função de servir de prática da comunhão cristã, que

ambos têm entre si e com Deus através da fé em Cristo. Ele é uma arena para a prática do carregar mutuamente as cargas (cf. Efésios 4.2 e Gálatas 6.2), e para a prática da preocupação pelo outro (cf. 1 Coríntios 12.25). Enfim, através do relacionamento um mundo novo é criado; um mundo no qual nenhum dos participantes está sozinho, mas no qual cada um alegre

e dolorosamente compartilha da vida do outro, especialmente o pastor compartilha da vida do aconselhando.

Um relacionamento sadio e construtivo no aconselhamento pastoral não acontece por acaso; é um processo de construção. Abaixo são sugeridas algumas orientações (no caso, dirigidas ao pastor) que ajudam no processo.

a) O pastor deve mostrar ao aconselhando, através de comunicação

verbal e não-verbal, desde o princípio do processo de aconselhamento, que está aí e pronto para ajudar em seu problema. O pastor precisa ser

capaz de comunicar uma atitude de aceitação, dando testemunho de valores cristãos como amor, respeito, interesse e encorajamento; ser percebido pelo aconselhando como alguém confiável, consistente e amoroso.

b) O pastor deve livremente expressar tudo o que pode ajudar o

aconselhando em seu problema. Quando o aconselhando vê que o pastor está falando abertamente, isto comunica a mensagem de que o pastor está realmente interessado nele. Ele somente pode comunicar abertamente quando sente que está sendo compreendido e aceito pelo pastor. "Aber- tura" modela "abertura".

c) O pastor deve garantir a liberdade do aconselhando. Relaciona-

mento interpessoal eficaz e genuína mutualidade dependem da liberdade de cada pessoa participante no processo. O aconselhando será prejudi-

cado em sua comunicação se tem negada a oportunidade de auto-ex- pressão ou participação ou interação.

d) O pastor precisa estar consciente de que clareza verbal é uma habilidade fundamental para um adequado relacionamento comunicativo.

Clareza verbal facilita o entendimento acurado por parte do aconselhando

e permite a correção para eventuais dúvidas. Clareza verbal também

mostra ao aconselhando que ele está sendo convidado a expressar seu problema da mesma maneira, sem medo e sem rodeios. e) O pastor deve evitar dogmaticidade, isto é, comunicação que não deixa espaço para discussão. Afirmações dogmáticas prejudicam, criam barreiras para a comunicação. O que se requer é uma comunicação dialógica, que promove uma comunicação circular, como será visto abaixo.

O pastor não pode forçar um relacionamento. Relacionamentos forçados não são autênticos e não contribuem para o sucesso do aconse- lhamento. O relacionamento deve ser permitido crescer lenta e natural- mente. E ele cresce à medida em que o aconselhando gradativamente amplia sua confiança no pastor.

O Aconselhamento como uma Comunicação Dialógica

O diálogo é um ingrediente básico em comunicação, pois tanto o falar

e escutar - verbal e não-verbalmente - estão envolvidos e são essenciais

ao processo. Interação, relacionamento sem diálogo é impossível, e por isso aconselhamento pastoral sem diálogo é impossível. Hulme lembra que "aconselhamento pastoral é dialógico em sua estrutura: existe ouvir e falar, dar e receber". 10

O diálogo demonstra que o processo de comunicação é uma rua de

mão dupla, caracterizado muito mais por simultaneidade do que por meias-voltas. Erickson aponta para esta dinâmica reprocidade ao dizer que o diálogo sempre se refere a "uma conversa-dar-e-receber entre duas pessoas capazes de aceitar ideias, opiniões e sentimentos uma da outra". O diálogo também pode ser entendido como um processo circular, um movimento de significados do emissor para o receptor, de volta ao emissor, e assim por diante.

O diálogo é enfatizado aqui a fim de demonstrar exatamente a natureza

interativa, relacional, comunicativa do aconselhamento pastoral. Apenas o diálogo quebra o solitário monólogo do sofrimento que o aconselhando está vivendo e abre possibilidade do exercício do amor cristão, de compreen- são, de cuidado, de comunicação. Se o aconselhamento tem esta natureza, então não existe lugar para monólogo.

A idéia do pastor emitindo todas as palavras e monopolizando a

comunicação choca de frente com a natureza do aconselhamento. Quando

o processo é uma mera entrevista, com o pastor perguntando e o aconse- lhando respondendo, o que existe é unilateralidade.

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Dialogo, em aconselhamento pastoral, nao e uma mera conversa simpática ou social. Diálogo é uma conversa intencional, estudada, dirigida. Conselheiro e aconselhando são "um" lidando com o problema que pre- ocupa a ambos. Cada um faz sua própria contribuição no empreendimento. É um esforço e processo cooperativo. De um lado, o aconselhando é aquele que melhor conhece sobre o seu problema e está subjetivamente envolvido nele. De outro lado, o pastor participa como alguém que possui algum nível de habilidade, experiência e treinamento. Seu envolvimento no problema é objetivo, permitindo-lhe que veja e diga o que o aconselhando não pode ver e dizer. No diálogo, o pastor escuta atentamente, introduz informação útil, faz perguntas pertinentes, estimula o pensamento do aconselhando, e usa todo recurso disponível a fim de assisti-lo em sua caminhada para chegar a uma melhor compreensão de seu problema e suas possíveis soluções. Em outras palavras, a função dialógica do pastor é ser um facilitador do processo, e não a fonte de todas as soluções

e respostas.

De outro lado, o diálogo não pode ser um meio que o pastor utiliza para persuadir o aconselhando a aceitar suas ideias, conceitos e soluções. Persuasão é algo que pertence à esfera do Espírito Santo. A tarefa do

pastor é fazer todo o esforço para ver o processo de diálogo como um importante caminho para que se chegue a um consenso com o "ponto de vista" de Deus. Underwood comenta que o objetivo final do diálogo pastoral

é ajudar o aconselhando a ver a sua vida de acordo com a luz de Deus.

O diálogo é o melhor canal de transmissão de informação e significado

no aconselhamento pastoral. Por exemplo, quando o pastor realiza um diagnóstico do problema do aconselhando, ele precisa de informação, por exemplo, sobre as origens, ramificações e consequências do problema.

Bem conduzido, o diálogo sempre promove o processo de aconse- lhamento de alguma maneira, tanto provando a sua natureza comunicativa, como enriquecendo o relacionamento entre o pastor e o aconselhando, desenvolvendo maneiras para se chegara respostas e soluções.

Aconselhamento Pastoral como Proclamação Comunicativa

Como já foi visto, um dos sentidos de comunicação é compartilhar, tomar alguma coisa comum com alguém, passar adiante uma mensagem. No aconselhamento pastoral este aspecto também está claramente pre- sente através da comunicação ou proclamação da Palavra de Deus ou do Evangelho.

É a proclamação da Palavra de Deus que fundamentalmente esta-

belece a distinção básica entre aconselhamento pastoral e aconse- lhamento secular. Enquanto o conceito de força divina através da Palavra usualmente está fora deste, ele define e marca a singularidade daquele.

Verdadeiro aconselhamento pastoral é impossível se é baseado em articu- lação humana, mesmo se o pastor e o aconselhando conversam sobre Deus e coisas divinas. Em algum momento do processo a PALAVRA DE DEUS precisa ser articulada, declarada, compartilhada, comunicada. Stone afirma que "cuidado pastoral envolve a proclamação (comunicação) da Palavra e o mútuo escutar e falar dela".

A ideia de que a proclamação do Evangelho não apenas é central mas também vital ao aconselhamento pastoral tem sido resistida por alguns teólogos pastorais. Aconselhamento pastoral não pode ser "pregação",

dizem. É claro, o processo não tem a intenção de ser um "púlpito". Contudo,

é necessário entender que a missão pastoral do conselheiro está sob a

missão geral do ministério, que envolve a comunicação da Palavra de Deus. Aconselhamento cristão opera com uma perspectiva cristã, e, por isso, trata com o aconselhando com esta perspectiva. Por isso, o aconse- lhamento não pode ser visto apenas como uma expressão de preocupação cristã a fim de responder às necessidades humanas em geral, mas como uma parte do distintivo trabalho pastoral de tornar a Palavra de Deus viva na vida do aconselhando. A Palavra de Deus é absolutamente capaz; o pastor pode - e deve - aplicá-la com a confiança de que Deus irá agir através dela de maneira criativa, regeneradora, motivadora, saneadora, de acordo com a sua vontade, na vida do aconselhando. A Palavra de Deus tem poder porque é tornada poderosa pelo Espírito Santo.

Contudo, a Palavra precisa ser comunicada em total adequação com

a questão do momento. A proclamação pode ser de pouca ajuda se é

dirigida a um problema errado ou a um problema que não existe. Por exemplo, pode-se dizer que o poder e a eficácia da Palavra são mal utilizados se o diagnóstico é depressão e o pastor proclama o Evangelho ao aconselhando apenas como justificação da fé, sem direcioná-lo ao problema de depressão. Por isso é necessário que o pastor faça um diagnóstico adequado do problema do aconselhando e determine que novas direções são necessárias para a sua vida, para a solução do seu problema.

Barreiras de Comunicação no Aconselhamento Pastoral

Comunicação perfeita é uma ilusão. Qualquer processo comunicativo sempre inclui ruídos ou barreiras. As barreiras podem tomar formas dife- rentes e produzir diferentes efeitos. Uma barreira é qualquer coisa que perturba, distrai ou bloqueia o processo comunicativo.

As barreiras podem ser externas, internas ou semânticas. As externas sao aquelas resultantes de atividades acontecendo no contexto dos comunicadores e que perturba sua atenção. Podem ser carros passando, crianças chorando ou brincando, o barulho de uma britadeira.

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Barreiras internas sao pensamentos e sentimentos (tanto do emissor como do receptor) que interferem no significado da mensagem. Por exem- plo, se o pastor não está se sentindo bem, ou se está preocupado com o sermão a ser pregado logo depois, ele pode estar criando barreiras internas.

Barreiras semânticas são aquelas resultantes de significados diferen- tes causados pelo uso de símbolos. Certos símbolos podem significar coisas diferentes para diferentes pessoas. O aconselhando pode estar querendo comunicar uma coisa e o pastor estar entendendo algo bem diferente.

Como o aconselhamento pastoral é um processo de comunicação, barreiras também estão presentes. A eficácia da comunicação do conse-

lheiro é afetada negativamente por estas barreiras e, consequentemente,

a eficácia do processo de aconselhamento.

Como existe uma variedade praticamente ilimitada de barreiras no aconselhamento pastoral (culturais, físicas, psicológicas, intelectuais, linguísticas, espirituais), é impossível categorizaras muitas razões porque conselheiro e aconselhando falham em comunicar eficazmente. Para fins

de exemplificação, algumas barreiras são comentadas a seguir.

Diferenças entre o pastor e o aconselhando podem ser uma fonte de

barreiras. Por exemplo, pode existir uma diferença de compreensão: o pastor vê um certo problema de uma maneira, e o aconselhando de outra.

O mesmo acontece com diferentes expectativas: se o aconselhando es-

pera que o pastor faça "milagres" em relação a seu problema, e eles não acontecem, ele pode ficar frustrado. Esta frustração pode se manifestar como uma barreira num dado momento do processo de comunicação.

Obscuridade verbal tende a criar barreiras significativas. Quando o pastor (ou o aconselhando) não torna claro o que quer dizer, ou quando não expressa o que de fato quer ou imagina, barreiras são criadas. Clareza verbal é fundamental para comunicação acurada e eficaz.

Barreiras psicológicas também produzem falhas de comunicação por parte do pastor no aconselhamento pastoral. Vaughan diz que um conflito pessoal que o pastor tem pode afetar a eficácia de seu executar. Quando

o aconselhando fala sobre algo que traz à mente do pastor uma experiên-

cia dolorosa, ele pode ficar distraído ao enredar-se em seus próprios sentimentos. O resultado é que ele não mais consegue escutar adequada- mente o que o aconselhando está dizendo. 14

O pastor pode criar uma barreira ao ouvir seletivamente a mensagem do aconselhando, isto é, ouvir somente o que ele quer ouvir. Isto, é claro, faz com que o pastor falhe em capturar o quadro inteiro da mensagem do aconselhando. Quando o pastor ouve "mais depressa" do que o aconselhando fala também pode surgir uma barreira. Ao fazer assim, diz Hamilton, o "conse- lheiro vai adiante do aconselhando e começa a tirar conclusões sobre o que o aconselhando ainda vai dizer". O resultado, conclui Hamilton, é que

a consciência do "você não está comigo" faz com que o aconselhando

fique frustrado, prejudicando a verbalização de seu problema. 15 Quando o aconselhando sente que não está se relacionando com o pastor que ele conhece, é possível que o pastor não esteja sendo autêntico ou sincero em sua comunicação. Não ser autêntico, portanto, é uma outra barreira de comunicação. Sinceridade é um elemento vital para uma boa comunicação. A sinceridade amplia a credibilidade da comunicação.

Comunicação mais eficaz no aconselhamento pastoral pode não ser fácil, mas é possível. É olhando honestamente para as barreiras e redu- zindo o precipício que existe entre ele e o aconselhando que o pastor pode melhorar a eficácia de sua comunicação.

Existem várias maneiras de diminuir o impacto de barreiras no acon- selhamento pastoral. Para fins ilustrativos, vamos brevemente discutir dois elementos básicos de qualquer processo de comunicação/aconse- lhamento: o feedback e o ouvir.

Feedback

O pastor não pode supor que comunicação real aconteceu apenas porque enviou uma mensagem ao aconselhando. Alguma comunicação

pode ter ocorrido, mas ele não pode estar certo de que a mensagem que ele pretendeu enviar é aquela que o aconselhando recebeu. Hulme corre- tamente lembra que apenas quando encorajamos o "feedback é que podemos compreender que nem sempre somos claros em nossa comuni-

cação ao outro como pensamos".

Portanto, um elemento fundamental

do processo de comunicação, necessário para superar barreiras, é o

feedback.

Feedbacks são mensagens enviadas pelo comunicador destinatário em resposta à mensagem original enviada pelo comunicador de origem.

Feedback é resposta, resposta com um propósito comunicativo. Portanto,

o feedback marca a comunicação interpessoal como um processo circular, um vai-e-vem de mensagens, que mantém abertos os canais de comuni- cação.

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No aconselhamento pastoral, o feedback providencia pistas e supre com informações sobre o efeito do processo de comunicação entre o pastor e o aconselhando. Por exemplo, o propósito pode ser de testar a compreen- são do aconselhando acerca da mensagem que recebeu do pastor. Em caso de resposta positiva, o pastor sabe que não apenas está comuni- cando, mas comunicando de uma maneira que é aceita pelo aconselhando. De outro lado, se o aconselhando envia como retorno sinais que não está entendendo a mensagem, ele na verdade está enviando uma advertência:

corrija ou melhore a sua comunicação. Por causa do ambiente interpessoal do aconselhamento , o pastor e o aconselhando têm a oportunidade única de fazer e refazer suas mensagens até que o sentido se torne o mais claro possível, ou até que haja uma comunicação satisfatória. 17 Assim, de um propósito informativo, o feedback tem um objetivo informativo.

Dada a importância do feedback no aconselhamento, o pastor precisa estar consciente de que, a fim de captar as pistas enviadas pelo aconse- lhando, ele precisa estar totalmente envolvido no processo de comuni- cação. Atenção e concentração são fundamentais. A perda de pistas importantes pode reduzir a eficácia do pastor como comunicador e, espe- cialmente, como conselheiro.

Ouvir

Ouvir é uma parte indispensável como processo de comunicação

interpessoal. Chartier sugere que "ouvir é provavelmente a mais importante

atividade de comunicação".

recebendo mensagens do que produzindo. Quando a arte de ouvir é

perdida, a arte da comunicação também se perde.

No treinamento do pastor existe uma grande ênfase em falar - pregar, ensinar-, e não em ouvir. A atividade ministerial de fato requer muito envio de mensagens. Por esta razão, ouvir normalmente é uma atividade difícil para o pastor.

Ouvir é um ingrediente fundamental para uma comunicação eficaz no aconselhamento porque é a principal maneira do pastor receber infor- mação sobre o aconselhando e seu problema. Quando o pastor está escutando ele também está aprendendo.

Uma outra razão para o ouvir é mostrar ao aconselhando que o pastor está realmente interessado nele e em seu problema. Esta atitude ajuda o aconselhando a se sentir compreendido, a expressar-se mais livremente, a criar coragem para falar sobre o seu problema.

Ouvir, no aconselhamento pastoral, é muito mais do que o processo físico de escutar. Ouvir é o "processo emocional no qual uma pessoa integra habilidades físicas, emocionais e intelectuais numa busca ativa e

Os seres humanos gastam mais tempo

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empática por significado". 19 O que se requer, portanto, não é um ouvir passivo, mas ativo, com envolvimento pessoal, com o coração, empati- camente. Hamilton diz que escutar com o coração capacita o pastor ouvir brados inaudíveis e enxergar lágrimas invisíveis. E conclui que a habilidade de ouvir de um pastor "não está totalmente desenvolvida até que tenha condições de ouvir não apenas o que está sendo dito, mas também o que está sendo verbalizado".

Ao ouvir intencionalmente, o pastor procura ouvir a partir da perspec- tiva do aconselhando, tentando descobrir o que está acontecendo no seu interior enquanto está falando. Com isso, o pastor evita inserir seu próprio "mundo" no processo.

Existem várias orientações para melhorar a eficácia do ouvir no acon- selhamento pastoral. Algumas estão anotadas a seguir. 21

A mais óbvia e simples orientação é a mais facilmente esquecida: parar

de falar e começar a ouvir. O pastor precisa encontrar o equilíbrio entre falar e ouvir. Às vezes é necessário falar mais, e outras, ouvir mais. O pastor precisa "sentir" o que é melhor em determinado momento.

20

O conselheiro pastoral precisa estar preparado para ouvir. A pre-

paração para ouvir é essencialmente uma atitude consciente, não um hábito ou um ato físico.

Ouvir a totalidade da mensagem do aconselhando é uma outra neces- sidade. Isto envolve as suas mensagens verbais e não-verbais. Às vezes silêncios, omissões e gestos comunicam mais do que palavras. O pastor nunca irá receber todo o significado da mensagem. Contudo, poderá receber mais se ouvir com atenção.

Ouvir empaticamente é uma outra atitude fundamental. O pastor precisa se colocar no lugar do aconselhando, tentando ouvir e entender a mensagem de acordo com o que ele comunica de fato. Kraft diz que "empatia é tão importante para uma comunicação eficaz como para ex- pressar amor". 22

O pastor deveria ser o primeiro a reconhecer a natureza comunicativa

do aconselhamento pastoral, as barreiras que limitam a eficácia da comu- nicação, e procurar maneiras de minimizá-las tanto quanto possível. Em- bora o aconselhando tenha um papel significante no processo, o pastor não pode desenvolver seu aconselhamento baseado na habilidade comu- nicativa do aconselhando.

O pastor deve ver-se não apenas como um pastor-conselheiro, mas

também como um pastor-comunicador. Esta atitude comunicativa é funda-

mental para compreender o aconselhamento como um evento repleto de momentos comunicativos, e para criar um ambiente comunicativo.

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Como um comunicador, o conselheiro pastoral nunca pode considerar como garantida sua atividade comunicativa com o aconselhando. Embora tenha aspectos inconscientes, comunicação eficaz requer uma grande dose de esforço consciente.

Embora não discutida aqui, a presença comunicativa do Espírito Santo no processo de comunicação/aconselhamento é vital. Acima de tudo, a atividade do Espírito que cria a base para a eficácia no processo. As habilidades do pastor, mesmo as mais desenvolvidas, são inúteis e inefi- cazes a não ser se acompanhadas pelo trabalho do Espírito Santo.

Como um ministro chamado por Deus para pastorear o povo de Deus, o pastor tem a responsabilidade de realizar seu ministério da melhor maneira possível em todas as áreas. O que Paulo admoestou a Timóteo também é dirigido ao pastor enquanto atuando como um comunicador no aconselhamento pastoral: "Faça todo o possível para conseguir a completa aprovação de Deus, como trabalhador que não se envergonha do seu trabalho, porém que ensina corretamente a mensagem da verdade de Deus". (2.15, BLH)

NOTAS

1 Este estudo, por questão de espaço, não apresenta a fundamentação teórica sobre aconselhamento e comunicação discutida na dissertação. Na dissertação são abordados assuntos como: aconselhamento pastoral e cuidado pastoral, objetivos e funções do acon- selhamento pastoral e do conselheiro pastoral, a singularidade do aconselhamento pastoral quando confrontado com modelos seculares; natureza, modelos, ambientes e funções da comunicação, comunicação verbal e não-verbal, etc.

2 Susan Gilmore, The Counselor-ln-Training. (Century Psychology Series, Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, Inc., 1973), p.225, corretamente afirma que não é possível pensar sobre o processo de aconselhamento sem pensar sobre comunicação. Sua conclusão é que "alcançar o propósito do aconselhamento é impossível sem comunicação, e o conteúdo do aconselhamento não existe a não ser que seja comunicado".

3 Para este fim são apresentadas várias sugestões práticas, porém em formato reduzido, por questão de espaço. Algumas das sugestões da dissertação foram aqui omitidas.

4 Veja Merril R. Abbey, Communication in Pulpit and Parísh (Philadelphia. The West- minster Press, 1976), p.25-26.

5 H.J.C.Pieterse, Communicative Preaching (Pretória: University of South Africa, 1987),

p.9-10.

6 Fran Ferder, Words Made Flesh: Scripture, Psychology & Human Communication (Notre Dame, IN: Ave Maria Press, 1986) p.25.

7 Muito embora possa existir uma terceira ou quarta pessoa no processo, este não é o caso em foco neste estudo.

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8 Veja Charles H. Kraft, Communicatíng the Gospel God's Way (Pasadena, CA. Wílliam Carey Library, 1979, p.126). Veja também Wílliam F. Fore, Television and Culture: The Shaping of Faith,Values, and Culture (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1987), p.39. Fore também corretamente afirma que é impossível entender comunicação sem relaciona- mento. Isto seria como "tentar entender um ser humano através de uma autópsia, a vida está faltando".

9 Richard P. Vaughan, An Introduction to Religious Counseling: A Christian Humanistic Approàch (Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, Inc., 1969), p.13.

10 Wílliam G. Hulme, Pastoral Care & Counseling: Using the Unique Resources of the Christian Tradition (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1981), p.92.

11 Kenneth Erickson, The Power of Communication: For Richer Interpersonal Relation- ship (Saint Louis: Concórdia Publishing House, 1986), p.15.

12 Ralph L. Underwood, Empathy and Confrontation in Pastoral Care (Philadelphia:

Fortress Press, 1985), p.42-43.

13 Howard Stone, The Word of God and Pastoral Care (Nashville: Abingdom Press, 1988), p. 123.

14 Richard P. Vaughan, Basic Skills for Christian Counselors (New York: Paulist Press, 1987), p.82-83. Ver também Marcus D. Bryant, The Art of Christian Care (Saint Louis: The Bethany Press, 1979), p. 31-34.

15 James D. Hamilton, The Ministry of Pastoral Counseling (Grand Rapids: Baker Book House, 1975), p.63.

16

Wílliam G. Hulme, Christian Caregiving: Insights from the Book of Job (Saint Louis:

Concórdia Publishing House, 1992), p.103.

17

James Engel, Contemporary Christian Communication: Its Theory and Practice (Nashville: Thomas Nelson, 1979), p.41, diz: "A instantaneidade do feedback torna a comu- nicação interpessoal altamente eficiente no sentido que tanto o emissor como o receptor podem continuar tentando até que um contato eficaz é feito".

18

Myron R. Chartier, Preaching as Communication: An Interpersonal Perspective (Nashville: Abingdon, 1981), p.48.

19

Chartier, Preaching as Communication: An Interpersonal Perspective, p.51

20 James D. Hamilton, The Ministry of Pastoral Counseling (Grand Rapids: Baker Book House, 1975), p.129.

Maiores detalhes podem ser obtidos em, por exemplo, Chartier, Preaching as Communication: An Interpersonal Perspective, p.55-59; Joseph A. DeVito, The Elements of Public Speaking (New York: Harper & Row, Publishers, 1981), p.31-34; Carl. H. Weaver, Human Listening: Process and Behavior (Indianapolis: The Bobbs-Merrill Company, Inc., 1972), p. 82-106. 22

21

22 Charles H. Kraft, Communication Theory for Christian Wittoness (Nashville: Abingdon Press, 1983, p.209.

O domínio da língua e a aptidão para ensinar

Arnaldo Schuler

É necessário, portanto, que o bispo seja

a Timóteo (1 Tm 3.2).

Introdução

apto

para ensinar. Paulo

Há um hino em que o poeta sacro pede a Deus a bênção de transmitir aos homens o claro entendimento da Escritura. O Apóstolo escreve a

Timóteo, seu filho na fé e veterano companheiro, que a aptidão para fazê-lo

é indispensável ao bispo, isto é, ao supervisor, líder da congregação,

pastor: "É necessário que o bispo seja apto para ensinar." É a aptidão para

compreender a mensagem bíblica e depois transmiti-la, de maneira in- teligível e sem alteração do conteúdo. Mais. O candidato ao episcopado, como observa um comentarista, deve ter um talento especial para o ensino porque seu trabalho será inculcar a verdade e defendê-la contra o erro.

A aptidão para transmitir conhecimentos de maneira eficiente inclui um elemento interno e outro externo: dom natural desenvolvido e habilidade adquirida. Pode dizer-se do mestre autêntico o que se diz do poeta: nasce; não se faz. Nasce, mas não nasce feito. Nasce no sentido de trazer consigo algo de inato, o que, por isso mesmo, se chama dom natural. Mas não nasce feito, porque esse dom inato, essa capacidade ou potencialidade precisa ser atuada e desenvolvida, além de ser necessário adquirir quali- dades ou habilidades a ninguém nativas.

O mestre de que fala Paulo é o epískopos neotestamentário. Não nos ocuparemos com a análise de todas as qualidades que tornam o bispo

didaktikós, como reza o original, competente no ensino, mestre às direitas. Num inquérito realizado na outra América aparecem 1513 qualidades que

o bom mestre devia ter. Quem não se lembra aí da palavra de Tiago: "Meus

Dr. Arnaldo Schuler é professor emérito do Seminário Concórdia onde, vez por outra, leciona disciplinas optativas. O título de Doctor Honoris Causa foi conferido a ele no mês de maio pelo Concórdia Theological Seminary de Fort Wayne, Indiana, USA.

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irmãos, não vos tomeis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo. Porque todos tropeçamos em muitas coisas" (Tg 3.1s). E quando esse mestre é o bispo, quem sabe poderíamos acrescentar mais algumas qualidades às 1513 apontadas pelo inquérito aludido. As qualidades principais do mestre cristão, ou, melhor dizendo, do cristão que é mestre, são fé, cultura geral, conhecimentos especializados, memória, e amor, muito amor.

Nestes comentários de fôlego modesto, limitar-nos-emos a um dos requisitos fundamentais da aptidão para ensinar: o domínio da língua, ou das línguas, em que devamos fazê-lo. (Na vinha brasileira requerem-se ainda, em alguns lugares, bispos diglotas. E algumas congregações fi- cariam até mais bem servidas com bispos triglotas. Mas do jeito que a coisa vai, podem considerar-se privilegiadas caso tenham um bispo que seja ao menos um bom monoglota).

"Ignorar a língua é vergonhoso para qualquer homem que se destina a uma vocação pública", escreve Almeida Garrett em seu Tratado da Educação, e acrescenta: "Saiba ele mais matemática do que Laplace, mais química do que Lavoisier, mais botânica do que Jussieu, mais zoologia do que Lineu e Buffon, mais economia política do que Smith e Saê, mais filologia de legislação do que Montesquieu e Bentham, se ele não for o que os ingleses chamam a good scholar, triste figura há de fazer falando, ou seja na barra, na tribuna, no púlpito."

Dominar a língua, no caso do bispo, quer dizer estarem condições de transmitir aos homens, de maneira condigna, expressiva e clara, a men- sagem do evangelho.

Linguagem condigna ao evangelho

Linguagem condigna ao evangelho exclui a linguagem ordinária, o termo obsceno, chulo, grosseiro. Mas não existem pregadores que defen- dem o uso de palavrões, porque retratam melhor certas realidades cruas? Existem, sim. O púlpito não está livre de gente esdrúxula, insensata, descomedida. Entretanto, o pregador ciente do que significa transmitir a mensagem do evangelho de maneira condigna, jamais admitirá a hipótese de uma pornofonia sacra. É bem verdade que do ponto-de-vista estético a renuncia a elementos despoetizantes pode prejudicar o retrato, a ex- pressão, o relevo. Todavia, se a única forma de salvar tudo isso forem as pinceladas da obscenidade e da grosseria, o pregador bem orientado se ecidirá, sem pestanejar, por um bosquejo em branco e preto, reticen- ciando fatos, particularidades, ângulos. À objetividade suína do cara-de- Pau, preferirá algumas inverdades líricas ditadas pelo recato.

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O púlpito exclui também qualquer linguagem não policiada, sem toa- lete, apinhada de vícios fonéticos, morfológicos, sintáticos, lexicais, es- trangeirismos, cacofonias, tautofanias. Exclui ainda, sempre que estimulem o riso, a linguagem familiar, a vulgar, o calão, o vocabulário ge- riátrico e os modismos provincianos.

Tudo isso está cada vez mais em voga, devido ao número crescente de iconoclastas da polidez e da vernaculidade, arengadores sem aca- nhamento, sem vergonha e sem gramática, ou com vocação irresistível

para fazer rir o auditório e que deitam falação em programas religiosos de televisão ou radiodifundidos. Alguns deles, além de tudo mais, têm ainda

a mania neopentecostal de barulhentos repentistas do Espírito Santo, que

crucificam a um só tempo a gramática, o bom gosto e a homilética, desmazelo a que não podem compensar as exclamações patéticas e os piedosos violões e trombones que ornamentam essa espécie deplorável de comédia dell'arte eclesiástica. Nem pode compensar inteiramente a esse desleixo o grande consumo de textos bíblicos que se observa em tais arengas.

Tem-se a impressão de que está crescendo rapidamente o número de pregadores que revelam um forte fraco por gracinhas. Tendem a bur- lesquear a propósito de tudo ou a emprestar um matiz cômico às coisas mais graves pelo uso de um coloquialismo de pijama, que não enjeita as vulgaridades mais plebeias. Lamentavelmente, a reação de muitos auditórios lhes dá força. E a ausência de reação desfavorável dos mesmos auditórios também apoia o orador "esfarrapado nas ideias e nas locuções", como diria Camilo.

Antes de passarmos à segunda qualidade enunciada na introdução, ainda uma observação sobre a linguagem não policiada. Esta linguagem nem sempre é de analfabetos ou de estrangeiros. Também vai tomando conta de muitos letrados indígenas, quem sabe temerosos do ranço clássico, do estilo académico, da quase infâmia de enamorados do ver-

naculismo. Em vez de ficarem num estilo palestrado e castiço ao mesmo tempo, e que tanto pode engraçar e avigorar o discurso, numa vitalizante

e nobre oralidade, coisa muito estimada por todas as pessoas bem for- madas, vão descambando no extremo oposto ao do espartilhado ultra- canônico, aderindo a toda espécie de achaques da linguagem de mandriões e boçais.

Linguagem expressiva

Além de condigna a seu objeto, deve a linguagem ser expressiva.É possível educar o sentimento artístico. E um dos anseios mais nobres do pregador é o de ambicionar ouvidos estéticos.

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Quem quisesse esgotar a matéria, teria que perlustrar a vasta e ilustre província da estilística, que se compõe, afora do estudo do tropo e das finuras de sintaxe e de pensamento, da estilística fônica - estudo da tradução de emoções e ideias pela escolha e pelo arranjo acertados do material fônico -, da estilística sintética - exame dos resultados da dis- posição das palavras na frase -, e da estilística semântica - pesquisa do valor de significação dos termos. Nestes comentários, faremos apenas algumas observações sobre a última, para o nosso caso mais importante que as outras duas.

O dever do pregador não se resume em comunicar de qualquer maneira, como se da eleição dos termos nenhuma coisa dependesse. Corre-lhe o dever de lutar pela comunicação expressiva, lembrado de que

a virtude comunicativa da linguagem depende em larga escala da expres-

sividade. Essa qualidade - é bom que se diga logo - não consiste no rendilhado da frase. Não é brilhantura ou cosmético literário. Nada tem que ver com o vício de espargir "flores de retórica", distribuir metáforas exaus- tas, jorrar bagaçadas faiscantes. Longe de ser fioritura, isto é, acessório ornamental, enfeite, questão de toucador, é arte literária autêntica, que, ao

contrário da literatice, do estilo endomingado das hipérboles sublimes, do floreio, oculta a literatura, segundo conceito muito feliz. E ocultar a litera- tura, de modo que "não se mostre na fábrica o suplício do mestre", é infinitamente mais trabalhoso que esgrimir bonitezas. Por isso mesmo só

o labor intenso do grande estilista consegue aparentar ausência de esforço, disfarçar os andaimes do edifício.

A falta de expressividade, o verbo trôpego, macilento, pesadão, arras-

tado, frio, a peça incolor ou monocromática, sem perfume, sem agressivi- dade, sem nervos, talvez seja o mais comum dos pecados no púlpito. E sermonar assim não é mero pecadilho estilístico sem maior gravidade. Uma teia de chavões surrados pode adormecer a assembleia ou, pelo menos,

provocar bocejos contínuos, que, como se sabe, ocasionam surdez mo- mentânea. Mas transformar a igreja em dormitório, narcotizando o povo com sacrossantas maçadas, ou obturando-lhe a todo instante os ouvidos, pode frustrar a ação do Espírito Santo.

O artista, o filósofo e o cientista amargam lutas dramáticas e torturantes

na busca da expressão adequada de emoções estéticas ou pensamentos, ou para reproduzir ou descrever com a exatidão possível as coisas e suas relações. Não se cansam os artistas de lembrar aos principiantes sem humildade (que tendem a menosprezar o artesanato) a necessidade de dominar os segredos do métier, como gostam de dizer, isto é, os segredos

do ofício ou ministério. Que luta com os símbolos verbais na obra da re- criação, na tentativa de comunicar vivências íntimas! E de ver como se lançam ao material linguístico, recombinando, neologizando, rejuvenes-

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cendo, cruzando, expandindo, redenominando. "Cuanto suda el alma para una expresión!", exclama um poeta uruguaio. Por sua vez, os filósofos, no empenho de alcançar, entre outras coisas, mais rigor na formulação das ideias, maior adequação entre linguagem e pensamento, aumentaram enormemente o interesse pelos estudos de sintaxe, de semântica e de pragmática. A elaboração de uma técnica de análise linguística é um dos problemas que mais os preocupa e apaixona em nosso século.

Ao principiante sem humildade, e aos que, a exemplo do autor da Lira dos Vinte Anos, odeiam "o pó que deixa a lima" e fogem do "tedioso emendar", é bom que se lembre o exemplo dos clássicos, "admiráveis quelonios de vagareza e discrição", como escreve João Ribeiro, homens que, diz ele, punham, compunham e repunham, transformando os primei- ros manuscritos em sucessivos palimpsestos. É bom lembrar exemplos como o do escritor francês Honoré de Balzac, o criador do romance de

costumes, que chegava a dedicar várias horas à reformulação de trechos

e substituição de palavras de uma mesma página; o exemplo do português

Fialho de Almeida, que confessa nos Serões: "Então emendo muito, chego

a desesperar"; o exemplo de outro grande português, Eça de Queirós, que

chegava muitas vezes a transformar completamente o que havia escrito, "sacrificando impiedosamente as provas tipográficas"; o exemplo do nosso imortal Machado de Assis, que costumava saltar uma linha nos manuscri- tos, para ter espaço onde coubessem as inúmeras emendas que fazia; o exemplo do espantoso Euclides da Cunha, que falou de sua atividade formigueira na última entrevista, a Viriato Correia: "Na nova edição dos Sertões fiz seis mil emendas. Não se diga que sejam erros de revisão; são defeitos meus, só meus"; o exemplo de americano Emest Hemingway, que reescreveu trinta e nove vezes a última página do Adeus as Armas. Reescrever trinta e nove vezes! Escrever, disse alguém, é, sobretudo reescrever.

Não é admissível que precisamente o bispo, obrigado, em seu santo métier, a ensinar verdades nas quais há tantas coisas indizíveis, ainda se relaxe nas dizíveis, valendo-se do primeiro termo que lhe acode à pena, sem examinar-lhe o conteúdo semântico e o coeficiente de expressividade, trilhando, despreocupado, a estrada batida e cómoda dos lugares-comuns, das frases feitas e dos rifões de uso corrente, alheio à “tortura formal" do artista, costurando rapidamente algumas palavras e locuções cansadas e cansativas, sem movimento, sem calor, sem originalidade, um desses bricabraques soporíferos de ideias, imagens e torneios gastos e regastos, cujas virtudes dormitivas são do conhecimento público, e que bem mere- cem a crítica silenciosa de um auditório toscanejante - quando não resso- nante, ou a crítica dos que não cessam de consultar o relógio, na espera ansiosa do momento em que o orador vá epilogar-se num delicioso amém O fato de nossos conceitos já serem de qualquer maneira um empobre-

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mento da realidade - que tem imensas regiões inacessíveis, um sem- úmero de aspectos opacos à significação -, e não passarem as palavras de instrumentos só mais ou menos adequados, e mais pobres ainda que os conceitos, esse fato deve ser, independentemente de outras consi- derações, o bastante para que nos animemos a espancar e aguilhoar essa vadiagem episcopal que se limita aos 10% de inspiração - quando os há -, temendo os 90% de transpiração da fórmula de Edison. E note-se que, segundo o autor da fórmula, tressuar em 90% é coisa que sucede ao génio, variante não muito comum.

Não, ninguém exigirá, ingenuamente, que o pastor seja algo assim como um semideus da verbipotência, portento na arte da palavra. Já os seus quefazeres ordinários de cada dia não lhe deixam vagares para carpintejar à maneira dos estilistas de escol. E em crescido número de casos a pobreza de tempo e o cansaço desestimulam possíveis anseios de embeber-se na leitura dos mestres da língua. O que se pretende é combater o descaso pelos recursos expressórios ao alcance de todas as penas, a complacência indolente com toda a casta de imperfeições que um nadinha de esforço poderia eliminar, a irresponsabilidade dos que babujam

com escrupuloso mau gosto um dos instrumentos capitais do seu mi- nistério. Definitivamente não é preciso ser artista descomunal para decotar superfluidades, limaras rebarbas que insultam as regras mais elementares da língua padrão culto, expurgar o discurso das barbissonâncias com que

a negligência sempre mais generalizada vai abastardando o idioma, acabar o ramerrão intragável dos preguiçosos, substituir chapas extenuadas,

sensaboronas, palavras e frases débeis, embotadas e frias, que bambeiam

o discurso, por elementos enérgicos, vivos imprevistos, que o dinamizam.

Todos podem fazer algo para evitar que os ouvintes dêem razão aos que dizem que a prédica dominical é a penitência protestante, para que se continue a sinonimizar pregação com espiche fastidioso, leria, verborreia. Por exemplo: ler livros bem escritos. Mas convém advertir que não al- cançará resultados apreciáveis quem dedicar à leitura apenas um ou outro domingo de chuva, ou, no caso do pastor, algumas segundas-feiras de tempestade. Deve-se reservar uma hora do dia para conversar os bons autores. É o nulla dies sine línea. E como o tempo é pouco, importa restringir-se de fato a ler escritores de cuja valia não haja o que duvidar.

Linguagem clara

A clareza, condição essencial do diálogo entre mestre e discípulo, é a terceira qualidade que o domínio da língua abrange. E é a mais importante. É ela que torna o estilo transitável. Incluímos nela a precisão, que consiste em omitir o supérfluo e pôr em relevo bem nítido o essencial. Um bom remedio para combater a prolixidade, em que se compraz o datismo

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ramalhudo dos palradores sem ideias, e aproximar-se mais e mais da concisão é refletir sobre uma palavra de Carlos Drummond de Andrade:

Escrever é cortar palavras.

Levado pela ojeriza à obscuridade gasosa de certos metafísicos, Ortega y Gasset insistia que a cortesia do filósofo era a clareza. E Jules Renard dizia que a clareza é a polidez do homem de letras. No caso da atividade querigmático-didática do bispo, a clareza também é cortesia ou polidez, mas no sentido mais elevado dessas palavras. Cortesia sagrada, polidez nascida do amor. Filosofia hermética mandada à estampa não deixa de ser um desaforo, por maior que seja o talento ou génio de quem a partejou. Mas a verdade salvadora opacada por um estilo apocalíptico, disfarçada por um fraseado intransitável, tragada na massa indigerível de sonidos enigmáticos, é escárnio. A função da palavra não é esconder; é revelar. Comunicar e dar a conhecer é uma das funções naturais da linguagem. E o dom essencial das línguas é o da comunicação inteligível, clara e imediata, como escreve João Ribeiro.

Pecados contra a clareza

Não vamos analisar aqui todos os defeitos que comprometem a clareza. Nem é preciso. Alguns são por demais evidentes. É claro, por exemplo, que o pastor não vá martirizar as ovelhas com termos vagos, nebulosos, imprecisos, esotéricos, expressões absconsas, construções arrevesadas, embrulhadas. Não imitará aqueles literatos dos quais fala Carlos de Laet, "que andam à cata do vocábulo estrambótico, como esses desocupados que por grotas e barrancos se atiram caçando parasitas, certamente menos belas do que as rosas, mas com o requinte da esquisi- tice." Não empregará nenhuma daquelas palavras que, no dizer de Mário Quintana, apenas se encontram nos dicionários como velhas caducas num asilo, de onde, às vezes, uma que outra se escapa e vem luzir-se desden- tadamente em público, nalguma oração de paraninfo. Evitará, na medida do possível, aquelas pobres palavras ricas que gemem sob o peso das mil associações que arrastam. Basta o fato de que as associações de quais- quer duas pessoas já divergem com respeito a qualquer palavra. Não cometerá a asneira monumental de complicar-se com alusões mitológicas, que o comum dos ouvintes tem o direito de ignorar - Perseu versus Medusa, Apolo versus Pitão, Palas saltando da cabeça de Zeus, as Danaides enchendo barris sem fundo, Caronte transportando almas, Alfeu à cata de Aretusa, etc. Tudo como se apenas quisesse sugerir a verdade em laboriosas transposições ou dissimulações poéticas, ou submeter o re- banho a testes de agudeza mental e erudição clássica, num supremo esforço para ocultar o que há de compreensível no difícil. Nem dialogará com ilustres ausentes, adubando os seus discursos com gíria ou gastando palavras e expressões estrangeiras com pessoas de conhecimentos mo- destos. Não investirá contra paroquianos indefesos de vocabulário técnico

em punho, nem apelará para as muitas preciosidades arquivadas - a nao ser os paleologismos negligenciados mas de fácil inteligência, e que seria injusto arrolar entre as coisas que devem ser evitadas. Abster-se-á de riquezas vocabulares não suficientemente socializadas, de palavras de curso raro, pois sua preocupação será ensinar, não espantar. Insuportável bispo pernóstico, que dá a impressão de subir no púlpito não para comunicar, mas com a finalidade de testar a fórmula de Monteiro Lobato

de

que o meio de sermos admirados pelo povo é não sermos entendidos.

O

bom pregador sente a obrigação dramática de fazer-se entendido.

Púlpito não é lugar para impressionar indígena. O bom pregador não admite

a hipótese de deixar em jejum os homens de carne e osso que tem diante

de si, apascentando fantasmas com sermões entulhados de maravilhas. O

pregador que, ao invés de abater sua eminência, acomodando-se ao nível

do auditório, sacrificando qualquer aparato literário e técnico em benefício

dos ouvintes, insiste na solene palhaçada de bombardear com estranhas vibrações de ar a criaturas humildes que nenhum agravo lhe fizeram, é menos apto para ensinar que a mais ignorante ama de crianças. É mestre intransitivo, termos que se repelem e mutuamente se excluem; fazedor de solilóquios em voz alta, coisa própria de teatro, não de púlpito ou de cátedra; emissor que, aparentemente, detesta o receptor, falante que ignora o fim principal da linguagem, comunicador que se esforça por inutilizar o veículo e esquecer o alvo.

Confusão entre altura e neblina

Fora de dúvida: quem se posta no alto do púlpito, não para comunicar- se, em linguagem singela, desembaraçada de impenetrabilidades, mas para isolar-se na densa nevoaça de um palavreado caliginoso, é criatura desvairada. Não se baralhe, entretanto, altura com neblina, profundidade

com entupimento, agudeza com babilónia. Há muito quem acuse de intramurarem-se em linguagem sibilina a quantos não alcança a inépcia ou

a falta de preparo do acusador. Longe de nós condenar o alpinismo

teológico, filosófico ou científico e os seus jogos linguísticos e ideias complexas, que não podem ser expressas em palavras simples. É impor- tante evitar o erro dos que confundem clareza com simplicidade. Teólogos, filósofos e cientistas podem dialogar com muita clareza, embora em linguagem nada simples, por causa da complexidade dos conceitos en- volvidos. Já um trabalho simplesmente erudito, sem alturas nem profundi- dades, mas em português de lei, será latim para ignorantes. Não se deduz uai que o autor foi incapaz de pensar com clareza. Como também podem ser latim para os ignorantes os livros escritos sobre assuntos nunca estudados por eles, mesmo que a linguagem seja clara. Ocorre-nos a lembrança de um caso que ilustra o fato, aliás muito comum. Um professor estrangeiro radicado havia décadas no Brasil, criticou o que lhe parecia linguajar enigmático de um livro de Gilberto Freire. Ora, é questão pacífica

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a oralidade do estilo desse autor. Ele mesmo explicava que escrevia assim

porque Dona Francisca, sua mãe, lhe recomendara cedo que não escre- vesse "atrapalhado". O problema é que aquele professor estrangeiro, além de fraco em português, leu o livro para descobrir o que é Sociologia, coisa de que nada entendia, e achou que o livro do sociólogo brasileiro era um negrume.

Não basta pensar com clareza

Não passemos adiante sem atentar numa sentença consagrada que precisa ser demolida de vez. A máxima que diz: "Quem pensa com clareza, também sabe falar com clareza." Ninguém se fie desta sentença. Ela representa uma clara confusão de coisas perfeitamente distintas. É fácil imaginar como podem nascer máximas desse tipo. Tomemos, por exem-

plo, o caso de uma pessoa que jejue rigorosamente em matéria de Filosofia

e que procure introduzir-se no assunto começando pelo estudo do idea-

lismo lógico de Hegel. Compreensível que daí surja uma xingação nos termos da máxima citada. Compreensível a xingação, mas inaceitável a sentença.

Verdade que acerta Stuart Mill quando afirma que toda imperfeição no instrumento do pensar, ou no modo de empregá-lo, produz confusões no próprio raciocínio. Certo que pensar com clareza é condição indispensável para falar com clareza. Bem o ilustram certas xaropadas indecifráveis da insanidade dadaísta, que desprezava a relação entre ideia e expressão de ideia, ou a opacidade de certos autores super-realistas, que, na ânsia de libertar ignoradas fontes de poesia, seladas nos porões tenebrosos do psiquismo inconsciente - talvez para escrever o "poema final" -, procuram expressar, em livre associação de ideias, desordenadamente, como nas balbúrdias oníricas, as imagens suscitadas pelo inconsciente, nem sempre

facilmente decifráveis e tantas vezes sem comunicabilidade lógica. Ilustra-

o

também a escureza da legítima poesia profunda, legítima porque o vago,

o

indefinível, é natural ao alogismo poético. Pensar com clareza,é, pois,

condição indispensável para falar com clareza, para produzir textos de fácil digestão. Mas não basta pensar com clareza. Um pensamento límpido pode encarnar em linguagem obscura ou ambígua. E as ideias, como diria

o nosso Bilac, têm de apresentar-se de cara lavada.E Vieira diria que por

isso mesmo as palavras hão de ser como estrelas - muito distintas e muito claras. E sempre convém lembrar esta coisa tão óbvia: pensamento claro

manifestado em termos precisos e expressivos ainda não garante a elimi- nação de todos os ruídos na comunicação. É possível que o interlocutor simplesmente não conheça os termos.

À luz do que ficou dito perceber-se-á que o meritório francês Boileau deixa a desejar quando escreve, em sua obra principal, a Arte Poética: "0 que bem se concebe enuncia-se com clareza, contanto que se saiba

encontrar facilmente as expressões por meio do conhecimento da sintaxe, "

do cuidado nas conjugações e da ordem no discurso

conjugação e a ordem do discurso constituem elementos muito importantes

Mas também é importantíssimo o que o autor omitiu. Transmitir ideias: coisa difícil

Enquanto houvirmos que é coisa fácil transmitir ideias, muito longe estaremos do alvo que o bispo deve levar de mira. Pois nem sequer teremos tomado consciência do problema que tortura as melhores ca- beças, da dificuldade que aflige os maiores estilistas. Essa presunção seria particularmente lamentável no pregador, que só dispõe de poucos minutos no púlpito, o que exige um combate impiedoso contra a macrologia. Se, o vício da perissologia e a tentação de praticar no púlpito a técnica do fluxo de consciência. Se, para comunicar algo em quinze ou vinte minutos, não podemos fazê-lo no estilo fraldoso daqueles turbilhões verbais que intu- mescem, espumejam, encalham em parênteses, revoluteiam, estrugem, refervem, sobem e descem, até ancorar em nova idéia, também não será permitida a batologia, a "literatura de peru", na expressão sugestiva de Graciliano Ramos, e que consiste em dar voltas em torno da mesma idéia, na esperança de que um dos torneios alcance as antenas de quem nos ouve, e, talvez, no intuito de tornar mais gordo o nosso pensamento. Quinze ou vinte minutos mal permitem um pouco do bom circunlóquio didático.

Cabe-nos indagar qual o denominador comum, perseguir a palavra que mais corre entre o rebanho, buscar a que tem maior probabilidade de evocar, em todo o auditório, a ideia que desejamos expressar." Ao nomear as coisas é preciso adaptar-se aos muitos", diz Aristóteles. As palavras são símbolos convencionados para detonar ou significar determinadas ideias, sentimentos, relações, fatos, coisas. Ora, por claro que seja o nosso raciocínio para nós mesmos, pode ser impenetrável a outros, se atribuímos às imagens sonoras com que o expressamos um significado que elas não despertarão no ouvinte. Muitas discussões longas nascem e se ascendem por causa de desleixos nesta questão. Não raras vezes dois filhos de Deus, encharcados de boa vontade, agitam uma questão horas a fio sem con- seguirem superar o desencontro na maneira de entendê-la. E cada um termina por desconfiar da lucidez do outro. Pode ser, entretanto, que um e outro raciocinem com clareza, apenas ignorando as associações linguísti- cas do colocutor ou claudicando na escolha dos signos verbais que traduzam com a máxima exatidão possível os seus pensamentos, que unam a imagem acústica escolhida e a ideia que têm em mente.

A sintaxe, a

Preocupação com os de fora

Chegamos a uma questão em que se peca muitíssimo no púlpito. Por Isso vamos lembrar sempre de novo e sublinhar: clareza, no caso do Pregador, quer dizer que a linguagem usada seja também significativa para

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os estranhos, os de fora, isto é, para os que, embora da mesma comuni- dade falante, não estejam, contudo, familiarizados com a terminologia corrente no grupo de iniciados. Insistamos: os signos de que nos valemos devem ser comuns aos que nos escutam. Se não forem comuns, não nos comunicamos.

O bispo e a gramática

Pensemos, por exemplo, na anfibologia proveniente de frases mal construídas. Coisa extremamente comum. É sabido o que pode resultar de solecismos de regência e de colocação. É o mal de pessoas que não se dignam a um sério corpo-a-corpo com a tão combatida gramática. Mas vamos esclarecer logo que não se pretende sejam os bispos gramáticos como aqueles de que fala Rivarol e que passam a vida entre o supino e o gerúndio. Nem se exige que os bispos se atenham ao que João Ribeiro chama de gramática dos gramáticos, " impertérrita, inflexível.aborrecida, não poucas vezes pedante, retardatária", ignorando a gramática dos literatos e detestando sistematicamente a gramática do vulgo.

Combata-se o gramatista, o gramatiqueiro, o gramaticão, que gastam seus dias a farejar cacofonias, a propor ligas de defesa da topologia pronominal, a crucificar os grandes estilistas por causa de suas magníficas infrações das normas e norminhas dos gramáticos, a caçar galicígrafos e galiciparlas, a falar mal do bonde, do bife, do pudim, a discursar contra o impatriotismo dos escritores que não substituem o lucivelo ao abajur, a tetéia ao bibelô, a auto-cocheira à garagem; repila-se, em todas as suas formas, o gramaticalismo dos fora-da-gramática-não-há-salvação; aplauda-se o Lobato do Aldrovando Cantagalo ou o Eça do Purista; mas estude-se, de quando em quando, a gramática bem orientada, que é função social da língua, fixação do uso idiomático. Já não há porque preocupar-se com o bispo gramatiquento, figura quase totalmente desaparecida entre nós. Hoje praticamente todos concordariam em dizer que um santo ca- nonizável da gramática lusa pode ser um arengueiro supercacete, e o violentador do sagrado organismo gramatical, um estilista de eleição. 0 que nos deve preocupar agora é o outro extremo, a atitude do pregador que joga de banda a gramática. Parece que alguns foram levados a isso principalmente por causa dos reverendíssimos disparates de gramaticas- tros que confundiam gramática com língua e anatematizavam qualquer beleza que se insurgia contra as suas regrinhas. Perdendo, assim, o que mais interessava, concentravam-se em ninharias, e armavam tempestades e se insultavam por causa dessas ninharias, razão porque Dante coloca os espadachins da gramática - outro genus irritabile -, num dos piores recantos do inferno. Aliás, Olavo Bilac assegurava não conhecer dois gramáticos que fossem amigos.

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Por causa dos debates recentes, já não se pode recomendar algumas doses de gramática a um pregador sem esclarecer que evidentemente é possível comunicar-se mesmo que não se haja lido nenhuma gramática. Basta dizer as coisas de maneira tal que o interlocutor nos entenda. Nossos comentários visam a esclarecer que o orador sacro precisa da gramática porque não deve limitar-se a comunicar de qualquer maneira, com todas as falhas da classe inculta e todos os incultismos da classe culta. Também linguisticamente o orador sacro deve ser asseado. Questão de ordem moral

O bispo é responsável não só pelo que quis dizer, mas ainda pelo que

disse. Não o escusam aqui as boas intenções, nem as melhores. E preocupar-se ou não com a possibilidade de pensar uma coisa e dizer outra

é questão de ordem moral. Não exagerou quem disse que a inteireza do

espírito começa por se caracterizar no escrúpulo da linguagem. Nem só o uso de palavras obscenas acusa desintegridade moral. Assinala-a também o desmazelo que veste o pensamento com trapos de farroupilha, e, mais ainda, o desinteresse por linguagem clara, precisa. Se dizemos com razão que é profissionalmente desonesto o sapateiro que deixa de consertar o sapato a capricho, com quanta mais razão chamaremos desonesto a quem não se apura quando no exercício de funções cujas responsabilidades ultrapassam infinitamente a chinela do sapateiro.

A ausência do escrúpulo de evitar o termo que atraiçoa o pensamento

é coisa muito séria em ofício que," com mudar um ponto, ou uma vírgula,

da heresia pode fazer fé: e da fé pode fazer heresia", como diz Vieira. Citemos, para ilustrar a afirmação, um caso em que a deglutição indevida da vírgula faz da fé heresia" no cântico da milícia celeste. (Claro que o valor bíblico da ilustração é apenas a do valor da tradução portuguesa do Gloria in excelsis que usamos aqui.) Em Lucas 2.14:" Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem." Qualquer curso mal aproveitado de português capacita a entender que a doutrina da graça universal pede vírgula depois da palavra "homens". Comer esta vírgula ortodoxa é transformar a oração que lhe segue de explicativa em restritiva. Vírgula, oração explicativa, afirmação da graça universal; omissão da vírgula, oração restritiva, negação da graça universal.

Repetimo-nos: a questão é de ordem moral. Só a mais acabada desconsciência pode deixar de preocupar-se com ela, considerá-la questão de lana caprina e ridicularizar os que lhe emprestam importância. Externar ideias boas em linguagem obscura é leviandade;externar ideias más em linguagem clara é crime.E sabemos que a grande distância entre a leviandade contínua, não combatida, e o crime,é perigosa ilusão. Uma

é convizinha da outra.

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A única observação evangélica que se pode oferecer ao bispo neste capítulo da clareza é uma palavra do filósofo Alfred North Whitehead "Clarity always means clear enough", clareza sempre significa suficiente- mente claro. Isso quer dizer que não se pode exigir clareza absoluta.E para que levemos um susto, basta saber que é obrigação ser suficiente- mente claro.

Conclusão

Uma das dúvidas mais fecundas é aquela que nos leva a questionar sempre de novo a condignidade, a expressividade e a clareza da nossa linguagem. Veículo da transmissão de ideias, e, no caso do bispo, instru- mento de comunicação da verdade salvadora, a linguagem deve ser cultivada por nós com muito carinho. Por isso mesmo, o comércio dos autores de boa nota é um dos nossos deveres mais inquestionáveis. E- voltamos a lembrar - não se limitará a namoros ocasionais. Cumpre que nos exilemos regularmente em nosso gabinete, a fim de cuidar da nossa cultura geral e da área de especialização.

Lembremos também que estudar uma língua é desenvolver a inteligên- cia, é enriquecer o nosso mundo de ideias, é aprimorar a nossa cultura. 0 vocabulário, escreveu Castilho, é a fotografia completa do saber de um povo.

E não aleguemos - como já se faz, com aprovação de muitos - que ao teólogo funcional de hoje importa dispensar-se da sobrecarga de seme- lhantes cuidados. Trata-se precisamente do nosso funcionamento eficiente como despenseiros dos mistérios de Deus. Funcionamento eficiente no púlpito e na cátedra, dois bastiões cardeais da fortaleza cristã. Garabulhar sermões e atamancar preleções é ser teólogo essencialmente desfun- cional. Lembremos sempre: quando se trata da nossa eficiência como despenseiros dos mistérios de Deus, modéstia é vício e ambição é virtude.

Só faltava mesmo que esses teólogos "funcionais", isentos de ver- dadeira cultura teológica, e gregos em hebraico, gregos em latim e gregos em grego, se vissem apoiados quando afirmam que também são gregos em português de boa casta e que o seu miserável estoque de recursos linguísticos lhes garante plena funcionalidade.

Faz apenas algumas décadas que Pio XII escreveu, a respeito do latim; Nullus sit sacerdos, qui eam nescitat facile et expedite legere et loqui. É causa perdida. Que o digam os sacerdotes. Mas há muito que deveríamos repetir essa palavra, substituindo, porém, português a latim: Não haja nenhum bispo que não saiba ler e falar de maneira fácil e expedita.

Recentemente, um pastor americano protestou contra o excesso de atividades, que não lhe deixavam tempo para o estudo,e lembrou Atos 6.2:

"Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas". Um dos seus comentários merece especial atenção: "Se as nossas igrejas estão lotadas de imaturos aquecedores de bancos e pig- meus espirituais, a causa pode estar no fato de os nutrirmos com uma dieta de sermões preparados a toque de caixa, meia hora antes do início do culto." Esse homem estava desejoso de aptar-se para o difícil mister da pregação. Negava-se a ser um desses esboços que se encaminham ao púlpito com a despreocupação daqueles oradores de banquete que se erguem inter pocula para despejar um florilégio de clichés e bobagens sobre os convivas. Sermão, efetivamente, não é coisa para que se prepare meia hora antes de iniciar o culto. No caso do pregador comum, esse tempo

é apenas suficiente para levar o sermão à fase de nebulosa. Suficiente

para assentar alguns pontos, mobilizar um caderno de disposições e notas,

e pôr de sobreaviso alguns chavões piedosos domiciliados no pré-cons-

ciente do pregador, além daqueles que sempre se encontram em rigorosa prontidão. É o sermão sofrido pelo auditório em vez de o ser pelo pregador,

o mingauzinho ralo que certamente é um dos fatores principais da avitami-

nose espiritual do cristianismo tépido e engatinhante de muitos frequen- tadores de cultos. Ao aborto rápido, por isso mesmo, o pregador

consciencioso há de preferir sempre o parto laborioso.

É bom encarar com certa reserva o herói que se desobriga da aptidão para ensinar, afanando-se, por outro lado, em servir às mesas. Pode ser um labareda sem muito escrúpulo no que diz respeito às suas obrigações

principais, um desses tipos lamentáveis que já perderam, ou nunca tiveram,

o amor das coisas bem feitas, e que, por descargo de consciência, assume trabalhos que poderia deixar ao cuidado de outros. Merece a repreensão que o sogro de Moisés dirigiu ao grande líder, quando este se mostrou propenso ao deixa-que-eu-chuto, pretendendo atender a tudo e a todos sozinho. Disse-lhe o sacerdote Jetro: "Não é bom o que fazes" (Êxodo 18.17). O labareda precisa atender o conselho de Jetro de que Moisés

escolhesse auxiliares para “toda causa pequena" (v.22). O bispo que tem

o vezo de atarefar-se no atendimento de toda causa pequena, que se aplica na solução de questões minúsculas em prejuízo das suas funções princi- pais, deve meditar o exemplo dos Doze, que se consagraram à oração e ao ministério da palavra (Atos 6.4).

Esforços no sentido de melhorar a linguagem muitas vezes são inter- pretados como logofilia de adoradores do verbalismo, semostração, anseio de brilhar.Isso não nos deve impressionar. Pode ser o caso da raposa e das uvas. Seja o que for, não devemos permitir que essas atitudes de supenoridade paralisem um zelo digno do melhor apreço, levando-nos,

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quem sabe, até a nos penitenciarmos das horas trabalhadas em que lutamos por atingir a capacidade de expressar de maneira sempre mais adequada o conteúdo da mensagem cristã. O que podemos fazer é aproveitar a interpretação maldosa, toda vez que ela surgir, para um sincero exame de consciência, lembrados daquilo de Paulo aos filipenses:

"Nada façais por vanglória". Pode ser que a mola secreta do nosso esforço seja a autoglorificação. Ninguém está a coberto desse mal. Nem somos

imunes ao vício tanto brasileiro de pentear frases ocas para oferecer espetáculos de pirotecnia literária ou fazer exibições de ginástica verbal. Não estamos livres da tentação do psitacismo, a que sucumbiu aquele génio português do qual fala António Sérgio na citação do Aurélio: o homem definiu a teoria da relatividade como "a beleza de Vénus de Milo projetada num sistema de equações". Em nossos estudos da cultura nacional - estudos muito importantes para o bispo - ficamos expostos à tentação das bachareladas, dos ouropéis, do arrebique, da das ideiazinhas petecadas com fitas e lantejoulas. É porque compensar a falta de ideias com lin- guagem castigada ou verbiagem cintilante é hábito característico de uma das figuras que encontraremos muitas vezes nesses estudos, o nosso homo loquens, que é capaz de deliciar-se incrivelmente com pensamentos desidratados, desde que na verbalização haja palanfrório luzidio. O nosso homo loquens adora a magniloquência, a sonoridade verbal do continente,

o estilo franjade, sem inquietar-se muito da ausência de conteúdo. Seria lamentável se nos tornássemos vítimas desse rendilhador de frases e o reconduzíssemos ao púlpito. Ele compromete a comunicação expressiva, alimenta vaidades bobas, brilha muito e não ilumina coisa alguma.

Ainda uma observação acerca da palavra desorientadora dos que criticam as exigências académicas preconizando a fórmula do ignoran- tismo combinado ao zelo missionário. Paulo diz que o bispo deve ser didaktikós, competente no ensino. Para o exercício do episcopado, o Apóstolo exige, portanto, mais do que devotas inaptidões. Muita cautela, pois, com os que perguntam: Por que conversar tanto com os livros? por que abarrotar o cérebro com mil informações? Por que queimar as pestanas soletrando até gramáticas e folheando dicionários? E que geral-

mente concluem com a grande frase: O que importa é salvar almas. Billy Graham, o grande missionário, o invulgar apaixonado da salvação de almas, ao dirigir-se a estudantes de uma escola notória por seu desprezo

a exigências académicas, deixou-lhes uma palavra que, à primeira vista,

pode soar a conselho extravagante, mas que é belo exemplo da minis- tração do remédio adequado ao doente: "Se eu estivesse em vosso lugar, não suplicaria paixão pelas almas; suplicaria paixão pelo estudo".

A tarefa do bispo é falar com ousadia, de coração a coração, as

palavras que o Espírito ensinou, certo de que só elas são conversivas, não

o fogo dos Pedros, a profundidade dos Paulos, a oratória dos Apolos. Mas

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IGREJA LUTERANA - NÚMERO 1 -1994

o poder único do verbo divino e o dom celeste que nos torna capazes de dizer "boa palavra ao cansado" (Isaías 50.4), de modo nenhum nos dispensam da busca amorosa de linguagem nobre, expressiva e clara.

Embora nossa função, no ensino da verdade libertadora, seja a função instrumental do porta-voz, está em nós lapidar o instrumento que somos, tornando-o sempre mais adequado. Na comunicação da mensagem sal- vadora, está em nós arredar pedras em vez de levantar muros, complanar

a vereda do Senhor em vez escarpá-la.

Nossos dicionários, gramáticas e outras obras de mestres da língua não devem acabar no quarto de despejo, cedidos às traças debaixo de poeirama e teias de aranha, quem sabe sob a alegação vergonhosa de que

o estudo da linguagem não é um dos nossos entusiasmos, ou, talvez, na

presunção de que o português que arranhamos já constitui notícia bastante

dos recursos de nossa língua, ou em virtude da tese, acima lembrada, de

que o estudo do instrumento de comunicação e o estudo de toda a ars tradentióeve ceder o passo à conquista de almas. A paixão missionária é

a mais nobre das paixões. Contudo, longe de recomendar que transcure-

mos a linguagem, longe de aconselhar que compareçamos ao púlpito com aquelas palhadas incolores que fazem concorrência a pílulas soníferas, essa paixão nos impele a que zelemos a linguagem, a fim de nos garantir- mos contra a incompetência comunicativa. Pois é necessário, diz o Apóstolo, que o bispo seja apto para ensinar.

É necessário que o bispo seja didaktikós. Quando o peso dessa exigência assombra o pregador, podem surgir decisões muito boas. As reflexões que acabamos de fazer pretendem ajudar a produzir o susto.

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AUXÍLIOS HOMILETICOS

DIA DE PENTECOSTES 22 de Maio de1994 Ezequiel 37. 1 -14

Introdução

Qual a "visão" que se tem da igreja crista de nossos dias? Podemos falar de um povo de Deus obediente ao evangelho e atuante? Consta-se

o

contrário, pois o povo de Deus apresenta sinais de cansaço, de desânimo

e

de indiferentismo. Algo não está bem. Milhares de pessoas se confessam

serem cristãos, mas em sua vida particular aparece tão pouco do "espírito cristão", certas análises prognosticaram o forte enfraquecimento da igreja crista como instituição. Parece que o querer manter uma tradição crista somente não é o suficiente para a sobrevivência da igreja. O povo de Deus de todos os tempos precisa da força de Deus, do Espírito de Deus para viver em conformidade com os preceitos divinos e para realizar a obra da qual foi incumbido. "Sem mim nada podeis fazer" diz o senhor.

Contexto

O povo de Deus está no exílio. Foi levado para a Babilónia. Na "terra dos caldeus, junto ao rio Quebar" (Ez 1.3;) tem que tomar conhecimento do "porquê" de sua entrega ao cativeiro na Babilónia. Os "filhos de Israel" têm se mostrado muito resistente à Palavra do Senhor. São filhos "re- beldes", de "duro semblante" e "obstinados de coração" (Ez 2. 3-4;). 0 profeta Ezequiel representa o povo. Vale para o povo todo o fato de "a mão

do Senhor" estar sobre ele (Ez 37.1,). Deus tomou a iniciativa. Preocupa-se com este povo rebelde. Lá, na terra estranha, longe de seu país de origem,

o povo de Deus tem que aprender novamente o que significa confiar

integralmente nas promessas de Deus. No contexto menor (cf. Ez 34 -39) aparece uma frase significativa, pois esta aponta na direção daquele que fez as coisas acontecerem. O povo de Deus tem que aprender a ouvir e obedecer aos desígnios divinos, para o seu próprio bem, para que reco- nheça que foram eleitos para servir de coração íntegro. "Então sabereis que eu, o senhor, disse isto, e o fiz, diz o Senhor" (Ez 37. 14;).

Destaques do Texto

1. Os símbolos da morte (ossos secos, Extermínio, Sepultura cf.vv-

1ss 11.12 etc). O profeta encontra-se perante uma situação catastrófica.

O povo em cativeiro está desesperado. Há choro e lamentação. O juízo

divino está sobre ele. O sentimento de resignação abalou a casa de Israel

Não há mais perspectiva de vida (cf. Ez 33.10;). O povo de Deus perdeu a força para viver.O símbolo dos"ossos sequíssimos"fala uma linguagem própria.O povo desobediente experimenta,agora,as consequências fatais de sua rebeldia. Vive cercado pelo poder da morte. A ausência do espírito da vida resulta no domínio da morte (Sl 104 .29 ss; Gn 6. 3.17; Nm 16.22; 27.16; Jó 12.10). Deus não quer que o pecador morra em seus pecados. O profeta Ezequiel anuncia a libertação do poder da morte. O desenvolvimento de sua visão descrita mostrará a resposta poderosa de Deus perante a

lamentação dos exilados. A pergunta: "

ossos? (v. 3) recebe a única resposta viável "Senhor Deus, tu o sabes". "Do poder de Deus depende tudo o que o homem empreende".

O profeta é convidado a profetizar e dizer: "Ossos secos, ouvi a palavra

do Senhor (cf. v. 4). Sob a palavra poderosa do Criador manifesta-se o seu imenso poder. Anunciar a Palavra de Deus significa anunciar a nova criação. Este é o imenso contraste. Onde havia antes a constatação da perdição, i. é., a impossibilidade humana, perante a morte, agora, a partir da ação divina, existe a salvação, representada pelo poder da vida. Para Deus nada é impossível. A nova vida, originada em Deus manifesta um novo início.

2. A promessa da vida (cf.vv. 5-10;). Fala-se, aqui, do "ruah". Um conceito conhecido. Onde há o Espírito do Senhor há vida. Onde o Espírito do Senhor opera ou habita há realmente verdadeira vida. O povo de Deus necessitado espírito de reavivamento. Este espírito tem a sua fonte em Deus. Ninguém pode provocar a sua ação. Somente Deus pode dizer "Eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis" (cf. v.5). O texto mostra a fidelidade de Deus que não deixa o seu povo sob os poderes da morte. Sua promessa não falha. Quando invocado com seriedade, o próprio Deus se aproxima de seu povo e mediante a ação de seu espírito opera poderosa salvação. A nova criação se processou na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Toda mensagem do Novo Testamento deve ser lida sob esta perspectiva: "Se alguém está em Cristo é nova criatura" (2 Co 5.17).

acaso poderão reviver estes

Esboço

A mensagem do dia de Pentecostes coloca os cristãos perante a

seguinte alternativa:

a) Desobedecer à Palavra do Senhor significa viver subjugado pelo Poder da morte;

b) Ouvir a Palavra do Senhor significa viver sob o poder liberdade do espirito da vida.

HansHorsch

PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES A Santíssima Trindade 29 de Maio de 1994 Deuteronômio 6.4-9

1. O contexto litúrgico

Oficialmente e na igreja como um todo, a festa da Santíssima Trindade foi observada pela primeira vez no ano de 1334. No entanto, em algumas regiões, especialmente do Ocidente, já se celebra essa festa desde o início da Idade Média. Pode-se dizer que as controvérsias cristológicas e trinitárias dos séculos IV e V, bem como a ameaça do arianismo, con- tribuíram para a difusão da festa.

Colocada no primeiro domingo depois do Pentecostes, a festa da Trindade ocupa um lugar central: encerra a primeira metade do ano litúrgico (o ano do Senhor) e abre a segunda (o ano da igreja). Assim, o domingo da Trindade permite um "olhar retrospectivo de ação de graças sobre todo

o

mistério salvífico que o Pai opera no Filho pelo Espírito Santo" (ADAM,

O

ano litúrgico. Paulista, 1983, 165) e lança o fundamento dogmático para

os domingos que se seguem (REED, The Lutheran Liturgy, Fortress Press,

1947,519).

As leituras desse domingo claramente enaltecem a majestade de Deus. O Salmo 96 lembra que "o SENHOR é grande e merece todo o nosso

louvor" (v. 4). A epístola, Romanos 8.14-17, é claramente trinitária: o Espírito nos toma filhos do Pai e co-herdeiros com Cristo. João 3.1-17,o evangelho, também tem uma dimensão trinitária. Deus aparece nos w.2

e

16. O Filho dialoga com Nicodemos e é mencionado no final (w. 16,17).

O

espírito está nos w. 5,6,8. A leitura do Antigo Testamento recebe

destaque especial neste estudo homilético.

2. Apontamentos sobre o texto:

Da perícope do Antigo Testamento, destacaremos o v. 4, que contém

o tema do dia. No hebraico, o versículo tem apenas seis palavras: Shemah

Israel Yahweh Elohehnu Yahweh Echad. A introdução, "ouve, ó Israel", é própria do livro de Deuteronômio (5.1; 6.4; 9.1; 20.3; 27.9). A segunda parte

do texto diz literalmente: "Javé Deus-nosso Javé um". Discute-se, no

entanto, o relacionamento entre essas quatro palavras. Pode-se distribuir

o texto em duas frases nominais: "Javé é nosso Deus. Javé é um."Em

geral se toma o texto como uma frase só, a exemplo do que se fez na Septuaginta, ficando o Elohehnu como aposto de Javé e repetindo-se"o Javé para ênfase. Ainda assim é possível traduzir o texto de diferentes formas, conforme indica a nota à margem da Bíblia na Linguagem de hoje Embora soe um pouco estranho, parece que o texto está mesmo dizendo

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que javé é o único Javé,ou seja,que não há outro Deus ao lado ou além dele. Não há ninguém que possa contradizer ou desmentir o que Ele fala em lei e evangelho. Visto nessa Luz, Dt 6.4 repete e explica o primeiro mandamento. É também um protesto contra o politeísmo, tão difundido no mundo antigo. No contexto da terra de Canaã, Dt 6.4 deixava bem claro que, ao contrário do que se dizia de Baal, Javé não é simplesmente o chefe de um panteão; ele é único; não há outro Javé. Portanto, cumpre amá-lo, e amar somente a ele, com todas as forças do nosso ser. É bom registrar ainda que o Shemah (Dt 6.4) é revelação de Deus (cf. Dt 6.1); é Torah. Só que, muito antes de ser lei, é evangelho. Aparece no Novo Testamento em Mc 12.29 e encontra eco em Zc 14.9; Rm 3.30; 1 Co 8.4,6; Gl 3.20; e Tg 2.19.

3. Sugestão Homilética

É, sem dúvida, um desafio pregar Dt 6 no domingo da Trindade, especialmente se se levar em conta a história do v. 4, ou seja, seu caráter de confissão de fé monoteísta básica do Judaísmo e seu emprego por parte da heresia ariana no século IV. Argumentavam os arianos, à base de Dt 6.4 e outras passagens, que, se o Filho fosse Deus, não se poderia dizer que Deus é um e que somente Ele é Deus. A verdade é que "a unidade divina é constituída de tal modo que incluí as três pessoas, e que o caráter 'trino' de Deus está implícito nesta unidade".(HAEGGLUND, História da teologia, 73).

Pregar Dt 6.4 é uma oportunidade de, num domingo em que se lembra

a

trindade, enfatizar a unidade de Deus. Num contexto de "muitos deuses

e

muitos senhores" (1 Co 8.5), sempre é oportuno ressaltara unicidade de

Deus. (Se se levar em conta que SENHOR (Javé) é o nome do Deus que se revela e nos fala no contexto da aliança, a pregação poderá/deverá ter uma ênfase cristológica.) A melhor resposta a tal revelação é amar o

SENHOR (v. 5), guardar suas palavras no coração (v. 6) e ensiná-las aos filhos em todo os momentos e de todas as formas possíveis (w. 7-9).

Vilson Scholz

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SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES 5 de Junho de 1994 Deuteronômio 5.12-15

I - A temática das leituras do dia

A - SI 142 - Esse salmo é um testemunho do poder da oração, "O

Senhor me ouve", diz Davi ao expressar sua confiança Naquele a aquém

ele pode clamar, suplicar e falar de suas tristezas. O salmista sabe que Deus o conhece bem e que o Eterno é seu refúgio na hora do perigo. Em sua oração Davi confessa que Deus se interessa por suas criaturas e atende ao clamor dos que se vêem fracos. Enfim, Ele é o Senhor que liberta os seus nas situações de angústia. A oração afasta os sentimentos de solidão e desespero. Na esperança da fé, da comunhão com Deus, vem a certeza de que venha o que vier no futuro, Deus está ao meu lado e quer

o meu bem.

B - 2 Co 4.5-12 - O conteúdo da pregação é Cristo e nada mais.

Pregadores são servos por amor de Jesus, e não passam de meros vasos de barro. Paulo aplica essa verdade a si mesmo. Confessa que por causa de Cristo está disposto a tudo, a todo sacrifício, para que a vida de Jesus se manifeste.

C - Mc 2.23-28 - Jesus é o senhor do sábado. O sábado foi estabelecido

por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Jesus lembra

a liberdade que o próprio Davi Teve (1 Sm 21.1-6). Se Davi, um homem

temente a Deus teve essa liberdade, quanto mais não a terá o Filho de Davi, o Messias. Jesus usa Sua autoridade somente no serviço da mise-

ricórdia.

II - Contexto

O líder Moisés entendeu que convinha de tempo em tempo rever, repetir e reafirmar os termos básicos da aliança feita com o Deus Eterno Tanto os mais velhos como as novas gerações precisavam ser lembradas das verdades centrais e referenciais do povo eleito e seu pacto com Javé. Todas as gerações precisavam saber que essa aliança feita não tinha somente validade para uma geração, mas para todas as gerações que viriam. Tanto os compromissos como as promessa tinham valor para o futuro. As gerações futuras não podiam ser privadas desses benefícios.

III- Texto

Em seus discursos, Moisés às vezes se referia as palavras esculpida nas (2) duas tábuas da Lei registradas em Êxodo 20: Aqui o líder hebreu reafirma a vontade do Deus eterno, que quer o sábado guardado para lembrar e meditar sobre a verdade de que o tempo é presente de Deus.

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Também visava estimular a reflexão retrospectiva, recordando o tempo quando eram escravos no Egito e não podiam usar seu tempo para seu benefício, mas em benefício de um povo que os oprimia e escravizara. O descanso visava estimular o povo eleito a reconhecer sua relação única com Javé, e a querer ser um exemplo como povo de único Deus verdadeiro: infelizmente não foram o modelo desejado.

"Guarda o dia do sábado, para o santificar". Deus mesmo separado, reserva um dia para ter comunhão especial com Seu povo. A observância desse dia foi rigorosa nos seus mínimos detalhes. Hoje não temos a necessidade de guardar esse dia específico, a saber, o sábado. Não temos uma proibição especial referente a qualquerdia como na antiga aliança, mas o princípio do mandamento continua de pé. Deus quer comunicação com os Seus. Lutero resumiu esse ensinamento em suas palavras registradas no Catecismo, quando disse:" devemos temer e amar a Deus e não desprezar a pregação e Sua Palavra, mas considerá-la santa, gostar de ouvir e aprendê-la."

IV - Reflexão Homilética

Os Dez Mandamentos eram e continuam sendo uma expressão resu- mida da santa vontade de Deus como também orientações práticas para um viver bem na sociedade. E Deus queria e quer que os seus vivam bem. (Dt 10.13), tanto espiritual como emocionalmente.

A intenção, o propósito de Deus com o descanso é sábio e salutar. Uma pausa na luta semanal e uma oportunidade para refletir sobre o sentido e a qualidade da vida são de proveito para qualquer ser humano, especialmente nesses tempos modernos com a realidade social cada vez mais complexa e esse novo mundo tecnológico criando novas e impre- visíveis dificuldades a cada dia.

Para o cristão a observância do "sábado" ou dia de descanso não é algo que ele tem que que fazer mas antes é uma atividade que ele quer e busca experimentar, pois é seu encontro com o Pai e com Sua Palavra que refrigera a alma. O momento do culto e da comunhão crista dominical é um tempo especial para refletir sobre sua relação com Deus. É tempo de identificar e pensar sobre suas inadequabilidades (confissão) e receber a Palavra do perdão (absolvição). É tempo de louvar, agradecer, relembrar os grandes feitos de Deus por nós e sermos convidados a trazermos nossas ofertas de gratidão, e toda nossa vida como resposta viva e agradável a Ele que se doou por nós por amor.

Trabalho e descanso, no entanto, formam um todo. Não podem se separados. Tudo que é dito sobre o dia de descanso não é dito em funçjJ do culto e tempo, mas é dito em função dos dias de trabalho. Isso qu e dizer que o dia do descanso da atividade profissional existe para q^ aconteça um abastecimento na palavra que por sua vez haverá de molda- de maneira natural e espontânea todos os demais dias da semana, g descansar no "Svhabat" - (sábado na antiga aliança e em qualquer dia oy domingo na nova aliança) está em função de todo viver. Sem esse objetivo em foco, existe o perigo de transformar o dia do descanso numa mera observância de um ritual dominical (ou em outro dia), pensando ter sa% feito a expectativa de Deus com respeito a esse mandamento.

Tanto Israel como nós hoje precisamos ser exortados sempre de novo sobre o perigo desse dia ser secularizado ou esvaziado. O próprio Deus

está interessado nesse encontro com sua criatura. Ele quer que nesse dij

o povo reunido sob Seu nome celebre com alegria a Vida que Ele nos

oferece em Cristo. Aliás, o mesmo Deus que ordenou ao homem o trabalhe

é o que lhe ordena e convida para o descanso, para o lazer e para a meditação.

O irão culto não será para o filho de Deus um "sentar-se na igreja comi se fosse um cinema e aguardar o espetáculo", mas um participar na adoração dirigida ao Senhor do universo. Nesse tomar parte do serviço di honra e louvor que prestamos a Deus no culto somos também consciente zados de nossa tarefa, de nossa missão, de nosso serviço no mundo, IH dia a dia, no convívio com o próximo. No domingo somos abastecidose animados para viver a fé em amor nos restantes dias da semana.

No mandamento de guardar o "Svhabat" - sábado está prevista uma parada total para a família, empregados, escravos e até animais. Os explorados, os mais fracos e indefesos também têm seus direitos garanti dos pela observância no Antigo Testamento. O próprio Deus quer lembrai às criaturas que Ele é o verdadeiro Senhor e dono de tudo.

Vivemos num mundo em profundas e rápidas transformações Vivemos acelerados. As exigências e pressões sobre nós levam muitos! colapsos, fadigas, doenças, stress, úlceras e ansiedades depressivas.t trabalho nesse mundo competitivo está deixando muitos em estado err* cional e físico deplorável. As expectativas dos outros sobre nós é às veztf um peso insuportável. Pois, em meio a tudo isso, o Deus Eterno, a qu* podemos chamar de Pai, nos convida a parar, descansar, relaxar, e acitf de tudo, dar ouvidos a Ele para que Ele nos oriente sobre o sentido e 1 qualidade de nossas vidas. O Criador quer que a criatura pare para me"J viver sua fé no amor e tenha mais prazer e alegria nessa caminhada 111 vida.

V - Sugestões de esboço A - Tema: Deus quer de nós que:

1 Trabalhemos para nosso sustento e ajuda ao próximo - Trabalho.

2. Descansemos para nos abastecermos física, emocional e espiritualmente. (Culto e lazer).

3. Tenhamos uma vida pessoal e profissional que reflita nossa alegre comunhão com o Pai do céu. Amor praticado.

B - Tema: Santificarás o dia do descanso:

1. Pra ouvir e refletir sobre as promessa do Pai - Adoração.

2. Para crescer na comunhão crista - Comunhão.

3. Para melhor viveres tua fé em meio aos teus semelhantes - Serviço, ajuda, testemunho.

C - Tema: Deus nos deu tempo:

1. Para O servirmos num trabalho honesto - Valor do trabalho.

2. Para termos momentos de amizade, alegria, prazer e lazer.

3. Para O adorarmos com tudo o que somos e temos - Adoração.

Gerhard Grasel

TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES 12 de junho de 1994 Génesis 3.9-15

Gn 3.9-15: Nas leituras do presente domingo um dos temas que sobressai é a salvação do SENHOR. Salvação o salmista suplica no Salmo 28 e nela coloca toda a sua confiança; a salvação também é o objeto da fé que faz o apóstolo Paulo exclamar, no trecho da leitura da Epístola, "eu cri, por isso é que falei" (2 Co 4.13). O mesmo assunto aparece na leitura do Evangelho (Mc 3.20-35), porém, enfatizando como a salvação é desprezada, até mesmo da parte de parentes de Jesus. O trecho de Génesis nos transporta para o episódio no jardim do Éden onde a salvação foi proclamada pela primeira vez, após Adão e Eva haverem transgredido a vontade do Criador.

Contexto

O contexto é conhecido. A serpente engana a mulher e convence-a de

omerdo fruto proibido. A mulher alcança do fruto para o marido. Abriram- )s °" 10s d © ambos, e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de Queiras para se cobrirem. Ao ouvirem que o SENHOR Deus andava no J dr aim, esconderam-se de sua presença.

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Texto

V.9 - "Onde estás?" Há muita coisa embutida nesta pergunta:

"Tu estás querendo te esconder de mim?", "Para mim não estás escondido, eu sei perfeitamente onde estás!", "Agora que pecaste, jg percebeste onde estás?", "Observa o resultado do teu pecado: estás fugindo de mim!", "De fato, tu estás irremediavelmente perdido, mas eu estou ansioso a tua procura".

V.10 - Após o pecado, o homem treme diante de Deus. Não consegue perceber que, se Deus o procura, mesmo após haver pecado, isto poderá trazer-lhe benefício. Diante da presença de Deus o homem sente o peso da acusação de sua consciência, tem medo, se esconde e procura descul- par-se.

V.11 - O SENHOR faz ver ao homem que todas as suas desculpas são "frias". Desobedecestes! O grande problema do homem é o pecado:

Pior do que pecar é ser um pecador. Antes da

"comeste da árvore

primeira transgressão o homem podia "não pecar". Após a primeira trans- gressão ele tornou-se um pecador, nasce em pecado e nem "pode mais deixar de pecar", "eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe" (Ps 51.5).

V.12 - O homem continua se desculpando e argumenta: "a mulher que me deste". Empurrara culpa no outros, como Adão se assemelha conosco, ou, como ainda hoje somos iguais ao antigo Adão. Há, no entanto, algo de positivo nesta desculpa, Adão reconhece que a sua esposa é uma dádiva do SENHOR.

V.13 - O SENHOR dirige-se à mulher. Ela também foi criada para ter responsabilidade, como o homem. Deve prestar contas de seus atos. No entretanto, em suas palavras nada transparece como: "Senhor, eu reco-

Em lugardisto, coloca a culpa

".

nheço

lamento muito

me arrependo

".

na serpente, também empurrando a culpa adiante.

V.14 - O homem e a mulher foram repreendidos e sofreriam as graves consequências do pecado. A serpente e a terra forma amaldiçoados. "Comerás pó", é expressão que a Escritura emprega para expressar humilhação e aviltamento (SI 72.9; Is 49.23; 65.25; Mc 7.17).

V.15 - Encontramo-nos diante do "proto-evangelho", a primeira promessa de que o poder de Satanás e do pecado seriam destruídos pejj Messias. A expressão chave desta promessa é: "o seu descendente'' conforme a edição Revista e Atualizada de Almeida, i. é., o descendentj da mulher. A Bíblia em Linguagem de Hoje traduz por "descendência dela

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dição de Almeida está certa, pois a continuação reza assim: "Este (no u^raico, 'huh', 'ele', Cristo te ferirá a cabeça, e tu, 'atah' no Hebraico, - Manás e não: a tua descendência) lhe ferirás o calcanhar". O SI 22 e Is 53 manifestam quão violento foi o veneno injetado no íilcanhar. Contra o veneno da serpente, embora possa levar à morte, há

c cor) tra-veneno. Não há, porém, remédio contra o esmagamento da cabeça. Satanás somente pode ser vencido com armas espirituais, por isso Cristo, descendente da mulher (verdadeiro homem), mas também ver- dadeiro Deus, pôde esmagar o poder Maligno. Cristo, como representante e líder da posteridade da mulher é o descendente que pisa a cabeça de Satanás. Ele mantém o conflito com a serpente ferida, antes de sua segunda vinda, em benefício de pessoas de todas as nações, unidas com ele pela fé, em um só corpo, do qual ele é a cabeça (Rm 16.20).

Sugestões Homiléticas

1 a Sugestão

Deus vai à procura do homem pecador.

1. Para que reconheça e confesse o seu pecado.

2. Para que desfrute da vitória de Cristo sobre Satanás.

2 a Sugestão

O homem e Deus reagem diante do pecado.

1. Areaçãodo homem.

1.1 - Tem má consciência, medo, foge de Deus e se esconde, V.10.

1.2- Procura desculpar-se, w. 12,13.

2. A reação de Deus.

2.1 - Vai à procura do pecador, w. 9,10,13.

2.2 - Amaldiçoa a serpente, v. 14.

2.3 - Promete a sua graça e salvação através do descendente da

mulher (Rm 5.19), v. 15.

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Christiano Joaquim Steyer

QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES 19 de Junho de 1994 Ezequiel 17.22-24

Leituras do Dia

Salmo 92.1-5 (6-11): O salmista eleva um hino de gratidão a Deus (1.5J pela vitória sobre todos os inimigos (6-11). As aparentes vitórias dos ímpios, malfeitores e inimigos serão destruídas pelo Senhor. O justo finalmente, será exaltado e florescerá para sempre.

2 Coríntios 5.1-10: A vida terrena, o corpo físico serão destruídos desfeitos pela morte. Essa caminhada é sofrida, porém, não definitiva, A confiança e esperança repousam no Senhor, que revestirá os que "andam por fé" pela verdadeira vida, para habitarem para sempre com o Senhor, no "edifício eterno, nos céus".

Marcos 4.35-41: Duas parábolas que mostram o contraste entre a primeira impressão e a realidade definitiva do reino de Deus. De início insignificante para um futuro grandioso e glorioso, refúgio para todos os povos de toda terra.

Contexto

Como em outras ocasiões, o profeta mostra um horizonte de esperança ao sombrio panorama mostrado aos exilados na Babilónia, sob o jogo da "grande águia", Nabucodonozor (v. 3). O capítulo 17 é um dos mais belos

e concisos escritos sagrados que mostram a tragédia e a recuperação, a

aparente destruição do povo escolhido e a definitiva vitória do Messias. Em meio a toda encruzilhada críticas da história de Israel, o profeta mostra sempre a esperança messiânica como direção, norte da vida nacional. A dinastia de Davi ficará eclipsada por um tempo, enquanto seus represen- tantes estarão cativos na Babilónia. Porém, é necessário crere confiar na promessa de Deus de enviar o Messias, que nascerá da "casa e família de Davi". E são belas, precisas e claras as imagens e a linguagem parabólica, em especial do texto em foco (22-24).

Texto

V.

22: O Senhor Deus, em um tempo futuro, "tomará a ponta de um

cedro

e dos seus ramos, cortará o renovo mais tenro

".

Cedro equivale

a dinastia de Davi. O "renovo mais tenro" dos ramos, a saber, o Messias, será plantado no

V. 23: "monte alto de Israel", na colina santa de Sião, Jarusalém. Ali °

cedro (a igreja) crescerá e se desenvolverá grandiosamente, fron- dosamente. E "produzirá ramos, dará frutos" (evangelistas, apóstolos,

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IGREJA LUTERANA - NÚMERO 1 - ^

erdócio real, evangelização, ide e fazei discípulos, etc). "De baixo dele hitarão animais de toda sorte, e a sombra de seus ramos se aninharão

^g todas espécie": a comunhão dos santos, aqueles que ouvem a voz V Messias, a igreja vinda de todas as nações e povos, estarão reunidos b sua proteção, bênção e direção em todos os tempos. y 24: Todos os povos saberão que é o Senhor Deus que "abate a rvore alta" (Babilónia), "eleva a baixa" (povo de Israel). O Senhor Deus salvou o seu povo milagrosamente "secando a árvore verde" que parecia indestrutível (o império babilónico) e "reverdecendo a seca" (povo esco- lhido, sua igreja). De um início e caminhada insignificante e humilde, para um futuro grandioso e glorioso, refúgio e salvação para todos os povos de toda terra.

S3

13

Sugestões Homiléticas

1. A onipotência e o amor de Deus dão-se as mãos e o resultado é a graça de Deus visível, concreta, palpável. 2. A firmeza e poder do governo divino culmina em Jesus Cristo.

3. A igreja de Cristo foi plantada por Deus mesmo e, por isso, ela sem dúvida, permanecerá.

Norberto E. Heine

QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES 26 de Junho de 1994 Jó 38.1-11

"No suor do teu rosto comerás o teu pão" (Gn 3.19), foi o juízo de Deus ao homem que caíra em pecado. Razão pela qual até hoje 'Ioda a criação a um só tempo geme e suporta angustias" (Rm 8.22). Assim sofrimento e dor são o cotidiano da existência humana. A criança nasce chorando, e

esta mesma criança na velhice parte chorando. O cristão neste palco não e exceção. Também está sujeito ao sofrimento, a dor, a lágrima. Difícil é compreender este juízo de Deus. Especialmente àquele cristão, que a exemplo de Jó, é "íntegro e reto, temente a Deus" (Jó 1.1). Por que Deus -rmite que um tal filho seu sofre? Ele que é um Deus misericordioso e

j^ue convida: "Vinde a mim

grimas do sofrimento? A pregação do evangelho não faria muito mais

{ cesso "> se ao cristão fosse assegurada uma vida sem sofrimentos? as e outras perguntas perturbam o cristão. Uns ante a dor e sofrimento

" (Mt 11.28), não poderia isentar o cristão das

^

LUTERANA - NÚMERO 1-1994

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chegam a cair da fé, outros vacilam, poucos permanecem firmes e i n , baláveis. Talvez por isso mesmo Deus mandou inserir o Livro de JÓ « Escritura. O Livro de Jó é uma resposta de Deus ao sofrimento do justo'

Jó era um homem famoso na terra de Uz. Uma vez pela sua grano, riqueza em bens materiais (Jó 1.3), por outro por representar o modeW cidadão, como "homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desviav, do mal"(Jó 1.1).

Esta sua vida íntegra, no entanto, foi questionada. Se Deus lhe tirass» os bens, a riqueza, os filhos, certamente também iria abjurar sua fé no Deu s onipotente (Jó 1.9,10). Assim Deus permitiu que num único dia Jó perdes^ toda a sua imensa fortuna (Jó 1.14-17), e mesmo os seus próprios filhos (Jó 1.18,19).

E qual foi a reação de Jó ante tamanha súbita desgraça? Abandonou

a sua fé? Vacilou no seu temor a Deus? Deixou de ser homem íntegro e

reto? Não! Muito pelo contrário, deu um vigoroso testemunho do seu

desprendimento material:"

seja o nome do Senhor" (Jó 1.21).

Mesmo assim mais uma vez foi colocado em dúvida a sua fidelidade

a Deus. Perdera seus bens e permaneceria íntegro. Mas dizia-se, se as

setas da dor atingissem diretamente seu próprio corpo e este viesse a sofrer, certamente então iria abjurar da fé. Novamente Deus o permitiu Assim o corpo de Jó vítima de tumores malignos que o cobriram "desdea planta do pé ao alto da cabeça" (Jó 2.7). Vendo esta nova desgraça, sua mulher entrou em desespero. A perda de todos os bens materiais, a morte dos filhos, e vendo agora o seu próprio marido a gemer, gritar e contorcei em dores (Jó 2.8), levou-a a incitá-lo contra Deus (Jó 2.9). E qual foi desta vez a reação de Jó? Deixou-se levar pelo desespero da sua esposa? Não antes a repreendeu: "Falas como qualquer doida" (Jó 2.10). E passou a mostrar como o crente deve posicionar-se ante o sofrimento físico da dor 'lemos recebido o bem de Deus (por exemplo saúde), e não receberíamos também o mal" (por exemplo doenças) (Jó 2.10).

o Senhor o deu, e o Senhor o levou; bendito

Jó em seguida recebe a visita de amigo (Jó 2.11 e 32.1,2). Estes, vendo seu estado deplorável e suas condições físicas, em vez de o ajudarem eo consolarem, passam a acusá-lo de ter cometido graves pecados, daí toda esta desgraça que desabou sobre sua vida (Jó 4, 5,15, 22, 33, 35). Jó, no

entanto, se defende destas insinuações (Jó 13 e 31). Prova sua inocência (Jó 10.7). Defende sua integridade moral e espiritual (Jó 13 e 31): Jamai 5 depositou sua confiança nos seus bens materiais, pois sabe da brevidade da vida (Jó 14.1,2). Antes alicerçou sempre sua vida no 'lemor do Senho' (Jó 1.1). E mesmo agora na desgraça mantém se "íntegro e reto" e firn^

" (^

19.25-27):

na sua fé. Daí seu testemunho: "Eu sei que o meu Redentor vive

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IGREJA LUTERANA - NÚMERO 1 -

1

Fm Jó vemos que Deus jamais desampara aquele que nele

em auxílio de seu servo. A Moisés Deus se manifestou através ASS 'ma "sarça ardente" (Ex 3.2-5). A Elias num "cicio tranquilo e suave" (1 R 61 19

12). A Paulo numa luz brilhante (At 9.3). E a Jó num redemoinho (Jó ^8 1) 'Fenómenos da natureza que representam a onipotência de Deus. N sua resposta a Jó, Deus faz referência à obra da Criação (Jó 38.4-11). Tdo se encontra sob seu controle. Não cabe ao homem julgar a Deus (Rm Q20 21). Razão pela qual também nem sempre revela seus desígnios. Não eveia a Jó, apesar de ser um "homem íntegro e reto, temente a Deus, e iue se desviava do mal" (Jó 1.1), o por quê de toda esta desgraça que desabou sobre ele. Assim também o cristão, nem sempre sabe, nem sempre compreende o porquê de Deus permitir certos acontecimentos em sua vida. Deus porém tem seus propósitos, que pertencem a seus "inescrutáveis caminhos" (Rm 11.33), pois "através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus" (At 14.22). No caso de Jó, para

ve m

mostrar às gerações futuras que o cristão jamais deve condicionar uma vida íntegra e reta e de temor a Deus, em troca de bens materiais (SI 62.10; Pv 23.5; 27.24). Pois se Deus permitir que estes bens nos sejam tirados, ou outras "desgraças" recaiam sobre sua vida, a exemplo de Jó deve permanecer inabalável na sua fé. Jó é assim o prototico do cristão que com

Paulo testemunha: "

8.35-39).

nada nos poderá separar do amor de Deus" (Rm

O final feliz, quando o Senhor mudou a sorte de Jó "e deu-lhe o dobro

de tudo o que antes possuía" (Jó 42.10), comprova o cuidado de Deus para com aqueles que pela fé em Jesus "se desviam do mal" (Jó 1.1), pois "os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão" (S1126.5).

O cristão ante a realidade da dor e do sofrimento:

1. A exemplo de Jó deve permanecer "íntegro e reto".

2. A exemplo de Jó, Deus reverte em bênçãos as calamidades do cotidiano.

Walter O. Stever

SEXTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES 3 de Julho de 1994 Lamentações 3.22-33

Leituras

1 Salmo 121 é um salmo de confiança que aconselha e estimula as ^ ssoas a buscarem auxílio no SENHOR em todas as circunstâncias da

ra ' Z d ° verbo "Quardar" aparece 6 vezes no salmo). A epístola, em

Peculiaridade de raramente combinar com a leitura do Antigo Testa-

su^

LUTERANA - NÚMERO 1-1994

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mento e Evangelho, pode ser vinculada na esfera da santificação em qu e

o auxílio do SENHOR vem através do povo de Deus ao que pass 9

necessidade. A leitura do santo evangelho enfatiza que a busca de auxí|j 0

junto a Jesus na hora da afliçãos traz consigo bênção surpreendentes.

Contexto

Cada um dos 5 capítulos de Lamentações possui uma cuidadosa estrutura. Os capítulos 1-2 e 4-5 têm 22 versículos cada, ao passo que o capítulo 3 apresenta 66 versículos. Essa não é uma estrutura casual, o alfabeto hebraico compõe-se de 22 consoantes e o número 22 designa a ideia de totalidade, plenitude. Mais explicitamente, os capítulos 1-4 são conhecidos como acrósticos, ou seja, os versículos iniciam com as suces- sivas letras do alfabeto hebraico. No caso do capítulo 3, de onde é extraído nosso texto, três versículos iniciam com a primeira letra do alfabeto, três com a segunda e assim até o final, isto é, de "Aleph" a "Tau", de "A" a "Z".

O livro de Lamentações é o anti-clímax da destruição de Jerusalém. Jeremias tem razão para se lamentar. A destruição dos muros, do templo

e do próprio povo pelos babilónios em 587 aC é relatada historicamente em Jr 39 e mais teologicamente em Lamentações.

Texto

Para o profeta, os céus haviam desabado. Os problemas de hoje podem parecer ínfimos diante da catástrofe descrita nos dois primeiros capítulos de Lamentações. É preciso considerar, entretanto, que para aquele que hoje sofre, o seu problema, sua aflição, é para ele tão grande ou maior que o problema ou aflição de todos os demais. As aflições são reais. E Deus não pode (nem deve) ficar fora desse quadro tão marcante.

Lamentação não pergunta muito pelas causas do sofrimento. Por outro, não apresenta álibi para fugirá responsabilidade. Desnecessárioé dizer que Judá pecou de "A" a "Z" (cf. 1.18; 2.14). Mas não é esta a ênfase do livro nem da perícope. No estudo desta perícope é de bom alvitre seguir

a trilha da tradição Irineana, que ressaltava mais o propósito do sofrimento do que a tradição Agostiniana, que sublinhava mais a sua origem. A ênfase, pois, está em que o SENHOR olhe para a aflição de seu povo neste momento, na situação e condições em que ele se encontra. Nesse pro- cesso está latente que no enfrentamento da aflição, na hora da angústia, há esperança, conforto e promessa.

Os w. 22,23 são centrais na perícope. São como o fio de um móbile do qual os demais fios dependem. "Misericórdias" (chasdey) está no plural

o que sublinha o caráter de abundância e superabundância da graça divina No paralelismo a palavra correspondente é rachamau (também no plural

e

que em ARA é de igual modo traduzida por "misericórdias". Mas exege* '

1

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IGREJA LUTERANA - NÚMERO 1 -1" 4

ente conquanto chesed pode ser mais genérico, rechem é mais ular, denotando "compaixão", "proteção", "carinho" visto estar ligado ^ alavra "ventre materno", ressaltando o aspecto mais pessoal, individual. rMra ênfase da "graça sobre graça" encontra-se no adjetivo chadashim, seria talvez melhor traduzido por "novas" ao invés de "renovam-se" ?ARA) Nosso Deus é Deus Criador (e criativo) não apenas cósmico como t mbém soteriológico. Cada manha é uma lembrança que passamos pela morte simbolizada pela noite. V. 24 nos transporta para a pessoa de Arão e n ã 0 fora privilegiado com terras mas recebera herança muito maior, o próprio SENHOR (Nm 18.20, cf. SI 73.26). A sequência dos w. mostra qual é a vontade de Deus quando se está na aflição. Estes w., entretanto, não devem ser vistos como decretando leis pelas quais, uma vez obedecidas, seremos recompensados. Por isso expressões como "aguardar em silêncio", "suportar o jugo" não devem ser entendidas como atitudes cuja satisfação alcance benevolência da parte de Deus. Devem, isto sim, se compreendidas como resultado da graça divina em nossas vidas. Carregar o jogo com paciência e em silêncio é certamente agradável a Deus. "Colocar a boca no pó" (v. 29) e não murmurar é atitude da fé. Esbravejar, e queixar-se dos sofrimentos e aflições na realidade não é "suportar o jugo" mas tentar desvencilhar-se dele. O resultado não é apenas uma sobrecarga psicológica como também uma tentativa de redirecionamento dos critérios divinos. A aceitação desta verdade se dá apenas pela fé. Verbos como "esperar" e "buscar" são teologicamente importantes neste contexto. Especialmente porque "bus- car", darash, é um termo semi-técnico que descreve uma iniciativa cúltica e que envolve Palavra e Sacramento.

Porque paciência e esperança no enfrentamento da aflição? Ninguém disse que é fácil. Até o profeta Jeremias teve dificuldade em aceitá-la no início (Jr 23.7-10), depois "acendeu a luz" (Jr 23.11-13). Em parte essa "luz" está refletida aqui no v. 31: O SENHOR não desampara os que lhe pertencem. O v. 33 mostra que a aflição não está solta, mas presa pelo cabresto e o SENHOR está na outra ponta. Esta é a obra "própria" de Deus pela qual ele só deseja salvação em contraste com sua obra "estranha" que expressa condenação.

. A perícope nos mostra que quando sofremos a pergunta que pre- cisamos formular não é "por quê?", mas "quem?". Quem nos faz as promessas? Quem é a fonte das misericórdias? Quem está no controle da aflição? E se sabemos quem é Ele, como de fato sabemos, então ficaremos onfortados porque "Ainda que entristeça alguém", o SENHOR, "usará de m Paixão (richam) segundo a grandeza das suas misericórdias" (v. 32).

jREjA LUTERANA - NÚMERO 1-1994

Acir Ravmann

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V

SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES 10 de julho de 1994 Ezequiel 2.1-5

Leitura do Dia

Os textos de leitura deste domingo revelam a crua realidade da rejeiçg 0 do ser humano a seu Criador e suas consequências. A insignificância do homem diante da majestade de Deus deve fazer não com que ele aban. done seu Senhor e se revolte contra ele, mas que escute o chamamento amoroso do mesmo e volte-se arrependido. O salmista considera os feitos do Senhor na vida humana, a ele levanta as mãos e pede que não esconda a face do arrependido. Na epístola, o apóstolo Paulo se queixa do "espinho na carne", ora por livramento, e encontra consolo e fortaleza em ser fraco, por amor a Cristo. A rejeição de Jesus em sua cidade, Nazaré, por seus conterrâneos e pela própria família, é o tema do evangelho. Diante da incredulidade humana, o grande Profeta e enviado de Deus sente-se humanamente impotente, não realiza milagres, cura poucos enfermos e vai pregar em outra parte.

Contexto

Deus envia Ezequiel como porta-voz à casa rebelde, isto é, aos exilados de Judá, na Babilónia. Tanto estes, como os que haviam per- manecido em Judá, eram obstinados e não deram ouvidos à palavra do Senhor. Por isso o final do capítulo 1 registra o momento em que Ezequiel tem a visão da glória do Senhor (kevôd Yahweh), literalmente "o peso"da presença visível de Deus. Os israelitas não podiam ver a "face" do Senhor. A manifestação da glória de Deus se dava, portanto, através de sinais exteriores: aqui aparece um trono, o brilho da safira, fogo, metal brilhante, arco-iris. O peso da glória divina se abate sobre a insignificância humana, toma-se temível, joga o profeta ao solo, preparando o terreno para a seriedade do que se lhe anuncia e que deverá ser anunciado pelo profeta.

Texto

Vv. 1,2 - A expressão "filho do homem" é característica de Ezequiel aparece 84 vezes em seu livro. Sublinha a posição da criatura diante do Criador, de sua missão de porta-voz, que não fala por si próprio, mas daquele que o envia. Ezequiel, o profeta, pro-fere, repassa, na qualidade de canal, a comunicação da vontade de Deus a seu povo. O Eterno fa' a a mortais, como o profeta e seus endereçados. Em Dn 7.13, onde a & pressão "filho do homem" volta a ser usada, a mesma tem uma relaça"

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IGREJA LUTERANA - NÚMERO 1 -

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lóqica com o próprio Cristo, o Profeta maior. Este, como sabemos,

W 0 a U sá-la nos evangelhos, para marcar a sua humanação e humilhação

do Deus-homem. "põe-te de pé" é uma ordem do Deus que não quer o homem em llf anS e" ou histérico ao ouvir e receber a mensagem divina. Em plena ciência 0 tornem deve reconhecer sua indignidade e pequenez, ao C °vés de ensoberbecer-se, sinta a sua fragilidade humana e busque a voz "orientação de Deus. "Entrou em mim o Espírito" - Parte de Deus o ato de reanimar o ser humano, de reconstituir-lhe as forças abaladas, de abri-lhe os ouvidos, de dispor seu coração a ouvi-lo, de animar-lhe os sentidos. Ruach, espírito, é usado aqui, a princípio, em sentido minúsculo, de animação do profeta. Mas é também figura do novo nascimento do homem, quando tocado pelo poder do Espírito Santo, daí porque a tradução usa a inicial maiúscula. Todas as funções citadas são próprias da ação do Espírito Santo nos corações e vidas de seus profetas e dos crentes em geral. V. 3 - A visão do trono da glória, iniciada no contexto, completa-se aqui com a mensagem que o Senhor da glória deseja transmitir. Rebeldes, insurretos, prevaricadores - são adjetivos fortes para designar o estado de apostasia e o abandono ativo de Deus em que se achava o povo. Outras expressões da linguagem dos hebreus expressam, no Antigo Testamento,

igual condenação para a apostasia: dura serviz (nuca), coração endure- cido, ouvidos surdos, cegueira, seguir a carne. A abrangência dessa revolta ou rebelião inclui os "seus pais", como outros profetas o acusaram, e Estêvão o repete em At 7. O uso da palavra goiim, geralmente usada para nações pagãs, identifica aqui com as mesmas o próprio povo de Deus, que se equipara a elas por sua apostasia. O retorno do crente ao pecado torna

a sua situação, diante de Deus, ainda mais grave e revoltante. A aliança

quebrada pelo povo o coloca sob o juízo divino, e por isso a missão do profeta não é fácil nem simpática.

Vv. 4,5 - "Duro semblante", "obstinados de coração", "casa rebelde":

uma sequência de imagens que expressam uma realidade pecaminosa que Deus condena pela palavra de diversos profetas: Is 48.4; Jr 5.3; Mq 2.3; Am 4.4 ss. Chamado à árdua missão de profeta de Deus, Ezequiel recebe clássica incumbência: kô amar Adonai Yahweh, "assim diz o Senhor a ^ . Recebe poder para proferir o juízo e as promessas de Deus, e nada aiar além do que Deus lhe ordena. Independentemente do resultado de P^gação, quer ouçam ou deixem de ouvir, o profeta deixa claro que

- Isso torna indesculpáveis os idólatras e obsti-

nad

&rC l nome do Sennor

daos flln os da casa rebelde de Judá.

,GREJ A LUTERANA-NÚMERO 1-1994

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A rebeldia dos ouvintes e sua negativa de ouvir pode muitas vezes desencorajar e irritar os pregadores. Mas a responsabilidade de estar proferindo palavras do Senhor está acima de qualquer receio de con- tradições que possam surgir. A conclusão a que chega o próprio Filho do homem, ao ser rejeitado em Nazaré, foi de que nenhum profeta é honrado em sua própria terra. O mesmo povo, tanto nos dias de Ezequiel como de Jesus, não quis ouvir os profetas. Continuaram fechando ouvidos e co- rações à mensagem do filho do homem. Esta rejeição se tornaria fatal, porque estavam rejeitando a salvação que Deus lhes preparou e anunciou por seu próprio Filho. Como é que as pessoas em nossos dias se posi- cionam diante da mensagem da pregação? Se somos mensageiros e pastores, não desistamos de anunciar todo o conselho de Deus, com coragem, retidão e amor.

Proposta Homilética

Povo de Deus, espelha-te no verdadeiro Filho do homem!

1. Ele veio à terra pela vontade salvadora de seu Pai.

2. Ele abandonou a glória em que vivia para viver nossa pobreza

3. Ele nos perdoa por sua vida santa, e sua inocente paixão e morte.

4. Ele nos eleva da terra ao céu, da humilhação à glória eterna.

Elmer Flor

OITAVO DOMINGO APÓS PENTECOSTES 17 de Julho de 1994 Amos 7.10-15 Leituras do dia

As leituras para este domingo conduzem-nos à reflexão em torno da maneira como reagem à palavra de Deus aqueles que a ouvem. A men- sagem divina chega a ouvidos dispostos a aceitá-la, é verdade. No entanto, ao ser anunciada, também encontra ouvidos que a rejeitam. É preciso destacar, todavia, que o processo de aceitação ou negação da palavra de Deus não se resume a uma escolha sem maiores consequência, como, por exemplo, aceitar ou não a proposta que alguém nos faz para adquirir um automóvel novo. Certa vez um congregado respondeu ao pastor que "estava no seu direito" não querer ir aos cultos. Embora aquele homem pudesse invocar até a democracia para justificar seu "direito", precisou

oU vir que o alegado uso do seu "direito" tinha consequências sérias e decisivas para sua vida, pois o impedia de aceitar ofertas preciosas vindas de Deus e o colocava em atitude de rebeldia contra o Senhor.

Pelos textos indicados para este domingo verificamos que é possível concentrar a mensagem justamente nos resultados de nossa atitude frente

à palavra de Deus.

Texto

Embora natural da terra de Judá, Amos profetizou no reino do Norte, mais precisamente em Betei, centro religioso da idolatria que se implantara em Israel.

Os dois reinos estavam em grande prosperidade. Israel não tinha nada

a temer, pois a Assíria ainda não havia despontado como um poder

conquistador. Naquelas circunstâncias, a ideia de uma queda e destruição do reino de Israel estava fora de qualquer cogitação. Seus habitantes e governantes sentiam-se perfeitamente seguros à vista do poder que jul- gavam possuir. Da parte de quem governava havia ânsia por aumentar suas riquezas à custa da opressão aos pobres, bem como um desejo incontrolado por prazeres devassos.

Em tal contexto deveria agir Amos, um rude boieiro de Tecoa, na qualidade de arauto divino, levando a pecadores descuidados de sua situação a ameaça de aproximação do julgamento divino e destruição do reino.

Vv. 10 e 11: Amazias, sacerdote do santuário do bezerro de ouro em Betei, acusa Amos de ter conspirado contra o rei Jeroboão, e justifica a sua acusação dizendo: "a terra não pode sofrer todas as suas palavra".

Assim agem os homens que estão acomodados em sua cegueira espiritual. Diante e ao redor de si conseguem ver somente a opulência de